OFERTA
DE SIMULADOR
DE TESTES
T
MANUAL CERTIFICADO
FACULDADE DE LETRAS
UNIVERSIDADE DE COIMBRA
PORTUGUÊS10.ºANO
CéliaCameira
FernandaPalma
RuiPalma
MANUAL DO PROFESSOR
Índice geral
pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA
22 Mensagens cruzadas
24 Contextualização histórico-literária
Cantigas de amigo
30
«Ondas do mar de Vigo»
Martim Codax
34
«Ai flores, ai flores do verde pino»
D. Dinis
36
«Levad’, amigo que dormides as
manhanas frias»
Nuno Fernandes Torneol
40
«Bailemos nós já todas tres,
ai amigas»
Airas Nunes
Cantigas de amor
48
«Proençaes soem mui bem trobar»
D. Dinis
48
«Quer’eu em maneira de proençal»
D. Dinis
50
«Se eu podesse desamar»
Pero da Ponte
Cantigas de escárnio e maldizer
56
«Ai, dona fea, fostes-vos queixar»
João Garcia de Guilhade
58
«Roi Queimado morreu
com amor»
Pero Garcia Burgalês
60
«Quen a sesta quiser dormir»
Pero da Ponte
pp. GRAMÁTICA
31
Classes e subclasses de
palavras
35 Funções sintáticas
37
Tempos e modos verbais.
Processos fonológicos
38
Fonética e fonologia.
Processos fonológicos
(inserção, supressão e
alteração)
41
Classes de palavras.
Tempos e modos verbais.
Lexicologia: arcaísmo
45
Tempos e modos verbais.
Adjetivos
49
A frase complexa:
coordenação e subordinação.
51
Processos fonológicos.
Formas verbais
59
Funções sintáticas.
Classes e subclasses de
palavras
64
O português: génese,
variação e mudança.
Principais etapas da
formação e evolução do
português
pp. ORALIDADE
35
Apreciação crítica:
Mixórdia de temáticas,
«Níveis prejudiciais de
amor»,
Ricardo Araújo Pereira
44
Compreensão:
Anúncio publicitário
45
Apreciação crítica:
«A idade média está na
moda»
61
Apreciação crítica:
O país onde a maledicência
é melhor que o silêncio,
Mariana Seruya Cabral
pp. ESCRITA
42
Exposição sobre um tema:
Piropo, Miguel Esteves
Cardoso (crónica)
52
Apreciação crítica:
O beijo, Francisco García
Lorca (desenho)
pp. LEITURA
54
Exposição sobre um tema:
O rei que refundou
Portugal, Luís Miguel
Queirós
68 Mensagens de hoje 69 Glossário 70 Ficha formativa
Unidade 1 Poesia trovadoresca
Unidade 0 Diagnose e projeto de leitura
pp.
12 Avaliação diagnóstica 18 Projeto de leitura
2
pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA
108 Mensagens cruzadas
110
Contextualização
histórico-literária
Farsa de Inês Pereira
117
«Sem casamento, que
enfadamento…»
120
«Pretendente apresentado e
logo rejeitado…»
126
«Aparece um escudeiro e é
solteiro…»
132
«Casamento celebrado,
casamento frustrado?»
137
«Que casamento e que
tormento!»
142 «Bem casar para livre estar…»
pp. GRAMÁTICA
119
Fonética e fonologia.
Processos fonológicos
124
Frases complexas:
coordenação e subordinação
128 Funções sintáticas
129 Complemento do nome
139
Processos fonológicos.
Funções sintáticas
146
Do português antigo ao
português contemporâneo.
Tempos e modos verbais.
Funções sintáticas.
pp. ORALIDADE
128
Apreciação crítica:
Cartoon
152
Reportagem: «Educação:
de iletradas a superletradas»
pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA
76 Mensagens cruzadas
78
Contextualização
histórico-literária
Crónica de D.João I
83
«Do alvoroço que foi na cidade
cuidando que matavom
o Meestre, e como aló foi
Alvoro Paaez e muitas
gentes com ele»
90
«Das tribulações que Lixboa
padecia per mingua de
mantiimentos»
pp. GRAMÁTICA
85
A frase complexa:
coordenação
88
Predicativo do
complemento direto
93
Funções sintáticas.
A frase complexa
98
Processos irregulares de
formação de palavras
pp. ORALIDADE
86
Apresentação: «O meu 25
de abril», Francisco Sousa
Tavares (crónica)
pp. ESCRITA
94
Exposição sobre um tema:
«Fome e miséria»
98
Apreciação crítica:
«Manifestação cultural»
pp. LEITURA
97
Apreciação crítica: «A estranha
vida de Steve Jobs»,
João Pedro Pereira
100 Mensagens de hoje 101 Glossário 102 Ficha formativa
154 Mensagens de hoje 155 Glossário 156 Ficha formativa
Unidade 2 Fernão Lopes – Crónica de D. João I
Unidade 3 Gil Vicente – Farsa de Inês Pereira
pp. ESCRITA
124
Apreciação crítica: Excerto do
programa 5 para a meia-noite
136
Exposição sobre um tema:
A relevância do espaço na
Farsa de Inês Pereira
140
Exposição sobre um tema:
A construção do tempo
na A Farsa de Inês Pereira
146
Exposição sobre um tema:
«A farsa de Inês Pereira, crítica
de costumes»
3
4
Unidade 4 Luís de Camões, Rimas
pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA
162 Mensagens cruzadas
164
Contextualização
histórico-literária
A representação da amada
170 «Leva na cabeça o pote»
171 «Posto o pensamento nele»
173 «A verdura amena»
176 «Aquela cativa»
178
«Um mover d’olhos brando
e piadoso»
A experiência amorosa
e a reflexão sobre o Amor
182
«Tanto de meu estado me acho
incerto»
182
«Pede o desejo, Dama, que vos
veja»
A representação da natureza
185
«Alegres campos, verdes
arvoredos»
A reflexão sobre a vida pessoal
188
«Erros meus, má fortuna, amor
ardente»
188
«O dia em que eu nasci, moura
e pereça»
O desconcerto do mundo
191 «Os bons vi sempre passar»
A mudança
196
«Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades»
pp. GRAMÁTICA
172
Funções sintáticas.
A frase complexa:
subordinação
174
A frase complexa: coordenação
e subordinação.
Funções sintáticas.
Campo lexical
175
Campo lexical e campo
semântico
177 Campo semântico
179
Funções sintáticas.
A frase complexa: subordinação
183
Classes de palavras.
Processos regulares
de formação de palavras
186
Funções sintáticas.
A frase complexa:
coordenação.
Classes de palavras.
Pronominalização
189
A frase complexa:
subordinação
192
Funções sintáticas.
Conectores frásicos.
Processos regulares de
formação de palavras.
Étimo
194
Étimo, palavras divergentes
e convergentes
197 Funções sintáticas
199 Complemento do adjetivo
203
Principais etapas da formação
e da evolução do português
pp. ORALIDADE
174
Apreciação crítica:
«Se eu fosse um dia o teu
olhar», Pedro Abrunhosa
180
Exposição sobre um tema:
«Estâncias na medida velha
que têm duas contrariedades:
louvando e deslouvando uma
dama», análise e comparação
de «[Vós] sois NJa Dama» e «De
grão merecer», Luís de Camões
183
Apresentação:
«Amor é um fogo que arde sem
se ver», de Luís de Camões e
versão musicada do mesmo
poema, Polo Norte
186
Exposição sobre um tema:
«A Gaivota dos Alteirinhos»,
Jorge Palma
pp. ESCRITA
172
Exposição sobre um tema:
Leitura comparativa entre
«Ondas do mar de Vigo»,
Martim Codax, e «Posto o
pensamento nele», Luís de
Camões
177
Exposição sobre um tema:
Belle, Amma Asante (filme)
189
Exposição sobre um tema:
«O erro, o arrependimento
e as consequências»
197
Apreciação crítica:
«O futuro das nossas
crianças», Trayko Popov
(cartoon)
201
Síntese: «Camões tornado
carne», Raquel Ribeiro
(notícia)
206 Mensagens de hoje 207 Glossário 208 Ficha formativa
5
pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA
214 Mensagens cruzadas
217 A epopeia: natureza da obra
Os Lusíadas
222
Constituição da matéria épica:
canto I, ests. 1 a 3 (Proposição)
226
Constituição da matéria épica:
canto I, ests. 4 e 5 (Invocação)
228
Constituição da matéria épica:
canto I, ests. 6 a 18 (Dedicatória)
231
Reflexões do poeta: canto I, ests.
105 e 106 («Bicho da terra tão
pequeno»)
233
Reflexões do poeta: canto V, ests.
92 a 100 (Partida de Vasco da
Gama)
237
Reflexões do poeta: canto VII,
ests. 78 a 87 (Ninfas do Tejo e do
Mondego)
240
Reflexões do poeta: canto VIII,
ests. 96 a 99 (O poder corrupto
do dinheiro)
244
Constituição da matéria épica/
/mitificação do herói: canto IX ests.
52-53 e 66 a 70 (A chegada à Ilha
dos Amores)
248
Reflexões do poeta: canto IX, ests.
88 a 95 (A Ilha dos Amores e a
imortalidade)
254
Constituição da matéria épica:
canto X, ests. 75 a 79 (A Máquina
do Mundo)
256
Constituição da matéria épica:
canto X, ests. 80 a 91 (A Máquina
do Mundo)
260
Reflexões do poeta: Canto X, ests.
145 a 156 (Lamentações e profecia
de futuras glórias nacionais)
pp. GRAMÁTICA
223
Complemento do nome.
A frase complexa:
subordinação
226 Funções sintáticas
230
Funções sintáticas.
Campo lexical.
Arcaísmos e neologismos.
Hiperonímia e hiponímia
232
Campo lexical.
Classes de palavras.
Antonímia
235
A frase complexa:
subordinação.
Processos fonológicos.
Processos regulares
e irregulares de formação
de palavras
239 Arcaísmo e neologismo
255 Processos fonológicos
259
Arcaísmos.
A frase complexa:
subordinação.
Campo semântico.
Palavras divergentes.
Funções sintáticas
267 Funções sintáticas
269
Do português antigo ao
português contemporâneo
pp. ORALIDADE
235
Apreciação crítica:
Anibaleitor, Rui Zink
(romance)
238
Síntese: Uma geração (des)
interessada, Teresa Camarão
(documentário)
251
Anúncio publicitário: «Azeite
Gallo – Poema»
pp. ESCRITA
230
Exposição sobre um tema:
«A importância do sonho»
232
Exposição sobre um tema:
A ambição humana;
«O homem, bicho da Terra
tão pequeno», Carlos
Drummond de Andrade
(poema)
241
Apreciação crítica:
Cartoon, Luís Afonso
259
Exposição sobre um
tema: Comparação entre
Os Lusíadas, de Luís de
Camões, e Troia, filme de
Wolgang Petersen
262
Síntese: Sob o signo do
Império, J. Oliveira Macêdo
(ensaio, excerto)
pp. LEITURA
266
Artigo de divulgação
científica: «Como se faz um
campeão»
Unidade 5 Os Lusíadas
274 Mensagens de hoje 275 Glossário 276 Ficha formativa
pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA
282 Mensagens cruzadas
284
A literatura de catástrofe: a
História trágico-marítima
Literatura de viagens
285
«O início da aventura do herói
Albuquerque»
290
«Um duplo ataque: os
corsários e a natureza»
295
«Acabam-se os trabalhos: a
justa recompensa»
pp. GRAMÁTICA
287 Funções sintáticas
298
Campo lexical e campo
semântico; arcaísmos e
neologismos
pp. LEITURA
301
Relato de viagem: «Marrocos,
uma comarca exótica», Tiago
Salazar
pp. ORALIDADE
288
Documentário: Caravelas e
naus – um choque tecnológico
no século XVI
294
Síntese: «A milionária cadeia
da pirataria na Somália»,
Gabriel Bonis (artigo)
Unidade 6 História trágico-marítima
pp. ESCRITA
298
Apreciação crítica: História
trágico-marítima, Helena
Vieira da Silva (pintura)
304 Mensagens de hoje 305 Glossário 306 Ficha formativa
6
7
SIGA Síntese informativa e gramatical de apoio
pp. I. ESCRITA E ORALIDADE
311 Exposição sobre um tema
312 Apreciação crítica
313 Síntese
pp. II. TEXTOS LITERÁRIOS
314 Texto poético
315 Texto dramático
317 Texto narrativo
pp. III. GRAMÁTICA (cont.)
324 Sintaxe
Funções sintáticas
Colocação do pronome pessoal átono
Transformação da voz ativa em voz passiva
Coordenação e Subordinação
328 Lexicologia
329 Semântica
Valores de tempo, modo e aspeto em algumas
formas verbais
330
Análise do discurso e pragmática
Texto/linguística textual
Articuladores/conectores do discurso
Reprodução do discurso no discurso
Paratextos
334 Recursos expressivos
pp. III. GRAMÁTICA
319 Morfologia
Processos regulares de formação de palavras
Derivação
Composição
320 Classes de palavras
Classes e subclasses de palavras
Nome
Adjetivo
Verbo
Advérbio e locução adverbial
Quantificador
Interjeição e locução interjetiva
Determinante
Pronome
Preposição e locução prepositiva
Conjunção e locução conjuncional
8
Unidade
1
32 Ficha n.º 1 Cantigas de amigo – caracterização formal
38 Ficha n.º 2 Fonética e fonologia
43 Ficha n.º 3
Cantigas de amigo – variedade do sentimento amoroso; confidência
amorosa; relação com a natureza
46 Ficha n.º 4 Publicidade
53 Ficha n.º 5 Cantigas de amor
63 Ficha n.º 6 Cantigas de escárnio e maldizer
64 Ficha n.º 7 O português: génese, variação e mudança
Unidade
2
87 Ficha n.º 1 Os atores individuais e coletivos
88 Ficha n.º 2 Predicativo do complemento direto
95 Ficha n.º 3 A afirmação da consciência coletiva
99 Ficha n.º 4 Processos irregulares de formação de palavras
Unidade
3
125 Ficha n.º 1 Os processos de cómico
129 Ficha n.º 2 Complemento do nome
141 Ficha n.º 3 Representação do quotidiano
147 Ficha n.º 4 Caracterização das personagens; dimensão satírica
153 Ficha n.º 5 Reportagem
Unidade
4
175 Ficha n.º 1 Campo lexical e campo semântico
181 Ficha n.º 2 A representação da amada
184 Ficha n.º 3 A experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor
187 Ficha n.º 4 A representação da natureza
190 Ficha n.º 5 Reflexão sobre a vida pessoal
193 Ficha n.º 6 O desconcerto do mundo
194 Ficha n.º 7 Étimo, palavras divergentes e convergentes
198 Ficha n.º 8 O tema da mudança
199 Ficha n.º 9 Complemento do adjetivo
200 Ficha n.º 10 Medida velha e medida nova
203 Ficha n.º 11 Principais etapas da formação e da evolução do português
Unidade
5
224 Ficha n.º 1 Imaginário épico I
227 Ficha n.º 2 Imaginário épico II
239 Ficha n.º 3 Arcaísmo e neologismo
242 Ficha n.º 4 Reflexões do poeta
246 Ficha n.º 5 Mitificação do herói
252 Ficha n.º 6 Imaginário épico/reflexões do poeta
264 Ficha n.º 7 Canto X – Lamentações e profecia de futuras glórias nacionais
268 Ficha n.º 8 Artigo de divulgação científica
269 Ficha n.º 9 Genealogia linguística
Unidade
6
289 Ficha n.º 1 Documentário
299 Ficha n.º 2 As aventuras e desventuras dos Descobrimentos
303 Ficha n.º 3 Relato de viagem
FICHAS INFORMATIVAS
pp.
9
Verbos de instrução
Analisar
Decompor o objeto a ser analisado, a fim de examinar e identificar as partes, relações e os
princípios envolvidos, que levam à compreensão do todo.
Apresentar Expor, dar a conhecer de maneira sucinta.
Argumentar
Enunciar os raciocínios que constituem um pensamento, defender ideias, opiniões a respeito de
um determinado assunto.
Associar Estabelecer uma correspondência, uma relação entre duas ou mais afirmações, ideias,...
Caracterizar Pôr em evidência, descrever as propriedades de alguém ou algo.
Citar/apontar Mencionar, indicar, de forma breve, determinado aspeto de um assunto.
Classificar Reunir em classes ou respetivos grupos, segundo um sistema de classificação.
Comentar Opinar, discutir sobre o que foi lido, num determinado contexto, dado pelo enunciado.
Comparar/confrontar
Examinar simultaneamente dois ou mais objetos, a fim de conhecer as semelhanças, diferenças
ou estabelecer relações.
Comprovar Provar uma proposição (afirmação), juntar as provas da sua verdade.
Definir Dizer em que consiste. Expor um conceito, clara e precisamente.
Delimitar Estabelecer limites, dizer o início e o fim de sequências.
Confirmar Afirmar, com outras palavras, o já dito; ratificar; corroborar.
Criticar Julgar com critério, com discernimento, analisando o lado positivo e o negativo.
Descrever Apresentar características distintivas, possibilitando visualizar o objeto em descrição.
Discutir Analisar uma questão, um problema, um assunto, pelo exame das razões e provas.
Enumerar Listar factos, dados, características, argumentos; especificar um a um.
Esclarecer Elucidar, tornar compreensível o sentido de uma afirmação, um pensamento,…
Exemplificar Dar exemplos, comprovar com evidências de um texto (abrir e fechar aspas).
Explicar Dar a conhecer ou expor factos, resultado de uma interpretação e compreensão.
Explicitar Tornar explícito, claro e preciso o sentido do que se quer dar a conhecer.
Exprimir o ponto de vista Dar a opinião, fundamentando.
Identificar Reconhecer e apontar os elementos fundamentais ou as principais características.
Ilustrar Explicar, usando exemplos concretos.
Interpretar
Expor o sentido, com clareza e objetividade, dentro de um determinado contexto, a fim de
mostrar uma compreensão do assunto.
Justificar Provar, fundamentar, dar razões convincentes.
Referir Indicar factos e dados que se relacionam ou explicam determinada situação.
Relacionar Estabelecer uma relação (de oposição, semelhança,…); confrontar realidades.
Resumir
Distinguir as ideias centrais de um texto das secundárias, obtendo a síntese, que corresponde à
compreensão do que foi lido.
Transcrever Copiar o que se pede, tal como está no texto original (abrir e fechar aspas).
VERBO SENTIDO
0
AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA
PROJETO DE LEITURA
Que livros ler?
O que fazer?
t Escrita;
t Oralidade.
Como divulgar?
DIAGNOSE E PROJETO
DE LEITURA
Vicent van Gogh, Still Life – French Novels and a Rose, c. 1888 (pormenor).
12 Unidade 0 // DIAGNOSE E PROJETO DE LEITURA
AVALIAÇÃO
DIAGNÓSTICA
COTAÇÕES
GrupoI
1. 18pontos
1.1 9pontos
1.2 9pontos
2. 18pontos
3. 10pontos
4.1 6pontos
4.2 5pontos
4.3 5pontos
80pontos
Grupo I
Lê atentamente o seguinte texto.
Um livro
Levou-me um livro em viagem,
não sei por onde é que andei.
Corri o Alasca, o deserto,
andei com o sultão no Brunei?
P’ra falar verdade, não sei.
Com um livro cruzei o mar,
não sei com quem naveguei.
Com marinheiros, corsários,
tremendo de febres e medo?
P’ra falar verdade, não sei.
Um livro levou-me p’ra longe,
não sei por onde é que andei.
Por cidades devastadas,
no meio da fome e da guerra?
P’ra falar verdade, não sei.
Um livro levou-me com ele
até ao coração de alguém,
e aí me enamorei –
de uns olhos ou de uns cabelos?
P’ra falar verdade, não sei.
Um livro num passe de mágica
tocou-me com o seu feitiço:
deu-me a paz e deu-me a guerra,
mostrou-me as faces do homem
– porque um livro é tudo isso.
Levou-me um livro com ele
pelo mundo a passear,
não me perdi nem me achei
– porque um livro é afinal…
um pouco da vida, bem sei.
João Pedro Mésseder,
O g é um gato enroscado,
Alfragide, Editorial Caminho, 2003, p. 4
5
10
15
20
25
30
André Letria, Se eu fosse um livro, 2011.
13
Avaliação diagnóstica
Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas às questões que se seguem.
1. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F).
a) O sujeito poético levou um livro quando foi viajar.
b) O sujeito poético percorreu mar e terra.
c) Os sítios por onde passou assemelhavam-se a paraísos ou infernos.
d) O sujeito poético não conheceu a paixão através dos livros.
e) Nos livros, não está contemplada a vertente multifacetada do Homem.
f) No final do poema, é evidente a importância concedida ao livro.
1.1 Corrige as afirmações falsas.
1.2 Transcreve do poema versos que comprovem as afirmações verdadeiras.
2. Faz corresponder a cada segmento textual da coluna A um único segmento textual da
coluna B, de modo a obteres afirmações verdadeiras.
A B
a) Com a construção anafórica no primeiro
verso da 3.ª, 4.ª e 5.ª estrofes,
1. o enunciador questiona a
autenticidade das suas viagens.
b) Com a sucessão de frases
interrogativas,
2. o enunciador contrasta experiências
literárias.
c) Com as diversas enumerações,
3. o enunciador reitera o meio pelo qual
viaja.
d) Com a metáfora «tocou-me com o seu
feitiço» (v. 22),
4. o enunciador acentua a incerteza
quanto à veracidade das suas vivências.
e) Com a antítese «Deu-me a paz e
deu-me a guerra» (v. 23),
5. o enunciador ilustra o poder
transformador da literatura.
f) Com a repetição do verso final, nas
quatro primeiras estrofes,
6. o enunciador sugere a quantidade de
experiências literárias.
3. Identifica o tema do poema.
4. Atenta na forma como o poema está escrito.
4.1 Classifica as estrofes quanto ao número de versos.
4.2 Classifica a rima presente nos dois últimos versos da primeira estrofe.
4.3 Quanto à métrica, divide e classifica o primeiro verso do poema.
PROFESSOR
GrupoI
1.
a)F; b)V; c)V; d)F; e)F; f)V.
1.1a)Umlivroéqueofezviajar.
d) Pelas leituras, também conheceu
apaixão.
e) As várias faces do Homem estão
presentesnoslivros.
1.2b)«CorrioAlasca,odeserto»(v.3)
e«Comumlivrocruzeiomar»(v.6);
c)«Deu-meapazedeu-meaguerra»
(v.23);
f) «porque um livro é afinal… / um
poucodavida»(vv.29-30).
2. a)3.; b)1.; c)6.; d)5.; e)2.; f)4.
3. O tema do poema é a riqueza que
advémdasexperiênciasdeleitura.
4.1 Quintilhas.
4.2Rimaemparelhada.
4.3 Le/vou/-me um / li/vro em/vi/a/
gem – heptassílabo, redondilha
maior.
Sugestão
A correção da avaliação diagnóstica
pode ser feita através de heterocor-
reção. As correções são projetáveis
em
14 Unidade 0 // DIAGNOSE E PROJETO DE LEITURA
COTAÇÕES
GrupoII
1. 15pontos
2.1 5pontos
2.1.1 2pontos
2.2 5pontos
2.3 5pontos
3. 8pontos
40pontos
5
10
15
20
25
30
35
40
45
50
55
60
65
70
Grupo II
Lê atentamente o seguinte texto.
A LEITURA NO ECRÃ
O mundo digital, com os seus
ecrãs e as ligações em rede, veio
criar uma nova forma de ler que é
diferente da dos livros e jornais em
papel. Perante o novo paradigma,
surge toda uma cultura e um con-
junto de competências que urge
aprender, com muitas potencialida-
des e desvantagens à mistura.
É inegável que a era da internet veio
mesmo para ficar, e é com essa reali-
dade em mente que se tenta delinear
uma estratégia para ler no ambiente que
criou. Tal como referem os sociólogos
Gustavo Cardoso e Tiago Lima Quinta-
nilha, em A sociedade dos ecrãs (2013),
ao mesmo tempo que existe uma aposta
cada vez maior em tecnologias assentes
em ecrãs, vemos também uma tendên-
cia para os processos e ferramentas de
mediação dependerem dessa «ecrani-
zação», sendo ambos um «resultado
do crescimento sustentado do modelo
Web». Basicamente, um ecrã que esteja
ligado à rede propicia uma experiência
de leitura que recorre ao multimédia, à
interatividade e à existência de hiperli-
gações. Com o advento da Web 2.0, a
norma passa igualmente por ter o leitor
a produzir e a publicar conteúdos, seja
na blogosfera, nas redes sociais ou atra-
vés de website que tenha criado.
Perante este novo ecossistema, vem
ao de cima a necessidade de uma cultura
digital que dote o leitor de uma capaci-
dade crítica e reflexiva, de modo a saber
procurar e lidar com a informação que
tem em mãos, não bastando dominar a
vertente técnica das tecnologias que se
usam: podemos saber guiar um auto-
móvel, por exemplo, mas se nos faltar
a capacidade de analisar cada situação
que se nos depara na estrada, o erro e o
desastre são quase certos.
Para José Afonso Furtado, «com a
velocidade a que as coisas estão a mudar,
as pessoas têm de ter uma cultura da
informação que seja suficientemente
flexível e ágil para se habituarem a lidar
com problemas inesperados». Acima de
tudo, «a prática da leitura digital implica
novas competências para a apropriação do
texto», entre elas: a capacidade de navegar
por entre os dados a que temos acesso; a
marcação daquilo que verdadeiramente
nos interessa; saber copiar os dados que
queremos; fazer uma boa prospeção,
capaz de encontrar com precisão aquilo
de que necessitamos; realizar anotações às
informações que reunimos; armazenar de
forma organizada os dados que usamos,
para a eles recorrermos quando necessi-
tamos (memória); e aprender a publicar
informação que reunimos.
Tal como explicou o filósofo francês
Michel Foucault, «as fronteiras de um
livro nunca estão claramente defini-
das», pois existe, dentro dele, todo um
«sistema de referências a outros livros,
outros textos, outras frases: é um nó
dentro de uma rede, uma rede de refe-
rência». Nunca estas palavras se revela-
ram tão apropriadas como hoje.
JPL, «Do papel para o digital – a leitura no ecrã»,
in Superinteressante, n.º 193, maio de 2014, pp. 64-65 (texto com supressões)
15
Avaliação diagnóstica
Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas às questões que se seguem.
1. Para responderes a cada um dos itens 1.1 a 1.5, seleciona a opção correta.
1.1 O mundo digital
(A) propicia possibilidades díspares de leitura.
(B) mantém as possibilidades de leitura já existentes.
(C) desenvolve as possibilidades de leitura já existentes.
(D) não acrescenta nada às possibilidades de leitura já existentes.
1.2 Esta nova realidade exige que o leitor
(A) desenvolva o gosto pela leitura.
(B) aposte na aquisição de novas tecnologias.
(C) trace uma metodologia de leitura.
(D) perca velhos hábitos de leitura.
1.3 Com o exemplo da condução, pretende-se
(A) aproximar uma realidade conhecida de uma desconhecida.
(B) comparar uma realidade conhecida com uma desconhecida.
(C) distanciar uma realidade conhecida de uma desconhecida.
(D) opor uma realidade conhecida a uma desconhecida.
1.4 A enumeração no quarto parágrafo tem como objetivo
(A) fornecer uma lista exaustiva das competências que o leitor tem de possuir.
(B) sensibilizar para as competências que o leitor tem de possuir.
(C) alertar para as competências que o leitor tem de possuir.
(D) dar exemplos das competências que o leitor tem de possuir.
1.5 A expressão «as fronteiras de um livro nunca estão claramente definidas» (ll. 66-68),
no quinto parágrafo, traduz
(A) a existência de um sistema indefinido.
(B) a referência a outras redes.
(C) a intertextualidade de cada obra.
(D) a imagem dos nós e redes de um sistema definido.
2. Atenta na seguinte expressão «É inegável que a era da internet veio mesmo para ficar»
(ll. 10-11).
2.1 Constrói uma frase em que a palavra destacada pertença a uma classe de pala-
vras diferente.
2.1.1 Classifica-a.
2.2 Classifica a oração sublinhada.
2.3 Indica a função sintática que essa oração desempenha.
3. Identifica o processo de formação das seguintes palavras destacadas, tendo em conta
o contexto em que surgem.
a) «para os processos e ferramentas de mediação dependerem dessa
“ecranização”» (ll. 20-22);
b) «Perante este novo ecossistema»(l.33).
PROFESSOR
GrupoII
1.1(A); 1.2(C); 1.3(B); 1.4(D);
1.5(C).
2.1 Por exemplo: Quando eu era
criança,liamuitoslivros.
2.1.1 Verbo «ser» no pretérito imper-
feitodoindicativo.
2.2 Oração subordinada substantiva
completiva.
2.3Sujeito.
3.a)derivaçãoporsufixação;
b) composição por associação de
radicalepalavra.
16 Unidade 0 // DIAGNOSE E PROJETO DE LEITURA
Grupo III
Atenta na seguinte imagem e na frase abaixo da autoria de Tim Berners-Lee, inventor, em
1989, da World Wide Web, considerado um dos maiores génios vivos do mundo.
Redige um texto de opinião, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, sobre a
temática «Vantagens e desvantagens dos avanços tecnológicos».
Segue a planificação apresentada:
Introdução:
1.º parágrafo – definição de avanço tecnológico.
Desenvolvimento:
2.º parágrafo – vantagens da evolução tecnológica e respetivos exemplos;
3.º parágrafo – desvantagens da evolução tecnológica e respetivos exemplos.
Conclusão:
5.º parágrafo – opinião pessoal.
Após a escrita do teu texto, não te esqueças de o rever e aperfeiçoar.
«As empresas vão ser cada vez mais geridas
por computadores. E os computadores
estão a ficar mais inteligentes, mas nós não.»
Tim Berners-Lee
«Revista» (texto de Matt Warman), in Expresso, 25 de outubro de 2014
COTAÇÕES
GrupoIII
50pontos
PROFESSOR
GrupoIII
“iH3@{A F75@A†9;5A 3;36A 3A
avanço da ciência; põe ao nosso dis-
por ferramentas/possibilidades, que
nosauxiliam/facilitamnavidaquoti-
diana;
“3H3@{A63F75@AA9;3H7?FD3L7D
Vantagens:
–sociais:maiorqualidadedevidaao
níveldasaúde,educação,segurança,
comunicação, mobilidade, habita-
ção,trabalho…;
– económicas: maior garantia de
subsistência,menordependênciada
natureza,maiorriqueza,etc.
Desvantagens
–sociais:desemprego(naindústria),
perigo de uso excessivo e adição
(internet, telemóveis, computado-
res);
– ecológicas: poluição, desastres
ambientais, problemas para os vá-
riosecossistemas…
“Biniãopessoal.
17
Avaliação diagnóstica
Grupo IV
Escuta atentamente a música Vayorken, interpretada por Capicua.
Seleciona, para cada uma das questões abaixo apresentadas, a resposta que considerares
mais correta, de acordo com o sentido da letra.
1. Quando fosse crescida, queria
(A) viajar pelo mundo.
(B) lecionar windsurf.
(C) vestir-se de rosa e vermelho.
(D) ir a Vayorken.
2. Os dois músicos que refere são
(A) Sérgio Godinho e Jorge Palma.
(B) Zeca Afonso e Pedro Abrunhosa.
(C) Zeca Afonso e Sérgio Godinho.
(D) Jorge Palma e Pedro Abrunhosa.
3. Em criança, considera que tinha
(A) mau feitio, todavia era bem comportada.
(B) mau feitio e era mal comportada.
(C) bom feitio e era bem comportada.
(D) bom feitio, contudo era mal comportada.
4. O tema desta música é
(A) o gosto por viajar.
(B) a sua caracterização atual.
(C) o seu sonho de menina.
(D) a memória da infância.
5. Provavelmente, o nome Vayorken aparece desta forma porque
(A) ainda não sabia geografia.
(B) ainda não sabia pronunciar corretamente as palavras.
(C) era como os seus pais diziam.
(D) era como tinha ouvido dizer.
6. A forma Vayorken corresponde à cidade de
(A) Newark.
(B) Nova Jérsia.
(C) Nova Orleães.
(D) Nova Iorque.
COTAÇÕES
GrupoIV
30pontos
CD 1
Faixa n.o
1
PROFESSOR
Compreensãodooral
1.(B); 2.(C); 3.(B); 4.(D); 5.(B); 6.(D).
18
PROJETO DE LEITURA
LITERATURA PORTUGUESA
AAVV, Antologia do Cancioneiro Geral (poemas escolhidos)
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Navegações
ALVES, Adalberto, O meu coração é árabe
BRANDÃO, Raul, As ilhas desconhecidas
CASTRO, Ferreira de, A selva
DINIS, Júlio, Serões da província
FARIA, Almeida, O murmúrio do mundo: a Índia revisitada
FERREIRA, António, Castro
GEDEÃO, António, Poesia completa (poemas escolhidos)
NEMÉSIO, Vitorino, Vida e obra do infante D. Henrique
LITERATURA DE EXPRESSÃO PORTUGUESA
AMADO, Jorge, Os capitães da areia
LISPECTOR, Clarice, Contos
LOPES, Baltazar, Chiquinho
MEIRELES, Cecília, Antologia poética (poemas escolhidos)
MORAES, Vinicius de, Antologia poética
ONDJAKI, Os da minha rua
PEPETELA, Parábola do cágado velho
RUI, Manuel, Quem me dera ser onda
LITERATURA UNIVERSAL
ALIGHIERI, Dante, A divina comédia (excertos escolhidos)
Anónimo, Lazarilho de Tormes
CALVINO, Italo, As cidades invisíveis
CAREY, Peter, O Japão é um lugar estranho
CERVANTES, Miguel de, D. Quixote de la Mancha
(excertos escolhidos)
CHATWIN, Bruce, Na Patagónia
DEFOE, Daniel, Robinson Crusoe
ECO, Umberto, O nome da rosa
ÉNARD, Mathias, Fala-lhes de batalhas, de reis
e de elefantes
HOMERO, Odisseia (excertos escolhidos)
MAALOUF, Amin, As cruzadas vistas pelos árabes
MAGRIS, Claudio, Danúbio
MARCO POLO, Viagens (excertos escolhidos)
PÉREZ-REVERTE, Arturo, A tábua de Flandres
PETRARCA, Rimas (poemas escolhidos)
POE, Edgar Allan, Contos fantásticos
SCOTT, Walter, Ivanhoe
SHAKESPEARE, William, A tempestade
SWIFT, Jonathan, As viagens de Gulliver
TELLES, Lygia Fagundes, Ciranda de pedra
VIRGÍLIO, Eneida (excertos escolhidos)
ZIMLER, Richard, O último cabalista de Lisboa
Que livros ler?
Apresentam-se em seguida vários títulos de livros, de entre os quais terás de escolher um ou dois,
de acordo com as indicações do teu professor, para desenvolveres um trabalho no âmbito do Projeto
de Leitura.
19
O que fazer?
A partir da obra que selecionaste, desenvolve uma das seguintes atividades propostas.
1. Exposição
Prepara uma exposição, escrita ou oral, de acordo com os seguintes passos.
Introdução
tinformação sobre o autor e a obra.
Desenvolvimento
tapresentação do conteúdo global da obra (tema, organização);
tsemelhanças e diferenças com o que estudaste em determinada unidade, apoiadas em exemplos.
Conclusão
tsíntese dos aspetos mais relevantes da obra.
2. Apreciação crítica
Faz uma apreciação crítica, escrita ou oral, em que apresentes os seguintes aspetos:
Introdução
tinformação sucinta sobre o autor e a obra, seguida de uma breve descrição do conteúdo da obra.
Desenvolvimento
tapreciação pessoal sobre a obra, fundamentada em argumentos suportados por excertos ilustrativos;
tsemelhanças e diferenças com o que estudaste em determinada unidade, apoiadas em exemplos.
Conclusão
tinformação sobre a importância da divulgação e do conhecimento da obra;
trecomendação da sua leitura.
Como divulgar
Partilha o teu texto escrito:
tOPKPSOBMEBFTDPMB
tOPCMPHVFNFOTBHFOTCMPHTQPUQU
tOPCMPHVFEBCJCMJPUFDBEBUVBFTDPMB
tOPsite de uma livraria online ou num site sobre livros, que permita adicionar comentários de utilizadores.
Partilha o teu texto oral:
tTPCBGPSNBEFBQSFTFOUBÎÍPPSBMËUVSNB
tOVNQSPHSBNBEBSÈEJPEBUVBFTDPMB BDPNQBOIBOEPPEFNÞTJDBTTVHFTUJWBT 
tTPCBGPSNBEFWÓEFPWMPHVFOP:PVUVCF 'BDFCPPL NFOTBHFOTCMPHTQPUQUPVPVUSPsite de partilha de vídeos.
1
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Contextualização histórico-literária
Cantigas de amigo
Cantigas de amor
Cantigas de escárnio e maldizer
Representações de afetos e emoções:
tvariedade do sentimento amoroso;
tconfidência amorosa;
trelação com a natureza;
ta coita de amor e o elogio cortês;
t a dimensão satírica: a paródia do amor cortês e a crítica
de costumes.
Espaços medievais, protagonistas e circunstâncias.
Linguagem, estilo e estrutura:
tcaracterização temática e formal;
trecursos expressivos.
LEITURA
Exposição, textos informativos e imagens.
COMPREENSÃO DO ORAL
Anúncio publicitário.
Registos áudio e audiovisuais.
EXPRESSÃO ORAL
Apresentação oral.
Apreciação crítica.
ESCRITA
Exposição sobre um tema.
Apreciação crítica.
GRAMÁTICA
A língua portuguesa: génese, variação e mudança.
tAs principais etapas da formação e evolução do
português.
tFonética e fonologia: processos fonológicos de inserção,
supressão e alteração.
POESIA
TROVADORESCA
Iluminura do Codex Manesse, século XIV (pormenor).
Manuel Alegre
Estudou em Lisboa, no Porto e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Dirigente histórico do Partido Socialista desde 1974, foi vice-presidente da Assembleia
da República, de 1995 a 2009, e é membro do Conselho de Estado.
A sua vasta obra literária, que inclui o romance, o conto, o ensaio, mas sobretudo a
poesia, tem sido amplamente difundida e aclamada. Foram-lhe atribuídos os mais
distintos prémios literários: Grande Prémio de Poesia da APE-CTT, Prémio da Crítica
Literária da AICL, Prémio Fernando Namora e Prémio Pessoa, em 1999. Ao seu livro
de poemas Doze naus foi atribuído o Prémio Dom Dinis.
22
Trovadores
Os trovadores trouxeram consigo a afirmação do sentimento
amoroso. Cantaram o chamado amor cortês, que era um lirismo de
devoção a uma dama, quase sempre mulher casada. Era uma forma de
servidão à sua senhora e, ao mesmo tempo, uma libertação do amor,
platónico ou erótico através do qual o trovador divinizava o objecto
do seu amor. O amor cortês é, ao fim e ao cabo, o amor do amor, a
forma poética de um sentimento individual e da subjectividade até então
reprimida.
Estes trovadores provençais escreviam, compunham a música, diziam
ou cantavam as suas trovas com uma extraordinária e sábia elaboração.
Alguns escolhiam palavras que imitavam o canto dos pássaros. Gui-
lherme de Aquitânia escreveu um dos versos mais belos de sempre:
«Farei um poema de puro nada.» Dir-se-ia que poesia e música nasceram
juntas. Mas de que música se trata? Eu creio que é da própria música que
está dentro da língua e a que cada poeta acrescenta a sua toada própria.
De certo modo, pode dizer-se que Portugal foi trova e cantar de
amigo. Das «Ondas do mar de Vigo», de Martim Codax, a «Ai flores,
ai flores do verde pino», de Dom Dinis, foi, também, através das trovas
e das cantigas de amigo e de amor que a língua se foi unificando e con-
solidando, abrindo o caminho para a lírica de Camões e Os Lusíadas,
esse poema fundador, que é um acto de soberania cultural. E foram as
palavras e a toada (motz e son) dos trovadores que viriam a marcar alguns
dos meus poemas, desde a «Trova do amor lusíada» à «Trova do vento
que passa», passando por «Trova», onde há um verso que diz: «Em
trovador me tornei».
Manuel Alegre
(Texto inédito, 2014)
(O autor escreve segundo a grafia anterior ao novo Acordo Ortográfico)
©
Fotografia
Luiz
Carvalho
mensagens
5
10
15
20
25
Novos trovadores
Sou da poesia declamada em voz alta. Tinha
15 anos quando me iniciei na arte de escrever versos,
aprendiz de poeta, nos corredores da escola, com outros
cúmplices interessados no jogo de fazer rimar todas as
palavras do dicionário e que, mais tarde, dediquei em
forma de coro à menina que, no fim das aulas, me dava
a alegria de a acompanhar até ao portão de casa. Num
esforço para não se rir da minha figura, ouvia com
aparente entusiasmo os poemas que eu lhe segredava
num só fôlego, com a voz trémula, com o receio de
que se aborrecesse e, no meio da estrofe, desaparecesse,
fugindo para dentro de casa, levando na canção verde o
meu coração aos pulos.
Aquelas tardes de poesia junto ao portão arrastaram-
-se por longos e penosos meses, numa paixão não corres-
pondida que expurgou de mim os mais sentidos versos
de súplica e de devoção que, até então, nunca julgara
ser capaz de escrever. E quando me vi sem argumentos,
fui beber inspiração nos poetas de outras épocas. E tal
como os jograis ou segréis do século XII, cantei poesias
alheias. Só me faltava mesmo um grupo de soldadeiras
para me acompanharem com suas danças e cantares que
animaram tantos serões nas cortes portuguesas do anti-
gamente.
Entre os meus cúmplices, daqueles que se dedica-
vam aos jogos de rimas nos corredores, havia quem, ao
contrário de mim, preferisse partilhar com o grupo as
suas experiências com as raparigas do liceu, dando voz
aos sentimentos de paixão e dor que julgavam que estas
sentiam em relação a eles. Mas, dependendo do talento
ou capacidade de exagero do trovador de serviço, não
precisei de muito para me convencer de que aquela era
a mais romântica das gerações que passaram pelo liceu,
de tão belos e diversos que eram os versos que parti-
lhávamos uns com os outros. Alguns troncos de árvore
ainda guardam vestígios daqueles anos de descoberta
abençoados pela espontaneidade e simplicidade que nos
dias de hoje vemos refletidas nas canções pop da rádio.
Todos gostamos de ouvir uma história bem contada,
e a poesia sempre foi tida como o veículo mais imediato
para partilhar sentimentos, sejam nossos ou daqueles
que estão à nossa volta. E nos dias de hoje, a par do
lirismo representado pelas cantigas de amigo e de amor
refletidas na canção popular, não podemos deixar de
assinalar que o herdeiro direto das cantigas de escárnio
e maldizer é «provavelmente» o rap, que, lado a lado
com a vertente de crítica social, transporta a mesma
perversidade das cantigas de maldizer. O deboche e a
troça da pessoa ou ações de determinado indivíduo são
características comuns, tal como a ironia e o duplo sen-
tido das palavras usadas para satirizar o objeto-alvo.
Kalaf Epalanga
(Texto inédito, 2014)
23
Kalaf Epalanga
Músico, cronista. Cofundador da Enchufada,
núcleo de edição e produção de projetos,
como Buraka Som Sistema.
Estórias para meninos de cor e O angolano
que comprou Lisboa (por metade do preço)
reúnem, em livro, crónicas escritas para o
jornal Público e Rede Angola.
©
Fotografia
C.
B.
Aragão
cruzadas
5
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24 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
Contextualização histórico-literária
Datas e acontecimentos
1143
Tratado de Zamora: Afonso VII
de Castela reconhece D. Afonso
Henriques como rei de Portugal.
1214
Testamento de D. Afonso II.
1249-1250
Conquista definitiva do Algarve
aos mouros, por D. Afonso III.
1290
Criação do Estudo Geral (Studium
Generale), Universidade, em Lisboa.
1297
Tratado de Alcanizes: estabelece as
fronteiras entre Portugal e Castela.
1309
Transferência do Estudo Geral
para Coimbra.
1312
Fundação da Marinha Portuguesa
por D. Dinis.
Textos e obras
Finais do século XII
Florescimento da poesia trovadoresca.
1280-1325
Poesia de D. Dinis.
1361
Primeira tradução para português
do foral de Lisboa de 1179,
originalmente redigido em latim,
elaborada pelo tabelião Lopo Gil.
Retrato de D. Dinis
da série Reis de Portugal, 1736.
Trovador e jogral, iluminura do
Cancioneiro da Ajuda,
finais do século XIII-princípios
do século XIV (pormenor).
Iluminura do Codex
Manesse, século XIV.
Iluminura do Codex Manesse,
século XIV (pormenor).
guesa
Iluminura do Codex Manesse,
século XIV (pormenor).
25
Contextualização histórico-literária
1. Que mudanças marcaram a Idade Média?
Olhando aos dois grandes períodos em que se costuma
dividir a época medieval, ou seja, a Alta Idade Média (desde as
invasões bárbaras até ao século XI) e a Baixa Idade Média (do
século XII ao XV), vemos como num e noutro as letras não
foram esquecidas, muito embora neste último, mercê de con-
dicionalismos diversos, o fenómeno literário se afirmasse com
vigor, rasgando vetores que a Alta Idade Média desconhecera.
Todavia, para com esta tem o homem, não apenas o medieval
do período posterior, como o de séculos subsequentes, uma
dívida de gratidão, pois é nela que muitas áreas do saber irão
mergulhar as suas raízes, recolhendo aí a sua seiva que espíritos
mais cultos, abertos a novas mentalidades, hão de recriar em
facetas multifacetadas.
Um olhar, ainda que breve, sobre a Alta Idade Média
mostra como nela foram lançados alguns gérmenes que, no
período seguinte, se desenvolverão envoltos em novas rou-
pagens. A Igreja, que há de desempenhar papel relevante no
ensino, na teologia, na filosofia, no comentário de texto e de
doutrinas, vê, entre os séculos IV e VII, muitos dos seus mem-
bros difundirem pela palavra e pela escrita o seu pensamento.
[…]
É na Alta Idade Média que, do século VIII para o século
XI, três fatores de relevância preparam esta viragem: a pro-
teção dispensada por Carlos Magno à cultura; o feudalismo, com origem na frag-
mentação do poder real; a afirmação, a partir dos Juramentos de Estrasburgo (842),
de falares distintos do latim. A ação de diversas ordens religiosas, a fundação das
universidades, as cruzadas, o contacto com civilizações diversas, o policiamento dos
costumes, a afirmação da burguesia são, entre outros, fatores que permitiram que,
na Baixa Idade Média, o campo europeu das letras se manifestasse tão diversificado.
Aida Fernanda Dias,
História crítica da literatura portuguesa – Idade Média, vol. 1,
Lisboa, Editorial Verbo, 1998, pp. 15-16
5
10
15
20
25
Iluminura do Codex Manesse,
século XIV.
PROFESSOR
Leitura
8.1.
Educação Literária
16.1.
MC
PowerPoint
Contextualização
26 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
2. Qual o espaço social das cantigas?
Com o ativo papel dos nobres na Reconquista
e a intensificação da ação pastoral do clero em
contacto com os centros exteriores à Península
Ibérica, acentua-se o processo de identifica-
ção cultural dos dois grandes grupos da classe
dominante, a nobreza e o clero. […]
Nas povoações de fronteira, em constante
ambiente de guerra ofensiva e defensiva, as suas
[da nobreza] atividades militares eram fortemente
estimuladas pelos jograis e cedreiros que andavam
de terra em terra, e aí contavam as suas histórias e
canções de gesta. […]
Desde o fim do século XII, com a formação das cortes
senhoriais e a maior complexidade da corte régia, a produção
cultural nobre diversifica-se: surge a poesia lírica e satírica, com
as suas cantigas de amor, de amigo e de escárnio ou maldizer,
e altera-se a memória linhagística, pontuada por narrativas de proezas dos antepas-
sados […]. Assiste-se, então, a uma intensa atividade criativa, constantemente reno-
vada pelos contactos e a competição com cortes estrangeiras, que os jovens cavaleiros
sem fortuna, sempre à procura de melhores condições de vida, visitam frequente-
mente: a castelhana de Fernando III, de Afonso X e de Sancho IV, a de Aragão e de
Barcelona, onde chegam bem vivas as influências provençais […].
Os novos temas são agora os acontecimentos e as intrigas da corte, o amor cortês,
o prestígio social, as histórias de fidelidade e traição.
A identificação precisa de vários trovadores permitiu definir melhor o processo
de criação cultural, ao verificar que eles são geralmente bastardos e cavaleiros sem
fortuna, ou seja, um grupo de dependentes que a corte sustenta, e aos quais confia o
seu entretenimento nas horas de lazer.
José Mattoso, «A cultura medieval portuguesa (séculos XI a XIV)», in Isabel Allegro
de Magalhães (coord.), História e antologia da literatura portuguesa – séculos XIII a XIV, Lisboa,
Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, pp. 32-33 (texto adaptado)
5
10
15
20
25
Rei Afonso X de Castela
e sua corte musical,
iluminura das Cantigas de
Santa Maria, século XIII
(pormenor).
Jovens a passear no campo,
iluminura do Livro de Horas de
D. Fernando, c. 1520-1530
(pormenor).
27
Contextualização histórico-literária
5
10
15
20
5
10
3. O que é o galego-português?
O galego-português era a língua falada na faixa ocidental da Penín-
sula Ibérica até meados do século XIV. Derivado do latim, surgiu pro-
gressivamente como uma língua distinta anteriormente ao século IX,
no noroeste peninsular. Neste sentido, poderemos dizer que, mais do
que designar uma língua, a expressão galego-português designa con-
cretamente uma fase dessa evolução, cujo posterior desenvolvimento
irá conduzir à diferenciação entre o galego e o português atuais. […]
O período que medeia entre os séculos X e XIV constitui, pois, a
época por excelência do galego-português. É, no entanto, a partir de
finais do século XII que a língua falada se afirma e desenvolve como
língua literária por excelência, num processo que se estende até cerca
de 1350, e que, muito embora inclua também manifestações em prosa,
alcança a sua mais notável expressão na poesia que um conjunto alar-
gado de trovadores e jograis, galegos, portugueses, mas também caste-
lhanos e leoneses, nos legou.
Convém, pois, ter presente que, quando falamos de poesia medieval
galego-portuguesa, falamos menos em termos espaciais do que em ter-
mos linguísticos, ou seja, trata-se essencialmente de uma poesia feita
em galego-português por um conjunto de autores ibéricos, num espaço geográfico
alargado e que não coincide exatamente com a área mais restrita onde a língua era
efetivamente falada.
Graça Videira Lopes, Manuel Pedro Ferreira et al., Cantigas medievais galego-portuguesas
[base de dados online], Lisboa, Instituto de Estudos Medievais, FCSH/Nova, 2011
(http://cantigas.fcsh.unl.pt, consultado em setembro de 2014)
4. O que é a lírica galego-portuguesa?
Por lírica galego-portuguesa entendemos um grupo de 1680 textos de assunto
profano, transmitidos por três cancioneiros manuscritos, e 420 textos de tema reli-
gioso – as chamadas Cantigas de Santa Maria […] – todos eles escritos numa língua
com características bastante uniformes, o galego-português, num período que vai
de finais do século XII à segunda metade do século XIV. Com exceção de alguns
que continuam anónimos, os textos dos Cancioneiros profanos são atribuídos a 153
trovadores e jograis: reis, filhos de reis, senhores de alto linhage, clérigos, ou simples
filhos do povo que, competindo com a classe nobre, a igualam, muitas vezes, no
plano técnico-artístico.
A língua poética une, de resto, poetas não apenas galegos ou portugueses, como
poderia parecer, mas castelhanos, leoneses ou mesmo extrapeninsulares, que, por
«exotismo» ou simpatia profissional, a escolheram para cantar o amor ou «dizer mal
de alguém», isto é, para comporem cantigas de amor, cantigas de amigo ou cantigas
de escárnio e maldizer.
Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), A lírica galego-portuguesa,
Lisboa, Editorial Comunicação, 1983, pp. 18-19
Grupo de trovadores, iluminura
das Cantigas de Santa Maria,
século XIII (pormenor).
28 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
5
10
5
10
5. Porquê em verso?
Quase todas as literaturas se iniciam por obras em verso. Excetuando as novas
nacionalidades resultantes da emigração de europeus a partir do século XVI, a poesia
surge mais cedo do que a prosa literária. Não é difícil explicar este facto: nas civili-
zações do passado, a mais corrente forma de comunicação e de transmissão da obra
literária não é a escrita, mas a oralidade. Antes de se fixarem no bronze, na pedra,
no papiro, no papel ou no pergaminho, as histórias, as narrativas, e até os códigos
morais e jurídicos, gravavam-se na memória dos ouvintes; e havia artistas que se
encarregavam de as divulgar, os aedos e rapsodos entre os Gregos, os bardos entre os
Celtas, os jograis entre os povos românicos medievais. O verso é, inicialmente, entre
outras coisas, uma forma de ritmar a fala que facilite a memória [...]. Vestígios desta
literatura oral são ainda hoje os provérbios, que, como facilmente se verifica, obede-
cem a ritmos ou recorrências fónicas que facilitam a fixação. As literaturas românicas
medievais apoiam-se, como já notámos, na literatura oral, cujos principais agentes
eram os jograis.
António José Saraiva, Óscar Lopes, História da literatura portuguesa,
17.ª edição, Porto, Porto Editora, 1996, p. 45
6. Quais as características desta lírica?
Duas eram as espécies de poesia trovadoresca: a lírica-amorosa, expressa em duas
formas, a cantiga de amor e a cantiga de amigo; e a satírica, expressa na cantiga de
escárnio e de maldizer. O poema recebia o nome de «cantiga» (ou ainda de «can-
ção» ou de «cantar») pelo facto de o lirismo medieval se associar intimamente com
a música: a poesia era cantada, ou entoada, e instrumentada. Letra e pauta musical
andavam juntas, de modo a formar um corpo único e indissolúvel. Daí se compreen-
der que o texto sozinho, como o temos hoje, apenas oferece uma incompleta e pálida
imagem do que seriam as cantigas quando cantadas ao som do instrumento, ou seja,
apoiadas na pauta musical. Todavia, dadas as circunstâncias sociais e culturais em que
essa poesia circulava, perderam-se numerosas cantigas bem como a maioria das pautas
musicais.
Massaud Moisés, A literatura portuguesa através dos textos,
29.ª edição, São Paulo, Cultrix, 1998, pp. 19-20 (texto adaptado)
O casamento e o mensageiro, iluminura das
Cantigas de Santa Maria, século XIII (pormenores).
PROFESSOR
Consolida
Sugere-se que o exercício 1 seja rea-
lizado em trabalho de grupo (um
grupo por cada texto). Cada um dos
sete grupos lê um texto e apresenta
a resposta à questão-título, selecio-
nando a informação relevante que
comunicará à turma sob a forma de
conclusões.
Como atividade final, sugere-se a
audição de três versões musicadas
decantigasdestaépoca(originaisou
recriações modernas) para registo
de informações relativas a: instru-
mentos musicais; ritmo; sensações
quedesperta.
1.1Nesteperíodo,aIgrejaeasordens
religiosas desempenharam um pa-
pel relevante na produção e trans-
missão do conhecimento; surgiram
as universidades; as línguas nacio-
nais emergiram em substituição do
latim;ascruzadaspermitiramocon-
tacto com outras civilizações; assis-
tiu-seàafirmaçãodaburguesia…
1.2 Desde o final do século XII, a ati-
vidade cultural intensifica-se nas
cortes senhoriais e régia, surgindo
váriasmodalidadesdapoesialíricae
satírica: cantigas de amor, de amigo
e de escárnio e maldizer. Estas ativi-
dadeseramrenovadaspeloscontac-
tos e pela competição com cortes
estrangeiras, tendo como principais
agentes os trovadores, geralmente
bastardos e cavaleiros sem fortuna,
que a corte sustenta e «aos quais
confia o seu entretenimento nas
horasdelazer».
Link
Poesia trovadoresca
musicada
29
Contextualização histórico-literária
7. Onde podemos encontrar as cantigas?
No seu essencial, conhecemos as
cantigas profanas galego-portuguesas
através de três manuscritos. O mais
antigo […] é o Cancioneiro da Ajuda
(A), rico manuscrito iluminado, mas
que é também o mais incompleto, já
que contém apenas 310 composições,
na sua esmagadora maioria de um
único género, a cantiga de amor. Des-
coberto na biblioteca do Colégio dos
Nobres em inícios do século XIX, e
hoje guardado na Biblioteca do Palácio
da Ajuda, em Lisboa, pouco sabemos
sobre as suas origens ou sobre o seu
percurso. Trata-se, de qualquer forma,
de um manuscrito que ficou manifesta-
mente inacabado, como é muito visível
nas suas iluminuras, muitas delas com
pintura incompleta ou mesmo com
figuras apenas desenhadas (o mesmo
se passando com as iniciais). Os outros
dois manuscritos, conhecidos como
Cancioneiro da Biblioteca Nacional (B, também chamado Cancioneiro Colocci-Bran-
cuti, o mais completo, guardado em Lisboa, na BNP) e Cancioneiro da Vaticana
(V, guardado na Biblioteca Apostólica Vaticana), são manuscritos copiados em Itália,
nas primeiras décadas do século XVI, sob as ordens do humanista Angelo Colocci, e
a partir de um cancioneiro anterior, muito certamente medieval, hoje desaparecido.
Graça Videira Lopes, Manuel Pedro Ferreira et al., Cantigas medievais galego-portuguesas
[base de dados online], Lisboa, Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA, 2011
(http://cantigas.fcsh.unl.pt, consultado em setembro de 2014)
CONSOLIDA
1. Responde às questões que servem de título aos textos.
1.1 Que mudanças marcaram a Idade Média?
1.2 Qual o espaço social das cantigas?
1.3 O que é o galego-português?
1.4 O que é a lírica galego-portuguesa?
1.5 Porquê em verso?
1.6 Quais as características desta lírica?
1.7 Onde podemos encontrar as cantigas?
5
10
15
20
25
Cancioneiro da Ajuda,
(Biblioteca da Ajuda, fl. 56r)
O casamento e o mensageiro, iluminura das
Cantigas de Santa Maria, século XIII.
PROFESSOR
1.3 O galego-português era a língua
falada na faixa ocidental da Penín-
sula Ibérica entre os séculos X e XIV.
A partir dos finais do século XIV é
a língua dos trovadores ibéricos,
independentemente da sua prove-
niência geográfica, passando a ser
o instrumento de comunicação poé-
tico, reflexo e projeção de uma cul-
turaliterária.
1.4 Grupo de poesias com assunto
profano e religioso constante em
cancioneiros manuscritos, escritas
em galego-português, durante um
períodoquevaidefinaisdoséculoXII
à segunda metade do século XIV.
Eram cantadas por trovadores e
jograis.
1.5 A forma ancestral de comunica-
ção e de transmissão da obra literá-
ria não é a escrita, mas a oralidade.
Vestígios desta literatura oral são
ainda hoje os provérbios, que obede-
cem a ritmos ou recorrências fóni-
cas que facilitam a memorização.
As literaturas românicas medievais
apoiam-se na literatura oral, cujos
principaisagenteseramosjograis.
1.6 O poema recebia o nome de
«cantiga», pelo facto de o lirismo
medieval se associar intimamente
com a música: a poesia era cantada,
ou entoada e instrumentada. Letra
e pauta musical andavam juntas,
formando um corpo único e indisso-
lúvel. Ler apenas o poema é, assim,
muitoincompleto.
1.7 Cancioneiro da Ajuda: é anónimo
e o mais antigo, sendo também o
mais incompleto, contém 310 com-
posições, a maior parte cantigas de
amor.
CancioneirodaBibliotecaNacionale
Cancioneiro da Vaticana: são cópias
realizadas em Itália nas primeiras
décadas do século XVI, a partir de
um outro cancioneiro que se julga
medieval e que hoje está desapare-
cido.
30 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
Variedade do sentimento amoroso
PONTO DE PARTIDA
1. Observa a imagem e lê a nota geográfica sobre Vigo.
Identifica a sua posição na Península Ibérica, relativamente ao território português.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Ondas do mar de Vigo
Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo1
?
E ai Deus, se verra2
cedo3
!
Ondas do mar levado4
,
se vistes meu amado?
E ai Deus, se verracedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
E ai Deus, se verracedo!
Se vistes meu amado,
por que ei5
gram coidado?
E ai Deus, se verracedo!
Martim Codax,
in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.)
A lírica galego-portuguesa, Lisboa,
Editorial Comunicação, 1983, p. 261
Cantigas de amigo
A
s cantigas de amigo são composições poéticas nas quais o emissor é uma donzela
apaixonada, saudosa, inocente e, muitas vezes, ingénua, que, dirigindo-se à
mãe, às amigas ou à natureza como confidentes, exprime os seus sentimentos face à
ausência do seu amado.
Tiveram origem no noroeste peninsular. São designadas de amigo, pois na maior parte
aparece a palavra «amigo», com o sentido de pretendente, namorado ou amante.
Nota geográfica
Vigo é um município de Es-
panha na província de Pon-
tevedra (Galiza). O seu porto
marítimo, com importante
atividade pesqueira, é o prin-
cipal porto pesqueiro da Eu-
ropa. É também o centro
comercial e económico do sul
da Galiza e lidera a principal
área industrial da comuni-
dade autónoma.
5
10
1 Se vistes meu amigo: [dizei-me] se vistes o meu
amigo.
2 Verra: virá.
3 Cedo: brevemente, rapidamente.
4 Mar levado: mar bravo, encapelado, revolto.
5 Ei: tenho.
«Ondas do mar de Vigo»,
in Pergaminho Vindel,
finais do século XIII (pormenor).
CD 1
Faixa n.o
2
DA
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.8;
15.1; 15.2.
MC
PontodePartida
1. Vigo fica a norte de Portugal, no-
meadamente do Minho, zona antiga
dogalego-português.
EducaçãoLiterária
Sugestões para leitura expressiva:
dividiraturmaemdoisgruposecada
um lê, em coro, metade da cantiga;
orefrãopodeserlidoportodos.
31
Cantigas de amigo
1. Localiza a informação e os versos que te permitem completar, no teu caderno, o seguinte
esquema.
2. Atenta nos três primeiros versos em galego-português. Faz a sua «tradução» para o
português atual.
3. Explicita o motivo do estado de espírito da donzela.
3.1 Interpreta a locução interjetiva «ai Deus», tendo em conta esse estado de espírito.
4. Explica o papel desempenhado pelas «ondas do mar de Vigo».
5. Explica, por palavras tuas, o significado das sucessivas perguntas retóricas.
6. Refere a simbologia das «ondas» e do «mar».
7. Faz a análise formal desta cantiga, tendo em conta:
a) a constituição estrófica;
b) o esquema rimático;
c) a presença do paralelismo.
Emissor
«meninha»
dirige-se a
a)
Sentimentos
da «meninha»
Inquietação
b) v.
Saudade
c) v.
Preocupação
d) v.
Reencontro
e) v.
Desejo expresso
pela «meninha»
GRAMÁTICA
1. Faz a correspondência entre as duas colunas, identificando a classe e a subclasse das
palavras retiradas da cantiga.
A. Palavra B. Classe e subclasse
a) «ondas» (v.1) 1. conjunção subordinativa completiva
b) «se» (v. 2) 2. verbo transitivo indireto
c) «cedo» (v. 3) 3. pronome relativo
d) «meu» (v. 5) 4. preposição
e) «o» (v. 8) 5. adjetivo qualificativo
f) «por» (v. 8) 6. nome comum
g) «que» (v. 8) 7. verbo transitivo direto
h) «sospiro» (v. 8) 8. pronome pessoal
i) «gram» (v. 11) 9. determinante possessivo
j) «ei» (v. 11) 10. advérbio com valor semântico de tempo
2. Indica o sujeito subentendido de «vistes», v. 2. Substitui-o por um pronome pessoal.
DS SIGA
Texto poético
p. 314
FI
Cantigas de amigo
Caracterização formal
p. 32
SIGA
Classes de palavras
pp. 320-323
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. a) recetor – ondas do mar de Vigo;
b)Inquietação–v.2;c)Saudade–v.8;
d) Preocupação – v. 11; e) Reencontro
v.3–refrão.
2. Ondas do mar de Vigo / dizei-me:
tendes notícias do meu namorado?
/ E sabeis, ai meu Deus, se virá em
breve?
3.Aseparaçãodoamigo.
3.1 Traduz um desabafo, interpe-
lando Deus tacitamente para que o
seuamadovoltecedo.
4. São um elemento da natureza
a quem a donzela se dirige, par-
tilhando as suas dúvidas sobre o
paradeiro do seu amigo e pergun-
tando-lhessechegarábrevemente.
5. Enfatizam o estado de espírito de
dúvidaeinquietaçãoda«meninha».
6.Asondastraduzemotumultointe-
rior da donzela, mas também são o
seu confidente. O mar representa o
motivo da separação entre os dois
amantes, provavelmente por onde o
amadoteriapartido.
7. a) Trata-se de uma cantiga parale-
lística perfeita, composta por qua-
tro coblas em dísticos e um refrão
monóstico.
b) Esquema rimático: aaR/bbR/aaR/
bbR(rimaemparelhada).
c) É uma paralelística perfeita, por-
que o número de coblas é par;
o primeiro dístico emparelha com o
segundo, mudando a palavra rimante;
no terceiro dístico, o primeiro verso
retoma o sentido do segundo verso
do primeiro dístico (leixa-prem),
acrescentando um verso novo; no
quarto dístico, retoma-se o segundo
versodosegundodístico(leixa-prem)
e repete-se com variação o segundo
versodoterceirodístico.
Gramática
1. a) – 6; b) – 1; c) – 10; d) – 9; e) – 8;
f)–4; g) –3; h)–2; i)–5; j)–7.
2.OndasdomardeVigo.Vós.
32 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
Cantigas de amigo
Caracterização formal
O uso de refrão constitui já de si uma forma de paralelismo,
mas não é este o único tipo de repetição paralelística praticado
pelos poetas galego-portugueses. Sob vários matizes e formas
estilísticas, o paralelismo revela-se como «a quantidade domi-
nante que estrutura os cancioneiros». […] Poderemos consi-
derar na lírica galego-portuguesa três tipos de paralelismo:
literal ou de palavra, estrutural ou de construção (sintática e
rítmica) e concetual ou de pensamento. Equivale isto a dizer
que a essência fundamental do paralelismo consiste na repeti-
ção de palavras, versos inteiros, construções ou conceitos e
que tal técnica não pode deixar de arrastar consigo uma certa
monotonia. Para a evitarem, e simultaneamente conseguirem
a progressão do pensamento, recorriam os trovadores a outro
elemento fundamental do paralelismo, a variação. Repetindo
ipsis verbis a primeira parte do verso ou mesmo o verso inteiro (paralelismo literal e
estrutural), o poeta podia obter a variação mediante três processos: a) substituição
de palavra rimante por um sinónimo; b) transposição das palavras [...]; c) repetição
do conceito mediante a negação do conceito oposto. […] O primeiro recurso foi o
mais utilizado.
Uma grande parte das cantigas de tipo paralelístico apresenta-se estruturada em
dísticos monórrimos [com uma só rima] seguidos de refrão de um verso com rima
diferente, e nelas o paralelismo associa-se a um processo de encadeamento das estrofes
chamado leixa-prem.
Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., pp. 69-70
No processo de leixa-prem:
t o 1.° dístico emparelha com o 2.° dístico, mudando a palavra rimante, mas
reproduzindo o sentido;
t no 3.° dístico, o 1.° verso retoma o 2.° verso do 1.° dístico (processo de leixa-
-prem, propriamente dito), acrescentando um verso novo;
to 4.° dístico retoma o 2.° verso do 2.° dístico (leixa-prem) e repete, com
variação, o 2.° verso do 3.° dístico;
t a progressão do pensamento faz-se sempre no 2.° verso das estrofes/coblas
ímpares, culminando na penúltima estrofe/cobla.
Há paralelismo perfeito se o número de estrofes/coblas for par.
Há várias cantigas de amigo que são paralelísticas perfeitas, isto é, que obedecem ao
seguinte esquema de construção:
5
10
15
20
FICHA INFORMATIVA N.O
1
Iluminura
das Cantigas
de Santa Maria,
século XIII.
33
Ficha informativa
CONSOLIDA
1. Completa o texto com as palavras apresentadas.
A cantiga de amigo caracteriza-se por uma a) estrófica e rítmica que apro-
xima a b) da música. Também o paralelismo c) (com anáforas),
d) (de significados) e e) (frásico) e, ainda, o f)
(repetição na íntegra de verso(s) no fim de cada g) (estrofe) contribuem para a
h) , essencial ao i) .
2. Seguindo o esquema das paralelísticas perfeitas, completa a seguinte cantiga.
Como vivo coitada, madre, por meu amigo
Como vivo coitada, madre, por meu amigo
ca m’enviou mandado que se vai no ferido:
e por el vivo coitada!
a) amado
b) passado
e por el vivo coitada!
Eno sagrado, em Vigo
Eno sagrado, em Vigo (A)
bailava corpo velido: (B)
Amor ei! (R)
Em Vigo, no sagrado, (A’)
bailava corpo delgado: (B’)
Amor ei! (R)
Bailava corpo velido, (B)
que nunca ouver’amigo: (C)
Amor ei! (R)
Bailava corpo delgado, (B’)
que nunca ouver’amado: (C’)
Amor ei! (R)
Que nunca ouver’amigo, (C)
ergas no sagrad’, em Vigo: (D)
Amor ei! (R)
Que nunca ouver’amado, (C’)
ergas em Vigo, no sagrado: (D’)
Amor ei! (R)
Martim Codax,
in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., pp. 264-265.
t canto t poesia t semântico t estrutura t cobla
t sintático t refrão t anafórico t memorização
Martim de Ginzo, in Base de dados da lírica profana galego-portuguesa (Med DB), versão 2.3.3,
Centro Ramón Piñeiro para a Investigación en Humanidades, www.cirp.es (consultado em janeiro de 2015)
c)
eu a Santa Cecília de coraçon o digo:
e por el vivo coitada!
d)
e) falo
e por el vivo coitada!
PROFESSOR
Leitura
8.1.
Educação Literária
14.8.
MC
Consolida
1. a) estrutura; b) poesia; c) ana-
fórico; d) semântico; e) sintático;
f) refrão; g) cobla; h) memoriza-
ção;i)canto.
2. a) Como vivo coitada, madre,
por meu amado; b) ca m’enviou
mandado que se vai no fossado;
c) Ca m’enviou mandado que
se vai no ferido; d) Ca m’enviou
mandado que se vai no fossado;
e) eu a Santa Cecília de coraçon
ofalo.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
1
34 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
34
Confidência amorosa
PONTO DE PARTIDA
1. Escuta a emissão do programa radiofónico Portugal passado,
sobre D. Dinis, e toma as seguintes notas:
a) idade do rei quando se casou;
b) nome da rainha com quem se casou;
c) nome do filho que lhe sucedeu;
d) atividade literária (título de um poema);
e) localização do pinhal que mandou
plantar;
f) setores económicos que estimulou;
g) género literário que cultivou.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Ai flores, ai flores do verde pino
1 Pino: pinho, pinheiro.
2 U: onde.
3 Pôs: combinou.
4 San: são.
5 E seera vosc’ant’o prazo saído: e estará
convosco antes de acabar o prazo.
– Ai flores, ai flores do verde pino1
,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u2
é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs3
comigo!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
aquel que mentiu do que mi á jurado!
Ai Deus, e u é?
[– Vós me preguntades polo voss’amigo,
e eu bem vos digo que é san4
’vivo.
Ai Deus, e u é?]
Vós me preguntades polo voss’amado,
e eu bem vos digo que é viv’e sano.
Ai Deus, e u é?
E eu bem vos digo que é san’e vivo
e seera vosc’ant’o prazo saído5
.
Ai Deus, e u é?
E eu bem vos digo que é viv’e sano
e seera vosc’ant’o prazo passado.
Ai Deus, e u é?
5
10
15
20
D. Dinis,
in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.),
op. cit., p. 292
Iluminura do Codex Manesse,
século XIV.
CD 1
Faixa n.o
3
CD 1
Faixa n.o
4
DA
PROFESSOR
Educação Literária
14.1; 14.2; 14.3; 14.4; 14.6;
14.7; 14.8; 14.9; 15.1; 15.2.
Gramática
18.1.
Oralidade
1.1; 1.4; 2.1; 3.2; 4.2; 5.1; 5.3;
6.1; 6.2; 6.3.
MC
PontodePartida
1.
a) 20 anos; b) D. Isabel de Aragão;
c) Afonso (futuro D. Afonso IV);
d) «Ai flores, ai flores do verde pino»;
e) Leiria; f) indústria e agricultura,
nomeadamente a pesca, a salga e a
secagem do peixe, a extração do sal,
os tecidos de linho, os curtumes, a
exploraçãomineira;g)poesia.
Sugestão:
Osalunospoderãofazerumasíntese
oral(deumatrêsminutos)da«Lenda
do milagre das rosas», tendo em
contaostópicosseguintes:
a) protagonista; b) ações habituais
da protagonista; c) reações das ou-
tras personagens; d) situação do
reino em 1233; e) acontecimento do
milagre.
EducaçãoLiterária
1.c).
1.1 Sugestões: «Ai, Deus, e u é?»;
«aquel que mentiu do que pôs
comigo!»; «Ai flores, ai flores»; «Se
sabedesnovasdomeuamigo».
2. A cantiga divide-se em duas par-
tes. Na primeira, que corresponde
às quatro primeiras coblas, a don-
zela pergunta às flores do pinheiro
se sabem notícias do seu amigo. Na
segunda parte, constituída pelas
restantes coblas, as flores assegu-
ram-lhe que ele está bem de saúde e
queregressaráembreve.
35
Cantigas de amigo
1. Escolhe a alínea que corresponde ao assunto da cantiga.
a) Uma donzela, ansiosa e zangada, dialoga com as flores do pinheiro, partilhando a
sua ansiedade, e pergunta a Deus se sabe do paradeiro do amigo.
b) Uma donzela, ansiosa, dialoga com as flores do pinheiro, partilhando a sua ansie-
dade, e pergunta-lhes se sabem do paradeiro do amigo.
c) Uma donzela, ansiosa, dialoga com as flores do pinheiro, partilhando a sua ansie-
dade e perguntando-lhes se o amigo virá são e vivo.
1.1 Justifica a tua opção com elementos textuais.
2. Divide a cantiga em partes e, de forma sintética, regista o conteúdo de cada uma.
3. Explicita a função das flores do pinheiro em relação à donzela, indicando o recurso
expressivo utilizado.
4. Refere a simbologia das flores, no contexto desta cantiga.
5. Faz a análise formal da cantiga, quanto à constituição estrófica, ao esquema rimático e
à presença do paralelismo.
GRAMÁTICA
1. Faz corresponder a cada elemento destacado nas frases a respetiva função sintática.
A. Frase B. Função sintática
a) «se sabedes novas do meu amigo!» 1. modificador restritivo do nome
b) «Ai Deus, e u é?» 2. complemento direto
c) «aquel que mentiu do que mi á jurado!» 3. complemento indireto
d) «vos digo que é san’vivo» 4. vocativo
e) «Vós me preguntades polo voss’amado» 5. predicativo do sujeito
ORALIDADE
Apreciação crítica
Ouve a crónica Mixórdia de temáticas, de Ricardo Araújo Pereira, intitulada «Níveis
prejudiciais de amor». Prepara uma apreciação crítica oral, entre dois a quatro minutos,
tendo em conta os seguintes tópicos:
tdescrição sucinta do documento
reproduzido;
ttese defendida;
tum argumento a favor;
Para a tua apresentação oral, deves:
tplanificar a tua intervenção;
tutilizar adequadamente recursos
verbais e não verbais.
tdois exemplos da literatura;
trelação tese defendida/assunto da cantiga
«Ai flores, ai flores do verde pino»;
tcomentário crítico.
Níveis
nutos,
antiga
DS
FI
Cantigas de amigo
Caracterização formal
p. 32
SIGA
Texto poético
p. 314
SIGA
Apreciação crítica
p. 312
SIGA
Funções sintáticas
pp. 324-325
PROFESSOR
3. As flores do pinheiro assumem
a função de confidente da donzela.
O recurso expressivo utilizado é a
personificação.
4. As flores simbolizam o regresso
do tempo do amor (primavera), que
irá coincidir com o regresso do amigo.
5. Esta é uma cantiga de amigo para-
lelística constituída por oito coblas.
Cadacoblaapresentaumdísticocom
um refrão monóstico. O esquema
rimático é aaR/bbR/aaR/bbR/aaR/
bbR/aaR/bbR, ou seja, é idêntico em
todos os versos da mesma cobla.
Estamos perante uma cantiga de
amigoparalelística,porqueamesma
ideia surge em versos alternados,
compequenasvariaçõesnofinal.
Gramática
1.a)–2; b)–4; c)–1; d)–5; e)–3.
Oralidade
Notas:
„EPDUNFOTP:programaradiofónico
–crónica;
„tese:oamoréprejudicialàsaúde;
„argumento: os amantes tendem
afalecerprecocemente;
„exemplos: Romeu e Julieta,
TeresaeSimão;
„relaçãotese/cantiga:cantigacon-
firma a tese – a ausência do amigo
provoca na amiga ansiedade e
preocupação;
„comentáriocrítico:respostalivre.
Crónica Mixórdia
de Temáticas: «Níveis
prejudiciais de amor»
36 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
Relação com a natureza
PONTO DE PARTIDA
1. Observa com atenção o quadro que serve de ilustração à cantiga e antecipa
o assunto da composição poética.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Levad’, amigo que dormides
as manhanas frias
Levad’1
, amigo que dormides as manhanas frias;
todalas2
aves do mundo d’amor diziam.
Leda3
m’and’eu.
Levad’, amigo que dormide-las frias manhanas;
todalas aves do mundo d’amor cantavam.
Leda m’and’eu.
Todalas aves do mundo d’amor diziam:
do meu amor e do voss’em ment’aviam4
.
Leda m’and’eu.
Todalas aves do mundo d’amor cantavam:
do meu amor e do voss’i enmentavam5
.
Leda m’and’eu.
Do meu amor e do voss’em ment’aviam;
vós lhi tolhestes6
os ramos em que siiam7
.
Leda m’and’eu.
Do meu amor e do voss’ i enmentavam;
vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam.
Leda m’and’eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que siiam
e lhis secastes as fontes em que beviam.
Leda m’and’eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam
e lhis secastes as fontes u8
se banhavam.
Leda m’and’eu.
Nuno Fernandes Torneol,
in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., p. 259
1 Levad’: levantai-vos.
2 Todalas: todas as.
3 Leda: alegre.
4 Em ment’aviam: tinham no pensamento.
5 Enmentavam: mencionavam, comentavam.
6 Tolhestes: tiraste.
7 Siiam: estavam, pousavam.
8 U: onde.
5
10
15
20
Antonio García Patiño
Cantigas de Amigo, XIV – Levad’, amigo, que
dormides as manhanas frias, 1999.
CD 1
Faixa n.o
5
©
Moleiro.com
DA
PROFESSOR
Oralidade
5.1; 5.3.
Leitura
7.1; 7.2.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.8; 15.1; 15.2.
Gramática
17.3.
MC
PontodePartida
Cenárioderesposta:
1. A cantiga poderá ser sobre dois
amantes que estão juntos ao ama-
nhecer.Oscorposdesnudosindiciam
intimidadeentreosdois.
37
Cantigas de amigo
1. Divide a cantiga em partes, justificando a tua resposta.
2. Seleciona a única opção que permite obter uma afirmação adequada ao sentido da
cantiga.
2.1 A donzela acorda
(A) sozinha nessa manhã fria, na floresta.
(B) ao lado do amigo e incita-o a encostar-se a ela.
(C) ao lado do amigo e incita-o a levantar-se.
(D) ao lado do amigo e fala-lhe das aves e das fontes.
3. Explica o que representam as «aves» nesta cantiga e
refere o recurso expressivo usado.
4. Tendo em conta essa função, apresenta uma explicação para as ações do «amigo».
5. Completa no teu caderno o esquema, de modo a confirmares que a cantiga é paralelís-
tica perfeita.
«Levad’, amigo que dormides
as manhanas frias»
«Levad’, amigo que dormides as manhanas frias /
a) »
(1.º verso – 1.ª e 2.ª coblas)
«Todalas aves do mundo d’amor b) /
cantavam»
(2.º verso – 1.ª e 2.ª coblas)
«Do meu amor e do voss’em ment’aviam /
i enmentavam»
(c) )
«Vós lhi tolhestes os ramos em que siiam /
pousavam»
(d) )
Paralelística
(paralelismo de construção e
de sentidos)
Paralelística perfeita ou pura
GRAMÁTICA
1. Identifica o emprego dos tempos verbais seguintes, justificando a tua resposta.
a) «diziam/cantavam»;
b) «tolhestes/secastes»;
c) «and[o]».
2. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução de:
a) «dormides» (v. 1)  dormis;
b) «i» (v.16)  aí;
c) «beviam» (v. 20)  bebiam.
DS
SIGA
Valores de tempo, modo e aspeto
p. 329
FI
Fonética e fonologia
p. 38
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. A cantiga pode ser dividida em
duaspartes.Aprimeiraéconstituída
pelas quatro primeiras coblas e nela
a donzela, alegre, na presença do
amado,pede-lhequeselevante,após
uma noite de intimidade. A segunda
parte começa a partir da quinta
cobla: a donzela lamenta a ausên-
cia do amigo, sugerida pelos sinais
da natureza, «tolhestes os ramos»
(v. 14)e«secastesasfontes»(v.20).
2.1(C).
3. As aves, através do seu canto,
poderiam divulgar o amor vivido
entre a donzela e o «amigo», daí sur-
girempersonificadas.
4. O texto permite uma leitura rea-
lista e uma leitura simbólica. Assim,
o «amigo», ao tirar os ramos onde
estavam as aves e ao secar as fon-
tes onde bebiam e tomavam banho,
pretendia afastá-las. Dessa forma,
estaria a tentar manter em segredo
o amor que entre eles havia. No
entanto , as ações do amigo podem
tambémsimbolizarofimdoamor.
5. a) frias manhanas; b) diziam;
c) 2.o
verso – 3.a
e 4.a
coblas; 1.o
verso
– 5.a
e 6.a
coblas; d) 2.o
verso – 5.a
e
6.a
coblas;1.o
verso–7.a
e8.a
coblas.
Gramática
1. a) pretérito imperfeito do indica-
tivo – descrição de uma situação
habitual no passado; b) pretérito
perfeito do indicativo – ato pontual
doamigo,nopassado;c)presentedo
indicativocomvalorintemporal,con-
tínuo/durativo.
2. a) síncope de d e crase das vogais
em i; b) prótese de a; c) assimilação
dev sobainfluênciadeb inicial.
38 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
Fonética e fonologia
Processos fonológicos (inserção, supressão e alteração)
Fenómeno Designação e conceito Exemplos
Inserção
de unidades
fónicas
Prótese (no início da palavra)
SPIRITU-  espírito
STARE  estar
Epêntese (no interior da palavra)
UMERU-  ombro
CREO  creio
Paragoge (no final da palavra) ANTE  antes
Supressão
de unidades
fónicas
Aférese (no início da palavra) ACUMEN  gume
Síncope (no interior da palavra)
LEGENDA  lenda
MALU-  mau
Apócope (no final da palavra)
MARE-  mar
LEGALE-  legal
Alteração
(por
transformação
ou deslocação)
de unidades
fónicas
Metátese (deslocação de segmento(s) ou
sílabas dentro da palavra)
SEMPER  sempre
FLORE-  frol (port. antigo)
Assimilação
(mudança de uma unidade
por influência de outra
que lhe está próxima e da
qual aquela se aproxima
articulatoriamente)
Progressiva MULTU-  muito (m[ ]to)
Regressiva
IPSU-  isso
AD SIC  assim
Dissimilação (duas unidades fónicas iguais
[ou com propriedades semelhantes] tornam-se
diferentes)
ROTUNDU-  rodondo  redondo
LILIU-  lírio
Sonorização (uma consoante surda torna-se
sonora)
LACU-  lago
LUPU-  lobo
TOTU-  todo
APOTHECA-  bodega
Vocalização (alteração de consoante para
vogal – antecedida de outra vogal na mesma
sílaba, essa unidade é realizada como
semivogal)
NOCTE-  noite
LACTE-  leite
Palatalização (evolução, para som palatal, de
uma unidade ou sequência)
CLAVE-  chave
FLAMMA-  chama
PLENU-  cheio
FILIU-  filho
CICONIA-  cegonha
HODIE  hoje
Contração
Crase (fusão de duas vogais
numa só)
PEDE-  pee (port. antigo)  pé
DOLORE-  door (port. antigo)  dor
Sinérese (uma sequência
de duas vogais em hiato
dá lugar a um ditongo por
semivocalização de uma delas)
LEGE-  lee (port. antigo)  lei
REGE-  ree (port. antigo)  rei
Redução vocálica (enfraquecimento de uma
vogal em posição átona)
sono / soninho
mesa / mesinha
casal / casalinho
(nas formas derivadas, a vogal destacada é
pronunciada em português europeu como [u], [i], [‫)]ܣ‬
FICHA INFORMATIVA N.O
2
39
Ficha informativa
As seguintes mnemónicas ajudar-te-ão a memorizar a terminologia dos fenóme-
nos de inserção e supressão de fonemas:
tASA corta, PEP engorda.
tASA – Aférese, Síncope e Apócope
tPEP – Prótese, Epêntese e Paragoge
Na sonorização, a seguinte mnemónica dá conta da situação mais frequente:
P A T A C A
B O D E G A
CONSOLIDA
1. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução das palavras seguintes.
Exemplos Processos fonológicos
a) SPERARE  esperar
b) FENESTRA-  feestra  fresta
c) REGNU-  reino
d) APOTHECA-  abodega  bodega
e) IBI  ii  i  aí
f) CRUDELE-  cruel
g) CLAMARE  chamar
h) PEDE-  pee  pé
i) DOMINA-  domna  dona
j) MALU-  mau
k) SPECULU-  speclu  espelho
l) MULTU-  muito
m) MERULU-  merlo  melro
n) SOLES  soes  sóis
(pataca passa a bodega)
Iluminura do Codex Manesse, século XIV (pormenor).
PROFESSOR
Gramática
17.3.
MC
Nota:Agrafianãoreflete,neces-
sária e imediatamente, todas as
alterações fónicas. Assim, pode-
mos ter grafias conservadoras,
que não deixam transparecer
mudanças que já ocorreram na
língua.
Consolida
1.
a)Prótesedee,apócopedee;
b) Síncope de n, crase de vogais e
metáteseder;
c)Vocalizaçãodeg;
d)Sonorizaçãodep,tec([k]);afé-
resedea;
e) Síncope de b, crase de vogais,
prótesedea;
f)Síncopeded,apócopedee;
g)Apócopedee epalatalizaçãodo
grupocl;
h)Síncopeded,crasedevogais;
i)Síncopedeieassimilaçãodem;
j) Síncope de l e sinérese (forma-
çãodeditongo);
k) Síncope de u, prótese de
e, palatalização do grupo cl;
l)Vocalizaçãodel;assimilaçãoda
nasalidadeporpartedoditongo;
m) Síncope de u e metátese de l
er;
n)Síncopedelesinérese(criação
deditongo).
PowerPoint
Ficha informativa n.o
2
40 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
PONTO DE PARTIDA
1. Observa com atenção a cena do filme Orgulho
e preconceito, baseado no livro homónimo da
escritora inglesa Jane Austen. Explica a impor-
tância que o evento assume para as personagens
que o frequentam.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Bailemos nós ja todas tres, ai amigas
Bailemos nós ja todas tres, ai amigas,
so1
aquestas2
avelaneiras frolidas,
e quem for velida3
como nós, velidas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
verra4
bailar.
Bailemos nós já todas tres, ai irmanas,
so aqueste ramo destas avelanas,
e quem for louçana5
como nós, louçanas,
se amigo amar,
so aqueste ramo destas avelanas
verra bailar.
Por Deus, ai amigas, mentr’6
al7
nom fazemos,
so aqueste ramo frolido bailemos,
e quem bem parecer como nós parecemos,
se amigo amar,
so aqueste ramo so’l que8
nós bailemos,
verra bailar.
Airas Nunes,
in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.),
op. cit., p. 311
5
10
15
1 So: sob, por debaixo de.
2 Aquestas: este/a.
3 Velida: bela, formosa.
4 Verra: virá.
5 Louçana: bonita, formosa.
6 Mentr’: enquanto.
7 Al: outra coisa.
8 So’l que: sob o qual.
CD 1
Faixa n.o
6
Iluminura das Cantigas
de Santa Maria, século XIII.
DA
PROFESSOR
Oralidade
1.1; 1.4.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.8;
15.1; 15.2.
Gramática
19.1.
MC
PontodePartida
1. O evento é um baile, que tem como
objetivooconvíviosociale«ver/estar»
comos«amigos».
▪ Vídeo
Cena do filme «Orgulho
e Preconceito»
41
Cantigas de amigo
1. Descreve, resumidamente, a circunstância e o espaço medieval apresentados na cantiga.
2. Atenta no verso «Bailemos nós ja todas tres, ai amigas» (v. 1).
2.1 Indica o recetor, o convite feito e os recursos linguísticos e expressivos com que
esse pedido se concretiza.
3. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as
afirmações falsas.
a) Todas as donzelas, sem exceção, são convidadas a dançar.
b) A ação passa-se no outono.
c) O verso «se amigo amar» (vv. 4, 10, 16) indicia que os pretendentes das amigas
estariam presentes no baile.
4. Indica a simbologia das «avelaneiras».
5. Indica três características da cantiga de amigo.
6. Normalmente, o refrão, com autonomia rimática, repete-se no fim de cada estrofe.
Porém, em algumas cantigas, os versos do refrão intercalam-se nas coblas.
6.1 Partindo desta informação, identifica o refrão nesta cantiga e refere o seu valor
expressivo.
7. Faz a análise formal da cantiga.
8. Atenta no seguinte texto. Seleciona a palavra/expressão correta.
GRAMÁTICA
1. Tendo em conta a cantiga de amigo que acabaste de ler, identifica:
a) a forma verbal no presente do conjuntivo, com valor de imperativo;
b) uma conjunção subordinativa adverbial comparativa;
c) a forma arcaica de «virá»;
d) o advérbio de negação;
e) uma locução interjetiva;
f) a forma arcaica de «sob»;
g) a retoma de «amigas» por substituição lexical;
h) um quantificador numeral;
i) uma conjunção subordinativa adverbial condicional.
Em «Bailemos nós…», o espaço «frolido» é referido a) só nas coblas / só
no refrão, de modo a enfatizar a época primaveril, símbolo da b) fertilidade /
infertilidade, propícia ao namoro. A jovialidade, a beleza e a alegria das
donzelas c) enquadram-se na / contrastam com a natureza circundante.
O baile, perante d) «os amigos» / a família, permite o contacto verbal e
físico, associando-se, assim, a um ritual de fecundidade.
DS
SIGA
Classes de palavras
pp. 320-323
FI
Cantigas de amigo
Caracterização formal
p. 32
SIGA
Texto poético
p. 314
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. Recria-se um espaço medieval da
vidacoletiva,obaileeasfestaspopu-
lares.Obaileeralocalprivilegiadode
encontroamoroso.
2.1 O recetor são as amigas e o con-
vite é à dança, concretizado através
do uso do presente do conjuntivo
(«Bailemos») e da apóstrofe «ai ami-
gas».
3.
a)F–oconvitesóéválidoparaquem
for «velida», «louçana», «bem pare-
cer»e«amigoamar»;
b) F – as «avelaneiras frolidas» indi-
ciamquesepassanaprimavera;
c)V.
4.Asavelaneirassimbolizamafemi-
nilidade, a beleza e a delicadeza.
A juventude e fecundidade das don-
zelas espelham-se nas avelaneiras
emflor.
5. O enunciador é feminino, faz refe-
rência ao amor pelo «amigo»; a nível
formal está presente o paralelismo.
6.1 O refrão é «se amigo amar / verra
bailar». Reitera o convite à dança
realizado nas coblas, introduzindo a
condição«seamigoamar».
7. Trata-se de uma cantiga parale-
lística, constituída por três coblas.
Cada cobla é uma quadra, com um
dístico como refrão. Note-se que o
primeiroversodorefrãoencontra-se
intercalado entre o terceiro e o
quarto versos da quadra. Tanto as
quadras como o refrão têm rima
monórrima.
8. a) só nas coblas; b) fertilidade;
c) enquadram-se na; d) «os amigos».
Gramática
1.a)«bailemos»(v.1);b)«como»(v.3);
c) «verrá» (v. 6); d) «nom» (v. 13);
e) «Por Deus» (v. 13); f) «so» (v. 5);
g) «irmanas» (v. 7); h) «três» (v. 1);
i)«se» (v.4).
42 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
ESCRITA
Exposição
1. Faz a leitura atenta do texto.
2. Num texto expositivo, de cento e vinte a cento e cinquenta palavras, reflete sobre o
namoro hoje em dia, confrontando-o com o namoro de antigamente.
Segue a planificação apresentada:
tIntrodução: definição de namoro e sua intemporalidade, embora vivido de formas
diferentes;
tDesenvolvimento: características do namoro antigamente e exemplos; do namoro
atual e exemplos; confronto das duas formas de namorar;
tConclusão: apresentação do teu ponto de vista, fundamentando-o.
No final, faz a revisão do teu texto. Verifica a construção das frases, a clareza do
discurso, as repetições desnecessárias e a utilização dos conectores.
5
10
15
20
Piropo
A vida de qualquer rapaz deve ser ler, escrever e correr atrás das raparigas. Esta
última parte é muito importante. Hoje em dia, porém, os rapazes de Portugal já não
correm atrás das raparigas – andam com elas. A diferença entre «correr atrás» e «andar
com» é, sobretudo, uma diferença de energia. Correr é galopar, esforçar, persistir, e é
alegria, entusiasmo, vitalidade. Andar é arrastar, passo de caracol, pachorrice, sono-
lência. […]
Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou
que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem laconicamente,
com o ar indiferente que marca o «cool» da contemporaneidade «Vamos aí?». Ou
simplesmente «‘bora aí?». Nos últimos tempos, tanto em Lisboa como na linha de
Cascais, esta economia de expressão atingiu até o cúmulo de se cingir a um breve e
boçal «Bute?». «Bute» significa qualquer coisa como «Acho-te muito bonita e dese-
jável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde
eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete de framboesas». Mas, como os rapazes
só dizem «Bute?», são as pobres raparigas que têm de fazer o esforço todo de inter-
pretação e de enriquecimento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas
«Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?». E chegam
à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de con-
siderações pouco líricas – foi um «Bute» terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá
sido apaixonado ou desapaixonado? […]
De uma maneira geral, todas as palavras que não se imaginam num soneto de
Camões são impróprias. O amor pode ser um fogo que arde sem se ver, mas não basta
tomar o facto por dado e dizer simplesmente «Bute» – é preciso dizer que arde sem se
ver. Mesmo que não arda, mesmo que se veja.
Miguel Esteves Cardoso, A causa das coisas, 11.ª edição, Lisboa, Assírio  Alvim, 1991, pp. 227-228
DA
SIGA
Exposição sobre
um tema
p. 311
PROFESSOR
MC
Escrita
11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1.
43
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
3
5
5
5
10
Iluminura do Codex Manesse,
século XIV (pormenor).
Cantigas de amigo
1. Variedade do sentimento amoroso
[N]a cantiga de amigo […], o argumento essencial é, de facto, o amor não
correspondido, fonte de todo o sofrimento e causa de desconforto e lamento […].
[O poeta] finge que é a mulher a expor as suas próprias penas […] [e] esta mulher
que se lamenta pela ausência ou indiferença do amigo é […] uma donzela, uma
«dona virgo» aparentemente simples e ingénua, sinceramente apaixonada e dolente,
vulnerável a qualquer desilusão, embora também sempre pronta a defender o seu
próprio sentimento de qualquer interferência.
Giulia Lanciani, «Cantiga de amigo», in Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org.),
Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, 2.ª edição,
Lisboa, Editorial Caminho, 2000, p. 135 (texto adaptado)
2. Confidência amorosa
A protagonista move-se num ambiente de natureza que ela chama como testemu-
nha dos seus próprios sofrimentos, muitas vezes objetivados ao ponto da identificação
total com a realidade circundante. […] A mulher da cantiga de amigo entra direta
ou indiretamente em contacto não só com o amigo mas também com outras perso-
nagens – elementos da natureza (o mar, as árvores, a fonte, o cervo, o papagaio) ou
seres humanos (a mãe, as amigas confidentes).
Giulia Lanciani, «Cantiga de amigo», in Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org.), op. cit., p. 135
3. Relação com a natureza
Há […] em alguns cantares de amigo uma intimidade afetiva com a natureza
talvez diferente do gosto cenográfico da paisagem (como quadro ou reflexo dos
sentimentos humanos) […]. Dir-se-ia existir uma afinidade mágica entre as pessoas e
tudo o que parece mover-se ou transformar-se por uma força interna: a água da fonte
e do rio, as ondas do mar, as flores da primavera ou verão, os cervos, a luz da alva,
a dos olhos. Todas estas coisas participavam ainda de associações mágicas, as suas
designações evocavam tantas correspondências entre o impulso amoroso e o flores-
cer das árvores, o comportamento animal, os movimentos das coisas naturais, que
o esquema repetitivo era como impercetível e subtil desenvolvimento de um tema
através de modulações que sugerem os seus inesgotáveis nexos com a vida.
António José Saraiva e Óscar Lopes, op. cit., pp. 62 e 66
CONSOLIDA
1. Com base nos textos que acabaste de ler, corrige as afirmações incorretas.
A presença feminina é uma característica essencial das cantigas de amigo, e os
sentimentos expressos (na maioria, positivos) são sempre de uma mulher casada.
Esta alegra-se com seres humanos próximos dela e com a natureza amiga, cujos
elementos nunca são associados ao sentimento amoroso.
PROFESSOR
Leitura
7.2; 8.1.
Educação Literária
15.1; 15.2.
MC
Consolida
1. «(na maioria, negativos)»;
«mulher solteira»; «Esta confi-
dencia-se»; «são muitas vezes
associados».
PowerPoint
Ficha informativa n.o
3
44 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
ORALIDADE
Anúncio publicitário
1. Visiona atentamente os anúncios publicitários e completa a tabela com os dados pedidos.
Produto
publicitado
Informação significativa
(data, local, cartaz, etc.)
Slogan
a)
b)
c)
2. Identifica o tema transversal aos três anúncios.
3. Os três anúncios têm uma estrutura semelhante. Explicita-a.
4. Relembra o primeiro anúncio.
4.1 Explica como as personagens expressam os seus sentimentos e esclarece a impor-
tância da sua postura, do silêncio/da hesitação e do olhar.
5. A publicidade conjuga diferentes linguagens (verbais e não verbais).
5.1 Refere três tipos de linguagem comuns aos três anúncios.
5.2 Comenta a sua eficácia e o seu poder sugestivo.
6. Atenta no slogan do terceiro anúncio.
6.1 Identifica o recurso expressivo e menciona um dos efeitos produzidos.
1 2
3
FI
Publicidade
p. 46
SIGA
Recursos expressivos
pp. 334-335
PROFESSOR
Oralidade
1.1; 1.2; 1.3; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7;
2.1; 4.2; 5.1; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3.
MC
Oralidade
a) Meo Sudoeste; 6-10/08; Zam-
bujeira do Mar; Wi-Fi grátis; «Tu
sóvivesumavez».
b) Optimus Alive; 10/07; Passeio
MarítimodeAlgés;ArcticMonkeys,
TheLumineers…;«Omelhorcartaz.
Sempre!».
c) Vodafone Paredes de Coura;
20-23/08; Paredes de Coura,
Franz Ferdinand, Beirut, James
Blake; «Power aos que semeiam
músicasecolhemfestivais!».
2. Publicidade a festivais de
música.
3. 1.a
parte – contextualização
através de imagens; 2.a
parte –
informaçõesrelevantes; 3.a
parte
– explicitaçãodoslogan.
4.1 Perante um desafio, as per-
sonagens expressam medo, he-
sitação e evitam o contacto
visual. Quando o ultrapassam,
mostram-se felizes, mudando a
sua postura, que se torna mais
confianteesocial.
5.1 Verbal, icónica (imagem) e
musical.
5.2 Aliando estes três tipos de
linguagem,osanúnciosmostram
os locais dos concertos e as pes-
soas a divertirem-se ao som da
música. Sugestiona-se o público
para este mundo de festa e cria-
-se o desejo de participar, indo
aosconcertos.
6.1 Metáfora – quem cultiva o
prazer da música, participa em
festivais, pretende-se que o pú-
blicoadiraaoevento.
Links
MEO Sudeste;
Optimus Alive
Vídeo
Vodafone Paredes
de Coura
45
Cantigas de amigo
GRAMÁTICA
1. Identifica o tempo e o modo verbais presentes nas frases:
a) «Vai ao Meo Sudoeste…»
b) «Não percas…»
c) «O habitat natural da música traz-te…»
1.1 Seleciona as duas alíneas que expressam ordem ou apelo.
2. Indica os adjetivos que constam nas expressões:
a) «Wi-Fi grátis»;
b) «o melhor cartaz»;
c) «o habitat natural da música».
2.1 Classifica quanto à flexão em grau o adjetivo da alínea b). Justifica o seu valor
expressivo.
ORALIDADE
Apreciação crítica
1. Observa atentamente a imagem que se segue.
2. Planifica uma apreciação crítica oral, entre dois e quatro minutos, atendendo aos
seguintes tópicos:
tdescrição sucinta e objetiva da imagem;
timportância de conhecermos o nosso passado;
tpapel que este tipo de eventos tem na sociedade atual;
tcomentário crítico da imagem.
3. Partilha a tua apreciação crítica com os teus colegas. Utiliza adequadamente recursos
verbais e não verbais: postura, tom de voz, articulação, ritmo, entoação e expressivi-
dade.
©
André
Boto
SIGA
Adjetivo
p. 320
Apreciação crítica
p. 312
SIGA
PROFESSOR
Gramática
1. a) imperativo; b) presente do
conjuntivo, com valor de impera-
tivo;c)presentedoindicativo.
1.1 a)eb).
2.a)«grátis»;b)«melhor»;c)«na-
tural».
2.1 Superlativo relativo de supe-
rioridade, enfatiza a excelência do
cartaz,relativamenteaoutros.
Oralidade
Sugestões:
1.e2.
“ 7 G? 57@tD;A F;B;53?7@F7
medieval (pormenor do cas-
telo) sobressaem cinco figuras,
vestidas com trajes medievais.
As personagens femininas têm
vestidos coloridos e penteados
de época. As figuras masculi-
nas envergam espadas e uma
temarmadura.
“o;?BADF3@F75A@:757D?AE3E
nossas raízes, não só para a
nossa cultura geral, mas tam-
bém para percebermos certos
traçoscaracterizadoresdo«ser
português».
“ EF7E 7H7@FAE EyA D77H3@F7E
para divulgar os hábitos e cos-
tumes dos nossos antepas-
sados e promover encontros
entre os membros de uma
comunidade. Por outro lado,
também servem para fomen-
tar o turismo em determinadas
localidades.
“ EF3 ;?397? | 367CG363 3A
tipo de evento que publicita,
promovendo um cenário vivo
e dinâmico de um tempo da
História, desconhecido/obscu-
ro para muitas pessoas. As
palavras que a completam
são desafiadoras e convidam
o público a participar na feira
(«Aúltimaconquista»).
46 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
Publicidade
1. O que é?
A publicidade consiste na promoção de um produto ou serviço de forma sedu-
tora, surpreendente, inovadora e eficaz, através dos meios de comunicação social.
Jacques Lendrevie, et al., Publicitor,
Alfragide, Dom Quixote, 2010, p. 109 (texto adaptado)
O anúncio é a mensagem que publicita um produto ou um serviço.
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (online)
2. Qual é a sua finalidade?
A publicidade tem como objetivo despertar e captar a atenção, o interesse e o
desejo de potenciais consumidores ou simpatizantes, levando-os a memorizar a sua
mensagem e a agir, adquirindo o produto ou aderindo a um determinado conceito
ou causa.
A sigla AIDMA traduz as etapas da «arte de seduzir e convencer» que é a publi-
cidade:
t(despertar a) Atenção;
t(criar) Interesse;
t(provocar) Desejo;
t (permitir a) Memorização;
t(desencadear a) Ação.
Se atendermos ao seu objetivo, a publicidade pode ser dividida em dois tipos:
tcomercial, a que visa a venda de um produto ou de uma marca (fins lucra-
tivos).
tnão comercial/institucional, a que visa a adesão a uma ideia ou a uma causa
(fins sociais, informativos, solidários, preventivos, etc.).
3. Quais são os seus suportes?
Desde os primórdios da Publicidade que tudo tem mudado: o cartaz pintado à
mão dizendo «compre aqui» evoluiu até se chegar ao mupi moderno ou ao painel
eletrónico do estádio de futebol; a página de imprensa deixou de ter apenas texto
e passou a ter ilustração, fotografia, pop-ups; os anúncios deixaram de ser meras
explicações das vantagens dos produtos e, com criatividade, tornaram-se peças de
entretenimento que não só explicam produtos como permitem que nos liguemos
às marcas e nos tornemos seus consumidores, seus embaixadores, seus fans. A net
veio alargar as fronteiras daquilo que é possível obrigando a Publicidade a pensar em
novas linguagens e a adequar-se a novas técnicas.
Toda a evolução da história da Publicidade tem conduzido a que se encontrem
formas mais eficazes, mais abrangentes e mais sofisticadas de chamar a atenção.
A Publicidade foi, é e sempre será a Arte de Chamar a Atenção.
Jacques Lendrevie, op. cit., p. 108 (texto adaptado)
FICHA INFORMATIVA N.O
4
5
10
PowerPoint
Ficha informativa n.o
4
47
Ficha informativa 47
Texto icónico Texto linguístico
Imagem Slogan Texto argumentativo
tDiferentes elementos visuais
(ilustração ou fotografia, arranjo
gráfico, cor, caracteres…) que
despertam a atenção do con-
sumidor.
tFrase ou expressão original,
breve, concisa, simples e fácil
de memorizar capaz de des-
pertar a simpatia pelo pro-
duto ou campanha.
t Texto que dá credibilidade
ao anúncio, apresentando as
qualidades e vantagens do
produto ou campanha que
levam à ação do consumidor
(compra/adesão).
4. Quais são as suas características fundamentais?
Na publicidade, conjugam-se diferentes linguagens: verbal (palavra) e não verbal:
icónica (imagem); musical; gestual e atitudinal (postura, tom de voz, articulação,
ritmo, entoação, expressividade, etc.).
Para obter a simpatia e a adesão do público o texto publicitário recorre a vários
mecanismos linguísticos e estilísticos:
ttempos e modos verbais, como o imperativo ou o conjuntivo;
tentoação;
tneologismos;
trecursos expressivos abundantes: hipérbole, metáfora, anáfora, repetição,
trocadilho…;
taforismos e expressões idiomáticas;
tadjetivos em grande número;
trima, ritmo e métrica.
1. A publicidade é uma área que requer destreza e à-vontade com as palavras e, nesse
campo, os escritores sentem-se no seu «habitat». Há slogans que ficaram na memória
coletiva e que foram criados por autores consagrados. Por exemplo:
2. A primeira agência de publicidade em Portugal chamava-se J. Walter Thompson.
O slogan de Fernando Pessoa acima referido foi criado para esta agência em 1927,
para a marca Coca-Cola.
CURIOSIDADE
«Há mar e mar,
há ir e voltar.»
Alexandre O’Neill
«Mais Seguro,
Mais Futuro.»
Ary dos Santos
«Primeiro estranha-se.
Depois, entranha-se.»
Fernando Pessoa
48 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
48
Cantigas de amor
O elogio cortês
PONTO DE PARTIDA
1. Ouve com atenção a cantiga do grupo D.A.M.A., «Balada
do desajeitado». Indica três elementos caracterizadores do
sujeito poético que justifiquem o título.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Texto B
Quer’ eu em maneira
de proençal
Quer’eu em maneira de proençal
fazer agora um cantar d’amor,
e querrei muit’i loar mia senhor
a que prez nem fremosura nom fal,
nem bondade; e mais vos direi ém;
tanto a fez Deus comprida de bem
que mais que todas las do mundo val.
Ca mia senhor quizo Deus fazer tal,
quando a fez, que a fez sabedor
de todo bem e de mui gram valor,
e com tod’est [o] é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bom sém,
e desi nom lhi fez pouco de bem
quando nom quis que lh’outra foss’igual.
Ca em mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad’e loor
e falar mui bem, e riir melhor
que outra molher; desi é leal
muit’, e por esto nom sei oj’eu quem
possa compridamente no seu bem
falar, ca nom á, tra-lo seu bem, al.
D. Dinis, in Elsa Gonçalves e Maria Ana
Ramos (eds.), op. cit., p. 284
Texto A
Proençaes soem
mui bem trobar
Proençaes soem1
mui bem trobar
e dizem eles que é com amor;
mais2
os que trobam no tempo da frol3
e nom em outro, sei eu bem que nom
am tam gram coita4
no seu coraçom
qual m’eu por mia senhor vejo levar.
Pero5
que trobam e sabem loar6
sas senhores o mais e o melhor
que eles podem, sõo sabedor
que os que trobam quand’a frol sazom
á7
, e nom ante, se Deus mi perdom,
nom am tal coita qual eu ei sem par.
Ca8
os que trobam e que s’alegrar
vam eno tempo que tem a color
a frol consigu’e, tanto que se for
aquel tempo, logu’em trobar razom
nomam,nomvivememqualperdiçom
oj’eu vivo, que pois m’á de matar.
D. Dinis,
in Elsa Gonçalves e
Maria Ana Ramos (eds.),
op. cit., p. 286
A
s cantigas de amor são composições poéticas em que o trovador apaixonado
presta vassalagem amorosa à mulher como ser superior, a quem chama a sua
«senhor». Produto da inteligência e da imaginação, o amor é, geralmente, «fingido»,
o que caracteriza estas cantigas como aristocráticas, convencionais e cultas. De
ambiente palaciano, estas composições são originárias da Provença (França).
1 Soem: costumam.
2 Mais: mas.
3 Tempo da frol: primavera.
4 Coita: dor, sofrimento.
5 Pero: embora.
6 Loar: louvar.
7 Quand’a frol sazom á: quando
chega a primavera.
8 Ca: porque.
5
10
15
5
10
15
20
CD 1
Faixa n.o
7
CD 1
Faixas n.os
8 e 9
PROFESSOR
Oralidade
1.4; 2.1; 16.2.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.7;
15.1; 15.2; 15.3; 16.2.
Gramática
18.3; 18.4.
MC
PontodePartida
1. Não sabe inventar frases bonitas;
é envergonhado e perde o à-vontade
quandoestájuntodaamada.
EducaçãoLiterária
1.a)«miasenhor»(v.6);b)«sassenho-
res» (v. 8); c) «oj» (v. 18); d) «no tempo
da frol» (v. 3); e) «gram coita» (v. 5);
f) «dizem eles que é com amor»
(v. 2).
1.1Acoitadeamoreateoriapoética,
comsátiraaospoetasprovençais.
2. Apesar de os «proençaes» terem
mestriapoética,pois«soemmuibem
trobar», só o fazem na primavera,
denotando um amor meramente
retórico, enquanto que o sujeito
poéticoexibenasuapoesiaumamor
verdadeiro,comsofrimento.
3.1 Com este verso o sujeito poé-
tico questiona a veracidade do
sentimento amoroso por parte dos
«proençaes».
Link
«Balada do
desajeitado», D.A.M.A.
49
Cantigas de amor 49
49
1. Completa no teu caderno o seguinte esquema interpretativo da cantiga A.
1.1 Identifica, a partir do esquema que construíste, as duas temáticas dominantes na
cantiga.
2. Explicita o contraste que existe entre a arte poética do «eu» e a dos «proençaes».
3. Atenta no verso «e dizem eles que é com amor» (v. 2).
3.1 Interpreta o juízo de valor que lhe está subjacente.
4. Transcreve os versos que confirmam o falso sentimento amoroso dos «proençaes»,
justificando a tua escolha.
5. Transcreve, agora, as expressões que se referem à «primavera».
5.1 Identifica o recurso expressivo presente nestas expressões e refere-te ao efeito de
sentido produzido.
6. Demonstra que há um crescendo da «coita de amor», ilustrando com passagens textuais.
7. Refere o desejo manifestado pelo sujeito poético no primeiro verso da cantiga B.
8. Retoma a cantiga A e explica de que forma deve ser entendido esse desejo.
GRAMÁTICA
1. Faz corresponder a cada alínea da coluna A uma única opção da coluna B.
1.1 Classifica as orações introduzidas pelos articuladores mencionados na coluna A.
A
Palavras/expressões da cantiga A
B
Intenção comunicativa
a) Com o uso da conjunção «e» (v. 2),
1. o enunciador estabelece uma comparação entre
o seu sentimento amoroso e o dos «proençaes».
b) Com o recurso à conjunção «mais» (v. 3), 2. o enunciador apresenta uma ideia de causa.
c) Comautilizaçãodaconjunção«qual»(v.6), 3. o enunciador acrescenta informação.
d) Com o uso da locução conjuncional
«Pero que» (v. 7),
4. o enunciador apresenta um contraste.
e) Com o recurso à conjunção «ca» (v. 13),
5. o enunciador introduz uma ideia de concessão,
no que diz respeito ao talento dos «proençaes».
f) Com a utilização do conector «que pois»
(v. 18),
6. o enunciador apresenta uma consequência para
o seu estado de «perdiçom».
Objeto do canto do «eu»
Cobla 1: a)
Tempo do canto do «eu»
Cobla 3: c)
Motivação do canto do «eu»
Cobla 1: e)
= Objeto do canto dos «proençaes»
Cobla 2: b)
≠ Tempo do canto dos «proençaes»
Cobla 1: d)
≠ Motivação do canto dos «proençaes»
Cobla 1: f)
FI
Cantigas de amor
p. 53
SIGA
Coordenação
e subordinação
p. 327
PROFESSOR
4. «tanto que se for / aquel tempo,
logu’em trobar razom / nom am»,
pois, assim que acaba a primavera,
os «proençaes» já não têm motivo
para «trobar», o que indica que o seu
sentimento não é verdadeiro nem
constante.
5. «no tempo da frol»; «quand’a frol
sazom / á»; «tempo que tem a color /
afrolconsigu’e».
5.1 Estas expressões são perífrases
deprimavera.Comestasexpressões,
o sujeito poético pretende enfatizar
aspráticasdos«proençaes»queape-
nas «trobam» nesta estação, con-
vencionada como a mais propícia à
relação amorosa, sugerindo que os
seus sentimentos não são verda-
deiros.
6. Na primeira cobla, o sujeito poé-
tico apenas refere a sua «gram
coita»; na segunda, diz sabê-la sem
igual «qual eu ei sem par»; e na
última, remete para o facto de esta
«coita» ser a sua «perdiçom» e que o
«ádematar».
7. O sujeito poético exprime o desejo
defazer«umcantard’amor»,comoos
«proençaes», em que vai «loar» a sua
«senhor»,istoé,elogiar-lheosatribu-
tosfísicosepsicológicos.
8. Embora copie a forma literária, os
cânonesdapoesiaprovençal,osujeito
poético pretende que a amada acre-
dite no seu amor, mas não se pode
omitirquesetratadeumjogoretórico
enãodesentimentosreais.
Gramática
1.a)3; b)4; c)1; d)5; e)2; f)6.
1.1 a) «e dizem eles» – oração coor-
denada copulativa; b) «mais os que
trobam»–oraçãocoordenadaadver-
sativa; c) «qual m’eu por mia senhor
vejo levar» – oração subordinada
adverbial comparativa; d) «Pero
que trobam» – oração subordinada
adverbial concessiva; e) «ca os que
trobam» – subordinada adverbial
causal; f) «pois que m’á de matar»
– oração subordinada adverbial
consecutiva (note-se o «qual» na
subordinante,comvalordetal).
50 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
A coita de amor
PONTO DE PARTIDA
1. Observa o cartoon. Descreve-o e explica
de que forma a situação nele represen-
tada se aproxima ou se afasta da rela-
ção amorosa expressa nas cantigas de
amor.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Se eu podesse desamar
Se eu podesse desamar
a quem me sempre desamou,
e podess’algum mal buscar
a quem me sempre mal buscou!
Assi me vingaria eu,
se eu podesse coita dar,
a quem me sempre coita deu.
Mais sol nom posso eu enganar
meu coraçom que m’enganou,
por quanto me fez desejar
a quem me nunca desejou.
E per esto nom dormio1
eu,
porque nom poss’eu coita dar,
a quem me sempre coita deu.
Mais rog’a Deus que desampar2
a quem m’assi desamparou,
vel3
que podess’eu destorvar4
a quem me sempre destorvou.
E logo dormiria eu,
se eu podesse coita dar,
a quem me sempre coita deu.
Vel que ousass’eu preguntar
a quem me nunca preguntou
por que me fez em si cuidar,
pois ela nunca em mim cuidou.
E por esto lazeiro5
eu,
porque nom poss’eu coita dar,
a quem me sempre coita deu.
Pero da Ponte,
in Elsa Gonçalves e Maria Ana
Ramos (eds.), op. cit., p. 188
5
10
15
20
25
1 Dormio: durmo.
2 Desampar: desamparar.
3 Vel: ou.
4 Destorvar: incomodar,
perturbar.
5 Lazeiro: lastimo-me,
aflijo-me.
Guillermo Mordillo, Serenata, 1932.
DA
CD 1
Faixa n.o
10
PROFESSOR
Leitura
7.1; 7.2.
Oralidade
5.1; 5.3.
Educação Literária
14.2; 14.4; 14.5; 14.7; 15.1;
15.2; 15.3; 16.2.
Gramática
17.3.
MC
PontodePartida
1. Podemos observar um cavaleiro
a cortejar a sua amada (a cantar e a
tocar), em cima de um cavalo, tendo
comocenárioumcastelo.
A situação descrita é semelhante às
situações descritas nas cantigas de
amor. A relação amorosa é distante
(sugerida pela distância física); a
corte da amada é feita através do
canto.
51
Cantigas de amor
1. O sujeito poético encontra-se em sofrimento.
1.1 Indica as causas desse sofrimento.
2. Explica o conflito interior vivido pelo sujeito poético.
3. Atenta nas variantes linguísticas (tempos verbais, orações e advérbio) do refrão.
3.1 Relaciona-as com o desejo expresso e com a realidade a que o trovador não conse-
gue fugir.
3.2 Apresenta a tua opinião acerca da sinceridade do fingimento do trovador relativa-
mente ao seu desejo. Fundamenta a tua resposta.
4. Lê o seguinte excerto.
4.1 Partindo da perspetiva apresentada no excerto acima transcrito sobre as regras do
amor cortês, comenta o emprego da expressão «ousass’eu» (v. 22), na cantiga de
Pero da Ponte.
GRAMÁTICA
1. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução das seguintes palavras:
a) «mais» (v. 8)  mas
b) «preguntar» (v. 2)  perguntar
2. No teu caderno, completa a tabela recorrendo às seguintes formas verbais apresenta-
das com a grafia atual.
Formas verbais simples Complexos verbais
O amor era concebido à maneira cavaleiresca, como um «serviço». […]
Consistiaesseserviçoemdedicar-lhe[àamada]ospensamentos,osversoseosatos.
[…]Oservidorestáparacoma«senhor»comoovassaloparacomosuserano.[…]
A regra principal deste «serviço» era, além da fidelidade, o segredo. O cava-
leiro devia fazer os possíveis para que ninguém sequer suspeitasse do nome da
sua senhora. […]
Mas o que é próprio das cantigas de amor e do seu modelo provençal é a dis-
tânciaaqueoamantesecolocaemrelaçãoàsuaamada,aquechamasenhor,tor-
nando-aumobjetoquaseinacessível.[…]Oamortrovadorescoecavaleirescoé,
por ideal, secreto, clandestino e impossível.
António José Saraiva, O crepúsculo da Idade Média em Portugal,
5.ª edição, Lisboa, Gradiva, 1998
(texto adaptado)
tdesamou tpudesse desamar tbuscou tposso dar tpudesse buscar
tvingaria tenganou tdesejou tdeu tposso enganar
tfez desejar tdurmo tpudesse dar
FI
Cantigas de amor
p. 53
FI
Fonética e fonologia
p. 38
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.1 A fonte do seu sofrimento é a «se-
nhor». Na sua perspetiva, esta nunca
o amou, sempre lhe quis mal, nunca o
desejou, desamparou-o, o que lhe pro-
voca sofrimento. Em suma, o trovador
vive um amor não correspondido pela
suaamada.
2. O trovador vive num conflito interior
causa, pois, por um lado, deseja vingar-
-se da «senhor», provocando-lhe todo
o sofrimento que ela lhe causa, mas,
por outro, sabe que não consegue fugir
ao sentimento de amor que o prende à
amada.
3.1 As orações condicionais que apare-
cemna1.a
e3.a
coblas,associadasaouso
do pretérito imperfeito do modo con-
juntivo («se eu podesse…»), remetem
para o desejo de vingança (frustrado),
o que vai contrastar com o uso do pre-
sente do verbo «poder», associado ao
advérbio de negação «nom» e à oração
causal, na 2.a
e 4.a
coblas («porque nom
posso»). De tal contraste resulta que o
trovador não consegue fugir ao amor
que sente pela «senhor», apesar do seu
desejodevingança.
3.2 Sugestão:
Sinceridade: apesar de parecer sincero,
não o é, porque quem ama não deseja
verdadeiramenteomaldooutro;
Fingimento: o seu desejo fingido de vin-
gança é apenas fruto do sentimento de
rejeição;
«Mais sol nom posso eu enganar / meu
coraçomquem’enganou»(vv.8e9).
4.1 As regras do amor cortês não lhe
permitemdirigir-sediretamenteàama-
da, daí utilizar o verbo «ousar» e no pre-
térito imperfeito do conjuntivo, suge-
rindo uma situação improvável. Seria
um atrevimento e uma quebra do seu
serviçodevassalagemà«senhor».
Gramática
1.
a)síncopedei;
b)metáteseder.
2. Formas verbais simples: desamou,
buscou, vingaria, enganou, desejou,
deu,durmo.
Complexos verbais: pudesse desamar,
posso dar, pudesse buscar, poss’enga-
nar,fezdesejar,pudessedar.
52 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
ESCRITA
Apreciação crítica
1. O tema amoroso tem sido expresso de diferentes formas e em diferentes suportes.
Observa atentamente o desenho de Federico García Lorca, O beijo.
2. Elabora uma apreciação crítica sobre o desenho apresentado, relacionando-o com as
cantigas de amor estudadas.
Segue o plano de texto apresentado:
Introdução:
1.º parágrafo – descrição objetiva da imagem.
Desenvolvimento:
2.º parágrafo – sentimentos (dois) evidenciados na imagem;
3.º parágrafo – semelhanças (duas) entre esses sentimentos e os presentes nas can-
tigas de amor.
Conclusão:
4.º parágrafo – comentário crítico sobre a imagem.
No final, revê o teu texto, verificando a correção da acentuação, da ortografia, da sintaxe
e da pontuação.
Federico García Lorca,
O beijo, 1927.
SIGA
Apreciação crítica
p. 312
PROFESSOR
Escrita
11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1.
Educação Literária
16.2.
MC
Escrita
1.e2.
1.o
–Trata-sedeumdesenhodopoeta
e pintor Federico García Lorca, de
1927. Dois contornos de rosto sobre-
põem-se, como se se fossem beijar.
Por trás, emoldurando os rostos,
está uma silhueta vermelha e preta,
com uma espécie de auréola, a azul.
Ascoresqueseevidenciamsãoover-
melho, o preto e o tom amarelado,
esteúltimocorrespondendoàsobre-
posiçãodosrostos.
2.o
–Ossentimentossãooamor/pai-
xão, evidenciado pela aproximação
dos lábios, com o intuito de dar e
receber um beijo. Contudo, fica no
ar uma sensação de contenção no
relacionamento físico: os lábios não
se chegam a tocar. O contorno da
imagem dos amantes pode simboli-
zar o próprio sentimento do «Amor»,
semprepresente.
3.o
– Estessentimentosestãoemsin-
tonia com os das cantigas de amor,
visto que expressam o amor nunca
concretizado.
4.o
– Respostalivre.
53
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
5
Cantigas de amor
1. A coita de amor
Quanto aos temas, elaboraram os Provençais o ideal do amor cortês muito dife-
rente do idílio rudimentar nas margens dos rios ou à beira das fontes que os cantares
de amigo nos deixam entrever. Não se trata de uma experiência sentimental a dois,
mas de uma aspiração, sem correspondência, a um objeto inatingível, de um estado
de tensão que, para permanecer, nunca pode chegar ao fim do desejo. Manter este
estado de tensão considera-se ser o ideal do verdadeiro amador e do verdadeiro poeta,
como se o movesse o amor do amor, mais do que o amor a uma mulher. E não só a
esta dirigem os poetas as suas implorações, queixas ou graças, mas ao próprio Amor
personificado, figura de retórica muito comum entre os trovadores provençais e por
eles transmitida aos galego-portugueses.
António José Saraiva e Óscar Lopes, op., cit., p. 52
2. O elogio cortês
O trovador imaginava a dama como um suserano a quem «servia» numa atitude
submissa de vassalo, confiando o seu destino ao «bom sen» da «senhor». […] Todo
um código de obrigações preceituava o «serviço» do amador, que, por exemplo,
devia guardar segredo sobre a identidade da dama, coibindo toda a expansão pública
da paixão (o autodomínio, ou «mesura», era a sua qualidade suprema), e que não
podia ausentar-se sem sua autorização. O apaixonado devia passar provações e fases
comparáveis aos ritos de iniciação nos graus da cavalaria […].
A este ideal de amor corresponde certo tipo idealizado de mulher, que atingiu
mais tarde a máxima depuração na Beatriz de Dante ou na Laura de Petrarca: os
cabelos de oiro, o sereno e luminoso olhar, a mansidão e a dignidade do gesto, o riso
subtil e discreto.
António José Saraiva e Óscar Lopes, op. cit., pp. 52-53
CONSOLIDA
1. Faz corresponder a cada alínea da coluna A uma única opção da coluna B.
5
10
5
10
A B
a) A coita de amor é 1. pois isso mataria o desejo, que se quer interminável.
b) A mulher é fonte de sofrimento para o homem, 2. que a idealiza, colocando-a num pedestal de suserana.
c) O ideal do amor cortês preconiza que o
mesmo não deve ser concretizado,
3. um estado de sofrimento e tensão que invade o trovador,
devido à não correspondência amorosa.
d) A «senhor» é venerada pelo trovador, 4. imposta pelas regras de cortesia, da qual fazia parte o segredo.
e) Ao trovador era exigida a «mesura» pública
5. resultante da falta de correspondência amorosa e da altivez da
dona.
PROFESSOR
Leitura
7.2; 8.1.
Educação Literária
15.1; 15.2.
MC
Consolida
a)3; b)5; c)1; d)2; e)4.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
5
54 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
LEITURA
Exposição sobre um tema
Desde os cronistas seus contemporâneos a poetas como Camões e Pessoa, D. Dinis
foi sempre associado ao seu trisavô, o rei fundador D. Afonso Henriques. Um inventou
Portugal como país independente, o outro transformou-o no embrião de um estado
moderno. O rei-poeta pôs-nos a escrever em português.
«Na noite escreve um seu Cantar de Amigo / O
plantadordenausahaver [...]». Leem-se estes ver-
sos de Pessoa e a imagem que nos vem à cabeça é a
de um inspirado vate romântico, escrevendo noite
fora, à luz das velas, como se fora um Lord Byron
no seu palazzo Mocenigo. Um rei-poeta visioná-
rio, que, sonhando já com as naus dos Descobri-
mentos, teria mandado plantar o pinhal de Leiria
para garantir que não faltaria madeira para os bar-
cos quando soasse a hora da expansão marítima.
O que importava ao autor da Mensagem era,
claro, o mito de D. Dinis, e não o D. Dinis da
historiografia moderna ou dos estudos literários.
Esse não foi decerto um poeta romântico, nem
faria a menor ideia de que «inspiração» pudesse ter
outro significado que não o de encher o peito de
ar. E se lhe chamaram «O Lavrador», o certo é que
também não mandou plantar o pinhal de Leiria,
embora tenha zelado pela sua conservação.
No entanto, talvez seja dom da grande poesia
escrever, como o Outro, direito por linhas tortas.
E Fernando Pessoa terá alguma razão em sugerir
que esse Portugal que iria lançar-se, no início do
século XV, à descoberta de novos mundos, era, em
alguma medida, um país que só começou efetiva-
mente a existir no reinado dionisino. […]
Regressando ainda um momento à Mensagem,
note-se que não é decerto por acaso que o único
rei português que nela figura anterior a D. Dinis
é justamente Afonso Henriques, o fundador. E já
Camões, n’Os Lusíadas, apresentara assim o sexto
rei da primeira dinastia: «Eis depois vem Dinis,
que bem parece / Do bravo Afonso estirpe nobre e
di[g]na.» Na sua recente biografia do monarca
[...] José Augusto de Sotto Mayor Pizarro mos-
tra como esta associação entre o primeiro rei e
o seu trineto já vem dos primeiros cronistas de
D. Dinis, incluindo o seu filho bastardo D. Pedro,
conde de Barcelos, que, na Crónica geral de Espa-
nha, redigida em 1344, lembrava que este era
«muito nobre e muito grandioso e descendia do
nobre sangue d’el rei Dom Afonso Henriques».
E Frei Francisco Brandão, em meados do século
XVII, escreve que as obras de D. Dinis são «dig-
nas de um Príncipe capaz de ser o primeiro, e não
o sucessor em qualquer Monarquia».
A própria duração do seu reinado, que se
estendeu por 46 anos, só tem paralelo, na pri-
meira dinastia, com os 57 anos que governou
Afonso Henriques. E o mínimo que se pode dizer
é que D. Dinis não desperdiçou esse meio século
de vida ativa. […]
O rei que refundou Portugal
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55
Cantigas de amor
1. Identifica o tema dominante do texto.
2. Apresenta a estrutura do texto quanto à sua organização interna e, de seguida, regista
os assuntos que identificaste.
3. Transcreve do texto exemplos que ilustrem algumas das características do discurso de
um texto expositivo:
a) linguagem objetiva sem juízos de valor;
b) uso da terceira pessoa gramatical e do presente do indicativo;
c) uso predominante de frases declarativas;
d) uso de articuladores do discurso.
Um poeta coroado
Se D. Dinis foi em muitos domínios um
continuador do pai, é indiscutível mérito
seu ter percebido que a promoção da lín-
gua e o investimento na instrução eram
instrumentos fundamentais para consoli-
dar uma identidade nacional. Autorizada
a fundação de uma universidade, em 1290,
instala-a em Lisboa, donde depois a trans-
ferirá, em 1308, para Coimbra. Entre
outras vantagens, este Estudo Geral, como
entãosechamava,iriaforneceràburocracia
régia funcionários devidamente instruídos
e competentes. Em 1296, promulga outra
medida fundamental: a adoção do portu-
guês em toda a documentação régia.
Mais enigmático, apesar do precedente
de Afonso X, cuja obra literária certamente
conhecia, é o facto de D. Dinis se ter tor-
nado não apenas um trovador, mas, prova-
velmente,omaisrespeitadodasuageração.
O seu pai tivera decerto trovadores ron-
dando a corte, mas ele próprio nunca deu
mostras de se interessar pela poesia. É com
D. Dinis que a lírica galego-portuguesa,
um fenómeno que nasce e se desenvolve na
cultura aristocrática, e que já então entrara
na sua fase declinante, vai ser assumida pela
corte. O medievalista José Carlos Miranda
lembra que D. Dinis tinha atrás de si um
século de poesia trovadoresca e vê-o como
um poeta menos interessado em inovar
do que em lidar com esse passado. Um pas-
sado que o rei sentiria como ameaçador, já
queseconfundia,argumentaoinvestigador,
com a própria cultura senhorial. Daí que
D.Dinisváproduzirumapoesiadeconten-
ção e que recusa quaisquer ruturas, já que
sãoesses,afirmaaindaJoséCarlosMiranda,
«os princípios que quer ver seguidos, nas
relações sociais, pelos seus súbditos».
É claro que este enquadramento da
poesia de D. Dinis numa estratégia de con-
trolo da cultura aristocrática não invalida o
seu talento pessoal, ainda que alguns dos
seus poemas mais justamente apreciados
sejam, o que era comum na época, varia-
ções de outros autores, como a belíssima
cantiga «Levantou-s’a velida», construída a
partir de uma não menos notável composi-
ção de Pero Meogo.
Em 1990, um investigador americano,
Harvey Sharrer, descobriu na Torre do
Tombo um fragmento de um cancioneiro,
possivelmente redigido ainda em vida de
D. Dinis, onde sete das suas trovas apare-
cem acompanhadas da respetiva notação
musical. Um achado extraordinário, já que
constitui, a par do chamado Pergaminho
Vindel (com algumas cantigas de amigo do
galego Martim Codax), o único manus-
critoconhecidocommúsicacompostapara
poesia profana galego-portuguesa.
«... talvez seja dom da
grande poesia escrever,
como o Outro, direito
por linhas tortas.»
Luís Miguel Queirós, in Público, 16/10/2011
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SIGA
Exposição sobre
um tema
p. 311
PROFESSOR
Leitura
7.1; 7.3; 7.4; 7.6.
MC
1. O tema dominante do texto é a
figura do rei D. Dinis, não só pelas
medidas que tomou ao longo do seu
reinado e que vieram a ser determi-
nantes em momentos-chave da his-
tória de Portugal, mas também pela
sua notoriedade enquanto poeta
trovador e difusor da poesia trova-
doresca.
2. O texto está dividido em três par-
tes. A primeira parte, a introdução,
corresponde ao primeiro parágrafo,
enelaéapresentado,deformagené-
rica, o rei D. Dinis; a segunda parte,
o desenvolvimento, estende-se até
ao penúltimo parágrafo, onde são
apresentadas várias medidas toma-
dasduranteoseureinado(plantação
do pinhal de Leiria, promoção da lín-
guaportuguesa,investimentonains-
trução, criação de uma universidade
e desenvolvimento da lírica galego-
-portuguesa) e ainda a sua impor-
tância como poeta; a terceira parte,
a conclusão, destaca a descoberta
recente de um fragmento de um
cancioneiro,provavelmenteredigido
no tempo de D. Dinis e que integra
algumas das suas composições,
apresentando a notação musical
queacompanhariaascantigas.
3. a) «Autorizada a fundação de uma
universidade, em 1290, instala-a em
Lisboa, donde depois a transferirá,
em1308,paraCoimbra.»(ll.63-65);
b)«ÉcomD.Dinisquealíricagalego-
-portuguesa, um fenómeno que
nasce e se desenvolve na cultura
aristocrática[…].»(ll.79-83);
c) «Desde os cronistas […] D. Afonso
Henriques.»(l.1-2);
d) «No entanto…» (l. 24); «Daí que…»
(l.91).
56 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
Cantigas de escárnio e maldizer
Dimensão satírica – paródia do amor cortês
PONTO DE PARTIDA
1. Ouve a crónica de Mafalda Lopes da Costa, Lugares comuns, sobre a expressão «Dizer
cobras e lagartos».
1.1 Indica o que se entende por «dizer cobras e lagartos de alguém».
1.2 Regista as várias possibilidades para a origem desta expressão.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Ai, dona fea, fostes-vos queixar
Ai, dona fea, fostes-vos queixar
que vos nunca louv[o] em meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
em que vos loarei1
toda via2
;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia3
!
Dona fea, se Deus mi pardom,
pois avedes [a]tam gram coraçom4
que vos eu loe, em esta razom5
vos quero ja loar toda via;
e vedes qual sera a loaçom6
:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, nunca vos eu loei
em meu trobar, pero7
muito trobei;
mais ora ja um bom cantar farei,
em que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!
João Garcia de Guilhade,
in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., p. 160
Hieronymus Bosh, As tentações de Santo António
c. 1500 (pormenor).
1 Loarei: louvarei.
2 Toda via: de qualquer modo.
3 Sandia: louca.
4 Pois avedes [a]tam gram cora-
çom: tendes tão grande desejo/
vontade.
5 Razom: razão, motivo.
6 Loaçom: louvor.
7 Pero: embora, ainda que.
A
s cantigas de escárnio são cantigas em que o trovador troça de uma determinada
pessoa indiretamente, recorrendo ao duplo sentido e à ambiguidade das pala-
vras, à ironia, à alusão e à sugestão jocosa. As cantigas de maldizer são cantigas em
que o trovador ridiculariza determinada pessoa de forma direta, criticando situações
de adultério, amores interesseiros ou ilícitos, entre outros.
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CD 1
Faixa n.o
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DA
CD 1
Faixa n.o
12
PROFESSOR
Oralidade
1.4; 2.1; 2.2.
Educação Literária
7.1; 7.2; 14.2; 14.3; 14.4; 14.9;
15.1; 15.2; 15.3; 16.2.
MC
PontodePartida
1.1 Dizer muito mal de alguém; difa-
marumapessoa.
1.2 origem 1: cobra teria o signifi-
cado de «cobla» ou seja «versos»,
portanto, fazer escárnio de alguém;
satirizar alguém através de versos;
origem 2: origem bíblica (Salmo 91,
13) – dragão / basilísco que matava
pelo bafo; origem 3: época medieval
– alguém possuído pelo demónio e
exorcizadoexpeliacobraselagartos.
EducaçãoLiterária
1. Têm como função contextualizar
o assunto que vai ser desenvolvido
seguidamente – a queixa de uma
dama que, sendo feia, não é louvada
pelostrovadores.
2. O trovador pretende reforçar os
atributos negativos da dama (feia,
velha e louca), que levaram a que ela
nuncafossecantada.
3. Trata-se da ironia, porque o trova-
dor diz o oposto daquilo que pensa.
Aironiareforçaaintençãosatíricado
trovador.
4. Nas cantigas de amor o trovador
exprime os sentimentos amorosos
pela dama (destacando a sua coita
de amor que o faz «ensandecer»
ou morrer); a «senhor» surge como
suserana a quem o amador «serve»,
prestando-lhevassalagemamorosa.
Esta cantiga, através da ironia e da
paródia, ridiculariza o amor cortês
porque é dirigida a uma dama que
não reúne os atributos da «senhor»,
sublimadosnascantigasdeamor.
57
Cantigas de escárnio e maldizer
1. Explica a função dos dois primeiros versos da cantiga.
2. Indica a intenção do trovador com a repetição presente no refrão.
3. Identifica o recurso expressivo mais recorrente na cantiga, justificando.
4. Explica por que motivo esta cantiga é uma paródia ao amor cortês.
PONTO DE PARTIDA
1. Atenta nas vinhetas retiradas de Astérix e o regresso dos gauleses, de Uderzo e
Goscinny.
1.1 Reconta, por palavras tuas, a situação exposta na primeira tira.
1.2 Explicita o motivo pelo qual o ferreiro é «provavelmente o antepassado de todos os
críticos musicais».
1.3 Tendo em conta a primeira tira, identifica a personagem do canto inferior direito,
da última vinheta.
1.4 Relaciona a legenda da última vinheta com essa personagem.
Albert Uderzo e René Goscinny, Astérix e o regresso dos gauleses,
3.ª edição, Porto, Asa, 2011, p. 17
1
1 Bardo: Poeta celta que exal-
tava o valor dos heróis; [por
extensão] poeta lírico.
FI
Cantigas de escárnio e maldizer
p. 63
PROFESSOR
Leitura
7.1; 7.2.
Educação Literária
14.2; 14.6; 14.7; 15.1; 15.2;
15.3.
Gramática
18.1.
MC
Pontodepartida
1.1 O Bardo encontrava-se a cantar,
quando o ferreiro, vindo do nada, lhe
bateu.
1.2Aatitudedoferreiropoderelacio-
nar-secomadealgunscríticosmusi-
cais, que «esmagam» os músicos,
comassuascríticas.
1.3Adivinha-sequesejaoBardo.
1.4 A legenda refere-se à liberdade
de todos os gauleses, que se opõe à
do Bardo, preso/amarrado, porque
ninguémoquerouvir.
58 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Roi Queimado morreu com amor
Roi1
Queimado morreu com amor
em seus cantares, par Santa Maria,
por ùa dona que gram bem queria;
e, por se meter por mais trobador2
,
por que lh’ela non quis [o] bem fazer3
,
feze-s’el em seus cantares morrer,
mais resurgiu4
depois, ao tercer5
dia.
Esto6
fez el por ùa sa senhor
que quer gram bem; e mais vos ém7
diria:
por que cuida que faz i8
maestria,
enos cantares que faz, á sabor9
de morrer i e des i d’ar viver10
;
esto faz el, que x’o pode fazer,
mais outr’omem per rem11
nono faria.
E nom á ja de sa morte pavor,
se nom, sa morte mais la temeria,
mais sabe bem, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for;
e faz-[s’]em seu cantar morte prender12
,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, – mais queno cuidaria!
E se mi Deus a mi desse poder
qual oj’el á, pois13
morrer, de viver,
já mais morte nunca [eu] temeria.
Pero Garcia Burgalês,
in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.),
op. cit., p. 230
1 Roi: Rui.
2 V. 4: para mostrar que era grande
trovador.
3 Non quis [o] bem fazer: não quis
corresponder.
4 Resurgiu: ressuscitou.
5 Tercer: terceiro.
6 Esto: isto.
7 Ém: disso, disto.
8 I: aí.
9 Sabor: gosto, prazer.
10 V. 12: de morrer aí e depois
de voltar a viver.
11 Per rem: por nada, de modo
nenhum.
12 Morte prender: morrer.
13 Pois: depois.
Iluminura do Codex Manesse, século XIV (pormenor).
5
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DA
CD 1
Faixa n.o
13
59
Cantigas de escárnio e maldizer
1. Divide a cantiga em três partes e apresenta, de forma resumida, o assunto tratado em
cada uma delas.
2. A crítica nesta cantiga não é apenas dirigida individualmente a «Roi Queimado».
2.1 Expressa o teu ponto de vista acerca desta afirmação, tendo por base os senti-
mentos exacerbados nas cantigas de amor.
3. Esta cantiga é classificada como de escárnio.
3.1 De acordo com a definição inicial sobre este tipo de cantigas, prova a veracidade
desta afirmação.
4. Nesta cantiga a ironia é recorrente.
4.1 Retira um exemplo deste recurso expressivo e explicita a intenção que lhe está
subjacente.
5. Identifica os recursos expressivos presentes nos seguintes versos:
a) «Roi Queimado morreu com amor» (v. 1);
b) «de morrer i e des i d’ar viver» (v. 12);
6. Após a análise da cantiga, relaciona a personagem «Roi Queimado» com o Bardo, da
banda desenhada da página 57.
GRAMÁTICA
1. Identifica as funções sintáticas desempenhadas pelos constituintes destacados:
a) «por que lh’ela non quis [o] bem fazer» (v. 5);
b) «feze-s’el em seus cantares morrer» (v. 6).
2. Atenta no texto seguinte. Indica a classe e a subclasse de palavras dos termos destaca-
dos.
DirigidaaotrovadorRuiQueimado,estacom-
posição é uma das mais célebres paródias ao cliché
da morte de amor, tão repetidamente jurada nas
cantigas de amor de todos os trovadores galego-
-portugueses (Pero Garcia Burgalês não sendo,
aliás, exceção). A sátira (a) que aqui desenvolve
talvez tivesse sido propiciada por uma particular
cantiga de Rui Queimado, na (b) qual este tro-
vador, por amor da sua senhor, lhe diz (c) que se
arrepende da sua anterior decisão de querer mor-
rer, cantiga esta que tem, aliás, também ela, um
tom semijocoso. Note-se (d) que esta paródia
de Pero Garcia Burgalês visa, ao mesmo tempo,
e mais especificamente, os dotes poéticos de Rui
Queimado, (e) cujo problema, para Pero Garcia,
seria querer «meter-se» a fazer o (f) que não sabe.
In http://cantigas.fcsh.unl.pt
(consultado em junho de 2014)
SIGA
Recursos expressivos
pp. 334-335
Iluminura das Cantigas de Santa
Maria, século XIII (pormenor).
SIGA
Funções sintáticas
pp. 324-325
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.
1.a
parte: 1.a
cobla – «Roi Queimado»
para mostrar ser melhor trovador
do que os outros e amar mais a sua
damamorreudeamorporela;
2.a
parte: 2.a
cobla – «Roi Queimado»
fez isso porque assim mostra mais
engenho do que os outros trovado-
res;
3.a
parte: 3.a
e 4.a
coblas – ele é um
eleito de Deus, pois morreu e res-
suscitou; o trovador, se tivesse esse
poder, não temeria a morte e ressus-
citariacomoele.
2.1 Embora o alvo de chacota esteja
bemidentificado,pretende-sealcan-
çar os trovadores que em todas as
suas cantigas morrem por amor,
realçando o sentimento exagerado
recorrentenessascomposições.
3.1 Esta é uma cantiga de escárnio,
porque embora apresente uma crí-
tica indicando o nome do destinatá-
rio, a forma como se exprime é por
palavras ambíguas e com recurso à
ironia.
4.1 «feze-s’el em seus cantares mor-
rer; / mais resurgiu depois, ao tercer
dia» (vv. 6-7) ou «E se mi Deus a mi
dessepoder/qualoj’elá,poismorrer,
de viver, / já mais morte nunca [eu]
temeria» (vv. 22-24). A intencionali-
dade expressa-se através da crítica
mordaz ao morrer por amor e, logo a
seguir, ressuscitar. Daí, no segundo
exemplo, o sujeito poético não ter
medo desta «morte».
5.a)hipérbole;b)antítese.
6. Entre o Bardo e Rui Queimado há
uma relação de semelhança, pois
ambos são alvo de crítica: o Bardo
sofre agressões físicas, Rui Quei-
madoésatirizadoatravésdecompo-
siçõespoéticasjocosas.
Gramática
1. a) lhe – complemento indireto /
ela – sujeito / [o] bem fazer – com-
plementodireto;
b)modificador.
2. Pronomes relativos – a), b), e), f);
conjunções subordinativas comple-
tivas–c),d).
60 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
Dimensão satírica – crítica de costumes
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Quen a sesta quiser dormir
Quen a sesta quiser dormir,
conselha-lo ei a razon1
:
tanto que jante, pense d’ir
á cozinha do infançon2
:
e tal cozinha lh’achará,
que tan fria casa non á
na hoste, de quantas i son.
Ainda vos én máis direi
eu, que ùu dia i dormi:
tan bõa sesta non levei,
des aquel dia ’n que naci3
,
como dormir en tal logar,
u nunca Deus quis mosca dar4
:
ena máis fria ren que vi.
E vedes que ben se guisou
de5
fria cozinha teer
o infançon, ca non mandou
des ogan’6
i fog’acender,
e se vinho gaar7
d’alguen,
ali lh’o esfriarán ben,
se o frio quiser bever.
Pero da Ponte,
in Base de dados da lírica profana
galego-portuguesa (Med DB), versão
2.3.3, Centro Ramón Piñeiro para a
Investigación en Humanidades, www.
cirp.es (consultado em janeiro de 2015)
1. Descreve a cozinha do «infançon» com base em elementos textuais.
2. O sujeito poético, na segunda estrofe, refere-se a um episódio pessoal na casa do
«infançon».
2.1 Reconta-o e identifica os recursos expressivos presentes nesse relato e os seus
propósitos.
3. Comenta o sentido do verso «e se vinho gaar d’alguen» (v. 19).
4. Explicita, por palavras tuas, a crítica de costumes que decorre desta cantiga.
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1 Razon: judiciosamente, sensatamente.
2 Infançon: jovem nobre.
3 Dia ’n que naci: dia em que nasci.
4 V. 13: não havia moscas, porque não
cozinhavam, o que permitia dormir
uma boa sesta.
5 Se guisou de: arranjou-se para.
6 Ogan’: este ano.
7 Gaar: receber, ganhar.
Iluminura das Cantigas de Santa Maria, século XIII.
CD 1
Faixa n.o
14
FI
Cantigas de escárnio e maldizer
p. 63
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.9; 15.1;
15.2; 15.3; 16.2.
Oralidade
3.1; 3.2; 4.2; 5.2; 5.3; 6.1;
6.2; 6.3.
MC
EducaçãoLiterária
1. A cozinha do «infançon» é fria –
«tan fria casa non á», v. 6 –, porque
nelanãoseacendealareira–«canon
mandou / des ogan’i fog’acender»,
vv. 17-18. Como tal, não há aí moscas
– «u nunca Deus quis mosca dar»,
v. 13; pode-se dormir uma boa sesta
depois do almoço – «Quen a sesta
quiserdormir»,v.1,«tantoquejante»,
v. 3; e refrescar o vinho – «e se vinho
gaar d’alguen, / ali lh’o esfriarán
ben»,vv.19-20.
2.1Osujeitopoéticojádormiuasesta
na cozinha do «infançon» e informa
que nunca dormiu tão bem, desde
o dia em que nasceu. Os recursos
expressivos são a comparação e a
ironia. Com a comparação enfatiza-
-se a excelente sesta que lá fez; mas
overdadeiropropósitodesterelatoé
exporasituaçãoeconómicafrágildo
«infançon»,atravésdaironia.
3. Com este verso, torna-se evidente
que o «infançon» só tem vinho em
casa, se alguém lho oferecer, dado
que não possui meios financeiros
paraocomprar.
4. Aborda-se um dos temas mais
comuns da crítica social das canti-
gas de escárnio: o da nobreza empo-
brecida, em grave crise económica,
refletindo a transformação social
queocorreuentreosséculosXIIeXIV,
em Portugal. Enquanto a nobreza
entrava em decadência, uma nova
classe ascendia socialmente, a bur-
guesia.
61
Cantigas de escárnio e maldizer
O país onde a maledicência
é melhor que o silêncio
Neste país, o ímpeto para a crítica é francamente mais válido
do que o elogio; para além disso, a maioria de quem comenta
fá-lo com intuito negativo, raramente construtivo.
Na internet toda a gente tem uma voz.
Sabemos que por trás de cada voz existe
uma cabeça pensante, com defeitos e vir-
tudes, com quem certamente partilhamos
algumas vicissitudes da vida: um país em
crise, os preços da gasolina, orgulhos, fra-
cassos, aspirações e ressentimentos. […]
Também não é novidade que em Por-
tugal existe um enorme prazer em cri-
ticar. Mas o que me assusta, ao navegar
em fóruns, notícias, posts de Facebook ou
artigos de opinião como este, é o cres-
cendo de ódio, escárnio e maledicência
com que se reage aos outros.
Basta fazermos uma análise estatística
simples:numconteúdopassíveldedebate
– um ponto de vista, a uma notícia de
futebol, um sketch humorístico – contem-
-se os comentários. Do total, separem-se
os positivos dos negativos. Depois, os
construtivos dos desconstrutivos. Nos
desconstrutivos, contem-se os que são
pura violência gratuita, só porque sim.
Depois, repliquem esta análise a
vários artigos e concluam o mesmo que
eu: neste país, o ímpeto para a crítica é
francamente mais válido do que o elo-
gio; para além disso, a maioria de quem
comenta fá-lo com intuito negativo,
raramente construtivo. Mas só é assim
porque a outra metade não comenta.
No gostar, é-se passivo. O espaço para o
apreço é do tamanho do botão like.
Ora, todo o conteúdo é passível de
debate–certo–etodaaopiniãotemoseu
contra – certo – e valha-nos a democra-
cia e a possibilidade de discordar – certo.
Mas uma coisa é a retórica informada e
com fundamento, outra coisa é oferecer
becos sem saída, uma oposição vazia sem
planos B, como aquela que tem assento
na Assembleia e que, pasme-se, tanto cri-
ticamos. […]
René Bértholo, Não metas o nariz
onde não és chamado, 2002.
ORALIDADE
Apreciação crítica
1. Faz uma leitura atenta do texto, a partir do qual irás fazer uma apreciação crítica oral.
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62 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
1. O escárnio e o maldizer sempre existiram, embora assumam formas diferentes.
Partindo da leitura do texto e do estudo das cantigas de escárnio e maldizer, faz uma
apreciação crítica oral, com a duração de dois a quatro minutos, que comprove a vera-
cidade da(s) afirmação(ções) apresentada(s) no texto.
Estrutura o teu trabalho tendo em conta os tópicos propostos:
t objeto de crítica;
t meios de divulgação;
t intemporalidade.
Para a construção do teu texto deves:
t fazer uma descrição sucinta do texto, relacionando o seu conteúdo com as can-
tigas estudadas;
t abordar os tópicos do objeto de crítica, dos meios de divulgação, da intempora-
lidade;
t apresentar o teu comentário crítico.
Para a tua apresentação oral deves:
t planificar a tua intervenção, elaborando um plano com tópicos orientadores;
t utilizar adequadamente recursos verbais e não verbais – postura, tom de voz,
articulação, ritmo, entoação e expressividade.
O álibi perfeito para atacar com malí-
cia mas alegar «frontalidade», «coragem»
ou «não ter papas na língua». A ausência
de papas dura até surgir um comentário
em defesa, a formação de equipas pró e
contra, e depois a troca de insultos, os juí-
zos de valor sobre os juízos de valor, e em
pleno apedrejamento virtual já ninguém
sabe dizer o que originou o celeuma.
Se transpuséssemos estes confrontos
online para verdadeiros tête-à-têtes em
carne e osso, o que teríamos? Um motim
em cada esplanada? Navalhadas em cada
esquina? A avaliar pelos fóruns de des-
porto, uma guerra civil. Eu própria vejo-
-me na ironia de estar a criticar os que
criticam, e sem ser vidente consigo adivi-
nhar o teor dos comentários que se avizi-
nham.
Será o online verdadeiramente revela-
dor do «lado negro da força» ou é apenas
o pseudónimo para exorcizar hormonas e
frustrações? É que se cada voz cultivar o
seu demagogo em potência, essa vai ser a
nova normalidade. E um dia começamos
mesmo a acreditar que tudo o que produ-
zimos é mau.
Mariana Seruya Cabral, in http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade
(consultado em abril de 2013)
«Eu própria vejo-me na
ironia de estar a criticar
os que criticam…»
50
55
60
65
70
SIGA
Apreciação crítica
p. 312
PROFESSOR
Oralidade
1.Respostalivre.
Sugere-se a exploração dos seguin-
testópicos:
–dizermaléintemporal;
– os meios é que são diferentes: na
Idade Média através das cantigas;
atualmentenasredessociais.
63
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
6
Cantigas de escárnio e maldizer
1. Dimensão satírica – paródia do amor cortês
De facto, a convocação modalizada de um universo feminino numa composição
satírica implica quase sempre o que alguns autores denominam por escárnios de amor.
[…] Como o indica a designação, trata-se de composições em que se procede a uma
inversão dos códigos de amor cortês herdados da fin’amors provençal, parodiando
ironicamente a cantiga de amor e ridicularizando os principais tópicos deste género da
lírica trovadoresca: a superioridade da senhor; o respeito que por ela sente o trovador; o
elogio da sua beleza, do seu prez ou da sua dignidade moral, com particular destaque
para as suas qualidades intelectuais (bem falar), e o comprazimento do amor como
meio de ascese […]. Desta forma, a cantiga de escárnio e maldizer surge-nos aqui como
um contratexto ou contragénero da cantiga de amor, o que é bem visível em cantigas
como […] a famosa de João Garcia de Guilhade «Ai, dona fea, fostes-vos queixar».
João Pedro da Costa, «O desejo tornado poema», in Revista da Faculdade de Letras,
Porto XIX, 2002, pp. 605-606
2. Dimensão satírica – crítica de costumes
As cantigas de escárnio e maldizer […] têm por assunto, na sua grande maioria,
certos aspetos particulares da vida de corte e especialmente da boémia jogralesca.
A sua leitura revela-nos, além do resto, uma sociedade boémia em que entravam
jograis de corte, cantadeiras, soldadeiras (bailarinas), fidalgos. […]
Raro se encontram nas cantigas de escárnio temas de alcance geral. Mas, nos
muitos casos anedóticos a que se referem, distinguem-se certos costumes frequentes,
condicionados pelo ambiente. Toda uma massa de composições espelha os problemas
típicos da vida jogralesca. Numerosas cantigas, por exemplo, ocupam-se da sovinice
dos ricos-homens, da miséria envergonhada dos «infanções»: à escassez das classes
nobres são, naturalmente, muito sensíveis os jograis que, em paga do seu trabalho
artístico, pedem roupas ou alimento. […]
Em muitos casos o gosto, por assim dizer naturalista, da anedota vivida ou teste-
munhada prevalece mesmo sobre a intenção trocista. E assim perpassam, já só por si
interessantes, o velho que desesperadamente se pinta e enroupa muito caro; a rapariga
que a mãe antes ensina a sarcotear-se do que a coser e fiar; um cavalo faminto aban-
donado […], mas que se refaz com erva fresca depois das chuvas.
António José Saraiva e Óscar Lopes, op. cit., pp. 65-66
CONSOLIDA
1. Diz o que se entende por «escárnios de amor».
2. Interpreta a seguinte afirmação: «a cantiga de escárnio e maldizer surge como um con-
tra-género da cantiga de amor».
3. Refere o assunto e os temas abordados pelas composições satíricas.
o
i
-
5
10
5
10
15
Iluminura das Cantigas de Santa Maria,
século XIII (pormenor).
PROFESSOR
Leitura
7.1; 8.1.
Educação Literária
15.1; 15.2.
MC
Consolida
1.Sátiraaoamorcortêseàsmesuras
aqueeleobriga.
2. Pode constituir um contragénero,
uma vez que ridiculariza/parodia o
que é cantado nas cantigas de amor;
inverte a cantiga de amor: em vez de
um louvor, faz um antilouvor (pág.
56); apresentam um conselho/falso
conselho(pág.60).
3. Retratam «aspetos particulares
da vida da corte e especialmente
da boémia jogralesca», e os temas
são a «sovinice dos ricos-homens,
da miséria envergonhada dos infan-
ções, escassez das classes nobres»,
a manutenção da aparência/statu
quodasclassesmaisaltas.
PowerPoint Ficha informativa n.o
6
64 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
O português: génese, variação e mudança
Principais etapas da formação e evolução do português
Variação histórica/diacrónica
O conjunto das alterações registadas numa língua ao longo da sua história
designa-se por variação histórica (ou diacrónica).
As línguas são sistemas abertos em constante mutação. Apresentam, simultanea-
mente, traços de continuidade (assegurando, ao longo dos tempos, a comunicação)
e uma capacidade de inovação/adaptação (pois preenchem as novas necessidades
dos falantes). Uma língua pode mudar por diferentes razões, nomeadamente por:
tfatores externos (contacto com novas línguas devido a imigração, invasões,
mudanças sociais, etc.);
tfatores internos (como a tendência para a regularização de determinadas estru-
turas).
A mudança linguística não é brusca ou repentina; pelo contrário, só acontece
depois de períodos, por vezes longos, de coexistência de variantes novas e antigas.
A aceitação de determinadas variantes por um grupo socialmente prestigiado, ou com
maior representatividade, normalmente conduz à sua generalização a toda a comuni-
dade de falantes.
A língua portuguesa regista três etapas históricas:
Do latim ao galego-português
O latim vulgar e a romanização
Os romanos
Após a conquista da Pensínsula Ibérica pelos romanos (iniciada no século III
a.C.), os povos peninsulares (com exceção dos bascos) acabaram por adotar a língua
dos invasores – o latim – que se sobrepôs, desta forma, às línguas existen-
tes, autóctones, ou seja, às línguas faladas pelas populações nativas da Península,
como era o caso da família celta. Não se conhece muito sobre estas línguas primi-
tivas (línguas de substrato), tendo apenas chegado à atualidade palavras com raiz
pré-latina (ver na tabela na página seguinte).
FICHA INFORMATIVA N.O
7
Português antigo Português clássico Português contemporâneo
Séculos XII-XV Séculos XVI-XVIII A partir do século XIX
PowerPoint
Ficha informativa n.o
7
65
Ficha informativa
Áreas Palavras
Elemento celta briga nos topónimos Conímbriga (Coimbra), Lacóbriga (Lagos)
Outros topónimos Olissipo (Lisboa), Évora, Braga, Viseu, Ílhavo
Rios Vouga, Zêzere, Tâmega, Tejo
Nomes comuns lousa, bruxa, chaparro, esquerdo, mata, sapo, várzea
Nota: termos de origem celta, como camisa, carro, caminho, légua, cerveja, foram introduzi-
dos no latim pelos contactos havidos com esses povos noutros pontos do Império Romano.
A língua que se impôs nas regiões conquistadas não foi o latim na sua modalidade
literária (o chamado latim clássico), mas sim o latim vulgar, expressão habitual-
mente utilizada para referir o latim falado e mais afastado dos padrões literários, efe-
tivamente utilizado nas situações de intercâmbio.
Como qualquer língua utilizada quotidianamente por uma comunidade linguís-
tica, o latim sofreu várias mudanças, para as quais contribuiu também a interação
com as línguas primitivas/autóctones da Península.
Substrato, estrato e superstrato
Os povos germânicos
A partir do século V, a Península Ibérica foi invadida por povos germânicos –
vândalos, suevos, alanos e visigodos –, terminando, assim, o domínio romano. No
entanto, nenhum destes povos conseguiu impor-se como os romanos e influenciar
de forma determinante a língua e a cultura dos povos peninsulares. Contudo, deixa-
ram vestígios linguísticos.
Em português temos, por isso, vocábulos que resultam do contacto dos germa-
nos com as populações peninsulares, mas também encontramos germanismos que já
tinham sido introduzidos no latim ou que foram legados posteriormente:
Áreas Palavras
Onomástica
Rodrigo, Álvaro, Fernando, Gonçalo, Henrique, Rui, Frederico,
Ricardo, Afonso
Atividade militar
elmo, espora, guerra, barão, bandeira, arreio, arauto, orgulho,
trégua
Toponímia Ermesinde
Sufixo -engo solarengo, mostrengo
Outras
marca, feudo, rico, guardar, agasalhar, burgo, sala, luva, roca, broa,
sopa
Os árabes
Em 711, os muçulmanos (árabes e berberes do Magrebe) invadiram e ocuparam
a Península Ibérica. Apesar do enraizamento cultural e linguístico já existente, os
árabes não deixaram de influenciar a cultura e a língua dos territórios ocupados. Os
idiomas moçárabes são as variedades faladas pelas comunidades cristãs que viveram
sob a ocupação árabe, sobretudo no sul do território.
Iluminura do Livro de
Salmos de Eadwine,
século XII (pormenor).
PROFESSOR
Nota: Considerando que algu-
mas definições de superstrato
(cf., por exemplo, Dicionário Ter-
minológico) referem ou sugerem
uma situação de substituição
linguística, há autores que falam
de adstrato para se referirem ao
árabe.
66 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
Do árabe, a língua portuguesa integrou palavras de várias áreas:
Áreas Palavras
Agricultura e
flora
açude, alecrim, alfazema, azenha, azeitona,
laranja, limão, nora, tremoço
Ciência azimute, zénite
Administração
e guerra
alfândega, alferes, algazarra, alarido, almirante
Instrumentos
alambique, alcatruz, alicate, almofariz, rabeca,
tambor, xadrez, algarismo
Construção
e urbanismo
andaime, alpendre, armazém, aldeia, azulejo,
tabique
Alimentação açorda, alcachofra, almôndega, xarope, azeite
Toponímia
Almada, Alcainça, Alcobaça, Alcoentre, Algarve,
Alvalade, Azambuja
Além da recuperação progressiva dos territórios (Coimbra
em 1064, Santarém e Lisboa em 1147, e Faro em 1249), a
Reconquista Cristã permitiu, na faixa ocidental da Península,
a expansão do galego-português. Ao longo desse processo e pelo
contacto de populações de diferentes proveniências, o idioma que
se propaga a partir do extremo noroeste da Península sofre trans-
formações consideráveis.
Substrato é o termo, cunhado por G. Ascoli, que designa uma
língua autóctone que, normalmente em situação de invasão, é
substituída por outra, deixando aí, no entanto, vestígios linguísti-
cos (fenómenos de substrato).
Não obstante a língua portuguesa derivar essencialmente
do latim (por isso, designado «língua-mãe» ou «língua-
-estrato» do português), tal não constituiu entrave a que o por-
tuguês viesse a integrar no seu léxico algumas palavras das línguas
pré-latinas, ou seja, anteriores à invasão dos romanos (e, por-
tanto, línguas de substrato).
Um dos substratos do português é o celta.
Superstrato designa o conjunto dos vestígios linguísticos deixa-
dos pela língua de um povo invasor (ou essa mesma língua) no
idioma de um determinado território. Para o português, pode-
mos falar de superstratos germânico e árabe.
Estrato é a língua que sobreviveu ao contacto com as línguas de
substrato e às línguas de superstrato. No caso do português, o
estrato é o latim.
Batalha do rei Artur contra os saxões, iluminura do
Graal de Rochefoucauld, 1315-1323.
Área primitiva do galego-português e da Reconquista,
in Paul Teyssier, História da língua portuguesa,
7.ª edição, Lisboa, Livraria Sá da Costa
Editora, 1997, p. 7 (adaptado).
0 50 km
Porto Douro
Mondego
Tejo
G
u
a
d
i
a
n
a
Coimbra
Santarém
Évora
Faro
(1249)
1168
1147
1064
LISBOA
67
Ficha informativa
Português antigo (século XII – século XV)
É comum designar a primeira fase deste período como galego-português, pois,
apesar da separação dos dois reinos, era detetável uma superior unidade linguística.
Num momento seguinte, acentuar-se-ão as diferenças que conduzirão à autonomi-
zação do galego e do português.
Após a invasão árabe, no noroeste da Península Ibérica acentuam-se as divergências
que viriam a permitir a individualização do galego-português, distinto do leonês e do
castelhano, a leste, e, igualmente, das variedades moçárabes do sul. Entre os primeiros
textos escritos conhecidos estão a Notícia de Fiadores (1175), a Notícia de Torto e o
Testamento de D. Afonso II (início do século XIII).
Destacam-se como particularidades linguísticas importantes deste período
(nalguns casos já se registam transformações na fase final do português antigo):
t a existência de hiatos como consequência da queda de consoantes entre duas
vogais (door  lat. DOLOREM; sãa  lat. SANAM, etc.);
t terminação em -udo dos particípios dos verbos da 2.ª conjugação (temudo 
temido; sabudo  sabido; vençudo  vencido);
t o aparecimento do infinitivo pessoal.
CONSOLIDA
1. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as
falsas.
a) As alterações registadas por uma língua ao longo da História correspondem a varia-
ção sincrónica.
b) A língua é um sistema fechado.
c) Podemos dividir a história da língua portuguesa em três etapas – português antigo,
português clássico e português contemporâneo.
d) O latim, trazido pelos romanos, foi absorvido pelo celta.
e) O latim literário é a base da língua portuguesa.
f) Os germânicos deixaram vestígios linguísticos na Península Ibérica.
g) Os árabes influenciaram o português em áreas como a agricultura e a toponímia.
h) Na história da língua portuguesa, os primeiros textos escritos conhecidos datam do
século XI.
2. Para cada um dos itens que se seguem, seleciona a letra correspondente à opção correta.
2.1 Um exemplo de substrato da língua portuguesa é o
a) germânico. b) latim. c) celta. d) árabe.
2.2 Um exemplo de superstrato da língua portuguesa é o
a) celta. b) galego-português. c) germânico. d) latim.
2.3 O estrato da língua portuguesa é o
a) celta. b) latim. c) árabe. d) germânico.
Fontes consultadas:
– Paul Teyssier, História da língua portuguesa, 4.ª edição, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1990, pp. 3-40
– Zacarias Nascimento, Maria do Céu Lopes, Domínios da gramática de língua portuguesa, Lisboa,
Plátano Editora, pp. 20-27
– Maria Helena Mateus, et al., Gramática de língua portuguesa, 6.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho,
2003, pp. 25-27
PROFESSOR
Gramática
17.1.
MC
Consolida
1.
a)F–…variaçãodiacrónica;
b)F–…sistemaaberto;
c)V;
d)F–…impôs-seaocelta;
e)F–Olatimvulgar…;
f)V;
g)V;
h)F–…datamdosséculosXIIeXIII.
2.
2.1c);
2.2c);
2.3b).
68 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
A crítica social aliada ao riso tem sido uma receita que muitos humoris-
tas utilizam para veicular a sua mensagem ao longo dos tempos. Põem em
prática, assim, a máxima horaciana ridens dicere verum («rindo para dizer a
verdade»), de maneira a alertar a sociedade e a denunciar diversas situações,
sejam elas políticas, económicas, sociais ou culturais.
A pares, pesquisa sobre alguns humoristas portugueses atuais e situações por eles de-
nunciadas. Seleciona um deles, e, numa apresentação oral, faz uma apreciação crítica,
de dois a quatro minutos, sobre os meios utilizados por estes profissionais para atingirem
os seus propósitos.
De forma a orientar o teu trabalho, deverás:
tproceder ao visionamento do sketch humorístico com o resto da turma;
tapresentar o tema abordado pelo humorista e fazer a descrição sintética da situa-ção;
tindicar a forma utilizada pelo(s) humorista(s) para atingir(em) o(s) seu(s) propósito(s)
com recursos verbais e não verbais: tom de voz, postura, entoação, expressividade;
tfazer um comentário crítico pessoal da forma utilizada pelo(s) humorista(s).
DESAFIO
SIGA
Apreciação crítica
p. 312
PowerPoint
Síntese da unidade
PROFESSOR
Oralidade
1.1; 1.4; 1.5; 1.6; 2.2; 3.1; 3.2;
4.1; 5.2; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3;
12.5.
MC
69
GLOSSÁRIO
C
Cancioneiros: coletâneas de canções, livros que reúnem
grande número de trovas. São conhecidos três cancioneiros
galego-portugueses: o Cancioneiro da Ajuda, o Cancioneiro
da Biblioteca Nacional de Lisboa (antigo Colocci-Brancutti)
e o Cancioneiro da Vaticana.
Cantigas: composições poéticas que são sempre acompa-
nhadas de música.
Cobla: termo usado para designar um dístico, uma estrofe
ou uma estância na poesia peninsular. O esquema rimático
a que obedecem as coblas é variado, existindo vários tipos
como as coblas uníssonas que apresentam uma única série
de rimas que se repete de estrofe para estrofe e as singu-
lares (mais comuns), em que as rimas mudam de estrofe
para estrofe.
Coita: sofrimento amoroso («pesar», «doo», «penar», «sofrer»,
«lazerar», «padecer», «mal buscar», «perdiçon»). Consequên-
cia da coita é a condição em que acaba por se encontrar
o amante: «desamar», «enganar», «desejar», «desempar»,
«destorvar», «non dormio».
E
Encavalgamento: o conteúdo lógico de um verso completa-se
apenas no seguinte.
J
Jogral: agente cultural com múltiplas funções, que com-
preendiam o simples acompanhamento instrumental, a
interpretação vocal de composições alheias e, ainda, a
produção de novas composições.
L
Leixa-prem: processo pelo qual se retoma no início de cada
cobla o último verso da estrofe anterior, total ou parcial-
mente, podendo haver troca sinonímica dos vocábulos finais.
M
Menestrel: músico.
Mesura: contenção por parte do sujeito lírico que consiste em
ocultar o nome da «senhor» e refrear a expressão direta dos
seus sentimentos, quer na própria cantiga, quer socialmente.
Autodisciplina do amador à maneira provençal.
P
Palavra perduda: verso branco ou solto, colocado na mesma
posição em cada cobla.
Paralelismo: repetição da mesma ideia em versos paralelos.
Paralelismo anafórico: com anáforas.
Paralelismo semântico: com repetição de ideias.
R
Razon: alusivo ao direito e à jus-
tiça que regulam a relação. Razão,
causa, motivo, assunto.
Refrão: verso ou versos que se repe-
tem na íntegra no final de cada cobla.
S
Sabedor: consciente da prudência e do dis-
cernimento que devem nortear a relação amorosa.
Senhor: o sujeito lírico surge como vassalo da sua «senhor»
(suserana), obedecendo a todos os códigos de vassalagem
medievais. Trata-se de uma mulher idealizada: formosa, bon-
dosa, leal, honrada («prez»), sensata, comedida, social («fala
mui ben»), em suma, perfeita.
Soldadeiras/jogralesas: cantadeiras ou dançarinas que
acompanham os jograis.
T
Tempo da frol: primavera, tempo do amor convencionado,
relacionado sobretudo com os trovadores provençais.
Trovador: compositor de poesias e melodias que as acom-
panham. A designação «trovador» aplica-se aos autores de
origem nobre.
Bibliografia/Webgrafia do Glossário
CARLOS CEIA, «Cantiga», in E-dicionário de termos literários (disponível em
http://www.edtl.com.pt)
Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org. e coord.), Dicionário da literatura
medieval galega e portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, 1993
Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Instituto Antônio Houaiss de
Lexicografia, Lisboa, Temas e Debates, 2005
MARIA DO ROSÁRIO ROSA, «Cobla», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário de ter-
mos literários (disponível em http://www.edtl.com.pt)
MASSAUD MOISÉS, Dicionário de termos literários, 6.ª edição, São Paulo,
Cultrix, 1992
TERESA REIS, «Cobla», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário de termos literários
(disponível em http://www.edtl.com.pt)
70 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
Grupo I
A
Lê a seguinte cantiga de amigo.
Mha madre, venho vos rogar
Mha madre, venho vos rogar
como roga filh’a senhor:
o que morre por mi d'amor,
leixade1
-m’ir con el falar;
quanta coita2
el sigo3
ten
sei que toda lhi por mi ven
E sodes desmesurada4
,
que vos non queredes doer5
do meu amigo, que morrer
vejo, e and’eu coitada6
;
quanta coita el sigo ten
sei que toda lhi por mi ven
Vee-lo ei eu, per bõa fe,
e direi lhi tan gran prazer
per que m’el dev’a gradecer,
poilo seu mal cedo meu é7
;
quanta coita el sigo ten
sei que toda lhi por mi ven
Oje se part’o coraçon
D. Afonso Mendez de Besteiros,
in Base de Dados da Lírica Profana Galego-Portuguesa (Med DB), versão 2.3.3, Centro Ramón
Piñeiro para a Investigación en Humanidades, www.cirp.es (consultado em janeiro de 2015)
1 Leixar: deixar.
2 Coita: sofrimento.
3 Sigo: consigo.
4 Desmesurada: cruel.
5 Doer-se: condoer-se, ter dó.
6 Coitada: infeliz, triste.
7 V. 16: pois o seu mal em
breve meu será.
Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.
1. A partir da leitura que fizeste da cantiga, indica qual o pedido da filha à mãe, justifi-
cando a razão pela qual a primeira lhe chama «desmesurada».
2. De cobla para cobla, é evidente um crescendo de revolta da filha.
Justifica esta afirmação.
3. O verso final constitui uma inovação nas cantigas de amigo. Explica a sua função.
FICHA
FORMATIVA
5
10
15
PROFESSOR
GrupoI
A
1.Afilhapedeàmãeparaveroamigo
queestáamorrerdevidoaoseuamor
por ela. No entanto, a mãe «desme-
surada» (cruel) não se condói com o
sofrimentodafilhaenãoaautorizaa
visitaroamigo.
2.Aafirmaçãoéverdadeira,umavez
que apesar de não existir um diálogo
explícito entre mãe e filha, nota-
-se que a donzela vai ficando mais
rebelde, uma vez que na primeira
cobla ela faz o pedido, na segunda,
já acusa a mãe de ser cruel e, na ter-
ceira,rebela-secontraaprogenitora,
dizendo que irá ver o amigo mesmo
contraavontadedela.
3. Este verso vem reforçar o pedido
perante a mãe, no sentido de a con-
venceradeixá-laveroseuamigo.
COTAÇÕES
GrupoI
A
1. 15pontos
2. 15pontos
3. 15pontos
4.1 15pontos
B
5. 40pontos
100pontos
71
Ficha formativa
4. Atenta nos seguintes versos:
a) «Mha madre, venho vos rogar / como roga filh’a senhor» (vv. 1-2)
b) «o que morre por mi d’amor» (v. 3)
c) «Oje se part’o coraçon» (v. 19)
4.1 Identifica os recursos expressivos presentes nos versos e refere o efeito de sen-
tido produzido.
B
Atenta na entrada de «confidente»:
Confidente: Personagem que serve de guia espiritual, conselheiro, ou adjuvante parti-
cular do protagonista […]. No teatro antigo, o coro desempenhava por vezes este papel.
Um(a) aio(a), um(a) criado(a), um(a) amigo(a) íntimo(a) ou ainda a Mãe […] desempe-
nham em regra esta função […].
O confidente concorre com […] a eficácia de certas estratégias discursivas como os apar-
tes, os monólogos interiores ou os solilóquios, para conseguir revelar os segredos, os
receios mais profundos, os pensamentos mais reservados de uma personagem principal.
Carlos Ceia, «confidentes», E-dicionário de termos literários, www.edtl.com.pt, consultado em janeiro
de 2015 (texto adaptado)
5. A partir desta entrada, e fazendo apelo à tua experiência de leitura, redige uma expo-
sição escrita, entre setenta e cento e vinte palavras, explicando a relevância do papel
dos confidentes nas cantigas de amigo. Deves contemplar dois tipos de confidente e
referir exemplos de algumas cantigas estudadas.
Grupo II
Lê o seguinte texto.
Quando se pensa na Idade Média,
é quase inevitável imaginar castelos
inexpugnáveis1
, bruxas queimadas
na fogueira ou infelizes camponeses
à mercê de cruéis senhores feudais.
Associamos aquela época histórica a
um mundo de trevas e barbárie, embora
também evoque histórias de cavaleiros
andantes dispostos a sacrificar a vida
pelo amor de cândidas donzelas.
Segundo Giuseppe Sergi, profes-
sor da Universidade de Turim (Itália),
«atualmente, a Idade Média é vista
como se tivesse ocorrido noutro mundo,
tanto pela positiva como pela nega-
tiva». Na visão desfavorável, só existe
pobreza, fome, peste, caos e corrupção;
a favorável inclui apaixonantes torneios,
a vida na corte e príncipes magnâni-
mos2
.
O clérigo [bispo Giovanni Andrea
Bussi] definiu como media tempestas
(«épocas intermédias», em latim) os
quase mil anos que tinham decorrido
desde a queda do Império Romano até
à sua época, e que os homens de letras
começariam a descrever como uma
etapa sombria que se interpusera entre
os gloriosos tempos clássicos e o res-
plandecente mundo moderno.
1 Inexpugnáveis: que não podem ser conquistados. 2 Magnânimo: que tem grandeza; que mostra gene-
rosidade ou bondade.
5
5
10
15
20
25
30
PROFESSOR
4.1
a) comparação (mostra a submissão
dafilhaperanteamãe);
b) hipérbole (enfatiza o sentimento
do amado, justificando o seu pedido
deencontro);
c)metáfora(destacaaangústiaamo-
rosa, metaforicamente através do
coraçãopartido).
B
5.Cenáriosderesposta
Várias cantigas de amigo têm a pre-
sença de um confidente que ora
assume o papel de interlocutor, ora
se limita a ouvir os pedidos/lamen-
tosdadonzela.
A partir das cantigas estudadas po-
demosidentificardoistiposdeconfi-
dente:asamigasealgunselementos
da natureza, aos quais cabem diver-
sospapéis:
– As amigas: são coadjuvantes da
donzela, partilham com ela os mes-
mos intuitos de diversão e liberdade
para amar («Bailemos nós ja todas
tres,aiamigas»).
– Elementos da natureza: dialogam
e tranquilizam a donzela, em desas-
sossego, devido a não saber do seu
amigo – as flores do verde pinho («Ai
flores, ai flores do verde pino») –,
ou testemunham o sofrimento e as
lamentações acerca da ausência do
amigo – as ondas («Ondas do mar de
Vigo»).
Poderão ainda referir a mãe, que
assume dois papéis distintos:
atua de forma solidária com a sua
filha, que com ela desabafa as suas
angústias («Como vivo coitada,
madre, por meu amigo»); ou atua
proibitivamente, sendo opositora de
um encontro amoroso, por exemplo
(«Mha madre, venho vos rogar», do
textoA,doGrupoI).
72 Unidade 1 // POESIA TROVADORESCA
A literatura também proporcionou
uma visão romântica, com os seus mitos
sobre o amor cortês e as gestas3
épicas,
estereótipos que seriam depois populari-
zados em romances e filmes pouco fiéis
ao verdadeiro contexto histórico.
Tudo isto conduziu à noção generali-
zada de que a época medieval consistiu
em dez séculos de ignorância e obs-
curantismo, durante os quais nada de
importante foi inventado. No entanto,
a medievalista italiana Chiara Frugoni
recorda que foi nessa altura que surgi-
ram vários dos pequenos avanços que
melhoraram a nossa vida, como é o caso
dos botões, dos garfos, das calças, e de
aparelhos como a bússola, os óculos, a
imprensa de caracteres móveis e o relógio
mecânico.
Foi nessa alegada época obscura que
começaram igualmente a configurar-se
instituições como os bancos e as univer-
sidades, e que se divulgaram as notas
musicais e a numeração árabe, além do
xadrez e dos jogos de cartas.
Na Baixa Idade Média, segundo o his-
toriador francês Jean Gimpel, «a Europa
ocidental conheceu um período de inten-
sa atividade tecnológica, fecundo em
invenções, uma verdadeira antecipação
da revolução industrial inglesa do século
XVIII».
in Superinteressante, n.o
169, maio de 2012
1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1 a 1.7, seleciona a opção que te permite
obter uma afirmação correta.
1.1 A imagem da Idade Média
(A) está cheia de constrastes, com aspetos negativos e positivos.
(B) está cheia de constrastes, apesar de sobressaírem os aspetos negativos.
(C) está cheia de constrastes, apesar de sobressaírem os aspetos positivos.
(D) é consensual, apesar dos aspetos negativos e positivos.
1.2 A literatura proporcionou uma visão
(A) distorcida da realidade medieval.
(B) fatalista da realidade medieval.
(C) verídica da realidade medieval.
(D) romântica da realidade medieval.
1.3 A Idade Média é uma época
(A) de estagnação cultural e histórica.
(B) de avanços históricos e culturais.
(C) de germinação de grandes descobertas e acontecimentos.
(D) de retrocesso cultural e histórico.
1.4 O verbo na oração «a [visão] favorável inclui apaixonantes torneios» (ll. 17-18),
quanto à sua subclasse, é
(A) copulativo.
(B) auxiliar.
(C) principal transitivo direto.
(D) principal intransitivo.
3 Gestas: narração antiga de
acontecimentos ou façanhas
históricas.
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45
50
55
60
COTAÇÕES
GrupoII
1.1 5pontos
1.2 5pontos
1.3 5pontos
1.4 5pontos
1.5 5pontos
1.6 5pontos
1.7 5pontos
2. 5pontos
3. 10pontos
50pontos
GrupoIII
50pontos
73
Ficha formativa
1.5 Na frase «A literatura também proporcionou uma visão romântica» (ll. 30-31) a
expressão destacada desempenha a função sintática de
(A) complemento direto.
(B) complemento oblíquo.
(C) complemento indireto.
(D) modificador.
1.6 Na frase «[…] a medievalista italiana Chiara Frugoni recorda que surgiram vários
dos pequenos avanços» (ll. 41-43) a oração destacada é uma oração
(A) subordinada substantiva completiva.
(B) subordinada adjetiva relativa restritiva.
(C) subordinada adjetiva relativa explicativa.
(D) subordinada adverbial temporal.
1.7 Na frase «Foi nessa alegada época obscura que começaram igualmente a con-
figurar-se instituições como os bancos e as universidades» (ll. 49-52) a palavra
destacada desempenha a função sintática de
(A) complemento direto.
(B) complemento oblíquo.
(C) complemento indireto.
(D) modificador restrito do nome.
2. Reescreve a seguinte frase pronominalizando a expressão destacada.
«Associamos aquela época histórica a um mundo de trevas e barbárie […].» (ll. 5-7)
3. Identifica os processos fonológicos ocorridos nas seguintes palavras.
a) CRUDELE-  cruel
b) OCULU-  olho
Grupo III
Num texto expositivo bem estruturado, com um mínimo de cento e vinte e um máximo de
cento e cinquenta palavras, desenvolve uma reflexão sobre o tema apresentado.
Fundamenta o teu ponto de vista recorrendo, no mínimo, a dois argumentos, e ilustra
cada um deles com, pelo menos, um exemplo significativo.
O conflito de gerações é uma temática que perpassa o tempo e que provoca tensões
familiares. No entanto, também constitui uma forma de aprendizagem tanto para os
mais velhos como para os mais novos.
PROFESSOR
GrupoII
1.1 (B); 1.2 (D); 1.3 (C); 1.4 (C); 1.5 (A);
1.6(A);1.7(D).
2. «Associamo-la a um mundo de
trevasebarbárie.»
3.
a)apócopedee esíncopeded.
b) síncope de u e palatalização do
grupocl.
GrupoIII
Sugestãodetópicos:
–definiçãodeconflitodegerações;
–o que origina: idade, diferença de
opinião, background cultural dife-
rente,…
–a diferença origina tolerância,
crescimento, aceitação do outro,
aprendizagensnovas,…
–exemplos ilustrativos das situa-
çõesapontadas.
2
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Contextualização histórico-literária
Crónica de D. João I, excertos dos capítulos:
t 11: «Do alvoroço que foi na cidade cuidando que
matavom o Meestre, e como aló foi Alvoro Paaez e
muitas gentes com ele»;
t 148: «Das tribulações que Lixboa padecia per mingua
de mantiimentos».
Afirmação da consciência coletiva.
Atores (individuais e coletivos).
LEITURA
Apreciação crítica.
COMPREENSÃO DO ORAL
Documentário.
Registos áudio e audiovisuais.
EXPRESSÃO ORAL
Apresentação oral.
ESCRITA
Exposição sobre um tema.
Apreciação crítica.
GRAMÁTICA
Predicativo do complemento direto.
Processos irregulares de formação de palavras.
FERNÃO LOPES
CRÓNICA DE D. JOÃO I
Iluminura da Batalha de Aljubarrota, Jean de Wavrin,
Anciennes et nouvelles chroniques d' Angleterre, c. 1470 – c. 1480 (pormenor).
mensagens
João de Melo
Nasceu nos Açores, em 1949. Foi professor dos ensinos secundário
e superior e conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em
Madrid. Até à data, publicou mais de 20 livros, entre romances,
novelas, contos, crónicas, poesia e ensaios literários. As suas obras
mais conhecidas são os romances: O meu mundo não é deste reino,
Autópsia de um mar de ruínas e Gente feliz com lágrimas. Este último
foi também o mais premiado, a nível nacional e internacional. Vários
dos seus livros estão traduzidos numa dezena de países.
Da Historia a literatura
Se não se tivesse notabilizado historicamente
como rei de Portugal, defensor do reino e da nossa
independência face a Castela, o Mestre de Avis teria
sido imortalizado por Fernão Lopes, o autor da
Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória e de
várias outras obras do género. Entre nós, não existiu
outro cronista-historiador como ele. A sua escrita da
História, dotada de extraordinário movimento narra-
tivo, com uma vivacidade de linguagem sem paralelo
na literatura medieval, e sempre em «diálogo» com um
leitor virtual, entra fundo na imaginação e na sensibili-
dade de quem o lê e fá-lo sentir-se cúmplice do autor e
viver as emoções da ação narrada.
É graças à expressão sentimental da sua prosa que
nós aderimos aos acontecimentos da narrativa e entra-
mos emotivamente na História – vendo, ouvindo, tes-
temunhando os factos que o escritor nos dá a conhecer.
A escrita usa de um poder tão «visual» quanto «cine-
matográfico». Longe de nos deixar indiferentes, gera
sensações contraditórias, de aprovação ou de discórdia,
tal e qual ele as expressa de forma «opiniosa». A sua
bem conhecida frase «ora, esguardae como se fôsseis pre-
sentes», escrita em pleno entusiasmo narrativo, define a
vontade comunicativa do cronista com os seus leitores,
implicando-os nas tensões, nos dramas e nas razões de
ser dos factos e das coisas.
Fernão Lopes é o iniciador por excelência da
nossa literatura histórica. Foi o primeiro cronista cujo
método de trabalho assentou na consulta sistemática
das fontes documentais, junto de arquivos e bibliote-
cas. E não só: ouviu relatos de viva voz, teve em conta
a versão dos protagonistas acerca dos feitos relatados e
nunca perdeu de vista o lema, que a si próprio impôs,
de se guiar pela «clara certidão da verdade». Eis-nos
perante um escritor medieval que pretendeu, e conse-
guiu, estar à frente do seu tempo, sem nunca abdicar
da sua visão humanista e da ideologia da História. Não
deixando de ser considerado um «historiador», é como
«escritor» que hoje merece ser estudado. Narrador
social, criador de linguagem, homem de opinião e de
sentimento, nunca hesitou em expressar os seus juízos
de valor sobre comportamentos e pessoas – e não se
curvou servilmente perante os poderosos (nem mesmo
aqueles sobre quem escreveu, como o Mestre de Avis).
Vejo nele um cidadão acima de qualquer suspeita,
um homem solidário com o seu povo, essa «arraia
miúda» a cujas multidões deu voz, coração e atitude,
além de lhe ter conferido uma presença e uma digni-
dade própria na História de Portugal.
João de Melo
(Texto inédito, 2014)
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5
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35
40
45
´ `
cruzadas
Um cronista militante
Quando estudei a Crónica de D. João I pela pri-
meira vez – gostei tanto da matéria que na universi-
dade estudei História e, mais tarde, quase sem saber
como, me tornei cronista –, fiquei apaixonado pela
ação. Até aos finais do século XIV, data a que se refere
a crónica, com a crise da 1.ª Dinastia, ainda não tínha-
mos estudado nada tão movimentado como as séries de
cowboys que passavam na televisão (a preto e branco) des-
ses longínquos anos 70.
Não me recordo se Homero e a Ilíada e a Odisseia
(guerra de Troia e deambulação de Ulisses para voltar a
casa) e se a Eneida de Virgílio (outras narrativas cheias
de ação e suspense) tinham sido abordados sem a minha
atenção, ou se não tinham sido sequer referidos. Fosse
como fosse, a crónica de Fernão Lopes haveria de mar-
car-me para sempre.
«Acudam ao Paço da Rainha que matam o mestre»,
gritava-se pelas ruas de Lisboa. Matavam o mestre?
O Mestre de Avis, o mestre de uma Ordem religiosa?
Sabia lá eu, na altura, que pelos anos de 1383 – já lá
vão mais de 630 – os bons cargos religiosos eram tam-
bém cargos políticos… Depois, não se entendia bem se
a ameaça de morte do Mestre era verdadeira ou se não
passava daquelas mentiras políticas feitas para arregimen-
tar o povo. De qualquer forma, de caminho, o Bispo de
Lisboa, que dera voz a (isto é, apoiara) Castela, foi ati-
rado dos torreões da Sé para a rua, onde conheceu uma
morte não cristã, mas ditada pelas circunstâncias políticas.
Fernão Lopes, mais do que um cronista, como ten-
tam ser os cronistas de hoje, não era independente, nem
disfarçava. Apoiava o Mestre, que viria a ser o nosso rei
D. João I, e dividiu a sua crónica entre os bons e os
maus. Os bons – como o jurista João das Regras, ou
Álvaro Pais, que andou a aclamar o Rei mesmo antes de
ele o ser –, e os maus – todos os que eram por Castela,
com destaque para o conde João Fernandes, o Conde
Andeiro. Entre os heróis como Nun’Álvares Pereira,
condestável e defensor do reino português, e os timo-
ratos, como D. João I de Castela, derrotado de forma
humilhante em Aljubarrota (1385).
Mais tarde sabemos que nada disto é assim tão claro
e simples. Que os portugueses, com a ajuda dos ingleses,
que nos trouxeram a tática do quadrado, faziam parte
de um lado da guerra europeia dos 100 anos, de que a
Espanha e a França eram os inimigos. Que o casamento
do Mestre de Avis, ou D. João I, com a descendente
da casa de Lancaster, D. Filipa de Lencastre (como se
aportuguesou aquele nome), deu origem à mais velha
aliança do mundo entre duas nações. Que a gesta ou
aventura que nos conta Fernão Lopes, embora exaltante,
vibrante e patriótica, é um dos lados da História, a qual
tem sempre inúmeros prismas.
Mas, seja como for, há algo que ninguém lhe tira:
o modo tão belo e empolgante como relata uma situa-
ção única da História portuguesa, precursora de muitas
outras histórias que nos fizeram chegar até hoje.
Henrique Monteiro
(Texto inédito, 2014)
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5
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15
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Henrique Monteiro
Jornalista profissional desde 1979. Foi diretor do jornal Expresso
entre 2006 e 2011. É diretor-coordenador de projetos editoriais do
Grupo Impresa.
Cronista e comentador político. Desde 1990 que publica
semanalmente as crónicas de humor «Cartas Abertas», sob o
pseudónimo «Comendador Marques Correia».
78 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
Contextualização histórico-literária
Datas e acontecimentos
1381
3.ª guerra de D. Fernando com Castela.
1383
Casamento de D. Beatriz com D. João I de Castela.
Morte de D. Fernando e regência de D. Leonor Teles.
Aclamação de D. João, mestre de Avis, como «Regedor
e Defensor do Reino».
1385
Aclamação do Mestre de Avis, D. João, como rei de Portugal,
nas Cortes de Coimbra.
Batalhas de Aljubarrota, Trancoso e Valverde.
1415
Conquista de Ceuta – início da expansão portuguesa.
1418
Fernão Lopes é nomeado guarda-mor da Torre do Tombo.
1427
Descoberta dos Açores por Diogo Silves.
1433
Morte de D. João I. Início do reinado de D. Duarte.
1434
Fernão Lopes é incumbido de redigir as crónicas dos reis portugueses.
1438/1439
Morte de D. Duarte. Regências de D. Leonor de Aragão e D. Pedro.
1449
D. Afonso V assume o trono após maioridade.
1450
Gomes Eanes de Zurara substitui Fernão Lopes
como cronista do reino.
1454
Gomes Eanes de Zurara é nomeado guarda-mor
da Torre do Tombo.
c. 1460
Morte de Fernão Lopes.
Textos e obras
1418-1442
Crónica de D. Pedro I,
Fernão Lopes.
1436-1443
Crónica de D. Fernando, Fernão Lopes.
c. 1443
Crónica de D. João I
(primeira e segunda partes),
Fernão Lopes.
c. 1450
Crónica de D. João I
(terceira parte),
Gomes Eanes de Zurara.
c. 1453
Crónica da Guiné,
Gomes Eanes de Zurara.
1458-1463
Crónica do Conde Dom Pedro
de Meneses,
Gomes Eanes de Zurara.
1464-1468
Crónica do conde Dom Duarte
de Meneses,
Gomes Eanes de Zurara.
Iluminura do casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre,
Jean de Wavrin, Anciennes et nouvelles chroniques d'Angleterre, c. 1470-c. 1480.
79
Contextualização histórico-literária
1. Fernão Lopes: o homem e o seu tempo
1. Visiona o documentário «As crónicas de Fernão Lopes»
da série Grandes livros, sobre este escritor, a sua obra e
os contextos histórico, político e social da sua época.
Preenche o seguinte esquema no teu caderno.
Biografia de
Fernão Lopes
Obras de Fernão
Lopes
(que chegaram até
aos nossos tempos)
Figuras
históricas
1. Data de nascimento:
2. Local de nascimento:
3. Profissões:
4. Tarefa confiada por D. Duarte:
5. Data provável da morte:
1. (nome e assunto)
2. (nome e assunto)
3. (nome e assunto)
1. Morre em 1383:
2. Futura rainha de Portugal:
3. Casada com:
4. Figura coletiva:
5. Líder da revolução:
6. Filho de:
7. Figura assassinada pelo Mestre:
Acontecimentos históricos
Sucessão de acontecimentos
1. O revolta-se contra a vinda do rei de .
2. O povo aclama , Mestre de Avis, e do reino.
3. Os cercam (1384).
4. Os castelhanos levantam o por causa da .
5. Revela-se pela primeira vez uma .
6. Em 1385, em as Cortes aclamam D. João .
7. Em 1385, trava-se a .
t%VBTDBSBDUFSÓTUJDBTEBPCSBEF'FSOÍP-PQFT
t*NQPSUÉODJBBUVBMEBMFJUVSBFEPFTUVEPEBPCSBEF'FSOÍP-PQFT
Torre do Tombo
A palavra «tomo» deriva do grego TÓMOS, que significa «pedaço cortado, parte, porção;
pedaço de papiro ou de pergaminho; daí, tomo volume»1
. A documentação régia (con-
tratos, registo de propriedades, decisões régias) estava guardada em tomos. Dizia-se que
«estar metido num tomo era estar tombado». Uma vez que a documentação tombada
estava guardada numa torre do Castelo de São Jorge (Lisboa), estendeu-se a designação
para Torre do Tombo. Após o Terramoto de 1755, a torre no Castelo de São Jorge deixou de
oferecer segurança, pelo que o Arquivo da Torre do Tombo foi transferido para o Mosteiro
de São Bento (atual Palácio de São Bento) e depois, em 1990, para o atual edifício na
Cidade Universitária de Lisboa.
CURIOSIDADE
1
José Pedro Machado, Dicioná-
rio etimológico da língua portu-
guesa, 8.ª edição, vol. 5, Lisboa,
Livros Horizonte, 2003
PROFESSOR
Oralidade
1.3; 1.5; 1.7; 2.2.
Educação Literária
16.1.
MC
1.
BiografiadeFernãoLopes:
1. durante os acontecimentos narra-
dos(c.1380);
2.Lisboa(talvez);
3. tabelião, guarda-mor da Torre do
Tombo(nomeadoem1418)ecronista-
-mordoreino(1434);
4. escrever a história dos reis de Por-
tugal;5.após1459.
ObrasdeFernãoLopes:
1.CrónicadePedroI – reinadodesterei;
2. Crónica de D. Fernando – reinado
desterei;
3. Crónica de D. João I – revolução
de1383-1385ereinadodesterei.
Figurashistóricas:
1.D.Fernando;2.D.Beatriz;3.D.JoãoI
de Castela; 4. povo; 5. D. João, Mestre
deAvis;6.D.PedroI (filhobastardo);
7. Conde Andeiro (João Fernandes de
Andeiro–condedeOurém).
Acontecimentoshistóricos:
1.povo/Castela;2.D.João/regedore
defensor;3.castelhanos/Lisboa;
4. cerco / peste; 5. identidade nacio-
nal;6.Coimbra/reidePortugal;
7. BatalhadeAljubarrota.
Características:
“B73BD;?7;D3H7L7?'ADFG9367G
-seamesmaimportânciaaopovoque
era dada a nobres e reis; surgem falas
das personagens em discurso direto;
a focalização é feita do exterior e do
interiordaspersonagens.
Importância:
“5A@:757DAB3EE36AB3D3BD7H7DA
futuro; marcar as origens de «um ver-
dadeiro»sentimentonacional;
“5A@:757D3:;EF†D;367G?BAHACG7
não se resigna e luta pela sua salva-
ção em vez de se «demitir» ou de cru-
zar os braços perante a adversidade.
Vídeo
«As Crónicas de Fernão
Lopes», Série Grandes
Livros
PowerPoint
Contextualização
80 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
2. Luta de classes ou apego à terra?
Como deve encarar-se a profunda alteração política e social que marcou o período
compreendido entre a morte de D. Fernando e a elevação de João I ao trono? Qual
o verdadeiro caráter dessa crise no quadro da História nacional? […]
Para a compreensão da crise importa distinguir as razões que a justificam e as
consequências a que deu lugar. O seu movimento durou apenas 16 meses e teve
forçosamente causas políticas, económicas e sociais.
O mal-estar das populações vinha sobretudo das guerras com Castela, que cau-
saram um profundo desgaste das energias do país. Também a população de Lisboa
sofreu, em 1373, a ocupação castelhana durante três meses, e nove anos mais tarde a
dos ingleses, ambas causando à capital os maiores prejuízos e vexames. As razões da
crise nacional mergulham, pois, na política de D. Fernando, tanto a externa, que foi
desastrosa, como a interna, em que o comportamento da rainha concitou1
os maiores
ódios entre a população. […]
As carências do mundo agrícola tinham evidentes reflexos na vida urbana, mas
sempre houve anos de crise e não foram motivo bastante para a eclosão de um movi-
mento social. […]
Em 1383 não houve uma luta de classes, mas apenas o choque entre pessoas de
vários estratos que tomaram posições ideológicas diferentes. Não se poderá mais
repetir que a nobreza e o clero seguiram a primeira fação [D. Beatriz e D. João I de
Castela] e o povo inteiro a segunda [Mestre de Avis]. […]
O choque não foi de classes antagónicas, mas de homens e grupos que se
opunham pelo ideal patriótico, pelo sentimento afetivo e por ódios e interesses.
Que o povo das cidades e campos fosse em maior número do partido do Mestre
não causa espanto, na medida em que fora o grande sacrificado das guerras de
D. Fernando e a parte da nação que melhor sentia […] a necessidade de uma vida
estável. Mas a sua participação fez-se por um espírito de ligação à terra e de raiva
contra o invasor que o partido de D. Beatriz, apesar da sua base legalista, para
muitos representava. […]
Testemunho claro de um sentimento nacional, que a guerra contra Castela e o
perigo que ela permitiu vencer acabou por transformar em consciência de um povo.
Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal, 6.ª edição, vol. I,
Lisboa, Editorial Verbo, 2001, pp. 299-304
(texto adaptado)
CONSOLIDA
1. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as
afirmações falsas.
a) A crise nacional justifica-se pela política seguida por D. Fernando.
b) A grande separação entre a população portuguesa teve por base a sucessão dinástica.
c) A crise de 1383 originou uma luta entre os diferentes estratos sociais.
d) O povo foi a classe que menos aderiu à causa do Mestre, pois era a que tinha mais a
perder.
e) De acordo com o autor, o sentimento de pertença a um território motivou a oposição
a Castela.
f) A consciência nacional de um povo saiu fragilizada desta crise.
5
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15
20
25
30
1 Concitou: provocou.
Iluminura da Batalha de
Aljubarrota, Jean de Wavrin,
Anciennes et nouvelles
chroniques d' Angleterre,
c. 1470 – c. 1480.
PROFESSOR
Leitura
8.1.
Educação Literária
16.1.
MC
Consolida
1.
a)V;
b)V;
c) F («Em 1383 não houve uma luta
de classes, mas apenas o choque
entre pessoas de vários estratos que
tomaram posições ideológicas dife-
rentes»ll.17-18);
d) F («Que o povo das cidades e cam-
pos fosse em maior número do par-
tidodoMestrenãocausaespanto,na
medida em que fora o grande sacrifi-
cado das guerras de D. Fernando e a
partedanaçãoquemelhorsentia[…]
a necessidade de uma vida estável.»
ll.23-26);
e)V;
f) F(«Testemunhoclarodeumsenti-
mento nacional, que a guerra contra
Castela e o perigo que ela permitiu
vencer acabou por transformar em
consciênciadeumpovo.»ll.29-30).
81
Contextualização histórico-literária
3. A arte narrativa de Fernão Lopes
A sua experiência profissional de notário e de arquivista preparou-o para conceber
a necessidade de fundar a verdade histórica no documento escrito, englobando nesta
noçãotantonarrativascomoregistosoficiais.Poroutrolado,tendotrabalhadocercade
trinta anos ao serviço da corte, gozou de condições especialmente favoráveis ao conhe-
cimento de factos e de pessoas, e ao acesso a uma coleção de materiais de investiga-
ção e de utilização textual que doutro modo lhe teriam estado vedados, e produziram
consequências importantes na sua obra. As principais inovações metodológicas que
introduziu no seu modo de escrever história estão enunciadas no prólogo à Crónica
de D. João I: certificou tudo o que afirma através de escritos anteriores, consciente da
tendência geral dos historiadores para se deixarem influenciar pelos laços afetivos que
os ligam aos seus conterrâneos e antepassados, e multiplicou o número e a diversidade
desses escritos para diminuir a margem de erro; considera, por isso, ter-se eximido
àquele defeito. Na construção do texto imita a historiografia anterior, continuando a
baseá-la em operações de corte e montagem de textos doutros autores, na sua maioria
narrativos,entreosquaisdápreferênciaarelatoscontemporâneosdosacontecimentos.
Serve-se de narrativas portuguesas e castelhanas, sobretudo, e de algumas doutros paí-
ses peninsulares. Sujeita-as, no entanto, a uma vigilância cuidadosa, quer comparando
entre si versões que divergem, e procurando decidir qual é a mais verosímil, ou a mais
concordante com a lógica interna dos factos, ou, simplesmente, a que mais convém à
suahistória;quer,quandolheépossíveleoconsideraapropriado,verificandoaverdade
do que dizem pelo confronto com documentos oficiais, cujo texto é frequentemente
integradonapróprianarrativa.Sãodeváriostiposeprocedências,pertencentesàChan-
celaria régia e a outros arquivos, incluindo registos de atos administrativos, cartas de
interesse público e privado de âmbito interno e internacional, tratados de guerra, de
paz e casamento, atas de Cortes e doutras reuniões e cerimónias, inscrições lavradas
em pedra. Reconhecendo-lhes validade superior à de qualquer outro testemunho, usa
-os para eliminar dúvidas ou para corrigir erros que identifica numa narrativa. […]
Os fragmentos narrativos aglutinam-se aos documentos e às citações, mais raras, de
obrasdeteordiferente,ensaísticoounovelesco,nointeriordumtextoque,noentanto,
nunca se confunde com nenhuma das fontes. Para tal originalidade a intervenção do
cronista é tão determinante na composição de frases e trechos seus como na escolha
dos alheios e dos modos de os combinar, e nas pequenas alterações que lhes introduz
na redação. É uma técnica híbrida de escrita, por vezes hoje difícil de apreciar, mas que
permite ao autor um domínio perfeito dos seus efeitos, e a composição duma narrativa
que produz o seu próprio sentido.
Fernão Lopes afirma em vários lugares do texto que a história dá valor ético à reme-
moração do passado, propondo exemplos a imitar e outros a rejeitar. O que ele não
afirma, mas pratica, é o enquadramento do valor ético numa certa visão da realidade,
em que os heróis e culpados têm o seu quinhão, e que marca o itinerário narrativo e o
seu desfecho. Baseando-se nos factos apurados através das fontes, o texto desenvolve,
com os atos e falas das personagens e os comentários do autor, uma interpretação sufi-
cientemente explícita.
Teresa Amado, «Fernão Lopes», in Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org.), Dicionário da literatura
medieval galega e portuguesa, 2.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 2000, pp. 271-273
(texto adaptado)
5
10
15
20
25
30
35
40
Possível retrato de Fernão Lopes
nos Painéis de São Vicente
de Fora, atribuídos a Nuno
Gonçalves, século XV (Museu
Nacional de Arte Antiga).
PROFESSOR
Leitura
8.1.
Educação Literária
15.1; 15.2; 16.1.
MC
82 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
CONSOLIDA
1. Seleciona a opção que completa adequadamente cada uma das afirmações.
1.1 O cargo de Fernão Lopes como guarda-mor da Torre do Tombo permitiu-lhe
(A) usar apenas os textos que julgou serem mais importantes para a sua obra.
(B) ter acesso a documentos régios que lhe estariam vedados.
(C) reunir uma coleção de registos oficiais que influenciaram efetivamente a sua
obra.
(D) ter acesso a documentos régios, narrativas e testemunhos, nos quais baseou
a sua obra.
1.2 Segundo Fernão Lopes, ele conseguiu escapar a erros cometidos por outros histo-
riadores, porque tinha provas dos acontecimentos suportadas por
(A) laços afetivos dos antepassados que permitiam construir a verdadeira identi-
dade nacional.
(B) documentos do mesmo autor, evitando assim a dispersão de fontes e de visões.
(C) diferentes documentos e fontes.
(D) documentos variados e laços afetivos, o que possibilitava um confronto de
visões e assegurava a verdade.
1.3 Documentos como registos de atos administrativos, car-
tas, atas, entre outros servem para
(A) fundamentar a verdade.
(B) complementar a verdade.
(C) confrontar a verdade.
(D) tirar apenas dúvidas quanto a determinados momen-
tos ou situações.
1.4 Para o cronista, o valor da verdade é
(A) recordar o passado com a intenção de o repetir no
presente.
(B) repetir o passado tendo o presente sempre em mente.
(C) imitar o passado, pois nele é que reside a verdade.
(D) recordar o passado trazendo à memória exemplos a
não repetir e outros a imitar.
Primeira página da Crónica
de D. João I, de Fernão Lopes,
edição impressa de 1644.
PROFESSOR
Consolida
1.
1.1(D);
1.2(C);
1.3(A);
1.4(D).
83
1.ª parte – Crónica de D. João I 83
Fernão Lopes, Crónica de D. João I (1.ª parte)
C
rónica – considerada como narrativa historiográfica, a crónica medieval é um
BOUFQBTTBEPEBNPEFSOBIJTUPSJPHSBGJByDSØOJDBGB[QSFWBMFDFSBEJOÉNJDB
dos eventos como princípio que rege uma construção narrativa […] normalmente res-
peitando uma ordenação cronológica; o relato desses eventos, nem sempre apoiado
no testemunho dos documentos (quando não existem ou escapam ao conhecimento
do cronista), pode ser completado por uma discreta ou evidente ficcionalização,
sobretudo quando está em causa aquele que foi um dos propósitos da crónica medie-
val: proceder ao destaque de um herói (rei, guerreiro, etc.), cujo trajeto pessoal e
histórico comanda o desenvolvimento da crónica.
Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, Dicionário de narratologia, 6.a
edição,
Coimbra, Livraria Almedina, 1998, pp. 87-88
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Do alvoroço que foi na cidade cuidando que matavom o
Meestre, e como aló1
foi Alvoro Paaez2
e muitas gentes
com ele
O Page do Meestre que estava aa porta, como lhe disserom que fosse pela vila
segundo já era percebido3
, começou d’ir rijamente4
a galope em cima do cavalo em que
estava, dizendo altas vozes, braadando pela rua:
– Matom o Meestre! matom o Meestre nos Paaços da Rainha! Acorree ao Meestre
que matam!
E assi chegou a casa d’Alvoro Paaez que era dali grande espaço5
.
As gentes que esto ouviam, saiam aa rua veer que cousa era; e começando de falar
uùs com os outros, alvoraçavom-se nas voontades6
, e começavom de tomar armas cada
uù como melhor e mais asinha7
podia. Alvoro Paaez que estava prestes8
e armado com
ùa coifa9
na cabeça segundo usança daquel tempo, cavalgou logo a pressa em cima duù
cavalo que anos havia que nom cavalgara; e todos seus aliados com ele, braadando a
quaes quer10
que achava dizendo:
– Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre, ca filho é del-Rei dom
Pedro.
Em contexto
E m abril de 1383, D. Fernando assinou com D. João I de Castela o Tratado de Salva-
terra de Magos, que impunha que apenas um filho de D. Beatriz pudesse subir ao
trono português. Em outubro desse ano, D. Fernando morreu sem mais herdeiros. Após
a morte do monarca procedeu-se, em várias terras do reino, à aclamação de D. Beatriz
e do marido. D. Leonor Teles tornou-se regente do reino em nome da filha. No entanto, a
aclamação de um rei castelhano acabou por dividir o reino, tendo desencadeado grande
descontentamento no povo e em parte da nobreza. D. Leonor tinha como conselheiro um
galego, o conde João Fernandes de Andeiro, receando-se a forte influência deste na gestão
do reino.
1 Aló: lá.
2 Alvoro Paaez: Álvaro Pais (chan-
celer-mor dos reis D. Pedro I
e D. Fernando, responsável
pelo plano e pelo alvoroço que
conduziu à sublevação do povo
em socorro de D. João).
3 Percebido: combinado.
4 Rijamente: energicamente,
depressa.
5 Dali grande espaço: longe dali.
6 Alvoraçavom-se nas voontades:
excitavam-se os ânimos.
7 Asinha: rapidamente.
8 Prestes: pronto, preparado.
9 Coifa: parte da armadura que
cobria a cabeça.
10 Quaes quer: quaisquer.
5
10
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.9; 15.1; 15.2; 15.4.
Gramática
18.3.
Oralidade
3.2; 5.2; 5.3.
MC
84 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
E assi braadavom el e o Page indo pela rua.
Soaram as vozes do arroido11
pela cidade ouvindo todos braadar que
matavom o Meestre; e assi como viuva que rei nom tiinha, e como se lhe este
ficaraemlogode12
marido,semoveromtodoscommãoarmada13
,correndo
apressaperaudeziamqueseestofazia,porlhedaremvidaeescusar14
morte.
Alvoro Paaez nom quedava d’ir pera alá15
, braadando a todos:
– Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem
por quê!
A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de
veer. Nom cabiam pelas ruas principaes, e atrevessavom logares escusos16
,
desejando cada uù de seer o primeiro; e preguntando uùs aos outros quem
matava o Meestre, nom minguava17
quem responder que o matava o Conde
Joam Fernandez, per mandado da Rainha.
E per voontade de Deos todos feitos duù coraçom com talente18
de o
vingar, como forom aas portas do Paaço que eram já çarradas19
, ante que
chegassem, com espantosas palavras começarom de dizer:
– U matom o Meestre? que é do Meestre? Quem çarrou estas portas?
Alieramouvidosbradosdedesvairadas20
maneiras.Taesihaviaquecerte-
ficavom que o Meestre era morto, pois as portas estavom çarradas, dizendo
que as britassem21
para entrar dentro, e veeriam que era do Meestre, ou que
cousa era aquela.
Deles braadavom por lenha, e que veesse lume pera poerem fogo aos Paaços, e quei-
mar o treedor e a aleivosa22
. Outros se aficavom23
pedindo escaadas pera sobir acima,
pera veerem que era do Meestre; e em todo isto era o arroido atam grande que se nom
entendiam uùs com os outros, nem determinavom neùa cousa. E nom soomente era
istoaaportadosPaaços,masaindaarredordelesperuhomeèsemolherespodiamestar.
Ùas viinham com feixes de lenha, outras tragiam carqueija pera acender o fogo cui-
dando queimar o muro dos Paaços com ela, dizendo muitos doestos24
contra a Rainha.
De cima nom minguava quem braadar que o Meestre era vivo, e o Conde Joam
Fernandez morto; mas isto nom queria neuù creer, dizendo:
– Pois se vivo é, mostrae-no-lo e vee-lo-emos.
Entom os do Meestre veendo tam grande alvoroço como este, e que cada vez se
acendia mais, disserom que fosse sua mercee de se mostrar aaquelas gentes, doutra
guisa25
poderiam quebrar as portas, ou lhe poer fogo, e entrando assi dentro per força,
nom lhe poderiam depois tolher26
de fazer o que quisessem.
Ali se mostrou o Meestre a ùa grande janela que viinha sobre a rua onde estava
Alvoro Paaez e a mais força de gente, e disse:
– Amigos, apacificae vos, ca eu vivo e são som27
a Deos graças.
E tanta era a torvaçam28
deles, e assi tiinham já em creença que o Meestre era morto,
que taes havia i que aperfiavom que nom era aquele; porem conhecendo-o todos clara-
mente, houverom gram prazer quando o virom, e deziam uùs contra os outros:
– Ó que mal fez! pois que matou o treedor do Conde, que29
nom matou logo a
aleivosa com ele! Creedes em Deos30
, ainda lhe há de viinr alguù mal per ela. Oolhae e
veede que maldade tam grande, mandarom-no chamar onde ia já de seu caminho, pera
o matarem aqui per traiçom. Ó aleivosa! já nos matou uù senhor31
, e agora nos queria
matar outro; leixae-a, ca ainda há mal d’acabar por estas cousas que faz!
11 Arroido: ruído.
12 Em logo de: em lugar de.
13 Com mão armada: com
armas na mão.
14 Escusar: evitar.
15 Nom quedava d’ir pera alá:
não parava de ir para lá; con-
tinuava a dirigir-se para lá.
16 Escusos: escondidos ou
pouco frequentados.
17 Minguava: faltava.
18 Talente: vontade.
19 Çarradas: encerradas.
20 Desvairadas: várias, diversas.
21 Britassem: arrombassem.
22 Aleivosa: maldosa, traidora.
23 Aficavom: teimavam.
24 Doestos: insultos.
25 Guisa: maneira, modo.
26 Tolher: impedir.
27 Som: sou.
28 Torvaçam: perturbação.
29 Que: porque.
30 Creedes em Deos: Tão certo
como Deus existir.
31 Senhor: D. Fernando
(o povo julgava que
D. Leonor contribuíra para
a sua morte).
15
20
25
30
35
40
45
50
55
60
Retrato de D. João I, século XV (Museu
Nacional de Arte Antiga).
85
1.ª parte – Crónica de D. João I
E sem duvida se eles entrarom dentro, nom se escusara a Rainha de morte, e fora
maravilha quantos eram da sua parte e do Conde poderem escapar. O Meestre estava aa
janela, e todos oolhavom contra ele dizendo:
– Ó, senhor! como vos quiserom matar per treiçom, beento seja Deos que vos guar-
dou desse treedor! Viinde-vos, dae ao demo esses Paaços, nom sejaes lá mais.
Eemdizendoesto,muitoschoravomcomprazerdeoveervivo.Veendoelestonce32
queneùaduvidatiinhaemsuasegurança,deceoafundo33
ecavalgoucomosseusacom-
panhado de todolos outros que era maravilha de veer. Os quaes mui ledos arredor dele,
braadavam dizendo:
– Que nos mandaes fazer, Senhor? que querees que façamos?
E el lhe respondia, aadur34
podendo seer ouvido, que lho gradecia muito, mas que
por estonce nom havia deles mais mester.
Fernão Lopes, Crónica de D. João I (textos escolhidos), apresentação crítica de Teresa Amado,
Lisboa, Seara Nova/Comunicação, 1980, capítulo 11, pp. 95-99
1. Quanto à organização interna, o excerto apresentado pode ser dividido em várias partes.
1.1 Identifica-as e resume a ideia principal de cada uma delas.
2. O narrador vai alternando entre discurso direto e indireto ao longo da narração.
2.1 YQMJDJUBPFGFJUPQSPEV[JEPFBTVBJNQPSUÉODJBQBSBBNJTTÍPEPDSPOJTUB
3. Fernão Lopes sugere uma certa predestinação e proteção divinas da figura do Mestre.
3.1 Retira do texto três exemplos que comprovem esta afirmação.
4. Identifica os recursos expressivos presentes nos seguintes exemplos e explicita a sua
intencionalidade.
a) «assi como viuva que rei nom tiinha […]» (l. 17)
b) «pera sobir acima» (l. 37);
5. Como um hábil realizador de cinema, Fernão Lopes vai narrando a ação numa sucessão
de planos, espaços e atores.
5.1 Completa o seguinte esquema.
6. Analisa o ponto de vista das diferentes personagens, enquanto atores individuais e
coletivos.
GRAMÁTICA
1. Na prosa de Fernão Lopes predomina a coordenação, nomeadamente de orações coor-
denadas copulativas sindéticas e assindéticas.
1.1 Relê o texto das linhas 61 a 72 e retira um exemplo de cada uma.
Plano 1
Espaço: Porta do Paço da
Rainha e ruas de Lisboa
Ator: a)
Local onde se dirige:
b)
Plano 2
Espaço: Ruas de Lisboa
Atores: c)
Estado de espírito:
d)
Plano 3
Espaço: e)
Atores: Mestre
Estado de espírito:
f)
Plano 4
Espaço: g)
Atores: Mestre
Estado de espírito
final do povo:
h)
Plano 5
Espaço: Rua do Paço
Atitude do povo:
i)
32 Estonce: então.
33 Afundo: abaixo.
34 Aadur: dificilmente.
65
70
Os atores individuais e coletivos
p. 87
FI
Coordenação
pp. 327
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.1
1.a
parte: o pajem do Mestre sai dos
Paços da Rainha, em direção à casa
de Álvaro Pais, e lança o boato, con-
forme combinado; 2.a
parte: o povo
sai à rua juntamente com Álvaro
PaisparaauxiliaroMestre;3.a
parte:
cresce a fúria do povo, agora em
multidão, que quer saber notícias
do Mestre; 4.a
parte: o Mestre apa-
recevivoàjanela,acalmandoopovo;
5.a
parte:oMestredesce,junta-seao
povoedespede-sedamultidão.
2.1Aalternânciaentreasduasmoda-
lidades do discurso confere drama-
tismo, veracidade ao que é narrado,
uma vez que através do discurso
direto temos acesso às falas «reais»
dos intervenientes. Desta forma,
além de obtermos maior dinamismo
na narração, Fernão Lopes cumpre a
sua missão de relatar a verdade dos
acontecimentos.
3.1 O narrador deixa transparecer
a ideia de que tudo aconteceu por
predestinação divina: «E per voon-
tade de Deos» (l. 28); «[…] ca eu vivo
e são som a Deos graças» (l. 52); «[…]
beento seja Deos que vos guardou
dessetreedor!»(ll.64-65).
4. a) comparação/personificação,
sugerindo o desgoverno e desprote-
ção a que a cidade (mulher) ficaria
sujeita sem rei, tal como acontece
com as viúvas; b) pleonasmo, por
reforçaroefeitovisualdaação.
Gramática
1.1 Sindética: «O Meestre estava aa
janela,etodosoolhavomcontraele»
(ll. 62-63); assindética: «Viinde-vos,
dae ao demo esses Paaços, nom
sejaeslámais.»(l.65)
86 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
ORALIDADE
Apresentação oral
1. Num passado não muito distante, em 1974, assistiu-se à deposição do regime ditato-
rial salazarista, através de um golpe de estado militar legitimado pelo povo, que saiu à
rua em apoio aos militares.
1.1 Lê o testemunho de um dos intervenientes.
2. A partir do texto, compara os dois momentos da História de Portugal. Segue as alíneas:
a) tempo da história;
b) objetivos do povo;
c) meios de comunicação;
d) figuras que se destacam do povo;
e) líder da revolução;
f) opressores;
g) atitudes do povo;
h) desfecho.
Foi para mim um dia longo e emotivo: às
4hdamadrugada,otelefonemadumsobrinho
– Bernardo Castelo-Melhor – avisou-me que,
de meia em meia hora, o Rádio Clube Portu-
guês emitia um comunicado do Movimento
dasForçasArmadas,noqualsefalavaemliber-
dade e se apelava à calma e à adesão do povo.
[…].
Nãopudeconteraminhaimpaciênciaefui
para a rua. […] No Largo do Carmo estava a
forçadeSantarémeestavasobretudoSalgueiro
Maia.[…]SalgueiroMaiaestavacercado;pelo
RossioquaseatéaoaltodaCalçadadoCarmo,
pelaRuadaTrindadeeLargodaMisericórdia,
onde se encontravam entrincheiradas as forças
da GNR. No Chiado, até aos largos, os blin-
dados hostis da Cavalaria 7, e julgo recordar
que também da Cavalaria 2 e Metralhadoras.
[…] Levada pelo sopro da liberdade, a mul-
tidão acorria e o quadro do povo expressava
ali a vontade da nação contra qualquer velei-
dade de repressão sangrenta. Maia, audacioso
e sereno, pediu-me que falasse ao povo. Fi-lo
por duas vezes, uma através dos microfones
dum camião da Rádio e, mais tarde, com um
megafone,empoleiradonaguaritadasentinela
do Carmo. […] A certa altura, falei a Maia do
cerco potencial em que se achava envolvido
e na evidente necessidade de não prolongar
indefinidamente a tomada do Carmo, onde
Marcelo e parte do governo se encontravam,
guardando com eles o selo da soberania e do
poder. Foi então que pude medir a dimensão
extraordináriadaquelehomem.[…]
E mal chegou [a Cavalaria 3] de Estre-
moz, Maia sentiu-se em posição de enviar um
ultimato de rendição ao quartel e lançar dois
tiros de aviso à fachada, perante o entusiasmo
incontido da multidão que gritava: «Está na
hora!VivaaLiberdade!»
Fiquei no Carmo até à rendição do go-
verno. A partir daí, a euforia da vitória inun-
douLisboa.
FranciscoSousaTavares,«Omeu 25deabril»,
in Sábado, n.º 519 (abril de 2014)
(texto adaptado)
Francisco Sousa Tavares (à esquerda) na tarde de 25 de abril de 1974, no Largo do Carmo; Capitão
Salgueiro Maia (à direita) (1944-1992).
25
30
35
40
O MEU 25 DE ABRIL
PROFESSOR
(pág.85)
5.1 a) pajem; b) casa de Álvaro Pais;
c) pajem, Álvaro Pais e povo; d) re-
volta e preocupação; e) portas do
Paço da Rainha; f) vingança; g) janela
do Paço; h) contentamento; i) dispo-
nibilidade para auxiliar a causa do
MestredeAvis.
6. Atores/ações/exemplos textuais:
“$7EFD767iH;E;@6;H;6G3¬?3F3A
Conde Andeiro nos Paços da Rainha;
“'37?;@6;H;6G3¬;@8AD?37;@5;F3
o povo gritando que alguém quer
matar o Mestre nos Paços da Rai-
nha: «O Page do Meestre […] galope
em cima do cavalo em que estava,
dizendo altas vozes, braadando pela
rua»(ll.1-3); «Eassibraadavomeleo
Pageindopelarua»(l.15).
“ ÃH3DA '3;E ;@6;H;6G3 ¬ 39;F3 A
povo clamando que alguém quer
mataroMestrenosPaçosdaRainha:
«E assi braadavom el e o Page indo
pela rua» (l. 15); «Alvoro Paaez […]
braadandoatodos»(l.20).
“'AHA5A7F;HA¬3975A?AG?FA6A
e acorre aos Paços da Rainha para
acudir ao Mestre, embora o cronista
nos dê a conhecer ações individuais
anónimas. Cada um deles é res-
ponsável por ações como gritar, ir
buscar lenha para queimar a porta
do palácio, pegar em «armas»…: «Ali
eram ouvidos brados de desvaira-
das maneiras» (l. 32); «Deles braa-
davom por lenha» (l. 36); «Outros se
aficavom pedindo escaadas pera
sobir acima» (l. 37); «Ũas viinham
5A?87;J7E677@:3AGFD3EFD39;3?
53DCG7;3 B7D3 357@67D A 8A9A 5G;-
dando queimar o muro»; «dizendo
muitos doestos contra a Rainha»
(ll.41-42).
Gramática
1.1 «e todos oolhavom contra ele»
(l. 63) (sindética); «Viinde-vos, dae ao
demo esses Paaços, nom sejaes lá
mais»(l.65)(assindética).
Sugestões:
a) Século XIV / século XX; b) Salvar o
Mestre de Avis, que garantirá a inde-
B7@6~@5;36AD7;@A835733EF73 
pôr fim à ditadura que vigorava no
país; c) A cavalo / pela rádio; d) A
¤3DD3;3?;‹63¥ 8AD{3E3D?363E63
GNR, cavalaria; e) Álvaro Paes e o
Mestre de Avis / Salgueiro Maia; f) D.
João de Castela / governo autoritá-
rio; g) Em ambos os casos, sai à rua e
participacomoatorcoletivo;h)Inde-
pendência/liberdade.
5
10
15
20
87
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
1
Os atores individuais e coletivos
1. Os protagonistas
[…] A morte do Conde Andeiro produziu uma inflexão notável na situação, pois
na pessoa do seu executor desenhava-se a promessa de um chefe […]. Com este ponto
de partida bem explicitado […], Fernão Lopes tem o caminho aberto para escrever
a história lógica e convincente da ascensão e triunfo do Mestre de Avis, na qual este
figura sempre mais como escolhido do que como interventor voluntário. […]
Eleito pelo povo, quase se pode dizer instintivamente, para Regedor e Defensor
em dezembro de 1383, seria de novo uma eleição popular (agora participada por
todos os estratos sociais) que o faria rei em abril de 1385. […]
A D. João [Fernão Lopes] atribui o mérito indiscutível de oferecer a disposição do
seu nome e do seu corpo, para ocupar o lugar de senhor que, à partida, se apresenta
no texto mais como um risco do que um privilégio. Ao longo da narrativa, é com
bastante dignidade que ele se mantém constante nessa atitude inicial.
Álvaro Pais [o «homem bom»] sabia manejar o povo de Lisboa e gozava de bom
ascendente sobre a sua burguesia. [Assim, através de um estratagema bem planeado
levou o povo de Lisboa a acorrer ao Paço da Rainha.]
Mesmo que anónimas na sua maioria, as pessoas são observadas de perto, a expres-
são do rosto, o tom da voz, os gestos, os passos, as poses, tudo é dado a ver.
Teresa Amado, «O sentido da História», in Isabel Allegro de Magalhães (coord.), História e antologia da
literatura portuguesa – século XV, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, pp. 65-76
(texto adaptado)
5
10
15
5
10
2. Gente de armas
Para o cronista português, a diferenciação dos «pequenos» é a única maneira de
os tornar presentes e de lhes dar uma presença humanamente plena. Também ele diz
que, no acender das ruas pelo rastilho incandescente que de súbito as percorre, com os
brados do pajem de que matavam o Mestre, «as gentes», saindo para a rua, «começavom
detomararmascadauùcomomelhoremaisasinhapodia», e que, à medida que o pajem
avançava, logo acompanhado de Álvaro Pais, «se moverom todos com maão armada,
correndo a pressa pera hu deziam que sse esto fazia» […]. Quer dizer que havia gente e
gente,eque,seagentedearmasacorreu,aelessejuntaramosoutrosquenãoastinham
a não ser paus ou pedras, como muitas vezes depois se vai ler no texto. Destes, as falas
quedepoissesucedem,emborasemsujeitonomeado,sãomeiosdeeficáciasegurapara
lhes dar, enquanto pessoas, um estatuto igual ao dos outros.
Teresa Amado, O passado e o presente – Ler Fernão Lopes, Lisboa, Ed. Presença, 2007, p. 32
CONSOLIDA
1. Transcreve passagens dos textos que confirmam a veracidade das afirmações:
a) O Mestre de Avis, enquanto futuro rei, sobrepõe a coletividade ao seu individualismo.
b) Por detrás da insurreição popular está uma figura singular.
c) Fernão Lopes descreve o comportamento das personagens por observação atenta.
d) O povo ganha voz entre os nobres.
PROFESSOR
Leitura
8.1.
Educação Literária
15.1; 15.2; 16.1.
MC
Consolida
1.o
texto
a)«estefigurasempremaiscomo
escolhido do que como interven-
torvoluntário»(ll.4-5).
b) «Álvaro Pais [o “homem bom”]
sabia manejar o povo de Lisboa e
gozava de bom ascendente sobre
asuaburguesia.[Assimatravésde
um estratagema bem planeado
levouopovodeLisboaaacorrerao
PaçodaRainha]»(ll.13-15).
c) «a expressão do rosto, o tom da
voz,osgestos,ospassos,asposes,
tudoédadoaver»(ll.16-17).
2.o
texto
d) «a diferenciação dos “peque-
nos” é a única maneira de os tor-
nar presentes e de lhes dar uma
presença humanamente plena»
(ll.1-2).
PowerPoint
Ficha informativa n.o
1
88 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
Predicativo do complemento direto
1. Função sintática desempenhada pelo constituinte selecionado por um verbo transitivo
predicativo que predica algo acerca do complemento direto.
O predicativo do complemento direto pode ser um grupo nominal (a), um grupo adje-
tival (b), ou um grupo preposicional (c).
Exemplos:
a) O João considera a Maria uma ótima professora.
b) O João acha a Maria bonita.
c) O João acha esse filme sem interesse nenhum.
Nestes casos, complemento e predicativo do complemento direto formam o que se
pode chamar uma predicação complexa, parafraseável por uma oração completiva
finita (d).
Dicionário Terminológico, DGIDC, 2008 (adaptado).
Exemplo:
d) João considera que a Maria é uma ótima professora.
2. Os verbos transitivos predicativos que selecionam complemento direto e predicativo do
complemento direto são os seguintes:
3. Se uma frase passiva apresentar predicativo do complemento direto (e), este passará
a predicativo numa frase passiva (f), dado que o complemento direto passará a sujeito.
Exemplos:
e) Os castelhanos consideraram Lisboa perdida após a derrota.
f) Lisboa foi considerada perdida pelos castelhanos após a derrota.
4. O predicativo do complemento direto pode anteceder-se ao complemento direto que
predica (g):
Exemplo:
g) Fernão Lopes tornou muito vivas as desgraças do povo de Lisboa.
5. Mantendo o predicativo do complemento direto, podemos pronominalizar o comple-
mento direto (h) (i). Tal não é possível quando existe um modificador do nome depois
do complemento direto (j) (k).
Exemplos:
h) Alguns nobres consideraram o Conde Andeiro um homem manipulador.
i) Aguns nobres consideraram-no um homem manipulador.
j) Alguns nobres viram o Conde Andeiro, um homem manipulador.
k) *Alguns nobres viram-no, um homem manipulador.
tachar tchamar tconsiderar tcrer tdeclarar tdesignar teleger
tencontrar testimar tfazer tjulgar tnomear tproclamar
tsupor tter (por) tter-se (por) ttornar ttratar (por)
FICHA INFORMATIVA N.O
2
complemento direto
sujeito
predicativo do complemento direto
predicativo do sujeito
Nota: o asterisco assinala
uma frase agramatical.
89
Ficha informativa
CONSOLIDA
1. Identifica e classifica nas frases seguintes os grupos sintáticos (grupo nominal, grupo
adjetival ou grupo preposicional) que podem desempenhar a função de predicativo do
complemento direto.
a) Os populares aclamaram D. João I rei de Portugal.
b) Álvaro Pais achou o esquema perfeito.
c) As cortes têm-no como salvador da pátria.
d) Os habitantes de Lisboa tratavam a rainha por «aleivosa».
1.1 Copia das frases do exercício 1 os verbos que selecionam a função sintática de
predicativo do complemento direto.
2. Identifica nas frases seguintes o complemento direto e o predicativo do complemento
direto. Regista esses elementos.
a) Álvaro Pais designou para a missão um pajem.
b) Todos acharam o Mestre mais capaz.
c) A história julgará o Conde Andeiro como cúmplice.
d) O Mestre nomeou Álvaro Pais mentor da arruada.
3. Expande as seguintes frases usando um complemento direto e um predicativo do com-
plemento direto:
a) Os populares creem…
b) D. João supôs…
c) Os castelhanos julgaram…
d) O povo proclamou…
4. Pronominaliza, sempre que possível, os elementos que, nas seguintes frases, com-
põem o complemento direto. Tira as tuas conclusões quanto à classificação dos verbos.
a) Álvaro Pais estudou o esquema perigoso.
b) Álvaro Pais achou o esquema perigoso.
5. Reescreve as frases apresentadas parafraseando o complemento direto e o predicativo
do complemento direto por uma oração subordinada completiva.
a) O rei de Castela considerou Lisboa perdida.
b) O Mestre estimava a batalha ganha no final do dia.
c) O cronista declarou o Mestre a salvação de Portugal.
6. Reescreve as frases na forma ativa ou passiva.
a) A História julgará o Conde Andeiro como cúmplice.
b) O pajem foi nomeado arauto da corte por Álvaro Pais.
c) No final do dia, o Mestre declararia Lisboa livre dos castelhanos.
d) O Mestre é julgado morto no Paço da Rainha pela população.
PROFESSOR
Gramátiva
18.1.
MC
Consolida
1. a) rei de Portugal (grupo nomi-
nal); b) perfeito (grupo adjetival);
c)comosalvadordapátria(grupo
preposicional); d) por «aleivosa»
(grupopreposicional);
1.1
a) aclamar; b) achar; c) ter (como);
d)tratar(por).
2. a) complemento direto – um
pajem / predicativo do comple-
mento direto – para a missão; b)
complemento direto – o Mestre /
predicativo do complemento di-
reto – mais capaz; c) comple-
mentodireto– oCondeAndeiro/
predicativo do complemento
direto – como cúmplice; d) com-
plemento direto – Álvaro Pais /
predicativo do complemento
direto–mentordaarruada.
3.
a)oMestremorto.b)oscastelha-
nos derrotados. c) o cerco eficaz.
d)D.Joãodefensordoreino.
4. a) *Álvaro Pais estudou-o
perigoso. b) Álvaro Pais achou-o
perigoso. O verbo «estudar»
é transitivo direto (permite a
pronominalização do comple-
mentodireto,noqualseintegrao
modificador do nome); enquanto
«achar» é transitivo predicativo
(permite a pronominalização do
complemento direto, mantendo
oseupredicativo).
5. a) O rei de Castela considerou
queLisboaestavaperdida.
b) O Mestre estimava que ga-
nhavaabatalhanofinaldodia.
c) O cronista declarou que o Mes-
tre era/fora a salvação de Portu-
gal.
6. a) O Conde Andeiro será jul-
gado como cúmplice pela His-
tória.b) Álvaro Pais nomeou o
pajem arauto da corte. c) Lisboa
seria declarada livre dos caste-
lhanos pelo Mestre no final do
dia.d)ApopulaçãojulgaoMestre
mortonoPaçodaRainha.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
2
90 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
90
90
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Das tribulações que Lixboa padecia per mingua
de mantiimentos
Estando a cidade assi cercada na maneira que já ouvistes, gastavom-se
os mantiimentos cada vez mais, por as muitas gentes que em ela havia, assi
dos que se colherom dentro, do termo, de homeès e aldeãos com molheres
e filhos1
come dos que veerom na frota do Porto; e alguùs se tremetiam2
aas vezes em batees3
e passavom de noite escusamente4
contra as partes de
Ribatejo, e metendo-se em alguùs esteiros5
, ali carregavom de triigo que já
achavomprestes,perrecadosqueantemandavom.Epartiamdenoiteremando
mui rijamente, e algùas galees quando os sentiam viinr remando, isso meesmo
remavom a pressa sobre eles; e os batees por lhe fugir, e elas por os tomar, eram postos
em grande trabalho.
Os que esperavom por tal triigo andavom per a ribeira da parte de Exobregas6
,
aguardando quando veesse, e os que velavom, se viiam as galees remar contra lá, repi-
cavom logo por que acorrerem7
. Os da cidade como ouviam o repico, leixavam o sono,
e tomavom as armas e saía muita gente, e defendiam-nos aas beestas8
se compria9
,
ferindo-se aas vezes dùa parte e doutra; porem nunca foi vez que10
tomassem alguù,
salvoùaquecertosbateesestavomemRibatejocomtriigo,eforomdescubertosperuù
homem natural d’Almadãa, e tomados per os Castelãos; e el foi depois tomado e preso
e arrastado, e decepado e enforcado. E posto que tal triigo algùa ajuda fezesse, era tam
pouco e tam raramente, que houvera mester de o multiplicar como fez Jesu Cristo aos
pães, com que fartou os cinco mil homeès.
Em esto gastou-se11
a cidade assi apertadamente, que as pubricas esmolas começa-
rom desfalecer12
, e neùa geeraçom de pobres achava quem lhe dar pam; de guisa que a
perda comum13
vencendo de todo a piedade, e veendo a gram mingua dos mantiimen-
tos,estabeleceromdeitarforaasgentesminguadasenomperteencentesperadefensom;
e esto foi feito duas ou tres vezes, ataa lançarem fora as mancebas mundairas14
e Judeus
e outras semelhantes, dizendo que pois taes pessoas nom eram pera pelejar, que nom
gastassem os mantiimentos aos defensores; mas isto nom aproveitava cousa que muito
prestasse.
Iluminura do Cerco de Lisboa
de 1384, in Jean Froissant,
Crónicas, 1401-1500.
1 Homeès e aldeãos com molheres
e filhos: aldeãos da região de
Lisboa que se recolheram dentro
dos muros da cidade com mulhe-
res e filhos.
2 Tremetiam: metiam, embarca-
vam.
3 Batees: batéis.
4 Escusamente: em segredo.
5 Esteiros: braço do rio que se
estende pela terra.
6 Exobregas: Xabregas.
7 Repicavom logo por que acorre-
rem: os sinos tocavam a rebate
para que os socorressem.
8 Beestas: arma antiga que dispa-
rava setas.
9 Se compria: se era necessário.
10 Nunca foi vez que: nunca aconte-
ceu que.
11 Gastou-se: consumiu-se.
12 Desfalecer: faltar.
13 Perda comum: as privações
comuns a todos.
14 Mancebas mundairas: prostitutas.
5
10
15
20
25
5
Em contexto
Após a morte do Conde Andeiro, D. Leonor Teles viu-se obrigada a sair de Lisboa,
fugindo para Santarém, com o intuito de posteriormente pedir ajuda aos reis de Cas-
tela, D. João I e D. Beatriz, sua filha. Receando uma invasão do exército castelhano, o povo
de Lisboa reconheceu o Mestre de Avis, D. João, como «Regedor e Defensor do Reino»,
e a burguesia apoiou-o financeiramente, de modo a custear as despesas da guerra. No
início de 1384, o rei castelhano invadiu Portugal para reclamar o trono, tendo por base
o que havia sido estabelecido pelo Tratado de Salvaterra de Magos, e ocupou Santarém.
Em abril desse ano travou-se a Batalha dos Atoleiros, da qual o rei invasor saiu derrotado.
Pouco tempo depois, em maio, o rei castelhano, regressou e cercou a cidade de Lisboa. No
entanto, o povo não se rendeu e o cerco foi levantado quatro meses depois, devido à peste.
5
5
5
5
5
5
5
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 15.1; 15.2.
Gramática
18.1; 18.2; 18.3; 18.4; 18.5.
MC
91
1.ª parte – Crónica de D. João I
Os Castelãos aa primeira prazia-lhe com eles, e davom-lhe de comer e acolhimento;
depois veendo que esto era com fame, por gastar mais a cidade, fez el-Rei tal ordenança
que nèuù de dentro fosse recebido em seu arreal, mas que todos fossem lançados
fora; e os que se ir nom quisessem, que os açoutassem e fezessem tornar pera
a cidade; e esto lhes era grave de fazer, tornarem per força pera tal logar,
ondechorandonomesperavomdeseerrecebidos; etaes ihavia quedeseu
grado se saíam da cidade, e se iam pera o arreal, querendo ante de todo
seer cativos, que assi perecerem morrendo de fame.
Comonomlançariamforaagenteminguada esemproveito, queo
Meestre mandou saber em certo pela cidade que pam havia per todo
em ela, assi em covas15
come per outra maneira, e acharom que era
tam pouco que bem havia mester sobr’elo16
conselho?
Na cidade nom havia triigo pera vender, e se o havia, era mui
pouco e tam caro que as pobres gentes nom podiam chegar a ele;
[…] e começarom de comer pam de bagaço d’azeitona, e dos quei-
jos das malvas e raizes d’ervas, e doutras desacostumadas cousas,
pouco amigas da natureza; e taes i havia que se mantiinham em alfé-
loa17
. No logar u costumavom vender o triigo, andavom homeès e
moços esgravatando a terra; e se achavom alguùs grãos de triigo, metiam-
-nos na boca sem teendo outro mantiimento; outros que se fartavom d’ervas, e
beviam tanta agua, que achavom mortos homeès e cachopos jazer inchados nas praças
e em outros logares. […]
Andavom os moços de tres e de quatro anos pedindo pam pela cidade por amor de
Deos, como lhe ensinavam suas madres, e muitos nom tiinham outra cousa que lhe dar
senom lagrimas que com eles choravom que era triste cousa de veer; e se lhes davom
tamanhopamcomeùanoz,haviam-noporgrandebem.Desfaleciaoleiteaaquelasque
tiinhamcriançasaseuspeitosperminguademantiimento;eveendolazerar18
seusfilhos
a que acorrer nom podiam, choravom ameúde19
sobr’eles a morte ante que os a morte
privasse da vida. […]
Toda a cidade era dada a nojo20
, chea de mezquinhas querelas21
, sem neuù prazer
que i houvesse: uùs com gram mingua do que padeciam; outros havendo doo22
dos
atribulados; e isto nom sem razom, ca se é triste e mezquinho o coraçom cuidoso nas
cousas contrairas que lhe aviinr podem, veede que fariam aqueles que as continuada-
mente tam presentes tiinham? Pero com todo esto, quando repicavom, neuù nom
mostrava que era faminto, mas forte e rijo contra seus èmigos23
. Esforçavom-se uùs
por consolar os outros, por dar remedio a seu grande nojo, mas nom prestava conforto
de palavras, nem podia tal door seer amansada com neùas doces razões; e assi como é
natural cousa a mão ir ameúde onde see24
a door, assi uùs homeès falando com outros,
nom podiam em al departir25
senom em na mingua que cada uù padecia.
Ó quantas vezes encomendavom nas missas e preegações que rogassem a Deos
devotamente por o estado da cidade! E ficados os geolhos, beijando a terra, bradavam
a Deos que lhes acorresse, e suas prezes nom eram compridas! Uùs choravom antre
si, mal-dizendo seus dias, queixando-se por que tanto viviam. […] Assi que rogavom
a morte que os levasse, dizendo que melhor lhe fora morrer, que lhe seerem cada dia
renovados desvairados padecimentos. […]
15 Covas: depósitos subterrâneos.
16 Sobr’elo: acerca disso.
17 Alféloa: melaço.
18 Lazerar: sofrer, martirizar.
19 Ameúde: amiúde, frequente-
mente.
20 Nojo: tristeza.
21 Mezquinhas querelas: discus-
sões banais.
22 Doo: dó, pena.
23 Èmigos: inimigos.
24 See: esteja.
25 Departir: conversar.
30
35
40
45
50
55
60
65
70
Pieter Brueghel, Sete atos de
caridade (também designado
Obras de misericórdia), 1617.
92 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
92
Sabia porem isto o Meestre e os de seu Conselho, e eram-lhe doorosas d’ouvir taes
novas;eveendoestesmalesaqueacorrernompodiam,çarravomsuasorelhasdorumor
do poboo.
Como nom querees que maldissessem sa vida e desejassem morrer alguùs homeès
e molheres, que tanta deferença há d’ouvir estas cousas aaqueles que as entom passa-
rom26
, como há da vida aa morte? Os padres e madres viiam estalar de fame os filhos
que muito amavom, rompiam as faces e peitos sobr’eles, nom teendo com que lhe
acorrer, senom planto e espargimento de lagrimas27
; e sobre todo isto, medo grande
da cruel vingança que entendiam que el-Rei de Castela deles havia de tomar; assi que
eles padeciam duas grandes guerras, ùa dos èmigos que os cercados tiinham, e outras
dos mantiimentos que lhes minguavom, de guisa que eram postos em cuidado de se
defender da morte per duas guisas.
Pera que é dizer mais de taes falecimentos28
? Foi tamanho o gasto das cousas que
mester haviam29
que soou uù dia pela cidade que o Meestre mandava deitar fora todo-
los que nom tevessem pam que comer, e que soomente os que tevessem ficassem em
ela; mas quem poderia ouvir sem gemidos e sem choro tal ordenança de mandado
aaqueles que nom o tiinham? Porem sabendo que nom era assi, foi-lhe já quanto30
con-
forto.Ondesabeequeestafameefalecimentoqueasgentesassipadeciam,nomerapor
seer o cerco perlongado, ca nom havia tanto tempo que Lixboa era cercada; mas era per
aazo das muitas gentes que se a ela colherom de todo o termo; e isso meesmo da frota
do Porto quando veo, e os mantiimentos seerem muito poucos.
Ora esguardae31
como se fossees presente, ùa tal cidade assi desconfortada e sem
neùa certa feúza32
de seu livramento, como veviriam em desvairados cuidados que
sofria ondas de taes aflições? Ó geeraçom que depois veo, poboo bem aventuirado, que
nomsoubepartedetantosmales,nemfoiquinhoeiro33
detaespadecimentos!Osquaes
a Deos por Sua mercee prougue de cedo abreviar doutra guisa, como acerca ouvirees34
.
Fernão Lopes, op. cit., capítulo 148, pp. 193-199
1. No texto, é possível identificar diferentes sequências narrativas.
1.1 Ordena-as, sabendo que a última é a da letra (E):
(A) Os portugueses vão em socorro das galés após o repicar dos sinos.
(B) Corre o boato sobre a decisão do Mestre de expulsar gente da cidade.
(C) As pessoas procuram desesperadamente comida no chão.
(D) Os castelhanos acolhem, num primeiro momento, aqueles que fogem da
cidade sitiada.
(E) O cronista reflete sobre a situação.
(F) Os mantimentos gastam-se cada vez mais depressa.
(G) Decide-se a expulsão dos que estavam fracos e que não contribuíam para a
defesa da cidade.
(H) O Mestre ordena que se faça o levantamento do pão existente em Lisboa.
(I) Os castelhanos atacam as galés que tentam abastecer Lisboa.
(J) As crianças mendigam pela cidade, pedindo comida.
(K) O rei de Castela ordena que os fugitivos sejam devolvidos à cidade.
(L) O número de habitantes da cidade aumenta cada vez mais.
26 D’ouvir estas cousas aaqueles
que as entom passarom: entre
ouvir estas coisas e passá-las.
27 Planto e espargimento de lagri-
mas: pranto e derramamento
de lágrimas.
28 Falecimentos: misérias, prova-
ções.
29 Que mester haviam: de que
tinham necessidade.
30 Quanto: bastante.
31 Esguardae: olhai, vede.
32 Feúza: confiança.
33 Quinhoeiro: participante.
34 Acerca ouvirees: os castelhanos
puseram fim ao cerco devido
à peste que atingiu as suas
tropas.
75
80
85
90
95
100
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.1(F);(L);(I);(A);(G);(D);(K);(H);(C);(J);
(B);(E).
2.1 «Estando a cidade assi cercada
na maneira que já ouvistes» (l.1) e
«veede que fariam aqueles que as
continuadamente tam presentes tii-
nham?» (ll. 62-63). No 1.o
exemplo, o
narrador apela à leitura de capítulos
anteriores dirigindo-se diretamente
aos leitores; no 2.o
exemplo, através
da interrogativa, há uma interpela-
çãodiretaaoleitordemodoaaproxi-
má-lodasituaçãodescrita.
3.1 a) «veendo a gram mingua dos
mantiimentos, estabelecerom dei-
tar fora as gentes minguadas e nom
perteencentes pera defensom»
(ll. 23-24); «e taes i havia que de seu
grado se saíam da cidade, e se iam
pera o arreal, querendo ante de todo
seer cativos, que assi perecerem
morrendodefame»(ll.35-37).
b) «as pubricas esmolas começa-
rom desfalecer» (ll. 21-22); «Na ci-
dade nom havia triigo pera vender, e
se o havia, era mui pouco e tam caro
que as pobres gentes nom podiam
chegaraele»(ll.42-43).
c) «choravom ameúde sobr’eles a
morte ante que os a morte privasse
da vida» (ll. 57-58); «[…] assi uũs
homeӁs falando com outros, nom
podiam em al departir senom em
na mingua que cada uũ padecia»
(ll.67-68).
93
1.ª parte – Crónica de D. João I
2. Fernão Lopes parece querer estabelecer a comunicação entre o narrador e o narratário.
2.1 Retira duas expressões do texto que comprovem a veracidade desta afirmação e
justifica a tua escolha.
3. De acordo com a descrição que é feita, o cerco de Lisboa pelos castelhanos tem conse-
quências a vários níveis.
3.1 Comprova a afirmação, transcrevendo dois exemplos textuais de consequências:
a) sociais; b) económicas; c) psicológicas.
4. Identifica os dois motivos pelos quais os portugueses cercados «padeciam duas gran-
des guerras» (l. 84).
5. O cronista parece criticar seriamente a ação do Mestre de Avis, contrariamente ao que
tinha feito no capítulo 11. Indica uma possível razão para este facto.
6. Tendo em conta a afirmação de uma crescente identidade coletiva, evidente no excerto
em análise, explicita o sentido do sétimo parágrafo.
7. Considerando o último parágrafo do texto, identifica o assunto e refere os objetivos das
reflexões evidenciadas.
8. Identifica os recursos expressivos utilizados nas seguintes expressões.
a) «mester de o multiplicar como fez Jesu Cristo aos pães» (ll. 19-20);
b) «as pubricas esmolas começarom desfalecer» (ll. 21-22);
c) «preso e arrastado, e decepado e enforcado» (ll. 17-18);
d) «viiam estalar de fame os filhos» (l. 80).
GRAMÁTICA
1. Identifica as funções sintáticas dos elementos destacados.
a) As gentes de Lisboa supuseram o Mestre morto;
b) «que era triste cousa de veer» (l. 54);
c) «partiam de noite remando mui rijamente» (ll. 7-8).
2. Divide e classifica as orações.
a) «beviam tanta agua, que achavom mortos home͕s e cachopos» (ll. 50-51);
b) «neuũ nom mostrava que era faminto» (ll. 63-64);
c) «E posto que tal triigo algũa ajuda fezesse, era tam pouco e tam raramente, que hou-
vera mester de o multiplicar como fez Jesu Cristo aos pães» (ll. 18-20).
O topónimo «Lisboa» surge nos textos de Fernão Lopes com uma grafia diferente da que
conhecemos hoje. No entanto, essa forma gráfica, também diferente da atual, já traduz
o resultado de um longo percurso evolutivo. De acordo com José Pedro Machado1
Lisboa
será a forma atual da resultante do árabe (LIXBÛNÂ) e esta terá origem no latim (OLISIPONE).
CURIOSIDADE
1
José Pedro Machado, Dicioná-
rio etimológico da língua portu-
guesa, 8.ª edição, vol. 5, Lisboa,
Livros Horizonte, 2003.
A afirmação da consciência coletiva
p. 95
FI
Predicativo do complemento direto
p. 88
FI
Coordenação e subordinação
pp. 327-328
SIGA
Recursos expressivos
pp. 334-335
SIGA
SIGA
Funções sintáticas
pp. 324-325
PROFESSOR
4. Os habitantes de Lisboa viam-se
encurraladosentreocercomontado
peloreideCastelaeafaltademanti-
mentosnacidade.
5. Aparentemente o cronista critica
a ação do Mestre e dos seus que
«çarravom suas orelhas do rumor do
poboo» (ll. 76-77), cumprindo desta
forma a intenção de neutralidade e
imparcialidade enunciadas no «Pró-
logo»daCrónicadeD.JoãoI.
6. Apesar de famintos e extenuados,
eram solidários uns com os outros
e valentes contra os castelhanos,
apresentando uma identidade cole-
tiva que os unia num propósito co-
mum.
7. O narrador tem como objetivo tra-
zeroleitorparaaquelepassadodolo-
roso «esguardae…» e fazer notar que
quem nasceu depois daquela prova-
ção,talcomoele,tevesorte.
8. a)comparação;b)personificação;
c)enumeração;d)metáfora.
Gramática
1.
a) predicativo do complemento di-
reto; b) predicativo do sujeito; c) mo-
dificador.
2.
a) «beviam tanta agua, [oração
subordinante] que achavom mortos
homeӁs e cachopos» [oração subor-
dinadaadverbialconsecutiva];
b) «neuũ nom mostrava [oração
subordinante] que era faminto»
[oração subordinada substantiva
completiva].
c) «E posto [oração coordenada
copulativa]quetaltriigoalgũaajuda
fezesse» [oração subordinada subs-
tantiva completiva] era tam pouco
e tam raramente [oração subor-
dinante] que houvera mester de o
multiplicar [oração subordinada
adverbial consecutiva] como fez
JesuCristoaospães» [oraçãosubor-
dinadaadverbialcomparativa].
94 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
ESCRITA
Exposição sobre um tema
A miséria, a falta de comida, entre outras consequências, assolavam os que procura-
ram refúgio na cidade de Lisboa, durante o cerco. Hoje vivemos cercados pela pressa
constante, pela rapidez dos dias, pelo poder material. No entanto, o flagelo da fome e da
miséria está longe de terminar.
1. Observa a imagem abaixo e redige uma exposição, entre cento e vinte e cento e cin-
quenta palavras, em que te refiras às associações humanitárias que combatem diaria-
mente esta situação (AMI, Bancos Alimentares, entre outras):
tRVFNTÍP
tDPNPPGB[FN
tRVFNQBSUJDJQB
1.1 Organiza a informação por tópicos e de forma coerente.
2. Depois de redigires o texto, deves rever o teu trabalho e proceder às correções necessá-
rias. Não te esqueças de identificar as fontes utilizadas, de cumprir as normas de cita-
ção, de utilizar as notas de rodapé (se necessário) e, ainda, de elaborar a bibliografia
dos documentos consultados.
A pobreza pode ser encarada como carência de serviços e bens essenciais.
Mas é também sinónimo de exclusão social.
A AMI combate, desde 1994, o flagelo da pobreza em Portugal através da criação dos cen-
tros Porta Amiga, Abrigos Noturnos, Equipas de Rua e um Serviço de Apoio Domiciliário.
Contribua com um donativo, por mais pequeno que este seja,
e mostre que a solidariedade não está em crise!
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
PROFESSOR
Educação Literária
10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2;
12.3; 12.4; 12.5; 13.1.
MC
Escrita
1.
Quemsão?
AMI (Assistência Médica Interna-
cional)–aAMIéumaOrganização
NãoGovernamental(ONG)portu-
guesa, privada, independente,
apolíticaesemfinslucrativos.
Bancos Alimentares – Os Bancos
Alimentaressãoinstituiçõespar-
ticulares de solidariedade social
que lutam contra o desperdício
de produtos alimentares, enca-
minhando-os para distribuição
gratuitaàspessoascarenciadas.
Comoofazem?
AMI – presta assistência médica,
apoiosocial,entreoutros.
Bancos Alimentares – recolhem
e distribuem várias dezenas de
milhares de toneladas de produ-
tos e apoiam a ação de institui-
ções em Portugal, que, por sua
vez, distribuem refeições confe-
cionadas e cabazes de alimentos
a pessoas comprovadamente
carenciadas.
Quemparticipa?
AMI – a AMI tem um quadro per-
manente de profissionais assa-
lariados, que se encarregam de
assegurar o desenvolvimento
do trabalho da instituição; conta
tambémcomoapoioindispensá-
veldosvoluntários.
Bancos Alimentares – contam
com uma federação que coor-
dena a ação dos Bancos asso-
ciados, os representa junto dos
poderes públicos, das empresas
de âmbito nacional e de organi-
zações internacionais; contam
aindacomoapoiodevoluntários.
95
Ficha informativa
Iluminuras do Livro de horas do
Duque de Berry, século XV.
FICHA INFORMATIVA N.O
3
A afirmação da consciência coletiva
1. Defesa do sentimento nacional
Ele [Fernão Lopes] não faz, porém, unicamente a apologia do rei; faz também, e
principalmente, a apologia da resistência popular ao Castelhano. […] Há uma força
maior, embora sem forma jurídica definida. […] É a força de toda uma coletividade
que não aceita o lugar que lhe é destinado dentro do direito senhorial. Esta coletivi-
dade cria o seu direito novo, fundado no sentimento nacional, o «amor da terra», e
defende-o de armas na mão. Fernão Lopes faz a apologia desse novo direito, que não
é já o do rei, mas o do povo. O «amor da terra», a palavra «Portugal», definindo, não
já um território, mas um corpo de gente animado de um pensamento […], expressão
ainda esboçada [em Fernão Lopes], mas vigorosa, do direito pelo qual um novo povo
se levantou contra um rei, o direito nacional […].
A guerra nacional aparece, portanto, no nosso cronista como uma guerra civil
entre camadas opostas da população, ou, melhor, entre uma popular e uma outra
nobre […].
Ela [arraia-miúda] constitui a força armada em que inicialmente se apoiou o
Mestre de Avis, permitindo-lhe resistir à gente de armas favorável ao partido caste-
lhano e até apoderar-se de alguns castelos. A população de Lisboa resistiu ao cerco
do rei de Castela […].
A existência do povo como sujeito da História, do povo que se sente senhor da
terra onde nasce, vive, trabalha e morre e que ganha consciência coletiva contra os
que querem senhoreá-lo, do povo que é a fonte última do direito, é a grande reali-
dade que ressalta das crónicas de Fernão Lopes. […] [O] povo é o que ganha a sua
vida quer com o trabalho manual (mesteirais e lavradores), quer com a «indústria»,
isto é, a atividade, habilidade e iniciativa em qualquer ramo produtivo e pacífico.
António José Saraiva, «Fernão Lopes», in Isabel Allegro de Magalhães (coord.), História e antologia
da literatura portuguesa – século XV, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, pp. 43-61
(texto adaptado)
2. Construção de uma identidade nacional
[No entanto], a generalização da consciência da identidade nacional pela totali-
dade da população portuguesa não se pode presumir como um facto antes da difusão
de fenómenos característicos do fim do século XIX […] como seja a difusão da escrita
e da imprensa, a implantação de um sistema eleitoral, a generalização de práticas
administrativas uniformes e a participação ativa da população na vida pública. […]
O facto de se poderem encontrar formulações precoces de tais noções [sobera-
nia popular], como por exemplo nas Cortes de 1385, não pode fazer esquecer que
o «povo» aí considerado soberano é, na realidade concreta, o conjunto dos que se
apresentavam como seus representantes. […]
Observe-se, por fim, que as noções românticas acerca do «espírito do povo»
(Volksgeist) conduzem não só a que se tenda a considerar a categoria nacional como
fundada na Natureza, […] mas também à ideia de que essa categoria implica diferen-
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PowerPoint
Ficha informativa n.o
3
PROFESSOR
Leitura
8.1.
Educação Literária
16.1.
MC
96 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
96
ças específicas, isto é, que tem de se manifestar por meio de uma coerência interna, e
consequentemente por meio de caracteres comportamentais comuns a todos os seus
membros. […]
Para as classes populares, porém, o «reino» podia, certamente, implicar apenas
uma noção territorial, sem trazer consigo a ideia de uma comunidade constituída por
todos os seus habitantes. De qualquer maneira, o conceito de «reino» representou
um complemento importante da identidade nacional como substantivo que desig-
nava os cidadãos do país como um todo. […]
Por sua vez, ao adquirir um sentido territorial, a noção de reino passou a implicar
também a de «fronteiras». De facto, enquanto significou o poder sobre os vassalos,
mais do que o poder sobre o espaço que eles habitavam, a noção de fronteira era
uma realidade humana, mutável, imprecisa; normalmente uma zona de combate ou
uma área deserta. Afetada pela noção de «naturalidade», passou a considerar-se antes
a linha que separava os vassalos de um rei dos do rei vizinho. Tornou-se então com-
plementar da noção de «território», e este, por sua vez, interpretou-se como suporte
físico da diferença para com aqueles que habitavam para além das respetivas frontei-
ras. A fronteira sempre separou os «nossos» dos «outros», ou seja, os nacionais dos
estrangeiros. […]
[A influência destas noções] Atingiu primeiro, obviamente, os representantes da
autoridade régia, uma grande parte do clero, […] mais tarde os membros das admi-
nistrações municipais. A restante população do país foi provavelmente mais influen-
ciada no processo de consciencialização nacional pelo uso constante de emblemas
e sinais concretos, como o escudo de armas do rei, a bandeira nacional e a moeda.
Tornaram-se, de facto, sinais identificadores. A sua categoria simbólica dotava-os de
um poder emocional que contribuiu para fazer esquecer o seu sentido primitivo de
emblemas de dominação. E assim, mesmo quando as mudanças de regime faziam
alterar a sua forma, como aconteceu frequentemente com a bandeira nacional, o
escudo de armas do rei permaneceu sempre como elemento permanente, mesmo
quando deixou de haver rei. Ainda hoje figura na bandeira de Portugal.
José Mattoso, A identidade nacional, Lisboa, Gradiva, 1998, pp. 13-18
(texto adaptado)
CONSOLIDA
1. Completa as seguintes frases de acordo com o sentido dos textos apresentados.
a) Fernão Lopes dá voz...
b) A resistência ao castelhano coloca…
c) Uma das grandes novidades da crónica de Fernão Lopes é...
d) A difusão geral da identidade nacional depende…
e) A noção de «espírito do povo» implica…
f) A noção de «identidade nacional» abarca…
g) O processo de consciencialização da «identidade nacional» foi…
h) Os símbolos nacionais são…
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PROFESSOR
Consolida
1.a)…aopovo.
b) … duas classes sociais em opo-
sição:opovoeanobreza.
c) … o aparecimento do povo co-
mo força que se quer afirmar,
saindo da passividade medieval,
dodireitosenhorial.
d) … da «difusão da escrita e da
imprensa, [d]a implantação de
um sistema eleitoral, [d]a ge-
neralização de práticas admi-
nistrativas uniformes e [d]a
participação ativa da população
navidapública».
e) … coerência interna, através
de comportamentos comuns a
todososmembrosdeumacomu-
nidade.
f) … as noções de «reino», «fron-
teiras», «naturalidade» e «terri-
tório».
g) … gradual, pois influenciou pri-
meiro os representantes régios,
depois o clero e, em seguida, as
restantesclasses.
h) … «o escudo de armas do rei, a
bandeiranacionaleamoeda».
97
1.ª parte – Crónica de D. João I 97
LEITURA
Apreciação crítica
Tal como Fernão Lopes, também atualmente há quem se dedique a escrever a história/
biografia de figuras de relevo da nossa sociedade.
Lê a seguinte apreciação crítica e depois responde às questões apresentadas na página
seguinte.
Apesar de oscilar entre o excesso de lacunas e o excesso
de detalhe, a biografia oficial do fundador da Apple não
deixa de ser fascinante.
É excessivamente detalhada no que respeita a alguns
momentos da vida do biografado e demasiado sucinta
noutros. Ao longo de 700 páginas, Walter
Isaacson – autor de biografias de Albert Eins-
tein, Benjamin Franklin e Henry Kissinger,
escreveu a do fundador da Apple a convite
do próprio – desenha um retrato de Jobs com
um detalhe sem precedentes. O livro foi com-
posto com base em dezenas de entrevistas: a
alguns dos primeiros funcionários da Apple
(incluindo o cofundador Steve Wozniak),
a amigos de juventude, a parceiros e rivais
de negócios (entre os quais Bill Gates, que
esteve em ambos os papéis), a familiares e ao
próprio Steve Jobs. […]
Em Steve Jobs, um dos grandes méritos de
Isaacson – provavelmente, o maior, tendo em
conta a figura em causa – é não ser apologé-
tico. Jobs é descrito como um dos pioneiros dos com-
putadores pessoais, um caso raro de interseção entre as
artes e a tecnologia, um líder carismático e um gestor de
sucesso, que transformou nada menos do que sete indús-
trias: a dos computadores pessoais; a do cinema de ani-
mação (com o estúdio Pixar, onde foi criado Toy Story);
a da música; a das lojas de retalho (por causa das lojas da
Apple); a dos telemóveis; a dos tablets; e a da publicação
e do jornalismo (por causa do impacto do iPhone e do
iPad).
Mas o livro também revela uma pessoa de trato difí-
cil, que manipulava jornalistas, que se apoderava das boas
ideias de funcionários da Apple, que humilhava os subor-
dinados, que não tinha consideração por aqueles com
quem trabalhava, nem, em alguns casos, por aqueles com
quem tinha relações pessoais. […]
O fundador da Apple era também uma pessoa que
chorava quando não lhe faziam a vontade, mesmo tra-
tando-se de acontecimentos aparentemente supérfluos,
como a decisão de que Wozniak seria o funcionário
número um na lista oficial da empresa, e Jobs o número
dois. […]
Tudo isto é descrito em abundância
por Isaacson. Especialmente na segunda
metade do livro, há uma profusão de
pequenos episódios que servem apenas
para ilustrar as características de caráter
(a atenção ao pormenor, a exigência
obsessiva, a falta de afabilidade, o per-
fecionismo semidoentio) que já tinham
sido esmiuçadas em capítulos anteriores.
Paradoxalmente numa obra tão
vasta, há aspetos da vida de Jobs que
estão, sem razão aparente, por apro-
fundar. Pouco se escreve sobre a rela-
ção com os pais e quase nada sobre a
irmã adotiva (que desaparece de cena,
sem que o autor explique porquê). […]
Da mesma forma, os tempos fora da Apple – mais de
uma década, entre 1985 e 1996 – não são contados com
o mesmo detalhe do resto. Foi neste período que Jobs
comprou e geriu a Pixar, e também que deixou a vida de
jovem multimilionário com alguns laivos de playboy para
se tornar um pai de família.
Apesar destes buracos, que deixam ao virar da última
página a sensação de que algo foi escondido ou esque-
cido, a história de uma criança adotada que cresce numa
família de classe média e que concretiza a ambição de
deixar uma marca no universo é, inevitavelmente, uma
leitura fascinante.
João Pedro Pereira, in Público, 25/01/2012
(disponível em www.publico.pt, consultado em outubro de 2014)
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A estranha vida de Steve Jobs
Walter
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Da mesma form
uma década entre
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PROFESSOR
Leitura
7.1; 7.2; 7.3; 7.5; 7.6.
Escrita
10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2;
12.3; 12.4; 12.5; 13.1.
Gramática
19.6.
MC
98 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
98
1. Refere o tema desenvolvido no texto, justificando a tua resposta.
2. Relaciona o título e a imagem do livro com o conteúdo do texto.
3. Explica o significado da expressão «um dos grandes méritos de Isaacson […] é não ser
apologético» (ll. 19-22).
4. Explicita a estrutura do texto quanto à sua organização externa e interna.
5. Atenta no segundo parágrafo do texto e transcreve exemplos textuais que ilustrem
características do discurso de uma apreciação crítica:
a) linguagem valorativa através do uso de advérbios (depreciativos) e uma expressão
(apreciativa);
b) terceira pessoa gramatical e o presente do indicativo;
c) recursos expressivos (antítese);
d) articuladores do discurso.
GRAMÁTICA
1. Identifica o processo irregular de formação presente em cada palavra:
a) «telemóveis» (l. 29);
b) «tablets» (l. 29);
c) «buracos» (l. 66);
d) «www» (fonte do texto).
ESCRITA
Apreciação crítica
Agora é a tua vez de escreveres uma apreciação crítica sobre uma manifestação cultural à
tua escolha (música, CD, cinema, exposição, livro…).
1. Num texto bem estruturado, utilizando entre cento e vinte e cento e cinquenta pala-
vras, faz a descrição sucinta do objeto em apreço, acompanhada do teu comentário
crítico, fundamentando-o com, pelo menos, um argumento ilustrado com um exemplo
significativo.
Deverás organizar as tuas ideias preenchendo no teu caderno um plano de texto como
este.
Introdução:
1.º parágrafo – descrição sucinta da manifestação cultural em apreço;
Desenvolvimento:
2.º parágrafo, 3.º parágrafo e 4.º parágrafo – comentário crítico (argumenos positivos/
negativos acompanhados de exemplos);
Conclusão:
5.º parágrafo – síntese e reforço do teu ponto de vista.
2. No final, faz uma revisão cuidada do texto que produziste.
Não te esqueças de identificar as fontes a que recorreste, de cumprir as normas de
citação e de utilizar as notas de rodapé (se necessário).
Apreciação crítica
p. 312
SIGA
Apreciação crítica
p. 312
SIGA
Processo irregulares
de formação de palavras
p. 99
FI
PROFESSOR
Sugestão:
Antes ou depois do exercício de
leitura, os alunos poderão visio-
narotrailerdofilmeJobs,quese
encontranoCDderecursos.
Leitura
1. O tema é o livro Steve Jobs,
sobreopróprioSteveJobs,apon-
tando aspetos positivos e negati-
vos.
2. O título antecipa a perspetiva
do autor sobre o livro e o biogra-
fado, através do adjetivo «estra-
nha». Essa estranheza decorre
do facto de a biografia de Jobs
serexcessiva norelatodealguns
factos e quase omissa noutros.
Por outro lado, considera tam-
bém estranho o paradoxo entre
um líder inteligente que revo-
lucionou sete indústrias e um
homem que não tinha um com-
portamento ético para com os
outros(parágrafos3,4,5).
A imagem retrata a capa do livro
apreciado e que contém uma
fotografiadeSteveJobs.
3. Walter Isaacson não tece elo-
gios a Steve Jobs, mantendo-se
objetivoeimparcialrelativamen-
te aos dados biográficos apre-
sentados. Tal facto é digno de
apreço.
4. Introdução, parágrafos 1 e 2:
apresentação da opinião pessoal
edescriçãodoobjetoaapreciar–
olivroSteveJobs –e suasfontes.
Desenvolvimento,parágrafo3:
apresentação de um argumento
favorável, nomeadamente a ca-
racterização objetiva de Jobs
como um líder que transformou
várias indústrias, acompanhado
de exemplos; parágrafos 4 a 8:
alusão aos aspetos negativos do
livro, ou seja, a caracterização
abundante do caráter difícil do
fundadordaApple,emoposiçãoà
abordagem superficial de factos
biográficos.
Conclusão, último parágrafo:
síntese e reforço do ponto de
vista favorável do autor em rela-
çãoaolivro.
Vídeo
Jobs
99
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
4
Processos irregulares de formação
de palavras
Processo Definição Exemplos
Extensão
semântica
Palavra já existente cujo sentido se
alarga, adquirindo um novo significado.
janela, rato, portal, sítio, salvar
(palavras que adquiriram um novo
sentido na informática)
Empréstimo
Integração de uma palavra de língua
estrangeira no vocabulário da língua que
a importa.
scanner, T-shirt, input,
robô (do francês robot),
futebol (do inglês football)
Amálgama
Junção de partes de duas ou mais palavras
(normalmente o início de uma e o final de
outra), criando uma palavra nova.
informática (informação +
automática)
bit (binary + digit)
biónica (bio + eletrónica)
Sigla
Redução de duas ou mais palavras às
suas letras iniciais, que se pronunciam
letra a letra.
WC (Water Closet)
SOS (Save our Souls)
EDP (Eletricidade de Portugal)
Acrónimo
Palavra formada pelas iniciais de uma
sequência de palavras ou pela junção
das letras iniciais de várias palavras,
pronunciadas como uma única palavra.
AMI (Assistência Médica
Internacional)
SIC (Sociedade Independente de
Comunicação)
Truncação
Criação de uma palavra a partir do
apagamento de parte da palavra de que
deriva, mantendo o sentido e a classe
gramatical.
professor – prof
José – Zé
metroplitano – metro
hipermercado – híper
Zacarias Santos Nascimento e Maria do Céu Vieira Lopes, Domínios – Gramática da língua portuguesa,
Lisboa, Plátano Editora, 2012, pp. 241-242 (texto adaptado).
CONSOLIDA
1. Indica o processo irregular de formação das seguintes palavras.
a) TAP
b) cibernauta
c) planta (áreas da
arquitetura e da flora)
d) mota
e) quilo
f) Quim
g) UEFA
h) spa
i) super (mercado)
j) setôr
k) anoraque
l) vírus (áreas da medicina
e da informática)
m) SAPO
n) portunhol
o) esparguete
p) estereo
2. Indica a palavra da língua portuguesa correspondente a cada um dos empréstimos que
se seguem:
a) know-how
b) bouquet
c) site
d) download
e) airbag
f) ya
g) man
h) chique
i) like
j) aftershave
k) wireless
l) score
3. Refere o conjunto de palavras que deram origem às seguintes amálgamas.
a) robótica b) motel c) cibernauta
PROFESSOR
5. a) advérbios depreciativos:
excessivamente» (l. 4); «dema-
siado» (l. 5); expressão valora-
tiva: «detalhe sem precedentes»
(l. 11); b) 3.ª pessoa e presente
do indicativo «é», «respeita»
(l. 4); «desenha» (l. 10); c) antí-
tese – «detalhada» e «sucinta»
(ll. 4-5); d) «no que respeita»
(l. 4), «mas» (l. 32), «tudo isto»
(l.44),«damesmaforma»(l.60).
Gramática
1. a) amálgama (telefone + mó-
vel); b) empréstimo; c) extensão
semântica; d) sigla (world wide
web).
Gramática
19.6; 19.7.
MC
Consolida
1.
a)acrónimo;b)amálgama;
c)extensãosemântica;
d)truncação(motorizada);
e)truncação(quilograma);
f)truncação(Joaquim);
g)acrónimo;
h)empréstimo;
i)truncação(supermercado);
j)amálgama(senhor+doutor);
k)empréstimo;
l)extensãosemântica;
m) acrónimo (Servidor de Apon-
tadoresPortugueses)
n) amálgama (português + espa-
nhol)
o)empréstimo;
p)truncação(estereofónico).
2.
a)saberfazer; b)ramalhete;
c)sítio; d)descarregar;
e)almofadadear; f)sim;
g)homem;h)elegante;
i)umgosto; j)loçãodebarbear;
k)semfios;l)resultado.
3.
a)robot+informática;
b)motor+hotel;
c)cibernética+astronauta.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
4
100 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
100
Passá-lo [o acontecimento] ao papel quase equivalia a
tirarumretrato,aindaqueficassetremido.Aculpa,àsvezes,
era da emoção do cronista, outras da velocidade do aconte-
cimento. Há acontecimentos que acontecem cá com uma
gana de acontecerem...
António Torrado, «Fala o aprendiz de cronista»,
in Dez dedos de conversa, 4.ª edição, Lisboa, Asa, 2008
Antigamente, os cronistas, tal como Fernão Lopes, eram responsáveis por relatar os
feitos dos reis e de grandes nobres. Atualmente, o conceito de cronista evoluiu e
transformou-se, assumindo outros suportes, como o vídeo ou a música.
Visiona o vídeo da composição musical «Sexta-feira (emprego bom já)», do rapper
Boss AC, tomando notas sobre os seguintes itens:
t as críticas referidas;
t as emoções;
t as ações dos «atores».
Seguidamente, faz uma exposição escrita sobre a temática
Problemas sociais no século XXI.
A partir das tuas notas:
t seleciona a informação pertinente;
t define os tópicos a abordar;
t organiza-os de forma a produzires um texto bem estruturado.
No final, deves rever o teu texto.
DESAFIO
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
PROFESSOR
Oralidade
1.1; 1.3; 1.4; 1.5; 1.6; 2.1; 2.2.
Escrita
10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3;
12.4; 13.1.
Educação Literária
15.4.
MC
Link
«Sexta-feira», Boss AC
PowerPoint
Síntese da unidade
101
GLOSSÁRIO
A
Arraia-miúda: (referente à classe do povo) estrato social
sem representatividade, plebe, comum, popular.
Existe um texto dramático com esta designação, escrito
por Jaime Gralheiro, em 1975, e representado em 1976,
no rescaldo ainda da Revolução de Abril e de alguma forma
tecendo paralelos entre os acontecimentos abrilinos e os
de 1383-1385.
C
Crónica: (evolução) inicialmente, a crónica, mais geral ou
mais particular, registava acontecimentos históricos por
ordem cronológica.
No século XIX, o desenvolvimento da imprensa perió-
dica, e, em especial, da de opinião, vai fazer emergir a
crónica no sentido moderno. No início, ela era apenas uma
pequena secção de abertura que dava conta das notícias
e dos rumores do dia, mas tenderá a alargar-se e a espe-
cializar-se pelo interior do periódico (crónica artística,
literária, musical, etc.). Posteriormente, desloca-se para o
«folhetim», secção do rodapé da primeira página do perió-
dico, lugar de que se libertará mas onde conquistará a
colaboração de homens de letras e, com isso, um espaço
entre o jornalismo e a literatura. A sua identidade apoiar-
-se-á cada vez mais na autoria: a realidade social, política,
cultural, etc. Torna-se progressivamente o quadro onde o
cronista procura e seleciona qualquer facto quase como
QSFUFYUPQBSBEJTDVSTBSFPQJOBSDSØOJDBDPOUFNQPSÉOFB 
discurso de autor, oscila entre ser predominantemente de
comentário e reflexiva.
Cronista-mor: cronista principal do reino, nomeado pelo
rei para registar, por escrito, a História do seu reinado.
Fernão Lopes foi o primeiro a ocupar este cargo por nomea-
ção de D. Duarte. Este encarregou-o de escrever as cróni-
cas referentes aos seus antepassados: D. Pedro (pai de
D. João I), D. Fernando (filho legítimo de D. Pedro e irmão
de D. João I) e D. João I (filho ilegítimo de D. Pedro e pai
de D. Duarte).
H
Historiografia: 1. Ação de escrever
a história de uma época, de factos
ou ocorrências notáveis do pas-
sado, da vida de uma personali-
dade; atividade de historiógrafo.
2. Estudo histórico e crítico sobre
a História ou sobre os historiado-
res. 3. Conjunto de obras acerca da
história de uma determinada época,
da vida de uma pessoa notável.
N
Narrador: Deriva do vocábulo latino NARRO, que significa
«dar a conhecer», «tornar conhecido», o qual provém do
adjetivo GNARUS, que significa «sabedor», «que conhece».
Por sua vez, GNARUS está relacionado com o verbo GNOSCO,
MFYFNBEFSJWBEPEBSBJ[TÉOTDSJUBGNÂ, que significa «conhe-
DFSx0OBSSBEPSÏBJOTUÉODJBEBOBSSBUJWBRVFUSBOTNJUFVN
conhecimento, narrando-o.
Narratário: entidade da narrativa a quem o narrador dirige
o seu discurso.
P
Prólogo: texto que antecede a parte principal de uma obra
literária. No caso particular de Fernão Lopes, na Crónica
de D. João I, o autor esclarece as suas intenções: «Nos
certamente levamdo outro modo, posta adeparte toda afei-
çom, que por aazo das ditas rrazoões aver podiamos, nosso
desejo foi em esta obra escprever verdade, sem outra
mestura, deixamdo nos boõs aqueeçimentos todo fimgido
louvor, e nuamente mostrar ao poobo, quaaes contrairas
cousas, da guisa que aveherõ.»
Bibliografia/Webgrafia do Glossário
Annabela Rita, «Crónica», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário de termos
literários
Dicionário da língua portuguesa contemporânea, Academia de Ciências de
Lisboa, 2 vols., Lisboa, Verbo, 2001, p. 1994
Jorge Alves, «Narrador» e «Narratário», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário
de termos literários (disponível em www.edtl.com.pt)
102 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
Grupo I
A
Lê o seguinte excerto do capítulo 115 da Crónica de D. João I.
Per que guisa estava a cidade corregida pera se defender,
quando el-Rei de Castela pôs
Onde sabee que como o Meestre e os da cidade souberom a viinda del-Rei de Cas-
tela, e esperarom seu grande e poderoso cerco, logo foi ordenado de recolherem pera a
cidade os mais mantiimentos que haver podessem, assi de pam e carnes, come quaes
quer outras cousas. E iam-se muito aas liziras1
em barcas e batees, depois que Santa-
rem esteve por Castela, e dali tragiam muitos gaados mortos que salgavom em tinas, e
outras cousas de que fezerom grande açalmamento2
; e colherom-se dentro aa cidade
muitos lavradores com as molheres e filhos, e cousas que tiinham; e doutras pessoas
da comarca d’arredor, aqueles a que prougue de o fazer; e deles passarom o Tejo com
seus gaados e bestas e o que levar poderom, e se forom contra Setuval, e pera Palmela;
outros ficarom na cidade e nom quiserom dali partir; e taes i houve que poserom o seu3
,
e ficarom nas vilas que Castela tomarom voz.
Os muros todos da cidade nom haviam mingua de boom repairamento […]
E ordenou o Meestre com as gentes da cidade que fosse repartida a guarda dos
muros pelos fidalgos e cidadãos honrados; os quaes derom certas quadrilhas e bees-
teiros e homeӁs d’armas pera ajuda de cada uũ guardar bem a sua. Em cada quadrilha
havia uũsino pera repicar quando tal cousa vissem4
, e como cada uũ ouvia o sino da sua
quadrilha, logo todos rijamente corriam pera ela […].
E nom embargando todo isto, o Meestre que sobre todos tiinha especial cuidado
da guarda e governança da cidade, dando seu corpo a mui breve sono, requeria per
muitas vezes de noite os muros e torres com tochas acesas ante si, bem acompanhado
de muitos que sempre consigo levava. Nom havia i nenuũs revees5
dos que haviam de
velar, nem tal a que esqueecesse cousa do que lhe fosse encomendado; mas todos
muito prestes a fazer o que lhe mandavom, de guisa que, a todo boom regimento que o
Meestre ordenava, nom minguava avondança de trigosos executores6
. […]
E dalgũas portas tiinham certas pessoas de noite as chaves, por razom dos batees
que taes horas iam e viinham d’aalem com trigo e outros mantiimentos […].
Ó que fremosa cousa era de veer! Uũ tam alto e poderoso senhor como el-Rei de Cas-
tela, com tanta multidom de gentes assi per mar come per terra, postas em tam grande
e boa ordenança, teer cercada tam nobre cidade! E ela assi guarnecida contra ele de
gentes e d’armas com taes avisamentos por sua guarda e defensom! Em tanto diziam os
que o virom, que tam fremoso cerco da cidade nom era em memoria d’homeӁs que fosse
visto de mui longos anos atá aquel tempo.
Fernão Lopes, Crónica de D. João I (textos escolhidos), pp. 170-176
apresentação crítica de Teresa Amado, Lisboa, Seara Nova/Comunicação, 1980
Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens.
1. Refere os preparativos que foram feitos devido ao iminente cerco de Lisboa.
2. Tendo por base o estudo dos capítulos 11 e 148, diz se te parece que os mantimentos
armazenados foram suficientes. Justifica a tua resposta.
FICHA
FORMATIVA
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20
25
30
1 Liziras: lezírias.
2 Açalmamento: provisão, abaste-
cimento.
3 Taes i houve que poserom o seu:
puseram na cidade tudo o que
tinham.
4 Quando tal cousa vissem:
quando vissem que era caso
para isso.
5 Revees: revés (nenhum se
negava).
6 Avondança de trigosos execu-
toresBCVOEÉODJBEFIPNFOT
que executavam rapidamente as
ordens do Mestre.
COTAÇÕES
GrupoI
A
1. 10pontos
2. 15pontos
3. 10pontos
4. 10pontos
5. 10pontos
5.1 5pontos
B
6. 20pontos
7. 20pontos
100pontos
103
Ficha formativa
3. Indica os atores deste excerto e faz a sua caracterização.
4. Explicita, com base no último parágrafo, as considerações finais do cronista.
5. Identifica os recursos expressivos nas seguintes frases.
a) «[…] pelos fidalgos e cidadãos» (l. 14);
b) «Ó que fremosa cousa era de veer!» (l. 27).
5.1 Explicita o valor expressivo presente na alínea a.
B
Crónica – Considerada como narrativa historiográfica, a crónica medieval é um ante-
QBTTBEPEBNPEFSOBIJTUPSJPHSBåByDSØOJDBGB[QSFWBMBDFSBEJOÉNJDBEPTFWFOUPT
como princípio que rege uma construção narrativa […] normalmente respeitando uma
ordenação cronológica; o relato desses eventos, nem sempre apoiado no testemunho
dos documentos (quando não existem ou escapam ao conhecimento do cronista) pode
ser completado por uma discreta ou evidente ficcionalização, sobretudo quando está
em causa aquele que foi um dos propósitos da crónica medieval: proceder ao destaque
de um herói (rei, guerreiro, etc.), cujo trajeto pessoal e histórico comanda o desenvolvi-
mento da crónica.
Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, Dicionário de narratologia, 6.ª edição,
Coimbra, Livraria Almedina, 1998, pp. 87-88
6. De acordo com o teu estudo dos excertos da Crónica de D. João I e após a leitura da
definição acima, prova que Fernão Lopes foi inovador nas suas crónicas, em vários
aspetos.
7. Explica porque é que a Crónica de D. João I é considerada uma «narrativa historiográ-
fica».
Grupo II
Lê o texto seguinte.
Nasce uma cidade
A capital portuguesa é uma das mais ancestrais cidades do mundo, e ao Tejo o deve:
o estuário é o melhor abrigo natural para barcos na Europa Ocidental e sempre esteve
rodeado de terras férteis. Quem foram os primeiros alfacinhas?
Lisboa é tão velha que a origem do
próprio nome se perdeu no tempo. Os
gregos antigos acreditavam que se cha-
mava Olissipo (ou Olissipona) por ter sido
criada por Ulisses, quando o lendário
herói navegou para oeste depois de aju-
dar a conquistar Troia. Antes disso, no
entanto, por cá andavam os fenícios, e é
bem mais provável que Olissipo descen-
desse de allis ubbo, a expressão fenícia
para «porto seguro», em homenagem
às extraordinárias condições naturais
da boca do Tejo para as suas viajadas
embarcações. Nessa altura, já os tartés-
sios – a primeira civilização na Europa
Ocidental – a teriam, certamente, bati-
zado: o sufixo -ipo, de Olissipo, era muito
comum naquele povo que reinou no sul
5
5
10
15
PROFESSOR
GrupoI
A
1. Aos habitantes de Lisboa foi-lhes
ordenado que recolhessem a maior
quantidade de mantimentos pos-
sível, nomeadamente pão e carne.
Além disso, foram organizados gru-
pos armados para assegurarem o
patrulhamentodosmurosdacidade.
2.Osmantimentosarmazenadosnão
foram suficientes tendo em conta o
número de pessoas que posterior-
menteserefugiaramnacidade.
3.OsatoresdesteexcertosãooMes-
treeopovodeLisboa.OMestreédes-
crito como cuidadoso, bom gestor
e preocupado com a segurança da
cidade. O povo é caracterizado como
um todo que age em função das von-
tades do Mestre, mas também em
prol da segurança da cidade e dos
seusfamiliares.
4. Perante a iminente chegada do
rei de Castela, o narrador, ironica-
mente, tece considerações sobre a
audácia de querer cercar e tomar
tão nobre cidade como era Lisboa
(historicamente Lisboa foi cercada
apenas duas vezes: uma por Afonso
Henriques, para a tomar dos Mouros,
eesta).
5.a)enumeração;b)ironia.
5.1 Com recurso à enumeração,
sublinha-se que todos (nobres e
povo) estavam empenhados na de-
fesadeLisboa.
B
6. A crónica de Fernão Lopes é ino-
vadora quanto ao destaque que dá
às figuras (atores), pois além de des-
tacar uma figura individual, neste
caso D. João I, dá, pela primeira vez,
vozaumafiguracoletiva:opovo,que
age em defesa do Mestre de Avis e
do reino, dando passos tímidos na
afirmação da consciência coletiva
de um povo. Assim, como grande
inovação em Fernão Lopes, regista-
-seofactodeoindividualeocoletivo
povoarem a sua obra e contribuírem
paraadinâmicadanarrativa.
7. A obra de Fernão Lopes é conside-
rada uma narrativa historiográfica,
pois tem como objetivo narrar a vida,
de forma dita objetiva, de um rei,
respeitando a ordem cronológica
dos acontecimentos, baseando-se
em documentos oficiais, mas com
alguma ficcionalização, para tornar
a narrativa mais apelativa e atingir
o objetivo de enaltecer uma figura,
nestecasoD.JoãoI.
104 Unidade 2 // FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I
da Península Ibérica. Há ainda quem diga
que a palavra deriva dos primeiros nomes
dados ao Tejo: Lúcio ou Lisso. Os roma-
nos, esses, limitaram-se a adaptar o nome
que vinha de trás, dando-lhe a designação
completa de Municipum Cives Romano-
rum Felicitas Julia Olisipo. No meio de
tantas dúvidas, há uma certeza: seja qual
for a verdadeira origem do nome, Lisboa
deve ao Tejo a sua fundação.
A Península Ibérica recebeu os imi-
grantes originais há mais de um milhão
de anos: caçadores-coletores, provavel-
mente da espécie Homo erectus, que nos
milénios seguintes aprenderam a usar
ferramentas, caçavam porcos selvagens e
coelhos e praticavam canibalismo.
No Neolítico, quando o homem se
aventurou pela agricultura e abandonou
os hábitos nómadas, o estuário do Tejo era
um dos locais com as condições perfeitas
para a nova vida. Na região da Grande Lis-
boa, ainda hoje se mantêm de pé menires
e antas com quase sete mil anos – as mais
velhas do mundo, arriscam alguns histo-
riadores.
O enorme rio era um riquíssimo viveiro
de peixes e moluscos, muito apreciados
nessa era; a sua salinidade, esticada até
algumas dezenas de quilómetros a mon-
tante da foz, era compensada pelos incon-
táveis afluentes, que forneciam a preciosa
água doce e, nesse tempo, potável; as ter-
ras que rodeavam o estuário revelaram-se
particularmente férteis; e, claro, o clima
ameno (comparado com o forno do norte
de África e o gelo do norte da Europa)
facilitava a vida aos habitantes da zona.
Então chegaram os fenícios. Cerca de
1300 ou 1200 anos antes de Cristo, o
ancestral povo de marinheiros, oriundo do
território hoje ocupado pelo Líbano, pela
Síria, por Israel e pela Palestina, conside-
rou o estuário do Tejo um fantástico porto
natural para os seus galeões a remos. Por
duas excelentes razões: não só podiam
parar por aqui e reabastecer-se no cami-
nho para a Cornualha, no sul da Inglaterra
(região com a qual tinham lucrativos laços
comerciais), como o rio, nessa altura per-
feitamente navegável até muito para o
interior, lhes oferecia uma oportunidade
de negócio com as várias tribos ribeirinhas
a montante. A partir desse momento, Allis
Ubbo não mais parou de crescer.
Os mercadores da Antiguidade trouxe-
ram com eles conhecimentos que molda-
ram a região para os milénios seguintes,
tal como novas técnicas de produção de
vinho e azeite. Além disso, alteraram as
técnicas de construção das habitações,
que deixaram de ser redondas ou ovais e
passaram a quadradas e retangulares.
L.R./A.R., «Nasce uma cidade»,
in Superinteressante, n.º 192, abril de 2014
(texto adaptado)
1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1 a 1.6, seleciona a opção que te permite
obter uma afirmação correta.
1.1 Segundo o narrador do texto, o nome da cidade de Lisboa deve-se
(A) aos fenícios que vieram depois do mítico Ulisses.
(B) ao mítico Ulisses que fundou a cidade, segundo os gregos.
(C) aos fenícios que vieram antes do mítico Ulisses.
(D) aos tartéssios que povoaram Lisboa antes dos fenícios.
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80
COTAÇÕES
GrupoII
1. 30pontos
2. 20pontos
50pontos
GrupoIII
50pontos
105
Ficha formativa
1.2 O referente do pronome pessoal forma de complemento direto «a» (l. 16) é
(A) «primeira civilização».
(B) «Europa Ocidental».
(C) «Lisboa».
(D) «Troia».
1.3 Neste artigo, apresenta-se ao leitor
(A) a história da cidade de Lisboa.
(B) a origem da palavra «Lisboa» e a influência dos povos que habitaram a
cidade.
(C) o povoamento primitivo de Portugal.
(D) BJNQPSUÉODJBEPSJP5FKPQBSBPEFTFOWPMWJNFOUPEF1PSUVHBM
1.4 Na frase «Então chegaram os fenícios» (l. 57), o elemento destacado desempe-
nha a função sintática de
(A) complemento direto.
(B) predicativo do complemento
direto.
(C) predicativo do sujeito.
(D) sujeito.
1.5 Na frase «[…] considerou o estuário do Tejo um fantástico porto natural»
(ll. 61-63), o elemento destacado desempenha a função sintática de
(A) complemento direto.
(B) predicativo do complemento
direto.
(C) predicativo do sujeito.
(D) complemento oblíquo.
1.6 Na frase Os fenícios tinham Lisboa por cidade estratégica, o elemento desta-
cado desempenha a função sintática de
(A) complemento direto.
(B) predicativo do sujeito.
(C) predicativo do complemento direto.
(D) complemento agente da passiva.
2. Retoma o primeiro texto que leste e identifica os processos fonológicos ocorridos na
evolução das seguintes palavras:
a) «batees» (l. 4)  batéis b) «boom» (l. 23)  bom
Grupo III
Os atores (individuais e coletivos) e a afirmação da consciência coletiva são duas temáti-
cas centrais da Crónica de D. João I.
Partindo do estudo da obra de Fernão Lopes, redige uma exposição, entre cento e vinte e
cento e cinquenta palavras, sobre estas temáticas, fundamentando a tua perspetiva com
exemplos significativos.
Organiza a informação de forma coerente e bem estruturada. No final, revê o teu trabalho.
PROFESSOR
GrupoII
1.1(D);
1.2(C);
1.3(B);
1.4(D);
1.5(B);
1.6(C).
2.
a) sinérese (fusão das vogais «ee»
que dão origem ao ditongo «ei» por
semivocalizaçãodasegunda);
b)crasedevogais.
GrupoIII
Tópicosderesposta:
“3FAD7E;@6;H;6G3;E$7EFD767iH;E
ÁlvaroPais,Pajem,reideCastela);
“3FAD5A7F;HA'AHA
“@AH;6367@37E5D;F363DHAL37EF3
entidade (Povo) até então anónima e
ignorada;
“ D787D~@5;3 uE 3{Š7E 6A 'AHA 3E
quais, embora individualizadas (os
que trazem lenha para queimar os
muros do paço; os que passam fome
em Lisboa…), funcionam como um
todo que luta pela identidade nacio-
nal.
3
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Farsa de Inês Pereira (integral)
t Caracterização das personagens.
t Relações entre as personagens.
t Representação do quotidiano.
t Dimensão satírica.
t Linguagem, estilo e estrutura:
– características do texto dramático;
– a farsa: natureza e estrutura da obra;
– recursos expressivos.
LEITURA
Textos informativos.
COMPREENSÃO DO ORAL
Reportagem.
Registos áudio e audiovisuais.
EXPRESSÃO ORAL
Apreciação crítica.
ESCRITA
Exposição sobre um tema.
Apreciação crítica.
GRAMÁTICA
Funções sintáticas: complemento do nome.
GIL VICENTE
FARSA DE INÊS PEREIRA
Pieter Brueghel, Provérbios flamengos, 1559 (pormenor).
mensagens
Maria do Rosário Pedreira
Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas e foi professora
durante cinco anos, o que a influenciou a escrever para jovens.
Ingressou na carreira editorial em 1987, sendo atualmente
responsável pelo lançamento de novos autores portugueses.
Escreve poesia, ficção e literatura juvenil, tendo ainda um
blogue dedicado aos livros.
108
Por o dedo na ferida
Nos anos 1970, quando também eu estudei a
Farsa de Inês Pereira, a escola era muito diferente da
de hoje: mais autoritária, mais disciplinada e, provavel-
mente, mais triste. Tínhamos de pensar duas vezes antes
de abrir a boca (não fosse sair asneira e vir aí castigo)
e, enquanto o professor falava, nem um pio (quase se
ouvia uma mosca na sala, se lá estivesse alguma). Ler Gil
Vicente foi, por isso, uma lufada de ar fresco: ultrapas-
sados os obstáculos iniciais daquela língua arcaica com
borrifos de castelhano (o que, aliás, aconteceu muito
mais depressa do que supúnhamos), não só podíamos
rir à gargalhada na sala sem sermos repreendidos, mas
também o facto de pronunciarmos em voz alta, diante
de toda a turma, palavras como «caganeira» nos fazia
provar uma fatia da liberdade que só chegaria inteira
uns anos depois.
O teatro – de que Gil Vicente é uma espécie de pai
em Portugal – é fantástico também por causa disso:
porque dá a quem representa e a quem escreve a liber-
dade de ser outras pessoas e de dizer muitas verdades
inconvenientes que, olhos nos olhos, não teriam sequer
coragem de sussurrar.
Nesse sentido, Gil Vicente foi mesmo um desbocado
que não poupou ninguém: avarentos, adúlteros, padres
ou ladrões; trabalhando na corte como uma espécie de
animador cultural e desempenhando as funções de dra-
maturgo, encenador e ator, nunca se coibiu perante os
monarcas que o alimentavam de, nas suas peças, criticar
duramente nobreza e clero e de pôr o dedo na ferida,
recorrendo a um notável sentido de humor que ainda
hoje é capaz de desatar o riso nos leitores. E porquê?
Pois bem, é que tudo o que o mestre escreveu perma-
nece atual, como se não tivessem passado entretanto
séculos: os padres que praticam abusos, os maridos que
trancam as mulheres em casa e não as deixam ter vida
própria, os especuladores que enriquecem à custa do
trabalho e da ignorância alheios, os comerciantes que
roubam descaradamente os clientes. A esse título, o
enredo da Farsa de Inês Pereira quase dava uma tele-
novela: rapariga interesseira troca rapaz que realmente
a ama por um sedutor que lhe há de desgraçar a vida.
Duas coisas tornam, porém, este texto grande litera-
tura: primeiro, a reviravolta surpreendente em que Gil
Vicente transforma a vítima em carrasco, permitindo a
Inês emendar a mão; depois, a forma com que se apre-
senta o conteúdo: versos que são um prodígio (mais de
mil!), palavras ricas e belíssimas, uma rima irrepreensí-
vel. Obra de génio, em suma.
Maria do Rosário Pedreira
(Texto inédito, 2014)
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cruzadas
Se nao estou em erro
Se não estou em erro, o meu primeiro contacto
com Gil Vicente ocorre no final da década de 80.
Eu teria mais ou menos a vossa idade e, talvez, um sen-
tido estético bem mais sofrível que os anos 80 não pou-
param a ninguém. Ninguém mesmo! Creio que terá sido
então com a Farsa de Inês Pereira, e uns bons anos antes
de O Auto da barca do inferno me ter ensinado impro-
périos que ainda hoje uso no trânsito, que me estreei na
obra do mais conceituado dramaturgo nacional.
Fiquei rendido, desde logo. Impressionado, por
exemplo, com o facto de uma obra do século XVI ser
tão atual. Garanto-vos que, para esta farsa ser uma série
norte-americana, daquelas que vocês tanto gostam,
Inês Pereira só precisaria de uma atualização de guarda
-roupa. Umas leggings, por exemplo. E era moça para
tirar um número pouco saudável de selfies. No resto,
a Inês Pereira do século XVI seria a Inês Pereira do
século XXI. E quem diz Inês Pereira (e eu digo), diz
a mãe da rapariga, os dois maridos (eu avisei que era
moderno), Pero Marques e Brás da Mata, ou os judeus
casamenteiros, Latão e Vidal, de seu nome. Se ainda
não conhecem, vão, ao longo das vossas vidas, conhecer
umas quantas Inês Pereira e uns poucos Brás da Mata.
É certinho!
Além de atual, a Farsa de Inês Pereira fascina por dis-
parar em todas as direções, não poupando instituições
(olá, clero; olá, casamento), nem géneros (olá, homens;
olá, mulheres). A sociedade da época leva mesmo muita
pancada da pena satírica de Gil Vicente, mas não de
forma direta (como as minhas ofensas no trânsito). Não
se deixem enganar: há muita subtileza em Gil Vicente.
Muita mesmo. E uma gestão exemplar da pancada
dada, até porque o senhor tinha de se cruzar com toda
aquela gente que ridicularizara. Bom, mas, para verem
do que falo, só mesmo lendo e digerindo este nosso Gil
Vicente. A sério, ele não se importa.
E para terminar: uma confidência. Embora Gil
Vicente me tenha conquistado de imediato, a nossa
relação não esteve imune a pequenas crises. A maior,
corria o ano de 1995, ainda vocês não eram nascidos, foi
quando o Gil Vicente Futebol Clube venceu o Benfica
no Estádio da Luz, por 1-0. Golo de Makpoloka Man-
gonga, no início da segunda metade. O meu fascínio
por Gil Vicente sofreu um rombo de que julguei ser
impossível recuperar. Sem qualquer culpa, claro, mas a
mente humana é o que é e consegue estruturar injusti-
ças deste calibre. O arrufo lá acabou por não durar. Dias
mais tarde, fui ao dentista, e o que encontro na mesa
onde se reúne o material de leitura para os pacientes que
aguardam a sua vez? Ela mesma: a Farsa de Inês Pereira.
Escusado será dizer que, perdida entre revistas com
meses, se tratava, de longe, da possibilidade mais atual.
E, ainda mais escusado será dizer, foi a que escolhi.
Gil Vicente pode ter sido um autor do século XVI,
mas a sua obra será sempre da época em que a lermos.
Fernando Alvim
(Texto inédito, 2014)
Fernando Alvim
Humorista, radialista e apresentador de televisão. Iniciou
a sua atividade profissional em 1991, com 17 anos, e
desde aí tem participado em inúmeros programas de
rádio e televisão. É autor de vários livros e criador de
revistas, de festivais e de um canal de televisão online.
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110 Unidade 3 // GIL VICENTE
Contextualização histórico-literária
Textos e obras
1502
Monólogo do vaqueiro, Gil Vicente (1.ª obra).
1505
Quem tem farelos?, Gil Vicente.
1509
Auto da Índia, Gil Vicente.
1514
Comédia do viúvo, Gil Vicente.
1516
Garcia de Resende publica o Cancioneiro geral, que reúne
as composições poéticas produzidas nas cortes de
D. Afonso V (1438-1481).
1517
Auto da barca do inferno, Gil Vicente.
1518
Auto da barca do purgatório, Auto da alma, Gil Vicente.
1519
Auto da barca da glória, Gil Vicente.
1523 e 1525
Farsa de Inês Pereira, Farsa do juiz da Beira, Gil Vicente.
1527
A comédia Os estrangeiros, em prosa, surge talvez como
a primeira obra de Sá de Miranda e a primeira comédia
clássica portuguesa.
1528
Auto da feira, Gil Vicente.
1536
Floresta de enganos, Gil Vicente
(última obra de que se tem conhecimento).
Publicação da Gramática da linguagem portuguesa
(primeira gramática portuguesa).
Datas e acontecimentos
1465
Nascimento de Gil Vicente (data provável).
1477
D. João II assume o trono após abdicação do pai.
1481
Morte de D. Afonso V.
1492
Chegada de Colombo à América.
1495
D. Manuel I assume o trono.
1498
Vasco da Gama chega à Índia por via marítima.
1506
Massacre de Lisboa (autos de fé). Seguem-se
as conversões forçadas dos judeus.
1515
D. Manuel I confia ao seu embaixador em Roma
a missão secreta de pedir ao papa a permissão
de estabelecer a Inquisição em Portugal.
1521
D. João III assume o trono.
1526
Sá de Miranda regressa de Itália e introduz em
Portugal novas composições poéticas: o soneto,
a canção, a sextina, as composições em tercetos
e em oitavas e os versos de dez sílabas.
1531
Grande terramoto de Lisboa (26 de janeiro).
1536
Estabelecimento da Inquisição em Portugal.
Gil Vicente terá morrido neste ano ou
posteriormente.
p
Goa, gravura do século XVI.
111
Contextualização histórico-literária
1. O autor
Gil Vicente, dramaturgo português (1465?-1536?) que frequentou as cortes régias de
D. Manuel I e D. João III (onde beneficiou da particular proteção de D. Leonor de Len-
castre). Compôs e fez representar nos meios palacianos cerca de meia centena de autos de
diversa natureza e alcance estético, em português e em castelhano. […]
Quem era Gil Vicente? Esta pergunta formulada vezes sem conta por estudiosos de
várias gerações permanece sem resposta fixa e credível. De entre todos os enigmas que
subsistem a este respeito, o mais intrigante é o que se prende com a possibilidade de Gil
Vicente, o dramaturgo, ter desempenhado, também sob proteção da mesma Leonor, a
profissão de ourives, em elevados níveis de qualificação e criatividade artísticas.
Apuracircunstânciadeamesmapessoaterexercido,emsimultâneo,duasatividadestão
diferentes, que requerem, cada uma delas uma aprendizagem e uma prática tão especiali-
zada e absorvente suscitou natural estranheza.
Com o intuito de esclarecer definitivamente a questão, Anselmo Braamcamp Freire
[…] estabeleceu uma base documental tendente a confirmar a coincidência de identidades
[…]. A base da suposição consistia no registo de nomeação de Gil Vicente para mestre da
Balança, na Casa da Moeda, contendo uma anotação (datável do século XVI), que parecia
dissolver todas as dúvidas: «Gil Vicente trovador, Mestre da Balança». […]
Contrariamente ao que possa parecer, porém, a questão não está resolvida. António
José Saraiva, por exemplo, […] coloca fundadas reservas à interpretação dos documentos
proposta por aquele biógrafo, salientando nomeadamente o facto de a célebre anotação
manuscrita,no documento queindicaGil Vicente,de formaunae abrangente,comopoeta
e ourives, ter sido aposta por mão estranha e, por isso, não fiável. […]
A aceitação generalizada da tese da identidade deve assim ler-se não como o resultado
concludente do esclarecimento arquivístico, mas como uma vontade de aceitação (talvez
demasiado precipitada) de uma circunstância excecional.
José Augusto Bernardes, Aníbal Pinto de Castro et al. (dir.),
Biblos: Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa, vol. 5, Lisboa, Verbo, 1995, p. 810
(texto adaptado)
2. A obra
Descontando as chamadas «obras meúdas», o leitor tem hoje acesso a 46 autos de Gil
Vicente, figurando quase todos […] na Copilaçam de todalas obras, editada pela primeira
vez em 1562, sob os auspícios de um dos filhos do autor, Luís Vicente, a quem é atribuído
grande número de emendas e correções livres e beneficiando ainda da intercessão de
outra filha, Paula Vicente, camareira da infanta D. Maria. Até que ponto Gil Vicente, ele
próprio, reviu e coordenou a sua obra é assunto ainda muito discutido, admitindo uns
uma intervenção profunda e sistemática e inclinando-se outros para uma maior responsa-
bilidade de Luís Vicente […].
Em 1586 a coletânea vicentina imprime-se de novo e embora os efeitos da censura
inquisitorial sejam nela muito mais visíveis, o texto surge, por vezes, mais completo e
cuidado.
José Augusto Bernardes, Aníbal Pinto de Castro et al. (dir.), op. cit., p. 814
(texto adaptado)
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Gravura de Gil Vicente.
Frontispício da Copilaçam de
todalas obras de Gil Vicente.
Primeira página da Copilaçam
de todalas obras de Gil Vicente.
112 Unidade 3 // GIL VICENTE
3. O contexto
Em Portugal, durante o primeiro terço do século XVI, o tra-
balho teatral recorta-se como prática autónoma, como atividade
pedida,favorecidaelimitada,comomercadoriaquesefaz,vende
e circula por espaços sociais cada vez mais alargados: câmaras
e capelas de paço por encomenda de reis e rainhas, conventos
e igrejas de cidade, casas de fidalgos, escolas. Uns ordenam e
outros representam. Emergem novos ofícios em busca de legi-
timação: autores e atores. Paga-se a quem faz, encomendam-se
produtos com prazos e medidas e o teatro tenta equilibrar oferta
e procura de arte.
Em Portugal, Vicente situa e processa um sistema de divisão
de trabalho que por séculos se repetiu, sem se aprender a produ-
zir-lhe alternativa. É uma formação clássica da história do teatro
e da língua, que pode durar até parecer natural e eterna.
A produção teatral de Vicente dura de 1502 a 1536. É o
tempodeapogeuda corteportuguesa comocentrodeum movi-
mento europeu de expansão que abrange três continentes: a
África,aÁsia,aAmérica.Éomomentohistóricoinvulgaremque
Lisboa se torna um lugar de produção de luxo e arte, com que só
rivalizam as cortes castelhana e francesa, ou a do Papa em Roma.
Se o autor dos autos é quem eu julgo e se as contas estão
certas, Vicente (talvez ourives de seu primeiro ofício) terá tra-
balhado no teatro dos trinta e dois aos sessenta e seis anos de
vida. No princípio do tempo manuelino, a atividade de Vicente
terá sido instigada, apoiada, paga por Lianor, viúva de João II
e irmã de Manuel I, protetora das artes e organizadora eventual de divertimentos da
corte. Morto o rei em 1521, sucede-lhe o filho João III, que, como o pai e a tia, manda
fazer teatro em casa. O último auto é de 1536, ano do estabelecimento da Inquisição
em Portugal. A coincidência pode não ser determinante. A nova instituição repressiva
apanhou Vicente velho demais para lhe poder mexer no corpo vivo.
[…]
Quase tudo o que hoje podemos conhecer vem apenas de alguns folhetos soltos e
da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, acabada de imprimir em 1562, fonte pós-
tuma e omissa, mas única de tal dimensão.
O tempo de Vicente é o do século um da tipografia e, ainda em vida do autor dos
autos, o teatro moderno começa a ser posto em letra de forma. Em 1516, o Cancio-
neiro geral imprime o primeiro documento conhecido de atividade teatral de Vicente:
a transcrição dos setenta e dois versos da sua ajuda no Processo de Vasco Abul. A seguir
vem o Auto de moralidade (Inferno), de cerca de 1517, que pode ser o primeiro exem-
plo de edição de texto de teatro em Portugal. Depois vieram outros impressos, mas
perderam-se muitos, deixando um rasto escasso de meia dúzia de espécies.
Osório Mateus, «Scilicet», in Estudos portugueses. Homenagem a António José Saraiva,
Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1990, pp. 428-430
José Malhoa, Retrato da
Rainha D. Leonor, 1926.
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113
Contextualização histórico-literária
CONSOLIDA
1. Após a leitura dos textos, responde a cada um dos itens de 1.1 a 1.8, selecionando a
opção correta.
1.1 Apesar de bastante estudada, a biografia de Gil Vicente é
(A) bastante conhecida.
(B) comprovada com vários documentos.
(C) misteriosa e inconclusiva.
(D) clara e objetiva.
1.2 O nascimento e a morte do dramaturgo situam-se entre
(A) 1480 e 1540.
(B) 1465 e 1540.
(C) 1470 e 1542.
(D) 1475 e 1565.
1.3 De 1502 a 1536, Vicente produziu
(A) cerca de trinta peças de teatro.
(B) à volta de quarenta peças de teatro.
(C) menos de quarenta peças de teatro.
(D) mais de quarenta peças de teatro.
1.4 A sua obra foi editada
(A) em vida.
(B) pela Inquisição.
(C) pelos seus filhos.
(D) pela sua esposa.
1.5 No século XVI, a arte de representação tornou-se
(A) empregadora.
(B) desnecessária.
(C) retrógrada.
(D) redundante.
1.6 O papel de Gil Vicente é relevante porque
(A) foi um ator versátil e consagrado na época.
(B) foi um agente fulcral em todo o processo teatral.
(C) trabalhou durante 34 anos.
(D) foi um autor versátil e consagrado na época.
1.7 O momento glorioso da corte e da economia portuguesas traduziu-se
(A) num retrocesso da cultura portuguesa.
(B) numa estagnação da cultura portuguesa.
(C) num apogeu da cultura portuguesa.
(D) num retrocesso e numa estagnação.
1.8 Os factos coincidentes em 1536 são
(A) a morte de Gil Vicente e o estabelecimento da Inquisição em Portugal.
(B) a morte de Gil Vicente e a edição da sua obra.
(C) as mortes de Gil Vicente e de D. Manuel.
(D) a morte de Gil Vicente e a publicação do Auto da visitação.
PROFESSOR
Leitura
7.1; 8.1.
MC
Consolida
1.1 (C); 1.2 (B); 1.3 (D); 1.4 (C); 1.5 (A);
1.6(B);1.7(C);1.8(A).
PowerPoint
Contextualização
114 Unidade 3 // GIL VICENTE
Pieter Brueghel, o Velho,
Doze provérbios, 1560 (pormenor).
4. Subgéneros do teatro vicentino I
ApardasfarsascontinuouGilVicenteaescreverautosreligiososetambémcomédias
etragicomédias.Adiferençaentreestasváriaspeças[estárelacionadacoma]ocasiãoem
queeramrepresentadas:asobrasdedevoção,nasmanhãsdeNatalouemqualqueroutro
dia solene; as farsas de folgar, comédias, etc., em serões – aqueles famosos serões do rei-
nado de D. Manuel, a que multidões de cortesãos acorriam ao entardecer e que Sá de
Miranda havia de recordar com saudade. Todas estas obras nos apresentam tipos reais,
visto que os segundos planos são formados pelo povo, o verdadeiro herói dos autos de
Vicente como o é das crónicas de Fernão Lopes.
Aubrey Bell, A literatura portuguesa (história e crítica),
Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1971, pp.148-149
(texto adaptado)
5. Subgéneros do teatro vicentino II
Auto é um nome de teatro. É uma atualização histórica qui-
nhentista, que em Vicente parece compreender o paradigma
comédias, farsas, moralidades e designa cerca de cinquenta pro-
duções teatrais sucessivas. Mas o nome auto desliza do teatro
paraatipografiaepodereferir-seaumimpresso.Assim,épreciso
distinguir dois usos da palavra: Auto/Auto. O primeiro é literal,
conserva mais presente a ligação etimológica com agir, designa
uma ação teatral. O segundo é metonímico e nomeia um docu-
mento impresso. A palavra refere coisas diferentes: primeiro o
teatro, os impressos depois.
Osório Mateus, «Scilicet», op. cit., 1990, p. 430
CONSOLIDA
1. Partindo dos excertos que acabaste de ler, completa o texto integrando as palavras
seguintes.
tdramático tpróprio timpresso tsubgéneros
tgénero t ação trepresentada tocasião
Para cada a) havia um b) de representação.
Auto, no tempo de Vicente, não é nome c) . Designa quer a d)
teatral e) quer o fólio f) em que o texto g)
circulava. Entende-se, desta forma, que o termo abarque também comédias, farsas,
e outros g) dramáticos.
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PROFESSOR
Leitura
8.1.
MC
Consolida
1.
a)ocasião;
b)género;
c)próprio;
d)ação;
e)representada;
f)impresso;
g)dramático;
h)subgéneros.
115
Contextualização histórico-literária
6. Estruturas externa e interna
A Farsa de Inês Pereira é a peça mais extensa da obra de Gil Vicente, sendo conside-
rada uma das obras-primas do autor.
Estrutura externa
Apesar de a farsa não ter qualquer divisão em atos e cenas, é possível estabelecer
várias «cenas», com a entrada e saída de personagens, como é típico do teatro vicentino.
Estrutura interna
A farsa estrutura-se a partir de quadros que se vão sucedendo, e que estão organiza-
dos da seguinte forma:
1. Vida de Inês, ainda solteira, com a mãe.
2. Conselhos de Lianor Vaz sobre o casamento.
3. Apresentação e entrada de Pero Marques.
4. Recusa da proposta de casamento por Inês.
5. Anúncio e entrada de um novo pretendente.
6. Casamento de Inês com o Escudeiro.
7. Desencanto com o casamento.
8. Viuvez de Inês Pereira.
9. Nova vida de casada com Pero Marques.
10. Concretização do desejo de Inês.
Todos estes quadros se sucedem com ausência de marcação temporal e consequente
inverosimilhança (com exceção da leitura da carta anunciando a morte de Brás da Mata,
três meses após a sua partida).
Exposição Conflito Desenlace
Desejo de Inês de
se libertar (pelo
casamento)
Proposta e recusa
de casamento com
Pero Marques
Novo pretendente e
casamento falhado
com o Escudeiro
Casamento com
Pero Marques
Concretização do
desejo de Inês
Quadros 1 e 2
– De «Renego deste
lavrar» (v. 3) até «e
esta é a concrusão»
(v. 169).
Quadros 3 e 4
– De «Leixemos isto,
eu venho» (v. 170)
até «e hão de vir
logo aqui» (v. 423).
Quadros 5, 6, 7 e 8
– De «Ou de cá»
(v. 424) até «pois
tam caro há de
custar» (v. 949).
Quadro 9
– De «Como estais
Inês Pereira»
(v. 950) até «não me
corte a madre o frio»
(v. 1123).
Quadro 10
– De «Marido assi
me levade» (v. 1124)
até «Pois assi se
fazem as cousas»
(v. 1157).
7. Teatro em verso
Estrofes Nove versos – nonas.
Rima abbaccddc (interpolada e emparelhada).
Métrica Predomina a redondilha maior («Re / ne / go / des / te / la / vrar»).
116 Unidade 3 // GIL VICENTE
Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira
F
arsa – é um género pertencente ao modo dramático que apresenta normalmente o
tema do engano. […]
A farsa enquanto género dramático centra-se no relacionamento humano, familiar
e amoroso, na oposição dos valores tradicionais e convencionais a valores individuais e
pessoais e no recurso frequente a um triângulo amoroso.
Teresa Gonçalves, in www.edtl.com.pt (texto adaptado, consultado em outubro 2014)
PONTO DE PARTIDA
1. Gil Vicente foi desafiado a escrever um texto dramático que ilustrasse um dito popular
muito comum na época: «Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube.»
1.1 Interpreta o seu sentido.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Farsa de Inês Pereira (1523)
Auto de Inês Pereira [farsa de folgar]*
. Feito
porGilVicente,representadoaomuitoaltoemui
poderoso rei dom João o terceiro, no seu convento
de Tomar. Era do Senhor de 1523. O seu argu-
mento é um exemplo comum que dizem: mais
quero asno que me leve que cavalo que me der-
rube [porquanto duvidavam certos homens de bom saber se o Autor fazia de si mesmo estas
obras, ou se as furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse scilicet1
. E
sobre este motivo se fez esta Farsa]. As figuras são as seguintes: Inês Pereira, sua Mãe, Lia-
nor Vaz, Pero Marques, dous judeus um chamado Latão e outro Vidal, um Escudeiro com
um seu Moço, um Ermitão.
Gil Vicente, As obras de Gil Vicente, direção científica de José Camões, vol. II,
Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, p. 559
1. A partir da leitura da primeira didascália, completa, no teu caderno, a tabela sobre o
contexto em que a farsa foi representada.
1.1 Atenta na imagem acima do pormenor do fólio de 1523 da peça vicentina que
vais estudar. Identifica as figuras do elenco da farsa, presentes no fólio.
Subgénero
dramático
Para quem foi
representada
Local de
representação
Ano de
representação
Desafio
* Dado importante que consta na
Copilaçam de 1562.
1 Scilicet: comprovativo.
Pormenor do fólio do frontispício
do Auto de Inês Pereira.
PROFESSOR
Oralidade
1.4.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 16.1.
Gramática
17.3; 18.1.
MC
NotaExplicativa
Inês Pereira é um dos raros autos
vicentinos de que sobreviveram dois
testemunhos impressos quinhen-
tistas, o primeiro num folheto de
datação incerta, mas seguramente
feitoapartirdaediçãooriginal[…],eo
segundonaCompilaçamde1562[…],
unânimesquantoaolocaleaoanoda
primeira representação – convento
deTomar,1523–peranteassembleia
sobre a qual pouco se sabe além
de que era presidida por D. João III.
Aqueles que, ao longo dos anos, se
interessarampelafixaçãotextualda
FarsadeInêsPereiraeconsideraram
por isso as duas edições quinhentis-
tas dão clara preferência ao texto
avulso. Quase sempre justificada –
quando o é – de forma sumária, tal
preferência parece ficar a dever-se
essencialmente à maior extensão
do texto do folheto, à presença mais
abundante de didascálias e ao maior
graudepormenorizaçãodestas.
CristinaAlmeidaRibeiro,Inês,Coleção
Vicente,Lisboa,Quimera,1991,p.3
PontodePartida
1.1 Mais vale algo de qualidade infe-
rior mas que apoie, do que algo de
qualidadesuperiorquefaçamal.
EducaçãoLiterária
1. Subgénero dramático: farsa. Para
quem foi representado: D. João III.
Localderepresentação:conventode
Tomar. Ano de representação: 1523.
Desafio: saber se Gil Vicente era o
verdadeiro autor das suas peças ou
se as copiava de outros; provérbio
muito comum na época que deu o
mote à dramatização: «Mais quero
asno que me leve que cavalo que me
derrube.»
1.1Escudeiro,InêsPereira,LianorVaz
eMãe.
117
Farsa de Inês Pereira
Sem casamento, que enfadamento…
Entra logo Inês Pereira e finge que está lavrando só em casa,
e canta esta cantiga:
Quien con veros pena y muere
qué hará cuando no os viere?1
Renego deste lavrar2
e do primeiro que o usou
ao diabo que o eu dou
que tam mau é d’aturar.
Oh Jesu que enfadamento
e que raiva e que tormento
que cegueira e que canseira.
Eu hei de buscar maneira
dalgum outro aviamento3
.
Coitada assi hei d’estar
encerrada nesta casa
como panela sem asa4
que sempre está num lugar.
E assi hão de ser logrados
dous dias amargurados
que eu posso durar viva
e assi hei d’estar cativa
em poder de desfiados5
.
Antes o darei ao diabo
que lavrar mais nem pontada
já tenho a vida cansada
de jazer sempre dum cabo6
.
Todas folgam e eu não
todas vem e todas vão
onde querem senam eu.
Ui que pecado é o meu
ou que dor de coração?
Esta vida é mais que morta
sam eu coruja ou corujo
ou sam algum caramujo
que nam sai senão à porta?
E quando me dão algum dia
licença como a bugia
que possa estar à janela
é já mais que a Madanela
quando achou a aleluia7
.
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Falado
InêsPereira
Mãe
Inês
Mãe
Inês
1 vv. 1-2: Quem com ver-vos pena e morre / que fará quando
vos não vir?
2 v. 3: odeio costurar.
3 Aviamento: solução.
4 v. 14: compara-se a objeto sem utilidade.
5 vv. 19-20: prisioneira a fazer travesseiros de franjas.
6 vv. 23-24: já estou cansada de estar no mesmo sítio.
7 vv. 34-38: quando me deixam ir à janela, pensam que sou
mais feliz que Madalena quando viu Cristo ressuscitado.
8 v. 52: Como tu estás! Esses teus pensamentos desproposi-
tados (para a época).
9 vv. 55-56: afirma que também ela se quer casar depressa,
mas a Mãe está a levar muito tempo em consenti-lo.
Vem a Mãe da igreja e não na
achando lavrando diz:
Logo eu adevinhei
lá na missa onde eu estava
como a minha Inês lavrava
a tarefa que lhe eu dei.
Acaba esse travesseiro.
Ui naceu-te algum unheiro
ou cuidas que é dia santo?
Praza a Deos que algum quebranto
me tire de cativeiro.
Toda tu estás aquela.
Choram-te os filhos por pão?
Prouvesse a Deos que já é rezão
de nam estar tam singela.
Olhade lá o mau pesar8
como queres tu casar
com fama de preguiçosa?
Mas eu mãe sam aguçosa
e vós dais-vos de vagar9
.
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118 Unidade 3 // GIL VICENTE
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10 vv. 60-62: dá tempo ao tempo.
11 v. 63: Quando menos esperares…
12 vv. 67-69: prefiro falar de casamento
a costurar.
13 Amarela: branca, pálida de susto.
14 v. 78: Nem sei como estou em mim.
15 Rei: rei D. João III.
16 Lançou mão de mi: quis agarrar-me.
17 v. 93: para rapaz era grande de mais.
18 vv. 94-96: deixei-me apalpar, pois
estava rouca para conseguir gritar.
19 vv. 97-100: o padre queria agarrar
Lianor para depois a absolver, e esta
não queria nada disso.
20 v. 106: quando viu que não conse-
guia levar avante os seus planos.
21 v. 112: vá para o inferno.
22 v. 122: e eu não estivesse rouca, gri-
taria.
23 Conhecer: jogo de sentido com a
palavra «conhecer» (ter relações
sexuais).
24 v. 140: a Mãe tem dificuldade em
acreditar em Lianor Vaz (carpir
consistia em arrancar cabelos e/ou
arranhar o queixo. Lianor não apre-
senta nenhuma dessas evidências).
25 v. 142: Lianor argumenta que não
tinha unhas para se arranhar, nem
cabelos para arrancar («tosquiada»).
26 v. 144: queixar-me, para quê? Não
terei eu juízo suficiente para me
defender?
27 vv. 146-147: um almocreve, que
passava com o animal de carga, foi a
sua salvação.
Ora espera assi vejamos.
Quem já visse esse prazer.
Cal-te que poderá ser
que ante Páscoa vem os Ramos.
Nam te apresses tu Inês
maior é o ano que o mês10
.
Quando te nam percatares11
virão maridos a pares
e filhos de três em três.
Quero-m’ora alevantar.
Folgo mais de falar nisso
assi Deos me dê o paraíso
mil vezes que nam lavrar12
.
Isto nam sei que o faz.
Aqui vem Lianor Vaz.
E ela vem-se benzendo.
Jesu que me eu encomendo
quanta cousa que se faz.
Lianor Vaz que é isso?
Venho eu mana amarela13
?
Mais ruiva que ùa panela.
Nam sei como tenho siso14
.
Jesu Jesu que farei?
Não sei se me vá a el rei15
se me vá ao cardeal.
E como? Tamanho é o mal?
Tamanho, eu to direi.
Vinha agora por ali
ò redor da minha vinha
e um clérigo mana minha
pardeos lançou mão de mi16
.
Nam me podia valer
diz que havia de saber
se era eu fêmea se macho.
Ui seria algum mochacho
que brincava por prazer.
Si mochacho sobejava17
.
Era um zote tamanhouço
e eu andava no retouço
tam rouca que nam falava18
.
Quando o vi pegar comigo
que me achei naquele perigo
assolverei nam assolverás
tomarei nam tomarás19
Jesu homem que hás contigo?
Mãe
Inês
Mãe
Inês
Mãe
Inês
Lianor Vaz
Mãe
Lianor
Mãe
Lianor
Mãe
Lianor
Mãe
Lianor
60
65
70
75
80
85
90
95
100
Irmã eu te assolverei
c’o breviairo de Braga.
Que breviairo ou que praga
que nam quero. Áque del rei.
Quando viu revolta a voda20
foi e esfarrapou-me toda
o cabeção da camisa.
Assi me fez dessa guisa
outro no tempo da poda.
Eu cuidei que era jogo
e ele dai-o vós ò fogo21
.
Tomou-me tamanho riso
riso em todo meu siso
e ele deixou-me logo.
Si agora ieramá
também eu me ria cá
das cousas que me dizia:
chamava-me luz do dia.
Nunca teu olho verá.
Se estivera de maneira
sem ser rouca bradara eu22
mas logo o demo me deu
cadarrão e peitogueira
cócegas e cor de rir
e coxa pera fugir
e fraca pera vencer.
Porém pude-me valer
sem me ninguém acudir.
O demo e não pode al ser
se meteu no corpo dele.
Mana conhecia-t’ele?
Mas queria-me conhecer23
.
Vistes vós tamanho mal.
Eu me irei ao cardeal
e far-lh’-ei assi mesura
e contar-lh’-ei a aventura
que achei no meu olival.
Mãe
Lianor
105
110
115
120
125
130
135
140
145
Mãe
Lianor
Nam estás tu arranhada
de te carpir nas queixadas24
.
Eu tenho as unhas cortadas
e mais estou trosquiada25
e mais pera que era isso
e mais pera que é o siso26
e mais no meo da requesta
veo um homem de ùa besta
que em vê-lo vi o paraíso27
.
Mãe
Lianor
Mãe
Lianor
119
Farsa de Inês Pereira 119
Farsa de Inês Pereira
Mãe
Lianor
E soltou-me porque vinha28
bem contra sua vontade
porém a falar verdade
já eu andava cansadinha.
Nam me valia rogar
nem me valia chamar
áque de Vasco de Fóis29
acudi-me como sóis.
E ele senam pegar30
:
mais mansa Lianor Vaz
assi Deos te faça santa.
Trama te dê na garganta.
Como isso assi se faz?
Isto nam releva nada31
tu nam vês que sam casada?
Deras-lhe màora boa32
e mordera-lo na coroa.
Assi fora escomungada.
Nam lhe dera um empuxão
porque sou tam maviosa
que é cousa maravilhosa
e esta é a concrusão33
.
Gil Vicente, op. cit., pp. 559-564
150
155
28 v. 148: o padre soltou-me porque
vinha um almocreve a chegar.
29 v. 154: alferes-mor da Ordem de
Cristo, em Tomar, local de repre-
sentação da peça.
30 v. 156: ele não me largava.
31 v. 161: isso não tem importância
nenhuma.
32 v. 163: desses-lhe uma sova.
33 Concrusão: conclusão.
1. Apesar de, no texto, não haver indicações nesse sentido, é possível dividir o excerto em
três cenas.
1.1 Comprova a veracidade da afirmação, dividindo o excerto. Fundamenta a tua
opção de divisão.
2. Indica a ideia recorrente no monólogo de Inês e apresenta três fatores que a motivam.
Justifica a tua resposta com passagens textuais.
3. Faz a caracterização psicológica de Inês.
4. No diálogo de Inês com a Mãe, é visível o tipo de relacionamento entre ambas, bem
como a existência de dois pontos de vista.
4.1 Refere cada um dos pontos de vista.
4.2 Relaciona o papel da mãe neste excerto com o papel desempenhado pelas mães
nas cantigas de amigo. Fundamenta a tua resposta.
5. Lianor Vaz entra em cena afogueada e relata uma história que se passou na ida para
casa de Inês Pereira (vv. 76-169). Sintetiza-a.
6. Recolhe informações do texto sobre os costumes e o modo de vida das três personagens
femininas que permitam traçar o quadro do quotidiano quinhentista.
7. Identifica o recurso expressivo presente em cada alínea:
a) «E assi hão de ser logrados» (v. 16);
b) «Logo eu adevinhei / lá na missa onde eu estava / como a minha Inês lavrava / a tarefa
que lhe eu dei» (vv. 39-42).
7.1 Comenta o valor expressivo presente nos versos da alínea b).
GRAMÁTICA
1. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução das seguintes palavras:
a) olhade (v. 52)  olhai
b) ante (v. 60)  antes
c) ũa (v. 77)  uma
d) BREVIARIU-  breviairo (v. 103)
160
165
Caracterização das personagens
p. 147
FI
Representação do quotidiano
p. 141
FI
Fonética e fonologia
p. 38
FI
Recursos expressivos
pp. 334-335
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.1CenaI:monólogodeInês;
cena II: diálogo entre Inês e a Mãe;
cena III: diálogo entre Lianor Vaz
e a Mãe. Esta divisão baseia-se na
entradadaspersonagensemcena.
2.Aideiaéadecativeiro.Ostrêsfato-
ressãooconfinamentoaoespaçoda
casa, «que nam sai senão à porta?»,
a subjugação à autoridade materna,
«a tarefa que lhe eu dei», e a obri-
gação de trabalhar nos lavores,
«Renegodestelavrar».
3. Inês é uma jovem revoltada e in-
conformada por não poder fazer o
que quer, desejando libertar-se da
vidaqueleva.
4.1 Trata-se de um relacionamento
poucoamistoso.Têmpontosdevista
díspares: Inês detesta as tarefas
domésticasedesejacasar-separase
libertar do jugo da mãe («Prouvesse
a Deos que já é rezão / de nam estar
tam singela»); a mãe, pelo contrário,
acusaInêsdeserpreguiçosaeapres-
sada para se casar («como queres tu
casar / com fama de preguiçosa?»;
«NamteapressestuInês»).
4.2 Também aqui, à semelhança das
cantigas de amigo, a mãe tem um
papel de confidente, conselheira e
de autoridade (note-se que a figura
paternaestáausente).
5. Lianor relata o seu encontro com
um clérigo que desejava um encon-
tro íntimo com ela. Apesar de ini-
cialmente se dizer indignada por tal
relacionamento, subentende-se que
o clérigo foi bem-sucedido nos seus
intentos. Lianor, perante Inês e a
mãe,deixatranspareceroprazerque
talexperiêncialheproporcionou.
6. Inês está a «lavrar» (bordar/coser)
um travesseiro, provavelmente, pa-
ra o enxoval; a Mãe vem da missa.
Estas personagens contribuem para
conhecermososhábitosecostumes
doquotidianodeQuinhentos.
7. a) interrogação retórica; b) ironia.
7.1 Com a ironia, a mãe pretende
mostrar a Inês que já adivinhava que
ela não estava a trabalhar como era
suposto.
Gramática
1. a) síncopeesinérese; b) paragoge;
c) epêntese;d)metátese.
120 Unidade 3 // GIL VICENTE
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Pretendente apresentado e logo rejeitado…
Leixemos isto, eu venho
com grande amor que vos tenho
porque diz o exemplo antigo
que amiga e bom amigo
mais aquenta que o bom lenho.
Inês está concertada
pera casar com alguém?
Até ’gora com ninguém
nam é ela embaraçada.
Em nome do anjo bento
eu vos trago um casamento
filha nam sei se vos praz.
E quando Lianor Vaz?
Já vos trago aviamento1
.
Porém nam hei de casar
senam com homem avisado
inda que pobre e pelado
seja discreto em falar
que assi o tenho assentado.
Eu vos trago um bom marido
rico, honrado, conhecido.
Diz que em camisa vos quer2
.
Primeiro eu hei de saber
se é parvo se é sabido.
Nesta carta que aqui vem
pera vós filha d’amores
veredes vós minhas flores3
a discrição que ele tem.
Mostrai-ma cá quero ver.
Tomai. E sabeis vós ler?
Ui e ela sabe latim
e gramáteca e alfaqui
e sabe quanto ela quer4
.
[Lianor Vaz]
Mãe
Lianor
Inês
Lianor
Inês
Lianor
Inês
Lianor
Inês
Lianor
Mãe
170
175
180
185
190
195
200
1 Aviamento: pretendente pronto
a casar.
2 v. 191: pobre e sem dote.
3 vv. 194-196: carta cheia de
galanteios e lisonjas.
4 vv. 200-202: a Mãe exagera nas
qualidades da filha, pois quer
que ela se case.
5 Vossa mercea/me encomendo:
recomendo-me a vossa mercê.
6 Benza-vos Deos: que Deus vos
abençoe.
7 Bom jeito: tão bonita.
8 vv. 210-211: que a vossa mãe
se sinta feliz e enobrecida con-
vosco.
9 v. 218: diz que já a vira, o que é
mentira.
10 v. 219: é este que me vindes
oferecer?
11 vv. 220-221: lede a carta até
ao final, sem juízos de valor,
pois tenho a certeza de que ele
poderá ser vosso marido.
Lê Inês Pereira a carta, a qual diz assi:
Senhora amiga Inês Pereira:
Pero Marques vosso amigo
que ora estou na nossa aldea
mesmo na vossa mercea
me encomendo5
e mais digo:
digo que benza-vos Deos6
que vos fez de tam bom jeito7
bom prazer e bom proveito
veja vossa mãe de vós8
.
E de mi também assi
ainda que eu vos vi
estoutro dia de folgar
e nam quisestes bailar
nem cantar presente mi.
Na voda de seu avô
ou donde me viu ora ele9
?
Lianor Vaz este é ele10
?
Lede a carta sem dó
que inda eu sam contente dele11
.
Inês
Lianor
205
210
215
220
CD 1
Faixa n.o
16
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 16.1;
16.2.
Gramática
18.3; 18.4.
Oralidade
2.1.
Escrita
10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3;
12.4; 13.1.
MC
121
Farsa de Inês Pereira
225
230
235
240
245
250
255
260
265
270
275
280
285
290
Torna Inês Pereira a prosseguir com a carta:
Nem cantar presente mi
pois Deos sabe a rebentinha
que me fizestes então.
Ora Inês que hajais benção
de vosso pai e a minha
que venha isto a concrusão12
.
E rogo-vos como amiga
que samicas vós sereis
que de parte me faleis
antes que outrem vo-lo diga13
.
E se nam fiais de mi
esteja vossa mãe aí
e Lianor Vaz de presente.
Veremos se sois contente
que casemos na boa hora.
Dês que nasci até agora
nam vi tal vilão com’este
nem tanto fora de mão14
.
Nam queiras ser tam senhora15
casa filha que te preste
nam percas a ocasião.
Queres casar a prazer
no tempo d’agora Inês?
Antes casa em que te pês
que não é tempo d’escolher.
Sempre eu ouvi dizer:
ou seja sapo ou sapinho
ou marido ou maridinho
tenha o que houver mister16
este é o certo caminho.
Pardeos amiga essa é ela17
:
mata o cavalo de sela
e bô é o asno que me leva.
Filha no Chão do Couce18
quem nam puder andar choute19
e mais quero quem me adore
que quem faça com que chore.
Chamá-lo-ei?
Si
venha e veja-me a mi.
Quero ver quando me vir
se perderá o presumir
logo em chegando aqui
pera me fartar de rir.
Touca-te bem se vier
pois que pera casar anda.
Essa é boa demanda20
.
Cerimónias há mister
homem que tal carta manda.
Eu o estou cá pintando21
sabeis mãe que eu adevinho?
Deve ser um vilanzinho.
Ei-lo se vem penteando
será com algum ancinho.
Aqui vem Pero Marques, vestido como filho
de lavrador rico, com um gabão azul dei-
tado ao ombro, com o capelo por diante,
e vem dizendo:
Homem que vai onde eu vou
nam se deve de correr
ria embora quem quiser
que eu em meu siso estou.
Nam sei onde mora. Aqui
olhai que me esquece a mi.
Eu creo que nesta rua
esta parreira é sua
já conheço que é aqui.
ChegaPeroMarquesaondeelasestãoediz:
Digo que esteis muit’embora22
.
Folguei ora de vir cá
eu vos escrevi de lá
ùa cartinha senhora
assi que e de maneira23
.
Tomai aquela cadeira.
E que val aqui ùa destas?24
Oh Jesu que Jão das Bestas25
olhai aquela canseira26
.
12 v. 227: que o casamento se
realize.
13 Me faleis / antes que outrem
vo-lo diga: que me respondas
apenas a mim, antes que surja
outro pretendente.
14 v. 239: tão disparatado.
15 v. 240: conselho da Mãe para
não ser tão orgulhosa e vaidosa.
16 v. 250: tenha ele o que for pre-
ciso para ser um bom marido,
ou seja, tenha dinheiro.
17 v. 252: isso é que é a verdade!
18 Chão de Couce (distrito de
Leiria).
19 v. 256: quem não puder ter
muito, contente-se com pouco.
20 v. 267: só faltava essa.
21 Pintando: imaginando.
22 v. 284: forma de saudação:
«Espero que estejais bem».
23 v. 288: e parece que.
24 v. 290: para que serve isto
(a cadeira)?
25 v. 291: que simplório.
26 v. 292: a atrapalhação de Pero
Marques para se sentar (pro-
vavelmente nunca teria visto
aquele objeto).
29
o
er16
:
oute19
re
ore.
Inês
Lianor
Mãe
Lianor
Inês
Mãe
Inês
Mãe
Pero Marques
Inês
122 Unidade 3 // GIL VICENTE
27 Morgado: entenda-se «mor
gado» (a maior parte do gado).
A Mãe entende que ele tinha
herdado um «morgado».
28 v. 302: isso seria ouro sobre
azul, ou seja, perfeito.
29 v. 303: tenho gado que sobeja.
30 v. 311: eu também sou homem
de bem.
31 v. 313: não há ninguém melhor
para ela do que eu.
32 v. 317: devem estar debaixo das
outras coisas.
33 v. 318: (referindo-se ao capuz)
segurai isto.
34 vv. 321-324: depois de tirar tudo
do capuz do gabão [(contas de
vidro (perlas), chocalhos, um
novelo, peias (cordas para segu-
rar os animais)], não encontra as
peras.
35 vv. 331-334: Inês diz que o pre-
sente vinha fresco (novo, bom).
Pero entende o sentido literal do
adjetivo e responde que vinham
quentes, pois vinham no fundo
do capelo.
36 vv. 335-336: interessada que o
casamento se concretize, a Mãe
deixa-os sozinhos.
37 vv. 337-338: vou-me embora, não
se lembre alguém de inventar al-
go ruim sobre mim.
38 v. 341: o atrevimento do galante.
39 v. 344: homem sério, honesto,
decente.
40 v. 345: desafabo de Inês – como é
atrasado, antiquado, retrógrado.
41 v. 348: este é diferente dos outros
(para pior, no entendimento de
Inês).
42 v. 358: Inês rejeita-o.
43 vv. 360-361: não vos incomoda-
rei mais, embora me cause bas-
tante dor.
44 v. 363: enquanto não quiserdes
[casar comigo].
45 vv. 364-367: que mulheres são
estas, que quando se pensa que
está tudo certo/encaminhado,
elas escarnecem de nós.
46 v. 369: por Deus, que cabeça a
minha – Pero Marques pergunta
a Inês se lá deixou os haveres
(fato).
47 v. 372: dá pela falta da candeia
(vela).
48 v. 376: a simplicidade mais uma
vez de Pero Marques, que, ape-
sar de ter sido rejeitado, ainda
se preocupa com o bem-estar de
Inês.
49 v. 383: que agiria de outra forma.
50 v.385: comparaPeroajudeus,que
seriam igualmente sérios e come-
didos.
Mãe
Pero
Mãe
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Fresco vinha o presente
com folhinhas borrifadas.
Nam qu’elas vinham chentadas
cá no fundo no mais quente35
.
Vossa mãe foi-se, ora bem.
Sós nos deixou ela assi36
quant’eu quero-me ir daqui
não diga algum demo alguém37
.
E vós que havíeis de fazer
nem ninguém que há de dizer?
O galante despejado38
.
Se eu fora já casado
doutra arte havia de ser
como homem de bom recado39
.
Quam desviado este está40
.
Todos andam por caçar
suas damas sem casar
e este tomade-o lá41
.
Vossa mãe é lá no muro?
Minha mãe eu vos seguro
que ela venha cá dormir.
Pois senhora quero-m’ir
antes que venha o escuro.
E nam cureis mais de vir.
Virá cá Lianor Vaz
veremos que lhe dizeis.
Homem nam aporfieis
que nam quero nem me praz42
.
Ide casar a Cascais.
295
300
305
310
315
320
325
330
335
340
345
350
355
Assentou-se com as costas pera elas e diz:
Eu cuido que nam estou bem.
Como vos chamam amigo?
Eu Pero Marques me digo
como meu pai que Deos tem.
Faleceu perdoe-lhe Deos
que fora bem escusado
e ficámos dous heréus
perém meu é o morgado27
.
De morgado é vosso estado?
Isso veria dos céus28
.
Mais gado tenho eu já quanto29
e o mor de todo o gado
digo maior algum tanto
e desejo ser casado
prouguesse ao spírito santo
com Inês que eu me espanto
quem me fez seu namorado.
Parece moça de bem
e eu de bem er também30
.
Ora vós ide lá vendo
se lhe vem milhor ninguém31
a segundo o que eu entendo.
Cuido que lhe trago aqui
peras da minha pereira
hão d’estar na derradeira32
.
Tende ora Inês por i33
.
E isso hei de ter na mão?
Deitai as peas no chão.
As perlas pera enfiar
três chocalhos e um novelo
e as peas no capelo
e as peras onde estão?34
Nunca tal me aconteceu.
Algum rapaz mas comeu
que as meti no capelo
e ficou aqui o novelo
e o pentem nam se perdeu.
Pois trazi’-as de boa mente.
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
123
Farsa de Inês Pereira
Pero
Inês
Pero
Nam vos anojarei mais
inda que saiba estalar43
e prometo nam casar
até que vós nam queirais44
.
Estas vos são elas a vós
anda homem a gastar calçado
e quando cuida que é aviado
escarnefucham de vós45
.
Nam sei se fica lá a pea
pardeos bô ia eu à aldea46
.
Senhora cá fica o fato.
Olhai se o levou o gato.
Inda nam tendes candea47
.
Ponho per cajo que alguém
vem como eu vim agora
e vos acha só a tal hora
parece-vos que será bem48
?
Ficai-vos ora com Deos
çarrai a porta sobre vós
com vossa candeazinha
e sicais sereis vós minha
entonces veremos nós.
Pessoa conheço eu
que levara outro caminho49
.
Casai lá com um vilanzinho
mais covarde que um judeu50
.
Se fora outro homem agora
e me topara a tal hora
estando assi às escuras
falara-me mil doçuras
ainda que mais nam fora.
Gil Vicente, op. cit., pp. 564-571
360
365
370
375
380
385
390
Inês
1. Divide o excerto em cenas e resume o conteúdo de cada uma delas.
2. Explicita a intenção presente na seguinte fala da Mãe: «Ui e ela sabe latim / e gramá-
teca e alfaqui / e sabe quanto ela quer» (vv. 200-202).
3. Apresenta a tripla função da carta escrita por Pero Marques.
4. Clarifica a verdadeira intenção de Inês Pereira ao receber Pero Marques.
5. Caracteriza a personagem de Pero Marques.
5.1 Relaciona o ideal de marido para Inês com as características reais de Pero
Marques. Apresenta os aspetos diferenciadores.
6. Relata, por palavras tuas, o incidente das peras.
6.1 Identifica o tipo de cómico presente. Justifica a tua resposta.
7. Relaciona o monólogo final de Inês com a última fala de Pero Marques.
8. Identifica o recurso expressivo que percorre todo o discurso de Inês Pereira quando fala
com Pero Marques e explicita o seu valor expressivo.
8.1 Comprova a tua resposta com dois exemplos textuais.
Caracterização
das personagens
p. 147
FI
Os processos de cómico
p. 125
FI
Recursos expressivos
pp. 334-335
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. Cena I: «Leixemos isto, eu venho»
(v. 170) até «Chamá-lo-ei?» (v. 259)
– Lianor vem com uma proposta de
casamentoparaInês.Estamostra-se
ansiosa, mas também desconfiada
sobre o seu pretendente. Aceita ler
a carta de Pero Marques. Apesar de
não haver didascália, Lianor sai de
cena.
Cena II: Desde «Si» (v. 259) até «será
com algum ancinho» (v. 274) – Inês
aceita receber Pero Marques, com o
intuito de gozar com ele, enquanto a
Mãe, levando a sério o pretendente,
lhepedeparasearranjar.
Cena III: «Homem que vai onde eu
vou» (v. 275) até «já conheço que é
aqui» (v. 283) – monólogo de Pero
Marques em que, desnorteado, se
questiona sobre a morada certa de
InêsPereira.
Cena IV: «Digo que esteis muit’em-
bora» (v. 284) até «cá no fundo no
mais quente» (v. 334) – encontro de
Inês e Pero, em que é visível a sua
incompatibilidade. Novamente, sem
haver didascália, apercebemo-nos
de que a Mãe sai, deixando-os a sós.
CenaV:Desde«Vossamãefoi-se,ora
bem»(v.335)até«entoncesveremos
nós» (v. 381) – apesar das boas inten-
ções de Pero Marques, este é rejei-
tadoporInês.
2. A mãe põe em evidência a esper-
teza da filha que, para alcançar os
seusobjetivos,écapazdetudo.
3. A carta faz a primeira apresen-
tação da personagem, refere a sua
intenção de casamento e revela,
desde logo, a atitude jocosa de Inês
paracomestepretendente.
4.Averdadeiraintençãoégozarcom
ele: «logo em chegando aqui / pera
mefartarderir»(vv.263-264).
5.EmboraricoeapaixonadoporInês,
Pero revela-se pouco à vontade em
sociedade, um verdadeiro simplório.
5.1 ParaInês,oseumaridonãotemde
serrico,massersensatoesaberestar
em sociedade: «Porém nam hei de
casar / senam com homem avisado /
indaquepobreepelado/sejadiscreto
em falar» (vv. 184-187). Pero Marques
é o oposto do ideal de marido de Inês,
pois não é «avisado» nem «discreto»,
mostrando-seumsimplescampónio.
124 Unidade 3 // GIL VICENTE
GRAMÁTICA
1. Para responderes aos itens de 1.1 a 1.4, seleciona a única opção correta.
1.1 No verso «Cuido que lhe trago aqui» (v. 315) está presente uma oração subordinada
(A) adverbial causal.
(B) adverbial consecutiva.
(C) substantiva completiva.
(D) adjetiva relativa restritiva.
1.2 No verso «e ficou aqui o novelo» (v. 328) está presente uma oração
(A) coordenada explicativa.
(B) coordenada copulativa.
(C) subordinada adverbial temporal.
(D) subordinada adverbial final.
1.3 No verso «Pois trazi’-as de boa mente» (v. 330) está presente uma oração
(A) coordenada explicativa.
(B) coordenada copulativa.
(C) subordinada adverbial causal.
(D) subordinada adverbial concessiva.
1.4 No verso «Nam qu’elas vinham chentadas» (v. 333) está presente uma oração
subordinada
(A) adjetiva relativa restritiva.
(B) adjetiva relativa explicativa.
(C) substantiva completiva.
(D) adverbial causal.
ESCRITA
Apreciação crítica
1. Ouve com atenção o excerto do Programa 5 para a meia-noite.
1.2 Toma notas dos seguintes tópicos:
t nome da personagem;
tsemelhanças entre esta personagem
e Pero Marques;
ttipo de cómico das duas personagens.
2. Elabora uma apreciação crítica sobre o excerto,
seguindo o plano de texto apresentado.
Introdução:
1.º parágrafo – descrição sucinta do excerto.
Desenvolvimento:
2.º parágrafo – apresentação da personagem principal;
3.º parágrafo – semelhanças entre essa personagem e Pero Marques;
4.º parágrafo – tipo de cómico das duas personagens.
Conclusão:
5.º parágrafo – comentário crítico sobre a intemporalidade da personagem-tipo
retratada.
No final, revê o texto e aperfeiçoa-o se necessário.
SIGA
Coordenação e subordinação
pp. 327-328
FI
Os processos de cómico
p. 125
SIGA
Apreciação crítica
p. 312
PROFESSOR
(p.123)
6. Pero Marques, com a melhor das
intenções, quer presentear Inês
com peras que guardou no capuz
(«capelo»).Contudo,oseucapuzéum
verdadeiro «armazém», em que tudo
cabe: «peas» (cordas), «perlas», «três
chocalhos» e «um novelo». Inês, con-
trariada, ajuda-o, mas as peras não
aparecem.
6.1Cómicodesituação:aatrapalha-
ção de Pero Marques, o desagrado de
Inêseosobjetosque,muitoprovavel-
mente, caem em palco, contribuem
para uma situação que suscita o riso.
7. Enquanto Pero se preocupa com a
segurança de Inês por estar sozinha
e às escuras, esta, mais atrevida,
indigna-se por Pero Marques não
ter tentado aproveitar-se do facto
de estarem sós para lhe dizer «mil
doçuras», mostrando o seu lado
romântico.
8. Ironia. Os vários momentos iróni-
cos servem o propósito de troçar
de Pero Marques, dizendo o oposto
daquiloqueverdadeiramentepensa.
8.1 «O galante despejado» (v. 341) e
«Olhaiseolevouogato»(v.371).
Gramática
1.1(C);1.2(B);1.3(A);1.4(D).
Escrita
Sugestõesderesposta:
– programatelevisivodehumor;
– VítordoPenedo,quesemostrarús-
ticoedadoamal-entendidos;
– ambos herdaram o nome do pai; o
pai faleceu; têm comportamentos
simplórios;
– cómico de caráter: características
de personalidade provocam o riso;
– pelas suas qualidades (ingenui-
dade, simplicidade e falta de dis-
cernimento), a figura do pacóvio é
intemporal.
Link
Excerto do programa
5 para a meia noite
125
Ficha informativa
Os processos de cómico
Gil Vicente recorreu a várias técnicas de cómico para divertir os espectadores e,
simultaneamente, para cumprir a máxima latina ridendo castigat mores, «a rir se corri-
gem os costumes».
Na Farsa de Inês Pereira, o cómico tem dois objetivos essenciais:
tTFSWF EBEBBOBUVSF[BKPWJBMEBGBSTB QBSBQSPWPDBSPSJTPBUSBWÏTEPRVBMTF
«castigam» os costumes, os vícios;
tNBSDBPDMBSPDPOUSBTUFFOUSFBTQFSTPOBHFOTFBTTJUVBÎÜFTQPSFMBTWJWJEBT
Tipos de cómico
De situação
Resulta das circunstâncias da atuação da personagem que provocam o
riso, existindo uma inadequação entre a ação da personagem e a realidade
em que se encontra (situações de mal-entendidos, ignorância sobre certos
preceitos sociais e regras de convivência).
De caráter
Baseia-se na movimentação da personagem em palco que provoca o riso,
existindo uma inadequação entre a personagem e a sua própria realidade
(social, cultural…).
De linguagem
Corresponde ao vocabulário usado e ao próprio discurso da personagem,
que provocam o riso, existindo uma inadequação entre o código linguístico
e o contexto em que este se realiza (uso de registos de língua desajustados,
ironia, trocadilhos…).
CONSOLIDA
1. Visiona os excertos selecionados e identifica o(s) tipo(s) de cómico que predomina(m)
em cada um deles. Justifica a tua resposta.
1 2
FICHA INFORMATIVA N.O
1
PROFESSOR
Leitura
8.1.
Oralidade
1.3; 1.4; 2.1.
MC
Consolida
Sugestãoderesposta:
Excerto 1. Cómico de linguagem
–apersonagemqueixa-sedaque-
les que supostamente falam e
não fazem nada, fazendo exata-
menteomesmo.
Excerto 2. Cómico de caráter e
de situação – a personagem do
Nelo é hilariante só pela sua apa-
rência e também por não saber
estar adequadamente com os
outros,criandosituaçõesdemal-
-entendidos.
Vídeo
Gato Fedorento
Link
Nelo e Idália
PowerPoint
Ficha informativa n.o
1
126 Unidade 3 // GIL VICENTE
126 Unidade 3 // GIL VICENTE
PONTO DE PARTIDA
1. Ouve a rubrica radiofónica de Mafalda Lopes da Costa, Lugares comuns e toma nota da
origem do significado de «fazer judiarias».
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Aparece um escudeiro e é solteiro…
Pero Marques foi-se já?
Pera que era ele aqui?
Nam te agrada ele a ti?
Vá-se muit’ieramá
que sempre disse e direi:
mãe eu me nam casarei
senam com homem discreto.
E assi vo-lo prometo
ou antes o leixarei.
Que seja homem mal feito
feo, pobre, sem feição
como tiver descrição
nam lhe quero mais proveito.
E saiba tanger viola
e coma eu pão e cebola1
siquer ùa cantiguinha
discreto feito em farinha2
porque isto me degola.
Sempre tu hás de bailar
e sempre ele há de tanger?
Se nam tiveres que comer
o tanger te há de fartar.
Cada louco com sua teima3
com ùa borda de boleima
e ùa vez d’água fria
nam quero mais cada dia.
Como às vezes isso queima4
.
E que é desses escudeiros?
Eu falei ontem ali
que passaram por aqui
os judeus casamenteiros
e hão de vir logo aqui.
Aqui entram os judeus casamenteiros, cha-
mados um Latão e o outro Vidal, e diz Vidal:
Ou de cá.
Quem está lá?
Nome del Deu aqui somos5
.
Nam sabeis quam longe fomos.
Corremos a ira má.
Este e eu.
Eu e este
pola lama e polo pó
que era pera haver dó
com chuiva, sol e nordeste.
Foi a coisa de maneira
tal friúra e tal canseira
que trago as tripas maçadas
assi me fadem boas fadas6
que me saltou caganeira.
Pera vossa mercê ver
o que nos encomendou7
.
O que nos encomendou
será se hoiver de ser.
Todo este mundo é fadiga
vós dissestes filha amiga
que vos buscássemos logo.
E logo pusemos fogo8
.
Cal-te.
Nam queres que diga
nam sou eu também do jogo?9
Nam fui eu também contigo
tu e eu nam somos eu?
Tu judeu e eu judeu
nam somos massa dum trigo?10
Si somos juro al Deu.
1 v. 405: ainda que coma mal.
2 v. 407: carinhoso, tolerante e
macio (como a farinha).
3 v. 413: cada um com a sua
mania.
4 v. 417: por vezes comer mal
custa muito.
5 v. 424: em nome de Deus aqui
estamos.
6 v. 434: assim tenha eu boa
sorte.
7 v. 437: a tarefa que lhes deu foi
bastante difícil.
8 v. 443: e logo nos apressámos
em satisfazer o vosso pedido.
9 v. 445: não fui também contigo?
10 v. 449: não somos iguais?
Inês
Mãe
Inês
Mãe
Inês
Mãe
Inês
Inês
Vidal
Latão
Vidal
Latão
Vidal
Latão
Vidal
Latão
Vidal
395
400
405
410
415
420
425
430
435
440
445
450
Vem a Mãe e diz:
CD 1
Faixa n.o
17
PROFESSOR
MC
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.11; 15.1; 16.1.
Gramática
18.1.
Oralidade
2.1; 3.2; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3; 6.1;
6.2; 6.3.
Leitura
7.1.
PontodePartida
1.Sugestãoderesposta:
«Fazer judiarias» significa fazer
diabruras, pequenas maldades ou
logros. Expressão preconceituosa,
que remete para uma visão negativa
do povo judaico, sobretudo a partir
do século XIV. As judiarias eram os
bairros onde moravam os judeus, de
modo a não haver convívio com os
cristãos. A expressão tem um cunho
antissemita, que até hoje, infeliz-
mente, se mantém. Significado
atual: ato de troçar ou prática cruel
emaldosa.
▪ Link
127
Farsa de Inês Pereira 127
Farsa de Inês Pereira
Deixa-me falar.
Já calo.
Senhora há já três dias.
Falas-lhe tu ou eu falo?
Ora dize o que dizias
que foste que fomos que ias
buscá-lo esgaravatá-lo.
Vós amor quereis marido
discreto e de viola.
Esta moça nam é tola
que quer casar por sentido.
Judeu queres-me leixar?
Deixo, não quero falar.
Buscámo-lo.
Demo foi logo11
.
Crede que o vosso rogo
vencera o Tejo e o mar12
.
Eu cuido que falo e calo
calo eu agora ou não?
Ou falo se vem à mão?
Nam digas que nam te falo.
Jesu guarde-me ora Deos
nam falará um de vós?
Já queria saber isso.
Que siso Inês que siso
tens debaixo desses véus13
.
Diz o exemplo da velha14
:
o que nam haveis de comer
dexai-o a outrem mexer15
.
Eu nam sei quem t’aconselha.
Enfim que novas trazeis?
O marido que quereis
de viola e dessa sorte
nam no há senam na corte
que cá não no achareis16
.
Falámos a Badajoz17
músico discreto solteiro
este fora o verdadeiro18
mas soltou-se-nos da noz19
.
Fomos a Villacastim
e falou-nos em latim20
:
vinde cá daqui a ùa hora
e trazei-me essa senhora.
Tudo é nada enfim21
.
Esperai, aguardai ora.
Soubemos dum escudeiro
de feição de atafoneiro22
que virá logo essora.
Que fala e com’ora fala23
estrogirá24
esta sala
e tange e com’ora tange
alcança quanto abrange25
e se preza bem da gala26
.
Gil Vicente, op. cit.,
pp. 571-575
Latão
Vidal
Latão
Vidal
Latão
Vidal
Latão
Vidal
Latão
Inês
Mãe
Inês
Mãe
Inês
Vidal
Inês
Vidal
455
460
465
470
475
480
485
490
495
500
11 v. 463: fomos logo (procurá-lo).
12 vv. 464-465: faremos tudo para a servir.
13 vv. 473-474: «Que falta de juízo tens tu!»
14 v. 475: lá diz a experiência (velhice = sabe-
doria/experiência).
15 vv. 476-477: não metas o nariz onde não
és chamada.
16 vv. 482-483: o pretendente que procuras
só existe na corte.
17 Badajoz: João de Badajoz, músico da corte
de D. João III.
18 v. 486: este é o mais apropriado (de
acordo com o perfil traçado por Inês).
19 v. 487: não estava interessado.
20 v. 489: falou em linguagem pouco clara
e pediu-lhes que levassem Inês à sua pre-
sença.
21 v. 492: desabafo de Inês: «tudo ficou
igual».
22 v. 495: atordoará (com o seu discurso
e canto).
23 v. 497: bem falante.
24 Estrogirá: atordoará.
25 v. 500: consegue tudo o que quer.
26 v. 501: se orgulha de ser galante.
128 Unidade 3 // GIL VICENTE
1. O excerto pode ser dividido em duas cenas. Delimita-as e atribui-lhes um título suges-
tivo.
2. Ordena as afirmações, de forma a obteres a sequência correta dos acontecimentos no
excerto. Inicia pela letra (G):
(A) Os judeus não se entendem em relação a quem deverá contar a Inês o que se passou.
(B) Inês elucida a Mãe sobre o seu ideal de homem: pode ser «mal feito / feo, pobre,
sem feição», mas tem de ser bem-falante e tocar viola.
(C) Inês informa que já contratou judeus casamenteiros para a ajudar a encontrar um
marido compatível com os seus ideais.
(D) A Mãe chama-a à razão, argumentando que não se pode viver só de folia.
(E) Os judeus dão a entender, primeiramente, que não encontraram ninguém com o
perfil pretendido, mas acabam por anunciar a chegada iminente de um escudeiro.
(F) Os judeus contam que percorreram muitos lugares para encontrar um homem com
as características requeridas por Inês.
(G) A Mãe questiona Inês sobre Pero Marques.
(H) A Mãe e Inês discutem novamente sobre as escolhas da filha.
3. Caracteriza o par de judeus, Latão e Vidal, e explicita o seu papel na ação da farsa.
GRAMÁTICA
1. Identifica as funções sintáticas destacadas nas seguintes frases.
a) A representação da farsa foi uma atração turística.
b) A versão que eu tenho da farsa é diferente.
c) Pero Marques ficou com o retrato de Inês na sua mente.
d) Inês, teimosa, contratou os judeus.
ORALIDADE
Apreciação crítica
No tempo de Gil Vicente, era comum os casamentos serem «arranjados» pelos pais, por
«alcoviteiras» ou «judeus casamenteiros». Hoje em dia, a internet e as redes sociais po-
dem desempenhar esse papel, mas não sem riscos…
Observa atentamente o cartoon que se segue.
1. Planifica uma apreciação crítica oral, de
dois a quatro minutos, na qual te refiras
aos seguintes tópicos:
tdescrição do cartoon;
tpapel atual das redes sociais no rela-
cionamento amoroso;
tvantagens e desvantagens das redes
sociais;
tcomentário crítico do cartoon.
Caracterização das
personagens
p. 149
FI
Complemento do nome
p. 129
FI
SIGA
Apreciação crítica
p. 312
SIGA
Funções sintáticas
pp. 324-325
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. Cena I: «Pero Marques foi-se já?»
(v. 391) até «e hão de vir logo aqui»
(v.422)–conselhosdaMãe.
Cena II: «Ou de cá» (v. 423) até «e se
preza bem da gala» (v. 501) – desco-
bertadomaridoideal.
2.(G),(B),(D),(C),(F),(A),(H)e(E).
3. Os judeus casamenteiros apre-
sentam as mesmas características.
São a caricatura do judeu hábil no
comércio – faladores, insinuantes,
humildes, serviçais e maliciosos.
Nesta peça, rivalizam com Lianor
Vaz, nos seus serviços de interme-
diáriosmatrimoniais.
Gramática
1.
a) complemento do nome / comple-
mentodonome;
b)modificadorrestritivodonome;
c)complementodonome;
d)modificadorapositivodonome.
Oralidade
Sugestãodetópicos:
“G? :A?7? 7 G?3 ?G:7D CG7
estãoacomunicaràdistância,pela
internet;
“3E D767E EA5;3;E BDABAD5;A@3? A
contacto entre as pessoas, poden-
do ser um meio privilegiado para o
relacionamentoamoroso;
“36;EFv@5;37A835FA67A5A@F35FA
não ser pessoal podem levar a
mentiras, enganos, deceções ou
até relações perigosas; meio de
contactoparaindivíduosmaistími-
dos ou com poucos amigos, pelo
que pode proporcionar encontros
sociais e, eventualmente, amoro-
sos.
129
Ficha informativa 129
Complemento do nome
1. O complemento do nome é um complemento selecionado por um nome. É uma função
sintática que pode ser desempenhada por:
tum grupo preposicional (oracional)
Ex.: A preocupação de que a filha pudesse ser infeliz era legítima.
tum grupo preposicional (não oracional)
Ex.: A ideia de Inês Pereira não foi a melhor.
tum grupo adjetival colocado à direita do nome e formando com ele uma unidade de
sentido próprio.
Ex.: A escrita vicentina tem um caráter moralizador.
Nota: Um nome pode selecionar mais do que um complemento.
Ex.: A representação da farsa pela companhia de teatro foi aplaudida.
2. O complemento do nome é sempre de preenchimento opcional. Assim, o nome diverge
do verbo, cujo complemento é obrigatório para que a frase seja gramatical:
a) A oferta de um novo casamento a Inês foi rápida. (grupo nominal com dois comple-
mentos do nome)
b) A oferta a Inês foi rápida. (grupo nominal com um complemento do nome)
c) A oferta foi rápida. (grupo nominal sem complemento(s) do nome)
3. O complemento do nome é parte integrante de um grupo sintático maior, que pode ter
diferentes funções na frase. Veja-se, a título de exemplo, as seguintes frases:
a) A ideia de Inês Pereira não foi a melhor. (complemento do nome integrado num sujeito)
b) Não gostei da ideia de Inês Pereira. (complemento do nome integrado num comple-
mento oblíquo)
c) Fui influenciada pela ideia de Inês Pereira. (complemento do nome integrado num
complemento agente da passiva)
d) AdoreiaideiadeInêsPereira. (complementodonomeintegradonumcomplementodireto)
4. Há nomes que «pedem» complemento para que o seu sentido referencial seja inequí-
voco. Assim, o complemento do nome tem sempre um valor restritivo.
Tipologia de nomes Exemplos
Icónicos a imagem de…; o retrato de…; a fotografia de…
Parentesco/amizade o filho de…; o amigo de…; o primo de…
Epistémicos (exprimem certeza, possibilidade ou probabilidade) a certeza de…; a probabilidade de…; a hipótese de…
Deônticos (exprimem obrigação, necessidade, proibição) a necessidade de…; a permissão para…; o dever de…
Deverbais (derivam de um verbo) a construção de…; a vingança de…; a invasão de…
De derivação não afixal a entrega de…; o alcance de…; o apelo a…
Derivados de outro nome jornalista de…; artista de…; porteiro de…
Derivados de um adjetivo a beleza de…; a tristeza de…; a eficácia de…
Nomes com sufixo de agente destruidor de…; exterminador…; construtor…
FICHA INFORMATIVA N.O
2
130 Unidade 3 // GIL VICENTE
Relações entre o nome e o
seu complemento
Exemplos
Merónimos/holónimos (parte/todo) a janela da sala, o tampo da mesa, o ecrã da televisão…
Fonte – origem vinho do Porto, queijadinhas de Sintra, queijo da Serra…
Objeto – matéria calças de ganga, saco de plástico, rolha de cortiça…
5. Embora a preposição «de» seja a mais recorrente, existem outras que podem introduzir
o complemento do nome:
a) O debate sobre a farsa foi elucidativo.
b) A cedência em casar com Pero Marques era impossível.
c) Na vinda para casa de Inês, Lianor foi atacada.
d) A diferença entre o real e o ideal está presente na história de Inês.
6. As expressões quantitativas nominais também selecionam complementos do nome.
tExpressões quantitativas vagas:
a) Uma boa dose de paciência era o que a Mãe precisava de ter para aturar Inês.
b) Pero Marques tinha uma porção de coisas no capuz.
c) Um pequeno espaço de tempo bastou para Inês perceber o seu erro.
tExpressões quantitativas precisas:
a) Pero Marques levou dois quilos de peras, mas não encontrou uma única.
b) Lianor comprou dez metros de tecido para fazer um vestido.
c) Um copo de água era o que Lianor queria quando chegou a casa de Inês.
7. Alguns adjetivos que derivam de um nome podem ocupar a posição de complemento
do nome.
Adjetivos Exemplos
Antroponímicos teatro vicentino, poema pessoano, obra saramaguiana…
Nacionalidades cidadão português, cidadão angolano, cidadão moçambicano…
Outros reivindicações estudantis, produção cerealífera, pesca baleeira…
8. Distinção entre complemento do nome e modificadores do nome.
Exemplos
Complemento
do nome
Elementos selecionados pelo nome
e essenciais para clarificar o sentido
do nome, não admitem vírgula.
A oferta de pretendentes era
comum na época de Gil Vicente.
Modificador
restritivo do
nome
Elementos não selecionados pelo
nome, restringem o seu sentido e
não são separados por vírgulas.
O pretendente saloio foi preterido.
O pretendente que os judeus
encontraram despertará o
interesse de Inês.
Modificador
apositivo do
nome
Elementos não selecionados pelo
nome, modificam o nome e exigem
ser separados por vírgula.
A alcoviteira, que é uma figura
típica do teatro vicentino, é
eficaz no seu mester.
131
Ficha informativa
CONSOLIDA
1. Identifica nas frases seguintes os constituintes que desempenham a função sintática
de complemento do nome.
a) A paixão por Pero Marques não durou muito.
b) Pero Marques tinha uma série de coisas no capuz.
c) A farsa vicentina é divertida.
d) A diferença entre Inês e Pero Marques tornou-se insustentável.
e) A discussão sobre as vantagens de casar foi acesa.
2. Reconhece todos os complementos do nome presentes nas frases seguintes.
a) A tolerância de Inês para com Pero Marques não foi muita.
b) A resposta ao novo pedido de casamento não demorou.
c) Não era previsível o regresso de Pero Marques a casa de Inês.
d) A encomenda de novo pretendente aos judeus obteve resultado positivo.
3. Identifica a função sintática dos grupos sintáticos destacados.
a) Concordo com a resposta da Mãe.
b) Pero Marques será marido de Inês.
c) É notória a semelhança entre Latão e Vidal.
d) Inês tinha uma imagem de homem ideal na sua mente.
3.1 Destaca, dentro dos grupos sintáticos, os complementos do nome.
4. Seleciona a única opção correta que classifica a função sintática dos elementos destacados.
4.1 A vida de Inês seria só bailar.
(A) Modificador apositivo do nome
(B) Modificador restritivo do nome
(C) Complemento do nome
(D) Modificador
4.2 A companhia Vicente, que encenou a farsa, fez um bom trabalho.
(A) Modificador apositivo do nome
(B) Modificador restritivo do nome
(C) Complemento do nome
(D) Modificador
4.3 Pero Marques ficou ofuscado pela beleza de Inês.
(A) Modificador apositivo do nome
(B) Modificador restritivo do nome
(C) Complemento do nome
(D) Modificador
4.4 Pero Marques, o campónio, não conhecia uma cadeira.
(A) Modificador apositivo do nome
(B) Modificador restritivo do nome
(C) Complemento do nome
(D) Modificador
4.5 O contrato que Inês celebrou com os judeus foi cumprido.
(A) Modificador apositivo do nome
(B) Modificador restritivo do nome
(C) Complemento do nome
(D) Modificador
PROFESSOR
Gramática
18.1.
MC
Consolida
1.
a)porPeroMarques;
b)decoisas;
c)vicentina;
d)entreInêsePeroMarques;
e)sobreasvantagensdecasar.
2.
a)deInêsparacomPeroMarques;
b)aonovopedidodecasamento;
c)dePeroMarquesacasa;
d)denovopretendenteaosjudeus.
3.
a)complementooblíquo;
b)predicativodosujeito;
c)sujeito;
d)complementodireto.
3.1 a) da Mãe; b) de Inês; c) entre
LatãoeVidal;d)dehomemideal.
4.1(C);
4.2(A);
4.3(C);
4.4(A);
4.5(B).
PowerPoint
Ficha informativa n.o
2
132 Unidade 3 // GIL VICENTE
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Casamento celebrado, casamento frustrado?
Mãe
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Se esta senhora é tal
como os judeus ma gabaram
certo os anjos a pintaram
e nam pode ser i al1
.
Diz que os olhos com que via
eram de santa Luzia
cabelos da Madanela2
.
Se ela fosse donzela
tudo essoutro passaria3
.
Moça de vila será ela
com sinalzinho postiço
e sarnosa no toutiço
como burra de Castela4
.
Eu assi como chegar
cumpre-me bem atentar
se é garrida se é honesta
porque o milhor da festa
é achar siso e calar5
.
Se este escudeiro há de vir
e é homem de discrição
hás-te de pôr em feição
e falar pouco e nam rir.
E mais Inês nam muito olhar
e muito chão o menear
por que te julguem por muda
porque a moça sesuda
é ùa perla pera amar.
Olha cá Fernando eu vou
ver a com que hei de casar
visa-te que hás de estar
sem barrete onde eu estou.
Como a rei corpo de mi
mui bem vai isso assi6
.
E se cuspir pola ventura
põe-lhe o pé e faze mesura.
Ainda eu isso nam vi.
E se me vires mintir
gabando-me de privado7
está tu dissimulado
ou sai-te lá fora a rir.
Isto te aviso daqui
faze-o por amor de mi.
Porém senhor digo eu
que mau calçado é o meu
pera estas vistas assi8
.
Que farei que o sapateiro
nam tem solas nem tem pele?
Sapatos me daria ele
se me vós désseis dinheiro.
Eu o haverei agora9
e mais calças te prometo.
Homem que nam tem nem preto
casa muito na màora10
.
Chega o Escudeiro onde está Inês Pereira e
alevantam-se todos e fazem suas mesuras,
e diz o Escudeiro:
Antes que mais diga agora
Deos vos salve fresca rosa
e vos dê por minha esposa
por molher e por senhora.
Que bem vejo
nesse ar nesse despejo
mui graciosa donzela
que vós sois minh’alma aquela
que eu busco e que desejo.
Obrou bem a natureza
em vos dar tal condição
que amais a discrição
muito mais que a riqueza.
Bem parece
que só discrição merece
gozar vossa fermosura
que é tal que de ventura
outra tal nam se acontece11
.
Senhora eu me contento
receber-vos como estais12
se vós vos não contentais
o vosso contentamento
pode falecer nô mais13
.
Como fala.
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Latão
1 v. 505: se Inês for como os
Judeus disseram, não há melhor
partido para mim.
2 vv. 506-508: os Judeus terão
comparado os olhos de Inês aos
de Santa Luzia (advogada da
visão) e os cabelos aos de Santa
Maria Madalena.
3 vv. 509-510: se é assim tão bela,
como é que ainda não casou?
4 vv. 512-514: o Escudeiro pensa
que Inês é muito feia para ainda
não ter casado.
5 v. 519: ser contido, discreto.
6 vv. 533-534: resposta irónica do
Moço, tendo em conta os avisos
que o Escudeiro lhe faz como
este se deve comportar.
7 v. 539: gabar-se de ser íntimo do
rei.
8 vv. 545-546: ironia por parte
do Moço, dando a conhecer a
verdadeira condição financeira
do Escudeiro.
9 v. 551: Brás da Mata pensa que
Inês terá dinheiro para o susten-
tar.
10 vv. 553-554: homem sem
dinheiro, não deveria casar.
11 v. 572: não existe outra igual.
12 v. 574: ficará com ela, não
obstante a situação financeira de
Inês.
13 v. 577: não há melhor partido do
que ele.
Vem o Escudeiro com seu Moço, que lhe traz ùa viola, e diz falando só:
505
510
515
520
525
530
535
540
545
550
555
560
565
570
575
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7a; 14.11; 15.1; 16.1.
Escrita
10.2a, b, c; 11.1; 12.1; 12.2;
12.3; 12.4; 13.1.
MC
cert
e na
Diz
eram
cabe
Se el
tudo
Moç
com
e sar
com
Eu a
cum
se é
505
510
515
133
Farsa de Inês Pereira
Mas ela como se cala.
Tem atento o ouvido.
Este há de ser seu marido
segundo a cousa s’abala14
.
Eu nam tenho mais de meu
somente ser comprador
do marichal meu senhor
e sam escudeiro seu15
.
Sei bem ler
e muito bem escrever
e bom jogador de bola
e quanto a tanger viola
logo me ouvireis tanger16
.
Moço que estás lá olhando?
Que manda vossa mercê?
Que venhas cá.
Pera quê?
Pera fazeres o que mando.
Logo vou.
O diabo me tomou
tirar-me de João Montês
por servir um tavanês
mor doudo que Deos criou17
.
Fui despedir um rapaz
por tomar este ladrão
que valia Perpinhão18
.
Moço!
Que vos praz?
A viola.
Oh como ficará tola
se nam fosse casar ante
c’o mais sáfio bargante19
que coma pão e cebola20
.
Ei-la aqui bem temperada21
nam tendes que temperar.
Faria bem de ta quebrar
na cabeça bem migada22
.
E se ela é emprestada
quem na havia de pagar?
Meu amo eu quero-m’ir.
E quando queres partir?
Antes que venha o Inverno
porque vós não dais governo
pera vos ninguém servir23
.
Vidal
Latão
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
14 v. 582: segundo parece.
15 vv. 585-586: Brás da Mata alega
trabalhar para um Marechal como
escudeiro (elemento importante na
corte).
16 vv. 587-591: qualidades de um
homem cortesão.
17 vv. 587-600: o Moço afirma que
só por intervenção do Diabo é que
deixou o serviço a João Montês
para servir um louco («tavanês»).
18 Perpinhão: cidade (importante e
disputada) do sul de França tomada
pelos espanhóis no século XV.
Tornou-se sinónimo de valioso.
19 v. 608: homem grosseiro e sem
vergonha.
20 v. 609: se Inês casar com ele,
passará fome.
21 v. 610: duplo sentido – afinação
da viola e falta de alimento.
22 Migada: esmagada.
23 vv. 619-620: o Moço despede-se,
pois Brás da Mata não lhe paga.
24 v. 624: o Escudeiro afirma que o
Moço gosta de inventar.
25 v. 631: Inês está feliz.
26 v. 635: como os mais velhos são
maçadores, implicantes.
27 vv. 637-638: não casarei com tolos.
28 Avisado: culto, de boas maneiras.
29 v. 641: infelizmente.
Nam dormes tu que te farte?
No chão e o telhado por manta
e çarra-se-m’a garganta
com fome.
Isso tem arte24
.
Vós sempre zombais assi.
Oh que boas vozes tem
esta viola aqui.
Deixa-me casar a mi
depois eu te farei bem.
Agora vos digo eu
que Inês está no paraíso25
.
Que tendes de ver com isso?
Todo o mal há de ser meu.
Quanta doudice.
Como é seca a velhice26
leixai-me ouvir e folgar
que nam me hei de contentar
de casar com parvoíce27
.
Pode ser maior riqueza
que um homem avisado28
?
Muitas vezes mal pecado29
é milhor boa simpreza.
Ora ouvi e ouvireis.
Escudeiro cantareis
algùa boa cantadela
namorai esta donzela
esta cantiga direis:
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Mãe
Inês
Mãe
Inês
Mãe
Latão
580
585
590
595
600
605
610
615
620
625
630
635
640
645
.
da21
ar.
.
r.
rno
erno
23
.
esta cantiga direis:
134 Unidade 3 // GIL VICENTE
Canas do amor canas
canas do amor
polo longo de um rio
canaval vi florido
canas do amor.
Canta o Escudeiro o romance de «Mal
me quieren en Castilla», e diz Vidal:
Latão já o sono é comigo
como oivo cantar guaiado30
que nam vai esfandegado31
.
Esse é o demo qu’eu digo.
Viste cantar dona Sol
pelo mar vai a vela
vela vai polo mar.
Filha Inês assi vivais
que tomeis esse senhor
escudeiro cantador
e caçador de pardais
sabedor, rebolvedor
falador, gracejador
afoitado pela mão32
e sabe de gavião33
.
Tomai-o por meu amor.
Podeis topar um rabugento
desmazalado, baboso
descancarrado, brigoso
medroso, carrapatento.
Este escudeiro aosadas
onde se derem pancadas
ele as há de levar
boas senam apanhar.
Nele tendes boas fadas34
.
Quero rir com toda a mágoa
destes teus casamenteiros
nunca vi judeus ferreiros
aturar tam bem a frágua35
.
Nam te é milhor mal por mal
Inês um bom oficial
que te ganhe nessa praça
que é um escravo de graça
e casarás com teu igual?
Senhora perdei cuidado.
O que há de ser há de ser
e ninguém pode tolher
Latão
Vidal
30 v. 654: música lamentosa.
31 v. 655: música mais animada.
32 v. 666: atrevido (pega na mão
de Inês como se ela fosse sua
esposa).
33 Gavião: ave de rapina, com
sentido de caçador, mas tam-
bém de desonesto.
34 v. 677: duplo sentido – será
protetor ou viverá à custa de
Inês.
35 vv. 680-681: nunca vi ninguém
trabalhar tão bem para proveito
próprio (referindo-se aos
Judeus).
36 v. 692: livra-te desse vadio.
37 v. 695: como estás agressiva.
38 v. 696: a Mãe já adivinha o
(in)sucesso do casamento.
39 v. 700: resignação da Mãe,
perante a vontade de Inês em
casar com Brás da Mata.
40 v. 702: com muita vontade.
41 v. 712: sem exigências.
42 v. 714: conseguimos o que
pretendíamos.
43 v. 723: pedem o pagamento
pelo serviço prestado.
44 v. 729: o acontecimento
merece ser comemorado.
45 v. 734: Luzia deseja felicidades
a Inês.
46 v. 737: espera que também ela
case brevemente.
47 Asinha: depressa.
Mãe
Latão
Vidal
Mãe
Inês
Mãe
Escudeiro
Inês
Escudeiro
Inês
Latão
o que está determinado.
Assi diz rabi Zarão.
Inês guar-te de rascão36
escudeiro queres tu?
Jesu nome de Jesu
quam fora sois de feição37
.
Já minha mãe adevinha38
.
Houvestes por vaidade
casar à vossa vontade
eu quero casar à minha.
Casa filha muito embora39
.
Dai-me essa mão senhora.
Senhor de mui boa mente40
.
Por palavras de presente
vos recebo desd’agora.
Nome de Deos assi seja.
Eu Brás da Mata escudeiro
recebo a vós Inês Pereira
por molher e por parceira
como manda a santa igreja.
Eu aqui diante Deos
Inês Pereira recebo a vós
Brás da Mata sem demanda41
como a santa igreja manda.
Juro al Deu aí somos nós42
.
Alça manim dona o dono há
arrea espeçulá
bento o Deu de Jacob
bento o Deu que a faraó
espantou e espantará
bento o Deu de Abraão
benta a terra de Canão
pera bem sejais casados.
Dai-nos cá senhos ducados43
.
Amenhã vo-los darão.
Pois assi é bem será
que nam passe isto assi
eu quero chegar ali
chamar meus amigos cá
e cantarão de terreiro44
.
Oh quem me fora solteiro.
Já vos vós arrependeis?
Ó esposa nam faleis
que casar é cativeiro.
Vidal
Mãe
Escudeiro
Inês
Escudeiro
Canta o Judeu:
Os Judeus ambos:
650
655
660
665
670
675
680
685
690
695
700
705
710
720
725
730
desmazalado, baboso
descancarrado, brigoso
medroso, carrapatento.
Este escudeiro aosadas
onde se derem pancadas
ele as há de levar
boas senam apanhar.
Nele tendes boas fadas34
.
Quero rir com toda a mágoa
destes teus casamenteiros
nunca vi judeus ferreiros
aturar tam bem a frágua35
.
Nam te é milhor mal por mal
Inês um bom oficial
que te ganhe nessa praça
que é um escravo de graça
e casarás com teu igual?
Senhora perdei cuidado.
O que há de ser há de ser
e ninguém pode tolher
Mãe
atão
Alça manim dona o dono há
arrea espeçulá
bento o Deu de Jacob
bento o Deu que a faraó
espantou e espantará
bento o Deu de Abraão
benta a terra de Canão
pera bem sejais casados.
Dai-nos cá senhos ducados43
.
Amenhã vo-los darão.
Pois assi é bem será
que nam passe isto assi
eu quero chegar ali
chamar meus amigos cá
e cantarão de terreiro44
.
Oh quem me fora solteiro.
Já vos vós arrependeis?
Ó esposa nam faleis
que casar é cativeiro.
Vidal
Mãe
Escudeiro
Inês
Escudeiro
Os Judeus ambos:
670
675
680
685
720
725
730
135
Farsa de Inês Pereira
AquivemaMãecomcertasmoçasemancebos
pera fazerem a festa, e diz ùa delas per nome
Luzia:
Inês por teu bem te seja45
.
Oh que esposo e que alegria.
Venhas embora Luzia
e cedo te eu assi veja46
.
Ora vai tu ali Inês
e bailareis três por três.
Tu connosco Luzia aqui
e a desposada ali.
Ora vede qual direis.
Cantam todos a cantiga que se segue:
Mal ferida va la garza
enamorada
sola va y gritos daba.
A las orillas de un río
la garza tema el nido
ballestero la ha herido
en el alma.
Sola va y gritos daba.
Ora senhores honrados
ficai com vossa mercê
e nosso senhor vos dê
com que vivais descansados.
Isto foi assi agora
mas melhor será outr’hora
perdoai pelo presente
foi pouco e de boa mente
com vossa mercê senhora.
Ficai com Deos desposados
com prazer e com saúde
e sempre ele vos ajude
com que sejais bem logrados.
Ficai com Deos filha minha
nam virei cá tam asinha47
.
A minha benção hajais
esta casa em que ficais
vos dou e vou-me à casinha.
Senhor filho e senhor meu
pois que já Inês é vossa
vossa molher e esposa
encomendo-vo-la eu.
E pois que dês que nasceu
a outrem nam conheceu
senam a vós por senhor
que lhe tenhais muito amor
que amado sejais no céu.
Gil Vicente, op. cit., pp. 575-583
Inês
Mãe
Fernando
Fernando
735
740
745
750
755
760
765
770
775
Luzia
Mãe
1. Relaciona o modo como o Escudeiro imagina Inês com a forma
como esta caricaturou o seu pretendente, Pero Marques, antes
de o conhecer.
2. O Escudeiro e a Mãe dão orientações de como o Moço e Inês,
respetivamente, se hão de comportar durante o encontro.
2.1 Identifica o que há de comum entre essas orientações,
explicitando as diferentes intenções de cada um. Justi-
fica a tua resposta com elementos textuais.
3. Descreve os comportamentos, respetivamente, de Inês Pereira
e do Escudeiro nos primeiros momentos do seu encontro.
4. Demonstra a importância dos apartes do Moço, nos versos
599-603 e 609-612.
5. Os Judeus e a Mãe têm, inicialmente, posições diferentes
quanto ao casamento.
5.1 Indica um argumento apresentado por cada uma das par-
tes para sustentar o seu ponto de vista.
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. O Escudeiro duvida dos elogios
feitos a Inês pelos Judeus e imagina
Inês feia e sem qualquer interesse,
troçando dela. Este comportamento
é paralelo ao da própria Inês quando
ridicularizou Pero Marques, após ler
asuacartaeantesdeoconhecer.
2.1QueroEscudeiroqueraMãeacon-
selhamdiscriçãoesilêncioaoMoçoe
aInês,respetivamente.
O Escudeiro tem como objetivo pa-
recer importante e de estatuto
social elevado: «E se me vires min-
tir / gabando-me de privado / está
tu dissimulado / ou sai-te lá fora a
rir» (vv. 538-541). A Mãe aconselha
a filha a ter compostura e discrição
de forma a parecer a esposa ideal:
«hás-tedepôremfeição/efalarpouco
e nam rir. / E mais Inês nam muito
olhar […]» «porque a moça sesuda / é
ũaperlaperaamar»(vv.522-528).No
fundo,ambosescondemoseuverda-
deiro ser e querem bem parecer um
aooutro.
3. Enquanto o Escudeiro não para de
falar, elogiando Inês e a si próprio,
Inês segue os conselhos da Mãe,
mantendo-seemsilêncio.
4. Os apartes desmascaram a verda-
deira situação do Escudeiro, pelintra
e falso, ao contrário da imagem que
quer passar – «um tavanês / mor
doudoqueDeoscriou»(vv.599-600).
com que vivais descansados.
1. Relaciona o modo como o Escudeiro imagina Inês com a forma
como esta caricaturou o seu pretendente, Pero Marques, antes
de o conhecer.
2. O Escudeiro e a Mãe dão orientações de como o Moço e Inês,
respetivamente, se hão de comportar durante o encontro.
2.1 Identifica o que há de comum entre essas orientações,
explicitando as diferentes intenções de cada um. Justi-
fica a tua resposta com elementos textuais.
3. Descreve os comportamentos, respetivamente, de Inês Pereira
e do Escudeiro nos primeiros momentos do seu encontro.
4. Demonstra a importância dos apartes do Moço, nos versos
599-603 e 609-612.
5. Os Judeus e a Mãe têm, inicialmente, posições diferentes
quanto ao casamento.
5.1 Indica um argumento apresentado por cada uma das par-
tes para sustentar o seu ponto de vista.
quer passar um tavanês / mor
doudoqueDeoscriou»(vv.599-600).
136 Unidade 3 // GIL VICENTE
PROFESSOR
5.1 Os Judeus fazem tudo para con-
vencer Inês a casar, elogiam o Escu-
deiro,«escudeirocantador/ecaçador
de pardais / sabedor, rebolvedor, /
falador, gracejador» (vv. 662-665),
e dizem que é melhor casar logo,
antes que outro pretendente «car-
rapatento» (v. 672) avance. A Mãe
argumenta que é melhor esperar
por alguém com a mesma condição
social «Nam te é milhor mal por mal
/ Inês um bom oficial / […] com teu
igual?»(vv.682-686).
6. A intenção crítica é denunciar o
verdadeiro motivo que levou os Ju-
deus a ajudar Inês a encontrar mari-
do:odinheiro.
7. O Escudeiro deixa cair a máscara e
revela o seu arrependimento em ter
casado («Oh quem me fora solteiro»
v. 730), deixa ainda transparecer que
matrimónio, para ele, é «cativeiro»
(v.733).
8. A Mãe dá a sua bênção ao casa-
mento e pede a Brás da Mata que
cuide bem da filha, cumprindo o seu
papel de mãe preocupada e pro-
tetora. Esta personagem não tem
nomepróprioporqueéumapersona-
gem-tipo que representa o princípio
maternal.
Escrita
Sugestãoderesposta:
– Espaço exterior: Brás da Mata e
Fernando; espaço interior: Inês,
Mãe,Judeus.
– Escudeiro: máscara de privado do
rei, homem de posses e respeitado
pelo Moço; Inês prepara-se para
fazer o papel de recatada e muda.
– Espectadores: conhecem a tota-
lidade (verdade e máscara) das
personagens, porque assistem às
duas realidades; no jogo teatral,
cada grupo de personagens só tem
acessoaoseucontexto.
– Partilha das duas situações com
o público: faz do espectador cúm-
plice da representação teatral,
entrandonafarsaquesecria.
– Cómico de situação: só o espec-
tador sabe que as situações a que
assiste são enganadoras e que as
personagens dissimulam a sua
realidade; logo, quando se encon-
tram em cena, provocam o riso do
público, detentor de toda a ver-
dade.
6. Explica a intenção crítica presente nos seguintes versos:
«Dai-nos cá senhos ducados. / Amenhã vo-los darão.» (vv. 723 e 724)
7. Baseando-te nos versos 730 e 733, indica o modo como Brás da Mata encara o recente
casamento.
8. Relê os versos 764 a 777.
Identifica dois traços caracterizadores da Mãe e relaciona-os com o facto de esta
personagem não ter nome próprio.
ESCRITA
Exposição sobre um tema
Lê, atentamente, o seguinte texto.
1. Elabora uma exposição escrita, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, rela-
cionando o texto que acabaste de ler com o excerto da Farsa de Inês Pereira estudado.
Segue os tópicos do seguinte plano de texto.
Introdução:
1.º parágrafo – divisões do espaço (exterior e interior) e distribuição de personagens.
Desenvolvimento:
2.º parágrafo – máscara do Escudeiro, máscara de Inês Pereira;
3.º parágrafo – saber parcial das personagens e saber total dos espectadores;
4.º parágrafo – cumplicidade com os espectadores.
Conclusão:
5.º parágrafo – tipo de cómico que resulta da simultaneidade da encenação.
2. Não te esqueças de identificar as fontes utilizadas, de cumprir as normas de citação,
de utilizar as notas de rodapé (se necessário) e, ainda, de elaborar a bibliografia dos
documentos consultados.
No final, revê o texto e aperfeiçoa-o se necessário.
EnquantoBrásdaMataimaginaaMoçacomquemsepretendecasar,troçando
dela[…]aMãeprocurainstruirInêsquantoaocomportamentoaadotarsequiser
impressionar o Escudeiro […].
Ao lado, preparando a sua entrada na casa de Inês, o escudeiro mostra-se tam-
bémpreocupadocomasaparênciasedácontaaoMoçoqueoservedeumprojeto
de dissimulação para o qual pede a cumplicidade deste.
Adivisãodoespaçoeomodocomonelesedistribuemaspersonagensfavorece
a criação de zonas de relativa intimidade, onde cada um se mostra como de facto
é e, ao mesmo tempo, planeia a máscara que vai adotar. Os espectadores, a quem
uns e outros são alternadamente mostrados, adquirem um saber superior, porque
total, ao dos intervenientes na ação, que é apenas parcelar, e a duplicidade, que vai
conquistandoterreno,aparececadavezmaiscomotraçocomumadiversasfiguras
e como princípio fundador da comicidade da farsa, assente na constante oposição
entre a natureza interior real e uma aparência exterior enganadora.
Cristina Almeida Ribeiro, Inês, Coleção Vicente, Lisboa, Quimera, 1991, p. 14
5
10
SIGA
Exposição sobre um tema
p. 311
137
Farsa de Inês Pereira
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Que casamento e que tormento!
Si no os hubiera mirado
no penara
pero tan poco os mirara1
.
O Escudeiro, vendo cantar Inês Pereira, mui
agastado lhe diz:
Vós cantais, Inês Pereira?
em bodas me andáveis vós?
Juro ao corpo de Deos
que esta seja a derradeira.
Se vos eu vejo cantar
eu vos farei assoviar.
Bofé senhor meu marido
se vós disso sois servido
bem o posso eu escusar.
Mas é bem que o escuseis
e outras cousas que não digo.
Por que bradais vós comigo?
Será bem que vos caleis.
E mais sereis avisada
que não me respondais nada
em que ponha fogo a tudo2
porque o homem sesudo
traz a molher sopeada.
Vós não haveis de falar
com homem nem molher que seja
nem somente ir à igreja
nam vos quero eu leixar.
Já vos preguei as janelas,
por que não vos ponhais nelas
estareis aqui encerrada
nesta casa tam fechada
como freira d’Oudivelas.
Que pecado foi o meu?
Por que me dais tal prisão?
Vós buscais discrição,
que culpa vos tenho eu?
1 vv. 778-780: se vos não
tivesse visto não teria
penado, mas também não
vos teria visto.
2 v. 796: embora faça grandes
disparates.
3 v. 816: resposta irónica
do Escudeiro, dando a
entender que Inês é supos-
tamente o seu bem mais
precioso e por isso precisa
de ser protegido.
4 Às partes dalém: Marrocos.
5 vv. 828-829: resposta
irónica do Moço, deixando
transparecer que não acre-
ditava nesse tipo de sorte.
6 v. 834: diz a Inês para ficar
em casa e costurar.
Inês
Escudeiro
Inês
Escudeiro
Inês
Escudeiro
IdaaMãe,ficaInêsPereiraeoEscudeiro,esenta-seInêsPereiraalavrarecantaestacantiga:
780
785
790
795
800
805
810
Pode ser maior aviso
maior discrição e siso
que guardar eu meu tisouro?
Nam sois vós molher meu ouro?
Que mal faço em guardar isso3
?
Vós não haveis de mandar
em casa somente um pêlo.
se eu disser isto é novelo
havei-lo de confirmar.
E mais quando eu vier
de fora haveis de tremer
e cousa que vós digais
nam vos há de valer mais
que aquilo que eu quiser.
Moço às partes dalém4
me vou fazer cavaleiro.
Se vós tivésseis dinheiro
nam seria senam bem5
.
Tu hás de ficar aqui
olha por amor de mi,
o que faz tua senhora:
fechá-la-ás sempre de fora.
Vós lavrai, ficai per i6
.
Moço
Escudeiro
815
820
825
830
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.11; 15.1; 15.5; 16.1.
Gramática
17.3; 18.1.
Escrita
11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1.
MC
138 Unidade 3 // GIL VICENTE
quem sua molher maltrata
sem lhe dar de paz um dia.
E sempre ouvi dizer
que homem que isto fizer
nunca mata drago em vale
nem mouro que chamem Ale
e assi deve de ser.
Juro em todo meu sentido
que se solteira me vejo12
assi como eu desejo
que eu saiba escolher marido.
À boa fé sem mal engano
pacífico todo o ano
que ande a meu mandar.
Havia-me eu de vingar
deste mal e deste dano.
Entra o Moço com ùa carta
de Arzila13
e diz:
Esta carta vem dalém
creo que é de meu senhor.
Mostrai cá meu guarda mor
veremos o que aí vem.
À mui prezada senhora
Inês Pereira da Grã,
a senhora minha irmã.
De meu irmão. Venha embora.
Vosso irmão está em Arzila
eu apostarei que i vem
nova de meu senhor também.
Já ele partiu de Tavila14
?
Há três meses que é passado15
.
Aqui virá logo recado
se lhe vai bem ou que faz.
Bem pequena é a carta assaz.
Carta de homem avisado.
Lê Inês Pereira a carta, a qual diz:
Muito honrada irmã
esforçai o coração16
e tomai por devação
de querer o que Deos quer17
.
E isto que quer dizer?
E nam vos maravilheis
de cousa que o mundo faça,
que sempre nos embaraça
Inês
Moço
Inês
Moço
Inês
Moço
Inês
7 v. 843: resposta irónica do
Moço, destacando que a abun-
dância será tanta que poderá
convidar pessoas para irem lá a
casa.
8 Assi: é assim que resolves a
minha situação?
9 v. 852: a oitava valia dois alquei-
res, o que cabia apenas aos
grandes proprietários.
10 vv. 855-856: uma vez que ele
te paga bem, faz o que ele te
mandou.
11 v. 867: Inês Pereira pensava
que a nobreza se reconhecia
pela boa educação e virtudes.
12 vv. 882-883: Inês deseja a
morte do marido, em estado
de desespero.
13 Arzila: vila em Marrocos.
14 Tavila: Tavira (porto de
embarque para o norte de
África).
15 v. 903: indicação que o Escu-
deiro havia embarcado há três
meses.
16 v. 909: tem coragem.
17 v. 911: «Conformai-vos com a
vontade divina.»
18 v. 926: o casamento terminou,
assim como a sua prisão.
19 repetenado: fazer-se de insolente.
20 malino: mau.
21 sotrancão: dissimulado;
velhaco; sonso.
Com o que vós me deixais
nam comerei eu galinhas.
Vai-te tu por essas vinhas
que diabo queres mais?
Olhai olhai como rima
e depois de ida a vendima?
Apanha desse rabisco.
Pesar ora de sam Pisco
convidarei minha prima7
.
E o rabisco acabado
ir-m’-ei espojar às eiras.
Vai-te por essas figueiras
e farta-te desmazelado!
Assi8
.
Pois que cuidavas?
E depois virão as favas.
Conheces túbaras da terra?
I-vos vós embora à guerra
que eu vos guardarei oitavas9
.
Ido o Escudeiro, diz o Moço:
Senhora o que ele mandou
nam posso menos fazer.
Pois que te dá de comer
faze o que te encomendou10
.
Vós fartai-vos de lavrar
eu me vou desenfadar
com essas moças lá fora.
Vós perdoai-me senhora
porque vos hei de fechar.
Aqui fica Inês Pereira só fechada lavrando e
cantando esta cantiga:
Quem bem tem e mal escolhe
por mal que lhe venha nam s’anoje.
Renego da discrição
comendo ao demo o aviso
que sempre cuidei que nisso
estava a boa condição11
.
Cuidei que fossem cavaleiros
fidalgos e escudeiros
nam cheos de desvarios
e em suas casas macios
e na guerra lastimeiros.
Vede que cavalaria
vede já que mouros mata
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Escudeiro
Moço
Inês
Moço
835
840
845
850
855
860
865
870
875
880
885
890
900
905
910
915
Lê o sobrescrito:
Prossegue:
Falado:
139
Farsa de Inês Pereira
com cousas. Sabei que indo
vosso marido fogindo
da batalha pera a vila
a mea légua de Arzila
o matou um mouro pastor.
Oh meu amo e meu senhor.
Dai-me vós cá essa chave
e i buscar vossa vida.
Oh que triste despedida.
Mas que nova tam suave
Desatado é o nó18
.
Se eu por ele ponho dó
o diabo m’arrebente.
Pera mi era valente
e matou-o um mouro só.
Guardar de cavaleirão
barbudo repetenado19
que em figura d’avisado
é malino20
e sotrancão21
.
Agora quero tomar
pera boa vida gozar
um muito manso marido
nam no quero já sabido,
pois tam caro há de custar.
Gil Vicente, op. cit., pp. 583-588
Moço
Inês
Moço
Inês
920
925
930
935
1. Após o casamento, o Escudeiro revela a sua verdadeira personalidade.
1.1 Indica as imposições feitas a Inês, comprovando-as com elementos textuais.
2. O Escudeiro parte para a guerra, deixando Inês sozinha, a bordar e a cantar.
2.1 Explicita, de acordo com a ação da farsa, o significado do ditado popular que ini-
cia a cantiga de Inês: «Quem bem tem e mal escolhe / por mal que lhe venha nam
s’anoje» (vv. 862-863).
2.2 Relaciona o significado do ditado com a letra da cantiga.
3. Atenta na fala de Inês antes da entrada do Moço em cena (vv. 862-890).
3.1 Explica em que medida estes versos demonstram a evolução psicológica da prota-
gonista.
4. Durante a Farsa de Inês Pereira, observa-se que não há quase referências à passagem
do tempo da ação.
4.1 Comprova, com um exemplo textual, a rápida passagem do tempo desde o casa-
mento de Inês à notícia da morte de Brás da Mata.
5. Relaciona a caracterização de Brás da Mata, apresentada no início do excerto, com a
forma como ele é morto em África. Justifica a tua resposta.
GRAMÁTICA
1. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução das seguintes palavras.
a) «cheos» (v. 870)  cheios; b) «pera» (v. 918)  para.
2. Identifica as funções sintáticas desempenhadas pelas palavras/expressões destacadas.
a) A decisão de Brás da Mata foi prender Inês em casa.
b) Brás da Mata, escudeiro cobarde, foi morto por um pastor mouro.
c) Inês considerou uma bênção a morte de Brás da Mata.
d) Naquela tarde, a triste Inês bordava em casa quando recebeu a notícia.
Representação
do quotidiano
p. 141
FI
Caracterização
das personagens
p. 147
FI
Caracterização
das personagens
p. 148
FI
Fonética e fonologia
p. 38
FI
Funções sintáticas
pp. 324-325
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.1 Proíbe-a de cantar (vv. 781-786);
avisa-a de que a palavra dele é sobe-
rana, por isso não deve retorquir ou
argumentar (vv. 793-795); proíbe-a
de sair de casa e de falar com mais
alguémparaalémdele(vv.799-800);
diz-lhe que em casa quem manda é
ele(vv.817-818).
2.1 Inês conclui, amargamente, que
fez a escolha errada quanto ao ho-
mem com quem se casou, tendo,
por isso, de resignar-se. Entenda-se
que o «bem» seria Pero Marques e o
«mal»BrásdaMata.
2.2Relata-nosadesilusãoeodesen-
canto quanto à imagem do homem
ideal com quem almejava casar:
cavaleiro culto e de boas maneiras.
Todavia, Brás da Mata revela-se exa-
tamenteoopostodoqueelasonhara.
3.1 A personagem evolui ao revelar
arrependimento por se ter casado
comoEscudeiroedesejaficarsolteira
para escolher um marido que possa
controlar/manipular.
4.1 «Há três meses que é passado.»
(v.903).
5. A relação estabelecida é de con-
traste, pois no início do excerto Brás
da Mata é caracterizado indireta-
mente como um homem rigoroso,
que maltrata a esposa. No final,
a personagem é descrita como
cobarde tendo sido morta por um
pastor e não por um guerreiro, como
seriadeesperar.
Gramática
1. a) epêntese de i; b) assimilação
dee.
2.a)complementodonome; b)modi-
ficador apositivo do nome / comple-
mento agente da passiva; c) predi-
cativodocomplementodireto/com-
plemento do nome; d) modificador/
modificador restritivo do nome/
modificador.
140 Unidade 3 // GIL VICENTE
ESCRITA
Exposição sobre um tema
1. Partindo da leitura do texto acima apresentado e da análise que fizeste da obra até
agora, prepara uma exposição escrita, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras,
na qual esclareças como se sugere a passagem do tempo e dos acontecimentos durante
a ação. Segue os tópicos.
Introdução:
1.º parágrafo – distinção entre o tempo representado e o da representação e escassez
das referências temporais na obra.
Desenvolvimento:
2.º parágrafo – elementos cénicos que tornam visível a passagem entre os vários
momentos temporais e sua exemplificação.
3.º parágrafo – motivos que justificam a economia temporal na obra.
Conclusão:
4.º parágrafo – contributo da imprecisão do tempo para a intemporalidade da obra.
No final revê o teu texto e aperfeiçoa-o se necessário.
PROFESSOR
Escrita
Sugestãoderesposta:
“F7?BAD7BD7E7@F36A¬6GD3{yA5DA
nológica da ação: mais de três
meses; tempo da representação
– duração do espetáculo: possivel-
menteumahora;
“7J;EF73B7@3EG?3D787D~@5;35A@-
creta à passagem do tempo – mais
detrêsmeses;
“7@FD3637E3€6367B7DEA@397@ECG7
assinalam diferentes momentos
temporais – por exemplo, no início,
a entrada da mãe, vinda da missa; a
primeiraentradadePeroMarques;a
chegadadoEscudeiro;areceçãoda
cartadomaridodeInês…
“83363$y7@A;@€5;AHH  
fala de Pero Marques sobre a apro-
ximaçãodanoite(v.352,v.372);fala
deInêssobreanoite(v.388)esobre
odiaanterior(v.419)…
“CG7EFyABDtF;536AF7?BA67D7BD7-
sentação;
“35D€F;53EA5;3BD7E7@F77?CG3-
querépoca.
“3 ;?BD75;EyA F7?BAD3 5A@FD;4G;
com a intemporalidade da crítica
socialveiculada.
A construção do tempo
Quase não existem referências explícitas à passagem do tempo na ação da Farsa
deInêsPereira.Aúnicareferênciaconcretaaotemporegista-sequandoInêsrecebe
uma carta de Arzila, na qual se anuncia a morte do Escudeiro Brás da Mata, e
o Moço afirma que o seu amo partira três meses antes para África. No entanto,
o espectador/leitor apercebe-se dos diferentes momentos temporais, nomeada-
mente quando Inês está solteira, quando se casa e quando enviúva, quando contrai
novo matrimónio e quando encontra o antigo apaixonado. Ao espectador/leitor
não é dada informação sobre quanto tempo decorre entre estes acontecimentos.
A imprecisão temporal na ação transmite-lhe alguma inverosimilhança, resultante
dodecursodotempo,quenãoécoincidentecomotempoderepresentação(dura-
ção do espetáculo).
(Texto dos autores)
Porque é que Gil Vicente introduz o castelhano nas suas obras?
Embora use recorrentemente outras línguas, dialetos e socioletos, a obra de Gil
Vicente confere especial destaque ao castelhano, por vários fatores:
  tSB[ÜFTEFDPSUFTJBQBSBDPNBSBJOIB%.BSJB FTQPTBEF%.BOVFM*
  tBVEJUØSJPQSFEPNJOBOUFNFOUFFTQBOIPM
  tJNJUBÎÍPMJUFSÈSJB
  tFMFNFOUPEBDPNQPTJÎÍPEBQFSTPOBHFN
  tDPOUSJCVJÎÍPQBSBBQPMJGPOJBDBSOBWBMFTDB GPOUFEFTÈUJSBFDØNJDP
Salvato Trigo, Gil Vicente e a teatralização das linguagens, 1983 (Comunicação na Semana de Estudos
Portugueses, Universidade de Toronto, disponível em http://ler.letras.up.pt, consultado em outubro de 2014)
CURIOSIDADE
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
141
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
3
5
10
15
5
10
15
Representação do quotidiano
1. Representação do quotidiano I
A ideia de cativeiro, que domina o espírito de Inês e determina a sua revolta, decorre,
segundo as suas palavras deixam transparecer, da conjugação de diversos fatores: con-
finamento a um espaço interior, o da própria casa, subjugação à autoridade materna,
cultivo forçado de prendas domésticas – na circunstância, o bordado, que acabará afinal
por acompanhá-la até ao casamento com Pero Marques. Em torno dessa ideia, central
no discurso de abertura da moça, se organiza também toda a intriga: o auto só chegará
ao fim quando Inês tiver levado a bom termo o seu projeto de libertação.
O desabafo da jovem, inconformada com o aprisionamento de que se considera
vítima, é interrompido pela chegada da Mãe, vinda da missa, para logo prosseguir na
azeda troca de palavras que torna evidente o conflito que interesses e conceções de
vida diferentes instalaram entre elas. […]
Terminado o relato em que longamente se empenhou [o ataque do clérigo], […]
a Alcoviteira apresenta então à rapariga uma carta, que deverá esclarecê-la quanto à
discrição de Pero Marques. O escrito, que Inês vai lendo e comentando em voz alta,
falha por completo o objetivo visado: Pero revela-se pobre de espírito, em nada cor-
respondendo ao ideal de Inês. […]
Fora do alcance dos espectadores, Lianor Vaz, cumprindo a missão de interme-
diária que lhe cabe, avisa Pero Marques de que Inês está pronta a recebê-lo e logo ele
aparece, ansioso por essa entrevista. […]
Cristina Almeida Ribeiro, op. cit., pp. 7, 8, 9 e 12 (texto adaptado)
2. Representação do quotidiano II
Com um olhar mais atento, podemos detetar outros exemplos que espelham o
modo de vida quotidiano da sociedade da época, num tempo em que se vivia uma
transição entre a Idade Média e o Renascimento. Entre eles contam-se os seguintes:
t a prática religiosa (ida à missa);
t o hábito de recorrer a casamenteiros (Lianor Vaz e os Judeus);
t a falta de liberdade da rapariga solteira, confinada à casa da mãe e a viver sob o
jugo desta;
t a ocupação da mulher solteira em tarefas domésticas (bordar, coser);
t o casamento como meio de sobrevivência e de fuga à submissão da mãe;
t a tradição da cerimónia do casamento, seguida de banquete;
t a submissão ao marido da mulher casada e o seu «aprisionamento» em casa;
t a inércia da nova burguesia que nada fazia para adquirir mais cultura;
t a decadência da nobreza que procurava enriquecer através do casamento e
buscava o prestígio perdido na luta contra os mouros;
t a devassidão do clero; a corrupção moral de mulheres que se deixavam seduzir
por elementos do clero;
t o adultério.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
3
142 Unidade 3 // GIL VICENTE
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Bem casar para livre estar…
1 v. 941: Inês finge-se triste e
Lianor finge que acredita.
2 Canseira: desgraça.
3 Casta: descendentes, filhos.
4 v. 946: um filho garantir-lhe-ia a
gestão dos bens herdados, bens
que o Escudeiro não tinha.
5 v. 948: todos morrem.
6 v. 963: a experiência de vida
ensina mais que a teoria.
7 v. 966: esquecei as ideias que
tínheis.
8 v. 971: senso comum.
9 v. 979: «Sente-se um homem
atrapalhado, que diabo!»
Homem está empregado como
indefinido (A. J. Saraiva).
10 vv. 990-991: referência à tradi-
ção de atirar grãos de trigo sobre
os noivos.
Aqui vem Lianor Vaz e finge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor Vaz:
Como estais Inês Pereira?
Muito triste1
Lianor Vaz.
Que fareis ao que Deos faz?
Casei por minha canseira2
.
Se ficaste prenhe basta.
Bem quisera eu dele casta3
,
mas nam quis minha ventura4
.
Filha nam tomeis tristura
que a morte a todos gasta5
.
O que havedes de fazer?
Casade-vos filha minha.
Jesu Jesu tam asinha
isso me haveis de dizer?
Quem perdeu um tal marido
tam discreto e tam sabido,
e tam amigo de minha vida.
Dai isso por esquecido
e buscai outra guarida.
Inês
Lianor
Inês
Lianor
Inês
Lianor
Inês
Lianor
940
945
950
955
Pero Marques tem que herdou
fazenda de mil cruzados
mas vós quereis avisados.
Nam, já esse tempo passou.
Sobre quantos mestres são
a experiência dá lição6
.
Pois tendes esse saber
querei ora quem vos quer
dai ò demo a openião7
.
Vai Lianor Vaz por Pero Marques
e fica Inês Pereira só dizendo:
Andar. Pero Marques seja.
Quero tomar por esposo
quem se tenha por ditoso
de cada vez que me veja.
Por usar de siso mero8
asno que me leve quero
e nam cavalo folão
antes lebre que leão
antes lavrador que Nero.
Vem Lianor Vaz com Pero Marques,
e diz Lianor Vaz:
Nô mais cerimónias agora
abraçai Inês Pereira
por molher e por parceira.
Há homem empacho màora9
.
Quanta a dizer abraçar
depois que a eu usar
entonces poderá ser.
Nam lhe quero mais saber
já me quero contentar.
Ora dai-me essa mão cá
sabeis as palavras si?
Ensinaram-mas a mi
porém esquecem-me já.
Ora dizei como digo.
E tendes vós aqui trigo
pera nos jeitar por cima?10
Inda é cedo, como rima.
Soma vós casais comigo
Inês
Lianor
Pero
Inês
Lianor
Pero
Lianor
Pero
Lianor
Pero
960
965
970
975
980
985
990
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7 a); 14.11; 15.1; 15.5; 16.1.
Gramática
19.1.
Escrita
11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1.
MC
143
Farsa de Inês Pereira
e eu convosco pardelhas.
Nam compre aqui mais falar
e quando vos eu negar
que me cortem as orelhas.
Vou-me, ficai-vos embora.
Vai-se e diz Inês Pereira:
Marido sairei eu agora
que há muito que nam saí?
Si molher saí vos i
que eu me irei para fora11
.
Marido, nam digo disso.
Pois que dizeis vós molher?
Ir folgar onde eu quiser.
I onde quiserdes ir
vinde quando quiserdes vir
estai quando quiserdes estar.
Com que podeis vós folgar
que eu nam deva consentir?
Vem um Ermitão a pedir esmola,
que em moço lhe quis bem, e diz:
Señores por caridad
dad limosna12
al dolorido
ermitaño de Cupido
para siempre en soledad
pues su siervo soy nascido.
Por exemplo
me metí en su santo templo
ermitaño en pobre ermita
fabricada de infinita
tristeza en quien contemplo13
.
Adonde rezo mis horas14
y mis días y mis años
mis servicios y mis daños
donde tú mi alma Iloras
el fin de tantos engaños.
Y acabando
las horas todas llorando
tomo las cuentas una a una
com que tomo a la fortuna
cuenta del mal en que ando15
sin esperar paga alguna.
Y ansí sin esperanza
de cobrar lo merescido
sirvo alli mis días Copido
con tanto amor sin mudanza
que soy su santo escogido.
Oh señores
los que bien os va d'amores
dad limosna al sin holgura16
que habita en sierra escura
uno de los amadores
que tuvo menos ventura.
Y rogaré al Dios de mi
en que mis sentidos traigo
que recibáis mejor pago
de lo que yo recebí
en esta vida que hago.
Y rezaré
con gran devoción y fe
que Dios os libre d’engaño
que eso me hizo ermitaño
y para siempre seré
pues para siempre es mi daño.
Olhai cá marido amigo
eu tenho por devação
dar esmola a um ermitão
e nam vades vós comigo.
I-vos embora molher
nam tenho lá que fazer.
Tomai a esmola padre lá
pois que Deos vos trouxe aqui.
Sea por amor de mí
vuestra buena caridad.
Deo gracias mi señora.
La limosna mata el pecado
pero vos tenéis cuidado
de matarme cada hora17
.
Debéis saber
para merced me hacer18
que por vos soy ermitaño
y aun más os desengaño
que esperanzas de os ver
me hicieron vestir tal paño19
.
Jesu Jesu manas minhas20
sois vós aquele que um dia
em casa de minha tia
me mandastes camarinhas.
E quando aprendia a lavrar
mandáveis-me tanta cousinha
eu era ainda Inesinha
nam vos queria falar.
Inês
Pero
Inês
Ermitão
Inês
11 Irei para fora: Pero pensa que
Inês se referia a defecar (tam-
bém significado de «sair»).
12 Limosna: esmola.
13 v. 1020: tristeza em que
medito.
14 v. 1021: duplo sentido – oração
e parte do dia.
15 vv. 1028-1030: reza as contas
do rosário (terço) e pede con-
tas ao destino pela sua tristeza.
16 Holgura: alegria.
17 v. 1067: jogo de sentido com a
palavra «matar» – a esmola eli-
mina o pecado e Inês tortura-o
com a sua indiferença.
18 v. 1069: para me recompensar-
des de forma justa.
19 vv. 1072-1073: foi a esperança
de vos ver que me fez vestir este
hábito (M. Braga).
20 v. 1074: Inês reconhece o seu
antigo apaixonado.
995
1000
1005
1010
1015
1020
1025
1030
1035
1040
1045
1050
1055
1060
1065
1070
1075
1080
Lianor
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
143
Farsa de Inês Pereira
con tanto amor sin mudanza
que soy su santo escogido.
Oh señores
los que bien os va d'amores
dad limosna al sin holgura16
que habita en sierra escura
uno de los amadores
que tuvo menos ventura.
Y rogaré al Dios de mi
en que mis sentidos traigo
que recibáis mejor pago
de lo que yo recebí
en esta vida que hago.
Y rezaré
con gran devoción y fe
que Dios os libre d’engaño
que eso me hizo ermitaño
y para siempre seré
pues para siempre es mi daño.
.
Olhai cá marido amigo
eu tenho por devação
dar esmola a um ermitão
e nam vades vós comigo.
I-vos embora molher
nam tenho lá que fazer.
Tomai a esmola padre lá
pois que Deos vos trouxe aqui.
Sea por amor de mí
nês
ro
nês
ão
1035
1040
1045
1050
1055
1060
144 Unidade 3 // GIL VICENTE
Señora téngoos servido
y vos a mí despreciado.
Haced que el tiempo pasado
no se cuente por perdido.
Padre mui bem vos entendo
ò demo vos encomendo
que bem sabeis vós pedir.
Eu determino lá d’ir
à ermida Deos querendo.
Y cuándo?
I-vos meu santo21
que eu irei um dia destes
muito cedo muito prestes.
Señora yo me voy en tanto.
Em tudo é boa a concrusão.
Marido aquele ermitão
é um anjinho de Deos.
Corregê vós esses véus
e ponde-vos em feição22
.
Sabeis vós o que eu queria?
Que quereis minha molher?
Que houvésseis por prazer
de irmos lá em romaria.
Seja logo, sem deter.
Este caminho é comprido
contai ùa estória marido.
Bofá que me praz molher
Passemos primeiro o rio.
Descalçai-vos.
E pois como?
E levar-me-eis ao ombro23
não me corte a madre o frio.
Põe-se Inês Pereira às costas
do marido e diz:
Marido assi me levade.
Ides à vossa vontade?
Como estar no paraíso.
Muito folgo eu com isso.
Esperade ora esperade
olhai que lousas aquelas
pera poer as talhas nelas.
Quereis que as leve?
Si.
Ùa aqui e outra aqui.
Oh como folgo com elas.
Cantemos marido quereis?
Eu nam saberei entoar.
Pois eu hei só de cantar
e vós me respondereis
cada vez que eu acabar:
pois assi se fazem as cousas.
Marido cuco me levades
e mais duas lousas.
Pois assi se fazem as cousas.
Bem sabedes vós marido
quanto vos amo
sempre fostes percebido24
pera gamo.
Carregado ides noss’amo
com duas lousas.
Pois assi se fazem as cousas.
Bem sabedes vós marido
quanto vos quero
sempre fostes percebido
pera cervo.
Agora vos tomou o demo
com duas lousas.
Pois assi se fazem as cousas.
E assi se vão, e se acaba o dito auto.
Gil Vicente, op. cit., pp. 588-594
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.1 Inês decide finalmente aceitar
Pero como marido, tendo em conta
adesilusãosofridanoprimeirocasa-
mento. Agora já não acredita nem
no amor nem nos homens e quer
vingar-se do Escudeiro, escolhendo
para marido um homem submisso
(vv.969-977).
2.1 Inês afirma que aprendeu com a
experiência de vida, ou seja, o casa-
mento fracassado com o Escudeiro
ensinou-lhe que mais vale um cam-
ponês humilde, que a possa fazer
feliz, que um marido de comporta-
mento refinado, que saiba cantar e
dançar,masqueamaltrate.
3.1 Inês encontra um ermitão que
revelaserumseuantigoapaixonado,
desde os tempos de criança. Foi por
ela que se tornou ermitão. Reconhe-
cendo-o, Inês compromete-se a visi-
tá-lonaermida.
Ermitão
Inês
Ermitão
Inês
Ermitão
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
Pero
Inês
1085
1090
1095
1100
1105
1110
1115
1120
1125
1130
1135
1140
Canta Inês:
21 v. 1091: de santo ele terá pouco.
22 vv. 1098-1099: componha esses véus
e ponde-vos bonita.
23 v. 1110: levar-me-eis às costas.
24 v. 1133: destinado.
145
Farsa de Inês Pereira
1. Neste excerto concretiza-se o casamento entre Inês Pereira e Pero Marques.
1.1 Indica o motivo que leva a protagonista a seguir o conselho de Lianor.
2. Nos versos 962 e 963, Inês afirma que «Sobre quantos mestres são / a experiência dá
lição».
2.1 No contexto da obra, relaciona esta afirmação com o sentido dos versos: «Por usar
de siso mero / asno que me leve quero / e nam cavalo folão / antes lebre que leão /
antes lavrador que Nero.» (vv. 971-975)
3. Pero Marques concede a tão desejada liberdade a Inês, que encontra um ermitão a
pedir esmola.
3.1 Resume o primeiro encontro entre Inês e o Ermitão.
4. No texto, é sugerida, em dois momentos, a infidelidade de Inês ao marido.
4.1 Transcreve os versos que demonstram esta atitude de Inês.
5. O fim da peça poderia ter sido omitido, pois em nada comprometeria o objetivo do autor
em mostrar o domínio de Inês sobre Pero.
5.1 Explicita a intenção de Gil Vicente ao incluir esse fim (vv. 1112 a 1144).
6. Identifica o tipo de cómico presente nos seguintes versos. Justifica a tua resposta.
a) Inês: «Marido sairei eu agora / que há muito que nam saí?» (vv. 999-1000)
Pero: «Si molher saí vos i / que eu me irei para fora.» (vv. 1001-1002)
Inês: «Marido, nam digo isso.» (v. 1003)
b) Inês: «E levar-me-eis ao ombro» […]«Marido cuco me levades / e mais duas lousas.»
(vv. 1110 e 1128-1129)
Pero: «Pois assi se fazem as cousas.» (v. 1130)
7. Estabelece um paralelismo entre os vários momentos deste excerto e a ação anterior.
Os versos entre parênteses ajudar-te-ão.
Excerto final Excertos anteriores
a) Inês canta com alegria o seu casamento, o qual lhe permite
uma total liberdade.
(vv. 1-38).
b) Lianor Vaz propõe Pero Marques para marido de Inês, e esta
aceita-o.
(vv. 179-239).
c) Reflexão de Inês sobre as vantagens do casamento com Pero
Marques.
(vv. 864-881).
d) Lianor Vaz casa Pero Marques e Inês, sem cerimónia nem festa. (vv. 703-713)
e) Inês vive feliz, com total liberdade, e é infiel ao seu marido. (vv. 781-825).
8. Gil Vicente pôs em cena personagens que encarnavam os elementos ativos da compa-
ração presente no ditado abaixo.
8.1 Faz a correspondência das personagens que os representam.
Albano M. Soares, Farsa de Inês Pereira, Porto, Porto Editora, 2011, p. 13
(texto adaptado)
PROFESSOR
4.1 Após o primeiro encontro com
o Ermitão, o marido diz-lhe para se
ajeitar: «Corregê vós esses véus / e
ponde-vosemfeição»(vv.1098-1099).
Num segundo momento, é a própria
Inês que insulta o marido: «Marido
cuco me levades» (v. 1127); «Sem-
pre fostes percebido / pera gamo»
(vv.1133-1134);«Semprefostesperce-
bidoperacervo»(vv.1140-1141).
5.1 Inês consegue que Pero Marques
a conduza até ao local, sob a justifi-
cação de o Ermitão ser um homem
santo. Assim, o marido submisso
leva-a ao encontro do amante, car-
regando-a literalmente às costas
quando atravessam um rio. Durante
atravessia,cantamumamúsicacar-
regada de ironia, na qual Inês chama
o marido «cervo» e «cuco» (gíria da
época para «enganado»). Seguindo
o refrão da canção, Pero Marques
limita-se a repetir: «Pois assim se
fazem as cousas» (v. 1144). O objetivo
é enfatizar a infidelidade de Inês e a
ingenuidade e submissão de Pero e,
consequentemente, materializar o
provérbioquedámoteàobra.
6.
a) Cómico de linguagem, pelo uso do
trocadilhocomoverbo«sair»(casa).
Cómicodecaráter,quetraduzainge-
nuidade,aignorânciadePero.
b) Cómico de situação, pois Pero
Marques transporta Inês às costas e
aceita cantar uma cantiga na qual o
apelidademaridotraído.
7. Excertos anteriores: a) Inês
canta com tristeza a sua vida de
cativeiro e trabalho; b) Lianor Vaz
propõe Pero Marques para marido
de Inês e esta rejeita-o; c) Refle-
xão de Inês sobre as desvantagens
do casamento com o Escudeiro;
d) Inês e Brás da Mata casam-
-se, com cerimónia e com festa;
e) Inês vive infeliz e sem liberdade
comoEscudeiro.
8.
a)PeroMarques;
b)Inês;
c)Escudeiro,BrásdaMata.
Mais quero ASNO que ME leve (que) CAVALO que ME derrube
a) b) c) Inês
Os processos de cómico
p. 125
FI
146 Unidade 3 // GIL VICENTE
GRAMÁTICA
1. Transpõe para o português atual os seguintes vocábulos:
a) «prenhe» (v. 944);
b) «asinha» (v. 951);
c) «empacho» (v. 979);
d) «folgar» (v. 1009);
e) «vades» (v. 1057).
2. Faz a correspondência entre as formas verbais destacadas e o tempo e modo verbais,
representados na tabela.
Frase Tempo e modo
a) «Andar. Pero Marques seja.» 1. Futuro do modo conjuntivo
b) «Ora dai-me essa mão cá.» 2. Pretérito imperfeito do modo indicativo
c) «I onde quiserdes ir.» 3. Futuro do modo indicativo
d) «e quando aprendia a lavrar» 4. Modo imperativo
e) «que eu irei um dia destes» 5. Presente do modo conjuntivo
3. Classifica os advérbios destacados.
a) Onde foi Inês e Pero Marques?
b) Inês casou-se com Pero, contudo não lhe foi fiel.
c) O marido levou-a até à ermida onde se encontrou com o amante.
d) Primeiramente pô-la às costas, seguidamente atravessaram o rio e finalmente
chegaram à ermida.
ESCRITA
Exposição sobre um tema
1. Num texto expositivo, de cento e vinte a cento e cinquenta palavras, reflete sobre as
críticas presentes nesta obra e sobre os ensinamentos que daí poderão resultar.
Segue a planificação a seguir apresentada:
Introdução:
1.º parágrafo – breve apresentação do tema.
Desenvolvimento:
2.º parágrafo – críticas presentes na obra;
3.º parágrafo – ensinamentos decorrentes dessas críticas.
Conclusão:
5.º parágrafo – apresentação do teu ponto de vista, fundamentando-o.
2. No final, faz a revisão do teu texto, verificando a construção das frases, a utilização
correta dos conectores e a clareza do discurso. Se necessário, faz as correções de modo
a aperfeiçoá-lo.
A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, tece uma crítica aos costumes da época,
pretendendo transmitir ideias moralizadoras ao seu público através do riso.
Advérbio e locução adverbial
p. 321
SIGA
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
PROFESSOR
Gramática
1.a) grávida; b) depressa; c)atrapa-
lhado;d) divertir;e)ides.
2.a)5;b)4;c)1;d)2;e)3.
3. a) interrogativo; b) conectivo;
c)relativo;d)conectivo.
Escrita
Sugestõesderesposta:
“%yA 67H7?AE E7D ;@GEFAE  B3D3
com os outros por opções erradas
(Inês maltratou Pero Marques por-
que escolheu mal ao casar-se com
oEscudeiro);
“%yA 67H7?AE 83L7D 3AE AGFDAE A
quenãogostamosquenosfaçam;
“%yA67H7?AE67E73D?3;E6ACG7
aquiloquenosédado…
147
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
4
Caracterização das personagens
INÊS PEREIRA: rapariga ambiciosa e sonhadora (pequena burguesia)
1. Solteira
té ociosa, despreza a vida rústica do campo;
to seu quotidiano é entediante: costura, borda e fia;
té alegre, quer sair de casa e divertir-se, mas é contrariada pela mãe;
té ambiciosa e idealista, quer casar-se com um homem que, ainda que pobre, seja «avisado»
(discreto), meigo e saiba cantar e tocar viola, para fugir à vida que tem, viver alegre e ascender
socialmente;
t a carta que Pero Marques envia não lhe agrada; considera-o disparatado e simplório;
ttroça de Pero Marques quando este a visita, e rejeita-o.
2. Casada e viúva
tcasa com Brás da Mata, o Escudeiro, sem saber que ele é pobre e interesseiro;
tfica a viver em casa da mãe, que se retira para viver num casebre;
té infeliz, pois o marido não a deixa cantar e prende-a em casa;
tfica sozinha quando o seu marido vai para Marrocos lutar contra os mouros;
té vigiada pelo Moço;
treconhece que errou ao rejeitar Pero Marques e ao casar-se com o Escudeiro;
tdeseja a morte do marido e jura que se casará uma segunda vez com um marido que seja sub-
misso, para gozar a vida e vingar-se das provações sofridas enquanto casada com o Escudeiro;
tnão se comove com a morte do marido, pelo contrário, sente-se livre;
té hipócrita ao chorar pelo marido morto e ao dizer que está triste;
treconhece que a experiência de vida ensina mais do que os mestres.
3. Casada em segundas núpcias
tmaterialista, pragmática e calculista, decide casar-se com Pero Marques;
tcanta e, livre, sai de casa com o consentimento do marido;
ttem o hábito de dar esmola ao Ermitão de Cupido;
tinicialmente, não reconhece o Ermitão como um apaixonado do seu passado, mas tenciona
cometer adultério com ele;
tabusa da ingenuidade do segundo marido e pede-lhe para a acompanhar à ermida, para ter um
encontro amoroso com o Ermitão.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
4
148 Unidade 3 // GIL VICENTE
ESCUDEIRO BRÁS DA MATA: baixa nobreza (fidalgo)
tduvida do retrato perfeito que os judeus casamenteiros fazem de Inês;
té pobre, mas finge ser rico e desinteressado;
té galanteador, elegante, bem-falante, sabe ler e escrever, sabe cantar e tocar viola – é «dis-
creto»; é o homem ideal que Inês procura;
té desonesto, ambicioso e calculista, pensa viver às custas de Inês;
tcasa-se com Inês e revela-se autoritário e agressivo;
tparte para a guerra em Marrocos para ser armado cavaleiro, deixando Inês e o Moço sem
dinheiro;
té cobarde, pois é morto em Arzila por um mouro pastor, ao fugir do campo de batalha;
trepresenta o papel de «cavalo», elegante e valente (supostamente).
PERO MARQUES: lavrador abastado (povo)
tpretendente rejeitado de Inês;
té rico e trabalhador, tendo herdado a maior parte do gado do pai e uma fazenda de mil cruza-
dos;
tapresenta-se como um homem de bem, honesto e de boas intenções;
té um homem rústico, desconhecedor das regras de convivência social, ignorante e ingénuo;
tcai no ridículo pela maneira como se veste e pela maneira de falar e de agir;
tsofre com a rejeição e promete não se casar até que Inês o aceite;
tapós a morte do Escudeiro, casa-se com Inês Pereira;
tconcede liberdade total a Inês e é traído por ela;
trepresenta o papel de «asno» que leva literalmente a mulher às costas para «visitar» o Ermitão.
LIANOR VAZ: alcoviteira casamenteira (povo)
tconhecida da mãe de Inês, quer que Inês se case com Pero Marques;
taparentemente honesta e desinteressada pelo dinheiro que poderá ganhar com o casamento
de Inês;
tsensata e boa conselheira, avisa Inês de que ela não deverá esperar o marido, mas aceitar o
pretendente que lhe aparecer;
tamiga, mostra-se preocupada com o futuro de Inês;
tdepois da morte do Escudeiro, persuade Inês a casar-se com Pero Marques.
MÃE: mulher simples (pequena burguesia)
té religiosa;
té autoritária, não permitindo que Inês saia de casa e obrigando-a a trabalhar;
tdefende o casamento de Inês com Pero Marques;
tconselheira e preocupada com o futuro da filha;
tnão aprova a relação da filha com o Escudeiro, fruto do idealismo e da leviandade de Inês;
tresignada, acaba por aceitar a opção de Inês se casar com Brás da Mata, abençoando-os e
dando-lhes a sua casa.
149
Ficha informativa
ERMITÃO: antigo apaixonado de Inês (clero)
té castelhano;
tapresenta um discurso mais amoroso do que religioso, aproximando-se da blasfémia;
té solitário e triste;
tpede esmola pelas ruas;
ta paixão frustrada por Inês fê-lo tornar-se ermita;
tenvolve-se amorosamente com Inês.
OS JUDEUS CASAMENTEIROS – LATÃO E VIDAL: alcoviteiros casamenteiros
ttêm a missão de encontrar um marido para Inês;
toperam como uma única personagem, visível no seu discurso que confere comicidade à obra:
«Tu e eu não somos eu?»;
tprocuraram o marido ideal para Inês Pereira;
tsem escrúpulos e oportunistas, visando apenas uma recompensa material, exageram as quali-
dades do Escudeiro e de Inês para atingirem o seu objetivo;
tsão desonestos, falsos, materialistas e astutos.
MOÇO (Fernando): criado do Escudeiro (povo)
tcontribui para a sátira presente na obra pela denúncia do verdadeiro caráter do seu amo: a
pelintrice, as manias de grandeza, as privações e o sonho de atingir uma situação económica
confortável através do casamento com Inês;
tqueixa-se da pobreza e da fome a que o Escudeiro o sujeita;
té responsável por vigiar Inês, quando o seu amo parte para África, trancando-a em casa e dei-
xando-a sozinha enquanto ele se vai «desenfadar» com as moças;
tfica triste ao receber a notícia da morte do seu amo em Arzila;
té despedido por Inês, depois da morte do Escudeiro.
MOÇAS E MANCEBOS (Luzia e Fernando): amigos (povo)
tconvidados para a festa do primeiro casamento de Inês, animam a festa: cantam e bailam.
150 Unidade 3 // GIL VICENTE
150 Unidade 3 // GIL VICENTE
Dimensão satírica
1. Objetivo da crítica
Gil Vicente foi […] um lúcido observador do seu tempo e disso nos dá notícia,
recorrendo à veia satírica, nos seus textos. Neles são fustigados os vícios dos seus con-
temporâneos, numa crítica à sociedade parasitária, de gente que desprezava o trabalho
para viver de expedientes fáceis, ludibriando os outros. […]
Critica igualmente a hipocrisia generalizada, o contraste entre o ser e o parecer.
[…] Critica a mentalidade «paçã» das jovens raparigas; critica igualmente os escu-
deiros fanfarrões, galantes e pelintras; a rusticidade e ingenuidade «bacoca» de Pero
Marques; as alcoviteiras e os judeus casamenteiros; os casamentos por conveniência;
os clérigos (no relato de Lianor Vaz) e os ermitões (que deviam consagrar-se às ora-
ções a Deus e não a Cupido e aos namoros, nomeadamente com mulheres casadas).
Amélia Pinto Pais, História da literatura em Portugal – Uma perspetiva didática, vol. 1,
Porto, Areal, 2004, pp. 78-88
2. As personagens-tipo
Algumas vezes interpretada como um tipo vicentino, o da moça sonhadora e
leviana, Inês é, porém, trabalhada em moldes que dificilmente permitem uma classi-
ficação tão simples. Ainda que seja forçoso observar nela a presença de alguns traços
que apontam no sentido de uma tipificação, não pode, por outro lado, deixar de
reconhecer-se ser ela uma personagem dinâmica que evolui à medida que o tempo
passa. Inês Pereira realiza uma aprendizagem que produz efeitos práticos no decurso
da ação: o espectador vê-a transformar-se, amadurecer por força de uma experiência
desastrosa que lhe altera os sonhos e atitudes. […] Depois de experimentar o cavalo
que derruba, Inês preferir-lhe-á o asno que a leve em segurança aonde ela quiser.
Cristina Almeida Ribeiro, Inês, Lisboa, Quimera, 1991, pp. 12 e 13
A mãe, em contraste com a filha, revela-se ponderada, atenta à realidade e algo
interesseira (o casamento da filha com Pero Marques é garantia de bem-estar econó-
mico também para a sua velhice). Partilha pontos de vista com Lianor Vaz, a alcovi-
teira. É uma personagem-tipo, plana e estática […].
Pero Marques é o «asno» da história; rústico, bom homem; ridicularizado e rejei-
tado por Inês, aceita casar-se depois com ela e é, então, usado e enganado. É igual-
mente uma personagem tipo, estática, apresentada de modo direto e indireto. Tem
uma personalidade cómica (cómico de caráter ou de personagem). Ganha profundi-
dade em contraste com o Escudeiro, que é o cavalo que derruba Inês, depois de a ter
enganado com as suas aparências galantes.
Amélia Pinto Pais, op. cit., p. 87
Como alvo da sátira, para além de Inês e do tipo psicológico-social que é lhe ine-
rente, são abrangidas as figuras do escudeiro (considerado na sua tradicional disjun-
ção entre o ser e o parecer, que, neste caso, o conduz a parecer o marido e o soldado
que não é) e o moço Fernando que abandonou o campo para servir «um tavanês»,
na mira de uma promoção que não se verificou.
José Augusto Cardoso Bernardes, Sátira e lirismo. Modelos de síntese no teatro de Gil Vicente,
Coimbra, Universidade de Coimbra, 1996, p. 253 (texto adaptado)
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150 Unidade 3 // GIL VICENTE
Unidade 3 // GIL VICENTE
Dime
1. Obje
Gil Vi
recorrend
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para viver
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Ficha informativa 151
Pelintra [o escudeiro] vê no casamento a hipótese de enriquecer; é tirano e prepo-
tente com Inês e revela-se cobarde na guerra (é morto com um tiro pelas costas quando
fugia). Mais uma personagem tipo, estática, com caracterização direta e indireta.
Amélia Pinto Pais, op. cit., p. 87
Lianor Vaz, alcoviteira, aparece aqui desempenhando o seu papel junto da moça
casadoira, procurando insinuar-se e defender os interesses do pretendente, que segu-
ramente explora, apesar de nada no texto o dizer de modo explícito. A sua figura é
matizada. Perante Inês, ela comporta-se como amiga, dá-lhe conselhos que parecem
bem-intencionados, mostra-se solidária. […] Fora do alcance dos espectadores, Lia-
nor Vaz vai cumprindo a missão de intermediária que lhe cabe, avisa Pero Marques
de que Inês está pronta a recebê-lo e logo ele aparece, ansioso por essa entrevista.
[…] Depois de rejeitar Pero Marques, Inês concentra as suas esperanças na ação de
dois Judeus casamenteiros, cujos serviços contratara e que assim rivalizam no papel
de intermediários de amorosas empresas. A cerimónia termina com um divertido
arremedo dos dois judeus, que, abençoados os noivos, tentam receber de imediato
o que lhes é devido por terem concluído a sua missão. A mãe […] adia o pagamento
para o dia seguinte. […]
Vem um Ermitão pedir esmola. E a didascália do folheto antecipa, para o seu lei-
tor, informação que o espectador só terá mais tarde, pela boca do próprio Ermitão:
em moço, ele quis bem a Inês. Dizendo-se hermitaño de Cupido e proclamando a sua
constância e os padecimentos de amante desprezado, ele deixa que o discurso amoroso
se sobreponha progressivamente ao religioso, em termos que raiam a blasfémia […].
Cristina Almeida Ribeiro, op. cit., pp. 11-24
O tipo mais insistentemente observado e satirizado por Gil Vicente é sem dúvida o
clérigo […]. Gil Vicente censura nele a desconformidade entre os atos e os ideais, pois,
em lugar de praticar a austeridade, a pobreza e a renúncia ao mundo, busca a riqueza
e os prazeres, […] procedendo como se a ordenação sacerdotal o imunizasse contra os
castigos que Deus tem reservados para os pecadores.
António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 17.ª edição
Porto, Porto Editora, 2005, pp. 199
Personagem Representatividade
Inês
Jovens da pequena burguesia, ambiciosas e levianas, que usam o casamento para ascender
socialmente.
Pero Marques
Maridos ingénuos que se deixam enganar pelas mulheres e que aceitam essa traição (o marido
enganado é um tipo muito recorrente em Vicente).
Escudeiro Brás da Mata A baixa nobreza decadente e faminta que vê no casamento a solução para a sua ruína económica.
Mãe
Mães materialistas, confidentes e conselheiras, que, embora amigas, querem casar as filhas
para terem estabilidade económica.
Lianor Vaz e judeus
casamenteiros
Casamenteiros típicos da sociedade quinhentista.
Pajem (Fernando) Serviçais explorados e enganados que passam fome e frio, não sendo pagos pelos seus patrões.
Ermitão
Clero que desrespeita os preceitos da Igreja e a moral, dado o comportamento leviano dos
membros que se envolvem amorosamente com mulheres.
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152 Unidade 3 // GIL VICENTE
ORALIDADE
Reportagem
1. Antecipa os temas que poderão ser alvo de repor-
tagem tendo em conta a imagem apresentada.
2. Visiona a reportagem Educação: de iletradas a
superletradas.
2.1 Regista, no teu caderno, a informação rela-
tiva aos seguintes tópicos:
a) identificação do tema;
b) intervenientes principais;
c) visão geral e dos pedagogos sobre o que se espe-
rava das mulheres da geração anterior;
d) forma de emancipação feminina da geração
anterior;
e) opinião de Maria da Graça sobre habilitações
literárias;
f) lema da maior parte das portuguesas;
g) situação do mercado de trabalho feminino e
forma encontrada para vencer;
h) opinião da socióloga;
i) perspetiva de jovens mulheres sobre a figura
feminina no mercado de trabalho;
j) equívoco do século;
k) razão de haver mais homens do que mulheres em
cargos de chefia (perspetiva feminina);
l) ventos de mudança – exemplos.
3. Visiona novamente a reportagem e responde às seguintes questões:
3.1 Indica a intenção comunicativa inerente a este tipo de texto.
3.2 A informação veiculada pela reportagem não é totalmente objetiva.
Confirma esta afirmação, tendo em atenção a alternância do uso da primeira e da
terceira pessoas.
3.3 Apresenta a tua opinião sobre a adequação e a expressividade das imagens da
reportagem.
3.4 Apresenta três marcas características da reportagem.
3.5 Conclui sobre a perspetiva final da repórter relativamente a esta temática.
PROFESSOR
Oralidade
1.1; 1.2; 1.3; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7;
2.1; 2.2.
MC
Sugestãoaoprofessor:
Os alunos deverão ler os tópicos pre-
viamenteàreportagem.
Oralidade
1. Mulheres, crescente número de
mulherescommaishabilitaçõeslite-
rárias.
2.1 a) excesso de habilitações lite-
rárias das mulheres mais jovens
por oposição à falta de habilitações
das mais velhas; b) Lucinda, Paula
Peres, Maria Teresa Correia, Maria
da Graça Correia; c) cuidar do lar,
estudar até à 3.ª classe, tomar conta
dos irmãos, não deveriam ser edu-
cadas, assumir o papel de mães, de
educadoras; d) imigração; e) acesso
das mulheres a cargos, que, sem
habilitações, não conseguiriam; f)
um emprego, um ordenado, uma
independência; g) mais fechado pa-
ra as mulheres/estudar; h) Portugal
é o país com maior potencial para a
igualdade (seis vezes mais licencia-
das do que as suas mães); i) desigual-
dade menor, mulheres com cargos
mais altos; no entanto, os cargos de
topo/chefia ainda são ocupados por
homens; menor vencimento do que
os homens; j) redução da diferença
salarial;k)nãoquerempôremcausaa
família;l)NunoMartinseJoséCorreia
–geraçõesdiferentesqueseocupam
detarefasdomésticas.
3.1 Sensibilizar e consciencializar a
opiniãopública.
3.2 A reportagem é globalmente
objetiva, apresentando um discurso
de terceira pessoa, feito pela repór-
ter. No entanto, esta objetividade vai
alternando com marcas de subjeti-
vidade decorrentes das opiniões que
vão sendo veiculadas pelos interve-
nientes com o discurso de primeira
pessoa.
3.3 As imagens são adequadas ao
tema tratado, tentando ilustrar as
diferenças da realidade entre gera-
ções (experiência de vida, modo de
vestir,deviveredetrabalhar).
3.4 Multiplicidade de intervenientes
(várias vozes femininas, repórter e
duas vozes masculinas); informação
seletiva sobre o tema; uso da 1.ª e 3.ª
pessoas; desenvolvimento de um
tema(ainda)atualeespecífico.
3.5Conclui-sequeháaindaumcami-
nho a percorrer na redução da desi-
gualdade de géneros, embora alguns
objetivosjátenhamsidoatingidos.
▪ Vídeo
Educação: de iletradas,
a superletradas
153
Ficha informativa
Reportagem
O que é?
A reportagem é um subgénero do texto jornalístico veiculado pelos meios de
comunicação social. É um texto predominantemente informativo, que pressupõe um
trabalho de investigação do repórter que se desloca ao local, tomando contacto com a
situação ou acontecimento. O repórter observa os acontecimentos, seleciona a infor-
mação e entrevista pessoas. A reportagem é o produto desse trabalho, sendo simulta-
neamente objetiva na informação que transmite e subjetiva pelas opiniões veiculadas.
1. A reportagem escrita
A reportagem escrita apresenta uma estrutura semelhante à da notícia:
t título, podendo ter antetítulo e subtítulo;
t lead ou introdução/abertura, com a apresentação do tema da reportagem;
t desenvolvimento/corpo da reportagem, onde o tema é desenvolvido porme-
norizadamente, a partir da narração dos factos, da descrição do ambiente, de
pessoas ou de situações, inclusão de opiniões de pessoas envolvidas na situa-
ção/acontecimento/facto…;
t conclusão/fecho, no qual se conclui ou resume o assunto abordado.
A reportagem é, geralmente, um texto mais longo do que outros textos jorna-
lísticos, que pode ter sequências narrativas, descritivas e conversacionais. Pode ser
complementada com caixas, blocos do texto com destaque para certas informações,
e ilustrada com imagens/fotografias com legenda.
2. A reportagem televisiva
A reportagem televisiva tem vários tipos de estrutura, sendo a estrutura circular
uma das mais eficazes. A reportagem começa e acaba com o mesmo ângulo.
A sua construção assenta numa descrição de vários aspetos encadeados e interligados,
criando um círculo fechado. Tem a vantagem de transmitir ao espectador a ideia de
que tudo foi tratado, tudo foi visto, tudo foi explicado. Ao acabar como começou, a
reportagem dá a ideia de ter feito uma viagem completa. […] A sensação final é a de
que a reportagem teve princípio, meio e fim.
Jorge Nuno de Oliveira, Manual de jornalismo de televisão, Lisboa, Cenjor, IEFP, 2007, p. 44
Que características tem?
A reportagem (escrita e televisiva) caracteriza-se por apresentar:
t temas atuais e interessantes;
t texto objetivo que se centra na objetividade dos factos;
t visão subjetiva decorrente dos comentários do repórter e outros intervenientes;
t discurso na 3.ª pessoa e, eventualmente, na 1.ª pessoa;
t discurso direto;
t recursos verbais e não verbais como são exemplo a postura, o tom de voz, a articu-
lação, o ritmo, a entoação, a expressividade, o silêncio, as imagens, as fotografias e
o olhar.
FICHA INFORMATIVA N.O
5
5
PowerPoint
Ficha informativa n.o
5
154 Unidade 3 // GIL VICENTE
Os maridos das outras
Toda a gente sabe que os homens são brutos,
Que deixam camas por fazer
E coisas por dizer.
São muito pouco astutos, muito pouco astutos.
Toda a gente sabe que os homens são brutos.
Toda a gente sabe que os homens são feios,
Deixam conversas por acabar
E roupa por apanhar.
E vêm com rodeios, vêm com rodeios.
Toda a gente sabe que os homens são feios.
Mas os maridos das outras não,
Porque os maridos das outras são
O arquétipo da perfeição,
O pináculo da criação.
Dóceis criaturas, de outra espécie qualquer,
Que servem para fazer felizes
as amigas da mulher.
E tudo o que os homens não...
Tudo o que os homens não...
Tudo o que os homens não...
Os maridos das outras são
Os maridos das outras são.
[…]
Miguel Araújo
DESAFIO
1. Ouve a música «Os maridos das outras», de Miguel Araújo.
2. Inês Pereira nunca parece feliz com as características dos homens que lhe vão,
literalmente, batendo à porta, tal como a caricatura (injusta?) dos homens da
música de Miguel Araújo.
Planifica uma apreciação crítica oral, entre dois a quatro minutos.
Na sua estruturação, refere os seguintes tópicos:
t descrição do documento que acabaste de ouvir;
t tese defendida nesse documento;
t estereótipo «dos homens»;
t relação dos «homens» do poema com os pretendentes/maridos/amante de
Inês Pereira;
t comentário crítico do poema/música de Miguel Araújo.
Apreciação crítica
p. 312
SIGA
CD 1
Faixa n.o
18
PROFESSOR
Oralidade
1.1; 1.4; 1.5; 2.1; 3.2; 4.1; 4.2;
5.2; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3.
MC
Sugestões:
“BA7?3?GE;536A
“AE?3D;6AE63EAGFD3EEyA?7:A-
res do que os «homens» que temos
emcasa;
“AE:A?7@EEyA7EF7D7AF;B36AEB7
los seus defeitos (são brutos, são
desarrumados)…;
“ @~EF3?4|?@G@537EFt87;L5A?
os seus homens – rejeita Pero Mar-
ques por ser um simplório; é enga-
nadaporBrásdaMataeéinfelizno
seu primeiro casamento; enviúva
e casa-se segunda vez, sem amor,
com o primeiro pretendente rejei-
tado. Engana-o com o Ermitão, um
antigoapaixonadodeInês.
Link
Os maridos das outras,
Miguel Araújo
PowerPoint
Síntese da unidade
155
GLOSSÁRIO
A
Alcoviteira: mulher intermediária em relações amorosas
dedicando-se a fazer casamentos, entre outros. Profissão
proibida por lei.
Auto: a definição de auto é problemática, uma vez que, na
época medieval, o vocábulo parece ter sido tomado como
sinónimo de qualquer peça de teatro. Um auto poderia
denominar uma farsa, uma moralidade, um mistério, um
milagre, uma tragicomédia. No que toca à sua temática, o
auto tanto pode desenvolver um assunto religioso quanto
um assunto profano.
C
Cena: faz parte da estrutura externa de um texto dramático
e constitui a divisão de um ato. Um ato tem tantas cenas
quantas as entradas e saídas de personagens. Assim, uma
mesma cena mantém-se enquanto estiverem presentes, no
mesmo local, as mesmas personagens.
Cenário: 1. conjunto de elementos visuais (tais como mó-
veis, objetos, adereços e efeitos de luz) que compõem o
espaço onde se apresenta um espetáculo teatral, cinema-
tográfico, televisivo […]; 2. lugar em que decorre a ação
ou parte da ação de uma peça, filme, telenovela, romance.
Cómico: é uma qualidade estética conseguida através de
recursos estilísticos suscitadores do riso e da comicidade,
que frequentemente implicam a conciliação de ideias ou
situações aparentemente inconciliáveis. Essa concilia-
ção é produzida através de um raciocínio engenhoso com
a intenção de produzir o riso através do texto literário. A
matéria cómica presta-se a uma dupla interpretação e, por
essa razão, produz no espírito humano uma dupla impres-
são: de lógica e, simultaneamente, de absurdo. O riso é
o resultado da nossa aceitação de duas ideias ou situa-
ções aparentemente inconciliáveis. O riso aparece muito
frequentemente no texto literário associado a uma função
didática, cumprindo a célebre máxima latina: «Ridendo
castigat mores» (É com o riso que se corrigem os costu-
mes).
D
Didascália: tudo o que no texto dramático não se destina a
ser dito pelas personagens e que, na representação cénica,
desaparece enquanto discurso e surge diante dos espec-
tadores como ação ou presença física (objetos, guarda-
-roupa, cenário...). As didascálias, que são a voz direta do
dramaturgo, diferenciam-se visualmente do resto do texto
por estarem escritas entre parênteses ou em itálico, ou de
qualquer outra forma que marque bem que se trata de um
texto à margem das falas das personagens. Tais indicações
cumprem uma dupla função: situam o diálogo, a ação,
num contexto imaginário, ao nível do acontecimento fic-
cional, e, ao nível da representação, fornecem instruções
àqueles que transformam o texto em espetáculo.
E
Escudeiro: pajem ou criado que
leva o escudo do cavaleiro. Título
dos jovens nobres ainda não arma-
dos cavaleiros.
J
Judeu: membro do grupo étnico e reli-
gioso originado nas Tribos de Israel ou
hebreus do Antigo Oriente. Em Gil Vicente,
nomeadamente na Farsa de Inês Pereira, os
judeus assumem o papel de casamenteiros e nego-
ciantes que incentivam o casamento entre o Escudeiro e
Inês, tendo uma soma em dinheiro prometida.
M
Moral (lição): ensinamento que pretende conduzir à refle-
xão e à mudança de comportamento.
P
Personagem-tipo: pode entender-se como personagem-
-síntese, tendo em vista o intuito de ilustrar de uma forma
representativa certas dominantes (profissionais, psicoló-
gicas, culturais, económicas, etc.). Pode corresponder a
uma personagem plana, na medida em que não evolui,
referindo-se a entidades suscetíveis de identificação fácil
e reconhecimento imediato nas suas manifestações, ao
longo do relato.
S
Sátira: modalidade literária ou tom narrativo, a sátira con-
siste na crítica de instituições ou pessoas, na censura dos
males da sociedade ou dos indivíduos. Vizinha da comé-
dia, do humor, do burlesco e cognatos, pressupõe uma ati-
tude ofensiva, ainda quando dissimulada: o ataque é a sua
marca indelével; a insatisfação perante o estabelecido, a
sua mola básica.
V
Vilão: pessoa, na Idade Média, que não pertencia à
nobreza feudal e que habitava urbanamente em vilas. Os
vilões com condições económicas e sociais mais elevadas
ascendiam a cavaleiros-vilões, sendo obrigados a possuir
armas e cavalos, para combater como cavaleiros na hoste
do rei.
Bibliografia/Webgrafia do Glossário
Carlos Reis, e Ana C. M. Lopes, Dicionário de narratologia, 6.ª edição,
Coimbra, Almedina, 1998
Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Instituto Antônio Houaiss de
Lexicografia, Lisboa, Temas e Debates, 2005
E-dicionário de termos literários de Carlos Ceia (http://www.edtl.com.pt,
consultado em outubro de 2014).
Massaud Moisés, Dicionário de termos literários, 6.ª edição, São Paulo,
Cultrix, 1992
156 Unidade 3 // GIL VICENTE
Grupo I
A
Lê o excerto da Farsa de Inês Pereira que se segue.
Em caso de necessidade, consulta as notas de vocabulário apresentadas a seguir ao texto.
FICHA
FORMATIVA Renego deste lavrar1
e do primeiro que o usou
ao diabo que o eu dou
que tam mau é d’aturar.
Oh Jesu que enfadamento
e que raiva e que tormento
que cegueira e que canseira.
Eu hei de buscar maneira
dalgum outro aviamento2
.
Coitada assi hei d’estar
encerrada nesta casa
como panela sem asa3
que sempre está num lugar.
E assi hão de ser logrados
dous dias amargurados
que eu posso durar viva
e assi hei d’estar cativa
em poder de desfiados4
.
Antes o darei ao diabo
que lavrar mais nem pontada
já tenho a vida cansada
de jazer sempre dum cabo5
.
Todas folgam e eu não
todas vem e todas vão
onde querem senam eu.
Ui que pecado é o meu
ou que dor de coração?
[…]
Vem a Mãe da igreja e não na achando
lavrando diz:
Logo eu adevinhei
lá na missa onde eu estava
1 v. 1: odeio costurar.
2 Aviamento: solução.
3 v. 12: compara-se a objeto sem
utilidade (panela sem asa).
4 vv. 17-18: prisioneira a fazer
travesseiros de franjas.
5 vv. 21-22: já estou cansada de
estar no mesmo sítio.
6 v. 37: como tu estás!
7 v. 41: pensamentos desproposi-
tados.
8 vv. 44-45: também ela se quer
casar depressa, mas a Mãe está a
levar muito tempo em consenti-
-lo.
9 v. 49: dá tempo ao tempo.
10 v. 52: Quando menos espera-
res.
11 v. 56: prefiro falar de casa-
mento a costurar.
[Inês Pereira]
Inês
Mãe
Inês
Mãe
Inês
Mãe
Inês
Mãe
Inês
como a minha Inês lavrava
a tarefa que lhe eu dei.
Acaba esse travesseiro.
Ui naceu-te algum unheiro
ou cuidas que é dia santo?
Praza a Deos que algum quebranto
me tire de cativeiro.
Toda tu estás aquela6
.
Choram-te os filhos por pão?
Prouvesse a Deos que já é rezão
de nam estar tam singela.
Olhade lá o mau pesar7
como queres tu casar
com fama de preguiçosa?
Mas eu mãe sam aguçosa
e vós dais-vos de vagar8
.
Ora espera assi vejamos.
Quem já visse esse prazer.
Cal-te que poderá ser
que ante Páscoa vem os Ramos9
.
Nam te apresses tu Inês
maior é o ano que o mês.
Quando te nam percatares10
virão maridos a pares
e filhos de três em três.
Quero-m’ora alevantar.
Folgo mais de falar nisso11
assi Deos me dê o paraíso
mil vezes que nam lavrar.
Isto nam sei que o faz.
Gil Vicente, Inês Pereira, in José Camões
(coord.), As obras de Gil Vicente, vol. 2,
Lisboa, IN-CM, 2001, pp. 559-561
5
10
15
20
25
30
35
40
45
50
55
COTAÇÕES
GrupoI
A
1. 15pontos
2. 15pontos
3. 15pontos
4. 15pontos
B
5.1 20pontos
6. 20pontos
100pontos
157
Ficha formativa
Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.
1. Insere o excerto na estrutura interna da obra.
2. Refere três traços caracterizadores de Inês. Fundamenta a tua resposta com citações
textuais pertinentes.
3. Identifica e explicita o valor do recurso expressivo presente nos versos 26-27.
4. Classifica a personagem Inês Pereira quanto à composição. Justifica a tua resposta,
tendo em conta a globalidade da obra.
B
Lê o excerto seguinte da Farsa de Inês Pereira.
Em caso de necessidade, consulta as notas de vocabulário apresentadas a seguir ao texto.
Apresenta, de forma clara e bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem.
5. Atenta na relação mãe-filha.
5.1 Explica como evolui ao longo da ação.
6. Menciona duas características que permitem reconhecer este texto dramático como
uma farsa.
1 Asinha: depressa. 2 v. 12: e vos não tivesse visto não teria penado, mas
também não vos teria visto.
Mãe
Inês
Escudeiro
Inês
Escudeiro
Inês
5
10
15
20
25
Ficai com Deos filha minha
nam virei cá tam asinha1
.
A minha benção hajais
esta casa em que ficais
vos dou e vou-me à casinha.
Senhor filho e senhor meu
pois que já Inês é vossa
vossa molher e esposa
encomendo-vo-la eu. […]
Ida a Mãe, fica Inês Pereira e o
Escudeiro, e senta-se Inês Pereira
a lavrar e canta esta cantiga:
Si no os hubiera mirado
no penara
pero tan poco os mirara2
.
O Escudeiro, vendo cantar Inês
Pereira, mui agastado lhe diz:
Vós cantais, Inês Pereira?
Em bodas me andáveis vós?
Juro ao corpo de Deos
que esta seja a derradeira.
Se vos eu vejo cantar
eu vos farei assoviar.
Bofé senhor meu marido
se vós disso sois servido
bem o posso eu escusar.
Mas é bem que o escuseis
e outras cousas que não digo.
Por que bradais vós comigo?
Será bem que vos caleis.
E mais sereis avisada
que não me respondais nada […]
Que pecado foi o meu?
Por que me dais tal prisão?
Gil Vicente, op. cit., pp. 582-584
PROFESSOR
GrupoI
A
1.Oexcertoinsere-senaexposiçãoda
farsa. Apresenta-se a personagem
principal e os seus conflitos: interior
(não aceita o «cativeiro») e exterior
(comaMãeeosseusconselhos).
2. Inês manifesta-se revoltada com
o trabalho que lhe está destinado
(«Renego deste lavrar» (v. 1)) e com o
facto de não poder sair quando quer
(«Todas folgam e eu não» (v. 23)). Por
outro lado, mostra-se apressada em
casar («que já é rezão / de nam estar
tamsingela»(vv.39-40)).
3. A pergunta retórica sublinha a
revolta de Inês, que questiona o seu
estadoatualdecativeiro.
4. Quanto à composição, Inês é uma
personagemmodelada,umavezque
tem densidade psicológica e evolui
nas suas atitudes ao longo da peça;
porexemplo,relativamenteaocasa-
mento.
5.1 A relação entre as duas perso-
nagens (mãe-filha) modifica-se ao
longo da ação: numa primeira fase,
têm um relacionamento difícil, con-
flituoso, em que sobressai o conflito
geracional. Numa segunda fase, a
Mãe aconselha a filha, e, em alguns
aspetos,Inêsobedece-lhe(porexem-
plo, no seu comportamento durante
o primeiro encontro com o Escu-
deiro).Finalmente,aMãeresigna-se,
aceita a decisão da filha, abençoa-a
e deixa-lhe a casa para nunca mais
apareceremcena.
6. A situação de engano/burla entre
o Escudeiro e Inês (ser/parecer) e a
representação de cenas do quoti-
diano: oplaneamentoe arealização
do(s) casamento(s); as contratações
para arranjar os dois casamentos; o
retratodavidafamiliardoséculoXVI
eapresençadocómico.
158 Unidade 3 // GIL VICENTE
Grupo II
Lê o texto seguinte.
A este respeito, o exemplo de Gil Vicente é muito esclarecedor. Ele criou o seu tea-
tro praticamente do nada e deixou atrás de si um vácuo […] e isto me levou a procurar
demonstrar a existência de um teatro português a partir do qual se tivesse elaborado o
teatro vicentino. Mas o mais que se pode provar é a existência fragmentária de repre-
sentações litúrgicas, paródias, espetáculos mudos de corte que estão a uma distância
infinita do teatro acabado, adulto, completo, que é o de Gil Vicente. […] E depois de Gil
Vicente há pouco menos que nada. Ora a existência de Gil Vicente é um mero fortuito: ele
podia não ter nascido; ou ter nascido e não ter chegado à idade adulta; ou ter chegado à
idade adulta e não ter tido acesso à corte, nem, portanto, meios para fazer representar os
seus autos, etc. E, sem ele, simplesmente não existiria o principal monumento do teatro
português e a fisionomia literária do nosso século XVI seria profundamente diferente da
que lhe conhecemos.
No século XVIII houve várias tentativas teatrais e vários esforços práticos e teó-
ricos para criar um teatro nacional. Todavia, esse século não produziu uma única
obra teatral que merecesse sobreviver. Os historiadores de literatura explicam este
malogro ou esta mediocridade teatral por razões lógicas e necessárias: não houve
teatro no nosso século XVIII porque o não podia haver, por isto e por aquilo. Ora, se Gil
Vicente tivesse tido um acidente em menino e se, portanto, ao nosso teatro do século XVI
faltasse a única obra que merece sobreviver, os nossos historiadores de literatura (entre
os quais me conto) explicariam com a mesma segurança e a mesma convicção, com as
mesmas razões lógicas e necessárias, porque é que não podia haver teatro em Portugal
no século XVI. Essas razões valeriam provavelmente tanto como as que os referidos his-
toriadores aplicam ao século XVIII. Nada nos impede de imaginar que a única razão por
que o século XVIII não nos deixou um teatro perdurável é o Gil Vicente dessa época, por
casualidade, não chegou a ser nascido.
António José Saraiva, Gil Vicente e o fim do teatro medieval, 4.ª edição,
Lisboa, Gradiva, 1992, pp. 20-21
1. Para responderes aos itens de 1.1 a 1.6, seleciona a única opção que te permite obter
uma afirmação correta.
1.1 Segundo o autor, o teatro vicentino
(A) não foi caso único na literatura portuguesa.
(B) foi a continuação de uma tradição medieval.
(C) foi espontâneo e irrepetível.
(D) foi retomado no século XVIII.
1.2 No caso de Gil Vicente, a expressão «um mero fortuito» (l. 7) corresponde a uma
síntese que revela
(A) o caráter arbitrário da sua existência.
(B) um acaso do destino.
(C) uma sorte do povo português.
(D) um acaso inexplicável.
5
10
15
20
25
COTAÇÕES
GrupoII
1. 30pontos
2. 20pontos
50pontos
GrupoIII
50pontos
159
Ficha formativa
1.3 O excerto «ele podia não ter nascido, ou ter nascido e não ter chegado à idade
adulta, ou ter chegado à idade adulta e não ter tido acesso à corte» (ll. 7-9)
(A) apresenta a vida de Gil Vicente.
(B) lista os vários percursos de Gil Vicente.
(C) descreve os vários momentos da vida de Gil Vicente.
(D) enumera vários fatores determinantes do êxito de Gil Vicente.
1.4 Na expressão «se Gil Vicente tivesse tido um acidente em menino» (ll. 17-18)
está presente
(A) uma impossibilidade.
(B) uma probabilidade.
(C) uma possibilidade.
(D) uma certeza.
1.5 Com o parênteses «(entre os quais me conto)» (l. 19), o autor introduz
(A) uma conclusão.
(B) uma informação adicional.
(C) uma citação.
(D) uma explicação.
1.6 Na frase «Essas razões valeriam provavelmente tanto como as que os referidos
historiadores aplicam ao século XVIII» (ll. 21-23), o autor recorre a
(A) uma enumeração.
(B) uma metáfora.
(C) uma comparação.
(D) um eufemismo.
2. Responde aos items apresentados
2.1 Identifica a expressão que não integra um complemento do nome:
(A) «existência de um teatro» (l. 3)
(B) «teatro vicentino» (l. 4)
(C) «espetáculos mudos» (l. 5)
(D) «historiadores de literatura» (l. 19)
2.2 Identifica a função sintática desempenhada pela expressão «que merecesse
sobreviver» (l. 15).
Grupo III
Numa exposição escrita, com um mínimo de cento e vinte e um máximo de cento e cin-
quenta palavras, apresenta uma reflexão sobre a perspetiva referente à representação do
quotidiano quinhentista, expressa no excerto a seguir transcrito.
Fundamenta as tuas ideias, com base no estudo da obra Farsa de Inês Pereira.
Organiza a informação de forma coerente e bem estruturada.
No final, revê o teu texto e, se necessário, aperfeiçoa-o.
O caso de Gil Vicente é o mais impressionante: ele representa uma imposição na
corte da tradição popular portuguesa, quer no seu espírito quer nas suas formas.
Esta formidável presença da aldeia na corte ilustra a situação da «corte na aldeia»,
para glosar mais uma vez a famosa expressão inventada por Rodrigues Lobo, e por este
lado o teatro vicentino é o património que melhor representa a cultura portuguesa no
seu conjunto, o principal documento de uma antropologia portuguesa.
António José Saraiva, A cultura em Portugal teoria e história,
Livro I: Introdução Geral, Lisboa, Bertrand Editora, 1985, p. 95
PROFESSOR
GrupoII
1.1 (C); 1.2 (B); 1.3 (D); 1.4 (C); 1.5 (B);
1.6(C).
2.1(C).
2.2Modificadorrestritivodonome.
GrupoIII
Tópicos:
– representando-os perante o rei,
em Tomar, Vicente traz para a
corte a «moça de vila», o escudeiro
pelintra, o labrego abastado, a
alcoviteira – tipos da realidade da
«aldeia»;
– dá-nos a realidade sociológica da
época – visão dos contratos matri-
moniais, cenas da vida familiar,
padrõescomportamentaismascu-
linoefeminino;preconceitocontra
osjudeus;
–documentodeumaépoca–memó-
ria de um espetáculo que fez rir
(e pensar) os nossos compatriotas
de1523.
4
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Contextualização histórico-literária
Redondilhas
Sonetos
Temas:
ta representação da amada;
ta experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor;
t a reflexão sobre a vida pessoal;
t o tema do desconcerto;
t a representação da natureza;
t a mudança.
Linguagem, estilo e estrutura:
ta lírica tradicional;
ta inspiração clássica;
to discurso pessoal e marcas de subjetividade;
tsoneto – características;
tmétrica (redondilha e decassílabo), rima e esquema rimático;
trecursos expressivos.
LEITURA
Textos informativos.
COMPREENSÃO DO ORAL
Registos áudio e audiovisuais.
EXPRESSÃO ORAL
Apreciação crítica e síntese.
ESCRITA
Exposição sobre um tema, apreciação crítica e síntese.
GRAMÁTICA
O português: génese, variação e mudança:
tprincipais etapas da formação e evolução do português;
tetimologia.
Sintaxe:
tfunções sintáticas: complemento do adjetivo.
Lexicologia:
tcampo lexical e campo semântico.
LUÍS DE CAMÕES
R I M A S
Fernão Gomes, Retrato de Camões, c. 1573.
mensagens
Inês Pedrosa
É escritora e cronista do semanário Sol.
Além de contos, crónicas e biografias, publicou
sete romances: A instrução dos amantes (1992),
Nas tuas mãos (1997, Prémio Máxima de
Literatura), Fazes-me falta (2002), A eternidade
e o desejo (2007), Os íntimos (2010, Prémio
Máxima de Literatura), Dentro de ti ver o mar
(2012) e Desamparo (2015). Os seus livros
estão publicados na Alemanha, no Brasil, em
Espanha e em Itália.
162
Um nao querer mais que bem querer
Tudo o que sei sobre o amor foi-me ensinado
por esse homem chamado Luís Vaz de Camões, e
estava morto havia quase quatrocentos anos quando
mo ensinou. Cada verso do poema em que definiu
o sentimento central da existência humana poderia
servir de título a um tratado filosófico. «Um não
querer mais que bem querer»: é este o paradoxo que
nos ilumina, o sim que a si mesmo se anula numa
vertigem de conhecimento para a qual são convoca-
dos todos os nossos medos, sonhos e enigmas.
A poesia serve para fazer durar o que não dura;
é a máquina do intemporal. Não há tecnologia
que possa ultrapassá-la.
O que primeiro me fascinou na lírica de Camões
foi a música: ainda não sabia ler nem conseguia
entender os sonetos que o meu avô declamava,
enquanto me passeava de barco a remos no rio
Nabão, em Tomar. Tinha quatro ou cinco anos e
repetia: «Alma minha gentil, que te partiste / Tão
cedo desta vida descontente, / Repousa lá no Céu eter-
namente, / E viva eu cá na terra sempre triste.»
O som também é sentido; o ritmo e a rima são
tão importantes como aquilo que se quer dizer – o
sentimento de perda e solidão atingiu-me, através
da declamação do meu avô, antes do significado dos
versos que compõem este soneto.
O poeta deixou-se seduzir pela filosofia clássica
(em especial, Platão), pela tradição trovadoresca
e pelo arrojo renascentista, criando, a partir des-
sas influências variadas, uma língua sua, uma voz
própria, imediatamente identificável: clara, concisa,
afirmativa e autêntica. Sem essa autenticidade que
é o fundamento da comunicação, não existe arte,
apenas artifício. A força lírica de Camões nasce dessa
autenticidade, servida por um vocabulário e uma
sintaxe empenhadas em transformar a verdade mor-
tal em beleza imortal.
A mestria e a modernidade de Camões manifes-
tam-se com particular energia nas Rimas, talvez por-
que o amor, o humor, a inquietação e o desespero
resistem mais ao tempo do que as gestas heroicas.
O magistral poema épico que é Os Lusíadas exige-
nos o esforço de transpor o mar da distância his-
tórica; a lírica camoniana toca diretamente na
matéria e no mistério da nossa vida.
Inês Pedrosa
(Texto inédito, 2014)
©
Alfredo
Cunha
~
5
10
15
20
25
30
35
40
45
cruzadas
Rimas de Camoes
Rimas e canções.
As rimas são o ritmo dos versos.
Os versos são as linhas da letra.
As letras dão sentido e título às canções, sem elas seriam músicas ou temas musicais.
Camões não precisou de música para fazer canções. Usou e abusou de rimas, trocou e arran-
jou outros sentidos para as mesmas velhas palavras da nossa língua antiga. Procurou na rima
a maneira de se exprimir, de se evidenciar, de ganhar vantagem. Trabalhou a rima como um
guitarrista trabalha a sua técnica. Usou de truques e esquemas, foi-se aperfeiçoando até na sua
cabeça as ideias aparecerem já em verso.
Como se disse, a rima tem uma técnica.
A técnica pode ser apurada.
A rima pode ser melhorada.
O verso consegue-se continuado.
A letra pode ser acabada
e a canção, finalmente,
já pode ser cantada.
Ou dita. Ou lida.
Quando se lê a lírica de Camões (repararam na semelhança com lyrics, a palavra inglesa para
letra de canção?), temos um sentido de tempo e de ritmo muitas vezes não evidente, outras mais
tradicional, que se assemelha a ouvir uma canção. Não é por acaso que vários compositores ao
longo do tempo musicaram poemas da lírica.
Experimentem.
Leiam como se dissessem umas rimas com um som, uma canção ou um fado:
funciona, é belo.
Tim
(Texto inédito, 2014)
163
~
Tim
Em 1978 é convidado para tocar baixo nos Xutos
 Pontapés, lugar que ocupa desde o primeiro
ensaio até hoje. Vocalista por necessidade,
assumiu a voz e a escrita da maior parte das letras
da banda pouco tempo depois. Licencia-se em
Engenharia Agronómica. Mais de uma dezena de
discos depois, a vida decorre entre concertos e
gravações, proporcionando outras experiências como
Resistência, Rio Grande, etc.
5
10
15
20
164 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
Contextualização histórico-literária
Datas e acontecimentos
c. 1524
Nascimento de Luís de Camões.
1537
Instalação definitiva da universidade em Coimbra.
1542
Comerciantes portugueses aportam no Japão.
1544
É confiada a Pedro Nunes a cátedra de
matemática da Universidade de Coimbra.
1547
Pedro Nunes torna-se o primeiro cosmógrafo-mor.
1548
D. João III manda fechar a feitoria de Antuérpia.
1554
Nascimento de D. Sebastião.
1557
As autoridades chinesas autorizam os portugueses
a estabelecerem-se em Macau. Morte de D. João III.
1557-1562
Regência de D. Catarina de Áustria.
1559
Fundação da Universidade de Évora.
1562-1568
Regência do cardeal D. Henrique.
1564
Conclusão do Concílio de Trento.
1568
D. Sebastião assume o trono.
1569
Surto de peste negra em Portugal.
1571
Uma cadeia de entrepostos liga Lisboa a
Nagasáqui, dando origem ao primeiro império
global da História.
Datas e acontecimentos
1578
Morte de D. Sebastião.
O cardeal D. Henrique assume o trono.
1580
Após a morte do rei D. Sebastião na Batalha de
Alcácer-Quibir, Portugal enfrenta uma grave
crise dinástica.
Morte de Luís de Camões (10 de junho).
1581
Filipe II de Espanha é declarado rei de
Portugal nas Cortes de Tomar.
Textos e obras
1540
Publicação da Gramática da Língua
Portuguesa, de João de Barros.
1547
Publicação do Tratado em defensão da carta
de marear e do Tratado sobre certas dúvidas
da navegação, de Pedro Nunes.
1554
Impressão da obra de Bernardim Ribeiro,
onde se inclui Menina e moça.
1563
Publicação de Colóquios dos simples e drogas
e cousas da Índia, de Garcia de Orta.
1569-1578
Fernão Mendes Pinto escreve Peregrinação
(publicada apenas em 1614).
1572
Publicação de Os Lusíadas, de Luís Vaz de
Camões.
1587
Publicação de Tragédia de Inês de Castro, ou
A Castro, de António Ferreira.
1595
Publicação póstuma das obras de Sá de
Miranda.
Esfera armilar,
século XVI
(pormenor).
Astrolábio
náutico.
Fronstispício da
1.ª edição da
Peregrinação, de Fernão
Mendes Pinto, 1614.
E f il
165
Contextualização histórico-literária
1. A História
O século de Quinhentos deve ser encarado não tanto como uma época de vira-
gem radical em relação aos séculos imediatamente anteriores, mas como o ponto de
chegada de um processo transformativo lento e sedimentado que abrange conjuga-
damente as mais diversas áreas da vida coletiva.
[…] A sociedade rigidamente hierarquizada que tinha vigorado durante grande
parte da Idade Média começa a dar sinais de ceder face às movimentações ascensionais
de uma burguesia comercial que se foi apropriando de importantes meios económi-
cos, não se conformando com a subalternização a que a condenava a orgânica tradi-
cional. Por outro lado, os sistemas fechados de conhecimento, assentes em verdades
eternas e indisputadas, começam a ser objeto de revisão funda e sistemática. Em face
desta dinâmica de contínua revisão, as próprias universidades, nascidas durante o
século XIII sob a proteção direta do poder régio e eclesiástico, começam a ver amea-
çado o seu monopólio de depositárias do saber. […]
Caracterizando-se essencialmente pela proliferação das atividades mercantis,
marítimas e terrestres, e pela consequente flexibilização das linhas que separavam
os diferentes estratos sociais, o século XVI define-se assim pela instituição da troca,
enquanto prática potenciadora de riqueza nova.
José Augusto Cardoso Bernardes, História crítica da literatura portuguesa – Humanismo e Renascimento,
vol. 2, Lisboa, Editorial Verbo, 1999, pp. 13 e 16
2. A literatura
Transformações intensas estavam em curso. Sofrendo o influxo deste processo, as
letras também para ele concorreram […]. Óbvia foi a atenção prestada aos Antigos:
reapreciou-se Horácio (nunca esquecido, aliás, durante a Idade Média), e pouco a
pouco, nas primeiras décadas de Quinhentos, ganhou-se familiaridade com a Poética
de Aristóteles e com diálogos de Platão. […] Equilíbrio, clareza, mesura, proporção
tornam-se qualidades primaciais. Por lema, adota-se a mimese da natureza, o que não
há de confundir-se com a recusa de qualquer idealização. […]
Pautado por regras, alicerçado na imitação de exemplos de excelência e cantando
temas caros (o amor, a heroicidade, a justiça, a felicidade, a salvação), o exercício das
letras, garante de fama, foi insistentemente enaltecido como nobilitante e equiparável
ou complementar ao das armas […].
Pela matriz greco-latina, mas preferindo a língua materna (da qual surgiam as pri-
meiras gramáticas, além de entusiásticas defesas), delineou-se uma hierarquia de géne-
ros […]: a epopeia, a tragédia, a comédia, ocupavam os graus cimeiros; num plano mais
baixo da escala, incluíam-se éclogas, elegias, epigramas, panegíricos, epitáfios, epitalâ-
micos, cartas, diálogos… […] Fundamental, a lírica amorosa (sobretudo em formas
como a canção, o soneto, o madrigal) teve em Petrarca o seu clássico, imitado enquanto
modelo de estilo […], imitado no apuramento de uma noção biografista da poesia […].
Cumpre-se […] reparar na historiografia, encarecida como poderoso veículo de
propaganda ao longo de Quatrocentos, mas cuja importância cresceu em pleno Renas-
cimento, pela mão de cronistas oficiais como João de Barros e Damião de Góis […].
5
10
15
5
10
15
20
Frontispício da Poética, de Aristóteles.
PROFESSOR
Leitura
8.1.
Educação Literária
16.1.
Escrita
12.1; 12.2; 12.3; 12.4.
MC
PowerPoint
Contextualização
166 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
Em sintonia com o ascendente de padrões greco-latinos e com o orgulho na gesta,
acumularam-se incitamentos ao canto épico. […] Todavia foi preciso esperar por uma
maturação poética e cultural, e, não menos, pela «fúria […] sonorosa» de Camões,
para que esse anseio lograsse cabal realização, com a Eneida virgiliana a valer de ali-
cerce à edificação de Os Lusíadas […].
Isabel Almeida, «Renascimento», in José Augusto Cardoso Bernardes et al. (dir.),
Biblos: Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa, vol. 4, Lisboa,
Editorial Verbo, 2001, pp. 699-703
3. Renascimento
Movimento cultural que, baseado no conhecimento e na imitação dos clássicos
(latinos e gregos), trouxe uma nova conceção de homem, encarado na sua integra-
lidade, e veio abrir novos horizontes à Humanidade e rasgar os caminhos da Idade
Moderna. […]
Existem, pois, no Renascimento dois aspetos aparentemente contraditórios: por
um lado, a imitação das culturas clássicas; por outro, de certo modo, a sua contesta-
ção, ao desvendar, através da experiência, as realidades humanas e científicas que vão
conduzir ao espírito moderno.
Com efeito, ao reconhecer a superioridade artística e literária das civilizações anti-
gas, os homens do século XV foram levados a imitá-las, mas, a partir delas, a conce-
ber uma nova noção que os antigos apenas haviam pressentido: a noção do homem
integral, complexo harmonioso de corpo e de espírito.
Maria Leonor Carvalhão Buescu, Apontamentos de literatura portuguesa,
Porto, Porto Editora, 1993, p. 47 (texto adaptado)
4. Humanismo
A esse novo interesse pelo homem, servido pelo estudo aprofundado das letras e
das artes, se deu o nome de Humanismo. E é fácil ver como esta conceção humanís-
tica levou longe:
tFTUFOEFOEPPHumanismo não só ao homem individualmente, mas à huma-
nidade em geral;
tJODMVJOEPPIPNFNFBIVNBOJEBEFOPWBTUPDPOKVOUPEBOBUVSF[BVOJWFSTBM
– atitude que conduzirá ao naturalismo, isto é, ao interesse pela natureza em
geral.
O Humanismo Português, inserto no Humanismo Europeu, revestiu, contudo,
aspetos particulares, sobretudo por um enriquecimento extraordinário proveniente
da experiência trazida pelos Descobrimentos, assumindo, portanto, uma fisionomia
específica, formulando-se através de uma análise contrastiva do real. A mensagem
transmitida pelos descobridores vinha ser, afinal, a prova das teorias humanísticas:
nem só a raça branca, nem só a civilização europeia, nem só as religiões até então
conhecidas – o cristianismo, o judaísmo, o maometismo e as próprias línguas euro-
peias dos ramos já identificados (românicas, germânicas e eslavas) existiam no mundo,
que pela primeira vez se revelava em toda a sua vastidão e diversidade.
Isto confere ao Humanismo Português uma feição de precursor quanto à noção
de relatividade das coisas humanas e da própria vivência do relativo.
Maria Leonor Carvalhão Buescu, op. cit., p. 47 (texto adaptado)
25
5
10
5
10
15
Miguel Ângelo, A queda e a
expulsão do paraíso, século XV
(pormenor).
PROFESSOR
Consolida
Sugestão:
Os textos deverão ser lidos silenciosa-
mente por todos os alunos. Sugere-se
que o trabalho de síntese seja feito em
grupo.
Texto1
O texto retrata o século XVI em termos
socioeconómicos, afirmando que neste
século se conclui o processo de trans-
formação que abarca várias áreas da
sociedade.
Esta, outrora fortemente estratificada,
acusa sinais de transformação com a
ascençãodaburguesia,sobretudoatra-
vésdocomércio.Alémdisso,oconheci-
mento antes inquestionado, começa a
renovar-se, ameaçando as universida-
des, detentoras do saber, sob o domínio
régioeclerical.
Texto2
O texto aponta as transformações
operadas na literatura em Quinhentos.
Neste período há uma retoma da con-
vivência com os escritores clássicos,
comoAristóteles,PlatãoeHorácio.
167
Contextualização histórico-literária
5
5
5. Classicismo
O Classicismo mergulha as suas raízes no Renascimento italiano, recebendo deste
alguns dos seus elementos fundamentais: as noções de modelo artístico e de imitação
dos autores gregos e latinos, os princípios da intemporalidade do belo e da necessi-
dade das regras, o gosto pela perfeição, pela estabilidade, clareza e simplicidade das
estruturas artísticas.
Vítor Manuel Aguiar e Silva, Teoria da literatura, 8.ª edição,
Coimbra, Livraria Almedina, 1990, p. 508
A permanência do substrato greco-romano durante cerca de três séculos […] con-
duziu os historiadores da arte e da literatura à tentação de conceber o século de Qui-
nhentos como uma época artisticamente homogénea, que, sob a designação ampla
de Classicismo, se prolonga até ao século XVIII, quando começa a ser radicalmente
confrontado com a «revolução romântica». Esta periodização levou os historiadores
da arte a admitir a existência de subdesignações do tipo 1.º Classicismo, 2.º Classi-
cismo, etc., ou ainda de «escolas clássicas», com o intuito de recobrir os diferentes e
acentuados matizes que […] se desenvolveram neste lapso tão alongado de tempo.
José Augusto Cardoso Bernardes, op. cit.,
vol.2, pp. 22 e 23
CONSOLIDA
1. Faz a síntese escrita dos textos 1 e 2.
2. A partir da leitura dos textos 3, 4 e 5, define os conceitos: Renascimento, Humanismo
e Classicismo.
Rafael, Escola de Atenas, 1509-1510.
PROFESSOR
Consolida
Texto2(cont.)
Cultiva-se a razão e tenta-se o
equilíbrio, a mesura e a clareza.
Olemaadotadoéaimitaçãodanatu-
reza, sem esquecer a idealização
da mesma. Cantam-se temáticas
como o amor, a justiça, a felicidade
e a heroicidade. Equipara-se, desta
forma, o canto ao exercício das
armas. Embora de índole greco-
-latina,aliteraturaescreve-senalín-
gua materna, desencadeando pro-
cessosevolutivoslinguísticos.
Vários tipos de composições foram
cultivadas como a epopeia, a tragé-
dia, a comédia, a écloga, os panegí-
ricos, as cartas, os diálogos, etc. Na
lírica amorosa, imita-se Petrarca no
seuestiloenassuastemáticas.
Foi neste ambiente de transforma-
ção literária, que incitava ao canto
épico, que surgiu Os Lusíadas, refle-
tindoosDescobrimentoseasaltera-
ções desencadeadas pela expansão
emdiversasáreasdosaber.
2. Renascimento: redescoberta e
imitação dos clássicos gregos e lati-
nos;novadescobertadomundo.
Humanismo: gosto pela beleza,
pela perfeição e clareza artísticas;
valorização do saber, desde as artes
às técnicas, de maneira a formar o
homem integral e a contribuir para
o conhecimento de si mesmo e do
mundoqueorodeia.
Classicismo: imitação quase linear
dosantigos.
168 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
6. Camões – vida e obra
1. Visiona alguns excertos do documentário Grandes Livros e
classifica, como verdadeiras (V) ou falsas (F), as seguintes
afirmações sobre a biografia de Luís de Camões.
a) Talvez tenha nascido em 1525.
b) Existem fortes probabilidades de ter sido pobre e de ter
estudado em Lisboa.
c) Segundo uma caracterização histórica, Camões era fogoso, sedutor e compulsivo.
d) Camões terá perdido o olho esquerdo numa batalha contra os mouros.
e) Facto é o seu primeiro aprisionamento, de 1552 a 1553, na Prisão do Tronco, na
sequência de uma agressão a um funcionário do Paço.
f) Novamente em liberdade, não está documentado se Camões partiu para o Japão
espontaneamente ou se exilado pelo rei.
g) O poeta terá amado várias mulheres, de raças, culturas e classes diferentes.
h) Segundo Helder Macedo, Camões manifestou um bom comportamento social.
i) Em 1563, foi nomeado Provedor dos Defuntos.
j) Certo é o seu naufrágio no rio Mecong, salvando o seu grande poema épico Os Lusía-
das, e a morte da sua amada chinesa, Dinamene.
k) Segundo Diogo de Couto, Camões esteve preso por libertinagem em Moçambique.
Aí viveu na miséria e da caridade de amigos e desinteressou-se pela sua obra épica.
l) Sabe-se que os amigos lhe pagaram a viagem de regresso a Portugal (1570), de onde
esteve ausente durante 17 anos.
m) O rei D. Sebastião atribuiu-lhe uma pensão de 25 000 réis anuais.
n) Morre a 10 de junho de 1580 e é possível que o seu corpo tenha sido atirado para
uma vala comum.
o) Sabe-se que os restos mortais no túmulo oficial são do «Príncipe dos Poetas».
1.1 Corrige as afirmações falsas.
1.2 Atenta nas afirmações verdadeiras e distingue aquelas que apresentam certezas
das que formulam hipóteses acerca da vida de Camões.
7. Rimas
As Rimas de Camões só foram publicadas em 1595, cerca de quinze anos após a
morte do poeta, tendo o seu organizador, provavelmente Fernão Rodrigues Lobo
Soropita, utilizado como fontes «livros de mão, onde estas obras andavam espedaça-
das», ou seja, cancioneiros e miscelâneas que continham cópias de poemas atribuídos
ou atribuíveis ao autor d’Os Lusíadas. Camões não teve portanto responsabilidades
na organização das suas Rimas, cabendo ao citado Soropita o estabelecimento dos
critérios de disposição editorial das suas poesias.
Vítor Aguiar e Silva, «A forma Cancioneiro e as Rimas de Camões», in Vítor Aguiar e Silva (coord.),
Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, p. 393
5
PROFESSOR
Oralidade
1.3.; 1.4.
MC
Resposta:
1 e1.1
a)V;
b)F:emCoimbra;
c)F:caracterizaçãomítica;
d)F:olhodireito;
e)V;
f)F:paraaÍndia;
g)V;
h)F:maucomportamento;
i)V;
j)F:mítico;
k)F:pordívidas/etrabalhounasuaobra
poética;
l)V;
m)F:15000reis;
n)V;
o)F:Éimpossívelsaber-se.
1.2 Certezas:f);k);n).
Hipóteses:a);b); h);p).
▪ Vídeo
Grandes livros
– Os Lusíadas
169
Contextualização histórico-literária
8. A medida velha e a medida nova
Designa-se por medida velha (poesia tradicional ou poesia em redondilha) a poesia
lírica composta em verso de quatro ou de sete sílabas, existente nos cancioneiros penin-
sulares ao longo de todo o século XV e grande parte do século XVI. […] No plano
temático,épossívelorganizarapoesiatradicionaldeCamõesemtornodequatrogran-
des grupos: tópicos de circunstância, o desconcerto do mundo, o desengano e o amor.
José Augusto Cardoso Bernardes, «Medida velha»,
in Vítor Aguiar e Silva (coord.), op. cit., pp. 579-580
Formas da medida velha
tVilancete: poema constituído por um mote1
, de dois ou três versos, e por voltas2
, de
sete, sendo o último a repetição, com ou sem variante, do verso final do mote.
tCantiga: poema composto por um mote de quatro ou cinco versos e glosas de oito,
nove ou dez versos, com a repetição total ou parcial do último verso do mote no final
de cada volta.
tEsparsa: composição de uma única estrofe, que varia entre oito e dezasseis versos.
tEndecha: poema formado por um número variável de estrofes (quadras ou oitavas),
com versos de cinco ou seis sílabas.
A maior parte da lírica camoniana é escrita em medida nova, no dolce stil nuovo
italiano, introduzido entre nós por Sá de Miranda. É o caso de sonetos, canções, ele-
gias, éclogas, odes, oitavas e uma sextina…; e, no domínio da poesia épica, também
o caso d’Os Lusíadas. […]
Do ponto de vista temático, nos sonetos como noutras composições, Camões
aborda temas de natureza sentimental – o Amor e as suas contradições, a mulher
amada e os seus efeitos sobre o Eu, a morte da amada e o desconcerto sentimental
que provoca no Eu; a Natureza e a sua profunda relação com o Eu e os sentimentos
dos amantes, mas também temas autobiográficos e filosóficos – o «desconcerto do
mundo» e a mudança.
Amélia Pinto Pais, História da literatura em Portugal – Uma perspetiva didática, vol. 1,
Porto, Areal Editores, 2004, pp. 137-138
Formas da medida nova
t4POFUP: poema constituído por duas quadras e dois tercetos de versos decassilábicos,
geralmente de esquema rimático abba/abba, nas quadras, e cde/cde ou cde/dce ou cdc/
dcd, nos tercetos; a estrutura interna desta forma poética tende a aplicar a «chave de
ouro», ou seja, a chave do significado do soneto (normalmente um pensamento elevado),
no segundo terceto.
5
5
10
Folha de rosto das Rimas de Luís
de Camões, edição de 1598.
Folha de rosto da edição das
Rimas de Luís de Camões,
Segunda parte, de 1616.
1 Mote: verso ou conjunto de ver-
sos que introduzem o tema sobre
o qual glosavam os poetas.
2 Voltas: glosas ou estrofes onde se
desenvolve o tema apresentado
no mote.
170 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
170 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES – RIMAS
A representação da amada
PONTO DE PARTIDA
1. Ouve com atenção a declamação do «Poema da autoestrada», de António Gedeão,
e indica uma característica física e uma psicológica da personagem principal.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Leva na cabeça o pote
a este moto:
Descalça vai para a fonte
Leanor pela verdura;
vai fermosa e não segura.
Voltas
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata1
,
sainho2
de chamalote3
;
traz a vasquinha4
de cote5
,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa, e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos d’ouro o trançado6
,
fita de cor d’encarnado,
tão linda que o mundo espanta;
chove nela graça tanta
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.
Luís de Camões, Rimas, Coimbra,
Livraria Almedina, 1994, pp. 55-56
1. Transcreve do poema:
a) nome da personagem;
b) lugar;
c) caracterização física;
d) caracterização psicológica.
2. Relaciona o refrão com o estado de espírito da personagem.
3. Explicita a importância do uso do diminutivo e das cores no retrato de Leanor.
4. Indica dois recursos expressivos que servem o propósito de caracterizar Leanor e trans-
creve os versos correspondentes.
5. Refere uma marca de contemporaneidade do poema de António Gedeão relativamente
ao poema camoniano.
William-Adolphe Bouguereau,
Rapariga indo à fonte, 1885.
1 Escarlata: tecido vermelho.
2 Sainho: camisa/colete.
3 Chamalote: tecido de lã.
4 Vasquinha: saia com pregas.
5 Cote: uso diário.
6 vv. 11-12: a touca descobre a garganta e o
trançado (descobre) os cabelos de ouro.
5
10
15
A representação da amada
p. 181
FI
CD 1
Faixa n.o
20
CD 1
Faixa n.o
19
PROFESSOR
Oralidade
1.3; 2.1.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.7; 14.9; 15.1;
15.2.
MC
PontodePartida
1. Descreve-se o que veste, por
exemplo: «Leva calções de pirata, /
vermelho de alizarina, / modelando
acoxafina,/deimpacientenervura»;
psicologicamente finge medo, vai
feliz e segura: «Grita de medo fin-
gido»;«Vaiditosa,ebemsegura».
EducaçãoLiterária
1.a) «Leanor»; b) «fonte»; c) «mãos
de prata»; «cinta de fina escarlata»;
«sainho de chamalote»; «vasquinha
de cote»; «mais branca que a neve
pura»; «fermosa»; «touca»; «cabe-
los d’ ouro o trançado»; «fita de cor
d’encarnado»;d)«enãosegura».
2. O refrão explicita que, apesar de
formosa, Leanor se revela insegura,
ansiosa, em relação ao seu encontro
comoamadonafonte.
3. O diminutivo traduz, para além de
um valor afetivo, a elegância de Lea-
nor; as cores conferem maior vivaci-
dadeàdescrição.Ambososrecursos
permitem visualizar objetivamente
Leanor.
4.Porexemplo:«mãosdeprata»(v.5)
– metáfora; «mais branca que a neve
pura» (v. 9) – comparação/hipérbole;
«que dá graça à fermosura» (v. 16) –
hipérbole.
5. Leonoreta vai à praia de lambreta
pela autoestrada, enquanto Leanor
vai descalça à fonte. A maneira de
vestir também a diferencia, identifi-
cando-se como nossa contemporâ-
nea.
Sugestão: os alunos poderão dese-
nhar e pintar o «quadro» do poema,
partindodadescriçãodeLeanoredo
espaço («verdura», «fonte»). Desta
forma, será possível verificar a obje-
tividadedoretratofeminino.
Nota: As notas que acompanham
cadapoema,aindaquesimplificadas
e/ou complementadas sempre que
considerado importante, seguem a
edição: Maria Vitalina Leal de Matos
(sel.), Lírica de Camões – antologia,
Alfragide,EditoraCaminho,2012.
171
Rimas
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Posto o pensamento nele
a esta cantiga alheia1
:
Na fonte está Leanor
lavando a talha2
e chorando,
às amigas perguntando:
vistes lá o meu amor?
Voltas
Posto o pensamento nele,
porque a tudo o Amor a obriga,
cantava, mas a cantiga
eram suspiros por ele.
Nisto estava Leanor
o seu desejo enganando,
às amigas perguntando:
vistes lá o meu amor?
O rosto sobre ùa mão,
os olhos no chão pregados,
que, do chorar já cansados,
algum descanso lhe dão.
Desta sorte Leanor
suspende de quando em quando
sua dor; e, em si tornando,
mais pesada sente a dor.
Não deita dos olhos água,
que não quer que a dor se abrande
Amor, porque, em mágoa grande,
seca as lágrimas a mágoa.
Que despois de seu amor
soube novas perguntando,
d’emproviso3
a vi chorando.
Olhai que extremos de dor!
Luís de Camões, op. cit., p. 56
1. Identifica o tema presente ao longo do poema.
2. Delimita as partes que compõem o poema e apresenta o assunto de cada uma.
3. Caracteriza psicologicamente Leanor, ilustrando a tua resposta com elementos textuais.
4. Relaciona a exclamação final com os três versos que a antecedem.
5. A história deste poema desenrola-se no campo, junto a uma fonte.
5.1 Indica a função social associada à fonte.
5
10
15
20
25
1 Cantiga alheia: o mote da cantiga
é extraído de uma cantiga de outro
autor.
2 Talha: vaso grande para a água.
3 D’emproviso: de repente.
Jean Baptiste Camille Corot,
Sonhadora na fonte, c. 1860.
CD 1
Faixa n.o
21
A representação da amada
p. 181
FI
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.6; 14.7; 14.8;
14.9.
MC
Educação Literária
1.Oamoreainquietação.
2. Na primeira parte, constituída
pelo mote, pelas duas primeiras vol-
tas e pelos primeiros quatro versos
da última volta, temos expressa a
intensidade do sofrimento de Lea-
nor,quenãosabedoparadeirodoseu
amado. Na segunda parte (últimos
quatro versos da terceira volta), Lea-
nor tem finalmente notícias do seu
amado,oquelheprovocaaindamais
choro.
3. Leanor, apaixonada pelo seu a-
mado, de quem não tem notícias,
pensa nele («Posto o pensamento
nele» (v. 5)) e sofre intensamente
(«mais pesada sente a dor» (v. 20)),
chora («chorando» (v. 2)) e sente sau-
dade («eram suspiros por ele» (v. 8)).
Cansada, por vezes deixa de chorar
(«que,dochorarjácansados,/algum
descanso lhe dão» (vv. 15-16) e sus-
pende as lágrimas porque «Seca as
lágrimas a mágoa» (v. 24). Por fim,
volta a chorar quando fica a saber
novasdoseuamor(«d’emprovisoavi
chorando»(v.27)).
4.A exclamaçãofinalsintetizaarea-
çãodechorodeLeanorcomo«extre-
mos de dor», após ter tido notícias
do seu amado, superando, portanto,
a contenção das lágrimas referida
nos versos 17-20. A exclamação é
feitaperanteoquadrodesofrimento
traçado. O sujeito lírico comenta-o,
dirigindo-se ao leitor e mostrando a
suasimpatiaesolidariedade.
5.1. A fonte é o local de encontro
social entre os habitantes de uma
localidade, mas também é local pri-
vilegiado de encontros amorosos.
Nestecaso,Leanorencontra-secom
as amigas para saber novidades sobre
oseunamorado.
172 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
172
6. Faz a correspondência entre os elementos da coluna A e os da coluna B.
6.1 Explicita o valor da aliteração.
7. Analisa a estrutura formal desta composição poética e classifica-a.
8. Relaciona o tema deste poema com o tema apresentado na composição poética ante-
riormente estudada – «Leva na cabeça o pote» (p. 170).
GRAMÁTICA
1. Identifica a função sintática desempenhada pelas expressões destacadas.
a) Leanor, donzela apaixonada, perguntava pelo seu amor.
b) Leanor não fica incólume ao sofrimento.
c) A tristeza de Leanor fá-la chorar.
2. Divide as frases seguintes e classifica as orações.
a) «não quer que a dor se abrande» (v. 22).
b) «Posto o pensamento nele, / porque a tudo o Amor a obriga, / cantava» (vv. 5-7).
ESCRITA
Exposição sobre um tema
1. Relê a cantiga «Ondas do mar de Vigo», na página 30. A partir das características apre-
sentadas na coluna A, regista as marcas comuns à cantiga de Camões.
2. Partindo do esquema que acabaste de preencher, redige uma exposição, entre cento e
vinte e cento e cinquenta palavras, na qual apresentes comparações entre os dois poe-
mas quanto a: temáticas, épocas literárias, forma e linguagem.
A. «Ondas do mar de Vigo» B. «Posto o pensamento nele»
Emissor: personagem feminina Emissor:
Espaço físico: bucólico (o mar) Espaço físico:
Confidente: ondas do mar de Vigo
O amigo: ausente
Sentimentos do emissor: Saudade do amigo e
preocupação
Confidente:
O amigo:
Sentimentos do emissor:
A Versos/expressões B Recursos expressivos
a) «Desta sorte Leanor / suspende […] / sua dor; e, em
si tornando, / mais pesada sente a dor.» (vv. 17-20)
1. Perífrase
b) «O rosto sobre NJa mão, / os olhos no chão pregados»
(vv. 13 e 14)
2. Enumeração
c) «porque a tudo o Amor a obriga» (v. 6) 3. Aliteração do som [s]
d) «Não deita dos olhos água» (v. 21) 4. Personificação
Coordenação e subordinação
pp. 327-328
SIGA
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
Recursos expressivos
p. 334-335
SIGA
Funções sintáticas
p. 324-325
SIGA
PROFESSOR
Gramática
18.1; 18.2; 18.4; 18.5.
Escrita
11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4.
MC
6.a)–3;b)–2;c)–4;d)–1.
6.1 A aliteração sugere o prolonga-
mentodadorsentidaporLeanor.
7. É constituída por um mote de qua-
tro versos (quadra) e três voltas de
oito versos cada (oitava). A métrica
utilizada é a redondilha maior. O
esquema rimático é abba no mote
e cddcabba/effeabba/ghhgabba
nas voltas, com rimas interpolada
e emparelhada. Trata-se de uma
cantiga – uma forma da poesia tra-
dicional.
8. O primeiro descreve a ida de Lea-
nor à fonte, lugar de encontro amo-
roso, daí ela ir «não segura», com
medo de não se encontrar com o
seu amado. Neste, Leanor já está na
fonte e chora, devido à ausência do
seuamor.
Gramática
1. a) modificador apositivo do nome;
b) predicativo do sujeito; c) comple-
mentodonome.
2. a) «não quer» – oração subordi-
nante;«queadorseabrande»–oração
subordinada substantiva completiva.
b) «Posto o pensamento nele, / can-
tava» – oração subordinante; «por-
queatudooAmoraobriga»–oração
subordinadaadverbialcausal.
Escrita
1. Emissor: sujeito lírico que evoca
Leanor. Espaço físico: bucólico
(o campo, a fonte). Confidente: as
amigas. O amigo: ausente. Senti-
mentos: simpatia e solidariedade
paracomosofrimentodeLeanor.
2. Temáticas comuns (vide 1); épo-
cas diferentes mas formas seme-
lhantes:acantigadeCamões,apesar
de pertencer à época renascentista,
apresentaversoemredondilhacomo
a cantiga medieval; linguagem:
A – predomínio de nomes («ondas»,
«Vigo», «amigos»…); frases excla-
mativas («se vistes meu amigo!»);
refrão («E ai Deus, se verra cedo!»);
repetição de versos; interjeições («E
ai Deus»); B – predomínio de nomes
e da frase declarativa; frase inter-
rogativa repetida («vistes lá o meu
amor?») e uma exclamativa («Olhai
que extremos de dor!»); vocabulário
dedor(«chorar»,«suspiros»…).
173
Rimas
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
A verdura amena
a este moto seu:
Se Helena1
apartar2
do campo seus olhos,
nacerão abrolhos3
.
Voltas
A verdura amena,
gados, que paceis4
,
sabei que a deveis
aos olhos d’Helena.
Os ventos serena,
faz flores d’abrolhos
o ar de seus olhos.
Faz serras floridas,
faz claras as fontes:
se isto faz nos montes,
que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
como ervas em molhos,
na luz de seus olhos.
Os corações prende
com graça inhumana;
de cada pestana
ù’alma lhe pende.
Amor se lhe rende,
e, posto em giolhos5
,
pasma nos seus olhos.
Luís de Camões, op. cit., p. 19
1. Explicita a condição e a consequência expressas no mote.
2. Indica a temática presente ao longo do poema, relacionando-a com o recurso expres-
sivo que lhe está subjacente.
3. Tendo em conta os efeitos causados pelos olhos de Helena, divide as voltas em partes,
sintetizando o assunto de cada uma.
4. Enumera os efeitos dos olhos de Helena na natureza e nos humanos.
5. Esclarece a importância dos três últimos versos do poema.
6. Explicita a influência petrarquista nesta composição.
7. Identifica e explicita o valor dos recursos expressivos presentes nos seguintes versos:
a) «gados, que paceis» (v. 5) b) «Faz serras floridas, / faz claras as fontes» (vv. 11-12)
8. Analisa a estrutura formal desta composição poética e classifica-a.
1 Helena: nome clássico, pre-
sente na Ilíada, de Homero.
2 Apartar: afastar.
3 Abrolhos: ervas daninhas,
espinhos.
4 Paceis: pastais.
5 Giolhos: joelhos.
Vincent van Gogh, Campos de trigo em
Auvers sob céu com nuvens, 1890.
5
10
15
20
CD 1
Faixa n.o
22
A mulher petrarquista
p. 181
FI
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7;
14.8; 14.9.
Gramática
18.1; 18.2; 18.3; 18.4; 19.4;
19.5.
Oralidade
2.1; 5.1; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3.
MC
EducaçãoLiterária
1. Se Helena afastar os olhos do
campo (condição), nascerão espi-
nhos(consequência).
2. O poder transformador relaciona-
-se com os olhos de Helena, sinédo-
que de toda a sua beleza interior e
exterior.
3. As voltas podem ser divididas em
duas partes. Na primeira parte, o
sujeito lírico refere-se ao poder dos
olhos sobre a natureza (vv. 4-12).
Numa segunda parte, abordam-
-se os efeitos nas vidas humanas
(vv.13-24).
4. Na natureza, os olhos de Helena
acalmamosventos,transformamos
espinhos em flores, fazem florescer
as serras e purificam as fontes. Nos
humanos, prendem os corações e
trazem-nos suspensos, isto é, apai-
xonados.
5. Os três últimos versos concluem
que até o próprio Amor, personifi-
cado, se rende aos olhos de Helena,
exaltando a sua extraordinária be-
leza.
6. Tal como em Petrarca, a presença
da mulher amada transforma positi-
vamenteanatureza.
7. a) apóstrofe (indica o interlocutor
do sujeito lírico, que inconsciente-
mente beneficia dos efeitos trans-
formadores de Helena); b) anáfora
(enfatiza o poder transformador dos
olhosdeHelenananatureza).
8.Trata-sedeumvilancete,umavez
que é constituído por um mote de
três versos e voltas de sete versos.
Quanto à rima, apresenta o seguinte
esquema rimático: abb/cddccbb/
effeebb/ghhggbb (rima emparelha-
da e interpolada), sendo que se
repetearimadosdoisúltimosversos
do mote nos dois últimos versos das
voltas. Quanto à métrica, é consti-
tuído por versos de cinco sílabas
métricas(redondilhamenor).
174 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
GRAMÁTICA
1. Classifica as seguintes orações destacadas:
a) «Se Helena apartar / do campo seus olhos, / nacerão abrolhos.» (vv. 1-3)
b) «gados, que paceis, / sabei que a deveis» (vv. 5-6)
c) «Faz serras floridas, / faz claras as fontes» (vv. 11-12)
2. Faz corresponder a cada constituinte destacado a respetiva função sintática.
A. Constituintes B. Funções sintáticas
a) «sabei que a deveis» (v. 6) 1. complemento oblíquo
b) «Aos olhos d’Helena» (v. 7) 2. complemento direto
c) «na luz dos seus olhos» (v. 17) 3. complemento indireto
d) «de cada pestana / ũ’ alma lhe
pende» (vv. 20-21)
4. complemento do nome
3. Constrói um campo lexical do domínio conceptual de natureza.
ORALIDADE
Apreciação crítica
1. Ouve com atenção a música de Pedro Abrunhosa «Se eu fosse
um dia o teu olhar».
Toma notas dos seguintes tópicos:
tdescrição sucinta do que estás a ouvir;
t semelhanças (duas) entre a música e o poema;
t diferenças (duas) entre a música e o poema;
tcomentário crítico.
2. A partir das tuas notas, elabora uma apreciação crítica oral, de dois a quatro minutos, em que
compares o poema de Camões «A verdura amena» com a composição de Pedro Abrunhosa.
Vê lá, rapaz!
Nada, julgo, mais simples: os agricultores romanos recomendavam aos novatos: «aperi oculos!» Abre os olhos,
olha que quando ceifas encontrarás umas plantas daninhas que não deves juntar às espigas. E assim nas-
ceu o nome «abrolho», contração de APERI OCULOS, através de abreolhos. O espanhol também tem o vocábulo
«abrojo».
in http://letratura.blogspot.pt (consultado em outubro de 2014) (adaptado)
Abrolho:
1. [Botânica] planta zigofilácea de fruto espinhoso; 2. Espinho dessas plantas; 3. [Figurado] contrariedades, dificuldades.
in http://www.priberam.pt (adaptado)
Provérbio:
«Quem semeia abrolhos, espinhos colhe.»
CURIOSIDADE
CD 1
Faixa n.o
23
Sintaxe
pp. 324-328
SIGA
Apreciação crítica
p. 312
SIGA
Campo lexical
e campo semântico
p. 175
FI
PROFESSOR
Gramática
1. a) oração subordinada adverbial
condicional; b) oração subordinada
adjetiva relativa explicativa/oração
subordinada substantiva comple-
tiva; c) orações coordenadas assin-
déticas.
2.a)–2;b)–3;c)–4;d)–1.
3. «campos», «abrolhos», «verdura
amena», «gados», «paceis», «ven-
tos», «flores», «serras floridas», fon-
tes»,«montes»,«ervas».
Oralidade
1.Sugestãodetópicos:
“5A?BAE;{yABA|F;53?GE;5363
“3;?BADFv@5;36AA:3D7AF7?36A
amor;
“?3;AD ;@F7D3{yA 7@FD7 A EG7;FA
lírico e a amada («se eu fosse um
dia o teu olhar»; «e tu as minhas
mãos também»); a influência da
amada não é na natureza, mas no
eulírico;
“3B7E3D636;EFv@5;3F7?BAD36AE
dois poemas, a temática do olhar,
aliada ao sentimento amoroso,
estápresenteemambos,logo,esta
combinaçãoéintemporal.
Link
«Se eu fosse um dia
o teu olhar»,
Pedro Abrunhosa
175
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
1
Campo lexical e campo semântico
CONSOLIDA
1. Lê a seguinte composição camoniana.
Perdigão, que o pensamento
a esta cantiga alheia:
Perdigão perdeu a pena,
não há mal que lhe não venha.
Voltas
Perdigão, que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas, com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.
Quis voar a ùa alta torre
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha.
Luís de Camões, op. cit., p. 80
2. Constrói um campo lexical do domínio conceptual de «ave», utilizando apenas expres-
sões do texto.
3. Atenta no verso 15 e indica o significado da palavra «fogo» neste contexto.
3.1. Acrescenta dois significados ao campo semântico da palavra «fogo».
Dicionário terminológico, DGIDC, 2008
Campo lexical Campo semântico
t Conjunto de palavras associadas, pelo seu signi-
ficado, a um determinado domínio conceptual.
tConjunto dos significados que uma palavra pode
ter nos diferentes contextos em que se encontra.
Exemplos: O conjunto de palavras «jogador», «árbi-
tro», «bola», «baliza», «equipa», «estádio» faz parte
do campo lexical de «futebol».
Exemplos: Campo semântico de «peça»: «peça de
automóvel», «peça de teatro», «peça de bronze»,
«és uma boa peça», «uma peça de carne», etc.
Carl Whitfield, Perdiz, 1958.
5
10
15
PROFESSOR
Gramática
19.3; 19.4; 19.5.
MC
Consolida
2. «ave» – «Perdigão»; «pena»;
«asas»;«voar»; «desasado»e
«depenado».
3. Neste contexto, a palavra
«fogo» tem o significado de âni-
mo[exaltado].
3.1 Por exemplo: incêndio, cha-
ma,combustão,paixão.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
1
176 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Aquela cativa
a ùa cativa com quem andava d’amores
na Índia, chamada Bárbora1
Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais fermosa.
Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.
Ùa graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão2
perde opinião
que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbora3
não.
Presença serena
que a tormenta amansa;
nela enfim descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo,
e, pois nela vivo,
é força que viva.
Luís de Camões, op. cit., pp. 89-90
1 Bárbora: Bárbara, nome próprio.
2 Vão: ignorante
3 Bárbora: adjetivo, selvagem, rude.
5
10
15
20
25
30
35
40
Irma Stern, Jovem de Bahora, 1945.
CD 1
Faixa n.o
24
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 14.9.
Gramática
19.3; 19.5.
MC
177
Rimas
1. Explica o trocadilho presente nos versos 3 e 4.
2. Atenta nos versos 7 a 12.
2.1 Indica o recurso expressivo aí usado, explicitando o seu valor.
3. Traça o retrato físico de Bárbora, fundamentando-o com citações do poema.
3.1 Clarifica se o retrato traçado corresponde ao ideal de beleza petrarquista.
4. Estabelece o perfil psicológico desta personagem feminina e ilustra-o com expressões
do texto.
5. Tendo em conta a poética camoniana, retira conclusões acerca da representação da
amada nesta composição.
6. Confirma que estamos perante endechas.
GRAMÁTICA
1. Refere o campo semântico da palavra «cativa/o», no contexto do poema.
2. Indica os referentes dos pronomes destacados nos seguintes versos.
a) «Ũa graça viva, / que neles lhe mora» (vv. 19-20)
b) «nela enfim descansa / toda a minha pena» (vv. 37-38)
ESCRITA
Exposição sobre um tema
1. Partindo do visionamento do trailer do filme Belle
(2013, realizado por Amma Asante), regista em tópi-
cos a informação relevante que te permita compará-lo
com o poema estudado ao nível de:
a) temas;
b) ideias;
c) valores.
2. Redige uma exposição, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, a partir da
informação que recolheste. Explora as virtualidades das tecnologias da informação na
produção, na revisão e na edição do teu texto.
3. Partilha o teu texto com os teus colegas.
Fotogramas do filme Belle
Fotogramas do filme Belle
A representação
da amada
p. 181
FI
Campo lexical
e campo semântico
p. 175
FI
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.«Cativa»porque Bárboraéescrava;
«cativo» porque o sujeito poético se
encontra aprisionado pelo seu amor.
Apesar de o eu lírico ser superior
socialmente, em termos amorosos,
aescravasubjuga-o.
2.1 Sucessivas comparações (grada-
tivas) com elementos da natureza
– «rosa», «flores», «estrelas» – con-
tribuem para a superlativação das
qualidadesdaescrava.
3. Fisicamente, Bárbora é caracte-
rizada de forma objetiva: aparência
invulgar e exótica – «Rosto singular»
(v. 15); «olhos […] pretos» (vv. 16-17);
«Pretososcabelos»(v.23);«Pretidão
deAmor»(v.27).
3.1 Este retrato não se enquadra
no padrão de beleza feminina qui-
nhentista, enaltecido por Petrarca
(mulher de pele alva, loira e de olhos
claros).
4. Bárbora apresenta traços psico-
lógicos que a aproximam da mulher
petrarquista. É serena – «Presença
serena» (v. 35); discreta, contida –
«Leda mansidão» (v. 31) e com «siso»
(v. 32). Este perfil psicológico é tra-
çadodeformavagaeindefinida.
5. Há neste retrato feminino uma
conciliação/interseção entre a tra-
diçãodapoesiapeninsulareapetrar-
quista.Conjugam-sedadosrealistas,
como a referência à cor dos olhos,
dos cabelos, da pele, com a gracio-
sidade, superioridade e contenção,
tipicamente neoplatónicas e petrar-
quistas.
6. São endechas, porque são cons-
tituídas por quadras, agrupadas em
oitavas (note-se a pontuação), com
rima emparelhada e interpolada
(abba) e versos em redondilha menor
–A/que/la/ca/ti/va.
Gramática
1. «cativa» – «escrava», «cativo» –
apaixonado.
2.a)«olhos»;b)«presença».
Escrita
1. Temas em comum – a beleza exó-
tica, a complexidade do amor; ideias
–opreconceito,atolerância;valores
–adiscriminaçãoeaaceitação.
Vídeo
Trailer do filme Belle
178 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Um mover d’olhos, brando
e piadoso
Um mover d’olhos, brando e piadoso,
sem ver de quê; um sorriso brando e honesto,
quási forçado; um doce e humilde gesto1
,
de qualquer alegria duvidoso;
um despejo2
quieto e vergonhoso3
;
um repouso4
gravíssimo e modesto;
ùa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;
um encolhido ousar; ùa brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento;
esta foi a celeste fermosura
da minha Circe5
, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.
Luís de Camões, op. cit., p.161
1. Delimita as partes em que pode ser dividido o poema e indica o que é tratado em cada
uma delas (ao nível temático e formal).
2. Preenche no teu caderno a tabela sobre o retrato da amada.
A. Elementos físicos e morais B. Expressões caracterizadoras
a) o olhar
b) «brando e honesto, / quási forçado» (discreto)
c) o rosto
d) o desembaraço
e) «gravíssimo e modesto» (porte senhorial)
f) «pura / manifesto indício da alma, limpo e gracioso»
g) o ousar
h) o medo
i) «sereno»
j) o sofrimento
3. Identifica a anáfora usada em quase todo o poema e explicita o seu valor expressivo.
3.1 Classifica o tipo de mulher aqui representada.
4. O último terceto revela uma mulher controversa.
4.1 Relaciona essa contradição com as cargas positiva e negativa associadas a Circe.
4.2 Identifica as duas metáforas presentes e explicita o seu valor expressivo.
5. Analisa a estrutura formal desta composição poética e classifica-a.
6. Compara o retrato que é feito de Leanor na p. 170 com o retrato da mulher deste soneto.
Leonardo da Vinci, Mona Lisa,
(pormenor) 1503–1517.
1 Gesto: rosto.
2 Despejo: naturalidade, desembaraço.
3 Vergonhoso: tímido, envergonhado.
4 Repouso: postura.
5 Circe: figura mitológica; feiticeira que
surge na Odisseia, de Homero; para reter
Ulisses na sua ilha, Circe transformou os
companheiros em porcos.
5
10
CD 1
Faixa n.o
25
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7;
14.8; 14.9; 14.10.
Gramática
18.4
Oralidade
1.5; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3.
MC
EducaçãoLiterária
1. A composição poética pode ser
dividida em duas partes. 1.a
parte
– nas duas quadras e no primeiro
terceto, o sujeito lírico caracteriza
a amada através de uma sucessão
de frases nominais (determinante
indefinido «um», nome e adjetivo).
2.a
parte – no último terceto, escla-
rece o objeto retratado anterior-
mente – a amada, que ele apelida de
Circe,recorrendoaumafraseverbal.
2.
a)«brandoepiadoso»
b)osorriso;
c) «doce e humilde»; «de qualquer
alegriaduvidoso»;
d) «quieto e vergonhoso» (serena e
tímida);
e)apostura;
f) abondade;
g)«encolhido»(tímida);
h)«semterculpa»;
i)oar;
j)«longoeobediente».
3. A anáfora do determinante inde-
finido «um» e «ũa» reforça o caráter
vago e indefinido do retrato desta
mulher; sugerindo que o sujeito está
a caracterizar uma mulher ideali-
zada,perfeita.
3.1 Mulher petrarquista: ideal, per-
feita e divina. Há equilíbrio entre as
características físicas e psicológi-
cas; a sua beleza interior transpa-
recenasuabelezafísica.
4.1Osujeitopoéticorefereosefeitos
que a sua amada teve sobre ele. Tal
como Circe, a perfeição (positiva) da
mulher atraiu-o, fê-lo apaixonar-se
por ela, como se de um feitiço (nega-
tivo)setratasse.
4.2 As metáforas «Circe» e «mágico
veneno» explicitam o valor negativo
(mas desejado) desta mulher sobre
o sujeito: a mulher é vista como uma
feiticeiraqueusouo venenodoamor
sobreele,prendendo-o.
179
Rimas
GRAMÁTICA
Lê a seguinte sinopse.
A história de um amor impossível
A musa de Camões recua até ao século XVI, para a Lis-
boa de onde partem as caravelas que descobrem o mundo
echegamasespeciariasquemaravilhamaEuropa.Nopaço
real vive a mais bela e rica princesa da cristandade: a infanta
D. Maria. Nas ruelas tortuosas aventura-se o mais talen-
toso poeta da época: Luís de Camões.
Mas Lisboa não tem só encantos. A infanta, invulgar-
mente culta e graciosa, retratada por pintores e cantada por poetas, vive asfixiada por
uma corte que conspira para que ela não se case nem leve o dote mais cobiçado da
Europa. E Camões, invejado pelo talento único e odiado por maridos cujas mulheres
cantou e encantou, é um desafortunado que até el-rei pretende exilar para longe.
Um dia os seus olhares cruzam-se. Tão diferentes de nascimento e posição, as suas
almas desencantadas parecem gémeas. Uma deseja atenção, a outra anseia por uma
musa, ambas encontram o amor. Trazendo à vida uma época gloriosa e personagens
fascinantes, Maria Helena conta-nos a história de um amor único e impossível, que aos
olhos da lei era crime e aos da Inquisição era pecado.
www.leyaonline.com (consultado em fevereiro de 2015)
1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1 a 1.5, seleciona a opção correta.
1.1 Através da expressão «recua até ao século XVI» (l. 1), o autor refere que a ação
(A) se inicia num presente que recupera o passado através de uma analepse.
(B) decorre no passado, no século XVI.
(C) é temporalmente dúbia.
(D) se inicia no passado e se prolonga até ao presente.
1.2 Relativamente ao anterior, o parágrafo iniciado por «Mas» (l. 7) apresenta
(A) factos semelhantes.
(B) ideias equivalentes.
(C) factos opostos.
(D) consequências.
1.3 Quando afirma «Trazendo à vida uma época gloriosa» (l. 14), o autor refere-se a
(A) um tempo fascinante de amores proibidos.
(B) uma época honrosa de descoberta de novos destinos.
(C) um momento de belas infantas e poetas engenhosos.
(D) um período ilustre de vida na corte.
1.4 Os referentes dos vocábulos «Uma» e «outra» (l. 13) são
(A) «Infanta» (l. 7) e «Camões» (l. 9), respetivamente.
(B) «os seus olhares» (l. 12).
(C) «as suas almas desencantadas» (ll. 12-13).
(D) «personagens fascinantes» (ll. 14-15).
1.5 Na primeira frase do texto, identificam-se duas orações subordinadas
(A) adjetivas relativas restritivas.
(B) adjetivas relativas explicativas.
(C) adverbiais consecutivas.
(D) substantivas relativas.
5
10
15
Lis-
do
aço
nta
en-
ar-
Coordenação
e subordinação
p. 327-328
SIGA
PROFESSOR
5. Constituída por duas quadras
e dois tercetos; os versos são
decassilábicos «Um/mo/ver/d’o/
lhos/bran/do e/pi/a/do/so»; o
esquema rimático é abba/abba/
cde/cde,comrimasinterpoladae
emparelhada,nasquadras,ecru-
zada, nos tercetos. Classifica-se
comoumsoneto.
6. Em ambos os poemas, as mu-
lheres são belas, mas enquanto
a beleza de Leanor é maioritaria-
mente física, a de «Circe» é prin-
cipalmente moral, indefinida,
remetendo para o conceito de
mulher petrarquista, distante e
inatingível.
Gramática
1.1(B);1.2(C);1.3(B);1.4(C);
1.5(A).
180 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
5
10
15
20
25
30
ORALIDADE
Exposição sobre um tema
1. Lê atentamente o poema abaixo, começando pela linha vertical («[Vós] sois ũa dama /
das feias do mundo») e depois pela linha horizontal («[Vós] sois ũa dama / De grão
merecer»). Em seguida, estabelece uma relação entre o(s) retrato(s) da mulher no
poema e os retratos com as quais contactaste na poesia trovadoresca.
Apresenta as tuas conclusões à turma, procurando diversificar o vocabulário e as
estruturas frásicas.
Estâncias na medida velha, que têm duas
contrariedades: louvando e deslouvando uma dama
[Vós] sois ùa dama
das feias do mundo;
de toda a má fama
sois cabo profundo.
A vossa figura
não é para ver;
em vosso poder
não há fermosura.
[Vós] fostes dotada
de toda a maldade;
perfeita beldade
de vós é tirada.
Sois muito acabada
de tacha e de glosa:
pois, quanto a fermosa,
em vós não há nada.
De grão merecer
sois bem apartada;
andais alongada
do bem parecer.
Bem claro mostrais
em vós fealdade:
não há i maldade
que não precedais.
De fresco carão
vos vejo ausente;
em vós é presente
a má condição.
De ter perfeição
mui alheia estais;
mui muito alcançais
de pouca razão.
Luís de Camões, op. cit., pp. 83-84
2. Partindo do que é retratado no poema de
Camões, podemos concluir que a beleza
das pessoas depende dos conceitos e das
ideias de quem as vê. Observa esta ima-
gem e procede à sua descrição oral, con-
cluindo sobre a sua intenção comunicativa.
Não te esqueças de utilizar adequadamente
recursos verbais e não verbais: postura, tom de
voz, articulação, ritmo, entoação e expressivi-
dade. Noma Bar,
A beleza está nos olhos de
quem vê, 2014.
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
PROFESSOR
Oralidade
1. Pela leitura vertical, denota-
-seumacríticamordazàsenhora
emquestão,comumalinguagem
corrosiva em relação às suas
qualidades físicas, relembrando
as características contundentes
das cantigas de escárnio medie-
vais; a leitura horizontal permite
vislumbrar um louvor extremo
às qualidades físicas e morais da
dama.
2. Dependendo da perspetiva
pessoal e social, observamos a
silhuetadeduasmulheresdistin-
tas: à esquerda, uma jovem bela;
à direita, uma idosa e já menos
bela. A intenção comunicativa
liga-se com o título da imagem
– julgamos a beleza de cada um
através do que vemos, do que a
sociedade nos dita. A beleza ou
fealdade está nos olhos de quem
aprecia.
Sugestão:
Chamar a atenção dos alunos
para: «Este jogo de tipo pala-
ciano, ao gosto da época, mani-
festa o quão ilusório é o juízo de
valor humano, ao mesmo tempo
que constitui um divertimento
e um apelo ao distanciamento
em relação à opinião alheia: tão
depressa somos louvados como
criticados e humilhados.» (Antó-
nio Moniz, Para uma leitura da
crítica camoniana, Lisboa, Ed.
Presença,1998).
181
Ficha informativa
A representação da amada
1. Retrato realista
A obra camoniana retrata dois tipos de mulher. A primeira é uma imagem realista
e aparece em algumas redondilhas. […] A segunda é uma imagem petrarquista: está
presente nos sonetos. […]
A própria temática da medida velha é muitas vezes retirada da vida quotidiana:
por isso as suas heroínas são mulheres apaixonadas, alegres, […] prontas a lutar
pelos seus interesses e pelos seus sentimentos. A imagem realista opõe-se à imagem
petrarquista1
em que a mulher personifica várias ideias: beleza, castidade, «alma
gentil», «leda serenidade deleitosa», […] harmonia: a unidade profunda entre a
beleza externa e a beleza interna.
Olga Ovtcharenko «A mulher na obra camoniana»,
in Colóquio Letras n.º 125/126, 1992, pp. 9-10
2. A mulher petrarquista
Petrarca (1304-1374) é o grande cultor do «amor elevado», que celebra com
múltiplos jogos de antíteses. Toda a sua obra é atravessada pela presença de Laura, a
amada que conhece em 1327 e que lhe desperta um amor platónico. Apesar de a sua
musa ter morrido em 1348, vítima da peste negra, Petrarca continua a cantá-la até
ao fim dos seus dias, projetando o amor irrealizável numa cristalização perfeita que
reflete a transcendência divina. A poesia petrarquista, escrita sob o signo da ausência e
da solidão, impõe um modelo feminino, de cabelos loiros [pele nívea] e beleza serena,
impalpável, abstrata, inacessível, símbolo de harmonia e perfeição [tendo a capacidade
de contaminar positivamente a natureza].
Maria Graciete Besse, Camões sonetos,
Mem Martins, Publicações Europa-América, 1992, p. 25 (texto adaptado)
Leonardo da Vinci, Senhora
com arminho, c. 1483 (pormenor).
CONSOLIDA
1. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as falsas.
a) Na sua poesia, Camões representa a mulher de forma objetiva, mas também cria
uma imagem idealizada da mesma.
b) É possível encontrar a imagem realista da mulher nos poemas da medida nova.
c) A mulher que é descrita objetivamente enquadra-se em cenas do quotidiano.
d) A descrição da mulher centra-se apenas na sua beleza física.
e) A grande inspiradora da poesia de Camões foi Laura, a mulher que ele amou.
f) O petrarquismo define um ideal de mulher, sempre bela e perfeita; superior e atingível.
g) Para Petrarca, a mulher é objeto de adoração, e a natureza transforma-se devido à
sua presença.
5
5
FICHA INFORMATIVA N.O
2
1 Petrarquista: relativo a
Petrarca, poeta toscano do
século XVI, modelo da lírica
renascentista.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
2
PROFESSOR
Leitura
7.4; 8.1.
Educação Literária
14.3; 15.1; 15.2.
MC
Consolida
1.
a) V;
b) F… nasredondilhas;
c) V;
d) F… quer na sua beleza física,
quernassuasqualidadesmorais;
e) F… Laura é a inspiradora de
Petrarca;
f) F… inatingível;
g) V.
182 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
A experiência amorosa e a reflexão
sobre o Amor
PONTO DE PARTIDA
1 A partir da leitura da tira de Schulz, antecipa o tema dos sonetos de Camões que irás
analisar.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
A
Tanto de meu estado me
acho incerto
Tanto de meu estado me acho incerto
que em vivo ardor1
tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto, um desconcerto2
;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora3
espero, agora desconfio,
agora desvario4
, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando,
nù’ hora acho mil anos, e é de jeito5
que em mil anos não posso achar ù’ hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
Luís de Camões, op. cit., pp. 118, 120
B
Pede o desejo, Dama,
que vos veja
Pede o desejo, Dama, que vos veja:
não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado1
,
que quem o tem não sabe o que deseja.
Não há cousa a qual natural seja
que não queira perpétuo2
seu estado;
não quer logo o desejo o desejado,
porque não falte nunca onde sobeja3
.
Mas este puro afeito4
em mim se dana5
;
que, como a grave pedra tem por arte
o centro desejar da natureza,
assi o pensamento (pola parte
que vai tomar de mim, terrestre [e] humana)
foi, Senhora, pedir esta baixeza6
.
5
10
5
10
1 Delgado: espiritual.
2 Perpétuo: eterno.
3 Sobeja: excede.
4 Afeito: afeto.
5 Dana: deteriora, irrita.
6 Baixeza: vileza, ação
condenável.
1 Ardor: fogo
amoroso.
2 Desconcerto: con-
flito interior.
3 Agora: ora… ora.
4 Desvario: deliro.
5 E é de jeito: e é
comum.
CD 1
Faixas n.os
26 e 27
Schulz, Snoopy – o campeão,
Lisboa, Booktree, 2003, p. 41
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7;
14.8; 14.9; 14.10; 15.4.
Oralidade
3.2; 4.1; 4.2; 5.2; 5.3.
MC
PontodePartida
1. Confusão/conflito interior que
o sentimento amoroso provoca a
quemama.
EducaçãoLiterária
1. a) Ambas as composições são
sonetos, constituídos por duas
quadras e dois tercetos. Quanto
à métrica, apresentam versos
decassilábicos. As quadras têm
o seguinte esquema rimático:
abba/abba (rima interpolada
e emparelhada). Note-se que
o esquema rimático é díspar
nos tercetos: texto A – cde/cde
(rima cruzada); texto B – cde/dce
(rima cruzada e interpolada).
b) Texto A: experiência amoro-
sa e desconcerto sentimental;
texto B: experiência amorosa e
reflexão sobre o amor. c) Texto
A: 1.a
parte – as duas quadras
e o primeiro terceto (conflito
interior do sujeito poético); 2.a
parte – último terceto (causa do
tumulto, visão da amada); texto
B: 1.a
parte – as duas quadras
(descrição do conflito interior
do sujeito poético). 2.a
parte – os
dois tercetos (oposição entre a
anterior defesa da espirituali-
dade e a realidade humana que
desejafisicamenteasuaamada).
d) Discurso pessoal (nos dois
sonetos): o eu lírico reflete sobre
o amor, a sua vivência amorosa e
os seus sentimentos; e) Texto A:
visão da mulher amada; texto B:
desejar «ver» a sua amada, ape-
sar de saber que, racionalmente,
deveriacontentar-secomoamor
«tão fino e tão delgado» (v. 3).
f) Em ambos os sonetos, encon-
tramosapresençadeuminterlo-
cutor:senhoraedama.g)TextoA:
aliteração (v. 1) em t, anáfora (vv.
7-8), metáfora (v. 9); texto B: ali-
teração em d e j, apóstrofe, per-
sonificação (v. 1). h) Texto A: amor
espiritual – o sujeito poético fica
num estado de desconcerto sen-
timental provocado pela mera
visão da mulher amada; texto B:
confronto espiritual versus amor
carnal – o sujeito poético acaba
por admitir a sua humanidade e
desejaroobjetoamado.
Sugestão: a tarefa poderá ser
desenvolvida em trabalhos de
grupo.
183
Rimas
1. Analisa os dois poemas seguindo os tópicos:
a) estrutura externa;
b) tema;
c) divisão interna e assunto de cada parte, importância do momento conclusivo;
d) discurso pessoal, marcas de subjetividade e versos ilustrativos;
e) motivos para o estado de espírito do sujeito poético;
f) presença e marcas linguísticas/estilísticas de um interlocutor;
g) três recursos expressivos e sua relevância na construção poética;
h) confronto dos paradigmas amorosos presentes nas composições poéticas.
GRAMÁTICA
1. Constrói duas frases em que os vocábulos que se seguem pertençam a classes de pala-
vras diferentes.
a) choro/choro; b) desejo/desejo.
1.1 Identifica o processo de formação de palavras.
ORALIDADE
Apresentação oral
1. Escuta um dos sonetos mais conhecidos do Príncipe dos
Poetas, musicado pela banda Polo Norte, e identifica o
seu tema.
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que doi, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário por entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
2. Tendo por base a tua experiência e entendimento, prepara uma apresentação oral, de
cinco a sete minutos, na qual apresentes uma reflexão sobre o Amor:
tdefinições possíveis;
ta origem do sentimento amoroso;
tas suas consequências nas vidas humanas.
Planifica a tua apresentação, estruturando um guião com tópicos de suporte.
Utiliza adequadamente os recursos verbais e não verbais (postura, tom de voz, articu-
lação, ritmo, entoação e expressividade).
FICHA INFORMATIVA N.O
3
5
10
CD 1
Faixa n.o
28
A experiência amorosa e a
reflexão sobre o Amor
p. 184
FI
Processos regulares de
formação de palavras
p. 319
SIGA
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões, op. cit., p. 119
PROFESSOR
Gramática
1.
a) Eu choro (verbo) muito a ver fil-
mes.Ochoro(nome)dosbebésinco-
moda-me.
b) Eu desejo (verbo) sorte a todos.
O desejo (nome) de comer gelados
eraenorme.
1.1Conversão.
Oralidade
1. A indefinição do sentimento amo-
rosoeasuacomplexidade.
Sugestão: como alternativa à apre-
sentação oral, sugere-se a redação
de um soneto, no qual seja apresen-
tada uma conceção de amor, com
definiçõespessoais.
Link
Príncipe dos Poetas,
Polo Norte
184 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
FICHA INFORMATIVA N.O
3
A experiência amorosa
e a reflexão sobre o Amor
O amor é, para o poeta, um binómio de duas faces contraditórias, a espiritual e a
carnal, correspondentes a dois tipos de mulher: a ideal e a sensual. A primeira – criatura
angelical de inspiração petrarquiana – é o objeto de culto, ser de essência divina, into-
cável e distante. Com um retrato físico nem sempre evidente – todavia sempre ideali-
zado – quando o possui, este é o reflexo de uma superior beleza interior e moral, em
que sobreleva uma alma virtuosa. Eis o que sobressai em sonetos petrarquistas como
«Um mover de olhos brando e piedoso». […] Perante uma tal beleza [neste soneto], o
sujeito lírico toma uma atitude reverente em relação à dama.
A par destes sonetos em que o eu lírico aparece fascinado pelo etéreo amor petrar-
quista, outros há em que o sujeito deseja o objeto amado e, como tal, surge dilacerado
por uma torturante contradição interior. […]
Aqui [no soneto «Tanto do meu estado me acho incerto»] sobressai a dialética do
desejo, «o estado incerto» petrarquista, que é ainda o fascínio pela mulher superior,
quase divina, de beleza inefável. Mas o amor depurado, reduzido a manifestações espi-
rituais, dá, não raro, lugar a um sentimento profundo, que abrange a totalidade das
manifestações eróticas, fortemente marcado de sensualidade. Este amor tangível, sen-
sual, expressão artística de quem «em várias flamas ardia» [«Tanto do meu estado me
acho incerto»] encontramo-lo em sonetos […] do Renascimento. [...]
O esquema dual de representação feminina ou amorosa camoniano não dissolve a
dialética.Eporqueadualidadesistemáticanuncaseencaminhaparaumasolução,dessa
questão permanentemente inconclusa nasce a dramática reflexão entre o real e o ideal.
Daqui resulta a insatisfação, a angústia, a desventura existencial, o pathos amoroso que
encontramos em sonetos como: «Erros meus, má fortuna, amor ardente».
Maria Luísa de Castro Soares, «Aventura do amor e do espírito: a lírica e a epopeia de Camões»,
in Do Classicismo ao Maneirismo e ao Barroco e a sua projeção na atualidade,
Braga, Edições Vercial, 2012, pp. 51-52 (texto adaptado e com supressões)
CONSOLIDA
1. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as
falsas.
a) A temática dominante na poesia de Camões é o amor, sentimento complexo e con-
traditório.
b) A mulher petrarquista é descrita como um ser comum que não deve ser desejado
fisicamente, mas amado e idolatrado.
c) Camões vive um conflito interior entre o amor espiritual e o amor carnal, não dese-
jando a mulher fisicamente.
d) Por vezes, o poeta sente que a realização total do amor só é possível através da con-
jugação do amor espiritual e do amor físico.
Sandro Botticelli,
Primavera (pormenor), 1482.
5
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15
20
PROFESSOR
Leitura
7.4; 8.1.
Educação Literária
14.3; 15.1; 15.2.
MC
Consolida
1.
a)V;
b)F…umserideal;
c)F…desejando;
d)V.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
3
185
Rimas
A representação da natureza
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Alegres campos, verdes arvoredos
Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais1
ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;
silvestres montes, ásperos penedos
compostos de concerto2
desigual,
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos3
.
E, pois me já não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.
Semearei em vós lembranças tristes,
regando-vos com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.
Luís de Camões, op. cit., p. 123
1. Ao longo do poema são enumerados vários elementos da natureza.
1.1 Apresenta esses elementos naturais e refere se são qualificados predominante-
mente de forma negativa ou positiva.
1.2 Indica o nome que se dá a esse tipo de natureza.
2. Do ponto de vista da estrutura, este soneto pode ser dividido em partes.
2.1 Delimita-as e expõe, resumidamente, o seu assunto.
3. Identifica e esclarece o valor dos recursos expressivos presentes nos seguintes versos:
a) «Alegres campos, verdes arvoredos, / claras e frescas águas de cristal» (vv. 1-2); «sil-
vestres montes, ásperos penedos» (v. 5);
b) «claras e frescas águas de cristal» (v. 2), «discorrendo da altura dos rochedos» (v. 4);
c) «nem águas que correndo alegres vêm. / Semearei em vós lembranças tristes»
(vv. 11-12).
4. Identifica as características formais que permitem classificar esta composição poética
como um soneto.
5. Refere a sua temática.
Joachim Patinir, Fuga para o Egito, 1515-1524.
1 Debuxais: refletis.
2. Concerto: harmonia.
3. Ledos: alegres.
5
10
CD 1
Faixa n.o
29
A representação da natureza
p. 187
FI
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.6; 14.8; 14.9;
15.1; 15.2.
MC
1.1 Os elementos naturais são: «Ale-
gres campos», «verdes arvoredos»,
«claras e frescas águas de cristal»,
«rochedos», «silvestres montes»,
«ásperos penedos», «verduras delei-
tosas» e «águas […] alegres». Estes
são predominantemente qualifica-
dosdeformapositiva.
1.2 Este tipo de natureza designa-se
«locusamoenus».
2.1 O poema é suscetível de ser divi-
dido em três partes. Na primeira,
constituída pela primeira quadra
e pelos dois primeiros versos da
segunda, o sujeito lírico procede à
descrição de uma natureza vária,
alegre, bela e harmoniosa. Personi-
ficando-a, na segunda parte (os dois
últimos versos da segunda quadra e
o primeiro terceto), o sujeito poético
diz-lhe que ela já não o consegue
fazer sentir feliz no presente, como
acontecera no passado, dado ser
invadido pelo «mal», pela desven-
tura. Por fim, no segundo terceto
(terceira parte), o eu lírico declara
que agora será ele a tornar a natu-
reza triste, contaminando-a com a
sua tristeza («lembranças tristes») e
as suas lágrimas, saudosas do bem
perdido(aamada,afelicidade).
3. a) a apóstrofe e a enumeração
enfatizam o destinatário do sujeito
lírico;
b) a aliteração do som [s] apela ao
sentido da audição: o dinamismo do
fluirdaságuascristalinas;
c) a antítese expressa a contradição
entre a alegria das águas a correr
e o estado de espírito negativo do
sujeito, pois está invadido pela tris-
teza; a personificação em «águas…
alegres».
4. Trata-se de um soneto porque é
constituído por duas quadras e dois
tercetos,comversosdecassilábicos,
e o esquema rimático é abba/abba/
cde/cde.
5. A temática é o «locus amoenus» e
ainfluênciadaausênciadaamadano
estadodeespíritodosujeitopoético,
que conduz ao desaparecimento da
belezaedaalegriadanatureza.
SIGA
Recursos expressivos
p. 334-335
186 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
Praia dos Alteirinhos, Zambujeira do Mar.
GRAMÁTICA
1. Identifica as funções sintáticas presentes nos elementos destacadas dos versos seguin-
tes:
a) «águas de cristal» (v. 2);
b) «que em vós os debuxais ao natural» (v. 3);
c) «regando-vos com lágrimas saudosas» (v. 13).
2. Transcreve do segundo terceto uma oração coordenada copulativa.
3. Atenta na frase:
Na ausência da amada, o sujeito lírico parece esquecer todas as alegrias da vida.
3.1 Substitui a expressão destacada pela forma adequada do pronome pessoal,
fazendo apenas as alterações necessárias.
ORALIDADE
Exposição
Ouve atentamente a música «Gaivota dos Alteirinhos», de
Jorge Palma, sobre a qual terás de fazer uma exposição
de um a três minutos.
Toma notas sobre as ideias apresentadas no plano de tex-
to.
tIntrodução: título da canção e nome do autor/cantor.
tDesenvolvimento: tema; vocábulos e expressões-chave e a sua importância para o
desenvolvimento do assunto.
tConclusão: considerações finais sobre a adequação do ritmo da música à temática
abordada.
CD 1
Faixas n.o
30
PROFESSOR
Gramática
18.1; 18.3.
Oralidade
1.6; 2.1; 4.2; 5.1; 5.3; 6.1; 6.2.
MC
Gramática
1. a) modificador do nome; b) modifi-
cador;c)complementodireto.
2. «e nascerão saudades de meu
bem.»
3.1…esquecê-las.
Oralidade
Tópicosderesposta:
– «Gaivota dos Alteirinhos», por
JorgePalma.
– Alegria de ver a gaivota a voar na
praia e desejo de que ela continue a
demonstrarasualiberdade.
– Os vocábulos «gaivota», «ondas»,
«praia», «caranguejo», «sargo»,
«verão», «grilos» permitem descre-
ver a realidade envolvente do sujeito
poético como uma natureza marí-
tima; as expressões «dança sobre as
ondasdomar»,«Desperta[…]/avida
da praia», «plana a seu bel-prazer /
[…] entre as malandrices do Verão / e
osorrisoternodochão»dãoaconhe-
cer uma natureza que pode ser iden-
tificadacomoum«locusamoenus».
–Comentáriopessoal;
–Ritmolentosugereovoodagaivota
eacalmaqueadvémdasuacontem-
plação.
Funções sintáticas
pp. 324-325
SIGA
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
Colocação do pronome
pessoal átono
pp. 326
SIGA
Link
Gaivota dos Alteirinhos,
Jorge Palma
187
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
4
A representação da natureza
1. A natureza: cenário, testemunho e alegoria
Presença constante na pintura e na poesia quinhentistas, a natureza representa
algo mais do que um cenário decorativo dos retratos humanos, tanto físicos como
psicológicos, mas uma companheira que testemunha e alegoriza as vivências regista-
das. Não é já a interlocutora privilegiada das cantigas de amigo galego-portuguesas,
plena de magia quase omnisciente e omnipotente, mas também não é mera conven-
ção retórica, quase sempre simbólica de serenidade e harmonia, segundo o tópico
clássico do locus amoenus.
Nos sonetos camonianos, destaca-se um leque variado de ângulos e perspetivas em
que o tema da natureza é abordado e desenvolvido. Assim, a natureza:
– […] é a corresponsável demiúrgica1
pelas excelsas qualidades das figuras femi-
ninas exaltadas, conferindo-lhes a sua beleza, «luz, graça e pureza» («Pelos extremos
raros que mostrou»); […]
– apresenta uma nota agónica e nostálgica no tópico clássico do locus amoenus,
pela ausência da amada («Alegres campos, verdes arvoredos»); […]
– mostra insensibilidade, sendo incapaz de se solidarizar com a dor do sujeito
poético («O céu, a terra, o vento sossegado»); […]
– provoca, apesar da sua amenidade, um distúrbio no sujeito lírico motivado pela
ausência feminina («Alegres campos, verdes arvoredos»).
António Moniz, Para uma leitura da lírica camoniana,
Lisboa, Editorial Presença, 1998, pp. 58-62 (texto adaptado)
2. Locus amoenus (lugar ameno)
Expressão latina que designa a paisagem ideal, sempre presente na poesia amorosa
em geral e, com maior incidência, na poesia bucólica. Desde a Antiguidade Clássica
que o termo locus amoenus nos remete para a descrição da natureza e para um con-
junto de elementos específicos: o campo fresco e verdejante, com um vasto arvoredo
e flores coloridas, cujo doce odor se espalha com a brisa. […] Esta natureza mágica é
conducente ao amor, ao encantamento sensorial e espiritual do Homem, que se inte-
gra na perfeição em tal plenitude, marcada pela harmonia e homogeneidade. Enfim,
estamos perante um paraíso terrestre, onde se enquadra o ser humano que busca a
satisfação pela simplicidade. […]
Susana Alves, «Locus amoenus», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário de termos literários
(texto adaptado) (consultado em maio de 2014)
CONSOLIDA
1. Relaciona cada afirmação com o texto onde se encontra.
a) O tema da natureza é perspetivado de forma complexa em Camões.
b) Locus amoenus é uma expressão latina que designa um lugar idílico.
c) Na lírica camoniana, a relação entre a natureza e o sujeito poético é marcada pela
presença/ausência da mulher amada.
d) No domínio das artes do século XVI, a natureza é o espelho das vivências do eu.
e) O locus amoenus é propício ao amor e à harmonia.
5
10
15
5
1 Demiúrgica: criadora.
PROFESSOR
Leitura
8.1.
Educação Literária
14.3; 15.1; 15.2.
MC
Consolida
1.a)texto1;b)texto2;c)texto1;
c)texto2;d)texto1;e)texto2.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
4
188 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
A reflexão sobre a vida pessoal
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
A
Erros meus, má fortuna,
amor ardente
Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram1
;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso2
de meus anos;
dei causa [a] que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio3
de vinganças!
Luís de Camões, op. cit., p. 170
B
O dia em que eu nasci, moura e pereça
O dia em que eu nasci, moura e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o sol padeça.
A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
a mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!
Luís de Camões, op. cit., p. 182
1 Conjuraram: conspiraram.
2 Discurso: decurso.
3 Génio: espírito.
Cruzeiro Seixas, Outra vista de Lisboa
com o abraço, 1969.
Wassily Kandinsky, Obscuri, 1917.
5
10
5
10
CD 1
Faixas n.os
31 e 32
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7;
14.8; 14.9; 15.1; 15.2; 15.3;
15.5.
Gramática
18.2; 18.4.
Escrita
10.1; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3;
12.4; 13.1.
MC
189
Rimas
1. No poema A, o sujeito poético faz um balanço da sua vida, começando por enumerar os
motivos que conduziram à sua presente infelicidade.
1.1 Identifica os motivos que, segundo ele, motivaram a sua condição atual.
2. A autoculpabilização é evidente pelo recurso a vários elementos linguísticos.
2.1 Explicita-os.
3. Sintetiza o assunto da segunda estrofe.
4. Nas três primeiras estrofes do poema B, o sujeito amaldiçoa o dia do seu nascimento.
4.1 Explicita as várias imagens negativas aí apresentadas.
5. Estabelece uma relação de sentido entre o segundo terceto e as restantes estrofes do
poema.
6. Indica o desejo expresso pelo sujeito lírico em cada um dos poemas.
7. Identifica três processos linguísticos e estilísticos comuns utilizados para marcar o tom
hiperbólico e disfórico de ambos os poemas. Fundamenta a tua resposta com elemen-
tos textuais.
GRAMÁTICA
1. Classifica as orações introduzidas pelas palavras destacadas nos versos do poema B.
a) «cuidem que o mundo já se destruiu.» (v. 11)
b) «que este dia deitou ao mundo a vida / mais desgraçada que jamais se viu!» (vv. 13-14)
2. Atenta na grafia diferente das interjeições «Oh!» (poema A) e «Ó» (poema B) e escla-
rece o significado de cada uma.
3. Transpõe os versos seguintes do poema B para o discurso indireto.
«Ó gente temerosa, não te espantes, / que este dia deitou ao mundo a vida / mais
desgraçada que jamais se viu!» (vv. 12-14)
ESCRITA
Exposição sobre um tema
1. Num texto organizado, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, elabora uma
exposição sobre a aparente facilidade de errar, a aparente dificuldade do arrependi-
mento e as consequências que podem advir quer de uma quer de outra atitude.
2. Redige, previamente, o plano do teu texto. Deves atender aos seguintes tópicos para
a elaboração de uma exposição: caráter demonstrativo, elucidação evidente do tema
(fundamentação das ideias), concisão e objetividade, valor expressivo das formas lin-
guísticas (deíticos, conectores…).
3. No final, faz a revisão e o aperfeiçoamento do teu texto.
Coordenação
e subordinação
pp. 327-328
SIGA
Reprodução do discurso
no discurso
p. 331
SIGA
Exposição sobre
um tema
p. 311
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.1 Os motivos que conduziram à sua
infelicidade foram os seus próprios
erros, a má sorte e o amor excessivo.
2.1 Discurso de 1.a
pessoa: deter-
minantes possessivos («meus»,
«minha», «meu»); seleção vocabular
associada à 1.a
pessoa: «Erros meus»,
«Errei», «Dei causa»; flexão verbal na
1.a
pessoadosingular(«Errei»e«dei»).
3. Uma vez que ainda não esqueceu
osofrimentodopassado,decidiunão
desejar ser feliz, de forma a evitar
ilusões.
4.1 Eclipse do sol; sinais apocalíp-
ticos; partos monstruosos; desco-
nhecimento dos filhos pelas mães;
chuva de sangue; lágrimas univer-
sais por cuidarem que é destruição
do mundo. Com estas imagens, o
sujeito projeta o seu infortúnio pes-
soalaníveluniversal.
5. No segundo terceto, o sujeito poé-
ticojustificaarazãopelaqualrejeita
arepetiçãododiadoseunascimento.
E caso ele se repita, que seja um dia
de violência extrema, pois terá nas-
cido o homem mais desgraçado de
todos,elepróprio.
6. No poema A, o sujeito manifesta o
desejo de vingança, pela dor sofrida
ao longo de toda a sua vida (segundo
terceto).
No poema B, apresenta o desejo de
não se voltar a repetir o dia do seu
nascimentoqueoatirouparaamaior
desventurahumana(vv.1-2).
7. Hipérbole: «Errei todo o discurso
de meus anos» (A v. 9), «que este dia
deitouaomundoavida/maisdesgra-
çada que jamais se viu!» (B vv. 13-14);
exclamação final em ambos; vocabu-
lário de conotação negativa; «perdi-
ção», «erros», «dor», «iras», «moura»,
«monstros»,«sangue»…
Gramática
1.a)Oraçãosubordinadasubstantiva
completiva. b) Oração subordinada
adverbial causal; oração subordi-
nadaadjetivarelativarestritiva.
2. Oh! – traduz sentimento; Ó – tra-
duzinvocação.
3. O sujeito poético pediu à gente
temerosa que não se espantasse,
porque aquele dia deitara/tinha dei-
tado ao mundo a vida mais desgra-
çadaquejamaissevira/tinhavisto.
190 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
Reflexão sobre a vida pessoal
A poesia de Camões é infinitamente mais poderosa, rica e atual que a de Petrarca,
justamente na medida em que ele se recusa à mera evasão lírica e não se contenta com
o objeto tradicional do amor, antes procura integrar a experiência vivida. […]
O acontecimento, o facto, o tempo penetram repetidamente, por vezes sob o aspeto
mais cru, na poesia de Camões. A mais impressionante das suas canções [«Vinde cá,
meu tão certo secretário»] é uma autobiografia, e não uma autobiografia puramente
espiritual, porque nela se conta como o Destino vergou a vida do Poeta. Logo ao nas-
cer, o horóscopo, as «estrelas infelizes», o predestinaram, forçando-lhe o livre alvedrio;
se trocou a vida de namorado pela de guerreiro, foi porque lho impôs o «Destino fero,
irado», que o fez atravessar o mar, perder em combate um dos olhos, peregrinar. […]
O Poeta não evolui em vaso fechado; a sua história resulta do encontro do seu
impulso espiritual com o cego desencadeamento do caso1
, sorte ou fortuna: «Erros meus,
má fortuna, amor ardente / em minha perdição se conjuraram.» […]
A pretensão de reconstruir a biografia de Camões para melhor compreensão da
sua lírica não é tão insensata como se tem feito crer. Os biógrafos têm errado, sim:
alguns pela extrema ingenuidade das suas hipóteses, outros pelo excessivo recurso a
uma fantasia gratuita, e quase todos por um método incientífico. Mas é evidente que
a poesia camoniana ganharia muito com um adequado comentário biográfico, justa-
mente pela importância que nela tem o acontecimento externo. […]
O embate do Poeta com o acontecimento [a morte] reflete-se em gritos e acenos
que são inteiramente desconhecidos de Petrarca. Não são já meramente os suspiros e
exclamações do amor insatisfeito, mas manifestações de revolta desesperada e impo-
tente, […] de cansaço, […] de remorso. […]
Camões chama-lhe morte «cega», caso «duvidoso». «Cega» é aqui sinónimo de
irracional, incompreensível, arbitrária, sem sentido; «duvidoso», de inesperado, ou,
melhor, imprevisível.
António José Saraiva, Obras de Luís de Camões, 3.ª edição, Lisboa, Gradiva, 1997, pp. 72-79
(texto adaptado e com supressões)
CONSOLIDA
1. Atenta nas seguintes afirmações. Identifica a única afirmação falsa e corrige-a.
a) Nos poemas de cariz autobiográfico, Camões apresenta o Destino e ele próprio como
os responsáveis pela sua ventura.
b) A experiência pessoal é muito importante para a compreensão da poesia camoniana.
c) Na temática da reflexão pessoal, já não é só o amor o sentimento explorado, mas
também a revolta, o remorso, o cansaço e o desespero perante a existência da morte.
5
10
15
20
25
Retrato de Luís de Camões, de
autor desconhecido, primeira
metade do século XVII.
FICHA INFORMATIVA N.O
5
1 Caso: em Camões, caso é tam-
bém sinónimo de acaso.
PROFESSOR
Leitura
7.1; 7.2; 7.4; 8.1.
Educação Literária
14.3; 15.1; 15.2.
MC
Consolida
a)…responsáveispeloseuinfortúnio.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
5
191
Rimas
O desconcerto do mundo
PONTO DE PARTIDA
1. Observa atentamente a imagem que ilustra o poema.
1.1 Faz a sua descrição, explicitando a mensagem que transmite.
1.2 Cria um título alternativo para o quadro, justificando a tua resposta.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Os bons vi sempre passar
sua ao desconcerto do mundo
Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m’espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau, mas fui castigado:
Assi que, só para mim,
anda o mundo concertado.
Luís de Camões, op. cit., p. 102
1. O poema organiza-se segundo elementos antitéticos.
1.1 Identifica-os e refere a importância da antítese para a construção do sentido do
poema.
2. Explicita o sentido dos versos «Cuidando alcançar assim / o bem tão mal ordenado, / fui
mau […]» (vv. 6 e 8).
3. Explica o valor do conector «Assi que» (v. 9), relacionando-o com o conteúdo dos dois últi-
mos versos.
4. Atenta no seguinte esquema e completa-o no teu caderno com versos/expressões do texto.
John Strudwick, Um fio dourado, 1885 (pormenor).
5
10
«vi […] no mundo» Desconcerto
a) « » «passar graves
tormentos»
b) « »
«nadar / em mar de
contentamentos»
Assim, procurando a felicidade, o sujeito lírico adapta
o seu comportamento à (des)ordem do mundo:
c) « »
O eu comportou-se de
acordo com o que via…
Concerto do mundo
d) « » mas
e) « »
CD 1
Faixa n.o
34
PROFESSOR
Oralidade
1.4; 1.5; 4.1; 4.2.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 14.8;
14.9; 15.1; 15.2; 15.3.
Gramática
17.4; 18.1; 18.2.
MC
PontodePartida
1.1 No quadro estão representadas
as três parcas (figuras da mitologia),
representadas como fiandeiras, que
presidem ao destino e à felicidade
ou desgraça de cada ser humano.
O quadro transmite a seguinte men-
sagem:denadavalemasdecisõesdo
Homem, pois a sua vida é aquela que
foi decidida pelo destino/por forças
superiores.
1.2 Sugestões de título: «Fuga inevi-
távelaodestino;OHomem–joguete/
marionetadodestino».
EducaçãoLiterária
1.1 «bons/maus»; «tormentos/con-
tentamentos»; «bem/mal». As antí-
teses relacionam-se com a oposição
e o paradoxo à volta dos quais se
estrutura o texto: os bons são infeli-
zes;osmaus,felizes.
2.Osujeitolírico,apesardetercons-
ciência de que o «bem» está mal
ordenado, quer atingi-lo e, por isso,
decidiusermau.
3. Através do conector «Assi que»,
o sujeito poético conclui o poema,
destacando que só para ele é que o
mundo anda concertado, visto que
o castigo/a má sorte se segue sem-
pre ao seu mau comportamento,
realidade que não acontece com os
outros«maus».
4.
a)«osbons»(v.1);
b)«osmaus»(v.4);
c) «Cuidando alcançar […] / o bem…»
(vv.6-7);
d)«fuimau»(v.8);
e)«fuicastigado»(v.8 ).
192 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
6. Apresenta a tua conclusão sobre a visão expressa pelo sujeito poético no que diz res-
peito à relação «eu-mundo».
7. A partir da leitura do poema e das tuas vivências, expressa a tua opinião relativamente
ao desconcerto no mundo de hoje.
8. Transcreve a seguinte afirmação e corrige os dois elementos falsos nela inclusos.
GRAMÁTICA
1. Para responderes a cada um dos itens, seleciona a opção correta.
1.1 No verso «Os bons vi sempre passar» (v. 1), as palavras desempenham, respetiva-
mente, as funções sintáticas de
(A) sujeito simples, predicado [verbo + modificador].
(B) complemento direto, sujeito subentendido, predicado [modificador + verbo].
(C) complemento indireto, sujeito indeterminado, predicado [modificador + verbo].
(D) sujeito composto, sujeito subentendido, predicado [modificador + verbo].
1.2 Atenta nos versos «Cuidando alcançar assim» (v. 6) e «Assi que só para mim» (v. 9)
e seleciona a opção que completa adequadamente a afirmação. Os conectores
destacados são respetivamente
(A) duas conjunções.
(B) dois advérbios.
(C)advérbio e locução conjuncional.
(D)conjunção e advérbio.
2. Para perceberes o porquê da diferença de grafia, completa as definições com as palavras:
a) desconcertado – particípio de desconcertar (des+concertar). «Concertar» provém do
étimo latino a) , com o significado de ‘combater’, ‘b) ’, ‘dispu-
tar’, adquirindo, posteriormente, um sentido inverso: ‘harmonizar’, ‘ajustar’.
b) desconsertado – particípio de desconsertar (des+consertar). «Consertar» provém do
latim vulgar c) com o significado de ‘d) ’, ‘atar’, ‘juntar partes
entre si’.
3. Indica o processo de formação das palavras «contentamento» e «desconcerto».
3.1 Explicita o valor do prefixo nominal «des-».
Este poema classifica-se como uma cantiga, pois a sua temática é melancólica
e apresenta uma estrofe de dez versos, podendo o número mínimo ser de oito e
o máximo de dezasseis versos. A métrica utilizada é a redondilha maior, ou seja,
os versos apresentam cinco sílabas métricas. Apesar de, na forma, se enquadrar na
corrente tradicional, vai ao encontro da corrente renascentista, quanto à temática
desenvolvida.
t ligar t CONSERTARE t CONCERTARE t lutar
Sintaxe
pp. 324-328
SIGA
Classes de palavras
pp. 320-323
SIGA
Processos regulares de
formação de palavras
pp. 319
SIGA
PROFESSOR
6. Constata que existe um desfasa-
mento entre o mundo e ele, pois é o
únicohomemmauqueéjustamente
punidopelodestino/pelasorte.
7.Respostalivre.
8.…classifica-secomoumaesparsa…
…setesílabasmétricas…
Gramática
1.1(B);
1.2(C).
2.
a)CONCERTARE;
b)lutar;
c)CONSERTARE;
d)ligar.
3.«fuimau»–oraçãocoordenada;
«masfuicastigado»–oraçãocoorde-
nadaadversativa.
3.Derivaçãoporsufixação;derivação
porprefixação.
3.1Negação.
193
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
6
O desconcerto do mundo
Enquanto para Petrarca não existe o problema da ordem
do mundo, […] [para Camões], contrariamente, o problema
do desconcerto do mundo está constantemente presente. […]
É absurdo o caso duvidoso que destrói o puro amor; é
absurda a morte, cuja existência brutal Camões reconhece
plenamente, sem querer consolar-se com a imortalidade da
alma; é absurdo o tempo, que não só traz consigo mágoas e
desastres, como também altera a alma das pessoas, irreversi-
velmente, incapacitando-as para o contentamento. […]
O mundo é um «desconcerto» – tal é um dos pensamentos
favoritos de Camões. Uma extensa composição em oitavas
dedicadas «Ao desconcerto do mundo» desenvolve este pensa-
mento especialmente em relação à vida social. [...]
Alguém diria que este desconcerto não é coisa nova, pelo
que parece não haver razão para espanto. Mas é, muito pelo contrário, porque, por
um lado, quanto mais se prolonga tal desconcerto, mais é para espantar; e, por outro,
ninguém se habitua a ele, antes todos o sentem e se inconformam.
O desconcerto do mundo aparece […] sob duas formas. É uma o disparate que
preside à distribuição do prémio e do castigo, a qual tem que ver com o merecimento,
porque aqueles que vivem de latrocínios, mortes e adultérios, e deveriam merecer
castigo perpétuo, são protegidos pela fortuna. […] E, pelo contrário, aqueles cuja
vida limpa apareceria até mesmo a quem pudesse vê-los com o peito aberto, são por
ela perseguidos e veem negado o seu direito. […]
Resumindo: o desconcerto do mundo aparece a Camões sob diversas formas.
É um facto objetivo os prémios e castigos estarem distribuídos desencontradamente.
António José Saraiva, op.cit., pp. 83-93
(texto adaptado)
CONSOLIDA
1. Partindo do texto que acabaste de ler, faz corresponder os elementos da coluna A com
os da coluna B, de modo a obteres afirmações verdadeiras.
A B
a) A destruição do amor puro, a morte
e a passagem do tempo, que só traz
infortúnio,
1. espanto e inconformismo.
b) O desconcerto do mundo provoca a
todos os homens
2. a oposição homens bons/homens maus.
c) À oposição castigo/prémio
corresponde
3. são algumas realidades com as quais o
poeta fica chocado.
5
10
15
20
25
Hieronymus Bosh, O jardim das
delícias: Inferno (tríptico, painel
lateral direito), 1503-1504.
PROFESSOR
Leitura
7.4; 8.1.
Educação Literária
14.3; 15.1; 15.2.
MC
Consolida
1.
a)3;b)1;c)2.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
6
194 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
FICHA INFORMATIVA N.O
7
Étimo, palavras divergentes e convergentes
Etimologia
Área do saber que tem como objeto de estudo a origem e evolução diacrónica (nas
diferentes fases da história da língua) de vocábulos ou expressões de uma língua.
Étimo
Forma da palavra ou expressão que esteve na origem da(s) forma(s) atual(is).
Palavras divergentes são as palavras que apresentam formas e significados diferen-
tes, embora derivem do mesmo étimo. Mantêm, no entanto, alguma afinidade de
significado, memória do seu étimo comum.
Estas divergências devem-se sobretudo ao facto de essas palavras terem chegado
até nós por duas vias: via popular, associada sobretudo à transmissão oral e através
da qual sofreram maiores transformações, e via (semi)erudita, neste caso apresen-
tando menos alterações relativamente à forma original, uma vez que a escrita desem-
penhou um papel muito importante na sua configuração e transmissão. Algumas
destas últimas são reconstituições das formas latinas, predominantemente (re)intro-
duzidas por escritores do Renascimento, como Luís Vaz de Camões ou António
Ferreira.
Vejam-se alguns exemplos:
Étimo Via erudita Via popular
DUPLU- duplo dobro
PLENU- pleno cheio
SOLITARIU- solitário solteiro
ATRIU- átrio adro
CLAMARE clamar chamar
PLANU- plano chão
PATRE- padre pai
PALATIU- palácio paço
CATHEDRA- cátedra cadeira
CLAVE- clave chave
INTEGRU- íntegro inteiro
FLAMMA- flama chama
As palavras convergentes apresentam a mesma forma, apesar de terem étimos dife-
rentes e significados distintos. Em termos de relações entre som, grafia e significado,
designam-se por palavras homónimas, dado que têm som e grafia iguais, mas signi-
ficados diferentes (e, algumas vezes, também classe morfológica diferente).
195
Ficha informativa
Repare-se nos seguintes casos:
1. SANU-  são (adjetivo) – Este pero é são, não está podre.
SANCTU-  são (adjetivo e nome) – São Cristóvão nos valha, vamos de viagem!
SUNT  são (verbo) – Os meninos são traquinas.
2. RIDEO  rio (verbo) – Eu rio-me da tua figura.
RIVU-  rio (nome) – O rio Mira é o menos poluído da Europa.
3. FILU-  fio (nome) – O fio de lã é macio.
FIDO  fio (verbo) – Eu fio-me na palavra dele.
CONSOLIDA
1. Completa a seguinte tabela no teu caderno com as palavras apresentadas, tendo em
conta o étimo latino.
Étimo Forma erudita Forma popular
a) AUGUSTU-
b) ATTRIBUERE
c) COAGULARE
d) COMPARARE
e) MATERIA-
2. Relaciona os significados das palavras divergentes.
3. Atenta na evolução das seguintes palavras:
a) VANU-  vão (Eles vão ao cinema ver um filme fantástico.)
b) VADUNT  vão (No futuro os meninos vão ser engenheiros.)
c) QUOMODO  como (Gosto de ti como gosto de cerejas.)
d) COMEDO  como (Eu como com satisfação.)
3.1 Classifica-as, tendo em conta a sua origem latina distinta.
3.2 Indica as classes e subclasses a que pertencem.
3.3 Refere como se classificam quanto à relação que estabelecem entre si (som, gra-
fia e significado).
4. Observa os seguintes pares de palavras e classifica-os quanto à sua evolução e forma
atual.
a) CLAVE- (latim)  clave (de sol) e chave.
b) MANGA (malaio)  manga (fruta) / MANICA (latim)  manga (roupa)
tcoalhar tatribuir tagosto tmatéria tcomprar
tcoagular tmadeira taugusto tcomparar tatrever
PROFESSOR
Gramática
17.5; 17.6; 17.7.
MC
Consolida
1. Formas eruditas: a) augusto;
b) atribuir; c) coagular; d) comparar;
e)matéria.
Formas populares: a) agosto;
b) atrever; c) coalhar; d) comprar;
e)madeira.
2. Embora com significados distin-
tos, conservam traços semânticos
comuns ou relacionados; por exem-
plo, mágoa, mácula e malha encer-
ram um sentido de negatividade,
lacunaounódoa,mancha.
3.1Palavrasconvergentes.
3.2
a)verbotransitivoindireto;
b)verboauxiliar.
c) conjugação subordinativa adver-
bialcomparativa.
d)verbotransitivo.
3.3Homónimas.
4.
a)palavrasdivergentes;
b)palavrasconvergentes.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
7
196 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
A mudança
PONTO DE PARTIDA
1. Ouve com atenção a versão musicada do poema «Mudam-se os tempos, mudam-se as
vontades», cantada por José Mário Branco.
1.1 Identifica o tema tratado, justificando com elementos textuais que formem o seu
campo lexical.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor1
espanto,
que não se muda já como soía2
.
Luís de Camões, op. cit; p. 162
1. Atenta na organização interna do texto e divide-o em partes, indicando o que é tratado
em cada uma delas.
2. Esclarece a oposição natureza/sujeito poético, presente no primeiro terceto.
3. Explicita a alteração de sentido introduzida pelos parênteses no v. 8.
4. Classifica as afirmações que sintetizam o assunto do poema como verdadeiras (V) ou
falsas (F). Corrige as falsas.
a) A mudança opera-se no mundo, nos sentimentos, na natureza e no eu e só na natu-
reza é que ela se realiza de forma positiva.
b) O sujeito poético tem uma visão positiva da mudança.
c) A mudança regular recai sobre tudo (boa ou má), mas a mudança excecional é a
mudança da própria mudança.
d) Este poema reflete a influência dos autores medievais, tanto na temática abordada
(a mudança) como na forma (soneto).
1 Mor: maior.
2 Soía: costumava.
Mário Cesariny, Sem título, 1949.
5
10
CD 1
Faixa n.o
34
CD 1
Faixa n.o
35
PROFESSOR
Oralidade
1.1; 5.1; 5.3.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7;
14.10; 15.1; 15.2; 15.3; 15.7.
Gramática
18.1.
Escrita
11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1.
MC
PontodePartida
1.1Otemaéamudança.
«Mudam-se», «muda-se», «mudan-
ça»,«novasqualidades»,«novidades»,
«lembrança», «saudades», «con-
verte»…
EducaçãoLiterária
1. O texto divide-se em duas partes:
1.a
parte ( duas quadras e o primeiro
terceto) – referência à mudança
no mundo, nos sentimentos, na
natureza e no eu; 2.a
parte (último
terceto) – constatação do espanto
que provoca o facto de a própria
mudança já não se processar da
mesmamaneira.
2. Na natureza, a mudança opera-se
de forma cíclica, natural e positiva,
enquanto na vida do sujeito poético
se concretiza de modo negativo.
Ou seja, ao inverno («neve fria»)
sucede-se naturalmente e alegre-
mente a primavera («de verde
manto»); para o sujeito poético a
mudança apenas converte a alegria
(«docecanto»)emtristeza(«choro»).
3. Os parênteses introduzem um
aparte cético e pessimista, ques-
tionando acerca da existência de
algumbemnavida.
4.
a)V;
b) F…negativa…
c)V;
d)F…autoresclássicos….
Link
Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades,
José Mário Branco
197
Rimas
GRAMÁTICA
1. Classifica sintaticamente os constituintes destacados nos versos seguintes.
a) «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» (v. 1)
b) «todo o mundo é composto de mudança» (v. 3)
c) «Continuamente vemos novidades» (v. 5)
d) «diferentes em tudo da esperança» (v. 6)
e) «do mal ficam as mágoas na lembrança» (v. 7)
f) «que já coberto foi de neve fria» (v. 10)
g) «que já coberto foi de neve fria» (v. 10)
2. Expande os seguintes grupos adjetivais, acrescentando-lhes complementos do adjetivo.
a) Eu estou interessado…
b) Camões ficaria satisfeito…
c) Os poemas de Camões não são difíceis…
d) Constata-se que Camões teve uma vida assolada…
ESCRITA
Apreciação crítica
1. Tendo presente o verso do poema «Todo o mundo é composto de mudança», observa
atentamente a imagem e elabora sobre ela uma apreciação crítica.
Segue o plano apresentado para a re-
dação do teu texto. No fim, deves rever o
teu trabalho.
Introdução:
1.º parágrafo – identificação do objeto,
do título e do seu autor.
Desenvolvimento:
2.º parágrafo – descrição sucinta do objeto;
3.º parágrafo – mensagem veiculada.
Conclusão:
4.º parágrafo – comentário crítico sobre
a veracidade/falsidade da mensagem
transmitida.
Trayko Popov, «O futuro das nossas crianças»,
World Press Cartoon, 2013, p. 253.
Funções sintáticas
pp. 324-325
SIGA
Apreciação crítica
p. 312
SIGA
Complemento do adjetivo
p. 199
FI
PROFESSOR
Gramática
1.
a)sujeito;
b)complementodoadjetivo;
c)modificador;
d)complementodoadjetivo;
e)complementodonome/sujeito;
f)complementodoadjetivo;
g)modificadorapositivodonome.
2. a) … em ler mais poemas de
Camões;b)…comoreconhecimento
atual do seu talento; c) … de perce-
ber;d)…pormuitosinfortúnios.
Escrita
1. 1.o
parágrafo: cartoon do autor
Trayko Popov – «O futuro das nossas
crianças».
2.o
parágrafo: uma criança, supos-
tamentedentrodecasa,aolharpara
o exterior, através de uma janela; a
janela tradicional é substituída por
um monitor de um computador, no
qual se observam ícones informáti-
cos; através dessa janela-monitor,
a criança vê apenas a natureza (céu,
nuvens, campo verde) representada
no ambiente de trabalho do compu-
tador.
3.o
parágrafo: o mundo está em
constante mudança e esta opera-se
também na relação que o homem
estabelece com o mundo que o
rodeia; atualmente as pessoas (e os
jovens em particular) passam mais
temponummundovirtualdoqueem
contactocomarealidadefísica.
4.o
parágrafo:comentáriopessoal.
198 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
FICHA INFORMATIVA N.O
8
O tema da mudança
Que é o tempo? Objetivamente, é a sucessão das mudanças, decreto incompreen-
sível da natureza. […]
As horas são diferentes na qualidade. A essência do tempo objetivo está nisso:
a sucessão das qualidades diferentes que resulta da mudança ou de que resulta a
mudança. É o pensamento do soneto justamente célebre «Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades».
Cingindo-se a um tópico tradicional, Camões, neste soneto, contrapõe a esta
mudança do tempo a constância da própria alma: essa é a tese que ele herdou e glosou
repetidamente. Mas, passando além, o reverso subjetivo do tempo tornou-se para ele
um problema. O facto é que, verifica ele, a própria alma muda. […]
Como dirá em «Sôbolos rios», todos os males vêm das mudanças e todas as mudan-
ças vêm dos anos; e mudando-se a vida se mudam os gostos dela. […]
O efeito do tempo é psicologicamente uma mudança qualitativa
de estado – mais: uma mudança qualitativa da própria alma.
Não se perde só o contentamento, mas o gosto de ser contente.
[…] Ao contentamento do passado contrapõe-se o ser triste no pre-
sente. A contraposição entre passado e presente tende a converter-se
em Camões numa oposição de estados psíquicos. O passado torna-se
meramente o oposto do presente. […]
Por esta oposição entre o passado contente e o presente descon-
tente – oposição que transporta para o presente o passado, retirando-
-lhe a qualidade de realidade empírica […] – Camões encaminha-se
para uma formulação metafísica do problema do tempo psicológico,
a qual aparece acabadamente […] nas redondilhas «Sôbolos rios». Mas,
na origem, o tempo aparece-lhe como uma dessas existências que a
consciência não reconhece, como a morte cega e o caso [acaso] duvi-
doso, e que fazem do mundo um grande desconcerto.
António José Saraiva, op. cit., pp. 79-83
(texto adaptado)
CONSOLIDA
1. Em função do texto que leste, completa as frases no teu caderno com palavras/expres-
sões de cada parágrafo.
t O tempo é a a) . b) resultam de mudanças ou causam novas mudanças.
t Aparentemente, a c) do tempo contrasta com a d) da alma, mas
Camões vem a constatar que até a e) muda.
t Muda-se a vida, mudam-se os f) .
t O g) contente opõe-se ao h) triste.
t A passagem do i) é mais um dos mistérios da vida que, tal como a morte e a
força do destino, tornam o mundo um j) .
António Palolo, Sem título, 1984.
5
10
15
20
25
PROFESSOR
Leitura
7.1; 8.1.
Educação Literária
14.3; 15.1; 15.2.
MC
Consolida
a)«sucessãodemudanças»;b)«Qua-
lidades diferentes»; c) «mudança»;
d) «constância»; e) «alma»; f) «gos-
tos»; g) «passado» h) «presente»;
i)«tempo»;j)«grandedesconcerto».
PowerPoint
Ficha informativa n.o
8
199
Ficha informativa
Complemento do adjetivo
1. O complemento do adjetivo pode ser um grupo preposicional – oracional (a) ou não ora-
cional (b). Os complementos do adjetivo são, muitas vezes, de preenchimento opcional.
Exemplos:
a) O João está contente por te ter convidado.
b) O João está contente com a situação.
Dicionário Terminológico, DGIDC, 2008
2. É mais frequente os adjetivos selecionarem complementos quando se encontram na
posição predicativa da frase, como predicativo do sujeito (c), ou como predicativo do
complemento direto (d):
Exemplos:
c) Ele está muito contente com a filha.
d) Eu considero o rapaz incapaz de uma maldade assim.
3. Vejamos mais alguns exemplos de adjetivos e particípios que selecionam complementos:
taborrecido com a mãe; tcapaz de tudo;
tcerto do caminho escolhido; tconsciente da verdade;
tcontrário à decisão tomada; tconvencido da sua importância;
tpreocupado com a investigação; treceoso de tremores de terra.
tsurpreendido com os acontecimentos;
4. O complemento do adjetivo é opcional. No entanto, a frase sem o complemento do
adjetivo seria, no mínimo, ambígua (e), (f):
Exemplos:
e) A Rute é capaz. (Tem capacidades, mas para quê?)
f) Estão desejosos. (De quê?)
CONSOLIDA
1. Identifica nas frases seguintes os complementos do adjetivo.
a) Segundo consta, o poeta estava interessado em muitas damas do seu tempo.
b) Camões vivia cercado de amigos que o ajudaram economicamente.
c) No entanto, o príncipe dos poetas desiludiu-se com o desprezo dado às artes, em
Portugal.
d) Estou ansiosa por ler mais poemas de Camões.
e) A professora está certa de que os alunos gostam deste poeta.
f) O poema era fácil de analisar.
1.1 Identifica as frases em que o complemento do adjetivo é constituído por um grupo
preposicional oracional.
FICHA INFORMATIVA N.O
9
PROFESSOR
Gramática
18.1.
MC
Consolida
1.
a)emmuitasdamasdoseutempo;
b) de amigos que o ajudaram econo-
micamente;
c)àsartes;
d)porlermaispoemasdeCamões;
e) de que os alunos gostam deste
poeta;
f)deanalisar.
1.1b;d;e;f.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
9
200 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
200 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
TEMÁTICAS MEDIDA VELHA MEDIDA NOVA
Influências e formas
Poesia na esteira da lírica tradicional:
trovadoresca e palaciana (existente nos
cancioneiros peninsulares ao longo de todo
o século XV e grande parte do século XVI).
Vilancetes, cantigas, esparsas e endechas
Influência da poesia renascentista italiana
(Petrarca, Dante) e ainda de teorias
neoplatónicas e aristotélicas (presentes
em Portugal desde a terceira década de
Quinhentos).
Sonetos
Representação da amada
Menina descrita objetivamente em quadros
do quotidiano (fonte, natureza).
Porém, há personagens femininas
dissimuladas que conduzem ao engano
amoroso.
Mulher inalcançável, divina, etérea…
Retrato estereotipado da mulher ideal: pele
alva, cabelos e olhos claros (retrato clássico
da mulher).
Descrição subjetiva e indefinida.
Características físicas e psicológicas em
equilíbrio.
Experiência amorosa
e reflexão sobre o amor
Correspondência amorosa: plano de
igualdade entre sujeito poético e amada.
Alegria de amar.
Perspetiva leve e harmónica do sentimento
amoroso.
Mas também exaltação da força do amor,
para além de todos os códigos.
Denúncia da subversão do sentimento
amoroso, através da mentira da amada ou
do seu preterimento perante interesses
materiais.
Complexidade do sentimento amoroso que
tenta definir.
Amar é causa de: confusão,
questionamento, conflito (amor carnal
e espiritual), saudade, dúvida, dor,
ansiedade.
Representação
da natureza
Locus amoenus
Natureza bela, serena, cheia de cores e
cheiros…
Transfigurada pela beleza da amada.
Locus amoenus
Subjetividade da perspetiva lírica,
dependente da presença/ausência da
amada; é testemunha e alegoria das
vivências.
Em harmonia ou confronto com o estado de
espírito do sujeito poético.
Reflexão sobre
a vida pessoal
Exame de vida.
Tópicos de circunstância tornam-se,
por vezes, questões de interpretação
existencial.
Autoinimizade.
Protesto ou notação de incongruências de
caráter ético ou metafísico.
Poemas autobiográficos.
Papel do destino cruel.
Vida infeliz resultante dos erros, má sorte e
amor excessivo.
Sentimentos de revolta, cansaço e remorso.
Morte da amada.
Desconcerto do mundo
Perspetiva que demonstra:
– perplexidade, incompreensão do mundo que o rodeia;
– prémios e castigos distribuídos injustamente;
– violação da ordem dos valores;
– vida feita de sucessão de males.
Mudança
A vida muda sempre para pior.
A mudança traz a tristeza (presente) e elimina a felicidade (passado).
Tabela elaborada a partir de: José Augusto Cardoso Bernardes,
«Medida Velha», in Vítor Aguiar e Silva (coord.), op. cit., pp. 579-581
FICHA INFORMATIVA N.O
10
PowerPoint
Ficha informativa n.o
10
201
Rimas
ESCRITA / ORALIDADE
Síntese
1. Lê a primeira parte da notícia «Camões tornado carne», publicada no jornal Público
(com 375 palavras). Repara que a informação destacada é essencial à sua compreensão.
Sonetos e outros poemas é uma edição bilingue da lírica camoniana selecionada e traduzida para
inglês por Richard Zenith, ilustrada por João Fazenda. Eis um Camões apaixonado e boémio.
[…] Richard Zenith, norte-americano a viver em
Portugal, tradutor, escritor e investigador, conhe-
cido pela sua divulgação de Pessoa em inglês, admitiu
ao Ípsilon que sempre foi um «grande apaixonado
pela lírica camoniana». Por isso, Sonetos e outros poe-
mas, edição bilingue organizada por Zenith, ilustra-
ções de João Fazenda, publicado em Portugal pela
Planeta, tem «o intuito de suscitar nos leitores a
mesma apreciação entusiasmada que sinto por
Camões». Admite que «já gostava de Camões», mas
foi no trabalho de tradução que se foi «apercebendo
da sua verdadeira grandeza».
Traduzir Camões foi um desafio lançado por
Victor Mendes, professor da Universidade de
Massachusetts Dartmouth e responsável pela Ada-
mastor Book Series, que
publicou o livro em 2008
nos EUA. Mendes explicou
ao Ípsilon a razão da aposta
numa tradução para inglês
de poesia lírica renascen-
tista: «Estava insatisfeito
com as edições bilingues
da lírica de Camões.» […]
Para Mendes, há um
interessante «nicho de mer-
cado» para o Renascimento
português nos países de
língua inglesa. «Camões é
o autor renascentista por-
tuguês mais reconhecido pelo leitor culto de língua
inglesa. O impacto de uma tradução de Camões é
marginal, mas é uma margem que vale muitíssimo a
pena ser trabalhada», explica. […]
Ao todo, são 40 sonetos e outros 12 poemas
escolhidos por Zenith, que pretendem «represen-
tar as várias formas poéticas» da lírica. O amor
está lá, mas não é tudo. Há poemas «sobre o descon-
certo do mundo, a inexorável passagem do tempo
ou a experiência de exílio». Se a lírica camoniana
é considerada «menor» relativamente a Os Lusíadas,
para Zenith, contudo, esta é a «coroa de glória tran-
quila para uma tumultuosa vida interior».
Na tradução, o que mais o preocupou foi o
«som das palavras» e, mais ainda, o ritmo. Vasco
Graça Moura con-
firma-o no prefácio:
o poeta permanece
«camoniano à chegada».
«O ritmo encontra uma
respiração a que pode-
mos chamar camoniana»
e, no final, Camões
torna-se «quase sem-
pre singularmente
nosso contemporâneo
sem perda das suas
coordenadas epocais e
específicas».
Raquel Ribeiro, «Camões tornado carne», in Público, 25/11/2009
(disponível em www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/camoes-tornado-carne)
(consultado em outubro de 2014, destacados nossos)
CAMÕES TORNADO CARNE
Ilustração de João Fazenda
5
10
15
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25
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35
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55
202 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
2. Atenta na seguinte proposta de síntese do texto, com 125 palavras (1/3 de 375).
2.1 Transcreve do texto exemplos das transformações ocorridas no processo de síntese:
a) transformação do discurso direto em indireto;
b) redução frásica de uma enumeração;
c) manutenção da rede lexical/palavras-chave;
d) uso de articuladores do discurso/conectores;
e) presença de comentários/juízos de valor.
3. A partir da leitura da continuação da notícia de Raquel Ribeiro, abaixo apresentada,
tfaz uma síntese oral (1 a 3 minutos) e apresenta-a aos teus colegas.
tredige uma síntese escrita, utilizando cerca de 85 palavras.
«Camões tornado carne», de Raquel Ribeiro, apresenta a interessantíssima obra
bilingue da poesia camoniana, traduzida por Richard Zenith, com ilustrações de
João Fazenda: Sonetos e outros poemas.
O objetivo do tradutor é transmitir aos leitores o entusiasmo que tem pelo poeta.
Este desafio foi lançado, felizmente, por Victor Mendes, professor universitário nos
EUA, a fim de suprir a necessidade de uma tradução fiável. Seguidamente, Richard
Zenith informa que os poemas escolhidos abarcam a variedade temática da lírica
camoniana, desde o amor ao desconcerto do mundo, representando, desta forma,
o poeta como um todo.
Por último, a sua preocupação foi sobretudo com o ritmo e a sonoridade das pala-
vras, permitindo obter um resultado em que Camões é nosso coevo, ainda que perfei-
tamente definido no tempo e no espaço renascentistas.
5
10
[…] Fazenda leu Camões no liceu,
por isso regressar à lírica «foi uma sur-
presa, porque muitos destes poemas
fazem parte do nosso imaginário».
Neste reencontro confrontou-se com
«a impossibilidade de ilustrar poe-
sia». É difícil criar imagens para uma
arte que vive delas: «Camões é muito
visual, a poesia é feita de imagens e eu,
como produtor de imagens, tenho de
encontrar ali o meu espaço.» Mulheres
e amor, o mar e a água são alguns temas,
mas também a biografia do poeta.
Este cariz autobiográfico era des-
conhecido de Fazenda. Isto não se
aprende no liceu. Por isso, a introdução
de Zenith é essencial. A lírica diz-nos
muito sobre a vida de Camões, «escu-
deiro», «barba ruiva, residente no bairro
da Mouraria», porque há muitas incer-
tezas históricas sobre a sua vida. Sabe-
-se, pela lírica, que fala de África e da
Ásia «com amargura», escreve Zenith,
e «censura abertamente a máquina
guerreira portuguesa» no Oriente.
Aprendeu latim, leu Virgílio e Ovídio, e
filosofia grega. Mas «o jovem Luís não
passou o tempo todo a ler». Se alguns
críticos falam de uma musa inspiradora,
a vida boémia do poeta desmente-o:
«Andava na pândega, buscava e culti-
vava os prazeres da carne» e «conheceu
muitos amores». A lírica revela a vida
de «arruaça, [amores] e Petrarca» de
Camões, as dúvidas de um homem de
«esperanças repetidamente frustradas».
Para o leitor mais incauto, Camões
ainda «mete medo», ainda lembra o
liceu. Mas esta edição de Zenith des-
mistifica o poeta, afasta-o desse lado
canónico e solene, «torna-o carne», diz
Fazenda.
Arruaça, [amores] e Petrarca
5
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30
35
40
Síntese
p. 313
SIGA
PROFESSOR
Oralidade
3.1; 3.2; 6.1; 6.2; 6.3.
Escrita
10.2; 11.1; 12.2; 12.3; 12.4.
MC
2.1
a) «O objetivo do tradutor é transmi-
tir aos leitores o entusiasmo» (l. 4),
«informaqueospoemasescolhidos»
(l.7);
b) «desde o amor ao desconcerto do
mundo»(l.8);
c)«Camões»(l.1),«RichardZenith»(l.
2), «tradutor» (l. 4), «tradução» (l. 6),
«variedadetemática»(l.7)…;
d) «que» (l.4), «a fim de» (l. 6), «Segui-
damente» (l. 6), «desde… ao» (l. 8),
«Porúltimo»(l.10),«aindaque»(l.11);
e) «interessantíssima» (l. 1) e «feliz-
mente»(l.5).
Síntese
Sugestão: Metade da turma faz a
síntese escrita, a outra metade faz a
sínteseoral.
3. O artigo apresenta a dificuldade e
o prazer que João Fazenda, o ilustra-
dor, teve com a ilustração do livro. A
dificuldade prendeu-se com a tarefa
de complementar o texto, uma vez
que a poesia é já de si muito visual.
Acresce a isto a descoberta do lado
autobiográficodapoesiadeCamões,
que é revelada através dos seus poe-
mas: a cultura, a vida boémia e amo-
rosa,aexperiêncianoOriente.
Segundoosautores,olivropretende
desmistificar a figura e a linguagem
deCamões.
203
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
11
Principais etapas da formação
e da evolução do português
1. Do português antigo ao português clássico
Por volta de 1350, no momento em que se extingue a escola literária galego-
-portuguesa, as consequências do deslocamento para o sul do centro de gravi-
dade do reino independente de Portugal vêm à tona. O português, já separado
do galego por uma fronteira política, torna-se a língua de um país cuja capital
– ou seja, a cidade onde geralmente reside o rei – é Lisboa. Embora o rei e a
corte se desloquem frequentemente, a sua «área de percurso» situa-se agora
num território delimitado por Coimbra ao norte e Évora ao sul. É nesta parte
do reino que estão implantadas as instituições que desempenham papel cultural mais
importante, tais como os mosteiros de Alcobaça e o de Santa Cruz de Coimbra e a
Universidade, que, fundada em Lisboa em 1288 ou 1290, depois transferida para
Coimbra e, em outras ocasiões, novamente para Lisboa, foi, por fim, definitivamente
instalada em Coimbra em 1537. Residência privilegiada do rei, Lisboa é também a
cidade mais povoada e o primeiro porto do país. E o eixo Lisboa-Coimbra passa a
formar desde então o centro do domínio da língua portuguesa. É, pois, a partir dessa
região, antes moçárabe, que o português moderno vai constituir-se, longe da Galiza
e das províncias setentrionais em que deitava raízes. É daí que partirão as inovações
destinadas a permanecer, é aí onde se situará a norma.
Paul Teyssier, História da língua portuguesa,
7.ª edição, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1997, p. 35
2. O português clássico (séculos XVI-XVIII)
Na Europa nos séculos XV e XVI (Renascimento), a língua de cultura e de comu-
nicação entre estados e intelectuais continuava a ser o latim. Em latim comunicavam,
por exemplo, o português Damião de Góis e o holandês Erasmo. Mas eram já tempos
de mudança. Em diversos países da mesma Europa, aumentava o número de escri-
tores que escreviam nas respetivas línguas maternas, desejosos de que nelas viessem
a aparecer obras similares às das antigas literaturas grega e latina. É neste intuito de
valorizar a língua materna que, em Portugal, no século XVI, aparecem as primeiras
gramáticas da língua portuguesa (a de Fernão de Oliveira, de 1536; a de João de
Barros, de 1540), a Ortografia da língua portuguesa [de Duarte Nunes de Leão], de
1576, e o primeiro Dicionário de Português-Latim e Latim-Português [de Jerónimo
Cardoso]. Os escritores portugueses do Renascimento, como Sá de Miranda, Antó-
nio Ferreira e, acima de todos, Camões, procuram consolidar a identidade da língua
e que ela se reja por normas semelhantes às do latim onde se agigantaram Virgílio e
Horácio, modelos que tentam imitar e, se possível, superar. […]
5
10
15
5
10
Panorama de Lisboa, António
de Holanda, in Crónica
de D. Afonso Henriques,
de Duarte Galvão, c. 1530.
Frontispício da primeira edição da
Gramática da língua portuguesa com
os mandamentos da Santa Madre
Igreja, de João de Barros, 1540.
PROFESSOR
Educação Literária
17.1.
Gramática
17.1.
MC
PowerPoint
Ficha informativa n.o
11
204 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
204
O grande contributo do português clássico foi o de ter criado um padrão de língua
literária que, com ligeiras alterações, se mantém nos dias de hoje:
– frases com uma sintaxe próxima do latim;
– abundância da subordinação;
– muitas palavras diretamente importadas do latim, como «indómito», «inopi-
nado», «horrendo», «benignidade»;
– superlativos em -érrimo e -ílimo, como «acérrimo» e «humílimo»;
– substituição de palavras do português antigo como contrairo, marteiro,
seenço, segre, pelas correspondentes formas eruditas «contrário», «martírio»,
«silêncio», «século».
É no período do português clássico que a língua portuguesa atinge o seu cume
máximo de elaboração linguística e literária – na poesia, no século XVI, com Camões;
na prosa, no século XVII, com o Padre António Vieira.
Zacarias Nascimento e Maria do Céu Lopes, Domínios – gramática da língua portuguesa
Lisboa, Plátano Editora, 2011, pp. 27-28 (texto adaptado)
3. A importância dos Descobrimentos
Se o principal motor dos Descobrimentos era economicista, outros houve que
não podem ser ignorados. Em 1513, quando D. Manuel envia uma embaixada ao
Preste João, nela seguem uma pequena biblioteca e uma tipografia. Portanto, para
além de uma motivação religiosa, a difusão da cultura e da língua estiveram sempre
presentes no horizonte da expansão portuguesa. A Companhia de Jesus aliou à
ação missionária uma notável ação cultural e difundiu a imprensa e a língua portu-
guesas ao longo dos séculos XVI e XVII. A elaboração de «cartilhas para aprender
a ler e escrever» e de vocabulários, o envio de livros e mestres para as novas terras
são o resultado, não apenas da intensificação das trocas comerciais mas também
do esforço de afirmação cultural e do orgulho nacionalista. Esforço que se tradu-
zirá não só na substituição de línguas autóctones pelo português mas também no
surgimento de novas línguas de comunicação – os crioulos – e na introdução de
vocábulos portugueses em várias línguas. […]
Os portugueses descobriam novas terras, novas línguas, novas realidades: ani-
mais, plantas, frutos desconhecidos eram trazidos para Portugal. E com os novos
produtos chegavam, também, as suas designações originais. Daqui resultou um
significativo aumento do nosso acervo lexical: jangada, canja, pijama, biombo são
importações de línguas asiáticas, banana, girafa, missanga, de línguas africanas.
No Brasil, o tupi-guarani legou-nos milhares de palavras. Algumas pertencem,
apenas, ao léxico estritamente usado no português do Brasil, outras, tão vulgares
como ananás, amendoim ou cacau, fazem parte do vocabulário que usamos, todos
os dias, em Portugal.
15
20
25
5
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15
20
Victor Meirelles, A primeira
missa no Brasil, 1861.
205
Ficha informativa
5
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20
25
30
25
Por outro lado, os portugueses iam deixando, também, marcas linguísticas nos
lugares distantes onde aportavam. No Oriente, as palavras malaias kadera (cadeira),
varanda, kamija (camisa), terigo (trigo) ou as japonesas furasuko (frasco), bisukettu
(biscoito) são exemplos de termos aí implantados pelos portugueses. E em África,
o quicongo conserva palavras portuguesas como kesu (queijo), sapatu, lozo (arroz)
ou matelo (martelo).
Esperança Cardeira, O essencial sobre a história do português,
Lisboa, Caminho, 2006, pp. 66-67 (texto adaptado)
4. O português contemporâneo (a partir do século XIX)
O século XIX é um século caracterizado por perturbações políticas e sociais. Em
1807, na sequência das Invasões Francesas, a corte portuguesa vai instalar-se no Bra-
sil, enquanto a Inglaterra combate os franceses em Portugal. Uma revolução libe-
ral, visando recolocar o centro de decisão política em Lisboa e instituir um regime
constitucional, inicia um período de conflitos que marcará o fim do Antigo Regime.
A Revolução Liberal de 1820 é saudada com entusiasmo por intelectuais como
Almeida Garrett ou Alexandre Herculano, que conheceram, no exílio, o ambiente
europeu e que se empenham na difusão de uma literatura popular e verdadeiramente
nacional. Jornais e romances chegam agora a um público cada vez mais vasto, que
já abrange toda uma classe média. Em 1836 é criado o Liceu em todos os distritos.
Já na segunda metade do século XIX, os trabalhos de Adolfo Coelho, Epifânio da
Silva Dias, Leite de Vasconcelos, Gonçalves Viana, Carolina Michaëlis, José Joaquim
Nunes não abordam apenas o ensino da língua: trata-se, agora, de compreender e
descrever o funcionamento do português. O trabalho de Adolfo Coelho, A língua
portugueza, publicado em 1868, inaugura a moderna filologia portuguesa.
A partir de 1880, a Revista Lusitana publica estes estudos, que se integram no
panorama internacional da nascente ciência da linguística.
Em 1911, o Governo nomeia uma comissão para estabelecer a ortografia a usar
nas publicações oficiais. Desta comissão faz parte Gonçalves Viana, que já em 1907
apresentara um projeto de ortografia simplificada que servirá de base para a regula-
mentação da ortografia portuguesa. Esta reforma, em que desaparecem as consoantes
dobradas, o grupo ph (como em pharmácia, que passa a grafar-se farmácia) e alguns
exageros pseudoetimológicos, aproxima já bastante a ortografia de então da atual.
A reforma ortográfica de 1911 sofreu posteriores ajustamentos. A grande
reforma seguinte foi a resultante do acordo entre Portugal e Brasil, em 1945, que,
ligeiramente alterada em 1971, deu origem à ortografia oficial que até agora temos
usado. Em 1986, de um encontro entre os países de língua portuguesa resultou um
novo acordo ortográfico, que preconiza uma maior unificação.
Descrita, dicionarizada, regulamentada, a língua portuguesa já não é a língua de
Garrett, de Camilo ou de Herculano: torna-se, agora, a língua de Eça, de Pessoa, de
Saramago.
Esperança Cardeira, op. cit., pp. 77-78 (texto adaptado)
206 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
Poema do amor fóssil
Quem de nós falará aos homens que hão de vir
quando o grande clarão encher de luz
e pasmo as nossas bocas?
E como?
Que língua entenderão eles?
[…]
Que significará sofrer, amar, lutar,
quando as nossas misérias e tormentos
não forem mais do que pegadas fósseis?
Que palavras há de o poeta reservar
para o coração de plástico dos homens que hão de vir?
[…]
Amor?
Como será amor em língua cibernética?
António Gedeão, Poemas escolhidos,
Lisboa, Edições Sá da Costa, 1997, p. 90
DESAFIO
O amor é a temática central da lírica camoniana. A vivência do amor
mudou ao longo dos tempos. No futuro também será vivido de forma
diferente.
Partindo desta evidência, organiza grupos de trabalho e planifica uma apresentação
oral, entre cinco a sete minutos, elaborando tópicos de suporte à intervenção do
grupo.
Apresenta o trabalho, atendendo aos seguintes aspetos:
tSFTQFJUBPQSJODÓQJPEFDPSUFTJB GPSNBTEFUSBUBNFOUPFSFHJTUPTEFMÓOHVB 
tVUJMJ[B BEFRVBEBNFOUF SFDVSTPT WFSCBJT F OÍP WFSCBJT QPTUVSB  UPN EF WP[ 
articulação, ritmo, entoação.
Lê o seguinte poema.
idos Tchavdar, «Cupido virtual»,
in World Press Cartoon, 2013.
5
10
PROFESSOR
Oralidade
3.2; 4.1; 4.2; 5.2; 5.3.
Escrita
10.2.
Educação Literária
15.4.
MC
PowerPoint
Síntese da unidade
207
GLOSSÁRIO
C
Cantiga: composição curta, geralmente em versos de redon-
dilha maior, alternando com redondilha menor, dividida em
mote e glosa de oito a dez versos. O assunto da cantiga
renascentista é invariavelmente o amor, a ausência e o sofri-
mento único do homem.
G
Glosa: estrofe que recupera e explica um determinado
tema apresentado num mote, que é colocado no início do
poema e do qual se pode repetir um ou mais versos em
posição certa, como um refrão.
Inicialmente, fazia parte de composições poéticas breves,
como o vilancete, que apresentava uma ou mais glosas de
sete versos, ou como a cantiga, que apresentava uma glosa
de oito ou dez versos.
A glosa continuou a sofrer transformações durante a Renas-
cença, começando a ser constituída por um mote de qua-
tro versos que lhe servia de introdução e quatro estrofes de
dez versos, cujo último verso era a repetição de cada um
dos versos do mote inicial, mantendo a medida velha.
L
Locus amoenus: expressão latina que designa a paisagem
ideal, sempre presente na poesia amorosa em geral e, com
maior incidência, na poesia bucólica.
No espaço literário português, no que diz respeito à poe-
sia de inspiração bucólica, encontramos Sá de Miranda
(1481-1558) e Diogo Bernardes (1520-1605), que, influen-
ciados pelos clássicos greco-latinos e por outros seus con-
temporâneos, como é o caso de Petrarca, e ainda pelo
lirismo galaico-português, apresentam na sua produção
literária o ideal da comunhão com a natureza, que assume
papel de confidente.
M
Mote: mote, moto ou cabeça é o verso ou pequeno con-
junto de versos, que encabeça o poema, geralmente com
três versos, sobre os quais os poetas glosam as suas canti-
gas ou vilancetes.
N
Neoplatonismo: escola filosófica alexandrina que surgiu no
século II. […] O neoplatonismo penetra em toda a cosmo-
visão renascentista, enquanto sustentáculo de um sistema
de correspondências que liga o homem a Deus e ao uni-
verso. Petrarca seguiu e fez a apologia do pensamento de
Platão […]. […] O neoplatonismo dos [vários] pensadores
italianos do Renascimento implica um movimento circular
duplo, mas vertical, que de Deus desce até ao homem e do
homem ascende até Deus. A Camões, o neoplatonismo não
oferece possibilidades de elevação. […] À impossibilidade
de atingir um estádio gratificante, corresponde a deam-
bulação por entre os meandros da
interioridade, nas suas mais pro-
fundas dimensões.
P
Petrarquismo: fenómeno de mode-
lização que se processa a partir da
obra de Francesco Petrarca, alar-
gou-se às literaturas de toda a Europa
e para além delas, tendo também reper-
cussões nas artes plásticas, na música, no
pensamento, na filologia, no plano antropológico,
na produção editorial […]. No que diz respeito à litera-
tura, dominou o lirismo ao longo dos períodos que vão do
Renascimento até ao Neoclassicismo, com ecos que se
estendem até aos nossos dias. […] A mulher é envolvida
por um halo angelicado, que dela faz uma presença serena
e gratificante.
Platonismo: doutrina do filósofo grego Platão […], carac-
terizada especialmente pela conceção de que as ideias
eternas e transcendentes originam todos os objetos mate-
riais, e que a contemplação dos seres suprassensíveis
determina parâmetros definitivos para a excelência no
comportamento moral […]. Por extensão, o amor platónico
identifica-se pela castidade e idealidade. Segundo Platão,
o amor mundano e carnal pode tornar-se, através da medi-
tação filosófica, uma afeição contemplativa por realidades
suprassensíveis. Em termos figurados, pode dizer-se que o
amor platónico é amor à distância, frequentemente incon-
fesso e idealizado.
V
Volta: estrofes ou glosas que desenvolvem o conteúdo do
mote nas composições em medida velha.
Bibliografia/Webgrafia do Glossário
António José Saraiva e Óscar Lopes, História da literatura portuguesa,
17.ª edição, Porto, Porto Editora, 1996
Carlos Ceia (org.), E-dicionário de termos literários (disponível em http://
www.edtl.com.pt)
Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Instituto Antônio Houaiss de
Lexicografia, Lisboa, Temas e Debates, 2005
Massaud Moisés, Dicionário de termos literários, 12.ª edição, São Paulo,
Cultrix, 2004
Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide,
Editorial Caminho, 2011
208 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
Grupo I
A
Lê atentamente o seguinte poema e depois responde aos itens que se seguem, de forma
clara e bem estruturada.
1. Relaciona o conteúdo do mote com o assunto desenvolvido nas voltas.
2. Explicita a contradição presente nos quatro primeiros versos da primeira volta.
3. Apresenta um sentido para o verso «Sirvo de giolhos» (v. 14).
4. Atenta nas terceira e quarta voltas e refere porque é que o sujeito poético põe em
causa a cor dos olhos da «minina».
FICHA
FORMATIVA
Eles verdes são
a este moto alheio:
Minina dos olhos verdes,
porque me não vedes?
Voltas
Eles verdes são,
e têm por usança
na cor, esperança
e nas obras, não.
Vossa condição
não é d’olhos verdes,
porque me não vedes.
Isenções a molhos
que eles dizem terdes,
não são d’olhos verdes,
nem de verdes olhos.
Sirvo de giolhos,
e vós não me credes,
porque me não vedes.
Haviam de ser,
porque possa vê-los,
que uns olhos tão belos
não se hão de esconder;
mas fazeis-me crer
que já não são verdes,
porque me não vedes.
Verdes não o são
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão.
Se na condição
está serem verdes,
porque me não vedes?
Luís de Camões, op. cit., pp. 17-18
5
10
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20
25
30
PROFESSOR
GrupoI
A
1. O mote relaciona-se com o con-
teúdo das voltas da cantiga, pois
apresenta o tema que aí será desen-
volvido. Neste caso, apresenta o
tema a desenvolver nas voltas: a
ignorância e o desprezo por parte da
«minina» dos olhos verdes face ao
sujeitopoético.
2.Acontradiçãoresidenofactodeos
olhos verdes sugerirem esperança,
mas nas «obras», nos atos, tal não
acontecer.
3. Esta expressão sugere a rendição
completa, por amor, do sujeito poé-
tico à«minina».
4. Como a «minina» não lhe dá espe-
rança de correspondência no amor,
isso significa que não o «vê», logo
os seus olhos não podem ser olhos
verdes: «mas fazeis-me querer / que
já não são verdes, / porque me não
vedes»(vv.21-23).
COTAÇÕES
GrupoI
A
1. 15pontos
2. 15pontos
3. 15pontos
4. 15pontos
B
5. 40pontos
100pontos
209
Ficha formativa
B
Na sua lírica, Camões apresenta-se como um homem predestinado para a infelicidade.
Num texto bem estruturado, com um mínimo de oitenta e um máximo de cento e trinta
palavras, desenvolve uma exposição sobre a afirmação apresentada, fundamentando-a
com exemplos ilustrativos de poemas estudados.
Grupo II
Lê o seguinte texto.
ESTRELA: locus amoenus turístico
A maior parte dos portugueses subiu
pela primeira vez ao alto da serra da
Estrela durante o inverno, para ver a
neve, que acabrunha os vales profundos
e galanteia as cristas alterosas. Alguns
visitantes entretêm-se a fazer sku, com
sacos de plástico e pranchas improvisa-
das, enquanto outros preferem as guer-
ras de bolas de neve. Contudo, de há uns
anos para cá, existe um novo motivo para
realizar a viagem, nem que seja numa
escapadinha de fim de semana: despor-
tos radicais, como o esqui e o snowboard,
que outrora só se realizavam além-fron-
teiras. Por tudo isto, o ponto mais alto do
continente português tornou-se destino
habitual dos amantes da alta montanha,
que o visitam regularmente entre dezem-
bro e abril, enquanto duram as névoas, os
nevoeiros e os nevões.
Também há quem percorra a cordi-
lheira que divide o Portugal do Norte e o
Portugal do Sul durante o estio, como os
emigrantes, quando o sol se torna incle-
mente e as vistas se ampliam até terras
longínquas e se perdem na lonjura dos
horizontes. Nessa altura, os turistas não
procuram a estância de esqui, mas diri-
gem-se principalmente aos restaurantes,
para degustar as iguarias serranas, e às
lojinhas tradicionais, onde se abastecem
de artesanato, sobretudo de vestuário
confecionado com a lã das ovelhas, de
enchidos regionais e do famoso queijo
amanteigado que herdou o seu nome da
principal montanha portuguesa.
Por estranho que pareça, no meu caso,
foram outras as razões e as estações do
ano que me atraíram até aos píncaros
agrestes dos montes Hermínios, nome
pelo qual era conhecida a serra da Estrela
no tempo dos romanos. Sem querer des-
curar a sua riqueza humana, histórica,
cultural e gastronómica, que é ampla-
mente divulgada nos roteiros turísticos,
fica registado que subi, pela primeira vez,
na primavera, contrariando o sentido das
águas torrenciais do degelo.
Na altura, eu era um intrépido cami-
nheiro, que evitava os itinerários cómodos
e escolhia, amiúde, os caminhos desusa-
dos.
in Superinteressante, n.º 194 junho de 2014
(texto adaptado)
5
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20
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35
40
45
50
PROFESSOR
GrupoI
TextoB
Sugestãodetópicos:
“BA7F3BD767EF;@36AB3D33;@87;5;-
dade, desde o dia em que nasceu:
«Odiaemqueeunasci»;
“;@87;5;6367H;E€H77?HtD;AE835
tos pessoais: «Erros meus, má for-
tuna,amorardente…»;
“A67E5A@57DFA6A?G@6AB3D3AE
outros e apenas justo para ele: «Os
bonsvisemprepassar»;
“3 ?G63@{3 @3 EG3 H;63 AB7D3 E7
somente para pior: «Mudam-se os
tempos,mudam-seasvontades».
210 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES
1. Para responderes a cada um dos itens 1.1 a 1.6, seleciona a opção correta.
1.1 Através da expressão «a neve, que acabrunha os vales profundos e galanteia as
cristas alterosas» (ll. 3-5), o autor pretende afirmar que
(A) a neve esconde a beleza dos vales e torna mais belo o cume imponente da
serra.
(B) a neve enche os vales e torna mais belo o cume imponente da serra.
(C) a neve esconde a beleza dos vales e torna mais belo o cume alterado da serra.
(D) a neve esconde a beleza dos vales e do cume da serra.
1.2 O uso dos dois pontos na linha 12 introduz
(A) uma explicação.
(B) uma enumeração.
(C) uma informação adicional.
(D) uma conclusão.
1.3 A expressão «Por tudo isto» (l. 15) corresponde a uma síntese que exclui
(A) o desejo de ver a neve, no inverno.
(B) a prática de desportos arrojados.
(C) as brincadeiras com a neve.
(D) o desejo de saborear a comida regional e adquirir artesanato tradicional.
1.4 «Por estranho que pareça» (l. 37) é uma expressão que demonstra
(A) o caráter objetivo do texto.
(B) o caráter informativo do texto.
(C) o caráter subjetivo do texto.
(D) a estranheza da serra da Estrela.
1.5 Na frase «Na altura, eu era um intrépido caminheiro…» (ll. 49-50), o adjetivo sig-
nifica que o autor era
(A) alguém que apreciava fazer longas caminhadas.
(B) destemido.
(C) orgulhoso e queria mostrar que era um ótimo caminheiro.
(D) alguém temeroso que queria enfrentar o medo.
1.6 Na frase «para ver a neve, que acabrunha os vales profundos» (ll. 3-4), o elemento
destacado classifica-se como
(A) uma conjunção subordinativa consecutiva.
(B) um pronome relativo.
(C) um pronome indefinido.
(D) uma conjunção coordenativa explicativa.
COTAÇÕES
GrupoII
1. 30pontos
2.1 10pontos
2.2 10pontos
50pontos
GrupoIII
50pontos
PROFESSOR
GrupoII
1.1 (B); 1.2 (B); 1.3 (D); 1.4 (C); 1.5 (B);
1.6(B).
2.1Oraçãosubordinadaadjetivarela-
tivaexplicativa.
2.2
a)complementodonome;
b)complementodoadjetivo;
c)modificadorrestritivodonome;
d)modificadorapositivodonome.
211
Ficha formativa
2. Responde de forma correta aos itens apresentados.
2.1 Classifica a oração «onde se abastecem de artesanato» (ll. 31-32).
2.2 Indica a função sintática dos elementos destacados nas seguintes frases:
a) «A maior parte dos portugueses» (l. 1).
b) «de vestuário confecionado com a lã das ovelhas» (ll. 32-33).
c) «as iguarias serranas» (l. 30).
d) «para ver a neve, que acabrunha os vales profundos» (ll. 3-4).
Grupo III
A poesia de Camões é feita de contradições.
De acordo com a tua experiência de leitura, seleciona duas temáticas que são exploradas
em oposição e redige uma exposição, com um mínimo de cento e vinte e um máximo de
cento e cinquenta palavras, que se oriente pelo seguinte plano.
Introdução: – abordagem geral das temáticas selecionadas.
Desenvolvimento: – apresentação de um dos temas selecionados e respetiva exemplifi-
cação (versos/títulos de poemas);
– apresentação de outro dos temas selecionados e respetiva exemplifi-
cação (versos/títulos de poemas).
Conclusão: – importância da lírica de Camões para a nossa formação pessoal e cultural.
PROFESSOR
GrupoIII
Sugestãodealgunstópicos:
“3D7BD7E7@F3{yA63?G:7D3?363
simples–descritafísicaeobjetiva-
mente e que normalmente corres-
ponde ao seu amor (medida velha)/
mulher ideal, distante, petrar-
quista – descrita espiritualmente,
traduzindo o amor platónico
(medida nova); poemas: «Descalça
vai para a fonte», «Um mover
d’olhos,brandoepiadoso»,«Pedeo
desejo,Dama,quevosveja»;
“D7º7JyA EA4D7 3 H;63 B7EEA3 A
desconcerto: o sujeito poético é
alguémqueencara avidaeoamor
com alegria e leveza (medida
velha), visão contrária à que tem
na fase adulta, quando vê o mundo
e o amor como lugar de incom-
preensão, confusão, desconcerto
(medida nova): «Erros meus, má
fortuna,amorardente»,«Osbonsvi
semprepassar»;
“?G63@{3 A B3EE36A | F7?BA 67
felicidade, de amor vivido e corres-
pondido, ao invés do presente, que
é tempo de ausência de amor, soli-
dão e infelicidade: «Mudam-se os
tempos,mudam-seasvontades».
5
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Imaginário épico
t matéria épica: feitos históricos e viagem;
t sublimidade do canto;
t mitificação do herói.
Reflexões do poeta
Linguagem, estilo e estrutura
t a epopeia: natureza e estrutura da obra;
t o conteúdo de cada canto;
t os quatro planos: viagem, mitologia, História
de Portugal e reflexões do poeta – sua
interdependência;
t estrofe e métrica;
t recursos expressivos: anáfora, anástrofe, apóstrofe,
comparação, enumeração, hipérbole, interrogação
retórica, metáfora, metonímia e personificação.
LEITURA
Artigo de divulgação científica.
Textos informativos.
COMPREENSÃO DO ORAL
Anúncio publicitário.
Registos áudio e audiovisual.
EXPRESSÃO ORAL
Apreciação crítica.
Exposição.
Síntese.
ESCRITA
Exposição sobre um tema.
Apreciação crítica.
Síntese.
GRAMÁTICA
O português: génese, variação e mudança
t principais etapas da formação e da evolução
do português.
Geografia do português no mundo
t português europeu e não europeu;
t principais crioulos de base portuguesa.
Lexicologia
t arcaísmos e neologismos.
LUÍS DE CAMÕES
OS LUSÍADAS
José de Guimarães, Naufrágio de Camões, 1983 (pormenor).
mensagens
Gonçalo M. Tavares
Desde 2001, publicou livros em diferentes géneros literários.
Os seus livros receberam vários prémios em Portugal e no
estrangeiro.
Uma viagem à Índia recebeu, entre outros, o Grande Prémio de
Romance e Novela APE 2011. Os seus livros deram origem, em
diferentes países, a peças de teatro, dança, peças radiofónicas,
curtas-metragens e objetos de artes plásticas, dança, ópera,
performances, projetos de arquitetura, teses académicas – bem
como a inúmeras traduções.
214
A primeira vez que li, ou me fizeram ler Os Lusíadas,
assustei-me. Em cada verso parávamos imenso tempo,
tentando perceber o sentido. Mas o susto rapidamente
se transformou em prazer. Em vez de ler em silêncio,
comecei a ler em voz alta. E as coisas transformaram-se.
Afinal aquilo não era apenas um livro – feito para os
olhos – era também algo feito para os ouvidos. Não
coloquei o livro na orelha como se fosse um auricular
– para escutar as canções que ali estavam guardadas –,
mas pouco faltou para isso.
É mesmo preciso ler em voz alta, este livro não é só
para os olhos.
Os Lusíadas leem-se na parte, no fragmento, mas
também no todo. Por vezes, podemos ler uma linha ou
duas e ficar com elas no bolso, na cabeça – ou até ficar
com elas sonoramente, como quem guarda um som.
Se repetirmos certos versos d’Os Lusíadas repe-
tiremos um conjunto de sons, de canções, que cons-
tituíram o primeiro edifício da língua. O português
enquanto língua comum, e altíssima, apareceu, fez-se
adulta, com este livro. Há uma língua portuguesa pré-
-Lusíadas e uma língua portuguesa pós-Lusíadas. E eu
diria que ainda hoje, no século XXI, há uma língua
portuguesa antes de lermos Os Lusíadas e uma outra
depois de lermos este livro.
Podemos, assim, ler Os Lusíadas como uma obra
histórica de grandes aventuras em grandes superfícies
– países, viagens, mar, guerras, mas também há, nesta
epopeia, aquilo que há hoje em cada esquina e num ser
humano de um metro e setenta, oitenta, ou sessenta
(ou menos ou mais): amores feitos e seguros ou em vias
de passarem a destroços, ciúmes e zangas entre amigos.
Há medos enormes, sim – o enorme Adamastor –,
mas há também pequenos receios, estúpidas ambições
e invejas mesquinhas.
É uma epopeia – é sobre um país, é sobre homens
corajosos – mas também é um livro sobre as emoções
que todos reconhecemos neste animal que sabe ler (o
humano).
Tudo, enfim, o que existe n’Os Lusíadas existe
no leitor d’Os Lusíadas. Qualquer que seja a sua
idade.
Gonçalo M. Tavares,
(Texto inédito, 2014)
´
5
10
15
20
25
30
35
40
cruzadas
215
Nicolau Santos
Diretor-adjunto do Expresso, coapresentador do Expresso da
Meia-Noite, comentador da Antena 1. Foi diretor do Semanário
Económico, do Diário Económico e do Público. Autor de Portugal
vale a pena e coautor, com António Costa Silva, de três livros de
poesia: Jacarandá e Mulemba, Aroma de pitangas num país que
não existe e Fotografias lentas do diabo na cama.
«Vai chatear o Camoes»
Desconfio que a expressão «vai chatear o
Camões» terá nascido depois de sucessivas turbas
de alunos terem sido massacrados com a análise gra-
matical dos dez cantos d’Os Lusíadas, as suas 1102
estrofes e os seus 8816 versos. Obrigados a embre-
nhar-se nestas profundas questões, milhares de alunos
naufragaram nos escolhos gramaticais e nunca passaram
além da Taprobana. Mais que a aventura de chegar às
terras de Preste João, tolhia-os o Adamastor da divisão
das estrofes e da interpretação dos versos.
O resultado teria sido outro se se contasse a vida do
autor, homem de fortes paixões e marginais amores,
conflituoso e impetuoso, que era menos bom na espada
que na pena e que por isso perdeu um olho em com-
bate. Obrigado a emigrar em 1553, só regressa 17 anos
depois. Pobre, publica Os Lusíadas em 1572. O rei e a
corte não se entusiasmam com a obra que canta os feitos
valorosos das nobres gentes lusitanas e a descoberta do
caminho marítimo para a Índia. O pagamento demora
anos a chegar. Sophia de Mello Breyner há de lembrar o
facto: «Irás ao paço. Irás pedir que a tença / seja paga na
data combinada. […] Irás ao paço irás pacientemente /
pois não te pedem canto mas paciência.» Camões morre
sem glória nem reconhecimento em 1580.
Talvez o conhecimento de tantos poemas lindíssimos
de amor que escreveu despertasse o interesse de milhões
de alunos para a obra maior da nossa literatura. E tal-
vez ajudasse lembrar que o seu poema «Mudam-se os
tempos, mudam-se as vontades / […] Todo o Mundo
é composto de mudança […]» foi genialmente apro-
veitado por José Mário Branco, nome maior da nossa
música, para criar um hino contra a ditadura, quando
lhe acrescentou um belo remate: «E se todo o Mundo é
composto de mudança / Troquemos-lhe as voltas / que
inda o dia é uma criança.»
Talvez se pudesse ter contado a milhares de alunos
que o nome – os Magriços – com que foi batizada a
seleção portuguesa de futebol, que disputou o Mundial
de 1966 em Inglaterra, foi inspirado num episódio de
Os Lusíadas, ou que a história de Pedro e Inês seria segu-
ramente um êxito retumbante do cinema – um amor
contrariado pelo pai, a insistência nesse amor pelo filho,
a contratação de dois assassinos que matam Inês, a dor
e a fúria de D. Pedro, que obriga toda a corte a beijar
a mão da rainha morta, a punição brutal dos assassinos.
Talvez ainda estejamos a tempo de recuperar
Os Lusíadas como um maravilhoso livro de histórias
da História de Portugal, e de tornar a sua leitura um
prazer e não um pesado fardo para milhares de jovens.
Que se juntem o cinema, a televisão, os professores e
os pedagogos. Que se juntem os historiadores e os con-
tadores de histórias, os poetas e os que amam a poesia.
Que todos juntos consigamos erradicar a expressão
«Vai chatear o Camões!».
Nicolau Santos,
(Texto inédito, 2014)
5
10
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35
40
45
50
216 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
Os Lusíadas, visão global
Para responderes aos itens de 1. a 14., relembra o estudo de Os Lusíadas no 9.º ano, e sele-
ciona as opções corretas.
8. A Narração da viagem da armada inicia-se quando
as naus
(A) dobravam o cabo das Tormentas.
(B) estavam no oceano Índico.
(C) estavam em Belém.
(D) dobravam o cabo Bojador.
9. O plano da mitologia inicia-se, no canto I, com o
(A) episódio da «Ilha dos Amores».
(B) episódio do «Consílio dos Deuses».
(C) episódio das «Despedidas em Belém».
(D) episódio de «Inês de Castro».
10. Vasco da Gama inicia a narração da História de
Portugal
(A) a pedido do rei de Melinde.
(B) a pedido do Adamastor.
(C) quando chega a Mombaça.
(D) quando chega a Moçambique.
11. No episódio do «Adamastor», Vasco da Gama
(A) recorda um episódio mitológico.
(B) enfrenta os medos que esta figura representa.
(C) enfrenta os ventos de Baco.
(D) ouve a história de Veloso.
12. A «Tempestade», no canto VI, está associada
(A) a causas naturais comuns naquela área.
(B) aos obstáculos causados pelo Adamastor.
(C) a causas naturais e provocadas pelos deuses.
(D) à interferência dos deuses Baco e Neptuno.
13. A «Ilha dos Amores» é
(A) a recompensa preparada por Vénus.
(B) a estratégia utilizada pelos orientais para se
despedirem dos portugueses.
(C) uma ilha onde os portugueses se abastecem
de comida e bebida.
(D) a recompensa preparada por Júpiter.
14. No epílogo, Camões
(A) elogia os seus contemporâneos.
(B) critica os seus contemporâneos.
(C) invoca a musa Calíope para o ajudar.
(D) relembra os seus tempos de juventude.
1. A obra Os Lusíadas é
(A) um poema lírico.
(B) uma narrativa em prosa.
(C) um poema épico.
(D) um conto de aventuras.
2. Quanto à estrutura externa, o poema divide-se em
(A) nove cantos.
(B) dez cantos.
(C) oito cantos.
(D) onze cantos.
3. Quanto ao número de versos por estrofe e de síla-
bas métricas por verso, o poema é composto por
(A) oitavas decassilábicas.
(B) oitavas em redondilha maior.
(C) oitavas em redondilha menor.
(D) oitavas octossilábicas.
4. A estrutura interna de Os Lusíadas é composta por
(A) Invocação-Narração-Dedicatória-Proposição.
(B) Dedicatória-Proposição-Invocação-Narração.
(C) Proposição-Invocação-Dedicatória-Narração.
(D) Proposição-Invocação-Narração-Dedicatória.
5. Os quatro planos da epopeia são
(A) Viagem/História de Hispânia/Mitologia/Poeta.
(B) Viagem/História de Portugal/Mitologia/Poeta.
(C) Viagem/História de Portugal/Mitologia/Herói.
(D) Viagem/História de Portugal/Religião/Poeta.
6. Na Proposição, Camões anuncia
(A) a quem a obra é dedicada.
(B) que as ninfas o ajudarão.
(C) que vai cantar os feitos dos deuses.
(D) quem vai cantar e porquê.
7. O poema épico é dedicado a
(A) D. Manuel I.
(B) Vasco da Gama.
(C) Vénus.
(D) D. Sebastião.
PROFESSOR
1.(C);2.(B);3.(A);
4.(C);5.(B);6.(D);
7.(D); 8.(B); 9.(B);
10.(A);11.(B);12.(D);
13.(A); 14.(B).
217
Contextualização histórico-literária
1. A epopeia: natureza da obra
Os Lusíadas é um poema épico, género narrativo que remonta, na cultura
ocidental, à antiga Grécia, com Homero, e a Roma, com Virgílio. Trata-se de
um género narrativo em verso, destinado a «cantar», celebrar feitos grandio-
sos, reais ou fictícios, praticados por heróis fora do comum, em estilo «ele-
vado»; os heróis, reais ou mais frequentemente míticos, têm normalmente
representatividade coletiva, exprimindo os valores, sonhos e capacidade de
realização do povo ou grupo étnico a que pertencem. É o caso de Aquiles e
Ulisses, para os Gregos, ou de Eneias, para os Romanos. […]
Em Portugal, como sabemos, vinha sendo sentida a necessidade de cele-
brarheróisverdadeirosligadosaosDescobrimentos,tarefaquesesentiacomo
superior às façanhas «fantásticas, fingidas, mentirosas» das «alheias musas».
Vimo-lo, por exemplo, no Prólogo de Garcia Resende ao Cancioneiro geral
de 1516; vimo-lo principalmente nos incentivos de António Ferreira, junto
deoutrospoetas,nosentidodocantoépicoquecondignamentecelebrasseos
novos heróis dos Descobrimentos. André de Resende cria o vocábulo «lusía-
das» para designar os filhos de Luso, descendente de Baco, os Lusitanos.
Como sabemos, competirá a Luís de Camões a tarefa de criar a epopeia portuguesa,
feita, ao contrário das que lhe serviram de modelo, de acontecimentos verdadeiros,
seguindo de perto as regras de Homero e Virgílio, entre as quais a de dever introduzir a
mitologia pagã num tempo de mundividência cristã.
Que regras eram essas? O poema narrativo épico deveria ter [na estrutura interna]
umaparteintrodutória,comumaProposiçãoemqueseanunciavaoobjetivodocanto
e uma Invocação aos deuses ou musas; a Narração da ação deveria ser feita «in medias
res», isto é, a meio do seu decurso, sendo a parte anterior narrada em analepse, ou
flash back ou retrospeção; era obrigatória a intervenção dos deuses, como adjuvantes
ou oponentes dos heróis. Tudo em estilo grandioso, elevado – no Renascimento o
verso decassilábico heroico agrupado em estrofes. O poema deveria, na sua estrutura-
ção externa, constar de vários «cantos» ou partes, que deveriam ser constituídos por
episódios ou sequências narrativas.
E,comopoemanarrativo,qualquerpoemaépicodeveriaconteraquiloquesedesigna
por categorias narrativas: narrador ou narradores, ação, personagens, espaço e tempo.
Amélia Pinto Pais, História da literatura em Portugal. Uma perspetiva didática,
vol. 1, Porto, Areal Editores, 2004, pp.152-153 (texto adaptado)
CONSOLIDA
1. Indica quatro características gerais de um poema épico.
2. Refere os dois poetas clássicos que serviram de inspiração a Camões para escrever a
sua epopeia.
3. Enumera os elementos que constituem uma epopeia.
4. Lista os constituintes da estrutura externa de um poema épico.
Fac-símile da portada da edição
de 1572 de Os Lusíadas.
5
10
15
20
25
30
PROFESSOR
Leitura
8.1.
MC
Consolida
1. Texto narrativo em verso; canta
feitos grandiosos (reais ou ima-
ginários) de heróis; os heróis são,
geralmente, míticos, representam
valores, sonhos e capacidade do
povo a que pertencem; estilo su-
blime.
2.HomeroeVirgílio.
3. A epopeia é constituída por três
partes (estrutura interna) – Proposi-
ção, Invocação e Narração in medias
res; apresenta obrigatoriamente o
planomitológico.
4. Organizado em vários cantos e
estrofes com versos decassilábicos
heroicos.
PowerPoint
Contextualização
218 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
2. Os Lusíadas: estrutura da obra
No caso [da estrutura interna] de Os Lusíadas,
Camões decidiu, na parte introdutória, incluir uma
Dedicatória e, na Conclusão, um apelo ou invetiva.
Nos dois casos tem como recetor o rei que então
governava e preparava mesmo uma ação militar con-
tra Marrocos, D. Sebastião, que nos apresenta, na
Dedicatória, como futuro rei, predestinado a gran-
des realizações no domínio da expansão da fé, e que
é já rei, no final – rei a quem aconselha no sentido
do bem reinar e de conduzir o seu povo, que agora
se encontra em período de crise que define como de
«austera, apagada e vil tristeza», a novo empreen-
dimento épico, que o poeta se dispõe desde já vir a
celebrar em «novo canto».
Realizou o seu poema [ao nível da estrutura
externa]em10Cantos,todosemoitavas,segundoo
esquema rimático abababcc, no total, 1102 estrofes,
numa média de 110 por canto, havendo cantos mais
longos, como o III e o X, e cantos mais curtos. […]
Ao nível da estrutura interna, Os Lusíadas inte-
gram quatro planos, o da ação central – viagem de
Vasco da Gama em busca da Índia, realizada em 1497-1498; o da ação secundária –
História de Portugal, narrada por narradores participantes, Vasco da Gama, Paulo
da Gama, e, em relação aos acontecimentos posteriores à viagem e anteriores a 1572,
data da publicação do poema, por deuses, com relevo para uma Ninfa e para Tétis, sob a
forma de profecias; o do imaginário mitológico pagão – plano dos deuses, que se arti-
cula intimamente com a narração da ação central, dela sendo agentes motores, como
oponentes – no caso de Baco, que funciona, de certo modo, como a voz dos povos
orientais, mas também de Neptuno e outras divindades do mar; – ou como adjuvantes
– Vénus, sobretudo, e Júpiter, a seu pedido; e um plano não narrativo, constituído por
considerações [/reflexões] e excursos filosóficos, sociológicos, políticos, autobiográ-
ficos do poeta e autonarrador Luís de Camões.
Amélia Pinto Pais, op. cit., p. 153 (texto adaptado)
CONSOLIDA
1. Sistematiza as ideias-chave do texto de acordo com as alíneas apresentadas.
Regista essa informação sob a forma de tópicos:
a) estrutura externa do poema;
b) estrutura interna (especificidade da epopeia portuguesa);
c) planos.
José de Guimarães, Camões e D. Sebastião, 1980.
5
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PROFESSOR
Leitura
8.1; 8.2.
MC
Consolida
Estruturaexterna:
“5A@EF;FG€63BAD67L53@FAE
“AD93@;L3637?7EFDA87E 7EFv@5;3E
“53637EFv@5;3F7?A;FAH7DEAEA;F3-
vas;
“7ECG7?3D;?tF;5A34343455
Estruturainterna:
(especificidade da epopeia portu-
guesa)
“;@FDA6G{yA67G?3676;53F†D;3A
poeta dedica o seu poema ao rei
D.Sebastião(cantoI).
Planos:
“ o
¬63H;397?@3DD3{yA63H;397?
deVascodaGamaedasuaarmada
paraaÍndia(açãoprincipal);
“ o
¬63;EF†D;367'ADFG93@3DD3-
ção de acontecimentos históricos
6A@AEEAB3€E3@F7D;AD7E3 
“ o
¬63?;FAA9;3;@F7DH7@{yA63
mitologiapagã;
“ o
– das reflexões do poeta (não
@3DD3F;HA5A@E;67D3{Š7EB7EEA3;E
dopoeta(normalmenteemfinalde
canto e sobre o assunto abordado
nessemesmocanto).
219
Contextualização histórico-literária
Visão global – o conteúdo de cada canto
Estâncias Sinopse Planos Narrador
Canto
I
1 – 3* Proposição: o poeta indica a matéria que se propõe cantar.
Poeta
4 – 5* Invocação: o poeta invoca as ninfas do Tejo, as Tágides, e pede-lhes inspiração.
6 – 18* Dedicatória: o poema é dedicado ao rei da época, D. Sebastião.
19
Início da Narração: a armada portuguesa de Vasco da Gama encontra-se já no
oceano Índico (narração in medias res).
Viagem
20 – 41 Consílio dos deuses no Olimpo. Mitológico
42 – 99
Chegada da armada a Moçambique, onde Baco prepara uma cilada aos
portugueses, à qual eles conseguem escapar.
Viagem e
Mitológico
100 – 102 Partida para Quíloa, onde nova emboscada é preparada, mas Vénus intervém.
103 – 104 Aportagem em Mombaça, onde se prepara nova cilada aos portugueses.
105–106* Reflexões do poeta sobre a condição humana. Poeta
Canto
II
1 – 9
O rei de Mombaça, instruído por Baco, convida os portugueses a visitarem-no.
Vasco da Gama envia dois emissários a terra para recolherem informação.
Viagem
Poeta
10 – 13
Baco, disfarçado de sacerdote cristão, fornece informações erradas aos dois
emissários.
Mitológico
14 – 18
Tendo ouvido as falsas informações, Vasco da Gama decide entrar no porto de
Mombaça, onde se prepara nova emboscada.
Viagem
19 – 24 Vénus e as Nereidas impedem a nau do capitão de entrar no porto. Mitológico
25 – 30
Um piloto, cedido pelo rei de Moçambique, e os mouros de Mombaça fogem
com medo de terem sido descobertos. Viagem
31 – 32 O capitão da armada apercebe-se da situação e implora a Deus que o ajude.
33 – 63
Vénus, no Olimpo, queixa-se da ação de Baco e pede a intervenção de Júpiter,
que acede e profetiza triunfos futuros dos lusos. Mercúrio é enviado para
preparar uma boa receção em Melinde e dar a conhecer a Vasco da Gama
através de sonhos, o caminho a seguir.
Mitológico
Poeta e
Júpiter
64 – 71 A expedição parte de Mombaça, retomando a viagem.
Viagem Poeta
72 – 113
Os portugueses são bem acolhidos em Melinde, onde o rei pede ao capitão
que lhe conte a História de Portugal e da sua viagem até ali.
Canto
III
1 – 2 Nova invocação (a Calíope). Poeta
3 – 5 Início da narração da História de Portugal.
História de Portugal
Vasco da
Gama
6 – 21 A geografia da Europa e de Portugal.
22 – 100
Referência a Luso, Viriato, ao conde D. Henrique e depois, mais
demoradamente, aos reis de Portugal, de D. Afonso Henriques a D. Afonso IV.
101 – 106 Episódio da Fermosíssima Maria (filha de Afonso IV).
107 – 118 Batalha do Salado (Afonso IV).
119 – 135 Episódio de Inês de Castro.
136 – 137 Reinado de D. Pedro I.
138 – 139 Reinado de D. Fernando I.
140 – 143 Reflexões sobre o amor. Poeta
* Nota: As estâncias assinaladas com asterisco (*) serão alvo de estudo nas aulas.
220 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
Estâncias Sinopse Planos de narrativa Narrador
Canto
IV
1 – 27 Crise de 1383-1385 e parte do reinado de D. João I.
História de Portugal
Vasco da
Gama
28 – 45 Episódio da Batalha de Aljubarrota.
46 – 82
Última parte do reinado de D. João I e reinados de D. Duarte,
D. Afonso V, D. João II e parte do reinado de D. Manuel I.
83 – 93 Referência à preparação da viagem e às despedidas em Belém.
94 – 104 Episódio do Velho do Restelo.
Canto
V
1 – 3 Narração da viagem (partida de Lisboa).
Viagem
Vasco da
Gama
4 – 36 Narração da viagem até ao cabo da Tormentas.
37 – 60 Episódio do Adamastor. Mitológico
Vasco da
Gama e
Adamastor
61 – 85 Narração da viagem até Melinde.
Viagem
Vasco da
Gama
86 – 89
Elogio da coragem dos portugueses, por parte do rei de Melinde,
e conclusão da narração da viagem.
90 – 100
(92–100*)
Reflexões sobre o desprezo dos seus contemporâneos pela cultura,
especialmente pela poesia.
Poeta Poeta
Canto
VI
1 – 5 Despedidas em Melinde e partida para a Índia. Viagem
Poeta
6 – 37 Consílio dos deuses marinhos. Mitológico
38 – 69
Continuação da viagem. Episódio dos «Doze de Inglaterra»
(contado por um marinheiro, Veloso).
Viagem e História de
Portugal
Poeta e
marinheiro
70 – 84 Tempestade e nova súplica de Gama a Deus. Viagem
Poeta
85 – 91 Intervenção de Vénus e das ninfas. Mitológico
92 – 94 Chegada à Índia e agradecimento a Deus. Viagem
95 – 99 Meditação sobre o verdadeiro valor da Glória. Poeta
Canto
VII
1 Chegada ao porto de Calecute. Viagem
Poeta
2 – 15
Elogio do espírito de cruzada dos portugueses; crítica a outros
europeus por não seguirem o exemplo.
Poeta
16 – 22 Entrada em Calecute e descrição do que encontram.
Viagem
23 – 27 Primeiro contacto com os nativos.
28 – 41 Visita do mouro Monçaide e descrição do Malabar.
42 – 66
Desembarque do capitão e dos nobres. Receção pelo Catual que
os conduz ao Samorim. Conversa com o capitão da armada.
67 – 72 O Catual recebe informações sobre os lusos através de Monçaide.
73 – 77
Visita do Catual à armada portuguesa a pedido de Paulo da Gama
para que lhe explique o significado das figuras das bandeiras das
naus.
78 – 87*
Nova invocação às ninfas do Tejo e do Mondego e queixa sobre os
infortúnios de Camões.
Poeta
221
Contextualização histórico-literária
Estâncias Sinopse Planos de narrativa Narrador
Canto
VIII
1 – 43 Explicação do significado das figuras das bandeiras ao Catual. História de Portugal
Paulo da
Gama
44 – 46 Regresso do Catual a terra. Viagem
Poeta
47 – 50
Nova intervenção de Baco, incitando, em sonhos, um sacerdote
maometano contra os portugueses.
Mitológico
51 – 95
Revolta contra os portugueses em Calecute. Determinação de que
Vasco da Gama regresse às naus por parte do Samorim. Contudo, o
Catual retém-no. Só regressa após pagamento de fazendas.
Viagem
96 – 99* Considerações sobre o valor do dinheiro. Poeta
Canto
IX
1 – 17
Prisão de dois portugueses em terra de modo a esperar por
reforços vindos de Meca para destruírem os lusos. Prisão de
mercadores nativos nas naus portuguesas. Por ordem do Samorim,
os portugueses são libertados, o que também acontece aos
nativos. Início da viagem de regresso à pátria.
Viagem
Poeta
18 – 51
Decisão de Vénus de premiar os portugueses e preparação da Ilha
dos Amores.
Mitológico
52 – 53* Condução da Ilha ao encontro dos marinheiros.
Viagem/Mitológico
54 – 65 Descrição da Ilha e desembarque dos portugueses.
66 – 70* Desembarque dos marinheiros e perseguição às ninfas.
71 – 87 Continuação da perseguição e episódio de Leonardo e a ninfa Efire.
88 – 95*
Revelação do simbolismo da Ilha dos Amores. Conselhos sobre os
que procuram a Fama e a Imortalidade.
Poeta
Canto
X
1 – 7 Oferta de um banquete aos nautas pelas ninfas. Mitológico
Poeta
8 – 9 Nova invocação de Camões a Calíope. Poeta
10 – 74
Profecia do futuro auspicioso dos portugueses no Oriente pela
ninfa Sirena.
Mitológico/História
de Portugal
Poeta e
Sirena
75 – 91* Tétis dá a conhecer a Máquina do Mundo a Vasco da Gama. Mitológico Poeta
92 – 142 Profecias de Tétis sobre outras conquistas portuguesas.
Mitológico/História
de Portugal
Poeta e
Tétis
143 – 144 Viagem de regresso e chegada a Portugal. Viagem
Poeta
145 –156 Lamentações do Poeta e exortações ao rei D. Sebastião. Poeta
Vasco da Gama (1469-1524)
– navegador português, nas-
cido em Sines. D. Manuel I
confia-lhe o comando da
1.ª armada da viagem
marítima para a Índia.
O monarca recompensa-o
por esta gloriosa conquista,
nomeando-o almirante-mor
das Índias. Vasco da Gama
regressa mais duas vezes à
Índia, da qual foi governador
e segundo vice-rei.
222 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
PONTO DE PARTIDA
1. Ouve o hino nacional, A Portuguesa.
1.1 Identifica os dois ciclos da
História de Portugal, o apelo
lançado à nação e a palavra
sinónima de «ilustres».
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Proposição
Constituição da matéria épica
1
As armas e os Barões1
assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana2
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana3
,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino4
, que tanto sublimaram;
2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas5
De África e de Ásia andaram devastando6
,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte7
libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte8
.
3
Cessem do sábio Grego e do Troiano9
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano10
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano11
,
A quem Neptuno e Marte12
obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga13
canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Luís de Camões, Os Lusíadas,
prefácio de Costa Pimpão, 4.ª edição, Lisboa, MNE,
Instituto Camões, 2000, p. 1
1 Barões: homens ilustres e esforçados.
2 Ocidental praia Lusitana: Portugal.
3 Taprobana: ilha de Ceilão, atual Sri
Lanka.
4 Novo Reino: império português na
Ásia.
5 Terras viciosas: terras não cristãs.
6 Devastando: destruindo.
7 Lei da Morte: esquecimento.
8 Engenho e arte: talento e habilidade.
9 Sábio Grego e do Troiano: Ulisses,
cujo longo e aventuroso regresso
a Ítaca faz o assunto da Odisseia,
de Homero; Eneias, cujas navega-
ções foram cantadas por Virgílio na
Eneida.
10 Alexandro e de Trajano: Alexandre
Magno, rei da Macedónia, que derro-
tou Dário e chegou ao oceano Índico;
Trajano, imperador romano que criou
uma província de Arábia.
11 Peito ilustre Lusitano: o valor, a cora-
gem dos portugueses.
12 Neptuno e Marte: deuses do mar e da
guerra, na mitologia romana.
13 Musa antiga: a poesia dos gregos e
dos romanos.
Júlio Pomar, Camões, 1990.
CD 1
Faixa n.o
36
PROFESSOR
%+i*
1. As notas que acompanham cada
excerto da obra seguem a edição
referenciada, mas foram simplifica-
63E7 AG5A?B7?7@F363EE7?BD7
queconsideradoimportante.
2.Estetextonãoseencontragrafado
ao abrigo do Acordo Ortográfico de
 3FG3?7@F77?H;9AD i¹J3{yA
dotextofoifeitaapartirdaediçãode
Os Lusíadas, prefácio de Costa Pim-
pão(ediçãocitada).
Oralidade
1.4; 2.1.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.6; 14.7; 14.9;
14.11; 15.1; 15.2; 16.1.
Gramática
18.1; 18.2; 18.4; 18.5.
MC
PontodePartida
1.1Ciclosdaterraedomar;«levantai
hoje de novo o esplendor de Portu-
gal»;«egrégios».
EducaçãoLiterária
1.1 a) «Por mares nunca de antes
@3H7936AE  '3EE3D3? 3;@63 3|?
da Taprobana¥ 7EF   HH   
b) «Em perigos e guerras esforça-
6AE¥7EF  H c) «E entre gente
D7?AF376;¹53D3? %AHA)7;@ACG7
tanto sublimaram¥ 7EF   HH   
d) «3CG77E )7;E CG7 8AD3? 6;3-
F3@6A 3|A ?B|D;A73EF7DD3E
H;5;AE3E 7Ã8D;53767ÃE;33@63-
ram devastando¥ 7EF   HH   
e)«Eaquelesqueporobrasvalerosas
*7HyA637;63$ADF7;47DF3@6A»
7EF HH  
1.2 Na segunda parte, através do
uso do modo conjuntivo do verbo
«cessar» («Cessem»; «Cesse») com
valor do imperativo, Camões pede
queesqueçamososfeitosdosheróis
da Antiguidade Clássica, marítimos
(«sábio Grego e do Troiano») e guer-
reiros («Alexandro e de Trajano»),
os quais eram louvados na poesia
greco-romana, pois a heroicidade do
povo português que ele vai louvar é
superior.
223
Os Lusíadas: Canto I, Proposição
1. Quanto à organização interna, é possível dividir o texto em duas partes distintas.
1.1 Na primeira parte (ests. 1 e 2), o poeta apresenta o objetivo do seu canto e enumera
os portugueses que são dignos de serem louvados na sua obra.
Completa a tabela, transcrevendo os versos que ilustram as seguintes afirmações.
Dar a conhecer a todo o universo a heroicidade do povo português:
a)
Heróis dignos
de louvor
Atos heroicos realizados Versos ilustrativos
do heroísmo
Guerreiros e outros
homens ilustres
t Exploraram o mundo desconhecido,
enfrentando mares nunca antes navegados.
t Enfrentaram perigos e duras guerras.
t Construíram um novo império no Oriente.
a)
b)
c)
Reis
t Espalharam a fé católica entre os não
crentes e alargaram o império português.
d)
Outros heróis do
passado, presente
e futuro
t Homens ilustres que se imortalizaram pelos
seus feitos.
e)
1.2 Indica, agora, o assunto da segunda parte (est. 3).
2. Relaciona o sentido do verso «A quem Neptuno e Marte obedeceram» (est. 3, v. 6) com a
heroicidade do povo luso.
3. Mostra, com elementos textuais, que os quatro planos estão presentes nestas estâncias.
4. Transcreve do texto um exemplo de cada um dos seguintes recursos expressivos: anás-
trofe, hipérbole e metonímia.
4.1 Explicita o valor de cada um dos recursos.
5. Explica de que forma o assunto da Proposição contribui para o engrandecimento do
herói coletivo.
GRAMÁTICA
1. Atenta nas seguintes alíneas. Identifica a que apresenta um complemento do nome.
a) «As armas e os Barões assinalados» (est. 1, v. 1).
b) «Que da Ocidental praia Lusitana» (est. 1, v. 2).
c) «E também as memórias gloriosas / Daqueles Reis» (est. 2, vv. 1-2).
d) «Se vão da lei da Morte libertando» (est. 1, v. 6).
e) «Cessem do sábio Grego e do Troiano» (est. 3, v. 1).
f) «As navegações grandes que fizeram» (est. 3, v. 2).
2. Divide e classifica as seguintes orações.
a) «Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta.»
(est. 3, vv. 7-8)
Coordenação e
suberdinação
pp. 327-328
SIGA
Funções sintáticas
pp. 324-325
SIGA
PROFESSOR
2. Camões supervaloriza a heroici-
dade dos lusos, colocando-os num
patamar superior ao dos deuses
– tanto no mar (Neptuno) como na
9G7DD3$3DF7
3. Viagem e História de Portugal
«Por mares nunca de antes navega-
6AE '3EE3D3?3;@633|?63+3BDA-
bana¥ 7EF   HH    História de
Portugal:«)7;ECG78AD3?6;3F3@6A
i|A ?B|D;A73EF7DD3EH;5;AE3E»
7EF HH  Mitologia: «A quem
%7BFG@A7$3DF7A476757D3?» (est.
H Reflexões do poeta: «Can-
tando espalharei¥7EF H 7¤Que
eucanto¥7EF H 
4.
4.1 Anástrofe¤Em perigos e guerras
esforçados¥7EF  H¬67EF353AE
obstáculosultrapassadospeloslusos,
colocando-osnoiníciodeverso;
hipérbole ¤$3;E 6A CG7 BDA?7F;3
a força humana¥7EF  H ¬EG4;-
nha a grandeza do povo português,
suplantandoasuanaturezahumana;
«espalharei por toda a parte¥7EF 
H ¬67EF3533HA@F3676ABA7F3
em dar a conhecer a todo o mundo
a grandeza dos feitos dos portugue-
ses;
metonímia ¤FG6A A CG7 3 $GE3
antiga canta¥ 7EF   H   ¬ $GE3
Antiga refere-se à poesia épica da
Antiguidade, cujos heróis cantados
sãodevalorinferioraodoslusos.
5. A mitificação do povo luso está
presente através da valorização da-
queles que pelo seu heroísmo digni-
ficaram a pátria. Os lusos, que, pela
sua condição humana, são frágeis
e mortais, superaram a força dos
deuses e tornaram-se igualmente
imortais (não serão esquecidos pelo
seuheroísmo).
Gramática
1.c);
2. Oração subordinante e oração
subordinadaadverbialcausal.
224 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
FICHA INFORMATIVA N.O
1
Imaginário épico I
Matéria épica: feitos históricos e viagem
Os portugueses – ainda antes de Camões – sentiam-se verdadeiramente ufanos1
da
descoberta de tudo o que não era Europa […] e colocavam as façanhas dos desco-
bridores e conquistadores acima de tudo o que fora feito pelo mundo greco-romano.
[…] [Os Descobrimentos são, assim, o assunto grandioso da epopeia camoniana, de
interesse nacional e universal, centrando-se na descoberta do caminho marítimo para
a Índia, plena de obstáculos, alguns executados por Baco, mas os quais os lusos con-
seguem ultrapassar, como a tempestade, a doença (o escorbuto), a traição dos mouros
em Mombaça e os perigos do mar (Adamastor). Cronologicamente, as etapas desta
viagem foram as seguintes: de Lisboa ao sul de África (canto V), do sul de África a
Melinde (cantos I e II), de Melinde a Calecute (canto VI), de Calecute à Ilha dos
Amores (canto IX) e da Ilha dos Amores a Lisboa (canto X).]
O eixo do poema é evidentemente a viagem do Gama, mas Os Lusíadas não são
a viagem do Gama. Os Lusíadas são todos os reis, todos os seus heróis, todos os seus
gloriosos barões. Ora o Gama, na sua notícia ao rei de Melinde, só poderia dar conta
dos que enobreceram a nação até aquele momento em que fazia a sua exposição ao rei
de Melinde, começando naturalmente pelos reis e pelos que estiveram mais próximos
dos reis. Foi uma narrativa poetizada da história antiga de Portugal, a começar em
Luso e a acabar em 1497, com D. Manuel! Ficariam esquecidos muitos «barões». Tal
como Virgílio, Camões aproveitará os rogos de Vénus a Júpiter, a favor do seu Eneias,
para que o pai dos deuses possa predizer alguns feitos heroicos […]; virá depois o
Adamastor, também dotado de terrífico dom profético e que anunciará ao Gama e
seus companheiros a morte de Bartolomeu Dias (1500), de D. Francisco de Almeida
(1510) e o naufrágio de Manuel de Sousa Sepúlveda (1552). Em Calecute, o Catual
ouvirá de Paulo da Gama as explicações acerca das figuras que estão pintadas nas ban-
deiras das naus. Aqui não se trata de predições; e é curioso acentuar que, começando
nos fabulosos Luso e Ulisses, como antepassados dos portugueses, se estenderá até os
condes D. Pedro e D. Duarte de Meneses, fronteiros de Ceuta, ficando incluídas na
descrição uma série de figuras medievais. Mais tarde, uma ninfa vai vaticinar os feitos
futuros dos portugueses, particularmente dos heróis e governadores da Índia (até
D. João de Castro e seus filhos). Com a descrição do orbe terrestre, especialmente as
terras de África e da Ásia que os portugueses virão a possuir, ficam nomeados todos os
grandes ilustres e os lugares que foram teatro de seus feitos. São estes Os Lusíadas. […]
Camões quer que os portugueses se tornem divinos não só pela fortaleza de ânimo,
mas pelo exercício das mais altas virtudes. Não só pela coragem física, diante do ini-
migo, […] mas pela «lealdade firme e obediência» para com o rei. […] Por esta via
tomarão lugar no Olimpo estelante, empalidecendo o fulgor de [todos os deuses].
Os Lusíadas estão destinados a substituir a fama dos Antigos, porque as suas proezas
os excedem. O culto da Antiguidade não cega o poeta ao ponto de lhes sotopor2
os
feitos dos portugueses como pedestal dos heróis mediterrâneos.
Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Os Lusíadas de Luís de Camões, 4.ª edição, Lisboa, MNE,
Instituto Camões, 2000, pp. XIV, XV, XVI (texto adaptado)
1 Ufanos: orgulhosos.
2 Sotopor: rebaixar.
5
10
15
20
25
30
35
4.ª armada de 1502, do Livro
de Lisuarte de Abreu, 1563
(pormenores).
225
Ficha informativa
CONSOLIDA
1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1 a 1.6, seleciona a opção que permite
obter afirmações corretas.
1.1 Antes do século XVI e do aparecimento de Os Lusíadas, já os portugueses valoriza-
vam qualquer descoberta feita
(A) no continente europeu.
(B) fora das fronteiras da Europa.
(C) dentro e fora do continente europeu.
(D) dentro da Europa e no Oriente.
1.2 Os portugueses consideravam que os seus grandes feitos eram
(A) equivalentes aos da Antiguidade.
(B) superiores aos da Antiguidade.
(C) diferentes dos da Antiguidade, mas igualmente importantes.
(D) inferiores aos da Antiguidade.
1.3 Dada a importância conferida aos Descobrimentos, o assunto de Os Lusíadas é a
descoberta
(A) da Índia, de interesse nacional e universal.
(B) do caminho marítimo para a Índia, de interesse nacional.
(C) da Índia, de interesse nacional.
(D) do caminho marítimo para a Índia, de interesse nacional e universal.
1.4 O título da epopeia camoniana remete para a valorização feita por Gama, ao rei de
Melinde, de todos os
(A) portugueses que foram protagonistas da viagem marítima para a Índia.
(B) reis, os heróis e quase todos os «barões» da História de Portugal, até 1497.
(C) reis, os heróis e todos os «barões» da História de Portugal, até 1497.
(D) portugueses que contaram a História de Portugal ao rei de Melinde, em 1497.
1.5 Cronologicamente, Os Lusíadas são também os heróis
(A) ascendentes dos portugueses, os medievais e todos os posteriores a 1497.
(B) descendentes dos portugueses, os medievais e todos os posteriores a 1497.
(C) medievais, os ascendentes dos portugueses e todos os posteriores a 1497.
(D) posteriores a 1497, os medievais e os ascendentes.
1.6 Júpiter, o Adamastor e uma ninfa profetizam
(A) vários atos heroicos e desventuras dos portugueses.
(B) o naufrágio de Manuel de Sousa Sepúlveda.
(C) a chegada de Vasco da Gama à Índia.
(D) a História antiga de Portugal.
2. Completa a seguinte frase:
O objetivo de Camões é mostrar que os lusos são a) aos heróis greco-lati-
nos e aos próprios b) , divinizando-os.
PROFESSOR
Leitura
7.1; 8.1.
Educação Literária
14.3; 14.11; 15.1; 15.2.
MC
Consolida
1.1(B);
1.2 (B);
1.3(D);
1.4(C);
1.5(A);
1.6(A);
2.
a)«superiores»;
b)«deuses».
PowerPoint
Ficha informativa n.o
1
226 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
PONTO DE PARTIDA
1. Antes de leres o excerto em que o poeta se
dirige às ninfas do Tejo, as suas musas ins-
piradoras, partilha com os teus colegas o teu
conceito de musa inspiradora.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Invocação
Constituição da matéria épica
4
E vós, Tágides1
minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho2
ardente,
Se sempre em verso humilde3
celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado4
,
Um estilo grandíloco5
e corrente6
,
Por que de vossas águas Febo7
ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene8
.
5
Dai-me ùa fúria grande e sonorosa9
,
E não de agreste avena ou frauta ruda10
,
Mas de tuba canora e belicosa11
,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda12
;
Dai-me igual canto13
aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço14
cabe em verso.
Luís de Camões, op. cit., p. 2
1. Atenta nas estâncias 4 e 5. Identifica o emissor e o recetor nelas presentes.
2. O poeta refere-se à poesia lírica e à poesia épica cuja caracterização se baseia em dois
estilos diferentes.
2.1 Transcreve os elementos textuais que caracterizam cada uma delas.
2.2 Identifica o que mais se adequa à matéria que se propõe cantar.
3. Sintetiza o pedido que o poeta dirige às Tágides.
4. Explica o uso repetido do imperativo «Dai-me».
GRAMÁTICA
1. Atenta nas afirmações seguintes. Identifica duas falsas e corrige-as.
a) O primeiro verso da estância 4 não contém um vocativo.
b) O vocábulo «sempre» (est. 4, v. 3) é um modificador.
c) No predicado «cabe em verso» (est. 5, v. 8) está presente um modificador.
Columbano, Camões invocando as Tágides, 1894.
1 Tágides: «ninfas» do Tejo.
2 Engenho: talento.
3 Verso humilde: poesia lírica.
4 Som alto e sublimado: uma voz que
atinja o sublime.
5 Estilo grandíloco: um estilo elevado.
6 Corrente: impetuoso (imparável
como uma corrente).
7 Febo: Apolo, deus da Poesia e da
música.
8 Hipocrene: fonte grega, cuja água
inspirava os poetas.
9 v. 1 (est. 5): dai-me um entusiasmo
criador.
10 Agreste avena ou frauta ruda: estilo
humilde e simples.
11 Tuba canora e belicosa: trombeta
militar romana.
12 Peito: valor, coragem; gesto: feições.
13 Dai-me igual canto: à altura de.
14 Preço: valor.
Funções sintáticas
pp. 324-325
SIGA
Imaginário épico II
p. 227
FI
PROFESSOR
Oralidade
4.1; 4.2; 5.1; 5.3.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.7; 14.11; 15.1;
15.2; 16.1.
Gramática
18.1.
MC
PontodePartida
1.)7EBAEF3B7EEA3
EducaçãoLiterária
1.OemissoréCamõeseorecetorsão
asninfasdorioTejo,asTágides.
2.1EF;A@AHA¤engenho ardente»
7EF H ¤som alto e sublimado»
7EF H ¤estilo grandíloco e cor-
rente¥7EF H ¤ũa fúria grande
e sonorosa¥ 7EF   H   ¤de tuba
canoraebelicosa¥7EF H 
'A7E;3€D;53¤verso humilde¥7EF 
H ¤agreste avena ou frauta ruda»
7EF H 
2.2Poesiaépica.
3. O poeta, apenas habituado a
escreverpoesialírica(maissimplese
fácil), solicita auxílio às Tágides para
conseguir adotar um estilo gran-
dioso e sublime, próprio de uma epo-
peia, de forma a conseguir glorificar
adequadamente os feitos heroicos
dos portugueses e a emocionar os
leitores («Que o peito acende e a cor
aogestomuda¥7EF H 
4. O imperativo sugere a urgência
que o poeta sente de uma inspiração
sobrenatural para melhor expressar
asuamensagem.
Gramática
1.
a)¤Tágidesminhas»évocativo;
c)5A?B7?7@FAA4€CGA
227
Ficha informativa
Imaginário épico II
1. Sublimidade do canto
É bem conhecido o passo em que Camões, na Invocação d’Os Lusíadas, pede às
Tágides que lhe concedam um novo estilo, diferente do verso humilde com que até
então o poeta celebrara o rio Tejo, um estilo adequado ao nível sublime, grandioso,
do género épico. […]
Nestes versos define Camões o que entende por um estilo adequado à épica: este
género poético pressupõe um novo engenho ardente, isto é, um «entusiasmo» poético,
ùa fúria cheia de vigor e sublimidade nos antípodas de outros géneros poéticos prati-
cados pelo poeta, implica um nível estilístico «sublime», como Camões bem acentua:
um som alto e sublimado à altura da matéria que vai cantar, se tão sublime preço cabe em
verso. […] Só um estilo situado a este nível pode de facto obter o efeito que o poeta
pretende para o seu canto épico: «acender o peito e mudar a cor ao gesto».
J. A. Segurado e Campos, O estilo corrente de Camões», in Hvmanitas,
vol. XLV, 1993, pp. 307-312 (texto adaptado)
2. Linguagem, estilo e estrutura
Uma epopeia segundo o modelo clássico: […] contém uma série de requisi-
tos que lhe condicionam a estrutura, o estilo e a própria conceção. Desde a aber-
tura do poema, com a proposição, a invocação às musas, e a dedicatória ao rei;
até ao começo da narrativa in medias res e não no início da ação; passando pela
obrigatoriedade do uso da mitologia; pelo recurso às profecias anunciadoras do
futuro; por uma certa variedade estilística que determina que o tom épico seja uma
vez ou outra temperado com episódios líricos ou bucólicos […].
Não se trata só da grandiloquência própria de um tema glorioso, nem apenas do
tom inflamado, capaz de emocionar e persuadir. Trata-se também de um estilo culto,
erudito, vazado numa língua que se engalana com latinismos, termos raros, onde
abundam as perífrases mitológicas (como nos últimos versos da estância 4), as alusões
à história antiga; um estilo que implica a familiaridade com toda a cultura clássica: as
suas lendas, os seus heróis, os seus episódios e as figuras mais destacadas, os seus valo-
res e os seus lugares-comuns. Todo este arsenal é como que um vocabulário com que
o poeta épico trabalha […] [que] não pode deixar de ser compreendido em função
do clima mental do classicismo.
Maria Vitalina Leal de Matos, Introdução à poesia de Luís de Camões, 3.ª edição,
Biblioteca Breve, vol. 50, Lisboa, ICLP, 1992, pp. 16-18, disponível em
http://www.uc.pt/fluc/eclassicos/publicacoes/ficheiros/humanitas45/16_Segurado_Campos.pdf,
consultado em outubro de 2014
CONSOLIDA
1. Considerando os textos que acabaste de ler, recolhe as seguintes informações:
a) objetivo do poeta ao adotar um «som alto e sublimado» (est. 4, v. 5) e um «estilo gran-
díloco e corrente» (est. 4, v. 6);
b) aspetos da estrutura de Os Lusíadas, determinados pelo seu género;
c) características da linguagem e do estilo «culto».
FICHA INFORMATIVA N.O
2
Gravura na edição de Obras do grande
Luís de Camões, com a sua vida escrita
por Manoel de Faria Severim, 1720.
5
10
5
10
15
PROFESSOR
Leitura
7.1.; 8.1.
MC
Consolida
1.
a) estar à altura da matéria que vai
cantar;emocionarepersuadir;
b) Proposição, Invocação e Narração
(aDedicatóriaerafacultativa);alego-
riadosdeusesesuasintrigas;
c) latinismos e vocábulos raros, bem
comoreferênciasàculturaclássica.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
2
228 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Dedicatória
Constituição da matéria épica
11
Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas
Que excedem as sonhadas, fabulosas,
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro
E Orlando13
, inda que fora verdadeiro.
12
Por estes vos darei um Nuno fero14
,
Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço,
Um Egas e um Dom Fuas15
, que de Homero
A cítara par’ eles só cobiço;
Pois polos Doze Pares16
dar-vos quero
Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.
13
Pois se a troco de Carlos17
, Rei de França,
Ou de César18
, quereis igual memória,
Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória;
E aquele19
que a seu Reino a segurança
Deixou, com a grande e próspera vitória;
Outro Joane20
, invicto cavaleiro;
O quarto e quinto Afonsos e o terceiro.
14
Nem deixarão meus versos esquecidos
Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
Se fizeram por armas tão subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortíssimo21
e os temidos
Almeidas22
, por quem sempre o Tejo chora,
Albuquerque23
terríbil, Castro forte24
,
E outros em quem poder não teve a morte.
6
E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança1
,
Maravilha fatal da nossa idade2
,
DadaaomundoporDeus,quetodoomande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande;
7
Vós, tenro3
e novo ramo florecente
De ùa árvore, de Cristo4
mais amada
Que nenhua nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada5
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada6
,
Na qual vos deu por armas e deixou
As que Ele pera si na Cruz tomou);
8
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando dece o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos7
jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita8
cavaleiro,
Do Turco Oriental e do Gentio
Que inda bebe o licor do santo Rio9
:
9
Inclinai por um pouco a majestade
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade10
,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos11
.
10
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quási eterno;
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno12
,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.
Costa Pinheiro, D. Sebastião, 1966 (pormenor).
1 Maura lança: exércitos mouros.
2 Maravilha fatal da nossa idade:
prodígio fixado pelo destino.
3 Tenro: jovem.
4 Novo ramo florecente / De ùa
árvore, de Cristo: dinastia dos reis
portugueses (cristãos).
5 Cesárea ou Cristianíssima cha-
mada: dos imperadores alemães
e dos reis franceses.
6 Vitória já passada: vitória na Bata-
lha de Ourique, quando
D. Afonso Henriques viu as cinco
chagas de Cristo, representadas
pelos cinco escudos na bandeira
nacional.
7 Que esperamos: que sejais.
8 Torpe Ismaelita: árabes.
9 Santo Rio: a água do rio Ganges,
rio sagrado da Índia.
10 Inteira idade: na força da vida.
11 Versos divulgado numerosos: versos
ritmados, cadenciados.
12 Superno: superior.
13 Rodamonte, Rugeiro / E Orlando:
personagens do Orlando Furioso,
de Ariosto.
14 Nuno fero: D. Nuno Álvares
Pereira.
15 Egas e um Dom Fuas: Egas Moniz,
aio de D. Afonso Henriques;
D. Fuas Roupinho, figura meio
lendária do século XII que derro-
tou os mouros várias vezes, até ser
por eles vencido.
16 Doze Pares: doze personagens da
Chanson de Roland.
17 Carlos: Carlos Magno.
18 César: Júlio César, conquistador
das Gálias.
19 Aquele: D. João I, vencedor de
Aljubarrota.
20 Joane: D. João II.
21 Pacheco fortíssimo: Duarte Pacheco
Pereira.
22 Temidos / Almeidas: D. Francisco
de Almeida e seu filho.
23 Albuquerque: Afonso de Albuquer-
que.
24 Castro forte: D. João de Castro.
PROFESSOR
Educação literária
14.2; 14.6; 14.7a; 14.11; 15.1;
15.2; 16.1.
Gramática
18.1; 19.1; 19.2; 19.4; 19.5.
Escrita
10.2 c; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3;
12.4; 12.5; 13.1.
MC
229
Os Lusíadas: Canto I, Dedicatória
17
Em vós se vêm, da Olímpica27
morada,
Dos dous avós28
as almas cá famosas;
ùa, na paz angélica dourada,
Outra, pelas batalhas sanguinosas.
Em vós esperam ver-se renovada
Sua memória e obras valerosas;
E lá vos têm lugar, no fim da idade29
,
No templo da suprema Eternidade.
18
Mas, enquanto este tempo passa lento
De regerdes os povos, que o desejam,
Dai vós favor ao novo atrevimento30
,
Pera que estes meus versos vossos sejam,
E vereis ir cortando o salso argento31
Os vossos Argonautas32
, por que vejam
Que são vistos de vós no mar irado,
E costumai-vos já a ser invocado.
Luís de Camões, op. cit., pp. 2-5
15
E,enquantoeuestescanto–eavósnãoposso,
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que polo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.
16
Em vós os olhos tem o Mouro frio25
,
Em quem vê seu exício afigurado;
Só com vos ver, o bárbaro Gentio
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
Tétis todo o cerúleo senhorio26
Tem pera vós por dote aparelhado,
Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro,
Deseja de comprar-vos pera genro.
25 Mouro frio: frio (de medo) por
ver afigurado em D. Sebastião
a sua ruína.
26 Tétis todo o cerúleo senhorio:
Tétis, deusa do mar, esposa do
Oceano, reserva em dote a
D. Sebastião «todo o cerúleo
(da cor do céu) senhorio,
porque «deseja comprá-lo para
genro».
27 Olímpica: de Olimpo, residên-
cia dos deuses.
28 Dous avós: D. João III, pai do
príncipe D. João, e Carlos V,
pai da princesa D. Joana.
29 Fim da idade: fim da vida.
30 Novo atrevimento: Os Lusíadas.
31 Salso argento: mar salgado
e prateado.
32 Argonautas: navegadores.
1. Quanto ao assunto, é possível dividir este texto em partes. Delimita-as e indica o
assunto de cada uma.
2. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as
falsas.
a) Na Dedicatória, Camões dedica o seu poema ao rei da época, D. Sebastião.
b) Nas estâncias 6 a 8, o poeta exalta o rei.
c) Depois dos elogios, Camões pede ao rei que leia Os Lusíadas, para ver como é um exce-
lente poeta e concluir que é melhor ser rei deste povo pequeno do que do mundo inteiro.
d) As façanhas e os heróis louvados na sua obra são verídicos e, por isso, de maior valor,
ao invés dos louvados em poemas épicos anteriores, que são fictícios.
e) Nas estâncias 15 a 18, Camões elogia novamente o rei, solicitando-lhe a continua-
ção das conquistas em terras de África e no mar do Oriente, prevendo grandes vitó-
rias que servirão de base para uma nova epopeia.
f) No final, é pedido novamente ao rei que aceite e valorize Os Lusíadas, pois verá o
heroísmo dos portugueses que servirá de impulso às suas novas conquistas.
g) Na Dedicatória, o português é elevado à condição de herói sobre-humano e mítico.
3. Relaciona o assunto das estâncias 11 a 14 com o conteúdo da Proposição.
4. Explica o uso do imperativo e do vocativo nas estâncias da Dedicatória.
PROFESSOR
Educaçãoliterária
1. 1.a
parte7EFE  7A9;A3AD7;
D.Sebastião;
2.a
parte7EFE  ABA7F3B7673A
rei que se digne ler a sua epopeia, na
qual encontrará a grandeza dos fei-
tos dos portugueses, e poderá con-
cluir que é melhor ser rei deste povo
pequenodoquedomundointeiro;
3.a
parte7EFE   35363:7D†;
fantasioso da poesia da Antigui-
dade,Camõescontrapõeumoumais
heróisportugueses;
4.a
parte7EFE   3?Š7E3B73
ao rei a continuar a guerra contra
os mouros, para engrandecer nova-
menteapátria;
5.a
parte7EF  ABA7F3B767@AH3-
mente ao rei que aceite e valorize Os
Lusíadas, que reconheça o valor dos
seus argonautas, o que será impulso
para novas façanhas, e, finalmente,
explicitaqueopróprioreiserámaté-
riadecontoépico.
2. a) V; b) V; c)¦B3D3H7DAE3FAE
heroicos dos portugueses; d) V; e)¦
7EFv@5;3E 3 f)V;g)V.
3. Na Proposição afirma-se que os
feitos dos portugueses são superio-
res aos dos heróis da Antiguidade.
Também na Dedicatória se declara
que as façanhas dos portugueses
superaram as antigas, que eram
fabulosas (literárias). Contrapõe-se,
ainda, a cada herói antigo um portu-
guês.
4.Oimperativoeovocativosãomar-
cas da função apelativa da lingua-
gem, sendo usados para chamar a
atenção do rei para a obra e para os
heróisretratados.
230 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
GRAMÁTICA
1. Com base nas estâncias 13 e 14 da Dedicatória, apresenta os hipónimos do hiperónimo
«herói português».
2. Identifica no verso seguinte o modificador apositivo do nome:
«Vós, poderoso rei, cujo alto Império» (ests. 8, v. 1).
3. Apresenta três constituintes do campo lexical de «realeza» (ests. 8 e 9), relacionando-o
com o tema dominante do texto e indicando a respetiva intencionalidade comunicativa.
4. Transforma os versos para o discurso indireto: «Inclinai por um pouco a majestade /
Que nesse tenro gesto vos contemplo» (ests. 9, vv. 1 e 2).
5. Identifica dois arcaísmos presentes na estância 17 e dois neologismos nas estâncias
16 e 18.
ESCRITA
Exposição sobre um tema
Partindo da leitura deste excerto de um verso de Álvaro de Campos (heterónimo de Fer-
nando Pessoa), redige uma exposição, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras,
sobre a importância do sonho.
Elabora um plano, no qual estabeleças objetivos comunicativos, definas tópicos, organi-
zando-os de forma coerente e com um encadeamento lógico.
Marca corretamente os parágrafos, utiliza conectores e mobiliza adequadamente os re-
cursos da língua. No final revê o teu texto e aperfeiçoa-o.
Não te esqueças de identificar as fontes utilizadas, de cumprir as normas de citação, de
utilizar as notas de rodapé (se necessário) e ainda de elaborar a bibliografia dos docu-
mentos consultados.
…tenho em mim
todos os sonhos
do mundo
Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, «Tabacaria».
Reprodução do discurso
no discurso
p. 331
SIGA
Funções sintáticas
p. 324-325
SIGA
Arcaísmo e neologismo
p. 239
FI
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
Almada Negreiros, Retrato de
Fernando Pessoa, 1935.
­KE?FDD@D
KF;FJFJJFE?FJ
;FDLE;F
PROFESSOR
Gramática
1. «Afonso», «Joane», Afonso III,
Afonso IV, Afonso V, «Pacheco»,
 D3@5;E5A67i?7;637E7G¹:A
«Albuquerque»,«Castro».
2.«poderosorei».
3. 3?BA7J;53¤)7;¥7EF H  
«Império¥7EF H  ¤majestade»
7EF   H    )735;A@3? E7 5A? A
tema da Dedicatória ao rei, com a
intençãopanegírica.
4. O poeta pediu ao rei que incli-
nasse por um pouco a majestade
quenaqueletenrogestolhecontem-
plava.
5. iD53€E?A 8†@;5A ¤dous» e
«ũa¥ @7AA9;E?A ¤fónico exício»,
«cerúleo»ou«argento».
Escrita
Sugestãodetópicos:
„definiçãodesonho;
„o sonho como origem das conquis-
tas humanas (pessoais) e exem-
plos;
„o sonho como origem das conquis-
tas humanas (universais) e exem-
plos;
„aausênciadesonhoesuasimplica-
ções;
„3;?BADFv@5;373;@F7?BAD3;6367
dosonho.
231
Os Lusíadas: Canto I
PONTO DE PARTIDA
1. Observa a imagem ao lado. Des-
creve-a, oralmente, de acordo
com os seguintes tópicos:
t
elementos principais que a
compõem;
tilusão ótica presente;
tdicotomia ser/parecer.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
«Bicho da terra tão pequeno»
Reflexões do poeta
105
O recado que trazem é de amigos,
Mas debaxo o veneno vem coberto,
Que os pensamentos eram de inimigos,
Segundo foi o engano descoberto.
Ó grandes e gravíssimos perigos,
Ó caminho de vida nunca certo,
Que aonde a gente põe sua esperança
Tenha a vida tão pouca segurança!
1. Relaciona o sentido dos quatro primeiros versos com o sucedido em Mombaça. Con-
sulta o resumo do canto I, apresentado na p. 219.
2. Explicita os sentimentos do poeta expressos nos versos 5 e 6 da estância 105, indi-
cando dois recursos expressivos que os enfatizam.
3. Identifica a construção paralela da estância 106 e esclarece a dicotomia aí estabelecida.
4. Retira do texto a metáfora e a interrogação retórica que ilustram a reflexão sobre a con-
dição humana.
4.1 Explicita o seu valor expressivo, referindo a temática presente nesta reflexão.
5. Indica a importância da localização deste excerto na estrutura interna da obra.
6. Após a leitura das estâncias, relaciona o efeito ilusório da pintura de Dalí com o con-
teúdo temático das mesmas.
Salvador Dalí, Homem/casal
com cão a dormir, 1948.
1 Apercebida: iminente.
2 Avorrecida: circunstâncias adversas.
106
No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida1
!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida2
!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
Luís de Camões, op. cit., p. 27
PROFESSOR
Oralidade
4.1; 4.2; 5.1; 5.3.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.6; 14.7; 14.9;
14.11; 15.1; 15.2; 15.3; 16.1;
16.2.
Gramática
19.4; 19.5.
Escrita
10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3;
12.4; 13.1.
MC
PontodePartida
1. Em primeiro plano, destacam-se
a cabeça e rosto (em perfil) de um
idosocalvocombarbabranca.Numa
leitura mais atenta, repara-se num
casal cujos corpos constituem par-
F7E 63 5347{3 6A DAEFA 6A ;6AEA 
O homem idoso em segundo plano
forma o nariz, a boca, o bigode e a
barba do idoso em primeiro plano; a
mulher jovem, com um bebé ao colo,
corresponde à orelha e ao pescoço.
Também se observa, na estrada, um
cãoadormir;
– a ilusão está presente, pois, numa
sóimagem,sãovisíveisduasrealida-
67E6;87D7@F7EBADG?36A35347{3
e o rosto de um idoso; por outro, um
casal;
– o ser e o parecer estão presentes,
dado que, à primeira vista, parece
tratar-se apenas de um idoso, mas,
depois, constatamos que também
está presente um casal; a ilusão
óticaafeta,assim,onossosentidoda
realidade (nem tudo o que parece é).
EducaçãoLiterária
1. ?$A?43{3AEBADFG9G7E7EEyA
alvo de uma emboscada por parte
dos mouros, sob influência de Baco,
apesar de parecerem muito hospita-
leiros. O sujeito poético faz alusão a
essadiferençaentreoparecer(«ami-
gos») e o ser («inimigos») nos quatro
primeirosversos.
2. Sentimentos de insegurança, de
;?BAF~@5;3 8357 uE 5;D5G@EFv@5;3E
adversas e perigosas às quais o
ser humano se vê submetido. Este
estado de espírito é enfatizado
pelas apóstrofes («Ó grandes e gra-
H€EE;?AEB7D;9AE Ê53?;@:A67H;
da nunca certo») e utilização do
grau superlativo absoluto sintético
7EF  H
232 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
GRAMÁTICA
1. Apresenta três palavras, da estância 106, do campo lexical de «perigo», relacionando-o
com o tema dominante do texto e indicando a respetiva intencionalidade comunicativa.
2. Classifica, quanto à classe de palavra, «tanto/a(s)».
Justifica a sua repetição nos quatro primeiros versos da estância 106.
3. Regista, a partir das estâncias apresentadas, três pares de palavras antónimas e ex-
plica a sua posição nos versos.
ESCRITA
Exposição sobre um tema
Lê os seguintes excertos do poema de Carlos Drummond de Andrade, que tem como
«mote» a expressão de Camões «bicho da terra tão pequeno».
Partindo dos versos apresentados, prepara uma exposição escrita, entre cento e vinte e
cento e cinquenta palavras, sobre a temática da ambição humana.
O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua […]
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.
Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte – ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte […]
coloniza
humaniza Marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Carlos Drummond de Andrade,Nova reunião: 19 livros de poesia,
3.ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio, 1978, pp. 448-450
5
10
15
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
DA
Campo lexical e semântico
p. 175
FI
PROFESSOR
3. A construção paralela é «%A?3D¦
%3 F7DD3¦»; amplifica os locais de
perigo para o ser humano, esteja
onde estiver não tem segurança
B7D3@F7 AE A4EFt5GAE F7?B7EF3-
des,morte,guerras,enganos.
4.1 «Contra um bicho da terra tão
pequeno?¥7EF  H ¬7JBD7EE3
a insegurança em que se encontra
o homem; o caráter trágico da exis-
tênciadohomem;àmaioresperança
sucedeomaiorperigo.
5. Este excerto situa-se no final do
canto I. Ao admitir a debilidade da
existência humana e a tragicidade
a que o Homem está sujeito, logo
no início da obra, confere aos feitos
que se seguem ainda maior gran-
diosidade. Os verdadeiros heróis são
aqueles que superam a condição
humana frágil e «se vão da lei da
mortelibertando»(Proposição).
6. Podemos estabelecer uma rela-
ção de semelhança, pois os portu-
gueses também foram iludidos com
as aparentes boas intenções dos
7?;EEtD;AE67$A?43{3
Gramática
1. ¤+AD?7@F3¥ ¤63@A¥ ¤9G7DD3¥¦
Estecampolexicalrelaciona-secom
o tema da fragilidade da condição
humana, enfatizando as ameaças
queassolamoHomem.
2. Quantificador existencial – des-
taca a grande quantidade de obstá-
culos que o Homem tem de enfren-
tar.
3. ?3D F7DD3 3?;9AE ;@;?;9AE
5A47DFA 67E5A47DFA ¬ 67EF353D 7E
sas antíteses em início ou final de
verso.
Escrita
Sugestãodetópicos:
“introdução67¹@;{yA673?4;{yA
“desenvolvimento
– aspetos positivos da ambição hu-
mana (progresso, desenvolvimen-
tosocialepessoal);
– aspetosnegativosdaambição(com-
petição desenfreada, desrespeito
B73@3FGD7L37B7AEAGFDAE¦
“ conclusão 433@{A 6AE 3EB7FAE
positivosenegativosdaambição.
233
Os Lusíadas: Canto V
Roque Gameiro, A chegada de Vasco da Gama a Calecute em 1498, c. 1900.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Partida de Vasco da Gama
Reflexões do poeta
92
Quão doce é o louvor e a justa glória
Dos próprios feitos, quando são soados!1
Qualquer nobre trabalha que em memória
Vença ou iguale os grandes já passados2
.
As envejas da ilustre e alheia história
Fazem mil vezes feitos sublimados.
Quem valorosas obras exercita,
Louvor alheio muito o esperta e incita.
93
Não tinha em tanto os feitos gloriosos
De Aquiles, Alexandro3
, na peleja4
,
Quanto de quem o canta os numerosos5
Versos: isso só louva, isso deseja.
Os troféus de Milcíades, famosos,
Temístocles6
despertam só de enveja;
E diz que nada tanto o deleitava
Como a voz que seus feitos celebrava.
94
Trabalha por mostrar Vasco da Gama
Que essas navegações que o mundo canta
Não merecem tamanha glória e fama
Como a sua, que o Céu e a Terra espanta.
Si; mas aquele Herói que estima e ama
Com dões7
, mercês, favores e honra tanta
A lira Mantuana8
, faz que soe
Eneias, e a Romana glória voe.
95
Dá a terra Lusitana Cipiões,
Césares, Alexandros, e dá Augustos9
;
Mas não lhe dá contudo aqueles dões
Cuja falta os faz duros e robustos.
Octávio10
, entre as maiores opressões,
Compunha versos doutos e venustos11
(Não dirá Fúlvia, certo, que é mentira,
Quando a deixava António12
por Glafira).
96
Vai César sojugando toda França
E as armas não lhe impedem a ciência13
;
Mas, nùa mão a pena e noutra a lança,
Igualava de Cícero a eloquência.
O que de Cipião se sabe e alcança
É nas comédias grande experiência14
.
Lia Alexandro a Homero de maneira
Que sempre se lhe sabe à cabeceira15
.
97
Enfim, não houve forte Capitão
Que não fosse também douto e ciente,
Da Lácia16
, Grega ou Bárbara nação,
Senão da Portuguesa tão somente.
Sem vergonha o não digo: que a razão
De algum não ser por versos excelente
É não se ver prezado o verso e rima,
Porque quem não sabe arte, não na17
estima.
1 Soados: reconhecidos e cele-
brados.
2 v. 4 (est. 92): pessoa ilustre
que deseja superar os feitos dos
seus antepassados.
3 Alexandro: Alexandre,
o Grande.
4 Peleja: guerra.
5 Numerosos: melodiosos.
6 Milcíades, famosos, Temístocles:
oficiais e políticos gregos.
7 Dões: dons.
8 Lira Mantuana: as poesias de
Virgílio.
9 Cipiões, Césares, Alexandros, e
dá Augustos: Públio Cornélio
Cipião, vencedor de Zama (em
202 a.C.); Públio Cornélio
Cipião Emiliano, vencedor de
Cartago (em 146); Augusto,
o célebre imperador romano;
Alexandre, o grande conquis-
tador.
10 Octávio: Otávio, o imperador
Caio Júlio César Otaviano, que
compôs versos.
11 Doutos e venustos: graciosos (de
Vénus).
12 António: António deixou
Fúlvia por Glafira, situação
referida num epigrama, de
Otaviano Augusto.
13 v. 2 (est. 96): durante as
campanhas da Gália, César ia
compondo uma obra filosófica:
De Analogia.
14 v. 6: que tinha grande expe-
riência de comédias, pois se diz
que Cipião ajudava Terêncio a
escrevê-las.
15 vv. 7-8 (est. 96): Alexandre lia
Homero.
16 Da Lácia: do Lácio, Roma.
17 Na: a.
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2;
16.1; 16.2.
Gramática
17.3; 18.3; 18.4; 18.5; 19.6.
Oralidade
3.1; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3; 6.1;
6.2; 6.3.
MC
234 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
98
Por isso, e não por falta de natura18
,
Não há também Virgílios nem Homeros19
;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Eneias nem Aquiles20
feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez e tão austeros,
Tão rudos e de engenho tão remisso21
,
Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.
99
Às Musas agardeça o nosso Gama
O muito amor da pátria, que as obriga
A dar aos seus22
, na lira, nome e fama
De toda a ilustre e bélica fadiga;
Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Calíope não tem por tão amiga
Nem as filhas do Tejo23
, que deixassem
As telas d’ ouro fino e que o cantassem.
100
Porque o amor fraterno e puro gosto
De dar a todo o Lusitano feito
Seu louvor, é somente o pros[s]uposto24
Das Tágides gentis, e seu respeito.
Porém não deixe, enfim, de ter disposto
Ninguém a grandes obras sempre o peito:
Que, por esta ou por outra qualquer via,
Não perderá seu preço e sua valia.
Luís de Camões, op. cit., pp. 236-238
1. Relaciona a exclamação inicial «Quão doce é o louvor e a justa glória / Dos próprios fei-
tos, quando são soados!» (est. 92, vv. 1-2) com o conteúdo global do canto e os elogios
ao rei de Melinde. Consulta o resumo do canto apresentado na p. 220.
2. Refere a atitude dos heróis clássicos e a de Vasco Gama em relação à poesia (ests. 93 e 94).
Transcreve os versos que indicam a opinião do poeta relativamente a quem é mais digno de
ser exaltado em verso.
3. Compara a importância dada à cultura pelos guerreiros da Antiguidade Clássica com a
concedida pelos heróis portugueses (ests. 95 a 98). Regista as tuas conclusões.
4. Explicita o sentido dos versos 1-4 da estância 99.
5. Atenta na estância 94. Transcreve dois exemplos de personificação e refere a sua
expressividade.
6. Partindo do último verso da estância 97, «Porque quem não sabe arte, não na estima»,
sintetiza a crítica contida nesta reflexão.
18 Natura: de qualidades natu-
rais.
19 Virgílios nem Homeros: poetas
da Antiguidade Clássica.
20 Pios Eneias nem Aquiles:
Aquiles, herói de Ilíada, de
Homero, e Eneias, herói da
Eneida, de Virgílio.
21 Remisso: desleixado.
22 Seus: aos portugueses heroicos.
23 As filhas do Tejo: Tágides,
consideradas irmãs dos portu-
gueses.
24 Pros[s]uposto: desígnio.
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.Nocantoreferem-seosobstáculos
que os portugueses tiveram de
7@8D7@F3D @3 H;397? 3F| $7;@67
sobretudo os fenómenos natu-
rais (fogo de Santelmo e Tromba
$3D€F;?37A5A@8DA@FA5A?Ai63-
mastor. Em fim de canto, com esta
exclamação, o poeta congratula-
E75A?AAGHAD6AD7;67$7;@67
dizendo que os heróis merecem e
gostam de ser louvados pelos seus
feitoshonestos.
2. Apesar de todos os grandes he-
róis apreciarem ser louvados em
H7DEA7EF B3D3ABA7F3-3E5A
da Gama, após ter narrado os seus
triunfos (e dos portugueses), ainda
é mais merecedor de ser «cantado»
7EF HH   
3. Os heróis clássicos eram exce-
lentes guerreiros e cultos, valo-
rizando a literatura («não houve
8ADF7 3B;FyA  (G7 @yA 8AEE7
também douto e ciente¥ 7EF  
HH    %A 7@F3@FA 7 3?7@F3-
velmente na opinião do poeta, os
heróis portugueses não dão im-
BADFv@5;3u5GFGD3¤3H7@FGD3 +yA
tEB7DAEAE87L7FyA3GEF7DAE +yA
DG6AE7677@97@:AFyAD7?;EEA 
Que a muitos lhe dá pouco ou nada
disso¥7EF HH  
4. O poeta refere-se ao facto de
Gama estar a ser louvado pelas
¤$GE3E¥;EFA|D787D7 E7uEG3BD†-
priaobra,OsLusíadas,queodestaca
enquanto herói nacional. Logo, deve
estar agradecido, porque nem todos
osheróistêmesseprivilégio.
5.«mundocanta»e«Terraespanta».
EnfatizamaglóriaeafamadeVasco
daGama.
6. )7º7F7 EA4D7 3 ;9@ADv@5;3 6AE
portugueses (mesmo dos líderes)
que, por desconhecimento cultural,
desprezam as artes, não as incenti-
vando.
235
Os Lusíadas: Canto V
GRAMÁTICA
Para responderes aos itens 1.1 a 1.4, seleciona a opção que te permite obter afirmações
corretas.
1.1 Nos versos «essas navegações que o mundo canta / Não merecem tamanha glória
e fama / Como a sua» (est. 94, vv. 2-4) estão presentes
(A) uma oração substantiva completiva e uma oração adverbial causal.
(B) uma oração adjetiva relativa restritiva e uma oração adverbial comparativa.
(C) uma oração adjetiva relativa explicativa e uma oração adverbial comparativa.
(D) uma oração substantiva relativa sem antecedente e uma oração adverbial com-
parativa.
1.2 O referente do pronome pessoal «os» (est. 95, v. 4) é
(A) «versos doutos e venustos».
(B) «duros e robustos».
(C) «dões».
(D) «Cipiões, Césares, Alexandros, e dá Augustos».
1.3 A palavra «venustos» (est. 95, v. 6) é formada por
(A) conversão.
(B) derivação por prefixação.
(C) derivação por sufixação.
(D) amálgama.
1.4 Ao compararmos as formas «agardeça» (est.99, v.1) e «agradeça» observarmos
um fenómeno de:
(A) prótese.
(B) metátese.
(C) aférese.
(D) dissimilação.
ORALIDADE
Apreciação crítica
1. Lê o seguinte excerto do livro de Rui Zink, Anibaleitor, uma maravilhosa lição de lei-
tura, que a crítica considerou uma parábola sobre o mundo de hoje.
Anibaleitor
«Foste magnífico, grumete1
, e por isso serás recompensado. Se não fosses tu, tería-
mos de dar meia-volta e regressar a casa de mãos vazias. Assim, graças a ti, podemos
continuar a nossa aventura.» […]
Sobre a mesa, ao lado de uma travessa com cebolas, estava – aberto – o mapa.
«Sabes ler, grumete?»
Eu fiz que sim. Sabia ler maizoumenos, mas isso não lhe disse. […]
[Comecei a ler o mapa curtido em pele humana:]
Selerdesestemaba,ésinalqueencontrásteisocabinhoparaatocadeumestranhoanibal,
aoqualdouonobedeAnibalLeitor.OAnibalLeitoréumbichobedonhoquetemcobobrin-
cibalqualidadeobíciodeler…Lêbuito,sóobíciodelersuberaoabetitedoAnibalLeitor.
«Então? Conseguiste ler?»
«Sim, mas custa um bocado.»
5
10
1 Grumete: marinheiro que
tem na armada a gradua-
ção mais inferior.
Fonética e fonologia
p. 38
FI
Coordenação
e subordinação
p. 327-328
SIGA
PROFESSOR
Gramática
1.1(B);1.2(D);1.3(C);1.4(B);
236 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
«Por causa dos bês, não é?» […]
«Não sei», confessei, sentindo-me estúpido. «Parece português, mas
é um bocado esquisito. Talvez por ser escrita antiga…»
«Antiga uma ova. A única coisa que acontece é: o homem que escreveu
isto… estaba consdipado!» […]
E entendi, então, o autor do mapa estava simplesmente constipado. […]
«T-tu… Tu és o Anibaleitor?»
A desmesurada criatura fez que sim com a cabeçorra. […]
«Tu… Tu conheces a Bíblia?»
«Claro que conheço. Um livro bem giro, por acaso, cheio de ação
e aventura.» O colosso franziu a testa. «Tu não?»
«Sim… Não… Quero dizer, conheço, mas não conheço.»
«Mau. Leste ou não leste?»
«Ler, ler, não.» […]
«Não faço menos que os outros. Agora já quase ninguém lê.» […]
«Não leem? Então o que fazem? Como passam o tempo?»
«Bem, dão muitos desafios na televisão. Por causa do campeonato. […]
E há os concursos. E as novelas…» […]
«Tu… Tu comes mesmo pessoas?»
A criatura fez um ar modesto:
«Bem, que posso dizer? Sou um freguês de muito alimento.»
«A sério? Comes mesmo?»
«Gosto muito sobretudo de língua portuguesa…»
Rui Zink, Anibaleitor, Lisboa, Teorema, 2010,
pp. 30-34, 44-48, 52
(texto adaptado)
2. Tal como Camões, também Rui Zink critica o pouco interesse dos portugueses pela
cultura e pela literatura em particular. Planifica uma apreciação crítica, entre dois e
quatro minutos, na qual te refiras aos seguintes tópicos:
tdescrição dos excertos de Anibaleitor (género literário e temas tratados);
tparábola apresentada;
tcomparação com as reflexões de Camões;
tcomentário crítico sobre a atualidade das apreciações críticas.
Produz um texto linguisticamente correto, com diversificação de vocabulário.
Não te esqueças de respeitar o princípio de cortesia e de utilizar adequadamente
recursos verbais e não verbais (por exemplo, postura, tom de voz, articulação, ritmo,
entoação e expressividade; uso adequado de ferramentas tecnológicas de suporte à
intervenção oral).
15
20
25
30
35
DA
Apreciação crítica
p. 312
SIGA
PROFESSOR
Oralidade
– Narrativo, literatura fantástica;
crítica à falta de valor atribuído à
culturaeàleitura;
– simbolicamente,oAnibaleitor«ali-
menta-se» de livros, represen-
tando o «bicho» raro que gosta de
ler,aocontráriodetodososoutros;
– ambos os autores refletem sobre
a pouca consideração dada à cul-
tura, em geral, e à literatura, em
particular;
– atualmente essa desvalorização
ainda se verifica na pouca aten-
ção dada aos escritores e às suas
obras, no pouco investimento na
5GFGD3¦
237
Os Lusíadas: Canto VII
1 Um ramo na mão tinha:
refere-se a Luso.
2 Cometo: atrevo.
3 Mavórcios: guerreiros (de
Marte).
4 Cánace: filha de Éolo.
Suicidou-se a conselho
do próprio pai, por ter
cometido incesto com um
irmão. Quando estava para
fazê-lo escreve uma carta
«com a pena na mão direita
e a espada desembainhada na
outra».
5 Agora: ora.
6 Hospícios: referência ao seu
naufrágio no mar da China
pelos fins de 1558.
7 Costas: terras alheias.
8 Rei Judaico: Ezequias, rei
de Judá, sabendo por Isaías
que ia morrer, rogou a Deus
mais quinze anos de vida
(compara a sua salvação ao
milagre bíblico).
9 Tornassem: retribuíssem.
10 Capelas de louro: coroas de
louro concedidas a poetas ou
heróis.
11 Espertar: incentivar.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Ninfas do Tejo e do Mondego
Reflexões do poeta
78
Um ramo na mão tinha...1
Mas, ó cego,
Eu, que cometo2
, insano e temerário,
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Por caminho tão árduo, longo e vário!
Vosso favor invoco, que navego
Por alto mar, com vento tão contrário
Que, se não me ajudais, hei grande medo
Que o meu fraco batel se alague cedo.
79
Olhai que há tanto tempo que, cantando
O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
A Fortuna me traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo e novos danos:
Agora o mar, agora experimentando
Os perigos Mavórcios3
inumanos,
Qual Cánace4
, que à morte se condena,
Nùa mão sempre a espada e noutra a pena;
80
Agora5
, com pobreza avorrecida,
Por hospícios6
alheios degradado;
Agora, da esperança já adquirida,
De novo mais que nunca derribado;
Agora às costas7
escapando a vida,
Que dum fio pendia tão delgado
Que não menos milagre foi salvar-se
Que pera o Rei Judaico8
acrecentar-se.
81
E ainda, Ninfas minhas, não bastava
Que tamanhas misérias me cercassem,
Senão que aqueles que eu cantando andava
Tal prémio de meus versos me tornassem9
:
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro10
que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tão duro estado me deitaram.
82
Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valerosos,
Que assi sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Pera espertar11
engenhos curiosos,
Pera porem as cousas em memória
Que merecerem ter eterna glória!
83
Pois logo, em tantos males, é forçado
Que só vosso favor me não faleça,
Principalmente aqui, que sou chegado
Onde feitos diversos engrandeça:
Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado
Que não no empregue em quem o não mereça,
Nem por lisonja louve algum subido,
Sob pena de não ser agradecido.
John William Waterhouse, Hilas e as ninfas, 1986.
CD 1
Faixa n.o
37
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.5; 14.6; 14.7;
14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 15.3;
16.1.
Oralidade
1.1; 2.1; 3.2; 4.2; 5.2; 5.3; 6.1;
6.2; 6.3.
MC
238 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
1. O excerto do canto VII pode ser dividido em partes. Delimita-as e identifica o assunto
tratado em cada uma delas.
2. Menciona um dos valores expressivos da anáfora «Agora» (ests. 79-80).
3. Apresenta três características que sustentem o perfil de quem não merece ser objeto do
canto épico.
4. Atenta, agora, na última estância. Descreve o objeto digno do canto épico.
5. Explicita as críticas feitas e apresenta a tua opinião acerca da sua atualidade.
Prova escrita de Português, 12.º ano de escolaridade
– 1.ª fase, IAVE, 2006, p. 3
ORALIDADE
Síntese
Visiona a reportagem Uma geração (des)interessada
pela política nacional, da autoria de Teresa Camarão,
que apresenta a opinião de três jovens sobre a forma
como se relacionam com a política.
Toma as notas que considerares necessárias.
Seguidamente, organiza-as e planifica o teu texto de
modo a produzires uma síntese oral, de um a três
minutos, para partilhares com os teus colegas.
84
Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse
A quem ao bem comum e do seu Rei
Antepuser seu próprio interesse,
Imigo12
da divina e humana Lei.
Nenhum ambicioso que quisesse
Subir a grandes cargos, cantarei,
Só por poder com torpes13
exercícios
Usar mais largamente de seus vícios;
85
Nenhum que use de seu poder bastante
Pera servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante14
,
Se muda em mais figuras que Proteio15
.
Nem, Camenas16
, também cuideis que cante
Quem, com hábito honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei, no ofício novo,
A despir e roubar o pobre povo!
86
Nem quem acha que é justo e que é direito
Guardar-se a lei do Rei severamente,
E não acha que é justo e bom respeito
Que se pague o suor da servil gente;
Nem quem sempre, com pouco experto peito,
Razões aprende, e cuida que é prudente17
,
Pera taxar, com mão rapace18
e escassa,
Os trabalhos alheios que não passa.
87
Aqueles sós19
direi que aventuraram
Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,
Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,
Tão bem de suas obras merecida.
Apolo e as Musas, que me acompanharam,
Me dobrarão a fúria20
concedida,
Enquanto eu tomo alento, descansado,
Por tornar ao trabalho, mais folgado.
Luís de Camões, op. cit.,
pp. 319-321
12 Imigo: inimigo.
13 Torpes: atos vergonhosos.
14 Errante: inconstante.
15 Proteio: Proteu, que se
disfarçava.
16 Camenas: musas.
17 Prudente: competente.
18 Rapace: de rapina.
19 Aqueles sós: só.
20 Fúria: inspiração.
Síntese
p. 313
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.;H;67 E77?6G3EB3DF7E1.a
parte:
7EFE  ¬;@HA53{yA7636AE3GFA-
biográficos; 2.a
parte7EFE  ¬
objetodocantoépico.
2. 'AD 7J7?BA 3 CG3@F;6367 7
variedade de experiências negati-
vas vivenciadas; a diversidade de
5;D5G@EFv@5;3EFDt9;53E3E8G93L7E
7EB7D3@{3E¦
3. Quem põe os seus interesses e
ambições pessoais à frente dos do
reino; quem infringe as leis do cato-
licismo ou direito humano; quem
roubaeexploraopovo,nãopagandoo
justo salário e cobrando-lhes dema-
siadosimpostos...
4. O herói digno de ser louvado é
aquele que arriscou a sua vida por
Deus pelo seu rei e que se torna
imortalpelosseusfeitos.
5. As críticas apontam o dedo aos
portugueses que não reconhecem o
talento, mas sobretudo aos ricos e
poderososqueexercemaltoscargos
para seu próprio benefício e explo-
ram os mais fracos. Ainda hoje estas
críticassãoatuais(darexemplos).
Oralidade
„ JOTSPEUkiP ;@F7DH7@;7@F7E ¬ *€-
H;3i7J3@6D7$;9G7D3937 @~E
*G4F;
“ desenvolvimento F7?3 ¬ A CG7
perguntariaaospolíticos;
“;67;3E 5:3H7*€H;3¬ACG7|CG7
esperam os políticos conseguir
comasmedidasqueestãoatomar,
deveriam consultar as pessoas;
$;9G7¬CG7DG?ACG7D7?63D3A
país; Inês – não tem grande inte-
resse em falar com os políticos;
mesmoassim,dir-lhes-iaquedeve-
riamserviropovoenãoospróprios
interesses;
“conclusão;@E3F;E83{yAB7D3@F73
classepolítica.
▪ Vídeo Uma geração (des)interes-
sada pela política nacional.
239
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
3
Arcaísmo e neologismo
Arcaísmo – Palavra ou construção cujo uso é considerado antiquado pela comuni-
dade linguística1
.
Neologismo – Palavra cujo significante ou cuja relação significante-significado era
inexistente num estádio de língua anterior ao da sua atestação1
.
A identificação de arcaísmo ou de neologismo depende do contexto histórico-lin-
guístico.
Os neologismos surgem, sobretudo, nas áreas científicas, técnicas e artísticas, em
grande medida pela necessidade de nomear novas realidades. Exemplos: «googlar»,
«abensonhadas» (Mia Couto), «bué» (muito) e «cota» (adulto).
Arcaísmos e neologismos no tempo de Camões
Arcaísmos:
t
BCVOEBN OB MÓOHVB EF $BNÜFT 5SBUBTF EF GPSNBT UÓQJDBT EB
gramática do português medieval que perduram, mas não aparecem
como dominantes; são escolhas redacionais ou estilísticas.
Exemplos*: contino (contínuo), despois, dina, dões,
dous, enveja, milhor e u
~a.
Neologismos (camonismos):
t
BHSBOEFGPOUFEBJOWFOUJWBMJOHVÓTUJDBEF$BNÜFTFODPOUSBTFOP
latim, o que se explica inserindo-se o autor na corrente literária do seu
tempo – Classicismo –, cujo objetivo é revitalizar os valores culturais
da Antiguidade Clássica grega e latina, entre os quais a língua. Assim,
alguns camonismos são autênticos decalques de palavras latinas.
Exemplos: exício (mortandade, ruína), argento (pra-
ta; mar), plaga (país, região; certo tom musical).
Camonismos cultos:
t
UFSNPT TFOUJEPT DPNP DVMUPT F IFSNÏUJDPT  UBOUP QFMP MFJUPS EF
Quinhentos, como pelo do século XXI.
Exemplos: cerúleo (azul), estelante (estrelado).
Camonismos integrados:
t
QFSGFJUBNFOUFJOUFHSBEPTOBMÓOHVB EFUBMGPSNBRVFOFNQBSFDFN
termos cultos ou literários.
Exemplos: canoro (sonoro, harmonioso), cógnito,
devastador (assolar, danificar), etéreo (celestial),
fulgente (brilhante), grandíloquo (que fala
grandezas), meta (término ou baliza), régio (real),
rotundo (redondo).
Ivo Castro, «Língua de Camões», in Vítor Aguiar e Silva (coord.),
Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 461-469
(texto adaptado)
CONSOLIDA
1. Distingue arcaísmo de neologismo, usando palavras tuas.
2. Explica a entrada abundante de neologismos, provenientes do latim, na época de
Camões.
3. Define, por palavras tuas, «camonismo integrado» e «camonismo culto».
*Apenas se selecionaram as palavras que constam nos excertos em estudo.
1 Dicionário Terminológico,
disponível em http://dt.dgidc.
min-edu.pt, consultado em
março de 2015
PROFESSOR
Gramática
19.1; 19.2.
MC
Consolida
1.Arcaísmoéumapalavraouconstrução
que deixou de se utilizar na linguagem
corrente, enquanto neologismo refere
o aparecimento de uma nova palavra ou
o desenvolvimento de uma nova relação
entreosignificanteeosignificado.
2. No tempo de Camões houve muitas
palavras novas que entraram na língua
decalcadas do latim, porque os autores
clássicos queriam fazer renascer a cul-
tura da Antiguidade Clássica, nomeada-
mentealíngualatina.
3.Camonismointegradoéumvocábulo
que, aparecendo como inovação nos
textos de Camões, faz atualmente parte
do português corrente; opostamente,
camonismo culto é uma palavra, igual-
mente criada por Camões, que não che-
gou a difundir-se na língua portuguesa,
sendodedifícilentendimento.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
3
240 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
PONTO DE PARTIDA
1. Expressa o teu ponto de vista sobre as citações de várias personalidades famosas e fun-
damenta-o.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
O poder corruptor do dinheiro
Reflexões do poeta
96
Nas naus estar se deixa, vagaroso,
Até ver o que o tempo lhe1
descobre;
Que não se fia já do cobiçoso
Regedor, corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse e sede imiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.
97
A Polidoro2
mata o Rei Treício,
Só por ficar senhor do grão tesouro;
Entra, pelo fortíssimo edifício,
Com a filha de Acriso3
a chuva d’ ouro;
Pode tanto em Tarpeia4
avaro vício
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quási afogada em pago morre.
98
Este rende munidas fortalezas;
Faz trédoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências.
99
Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor5
, contudo, de virtude!
Luís de Camões, op. cit., p. 365
1 Lhe: a Vasco da Gama.
2 Polidoro: Príamo, rei de Troia,
confiou seu filho Polidoro a
Polimnestor, rei da Trácia (o rei
Treício). Depois da queda de
Troia, Polimnestor, para se apo-
derar do oiro, que teria vindo
com o filho de Príamo, matou
Polidoro e atirou o cadáver dele
ao mar.
3 Acriso: Acrísio, pai de Dánae,
fechou a sua filha numa torre
de bronze para impedir o
cumprimento da profecia de que
seria morto pelo filho que dela
nascesse. Mas Júpiter entrou na
torre sob a forma de uma chuva
de oiro e tornou Dánae mãe de
Perseu, que mais tarde veio a
matar Acrísio.
4 Tarpeia: Tarpeia, filha de
Spurius Tarpeius, entregou a
cidadela de Roma (o Capitólio)
aos Sabinos sob promessa de
eles lhe darem o que traziam
no braço esquerdo (bracelete
de oiro). Tácio, rei dos Sabinos,
consentiu, mas, ao entrar na
cidadela, atirou-lhe não só a bra-
celete, mas o escudo que tinha
no mesmo braço. Os soldados
fizeram o mesmo e Tarpeia ficou
esmagada.
5 Sem cor: disfarçado.
Giovanni Battista Tiepolo, Júpiter e Dánae, 1736.
«Oqueodinheiro
fazpornósnão
compensaoque
fazemosporele.»
Gustave Flaubert
(1821-1880)
«Hámuitascoisasna
vidamaisimportantes
queodinheiro.Mas
custamumdinheirão!»
Groucho Marx
(1890-1977)
«Quandoeuerajovem,
pensavaqueodinheiro
eraacoisamais
importantedomundo.
Hoje,tenhoacerteza.»
Oscar Wilde
(1854-1900)
«Sequeressabero
valordodinheiro,
tentapedi-lo
emprestado.»
Benjamin Franklin
(1706-1790)
PROFESSOR
Leitura
9.1.
Oralidade
4.1; 4.2; 5.1; 5.3.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.5; 14.6; 14.7;
14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 15.3;
16.1.
Escrita
10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2;
12.3; 12.4; 12.5; 13.1.
MC
241
Os Lusíadas: Canto VIII
1. Atenta nos quatro primeiros versos da estância 96. Justifica a atitude de Vasco da
Gama, tendo em conta os acontecimentos anteriores (consulta o quadro-resumo dos
cantos, p. 221).
2. Identifica a estância que corresponde às sínteses apresentadas.
a) O poder corruptor do dinheiro: na amizade, na fidelidade, na integridade. Os bens
materiais são mais fortes do que os valores morais de cada um.
b) O poeta exemplifica como a ambição pode corromper os mais poderosos: no Direito,
na Monarquia e, até, no Clero.
c) O poeta dá exemplos de histórias trágicas da Antiguidade Clássica, para demonstrar
que o «vil metal» leva a cometer, desde sempre, as maiores atrocidades.
d) O poder do dinheiro tanto corrompe pobres como ricos.
3. Esclarece a interdependência entre o plano das reflexões do poeta e o da viagem.
4. Identifica os recursos expressivos presentes nos seguintes versos:
a) «Quanto no rico, assi como no pobre» (est. 96, v. 6)
b) «A Polidoro mata o Rei Treício» (est. 97, v. 1)
c) «Que a troco do metal luzente e louro» (est. 97, v.6)
d) «Este rende munidas fortalezas; […] Este a mais nobres faz fazer vilezas […]
(est. 98, vv. 1, 3)
e) «E mil vezes tiranos torna os Reis» (est. 99 v. 4)
5. Relaciona o excerto do canto VIII em análise com a atualidade e conclui se as críticas
apresentadas pelo poeta ainda são válidas.
ESCRITA
Apreciação crítica
Redige uma apreciação crítica sobre
o cartoon de Luís Afonso, seguindo o
plano de texto.
Introdução:
1.º parágrafo – descrição sucinta e
objetiva do cartoon.
Desenvolvimento:
2.º parágrafo – tema da conversa;
3.º parágrafo – domínios em que há
corrupção;
4.º parágrafo – ironia presente no car-
toon.
Conclusão:
5.º parágrafo – comentário crítico sobre o cartoon.
No final, revê o teu texto para garantir a sua correção.
Cartoon de Luís Afonso, in Sábado, n.º 295,
23 de dezembro de 2009.
Apreciação crítica
p. 312
SIGA
Recursos expressivos
p. 334-335
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. Vasco da Gama tem uma atitude
de desconfiança para com o ganan-
cioso Catual, preferindo esperar que
se desvende toda a verdade, sem
desembarcar. Tal comportamento
deve-se ao facto de já ter sido preso
e obrigado a ceder bens materiais, a
trocodasualiberdade.
2.a.b.c.d.
3. As reflexões sobre o poder cor-
ruptor do dinheiro vêm a propósito
6AB3@A63H;397?3;47D636767
Vasco da Gama foi conseguida ape-
nas mediante o pagamento de um
resgaste.
4. a)5A?B3D3{yA 3@F€F7E7b) anás-
trofe;c)metáfora;d)anáfora.
5.
Sugestão+7?33;@633FG343EF3
estar atento à comunicação social
para observarmos casos de corrup-
ção em todas as áreas (dar exs.), o
que reforça a intemporalidade das
reflexõesdeCamões.
Escrita
Tópicosdedesenvolvimento:
– um repórter a entrevistar o Pai
Natal;
– a corrupção e formas de «premiar»
osinfratores;
¬43@53A4D3EB‹4;53E8GF74A¦
– tradicionalmente, o Pai Natal ape-
nas traz presentes uma vez por
ano, para aqueles que se portaram
bem durante todo o ano; daí a iro-
nia;
– satiriza-se o facto de a corrupção
estar tão enraizada culturalmente
nanossasociedade,queoPaiNatal
se sente vítima de concorrência
desleal por parte de quem «pre-
meia»osinfratores.
242 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
FICHA INFORMATIVA N.O
4
Reflexões do poeta
N’Os Lusíadas, mais de uma vez [e sobretudo em final de canto] […] esquecemos
os heróis e é no poeta que atentamos, [aconselhando-se] a si próprio, lamentando-se,
ou com desassombro fustigando os epígones1
dos heróis. […] Tudo isto nos permite,
no poema, conviver, a espaços, não apenas com o espírito altíssimo do poeta, senão
também com a concreta realidade do homem, do cristão e do português, nos seus
momentos de confiança exaltante e de profunda depressão melancólica, no orgulho do
passado, na evocação de cujas glórias encontrava o estímulo, não tanto para a evasão da
austera, apagada e vil tristeza do presente, como para a forte, oportuna, desassombrada
lição com que escarmenta2
os descendentes dos heróis.
Hernâni Cidade, Luís de Camões – O épico, 2.ª edição, Lisboa, Editorial Presença, 1995, pp. 170 e 172
(texto adaptado)
Canto I – A fragilidade humana e outros temas intemporais
Os valores do Humanismo, a fé afirmada no homem e nas suas extraordinárias
capacidades, fazem desta epopeia, sem dúvida, um poema renascentista. Porém,
simultaneamente, manifesta-se um outro espírito – duvidoso, inseguro, consciente
da fragilidade humana: o espírito antiépico. […]
[De facto, Camões] vivia já numa outra época, em que os problemas da extensão
demasiada do Império se tornam irresolúveis e avultam os vícios e a decadência. […]
A vida no Oriente «é um quadro de decadência deplorável, de indisciplina e de
corrupção: abusos de toda a ordem dos governadores, dos capitães, dos vedores da
fazenda; as armadas são preparadas com desleixo; domina o desperdício na gestão
dos dinheiros públicos; o suborno; […] os criminosos […] ficam impunes; não se faz
justiça porque os cargos são vendidos […]. [(ver canto VIII, ests. 96 a 99.)]
Maria Vitalina Leal de Matos, «Os Lusíadas», in Vítor Aguiar e Silva (coord.),
op.cit., pp. 495-497 (texto adaptado)
Canto V – As armas e as letras
Toda a epopeia camoniana pode ser lida como a defesa de um valor que o poeta
não se cansa de apontar: a conciliação das armas e das letras, topos que vinha da mais
recuada Antiguidade, mas que ganhava especial atualidade, num momento em que a
grande e a pequena aristocracia, absorvida com o comércio resultante da expansão,
e desejosa de enriquecer rapidamente, manifestava desinteresse por se cultivar e por
apoiar as artes [...].
[…] Trata-se de um discurso de grande vigor oratório, que pretende justamente
envergonhar os destinatários, estabelecendo um paralelismo antitético entre os portu-
gueses e os outros povos, que prezam o paradigma do herói letrado, personificado por
César. […] Mas a cultura, o amor das artes exigem tempo, comunidade e gerações.
Idem, ibidem, p. 494 (texto adaptado)
Fac-símile da primeira página
do fólio da 1.ª edição de Os
Lusíadas, 1572.
1 Epígones: geração anterior.
2 Escarmenta: repreende,
critica.
5
10
5
10
5
243
Ficha informativa
Canto VII – Invocação e lamentação do poeta
[Além dos traços autobiográficos e do ideal de] conciliação [entre] as armas e as
letras […], «Nùa mão sempre a espada e noutra a pena» (Os Lusíadas, VII.79), em
momentos de balanço, […] a cólera perante a ingratidão d’«aqueles que eu cantando
andava», a «pobreza avorrecida», as «tamanhas misérias», os «trabalhos nunca usa-
dos» que lhe impuseram enfraquecem de tal forma a inspiração que, para continuar,
tem de pedir novo favor às Musas. A paragem, e a avaliação que faz daqueles que são
objeto do canto, leva-o a estabelecer um critério de seleção dos protagonistas: «[...]
que eu tenho já jurado / Que não no empregue em quem o não mereça» (Os Lusíadas,
VII.83). E, assim, a relação entre o canto e a gente, que se estabelecera na primeira
invocação (I.5) inverte-se: não é o valor da gente que determina o canto digno dele;
é, pelo contrário, o valor do canto que não deve admitir «quem o não mereça».
Idem, ibidem, p. 495 (texto adaptado)
Canto VIII – O poder corruptor do dinheiro
Vasco da Gama fica retido, na Índia, pelo Catual e só é libertado a troco de
«fazenda» (produtos ou dinheiro). A propósito deste e outros factos, Camões apro-
veita para fazer uma série de reflexões sobre o poder do dinheiro, insistentemente
animizado e criticado através da anáfora repetitiva «este», que ocasiona mortes, adul-
térios, traições, perjúrios, raptos, justiça corrupta, inimizades, tiranias, etc.
J. Oliveira Macêdo, Sob o signo do Império, Porto, Edições Asa, 2002, p. 187
CONSOLIDA
1. Partindo da leitura do texto sobre as reflexões do poeta no canto I, indica se as afirma-
ções são verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as falsas.
a) Os Lusíadas são uma obra épica, pois valoriza a grandeza do Homem e, em simultâ-
neo, é antiépica, quando denuncia as suas fraquezas.
b) A irresolução de problemas relacionados com a extensão do Império faz emergir nos
portugueses os desgostos e a decadência de vária ordem.
2. Completa as seguintes afirmações sobre os textos relativos às reflexões dos cantos VII
e VIII.
2.1 No final do canto VII, Camões demonstra a sua a) relativamente à ingra-
tidão daqueles que ele b) na sua epopeia e à pobreza, às desgraças e
aos c) «nunca usados» a que o obrigaram.
2.2 Conclui que o seu canto tem grande a) e que, portanto, só deverá lou-
var quem o merece, excluindo algumas personalidades históricas que manifestam
alguns b) .
2.3 No canto VIII, a propósito da libertação de Vasco da Gama, na Índia, e outros acon-
tecimentos, Camões reflete sobre o poder do a) que apenas origina b)
.
5
10
5
PROFESSOR
Leitura
7.1; 7.2; 7.4; 8.1.
Educação Literária
14.3; 15.1; 15.2.
MC
Consolida
1.a)V;b)H€5;AE
2.1 a) cólera; b) AGH3 9AD;¹53 c)
«trabalhos».
2.2a)valor;b)vícios.
2.3a)dinheiro; b)desgraças.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
4
244 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
PONTO DE PARTIDA
1. Ouve a música intitulada «Ilha dos Amores»,
interpretada pela banda Polo Norte.
Regista em tópicos a seguinte informação:
a) características da ilha;
b) sensações que a ilha suscita;
c) relação título/assunto.
Em seguida, partilha-a com os teus colegas.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
A chegada à Ilha dos Amores
Constituição da matéria épica/Mitificação do herói
52
De longe a Ilha viram, fresca e bela,
Que Vénus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada se enxergava;
Que, por que não passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Pera onde as naus navegam a movia
A Acidália1
, que tudo, enfim, podia.
53
Mas firme a fez e imóbil, como2
viu
Que era dos Nautas vista e demandada,
Qual ficou Delos3
, tanto que pariu
Latona Febo e a Deusa à caça usada.
Pera lá logo a proa o mar abriu,
Onde a costa fazia ùa enseada
Curva e quieta, cuja branca areia
Pintou4
de ruivas conchas Citereia5
. […]
66
Mas os fortes mancebos, que na praia
Punham os pés, de terra cobiçosos
(Que não há nenhum deles que não saia),
De acharem caça agreste desejosos,
Não cuidam que, sem laço ou redes, caia
Caça naqueles montes deleitosos,
Tão suave, doméstica e benina6
,
Qual ferida lha tinha já Ericina7
.
67
Alguns, que em espingardas e nas bestas8
Pera ferir os cervos9
, se fiavam,
Pelos sombrios matos e florestas
Determinadamente se lançavam;
Outros, nas sombras, que de as altas sestas10
Defendem a verdura, passeavam
Ao longo da água, que, suave e queda,
Por alvas pedras corre à praia leda11
.
1 Acidália: Vénus.
2 Como: quando.
3 Delos: ilha errante que se tor-
nou firme quando nela Latona
deu à luz Apolo (Febo) e Diana
(deusa da caça).
4 Pintou: matizou.
5 Citereia: Vénus.
6 Benina: benigna.
7 v. 8 (est. 66): Vénus tinha
«ferido» a caça; por isso apre-
sentava-se «suave, doméstica e
benina».
8 Bestas: arcos.
9 Cervos: veados.
10 Altas sestas: calor ardente do
Sol.
11 Leda: alegre.
CD 1
Faixa n.o
38
PROFESSOR
Oralidade
1.1; 1.3; 1.4; 4.1; 5.1; 5.3.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2;
15.3; 16.1; 16.2.
MC
PontodePartida
1.
a) «o tempo parou»; as «cores do
céu», de tão belas, não se conse-
guem reproduzir; rodeada pelo mar;
milcores;vulcãoinativonummonte.
b) Lugar paradisíaco que suscita
calma,harmoniaebeleza.
c)Títulosugerelugaridílicopropício
ao amor («vem comigo» e «leva-me
contigo»).
Link
Ilha dos Amores,
Polo Norte
245
Os Lusíadas: Canto IX
1. Os nautas não encontraram a ilha por acaso. Refere-te ao que aconteceu.
2. Classifica o tipo de paisagem predominante na ilha. Fundamenta a tua resposta com
elementos textuais.
3. Atenta nos versos 5 a 8 da estância 66. Explicita o seu sentido, tendo em conta o con-
texto.
4. O excerto pode ser dividido em duas partes. Identifica o tema dominante da segunda
parte, composta pelas estâncias 66 à 70.
5. Lê o seguinte texto para saberes o que aconteceu quando as ninfas «Se deixam ir dos
galgos alcançando» (est. 70, v. 8).
Muitas cenas de sedução então se deram, e, aos poucos, todas se entregaram aos
portugueses. O que se passou na Ilha durante a manhã, famintos beijos, mimosos
choros, afagos suaves, risinhos alegres, e outras cenas amorosas, melhor é experimen-
tá-lo que julgá-lo, / mas julgue-o quem não pode experimentá-lo…
E assim as Ninfas lhes prometiam, já como esposas, amor eterno, na vida e na
morte. A mais importante de todas, Tétis, que escolhera o Gama, tomou-o pela mão e
levou-o ao cume de um monte, em que havia um edifício todo feito de cristal e ouro,
e aí recebeu como esposo o Capitão; quanto às restantes, recebiam os seus amados
entre sombras e flores e por lá se deixavam ficar quase todo o dia.
Amélia Pinto Pais, Os Lusíadas em prosa, 2.ª edição, Porto, Areal Editores, 1995, p. 68
5.1 Explica a alegoria da Ilha, relacionando-a com a mitificação do herói.
68
Começam de enxergar subitamente,
Por entre verdes ramos, várias cores,
Cores de quem a vista julga e sente
Que não eram das rosas ou das flores,
Mas da lã fina e seda diferente,
Que mais incita a força dos amores,
De que se vestem as humanas rosas12
,
Fazendo-se por arte mais fermosas.
69
Dá Veloso13
, espantado, um grande grito:
– «Senhores, caça estranha (disse) é esta!
Se inda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas é sagrada esta floresta.
Mais descobrimos do que humano esprito
Desejou nunca, e bem se manifesta
Que são grandes as cousas e excelentes
Que o mundo encobre aos homens imprudentes14
.
70
«Sigamos estas Deusas e vejamos
Se fantásticas são, se verdadeiras.»
Isto dito, veloces mais que gamos15
,
Se lançam a correr pelas ribeiras16
.
Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
Mas, mais industriosas que ligeiras17
,
Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos18
alcançando.
Luís de Camões, op. cit., pp. 400 e 403-404
12 Humanas rosas: as mulheres.
13 Veloso: marinheiro da frota de
Gama.
14 Imprudentes: ignorantes.
15 Gamos: mamífero ruminante,
semelhante ao veado.
16 Ribeiras: praias.
17 Mais industriosas que ligeiras:
correndo com habilidade.
18 Galgos: dos nautas.
5
Mitificação do herói
pp. 246-247
FI
Recursos expressivos
pp. 334-335
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. A ilha criada por Vénus era móvel,
eelafoiquemapôsnarotadosnave-
gadores para que a vissem. Quando
isto aconteceu, Vénus fixou-a (ests.
7
2. Locus amoenus @3FGD7L3 473
«fresca e bela¥7EF H ¤montes
deleitosos¥ 7EF   H  ¤verdura»
7EF H
3.Osnautasestavamdesprevenidos
para o tipo de caça que iriam encon-
trar na ilha. Ao invés de animais,
iriam poder «caçar» as ninfas ino-
fensivas («beninas») que foram pre-
viamenteinfligidascomamor(«Qual
ferida lha tinha já Ericina») a mando
deVénuspelofilhoCupido.
4. O espanto dos navegadores pe-
ranteavisãoinesperadadasninfase
aperseguiçãoqueeleslheslançam.
5.1 Esta alegoria, partindo da união
entre humanos e deuses, pretende
simbolizar a divinização dos nautas
(sinédoquedopovoportuguês).
O povo luso é aqui mitificado ao
máximo ao ser exaltado como herói,
a quem é atribuída a recompensa da
imortalidade, característica inerente
apenas aos deuses. A união física
entre deusas e nautas gerará uma
descendênciailustreesobre-humana.
246 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
Mitificação do herói
As estâncias 25 e seguintes do canto IX […] constituem, em
nosso entender, um elemento essencial para a interpretação de
todooepisódio[daIlhadosAmores].Vénus,pretendendorea-
lizar o seu intento de acolher os marinheiros portugueses numa
ilha deleitosa, busca Cupido num promontório de Chipre: Já
sobreosIdáliosMontespende,/Ondeofilhofrecheiroestavaentão
/Ajuntandooutrosmuitos,quepretende/Fazerùafamosaexpe-
dição/ Contra o mundo revelde, por que emende / Erros grandes
que há dias nele estão, / Amando cousas que nos foram dadas, /
Não pera ser amadas, mas usadas. (IX, 25)
Nestaestância,oAmoraparececlaramenteconcebidocomo
força, ou o princípio, que corrige os desvios, erros e vícios per-
turbadoresdaleiquedeveimperarnomundo.Desobedecendo
a essa lei, o mundo rebelde ama «cousas que nos foram dadas,
/ não pera ser amadas, mas usadas»: quer dizer, os homens,
esquecidos do sentido profundo do seu destino, afeiçoam-se
e apegam-se idolatricamente a coisas que deviam ser apenas
meios ou instrumentos, assim subvertendo os valores supre-
mos da criação e assim corrompendo a essência do Amor, cuja
finalidade última consiste em reconduzir os homens até à Uni-
dadeDivinaenãoemdistanciá-losdela.AideiadequeaoAmor
cumpre assegurar a lei e a harmonia inscritas por Deus nos seres
e nas coisas, desempenhando a função de princípio unificador
do universo, é de procedência neoplatónica […].
Ora é o próprio Cupido, o deus que, à frente dos seus exércitos, se preparava para
restituir a lei e a harmonia perdidas pelo «mundo revelde», quem colabora na criação
da Ilha dos Amores, levando a que as ninfas aí acolham os heróis portugueses e lhes
entreguem, em dom amoroso, a sua beleza divina. E é a própria Vénus quem declara a
finalidade e o significado desta doação amorosa, que transcende a simples paga delei-
tosa que caberia, no termo da jornada, a mareantes que, lutando contra as perfídias
FICHA INFORMATIVA N.O
5
Herói: indivíduo notabilizado pelos seus feitos guerreiros, a sua coragem, tenacidade, abne-
gação, magnanimidade, etc.; indivíduo capaz de suportar exemplarmente uma sorte incomum
(p. ex., infortúnios, sofrimentos) ou que arrisca a vida pelo dever ou em benefício de outrem.
Mito: representação de factos e/ou personagens históricos, frequentemente deformados, ampli-
ficados através do imaginário coletivo e de longas tradições literárias orais ou escritas.
Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Lisboa, Temas e Debates, 2005
Rubens, A festa de Vénus,
1630 (pormenor).
5
10
15
20
25
30
247
Ficha informativa
dos deuses e dos homens contra os obstáculos formidandos da natureza, tinham reve-
lado aos outros homens um mundo desconhecido. […] Com efeito, dessa entrega
amorosa das ninfas aos nautas lusíadas, há de nascer uma geração de homens novos,
uma geração que há de enfim instaurar uma ordem nova, servindo de paradigma ao
mundo vil enredado nas malhas do desconcerto […].
Os heróis lusíadas alcançam na Ilha dos Amores o clímax da sua ascensão divinifica-
tória. […] os heróis históricos cantados por Camões, heróis reais de carne e osso e não
fantásticas criaturas […] hão de ascender à condição divina, tal como Júpiter, Febo,
Marte e outros […].
Igualmente o episódio da Ilha dos Amores oferece um significado simbólico rela-
tivamente [à experiência e à observação direta dos fenómenos da natureza], pois ele
representa, também na ordem do conhecimento, o clímax da gesta descobridora de
Portugal. […]
A ascensão divinizadora de Vasco da Gama e dos seus companheiros está cabal-
mente comprovada no especial favor que Deus, fonte de todo o saber, lhes concede:
guiados por Tétis, subirão um monte espesso, recoberto de um mato / árduo, difícil,
duro a humano trato – símbolo do esforço que exige o conhecimento –, de cujo cimo
poderão contemplar o que não pode a vã ciência / dos errados e míseros mortais (X, 76):
a máquina do mundo, descrita de acordo com a conceção ptolemaica. De um saber
de experiência feito, haurido nas mais remotas paragens da terra, ascendiam assim os
nautas lusitanos a uma forma superior de conhecimento, que lhes era propiciada pelo
próprio Criador do Universo. […]
Vítor Aguiar e Silva, «Função e significado do episódio da «Ilha dos Amores» na estrutura de Os Lusíadas»,
in Camões: labirintos e fascínios, Lisboa, Cotovia, 1994, pp. 136-141
(texto adaptado)
CONSOLIDA
1. Refere se as afirmações são verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as falsas.
a) O Amor é um elemento essencial para reconduzir os homens aos princípios criadores
do universo.
b) A divinização ou imortalização dos lusos na Ilha dos Amores é alcançada especial-
mente através da união física dos nautas com as ninfas, que são divinas.
c) Simbolicamente, a entrega das ninfas aos navegadores representa a recompensa
física pela coragem e heroicidade demonstradas na expansão ultramarina.
d) A ilha encerra um segundo significado simbólico, nomeadamente a força humana
que permite ao Homem ver a Máquina do Mundo.
e) Este episódio demonstra que o Homem nem sempre consegue ultrapassar a sua
fraqueza humana.
35
40
45
50
PROFESSOR
Leitura
7.1; 8.1.
Educação Literária
14.3; 15.1; 15.5.
MC
Consolida
1. a) V; b) V; c) D7BD7E7@F3A@3E-
cimento de uma geração que sabe
amar bem, promovendo a harmonia
no universo. d) @A?7363?7@F7A
acesso ao conhecimento que não é
concedido ao homem comum. e) 
apesardasuafraquezahumana,con-
segueatingiraglória,aimortalidade.
PowerPoint
Ficha informativa n.o
5
248 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
A Ilha dos Amores e a imortalidade
Reflexões do poeta
88
Assi a fermosa e a forte companhia1
O dia quási todo estão passando
Nùa alma, doce, incógnita alegria,
Os trabalhos tão longos compensando.
Porque dos feitos grandes, da ousadia
Forte e famosa, o mundo está guardando
O prémio lá no fim, bem merecido,
Com fama grande e nome alto e subido.
89
Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas,
Tétis e a Ilha angélica pintada2
,
Outra cousa não é que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada3
.
Aquelas preminências4
gloriosas,
Os triunfos, a fronte coroada
De palma e louro, a glória e maravilha,
Estes são os deleites desta Ilha.
90
Que as imortalidades que fingia
A antiguidade, que os Ilustres ama,
Lá no estelante Olimpo5
, a quem subia
Sobre as asas ínclitas da Fama,
Por obras valerosas que fazia,
Pelo trabalho imenso que se chama
Caminho da virtude, alto e fragoso,
Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso,
91
Não eram senão prémios que reparte,
Por feitos imortais e soberanos,
O mundo cos varões que esforço e arte
Divinos os fizeram, sendo humanos.
Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
Eneas e Quirino e os dous Tebanos6
,
Ceres, Palas e Juno com Diana,
Todos foram de fraca carne humana.
1 A fermosa e a forte companhia: a
companhia das ninfas (fermosa)
e a dos navegantes (forte).
2 Ilha angélica pintada: represen-
tação, pintura de uma ilha linda,
que lembra um lugar habitado
por anjos.
3 Sublimada: ilustre, célebre.
4 Preminências: distinções, supe-
rioridades, honrarias, louros,
prémios.
5 Estelante Olimpo: na brilhante
morada dos deuses.
6 Dous Tebanos: Hércules e Baco.
François Boucher, O triunfo de Vénus, 1740.
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4, 14.5; 14.6;
14.7; 14.8; 14.9; 14.11; 15.1;
15.2; 15.3; 16.1.
Gramática
18.1.
Oralidade
1.1; 1.2; 1.3; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7;
2.1; 2.2; 3.2; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3.
MC
249
Os Lusíadas: Canto IX
92
Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu7
no Mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses, Imortais,
Indígetes8
, Heróicos e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo9
,
Que o ânimo, de livre, faz escravo.
93
E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente:
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.
94
Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
Queaosgrandesnãodêemodospequenos,
Ou vos vesti nas armas rutilantes10
,
Contra a lei dos imigos Sarracenos11
:
Fareis os Reinos grandes e possantes,
E todos tereis mais e nenhum menos:
Possuireis riquezas merecidas,
Com as honras que ilustram tanto as vidas.
95
E fareis claro12
o Rei que tanto amais,
Agora cos conselhos bem cuidados,
Agora co as espadas, que imortais
Vos farão, como os vossos já passados13
.
Impossibilidades não façais14
,
Quequemquis,semprepôde;enumerados
Sereis entre os Heróis esclarecidos
E nesta «Ilha de Vénus» recebidos.
Luís de Camões, op. cit., pp. 409-410
1. Relê as estâncias 89, 90 e 91. Sintetiza o seu conteúdo.
2. A «Fama» desempenha um papel fundamental no processo da imortalidade.
2.1 Refere três aspetos evidenciados nesse desempenho. Fundamenta a tua resposta
com elementos textuais.
3. Transcreve a apóstrofe presente na estância 92 e indica a intenção do poeta.
4. Indica o modo das seguintes formas verbais. Relaciona o seu respetivo valor expressivo
com os apelos do poeta.
t«Despertai» (est. 92, v. 7); t«dai» (est. 94, v. 1);
t«ponde» (est. 93, v. 1); t«vesti» (est. 94, v. 3).
5. Atenta nas estâncias 94 e 95 e explicita as consequências da adoção dos comporta-
mentos sugeridos.
6. Identifica os planos presentes no excerto e estabelece a sua
interdependência.
7. De forma sucinta, esclarece como a constituição da matéria épica e a reflexão feita pelo
poeta coabitam nestas estâncias.
8. Caracteriza este texto quanto ao género literário a que pertence e procede à sua análise
formal (estrofe, métrica, esquema rimático e tipos de rima).
Prova escrita de Português, 12.º ano de escolaridade – 1.ª fase, IAVE, 2008, p. 3 (adaptado)
7 Lhe deu: lhes deu.
8 Indígetes: divindades primitivas
e nacionais dos Romanos.
9 Ignavo: indolente, preguiçoso.
10 Rutilantes: cintilantes.
11 Sarracenos: inimigos mouros.
12 Claro: ilustre.
13 Já passados: antepassados.
14 Impossibilidades não façais: im-
possibilidades não há para vós.
Imaginário épico /
Reflexões do poeta
pp. 252-253
FI
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. Est. 89i¤ :3¥5A?3E%;@83E
e Tétis) é o prémio, a recompensa
dada aos marinheiros; os «deleites»
são os triunfos, os louros. Est. 90
os prémios concedidos pela Antigui-
dade eram atribuídos a quem fazia o
difícilpercursodavirtude.Est.91AE
deuses não passam de humanos que
praticaram feitos de grande valor,
daíteremrecebidooprémiodaimor-
talidade.
2.1 o 3 ¤3?3¥ CG7 EA4D7 3E EG3E
«asas ínclitas¥7EF  H83LEG4;D
ao «estelante Olimpo¥7EF  H
os varões; «trombeta de obras tais»
7EF H 6t35A@:757DAE¤feitos
imortais e soberanos¥7EF  H7|
ela que atribui os nomes que paten-
F7;3?3;?ADF3;63676AE:G?3@AE
«#:767G@A$G@6A@A?7E_¦a 7
Deuses, Semideuses, Imortais» (est.
HH 
3. «ó vós que as famas estimais¥
H ;@F7DB73{yA6;D7F33AEBADFG-
gueses, alertando-os para o esforço
que necessitam de fazer para des-
pertarem do «ócio ignavo» e perse-
9G;D7?AE7GA47F;HA33?3
4.$A6A;?B7D3F;HA67E7@HAH7?7
completam a exortação começada
@37EF 3BA@F3?3FD3H|E675A@-
selhosenãodeordens)asaçõesprin-
cipais para os que desejam a fama
– despertar do ócio, refrear a cobiça,
aambiçãoeatirania,praticaraigual-
dade e a justiça, defender a fé cristã,
combatendoosmouros.
5. Os reinos serão prósperos, domi-
nando a igualdade; os homens pos-
suirão a riqueza da honra; tornarão
ilustre o seu rei e serão recebidos na
«Ilha de Vénus», ou seja, serão ama-
dos eternamente e ganharão um
estatutoheroicoesobrenatural.
6. E B3@AE EyA 63 H;397? 7EFE 
 63?;FAA9;37EFE 3
7763ED7º7JŠ7E6ABA7F37EFE 
   i B3DF;D 6A 7@5A@FDA 7@FD7
nautas e ninfas na Ilha dos Amores
(planos da viagem e mitológico), o
poeta reflete sobre como o homem
5A?G?BA673F;@9;D3?7E?33?3
eImortalidadequeosnautas.
7. O poeta, na sua reflexão sobre
o modo de atingir a imortalidade,
aborda vários aspetos que consti-
FG7?3?3F|D;3|B;533?;F;¹53{yA
do herói português (imortalidade e
comooimitar);osfeitoshistóricosea
viagem(«trabalhostãolongos»e«dos
feitosgrandes¥7EF 
8. Epopeia; oitavas decassilábicas;
esquema rimático abababcc; rima
cruzadaeemparelhada.
250 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
GRAMÁTICA
Lê o texto seguinte.
CAMÕES E OS DESCOBRIMENTOS
5
10
Camões viveu a fase terminal da expansão
portuguesa e, depois, a da decadência e do des-
moronamento político do seu país. […] Mas, ao
mesmo tempo, Camões viveu um período intelec-
tual singular da história sociocultural, económica
e política de Portugal, da Europa e do Mundo.
Com as navegações, os homens acabavam de
adquirir novas dimensões, muitas vezes contra-
ditórias, para o pensamento, e novos horizontes,
muitas vezes alucinantes, para a sua errância, o
que tornava possível a mistura de vontade e audá-
cia, especulação e riqueza, viagem e perigo, livre-
-arbítrio e fatalismo. Tudo isso os levava a viver
dramaticamente uma época em que os mais escla-
recidos viam a aventura portuguesa como uma
forma de expansão europeia sob o denominador
comum que lhes era possível conceber: a propa-
gação da fé cristã. […]
A ideologia dominante, consciente do alcance
universal das descobertas portuguesas e compa-
rando-as às narrativas fabulosas dos feitos heroicos
da Antiguidade Clássica, concluía pela superiori-
dade das expedições modernas e aspirava a vê-las
cantadas sob o modelo clássico da epopeia, dimen-
são que faltava ainda à glória que tais feitos mere-
ciam e que poderia fazê-la valer em toda a parte.
A viagem de Bartolomeu Dias (passagem do cabo
da Boa Esperança, em 1488), quatro anos antes
de Colombo e muito mais do que a jornada deste,
abriu novas perspetivas para a revolução da noção
de espaço planetário, podendo, por isso, ser jus-
tamente considerada o limiar de uma nova era.
Dez anos depois, a viagem de Vasco da Gama
(1497-1498) tinha sido a que mais radicalmente
contribuíra para a transformação […] da civiliza-
ção europeia e da história do mundo. E houvera
ainda, ao longo de décadas, muitas outras viagens
portuguesas da maior importância. Mas faltava
ainda a dimensão da glorificação pela criação artís-
tica, relativamente aos feitos de que provinha tão
grande transformação e que haviam gerado tão
grande massa de informações acumuladas sobre
os descobrimentos portugueses, informações essas
que todos, príncipes, homens políticos e de ciên-
cia, eclesiásticos e intelectuais, aventureiros, via-
jantes, marinheiros, piratas, diplomatas e espiões,
buscavam avidamente na Europa.
Vasco Graça Moura, «Camões e os Descobrimentos»,
in Oceanos, n.º 10, abril, 1992
(texto adaptado)
Lisboa no século XVI, 2.ª estampa do 5.º volume
da obra Urbium proeciarum mundi theatrum quintum,
de Giorgio Braunio Agrippinate, 1593.
15
20
25
30
35
40
45
251
Os Lusíadas: Canto IX
1. Faz corresponder a cada segmento textual da coluna A um único segmento textual da
coluna B, de modo a obteres afirmações adequadas ao sentido do texto.
Prova escrita de Português, 12.º ano de escolaridade – 1.ª fase,
IAVE, 2010, pp. 4 e 6 (texto adaptado)
ORALIDADE
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1. Na estância 94, Camões diz aos portugueses «Fareis os Reinos grandes e pos-
santes», caso pratiquem a igualdade e lutem contra os mouros. Hoje em dia,
há outros meios para manifestar o orgulho pela pátria e contribuir para o seu
engrandecimento.
1.1 Visiona o anúncio publicitário televisivo, Azeite Gallo-Poema.
Toma notas e responde aos tópicos seguintes:
a) vocábulos e expressões que remetem para a época áurea de Portugal;
b) versos que sugerem o renascimento da glória perdida do país;
c) cinco traços distintivos de Portugal;
d) conjugação/relação da linguagem verbal (música e locução) e não ver-
bal (imagem);
e) três exemplos do uso do presente (construção impessoal) do modo
indicativo, com valor de imperativo;
f) recurso expressivo utilizado que refere o lugar de procedência dos ele-
mentos referidos (com exemplo);
g) eficácia e intenções comunicativas.
A
a) Com o conector «Mas» (l. 3),
b) Ao usar o pronome átono
«os» (l. 13),
c) Ao usar parênteses (ll. 27,
28),
d) Ao mencionar a viagem de
Bartolomeu Dias, de Vasco
da Gama e outras viagens
portuguesas (ll. 26 a 36),
e) Com o advérbio
«avidamente» (l. 47),
B
1) o enunciador constrói uma relação de simultaneidade
com a escrita da epopeia.
2) o enunciador fundamenta a ideia exposta no segundo
parágrafo do texto.
3) o enunciador introduz uma perspetiva de outro autor,
relativamente aos factos apresentados.
4) o enunciador clarifica a referência de uma expressão
nominal.
5) o enunciador desvaloriza a importância dos factos
apresentados.
6) o enunciador introduz uma relação de contraste.
7) o enunciador introduz um modificador.
8) o enunciador retoma um referente expresso na primeira
linha do parágrafo.
PROFESSOR
Gramática
1.a)
b)
c)
d)
e)
Oralidade
1.1 a) «Oceano», «terras desconheci-
das», «glória»; b) «glória em banho-
?3D;3B3D3 HAF3D3GE3DG?6;3¥
c) «fado», «futebol bem jogado»,
«pregão», «poemas, odes e canti-
gas»,«Algarve»,«Alentejo»,«Beiras»,
¤AGDA¥ ¤);43F7A¥ ¤E393? E7 3E
Beiras e desfaz-se em água»; d) rela-
çãodeharmoniaqueconjugaatradi-
ção na música (canção popular), no
produtopublicitado(azeite),notexto
argumentativo com referências a
traçosidentitários(fado,poesia,pre-
9Š7E¦73;?397?6393EFDA@A?;3
tradicional; e) «Pega-se», «juntam-
-se», «Deixa-se», «tapa-se», «Lavam-
E7¥¦ f) ?7FA@€?;3 ¤ E7DH7 E7
3EE;?'ADFG93 5A?ABD3FABD;@5;-
pal»; g) vender o produto e promover
Portugaleassuastradições(gastro-
nomia,cultura).
▪ Vídeo
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«Azeite Galo»
252 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
FICHA INFORMATIVA N.O
6
Imaginário épico / Reflexões do poeta
1. Interdependência dos planos I
Camões, ao propor-se cantar Os Lusíadas, toma a seu cargo materiais avul-
tados: por um lado, a História de Portugal; por outro, o propósito de dar
a conhecer regiões geográficas e povos descobertos; por outro ainda,
as considerações de diversa índole (filosóficas, morais, políticas) que
darão lugar a numerosos discursos. A temática mitológica impõe-
-se como matéria a incluir.
Como se organizam estes materiais? O poeta escolhe um
acontecimento de relevo – a viagem de Vasco da Gama – para
núcleo da ação, a qual, sem ser una, tem, contudo, uma
hierarquia compositiva.
Esta viagem será o fio narrativo que se coloca em pri-
meiro plano, enquanto toda a restante História, anterior
e posterior, passa para segundo plano. Um plano é ligado
ao outro por anacronias, processo pelo qual se interrompe
a ação principal para nela se encaixar um episódio ou uma
narração que não vem na sequência cronológica.
Maria Vitalina Leal de Matos, Tópicos para a leitura de Os Lusíadas,
Lisboa, 2003, p. 103
2. Interdependência dos planos II
Para além da rigorosa seleção dos factos e dos heróis, que, obedecendo a uma con-
ceção própria da História de Portugal, constituiriam, afinal, uma única matéria épica
e um herói coletivo, o recurso à mitologia greco-latina vai permitir-lhe dinamizar e
embelezar a ação através do conflito entre a proteção adjuvante de Vénus e a inimizade
opositoradeBaco.Dessemodo,amitologia,alémdoexcelentecontributoquedápara
a constituição do estilo grandíloquo, conjuga-se intrinsecamente com a História para
alcançar aquela metamorfose, essencial à celebração épica, inerente ao género. […]
Sinal significativo desta múltipla e importantíssima função da mitologia é o facto
de toda a sua organização assentar em três grandes episódios de conteúdo mitológico,
estrategicamente situados no princípio (o Consílio dos Deuses – I. 20-41), no meio
(Adamastor – V. 37-60) e no fim (Ilha dos Amores – IX. 18 – X. 143).
A estrutura profunda do Poema decorre, pois, de uma diegese onde o real humano
vivido se ilumina pelos revérberos de uma mitologia que, criando pela guerra e pelos
trabalhos do mar o sofrimento dos heróis, lhe proporcionará depois uma recompensa
eterna, através da apoteose divinizante do casamento com as Ninfas da Ilha Namorada.
Aníbal Pinto de Castro, «Os Lusíadas», in Biblos – Enciclopédia Verbo das literaturas
de língua portuguesa, vol. 3, Lisboa, Verbo, 1990, pp. 276, 277
William Turner,
Tempestade de neve, 1842.
5
10
5
10
15
15
253
Ficha informativa
3. Interdependência dos planos III
A narração interrompe-se nos cantos antes de alguma narrativa especial ou algum
acontecimento mais importante e interrompe-se para dar lugar a discursos (as conside-
raçõesdopoeta).Sãonumerososestesdiscursosmarginaisànarraçãoemuitodesiguais
em extensão […]. Tendo em conta o relevo destes «discursos» e o seu elevado número,
se considerarmos que é através deles que o poeta veicula a sua principal mensagem
cívica e pedagógica, que é ainda por meio deles que passa a finalidade épica – louvar e
imortalizar os heróis, corrigindo por vezes a justiça mundana; se ligarmos todos estes
fios, convencemo-nos de que as linhas mestras deste poema se situam mais no plano do
discurso e menos no plano da narração.
Maria Vitalina Leal de Matos, op. cit., 2003, p. 103
CONSOLIDA
1. As afirmações que se seguem sistematizam, por parágrafos, a informação essencial
dos textos que acabaste de ler.
1.1 Identifica os textos e respetivos parágrafos.
a) O fio condutor que confere unidade de ação é a viagem
de Vasco da Gama à Índia.
b) A presença divina interage constantemente com
os humanos, ora inspirando, ora punindo, ora
divinizando.
c) As considerações, reflexões, críticas e,
em geral, todas as ideias filosóficas de
Camões assumem especial relevo em Os
Lusíadas.
d) O plano mitológico é um elemento esti-
lístico decorativo, mas também serve o
propósito épico de exaltação dos heróis.
e) Camões tem de articular várias temáti-
cas de diversa índole.
f) Os episódios mitológicos são introduzi-
dos em três pontos fulcrais da obra.
g) Os acontecimentos históricos aparecem em
analepses e prolepses.
Luigi Sabatelli, O Consílio dos Deuses, s/d
(fresco do Palácio Pitti, Florença).
5
PROFESSOR
Leitura
7.3; 8.1.
Educação Literária
14.3; 15.1; 15.2.
MC
Consolida
1.1
a)+7JFA B3Dt9D38A
b)+7JFAB3Dt9D38A
c)+7JFAB3Dt9D38A 
d)+7JFAB3Dt9D38A 
e)+7JFA B3Dt9D38A 
f)+7JFAB3Dt9D38A
g)+7JFA B3Dt9D38A
PowerPoint
Ficha informativa n.o
6
254 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
1. Situa o texto na estrutura interna da obra.
2. Identifica os planos presentes no excerto e explicita a sua interdependência.
3. Atenta no último verso da estância 76.
3.1 Refere a expressividade dos adjetivos utilizados para descrever o caminho até ao
cume da ilha.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
A Máquina do Mundo
Constituição da matéria épica
75
Despois que a corporal necessidade
Se satisfez do mantimento nobre,
E na harmonia e doce suavidade
Viram os altos feitos que descobre1
,
Tétis2
, de graça ornada e gravidade,
Pera que com mais alta glória dobre
As festas deste alegre e claro3
dia,
Pera o felice Gama assi dizia:
76
– «Faz-te mercê, barão, a Sapiência
Suprema4
de, cos olhos corporais,
Veres o que não pode a vã ciência
Dos errados5
e míseros mortais.
Sigue-me firme e forte, com prudência,
Por este monte espesso, tu cos mais.6
»
Assi lhe diz e o guia por um mato
Árduo, difícil, duro a humano trato.
77
Não andam muito que no erguido cume
Se acharam, onde um campo se esmaltava
De esmeraldas, rubis, tais que presume
A vista que divino chão pisava.
Aqui um globo vêm no ar, que o lume
Claríssimo por ele penetrava7
,
De modo que o seu centro está evidente,
Como a sua superfícia, claramente.
78
Qual a matéria seja não se enxerga8
,
Mas enxerga-se bem que está composto
De vários orbes9
, que a Divina verga10
Compôs, e um centro a todos só tem posto.
Volvendo11
, ora se abaxe, agora se erga,
Nuncas’ergueouseabaxa,eummesmorosto12
Por toda a parte tem; e em toda a parte
Começa e acaba13
, enfim, por divina arte14
,
79
Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual, enfim, o Arquetipo15
que o criou.
Vendo o Gama este globo, comovido
De espanto e de desejo ali ficou.
Diz-lhe a Deusa: – «O transunto16
, reduzido
Em pequeno volume17
, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
Por onde vás e irás e o que desejas.
Luís de Camões, op. cit., pp. 458-459
1 v. 4 (est. 75): o sujeito é a ninfa
Sirena, que anteriormente descre-
vera as glórias futuras dos lusos no
Oriente.
2 Tétis: deusa do mar que se uniu
amorosamente a Vasco da Gama.
3 Claro: ilustre.
4 Sapiência / Suprema: omnisciên-
cia, própria dos deuses.
5 Dos errados: dos que se enganam.
6 Tu cos mais: tu e os teus compa-
nheiros.
7 v. 6 (est. 77): o «globo» era
translúcido.
8 Não se enxerga: não se com-
preende.
9 Vários orbes: várias esferas ou
céus que, segundo Ptolomeu, se
encontravam a seguir às esferas
do Ar e do Fogo, com a Terra no
centro.
10 Divina verga: o poder de Deus.
11 Volvendo: girando.
12 v. 5 (est. 78): a esfera não se ergue
nem se baixa relativamente ao seu
centro.
13 Começa e acaba: como no círculo,
não há princípio nem fim deter-
minados.
14 Divina arte: à semelhança de
Deus, por divino modo.
15 Arquetipo: modelo do mundo,
criado por Deus.
16 Transunto: a cópia do Universo.
17 Pequeno volume: em miniatura.
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.6; 14.9; 14.11;
15.1; 15.2; 16.1.
Gramática
17.3.
MC
CD 1
Faixa n.o
39
255
Os Lusíadas: Canto X
4. Depois de a ninfa Sirena ter profetizado os feitos futuros do povo luso no Oriente (est.
75), Tétis convida Vasco da Gama a ver algo que «não pode a vã ciência / Dos errados e
míseros mortais» (est. 76, vv. 3-4).
4.1 Indica o que ele vê e explica por que razão lhe foi concedido esse dom, digno ape-
nas dos deuses.
5. Relê, agora, a estância 79.
5.1 Identifica uma enumeração e explicita o seu valor expressivo.
6. Após a descrição da Máquina do Mundo,Tétis inicia um discurso profético sobre as
futuras conquistas dos portugueses no mundo.
6.1 Comprova a afirmação com elementos textuais.
GRAMÁTICA
1. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução das seguintes palavras
(considera as unidades destacadas):
a) DEPOST  despois (est. 75, v. 1)
b) BASSIARE  abaxar (cf.«abaxa» [Est. 78, v. 6])
José de Almada Negreiros, Ilha dos Amores, 1961 (incisão, átrio do edifício da Faculdade de Letras de Lisboa).
Representa Vasco da Gama, acompanhado da deusa Tétis, que lhe apresenta a
«Máquina do Mundo», figurada na Cosmografia de Ptolomeu.
A Máquina do Mundo diz respeito ao cosmos, descrito pelo matemático e cosmógrafo
português Pedro Nunes (1502-1578) como sendo composto por dez esferas celestes
concêntricas. No centro estava a Terra, formada pelos quatro elementos: terra, água, ar e
fogo. Nesta composição entram ainda as esferas das sete estrelas errantes (Lua, Mercúrio,
Vénus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno), as esferas das estrelas fixas e mais duas esferas
que explicavam o movimento diurno das estrelas e o movimento dos pontos equinociais.
A Terra, ao contrário do celestial, encontrava-se em perpétua transformação.
CURIOSIDADE
Fonética e fonologia
p. 38
FI
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. Narração, na Ilha dos Amores,
aquando da viagem de regresso a
Portugal.
2. Os planos são o da viagem e o da
mitologia. Na viagem de regresso a
Portugalencaixa-seoepisódiomara-
vilhoso da Ilha dos Amores. Neste
excerto, Tétis mostra a Vasco da
3?33$tCG;@36A$G@6A
3.1 Os adjetivos simbolizam as
dificuldades que o Homem tem de
7@8D7@F3D B3D3 353@{3D 3 9†D;3
conhecimento. É necessário percor-
rerumcaminho«árduo,difícil,duro»
para se chegar ao conhecimento do
Universo.
4.1 i$tCG;@36A$G@6A i-3E5A63
Gama, simbolicamente divinizado
(através da sua união física com a
deusa Tétis), é-lhe concedido esse
dom, de modo a premiar a coragem
e heroicidade evidenciadas ao longo
dasuaviagemàÍndia.
5.1 @G?7D3{yA¤De espanto e de
desejo¥7EF H +D36GLA7EF36A
677EB€D;FA67-3E5A633?37EFG-
pefação pela novidade e maravilha
do globo; e uma vontade imensa de
conhecer os mistérios daquilo que
Tétislheapresenta.
6.1 «A$G@6A3AEA:AEF7GEB7D3
CG7H73E 'ADA@67HtE7;DtE7ACG7
desejas¥7EF HH  
Gramática
1.a)epêntese;
b)apócopeeprótese.
256 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
A Máquina do Mundo
Constituição da matéria épica
80
«Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Etérea1
e elemental2
, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princípio e meta limitada3
.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfícia tão limada,
ÉDeus:masoqueéDeus,ninguémoentende,
Queatantooengenhohumanonãoseestende.
81
«Este orbe que, primeiro, vai cercando
Os outros mais pequenos que em si tem,
Que está com luz tão clara radiando
Que a vista cega e a mente vil também,
Empíreo4
se nomeia, onde logrando5
Puras almas estão daquele Bem
Tamanho, que ele só se entende e alcança,
De quem não há no mundo semelhança.
82
«Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Divos6
estão, porque eu, Saturno7
e Jano8
,
Júpiter, Juno9
, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas10
pôs o engenho vosso.
83
«E também, porque a santa Providência,
Que em Júpiter aqui se representa11
,
Por espíritos mil12
que têm prudência
Governa o Mundo todo que sustenta
(Ensina-lo13
a profética ciência,
Em muitos dos exemplos que apresenta);
Os que são bons, guiando, favorecem,
Os maus, em quanto podem, nos empecem;
84
«Quer logo aqui a pintura que varia
Agora deleitando, ora ensinando14
,
Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
A seus Deuses já dera, tabulando;
Que os Anjos de celeste companhia15
Deuses o sacro verso está chamando,
Nem nega que esse nome preminente
Também aos maus se dá, mas falsamente.
85
«Enfim que o Sumo Deus, que por segundas
Causas obra no Mundo, tudo manda16
.
E tornando a contar-te das profundas
Obras da Mão Divina veneranda,
Debaxo deste círculo17
onde as mundas
Almas18
divinas gozam, que não anda,
Outro corre, tão leve e tão ligeiro
Que não se enxerga: é o Móbile primeiro19
.
1 Etérea: celestial.
2 Elemental: composta pelos quatro
elementos.
3 Sem princípio e meta limitada:
Deus.
4 Empíreo: paraíso cristão.
5 Logrando: usufruindo.
6 Divos: título dado, após a sua
morte, aos imperadores diviniza-
dos e, em primeiro lugar, a Júlio
César; Santos (da Igreja Católica).
7 Saturno: filho do Céu e da Terra.
8 Jano: filho de Apolo.
9 Juno: esposa de Júpiter.
10 Estrelas: estrelas em sentido geral,
incluindo, portanto, os planetas.
11 Júpiter aqui se representa: Júpiter,
apesar de «fabuloso», é o deus
supremo.
12 Por espíritos mil: Júpiter governa o
mundo por intermédio de espíri-
tos mil bons e maus.
13 Ensina-lo: ensina-no-lo.
14 vv. 1-2 (est. 84): quer, portanto, a
poesia, que ora deleita ora ensina,
dar nomes aos falsos deuses.
15 v. 5 (est. 84): que o «sacro verso»
(a Sagrada Escritura) também
chama deuses aos anjos da celeste
companhia e mesmo aos maus,
embora falsamente.
16 v. 2 (est. 85): quem manda é o
Sumo Deus e tudo o mais é poesia
«deleitosa».
17 Círculo: o mesmo que esfera.
18 Mundas /Almas: almas puras.
19 Móbile primeiro: o primeiro movi-
mento.
Representação artística do modelo
geocêntrico de Ptolomeu, 1660.
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2;
15.3; 15.5; 16.1; 16.2.
Gramática
17.7; 18.1; 18.2; 18.4; 19.1;
19.3.
Escrita
10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2;
12.3; 12.4; 12.5; 13.1.
MC
257
Os Lusíadas, Canto X
86
«Com este rapto20
e grande21
movimento
Vão todos os que dentro tem no seio22
;
Por obra deste, o Sol, andando a tento23
,
O dia e noite faz, com curso alheio24
.
Debaxo deste leve, anda outro25
lento,
Tão lento e sojugado a duro freio,
Que enquanto Febo26
, de luz nunca escasso,
Duzentos cursos faz, dá ele um passo27
.
87
«Olha estoutro debaxo28
, que esmaltado
De corpos lisos anda e radiantes29
,
Que também nele tem curso ordenado
E nos seus axes correm30
cintilantes.
Bem vês como se veste e faz ornado
Co largo Cinto d’ ouro31
, que estelantes
Animais doze traz afigurados32
,
Apousentos de Febo limitados.
88
«Olha por outras partes33
a pintura34
Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:
Olha a Carreta35
, atenta a Cinosura36
,
Andrómedaeseupai37
,eoDrago38
horrendo;
Vê de Cassiopeia39
a formosura
E do Orionte o gesto turbulento40
;
Olha o Cisne morrendo que suspira,
A Lebre e os Cães, a Nau41
e a doce Lira.
89
«Debaxo deste grande Firmamento42
,
Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
Júpiter logo faz o movimento,
E Marte abaxo, bélico inimigo;
O claro Olho do céu43
, no quarto assento,
E Vénus, que os amores traz consigo;
Mercúrio, de eloquência soberana;
Com três rostos, debaxo vai Diana44
.
90
«Em todos estes orbes, diferente
Curso verás, nuns grave e noutros leve;
Ora fogem do Centro longamente,
Ora da Terra estão caminho breve45
,
Bem como quis o Padre omnipotente46
,
Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
Os quais verás que jazem mais a dentro
E tem co Mar a Terra por seu centro.
91
«Neste centro47
, pousada dos humanos,
Que não sòmente, ousados, se contentam
De sofrerem da terra firme os danos,
Mas inda o mar instábil exprimentam,
Verás as várias partes48
, que os insanos49
Mares dividem, onde se apousentam
Várias nações que mandam vários Reis,
Vários costumes seus e várias leis50
.
Luís de Camões, op. cit., pp. 460-462
20 Rapto: giratório.
21 Grande: rapidez do movimento diurno
é tanta que num dia dá uma volta
completa, produzindo o dia e a noite.
22 v. 2 (est. 86): o primeiro movimento
move e leva com o seu ímpeto todas
as outras esferas – os planetas como os
seus céus.
23 Andando a tento: com regularidade.
24 Curso alheio: movimento proveniente
do primeiro móbil.
25 Debaxo deste leve, anda outro: o
segundo móbil ou Céu cristalino.
26 Febo: deus da luz e do dia.
27 v. 8 (est. 86): de tão lento, o seu
movimento é de um grau em duzentos
cursos do Sol.
28 Estoutro debaxo: a oitava esfera: o
firmamento.
29 v. 2 (est. 87): as estrelas fixas.
30 E nos seus axes correm: os eixos próprios
da oitava esfera.
31 Cinto d’ouro: o Zodíaco.
32 v. 7 (est. 87): os doze signos do
Zodíaco, considerados casas do Sol.
33 Outras partes: por outras partes do
firmamento, mas fora do Zodíaco.
34 Pintura: figuras que as estrelas formam
no céu (as doze constelações).
35 Carreta: Ursa Maior.
36 Cinosura: Ursa Menor.
37 Andrómeda e seu pai: constelação do
hemisfério boreal e seu pai Cefeu.
38 Drago: Dragão.
39 Cassiopeia: mãe de Andrómeda.
40 v. 6 (est. 88): Orion, que traz chuvas
e tempestades.
41 Nau: Argo.
42 v. 1 (est. 89): sete esferas planetárias.
43 Olho do céu: o Sol.
44 v. 8 (est. 89): a Lua e as suas três fases.
45 vv. 3-4 (est. 90): cada um com o seu
movimento, os planetas ora estão longe
ora perto da Terra.
46 v. 5 (est. 90): o poeta vai falar da
região «elemental» muito brevemente,
para depois se ocupar de dois deles,
a terra e a água.
47 Neste centro: na Terra.
48 Partes: continentes.
49 Insanos: enfurecidos.
50 Leis: leis civis e religiosas.
258 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
1. Identifica o narrador, das estâncias 80 a 91, e classifica-o quanto à presença e ciência.
2. Atenta nos versos «Quem cerca em derredor este rotundo / Globo e sua superfícia tão
limada, / É Deus…» (est. 80 vv. 5-7) e «Aqui, só verdadeiros, gloriosos / Divos estão,
porque eu, Saturno e Jano, / Júpiter, Juno, fomos fabulosos, / Fingidos de mortal e cego
engano» (est. 82, vv. 1-4).
2.1 Explica a relação que se estabelece entre o Deus cristão e os deuses da mitologia.
2.2 Refere o objetivo de Camões ao incluir os deuses mitológicos na sua epopeia.
Justifica a tua resposta com elementos textuais.
3. Completa o texto que apresenta a constituição da Máquina do Mundo, ou seja, do
Universo, segundo a teoria de Ptolomeu, indicando as estâncias correspondentes ao
assunto.
4. Atenta na estância 91.
4.1 Indica a constituição da Terra.
4.2 No contexto da ação épica de Os Lusíadas, explica o uso do adjetivo «ousados» (v. 2).
5. Explicita a alegoria presente nas estâncias em análise.
6. Relê agora os versos 7 e 8 da estância 79. Explica como a mitificação do herói está,
mais uma vez, presente nestes versos.
7. Mostra como a sublimidade do canto é notória na descrição do Universo.
8. A Ilha dos Amores, cantos IX e X, é o símbolo de todas as recompensas que os Descobri-
mentos trouxeram ao povo português.
8.1 Sintetiza-as.
O mundo apresenta uma parte celestial (transparente) e outra elementar, constituída
pelos quatro elementos (est. a) ). Na parte elementar encontra-se a terra imóvel
– centro do mundo –, seguida logo pela água (os mares), pelo ar e finalmente pelo fogo
que chega ao céu da Lua (est. b) e c) ).
A parte celestial é composta por sete céus (os planetas), disposta em círculos concên-
tricos, nomeadamente a esfera da Lua (que representa Diana), de Mercúrio, de Vénus,
do Sol (que representa Febo), de Marte, de Júpiter e de Saturno (est. d) e
e) , vv. 1-4). Depois destes sete céus, aparece o Firmamento, com estrelas fixas,
(est. f) e g) ), seguido pelo Céu Áqueo ou Cristalino (est. h) , vv. 4
a 8) e depois pelo Primeiro Móbil (est. i) , v. 7, à est. j) , v. 4), esfera que,
através do seu movimento, arrasta todas as outras consigo. Finalmente, a circundar toda
a máquina, encontra-se o Empíreo, esfera imóvel (est. k) , v. 5, à est. l) ).
No total, são onze esferas.
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.%3DD36AD+|F;E o:A?A6;79|F;5A7
omnisciente.
2.1 Estabelece-se uma relação de
oposição entre o Deus cristão e os
deuses mitológicos. Tétis proclama
a falsidade dos segundos e a supre-
maciadoDeuscristão,queenvolveo
globoeestáemtodaaparte.
2.2 Além de serem constituintes
obrigatórios de uma epopeia, os
deuses mitológicos têm como obje-
tivo embelezar a poesia («Só pera
83L7DH7DEAE677;FAEAE *7DH;?AE»–
7EF HH  763D@A?7E3AEB3-
netas («|E†CG7A@A?7@AEEA %7E-
tas estrelas pôs o engenho vosso»
¬7EF HH  
3. a)7EF  b)7EF  c)7EF  
d) 7EF    e) 7EF     f) 7EF  
g)7EF h)7EF i)7EF j)7EF 
k)7EF  l)7EF 
4.1 Os mares dividem («$3D7E6;H;-
dem¥¬7EF  H AEHtD;AE5A@F;-
nentes («várias partes¥¬7EF  H 
com os seus diversos países («Várias
nações¥¬7EF  H 
4.2 O adjetivo sugere a coragem e o
esforço do povo luso ao enfrentar os
«danos» da terra (conquistas milita-
reseterritoriais),ainstabilidadeeos
perigos dos mares na descoberta de
outros destinos, contribuindo para a
suavalorização.
5.VascodaGamarecebeoprémiode
veraquiloquesóintelectualmenteé
dado a conhecer ao Homem comum
–aconstituiçãodoUniverso.Alegori-
camente,éaquisimbolizadaadivini-
zação e, consequente, imortalidade
doHomem,prémiomáximodaheroi-
cidade. Com poderes divinos atribuí-
dos, Vasco da Gama torna-se Senhor
do Espaço ao ver a representação do
globoterrestre.
6. Além de Senhor do Espaço, Vasco
daGamatorna-seSenhordoTempo,
ao poder ver o futuro. Com a leitura
6AEHH  637EF H7D;¹53?AECG7
Vasco da Gama terá acesso aos ter-
ritóriosqueosportuguesesconquis-
F3DyA¤B7D3CG7H73E 'ADA@67HtE
eirás¥7EF HH  
7. Descreve-se poeticamente o
funcionamento do Universo, recor-
rendo-se à temática heroica (dom
concedido a Vasco da Gama), à pre-
sença da mitologia, ao vocabulário
erudito («rotundo», «meta») e a
D75GDEAE7JBD7EE;HAE379AD;3¦
259
Os Lusíadas: Canto X
GRAMÁTICA
1. Transcreve três arcaísmos das estâncias 90 e 91.
2. Classifica as atuais formas «padre» e «pai», tendo em conta a origem latina comum
PATRE-.
3. Identifica e classifica as orações subordinadas nos seguintes versos:
a) «Nem nega que esse nome preminente / Também aos maus se dá» (est. 84, vv. 7-8).
b) «a pintura / Que as Estrelas fulgentes vão fazendo» (est. 88, vv. 1-2).
c) «Verás as várias partes, […] / onde se apousentam / Várias nações» (est. 91; vv. 5-7).
3.1 Indica a função sintática desempenhada por cada uma.
4. Expande os seguintes grupos adjetivais, acrescentando-lhes complementos do adjetivo.
a) Uma escolha diferente… b) Fiquei esclarecido…
5. Constrói duas frases com o campo semântico das palavras «estrela» e «sol».
ESCRITA
Exposição sobre um tema
Visiona alguns excertos do filme Troia.
1. Toma as notas que considerares necessárias, de acordo
com o plano de texto abaixo apresentado.
2. Numa exposição, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, estabelece compa-
rações entre a obra Os Lusíadas e o filme Troia. Segue os tópicos do plano de texto:
Introdução:
1.º parágrafo – classificação da obra e do filme quanto ao género.
Desenvolvimento:
2.º parágrafo – personagens intervenientes na ação;
3.º parágrafo – caracterização/classificação do herói;
4.º parágrafo – procura da imortalidade.
Conclusão:
5.º parágrafo – cumprimento da profecia de Tétis (mãe de Aquiles); oposição morte
física/imortalidade.
No final, revê o teu texto para fazeres correções e melhorias que consideres necessárias.
Exposição sobre um tema
p. 311
SIGA
PROFESSOR
8.1 A ilha simboliza um prazer para
os cinco sentidos (paisagem «locus
amoenus»), uma satisfação erótica
presente na união entre ninfas e nau-
F3ECG75A@FD;4G;B3D336;H;@;L3{yA
imortalização dos navegadores e
D7EGF3@A@3E5;?7@FA67G?3BDA7
raça superior. Simboliza também o
conhecimento do amor sublime, do
Universo e do futuro (profecias de
SirenaeTétis).
Gramática
1.«orbes»,«Padre»,«instábil».
2.Palavrasdivergentes.
3. a) «CG77EE7@A?7BD7?;@7@F7 
_¦ase dá» – oração subordinada subs-
tantiva completiva; b) «Que as Estre-
las fulgentes vão fazendo» – oração
subordinada adjetiva relativa restri-
tiva; c) «A@67E73BAGE7@F3? -tD;3E
nações» – oração subordinada adje-
tivarelativaexplicativa.
3.1. a) complemeto direto; b) modi-
ficador restritivo do nome; c) modi-
ficadorapositivodo nome.
4. a)¦67FA63E3EAGFD3Eb)¦5A?3
leituradaobra.
5.
“3|G?37EFD73675;@7?3§@A;F7
vemosmuitasestrelasnocéu;
“EA;DD36;3?G;FA53ADoEAEA63
minhavida.
Escrita
Sugestão:
Introdução o
parágrafo – género
épico;
Desenvolvimento  o
parágrafo –
reais (Gama) e mitológicas (Vénus,
+|F;E¦ ?;FA†9;53EiCG;7E+|F;E
,;EE7E¦
 o
parágrafo – herói coletivo e real
representado por Vasco Gama, que
lutapelaglóriadePortugal,eAquiles,
herói mitológico que procura a glória
individual. Dois tipos de heróis refe-
renciados em oposição na Proposição
e Dedicatória; ambos apresentam
qualidadesbélicas;
 o
parágrafo – a procura da imortali-
6367B7DB3EE33A4D37A¹?79†D;3
associada ao sofrimento e morte; a
coragem como caminho para a imor-
talidade; no filme, referida por Aqui-
7E+|F;E7,;EE7E @3A4D3D787D;63
pelopoetanocantoV.
Conclusão  o
parágrafo – morte
física do herói Aquiles (na guerra de
Troia com a seta no calcanhar), tal
5A?ABDA87F;L3D33EG3?y7+|F;E AE
heróisportuguesestambémsofreram
uma morte física, mas o seu nome e a
sua coragem continuam inscritos nas
páginasdaHistória.
Link
Trailer do filme Troia
260 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
PONTO DE PARTIDA
1. Visiona um excerto do filme Camões, intitulado «Camões lê Os Lusíadas a D. Sebastião».
1.1 Apresenta, em tópicos, pontos de con-
tacto entre as estâncias dos cantos ante-
riores e o excerto do filme visionado,
bem como comparações pertinentes
com as temáticas estudadas correspon-
dentes ao plano das reflexões do poeta.
Partilha-os oralmente com a tua turma.
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Lamentações e profecia de futuras glórias nacionais
Reflexões do poeta
145
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada1
e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida2
.
O favor3
com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dùa austera, apagada e vil tristeza4
.
146
E não sei por que influxo de Destino
Não tem5
um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino6
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho7
estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.
147
Olhai que8
ledos vão, por várias vias,
Quais rompentes liões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias9
,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros10
,
A quentes regiões, a plagas frias,
A golpes de Idolátras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a pexes, ao profundo11
.
148
Por vos servir, a tudo aparelhados12
;
De vós tão longe, sempre obedientes;
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar reposta, prontos e contentes.
Só com saber que são de vós olhados,
Demónios infernais, negros e ardentes13
,
Cometerão14
convosco, e não duvido
Que vencedor vos façam, não vencido.
149
Favorecei-os logo15
, e alegrai-os
Com a presença e leda humanidade16
;
De rigorosas leis desalivai-os17
,
Que assi se abre o caminho à santidade18
.
Os mais exprimentados levantai-os,
Se, com a experiência, têm bondade19
Pera vosso conselho, pois que sabem
O como, o quando, e onde as cousas cabem.
150
Todos favorecei em seus ofícios,
Segundo têm das vidas o talento20
;
Tenham Religiosos exercícios21
De rogarem, por vosso regimento,
Com jejuns, disciplina, pelos vícios
Comuns22
; toda ambição terão por vento23
,
Que o bom Religioso verdadeiro
Glória vã não pretende nem dinheiro.
1 Destemperada: desafinada.
2 Endurecida: indiferente.
3 O favor: o apoio.
4 v. 8 (est. 145): de uma som-
bria, amortecida e mesquinha
tristeza.
5 Não tem: ela, a Pátria.
6 Contino: contínuo.
7 Por divino / Conselho: por
Providência Divina.
8 Que: quão.
9 Vigias: vigílias.
10 Pelouros: balas de pedra ou
metal.
11 Ao profundo: ao mar.
12 Aparelhados: preparados.
13 v. 6 (est. 148): imagem do
guerreiro invencível.Negros
da pólvora e do fumo das
batalhas.
14 Cometerão: acometerão,
atacarão.
15 Logo: portanto.
16 v. 2 (est. 149): com alegre
afabilidade.
17 Desalivai-os: aliviai-os.
18 v. 9 (est. 149): à veneração dos
súbditos.
19 Bondade: competência.
20 Talento: a cada um conforme a
sua capacidade.
21 Tenham Religiosos exercícios:
tenham os religiosos a ocu-
pação.
22 Vícios / Comuns: de rogarem
pelo cumprimento de vossas
leis («regimento») e pelos
vícios comuns.
23 Toda ambição terão por vento:
desprezarão.
PROFESSOR
Oralidade
1.1; 1.3; 2.1; 2.2; 3.2; 4.1; 4.2;
5.2; 5.3.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.11; 15.1; 15.2; 15.3;
15.7; 16.1; 16.2.
Leitura
8.1; 8.2.
Escrita
10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3;
12.4; 13.1.
MC
PontodePartida
1.1 Lamentações do poeta; pouco
valor dado à cultura; estado da
@3{yA 5A4;{3 DG67L3 H; FD;EF7L3
superioridade dos portugueses;
quem deve dar conselhos ao rei;
apresenta-se como um homem de
armasedeletrasparaservirorei.
261
Os Lusíadas: Canto X
151
Os Cavaleiros tende em muita estima,
Pois com seu sangue intrépido e fervente
Estendem não sòmente a Lei de cima24
,
Mas inda vosso Império preminente.
Pois aqueles que a tão remoto clima
Vos vão servir, com passo diligente,
Dous inimigos vencem: uns, os vivos25
,
E (o que é mais) os trabalhos excessivos.
152
Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos26
, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados27
,
Mais que pera mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só d’ exprimentados,
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes28
muito cabe,
Mais em particular o experto sabe29
.
153
De Formião, filósofo elegante30
,
Vereis como Anibal escarnecia,
Quando das artes bélicas, diante
Dele, com larga voz tratava e lia31
.
A disciplina militar prestante
Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.
154
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai às vezes acabado32
.
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.
155
Pera servir-vos, braço às armas feito33
,
Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Só me falece34
ser a vós aceito,
De quem virtude35
deve ser prezada.
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Dina empresa tomar de ser cantada36
,
Como a pres[s]aga mente vaticina
Olhando a vossa inclinação divina37
,
156
Ou fazendo que, mais que a de Medusa38
,
A vista vossa tema o monte Atlante39
,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa40
Os muros de Marrocos e Trudante41
,
A minha já estimada e leda Musa
Fico42
que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vós se veja43
,
Sem à dita de Aquiles ter enveja44
.
Luís de Camões, op. cit., pp. 476-479
24 Lei de cima: a lei de Deus.
25 Os vivos: os homens.
26 Galos: Franceses.
27 São pera mandados: são para
serem mandados.
28 Cientes: sábios.
29 v. 4 (est. 152): o poeta faz
a apologia da experiência
e exemplifica na estância
seguinte.
30 Filósofo elegante: filósofo peri-
patético do tempo de Aníbal
que falou doutoralmente sobre
artes bélicas diante do chefe
militar. A anedota é contada
por Cícero no De Oratore,
II.18.
31 Com larga voz tratava e lia:
expunha com exibicionismo.
32 Acabado: perfeito.
33 Feito: afeito, habituado.
34 Falece: falta.
35 Virtude: merecimento.
36 v. 6 (est. 155): praticar feitos
dignos de serem cantados em
poesia.
37 A vossa inclinação divina: a
vossa propensão divina.
38 Medusa: personagem mitoló-
gica com serpentes no lugar de
cabelos; transformava em pedra
quem para ela olhasse.
39 Atlante: Atlas (em Marrocos)/
os Mouros devem temer mais
ainda a vista do rei
D. Sebastião.
40 Campos de Ampelusa: cabo
Espartel, próximo de Tânger.
41 Trudante: capital de província
vizinha de Marrocos.
42 Fico: asseguro.
43 v. 7 (est. 156): de modo que
se veja em vós um novo
Alexandre Magno.
44 v. 8 (est. 156): sem invejar
Aquiles, cuja heroicidade foi
cantada na obra Ilíada, de
Homero (porque D. Sebastião
também será cantado futura-
mente por Camões).
Eustache Le Sueur, As musas Clio,
Euterpe e Tália, 1640-1645
(pormenor).
262 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
1. Indica o assunto destas estâncias, selecionando a opção correta.
a) Desalentado, mas esperançoso, o poeta afirma não escrever mais e apela a D. Sebas-
tião para liderar os seus excelentes vassalos e iniciar um novo período de glória para
Portugal, o qual ele promete cantar.
b) Desalentado, o poeta afirma não escrever mais e apela a D. Sebastião para liderar os
seus excelentes vassalos e iniciar um novo período de glória para Portugal, o qual ele
não promete cantar, pois está cansado de não ser valorizado.
2. Quanto à estrutura interna, é possível dividir o texto em partes.
2.1 Delimita-as, sintetizando o assunto tratado em cada uma delas.
3. Atenta, agora, nas estâncias 145 e 146.
3.1 Explicita o desânimo do poeta perante os seus contemporâneos.
3.2 Sintetiza as críticas dirigidas aos portugueses.
4. Nas estâncias 149 à 153, o poeta sugere que o rei se empenhe na realização de feitos
gloriosos.
4.1 Refere as recomendações que lhe são dirigidas.
5. Relaciona estas recomendações com as referências pessoais do poeta nas três últimas
estâncias.
6. Indica a intenção de Camões ao analisar e criticar o estado em que se encontrava a
pátria.
7. Apresenta o teu ponto de vista acerca do valor de Os Lusíadas, enquanto obra simbó-
lica, no plano do imaginário português individual e coletivo.
ESCRITA
Síntese
Lê, atentamente, o texto da página seguinte.
O excerto de Oliveira Macêdo ajudar-te-á a compreender melhor a relação entre a Propo-
sição, a Dedicatória e as estâncias finais do Canto X.
Elabora uma síntese do texto, utilizando entre cento e sessenta e cento e oitenta pala-
vras. Toma as notas que considerares necessárias.
Síntese
p. 313
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.a).
2. 1.a
parte7EF  7AEBD;?7;-
DAE H7DEAE 63 7EF   ¬ 3?Š7E
lamenta-se da decadência da pátria
edizestarcansadodecantarasgló-
riasportuguesas;
2.a
parte6AE‹F;?AEH7DEAE637EF 
u7EF  ¬3?Š7E6;D;97 E73
D. Sebastião fazendo-o notar que é
senhor de súbditos excelentes dis-
postos a servi-lo, elogiando-os. São
guerreiros valentes e dispostos a
enfrentar todos os perigos com ale-
gria e obediência, de forma a trans-
formaroreinumvencedor;
3.a
parte 7EFE    ¬ A BA7F3
aconselha o rei a reinar bem,
fazendo-lhe algumas recomenda-
ções;
4.a
parte7EFE   ¬7?4AD3:G
mildemente, Camões reconhece o
seu valor feito de conhecimentos e
677JB7D;~@5;37EF  7A87D757 E7
aoreiparaoservirnaguerraecantar
AEE7GE87;FAE7EF  BD7EE39;3@6A
uma façanha de D. Sebastião – o
combate e a destruição dos mouros
7EFE    
3.1 O poeta mostra-se desanimado,
pois vê o seu talento menosprezado
e a sua mensagem não é ouvida; a
açãoultramarinaqueelecantounão
évalorizada(«Cantaragentesurdae
endurecida¥¬7EF  H  
3.2 Os portugueses não permitiam
a realização de novas glórias, uma
vez que se mostravam indiferen-
tes ao canto dos feitos heroicos do
passado («Cantar a gente surda e
endurecida¥¬7EF  H FD;EF7E
e apáticos («austera, apagada e vil
tristeza¥¬7EF  H 7B7DE79G;3?
valores individuais e não coletivos e
patriotas(«Nogostodacobiça»–est.
H
263
Os Lusíadas: Canto X
A Dedicatória a D. Sebastião, ao traçar um retrato da imagem ideal da realeza, e
até certo ponto espelho dos requisitos do Herói, prolonga algumas das linhas defini-
doras da heroicidade pela Proposição: é curioso verificar a importância da genealogia,
da nobreza de sangue, do cariz messiânico e salvador – «bem-nascida segurança»,
«que nenhuma nascida no Ocidente» – logo à cabeça desta Dedicatória.
Repercutem-se as notas da valentia guerreira («novo temor da maura lança»), da
missão religiosa e de cruzada («novo ramo florescente / duma árvore de Cristo mais
amada»), da imensidão do Império e do Poder. […]
Assim é proposta, no limiar do poema, uma imagem de heroicidade […] que
dominará o poema inteiro: o valor excecional e incomparável do rei e de homens
ilustres lusitanos que, rompendo os limites humanos, vencendo perigos, distâncias e
o desconhecido, constroem um império longínquo onde propagam a fé, a civilização
e o Império. […]
Camões invoca D. Sebastião (I, 6-8) a fim de o estimular para o desempenho das
suas funções (apesar da tenra idade e da anarquia política que se desenhava) […].
O rei será o Messias para enfrentar a influência castelhana na corte e eliminar a crise
política instalada («E vós ó bem nascida segurança / Da lusitana antiga liberdade»)
e lutar contra o Mouro («ó novo temor da Maura lança»). De seguida, introduz
apelos ao futuro rei: primeiro para que tome «as rédeas do Reino» (se assuma como
rei); segundo, «estes meus versos vossos sejam» (se reveja no canto do poeta). Assim,
D. Sebastião será cantado e entrará também no Panteão da Glória Imortal.
Também nas estâncias 146 a 156, Luís de Camões procura animar o rei com a
visão do exemplo dos Heróis («Olha que sois […] / Senhor só de vassalos excelentes.»),
que estarão sempre prontos, na obediência e ao seu serviço, a cometer os mesmos
feitos narrados. […]
Por fim, a oferta total do poeta à causa do rei e da pátria, com «a pena», indo ao
encontro do já apresentado na Proposição («Cantando espalharei a toda a parte»),
e com a «espada», considerando-se, embora humildemente, estudioso, experiente e
engenhoso – ao contrário da maioria «apagada» e ociosa, que vegetava pelos salões.
[…] Mas desta vez, não se oferece para cantar os feitos gloriosos do passado, mas sim
uma glória futura que será alcançada por D. Sebastião com a derrota dos Mouros no
Norte de África.
Mais uma vez, e à semelhança do que já anunciara na Proposição, os feitos glo-
riosos dos Gregos e Romanos, «Alexandre» (conquistador) e «Aquiles» (herói da
Ilíada) são postos em causa e subordinados aos dos Portugueses, de tal modo que
Roma e Grécia serão pálidos espelhos, não merecendo sequer a inveja do mundo, o
qual se voltará e cantará, agora e apenas, a glória dos descendentes de Luso – Por-
tugal… e o seu rei: «de sorte que Alexandre em vós se veja, / Sem à dita de Aquiles ter
inveja» (156).
J. Oliveira Macêdo, op.cit., pp.147-157
(texto adaptado)
5
10
15
20
25
30
35
PROFESSOR
4.13HAD757DAEE7GEE7DH;6AD7E3;-
viando-os de leis severas; reconhe-
cer o mérito dos mais experientes,
tornando-osseusconselheiros(ests.
7 3BA;3DFA6AE@3EEG3E8G@-
ções específicas, desde os religiosos
3AE53H37;DAE7EFE   7  73EE7-
gurar que outros povos não afirmem
que os lusos são para ser vencidos e
@yAH7@576AD7E7EF   
5. O desejo de glória nacional suge-
D;6A@3E7EFv@5;3E3@F7D;AD7EEGD97
aliado à glória literária do poeta.
Camões, «Com longa experiência
misturado», oferece-se para lutar
ao lado do seu rei, e caso este guie
Portugal para uma nova ação épica
através da conquista do Norte de
Ã8D;537EF  ABA7F33CG7?@yA
falta «honesto estudo» e «engenho»,
predispõe-se a escrever uma nova
epopeia.
6.Comaanálisedodesencantogeral
da pátria, Camões pretende incen-
F;H3DAEE7GE5A@F7?BADv@7AE3E3;D
6A67Ev@;?A73GF3DBADG?@AHA
períododeglóriaparaPortugal.
Sugestão :3?3D 3 3F7@{yA 6AE
alunos para o facto de a crise nacio-
@3 5A7Fv@73 67 3?Š7E F7D 3F;@-
gido o seu ponto máximo com a
derrotadaBatalhadeAlcácerQuibir,
?ADF76AD7; *743EF;yA7? 
e perda da independência para Cas-
F737? 
7.)7EBAEF3B7EEA3
Sugestão i @€H7 ;@6;H;6G3 5363
português sente-se orgulhoso de
pertenceraumpovoquefoicapazde
realizar façanhas históricas impor-
tantes para o mundo, veiculadas
pela obra de Camões. A nível cole-
tivo, a obra fortalece-nos enquanto
povo e inspira-nos para a realização
de novos feitos, igualáveis aos dos
nossos antepassados, honrando-os e
homenageando-os.
264 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
FICHA INFORMATIVA N.O
7
Canto X
Lamentações e profecia de futuras glórias nacionais
[Nos discursos do poeta] vemos aparecer a figura do humanista pedagogo que
aponta o ideal, que admoesta, que ensina.
Considera-se em geral que a épica deveria implicar um certo apagamento do
sujeito enunciador, em favor da objetividade daquilo que é cantado, de tal modo
que o tom natural e conveniente a este género deveria ser o da serenidade que o
distanciamento do enunciador garantiria. Porém, no canto X, 128, lemos o seguinte,
com referência direta ao rio Mecong: «Este receberá, plácido e brando, /No seu regaço
os Cantos que molhados /Vêm do naufrágio triste e miserando, /Dos procelosos baxos
escapados, /Das fomes, dos perigos grandes, quando/Será o injusto mando executado /
Naquele cuja Lira sonorosa / Será mais afamada que ditosa.» Trata-se da referência
ao naufrágio que Camões sofreu no regresso do Oriente, no qual perdeu tudo, a não
ser o poema que salvou a nado.
Vemos assim que o poeta se designa a si mesmo como uma das personalidades que
fazem parte da gesta, e que é digno de ser mencionado […].
O Camões-personagem faz uma aparição dramática neste episódio biográfico que
o confirmou no mito que Portugal criou em torno dele. […] De repente, tomamos
consciência de que esta personagem, que também é o autor, não escreveu a epopeia em
Lisboa, a partir de livros, mapas e roteiros. Participou dos perigos, sofreu naufrágios e
outras provas, experimentou a curiosidade, o êxtase da vitória, mas também o medo,
as ânsias e o desejo da Ilha dos Amores. E veio a saber depois o que era não ser reco-
nhecido, a sofrer na carne «o injusto mando executado», e ficar ignorado e esquecido.
Assim, neste final do poema o sujeito irrompe, ao menos para dar relevo ao valor
que vai oferecer ao rei: o canto. […]
A sua vida está misturada no poema. E este obteve uma altura sublime. Sente-se
seguro para, liberto das regras, dar livre voz a si mesmo, com autoridade para reco-
mendar os heróis, ditar ao rei como deve recompensá-los, e dizer-lhe com quem deve
aconselhar-se. «Tomai conselho só de exp’rimentados, / Que viram largos anos, largos
meses.» […]
Camões projetou-se profundamente na sua obra: a sua situação social, o modelo
de heroísmo que propõe, o seu naufrágio, o seu serviço desinteressado, os desencan-
José de Guimarães,
Naufrágio de Camões, 1983.
Camões presenciou a fase final da glória de Portugal e o início da dissolução do Império,
motivada por uma decadência política e moral. A glória ultramarina tinha sido substituída pelo
baixo gosto da cobiça individual e adivinhava-se já uma crise nacional. Assim, ao tom eufórico
com que Camões canta a heroicidade do seu povo, sucede-se um tom disfórico, no final do
canto X, quando finaliza o discurso que iniciou ao seu rei, no canto I.
5
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30
265
Ficha informativa
tos, as ingratidões, o receio de que aquele canto, a joia preciosa e ímpar que estende
ao rei não seja sequer recebida.
Seja como for, ele aí está: «Pera servir-vos, braço às armas feito / Pera cantar-vos,
mente às Musas dada» (Os Lusíadas, X.155). Num poema que não designa nenhum
herói, Camões apresenta-se com a imagem que o concretiza.
Orgulho e narcisismo?
Seja como for, Portugal sempre o amou perdidamente, e anseia por merecer a obra
e o génio que lhe foi dado.
Maria Vitalina Leal de Matos, «Os Lusíadas», in Vítor Aguiar e Silva (coord.),
op.cit., pp. 513-515 (texto adaptado)
CONSOLIDA
1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1 a 1.5, seleciona a opção que te permite
obter uma afirmação correta.
1.1 No final do canto X de Os Lusíadas, Camões adota um tom disfórico, pois a pátria
(A) sente orgulho da glória ultramarina.
(B) vive um período de glória e desencanto.
(C) canta a heroicidade do seu povo.
(D) imerge num período de decadência política e moral.
1.2 A objetividade e serenidade do discurso exigidas por um poema épico dão lugar à
subjetividade, quando Camões refere factos
(A) biográficos de heróis que sofreram pela pátria.
(B) autobiográficos: o naufrágio e a consciência de que é um poeta que deve ser
valorizado pela pátria.
(C) biográficos que contribuem para o engrandecimento individual de um herói.
(D) autobiográficos: o naufrágio, os desamores e a consciência de que é um poeta
que deve ser valorizado pela pátria.
1.3 A epopeia Os Lusíadas reflete
(A) a experiência de vida do seu autor.
(B) o conhecimento da vida que o seu autor adquiriu através dos livros.
(C) a curiosidade do seu autor pela vida.
(D) a ânsia pelo desconhecido.
1.4 No final do canto X, Camões lamenta-se, declarando que
(A) não é um poeta de valor.
(B) é injustamente desvalorizado pelos portugueses.
(C) sente orgulho dos portugueses.
(D) não é desvalorizado pelos portugueses.
1.5 O poeta reconhece o valor da sua obra e é no epílogo que
(A) aconselha o rei e afirma não querer mais servir a pátria.
(B) projeta o orgulho que sentia pelos portugueses.
(C) dá conselhos ao rei, oferecendo-se para o servir na guerra e cantar as suas gló-
rias futuras.
(D) afirma que o único herói português é ele próprio.
35
PROFESSOR
Leitura
8.1.
Educação Literária
14.3; 15.1; 15.2.
MC
Consolida
1.1(D); 1.2(B); 1.3(A); 1.4(B);
1.5(C).
PowerPoint
Ficha informativa n.o
7
266 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
LEITURA
Artigo de divulgação científica
1. Hoje em dia novos heróis se destacam dos comuns dos mortais. Lê atentamente o
seguinte texto.
O pessimismo dos jogadores pode
levar ao fracasso.
Nas últimas décadas, o nível fute-
bolístico subiu em muitos locais do
planeta e tornou-se mais igualitário.
Vencer um mundial ou ser eliminado
logo na primeira fase pode ser decidido
nos primeiros dez minutos de jogo.
Fatores que não se limitam à forma
física adquirem extrema importância, e
a mente dos jogadores tornou-se, cada
vez mais, uma variável decisiva.
Mesmo questões que parecem total-
mente orgânicas estão relacionadas
com elementos que
não são precisamente
fisiológicos. Uma
investigação recente
da Universidade de
Múrcia (Espanha)
analisou a incidência
psicológica dos trau-
matismos. A conclu-
são foi que provocam,
na maior parte dos
jogadores, falta de
confiança em si pró-
prios e uma sensação
de vulnerabilidade.
Os efeitos prolon-
gam-se por meses após a lesão e podem
ser decisivos na carreira do jogador, se
não forem tratados. […]
O desporto de alta competição
implica sempre sobre-esforço. A nível
físico, esse stress tem consequências
que foram definidas, pela primeira vez,
pelo médico austro-húngaro Hans
Selye (1907-1982): subida das hor-
monas suprarrenais, […] aumento da
frequência cardíaca e da tensão mus-
cular […]. Os seres humanos estão
preparados para suportar esse sacrifí-
cio biológico desde que seja temporá-
rio e faça sentido em
termos psicológicos,
dando origem a um
stress positivo. […]
Por isso, a motivação
é uma das primei-
ras variáveis a ana-
lisar para explicar o
êxito. […] As pessoas
que a possuem têm
um grande desejo
de dominar as suas
capacidades, contro-
lar pessoas ou situa-
ções e chegar o mais
depressa possível a
Na mente do futebolista
COMO SE FAZ UM CAMPEÃO
Além da preparação física e da sorte, a psicologia é essencial para que uma
equipa possa ganhar um campeonato mundial. Convidamo-lo a entrar na
cabeça dos grandes jogadores de futebol.
5
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15
20
25
30
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45
50
55
PROFESSOR
Leitura
7.1; 7.3; 7.4; 7.6; 8.1; 9.1.
Gramática
18.1.
MC
267
Artigo de divulgação científica
1. Explicita o sentido global do texto.
2. Apresenta a estrutura do texto quanto à sua organização externa e interna.
3. Indica três fontes referidas no texto.
4. Identifica duas marcas de género do artigo de divulgação científica presentes no texto.
5. Exprime o teu ponto de vista sobre a temática do artigo.
GRAMÁTICA
1. Indica a função sintática dos elementos destacados nas frases seguintes.
a) «tornou-se mais igualitário» (l. 3).
b) «foram definidas, pela primeira vez, pelo médico austro-húngaro Hans Selye» (ll. 35-37).
c) «As pessoas que a possuem têm um grande desejo de dominar» (ll. 51-54).
d) «É possível lubrificar o motor psíquico dos jogadores?» (ll. 59-60).
níveis elevados. É possível lubrificar o
motor psíquico dos jogadores?
Treinar com cabeça
Uma recente investigação de neu-
rologistas do Instituto Karolinska,
de Estocolmo, analisou as aptidões
especiais que caracterizam os gran-
des futebolistas. Uma das capacidades
cognitivas que sublinharam foi o reco-
nhecimento de padrões, […] «saber
interpretar o jogo»: […] calcular
probabilidades e tomada de decisões
baseada nessa estimativa – […] «finto
o defesa ou tento marcar daqui?...».
[…] O estudo provou ainda que os
jogadores profissionais eram superiores
(relativamente ao grupo de controlo,
constituído por atletas não profissionais),
na antecipação visual e visão periférica.
Trabalho de equipa
Falta falar de uma variável essencial:
o trabalho em equipa. Alguns êxitos em
campeonatos mundiais são recordados
por jogadores decisivos, como a vitó-
ria no Mundial de 86, no México, em
que Maradona foi protagonista de um
jogo épico contra a Inglaterra e no qual
marcou os que são, provavelmente, os
dois golos mais famosos da História.
Todavia, na maior parte das vezes o
que se recorda são as equipas, como a
seleção do Brasil em 1970 e a da Ale-
manha em 1974 [e em 2014] […].
A grande capacidade de trabalho cole-
tivo podia ser matematicamente expli-
cada: uma estrutura muito rica, com
redes de passes estruturadas, sequên-
cias mais longas, […] maior velocidade
e continuidade no jogo.
As expectativas mais altas são as mais
fáceis de defraudar, e seria injusto que
um resultado pior do que se espera faça
esquecer o que se conquistou nos últi-
mos anos. Contudo, no futebol, o mais
difícil é não sonhar.
Superinteressante, n.º 194, junho, 2014, pp. 32-37
(texto adaptado)
60
65
70
75
80
85
90
95
100
Artigo de divulgação
científica
p. 268
FI
Funções sintáticas
pp. 324-325
SIGA
PROFESSOR
Leitura
1. 3DF;9AFD3F33D77Hv@5;363BE;-
cologia no mundo desportivo, sobre-
tudonofutebol.
2. Antetítulo – «Na mente do fute-
bolista»; título – «Como se faz um
campeão»; resumo – «Além da
preparação física e da sorte, a psi-
cologia é essencial para que uma
equipa possa ganhar um campeo-
natomundial.Convidamo-loaentrar
na cabeça dos grandes jogadores de
futebol.»
Introdução(1.o
parágrafo)3BD7E7@-
F3{yA6AF7?3¬3;?BADFv@5;363
menteparaobomrendimentofísico.
Desenvolvimento (do 2.o
ao 5.o
pa-
rágrafos)7JBAE;{yA 6;HG93{yA67
estudoseapresentaçãodeexemplos
CG78G@63?7@F3?3;?BADFv@5;363
psicologianofutebol.
Conclusão(últimoparágrafo)3;?
BADFv@5;36AED7EGF36AE7F3?4|?
do«sonho»nofutebol.
3. Uma investigação recente da Uni-
H7DE;6367 67 $‹D5;3 7EFG6AE D73
lizados pelo médico austro-húngaro
Hans Selye e uma investigação de
neurologistas do Instituto Karo-
linska,deEstocolmo.
4. Presença de vocabulário técnico-
-científico «suprarrenais», «stress»,
¤@7GDAA9;EF3E¥¦ :;7D3DCG;L3{yA
das ideias – antetítulo, título, resu-
mo, secções; predomínio do rigor e
objetividadedalinguagem.
5. SugestãoEG4;@:3DA5A@FD;4GFA
de estudos científicos, oriundos da
'E;5AA9;3 $76;5;@3 $3F7?tF;53
no melhoramento do desempenho
desportivo.
Gramática
1. a) predicativo do sujeito; b) com-
plemento agente da passiva; c) mo-
dificador restritivo do nome; d) su-
jeito.
268 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
FICHA INFORMATIVA N.O
8
Artigo de divulgação científica
O que é?
O artigo de divulgação científica aborda temas na área da ciência, comunicando
novos dados sobre estudos em determinadas matérias. Existem níveis diferentes de
especialização: artigos mais simplificados, destinados ao público em geral, e outros,
mais complexos, dirigidos a especialistas (médicos, informáticos, linguistas…).
Qual o seu objetivo?
Tem como objetivo expor e difundir os resultados de uma investigação ou desen-
volvimento de uma determinada teoria ou ideia, contribuindo para o conhecimento
progressivo do objeto em estudo.
Que estrutura tem?
Um artigo de divulgação científica deve obedecer a uma estrutura coesa e coe-
rente, cujas partes se articulam de forma lógica.
t5ÓUVMP apresentação da temática (pode ter antetítulo e subtítulo).
t3FTVNP descrição de forma concisa dos itens essenciais.
Pode não estar identificado.
t5FYUPtIntrodução – exposição sucinta do tema que irá ser desenvolvido (enqua-
dramento e relevância do tema…).
tCorpo do trabalho – desenvolvimento do tema (pesquisas realizadas –
metodologias, análise de dados e discussão de
resultados).
 t Conclusão – síntese dos tópicos relevantes.
tBibliografia – referência às fontes utilizadas.
/PUBPoderá apresentar notas de rodapé, tabelas, quadros e gráficos e, ainda, em
anexo, questionários e/ou outros elementos complementares.
Que características tem?
O artigo de divulgação científica apresenta as seguintes características:
tcaráter expositivo;
thierarquização de ideias (com título, subtítulo, secções…);
tinformação seletiva (exposição dos dados e conclusões relevantes);
t
rigor e objetividade (registo de língua corrente e técnico-científico, predomí-
nio da denotação, uso da terceira pessoa...);
texplicitação das fontes (consultadas e/ou citadas).
PowerPoint
Ficha informativa n.o
8
269
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
9
Genealogia linguística
O português: génese, variação e mudança
Os grupos de línguas que têm um antepassado comum, mantendo algumas afinida-
des, constituem uma família de línguas.
1. Principais etapas da formação e da evolução do português
1.1 Família das línguas indo-europeias
O indo-europeu é uma língua hipotética, reconstituída através de vários estu-
dos, realizados por linguistas do século XIX, que concluíram ter havido um tronco
comum para a maioria das línguas faladas em algumas regiões da Ásia e em grande
parte da Europa. A este conjunto de línguas chama-se família das línguas indo-euro-
peias. As migrações dos povos indo-europeus deram origem a vários ramos linguísticos
(itálico, grego, germânico, etc.).
INDO-EUROPEU
Itálico
Latim – línguas românicas: português, galego, castelhano, catalão, francês,
(franco-)provençal, italiano, rético, sardo, romeno.
Grego Grego (moderno).
Germânico Inglês, alemão, neerlandês (holandês), sueco, dinamarquês, norueguês, islandês.
Celta Línguas célticas – bretão, galês (País de Gales), gaélico (irlandês e escocês).
Eslavo
Línguas eslavas – búlgaro, servo-croata, esloveno, polaco, russo, bielorusso,
ucraniano, checo e eslovaco.
1.2 Família das línguas românicas
O latim vulgar (expressão tradicionalmente utilizada para referir a variedade
falada do latim, particularmente pelas classes mais baixas – soldados, comercian-
tes, artesãos), instrumento de comunicação oral, foi levado pelos colonos para as
diversas partes do Império, sobrepondo-se em muitos casos às línguas dos povos
dominados. Foi o fenómeno de transformação lenta desta língua (também ela não
homogénea) em contacto com as já existentes em cada região que deu origem à
família das línguas românicas. Vejam-se algumas semelhanças entre as cinco lín-
guas nacionais europeias:
LÍNGUAS ROMÂNICAS
Étimo Português Castelhano Francês Italiano Romeno
PANE- pão pan pain pane pâine
OCULU- olho ojo oeil occhio ochi
LACTE- leite leche lait latte lapte
PowerPoint
Ficha informativa n.o
9
270 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
2. A geografia do português no mundo
No tempo das grandes viagens de descoberta do mundo, a língua portuguesa foi
língua de prestígio na qual se comunicavam com asiáticos e africanos os mareantes
europeus ao tocarem longínquos litorais. Durante o período do reconhecimento das
terras descobertas, o português adaptado a diferentes culturas manteve-se como lín-
gua geral nas costas de África e Ásia durante os séculos XV, XVI e XVII e foi, também,
língua de expansão cuja difusão ocorria naturalmente no trato do comércio, na domi-
nação dos escravos, na construção do império. Não era, então, necessário justificar a
importância da língua nem forçar a sua difusão: ela impunha-se no facto consumado
de um povo em crescimento que estendia o seu poder. A dilatação da fé e do impé-
rio tinha um veículo: o português. Recordemos que, desde finais do século XVI até
ao século XIX, esta era a língua que, além de utilizada no Brasil, tinha o estatuto de
língua de comunicação generalizada no litoral africano e de língua franca nos portos
da Índia e do Sudeste Asiático. […]
Como entender a língua portuguesa hoje, no cenário da sua difusão no mundo?
[…] O português é hoje uma língua de tradição, um repositório de memórias que os
povos que a falam reconhecem como parte do seu património, ao lado dos monu-
mentos, das artes e ofícios, da música. […]
Mas o português não é só um repositório de referências histórico-culturais. Como
língua de utilização em todas as áreas da sociedade, ele é também uma língua da ciên-
cia atual e das tecnologias. Frequentemente esta função da língua é subsumida com
o argumento falsamente pragmático da vantagem no uso de uma única língua para a
comunicação nos domínios científicos e tecnológicos. […]
Todas as pessoas possuem uma língua materna; a pretensão de a tornar conhecida
é natural e desejável. Foi com essa língua que encontrámos o nosso lugar no mundo,
foi com ela que nos construímos. Torná-la conhecida junto dos outros é algo que nos
compete a todos, com convicção, iniciativa, saber e um entusiasmo sem desistência.
Maria Helena Mira Mateus, «Difusão da língua portuguesa no mundo» (comunicação),
in Simpósio mundial de estudos de língua portuguesa, Universidade de São Paulo, 2008
(disponível em www.fflch.usp.br, consultado em julho de 2014)
(texto adaptado)
O português é a quarta língua mais falada no mundo, segundo dados apresentados
na exposição «Potencial Económico da Língua Portuguesa», realizada no Parlamento
Europeu em 2014.
A língua portuguesa atingiu a sua plena identidade linguística no início dos Des-
cobrimentos, no século XV, e hoje é usada por mais de 250 milhões de pessoas como
idioma oficial.
Este universo de falantes representa mais de 7% da superfície continental da Terra.
São nove os países de língua oficial (cooficial) portuguesa, Portugal, Angola, Brasil,
Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe
e Timor-Leste, todos eles países «plantados à beira-mar» e que representam 4% da
5
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15
20
25
5
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271
Ficha informativa
(Fonte: euronews.pt)
riqueza mundial. [A Guiné Equatorial é membro da CPLP apenas a partir de julho de
2014 e deve cumprir as condições de adesão à organização, nomeadamente o respeito
pelos direitos humanos e o uso do português como língua oficial. Acrescente-se ainda
que também em Macau o português é língua oficial juntamente com o mandarim.]
Tudo indica que em 2050, mais 100 milhões de pessoas se vão juntar ao número
de falantes de português. 350 milhões vão manter a língua portuguesa no topo de
idiomas mundiais […].
O português é ainda uma das línguas que regista uma das taxas de crescimento
mais elevadas nas redes sociais e na aprendizagem como língua estrangeira.
In http://pt.euronews.com (texto adaptado, consultado em julho de 2014)
2.1. Português europeu e português não europeu
Ao longo da História de Portugal, os falantes de língua materna portuguesa entraram
em contacto com falantes de outras línguas e daí resultaram [em conjugação com outros
fatores] variedades do português:
t7BSJFEBEFFVSPQFJB – português falado em Portugal continental e nos arquipélagos
da Madeira e dos Açores. A língua-padrão corresponde à variedade de Lisboa e no
território do continente distinguem-se dois grandes grupos dialetais, o setentrional
e o centro-meridional. O primeiro difere do segundo, entre outras características,
por não opor b a v e por conservar, na pronúncia, os ditongos ou e ei.
t7BSJFEBEFCSBTJMFJSB– português falado no Brasil que se distingue do português
europeu, entre outros aspetos, pelo facto de os seus falantes pronunciarem as
vogais pretónicas mais baixas ou pela colocação dos pronomes pessoais átonos em
posição pré-verbal; apresenta um léxico variado resultante da influência de outras
línguas, nomeadamente do tupi e do guarani ou de línguas africanas.
15
Oceano
Índico
Oceano
Atlântico
Oceano
Pacífico
0 3000 km
Portugal
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Cabo Verde
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S Tomé e rincipe
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Portugal
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Guiné-Bissau
São Tomé e Príncipe
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ÁSIA
ÁFRICA
AMÉRICA
DO SUL
10,5 milhões
475 mil
1,4 milhões
165 mil
12 milhões
Moçambique Timor-Leste
19 milhões
924 mil
190 milhões
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100
150
200
250
Milhões
de
pessoas
2010 2050 (estimativa)
Falantes de português em 2010.
(Fonte: euronews.pt)
Falantes de português em
2010 e projeção para 2050
272 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
t7BSJFEBEFTBGSJDBOBT – português falado nos países africanos de expressão por-
tuguesa; só as variedades do português de Angola, da região de Luanda, e do
português falado em Moçambique é que têm sido mais analisadas, apresentando
diferenças em relação ao português europeu quer a nível fonético, quer mor-
fossintático [por exemplo, na colocação dos pronomes pessoais átonos ou na
construção de estruturas de subordinação], quer lexical (por influência da língua
kimbundu no caso da zona de Luanda ou de outras línguas bantu no caso de
Moçambique).
Maria Olga Azeredo et al., Da comunicação à expressão – Gramática prática de Português
3.º ciclo do ensino básico e ensino secundário, Lisboa, Raiz Editora, 2014, p. 29 (texto adaptado)
1.2 Principais crioulos de base portuguesa
1.2.1 Crioulo
Os crioulos são línguas novas que emergem em comunidades onde previamente
se desenvolveu um pidgin para a comunicação entre os falantes das diferentes línguas
maternas em presença. Devido ao seu uso continuado, num número cada vez maior
de situações, esse pidgin acaba por se reestruturar, complexificar e sistematizar, com
a ajuda das novas gerações de crianças que o adotam como língua materna, dando
assim origem aos crioulos.
Dulce Pereira, Crioulos de base portuguesa, coleção «O essencial»,
Lisboa, Editorial Caminho, 2006, p. 117
1.2.2 Crioulos de base portuguesa
No processo de formação dos crioulos, a língua socialmente dominante (de
superstrato) é a língua que «dá» o léxico. Diz-se, então, que um crioulo é «de base
portuguesa» quando as unidades lexicais são, na sua maioria, reconhecidamente de
origem portuguesa, embora, na sua estrutura, se rejam por regras fonológicas e mor-
fológicas próprias, possam ter significados diferentes e impliquem construções sintá-
ticas também diferentes.
Idem, ibidem, p. 47
Mapas dos crioulos de base portuguesa «mais resistentes»
Oceano
Índico
Oceano
Atlântico
Oceano
Pacífico
0 3000 km
Legenda:
Cabo Verde
Casamansa (Senegal)
Guiné-Bissau
Príncipe
São Tomé
(Santomense e Angolar)
Ano Bom
Papiamento (base ibérica)
Damão
Korlai
Malaca
Fonte: Dulce Pereira,
Crioulos de base portuguesa,
Lisboa, Caminho, 2006, pp. 59-63
PROFESSOR
Sugestão:
Ouvir e ler as transcrições dos vários
5D;AGAE7?3573D6A%3E5;?7@FA
$3D;37D@3@63AD9 Português fa-
36A A5G?7@FAE 3GF~@F;5AE 9D3-
vações audio com transcrição ali-
nhada),Lisboa,CentrodeLinguística
daUniversidadedeLisboaInstituto
3?Š7E  _ )$a
pidgin língua simplificada com-
posta de elementos de duas ou mais
línguas, utilizada como forma de
comunicação entre comunidades
linguísticasdiferentes.
273
Ficha informativa
CONSOLIDA
1. Após a leitura dos textos da página 269, responde às seguintes questões.
1.1 Identifica as línguas nacionais de origem românica.
1.2 Com base na tabela das diferentes línguas românicas, indica a relação que se pode
estabelecer entre os vocábulos. Justifica a tua resposta.
2. Após a leitura dos textos relativos à geografia do português no mundo, responde a cada
um dos itens 2.1 a 2.5, selecionando a opção correta.
2.1 O português, adaptado a diferentes culturas, manteve-se como língua geral nas
costas de África e Ásia dos séculos
(A) XIV a XVI.
(B) XV a XVII.
(C) XV a XVI.
(D) XIV a XVII.
2.2 Atualmente, o português é
(A) apenas uma língua de tradição e património comum.
(B) um simples repositório de referências históricas e culturais.
(C) um idioma de ciência e de tecnologia.
(D) um repositório de referências históricas e culturais e uma língua de ciência e
de tecnologia.
2.3 O português é a
(A) terceira língua mais falada no mundo e a quinta mais falada na Europa.
(B) quarta língua mais falada no mundo e a quinta mais falada na Europa.
(C) quarta língua mais falada no mundo e a terceira mais falada na Europa.
(D) quarta língua mais falada no mundo e na Europa.
2.4 O português regista uma das taxas de maior crescimento enquanto
(A) língua de cultura e de tecnologia.
(B) língua estrangeira objeto de ensino e língua usada nas redes sociais.
(C) língua estrangeira objeto de ensino e língua de tecnologia.
(D) língua oficial e língua estrangeira objeto de ensino.
2.5 As variedades não europeias de português divergem da europeia
(A) na pronúncia das palavras, na construção das frases e no vocabulário.
(B) apenas a nível morfossintático.
(C) unicamente a nível fonético e lexical.
(D) exclusivamente a nível lexical.
3. Atenta nos textos de «Principais crioulos de base portuguesa».
Define, por palavras tuas, crioulo de base portuguesa.
PROFESSOR
Gramática
17.2; 17.8; 17.9.
MC
Consolida
1.1 Português, castelhano, francês,
italianoeromeno.
1.2 As semelhanças que se obser-
vamentreaspalavrasdasdiferentes
línguas mostram que existe uma
origem comum; as diferenças que
existem entre elas permitem perce-
berque,apartirdeummesmoétimo,
cadalínguaapresentaumaevolução
particular.
2.1(B); 2.2(D); 2.3(C); 2.4(B);
2.5(C).
3. O crioulo é uma língua que resulta
da necessidade urgente de comuni-
cação entre indivíduos com línguas
diferentes. Recorrendo-se à língua
socialmente dominante e à já falada
no local, cria-se uma língua mais
simples, mas eficaz, em termos
comunicativos. Este idioma comple-
xifica-seealarga-seanovosusos,daí
resulta um crioulo, língua materna
de novas gerações. Os crioulos de
base portuguesa são aqueles cujo
léxico é fornecido pela língua portu-
guesa.
274 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
DESAFIO
No passado, Portugal ficou conhecido graças às suas descobertas marítimas; no presente,
os portugueses continuam a contribuir mundialmente com as suas descobertas e proezas.
A pares, prepara uma apresentação oral, entre cinco e sete minutos, sobre portugueses
que se distinguem em várias áreas artísticas ou do saber, como a medicina, a biologia,
a informática, a literatura, o fado, o futebol...
Planifica a tua apresentação, estruturando um guião que te permita produzir um discurso
coeso e coerente. Durante a apresentação adota uma postura, tom de voz, articulação,
ritmo e entoação adequados.
Observa as imagens.
Identifica e regista os valores cultural, ético
e estético manifestados nestes textos icónicos.
In http://porfalarnoutracoisa.blogspot.
pt/2014/01/ser-portugues-e.html
In
http://www.portalsplishsplash.com
(adaptado)
In
http
//www
portalsplishsplash
com
(ad
d
apta
p
do)
n
I htt // f l t i bl t
PROFESSOR
Oralidade
3.1; 3.2; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3;
Educação Literária
15.1; 15.4.
MC
PowerPoint
Síntese da unidade
275
GLOSSÁRIO
A
Armada de Vasco da Gama: composta por quatro navios:
a nau São Gabriel, capitaneada por Vasco da Gama; a
nau São Rafael, comandada por Paulo da Gama, irmão
de Vasco da Gama; a caravela Bérrio, da responsabilidade
de Nicolau Coelho; e a nau dos mantimentos (sem nome)
comandada por Gonçalo Nunes.
B
Baco: deus romano correspondente ao deus grego Dioniso,
deus do vinho, oponente dos portugueses.
C
Catual: intendente de negócios com os estrangeiros (povos
do Oriente).
Cupido: deus do amor (para os gregos, Eros), represen-
tado geralmente com asas, às vezes de olhos vendados,
e munido de arco e flechas, para acertar os corações. Era
filho de Vénus e de Marte.
H
Homero: poeta grego que terá vivido no século VIII a.C.
Consagrou o género épico com as suas grandiosas obras: a
Ilíada e a Odisseia. A Ilíada relata o assédio de Troia pelos
gregos até à queda da cidade e desenrola-se no acampa-
mento grego. Na Odisseia, o argumento é centrado em
Ulisses e seus companheiros, no seu filho (Telémaco) e
na sua mulher (Penélope). Narra as viagens e aventuras
de Ulisses.
J
Júpiter: rei dos deuses romanos (para os gregos, Zeus).
Deus das condições meteorológicas. Depois de ter expul-
sado Saturno, seu pai, ficou como rei dos deuses e deu o
império das águas a Neptuno e o dos infernos a Plutão.
M
Melinde: cidade do Quénia, na costa do Índico, a norte
de Mombaça. É uma cidade muito antiga, fundada no
século XIV. Os portugueses estabeleceram aqui uma feito-
ria no início do século XVI.
Mombaça: cidade do Quénia, na costa do Índico.
Musa: cada uma das divindades, filhas de Júpiter e Mne-
mósine (deusa da Memória), presididas por Apolo, que
protegem as ciências e as artes liberais. Calíope (musa da
eloquência) é uma delas.
N
Neptuno: filho de Saturno e de
Reia, irmão de Júpiter e de Plutão.
deus do mar, casou com Anfitrite.
É representado com um tridente
na mão sobre um coche puxado por
cavalos-marinhos.
S
Sirena: ser fabuloso, metade mulher, metade
peixe que, pela doçura do seu canto, atrai os ma-
rinheiros para os escolhos do mar, onde naufragam.
T
Tétis: é uma das Nereidas, filha de Nereu, o velho do mar,
e de Dóris. É, por consequência, uma divindade marinha e
imortal e é a mais célebre de todas as Nereidas. Esposa de
Peleu, rei dos Mirmidões, e mãe de Aquiles.
V
Vénus: filha do Céu e da Terra. É a deusa do amor e da
beleza. Após o nascimento foi levada para o Olimpo,
onde os deuses ficaram maravilhados com tanta formo-
sura. Casou com Vulcano, como recompensa de este ter
fabricado os raios que Júpiter usou na guerra contra os
Gigantes. A deusa, porém, desgostosa com a fealdade do
marido, procurou a companhia dos outros deuses, entre os
quais Marte, de quem teve Cupido. Amou também Adónis
e Anquises, do qual nasceu Eneias.
Virgílio: poeta romano clássico, autor de três grandes obras
da literatura latina: Éclogas (ou Bucólicas), Geórgicas e a
Eneida. A Eneida, considerada a epopeia da antiga Roma,
refere-se à lenda do guerreiro Eneias, que fugiu de Troia,
após a célebre guerra, e terá chegado à península Itálica,
onde se tornou o antepassado do povo romano.
Bibliografia/Webgrafia do Glossário
AAVV, «Homero» (disponível em http://www.educ.fc.ul.pt)
Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Instituto Antônio Houaiss de
Lexicografia, Lisboa, Temas e Debates, 2005
José Marques, «Roteiro da viagem de Vasco da Gama à Índia», 1999
(Álvaro Velho) (disponível em http://ler.letras.up.pt)
Mário da Gama Kury, Dicionário de mitologia grega e romana, J. Zahar,
2003
276 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
Grupo I
A
Lê atentamente os seguintes textos e depois responde aos itens que se seguem, de forma
clara e bem estruturada.
Texto A
Luís de Camões, Os Lusíadas, pref. de Costa Pimpão,
4.ª edição, Lisboa, MNE Instituto Camões, 2000, pp. 1 e 476
1. Atenta no texto A. Explicita a constituição da matéria épica que irá ser celebrada e o
respetivo plano.
2. Relaciona, de forma sintética, o assunto dos dois textos.
3. Explica a função dos últimos quatro versos da estância 146 do texto B.
FICHA
FORMATIVA
2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Texto B
145
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada1
e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida2
.
O favor3
com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dùa austera, apagada e vil tristeza4
146
E não sei por que influxo de Destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino5
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho6
estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.
1 Destemperada: desafinada.
2 Endurecida: indiferente.
3 O favor: o apoio.
4 Dùa austera, apagada e vil
tristeza: de uma sombria, amor-
tecida e mesquinha tristeza.
5 Contino: contínuo.
6 Por divino / Conselho: por Provi-
dência Divina.
COTAÇÕES
GrupoI
A
1.  pontos
2.  BA@FAE
3.  BA@FAE
B
4.  BA@FAE
5.  pontos
pontos
PROFESSOR
GrupoI
A
1.1 A matéria épica pertence ao pas-
sado glorioso de Portugal, nomea-
damente a dilatação da fé católica
e o alargamento do Império a terras
67Ã8D;537ÃE;3B7AED7;E7AGFD3E
«obras valerosas» (presentes, pas-
sadas e futuras) conquistadas por
heróis anónimos (plano da História
de Portugal) e ainda as navegações
superiores às dos heróis antigos
(planodaviagem).
2. No texto A, Camões, assumindo
um tom épico, eufórico, afirma pre-
tender glorificar na sua epopeia
os atos heroicos dos portugueses
dignos de louvor. Pelo contrário, no
texto B, o tom é antiépico ao mani-
festar-se desiludido, perante o rei
 *743EF;yA5A?AEE7GE5A7Fv@7AE
que não valorizam os heróis canta-
dos por ele e adotam uma postura
contráriaàdosseusantepassados.
3. Estes versos introduzem uma
5A@5GEyA G?35A@E7CG~@5;3¤Por
isso») do anteriormente exposto.
Como o país está dominado por
homens indignos, Camões sensibi-
liza o rei para a existência de lusita-
nos excelentes que o servem com
dignidade e sem ambição («Senhor
só de vassalos excelentes»), com os
quaisdeverácontarparaatingiruma
novaglóriaparaPortugal.
277
Ficha formativa
B
Lê a seguinte estância.
5
Dai-me ùa fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.
Luís de Camões, op. cit., p. 2
4. Insere a estância nas estruturas externa e interna da obra a que pertence.
5. Indica dois recursos utilizados pelo poeta no texto acima para conferir sublimidade ao
canto, exemplificando com elementos textuais.
Grupo II
Lê o seguinte texto.
Os Lusíadas: epopeia sem herói
Estranho paradoxo: possuímos uma epopeia mas não temos um herói. Queremos
dizer, um herói literário, uma dessas figuras ideais, mais verdadeiras que gente viva,
de pai e mãe muitas vezes desconhecidos, mas não de silhueta, diversificada até ao
infinito: Ulisses, Eneias, El Cid, Tristão, Hamlet ou D. Quixote. Para compensar uma tal
ausência – cujo mistério se repercute sobre a imagem global da nossa literatura – temos
uma espécie de herói-vivo, cuja lenda verídica teve o condão de se converter em exis-
tência ideal, como é apanágio da ficção perfeita. Referimo-nos, naturalmente, ao pró-
prio Camões, herói da sua própria ficção, e que se tornou para um povo inteiro bem mais
mítico e, mesmo, bem mais heroico que os heróis exaltados pelo seu Poema. Esta miti-
ficação de um poeta não é apenas o produto suspeito e tardio do Romantismo necessi-
tado de completar a sua panóplia do génio infeliz, Schlegel, Ludwig Tieck, o Morgado
de Mateus ou Garrett não fizeram mais que redescobrir e aprofundar o sentido de uma
criação e de um destino consagrados precisamente à invenção heroica de si mesmo.
Ninguém duvidará que o poeta tenha realizado o seu projeto. O fervor de que rodea-
mos a sua obra altiva e bem pouco popular, fervor que para além do canto se ende-
reça ao próprio homem, bastaria para nos convencer disso. Costuma dizer-se – embora
seja bem discutível – que a realidade Cervantes se dilui na dos seus heróis e das suas
aventuras sem fim. Os Lusíadas não nos remetem senão para o autor. Convém subli-
nhar esta característica capital antes de se abordar o tema do tempo da sua obra. Com
efeito, o esforço original de automitificação através do qual Camões tenta escapar à
5
10
15
20
PROFESSOR
GrupoI
4.3@FA 7EF  @HA53{yA 
5. O uso de palavras eruditas
(«avena», «ruda», «canora¥¦ 7 AE
recursos expressivos, como a metá-
fora(«Dai-meũafúriagrandeesono-
DAE3   @yA 67 39D7EF7 3H7@3 AG
8D3GF3DG63 $3E67FG4353@AD37
belicosa»),porexemplo.
278 Unidade 5 // LUÍS DE CAMÕES
insignificância e ao esquecimento é mais decisivo para a compreensão profunda do seu
destino de poeta que as múltiplas figuras da sua relação com a temporalidade. Antes do
tempo na sua obra, há o tempo da sua obra e a essência deste reside na possibilidade, con-
fessada e vivida, de se salvar salvando o seu próprio tempo numa imagem imperecível. […]
Eduardo Lourenço, «Os Lusíadas: epopeia sem herói», in História crítica da literatura portuguesa,
vol. II, Lisboa, Editorial Verbo, 1999, pp. 439-440
1. Para responderes a cada um dos itens 1.1 a 1.6, seleciona a opção correta.
1.1 A afirmação «temos uma espécie de herói vivo» (ll. 5-6), remete para
(A) Vasco da Gama.
(B) os portugueses.
(C) o poeta.
(D) Ulisses.
1.2 Na expressão «a sua panóplia do génio infeliz» (l. 11), o autor recorre a uma
(A) metonímia.
(B) metáfora.
(C) hipérbole.
(D) anástrofe.
1.3 «O fervor de que rodeamos a sua obra altiva e bem pouco popular» (ll. 14-15)
demonstra o caráter
(A) objetivo do texto.
(B) informativo do texto.
(C) subjetivo do texto.
(D) subjetivo e informativo do texto.
1.4 Os travessões na linha 5 e nas linhas 16 e 17 são empregados para
(A) introduzir um comentário pessoal à margem do que se afirma no texto.
(B) indicar uma nota emocional.
(C) assinalar uma explicação.
(D) assinalar a hesitação do pensamento do autor.
1.5 Indica a alínea em que se reconhece o campo semântico da palavra «génio» (l. 11)
(A) «Leonardo da Vinci era um génio», «Ninguém ultrapassa o génio de Mozart».
(B) «O Zé tem um mau génio», «Ele é um génio, descobriu a fórmula sozinho!» e
«Vou pedir inspiração ao génio da música».
(C) «O génio apareceu ontem e protegeu a comunidade».
(D) «O meu avô tem o génio dos negócios».
1.6 No segmento «do Romantismo necessitado de completar a sua panóplia»
(ll. 10-11), o elemento destacado classifica-se como
(A) uma conjunção.
(B) uma preposição.
(C) um advérbio.
(D) um determinante.
COTAÇÕES
GrupoII
1.  pontos
2.1 pontos
2.2 BA@FAE
 Bontos
GrupoIII
 Bontos
PROFESSOR
GrupoII
1.1(C);
1.2(B);
1.3(C);
1.4(A);
1.5(B);
1.6(B).
279
Ficha formativa
2. Responde de forma correta aos itens apresentados.
2.1 Indica a função sintática dos elementos destacados nas seguintes frases:
a) «se repercute sobre a imagem global da nossa literatura» (l. 5).
b) «Camões, herói da sua própria ficção, e que se tornou para um povo
inteiro» (l. 8).
2.2 Classifica a oração «que o poeta tenha realizado o seu projeto» (l. 14).
Grupo III
No canto I, mas principalmente a partir do canto V, Os Lusíadas mostram ser uma epo-
peia pedagógica, dirigida aos portugueses, em particular, e a todos os homens, em geral.
Partindo da afirmação, escreve uma exposição, entre cento e vinte e cento e cinquenta
palavras, baseando-te na tua experiência de leitura da epopeia de Camões.
PROFESSOR
2.1
a)Complementodoadjetivo.
b)$A6;¹536AD3BAE;F;HA6A@A?7
2.2 Oração subordinada substantiva
completiva.
GrupoIII
Sugestõesderesposta:
Introdução 3B7E3D 6AE ;?;F7E 63
condição humana (efemeridade e
obstáculosdavida),ohomem,«bicho
da terra tão pequeno», consegue
atingir a grandeza e a imortalidade
53@FA    
Críticas
„o desprezo das artes e das letras
(cantoV);
„afaltadereconhecimentodospoe-
taspátrios(casopessoaldeCamões)
(cantoVII);
„odinheirocorrompequemovenera
(cantoVIII);
„crítica à decadência moral dos por-
tugueses que perseguem valores
;@6;H;6G3;E†5;A5ADDGB{yA¦?AE-
trando-se indiferentes e apáticos à
reconquistade umanovaglóriapara
apátria(cantoX).
Conselhos
„ conselhos para atingir a fama, a
9†D;33;?ADF3;6367A7E8AD{A;@6;-
vidual,odesprezopeloócio,acobiça,
a ambição, a prática a igualdade, a
luta contra os infiéis e o servir o rei
(cantoIX).
Conclusão+35A?AAE@A?7E9D3@-
diososdanossaHistóriaalcançaram
aimortalidade,apesardasuapeque-
nez humana, também os portugue-
ses (e todos os homens) poderão
alcançá-la, mas, para isso, é neces-
sáriopraticarosverdadeirosvalores.
6
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
História Trágico-Marítima (excertos)
t$BQÓUVMP7jTUFSSÓWFJTBWFOUVSBTEF+PSHFEF
MCVRVFSRVF$PFMIP  x
tWFOUVSBTFEFTWFOUVSBTEPT%FTDPCSJNFOUPT
LEITURA
5FYUPTJOGPSNBUJWPT
3FMBUPEFWJBHFN
COMPREENSÃO DO ORAL
%PDVNFOUÈSJP
3FHJTUPTÈVEJPFBVEJPWJTVBJT
EXPRESSÃO ORAL
4ÓOUFTF
QSFTFOUBÎÍPPSBM
ESCRITA
4ÓOUFTF
QSFDJBÎÍPDSÓUJDB
HISTÓRIA
TRÁGICO-MARÍTIMA
William Turner, O naufrágio do Minotauro, 1805.
mensagens
Afonso Cruz
² FTDSJUPS  JMVTUSBEPS F NÞTJDP QFSUFODF
Ë CBOEB 5IF 4PBLFE -BNC  N KVMIP EF
 OB'JHVFJSBEB'P[ FSBDPNQMFUBNFOUF
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#FMBTSUFTEF-JTCPB P*OTUJUVUP4VQFSJPSEF
SUFT 1MÈTUJDBT EB .BEFJSB F NBJT EF NFJB
DFOUFOBEFQBÓTFT
Stultifera Navis
Quando li a História trágico-marítima, senti sem-
pre presente a ideia de erro enquanto fórmula de
possível sucesso, mas sobretudo de audácia e visão.
Colombo morreu a pensar que o continente americano
era o oeste da Índia. Muitos dos equívocos e desacertos
da humanidade resultaram nas suas maiores descobertas.
Dessa ideia de erro, de aparente insucesso, de naufrágio,
decidi escrever um texto que mostrasse exatamente esse
espírito. É da ousadia que muitas vezes nasce a criação. Da
coragem, do arrojo, aparecem novas terras, novos mun-
dos. Muitas vezes à custa de naufrágios, de enganos, de
acidentes. Ainda hoje é assim, vamos naufragando na polí-
tica, na sociedade, até encontrar terra. Por vezes parece
uma quimera, uma loucura distante, mas pode ser que, um
dia, surja um novo continente. E é essa esperança que nos
faz navegar, arriscar e ousar.
Quando o San Lorenzo, que fazia uma viagem de
Florença a Lisboa, naufragou a sul do Algarve, um
homem chamado Ulisse Bronzino salvou-se com os
seus dois filhos adolescentes, agarrando-se a alguns
destroços da embarcação. Foram recolhidos, segundo
o relato de Bronzino, por um barco dos loucos, Stul-
tifera navis. Era costume, na época, meter os loucos
num barco e deixá-los à deriva, ao sabor da sua própria
loucura. Bronzino depressa se terá apercebido de que
a tripulação daquele barco «era composta por doidos»,
pois «quando lhes perguntava para onde se dirigiam,
diziam que procuravam terra, mas rumavam para oci-
dente, quando a costa ficava obviamente para leste».
Ulisse Bronzino registou no seu diário, e durante várias
páginas, inúmeros comportamentos que considerou bizar-
ros e que classificou de «patética insanidade», tendo, no
entanto, ficado intrigado com a hierarquia estabelecida
dentro da embarcação, que não parecia «própria de doi-
dos». Essa ordem que se desenvolvera no seio da estultícia,
da alucinação e do desatino, acabou por dominar uma boa
parte das reflexões diárias de Ulisse Bronzino, numa ten-
tativa de explicar esse facto tão estranho, tão pouco expec-
tável, quando vindo de loucos.
A convivência com os loucos no espaço confinado da
embarcação acabou por criar uma enorme pressão em
Bronzino, sobretudo porque «os tolos insistiam em rumar
para ocidente» e ele tinha receio de que a Terra acabasse de
repente, o barco caísse no abismo e morressem todos dessa
forma escusada e ridícula, ou mortos pelos terríveis mons-
tros marinhos que habitavam o Atlântico. Quanto mais
Ulisse Bronzino os tentava chamar à razão e dissuadi-los
de rumar em direção a um destino trágico, mais insistiam
que iriam encontrar terra e que, mais inacreditável e insano
ainda, chegariam às Índias. Por isso, ao avistarem uma ilha,
que mais tarde foi batizada de San Anastasio, exigiu que
o deixassem desembarcar, mais aos seus dois filhos, pois já
não aguentava tanta demência e o perigo que essa estultícia
impunha às suas vidas.
«E foi assim que me estabeleci nesta ilha, no meio de
selvagens, mas ainda assim menos imbecis do que os do
barco que me trouxeram até aqui. Não faço ideia do des-
tino que terão tido todos aqueles imbecis comandados
pelo doido mais doido deles todos, um tal de Colombo.»
Afonso Cruz
(Texto inédito, 2014)
282
5
10
15
20
25
30
35
40
45
50
55
cruzadas
O mar e o espaco
Hoje, quando astronautas viajam permanente-
mente em órbita da Terra, convém recordar que a
primeira era de exploração e descoberta foi protago-
nizada por portugueses e espanhóis, nos séculos XV e
XVI, quando eles chegaram por mar ao Brasil, à Amé-
rica do Norte e ao Oriente.
Os portugueses foram pioneiros na extraordiná-
ria ousadia que é necessária para se encontrar novos
mundos. Para conhecerem o desconhecido, tiveram de
deixar não só as suas famílias mas também tudo o que
lhes era familiar. Tiveram, em muitos casos, de deixar a
vida: no início dos Descobrimentos, dois em cada três
homens morriam na viagem. No meio do mar imenso,
que sofregamente «comia» os barcos, os sobreviventes
ficaram a saber que a linha entre a vida e a morte era
bastante ténue. Os navegadores, para irem mais além
no mar, tiveram acima de tudo de ir além de si pró-
prios. Escreveu Fernando Pessoa no poema «Mar Por-
tuguês»: Quem quer passar além do Bojador / Tem de
passar além da dor. A experiência foi dolorosa, mas o
certo é que esse e outros cabos foram passados, tendo
o mundo ficado maior.
A História trágico-marítima conta-nos, numa repor-
tagem em direto, que os barcos eram engolidos pelo
oceano ou, como acontece nesta história de Jorge de
Albuquerque Coelho, numa viagem na nau Santo Antó-
nio entre o Brasil e Portugal, como os marinheiros passa-
vam enormes provações para sobreviver. Não era apenas
a fúria dos elementos que causava a morte, era ainda a
cobiça dos corsários, que, com artilharia bem apontada,
podiam ser piores do que a natureza.
Na recente era espacial saímos da superfície do nosso
planeta, elevando-nos em direção ao espaço. Mas, hoje,
como outrora, apesar de a ciência nos ter enchido a
mão de instrumentos (as telecomunicações, o radar, o
GPS), a aventura não pode ser feita sem consideráveis
riscos, exigindo, por isso, aos aventureiros as mesmas
qualidades que antigamente. Está nos nossos dias a ser
escrita uma história trágico-espacial. Em 1967 o astro-
nauta soviético Vladimir Komarov era a primeira vítima
no espaço ao morrer no regresso da Soyuz I à Terra.
E, em 1986 e 2003, explodiam dois vaivéns espaciais
norte-americanos, o Challenger e o Columbia, um à
partida e o outro à chegada, ceifando de cada vez sete
vidas. Era o ar que engolia as naves, em vez de ser o
mar. Mas, tal como antes, os desastres não diminuíram
a vontade de conhecer o desconhecido. Aprendendo
com os desastres, os vaivéns voltaram ao espaço.
O astronauta da NASA John Phillips, que prota-
gonizou duas missões a bordo dos vaivéns, declarou:
«[No passado] navios perderam-se e pessoas corajosas
morreram, mas isso não implicou que não voltássemos
a essas partes do mundo. Passar-se-á o mesmo com a
exploração espacial.» Ontem no mar, hoje no espaço,
a grande aventura humana, que consiste afinal em
irmos além de nós próprios, continua.
Carlos Fiolhais
(Texto inédito, 2014)
Carlos Fiolhais
² EPVUPSBEP FN 'ÓTJDB QFMB 6OJWFSTJEBEF EF
'SBOLGVSUFQSPGFTTPSOB6OJWFSTJEBEFEF$PJNCSB
²BVUPSEFBSUJHPTDJFOUÓGJDPTFEFMJWSPT JODMVJOEP
Física divertida Nova Física divertidaFDarwin aos
tiros e outras histórias de Ciência (SBEJWB %JSJHJVB
#JCMJPUFDB(FSBMEB6OJWFSTJEBEFEF$PJNCSBFEJSJHF
IPKFP3ØNVMPo$FOUSP$JÐODJB7JWB 6OJWFSTJEBEF
EF$PJNCSB
283
5
10
15
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25
30
35
40
45
50
55
284 6OJEBEFHISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
A literatura de catástrofe: a História Trágico-Marítima
A obra intitulada História trágico-marítima é uma compilação efetuada no século
XVIII, em dois volumes, publicados respetivamente em 1735 e 1736 por Bernardo
Gomes de Brito, que se propusera reunir na mesma obra relatos (relações) de nau-
frágios ocorridos durante o século XVI e início do XVII. Algumas dessas narrativas
corriam em folhas avulsas e correspondiam à ansiedade e ao interesse quase febril
da população em relação aos desastres marítimos que, de uma maneira ou de outra,
envolviam os que ficavam. […]
A causa fundamental da maior parte desses naufrágios residia na ambição exces-
siva de lucro, ocasionando a sobrecarga da embarcação, a má reparação dos cascos,
bem como a partida fora dos tempos aconselháveis para a navegação, com vista à
valorização concorrencial das mercadorias. Além dessas e doutras circunstâncias cuja
responsabilidade cabia quer aos capitães e armadores, quer aos diferentes membros
da tripulação, há que citar os ataques frequentes de corsários, chineses, franceses e
holandeses, os quais ocorriam principalmente nas viagens de regresso e que infesta-
vam os mares.
De autorias várias ou anónimos, estes relatos não apresentavam um estilo único,
mas sim características comuns. Muitas vezes contadas por sobreviventes ou por aque-
les a quem diretamente estes as haviam relatado, estas narrativas, geralmente carac-
terizadas por um tom patético, despojado de retórica e de erudição, apresentam um
tom dramático e por vezes pavoroso, dão conta de
espantosas situações da realidade humana e da aven-
tura pessoal. […]
Libertos das peias1
e sanções da sociedade, assalta-
dos pelo terror iminente da morte, os náufragos entre-
gam-se, muitas vezes, aos mais profundos e ocultos
instintos. Por isso, na História trágico-marítima se
entrelaçam a cada passo a brutalidade e a abnegação2
,
a animalidade e a grandeza moral, a força dos instintos
e a sublimação3
deles. O sacrifício da própria vida, a
tentação da rapina e até do canibalismo, invadem essas
páginas trágicas.
Se Os Lusíadas haviam sido uma epopeia de glória,
a História trágico-marítima não é menos uma epo-
peia, mas de morte e de pavor.
Maria Leonor Carvalhão Buescu,
«Literatura de Catástrofe: a História trágico-marítima»,
in Literatura Portuguesa Clássica, Lisboa,
Universidade Aberta, 1992, pp. 155-156
CONSOLIDA
1.
5FOEPFNDPOUBPUFYUPRVFBDBCBTUFEFMFS GB[VNBsíntese escrita QBMBWSBT QSP
DFEFOEPBVNBSFEVÎÍPEPUFYUPBPFTTFODJBM
/PGJOBM SFWÐ BQFSGFJÎPBFQBSUJMIBBUVBTÓOUFTFDPNPSFTUPEBUVSNB
1 Peias: impedimentos, obstáculos.
2 Abnegação: renúncia espontânea
do interesse, da vontade, da con-
veniência própria.
3 Sublimação: purificação; expurgar
do mal.
«Naufrágio do Galeão Grande S. João de Manuel de Sousa Sepúlveda»,
in#FSOBSEP(PNFTEF#SJUP História trágico-marítima 
5
10
15
20
25
30
PROFESSOR
Leitura
8.1; 8.2.
Escrita
11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1.
MC
Consolida
1. A obra História trágico-marítima,
datada do século XVIII, é uma compila-
ção de Bernardo Brito e reúne relatos
de naufrágios dos séculos anteriores.
Ointeresseporestesrelatoseragrande,
devidoàsnavegaçõesconstantes; mos-
travamosperigosecomopoderiamser
evitados, bem como as circunstâncias
dasviagens.
As causas principais dos naufrágios
envolviamexcessodecarga,negligente
reparação das embarcações, datas de
partida desaconselhadas e ataques
de corsários de várias nacionalidades,
sobretudonoregressoaPortugal.
Grande parte de autoria anónima,
os relatos eram contados por sobre-
viventes, ou por alguém com eles
relacionado, e davam conta dos
tenebrosos acontecimentos, nar-
rando o terror dos nautas e das
práticas pouco morais cometidas,
como o suicídio e o canabalismo.
Esta obra constitui um contraponto à
glóriadeOsLusíadas.
285
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho»
Literatura de viagens
PONTO DE PARTIDA
1.0VWFBUFOUBNFOUFBDBOÎÍPNo país do gelo EF3VJ
7FMPTP5JSBOPUBTTPCSFPTFNCBSDBEJÎPT BTTVBT
NPUJWBÎÜFTFPRVFMIFTQPEFSJBBDPOUFDFSEVSBOUF
BTWJBHFOT
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
O início da aventura do herói Albuquerque
Como se sabe, no tempo do rei D. João III foi o Brasil dividido em capitanias1
, cada
uma concedida a um donatário2
. A de Pernambuco3
, uma das que primeiro se povoa-
ram e que logo alcançou grande importância, coube a um fidalgo de reto espírito,
nobre, perseverante, trabalhador, que tinha por nome Duarte Coelho. Parece que dis-
punha de consideráveis recursos e é de supor que esses seus haveres fossem o resultado
de trabalhos longos que passou em África e no Oriente. […] Passados alguns anos,
resolveu vir até à metrópole, a fim de angariar colonos novos e contratar industriais
competentes com que pudesse desenvolver a sua empresa. Confiou a um seu cunhado,
Jerónimo de Albuquerque, o governo da capitania, e embarcou acompanhado de seus
filhos: Duarte Coelho de Albuquerque e Jorge de Albuquerque Coelho, que tivera de
sua mulher, Dona Brites de Albuquerque.
Na metrópole veio a falecer Duarte Coelho em 1554 […].
Ordenou pois Dona Catarina que Duarte de Albuquerque Coelho, herdeiro da
capitania,afossesemdemorasocorrer;e,entendendoelequelheseriautilíssimaacom-
panhia e ajuda de seu irmão, Jorge de Albuquerque Coelho, suplicou à rainha-regente
que lhe desse ordem de o acompanhar; e assim ela fez.
Chegou em 1560 a Pernambuco, não contando mais de vinte anos de idade; e,
havendo chamado a conselho alguns padres da Companhia de Jesus e várias persona-
gens entre as principais da terra, assentou-se entre todos, ponderado o lance, que se
elegesse por chefe militar da capitania a Jorge de Albuquerque Coelho, o qual, como
lhe disseram que cumpria ao bem público o aceitar ele e servir tal cargo, o aceitou, e se
aventurou, e se esforçou muitíssimo, correndo risco de perder a vida no zeloso cumpri-
mento dos seus deveres.
Começou o ataque aos inimigos naquele mesmo ano de 1560, com tropa de solda-
dos e de criados seus, que alimentava, vestia e calçava à sua custa. Prosseguiu nas ope-
rações de guerra através de montes e de desertos, durante verões e durante invernos,
de noite e de dia, passando grandíssimos trabalhos […]. Frequentemente, não tinham
mais para comer do que os caranguejos do mato que encontravam, cozinhados de fari-
nha-de-pauefrutaselvagemdaquelescampos.Quandoacampavam,faziamosescravos
L
iteratura de viagens ÏVNHÏOFSPMJUFSÈSJPRVFDPOTJTUFOBOBSSBÎÍPEBTFYQFSJÐO
DJBT EFTDPCFSUBTFSFGMFYÜFTEFVNWJBKBOUFEVSBOUFPTFVQFSDVSTP0UFYUPBQSF
TFOUB SFHSBHFSBM DPFSÐODJBOBSSBUJWB EFNPEPRVFBBWFOUVSBQFTTPBMEPBVUPSTFKB
NBJTBNQMBFVOJWFSTBM TFOEP QPSJTTP EJGFSFOUFEPTEJÈSJPTEFWJBHFNPVEFCPSEP 
DBSBDUFSJ[BEPTQPSVNBNBJPSPCKFUJWJEBEFOPSFHJTUPEFPDPSSÐODJBT
5
10
15
20
25
CD 1
Faixa n.o
40
PROFESSOR
Oralidade
1.1; 1.3; 2.1; 2.2; 3.2; 4.1; 4.2;
5.1; 5.3.
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 15.1;
15.2; 16.1.
Gramática
18.1.
MC
PontodePartida
Sugestãodetópicos:
“ B7EEA3E34AD6A?G;F397@F7
fidalgos,membrosdoclero,prosti-
tutas,marinheiros;
“;9@AD3H3? A CG7 ;D;3? 7@8D7@F3D
«Mais parecia um piquenique do
queacarreiradasÍndias»;
“7@8D7@F3D3?F7?B7EF367E
“:AGH7?ADF7E34AD6AB;AFA
“6A7@{3E53B;FyA7367F7D;AD3{yA
do estado de saúde de todos a
bordo;
“7EF3H3?67EG?4D36AE5A?ACG7
poderiamganharnaÍndia;
“B7D3@F7 3 36H7DE;6367 F7@F3D3?
expiar os seus pecados através de
autosdefé;
“BDtF;536753@;43;E?AB3D3EA4D7-
viverem;
“3B7@3EG?3B7CG7@3B3DF7 6AE
que embarcaram concluiu a via-
gem.
Esta atividade poderá ter como
seguimento uma apreciação crítica
oral, partindo das notas retiradas.
$   
1 Capitanias: antigas divisões
administrativas do Brasil.
2 Donatário: título atribuído
a quem era concedida uma
donataria (doação) de um deter-
minado território. Geralmente
as donatarias eram hereditárias.
3 Pernambuco: estado brasileiro
no Nordeste do país, cuja capi-
tal é Recife.
286 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
choupanas de palma, em que se agasalhava toda a tropa. Com estes cuidados que sem-
pre tinha e com as boas palavras que lhes dizia, consolava e contentava a sua gente. […]
Com esta diligência4
e brevidade pacificou em cinco anos a capitania. […]
Então, deixando essa colónia5
conquistada, e os indígenas quietos e pacíficos com
pedirem paz que lhes outorgaram6
, embarcou para a metrópole na nau Santo António,
na qual viagem se deram os casos que nesta narrativa se contêm.
Carregada a nau de muita fazenda no belo porto da vila de Olinda, deu à vela com
vento em popa a 16 de maio de 65. Não eram ainda bem saídos da barra quando se
acalmou o vento com que partiram; logo depois se lhes tornou contrário, os levou de
través7
e os atirou para um baixo8
, onde permaneceram por quatro marés e se viram em
risco de se perderem, o que lhes teria sem dúvida acontecido se fossem então os mares
mais grossos.
Acudiram-lhes com presteza muitos batéis, que lograram9
salvar a gente toda e a
maior parte da carregação. Porém, nem assim descarregada se desencalhou, pelo que
decidiram cortar-lhe os mastros; então, nadou e saiu dos baixos.
Tornada a nau ao porto da vila, foi examinada por oficiais para verem se poderia
seguirviagem;e,poracharemquenãoreceberadanoqueaimpossibilitasseparaanave-
gação, se tornou a preparar e a carregar.
Vários amigos de Albuquerque Coelho, vendo que ele pensava em reembarcar na
nau, quiseram dissuadi-lo de tal proceder pelos maus princípios que já tivera; mas nem
ele, nem os demais passageiros, quiseram dar ouvidos a tais prognósticos, e tornaram
a embarcar na Santo António, que largou enfim da vila de Olinda a 29 de junho de 65.
Cinco dias depois da largada mudou o vento de maneira súbita, tornando-se tão
contrário e de tal violência que trataram de alijar10
fazenda ao mar, por isso que a nau
lhes mareava mal, pela muita carga com que dali partira. Pela tarde piorou ainda, e o
casco abriu água. Davam à bomba continuadamente, às seis mil zonchaduras11
entre
noite e dia. Pouco depois, um pé de vento quebrou o gurupés12
.
Finalmente, já nos doze graus de latitude norte, o vento acalmou. Andaram deza-
nove dias em calmarias, acompanhadas de trovoadas. Resolveram, então, demandar
uma das ilhas de Cabo Verde, em cuja latitude se encontravam, para tirarem a água que
no navio entrava e repararem a avaria do gurupés.
A 29 de julho, não estando já longe de uma das ilhas, deram vista de uma nau e de
uma zabra13
de franceses. Estes seguiram a Santo António, e às três horas da noite
estavamtãopertoquevieramàfalacomanossagente,intimidando-aaqueserendesse.
30
35
40
45
50
55
60
4 Diligência: zelo, cuidado.
5 Colónia: cidade (atual-
mente) do estado de Per-
nambuco, localizada na área
metropolitana de Recife.
6 Outorgaram: concederam.
7 Través: transversalmente.
8 Baixo: pouca altura em
relação ao nível do mar.
9 Lograram: conseguiram.
10 Alijar: tirar ou deitar fora
(a carga, para aliviar o
navio).
11 Zonchaduras: cada operação
de levantar o zoncho (ala-
vanca) da bomba do navio
para fazer subir a água.
12 Gurupés: mastro colocado
na extremidade da proa,
para diante, formando com
a horizontal um ângulo de
30 a 40 graus.
13 Zabra: embarcação
pequena.
14 Cerração: nevoeiro
espesso, escuridão.
287
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho»
Mas entendendo então da nossa nau que se estava aparelhando para defender-se, não
ousaram acometê-la durante a noite, e deixaram-se andar na sua esteira, para tentarem
abordá-la pela madrugada.
Naantemanhã,porém,caiuumatrovoadamuitoforte,queosobrigouaapartarem-
-se uns dos outros, sem que pudessem ver-se na cerração14
. […]
Correram assim até 37 graus (latitude norte). Deviam achar-se bastante para oeste,
porque a nau, com os ventos contrários, abatera muito. (Nesse tempo, ainda só se cal-
culavaalatitude,pelaalturadaestrelapolaroupelaalturameridianadoSol;alongitude
não se calculava, e apenas se estimava pelo caminho andado, imperfeitissimamente).
Então, durante uma semana, foram outra vez as calmarias, – dias de repouso físico
relativo,passadosnamonotoniadeumbalançolento,sonolento,queimpacientava.[…]
Já por esse tempo se passava muita fome e muita sede; e, sabendo Jorge de Albu-
querque Coelho a necessidade dos tripulantes e dos passageiros, e que não havia na nau
mais mantimentos que o que ele trazia para si e para os seus criados, mandou colocar
tudo adiante de todos e repartiu mui irmãmente pela companhia, sem nada pretender
para si próprio, se bem que toda a gente lho quis pagar, por valer muito. Tudo o gene-
roso fidalgo recusou: com o que ficaram todos mui contentes e se sustentaram por
espaço de alguns dias.
No entanto, levantaram-se grandes brigas e discórdias entre marinheiros e passa-
geiros; mas Jorge de Albuquerque, sabedor do caso, interveio, – e lá os foi acalmando
e pondo em paz.
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho (1565)» (capítulo V),
História trágico-marítima. Narrativas de naufrágios da época das conquistas,
adaptação de António Sérgio, Lisboa, Sá da Costa, 2008, pp. 178-185
1.UFOUBOPTUSÐTQSJNFJSPTQBSÈHSBGPTEPUFYUPFJOEJDBPTFVBTTVOUP
2.FTUSVUVSBEFHFTUÍPEBEPOBUBSJBQPSQBSUFEF%VBSUFEFMCVRVFSRVFFSBBJOEBEF
DBSJ[NFEJFWBM
2.1$PNQSPWBBWFSBDJEBEFEFTUBBGJSNBÎÍPDPNQBTTBHFOTUFYUVBJT
3.$BSBDUFSJ[BBGJHVSBEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIP
4.YQMJDJUBEFRVFGPSNBPQSJNFJSPDPOUSBUFNQPEBWJBHFNEF+PSHFEFMCVRVFSRVF
$PFMIPQPEFTFSQSFTTBHJBOUF
5.*OEJDBBSB[ÍPBQPOUBEB RVFQPEFTFSEFTEFMPHPVNQSFTTÈHJP QBSBBTEJGJDVMEBEFTEF
OBWFHBÎÍPEBFNCBSDBÎÍP
GRAMÁTICA
1.*EFOUJGJDBBTGVOÎÜFTTJOUÈUJDBTEBTQBMBWSBTPVFYQSFTTÜFTEFTUBDBEBTOPTTFHVJOUFT
TFHNFOUPTEFGSBTF
a) jConfiou a um seu cunhado, Jerónimo de Albuquerque, o governo da capitaniax

MM 
b) jque lhe seria utilíssima a companhiax MM 
c) jFrequentemente, não tinham mais para comerx MM 
d) jos atirou para um baixox M 
e) jTornada a nau ao portox M 
65
70
75
80
Funções sintáticas
QQ
SIGA
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1. A@F7JFG3;L3{yA :;EF†D;5A BA€
tica de Portugal, e informação sobre
383?€;3i4GCG7DCG7A7:A
2.1 «havendo chamado a conselho
39G@E B36D7E 63 A?B3@:;3 67
Jesus e várias personagens entre
as principais da terra, assentou-se
entre todos¥    EF7B3EEA63
obra mostra que as decisões eram
tomadas à maneira medieval, em
assembleiacomocleroeelementos
63@A4D7L3
3.!AD9767i4GCG7DCG7 A7:A|
descrito como um homem valente,
5AD3AEA 67F7D?;@36A 7 53B3L 67
aceitardesafiosdignificantes.
4. O primeiro contratempo poderá
constituir um sinal de que algo cor-
rerá mal, aliás crença dos marinhei-
ros expressa pelos amigos de Jorge
67i4GCG7DCG7A7:A
5. A carga excessiva com que tinha
partido.
Gramática
1.
a) modificador apositivo do nome /
complemento do nome; b) predi-
cativo do sujeito; c) modificador; d)
complementodireto/complemento
oblíquo; e)complementooblíquo.
Sugestão:
*G97D7 E73ABDA87EEADCG7D77?-
bre aos alunos o poema %3G3FD;-
neta.
▪ %3G3FD;@7F3, Fausto
288 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
ORALIDADE
Documentário
«Caravelas e naus – um choque tecnológico no século XVI»
1. 7JTJPOBPEPDVNFOUÈSJPJOUJUVMBEPCaravelas e naus – um choque tecnológico no século XVI.
1.13FUJSBOPUBTUFOEPQPSCBTFPTUØQJDPTBTFHVJSBQSFTFOUBEPT
a) 5FDOPMPHJBQPSUVHVFTBEPTÏDVMP97*
b) UVBMJ[BÎÍPEBDBSBWFMB
c) 3FHJTUPTFQBTTBHFNEFDPOIFDJNFOUP
d) $BSBDUFSÓTUJDBTEBTDBSBWFMBT
e) *NQPSUÉODJBEPT%FTDPCSJNFOUPT
f) 0SJHFNEBDBSBWFMB
g) 2VBMJEBEFEPTQPSUVHVFTFTFTTFODJBMËDPOTUSVÎÍPEBDBSBWFMB
h) *OÓDJPEBFYQBOTÍPNBSÓUJNB
i) $SFOÎBTEBÏQPDB JOEJDBSUSÐT 
j) *NQPSUÉODJBEPJOGBOUF%)FOSJRVF
k) 4JOBMJ[BÎÍPEBTDPORVJTUBTQPSUVHVFTBT
l) 'FJUPJOÏEJUPEBDBSBWFMB
m) MFYBOESB1FMÞDJBoWJTÍPEPT%FTDPCSJNFOUPT
n) .JIPLP0LBoWJTÍPEPT%FTDPCSJNFOUPT
1.24FMFDJPOBBDBSBDUFSÓTUJDBEPNJOBOUFEPTrecursos verbaisFnão verbaisVUJMJ[BEPT
QFMPTJOUFSWFOJFOUFTOPEPDVNFOUÈSJP
a) tom de vozNPOØUPOPWBSJBEPFQFSDFUÓWFMJNQFSDFUÓWFM
b) articulação das ideiasDPNQFSUJOÐODJBEJTDVSTPEJTQFSTP
c) ritmoMFOUPSFHVMBSSÈQJEP
d) entoaçãoOBUVSBMNPOPDØSEJDBFOGÈUJDB
e) expressividadeNVJUBQPVDBOVMB
f) pausasFYDFTTJWBTPQPSUVOBT
g) posturaSÓHJEBFTFNMJOHVBHFNHFTUVBMEFTDPOUSBÓEB OBUVSBM DPNMJOHVB
HFNHFTUVBMFTQPOUÉOFB
h) olharDPOUBDUPWJTVBMDPNPJOUFSMPDVUPSDPOUBDUPWJTVBMDPNBDÉNBSB
1.31SPWBRVFPDFOÈSJP SFDVSTPOÍPWFSCBM QSFTFOUFOPEPDVNFOUÈSJPTFBEFRVBË
UFNÈUJDBBCPSEBEB
Legenda:
1. Amurada
2. Beque
3. Bujarrona, giba
4. Castelo de popa
5. Castelo de proa
6. Convés
7. Cesto da gávea
8. Cesto do joanete
9. Cevadeira
10. Enxárcia
11. Escovém
da âncora
12. Estai
13. Gata
14. Gávea
15. Gurupés
16. Joanete grande
17. Joanete da proa
18. Leme
19. Mastro grande
(ou real)
20. Mastro da mezena
21. Mastro do traquete
22. Pavilhão
23. Penol, lais
24. Portinhola
25. Tombadilho
26. Vela grande
27. Vela da mezena
28. Vela do traquete
29. Velacho
30. Verga
22
13
8
16
4
18
24
7
20
27
23
30
26
17
29
25
28
14
12
1 6
5
2
11
19
10
21
15
3
9
$POTUJUVJÎÍPEFVNB
OBVQPSUVHVFTB
Documentário
Q
'*
PROFESSOR
Oralidade
1.3; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7.
MC
PontodePartida
1.1 a) Portugal dominava o conheci-
mento mais avançado sobre cons-
trução naval; tecnologia de ponta;
b) vaivém espacial; barco de corrida;
c) por via oral, pois não existia tradi-
ção de registo e convinha também
manter o conhecimento longe do
alcance de outras potências. Todo o
trabalho técnico era feito sem que
houvesse documentos elaborados
por técnicos para o efeito. Sigilo
profissional; d) principais caracte-
D€EF;53EH7D93EA4€CG3E5A?H73E
triangulares – pano latino; bolinava;
t9;7H7ALH7DEtF;7?3@A4DtH7
mais carga…; e) conhecimento de
novas raças e culturas; espalhar a fé
católica e conquistar novas terras;
f) árabe, caíque algarvio; g) inova-
{yA ¹L7D3? H7DEŠ7E :€4D;63E 67
embarcações; h)   5A? 3 5A@-
CG;EF3 67 7GF3 %ADF7 67 Ã8D;53
i)monstrosmarinhos,oceanosfecha-
dos,omundoacabavanomarconhe-
cido…; j) figura decisiva no arranque
dos Descobrimentos; o grande
impulsionador da aventura; início da
Idade Moderna; k) colocação de
B36DŠ7E7?B76D3l) passagem do
cabo da Boa Esperança; m) globali-
L3{yA5A?7{AG5A?AEBADFG9G7E7E
que deram a conhecer ao mundo o
mundo; n) deram conhecimento ao
mundodoprópriomundo.
1.2 a) variado e percetível; b) com
pertinência; c) regular; d) natural;
e) pouca; f) oportunas; g) descon-
traída; h) contacto visual com o
interlocutor.
1.3Cenário:instrumentosdemarear;
@3FGD7L3 7J†F;53¦ 77?7@FAE D73-
cionados com as descobertas feitas
comoauxíliodascaravelasenaus.
Link
Documentário:
«Caravelas e naus
– um choque tecnológico
no séc. XVI».
289
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
1
Documentário
1. O que é?
O documentário é um filme, geralmente de curta ou média metragem, de caráter
informativo, em que se registam e documentam factos e situações da vida real.
In Dicionário da língua portuguesa contemporânea
da Academia de Ciências de Lisboa,
Lisboa, Ed. Verbo, 2001
2. Qual o seu objetivo?
O documentário aborda um tema ou assunto em profundidade, a partir da sele-
ção de alguns aspetos e representações auditivas e visuais. O tema é selecionado em
função da sua importância histórica, social, política, cultural, ambiental, científica ou
económica, representando uma determinada visão do mundo.
3. Que características tem?
O documentário caracteriza-se por:
t SFDPMIFSPNÈYJNPEFJOGPSNBÎÜFTTPCSFVNEFUFSNJOBEPUFNB BUSBWÏTEFVN
trabalho prévio de investigação e entrevistas a um ou mais interlocutores;
t NPTUSBSVNBTJUVBÎÍPSFBMJEBEFBQBSUJSEFVNPVWÈSJPTQPOUPTEFWJTUB
t GB[FSVNBBCPSEBHFNHMPCBMJ[BOUFFBQSPGVOEBEBEPUFNB BQBSUJSEFWÈSJPT
ângulos de perspetiva;
t BQSFTFOUBSVNFODBEFBNFOUPMØHJDPEBJOGPSNBÎÍPSFDPMIJEB
t BQSFTFOUBS HFSBMNFOUF VNBOBSSBÎÍPJOGPSNBUJWBFNvoz-off;
t BQSFTFOUBSJNBHFOTJMVTUSBUJWBT EBBUVBMJEBEFFPVEFBSRVJWP EBTJUVBÎÍP
realidade em análise.
No documentário encontramos:
tWBSJFEBEFEFUFNBT
tQSPYJNJEBEFDPNPSFBM
tFODBEFBNFOUPMØHJDPEPTUØQJDPTUSBUBEPT
tJOGPSNBÎÍPTFMFUJWBFSFQSFTFOUBUJWB DPCFSUVSBEFVNUFNBPVBDPOUFDJNFOUP 
ilustração de uma perspetiva sobre determinado assunto);
tEJWFSTJEBEFEFSFHJTUPT NBSDBTEFTVCKFUJWJEBEF 
tSFDVSTPTWFSCBJTFOÍPWFSCBJT FYQPTUVSB UPNEFWP[ BSUJDVMBÎÍP SJUNP 
entoação, expressividade, silêncio e olhar).
PowerPoint
Ficha informativa n.o
1
290 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Um duplo ataque: os corsários e a natureza
A 3 de setembro, navegando eles em demanda das ilhas, alcançou-os uma nau de
corsários franceses, bem artilhada e consertada1
, como costumavam. Vendo o piloto,
o mestre e os demais tripulantes da Santo António que não iam em estado de se defen-
derem, pois mais artilharia não havia a bordo que um falcão2
e um só berço3
(afora as
armas que o Albuquerque trazia, para si e para os seus criados) determinaram de se
render. Jorge de Albuquerque, porém, opôs-se a isso com a maior firmeza. Não! por
Deus, não! Não permitisse Nosso Senhor que uma nau em que vinha ele se rendesse
jamais sem combater, tanto quanto possível! Dispusessem todos ao que lhes cumpria,
e ajudassem-no na resistência: pois somente com o berço e com o falcão tinha ele espe-
rança que se defenderiam!
Só sete homens, contudo, se lhe ofereceram para o acompanhar; e com esses sete, e
contraoparecerdetodososdemais,sepôsàsbombardascomanaufrancesa,àsarcabu-
zadas4
,aostirosdefrecha,determinadoeenérgico.Durouestalutaquasetrêsdias,sem
ousarem os franceses abordar os nossos pela dura resistência que neles achavam, apesar
de os combatentes serem tão poucos e de não haver senão o berço e o falcão, aos quais
Jorge de Albuquerque pessoalmente carregava, bordeava5
, punha fogo, por não vir na
viagem bombardeiro, ou quem soubesse fazê-lo tão bem como ele.
Ora,vendoopiloto,omestre,osmarinheiros,quehaviapertodetrêsdiasqueanda-
vamnestetrabalho;querecebiamosnossosmuitodanodostirosdisparadospelosfran-
ceses, e que já lhes ia faltando a pólvora, – pediram ao fidalgo e aos que o ajudavam que
consentissem enfim na rendição, pois lhes era impossível o prosseguir na defesa: não
fossem causa de os matarem a todos, ou de os meterem no fundo! Responderam a isto
os combatentes que estavam decididos a não se renderem enquanto capazes para pele-
jar. Os outros, vendo-os assim determinados, deram de súbito com as velas em baixo, e
começaram a bradar para os franceses: entrassem, entrassem na nau, que se lhes rendia!
Os que combatiam, indignados, quiseram matar o piloto e o mestre, pelo ato de
fraquezaaqueforçavamtodos;nãotardou,porém,quesubissemeentrassemdezassete
franceses, armados de espadas, de broquéis, de pistoletes, e alguns deles com alabardas.
Num instante se assenhorearam da nau.
1 Consertada: preparada,
apetrechada.
2 Falcão: pequena peça de
artilharia.
3 Berço: peça de artilharia
curta.
4 Arcabuzadas: descarga
simultânea de arcabuzes
(antiga arma de fogo, que
se disparava inflamando a
pólvora com um morrão).
5 Bordeava: voltar a aresta (de
qualquer peça metálica).
5
10
15
20
25
CD 2
Faixa n.o
2
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6;
14.7; 14.9; 15.1; 15.2; 16.1.
MC
291
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho»
Verificandoamaneiracomovinhaesta,perguntaramcomqueartilhariaequemuni-
ções se haviam defendido tantos dias, e o número dos homens que combatiam. Res-
ponderam-lhes que só Jorge de Albuquerque fizera tudo, para o carregarem a ele com
toda a culpa. Ouvindo isto, dirigiu-se o capitão dos franceses a Jorge de Albuquerque
Coelho com o rosto soberbo e melancólico, e disse-lhe assim:
– Que coração temerário é o teu, homem, que tentaste a defesa desta nau tendo tão
poucos petrechos6
de guerra, contra a nossa, que vem tão armada, e que traz seis deze-
nas de arcabuzeiros?
Ao que respondeu o Albuquerque Coelho, bem seguro de si:
– Nisso podes ver que infeliz fui eu, em me embarcar em nau tão despreparada para
a guerra; que se viera aparelhada como cumpria, ou trouxera o que a tua traz de sobejo,
creioquetivéramos,tueeu,estadosdiferentíssimosdaquelesemqueestamos.Aliás,aboa
fortuna que tivestes, agradece-a à traição desses meus companheiros – o mestre, o piloto,
os marujos, – que se declararam contra mim: pois se me houvessem ajudado, como me
ajudaram estes amigos, não estarias aqui como vencedor, nem eu como vencido.
Contraveio o capitão francês:
– Não te desconsoles, amigo: é isto fortuna da guerra, que hoje favorece uns, ama-
nhã outros. Pelo bom soldado que tu és, far-te-ei muito boa companhia, e àqueles que
teajudaramacombater:quetudomerecequemfazoquedeve,cumprindoaobrigação
da sua pessoa.
Traziaanaufrancesaunsoitentahomens,entreosquaismuitosingleseseescoceses,
e também alguns portugueses. Vinha toda ela maravilhosamente bem ordenada, cer-
rada e empavesada7
da popa à proa […] havendo muitos meses que bordejava no mar, e
tendo já roubado vários outros barcos.
Verificando os corsários franceses o valor da carga que levava a nau, começaram a
navegar para sua terra; e logo ao outro dia, que foram 6 de setembro, se avistaram as
ilhasdoFaialePico,emaisaGraciosa.Eraseuintentodesembarcarosnossos,deixá-los
numa ilha, e abalarem para França com a Santo António. Porém, como começasse a
ventar rijo, desistiram de realizar a sua ideia. Resignaram-se a levá-los para o seu país,
seguindo ao nordeste com vento em popa.
[…] Vendo Jorge de Albuquerque Coelho que os corsários se propunham levá-los
paraFrança,descobriuaossoldadosseuscompanheiros,queotinhamajudadoadefen-
der a nau, – o plano de se levantar contra os franceses. Responderam que o ajudariam,
se vissem nisso salvação possível; reparasse ele, porém, que era a Santo António muito
zorreira8
, mal aparelhada, ruim de leme, e fazendo além disso muita água; a nau fran-
cesa que a seguiria, pelo contrário, mais avançava só com o traquete que a Santo Antó-
nio com o pano todo. […]
Respondeu-lhes o Albuquerque com o maior esforço, tentando animá-los. Não,
nãoeraimpossível!Sematassemosfrancesesquenanaulevavam–dezassetehomens!–
com as armas deles se defenderiam dos outros. […] Não se tinham defendido com tão
poucasarmas,equaseportrêsdias?Quenãopoderiamfazeragora,comarmastãoboas
como eram aquelas? […]
Então, a 12 de setembro, o vento acalmou, para logo depois rondar ao sudoeste.
Pouco tardou que soprasse em fúria, zunindo nas enxárcias9
, turbilhonando nuvens,
rendilhando espumas açoitando no escuro os vagalhões roncantes.
30
35
40
45
50
55
60
65
70
6 Petrechos: munição, ins-
trumento ou utensílio de
guerra.
7 Empavesada: embandeirada.
8 Zorreira: vagarosa.
9 Enxárcias: conjunto de
cabos fixos que, para um e
outro bordo, aguentam os
mastros reais, descendo até
às mesas.
292 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
Alija! Alija! Alija carga! Alija! Alijaram tudo que na coberta havia, e debaixo da
ponte. Como enfuriasse ainda mais o tempo, trataram de alijar os mastaréus10
das
gáveas,etodasascaixasquecadaumtrazia.Paraquenãofosseistopesadoaalguém,foi
a Jorge de Albuquerque Coelho a primeira de todas que se lançaram ao mar, na qual ele
trazia os seus vestidos e outros objetos de importância.
E, parecendo que não bastava isto, arrojaram para as águas a arti-
lharia, com muitas caixas que continham açúcar, e numerosos far-
dos de algodão.
Um mar mais violento desmanchou o leme. Atravessou-se a
nau aos escarcéus, e não foi possível desviá-la para a fazer tornar
a correr em popa.
Quase todos, então, se sentiram descoroçoar. […] Ajoelha-
ram os outros, e pediram a Deus que os livrasse do perigo.
Já a este tempo, que seriam nove horas da manhã, o navio
dos corsários se não avistava; e os franceses que estavam na
Santo António vendo a tormenta desencadeada, o leme
desmanchado, atravessada a nau, o rumor que fazia toda
a gente, – chegavam-se aos nossos em tom amigo e cum-
priamtudoquelheselesmandavam,comosefossemcati-
vos dos portugueses, e não os corsários e roubadores.
Dispôs-se então um bolso de vela para o porem em
torno do castelo de proa, a ver se com isso arribaria a
nau, e deixaria assim de se atravessar ao mar.
Às dez, escureceu por completo; parecia noite.
O negro mar, em redor, todo se cobria de espumas bran-
cas; o estrondo era tanto, – do mar e do vento, – que uns
aos outros se não ouviam.
Nisto, levanta-se de lá uma vaga altíssima, toda negra por
baixo, coroada de espumas; e, dando na proa com um borbotão11
do vento, galga sobre ela, a submerge, e arrasa. Estrondeando e
partindo, leva o mastro do traquete12
com a sua verga e enxárcia; leva
a cevadeira13
, o castelo de proa, as âncoras; estilhaça a ponte, o batel, o beque, arre-
batando pessoas, mantimentos, pipas. Tudo se quebra e lá vai no escuro. A nau, até o
mastro grande, fica rasa e submersa, e mais de meia hora debaixo de água.
Ossobreviventes,quesearrastavampávidos,confluemaumpadrequeseachaabordo
e atropela as rezas e as confissões. Um relâmpago risca, ilumina a treva: veem-se todos de
joelhos, com as mãos no ar, a pedir misericórdia e a clamar por Deus.
Jorge de Albuquerque, como de costume, falava aos outros para lhes dar coragem.
Confiassem em Deus, – e ao mesmo tempo fossem dando à bomba, esgotando a água
que invadira o convés. Enquanto houver vida – dizia-lhes – trabalhem todos por a con-
servar. E se Deus dispusesse por outra forma, tivessem paciência ante os seus decretos:
somente Ele sabe o que nos é melhor. […]
Mas outro vagalhão se lançou sobre a nau. Cobrindo o convés, arrebatou o mastro
grande, verga, vela, enxárcias, camarotes, borda; levou o mastro da mezena14
com o
aparelhotodo,umapartedapopa,etambémumdosfrancesesdosdemaiorjerarquia15
.
75
80
85
90
95
100
105
110
115
10 Mastaréus: pequeno mastro
suplementar.
11 Borbotão: lufada.
12 Traquete: a mais baixa e
maior vela redonda do
mastro da proa.
13 Cevadeira: vela que pendia
de uma verga atravessada
no gurupés.
14 Mezena: mastro de ré.
15 Jerarquia: hierarquia.
293
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho»
Os portugueses que trabalhavam na bomba foram logo arrojados aqui e além; cobertos
pelo mar, todos se convenceram de que se afogariam. Levantaram-se aos poucos, quei-
xando-se este de que partira um braço, aquele uma perna. […] Fuzilavam relâmpagos;
a força do vento, a imensidade das ondas, aterravam os ânimos; a água que entrava vinha
cheia de areia. Jorge de Albuquerque, apesar de tudo, consolava os tristes, afirmando-
-lhes a esperança de se saírem daquilo. […]
Passados três dias, em que continuamente se deu à bomba, começou enfim a abo-
nançar a procela.
Dos pedaços da ponte que o mar abatera, e de três remos do batel que escaparam do
estrago, trataram logo de improvisar um mastro e armaram nele uma velazinha.
Os nossos, então, pensaram em dar cabo dos estrangeiros. Jorge de Albuquerque
dissuadiu-os disso. […]
Assim discutiam, travando razões, quando deram vista da nau francesa. Fizeram-lhes
fogos. Ela acudiu, desbaratada também, mas não destroçada como estava a nossa. […]
Dois dias depois, aquietava o tempo. Os corsários, aproveitando a bonança, trata-
ram de descarregar a Santo António das muitas mercadorias que nela vinham, e que
haviam escapado do furacão ou do alijar de carga que se havia feito. Até despojaram
alguns portugueses dos próprios fatos que traziam vestidos. […]
Negaram-se a prover os desgraçados de algumas coisas que precisavam, […] [e]
deram-lhesdoissacosdebiscoitopodre;enasegunda-feira,17desetembro,afastou-se
a nau deles a todo o pano, e foi-se esbatendo na atmosfera turva.
Sumiu-se com ela a esperança dos nossos.
Desapareceu, por fim.
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho (1565)» (capítulo 5), op.cit., pp. 185-202
1.$POTJEFSBPFYDFSUPRVFBDBCBTUFEFMFSFFMBCPSBUØQJDPTRVFTJTUFNBUJ[FNBTJEFJBT
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3.3FMBDJPOBPTQPOUPTEFWJTUBEPOBSSBEPSFEPQSPUBHPOJTUBSFMBUJWBNFOUFËBUJUVEFEP
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4.MFODBPTQFSJHPTRVFBNFBÎBWBNBTWJBHFOTEBTOBVT
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6.TUBCFMFDFVNBSFMBÎÍPEFTFOUJEPFOUSFPJOÓDJPFPGJNEFTUFFYDFSUP+VTUJGJDBBUVB
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7.UFOUB BHPSB OPUFYUPEBTMJOIBTB
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7.23FGFSFPTJNCPMJTNPEPTPCTUÈDVMPTFYQFSJNFOUBEPT
8.*EFOUJGJDBPTSFDVSTPTFYQSFTTJWPTQSFTFOUFTOPTTFHVJOUFTWFSTPT
a) jSumiu-se com ela a esperança dos nossosx M 
b) jàs bombardas com a nau francesa, às arcabuzadas, aos tiros de frechax MM 
c) jNão se tinham defendido com tão poucas armas, e quase por três dias?x MM 
120
125
130
135
140
PROFESSOR
EducaçãoLiterária
1.
1. Avistamento de uma nau francesa
que tenta a abordagem. 2. Persegui-
{yA6AEBADFG9G7E7EBAD@3G7H363
a cabo pelos corsários franceses.
3. Resistência duradoura à aborda-
gem dos corsários, sem sucesso.
4. Abordagem da nau e perplexidade
do capitão francês. 5. Decisão de
levar a embarcação e os seus tripu-
lantesparaFrança.6.JorgedeAlbu-
querque desvenda o seu plano de
fugaaosmarinheiros.7.Tempestade
violenta que danifica seriamente
a embarcação. 8. Os portugueses
83L7? B3@AE B3D3 3EE3EE;@3D AE
corsários a bordo da Santo António.
9. Os franceses abandonam a Santo
Antóniopraticamentesemrecursos.
2.Psicologicamente,écorajosoe de-
terminado, quando não desiste do
combate contra os corsários [defen-
EAD63BtFD;3]43D5AaCG3@6A?3@-
tém o ânimo durante a adversidade;
altruísta, quando reparte os seus
bens e alimentos com os outros e
pensa no bem-estar comum; e racio-
nal, quando evita derramamento de
sanguedesnecessário.
3. Relação de semelhança, pois
ambos a consideram uma atitude
67 FD3;{yA 7 D7@6;{yA    
além disso, o protagonista mostra
resignação perante a traição sofrida
D7H73 3EG3 @A4D7L3 67 53DtF7D ¬
  
4. Os naufrágios, os ataques de pira-
tas/corsários.
5. Através desta descrição porme-
@AD;L363BD7F7@67 E75A@87D;D?3;E
realismo e dramatismo à situação
vividapelosportugueses.
6.Semelhança/circularidade.Oexcer-
to inicia-se com o desespero dos
marinheiros por uma possível abor-
dagem dos corsários. No fim, o sen-
timentodosmarinheiroséomesmo,
agora com a nau quase destruída,
sem alimentos e recursos de nave-
gação.
7.1 Os marinheiros mostram profes-
E3D 3 8| 53F†;53  )7L3? 7 5A@87E-
sam-se,desejandoalcançaroperdão
divino,peranteaiminênciadamorte.
7.2 Os perigos experimentados, tal
comoastempestades,representam,
naépoca,airadivinaeaexpiaçãodos
pecados.
8. a) metáfora; b) enumeração;
c)interrogaçãoretórica.
294 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
ORALIDADE
Síntese
1.-ÐPTFHVJOUFUFYUP
2.
1BSUJOEPEBJOGPSNBÎÍPBQSFTFOUBEB SFHJTUBPTUØQJDPTQSJODJQBJTFGB[BTÓOUFTFEP
UFYUPRVFOÍPQPEFSÈVMUSBQBTTBSPTUSÐTNJOVUPT
Um estudo revela que o sequestro de navios no Corno de África rendeu até
400 milhões de dólares entre 2005 e 2012, e passou a ter investidores.
A pirataria teve a sua idade de ouro
nos mares internacionais entre os sécu-
los XVI e XVII. Era uma atividade extre-
mamente lucrativa
e, em grande parte
ilegal, já que apenas
os corsários tinham
autorização dos seus
governos para ata-
car e saquear navios
de nações inimigas.
Quatro séculos depois, os piratas ainda
parecem ser capazes de ganhar grandes
quantias em dinheiro. Entre abril de
2005 e dezembro de 2012, lucraram
entre 339 e 413 milhões de dólares
em resgates na costa da Somália e no
Corno de África. […] O estudo [rela-
tório da UNUDC, Gabinete da ONU
para as Drogas e o Crime, do Banco
Mundial e da Interpol] foi feito a par-
tir de dados e evidências retirados de
entrevistas com ex-piratas, autoridades
governamentais, banqueiros e outros
envolvidos no combate à pirataria. Pelo
menos 179 barcos foram sequestrados
neste período, tendo cerca de 85% deles
sido libertados após o pagamento de
resgates, que alimentaram uma vasta
cadeia de atividades criminais à escala
global. […]
Segundo este estudo, o dinheiro
dos resgates foi investido noutras ativi-
dades como o tráfico, o financiamento
de milícias, o tráfico de pessoas, novas
atividades de pirataria e o aumento das
capacidades militares da Somália. […]
A economia da pirataria movimenta
um mercado que vai
desde a alimentação,
prostitutas, advoga-
dos e até mesmo veri-
ficadores de notas
que podem identifi-
car falsificações. Da
mesma forma que as
comunidades locais «beneficiam» com
o comércio de produtos e serviços aos
piratas, as milícias também lucram com
taxas cobradas pelo controlo dos por-
tos. […]
E esse facto tem grande impacto
global, pois representa um risco para
a segurança internacional e, principal-
mente, porque ameaça as atividades
comerciais numa rota marítima valiosa
(canal do Suez).
Segundo o relatório, a pirataria
custa à economia global cerca de 18
mil milhões de dólares por ano em
aumento dos custos em comércio. O
surto de pirataria também reduziu a
atividade marítima no Corno de África,
prejudicando o turismo e a pesca nos
países do leste africano desde 2006.
A milionária cadeia da pirataria na Somália
5
10
15
20
25
30
35
50
55
60
65
40
45
(BCSJFM#POJT  
inXXXDBSUBDBQJUBMDPNCSJOUFSOBDJPOBM
a-milionaria-cadeia-da-pirataria-na-somalia
(texto adaptado, consultado em setembro de 2014)
Síntese
Q
SIGA
PROFESSOR
Oralidade
1.3; 2.1; 2.2; 3.2; 4.2; 5.2; 5.3;
6.1; 6.2; 6.3.
MC
Oralidade
A pirataria, que atingiu o auge nos
séculos XVI e XVII, foi uma atividade
muito rentável, mantendo-se ainda
hojeativanacostadaSomália.
Um estudo – relatório de diversas
AD93@;L3{Š7E ¬ D7H73 5A@FAD@AE
atuaisdailegalidadeedosrendimen-
FAEA4F;6AEGF;;L36AEB3D3¹@3@5;3D
outras atividades ilícitas, como o
tráfico, as milícias e novas ativida-
des de pirataria. Refere, ainda, que a
pirataria alimenta uma rede que vai
desde a prostituição, comércio local
atépráticasdeadvogados.
Esta atividade põe em risco a eco-
nomia global devido à passagem no
53@36A*G7L3F;@9;@6A6;87D7@F7E
setores,comosãoexemplooturismo
eapesca.
295
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho»
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
Acabam-se os trabalhos: a justa recompensa
Ficaram sós.
Então, vendo-se desamparados na vastidão oceânica, sem nenhuns recursos, sem
um livor de esperança, caíram de joelhos no convés da nau, puseram-se a rezar o
Miserere1
.
Rezado o Miserere e as ladainhas2
, Jorge de Albuquerque começou a mandar, a
tomar providências para a salvação de todos. Só se encontraram em todo o navio:
numa botija, duas canadas de vinho; uma pequena quantidade de cocos; alguns poucos
punhados de farinha-de-pau, e meia dúzia, ao todo, de tassalhos3
de carne e de peixe-
-cavalo. Isto, – para quarenta pessoas que a bordo havia.
Jorge de Albuquerque repartiu os mantimentos por suas mãos, reservando para si
mesmo um quinhão4
menor que o que dava aos outros. Todos se espantavam de como
se sustentava de tão pouco, com tanto trabalho em que lidava sempre, tanto de dia
como de noite. Ao parecer, mais se doía das necessidades alheias que das próprias.
Homem para comandar liberalmente, pela bondade e pela persuasão, e de todo o
ponto admirável. [...]
No dia que se seguiu ao da partida dos corsários, mandou Jorge de Albuquerque
coser uma vela com uns tantos guardanapos e toalhas de mesa, que se acrescentaram
a uma velinha latina, do esquife5
dos franceses, que lhes ficara. De dois remos do batel
fizeram a verga [...]. Ao leme, que ficara dependurado por um só ferro, lançaram umas
cordas como bragueiros6
para que pudesse servir por uns três dias.
Com este aparelho seguiram viagem, lançando rumo pelo nascer do sol à falta de
instrumentos de marear, que todos lhes roubaram os franceses. [...]
Pouco lhes durou essa alegria. No dia seguinte ao de se tomar a água voltou o nor-
deste a soprar rijíssimo, com grandes vagas e com muito frio. Mal se aguentavam com
osbalançosdanau;asmesasdaguarnição,porandaremsoltas,faziamumamatinadade
mil demónios; as ondas galgavam e invadiam tudo; e já o alimento chegava ao fim. Só
três cocos se distribuíam por dia, isto para cerca de quarenta pessoas.
Assim seguiam, ao sabor do vento. Voltou a tortura de dar à bomba; vieram o desâ-
nimo e a fome horrível. Jorge de Albuquerque, além dos trabalhos comuns aos outros
– pois de todos irmãmente partilhava ele – tinha o cuidado de prover a tudo, e o de
comandar, consolar, animar os homens, comunicar o seu fogo à companhia inteira;
e em tão amigos, tão brandos, tão piedosos termos lhes falava sempre, que quase sem
forças se levantava a gente: rediviva7
, pronta, – retomava a faina. Embarcara doente no
Brasil; e agora, depois de tantas lutas e de tanto esforço, de tantas privações e de tantas
penas, jamais se lhe ouvia a menor das queixas. Tão são lhes parecia e tão bem dis-
posto, tão prazenteiro8
, tão forte continuador dos seus trabalhos, que causava espanto
e envergonhava a todos. Para sugestioná-los, afirmava-se convicto de que iriam chegar,
não a outro porto, mas à própria Lisboa. [...]
Com a rijeza do vento, romperam-se as velas que levavam; e estando eles na faina
de consertá-las, eis que acabou de desapegar-se o leme, quebrando-se o ferro que lhe
restava e rompendo-se os cabos com que o tinham atado.
Foi então o cúmulo do desespero. Deixaram-se cair todos no convés, desamparada-
mente, com a certeza absoluta de que morreriam de fome.
5
10
15
20
25
30
35
40
1 Miserere: designação do
50.º salmo de David que
começa por esta palavra
(súplica do pecador arre-
pendido).
2 Ladainhas: oração em que
se pede à Virgem e aos
santos para intercederem
pelos fiéis.
3 Tassalhos: pedaço grande.
4 Um quinhão: parte que cabe
a cada um na repartição de
um todo.
5 Esquife: batel, bote.
6 Bragueiros: cabo com que
se segurava o leme quando
se quebravam os ferros que
normalmente o prendiam.
7 Rediviva: rejuvenescida.
8 Prazenteiro: alegre, con-
tente.
PROFESSOR
Educação Literária
14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.7;
14.9; 15.1; 15.2; 15.3; 16.1.
Gramática
19.2; 19.3; 19.4; 19.5.
Escrita
10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3;
12.4; 12.5; 13.1.
MC
EducaçãoLiterária
Sugestão:
Visionamento do trailer dos filmes
3B;FyA ':;;BE ou A vida de Pi
AG 3;@63 6A ¹?7 6A5G?7@FtD;A
O mundo em duas voltas – uma
aventura da família Schürmann.
Sugere-se a elaboração de um breve
comentário, apontando semelhan-
ças e diferenças entre o relato lido e
osfilmes-documentário.
▪ Vídeo3B;FyA':;;BE
▪ Vídeo A vida de Pi
▪ Vídeo O mundo em duas voltas
296 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
De súbito, Jorge de Albuquerque levantou-se rijo, com ledo aspeto; e, pegando
num livro que trazia consigo, tirou duas imagens de Cristo e da Virgem, pegou-as no
mastro, chamou os companheiros para o pé de si, cada um por seu nome, e começou a
pregar-lhe animadamente, afirmando-lhes a certeza de que se salvariam. [...]
Depois,àsescondidas,feztestamento;e,acrescentandoaessemuitosoutrospapéis,
acomodou tudo num barril pequeno, que fechou e breou9
o melhor que pôde, dis-
posto a lançar o barrilinho à água quando visse chegado o derradeiro instante. Mas isto
o fez em tão grande segredo que nenhum dos outros por então o soube. [...]
Chegados a 27 daquele mês, começou a necessidade de lançarem às ondas os pri-
meiros companheiros que morreram de fome. Certos homens, nesse transe, lembra-
ram-sedepediraJorgedeAlbuquerqueapermissãodecomeremaquelescadáveres.Ao
ouvir este horrível requerimento, arrasaram-se-lhe os olhos de água. Não, não podia
ser; não o consentiria, enquanto vivesse; se morresse, porém, dava-lhes licença de o
comerem a ele.
O desespero, então, levou alguns a uma outra ideia: arrombar a nau para acabarem
de vez. Soube-o o Albuquerque, e impediu que o fizessem. [...]
A 29, pela manhãzinha, avistou-se uma nau. Fizeram-se sinais alvoraçadamente; os
da nau, porém, não lhes quiseram valer, e seguiram seu rumo.
Mais três dias se passaram assim, no trabalho contínuo de dar à bomba. A 2 de
outubro, entre a neblina, pareceu-lhes divisar arrumação de terra. Cerca do meio-dia,
dissipou-se a névoa. Maravilha! Deus louvado! Era a serra de Sintra! Lá estava, ao cimo
das rochas, a própria casa da Senhora da Pena!
Mas não tinham maneira de se aproximar da praia. Iam numa carcaça sem governo
algum. [...]
Pouco depois, felizmente, avistaram uma barca pequenina, que navegava para a
Atouguia10
. Começaram a bradar-lhes, de joelhos, que lhes valessem; e estando a barca
a um tiro de berço, logo lhes acudiu com muita pressa.
VinhaabordodessabarcaumRodrigoÁlvaresdeAtouguia,mestreesenhoriodela,
e uns parentes e amigos seus. Todos começaram a esforçar os da nau. Não temessem
nada; não os desamparariam, ainda que com risco de se perderem eles próprios. E não
desejavam por isso prémio algum.
Vendo o estado em que estavam os da nau, ficaram atónitos. Logo lhes deram pão,
água e frutas, que para si traziam.
9 Breou: cobriu ou untou
com resina.
10 Atouguia: (Atouguia da
Baleia) vila do concelho de
Peniche.
11 Fundeasse: ancorasse.
45
50
55
60
65
70
75
297
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho»
O senhorio da barca, tanto que acabou de lhes dar de comer, passou-lhes um cabo
dereboquecomqueafastaramanaudarochaeaforamtrazendoaolongodacostaatéà
baía de Cascais, aonde chegaram pelo sol-posto. Acorreram botes, em que se meteram;
uns desembarcaram ali em Cascais; outros só em Belém tomaram terra.
A nau, durante a noite, ficou amarrada à popa da barca, por não ter âncora com que
fundeasse11
. No dia seguinte, o cardeal infante D. Henrique, que governava o reino,
fez expedir uma galé que a fosse trazendo pelo rio acima. Fundeou a nau, finalmente,
diante da igreja de S. Paulo [...].
Jorge de Albuquerque, antes de tudo, satisfez largamente o senhorio da barca e
os que o haviam ajudado no salvamento. Desembarcou em Belém com alguns com-
panheiros, e dirigiu-se em romaria a Nossa Senhora da Luz, pelo caminho de Nossa
Senhora da Ajuda. [...]
Saudou-os então D. Jerónimo de Moura, inquirindo se eram eles, os do grupo, os
que com Jorge de Albuquerque se tinham salvo. E confirmando eles que de facto o
eram, perguntou D. Jerónimo:
– E Jorge de Albuquerque? Vai adiante? Fica atrás? Ou tomou outro caminho?
Jorge de Albuquerque, que se achava ali mesmo diante dele, lhe respondeu:
– Senhor, Jorge de Albuquerque não vai adiante, nem fica atrás, nem tomou outro
caminho.
Cuidando D. Jerónimo que zombava, quase se houve por desconfiado, e lhe disse
que não gracejasse, e respondesse à pergunta.
E Jorge de Albuquerque:
– Senhor D. Jerónimo: se vísseis Jorge de Albuquerque, conhecê-lo-íeis?
– Decerto.
– Pois sou eu, Jorge de Albuquerque! E vós sois meu primo, D. Jerónimo, filho de
D. Isabel, minha tia. Julgai dos trabalhos por que passei!
Só havia um ano que não se viam.
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho (1565)» (capítulo 5), op.cit., pp. 202-214
1.3FGFSFBTBEWFSTJEBEFTWJWJEBTBQØTBQBSUJEBEPTDPSTÈSJPTGSBODFTFT
2.QSFTFOUB QPSQBMBWSBTUVBT PRVFBSFEBÎÍPEPUFTUBNFOUPSFWFMBTPCSFPDBSÈUFSEF
+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIP
3.*EFOUJGJDBBBÎÍPEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIPBQØTPEFTFNCBSRVFFN-JTCPBFP
RVFSFWFMBTPCSFBNFOUBMJEBEFEBÏQPDB
4.YQMJDJUBEFRVFGPSNBBOBVQPEFSÈDPOTUJUVJSVNBNFUPOÓNJBEBQFSTPOBHFNQSJODJQBM
5.0OBSSBEPSDPOTUSØJBJNBHFNEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIPDPNPIFSØJ
5.1.PTUSB QPSQBMBWSBTUVBT DPNPPGB[
6.*EFOUJGJDBPUJQPEFSFMBÎÍPRVFTFQPEFFTUBCFMFDFSFOUSFFTUFSFMBUPFBWJTÍPPGJDJBM
TPCSFPQFSÓPEPEPT%FTDPCSJNFOUPT KVTUJGJDBOEPBUVBSFTQPTUB
7.3FGFSFPTUSBÎPTDPNVOTEFTUBBWFOUVSBDPNVNSFMBUPEFWJBHFN
80
85
90
95
100
As aventuras e desventuras
dos Descobrimentos
Q
'*
Relato de viagem
Q
'*
PROFESSOR
1. Falta de alimentos, nova tempes-
tade, destruição parcial da nau,
morte de marinheiros, falta de ajuda
deoutrasembarcações.
2. Revela que, apesar de se mostrar
corajoso e determinado, está cons-
ciente das dificuldades e da sua pos-
sívelmorte.
3. Após o desembarque, e depois de
ter recompensado o dono da embar-
cação que o ajudara, parte em roma-
D;33%AEE3*7@:AD363#GL7?E;@3
de agradecimento, evidenciando a
fortereligiosidadedaépocaeofacto
de ter expiado os seus pecados com
aquelatribulação.
4. A nau, apesar de maltratada pela
intempérie e pelo assalto dos cor-
sários, mantém-se à tona da água,
nunca afundando. Tal como a nau,
o protagonista mostra-se resiliente
e combativo, tentando, apesar de
tudo, manter-se firme e animar os
AGFDAE A@EF;FG;BAD;EEAG?3meto-
nímia, pois o protagonista está dire-
tamente relacionado com a nau,
emboranãosejapartedela.
5.1 O narrador, ao longo de toda a
ação,vaicriandoaideiadeheróisobre
a personagem principal, aquele
que não desiste perante a adver-
sidade,apoiaosoutros;portanto,um
3FDG€EF37JFD7?A5A?ABDAH3?AE
7J7?BAE@3E   
6. Relação de contraste, porque o
CG7|@3DD36A5A@FD36;L3H;EyA93-
morosa que, genericamente, se tem
sobreoperíododosDescobrimentos.
Esterelatoprovaqueosmarinheiros
passavampormuitasprovações,por
muitas situações-limite que resul-
F3D3??G;F3EH7L7E@3EG3BD†BD;3
morte. Para existirem os momentos
gloriosos, houve momentos de tra-
gédia.
7. Há uma seleção dos acontecimen-
tos considerados mais marcantes; o
relato não é objetivo e tenta trans-
mitir a experiência vivida ao leitor,
centrando-se na explicação, orien-
tação e opinião, sempre com base
@3 D73;6367  A?A 7? D73FAE 67
viagemtípicos,estenarradorregista
as suas impressões sobre lugares,
pessoas e situações com os quais se
depara durante a viagem, caracteri-
L3@6A AE
298 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
GRAMÁTICA
1.
3FDPMIFEPUFYUPUSÐTDPOTUJUVJOUFTEPDBNQPMFYJDBMEBQBMBWSBjOÈVUJDBx3FMBDJPOBP
DPNPUFNBEPNJOBOUFEPUFYUPFDPNBSFTQFUJWBJOUFODJPOBMJEBEFDPNVOJDBUJWB
2.
*EFOUJGJDBPDBNQPTFNÉOUJDPEBTQBMBWSBTjWFMBxFjWBHBx DPOTUSVJOEPEVBTGSBTFT
QBSBDBEBWPDÈCVMP
3.
*NBHJOBUFOPUFNQPEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIPFJOEJDBTFBTQBMBWSBTjGBSJOIB
EFQBVx jDPDPxFjOBVxTFSJBNDPOTJEFSBEBTBSDBÓTNPTPVOFPMPHJTNPT+VTUJGJDBB
UVBSFTQPTUB
ESCRITA
Apreciação crítica
IJTUØSJBEPT%FTDPCSJNFOUPTQPSUVHVFTFTGPJHMPSJPTB NBTUBNCÏNGFJUBEFNPNFO
UPTUFSSÓWFJTQJOUVSBHistória trágico-marítima EF)FMFOB7JFJSBEB4JMWB JOUFSQSFUB
FTTBTDBUÈTUSPGFT
QBSUJSEBPCTFSWBÎÍPFEFTDSJÎÍPEBJNBHFN QMBOJGJDBVNBapreciação crítica FOUSF
DFOUPFWJOUFFDFOUPFDJORVFOUBQBMBWSBT OBRVBMSFGJSBTPTTFHVJOUFTUØQJDPT
tEFTDSJÎÍPEPRVBESP
tDPNQBSBÎÍPDPNPTFYDFSUPTFTUVEBEPTEBPCSBHistória trágico-marítima
tDPNFOUÈSJPDSÓUJDPTPCSFPQFSÓPEPEPT%FTDPCSJNFOUPT
/ÍPUFFTRVFÎBTEFJEFOUJGJDBSBTGPOUFTVUJMJ[BEBT EFDVNQSJSBTOPSNBTEFDJUBÎÍP 
EFVUJMJ[BSBTOPUBTEFSPEBQÏ TFOFDFTTÈSJP FBJOEBEFFMBCPSBSBCJCMJPHSBGJBEPTEP
DVNFOUPTDPOTVMUBEPTQBSBSFDPMIFSFTJOGPSNBÎÍP
)FMFOB7JFJSBEB4JMWB História trágico-marítima 
Apreciação crítica
Q
SIGA
Campo lexical e campo semântico
Q
'*
Arcaísmo e neologismo
Q
'*
PROFESSOR
Gramática
1. «ondas¥    ¤convés¥   
«marear¥ ¬D735;A@3? E75A?
o tema da viagem marítima numa
nau.
2.-73i57@6;G?3H73  iH736A
barcorasgou-se.
-393 ,?3 H393 7@AD?7 5A4D;G A
barco. / Há uma vaga de novos estu-
dantes.
3. Neologismos, dado que desig-
navam realidades novas daquele
tempo, logo teriam sido recente-
?7@F7;@FDA6GL;63E@3€@9G3
Escrita
O quadro apresenta um bote cheio
de homens e mulheres que formam
umamassaquaseindissociável.Este
barco surge rodeado por uma onda
que também é formada de homens
e mulheres, remetendo para a parte
trágicadosDescobrimentos,ouseja,
este período de glória foi cimentado
pelas mortes de várias tripulações.
Numa das extremidades da onda
parece desenhar-se uma criatura
semelhante a um cão, ou lobo,
BA67@6AE7DE€?4AA67|D47DAA
cãodemuitascabeçasqueguardava
a porta do Inferno. Todo o ambiente
do quadro é escuro, indício de tragé-
dia. O que se destaca na pintura é a
amálgama de corpos mais coloridos
do que o fundo do mar, e só através
de uma observação mais pormeno-
D;L363|CG7E7H;EG3;L3?AE5ADBAE
daspessoas.
A obra de Vieira da Silva é uma boa
representação dos excertos dos
capítulos analisados, pois retrata
3EFAD?7@F3EA67EF;@ABADH7L7E
certo, dos que se lançavam ao mar
nas naus; o lado menos auspicioso
das Descobertas. Uma das partes
descritas nos excertos é o desânimo
que assolava os tripulantes depois
de várias peripécias, bem como
a destruição quase total da nau.
O mesmo se pode observar neste
quadro, nos rostos quase sem
expressão e na embarcação cheia de
pessoascomoutrastantasnomar.
299
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
2
Em pleno reinado de D. João V, ainda sob o influxo1
de uma cultura tardo-barroca,
Bernardo Gomes de Brito publica em Lisboa – oficina da Congregação do Oratório,
1735-1736 – os dois primeiros volumes (previam-se mais três) de uma antologia de
naufrágios, sucessivamente reeditada até aos nossos dias e intitulada História trágico-
-marítima, em que se escrevem chronologicamente os Naufragios que tiveraõ as Naos de
Portugal, depois que se poz em exercicio a Navegação da India. Recolhendo e ordenando
cronologicamente uma dúzia de relatos de naufrágios ocorridos sobretudo na longa
e difícil «carreira da Índia», a obra do erudito setecentista reafirmava o interesse his-
tórico-literário, a notável popularidade e o sucesso editorial dessas relações de viagens
atribuladas e desastres marítimos. […]
Não restam dúvidas de que a representação trágica de viagens dramaticamente
interrompidas singularizou este tipo de relatos de naufrágios, no contexto muito rico
da chamada literatura de viagens, potenciada pela empresa expansionista de Portugal.
Simbolicamente, o naufrágio é metáfora recorrente da vida humana, como se lê
nas frequentes reflexões insertas nestes relatos. […] Ser em viagem (homo viator) pelas
provações, calamidades e misérias deste mundo, o homem deveria ter aguda consciên-
cia do pecado e da efemeridade da existência humana (dialética2
DSJNFFYQJBÎÍP F 
ao mesmo tempo, temeroso e desenganado, […] mostrar um reverencial temor da
morte […]. Em vários relatos da História trágico-marítima, perante a iminência da
catástrofe, todos confessavam em voz alta os seus pecados, invocando a misericórdia
divina. […]
A matéria trágico-marítima constitui assim parte integrante da aventura épica da
nação portuguesa – o heroísmo e a glória são acompanhados pela desgraça e destrui-
ção. […]
Os relatos de naufrágios que acompanharam a época das
grandes descobertas expressam a funesta ruína de vidas e des-
truição de fazendas, inaugurando uma literatura de perda, cen-
trada na dimensão mais negra e trágica desse período áureo da
História de Portugal – a da devastação e da ruína de homens e
de bens no «mar português». Já a partir de finais de Quinhen-
tos, a imagem do naufrágio expressava um profundo senti-
mento de crise e de declínio; e a trágica estatística dos desastres
da carreira da Índia, bem como alguns relatos cronísticos, são
por si só bem eloquentes.
Nesta perspetiva, pode dizer-se que a simbólica obra de Ber-
nardo Gomes de Brito se mostra bem mais profunda e intem-
poral. Recordemos que é no seio da epopeia camoniana que se
inaugura o contraponto do heroico, um sentimento antiépico
que se aprofundará numa visão multissecular da decadência do
Império de Portugal no Oriente e do próprio destino da pátria.
As dramáticas viagens da História trágico-marítima adquirem
assim, ao longo dos tempos uma semântica eminentemente
disfórica3
, metaforizando de modo alegórico e simbólico o
lado negro ou o necessário reverso da dimensão positiva da
epopeia.
5
10
15
20
25
30
35
40
45
3FNCSBOEU Tempestade
no mar da Galileia 
1 Influxo: influência.
2 Dialética: método
de raciocínio e de
questionamento
baseado na oposição
que conduz a um
termo superior de
resolução.
3 Disfórica: valores ou
significados negativos
(ant. eufórica).
As aventuras e desventuras dos Descobrimentos
PowerPoint
Ficha informativa n.o
2
300 6OJEBEF)*45»3*53«(*$0.3¶5*.
Nas narrativas destes sucessos, ouvem-se vozes acusadoras da ganância, da impre-
vidência4
, da impreparação e de outras causas dos trágicos naufrágios que enlutaram a
história da expansão ultramarina. […]
Por tudo isto, não surpreende que a relação ambígua dos portugueses com o mar –
heroica, dolorosa e sacrificial – enforme o pensamento de Fernando Pessoa na Mensa-
gem em «Mar português», que assim sintetiza hiperbolicamente o espírito da História
trágico-marítimaj»NBSTBMHBEP RVBOUPEPUFVTBMTÍPMÈHSJNBTEF1PSUVHBMx
O domínio do mar (possessio maris) da epopeia ultramarina, configurador do Império
português, foi protagonizado por ações gloriosas e por heróis admiráveis (espírito
épico). Porém, os louros não evitaram o epitáfio5
, pois a conquista do mar também
conheceu o avesso do heroico, na sua face crítica e negra do sofrimento e da miséria
humanas, na contínua manifestação da morte e do luto […].
Em suma, ao projetar-se fecundamente no imaginário português, a História
trágico-marítima assume uma inegável dimensão de «antiepopeia dos Descobri-
mentos» […], transformando-se numa eloquente imagem disfórica da cartografia do
imaginário português.
José Cândido de Oliveira Martins, «História trágico-marítima»,
in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões,
Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 410-416
CONSOLIDA
1. 1BSBSFTQPOEFSFTBDBEBVNEPTJUFOT1.1 B1.4 TFMFDJPOBBPQÎÍPDPSSFUB
1.1 MJUFSBUVSBEFWJBHFOTUPSOPVTFQPQVMBSOBÏQPDBQPSRVF
(A) FSBVNBOPWBGPSNBEFPTMJWSFJSPTHBOIBSFNEJOIFJSP
(B) BTQFTTPBTTFOUJBNTFSFMBDJPOBEBTDPNPTBDPOUFDJNFOUPT
(C) IBWJBCBTUBOUFQVCMJDJEBEFËTWJBHFOTNBSÓUJNBT
(D) #FSOBSEP(PNFTEF#SJUPDPOTFHVJVDPNQJMBSCBTUBOUFTSFMBUPT
1.2 /BFYQSFTTÍPjo naufrágio é metáfora recorrente da vida humanax M PBVUPS
QSFUFOEF
(A) EFTUBDBSRVFBEFTHSBÎBÏDPOTFRVÐODJBEBWJEBIVNBOB
(B) FOGBUJ[BSRVFPOBVGSÈHJPÏDPNQBSÈWFMËUSJTUFWJEBEPTFSIVNBOP
(C) SFBMÎBSRVFPOBVGSÈHJPÏDPOTFRVÐODJBEBWJEBEPTNBSJOIFJSPT
(D) BDFOUVBSRVFBEFTHSBÎBÏQBSUFJOUFHSBOUFEBWJEBEPTFSIVNBOP
1.3 0IPNFN DPNPhomo viator,EFWFSJBSFDPOIFDFSPTTFVTFSSPTF
(A) QFDBEPT OÍPUFNFSB%FVTFUFSDPOTDJÐODJBEBCSFWJEBEFEBWJEB
(B) QFDBEPT OÍPUFNFSB%FVTFUFSDPOTDJÐODJBEBMPOHFWJEBEFEBWJEB
(C) QFDBEPT TFSUFNFOUFB%FVTFUFSDPOTDJÐODJBEBCSFWJEBEFEBWJEB
(D) BTTVBTWJSUVEFT TFSUFNFOUFB%FVTFUFSDPOTDJÐODJBEBMPOHFWJEBEFEBWJEB
1.4 5FOEPFNDPOUBPTFOUJEPHMPCBMEPUFYUPFPDPOIFDJNFOUPEBFQPQFJBDBNP
OJBOB QPEFTFDPODMVJSRVFBPCSBHistória trágico-marítima
(A) TFPQÜFUPUBMNFOUFËNFOTBHFNQPTJUJWBWFJDVMBEBOOs Lusíadas.
(B) DPSSPCPSBUPUBMNFOUFBNFOTBHFNQPTJUJWBWFJDVMBEBOOs Lusíadas
(C) TFPQÜFQBSDJBMNFOUFËNFOTBHFNQPTJUJWBWFJDVMBEBOOs Lusíadas
(D) FYQMPSBDPNNBJTQPSNFOPSFTBTQFUPTOFHBUJWPTEBNFOTBHFNWFJDVMBEBOOs
Lusíadas
4 Imprevidência: des-
leixo, descuido.
5 Epitáfio: inscrição
sepulcral.
50
55
60
PROFESSOR
Leitura
8.1.
MC
Consolida
1.11.21.31.4
301
«As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho»
LEITURA
Relato de viagem
1. -ÐPTFHVJOUFUFYUP
Todo o Marrocos citadino é destino
de eterno retorno para quem consiga
pairar au-dessus de la mêlée, que é como
quem diz, acima da confusão. Na casa
dos árabes, ou seja, de Tânger à Tur-
quia, o caos é uma forma de harmonia
sem conflito. Como se outro cenário,
do tipo suíço, por exemplo, fosse um
presságio de loucura, um convite ao
desvario.
Comecemos por Agadir, o destino
balnear da burguesia berbere – também
chez les arabes há destas coisas malsãs1
.
Vista de raspão, a cidade tem ares de
Albufeira no pino do verão, embora
numa variante menos camone e mais
moscovita (os novos russos já deram a
esta costa). […] Vemos uma paisagem
feliz de estrangeiros de variada proce-
dência unidos pela adoração ao Sol e ao
ritual da comida e da bebida – a maio-
ria livres das punições do Ramadão2
.
Vemos uma praia a perder de vista, que
o mais certo é ir dali ao cabo da Boa
Esperança e cujas únicas tormentas para
os viajantes incautos serão os futebóis
dos discípulos de Zinedine Zidane.
Nada como uma bolada na testa para
dissuadir um viajante a uma ida ao areal,
o que, neste caso, é um mal menor.
A praia quilométrica e banhada por um
Atlântico turvo é apenas um dez avos
do manancial de apelos da comarca de
Agadir. A mim falou-me mais ao cora-
ção a subida do promontório do antigo
kasbagh, que, apesar de devastado por
terramotos e turistas bulímicos, ainda
é o mais adequado posto de vigia e
contemplação. E lá do alto da gávea,
entre camelos em pousio, músicos
ociosos e aladinos sardónicos derrama-
dos sobre tapetes de sarja, a panorâmica
deste maravilhoso recanto de cânticos
leva-me de viagem da pesca musculada
à graciosa poesia sufi3
.
Um Mohamed4
bigodudo garan-
te-me que o porto de Agadir, embora
atulhado de cargueiros ferrugentos e
balsas5
carcomidas, é um dos mais prolí-
ficos de África, e gaba-se de terem dado
um bigode aos algarvios na guerra da
petinga6
. Vou acreditar que sim, que
aquela frota de marujos de doca seca,
de ar ronceiro7
e aposentado, ainda
dá lições de marear aos algarvios de
Tavira. […] Fala-se da arte de lançar as
redes e as moscas – e a julgar pelo que
aporta às mesas dos restaurantes das
docas, como o Le Port, os marroquinos
não perderam o jeito de encantar sar-
dinhas e camarões desde a Batalha de
Álcacer-Quibir. Entrego-me pois a um
Marrocos, uma comarca exótica
5
10
15
20
25
30
35
40
45
50
55
60
7JTUBQBOPSÉNJDBEFHBEJS
1PSUPEFHBEJS
1 Malsãs: nocivas à saúde.
2 Ramadão: nono mês do
ano lunar muçulmano con-
sagrado ao jejum absoluto
durante o dia.
3 Sufi: poética dos sufistas,
que tem como base o
autoconhecimento místico
e contemplativo, típico de
povos islâmicos.
4 Mohamed: nome típico
arábe.
5 Balsas: bote (salva-vidas).
6 Petinga: sardinha pequena.
7 Ronceiro: vagaroso, pachor-
rento.
PROFESSOR
Leitura
7.1; 7.2; 7.3; 7.6; 8.1.
MC
302 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
302
2. 5FOEPFNDPOUBPUFYUPEF5JBHP4BMB[BS JEFOUJGJDBBTNBSDBTEPSFMBUPEFWJBHFN EF
BDPSEPDPNPTTFHVJOUFTUØQJDPT
a) WBSJFEBEFEFUFNBT
b) FODBEFBNFOUPMØHJDPEPTBTTVOUPTBCPSEBEPT
c) EJTDVSTPQFTTPBM QSFWBMÐODJBEB‹QFTTPB 
d) EJNFOTÍPOBSSBUJWB QSFEPNJOÉODJBEFOPNFT FEJNFOTÍPEFTDSJUJWB QSFEPNJOÉO
DJBEFBEKFUJWPT 
e) NVMUJNPEBMJEBEF GPSNBUPFSFDVSTP 
8 Medina: parte mais antiga de
uma cidade, geralmente em
local elevado e fortificado.
9 Ditame: regra.
10 Dirham: moeda principal de
Marrocos e dos Emirados
Árabes Unidos.
11 Anabiose: hibernação; renasci-
mento (depois de um período
de morte aparente).
12 Mélange: mistura, combinação.
13 Narguilé: espécie de cachimbo
de água, frequente em países
orientais e do Norte de África.
14 Meliantes: deliquente, bandido,
marginal.
sargo assado na brasa e a um vinho de
Meknès. […]
Taroudant, uma cidadezinha catita a
duas horas de Agadir, é outra das alter-
nativas para quem vem de passeio a este
Marrocos plebeu – o imperial fica nou-
tros portos. Trata-se de uma das cida-
des mais antigas e preservadas do país e
os contrafortes da Medina8
estão lá para
provar a justa fama. Os programas das
agências costumam incluir a adenda do
giro a Taroudant, pelo que o viajante
corporativo não tem de se preocupar
com as estratégias de locomoção. E,
uma vez na cidade, perder-se nas ruas
bulhentas e incensadas a especiarias
(e caca de jumento) é a forma mais
avisada de entrar no referido espírito
de comarca exótica. A ida ao souk, o
mercado tradicional onde se vende de
tudo, é inevitável. Todo o Marrocos é
na verdade um souk, segundo o princí-
pio árabe de que tudo está à venda ou é
passível de vazão. A regra do regateio (o
ditame9
do dirham10
) é descer a parada
no mínimo para metade do que lhe é
pedido. Ou então, se quiser deixar um
marroquino em estado de anabiose11
,
ofereça o dobro do que ele lhe pede.
O mais provável é este ficar de bigodes
alçados ao teto da tenda e premiar-lhe
a ousadia com uma mélange12
de chás
invariavelmente magníficos, e um pire-
zinho de tâmaras (e se for à bola con-
sigo, talvez umas passas de pólen num
narguilé13
). Depois, já a convalescer
da tripa forrada de estímulos pagãos,
ouvirá as histórias do charmoso árabe
como um chamamento do muezim.
Este, contar-lhe-á a vida desde o berço
ou, se estiver com fadiga, apenas o res-
caldo do gozoso serão da véspera. Pen-
sará então para consigo: afinal, estes
tipos com cara de perigosos meliantes14
não fazem mal a uma mosca.
Tiago Salazar, «Marrocos, uma comarca exótica», in As rotas de sonho,
Alfragide, Oficina do Livro, 2010, pp. 119-121
SoukFNHBEJS
65
70
75
80
85
90
95
100
105
Relato de viagem
Q
'*
PROFESSOR
Leitura
7.1; 7.2; 7.6; 8.1.
MC
Leitura
2.Propostaderesolução:
a) viagem a duas cidades de Marro-
5AE67E5D;{yA6ACG7H~5A?7@FtD;A
pessoalsobreoquevêeoutrasrefle-
xões suscitadas pelos acontecimen-
FAE¤a cidade tem ares de Albufeira
no pino do verão,    ¤leva-me
deviagemdapescamusculadaàgra-
ciosapoesiaEG¹¥  
b) o narrador vai descrevendo os
acontecimentos e a esse propósito
encadeia as suas reflexões sobre
váriosassuntos;
c)BD7H3~@5;363 a
B7EEA3@3DD3-
6AD3GFA6;79|F;5A¤A mim falou-me
maisaocoraçãoasubidadopromon-
tório do antigo kasbagh¥  
«Entrego-mepoisaumsargoassado
na brasa e a um vinho de MeknӁs»,
  
d)BD76A?;@v@5;367@A?7E¤Vemos
G?3B3;E397?87;L677EFD3@97;DAE
de variada procedência unidos pela
adoraçãoaoSoleaoritualdacomida
e da bebida»     , «Vemos uma
praia a perder de vista, que o mais
certo é ir dali ao cabo da Boa Espe-
rança¥     BD76A?;@v@5;3
67 367F;HAE ¤embora atulhado de
cargueiros ferrugentos e balsas car-
comidas, é um dos mais prolíficos
67Ã8D;53   ¤cidades mais
antigas e preservadas do país e os
contrafortesdaMedinaestãolápara
provarajustafama¥  
e)8AD?3FAD73FA67H;397?D75GD
EA;HDA
303
Ficha informativa
FICHA INFORMATIVA N.O
3
Relato de viagem
1. O que é?
O relato de viagem é um subgénero da literatura de viagens
que mistura o jornalismo e a literatura, a objetividade e a subje-
tividade.
2. Qual o seu objetivo?
Nos relatos de viagem, é importante que a seleção das infor-
mações e dos acontecimentos mais marcantes possibilitem ao lei-
tor imaginar os locais e as situações vivenciadas por quem as escreve (através da sua caracterização e descrição),
o que permite ao narratário formar uma imagem conceptual dos espaços visitados pelo viajante.
Estes relatos não pretendem apenas narrar objetivamente o que foi observado; ao invés disso procuram
transmitir ao leitor a experiência vivida, ou seja, centram-se na explicação, orientação e opinião, sempre com
base na realidade.
NHFSBM OPTSFMBUPTEFWJBHFN PBVUPSSFHJTUBBTTVBTJNQSFTTÜFTQFTTPBJTTPCSFMVHBSFT QFTTPBTFPV
situações com os quais se depara ao longo da viagem, procurando caracterizá-los.
Este género também tem sido frequentemente produzido e publicado com o objetivo de informar ou entre-
ter o leitor, ao retratar lugares e situações incomuns.
3. Que características tem?
Além das informações presentes no texto, nos relatos de viagem é comum serem utilizadas
as imagens, para que o leitor possa compreender melhor o que está a ser relatado. As imagens
auxiliam na caracterização dos espaços e podem trazer novas informações.
Nos relatos de viagem, são usados conectores com valor de tempo, que organizam as
informações do texto, o que possibilita saber quando e em que sequência os factos ocorreram.
Da mesma forma, a objetividade e a precisão das indicações de espaço possibilitam ao leitor acompa-
nhar a viagem, associando as informações do texto aos locais visitados.
Nos relatos de viagem, os sentimentos de quem escreve podem surgir como recursos para emocionar o
leitor.
Além dos aspetos já referidos no relato de viagem encontramos:
tWBSJFEBEFEFUFNBT DPNQBSBÎÍPEFDVMUVSBTSFGMFYÍP
sobre a sua própria cultura…);
tFODBEFBNFOUPMØHJDPEPTBTTVOUPTBCPSEBEPT
tEJTDVSTPQFTTPBM QSFWBMÐODJBEB‹QFTTPBoOBSSBEPS
autodiegético);
tEJNFOTÜFTOBSSBUJWB QSFEPNJOÉODJBEFOPNFT FEFTDSJ-
tiva (predominância de adjetivos);
tNVMUJNPEBMJEBEF EJWFSTJEBEFEFGPSNBUPTodiários,
cartas, documentários…; e recursos – audiovisuais, blogues…).
Da mesm
nhar a viagem, ass
Nos relatos de
PowerPoint
Ficha informativa n.o
3
304 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
DESAFIO
1FTRVJTBFTFMFDJPOBJOGPSNBÎÍPTPCSFVNEPTUFNBT
t1MBOJGJDBFQSFQBSBVNBapresentação oral FOUSFDJODPFTFUFNJOVUPT
tQSFTFOUBJOGPSNBÎÍPTJHOJGJDBUJWBFFTUBCFMFDFVNFODBEFBNFOUPMØHJDP
EPUFNBUSBUBEP/PGJOBM EFWFTBJOEBJOEJDBSBCJCMJPHSBGJBwebgrafia
DPOTVMUBEB
5BMDPNPBTEFTWFOUVSBTWJWJEBTOBÏQPDBEPT%FTDPCSJNFO
UPT UBNCÏNIPKFOBWFHBNPTOBTPOEBTEPTbytesFTPNPT
DPOGSPOUBEPTDPNNVJUBjQJSBUBSJBx
NHSVQP TFMFDJPOBVNEPTUFNBTTFHVJOUFT
t Cracking QJSBUBSJBJOGPSNÈUJDB
t DownloadsJMFHBJT
t Spamming SPAMoStupid Pointless Annoying Mes-
sages TJHOJGJDBNFOTBHFNSJEÓDVMB OÍPTPMJDJUBEB
t 7ÓSVT
t Malwares malicious software  software NBMJDJPTP 
EFTUJOBEPBJOGJMUSBSTF EFGPSNBJMÓDJUB OPTJTUFNB
EFVNDPNQVUBEPSBMIFJP
t #VSMBT
t $IBOUBHFOT
t 2VFCSBTEFQSJWBDJEBEF
t Cyberbullying UJQP EF WJPMÐODJB DPOUSB VNB QFTTPB
QSBUJDBEBBUSBWÏTEBJOUFSOFU
PROFESSOR
Educação Literária
15.4.
MC
PowerPoint
Síntese da unidade
305
GLOSSÁRIO
A
Aventura:GFJUPFYUSBPSEJOÈSJPDBTPJOFTQFSBEPRVFTPCSF
WÏNFRVFNFSFDFTFSSFMBUBEP
B
Bento Teixeira Pinto: QPFUB QPSUVHVÐT RVF OBTDFV OB
TFHVOEBNFUBEFEPTÏDVMP97* OP1PSUP 1PSUVHBM
'JMIPEFDSJTUÍPTOPWPT QBSUJVQBSBP#SBTJMÓGSFRVFO
UPVPDPMÏHJPEF+FTVÓUBTN DBTPVTFDPN'JMJQB
3BQPTB VNBDSJTUÍWFMIB FN*MIÏVTOUSFF 
NBOUFWF FN0MJOEB VNBFTDPMBN SFHSFTTPVB
*MIÏVT POEFGPJQSPGFTTPS BEWPHBEPFDPNFSDJBOUF
OUSF  F   GPJ BDVTBEP EF QSÈUJDB SFMJHJPTB
KVEBJDB QSPJCJEBQFMP5SJCVOBMEB4BOUB*ORVJTJÎÍPN
  GPJ BCTPMWJEP OP BVUP EF GÏ QFMP PVWJEPS EB 7BSB
DMFTJÈTUJDB  %JPHP EP $PVUP N EF[FNCSP EF  
BTTBTTJOPVBFTQPTBQPSBEVMUÏSJPFSFGVHJPVTFOPNPT
UFJSP EF 4ÍP #FOUP  FN 0MJOEB 'PJ DBQUVSBEP B  EF
BHPTUPEFFSFQBUSJBEPQBSB-JTCPBFN*OUFS
SPHBEP OPWBNFOUF QFMB*ORVJTJÎÍP #FOUP5FJYFJSBOFHPV
RVBMRVFSQSÈUJDBEFKVEBÓTNP WJOEPEFQPJTBBTTVNJMB
/PBVUPEFGÏEF SFOVODJPVBPKVEBÓTNP
#FOUP5FJYFJSBGPJPBVUPSEPMJCSFUPAs terríveis aventuras
de Jorge de Albuquerque Coelho#FOUP5FJYFJSB1JOUPGBMF
DFVFN-JTCPB QSPWBWFMNFOUF FN
C
Corsário: DBQJUÍP PV USJQVMBOUF EF VN OBWJP QBSUJDVMBS 
BSNBEP  QSPWJEP EF VNB DBSUB EF DPSTP BVUPSJ[BÎÍP EP
HPWFSOPEPQBÓTBRVFQFSUFODF QBSBBUBDBSFQJMIBSPT
OBWJPTNFSDBOUFTEFPVUSPQBÓT JOJNJHPPVDPNPRVBMTF
FTUÈFNHVFSSB ²TFNFMIBOUFBVNpirata FNCPSBFTUF
OÍPGPTTFSFDPOIFDJEPQFMPHPWFSOPEBTVBOBÎÍP
Caravela: P UFSNP PDPSSF QFMB QSJNFJSB WF[ OB EPDV
NFOUBÎÍP QPSUVHVFTB FN   FODPOUSBOEPTF BJOEB

FN OVNBPCSBJNQSFTTB² QPSUBOUP GÈDJMEFDPN
QSFFOEFS RVF FODPCSF SFGFSÐODJBT B NÞMUJQMBT FNCBSDB
ÎÜFT EFTEFBQFRVFOBDBSBWFMBMBUJOBEFVNNBTUSPBUÏ
ËDBSBWFMBSFEPOEBPVEFBSNBEB QBTTBOEPQFMBDBSBWFMB
MBUJOB EF EPJT NBTUSPT  RVF QSPUBHPOJ[PV BT WJBHFOT EF
FYQMPSBÎÍPBUMÉOUJDBBUÏ TFNEFJYBSEFDPOUJOVBSB
TFSVUJMJ[BEBEFQPJTEFTUBEBUB
DBSBWFMBMBUJOBBQBSFDFVOPT%FTDPCSJNFOUPTFN 
TFHVOEPBUFTUB;VSBSB5SBUBSTFJBEBDBSBWFMBDPNEPJT
NBTUSPTEFQBOPMBUJOP VNBDPCFSUBFVNQFRVFOPDBT
UFMPEFQPQB DPNVNTØQJTP/BWJPJEFBMQBSBTJOHSBSFN
NBSFTEFTDPOIFDJEPT QFMBGBDJMJEBEFDPNRVFCPMJOBWB
D
Desventura:  BVTÐODJB EF WFO
UVSB  NÈ GPSUVOB  EFTHSBÎB 
JOGPSUÞOJP
N
Nau: OBWJP SFEPOEP EF BMUP CPSEP 
DPNVNBSFMBÎÍPEFFOUSFPDPN
QSJNFOUP F B MBSHVSB NÈYJNB  USÐT PV
RVBUSP DPCFSUBT  DBTUFMPT EF QPQB EF USÐT
QBWJNFOUPT UPMEB BMDÈÎPWBFDIBQJUÏV FQSPBEF
EPJT HVBSJUBFTPCSFHVBSJUB DVKBBSRVJUFUVSBTFJOUFHSB
QFSGFJUBNFOUFOPDBTDPBSWPSBWBUSÐTNBTUSPT PHSBOEFF
PUSBRVFUFDPNQBOPSFEPOEP FPEBNF[FOBDPNQBOP
MBUJOP²VNOBWJPEFDBSHBQPSFYDFMÐODJB EFTUJOBEPB
QFSDPSSFSMPOHBTEJTUÉODJBTFNSPUBTDPOIFDJEBT UJSBOEP
QBSUJEP EP BQBSFMIP QFMP DPOIFDJNFOUP QSÏWJP EPT SFHJ
NFTEFWFOUPT NBTBOEBWBBSNBEPDPNQFÎBTEFHSBOEF
DBMJCSFTWJBHFOTQBSBP0SJFOUFFSBNNBJTMPOHBT QFMP
RVFTFUSBOTQPSUBWBNBJPSRVBOUJEBEFEFBMJNFOUPTTØMJ
EPTFMÓRVJEPTQBSBPTVTUFOUPEBUSJQVMBÎÍP UBOUPNBJT
RVF B SPUB JNQVOIB MPOHPT QFSÓPEPT EF OBWFHBÎÍP TFN
WFSBDPTUBPVRVBJTRVFSQPOUPTEFBQPJPDSFTDJBPGBUPS
DPNFSDJBM P DPNÏSJP EBT FTQFDJBSJBT JNQMJDBWB P USBOT
QPSUFEFVNBDBSHBWBMJPTB NBTWPMVNPTB RVFSFRVFSJB
FTQBÎPTBEFRVBEPTQBSBPTFVBDPOEJDJPOBNFOUPUVEP
SFTQPOEJBBOBV DPNPTFVDBTDPCPKVEP FBNQMBDBQBDJ
EBEFEFBDPNPEBÎÍP
V
Ventura: GPSUVOBQSØTQFSBTPSUFGFMJDJEBEFSJTDP 
QFSJHP
Bibliografia/Webgrafia do Glossário
#FOUP5FJYFJSB1JOUPinXXXEFDVGDHFEVCSCJPHSBåBT
Dicionário Houaiss da língua portuguesa  *OTUJUVUP OUÙOJP )PVBJTT EF
-FYJDPHSBåB -JTCPB 5FNBTF%FCBUFT 
Dicionário da língua portuguesa contemporânea,DBEFNJBEF$JÐODJBTEF
-JTCPB -JTCPB 7FSCP 
Dicionário Priberam da Língua Portuguesa EJTQPOÓWFMFN 
IUUQXXXQSJCFSBNQU 
j$BSBWFMBx inXXXDWDJOTUJUVUPDBNPFTQUOBWFHBQPSUoDPOTVMUBEPFN
KVOIPEF
j/BVx inXXXDWDJOTUJUVUPDBNPFTQUoDPOTVMUBEPFNKVOIPEF
306 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA
Grupo I
A
-ÐPTFHVJOUFFYDFSUPEPDBQÓUVMP7EBHistória trágico-marítima
$BSSFHBEBBOBVEFNVJUBGB[FOEBOPCFMPQPSUPEBWJMBEF0MJOEB EFVËWFMBDPN
WFOUPFNQPQBBEFNBJPEF/ÍPFSBNBJOEBCFNTBÓEPTEBCBSSBRVBOEPTF
BDBMNPVPWFOUPDPNRVFQBSUJSBNMPHPEFQPJTTFMIFTUPSOPVDPOUSÈSJP PTMFWPVEF
USBWÏT
FPTBUJSPVQBSBVNCBJYP
POEFQFSNBOFDFSBNQPSRVBUSPNBSÏTFTFWJSBNFN
SJTDPEFTFQFSEFSFN PRVFMIFTUFSJBTFNEÞWJEBBDPOUFDJEPTFGPTTFNFOUÍPPTNBSFT
NBJTHSPTTPT
DVEJSBNMIFTDPNQSFTUF[BNVJUPTCBUÏJT RVFMPHSBSBN
TBMWBSBHFOUFUPEBFB
NBJPSQBSUFEBDBSSFHBÎÍP1PSÏN OFNBTTJNEFTDBSSFHBEBTFEFTFODBMIPV QFMPRVF
EFDJEJSBNDPSUBSMIFPTNBTUSPTFOUÍP OBEPVFTBJVEPTCBJYPT
5PSOBEBBOBVBPQPSUPEBWJMB GPJFYBNJOBEBQPSPåDJBJTQBSBWFSFNTFQPEJBN
TFHVJSWJBHFNF QPSBDIBSFNRVFOÍPSFDFCFSBEBOPRVFBJNQPTTJCJMJUBTTFQBSBB
OBWFHBÎÍP TFUPSOPVBQSFQBSBSFBDBSSFHBS
EFTFUFNCSP OBWFHBOEPFMFTFNEFNBOEBEBTJMIBT BMDBOÎPVPTVNBOBVEF
DPSTÈSJPTGSBODFTFT CFNBSUJMIBEBFDPOTFSUBEB
DPNPDPTUVNBWBN7FOEPPQJMPUP P
NFTUSFFPTEFNBJTUSJQVMBOUFTEBSanto AntónioRVFOÍPJBNFNFTUBEPEFTFEFGFO
EFSFN QPJTNBJTBSUJMIBSJBOÍPIBWJBBCPSEPRVFVNGBMDÍP
FVNTØCFSÎP
 BGPSBBT
BSNBTRVFPMCVRVFSRVFUSB[JB QBSBTJFQBSBPTTFVTDSJBEPT EFUFSNJOBSBNEFTFSFO
EFS+PSHFEFMCVRVFSRVF QPSÏN PQÙTTFBJTTPDPNBNBJPSåSNF[B/ÍPQPS%FVT 
OÍP/ÍPQFSNJUJTTF/PTTP4FOIPSRVFVNBOBVFNRVFWJOIBFMFTFSFOEFTTFKBNBJT
TFNDPNCBUFS UBOUPRVBOUPQPTTÓWFM%JTQVTFTTFNTFUPEPTBPRVFMIFTDVNQSJB FBKV
EBTTFNOPOBSFTJTUÐODJBQPJTTPNFOUFDPNPCFSÎPFDPNPGBMDÍPUJOIBFMFFTQFSBOÎB
RVFTFEFGFOEFSJBN
4ØTFUFIPNFOT DPOUVEP TFMIFPGFSFDFSBNQBSBPBDPNQBOIBSFDPNPTTFUF F
DPOUSBPQBSFDFSEFUPEPTPTEFNBJT TFQÙTËTCPNCBSEBTDPNBOBVGSBODFTB ËTBSDB
CV[BEBT
BPTUJSPTEFGSFDIB EFUFSNJOBEPFFOÏSHJDP%VSPVFTUBMVUBRVBTFUSÐTEJBT 
TFNPVTBSFNPTGSBODFTFTBCPSEBSPTOPTTPTQFMBEVSBSFTJTUÐODJBRVFOFMFTBDIBWBN 
BQFTBSEFPTDPNCBUFOUFTTFSFNUÍPQPVDPTFEFOÍPIBWFSTFOÍPPCFSÎPFPGBMDÍP BPT
RVBJT+PSHFEFMCVRVFSRVFQFTTPBMNFOUFDBSSFHBWB CPSEFBWB
QVOIBGPHP QPSOÍPWJS
OBWJBHFNCPNCBSEFJSP PVRVFNTPVCFTTFGB[ÐMPUÍPCFNDPNPFMF
0SB WFOEPPQJMPUP PNFTUSF PTNBSJOIFJSPT RVFIBWJBQFSUPEFUSÐTEJBTRVFBOEB
WBNOFTUFUSBCBMIPRVFSFDFCJBNPTOPTTPTEBOPTEPTUJSPTEJTQBSBEPTQFMPTGSBODFTFT 
FRVFKÈMIFTJBGBMUBOEPBQØMWPSB oQFEJSBNBPåEBMHPFBPTRVFPBKVEBWBNRVFDPO
TFOUJTTFNFOåNBSFOEJÎÍP QPJTMIFTFSBJNQPTTÓWFMPQSPTTFHVJSOBEFGFTBOÍPGPTTFN
DBVTBEFPTNBUBSFNBUPEPT PVEFPTNFUFSFNOPGVOEP3FTQPOEFSBNBJTUPPTDPN
CBUFOUFTRVFFTUBWBNEFDJEJEPTBOÍPTFSFOEFSFNFORVBOUPDBQB[FTQBSBQFMFKBS0T
PVUSPT WFOEPPTBTTJNEFUFSNJOBEPT EFSBNEFTÞCJUPDPNBTWFMBTFNCBJYP FDPNFÎB
SBNBCSBEBSQBSBPTGSBODFTFTFOUSBTTFN FOUSBTTFNOBOBV RVFTFMIFTSFOEJB
jTUFSSÓWFJTBWFOUVSBTEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIP  x DBQÓUVMP7
op. cit.,QQF

FICHA
FORMATIVA
5
10
15
20
25
30
35
COTAÇÕES
GrupoI
A
1. pontos
2. pontos
3. pontos
4. pontos
5. pontos
6. pontos
B
7.  pontos
8.  pontos
pontos
1 Través: transversalmente.
2 Baixo: pouca altura em
relação ao nível do mar.
3 Lograram: conseguiram.
4 Consertada: preparada,
apetrechada.
5 Falcão: pequena peça de
artilharia.
6 Berço: peça de artilharia
curta.
7 Arcabuzadas: descarga
simultânea de arcabuzes
(antiga arma de fogo, que
se disparava, inflamando a
pólvora com um morrão).
8 Bordeava: voltar a aresta (de
qualquer peça metálica).
307
Ficha formativa
1.QPOUBPQPTTÓWFMNPUJWPQBSBBRVBTFJNFEJBUBJOUFSSVQÎÍPEBWJBHFN


































































2.OVNFSBBTEVBTEFTWFOUVSBTEFTDSJUBTOPFYDFSUP
3.$MBTTJGJDBBQFSTPOBHFNEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIPRVBOUPBPSFMFWPFDBSBDUFSJ[BB
















































4.0OBSSBEPSÏTVCKFUJWPRVBOUPËQPTJÎÍP
$PNQSPWBBWFSBDJEBEFEFTUBBåSNBÎÍPBUSBWÏTEFVNBDJUBÎÍPUFYUVBM 
5.QSFTFOUBBUVBPQJOJÍPTPCSFBBUJUVEFEPNFTUSFEBSanto António
6.*EFOUJGJDBPTSFDVSTPTFYQSFTTJWPTQSFTFOUFTOPTTFHVJOUFTTFHNFOUPTEFGSBTFFFTDMB
SFDFPTFVWBMPSMJUFSÈSJP
a) jEFUFSNJOBEPFFOÏSHJDPx M 
b) jPQJMPUP PNFTUSF PTNBSJOIFJSPTx M 
c) j3FTQPOEFSBNBJTUPPTDPNCBUFOUFTx MM 
B
-ÐPTFHVJOUFUFYUP
A viagem
OBV BQJOIBEBEFDBSHBTQSFDJPTBToFTQFDJBSJBT MBDSF FTTÐODJBT FTQMÐOEJEPT
QBOPTo MFWBOUBGFSSPEFVNQPSUPEBTDPTUBTPDJEFOUBJTEB¶OEJB EFWPMUBBPSFJOP
²KBOFJSP GFWFSFJSP QPSWF[FTNBSÎPoVNQFSÓPEP QPSUBOUP FNRVFPTWFOUPTOÍP
HBSBOUFNTFHVSBNFOUF QBSBBQBTTBHFNEP$BCP NFTNPBPNBJTFYQFSJNFOUBEPUJNP
OFJSPFËNBJTSPCVTUBFNCBSDBÎÍP FNCPSBGBWPSFDJEPTQFMBQSØWJEB
WFOUVSB VNB
OBWFHBÎÍPUSBORVJMB$PNPFTUBWBKÈQSFWJTUPPVFSBQSFWJTÓWFM PTFMFNFOUPT QSPWP
DBEPT EFTFODBEFJBNSBJWPTBTUFNQFTUBEFTDFMFTUFTFNBSÓUJNBT BDVKBGÞSJBBOBV
TØQPEFPQPS JOUSFQJEBNFOUF PTFVDPOKVOUPSFNFOEBEP PTFVpatchworkEFWFMBT 
MFNFT NBTUSPT DBCSFTUBOUFTFTJSHBTEBNBJTEJWFSTBQSPWFOJÐODJB
1BSBEFGSPOUBSPTHPMQFTOÍPIÈBKVEBRVFWBMIBBQSØEJHBDPPQFSBÎÍPEPTBSJTUPDSÈ
UJDPTQBTTBHFJSPTRVFDPNQFUFNDPNNBSJOIFJSPT NPÎPTFPåDJBJTBFOUSBMIBSWFMBNFT 
MJCFSUBSBTCPNCBTFOUVQJEBTEFQJNFOUB DBMBGFUBSGFOEBTDPNTBDPTEFBSSP[FWPMVQ
UVPTPTUFDJEPTPSJFOUBJTOBVBDBCBQPSEFTQFEBÎBSTFDPOUSBBTSPDIBTEBUFSSBIPTUJM
EBTCÈSCBSBTHFOUFTDBGSFT FOUSFHSJUPTFFTUSJEPSFT MÈHSJNBTFQSBOUPTEFQFDBEPSFT
VMUSBBSSFQFOEJEPT KÈTØJOUFSFTTBEPTFNTBMWBSBBMNBDPNQÞCMJDBTDPOåTTÜFTPT
RVFDPOTFHVFNTBMWBSUBNCÏNBWJEB PTEFVTFTOÍPSFTFSWBNEFTUJOPTNBJTTVBWFTB
GPNFQSJNPSEJBM BTFEF PDBMPSEJVSOP PGSJPOPUVSOP PFYUFOVBOUFBUSBWFTTBSEFSJPT 
WBMFT QÉOUBOPT ýPSFTUBTFNPOUFT BFNCPTDBEBEPTJOEÓHFOBTFEBTGFSBTSJUNBN
PCTFTTJWBNFOUFBQFSFHSJOBÎÍPEPTFTDBQBEPTBPOBVGSÈHJP%SBTUJDBNFOUFTFMFDJPOB
EPT EFNPEPNBJTPVNFOPTOBUVSBM CFNQPVDPTTÍPPTRVFDIFHBNBCPNQPSUPQBSB
WPMUBSBPQSJODÓQJP KÈTFTBCF QPSRVFBDVQJEF[
IVNBOBOÍPUFNGVOEPFBTQSPNFTTBT
EFNBSJOIFJSPT QPSNBJTWPMUBTRVFTFMIFTEÐ DPNPUBJTQFSNBOFDFN
(JVMJB-BODJBOJ Os relatos de naufrágios na literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII WPM
USBE.BOVFM4JNÜFT *$1 #JCMJPUFDB#SFWF  QQ
7.3FMBDJPOBPUFYUPRVFBDBCBTUFEFMFSDPNPUFYUP
8.YQMJDBBGSBTFGJOBMEPUFYUPja cupidez humana não tem fundo e as promessas de
marinheiros, por mais voltas que se lhes dê, como tais permanecemx
5
10
15
20
PROFESSOR
GrupoI
A
1. A viagem foi interrompida pelo
facto de a nau ir carregada com
¤?G;F383L7@63¥
2. O encalhe logo a seguir à partida,
maltinhasaídodoporto;oencontro,
a resistência e a abordagem da nau
doscorsários.
3. A personagem é principal. Jorge
67 i4GCG7DCG7 A7:A | 67E5D;FA
como um homem valente, corajoso,
altruísta, determinado, defensor da
BtFD;3]43D5A
4. «Jorge de Albuquerque, porém,
ABˆE E73;EEA5A?3?3;AD¹D?7L3 
%yAZ BAD 7GE @yAZ¥     AG
«Jorge de Albuquerque pessoal-
mente carregava, bordeava, punha
fogo, por não vir na viagem bombar-
67;DAAGCG7?EAG47EE783L~ AFyA
47?5A?A77¥  
6. a) dupla adjetivação, que acentua
as características de Jorge de Albu-
CG7DCG7A7:Ab)enumeração,que
destaca quem traiu Jorge de Albu-
CG7DCG7A7:A7AECG7A35A?B3-
nhavam; c)3@tEFDA87CG77@83F;L3
oatoderesponder,enãoosujeitoda
resposta.
7. O texto B relaciona-se com o A,
poisambosrelatamosperigospelos
quais passam as naus portuguesas
no regresso à pátria. No texto A fala-
-se do regresso do Brasil de Jorge de
i4GCG7DCG7A7:A7@A B refere-
-se o regresso das embarcações na
83?AE3 ¤3DD7;D3 63 Æ@6;3¥  #A9A
no início do texto A refere-se a pos-
sibilidade de naufrágio, tendo em
conta o excesso de carga. No texto
B, destacam-se, sobretudo, aspetos
naturais, «tempestades celestes e
marítimas», como justificação para
os naufrágios. Neste sentido, os
textos são complementares, pois os
dois aspetos referidos eram motivo
paraabruscainterrupçãodaviagem,
bemcomoparaaperdadacargaede
vidashumanas.
8. i 3?4;{yA 67E?76;63 ¤sem
fundo¥8A;;9G3?7@F7D7EBA@EtH7
pela enorme perda de vidas huma-
nas. Na tentativa de enriquecer, os
marinheiros embarcavam com essa
promessa, levados pela ambição,
mesmo conhecendo histórias de
naufrágiosdenausnarotadaÍndia.
1 Próvida: prudente.
2 Cupidez: ambição.
308 Unidade 6 // HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA

Grupo II
-ÐBTFHVJOUFOPUÓDJB
Fragata Álvares Cabral socorre marinheiro no Índico
A equipa médica da fragata portuguesa Álvares Cabral, que comanda a força naval da
UE nos mares da Somália, prestou quarta-feira cuidados médicos urgentes a um tripu-
lante do navio mercante JS Colorado, informou esta quinta-feira o Estado-Maior General
das Forças Armadas (EMGFA).
Álvares Cabral FODPOUSBWBTFBDFSDB
EF  RVJMØNFUSPT EP OBWJP NFSDBOUF
RVBOEPFTUFFNJUJVPQFEJEPEFBVYÓMJP
QBSBVNNBSJOIFJSPDPNGFSJNFOUPTNÞM
UJQMPTFQFSEBEFTBOHVFEFWJEPBVNBDJ
EFOUF
FRVJQBNÏEJDBDIFHPVBPDPOWÏTEP
JS ColoradoDPNSFDVSTPBPHVJODIPEP
IFMJDØQUFSPEBGSBHBUBQPSUVHVFTB OVNB
PQFSBÎÍPEFMJDBEBEFWJEPBPTNBTUSPTF
FTUSVUVSBTEPOBWJPNFSDBOUF CFNDPNP
ËQPVDBWJTJCJMJEBEFEFDPSSFOUFEBIPSB
RVBTFOPJUF SFGFSJVP.('
PQFSBÎÍP RVFQFSNJUJVUSBUBSFTVUV
SBSBTMBDFSBÎÜFTEPNBSJOIFJSP EFDPSSFV
OBÈSFBEFSFTQPOTBCJMJEBEFEP$FOUSPEF
#VTDBF4BMWBNFOUPEP3FJOPEF0NÍ 
BEJBOUPVP.('
0TVDFTTPEBPQFSBÎÍPjWFNWBMJEBSEF
GPSNBJOEJTDVUÓWFMPMPOHPFFYJHFOUFQFSÓPEP
EFUSFJOPFDFSUJåDBÎÍPBRVFUPEPPOBWJP
GPJTVCNFUJEPBOUFTEFJOJDJBSBNJTTÍPEF
DPNCBUFËQJSBUBSJBOPPDFBOP¶OEJDPx DPO
TJEFSPVPTFVDPNBOEBOUF DBQJUÍPEFNBS
FHVFSSB4PCSBM%PNJOHVFT
/B Álvares Cabral FTUÈ UBNCÏN P
DPNBOEBOUFEBOperação Atalanta DPNP
EPSPQPSUVHVÐT/PWP1BMNB FPSFTQFUJWP
FTUBEPNBJPS OVNUPUBMEFNJMJUBSFT
BCPSEPEBGSBHBUB
.$' JODiário de Notícias EFNBJPEF

EJTQPOÓWFMFNXXXEOQU*OJDJPJOUFSJPS DPOTVMUBEPFNKVMIPEF
1. 1BSBSFTQPOEFSFTBDBEBVNEPTJUFOT1.1B1.6 TFMFDJPOBBPQÎÍPDPSSFUB
1.1 GSBTFjA operação, que permitiu tratar e suturar as lacerações do marinheiro,
decorreu na área de responsabilidade do Centro de Busca e Salvamento do Reino
de Omãx MM JOUFHSBVNBPSBÎÍPTVCPSEJOBEB
(A) BEKFUJWBSFMBUJWBSFTUSJUJWB
(B) TVCTUBOUJWBDPNQMFUJWB
(C) BEKFUJWBSFMBUJWBFYQMJDBUJWB
(D) BEWFSCJBMDPOTFDVUJWB
1.2 TQBMBWSBTjcapitão-de-mar-e-guerrax MM F.(' M TÍPGPSNBEBT 
SFTQFUJWBNFOUF QPS
(A) EFSJWBÎÍPOÍPBåYBMFBDSØOJNP
(B) EFSJWBÎÍPQBSBTTJOUÏUJDBFTJHMB
(C) EFSJWBÎÍPBåYBMFBDSØOJNP
(D) DPNQPTJÎÍPFTJHMB
1.3 QBMBWSBjparax M ÏVN B
(A) DPOKVOÎÍPTVCPSEJOBUJWBDPNQMFUJWB
(B) DPOKVOÎÍPTVCPSEJOBUJWBåOBM
(C) QSFQPTJÎÍP
(D) EFUFSNJOBOUFJOEFåOJEP
5
10
15
20
25
30
COTAÇÕES
GrupoII
1.  pontos
2. pontos
3. BA@FAE
 Bontos
GrupoIII
 Bontos
PROFESSOR
GrupoII
1.     i

2. «tripulante», «mastro», «coman-
dante»e«marinheiro».
3. No tempo de Jorge de Albuquer-
CG7 A7:A :3H;3 ?G;F3 pirataria
nosmares.
Atualmente, a pirataria cibernáu-
ticatemaumentado.
309
Ficha formativa
1.4 
0FMFNFOUPEFTUBDBEPOBGSBTFjemitiu o pedido de auxíliox M EFTFNQFOIBB
GVOÎÍPTJOUÈUJDBEF
(A) NPEJåDBEPSBQPTJUJWPEPOPNF
(B) DPNQMFNFOUPEPOPNF
(C) NPEJåDBEPS
(D) NPEJåDBEPSSFTUSJUJWPEPOPNF
1.5 
GSBTFRVFDPOUÏNBTFRVÐODJBEFQBMBWSBTDVKBTDMBTTFTTÍPjEFUFSNJOBOUF
oOPNFoQSPOPNFoWFSCPoQSFQPTJÎÍPoOPNFoWFSCPoEFUFSNJOBOUFoOPNFo
BEKFUJWPxÏ
(A) jO comandante que veio a Lisboa reconheceu a tarefa difícilx
(B) jA fragata onde decorreu aquele salvamento é da marinha portuguesax
(C) jA operação que foi bem-sucedida foi realizada numa noite escurax
(D) jO marinheiro com ferimentos estava num navio mercantex
1.6 
FYQSFTTÍPjvem validarxEFNPOTUSBRVFPQFSÓPEPEFUSFJOPFDFSUJGJDBÎÍPB
RVFPOBWJPGPJTVCNFUJEPBOUFTEFJOJDJBSBNJTTÍPGPJ M 
(A) VNBEFDJTÍPJMFHÓUJNB
(B) FYUFNQPSÉOFP
(C) MFHÓUJNPFFTTFODJBM
(D) EFTOFDFTTÈSJP
2. 5SBOTDSFWFEPUFYUPRVBUSPWPDÈCVMPTRVFDPOTUJUVBNPDBNQPMFYJDBMEFjOBWJPx
3. 3FDPOIFDFBFYUFOTÍPTFNÉOUJDBEBQBMBWSBjQJSBUBSJBx DPOTUSVJOEPEVBTGSBTFT

Grupo III
-ÐPTFHVJOUFQPFNB
.BS
5JOIBTVNOPNFRVFOJOHVÏNUFNJB
SBVNDBNQPNBDJPEFMBWSBS
y
.BS
'PNPTFOUÍPBUJDIFJPTEFBNPS
PåOHJEPMBNFJSP
BTPMVÎBS
GPHBWBPBSBEP
FPMBWSBEPS
.BS
OHBOPTBTFSFJBSPVDBFUSJTUF
'PTUFUVRVFNOPTWFJPOBNPSBS
GPTUFUVEFQPJTRVFOPTUSBÓTUF
.BS
RVBOEPUFSÈåNPTPGSJNFOUP
RVBOEPEFJYBSÈEFOPTUFOUBS
0UFVFODBOUBNFOUP
.JHVFM5PSHB Antologia poética 
‹FEJÎÍP -JTCPB %PN2VJYPUF 
1. /VNUFYUPCFNFTUSVUVSBEP FOUSFDFOUPFWJOUFFDFOUPFDJORVFOUBQBMBWSBT FQBS
UJOEPEPQPFNBEF.JHVFM5PSHB GB[VNBFYQPTJÎÍPFNRVFSFGMJUBTTPCSFPUFNBEB
BWFOUVSBEFTWFOUVSBNBSÓUJNB
'VOEBNFOUBPUFVQPOUPEFWJTUBDPNCBTFOPTDPOUFÞEPTFTUVEBEPTOFTUBVOJEBEF
PROFESSOR
GrupoIII
Sugestãodetópicos:
– definição de aventura e desven-
tura;
–a importância dos Descobrimen-
FAE77HAG{yA63E7?43D53{Š7E
e instrumentos de marear; conhe-
cimento de outros povos e cultu-
D3E¦
–os reveses desta aventura/desven-
FGD3BAD7J7?BA@3G8Dt9;AE3F3-
CG7E675ADEtD;AE¦
–a recorrência do tema marítimo na
;F7D3FGD3BADFG9G7E33BD7E7@F3D
7J7?BAE
–omarcomofontedevida,mastam-
bém de tragédia, como por exem-
plo,ocasodospescadores…
1 Lameiro: terreno húmido ou tempora-
riamente alagado.
2 Arado: instrumento agrícola utilizado
para lavrar a terra.
I. ESCRITA E ORALIDADE
Exposição.
Apreciação crítica.
Síntese.
II. GÉNEROS LITERÁRIOS
Texto poético.
Texto narrativo.
Texto dramático.
III. GRAMÁTICA
Morfologia.
Classes de palavras.
Sintaxe.
Lexicologia.
Semântica.
Análise do discurso e pragmática;
texto/linguística textual.
IV. RECURSOS EXPRESSIVOS
SÍNTESE INFORMATIVA
E GRAMATICAL DE APOIO
SIGA
Kandinsky, Composição IX, 1936.
SIGA 311
Exposição sobre um tema
Uma exposição é um texto conciso, de caráter demonstrativo. Tem como
objetivo apresentar informações pormenorizadas sobre um assunto, tema,
situação, acontecimento e pessoa. Pode assumir uma forma narrativa, des-
critiva ou argumentativa. Assim, existem vários tipos de textos expositivos:
o currículo vitae, a biografia, o artigo de divulgação científica, a ata, a repor-
tagem, o relatório…
TEXTO EXPOSITIVO
O QUE DEVO FAZER?
1. Conhecimentos
t Escolher o tema a desenvolver e definir o objetivo do texto.
t Pesquisar informação relativa ao tema e selecionar os dados realmente im-
portantes.
2. Expressão/discurso
t Usar uma linguagem objetiva sem tecer juízos de valor.
t Utilizar um registo de língua corrente, de forma que o leitor comum compreenda
a mensagem que se pretende veicular, embora, por vezes, devido à natureza
do texto, se recorra a termos técnicos e/ou científicos.
t Fundamentar as ideias de forma clara e inequívoca através de exemplos
universais e/ou citações.
t Utilizar a terceira pessoa gramatical e o presente do indicativo.
t Utilizar predominantemente frases declarativas.
t Usar articuladores do discurso (consultar a página 328), para encadear de
forma lógica os tópicos abordados.
t Produzir um texto com clareza e com correção linguística.
t Utilizar recursos expressivos (comparação, enumeração…).
t Apresentar dados paratextuais (Ex.: título, bibliografia consultada, índice e
ilustração, notas de rodapé ou finais).
QUAL A ESTRUTURA?
Introdução: apresentação, de forma sucinta, da temática a abordar.
Desenvolvimento: descrição/informação do objeto em detalhe, fundamentados
com exemplos ilustrativos, de forma a elucidar sobre o tema e destacar o caráter
demonstrativo do mesmo.
Conclusão: breve referência à importância do assunto tratado tendo em conta a
informação apresentada.
A
I. Escrita e oralidade
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
312
Apreciação crítica
Uma apreciação crítica é um comentário crítico, que visa apresentar e
analisar manifestações culturais, como um livro, uma música, uma exposi-
ção, uma peça de teatro, um filme, um documentário ou outro. É um texto
subjetivo e valorativo que parte da análise do objeto para a formulação de um
juízo de valor. Pode revestir uma forma oral ou escrita.
APRECIAÇÃO CRÍTICA ESCRITA OU ORAL
O QUE DEVO FAZER?
1. Conhecimentos
t Descrever sucintamente o objeto, acompanhando-o de um comentário crítico.
t Registar os sentimentos e as emoções suscitados pelo objeto.
2. Expressão/discurso
t Usar uma linguagem valorativa (depreciativa ou apreciativa) através do uso
de adjetivos, advérbios, repetições, etc.
t Utilizar um registo de língua corrente, de forma que o leitor comum com-
preenda a mensagem que se pretende veicular.
t Utilizar a primeira ou a terceira pessoas gramaticais e o presente do indicativo.
t Utilizar predominantemente frases declarativas e exclamativas.
t Utilizar recursos expressivos (metáfora, hipérbole, comparação, eufemismo,
ironia, etc.).
t Usar articuladores do discurso (consultar a página 328).
t Mobilizar adequadamente os recursos da língua, nomeadamente vocabulário
adequado ao tema.
Para a apreciação crítica oral:
t Utilizar adequadamente os recursos verbais e não verbais: postura, tom de
voz, articulação das palavras, dicção, entoação, ritmo e expressividade (ACO).
t Utilizar adequadamente, sempre que oportuno, ferramentas tecnológicas de
suporte à intervenção oral (ACO).
QUAL A ESTRUTURA?
Introdução: apresentação/descrição do objeto a apreciar.
Desenvolvimento: descrição/informação do objeto em apreciação; posicionamento
com apresentação de juízos de valor (argumentos a favor e/ou contra), fundamen-
tados com exemplos ilustrativos.
Conclusão: síntese do que foi apresentado e reforço do ponto de vista pessoal.
B
SIGA 313
Síntese
Uma síntese é a condensação de texto que pode ordenar de forma diferente
as sequências textuais do(s) texto(s)-fonte, sem, no entanto, desrespeitar o
seu conteúdo e a intenção do autor.
SÍNTESE ESCRITA E ORAL
O QUE DEVO FAZER?
1. Conhecimentos
t Ler/ouvir cuidadosamente o texto para apreender o seu sentido global.
t Sublinhar/tirar notas de palavras e expressões que contenham as ideias essen-
ciais do(s) texto(s)-fonte.
t Anotar a ideia principal de cada parágrafo, à margem do texto (se a fonte for
escrita).
t Manter a fidelidade ao conteúdo do texto original.
t Apresentar a ordem das ideias do texto original como achar mais conveniente.
t Emitir comentários ou juízos de valor que considerar pertinentes.
2. Expressão/discurso
t Transformar o discurso direto, caso esteja presente no(s) texto(s)-fonte, em in-
direto.
t Não utilizar marcas pessoais do autor do(s) texto(s)-fonte, tais como: «O autor
diz que...», «Segundo o autor...», entre outras.
t Utilizar a terceira pessoa gramatical e o presente do indicativo.
t Evitar citações e transcrições do(s) texto(s)-fonte, substituindo-as por outras
equivalentes.
t Manter a rede lexical (vocabulário específico/palavras-chave) do(s) texto(s)-fonte.
t Recorrer a hiperónimos com vista a uma linguagem mais económica.
t Usar uma linguagem objetiva, simples, clara, coerente, concisa e cuidada.
t Usar uma linguagem correta, respeitando as regras gramaticais.
t Articular as diferentes ideias, utilizando os articuladores do discurso mais con-
venientes (consultar a página 328).
t Manter o estilo de escrita pessoal, não sendo obrigatório o uso do registo de
língua utilizado no(s) texto(s)-fonte.
Para a síntese oral:
t Ter atenção aos recursos não verbais utilizados: postura, tom de voz, articulação
das palavras, dicção, entoação, expressividade.
t Utilizar adequadamente, sempre que oportuno, ferramentas tecnológicas de
suporte à intervenção oral.
C
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
314
II. Textos literários
Texto poético
1. Noções de versificação
1. Verso
Um verso é cada uma das linhas de uma composição poética.
2. Métrica
De entre os elementos que criam o ritmo e a musicalidade dos versos, destaca-se a métrica.
De acordo com o número de sílabas métricas, os versos classificam-se:
N.º DE SÍLABAS CLASSIFICAÇÃO N.º DE SÍLABAS CLASSIFICAÇÃO
1 monossílabo 7 redondilha maior (ou heptassílabo)
2 dissílabo 8 octossílabo
3 trissílabo 9 eneassílabo
4 tetrassílabo 10 decassílabo
5 redondilha menor (ou pentassílabo) 11 hendecassílabo
6 hexassílabo 12 dodecassílabo (ou verso alexandrino)
3. Estrofe
Uma estrofe corresponde a um conjunto de versos que constituem uma unidade gráfica.
De acordo com o número de versos, as estrofes apresentam as seguintes designações:
N.º DE SÍLABAS CLASSIFICAÇÃO N.º DE SÍLABAS CLASSIFICAÇÃO
1 monóstico 6 sextilha
2 dístico 7 sétima
3 terceto 8 oitava
4 quadra 9 nona
5 quintilha 10 décima
4. Rima
Os versos de uma estrofe poderão não rimar (designam-se versos brancos ou soltos); poderão terminar
todos com a mesma rima (designam-se versos monórrimos), ou podem rimar de acordo com diferentes
combinações. As mais frequentes são:
TIPO DEFINIÇÃO
Emparelhada Os versos rimam dois a dois, de acordo com o esquema rimático AA, BB, CC.
Cruzada Os versos rimam intercaladamente, de acordo com o esquema rimático ABAB.
Interpolada Rima entre dois versos, com dois ou mais versos de permeio, como, por exemplo, nos seguintes
esquemas rimáticos ABBA ou ABCA ou ABBCA.
A
SIGA 315
Texto dramático
Elementos constitutivos do texto dramático
1. Ação – desenrolar dos acontecimentos, através do diálogo e da movimen-
tação das personagens em palco.
ESTRUTURA
Interna
exposição – apresentação das personagens e da
situação inicial.
conflito – sucessão de acontecimentos ou peripécias
que conduzem ao seu ponto culminante.
desenlace – conclusão da ação dramática.
Externa
ato – grande divisão do texto dramático (corresponde
à mudança de cenário).
cena – divisão de ato, determinada pela entrada ou
saída de uma ou mais personagens.
2. Personagens – agentes/intervenientes da ação, encarnados por atores.
RELEVO
principal – assume um papel importante e é à volta dela
que gira toda a ação.
secundária – desempenha um papel de menor relevo,
auxiliando a personagem principal.
figurante – não intervém diretamente na ação, servindo
apenas como figura decorativa.
COMPOSIÇÃO
modelada ou redonda – tem densidade psicológica, o seu
comportamento altera-se ao longo da peça.
plana – tem escassa complexidade psicológica, comporta-
-se de forma previsível.
tipo – representa um determinado grupo/estrato social e/ou
profissional ou tipo psicológico.
PROCESSOS DE
CARACTERIZAÇÃO
Direta
autocaracterização – feita pela própria
personagem.
heterocaracterização – feita pelas outras
personagens.
Indireta
deduzida pelo espectador a partir do
comportamento, atitudes ou falas da
personagem.
B
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
316
3. Espaço – lugar, ambiente ou atmosfera interior onde decorre a ação; real
ou imaginário.
ESPAÇO
cénico – corresponde ao ambiente recriado onde se movem as
personagens (presença de luz, som, guarda-roupa, adereços).
palco – espaço da representação.
representado – ambiente recriado pelos atores, interligado à
ação e ao espaço cénico.
4. Tempo – momento em que decorre a ação: passado, presente ou futuro.
TEMPO
de representação – é curto e corresponde à duração do
espetáculo teatral.
representado – corresponde ao momento histórico recriado pelos
atores.
Modalidades do texto dramático
DISCURSO
DRAMÁTICO
texto principal, constituído pelas falas das personagens. Pode surgir
sob a forma de diálogo, monólogo ou aparte.
DIDASCÁLIA
texto secundário, constituído pelas indicações cénicas, geralmente
dentro de parênteses (informações sobre movimentação das
personagens, tom de voz, cenário, luz, som, guarda-roupa,
adereços...).
Modos de representação do discurso
MONÓLOGO
A personagem fala consigo mesma.
DIÁLOGO
As personagens falam entre si.
APARTE
Discurso de uma personagem que é dirigido ao público. Aparentemente,
e em jogo teatral, escapa às restantes personagens.
SIGA 317
Texto narrativo
Elementos constitutivos do texto narrativo
1. Ação – desenrolar dos acontecimentos, através do diálogo e da movimen-
tação das personagens.
RELEVO
principal – composta pelos acontecimentos principais.
secundária – composta pelos acontecimentos menos importantes, mas que contribuem para o
desenrolar da ação principal.
ESTRUTURA
(SEQUÊNCIAS
NARRATIVAS)
encadeamento – sequências ordenadas de forma cronológica.
encaixe – sequência encaixada dentro de outra (ações narradas no interior de outra).
alternância – várias sequências são narradas de forma alternada, interrompendo a narração da
ação principal.
MOMENTOS
situação inicial – apresentação do contexto da ação (tempo, espaço e personagens).
desenvolvimento – desenrolar da ação, no qual decorrem as peripécias.
desenlace – desfecho da ação.
DELIMITAÇÃO
aberta – o desfecho da ação fica suspenso ou não é conhecido o destino das personagens.
fechada – o desfecho da ação é definitivo, conhece-se o destino das personagens.
2. Personagens – agentes/intervenientes na ação.
RELEVO
principal – assume um papel importante e é à volta dela que gira toda a ação.
secundária – desempenha um papel de menor relevo, auxiliando a personagem principal.
figurante – não intervém diretamente na ação, servindo apenas como figura decorativa.
COMPOSIÇÃO
modelada ou redonda – tem densidade psicológica, o seu comportamento altera-se ao longo da
ação.
plana – comporta-se sempre do mesmo modo.
tipo – representa um determinado grupo/estrato social e/ou profissional.
PROCESSOS DE
CARACTERIZAÇÃO
Direta
autocaracterização – feita pela própria personagem.
heterocaracterização – feita por outras personagens ou narrador.
Indireta deduzida pelo espectador a partir do comportamento, atitudes ou falas da personagem.
C
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
318
3. Espaço – lugar, ambiente ou atmosfera interior onde decorre a ação.
ESPAÇO
físico – local onde decorre a ação ou se desenrolam os acontecimentos.
social – ambiente ou meio social a que pertencem as personagens ou onde elas se movem.
psicológico – espaço que reflete o interior/pensamento/reflexões das personagens.
4. Tempo – momento em que decorre a ação.
TEMPO
da história – período de duração da ação, é cronológico e pode ou não coincidir com um
momento da História (por exemplo, a Idade Média, os Descobrimentos...).
psicológico – período temporal vivido pelas personagens, segundo o estado de espírito das
mesmas.
do discurso – forma de apresentação do discurso ou maneira como o narrador relata os
acontecimentos, como, por exemplo, em analepse (recuo), prolepse (avanço), elipse (omissão),
pausa (reflexões, descrições que interrompem o desenrolar da ação) e sumário (resumo de
acontecimentos).
5. Narrador – entidade fictícia que narra a ação/os acontecimentos.
PRESENÇA
autodiegético – quando é a personagem principal (narra-a na primeira pessoa).
homodiegético – quando é uma personagem secundária.
heterodiegético – quando não participa na ação e a narra na terceira pessoa.
CIÊNCIA Focalização
omnisciente – quando tem conhecimento total da ação e das personagens.
interna – quando adota o ponto de vista de uma personagem.
externa – quando apenas conhece o exterior da personagem.
POSIÇÃO
subjetivo – quando narra de forma parcial, ou seja, tece juízos de valor ou opiniões e adota
determinado ponto de vista.
objetivo – quando narra de forma imparcial, não tecendo juízos de valor ou opiniões.
6. Modos de expressão
NARRAÇÃO
relato de acontecimentos/eventos que promovem o desenvolvimento da ação, o que lhe imprime
maior dinamismo, requerendo os tempos verbais no pretérito perfeito e pretérito mais-que-
-perfeito. Há ainda uma predominância de nomes e maior objetividade no que é relatado.
Constitui, por isso, um momento de avanço na ação.
DESCRIÇÃO
espaço textual no qual se transmitem informações sobre as personagens, os objetos, o tempo
e o espaço, requerendo os tempos verbais no pretérito imperfeito do indicativo. Há ainda uma
predominância de adjetivos e advérbios, recursos expressivos e maior subjetividade no que é
relatado. Constitui, por isso, um momento de pausa na ação.
DIÁLOGO as personagens falam entre si.
MONÓLOGO a personagem fala consigo mesma.
SIGA 319
Morfologia
Processos regulares de formação de palavras
1. Derivação
AFIXAL
Prefixação
adição de um prefixo antes de uma forma de base.
Ex.: ante + braço = antebraço; vice + reitor = vice-reitor;
re + fazer = refazer
Sufixação
adição de um sufixo depois de uma forma de base.
Ex.: caldeira + ão = caldeirão; laranja + eira = laranjeira
Prefixação
e sufixação
adição simultânea, não obrigatória, de um prefixo e de um sufixo
a uma forma de base.
Ex.: in + sensato + ez = insensatez; des + leal + dade =
deslealdade
Parassíntese
adição simultânea e obrigatória de um prefixo e um sufixo a uma
forma de base; sem os dois, a palavra não tem sentido.
Ex.: em + bainha + ar = embainhar; en + ruga + ado = enrugado
Derivação não
afixal
formação de nomes a partir de verbos no infinitivo, substituindo-
-se as terminações –ar, –er, –ir por –a, –e ou –o.
Ex.: err(ar) – erro; compr(ar) – compra; debat(er) – debate;
toss(ir) – tosse
Conversão
ou derivação
imprópria
uma mesma palavra pode pertencer a classes ou subclasses de
palavras diferentes.
Ex.: silva (nome comum) / Silva (nome próprio);
andar (verbo) / o andar (nome)
2. Composição
por associação de palavras Ex.: passatempo, fim de semana, terça-feira
por associação de vários
radicais
(ligados pelas vogais i ou o)
Ex.: fot[o]grafia; carn[i]voro; astr[o]fot[o]metria
por associação de radicais
e palavras
Ex.: agr[i] doce; afr[o]-lus [o]-americano
A
III. Gramática
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
320
Classes de palavras
Classes e subclasses de palavras
1. Nome
Próprio: designa uma entidade individualizada (nome de
pessoa, localidade…).
Ex.: Luís, Lisboa
Comum: designa uma entidade de uma classe, sem a
individualizar.
Ex.: escola, mãe, festa
Coletivo: conjunto de entidades do mesmo tipo.
Ex.: turma, década, ramalhete, flora, fauna, gente
2. Adjetivo
Qualificativo: refere uma qualidade do nome; admite
grau; normalmente aparece depois do nome.
Ex.: interessante, azul, saudável
Numeral: refere a ordem ou sucessão de algo;
normalmente aparece antes do nome, precedido por um
determinante.
Ex.: O quinto rei; Esta nona música
3. Verbo
Principal: é a forma verbal que atribui
significado à frase, pois constitui o
núcleo do grupo verbal; pode inserir-se
num complexo verbal.
tJOUSBOTJUJWP não exige complementos.
Ex.: Nós sorrimos.
tUSBOTJUJWPEJSFUPexige um complemento direto.
Ex.: Estou a comprar um carro novo.
tUSBOTJUJWPJOEJSFUP exige um complemento indireto ou oblíquo.
Ex.: Escrevi ao Zé; Eu fui à Madeira.
tUSBOTJUJWPEJSFUPFJOEJSFUPexige um complemento direto e um indireto
ou oblíquo.
Ex.: A mãe leu o romance à avó; O Luís levou a prenda no carro.
tUSBOTJUJWPQSFEJDBUJWP exige um complemento direto e um predicativo
do complemento direto.
Ex.: O juiz declarou a Ana inocente.
Auxiliar: ocorre num complexo verbal,
conjugado antes do verbo principal
ou copulativo e é precedido, ou não,
por uma preposição; apenas transmite
informação.
tUFNQPSBM ação acabada (fui escolhida); ação durativa (tenho andado a
estudar)…
tNPEBM desejo, possibilidade, dever, necessidade, certeza, permissão.
Ex.: Tenho de alcançar o meu sonho; Podem sair.
tBTQFUVBM ação habitual, pontual, durativa…
Ex.: Acabei de chegar; Estou a ler.
tEPTUFNQPTDPNQPTUPT verbos ter e haver, antes do particípio do verbo
principal ou copulativo.
Ex.: Eu havia acreditado nele; Ele tem estado ausente.
tEBQBTTJWB verbo ser, antes do particípio do verbo principal.
Ex.: A notícia foi publicada por mim.
Copulativo: apenas liga o sujeito a
uma informação característica que
consta no predicativo do sujeito
(estado, qualidade, localização).
Ex.: Eu permaneço quieta;
Ele é inteligente;
Tu estás aqui;
A data é 21 de setembro de 2014.
B
SIGA 321
4. Advérbio e locução adverbial
QUANTO AO VALOR SEMÂNTICO QUANTO ÀS FUNÇÕES
de negação: nega uma ideia.
Ex.: não
interrogativo: introduz interrogações, diretas ou indiretas.
Ex.: Onde, quando, como, porquê, por que
de afirmação: afirma ou reforça uma ideia.
Ex.: sim, certamente, realmente, efetivamente…
conectivo: estabelece a ligação entre frases ou partes de frases.
Ex.: assim, logo, portanto, porém, contudo, todavia, assim,
pois (posposto), depois, primeiramente…
de quantidade e grau: transmite ideia de porção ou de
intensidade.
Ex.: bastante, pouco, mais, tanto, tão, quase, bem...
relativo: introduz uma oração relativa.
Ex.: onde, como, quando
de modo: indica a forma ou maneira de realizar uma ação.
Ex.: assim, depressa, melhor, mal, calmamente…
de tempo: indica o tempo da ação.
Ex.: hoje, agora, depois, nunca, brevemente, já…
de lugar: indica o local da ação.
Ex.: abaixo, ali, através, longe, algures, aquém…
de inclusão: inclui algo de um grupo.
Ex.: até, mesmo, também...
de exclusão: exclui algo de um grupo.
Ex.: apenas, senão, simplesmente, só, somente,
exclusivamente…
de designação:
Ex.: eis
de dúvida:
Ex.: acaso, porventura, talvez, provavelmente…
locução adverbial: constituída por duas ou mais palavras, sendo a primeira uma preposição.
Ex.: no entanto, por consequência, em breve, para onde, à vontade, de mais, no mínimo, de facto, de manhã,
ao contrário, na verdade, de propósito, por vezes, sem dúvida, de repente, de vez em quando...
5. Quantificador
Numeral: indica a quantidade numérica de algo.
Ex.: dois, metade, o triplo…
6. Interjeição e locução interjetiva
ALGUNS VALORES SEMÂNTICOS
de chamamento: socorro!, psiu!, alô… de saudação: olá, adeus…
de surpresa: ah!, credo!, hi!, caramba!... de ordem: rua!, caluda!, alto!...
de resignação: pronto!, paciência!... de desejo: oh!, oxalá!...
locução interjetiva: essa agora!, deixa lá!, toca a andar!, vamos lá!, Deus queira!, muito bem!
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
322
7. Determinante
Artigo
definido o(s), a(s)
indefinido um, uma, uns, umas
Demonstrativo
este(s), esta(s), esse(s), essa(s), aquele(s), aquela(s), o(s) mesmo(s), a(s) mesma(s),
o(s) próprio(s), a(s) própria(s), o(s) outro(s), a(s) outra(s), tal, tais
Possessivo meu(s), minha(s), teu(s), tua(s), seu(s), sua(s), nosso(s), nossa(s), vosso(s), vossa(s)
Interrogativo quanto(s), quanta(s), qual, quais, que
Relativo cujo(s), cuja(s), quanto(s), quanta(s)
Indefinido certo(s), certa(s), outro(s), outra(s)
8. Pronome
PESSOAL, com função sintática de…
Sujeito Complemento
direto
Complemento indireto Complemento
oblíquo
Complemento
agente da passiva
com
preposição
sem
preposição
(antecedido por
até, contra, de,
entre, para, sem,
perante…)
(antecedido por por)
eu me (a) mim me mim, comigo mim
tu te (a) ti te ti, contigo ti
ele/ela/você o, a, se (a) ele/ela/si lhe si, consigo
(com) ele/ela
ele/ela/si
nós nos (a) nós nos nós, connosco nós
vós vos (a) vós vos vós, convosco vós
eles/elas/
vocês
os, as, se (a) eles/elas lhes si, consigo
(com) eles, elas
eles/elas/si
Demonstrativos
este(s), esta(s), isto, esse(s), essa(s), isso, aquele(s), aquela(s), aquilo, o(s) mesmo(s),
a(s) mesma(s), o(s) outro(s), a(s) outra(s), tal, tais
Possessivos meu(s), minha(s), teu(s), tua(s), seu(s), sua(s), nosso(s), nossa(s), vosso(s), vossa(s)
Interrogativos quanto(s)?, quanta(s)?, qual?, quais?, que?, quê?, quem?, onde?
Relativos o/a qual, os/as quais, quanto(s), quanta(s), que, quem, onde
Indefinidos
algum, alguma(s), alguns, nenhum, nenhuma(s), nenhuns, tanto(s), tanta(s), todo(s),
toda(s), muito(s), muita(s), pouco(s), pouca(s), outro(s), outra(s), qualquer, quaisquer,
alguém, ninguém, tudo, nada, outrem
9. Preposição e locução prepositiva
Preposições
ante, após, até, com, conforme, contra, consoante, de, desde, durante, em, exceto, entre,
mediante, para, perante, por, salvo, sem, segundo, sob, sobre, trás…
Locução
prepositiva
constituída por duas ou mais palavras, sendo a última uma preposição: abaixo de, acerca de,
acima de, a fim de, além de, antes de, aquém de, apesar de, a respeito de, através de, de
acordo com, em frente de, em vez de, perto de, longe de, quanto a...
SIGA 323
10. Conjunção e locução conjuncional
a) Coordenativa
Conjunções Locuções conjuncionais
Copulativa (adição)
e, também, nem nem… nem, não só… mas também, não só… como
também, tanto… como
Adversativa (oposição)
mas
Conclusiva (conclusão)
logo
Disjuntiva (alternativa)
ou ou… ou, já… já, ora… ora, quer… quer, seja… seja
Explicativa
(explicação, justificação)
pois, que
b) Subordinativa adverbial
Conjunções Locuções conjuncionais
Causal (causa)
porque, como (= porque),
pois, porquanto, que
(= porque),…
já que, pois que, por isso mesmo que, por isso que, visto
que, uma vez que…
Consecutiva (consequência)
que de modo que, de forma que, de maneira que
Condicional (condição)
se, caso desde que, a menos que, a não ser que, contanto que,
desde que, exceto se, salvo se, sem que, uma vez que…
Concessiva (concessão)
embora, conquanto… apesar de (que), ainda que, por mais que, por menos
que, não obstante, se bem que, mesmo que/se, nem
que…
Comparativa (comparação)
como, qual (depois de
tal), (do) que, quanto
(depois de tanto)…
ao passo que, assim como… assim, assim como… assim
também, mais… do que, menos… do que, tão/tanto…
como, conforme… assim…
Temporal (tempo)
quando, mal, apenas,
enquanto…
à medida que, antes que, ao passo que, assim que,
até que, depois que, desde que, logo que, sempre que,
todas as vezes que…
Final (fim, finalidade,
objetivo)
que (= para que), para para que, a fim de que, de modo que, a fim de…
c) Subordinativa substantiva
Completiva (completa o
sentido do verbo)
que, se, para
Relativa
(o) que, onde, quem
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
324
Sintaxe
1. Funções sintáticas
FUNÇÕES SINTÁTICAS AO NÍVEL DA FRASE EXEMPLOS
Sujeito: grupo nominal
ou oração.
simples: um grupo nominal ou oração. A Rute vai à praia.
É possível que chova.
composto: dois ou mais grupos nominais ou
oração coordenada.
O Gil e o Manel vão à praia.
É possível que chova e troveje.
nulo indeterminado: não se consegue
determinar o referente (na 3.ª
pessoa do singular/plural e,
normalmente, acompanhado do
pronome impessoal -se).
Fala-se de novos impostos.
Dizem que vão aumentar os impostos.
subentendido: subentende-se o
referente pelo contexto e flexão
verbal.
A Ana está cansada. [A Ana] Vai agora
dormir.
Predicado: grupo verbal.
Verbo ou complexo verbal, com os seus
complementos e/ou modificadores.
O Gil leu o livro na sala.
Vocativo: grupo nominal.
Interlocutor separado por vírgulas dos outros
constituintes frásicos.
Manel, traz-me esse livro, por favor!
Modificador: grupo
adverbial, preposicional
ou oração.
Referência a um domínio do saber ou
juízo de valor sobre o que foi ou vai ser
dito – separado por vírgulas dos outros
constituintes frásicos.
Matematicamente, o exercício está
correto.
Chove bastante, infelizmente!
De facto, está mau tempo.
Se chover, não saio.
FUNÇÕES SINTÁTICAS INTERNAS AO GRUPO NOMINAL EXEMPLOS
Complemento do nome: grupo preposicional ou grupo
adjetival, menos frequente.
O retrato do Pedro ficou perfeito.
A oferta turística a sul é enorme.
Modificador restritivo do nome: grupo adjetival, grupo
preposicional, oração adjetiva relativa restritiva e oração
adverbial final.
O chapéu azul fica-te bem.
A reunião de acionistas foi produtiva.
O livro que me deste é interessante.
Os instrumentos para a cirurgia estão preparados.
Modificador apositivo do nome: grupo nominal, grupo
adjetival, grupo preposicional, oração adjetiva relativa
explicativa – sempre separado por vírgulas dos outros
constituintes frásicos.
Dom Dinis, o rei lavrador, também foi poeta.
O Gil, estudioso e trabalhador, teve boas notas.
O Gil, com trabalho e estudo, teve boas notas.
Dom Dinis, que escreveu poesia, plantou o pinhal
de Leiria.
B
C
SIGA 325
FUNÇÕES SINTÁTICAS INTERNAS AO GRUPO VERBAL EXEMPLOS
Complemento direto: grupo nominal ou oração substantiva
completiva finita ou substantiva infinitiva.
Comprei um carro novo.
Disse que ia à praia.
Espero ganhar o prémio.
Complemento indireto: grupo preposicional introduzido por a. Dei a boneca à menina.
Complemento oblíquo: grupo adverbial ou grupo
preposicional.
Moro aqui.
Moro em Lisboa.
Complemento agente da passiva: grupo preposicional,
introduzido por por.
Os Lusíadas são uma epopeia escrita por Camões.
Modificador: grupo adverbial, grupo preposicional ou oração. Ontem jantei bem.
Ontem jantei na sala.
Ontem jantei logo que pude/porque tinha fome.
Predicativo do sujeito: grupo nominal, grupo adjetival, grupo
adverbial ou grupo preposicional.
O Manel é um génio.
O Pedro está doente.
O Gil ficou ali.
A Maria permanece em casa.
Predicativo do complemento direto: grupo nominal, grupo
adjetival ou grupo preposicional.
Os alunos elegeram o Gil delegado de turma.
A turma considerou a Maria inteligente.
A professora tratou o Manel por tu.
FUNÇÕES SINTÁTICAS INTERNAS AO GRUPO ADJETIVAL EXEMPLOS
Complemento do adjetivo: grupo preposicional. O Pedro está consciente da verdade.
VERBOS QUE SELECIONAM COMPLEMENTO OBLÍQUO (verbos regidos por preposição)
abdicar de
abster-se de
abusar de
acabar com
aceder a
acreditar em
aderir a
afastar-se de
aludir a
apaixonar-se por
apoderar-se de
aspirar a
assistir a
atrever-se a
candidatar-se a
cansar-se de
chegar a
concordar com
concorrer a
confiar em
contar com
convencer-se de
crer em
cuidar de
delegar em
depender de
descer de
desconfiar de
descrer de
desistir de
dirigir-se a, para
discordar de
dispor de
dispor-se a
dotar de
duvidar de
entrar em
esquecer-se de
estar em
falar de
ficar em
fugir de
gostar de
importar-se com
insistir em
interessar-se por
interferir em
investir em
ir a, para
livrar de
munir-se de
necessitar de
olhar por
participar em
partir para
pensar em
precisar de
recordar-se de
recorrer a
renunciar a
residir em
sair de
simpatizar com
sofrer de
subir a
suspeitar de
transformar em
vir de
viver em
voltar a, de
votar em
zelar por
VERBOS QUE SELECIONAM PREDICATIVO DO SUJEITO (verbos copulativos)
ser, estar, continuar, ficar, parecer, permanecer, revelar-se, tornar-se, andar (no sentido de estar)...
VERBOS QUE SELECIONAM PREDICATIVO DO COMPLEMENTO DIRETO (verbos transitivos predicativos)
achar, chamar, considerar, declarar, eleger, julgar, nomear, supor, ter(-se) por, tornar, tratar por...
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
326
2. Colocação do pronome pessoal átono
FUNÇÕES SINTÁTICAS INTERNAS AO GRUPO VERBAL EXEMPLOS
1.Os pronomes pessoais átonos (me, te, se, o/a, lhe, nos,
vos) surgem à direita do verbo em frases com polaridade
afirmativa.
Casos particulares:
i. mudam para -lo(s), -la(s), se a forma verbal terminar
em -r, -s ou -z.
ii. mudam para -no(s), -na(s), se a forma verbal terminar
em -m, ditongo ou vogal nasal (ã, ãe, ão, õe).
O João leu o romance todo. O João leu-o todo.
A Lara traz as chaves. A Lara trá-las.
Estou a terminar o trabalho. Estou a terminá-lo.
Eles dão as mãos. Eles dão-nas.
Elas concluíram o projeto. Elas concluíram-no.
2. Quando os verbos estão flexionados no futuro do
indicativo ou condicional, os pronomes surgem integrados
na forma verbal.
O Dinis dará um concerto. O Dinis dá-lo-á.
Leria o texto, se conseguisse. Lê-lo-ia, se
conseguisse.
Enviarei um e-mail ao Tiago. Enviar-lho-ei.
3. Os pronomes pessoais átonos são colocados à
esquerda da forma verbal quando surgem integrados em:
i. frases com polaridade negativa.
ii. frases do tipo interrogativo começadas por advérbios
ou pronomes.
iii. frases com alguns advérbios/locuções adverbiais (bem,
mal, ainda, antes de, já, talvez, sempre, só…).
iv. frases com pronomes indefinidos.
v. orações subordinadas.
Não trouxe o livro. Não o trouxe.
Que fizeste ao Pedro? Que lhe fizeste?
Onde viste as alunas? Onde as viste?
Já visitei o Oceanário. Já o visitei.
Talvez veja o João. Talvez o veja.
Ninguém viu a Sofia na festa. Ninguém a viu na festa.
Lamento que tenhas perdido o espetáculo.
Lamento que o tenhas perdido.
3. Transformação da voz ativa em passiva
A utilização da voz ativa ou da voz passiva resulta de uma escolha feita pelo locutor, de
acordo com a sua intenção.
Na passagem de uma frase na voz ativa para a voz passiva verificam-se as seguintes
modificações:
VOZ ATIVA VOZ PASSIVA EXEMPLOS
t 0sujeito da frase na voz ativa passa a DPNQMF
mento agente da passiva da frase na voz passiva.
Camões dedica o poema a D. Sebastião. (voz ativa)
O poema é dedicado a D. Sebastião por Camões. (voz passiva)
t 0DPNQMFNFOUPEJSFUPEBGSBTFOBWP[BUJWB
passa a sujeito da frase na voz passiva.
Camões dedica o poema a D. Sebastião. (voz ativa)
O poema é dedicado a D. Sebastião por Camões. (voz passiva)
t GPSNBWFSCBMOBWP[QBTTJWBÏGPSNBEBQFMPWFSCP
auxiliar ser, no tempo em que se encontra o verbo
principal da frase na voz ativa + particípio do
verbo principal da frase na voz ativa.
Camões dedica o poema a D. Sebastião. (voz ativa)
O poema é dedicado a D. Sebastião por Camões. (voz passiva)
SIGA 327
4. Coordenação e subordinação
Frases complexas – com dois (ou mais) grupos verbais
4.1 Coordenação
ORAÇÕES
COORDENADAS
CONJUNÇÕES/
LOCUÇÕES CONJUNCIONAIS/
ADVÉRBIOS CONECTIVOS
EXEMPLOS
Copulativas (adição) e, nem… nem, também… A Joana foi ao cinema e viu um filme excelente.
Adversativas (oposição) mas, porém, todavia… Não gosto de bananas, mas gosto de maçãs.
Conclusivas (conclusão) portanto, logo, pois… O Ferrari é mais rápido, logo vai à frente.
Disjuntivas (alternativa) ou , ora… ora, quer… quer Ou lês ou vês televisão.
Explicativas
(explicação, justificação)
porquanto, pois, que Quero falar contigo, porquanto tenho notícias
para te dar.
4.2. Subordinação
4.2.1 Adverbiais
SUBORDINADAS CONJUNÇÕES/LOCUÇÕES CONJUNCIONAIS EXEMPLOS
Causais
(causa)
porque, como (= porque), pois, porquanto, que (= porque),
já que, pois que, por isso mesmo que, por isso que, visto que
A Joana foi ao cinema
porque queria ver o filme.
Consecutivas
(consequência)
que, de forma que, de maneira que, de modo que, de sorte que Gosto tanto de maçãs, que
as comi todas.
Condicionais
(condição)
se, caso, desde que, a menos que, a não ser que, contanto que,
desde que, exceto se, no caso que, salvo se, sem que, uma vez que
Desde que sejas mais rápido,
ganhas.
Concessivas
(concessão)
embora, conquanto, apesar de que, ainda que, ainda quando,
por mais que, por menos que, posto que, se bem que, sem que
Ainda que digas a verdade,
não acredito em ti.
Comparativa
(comparação)
como, conforme, qual, que, segundo, ao passo que, assim
como… assim, assim como… assim também, mais… do que,
menos… do que, tão (tanto)… como
O Ferrari é mais rápido do
que é o Mini.
Temporal
(tempo)
à medida que, antes que, ao passo que, assim que, até que,
depois que, desde que, logo que, primeiro que, sempre que,
tanto que, todas as vezes que
Mal chegou, pôs-se a ler.
Final
(fim, finalidade,
objetivo)
que (= para que)
para que, a fim de que, por que
Leva o casaco para que não
tenhas frio.
COORDENAÇÃO
SUBORDINAÇÃO
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
328
4.2.2 Adjetivas relativas
SUBORDINADAS CONJUNÇÕES/LOCUÇÕES CONJUNCIONAIS EXEMPLOS
Restritivas
(limitam, restringem)
que, quem, onde, cujo, qual
Dá-me aquele livro que está sobre a mesa.
A situação que ele criou é insustentável.
Explicativas
(explicam, adicionam)
O restaurante, onde a comida é deliciosa,
é do meu pai.
4.2.3 Substantivas
SUBORDINADAS
PRONOMES RELATIVOS/
CONJUNÇÃO/DETERMINANTE/
QUANTIFICADOR…
EXEMPLOS
Relativas sem antecedente
(o pronome relativo não tem um antecedente)
(o) que, onde, quem Quem desdenha, quer comprar.
Completivas
(completam o sentido da frase)
que É possível que chova.
Lamento que seja assim.
Completivas interrogativas indiretas
(interrogativas indiretas, no discurso indireto)
que, se, para Perguntou se ia à praia.
Ela pediu-me para descansar.
Infinitivas
(verbo no infinitivo pessoal)
para Digo para estares aqui a horas.
Lexicologia
Arcaísmo: palavra ou construção cujo uso é considerado
antiquado pela comunidade linguística.1
Ex.: u (onde), ca (porque), coita (dor, sofrimento),
al (outra coisa)
Neologismo: palavra cujo significante ou cuja relação
significante-significado era inexistente num estádio de língua
anterior ao da sua atestação.1
Ex.: teclar, googlar, internauta
Campo semântico: conjunto dos significados que uma palavra
pode ter nos diferentes contextos em que se encontra.
Ex.: «peça» – peça de teatro, peça de carne, peça
de automóvel, peça de arte…
Campo lexical: conjunto de palavras associadas, pelo seu
significado, a um determinado domínio conceptual.
Ex.: «escola» – professor, aluno, aula, teste,
disciplina…
B
D
1
Dicionário Terminológico (disponível em http://dt.dgidc.min-edu.pt, consultado em março de 2015)
SIGA 329
Semântica
1. Valores de tempo, modo e aspeto em algumas formas verbais
MODO VERBAL VALOR EXEMPLOS
Infinitivo utiliza-se para exprimir ideias/verdades intemporais. Ex.: Falar sem cuidar é atirar sem
apontar.
Indicativo utiliza-se para exprimir, geralmente, uma ação, um estado
ou um facto considerado como realidade.
Ex.: O meu pai corre muito.
Conjuntivo utiliza-se para exprimir as ações, os estados ou os factos
incertos, prováveis, eventuais ou irreais.
Ex.: Não sei o que faça.
Se eu soubesse os números do
Euromilhões…
Imperativo utiliza-se para exprimir permissão, obrigação ou ordem,
podendo também ser usado para transmitir informações,
instruções, conselhos, convites, súplicas…
Ex.: Vai para casa!
Segue este caminho.
Condicional utiliza-se para referir factos que não se realizaram e cuja
realização é incerta.
Ex.: Perderia menos tempo se fosse
por ali.
TEMPO VERBAL VALOR EXEMPLOS
Presente do
indicativo
– refere um evento que ocorre no momento de enunciação;
– enuncia ações ou estados permanentes;
– refere ações habituais ou características do sujeito;
– narra factos do passado com vivacidade;
– apresenta um facto no futuro próximo.
Ex.: Daqui fala o João.
Ex.: A água ferve aos 100 ºC.
Ex.: As aulas começam às 8:30.
Ex.: Fernão Lopes narra com pormenor.
Ex.: Amanhã, vou à praia.
Pretérito perfeito
do indicativo
– indica ações ou eventos ocorridos num determinado
momento no passado.
Ex.: Ontem, comprei um CD.
Pretérito
imperfeito do
indicativo
– apresenta factos ocorridos no passado, mas inacabados;
– transmite valores de continuidade e duração;
– indica ações simultâneas;
– designa ações passadas habituais ou repetidas;
– expressa delicadeza/cortesia;
– situa narrações em tempos indefinidos.
Ex.: Estava a ler, quando ela chegou.
Ex.: Ele continuava a andar sem
perceber o que se passara.
Ex: Ele lavava a loiça enquanto eu
aspirava.
Ex.: Todos os sábados íamos ao
cinema.
Ex.: Queria um café, por favor.
Ex.: Era uma vez…
1SFUÏSJUPNBJT
RVFQFSGFJUPEP
indicativo
– enuncia ações mais distantes no passado relativamente
a um ponto de referência que já é passado também.
Ex.: Ele continuou a andar sem
perceber o que se passara.
Futuro do
indicativo
– indica factos futuros;
– expressa incerteza acerca de factos atuais;
– manifesta uma súplica ou pedido.
Ex.: Irei amanhã ao Porto.
Ex.: Será ele o assaltante?
Ex.: Fará o favor de se calar?
Presente do
conjuntivo
– usa-se para apresentar hipóteses, probabilidades ou
intenções a partir de um ponto de enunciação no presente.
Ex.: Eu quero que o meu filho mais
novo coma mais.
Pretérito
imperfeito do
conjuntivo
– usa-se para apresentar hipóteses, probabilidades, intenções,
colocando o ponto de ocorrência do evento no passado.
Ex.: A minha mãe queria que eu
comesse mais.
Futuro do
conjuntivo
– usa-se para apresentar hipóteses, probabilidades, intenções,
colocando o ponto de ocorrência do evento no futuro.
Ex.: Se nós o virmos, damos-lhe o
recado.
B
E
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
330
Análise do discurso e pragmática
Texto/linguística textual
1. Articuladores/conectores do discurso
Os conectores ou articuladores do discurso são palavras e/ou expressões que
servem para ligar frases, períodos/parágrafos de um texto. Estes vocábulos/
expressões asseguram a coesão textual e podem ser conjunções/locuções
conjuncionais, preposições/locuções preposicionais e advérbios/locuções
adverbiais.
VALOR DE EXEMPLOS
Adição/enumeração e, ora, pois, também, além disso, e ainda, não só… mas também, por um lado… por outro
(lado)…
Alternativa fosse... fosse, ou, ou então, ou... ou, ora... ora, quer... quer, seja... seja, alternativamente, em
alternativa, senão...
Causa visto que, pois, porque, pois que, por causa de, dado que, já que, uma vez que, porquanto…
Certeza sem dúvida, é evidente que, evidentemente, certamente, com toda a certeza, decerto,
naturalmente…
Consequência de tal modo, de tal forma que, de modo que, tanto… que, por tudo isto…
Conclusão/inferência assim, portanto, logo, daí, enfim, em conclusão, em suma, por conseguinte…
Dúvida possivelmente, talvez, provavelmente, porventura, é provável, é possível…
Ênfase/realce efetivamente, com efeito, na verdade, como vimos, note-se que, atente-se em, repare-se que,
veja-se que, constate-se que…
Esclarecimento quer isto dizer que, (não) significa isto que, com isto não se pretende que, não se pense que…
Exemplificação por exemplo, como se pode ver, isto é, é o caso de, é o que acontece com…
Sequência/ordem em primeiro lugar, em segundo lugar, de seguida, depois, por fim, antes de mais…
Finalidade/objetivo para, para que, com o fim de, com o intuito de, a fim de, com o objetivo de…
Hipótese/condição se, a menos que, (mesmo) admitindo que, exceto se, supondo que, salvo se…
Espaço aqui, ali, acolá, além, lá, ao lado, sobre, à esquerda, no meio, naquele lugar, o lugar onde,
mais adiante…
Tempo quando, após, antes, depois, seguidamente, anteriormente, em seguida, até que, por fim, então…
Opinião a meu ver, parece-me que, estou em crer que, em nosso entender…
Oposição, contraste mas, apesar de, no entanto, porém, contudo, todavia, por outro lado, pelo contrário,
contrariamente, com a ressalva que…
Reafirmação, resumo por outras palavras, ou melhor, ou seja, em resumo, em suma, em nosso entender, a meu ver…
Semelhança do mesmo modo, tal como, pelo mesmo motivo, assim como…
B
F
SIGA 331
2. Reprodução do discurso no discurso
2.1 Transformação do discurso direto para indireto
1. Discurso direto: reprodução do discurso anterior de um enunciador, respei-
tando o que foi dito e como foi dito.
CARACTERÍSTICAS (NA ESCRITA) EXEMPLOS
1. É representado por dois pontos, parágrafo e travessão. Logo a secundá-lo, Fernando sussurava:
– Uma coroa, Inês. Rainha de Portugal.
João Aguiar, Inês de Portugal
2. É introduzido por verbos declarativos, que podem surgir no início, no
meio ou no fim do discurso: dizer, responder, indagar, explicar…
3. O verbo declarativo pode, por vezes, ser eliminado. Diz-lhe a deusa: «Ó trasunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus…»
Luís de Camões, Os Lusíadas
4. É marcado por aspas, itálicos, quando se apresenta diretamente no
meio do discurso direto.
2. Discurso indireto: reprodução do discurso de um enunciador, através de
um narrador.
DISCURSO DIRETO DISCURSO INDIRETO
1. Uso da 1.ª e 2.ª pessoas (pronomes, verbos):
eu, tu, nós, me, (con)vosco; fiquei, ficaste,
ficastes.
1. Uso da 3.ª pessoa (pronomes, verbos):
ele, o/a, lhe, se, eles; ficara, ficaram.
2. Pronomes e determinantes demonstrativos:
este, esta, esse, essa, isto e isso.
2. Pronomes e determinantes demonstrativos:
aquele, aquela, aquilo.
3. Pronomes e determinantes possessivos:
meu, minha, teu, tua...
3. Pronomes e determinantes possessivos:
seu/sua, dele/dela...
4. Advérbio de predicado aqui. 4. Advérbio de predicado ali.
5. Advérbios de predicado:
hoje, agora, amanhã...
5. Locuções adverbiais de predicado:
nesse dia, naquele dia, naquele momento, no dia seguinte...
6. Vocativo. 6. Complemento indireto.
7. Frase interrogativa direta. 7. Oração subordinada substantiva completiva.
8. Verbos no presente do indicativo. 8. Verbos no pretérito imperfeito.
9. Verbos no presente do conjuntivo. 9. Verbos no pretérito imperfeito do conjuntivo.
10. Verbos no pretérito perfeito do indicativo. 10. Verbos no pretérito mais-que-perfeito.
11. Verbos no pretérito imperfeito do conjuntivo. 11. Verbos no pretérito imperfeito do conjuntivo.
12. Verbos no futuro do indicativo. 12. Verbos no modo condicional.
13. Verbos no futuro do conjuntivo. 13. Verbos no pretérito imperfeito do conjuntivo.
14. Verbos no modo imperativo. 14. Verbos no pretérito imperfeito do modo conjuntivo.
15. Verbos no modo infinitivo. 15. Verbos no modo infinitivo.
16. Verbo vir. 16. Verbo ir.
17. Verbos introdutores do discurso. 17. Verbos introdutores do discurso não sofrem alterações.
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
332
3. Paratextos
3.1 Índice
Elemento paratextual que serve para situar o leitor quanto ao conteúdo
de uma obra, listando os itens que a compõem e a respetiva página onde
se encontram. Existem diferentes tipos de índice: geral, onomástico (lista
alfabética dos autores referidos numa obra), remissivo (lista alfabética dos
assuntos principais referidos numa obra), de tabelas, de figuras/imagens, de
abreviaturas.
3.2 Citação textual
Não é correto, nem legítimo recorrer a citações sem indicar a sua fonte
(origem), isto é, apropriarmo-nos indevidamente de parte ou da totalidade
do trabalho de outrem e apresentá-lo como nosso. Podes e deves usar
ideias e discursos de outros, pois estes comprovam as tuas ideias e ajudam
a fundamentá-las. No entanto, terás sempre de indicar a sua fonte, caso
contrário isso será plágio.
Apresentamos-te duas formas de evitares o plágio:
t citação direta – verifica-se quando citas integralmente (ipsis verbis) as
ideias/discurso do autor;
t citação indireta – verifica-se quando fazes um resumo ou paráfrase das
ideias/discurso do autor, introduzindo expressões como «segundo...», «de
acordo com…», «tal como afirma/defende…», que indicam a fonte do que
estás a expor/defender.
A citação deverá ser inserida no corpo do texto e entre aspas («»).
As citações não deverão ser longas. Apenas deves escolher o excerto
que contribui para enriquecer o teu texto como forma de complemento ou
fundamentação. Quando se citam versos, estes devem ser separados por uma
barra oblíqua (/) com um espaço antes e depois.
3.3 Nota final e de rodapé
São indicações que surgem no final do documento ou no final da página
(rodapé) e que são utilizadas para explicar, comentar ou fazer referências
a uma parte do texto no documento. Ao utilizar a nota final ou de rodapé
podemos não complicar o nosso texto com informação adicional, tornando-o
mais fluido e entendível.
3.3.1 Nota final
Podem utilizar-se as notas finais para inserir comentários (explicação de
um determinado termo ou estrangeirismo, por exemplo) ou para citação de
SIGA 333
fontes, em alternativa à inserção de citações ou de bibliografia. Poderão ter
o inconveniente para o leitor de não estarem junto ao texto, mas sim no final
do capítulo ou da obra.
3.3.2 Nota de rodapé
Podem utilizar-se as notas de rodapé para inserir comentários (explicação
de um determinado termo ou estrangeirismo, por exemplo) ou indicação
breve do autor e obra a que nos referimos no corpo do texto, sem a referência
bibliográfica completa. Permitem ao leitor dispor da informação na mesma
página, o que não acontece com as notas finais.
3.4 Referência bibliográfica
A referência bibliográfica pode ser elaborada de vários modos, sendo funda-
mental manter a coerência nas escolhas.
1. nome do autor apelido, em maiúsculas ou minúsculas, seguido de nome
próprio (esta inversão só é necessária numa lista bibliográfica), título da
obra (em itálico), volume, número da edição (se apenas houver uma, não
se indica), tradutor, coleção, local de edição, editora, ano da publicação,
número de páginas (totais ou consultadas).
Ex.: MATHIAS, Énard, Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes, trad.
de Pedro Tamen, Lisboa, Dom Quixote, 2013.
2. TJTUFNBBVUPSEBUB nome do autor, em maiúsculas ou minúsculas, ano
da publicação entre parênteses, título da obra, volume, número da edição,
tradutor, coleção, local da edição, editora, ano de publicação, páginas (totais
ou consultadas), conforme o caso.
Ex.: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner (1996), Navegações, 3.ª edição,
Lisboa, Editorial Caminho.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Livros ZINK, Rui, Anibaleitor, Lisboa, Teorema, 2010.
Capítulos de livros
MONTEIRO, N. G., «Sistemas familiares», in J. Mattoso (dir.), História
de Portugal, vol. IV: O Antigo Regime, Lisboa, Círculo de Leitores, 1993,
pp. 278-283.
Verbetes de dicionário/
enciclopédia
AMADO, Teresa, «Fernão Lopes, in Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org.
e coord.), Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, 2.ª edição,
Lisboa, Caminho, 2000, pp. 271-273.
Artigos de revista e jornal
MOURA, Vasco Graça, «A escrita e o real», in Jornal de Letras Artes e Ideias,
17 de agosto, 2005, pp. 17-18.
Página de internet
«Caravela», in Instituto Camões (disponível em http://cvc.instituto-camoes.pt,
consultado em 25/07/2014).
Material audiovisual
BOTELHO, João (2010), Filme do desassossego [filme], distribuído por Ar de
Filmes.
SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO
334
Adjetivação (simples, dupla, tripla) – apresentação sucessiva de vários adjetivos.
Ex.: É simplesmente rápido, perfeito e natural.
Alegoria – «No seu significado etimológico, alegoria significa dizer uma coisa
por outra, representando figurativamente um conceito ou uma abstração.»1
Ex.: O diabo (concreto) representa o mal (abstrato).
Aliteração – «Repetição da mesma consoante, muitas vezes na sílaba inicial
de palavras contíguas, tanto no verso como na prosa.»1
Ex.: «Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe.»
(Bernardim Ribeiro)
Anáfora – repetição da mesma palavra ou conjunto de palavras no início de
cada verso ou de frases sucessivas.
Ex.: «Cresci de mais, como destino.
Cresci de mais para o meu berço.» (José Régio)
Anástrofe – inversão da ordem direta dos elementos da frase.
Ex.: «Longas são as estradas da Galileia.» (Eça de Queirós)
Antítese – combinação de ideias contrárias ou opostas.
Ex.: «o berço de um era magnífico e de marfim entre brocados; o berço do
outro, pobre e de verga» (Eça de Queirós)
Apóstrofe–chamamentoouinterpelaçãoaalguémouaalgumacoisapersonificada.
Ex.: «Ó glória de mandar, ó vá cobiça»
«Bem puderas, ó Sol, da vista destes…» (Luís de Camões)
Comparação – Relação de semelhança entre dois elementos, através da
palavra «como» ou das expressões «parecer-se com» e «assemelhar-se a».
Ex.: «Dentro da casa o mar ressoa como no interior de um búzio.»
(Sophia M. B. Andresen)
«A rua [...] parece um formigueiro agitado.» (Érico Veríssimo)
Enumeração – «[…] nomeação acumulativa das partes de um todo e de
elementos que mantêm entre si uma correlação lógica ou semântica».1
Esta nomeação pode ser feita através de nomes ou verbos.
Ex.: «Os Romanos chegaram, viram e venceram.»
«As cerejas, peras e maçãs transbordavam da fruteira.»
Eufemismo – forma de suavizar o caráter desagradável, horrível, penoso, de
uma notícia, de um pensamento, de uma situação.
Ex.: «Entregar a alma ao criador.» (por «morrer»)
Hipérbole – exagero (por excesso ou defeito) da realidade.
Ex.: «A sua alma era um vulcão»;
«Red Bull dá-te asas».
IV. Recursos expressivos
1
Dicionário Terminológico
(disponível em http://dt.dgidc.
min-edu.pt, consultado em
março de 2015)
SIGA 335
Interrogação retórica – questão retórica, isto é, que não visa uma resposta,
antes procura dar ênfase e criar expectativa através de uma formulação
próxima da exclamação ou da afirmação.
Ex.: «Sem a loucura que é o homem / Mais do que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?» (Fernando Pessoa)
Ironia – exprimir uma ideia dizendo o significado contrário ou divergente, o
que corresponde ao propósito do emissor e que o recetor deve descodificar
de acordo com a situação.
Ex.: Fizeste um lindo serviço!
Metáfora – «substituição de uma palavra própria […] por uma palavra com a
qual aquela possui elementos sémicos em comum, com supressão daquela,
ao contrário do que acontece na comparação […]. A transposição do signifi-
cado baseia-se numa analogia manifesta ou oculta, que a metáfora desvela
e dá a conhecer.»
Ex.: «Amor é fogo que arde sem se ver» (Camões)
Metonímia – emprego de um vocábulo por outro, com o qual estabelece uma
relação de contiguidade (o continente pelo conteúdo; o lugar pelo produto,
o autor pela sua obra, etc.).
Ex.: «Belém mantém-se na expectativa» = O Presidente da República
«amigo de Baco» = amigo do vinho
Perífrase – utilização de um número de palavras maior do que o necessário
para exprimir determinada ideia.
Ex.: «E aqueles que por obras valorosas / Se vão da lei da morte libertando.»
(Camões)
Personificação – atribuição de qualidades/propriedades humanas a animais,
objetos ou entidades abstratas.
Ex.: «Sobre as ervas, entre as folhagens, / O vento passa, sonhador e distraído.»
(Sophia de M. B. Andresen)
Pleonasmo – palavra ou palavras que reforça(m) uma ideia que já está expressa.
Ex.: «pera sobir acima» (Fernão Lopes)
Sinédoque – transferência de significado de uma palavra para outra, numa
relação que toma a parte pelo todo ou vice-versa.
Ex.: «Que da Ocidental praia lusitana» (= Portugal)
Trocadilho – «[…] jogo de palavras, ou jogo do equívoco, sendo que o mais
comum é utilizar uma palavra recorrendo ao signo de uma outra, porque as
duas são homófonas (por exemplo “conselho” por “concelho”) ou servir-se
de palavras ou expressões homónimas, utilizando a sua ambiguidade de sen-
tidos. Esta figura de estilo constitui um jogo verbal para tornar animado, ou
para avivar um determinado momento da escrita […].»2
Ex.: Joana flores colhia. / «Jano colhia cuidados.» (Bernardim Ribeiro)
2
Dicionário de Termos Literários
(Carlos Ceia)
336
A
D. Afonso
Mendes
de Besteiros
Século XIII
Foi um trovador portu-
guês de ascendência fidalga, nascido,
provavelmente, em Santa Maria de
Besteiros, atual Tondela. Pensa-se que
terá participado nas campanhas guer-
reiras de Afonso X (de Leão e Castela)
e que terá sido forçado a exilar-se em
Castela, devido à derrota de D. Sancho II,
de quem era partidário.
Airas Nunes
Século XIII
Clérigo, provavelmente galego, cuja
atividade se situará nos finais do rei-
nado de Afonso X e inícios do reinado
de Sancho IV (1284-1289). Trovador
culto, como nos indicam o seu perfeito
domínio das formas e ainda o seu gosto
pela citação.
B
Bernardo Gomes de Brito
Lisboa, 1688 – depois de 1759
Foi um erudito português e destacou-se
por ser o responsável pela compilação
de relatos de naufrágios. Estes relatos,
também conhecidos por «relações»,
narram naufrágios ocorridos entre 1552
e 1602 com navios portugueses.
C
Carlos
Drummond
de Andrade
Itabira, 1902 – Rio
de Janeiro, 1987
Foi um poeta, con-
tista e cronista bra-sileiro. Começou
a publicar artigos no Diário de Minas,
em 1921 e em 1922 ganhou um
prémio num concurso com o conto
Joaquim do telhado. Em 1946, foi
distinguido pela Sociedade Felipe de
Oliveira, pelo conjunto da sua obra.
O estilo poético de Drummond carac-
teriza-se pela ironia, pelas observa-
ções do quotidiano e pelo pessimismo
perante a vida, acrescentando-se a
estes o humor. Destacam-se algu-
mas obras: Alguma poesia; Contos
plausíveis; O observador no escritó-
rio; Brejo das almas; História de dois
amores.
D
D. Dinis
Lisboa, 1261 –
Santarém, 1325
Foi o sexto rei de Portu-
gal, com o cognome o
Lavrador, pelo grande
impulso que deu à
agricultura, e Rei-Poeta, devido à sua
obra literária. Foi aclamado em Lisboa
em 1279, tendo subido ao trono com
17 anos. Ao longo de 46 anos a gover-
nar o Reino de Portugal e dos Algar-
ves, foi um dos principais responsáveis
pela criação da identidade nacional e
pelo nascer da consciência de Portu-
gal enquanto estado-nação. Foi grande
amante das artes e das letras, tendo
sido um famoso trovador.
F
Fernão Lopes
(1380? – 1460?)
Foi tabelião-geral do
reino, guarda-mor da
Torre do Tombo (1418-
-1454) e cronista dos
reis D. Pedro I,
D. Fernando e D. João
Ie do infante D. Fernando. Em 1434,
sob o reinado de D. João I, é-lhe dada
a missão de escrever as crónicas dos
reis portugueses. Fernão Lopes foi
con-siderado o primeiro cronista-histo-
riador, tendo adotado um estilo muito
particular no qual dá voz à classe
social menos privilegiada: o povo.
O estilo de Fernão Lopes também é
caracterizado pela determinação do
cronista em escrever «a nua verdade»,
tentando estabelecer distanciamento
e isenção quanto aos factos narrados.
Faleceu em Lisboa, provavelmente,
em 1460.
G
Gil Vicente
? – depois de 1536?
Desconhece-se tanto
a data e local do seu
nascimento como da
sua morte; porém,
supõe-se que terá
falecido após 1536, data do último
auto conhecido. Frequentou as cortes
régias de D. Manuel I e D. João III.
De 1502 a 1536, Gil Vicente produziu
cerca de cinquenta peças de teatro
e obras menores. Colaborou também
no Cancioneiro geral, de Garcia de
Resende, o primeiro a considerá-lo
«o pai do teatro português». Chegou a
publicar em vida alguns autos em fólios,
mas só em 1562, postumamente, é
que a sua obra foi reunida e editada
pelos seus filhos Luís e Paula Vicente,
com o título de Copilaçam de todalas
obras de Gil Vicente, a qual se reparte
em cinco livros.
J
João Garcia de
Guilhade
Século XIII
Trovador português,
natural de Guilhade,
na freguesia de Milha-
zes (Barcelos). Encontra-se documen-
tado no segundo e terceiro quartéis do
século XIII.
A referência mais antiga que dele
possuímos é a de um documento datado
de 1239. Pelas suas composições
depreende-se que terá frequentado a
corte castelhana de Afonso X.
Dicionário de autores
337
Dicionário de autores
L
Luís Vaz de
Camões
? – Lisboa, 1580
Filho de Simão Vaz
de Camões e de Ana
de Sá e Macedo.
Desconhecem-se o local (Constância,
Coimbra...?)eadata doseunascimento
(que possivelmente ronda os anos de
1524, 1525). Distinguiu-se pelos
seus feitos militares e pelo seu talento
como poeta. Terá viajado bastante e
conhecido culturas diferentes. Terá tido
vários relacionamentos amorosos. Em
vida, publicou Os Lusíadas, dedicado
ao rei D. Sebastião. Postumamente,
publicaram-se as peças teatrais –
Anfitriões, juntamente com Filodemo;
foi, ainda, publicada a compilação
da sua poesia dispersa com o título
Rimas. Morreu a 10 de junho de 1580.
M
Manuel Alegre
Águeda, 1936
Estudou Direito na
Universidade de Coim-
bra, onde foi um ativo
dirigente estudantil.
A sua tomada de posição sobre a ditadura
e a Guerra Colonial levam o regime de
Salazar a chamá-lo para o serviço militar
em 1961.
Poemas seus, cantados, entre outros,
por Zeca Afonso, Adriano Correia de
Oliveira, Manuel Freire e Luís Cília,
tornam-se emblemáticos da luta pela
liberdade. Regressa, finalmente, a Por-
tugal a 2 de maio de 1974, dias após
o 25 de Abril. Foi candidato à Presi-
dência da República em 2006 e em
2011. É autor de várias obras como:
Praça da canção; O canto e as armas;
Um barco para Ítaca; O homem do país
azul; Cão como nós. Tem edições em
italiano, espanhol, alemão, catalão,
francês, romeno e russo.
Martim Codax
Século XIII
Provavelmente um jogral galego, ativo
em meados ou no terceiro quartel
do século XIII. É um dos dois únicos
autores presentes nos cancioneiros
medievais, cujas composições se con-
servaram igualmente num manuscrito
individual, o Pergaminho Vindel, sendo
acompanhadas da respetiva notação
musical. O seu apelido parece excluir
a hipótese de um estatuto social ele-
vado. Seria pois um jogral ou segrel,
muito possivelmente ligado a Vigo,
localidade repetidamente cantada nas
suas composições.
Miguel Esteves
Cardoso
Lisboa, 1955
É crítico, escritor e
jornalista.
Licenciou-se em Estu-
dos Políticos e doutorou-se em Filosofia
Política. Em 1988, foi cofundador do
semanário O Independente. Em 1991,
funda a revista K, que durou dois anos.
De entre as suas obras destacam-se as
seguintes: Escrítica pop; A causa das
coisas; As minhas aventuras na Repú-
blica Portuguesa; A vida inteira; Expli-
cações de português; Em Portugal não
se come mal; Amores e saudades de
um português arreliado.
N
Nuno
Fernandez
Torneol
Século XIII
Pouco se sabe deste
trovador do século XIII.
Julga-se ter desenvolvido a sua atividade
trovadoresca por meados do século XIII,
muito provavelmente na corte castelhana
de Fernando III ou Afonso X.
P
Pero da Ponte
Século XIII
Trovador muito pro-
vavelmente galego,
ativo nas cortes cas-
telhanas de Fernando III e Afonso X.
A sua condição de escudeiro e trova-
dor é referida pelo próprio em duas
composições,maséprovávelqueoseuver-
dadeiro estatuto social fosse o de segrel.
Autor de cantigas de amor, de amigo, de
escárnio, de prantos e de uma tenção.
Pero Garcia Burgalês
Século XIII
Trovador ou jogral castelhano, certa-
mente natural de Burgos, como
o seu nome indica. Até há pouco
tempo, quase nada se sabia sobre a
sua biografia, exceto o que se pode
deduzir das suas composições, que
no-lo mostram integrado na geração
dos trovadores que rodeiam Afonso X.
R
Rui Queimado
Século XIII
Trovador português, ativo em meados do
século XIII. A sua linhagem, certamente
da pequena nobreza, está documentada
na região da bacia do rio Vez, afluente
do Lima, havendo também notícia da
criação do trovador na localidade de
S. Salvador de Sabadim (Valdevez). As
suas cantigas satíricas, versando temas e
personagens igualmente satirizados por
autores do círculo de Afonso X, parecem
indicar que esteve em Castela na década
de 40.
Rui Zink
Lisboa, 1961
É escritor e professor
universitário.
Licenciou-se em Estu-
dos Portugueses e
obteve o grau de mestre em Cultura
e Literatura Popular. Doutorou-se em
Literatura Portuguesa. Atualmente,
é professor auxiliar na Universidade
Nova de Lisboa. Autor de vários livros,
de entre os quais, ensaios e ficção,
salientam-se os romances Hotel lusi-
tano, Apocalipse nau, O suplente, Os
surfistas e os livros de contos A reali-
-dade agora a cores, Homens-aranhas
e Anibaleitor.
338
T
Tiago Salazar
Lisboa, 1972
Formou-se em Rela-
-ções Internacionais
e estudou Guionis-
moe Dramaturgia.
Jornalista desde 1991, tem publica-
ção dispersa pela imprensa portuguesa
e brasileira. Apresentou o programa
«Endereço Desconhecido», na RTP2,
e é colaborador permanente da revista
NS, do Diário de Notícias. Elaborou
ainda guiões para televisão, foi asses-
sor do gabinete de imprensa do Insti-
tuto Camões e ganhou o Prémio Jovem
Repórter do Centro Nacional de Cul-
tura, em 1995. É ainda autor de con-
tos publicados no DN Jovem e no DNa,
do Diário de Notícias, no Expresso e na
revista Ficções.
V
Vasco Graça
Moura
Porto, 1942 –
Lisboa, 2014
Foi escritor, tradutor,
advogado e político.
Dirigiu a RTP2, foi administrador da
Imprensa Nacional-Casa da Moeda,
presidente da Comissão Executiva das
Comemorações do Centenário de Fer-
nando Pessoa e da Comissão Nacional
para as Comemorações dos Descobri-
mentos Portugueses e diretor do Ser-
viço de Bibliotecas e Apoio à Leitura
da Fundação Calouste Gulbenkian.
Exerceu também a função de deputado
no Parlamento Europeu. Foi nomeado,
em 2012, para a presidência da Fun-
dação Centro Cultural de Belém. De
entre as suas obras, destacam-se as
seguintes:
Poesia: Uma carta no inverno; Os
nossos tristes assuntos; Ensaio: Luís
de Camões: alguns desafios; Sobre
Camões, Gândavo e outras persona-
gens; Romance: Quatro últimas can-
ções; Meu amor, era de noite.
Breve
dicionário
de símbolos
(Poesia trovadoresca)
Água
Símbolo da harmonia amorosa entre os
dois namorados.
Alva
Símbolo da inocência, da pureza e da
virgindade.
Aves
Representam, com a beleza do seu can-
to, a sedução e o enamoramento que
podem surgir em qualquer momento.
Flores/avelaneiras
Símbolo da delicadeza e da feminili-
dade; remetendo também para a ferti-
lidade e fecundidade.
Luz
Deslumbramento do amor e, tal como
a luz nos pode cegar, também o amor
nos pode impedir de ver as situações
com clarividência e com sensatez.
Mar
Subjetividade da tempestuosidade do
mar. Este elemento pode ser aliado a
uma ideia hostil por originar a sepa-
ração entre os amigos no período dos
Descobrimentos.
Ondas
Símbolo do tumulto interior. Por outro
lado, as ondas são amigas e próximas,
opondo-se ao mar hostil e distante.
Ramos
Símbolo dos laços amorosos.
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  • 1.
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  • 2.
    Índice geral pp. EDUCAÇÃOLITERÁRIA 22 Mensagens cruzadas 24 Contextualização histórico-literária Cantigas de amigo 30 «Ondas do mar de Vigo» Martim Codax 34 «Ai flores, ai flores do verde pino» D. Dinis 36 «Levad’, amigo que dormides as manhanas frias» Nuno Fernandes Torneol 40 «Bailemos nós já todas tres, ai amigas» Airas Nunes Cantigas de amor 48 «Proençaes soem mui bem trobar» D. Dinis 48 «Quer’eu em maneira de proençal» D. Dinis 50 «Se eu podesse desamar» Pero da Ponte Cantigas de escárnio e maldizer 56 «Ai, dona fea, fostes-vos queixar» João Garcia de Guilhade 58 «Roi Queimado morreu com amor» Pero Garcia Burgalês 60 «Quen a sesta quiser dormir» Pero da Ponte pp. GRAMÁTICA 31 Classes e subclasses de palavras 35 Funções sintáticas 37 Tempos e modos verbais. Processos fonológicos 38 Fonética e fonologia. Processos fonológicos (inserção, supressão e alteração) 41 Classes de palavras. Tempos e modos verbais. Lexicologia: arcaísmo 45 Tempos e modos verbais. Adjetivos 49 A frase complexa: coordenação e subordinação. 51 Processos fonológicos. Formas verbais 59 Funções sintáticas. Classes e subclasses de palavras 64 O português: génese, variação e mudança. Principais etapas da formação e evolução do português pp. ORALIDADE 35 Apreciação crítica: Mixórdia de temáticas, «Níveis prejudiciais de amor», Ricardo Araújo Pereira 44 Compreensão: Anúncio publicitário 45 Apreciação crítica: «A idade média está na moda» 61 Apreciação crítica: O país onde a maledicência é melhor que o silêncio, Mariana Seruya Cabral pp. ESCRITA 42 Exposição sobre um tema: Piropo, Miguel Esteves Cardoso (crónica) 52 Apreciação crítica: O beijo, Francisco García Lorca (desenho) pp. LEITURA 54 Exposição sobre um tema: O rei que refundou Portugal, Luís Miguel Queirós 68 Mensagens de hoje 69 Glossário 70 Ficha formativa Unidade 1 Poesia trovadoresca Unidade 0 Diagnose e projeto de leitura pp. 12 Avaliação diagnóstica 18 Projeto de leitura 2
  • 3.
    pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA 108Mensagens cruzadas 110 Contextualização histórico-literária Farsa de Inês Pereira 117 «Sem casamento, que enfadamento…» 120 «Pretendente apresentado e logo rejeitado…» 126 «Aparece um escudeiro e é solteiro…» 132 «Casamento celebrado, casamento frustrado?» 137 «Que casamento e que tormento!» 142 «Bem casar para livre estar…» pp. GRAMÁTICA 119 Fonética e fonologia. Processos fonológicos 124 Frases complexas: coordenação e subordinação 128 Funções sintáticas 129 Complemento do nome 139 Processos fonológicos. Funções sintáticas 146 Do português antigo ao português contemporâneo. Tempos e modos verbais. Funções sintáticas. pp. ORALIDADE 128 Apreciação crítica: Cartoon 152 Reportagem: «Educação: de iletradas a superletradas» pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA 76 Mensagens cruzadas 78 Contextualização histórico-literária Crónica de D.João I 83 «Do alvoroço que foi na cidade cuidando que matavom o Meestre, e como aló foi Alvoro Paaez e muitas gentes com ele» 90 «Das tribulações que Lixboa padecia per mingua de mantiimentos» pp. GRAMÁTICA 85 A frase complexa: coordenação 88 Predicativo do complemento direto 93 Funções sintáticas. A frase complexa 98 Processos irregulares de formação de palavras pp. ORALIDADE 86 Apresentação: «O meu 25 de abril», Francisco Sousa Tavares (crónica) pp. ESCRITA 94 Exposição sobre um tema: «Fome e miséria» 98 Apreciação crítica: «Manifestação cultural» pp. LEITURA 97 Apreciação crítica: «A estranha vida de Steve Jobs», João Pedro Pereira 100 Mensagens de hoje 101 Glossário 102 Ficha formativa 154 Mensagens de hoje 155 Glossário 156 Ficha formativa Unidade 2 Fernão Lopes – Crónica de D. João I Unidade 3 Gil Vicente – Farsa de Inês Pereira pp. ESCRITA 124 Apreciação crítica: Excerto do programa 5 para a meia-noite 136 Exposição sobre um tema: A relevância do espaço na Farsa de Inês Pereira 140 Exposição sobre um tema: A construção do tempo na A Farsa de Inês Pereira 146 Exposição sobre um tema: «A farsa de Inês Pereira, crítica de costumes» 3
  • 4.
    4 Unidade 4 Luísde Camões, Rimas pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA 162 Mensagens cruzadas 164 Contextualização histórico-literária A representação da amada 170 «Leva na cabeça o pote» 171 «Posto o pensamento nele» 173 «A verdura amena» 176 «Aquela cativa» 178 «Um mover d’olhos brando e piadoso» A experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor 182 «Tanto de meu estado me acho incerto» 182 «Pede o desejo, Dama, que vos veja» A representação da natureza 185 «Alegres campos, verdes arvoredos» A reflexão sobre a vida pessoal 188 «Erros meus, má fortuna, amor ardente» 188 «O dia em que eu nasci, moura e pereça» O desconcerto do mundo 191 «Os bons vi sempre passar» A mudança 196 «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» pp. GRAMÁTICA 172 Funções sintáticas. A frase complexa: subordinação 174 A frase complexa: coordenação e subordinação. Funções sintáticas. Campo lexical 175 Campo lexical e campo semântico 177 Campo semântico 179 Funções sintáticas. A frase complexa: subordinação 183 Classes de palavras. Processos regulares de formação de palavras 186 Funções sintáticas. A frase complexa: coordenação. Classes de palavras. Pronominalização 189 A frase complexa: subordinação 192 Funções sintáticas. Conectores frásicos. Processos regulares de formação de palavras. Étimo 194 Étimo, palavras divergentes e convergentes 197 Funções sintáticas 199 Complemento do adjetivo 203 Principais etapas da formação e da evolução do português pp. ORALIDADE 174 Apreciação crítica: «Se eu fosse um dia o teu olhar», Pedro Abrunhosa 180 Exposição sobre um tema: «Estâncias na medida velha que têm duas contrariedades: louvando e deslouvando uma dama», análise e comparação de «[Vós] sois NJa Dama» e «De grão merecer», Luís de Camões 183 Apresentação: «Amor é um fogo que arde sem se ver», de Luís de Camões e versão musicada do mesmo poema, Polo Norte 186 Exposição sobre um tema: «A Gaivota dos Alteirinhos», Jorge Palma pp. ESCRITA 172 Exposição sobre um tema: Leitura comparativa entre «Ondas do mar de Vigo», Martim Codax, e «Posto o pensamento nele», Luís de Camões 177 Exposição sobre um tema: Belle, Amma Asante (filme) 189 Exposição sobre um tema: «O erro, o arrependimento e as consequências» 197 Apreciação crítica: «O futuro das nossas crianças», Trayko Popov (cartoon) 201 Síntese: «Camões tornado carne», Raquel Ribeiro (notícia) 206 Mensagens de hoje 207 Glossário 208 Ficha formativa
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    5 pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA 214Mensagens cruzadas 217 A epopeia: natureza da obra Os Lusíadas 222 Constituição da matéria épica: canto I, ests. 1 a 3 (Proposição) 226 Constituição da matéria épica: canto I, ests. 4 e 5 (Invocação) 228 Constituição da matéria épica: canto I, ests. 6 a 18 (Dedicatória) 231 Reflexões do poeta: canto I, ests. 105 e 106 («Bicho da terra tão pequeno») 233 Reflexões do poeta: canto V, ests. 92 a 100 (Partida de Vasco da Gama) 237 Reflexões do poeta: canto VII, ests. 78 a 87 (Ninfas do Tejo e do Mondego) 240 Reflexões do poeta: canto VIII, ests. 96 a 99 (O poder corrupto do dinheiro) 244 Constituição da matéria épica/ /mitificação do herói: canto IX ests. 52-53 e 66 a 70 (A chegada à Ilha dos Amores) 248 Reflexões do poeta: canto IX, ests. 88 a 95 (A Ilha dos Amores e a imortalidade) 254 Constituição da matéria épica: canto X, ests. 75 a 79 (A Máquina do Mundo) 256 Constituição da matéria épica: canto X, ests. 80 a 91 (A Máquina do Mundo) 260 Reflexões do poeta: Canto X, ests. 145 a 156 (Lamentações e profecia de futuras glórias nacionais) pp. GRAMÁTICA 223 Complemento do nome. A frase complexa: subordinação 226 Funções sintáticas 230 Funções sintáticas. Campo lexical. Arcaísmos e neologismos. Hiperonímia e hiponímia 232 Campo lexical. Classes de palavras. Antonímia 235 A frase complexa: subordinação. Processos fonológicos. Processos regulares e irregulares de formação de palavras 239 Arcaísmo e neologismo 255 Processos fonológicos 259 Arcaísmos. A frase complexa: subordinação. Campo semântico. Palavras divergentes. Funções sintáticas 267 Funções sintáticas 269 Do português antigo ao português contemporâneo pp. ORALIDADE 235 Apreciação crítica: Anibaleitor, Rui Zink (romance) 238 Síntese: Uma geração (des) interessada, Teresa Camarão (documentário) 251 Anúncio publicitário: «Azeite Gallo – Poema» pp. ESCRITA 230 Exposição sobre um tema: «A importância do sonho» 232 Exposição sobre um tema: A ambição humana; «O homem, bicho da Terra tão pequeno», Carlos Drummond de Andrade (poema) 241 Apreciação crítica: Cartoon, Luís Afonso 259 Exposição sobre um tema: Comparação entre Os Lusíadas, de Luís de Camões, e Troia, filme de Wolgang Petersen 262 Síntese: Sob o signo do Império, J. Oliveira Macêdo (ensaio, excerto) pp. LEITURA 266 Artigo de divulgação científica: «Como se faz um campeão» Unidade 5 Os Lusíadas 274 Mensagens de hoje 275 Glossário 276 Ficha formativa
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    pp. EDUCAÇÃO LITERÁRIA 282Mensagens cruzadas 284 A literatura de catástrofe: a História trágico-marítima Literatura de viagens 285 «O início da aventura do herói Albuquerque» 290 «Um duplo ataque: os corsários e a natureza» 295 «Acabam-se os trabalhos: a justa recompensa» pp. GRAMÁTICA 287 Funções sintáticas 298 Campo lexical e campo semântico; arcaísmos e neologismos pp. LEITURA 301 Relato de viagem: «Marrocos, uma comarca exótica», Tiago Salazar pp. ORALIDADE 288 Documentário: Caravelas e naus – um choque tecnológico no século XVI 294 Síntese: «A milionária cadeia da pirataria na Somália», Gabriel Bonis (artigo) Unidade 6 História trágico-marítima pp. ESCRITA 298 Apreciação crítica: História trágico-marítima, Helena Vieira da Silva (pintura) 304 Mensagens de hoje 305 Glossário 306 Ficha formativa 6
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    7 SIGA Síntese informativae gramatical de apoio pp. I. ESCRITA E ORALIDADE 311 Exposição sobre um tema 312 Apreciação crítica 313 Síntese pp. II. TEXTOS LITERÁRIOS 314 Texto poético 315 Texto dramático 317 Texto narrativo pp. III. GRAMÁTICA (cont.) 324 Sintaxe Funções sintáticas Colocação do pronome pessoal átono Transformação da voz ativa em voz passiva Coordenação e Subordinação 328 Lexicologia 329 Semântica Valores de tempo, modo e aspeto em algumas formas verbais 330 Análise do discurso e pragmática Texto/linguística textual Articuladores/conectores do discurso Reprodução do discurso no discurso Paratextos 334 Recursos expressivos pp. III. GRAMÁTICA 319 Morfologia Processos regulares de formação de palavras Derivação Composição 320 Classes de palavras Classes e subclasses de palavras Nome Adjetivo Verbo Advérbio e locução adverbial Quantificador Interjeição e locução interjetiva Determinante Pronome Preposição e locução prepositiva Conjunção e locução conjuncional
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    8 Unidade 1 32 Ficha n.º1 Cantigas de amigo – caracterização formal 38 Ficha n.º 2 Fonética e fonologia 43 Ficha n.º 3 Cantigas de amigo – variedade do sentimento amoroso; confidência amorosa; relação com a natureza 46 Ficha n.º 4 Publicidade 53 Ficha n.º 5 Cantigas de amor 63 Ficha n.º 6 Cantigas de escárnio e maldizer 64 Ficha n.º 7 O português: génese, variação e mudança Unidade 2 87 Ficha n.º 1 Os atores individuais e coletivos 88 Ficha n.º 2 Predicativo do complemento direto 95 Ficha n.º 3 A afirmação da consciência coletiva 99 Ficha n.º 4 Processos irregulares de formação de palavras Unidade 3 125 Ficha n.º 1 Os processos de cómico 129 Ficha n.º 2 Complemento do nome 141 Ficha n.º 3 Representação do quotidiano 147 Ficha n.º 4 Caracterização das personagens; dimensão satírica 153 Ficha n.º 5 Reportagem Unidade 4 175 Ficha n.º 1 Campo lexical e campo semântico 181 Ficha n.º 2 A representação da amada 184 Ficha n.º 3 A experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor 187 Ficha n.º 4 A representação da natureza 190 Ficha n.º 5 Reflexão sobre a vida pessoal 193 Ficha n.º 6 O desconcerto do mundo 194 Ficha n.º 7 Étimo, palavras divergentes e convergentes 198 Ficha n.º 8 O tema da mudança 199 Ficha n.º 9 Complemento do adjetivo 200 Ficha n.º 10 Medida velha e medida nova 203 Ficha n.º 11 Principais etapas da formação e da evolução do português Unidade 5 224 Ficha n.º 1 Imaginário épico I 227 Ficha n.º 2 Imaginário épico II 239 Ficha n.º 3 Arcaísmo e neologismo 242 Ficha n.º 4 Reflexões do poeta 246 Ficha n.º 5 Mitificação do herói 252 Ficha n.º 6 Imaginário épico/reflexões do poeta 264 Ficha n.º 7 Canto X – Lamentações e profecia de futuras glórias nacionais 268 Ficha n.º 8 Artigo de divulgação científica 269 Ficha n.º 9 Genealogia linguística Unidade 6 289 Ficha n.º 1 Documentário 299 Ficha n.º 2 As aventuras e desventuras dos Descobrimentos 303 Ficha n.º 3 Relato de viagem FICHAS INFORMATIVAS pp.
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    9 Verbos de instrução Analisar Decomporo objeto a ser analisado, a fim de examinar e identificar as partes, relações e os princípios envolvidos, que levam à compreensão do todo. Apresentar Expor, dar a conhecer de maneira sucinta. Argumentar Enunciar os raciocínios que constituem um pensamento, defender ideias, opiniões a respeito de um determinado assunto. Associar Estabelecer uma correspondência, uma relação entre duas ou mais afirmações, ideias,... Caracterizar Pôr em evidência, descrever as propriedades de alguém ou algo. Citar/apontar Mencionar, indicar, de forma breve, determinado aspeto de um assunto. Classificar Reunir em classes ou respetivos grupos, segundo um sistema de classificação. Comentar Opinar, discutir sobre o que foi lido, num determinado contexto, dado pelo enunciado. Comparar/confrontar Examinar simultaneamente dois ou mais objetos, a fim de conhecer as semelhanças, diferenças ou estabelecer relações. Comprovar Provar uma proposição (afirmação), juntar as provas da sua verdade. Definir Dizer em que consiste. Expor um conceito, clara e precisamente. Delimitar Estabelecer limites, dizer o início e o fim de sequências. Confirmar Afirmar, com outras palavras, o já dito; ratificar; corroborar. Criticar Julgar com critério, com discernimento, analisando o lado positivo e o negativo. Descrever Apresentar características distintivas, possibilitando visualizar o objeto em descrição. Discutir Analisar uma questão, um problema, um assunto, pelo exame das razões e provas. Enumerar Listar factos, dados, características, argumentos; especificar um a um. Esclarecer Elucidar, tornar compreensível o sentido de uma afirmação, um pensamento,… Exemplificar Dar exemplos, comprovar com evidências de um texto (abrir e fechar aspas). Explicar Dar a conhecer ou expor factos, resultado de uma interpretação e compreensão. Explicitar Tornar explícito, claro e preciso o sentido do que se quer dar a conhecer. Exprimir o ponto de vista Dar a opinião, fundamentando. Identificar Reconhecer e apontar os elementos fundamentais ou as principais características. Ilustrar Explicar, usando exemplos concretos. Interpretar Expor o sentido, com clareza e objetividade, dentro de um determinado contexto, a fim de mostrar uma compreensão do assunto. Justificar Provar, fundamentar, dar razões convincentes. Referir Indicar factos e dados que se relacionam ou explicam determinada situação. Relacionar Estabelecer uma relação (de oposição, semelhança,…); confrontar realidades. Resumir Distinguir as ideias centrais de um texto das secundárias, obtendo a síntese, que corresponde à compreensão do que foi lido. Transcrever Copiar o que se pede, tal como está no texto original (abrir e fechar aspas). VERBO SENTIDO
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    0 AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA PROJETO DELEITURA Que livros ler? O que fazer? t Escrita; t Oralidade. Como divulgar?
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    DIAGNOSE E PROJETO DELEITURA Vicent van Gogh, Still Life – French Novels and a Rose, c. 1888 (pormenor).
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    12 Unidade 0// DIAGNOSE E PROJETO DE LEITURA AVALIAÇÃO DIAGNÓSTICA COTAÇÕES GrupoI 1. 18pontos 1.1 9pontos 1.2 9pontos 2. 18pontos 3. 10pontos 4.1 6pontos 4.2 5pontos 4.3 5pontos 80pontos Grupo I Lê atentamente o seguinte texto. Um livro Levou-me um livro em viagem, não sei por onde é que andei. Corri o Alasca, o deserto, andei com o sultão no Brunei? P’ra falar verdade, não sei. Com um livro cruzei o mar, não sei com quem naveguei. Com marinheiros, corsários, tremendo de febres e medo? P’ra falar verdade, não sei. Um livro levou-me p’ra longe, não sei por onde é que andei. Por cidades devastadas, no meio da fome e da guerra? P’ra falar verdade, não sei. Um livro levou-me com ele até ao coração de alguém, e aí me enamorei – de uns olhos ou de uns cabelos? P’ra falar verdade, não sei. Um livro num passe de mágica tocou-me com o seu feitiço: deu-me a paz e deu-me a guerra, mostrou-me as faces do homem – porque um livro é tudo isso. Levou-me um livro com ele pelo mundo a passear, não me perdi nem me achei – porque um livro é afinal… um pouco da vida, bem sei. João Pedro Mésseder, O g é um gato enroscado, Alfragide, Editorial Caminho, 2003, p. 4 5 10 15 20 25 30 André Letria, Se eu fosse um livro, 2011.
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    13 Avaliação diagnóstica Apresenta, deforma bem estruturada, as tuas respostas às questões que se seguem. 1. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). a) O sujeito poético levou um livro quando foi viajar. b) O sujeito poético percorreu mar e terra. c) Os sítios por onde passou assemelhavam-se a paraísos ou infernos. d) O sujeito poético não conheceu a paixão através dos livros. e) Nos livros, não está contemplada a vertente multifacetada do Homem. f) No final do poema, é evidente a importância concedida ao livro. 1.1 Corrige as afirmações falsas. 1.2 Transcreve do poema versos que comprovem as afirmações verdadeiras. 2. Faz corresponder a cada segmento textual da coluna A um único segmento textual da coluna B, de modo a obteres afirmações verdadeiras. A B a) Com a construção anafórica no primeiro verso da 3.ª, 4.ª e 5.ª estrofes, 1. o enunciador questiona a autenticidade das suas viagens. b) Com a sucessão de frases interrogativas, 2. o enunciador contrasta experiências literárias. c) Com as diversas enumerações, 3. o enunciador reitera o meio pelo qual viaja. d) Com a metáfora «tocou-me com o seu feitiço» (v. 22), 4. o enunciador acentua a incerteza quanto à veracidade das suas vivências. e) Com a antítese «Deu-me a paz e deu-me a guerra» (v. 23), 5. o enunciador ilustra o poder transformador da literatura. f) Com a repetição do verso final, nas quatro primeiras estrofes, 6. o enunciador sugere a quantidade de experiências literárias. 3. Identifica o tema do poema. 4. Atenta na forma como o poema está escrito. 4.1 Classifica as estrofes quanto ao número de versos. 4.2 Classifica a rima presente nos dois últimos versos da primeira estrofe. 4.3 Quanto à métrica, divide e classifica o primeiro verso do poema. PROFESSOR GrupoI 1. a)F; b)V; c)V; d)F; e)F; f)V. 1.1a)Umlivroéqueofezviajar. d) Pelas leituras, também conheceu apaixão. e) As várias faces do Homem estão presentesnoslivros. 1.2b)«CorrioAlasca,odeserto»(v.3) e«Comumlivrocruzeiomar»(v.6); c)«Deu-meapazedeu-meaguerra» (v.23); f) «porque um livro é afinal… / um poucodavida»(vv.29-30). 2. a)3.; b)1.; c)6.; d)5.; e)2.; f)4. 3. O tema do poema é a riqueza que advémdasexperiênciasdeleitura. 4.1 Quintilhas. 4.2Rimaemparelhada. 4.3 Le/vou/-me um / li/vro em/vi/a/ gem – heptassílabo, redondilha maior. Sugestão A correção da avaliação diagnóstica pode ser feita através de heterocor- reção. As correções são projetáveis em
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    14 Unidade 0// DIAGNOSE E PROJETO DE LEITURA COTAÇÕES GrupoII 1. 15pontos 2.1 5pontos 2.1.1 2pontos 2.2 5pontos 2.3 5pontos 3. 8pontos 40pontos 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 Grupo II Lê atentamente o seguinte texto. A LEITURA NO ECRÃ O mundo digital, com os seus ecrãs e as ligações em rede, veio criar uma nova forma de ler que é diferente da dos livros e jornais em papel. Perante o novo paradigma, surge toda uma cultura e um con- junto de competências que urge aprender, com muitas potencialida- des e desvantagens à mistura. É inegável que a era da internet veio mesmo para ficar, e é com essa reali- dade em mente que se tenta delinear uma estratégia para ler no ambiente que criou. Tal como referem os sociólogos Gustavo Cardoso e Tiago Lima Quinta- nilha, em A sociedade dos ecrãs (2013), ao mesmo tempo que existe uma aposta cada vez maior em tecnologias assentes em ecrãs, vemos também uma tendên- cia para os processos e ferramentas de mediação dependerem dessa «ecrani- zação», sendo ambos um «resultado do crescimento sustentado do modelo Web». Basicamente, um ecrã que esteja ligado à rede propicia uma experiência de leitura que recorre ao multimédia, à interatividade e à existência de hiperli- gações. Com o advento da Web 2.0, a norma passa igualmente por ter o leitor a produzir e a publicar conteúdos, seja na blogosfera, nas redes sociais ou atra- vés de website que tenha criado. Perante este novo ecossistema, vem ao de cima a necessidade de uma cultura digital que dote o leitor de uma capaci- dade crítica e reflexiva, de modo a saber procurar e lidar com a informação que tem em mãos, não bastando dominar a vertente técnica das tecnologias que se usam: podemos saber guiar um auto- móvel, por exemplo, mas se nos faltar a capacidade de analisar cada situação que se nos depara na estrada, o erro e o desastre são quase certos. Para José Afonso Furtado, «com a velocidade a que as coisas estão a mudar, as pessoas têm de ter uma cultura da informação que seja suficientemente flexível e ágil para se habituarem a lidar com problemas inesperados». Acima de tudo, «a prática da leitura digital implica novas competências para a apropriação do texto», entre elas: a capacidade de navegar por entre os dados a que temos acesso; a marcação daquilo que verdadeiramente nos interessa; saber copiar os dados que queremos; fazer uma boa prospeção, capaz de encontrar com precisão aquilo de que necessitamos; realizar anotações às informações que reunimos; armazenar de forma organizada os dados que usamos, para a eles recorrermos quando necessi- tamos (memória); e aprender a publicar informação que reunimos. Tal como explicou o filósofo francês Michel Foucault, «as fronteiras de um livro nunca estão claramente defini- das», pois existe, dentro dele, todo um «sistema de referências a outros livros, outros textos, outras frases: é um nó dentro de uma rede, uma rede de refe- rência». Nunca estas palavras se revela- ram tão apropriadas como hoje. JPL, «Do papel para o digital – a leitura no ecrã», in Superinteressante, n.º 193, maio de 2014, pp. 64-65 (texto com supressões)
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    15 Avaliação diagnóstica Apresenta, deforma bem estruturada, as tuas respostas às questões que se seguem. 1. Para responderes a cada um dos itens 1.1 a 1.5, seleciona a opção correta. 1.1 O mundo digital (A) propicia possibilidades díspares de leitura. (B) mantém as possibilidades de leitura já existentes. (C) desenvolve as possibilidades de leitura já existentes. (D) não acrescenta nada às possibilidades de leitura já existentes. 1.2 Esta nova realidade exige que o leitor (A) desenvolva o gosto pela leitura. (B) aposte na aquisição de novas tecnologias. (C) trace uma metodologia de leitura. (D) perca velhos hábitos de leitura. 1.3 Com o exemplo da condução, pretende-se (A) aproximar uma realidade conhecida de uma desconhecida. (B) comparar uma realidade conhecida com uma desconhecida. (C) distanciar uma realidade conhecida de uma desconhecida. (D) opor uma realidade conhecida a uma desconhecida. 1.4 A enumeração no quarto parágrafo tem como objetivo (A) fornecer uma lista exaustiva das competências que o leitor tem de possuir. (B) sensibilizar para as competências que o leitor tem de possuir. (C) alertar para as competências que o leitor tem de possuir. (D) dar exemplos das competências que o leitor tem de possuir. 1.5 A expressão «as fronteiras de um livro nunca estão claramente definidas» (ll. 66-68), no quinto parágrafo, traduz (A) a existência de um sistema indefinido. (B) a referência a outras redes. (C) a intertextualidade de cada obra. (D) a imagem dos nós e redes de um sistema definido. 2. Atenta na seguinte expressão «É inegável que a era da internet veio mesmo para ficar» (ll. 10-11). 2.1 Constrói uma frase em que a palavra destacada pertença a uma classe de pala- vras diferente. 2.1.1 Classifica-a. 2.2 Classifica a oração sublinhada. 2.3 Indica a função sintática que essa oração desempenha. 3. Identifica o processo de formação das seguintes palavras destacadas, tendo em conta o contexto em que surgem. a) «para os processos e ferramentas de mediação dependerem dessa “ecranização”» (ll. 20-22); b) «Perante este novo ecossistema»(l.33). PROFESSOR GrupoII 1.1(A); 1.2(C); 1.3(B); 1.4(D); 1.5(C). 2.1 Por exemplo: Quando eu era criança,liamuitoslivros. 2.1.1 Verbo «ser» no pretérito imper- feitodoindicativo. 2.2 Oração subordinada substantiva completiva. 2.3Sujeito. 3.a)derivaçãoporsufixação; b) composição por associação de radicalepalavra.
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    16 Unidade 0// DIAGNOSE E PROJETO DE LEITURA Grupo III Atenta na seguinte imagem e na frase abaixo da autoria de Tim Berners-Lee, inventor, em 1989, da World Wide Web, considerado um dos maiores génios vivos do mundo. Redige um texto de opinião, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, sobre a temática «Vantagens e desvantagens dos avanços tecnológicos». Segue a planificação apresentada: Introdução: 1.º parágrafo – definição de avanço tecnológico. Desenvolvimento: 2.º parágrafo – vantagens da evolução tecnológica e respetivos exemplos; 3.º parágrafo – desvantagens da evolução tecnológica e respetivos exemplos. Conclusão: 5.º parágrafo – opinião pessoal. Após a escrita do teu texto, não te esqueças de o rever e aperfeiçoar. «As empresas vão ser cada vez mais geridas por computadores. E os computadores estão a ficar mais inteligentes, mas nós não.» Tim Berners-Lee «Revista» (texto de Matt Warman), in Expresso, 25 de outubro de 2014 COTAÇÕES GrupoIII 50pontos PROFESSOR GrupoIII “iH3@{A F75@A†9;5A 3;36A 3A avanço da ciência; põe ao nosso dis- por ferramentas/possibilidades, que nosauxiliam/facilitamnavidaquoti- diana; “3H3@{A63F75@AA9;3H7?FD3L7D Vantagens: –sociais:maiorqualidadedevidaao níveldasaúde,educação,segurança, comunicação, mobilidade, habita- ção,trabalho…; – económicas: maior garantia de subsistência,menordependênciada natureza,maiorriqueza,etc. Desvantagens –sociais:desemprego(naindústria), perigo de uso excessivo e adição (internet, telemóveis, computado- res); – ecológicas: poluição, desastres ambientais, problemas para os vá- riosecossistemas… “Biniãopessoal.
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    17 Avaliação diagnóstica Grupo IV Escutaatentamente a música Vayorken, interpretada por Capicua. Seleciona, para cada uma das questões abaixo apresentadas, a resposta que considerares mais correta, de acordo com o sentido da letra. 1. Quando fosse crescida, queria (A) viajar pelo mundo. (B) lecionar windsurf. (C) vestir-se de rosa e vermelho. (D) ir a Vayorken. 2. Os dois músicos que refere são (A) Sérgio Godinho e Jorge Palma. (B) Zeca Afonso e Pedro Abrunhosa. (C) Zeca Afonso e Sérgio Godinho. (D) Jorge Palma e Pedro Abrunhosa. 3. Em criança, considera que tinha (A) mau feitio, todavia era bem comportada. (B) mau feitio e era mal comportada. (C) bom feitio e era bem comportada. (D) bom feitio, contudo era mal comportada. 4. O tema desta música é (A) o gosto por viajar. (B) a sua caracterização atual. (C) o seu sonho de menina. (D) a memória da infância. 5. Provavelmente, o nome Vayorken aparece desta forma porque (A) ainda não sabia geografia. (B) ainda não sabia pronunciar corretamente as palavras. (C) era como os seus pais diziam. (D) era como tinha ouvido dizer. 6. A forma Vayorken corresponde à cidade de (A) Newark. (B) Nova Jérsia. (C) Nova Orleães. (D) Nova Iorque. COTAÇÕES GrupoIV 30pontos CD 1 Faixa n.o 1 PROFESSOR Compreensãodooral 1.(B); 2.(C); 3.(B); 4.(D); 5.(B); 6.(D).
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    18 PROJETO DE LEITURA LITERATURAPORTUGUESA AAVV, Antologia do Cancioneiro Geral (poemas escolhidos) ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Navegações ALVES, Adalberto, O meu coração é árabe BRANDÃO, Raul, As ilhas desconhecidas CASTRO, Ferreira de, A selva DINIS, Júlio, Serões da província FARIA, Almeida, O murmúrio do mundo: a Índia revisitada FERREIRA, António, Castro GEDEÃO, António, Poesia completa (poemas escolhidos) NEMÉSIO, Vitorino, Vida e obra do infante D. Henrique LITERATURA DE EXPRESSÃO PORTUGUESA AMADO, Jorge, Os capitães da areia LISPECTOR, Clarice, Contos LOPES, Baltazar, Chiquinho MEIRELES, Cecília, Antologia poética (poemas escolhidos) MORAES, Vinicius de, Antologia poética ONDJAKI, Os da minha rua PEPETELA, Parábola do cágado velho RUI, Manuel, Quem me dera ser onda LITERATURA UNIVERSAL ALIGHIERI, Dante, A divina comédia (excertos escolhidos) Anónimo, Lazarilho de Tormes CALVINO, Italo, As cidades invisíveis CAREY, Peter, O Japão é um lugar estranho CERVANTES, Miguel de, D. Quixote de la Mancha (excertos escolhidos) CHATWIN, Bruce, Na Patagónia DEFOE, Daniel, Robinson Crusoe ECO, Umberto, O nome da rosa ÉNARD, Mathias, Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes HOMERO, Odisseia (excertos escolhidos) MAALOUF, Amin, As cruzadas vistas pelos árabes MAGRIS, Claudio, Danúbio MARCO POLO, Viagens (excertos escolhidos) PÉREZ-REVERTE, Arturo, A tábua de Flandres PETRARCA, Rimas (poemas escolhidos) POE, Edgar Allan, Contos fantásticos SCOTT, Walter, Ivanhoe SHAKESPEARE, William, A tempestade SWIFT, Jonathan, As viagens de Gulliver TELLES, Lygia Fagundes, Ciranda de pedra VIRGÍLIO, Eneida (excertos escolhidos) ZIMLER, Richard, O último cabalista de Lisboa Que livros ler? Apresentam-se em seguida vários títulos de livros, de entre os quais terás de escolher um ou dois, de acordo com as indicações do teu professor, para desenvolveres um trabalho no âmbito do Projeto de Leitura.
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    19 O que fazer? Apartir da obra que selecionaste, desenvolve uma das seguintes atividades propostas. 1. Exposição Prepara uma exposição, escrita ou oral, de acordo com os seguintes passos. Introdução tinformação sobre o autor e a obra. Desenvolvimento tapresentação do conteúdo global da obra (tema, organização); tsemelhanças e diferenças com o que estudaste em determinada unidade, apoiadas em exemplos. Conclusão tsíntese dos aspetos mais relevantes da obra. 2. Apreciação crítica Faz uma apreciação crítica, escrita ou oral, em que apresentes os seguintes aspetos: Introdução tinformação sucinta sobre o autor e a obra, seguida de uma breve descrição do conteúdo da obra. Desenvolvimento tapreciação pessoal sobre a obra, fundamentada em argumentos suportados por excertos ilustrativos; tsemelhanças e diferenças com o que estudaste em determinada unidade, apoiadas em exemplos. Conclusão tinformação sobre a importância da divulgação e do conhecimento da obra; trecomendação da sua leitura. Como divulgar Partilha o teu texto escrito: tOPKPSOBMEBFTDPMB tOPCMPHVFNFOTBHFOTCMPHTQPUQU tOPCMPHVFEBCJCMJPUFDBEBUVBFTDPMB tOPsite de uma livraria online ou num site sobre livros, que permita adicionar comentários de utilizadores. Partilha o teu texto oral: tTPCBGPSNBEFBQSFTFOUBÎÍPPSBMËUVSNB tOVNQSPHSBNBEBSÈEJPEBUVBFTDPMB BDPNQBOIBOEPPEFNÞTJDBTTVHFTUJWBT tTPCBGPSNBEFWÓEFPWMPHVFOP:PVUVCF 'BDFCPPL NFOTBHFOTCMPHTQPUQUPVPVUSPsite de partilha de vídeos.
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    1 EDUCAÇÃO LITERÁRIA Contextualização histórico-literária Cantigasde amigo Cantigas de amor Cantigas de escárnio e maldizer Representações de afetos e emoções: tvariedade do sentimento amoroso; tconfidência amorosa; trelação com a natureza; ta coita de amor e o elogio cortês; t a dimensão satírica: a paródia do amor cortês e a crítica de costumes. Espaços medievais, protagonistas e circunstâncias. Linguagem, estilo e estrutura: tcaracterização temática e formal; trecursos expressivos. LEITURA Exposição, textos informativos e imagens. COMPREENSÃO DO ORAL Anúncio publicitário. Registos áudio e audiovisuais. EXPRESSÃO ORAL Apresentação oral. Apreciação crítica. ESCRITA Exposição sobre um tema. Apreciação crítica. GRAMÁTICA A língua portuguesa: génese, variação e mudança. tAs principais etapas da formação e evolução do português. tFonética e fonologia: processos fonológicos de inserção, supressão e alteração.
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    POESIA TROVADORESCA Iluminura do CodexManesse, século XIV (pormenor).
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    Manuel Alegre Estudou emLisboa, no Porto e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Dirigente histórico do Partido Socialista desde 1974, foi vice-presidente da Assembleia da República, de 1995 a 2009, e é membro do Conselho de Estado. A sua vasta obra literária, que inclui o romance, o conto, o ensaio, mas sobretudo a poesia, tem sido amplamente difundida e aclamada. Foram-lhe atribuídos os mais distintos prémios literários: Grande Prémio de Poesia da APE-CTT, Prémio da Crítica Literária da AICL, Prémio Fernando Namora e Prémio Pessoa, em 1999. Ao seu livro de poemas Doze naus foi atribuído o Prémio Dom Dinis. 22 Trovadores Os trovadores trouxeram consigo a afirmação do sentimento amoroso. Cantaram o chamado amor cortês, que era um lirismo de devoção a uma dama, quase sempre mulher casada. Era uma forma de servidão à sua senhora e, ao mesmo tempo, uma libertação do amor, platónico ou erótico através do qual o trovador divinizava o objecto do seu amor. O amor cortês é, ao fim e ao cabo, o amor do amor, a forma poética de um sentimento individual e da subjectividade até então reprimida. Estes trovadores provençais escreviam, compunham a música, diziam ou cantavam as suas trovas com uma extraordinária e sábia elaboração. Alguns escolhiam palavras que imitavam o canto dos pássaros. Gui- lherme de Aquitânia escreveu um dos versos mais belos de sempre: «Farei um poema de puro nada.» Dir-se-ia que poesia e música nasceram juntas. Mas de que música se trata? Eu creio que é da própria música que está dentro da língua e a que cada poeta acrescenta a sua toada própria. De certo modo, pode dizer-se que Portugal foi trova e cantar de amigo. Das «Ondas do mar de Vigo», de Martim Codax, a «Ai flores, ai flores do verde pino», de Dom Dinis, foi, também, através das trovas e das cantigas de amigo e de amor que a língua se foi unificando e con- solidando, abrindo o caminho para a lírica de Camões e Os Lusíadas, esse poema fundador, que é um acto de soberania cultural. E foram as palavras e a toada (motz e son) dos trovadores que viriam a marcar alguns dos meus poemas, desde a «Trova do amor lusíada» à «Trova do vento que passa», passando por «Trova», onde há um verso que diz: «Em trovador me tornei». Manuel Alegre (Texto inédito, 2014) (O autor escreve segundo a grafia anterior ao novo Acordo Ortográfico) © Fotografia Luiz Carvalho mensagens 5 10 15 20 25
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    Novos trovadores Sou dapoesia declamada em voz alta. Tinha 15 anos quando me iniciei na arte de escrever versos, aprendiz de poeta, nos corredores da escola, com outros cúmplices interessados no jogo de fazer rimar todas as palavras do dicionário e que, mais tarde, dediquei em forma de coro à menina que, no fim das aulas, me dava a alegria de a acompanhar até ao portão de casa. Num esforço para não se rir da minha figura, ouvia com aparente entusiasmo os poemas que eu lhe segredava num só fôlego, com a voz trémula, com o receio de que se aborrecesse e, no meio da estrofe, desaparecesse, fugindo para dentro de casa, levando na canção verde o meu coração aos pulos. Aquelas tardes de poesia junto ao portão arrastaram- -se por longos e penosos meses, numa paixão não corres- pondida que expurgou de mim os mais sentidos versos de súplica e de devoção que, até então, nunca julgara ser capaz de escrever. E quando me vi sem argumentos, fui beber inspiração nos poetas de outras épocas. E tal como os jograis ou segréis do século XII, cantei poesias alheias. Só me faltava mesmo um grupo de soldadeiras para me acompanharem com suas danças e cantares que animaram tantos serões nas cortes portuguesas do anti- gamente. Entre os meus cúmplices, daqueles que se dedica- vam aos jogos de rimas nos corredores, havia quem, ao contrário de mim, preferisse partilhar com o grupo as suas experiências com as raparigas do liceu, dando voz aos sentimentos de paixão e dor que julgavam que estas sentiam em relação a eles. Mas, dependendo do talento ou capacidade de exagero do trovador de serviço, não precisei de muito para me convencer de que aquela era a mais romântica das gerações que passaram pelo liceu, de tão belos e diversos que eram os versos que parti- lhávamos uns com os outros. Alguns troncos de árvore ainda guardam vestígios daqueles anos de descoberta abençoados pela espontaneidade e simplicidade que nos dias de hoje vemos refletidas nas canções pop da rádio. Todos gostamos de ouvir uma história bem contada, e a poesia sempre foi tida como o veículo mais imediato para partilhar sentimentos, sejam nossos ou daqueles que estão à nossa volta. E nos dias de hoje, a par do lirismo representado pelas cantigas de amigo e de amor refletidas na canção popular, não podemos deixar de assinalar que o herdeiro direto das cantigas de escárnio e maldizer é «provavelmente» o rap, que, lado a lado com a vertente de crítica social, transporta a mesma perversidade das cantigas de maldizer. O deboche e a troça da pessoa ou ações de determinado indivíduo são características comuns, tal como a ironia e o duplo sen- tido das palavras usadas para satirizar o objeto-alvo. Kalaf Epalanga (Texto inédito, 2014) 23 Kalaf Epalanga Músico, cronista. Cofundador da Enchufada, núcleo de edição e produção de projetos, como Buraka Som Sistema. Estórias para meninos de cor e O angolano que comprou Lisboa (por metade do preço) reúnem, em livro, crónicas escritas para o jornal Público e Rede Angola. © Fotografia C. B. Aragão cruzadas 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50
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    24 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA Contextualização histórico-literária Datas e acontecimentos 1143 Tratado de Zamora: Afonso VII de Castela reconhece D. Afonso Henriques como rei de Portugal. 1214 Testamento de D. Afonso II. 1249-1250 Conquista definitiva do Algarve aos mouros, por D. Afonso III. 1290 Criação do Estudo Geral (Studium Generale), Universidade, em Lisboa. 1297 Tratado de Alcanizes: estabelece as fronteiras entre Portugal e Castela. 1309 Transferência do Estudo Geral para Coimbra. 1312 Fundação da Marinha Portuguesa por D. Dinis. Textos e obras Finais do século XII Florescimento da poesia trovadoresca. 1280-1325 Poesia de D. Dinis. 1361 Primeira tradução para português do foral de Lisboa de 1179, originalmente redigido em latim, elaborada pelo tabelião Lopo Gil. Retrato de D. Dinis da série Reis de Portugal, 1736. Trovador e jogral, iluminura do Cancioneiro da Ajuda, finais do século XIII-princípios do século XIV (pormenor). Iluminura do Codex Manesse, século XIV. Iluminura do Codex Manesse, século XIV (pormenor). guesa Iluminura do Codex Manesse, século XIV (pormenor).
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    25 Contextualização histórico-literária 1. Quemudanças marcaram a Idade Média? Olhando aos dois grandes períodos em que se costuma dividir a época medieval, ou seja, a Alta Idade Média (desde as invasões bárbaras até ao século XI) e a Baixa Idade Média (do século XII ao XV), vemos como num e noutro as letras não foram esquecidas, muito embora neste último, mercê de con- dicionalismos diversos, o fenómeno literário se afirmasse com vigor, rasgando vetores que a Alta Idade Média desconhecera. Todavia, para com esta tem o homem, não apenas o medieval do período posterior, como o de séculos subsequentes, uma dívida de gratidão, pois é nela que muitas áreas do saber irão mergulhar as suas raízes, recolhendo aí a sua seiva que espíritos mais cultos, abertos a novas mentalidades, hão de recriar em facetas multifacetadas. Um olhar, ainda que breve, sobre a Alta Idade Média mostra como nela foram lançados alguns gérmenes que, no período seguinte, se desenvolverão envoltos em novas rou- pagens. A Igreja, que há de desempenhar papel relevante no ensino, na teologia, na filosofia, no comentário de texto e de doutrinas, vê, entre os séculos IV e VII, muitos dos seus mem- bros difundirem pela palavra e pela escrita o seu pensamento. […] É na Alta Idade Média que, do século VIII para o século XI, três fatores de relevância preparam esta viragem: a pro- teção dispensada por Carlos Magno à cultura; o feudalismo, com origem na frag- mentação do poder real; a afirmação, a partir dos Juramentos de Estrasburgo (842), de falares distintos do latim. A ação de diversas ordens religiosas, a fundação das universidades, as cruzadas, o contacto com civilizações diversas, o policiamento dos costumes, a afirmação da burguesia são, entre outros, fatores que permitiram que, na Baixa Idade Média, o campo europeu das letras se manifestasse tão diversificado. Aida Fernanda Dias, História crítica da literatura portuguesa – Idade Média, vol. 1, Lisboa, Editorial Verbo, 1998, pp. 15-16 5 10 15 20 25 Iluminura do Codex Manesse, século XIV. PROFESSOR Leitura 8.1. Educação Literária 16.1. MC PowerPoint Contextualização
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    26 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA 2. Qual o espaço social das cantigas? Com o ativo papel dos nobres na Reconquista e a intensificação da ação pastoral do clero em contacto com os centros exteriores à Península Ibérica, acentua-se o processo de identifica- ção cultural dos dois grandes grupos da classe dominante, a nobreza e o clero. […] Nas povoações de fronteira, em constante ambiente de guerra ofensiva e defensiva, as suas [da nobreza] atividades militares eram fortemente estimuladas pelos jograis e cedreiros que andavam de terra em terra, e aí contavam as suas histórias e canções de gesta. […] Desde o fim do século XII, com a formação das cortes senhoriais e a maior complexidade da corte régia, a produção cultural nobre diversifica-se: surge a poesia lírica e satírica, com as suas cantigas de amor, de amigo e de escárnio ou maldizer, e altera-se a memória linhagística, pontuada por narrativas de proezas dos antepas- sados […]. Assiste-se, então, a uma intensa atividade criativa, constantemente reno- vada pelos contactos e a competição com cortes estrangeiras, que os jovens cavaleiros sem fortuna, sempre à procura de melhores condições de vida, visitam frequente- mente: a castelhana de Fernando III, de Afonso X e de Sancho IV, a de Aragão e de Barcelona, onde chegam bem vivas as influências provençais […]. Os novos temas são agora os acontecimentos e as intrigas da corte, o amor cortês, o prestígio social, as histórias de fidelidade e traição. A identificação precisa de vários trovadores permitiu definir melhor o processo de criação cultural, ao verificar que eles são geralmente bastardos e cavaleiros sem fortuna, ou seja, um grupo de dependentes que a corte sustenta, e aos quais confia o seu entretenimento nas horas de lazer. José Mattoso, «A cultura medieval portuguesa (séculos XI a XIV)», in Isabel Allegro de Magalhães (coord.), História e antologia da literatura portuguesa – séculos XIII a XIV, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, pp. 32-33 (texto adaptado) 5 10 15 20 25 Rei Afonso X de Castela e sua corte musical, iluminura das Cantigas de Santa Maria, século XIII (pormenor). Jovens a passear no campo, iluminura do Livro de Horas de D. Fernando, c. 1520-1530 (pormenor).
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    27 Contextualização histórico-literária 5 10 15 20 5 10 3. Oque é o galego-português? O galego-português era a língua falada na faixa ocidental da Penín- sula Ibérica até meados do século XIV. Derivado do latim, surgiu pro- gressivamente como uma língua distinta anteriormente ao século IX, no noroeste peninsular. Neste sentido, poderemos dizer que, mais do que designar uma língua, a expressão galego-português designa con- cretamente uma fase dessa evolução, cujo posterior desenvolvimento irá conduzir à diferenciação entre o galego e o português atuais. […] O período que medeia entre os séculos X e XIV constitui, pois, a época por excelência do galego-português. É, no entanto, a partir de finais do século XII que a língua falada se afirma e desenvolve como língua literária por excelência, num processo que se estende até cerca de 1350, e que, muito embora inclua também manifestações em prosa, alcança a sua mais notável expressão na poesia que um conjunto alar- gado de trovadores e jograis, galegos, portugueses, mas também caste- lhanos e leoneses, nos legou. Convém, pois, ter presente que, quando falamos de poesia medieval galego-portuguesa, falamos menos em termos espaciais do que em ter- mos linguísticos, ou seja, trata-se essencialmente de uma poesia feita em galego-português por um conjunto de autores ibéricos, num espaço geográfico alargado e que não coincide exatamente com a área mais restrita onde a língua era efetivamente falada. Graça Videira Lopes, Manuel Pedro Ferreira et al., Cantigas medievais galego-portuguesas [base de dados online], Lisboa, Instituto de Estudos Medievais, FCSH/Nova, 2011 (http://cantigas.fcsh.unl.pt, consultado em setembro de 2014) 4. O que é a lírica galego-portuguesa? Por lírica galego-portuguesa entendemos um grupo de 1680 textos de assunto profano, transmitidos por três cancioneiros manuscritos, e 420 textos de tema reli- gioso – as chamadas Cantigas de Santa Maria […] – todos eles escritos numa língua com características bastante uniformes, o galego-português, num período que vai de finais do século XII à segunda metade do século XIV. Com exceção de alguns que continuam anónimos, os textos dos Cancioneiros profanos são atribuídos a 153 trovadores e jograis: reis, filhos de reis, senhores de alto linhage, clérigos, ou simples filhos do povo que, competindo com a classe nobre, a igualam, muitas vezes, no plano técnico-artístico. A língua poética une, de resto, poetas não apenas galegos ou portugueses, como poderia parecer, mas castelhanos, leoneses ou mesmo extrapeninsulares, que, por «exotismo» ou simpatia profissional, a escolheram para cantar o amor ou «dizer mal de alguém», isto é, para comporem cantigas de amor, cantigas de amigo ou cantigas de escárnio e maldizer. Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), A lírica galego-portuguesa, Lisboa, Editorial Comunicação, 1983, pp. 18-19 Grupo de trovadores, iluminura das Cantigas de Santa Maria, século XIII (pormenor).
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    28 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA 5 10 5 10 5. Porquê em verso? Quase todas as literaturas se iniciam por obras em verso. Excetuando as novas nacionalidades resultantes da emigração de europeus a partir do século XVI, a poesia surge mais cedo do que a prosa literária. Não é difícil explicar este facto: nas civili- zações do passado, a mais corrente forma de comunicação e de transmissão da obra literária não é a escrita, mas a oralidade. Antes de se fixarem no bronze, na pedra, no papiro, no papel ou no pergaminho, as histórias, as narrativas, e até os códigos morais e jurídicos, gravavam-se na memória dos ouvintes; e havia artistas que se encarregavam de as divulgar, os aedos e rapsodos entre os Gregos, os bardos entre os Celtas, os jograis entre os povos românicos medievais. O verso é, inicialmente, entre outras coisas, uma forma de ritmar a fala que facilite a memória [...]. Vestígios desta literatura oral são ainda hoje os provérbios, que, como facilmente se verifica, obede- cem a ritmos ou recorrências fónicas que facilitam a fixação. As literaturas românicas medievais apoiam-se, como já notámos, na literatura oral, cujos principais agentes eram os jograis. António José Saraiva, Óscar Lopes, História da literatura portuguesa, 17.ª edição, Porto, Porto Editora, 1996, p. 45 6. Quais as características desta lírica? Duas eram as espécies de poesia trovadoresca: a lírica-amorosa, expressa em duas formas, a cantiga de amor e a cantiga de amigo; e a satírica, expressa na cantiga de escárnio e de maldizer. O poema recebia o nome de «cantiga» (ou ainda de «can- ção» ou de «cantar») pelo facto de o lirismo medieval se associar intimamente com a música: a poesia era cantada, ou entoada, e instrumentada. Letra e pauta musical andavam juntas, de modo a formar um corpo único e indissolúvel. Daí se compreen- der que o texto sozinho, como o temos hoje, apenas oferece uma incompleta e pálida imagem do que seriam as cantigas quando cantadas ao som do instrumento, ou seja, apoiadas na pauta musical. Todavia, dadas as circunstâncias sociais e culturais em que essa poesia circulava, perderam-se numerosas cantigas bem como a maioria das pautas musicais. Massaud Moisés, A literatura portuguesa através dos textos, 29.ª edição, São Paulo, Cultrix, 1998, pp. 19-20 (texto adaptado) O casamento e o mensageiro, iluminura das Cantigas de Santa Maria, século XIII (pormenores). PROFESSOR Consolida Sugere-se que o exercício 1 seja rea- lizado em trabalho de grupo (um grupo por cada texto). Cada um dos sete grupos lê um texto e apresenta a resposta à questão-título, selecio- nando a informação relevante que comunicará à turma sob a forma de conclusões. Como atividade final, sugere-se a audição de três versões musicadas decantigasdestaépoca(originaisou recriações modernas) para registo de informações relativas a: instru- mentos musicais; ritmo; sensações quedesperta. 1.1Nesteperíodo,aIgrejaeasordens religiosas desempenharam um pa- pel relevante na produção e trans- missão do conhecimento; surgiram as universidades; as línguas nacio- nais emergiram em substituição do latim;ascruzadaspermitiramocon- tacto com outras civilizações; assis- tiu-seàafirmaçãodaburguesia… 1.2 Desde o final do século XII, a ati- vidade cultural intensifica-se nas cortes senhoriais e régia, surgindo váriasmodalidadesdapoesialíricae satírica: cantigas de amor, de amigo e de escárnio e maldizer. Estas ativi- dadeseramrenovadaspeloscontac- tos e pela competição com cortes estrangeiras, tendo como principais agentes os trovadores, geralmente bastardos e cavaleiros sem fortuna, que a corte sustenta e «aos quais confia o seu entretenimento nas horasdelazer». Link Poesia trovadoresca musicada
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    29 Contextualização histórico-literária 7. Ondepodemos encontrar as cantigas? No seu essencial, conhecemos as cantigas profanas galego-portuguesas através de três manuscritos. O mais antigo […] é o Cancioneiro da Ajuda (A), rico manuscrito iluminado, mas que é também o mais incompleto, já que contém apenas 310 composições, na sua esmagadora maioria de um único género, a cantiga de amor. Des- coberto na biblioteca do Colégio dos Nobres em inícios do século XIX, e hoje guardado na Biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa, pouco sabemos sobre as suas origens ou sobre o seu percurso. Trata-se, de qualquer forma, de um manuscrito que ficou manifesta- mente inacabado, como é muito visível nas suas iluminuras, muitas delas com pintura incompleta ou mesmo com figuras apenas desenhadas (o mesmo se passando com as iniciais). Os outros dois manuscritos, conhecidos como Cancioneiro da Biblioteca Nacional (B, também chamado Cancioneiro Colocci-Bran- cuti, o mais completo, guardado em Lisboa, na BNP) e Cancioneiro da Vaticana (V, guardado na Biblioteca Apostólica Vaticana), são manuscritos copiados em Itália, nas primeiras décadas do século XVI, sob as ordens do humanista Angelo Colocci, e a partir de um cancioneiro anterior, muito certamente medieval, hoje desaparecido. Graça Videira Lopes, Manuel Pedro Ferreira et al., Cantigas medievais galego-portuguesas [base de dados online], Lisboa, Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA, 2011 (http://cantigas.fcsh.unl.pt, consultado em setembro de 2014) CONSOLIDA 1. Responde às questões que servem de título aos textos. 1.1 Que mudanças marcaram a Idade Média? 1.2 Qual o espaço social das cantigas? 1.3 O que é o galego-português? 1.4 O que é a lírica galego-portuguesa? 1.5 Porquê em verso? 1.6 Quais as características desta lírica? 1.7 Onde podemos encontrar as cantigas? 5 10 15 20 25 Cancioneiro da Ajuda, (Biblioteca da Ajuda, fl. 56r) O casamento e o mensageiro, iluminura das Cantigas de Santa Maria, século XIII. PROFESSOR 1.3 O galego-português era a língua falada na faixa ocidental da Penín- sula Ibérica entre os séculos X e XIV. A partir dos finais do século XIV é a língua dos trovadores ibéricos, independentemente da sua prove- niência geográfica, passando a ser o instrumento de comunicação poé- tico, reflexo e projeção de uma cul- turaliterária. 1.4 Grupo de poesias com assunto profano e religioso constante em cancioneiros manuscritos, escritas em galego-português, durante um períodoquevaidefinaisdoséculoXII à segunda metade do século XIV. Eram cantadas por trovadores e jograis. 1.5 A forma ancestral de comunica- ção e de transmissão da obra literá- ria não é a escrita, mas a oralidade. Vestígios desta literatura oral são ainda hoje os provérbios, que obede- cem a ritmos ou recorrências fóni- cas que facilitam a memorização. As literaturas românicas medievais apoiam-se na literatura oral, cujos principaisagenteseramosjograis. 1.6 O poema recebia o nome de «cantiga», pelo facto de o lirismo medieval se associar intimamente com a música: a poesia era cantada, ou entoada e instrumentada. Letra e pauta musical andavam juntas, formando um corpo único e indisso- lúvel. Ler apenas o poema é, assim, muitoincompleto. 1.7 Cancioneiro da Ajuda: é anónimo e o mais antigo, sendo também o mais incompleto, contém 310 com- posições, a maior parte cantigas de amor. CancioneirodaBibliotecaNacionale Cancioneiro da Vaticana: são cópias realizadas em Itália nas primeiras décadas do século XVI, a partir de um outro cancioneiro que se julga medieval e que hoje está desapare- cido.
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    30 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA Variedade do sentimento amoroso PONTO DE PARTIDA 1. Observa a imagem e lê a nota geográfica sobre Vigo. Identifica a sua posição na Península Ibérica, relativamente ao território português. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Ondas do mar de Vigo Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo1 ? E ai Deus, se verra2 cedo3 ! Ondas do mar levado4 , se vistes meu amado? E ai Deus, se verracedo! Se vistes meu amigo, o por que eu sospiro? E ai Deus, se verracedo! Se vistes meu amado, por que ei5 gram coidado? E ai Deus, se verracedo! Martim Codax, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.) A lírica galego-portuguesa, Lisboa, Editorial Comunicação, 1983, p. 261 Cantigas de amigo A s cantigas de amigo são composições poéticas nas quais o emissor é uma donzela apaixonada, saudosa, inocente e, muitas vezes, ingénua, que, dirigindo-se à mãe, às amigas ou à natureza como confidentes, exprime os seus sentimentos face à ausência do seu amado. Tiveram origem no noroeste peninsular. São designadas de amigo, pois na maior parte aparece a palavra «amigo», com o sentido de pretendente, namorado ou amante. Nota geográfica Vigo é um município de Es- panha na província de Pon- tevedra (Galiza). O seu porto marítimo, com importante atividade pesqueira, é o prin- cipal porto pesqueiro da Eu- ropa. É também o centro comercial e económico do sul da Galiza e lidera a principal área industrial da comuni- dade autónoma. 5 10 1 Se vistes meu amigo: [dizei-me] se vistes o meu amigo. 2 Verra: virá. 3 Cedo: brevemente, rapidamente. 4 Mar levado: mar bravo, encapelado, revolto. 5 Ei: tenho. «Ondas do mar de Vigo», in Pergaminho Vindel, finais do século XIII (pormenor). CD 1 Faixa n.o 2 DA PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.8; 15.1; 15.2. MC PontodePartida 1. Vigo fica a norte de Portugal, no- meadamente do Minho, zona antiga dogalego-português. EducaçãoLiterária Sugestões para leitura expressiva: dividiraturmaemdoisgruposecada um lê, em coro, metade da cantiga; orefrãopodeserlidoportodos.
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    31 Cantigas de amigo 1.Localiza a informação e os versos que te permitem completar, no teu caderno, o seguinte esquema. 2. Atenta nos três primeiros versos em galego-português. Faz a sua «tradução» para o português atual. 3. Explicita o motivo do estado de espírito da donzela. 3.1 Interpreta a locução interjetiva «ai Deus», tendo em conta esse estado de espírito. 4. Explica o papel desempenhado pelas «ondas do mar de Vigo». 5. Explica, por palavras tuas, o significado das sucessivas perguntas retóricas. 6. Refere a simbologia das «ondas» e do «mar». 7. Faz a análise formal desta cantiga, tendo em conta: a) a constituição estrófica; b) o esquema rimático; c) a presença do paralelismo. Emissor «meninha» dirige-se a a) Sentimentos da «meninha» Inquietação b) v. Saudade c) v. Preocupação d) v. Reencontro e) v. Desejo expresso pela «meninha» GRAMÁTICA 1. Faz a correspondência entre as duas colunas, identificando a classe e a subclasse das palavras retiradas da cantiga. A. Palavra B. Classe e subclasse a) «ondas» (v.1) 1. conjunção subordinativa completiva b) «se» (v. 2) 2. verbo transitivo indireto c) «cedo» (v. 3) 3. pronome relativo d) «meu» (v. 5) 4. preposição e) «o» (v. 8) 5. adjetivo qualificativo f) «por» (v. 8) 6. nome comum g) «que» (v. 8) 7. verbo transitivo direto h) «sospiro» (v. 8) 8. pronome pessoal i) «gram» (v. 11) 9. determinante possessivo j) «ei» (v. 11) 10. advérbio com valor semântico de tempo 2. Indica o sujeito subentendido de «vistes», v. 2. Substitui-o por um pronome pessoal. DS SIGA Texto poético p. 314 FI Cantigas de amigo Caracterização formal p. 32 SIGA Classes de palavras pp. 320-323 PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. a) recetor – ondas do mar de Vigo; b)Inquietação–v.2;c)Saudade–v.8; d) Preocupação – v. 11; e) Reencontro v.3–refrão. 2. Ondas do mar de Vigo / dizei-me: tendes notícias do meu namorado? / E sabeis, ai meu Deus, se virá em breve? 3.Aseparaçãodoamigo. 3.1 Traduz um desabafo, interpe- lando Deus tacitamente para que o seuamadovoltecedo. 4. São um elemento da natureza a quem a donzela se dirige, par- tilhando as suas dúvidas sobre o paradeiro do seu amigo e pergun- tando-lhessechegarábrevemente. 5. Enfatizam o estado de espírito de dúvidaeinquietaçãoda«meninha». 6.Asondastraduzemotumultointe- rior da donzela, mas também são o seu confidente. O mar representa o motivo da separação entre os dois amantes, provavelmente por onde o amadoteriapartido. 7. a) Trata-se de uma cantiga parale- lística perfeita, composta por qua- tro coblas em dísticos e um refrão monóstico. b) Esquema rimático: aaR/bbR/aaR/ bbR(rimaemparelhada). c) É uma paralelística perfeita, por- que o número de coblas é par; o primeiro dístico emparelha com o segundo, mudando a palavra rimante; no terceiro dístico, o primeiro verso retoma o sentido do segundo verso do primeiro dístico (leixa-prem), acrescentando um verso novo; no quarto dístico, retoma-se o segundo versodosegundodístico(leixa-prem) e repete-se com variação o segundo versodoterceirodístico. Gramática 1. a) – 6; b) – 1; c) – 10; d) – 9; e) – 8; f)–4; g) –3; h)–2; i)–5; j)–7. 2.OndasdomardeVigo.Vós.
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    32 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA Cantigas de amigo Caracterização formal O uso de refrão constitui já de si uma forma de paralelismo, mas não é este o único tipo de repetição paralelística praticado pelos poetas galego-portugueses. Sob vários matizes e formas estilísticas, o paralelismo revela-se como «a quantidade domi- nante que estrutura os cancioneiros». […] Poderemos consi- derar na lírica galego-portuguesa três tipos de paralelismo: literal ou de palavra, estrutural ou de construção (sintática e rítmica) e concetual ou de pensamento. Equivale isto a dizer que a essência fundamental do paralelismo consiste na repeti- ção de palavras, versos inteiros, construções ou conceitos e que tal técnica não pode deixar de arrastar consigo uma certa monotonia. Para a evitarem, e simultaneamente conseguirem a progressão do pensamento, recorriam os trovadores a outro elemento fundamental do paralelismo, a variação. Repetindo ipsis verbis a primeira parte do verso ou mesmo o verso inteiro (paralelismo literal e estrutural), o poeta podia obter a variação mediante três processos: a) substituição de palavra rimante por um sinónimo; b) transposição das palavras [...]; c) repetição do conceito mediante a negação do conceito oposto. […] O primeiro recurso foi o mais utilizado. Uma grande parte das cantigas de tipo paralelístico apresenta-se estruturada em dísticos monórrimos [com uma só rima] seguidos de refrão de um verso com rima diferente, e nelas o paralelismo associa-se a um processo de encadeamento das estrofes chamado leixa-prem. Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., pp. 69-70 No processo de leixa-prem: t o 1.° dístico emparelha com o 2.° dístico, mudando a palavra rimante, mas reproduzindo o sentido; t no 3.° dístico, o 1.° verso retoma o 2.° verso do 1.° dístico (processo de leixa- -prem, propriamente dito), acrescentando um verso novo; to 4.° dístico retoma o 2.° verso do 2.° dístico (leixa-prem) e repete, com variação, o 2.° verso do 3.° dístico; t a progressão do pensamento faz-se sempre no 2.° verso das estrofes/coblas ímpares, culminando na penúltima estrofe/cobla. Há paralelismo perfeito se o número de estrofes/coblas for par. Há várias cantigas de amigo que são paralelísticas perfeitas, isto é, que obedecem ao seguinte esquema de construção: 5 10 15 20 FICHA INFORMATIVA N.O 1 Iluminura das Cantigas de Santa Maria, século XIII.
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    33 Ficha informativa CONSOLIDA 1. Completao texto com as palavras apresentadas. A cantiga de amigo caracteriza-se por uma a) estrófica e rítmica que apro- xima a b) da música. Também o paralelismo c) (com anáforas), d) (de significados) e e) (frásico) e, ainda, o f) (repetição na íntegra de verso(s) no fim de cada g) (estrofe) contribuem para a h) , essencial ao i) . 2. Seguindo o esquema das paralelísticas perfeitas, completa a seguinte cantiga. Como vivo coitada, madre, por meu amigo Como vivo coitada, madre, por meu amigo ca m’enviou mandado que se vai no ferido: e por el vivo coitada! a) amado b) passado e por el vivo coitada! Eno sagrado, em Vigo Eno sagrado, em Vigo (A) bailava corpo velido: (B) Amor ei! (R) Em Vigo, no sagrado, (A’) bailava corpo delgado: (B’) Amor ei! (R) Bailava corpo velido, (B) que nunca ouver’amigo: (C) Amor ei! (R) Bailava corpo delgado, (B’) que nunca ouver’amado: (C’) Amor ei! (R) Que nunca ouver’amigo, (C) ergas no sagrad’, em Vigo: (D) Amor ei! (R) Que nunca ouver’amado, (C’) ergas em Vigo, no sagrado: (D’) Amor ei! (R) Martim Codax, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., pp. 264-265. t canto t poesia t semântico t estrutura t cobla t sintático t refrão t anafórico t memorização Martim de Ginzo, in Base de dados da lírica profana galego-portuguesa (Med DB), versão 2.3.3, Centro Ramón Piñeiro para a Investigación en Humanidades, www.cirp.es (consultado em janeiro de 2015) c) eu a Santa Cecília de coraçon o digo: e por el vivo coitada! d) e) falo e por el vivo coitada! PROFESSOR Leitura 8.1. Educação Literária 14.8. MC Consolida 1. a) estrutura; b) poesia; c) ana- fórico; d) semântico; e) sintático; f) refrão; g) cobla; h) memoriza- ção;i)canto. 2. a) Como vivo coitada, madre, por meu amado; b) ca m’enviou mandado que se vai no fossado; c) Ca m’enviou mandado que se vai no ferido; d) Ca m’enviou mandado que se vai no fossado; e) eu a Santa Cecília de coraçon ofalo. PowerPoint Ficha informativa n.o 1
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    34 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA 34 Confidência amorosa PONTO DE PARTIDA 1. Escuta a emissão do programa radiofónico Portugal passado, sobre D. Dinis, e toma as seguintes notas: a) idade do rei quando se casou; b) nome da rainha com quem se casou; c) nome do filho que lhe sucedeu; d) atividade literária (título de um poema); e) localização do pinhal que mandou plantar; f) setores económicos que estimulou; g) género literário que cultivou. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Ai flores, ai flores do verde pino 1 Pino: pinho, pinheiro. 2 U: onde. 3 Pôs: combinou. 4 San: são. 5 E seera vosc’ant’o prazo saído: e estará convosco antes de acabar o prazo. – Ai flores, ai flores do verde pino1 , se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus, e u2 é? Ai flores, ai flores do verde ramo, se sabedes novas do meu amado! Ai Deus, e u é? Se sabedes novas do meu amigo, aquel que mentiu do que pôs3 comigo! Ai Deus, e u é? Se sabedes novas do meu amado, aquel que mentiu do que mi á jurado! Ai Deus, e u é? [– Vós me preguntades polo voss’amigo, e eu bem vos digo que é san4 ’vivo. Ai Deus, e u é?] Vós me preguntades polo voss’amado, e eu bem vos digo que é viv’e sano. Ai Deus, e u é? E eu bem vos digo que é san’e vivo e seera vosc’ant’o prazo saído5 . Ai Deus, e u é? E eu bem vos digo que é viv’e sano e seera vosc’ant’o prazo passado. Ai Deus, e u é? 5 10 15 20 D. Dinis, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., p. 292 Iluminura do Codex Manesse, século XIV. CD 1 Faixa n.o 3 CD 1 Faixa n.o 4 DA PROFESSOR Educação Literária 14.1; 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9; 15.1; 15.2. Gramática 18.1. Oralidade 1.1; 1.4; 2.1; 3.2; 4.2; 5.1; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3. MC PontodePartida 1. a) 20 anos; b) D. Isabel de Aragão; c) Afonso (futuro D. Afonso IV); d) «Ai flores, ai flores do verde pino»; e) Leiria; f) indústria e agricultura, nomeadamente a pesca, a salga e a secagem do peixe, a extração do sal, os tecidos de linho, os curtumes, a exploraçãomineira;g)poesia. Sugestão: Osalunospoderãofazerumasíntese oral(deumatrêsminutos)da«Lenda do milagre das rosas», tendo em contaostópicosseguintes: a) protagonista; b) ações habituais da protagonista; c) reações das ou- tras personagens; d) situação do reino em 1233; e) acontecimento do milagre. EducaçãoLiterária 1.c). 1.1 Sugestões: «Ai, Deus, e u é?»; «aquel que mentiu do que pôs comigo!»; «Ai flores, ai flores»; «Se sabedesnovasdomeuamigo». 2. A cantiga divide-se em duas par- tes. Na primeira, que corresponde às quatro primeiras coblas, a don- zela pergunta às flores do pinheiro se sabem notícias do seu amigo. Na segunda parte, constituída pelas restantes coblas, as flores assegu- ram-lhe que ele está bem de saúde e queregressaráembreve.
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    35 Cantigas de amigo 1.Escolhe a alínea que corresponde ao assunto da cantiga. a) Uma donzela, ansiosa e zangada, dialoga com as flores do pinheiro, partilhando a sua ansiedade, e pergunta a Deus se sabe do paradeiro do amigo. b) Uma donzela, ansiosa, dialoga com as flores do pinheiro, partilhando a sua ansie- dade, e pergunta-lhes se sabem do paradeiro do amigo. c) Uma donzela, ansiosa, dialoga com as flores do pinheiro, partilhando a sua ansie- dade e perguntando-lhes se o amigo virá são e vivo. 1.1 Justifica a tua opção com elementos textuais. 2. Divide a cantiga em partes e, de forma sintética, regista o conteúdo de cada uma. 3. Explicita a função das flores do pinheiro em relação à donzela, indicando o recurso expressivo utilizado. 4. Refere a simbologia das flores, no contexto desta cantiga. 5. Faz a análise formal da cantiga, quanto à constituição estrófica, ao esquema rimático e à presença do paralelismo. GRAMÁTICA 1. Faz corresponder a cada elemento destacado nas frases a respetiva função sintática. A. Frase B. Função sintática a) «se sabedes novas do meu amigo!» 1. modificador restritivo do nome b) «Ai Deus, e u é?» 2. complemento direto c) «aquel que mentiu do que mi á jurado!» 3. complemento indireto d) «vos digo que é san’vivo» 4. vocativo e) «Vós me preguntades polo voss’amado» 5. predicativo do sujeito ORALIDADE Apreciação crítica Ouve a crónica Mixórdia de temáticas, de Ricardo Araújo Pereira, intitulada «Níveis prejudiciais de amor». Prepara uma apreciação crítica oral, entre dois a quatro minutos, tendo em conta os seguintes tópicos: tdescrição sucinta do documento reproduzido; ttese defendida; tum argumento a favor; Para a tua apresentação oral, deves: tplanificar a tua intervenção; tutilizar adequadamente recursos verbais e não verbais. tdois exemplos da literatura; trelação tese defendida/assunto da cantiga «Ai flores, ai flores do verde pino»; tcomentário crítico. Níveis nutos, antiga DS FI Cantigas de amigo Caracterização formal p. 32 SIGA Texto poético p. 314 SIGA Apreciação crítica p. 312 SIGA Funções sintáticas pp. 324-325 PROFESSOR 3. As flores do pinheiro assumem a função de confidente da donzela. O recurso expressivo utilizado é a personificação. 4. As flores simbolizam o regresso do tempo do amor (primavera), que irá coincidir com o regresso do amigo. 5. Esta é uma cantiga de amigo para- lelística constituída por oito coblas. Cadacoblaapresentaumdísticocom um refrão monóstico. O esquema rimático é aaR/bbR/aaR/bbR/aaR/ bbR/aaR/bbR, ou seja, é idêntico em todos os versos da mesma cobla. Estamos perante uma cantiga de amigoparalelística,porqueamesma ideia surge em versos alternados, compequenasvariaçõesnofinal. Gramática 1.a)–2; b)–4; c)–1; d)–5; e)–3. Oralidade Notas: „EPDUNFOTP:programaradiofónico –crónica; „tese:oamoréprejudicialàsaúde; „argumento: os amantes tendem afalecerprecocemente; „exemplos: Romeu e Julieta, TeresaeSimão; „relaçãotese/cantiga:cantigacon- firma a tese – a ausência do amigo provoca na amiga ansiedade e preocupação; „comentáriocrítico:respostalivre. Crónica Mixórdia de Temáticas: «Níveis prejudiciais de amor»
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    36 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA Relação com a natureza PONTO DE PARTIDA 1. Observa com atenção o quadro que serve de ilustração à cantiga e antecipa o assunto da composição poética. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Levad’, amigo que dormides as manhanas frias Levad’1 , amigo que dormides as manhanas frias; todalas2 aves do mundo d’amor diziam. Leda3 m’and’eu. Levad’, amigo que dormide-las frias manhanas; todalas aves do mundo d’amor cantavam. Leda m’and’eu. Todalas aves do mundo d’amor diziam: do meu amor e do voss’em ment’aviam4 . Leda m’and’eu. Todalas aves do mundo d’amor cantavam: do meu amor e do voss’i enmentavam5 . Leda m’and’eu. Do meu amor e do voss’em ment’aviam; vós lhi tolhestes6 os ramos em que siiam7 . Leda m’and’eu. Do meu amor e do voss’ i enmentavam; vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam. Leda m’and’eu. Vós lhi tolhestes os ramos em que siiam e lhis secastes as fontes em que beviam. Leda m’and’eu. Vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam e lhis secastes as fontes u8 se banhavam. Leda m’and’eu. Nuno Fernandes Torneol, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., p. 259 1 Levad’: levantai-vos. 2 Todalas: todas as. 3 Leda: alegre. 4 Em ment’aviam: tinham no pensamento. 5 Enmentavam: mencionavam, comentavam. 6 Tolhestes: tiraste. 7 Siiam: estavam, pousavam. 8 U: onde. 5 10 15 20 Antonio García Patiño Cantigas de Amigo, XIV – Levad’, amigo, que dormides as manhanas frias, 1999. CD 1 Faixa n.o 5 © Moleiro.com DA PROFESSOR Oralidade 5.1; 5.3. Leitura 7.1; 7.2. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.8; 15.1; 15.2. Gramática 17.3. MC PontodePartida Cenárioderesposta: 1. A cantiga poderá ser sobre dois amantes que estão juntos ao ama- nhecer.Oscorposdesnudosindiciam intimidadeentreosdois.
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    37 Cantigas de amigo 1.Divide a cantiga em partes, justificando a tua resposta. 2. Seleciona a única opção que permite obter uma afirmação adequada ao sentido da cantiga. 2.1 A donzela acorda (A) sozinha nessa manhã fria, na floresta. (B) ao lado do amigo e incita-o a encostar-se a ela. (C) ao lado do amigo e incita-o a levantar-se. (D) ao lado do amigo e fala-lhe das aves e das fontes. 3. Explica o que representam as «aves» nesta cantiga e refere o recurso expressivo usado. 4. Tendo em conta essa função, apresenta uma explicação para as ações do «amigo». 5. Completa no teu caderno o esquema, de modo a confirmares que a cantiga é paralelís- tica perfeita. «Levad’, amigo que dormides as manhanas frias» «Levad’, amigo que dormides as manhanas frias / a) » (1.º verso – 1.ª e 2.ª coblas) «Todalas aves do mundo d’amor b) / cantavam» (2.º verso – 1.ª e 2.ª coblas) «Do meu amor e do voss’em ment’aviam / i enmentavam» (c) ) «Vós lhi tolhestes os ramos em que siiam / pousavam» (d) ) Paralelística (paralelismo de construção e de sentidos) Paralelística perfeita ou pura GRAMÁTICA 1. Identifica o emprego dos tempos verbais seguintes, justificando a tua resposta. a) «diziam/cantavam»; b) «tolhestes/secastes»; c) «and[o]». 2. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução de: a) «dormides» (v. 1) dormis; b) «i» (v.16) aí; c) «beviam» (v. 20) bebiam. DS SIGA Valores de tempo, modo e aspeto p. 329 FI Fonética e fonologia p. 38 PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. A cantiga pode ser dividida em duaspartes.Aprimeiraéconstituída pelas quatro primeiras coblas e nela a donzela, alegre, na presença do amado,pede-lhequeselevante,após uma noite de intimidade. A segunda parte começa a partir da quinta cobla: a donzela lamenta a ausên- cia do amigo, sugerida pelos sinais da natureza, «tolhestes os ramos» (v. 14)e«secastesasfontes»(v.20). 2.1(C). 3. As aves, através do seu canto, poderiam divulgar o amor vivido entre a donzela e o «amigo», daí sur- girempersonificadas. 4. O texto permite uma leitura rea- lista e uma leitura simbólica. Assim, o «amigo», ao tirar os ramos onde estavam as aves e ao secar as fon- tes onde bebiam e tomavam banho, pretendia afastá-las. Dessa forma, estaria a tentar manter em segredo o amor que entre eles havia. No entanto , as ações do amigo podem tambémsimbolizarofimdoamor. 5. a) frias manhanas; b) diziam; c) 2.o verso – 3.a e 4.a coblas; 1.o verso – 5.a e 6.a coblas; d) 2.o verso – 5.a e 6.a coblas;1.o verso–7.a e8.a coblas. Gramática 1. a) pretérito imperfeito do indica- tivo – descrição de uma situação habitual no passado; b) pretérito perfeito do indicativo – ato pontual doamigo,nopassado;c)presentedo indicativocomvalorintemporal,con- tínuo/durativo. 2. a) síncope de d e crase das vogais em i; b) prótese de a; c) assimilação dev sobainfluênciadeb inicial.
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    38 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA Fonética e fonologia Processos fonológicos (inserção, supressão e alteração) Fenómeno Designação e conceito Exemplos Inserção de unidades fónicas Prótese (no início da palavra) SPIRITU- espírito STARE estar Epêntese (no interior da palavra) UMERU- ombro CREO creio Paragoge (no final da palavra) ANTE antes Supressão de unidades fónicas Aférese (no início da palavra) ACUMEN gume Síncope (no interior da palavra) LEGENDA lenda MALU- mau Apócope (no final da palavra) MARE- mar LEGALE- legal Alteração (por transformação ou deslocação) de unidades fónicas Metátese (deslocação de segmento(s) ou sílabas dentro da palavra) SEMPER sempre FLORE- frol (port. antigo) Assimilação (mudança de uma unidade por influência de outra que lhe está próxima e da qual aquela se aproxima articulatoriamente) Progressiva MULTU- muito (m[ ]to) Regressiva IPSU- isso AD SIC assim Dissimilação (duas unidades fónicas iguais [ou com propriedades semelhantes] tornam-se diferentes) ROTUNDU- rodondo redondo LILIU- lírio Sonorização (uma consoante surda torna-se sonora) LACU- lago LUPU- lobo TOTU- todo APOTHECA- bodega Vocalização (alteração de consoante para vogal – antecedida de outra vogal na mesma sílaba, essa unidade é realizada como semivogal) NOCTE- noite LACTE- leite Palatalização (evolução, para som palatal, de uma unidade ou sequência) CLAVE- chave FLAMMA- chama PLENU- cheio FILIU- filho CICONIA- cegonha HODIE hoje Contração Crase (fusão de duas vogais numa só) PEDE- pee (port. antigo) pé DOLORE- door (port. antigo) dor Sinérese (uma sequência de duas vogais em hiato dá lugar a um ditongo por semivocalização de uma delas) LEGE- lee (port. antigo) lei REGE- ree (port. antigo) rei Redução vocálica (enfraquecimento de uma vogal em posição átona) sono / soninho mesa / mesinha casal / casalinho (nas formas derivadas, a vogal destacada é pronunciada em português europeu como [u], [i], [‫)]ܣ‬ FICHA INFORMATIVA N.O 2
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    39 Ficha informativa As seguintesmnemónicas ajudar-te-ão a memorizar a terminologia dos fenóme- nos de inserção e supressão de fonemas: tASA corta, PEP engorda. tASA – Aférese, Síncope e Apócope tPEP – Prótese, Epêntese e Paragoge Na sonorização, a seguinte mnemónica dá conta da situação mais frequente: P A T A C A B O D E G A CONSOLIDA 1. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução das palavras seguintes. Exemplos Processos fonológicos a) SPERARE esperar b) FENESTRA- feestra fresta c) REGNU- reino d) APOTHECA- abodega bodega e) IBI ii i aí f) CRUDELE- cruel g) CLAMARE chamar h) PEDE- pee pé i) DOMINA- domna dona j) MALU- mau k) SPECULU- speclu espelho l) MULTU- muito m) MERULU- merlo melro n) SOLES soes sóis (pataca passa a bodega) Iluminura do Codex Manesse, século XIV (pormenor). PROFESSOR Gramática 17.3. MC Nota:Agrafianãoreflete,neces- sária e imediatamente, todas as alterações fónicas. Assim, pode- mos ter grafias conservadoras, que não deixam transparecer mudanças que já ocorreram na língua. Consolida 1. a)Prótesedee,apócopedee; b) Síncope de n, crase de vogais e metáteseder; c)Vocalizaçãodeg; d)Sonorizaçãodep,tec([k]);afé- resedea; e) Síncope de b, crase de vogais, prótesedea; f)Síncopeded,apócopedee; g)Apócopedee epalatalizaçãodo grupocl; h)Síncopeded,crasedevogais; i)Síncopedeieassimilaçãodem; j) Síncope de l e sinérese (forma- çãodeditongo); k) Síncope de u, prótese de e, palatalização do grupo cl; l)Vocalizaçãodel;assimilaçãoda nasalidadeporpartedoditongo; m) Síncope de u e metátese de l er; n)Síncopedelesinérese(criação deditongo). PowerPoint Ficha informativa n.o 2
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    40 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA PONTO DE PARTIDA 1. Observa com atenção a cena do filme Orgulho e preconceito, baseado no livro homónimo da escritora inglesa Jane Austen. Explica a impor- tância que o evento assume para as personagens que o frequentam. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Bailemos nós ja todas tres, ai amigas Bailemos nós ja todas tres, ai amigas, so1 aquestas2 avelaneiras frolidas, e quem for velida3 como nós, velidas, se amigo amar, so aquestas avelaneiras frolidas verra4 bailar. Bailemos nós já todas tres, ai irmanas, so aqueste ramo destas avelanas, e quem for louçana5 como nós, louçanas, se amigo amar, so aqueste ramo destas avelanas verra bailar. Por Deus, ai amigas, mentr’6 al7 nom fazemos, so aqueste ramo frolido bailemos, e quem bem parecer como nós parecemos, se amigo amar, so aqueste ramo so’l que8 nós bailemos, verra bailar. Airas Nunes, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., p. 311 5 10 15 1 So: sob, por debaixo de. 2 Aquestas: este/a. 3 Velida: bela, formosa. 4 Verra: virá. 5 Louçana: bonita, formosa. 6 Mentr’: enquanto. 7 Al: outra coisa. 8 So’l que: sob o qual. CD 1 Faixa n.o 6 Iluminura das Cantigas de Santa Maria, século XIII. DA PROFESSOR Oralidade 1.1; 1.4. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.8; 15.1; 15.2. Gramática 19.1. MC PontodePartida 1. O evento é um baile, que tem como objetivooconvíviosociale«ver/estar» comos«amigos». ▪ Vídeo Cena do filme «Orgulho e Preconceito»
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    41 Cantigas de amigo 1.Descreve, resumidamente, a circunstância e o espaço medieval apresentados na cantiga. 2. Atenta no verso «Bailemos nós ja todas tres, ai amigas» (v. 1). 2.1 Indica o recetor, o convite feito e os recursos linguísticos e expressivos com que esse pedido se concretiza. 3. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as afirmações falsas. a) Todas as donzelas, sem exceção, são convidadas a dançar. b) A ação passa-se no outono. c) O verso «se amigo amar» (vv. 4, 10, 16) indicia que os pretendentes das amigas estariam presentes no baile. 4. Indica a simbologia das «avelaneiras». 5. Indica três características da cantiga de amigo. 6. Normalmente, o refrão, com autonomia rimática, repete-se no fim de cada estrofe. Porém, em algumas cantigas, os versos do refrão intercalam-se nas coblas. 6.1 Partindo desta informação, identifica o refrão nesta cantiga e refere o seu valor expressivo. 7. Faz a análise formal da cantiga. 8. Atenta no seguinte texto. Seleciona a palavra/expressão correta. GRAMÁTICA 1. Tendo em conta a cantiga de amigo que acabaste de ler, identifica: a) a forma verbal no presente do conjuntivo, com valor de imperativo; b) uma conjunção subordinativa adverbial comparativa; c) a forma arcaica de «virá»; d) o advérbio de negação; e) uma locução interjetiva; f) a forma arcaica de «sob»; g) a retoma de «amigas» por substituição lexical; h) um quantificador numeral; i) uma conjunção subordinativa adverbial condicional. Em «Bailemos nós…», o espaço «frolido» é referido a) só nas coblas / só no refrão, de modo a enfatizar a época primaveril, símbolo da b) fertilidade / infertilidade, propícia ao namoro. A jovialidade, a beleza e a alegria das donzelas c) enquadram-se na / contrastam com a natureza circundante. O baile, perante d) «os amigos» / a família, permite o contacto verbal e físico, associando-se, assim, a um ritual de fecundidade. DS SIGA Classes de palavras pp. 320-323 FI Cantigas de amigo Caracterização formal p. 32 SIGA Texto poético p. 314 PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. Recria-se um espaço medieval da vidacoletiva,obaileeasfestaspopu- lares.Obaileeralocalprivilegiadode encontroamoroso. 2.1 O recetor são as amigas e o con- vite é à dança, concretizado através do uso do presente do conjuntivo («Bailemos») e da apóstrofe «ai ami- gas». 3. a)F–oconvitesóéválidoparaquem for «velida», «louçana», «bem pare- cer»e«amigoamar»; b) F – as «avelaneiras frolidas» indi- ciamquesepassanaprimavera; c)V. 4.Asavelaneirassimbolizamafemi- nilidade, a beleza e a delicadeza. A juventude e fecundidade das don- zelas espelham-se nas avelaneiras emflor. 5. O enunciador é feminino, faz refe- rência ao amor pelo «amigo»; a nível formal está presente o paralelismo. 6.1 O refrão é «se amigo amar / verra bailar». Reitera o convite à dança realizado nas coblas, introduzindo a condição«seamigoamar». 7. Trata-se de uma cantiga parale- lística, constituída por três coblas. Cada cobla é uma quadra, com um dístico como refrão. Note-se que o primeiroversodorefrãoencontra-se intercalado entre o terceiro e o quarto versos da quadra. Tanto as quadras como o refrão têm rima monórrima. 8. a) só nas coblas; b) fertilidade; c) enquadram-se na; d) «os amigos». Gramática 1.a)«bailemos»(v.1);b)«como»(v.3); c) «verrá» (v. 6); d) «nom» (v. 13); e) «Por Deus» (v. 13); f) «so» (v. 5); g) «irmanas» (v. 7); h) «três» (v. 1); i)«se» (v.4).
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    42 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA ESCRITA Exposição 1. Faz a leitura atenta do texto. 2. Num texto expositivo, de cento e vinte a cento e cinquenta palavras, reflete sobre o namoro hoje em dia, confrontando-o com o namoro de antigamente. Segue a planificação apresentada: tIntrodução: definição de namoro e sua intemporalidade, embora vivido de formas diferentes; tDesenvolvimento: características do namoro antigamente e exemplos; do namoro atual e exemplos; confronto das duas formas de namorar; tConclusão: apresentação do teu ponto de vista, fundamentando-o. No final, faz a revisão do teu texto. Verifica a construção das frases, a clareza do discurso, as repetições desnecessárias e a utilização dos conectores. 5 10 15 20 Piropo A vida de qualquer rapaz deve ser ler, escrever e correr atrás das raparigas. Esta última parte é muito importante. Hoje em dia, porém, os rapazes de Portugal já não correm atrás das raparigas – andam com elas. A diferença entre «correr atrás» e «andar com» é, sobretudo, uma diferença de energia. Correr é galopar, esforçar, persistir, e é alegria, entusiasmo, vitalidade. Andar é arrastar, passo de caracol, pachorrice, sono- lência. […] Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem laconicamente, com o ar indiferente que marca o «cool» da contemporaneidade «Vamos aí?». Ou simplesmente «‘bora aí?». Nos últimos tempos, tanto em Lisboa como na linha de Cascais, esta economia de expressão atingiu até o cúmulo de se cingir a um breve e boçal «Bute?». «Bute» significa qualquer coisa como «Acho-te muito bonita e dese- jável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete de framboesas». Mas, como os rapazes só dizem «Bute?», são as pobres raparigas que têm de fazer o esforço todo de inter- pretação e de enriquecimento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas «Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?». E chegam à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de con- siderações pouco líricas – foi um «Bute» terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá sido apaixonado ou desapaixonado? […] De uma maneira geral, todas as palavras que não se imaginam num soneto de Camões são impróprias. O amor pode ser um fogo que arde sem se ver, mas não basta tomar o facto por dado e dizer simplesmente «Bute» – é preciso dizer que arde sem se ver. Mesmo que não arda, mesmo que se veja. Miguel Esteves Cardoso, A causa das coisas, 11.ª edição, Lisboa, Assírio Alvim, 1991, pp. 227-228 DA SIGA Exposição sobre um tema p. 311 PROFESSOR MC Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1.
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    43 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 3 5 5 5 10 Iluminura do Codex Manesse, século XIV (pormenor). Cantigas de amigo 1. Variedade do sentimento amoroso [N]a cantiga de amigo […], o argumento essencial é, de facto, o amor não correspondido, fonte de todo o sofrimento e causa de desconforto e lamento […]. [O poeta] finge que é a mulher a expor as suas próprias penas […] [e] esta mulher que se lamenta pela ausência ou indiferença do amigo é […] uma donzela, uma «dona virgo» aparentemente simples e ingénua, sinceramente apaixonada e dolente, vulnerável a qualquer desilusão, embora também sempre pronta a defender o seu próprio sentimento de qualquer interferência. Giulia Lanciani, «Cantiga de amigo», in Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org.), Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, 2.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 2000, p. 135 (texto adaptado) 2. Confidência amorosa A protagonista move-se num ambiente de natureza que ela chama como testemu- nha dos seus próprios sofrimentos, muitas vezes objetivados ao ponto da identificação total com a realidade circundante. […] A mulher da cantiga de amigo entra direta ou indiretamente em contacto não só com o amigo mas também com outras perso- nagens – elementos da natureza (o mar, as árvores, a fonte, o cervo, o papagaio) ou seres humanos (a mãe, as amigas confidentes). Giulia Lanciani, «Cantiga de amigo», in Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org.), op. cit., p. 135 3. Relação com a natureza Há […] em alguns cantares de amigo uma intimidade afetiva com a natureza talvez diferente do gosto cenográfico da paisagem (como quadro ou reflexo dos sentimentos humanos) […]. Dir-se-ia existir uma afinidade mágica entre as pessoas e tudo o que parece mover-se ou transformar-se por uma força interna: a água da fonte e do rio, as ondas do mar, as flores da primavera ou verão, os cervos, a luz da alva, a dos olhos. Todas estas coisas participavam ainda de associações mágicas, as suas designações evocavam tantas correspondências entre o impulso amoroso e o flores- cer das árvores, o comportamento animal, os movimentos das coisas naturais, que o esquema repetitivo era como impercetível e subtil desenvolvimento de um tema através de modulações que sugerem os seus inesgotáveis nexos com a vida. António José Saraiva e Óscar Lopes, op. cit., pp. 62 e 66 CONSOLIDA 1. Com base nos textos que acabaste de ler, corrige as afirmações incorretas. A presença feminina é uma característica essencial das cantigas de amigo, e os sentimentos expressos (na maioria, positivos) são sempre de uma mulher casada. Esta alegra-se com seres humanos próximos dela e com a natureza amiga, cujos elementos nunca são associados ao sentimento amoroso. PROFESSOR Leitura 7.2; 8.1. Educação Literária 15.1; 15.2. MC Consolida 1. «(na maioria, negativos)»; «mulher solteira»; «Esta confi- dencia-se»; «são muitas vezes associados». PowerPoint Ficha informativa n.o 3
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    44 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA ORALIDADE Anúncio publicitário 1. Visiona atentamente os anúncios publicitários e completa a tabela com os dados pedidos. Produto publicitado Informação significativa (data, local, cartaz, etc.) Slogan a) b) c) 2. Identifica o tema transversal aos três anúncios. 3. Os três anúncios têm uma estrutura semelhante. Explicita-a. 4. Relembra o primeiro anúncio. 4.1 Explica como as personagens expressam os seus sentimentos e esclarece a impor- tância da sua postura, do silêncio/da hesitação e do olhar. 5. A publicidade conjuga diferentes linguagens (verbais e não verbais). 5.1 Refere três tipos de linguagem comuns aos três anúncios. 5.2 Comenta a sua eficácia e o seu poder sugestivo. 6. Atenta no slogan do terceiro anúncio. 6.1 Identifica o recurso expressivo e menciona um dos efeitos produzidos. 1 2 3 FI Publicidade p. 46 SIGA Recursos expressivos pp. 334-335 PROFESSOR Oralidade 1.1; 1.2; 1.3; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7; 2.1; 4.2; 5.1; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3. MC Oralidade a) Meo Sudoeste; 6-10/08; Zam- bujeira do Mar; Wi-Fi grátis; «Tu sóvivesumavez». b) Optimus Alive; 10/07; Passeio MarítimodeAlgés;ArcticMonkeys, TheLumineers…;«Omelhorcartaz. Sempre!». c) Vodafone Paredes de Coura; 20-23/08; Paredes de Coura, Franz Ferdinand, Beirut, James Blake; «Power aos que semeiam músicasecolhemfestivais!». 2. Publicidade a festivais de música. 3. 1.a parte – contextualização através de imagens; 2.a parte – informaçõesrelevantes; 3.a parte – explicitaçãodoslogan. 4.1 Perante um desafio, as per- sonagens expressam medo, he- sitação e evitam o contacto visual. Quando o ultrapassam, mostram-se felizes, mudando a sua postura, que se torna mais confianteesocial. 5.1 Verbal, icónica (imagem) e musical. 5.2 Aliando estes três tipos de linguagem,osanúnciosmostram os locais dos concertos e as pes- soas a divertirem-se ao som da música. Sugestiona-se o público para este mundo de festa e cria- -se o desejo de participar, indo aosconcertos. 6.1 Metáfora – quem cultiva o prazer da música, participa em festivais, pretende-se que o pú- blicoadiraaoevento. Links MEO Sudeste; Optimus Alive Vídeo Vodafone Paredes de Coura
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    45 Cantigas de amigo GRAMÁTICA 1.Identifica o tempo e o modo verbais presentes nas frases: a) «Vai ao Meo Sudoeste…» b) «Não percas…» c) «O habitat natural da música traz-te…» 1.1 Seleciona as duas alíneas que expressam ordem ou apelo. 2. Indica os adjetivos que constam nas expressões: a) «Wi-Fi grátis»; b) «o melhor cartaz»; c) «o habitat natural da música». 2.1 Classifica quanto à flexão em grau o adjetivo da alínea b). Justifica o seu valor expressivo. ORALIDADE Apreciação crítica 1. Observa atentamente a imagem que se segue. 2. Planifica uma apreciação crítica oral, entre dois e quatro minutos, atendendo aos seguintes tópicos: tdescrição sucinta e objetiva da imagem; timportância de conhecermos o nosso passado; tpapel que este tipo de eventos tem na sociedade atual; tcomentário crítico da imagem. 3. Partilha a tua apreciação crítica com os teus colegas. Utiliza adequadamente recursos verbais e não verbais: postura, tom de voz, articulação, ritmo, entoação e expressivi- dade. © André Boto SIGA Adjetivo p. 320 Apreciação crítica p. 312 SIGA PROFESSOR Gramática 1. a) imperativo; b) presente do conjuntivo, com valor de impera- tivo;c)presentedoindicativo. 1.1 a)eb). 2.a)«grátis»;b)«melhor»;c)«na- tural». 2.1 Superlativo relativo de supe- rioridade, enfatiza a excelência do cartaz,relativamenteaoutros. Oralidade Sugestões: 1.e2. “ 7 G? 57@tD;A F;B;53?7@F7 medieval (pormenor do cas- telo) sobressaem cinco figuras, vestidas com trajes medievais. As personagens femininas têm vestidos coloridos e penteados de época. As figuras masculi- nas envergam espadas e uma temarmadura. “o;?BADF3@F75A@:757D?AE3E nossas raízes, não só para a nossa cultura geral, mas tam- bém para percebermos certos traçoscaracterizadoresdo«ser português». “ EF7E 7H7@FAE EyA D77H3@F7E para divulgar os hábitos e cos- tumes dos nossos antepas- sados e promover encontros entre os membros de uma comunidade. Por outro lado, também servem para fomen- tar o turismo em determinadas localidades. “ EF3 ;?397? | 367CG363 3A tipo de evento que publicita, promovendo um cenário vivo e dinâmico de um tempo da História, desconhecido/obscu- ro para muitas pessoas. As palavras que a completam são desafiadoras e convidam o público a participar na feira («Aúltimaconquista»).
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    46 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA Publicidade 1. O que é? A publicidade consiste na promoção de um produto ou serviço de forma sedu- tora, surpreendente, inovadora e eficaz, através dos meios de comunicação social. Jacques Lendrevie, et al., Publicitor, Alfragide, Dom Quixote, 2010, p. 109 (texto adaptado) O anúncio é a mensagem que publicita um produto ou um serviço. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (online) 2. Qual é a sua finalidade? A publicidade tem como objetivo despertar e captar a atenção, o interesse e o desejo de potenciais consumidores ou simpatizantes, levando-os a memorizar a sua mensagem e a agir, adquirindo o produto ou aderindo a um determinado conceito ou causa. A sigla AIDMA traduz as etapas da «arte de seduzir e convencer» que é a publi- cidade: t(despertar a) Atenção; t(criar) Interesse; t(provocar) Desejo; t (permitir a) Memorização; t(desencadear a) Ação. Se atendermos ao seu objetivo, a publicidade pode ser dividida em dois tipos: tcomercial, a que visa a venda de um produto ou de uma marca (fins lucra- tivos). tnão comercial/institucional, a que visa a adesão a uma ideia ou a uma causa (fins sociais, informativos, solidários, preventivos, etc.). 3. Quais são os seus suportes? Desde os primórdios da Publicidade que tudo tem mudado: o cartaz pintado à mão dizendo «compre aqui» evoluiu até se chegar ao mupi moderno ou ao painel eletrónico do estádio de futebol; a página de imprensa deixou de ter apenas texto e passou a ter ilustração, fotografia, pop-ups; os anúncios deixaram de ser meras explicações das vantagens dos produtos e, com criatividade, tornaram-se peças de entretenimento que não só explicam produtos como permitem que nos liguemos às marcas e nos tornemos seus consumidores, seus embaixadores, seus fans. A net veio alargar as fronteiras daquilo que é possível obrigando a Publicidade a pensar em novas linguagens e a adequar-se a novas técnicas. Toda a evolução da história da Publicidade tem conduzido a que se encontrem formas mais eficazes, mais abrangentes e mais sofisticadas de chamar a atenção. A Publicidade foi, é e sempre será a Arte de Chamar a Atenção. Jacques Lendrevie, op. cit., p. 108 (texto adaptado) FICHA INFORMATIVA N.O 4 5 10 PowerPoint Ficha informativa n.o 4
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    47 Ficha informativa 47 Textoicónico Texto linguístico Imagem Slogan Texto argumentativo tDiferentes elementos visuais (ilustração ou fotografia, arranjo gráfico, cor, caracteres…) que despertam a atenção do con- sumidor. tFrase ou expressão original, breve, concisa, simples e fácil de memorizar capaz de des- pertar a simpatia pelo pro- duto ou campanha. t Texto que dá credibilidade ao anúncio, apresentando as qualidades e vantagens do produto ou campanha que levam à ação do consumidor (compra/adesão). 4. Quais são as suas características fundamentais? Na publicidade, conjugam-se diferentes linguagens: verbal (palavra) e não verbal: icónica (imagem); musical; gestual e atitudinal (postura, tom de voz, articulação, ritmo, entoação, expressividade, etc.). Para obter a simpatia e a adesão do público o texto publicitário recorre a vários mecanismos linguísticos e estilísticos: ttempos e modos verbais, como o imperativo ou o conjuntivo; tentoação; tneologismos; trecursos expressivos abundantes: hipérbole, metáfora, anáfora, repetição, trocadilho…; taforismos e expressões idiomáticas; tadjetivos em grande número; trima, ritmo e métrica. 1. A publicidade é uma área que requer destreza e à-vontade com as palavras e, nesse campo, os escritores sentem-se no seu «habitat». Há slogans que ficaram na memória coletiva e que foram criados por autores consagrados. Por exemplo: 2. A primeira agência de publicidade em Portugal chamava-se J. Walter Thompson. O slogan de Fernando Pessoa acima referido foi criado para esta agência em 1927, para a marca Coca-Cola. CURIOSIDADE «Há mar e mar, há ir e voltar.» Alexandre O’Neill «Mais Seguro, Mais Futuro.» Ary dos Santos «Primeiro estranha-se. Depois, entranha-se.» Fernando Pessoa
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    48 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA 48 Cantigas de amor O elogio cortês PONTO DE PARTIDA 1. Ouve com atenção a cantiga do grupo D.A.M.A., «Balada do desajeitado». Indica três elementos caracterizadores do sujeito poético que justifiquem o título. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Texto B Quer’ eu em maneira de proençal Quer’eu em maneira de proençal fazer agora um cantar d’amor, e querrei muit’i loar mia senhor a que prez nem fremosura nom fal, nem bondade; e mais vos direi ém; tanto a fez Deus comprida de bem que mais que todas las do mundo val. Ca mia senhor quizo Deus fazer tal, quando a fez, que a fez sabedor de todo bem e de mui gram valor, e com tod’est [o] é mui comunal ali u deve; er deu-lhi bom sém, e desi nom lhi fez pouco de bem quando nom quis que lh’outra foss’igual. Ca em mia senhor nunca Deus pôs mal, mais pôs i prez e beldad’e loor e falar mui bem, e riir melhor que outra molher; desi é leal muit’, e por esto nom sei oj’eu quem possa compridamente no seu bem falar, ca nom á, tra-lo seu bem, al. D. Dinis, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., p. 284 Texto A Proençaes soem mui bem trobar Proençaes soem1 mui bem trobar e dizem eles que é com amor; mais2 os que trobam no tempo da frol3 e nom em outro, sei eu bem que nom am tam gram coita4 no seu coraçom qual m’eu por mia senhor vejo levar. Pero5 que trobam e sabem loar6 sas senhores o mais e o melhor que eles podem, sõo sabedor que os que trobam quand’a frol sazom á7 , e nom ante, se Deus mi perdom, nom am tal coita qual eu ei sem par. Ca8 os que trobam e que s’alegrar vam eno tempo que tem a color a frol consigu’e, tanto que se for aquel tempo, logu’em trobar razom nomam,nomvivememqualperdiçom oj’eu vivo, que pois m’á de matar. D. Dinis, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., p. 286 A s cantigas de amor são composições poéticas em que o trovador apaixonado presta vassalagem amorosa à mulher como ser superior, a quem chama a sua «senhor». Produto da inteligência e da imaginação, o amor é, geralmente, «fingido», o que caracteriza estas cantigas como aristocráticas, convencionais e cultas. De ambiente palaciano, estas composições são originárias da Provença (França). 1 Soem: costumam. 2 Mais: mas. 3 Tempo da frol: primavera. 4 Coita: dor, sofrimento. 5 Pero: embora. 6 Loar: louvar. 7 Quand’a frol sazom á: quando chega a primavera. 8 Ca: porque. 5 10 15 5 10 15 20 CD 1 Faixa n.o 7 CD 1 Faixas n.os 8 e 9 PROFESSOR Oralidade 1.4; 2.1; 16.2. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.7; 15.1; 15.2; 15.3; 16.2. Gramática 18.3; 18.4. MC PontodePartida 1. Não sabe inventar frases bonitas; é envergonhado e perde o à-vontade quandoestájuntodaamada. EducaçãoLiterária 1.a)«miasenhor»(v.6);b)«sassenho- res» (v. 8); c) «oj» (v. 18); d) «no tempo da frol» (v. 3); e) «gram coita» (v. 5); f) «dizem eles que é com amor» (v. 2). 1.1Acoitadeamoreateoriapoética, comsátiraaospoetasprovençais. 2. Apesar de os «proençaes» terem mestriapoética,pois«soemmuibem trobar», só o fazem na primavera, denotando um amor meramente retórico, enquanto que o sujeito poéticoexibenasuapoesiaumamor verdadeiro,comsofrimento. 3.1 Com este verso o sujeito poé- tico questiona a veracidade do sentimento amoroso por parte dos «proençaes». Link «Balada do desajeitado», D.A.M.A.
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    49 Cantigas de amor49 49 1. Completa no teu caderno o seguinte esquema interpretativo da cantiga A. 1.1 Identifica, a partir do esquema que construíste, as duas temáticas dominantes na cantiga. 2. Explicita o contraste que existe entre a arte poética do «eu» e a dos «proençaes». 3. Atenta no verso «e dizem eles que é com amor» (v. 2). 3.1 Interpreta o juízo de valor que lhe está subjacente. 4. Transcreve os versos que confirmam o falso sentimento amoroso dos «proençaes», justificando a tua escolha. 5. Transcreve, agora, as expressões que se referem à «primavera». 5.1 Identifica o recurso expressivo presente nestas expressões e refere-te ao efeito de sentido produzido. 6. Demonstra que há um crescendo da «coita de amor», ilustrando com passagens textuais. 7. Refere o desejo manifestado pelo sujeito poético no primeiro verso da cantiga B. 8. Retoma a cantiga A e explica de que forma deve ser entendido esse desejo. GRAMÁTICA 1. Faz corresponder a cada alínea da coluna A uma única opção da coluna B. 1.1 Classifica as orações introduzidas pelos articuladores mencionados na coluna A. A Palavras/expressões da cantiga A B Intenção comunicativa a) Com o uso da conjunção «e» (v. 2), 1. o enunciador estabelece uma comparação entre o seu sentimento amoroso e o dos «proençaes». b) Com o recurso à conjunção «mais» (v. 3), 2. o enunciador apresenta uma ideia de causa. c) Comautilizaçãodaconjunção«qual»(v.6), 3. o enunciador acrescenta informação. d) Com o uso da locução conjuncional «Pero que» (v. 7), 4. o enunciador apresenta um contraste. e) Com o recurso à conjunção «ca» (v. 13), 5. o enunciador introduz uma ideia de concessão, no que diz respeito ao talento dos «proençaes». f) Com a utilização do conector «que pois» (v. 18), 6. o enunciador apresenta uma consequência para o seu estado de «perdiçom». Objeto do canto do «eu» Cobla 1: a) Tempo do canto do «eu» Cobla 3: c) Motivação do canto do «eu» Cobla 1: e) = Objeto do canto dos «proençaes» Cobla 2: b) ≠ Tempo do canto dos «proençaes» Cobla 1: d) ≠ Motivação do canto dos «proençaes» Cobla 1: f) FI Cantigas de amor p. 53 SIGA Coordenação e subordinação p. 327 PROFESSOR 4. «tanto que se for / aquel tempo, logu’em trobar razom / nom am», pois, assim que acaba a primavera, os «proençaes» já não têm motivo para «trobar», o que indica que o seu sentimento não é verdadeiro nem constante. 5. «no tempo da frol»; «quand’a frol sazom / á»; «tempo que tem a color / afrolconsigu’e». 5.1 Estas expressões são perífrases deprimavera.Comestasexpressões, o sujeito poético pretende enfatizar aspráticasdos«proençaes»queape- nas «trobam» nesta estação, con- vencionada como a mais propícia à relação amorosa, sugerindo que os seus sentimentos não são verda- deiros. 6. Na primeira cobla, o sujeito poé- tico apenas refere a sua «gram coita»; na segunda, diz sabê-la sem igual «qual eu ei sem par»; e na última, remete para o facto de esta «coita» ser a sua «perdiçom» e que o «ádematar». 7. O sujeito poético exprime o desejo defazer«umcantard’amor»,comoos «proençaes», em que vai «loar» a sua «senhor»,istoé,elogiar-lheosatribu- tosfísicosepsicológicos. 8. Embora copie a forma literária, os cânonesdapoesiaprovençal,osujeito poético pretende que a amada acre- dite no seu amor, mas não se pode omitirquesetratadeumjogoretórico enãodesentimentosreais. Gramática 1.a)3; b)4; c)1; d)5; e)2; f)6. 1.1 a) «e dizem eles» – oração coor- denada copulativa; b) «mais os que trobam»–oraçãocoordenadaadver- sativa; c) «qual m’eu por mia senhor vejo levar» – oração subordinada adverbial comparativa; d) «Pero que trobam» – oração subordinada adverbial concessiva; e) «ca os que trobam» – subordinada adverbial causal; f) «pois que m’á de matar» – oração subordinada adverbial consecutiva (note-se o «qual» na subordinante,comvalordetal).
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    50 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA A coita de amor PONTO DE PARTIDA 1. Observa o cartoon. Descreve-o e explica de que forma a situação nele represen- tada se aproxima ou se afasta da rela- ção amorosa expressa nas cantigas de amor. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Se eu podesse desamar Se eu podesse desamar a quem me sempre desamou, e podess’algum mal buscar a quem me sempre mal buscou! Assi me vingaria eu, se eu podesse coita dar, a quem me sempre coita deu. Mais sol nom posso eu enganar meu coraçom que m’enganou, por quanto me fez desejar a quem me nunca desejou. E per esto nom dormio1 eu, porque nom poss’eu coita dar, a quem me sempre coita deu. Mais rog’a Deus que desampar2 a quem m’assi desamparou, vel3 que podess’eu destorvar4 a quem me sempre destorvou. E logo dormiria eu, se eu podesse coita dar, a quem me sempre coita deu. Vel que ousass’eu preguntar a quem me nunca preguntou por que me fez em si cuidar, pois ela nunca em mim cuidou. E por esto lazeiro5 eu, porque nom poss’eu coita dar, a quem me sempre coita deu. Pero da Ponte, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., p. 188 5 10 15 20 25 1 Dormio: durmo. 2 Desampar: desamparar. 3 Vel: ou. 4 Destorvar: incomodar, perturbar. 5 Lazeiro: lastimo-me, aflijo-me. Guillermo Mordillo, Serenata, 1932. DA CD 1 Faixa n.o 10 PROFESSOR Leitura 7.1; 7.2. Oralidade 5.1; 5.3. Educação Literária 14.2; 14.4; 14.5; 14.7; 15.1; 15.2; 15.3; 16.2. Gramática 17.3. MC PontodePartida 1. Podemos observar um cavaleiro a cortejar a sua amada (a cantar e a tocar), em cima de um cavalo, tendo comocenárioumcastelo. A situação descrita é semelhante às situações descritas nas cantigas de amor. A relação amorosa é distante (sugerida pela distância física); a corte da amada é feita através do canto.
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    51 Cantigas de amor 1.O sujeito poético encontra-se em sofrimento. 1.1 Indica as causas desse sofrimento. 2. Explica o conflito interior vivido pelo sujeito poético. 3. Atenta nas variantes linguísticas (tempos verbais, orações e advérbio) do refrão. 3.1 Relaciona-as com o desejo expresso e com a realidade a que o trovador não conse- gue fugir. 3.2 Apresenta a tua opinião acerca da sinceridade do fingimento do trovador relativa- mente ao seu desejo. Fundamenta a tua resposta. 4. Lê o seguinte excerto. 4.1 Partindo da perspetiva apresentada no excerto acima transcrito sobre as regras do amor cortês, comenta o emprego da expressão «ousass’eu» (v. 22), na cantiga de Pero da Ponte. GRAMÁTICA 1. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução das seguintes palavras: a) «mais» (v. 8) mas b) «preguntar» (v. 2) perguntar 2. No teu caderno, completa a tabela recorrendo às seguintes formas verbais apresenta- das com a grafia atual. Formas verbais simples Complexos verbais O amor era concebido à maneira cavaleiresca, como um «serviço». […] Consistiaesseserviçoemdedicar-lhe[àamada]ospensamentos,osversoseosatos. […]Oservidorestáparacoma«senhor»comoovassaloparacomosuserano.[…] A regra principal deste «serviço» era, além da fidelidade, o segredo. O cava- leiro devia fazer os possíveis para que ninguém sequer suspeitasse do nome da sua senhora. […] Mas o que é próprio das cantigas de amor e do seu modelo provençal é a dis- tânciaaqueoamantesecolocaemrelaçãoàsuaamada,aquechamasenhor,tor- nando-aumobjetoquaseinacessível.[…]Oamortrovadorescoecavaleirescoé, por ideal, secreto, clandestino e impossível. António José Saraiva, O crepúsculo da Idade Média em Portugal, 5.ª edição, Lisboa, Gradiva, 1998 (texto adaptado) tdesamou tpudesse desamar tbuscou tposso dar tpudesse buscar tvingaria tenganou tdesejou tdeu tposso enganar tfez desejar tdurmo tpudesse dar FI Cantigas de amor p. 53 FI Fonética e fonologia p. 38 PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.1 A fonte do seu sofrimento é a «se- nhor». Na sua perspetiva, esta nunca o amou, sempre lhe quis mal, nunca o desejou, desamparou-o, o que lhe pro- voca sofrimento. Em suma, o trovador vive um amor não correspondido pela suaamada. 2. O trovador vive num conflito interior causa, pois, por um lado, deseja vingar- -se da «senhor», provocando-lhe todo o sofrimento que ela lhe causa, mas, por outro, sabe que não consegue fugir ao sentimento de amor que o prende à amada. 3.1 As orações condicionais que apare- cemna1.a e3.a coblas,associadasaouso do pretérito imperfeito do modo con- juntivo («se eu podesse…»), remetem para o desejo de vingança (frustrado), o que vai contrastar com o uso do pre- sente do verbo «poder», associado ao advérbio de negação «nom» e à oração causal, na 2.a e 4.a coblas («porque nom posso»). De tal contraste resulta que o trovador não consegue fugir ao amor que sente pela «senhor», apesar do seu desejodevingança. 3.2 Sugestão: Sinceridade: apesar de parecer sincero, não o é, porque quem ama não deseja verdadeiramenteomaldooutro; Fingimento: o seu desejo fingido de vin- gança é apenas fruto do sentimento de rejeição; «Mais sol nom posso eu enganar / meu coraçomquem’enganou»(vv.8e9). 4.1 As regras do amor cortês não lhe permitemdirigir-sediretamenteàama- da, daí utilizar o verbo «ousar» e no pre- térito imperfeito do conjuntivo, suge- rindo uma situação improvável. Seria um atrevimento e uma quebra do seu serviçodevassalagemà«senhor». Gramática 1. a)síncopedei; b)metáteseder. 2. Formas verbais simples: desamou, buscou, vingaria, enganou, desejou, deu,durmo. Complexos verbais: pudesse desamar, posso dar, pudesse buscar, poss’enga- nar,fezdesejar,pudessedar.
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    52 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA ESCRITA Apreciação crítica 1. O tema amoroso tem sido expresso de diferentes formas e em diferentes suportes. Observa atentamente o desenho de Federico García Lorca, O beijo. 2. Elabora uma apreciação crítica sobre o desenho apresentado, relacionando-o com as cantigas de amor estudadas. Segue o plano de texto apresentado: Introdução: 1.º parágrafo – descrição objetiva da imagem. Desenvolvimento: 2.º parágrafo – sentimentos (dois) evidenciados na imagem; 3.º parágrafo – semelhanças (duas) entre esses sentimentos e os presentes nas can- tigas de amor. Conclusão: 4.º parágrafo – comentário crítico sobre a imagem. No final, revê o teu texto, verificando a correção da acentuação, da ortografia, da sintaxe e da pontuação. Federico García Lorca, O beijo, 1927. SIGA Apreciação crítica p. 312 PROFESSOR Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. Educação Literária 16.2. MC Escrita 1.e2. 1.o –Trata-sedeumdesenhodopoeta e pintor Federico García Lorca, de 1927. Dois contornos de rosto sobre- põem-se, como se se fossem beijar. Por trás, emoldurando os rostos, está uma silhueta vermelha e preta, com uma espécie de auréola, a azul. Ascoresqueseevidenciamsãoover- melho, o preto e o tom amarelado, esteúltimocorrespondendoàsobre- posiçãodosrostos. 2.o –Ossentimentossãooamor/pai- xão, evidenciado pela aproximação dos lábios, com o intuito de dar e receber um beijo. Contudo, fica no ar uma sensação de contenção no relacionamento físico: os lábios não se chegam a tocar. O contorno da imagem dos amantes pode simboli- zar o próprio sentimento do «Amor», semprepresente. 3.o – Estessentimentosestãoemsin- tonia com os das cantigas de amor, visto que expressam o amor nunca concretizado. 4.o – Respostalivre.
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    53 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 5 Cantigas de amor 1. A coita de amor Quanto aos temas, elaboraram os Provençais o ideal do amor cortês muito dife- rente do idílio rudimentar nas margens dos rios ou à beira das fontes que os cantares de amigo nos deixam entrever. Não se trata de uma experiência sentimental a dois, mas de uma aspiração, sem correspondência, a um objeto inatingível, de um estado de tensão que, para permanecer, nunca pode chegar ao fim do desejo. Manter este estado de tensão considera-se ser o ideal do verdadeiro amador e do verdadeiro poeta, como se o movesse o amor do amor, mais do que o amor a uma mulher. E não só a esta dirigem os poetas as suas implorações, queixas ou graças, mas ao próprio Amor personificado, figura de retórica muito comum entre os trovadores provençais e por eles transmitida aos galego-portugueses. António José Saraiva e Óscar Lopes, op., cit., p. 52 2. O elogio cortês O trovador imaginava a dama como um suserano a quem «servia» numa atitude submissa de vassalo, confiando o seu destino ao «bom sen» da «senhor». […] Todo um código de obrigações preceituava o «serviço» do amador, que, por exemplo, devia guardar segredo sobre a identidade da dama, coibindo toda a expansão pública da paixão (o autodomínio, ou «mesura», era a sua qualidade suprema), e que não podia ausentar-se sem sua autorização. O apaixonado devia passar provações e fases comparáveis aos ritos de iniciação nos graus da cavalaria […]. A este ideal de amor corresponde certo tipo idealizado de mulher, que atingiu mais tarde a máxima depuração na Beatriz de Dante ou na Laura de Petrarca: os cabelos de oiro, o sereno e luminoso olhar, a mansidão e a dignidade do gesto, o riso subtil e discreto. António José Saraiva e Óscar Lopes, op. cit., pp. 52-53 CONSOLIDA 1. Faz corresponder a cada alínea da coluna A uma única opção da coluna B. 5 10 5 10 A B a) A coita de amor é 1. pois isso mataria o desejo, que se quer interminável. b) A mulher é fonte de sofrimento para o homem, 2. que a idealiza, colocando-a num pedestal de suserana. c) O ideal do amor cortês preconiza que o mesmo não deve ser concretizado, 3. um estado de sofrimento e tensão que invade o trovador, devido à não correspondência amorosa. d) A «senhor» é venerada pelo trovador, 4. imposta pelas regras de cortesia, da qual fazia parte o segredo. e) Ao trovador era exigida a «mesura» pública 5. resultante da falta de correspondência amorosa e da altivez da dona. PROFESSOR Leitura 7.2; 8.1. Educação Literária 15.1; 15.2. MC Consolida a)3; b)5; c)1; d)2; e)4. PowerPoint Ficha informativa n.o 5
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    54 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA LEITURA Exposição sobre um tema Desde os cronistas seus contemporâneos a poetas como Camões e Pessoa, D. Dinis foi sempre associado ao seu trisavô, o rei fundador D. Afonso Henriques. Um inventou Portugal como país independente, o outro transformou-o no embrião de um estado moderno. O rei-poeta pôs-nos a escrever em português. «Na noite escreve um seu Cantar de Amigo / O plantadordenausahaver [...]». Leem-se estes ver- sos de Pessoa e a imagem que nos vem à cabeça é a de um inspirado vate romântico, escrevendo noite fora, à luz das velas, como se fora um Lord Byron no seu palazzo Mocenigo. Um rei-poeta visioná- rio, que, sonhando já com as naus dos Descobri- mentos, teria mandado plantar o pinhal de Leiria para garantir que não faltaria madeira para os bar- cos quando soasse a hora da expansão marítima. O que importava ao autor da Mensagem era, claro, o mito de D. Dinis, e não o D. Dinis da historiografia moderna ou dos estudos literários. Esse não foi decerto um poeta romântico, nem faria a menor ideia de que «inspiração» pudesse ter outro significado que não o de encher o peito de ar. E se lhe chamaram «O Lavrador», o certo é que também não mandou plantar o pinhal de Leiria, embora tenha zelado pela sua conservação. No entanto, talvez seja dom da grande poesia escrever, como o Outro, direito por linhas tortas. E Fernando Pessoa terá alguma razão em sugerir que esse Portugal que iria lançar-se, no início do século XV, à descoberta de novos mundos, era, em alguma medida, um país que só começou efetiva- mente a existir no reinado dionisino. […] Regressando ainda um momento à Mensagem, note-se que não é decerto por acaso que o único rei português que nela figura anterior a D. Dinis é justamente Afonso Henriques, o fundador. E já Camões, n’Os Lusíadas, apresentara assim o sexto rei da primeira dinastia: «Eis depois vem Dinis, que bem parece / Do bravo Afonso estirpe nobre e di[g]na.» Na sua recente biografia do monarca [...] José Augusto de Sotto Mayor Pizarro mos- tra como esta associação entre o primeiro rei e o seu trineto já vem dos primeiros cronistas de D. Dinis, incluindo o seu filho bastardo D. Pedro, conde de Barcelos, que, na Crónica geral de Espa- nha, redigida em 1344, lembrava que este era «muito nobre e muito grandioso e descendia do nobre sangue d’el rei Dom Afonso Henriques». E Frei Francisco Brandão, em meados do século XVII, escreve que as obras de D. Dinis são «dig- nas de um Príncipe capaz de ser o primeiro, e não o sucessor em qualquer Monarquia». A própria duração do seu reinado, que se estendeu por 46 anos, só tem paralelo, na pri- meira dinastia, com os 57 anos que governou Afonso Henriques. E o mínimo que se pode dizer é que D. Dinis não desperdiçou esse meio século de vida ativa. […] O rei que refundou Portugal 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55
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    55 Cantigas de amor 1.Identifica o tema dominante do texto. 2. Apresenta a estrutura do texto quanto à sua organização interna e, de seguida, regista os assuntos que identificaste. 3. Transcreve do texto exemplos que ilustrem algumas das características do discurso de um texto expositivo: a) linguagem objetiva sem juízos de valor; b) uso da terceira pessoa gramatical e do presente do indicativo; c) uso predominante de frases declarativas; d) uso de articuladores do discurso. Um poeta coroado Se D. Dinis foi em muitos domínios um continuador do pai, é indiscutível mérito seu ter percebido que a promoção da lín- gua e o investimento na instrução eram instrumentos fundamentais para consoli- dar uma identidade nacional. Autorizada a fundação de uma universidade, em 1290, instala-a em Lisboa, donde depois a trans- ferirá, em 1308, para Coimbra. Entre outras vantagens, este Estudo Geral, como entãosechamava,iriaforneceràburocracia régia funcionários devidamente instruídos e competentes. Em 1296, promulga outra medida fundamental: a adoção do portu- guês em toda a documentação régia. Mais enigmático, apesar do precedente de Afonso X, cuja obra literária certamente conhecia, é o facto de D. Dinis se ter tor- nado não apenas um trovador, mas, prova- velmente,omaisrespeitadodasuageração. O seu pai tivera decerto trovadores ron- dando a corte, mas ele próprio nunca deu mostras de se interessar pela poesia. É com D. Dinis que a lírica galego-portuguesa, um fenómeno que nasce e se desenvolve na cultura aristocrática, e que já então entrara na sua fase declinante, vai ser assumida pela corte. O medievalista José Carlos Miranda lembra que D. Dinis tinha atrás de si um século de poesia trovadoresca e vê-o como um poeta menos interessado em inovar do que em lidar com esse passado. Um pas- sado que o rei sentiria como ameaçador, já queseconfundia,argumentaoinvestigador, com a própria cultura senhorial. Daí que D.Dinisváproduzirumapoesiadeconten- ção e que recusa quaisquer ruturas, já que sãoesses,afirmaaindaJoséCarlosMiranda, «os princípios que quer ver seguidos, nas relações sociais, pelos seus súbditos». É claro que este enquadramento da poesia de D. Dinis numa estratégia de con- trolo da cultura aristocrática não invalida o seu talento pessoal, ainda que alguns dos seus poemas mais justamente apreciados sejam, o que era comum na época, varia- ções de outros autores, como a belíssima cantiga «Levantou-s’a velida», construída a partir de uma não menos notável composi- ção de Pero Meogo. Em 1990, um investigador americano, Harvey Sharrer, descobriu na Torre do Tombo um fragmento de um cancioneiro, possivelmente redigido ainda em vida de D. Dinis, onde sete das suas trovas apare- cem acompanhadas da respetiva notação musical. Um achado extraordinário, já que constitui, a par do chamado Pergaminho Vindel (com algumas cantigas de amigo do galego Martim Codax), o único manus- critoconhecidocommúsicacompostapara poesia profana galego-portuguesa. «... talvez seja dom da grande poesia escrever, como o Outro, direito por linhas tortas.» Luís Miguel Queirós, in Público, 16/10/2011 60 65 70 75 80 85 90 95 100 105 110 115 SIGA Exposição sobre um tema p. 311 PROFESSOR Leitura 7.1; 7.3; 7.4; 7.6. MC 1. O tema dominante do texto é a figura do rei D. Dinis, não só pelas medidas que tomou ao longo do seu reinado e que vieram a ser determi- nantes em momentos-chave da his- tória de Portugal, mas também pela sua notoriedade enquanto poeta trovador e difusor da poesia trova- doresca. 2. O texto está dividido em três par- tes. A primeira parte, a introdução, corresponde ao primeiro parágrafo, enelaéapresentado,deformagené- rica, o rei D. Dinis; a segunda parte, o desenvolvimento, estende-se até ao penúltimo parágrafo, onde são apresentadas várias medidas toma- dasduranteoseureinado(plantação do pinhal de Leiria, promoção da lín- guaportuguesa,investimentonains- trução, criação de uma universidade e desenvolvimento da lírica galego- -portuguesa) e ainda a sua impor- tância como poeta; a terceira parte, a conclusão, destaca a descoberta recente de um fragmento de um cancioneiro,provavelmenteredigido no tempo de D. Dinis e que integra algumas das suas composições, apresentando a notação musical queacompanhariaascantigas. 3. a) «Autorizada a fundação de uma universidade, em 1290, instala-a em Lisboa, donde depois a transferirá, em1308,paraCoimbra.»(ll.63-65); b)«ÉcomD.Dinisquealíricagalego- -portuguesa, um fenómeno que nasce e se desenvolve na cultura aristocrática[…].»(ll.79-83); c) «Desde os cronistas […] D. Afonso Henriques.»(l.1-2); d) «No entanto…» (l. 24); «Daí que…» (l.91).
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    56 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA Cantigas de escárnio e maldizer Dimensão satírica – paródia do amor cortês PONTO DE PARTIDA 1. Ouve a crónica de Mafalda Lopes da Costa, Lugares comuns, sobre a expressão «Dizer cobras e lagartos». 1.1 Indica o que se entende por «dizer cobras e lagartos de alguém». 1.2 Regista as várias possibilidades para a origem desta expressão. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Ai, dona fea, fostes-vos queixar Ai, dona fea, fostes-vos queixar que vos nunca louv[o] em meu cantar; mais ora quero fazer um cantar em que vos loarei1 toda via2 ; e vedes como vos quero loar: dona fea, velha e sandia3 ! Dona fea, se Deus mi pardom, pois avedes [a]tam gram coraçom4 que vos eu loe, em esta razom5 vos quero ja loar toda via; e vedes qual sera a loaçom6 : dona fea, velha e sandia! Dona fea, nunca vos eu loei em meu trobar, pero7 muito trobei; mais ora ja um bom cantar farei, em que vos loarei toda via; e direi-vos como vos loarei: dona fea, velha e sandia! João Garcia de Guilhade, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., p. 160 Hieronymus Bosh, As tentações de Santo António c. 1500 (pormenor). 1 Loarei: louvarei. 2 Toda via: de qualquer modo. 3 Sandia: louca. 4 Pois avedes [a]tam gram cora- çom: tendes tão grande desejo/ vontade. 5 Razom: razão, motivo. 6 Loaçom: louvor. 7 Pero: embora, ainda que. A s cantigas de escárnio são cantigas em que o trovador troça de uma determinada pessoa indiretamente, recorrendo ao duplo sentido e à ambiguidade das pala- vras, à ironia, à alusão e à sugestão jocosa. As cantigas de maldizer são cantigas em que o trovador ridiculariza determinada pessoa de forma direta, criticando situações de adultério, amores interesseiros ou ilícitos, entre outros. 5 10 15 CD 1 Faixa n.o 11 DA CD 1 Faixa n.o 12 PROFESSOR Oralidade 1.4; 2.1; 2.2. Educação Literária 7.1; 7.2; 14.2; 14.3; 14.4; 14.9; 15.1; 15.2; 15.3; 16.2. MC PontodePartida 1.1 Dizer muito mal de alguém; difa- marumapessoa. 1.2 origem 1: cobra teria o signifi- cado de «cobla» ou seja «versos», portanto, fazer escárnio de alguém; satirizar alguém através de versos; origem 2: origem bíblica (Salmo 91, 13) – dragão / basilísco que matava pelo bafo; origem 3: época medieval – alguém possuído pelo demónio e exorcizadoexpeliacobraselagartos. EducaçãoLiterária 1. Têm como função contextualizar o assunto que vai ser desenvolvido seguidamente – a queixa de uma dama que, sendo feia, não é louvada pelostrovadores. 2. O trovador pretende reforçar os atributos negativos da dama (feia, velha e louca), que levaram a que ela nuncafossecantada. 3. Trata-se da ironia, porque o trova- dor diz o oposto daquilo que pensa. Aironiareforçaaintençãosatíricado trovador. 4. Nas cantigas de amor o trovador exprime os sentimentos amorosos pela dama (destacando a sua coita de amor que o faz «ensandecer» ou morrer); a «senhor» surge como suserana a quem o amador «serve», prestando-lhevassalagemamorosa. Esta cantiga, através da ironia e da paródia, ridiculariza o amor cortês porque é dirigida a uma dama que não reúne os atributos da «senhor», sublimadosnascantigasdeamor.
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    57 Cantigas de escárnioe maldizer 1. Explica a função dos dois primeiros versos da cantiga. 2. Indica a intenção do trovador com a repetição presente no refrão. 3. Identifica o recurso expressivo mais recorrente na cantiga, justificando. 4. Explica por que motivo esta cantiga é uma paródia ao amor cortês. PONTO DE PARTIDA 1. Atenta nas vinhetas retiradas de Astérix e o regresso dos gauleses, de Uderzo e Goscinny. 1.1 Reconta, por palavras tuas, a situação exposta na primeira tira. 1.2 Explicita o motivo pelo qual o ferreiro é «provavelmente o antepassado de todos os críticos musicais». 1.3 Tendo em conta a primeira tira, identifica a personagem do canto inferior direito, da última vinheta. 1.4 Relaciona a legenda da última vinheta com essa personagem. Albert Uderzo e René Goscinny, Astérix e o regresso dos gauleses, 3.ª edição, Porto, Asa, 2011, p. 17 1 1 Bardo: Poeta celta que exal- tava o valor dos heróis; [por extensão] poeta lírico. FI Cantigas de escárnio e maldizer p. 63 PROFESSOR Leitura 7.1; 7.2. Educação Literária 14.2; 14.6; 14.7; 15.1; 15.2; 15.3. Gramática 18.1. MC Pontodepartida 1.1 O Bardo encontrava-se a cantar, quando o ferreiro, vindo do nada, lhe bateu. 1.2Aatitudedoferreiropoderelacio- nar-secomadealgunscríticosmusi- cais, que «esmagam» os músicos, comassuascríticas. 1.3Adivinha-sequesejaoBardo. 1.4 A legenda refere-se à liberdade de todos os gauleses, que se opõe à do Bardo, preso/amarrado, porque ninguémoquerouvir.
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    58 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA EDUCAÇÃO LITERÁRIA Roi Queimado morreu com amor Roi1 Queimado morreu com amor em seus cantares, par Santa Maria, por ùa dona que gram bem queria; e, por se meter por mais trobador2 , por que lh’ela non quis [o] bem fazer3 , feze-s’el em seus cantares morrer, mais resurgiu4 depois, ao tercer5 dia. Esto6 fez el por ùa sa senhor que quer gram bem; e mais vos ém7 diria: por que cuida que faz i8 maestria, enos cantares que faz, á sabor9 de morrer i e des i d’ar viver10 ; esto faz el, que x’o pode fazer, mais outr’omem per rem11 nono faria. E nom á ja de sa morte pavor, se nom, sa morte mais la temeria, mais sabe bem, per sa sabedoria, que viverá, des quando morto for; e faz-[s’]em seu cantar morte prender12 , des i ar vive: vedes que poder que lhi Deus deu, – mais queno cuidaria! E se mi Deus a mi desse poder qual oj’el á, pois13 morrer, de viver, já mais morte nunca [eu] temeria. Pero Garcia Burgalês, in Elsa Gonçalves e Maria Ana Ramos (eds.), op. cit., p. 230 1 Roi: Rui. 2 V. 4: para mostrar que era grande trovador. 3 Non quis [o] bem fazer: não quis corresponder. 4 Resurgiu: ressuscitou. 5 Tercer: terceiro. 6 Esto: isto. 7 Ém: disso, disto. 8 I: aí. 9 Sabor: gosto, prazer. 10 V. 12: de morrer aí e depois de voltar a viver. 11 Per rem: por nada, de modo nenhum. 12 Morte prender: morrer. 13 Pois: depois. Iluminura do Codex Manesse, século XIV (pormenor). 5 10 15 20 DA CD 1 Faixa n.o 13
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    59 Cantigas de escárnioe maldizer 1. Divide a cantiga em três partes e apresenta, de forma resumida, o assunto tratado em cada uma delas. 2. A crítica nesta cantiga não é apenas dirigida individualmente a «Roi Queimado». 2.1 Expressa o teu ponto de vista acerca desta afirmação, tendo por base os senti- mentos exacerbados nas cantigas de amor. 3. Esta cantiga é classificada como de escárnio. 3.1 De acordo com a definição inicial sobre este tipo de cantigas, prova a veracidade desta afirmação. 4. Nesta cantiga a ironia é recorrente. 4.1 Retira um exemplo deste recurso expressivo e explicita a intenção que lhe está subjacente. 5. Identifica os recursos expressivos presentes nos seguintes versos: a) «Roi Queimado morreu com amor» (v. 1); b) «de morrer i e des i d’ar viver» (v. 12); 6. Após a análise da cantiga, relaciona a personagem «Roi Queimado» com o Bardo, da banda desenhada da página 57. GRAMÁTICA 1. Identifica as funções sintáticas desempenhadas pelos constituintes destacados: a) «por que lh’ela non quis [o] bem fazer» (v. 5); b) «feze-s’el em seus cantares morrer» (v. 6). 2. Atenta no texto seguinte. Indica a classe e a subclasse de palavras dos termos destaca- dos. DirigidaaotrovadorRuiQueimado,estacom- posição é uma das mais célebres paródias ao cliché da morte de amor, tão repetidamente jurada nas cantigas de amor de todos os trovadores galego- -portugueses (Pero Garcia Burgalês não sendo, aliás, exceção). A sátira (a) que aqui desenvolve talvez tivesse sido propiciada por uma particular cantiga de Rui Queimado, na (b) qual este tro- vador, por amor da sua senhor, lhe diz (c) que se arrepende da sua anterior decisão de querer mor- rer, cantiga esta que tem, aliás, também ela, um tom semijocoso. Note-se (d) que esta paródia de Pero Garcia Burgalês visa, ao mesmo tempo, e mais especificamente, os dotes poéticos de Rui Queimado, (e) cujo problema, para Pero Garcia, seria querer «meter-se» a fazer o (f) que não sabe. In http://cantigas.fcsh.unl.pt (consultado em junho de 2014) SIGA Recursos expressivos pp. 334-335 Iluminura das Cantigas de Santa Maria, século XIII (pormenor). SIGA Funções sintáticas pp. 324-325 PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. 1.a parte: 1.a cobla – «Roi Queimado» para mostrar ser melhor trovador do que os outros e amar mais a sua damamorreudeamorporela; 2.a parte: 2.a cobla – «Roi Queimado» fez isso porque assim mostra mais engenho do que os outros trovado- res; 3.a parte: 3.a e 4.a coblas – ele é um eleito de Deus, pois morreu e res- suscitou; o trovador, se tivesse esse poder, não temeria a morte e ressus- citariacomoele. 2.1 Embora o alvo de chacota esteja bemidentificado,pretende-sealcan- çar os trovadores que em todas as suas cantigas morrem por amor, realçando o sentimento exagerado recorrentenessascomposições. 3.1 Esta é uma cantiga de escárnio, porque embora apresente uma crí- tica indicando o nome do destinatá- rio, a forma como se exprime é por palavras ambíguas e com recurso à ironia. 4.1 «feze-s’el em seus cantares mor- rer; / mais resurgiu depois, ao tercer dia» (vv. 6-7) ou «E se mi Deus a mi dessepoder/qualoj’elá,poismorrer, de viver, / já mais morte nunca [eu] temeria» (vv. 22-24). A intencionali- dade expressa-se através da crítica mordaz ao morrer por amor e, logo a seguir, ressuscitar. Daí, no segundo exemplo, o sujeito poético não ter medo desta «morte». 5.a)hipérbole;b)antítese. 6. Entre o Bardo e Rui Queimado há uma relação de semelhança, pois ambos são alvo de crítica: o Bardo sofre agressões físicas, Rui Quei- madoésatirizadoatravésdecompo- siçõespoéticasjocosas. Gramática 1. a) lhe – complemento indireto / ela – sujeito / [o] bem fazer – com- plementodireto; b)modificador. 2. Pronomes relativos – a), b), e), f); conjunções subordinativas comple- tivas–c),d).
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    60 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA Dimensão satírica – crítica de costumes EDUCAÇÃO LITERÁRIA Quen a sesta quiser dormir Quen a sesta quiser dormir, conselha-lo ei a razon1 : tanto que jante, pense d’ir á cozinha do infançon2 : e tal cozinha lh’achará, que tan fria casa non á na hoste, de quantas i son. Ainda vos én máis direi eu, que ùu dia i dormi: tan bõa sesta non levei, des aquel dia ’n que naci3 , como dormir en tal logar, u nunca Deus quis mosca dar4 : ena máis fria ren que vi. E vedes que ben se guisou de5 fria cozinha teer o infançon, ca non mandou des ogan’6 i fog’acender, e se vinho gaar7 d’alguen, ali lh’o esfriarán ben, se o frio quiser bever. Pero da Ponte, in Base de dados da lírica profana galego-portuguesa (Med DB), versão 2.3.3, Centro Ramón Piñeiro para a Investigación en Humanidades, www. cirp.es (consultado em janeiro de 2015) 1. Descreve a cozinha do «infançon» com base em elementos textuais. 2. O sujeito poético, na segunda estrofe, refere-se a um episódio pessoal na casa do «infançon». 2.1 Reconta-o e identifica os recursos expressivos presentes nesse relato e os seus propósitos. 3. Comenta o sentido do verso «e se vinho gaar d’alguen» (v. 19). 4. Explicita, por palavras tuas, a crítica de costumes que decorre desta cantiga. 5 10 15 20 1 Razon: judiciosamente, sensatamente. 2 Infançon: jovem nobre. 3 Dia ’n que naci: dia em que nasci. 4 V. 13: não havia moscas, porque não cozinhavam, o que permitia dormir uma boa sesta. 5 Se guisou de: arranjou-se para. 6 Ogan’: este ano. 7 Gaar: receber, ganhar. Iluminura das Cantigas de Santa Maria, século XIII. CD 1 Faixa n.o 14 FI Cantigas de escárnio e maldizer p. 63 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.9; 15.1; 15.2; 15.3; 16.2. Oralidade 3.1; 3.2; 4.2; 5.2; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3. MC EducaçãoLiterária 1. A cozinha do «infançon» é fria – «tan fria casa non á», v. 6 –, porque nelanãoseacendealareira–«canon mandou / des ogan’i fog’acender», vv. 17-18. Como tal, não há aí moscas – «u nunca Deus quis mosca dar», v. 13; pode-se dormir uma boa sesta depois do almoço – «Quen a sesta quiserdormir»,v.1,«tantoquejante», v. 3; e refrescar o vinho – «e se vinho gaar d’alguen, / ali lh’o esfriarán ben»,vv.19-20. 2.1Osujeitopoéticojádormiuasesta na cozinha do «infançon» e informa que nunca dormiu tão bem, desde o dia em que nasceu. Os recursos expressivos são a comparação e a ironia. Com a comparação enfatiza- -se a excelente sesta que lá fez; mas overdadeiropropósitodesterelatoé exporasituaçãoeconómicafrágildo «infançon»,atravésdaironia. 3. Com este verso, torna-se evidente que o «infançon» só tem vinho em casa, se alguém lho oferecer, dado que não possui meios financeiros paraocomprar. 4. Aborda-se um dos temas mais comuns da crítica social das canti- gas de escárnio: o da nobreza empo- brecida, em grave crise económica, refletindo a transformação social queocorreuentreosséculosXIIeXIV, em Portugal. Enquanto a nobreza entrava em decadência, uma nova classe ascendia socialmente, a bur- guesia.
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    61 Cantigas de escárnioe maldizer O país onde a maledicência é melhor que o silêncio Neste país, o ímpeto para a crítica é francamente mais válido do que o elogio; para além disso, a maioria de quem comenta fá-lo com intuito negativo, raramente construtivo. Na internet toda a gente tem uma voz. Sabemos que por trás de cada voz existe uma cabeça pensante, com defeitos e vir- tudes, com quem certamente partilhamos algumas vicissitudes da vida: um país em crise, os preços da gasolina, orgulhos, fra- cassos, aspirações e ressentimentos. […] Também não é novidade que em Por- tugal existe um enorme prazer em cri- ticar. Mas o que me assusta, ao navegar em fóruns, notícias, posts de Facebook ou artigos de opinião como este, é o cres- cendo de ódio, escárnio e maledicência com que se reage aos outros. Basta fazermos uma análise estatística simples:numconteúdopassíveldedebate – um ponto de vista, a uma notícia de futebol, um sketch humorístico – contem- -se os comentários. Do total, separem-se os positivos dos negativos. Depois, os construtivos dos desconstrutivos. Nos desconstrutivos, contem-se os que são pura violência gratuita, só porque sim. Depois, repliquem esta análise a vários artigos e concluam o mesmo que eu: neste país, o ímpeto para a crítica é francamente mais válido do que o elo- gio; para além disso, a maioria de quem comenta fá-lo com intuito negativo, raramente construtivo. Mas só é assim porque a outra metade não comenta. No gostar, é-se passivo. O espaço para o apreço é do tamanho do botão like. Ora, todo o conteúdo é passível de debate–certo–etodaaopiniãotemoseu contra – certo – e valha-nos a democra- cia e a possibilidade de discordar – certo. Mas uma coisa é a retórica informada e com fundamento, outra coisa é oferecer becos sem saída, uma oposição vazia sem planos B, como aquela que tem assento na Assembleia e que, pasme-se, tanto cri- ticamos. […] René Bértholo, Não metas o nariz onde não és chamado, 2002. ORALIDADE Apreciação crítica 1. Faz uma leitura atenta do texto, a partir do qual irás fazer uma apreciação crítica oral. 5 10 15 20 25 30 35 40 45
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    62 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA 1. O escárnio e o maldizer sempre existiram, embora assumam formas diferentes. Partindo da leitura do texto e do estudo das cantigas de escárnio e maldizer, faz uma apreciação crítica oral, com a duração de dois a quatro minutos, que comprove a vera- cidade da(s) afirmação(ções) apresentada(s) no texto. Estrutura o teu trabalho tendo em conta os tópicos propostos: t objeto de crítica; t meios de divulgação; t intemporalidade. Para a construção do teu texto deves: t fazer uma descrição sucinta do texto, relacionando o seu conteúdo com as can- tigas estudadas; t abordar os tópicos do objeto de crítica, dos meios de divulgação, da intempora- lidade; t apresentar o teu comentário crítico. Para a tua apresentação oral deves: t planificar a tua intervenção, elaborando um plano com tópicos orientadores; t utilizar adequadamente recursos verbais e não verbais – postura, tom de voz, articulação, ritmo, entoação e expressividade. O álibi perfeito para atacar com malí- cia mas alegar «frontalidade», «coragem» ou «não ter papas na língua». A ausência de papas dura até surgir um comentário em defesa, a formação de equipas pró e contra, e depois a troca de insultos, os juí- zos de valor sobre os juízos de valor, e em pleno apedrejamento virtual já ninguém sabe dizer o que originou o celeuma. Se transpuséssemos estes confrontos online para verdadeiros tête-à-têtes em carne e osso, o que teríamos? Um motim em cada esplanada? Navalhadas em cada esquina? A avaliar pelos fóruns de des- porto, uma guerra civil. Eu própria vejo- -me na ironia de estar a criticar os que criticam, e sem ser vidente consigo adivi- nhar o teor dos comentários que se avizi- nham. Será o online verdadeiramente revela- dor do «lado negro da força» ou é apenas o pseudónimo para exorcizar hormonas e frustrações? É que se cada voz cultivar o seu demagogo em potência, essa vai ser a nova normalidade. E um dia começamos mesmo a acreditar que tudo o que produ- zimos é mau. Mariana Seruya Cabral, in http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade (consultado em abril de 2013) «Eu própria vejo-me na ironia de estar a criticar os que criticam…» 50 55 60 65 70 SIGA Apreciação crítica p. 312 PROFESSOR Oralidade 1.Respostalivre. Sugere-se a exploração dos seguin- testópicos: –dizermaléintemporal; – os meios é que são diferentes: na Idade Média através das cantigas; atualmentenasredessociais.
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    63 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 6 Cantigas de escárnio e maldizer 1. Dimensão satírica – paródia do amor cortês De facto, a convocação modalizada de um universo feminino numa composição satírica implica quase sempre o que alguns autores denominam por escárnios de amor. […] Como o indica a designação, trata-se de composições em que se procede a uma inversão dos códigos de amor cortês herdados da fin’amors provençal, parodiando ironicamente a cantiga de amor e ridicularizando os principais tópicos deste género da lírica trovadoresca: a superioridade da senhor; o respeito que por ela sente o trovador; o elogio da sua beleza, do seu prez ou da sua dignidade moral, com particular destaque para as suas qualidades intelectuais (bem falar), e o comprazimento do amor como meio de ascese […]. Desta forma, a cantiga de escárnio e maldizer surge-nos aqui como um contratexto ou contragénero da cantiga de amor, o que é bem visível em cantigas como […] a famosa de João Garcia de Guilhade «Ai, dona fea, fostes-vos queixar». João Pedro da Costa, «O desejo tornado poema», in Revista da Faculdade de Letras, Porto XIX, 2002, pp. 605-606 2. Dimensão satírica – crítica de costumes As cantigas de escárnio e maldizer […] têm por assunto, na sua grande maioria, certos aspetos particulares da vida de corte e especialmente da boémia jogralesca. A sua leitura revela-nos, além do resto, uma sociedade boémia em que entravam jograis de corte, cantadeiras, soldadeiras (bailarinas), fidalgos. […] Raro se encontram nas cantigas de escárnio temas de alcance geral. Mas, nos muitos casos anedóticos a que se referem, distinguem-se certos costumes frequentes, condicionados pelo ambiente. Toda uma massa de composições espelha os problemas típicos da vida jogralesca. Numerosas cantigas, por exemplo, ocupam-se da sovinice dos ricos-homens, da miséria envergonhada dos «infanções»: à escassez das classes nobres são, naturalmente, muito sensíveis os jograis que, em paga do seu trabalho artístico, pedem roupas ou alimento. […] Em muitos casos o gosto, por assim dizer naturalista, da anedota vivida ou teste- munhada prevalece mesmo sobre a intenção trocista. E assim perpassam, já só por si interessantes, o velho que desesperadamente se pinta e enroupa muito caro; a rapariga que a mãe antes ensina a sarcotear-se do que a coser e fiar; um cavalo faminto aban- donado […], mas que se refaz com erva fresca depois das chuvas. António José Saraiva e Óscar Lopes, op. cit., pp. 65-66 CONSOLIDA 1. Diz o que se entende por «escárnios de amor». 2. Interpreta a seguinte afirmação: «a cantiga de escárnio e maldizer surge como um con- tra-género da cantiga de amor». 3. Refere o assunto e os temas abordados pelas composições satíricas. o i - 5 10 5 10 15 Iluminura das Cantigas de Santa Maria, século XIII (pormenor). PROFESSOR Leitura 7.1; 8.1. Educação Literária 15.1; 15.2. MC Consolida 1.Sátiraaoamorcortêseàsmesuras aqueeleobriga. 2. Pode constituir um contragénero, uma vez que ridiculariza/parodia o que é cantado nas cantigas de amor; inverte a cantiga de amor: em vez de um louvor, faz um antilouvor (pág. 56); apresentam um conselho/falso conselho(pág.60). 3. Retratam «aspetos particulares da vida da corte e especialmente da boémia jogralesca», e os temas são a «sovinice dos ricos-homens, da miséria envergonhada dos infan- ções, escassez das classes nobres», a manutenção da aparência/statu quodasclassesmaisaltas. PowerPoint Ficha informativa n.o 6
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    64 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA O português: génese, variação e mudança Principais etapas da formação e evolução do português Variação histórica/diacrónica O conjunto das alterações registadas numa língua ao longo da sua história designa-se por variação histórica (ou diacrónica). As línguas são sistemas abertos em constante mutação. Apresentam, simultanea- mente, traços de continuidade (assegurando, ao longo dos tempos, a comunicação) e uma capacidade de inovação/adaptação (pois preenchem as novas necessidades dos falantes). Uma língua pode mudar por diferentes razões, nomeadamente por: tfatores externos (contacto com novas línguas devido a imigração, invasões, mudanças sociais, etc.); tfatores internos (como a tendência para a regularização de determinadas estru- turas). A mudança linguística não é brusca ou repentina; pelo contrário, só acontece depois de períodos, por vezes longos, de coexistência de variantes novas e antigas. A aceitação de determinadas variantes por um grupo socialmente prestigiado, ou com maior representatividade, normalmente conduz à sua generalização a toda a comuni- dade de falantes. A língua portuguesa regista três etapas históricas: Do latim ao galego-português O latim vulgar e a romanização Os romanos Após a conquista da Pensínsula Ibérica pelos romanos (iniciada no século III a.C.), os povos peninsulares (com exceção dos bascos) acabaram por adotar a língua dos invasores – o latim – que se sobrepôs, desta forma, às línguas existen- tes, autóctones, ou seja, às línguas faladas pelas populações nativas da Península, como era o caso da família celta. Não se conhece muito sobre estas línguas primi- tivas (línguas de substrato), tendo apenas chegado à atualidade palavras com raiz pré-latina (ver na tabela na página seguinte). FICHA INFORMATIVA N.O 7 Português antigo Português clássico Português contemporâneo Séculos XII-XV Séculos XVI-XVIII A partir do século XIX PowerPoint Ficha informativa n.o 7
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    65 Ficha informativa Áreas Palavras Elementocelta briga nos topónimos Conímbriga (Coimbra), Lacóbriga (Lagos) Outros topónimos Olissipo (Lisboa), Évora, Braga, Viseu, Ílhavo Rios Vouga, Zêzere, Tâmega, Tejo Nomes comuns lousa, bruxa, chaparro, esquerdo, mata, sapo, várzea Nota: termos de origem celta, como camisa, carro, caminho, légua, cerveja, foram introduzi- dos no latim pelos contactos havidos com esses povos noutros pontos do Império Romano. A língua que se impôs nas regiões conquistadas não foi o latim na sua modalidade literária (o chamado latim clássico), mas sim o latim vulgar, expressão habitual- mente utilizada para referir o latim falado e mais afastado dos padrões literários, efe- tivamente utilizado nas situações de intercâmbio. Como qualquer língua utilizada quotidianamente por uma comunidade linguís- tica, o latim sofreu várias mudanças, para as quais contribuiu também a interação com as línguas primitivas/autóctones da Península. Substrato, estrato e superstrato Os povos germânicos A partir do século V, a Península Ibérica foi invadida por povos germânicos – vândalos, suevos, alanos e visigodos –, terminando, assim, o domínio romano. No entanto, nenhum destes povos conseguiu impor-se como os romanos e influenciar de forma determinante a língua e a cultura dos povos peninsulares. Contudo, deixa- ram vestígios linguísticos. Em português temos, por isso, vocábulos que resultam do contacto dos germa- nos com as populações peninsulares, mas também encontramos germanismos que já tinham sido introduzidos no latim ou que foram legados posteriormente: Áreas Palavras Onomástica Rodrigo, Álvaro, Fernando, Gonçalo, Henrique, Rui, Frederico, Ricardo, Afonso Atividade militar elmo, espora, guerra, barão, bandeira, arreio, arauto, orgulho, trégua Toponímia Ermesinde Sufixo -engo solarengo, mostrengo Outras marca, feudo, rico, guardar, agasalhar, burgo, sala, luva, roca, broa, sopa Os árabes Em 711, os muçulmanos (árabes e berberes do Magrebe) invadiram e ocuparam a Península Ibérica. Apesar do enraizamento cultural e linguístico já existente, os árabes não deixaram de influenciar a cultura e a língua dos territórios ocupados. Os idiomas moçárabes são as variedades faladas pelas comunidades cristãs que viveram sob a ocupação árabe, sobretudo no sul do território. Iluminura do Livro de Salmos de Eadwine, século XII (pormenor). PROFESSOR Nota: Considerando que algu- mas definições de superstrato (cf., por exemplo, Dicionário Ter- minológico) referem ou sugerem uma situação de substituição linguística, há autores que falam de adstrato para se referirem ao árabe.
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    66 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA Do árabe, a língua portuguesa integrou palavras de várias áreas: Áreas Palavras Agricultura e flora açude, alecrim, alfazema, azenha, azeitona, laranja, limão, nora, tremoço Ciência azimute, zénite Administração e guerra alfândega, alferes, algazarra, alarido, almirante Instrumentos alambique, alcatruz, alicate, almofariz, rabeca, tambor, xadrez, algarismo Construção e urbanismo andaime, alpendre, armazém, aldeia, azulejo, tabique Alimentação açorda, alcachofra, almôndega, xarope, azeite Toponímia Almada, Alcainça, Alcobaça, Alcoentre, Algarve, Alvalade, Azambuja Além da recuperação progressiva dos territórios (Coimbra em 1064, Santarém e Lisboa em 1147, e Faro em 1249), a Reconquista Cristã permitiu, na faixa ocidental da Península, a expansão do galego-português. Ao longo desse processo e pelo contacto de populações de diferentes proveniências, o idioma que se propaga a partir do extremo noroeste da Península sofre trans- formações consideráveis. Substrato é o termo, cunhado por G. Ascoli, que designa uma língua autóctone que, normalmente em situação de invasão, é substituída por outra, deixando aí, no entanto, vestígios linguísti- cos (fenómenos de substrato). Não obstante a língua portuguesa derivar essencialmente do latim (por isso, designado «língua-mãe» ou «língua- -estrato» do português), tal não constituiu entrave a que o por- tuguês viesse a integrar no seu léxico algumas palavras das línguas pré-latinas, ou seja, anteriores à invasão dos romanos (e, por- tanto, línguas de substrato). Um dos substratos do português é o celta. Superstrato designa o conjunto dos vestígios linguísticos deixa- dos pela língua de um povo invasor (ou essa mesma língua) no idioma de um determinado território. Para o português, pode- mos falar de superstratos germânico e árabe. Estrato é a língua que sobreviveu ao contacto com as línguas de substrato e às línguas de superstrato. No caso do português, o estrato é o latim. Batalha do rei Artur contra os saxões, iluminura do Graal de Rochefoucauld, 1315-1323. Área primitiva do galego-português e da Reconquista, in Paul Teyssier, História da língua portuguesa, 7.ª edição, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1997, p. 7 (adaptado). 0 50 km Porto Douro Mondego Tejo G u a d i a n a Coimbra Santarém Évora Faro (1249) 1168 1147 1064 LISBOA
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    67 Ficha informativa Português antigo(século XII – século XV) É comum designar a primeira fase deste período como galego-português, pois, apesar da separação dos dois reinos, era detetável uma superior unidade linguística. Num momento seguinte, acentuar-se-ão as diferenças que conduzirão à autonomi- zação do galego e do português. Após a invasão árabe, no noroeste da Península Ibérica acentuam-se as divergências que viriam a permitir a individualização do galego-português, distinto do leonês e do castelhano, a leste, e, igualmente, das variedades moçárabes do sul. Entre os primeiros textos escritos conhecidos estão a Notícia de Fiadores (1175), a Notícia de Torto e o Testamento de D. Afonso II (início do século XIII). Destacam-se como particularidades linguísticas importantes deste período (nalguns casos já se registam transformações na fase final do português antigo): t a existência de hiatos como consequência da queda de consoantes entre duas vogais (door lat. DOLOREM; sãa lat. SANAM, etc.); t terminação em -udo dos particípios dos verbos da 2.ª conjugação (temudo temido; sabudo sabido; vençudo vencido); t o aparecimento do infinitivo pessoal. CONSOLIDA 1. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as falsas. a) As alterações registadas por uma língua ao longo da História correspondem a varia- ção sincrónica. b) A língua é um sistema fechado. c) Podemos dividir a história da língua portuguesa em três etapas – português antigo, português clássico e português contemporâneo. d) O latim, trazido pelos romanos, foi absorvido pelo celta. e) O latim literário é a base da língua portuguesa. f) Os germânicos deixaram vestígios linguísticos na Península Ibérica. g) Os árabes influenciaram o português em áreas como a agricultura e a toponímia. h) Na história da língua portuguesa, os primeiros textos escritos conhecidos datam do século XI. 2. Para cada um dos itens que se seguem, seleciona a letra correspondente à opção correta. 2.1 Um exemplo de substrato da língua portuguesa é o a) germânico. b) latim. c) celta. d) árabe. 2.2 Um exemplo de superstrato da língua portuguesa é o a) celta. b) galego-português. c) germânico. d) latim. 2.3 O estrato da língua portuguesa é o a) celta. b) latim. c) árabe. d) germânico. Fontes consultadas: – Paul Teyssier, História da língua portuguesa, 4.ª edição, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1990, pp. 3-40 – Zacarias Nascimento, Maria do Céu Lopes, Domínios da gramática de língua portuguesa, Lisboa, Plátano Editora, pp. 20-27 – Maria Helena Mateus, et al., Gramática de língua portuguesa, 6.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 2003, pp. 25-27 PROFESSOR Gramática 17.1. MC Consolida 1. a)F–…variaçãodiacrónica; b)F–…sistemaaberto; c)V; d)F–…impôs-seaocelta; e)F–Olatimvulgar…; f)V; g)V; h)F–…datamdosséculosXIIeXIII. 2. 2.1c); 2.2c); 2.3b).
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    68 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA A crítica social aliada ao riso tem sido uma receita que muitos humoris- tas utilizam para veicular a sua mensagem ao longo dos tempos. Põem em prática, assim, a máxima horaciana ridens dicere verum («rindo para dizer a verdade»), de maneira a alertar a sociedade e a denunciar diversas situações, sejam elas políticas, económicas, sociais ou culturais. A pares, pesquisa sobre alguns humoristas portugueses atuais e situações por eles de- nunciadas. Seleciona um deles, e, numa apresentação oral, faz uma apreciação crítica, de dois a quatro minutos, sobre os meios utilizados por estes profissionais para atingirem os seus propósitos. De forma a orientar o teu trabalho, deverás: tproceder ao visionamento do sketch humorístico com o resto da turma; tapresentar o tema abordado pelo humorista e fazer a descrição sintética da situa-ção; tindicar a forma utilizada pelo(s) humorista(s) para atingir(em) o(s) seu(s) propósito(s) com recursos verbais e não verbais: tom de voz, postura, entoação, expressividade; tfazer um comentário crítico pessoal da forma utilizada pelo(s) humorista(s). DESAFIO SIGA Apreciação crítica p. 312 PowerPoint Síntese da unidade PROFESSOR Oralidade 1.1; 1.4; 1.5; 1.6; 2.2; 3.1; 3.2; 4.1; 5.2; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3; 12.5. MC
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    69 GLOSSÁRIO C Cancioneiros: coletâneas decanções, livros que reúnem grande número de trovas. São conhecidos três cancioneiros galego-portugueses: o Cancioneiro da Ajuda, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa (antigo Colocci-Brancutti) e o Cancioneiro da Vaticana. Cantigas: composições poéticas que são sempre acompa- nhadas de música. Cobla: termo usado para designar um dístico, uma estrofe ou uma estância na poesia peninsular. O esquema rimático a que obedecem as coblas é variado, existindo vários tipos como as coblas uníssonas que apresentam uma única série de rimas que se repete de estrofe para estrofe e as singu- lares (mais comuns), em que as rimas mudam de estrofe para estrofe. Coita: sofrimento amoroso («pesar», «doo», «penar», «sofrer», «lazerar», «padecer», «mal buscar», «perdiçon»). Consequên- cia da coita é a condição em que acaba por se encontrar o amante: «desamar», «enganar», «desejar», «desempar», «destorvar», «non dormio». E Encavalgamento: o conteúdo lógico de um verso completa-se apenas no seguinte. J Jogral: agente cultural com múltiplas funções, que com- preendiam o simples acompanhamento instrumental, a interpretação vocal de composições alheias e, ainda, a produção de novas composições. L Leixa-prem: processo pelo qual se retoma no início de cada cobla o último verso da estrofe anterior, total ou parcial- mente, podendo haver troca sinonímica dos vocábulos finais. M Menestrel: músico. Mesura: contenção por parte do sujeito lírico que consiste em ocultar o nome da «senhor» e refrear a expressão direta dos seus sentimentos, quer na própria cantiga, quer socialmente. Autodisciplina do amador à maneira provençal. P Palavra perduda: verso branco ou solto, colocado na mesma posição em cada cobla. Paralelismo: repetição da mesma ideia em versos paralelos. Paralelismo anafórico: com anáforas. Paralelismo semântico: com repetição de ideias. R Razon: alusivo ao direito e à jus- tiça que regulam a relação. Razão, causa, motivo, assunto. Refrão: verso ou versos que se repe- tem na íntegra no final de cada cobla. S Sabedor: consciente da prudência e do dis- cernimento que devem nortear a relação amorosa. Senhor: o sujeito lírico surge como vassalo da sua «senhor» (suserana), obedecendo a todos os códigos de vassalagem medievais. Trata-se de uma mulher idealizada: formosa, bon- dosa, leal, honrada («prez»), sensata, comedida, social («fala mui ben»), em suma, perfeita. Soldadeiras/jogralesas: cantadeiras ou dançarinas que acompanham os jograis. T Tempo da frol: primavera, tempo do amor convencionado, relacionado sobretudo com os trovadores provençais. Trovador: compositor de poesias e melodias que as acom- panham. A designação «trovador» aplica-se aos autores de origem nobre. Bibliografia/Webgrafia do Glossário CARLOS CEIA, «Cantiga», in E-dicionário de termos literários (disponível em http://www.edtl.com.pt) Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org. e coord.), Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho, 1993 Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia, Lisboa, Temas e Debates, 2005 MARIA DO ROSÁRIO ROSA, «Cobla», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário de ter- mos literários (disponível em http://www.edtl.com.pt) MASSAUD MOISÉS, Dicionário de termos literários, 6.ª edição, São Paulo, Cultrix, 1992 TERESA REIS, «Cobla», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário de termos literários (disponível em http://www.edtl.com.pt)
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    70 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA Grupo I A Lê a seguinte cantiga de amigo. Mha madre, venho vos rogar Mha madre, venho vos rogar como roga filh’a senhor: o que morre por mi d'amor, leixade1 -m’ir con el falar; quanta coita2 el sigo3 ten sei que toda lhi por mi ven E sodes desmesurada4 , que vos non queredes doer5 do meu amigo, que morrer vejo, e and’eu coitada6 ; quanta coita el sigo ten sei que toda lhi por mi ven Vee-lo ei eu, per bõa fe, e direi lhi tan gran prazer per que m’el dev’a gradecer, poilo seu mal cedo meu é7 ; quanta coita el sigo ten sei que toda lhi por mi ven Oje se part’o coraçon D. Afonso Mendez de Besteiros, in Base de Dados da Lírica Profana Galego-Portuguesa (Med DB), versão 2.3.3, Centro Ramón Piñeiro para a Investigación en Humanidades, www.cirp.es (consultado em janeiro de 2015) 1 Leixar: deixar. 2 Coita: sofrimento. 3 Sigo: consigo. 4 Desmesurada: cruel. 5 Doer-se: condoer-se, ter dó. 6 Coitada: infeliz, triste. 7 V. 16: pois o seu mal em breve meu será. Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem. 1. A partir da leitura que fizeste da cantiga, indica qual o pedido da filha à mãe, justifi- cando a razão pela qual a primeira lhe chama «desmesurada». 2. De cobla para cobla, é evidente um crescendo de revolta da filha. Justifica esta afirmação. 3. O verso final constitui uma inovação nas cantigas de amigo. Explica a sua função. FICHA FORMATIVA 5 10 15 PROFESSOR GrupoI A 1.Afilhapedeàmãeparaveroamigo queestáamorrerdevidoaoseuamor por ela. No entanto, a mãe «desme- surada» (cruel) não se condói com o sofrimentodafilhaenãoaautorizaa visitaroamigo. 2.Aafirmaçãoéverdadeira,umavez que apesar de não existir um diálogo explícito entre mãe e filha, nota- -se que a donzela vai ficando mais rebelde, uma vez que na primeira cobla ela faz o pedido, na segunda, já acusa a mãe de ser cruel e, na ter- ceira,rebela-secontraaprogenitora, dizendo que irá ver o amigo mesmo contraavontadedela. 3. Este verso vem reforçar o pedido perante a mãe, no sentido de a con- venceradeixá-laveroseuamigo. COTAÇÕES GrupoI A 1. 15pontos 2. 15pontos 3. 15pontos 4.1 15pontos B 5. 40pontos 100pontos
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    71 Ficha formativa 4. Atentanos seguintes versos: a) «Mha madre, venho vos rogar / como roga filh’a senhor» (vv. 1-2) b) «o que morre por mi d’amor» (v. 3) c) «Oje se part’o coraçon» (v. 19) 4.1 Identifica os recursos expressivos presentes nos versos e refere o efeito de sen- tido produzido. B Atenta na entrada de «confidente»: Confidente: Personagem que serve de guia espiritual, conselheiro, ou adjuvante parti- cular do protagonista […]. No teatro antigo, o coro desempenhava por vezes este papel. Um(a) aio(a), um(a) criado(a), um(a) amigo(a) íntimo(a) ou ainda a Mãe […] desempe- nham em regra esta função […]. O confidente concorre com […] a eficácia de certas estratégias discursivas como os apar- tes, os monólogos interiores ou os solilóquios, para conseguir revelar os segredos, os receios mais profundos, os pensamentos mais reservados de uma personagem principal. Carlos Ceia, «confidentes», E-dicionário de termos literários, www.edtl.com.pt, consultado em janeiro de 2015 (texto adaptado) 5. A partir desta entrada, e fazendo apelo à tua experiência de leitura, redige uma expo- sição escrita, entre setenta e cento e vinte palavras, explicando a relevância do papel dos confidentes nas cantigas de amigo. Deves contemplar dois tipos de confidente e referir exemplos de algumas cantigas estudadas. Grupo II Lê o seguinte texto. Quando se pensa na Idade Média, é quase inevitável imaginar castelos inexpugnáveis1 , bruxas queimadas na fogueira ou infelizes camponeses à mercê de cruéis senhores feudais. Associamos aquela época histórica a um mundo de trevas e barbárie, embora também evoque histórias de cavaleiros andantes dispostos a sacrificar a vida pelo amor de cândidas donzelas. Segundo Giuseppe Sergi, profes- sor da Universidade de Turim (Itália), «atualmente, a Idade Média é vista como se tivesse ocorrido noutro mundo, tanto pela positiva como pela nega- tiva». Na visão desfavorável, só existe pobreza, fome, peste, caos e corrupção; a favorável inclui apaixonantes torneios, a vida na corte e príncipes magnâni- mos2 . O clérigo [bispo Giovanni Andrea Bussi] definiu como media tempestas («épocas intermédias», em latim) os quase mil anos que tinham decorrido desde a queda do Império Romano até à sua época, e que os homens de letras começariam a descrever como uma etapa sombria que se interpusera entre os gloriosos tempos clássicos e o res- plandecente mundo moderno. 1 Inexpugnáveis: que não podem ser conquistados. 2 Magnânimo: que tem grandeza; que mostra gene- rosidade ou bondade. 5 5 10 15 20 25 30 PROFESSOR 4.1 a) comparação (mostra a submissão dafilhaperanteamãe); b) hipérbole (enfatiza o sentimento do amado, justificando o seu pedido deencontro); c)metáfora(destacaaangústiaamo- rosa, metaforicamente através do coraçãopartido). B 5.Cenáriosderesposta Várias cantigas de amigo têm a pre- sença de um confidente que ora assume o papel de interlocutor, ora se limita a ouvir os pedidos/lamen- tosdadonzela. A partir das cantigas estudadas po- demosidentificardoistiposdeconfi- dente:asamigasealgunselementos da natureza, aos quais cabem diver- sospapéis: – As amigas: são coadjuvantes da donzela, partilham com ela os mes- mos intuitos de diversão e liberdade para amar («Bailemos nós ja todas tres,aiamigas»). – Elementos da natureza: dialogam e tranquilizam a donzela, em desas- sossego, devido a não saber do seu amigo – as flores do verde pinho («Ai flores, ai flores do verde pino») –, ou testemunham o sofrimento e as lamentações acerca da ausência do amigo – as ondas («Ondas do mar de Vigo»). Poderão ainda referir a mãe, que assume dois papéis distintos: atua de forma solidária com a sua filha, que com ela desabafa as suas angústias («Como vivo coitada, madre, por meu amigo»); ou atua proibitivamente, sendo opositora de um encontro amoroso, por exemplo («Mha madre, venho vos rogar», do textoA,doGrupoI).
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    72 Unidade 1// POESIA TROVADORESCA A literatura também proporcionou uma visão romântica, com os seus mitos sobre o amor cortês e as gestas3 épicas, estereótipos que seriam depois populari- zados em romances e filmes pouco fiéis ao verdadeiro contexto histórico. Tudo isto conduziu à noção generali- zada de que a época medieval consistiu em dez séculos de ignorância e obs- curantismo, durante os quais nada de importante foi inventado. No entanto, a medievalista italiana Chiara Frugoni recorda que foi nessa altura que surgi- ram vários dos pequenos avanços que melhoraram a nossa vida, como é o caso dos botões, dos garfos, das calças, e de aparelhos como a bússola, os óculos, a imprensa de caracteres móveis e o relógio mecânico. Foi nessa alegada época obscura que começaram igualmente a configurar-se instituições como os bancos e as univer- sidades, e que se divulgaram as notas musicais e a numeração árabe, além do xadrez e dos jogos de cartas. Na Baixa Idade Média, segundo o his- toriador francês Jean Gimpel, «a Europa ocidental conheceu um período de inten- sa atividade tecnológica, fecundo em invenções, uma verdadeira antecipação da revolução industrial inglesa do século XVIII». in Superinteressante, n.o 169, maio de 2012 1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1 a 1.7, seleciona a opção que te permite obter uma afirmação correta. 1.1 A imagem da Idade Média (A) está cheia de constrastes, com aspetos negativos e positivos. (B) está cheia de constrastes, apesar de sobressaírem os aspetos negativos. (C) está cheia de constrastes, apesar de sobressaírem os aspetos positivos. (D) é consensual, apesar dos aspetos negativos e positivos. 1.2 A literatura proporcionou uma visão (A) distorcida da realidade medieval. (B) fatalista da realidade medieval. (C) verídica da realidade medieval. (D) romântica da realidade medieval. 1.3 A Idade Média é uma época (A) de estagnação cultural e histórica. (B) de avanços históricos e culturais. (C) de germinação de grandes descobertas e acontecimentos. (D) de retrocesso cultural e histórico. 1.4 O verbo na oração «a [visão] favorável inclui apaixonantes torneios» (ll. 17-18), quanto à sua subclasse, é (A) copulativo. (B) auxiliar. (C) principal transitivo direto. (D) principal intransitivo. 3 Gestas: narração antiga de acontecimentos ou façanhas históricas. 35 40 45 50 55 60 COTAÇÕES GrupoII 1.1 5pontos 1.2 5pontos 1.3 5pontos 1.4 5pontos 1.5 5pontos 1.6 5pontos 1.7 5pontos 2. 5pontos 3. 10pontos 50pontos GrupoIII 50pontos
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    73 Ficha formativa 1.5 Nafrase «A literatura também proporcionou uma visão romântica» (ll. 30-31) a expressão destacada desempenha a função sintática de (A) complemento direto. (B) complemento oblíquo. (C) complemento indireto. (D) modificador. 1.6 Na frase «[…] a medievalista italiana Chiara Frugoni recorda que surgiram vários dos pequenos avanços» (ll. 41-43) a oração destacada é uma oração (A) subordinada substantiva completiva. (B) subordinada adjetiva relativa restritiva. (C) subordinada adjetiva relativa explicativa. (D) subordinada adverbial temporal. 1.7 Na frase «Foi nessa alegada época obscura que começaram igualmente a con- figurar-se instituições como os bancos e as universidades» (ll. 49-52) a palavra destacada desempenha a função sintática de (A) complemento direto. (B) complemento oblíquo. (C) complemento indireto. (D) modificador restrito do nome. 2. Reescreve a seguinte frase pronominalizando a expressão destacada. «Associamos aquela época histórica a um mundo de trevas e barbárie […].» (ll. 5-7) 3. Identifica os processos fonológicos ocorridos nas seguintes palavras. a) CRUDELE- cruel b) OCULU- olho Grupo III Num texto expositivo bem estruturado, com um mínimo de cento e vinte e um máximo de cento e cinquenta palavras, desenvolve uma reflexão sobre o tema apresentado. Fundamenta o teu ponto de vista recorrendo, no mínimo, a dois argumentos, e ilustra cada um deles com, pelo menos, um exemplo significativo. O conflito de gerações é uma temática que perpassa o tempo e que provoca tensões familiares. No entanto, também constitui uma forma de aprendizagem tanto para os mais velhos como para os mais novos. PROFESSOR GrupoII 1.1 (B); 1.2 (D); 1.3 (C); 1.4 (C); 1.5 (A); 1.6(A);1.7(D). 2. «Associamo-la a um mundo de trevasebarbárie.» 3. a)apócopedee esíncopeded. b) síncope de u e palatalização do grupocl. GrupoIII Sugestãodetópicos: –definiçãodeconflitodegerações; –o que origina: idade, diferença de opinião, background cultural dife- rente,… –a diferença origina tolerância, crescimento, aceitação do outro, aprendizagensnovas,… –exemplos ilustrativos das situa- çõesapontadas.
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    2 EDUCAÇÃO LITERÁRIA Contextualização histórico-literária Crónicade D. João I, excertos dos capítulos: t 11: «Do alvoroço que foi na cidade cuidando que matavom o Meestre, e como aló foi Alvoro Paaez e muitas gentes com ele»; t 148: «Das tribulações que Lixboa padecia per mingua de mantiimentos». Afirmação da consciência coletiva. Atores (individuais e coletivos). LEITURA Apreciação crítica. COMPREENSÃO DO ORAL Documentário. Registos áudio e audiovisuais. EXPRESSÃO ORAL Apresentação oral. ESCRITA Exposição sobre um tema. Apreciação crítica. GRAMÁTICA Predicativo do complemento direto. Processos irregulares de formação de palavras.
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    FERNÃO LOPES CRÓNICA DED. JOÃO I Iluminura da Batalha de Aljubarrota, Jean de Wavrin, Anciennes et nouvelles chroniques d' Angleterre, c. 1470 – c. 1480 (pormenor).
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    mensagens João de Melo Nasceunos Açores, em 1949. Foi professor dos ensinos secundário e superior e conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Madrid. Até à data, publicou mais de 20 livros, entre romances, novelas, contos, crónicas, poesia e ensaios literários. As suas obras mais conhecidas são os romances: O meu mundo não é deste reino, Autópsia de um mar de ruínas e Gente feliz com lágrimas. Este último foi também o mais premiado, a nível nacional e internacional. Vários dos seus livros estão traduzidos numa dezena de países. Da Historia a literatura Se não se tivesse notabilizado historicamente como rei de Portugal, defensor do reino e da nossa independência face a Castela, o Mestre de Avis teria sido imortalizado por Fernão Lopes, o autor da Crónica de El-Rei D. João I de Boa Memória e de várias outras obras do género. Entre nós, não existiu outro cronista-historiador como ele. A sua escrita da História, dotada de extraordinário movimento narra- tivo, com uma vivacidade de linguagem sem paralelo na literatura medieval, e sempre em «diálogo» com um leitor virtual, entra fundo na imaginação e na sensibili- dade de quem o lê e fá-lo sentir-se cúmplice do autor e viver as emoções da ação narrada. É graças à expressão sentimental da sua prosa que nós aderimos aos acontecimentos da narrativa e entra- mos emotivamente na História – vendo, ouvindo, tes- temunhando os factos que o escritor nos dá a conhecer. A escrita usa de um poder tão «visual» quanto «cine- matográfico». Longe de nos deixar indiferentes, gera sensações contraditórias, de aprovação ou de discórdia, tal e qual ele as expressa de forma «opiniosa». A sua bem conhecida frase «ora, esguardae como se fôsseis pre- sentes», escrita em pleno entusiasmo narrativo, define a vontade comunicativa do cronista com os seus leitores, implicando-os nas tensões, nos dramas e nas razões de ser dos factos e das coisas. Fernão Lopes é o iniciador por excelência da nossa literatura histórica. Foi o primeiro cronista cujo método de trabalho assentou na consulta sistemática das fontes documentais, junto de arquivos e bibliote- cas. E não só: ouviu relatos de viva voz, teve em conta a versão dos protagonistas acerca dos feitos relatados e nunca perdeu de vista o lema, que a si próprio impôs, de se guiar pela «clara certidão da verdade». Eis-nos perante um escritor medieval que pretendeu, e conse- guiu, estar à frente do seu tempo, sem nunca abdicar da sua visão humanista e da ideologia da História. Não deixando de ser considerado um «historiador», é como «escritor» que hoje merece ser estudado. Narrador social, criador de linguagem, homem de opinião e de sentimento, nunca hesitou em expressar os seus juízos de valor sobre comportamentos e pessoas – e não se curvou servilmente perante os poderosos (nem mesmo aqueles sobre quem escreveu, como o Mestre de Avis). Vejo nele um cidadão acima de qualquer suspeita, um homem solidário com o seu povo, essa «arraia miúda» a cujas multidões deu voz, coração e atitude, além de lhe ter conferido uma presença e uma digni- dade própria na História de Portugal. João de Melo (Texto inédito, 2014) 76 5 10 15 20 25 30 35 40 45 ´ `
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    cruzadas Um cronista militante Quandoestudei a Crónica de D. João I pela pri- meira vez – gostei tanto da matéria que na universi- dade estudei História e, mais tarde, quase sem saber como, me tornei cronista –, fiquei apaixonado pela ação. Até aos finais do século XIV, data a que se refere a crónica, com a crise da 1.ª Dinastia, ainda não tínha- mos estudado nada tão movimentado como as séries de cowboys que passavam na televisão (a preto e branco) des- ses longínquos anos 70. Não me recordo se Homero e a Ilíada e a Odisseia (guerra de Troia e deambulação de Ulisses para voltar a casa) e se a Eneida de Virgílio (outras narrativas cheias de ação e suspense) tinham sido abordados sem a minha atenção, ou se não tinham sido sequer referidos. Fosse como fosse, a crónica de Fernão Lopes haveria de mar- car-me para sempre. «Acudam ao Paço da Rainha que matam o mestre», gritava-se pelas ruas de Lisboa. Matavam o mestre? O Mestre de Avis, o mestre de uma Ordem religiosa? Sabia lá eu, na altura, que pelos anos de 1383 – já lá vão mais de 630 – os bons cargos religiosos eram tam- bém cargos políticos… Depois, não se entendia bem se a ameaça de morte do Mestre era verdadeira ou se não passava daquelas mentiras políticas feitas para arregimen- tar o povo. De qualquer forma, de caminho, o Bispo de Lisboa, que dera voz a (isto é, apoiara) Castela, foi ati- rado dos torreões da Sé para a rua, onde conheceu uma morte não cristã, mas ditada pelas circunstâncias políticas. Fernão Lopes, mais do que um cronista, como ten- tam ser os cronistas de hoje, não era independente, nem disfarçava. Apoiava o Mestre, que viria a ser o nosso rei D. João I, e dividiu a sua crónica entre os bons e os maus. Os bons – como o jurista João das Regras, ou Álvaro Pais, que andou a aclamar o Rei mesmo antes de ele o ser –, e os maus – todos os que eram por Castela, com destaque para o conde João Fernandes, o Conde Andeiro. Entre os heróis como Nun’Álvares Pereira, condestável e defensor do reino português, e os timo- ratos, como D. João I de Castela, derrotado de forma humilhante em Aljubarrota (1385). Mais tarde sabemos que nada disto é assim tão claro e simples. Que os portugueses, com a ajuda dos ingleses, que nos trouxeram a tática do quadrado, faziam parte de um lado da guerra europeia dos 100 anos, de que a Espanha e a França eram os inimigos. Que o casamento do Mestre de Avis, ou D. João I, com a descendente da casa de Lancaster, D. Filipa de Lencastre (como se aportuguesou aquele nome), deu origem à mais velha aliança do mundo entre duas nações. Que a gesta ou aventura que nos conta Fernão Lopes, embora exaltante, vibrante e patriótica, é um dos lados da História, a qual tem sempre inúmeros prismas. Mas, seja como for, há algo que ninguém lhe tira: o modo tão belo e empolgante como relata uma situa- ção única da História portuguesa, precursora de muitas outras histórias que nos fizeram chegar até hoje. Henrique Monteiro (Texto inédito, 2014) 77 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 Henrique Monteiro Jornalista profissional desde 1979. Foi diretor do jornal Expresso entre 2006 e 2011. É diretor-coordenador de projetos editoriais do Grupo Impresa. Cronista e comentador político. Desde 1990 que publica semanalmente as crónicas de humor «Cartas Abertas», sob o pseudónimo «Comendador Marques Correia».
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    78 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I Contextualização histórico-literária Datas e acontecimentos 1381 3.ª guerra de D. Fernando com Castela. 1383 Casamento de D. Beatriz com D. João I de Castela. Morte de D. Fernando e regência de D. Leonor Teles. Aclamação de D. João, mestre de Avis, como «Regedor e Defensor do Reino». 1385 Aclamação do Mestre de Avis, D. João, como rei de Portugal, nas Cortes de Coimbra. Batalhas de Aljubarrota, Trancoso e Valverde. 1415 Conquista de Ceuta – início da expansão portuguesa. 1418 Fernão Lopes é nomeado guarda-mor da Torre do Tombo. 1427 Descoberta dos Açores por Diogo Silves. 1433 Morte de D. João I. Início do reinado de D. Duarte. 1434 Fernão Lopes é incumbido de redigir as crónicas dos reis portugueses. 1438/1439 Morte de D. Duarte. Regências de D. Leonor de Aragão e D. Pedro. 1449 D. Afonso V assume o trono após maioridade. 1450 Gomes Eanes de Zurara substitui Fernão Lopes como cronista do reino. 1454 Gomes Eanes de Zurara é nomeado guarda-mor da Torre do Tombo. c. 1460 Morte de Fernão Lopes. Textos e obras 1418-1442 Crónica de D. Pedro I, Fernão Lopes. 1436-1443 Crónica de D. Fernando, Fernão Lopes. c. 1443 Crónica de D. João I (primeira e segunda partes), Fernão Lopes. c. 1450 Crónica de D. João I (terceira parte), Gomes Eanes de Zurara. c. 1453 Crónica da Guiné, Gomes Eanes de Zurara. 1458-1463 Crónica do Conde Dom Pedro de Meneses, Gomes Eanes de Zurara. 1464-1468 Crónica do conde Dom Duarte de Meneses, Gomes Eanes de Zurara. Iluminura do casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre, Jean de Wavrin, Anciennes et nouvelles chroniques d'Angleterre, c. 1470-c. 1480.
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    79 Contextualização histórico-literária 1. FernãoLopes: o homem e o seu tempo 1. Visiona o documentário «As crónicas de Fernão Lopes» da série Grandes livros, sobre este escritor, a sua obra e os contextos histórico, político e social da sua época. Preenche o seguinte esquema no teu caderno. Biografia de Fernão Lopes Obras de Fernão Lopes (que chegaram até aos nossos tempos) Figuras históricas 1. Data de nascimento: 2. Local de nascimento: 3. Profissões: 4. Tarefa confiada por D. Duarte: 5. Data provável da morte: 1. (nome e assunto) 2. (nome e assunto) 3. (nome e assunto) 1. Morre em 1383: 2. Futura rainha de Portugal: 3. Casada com: 4. Figura coletiva: 5. Líder da revolução: 6. Filho de: 7. Figura assassinada pelo Mestre: Acontecimentos históricos Sucessão de acontecimentos 1. O revolta-se contra a vinda do rei de . 2. O povo aclama , Mestre de Avis, e do reino. 3. Os cercam (1384). 4. Os castelhanos levantam o por causa da . 5. Revela-se pela primeira vez uma . 6. Em 1385, em as Cortes aclamam D. João . 7. Em 1385, trava-se a . t%VBTDBSBDUFSÓTUJDBTEBPCSBEF'FSOÍP-PQFT t*NQPSUÉODJBBUVBMEBMFJUVSBFEPFTUVEPEBPCSBEF'FSOÍP-PQFT Torre do Tombo A palavra «tomo» deriva do grego TÓMOS, que significa «pedaço cortado, parte, porção; pedaço de papiro ou de pergaminho; daí, tomo volume»1 . A documentação régia (con- tratos, registo de propriedades, decisões régias) estava guardada em tomos. Dizia-se que «estar metido num tomo era estar tombado». Uma vez que a documentação tombada estava guardada numa torre do Castelo de São Jorge (Lisboa), estendeu-se a designação para Torre do Tombo. Após o Terramoto de 1755, a torre no Castelo de São Jorge deixou de oferecer segurança, pelo que o Arquivo da Torre do Tombo foi transferido para o Mosteiro de São Bento (atual Palácio de São Bento) e depois, em 1990, para o atual edifício na Cidade Universitária de Lisboa. CURIOSIDADE 1 José Pedro Machado, Dicioná- rio etimológico da língua portu- guesa, 8.ª edição, vol. 5, Lisboa, Livros Horizonte, 2003 PROFESSOR Oralidade 1.3; 1.5; 1.7; 2.2. Educação Literária 16.1. MC 1. BiografiadeFernãoLopes: 1. durante os acontecimentos narra- dos(c.1380); 2.Lisboa(talvez); 3. tabelião, guarda-mor da Torre do Tombo(nomeadoem1418)ecronista- -mordoreino(1434); 4. escrever a história dos reis de Por- tugal;5.após1459. ObrasdeFernãoLopes: 1.CrónicadePedroI – reinadodesterei; 2. Crónica de D. Fernando – reinado desterei; 3. Crónica de D. João I – revolução de1383-1385ereinadodesterei. Figurashistóricas: 1.D.Fernando;2.D.Beatriz;3.D.JoãoI de Castela; 4. povo; 5. D. João, Mestre deAvis;6.D.PedroI (filhobastardo); 7. Conde Andeiro (João Fernandes de Andeiro–condedeOurém). Acontecimentoshistóricos: 1.povo/Castela;2.D.João/regedore defensor;3.castelhanos/Lisboa; 4. cerco / peste; 5. identidade nacio- nal;6.Coimbra/reidePortugal; 7. BatalhadeAljubarrota. Características: “B73BD;?7;D3H7L7?'ADFG9367G -seamesmaimportânciaaopovoque era dada a nobres e reis; surgem falas das personagens em discurso direto; a focalização é feita do exterior e do interiordaspersonagens. Importância: “5A@:757DAB3EE36AB3D3BD7H7DA futuro; marcar as origens de «um ver- dadeiro»sentimentonacional; “5A@:757D3:;EF†D;367G?BAHACG7 não se resigna e luta pela sua salva- ção em vez de se «demitir» ou de cru- zar os braços perante a adversidade. Vídeo «As Crónicas de Fernão Lopes», Série Grandes Livros PowerPoint Contextualização
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    80 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I 2. Luta de classes ou apego à terra? Como deve encarar-se a profunda alteração política e social que marcou o período compreendido entre a morte de D. Fernando e a elevação de João I ao trono? Qual o verdadeiro caráter dessa crise no quadro da História nacional? […] Para a compreensão da crise importa distinguir as razões que a justificam e as consequências a que deu lugar. O seu movimento durou apenas 16 meses e teve forçosamente causas políticas, económicas e sociais. O mal-estar das populações vinha sobretudo das guerras com Castela, que cau- saram um profundo desgaste das energias do país. Também a população de Lisboa sofreu, em 1373, a ocupação castelhana durante três meses, e nove anos mais tarde a dos ingleses, ambas causando à capital os maiores prejuízos e vexames. As razões da crise nacional mergulham, pois, na política de D. Fernando, tanto a externa, que foi desastrosa, como a interna, em que o comportamento da rainha concitou1 os maiores ódios entre a população. […] As carências do mundo agrícola tinham evidentes reflexos na vida urbana, mas sempre houve anos de crise e não foram motivo bastante para a eclosão de um movi- mento social. […] Em 1383 não houve uma luta de classes, mas apenas o choque entre pessoas de vários estratos que tomaram posições ideológicas diferentes. Não se poderá mais repetir que a nobreza e o clero seguiram a primeira fação [D. Beatriz e D. João I de Castela] e o povo inteiro a segunda [Mestre de Avis]. […] O choque não foi de classes antagónicas, mas de homens e grupos que se opunham pelo ideal patriótico, pelo sentimento afetivo e por ódios e interesses. Que o povo das cidades e campos fosse em maior número do partido do Mestre não causa espanto, na medida em que fora o grande sacrificado das guerras de D. Fernando e a parte da nação que melhor sentia […] a necessidade de uma vida estável. Mas a sua participação fez-se por um espírito de ligação à terra e de raiva contra o invasor que o partido de D. Beatriz, apesar da sua base legalista, para muitos representava. […] Testemunho claro de um sentimento nacional, que a guerra contra Castela e o perigo que ela permitiu vencer acabou por transformar em consciência de um povo. Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal, 6.ª edição, vol. I, Lisboa, Editorial Verbo, 2001, pp. 299-304 (texto adaptado) CONSOLIDA 1. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as afirmações falsas. a) A crise nacional justifica-se pela política seguida por D. Fernando. b) A grande separação entre a população portuguesa teve por base a sucessão dinástica. c) A crise de 1383 originou uma luta entre os diferentes estratos sociais. d) O povo foi a classe que menos aderiu à causa do Mestre, pois era a que tinha mais a perder. e) De acordo com o autor, o sentimento de pertença a um território motivou a oposição a Castela. f) A consciência nacional de um povo saiu fragilizada desta crise. 5 10 15 20 25 30 1 Concitou: provocou. Iluminura da Batalha de Aljubarrota, Jean de Wavrin, Anciennes et nouvelles chroniques d' Angleterre, c. 1470 – c. 1480. PROFESSOR Leitura 8.1. Educação Literária 16.1. MC Consolida 1. a)V; b)V; c) F («Em 1383 não houve uma luta de classes, mas apenas o choque entre pessoas de vários estratos que tomaram posições ideológicas dife- rentes»ll.17-18); d) F («Que o povo das cidades e cam- pos fosse em maior número do par- tidodoMestrenãocausaespanto,na medida em que fora o grande sacrifi- cado das guerras de D. Fernando e a partedanaçãoquemelhorsentia[…] a necessidade de uma vida estável.» ll.23-26); e)V; f) F(«Testemunhoclarodeumsenti- mento nacional, que a guerra contra Castela e o perigo que ela permitiu vencer acabou por transformar em consciênciadeumpovo.»ll.29-30).
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    81 Contextualização histórico-literária 3. Aarte narrativa de Fernão Lopes A sua experiência profissional de notário e de arquivista preparou-o para conceber a necessidade de fundar a verdade histórica no documento escrito, englobando nesta noçãotantonarrativascomoregistosoficiais.Poroutrolado,tendotrabalhadocercade trinta anos ao serviço da corte, gozou de condições especialmente favoráveis ao conhe- cimento de factos e de pessoas, e ao acesso a uma coleção de materiais de investiga- ção e de utilização textual que doutro modo lhe teriam estado vedados, e produziram consequências importantes na sua obra. As principais inovações metodológicas que introduziu no seu modo de escrever história estão enunciadas no prólogo à Crónica de D. João I: certificou tudo o que afirma através de escritos anteriores, consciente da tendência geral dos historiadores para se deixarem influenciar pelos laços afetivos que os ligam aos seus conterrâneos e antepassados, e multiplicou o número e a diversidade desses escritos para diminuir a margem de erro; considera, por isso, ter-se eximido àquele defeito. Na construção do texto imita a historiografia anterior, continuando a baseá-la em operações de corte e montagem de textos doutros autores, na sua maioria narrativos,entreosquaisdápreferênciaarelatoscontemporâneosdosacontecimentos. Serve-se de narrativas portuguesas e castelhanas, sobretudo, e de algumas doutros paí- ses peninsulares. Sujeita-as, no entanto, a uma vigilância cuidadosa, quer comparando entre si versões que divergem, e procurando decidir qual é a mais verosímil, ou a mais concordante com a lógica interna dos factos, ou, simplesmente, a que mais convém à suahistória;quer,quandolheépossíveleoconsideraapropriado,verificandoaverdade do que dizem pelo confronto com documentos oficiais, cujo texto é frequentemente integradonapróprianarrativa.Sãodeváriostiposeprocedências,pertencentesàChan- celaria régia e a outros arquivos, incluindo registos de atos administrativos, cartas de interesse público e privado de âmbito interno e internacional, tratados de guerra, de paz e casamento, atas de Cortes e doutras reuniões e cerimónias, inscrições lavradas em pedra. Reconhecendo-lhes validade superior à de qualquer outro testemunho, usa -os para eliminar dúvidas ou para corrigir erros que identifica numa narrativa. […] Os fragmentos narrativos aglutinam-se aos documentos e às citações, mais raras, de obrasdeteordiferente,ensaísticoounovelesco,nointeriordumtextoque,noentanto, nunca se confunde com nenhuma das fontes. Para tal originalidade a intervenção do cronista é tão determinante na composição de frases e trechos seus como na escolha dos alheios e dos modos de os combinar, e nas pequenas alterações que lhes introduz na redação. É uma técnica híbrida de escrita, por vezes hoje difícil de apreciar, mas que permite ao autor um domínio perfeito dos seus efeitos, e a composição duma narrativa que produz o seu próprio sentido. Fernão Lopes afirma em vários lugares do texto que a história dá valor ético à reme- moração do passado, propondo exemplos a imitar e outros a rejeitar. O que ele não afirma, mas pratica, é o enquadramento do valor ético numa certa visão da realidade, em que os heróis e culpados têm o seu quinhão, e que marca o itinerário narrativo e o seu desfecho. Baseando-se nos factos apurados através das fontes, o texto desenvolve, com os atos e falas das personagens e os comentários do autor, uma interpretação sufi- cientemente explícita. Teresa Amado, «Fernão Lopes», in Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org.), Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, 2.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho, 2000, pp. 271-273 (texto adaptado) 5 10 15 20 25 30 35 40 Possível retrato de Fernão Lopes nos Painéis de São Vicente de Fora, atribuídos a Nuno Gonçalves, século XV (Museu Nacional de Arte Antiga). PROFESSOR Leitura 8.1. Educação Literária 15.1; 15.2; 16.1. MC
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    82 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I CONSOLIDA 1. Seleciona a opção que completa adequadamente cada uma das afirmações. 1.1 O cargo de Fernão Lopes como guarda-mor da Torre do Tombo permitiu-lhe (A) usar apenas os textos que julgou serem mais importantes para a sua obra. (B) ter acesso a documentos régios que lhe estariam vedados. (C) reunir uma coleção de registos oficiais que influenciaram efetivamente a sua obra. (D) ter acesso a documentos régios, narrativas e testemunhos, nos quais baseou a sua obra. 1.2 Segundo Fernão Lopes, ele conseguiu escapar a erros cometidos por outros histo- riadores, porque tinha provas dos acontecimentos suportadas por (A) laços afetivos dos antepassados que permitiam construir a verdadeira identi- dade nacional. (B) documentos do mesmo autor, evitando assim a dispersão de fontes e de visões. (C) diferentes documentos e fontes. (D) documentos variados e laços afetivos, o que possibilitava um confronto de visões e assegurava a verdade. 1.3 Documentos como registos de atos administrativos, car- tas, atas, entre outros servem para (A) fundamentar a verdade. (B) complementar a verdade. (C) confrontar a verdade. (D) tirar apenas dúvidas quanto a determinados momen- tos ou situações. 1.4 Para o cronista, o valor da verdade é (A) recordar o passado com a intenção de o repetir no presente. (B) repetir o passado tendo o presente sempre em mente. (C) imitar o passado, pois nele é que reside a verdade. (D) recordar o passado trazendo à memória exemplos a não repetir e outros a imitar. Primeira página da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, edição impressa de 1644. PROFESSOR Consolida 1. 1.1(D); 1.2(C); 1.3(A); 1.4(D).
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    83 1.ª parte –Crónica de D. João I 83 Fernão Lopes, Crónica de D. João I (1.ª parte) C rónica – considerada como narrativa historiográfica, a crónica medieval é um BOUFQBTTBEPEBNPEFSOBIJTUPSJPHSBGJByDSØOJDBGB[QSFWBMFDFSBEJOÉNJDB dos eventos como princípio que rege uma construção narrativa […] normalmente res- peitando uma ordenação cronológica; o relato desses eventos, nem sempre apoiado no testemunho dos documentos (quando não existem ou escapam ao conhecimento do cronista), pode ser completado por uma discreta ou evidente ficcionalização, sobretudo quando está em causa aquele que foi um dos propósitos da crónica medie- val: proceder ao destaque de um herói (rei, guerreiro, etc.), cujo trajeto pessoal e histórico comanda o desenvolvimento da crónica. Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, Dicionário de narratologia, 6.a edição, Coimbra, Livraria Almedina, 1998, pp. 87-88 EDUCAÇÃO LITERÁRIA Do alvoroço que foi na cidade cuidando que matavom o Meestre, e como aló1 foi Alvoro Paaez2 e muitas gentes com ele O Page do Meestre que estava aa porta, como lhe disserom que fosse pela vila segundo já era percebido3 , começou d’ir rijamente4 a galope em cima do cavalo em que estava, dizendo altas vozes, braadando pela rua: – Matom o Meestre! matom o Meestre nos Paaços da Rainha! Acorree ao Meestre que matam! E assi chegou a casa d’Alvoro Paaez que era dali grande espaço5 . As gentes que esto ouviam, saiam aa rua veer que cousa era; e começando de falar uùs com os outros, alvoraçavom-se nas voontades6 , e começavom de tomar armas cada uù como melhor e mais asinha7 podia. Alvoro Paaez que estava prestes8 e armado com ùa coifa9 na cabeça segundo usança daquel tempo, cavalgou logo a pressa em cima duù cavalo que anos havia que nom cavalgara; e todos seus aliados com ele, braadando a quaes quer10 que achava dizendo: – Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre, ca filho é del-Rei dom Pedro. Em contexto E m abril de 1383, D. Fernando assinou com D. João I de Castela o Tratado de Salva- terra de Magos, que impunha que apenas um filho de D. Beatriz pudesse subir ao trono português. Em outubro desse ano, D. Fernando morreu sem mais herdeiros. Após a morte do monarca procedeu-se, em várias terras do reino, à aclamação de D. Beatriz e do marido. D. Leonor Teles tornou-se regente do reino em nome da filha. No entanto, a aclamação de um rei castelhano acabou por dividir o reino, tendo desencadeado grande descontentamento no povo e em parte da nobreza. D. Leonor tinha como conselheiro um galego, o conde João Fernandes de Andeiro, receando-se a forte influência deste na gestão do reino. 1 Aló: lá. 2 Alvoro Paaez: Álvaro Pais (chan- celer-mor dos reis D. Pedro I e D. Fernando, responsável pelo plano e pelo alvoroço que conduziu à sublevação do povo em socorro de D. João). 3 Percebido: combinado. 4 Rijamente: energicamente, depressa. 5 Dali grande espaço: longe dali. 6 Alvoraçavom-se nas voontades: excitavam-se os ânimos. 7 Asinha: rapidamente. 8 Prestes: pronto, preparado. 9 Coifa: parte da armadura que cobria a cabeça. 10 Quaes quer: quaisquer. 5 10 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.9; 15.1; 15.2; 15.4. Gramática 18.3. Oralidade 3.2; 5.2; 5.3. MC
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    84 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I E assi braadavom el e o Page indo pela rua. Soaram as vozes do arroido11 pela cidade ouvindo todos braadar que matavom o Meestre; e assi como viuva que rei nom tiinha, e como se lhe este ficaraemlogode12 marido,semoveromtodoscommãoarmada13 ,correndo apressaperaudeziamqueseestofazia,porlhedaremvidaeescusar14 morte. Alvoro Paaez nom quedava d’ir pera alá15 , braadando a todos: – Acorramos ao Meestre, amigos, acorramos ao Meestre que matam sem por quê! A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha cousa de veer. Nom cabiam pelas ruas principaes, e atrevessavom logares escusos16 , desejando cada uù de seer o primeiro; e preguntando uùs aos outros quem matava o Meestre, nom minguava17 quem responder que o matava o Conde Joam Fernandez, per mandado da Rainha. E per voontade de Deos todos feitos duù coraçom com talente18 de o vingar, como forom aas portas do Paaço que eram já çarradas19 , ante que chegassem, com espantosas palavras começarom de dizer: – U matom o Meestre? que é do Meestre? Quem çarrou estas portas? Alieramouvidosbradosdedesvairadas20 maneiras.Taesihaviaquecerte- ficavom que o Meestre era morto, pois as portas estavom çarradas, dizendo que as britassem21 para entrar dentro, e veeriam que era do Meestre, ou que cousa era aquela. Deles braadavom por lenha, e que veesse lume pera poerem fogo aos Paaços, e quei- mar o treedor e a aleivosa22 . Outros se aficavom23 pedindo escaadas pera sobir acima, pera veerem que era do Meestre; e em todo isto era o arroido atam grande que se nom entendiam uùs com os outros, nem determinavom neùa cousa. E nom soomente era istoaaportadosPaaços,masaindaarredordelesperuhomeèsemolherespodiamestar. Ùas viinham com feixes de lenha, outras tragiam carqueija pera acender o fogo cui- dando queimar o muro dos Paaços com ela, dizendo muitos doestos24 contra a Rainha. De cima nom minguava quem braadar que o Meestre era vivo, e o Conde Joam Fernandez morto; mas isto nom queria neuù creer, dizendo: – Pois se vivo é, mostrae-no-lo e vee-lo-emos. Entom os do Meestre veendo tam grande alvoroço como este, e que cada vez se acendia mais, disserom que fosse sua mercee de se mostrar aaquelas gentes, doutra guisa25 poderiam quebrar as portas, ou lhe poer fogo, e entrando assi dentro per força, nom lhe poderiam depois tolher26 de fazer o que quisessem. Ali se mostrou o Meestre a ùa grande janela que viinha sobre a rua onde estava Alvoro Paaez e a mais força de gente, e disse: – Amigos, apacificae vos, ca eu vivo e são som27 a Deos graças. E tanta era a torvaçam28 deles, e assi tiinham já em creença que o Meestre era morto, que taes havia i que aperfiavom que nom era aquele; porem conhecendo-o todos clara- mente, houverom gram prazer quando o virom, e deziam uùs contra os outros: – Ó que mal fez! pois que matou o treedor do Conde, que29 nom matou logo a aleivosa com ele! Creedes em Deos30 , ainda lhe há de viinr alguù mal per ela. Oolhae e veede que maldade tam grande, mandarom-no chamar onde ia já de seu caminho, pera o matarem aqui per traiçom. Ó aleivosa! já nos matou uù senhor31 , e agora nos queria matar outro; leixae-a, ca ainda há mal d’acabar por estas cousas que faz! 11 Arroido: ruído. 12 Em logo de: em lugar de. 13 Com mão armada: com armas na mão. 14 Escusar: evitar. 15 Nom quedava d’ir pera alá: não parava de ir para lá; con- tinuava a dirigir-se para lá. 16 Escusos: escondidos ou pouco frequentados. 17 Minguava: faltava. 18 Talente: vontade. 19 Çarradas: encerradas. 20 Desvairadas: várias, diversas. 21 Britassem: arrombassem. 22 Aleivosa: maldosa, traidora. 23 Aficavom: teimavam. 24 Doestos: insultos. 25 Guisa: maneira, modo. 26 Tolher: impedir. 27 Som: sou. 28 Torvaçam: perturbação. 29 Que: porque. 30 Creedes em Deos: Tão certo como Deus existir. 31 Senhor: D. Fernando (o povo julgava que D. Leonor contribuíra para a sua morte). 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 Retrato de D. João I, século XV (Museu Nacional de Arte Antiga).
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    85 1.ª parte –Crónica de D. João I E sem duvida se eles entrarom dentro, nom se escusara a Rainha de morte, e fora maravilha quantos eram da sua parte e do Conde poderem escapar. O Meestre estava aa janela, e todos oolhavom contra ele dizendo: – Ó, senhor! como vos quiserom matar per treiçom, beento seja Deos que vos guar- dou desse treedor! Viinde-vos, dae ao demo esses Paaços, nom sejaes lá mais. Eemdizendoesto,muitoschoravomcomprazerdeoveervivo.Veendoelestonce32 queneùaduvidatiinhaemsuasegurança,deceoafundo33 ecavalgoucomosseusacom- panhado de todolos outros que era maravilha de veer. Os quaes mui ledos arredor dele, braadavam dizendo: – Que nos mandaes fazer, Senhor? que querees que façamos? E el lhe respondia, aadur34 podendo seer ouvido, que lho gradecia muito, mas que por estonce nom havia deles mais mester. Fernão Lopes, Crónica de D. João I (textos escolhidos), apresentação crítica de Teresa Amado, Lisboa, Seara Nova/Comunicação, 1980, capítulo 11, pp. 95-99 1. Quanto à organização interna, o excerto apresentado pode ser dividido em várias partes. 1.1 Identifica-as e resume a ideia principal de cada uma delas. 2. O narrador vai alternando entre discurso direto e indireto ao longo da narração. 2.1 YQMJDJUBPFGFJUPQSPEV[JEPFBTVBJNQPSUÉODJBQBSBBNJTTÍPEPDSPOJTUB 3. Fernão Lopes sugere uma certa predestinação e proteção divinas da figura do Mestre. 3.1 Retira do texto três exemplos que comprovem esta afirmação. 4. Identifica os recursos expressivos presentes nos seguintes exemplos e explicita a sua intencionalidade. a) «assi como viuva que rei nom tiinha […]» (l. 17) b) «pera sobir acima» (l. 37); 5. Como um hábil realizador de cinema, Fernão Lopes vai narrando a ação numa sucessão de planos, espaços e atores. 5.1 Completa o seguinte esquema. 6. Analisa o ponto de vista das diferentes personagens, enquanto atores individuais e coletivos. GRAMÁTICA 1. Na prosa de Fernão Lopes predomina a coordenação, nomeadamente de orações coor- denadas copulativas sindéticas e assindéticas. 1.1 Relê o texto das linhas 61 a 72 e retira um exemplo de cada uma. Plano 1 Espaço: Porta do Paço da Rainha e ruas de Lisboa Ator: a) Local onde se dirige: b) Plano 2 Espaço: Ruas de Lisboa Atores: c) Estado de espírito: d) Plano 3 Espaço: e) Atores: Mestre Estado de espírito: f) Plano 4 Espaço: g) Atores: Mestre Estado de espírito final do povo: h) Plano 5 Espaço: Rua do Paço Atitude do povo: i) 32 Estonce: então. 33 Afundo: abaixo. 34 Aadur: dificilmente. 65 70 Os atores individuais e coletivos p. 87 FI Coordenação pp. 327 SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.1 1.a parte: o pajem do Mestre sai dos Paços da Rainha, em direção à casa de Álvaro Pais, e lança o boato, con- forme combinado; 2.a parte: o povo sai à rua juntamente com Álvaro PaisparaauxiliaroMestre;3.a parte: cresce a fúria do povo, agora em multidão, que quer saber notícias do Mestre; 4.a parte: o Mestre apa- recevivoàjanela,acalmandoopovo; 5.a parte:oMestredesce,junta-seao povoedespede-sedamultidão. 2.1Aalternânciaentreasduasmoda- lidades do discurso confere drama- tismo, veracidade ao que é narrado, uma vez que através do discurso direto temos acesso às falas «reais» dos intervenientes. Desta forma, além de obtermos maior dinamismo na narração, Fernão Lopes cumpre a sua missão de relatar a verdade dos acontecimentos. 3.1 O narrador deixa transparecer a ideia de que tudo aconteceu por predestinação divina: «E per voon- tade de Deos» (l. 28); «[…] ca eu vivo e são som a Deos graças» (l. 52); «[…] beento seja Deos que vos guardou dessetreedor!»(ll.64-65). 4. a) comparação/personificação, sugerindo o desgoverno e desprote- ção a que a cidade (mulher) ficaria sujeita sem rei, tal como acontece com as viúvas; b) pleonasmo, por reforçaroefeitovisualdaação. Gramática 1.1 Sindética: «O Meestre estava aa janela,etodosoolhavomcontraele» (ll. 62-63); assindética: «Viinde-vos, dae ao demo esses Paaços, nom sejaeslámais.»(l.65)
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    86 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I ORALIDADE Apresentação oral 1. Num passado não muito distante, em 1974, assistiu-se à deposição do regime ditato- rial salazarista, através de um golpe de estado militar legitimado pelo povo, que saiu à rua em apoio aos militares. 1.1 Lê o testemunho de um dos intervenientes. 2. A partir do texto, compara os dois momentos da História de Portugal. Segue as alíneas: a) tempo da história; b) objetivos do povo; c) meios de comunicação; d) figuras que se destacam do povo; e) líder da revolução; f) opressores; g) atitudes do povo; h) desfecho. Foi para mim um dia longo e emotivo: às 4hdamadrugada,otelefonemadumsobrinho – Bernardo Castelo-Melhor – avisou-me que, de meia em meia hora, o Rádio Clube Portu- guês emitia um comunicado do Movimento dasForçasArmadas,noqualsefalavaemliber- dade e se apelava à calma e à adesão do povo. […]. Nãopudeconteraminhaimpaciênciaefui para a rua. […] No Largo do Carmo estava a forçadeSantarémeestavasobretudoSalgueiro Maia.[…]SalgueiroMaiaestavacercado;pelo RossioquaseatéaoaltodaCalçadadoCarmo, pelaRuadaTrindadeeLargodaMisericórdia, onde se encontravam entrincheiradas as forças da GNR. No Chiado, até aos largos, os blin- dados hostis da Cavalaria 7, e julgo recordar que também da Cavalaria 2 e Metralhadoras. […] Levada pelo sopro da liberdade, a mul- tidão acorria e o quadro do povo expressava ali a vontade da nação contra qualquer velei- dade de repressão sangrenta. Maia, audacioso e sereno, pediu-me que falasse ao povo. Fi-lo por duas vezes, uma através dos microfones dum camião da Rádio e, mais tarde, com um megafone,empoleiradonaguaritadasentinela do Carmo. […] A certa altura, falei a Maia do cerco potencial em que se achava envolvido e na evidente necessidade de não prolongar indefinidamente a tomada do Carmo, onde Marcelo e parte do governo se encontravam, guardando com eles o selo da soberania e do poder. Foi então que pude medir a dimensão extraordináriadaquelehomem.[…] E mal chegou [a Cavalaria 3] de Estre- moz, Maia sentiu-se em posição de enviar um ultimato de rendição ao quartel e lançar dois tiros de aviso à fachada, perante o entusiasmo incontido da multidão que gritava: «Está na hora!VivaaLiberdade!» Fiquei no Carmo até à rendição do go- verno. A partir daí, a euforia da vitória inun- douLisboa. FranciscoSousaTavares,«Omeu 25deabril», in Sábado, n.º 519 (abril de 2014) (texto adaptado) Francisco Sousa Tavares (à esquerda) na tarde de 25 de abril de 1974, no Largo do Carmo; Capitão Salgueiro Maia (à direita) (1944-1992). 25 30 35 40 O MEU 25 DE ABRIL PROFESSOR (pág.85) 5.1 a) pajem; b) casa de Álvaro Pais; c) pajem, Álvaro Pais e povo; d) re- volta e preocupação; e) portas do Paço da Rainha; f) vingança; g) janela do Paço; h) contentamento; i) dispo- nibilidade para auxiliar a causa do MestredeAvis. 6. Atores/ações/exemplos textuais: “$7EFD767iH;E;@6;H;6G3¬?3F3A Conde Andeiro nos Paços da Rainha; “'37?;@6;H;6G3¬;@8AD?37;@5;F3 o povo gritando que alguém quer matar o Mestre nos Paços da Rai- nha: «O Page do Meestre […] galope em cima do cavalo em que estava, dizendo altas vozes, braadando pela rua»(ll.1-3); «Eassibraadavomeleo Pageindopelarua»(l.15). “ ÃH3DA '3;E ;@6;H;6G3 ¬ 39;F3 A povo clamando que alguém quer mataroMestrenosPaçosdaRainha: «E assi braadavom el e o Page indo pela rua» (l. 15); «Alvoro Paaez […] braadandoatodos»(l.20). “'AHA5A7F;HA¬3975A?AG?FA6A e acorre aos Paços da Rainha para acudir ao Mestre, embora o cronista nos dê a conhecer ações individuais anónimas. Cada um deles é res- ponsável por ações como gritar, ir buscar lenha para queimar a porta do palácio, pegar em «armas»…: «Ali eram ouvidos brados de desvaira- das maneiras» (l. 32); «Deles braa- davom por lenha» (l. 36); «Outros se aficavom pedindo escaadas pera sobir acima» (l. 37); «Ũas viinham 5A?87;J7E677@:3AGFD3EFD39;3? 53DCG7;3 B7D3 357@67D A 8A9A 5G;- dando queimar o muro»; «dizendo muitos doestos contra a Rainha» (ll.41-42). Gramática 1.1 «e todos oolhavom contra ele» (l. 63) (sindética); «Viinde-vos, dae ao demo esses Paaços, nom sejaes lá mais»(l.65)(assindética). Sugestões: a) Século XIV / século XX; b) Salvar o Mestre de Avis, que garantirá a inde- B7@6~@5;36AD7;@A835733EF73 pôr fim à ditadura que vigorava no país; c) A cavalo / pela rádio; d) A ¤3DD3;3?;‹63¥ 8AD{3E3D?363E63 GNR, cavalaria; e) Álvaro Paes e o Mestre de Avis / Salgueiro Maia; f) D. João de Castela / governo autoritá- rio; g) Em ambos os casos, sai à rua e participacomoatorcoletivo;h)Inde- pendência/liberdade. 5 10 15 20
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    87 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 1 Os atores individuais e coletivos 1. Os protagonistas […] A morte do Conde Andeiro produziu uma inflexão notável na situação, pois na pessoa do seu executor desenhava-se a promessa de um chefe […]. Com este ponto de partida bem explicitado […], Fernão Lopes tem o caminho aberto para escrever a história lógica e convincente da ascensão e triunfo do Mestre de Avis, na qual este figura sempre mais como escolhido do que como interventor voluntário. […] Eleito pelo povo, quase se pode dizer instintivamente, para Regedor e Defensor em dezembro de 1383, seria de novo uma eleição popular (agora participada por todos os estratos sociais) que o faria rei em abril de 1385. […] A D. João [Fernão Lopes] atribui o mérito indiscutível de oferecer a disposição do seu nome e do seu corpo, para ocupar o lugar de senhor que, à partida, se apresenta no texto mais como um risco do que um privilégio. Ao longo da narrativa, é com bastante dignidade que ele se mantém constante nessa atitude inicial. Álvaro Pais [o «homem bom»] sabia manejar o povo de Lisboa e gozava de bom ascendente sobre a sua burguesia. [Assim, através de um estratagema bem planeado levou o povo de Lisboa a acorrer ao Paço da Rainha.] Mesmo que anónimas na sua maioria, as pessoas são observadas de perto, a expres- são do rosto, o tom da voz, os gestos, os passos, as poses, tudo é dado a ver. Teresa Amado, «O sentido da História», in Isabel Allegro de Magalhães (coord.), História e antologia da literatura portuguesa – século XV, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, pp. 65-76 (texto adaptado) 5 10 15 5 10 2. Gente de armas Para o cronista português, a diferenciação dos «pequenos» é a única maneira de os tornar presentes e de lhes dar uma presença humanamente plena. Também ele diz que, no acender das ruas pelo rastilho incandescente que de súbito as percorre, com os brados do pajem de que matavam o Mestre, «as gentes», saindo para a rua, «começavom detomararmascadauùcomomelhoremaisasinhapodia», e que, à medida que o pajem avançava, logo acompanhado de Álvaro Pais, «se moverom todos com maão armada, correndo a pressa pera hu deziam que sse esto fazia» […]. Quer dizer que havia gente e gente,eque,seagentedearmasacorreu,aelessejuntaramosoutrosquenãoastinham a não ser paus ou pedras, como muitas vezes depois se vai ler no texto. Destes, as falas quedepoissesucedem,emborasemsujeitonomeado,sãomeiosdeeficáciasegurapara lhes dar, enquanto pessoas, um estatuto igual ao dos outros. Teresa Amado, O passado e o presente – Ler Fernão Lopes, Lisboa, Ed. Presença, 2007, p. 32 CONSOLIDA 1. Transcreve passagens dos textos que confirmam a veracidade das afirmações: a) O Mestre de Avis, enquanto futuro rei, sobrepõe a coletividade ao seu individualismo. b) Por detrás da insurreição popular está uma figura singular. c) Fernão Lopes descreve o comportamento das personagens por observação atenta. d) O povo ganha voz entre os nobres. PROFESSOR Leitura 8.1. Educação Literária 15.1; 15.2; 16.1. MC Consolida 1.o texto a)«estefigurasempremaiscomo escolhido do que como interven- torvoluntário»(ll.4-5). b) «Álvaro Pais [o “homem bom”] sabia manejar o povo de Lisboa e gozava de bom ascendente sobre asuaburguesia.[Assimatravésde um estratagema bem planeado levouopovodeLisboaaacorrerao PaçodaRainha]»(ll.13-15). c) «a expressão do rosto, o tom da voz,osgestos,ospassos,asposes, tudoédadoaver»(ll.16-17). 2.o texto d) «a diferenciação dos “peque- nos” é a única maneira de os tor- nar presentes e de lhes dar uma presença humanamente plena» (ll.1-2). PowerPoint Ficha informativa n.o 1
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    88 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I Predicativo do complemento direto 1. Função sintática desempenhada pelo constituinte selecionado por um verbo transitivo predicativo que predica algo acerca do complemento direto. O predicativo do complemento direto pode ser um grupo nominal (a), um grupo adje- tival (b), ou um grupo preposicional (c). Exemplos: a) O João considera a Maria uma ótima professora. b) O João acha a Maria bonita. c) O João acha esse filme sem interesse nenhum. Nestes casos, complemento e predicativo do complemento direto formam o que se pode chamar uma predicação complexa, parafraseável por uma oração completiva finita (d). Dicionário Terminológico, DGIDC, 2008 (adaptado). Exemplo: d) João considera que a Maria é uma ótima professora. 2. Os verbos transitivos predicativos que selecionam complemento direto e predicativo do complemento direto são os seguintes: 3. Se uma frase passiva apresentar predicativo do complemento direto (e), este passará a predicativo numa frase passiva (f), dado que o complemento direto passará a sujeito. Exemplos: e) Os castelhanos consideraram Lisboa perdida após a derrota. f) Lisboa foi considerada perdida pelos castelhanos após a derrota. 4. O predicativo do complemento direto pode anteceder-se ao complemento direto que predica (g): Exemplo: g) Fernão Lopes tornou muito vivas as desgraças do povo de Lisboa. 5. Mantendo o predicativo do complemento direto, podemos pronominalizar o comple- mento direto (h) (i). Tal não é possível quando existe um modificador do nome depois do complemento direto (j) (k). Exemplos: h) Alguns nobres consideraram o Conde Andeiro um homem manipulador. i) Aguns nobres consideraram-no um homem manipulador. j) Alguns nobres viram o Conde Andeiro, um homem manipulador. k) *Alguns nobres viram-no, um homem manipulador. tachar tchamar tconsiderar tcrer tdeclarar tdesignar teleger tencontrar testimar tfazer tjulgar tnomear tproclamar tsupor tter (por) tter-se (por) ttornar ttratar (por) FICHA INFORMATIVA N.O 2 complemento direto sujeito predicativo do complemento direto predicativo do sujeito Nota: o asterisco assinala uma frase agramatical.
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    89 Ficha informativa CONSOLIDA 1. Identificae classifica nas frases seguintes os grupos sintáticos (grupo nominal, grupo adjetival ou grupo preposicional) que podem desempenhar a função de predicativo do complemento direto. a) Os populares aclamaram D. João I rei de Portugal. b) Álvaro Pais achou o esquema perfeito. c) As cortes têm-no como salvador da pátria. d) Os habitantes de Lisboa tratavam a rainha por «aleivosa». 1.1 Copia das frases do exercício 1 os verbos que selecionam a função sintática de predicativo do complemento direto. 2. Identifica nas frases seguintes o complemento direto e o predicativo do complemento direto. Regista esses elementos. a) Álvaro Pais designou para a missão um pajem. b) Todos acharam o Mestre mais capaz. c) A história julgará o Conde Andeiro como cúmplice. d) O Mestre nomeou Álvaro Pais mentor da arruada. 3. Expande as seguintes frases usando um complemento direto e um predicativo do com- plemento direto: a) Os populares creem… b) D. João supôs… c) Os castelhanos julgaram… d) O povo proclamou… 4. Pronominaliza, sempre que possível, os elementos que, nas seguintes frases, com- põem o complemento direto. Tira as tuas conclusões quanto à classificação dos verbos. a) Álvaro Pais estudou o esquema perigoso. b) Álvaro Pais achou o esquema perigoso. 5. Reescreve as frases apresentadas parafraseando o complemento direto e o predicativo do complemento direto por uma oração subordinada completiva. a) O rei de Castela considerou Lisboa perdida. b) O Mestre estimava a batalha ganha no final do dia. c) O cronista declarou o Mestre a salvação de Portugal. 6. Reescreve as frases na forma ativa ou passiva. a) A História julgará o Conde Andeiro como cúmplice. b) O pajem foi nomeado arauto da corte por Álvaro Pais. c) No final do dia, o Mestre declararia Lisboa livre dos castelhanos. d) O Mestre é julgado morto no Paço da Rainha pela população. PROFESSOR Gramátiva 18.1. MC Consolida 1. a) rei de Portugal (grupo nomi- nal); b) perfeito (grupo adjetival); c)comosalvadordapátria(grupo preposicional); d) por «aleivosa» (grupopreposicional); 1.1 a) aclamar; b) achar; c) ter (como); d)tratar(por). 2. a) complemento direto – um pajem / predicativo do comple- mento direto – para a missão; b) complemento direto – o Mestre / predicativo do complemento di- reto – mais capaz; c) comple- mentodireto– oCondeAndeiro/ predicativo do complemento direto – como cúmplice; d) com- plemento direto – Álvaro Pais / predicativo do complemento direto–mentordaarruada. 3. a)oMestremorto.b)oscastelha- nos derrotados. c) o cerco eficaz. d)D.Joãodefensordoreino. 4. a) *Álvaro Pais estudou-o perigoso. b) Álvaro Pais achou-o perigoso. O verbo «estudar» é transitivo direto (permite a pronominalização do comple- mentodireto,noqualseintegrao modificador do nome); enquanto «achar» é transitivo predicativo (permite a pronominalização do complemento direto, mantendo oseupredicativo). 5. a) O rei de Castela considerou queLisboaestavaperdida. b) O Mestre estimava que ga- nhavaabatalhanofinaldodia. c) O cronista declarou que o Mes- tre era/fora a salvação de Portu- gal. 6. a) O Conde Andeiro será jul- gado como cúmplice pela His- tória.b) Álvaro Pais nomeou o pajem arauto da corte. c) Lisboa seria declarada livre dos caste- lhanos pelo Mestre no final do dia.d)ApopulaçãojulgaoMestre mortonoPaçodaRainha. PowerPoint Ficha informativa n.o 2
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    90 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I 90 90 EDUCAÇÃO LITERÁRIA Das tribulações que Lixboa padecia per mingua de mantiimentos Estando a cidade assi cercada na maneira que já ouvistes, gastavom-se os mantiimentos cada vez mais, por as muitas gentes que em ela havia, assi dos que se colherom dentro, do termo, de homeès e aldeãos com molheres e filhos1 come dos que veerom na frota do Porto; e alguùs se tremetiam2 aas vezes em batees3 e passavom de noite escusamente4 contra as partes de Ribatejo, e metendo-se em alguùs esteiros5 , ali carregavom de triigo que já achavomprestes,perrecadosqueantemandavom.Epartiamdenoiteremando mui rijamente, e algùas galees quando os sentiam viinr remando, isso meesmo remavom a pressa sobre eles; e os batees por lhe fugir, e elas por os tomar, eram postos em grande trabalho. Os que esperavom por tal triigo andavom per a ribeira da parte de Exobregas6 , aguardando quando veesse, e os que velavom, se viiam as galees remar contra lá, repi- cavom logo por que acorrerem7 . Os da cidade como ouviam o repico, leixavam o sono, e tomavom as armas e saía muita gente, e defendiam-nos aas beestas8 se compria9 , ferindo-se aas vezes dùa parte e doutra; porem nunca foi vez que10 tomassem alguù, salvoùaquecertosbateesestavomemRibatejocomtriigo,eforomdescubertosperuù homem natural d’Almadãa, e tomados per os Castelãos; e el foi depois tomado e preso e arrastado, e decepado e enforcado. E posto que tal triigo algùa ajuda fezesse, era tam pouco e tam raramente, que houvera mester de o multiplicar como fez Jesu Cristo aos pães, com que fartou os cinco mil homeès. Em esto gastou-se11 a cidade assi apertadamente, que as pubricas esmolas começa- rom desfalecer12 , e neùa geeraçom de pobres achava quem lhe dar pam; de guisa que a perda comum13 vencendo de todo a piedade, e veendo a gram mingua dos mantiimen- tos,estabeleceromdeitarforaasgentesminguadasenomperteencentesperadefensom; e esto foi feito duas ou tres vezes, ataa lançarem fora as mancebas mundairas14 e Judeus e outras semelhantes, dizendo que pois taes pessoas nom eram pera pelejar, que nom gastassem os mantiimentos aos defensores; mas isto nom aproveitava cousa que muito prestasse. Iluminura do Cerco de Lisboa de 1384, in Jean Froissant, Crónicas, 1401-1500. 1 Homeès e aldeãos com molheres e filhos: aldeãos da região de Lisboa que se recolheram dentro dos muros da cidade com mulhe- res e filhos. 2 Tremetiam: metiam, embarca- vam. 3 Batees: batéis. 4 Escusamente: em segredo. 5 Esteiros: braço do rio que se estende pela terra. 6 Exobregas: Xabregas. 7 Repicavom logo por que acorre- rem: os sinos tocavam a rebate para que os socorressem. 8 Beestas: arma antiga que dispa- rava setas. 9 Se compria: se era necessário. 10 Nunca foi vez que: nunca aconte- ceu que. 11 Gastou-se: consumiu-se. 12 Desfalecer: faltar. 13 Perda comum: as privações comuns a todos. 14 Mancebas mundairas: prostitutas. 5 10 15 20 25 5 Em contexto Após a morte do Conde Andeiro, D. Leonor Teles viu-se obrigada a sair de Lisboa, fugindo para Santarém, com o intuito de posteriormente pedir ajuda aos reis de Cas- tela, D. João I e D. Beatriz, sua filha. Receando uma invasão do exército castelhano, o povo de Lisboa reconheceu o Mestre de Avis, D. João, como «Regedor e Defensor do Reino», e a burguesia apoiou-o financeiramente, de modo a custear as despesas da guerra. No início de 1384, o rei castelhano invadiu Portugal para reclamar o trono, tendo por base o que havia sido estabelecido pelo Tratado de Salvaterra de Magos, e ocupou Santarém. Em abril desse ano travou-se a Batalha dos Atoleiros, da qual o rei invasor saiu derrotado. Pouco tempo depois, em maio, o rei castelhano, regressou e cercou a cidade de Lisboa. No entanto, o povo não se rendeu e o cerco foi levantado quatro meses depois, devido à peste. 5 5 5 5 5 5 5 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 15.1; 15.2. Gramática 18.1; 18.2; 18.3; 18.4; 18.5. MC
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    91 1.ª parte –Crónica de D. João I Os Castelãos aa primeira prazia-lhe com eles, e davom-lhe de comer e acolhimento; depois veendo que esto era com fame, por gastar mais a cidade, fez el-Rei tal ordenança que nèuù de dentro fosse recebido em seu arreal, mas que todos fossem lançados fora; e os que se ir nom quisessem, que os açoutassem e fezessem tornar pera a cidade; e esto lhes era grave de fazer, tornarem per força pera tal logar, ondechorandonomesperavomdeseerrecebidos; etaes ihavia quedeseu grado se saíam da cidade, e se iam pera o arreal, querendo ante de todo seer cativos, que assi perecerem morrendo de fame. Comonomlançariamforaagenteminguada esemproveito, queo Meestre mandou saber em certo pela cidade que pam havia per todo em ela, assi em covas15 come per outra maneira, e acharom que era tam pouco que bem havia mester sobr’elo16 conselho? Na cidade nom havia triigo pera vender, e se o havia, era mui pouco e tam caro que as pobres gentes nom podiam chegar a ele; […] e começarom de comer pam de bagaço d’azeitona, e dos quei- jos das malvas e raizes d’ervas, e doutras desacostumadas cousas, pouco amigas da natureza; e taes i havia que se mantiinham em alfé- loa17 . No logar u costumavom vender o triigo, andavom homeès e moços esgravatando a terra; e se achavom alguùs grãos de triigo, metiam- -nos na boca sem teendo outro mantiimento; outros que se fartavom d’ervas, e beviam tanta agua, que achavom mortos homeès e cachopos jazer inchados nas praças e em outros logares. […] Andavom os moços de tres e de quatro anos pedindo pam pela cidade por amor de Deos, como lhe ensinavam suas madres, e muitos nom tiinham outra cousa que lhe dar senom lagrimas que com eles choravom que era triste cousa de veer; e se lhes davom tamanhopamcomeùanoz,haviam-noporgrandebem.Desfaleciaoleiteaaquelasque tiinhamcriançasaseuspeitosperminguademantiimento;eveendolazerar18 seusfilhos a que acorrer nom podiam, choravom ameúde19 sobr’eles a morte ante que os a morte privasse da vida. […] Toda a cidade era dada a nojo20 , chea de mezquinhas querelas21 , sem neuù prazer que i houvesse: uùs com gram mingua do que padeciam; outros havendo doo22 dos atribulados; e isto nom sem razom, ca se é triste e mezquinho o coraçom cuidoso nas cousas contrairas que lhe aviinr podem, veede que fariam aqueles que as continuada- mente tam presentes tiinham? Pero com todo esto, quando repicavom, neuù nom mostrava que era faminto, mas forte e rijo contra seus èmigos23 . Esforçavom-se uùs por consolar os outros, por dar remedio a seu grande nojo, mas nom prestava conforto de palavras, nem podia tal door seer amansada com neùas doces razões; e assi como é natural cousa a mão ir ameúde onde see24 a door, assi uùs homeès falando com outros, nom podiam em al departir25 senom em na mingua que cada uù padecia. Ó quantas vezes encomendavom nas missas e preegações que rogassem a Deos devotamente por o estado da cidade! E ficados os geolhos, beijando a terra, bradavam a Deos que lhes acorresse, e suas prezes nom eram compridas! Uùs choravom antre si, mal-dizendo seus dias, queixando-se por que tanto viviam. […] Assi que rogavom a morte que os levasse, dizendo que melhor lhe fora morrer, que lhe seerem cada dia renovados desvairados padecimentos. […] 15 Covas: depósitos subterrâneos. 16 Sobr’elo: acerca disso. 17 Alféloa: melaço. 18 Lazerar: sofrer, martirizar. 19 Ameúde: amiúde, frequente- mente. 20 Nojo: tristeza. 21 Mezquinhas querelas: discus- sões banais. 22 Doo: dó, pena. 23 Èmigos: inimigos. 24 See: esteja. 25 Departir: conversar. 30 35 40 45 50 55 60 65 70 Pieter Brueghel, Sete atos de caridade (também designado Obras de misericórdia), 1617.
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    92 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I 92 Sabia porem isto o Meestre e os de seu Conselho, e eram-lhe doorosas d’ouvir taes novas;eveendoestesmalesaqueacorrernompodiam,çarravomsuasorelhasdorumor do poboo. Como nom querees que maldissessem sa vida e desejassem morrer alguùs homeès e molheres, que tanta deferença há d’ouvir estas cousas aaqueles que as entom passa- rom26 , como há da vida aa morte? Os padres e madres viiam estalar de fame os filhos que muito amavom, rompiam as faces e peitos sobr’eles, nom teendo com que lhe acorrer, senom planto e espargimento de lagrimas27 ; e sobre todo isto, medo grande da cruel vingança que entendiam que el-Rei de Castela deles havia de tomar; assi que eles padeciam duas grandes guerras, ùa dos èmigos que os cercados tiinham, e outras dos mantiimentos que lhes minguavom, de guisa que eram postos em cuidado de se defender da morte per duas guisas. Pera que é dizer mais de taes falecimentos28 ? Foi tamanho o gasto das cousas que mester haviam29 que soou uù dia pela cidade que o Meestre mandava deitar fora todo- los que nom tevessem pam que comer, e que soomente os que tevessem ficassem em ela; mas quem poderia ouvir sem gemidos e sem choro tal ordenança de mandado aaqueles que nom o tiinham? Porem sabendo que nom era assi, foi-lhe já quanto30 con- forto.Ondesabeequeestafameefalecimentoqueasgentesassipadeciam,nomerapor seer o cerco perlongado, ca nom havia tanto tempo que Lixboa era cercada; mas era per aazo das muitas gentes que se a ela colherom de todo o termo; e isso meesmo da frota do Porto quando veo, e os mantiimentos seerem muito poucos. Ora esguardae31 como se fossees presente, ùa tal cidade assi desconfortada e sem neùa certa feúza32 de seu livramento, como veviriam em desvairados cuidados que sofria ondas de taes aflições? Ó geeraçom que depois veo, poboo bem aventuirado, que nomsoubepartedetantosmales,nemfoiquinhoeiro33 detaespadecimentos!Osquaes a Deos por Sua mercee prougue de cedo abreviar doutra guisa, como acerca ouvirees34 . Fernão Lopes, op. cit., capítulo 148, pp. 193-199 1. No texto, é possível identificar diferentes sequências narrativas. 1.1 Ordena-as, sabendo que a última é a da letra (E): (A) Os portugueses vão em socorro das galés após o repicar dos sinos. (B) Corre o boato sobre a decisão do Mestre de expulsar gente da cidade. (C) As pessoas procuram desesperadamente comida no chão. (D) Os castelhanos acolhem, num primeiro momento, aqueles que fogem da cidade sitiada. (E) O cronista reflete sobre a situação. (F) Os mantimentos gastam-se cada vez mais depressa. (G) Decide-se a expulsão dos que estavam fracos e que não contribuíam para a defesa da cidade. (H) O Mestre ordena que se faça o levantamento do pão existente em Lisboa. (I) Os castelhanos atacam as galés que tentam abastecer Lisboa. (J) As crianças mendigam pela cidade, pedindo comida. (K) O rei de Castela ordena que os fugitivos sejam devolvidos à cidade. (L) O número de habitantes da cidade aumenta cada vez mais. 26 D’ouvir estas cousas aaqueles que as entom passarom: entre ouvir estas coisas e passá-las. 27 Planto e espargimento de lagri- mas: pranto e derramamento de lágrimas. 28 Falecimentos: misérias, prova- ções. 29 Que mester haviam: de que tinham necessidade. 30 Quanto: bastante. 31 Esguardae: olhai, vede. 32 Feúza: confiança. 33 Quinhoeiro: participante. 34 Acerca ouvirees: os castelhanos puseram fim ao cerco devido à peste que atingiu as suas tropas. 75 80 85 90 95 100 PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.1(F);(L);(I);(A);(G);(D);(K);(H);(C);(J); (B);(E). 2.1 «Estando a cidade assi cercada na maneira que já ouvistes» (l.1) e «veede que fariam aqueles que as continuadamente tam presentes tii- nham?» (ll. 62-63). No 1.o exemplo, o narrador apela à leitura de capítulos anteriores dirigindo-se diretamente aos leitores; no 2.o exemplo, através da interrogativa, há uma interpela- çãodiretaaoleitordemodoaaproxi- má-lodasituaçãodescrita. 3.1 a) «veendo a gram mingua dos mantiimentos, estabelecerom dei- tar fora as gentes minguadas e nom perteencentes pera defensom» (ll. 23-24); «e taes i havia que de seu grado se saíam da cidade, e se iam pera o arreal, querendo ante de todo seer cativos, que assi perecerem morrendodefame»(ll.35-37). b) «as pubricas esmolas começa- rom desfalecer» (ll. 21-22); «Na ci- dade nom havia triigo pera vender, e se o havia, era mui pouco e tam caro que as pobres gentes nom podiam chegaraele»(ll.42-43). c) «choravom ameúde sobr’eles a morte ante que os a morte privasse da vida» (ll. 57-58); «[…] assi uũs homeӁs falando com outros, nom podiam em al departir senom em na mingua que cada uũ padecia» (ll.67-68).
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    93 1.ª parte –Crónica de D. João I 2. Fernão Lopes parece querer estabelecer a comunicação entre o narrador e o narratário. 2.1 Retira duas expressões do texto que comprovem a veracidade desta afirmação e justifica a tua escolha. 3. De acordo com a descrição que é feita, o cerco de Lisboa pelos castelhanos tem conse- quências a vários níveis. 3.1 Comprova a afirmação, transcrevendo dois exemplos textuais de consequências: a) sociais; b) económicas; c) psicológicas. 4. Identifica os dois motivos pelos quais os portugueses cercados «padeciam duas gran- des guerras» (l. 84). 5. O cronista parece criticar seriamente a ação do Mestre de Avis, contrariamente ao que tinha feito no capítulo 11. Indica uma possível razão para este facto. 6. Tendo em conta a afirmação de uma crescente identidade coletiva, evidente no excerto em análise, explicita o sentido do sétimo parágrafo. 7. Considerando o último parágrafo do texto, identifica o assunto e refere os objetivos das reflexões evidenciadas. 8. Identifica os recursos expressivos utilizados nas seguintes expressões. a) «mester de o multiplicar como fez Jesu Cristo aos pães» (ll. 19-20); b) «as pubricas esmolas começarom desfalecer» (ll. 21-22); c) «preso e arrastado, e decepado e enforcado» (ll. 17-18); d) «viiam estalar de fame os filhos» (l. 80). GRAMÁTICA 1. Identifica as funções sintáticas dos elementos destacados. a) As gentes de Lisboa supuseram o Mestre morto; b) «que era triste cousa de veer» (l. 54); c) «partiam de noite remando mui rijamente» (ll. 7-8). 2. Divide e classifica as orações. a) «beviam tanta agua, que achavom mortos home͕s e cachopos» (ll. 50-51); b) «neuũ nom mostrava que era faminto» (ll. 63-64); c) «E posto que tal triigo algũa ajuda fezesse, era tam pouco e tam raramente, que hou- vera mester de o multiplicar como fez Jesu Cristo aos pães» (ll. 18-20). O topónimo «Lisboa» surge nos textos de Fernão Lopes com uma grafia diferente da que conhecemos hoje. No entanto, essa forma gráfica, também diferente da atual, já traduz o resultado de um longo percurso evolutivo. De acordo com José Pedro Machado1 Lisboa será a forma atual da resultante do árabe (LIXBÛNÂ) e esta terá origem no latim (OLISIPONE). CURIOSIDADE 1 José Pedro Machado, Dicioná- rio etimológico da língua portu- guesa, 8.ª edição, vol. 5, Lisboa, Livros Horizonte, 2003. A afirmação da consciência coletiva p. 95 FI Predicativo do complemento direto p. 88 FI Coordenação e subordinação pp. 327-328 SIGA Recursos expressivos pp. 334-335 SIGA SIGA Funções sintáticas pp. 324-325 PROFESSOR 4. Os habitantes de Lisboa viam-se encurraladosentreocercomontado peloreideCastelaeafaltademanti- mentosnacidade. 5. Aparentemente o cronista critica a ação do Mestre e dos seus que «çarravom suas orelhas do rumor do poboo» (ll. 76-77), cumprindo desta forma a intenção de neutralidade e imparcialidade enunciadas no «Pró- logo»daCrónicadeD.JoãoI. 6. Apesar de famintos e extenuados, eram solidários uns com os outros e valentes contra os castelhanos, apresentando uma identidade cole- tiva que os unia num propósito co- mum. 7. O narrador tem como objetivo tra- zeroleitorparaaquelepassadodolo- roso «esguardae…» e fazer notar que quem nasceu depois daquela prova- ção,talcomoele,tevesorte. 8. a)comparação;b)personificação; c)enumeração;d)metáfora. Gramática 1. a) predicativo do complemento di- reto; b) predicativo do sujeito; c) mo- dificador. 2. a) «beviam tanta agua, [oração subordinante] que achavom mortos homeӁs e cachopos» [oração subor- dinadaadverbialconsecutiva]; b) «neuũ nom mostrava [oração subordinante] que era faminto» [oração subordinada substantiva completiva]. c) «E posto [oração coordenada copulativa]quetaltriigoalgũaajuda fezesse» [oração subordinada subs- tantiva completiva] era tam pouco e tam raramente [oração subor- dinante] que houvera mester de o multiplicar [oração subordinada adverbial consecutiva] como fez JesuCristoaospães» [oraçãosubor- dinadaadverbialcomparativa].
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    94 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I ESCRITA Exposição sobre um tema A miséria, a falta de comida, entre outras consequências, assolavam os que procura- ram refúgio na cidade de Lisboa, durante o cerco. Hoje vivemos cercados pela pressa constante, pela rapidez dos dias, pelo poder material. No entanto, o flagelo da fome e da miséria está longe de terminar. 1. Observa a imagem abaixo e redige uma exposição, entre cento e vinte e cento e cin- quenta palavras, em que te refiras às associações humanitárias que combatem diaria- mente esta situação (AMI, Bancos Alimentares, entre outras): tRVFNTÍP tDPNPPGB[FN tRVFNQBSUJDJQB 1.1 Organiza a informação por tópicos e de forma coerente. 2. Depois de redigires o texto, deves rever o teu trabalho e proceder às correções necessá- rias. Não te esqueças de identificar as fontes utilizadas, de cumprir as normas de cita- ção, de utilizar as notas de rodapé (se necessário) e, ainda, de elaborar a bibliografia dos documentos consultados. A pobreza pode ser encarada como carência de serviços e bens essenciais. Mas é também sinónimo de exclusão social. A AMI combate, desde 1994, o flagelo da pobreza em Portugal através da criação dos cen- tros Porta Amiga, Abrigos Noturnos, Equipas de Rua e um Serviço de Apoio Domiciliário. Contribua com um donativo, por mais pequeno que este seja, e mostre que a solidariedade não está em crise! Exposição sobre um tema p. 311 SIGA PROFESSOR Educação Literária 10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 12.5; 13.1. MC Escrita 1. Quemsão? AMI (Assistência Médica Interna- cional)–aAMIéumaOrganização NãoGovernamental(ONG)portu- guesa, privada, independente, apolíticaesemfinslucrativos. Bancos Alimentares – Os Bancos Alimentaressãoinstituiçõespar- ticulares de solidariedade social que lutam contra o desperdício de produtos alimentares, enca- minhando-os para distribuição gratuitaàspessoascarenciadas. Comoofazem? AMI – presta assistência médica, apoiosocial,entreoutros. Bancos Alimentares – recolhem e distribuem várias dezenas de milhares de toneladas de produ- tos e apoiam a ação de institui- ções em Portugal, que, por sua vez, distribuem refeições confe- cionadas e cabazes de alimentos a pessoas comprovadamente carenciadas. Quemparticipa? AMI – a AMI tem um quadro per- manente de profissionais assa- lariados, que se encarregam de assegurar o desenvolvimento do trabalho da instituição; conta tambémcomoapoioindispensá- veldosvoluntários. Bancos Alimentares – contam com uma federação que coor- dena a ação dos Bancos asso- ciados, os representa junto dos poderes públicos, das empresas de âmbito nacional e de organi- zações internacionais; contam aindacomoapoiodevoluntários.
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    95 Ficha informativa Iluminuras doLivro de horas do Duque de Berry, século XV. FICHA INFORMATIVA N.O 3 A afirmação da consciência coletiva 1. Defesa do sentimento nacional Ele [Fernão Lopes] não faz, porém, unicamente a apologia do rei; faz também, e principalmente, a apologia da resistência popular ao Castelhano. […] Há uma força maior, embora sem forma jurídica definida. […] É a força de toda uma coletividade que não aceita o lugar que lhe é destinado dentro do direito senhorial. Esta coletivi- dade cria o seu direito novo, fundado no sentimento nacional, o «amor da terra», e defende-o de armas na mão. Fernão Lopes faz a apologia desse novo direito, que não é já o do rei, mas o do povo. O «amor da terra», a palavra «Portugal», definindo, não já um território, mas um corpo de gente animado de um pensamento […], expressão ainda esboçada [em Fernão Lopes], mas vigorosa, do direito pelo qual um novo povo se levantou contra um rei, o direito nacional […]. A guerra nacional aparece, portanto, no nosso cronista como uma guerra civil entre camadas opostas da população, ou, melhor, entre uma popular e uma outra nobre […]. Ela [arraia-miúda] constitui a força armada em que inicialmente se apoiou o Mestre de Avis, permitindo-lhe resistir à gente de armas favorável ao partido caste- lhano e até apoderar-se de alguns castelos. A população de Lisboa resistiu ao cerco do rei de Castela […]. A existência do povo como sujeito da História, do povo que se sente senhor da terra onde nasce, vive, trabalha e morre e que ganha consciência coletiva contra os que querem senhoreá-lo, do povo que é a fonte última do direito, é a grande reali- dade que ressalta das crónicas de Fernão Lopes. […] [O] povo é o que ganha a sua vida quer com o trabalho manual (mesteirais e lavradores), quer com a «indústria», isto é, a atividade, habilidade e iniciativa em qualquer ramo produtivo e pacífico. António José Saraiva, «Fernão Lopes», in Isabel Allegro de Magalhães (coord.), História e antologia da literatura portuguesa – século XV, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1998, pp. 43-61 (texto adaptado) 2. Construção de uma identidade nacional [No entanto], a generalização da consciência da identidade nacional pela totali- dade da população portuguesa não se pode presumir como um facto antes da difusão de fenómenos característicos do fim do século XIX […] como seja a difusão da escrita e da imprensa, a implantação de um sistema eleitoral, a generalização de práticas administrativas uniformes e a participação ativa da população na vida pública. […] O facto de se poderem encontrar formulações precoces de tais noções [sobera- nia popular], como por exemplo nas Cortes de 1385, não pode fazer esquecer que o «povo» aí considerado soberano é, na realidade concreta, o conjunto dos que se apresentavam como seus representantes. […] Observe-se, por fim, que as noções românticas acerca do «espírito do povo» (Volksgeist) conduzem não só a que se tenda a considerar a categoria nacional como fundada na Natureza, […] mas também à ideia de que essa categoria implica diferen- 5 10 15 20 5 10 PowerPoint Ficha informativa n.o 3 PROFESSOR Leitura 8.1. Educação Literária 16.1. MC
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    96 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I 96 ças específicas, isto é, que tem de se manifestar por meio de uma coerência interna, e consequentemente por meio de caracteres comportamentais comuns a todos os seus membros. […] Para as classes populares, porém, o «reino» podia, certamente, implicar apenas uma noção territorial, sem trazer consigo a ideia de uma comunidade constituída por todos os seus habitantes. De qualquer maneira, o conceito de «reino» representou um complemento importante da identidade nacional como substantivo que desig- nava os cidadãos do país como um todo. […] Por sua vez, ao adquirir um sentido territorial, a noção de reino passou a implicar também a de «fronteiras». De facto, enquanto significou o poder sobre os vassalos, mais do que o poder sobre o espaço que eles habitavam, a noção de fronteira era uma realidade humana, mutável, imprecisa; normalmente uma zona de combate ou uma área deserta. Afetada pela noção de «naturalidade», passou a considerar-se antes a linha que separava os vassalos de um rei dos do rei vizinho. Tornou-se então com- plementar da noção de «território», e este, por sua vez, interpretou-se como suporte físico da diferença para com aqueles que habitavam para além das respetivas frontei- ras. A fronteira sempre separou os «nossos» dos «outros», ou seja, os nacionais dos estrangeiros. […] [A influência destas noções] Atingiu primeiro, obviamente, os representantes da autoridade régia, uma grande parte do clero, […] mais tarde os membros das admi- nistrações municipais. A restante população do país foi provavelmente mais influen- ciada no processo de consciencialização nacional pelo uso constante de emblemas e sinais concretos, como o escudo de armas do rei, a bandeira nacional e a moeda. Tornaram-se, de facto, sinais identificadores. A sua categoria simbólica dotava-os de um poder emocional que contribuiu para fazer esquecer o seu sentido primitivo de emblemas de dominação. E assim, mesmo quando as mudanças de regime faziam alterar a sua forma, como aconteceu frequentemente com a bandeira nacional, o escudo de armas do rei permaneceu sempre como elemento permanente, mesmo quando deixou de haver rei. Ainda hoje figura na bandeira de Portugal. José Mattoso, A identidade nacional, Lisboa, Gradiva, 1998, pp. 13-18 (texto adaptado) CONSOLIDA 1. Completa as seguintes frases de acordo com o sentido dos textos apresentados. a) Fernão Lopes dá voz... b) A resistência ao castelhano coloca… c) Uma das grandes novidades da crónica de Fernão Lopes é... d) A difusão geral da identidade nacional depende… e) A noção de «espírito do povo» implica… f) A noção de «identidade nacional» abarca… g) O processo de consciencialização da «identidade nacional» foi… h) Os símbolos nacionais são… 15 20 25 30 35 40 PROFESSOR Consolida 1.a)…aopovo. b) … duas classes sociais em opo- sição:opovoeanobreza. c) … o aparecimento do povo co- mo força que se quer afirmar, saindo da passividade medieval, dodireitosenhorial. d) … da «difusão da escrita e da imprensa, [d]a implantação de um sistema eleitoral, [d]a ge- neralização de práticas admi- nistrativas uniformes e [d]a participação ativa da população navidapública». e) … coerência interna, através de comportamentos comuns a todososmembrosdeumacomu- nidade. f) … as noções de «reino», «fron- teiras», «naturalidade» e «terri- tório». g) … gradual, pois influenciou pri- meiro os representantes régios, depois o clero e, em seguida, as restantesclasses. h) … «o escudo de armas do rei, a bandeiranacionaleamoeda».
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    97 1.ª parte –Crónica de D. João I 97 LEITURA Apreciação crítica Tal como Fernão Lopes, também atualmente há quem se dedique a escrever a história/ biografia de figuras de relevo da nossa sociedade. Lê a seguinte apreciação crítica e depois responde às questões apresentadas na página seguinte. Apesar de oscilar entre o excesso de lacunas e o excesso de detalhe, a biografia oficial do fundador da Apple não deixa de ser fascinante. É excessivamente detalhada no que respeita a alguns momentos da vida do biografado e demasiado sucinta noutros. Ao longo de 700 páginas, Walter Isaacson – autor de biografias de Albert Eins- tein, Benjamin Franklin e Henry Kissinger, escreveu a do fundador da Apple a convite do próprio – desenha um retrato de Jobs com um detalhe sem precedentes. O livro foi com- posto com base em dezenas de entrevistas: a alguns dos primeiros funcionários da Apple (incluindo o cofundador Steve Wozniak), a amigos de juventude, a parceiros e rivais de negócios (entre os quais Bill Gates, que esteve em ambos os papéis), a familiares e ao próprio Steve Jobs. […] Em Steve Jobs, um dos grandes méritos de Isaacson – provavelmente, o maior, tendo em conta a figura em causa – é não ser apologé- tico. Jobs é descrito como um dos pioneiros dos com- putadores pessoais, um caso raro de interseção entre as artes e a tecnologia, um líder carismático e um gestor de sucesso, que transformou nada menos do que sete indús- trias: a dos computadores pessoais; a do cinema de ani- mação (com o estúdio Pixar, onde foi criado Toy Story); a da música; a das lojas de retalho (por causa das lojas da Apple); a dos telemóveis; a dos tablets; e a da publicação e do jornalismo (por causa do impacto do iPhone e do iPad). Mas o livro também revela uma pessoa de trato difí- cil, que manipulava jornalistas, que se apoderava das boas ideias de funcionários da Apple, que humilhava os subor- dinados, que não tinha consideração por aqueles com quem trabalhava, nem, em alguns casos, por aqueles com quem tinha relações pessoais. […] O fundador da Apple era também uma pessoa que chorava quando não lhe faziam a vontade, mesmo tra- tando-se de acontecimentos aparentemente supérfluos, como a decisão de que Wozniak seria o funcionário número um na lista oficial da empresa, e Jobs o número dois. […] Tudo isto é descrito em abundância por Isaacson. Especialmente na segunda metade do livro, há uma profusão de pequenos episódios que servem apenas para ilustrar as características de caráter (a atenção ao pormenor, a exigência obsessiva, a falta de afabilidade, o per- fecionismo semidoentio) que já tinham sido esmiuçadas em capítulos anteriores. Paradoxalmente numa obra tão vasta, há aspetos da vida de Jobs que estão, sem razão aparente, por apro- fundar. Pouco se escreve sobre a rela- ção com os pais e quase nada sobre a irmã adotiva (que desaparece de cena, sem que o autor explique porquê). […] Da mesma forma, os tempos fora da Apple – mais de uma década, entre 1985 e 1996 – não são contados com o mesmo detalhe do resto. Foi neste período que Jobs comprou e geriu a Pixar, e também que deixou a vida de jovem multimilionário com alguns laivos de playboy para se tornar um pai de família. Apesar destes buracos, que deixam ao virar da última página a sensação de que algo foi escondido ou esque- cido, a história de uma criança adotada que cresce numa família de classe média e que concretiza a ambição de deixar uma marca no universo é, inevitavelmente, uma leitura fascinante. João Pedro Pereira, in Público, 25/01/2012 (disponível em www.publico.pt, consultado em outubro de 2014) 5 10 15 20 25 30 35 45 50 55 60 65 70 40 A estranha vida de Steve Jobs Walter Eins- nger, nvite com com- tas: a Apple iak), rivais que e ao os de e e e o em m m m ogé- neiros dos com- terseção entre as o e um gestor de d p m p p ( o f s v e f ç i sem que o autor e Da mesma form uma década entre 45 50 55 60 PROFESSOR Leitura 7.1; 7.2; 7.3; 7.5; 7.6. Escrita 10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 12.5; 13.1. Gramática 19.6. MC
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    98 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I 98 1. Refere o tema desenvolvido no texto, justificando a tua resposta. 2. Relaciona o título e a imagem do livro com o conteúdo do texto. 3. Explica o significado da expressão «um dos grandes méritos de Isaacson […] é não ser apologético» (ll. 19-22). 4. Explicita a estrutura do texto quanto à sua organização externa e interna. 5. Atenta no segundo parágrafo do texto e transcreve exemplos textuais que ilustrem características do discurso de uma apreciação crítica: a) linguagem valorativa através do uso de advérbios (depreciativos) e uma expressão (apreciativa); b) terceira pessoa gramatical e o presente do indicativo; c) recursos expressivos (antítese); d) articuladores do discurso. GRAMÁTICA 1. Identifica o processo irregular de formação presente em cada palavra: a) «telemóveis» (l. 29); b) «tablets» (l. 29); c) «buracos» (l. 66); d) «www» (fonte do texto). ESCRITA Apreciação crítica Agora é a tua vez de escreveres uma apreciação crítica sobre uma manifestação cultural à tua escolha (música, CD, cinema, exposição, livro…). 1. Num texto bem estruturado, utilizando entre cento e vinte e cento e cinquenta pala- vras, faz a descrição sucinta do objeto em apreço, acompanhada do teu comentário crítico, fundamentando-o com, pelo menos, um argumento ilustrado com um exemplo significativo. Deverás organizar as tuas ideias preenchendo no teu caderno um plano de texto como este. Introdução: 1.º parágrafo – descrição sucinta da manifestação cultural em apreço; Desenvolvimento: 2.º parágrafo, 3.º parágrafo e 4.º parágrafo – comentário crítico (argumenos positivos/ negativos acompanhados de exemplos); Conclusão: 5.º parágrafo – síntese e reforço do teu ponto de vista. 2. No final, faz uma revisão cuidada do texto que produziste. Não te esqueças de identificar as fontes a que recorreste, de cumprir as normas de citação e de utilizar as notas de rodapé (se necessário). Apreciação crítica p. 312 SIGA Apreciação crítica p. 312 SIGA Processo irregulares de formação de palavras p. 99 FI PROFESSOR Sugestão: Antes ou depois do exercício de leitura, os alunos poderão visio- narotrailerdofilmeJobs,quese encontranoCDderecursos. Leitura 1. O tema é o livro Steve Jobs, sobreopróprioSteveJobs,apon- tando aspetos positivos e negati- vos. 2. O título antecipa a perspetiva do autor sobre o livro e o biogra- fado, através do adjetivo «estra- nha». Essa estranheza decorre do facto de a biografia de Jobs serexcessiva norelatodealguns factos e quase omissa noutros. Por outro lado, considera tam- bém estranho o paradoxo entre um líder inteligente que revo- lucionou sete indústrias e um homem que não tinha um com- portamento ético para com os outros(parágrafos3,4,5). A imagem retrata a capa do livro apreciado e que contém uma fotografiadeSteveJobs. 3. Walter Isaacson não tece elo- gios a Steve Jobs, mantendo-se objetivoeimparcialrelativamen- te aos dados biográficos apre- sentados. Tal facto é digno de apreço. 4. Introdução, parágrafos 1 e 2: apresentação da opinião pessoal edescriçãodoobjetoaapreciar– olivroSteveJobs –e suasfontes. Desenvolvimento,parágrafo3: apresentação de um argumento favorável, nomeadamente a ca- racterização objetiva de Jobs como um líder que transformou várias indústrias, acompanhado de exemplos; parágrafos 4 a 8: alusão aos aspetos negativos do livro, ou seja, a caracterização abundante do caráter difícil do fundadordaApple,emoposiçãoà abordagem superficial de factos biográficos. Conclusão, último parágrafo: síntese e reforço do ponto de vista favorável do autor em rela- çãoaolivro. Vídeo Jobs
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    99 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 4 Processos irregulares de formação de palavras Processo Definição Exemplos Extensão semântica Palavra já existente cujo sentido se alarga, adquirindo um novo significado. janela, rato, portal, sítio, salvar (palavras que adquiriram um novo sentido na informática) Empréstimo Integração de uma palavra de língua estrangeira no vocabulário da língua que a importa. scanner, T-shirt, input, robô (do francês robot), futebol (do inglês football) Amálgama Junção de partes de duas ou mais palavras (normalmente o início de uma e o final de outra), criando uma palavra nova. informática (informação + automática) bit (binary + digit) biónica (bio + eletrónica) Sigla Redução de duas ou mais palavras às suas letras iniciais, que se pronunciam letra a letra. WC (Water Closet) SOS (Save our Souls) EDP (Eletricidade de Portugal) Acrónimo Palavra formada pelas iniciais de uma sequência de palavras ou pela junção das letras iniciais de várias palavras, pronunciadas como uma única palavra. AMI (Assistência Médica Internacional) SIC (Sociedade Independente de Comunicação) Truncação Criação de uma palavra a partir do apagamento de parte da palavra de que deriva, mantendo o sentido e a classe gramatical. professor – prof José – Zé metroplitano – metro hipermercado – híper Zacarias Santos Nascimento e Maria do Céu Vieira Lopes, Domínios – Gramática da língua portuguesa, Lisboa, Plátano Editora, 2012, pp. 241-242 (texto adaptado). CONSOLIDA 1. Indica o processo irregular de formação das seguintes palavras. a) TAP b) cibernauta c) planta (áreas da arquitetura e da flora) d) mota e) quilo f) Quim g) UEFA h) spa i) super (mercado) j) setôr k) anoraque l) vírus (áreas da medicina e da informática) m) SAPO n) portunhol o) esparguete p) estereo 2. Indica a palavra da língua portuguesa correspondente a cada um dos empréstimos que se seguem: a) know-how b) bouquet c) site d) download e) airbag f) ya g) man h) chique i) like j) aftershave k) wireless l) score 3. Refere o conjunto de palavras que deram origem às seguintes amálgamas. a) robótica b) motel c) cibernauta PROFESSOR 5. a) advérbios depreciativos: excessivamente» (l. 4); «dema- siado» (l. 5); expressão valora- tiva: «detalhe sem precedentes» (l. 11); b) 3.ª pessoa e presente do indicativo «é», «respeita» (l. 4); «desenha» (l. 10); c) antí- tese – «detalhada» e «sucinta» (ll. 4-5); d) «no que respeita» (l. 4), «mas» (l. 32), «tudo isto» (l.44),«damesmaforma»(l.60). Gramática 1. a) amálgama (telefone + mó- vel); b) empréstimo; c) extensão semântica; d) sigla (world wide web). Gramática 19.6; 19.7. MC Consolida 1. a)acrónimo;b)amálgama; c)extensãosemântica; d)truncação(motorizada); e)truncação(quilograma); f)truncação(Joaquim); g)acrónimo; h)empréstimo; i)truncação(supermercado); j)amálgama(senhor+doutor); k)empréstimo; l)extensãosemântica; m) acrónimo (Servidor de Apon- tadoresPortugueses) n) amálgama (português + espa- nhol) o)empréstimo; p)truncação(estereofónico). 2. a)saberfazer; b)ramalhete; c)sítio; d)descarregar; e)almofadadear; f)sim; g)homem;h)elegante; i)umgosto; j)loçãodebarbear; k)semfios;l)resultado. 3. a)robot+informática; b)motor+hotel; c)cibernética+astronauta. PowerPoint Ficha informativa n.o 4
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    100 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I 100 Passá-lo [o acontecimento] ao papel quase equivalia a tirarumretrato,aindaqueficassetremido.Aculpa,àsvezes, era da emoção do cronista, outras da velocidade do aconte- cimento. Há acontecimentos que acontecem cá com uma gana de acontecerem... António Torrado, «Fala o aprendiz de cronista», in Dez dedos de conversa, 4.ª edição, Lisboa, Asa, 2008 Antigamente, os cronistas, tal como Fernão Lopes, eram responsáveis por relatar os feitos dos reis e de grandes nobres. Atualmente, o conceito de cronista evoluiu e transformou-se, assumindo outros suportes, como o vídeo ou a música. Visiona o vídeo da composição musical «Sexta-feira (emprego bom já)», do rapper Boss AC, tomando notas sobre os seguintes itens: t as críticas referidas; t as emoções; t as ações dos «atores». Seguidamente, faz uma exposição escrita sobre a temática Problemas sociais no século XXI. A partir das tuas notas: t seleciona a informação pertinente; t define os tópicos a abordar; t organiza-os de forma a produzires um texto bem estruturado. No final, deves rever o teu texto. DESAFIO Exposição sobre um tema p. 311 SIGA PROFESSOR Oralidade 1.1; 1.3; 1.4; 1.5; 1.6; 2.1; 2.2. Escrita 10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. Educação Literária 15.4. MC Link «Sexta-feira», Boss AC PowerPoint Síntese da unidade
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    101 GLOSSÁRIO A Arraia-miúda: (referente àclasse do povo) estrato social sem representatividade, plebe, comum, popular. Existe um texto dramático com esta designação, escrito por Jaime Gralheiro, em 1975, e representado em 1976, no rescaldo ainda da Revolução de Abril e de alguma forma tecendo paralelos entre os acontecimentos abrilinos e os de 1383-1385. C Crónica: (evolução) inicialmente, a crónica, mais geral ou mais particular, registava acontecimentos históricos por ordem cronológica. No século XIX, o desenvolvimento da imprensa perió- dica, e, em especial, da de opinião, vai fazer emergir a crónica no sentido moderno. No início, ela era apenas uma pequena secção de abertura que dava conta das notícias e dos rumores do dia, mas tenderá a alargar-se e a espe- cializar-se pelo interior do periódico (crónica artística, literária, musical, etc.). Posteriormente, desloca-se para o «folhetim», secção do rodapé da primeira página do perió- dico, lugar de que se libertará mas onde conquistará a colaboração de homens de letras e, com isso, um espaço entre o jornalismo e a literatura. A sua identidade apoiar- -se-á cada vez mais na autoria: a realidade social, política, cultural, etc. Torna-se progressivamente o quadro onde o cronista procura e seleciona qualquer facto quase como QSFUFYUPQBSBEJTDVSTBSFPQJOBSDSØOJDBDPOUFNQPSÉOFB discurso de autor, oscila entre ser predominantemente de comentário e reflexiva. Cronista-mor: cronista principal do reino, nomeado pelo rei para registar, por escrito, a História do seu reinado. Fernão Lopes foi o primeiro a ocupar este cargo por nomea- ção de D. Duarte. Este encarregou-o de escrever as cróni- cas referentes aos seus antepassados: D. Pedro (pai de D. João I), D. Fernando (filho legítimo de D. Pedro e irmão de D. João I) e D. João I (filho ilegítimo de D. Pedro e pai de D. Duarte). H Historiografia: 1. Ação de escrever a história de uma época, de factos ou ocorrências notáveis do pas- sado, da vida de uma personali- dade; atividade de historiógrafo. 2. Estudo histórico e crítico sobre a História ou sobre os historiado- res. 3. Conjunto de obras acerca da história de uma determinada época, da vida de uma pessoa notável. N Narrador: Deriva do vocábulo latino NARRO, que significa «dar a conhecer», «tornar conhecido», o qual provém do adjetivo GNARUS, que significa «sabedor», «que conhece». Por sua vez, GNARUS está relacionado com o verbo GNOSCO, MFYFNBEFSJWBEPEBSBJ[TÉOTDSJUBGNÂ, que significa «conhe- DFSx0OBSSBEPSÏBJOTUÉODJBEBOBSSBUJWBRVFUSBOTNJUFVN conhecimento, narrando-o. Narratário: entidade da narrativa a quem o narrador dirige o seu discurso. P Prólogo: texto que antecede a parte principal de uma obra literária. No caso particular de Fernão Lopes, na Crónica de D. João I, o autor esclarece as suas intenções: «Nos certamente levamdo outro modo, posta adeparte toda afei- çom, que por aazo das ditas rrazoões aver podiamos, nosso desejo foi em esta obra escprever verdade, sem outra mestura, deixamdo nos boõs aqueeçimentos todo fimgido louvor, e nuamente mostrar ao poobo, quaaes contrairas cousas, da guisa que aveherõ.» Bibliografia/Webgrafia do Glossário Annabela Rita, «Crónica», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário de termos literários Dicionário da língua portuguesa contemporânea, Academia de Ciências de Lisboa, 2 vols., Lisboa, Verbo, 2001, p. 1994 Jorge Alves, «Narrador» e «Narratário», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário de termos literários (disponível em www.edtl.com.pt)
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    102 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I Grupo I A Lê o seguinte excerto do capítulo 115 da Crónica de D. João I. Per que guisa estava a cidade corregida pera se defender, quando el-Rei de Castela pôs Onde sabee que como o Meestre e os da cidade souberom a viinda del-Rei de Cas- tela, e esperarom seu grande e poderoso cerco, logo foi ordenado de recolherem pera a cidade os mais mantiimentos que haver podessem, assi de pam e carnes, come quaes quer outras cousas. E iam-se muito aas liziras1 em barcas e batees, depois que Santa- rem esteve por Castela, e dali tragiam muitos gaados mortos que salgavom em tinas, e outras cousas de que fezerom grande açalmamento2 ; e colherom-se dentro aa cidade muitos lavradores com as molheres e filhos, e cousas que tiinham; e doutras pessoas da comarca d’arredor, aqueles a que prougue de o fazer; e deles passarom o Tejo com seus gaados e bestas e o que levar poderom, e se forom contra Setuval, e pera Palmela; outros ficarom na cidade e nom quiserom dali partir; e taes i houve que poserom o seu3 , e ficarom nas vilas que Castela tomarom voz. Os muros todos da cidade nom haviam mingua de boom repairamento […] E ordenou o Meestre com as gentes da cidade que fosse repartida a guarda dos muros pelos fidalgos e cidadãos honrados; os quaes derom certas quadrilhas e bees- teiros e homeӁs d’armas pera ajuda de cada uũ guardar bem a sua. Em cada quadrilha havia uũsino pera repicar quando tal cousa vissem4 , e como cada uũ ouvia o sino da sua quadrilha, logo todos rijamente corriam pera ela […]. E nom embargando todo isto, o Meestre que sobre todos tiinha especial cuidado da guarda e governança da cidade, dando seu corpo a mui breve sono, requeria per muitas vezes de noite os muros e torres com tochas acesas ante si, bem acompanhado de muitos que sempre consigo levava. Nom havia i nenuũs revees5 dos que haviam de velar, nem tal a que esqueecesse cousa do que lhe fosse encomendado; mas todos muito prestes a fazer o que lhe mandavom, de guisa que, a todo boom regimento que o Meestre ordenava, nom minguava avondança de trigosos executores6 . […] E dalgũas portas tiinham certas pessoas de noite as chaves, por razom dos batees que taes horas iam e viinham d’aalem com trigo e outros mantiimentos […]. Ó que fremosa cousa era de veer! Uũ tam alto e poderoso senhor como el-Rei de Cas- tela, com tanta multidom de gentes assi per mar come per terra, postas em tam grande e boa ordenança, teer cercada tam nobre cidade! E ela assi guarnecida contra ele de gentes e d’armas com taes avisamentos por sua guarda e defensom! Em tanto diziam os que o virom, que tam fremoso cerco da cidade nom era em memoria d’homeӁs que fosse visto de mui longos anos atá aquel tempo. Fernão Lopes, Crónica de D. João I (textos escolhidos), pp. 170-176 apresentação crítica de Teresa Amado, Lisboa, Seara Nova/Comunicação, 1980 Apresenta, de forma bem estruturada, as tuas respostas aos itens. 1. Refere os preparativos que foram feitos devido ao iminente cerco de Lisboa. 2. Tendo por base o estudo dos capítulos 11 e 148, diz se te parece que os mantimentos armazenados foram suficientes. Justifica a tua resposta. FICHA FORMATIVA 5 10 15 20 25 30 1 Liziras: lezírias. 2 Açalmamento: provisão, abaste- cimento. 3 Taes i houve que poserom o seu: puseram na cidade tudo o que tinham. 4 Quando tal cousa vissem: quando vissem que era caso para isso. 5 Revees: revés (nenhum se negava). 6 Avondança de trigosos execu- toresBCVOEÉODJBEFIPNFOT que executavam rapidamente as ordens do Mestre. COTAÇÕES GrupoI A 1. 10pontos 2. 15pontos 3. 10pontos 4. 10pontos 5. 10pontos 5.1 5pontos B 6. 20pontos 7. 20pontos 100pontos
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    103 Ficha formativa 3. Indicaos atores deste excerto e faz a sua caracterização. 4. Explicita, com base no último parágrafo, as considerações finais do cronista. 5. Identifica os recursos expressivos nas seguintes frases. a) «[…] pelos fidalgos e cidadãos» (l. 14); b) «Ó que fremosa cousa era de veer!» (l. 27). 5.1 Explicita o valor expressivo presente na alínea a. B Crónica – Considerada como narrativa historiográfica, a crónica medieval é um ante- QBTTBEPEBNPEFSOBIJTUPSJPHSBåByDSØOJDBGB[QSFWBMBDFSBEJOÉNJDBEPTFWFOUPT como princípio que rege uma construção narrativa […] normalmente respeitando uma ordenação cronológica; o relato desses eventos, nem sempre apoiado no testemunho dos documentos (quando não existem ou escapam ao conhecimento do cronista) pode ser completado por uma discreta ou evidente ficcionalização, sobretudo quando está em causa aquele que foi um dos propósitos da crónica medieval: proceder ao destaque de um herói (rei, guerreiro, etc.), cujo trajeto pessoal e histórico comanda o desenvolvi- mento da crónica. Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes, Dicionário de narratologia, 6.ª edição, Coimbra, Livraria Almedina, 1998, pp. 87-88 6. De acordo com o teu estudo dos excertos da Crónica de D. João I e após a leitura da definição acima, prova que Fernão Lopes foi inovador nas suas crónicas, em vários aspetos. 7. Explica porque é que a Crónica de D. João I é considerada uma «narrativa historiográ- fica». Grupo II Lê o texto seguinte. Nasce uma cidade A capital portuguesa é uma das mais ancestrais cidades do mundo, e ao Tejo o deve: o estuário é o melhor abrigo natural para barcos na Europa Ocidental e sempre esteve rodeado de terras férteis. Quem foram os primeiros alfacinhas? Lisboa é tão velha que a origem do próprio nome se perdeu no tempo. Os gregos antigos acreditavam que se cha- mava Olissipo (ou Olissipona) por ter sido criada por Ulisses, quando o lendário herói navegou para oeste depois de aju- dar a conquistar Troia. Antes disso, no entanto, por cá andavam os fenícios, e é bem mais provável que Olissipo descen- desse de allis ubbo, a expressão fenícia para «porto seguro», em homenagem às extraordinárias condições naturais da boca do Tejo para as suas viajadas embarcações. Nessa altura, já os tartés- sios – a primeira civilização na Europa Ocidental – a teriam, certamente, bati- zado: o sufixo -ipo, de Olissipo, era muito comum naquele povo que reinou no sul 5 5 10 15 PROFESSOR GrupoI A 1. Aos habitantes de Lisboa foi-lhes ordenado que recolhessem a maior quantidade de mantimentos pos- sível, nomeadamente pão e carne. Além disso, foram organizados gru- pos armados para assegurarem o patrulhamentodosmurosdacidade. 2.Osmantimentosarmazenadosnão foram suficientes tendo em conta o número de pessoas que posterior- menteserefugiaramnacidade. 3.OsatoresdesteexcertosãooMes- treeopovodeLisboa.OMestreédes- crito como cuidadoso, bom gestor e preocupado com a segurança da cidade. O povo é caracterizado como um todo que age em função das von- tades do Mestre, mas também em prol da segurança da cidade e dos seusfamiliares. 4. Perante a iminente chegada do rei de Castela, o narrador, ironica- mente, tece considerações sobre a audácia de querer cercar e tomar tão nobre cidade como era Lisboa (historicamente Lisboa foi cercada apenas duas vezes: uma por Afonso Henriques, para a tomar dos Mouros, eesta). 5.a)enumeração;b)ironia. 5.1 Com recurso à enumeração, sublinha-se que todos (nobres e povo) estavam empenhados na de- fesadeLisboa. B 6. A crónica de Fernão Lopes é ino- vadora quanto ao destaque que dá às figuras (atores), pois além de des- tacar uma figura individual, neste caso D. João I, dá, pela primeira vez, vozaumafiguracoletiva:opovo,que age em defesa do Mestre de Avis e do reino, dando passos tímidos na afirmação da consciência coletiva de um povo. Assim, como grande inovação em Fernão Lopes, regista- -seofactodeoindividualeocoletivo povoarem a sua obra e contribuírem paraadinâmicadanarrativa. 7. A obra de Fernão Lopes é conside- rada uma narrativa historiográfica, pois tem como objetivo narrar a vida, de forma dita objetiva, de um rei, respeitando a ordem cronológica dos acontecimentos, baseando-se em documentos oficiais, mas com alguma ficcionalização, para tornar a narrativa mais apelativa e atingir o objetivo de enaltecer uma figura, nestecasoD.JoãoI.
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    104 Unidade 2// FERNÃO LOPES – CRÓNICA DE D. JOÃO I da Península Ibérica. Há ainda quem diga que a palavra deriva dos primeiros nomes dados ao Tejo: Lúcio ou Lisso. Os roma- nos, esses, limitaram-se a adaptar o nome que vinha de trás, dando-lhe a designação completa de Municipum Cives Romano- rum Felicitas Julia Olisipo. No meio de tantas dúvidas, há uma certeza: seja qual for a verdadeira origem do nome, Lisboa deve ao Tejo a sua fundação. A Península Ibérica recebeu os imi- grantes originais há mais de um milhão de anos: caçadores-coletores, provavel- mente da espécie Homo erectus, que nos milénios seguintes aprenderam a usar ferramentas, caçavam porcos selvagens e coelhos e praticavam canibalismo. No Neolítico, quando o homem se aventurou pela agricultura e abandonou os hábitos nómadas, o estuário do Tejo era um dos locais com as condições perfeitas para a nova vida. Na região da Grande Lis- boa, ainda hoje se mantêm de pé menires e antas com quase sete mil anos – as mais velhas do mundo, arriscam alguns histo- riadores. O enorme rio era um riquíssimo viveiro de peixes e moluscos, muito apreciados nessa era; a sua salinidade, esticada até algumas dezenas de quilómetros a mon- tante da foz, era compensada pelos incon- táveis afluentes, que forneciam a preciosa água doce e, nesse tempo, potável; as ter- ras que rodeavam o estuário revelaram-se particularmente férteis; e, claro, o clima ameno (comparado com o forno do norte de África e o gelo do norte da Europa) facilitava a vida aos habitantes da zona. Então chegaram os fenícios. Cerca de 1300 ou 1200 anos antes de Cristo, o ancestral povo de marinheiros, oriundo do território hoje ocupado pelo Líbano, pela Síria, por Israel e pela Palestina, conside- rou o estuário do Tejo um fantástico porto natural para os seus galeões a remos. Por duas excelentes razões: não só podiam parar por aqui e reabastecer-se no cami- nho para a Cornualha, no sul da Inglaterra (região com a qual tinham lucrativos laços comerciais), como o rio, nessa altura per- feitamente navegável até muito para o interior, lhes oferecia uma oportunidade de negócio com as várias tribos ribeirinhas a montante. A partir desse momento, Allis Ubbo não mais parou de crescer. Os mercadores da Antiguidade trouxe- ram com eles conhecimentos que molda- ram a região para os milénios seguintes, tal como novas técnicas de produção de vinho e azeite. Além disso, alteraram as técnicas de construção das habitações, que deixaram de ser redondas ou ovais e passaram a quadradas e retangulares. L.R./A.R., «Nasce uma cidade», in Superinteressante, n.º 192, abril de 2014 (texto adaptado) 1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1 a 1.6, seleciona a opção que te permite obter uma afirmação correta. 1.1 Segundo o narrador do texto, o nome da cidade de Lisboa deve-se (A) aos fenícios que vieram depois do mítico Ulisses. (B) ao mítico Ulisses que fundou a cidade, segundo os gregos. (C) aos fenícios que vieram antes do mítico Ulisses. (D) aos tartéssios que povoaram Lisboa antes dos fenícios. 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75 80 COTAÇÕES GrupoII 1. 30pontos 2. 20pontos 50pontos GrupoIII 50pontos
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    105 Ficha formativa 1.2 Oreferente do pronome pessoal forma de complemento direto «a» (l. 16) é (A) «primeira civilização». (B) «Europa Ocidental». (C) «Lisboa». (D) «Troia». 1.3 Neste artigo, apresenta-se ao leitor (A) a história da cidade de Lisboa. (B) a origem da palavra «Lisboa» e a influência dos povos que habitaram a cidade. (C) o povoamento primitivo de Portugal. (D) BJNQPSUÉODJBEPSJP5FKPQBSBPEFTFOWPMWJNFOUPEF1PSUVHBM 1.4 Na frase «Então chegaram os fenícios» (l. 57), o elemento destacado desempe- nha a função sintática de (A) complemento direto. (B) predicativo do complemento direto. (C) predicativo do sujeito. (D) sujeito. 1.5 Na frase «[…] considerou o estuário do Tejo um fantástico porto natural» (ll. 61-63), o elemento destacado desempenha a função sintática de (A) complemento direto. (B) predicativo do complemento direto. (C) predicativo do sujeito. (D) complemento oblíquo. 1.6 Na frase Os fenícios tinham Lisboa por cidade estratégica, o elemento desta- cado desempenha a função sintática de (A) complemento direto. (B) predicativo do sujeito. (C) predicativo do complemento direto. (D) complemento agente da passiva. 2. Retoma o primeiro texto que leste e identifica os processos fonológicos ocorridos na evolução das seguintes palavras: a) «batees» (l. 4) batéis b) «boom» (l. 23) bom Grupo III Os atores (individuais e coletivos) e a afirmação da consciência coletiva são duas temáti- cas centrais da Crónica de D. João I. Partindo do estudo da obra de Fernão Lopes, redige uma exposição, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, sobre estas temáticas, fundamentando a tua perspetiva com exemplos significativos. Organiza a informação de forma coerente e bem estruturada. No final, revê o teu trabalho. PROFESSOR GrupoII 1.1(D); 1.2(C); 1.3(B); 1.4(D); 1.5(B); 1.6(C). 2. a) sinérese (fusão das vogais «ee» que dão origem ao ditongo «ei» por semivocalizaçãodasegunda); b)crasedevogais. GrupoIII Tópicosderesposta: “3FAD7E;@6;H;6G3;E$7EFD767iH;E ÁlvaroPais,Pajem,reideCastela); “3FAD5A7F;HA'AHA “@AH;6367@37E5D;F363DHAL37EF3 entidade (Povo) até então anónima e ignorada; “ D787D~@5;3 uE 3{Š7E 6A 'AHA 3E quais, embora individualizadas (os que trazem lenha para queimar os muros do paço; os que passam fome em Lisboa…), funcionam como um todo que luta pela identidade nacio- nal.
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    3 EDUCAÇÃO LITERÁRIA Farsa deInês Pereira (integral) t Caracterização das personagens. t Relações entre as personagens. t Representação do quotidiano. t Dimensão satírica. t Linguagem, estilo e estrutura: – características do texto dramático; – a farsa: natureza e estrutura da obra; – recursos expressivos. LEITURA Textos informativos. COMPREENSÃO DO ORAL Reportagem. Registos áudio e audiovisuais. EXPRESSÃO ORAL Apreciação crítica. ESCRITA Exposição sobre um tema. Apreciação crítica. GRAMÁTICA Funções sintáticas: complemento do nome.
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    GIL VICENTE FARSA DEINÊS PEREIRA Pieter Brueghel, Provérbios flamengos, 1559 (pormenor).
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    mensagens Maria do RosárioPedreira Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas e foi professora durante cinco anos, o que a influenciou a escrever para jovens. Ingressou na carreira editorial em 1987, sendo atualmente responsável pelo lançamento de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção e literatura juvenil, tendo ainda um blogue dedicado aos livros. 108 Por o dedo na ferida Nos anos 1970, quando também eu estudei a Farsa de Inês Pereira, a escola era muito diferente da de hoje: mais autoritária, mais disciplinada e, provavel- mente, mais triste. Tínhamos de pensar duas vezes antes de abrir a boca (não fosse sair asneira e vir aí castigo) e, enquanto o professor falava, nem um pio (quase se ouvia uma mosca na sala, se lá estivesse alguma). Ler Gil Vicente foi, por isso, uma lufada de ar fresco: ultrapas- sados os obstáculos iniciais daquela língua arcaica com borrifos de castelhano (o que, aliás, aconteceu muito mais depressa do que supúnhamos), não só podíamos rir à gargalhada na sala sem sermos repreendidos, mas também o facto de pronunciarmos em voz alta, diante de toda a turma, palavras como «caganeira» nos fazia provar uma fatia da liberdade que só chegaria inteira uns anos depois. O teatro – de que Gil Vicente é uma espécie de pai em Portugal – é fantástico também por causa disso: porque dá a quem representa e a quem escreve a liber- dade de ser outras pessoas e de dizer muitas verdades inconvenientes que, olhos nos olhos, não teriam sequer coragem de sussurrar. Nesse sentido, Gil Vicente foi mesmo um desbocado que não poupou ninguém: avarentos, adúlteros, padres ou ladrões; trabalhando na corte como uma espécie de animador cultural e desempenhando as funções de dra- maturgo, encenador e ator, nunca se coibiu perante os monarcas que o alimentavam de, nas suas peças, criticar duramente nobreza e clero e de pôr o dedo na ferida, recorrendo a um notável sentido de humor que ainda hoje é capaz de desatar o riso nos leitores. E porquê? Pois bem, é que tudo o que o mestre escreveu perma- nece atual, como se não tivessem passado entretanto séculos: os padres que praticam abusos, os maridos que trancam as mulheres em casa e não as deixam ter vida própria, os especuladores que enriquecem à custa do trabalho e da ignorância alheios, os comerciantes que roubam descaradamente os clientes. A esse título, o enredo da Farsa de Inês Pereira quase dava uma tele- novela: rapariga interesseira troca rapaz que realmente a ama por um sedutor que lhe há de desgraçar a vida. Duas coisas tornam, porém, este texto grande litera- tura: primeiro, a reviravolta surpreendente em que Gil Vicente transforma a vítima em carrasco, permitindo a Inês emendar a mão; depois, a forma com que se apre- senta o conteúdo: versos que são um prodígio (mais de mil!), palavras ricas e belíssimas, uma rima irrepreensí- vel. Obra de génio, em suma. Maria do Rosário Pedreira (Texto inédito, 2014) 5 10 15 20 25 30 35 40 45
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    cruzadas Se nao estouem erro Se não estou em erro, o meu primeiro contacto com Gil Vicente ocorre no final da década de 80. Eu teria mais ou menos a vossa idade e, talvez, um sen- tido estético bem mais sofrível que os anos 80 não pou- param a ninguém. Ninguém mesmo! Creio que terá sido então com a Farsa de Inês Pereira, e uns bons anos antes de O Auto da barca do inferno me ter ensinado impro- périos que ainda hoje uso no trânsito, que me estreei na obra do mais conceituado dramaturgo nacional. Fiquei rendido, desde logo. Impressionado, por exemplo, com o facto de uma obra do século XVI ser tão atual. Garanto-vos que, para esta farsa ser uma série norte-americana, daquelas que vocês tanto gostam, Inês Pereira só precisaria de uma atualização de guarda -roupa. Umas leggings, por exemplo. E era moça para tirar um número pouco saudável de selfies. No resto, a Inês Pereira do século XVI seria a Inês Pereira do século XXI. E quem diz Inês Pereira (e eu digo), diz a mãe da rapariga, os dois maridos (eu avisei que era moderno), Pero Marques e Brás da Mata, ou os judeus casamenteiros, Latão e Vidal, de seu nome. Se ainda não conhecem, vão, ao longo das vossas vidas, conhecer umas quantas Inês Pereira e uns poucos Brás da Mata. É certinho! Além de atual, a Farsa de Inês Pereira fascina por dis- parar em todas as direções, não poupando instituições (olá, clero; olá, casamento), nem géneros (olá, homens; olá, mulheres). A sociedade da época leva mesmo muita pancada da pena satírica de Gil Vicente, mas não de forma direta (como as minhas ofensas no trânsito). Não se deixem enganar: há muita subtileza em Gil Vicente. Muita mesmo. E uma gestão exemplar da pancada dada, até porque o senhor tinha de se cruzar com toda aquela gente que ridicularizara. Bom, mas, para verem do que falo, só mesmo lendo e digerindo este nosso Gil Vicente. A sério, ele não se importa. E para terminar: uma confidência. Embora Gil Vicente me tenha conquistado de imediato, a nossa relação não esteve imune a pequenas crises. A maior, corria o ano de 1995, ainda vocês não eram nascidos, foi quando o Gil Vicente Futebol Clube venceu o Benfica no Estádio da Luz, por 1-0. Golo de Makpoloka Man- gonga, no início da segunda metade. O meu fascínio por Gil Vicente sofreu um rombo de que julguei ser impossível recuperar. Sem qualquer culpa, claro, mas a mente humana é o que é e consegue estruturar injusti- ças deste calibre. O arrufo lá acabou por não durar. Dias mais tarde, fui ao dentista, e o que encontro na mesa onde se reúne o material de leitura para os pacientes que aguardam a sua vez? Ela mesma: a Farsa de Inês Pereira. Escusado será dizer que, perdida entre revistas com meses, se tratava, de longe, da possibilidade mais atual. E, ainda mais escusado será dizer, foi a que escolhi. Gil Vicente pode ter sido um autor do século XVI, mas a sua obra será sempre da época em que a lermos. Fernando Alvim (Texto inédito, 2014) Fernando Alvim Humorista, radialista e apresentador de televisão. Iniciou a sua atividade profissional em 1991, com 17 anos, e desde aí tem participado em inúmeros programas de rádio e televisão. É autor de vários livros e criador de revistas, de festivais e de um canal de televisão online. 109 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55
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    110 Unidade 3// GIL VICENTE Contextualização histórico-literária Textos e obras 1502 Monólogo do vaqueiro, Gil Vicente (1.ª obra). 1505 Quem tem farelos?, Gil Vicente. 1509 Auto da Índia, Gil Vicente. 1514 Comédia do viúvo, Gil Vicente. 1516 Garcia de Resende publica o Cancioneiro geral, que reúne as composições poéticas produzidas nas cortes de D. Afonso V (1438-1481). 1517 Auto da barca do inferno, Gil Vicente. 1518 Auto da barca do purgatório, Auto da alma, Gil Vicente. 1519 Auto da barca da glória, Gil Vicente. 1523 e 1525 Farsa de Inês Pereira, Farsa do juiz da Beira, Gil Vicente. 1527 A comédia Os estrangeiros, em prosa, surge talvez como a primeira obra de Sá de Miranda e a primeira comédia clássica portuguesa. 1528 Auto da feira, Gil Vicente. 1536 Floresta de enganos, Gil Vicente (última obra de que se tem conhecimento). Publicação da Gramática da linguagem portuguesa (primeira gramática portuguesa). Datas e acontecimentos 1465 Nascimento de Gil Vicente (data provável). 1477 D. João II assume o trono após abdicação do pai. 1481 Morte de D. Afonso V. 1492 Chegada de Colombo à América. 1495 D. Manuel I assume o trono. 1498 Vasco da Gama chega à Índia por via marítima. 1506 Massacre de Lisboa (autos de fé). Seguem-se as conversões forçadas dos judeus. 1515 D. Manuel I confia ao seu embaixador em Roma a missão secreta de pedir ao papa a permissão de estabelecer a Inquisição em Portugal. 1521 D. João III assume o trono. 1526 Sá de Miranda regressa de Itália e introduz em Portugal novas composições poéticas: o soneto, a canção, a sextina, as composições em tercetos e em oitavas e os versos de dez sílabas. 1531 Grande terramoto de Lisboa (26 de janeiro). 1536 Estabelecimento da Inquisição em Portugal. Gil Vicente terá morrido neste ano ou posteriormente. p Goa, gravura do século XVI.
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    111 Contextualização histórico-literária 1. Oautor Gil Vicente, dramaturgo português (1465?-1536?) que frequentou as cortes régias de D. Manuel I e D. João III (onde beneficiou da particular proteção de D. Leonor de Len- castre). Compôs e fez representar nos meios palacianos cerca de meia centena de autos de diversa natureza e alcance estético, em português e em castelhano. […] Quem era Gil Vicente? Esta pergunta formulada vezes sem conta por estudiosos de várias gerações permanece sem resposta fixa e credível. De entre todos os enigmas que subsistem a este respeito, o mais intrigante é o que se prende com a possibilidade de Gil Vicente, o dramaturgo, ter desempenhado, também sob proteção da mesma Leonor, a profissão de ourives, em elevados níveis de qualificação e criatividade artísticas. Apuracircunstânciadeamesmapessoaterexercido,emsimultâneo,duasatividadestão diferentes, que requerem, cada uma delas uma aprendizagem e uma prática tão especiali- zada e absorvente suscitou natural estranheza. Com o intuito de esclarecer definitivamente a questão, Anselmo Braamcamp Freire […] estabeleceu uma base documental tendente a confirmar a coincidência de identidades […]. A base da suposição consistia no registo de nomeação de Gil Vicente para mestre da Balança, na Casa da Moeda, contendo uma anotação (datável do século XVI), que parecia dissolver todas as dúvidas: «Gil Vicente trovador, Mestre da Balança». […] Contrariamente ao que possa parecer, porém, a questão não está resolvida. António José Saraiva, por exemplo, […] coloca fundadas reservas à interpretação dos documentos proposta por aquele biógrafo, salientando nomeadamente o facto de a célebre anotação manuscrita,no documento queindicaGil Vicente,de formaunae abrangente,comopoeta e ourives, ter sido aposta por mão estranha e, por isso, não fiável. […] A aceitação generalizada da tese da identidade deve assim ler-se não como o resultado concludente do esclarecimento arquivístico, mas como uma vontade de aceitação (talvez demasiado precipitada) de uma circunstância excecional. José Augusto Bernardes, Aníbal Pinto de Castro et al. (dir.), Biblos: Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa, vol. 5, Lisboa, Verbo, 1995, p. 810 (texto adaptado) 2. A obra Descontando as chamadas «obras meúdas», o leitor tem hoje acesso a 46 autos de Gil Vicente, figurando quase todos […] na Copilaçam de todalas obras, editada pela primeira vez em 1562, sob os auspícios de um dos filhos do autor, Luís Vicente, a quem é atribuído grande número de emendas e correções livres e beneficiando ainda da intercessão de outra filha, Paula Vicente, camareira da infanta D. Maria. Até que ponto Gil Vicente, ele próprio, reviu e coordenou a sua obra é assunto ainda muito discutido, admitindo uns uma intervenção profunda e sistemática e inclinando-se outros para uma maior responsa- bilidade de Luís Vicente […]. Em 1586 a coletânea vicentina imprime-se de novo e embora os efeitos da censura inquisitorial sejam nela muito mais visíveis, o texto surge, por vezes, mais completo e cuidado. José Augusto Bernardes, Aníbal Pinto de Castro et al. (dir.), op. cit., p. 814 (texto adaptado) 5 10 15 20 25 5 10 Gravura de Gil Vicente. Frontispício da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente. Primeira página da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente.
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    112 Unidade 3// GIL VICENTE 3. O contexto Em Portugal, durante o primeiro terço do século XVI, o tra- balho teatral recorta-se como prática autónoma, como atividade pedida,favorecidaelimitada,comomercadoriaquesefaz,vende e circula por espaços sociais cada vez mais alargados: câmaras e capelas de paço por encomenda de reis e rainhas, conventos e igrejas de cidade, casas de fidalgos, escolas. Uns ordenam e outros representam. Emergem novos ofícios em busca de legi- timação: autores e atores. Paga-se a quem faz, encomendam-se produtos com prazos e medidas e o teatro tenta equilibrar oferta e procura de arte. Em Portugal, Vicente situa e processa um sistema de divisão de trabalho que por séculos se repetiu, sem se aprender a produ- zir-lhe alternativa. É uma formação clássica da história do teatro e da língua, que pode durar até parecer natural e eterna. A produção teatral de Vicente dura de 1502 a 1536. É o tempodeapogeuda corteportuguesa comocentrodeum movi- mento europeu de expansão que abrange três continentes: a África,aÁsia,aAmérica.Éomomentohistóricoinvulgaremque Lisboa se torna um lugar de produção de luxo e arte, com que só rivalizam as cortes castelhana e francesa, ou a do Papa em Roma. Se o autor dos autos é quem eu julgo e se as contas estão certas, Vicente (talvez ourives de seu primeiro ofício) terá tra- balhado no teatro dos trinta e dois aos sessenta e seis anos de vida. No princípio do tempo manuelino, a atividade de Vicente terá sido instigada, apoiada, paga por Lianor, viúva de João II e irmã de Manuel I, protetora das artes e organizadora eventual de divertimentos da corte. Morto o rei em 1521, sucede-lhe o filho João III, que, como o pai e a tia, manda fazer teatro em casa. O último auto é de 1536, ano do estabelecimento da Inquisição em Portugal. A coincidência pode não ser determinante. A nova instituição repressiva apanhou Vicente velho demais para lhe poder mexer no corpo vivo. […] Quase tudo o que hoje podemos conhecer vem apenas de alguns folhetos soltos e da Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, acabada de imprimir em 1562, fonte pós- tuma e omissa, mas única de tal dimensão. O tempo de Vicente é o do século um da tipografia e, ainda em vida do autor dos autos, o teatro moderno começa a ser posto em letra de forma. Em 1516, o Cancio- neiro geral imprime o primeiro documento conhecido de atividade teatral de Vicente: a transcrição dos setenta e dois versos da sua ajuda no Processo de Vasco Abul. A seguir vem o Auto de moralidade (Inferno), de cerca de 1517, que pode ser o primeiro exem- plo de edição de texto de teatro em Portugal. Depois vieram outros impressos, mas perderam-se muitos, deixando um rasto escasso de meia dúzia de espécies. Osório Mateus, «Scilicet», in Estudos portugueses. Homenagem a António José Saraiva, Lisboa, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1990, pp. 428-430 José Malhoa, Retrato da Rainha D. Leonor, 1926. 5 10 15 20 25 30 35 40
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    113 Contextualização histórico-literária CONSOLIDA 1. Apósa leitura dos textos, responde a cada um dos itens de 1.1 a 1.8, selecionando a opção correta. 1.1 Apesar de bastante estudada, a biografia de Gil Vicente é (A) bastante conhecida. (B) comprovada com vários documentos. (C) misteriosa e inconclusiva. (D) clara e objetiva. 1.2 O nascimento e a morte do dramaturgo situam-se entre (A) 1480 e 1540. (B) 1465 e 1540. (C) 1470 e 1542. (D) 1475 e 1565. 1.3 De 1502 a 1536, Vicente produziu (A) cerca de trinta peças de teatro. (B) à volta de quarenta peças de teatro. (C) menos de quarenta peças de teatro. (D) mais de quarenta peças de teatro. 1.4 A sua obra foi editada (A) em vida. (B) pela Inquisição. (C) pelos seus filhos. (D) pela sua esposa. 1.5 No século XVI, a arte de representação tornou-se (A) empregadora. (B) desnecessária. (C) retrógrada. (D) redundante. 1.6 O papel de Gil Vicente é relevante porque (A) foi um ator versátil e consagrado na época. (B) foi um agente fulcral em todo o processo teatral. (C) trabalhou durante 34 anos. (D) foi um autor versátil e consagrado na época. 1.7 O momento glorioso da corte e da economia portuguesas traduziu-se (A) num retrocesso da cultura portuguesa. (B) numa estagnação da cultura portuguesa. (C) num apogeu da cultura portuguesa. (D) num retrocesso e numa estagnação. 1.8 Os factos coincidentes em 1536 são (A) a morte de Gil Vicente e o estabelecimento da Inquisição em Portugal. (B) a morte de Gil Vicente e a edição da sua obra. (C) as mortes de Gil Vicente e de D. Manuel. (D) a morte de Gil Vicente e a publicação do Auto da visitação. PROFESSOR Leitura 7.1; 8.1. MC Consolida 1.1 (C); 1.2 (B); 1.3 (D); 1.4 (C); 1.5 (A); 1.6(B);1.7(C);1.8(A). PowerPoint Contextualização
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    114 Unidade 3// GIL VICENTE Pieter Brueghel, o Velho, Doze provérbios, 1560 (pormenor). 4. Subgéneros do teatro vicentino I ApardasfarsascontinuouGilVicenteaescreverautosreligiososetambémcomédias etragicomédias.Adiferençaentreestasváriaspeças[estárelacionadacoma]ocasiãoem queeramrepresentadas:asobrasdedevoção,nasmanhãsdeNatalouemqualqueroutro dia solene; as farsas de folgar, comédias, etc., em serões – aqueles famosos serões do rei- nado de D. Manuel, a que multidões de cortesãos acorriam ao entardecer e que Sá de Miranda havia de recordar com saudade. Todas estas obras nos apresentam tipos reais, visto que os segundos planos são formados pelo povo, o verdadeiro herói dos autos de Vicente como o é das crónicas de Fernão Lopes. Aubrey Bell, A literatura portuguesa (história e crítica), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1971, pp.148-149 (texto adaptado) 5. Subgéneros do teatro vicentino II Auto é um nome de teatro. É uma atualização histórica qui- nhentista, que em Vicente parece compreender o paradigma comédias, farsas, moralidades e designa cerca de cinquenta pro- duções teatrais sucessivas. Mas o nome auto desliza do teatro paraatipografiaepodereferir-seaumimpresso.Assim,épreciso distinguir dois usos da palavra: Auto/Auto. O primeiro é literal, conserva mais presente a ligação etimológica com agir, designa uma ação teatral. O segundo é metonímico e nomeia um docu- mento impresso. A palavra refere coisas diferentes: primeiro o teatro, os impressos depois. Osório Mateus, «Scilicet», op. cit., 1990, p. 430 CONSOLIDA 1. Partindo dos excertos que acabaste de ler, completa o texto integrando as palavras seguintes. tdramático tpróprio timpresso tsubgéneros tgénero t ação trepresentada tocasião Para cada a) havia um b) de representação. Auto, no tempo de Vicente, não é nome c) . Designa quer a d) teatral e) quer o fólio f) em que o texto g) circulava. Entende-se, desta forma, que o termo abarque também comédias, farsas, e outros g) dramáticos. 5 5 10 PROFESSOR Leitura 8.1. MC Consolida 1. a)ocasião; b)género; c)próprio; d)ação; e)representada; f)impresso; g)dramático; h)subgéneros.
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    115 Contextualização histórico-literária 6. Estruturasexterna e interna A Farsa de Inês Pereira é a peça mais extensa da obra de Gil Vicente, sendo conside- rada uma das obras-primas do autor. Estrutura externa Apesar de a farsa não ter qualquer divisão em atos e cenas, é possível estabelecer várias «cenas», com a entrada e saída de personagens, como é típico do teatro vicentino. Estrutura interna A farsa estrutura-se a partir de quadros que se vão sucedendo, e que estão organiza- dos da seguinte forma: 1. Vida de Inês, ainda solteira, com a mãe. 2. Conselhos de Lianor Vaz sobre o casamento. 3. Apresentação e entrada de Pero Marques. 4. Recusa da proposta de casamento por Inês. 5. Anúncio e entrada de um novo pretendente. 6. Casamento de Inês com o Escudeiro. 7. Desencanto com o casamento. 8. Viuvez de Inês Pereira. 9. Nova vida de casada com Pero Marques. 10. Concretização do desejo de Inês. Todos estes quadros se sucedem com ausência de marcação temporal e consequente inverosimilhança (com exceção da leitura da carta anunciando a morte de Brás da Mata, três meses após a sua partida). Exposição Conflito Desenlace Desejo de Inês de se libertar (pelo casamento) Proposta e recusa de casamento com Pero Marques Novo pretendente e casamento falhado com o Escudeiro Casamento com Pero Marques Concretização do desejo de Inês Quadros 1 e 2 – De «Renego deste lavrar» (v. 3) até «e esta é a concrusão» (v. 169). Quadros 3 e 4 – De «Leixemos isto, eu venho» (v. 170) até «e hão de vir logo aqui» (v. 423). Quadros 5, 6, 7 e 8 – De «Ou de cá» (v. 424) até «pois tam caro há de custar» (v. 949). Quadro 9 – De «Como estais Inês Pereira» (v. 950) até «não me corte a madre o frio» (v. 1123). Quadro 10 – De «Marido assi me levade» (v. 1124) até «Pois assi se fazem as cousas» (v. 1157). 7. Teatro em verso Estrofes Nove versos – nonas. Rima abbaccddc (interpolada e emparelhada). Métrica Predomina a redondilha maior («Re / ne / go / des / te / la / vrar»).
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    116 Unidade 3// GIL VICENTE Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira F arsa – é um género pertencente ao modo dramático que apresenta normalmente o tema do engano. […] A farsa enquanto género dramático centra-se no relacionamento humano, familiar e amoroso, na oposição dos valores tradicionais e convencionais a valores individuais e pessoais e no recurso frequente a um triângulo amoroso. Teresa Gonçalves, in www.edtl.com.pt (texto adaptado, consultado em outubro 2014) PONTO DE PARTIDA 1. Gil Vicente foi desafiado a escrever um texto dramático que ilustrasse um dito popular muito comum na época: «Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube.» 1.1 Interpreta o seu sentido. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Farsa de Inês Pereira (1523) Auto de Inês Pereira [farsa de folgar]* . Feito porGilVicente,representadoaomuitoaltoemui poderoso rei dom João o terceiro, no seu convento de Tomar. Era do Senhor de 1523. O seu argu- mento é um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me der- rube [porquanto duvidavam certos homens de bom saber se o Autor fazia de si mesmo estas obras, ou se as furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse scilicet1 . E sobre este motivo se fez esta Farsa]. As figuras são as seguintes: Inês Pereira, sua Mãe, Lia- nor Vaz, Pero Marques, dous judeus um chamado Latão e outro Vidal, um Escudeiro com um seu Moço, um Ermitão. Gil Vicente, As obras de Gil Vicente, direção científica de José Camões, vol. II, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001, p. 559 1. A partir da leitura da primeira didascália, completa, no teu caderno, a tabela sobre o contexto em que a farsa foi representada. 1.1 Atenta na imagem acima do pormenor do fólio de 1523 da peça vicentina que vais estudar. Identifica as figuras do elenco da farsa, presentes no fólio. Subgénero dramático Para quem foi representada Local de representação Ano de representação Desafio * Dado importante que consta na Copilaçam de 1562. 1 Scilicet: comprovativo. Pormenor do fólio do frontispício do Auto de Inês Pereira. PROFESSOR Oralidade 1.4. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 16.1. Gramática 17.3; 18.1. MC NotaExplicativa Inês Pereira é um dos raros autos vicentinos de que sobreviveram dois testemunhos impressos quinhen- tistas, o primeiro num folheto de datação incerta, mas seguramente feitoapartirdaediçãooriginal[…],eo segundonaCompilaçamde1562[…], unânimesquantoaolocaleaoanoda primeira representação – convento deTomar,1523–peranteassembleia sobre a qual pouco se sabe além de que era presidida por D. João III. Aqueles que, ao longo dos anos, se interessarampelafixaçãotextualda FarsadeInêsPereiraeconsideraram por isso as duas edições quinhentis- tas dão clara preferência ao texto avulso. Quase sempre justificada – quando o é – de forma sumária, tal preferência parece ficar a dever-se essencialmente à maior extensão do texto do folheto, à presença mais abundante de didascálias e ao maior graudepormenorizaçãodestas. CristinaAlmeidaRibeiro,Inês,Coleção Vicente,Lisboa,Quimera,1991,p.3 PontodePartida 1.1 Mais vale algo de qualidade infe- rior mas que apoie, do que algo de qualidadesuperiorquefaçamal. EducaçãoLiterária 1. Subgénero dramático: farsa. Para quem foi representado: D. João III. Localderepresentação:conventode Tomar. Ano de representação: 1523. Desafio: saber se Gil Vicente era o verdadeiro autor das suas peças ou se as copiava de outros; provérbio muito comum na época que deu o mote à dramatização: «Mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube.» 1.1Escudeiro,InêsPereira,LianorVaz eMãe.
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    117 Farsa de InêsPereira Sem casamento, que enfadamento… Entra logo Inês Pereira e finge que está lavrando só em casa, e canta esta cantiga: Quien con veros pena y muere qué hará cuando no os viere?1 Renego deste lavrar2 e do primeiro que o usou ao diabo que o eu dou que tam mau é d’aturar. Oh Jesu que enfadamento e que raiva e que tormento que cegueira e que canseira. Eu hei de buscar maneira dalgum outro aviamento3 . Coitada assi hei d’estar encerrada nesta casa como panela sem asa4 que sempre está num lugar. E assi hão de ser logrados dous dias amargurados que eu posso durar viva e assi hei d’estar cativa em poder de desfiados5 . Antes o darei ao diabo que lavrar mais nem pontada já tenho a vida cansada de jazer sempre dum cabo6 . Todas folgam e eu não todas vem e todas vão onde querem senam eu. Ui que pecado é o meu ou que dor de coração? Esta vida é mais que morta sam eu coruja ou corujo ou sam algum caramujo que nam sai senão à porta? E quando me dão algum dia licença como a bugia que possa estar à janela é já mais que a Madanela quando achou a aleluia7 . 5 10 15 20 25 30 35 Falado InêsPereira Mãe Inês Mãe Inês 1 vv. 1-2: Quem com ver-vos pena e morre / que fará quando vos não vir? 2 v. 3: odeio costurar. 3 Aviamento: solução. 4 v. 14: compara-se a objeto sem utilidade. 5 vv. 19-20: prisioneira a fazer travesseiros de franjas. 6 vv. 23-24: já estou cansada de estar no mesmo sítio. 7 vv. 34-38: quando me deixam ir à janela, pensam que sou mais feliz que Madalena quando viu Cristo ressuscitado. 8 v. 52: Como tu estás! Esses teus pensamentos desproposi- tados (para a época). 9 vv. 55-56: afirma que também ela se quer casar depressa, mas a Mãe está a levar muito tempo em consenti-lo. Vem a Mãe da igreja e não na achando lavrando diz: Logo eu adevinhei lá na missa onde eu estava como a minha Inês lavrava a tarefa que lhe eu dei. Acaba esse travesseiro. Ui naceu-te algum unheiro ou cuidas que é dia santo? Praza a Deos que algum quebranto me tire de cativeiro. Toda tu estás aquela. Choram-te os filhos por pão? Prouvesse a Deos que já é rezão de nam estar tam singela. Olhade lá o mau pesar8 como queres tu casar com fama de preguiçosa? Mas eu mãe sam aguçosa e vós dais-vos de vagar9 . 40 45 50 55
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    118 Unidade 3// GIL VICENTE 11 11 11 11 11 11 11 11 11 11 1 1 11 11 11 11 11 11 11 11 1 11 11 11 11 11 11 1 1 11 11 1 11 1 1 1 1 1 11 11 11 1 1 1 1 1 1 1 1 1 11 1 1 11 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 11 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 11 1 1 1 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 Un Un Un Un U Un Un Un Un Un U Un n Un Un Un Un Un Un Un Un Un Un Un Un U Un U Un U Un Un n Un Unid id id i id id id id id d d id id d id id id d d d id id d d d id d d d d d d d d d d d id d d d d d d d d d id id id d d d d d d d d d d id d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d dad ad ad ad ad ad ad ad ad ad ad d ad ad ad a ad ad ad ad ad ad ad ad ad ad ad d d d d d d d d d d d d ad d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d d de e e e e e e e e e e e e e e e e e e 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3 // // // / // // // / / / // / // // // // / / / // // // // // / // // / / // / // // // // / // / // // / / // / // / G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G G GIL IL IL IL IL IL IL IL IL IL IL IL L L IL IL I IL L L L L L L L L L I IL L L L L L L L L L L L L L L L I I I I IL L L L L IL IL L L L L L L L L L L L L L L L L L V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V V VI IC IC IC C IC IC IC IC IC IC I IC I I I I I I I IC C C I I I I I I I I I IC I I I EN EN EN EN EN EN EN EN EN EN EN EN EN ENTE TE TE TE TE TE TE TE TE TE T TE TE TE TE 10 vv. 60-62: dá tempo ao tempo. 11 v. 63: Quando menos esperares… 12 vv. 67-69: prefiro falar de casamento a costurar. 13 Amarela: branca, pálida de susto. 14 v. 78: Nem sei como estou em mim. 15 Rei: rei D. João III. 16 Lançou mão de mi: quis agarrar-me. 17 v. 93: para rapaz era grande de mais. 18 vv. 94-96: deixei-me apalpar, pois estava rouca para conseguir gritar. 19 vv. 97-100: o padre queria agarrar Lianor para depois a absolver, e esta não queria nada disso. 20 v. 106: quando viu que não conse- guia levar avante os seus planos. 21 v. 112: vá para o inferno. 22 v. 122: e eu não estivesse rouca, gri- taria. 23 Conhecer: jogo de sentido com a palavra «conhecer» (ter relações sexuais). 24 v. 140: a Mãe tem dificuldade em acreditar em Lianor Vaz (carpir consistia em arrancar cabelos e/ou arranhar o queixo. Lianor não apre- senta nenhuma dessas evidências). 25 v. 142: Lianor argumenta que não tinha unhas para se arranhar, nem cabelos para arrancar («tosquiada»). 26 v. 144: queixar-me, para quê? Não terei eu juízo suficiente para me defender? 27 vv. 146-147: um almocreve, que passava com o animal de carga, foi a sua salvação. Ora espera assi vejamos. Quem já visse esse prazer. Cal-te que poderá ser que ante Páscoa vem os Ramos. Nam te apresses tu Inês maior é o ano que o mês10 . Quando te nam percatares11 virão maridos a pares e filhos de três em três. Quero-m’ora alevantar. Folgo mais de falar nisso assi Deos me dê o paraíso mil vezes que nam lavrar12 . Isto nam sei que o faz. Aqui vem Lianor Vaz. E ela vem-se benzendo. Jesu que me eu encomendo quanta cousa que se faz. Lianor Vaz que é isso? Venho eu mana amarela13 ? Mais ruiva que ùa panela. Nam sei como tenho siso14 . Jesu Jesu que farei? Não sei se me vá a el rei15 se me vá ao cardeal. E como? Tamanho é o mal? Tamanho, eu to direi. Vinha agora por ali ò redor da minha vinha e um clérigo mana minha pardeos lançou mão de mi16 . Nam me podia valer diz que havia de saber se era eu fêmea se macho. Ui seria algum mochacho que brincava por prazer. Si mochacho sobejava17 . Era um zote tamanhouço e eu andava no retouço tam rouca que nam falava18 . Quando o vi pegar comigo que me achei naquele perigo assolverei nam assolverás tomarei nam tomarás19 Jesu homem que hás contigo? Mãe Inês Mãe Inês Mãe Inês Lianor Vaz Mãe Lianor Mãe Lianor Mãe Lianor Mãe Lianor 60 65 70 75 80 85 90 95 100 Irmã eu te assolverei c’o breviairo de Braga. Que breviairo ou que praga que nam quero. Áque del rei. Quando viu revolta a voda20 foi e esfarrapou-me toda o cabeção da camisa. Assi me fez dessa guisa outro no tempo da poda. Eu cuidei que era jogo e ele dai-o vós ò fogo21 . Tomou-me tamanho riso riso em todo meu siso e ele deixou-me logo. Si agora ieramá também eu me ria cá das cousas que me dizia: chamava-me luz do dia. Nunca teu olho verá. Se estivera de maneira sem ser rouca bradara eu22 mas logo o demo me deu cadarrão e peitogueira cócegas e cor de rir e coxa pera fugir e fraca pera vencer. Porém pude-me valer sem me ninguém acudir. O demo e não pode al ser se meteu no corpo dele. Mana conhecia-t’ele? Mas queria-me conhecer23 . Vistes vós tamanho mal. Eu me irei ao cardeal e far-lh’-ei assi mesura e contar-lh’-ei a aventura que achei no meu olival. Mãe Lianor 105 110 115 120 125 130 135 140 145 Mãe Lianor Nam estás tu arranhada de te carpir nas queixadas24 . Eu tenho as unhas cortadas e mais estou trosquiada25 e mais pera que era isso e mais pera que é o siso26 e mais no meo da requesta veo um homem de ùa besta que em vê-lo vi o paraíso27 . Mãe Lianor Mãe Lianor
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    119 Farsa de InêsPereira 119 Farsa de Inês Pereira Mãe Lianor E soltou-me porque vinha28 bem contra sua vontade porém a falar verdade já eu andava cansadinha. Nam me valia rogar nem me valia chamar áque de Vasco de Fóis29 acudi-me como sóis. E ele senam pegar30 : mais mansa Lianor Vaz assi Deos te faça santa. Trama te dê na garganta. Como isso assi se faz? Isto nam releva nada31 tu nam vês que sam casada? Deras-lhe màora boa32 e mordera-lo na coroa. Assi fora escomungada. Nam lhe dera um empuxão porque sou tam maviosa que é cousa maravilhosa e esta é a concrusão33 . Gil Vicente, op. cit., pp. 559-564 150 155 28 v. 148: o padre soltou-me porque vinha um almocreve a chegar. 29 v. 154: alferes-mor da Ordem de Cristo, em Tomar, local de repre- sentação da peça. 30 v. 156: ele não me largava. 31 v. 161: isso não tem importância nenhuma. 32 v. 163: desses-lhe uma sova. 33 Concrusão: conclusão. 1. Apesar de, no texto, não haver indicações nesse sentido, é possível dividir o excerto em três cenas. 1.1 Comprova a veracidade da afirmação, dividindo o excerto. Fundamenta a tua opção de divisão. 2. Indica a ideia recorrente no monólogo de Inês e apresenta três fatores que a motivam. Justifica a tua resposta com passagens textuais. 3. Faz a caracterização psicológica de Inês. 4. No diálogo de Inês com a Mãe, é visível o tipo de relacionamento entre ambas, bem como a existência de dois pontos de vista. 4.1 Refere cada um dos pontos de vista. 4.2 Relaciona o papel da mãe neste excerto com o papel desempenhado pelas mães nas cantigas de amigo. Fundamenta a tua resposta. 5. Lianor Vaz entra em cena afogueada e relata uma história que se passou na ida para casa de Inês Pereira (vv. 76-169). Sintetiza-a. 6. Recolhe informações do texto sobre os costumes e o modo de vida das três personagens femininas que permitam traçar o quadro do quotidiano quinhentista. 7. Identifica o recurso expressivo presente em cada alínea: a) «E assi hão de ser logrados» (v. 16); b) «Logo eu adevinhei / lá na missa onde eu estava / como a minha Inês lavrava / a tarefa que lhe eu dei» (vv. 39-42). 7.1 Comenta o valor expressivo presente nos versos da alínea b). GRAMÁTICA 1. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução das seguintes palavras: a) olhade (v. 52) olhai b) ante (v. 60) antes c) ũa (v. 77) uma d) BREVIARIU- breviairo (v. 103) 160 165 Caracterização das personagens p. 147 FI Representação do quotidiano p. 141 FI Fonética e fonologia p. 38 FI Recursos expressivos pp. 334-335 SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.1CenaI:monólogodeInês; cena II: diálogo entre Inês e a Mãe; cena III: diálogo entre Lianor Vaz e a Mãe. Esta divisão baseia-se na entradadaspersonagensemcena. 2.Aideiaéadecativeiro.Ostrêsfato- ressãooconfinamentoaoespaçoda casa, «que nam sai senão à porta?», a subjugação à autoridade materna, «a tarefa que lhe eu dei», e a obri- gação de trabalhar nos lavores, «Renegodestelavrar». 3. Inês é uma jovem revoltada e in- conformada por não poder fazer o que quer, desejando libertar-se da vidaqueleva. 4.1 Trata-se de um relacionamento poucoamistoso.Têmpontosdevista díspares: Inês detesta as tarefas domésticasedesejacasar-separase libertar do jugo da mãe («Prouvesse a Deos que já é rezão / de nam estar tam singela»); a mãe, pelo contrário, acusaInêsdeserpreguiçosaeapres- sada para se casar («como queres tu casar / com fama de preguiçosa?»; «NamteapressestuInês»). 4.2 Também aqui, à semelhança das cantigas de amigo, a mãe tem um papel de confidente, conselheira e de autoridade (note-se que a figura paternaestáausente). 5. Lianor relata o seu encontro com um clérigo que desejava um encon- tro íntimo com ela. Apesar de ini- cialmente se dizer indignada por tal relacionamento, subentende-se que o clérigo foi bem-sucedido nos seus intentos. Lianor, perante Inês e a mãe,deixatranspareceroprazerque talexperiêncialheproporcionou. 6. Inês está a «lavrar» (bordar/coser) um travesseiro, provavelmente, pa- ra o enxoval; a Mãe vem da missa. Estas personagens contribuem para conhecermososhábitosecostumes doquotidianodeQuinhentos. 7. a) interrogação retórica; b) ironia. 7.1 Com a ironia, a mãe pretende mostrar a Inês que já adivinhava que ela não estava a trabalhar como era suposto. Gramática 1. a) síncopeesinérese; b) paragoge; c) epêntese;d)metátese.
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    120 Unidade 3// GIL VICENTE EDUCAÇÃO LITERÁRIA Pretendente apresentado e logo rejeitado… Leixemos isto, eu venho com grande amor que vos tenho porque diz o exemplo antigo que amiga e bom amigo mais aquenta que o bom lenho. Inês está concertada pera casar com alguém? Até ’gora com ninguém nam é ela embaraçada. Em nome do anjo bento eu vos trago um casamento filha nam sei se vos praz. E quando Lianor Vaz? Já vos trago aviamento1 . Porém nam hei de casar senam com homem avisado inda que pobre e pelado seja discreto em falar que assi o tenho assentado. Eu vos trago um bom marido rico, honrado, conhecido. Diz que em camisa vos quer2 . Primeiro eu hei de saber se é parvo se é sabido. Nesta carta que aqui vem pera vós filha d’amores veredes vós minhas flores3 a discrição que ele tem. Mostrai-ma cá quero ver. Tomai. E sabeis vós ler? Ui e ela sabe latim e gramáteca e alfaqui e sabe quanto ela quer4 . [Lianor Vaz] Mãe Lianor Inês Lianor Inês Lianor Inês Lianor Inês Lianor Mãe 170 175 180 185 190 195 200 1 Aviamento: pretendente pronto a casar. 2 v. 191: pobre e sem dote. 3 vv. 194-196: carta cheia de galanteios e lisonjas. 4 vv. 200-202: a Mãe exagera nas qualidades da filha, pois quer que ela se case. 5 Vossa mercea/me encomendo: recomendo-me a vossa mercê. 6 Benza-vos Deos: que Deus vos abençoe. 7 Bom jeito: tão bonita. 8 vv. 210-211: que a vossa mãe se sinta feliz e enobrecida con- vosco. 9 v. 218: diz que já a vira, o que é mentira. 10 v. 219: é este que me vindes oferecer? 11 vv. 220-221: lede a carta até ao final, sem juízos de valor, pois tenho a certeza de que ele poderá ser vosso marido. Lê Inês Pereira a carta, a qual diz assi: Senhora amiga Inês Pereira: Pero Marques vosso amigo que ora estou na nossa aldea mesmo na vossa mercea me encomendo5 e mais digo: digo que benza-vos Deos6 que vos fez de tam bom jeito7 bom prazer e bom proveito veja vossa mãe de vós8 . E de mi também assi ainda que eu vos vi estoutro dia de folgar e nam quisestes bailar nem cantar presente mi. Na voda de seu avô ou donde me viu ora ele9 ? Lianor Vaz este é ele10 ? Lede a carta sem dó que inda eu sam contente dele11 . Inês Lianor 205 210 215 220 CD 1 Faixa n.o 16 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 16.1; 16.2. Gramática 18.3; 18.4. Oralidade 2.1. Escrita 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. MC
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    121 Farsa de InêsPereira 225 230 235 240 245 250 255 260 265 270 275 280 285 290 Torna Inês Pereira a prosseguir com a carta: Nem cantar presente mi pois Deos sabe a rebentinha que me fizestes então. Ora Inês que hajais benção de vosso pai e a minha que venha isto a concrusão12 . E rogo-vos como amiga que samicas vós sereis que de parte me faleis antes que outrem vo-lo diga13 . E se nam fiais de mi esteja vossa mãe aí e Lianor Vaz de presente. Veremos se sois contente que casemos na boa hora. Dês que nasci até agora nam vi tal vilão com’este nem tanto fora de mão14 . Nam queiras ser tam senhora15 casa filha que te preste nam percas a ocasião. Queres casar a prazer no tempo d’agora Inês? Antes casa em que te pês que não é tempo d’escolher. Sempre eu ouvi dizer: ou seja sapo ou sapinho ou marido ou maridinho tenha o que houver mister16 este é o certo caminho. Pardeos amiga essa é ela17 : mata o cavalo de sela e bô é o asno que me leva. Filha no Chão do Couce18 quem nam puder andar choute19 e mais quero quem me adore que quem faça com que chore. Chamá-lo-ei? Si venha e veja-me a mi. Quero ver quando me vir se perderá o presumir logo em chegando aqui pera me fartar de rir. Touca-te bem se vier pois que pera casar anda. Essa é boa demanda20 . Cerimónias há mister homem que tal carta manda. Eu o estou cá pintando21 sabeis mãe que eu adevinho? Deve ser um vilanzinho. Ei-lo se vem penteando será com algum ancinho. Aqui vem Pero Marques, vestido como filho de lavrador rico, com um gabão azul dei- tado ao ombro, com o capelo por diante, e vem dizendo: Homem que vai onde eu vou nam se deve de correr ria embora quem quiser que eu em meu siso estou. Nam sei onde mora. Aqui olhai que me esquece a mi. Eu creo que nesta rua esta parreira é sua já conheço que é aqui. ChegaPeroMarquesaondeelasestãoediz: Digo que esteis muit’embora22 . Folguei ora de vir cá eu vos escrevi de lá ùa cartinha senhora assi que e de maneira23 . Tomai aquela cadeira. E que val aqui ùa destas?24 Oh Jesu que Jão das Bestas25 olhai aquela canseira26 . 12 v. 227: que o casamento se realize. 13 Me faleis / antes que outrem vo-lo diga: que me respondas apenas a mim, antes que surja outro pretendente. 14 v. 239: tão disparatado. 15 v. 240: conselho da Mãe para não ser tão orgulhosa e vaidosa. 16 v. 250: tenha ele o que for pre- ciso para ser um bom marido, ou seja, tenha dinheiro. 17 v. 252: isso é que é a verdade! 18 Chão de Couce (distrito de Leiria). 19 v. 256: quem não puder ter muito, contente-se com pouco. 20 v. 267: só faltava essa. 21 Pintando: imaginando. 22 v. 284: forma de saudação: «Espero que estejais bem». 23 v. 288: e parece que. 24 v. 290: para que serve isto (a cadeira)? 25 v. 291: que simplório. 26 v. 292: a atrapalhação de Pero Marques para se sentar (pro- vavelmente nunca teria visto aquele objeto). 29 o er16 : oute19 re ore. Inês Lianor Mãe Lianor Inês Mãe Inês Mãe Pero Marques Inês
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    122 Unidade 3// GIL VICENTE 27 Morgado: entenda-se «mor gado» (a maior parte do gado). A Mãe entende que ele tinha herdado um «morgado». 28 v. 302: isso seria ouro sobre azul, ou seja, perfeito. 29 v. 303: tenho gado que sobeja. 30 v. 311: eu também sou homem de bem. 31 v. 313: não há ninguém melhor para ela do que eu. 32 v. 317: devem estar debaixo das outras coisas. 33 v. 318: (referindo-se ao capuz) segurai isto. 34 vv. 321-324: depois de tirar tudo do capuz do gabão [(contas de vidro (perlas), chocalhos, um novelo, peias (cordas para segu- rar os animais)], não encontra as peras. 35 vv. 331-334: Inês diz que o pre- sente vinha fresco (novo, bom). Pero entende o sentido literal do adjetivo e responde que vinham quentes, pois vinham no fundo do capelo. 36 vv. 335-336: interessada que o casamento se concretize, a Mãe deixa-os sozinhos. 37 vv. 337-338: vou-me embora, não se lembre alguém de inventar al- go ruim sobre mim. 38 v. 341: o atrevimento do galante. 39 v. 344: homem sério, honesto, decente. 40 v. 345: desafabo de Inês – como é atrasado, antiquado, retrógrado. 41 v. 348: este é diferente dos outros (para pior, no entendimento de Inês). 42 v. 358: Inês rejeita-o. 43 vv. 360-361: não vos incomoda- rei mais, embora me cause bas- tante dor. 44 v. 363: enquanto não quiserdes [casar comigo]. 45 vv. 364-367: que mulheres são estas, que quando se pensa que está tudo certo/encaminhado, elas escarnecem de nós. 46 v. 369: por Deus, que cabeça a minha – Pero Marques pergunta a Inês se lá deixou os haveres (fato). 47 v. 372: dá pela falta da candeia (vela). 48 v. 376: a simplicidade mais uma vez de Pero Marques, que, ape- sar de ter sido rejeitado, ainda se preocupa com o bem-estar de Inês. 49 v. 383: que agiria de outra forma. 50 v.385: comparaPeroajudeus,que seriam igualmente sérios e come- didos. Mãe Pero Mãe Pero Inês Pero Inês Pero Fresco vinha o presente com folhinhas borrifadas. Nam qu’elas vinham chentadas cá no fundo no mais quente35 . Vossa mãe foi-se, ora bem. Sós nos deixou ela assi36 quant’eu quero-me ir daqui não diga algum demo alguém37 . E vós que havíeis de fazer nem ninguém que há de dizer? O galante despejado38 . Se eu fora já casado doutra arte havia de ser como homem de bom recado39 . Quam desviado este está40 . Todos andam por caçar suas damas sem casar e este tomade-o lá41 . Vossa mãe é lá no muro? Minha mãe eu vos seguro que ela venha cá dormir. Pois senhora quero-m’ir antes que venha o escuro. E nam cureis mais de vir. Virá cá Lianor Vaz veremos que lhe dizeis. Homem nam aporfieis que nam quero nem me praz42 . Ide casar a Cascais. 295 300 305 310 315 320 325 330 335 340 345 350 355 Assentou-se com as costas pera elas e diz: Eu cuido que nam estou bem. Como vos chamam amigo? Eu Pero Marques me digo como meu pai que Deos tem. Faleceu perdoe-lhe Deos que fora bem escusado e ficámos dous heréus perém meu é o morgado27 . De morgado é vosso estado? Isso veria dos céus28 . Mais gado tenho eu já quanto29 e o mor de todo o gado digo maior algum tanto e desejo ser casado prouguesse ao spírito santo com Inês que eu me espanto quem me fez seu namorado. Parece moça de bem e eu de bem er também30 . Ora vós ide lá vendo se lhe vem milhor ninguém31 a segundo o que eu entendo. Cuido que lhe trago aqui peras da minha pereira hão d’estar na derradeira32 . Tende ora Inês por i33 . E isso hei de ter na mão? Deitai as peas no chão. As perlas pera enfiar três chocalhos e um novelo e as peas no capelo e as peras onde estão?34 Nunca tal me aconteceu. Algum rapaz mas comeu que as meti no capelo e ficou aqui o novelo e o pentem nam se perdeu. Pois trazi’-as de boa mente. Inês Pero Inês Pero Inês Pero Inês Pero Inês Pero Inês
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    123 Farsa de InêsPereira Pero Inês Pero Nam vos anojarei mais inda que saiba estalar43 e prometo nam casar até que vós nam queirais44 . Estas vos são elas a vós anda homem a gastar calçado e quando cuida que é aviado escarnefucham de vós45 . Nam sei se fica lá a pea pardeos bô ia eu à aldea46 . Senhora cá fica o fato. Olhai se o levou o gato. Inda nam tendes candea47 . Ponho per cajo que alguém vem como eu vim agora e vos acha só a tal hora parece-vos que será bem48 ? Ficai-vos ora com Deos çarrai a porta sobre vós com vossa candeazinha e sicais sereis vós minha entonces veremos nós. Pessoa conheço eu que levara outro caminho49 . Casai lá com um vilanzinho mais covarde que um judeu50 . Se fora outro homem agora e me topara a tal hora estando assi às escuras falara-me mil doçuras ainda que mais nam fora. Gil Vicente, op. cit., pp. 564-571 360 365 370 375 380 385 390 Inês 1. Divide o excerto em cenas e resume o conteúdo de cada uma delas. 2. Explicita a intenção presente na seguinte fala da Mãe: «Ui e ela sabe latim / e gramá- teca e alfaqui / e sabe quanto ela quer» (vv. 200-202). 3. Apresenta a tripla função da carta escrita por Pero Marques. 4. Clarifica a verdadeira intenção de Inês Pereira ao receber Pero Marques. 5. Caracteriza a personagem de Pero Marques. 5.1 Relaciona o ideal de marido para Inês com as características reais de Pero Marques. Apresenta os aspetos diferenciadores. 6. Relata, por palavras tuas, o incidente das peras. 6.1 Identifica o tipo de cómico presente. Justifica a tua resposta. 7. Relaciona o monólogo final de Inês com a última fala de Pero Marques. 8. Identifica o recurso expressivo que percorre todo o discurso de Inês Pereira quando fala com Pero Marques e explicita o seu valor expressivo. 8.1 Comprova a tua resposta com dois exemplos textuais. Caracterização das personagens p. 147 FI Os processos de cómico p. 125 FI Recursos expressivos pp. 334-335 SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. Cena I: «Leixemos isto, eu venho» (v. 170) até «Chamá-lo-ei?» (v. 259) – Lianor vem com uma proposta de casamentoparaInês.Estamostra-se ansiosa, mas também desconfiada sobre o seu pretendente. Aceita ler a carta de Pero Marques. Apesar de não haver didascália, Lianor sai de cena. Cena II: Desde «Si» (v. 259) até «será com algum ancinho» (v. 274) – Inês aceita receber Pero Marques, com o intuito de gozar com ele, enquanto a Mãe, levando a sério o pretendente, lhepedeparasearranjar. Cena III: «Homem que vai onde eu vou» (v. 275) até «já conheço que é aqui» (v. 283) – monólogo de Pero Marques em que, desnorteado, se questiona sobre a morada certa de InêsPereira. Cena IV: «Digo que esteis muit’em- bora» (v. 284) até «cá no fundo no mais quente» (v. 334) – encontro de Inês e Pero, em que é visível a sua incompatibilidade. Novamente, sem haver didascália, apercebemo-nos de que a Mãe sai, deixando-os a sós. CenaV:Desde«Vossamãefoi-se,ora bem»(v.335)até«entoncesveremos nós» (v. 381) – apesar das boas inten- ções de Pero Marques, este é rejei- tadoporInês. 2. A mãe põe em evidência a esper- teza da filha que, para alcançar os seusobjetivos,écapazdetudo. 3. A carta faz a primeira apresen- tação da personagem, refere a sua intenção de casamento e revela, desde logo, a atitude jocosa de Inês paracomestepretendente. 4.Averdadeiraintençãoégozarcom ele: «logo em chegando aqui / pera mefartarderir»(vv.263-264). 5.EmboraricoeapaixonadoporInês, Pero revela-se pouco à vontade em sociedade, um verdadeiro simplório. 5.1 ParaInês,oseumaridonãotemde serrico,massersensatoesaberestar em sociedade: «Porém nam hei de casar / senam com homem avisado / indaquepobreepelado/sejadiscreto em falar» (vv. 184-187). Pero Marques é o oposto do ideal de marido de Inês, pois não é «avisado» nem «discreto», mostrando-seumsimplescampónio.
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    124 Unidade 3// GIL VICENTE GRAMÁTICA 1. Para responderes aos itens de 1.1 a 1.4, seleciona a única opção correta. 1.1 No verso «Cuido que lhe trago aqui» (v. 315) está presente uma oração subordinada (A) adverbial causal. (B) adverbial consecutiva. (C) substantiva completiva. (D) adjetiva relativa restritiva. 1.2 No verso «e ficou aqui o novelo» (v. 328) está presente uma oração (A) coordenada explicativa. (B) coordenada copulativa. (C) subordinada adverbial temporal. (D) subordinada adverbial final. 1.3 No verso «Pois trazi’-as de boa mente» (v. 330) está presente uma oração (A) coordenada explicativa. (B) coordenada copulativa. (C) subordinada adverbial causal. (D) subordinada adverbial concessiva. 1.4 No verso «Nam qu’elas vinham chentadas» (v. 333) está presente uma oração subordinada (A) adjetiva relativa restritiva. (B) adjetiva relativa explicativa. (C) substantiva completiva. (D) adverbial causal. ESCRITA Apreciação crítica 1. Ouve com atenção o excerto do Programa 5 para a meia-noite. 1.2 Toma notas dos seguintes tópicos: t nome da personagem; tsemelhanças entre esta personagem e Pero Marques; ttipo de cómico das duas personagens. 2. Elabora uma apreciação crítica sobre o excerto, seguindo o plano de texto apresentado. Introdução: 1.º parágrafo – descrição sucinta do excerto. Desenvolvimento: 2.º parágrafo – apresentação da personagem principal; 3.º parágrafo – semelhanças entre essa personagem e Pero Marques; 4.º parágrafo – tipo de cómico das duas personagens. Conclusão: 5.º parágrafo – comentário crítico sobre a intemporalidade da personagem-tipo retratada. No final, revê o texto e aperfeiçoa-o se necessário. SIGA Coordenação e subordinação pp. 327-328 FI Os processos de cómico p. 125 SIGA Apreciação crítica p. 312 PROFESSOR (p.123) 6. Pero Marques, com a melhor das intenções, quer presentear Inês com peras que guardou no capuz («capelo»).Contudo,oseucapuzéum verdadeiro «armazém», em que tudo cabe: «peas» (cordas), «perlas», «três chocalhos» e «um novelo». Inês, con- trariada, ajuda-o, mas as peras não aparecem. 6.1Cómicodesituação:aatrapalha- ção de Pero Marques, o desagrado de Inêseosobjetosque,muitoprovavel- mente, caem em palco, contribuem para uma situação que suscita o riso. 7. Enquanto Pero se preocupa com a segurança de Inês por estar sozinha e às escuras, esta, mais atrevida, indigna-se por Pero Marques não ter tentado aproveitar-se do facto de estarem sós para lhe dizer «mil doçuras», mostrando o seu lado romântico. 8. Ironia. Os vários momentos iróni- cos servem o propósito de troçar de Pero Marques, dizendo o oposto daquiloqueverdadeiramentepensa. 8.1 «O galante despejado» (v. 341) e «Olhaiseolevouogato»(v.371). Gramática 1.1(C);1.2(B);1.3(A);1.4(D). Escrita Sugestõesderesposta: – programatelevisivodehumor; – VítordoPenedo,quesemostrarús- ticoedadoamal-entendidos; – ambos herdaram o nome do pai; o pai faleceu; têm comportamentos simplórios; – cómico de caráter: características de personalidade provocam o riso; – pelas suas qualidades (ingenui- dade, simplicidade e falta de dis- cernimento), a figura do pacóvio é intemporal. Link Excerto do programa 5 para a meia noite
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    125 Ficha informativa Os processosde cómico Gil Vicente recorreu a várias técnicas de cómico para divertir os espectadores e, simultaneamente, para cumprir a máxima latina ridendo castigat mores, «a rir se corri- gem os costumes». Na Farsa de Inês Pereira, o cómico tem dois objetivos essenciais: tTFSWF EBEBBOBUVSF[BKPWJBMEBGBSTB QBSBQSPWPDBSPSJTPBUSBWÏTEPRVBMTF «castigam» os costumes, os vícios; tNBSDBPDMBSPDPOUSBTUFFOUSFBTQFSTPOBHFOTFBTTJUVBÎÜFTQPSFMBTWJWJEBT Tipos de cómico De situação Resulta das circunstâncias da atuação da personagem que provocam o riso, existindo uma inadequação entre a ação da personagem e a realidade em que se encontra (situações de mal-entendidos, ignorância sobre certos preceitos sociais e regras de convivência). De caráter Baseia-se na movimentação da personagem em palco que provoca o riso, existindo uma inadequação entre a personagem e a sua própria realidade (social, cultural…). De linguagem Corresponde ao vocabulário usado e ao próprio discurso da personagem, que provocam o riso, existindo uma inadequação entre o código linguístico e o contexto em que este se realiza (uso de registos de língua desajustados, ironia, trocadilhos…). CONSOLIDA 1. Visiona os excertos selecionados e identifica o(s) tipo(s) de cómico que predomina(m) em cada um deles. Justifica a tua resposta. 1 2 FICHA INFORMATIVA N.O 1 PROFESSOR Leitura 8.1. Oralidade 1.3; 1.4; 2.1. MC Consolida Sugestãoderesposta: Excerto 1. Cómico de linguagem –apersonagemqueixa-sedaque- les que supostamente falam e não fazem nada, fazendo exata- menteomesmo. Excerto 2. Cómico de caráter e de situação – a personagem do Nelo é hilariante só pela sua apa- rência e também por não saber estar adequadamente com os outros,criandosituaçõesdemal- -entendidos. Vídeo Gato Fedorento Link Nelo e Idália PowerPoint Ficha informativa n.o 1
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    126 Unidade 3// GIL VICENTE 126 Unidade 3 // GIL VICENTE PONTO DE PARTIDA 1. Ouve a rubrica radiofónica de Mafalda Lopes da Costa, Lugares comuns e toma nota da origem do significado de «fazer judiarias». EDUCAÇÃO LITERÁRIA Aparece um escudeiro e é solteiro… Pero Marques foi-se já? Pera que era ele aqui? Nam te agrada ele a ti? Vá-se muit’ieramá que sempre disse e direi: mãe eu me nam casarei senam com homem discreto. E assi vo-lo prometo ou antes o leixarei. Que seja homem mal feito feo, pobre, sem feição como tiver descrição nam lhe quero mais proveito. E saiba tanger viola e coma eu pão e cebola1 siquer ùa cantiguinha discreto feito em farinha2 porque isto me degola. Sempre tu hás de bailar e sempre ele há de tanger? Se nam tiveres que comer o tanger te há de fartar. Cada louco com sua teima3 com ùa borda de boleima e ùa vez d’água fria nam quero mais cada dia. Como às vezes isso queima4 . E que é desses escudeiros? Eu falei ontem ali que passaram por aqui os judeus casamenteiros e hão de vir logo aqui. Aqui entram os judeus casamenteiros, cha- mados um Latão e o outro Vidal, e diz Vidal: Ou de cá. Quem está lá? Nome del Deu aqui somos5 . Nam sabeis quam longe fomos. Corremos a ira má. Este e eu. Eu e este pola lama e polo pó que era pera haver dó com chuiva, sol e nordeste. Foi a coisa de maneira tal friúra e tal canseira que trago as tripas maçadas assi me fadem boas fadas6 que me saltou caganeira. Pera vossa mercê ver o que nos encomendou7 . O que nos encomendou será se hoiver de ser. Todo este mundo é fadiga vós dissestes filha amiga que vos buscássemos logo. E logo pusemos fogo8 . Cal-te. Nam queres que diga nam sou eu também do jogo?9 Nam fui eu também contigo tu e eu nam somos eu? Tu judeu e eu judeu nam somos massa dum trigo?10 Si somos juro al Deu. 1 v. 405: ainda que coma mal. 2 v. 407: carinhoso, tolerante e macio (como a farinha). 3 v. 413: cada um com a sua mania. 4 v. 417: por vezes comer mal custa muito. 5 v. 424: em nome de Deus aqui estamos. 6 v. 434: assim tenha eu boa sorte. 7 v. 437: a tarefa que lhes deu foi bastante difícil. 8 v. 443: e logo nos apressámos em satisfazer o vosso pedido. 9 v. 445: não fui também contigo? 10 v. 449: não somos iguais? Inês Mãe Inês Mãe Inês Mãe Inês Inês Vidal Latão Vidal Latão Vidal Latão Vidal Latão Vidal 395 400 405 410 415 420 425 430 435 440 445 450 Vem a Mãe e diz: CD 1 Faixa n.o 17 PROFESSOR MC Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.11; 15.1; 16.1. Gramática 18.1. Oralidade 2.1; 3.2; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3. Leitura 7.1. PontodePartida 1.Sugestãoderesposta: «Fazer judiarias» significa fazer diabruras, pequenas maldades ou logros. Expressão preconceituosa, que remete para uma visão negativa do povo judaico, sobretudo a partir do século XIV. As judiarias eram os bairros onde moravam os judeus, de modo a não haver convívio com os cristãos. A expressão tem um cunho antissemita, que até hoje, infeliz- mente, se mantém. Significado atual: ato de troçar ou prática cruel emaldosa. ▪ Link
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    127 Farsa de InêsPereira 127 Farsa de Inês Pereira Deixa-me falar. Já calo. Senhora há já três dias. Falas-lhe tu ou eu falo? Ora dize o que dizias que foste que fomos que ias buscá-lo esgaravatá-lo. Vós amor quereis marido discreto e de viola. Esta moça nam é tola que quer casar por sentido. Judeu queres-me leixar? Deixo, não quero falar. Buscámo-lo. Demo foi logo11 . Crede que o vosso rogo vencera o Tejo e o mar12 . Eu cuido que falo e calo calo eu agora ou não? Ou falo se vem à mão? Nam digas que nam te falo. Jesu guarde-me ora Deos nam falará um de vós? Já queria saber isso. Que siso Inês que siso tens debaixo desses véus13 . Diz o exemplo da velha14 : o que nam haveis de comer dexai-o a outrem mexer15 . Eu nam sei quem t’aconselha. Enfim que novas trazeis? O marido que quereis de viola e dessa sorte nam no há senam na corte que cá não no achareis16 . Falámos a Badajoz17 músico discreto solteiro este fora o verdadeiro18 mas soltou-se-nos da noz19 . Fomos a Villacastim e falou-nos em latim20 : vinde cá daqui a ùa hora e trazei-me essa senhora. Tudo é nada enfim21 . Esperai, aguardai ora. Soubemos dum escudeiro de feição de atafoneiro22 que virá logo essora. Que fala e com’ora fala23 estrogirá24 esta sala e tange e com’ora tange alcança quanto abrange25 e se preza bem da gala26 . Gil Vicente, op. cit., pp. 571-575 Latão Vidal Latão Vidal Latão Vidal Latão Vidal Latão Inês Mãe Inês Mãe Inês Vidal Inês Vidal 455 460 465 470 475 480 485 490 495 500 11 v. 463: fomos logo (procurá-lo). 12 vv. 464-465: faremos tudo para a servir. 13 vv. 473-474: «Que falta de juízo tens tu!» 14 v. 475: lá diz a experiência (velhice = sabe- doria/experiência). 15 vv. 476-477: não metas o nariz onde não és chamada. 16 vv. 482-483: o pretendente que procuras só existe na corte. 17 Badajoz: João de Badajoz, músico da corte de D. João III. 18 v. 486: este é o mais apropriado (de acordo com o perfil traçado por Inês). 19 v. 487: não estava interessado. 20 v. 489: falou em linguagem pouco clara e pediu-lhes que levassem Inês à sua pre- sença. 21 v. 492: desabafo de Inês: «tudo ficou igual». 22 v. 495: atordoará (com o seu discurso e canto). 23 v. 497: bem falante. 24 Estrogirá: atordoará. 25 v. 500: consegue tudo o que quer. 26 v. 501: se orgulha de ser galante.
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    128 Unidade 3// GIL VICENTE 1. O excerto pode ser dividido em duas cenas. Delimita-as e atribui-lhes um título suges- tivo. 2. Ordena as afirmações, de forma a obteres a sequência correta dos acontecimentos no excerto. Inicia pela letra (G): (A) Os judeus não se entendem em relação a quem deverá contar a Inês o que se passou. (B) Inês elucida a Mãe sobre o seu ideal de homem: pode ser «mal feito / feo, pobre, sem feição», mas tem de ser bem-falante e tocar viola. (C) Inês informa que já contratou judeus casamenteiros para a ajudar a encontrar um marido compatível com os seus ideais. (D) A Mãe chama-a à razão, argumentando que não se pode viver só de folia. (E) Os judeus dão a entender, primeiramente, que não encontraram ninguém com o perfil pretendido, mas acabam por anunciar a chegada iminente de um escudeiro. (F) Os judeus contam que percorreram muitos lugares para encontrar um homem com as características requeridas por Inês. (G) A Mãe questiona Inês sobre Pero Marques. (H) A Mãe e Inês discutem novamente sobre as escolhas da filha. 3. Caracteriza o par de judeus, Latão e Vidal, e explicita o seu papel na ação da farsa. GRAMÁTICA 1. Identifica as funções sintáticas destacadas nas seguintes frases. a) A representação da farsa foi uma atração turística. b) A versão que eu tenho da farsa é diferente. c) Pero Marques ficou com o retrato de Inês na sua mente. d) Inês, teimosa, contratou os judeus. ORALIDADE Apreciação crítica No tempo de Gil Vicente, era comum os casamentos serem «arranjados» pelos pais, por «alcoviteiras» ou «judeus casamenteiros». Hoje em dia, a internet e as redes sociais po- dem desempenhar esse papel, mas não sem riscos… Observa atentamente o cartoon que se segue. 1. Planifica uma apreciação crítica oral, de dois a quatro minutos, na qual te refiras aos seguintes tópicos: tdescrição do cartoon; tpapel atual das redes sociais no rela- cionamento amoroso; tvantagens e desvantagens das redes sociais; tcomentário crítico do cartoon. Caracterização das personagens p. 149 FI Complemento do nome p. 129 FI SIGA Apreciação crítica p. 312 SIGA Funções sintáticas pp. 324-325 PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. Cena I: «Pero Marques foi-se já?» (v. 391) até «e hão de vir logo aqui» (v.422)–conselhosdaMãe. Cena II: «Ou de cá» (v. 423) até «e se preza bem da gala» (v. 501) – desco- bertadomaridoideal. 2.(G),(B),(D),(C),(F),(A),(H)e(E). 3. Os judeus casamenteiros apre- sentam as mesmas características. São a caricatura do judeu hábil no comércio – faladores, insinuantes, humildes, serviçais e maliciosos. Nesta peça, rivalizam com Lianor Vaz, nos seus serviços de interme- diáriosmatrimoniais. Gramática 1. a) complemento do nome / comple- mentodonome; b)modificadorrestritivodonome; c)complementodonome; d)modificadorapositivodonome. Oralidade Sugestãodetópicos: “G? :A?7? 7 G?3 ?G:7D CG7 estãoacomunicaràdistância,pela internet; “3E D767E EA5;3;E BDABAD5;A@3? A contacto entre as pessoas, poden- do ser um meio privilegiado para o relacionamentoamoroso; “36;EFv@5;37A835FA67A5A@F35FA não ser pessoal podem levar a mentiras, enganos, deceções ou até relações perigosas; meio de contactoparaindivíduosmaistími- dos ou com poucos amigos, pelo que pode proporcionar encontros sociais e, eventualmente, amoro- sos.
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    129 Ficha informativa 129 Complementodo nome 1. O complemento do nome é um complemento selecionado por um nome. É uma função sintática que pode ser desempenhada por: tum grupo preposicional (oracional) Ex.: A preocupação de que a filha pudesse ser infeliz era legítima. tum grupo preposicional (não oracional) Ex.: A ideia de Inês Pereira não foi a melhor. tum grupo adjetival colocado à direita do nome e formando com ele uma unidade de sentido próprio. Ex.: A escrita vicentina tem um caráter moralizador. Nota: Um nome pode selecionar mais do que um complemento. Ex.: A representação da farsa pela companhia de teatro foi aplaudida. 2. O complemento do nome é sempre de preenchimento opcional. Assim, o nome diverge do verbo, cujo complemento é obrigatório para que a frase seja gramatical: a) A oferta de um novo casamento a Inês foi rápida. (grupo nominal com dois comple- mentos do nome) b) A oferta a Inês foi rápida. (grupo nominal com um complemento do nome) c) A oferta foi rápida. (grupo nominal sem complemento(s) do nome) 3. O complemento do nome é parte integrante de um grupo sintático maior, que pode ter diferentes funções na frase. Veja-se, a título de exemplo, as seguintes frases: a) A ideia de Inês Pereira não foi a melhor. (complemento do nome integrado num sujeito) b) Não gostei da ideia de Inês Pereira. (complemento do nome integrado num comple- mento oblíquo) c) Fui influenciada pela ideia de Inês Pereira. (complemento do nome integrado num complemento agente da passiva) d) AdoreiaideiadeInêsPereira. (complementodonomeintegradonumcomplementodireto) 4. Há nomes que «pedem» complemento para que o seu sentido referencial seja inequí- voco. Assim, o complemento do nome tem sempre um valor restritivo. Tipologia de nomes Exemplos Icónicos a imagem de…; o retrato de…; a fotografia de… Parentesco/amizade o filho de…; o amigo de…; o primo de… Epistémicos (exprimem certeza, possibilidade ou probabilidade) a certeza de…; a probabilidade de…; a hipótese de… Deônticos (exprimem obrigação, necessidade, proibição) a necessidade de…; a permissão para…; o dever de… Deverbais (derivam de um verbo) a construção de…; a vingança de…; a invasão de… De derivação não afixal a entrega de…; o alcance de…; o apelo a… Derivados de outro nome jornalista de…; artista de…; porteiro de… Derivados de um adjetivo a beleza de…; a tristeza de…; a eficácia de… Nomes com sufixo de agente destruidor de…; exterminador…; construtor… FICHA INFORMATIVA N.O 2
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    130 Unidade 3// GIL VICENTE Relações entre o nome e o seu complemento Exemplos Merónimos/holónimos (parte/todo) a janela da sala, o tampo da mesa, o ecrã da televisão… Fonte – origem vinho do Porto, queijadinhas de Sintra, queijo da Serra… Objeto – matéria calças de ganga, saco de plástico, rolha de cortiça… 5. Embora a preposição «de» seja a mais recorrente, existem outras que podem introduzir o complemento do nome: a) O debate sobre a farsa foi elucidativo. b) A cedência em casar com Pero Marques era impossível. c) Na vinda para casa de Inês, Lianor foi atacada. d) A diferença entre o real e o ideal está presente na história de Inês. 6. As expressões quantitativas nominais também selecionam complementos do nome. tExpressões quantitativas vagas: a) Uma boa dose de paciência era o que a Mãe precisava de ter para aturar Inês. b) Pero Marques tinha uma porção de coisas no capuz. c) Um pequeno espaço de tempo bastou para Inês perceber o seu erro. tExpressões quantitativas precisas: a) Pero Marques levou dois quilos de peras, mas não encontrou uma única. b) Lianor comprou dez metros de tecido para fazer um vestido. c) Um copo de água era o que Lianor queria quando chegou a casa de Inês. 7. Alguns adjetivos que derivam de um nome podem ocupar a posição de complemento do nome. Adjetivos Exemplos Antroponímicos teatro vicentino, poema pessoano, obra saramaguiana… Nacionalidades cidadão português, cidadão angolano, cidadão moçambicano… Outros reivindicações estudantis, produção cerealífera, pesca baleeira… 8. Distinção entre complemento do nome e modificadores do nome. Exemplos Complemento do nome Elementos selecionados pelo nome e essenciais para clarificar o sentido do nome, não admitem vírgula. A oferta de pretendentes era comum na época de Gil Vicente. Modificador restritivo do nome Elementos não selecionados pelo nome, restringem o seu sentido e não são separados por vírgulas. O pretendente saloio foi preterido. O pretendente que os judeus encontraram despertará o interesse de Inês. Modificador apositivo do nome Elementos não selecionados pelo nome, modificam o nome e exigem ser separados por vírgula. A alcoviteira, que é uma figura típica do teatro vicentino, é eficaz no seu mester.
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    131 Ficha informativa CONSOLIDA 1. Identificanas frases seguintes os constituintes que desempenham a função sintática de complemento do nome. a) A paixão por Pero Marques não durou muito. b) Pero Marques tinha uma série de coisas no capuz. c) A farsa vicentina é divertida. d) A diferença entre Inês e Pero Marques tornou-se insustentável. e) A discussão sobre as vantagens de casar foi acesa. 2. Reconhece todos os complementos do nome presentes nas frases seguintes. a) A tolerância de Inês para com Pero Marques não foi muita. b) A resposta ao novo pedido de casamento não demorou. c) Não era previsível o regresso de Pero Marques a casa de Inês. d) A encomenda de novo pretendente aos judeus obteve resultado positivo. 3. Identifica a função sintática dos grupos sintáticos destacados. a) Concordo com a resposta da Mãe. b) Pero Marques será marido de Inês. c) É notória a semelhança entre Latão e Vidal. d) Inês tinha uma imagem de homem ideal na sua mente. 3.1 Destaca, dentro dos grupos sintáticos, os complementos do nome. 4. Seleciona a única opção correta que classifica a função sintática dos elementos destacados. 4.1 A vida de Inês seria só bailar. (A) Modificador apositivo do nome (B) Modificador restritivo do nome (C) Complemento do nome (D) Modificador 4.2 A companhia Vicente, que encenou a farsa, fez um bom trabalho. (A) Modificador apositivo do nome (B) Modificador restritivo do nome (C) Complemento do nome (D) Modificador 4.3 Pero Marques ficou ofuscado pela beleza de Inês. (A) Modificador apositivo do nome (B) Modificador restritivo do nome (C) Complemento do nome (D) Modificador 4.4 Pero Marques, o campónio, não conhecia uma cadeira. (A) Modificador apositivo do nome (B) Modificador restritivo do nome (C) Complemento do nome (D) Modificador 4.5 O contrato que Inês celebrou com os judeus foi cumprido. (A) Modificador apositivo do nome (B) Modificador restritivo do nome (C) Complemento do nome (D) Modificador PROFESSOR Gramática 18.1. MC Consolida 1. a)porPeroMarques; b)decoisas; c)vicentina; d)entreInêsePeroMarques; e)sobreasvantagensdecasar. 2. a)deInêsparacomPeroMarques; b)aonovopedidodecasamento; c)dePeroMarquesacasa; d)denovopretendenteaosjudeus. 3. a)complementooblíquo; b)predicativodosujeito; c)sujeito; d)complementodireto. 3.1 a) da Mãe; b) de Inês; c) entre LatãoeVidal;d)dehomemideal. 4.1(C); 4.2(A); 4.3(C); 4.4(A); 4.5(B). PowerPoint Ficha informativa n.o 2
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    132 Unidade 3// GIL VICENTE EDUCAÇÃO LITERÁRIA Casamento celebrado, casamento frustrado? Mãe Escudeiro Moço Escudeiro Moço Escudeiro Se esta senhora é tal como os judeus ma gabaram certo os anjos a pintaram e nam pode ser i al1 . Diz que os olhos com que via eram de santa Luzia cabelos da Madanela2 . Se ela fosse donzela tudo essoutro passaria3 . Moça de vila será ela com sinalzinho postiço e sarnosa no toutiço como burra de Castela4 . Eu assi como chegar cumpre-me bem atentar se é garrida se é honesta porque o milhor da festa é achar siso e calar5 . Se este escudeiro há de vir e é homem de discrição hás-te de pôr em feição e falar pouco e nam rir. E mais Inês nam muito olhar e muito chão o menear por que te julguem por muda porque a moça sesuda é ùa perla pera amar. Olha cá Fernando eu vou ver a com que hei de casar visa-te que hás de estar sem barrete onde eu estou. Como a rei corpo de mi mui bem vai isso assi6 . E se cuspir pola ventura põe-lhe o pé e faze mesura. Ainda eu isso nam vi. E se me vires mintir gabando-me de privado7 está tu dissimulado ou sai-te lá fora a rir. Isto te aviso daqui faze-o por amor de mi. Porém senhor digo eu que mau calçado é o meu pera estas vistas assi8 . Que farei que o sapateiro nam tem solas nem tem pele? Sapatos me daria ele se me vós désseis dinheiro. Eu o haverei agora9 e mais calças te prometo. Homem que nam tem nem preto casa muito na màora10 . Chega o Escudeiro onde está Inês Pereira e alevantam-se todos e fazem suas mesuras, e diz o Escudeiro: Antes que mais diga agora Deos vos salve fresca rosa e vos dê por minha esposa por molher e por senhora. Que bem vejo nesse ar nesse despejo mui graciosa donzela que vós sois minh’alma aquela que eu busco e que desejo. Obrou bem a natureza em vos dar tal condição que amais a discrição muito mais que a riqueza. Bem parece que só discrição merece gozar vossa fermosura que é tal que de ventura outra tal nam se acontece11 . Senhora eu me contento receber-vos como estais12 se vós vos não contentais o vosso contentamento pode falecer nô mais13 . Como fala. Moço Escudeiro Moço Escudeiro Moço Latão 1 v. 505: se Inês for como os Judeus disseram, não há melhor partido para mim. 2 vv. 506-508: os Judeus terão comparado os olhos de Inês aos de Santa Luzia (advogada da visão) e os cabelos aos de Santa Maria Madalena. 3 vv. 509-510: se é assim tão bela, como é que ainda não casou? 4 vv. 512-514: o Escudeiro pensa que Inês é muito feia para ainda não ter casado. 5 v. 519: ser contido, discreto. 6 vv. 533-534: resposta irónica do Moço, tendo em conta os avisos que o Escudeiro lhe faz como este se deve comportar. 7 v. 539: gabar-se de ser íntimo do rei. 8 vv. 545-546: ironia por parte do Moço, dando a conhecer a verdadeira condição financeira do Escudeiro. 9 v. 551: Brás da Mata pensa que Inês terá dinheiro para o susten- tar. 10 vv. 553-554: homem sem dinheiro, não deveria casar. 11 v. 572: não existe outra igual. 12 v. 574: ficará com ela, não obstante a situação financeira de Inês. 13 v. 577: não há melhor partido do que ele. Vem o Escudeiro com seu Moço, que lhe traz ùa viola, e diz falando só: 505 510 515 520 525 530 535 540 545 550 555 560 565 570 575 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7a; 14.11; 15.1; 16.1. Escrita 10.2a, b, c; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. MC cert e na Diz eram cabe Se el tudo Moç com e sar com Eu a cum se é 505 510 515
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    133 Farsa de InêsPereira Mas ela como se cala. Tem atento o ouvido. Este há de ser seu marido segundo a cousa s’abala14 . Eu nam tenho mais de meu somente ser comprador do marichal meu senhor e sam escudeiro seu15 . Sei bem ler e muito bem escrever e bom jogador de bola e quanto a tanger viola logo me ouvireis tanger16 . Moço que estás lá olhando? Que manda vossa mercê? Que venhas cá. Pera quê? Pera fazeres o que mando. Logo vou. O diabo me tomou tirar-me de João Montês por servir um tavanês mor doudo que Deos criou17 . Fui despedir um rapaz por tomar este ladrão que valia Perpinhão18 . Moço! Que vos praz? A viola. Oh como ficará tola se nam fosse casar ante c’o mais sáfio bargante19 que coma pão e cebola20 . Ei-la aqui bem temperada21 nam tendes que temperar. Faria bem de ta quebrar na cabeça bem migada22 . E se ela é emprestada quem na havia de pagar? Meu amo eu quero-m’ir. E quando queres partir? Antes que venha o Inverno porque vós não dais governo pera vos ninguém servir23 . Vidal Latão Escudeiro Moço Escudeiro Moço Escudeiro Moço Escudeiro Moço Escudeiro Moço Escudeiro Moço Escudeiro Moço 14 v. 582: segundo parece. 15 vv. 585-586: Brás da Mata alega trabalhar para um Marechal como escudeiro (elemento importante na corte). 16 vv. 587-591: qualidades de um homem cortesão. 17 vv. 587-600: o Moço afirma que só por intervenção do Diabo é que deixou o serviço a João Montês para servir um louco («tavanês»). 18 Perpinhão: cidade (importante e disputada) do sul de França tomada pelos espanhóis no século XV. Tornou-se sinónimo de valioso. 19 v. 608: homem grosseiro e sem vergonha. 20 v. 609: se Inês casar com ele, passará fome. 21 v. 610: duplo sentido – afinação da viola e falta de alimento. 22 Migada: esmagada. 23 vv. 619-620: o Moço despede-se, pois Brás da Mata não lhe paga. 24 v. 624: o Escudeiro afirma que o Moço gosta de inventar. 25 v. 631: Inês está feliz. 26 v. 635: como os mais velhos são maçadores, implicantes. 27 vv. 637-638: não casarei com tolos. 28 Avisado: culto, de boas maneiras. 29 v. 641: infelizmente. Nam dormes tu que te farte? No chão e o telhado por manta e çarra-se-m’a garganta com fome. Isso tem arte24 . Vós sempre zombais assi. Oh que boas vozes tem esta viola aqui. Deixa-me casar a mi depois eu te farei bem. Agora vos digo eu que Inês está no paraíso25 . Que tendes de ver com isso? Todo o mal há de ser meu. Quanta doudice. Como é seca a velhice26 leixai-me ouvir e folgar que nam me hei de contentar de casar com parvoíce27 . Pode ser maior riqueza que um homem avisado28 ? Muitas vezes mal pecado29 é milhor boa simpreza. Ora ouvi e ouvireis. Escudeiro cantareis algùa boa cantadela namorai esta donzela esta cantiga direis: Escudeiro Moço Escudeiro Moço Escudeiro Mãe Inês Mãe Inês Mãe Latão 580 585 590 595 600 605 610 615 620 625 630 635 640 645 . da21 ar. . r. rno erno 23 . esta cantiga direis:
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    134 Unidade 3// GIL VICENTE Canas do amor canas canas do amor polo longo de um rio canaval vi florido canas do amor. Canta o Escudeiro o romance de «Mal me quieren en Castilla», e diz Vidal: Latão já o sono é comigo como oivo cantar guaiado30 que nam vai esfandegado31 . Esse é o demo qu’eu digo. Viste cantar dona Sol pelo mar vai a vela vela vai polo mar. Filha Inês assi vivais que tomeis esse senhor escudeiro cantador e caçador de pardais sabedor, rebolvedor falador, gracejador afoitado pela mão32 e sabe de gavião33 . Tomai-o por meu amor. Podeis topar um rabugento desmazalado, baboso descancarrado, brigoso medroso, carrapatento. Este escudeiro aosadas onde se derem pancadas ele as há de levar boas senam apanhar. Nele tendes boas fadas34 . Quero rir com toda a mágoa destes teus casamenteiros nunca vi judeus ferreiros aturar tam bem a frágua35 . Nam te é milhor mal por mal Inês um bom oficial que te ganhe nessa praça que é um escravo de graça e casarás com teu igual? Senhora perdei cuidado. O que há de ser há de ser e ninguém pode tolher Latão Vidal 30 v. 654: música lamentosa. 31 v. 655: música mais animada. 32 v. 666: atrevido (pega na mão de Inês como se ela fosse sua esposa). 33 Gavião: ave de rapina, com sentido de caçador, mas tam- bém de desonesto. 34 v. 677: duplo sentido – será protetor ou viverá à custa de Inês. 35 vv. 680-681: nunca vi ninguém trabalhar tão bem para proveito próprio (referindo-se aos Judeus). 36 v. 692: livra-te desse vadio. 37 v. 695: como estás agressiva. 38 v. 696: a Mãe já adivinha o (in)sucesso do casamento. 39 v. 700: resignação da Mãe, perante a vontade de Inês em casar com Brás da Mata. 40 v. 702: com muita vontade. 41 v. 712: sem exigências. 42 v. 714: conseguimos o que pretendíamos. 43 v. 723: pedem o pagamento pelo serviço prestado. 44 v. 729: o acontecimento merece ser comemorado. 45 v. 734: Luzia deseja felicidades a Inês. 46 v. 737: espera que também ela case brevemente. 47 Asinha: depressa. Mãe Latão Vidal Mãe Inês Mãe Escudeiro Inês Escudeiro Inês Latão o que está determinado. Assi diz rabi Zarão. Inês guar-te de rascão36 escudeiro queres tu? Jesu nome de Jesu quam fora sois de feição37 . Já minha mãe adevinha38 . Houvestes por vaidade casar à vossa vontade eu quero casar à minha. Casa filha muito embora39 . Dai-me essa mão senhora. Senhor de mui boa mente40 . Por palavras de presente vos recebo desd’agora. Nome de Deos assi seja. Eu Brás da Mata escudeiro recebo a vós Inês Pereira por molher e por parceira como manda a santa igreja. Eu aqui diante Deos Inês Pereira recebo a vós Brás da Mata sem demanda41 como a santa igreja manda. Juro al Deu aí somos nós42 . Alça manim dona o dono há arrea espeçulá bento o Deu de Jacob bento o Deu que a faraó espantou e espantará bento o Deu de Abraão benta a terra de Canão pera bem sejais casados. Dai-nos cá senhos ducados43 . Amenhã vo-los darão. Pois assi é bem será que nam passe isto assi eu quero chegar ali chamar meus amigos cá e cantarão de terreiro44 . Oh quem me fora solteiro. Já vos vós arrependeis? Ó esposa nam faleis que casar é cativeiro. Vidal Mãe Escudeiro Inês Escudeiro Canta o Judeu: Os Judeus ambos: 650 655 660 665 670 675 680 685 690 695 700 705 710 720 725 730 desmazalado, baboso descancarrado, brigoso medroso, carrapatento. Este escudeiro aosadas onde se derem pancadas ele as há de levar boas senam apanhar. Nele tendes boas fadas34 . Quero rir com toda a mágoa destes teus casamenteiros nunca vi judeus ferreiros aturar tam bem a frágua35 . Nam te é milhor mal por mal Inês um bom oficial que te ganhe nessa praça que é um escravo de graça e casarás com teu igual? Senhora perdei cuidado. O que há de ser há de ser e ninguém pode tolher Mãe atão Alça manim dona o dono há arrea espeçulá bento o Deu de Jacob bento o Deu que a faraó espantou e espantará bento o Deu de Abraão benta a terra de Canão pera bem sejais casados. Dai-nos cá senhos ducados43 . Amenhã vo-los darão. Pois assi é bem será que nam passe isto assi eu quero chegar ali chamar meus amigos cá e cantarão de terreiro44 . Oh quem me fora solteiro. Já vos vós arrependeis? Ó esposa nam faleis que casar é cativeiro. Vidal Mãe Escudeiro Inês Escudeiro Os Judeus ambos: 670 675 680 685 720 725 730
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    135 Farsa de InêsPereira AquivemaMãecomcertasmoçasemancebos pera fazerem a festa, e diz ùa delas per nome Luzia: Inês por teu bem te seja45 . Oh que esposo e que alegria. Venhas embora Luzia e cedo te eu assi veja46 . Ora vai tu ali Inês e bailareis três por três. Tu connosco Luzia aqui e a desposada ali. Ora vede qual direis. Cantam todos a cantiga que se segue: Mal ferida va la garza enamorada sola va y gritos daba. A las orillas de un río la garza tema el nido ballestero la ha herido en el alma. Sola va y gritos daba. Ora senhores honrados ficai com vossa mercê e nosso senhor vos dê com que vivais descansados. Isto foi assi agora mas melhor será outr’hora perdoai pelo presente foi pouco e de boa mente com vossa mercê senhora. Ficai com Deos desposados com prazer e com saúde e sempre ele vos ajude com que sejais bem logrados. Ficai com Deos filha minha nam virei cá tam asinha47 . A minha benção hajais esta casa em que ficais vos dou e vou-me à casinha. Senhor filho e senhor meu pois que já Inês é vossa vossa molher e esposa encomendo-vo-la eu. E pois que dês que nasceu a outrem nam conheceu senam a vós por senhor que lhe tenhais muito amor que amado sejais no céu. Gil Vicente, op. cit., pp. 575-583 Inês Mãe Fernando Fernando 735 740 745 750 755 760 765 770 775 Luzia Mãe 1. Relaciona o modo como o Escudeiro imagina Inês com a forma como esta caricaturou o seu pretendente, Pero Marques, antes de o conhecer. 2. O Escudeiro e a Mãe dão orientações de como o Moço e Inês, respetivamente, se hão de comportar durante o encontro. 2.1 Identifica o que há de comum entre essas orientações, explicitando as diferentes intenções de cada um. Justi- fica a tua resposta com elementos textuais. 3. Descreve os comportamentos, respetivamente, de Inês Pereira e do Escudeiro nos primeiros momentos do seu encontro. 4. Demonstra a importância dos apartes do Moço, nos versos 599-603 e 609-612. 5. Os Judeus e a Mãe têm, inicialmente, posições diferentes quanto ao casamento. 5.1 Indica um argumento apresentado por cada uma das par- tes para sustentar o seu ponto de vista. PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. O Escudeiro duvida dos elogios feitos a Inês pelos Judeus e imagina Inês feia e sem qualquer interesse, troçando dela. Este comportamento é paralelo ao da própria Inês quando ridicularizou Pero Marques, após ler asuacartaeantesdeoconhecer. 2.1QueroEscudeiroqueraMãeacon- selhamdiscriçãoesilêncioaoMoçoe aInês,respetivamente. O Escudeiro tem como objetivo pa- recer importante e de estatuto social elevado: «E se me vires min- tir / gabando-me de privado / está tu dissimulado / ou sai-te lá fora a rir» (vv. 538-541). A Mãe aconselha a filha a ter compostura e discrição de forma a parecer a esposa ideal: «hás-tedepôremfeição/efalarpouco e nam rir. / E mais Inês nam muito olhar […]» «porque a moça sesuda / é ũaperlaperaamar»(vv.522-528).No fundo,ambosescondemoseuverda- deiro ser e querem bem parecer um aooutro. 3. Enquanto o Escudeiro não para de falar, elogiando Inês e a si próprio, Inês segue os conselhos da Mãe, mantendo-seemsilêncio. 4. Os apartes desmascaram a verda- deira situação do Escudeiro, pelintra e falso, ao contrário da imagem que quer passar – «um tavanês / mor doudoqueDeoscriou»(vv.599-600). com que vivais descansados. 1. Relaciona o modo como o Escudeiro imagina Inês com a forma como esta caricaturou o seu pretendente, Pero Marques, antes de o conhecer. 2. O Escudeiro e a Mãe dão orientações de como o Moço e Inês, respetivamente, se hão de comportar durante o encontro. 2.1 Identifica o que há de comum entre essas orientações, explicitando as diferentes intenções de cada um. Justi- fica a tua resposta com elementos textuais. 3. Descreve os comportamentos, respetivamente, de Inês Pereira e do Escudeiro nos primeiros momentos do seu encontro. 4. Demonstra a importância dos apartes do Moço, nos versos 599-603 e 609-612. 5. Os Judeus e a Mãe têm, inicialmente, posições diferentes quanto ao casamento. 5.1 Indica um argumento apresentado por cada uma das par- tes para sustentar o seu ponto de vista. quer passar um tavanês / mor doudoqueDeoscriou»(vv.599-600).
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    136 Unidade 3// GIL VICENTE PROFESSOR 5.1 Os Judeus fazem tudo para con- vencer Inês a casar, elogiam o Escu- deiro,«escudeirocantador/ecaçador de pardais / sabedor, rebolvedor, / falador, gracejador» (vv. 662-665), e dizem que é melhor casar logo, antes que outro pretendente «car- rapatento» (v. 672) avance. A Mãe argumenta que é melhor esperar por alguém com a mesma condição social «Nam te é milhor mal por mal / Inês um bom oficial / […] com teu igual?»(vv.682-686). 6. A intenção crítica é denunciar o verdadeiro motivo que levou os Ju- deus a ajudar Inês a encontrar mari- do:odinheiro. 7. O Escudeiro deixa cair a máscara e revela o seu arrependimento em ter casado («Oh quem me fora solteiro» v. 730), deixa ainda transparecer que matrimónio, para ele, é «cativeiro» (v.733). 8. A Mãe dá a sua bênção ao casa- mento e pede a Brás da Mata que cuide bem da filha, cumprindo o seu papel de mãe preocupada e pro- tetora. Esta personagem não tem nomepróprioporqueéumapersona- gem-tipo que representa o princípio maternal. Escrita Sugestãoderesposta: – Espaço exterior: Brás da Mata e Fernando; espaço interior: Inês, Mãe,Judeus. – Escudeiro: máscara de privado do rei, homem de posses e respeitado pelo Moço; Inês prepara-se para fazer o papel de recatada e muda. – Espectadores: conhecem a tota- lidade (verdade e máscara) das personagens, porque assistem às duas realidades; no jogo teatral, cada grupo de personagens só tem acessoaoseucontexto. – Partilha das duas situações com o público: faz do espectador cúm- plice da representação teatral, entrandonafarsaquesecria. – Cómico de situação: só o espec- tador sabe que as situações a que assiste são enganadoras e que as personagens dissimulam a sua realidade; logo, quando se encon- tram em cena, provocam o riso do público, detentor de toda a ver- dade. 6. Explica a intenção crítica presente nos seguintes versos: «Dai-nos cá senhos ducados. / Amenhã vo-los darão.» (vv. 723 e 724) 7. Baseando-te nos versos 730 e 733, indica o modo como Brás da Mata encara o recente casamento. 8. Relê os versos 764 a 777. Identifica dois traços caracterizadores da Mãe e relaciona-os com o facto de esta personagem não ter nome próprio. ESCRITA Exposição sobre um tema Lê, atentamente, o seguinte texto. 1. Elabora uma exposição escrita, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, rela- cionando o texto que acabaste de ler com o excerto da Farsa de Inês Pereira estudado. Segue os tópicos do seguinte plano de texto. Introdução: 1.º parágrafo – divisões do espaço (exterior e interior) e distribuição de personagens. Desenvolvimento: 2.º parágrafo – máscara do Escudeiro, máscara de Inês Pereira; 3.º parágrafo – saber parcial das personagens e saber total dos espectadores; 4.º parágrafo – cumplicidade com os espectadores. Conclusão: 5.º parágrafo – tipo de cómico que resulta da simultaneidade da encenação. 2. Não te esqueças de identificar as fontes utilizadas, de cumprir as normas de citação, de utilizar as notas de rodapé (se necessário) e, ainda, de elaborar a bibliografia dos documentos consultados. No final, revê o texto e aperfeiçoa-o se necessário. EnquantoBrásdaMataimaginaaMoçacomquemsepretendecasar,troçando dela[…]aMãeprocurainstruirInêsquantoaocomportamentoaadotarsequiser impressionar o Escudeiro […]. Ao lado, preparando a sua entrada na casa de Inês, o escudeiro mostra-se tam- bémpreocupadocomasaparênciasedácontaaoMoçoqueoservedeumprojeto de dissimulação para o qual pede a cumplicidade deste. Adivisãodoespaçoeomodocomonelesedistribuemaspersonagensfavorece a criação de zonas de relativa intimidade, onde cada um se mostra como de facto é e, ao mesmo tempo, planeia a máscara que vai adotar. Os espectadores, a quem uns e outros são alternadamente mostrados, adquirem um saber superior, porque total, ao dos intervenientes na ação, que é apenas parcelar, e a duplicidade, que vai conquistandoterreno,aparececadavezmaiscomotraçocomumadiversasfiguras e como princípio fundador da comicidade da farsa, assente na constante oposição entre a natureza interior real e uma aparência exterior enganadora. Cristina Almeida Ribeiro, Inês, Coleção Vicente, Lisboa, Quimera, 1991, p. 14 5 10 SIGA Exposição sobre um tema p. 311
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    137 Farsa de InêsPereira EDUCAÇÃO LITERÁRIA Que casamento e que tormento! Si no os hubiera mirado no penara pero tan poco os mirara1 . O Escudeiro, vendo cantar Inês Pereira, mui agastado lhe diz: Vós cantais, Inês Pereira? em bodas me andáveis vós? Juro ao corpo de Deos que esta seja a derradeira. Se vos eu vejo cantar eu vos farei assoviar. Bofé senhor meu marido se vós disso sois servido bem o posso eu escusar. Mas é bem que o escuseis e outras cousas que não digo. Por que bradais vós comigo? Será bem que vos caleis. E mais sereis avisada que não me respondais nada em que ponha fogo a tudo2 porque o homem sesudo traz a molher sopeada. Vós não haveis de falar com homem nem molher que seja nem somente ir à igreja nam vos quero eu leixar. Já vos preguei as janelas, por que não vos ponhais nelas estareis aqui encerrada nesta casa tam fechada como freira d’Oudivelas. Que pecado foi o meu? Por que me dais tal prisão? Vós buscais discrição, que culpa vos tenho eu? 1 vv. 778-780: se vos não tivesse visto não teria penado, mas também não vos teria visto. 2 v. 796: embora faça grandes disparates. 3 v. 816: resposta irónica do Escudeiro, dando a entender que Inês é supos- tamente o seu bem mais precioso e por isso precisa de ser protegido. 4 Às partes dalém: Marrocos. 5 vv. 828-829: resposta irónica do Moço, deixando transparecer que não acre- ditava nesse tipo de sorte. 6 v. 834: diz a Inês para ficar em casa e costurar. Inês Escudeiro Inês Escudeiro Inês Escudeiro IdaaMãe,ficaInêsPereiraeoEscudeiro,esenta-seInêsPereiraalavrarecantaestacantiga: 780 785 790 795 800 805 810 Pode ser maior aviso maior discrição e siso que guardar eu meu tisouro? Nam sois vós molher meu ouro? Que mal faço em guardar isso3 ? Vós não haveis de mandar em casa somente um pêlo. se eu disser isto é novelo havei-lo de confirmar. E mais quando eu vier de fora haveis de tremer e cousa que vós digais nam vos há de valer mais que aquilo que eu quiser. Moço às partes dalém4 me vou fazer cavaleiro. Se vós tivésseis dinheiro nam seria senam bem5 . Tu hás de ficar aqui olha por amor de mi, o que faz tua senhora: fechá-la-ás sempre de fora. Vós lavrai, ficai per i6 . Moço Escudeiro 815 820 825 830 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.11; 15.1; 15.5; 16.1. Gramática 17.3; 18.1. Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. MC
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    138 Unidade 3// GIL VICENTE quem sua molher maltrata sem lhe dar de paz um dia. E sempre ouvi dizer que homem que isto fizer nunca mata drago em vale nem mouro que chamem Ale e assi deve de ser. Juro em todo meu sentido que se solteira me vejo12 assi como eu desejo que eu saiba escolher marido. À boa fé sem mal engano pacífico todo o ano que ande a meu mandar. Havia-me eu de vingar deste mal e deste dano. Entra o Moço com ùa carta de Arzila13 e diz: Esta carta vem dalém creo que é de meu senhor. Mostrai cá meu guarda mor veremos o que aí vem. À mui prezada senhora Inês Pereira da Grã, a senhora minha irmã. De meu irmão. Venha embora. Vosso irmão está em Arzila eu apostarei que i vem nova de meu senhor também. Já ele partiu de Tavila14 ? Há três meses que é passado15 . Aqui virá logo recado se lhe vai bem ou que faz. Bem pequena é a carta assaz. Carta de homem avisado. Lê Inês Pereira a carta, a qual diz: Muito honrada irmã esforçai o coração16 e tomai por devação de querer o que Deos quer17 . E isto que quer dizer? E nam vos maravilheis de cousa que o mundo faça, que sempre nos embaraça Inês Moço Inês Moço Inês Moço Inês 7 v. 843: resposta irónica do Moço, destacando que a abun- dância será tanta que poderá convidar pessoas para irem lá a casa. 8 Assi: é assim que resolves a minha situação? 9 v. 852: a oitava valia dois alquei- res, o que cabia apenas aos grandes proprietários. 10 vv. 855-856: uma vez que ele te paga bem, faz o que ele te mandou. 11 v. 867: Inês Pereira pensava que a nobreza se reconhecia pela boa educação e virtudes. 12 vv. 882-883: Inês deseja a morte do marido, em estado de desespero. 13 Arzila: vila em Marrocos. 14 Tavila: Tavira (porto de embarque para o norte de África). 15 v. 903: indicação que o Escu- deiro havia embarcado há três meses. 16 v. 909: tem coragem. 17 v. 911: «Conformai-vos com a vontade divina.» 18 v. 926: o casamento terminou, assim como a sua prisão. 19 repetenado: fazer-se de insolente. 20 malino: mau. 21 sotrancão: dissimulado; velhaco; sonso. Com o que vós me deixais nam comerei eu galinhas. Vai-te tu por essas vinhas que diabo queres mais? Olhai olhai como rima e depois de ida a vendima? Apanha desse rabisco. Pesar ora de sam Pisco convidarei minha prima7 . E o rabisco acabado ir-m’-ei espojar às eiras. Vai-te por essas figueiras e farta-te desmazelado! Assi8 . Pois que cuidavas? E depois virão as favas. Conheces túbaras da terra? I-vos vós embora à guerra que eu vos guardarei oitavas9 . Ido o Escudeiro, diz o Moço: Senhora o que ele mandou nam posso menos fazer. Pois que te dá de comer faze o que te encomendou10 . Vós fartai-vos de lavrar eu me vou desenfadar com essas moças lá fora. Vós perdoai-me senhora porque vos hei de fechar. Aqui fica Inês Pereira só fechada lavrando e cantando esta cantiga: Quem bem tem e mal escolhe por mal que lhe venha nam s’anoje. Renego da discrição comendo ao demo o aviso que sempre cuidei que nisso estava a boa condição11 . Cuidei que fossem cavaleiros fidalgos e escudeiros nam cheos de desvarios e em suas casas macios e na guerra lastimeiros. Vede que cavalaria vede já que mouros mata Moço Escudeiro Moço Escudeiro Moço Escudeiro Moço Escudeiro Moço Inês Moço 835 840 845 850 855 860 865 870 875 880 885 890 900 905 910 915 Lê o sobrescrito: Prossegue: Falado:
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    139 Farsa de InêsPereira com cousas. Sabei que indo vosso marido fogindo da batalha pera a vila a mea légua de Arzila o matou um mouro pastor. Oh meu amo e meu senhor. Dai-me vós cá essa chave e i buscar vossa vida. Oh que triste despedida. Mas que nova tam suave Desatado é o nó18 . Se eu por ele ponho dó o diabo m’arrebente. Pera mi era valente e matou-o um mouro só. Guardar de cavaleirão barbudo repetenado19 que em figura d’avisado é malino20 e sotrancão21 . Agora quero tomar pera boa vida gozar um muito manso marido nam no quero já sabido, pois tam caro há de custar. Gil Vicente, op. cit., pp. 583-588 Moço Inês Moço Inês 920 925 930 935 1. Após o casamento, o Escudeiro revela a sua verdadeira personalidade. 1.1 Indica as imposições feitas a Inês, comprovando-as com elementos textuais. 2. O Escudeiro parte para a guerra, deixando Inês sozinha, a bordar e a cantar. 2.1 Explicita, de acordo com a ação da farsa, o significado do ditado popular que ini- cia a cantiga de Inês: «Quem bem tem e mal escolhe / por mal que lhe venha nam s’anoje» (vv. 862-863). 2.2 Relaciona o significado do ditado com a letra da cantiga. 3. Atenta na fala de Inês antes da entrada do Moço em cena (vv. 862-890). 3.1 Explica em que medida estes versos demonstram a evolução psicológica da prota- gonista. 4. Durante a Farsa de Inês Pereira, observa-se que não há quase referências à passagem do tempo da ação. 4.1 Comprova, com um exemplo textual, a rápida passagem do tempo desde o casa- mento de Inês à notícia da morte de Brás da Mata. 5. Relaciona a caracterização de Brás da Mata, apresentada no início do excerto, com a forma como ele é morto em África. Justifica a tua resposta. GRAMÁTICA 1. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução das seguintes palavras. a) «cheos» (v. 870) cheios; b) «pera» (v. 918) para. 2. Identifica as funções sintáticas desempenhadas pelas palavras/expressões destacadas. a) A decisão de Brás da Mata foi prender Inês em casa. b) Brás da Mata, escudeiro cobarde, foi morto por um pastor mouro. c) Inês considerou uma bênção a morte de Brás da Mata. d) Naquela tarde, a triste Inês bordava em casa quando recebeu a notícia. Representação do quotidiano p. 141 FI Caracterização das personagens p. 147 FI Caracterização das personagens p. 148 FI Fonética e fonologia p. 38 FI Funções sintáticas pp. 324-325 SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.1 Proíbe-a de cantar (vv. 781-786); avisa-a de que a palavra dele é sobe- rana, por isso não deve retorquir ou argumentar (vv. 793-795); proíbe-a de sair de casa e de falar com mais alguémparaalémdele(vv.799-800); diz-lhe que em casa quem manda é ele(vv.817-818). 2.1 Inês conclui, amargamente, que fez a escolha errada quanto ao ho- mem com quem se casou, tendo, por isso, de resignar-se. Entenda-se que o «bem» seria Pero Marques e o «mal»BrásdaMata. 2.2Relata-nosadesilusãoeodesen- canto quanto à imagem do homem ideal com quem almejava casar: cavaleiro culto e de boas maneiras. Todavia, Brás da Mata revela-se exa- tamenteoopostodoqueelasonhara. 3.1 A personagem evolui ao revelar arrependimento por se ter casado comoEscudeiroedesejaficarsolteira para escolher um marido que possa controlar/manipular. 4.1 «Há três meses que é passado.» (v.903). 5. A relação estabelecida é de con- traste, pois no início do excerto Brás da Mata é caracterizado indireta- mente como um homem rigoroso, que maltrata a esposa. No final, a personagem é descrita como cobarde tendo sido morta por um pastor e não por um guerreiro, como seriadeesperar. Gramática 1. a) epêntese de i; b) assimilação dee. 2.a)complementodonome; b)modi- ficador apositivo do nome / comple- mento agente da passiva; c) predi- cativodocomplementodireto/com- plemento do nome; d) modificador/ modificador restritivo do nome/ modificador.
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    140 Unidade 3// GIL VICENTE ESCRITA Exposição sobre um tema 1. Partindo da leitura do texto acima apresentado e da análise que fizeste da obra até agora, prepara uma exposição escrita, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, na qual esclareças como se sugere a passagem do tempo e dos acontecimentos durante a ação. Segue os tópicos. Introdução: 1.º parágrafo – distinção entre o tempo representado e o da representação e escassez das referências temporais na obra. Desenvolvimento: 2.º parágrafo – elementos cénicos que tornam visível a passagem entre os vários momentos temporais e sua exemplificação. 3.º parágrafo – motivos que justificam a economia temporal na obra. Conclusão: 4.º parágrafo – contributo da imprecisão do tempo para a intemporalidade da obra. No final revê o teu texto e aperfeiçoa-o se necessário. PROFESSOR Escrita Sugestãoderesposta: “F7?BAD7BD7E7@F36A¬6GD3{yA5DA nológica da ação: mais de três meses; tempo da representação – duração do espetáculo: possivel- menteumahora; “7J;EF73B7@3EG?3D787D~@5;35A@- creta à passagem do tempo – mais detrêsmeses; “7@FD3637E3€6367B7DEA@397@ECG7 assinalam diferentes momentos temporais – por exemplo, no início, a entrada da mãe, vinda da missa; a primeiraentradadePeroMarques;a chegadadoEscudeiro;areceçãoda cartadomaridodeInês… “83363$y7@A;@€5;AHH fala de Pero Marques sobre a apro- ximaçãodanoite(v.352,v.372);fala deInêssobreanoite(v.388)esobre odiaanterior(v.419)… “CG7EFyABDtF;536AF7?BA67D7BD7- sentação; “35D€F;53EA5;3BD7E7@F77?CG3- querépoca. “3 ;?BD75;EyA F7?BAD3 5A@FD;4G; com a intemporalidade da crítica socialveiculada. A construção do tempo Quase não existem referências explícitas à passagem do tempo na ação da Farsa deInêsPereira.Aúnicareferênciaconcretaaotemporegista-sequandoInêsrecebe uma carta de Arzila, na qual se anuncia a morte do Escudeiro Brás da Mata, e o Moço afirma que o seu amo partira três meses antes para África. No entanto, o espectador/leitor apercebe-se dos diferentes momentos temporais, nomeada- mente quando Inês está solteira, quando se casa e quando enviúva, quando contrai novo matrimónio e quando encontra o antigo apaixonado. Ao espectador/leitor não é dada informação sobre quanto tempo decorre entre estes acontecimentos. A imprecisão temporal na ação transmite-lhe alguma inverosimilhança, resultante dodecursodotempo,quenãoécoincidentecomotempoderepresentação(dura- ção do espetáculo). (Texto dos autores) Porque é que Gil Vicente introduz o castelhano nas suas obras? Embora use recorrentemente outras línguas, dialetos e socioletos, a obra de Gil Vicente confere especial destaque ao castelhano, por vários fatores: tSB[ÜFTEFDPSUFTJBQBSBDPNBSBJOIB%.BSJB FTQPTBEF%.BOVFM* tBVEJUØSJPQSFEPNJOBOUFNFOUFFTQBOIPM tJNJUBÎÍPMJUFSÈSJB tFMFNFOUPEBDPNQPTJÎÍPEBQFSTPOBHFN tDPOUSJCVJÎÍPQBSBBQPMJGPOJBDBSOBWBMFTDB GPOUFEFTÈUJSBFDØNJDP Salvato Trigo, Gil Vicente e a teatralização das linguagens, 1983 (Comunicação na Semana de Estudos Portugueses, Universidade de Toronto, disponível em http://ler.letras.up.pt, consultado em outubro de 2014) CURIOSIDADE Exposição sobre um tema p. 311 SIGA
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    141 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 3 5 10 15 5 10 15 Representação do quotidiano 1. Representação do quotidiano I A ideia de cativeiro, que domina o espírito de Inês e determina a sua revolta, decorre, segundo as suas palavras deixam transparecer, da conjugação de diversos fatores: con- finamento a um espaço interior, o da própria casa, subjugação à autoridade materna, cultivo forçado de prendas domésticas – na circunstância, o bordado, que acabará afinal por acompanhá-la até ao casamento com Pero Marques. Em torno dessa ideia, central no discurso de abertura da moça, se organiza também toda a intriga: o auto só chegará ao fim quando Inês tiver levado a bom termo o seu projeto de libertação. O desabafo da jovem, inconformada com o aprisionamento de que se considera vítima, é interrompido pela chegada da Mãe, vinda da missa, para logo prosseguir na azeda troca de palavras que torna evidente o conflito que interesses e conceções de vida diferentes instalaram entre elas. […] Terminado o relato em que longamente se empenhou [o ataque do clérigo], […] a Alcoviteira apresenta então à rapariga uma carta, que deverá esclarecê-la quanto à discrição de Pero Marques. O escrito, que Inês vai lendo e comentando em voz alta, falha por completo o objetivo visado: Pero revela-se pobre de espírito, em nada cor- respondendo ao ideal de Inês. […] Fora do alcance dos espectadores, Lianor Vaz, cumprindo a missão de interme- diária que lhe cabe, avisa Pero Marques de que Inês está pronta a recebê-lo e logo ele aparece, ansioso por essa entrevista. […] Cristina Almeida Ribeiro, op. cit., pp. 7, 8, 9 e 12 (texto adaptado) 2. Representação do quotidiano II Com um olhar mais atento, podemos detetar outros exemplos que espelham o modo de vida quotidiano da sociedade da época, num tempo em que se vivia uma transição entre a Idade Média e o Renascimento. Entre eles contam-se os seguintes: t a prática religiosa (ida à missa); t o hábito de recorrer a casamenteiros (Lianor Vaz e os Judeus); t a falta de liberdade da rapariga solteira, confinada à casa da mãe e a viver sob o jugo desta; t a ocupação da mulher solteira em tarefas domésticas (bordar, coser); t o casamento como meio de sobrevivência e de fuga à submissão da mãe; t a tradição da cerimónia do casamento, seguida de banquete; t a submissão ao marido da mulher casada e o seu «aprisionamento» em casa; t a inércia da nova burguesia que nada fazia para adquirir mais cultura; t a decadência da nobreza que procurava enriquecer através do casamento e buscava o prestígio perdido na luta contra os mouros; t a devassidão do clero; a corrupção moral de mulheres que se deixavam seduzir por elementos do clero; t o adultério. PowerPoint Ficha informativa n.o 3
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    142 Unidade 3// GIL VICENTE EDUCAÇÃO LITERÁRIA Bem casar para livre estar… 1 v. 941: Inês finge-se triste e Lianor finge que acredita. 2 Canseira: desgraça. 3 Casta: descendentes, filhos. 4 v. 946: um filho garantir-lhe-ia a gestão dos bens herdados, bens que o Escudeiro não tinha. 5 v. 948: todos morrem. 6 v. 963: a experiência de vida ensina mais que a teoria. 7 v. 966: esquecei as ideias que tínheis. 8 v. 971: senso comum. 9 v. 979: «Sente-se um homem atrapalhado, que diabo!» Homem está empregado como indefinido (A. J. Saraiva). 10 vv. 990-991: referência à tradi- ção de atirar grãos de trigo sobre os noivos. Aqui vem Lianor Vaz e finge Inês Pereira estar chorando, e diz Lianor Vaz: Como estais Inês Pereira? Muito triste1 Lianor Vaz. Que fareis ao que Deos faz? Casei por minha canseira2 . Se ficaste prenhe basta. Bem quisera eu dele casta3 , mas nam quis minha ventura4 . Filha nam tomeis tristura que a morte a todos gasta5 . O que havedes de fazer? Casade-vos filha minha. Jesu Jesu tam asinha isso me haveis de dizer? Quem perdeu um tal marido tam discreto e tam sabido, e tam amigo de minha vida. Dai isso por esquecido e buscai outra guarida. Inês Lianor Inês Lianor Inês Lianor Inês Lianor 940 945 950 955 Pero Marques tem que herdou fazenda de mil cruzados mas vós quereis avisados. Nam, já esse tempo passou. Sobre quantos mestres são a experiência dá lição6 . Pois tendes esse saber querei ora quem vos quer dai ò demo a openião7 . Vai Lianor Vaz por Pero Marques e fica Inês Pereira só dizendo: Andar. Pero Marques seja. Quero tomar por esposo quem se tenha por ditoso de cada vez que me veja. Por usar de siso mero8 asno que me leve quero e nam cavalo folão antes lebre que leão antes lavrador que Nero. Vem Lianor Vaz com Pero Marques, e diz Lianor Vaz: Nô mais cerimónias agora abraçai Inês Pereira por molher e por parceira. Há homem empacho màora9 . Quanta a dizer abraçar depois que a eu usar entonces poderá ser. Nam lhe quero mais saber já me quero contentar. Ora dai-me essa mão cá sabeis as palavras si? Ensinaram-mas a mi porém esquecem-me já. Ora dizei como digo. E tendes vós aqui trigo pera nos jeitar por cima?10 Inda é cedo, como rima. Soma vós casais comigo Inês Lianor Pero Inês Lianor Pero Lianor Pero Lianor Pero 960 965 970 975 980 985 990 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7 a); 14.11; 15.1; 15.5; 16.1. Gramática 19.1. Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. MC
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    143 Farsa de InêsPereira e eu convosco pardelhas. Nam compre aqui mais falar e quando vos eu negar que me cortem as orelhas. Vou-me, ficai-vos embora. Vai-se e diz Inês Pereira: Marido sairei eu agora que há muito que nam saí? Si molher saí vos i que eu me irei para fora11 . Marido, nam digo disso. Pois que dizeis vós molher? Ir folgar onde eu quiser. I onde quiserdes ir vinde quando quiserdes vir estai quando quiserdes estar. Com que podeis vós folgar que eu nam deva consentir? Vem um Ermitão a pedir esmola, que em moço lhe quis bem, e diz: Señores por caridad dad limosna12 al dolorido ermitaño de Cupido para siempre en soledad pues su siervo soy nascido. Por exemplo me metí en su santo templo ermitaño en pobre ermita fabricada de infinita tristeza en quien contemplo13 . Adonde rezo mis horas14 y mis días y mis años mis servicios y mis daños donde tú mi alma Iloras el fin de tantos engaños. Y acabando las horas todas llorando tomo las cuentas una a una com que tomo a la fortuna cuenta del mal en que ando15 sin esperar paga alguna. Y ansí sin esperanza de cobrar lo merescido sirvo alli mis días Copido con tanto amor sin mudanza que soy su santo escogido. Oh señores los que bien os va d'amores dad limosna al sin holgura16 que habita en sierra escura uno de los amadores que tuvo menos ventura. Y rogaré al Dios de mi en que mis sentidos traigo que recibáis mejor pago de lo que yo recebí en esta vida que hago. Y rezaré con gran devoción y fe que Dios os libre d’engaño que eso me hizo ermitaño y para siempre seré pues para siempre es mi daño. Olhai cá marido amigo eu tenho por devação dar esmola a um ermitão e nam vades vós comigo. I-vos embora molher nam tenho lá que fazer. Tomai a esmola padre lá pois que Deos vos trouxe aqui. Sea por amor de mí vuestra buena caridad. Deo gracias mi señora. La limosna mata el pecado pero vos tenéis cuidado de matarme cada hora17 . Debéis saber para merced me hacer18 que por vos soy ermitaño y aun más os desengaño que esperanzas de os ver me hicieron vestir tal paño19 . Jesu Jesu manas minhas20 sois vós aquele que um dia em casa de minha tia me mandastes camarinhas. E quando aprendia a lavrar mandáveis-me tanta cousinha eu era ainda Inesinha nam vos queria falar. Inês Pero Inês Ermitão Inês 11 Irei para fora: Pero pensa que Inês se referia a defecar (tam- bém significado de «sair»). 12 Limosna: esmola. 13 v. 1020: tristeza em que medito. 14 v. 1021: duplo sentido – oração e parte do dia. 15 vv. 1028-1030: reza as contas do rosário (terço) e pede con- tas ao destino pela sua tristeza. 16 Holgura: alegria. 17 v. 1067: jogo de sentido com a palavra «matar» – a esmola eli- mina o pecado e Inês tortura-o com a sua indiferença. 18 v. 1069: para me recompensar- des de forma justa. 19 vv. 1072-1073: foi a esperança de vos ver que me fez vestir este hábito (M. Braga). 20 v. 1074: Inês reconhece o seu antigo apaixonado. 995 1000 1005 1010 1015 1020 1025 1030 1035 1040 1045 1050 1055 1060 1065 1070 1075 1080 Lianor Pero Inês Pero Inês Pero 143 Farsa de Inês Pereira con tanto amor sin mudanza que soy su santo escogido. Oh señores los que bien os va d'amores dad limosna al sin holgura16 que habita en sierra escura uno de los amadores que tuvo menos ventura. Y rogaré al Dios de mi en que mis sentidos traigo que recibáis mejor pago de lo que yo recebí en esta vida que hago. Y rezaré con gran devoción y fe que Dios os libre d’engaño que eso me hizo ermitaño y para siempre seré pues para siempre es mi daño. . Olhai cá marido amigo eu tenho por devação dar esmola a um ermitão e nam vades vós comigo. I-vos embora molher nam tenho lá que fazer. Tomai a esmola padre lá pois que Deos vos trouxe aqui. Sea por amor de mí nês ro nês ão 1035 1040 1045 1050 1055 1060
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    144 Unidade 3// GIL VICENTE Señora téngoos servido y vos a mí despreciado. Haced que el tiempo pasado no se cuente por perdido. Padre mui bem vos entendo ò demo vos encomendo que bem sabeis vós pedir. Eu determino lá d’ir à ermida Deos querendo. Y cuándo? I-vos meu santo21 que eu irei um dia destes muito cedo muito prestes. Señora yo me voy en tanto. Em tudo é boa a concrusão. Marido aquele ermitão é um anjinho de Deos. Corregê vós esses véus e ponde-vos em feição22 . Sabeis vós o que eu queria? Que quereis minha molher? Que houvésseis por prazer de irmos lá em romaria. Seja logo, sem deter. Este caminho é comprido contai ùa estória marido. Bofá que me praz molher Passemos primeiro o rio. Descalçai-vos. E pois como? E levar-me-eis ao ombro23 não me corte a madre o frio. Põe-se Inês Pereira às costas do marido e diz: Marido assi me levade. Ides à vossa vontade? Como estar no paraíso. Muito folgo eu com isso. Esperade ora esperade olhai que lousas aquelas pera poer as talhas nelas. Quereis que as leve? Si. Ùa aqui e outra aqui. Oh como folgo com elas. Cantemos marido quereis? Eu nam saberei entoar. Pois eu hei só de cantar e vós me respondereis cada vez que eu acabar: pois assi se fazem as cousas. Marido cuco me levades e mais duas lousas. Pois assi se fazem as cousas. Bem sabedes vós marido quanto vos amo sempre fostes percebido24 pera gamo. Carregado ides noss’amo com duas lousas. Pois assi se fazem as cousas. Bem sabedes vós marido quanto vos quero sempre fostes percebido pera cervo. Agora vos tomou o demo com duas lousas. Pois assi se fazem as cousas. E assi se vão, e se acaba o dito auto. Gil Vicente, op. cit., pp. 588-594 Pero Inês Pero Inês Pero Inês Pero Inês Pero Inês Pero Inês Pero PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.1 Inês decide finalmente aceitar Pero como marido, tendo em conta adesilusãosofridanoprimeirocasa- mento. Agora já não acredita nem no amor nem nos homens e quer vingar-se do Escudeiro, escolhendo para marido um homem submisso (vv.969-977). 2.1 Inês afirma que aprendeu com a experiência de vida, ou seja, o casa- mento fracassado com o Escudeiro ensinou-lhe que mais vale um cam- ponês humilde, que a possa fazer feliz, que um marido de comporta- mento refinado, que saiba cantar e dançar,masqueamaltrate. 3.1 Inês encontra um ermitão que revelaserumseuantigoapaixonado, desde os tempos de criança. Foi por ela que se tornou ermitão. Reconhe- cendo-o, Inês compromete-se a visi- tá-lonaermida. Ermitão Inês Ermitão Inês Ermitão Inês Pero Inês Pero Inês Pero Inês Pero Inês Pero Inês 1085 1090 1095 1100 1105 1110 1115 1120 1125 1130 1135 1140 Canta Inês: 21 v. 1091: de santo ele terá pouco. 22 vv. 1098-1099: componha esses véus e ponde-vos bonita. 23 v. 1110: levar-me-eis às costas. 24 v. 1133: destinado.
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    145 Farsa de InêsPereira 1. Neste excerto concretiza-se o casamento entre Inês Pereira e Pero Marques. 1.1 Indica o motivo que leva a protagonista a seguir o conselho de Lianor. 2. Nos versos 962 e 963, Inês afirma que «Sobre quantos mestres são / a experiência dá lição». 2.1 No contexto da obra, relaciona esta afirmação com o sentido dos versos: «Por usar de siso mero / asno que me leve quero / e nam cavalo folão / antes lebre que leão / antes lavrador que Nero.» (vv. 971-975) 3. Pero Marques concede a tão desejada liberdade a Inês, que encontra um ermitão a pedir esmola. 3.1 Resume o primeiro encontro entre Inês e o Ermitão. 4. No texto, é sugerida, em dois momentos, a infidelidade de Inês ao marido. 4.1 Transcreve os versos que demonstram esta atitude de Inês. 5. O fim da peça poderia ter sido omitido, pois em nada comprometeria o objetivo do autor em mostrar o domínio de Inês sobre Pero. 5.1 Explicita a intenção de Gil Vicente ao incluir esse fim (vv. 1112 a 1144). 6. Identifica o tipo de cómico presente nos seguintes versos. Justifica a tua resposta. a) Inês: «Marido sairei eu agora / que há muito que nam saí?» (vv. 999-1000) Pero: «Si molher saí vos i / que eu me irei para fora.» (vv. 1001-1002) Inês: «Marido, nam digo isso.» (v. 1003) b) Inês: «E levar-me-eis ao ombro» […]«Marido cuco me levades / e mais duas lousas.» (vv. 1110 e 1128-1129) Pero: «Pois assi se fazem as cousas.» (v. 1130) 7. Estabelece um paralelismo entre os vários momentos deste excerto e a ação anterior. Os versos entre parênteses ajudar-te-ão. Excerto final Excertos anteriores a) Inês canta com alegria o seu casamento, o qual lhe permite uma total liberdade. (vv. 1-38). b) Lianor Vaz propõe Pero Marques para marido de Inês, e esta aceita-o. (vv. 179-239). c) Reflexão de Inês sobre as vantagens do casamento com Pero Marques. (vv. 864-881). d) Lianor Vaz casa Pero Marques e Inês, sem cerimónia nem festa. (vv. 703-713) e) Inês vive feliz, com total liberdade, e é infiel ao seu marido. (vv. 781-825). 8. Gil Vicente pôs em cena personagens que encarnavam os elementos ativos da compa- ração presente no ditado abaixo. 8.1 Faz a correspondência das personagens que os representam. Albano M. Soares, Farsa de Inês Pereira, Porto, Porto Editora, 2011, p. 13 (texto adaptado) PROFESSOR 4.1 Após o primeiro encontro com o Ermitão, o marido diz-lhe para se ajeitar: «Corregê vós esses véus / e ponde-vosemfeição»(vv.1098-1099). Num segundo momento, é a própria Inês que insulta o marido: «Marido cuco me levades» (v. 1127); «Sem- pre fostes percebido / pera gamo» (vv.1133-1134);«Semprefostesperce- bidoperacervo»(vv.1140-1141). 5.1 Inês consegue que Pero Marques a conduza até ao local, sob a justifi- cação de o Ermitão ser um homem santo. Assim, o marido submisso leva-a ao encontro do amante, car- regando-a literalmente às costas quando atravessam um rio. Durante atravessia,cantamumamúsicacar- regada de ironia, na qual Inês chama o marido «cervo» e «cuco» (gíria da época para «enganado»). Seguindo o refrão da canção, Pero Marques limita-se a repetir: «Pois assim se fazem as cousas» (v. 1144). O objetivo é enfatizar a infidelidade de Inês e a ingenuidade e submissão de Pero e, consequentemente, materializar o provérbioquedámoteàobra. 6. a) Cómico de linguagem, pelo uso do trocadilhocomoverbo«sair»(casa). Cómicodecaráter,quetraduzainge- nuidade,aignorânciadePero. b) Cómico de situação, pois Pero Marques transporta Inês às costas e aceita cantar uma cantiga na qual o apelidademaridotraído. 7. Excertos anteriores: a) Inês canta com tristeza a sua vida de cativeiro e trabalho; b) Lianor Vaz propõe Pero Marques para marido de Inês e esta rejeita-o; c) Refle- xão de Inês sobre as desvantagens do casamento com o Escudeiro; d) Inês e Brás da Mata casam- -se, com cerimónia e com festa; e) Inês vive infeliz e sem liberdade comoEscudeiro. 8. a)PeroMarques; b)Inês; c)Escudeiro,BrásdaMata. Mais quero ASNO que ME leve (que) CAVALO que ME derrube a) b) c) Inês Os processos de cómico p. 125 FI
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    146 Unidade 3// GIL VICENTE GRAMÁTICA 1. Transpõe para o português atual os seguintes vocábulos: a) «prenhe» (v. 944); b) «asinha» (v. 951); c) «empacho» (v. 979); d) «folgar» (v. 1009); e) «vades» (v. 1057). 2. Faz a correspondência entre as formas verbais destacadas e o tempo e modo verbais, representados na tabela. Frase Tempo e modo a) «Andar. Pero Marques seja.» 1. Futuro do modo conjuntivo b) «Ora dai-me essa mão cá.» 2. Pretérito imperfeito do modo indicativo c) «I onde quiserdes ir.» 3. Futuro do modo indicativo d) «e quando aprendia a lavrar» 4. Modo imperativo e) «que eu irei um dia destes» 5. Presente do modo conjuntivo 3. Classifica os advérbios destacados. a) Onde foi Inês e Pero Marques? b) Inês casou-se com Pero, contudo não lhe foi fiel. c) O marido levou-a até à ermida onde se encontrou com o amante. d) Primeiramente pô-la às costas, seguidamente atravessaram o rio e finalmente chegaram à ermida. ESCRITA Exposição sobre um tema 1. Num texto expositivo, de cento e vinte a cento e cinquenta palavras, reflete sobre as críticas presentes nesta obra e sobre os ensinamentos que daí poderão resultar. Segue a planificação a seguir apresentada: Introdução: 1.º parágrafo – breve apresentação do tema. Desenvolvimento: 2.º parágrafo – críticas presentes na obra; 3.º parágrafo – ensinamentos decorrentes dessas críticas. Conclusão: 5.º parágrafo – apresentação do teu ponto de vista, fundamentando-o. 2. No final, faz a revisão do teu texto, verificando a construção das frases, a utilização correta dos conectores e a clareza do discurso. Se necessário, faz as correções de modo a aperfeiçoá-lo. A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, tece uma crítica aos costumes da época, pretendendo transmitir ideias moralizadoras ao seu público através do riso. Advérbio e locução adverbial p. 321 SIGA Exposição sobre um tema p. 311 SIGA PROFESSOR Gramática 1.a) grávida; b) depressa; c)atrapa- lhado;d) divertir;e)ides. 2.a)5;b)4;c)1;d)2;e)3. 3. a) interrogativo; b) conectivo; c)relativo;d)conectivo. Escrita Sugestõesderesposta: “%yA 67H7?AE E7D ;@GEFAE B3D3 com os outros por opções erradas (Inês maltratou Pero Marques por- que escolheu mal ao casar-se com oEscudeiro); “%yA 67H7?AE 83L7D 3AE AGFDAE A quenãogostamosquenosfaçam; “%yA67H7?AE67E73D?3;E6ACG7 aquiloquenosédado…
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    147 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 4 Caracterização das personagens INÊS PEREIRA: rapariga ambiciosa e sonhadora (pequena burguesia) 1. Solteira té ociosa, despreza a vida rústica do campo; to seu quotidiano é entediante: costura, borda e fia; té alegre, quer sair de casa e divertir-se, mas é contrariada pela mãe; té ambiciosa e idealista, quer casar-se com um homem que, ainda que pobre, seja «avisado» (discreto), meigo e saiba cantar e tocar viola, para fugir à vida que tem, viver alegre e ascender socialmente; t a carta que Pero Marques envia não lhe agrada; considera-o disparatado e simplório; ttroça de Pero Marques quando este a visita, e rejeita-o. 2. Casada e viúva tcasa com Brás da Mata, o Escudeiro, sem saber que ele é pobre e interesseiro; tfica a viver em casa da mãe, que se retira para viver num casebre; té infeliz, pois o marido não a deixa cantar e prende-a em casa; tfica sozinha quando o seu marido vai para Marrocos lutar contra os mouros; té vigiada pelo Moço; treconhece que errou ao rejeitar Pero Marques e ao casar-se com o Escudeiro; tdeseja a morte do marido e jura que se casará uma segunda vez com um marido que seja sub- misso, para gozar a vida e vingar-se das provações sofridas enquanto casada com o Escudeiro; tnão se comove com a morte do marido, pelo contrário, sente-se livre; té hipócrita ao chorar pelo marido morto e ao dizer que está triste; treconhece que a experiência de vida ensina mais do que os mestres. 3. Casada em segundas núpcias tmaterialista, pragmática e calculista, decide casar-se com Pero Marques; tcanta e, livre, sai de casa com o consentimento do marido; ttem o hábito de dar esmola ao Ermitão de Cupido; tinicialmente, não reconhece o Ermitão como um apaixonado do seu passado, mas tenciona cometer adultério com ele; tabusa da ingenuidade do segundo marido e pede-lhe para a acompanhar à ermida, para ter um encontro amoroso com o Ermitão. PowerPoint Ficha informativa n.o 4
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    148 Unidade 3// GIL VICENTE ESCUDEIRO BRÁS DA MATA: baixa nobreza (fidalgo) tduvida do retrato perfeito que os judeus casamenteiros fazem de Inês; té pobre, mas finge ser rico e desinteressado; té galanteador, elegante, bem-falante, sabe ler e escrever, sabe cantar e tocar viola – é «dis- creto»; é o homem ideal que Inês procura; té desonesto, ambicioso e calculista, pensa viver às custas de Inês; tcasa-se com Inês e revela-se autoritário e agressivo; tparte para a guerra em Marrocos para ser armado cavaleiro, deixando Inês e o Moço sem dinheiro; té cobarde, pois é morto em Arzila por um mouro pastor, ao fugir do campo de batalha; trepresenta o papel de «cavalo», elegante e valente (supostamente). PERO MARQUES: lavrador abastado (povo) tpretendente rejeitado de Inês; té rico e trabalhador, tendo herdado a maior parte do gado do pai e uma fazenda de mil cruza- dos; tapresenta-se como um homem de bem, honesto e de boas intenções; té um homem rústico, desconhecedor das regras de convivência social, ignorante e ingénuo; tcai no ridículo pela maneira como se veste e pela maneira de falar e de agir; tsofre com a rejeição e promete não se casar até que Inês o aceite; tapós a morte do Escudeiro, casa-se com Inês Pereira; tconcede liberdade total a Inês e é traído por ela; trepresenta o papel de «asno» que leva literalmente a mulher às costas para «visitar» o Ermitão. LIANOR VAZ: alcoviteira casamenteira (povo) tconhecida da mãe de Inês, quer que Inês se case com Pero Marques; taparentemente honesta e desinteressada pelo dinheiro que poderá ganhar com o casamento de Inês; tsensata e boa conselheira, avisa Inês de que ela não deverá esperar o marido, mas aceitar o pretendente que lhe aparecer; tamiga, mostra-se preocupada com o futuro de Inês; tdepois da morte do Escudeiro, persuade Inês a casar-se com Pero Marques. MÃE: mulher simples (pequena burguesia) té religiosa; té autoritária, não permitindo que Inês saia de casa e obrigando-a a trabalhar; tdefende o casamento de Inês com Pero Marques; tconselheira e preocupada com o futuro da filha; tnão aprova a relação da filha com o Escudeiro, fruto do idealismo e da leviandade de Inês; tresignada, acaba por aceitar a opção de Inês se casar com Brás da Mata, abençoando-os e dando-lhes a sua casa.
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    149 Ficha informativa ERMITÃO: antigoapaixonado de Inês (clero) té castelhano; tapresenta um discurso mais amoroso do que religioso, aproximando-se da blasfémia; té solitário e triste; tpede esmola pelas ruas; ta paixão frustrada por Inês fê-lo tornar-se ermita; tenvolve-se amorosamente com Inês. OS JUDEUS CASAMENTEIROS – LATÃO E VIDAL: alcoviteiros casamenteiros ttêm a missão de encontrar um marido para Inês; toperam como uma única personagem, visível no seu discurso que confere comicidade à obra: «Tu e eu não somos eu?»; tprocuraram o marido ideal para Inês Pereira; tsem escrúpulos e oportunistas, visando apenas uma recompensa material, exageram as quali- dades do Escudeiro e de Inês para atingirem o seu objetivo; tsão desonestos, falsos, materialistas e astutos. MOÇO (Fernando): criado do Escudeiro (povo) tcontribui para a sátira presente na obra pela denúncia do verdadeiro caráter do seu amo: a pelintrice, as manias de grandeza, as privações e o sonho de atingir uma situação económica confortável através do casamento com Inês; tqueixa-se da pobreza e da fome a que o Escudeiro o sujeita; té responsável por vigiar Inês, quando o seu amo parte para África, trancando-a em casa e dei- xando-a sozinha enquanto ele se vai «desenfadar» com as moças; tfica triste ao receber a notícia da morte do seu amo em Arzila; té despedido por Inês, depois da morte do Escudeiro. MOÇAS E MANCEBOS (Luzia e Fernando): amigos (povo) tconvidados para a festa do primeiro casamento de Inês, animam a festa: cantam e bailam.
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    150 Unidade 3// GIL VICENTE 150 Unidade 3 // GIL VICENTE Dimensão satírica 1. Objetivo da crítica Gil Vicente foi […] um lúcido observador do seu tempo e disso nos dá notícia, recorrendo à veia satírica, nos seus textos. Neles são fustigados os vícios dos seus con- temporâneos, numa crítica à sociedade parasitária, de gente que desprezava o trabalho para viver de expedientes fáceis, ludibriando os outros. […] Critica igualmente a hipocrisia generalizada, o contraste entre o ser e o parecer. […] Critica a mentalidade «paçã» das jovens raparigas; critica igualmente os escu- deiros fanfarrões, galantes e pelintras; a rusticidade e ingenuidade «bacoca» de Pero Marques; as alcoviteiras e os judeus casamenteiros; os casamentos por conveniência; os clérigos (no relato de Lianor Vaz) e os ermitões (que deviam consagrar-se às ora- ções a Deus e não a Cupido e aos namoros, nomeadamente com mulheres casadas). Amélia Pinto Pais, História da literatura em Portugal – Uma perspetiva didática, vol. 1, Porto, Areal, 2004, pp. 78-88 2. As personagens-tipo Algumas vezes interpretada como um tipo vicentino, o da moça sonhadora e leviana, Inês é, porém, trabalhada em moldes que dificilmente permitem uma classi- ficação tão simples. Ainda que seja forçoso observar nela a presença de alguns traços que apontam no sentido de uma tipificação, não pode, por outro lado, deixar de reconhecer-se ser ela uma personagem dinâmica que evolui à medida que o tempo passa. Inês Pereira realiza uma aprendizagem que produz efeitos práticos no decurso da ação: o espectador vê-a transformar-se, amadurecer por força de uma experiência desastrosa que lhe altera os sonhos e atitudes. […] Depois de experimentar o cavalo que derruba, Inês preferir-lhe-á o asno que a leve em segurança aonde ela quiser. Cristina Almeida Ribeiro, Inês, Lisboa, Quimera, 1991, pp. 12 e 13 A mãe, em contraste com a filha, revela-se ponderada, atenta à realidade e algo interesseira (o casamento da filha com Pero Marques é garantia de bem-estar econó- mico também para a sua velhice). Partilha pontos de vista com Lianor Vaz, a alcovi- teira. É uma personagem-tipo, plana e estática […]. Pero Marques é o «asno» da história; rústico, bom homem; ridicularizado e rejei- tado por Inês, aceita casar-se depois com ela e é, então, usado e enganado. É igual- mente uma personagem tipo, estática, apresentada de modo direto e indireto. Tem uma personalidade cómica (cómico de caráter ou de personagem). Ganha profundi- dade em contraste com o Escudeiro, que é o cavalo que derruba Inês, depois de a ter enganado com as suas aparências galantes. Amélia Pinto Pais, op. cit., p. 87 Como alvo da sátira, para além de Inês e do tipo psicológico-social que é lhe ine- rente, são abrangidas as figuras do escudeiro (considerado na sua tradicional disjun- ção entre o ser e o parecer, que, neste caso, o conduz a parecer o marido e o soldado que não é) e o moço Fernando que abandonou o campo para servir «um tavanês», na mira de uma promoção que não se verificou. José Augusto Cardoso Bernardes, Sátira e lirismo. Modelos de síntese no teatro de Gil Vicente, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1996, p. 253 (texto adaptado) 5 10 5 5 10 5 150 Unidade 3 // GIL VICENTE Unidade 3 // GIL VICENTE Dime 1. Obje Gil Vi recorrend temporân para viver Critic […] Crit deiros fan Marques os clérigo ções a De 2. As p Algum leviana, I ficação tã que apon reconhec passa. Inê da ação: desastros que derru A mãe interessei mico tam teira. É u Pero M tado por mente um uma pers dade em enganado Como rente, são ção entre que não na mira d 5 10 5 5 10 5
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    151 Ficha informativa 151 Pelintra[o escudeiro] vê no casamento a hipótese de enriquecer; é tirano e prepo- tente com Inês e revela-se cobarde na guerra (é morto com um tiro pelas costas quando fugia). Mais uma personagem tipo, estática, com caracterização direta e indireta. Amélia Pinto Pais, op. cit., p. 87 Lianor Vaz, alcoviteira, aparece aqui desempenhando o seu papel junto da moça casadoira, procurando insinuar-se e defender os interesses do pretendente, que segu- ramente explora, apesar de nada no texto o dizer de modo explícito. A sua figura é matizada. Perante Inês, ela comporta-se como amiga, dá-lhe conselhos que parecem bem-intencionados, mostra-se solidária. […] Fora do alcance dos espectadores, Lia- nor Vaz vai cumprindo a missão de intermediária que lhe cabe, avisa Pero Marques de que Inês está pronta a recebê-lo e logo ele aparece, ansioso por essa entrevista. […] Depois de rejeitar Pero Marques, Inês concentra as suas esperanças na ação de dois Judeus casamenteiros, cujos serviços contratara e que assim rivalizam no papel de intermediários de amorosas empresas. A cerimónia termina com um divertido arremedo dos dois judeus, que, abençoados os noivos, tentam receber de imediato o que lhes é devido por terem concluído a sua missão. A mãe […] adia o pagamento para o dia seguinte. […] Vem um Ermitão pedir esmola. E a didascália do folheto antecipa, para o seu lei- tor, informação que o espectador só terá mais tarde, pela boca do próprio Ermitão: em moço, ele quis bem a Inês. Dizendo-se hermitaño de Cupido e proclamando a sua constância e os padecimentos de amante desprezado, ele deixa que o discurso amoroso se sobreponha progressivamente ao religioso, em termos que raiam a blasfémia […]. Cristina Almeida Ribeiro, op. cit., pp. 11-24 O tipo mais insistentemente observado e satirizado por Gil Vicente é sem dúvida o clérigo […]. Gil Vicente censura nele a desconformidade entre os atos e os ideais, pois, em lugar de praticar a austeridade, a pobreza e a renúncia ao mundo, busca a riqueza e os prazeres, […] procedendo como se a ordenação sacerdotal o imunizasse contra os castigos que Deus tem reservados para os pecadores. António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 17.ª edição Porto, Porto Editora, 2005, pp. 199 Personagem Representatividade Inês Jovens da pequena burguesia, ambiciosas e levianas, que usam o casamento para ascender socialmente. Pero Marques Maridos ingénuos que se deixam enganar pelas mulheres e que aceitam essa traição (o marido enganado é um tipo muito recorrente em Vicente). Escudeiro Brás da Mata A baixa nobreza decadente e faminta que vê no casamento a solução para a sua ruína económica. Mãe Mães materialistas, confidentes e conselheiras, que, embora amigas, querem casar as filhas para terem estabilidade económica. Lianor Vaz e judeus casamenteiros Casamenteiros típicos da sociedade quinhentista. Pajem (Fernando) Serviçais explorados e enganados que passam fome e frio, não sendo pagos pelos seus patrões. Ermitão Clero que desrespeita os preceitos da Igreja e a moral, dado o comportamento leviano dos membros que se envolvem amorosamente com mulheres. 5 10 15 5
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    152 Unidade 3// GIL VICENTE ORALIDADE Reportagem 1. Antecipa os temas que poderão ser alvo de repor- tagem tendo em conta a imagem apresentada. 2. Visiona a reportagem Educação: de iletradas a superletradas. 2.1 Regista, no teu caderno, a informação rela- tiva aos seguintes tópicos: a) identificação do tema; b) intervenientes principais; c) visão geral e dos pedagogos sobre o que se espe- rava das mulheres da geração anterior; d) forma de emancipação feminina da geração anterior; e) opinião de Maria da Graça sobre habilitações literárias; f) lema da maior parte das portuguesas; g) situação do mercado de trabalho feminino e forma encontrada para vencer; h) opinião da socióloga; i) perspetiva de jovens mulheres sobre a figura feminina no mercado de trabalho; j) equívoco do século; k) razão de haver mais homens do que mulheres em cargos de chefia (perspetiva feminina); l) ventos de mudança – exemplos. 3. Visiona novamente a reportagem e responde às seguintes questões: 3.1 Indica a intenção comunicativa inerente a este tipo de texto. 3.2 A informação veiculada pela reportagem não é totalmente objetiva. Confirma esta afirmação, tendo em atenção a alternância do uso da primeira e da terceira pessoas. 3.3 Apresenta a tua opinião sobre a adequação e a expressividade das imagens da reportagem. 3.4 Apresenta três marcas características da reportagem. 3.5 Conclui sobre a perspetiva final da repórter relativamente a esta temática. PROFESSOR Oralidade 1.1; 1.2; 1.3; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7; 2.1; 2.2. MC Sugestãoaoprofessor: Os alunos deverão ler os tópicos pre- viamenteàreportagem. Oralidade 1. Mulheres, crescente número de mulherescommaishabilitaçõeslite- rárias. 2.1 a) excesso de habilitações lite- rárias das mulheres mais jovens por oposição à falta de habilitações das mais velhas; b) Lucinda, Paula Peres, Maria Teresa Correia, Maria da Graça Correia; c) cuidar do lar, estudar até à 3.ª classe, tomar conta dos irmãos, não deveriam ser edu- cadas, assumir o papel de mães, de educadoras; d) imigração; e) acesso das mulheres a cargos, que, sem habilitações, não conseguiriam; f) um emprego, um ordenado, uma independência; g) mais fechado pa- ra as mulheres/estudar; h) Portugal é o país com maior potencial para a igualdade (seis vezes mais licencia- das do que as suas mães); i) desigual- dade menor, mulheres com cargos mais altos; no entanto, os cargos de topo/chefia ainda são ocupados por homens; menor vencimento do que os homens; j) redução da diferença salarial;k)nãoquerempôremcausaa família;l)NunoMartinseJoséCorreia –geraçõesdiferentesqueseocupam detarefasdomésticas. 3.1 Sensibilizar e consciencializar a opiniãopública. 3.2 A reportagem é globalmente objetiva, apresentando um discurso de terceira pessoa, feito pela repór- ter. No entanto, esta objetividade vai alternando com marcas de subjeti- vidade decorrentes das opiniões que vão sendo veiculadas pelos interve- nientes com o discurso de primeira pessoa. 3.3 As imagens são adequadas ao tema tratado, tentando ilustrar as diferenças da realidade entre gera- ções (experiência de vida, modo de vestir,deviveredetrabalhar). 3.4 Multiplicidade de intervenientes (várias vozes femininas, repórter e duas vozes masculinas); informação seletiva sobre o tema; uso da 1.ª e 3.ª pessoas; desenvolvimento de um tema(ainda)atualeespecífico. 3.5Conclui-sequeháaindaumcami- nho a percorrer na redução da desi- gualdade de géneros, embora alguns objetivosjátenhamsidoatingidos. ▪ Vídeo Educação: de iletradas, a superletradas
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    153 Ficha informativa Reportagem O queé? A reportagem é um subgénero do texto jornalístico veiculado pelos meios de comunicação social. É um texto predominantemente informativo, que pressupõe um trabalho de investigação do repórter que se desloca ao local, tomando contacto com a situação ou acontecimento. O repórter observa os acontecimentos, seleciona a infor- mação e entrevista pessoas. A reportagem é o produto desse trabalho, sendo simulta- neamente objetiva na informação que transmite e subjetiva pelas opiniões veiculadas. 1. A reportagem escrita A reportagem escrita apresenta uma estrutura semelhante à da notícia: t título, podendo ter antetítulo e subtítulo; t lead ou introdução/abertura, com a apresentação do tema da reportagem; t desenvolvimento/corpo da reportagem, onde o tema é desenvolvido porme- norizadamente, a partir da narração dos factos, da descrição do ambiente, de pessoas ou de situações, inclusão de opiniões de pessoas envolvidas na situa- ção/acontecimento/facto…; t conclusão/fecho, no qual se conclui ou resume o assunto abordado. A reportagem é, geralmente, um texto mais longo do que outros textos jorna- lísticos, que pode ter sequências narrativas, descritivas e conversacionais. Pode ser complementada com caixas, blocos do texto com destaque para certas informações, e ilustrada com imagens/fotografias com legenda. 2. A reportagem televisiva A reportagem televisiva tem vários tipos de estrutura, sendo a estrutura circular uma das mais eficazes. A reportagem começa e acaba com o mesmo ângulo. A sua construção assenta numa descrição de vários aspetos encadeados e interligados, criando um círculo fechado. Tem a vantagem de transmitir ao espectador a ideia de que tudo foi tratado, tudo foi visto, tudo foi explicado. Ao acabar como começou, a reportagem dá a ideia de ter feito uma viagem completa. […] A sensação final é a de que a reportagem teve princípio, meio e fim. Jorge Nuno de Oliveira, Manual de jornalismo de televisão, Lisboa, Cenjor, IEFP, 2007, p. 44 Que características tem? A reportagem (escrita e televisiva) caracteriza-se por apresentar: t temas atuais e interessantes; t texto objetivo que se centra na objetividade dos factos; t visão subjetiva decorrente dos comentários do repórter e outros intervenientes; t discurso na 3.ª pessoa e, eventualmente, na 1.ª pessoa; t discurso direto; t recursos verbais e não verbais como são exemplo a postura, o tom de voz, a articu- lação, o ritmo, a entoação, a expressividade, o silêncio, as imagens, as fotografias e o olhar. FICHA INFORMATIVA N.O 5 5 PowerPoint Ficha informativa n.o 5
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    154 Unidade 3// GIL VICENTE Os maridos das outras Toda a gente sabe que os homens são brutos, Que deixam camas por fazer E coisas por dizer. São muito pouco astutos, muito pouco astutos. Toda a gente sabe que os homens são brutos. Toda a gente sabe que os homens são feios, Deixam conversas por acabar E roupa por apanhar. E vêm com rodeios, vêm com rodeios. Toda a gente sabe que os homens são feios. Mas os maridos das outras não, Porque os maridos das outras são O arquétipo da perfeição, O pináculo da criação. Dóceis criaturas, de outra espécie qualquer, Que servem para fazer felizes as amigas da mulher. E tudo o que os homens não... Tudo o que os homens não... Tudo o que os homens não... Os maridos das outras são Os maridos das outras são. […] Miguel Araújo DESAFIO 1. Ouve a música «Os maridos das outras», de Miguel Araújo. 2. Inês Pereira nunca parece feliz com as características dos homens que lhe vão, literalmente, batendo à porta, tal como a caricatura (injusta?) dos homens da música de Miguel Araújo. Planifica uma apreciação crítica oral, entre dois a quatro minutos. Na sua estruturação, refere os seguintes tópicos: t descrição do documento que acabaste de ouvir; t tese defendida nesse documento; t estereótipo «dos homens»; t relação dos «homens» do poema com os pretendentes/maridos/amante de Inês Pereira; t comentário crítico do poema/música de Miguel Araújo. Apreciação crítica p. 312 SIGA CD 1 Faixa n.o 18 PROFESSOR Oralidade 1.1; 1.4; 1.5; 2.1; 3.2; 4.1; 4.2; 5.2; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3. MC Sugestões: “BA7?3?GE;536A “AE?3D;6AE63EAGFD3EEyA?7:A- res do que os «homens» que temos emcasa; “AE:A?7@EEyA7EF7D7AF;B36AEB7 los seus defeitos (são brutos, são desarrumados)…; “ @~EF3?4|?@G@537EFt87;L5A? os seus homens – rejeita Pero Mar- ques por ser um simplório; é enga- nadaporBrásdaMataeéinfelizno seu primeiro casamento; enviúva e casa-se segunda vez, sem amor, com o primeiro pretendente rejei- tado. Engana-o com o Ermitão, um antigoapaixonadodeInês. Link Os maridos das outras, Miguel Araújo PowerPoint Síntese da unidade
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    155 GLOSSÁRIO A Alcoviteira: mulher intermediáriaem relações amorosas dedicando-se a fazer casamentos, entre outros. Profissão proibida por lei. Auto: a definição de auto é problemática, uma vez que, na época medieval, o vocábulo parece ter sido tomado como sinónimo de qualquer peça de teatro. Um auto poderia denominar uma farsa, uma moralidade, um mistério, um milagre, uma tragicomédia. No que toca à sua temática, o auto tanto pode desenvolver um assunto religioso quanto um assunto profano. C Cena: faz parte da estrutura externa de um texto dramático e constitui a divisão de um ato. Um ato tem tantas cenas quantas as entradas e saídas de personagens. Assim, uma mesma cena mantém-se enquanto estiverem presentes, no mesmo local, as mesmas personagens. Cenário: 1. conjunto de elementos visuais (tais como mó- veis, objetos, adereços e efeitos de luz) que compõem o espaço onde se apresenta um espetáculo teatral, cinema- tográfico, televisivo […]; 2. lugar em que decorre a ação ou parte da ação de uma peça, filme, telenovela, romance. Cómico: é uma qualidade estética conseguida através de recursos estilísticos suscitadores do riso e da comicidade, que frequentemente implicam a conciliação de ideias ou situações aparentemente inconciliáveis. Essa concilia- ção é produzida através de um raciocínio engenhoso com a intenção de produzir o riso através do texto literário. A matéria cómica presta-se a uma dupla interpretação e, por essa razão, produz no espírito humano uma dupla impres- são: de lógica e, simultaneamente, de absurdo. O riso é o resultado da nossa aceitação de duas ideias ou situa- ções aparentemente inconciliáveis. O riso aparece muito frequentemente no texto literário associado a uma função didática, cumprindo a célebre máxima latina: «Ridendo castigat mores» (É com o riso que se corrigem os costu- mes). D Didascália: tudo o que no texto dramático não se destina a ser dito pelas personagens e que, na representação cénica, desaparece enquanto discurso e surge diante dos espec- tadores como ação ou presença física (objetos, guarda- -roupa, cenário...). As didascálias, que são a voz direta do dramaturgo, diferenciam-se visualmente do resto do texto por estarem escritas entre parênteses ou em itálico, ou de qualquer outra forma que marque bem que se trata de um texto à margem das falas das personagens. Tais indicações cumprem uma dupla função: situam o diálogo, a ação, num contexto imaginário, ao nível do acontecimento fic- cional, e, ao nível da representação, fornecem instruções àqueles que transformam o texto em espetáculo. E Escudeiro: pajem ou criado que leva o escudo do cavaleiro. Título dos jovens nobres ainda não arma- dos cavaleiros. J Judeu: membro do grupo étnico e reli- gioso originado nas Tribos de Israel ou hebreus do Antigo Oriente. Em Gil Vicente, nomeadamente na Farsa de Inês Pereira, os judeus assumem o papel de casamenteiros e nego- ciantes que incentivam o casamento entre o Escudeiro e Inês, tendo uma soma em dinheiro prometida. M Moral (lição): ensinamento que pretende conduzir à refle- xão e à mudança de comportamento. P Personagem-tipo: pode entender-se como personagem- -síntese, tendo em vista o intuito de ilustrar de uma forma representativa certas dominantes (profissionais, psicoló- gicas, culturais, económicas, etc.). Pode corresponder a uma personagem plana, na medida em que não evolui, referindo-se a entidades suscetíveis de identificação fácil e reconhecimento imediato nas suas manifestações, ao longo do relato. S Sátira: modalidade literária ou tom narrativo, a sátira con- siste na crítica de instituições ou pessoas, na censura dos males da sociedade ou dos indivíduos. Vizinha da comé- dia, do humor, do burlesco e cognatos, pressupõe uma ati- tude ofensiva, ainda quando dissimulada: o ataque é a sua marca indelével; a insatisfação perante o estabelecido, a sua mola básica. V Vilão: pessoa, na Idade Média, que não pertencia à nobreza feudal e que habitava urbanamente em vilas. Os vilões com condições económicas e sociais mais elevadas ascendiam a cavaleiros-vilões, sendo obrigados a possuir armas e cavalos, para combater como cavaleiros na hoste do rei. Bibliografia/Webgrafia do Glossário Carlos Reis, e Ana C. M. Lopes, Dicionário de narratologia, 6.ª edição, Coimbra, Almedina, 1998 Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia, Lisboa, Temas e Debates, 2005 E-dicionário de termos literários de Carlos Ceia (http://www.edtl.com.pt, consultado em outubro de 2014). Massaud Moisés, Dicionário de termos literários, 6.ª edição, São Paulo, Cultrix, 1992
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    156 Unidade 3// GIL VICENTE Grupo I A Lê o excerto da Farsa de Inês Pereira que se segue. Em caso de necessidade, consulta as notas de vocabulário apresentadas a seguir ao texto. FICHA FORMATIVA Renego deste lavrar1 e do primeiro que o usou ao diabo que o eu dou que tam mau é d’aturar. Oh Jesu que enfadamento e que raiva e que tormento que cegueira e que canseira. Eu hei de buscar maneira dalgum outro aviamento2 . Coitada assi hei d’estar encerrada nesta casa como panela sem asa3 que sempre está num lugar. E assi hão de ser logrados dous dias amargurados que eu posso durar viva e assi hei d’estar cativa em poder de desfiados4 . Antes o darei ao diabo que lavrar mais nem pontada já tenho a vida cansada de jazer sempre dum cabo5 . Todas folgam e eu não todas vem e todas vão onde querem senam eu. Ui que pecado é o meu ou que dor de coração? […] Vem a Mãe da igreja e não na achando lavrando diz: Logo eu adevinhei lá na missa onde eu estava 1 v. 1: odeio costurar. 2 Aviamento: solução. 3 v. 12: compara-se a objeto sem utilidade (panela sem asa). 4 vv. 17-18: prisioneira a fazer travesseiros de franjas. 5 vv. 21-22: já estou cansada de estar no mesmo sítio. 6 v. 37: como tu estás! 7 v. 41: pensamentos desproposi- tados. 8 vv. 44-45: também ela se quer casar depressa, mas a Mãe está a levar muito tempo em consenti- -lo. 9 v. 49: dá tempo ao tempo. 10 v. 52: Quando menos espera- res. 11 v. 56: prefiro falar de casa- mento a costurar. [Inês Pereira] Inês Mãe Inês Mãe Inês Mãe Inês Mãe Inês como a minha Inês lavrava a tarefa que lhe eu dei. Acaba esse travesseiro. Ui naceu-te algum unheiro ou cuidas que é dia santo? Praza a Deos que algum quebranto me tire de cativeiro. Toda tu estás aquela6 . Choram-te os filhos por pão? Prouvesse a Deos que já é rezão de nam estar tam singela. Olhade lá o mau pesar7 como queres tu casar com fama de preguiçosa? Mas eu mãe sam aguçosa e vós dais-vos de vagar8 . Ora espera assi vejamos. Quem já visse esse prazer. Cal-te que poderá ser que ante Páscoa vem os Ramos9 . Nam te apresses tu Inês maior é o ano que o mês. Quando te nam percatares10 virão maridos a pares e filhos de três em três. Quero-m’ora alevantar. Folgo mais de falar nisso11 assi Deos me dê o paraíso mil vezes que nam lavrar. Isto nam sei que o faz. Gil Vicente, Inês Pereira, in José Camões (coord.), As obras de Gil Vicente, vol. 2, Lisboa, IN-CM, 2001, pp. 559-561 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 COTAÇÕES GrupoI A 1. 15pontos 2. 15pontos 3. 15pontos 4. 15pontos B 5.1 20pontos 6. 20pontos 100pontos
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    157 Ficha formativa Apresenta, deforma bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem. 1. Insere o excerto na estrutura interna da obra. 2. Refere três traços caracterizadores de Inês. Fundamenta a tua resposta com citações textuais pertinentes. 3. Identifica e explicita o valor do recurso expressivo presente nos versos 26-27. 4. Classifica a personagem Inês Pereira quanto à composição. Justifica a tua resposta, tendo em conta a globalidade da obra. B Lê o excerto seguinte da Farsa de Inês Pereira. Em caso de necessidade, consulta as notas de vocabulário apresentadas a seguir ao texto. Apresenta, de forma clara e bem estruturada, as tuas respostas aos itens que se seguem. 5. Atenta na relação mãe-filha. 5.1 Explica como evolui ao longo da ação. 6. Menciona duas características que permitem reconhecer este texto dramático como uma farsa. 1 Asinha: depressa. 2 v. 12: e vos não tivesse visto não teria penado, mas também não vos teria visto. Mãe Inês Escudeiro Inês Escudeiro Inês 5 10 15 20 25 Ficai com Deos filha minha nam virei cá tam asinha1 . A minha benção hajais esta casa em que ficais vos dou e vou-me à casinha. Senhor filho e senhor meu pois que já Inês é vossa vossa molher e esposa encomendo-vo-la eu. […] Ida a Mãe, fica Inês Pereira e o Escudeiro, e senta-se Inês Pereira a lavrar e canta esta cantiga: Si no os hubiera mirado no penara pero tan poco os mirara2 . O Escudeiro, vendo cantar Inês Pereira, mui agastado lhe diz: Vós cantais, Inês Pereira? Em bodas me andáveis vós? Juro ao corpo de Deos que esta seja a derradeira. Se vos eu vejo cantar eu vos farei assoviar. Bofé senhor meu marido se vós disso sois servido bem o posso eu escusar. Mas é bem que o escuseis e outras cousas que não digo. Por que bradais vós comigo? Será bem que vos caleis. E mais sereis avisada que não me respondais nada […] Que pecado foi o meu? Por que me dais tal prisão? Gil Vicente, op. cit., pp. 582-584 PROFESSOR GrupoI A 1.Oexcertoinsere-senaexposiçãoda farsa. Apresenta-se a personagem principal e os seus conflitos: interior (não aceita o «cativeiro») e exterior (comaMãeeosseusconselhos). 2. Inês manifesta-se revoltada com o trabalho que lhe está destinado («Renego deste lavrar» (v. 1)) e com o facto de não poder sair quando quer («Todas folgam e eu não» (v. 23)). Por outro lado, mostra-se apressada em casar («que já é rezão / de nam estar tamsingela»(vv.39-40)). 3. A pergunta retórica sublinha a revolta de Inês, que questiona o seu estadoatualdecativeiro. 4. Quanto à composição, Inês é uma personagemmodelada,umavezque tem densidade psicológica e evolui nas suas atitudes ao longo da peça; porexemplo,relativamenteaocasa- mento. 5.1 A relação entre as duas perso- nagens (mãe-filha) modifica-se ao longo da ação: numa primeira fase, têm um relacionamento difícil, con- flituoso, em que sobressai o conflito geracional. Numa segunda fase, a Mãe aconselha a filha, e, em alguns aspetos,Inêsobedece-lhe(porexem- plo, no seu comportamento durante o primeiro encontro com o Escu- deiro).Finalmente,aMãeresigna-se, aceita a decisão da filha, abençoa-a e deixa-lhe a casa para nunca mais apareceremcena. 6. A situação de engano/burla entre o Escudeiro e Inês (ser/parecer) e a representação de cenas do quoti- diano: oplaneamentoe arealização do(s) casamento(s); as contratações para arranjar os dois casamentos; o retratodavidafamiliardoséculoXVI eapresençadocómico.
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    158 Unidade 3// GIL VICENTE Grupo II Lê o texto seguinte. A este respeito, o exemplo de Gil Vicente é muito esclarecedor. Ele criou o seu tea- tro praticamente do nada e deixou atrás de si um vácuo […] e isto me levou a procurar demonstrar a existência de um teatro português a partir do qual se tivesse elaborado o teatro vicentino. Mas o mais que se pode provar é a existência fragmentária de repre- sentações litúrgicas, paródias, espetáculos mudos de corte que estão a uma distância infinita do teatro acabado, adulto, completo, que é o de Gil Vicente. […] E depois de Gil Vicente há pouco menos que nada. Ora a existência de Gil Vicente é um mero fortuito: ele podia não ter nascido; ou ter nascido e não ter chegado à idade adulta; ou ter chegado à idade adulta e não ter tido acesso à corte, nem, portanto, meios para fazer representar os seus autos, etc. E, sem ele, simplesmente não existiria o principal monumento do teatro português e a fisionomia literária do nosso século XVI seria profundamente diferente da que lhe conhecemos. No século XVIII houve várias tentativas teatrais e vários esforços práticos e teó- ricos para criar um teatro nacional. Todavia, esse século não produziu uma única obra teatral que merecesse sobreviver. Os historiadores de literatura explicam este malogro ou esta mediocridade teatral por razões lógicas e necessárias: não houve teatro no nosso século XVIII porque o não podia haver, por isto e por aquilo. Ora, se Gil Vicente tivesse tido um acidente em menino e se, portanto, ao nosso teatro do século XVI faltasse a única obra que merece sobreviver, os nossos historiadores de literatura (entre os quais me conto) explicariam com a mesma segurança e a mesma convicção, com as mesmas razões lógicas e necessárias, porque é que não podia haver teatro em Portugal no século XVI. Essas razões valeriam provavelmente tanto como as que os referidos his- toriadores aplicam ao século XVIII. Nada nos impede de imaginar que a única razão por que o século XVIII não nos deixou um teatro perdurável é o Gil Vicente dessa época, por casualidade, não chegou a ser nascido. António José Saraiva, Gil Vicente e o fim do teatro medieval, 4.ª edição, Lisboa, Gradiva, 1992, pp. 20-21 1. Para responderes aos itens de 1.1 a 1.6, seleciona a única opção que te permite obter uma afirmação correta. 1.1 Segundo o autor, o teatro vicentino (A) não foi caso único na literatura portuguesa. (B) foi a continuação de uma tradição medieval. (C) foi espontâneo e irrepetível. (D) foi retomado no século XVIII. 1.2 No caso de Gil Vicente, a expressão «um mero fortuito» (l. 7) corresponde a uma síntese que revela (A) o caráter arbitrário da sua existência. (B) um acaso do destino. (C) uma sorte do povo português. (D) um acaso inexplicável. 5 10 15 20 25 COTAÇÕES GrupoII 1. 30pontos 2. 20pontos 50pontos GrupoIII 50pontos
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    159 Ficha formativa 1.3 Oexcerto «ele podia não ter nascido, ou ter nascido e não ter chegado à idade adulta, ou ter chegado à idade adulta e não ter tido acesso à corte» (ll. 7-9) (A) apresenta a vida de Gil Vicente. (B) lista os vários percursos de Gil Vicente. (C) descreve os vários momentos da vida de Gil Vicente. (D) enumera vários fatores determinantes do êxito de Gil Vicente. 1.4 Na expressão «se Gil Vicente tivesse tido um acidente em menino» (ll. 17-18) está presente (A) uma impossibilidade. (B) uma probabilidade. (C) uma possibilidade. (D) uma certeza. 1.5 Com o parênteses «(entre os quais me conto)» (l. 19), o autor introduz (A) uma conclusão. (B) uma informação adicional. (C) uma citação. (D) uma explicação. 1.6 Na frase «Essas razões valeriam provavelmente tanto como as que os referidos historiadores aplicam ao século XVIII» (ll. 21-23), o autor recorre a (A) uma enumeração. (B) uma metáfora. (C) uma comparação. (D) um eufemismo. 2. Responde aos items apresentados 2.1 Identifica a expressão que não integra um complemento do nome: (A) «existência de um teatro» (l. 3) (B) «teatro vicentino» (l. 4) (C) «espetáculos mudos» (l. 5) (D) «historiadores de literatura» (l. 19) 2.2 Identifica a função sintática desempenhada pela expressão «que merecesse sobreviver» (l. 15). Grupo III Numa exposição escrita, com um mínimo de cento e vinte e um máximo de cento e cin- quenta palavras, apresenta uma reflexão sobre a perspetiva referente à representação do quotidiano quinhentista, expressa no excerto a seguir transcrito. Fundamenta as tuas ideias, com base no estudo da obra Farsa de Inês Pereira. Organiza a informação de forma coerente e bem estruturada. No final, revê o teu texto e, se necessário, aperfeiçoa-o. O caso de Gil Vicente é o mais impressionante: ele representa uma imposição na corte da tradição popular portuguesa, quer no seu espírito quer nas suas formas. Esta formidável presença da aldeia na corte ilustra a situação da «corte na aldeia», para glosar mais uma vez a famosa expressão inventada por Rodrigues Lobo, e por este lado o teatro vicentino é o património que melhor representa a cultura portuguesa no seu conjunto, o principal documento de uma antropologia portuguesa. António José Saraiva, A cultura em Portugal teoria e história, Livro I: Introdução Geral, Lisboa, Bertrand Editora, 1985, p. 95 PROFESSOR GrupoII 1.1 (C); 1.2 (B); 1.3 (D); 1.4 (C); 1.5 (B); 1.6(C). 2.1(C). 2.2Modificadorrestritivodonome. GrupoIII Tópicos: – representando-os perante o rei, em Tomar, Vicente traz para a corte a «moça de vila», o escudeiro pelintra, o labrego abastado, a alcoviteira – tipos da realidade da «aldeia»; – dá-nos a realidade sociológica da época – visão dos contratos matri- moniais, cenas da vida familiar, padrõescomportamentaismascu- linoefeminino;preconceitocontra osjudeus; –documentodeumaépoca–memó- ria de um espetáculo que fez rir (e pensar) os nossos compatriotas de1523.
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    4 EDUCAÇÃO LITERÁRIA Contextualização histórico-literária Redondilhas Sonetos Temas: tarepresentação da amada; ta experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor; t a reflexão sobre a vida pessoal; t o tema do desconcerto; t a representação da natureza; t a mudança. Linguagem, estilo e estrutura: ta lírica tradicional; ta inspiração clássica; to discurso pessoal e marcas de subjetividade; tsoneto – características; tmétrica (redondilha e decassílabo), rima e esquema rimático; trecursos expressivos. LEITURA Textos informativos. COMPREENSÃO DO ORAL Registos áudio e audiovisuais. EXPRESSÃO ORAL Apreciação crítica e síntese. ESCRITA Exposição sobre um tema, apreciação crítica e síntese. GRAMÁTICA O português: génese, variação e mudança: tprincipais etapas da formação e evolução do português; tetimologia. Sintaxe: tfunções sintáticas: complemento do adjetivo. Lexicologia: tcampo lexical e campo semântico.
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    LUÍS DE CAMÕES RI M A S Fernão Gomes, Retrato de Camões, c. 1573.
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    mensagens Inês Pedrosa É escritorae cronista do semanário Sol. Além de contos, crónicas e biografias, publicou sete romances: A instrução dos amantes (1992), Nas tuas mãos (1997, Prémio Máxima de Literatura), Fazes-me falta (2002), A eternidade e o desejo (2007), Os íntimos (2010, Prémio Máxima de Literatura), Dentro de ti ver o mar (2012) e Desamparo (2015). Os seus livros estão publicados na Alemanha, no Brasil, em Espanha e em Itália. 162 Um nao querer mais que bem querer Tudo o que sei sobre o amor foi-me ensinado por esse homem chamado Luís Vaz de Camões, e estava morto havia quase quatrocentos anos quando mo ensinou. Cada verso do poema em que definiu o sentimento central da existência humana poderia servir de título a um tratado filosófico. «Um não querer mais que bem querer»: é este o paradoxo que nos ilumina, o sim que a si mesmo se anula numa vertigem de conhecimento para a qual são convoca- dos todos os nossos medos, sonhos e enigmas. A poesia serve para fazer durar o que não dura; é a máquina do intemporal. Não há tecnologia que possa ultrapassá-la. O que primeiro me fascinou na lírica de Camões foi a música: ainda não sabia ler nem conseguia entender os sonetos que o meu avô declamava, enquanto me passeava de barco a remos no rio Nabão, em Tomar. Tinha quatro ou cinco anos e repetia: «Alma minha gentil, que te partiste / Tão cedo desta vida descontente, / Repousa lá no Céu eter- namente, / E viva eu cá na terra sempre triste.» O som também é sentido; o ritmo e a rima são tão importantes como aquilo que se quer dizer – o sentimento de perda e solidão atingiu-me, através da declamação do meu avô, antes do significado dos versos que compõem este soneto. O poeta deixou-se seduzir pela filosofia clássica (em especial, Platão), pela tradição trovadoresca e pelo arrojo renascentista, criando, a partir des- sas influências variadas, uma língua sua, uma voz própria, imediatamente identificável: clara, concisa, afirmativa e autêntica. Sem essa autenticidade que é o fundamento da comunicação, não existe arte, apenas artifício. A força lírica de Camões nasce dessa autenticidade, servida por um vocabulário e uma sintaxe empenhadas em transformar a verdade mor- tal em beleza imortal. A mestria e a modernidade de Camões manifes- tam-se com particular energia nas Rimas, talvez por- que o amor, o humor, a inquietação e o desespero resistem mais ao tempo do que as gestas heroicas. O magistral poema épico que é Os Lusíadas exige- nos o esforço de transpor o mar da distância his- tórica; a lírica camoniana toca diretamente na matéria e no mistério da nossa vida. Inês Pedrosa (Texto inédito, 2014) © Alfredo Cunha ~ 5 10 15 20 25 30 35 40 45
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    cruzadas Rimas de Camoes Rimase canções. As rimas são o ritmo dos versos. Os versos são as linhas da letra. As letras dão sentido e título às canções, sem elas seriam músicas ou temas musicais. Camões não precisou de música para fazer canções. Usou e abusou de rimas, trocou e arran- jou outros sentidos para as mesmas velhas palavras da nossa língua antiga. Procurou na rima a maneira de se exprimir, de se evidenciar, de ganhar vantagem. Trabalhou a rima como um guitarrista trabalha a sua técnica. Usou de truques e esquemas, foi-se aperfeiçoando até na sua cabeça as ideias aparecerem já em verso. Como se disse, a rima tem uma técnica. A técnica pode ser apurada. A rima pode ser melhorada. O verso consegue-se continuado. A letra pode ser acabada e a canção, finalmente, já pode ser cantada. Ou dita. Ou lida. Quando se lê a lírica de Camões (repararam na semelhança com lyrics, a palavra inglesa para letra de canção?), temos um sentido de tempo e de ritmo muitas vezes não evidente, outras mais tradicional, que se assemelha a ouvir uma canção. Não é por acaso que vários compositores ao longo do tempo musicaram poemas da lírica. Experimentem. Leiam como se dissessem umas rimas com um som, uma canção ou um fado: funciona, é belo. Tim (Texto inédito, 2014) 163 ~ Tim Em 1978 é convidado para tocar baixo nos Xutos Pontapés, lugar que ocupa desde o primeiro ensaio até hoje. Vocalista por necessidade, assumiu a voz e a escrita da maior parte das letras da banda pouco tempo depois. Licencia-se em Engenharia Agronómica. Mais de uma dezena de discos depois, a vida decorre entre concertos e gravações, proporcionando outras experiências como Resistência, Rio Grande, etc. 5 10 15 20
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    164 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES Contextualização histórico-literária Datas e acontecimentos c. 1524 Nascimento de Luís de Camões. 1537 Instalação definitiva da universidade em Coimbra. 1542 Comerciantes portugueses aportam no Japão. 1544 É confiada a Pedro Nunes a cátedra de matemática da Universidade de Coimbra. 1547 Pedro Nunes torna-se o primeiro cosmógrafo-mor. 1548 D. João III manda fechar a feitoria de Antuérpia. 1554 Nascimento de D. Sebastião. 1557 As autoridades chinesas autorizam os portugueses a estabelecerem-se em Macau. Morte de D. João III. 1557-1562 Regência de D. Catarina de Áustria. 1559 Fundação da Universidade de Évora. 1562-1568 Regência do cardeal D. Henrique. 1564 Conclusão do Concílio de Trento. 1568 D. Sebastião assume o trono. 1569 Surto de peste negra em Portugal. 1571 Uma cadeia de entrepostos liga Lisboa a Nagasáqui, dando origem ao primeiro império global da História. Datas e acontecimentos 1578 Morte de D. Sebastião. O cardeal D. Henrique assume o trono. 1580 Após a morte do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, Portugal enfrenta uma grave crise dinástica. Morte de Luís de Camões (10 de junho). 1581 Filipe II de Espanha é declarado rei de Portugal nas Cortes de Tomar. Textos e obras 1540 Publicação da Gramática da Língua Portuguesa, de João de Barros. 1547 Publicação do Tratado em defensão da carta de marear e do Tratado sobre certas dúvidas da navegação, de Pedro Nunes. 1554 Impressão da obra de Bernardim Ribeiro, onde se inclui Menina e moça. 1563 Publicação de Colóquios dos simples e drogas e cousas da Índia, de Garcia de Orta. 1569-1578 Fernão Mendes Pinto escreve Peregrinação (publicada apenas em 1614). 1572 Publicação de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. 1587 Publicação de Tragédia de Inês de Castro, ou A Castro, de António Ferreira. 1595 Publicação póstuma das obras de Sá de Miranda. Esfera armilar, século XVI (pormenor). Astrolábio náutico. Fronstispício da 1.ª edição da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, 1614. E f il
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    165 Contextualização histórico-literária 1. AHistória O século de Quinhentos deve ser encarado não tanto como uma época de vira- gem radical em relação aos séculos imediatamente anteriores, mas como o ponto de chegada de um processo transformativo lento e sedimentado que abrange conjuga- damente as mais diversas áreas da vida coletiva. […] A sociedade rigidamente hierarquizada que tinha vigorado durante grande parte da Idade Média começa a dar sinais de ceder face às movimentações ascensionais de uma burguesia comercial que se foi apropriando de importantes meios económi- cos, não se conformando com a subalternização a que a condenava a orgânica tradi- cional. Por outro lado, os sistemas fechados de conhecimento, assentes em verdades eternas e indisputadas, começam a ser objeto de revisão funda e sistemática. Em face desta dinâmica de contínua revisão, as próprias universidades, nascidas durante o século XIII sob a proteção direta do poder régio e eclesiástico, começam a ver amea- çado o seu monopólio de depositárias do saber. […] Caracterizando-se essencialmente pela proliferação das atividades mercantis, marítimas e terrestres, e pela consequente flexibilização das linhas que separavam os diferentes estratos sociais, o século XVI define-se assim pela instituição da troca, enquanto prática potenciadora de riqueza nova. José Augusto Cardoso Bernardes, História crítica da literatura portuguesa – Humanismo e Renascimento, vol. 2, Lisboa, Editorial Verbo, 1999, pp. 13 e 16 2. A literatura Transformações intensas estavam em curso. Sofrendo o influxo deste processo, as letras também para ele concorreram […]. Óbvia foi a atenção prestada aos Antigos: reapreciou-se Horácio (nunca esquecido, aliás, durante a Idade Média), e pouco a pouco, nas primeiras décadas de Quinhentos, ganhou-se familiaridade com a Poética de Aristóteles e com diálogos de Platão. […] Equilíbrio, clareza, mesura, proporção tornam-se qualidades primaciais. Por lema, adota-se a mimese da natureza, o que não há de confundir-se com a recusa de qualquer idealização. […] Pautado por regras, alicerçado na imitação de exemplos de excelência e cantando temas caros (o amor, a heroicidade, a justiça, a felicidade, a salvação), o exercício das letras, garante de fama, foi insistentemente enaltecido como nobilitante e equiparável ou complementar ao das armas […]. Pela matriz greco-latina, mas preferindo a língua materna (da qual surgiam as pri- meiras gramáticas, além de entusiásticas defesas), delineou-se uma hierarquia de géne- ros […]: a epopeia, a tragédia, a comédia, ocupavam os graus cimeiros; num plano mais baixo da escala, incluíam-se éclogas, elegias, epigramas, panegíricos, epitáfios, epitalâ- micos, cartas, diálogos… […] Fundamental, a lírica amorosa (sobretudo em formas como a canção, o soneto, o madrigal) teve em Petrarca o seu clássico, imitado enquanto modelo de estilo […], imitado no apuramento de uma noção biografista da poesia […]. Cumpre-se […] reparar na historiografia, encarecida como poderoso veículo de propaganda ao longo de Quatrocentos, mas cuja importância cresceu em pleno Renas- cimento, pela mão de cronistas oficiais como João de Barros e Damião de Góis […]. 5 10 15 5 10 15 20 Frontispício da Poética, de Aristóteles. PROFESSOR Leitura 8.1. Educação Literária 16.1. Escrita 12.1; 12.2; 12.3; 12.4. MC PowerPoint Contextualização
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    166 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES Em sintonia com o ascendente de padrões greco-latinos e com o orgulho na gesta, acumularam-se incitamentos ao canto épico. […] Todavia foi preciso esperar por uma maturação poética e cultural, e, não menos, pela «fúria […] sonorosa» de Camões, para que esse anseio lograsse cabal realização, com a Eneida virgiliana a valer de ali- cerce à edificação de Os Lusíadas […]. Isabel Almeida, «Renascimento», in José Augusto Cardoso Bernardes et al. (dir.), Biblos: Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa, vol. 4, Lisboa, Editorial Verbo, 2001, pp. 699-703 3. Renascimento Movimento cultural que, baseado no conhecimento e na imitação dos clássicos (latinos e gregos), trouxe uma nova conceção de homem, encarado na sua integra- lidade, e veio abrir novos horizontes à Humanidade e rasgar os caminhos da Idade Moderna. […] Existem, pois, no Renascimento dois aspetos aparentemente contraditórios: por um lado, a imitação das culturas clássicas; por outro, de certo modo, a sua contesta- ção, ao desvendar, através da experiência, as realidades humanas e científicas que vão conduzir ao espírito moderno. Com efeito, ao reconhecer a superioridade artística e literária das civilizações anti- gas, os homens do século XV foram levados a imitá-las, mas, a partir delas, a conce- ber uma nova noção que os antigos apenas haviam pressentido: a noção do homem integral, complexo harmonioso de corpo e de espírito. Maria Leonor Carvalhão Buescu, Apontamentos de literatura portuguesa, Porto, Porto Editora, 1993, p. 47 (texto adaptado) 4. Humanismo A esse novo interesse pelo homem, servido pelo estudo aprofundado das letras e das artes, se deu o nome de Humanismo. E é fácil ver como esta conceção humanís- tica levou longe: tFTUFOEFOEPPHumanismo não só ao homem individualmente, mas à huma- nidade em geral; tJODMVJOEPPIPNFNFBIVNBOJEBEFOPWBTUPDPOKVOUPEBOBUVSF[BVOJWFSTBM – atitude que conduzirá ao naturalismo, isto é, ao interesse pela natureza em geral. O Humanismo Português, inserto no Humanismo Europeu, revestiu, contudo, aspetos particulares, sobretudo por um enriquecimento extraordinário proveniente da experiência trazida pelos Descobrimentos, assumindo, portanto, uma fisionomia específica, formulando-se através de uma análise contrastiva do real. A mensagem transmitida pelos descobridores vinha ser, afinal, a prova das teorias humanísticas: nem só a raça branca, nem só a civilização europeia, nem só as religiões até então conhecidas – o cristianismo, o judaísmo, o maometismo e as próprias línguas euro- peias dos ramos já identificados (românicas, germânicas e eslavas) existiam no mundo, que pela primeira vez se revelava em toda a sua vastidão e diversidade. Isto confere ao Humanismo Português uma feição de precursor quanto à noção de relatividade das coisas humanas e da própria vivência do relativo. Maria Leonor Carvalhão Buescu, op. cit., p. 47 (texto adaptado) 25 5 10 5 10 15 Miguel Ângelo, A queda e a expulsão do paraíso, século XV (pormenor). PROFESSOR Consolida Sugestão: Os textos deverão ser lidos silenciosa- mente por todos os alunos. Sugere-se que o trabalho de síntese seja feito em grupo. Texto1 O texto retrata o século XVI em termos socioeconómicos, afirmando que neste século se conclui o processo de trans- formação que abarca várias áreas da sociedade. Esta, outrora fortemente estratificada, acusa sinais de transformação com a ascençãodaburguesia,sobretudoatra- vésdocomércio.Alémdisso,oconheci- mento antes inquestionado, começa a renovar-se, ameaçando as universida- des, detentoras do saber, sob o domínio régioeclerical. Texto2 O texto aponta as transformações operadas na literatura em Quinhentos. Neste período há uma retoma da con- vivência com os escritores clássicos, comoAristóteles,PlatãoeHorácio.
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    167 Contextualização histórico-literária 5 5 5. Classicismo OClassicismo mergulha as suas raízes no Renascimento italiano, recebendo deste alguns dos seus elementos fundamentais: as noções de modelo artístico e de imitação dos autores gregos e latinos, os princípios da intemporalidade do belo e da necessi- dade das regras, o gosto pela perfeição, pela estabilidade, clareza e simplicidade das estruturas artísticas. Vítor Manuel Aguiar e Silva, Teoria da literatura, 8.ª edição, Coimbra, Livraria Almedina, 1990, p. 508 A permanência do substrato greco-romano durante cerca de três séculos […] con- duziu os historiadores da arte e da literatura à tentação de conceber o século de Qui- nhentos como uma época artisticamente homogénea, que, sob a designação ampla de Classicismo, se prolonga até ao século XVIII, quando começa a ser radicalmente confrontado com a «revolução romântica». Esta periodização levou os historiadores da arte a admitir a existência de subdesignações do tipo 1.º Classicismo, 2.º Classi- cismo, etc., ou ainda de «escolas clássicas», com o intuito de recobrir os diferentes e acentuados matizes que […] se desenvolveram neste lapso tão alongado de tempo. José Augusto Cardoso Bernardes, op. cit., vol.2, pp. 22 e 23 CONSOLIDA 1. Faz a síntese escrita dos textos 1 e 2. 2. A partir da leitura dos textos 3, 4 e 5, define os conceitos: Renascimento, Humanismo e Classicismo. Rafael, Escola de Atenas, 1509-1510. PROFESSOR Consolida Texto2(cont.) Cultiva-se a razão e tenta-se o equilíbrio, a mesura e a clareza. Olemaadotadoéaimitaçãodanatu- reza, sem esquecer a idealização da mesma. Cantam-se temáticas como o amor, a justiça, a felicidade e a heroicidade. Equipara-se, desta forma, o canto ao exercício das armas. Embora de índole greco- -latina,aliteraturaescreve-senalín- gua materna, desencadeando pro- cessosevolutivoslinguísticos. Vários tipos de composições foram cultivadas como a epopeia, a tragé- dia, a comédia, a écloga, os panegí- ricos, as cartas, os diálogos, etc. Na lírica amorosa, imita-se Petrarca no seuestiloenassuastemáticas. Foi neste ambiente de transforma- ção literária, que incitava ao canto épico, que surgiu Os Lusíadas, refle- tindoosDescobrimentoseasaltera- ções desencadeadas pela expansão emdiversasáreasdosaber. 2. Renascimento: redescoberta e imitação dos clássicos gregos e lati- nos;novadescobertadomundo. Humanismo: gosto pela beleza, pela perfeição e clareza artísticas; valorização do saber, desde as artes às técnicas, de maneira a formar o homem integral e a contribuir para o conhecimento de si mesmo e do mundoqueorodeia. Classicismo: imitação quase linear dosantigos.
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    168 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES 6. Camões – vida e obra 1. Visiona alguns excertos do documentário Grandes Livros e classifica, como verdadeiras (V) ou falsas (F), as seguintes afirmações sobre a biografia de Luís de Camões. a) Talvez tenha nascido em 1525. b) Existem fortes probabilidades de ter sido pobre e de ter estudado em Lisboa. c) Segundo uma caracterização histórica, Camões era fogoso, sedutor e compulsivo. d) Camões terá perdido o olho esquerdo numa batalha contra os mouros. e) Facto é o seu primeiro aprisionamento, de 1552 a 1553, na Prisão do Tronco, na sequência de uma agressão a um funcionário do Paço. f) Novamente em liberdade, não está documentado se Camões partiu para o Japão espontaneamente ou se exilado pelo rei. g) O poeta terá amado várias mulheres, de raças, culturas e classes diferentes. h) Segundo Helder Macedo, Camões manifestou um bom comportamento social. i) Em 1563, foi nomeado Provedor dos Defuntos. j) Certo é o seu naufrágio no rio Mecong, salvando o seu grande poema épico Os Lusía- das, e a morte da sua amada chinesa, Dinamene. k) Segundo Diogo de Couto, Camões esteve preso por libertinagem em Moçambique. Aí viveu na miséria e da caridade de amigos e desinteressou-se pela sua obra épica. l) Sabe-se que os amigos lhe pagaram a viagem de regresso a Portugal (1570), de onde esteve ausente durante 17 anos. m) O rei D. Sebastião atribuiu-lhe uma pensão de 25 000 réis anuais. n) Morre a 10 de junho de 1580 e é possível que o seu corpo tenha sido atirado para uma vala comum. o) Sabe-se que os restos mortais no túmulo oficial são do «Príncipe dos Poetas». 1.1 Corrige as afirmações falsas. 1.2 Atenta nas afirmações verdadeiras e distingue aquelas que apresentam certezas das que formulam hipóteses acerca da vida de Camões. 7. Rimas As Rimas de Camões só foram publicadas em 1595, cerca de quinze anos após a morte do poeta, tendo o seu organizador, provavelmente Fernão Rodrigues Lobo Soropita, utilizado como fontes «livros de mão, onde estas obras andavam espedaça- das», ou seja, cancioneiros e miscelâneas que continham cópias de poemas atribuídos ou atribuíveis ao autor d’Os Lusíadas. Camões não teve portanto responsabilidades na organização das suas Rimas, cabendo ao citado Soropita o estabelecimento dos critérios de disposição editorial das suas poesias. Vítor Aguiar e Silva, «A forma Cancioneiro e as Rimas de Camões», in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, p. 393 5 PROFESSOR Oralidade 1.3.; 1.4. MC Resposta: 1 e1.1 a)V; b)F:emCoimbra; c)F:caracterizaçãomítica; d)F:olhodireito; e)V; f)F:paraaÍndia; g)V; h)F:maucomportamento; i)V; j)F:mítico; k)F:pordívidas/etrabalhounasuaobra poética; l)V; m)F:15000reis; n)V; o)F:Éimpossívelsaber-se. 1.2 Certezas:f);k);n). Hipóteses:a);b); h);p). ▪ Vídeo Grandes livros – Os Lusíadas
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    169 Contextualização histórico-literária 8. Amedida velha e a medida nova Designa-se por medida velha (poesia tradicional ou poesia em redondilha) a poesia lírica composta em verso de quatro ou de sete sílabas, existente nos cancioneiros penin- sulares ao longo de todo o século XV e grande parte do século XVI. […] No plano temático,épossívelorganizarapoesiatradicionaldeCamõesemtornodequatrogran- des grupos: tópicos de circunstância, o desconcerto do mundo, o desengano e o amor. José Augusto Cardoso Bernardes, «Medida velha», in Vítor Aguiar e Silva (coord.), op. cit., pp. 579-580 Formas da medida velha tVilancete: poema constituído por um mote1 , de dois ou três versos, e por voltas2 , de sete, sendo o último a repetição, com ou sem variante, do verso final do mote. tCantiga: poema composto por um mote de quatro ou cinco versos e glosas de oito, nove ou dez versos, com a repetição total ou parcial do último verso do mote no final de cada volta. tEsparsa: composição de uma única estrofe, que varia entre oito e dezasseis versos. tEndecha: poema formado por um número variável de estrofes (quadras ou oitavas), com versos de cinco ou seis sílabas. A maior parte da lírica camoniana é escrita em medida nova, no dolce stil nuovo italiano, introduzido entre nós por Sá de Miranda. É o caso de sonetos, canções, ele- gias, éclogas, odes, oitavas e uma sextina…; e, no domínio da poesia épica, também o caso d’Os Lusíadas. […] Do ponto de vista temático, nos sonetos como noutras composições, Camões aborda temas de natureza sentimental – o Amor e as suas contradições, a mulher amada e os seus efeitos sobre o Eu, a morte da amada e o desconcerto sentimental que provoca no Eu; a Natureza e a sua profunda relação com o Eu e os sentimentos dos amantes, mas também temas autobiográficos e filosóficos – o «desconcerto do mundo» e a mudança. Amélia Pinto Pais, História da literatura em Portugal – Uma perspetiva didática, vol. 1, Porto, Areal Editores, 2004, pp. 137-138 Formas da medida nova t4POFUP: poema constituído por duas quadras e dois tercetos de versos decassilábicos, geralmente de esquema rimático abba/abba, nas quadras, e cde/cde ou cde/dce ou cdc/ dcd, nos tercetos; a estrutura interna desta forma poética tende a aplicar a «chave de ouro», ou seja, a chave do significado do soneto (normalmente um pensamento elevado), no segundo terceto. 5 5 10 Folha de rosto das Rimas de Luís de Camões, edição de 1598. Folha de rosto da edição das Rimas de Luís de Camões, Segunda parte, de 1616. 1 Mote: verso ou conjunto de ver- sos que introduzem o tema sobre o qual glosavam os poetas. 2 Voltas: glosas ou estrofes onde se desenvolve o tema apresentado no mote.
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    170 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES 170 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES – RIMAS A representação da amada PONTO DE PARTIDA 1. Ouve com atenção a declamação do «Poema da autoestrada», de António Gedeão, e indica uma característica física e uma psicológica da personagem principal. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Leva na cabeça o pote a este moto: Descalça vai para a fonte Leanor pela verdura; vai fermosa e não segura. Voltas Leva na cabeça o pote, o testo nas mãos de prata, cinta de fina escarlata1 , sainho2 de chamalote3 ; traz a vasquinha4 de cote5 , mais branca que a neve pura; vai fermosa, e não segura. Descobre a touca a garganta, cabelos d’ouro o trançado6 , fita de cor d’encarnado, tão linda que o mundo espanta; chove nela graça tanta que dá graça à fermosura; vai fermosa, e não segura. Luís de Camões, Rimas, Coimbra, Livraria Almedina, 1994, pp. 55-56 1. Transcreve do poema: a) nome da personagem; b) lugar; c) caracterização física; d) caracterização psicológica. 2. Relaciona o refrão com o estado de espírito da personagem. 3. Explicita a importância do uso do diminutivo e das cores no retrato de Leanor. 4. Indica dois recursos expressivos que servem o propósito de caracterizar Leanor e trans- creve os versos correspondentes. 5. Refere uma marca de contemporaneidade do poema de António Gedeão relativamente ao poema camoniano. William-Adolphe Bouguereau, Rapariga indo à fonte, 1885. 1 Escarlata: tecido vermelho. 2 Sainho: camisa/colete. 3 Chamalote: tecido de lã. 4 Vasquinha: saia com pregas. 5 Cote: uso diário. 6 vv. 11-12: a touca descobre a garganta e o trançado (descobre) os cabelos de ouro. 5 10 15 A representação da amada p. 181 FI CD 1 Faixa n.o 20 CD 1 Faixa n.o 19 PROFESSOR Oralidade 1.3; 2.1. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.7; 14.9; 15.1; 15.2. MC PontodePartida 1. Descreve-se o que veste, por exemplo: «Leva calções de pirata, / vermelho de alizarina, / modelando acoxafina,/deimpacientenervura»; psicologicamente finge medo, vai feliz e segura: «Grita de medo fin- gido»;«Vaiditosa,ebemsegura». EducaçãoLiterária 1.a) «Leanor»; b) «fonte»; c) «mãos de prata»; «cinta de fina escarlata»; «sainho de chamalote»; «vasquinha de cote»; «mais branca que a neve pura»; «fermosa»; «touca»; «cabe- los d’ ouro o trançado»; «fita de cor d’encarnado»;d)«enãosegura». 2. O refrão explicita que, apesar de formosa, Leanor se revela insegura, ansiosa, em relação ao seu encontro comoamadonafonte. 3. O diminutivo traduz, para além de um valor afetivo, a elegância de Lea- nor; as cores conferem maior vivaci- dadeàdescrição.Ambososrecursos permitem visualizar objetivamente Leanor. 4.Porexemplo:«mãosdeprata»(v.5) – metáfora; «mais branca que a neve pura» (v. 9) – comparação/hipérbole; «que dá graça à fermosura» (v. 16) – hipérbole. 5. Leonoreta vai à praia de lambreta pela autoestrada, enquanto Leanor vai descalça à fonte. A maneira de vestir também a diferencia, identifi- cando-se como nossa contemporâ- nea. Sugestão: os alunos poderão dese- nhar e pintar o «quadro» do poema, partindodadescriçãodeLeanoredo espaço («verdura», «fonte»). Desta forma, será possível verificar a obje- tividadedoretratofeminino. Nota: As notas que acompanham cadapoema,aindaquesimplificadas e/ou complementadas sempre que considerado importante, seguem a edição: Maria Vitalina Leal de Matos (sel.), Lírica de Camões – antologia, Alfragide,EditoraCaminho,2012.
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    171 Rimas EDUCAÇÃO LITERÁRIA Posto opensamento nele a esta cantiga alheia1 : Na fonte está Leanor lavando a talha2 e chorando, às amigas perguntando: vistes lá o meu amor? Voltas Posto o pensamento nele, porque a tudo o Amor a obriga, cantava, mas a cantiga eram suspiros por ele. Nisto estava Leanor o seu desejo enganando, às amigas perguntando: vistes lá o meu amor? O rosto sobre ùa mão, os olhos no chão pregados, que, do chorar já cansados, algum descanso lhe dão. Desta sorte Leanor suspende de quando em quando sua dor; e, em si tornando, mais pesada sente a dor. Não deita dos olhos água, que não quer que a dor se abrande Amor, porque, em mágoa grande, seca as lágrimas a mágoa. Que despois de seu amor soube novas perguntando, d’emproviso3 a vi chorando. Olhai que extremos de dor! Luís de Camões, op. cit., p. 56 1. Identifica o tema presente ao longo do poema. 2. Delimita as partes que compõem o poema e apresenta o assunto de cada uma. 3. Caracteriza psicologicamente Leanor, ilustrando a tua resposta com elementos textuais. 4. Relaciona a exclamação final com os três versos que a antecedem. 5. A história deste poema desenrola-se no campo, junto a uma fonte. 5.1 Indica a função social associada à fonte. 5 10 15 20 25 1 Cantiga alheia: o mote da cantiga é extraído de uma cantiga de outro autor. 2 Talha: vaso grande para a água. 3 D’emproviso: de repente. Jean Baptiste Camille Corot, Sonhadora na fonte, c. 1860. CD 1 Faixa n.o 21 A representação da amada p. 181 FI PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9. MC Educação Literária 1.Oamoreainquietação. 2. Na primeira parte, constituída pelo mote, pelas duas primeiras vol- tas e pelos primeiros quatro versos da última volta, temos expressa a intensidade do sofrimento de Lea- nor,quenãosabedoparadeirodoseu amado. Na segunda parte (últimos quatro versos da terceira volta), Lea- nor tem finalmente notícias do seu amado,oquelheprovocaaindamais choro. 3. Leanor, apaixonada pelo seu a- mado, de quem não tem notícias, pensa nele («Posto o pensamento nele» (v. 5)) e sofre intensamente («mais pesada sente a dor» (v. 20)), chora («chorando» (v. 2)) e sente sau- dade («eram suspiros por ele» (v. 8)). Cansada, por vezes deixa de chorar («que,dochorarjácansados,/algum descanso lhe dão» (vv. 15-16) e sus- pende as lágrimas porque «Seca as lágrimas a mágoa» (v. 24). Por fim, volta a chorar quando fica a saber novasdoseuamor(«d’emprovisoavi chorando»(v.27)). 4.A exclamaçãofinalsintetizaarea- çãodechorodeLeanorcomo«extre- mos de dor», após ter tido notícias do seu amado, superando, portanto, a contenção das lágrimas referida nos versos 17-20. A exclamação é feitaperanteoquadrodesofrimento traçado. O sujeito lírico comenta-o, dirigindo-se ao leitor e mostrando a suasimpatiaesolidariedade. 5.1. A fonte é o local de encontro social entre os habitantes de uma localidade, mas também é local pri- vilegiado de encontros amorosos. Nestecaso,Leanorencontra-secom as amigas para saber novidades sobre oseunamorado.
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    172 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES 172 6. Faz a correspondência entre os elementos da coluna A e os da coluna B. 6.1 Explicita o valor da aliteração. 7. Analisa a estrutura formal desta composição poética e classifica-a. 8. Relaciona o tema deste poema com o tema apresentado na composição poética ante- riormente estudada – «Leva na cabeça o pote» (p. 170). GRAMÁTICA 1. Identifica a função sintática desempenhada pelas expressões destacadas. a) Leanor, donzela apaixonada, perguntava pelo seu amor. b) Leanor não fica incólume ao sofrimento. c) A tristeza de Leanor fá-la chorar. 2. Divide as frases seguintes e classifica as orações. a) «não quer que a dor se abrande» (v. 22). b) «Posto o pensamento nele, / porque a tudo o Amor a obriga, / cantava» (vv. 5-7). ESCRITA Exposição sobre um tema 1. Relê a cantiga «Ondas do mar de Vigo», na página 30. A partir das características apre- sentadas na coluna A, regista as marcas comuns à cantiga de Camões. 2. Partindo do esquema que acabaste de preencher, redige uma exposição, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, na qual apresentes comparações entre os dois poe- mas quanto a: temáticas, épocas literárias, forma e linguagem. A. «Ondas do mar de Vigo» B. «Posto o pensamento nele» Emissor: personagem feminina Emissor: Espaço físico: bucólico (o mar) Espaço físico: Confidente: ondas do mar de Vigo O amigo: ausente Sentimentos do emissor: Saudade do amigo e preocupação Confidente: O amigo: Sentimentos do emissor: A Versos/expressões B Recursos expressivos a) «Desta sorte Leanor / suspende […] / sua dor; e, em si tornando, / mais pesada sente a dor.» (vv. 17-20) 1. Perífrase b) «O rosto sobre NJa mão, / os olhos no chão pregados» (vv. 13 e 14) 2. Enumeração c) «porque a tudo o Amor a obriga» (v. 6) 3. Aliteração do som [s] d) «Não deita dos olhos água» (v. 21) 4. Personificação Coordenação e subordinação pp. 327-328 SIGA Exposição sobre um tema p. 311 SIGA Recursos expressivos p. 334-335 SIGA Funções sintáticas p. 324-325 SIGA PROFESSOR Gramática 18.1; 18.2; 18.4; 18.5. Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4. MC 6.a)–3;b)–2;c)–4;d)–1. 6.1 A aliteração sugere o prolonga- mentodadorsentidaporLeanor. 7. É constituída por um mote de qua- tro versos (quadra) e três voltas de oito versos cada (oitava). A métrica utilizada é a redondilha maior. O esquema rimático é abba no mote e cddcabba/effeabba/ghhgabba nas voltas, com rimas interpolada e emparelhada. Trata-se de uma cantiga – uma forma da poesia tra- dicional. 8. O primeiro descreve a ida de Lea- nor à fonte, lugar de encontro amo- roso, daí ela ir «não segura», com medo de não se encontrar com o seu amado. Neste, Leanor já está na fonte e chora, devido à ausência do seuamor. Gramática 1. a) modificador apositivo do nome; b) predicativo do sujeito; c) comple- mentodonome. 2. a) «não quer» – oração subordi- nante;«queadorseabrande»–oração subordinada substantiva completiva. b) «Posto o pensamento nele, / can- tava» – oração subordinante; «por- queatudooAmoraobriga»–oração subordinadaadverbialcausal. Escrita 1. Emissor: sujeito lírico que evoca Leanor. Espaço físico: bucólico (o campo, a fonte). Confidente: as amigas. O amigo: ausente. Senti- mentos: simpatia e solidariedade paracomosofrimentodeLeanor. 2. Temáticas comuns (vide 1); épo- cas diferentes mas formas seme- lhantes:acantigadeCamões,apesar de pertencer à época renascentista, apresentaversoemredondilhacomo a cantiga medieval; linguagem: A – predomínio de nomes («ondas», «Vigo», «amigos»…); frases excla- mativas («se vistes meu amigo!»); refrão («E ai Deus, se verra cedo!»); repetição de versos; interjeições («E ai Deus»); B – predomínio de nomes e da frase declarativa; frase inter- rogativa repetida («vistes lá o meu amor?») e uma exclamativa («Olhai que extremos de dor!»); vocabulário dedor(«chorar»,«suspiros»…).
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    173 Rimas EDUCAÇÃO LITERÁRIA A verduraamena a este moto seu: Se Helena1 apartar2 do campo seus olhos, nacerão abrolhos3 . Voltas A verdura amena, gados, que paceis4 , sabei que a deveis aos olhos d’Helena. Os ventos serena, faz flores d’abrolhos o ar de seus olhos. Faz serras floridas, faz claras as fontes: se isto faz nos montes, que fará nas vidas? Trá-las suspendidas, como ervas em molhos, na luz de seus olhos. Os corações prende com graça inhumana; de cada pestana ù’alma lhe pende. Amor se lhe rende, e, posto em giolhos5 , pasma nos seus olhos. Luís de Camões, op. cit., p. 19 1. Explicita a condição e a consequência expressas no mote. 2. Indica a temática presente ao longo do poema, relacionando-a com o recurso expres- sivo que lhe está subjacente. 3. Tendo em conta os efeitos causados pelos olhos de Helena, divide as voltas em partes, sintetizando o assunto de cada uma. 4. Enumera os efeitos dos olhos de Helena na natureza e nos humanos. 5. Esclarece a importância dos três últimos versos do poema. 6. Explicita a influência petrarquista nesta composição. 7. Identifica e explicita o valor dos recursos expressivos presentes nos seguintes versos: a) «gados, que paceis» (v. 5) b) «Faz serras floridas, / faz claras as fontes» (vv. 11-12) 8. Analisa a estrutura formal desta composição poética e classifica-a. 1 Helena: nome clássico, pre- sente na Ilíada, de Homero. 2 Apartar: afastar. 3 Abrolhos: ervas daninhas, espinhos. 4 Paceis: pastais. 5 Giolhos: joelhos. Vincent van Gogh, Campos de trigo em Auvers sob céu com nuvens, 1890. 5 10 15 20 CD 1 Faixa n.o 22 A mulher petrarquista p. 181 FI PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9. Gramática 18.1; 18.2; 18.3; 18.4; 19.4; 19.5. Oralidade 2.1; 5.1; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3. MC EducaçãoLiterária 1. Se Helena afastar os olhos do campo (condição), nascerão espi- nhos(consequência). 2. O poder transformador relaciona- -se com os olhos de Helena, sinédo- que de toda a sua beleza interior e exterior. 3. As voltas podem ser divididas em duas partes. Na primeira parte, o sujeito lírico refere-se ao poder dos olhos sobre a natureza (vv. 4-12). Numa segunda parte, abordam- -se os efeitos nas vidas humanas (vv.13-24). 4. Na natureza, os olhos de Helena acalmamosventos,transformamos espinhos em flores, fazem florescer as serras e purificam as fontes. Nos humanos, prendem os corações e trazem-nos suspensos, isto é, apai- xonados. 5. Os três últimos versos concluem que até o próprio Amor, personifi- cado, se rende aos olhos de Helena, exaltando a sua extraordinária be- leza. 6. Tal como em Petrarca, a presença da mulher amada transforma positi- vamenteanatureza. 7. a) apóstrofe (indica o interlocutor do sujeito lírico, que inconsciente- mente beneficia dos efeitos trans- formadores de Helena); b) anáfora (enfatiza o poder transformador dos olhosdeHelenananatureza). 8.Trata-sedeumvilancete,umavez que é constituído por um mote de três versos e voltas de sete versos. Quanto à rima, apresenta o seguinte esquema rimático: abb/cddccbb/ effeebb/ghhggbb (rima emparelha- da e interpolada), sendo que se repetearimadosdoisúltimosversos do mote nos dois últimos versos das voltas. Quanto à métrica, é consti- tuído por versos de cinco sílabas métricas(redondilhamenor).
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    174 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES GRAMÁTICA 1. Classifica as seguintes orações destacadas: a) «Se Helena apartar / do campo seus olhos, / nacerão abrolhos.» (vv. 1-3) b) «gados, que paceis, / sabei que a deveis» (vv. 5-6) c) «Faz serras floridas, / faz claras as fontes» (vv. 11-12) 2. Faz corresponder a cada constituinte destacado a respetiva função sintática. A. Constituintes B. Funções sintáticas a) «sabei que a deveis» (v. 6) 1. complemento oblíquo b) «Aos olhos d’Helena» (v. 7) 2. complemento direto c) «na luz dos seus olhos» (v. 17) 3. complemento indireto d) «de cada pestana / ũ’ alma lhe pende» (vv. 20-21) 4. complemento do nome 3. Constrói um campo lexical do domínio conceptual de natureza. ORALIDADE Apreciação crítica 1. Ouve com atenção a música de Pedro Abrunhosa «Se eu fosse um dia o teu olhar». Toma notas dos seguintes tópicos: tdescrição sucinta do que estás a ouvir; t semelhanças (duas) entre a música e o poema; t diferenças (duas) entre a música e o poema; tcomentário crítico. 2. A partir das tuas notas, elabora uma apreciação crítica oral, de dois a quatro minutos, em que compares o poema de Camões «A verdura amena» com a composição de Pedro Abrunhosa. Vê lá, rapaz! Nada, julgo, mais simples: os agricultores romanos recomendavam aos novatos: «aperi oculos!» Abre os olhos, olha que quando ceifas encontrarás umas plantas daninhas que não deves juntar às espigas. E assim nas- ceu o nome «abrolho», contração de APERI OCULOS, através de abreolhos. O espanhol também tem o vocábulo «abrojo». in http://letratura.blogspot.pt (consultado em outubro de 2014) (adaptado) Abrolho: 1. [Botânica] planta zigofilácea de fruto espinhoso; 2. Espinho dessas plantas; 3. [Figurado] contrariedades, dificuldades. in http://www.priberam.pt (adaptado) Provérbio: «Quem semeia abrolhos, espinhos colhe.» CURIOSIDADE CD 1 Faixa n.o 23 Sintaxe pp. 324-328 SIGA Apreciação crítica p. 312 SIGA Campo lexical e campo semântico p. 175 FI PROFESSOR Gramática 1. a) oração subordinada adverbial condicional; b) oração subordinada adjetiva relativa explicativa/oração subordinada substantiva comple- tiva; c) orações coordenadas assin- déticas. 2.a)–2;b)–3;c)–4;d)–1. 3. «campos», «abrolhos», «verdura amena», «gados», «paceis», «ven- tos», «flores», «serras floridas», fon- tes»,«montes»,«ervas». Oralidade 1.Sugestãodetópicos: “5A?BAE;{yABA|F;53?GE;5363 “3;?BADFv@5;36AA:3D7AF7?36A amor; “?3;AD ;@F7D3{yA 7@FD7 A EG7;FA lírico e a amada («se eu fosse um dia o teu olhar»; «e tu as minhas mãos também»); a influência da amada não é na natureza, mas no eulírico; “3B7E3D636;EFv@5;3F7?BAD36AE dois poemas, a temática do olhar, aliada ao sentimento amoroso, estápresenteemambos,logo,esta combinaçãoéintemporal. Link «Se eu fosse um dia o teu olhar», Pedro Abrunhosa
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    175 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 1 Campo lexical e campo semântico CONSOLIDA 1. Lê a seguinte composição camoniana. Perdigão, que o pensamento a esta cantiga alheia: Perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha. Voltas Perdigão, que o pensamento subiu em alto lugar, perde a pena do voar, ganha a pena do tormento. Não tem no ar nem no vento asas, com que se sustenha: não há mal que lhe não venha. Quis voar a ùa alta torre mas achou-se desasado; e, vendo-se depenado, de puro penado morre. Se a queixumes se socorre, lança no fogo mais lenha: não há mal que lhe não venha. Luís de Camões, op. cit., p. 80 2. Constrói um campo lexical do domínio conceptual de «ave», utilizando apenas expres- sões do texto. 3. Atenta no verso 15 e indica o significado da palavra «fogo» neste contexto. 3.1. Acrescenta dois significados ao campo semântico da palavra «fogo». Dicionário terminológico, DGIDC, 2008 Campo lexical Campo semântico t Conjunto de palavras associadas, pelo seu signi- ficado, a um determinado domínio conceptual. tConjunto dos significados que uma palavra pode ter nos diferentes contextos em que se encontra. Exemplos: O conjunto de palavras «jogador», «árbi- tro», «bola», «baliza», «equipa», «estádio» faz parte do campo lexical de «futebol». Exemplos: Campo semântico de «peça»: «peça de automóvel», «peça de teatro», «peça de bronze», «és uma boa peça», «uma peça de carne», etc. Carl Whitfield, Perdiz, 1958. 5 10 15 PROFESSOR Gramática 19.3; 19.4; 19.5. MC Consolida 2. «ave» – «Perdigão»; «pena»; «asas»;«voar»; «desasado»e «depenado». 3. Neste contexto, a palavra «fogo» tem o significado de âni- mo[exaltado]. 3.1 Por exemplo: incêndio, cha- ma,combustão,paixão. PowerPoint Ficha informativa n.o 1
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    176 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES EDUCAÇÃO LITERÁRIA Aquela cativa a ùa cativa com quem andava d’amores na Índia, chamada Bárbora1 Aquela cativa, que me tem cativo, porque nela vivo já não quer que viva. Eu nunca vi rosa em suaves molhos, que para meus olhos fosse mais fermosa. Nem no campo flores, nem no céu estrelas, me parecem belas como os meus amores. Rosto singular, olhos sossegados, pretos e cansados, mas não de matar. Ùa graça viva, que neles lhe mora, para ser senhora de quem é cativa. Pretos os cabelos, onde o povo vão2 perde opinião que os louros são belos. Pretidão de Amor, tão doce a figura, que a neve lhe jura que trocara a cor. Leda mansidão que o siso acompanha; bem parece estranha, mas bárbora3 não. Presença serena que a tormenta amansa; nela enfim descansa toda a minha pena. Esta é a cativa que me tem cativo, e, pois nela vivo, é força que viva. Luís de Camões, op. cit., pp. 89-90 1 Bárbora: Bárbara, nome próprio. 2 Vão: ignorante 3 Bárbora: adjetivo, selvagem, rude. 5 10 15 20 25 30 35 40 Irma Stern, Jovem de Bahora, 1945. CD 1 Faixa n.o 24 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 14.9. Gramática 19.3; 19.5. MC
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    177 Rimas 1. Explica otrocadilho presente nos versos 3 e 4. 2. Atenta nos versos 7 a 12. 2.1 Indica o recurso expressivo aí usado, explicitando o seu valor. 3. Traça o retrato físico de Bárbora, fundamentando-o com citações do poema. 3.1 Clarifica se o retrato traçado corresponde ao ideal de beleza petrarquista. 4. Estabelece o perfil psicológico desta personagem feminina e ilustra-o com expressões do texto. 5. Tendo em conta a poética camoniana, retira conclusões acerca da representação da amada nesta composição. 6. Confirma que estamos perante endechas. GRAMÁTICA 1. Refere o campo semântico da palavra «cativa/o», no contexto do poema. 2. Indica os referentes dos pronomes destacados nos seguintes versos. a) «Ũa graça viva, / que neles lhe mora» (vv. 19-20) b) «nela enfim descansa / toda a minha pena» (vv. 37-38) ESCRITA Exposição sobre um tema 1. Partindo do visionamento do trailer do filme Belle (2013, realizado por Amma Asante), regista em tópi- cos a informação relevante que te permita compará-lo com o poema estudado ao nível de: a) temas; b) ideias; c) valores. 2. Redige uma exposição, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, a partir da informação que recolheste. Explora as virtualidades das tecnologias da informação na produção, na revisão e na edição do teu texto. 3. Partilha o teu texto com os teus colegas. Fotogramas do filme Belle Fotogramas do filme Belle A representação da amada p. 181 FI Campo lexical e campo semântico p. 175 FI Exposição sobre um tema p. 311 SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.«Cativa»porque Bárboraéescrava; «cativo» porque o sujeito poético se encontra aprisionado pelo seu amor. Apesar de o eu lírico ser superior socialmente, em termos amorosos, aescravasubjuga-o. 2.1 Sucessivas comparações (grada- tivas) com elementos da natureza – «rosa», «flores», «estrelas» – con- tribuem para a superlativação das qualidadesdaescrava. 3. Fisicamente, Bárbora é caracte- rizada de forma objetiva: aparência invulgar e exótica – «Rosto singular» (v. 15); «olhos […] pretos» (vv. 16-17); «Pretososcabelos»(v.23);«Pretidão deAmor»(v.27). 3.1 Este retrato não se enquadra no padrão de beleza feminina qui- nhentista, enaltecido por Petrarca (mulher de pele alva, loira e de olhos claros). 4. Bárbora apresenta traços psico- lógicos que a aproximam da mulher petrarquista. É serena – «Presença serena» (v. 35); discreta, contida – «Leda mansidão» (v. 31) e com «siso» (v. 32). Este perfil psicológico é tra- çadodeformavagaeindefinida. 5. Há neste retrato feminino uma conciliação/interseção entre a tra- diçãodapoesiapeninsulareapetrar- quista.Conjugam-sedadosrealistas, como a referência à cor dos olhos, dos cabelos, da pele, com a gracio- sidade, superioridade e contenção, tipicamente neoplatónicas e petrar- quistas. 6. São endechas, porque são cons- tituídas por quadras, agrupadas em oitavas (note-se a pontuação), com rima emparelhada e interpolada (abba) e versos em redondilha menor –A/que/la/ca/ti/va. Gramática 1. «cativa» – «escrava», «cativo» – apaixonado. 2.a)«olhos»;b)«presença». Escrita 1. Temas em comum – a beleza exó- tica, a complexidade do amor; ideias –opreconceito,atolerância;valores –adiscriminaçãoeaaceitação. Vídeo Trailer do filme Belle
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    178 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES EDUCAÇÃO LITERÁRIA Um mover d’olhos, brando e piadoso Um mover d’olhos, brando e piadoso, sem ver de quê; um sorriso brando e honesto, quási forçado; um doce e humilde gesto1 , de qualquer alegria duvidoso; um despejo2 quieto e vergonhoso3 ; um repouso4 gravíssimo e modesto; ùa pura bondade, manifesto indício da alma, limpo e gracioso; um encolhido ousar; ùa brandura; um medo sem ter culpa; um ar sereno; um longo e obediente sofrimento; esta foi a celeste fermosura da minha Circe5 , e o mágico veneno que pôde transformar meu pensamento. Luís de Camões, op. cit., p.161 1. Delimita as partes em que pode ser dividido o poema e indica o que é tratado em cada uma delas (ao nível temático e formal). 2. Preenche no teu caderno a tabela sobre o retrato da amada. A. Elementos físicos e morais B. Expressões caracterizadoras a) o olhar b) «brando e honesto, / quási forçado» (discreto) c) o rosto d) o desembaraço e) «gravíssimo e modesto» (porte senhorial) f) «pura / manifesto indício da alma, limpo e gracioso» g) o ousar h) o medo i) «sereno» j) o sofrimento 3. Identifica a anáfora usada em quase todo o poema e explicita o seu valor expressivo. 3.1 Classifica o tipo de mulher aqui representada. 4. O último terceto revela uma mulher controversa. 4.1 Relaciona essa contradição com as cargas positiva e negativa associadas a Circe. 4.2 Identifica as duas metáforas presentes e explicita o seu valor expressivo. 5. Analisa a estrutura formal desta composição poética e classifica-a. 6. Compara o retrato que é feito de Leanor na p. 170 com o retrato da mulher deste soneto. Leonardo da Vinci, Mona Lisa, (pormenor) 1503–1517. 1 Gesto: rosto. 2 Despejo: naturalidade, desembaraço. 3 Vergonhoso: tímido, envergonhado. 4 Repouso: postura. 5 Circe: figura mitológica; feiticeira que surge na Odisseia, de Homero; para reter Ulisses na sua ilha, Circe transformou os companheiros em porcos. 5 10 CD 1 Faixa n.o 25 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9; 14.10. Gramática 18.4 Oralidade 1.5; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3. MC EducaçãoLiterária 1. A composição poética pode ser dividida em duas partes. 1.a parte – nas duas quadras e no primeiro terceto, o sujeito lírico caracteriza a amada através de uma sucessão de frases nominais (determinante indefinido «um», nome e adjetivo). 2.a parte – no último terceto, escla- rece o objeto retratado anterior- mente – a amada, que ele apelida de Circe,recorrendoaumafraseverbal. 2. a)«brandoepiadoso» b)osorriso; c) «doce e humilde»; «de qualquer alegriaduvidoso»; d) «quieto e vergonhoso» (serena e tímida); e)apostura; f) abondade; g)«encolhido»(tímida); h)«semterculpa»; i)oar; j)«longoeobediente». 3. A anáfora do determinante inde- finido «um» e «ũa» reforça o caráter vago e indefinido do retrato desta mulher; sugerindo que o sujeito está a caracterizar uma mulher ideali- zada,perfeita. 3.1 Mulher petrarquista: ideal, per- feita e divina. Há equilíbrio entre as características físicas e psicológi- cas; a sua beleza interior transpa- recenasuabelezafísica. 4.1Osujeitopoéticorefereosefeitos que a sua amada teve sobre ele. Tal como Circe, a perfeição (positiva) da mulher atraiu-o, fê-lo apaixonar-se por ela, como se de um feitiço (nega- tivo)setratasse. 4.2 As metáforas «Circe» e «mágico veneno» explicitam o valor negativo (mas desejado) desta mulher sobre o sujeito: a mulher é vista como uma feiticeiraqueusouo venenodoamor sobreele,prendendo-o.
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    179 Rimas GRAMÁTICA Lê a seguintesinopse. A história de um amor impossível A musa de Camões recua até ao século XVI, para a Lis- boa de onde partem as caravelas que descobrem o mundo echegamasespeciariasquemaravilhamaEuropa.Nopaço real vive a mais bela e rica princesa da cristandade: a infanta D. Maria. Nas ruelas tortuosas aventura-se o mais talen- toso poeta da época: Luís de Camões. Mas Lisboa não tem só encantos. A infanta, invulgar- mente culta e graciosa, retratada por pintores e cantada por poetas, vive asfixiada por uma corte que conspira para que ela não se case nem leve o dote mais cobiçado da Europa. E Camões, invejado pelo talento único e odiado por maridos cujas mulheres cantou e encantou, é um desafortunado que até el-rei pretende exilar para longe. Um dia os seus olhares cruzam-se. Tão diferentes de nascimento e posição, as suas almas desencantadas parecem gémeas. Uma deseja atenção, a outra anseia por uma musa, ambas encontram o amor. Trazendo à vida uma época gloriosa e personagens fascinantes, Maria Helena conta-nos a história de um amor único e impossível, que aos olhos da lei era crime e aos da Inquisição era pecado. www.leyaonline.com (consultado em fevereiro de 2015) 1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1 a 1.5, seleciona a opção correta. 1.1 Através da expressão «recua até ao século XVI» (l. 1), o autor refere que a ação (A) se inicia num presente que recupera o passado através de uma analepse. (B) decorre no passado, no século XVI. (C) é temporalmente dúbia. (D) se inicia no passado e se prolonga até ao presente. 1.2 Relativamente ao anterior, o parágrafo iniciado por «Mas» (l. 7) apresenta (A) factos semelhantes. (B) ideias equivalentes. (C) factos opostos. (D) consequências. 1.3 Quando afirma «Trazendo à vida uma época gloriosa» (l. 14), o autor refere-se a (A) um tempo fascinante de amores proibidos. (B) uma época honrosa de descoberta de novos destinos. (C) um momento de belas infantas e poetas engenhosos. (D) um período ilustre de vida na corte. 1.4 Os referentes dos vocábulos «Uma» e «outra» (l. 13) são (A) «Infanta» (l. 7) e «Camões» (l. 9), respetivamente. (B) «os seus olhares» (l. 12). (C) «as suas almas desencantadas» (ll. 12-13). (D) «personagens fascinantes» (ll. 14-15). 1.5 Na primeira frase do texto, identificam-se duas orações subordinadas (A) adjetivas relativas restritivas. (B) adjetivas relativas explicativas. (C) adverbiais consecutivas. (D) substantivas relativas. 5 10 15 Lis- do aço nta en- ar- Coordenação e subordinação p. 327-328 SIGA PROFESSOR 5. Constituída por duas quadras e dois tercetos; os versos são decassilábicos «Um/mo/ver/d’o/ lhos/bran/do e/pi/a/do/so»; o esquema rimático é abba/abba/ cde/cde,comrimasinterpoladae emparelhada,nasquadras,ecru- zada, nos tercetos. Classifica-se comoumsoneto. 6. Em ambos os poemas, as mu- lheres são belas, mas enquanto a beleza de Leanor é maioritaria- mente física, a de «Circe» é prin- cipalmente moral, indefinida, remetendo para o conceito de mulher petrarquista, distante e inatingível. Gramática 1.1(B);1.2(C);1.3(B);1.4(C); 1.5(A).
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    180 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES 5 10 15 20 25 30 ORALIDADE Exposição sobre um tema 1. Lê atentamente o poema abaixo, começando pela linha vertical («[Vós] sois ũa dama / das feias do mundo») e depois pela linha horizontal («[Vós] sois ũa dama / De grão merecer»). Em seguida, estabelece uma relação entre o(s) retrato(s) da mulher no poema e os retratos com as quais contactaste na poesia trovadoresca. Apresenta as tuas conclusões à turma, procurando diversificar o vocabulário e as estruturas frásicas. Estâncias na medida velha, que têm duas contrariedades: louvando e deslouvando uma dama [Vós] sois ùa dama das feias do mundo; de toda a má fama sois cabo profundo. A vossa figura não é para ver; em vosso poder não há fermosura. [Vós] fostes dotada de toda a maldade; perfeita beldade de vós é tirada. Sois muito acabada de tacha e de glosa: pois, quanto a fermosa, em vós não há nada. De grão merecer sois bem apartada; andais alongada do bem parecer. Bem claro mostrais em vós fealdade: não há i maldade que não precedais. De fresco carão vos vejo ausente; em vós é presente a má condição. De ter perfeição mui alheia estais; mui muito alcançais de pouca razão. Luís de Camões, op. cit., pp. 83-84 2. Partindo do que é retratado no poema de Camões, podemos concluir que a beleza das pessoas depende dos conceitos e das ideias de quem as vê. Observa esta ima- gem e procede à sua descrição oral, con- cluindo sobre a sua intenção comunicativa. Não te esqueças de utilizar adequadamente recursos verbais e não verbais: postura, tom de voz, articulação, ritmo, entoação e expressivi- dade. Noma Bar, A beleza está nos olhos de quem vê, 2014. Exposição sobre um tema p. 311 SIGA PROFESSOR Oralidade 1. Pela leitura vertical, denota- -seumacríticamordazàsenhora emquestão,comumalinguagem corrosiva em relação às suas qualidades físicas, relembrando as características contundentes das cantigas de escárnio medie- vais; a leitura horizontal permite vislumbrar um louvor extremo às qualidades físicas e morais da dama. 2. Dependendo da perspetiva pessoal e social, observamos a silhuetadeduasmulheresdistin- tas: à esquerda, uma jovem bela; à direita, uma idosa e já menos bela. A intenção comunicativa liga-se com o título da imagem – julgamos a beleza de cada um através do que vemos, do que a sociedade nos dita. A beleza ou fealdade está nos olhos de quem aprecia. Sugestão: Chamar a atenção dos alunos para: «Este jogo de tipo pala- ciano, ao gosto da época, mani- festa o quão ilusório é o juízo de valor humano, ao mesmo tempo que constitui um divertimento e um apelo ao distanciamento em relação à opinião alheia: tão depressa somos louvados como criticados e humilhados.» (Antó- nio Moniz, Para uma leitura da crítica camoniana, Lisboa, Ed. Presença,1998).
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    181 Ficha informativa A representaçãoda amada 1. Retrato realista A obra camoniana retrata dois tipos de mulher. A primeira é uma imagem realista e aparece em algumas redondilhas. […] A segunda é uma imagem petrarquista: está presente nos sonetos. […] A própria temática da medida velha é muitas vezes retirada da vida quotidiana: por isso as suas heroínas são mulheres apaixonadas, alegres, […] prontas a lutar pelos seus interesses e pelos seus sentimentos. A imagem realista opõe-se à imagem petrarquista1 em que a mulher personifica várias ideias: beleza, castidade, «alma gentil», «leda serenidade deleitosa», […] harmonia: a unidade profunda entre a beleza externa e a beleza interna. Olga Ovtcharenko «A mulher na obra camoniana», in Colóquio Letras n.º 125/126, 1992, pp. 9-10 2. A mulher petrarquista Petrarca (1304-1374) é o grande cultor do «amor elevado», que celebra com múltiplos jogos de antíteses. Toda a sua obra é atravessada pela presença de Laura, a amada que conhece em 1327 e que lhe desperta um amor platónico. Apesar de a sua musa ter morrido em 1348, vítima da peste negra, Petrarca continua a cantá-la até ao fim dos seus dias, projetando o amor irrealizável numa cristalização perfeita que reflete a transcendência divina. A poesia petrarquista, escrita sob o signo da ausência e da solidão, impõe um modelo feminino, de cabelos loiros [pele nívea] e beleza serena, impalpável, abstrata, inacessível, símbolo de harmonia e perfeição [tendo a capacidade de contaminar positivamente a natureza]. Maria Graciete Besse, Camões sonetos, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1992, p. 25 (texto adaptado) Leonardo da Vinci, Senhora com arminho, c. 1483 (pormenor). CONSOLIDA 1. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as falsas. a) Na sua poesia, Camões representa a mulher de forma objetiva, mas também cria uma imagem idealizada da mesma. b) É possível encontrar a imagem realista da mulher nos poemas da medida nova. c) A mulher que é descrita objetivamente enquadra-se em cenas do quotidiano. d) A descrição da mulher centra-se apenas na sua beleza física. e) A grande inspiradora da poesia de Camões foi Laura, a mulher que ele amou. f) O petrarquismo define um ideal de mulher, sempre bela e perfeita; superior e atingível. g) Para Petrarca, a mulher é objeto de adoração, e a natureza transforma-se devido à sua presença. 5 5 FICHA INFORMATIVA N.O 2 1 Petrarquista: relativo a Petrarca, poeta toscano do século XVI, modelo da lírica renascentista. PowerPoint Ficha informativa n.o 2 PROFESSOR Leitura 7.4; 8.1. Educação Literária 14.3; 15.1; 15.2. MC Consolida 1. a) V; b) F… nasredondilhas; c) V; d) F… quer na sua beleza física, quernassuasqualidadesmorais; e) F… Laura é a inspiradora de Petrarca; f) F… inatingível; g) V.
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    182 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES A experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor PONTO DE PARTIDA 1 A partir da leitura da tira de Schulz, antecipa o tema dos sonetos de Camões que irás analisar. EDUCAÇÃO LITERÁRIA A Tanto de meu estado me acho incerto Tanto de meu estado me acho incerto que em vivo ardor1 tremendo estou de frio; sem causa, juntamente choro e rio, o mundo todo abarco e nada aperto. É tudo quanto sinto, um desconcerto2 ; da alma um fogo me sai, da vista um rio; agora3 espero, agora desconfio, agora desvario4 , agora acerto. Estando em terra, chego ao Céu voando, nù’ hora acho mil anos, e é de jeito5 que em mil anos não posso achar ù’ hora. Se me pergunta alguém porque assi ando, respondo que não sei; porém suspeito que só porque vos vi, minha Senhora. Luís de Camões, op. cit., pp. 118, 120 B Pede o desejo, Dama, que vos veja Pede o desejo, Dama, que vos veja: não entende o que pede; está enganado. É este amor tão fino e tão delgado1 , que quem o tem não sabe o que deseja. Não há cousa a qual natural seja que não queira perpétuo2 seu estado; não quer logo o desejo o desejado, porque não falte nunca onde sobeja3 . Mas este puro afeito4 em mim se dana5 ; que, como a grave pedra tem por arte o centro desejar da natureza, assi o pensamento (pola parte que vai tomar de mim, terrestre [e] humana) foi, Senhora, pedir esta baixeza6 . 5 10 5 10 1 Delgado: espiritual. 2 Perpétuo: eterno. 3 Sobeja: excede. 4 Afeito: afeto. 5 Dana: deteriora, irrita. 6 Baixeza: vileza, ação condenável. 1 Ardor: fogo amoroso. 2 Desconcerto: con- flito interior. 3 Agora: ora… ora. 4 Desvario: deliro. 5 E é de jeito: e é comum. CD 1 Faixas n.os 26 e 27 Schulz, Snoopy – o campeão, Lisboa, Booktree, 2003, p. 41 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9; 14.10; 15.4. Oralidade 3.2; 4.1; 4.2; 5.2; 5.3. MC PontodePartida 1. Confusão/conflito interior que o sentimento amoroso provoca a quemama. EducaçãoLiterária 1. a) Ambas as composições são sonetos, constituídos por duas quadras e dois tercetos. Quanto à métrica, apresentam versos decassilábicos. As quadras têm o seguinte esquema rimático: abba/abba (rima interpolada e emparelhada). Note-se que o esquema rimático é díspar nos tercetos: texto A – cde/cde (rima cruzada); texto B – cde/dce (rima cruzada e interpolada). b) Texto A: experiência amoro- sa e desconcerto sentimental; texto B: experiência amorosa e reflexão sobre o amor. c) Texto A: 1.a parte – as duas quadras e o primeiro terceto (conflito interior do sujeito poético); 2.a parte – último terceto (causa do tumulto, visão da amada); texto B: 1.a parte – as duas quadras (descrição do conflito interior do sujeito poético). 2.a parte – os dois tercetos (oposição entre a anterior defesa da espirituali- dade e a realidade humana que desejafisicamenteasuaamada). d) Discurso pessoal (nos dois sonetos): o eu lírico reflete sobre o amor, a sua vivência amorosa e os seus sentimentos; e) Texto A: visão da mulher amada; texto B: desejar «ver» a sua amada, ape- sar de saber que, racionalmente, deveriacontentar-secomoamor «tão fino e tão delgado» (v. 3). f) Em ambos os sonetos, encon- tramosapresençadeuminterlo- cutor:senhoraedama.g)TextoA: aliteração (v. 1) em t, anáfora (vv. 7-8), metáfora (v. 9); texto B: ali- teração em d e j, apóstrofe, per- sonificação (v. 1). h) Texto A: amor espiritual – o sujeito poético fica num estado de desconcerto sen- timental provocado pela mera visão da mulher amada; texto B: confronto espiritual versus amor carnal – o sujeito poético acaba por admitir a sua humanidade e desejaroobjetoamado. Sugestão: a tarefa poderá ser desenvolvida em trabalhos de grupo.
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    183 Rimas 1. Analisa osdois poemas seguindo os tópicos: a) estrutura externa; b) tema; c) divisão interna e assunto de cada parte, importância do momento conclusivo; d) discurso pessoal, marcas de subjetividade e versos ilustrativos; e) motivos para o estado de espírito do sujeito poético; f) presença e marcas linguísticas/estilísticas de um interlocutor; g) três recursos expressivos e sua relevância na construção poética; h) confronto dos paradigmas amorosos presentes nas composições poéticas. GRAMÁTICA 1. Constrói duas frases em que os vocábulos que se seguem pertençam a classes de pala- vras diferentes. a) choro/choro; b) desejo/desejo. 1.1 Identifica o processo de formação de palavras. ORALIDADE Apresentação oral 1. Escuta um dos sonetos mais conhecidos do Príncipe dos Poetas, musicado pela banda Polo Norte, e identifica o seu tema. Amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que doi, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário por entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder. 2. Tendo por base a tua experiência e entendimento, prepara uma apresentação oral, de cinco a sete minutos, na qual apresentes uma reflexão sobre o Amor: tdefinições possíveis; ta origem do sentimento amoroso; tas suas consequências nas vidas humanas. Planifica a tua apresentação, estruturando um guião com tópicos de suporte. Utiliza adequadamente os recursos verbais e não verbais (postura, tom de voz, articu- lação, ritmo, entoação e expressividade). FICHA INFORMATIVA N.O 3 5 10 CD 1 Faixa n.o 28 A experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor p. 184 FI Processos regulares de formação de palavras p. 319 SIGA É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor? Luís de Camões, op. cit., p. 119 PROFESSOR Gramática 1. a) Eu choro (verbo) muito a ver fil- mes.Ochoro(nome)dosbebésinco- moda-me. b) Eu desejo (verbo) sorte a todos. O desejo (nome) de comer gelados eraenorme. 1.1Conversão. Oralidade 1. A indefinição do sentimento amo- rosoeasuacomplexidade. Sugestão: como alternativa à apre- sentação oral, sugere-se a redação de um soneto, no qual seja apresen- tada uma conceção de amor, com definiçõespessoais. Link Príncipe dos Poetas, Polo Norte
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    184 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES FICHA INFORMATIVA N.O 3 A experiência amorosa e a reflexão sobre o Amor O amor é, para o poeta, um binómio de duas faces contraditórias, a espiritual e a carnal, correspondentes a dois tipos de mulher: a ideal e a sensual. A primeira – criatura angelical de inspiração petrarquiana – é o objeto de culto, ser de essência divina, into- cável e distante. Com um retrato físico nem sempre evidente – todavia sempre ideali- zado – quando o possui, este é o reflexo de uma superior beleza interior e moral, em que sobreleva uma alma virtuosa. Eis o que sobressai em sonetos petrarquistas como «Um mover de olhos brando e piedoso». […] Perante uma tal beleza [neste soneto], o sujeito lírico toma uma atitude reverente em relação à dama. A par destes sonetos em que o eu lírico aparece fascinado pelo etéreo amor petrar- quista, outros há em que o sujeito deseja o objeto amado e, como tal, surge dilacerado por uma torturante contradição interior. […] Aqui [no soneto «Tanto do meu estado me acho incerto»] sobressai a dialética do desejo, «o estado incerto» petrarquista, que é ainda o fascínio pela mulher superior, quase divina, de beleza inefável. Mas o amor depurado, reduzido a manifestações espi- rituais, dá, não raro, lugar a um sentimento profundo, que abrange a totalidade das manifestações eróticas, fortemente marcado de sensualidade. Este amor tangível, sen- sual, expressão artística de quem «em várias flamas ardia» [«Tanto do meu estado me acho incerto»] encontramo-lo em sonetos […] do Renascimento. [...] O esquema dual de representação feminina ou amorosa camoniano não dissolve a dialética.Eporqueadualidadesistemáticanuncaseencaminhaparaumasolução,dessa questão permanentemente inconclusa nasce a dramática reflexão entre o real e o ideal. Daqui resulta a insatisfação, a angústia, a desventura existencial, o pathos amoroso que encontramos em sonetos como: «Erros meus, má fortuna, amor ardente». Maria Luísa de Castro Soares, «Aventura do amor e do espírito: a lírica e a epopeia de Camões», in Do Classicismo ao Maneirismo e ao Barroco e a sua projeção na atualidade, Braga, Edições Vercial, 2012, pp. 51-52 (texto adaptado e com supressões) CONSOLIDA 1. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as falsas. a) A temática dominante na poesia de Camões é o amor, sentimento complexo e con- traditório. b) A mulher petrarquista é descrita como um ser comum que não deve ser desejado fisicamente, mas amado e idolatrado. c) Camões vive um conflito interior entre o amor espiritual e o amor carnal, não dese- jando a mulher fisicamente. d) Por vezes, o poeta sente que a realização total do amor só é possível através da con- jugação do amor espiritual e do amor físico. Sandro Botticelli, Primavera (pormenor), 1482. 5 10 15 20 PROFESSOR Leitura 7.4; 8.1. Educação Literária 14.3; 15.1; 15.2. MC Consolida 1. a)V; b)F…umserideal; c)F…desejando; d)V. PowerPoint Ficha informativa n.o 3
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    185 Rimas A representação danatureza EDUCAÇÃO LITERÁRIA Alegres campos, verdes arvoredos Alegres campos, verdes arvoredos, claras e frescas águas de cristal, que em vós os debuxais1 ao natural, discorrendo da altura dos rochedos; silvestres montes, ásperos penedos compostos de concerto2 desigual, sabei que, sem licença de meu mal, já não podeis fazer meus olhos ledos3 . E, pois me já não vedes como vistes, não me alegrem verduras deleitosas, nem águas que correndo alegres vêm. Semearei em vós lembranças tristes, regando-vos com lágrimas saudosas, e nascerão saudades de meu bem. Luís de Camões, op. cit., p. 123 1. Ao longo do poema são enumerados vários elementos da natureza. 1.1 Apresenta esses elementos naturais e refere se são qualificados predominante- mente de forma negativa ou positiva. 1.2 Indica o nome que se dá a esse tipo de natureza. 2. Do ponto de vista da estrutura, este soneto pode ser dividido em partes. 2.1 Delimita-as e expõe, resumidamente, o seu assunto. 3. Identifica e esclarece o valor dos recursos expressivos presentes nos seguintes versos: a) «Alegres campos, verdes arvoredos, / claras e frescas águas de cristal» (vv. 1-2); «sil- vestres montes, ásperos penedos» (v. 5); b) «claras e frescas águas de cristal» (v. 2), «discorrendo da altura dos rochedos» (v. 4); c) «nem águas que correndo alegres vêm. / Semearei em vós lembranças tristes» (vv. 11-12). 4. Identifica as características formais que permitem classificar esta composição poética como um soneto. 5. Refere a sua temática. Joachim Patinir, Fuga para o Egito, 1515-1524. 1 Debuxais: refletis. 2. Concerto: harmonia. 3. Ledos: alegres. 5 10 CD 1 Faixa n.o 29 A representação da natureza p. 187 FI PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.6; 14.8; 14.9; 15.1; 15.2. MC 1.1 Os elementos naturais são: «Ale- gres campos», «verdes arvoredos», «claras e frescas águas de cristal», «rochedos», «silvestres montes», «ásperos penedos», «verduras delei- tosas» e «águas […] alegres». Estes são predominantemente qualifica- dosdeformapositiva. 1.2 Este tipo de natureza designa-se «locusamoenus». 2.1 O poema é suscetível de ser divi- dido em três partes. Na primeira, constituída pela primeira quadra e pelos dois primeiros versos da segunda, o sujeito lírico procede à descrição de uma natureza vária, alegre, bela e harmoniosa. Personi- ficando-a, na segunda parte (os dois últimos versos da segunda quadra e o primeiro terceto), o sujeito poético diz-lhe que ela já não o consegue fazer sentir feliz no presente, como acontecera no passado, dado ser invadido pelo «mal», pela desven- tura. Por fim, no segundo terceto (terceira parte), o eu lírico declara que agora será ele a tornar a natu- reza triste, contaminando-a com a sua tristeza («lembranças tristes») e as suas lágrimas, saudosas do bem perdido(aamada,afelicidade). 3. a) a apóstrofe e a enumeração enfatizam o destinatário do sujeito lírico; b) a aliteração do som [s] apela ao sentido da audição: o dinamismo do fluirdaságuascristalinas; c) a antítese expressa a contradição entre a alegria das águas a correr e o estado de espírito negativo do sujeito, pois está invadido pela tris- teza; a personificação em «águas… alegres». 4. Trata-se de um soneto porque é constituído por duas quadras e dois tercetos,comversosdecassilábicos, e o esquema rimático é abba/abba/ cde/cde. 5. A temática é o «locus amoenus» e ainfluênciadaausênciadaamadano estadodeespíritodosujeitopoético, que conduz ao desaparecimento da belezaedaalegriadanatureza. SIGA Recursos expressivos p. 334-335
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    186 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES Praia dos Alteirinhos, Zambujeira do Mar. GRAMÁTICA 1. Identifica as funções sintáticas presentes nos elementos destacadas dos versos seguin- tes: a) «águas de cristal» (v. 2); b) «que em vós os debuxais ao natural» (v. 3); c) «regando-vos com lágrimas saudosas» (v. 13). 2. Transcreve do segundo terceto uma oração coordenada copulativa. 3. Atenta na frase: Na ausência da amada, o sujeito lírico parece esquecer todas as alegrias da vida. 3.1 Substitui a expressão destacada pela forma adequada do pronome pessoal, fazendo apenas as alterações necessárias. ORALIDADE Exposição Ouve atentamente a música «Gaivota dos Alteirinhos», de Jorge Palma, sobre a qual terás de fazer uma exposição de um a três minutos. Toma notas sobre as ideias apresentadas no plano de tex- to. tIntrodução: título da canção e nome do autor/cantor. tDesenvolvimento: tema; vocábulos e expressões-chave e a sua importância para o desenvolvimento do assunto. tConclusão: considerações finais sobre a adequação do ritmo da música à temática abordada. CD 1 Faixas n.o 30 PROFESSOR Gramática 18.1; 18.3. Oralidade 1.6; 2.1; 4.2; 5.1; 5.3; 6.1; 6.2. MC Gramática 1. a) modificador do nome; b) modifi- cador;c)complementodireto. 2. «e nascerão saudades de meu bem.» 3.1…esquecê-las. Oralidade Tópicosderesposta: – «Gaivota dos Alteirinhos», por JorgePalma. – Alegria de ver a gaivota a voar na praia e desejo de que ela continue a demonstrarasualiberdade. – Os vocábulos «gaivota», «ondas», «praia», «caranguejo», «sargo», «verão», «grilos» permitem descre- ver a realidade envolvente do sujeito poético como uma natureza marí- tima; as expressões «dança sobre as ondasdomar»,«Desperta[…]/avida da praia», «plana a seu bel-prazer / […] entre as malandrices do Verão / e osorrisoternodochão»dãoaconhe- cer uma natureza que pode ser iden- tificadacomoum«locusamoenus». –Comentáriopessoal; –Ritmolentosugereovoodagaivota eacalmaqueadvémdasuacontem- plação. Funções sintáticas pp. 324-325 SIGA Exposição sobre um tema p. 311 SIGA Colocação do pronome pessoal átono pp. 326 SIGA Link Gaivota dos Alteirinhos, Jorge Palma
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    187 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 4 A representação da natureza 1. A natureza: cenário, testemunho e alegoria Presença constante na pintura e na poesia quinhentistas, a natureza representa algo mais do que um cenário decorativo dos retratos humanos, tanto físicos como psicológicos, mas uma companheira que testemunha e alegoriza as vivências regista- das. Não é já a interlocutora privilegiada das cantigas de amigo galego-portuguesas, plena de magia quase omnisciente e omnipotente, mas também não é mera conven- ção retórica, quase sempre simbólica de serenidade e harmonia, segundo o tópico clássico do locus amoenus. Nos sonetos camonianos, destaca-se um leque variado de ângulos e perspetivas em que o tema da natureza é abordado e desenvolvido. Assim, a natureza: – […] é a corresponsável demiúrgica1 pelas excelsas qualidades das figuras femi- ninas exaltadas, conferindo-lhes a sua beleza, «luz, graça e pureza» («Pelos extremos raros que mostrou»); […] – apresenta uma nota agónica e nostálgica no tópico clássico do locus amoenus, pela ausência da amada («Alegres campos, verdes arvoredos»); […] – mostra insensibilidade, sendo incapaz de se solidarizar com a dor do sujeito poético («O céu, a terra, o vento sossegado»); […] – provoca, apesar da sua amenidade, um distúrbio no sujeito lírico motivado pela ausência feminina («Alegres campos, verdes arvoredos»). António Moniz, Para uma leitura da lírica camoniana, Lisboa, Editorial Presença, 1998, pp. 58-62 (texto adaptado) 2. Locus amoenus (lugar ameno) Expressão latina que designa a paisagem ideal, sempre presente na poesia amorosa em geral e, com maior incidência, na poesia bucólica. Desde a Antiguidade Clássica que o termo locus amoenus nos remete para a descrição da natureza e para um con- junto de elementos específicos: o campo fresco e verdejante, com um vasto arvoredo e flores coloridas, cujo doce odor se espalha com a brisa. […] Esta natureza mágica é conducente ao amor, ao encantamento sensorial e espiritual do Homem, que se inte- gra na perfeição em tal plenitude, marcada pela harmonia e homogeneidade. Enfim, estamos perante um paraíso terrestre, onde se enquadra o ser humano que busca a satisfação pela simplicidade. […] Susana Alves, «Locus amoenus», in Carlos Ceia (org.), E-dicionário de termos literários (texto adaptado) (consultado em maio de 2014) CONSOLIDA 1. Relaciona cada afirmação com o texto onde se encontra. a) O tema da natureza é perspetivado de forma complexa em Camões. b) Locus amoenus é uma expressão latina que designa um lugar idílico. c) Na lírica camoniana, a relação entre a natureza e o sujeito poético é marcada pela presença/ausência da mulher amada. d) No domínio das artes do século XVI, a natureza é o espelho das vivências do eu. e) O locus amoenus é propício ao amor e à harmonia. 5 10 15 5 1 Demiúrgica: criadora. PROFESSOR Leitura 8.1. Educação Literária 14.3; 15.1; 15.2. MC Consolida 1.a)texto1;b)texto2;c)texto1; c)texto2;d)texto1;e)texto2. PowerPoint Ficha informativa n.o 4
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    188 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES A reflexão sobre a vida pessoal EDUCAÇÃO LITERÁRIA A Erros meus, má fortuna, amor ardente Erros meus, má fortuna, amor ardente em minha perdição se conjuraram1 ; os erros e a fortuna sobejaram, que para mim bastava o amor somente. Tudo passei; mas tenho tão presente a grande dor das cousas que passaram, que as magoadas iras me ensinaram a não querer já nunca ser contente. Errei todo o discurso2 de meus anos; dei causa [a] que a Fortuna castigasse as minhas mal fundadas esperanças. De amor não vi senão breves enganos. Oh! quem tanto pudesse que fartasse este meu duro génio3 de vinganças! Luís de Camões, op. cit., p. 170 B O dia em que eu nasci, moura e pereça O dia em que eu nasci, moura e pereça, não o queira jamais o tempo dar, não torne mais ao mundo, e, se tornar, eclipse nesse passo o sol padeça. A luz lhe falte, o sol se [lhe] escureça, mostre o mundo sinais de se acabar, nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, a mãe ao próprio filho não conheça. As pessoas pasmadas, de ignorantes, as lágrimas no rosto, a cor perdida, cuidem que o mundo já se destruiu. Ó gente temerosa, não te espantes, que este dia deitou ao mundo a vida mais desgraçada que jamais se viu! Luís de Camões, op. cit., p. 182 1 Conjuraram: conspiraram. 2 Discurso: decurso. 3 Génio: espírito. Cruzeiro Seixas, Outra vista de Lisboa com o abraço, 1969. Wassily Kandinsky, Obscuri, 1917. 5 10 5 10 CD 1 Faixas n.os 31 e 32 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9; 15.1; 15.2; 15.3; 15.5. Gramática 18.2; 18.4. Escrita 10.1; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. MC
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    189 Rimas 1. No poemaA, o sujeito poético faz um balanço da sua vida, começando por enumerar os motivos que conduziram à sua presente infelicidade. 1.1 Identifica os motivos que, segundo ele, motivaram a sua condição atual. 2. A autoculpabilização é evidente pelo recurso a vários elementos linguísticos. 2.1 Explicita-os. 3. Sintetiza o assunto da segunda estrofe. 4. Nas três primeiras estrofes do poema B, o sujeito amaldiçoa o dia do seu nascimento. 4.1 Explicita as várias imagens negativas aí apresentadas. 5. Estabelece uma relação de sentido entre o segundo terceto e as restantes estrofes do poema. 6. Indica o desejo expresso pelo sujeito lírico em cada um dos poemas. 7. Identifica três processos linguísticos e estilísticos comuns utilizados para marcar o tom hiperbólico e disfórico de ambos os poemas. Fundamenta a tua resposta com elemen- tos textuais. GRAMÁTICA 1. Classifica as orações introduzidas pelas palavras destacadas nos versos do poema B. a) «cuidem que o mundo já se destruiu.» (v. 11) b) «que este dia deitou ao mundo a vida / mais desgraçada que jamais se viu!» (vv. 13-14) 2. Atenta na grafia diferente das interjeições «Oh!» (poema A) e «Ó» (poema B) e escla- rece o significado de cada uma. 3. Transpõe os versos seguintes do poema B para o discurso indireto. «Ó gente temerosa, não te espantes, / que este dia deitou ao mundo a vida / mais desgraçada que jamais se viu!» (vv. 12-14) ESCRITA Exposição sobre um tema 1. Num texto organizado, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, elabora uma exposição sobre a aparente facilidade de errar, a aparente dificuldade do arrependi- mento e as consequências que podem advir quer de uma quer de outra atitude. 2. Redige, previamente, o plano do teu texto. Deves atender aos seguintes tópicos para a elaboração de uma exposição: caráter demonstrativo, elucidação evidente do tema (fundamentação das ideias), concisão e objetividade, valor expressivo das formas lin- guísticas (deíticos, conectores…). 3. No final, faz a revisão e o aperfeiçoamento do teu texto. Coordenação e subordinação pp. 327-328 SIGA Reprodução do discurso no discurso p. 331 SIGA Exposição sobre um tema p. 311 SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.1 Os motivos que conduziram à sua infelicidade foram os seus próprios erros, a má sorte e o amor excessivo. 2.1 Discurso de 1.a pessoa: deter- minantes possessivos («meus», «minha», «meu»); seleção vocabular associada à 1.a pessoa: «Erros meus», «Errei», «Dei causa»; flexão verbal na 1.a pessoadosingular(«Errei»e«dei»). 3. Uma vez que ainda não esqueceu osofrimentodopassado,decidiunão desejar ser feliz, de forma a evitar ilusões. 4.1 Eclipse do sol; sinais apocalíp- ticos; partos monstruosos; desco- nhecimento dos filhos pelas mães; chuva de sangue; lágrimas univer- sais por cuidarem que é destruição do mundo. Com estas imagens, o sujeito projeta o seu infortúnio pes- soalaníveluniversal. 5. No segundo terceto, o sujeito poé- ticojustificaarazãopelaqualrejeita arepetiçãododiadoseunascimento. E caso ele se repita, que seja um dia de violência extrema, pois terá nas- cido o homem mais desgraçado de todos,elepróprio. 6. No poema A, o sujeito manifesta o desejo de vingança, pela dor sofrida ao longo de toda a sua vida (segundo terceto). No poema B, apresenta o desejo de não se voltar a repetir o dia do seu nascimentoqueoatirouparaamaior desventurahumana(vv.1-2). 7. Hipérbole: «Errei todo o discurso de meus anos» (A v. 9), «que este dia deitouaomundoavida/maisdesgra- çada que jamais se viu!» (B vv. 13-14); exclamação final em ambos; vocabu- lário de conotação negativa; «perdi- ção», «erros», «dor», «iras», «moura», «monstros»,«sangue»… Gramática 1.a)Oraçãosubordinadasubstantiva completiva. b) Oração subordinada adverbial causal; oração subordi- nadaadjetivarelativarestritiva. 2. Oh! – traduz sentimento; Ó – tra- duzinvocação. 3. O sujeito poético pediu à gente temerosa que não se espantasse, porque aquele dia deitara/tinha dei- tado ao mundo a vida mais desgra- çadaquejamaissevira/tinhavisto.
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    190 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES Reflexão sobre a vida pessoal A poesia de Camões é infinitamente mais poderosa, rica e atual que a de Petrarca, justamente na medida em que ele se recusa à mera evasão lírica e não se contenta com o objeto tradicional do amor, antes procura integrar a experiência vivida. […] O acontecimento, o facto, o tempo penetram repetidamente, por vezes sob o aspeto mais cru, na poesia de Camões. A mais impressionante das suas canções [«Vinde cá, meu tão certo secretário»] é uma autobiografia, e não uma autobiografia puramente espiritual, porque nela se conta como o Destino vergou a vida do Poeta. Logo ao nas- cer, o horóscopo, as «estrelas infelizes», o predestinaram, forçando-lhe o livre alvedrio; se trocou a vida de namorado pela de guerreiro, foi porque lho impôs o «Destino fero, irado», que o fez atravessar o mar, perder em combate um dos olhos, peregrinar. […] O Poeta não evolui em vaso fechado; a sua história resulta do encontro do seu impulso espiritual com o cego desencadeamento do caso1 , sorte ou fortuna: «Erros meus, má fortuna, amor ardente / em minha perdição se conjuraram.» […] A pretensão de reconstruir a biografia de Camões para melhor compreensão da sua lírica não é tão insensata como se tem feito crer. Os biógrafos têm errado, sim: alguns pela extrema ingenuidade das suas hipóteses, outros pelo excessivo recurso a uma fantasia gratuita, e quase todos por um método incientífico. Mas é evidente que a poesia camoniana ganharia muito com um adequado comentário biográfico, justa- mente pela importância que nela tem o acontecimento externo. […] O embate do Poeta com o acontecimento [a morte] reflete-se em gritos e acenos que são inteiramente desconhecidos de Petrarca. Não são já meramente os suspiros e exclamações do amor insatisfeito, mas manifestações de revolta desesperada e impo- tente, […] de cansaço, […] de remorso. […] Camões chama-lhe morte «cega», caso «duvidoso». «Cega» é aqui sinónimo de irracional, incompreensível, arbitrária, sem sentido; «duvidoso», de inesperado, ou, melhor, imprevisível. António José Saraiva, Obras de Luís de Camões, 3.ª edição, Lisboa, Gradiva, 1997, pp. 72-79 (texto adaptado e com supressões) CONSOLIDA 1. Atenta nas seguintes afirmações. Identifica a única afirmação falsa e corrige-a. a) Nos poemas de cariz autobiográfico, Camões apresenta o Destino e ele próprio como os responsáveis pela sua ventura. b) A experiência pessoal é muito importante para a compreensão da poesia camoniana. c) Na temática da reflexão pessoal, já não é só o amor o sentimento explorado, mas também a revolta, o remorso, o cansaço e o desespero perante a existência da morte. 5 10 15 20 25 Retrato de Luís de Camões, de autor desconhecido, primeira metade do século XVII. FICHA INFORMATIVA N.O 5 1 Caso: em Camões, caso é tam- bém sinónimo de acaso. PROFESSOR Leitura 7.1; 7.2; 7.4; 8.1. Educação Literária 14.3; 15.1; 15.2. MC Consolida a)…responsáveispeloseuinfortúnio. PowerPoint Ficha informativa n.o 5
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    191 Rimas O desconcerto domundo PONTO DE PARTIDA 1. Observa atentamente a imagem que ilustra o poema. 1.1 Faz a sua descrição, explicitando a mensagem que transmite. 1.2 Cria um título alternativo para o quadro, justificando a tua resposta. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Os bons vi sempre passar sua ao desconcerto do mundo Os bons vi sempre passar no mundo graves tormentos; e, para mais m’espantar, os maus vi sempre nadar em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assim o bem tão mal ordenado, fui mau, mas fui castigado: Assi que, só para mim, anda o mundo concertado. Luís de Camões, op. cit., p. 102 1. O poema organiza-se segundo elementos antitéticos. 1.1 Identifica-os e refere a importância da antítese para a construção do sentido do poema. 2. Explicita o sentido dos versos «Cuidando alcançar assim / o bem tão mal ordenado, / fui mau […]» (vv. 6 e 8). 3. Explica o valor do conector «Assi que» (v. 9), relacionando-o com o conteúdo dos dois últi- mos versos. 4. Atenta no seguinte esquema e completa-o no teu caderno com versos/expressões do texto. John Strudwick, Um fio dourado, 1885 (pormenor). 5 10 «vi […] no mundo» Desconcerto a) « » «passar graves tormentos» b) « » «nadar / em mar de contentamentos» Assim, procurando a felicidade, o sujeito lírico adapta o seu comportamento à (des)ordem do mundo: c) « » O eu comportou-se de acordo com o que via… Concerto do mundo d) « » mas e) « » CD 1 Faixa n.o 34 PROFESSOR Oralidade 1.4; 1.5; 4.1; 4.2. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 14.8; 14.9; 15.1; 15.2; 15.3. Gramática 17.4; 18.1; 18.2. MC PontodePartida 1.1 No quadro estão representadas as três parcas (figuras da mitologia), representadas como fiandeiras, que presidem ao destino e à felicidade ou desgraça de cada ser humano. O quadro transmite a seguinte men- sagem:denadavalemasdecisõesdo Homem, pois a sua vida é aquela que foi decidida pelo destino/por forças superiores. 1.2 Sugestões de título: «Fuga inevi- távelaodestino;OHomem–joguete/ marionetadodestino». EducaçãoLiterária 1.1 «bons/maus»; «tormentos/con- tentamentos»; «bem/mal». As antí- teses relacionam-se com a oposição e o paradoxo à volta dos quais se estrutura o texto: os bons são infeli- zes;osmaus,felizes. 2.Osujeitolírico,apesardetercons- ciência de que o «bem» está mal ordenado, quer atingi-lo e, por isso, decidiusermau. 3. Através do conector «Assi que», o sujeito poético conclui o poema, destacando que só para ele é que o mundo anda concertado, visto que o castigo/a má sorte se segue sem- pre ao seu mau comportamento, realidade que não acontece com os outros«maus». 4. a)«osbons»(v.1); b)«osmaus»(v.4); c) «Cuidando alcançar […] / o bem…» (vv.6-7); d)«fuimau»(v.8); e)«fuicastigado»(v.8 ).
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    192 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES 6. Apresenta a tua conclusão sobre a visão expressa pelo sujeito poético no que diz res- peito à relação «eu-mundo». 7. A partir da leitura do poema e das tuas vivências, expressa a tua opinião relativamente ao desconcerto no mundo de hoje. 8. Transcreve a seguinte afirmação e corrige os dois elementos falsos nela inclusos. GRAMÁTICA 1. Para responderes a cada um dos itens, seleciona a opção correta. 1.1 No verso «Os bons vi sempre passar» (v. 1), as palavras desempenham, respetiva- mente, as funções sintáticas de (A) sujeito simples, predicado [verbo + modificador]. (B) complemento direto, sujeito subentendido, predicado [modificador + verbo]. (C) complemento indireto, sujeito indeterminado, predicado [modificador + verbo]. (D) sujeito composto, sujeito subentendido, predicado [modificador + verbo]. 1.2 Atenta nos versos «Cuidando alcançar assim» (v. 6) e «Assi que só para mim» (v. 9) e seleciona a opção que completa adequadamente a afirmação. Os conectores destacados são respetivamente (A) duas conjunções. (B) dois advérbios. (C)advérbio e locução conjuncional. (D)conjunção e advérbio. 2. Para perceberes o porquê da diferença de grafia, completa as definições com as palavras: a) desconcertado – particípio de desconcertar (des+concertar). «Concertar» provém do étimo latino a) , com o significado de ‘combater’, ‘b) ’, ‘dispu- tar’, adquirindo, posteriormente, um sentido inverso: ‘harmonizar’, ‘ajustar’. b) desconsertado – particípio de desconsertar (des+consertar). «Consertar» provém do latim vulgar c) com o significado de ‘d) ’, ‘atar’, ‘juntar partes entre si’. 3. Indica o processo de formação das palavras «contentamento» e «desconcerto». 3.1 Explicita o valor do prefixo nominal «des-». Este poema classifica-se como uma cantiga, pois a sua temática é melancólica e apresenta uma estrofe de dez versos, podendo o número mínimo ser de oito e o máximo de dezasseis versos. A métrica utilizada é a redondilha maior, ou seja, os versos apresentam cinco sílabas métricas. Apesar de, na forma, se enquadrar na corrente tradicional, vai ao encontro da corrente renascentista, quanto à temática desenvolvida. t ligar t CONSERTARE t CONCERTARE t lutar Sintaxe pp. 324-328 SIGA Classes de palavras pp. 320-323 SIGA Processos regulares de formação de palavras pp. 319 SIGA PROFESSOR 6. Constata que existe um desfasa- mento entre o mundo e ele, pois é o únicohomemmauqueéjustamente punidopelodestino/pelasorte. 7.Respostalivre. 8.…classifica-secomoumaesparsa… …setesílabasmétricas… Gramática 1.1(B); 1.2(C). 2. a)CONCERTARE; b)lutar; c)CONSERTARE; d)ligar. 3.«fuimau»–oraçãocoordenada; «masfuicastigado»–oraçãocoorde- nadaadversativa. 3.Derivaçãoporsufixação;derivação porprefixação. 3.1Negação.
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    193 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 6 O desconcerto do mundo Enquanto para Petrarca não existe o problema da ordem do mundo, […] [para Camões], contrariamente, o problema do desconcerto do mundo está constantemente presente. […] É absurdo o caso duvidoso que destrói o puro amor; é absurda a morte, cuja existência brutal Camões reconhece plenamente, sem querer consolar-se com a imortalidade da alma; é absurdo o tempo, que não só traz consigo mágoas e desastres, como também altera a alma das pessoas, irreversi- velmente, incapacitando-as para o contentamento. […] O mundo é um «desconcerto» – tal é um dos pensamentos favoritos de Camões. Uma extensa composição em oitavas dedicadas «Ao desconcerto do mundo» desenvolve este pensa- mento especialmente em relação à vida social. [...] Alguém diria que este desconcerto não é coisa nova, pelo que parece não haver razão para espanto. Mas é, muito pelo contrário, porque, por um lado, quanto mais se prolonga tal desconcerto, mais é para espantar; e, por outro, ninguém se habitua a ele, antes todos o sentem e se inconformam. O desconcerto do mundo aparece […] sob duas formas. É uma o disparate que preside à distribuição do prémio e do castigo, a qual tem que ver com o merecimento, porque aqueles que vivem de latrocínios, mortes e adultérios, e deveriam merecer castigo perpétuo, são protegidos pela fortuna. […] E, pelo contrário, aqueles cuja vida limpa apareceria até mesmo a quem pudesse vê-los com o peito aberto, são por ela perseguidos e veem negado o seu direito. […] Resumindo: o desconcerto do mundo aparece a Camões sob diversas formas. É um facto objetivo os prémios e castigos estarem distribuídos desencontradamente. António José Saraiva, op.cit., pp. 83-93 (texto adaptado) CONSOLIDA 1. Partindo do texto que acabaste de ler, faz corresponder os elementos da coluna A com os da coluna B, de modo a obteres afirmações verdadeiras. A B a) A destruição do amor puro, a morte e a passagem do tempo, que só traz infortúnio, 1. espanto e inconformismo. b) O desconcerto do mundo provoca a todos os homens 2. a oposição homens bons/homens maus. c) À oposição castigo/prémio corresponde 3. são algumas realidades com as quais o poeta fica chocado. 5 10 15 20 25 Hieronymus Bosh, O jardim das delícias: Inferno (tríptico, painel lateral direito), 1503-1504. PROFESSOR Leitura 7.4; 8.1. Educação Literária 14.3; 15.1; 15.2. MC Consolida 1. a)3;b)1;c)2. PowerPoint Ficha informativa n.o 6
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    194 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES FICHA INFORMATIVA N.O 7 Étimo, palavras divergentes e convergentes Etimologia Área do saber que tem como objeto de estudo a origem e evolução diacrónica (nas diferentes fases da história da língua) de vocábulos ou expressões de uma língua. Étimo Forma da palavra ou expressão que esteve na origem da(s) forma(s) atual(is). Palavras divergentes são as palavras que apresentam formas e significados diferen- tes, embora derivem do mesmo étimo. Mantêm, no entanto, alguma afinidade de significado, memória do seu étimo comum. Estas divergências devem-se sobretudo ao facto de essas palavras terem chegado até nós por duas vias: via popular, associada sobretudo à transmissão oral e através da qual sofreram maiores transformações, e via (semi)erudita, neste caso apresen- tando menos alterações relativamente à forma original, uma vez que a escrita desem- penhou um papel muito importante na sua configuração e transmissão. Algumas destas últimas são reconstituições das formas latinas, predominantemente (re)intro- duzidas por escritores do Renascimento, como Luís Vaz de Camões ou António Ferreira. Vejam-se alguns exemplos: Étimo Via erudita Via popular DUPLU- duplo dobro PLENU- pleno cheio SOLITARIU- solitário solteiro ATRIU- átrio adro CLAMARE clamar chamar PLANU- plano chão PATRE- padre pai PALATIU- palácio paço CATHEDRA- cátedra cadeira CLAVE- clave chave INTEGRU- íntegro inteiro FLAMMA- flama chama As palavras convergentes apresentam a mesma forma, apesar de terem étimos dife- rentes e significados distintos. Em termos de relações entre som, grafia e significado, designam-se por palavras homónimas, dado que têm som e grafia iguais, mas signi- ficados diferentes (e, algumas vezes, também classe morfológica diferente).
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    195 Ficha informativa Repare-se nosseguintes casos: 1. SANU- são (adjetivo) – Este pero é são, não está podre. SANCTU- são (adjetivo e nome) – São Cristóvão nos valha, vamos de viagem! SUNT são (verbo) – Os meninos são traquinas. 2. RIDEO rio (verbo) – Eu rio-me da tua figura. RIVU- rio (nome) – O rio Mira é o menos poluído da Europa. 3. FILU- fio (nome) – O fio de lã é macio. FIDO fio (verbo) – Eu fio-me na palavra dele. CONSOLIDA 1. Completa a seguinte tabela no teu caderno com as palavras apresentadas, tendo em conta o étimo latino. Étimo Forma erudita Forma popular a) AUGUSTU- b) ATTRIBUERE c) COAGULARE d) COMPARARE e) MATERIA- 2. Relaciona os significados das palavras divergentes. 3. Atenta na evolução das seguintes palavras: a) VANU- vão (Eles vão ao cinema ver um filme fantástico.) b) VADUNT vão (No futuro os meninos vão ser engenheiros.) c) QUOMODO como (Gosto de ti como gosto de cerejas.) d) COMEDO como (Eu como com satisfação.) 3.1 Classifica-as, tendo em conta a sua origem latina distinta. 3.2 Indica as classes e subclasses a que pertencem. 3.3 Refere como se classificam quanto à relação que estabelecem entre si (som, gra- fia e significado). 4. Observa os seguintes pares de palavras e classifica-os quanto à sua evolução e forma atual. a) CLAVE- (latim) clave (de sol) e chave. b) MANGA (malaio) manga (fruta) / MANICA (latim) manga (roupa) tcoalhar tatribuir tagosto tmatéria tcomprar tcoagular tmadeira taugusto tcomparar tatrever PROFESSOR Gramática 17.5; 17.6; 17.7. MC Consolida 1. Formas eruditas: a) augusto; b) atribuir; c) coagular; d) comparar; e)matéria. Formas populares: a) agosto; b) atrever; c) coalhar; d) comprar; e)madeira. 2. Embora com significados distin- tos, conservam traços semânticos comuns ou relacionados; por exem- plo, mágoa, mácula e malha encer- ram um sentido de negatividade, lacunaounódoa,mancha. 3.1Palavrasconvergentes. 3.2 a)verbotransitivoindireto; b)verboauxiliar. c) conjugação subordinativa adver- bialcomparativa. d)verbotransitivo. 3.3Homónimas. 4. a)palavrasdivergentes; b)palavrasconvergentes. PowerPoint Ficha informativa n.o 7
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    196 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES A mudança PONTO DE PARTIDA 1. Ouve com atenção a versão musicada do poema «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», cantada por José Mário Branco. 1.1 Identifica o tema tratado, justificando com elementos textuais que formem o seu campo lexical. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem (se algum houve), as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e, em mim, converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, outra mudança faz de mor1 espanto, que não se muda já como soía2 . Luís de Camões, op. cit; p. 162 1. Atenta na organização interna do texto e divide-o em partes, indicando o que é tratado em cada uma delas. 2. Esclarece a oposição natureza/sujeito poético, presente no primeiro terceto. 3. Explicita a alteração de sentido introduzida pelos parênteses no v. 8. 4. Classifica as afirmações que sintetizam o assunto do poema como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as falsas. a) A mudança opera-se no mundo, nos sentimentos, na natureza e no eu e só na natu- reza é que ela se realiza de forma positiva. b) O sujeito poético tem uma visão positiva da mudança. c) A mudança regular recai sobre tudo (boa ou má), mas a mudança excecional é a mudança da própria mudança. d) Este poema reflete a influência dos autores medievais, tanto na temática abordada (a mudança) como na forma (soneto). 1 Mor: maior. 2 Soía: costumava. Mário Cesariny, Sem título, 1949. 5 10 CD 1 Faixa n.o 34 CD 1 Faixa n.o 35 PROFESSOR Oralidade 1.1; 5.1; 5.3. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.6; 14.7; 14.10; 15.1; 15.2; 15.3; 15.7. Gramática 18.1. Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. MC PontodePartida 1.1Otemaéamudança. «Mudam-se», «muda-se», «mudan- ça»,«novasqualidades»,«novidades», «lembrança», «saudades», «con- verte»… EducaçãoLiterária 1. O texto divide-se em duas partes: 1.a parte ( duas quadras e o primeiro terceto) – referência à mudança no mundo, nos sentimentos, na natureza e no eu; 2.a parte (último terceto) – constatação do espanto que provoca o facto de a própria mudança já não se processar da mesmamaneira. 2. Na natureza, a mudança opera-se de forma cíclica, natural e positiva, enquanto na vida do sujeito poético se concretiza de modo negativo. Ou seja, ao inverno («neve fria») sucede-se naturalmente e alegre- mente a primavera («de verde manto»); para o sujeito poético a mudança apenas converte a alegria («docecanto»)emtristeza(«choro»). 3. Os parênteses introduzem um aparte cético e pessimista, ques- tionando acerca da existência de algumbemnavida. 4. a)V; b) F…negativa… c)V; d)F…autoresclássicos…. Link Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, José Mário Branco
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    197 Rimas GRAMÁTICA 1. Classifica sintaticamenteos constituintes destacados nos versos seguintes. a) «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades» (v. 1) b) «todo o mundo é composto de mudança» (v. 3) c) «Continuamente vemos novidades» (v. 5) d) «diferentes em tudo da esperança» (v. 6) e) «do mal ficam as mágoas na lembrança» (v. 7) f) «que já coberto foi de neve fria» (v. 10) g) «que já coberto foi de neve fria» (v. 10) 2. Expande os seguintes grupos adjetivais, acrescentando-lhes complementos do adjetivo. a) Eu estou interessado… b) Camões ficaria satisfeito… c) Os poemas de Camões não são difíceis… d) Constata-se que Camões teve uma vida assolada… ESCRITA Apreciação crítica 1. Tendo presente o verso do poema «Todo o mundo é composto de mudança», observa atentamente a imagem e elabora sobre ela uma apreciação crítica. Segue o plano apresentado para a re- dação do teu texto. No fim, deves rever o teu trabalho. Introdução: 1.º parágrafo – identificação do objeto, do título e do seu autor. Desenvolvimento: 2.º parágrafo – descrição sucinta do objeto; 3.º parágrafo – mensagem veiculada. Conclusão: 4.º parágrafo – comentário crítico sobre a veracidade/falsidade da mensagem transmitida. Trayko Popov, «O futuro das nossas crianças», World Press Cartoon, 2013, p. 253. Funções sintáticas pp. 324-325 SIGA Apreciação crítica p. 312 SIGA Complemento do adjetivo p. 199 FI PROFESSOR Gramática 1. a)sujeito; b)complementodoadjetivo; c)modificador; d)complementodoadjetivo; e)complementodonome/sujeito; f)complementodoadjetivo; g)modificadorapositivodonome. 2. a) … em ler mais poemas de Camões;b)…comoreconhecimento atual do seu talento; c) … de perce- ber;d)…pormuitosinfortúnios. Escrita 1. 1.o parágrafo: cartoon do autor Trayko Popov – «O futuro das nossas crianças». 2.o parágrafo: uma criança, supos- tamentedentrodecasa,aolharpara o exterior, através de uma janela; a janela tradicional é substituída por um monitor de um computador, no qual se observam ícones informáti- cos; através dessa janela-monitor, a criança vê apenas a natureza (céu, nuvens, campo verde) representada no ambiente de trabalho do compu- tador. 3.o parágrafo: o mundo está em constante mudança e esta opera-se também na relação que o homem estabelece com o mundo que o rodeia; atualmente as pessoas (e os jovens em particular) passam mais temponummundovirtualdoqueem contactocomarealidadefísica. 4.o parágrafo:comentáriopessoal.
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    198 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES FICHA INFORMATIVA N.O 8 O tema da mudança Que é o tempo? Objetivamente, é a sucessão das mudanças, decreto incompreen- sível da natureza. […] As horas são diferentes na qualidade. A essência do tempo objetivo está nisso: a sucessão das qualidades diferentes que resulta da mudança ou de que resulta a mudança. É o pensamento do soneto justamente célebre «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades». Cingindo-se a um tópico tradicional, Camões, neste soneto, contrapõe a esta mudança do tempo a constância da própria alma: essa é a tese que ele herdou e glosou repetidamente. Mas, passando além, o reverso subjetivo do tempo tornou-se para ele um problema. O facto é que, verifica ele, a própria alma muda. […] Como dirá em «Sôbolos rios», todos os males vêm das mudanças e todas as mudan- ças vêm dos anos; e mudando-se a vida se mudam os gostos dela. […] O efeito do tempo é psicologicamente uma mudança qualitativa de estado – mais: uma mudança qualitativa da própria alma. Não se perde só o contentamento, mas o gosto de ser contente. […] Ao contentamento do passado contrapõe-se o ser triste no pre- sente. A contraposição entre passado e presente tende a converter-se em Camões numa oposição de estados psíquicos. O passado torna-se meramente o oposto do presente. […] Por esta oposição entre o passado contente e o presente descon- tente – oposição que transporta para o presente o passado, retirando- -lhe a qualidade de realidade empírica […] – Camões encaminha-se para uma formulação metafísica do problema do tempo psicológico, a qual aparece acabadamente […] nas redondilhas «Sôbolos rios». Mas, na origem, o tempo aparece-lhe como uma dessas existências que a consciência não reconhece, como a morte cega e o caso [acaso] duvi- doso, e que fazem do mundo um grande desconcerto. António José Saraiva, op. cit., pp. 79-83 (texto adaptado) CONSOLIDA 1. Em função do texto que leste, completa as frases no teu caderno com palavras/expres- sões de cada parágrafo. t O tempo é a a) . b) resultam de mudanças ou causam novas mudanças. t Aparentemente, a c) do tempo contrasta com a d) da alma, mas Camões vem a constatar que até a e) muda. t Muda-se a vida, mudam-se os f) . t O g) contente opõe-se ao h) triste. t A passagem do i) é mais um dos mistérios da vida que, tal como a morte e a força do destino, tornam o mundo um j) . António Palolo, Sem título, 1984. 5 10 15 20 25 PROFESSOR Leitura 7.1; 8.1. Educação Literária 14.3; 15.1; 15.2. MC Consolida a)«sucessãodemudanças»;b)«Qua- lidades diferentes»; c) «mudança»; d) «constância»; e) «alma»; f) «gos- tos»; g) «passado» h) «presente»; i)«tempo»;j)«grandedesconcerto». PowerPoint Ficha informativa n.o 8
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    199 Ficha informativa Complemento doadjetivo 1. O complemento do adjetivo pode ser um grupo preposicional – oracional (a) ou não ora- cional (b). Os complementos do adjetivo são, muitas vezes, de preenchimento opcional. Exemplos: a) O João está contente por te ter convidado. b) O João está contente com a situação. Dicionário Terminológico, DGIDC, 2008 2. É mais frequente os adjetivos selecionarem complementos quando se encontram na posição predicativa da frase, como predicativo do sujeito (c), ou como predicativo do complemento direto (d): Exemplos: c) Ele está muito contente com a filha. d) Eu considero o rapaz incapaz de uma maldade assim. 3. Vejamos mais alguns exemplos de adjetivos e particípios que selecionam complementos: taborrecido com a mãe; tcapaz de tudo; tcerto do caminho escolhido; tconsciente da verdade; tcontrário à decisão tomada; tconvencido da sua importância; tpreocupado com a investigação; treceoso de tremores de terra. tsurpreendido com os acontecimentos; 4. O complemento do adjetivo é opcional. No entanto, a frase sem o complemento do adjetivo seria, no mínimo, ambígua (e), (f): Exemplos: e) A Rute é capaz. (Tem capacidades, mas para quê?) f) Estão desejosos. (De quê?) CONSOLIDA 1. Identifica nas frases seguintes os complementos do adjetivo. a) Segundo consta, o poeta estava interessado em muitas damas do seu tempo. b) Camões vivia cercado de amigos que o ajudaram economicamente. c) No entanto, o príncipe dos poetas desiludiu-se com o desprezo dado às artes, em Portugal. d) Estou ansiosa por ler mais poemas de Camões. e) A professora está certa de que os alunos gostam deste poeta. f) O poema era fácil de analisar. 1.1 Identifica as frases em que o complemento do adjetivo é constituído por um grupo preposicional oracional. FICHA INFORMATIVA N.O 9 PROFESSOR Gramática 18.1. MC Consolida 1. a)emmuitasdamasdoseutempo; b) de amigos que o ajudaram econo- micamente; c)àsartes; d)porlermaispoemasdeCamões; e) de que os alunos gostam deste poeta; f)deanalisar. 1.1b;d;e;f. PowerPoint Ficha informativa n.o 9
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    200 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES 200 Unidade 4 // LUÍS DE CAMÕES TEMÁTICAS MEDIDA VELHA MEDIDA NOVA Influências e formas Poesia na esteira da lírica tradicional: trovadoresca e palaciana (existente nos cancioneiros peninsulares ao longo de todo o século XV e grande parte do século XVI). Vilancetes, cantigas, esparsas e endechas Influência da poesia renascentista italiana (Petrarca, Dante) e ainda de teorias neoplatónicas e aristotélicas (presentes em Portugal desde a terceira década de Quinhentos). Sonetos Representação da amada Menina descrita objetivamente em quadros do quotidiano (fonte, natureza). Porém, há personagens femininas dissimuladas que conduzem ao engano amoroso. Mulher inalcançável, divina, etérea… Retrato estereotipado da mulher ideal: pele alva, cabelos e olhos claros (retrato clássico da mulher). Descrição subjetiva e indefinida. Características físicas e psicológicas em equilíbrio. Experiência amorosa e reflexão sobre o amor Correspondência amorosa: plano de igualdade entre sujeito poético e amada. Alegria de amar. Perspetiva leve e harmónica do sentimento amoroso. Mas também exaltação da força do amor, para além de todos os códigos. Denúncia da subversão do sentimento amoroso, através da mentira da amada ou do seu preterimento perante interesses materiais. Complexidade do sentimento amoroso que tenta definir. Amar é causa de: confusão, questionamento, conflito (amor carnal e espiritual), saudade, dúvida, dor, ansiedade. Representação da natureza Locus amoenus Natureza bela, serena, cheia de cores e cheiros… Transfigurada pela beleza da amada. Locus amoenus Subjetividade da perspetiva lírica, dependente da presença/ausência da amada; é testemunha e alegoria das vivências. Em harmonia ou confronto com o estado de espírito do sujeito poético. Reflexão sobre a vida pessoal Exame de vida. Tópicos de circunstância tornam-se, por vezes, questões de interpretação existencial. Autoinimizade. Protesto ou notação de incongruências de caráter ético ou metafísico. Poemas autobiográficos. Papel do destino cruel. Vida infeliz resultante dos erros, má sorte e amor excessivo. Sentimentos de revolta, cansaço e remorso. Morte da amada. Desconcerto do mundo Perspetiva que demonstra: – perplexidade, incompreensão do mundo que o rodeia; – prémios e castigos distribuídos injustamente; – violação da ordem dos valores; – vida feita de sucessão de males. Mudança A vida muda sempre para pior. A mudança traz a tristeza (presente) e elimina a felicidade (passado). Tabela elaborada a partir de: José Augusto Cardoso Bernardes, «Medida Velha», in Vítor Aguiar e Silva (coord.), op. cit., pp. 579-581 FICHA INFORMATIVA N.O 10 PowerPoint Ficha informativa n.o 10
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    201 Rimas ESCRITA / ORALIDADE Síntese 1.Lê a primeira parte da notícia «Camões tornado carne», publicada no jornal Público (com 375 palavras). Repara que a informação destacada é essencial à sua compreensão. Sonetos e outros poemas é uma edição bilingue da lírica camoniana selecionada e traduzida para inglês por Richard Zenith, ilustrada por João Fazenda. Eis um Camões apaixonado e boémio. […] Richard Zenith, norte-americano a viver em Portugal, tradutor, escritor e investigador, conhe- cido pela sua divulgação de Pessoa em inglês, admitiu ao Ípsilon que sempre foi um «grande apaixonado pela lírica camoniana». Por isso, Sonetos e outros poe- mas, edição bilingue organizada por Zenith, ilustra- ções de João Fazenda, publicado em Portugal pela Planeta, tem «o intuito de suscitar nos leitores a mesma apreciação entusiasmada que sinto por Camões». Admite que «já gostava de Camões», mas foi no trabalho de tradução que se foi «apercebendo da sua verdadeira grandeza». Traduzir Camões foi um desafio lançado por Victor Mendes, professor da Universidade de Massachusetts Dartmouth e responsável pela Ada- mastor Book Series, que publicou o livro em 2008 nos EUA. Mendes explicou ao Ípsilon a razão da aposta numa tradução para inglês de poesia lírica renascen- tista: «Estava insatisfeito com as edições bilingues da lírica de Camões.» […] Para Mendes, há um interessante «nicho de mer- cado» para o Renascimento português nos países de língua inglesa. «Camões é o autor renascentista por- tuguês mais reconhecido pelo leitor culto de língua inglesa. O impacto de uma tradução de Camões é marginal, mas é uma margem que vale muitíssimo a pena ser trabalhada», explica. […] Ao todo, são 40 sonetos e outros 12 poemas escolhidos por Zenith, que pretendem «represen- tar as várias formas poéticas» da lírica. O amor está lá, mas não é tudo. Há poemas «sobre o descon- certo do mundo, a inexorável passagem do tempo ou a experiência de exílio». Se a lírica camoniana é considerada «menor» relativamente a Os Lusíadas, para Zenith, contudo, esta é a «coroa de glória tran- quila para uma tumultuosa vida interior». Na tradução, o que mais o preocupou foi o «som das palavras» e, mais ainda, o ritmo. Vasco Graça Moura con- firma-o no prefácio: o poeta permanece «camoniano à chegada». «O ritmo encontra uma respiração a que pode- mos chamar camoniana» e, no final, Camões torna-se «quase sem- pre singularmente nosso contemporâneo sem perda das suas coordenadas epocais e específicas». Raquel Ribeiro, «Camões tornado carne», in Público, 25/11/2009 (disponível em www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/camoes-tornado-carne) (consultado em outubro de 2014, destacados nossos) CAMÕES TORNADO CARNE Ilustração de João Fazenda 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55
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    202 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES 2. Atenta na seguinte proposta de síntese do texto, com 125 palavras (1/3 de 375). 2.1 Transcreve do texto exemplos das transformações ocorridas no processo de síntese: a) transformação do discurso direto em indireto; b) redução frásica de uma enumeração; c) manutenção da rede lexical/palavras-chave; d) uso de articuladores do discurso/conectores; e) presença de comentários/juízos de valor. 3. A partir da leitura da continuação da notícia de Raquel Ribeiro, abaixo apresentada, tfaz uma síntese oral (1 a 3 minutos) e apresenta-a aos teus colegas. tredige uma síntese escrita, utilizando cerca de 85 palavras. «Camões tornado carne», de Raquel Ribeiro, apresenta a interessantíssima obra bilingue da poesia camoniana, traduzida por Richard Zenith, com ilustrações de João Fazenda: Sonetos e outros poemas. O objetivo do tradutor é transmitir aos leitores o entusiasmo que tem pelo poeta. Este desafio foi lançado, felizmente, por Victor Mendes, professor universitário nos EUA, a fim de suprir a necessidade de uma tradução fiável. Seguidamente, Richard Zenith informa que os poemas escolhidos abarcam a variedade temática da lírica camoniana, desde o amor ao desconcerto do mundo, representando, desta forma, o poeta como um todo. Por último, a sua preocupação foi sobretudo com o ritmo e a sonoridade das pala- vras, permitindo obter um resultado em que Camões é nosso coevo, ainda que perfei- tamente definido no tempo e no espaço renascentistas. 5 10 […] Fazenda leu Camões no liceu, por isso regressar à lírica «foi uma sur- presa, porque muitos destes poemas fazem parte do nosso imaginário». Neste reencontro confrontou-se com «a impossibilidade de ilustrar poe- sia». É difícil criar imagens para uma arte que vive delas: «Camões é muito visual, a poesia é feita de imagens e eu, como produtor de imagens, tenho de encontrar ali o meu espaço.» Mulheres e amor, o mar e a água são alguns temas, mas também a biografia do poeta. Este cariz autobiográfico era des- conhecido de Fazenda. Isto não se aprende no liceu. Por isso, a introdução de Zenith é essencial. A lírica diz-nos muito sobre a vida de Camões, «escu- deiro», «barba ruiva, residente no bairro da Mouraria», porque há muitas incer- tezas históricas sobre a sua vida. Sabe- -se, pela lírica, que fala de África e da Ásia «com amargura», escreve Zenith, e «censura abertamente a máquina guerreira portuguesa» no Oriente. Aprendeu latim, leu Virgílio e Ovídio, e filosofia grega. Mas «o jovem Luís não passou o tempo todo a ler». Se alguns críticos falam de uma musa inspiradora, a vida boémia do poeta desmente-o: «Andava na pândega, buscava e culti- vava os prazeres da carne» e «conheceu muitos amores». A lírica revela a vida de «arruaça, [amores] e Petrarca» de Camões, as dúvidas de um homem de «esperanças repetidamente frustradas». Para o leitor mais incauto, Camões ainda «mete medo», ainda lembra o liceu. Mas esta edição de Zenith des- mistifica o poeta, afasta-o desse lado canónico e solene, «torna-o carne», diz Fazenda. Arruaça, [amores] e Petrarca 5 10 15 20 25 30 35 40 Síntese p. 313 SIGA PROFESSOR Oralidade 3.1; 3.2; 6.1; 6.2; 6.3. Escrita 10.2; 11.1; 12.2; 12.3; 12.4. MC 2.1 a) «O objetivo do tradutor é transmi- tir aos leitores o entusiasmo» (l. 4), «informaqueospoemasescolhidos» (l.7); b) «desde o amor ao desconcerto do mundo»(l.8); c)«Camões»(l.1),«RichardZenith»(l. 2), «tradutor» (l. 4), «tradução» (l. 6), «variedadetemática»(l.7)…; d) «que» (l.4), «a fim de» (l. 6), «Segui- damente» (l. 6), «desde… ao» (l. 8), «Porúltimo»(l.10),«aindaque»(l.11); e) «interessantíssima» (l. 1) e «feliz- mente»(l.5). Síntese Sugestão: Metade da turma faz a síntese escrita, a outra metade faz a sínteseoral. 3. O artigo apresenta a dificuldade e o prazer que João Fazenda, o ilustra- dor, teve com a ilustração do livro. A dificuldade prendeu-se com a tarefa de complementar o texto, uma vez que a poesia é já de si muito visual. Acresce a isto a descoberta do lado autobiográficodapoesiadeCamões, que é revelada através dos seus poe- mas: a cultura, a vida boémia e amo- rosa,aexperiêncianoOriente. Segundoosautores,olivropretende desmistificar a figura e a linguagem deCamões.
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    203 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 11 Principais etapas da formação e da evolução do português 1. Do português antigo ao português clássico Por volta de 1350, no momento em que se extingue a escola literária galego- -portuguesa, as consequências do deslocamento para o sul do centro de gravi- dade do reino independente de Portugal vêm à tona. O português, já separado do galego por uma fronteira política, torna-se a língua de um país cuja capital – ou seja, a cidade onde geralmente reside o rei – é Lisboa. Embora o rei e a corte se desloquem frequentemente, a sua «área de percurso» situa-se agora num território delimitado por Coimbra ao norte e Évora ao sul. É nesta parte do reino que estão implantadas as instituições que desempenham papel cultural mais importante, tais como os mosteiros de Alcobaça e o de Santa Cruz de Coimbra e a Universidade, que, fundada em Lisboa em 1288 ou 1290, depois transferida para Coimbra e, em outras ocasiões, novamente para Lisboa, foi, por fim, definitivamente instalada em Coimbra em 1537. Residência privilegiada do rei, Lisboa é também a cidade mais povoada e o primeiro porto do país. E o eixo Lisboa-Coimbra passa a formar desde então o centro do domínio da língua portuguesa. É, pois, a partir dessa região, antes moçárabe, que o português moderno vai constituir-se, longe da Galiza e das províncias setentrionais em que deitava raízes. É daí que partirão as inovações destinadas a permanecer, é aí onde se situará a norma. Paul Teyssier, História da língua portuguesa, 7.ª edição, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1997, p. 35 2. O português clássico (séculos XVI-XVIII) Na Europa nos séculos XV e XVI (Renascimento), a língua de cultura e de comu- nicação entre estados e intelectuais continuava a ser o latim. Em latim comunicavam, por exemplo, o português Damião de Góis e o holandês Erasmo. Mas eram já tempos de mudança. Em diversos países da mesma Europa, aumentava o número de escri- tores que escreviam nas respetivas línguas maternas, desejosos de que nelas viessem a aparecer obras similares às das antigas literaturas grega e latina. É neste intuito de valorizar a língua materna que, em Portugal, no século XVI, aparecem as primeiras gramáticas da língua portuguesa (a de Fernão de Oliveira, de 1536; a de João de Barros, de 1540), a Ortografia da língua portuguesa [de Duarte Nunes de Leão], de 1576, e o primeiro Dicionário de Português-Latim e Latim-Português [de Jerónimo Cardoso]. Os escritores portugueses do Renascimento, como Sá de Miranda, Antó- nio Ferreira e, acima de todos, Camões, procuram consolidar a identidade da língua e que ela se reja por normas semelhantes às do latim onde se agigantaram Virgílio e Horácio, modelos que tentam imitar e, se possível, superar. […] 5 10 15 5 10 Panorama de Lisboa, António de Holanda, in Crónica de D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão, c. 1530. Frontispício da primeira edição da Gramática da língua portuguesa com os mandamentos da Santa Madre Igreja, de João de Barros, 1540. PROFESSOR Educação Literária 17.1. Gramática 17.1. MC PowerPoint Ficha informativa n.o 11
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    204 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES 204 O grande contributo do português clássico foi o de ter criado um padrão de língua literária que, com ligeiras alterações, se mantém nos dias de hoje: – frases com uma sintaxe próxima do latim; – abundância da subordinação; – muitas palavras diretamente importadas do latim, como «indómito», «inopi- nado», «horrendo», «benignidade»; – superlativos em -érrimo e -ílimo, como «acérrimo» e «humílimo»; – substituição de palavras do português antigo como contrairo, marteiro, seenço, segre, pelas correspondentes formas eruditas «contrário», «martírio», «silêncio», «século». É no período do português clássico que a língua portuguesa atinge o seu cume máximo de elaboração linguística e literária – na poesia, no século XVI, com Camões; na prosa, no século XVII, com o Padre António Vieira. Zacarias Nascimento e Maria do Céu Lopes, Domínios – gramática da língua portuguesa Lisboa, Plátano Editora, 2011, pp. 27-28 (texto adaptado) 3. A importância dos Descobrimentos Se o principal motor dos Descobrimentos era economicista, outros houve que não podem ser ignorados. Em 1513, quando D. Manuel envia uma embaixada ao Preste João, nela seguem uma pequena biblioteca e uma tipografia. Portanto, para além de uma motivação religiosa, a difusão da cultura e da língua estiveram sempre presentes no horizonte da expansão portuguesa. A Companhia de Jesus aliou à ação missionária uma notável ação cultural e difundiu a imprensa e a língua portu- guesas ao longo dos séculos XVI e XVII. A elaboração de «cartilhas para aprender a ler e escrever» e de vocabulários, o envio de livros e mestres para as novas terras são o resultado, não apenas da intensificação das trocas comerciais mas também do esforço de afirmação cultural e do orgulho nacionalista. Esforço que se tradu- zirá não só na substituição de línguas autóctones pelo português mas também no surgimento de novas línguas de comunicação – os crioulos – e na introdução de vocábulos portugueses em várias línguas. […] Os portugueses descobriam novas terras, novas línguas, novas realidades: ani- mais, plantas, frutos desconhecidos eram trazidos para Portugal. E com os novos produtos chegavam, também, as suas designações originais. Daqui resultou um significativo aumento do nosso acervo lexical: jangada, canja, pijama, biombo são importações de línguas asiáticas, banana, girafa, missanga, de línguas africanas. No Brasil, o tupi-guarani legou-nos milhares de palavras. Algumas pertencem, apenas, ao léxico estritamente usado no português do Brasil, outras, tão vulgares como ananás, amendoim ou cacau, fazem parte do vocabulário que usamos, todos os dias, em Portugal. 15 20 25 5 10 15 20 Victor Meirelles, A primeira missa no Brasil, 1861.
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    205 Ficha informativa 5 10 15 20 25 30 25 Por outrolado, os portugueses iam deixando, também, marcas linguísticas nos lugares distantes onde aportavam. No Oriente, as palavras malaias kadera (cadeira), varanda, kamija (camisa), terigo (trigo) ou as japonesas furasuko (frasco), bisukettu (biscoito) são exemplos de termos aí implantados pelos portugueses. E em África, o quicongo conserva palavras portuguesas como kesu (queijo), sapatu, lozo (arroz) ou matelo (martelo). Esperança Cardeira, O essencial sobre a história do português, Lisboa, Caminho, 2006, pp. 66-67 (texto adaptado) 4. O português contemporâneo (a partir do século XIX) O século XIX é um século caracterizado por perturbações políticas e sociais. Em 1807, na sequência das Invasões Francesas, a corte portuguesa vai instalar-se no Bra- sil, enquanto a Inglaterra combate os franceses em Portugal. Uma revolução libe- ral, visando recolocar o centro de decisão política em Lisboa e instituir um regime constitucional, inicia um período de conflitos que marcará o fim do Antigo Regime. A Revolução Liberal de 1820 é saudada com entusiasmo por intelectuais como Almeida Garrett ou Alexandre Herculano, que conheceram, no exílio, o ambiente europeu e que se empenham na difusão de uma literatura popular e verdadeiramente nacional. Jornais e romances chegam agora a um público cada vez mais vasto, que já abrange toda uma classe média. Em 1836 é criado o Liceu em todos os distritos. Já na segunda metade do século XIX, os trabalhos de Adolfo Coelho, Epifânio da Silva Dias, Leite de Vasconcelos, Gonçalves Viana, Carolina Michaëlis, José Joaquim Nunes não abordam apenas o ensino da língua: trata-se, agora, de compreender e descrever o funcionamento do português. O trabalho de Adolfo Coelho, A língua portugueza, publicado em 1868, inaugura a moderna filologia portuguesa. A partir de 1880, a Revista Lusitana publica estes estudos, que se integram no panorama internacional da nascente ciência da linguística. Em 1911, o Governo nomeia uma comissão para estabelecer a ortografia a usar nas publicações oficiais. Desta comissão faz parte Gonçalves Viana, que já em 1907 apresentara um projeto de ortografia simplificada que servirá de base para a regula- mentação da ortografia portuguesa. Esta reforma, em que desaparecem as consoantes dobradas, o grupo ph (como em pharmácia, que passa a grafar-se farmácia) e alguns exageros pseudoetimológicos, aproxima já bastante a ortografia de então da atual. A reforma ortográfica de 1911 sofreu posteriores ajustamentos. A grande reforma seguinte foi a resultante do acordo entre Portugal e Brasil, em 1945, que, ligeiramente alterada em 1971, deu origem à ortografia oficial que até agora temos usado. Em 1986, de um encontro entre os países de língua portuguesa resultou um novo acordo ortográfico, que preconiza uma maior unificação. Descrita, dicionarizada, regulamentada, a língua portuguesa já não é a língua de Garrett, de Camilo ou de Herculano: torna-se, agora, a língua de Eça, de Pessoa, de Saramago. Esperança Cardeira, op. cit., pp. 77-78 (texto adaptado)
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    206 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES Poema do amor fóssil Quem de nós falará aos homens que hão de vir quando o grande clarão encher de luz e pasmo as nossas bocas? E como? Que língua entenderão eles? […] Que significará sofrer, amar, lutar, quando as nossas misérias e tormentos não forem mais do que pegadas fósseis? Que palavras há de o poeta reservar para o coração de plástico dos homens que hão de vir? […] Amor? Como será amor em língua cibernética? António Gedeão, Poemas escolhidos, Lisboa, Edições Sá da Costa, 1997, p. 90 DESAFIO O amor é a temática central da lírica camoniana. A vivência do amor mudou ao longo dos tempos. No futuro também será vivido de forma diferente. Partindo desta evidência, organiza grupos de trabalho e planifica uma apresentação oral, entre cinco a sete minutos, elaborando tópicos de suporte à intervenção do grupo. Apresenta o trabalho, atendendo aos seguintes aspetos: tSFTQFJUBPQSJODÓQJPEFDPSUFTJB GPSNBTEFUSBUBNFOUPFSFHJTUPTEFMÓOHVB tVUJMJ[B BEFRVBEBNFOUF SFDVSTPT WFSCBJT F OÍP WFSCBJT QPTUVSB UPN EF WP[ articulação, ritmo, entoação. Lê o seguinte poema. idos Tchavdar, «Cupido virtual», in World Press Cartoon, 2013. 5 10 PROFESSOR Oralidade 3.2; 4.1; 4.2; 5.2; 5.3. Escrita 10.2. Educação Literária 15.4. MC PowerPoint Síntese da unidade
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    207 GLOSSÁRIO C Cantiga: composição curta,geralmente em versos de redon- dilha maior, alternando com redondilha menor, dividida em mote e glosa de oito a dez versos. O assunto da cantiga renascentista é invariavelmente o amor, a ausência e o sofri- mento único do homem. G Glosa: estrofe que recupera e explica um determinado tema apresentado num mote, que é colocado no início do poema e do qual se pode repetir um ou mais versos em posição certa, como um refrão. Inicialmente, fazia parte de composições poéticas breves, como o vilancete, que apresentava uma ou mais glosas de sete versos, ou como a cantiga, que apresentava uma glosa de oito ou dez versos. A glosa continuou a sofrer transformações durante a Renas- cença, começando a ser constituída por um mote de qua- tro versos que lhe servia de introdução e quatro estrofes de dez versos, cujo último verso era a repetição de cada um dos versos do mote inicial, mantendo a medida velha. L Locus amoenus: expressão latina que designa a paisagem ideal, sempre presente na poesia amorosa em geral e, com maior incidência, na poesia bucólica. No espaço literário português, no que diz respeito à poe- sia de inspiração bucólica, encontramos Sá de Miranda (1481-1558) e Diogo Bernardes (1520-1605), que, influen- ciados pelos clássicos greco-latinos e por outros seus con- temporâneos, como é o caso de Petrarca, e ainda pelo lirismo galaico-português, apresentam na sua produção literária o ideal da comunhão com a natureza, que assume papel de confidente. M Mote: mote, moto ou cabeça é o verso ou pequeno con- junto de versos, que encabeça o poema, geralmente com três versos, sobre os quais os poetas glosam as suas canti- gas ou vilancetes. N Neoplatonismo: escola filosófica alexandrina que surgiu no século II. […] O neoplatonismo penetra em toda a cosmo- visão renascentista, enquanto sustentáculo de um sistema de correspondências que liga o homem a Deus e ao uni- verso. Petrarca seguiu e fez a apologia do pensamento de Platão […]. […] O neoplatonismo dos [vários] pensadores italianos do Renascimento implica um movimento circular duplo, mas vertical, que de Deus desce até ao homem e do homem ascende até Deus. A Camões, o neoplatonismo não oferece possibilidades de elevação. […] À impossibilidade de atingir um estádio gratificante, corresponde a deam- bulação por entre os meandros da interioridade, nas suas mais pro- fundas dimensões. P Petrarquismo: fenómeno de mode- lização que se processa a partir da obra de Francesco Petrarca, alar- gou-se às literaturas de toda a Europa e para além delas, tendo também reper- cussões nas artes plásticas, na música, no pensamento, na filologia, no plano antropológico, na produção editorial […]. No que diz respeito à litera- tura, dominou o lirismo ao longo dos períodos que vão do Renascimento até ao Neoclassicismo, com ecos que se estendem até aos nossos dias. […] A mulher é envolvida por um halo angelicado, que dela faz uma presença serena e gratificante. Platonismo: doutrina do filósofo grego Platão […], carac- terizada especialmente pela conceção de que as ideias eternas e transcendentes originam todos os objetos mate- riais, e que a contemplação dos seres suprassensíveis determina parâmetros definitivos para a excelência no comportamento moral […]. Por extensão, o amor platónico identifica-se pela castidade e idealidade. Segundo Platão, o amor mundano e carnal pode tornar-se, através da medi- tação filosófica, uma afeição contemplativa por realidades suprassensíveis. Em termos figurados, pode dizer-se que o amor platónico é amor à distância, frequentemente incon- fesso e idealizado. V Volta: estrofes ou glosas que desenvolvem o conteúdo do mote nas composições em medida velha. Bibliografia/Webgrafia do Glossário António José Saraiva e Óscar Lopes, História da literatura portuguesa, 17.ª edição, Porto, Porto Editora, 1996 Carlos Ceia (org.), E-dicionário de termos literários (disponível em http:// www.edtl.com.pt) Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia, Lisboa, Temas e Debates, 2005 Massaud Moisés, Dicionário de termos literários, 12.ª edição, São Paulo, Cultrix, 2004 Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011
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    208 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES Grupo I A Lê atentamente o seguinte poema e depois responde aos itens que se seguem, de forma clara e bem estruturada. 1. Relaciona o conteúdo do mote com o assunto desenvolvido nas voltas. 2. Explicita a contradição presente nos quatro primeiros versos da primeira volta. 3. Apresenta um sentido para o verso «Sirvo de giolhos» (v. 14). 4. Atenta nas terceira e quarta voltas e refere porque é que o sujeito poético põe em causa a cor dos olhos da «minina». FICHA FORMATIVA Eles verdes são a este moto alheio: Minina dos olhos verdes, porque me não vedes? Voltas Eles verdes são, e têm por usança na cor, esperança e nas obras, não. Vossa condição não é d’olhos verdes, porque me não vedes. Isenções a molhos que eles dizem terdes, não são d’olhos verdes, nem de verdes olhos. Sirvo de giolhos, e vós não me credes, porque me não vedes. Haviam de ser, porque possa vê-los, que uns olhos tão belos não se hão de esconder; mas fazeis-me crer que já não são verdes, porque me não vedes. Verdes não o são no que alcanço deles; verdes são aqueles que esperança dão. Se na condição está serem verdes, porque me não vedes? Luís de Camões, op. cit., pp. 17-18 5 10 15 20 25 30 PROFESSOR GrupoI A 1. O mote relaciona-se com o con- teúdo das voltas da cantiga, pois apresenta o tema que aí será desen- volvido. Neste caso, apresenta o tema a desenvolver nas voltas: a ignorância e o desprezo por parte da «minina» dos olhos verdes face ao sujeitopoético. 2.Acontradiçãoresidenofactodeos olhos verdes sugerirem esperança, mas nas «obras», nos atos, tal não acontecer. 3. Esta expressão sugere a rendição completa, por amor, do sujeito poé- tico à«minina». 4. Como a «minina» não lhe dá espe- rança de correspondência no amor, isso significa que não o «vê», logo os seus olhos não podem ser olhos verdes: «mas fazeis-me querer / que já não são verdes, / porque me não vedes»(vv.21-23). COTAÇÕES GrupoI A 1. 15pontos 2. 15pontos 3. 15pontos 4. 15pontos B 5. 40pontos 100pontos
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    209 Ficha formativa B Na sualírica, Camões apresenta-se como um homem predestinado para a infelicidade. Num texto bem estruturado, com um mínimo de oitenta e um máximo de cento e trinta palavras, desenvolve uma exposição sobre a afirmação apresentada, fundamentando-a com exemplos ilustrativos de poemas estudados. Grupo II Lê o seguinte texto. ESTRELA: locus amoenus turístico A maior parte dos portugueses subiu pela primeira vez ao alto da serra da Estrela durante o inverno, para ver a neve, que acabrunha os vales profundos e galanteia as cristas alterosas. Alguns visitantes entretêm-se a fazer sku, com sacos de plástico e pranchas improvisa- das, enquanto outros preferem as guer- ras de bolas de neve. Contudo, de há uns anos para cá, existe um novo motivo para realizar a viagem, nem que seja numa escapadinha de fim de semana: despor- tos radicais, como o esqui e o snowboard, que outrora só se realizavam além-fron- teiras. Por tudo isto, o ponto mais alto do continente português tornou-se destino habitual dos amantes da alta montanha, que o visitam regularmente entre dezem- bro e abril, enquanto duram as névoas, os nevoeiros e os nevões. Também há quem percorra a cordi- lheira que divide o Portugal do Norte e o Portugal do Sul durante o estio, como os emigrantes, quando o sol se torna incle- mente e as vistas se ampliam até terras longínquas e se perdem na lonjura dos horizontes. Nessa altura, os turistas não procuram a estância de esqui, mas diri- gem-se principalmente aos restaurantes, para degustar as iguarias serranas, e às lojinhas tradicionais, onde se abastecem de artesanato, sobretudo de vestuário confecionado com a lã das ovelhas, de enchidos regionais e do famoso queijo amanteigado que herdou o seu nome da principal montanha portuguesa. Por estranho que pareça, no meu caso, foram outras as razões e as estações do ano que me atraíram até aos píncaros agrestes dos montes Hermínios, nome pelo qual era conhecida a serra da Estrela no tempo dos romanos. Sem querer des- curar a sua riqueza humana, histórica, cultural e gastronómica, que é ampla- mente divulgada nos roteiros turísticos, fica registado que subi, pela primeira vez, na primavera, contrariando o sentido das águas torrenciais do degelo. Na altura, eu era um intrépido cami- nheiro, que evitava os itinerários cómodos e escolhia, amiúde, os caminhos desusa- dos. in Superinteressante, n.º 194 junho de 2014 (texto adaptado) 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 PROFESSOR GrupoI TextoB Sugestãodetópicos: “BA7F3BD767EF;@36AB3D33;@87;5;- dade, desde o dia em que nasceu: «Odiaemqueeunasci»; “;@87;5;6367H;E€H77?HtD;AE835 tos pessoais: «Erros meus, má for- tuna,amorardente…»; “A67E5A@57DFA6A?G@6AB3D3AE outros e apenas justo para ele: «Os bonsvisemprepassar»; “3 ?G63@{3 @3 EG3 H;63 AB7D3 E7 somente para pior: «Mudam-se os tempos,mudam-seasvontades».
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    210 Unidade 4// LUÍS DE CAMÕES 1. Para responderes a cada um dos itens 1.1 a 1.6, seleciona a opção correta. 1.1 Através da expressão «a neve, que acabrunha os vales profundos e galanteia as cristas alterosas» (ll. 3-5), o autor pretende afirmar que (A) a neve esconde a beleza dos vales e torna mais belo o cume imponente da serra. (B) a neve enche os vales e torna mais belo o cume imponente da serra. (C) a neve esconde a beleza dos vales e torna mais belo o cume alterado da serra. (D) a neve esconde a beleza dos vales e do cume da serra. 1.2 O uso dos dois pontos na linha 12 introduz (A) uma explicação. (B) uma enumeração. (C) uma informação adicional. (D) uma conclusão. 1.3 A expressão «Por tudo isto» (l. 15) corresponde a uma síntese que exclui (A) o desejo de ver a neve, no inverno. (B) a prática de desportos arrojados. (C) as brincadeiras com a neve. (D) o desejo de saborear a comida regional e adquirir artesanato tradicional. 1.4 «Por estranho que pareça» (l. 37) é uma expressão que demonstra (A) o caráter objetivo do texto. (B) o caráter informativo do texto. (C) o caráter subjetivo do texto. (D) a estranheza da serra da Estrela. 1.5 Na frase «Na altura, eu era um intrépido caminheiro…» (ll. 49-50), o adjetivo sig- nifica que o autor era (A) alguém que apreciava fazer longas caminhadas. (B) destemido. (C) orgulhoso e queria mostrar que era um ótimo caminheiro. (D) alguém temeroso que queria enfrentar o medo. 1.6 Na frase «para ver a neve, que acabrunha os vales profundos» (ll. 3-4), o elemento destacado classifica-se como (A) uma conjunção subordinativa consecutiva. (B) um pronome relativo. (C) um pronome indefinido. (D) uma conjunção coordenativa explicativa. COTAÇÕES GrupoII 1. 30pontos 2.1 10pontos 2.2 10pontos 50pontos GrupoIII 50pontos PROFESSOR GrupoII 1.1 (B); 1.2 (B); 1.3 (D); 1.4 (C); 1.5 (B); 1.6(B). 2.1Oraçãosubordinadaadjetivarela- tivaexplicativa. 2.2 a)complementodonome; b)complementodoadjetivo; c)modificadorrestritivodonome; d)modificadorapositivodonome.
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    211 Ficha formativa 2. Respondede forma correta aos itens apresentados. 2.1 Classifica a oração «onde se abastecem de artesanato» (ll. 31-32). 2.2 Indica a função sintática dos elementos destacados nas seguintes frases: a) «A maior parte dos portugueses» (l. 1). b) «de vestuário confecionado com a lã das ovelhas» (ll. 32-33). c) «as iguarias serranas» (l. 30). d) «para ver a neve, que acabrunha os vales profundos» (ll. 3-4). Grupo III A poesia de Camões é feita de contradições. De acordo com a tua experiência de leitura, seleciona duas temáticas que são exploradas em oposição e redige uma exposição, com um mínimo de cento e vinte e um máximo de cento e cinquenta palavras, que se oriente pelo seguinte plano. Introdução: – abordagem geral das temáticas selecionadas. Desenvolvimento: – apresentação de um dos temas selecionados e respetiva exemplifi- cação (versos/títulos de poemas); – apresentação de outro dos temas selecionados e respetiva exemplifi- cação (versos/títulos de poemas). Conclusão: – importância da lírica de Camões para a nossa formação pessoal e cultural. PROFESSOR GrupoIII Sugestãodealgunstópicos: “3D7BD7E7@F3{yA63?G:7D3?363 simples–descritafísicaeobjetiva- mente e que normalmente corres- ponde ao seu amor (medida velha)/ mulher ideal, distante, petrar- quista – descrita espiritualmente, traduzindo o amor platónico (medida nova); poemas: «Descalça vai para a fonte», «Um mover d’olhos,brandoepiadoso»,«Pedeo desejo,Dama,quevosveja»; “D7º7JyA EA4D7 3 H;63 B7EEA3 A desconcerto: o sujeito poético é alguémqueencara avidaeoamor com alegria e leveza (medida velha), visão contrária à que tem na fase adulta, quando vê o mundo e o amor como lugar de incom- preensão, confusão, desconcerto (medida nova): «Erros meus, má fortuna,amorardente»,«Osbonsvi semprepassar»; “?G63@{3 A B3EE36A | F7?BA 67 felicidade, de amor vivido e corres- pondido, ao invés do presente, que é tempo de ausência de amor, soli- dão e infelicidade: «Mudam-se os tempos,mudam-seasvontades».
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    5 EDUCAÇÃO LITERÁRIA Imaginário épico tmatéria épica: feitos históricos e viagem; t sublimidade do canto; t mitificação do herói. Reflexões do poeta Linguagem, estilo e estrutura t a epopeia: natureza e estrutura da obra; t o conteúdo de cada canto; t os quatro planos: viagem, mitologia, História de Portugal e reflexões do poeta – sua interdependência; t estrofe e métrica; t recursos expressivos: anáfora, anástrofe, apóstrofe, comparação, enumeração, hipérbole, interrogação retórica, metáfora, metonímia e personificação. LEITURA Artigo de divulgação científica. Textos informativos. COMPREENSÃO DO ORAL Anúncio publicitário. Registos áudio e audiovisual. EXPRESSÃO ORAL Apreciação crítica. Exposição. Síntese. ESCRITA Exposição sobre um tema. Apreciação crítica. Síntese. GRAMÁTICA O português: génese, variação e mudança t principais etapas da formação e da evolução do português. Geografia do português no mundo t português europeu e não europeu; t principais crioulos de base portuguesa. Lexicologia t arcaísmos e neologismos.
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    LUÍS DE CAMÕES OSLUSÍADAS José de Guimarães, Naufrágio de Camões, 1983 (pormenor).
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    mensagens Gonçalo M. Tavares Desde2001, publicou livros em diferentes géneros literários. Os seus livros receberam vários prémios em Portugal e no estrangeiro. Uma viagem à Índia recebeu, entre outros, o Grande Prémio de Romance e Novela APE 2011. Os seus livros deram origem, em diferentes países, a peças de teatro, dança, peças radiofónicas, curtas-metragens e objetos de artes plásticas, dança, ópera, performances, projetos de arquitetura, teses académicas – bem como a inúmeras traduções. 214 A primeira vez que li, ou me fizeram ler Os Lusíadas, assustei-me. Em cada verso parávamos imenso tempo, tentando perceber o sentido. Mas o susto rapidamente se transformou em prazer. Em vez de ler em silêncio, comecei a ler em voz alta. E as coisas transformaram-se. Afinal aquilo não era apenas um livro – feito para os olhos – era também algo feito para os ouvidos. Não coloquei o livro na orelha como se fosse um auricular – para escutar as canções que ali estavam guardadas –, mas pouco faltou para isso. É mesmo preciso ler em voz alta, este livro não é só para os olhos. Os Lusíadas leem-se na parte, no fragmento, mas também no todo. Por vezes, podemos ler uma linha ou duas e ficar com elas no bolso, na cabeça – ou até ficar com elas sonoramente, como quem guarda um som. Se repetirmos certos versos d’Os Lusíadas repe- tiremos um conjunto de sons, de canções, que cons- tituíram o primeiro edifício da língua. O português enquanto língua comum, e altíssima, apareceu, fez-se adulta, com este livro. Há uma língua portuguesa pré- -Lusíadas e uma língua portuguesa pós-Lusíadas. E eu diria que ainda hoje, no século XXI, há uma língua portuguesa antes de lermos Os Lusíadas e uma outra depois de lermos este livro. Podemos, assim, ler Os Lusíadas como uma obra histórica de grandes aventuras em grandes superfícies – países, viagens, mar, guerras, mas também há, nesta epopeia, aquilo que há hoje em cada esquina e num ser humano de um metro e setenta, oitenta, ou sessenta (ou menos ou mais): amores feitos e seguros ou em vias de passarem a destroços, ciúmes e zangas entre amigos. Há medos enormes, sim – o enorme Adamastor –, mas há também pequenos receios, estúpidas ambições e invejas mesquinhas. É uma epopeia – é sobre um país, é sobre homens corajosos – mas também é um livro sobre as emoções que todos reconhecemos neste animal que sabe ler (o humano). Tudo, enfim, o que existe n’Os Lusíadas existe no leitor d’Os Lusíadas. Qualquer que seja a sua idade. Gonçalo M. Tavares, (Texto inédito, 2014) ´ 5 10 15 20 25 30 35 40
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    cruzadas 215 Nicolau Santos Diretor-adjunto doExpresso, coapresentador do Expresso da Meia-Noite, comentador da Antena 1. Foi diretor do Semanário Económico, do Diário Económico e do Público. Autor de Portugal vale a pena e coautor, com António Costa Silva, de três livros de poesia: Jacarandá e Mulemba, Aroma de pitangas num país que não existe e Fotografias lentas do diabo na cama. «Vai chatear o Camoes» Desconfio que a expressão «vai chatear o Camões» terá nascido depois de sucessivas turbas de alunos terem sido massacrados com a análise gra- matical dos dez cantos d’Os Lusíadas, as suas 1102 estrofes e os seus 8816 versos. Obrigados a embre- nhar-se nestas profundas questões, milhares de alunos naufragaram nos escolhos gramaticais e nunca passaram além da Taprobana. Mais que a aventura de chegar às terras de Preste João, tolhia-os o Adamastor da divisão das estrofes e da interpretação dos versos. O resultado teria sido outro se se contasse a vida do autor, homem de fortes paixões e marginais amores, conflituoso e impetuoso, que era menos bom na espada que na pena e que por isso perdeu um olho em com- bate. Obrigado a emigrar em 1553, só regressa 17 anos depois. Pobre, publica Os Lusíadas em 1572. O rei e a corte não se entusiasmam com a obra que canta os feitos valorosos das nobres gentes lusitanas e a descoberta do caminho marítimo para a Índia. O pagamento demora anos a chegar. Sophia de Mello Breyner há de lembrar o facto: «Irás ao paço. Irás pedir que a tença / seja paga na data combinada. […] Irás ao paço irás pacientemente / pois não te pedem canto mas paciência.» Camões morre sem glória nem reconhecimento em 1580. Talvez o conhecimento de tantos poemas lindíssimos de amor que escreveu despertasse o interesse de milhões de alunos para a obra maior da nossa literatura. E tal- vez ajudasse lembrar que o seu poema «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / […] Todo o Mundo é composto de mudança […]» foi genialmente apro- veitado por José Mário Branco, nome maior da nossa música, para criar um hino contra a ditadura, quando lhe acrescentou um belo remate: «E se todo o Mundo é composto de mudança / Troquemos-lhe as voltas / que inda o dia é uma criança.» Talvez se pudesse ter contado a milhares de alunos que o nome – os Magriços – com que foi batizada a seleção portuguesa de futebol, que disputou o Mundial de 1966 em Inglaterra, foi inspirado num episódio de Os Lusíadas, ou que a história de Pedro e Inês seria segu- ramente um êxito retumbante do cinema – um amor contrariado pelo pai, a insistência nesse amor pelo filho, a contratação de dois assassinos que matam Inês, a dor e a fúria de D. Pedro, que obriga toda a corte a beijar a mão da rainha morta, a punição brutal dos assassinos. Talvez ainda estejamos a tempo de recuperar Os Lusíadas como um maravilhoso livro de histórias da História de Portugal, e de tornar a sua leitura um prazer e não um pesado fardo para milhares de jovens. Que se juntem o cinema, a televisão, os professores e os pedagogos. Que se juntem os historiadores e os con- tadores de histórias, os poetas e os que amam a poesia. Que todos juntos consigamos erradicar a expressão «Vai chatear o Camões!». Nicolau Santos, (Texto inédito, 2014) 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50
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    216 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES Os Lusíadas, visão global Para responderes aos itens de 1. a 14., relembra o estudo de Os Lusíadas no 9.º ano, e sele- ciona as opções corretas. 8. A Narração da viagem da armada inicia-se quando as naus (A) dobravam o cabo das Tormentas. (B) estavam no oceano Índico. (C) estavam em Belém. (D) dobravam o cabo Bojador. 9. O plano da mitologia inicia-se, no canto I, com o (A) episódio da «Ilha dos Amores». (B) episódio do «Consílio dos Deuses». (C) episódio das «Despedidas em Belém». (D) episódio de «Inês de Castro». 10. Vasco da Gama inicia a narração da História de Portugal (A) a pedido do rei de Melinde. (B) a pedido do Adamastor. (C) quando chega a Mombaça. (D) quando chega a Moçambique. 11. No episódio do «Adamastor», Vasco da Gama (A) recorda um episódio mitológico. (B) enfrenta os medos que esta figura representa. (C) enfrenta os ventos de Baco. (D) ouve a história de Veloso. 12. A «Tempestade», no canto VI, está associada (A) a causas naturais comuns naquela área. (B) aos obstáculos causados pelo Adamastor. (C) a causas naturais e provocadas pelos deuses. (D) à interferência dos deuses Baco e Neptuno. 13. A «Ilha dos Amores» é (A) a recompensa preparada por Vénus. (B) a estratégia utilizada pelos orientais para se despedirem dos portugueses. (C) uma ilha onde os portugueses se abastecem de comida e bebida. (D) a recompensa preparada por Júpiter. 14. No epílogo, Camões (A) elogia os seus contemporâneos. (B) critica os seus contemporâneos. (C) invoca a musa Calíope para o ajudar. (D) relembra os seus tempos de juventude. 1. A obra Os Lusíadas é (A) um poema lírico. (B) uma narrativa em prosa. (C) um poema épico. (D) um conto de aventuras. 2. Quanto à estrutura externa, o poema divide-se em (A) nove cantos. (B) dez cantos. (C) oito cantos. (D) onze cantos. 3. Quanto ao número de versos por estrofe e de síla- bas métricas por verso, o poema é composto por (A) oitavas decassilábicas. (B) oitavas em redondilha maior. (C) oitavas em redondilha menor. (D) oitavas octossilábicas. 4. A estrutura interna de Os Lusíadas é composta por (A) Invocação-Narração-Dedicatória-Proposição. (B) Dedicatória-Proposição-Invocação-Narração. (C) Proposição-Invocação-Dedicatória-Narração. (D) Proposição-Invocação-Narração-Dedicatória. 5. Os quatro planos da epopeia são (A) Viagem/História de Hispânia/Mitologia/Poeta. (B) Viagem/História de Portugal/Mitologia/Poeta. (C) Viagem/História de Portugal/Mitologia/Herói. (D) Viagem/História de Portugal/Religião/Poeta. 6. Na Proposição, Camões anuncia (A) a quem a obra é dedicada. (B) que as ninfas o ajudarão. (C) que vai cantar os feitos dos deuses. (D) quem vai cantar e porquê. 7. O poema épico é dedicado a (A) D. Manuel I. (B) Vasco da Gama. (C) Vénus. (D) D. Sebastião. PROFESSOR 1.(C);2.(B);3.(A); 4.(C);5.(B);6.(D); 7.(D); 8.(B); 9.(B); 10.(A);11.(B);12.(D); 13.(A); 14.(B).
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    217 Contextualização histórico-literária 1. Aepopeia: natureza da obra Os Lusíadas é um poema épico, género narrativo que remonta, na cultura ocidental, à antiga Grécia, com Homero, e a Roma, com Virgílio. Trata-se de um género narrativo em verso, destinado a «cantar», celebrar feitos grandio- sos, reais ou fictícios, praticados por heróis fora do comum, em estilo «ele- vado»; os heróis, reais ou mais frequentemente míticos, têm normalmente representatividade coletiva, exprimindo os valores, sonhos e capacidade de realização do povo ou grupo étnico a que pertencem. É o caso de Aquiles e Ulisses, para os Gregos, ou de Eneias, para os Romanos. […] Em Portugal, como sabemos, vinha sendo sentida a necessidade de cele- brarheróisverdadeirosligadosaosDescobrimentos,tarefaquesesentiacomo superior às façanhas «fantásticas, fingidas, mentirosas» das «alheias musas». Vimo-lo, por exemplo, no Prólogo de Garcia Resende ao Cancioneiro geral de 1516; vimo-lo principalmente nos incentivos de António Ferreira, junto deoutrospoetas,nosentidodocantoépicoquecondignamentecelebrasseos novos heróis dos Descobrimentos. André de Resende cria o vocábulo «lusía- das» para designar os filhos de Luso, descendente de Baco, os Lusitanos. Como sabemos, competirá a Luís de Camões a tarefa de criar a epopeia portuguesa, feita, ao contrário das que lhe serviram de modelo, de acontecimentos verdadeiros, seguindo de perto as regras de Homero e Virgílio, entre as quais a de dever introduzir a mitologia pagã num tempo de mundividência cristã. Que regras eram essas? O poema narrativo épico deveria ter [na estrutura interna] umaparteintrodutória,comumaProposiçãoemqueseanunciavaoobjetivodocanto e uma Invocação aos deuses ou musas; a Narração da ação deveria ser feita «in medias res», isto é, a meio do seu decurso, sendo a parte anterior narrada em analepse, ou flash back ou retrospeção; era obrigatória a intervenção dos deuses, como adjuvantes ou oponentes dos heróis. Tudo em estilo grandioso, elevado – no Renascimento o verso decassilábico heroico agrupado em estrofes. O poema deveria, na sua estrutura- ção externa, constar de vários «cantos» ou partes, que deveriam ser constituídos por episódios ou sequências narrativas. E,comopoemanarrativo,qualquerpoemaépicodeveriaconteraquiloquesedesigna por categorias narrativas: narrador ou narradores, ação, personagens, espaço e tempo. Amélia Pinto Pais, História da literatura em Portugal. Uma perspetiva didática, vol. 1, Porto, Areal Editores, 2004, pp.152-153 (texto adaptado) CONSOLIDA 1. Indica quatro características gerais de um poema épico. 2. Refere os dois poetas clássicos que serviram de inspiração a Camões para escrever a sua epopeia. 3. Enumera os elementos que constituem uma epopeia. 4. Lista os constituintes da estrutura externa de um poema épico. Fac-símile da portada da edição de 1572 de Os Lusíadas. 5 10 15 20 25 30 PROFESSOR Leitura 8.1. MC Consolida 1. Texto narrativo em verso; canta feitos grandiosos (reais ou ima- ginários) de heróis; os heróis são, geralmente, míticos, representam valores, sonhos e capacidade do povo a que pertencem; estilo su- blime. 2.HomeroeVirgílio. 3. A epopeia é constituída por três partes (estrutura interna) – Proposi- ção, Invocação e Narração in medias res; apresenta obrigatoriamente o planomitológico. 4. Organizado em vários cantos e estrofes com versos decassilábicos heroicos. PowerPoint Contextualização
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    218 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES 2. Os Lusíadas: estrutura da obra No caso [da estrutura interna] de Os Lusíadas, Camões decidiu, na parte introdutória, incluir uma Dedicatória e, na Conclusão, um apelo ou invetiva. Nos dois casos tem como recetor o rei que então governava e preparava mesmo uma ação militar con- tra Marrocos, D. Sebastião, que nos apresenta, na Dedicatória, como futuro rei, predestinado a gran- des realizações no domínio da expansão da fé, e que é já rei, no final – rei a quem aconselha no sentido do bem reinar e de conduzir o seu povo, que agora se encontra em período de crise que define como de «austera, apagada e vil tristeza», a novo empreen- dimento épico, que o poeta se dispõe desde já vir a celebrar em «novo canto». Realizou o seu poema [ao nível da estrutura externa]em10Cantos,todosemoitavas,segundoo esquema rimático abababcc, no total, 1102 estrofes, numa média de 110 por canto, havendo cantos mais longos, como o III e o X, e cantos mais curtos. […] Ao nível da estrutura interna, Os Lusíadas inte- gram quatro planos, o da ação central – viagem de Vasco da Gama em busca da Índia, realizada em 1497-1498; o da ação secundária – História de Portugal, narrada por narradores participantes, Vasco da Gama, Paulo da Gama, e, em relação aos acontecimentos posteriores à viagem e anteriores a 1572, data da publicação do poema, por deuses, com relevo para uma Ninfa e para Tétis, sob a forma de profecias; o do imaginário mitológico pagão – plano dos deuses, que se arti- cula intimamente com a narração da ação central, dela sendo agentes motores, como oponentes – no caso de Baco, que funciona, de certo modo, como a voz dos povos orientais, mas também de Neptuno e outras divindades do mar; – ou como adjuvantes – Vénus, sobretudo, e Júpiter, a seu pedido; e um plano não narrativo, constituído por considerações [/reflexões] e excursos filosóficos, sociológicos, políticos, autobiográ- ficos do poeta e autonarrador Luís de Camões. Amélia Pinto Pais, op. cit., p. 153 (texto adaptado) CONSOLIDA 1. Sistematiza as ideias-chave do texto de acordo com as alíneas apresentadas. Regista essa informação sob a forma de tópicos: a) estrutura externa do poema; b) estrutura interna (especificidade da epopeia portuguesa); c) planos. José de Guimarães, Camões e D. Sebastião, 1980. 5 10 15 20 25 30 PROFESSOR Leitura 8.1; 8.2. MC Consolida Estruturaexterna: “5A@EF;FG€63BAD67L53@FAE “AD93@;L3637?7EFDA87E 7EFv@5;3E “53637EFv@5;3F7?A;FAH7DEAEA;F3- vas; “7ECG7?3D;?tF;5A34343455 Estruturainterna: (especificidade da epopeia portu- guesa) “;@FDA6G{yA67G?3676;53F†D;3A poeta dedica o seu poema ao rei D.Sebastião(cantoI). Planos: “ o ¬63H;397?@3DD3{yA63H;397? deVascodaGamaedasuaarmada paraaÍndia(açãoprincipal); “ o ¬63;EF†D;367'ADFG93@3DD3- ção de acontecimentos históricos 6A@AEEAB3€E3@F7D;AD7E3 “ o ¬63?;FAA9;3;@F7DH7@{yA63 mitologiapagã; “ o – das reflexões do poeta (não @3DD3F;HA5A@E;67D3{Š7EB7EEA3;E dopoeta(normalmenteemfinalde canto e sobre o assunto abordado nessemesmocanto).
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    219 Contextualização histórico-literária Visão global– o conteúdo de cada canto Estâncias Sinopse Planos Narrador Canto I 1 – 3* Proposição: o poeta indica a matéria que se propõe cantar. Poeta 4 – 5* Invocação: o poeta invoca as ninfas do Tejo, as Tágides, e pede-lhes inspiração. 6 – 18* Dedicatória: o poema é dedicado ao rei da época, D. Sebastião. 19 Início da Narração: a armada portuguesa de Vasco da Gama encontra-se já no oceano Índico (narração in medias res). Viagem 20 – 41 Consílio dos deuses no Olimpo. Mitológico 42 – 99 Chegada da armada a Moçambique, onde Baco prepara uma cilada aos portugueses, à qual eles conseguem escapar. Viagem e Mitológico 100 – 102 Partida para Quíloa, onde nova emboscada é preparada, mas Vénus intervém. 103 – 104 Aportagem em Mombaça, onde se prepara nova cilada aos portugueses. 105–106* Reflexões do poeta sobre a condição humana. Poeta Canto II 1 – 9 O rei de Mombaça, instruído por Baco, convida os portugueses a visitarem-no. Vasco da Gama envia dois emissários a terra para recolherem informação. Viagem Poeta 10 – 13 Baco, disfarçado de sacerdote cristão, fornece informações erradas aos dois emissários. Mitológico 14 – 18 Tendo ouvido as falsas informações, Vasco da Gama decide entrar no porto de Mombaça, onde se prepara nova emboscada. Viagem 19 – 24 Vénus e as Nereidas impedem a nau do capitão de entrar no porto. Mitológico 25 – 30 Um piloto, cedido pelo rei de Moçambique, e os mouros de Mombaça fogem com medo de terem sido descobertos. Viagem 31 – 32 O capitão da armada apercebe-se da situação e implora a Deus que o ajude. 33 – 63 Vénus, no Olimpo, queixa-se da ação de Baco e pede a intervenção de Júpiter, que acede e profetiza triunfos futuros dos lusos. Mercúrio é enviado para preparar uma boa receção em Melinde e dar a conhecer a Vasco da Gama através de sonhos, o caminho a seguir. Mitológico Poeta e Júpiter 64 – 71 A expedição parte de Mombaça, retomando a viagem. Viagem Poeta 72 – 113 Os portugueses são bem acolhidos em Melinde, onde o rei pede ao capitão que lhe conte a História de Portugal e da sua viagem até ali. Canto III 1 – 2 Nova invocação (a Calíope). Poeta 3 – 5 Início da narração da História de Portugal. História de Portugal Vasco da Gama 6 – 21 A geografia da Europa e de Portugal. 22 – 100 Referência a Luso, Viriato, ao conde D. Henrique e depois, mais demoradamente, aos reis de Portugal, de D. Afonso Henriques a D. Afonso IV. 101 – 106 Episódio da Fermosíssima Maria (filha de Afonso IV). 107 – 118 Batalha do Salado (Afonso IV). 119 – 135 Episódio de Inês de Castro. 136 – 137 Reinado de D. Pedro I. 138 – 139 Reinado de D. Fernando I. 140 – 143 Reflexões sobre o amor. Poeta * Nota: As estâncias assinaladas com asterisco (*) serão alvo de estudo nas aulas.
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    220 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES Estâncias Sinopse Planos de narrativa Narrador Canto IV 1 – 27 Crise de 1383-1385 e parte do reinado de D. João I. História de Portugal Vasco da Gama 28 – 45 Episódio da Batalha de Aljubarrota. 46 – 82 Última parte do reinado de D. João I e reinados de D. Duarte, D. Afonso V, D. João II e parte do reinado de D. Manuel I. 83 – 93 Referência à preparação da viagem e às despedidas em Belém. 94 – 104 Episódio do Velho do Restelo. Canto V 1 – 3 Narração da viagem (partida de Lisboa). Viagem Vasco da Gama 4 – 36 Narração da viagem até ao cabo da Tormentas. 37 – 60 Episódio do Adamastor. Mitológico Vasco da Gama e Adamastor 61 – 85 Narração da viagem até Melinde. Viagem Vasco da Gama 86 – 89 Elogio da coragem dos portugueses, por parte do rei de Melinde, e conclusão da narração da viagem. 90 – 100 (92–100*) Reflexões sobre o desprezo dos seus contemporâneos pela cultura, especialmente pela poesia. Poeta Poeta Canto VI 1 – 5 Despedidas em Melinde e partida para a Índia. Viagem Poeta 6 – 37 Consílio dos deuses marinhos. Mitológico 38 – 69 Continuação da viagem. Episódio dos «Doze de Inglaterra» (contado por um marinheiro, Veloso). Viagem e História de Portugal Poeta e marinheiro 70 – 84 Tempestade e nova súplica de Gama a Deus. Viagem Poeta 85 – 91 Intervenção de Vénus e das ninfas. Mitológico 92 – 94 Chegada à Índia e agradecimento a Deus. Viagem 95 – 99 Meditação sobre o verdadeiro valor da Glória. Poeta Canto VII 1 Chegada ao porto de Calecute. Viagem Poeta 2 – 15 Elogio do espírito de cruzada dos portugueses; crítica a outros europeus por não seguirem o exemplo. Poeta 16 – 22 Entrada em Calecute e descrição do que encontram. Viagem 23 – 27 Primeiro contacto com os nativos. 28 – 41 Visita do mouro Monçaide e descrição do Malabar. 42 – 66 Desembarque do capitão e dos nobres. Receção pelo Catual que os conduz ao Samorim. Conversa com o capitão da armada. 67 – 72 O Catual recebe informações sobre os lusos através de Monçaide. 73 – 77 Visita do Catual à armada portuguesa a pedido de Paulo da Gama para que lhe explique o significado das figuras das bandeiras das naus. 78 – 87* Nova invocação às ninfas do Tejo e do Mondego e queixa sobre os infortúnios de Camões. Poeta
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    221 Contextualização histórico-literária Estâncias SinopsePlanos de narrativa Narrador Canto VIII 1 – 43 Explicação do significado das figuras das bandeiras ao Catual. História de Portugal Paulo da Gama 44 – 46 Regresso do Catual a terra. Viagem Poeta 47 – 50 Nova intervenção de Baco, incitando, em sonhos, um sacerdote maometano contra os portugueses. Mitológico 51 – 95 Revolta contra os portugueses em Calecute. Determinação de que Vasco da Gama regresse às naus por parte do Samorim. Contudo, o Catual retém-no. Só regressa após pagamento de fazendas. Viagem 96 – 99* Considerações sobre o valor do dinheiro. Poeta Canto IX 1 – 17 Prisão de dois portugueses em terra de modo a esperar por reforços vindos de Meca para destruírem os lusos. Prisão de mercadores nativos nas naus portuguesas. Por ordem do Samorim, os portugueses são libertados, o que também acontece aos nativos. Início da viagem de regresso à pátria. Viagem Poeta 18 – 51 Decisão de Vénus de premiar os portugueses e preparação da Ilha dos Amores. Mitológico 52 – 53* Condução da Ilha ao encontro dos marinheiros. Viagem/Mitológico 54 – 65 Descrição da Ilha e desembarque dos portugueses. 66 – 70* Desembarque dos marinheiros e perseguição às ninfas. 71 – 87 Continuação da perseguição e episódio de Leonardo e a ninfa Efire. 88 – 95* Revelação do simbolismo da Ilha dos Amores. Conselhos sobre os que procuram a Fama e a Imortalidade. Poeta Canto X 1 – 7 Oferta de um banquete aos nautas pelas ninfas. Mitológico Poeta 8 – 9 Nova invocação de Camões a Calíope. Poeta 10 – 74 Profecia do futuro auspicioso dos portugueses no Oriente pela ninfa Sirena. Mitológico/História de Portugal Poeta e Sirena 75 – 91* Tétis dá a conhecer a Máquina do Mundo a Vasco da Gama. Mitológico Poeta 92 – 142 Profecias de Tétis sobre outras conquistas portuguesas. Mitológico/História de Portugal Poeta e Tétis 143 – 144 Viagem de regresso e chegada a Portugal. Viagem Poeta 145 –156 Lamentações do Poeta e exortações ao rei D. Sebastião. Poeta Vasco da Gama (1469-1524) – navegador português, nas- cido em Sines. D. Manuel I confia-lhe o comando da 1.ª armada da viagem marítima para a Índia. O monarca recompensa-o por esta gloriosa conquista, nomeando-o almirante-mor das Índias. Vasco da Gama regressa mais duas vezes à Índia, da qual foi governador e segundo vice-rei.
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    222 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES PONTO DE PARTIDA 1. Ouve o hino nacional, A Portuguesa. 1.1 Identifica os dois ciclos da História de Portugal, o apelo lançado à nação e a palavra sinónima de «ilustres». EDUCAÇÃO LITERÁRIA Proposição Constituição da matéria épica 1 As armas e os Barões1 assinalados Que da Ocidental praia Lusitana2 Por mares nunca de antes navegados Passaram ainda além da Taprobana3 , Em perigos e guerras esforçados Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino4 , que tanto sublimaram; 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas5 De África e de Ásia andaram devastando6 , E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte7 libertando, Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte8 . 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano9 As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano10 A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano11 , A quem Neptuno e Marte12 obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga13 canta, Que outro valor mais alto se alevanta. Luís de Camões, Os Lusíadas, prefácio de Costa Pimpão, 4.ª edição, Lisboa, MNE, Instituto Camões, 2000, p. 1 1 Barões: homens ilustres e esforçados. 2 Ocidental praia Lusitana: Portugal. 3 Taprobana: ilha de Ceilão, atual Sri Lanka. 4 Novo Reino: império português na Ásia. 5 Terras viciosas: terras não cristãs. 6 Devastando: destruindo. 7 Lei da Morte: esquecimento. 8 Engenho e arte: talento e habilidade. 9 Sábio Grego e do Troiano: Ulisses, cujo longo e aventuroso regresso a Ítaca faz o assunto da Odisseia, de Homero; Eneias, cujas navega- ções foram cantadas por Virgílio na Eneida. 10 Alexandro e de Trajano: Alexandre Magno, rei da Macedónia, que derro- tou Dário e chegou ao oceano Índico; Trajano, imperador romano que criou uma província de Arábia. 11 Peito ilustre Lusitano: o valor, a cora- gem dos portugueses. 12 Neptuno e Marte: deuses do mar e da guerra, na mitologia romana. 13 Musa antiga: a poesia dos gregos e dos romanos. Júlio Pomar, Camões, 1990. CD 1 Faixa n.o 36 PROFESSOR %+i* 1. As notas que acompanham cada excerto da obra seguem a edição referenciada, mas foram simplifica- 63E7 AG5A?B7?7@F363EE7?BD7 queconsideradoimportante. 2.Estetextonãoseencontragrafado ao abrigo do Acordo Ortográfico de 3FG3?7@F77?H;9AD i¹J3{yA dotextofoifeitaapartirdaediçãode Os Lusíadas, prefácio de Costa Pim- pão(ediçãocitada). Oralidade 1.4; 2.1. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.6; 14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 16.1. Gramática 18.1; 18.2; 18.4; 18.5. MC PontodePartida 1.1Ciclosdaterraedomar;«levantai hoje de novo o esplendor de Portu- gal»;«egrégios». EducaçãoLiterária 1.1 a) «Por mares nunca de antes @3H7936AE '3EE3D3? 3;@63 3|? da Taprobana¥ 7EF HH b) «Em perigos e guerras esforça- 6AE¥7EF H c) «E entre gente D7?AF376;¹53D3? %AHA)7;@ACG7 tanto sublimaram¥ 7EF HH d) «3CG77E )7;E CG7 8AD3? 6;3- F3@6A 3|A ?B|D;A73EF7DD3E H;5;AE3E 7Ã8D;53767ÃE;33@63- ram devastando¥ 7EF HH e)«Eaquelesqueporobrasvalerosas *7HyA637;63$ADF7;47DF3@6A» 7EF HH 1.2 Na segunda parte, através do uso do modo conjuntivo do verbo «cessar» («Cessem»; «Cesse») com valor do imperativo, Camões pede queesqueçamososfeitosdosheróis da Antiguidade Clássica, marítimos («sábio Grego e do Troiano») e guer- reiros («Alexandro e de Trajano»), os quais eram louvados na poesia greco-romana, pois a heroicidade do povo português que ele vai louvar é superior.
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    223 Os Lusíadas: CantoI, Proposição 1. Quanto à organização interna, é possível dividir o texto em duas partes distintas. 1.1 Na primeira parte (ests. 1 e 2), o poeta apresenta o objetivo do seu canto e enumera os portugueses que são dignos de serem louvados na sua obra. Completa a tabela, transcrevendo os versos que ilustram as seguintes afirmações. Dar a conhecer a todo o universo a heroicidade do povo português: a) Heróis dignos de louvor Atos heroicos realizados Versos ilustrativos do heroísmo Guerreiros e outros homens ilustres t Exploraram o mundo desconhecido, enfrentando mares nunca antes navegados. t Enfrentaram perigos e duras guerras. t Construíram um novo império no Oriente. a) b) c) Reis t Espalharam a fé católica entre os não crentes e alargaram o império português. d) Outros heróis do passado, presente e futuro t Homens ilustres que se imortalizaram pelos seus feitos. e) 1.2 Indica, agora, o assunto da segunda parte (est. 3). 2. Relaciona o sentido do verso «A quem Neptuno e Marte obedeceram» (est. 3, v. 6) com a heroicidade do povo luso. 3. Mostra, com elementos textuais, que os quatro planos estão presentes nestas estâncias. 4. Transcreve do texto um exemplo de cada um dos seguintes recursos expressivos: anás- trofe, hipérbole e metonímia. 4.1 Explicita o valor de cada um dos recursos. 5. Explica de que forma o assunto da Proposição contribui para o engrandecimento do herói coletivo. GRAMÁTICA 1. Atenta nas seguintes alíneas. Identifica a que apresenta um complemento do nome. a) «As armas e os Barões assinalados» (est. 1, v. 1). b) «Que da Ocidental praia Lusitana» (est. 1, v. 2). c) «E também as memórias gloriosas / Daqueles Reis» (est. 2, vv. 1-2). d) «Se vão da lei da Morte libertando» (est. 1, v. 6). e) «Cessem do sábio Grego e do Troiano» (est. 3, v. 1). f) «As navegações grandes que fizeram» (est. 3, v. 2). 2. Divide e classifica as seguintes orações. a) «Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta.» (est. 3, vv. 7-8) Coordenação e suberdinação pp. 327-328 SIGA Funções sintáticas pp. 324-325 SIGA PROFESSOR 2. Camões supervaloriza a heroici- dade dos lusos, colocando-os num patamar superior ao dos deuses – tanto no mar (Neptuno) como na 9G7DD3$3DF7 3. Viagem e História de Portugal «Por mares nunca de antes navega- 6AE '3EE3D3?3;@633|?63+3BDA- bana¥ 7EF HH História de Portugal:«)7;ECG78AD3?6;3F3@6A i|A ?B|D;A73EF7DD3EH;5;AE3E» 7EF HH Mitologia: «A quem %7BFG@A7$3DF7A476757D3?» (est. H Reflexões do poeta: «Can- tando espalharei¥7EF H 7¤Que eucanto¥7EF H 4. 4.1 Anástrofe¤Em perigos e guerras esforçados¥7EF H¬67EF353AE obstáculosultrapassadospeloslusos, colocando-osnoiníciodeverso; hipérbole ¤$3;E 6A CG7 BDA?7F;3 a força humana¥7EF H ¬EG4;- nha a grandeza do povo português, suplantandoasuanaturezahumana; «espalharei por toda a parte¥7EF H ¬67EF3533HA@F3676ABA7F3 em dar a conhecer a todo o mundo a grandeza dos feitos dos portugue- ses; metonímia ¤FG6A A CG7 3 $GE3 antiga canta¥ 7EF H ¬ $GE3 Antiga refere-se à poesia épica da Antiguidade, cujos heróis cantados sãodevalorinferioraodoslusos. 5. A mitificação do povo luso está presente através da valorização da- queles que pelo seu heroísmo digni- ficaram a pátria. Os lusos, que, pela sua condição humana, são frágeis e mortais, superaram a força dos deuses e tornaram-se igualmente imortais (não serão esquecidos pelo seuheroísmo). Gramática 1.c); 2. Oração subordinante e oração subordinadaadverbialcausal.
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    224 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES FICHA INFORMATIVA N.O 1 Imaginário épico I Matéria épica: feitos históricos e viagem Os portugueses – ainda antes de Camões – sentiam-se verdadeiramente ufanos1 da descoberta de tudo o que não era Europa […] e colocavam as façanhas dos desco- bridores e conquistadores acima de tudo o que fora feito pelo mundo greco-romano. […] [Os Descobrimentos são, assim, o assunto grandioso da epopeia camoniana, de interesse nacional e universal, centrando-se na descoberta do caminho marítimo para a Índia, plena de obstáculos, alguns executados por Baco, mas os quais os lusos con- seguem ultrapassar, como a tempestade, a doença (o escorbuto), a traição dos mouros em Mombaça e os perigos do mar (Adamastor). Cronologicamente, as etapas desta viagem foram as seguintes: de Lisboa ao sul de África (canto V), do sul de África a Melinde (cantos I e II), de Melinde a Calecute (canto VI), de Calecute à Ilha dos Amores (canto IX) e da Ilha dos Amores a Lisboa (canto X).] O eixo do poema é evidentemente a viagem do Gama, mas Os Lusíadas não são a viagem do Gama. Os Lusíadas são todos os reis, todos os seus heróis, todos os seus gloriosos barões. Ora o Gama, na sua notícia ao rei de Melinde, só poderia dar conta dos que enobreceram a nação até aquele momento em que fazia a sua exposição ao rei de Melinde, começando naturalmente pelos reis e pelos que estiveram mais próximos dos reis. Foi uma narrativa poetizada da história antiga de Portugal, a começar em Luso e a acabar em 1497, com D. Manuel! Ficariam esquecidos muitos «barões». Tal como Virgílio, Camões aproveitará os rogos de Vénus a Júpiter, a favor do seu Eneias, para que o pai dos deuses possa predizer alguns feitos heroicos […]; virá depois o Adamastor, também dotado de terrífico dom profético e que anunciará ao Gama e seus companheiros a morte de Bartolomeu Dias (1500), de D. Francisco de Almeida (1510) e o naufrágio de Manuel de Sousa Sepúlveda (1552). Em Calecute, o Catual ouvirá de Paulo da Gama as explicações acerca das figuras que estão pintadas nas ban- deiras das naus. Aqui não se trata de predições; e é curioso acentuar que, começando nos fabulosos Luso e Ulisses, como antepassados dos portugueses, se estenderá até os condes D. Pedro e D. Duarte de Meneses, fronteiros de Ceuta, ficando incluídas na descrição uma série de figuras medievais. Mais tarde, uma ninfa vai vaticinar os feitos futuros dos portugueses, particularmente dos heróis e governadores da Índia (até D. João de Castro e seus filhos). Com a descrição do orbe terrestre, especialmente as terras de África e da Ásia que os portugueses virão a possuir, ficam nomeados todos os grandes ilustres e os lugares que foram teatro de seus feitos. São estes Os Lusíadas. […] Camões quer que os portugueses se tornem divinos não só pela fortaleza de ânimo, mas pelo exercício das mais altas virtudes. Não só pela coragem física, diante do ini- migo, […] mas pela «lealdade firme e obediência» para com o rei. […] Por esta via tomarão lugar no Olimpo estelante, empalidecendo o fulgor de [todos os deuses]. Os Lusíadas estão destinados a substituir a fama dos Antigos, porque as suas proezas os excedem. O culto da Antiguidade não cega o poeta ao ponto de lhes sotopor2 os feitos dos portugueses como pedestal dos heróis mediterrâneos. Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Os Lusíadas de Luís de Camões, 4.ª edição, Lisboa, MNE, Instituto Camões, 2000, pp. XIV, XV, XVI (texto adaptado) 1 Ufanos: orgulhosos. 2 Sotopor: rebaixar. 5 10 15 20 25 30 35 4.ª armada de 1502, do Livro de Lisuarte de Abreu, 1563 (pormenores).
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    225 Ficha informativa CONSOLIDA 1. Pararesponderes a cada um dos itens de 1.1 a 1.6, seleciona a opção que permite obter afirmações corretas. 1.1 Antes do século XVI e do aparecimento de Os Lusíadas, já os portugueses valoriza- vam qualquer descoberta feita (A) no continente europeu. (B) fora das fronteiras da Europa. (C) dentro e fora do continente europeu. (D) dentro da Europa e no Oriente. 1.2 Os portugueses consideravam que os seus grandes feitos eram (A) equivalentes aos da Antiguidade. (B) superiores aos da Antiguidade. (C) diferentes dos da Antiguidade, mas igualmente importantes. (D) inferiores aos da Antiguidade. 1.3 Dada a importância conferida aos Descobrimentos, o assunto de Os Lusíadas é a descoberta (A) da Índia, de interesse nacional e universal. (B) do caminho marítimo para a Índia, de interesse nacional. (C) da Índia, de interesse nacional. (D) do caminho marítimo para a Índia, de interesse nacional e universal. 1.4 O título da epopeia camoniana remete para a valorização feita por Gama, ao rei de Melinde, de todos os (A) portugueses que foram protagonistas da viagem marítima para a Índia. (B) reis, os heróis e quase todos os «barões» da História de Portugal, até 1497. (C) reis, os heróis e todos os «barões» da História de Portugal, até 1497. (D) portugueses que contaram a História de Portugal ao rei de Melinde, em 1497. 1.5 Cronologicamente, Os Lusíadas são também os heróis (A) ascendentes dos portugueses, os medievais e todos os posteriores a 1497. (B) descendentes dos portugueses, os medievais e todos os posteriores a 1497. (C) medievais, os ascendentes dos portugueses e todos os posteriores a 1497. (D) posteriores a 1497, os medievais e os ascendentes. 1.6 Júpiter, o Adamastor e uma ninfa profetizam (A) vários atos heroicos e desventuras dos portugueses. (B) o naufrágio de Manuel de Sousa Sepúlveda. (C) a chegada de Vasco da Gama à Índia. (D) a História antiga de Portugal. 2. Completa a seguinte frase: O objetivo de Camões é mostrar que os lusos são a) aos heróis greco-lati- nos e aos próprios b) , divinizando-os. PROFESSOR Leitura 7.1; 8.1. Educação Literária 14.3; 14.11; 15.1; 15.2. MC Consolida 1.1(B); 1.2 (B); 1.3(D); 1.4(C); 1.5(A); 1.6(A); 2. a)«superiores»; b)«deuses». PowerPoint Ficha informativa n.o 1
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    226 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES PONTO DE PARTIDA 1. Antes de leres o excerto em que o poeta se dirige às ninfas do Tejo, as suas musas ins- piradoras, partilha com os teus colegas o teu conceito de musa inspiradora. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Invocação Constituição da matéria épica 4 E vós, Tágides1 minhas, pois criado Tendes em mi um novo engenho2 ardente, Se sempre em verso humilde3 celebrado Foi de mi vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado4 , Um estilo grandíloco5 e corrente6 , Por que de vossas águas Febo7 ordene Que não tenham enveja às de Hipocrene8 . 5 Dai-me ùa fúria grande e sonorosa9 , E não de agreste avena ou frauta ruda10 , Mas de tuba canora e belicosa11 , Que o peito acende e a cor ao gesto muda12 ; Dai-me igual canto13 aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço14 cabe em verso. Luís de Camões, op. cit., p. 2 1. Atenta nas estâncias 4 e 5. Identifica o emissor e o recetor nelas presentes. 2. O poeta refere-se à poesia lírica e à poesia épica cuja caracterização se baseia em dois estilos diferentes. 2.1 Transcreve os elementos textuais que caracterizam cada uma delas. 2.2 Identifica o que mais se adequa à matéria que se propõe cantar. 3. Sintetiza o pedido que o poeta dirige às Tágides. 4. Explica o uso repetido do imperativo «Dai-me». GRAMÁTICA 1. Atenta nas afirmações seguintes. Identifica duas falsas e corrige-as. a) O primeiro verso da estância 4 não contém um vocativo. b) O vocábulo «sempre» (est. 4, v. 3) é um modificador. c) No predicado «cabe em verso» (est. 5, v. 8) está presente um modificador. Columbano, Camões invocando as Tágides, 1894. 1 Tágides: «ninfas» do Tejo. 2 Engenho: talento. 3 Verso humilde: poesia lírica. 4 Som alto e sublimado: uma voz que atinja o sublime. 5 Estilo grandíloco: um estilo elevado. 6 Corrente: impetuoso (imparável como uma corrente). 7 Febo: Apolo, deus da Poesia e da música. 8 Hipocrene: fonte grega, cuja água inspirava os poetas. 9 v. 1 (est. 5): dai-me um entusiasmo criador. 10 Agreste avena ou frauta ruda: estilo humilde e simples. 11 Tuba canora e belicosa: trombeta militar romana. 12 Peito: valor, coragem; gesto: feições. 13 Dai-me igual canto: à altura de. 14 Preço: valor. Funções sintáticas pp. 324-325 SIGA Imaginário épico II p. 227 FI PROFESSOR Oralidade 4.1; 4.2; 5.1; 5.3. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.7; 14.11; 15.1; 15.2; 16.1. Gramática 18.1. MC PontodePartida 1.)7EBAEF3B7EEA3 EducaçãoLiterária 1.OemissoréCamõeseorecetorsão asninfasdorioTejo,asTágides. 2.1EF;A@AHA¤engenho ardente» 7EF H ¤som alto e sublimado» 7EF H ¤estilo grandíloco e cor- rente¥7EF H ¤ũa fúria grande e sonorosa¥ 7EF H ¤de tuba canoraebelicosa¥7EF H 'A7E;3€D;53¤verso humilde¥7EF H ¤agreste avena ou frauta ruda» 7EF H 2.2Poesiaépica. 3. O poeta, apenas habituado a escreverpoesialírica(maissimplese fácil), solicita auxílio às Tágides para conseguir adotar um estilo gran- dioso e sublime, próprio de uma epo- peia, de forma a conseguir glorificar adequadamente os feitos heroicos dos portugueses e a emocionar os leitores («Que o peito acende e a cor aogestomuda¥7EF H 4. O imperativo sugere a urgência que o poeta sente de uma inspiração sobrenatural para melhor expressar asuamensagem. Gramática 1. a)¤Tágidesminhas»évocativo; c)5A?B7?7@FAA4€CGA
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    227 Ficha informativa Imaginário épicoII 1. Sublimidade do canto É bem conhecido o passo em que Camões, na Invocação d’Os Lusíadas, pede às Tágides que lhe concedam um novo estilo, diferente do verso humilde com que até então o poeta celebrara o rio Tejo, um estilo adequado ao nível sublime, grandioso, do género épico. […] Nestes versos define Camões o que entende por um estilo adequado à épica: este género poético pressupõe um novo engenho ardente, isto é, um «entusiasmo» poético, ùa fúria cheia de vigor e sublimidade nos antípodas de outros géneros poéticos prati- cados pelo poeta, implica um nível estilístico «sublime», como Camões bem acentua: um som alto e sublimado à altura da matéria que vai cantar, se tão sublime preço cabe em verso. […] Só um estilo situado a este nível pode de facto obter o efeito que o poeta pretende para o seu canto épico: «acender o peito e mudar a cor ao gesto». J. A. Segurado e Campos, O estilo corrente de Camões», in Hvmanitas, vol. XLV, 1993, pp. 307-312 (texto adaptado) 2. Linguagem, estilo e estrutura Uma epopeia segundo o modelo clássico: […] contém uma série de requisi- tos que lhe condicionam a estrutura, o estilo e a própria conceção. Desde a aber- tura do poema, com a proposição, a invocação às musas, e a dedicatória ao rei; até ao começo da narrativa in medias res e não no início da ação; passando pela obrigatoriedade do uso da mitologia; pelo recurso às profecias anunciadoras do futuro; por uma certa variedade estilística que determina que o tom épico seja uma vez ou outra temperado com episódios líricos ou bucólicos […]. Não se trata só da grandiloquência própria de um tema glorioso, nem apenas do tom inflamado, capaz de emocionar e persuadir. Trata-se também de um estilo culto, erudito, vazado numa língua que se engalana com latinismos, termos raros, onde abundam as perífrases mitológicas (como nos últimos versos da estância 4), as alusões à história antiga; um estilo que implica a familiaridade com toda a cultura clássica: as suas lendas, os seus heróis, os seus episódios e as figuras mais destacadas, os seus valo- res e os seus lugares-comuns. Todo este arsenal é como que um vocabulário com que o poeta épico trabalha […] [que] não pode deixar de ser compreendido em função do clima mental do classicismo. Maria Vitalina Leal de Matos, Introdução à poesia de Luís de Camões, 3.ª edição, Biblioteca Breve, vol. 50, Lisboa, ICLP, 1992, pp. 16-18, disponível em http://www.uc.pt/fluc/eclassicos/publicacoes/ficheiros/humanitas45/16_Segurado_Campos.pdf, consultado em outubro de 2014 CONSOLIDA 1. Considerando os textos que acabaste de ler, recolhe as seguintes informações: a) objetivo do poeta ao adotar um «som alto e sublimado» (est. 4, v. 5) e um «estilo gran- díloco e corrente» (est. 4, v. 6); b) aspetos da estrutura de Os Lusíadas, determinados pelo seu género; c) características da linguagem e do estilo «culto». FICHA INFORMATIVA N.O 2 Gravura na edição de Obras do grande Luís de Camões, com a sua vida escrita por Manoel de Faria Severim, 1720. 5 10 5 10 15 PROFESSOR Leitura 7.1.; 8.1. MC Consolida 1. a) estar à altura da matéria que vai cantar;emocionarepersuadir; b) Proposição, Invocação e Narração (aDedicatóriaerafacultativa);alego- riadosdeusesesuasintrigas; c) latinismos e vocábulos raros, bem comoreferênciasàculturaclássica. PowerPoint Ficha informativa n.o 2
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    228 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES EDUCAÇÃO LITERÁRIA Dedicatória Constituição da matéria épica 11 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas, Fantásticas, fingidas, mentirosas, Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, de engrandecer-se desejosas: As verdadeiras vossas são tamanhas Que excedem as sonhadas, fabulosas, Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro E Orlando13 , inda que fora verdadeiro. 12 Por estes vos darei um Nuno fero14 , Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço, Um Egas e um Dom Fuas15 , que de Homero A cítara par’ eles só cobiço; Pois polos Doze Pares16 dar-vos quero Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço; Dou-vos também aquele ilustre Gama, Que para si de Eneias toma a fama. 13 Pois se a troco de Carlos17 , Rei de França, Ou de César18 , quereis igual memória, Vede o primeiro Afonso, cuja lança Escura faz qualquer estranha glória; E aquele19 que a seu Reino a segurança Deixou, com a grande e próspera vitória; Outro Joane20 , invicto cavaleiro; O quarto e quinto Afonsos e o terceiro. 14 Nem deixarão meus versos esquecidos Aqueles que nos Reinos lá da Aurora Se fizeram por armas tão subidos, Vossa bandeira sempre vencedora: Um Pacheco fortíssimo21 e os temidos Almeidas22 , por quem sempre o Tejo chora, Albuquerque23 terríbil, Castro forte24 , E outros em quem poder não teve a morte. 6 E vós, ó bem nascida segurança Da Lusitana antiga liberdade, E não menos certíssima esperança De aumento da pequena Cristandade; Vós, ó novo temor da Maura lança1 , Maravilha fatal da nossa idade2 , DadaaomundoporDeus,quetodoomande, Pera do mundo a Deus dar parte grande; 7 Vós, tenro3 e novo ramo florecente De ùa árvore, de Cristo4 mais amada Que nenhua nascida no Ocidente, Cesárea ou Cristianíssima chamada5 (Vede-o no vosso escudo, que presente Vos amostra a vitória já passada6 , Na qual vos deu por armas e deixou As que Ele pera si na Cruz tomou); 8 Vós, poderoso Rei, cujo alto Império O Sol, logo em nascendo, vê primeiro, Vê-o também no meio do Hemisfério, E quando dece o deixa derradeiro; Vós, que esperamos7 jugo e vitupério Do torpe Ismaelita8 cavaleiro, Do Turco Oriental e do Gentio Que inda bebe o licor do santo Rio9 : 9 Inclinai por um pouco a majestade Que nesse tenro gesto vos contemplo, Que já se mostra qual na inteira idade10 , Quando subindo ireis ao eterno templo; Os olhos da real benignidade Ponde no chão: vereis um novo exemplo De amor dos pátrios feitos valerosos, Em versos divulgado numerosos11 . 10 Vereis amor da pátria, não movido De prémio vil, mas alto e quási eterno; Que não é prémio vil ser conhecido Por um pregão do ninho meu paterno. Ouvi: vereis o nome engrandecido Daqueles de quem sois senhor superno12 , E julgareis qual é mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de tal gente. Costa Pinheiro, D. Sebastião, 1966 (pormenor). 1 Maura lança: exércitos mouros. 2 Maravilha fatal da nossa idade: prodígio fixado pelo destino. 3 Tenro: jovem. 4 Novo ramo florecente / De ùa árvore, de Cristo: dinastia dos reis portugueses (cristãos). 5 Cesárea ou Cristianíssima cha- mada: dos imperadores alemães e dos reis franceses. 6 Vitória já passada: vitória na Bata- lha de Ourique, quando D. Afonso Henriques viu as cinco chagas de Cristo, representadas pelos cinco escudos na bandeira nacional. 7 Que esperamos: que sejais. 8 Torpe Ismaelita: árabes. 9 Santo Rio: a água do rio Ganges, rio sagrado da Índia. 10 Inteira idade: na força da vida. 11 Versos divulgado numerosos: versos ritmados, cadenciados. 12 Superno: superior. 13 Rodamonte, Rugeiro / E Orlando: personagens do Orlando Furioso, de Ariosto. 14 Nuno fero: D. Nuno Álvares Pereira. 15 Egas e um Dom Fuas: Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques; D. Fuas Roupinho, figura meio lendária do século XII que derro- tou os mouros várias vezes, até ser por eles vencido. 16 Doze Pares: doze personagens da Chanson de Roland. 17 Carlos: Carlos Magno. 18 César: Júlio César, conquistador das Gálias. 19 Aquele: D. João I, vencedor de Aljubarrota. 20 Joane: D. João II. 21 Pacheco fortíssimo: Duarte Pacheco Pereira. 22 Temidos / Almeidas: D. Francisco de Almeida e seu filho. 23 Albuquerque: Afonso de Albuquer- que. 24 Castro forte: D. João de Castro. PROFESSOR Educação literária 14.2; 14.6; 14.7a; 14.11; 15.1; 15.2; 16.1. Gramática 18.1; 19.1; 19.2; 19.4; 19.5. Escrita 10.2 c; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 12.5; 13.1. MC
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    229 Os Lusíadas: CantoI, Dedicatória 17 Em vós se vêm, da Olímpica27 morada, Dos dous avós28 as almas cá famosas; ùa, na paz angélica dourada, Outra, pelas batalhas sanguinosas. Em vós esperam ver-se renovada Sua memória e obras valerosas; E lá vos têm lugar, no fim da idade29 , No templo da suprema Eternidade. 18 Mas, enquanto este tempo passa lento De regerdes os povos, que o desejam, Dai vós favor ao novo atrevimento30 , Pera que estes meus versos vossos sejam, E vereis ir cortando o salso argento31 Os vossos Argonautas32 , por que vejam Que são vistos de vós no mar irado, E costumai-vos já a ser invocado. Luís de Camões, op. cit., pp. 2-5 15 E,enquantoeuestescanto–eavósnãoposso, Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –, Tomai as rédeas vós do Reino vosso: Dareis matéria a nunca ouvido canto. Comecem a sentir o peso grosso (Que polo mundo todo faça espanto) De exércitos e feitos singulares, De África as terras e do Oriente os mares. 16 Em vós os olhos tem o Mouro frio25 , Em quem vê seu exício afigurado; Só com vos ver, o bárbaro Gentio Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Tétis todo o cerúleo senhorio26 Tem pera vós por dote aparelhado, Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro, Deseja de comprar-vos pera genro. 25 Mouro frio: frio (de medo) por ver afigurado em D. Sebastião a sua ruína. 26 Tétis todo o cerúleo senhorio: Tétis, deusa do mar, esposa do Oceano, reserva em dote a D. Sebastião «todo o cerúleo (da cor do céu) senhorio, porque «deseja comprá-lo para genro». 27 Olímpica: de Olimpo, residên- cia dos deuses. 28 Dous avós: D. João III, pai do príncipe D. João, e Carlos V, pai da princesa D. Joana. 29 Fim da idade: fim da vida. 30 Novo atrevimento: Os Lusíadas. 31 Salso argento: mar salgado e prateado. 32 Argonautas: navegadores. 1. Quanto ao assunto, é possível dividir este texto em partes. Delimita-as e indica o assunto de cada uma. 2. Classifica as afirmações que se seguem como verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as falsas. a) Na Dedicatória, Camões dedica o seu poema ao rei da época, D. Sebastião. b) Nas estâncias 6 a 8, o poeta exalta o rei. c) Depois dos elogios, Camões pede ao rei que leia Os Lusíadas, para ver como é um exce- lente poeta e concluir que é melhor ser rei deste povo pequeno do que do mundo inteiro. d) As façanhas e os heróis louvados na sua obra são verídicos e, por isso, de maior valor, ao invés dos louvados em poemas épicos anteriores, que são fictícios. e) Nas estâncias 15 a 18, Camões elogia novamente o rei, solicitando-lhe a continua- ção das conquistas em terras de África e no mar do Oriente, prevendo grandes vitó- rias que servirão de base para uma nova epopeia. f) No final, é pedido novamente ao rei que aceite e valorize Os Lusíadas, pois verá o heroísmo dos portugueses que servirá de impulso às suas novas conquistas. g) Na Dedicatória, o português é elevado à condição de herói sobre-humano e mítico. 3. Relaciona o assunto das estâncias 11 a 14 com o conteúdo da Proposição. 4. Explica o uso do imperativo e do vocativo nas estâncias da Dedicatória. PROFESSOR Educaçãoliterária 1. 1.a parte7EFE 7A9;A3AD7; D.Sebastião; 2.a parte7EFE ABA7F3B7673A rei que se digne ler a sua epopeia, na qual encontrará a grandeza dos fei- tos dos portugueses, e poderá con- cluir que é melhor ser rei deste povo pequenodoquedomundointeiro; 3.a parte7EFE 35363:7D†; fantasioso da poesia da Antigui- dade,Camõescontrapõeumoumais heróisportugueses; 4.a parte7EFE 3?Š7E3B73 ao rei a continuar a guerra contra os mouros, para engrandecer nova- menteapátria; 5.a parte7EF ABA7F3B767@AH3- mente ao rei que aceite e valorize Os Lusíadas, que reconheça o valor dos seus argonautas, o que será impulso para novas façanhas, e, finalmente, explicitaqueopróprioreiserámaté- riadecontoépico. 2. a) V; b) V; c)¦B3D3H7DAE3FAE heroicos dos portugueses; d) V; e)¦ 7EFv@5;3E 3 f)V;g)V. 3. Na Proposição afirma-se que os feitos dos portugueses são superio- res aos dos heróis da Antiguidade. Também na Dedicatória se declara que as façanhas dos portugueses superaram as antigas, que eram fabulosas (literárias). Contrapõe-se, ainda, a cada herói antigo um portu- guês. 4.Oimperativoeovocativosãomar- cas da função apelativa da lingua- gem, sendo usados para chamar a atenção do rei para a obra e para os heróisretratados.
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    230 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES GRAMÁTICA 1. Com base nas estâncias 13 e 14 da Dedicatória, apresenta os hipónimos do hiperónimo «herói português». 2. Identifica no verso seguinte o modificador apositivo do nome: «Vós, poderoso rei, cujo alto Império» (ests. 8, v. 1). 3. Apresenta três constituintes do campo lexical de «realeza» (ests. 8 e 9), relacionando-o com o tema dominante do texto e indicando a respetiva intencionalidade comunicativa. 4. Transforma os versos para o discurso indireto: «Inclinai por um pouco a majestade / Que nesse tenro gesto vos contemplo» (ests. 9, vv. 1 e 2). 5. Identifica dois arcaísmos presentes na estância 17 e dois neologismos nas estâncias 16 e 18. ESCRITA Exposição sobre um tema Partindo da leitura deste excerto de um verso de Álvaro de Campos (heterónimo de Fer- nando Pessoa), redige uma exposição, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, sobre a importância do sonho. Elabora um plano, no qual estabeleças objetivos comunicativos, definas tópicos, organi- zando-os de forma coerente e com um encadeamento lógico. Marca corretamente os parágrafos, utiliza conectores e mobiliza adequadamente os re- cursos da língua. No final revê o teu texto e aperfeiçoa-o. Não te esqueças de identificar as fontes utilizadas, de cumprir as normas de citação, de utilizar as notas de rodapé (se necessário) e ainda de elaborar a bibliografia dos docu- mentos consultados. …tenho em mim todos os sonhos do mundo Fernando Pessoa / Álvaro de Campos, «Tabacaria». Reprodução do discurso no discurso p. 331 SIGA Funções sintáticas p. 324-325 SIGA Arcaísmo e neologismo p. 239 FI Exposição sobre um tema p. 311 SIGA Almada Negreiros, Retrato de Fernando Pessoa, 1935. ­KE?FDD@D KF;FJFJJFE?FJ ;FDLE;F PROFESSOR Gramática 1. «Afonso», «Joane», Afonso III, Afonso IV, Afonso V, «Pacheco», D3@5;E5A67i?7;637E7G¹:A «Albuquerque»,«Castro». 2.«poderosorei». 3. 3?BA7J;53¤)7;¥7EF H «Império¥7EF H ¤majestade» 7EF H )735;A@3? E7 5A? A tema da Dedicatória ao rei, com a intençãopanegírica. 4. O poeta pediu ao rei que incli- nasse por um pouco a majestade quenaqueletenrogestolhecontem- plava. 5. iD53€E?A 8†@;5A ¤dous» e «ũa¥ @7AA9;E?A ¤fónico exício», «cerúleo»ou«argento». Escrita Sugestãodetópicos: „definiçãodesonho; „o sonho como origem das conquis- tas humanas (pessoais) e exem- plos; „o sonho como origem das conquis- tas humanas (universais) e exem- plos; „aausênciadesonhoesuasimplica- ções; „3;?BADFv@5;373;@F7?BAD3;6367 dosonho.
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    231 Os Lusíadas: CantoI PONTO DE PARTIDA 1. Observa a imagem ao lado. Des- creve-a, oralmente, de acordo com os seguintes tópicos: t elementos principais que a compõem; tilusão ótica presente; tdicotomia ser/parecer. EDUCAÇÃO LITERÁRIA «Bicho da terra tão pequeno» Reflexões do poeta 105 O recado que trazem é de amigos, Mas debaxo o veneno vem coberto, Que os pensamentos eram de inimigos, Segundo foi o engano descoberto. Ó grandes e gravíssimos perigos, Ó caminho de vida nunca certo, Que aonde a gente põe sua esperança Tenha a vida tão pouca segurança! 1. Relaciona o sentido dos quatro primeiros versos com o sucedido em Mombaça. Con- sulta o resumo do canto I, apresentado na p. 219. 2. Explicita os sentimentos do poeta expressos nos versos 5 e 6 da estância 105, indi- cando dois recursos expressivos que os enfatizam. 3. Identifica a construção paralela da estância 106 e esclarece a dicotomia aí estabelecida. 4. Retira do texto a metáfora e a interrogação retórica que ilustram a reflexão sobre a con- dição humana. 4.1 Explicita o seu valor expressivo, referindo a temática presente nesta reflexão. 5. Indica a importância da localização deste excerto na estrutura interna da obra. 6. Após a leitura das estâncias, relaciona o efeito ilusório da pintura de Dalí com o con- teúdo temático das mesmas. Salvador Dalí, Homem/casal com cão a dormir, 1948. 1 Apercebida: iminente. 2 Avorrecida: circunstâncias adversas. 106 No mar tanta tormenta e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida1 ! Na terra tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida2 ! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno? Luís de Camões, op. cit., p. 27 PROFESSOR Oralidade 4.1; 4.2; 5.1; 5.3. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.6; 14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 15.3; 16.1; 16.2. Gramática 19.4; 19.5. Escrita 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. MC PontodePartida 1. Em primeiro plano, destacam-se a cabeça e rosto (em perfil) de um idosocalvocombarbabranca.Numa leitura mais atenta, repara-se num casal cujos corpos constituem par- F7E 63 5347{3 6A DAEFA 6A ;6AEA O homem idoso em segundo plano forma o nariz, a boca, o bigode e a barba do idoso em primeiro plano; a mulher jovem, com um bebé ao colo, corresponde à orelha e ao pescoço. Também se observa, na estrada, um cãoadormir; – a ilusão está presente, pois, numa sóimagem,sãovisíveisduasrealida- 67E6;87D7@F7EBADG?36A35347{3 e o rosto de um idoso; por outro, um casal; – o ser e o parecer estão presentes, dado que, à primeira vista, parece tratar-se apenas de um idoso, mas, depois, constatamos que também está presente um casal; a ilusão óticaafeta,assim,onossosentidoda realidade (nem tudo o que parece é). EducaçãoLiterária 1. ?$A?43{3AEBADFG9G7E7EEyA alvo de uma emboscada por parte dos mouros, sob influência de Baco, apesar de parecerem muito hospita- leiros. O sujeito poético faz alusão a essadiferençaentreoparecer(«ami- gos») e o ser («inimigos») nos quatro primeirosversos. 2. Sentimentos de insegurança, de ;?BAF~@5;3 8357 uE 5;D5G@EFv@5;3E adversas e perigosas às quais o ser humano se vê submetido. Este estado de espírito é enfatizado pelas apóstrofes («Ó grandes e gra- H€EE;?AEB7D;9AE Ê53?;@:A67H; da nunca certo») e utilização do grau superlativo absoluto sintético 7EF H
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    232 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES GRAMÁTICA 1. Apresenta três palavras, da estância 106, do campo lexical de «perigo», relacionando-o com o tema dominante do texto e indicando a respetiva intencionalidade comunicativa. 2. Classifica, quanto à classe de palavra, «tanto/a(s)». Justifica a sua repetição nos quatro primeiros versos da estância 106. 3. Regista, a partir das estâncias apresentadas, três pares de palavras antónimas e ex- plica a sua posição nos versos. ESCRITA Exposição sobre um tema Lê os seguintes excertos do poema de Carlos Drummond de Andrade, que tem como «mote» a expressão de Camões «bicho da terra tão pequeno». Partindo dos versos apresentados, prepara uma exposição escrita, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, sobre a temática da ambição humana. O homem, bicho da Terra tão pequeno chateia-se na Terra lugar de muita miséria e pouca diversão, faz um foguete, uma cápsula, um módulo toca para a Lua desce cauteloso na Lua […] planta bandeirola na Lua experimenta a Lua coloniza a Lua civiliza a Lua humaniza a Lua. Lua humanizada: tão igual à Terra. O homem chateia-se na Lua. Vamos para Marte – ordena a suas máquinas. Elas obedecem, o homem desce em Marte […] coloniza humaniza Marte com engenho e arte. Marte humanizado, que lugar quadrado. Vamos a outra parte? Carlos Drummond de Andrade,Nova reunião: 19 livros de poesia, 3.ª edição, Rio de Janeiro, José Olympio, 1978, pp. 448-450 5 10 15 Exposição sobre um tema p. 311 SIGA DA Campo lexical e semântico p. 175 FI PROFESSOR 3. A construção paralela é «%A?3D¦ %3 F7DD3¦»; amplifica os locais de perigo para o ser humano, esteja onde estiver não tem segurança B7D3@F7 AE A4EFt5GAE F7?B7EF3- des,morte,guerras,enganos. 4.1 «Contra um bicho da terra tão pequeno?¥7EF H ¬7JBD7EE3 a insegurança em que se encontra o homem; o caráter trágico da exis- tênciadohomem;àmaioresperança sucedeomaiorperigo. 5. Este excerto situa-se no final do canto I. Ao admitir a debilidade da existência humana e a tragicidade a que o Homem está sujeito, logo no início da obra, confere aos feitos que se seguem ainda maior gran- diosidade. Os verdadeiros heróis são aqueles que superam a condição humana frágil e «se vão da lei da mortelibertando»(Proposição). 6. Podemos estabelecer uma rela- ção de semelhança, pois os portu- gueses também foram iludidos com as aparentes boas intenções dos 7?;EEtD;AE67$A?43{3 Gramática 1. ¤+AD?7@F3¥ ¤63@A¥ ¤9G7DD3¥¦ Estecampolexicalrelaciona-secom o tema da fragilidade da condição humana, enfatizando as ameaças queassolamoHomem. 2. Quantificador existencial – des- taca a grande quantidade de obstá- culos que o Homem tem de enfren- tar. 3. ?3D F7DD3 3?;9AE ;@;?;9AE 5A47DFA 67E5A47DFA ¬ 67EF353D 7E sas antíteses em início ou final de verso. Escrita Sugestãodetópicos: “introdução67¹@;{yA673?4;{yA “desenvolvimento – aspetos positivos da ambição hu- mana (progresso, desenvolvimen- tosocialepessoal); – aspetosnegativosdaambição(com- petição desenfreada, desrespeito B73@3FGD7L37B7AEAGFDAE¦ “ conclusão 433@{A 6AE 3EB7FAE positivosenegativosdaambição.
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    233 Os Lusíadas: CantoV Roque Gameiro, A chegada de Vasco da Gama a Calecute em 1498, c. 1900. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Partida de Vasco da Gama Reflexões do poeta 92 Quão doce é o louvor e a justa glória Dos próprios feitos, quando são soados!1 Qualquer nobre trabalha que em memória Vença ou iguale os grandes já passados2 . As envejas da ilustre e alheia história Fazem mil vezes feitos sublimados. Quem valorosas obras exercita, Louvor alheio muito o esperta e incita. 93 Não tinha em tanto os feitos gloriosos De Aquiles, Alexandro3 , na peleja4 , Quanto de quem o canta os numerosos5 Versos: isso só louva, isso deseja. Os troféus de Milcíades, famosos, Temístocles6 despertam só de enveja; E diz que nada tanto o deleitava Como a voz que seus feitos celebrava. 94 Trabalha por mostrar Vasco da Gama Que essas navegações que o mundo canta Não merecem tamanha glória e fama Como a sua, que o Céu e a Terra espanta. Si; mas aquele Herói que estima e ama Com dões7 , mercês, favores e honra tanta A lira Mantuana8 , faz que soe Eneias, e a Romana glória voe. 95 Dá a terra Lusitana Cipiões, Césares, Alexandros, e dá Augustos9 ; Mas não lhe dá contudo aqueles dões Cuja falta os faz duros e robustos. Octávio10 , entre as maiores opressões, Compunha versos doutos e venustos11 (Não dirá Fúlvia, certo, que é mentira, Quando a deixava António12 por Glafira). 96 Vai César sojugando toda França E as armas não lhe impedem a ciência13 ; Mas, nùa mão a pena e noutra a lança, Igualava de Cícero a eloquência. O que de Cipião se sabe e alcança É nas comédias grande experiência14 . Lia Alexandro a Homero de maneira Que sempre se lhe sabe à cabeceira15 . 97 Enfim, não houve forte Capitão Que não fosse também douto e ciente, Da Lácia16 , Grega ou Bárbara nação, Senão da Portuguesa tão somente. Sem vergonha o não digo: que a razão De algum não ser por versos excelente É não se ver prezado o verso e rima, Porque quem não sabe arte, não na17 estima. 1 Soados: reconhecidos e cele- brados. 2 v. 4 (est. 92): pessoa ilustre que deseja superar os feitos dos seus antepassados. 3 Alexandro: Alexandre, o Grande. 4 Peleja: guerra. 5 Numerosos: melodiosos. 6 Milcíades, famosos, Temístocles: oficiais e políticos gregos. 7 Dões: dons. 8 Lira Mantuana: as poesias de Virgílio. 9 Cipiões, Césares, Alexandros, e dá Augustos: Públio Cornélio Cipião, vencedor de Zama (em 202 a.C.); Públio Cornélio Cipião Emiliano, vencedor de Cartago (em 146); Augusto, o célebre imperador romano; Alexandre, o grande conquis- tador. 10 Octávio: Otávio, o imperador Caio Júlio César Otaviano, que compôs versos. 11 Doutos e venustos: graciosos (de Vénus). 12 António: António deixou Fúlvia por Glafira, situação referida num epigrama, de Otaviano Augusto. 13 v. 2 (est. 96): durante as campanhas da Gália, César ia compondo uma obra filosófica: De Analogia. 14 v. 6: que tinha grande expe- riência de comédias, pois se diz que Cipião ajudava Terêncio a escrevê-las. 15 vv. 7-8 (est. 96): Alexandre lia Homero. 16 Da Lácia: do Lácio, Roma. 17 Na: a. PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 16.1; 16.2. Gramática 17.3; 18.3; 18.4; 18.5; 19.6. Oralidade 3.1; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3. MC
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    234 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES 98 Por isso, e não por falta de natura18 , Não há também Virgílios nem Homeros19 ; Nem haverá, se este costume dura, Pios Eneias nem Aquiles20 feros. Mas o pior de tudo é que a ventura Tão ásperos os fez e tão austeros, Tão rudos e de engenho tão remisso21 , Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso. 99 Às Musas agardeça o nosso Gama O muito amor da pátria, que as obriga A dar aos seus22 , na lira, nome e fama De toda a ilustre e bélica fadiga; Que ele, nem quem na estirpe seu se chama, Calíope não tem por tão amiga Nem as filhas do Tejo23 , que deixassem As telas d’ ouro fino e que o cantassem. 100 Porque o amor fraterno e puro gosto De dar a todo o Lusitano feito Seu louvor, é somente o pros[s]uposto24 Das Tágides gentis, e seu respeito. Porém não deixe, enfim, de ter disposto Ninguém a grandes obras sempre o peito: Que, por esta ou por outra qualquer via, Não perderá seu preço e sua valia. Luís de Camões, op. cit., pp. 236-238 1. Relaciona a exclamação inicial «Quão doce é o louvor e a justa glória / Dos próprios fei- tos, quando são soados!» (est. 92, vv. 1-2) com o conteúdo global do canto e os elogios ao rei de Melinde. Consulta o resumo do canto apresentado na p. 220. 2. Refere a atitude dos heróis clássicos e a de Vasco Gama em relação à poesia (ests. 93 e 94). Transcreve os versos que indicam a opinião do poeta relativamente a quem é mais digno de ser exaltado em verso. 3. Compara a importância dada à cultura pelos guerreiros da Antiguidade Clássica com a concedida pelos heróis portugueses (ests. 95 a 98). Regista as tuas conclusões. 4. Explicita o sentido dos versos 1-4 da estância 99. 5. Atenta na estância 94. Transcreve dois exemplos de personificação e refere a sua expressividade. 6. Partindo do último verso da estância 97, «Porque quem não sabe arte, não na estima», sintetiza a crítica contida nesta reflexão. 18 Natura: de qualidades natu- rais. 19 Virgílios nem Homeros: poetas da Antiguidade Clássica. 20 Pios Eneias nem Aquiles: Aquiles, herói de Ilíada, de Homero, e Eneias, herói da Eneida, de Virgílio. 21 Remisso: desleixado. 22 Seus: aos portugueses heroicos. 23 As filhas do Tejo: Tágides, consideradas irmãs dos portu- gueses. 24 Pros[s]uposto: desígnio. PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.Nocantoreferem-seosobstáculos que os portugueses tiveram de 7@8D7@F3D @3 H;397? 3F| $7;@67 sobretudo os fenómenos natu- rais (fogo de Santelmo e Tromba $3D€F;?37A5A@8DA@FA5A?Ai63- mastor. Em fim de canto, com esta exclamação, o poeta congratula- E75A?AAGHAD6AD7;67$7;@67 dizendo que os heróis merecem e gostam de ser louvados pelos seus feitoshonestos. 2. Apesar de todos os grandes he- róis apreciarem ser louvados em H7DEA7EF B3D3ABA7F3-3E5A da Gama, após ter narrado os seus triunfos (e dos portugueses), ainda é mais merecedor de ser «cantado» 7EF HH 3. Os heróis clássicos eram exce- lentes guerreiros e cultos, valo- rizando a literatura («não houve 8ADF7 3B;FyA (G7 @yA 8AEE7 também douto e ciente¥ 7EF HH %A 7@F3@FA 7 3?7@F3- velmente na opinião do poeta, os heróis portugueses não dão im- BADFv@5;3u5GFGD3¤3H7@FGD3 +yA tEB7DAEAE87L7FyA3GEF7DAE +yA DG6AE7677@97@:AFyAD7?;EEA Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso¥7EF HH 4. O poeta refere-se ao facto de Gama estar a ser louvado pelas ¤$GE3E¥;EFA|D787D7 E7uEG3BD†- priaobra,OsLusíadas,queodestaca enquanto herói nacional. Logo, deve estar agradecido, porque nem todos osheróistêmesseprivilégio. 5.«mundocanta»e«Terraespanta». EnfatizamaglóriaeafamadeVasco daGama. 6. )7º7F7 EA4D7 3 ;9@ADv@5;3 6AE portugueses (mesmo dos líderes) que, por desconhecimento cultural, desprezam as artes, não as incenti- vando.
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    235 Os Lusíadas: CantoV GRAMÁTICA Para responderes aos itens 1.1 a 1.4, seleciona a opção que te permite obter afirmações corretas. 1.1 Nos versos «essas navegações que o mundo canta / Não merecem tamanha glória e fama / Como a sua» (est. 94, vv. 2-4) estão presentes (A) uma oração substantiva completiva e uma oração adverbial causal. (B) uma oração adjetiva relativa restritiva e uma oração adverbial comparativa. (C) uma oração adjetiva relativa explicativa e uma oração adverbial comparativa. (D) uma oração substantiva relativa sem antecedente e uma oração adverbial com- parativa. 1.2 O referente do pronome pessoal «os» (est. 95, v. 4) é (A) «versos doutos e venustos». (B) «duros e robustos». (C) «dões». (D) «Cipiões, Césares, Alexandros, e dá Augustos». 1.3 A palavra «venustos» (est. 95, v. 6) é formada por (A) conversão. (B) derivação por prefixação. (C) derivação por sufixação. (D) amálgama. 1.4 Ao compararmos as formas «agardeça» (est.99, v.1) e «agradeça» observarmos um fenómeno de: (A) prótese. (B) metátese. (C) aférese. (D) dissimilação. ORALIDADE Apreciação crítica 1. Lê o seguinte excerto do livro de Rui Zink, Anibaleitor, uma maravilhosa lição de lei- tura, que a crítica considerou uma parábola sobre o mundo de hoje. Anibaleitor «Foste magnífico, grumete1 , e por isso serás recompensado. Se não fosses tu, tería- mos de dar meia-volta e regressar a casa de mãos vazias. Assim, graças a ti, podemos continuar a nossa aventura.» […] Sobre a mesa, ao lado de uma travessa com cebolas, estava – aberto – o mapa. «Sabes ler, grumete?» Eu fiz que sim. Sabia ler maizoumenos, mas isso não lhe disse. […] [Comecei a ler o mapa curtido em pele humana:] Selerdesestemaba,ésinalqueencontrásteisocabinhoparaatocadeumestranhoanibal, aoqualdouonobedeAnibalLeitor.OAnibalLeitoréumbichobedonhoquetemcobobrin- cibalqualidadeobíciodeler…Lêbuito,sóobíciodelersuberaoabetitedoAnibalLeitor. «Então? Conseguiste ler?» «Sim, mas custa um bocado.» 5 10 1 Grumete: marinheiro que tem na armada a gradua- ção mais inferior. Fonética e fonologia p. 38 FI Coordenação e subordinação p. 327-328 SIGA PROFESSOR Gramática 1.1(B);1.2(D);1.3(C);1.4(B);
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    236 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES «Por causa dos bês, não é?» […] «Não sei», confessei, sentindo-me estúpido. «Parece português, mas é um bocado esquisito. Talvez por ser escrita antiga…» «Antiga uma ova. A única coisa que acontece é: o homem que escreveu isto… estaba consdipado!» […] E entendi, então, o autor do mapa estava simplesmente constipado. […] «T-tu… Tu és o Anibaleitor?» A desmesurada criatura fez que sim com a cabeçorra. […] «Tu… Tu conheces a Bíblia?» «Claro que conheço. Um livro bem giro, por acaso, cheio de ação e aventura.» O colosso franziu a testa. «Tu não?» «Sim… Não… Quero dizer, conheço, mas não conheço.» «Mau. Leste ou não leste?» «Ler, ler, não.» […] «Não faço menos que os outros. Agora já quase ninguém lê.» […] «Não leem? Então o que fazem? Como passam o tempo?» «Bem, dão muitos desafios na televisão. Por causa do campeonato. […] E há os concursos. E as novelas…» […] «Tu… Tu comes mesmo pessoas?» A criatura fez um ar modesto: «Bem, que posso dizer? Sou um freguês de muito alimento.» «A sério? Comes mesmo?» «Gosto muito sobretudo de língua portuguesa…» Rui Zink, Anibaleitor, Lisboa, Teorema, 2010, pp. 30-34, 44-48, 52 (texto adaptado) 2. Tal como Camões, também Rui Zink critica o pouco interesse dos portugueses pela cultura e pela literatura em particular. Planifica uma apreciação crítica, entre dois e quatro minutos, na qual te refiras aos seguintes tópicos: tdescrição dos excertos de Anibaleitor (género literário e temas tratados); tparábola apresentada; tcomparação com as reflexões de Camões; tcomentário crítico sobre a atualidade das apreciações críticas. Produz um texto linguisticamente correto, com diversificação de vocabulário. Não te esqueças de respeitar o princípio de cortesia e de utilizar adequadamente recursos verbais e não verbais (por exemplo, postura, tom de voz, articulação, ritmo, entoação e expressividade; uso adequado de ferramentas tecnológicas de suporte à intervenção oral). 15 20 25 30 35 DA Apreciação crítica p. 312 SIGA PROFESSOR Oralidade – Narrativo, literatura fantástica; crítica à falta de valor atribuído à culturaeàleitura; – simbolicamente,oAnibaleitor«ali- menta-se» de livros, represen- tando o «bicho» raro que gosta de ler,aocontráriodetodososoutros; – ambos os autores refletem sobre a pouca consideração dada à cul- tura, em geral, e à literatura, em particular; – atualmente essa desvalorização ainda se verifica na pouca aten- ção dada aos escritores e às suas obras, no pouco investimento na 5GFGD3¦
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    237 Os Lusíadas: CantoVII 1 Um ramo na mão tinha: refere-se a Luso. 2 Cometo: atrevo. 3 Mavórcios: guerreiros (de Marte). 4 Cánace: filha de Éolo. Suicidou-se a conselho do próprio pai, por ter cometido incesto com um irmão. Quando estava para fazê-lo escreve uma carta «com a pena na mão direita e a espada desembainhada na outra». 5 Agora: ora. 6 Hospícios: referência ao seu naufrágio no mar da China pelos fins de 1558. 7 Costas: terras alheias. 8 Rei Judaico: Ezequias, rei de Judá, sabendo por Isaías que ia morrer, rogou a Deus mais quinze anos de vida (compara a sua salvação ao milagre bíblico). 9 Tornassem: retribuíssem. 10 Capelas de louro: coroas de louro concedidas a poetas ou heróis. 11 Espertar: incentivar. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Ninfas do Tejo e do Mondego Reflexões do poeta 78 Um ramo na mão tinha...1 Mas, ó cego, Eu, que cometo2 , insano e temerário, Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego, Por caminho tão árduo, longo e vário! Vosso favor invoco, que navego Por alto mar, com vento tão contrário Que, se não me ajudais, hei grande medo Que o meu fraco batel se alague cedo. 79 Olhai que há tanto tempo que, cantando O vosso Tejo e os vossos Lusitanos, A Fortuna me traz peregrinando, Novos trabalhos vendo e novos danos: Agora o mar, agora experimentando Os perigos Mavórcios3 inumanos, Qual Cánace4 , que à morte se condena, Nùa mão sempre a espada e noutra a pena; 80 Agora5 , com pobreza avorrecida, Por hospícios6 alheios degradado; Agora, da esperança já adquirida, De novo mais que nunca derribado; Agora às costas7 escapando a vida, Que dum fio pendia tão delgado Que não menos milagre foi salvar-se Que pera o Rei Judaico8 acrecentar-se. 81 E ainda, Ninfas minhas, não bastava Que tamanhas misérias me cercassem, Senão que aqueles que eu cantando andava Tal prémio de meus versos me tornassem9 : A troco dos descansos que esperava, Das capelas de louro10 que me honrassem, Trabalhos nunca usados me inventaram, Com que em tão duro estado me deitaram. 82 Vede, Ninfas, que engenhos de senhores O vosso Tejo cria valerosos, Que assi sabem prezar, com tais favores, A quem os faz, cantando, gloriosos! Que exemplos a futuros escritores, Pera espertar11 engenhos curiosos, Pera porem as cousas em memória Que merecerem ter eterna glória! 83 Pois logo, em tantos males, é forçado Que só vosso favor me não faleça, Principalmente aqui, que sou chegado Onde feitos diversos engrandeça: Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado Que não no empregue em quem o não mereça, Nem por lisonja louve algum subido, Sob pena de não ser agradecido. John William Waterhouse, Hilas e as ninfas, 1986. CD 1 Faixa n.o 37 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.5; 14.6; 14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 15.3; 16.1. Oralidade 1.1; 2.1; 3.2; 4.2; 5.2; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3. MC
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    238 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES 1. O excerto do canto VII pode ser dividido em partes. Delimita-as e identifica o assunto tratado em cada uma delas. 2. Menciona um dos valores expressivos da anáfora «Agora» (ests. 79-80). 3. Apresenta três características que sustentem o perfil de quem não merece ser objeto do canto épico. 4. Atenta, agora, na última estância. Descreve o objeto digno do canto épico. 5. Explicita as críticas feitas e apresenta a tua opinião acerca da sua atualidade. Prova escrita de Português, 12.º ano de escolaridade – 1.ª fase, IAVE, 2006, p. 3 ORALIDADE Síntese Visiona a reportagem Uma geração (des)interessada pela política nacional, da autoria de Teresa Camarão, que apresenta a opinião de três jovens sobre a forma como se relacionam com a política. Toma as notas que considerares necessárias. Seguidamente, organiza-as e planifica o teu texto de modo a produzires uma síntese oral, de um a três minutos, para partilhares com os teus colegas. 84 Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse A quem ao bem comum e do seu Rei Antepuser seu próprio interesse, Imigo12 da divina e humana Lei. Nenhum ambicioso que quisesse Subir a grandes cargos, cantarei, Só por poder com torpes13 exercícios Usar mais largamente de seus vícios; 85 Nenhum que use de seu poder bastante Pera servir a seu desejo feio, E que, por comprazer ao vulgo errante14 , Se muda em mais figuras que Proteio15 . Nem, Camenas16 , também cuideis que cante Quem, com hábito honesto e grave, veio, Por contentar o Rei, no ofício novo, A despir e roubar o pobre povo! 86 Nem quem acha que é justo e que é direito Guardar-se a lei do Rei severamente, E não acha que é justo e bom respeito Que se pague o suor da servil gente; Nem quem sempre, com pouco experto peito, Razões aprende, e cuida que é prudente17 , Pera taxar, com mão rapace18 e escassa, Os trabalhos alheios que não passa. 87 Aqueles sós19 direi que aventuraram Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida, Onde, perdendo-a, em fama a dilataram, Tão bem de suas obras merecida. Apolo e as Musas, que me acompanharam, Me dobrarão a fúria20 concedida, Enquanto eu tomo alento, descansado, Por tornar ao trabalho, mais folgado. Luís de Camões, op. cit., pp. 319-321 12 Imigo: inimigo. 13 Torpes: atos vergonhosos. 14 Errante: inconstante. 15 Proteio: Proteu, que se disfarçava. 16 Camenas: musas. 17 Prudente: competente. 18 Rapace: de rapina. 19 Aqueles sós: só. 20 Fúria: inspiração. Síntese p. 313 SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.;H;67 E77?6G3EB3DF7E1.a parte: 7EFE ¬;@HA53{yA7636AE3GFA- biográficos; 2.a parte7EFE ¬ objetodocantoépico. 2. 'AD 7J7?BA 3 CG3@F;6367 7 variedade de experiências negati- vas vivenciadas; a diversidade de 5;D5G@EFv@5;3EFDt9;53E3E8G93L7E 7EB7D3@{3E¦ 3. Quem põe os seus interesses e ambições pessoais à frente dos do reino; quem infringe as leis do cato- licismo ou direito humano; quem roubaeexploraopovo,nãopagandoo justo salário e cobrando-lhes dema- siadosimpostos... 4. O herói digno de ser louvado é aquele que arriscou a sua vida por Deus pelo seu rei e que se torna imortalpelosseusfeitos. 5. As críticas apontam o dedo aos portugueses que não reconhecem o talento, mas sobretudo aos ricos e poderososqueexercemaltoscargos para seu próprio benefício e explo- ram os mais fracos. Ainda hoje estas críticassãoatuais(darexemplos). Oralidade „ JOTSPEUkiP ;@F7DH7@;7@F7E ¬ *€- H;3i7J3@6D7$;9G7D3937 @~E *G4F; “ desenvolvimento F7?3 ¬ A CG7 perguntariaaospolíticos; “;67;3E 5:3H7*€H;3¬ACG7|CG7 esperam os políticos conseguir comasmedidasqueestãoatomar, deveriam consultar as pessoas; $;9G7¬CG7DG?ACG7D7?63D3A país; Inês – não tem grande inte- resse em falar com os políticos; mesmoassim,dir-lhes-iaquedeve- riamserviropovoenãoospróprios interesses; “conclusão;@E3F;E83{yAB7D3@F73 classepolítica. ▪ Vídeo Uma geração (des)interes- sada pela política nacional.
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    239 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 3 Arcaísmo e neologismo Arcaísmo – Palavra ou construção cujo uso é considerado antiquado pela comuni- dade linguística1 . Neologismo – Palavra cujo significante ou cuja relação significante-significado era inexistente num estádio de língua anterior ao da sua atestação1 . A identificação de arcaísmo ou de neologismo depende do contexto histórico-lin- guístico. Os neologismos surgem, sobretudo, nas áreas científicas, técnicas e artísticas, em grande medida pela necessidade de nomear novas realidades. Exemplos: «googlar», «abensonhadas» (Mia Couto), «bué» (muito) e «cota» (adulto). Arcaísmos e neologismos no tempo de Camões Arcaísmos: t BCVOEBN OB MÓOHVB EF $BNÜFT 5SBUBTF EF GPSNBT UÓQJDBT EB gramática do português medieval que perduram, mas não aparecem como dominantes; são escolhas redacionais ou estilísticas. Exemplos*: contino (contínuo), despois, dina, dões, dous, enveja, milhor e u ~a. Neologismos (camonismos): t BHSBOEFGPOUFEBJOWFOUJWBMJOHVÓTUJDBEF$BNÜFTFODPOUSBTFOP latim, o que se explica inserindo-se o autor na corrente literária do seu tempo – Classicismo –, cujo objetivo é revitalizar os valores culturais da Antiguidade Clássica grega e latina, entre os quais a língua. Assim, alguns camonismos são autênticos decalques de palavras latinas. Exemplos: exício (mortandade, ruína), argento (pra- ta; mar), plaga (país, região; certo tom musical). Camonismos cultos: t UFSNPT TFOUJEPT DPNP DVMUPT F IFSNÏUJDPT UBOUP QFMP MFJUPS EF Quinhentos, como pelo do século XXI. Exemplos: cerúleo (azul), estelante (estrelado). Camonismos integrados: t QFSGFJUBNFOUFJOUFHSBEPTOBMÓOHVB EFUBMGPSNBRVFOFNQBSFDFN termos cultos ou literários. Exemplos: canoro (sonoro, harmonioso), cógnito, devastador (assolar, danificar), etéreo (celestial), fulgente (brilhante), grandíloquo (que fala grandezas), meta (término ou baliza), régio (real), rotundo (redondo). Ivo Castro, «Língua de Camões», in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 461-469 (texto adaptado) CONSOLIDA 1. Distingue arcaísmo de neologismo, usando palavras tuas. 2. Explica a entrada abundante de neologismos, provenientes do latim, na época de Camões. 3. Define, por palavras tuas, «camonismo integrado» e «camonismo culto». *Apenas se selecionaram as palavras que constam nos excertos em estudo. 1 Dicionário Terminológico, disponível em http://dt.dgidc. min-edu.pt, consultado em março de 2015 PROFESSOR Gramática 19.1; 19.2. MC Consolida 1.Arcaísmoéumapalavraouconstrução que deixou de se utilizar na linguagem corrente, enquanto neologismo refere o aparecimento de uma nova palavra ou o desenvolvimento de uma nova relação entreosignificanteeosignificado. 2. No tempo de Camões houve muitas palavras novas que entraram na língua decalcadas do latim, porque os autores clássicos queriam fazer renascer a cul- tura da Antiguidade Clássica, nomeada- mentealíngualatina. 3.Camonismointegradoéumvocábulo que, aparecendo como inovação nos textos de Camões, faz atualmente parte do português corrente; opostamente, camonismo culto é uma palavra, igual- mente criada por Camões, que não che- gou a difundir-se na língua portuguesa, sendodedifícilentendimento. PowerPoint Ficha informativa n.o 3
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    240 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES PONTO DE PARTIDA 1. Expressa o teu ponto de vista sobre as citações de várias personalidades famosas e fun- damenta-o. EDUCAÇÃO LITERÁRIA O poder corruptor do dinheiro Reflexões do poeta 96 Nas naus estar se deixa, vagaroso, Até ver o que o tempo lhe1 descobre; Que não se fia já do cobiçoso Regedor, corrompido e pouco nobre. Veja agora o juízo curioso Quanto no rico, assi como no pobre, Pode o vil interesse e sede imiga Do dinheiro, que a tudo nos obriga. 97 A Polidoro2 mata o Rei Treício, Só por ficar senhor do grão tesouro; Entra, pelo fortíssimo edifício, Com a filha de Acriso3 a chuva d’ ouro; Pode tanto em Tarpeia4 avaro vício Que, a troco do metal luzente e louro, Entrega aos inimigos a alta torre, Do qual quási afogada em pago morre. 98 Este rende munidas fortalezas; Faz trédoros e falsos os amigos; Este a mais nobres faz fazer vilezas, E entrega Capitães aos inimigos; Este corrompe virginais purezas, Sem temer de honra ou fama alguns perigos; Este deprava às vezes as ciências, Os juízos cegando e as consciências. 99 Este interpreta mais que sutilmente Os textos; este faz e desfaz leis; Este causa os perjúrios entre a gente E mil vezes tiranos torna os Reis. Até os que só a Deus omnipotente Se dedicam, mil vezes ouvireis Que corrompe este encantador, e ilude; Mas não sem cor5 , contudo, de virtude! Luís de Camões, op. cit., p. 365 1 Lhe: a Vasco da Gama. 2 Polidoro: Príamo, rei de Troia, confiou seu filho Polidoro a Polimnestor, rei da Trácia (o rei Treício). Depois da queda de Troia, Polimnestor, para se apo- derar do oiro, que teria vindo com o filho de Príamo, matou Polidoro e atirou o cadáver dele ao mar. 3 Acriso: Acrísio, pai de Dánae, fechou a sua filha numa torre de bronze para impedir o cumprimento da profecia de que seria morto pelo filho que dela nascesse. Mas Júpiter entrou na torre sob a forma de uma chuva de oiro e tornou Dánae mãe de Perseu, que mais tarde veio a matar Acrísio. 4 Tarpeia: Tarpeia, filha de Spurius Tarpeius, entregou a cidadela de Roma (o Capitólio) aos Sabinos sob promessa de eles lhe darem o que traziam no braço esquerdo (bracelete de oiro). Tácio, rei dos Sabinos, consentiu, mas, ao entrar na cidadela, atirou-lhe não só a bra- celete, mas o escudo que tinha no mesmo braço. Os soldados fizeram o mesmo e Tarpeia ficou esmagada. 5 Sem cor: disfarçado. Giovanni Battista Tiepolo, Júpiter e Dánae, 1736. «Oqueodinheiro fazpornósnão compensaoque fazemosporele.» Gustave Flaubert (1821-1880) «Hámuitascoisasna vidamaisimportantes queodinheiro.Mas custamumdinheirão!» Groucho Marx (1890-1977) «Quandoeuerajovem, pensavaqueodinheiro eraacoisamais importantedomundo. Hoje,tenhoacerteza.» Oscar Wilde (1854-1900) «Sequeressabero valordodinheiro, tentapedi-lo emprestado.» Benjamin Franklin (1706-1790) PROFESSOR Leitura 9.1. Oralidade 4.1; 4.2; 5.1; 5.3. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.5; 14.6; 14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 15.3; 16.1. Escrita 10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 12.5; 13.1. MC
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    241 Os Lusíadas: CantoVIII 1. Atenta nos quatro primeiros versos da estância 96. Justifica a atitude de Vasco da Gama, tendo em conta os acontecimentos anteriores (consulta o quadro-resumo dos cantos, p. 221). 2. Identifica a estância que corresponde às sínteses apresentadas. a) O poder corruptor do dinheiro: na amizade, na fidelidade, na integridade. Os bens materiais são mais fortes do que os valores morais de cada um. b) O poeta exemplifica como a ambição pode corromper os mais poderosos: no Direito, na Monarquia e, até, no Clero. c) O poeta dá exemplos de histórias trágicas da Antiguidade Clássica, para demonstrar que o «vil metal» leva a cometer, desde sempre, as maiores atrocidades. d) O poder do dinheiro tanto corrompe pobres como ricos. 3. Esclarece a interdependência entre o plano das reflexões do poeta e o da viagem. 4. Identifica os recursos expressivos presentes nos seguintes versos: a) «Quanto no rico, assi como no pobre» (est. 96, v. 6) b) «A Polidoro mata o Rei Treício» (est. 97, v. 1) c) «Que a troco do metal luzente e louro» (est. 97, v.6) d) «Este rende munidas fortalezas; […] Este a mais nobres faz fazer vilezas […] (est. 98, vv. 1, 3) e) «E mil vezes tiranos torna os Reis» (est. 99 v. 4) 5. Relaciona o excerto do canto VIII em análise com a atualidade e conclui se as críticas apresentadas pelo poeta ainda são válidas. ESCRITA Apreciação crítica Redige uma apreciação crítica sobre o cartoon de Luís Afonso, seguindo o plano de texto. Introdução: 1.º parágrafo – descrição sucinta e objetiva do cartoon. Desenvolvimento: 2.º parágrafo – tema da conversa; 3.º parágrafo – domínios em que há corrupção; 4.º parágrafo – ironia presente no car- toon. Conclusão: 5.º parágrafo – comentário crítico sobre o cartoon. No final, revê o teu texto para garantir a sua correção. Cartoon de Luís Afonso, in Sábado, n.º 295, 23 de dezembro de 2009. Apreciação crítica p. 312 SIGA Recursos expressivos p. 334-335 SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. Vasco da Gama tem uma atitude de desconfiança para com o ganan- cioso Catual, preferindo esperar que se desvende toda a verdade, sem desembarcar. Tal comportamento deve-se ao facto de já ter sido preso e obrigado a ceder bens materiais, a trocodasualiberdade. 2.a.b.c.d. 3. As reflexões sobre o poder cor- ruptor do dinheiro vêm a propósito 6AB3@A63H;397?3;47D636767 Vasco da Gama foi conseguida ape- nas mediante o pagamento de um resgaste. 4. a)5A?B3D3{yA 3@F€F7E7b) anás- trofe;c)metáfora;d)anáfora. 5. Sugestão+7?33;@633FG343EF3 estar atento à comunicação social para observarmos casos de corrup- ção em todas as áreas (dar exs.), o que reforça a intemporalidade das reflexõesdeCamões. Escrita Tópicosdedesenvolvimento: – um repórter a entrevistar o Pai Natal; – a corrupção e formas de «premiar» osinfratores; ¬43@53A4D3EB‹4;53E8GF74A¦ – tradicionalmente, o Pai Natal ape- nas traz presentes uma vez por ano, para aqueles que se portaram bem durante todo o ano; daí a iro- nia; – satiriza-se o facto de a corrupção estar tão enraizada culturalmente nanossasociedade,queoPaiNatal se sente vítima de concorrência desleal por parte de quem «pre- meia»osinfratores.
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    242 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES FICHA INFORMATIVA N.O 4 Reflexões do poeta N’Os Lusíadas, mais de uma vez [e sobretudo em final de canto] […] esquecemos os heróis e é no poeta que atentamos, [aconselhando-se] a si próprio, lamentando-se, ou com desassombro fustigando os epígones1 dos heróis. […] Tudo isto nos permite, no poema, conviver, a espaços, não apenas com o espírito altíssimo do poeta, senão também com a concreta realidade do homem, do cristão e do português, nos seus momentos de confiança exaltante e de profunda depressão melancólica, no orgulho do passado, na evocação de cujas glórias encontrava o estímulo, não tanto para a evasão da austera, apagada e vil tristeza do presente, como para a forte, oportuna, desassombrada lição com que escarmenta2 os descendentes dos heróis. Hernâni Cidade, Luís de Camões – O épico, 2.ª edição, Lisboa, Editorial Presença, 1995, pp. 170 e 172 (texto adaptado) Canto I – A fragilidade humana e outros temas intemporais Os valores do Humanismo, a fé afirmada no homem e nas suas extraordinárias capacidades, fazem desta epopeia, sem dúvida, um poema renascentista. Porém, simultaneamente, manifesta-se um outro espírito – duvidoso, inseguro, consciente da fragilidade humana: o espírito antiépico. […] [De facto, Camões] vivia já numa outra época, em que os problemas da extensão demasiada do Império se tornam irresolúveis e avultam os vícios e a decadência. […] A vida no Oriente «é um quadro de decadência deplorável, de indisciplina e de corrupção: abusos de toda a ordem dos governadores, dos capitães, dos vedores da fazenda; as armadas são preparadas com desleixo; domina o desperdício na gestão dos dinheiros públicos; o suborno; […] os criminosos […] ficam impunes; não se faz justiça porque os cargos são vendidos […]. [(ver canto VIII, ests. 96 a 99.)] Maria Vitalina Leal de Matos, «Os Lusíadas», in Vítor Aguiar e Silva (coord.), op.cit., pp. 495-497 (texto adaptado) Canto V – As armas e as letras Toda a epopeia camoniana pode ser lida como a defesa de um valor que o poeta não se cansa de apontar: a conciliação das armas e das letras, topos que vinha da mais recuada Antiguidade, mas que ganhava especial atualidade, num momento em que a grande e a pequena aristocracia, absorvida com o comércio resultante da expansão, e desejosa de enriquecer rapidamente, manifestava desinteresse por se cultivar e por apoiar as artes [...]. […] Trata-se de um discurso de grande vigor oratório, que pretende justamente envergonhar os destinatários, estabelecendo um paralelismo antitético entre os portu- gueses e os outros povos, que prezam o paradigma do herói letrado, personificado por César. […] Mas a cultura, o amor das artes exigem tempo, comunidade e gerações. Idem, ibidem, p. 494 (texto adaptado) Fac-símile da primeira página do fólio da 1.ª edição de Os Lusíadas, 1572. 1 Epígones: geração anterior. 2 Escarmenta: repreende, critica. 5 10 5 10 5
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    243 Ficha informativa Canto VII– Invocação e lamentação do poeta [Além dos traços autobiográficos e do ideal de] conciliação [entre] as armas e as letras […], «Nùa mão sempre a espada e noutra a pena» (Os Lusíadas, VII.79), em momentos de balanço, […] a cólera perante a ingratidão d’«aqueles que eu cantando andava», a «pobreza avorrecida», as «tamanhas misérias», os «trabalhos nunca usa- dos» que lhe impuseram enfraquecem de tal forma a inspiração que, para continuar, tem de pedir novo favor às Musas. A paragem, e a avaliação que faz daqueles que são objeto do canto, leva-o a estabelecer um critério de seleção dos protagonistas: «[...] que eu tenho já jurado / Que não no empregue em quem o não mereça» (Os Lusíadas, VII.83). E, assim, a relação entre o canto e a gente, que se estabelecera na primeira invocação (I.5) inverte-se: não é o valor da gente que determina o canto digno dele; é, pelo contrário, o valor do canto que não deve admitir «quem o não mereça». Idem, ibidem, p. 495 (texto adaptado) Canto VIII – O poder corruptor do dinheiro Vasco da Gama fica retido, na Índia, pelo Catual e só é libertado a troco de «fazenda» (produtos ou dinheiro). A propósito deste e outros factos, Camões apro- veita para fazer uma série de reflexões sobre o poder do dinheiro, insistentemente animizado e criticado através da anáfora repetitiva «este», que ocasiona mortes, adul- térios, traições, perjúrios, raptos, justiça corrupta, inimizades, tiranias, etc. J. Oliveira Macêdo, Sob o signo do Império, Porto, Edições Asa, 2002, p. 187 CONSOLIDA 1. Partindo da leitura do texto sobre as reflexões do poeta no canto I, indica se as afirma- ções são verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as falsas. a) Os Lusíadas são uma obra épica, pois valoriza a grandeza do Homem e, em simultâ- neo, é antiépica, quando denuncia as suas fraquezas. b) A irresolução de problemas relacionados com a extensão do Império faz emergir nos portugueses os desgostos e a decadência de vária ordem. 2. Completa as seguintes afirmações sobre os textos relativos às reflexões dos cantos VII e VIII. 2.1 No final do canto VII, Camões demonstra a sua a) relativamente à ingra- tidão daqueles que ele b) na sua epopeia e à pobreza, às desgraças e aos c) «nunca usados» a que o obrigaram. 2.2 Conclui que o seu canto tem grande a) e que, portanto, só deverá lou- var quem o merece, excluindo algumas personalidades históricas que manifestam alguns b) . 2.3 No canto VIII, a propósito da libertação de Vasco da Gama, na Índia, e outros acon- tecimentos, Camões reflete sobre o poder do a) que apenas origina b) . 5 10 5 PROFESSOR Leitura 7.1; 7.2; 7.4; 8.1. Educação Literária 14.3; 15.1; 15.2. MC Consolida 1.a)V;b)H€5;AE 2.1 a) cólera; b) AGH3 9AD;¹53 c) «trabalhos». 2.2a)valor;b)vícios. 2.3a)dinheiro; b)desgraças. PowerPoint Ficha informativa n.o 4
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    244 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES PONTO DE PARTIDA 1. Ouve a música intitulada «Ilha dos Amores», interpretada pela banda Polo Norte. Regista em tópicos a seguinte informação: a) características da ilha; b) sensações que a ilha suscita; c) relação título/assunto. Em seguida, partilha-a com os teus colegas. EDUCAÇÃO LITERÁRIA A chegada à Ilha dos Amores Constituição da matéria épica/Mitificação do herói 52 De longe a Ilha viram, fresca e bela, Que Vénus pelas ondas lha levava (Bem como o vento leva branca vela) Pera onde a forte armada se enxergava; Que, por que não passassem, sem que nela Tomassem porto, como desejava, Pera onde as naus navegam a movia A Acidália1 , que tudo, enfim, podia. 53 Mas firme a fez e imóbil, como2 viu Que era dos Nautas vista e demandada, Qual ficou Delos3 , tanto que pariu Latona Febo e a Deusa à caça usada. Pera lá logo a proa o mar abriu, Onde a costa fazia ùa enseada Curva e quieta, cuja branca areia Pintou4 de ruivas conchas Citereia5 . […] 66 Mas os fortes mancebos, que na praia Punham os pés, de terra cobiçosos (Que não há nenhum deles que não saia), De acharem caça agreste desejosos, Não cuidam que, sem laço ou redes, caia Caça naqueles montes deleitosos, Tão suave, doméstica e benina6 , Qual ferida lha tinha já Ericina7 . 67 Alguns, que em espingardas e nas bestas8 Pera ferir os cervos9 , se fiavam, Pelos sombrios matos e florestas Determinadamente se lançavam; Outros, nas sombras, que de as altas sestas10 Defendem a verdura, passeavam Ao longo da água, que, suave e queda, Por alvas pedras corre à praia leda11 . 1 Acidália: Vénus. 2 Como: quando. 3 Delos: ilha errante que se tor- nou firme quando nela Latona deu à luz Apolo (Febo) e Diana (deusa da caça). 4 Pintou: matizou. 5 Citereia: Vénus. 6 Benina: benigna. 7 v. 8 (est. 66): Vénus tinha «ferido» a caça; por isso apre- sentava-se «suave, doméstica e benina». 8 Bestas: arcos. 9 Cervos: veados. 10 Altas sestas: calor ardente do Sol. 11 Leda: alegre. CD 1 Faixa n.o 38 PROFESSOR Oralidade 1.1; 1.3; 1.4; 4.1; 5.1; 5.3. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 15.3; 16.1; 16.2. MC PontodePartida 1. a) «o tempo parou»; as «cores do céu», de tão belas, não se conse- guem reproduzir; rodeada pelo mar; milcores;vulcãoinativonummonte. b) Lugar paradisíaco que suscita calma,harmoniaebeleza. c)Títulosugerelugaridílicopropício ao amor («vem comigo» e «leva-me contigo»). Link Ilha dos Amores, Polo Norte
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    245 Os Lusíadas: CantoIX 1. Os nautas não encontraram a ilha por acaso. Refere-te ao que aconteceu. 2. Classifica o tipo de paisagem predominante na ilha. Fundamenta a tua resposta com elementos textuais. 3. Atenta nos versos 5 a 8 da estância 66. Explicita o seu sentido, tendo em conta o con- texto. 4. O excerto pode ser dividido em duas partes. Identifica o tema dominante da segunda parte, composta pelas estâncias 66 à 70. 5. Lê o seguinte texto para saberes o que aconteceu quando as ninfas «Se deixam ir dos galgos alcançando» (est. 70, v. 8). Muitas cenas de sedução então se deram, e, aos poucos, todas se entregaram aos portugueses. O que se passou na Ilha durante a manhã, famintos beijos, mimosos choros, afagos suaves, risinhos alegres, e outras cenas amorosas, melhor é experimen- tá-lo que julgá-lo, / mas julgue-o quem não pode experimentá-lo… E assim as Ninfas lhes prometiam, já como esposas, amor eterno, na vida e na morte. A mais importante de todas, Tétis, que escolhera o Gama, tomou-o pela mão e levou-o ao cume de um monte, em que havia um edifício todo feito de cristal e ouro, e aí recebeu como esposo o Capitão; quanto às restantes, recebiam os seus amados entre sombras e flores e por lá se deixavam ficar quase todo o dia. Amélia Pinto Pais, Os Lusíadas em prosa, 2.ª edição, Porto, Areal Editores, 1995, p. 68 5.1 Explica a alegoria da Ilha, relacionando-a com a mitificação do herói. 68 Começam de enxergar subitamente, Por entre verdes ramos, várias cores, Cores de quem a vista julga e sente Que não eram das rosas ou das flores, Mas da lã fina e seda diferente, Que mais incita a força dos amores, De que se vestem as humanas rosas12 , Fazendo-se por arte mais fermosas. 69 Dá Veloso13 , espantado, um grande grito: – «Senhores, caça estranha (disse) é esta! Se inda dura o Gentio antigo rito, A Deusas é sagrada esta floresta. Mais descobrimos do que humano esprito Desejou nunca, e bem se manifesta Que são grandes as cousas e excelentes Que o mundo encobre aos homens imprudentes14 . 70 «Sigamos estas Deusas e vejamos Se fantásticas são, se verdadeiras.» Isto dito, veloces mais que gamos15 , Se lançam a correr pelas ribeiras16 . Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos, Mas, mais industriosas que ligeiras17 , Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando, Se deixam ir dos galgos18 alcançando. Luís de Camões, op. cit., pp. 400 e 403-404 12 Humanas rosas: as mulheres. 13 Veloso: marinheiro da frota de Gama. 14 Imprudentes: ignorantes. 15 Gamos: mamífero ruminante, semelhante ao veado. 16 Ribeiras: praias. 17 Mais industriosas que ligeiras: correndo com habilidade. 18 Galgos: dos nautas. 5 Mitificação do herói pp. 246-247 FI Recursos expressivos pp. 334-335 SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. A ilha criada por Vénus era móvel, eelafoiquemapôsnarotadosnave- gadores para que a vissem. Quando isto aconteceu, Vénus fixou-a (ests. 7 2. Locus amoenus @3FGD7L3 473 «fresca e bela¥7EF H ¤montes deleitosos¥ 7EF H ¤verdura» 7EF H 3.Osnautasestavamdesprevenidos para o tipo de caça que iriam encon- trar na ilha. Ao invés de animais, iriam poder «caçar» as ninfas ino- fensivas («beninas») que foram pre- viamenteinfligidascomamor(«Qual ferida lha tinha já Ericina») a mando deVénuspelofilhoCupido. 4. O espanto dos navegadores pe- ranteavisãoinesperadadasninfase aperseguiçãoqueeleslheslançam. 5.1 Esta alegoria, partindo da união entre humanos e deuses, pretende simbolizar a divinização dos nautas (sinédoquedopovoportuguês). O povo luso é aqui mitificado ao máximo ao ser exaltado como herói, a quem é atribuída a recompensa da imortalidade, característica inerente apenas aos deuses. A união física entre deusas e nautas gerará uma descendênciailustreesobre-humana.
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    246 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES Mitificação do herói As estâncias 25 e seguintes do canto IX […] constituem, em nosso entender, um elemento essencial para a interpretação de todooepisódio[daIlhadosAmores].Vénus,pretendendorea- lizar o seu intento de acolher os marinheiros portugueses numa ilha deleitosa, busca Cupido num promontório de Chipre: Já sobreosIdáliosMontespende,/Ondeofilhofrecheiroestavaentão /Ajuntandooutrosmuitos,quepretende/Fazerùafamosaexpe- dição/ Contra o mundo revelde, por que emende / Erros grandes que há dias nele estão, / Amando cousas que nos foram dadas, / Não pera ser amadas, mas usadas. (IX, 25) Nestaestância,oAmoraparececlaramenteconcebidocomo força, ou o princípio, que corrige os desvios, erros e vícios per- turbadoresdaleiquedeveimperarnomundo.Desobedecendo a essa lei, o mundo rebelde ama «cousas que nos foram dadas, / não pera ser amadas, mas usadas»: quer dizer, os homens, esquecidos do sentido profundo do seu destino, afeiçoam-se e apegam-se idolatricamente a coisas que deviam ser apenas meios ou instrumentos, assim subvertendo os valores supre- mos da criação e assim corrompendo a essência do Amor, cuja finalidade última consiste em reconduzir os homens até à Uni- dadeDivinaenãoemdistanciá-losdela.AideiadequeaoAmor cumpre assegurar a lei e a harmonia inscritas por Deus nos seres e nas coisas, desempenhando a função de princípio unificador do universo, é de procedência neoplatónica […]. Ora é o próprio Cupido, o deus que, à frente dos seus exércitos, se preparava para restituir a lei e a harmonia perdidas pelo «mundo revelde», quem colabora na criação da Ilha dos Amores, levando a que as ninfas aí acolham os heróis portugueses e lhes entreguem, em dom amoroso, a sua beleza divina. E é a própria Vénus quem declara a finalidade e o significado desta doação amorosa, que transcende a simples paga delei- tosa que caberia, no termo da jornada, a mareantes que, lutando contra as perfídias FICHA INFORMATIVA N.O 5 Herói: indivíduo notabilizado pelos seus feitos guerreiros, a sua coragem, tenacidade, abne- gação, magnanimidade, etc.; indivíduo capaz de suportar exemplarmente uma sorte incomum (p. ex., infortúnios, sofrimentos) ou que arrisca a vida pelo dever ou em benefício de outrem. Mito: representação de factos e/ou personagens históricos, frequentemente deformados, ampli- ficados através do imaginário coletivo e de longas tradições literárias orais ou escritas. Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Lisboa, Temas e Debates, 2005 Rubens, A festa de Vénus, 1630 (pormenor). 5 10 15 20 25 30
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    247 Ficha informativa dos deusese dos homens contra os obstáculos formidandos da natureza, tinham reve- lado aos outros homens um mundo desconhecido. […] Com efeito, dessa entrega amorosa das ninfas aos nautas lusíadas, há de nascer uma geração de homens novos, uma geração que há de enfim instaurar uma ordem nova, servindo de paradigma ao mundo vil enredado nas malhas do desconcerto […]. Os heróis lusíadas alcançam na Ilha dos Amores o clímax da sua ascensão divinifica- tória. […] os heróis históricos cantados por Camões, heróis reais de carne e osso e não fantásticas criaturas […] hão de ascender à condição divina, tal como Júpiter, Febo, Marte e outros […]. Igualmente o episódio da Ilha dos Amores oferece um significado simbólico rela- tivamente [à experiência e à observação direta dos fenómenos da natureza], pois ele representa, também na ordem do conhecimento, o clímax da gesta descobridora de Portugal. […] A ascensão divinizadora de Vasco da Gama e dos seus companheiros está cabal- mente comprovada no especial favor que Deus, fonte de todo o saber, lhes concede: guiados por Tétis, subirão um monte espesso, recoberto de um mato / árduo, difícil, duro a humano trato – símbolo do esforço que exige o conhecimento –, de cujo cimo poderão contemplar o que não pode a vã ciência / dos errados e míseros mortais (X, 76): a máquina do mundo, descrita de acordo com a conceção ptolemaica. De um saber de experiência feito, haurido nas mais remotas paragens da terra, ascendiam assim os nautas lusitanos a uma forma superior de conhecimento, que lhes era propiciada pelo próprio Criador do Universo. […] Vítor Aguiar e Silva, «Função e significado do episódio da «Ilha dos Amores» na estrutura de Os Lusíadas», in Camões: labirintos e fascínios, Lisboa, Cotovia, 1994, pp. 136-141 (texto adaptado) CONSOLIDA 1. Refere se as afirmações são verdadeiras (V) ou falsas (F). Corrige as falsas. a) O Amor é um elemento essencial para reconduzir os homens aos princípios criadores do universo. b) A divinização ou imortalização dos lusos na Ilha dos Amores é alcançada especial- mente através da união física dos nautas com as ninfas, que são divinas. c) Simbolicamente, a entrega das ninfas aos navegadores representa a recompensa física pela coragem e heroicidade demonstradas na expansão ultramarina. d) A ilha encerra um segundo significado simbólico, nomeadamente a força humana que permite ao Homem ver a Máquina do Mundo. e) Este episódio demonstra que o Homem nem sempre consegue ultrapassar a sua fraqueza humana. 35 40 45 50 PROFESSOR Leitura 7.1; 8.1. Educação Literária 14.3; 15.1; 15.5. MC Consolida 1. a) V; b) V; c) D7BD7E7@F3A@3E- cimento de uma geração que sabe amar bem, promovendo a harmonia no universo. d) @A?7363?7@F7A acesso ao conhecimento que não é concedido ao homem comum. e) apesardasuafraquezahumana,con- segueatingiraglória,aimortalidade. PowerPoint Ficha informativa n.o 5
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    248 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES EDUCAÇÃO LITERÁRIA A Ilha dos Amores e a imortalidade Reflexões do poeta 88 Assi a fermosa e a forte companhia1 O dia quási todo estão passando Nùa alma, doce, incógnita alegria, Os trabalhos tão longos compensando. Porque dos feitos grandes, da ousadia Forte e famosa, o mundo está guardando O prémio lá no fim, bem merecido, Com fama grande e nome alto e subido. 89 Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas, Tétis e a Ilha angélica pintada2 , Outra cousa não é que as deleitosas Honras que a vida fazem sublimada3 . Aquelas preminências4 gloriosas, Os triunfos, a fronte coroada De palma e louro, a glória e maravilha, Estes são os deleites desta Ilha. 90 Que as imortalidades que fingia A antiguidade, que os Ilustres ama, Lá no estelante Olimpo5 , a quem subia Sobre as asas ínclitas da Fama, Por obras valerosas que fazia, Pelo trabalho imenso que se chama Caminho da virtude, alto e fragoso, Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso, 91 Não eram senão prémios que reparte, Por feitos imortais e soberanos, O mundo cos varões que esforço e arte Divinos os fizeram, sendo humanos. Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte, Eneas e Quirino e os dous Tebanos6 , Ceres, Palas e Juno com Diana, Todos foram de fraca carne humana. 1 A fermosa e a forte companhia: a companhia das ninfas (fermosa) e a dos navegantes (forte). 2 Ilha angélica pintada: represen- tação, pintura de uma ilha linda, que lembra um lugar habitado por anjos. 3 Sublimada: ilustre, célebre. 4 Preminências: distinções, supe- rioridades, honrarias, louros, prémios. 5 Estelante Olimpo: na brilhante morada dos deuses. 6 Dous Tebanos: Hércules e Baco. François Boucher, O triunfo de Vénus, 1740. PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4, 14.5; 14.6; 14.7; 14.8; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 15.3; 16.1. Gramática 18.1. Oralidade 1.1; 1.2; 1.3; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7; 2.1; 2.2; 3.2; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3. MC
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    249 Os Lusíadas: CantoIX 92 Mas a Fama, trombeta de obras tais, Lhe deu7 no Mundo nomes tão estranhos De Deuses, Semideuses, Imortais, Indígetes8 , Heróicos e de Magnos. Por isso, ó vós que as famas estimais, Se quiserdes no mundo ser tamanhos, Despertai já do sono do ócio ignavo9 , Que o ânimo, de livre, faz escravo. 93 E ponde na cobiça um freio duro, E na ambição também, que indignamente Tomais mil vezes, e no torpe e escuro Vício da tirania infame e urgente; Porque essas honras vãs, esse ouro puro, Verdadeiro valor não dão à gente: Milhor é merecê-los sem os ter, Que possuí-los sem os merecer. 94 Ou dai na paz as leis iguais, constantes, Queaosgrandesnãodêemodospequenos, Ou vos vesti nas armas rutilantes10 , Contra a lei dos imigos Sarracenos11 : Fareis os Reinos grandes e possantes, E todos tereis mais e nenhum menos: Possuireis riquezas merecidas, Com as honras que ilustram tanto as vidas. 95 E fareis claro12 o Rei que tanto amais, Agora cos conselhos bem cuidados, Agora co as espadas, que imortais Vos farão, como os vossos já passados13 . Impossibilidades não façais14 , Quequemquis,semprepôde;enumerados Sereis entre os Heróis esclarecidos E nesta «Ilha de Vénus» recebidos. Luís de Camões, op. cit., pp. 409-410 1. Relê as estâncias 89, 90 e 91. Sintetiza o seu conteúdo. 2. A «Fama» desempenha um papel fundamental no processo da imortalidade. 2.1 Refere três aspetos evidenciados nesse desempenho. Fundamenta a tua resposta com elementos textuais. 3. Transcreve a apóstrofe presente na estância 92 e indica a intenção do poeta. 4. Indica o modo das seguintes formas verbais. Relaciona o seu respetivo valor expressivo com os apelos do poeta. t«Despertai» (est. 92, v. 7); t«dai» (est. 94, v. 1); t«ponde» (est. 93, v. 1); t«vesti» (est. 94, v. 3). 5. Atenta nas estâncias 94 e 95 e explicita as consequências da adoção dos comporta- mentos sugeridos. 6. Identifica os planos presentes no excerto e estabelece a sua interdependência. 7. De forma sucinta, esclarece como a constituição da matéria épica e a reflexão feita pelo poeta coabitam nestas estâncias. 8. Caracteriza este texto quanto ao género literário a que pertence e procede à sua análise formal (estrofe, métrica, esquema rimático e tipos de rima). Prova escrita de Português, 12.º ano de escolaridade – 1.ª fase, IAVE, 2008, p. 3 (adaptado) 7 Lhe deu: lhes deu. 8 Indígetes: divindades primitivas e nacionais dos Romanos. 9 Ignavo: indolente, preguiçoso. 10 Rutilantes: cintilantes. 11 Sarracenos: inimigos mouros. 12 Claro: ilustre. 13 Já passados: antepassados. 14 Impossibilidades não façais: im- possibilidades não há para vós. Imaginário épico / Reflexões do poeta pp. 252-253 FI PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. Est. 89i¤ :3¥5A?3E%;@83E e Tétis) é o prémio, a recompensa dada aos marinheiros; os «deleites» são os triunfos, os louros. Est. 90 os prémios concedidos pela Antigui- dade eram atribuídos a quem fazia o difícilpercursodavirtude.Est.91AE deuses não passam de humanos que praticaram feitos de grande valor, daíteremrecebidooprémiodaimor- talidade. 2.1 o 3 ¤3?3¥ CG7 EA4D7 3E EG3E «asas ínclitas¥7EF H83LEG4;D ao «estelante Olimpo¥7EF H os varões; «trombeta de obras tais» 7EF H 6t35A@:757DAE¤feitos imortais e soberanos¥7EF H7| ela que atribui os nomes que paten- F7;3?3;?ADF3;63676AE:G?3@AE «#:767G@A$G@6A@A?7E_¦a 7 Deuses, Semideuses, Imortais» (est. HH 3. «ó vós que as famas estimais¥ H ;@F7DB73{yA6;D7F33AEBADFG- gueses, alertando-os para o esforço que necessitam de fazer para des- pertarem do «ócio ignavo» e perse- 9G;D7?AE7GA47F;HA33?3 4.$A6A;?B7D3F;HA67E7@HAH7?7 completam a exortação começada @37EF 3BA@F3?3FD3H|E675A@- selhosenãodeordens)asaçõesprin- cipais para os que desejam a fama – despertar do ócio, refrear a cobiça, aambiçãoeatirania,praticaraigual- dade e a justiça, defender a fé cristã, combatendoosmouros. 5. Os reinos serão prósperos, domi- nando a igualdade; os homens pos- suirão a riqueza da honra; tornarão ilustre o seu rei e serão recebidos na «Ilha de Vénus», ou seja, serão ama- dos eternamente e ganharão um estatutoheroicoesobrenatural. 6. E B3@AE EyA 63 H;397? 7EFE 63?;FAA9;37EFE 3 7763ED7º7JŠ7E6ABA7F37EFE i B3DF;D 6A 7@5A@FDA 7@FD7 nautas e ninfas na Ilha dos Amores (planos da viagem e mitológico), o poeta reflete sobre como o homem 5A?G?BA673F;@9;D3?7E?33?3 eImortalidadequeosnautas. 7. O poeta, na sua reflexão sobre o modo de atingir a imortalidade, aborda vários aspetos que consti- FG7?3?3F|D;3|B;533?;F;¹53{yA do herói português (imortalidade e comooimitar);osfeitoshistóricosea viagem(«trabalhostãolongos»e«dos feitosgrandes¥7EF 8. Epopeia; oitavas decassilábicas; esquema rimático abababcc; rima cruzadaeemparelhada.
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    250 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES GRAMÁTICA Lê o texto seguinte. CAMÕES E OS DESCOBRIMENTOS 5 10 Camões viveu a fase terminal da expansão portuguesa e, depois, a da decadência e do des- moronamento político do seu país. […] Mas, ao mesmo tempo, Camões viveu um período intelec- tual singular da história sociocultural, económica e política de Portugal, da Europa e do Mundo. Com as navegações, os homens acabavam de adquirir novas dimensões, muitas vezes contra- ditórias, para o pensamento, e novos horizontes, muitas vezes alucinantes, para a sua errância, o que tornava possível a mistura de vontade e audá- cia, especulação e riqueza, viagem e perigo, livre- -arbítrio e fatalismo. Tudo isso os levava a viver dramaticamente uma época em que os mais escla- recidos viam a aventura portuguesa como uma forma de expansão europeia sob o denominador comum que lhes era possível conceber: a propa- gação da fé cristã. […] A ideologia dominante, consciente do alcance universal das descobertas portuguesas e compa- rando-as às narrativas fabulosas dos feitos heroicos da Antiguidade Clássica, concluía pela superiori- dade das expedições modernas e aspirava a vê-las cantadas sob o modelo clássico da epopeia, dimen- são que faltava ainda à glória que tais feitos mere- ciam e que poderia fazê-la valer em toda a parte. A viagem de Bartolomeu Dias (passagem do cabo da Boa Esperança, em 1488), quatro anos antes de Colombo e muito mais do que a jornada deste, abriu novas perspetivas para a revolução da noção de espaço planetário, podendo, por isso, ser jus- tamente considerada o limiar de uma nova era. Dez anos depois, a viagem de Vasco da Gama (1497-1498) tinha sido a que mais radicalmente contribuíra para a transformação […] da civiliza- ção europeia e da história do mundo. E houvera ainda, ao longo de décadas, muitas outras viagens portuguesas da maior importância. Mas faltava ainda a dimensão da glorificação pela criação artís- tica, relativamente aos feitos de que provinha tão grande transformação e que haviam gerado tão grande massa de informações acumuladas sobre os descobrimentos portugueses, informações essas que todos, príncipes, homens políticos e de ciên- cia, eclesiásticos e intelectuais, aventureiros, via- jantes, marinheiros, piratas, diplomatas e espiões, buscavam avidamente na Europa. Vasco Graça Moura, «Camões e os Descobrimentos», in Oceanos, n.º 10, abril, 1992 (texto adaptado) Lisboa no século XVI, 2.ª estampa do 5.º volume da obra Urbium proeciarum mundi theatrum quintum, de Giorgio Braunio Agrippinate, 1593. 15 20 25 30 35 40 45
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    251 Os Lusíadas: CantoIX 1. Faz corresponder a cada segmento textual da coluna A um único segmento textual da coluna B, de modo a obteres afirmações adequadas ao sentido do texto. Prova escrita de Português, 12.º ano de escolaridade – 1.ª fase, IAVE, 2010, pp. 4 e 6 (texto adaptado) ORALIDADE Anúncio Publicitário 1. Na estância 94, Camões diz aos portugueses «Fareis os Reinos grandes e pos- santes», caso pratiquem a igualdade e lutem contra os mouros. Hoje em dia, há outros meios para manifestar o orgulho pela pátria e contribuir para o seu engrandecimento. 1.1 Visiona o anúncio publicitário televisivo, Azeite Gallo-Poema. Toma notas e responde aos tópicos seguintes: a) vocábulos e expressões que remetem para a época áurea de Portugal; b) versos que sugerem o renascimento da glória perdida do país; c) cinco traços distintivos de Portugal; d) conjugação/relação da linguagem verbal (música e locução) e não ver- bal (imagem); e) três exemplos do uso do presente (construção impessoal) do modo indicativo, com valor de imperativo; f) recurso expressivo utilizado que refere o lugar de procedência dos ele- mentos referidos (com exemplo); g) eficácia e intenções comunicativas. A a) Com o conector «Mas» (l. 3), b) Ao usar o pronome átono «os» (l. 13), c) Ao usar parênteses (ll. 27, 28), d) Ao mencionar a viagem de Bartolomeu Dias, de Vasco da Gama e outras viagens portuguesas (ll. 26 a 36), e) Com o advérbio «avidamente» (l. 47), B 1) o enunciador constrói uma relação de simultaneidade com a escrita da epopeia. 2) o enunciador fundamenta a ideia exposta no segundo parágrafo do texto. 3) o enunciador introduz uma perspetiva de outro autor, relativamente aos factos apresentados. 4) o enunciador clarifica a referência de uma expressão nominal. 5) o enunciador desvaloriza a importância dos factos apresentados. 6) o enunciador introduz uma relação de contraste. 7) o enunciador introduz um modificador. 8) o enunciador retoma um referente expresso na primeira linha do parágrafo. PROFESSOR Gramática 1.a) b) c) d) e) Oralidade 1.1 a) «Oceano», «terras desconheci- das», «glória»; b) «glória em banho- ?3D;3B3D3 HAF3D3GE3DG?6;3¥ c) «fado», «futebol bem jogado», «pregão», «poemas, odes e canti- gas»,«Algarve»,«Alentejo»,«Beiras», ¤AGDA¥ ¤);43F7A¥ ¤E393? E7 3E Beiras e desfaz-se em água»; d) rela- çãodeharmoniaqueconjugaatradi- ção na música (canção popular), no produtopublicitado(azeite),notexto argumentativo com referências a traçosidentitários(fado,poesia,pre- 9Š7E¦73;?397?6393EFDA@A?;3 tradicional; e) «Pega-se», «juntam- -se», «Deixa-se», «tapa-se», «Lavam- E7¥¦ f) ?7FA@€?;3 ¤ E7DH7 E7 3EE;?'ADFG93 5A?ABD3FABD;@5;- pal»; g) vender o produto e promover Portugaleassuastradições(gastro- nomia,cultura). ▪ Vídeo Anúncio publicitário «Azeite Galo»
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    252 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES FICHA INFORMATIVA N.O 6 Imaginário épico / Reflexões do poeta 1. Interdependência dos planos I Camões, ao propor-se cantar Os Lusíadas, toma a seu cargo materiais avul- tados: por um lado, a História de Portugal; por outro, o propósito de dar a conhecer regiões geográficas e povos descobertos; por outro ainda, as considerações de diversa índole (filosóficas, morais, políticas) que darão lugar a numerosos discursos. A temática mitológica impõe- -se como matéria a incluir. Como se organizam estes materiais? O poeta escolhe um acontecimento de relevo – a viagem de Vasco da Gama – para núcleo da ação, a qual, sem ser una, tem, contudo, uma hierarquia compositiva. Esta viagem será o fio narrativo que se coloca em pri- meiro plano, enquanto toda a restante História, anterior e posterior, passa para segundo plano. Um plano é ligado ao outro por anacronias, processo pelo qual se interrompe a ação principal para nela se encaixar um episódio ou uma narração que não vem na sequência cronológica. Maria Vitalina Leal de Matos, Tópicos para a leitura de Os Lusíadas, Lisboa, 2003, p. 103 2. Interdependência dos planos II Para além da rigorosa seleção dos factos e dos heróis, que, obedecendo a uma con- ceção própria da História de Portugal, constituiriam, afinal, uma única matéria épica e um herói coletivo, o recurso à mitologia greco-latina vai permitir-lhe dinamizar e embelezar a ação através do conflito entre a proteção adjuvante de Vénus e a inimizade opositoradeBaco.Dessemodo,amitologia,alémdoexcelentecontributoquedápara a constituição do estilo grandíloquo, conjuga-se intrinsecamente com a História para alcançar aquela metamorfose, essencial à celebração épica, inerente ao género. […] Sinal significativo desta múltipla e importantíssima função da mitologia é o facto de toda a sua organização assentar em três grandes episódios de conteúdo mitológico, estrategicamente situados no princípio (o Consílio dos Deuses – I. 20-41), no meio (Adamastor – V. 37-60) e no fim (Ilha dos Amores – IX. 18 – X. 143). A estrutura profunda do Poema decorre, pois, de uma diegese onde o real humano vivido se ilumina pelos revérberos de uma mitologia que, criando pela guerra e pelos trabalhos do mar o sofrimento dos heróis, lhe proporcionará depois uma recompensa eterna, através da apoteose divinizante do casamento com as Ninfas da Ilha Namorada. Aníbal Pinto de Castro, «Os Lusíadas», in Biblos – Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa, vol. 3, Lisboa, Verbo, 1990, pp. 276, 277 William Turner, Tempestade de neve, 1842. 5 10 5 10 15 15
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    253 Ficha informativa 3. Interdependênciados planos III A narração interrompe-se nos cantos antes de alguma narrativa especial ou algum acontecimento mais importante e interrompe-se para dar lugar a discursos (as conside- raçõesdopoeta).Sãonumerososestesdiscursosmarginaisànarraçãoemuitodesiguais em extensão […]. Tendo em conta o relevo destes «discursos» e o seu elevado número, se considerarmos que é através deles que o poeta veicula a sua principal mensagem cívica e pedagógica, que é ainda por meio deles que passa a finalidade épica – louvar e imortalizar os heróis, corrigindo por vezes a justiça mundana; se ligarmos todos estes fios, convencemo-nos de que as linhas mestras deste poema se situam mais no plano do discurso e menos no plano da narração. Maria Vitalina Leal de Matos, op. cit., 2003, p. 103 CONSOLIDA 1. As afirmações que se seguem sistematizam, por parágrafos, a informação essencial dos textos que acabaste de ler. 1.1 Identifica os textos e respetivos parágrafos. a) O fio condutor que confere unidade de ação é a viagem de Vasco da Gama à Índia. b) A presença divina interage constantemente com os humanos, ora inspirando, ora punindo, ora divinizando. c) As considerações, reflexões, críticas e, em geral, todas as ideias filosóficas de Camões assumem especial relevo em Os Lusíadas. d) O plano mitológico é um elemento esti- lístico decorativo, mas também serve o propósito épico de exaltação dos heróis. e) Camões tem de articular várias temáti- cas de diversa índole. f) Os episódios mitológicos são introduzi- dos em três pontos fulcrais da obra. g) Os acontecimentos históricos aparecem em analepses e prolepses. Luigi Sabatelli, O Consílio dos Deuses, s/d (fresco do Palácio Pitti, Florença). 5 PROFESSOR Leitura 7.3; 8.1. Educação Literária 14.3; 15.1; 15.2. MC Consolida 1.1 a)+7JFA B3Dt9D38A b)+7JFAB3Dt9D38A c)+7JFAB3Dt9D38A d)+7JFAB3Dt9D38A e)+7JFA B3Dt9D38A f)+7JFAB3Dt9D38A g)+7JFA B3Dt9D38A PowerPoint Ficha informativa n.o 6
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    254 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES 1. Situa o texto na estrutura interna da obra. 2. Identifica os planos presentes no excerto e explicita a sua interdependência. 3. Atenta no último verso da estância 76. 3.1 Refere a expressividade dos adjetivos utilizados para descrever o caminho até ao cume da ilha. EDUCAÇÃO LITERÁRIA A Máquina do Mundo Constituição da matéria épica 75 Despois que a corporal necessidade Se satisfez do mantimento nobre, E na harmonia e doce suavidade Viram os altos feitos que descobre1 , Tétis2 , de graça ornada e gravidade, Pera que com mais alta glória dobre As festas deste alegre e claro3 dia, Pera o felice Gama assi dizia: 76 – «Faz-te mercê, barão, a Sapiência Suprema4 de, cos olhos corporais, Veres o que não pode a vã ciência Dos errados5 e míseros mortais. Sigue-me firme e forte, com prudência, Por este monte espesso, tu cos mais.6 » Assi lhe diz e o guia por um mato Árduo, difícil, duro a humano trato. 77 Não andam muito que no erguido cume Se acharam, onde um campo se esmaltava De esmeraldas, rubis, tais que presume A vista que divino chão pisava. Aqui um globo vêm no ar, que o lume Claríssimo por ele penetrava7 , De modo que o seu centro está evidente, Como a sua superfícia, claramente. 78 Qual a matéria seja não se enxerga8 , Mas enxerga-se bem que está composto De vários orbes9 , que a Divina verga10 Compôs, e um centro a todos só tem posto. Volvendo11 , ora se abaxe, agora se erga, Nuncas’ergueouseabaxa,eummesmorosto12 Por toda a parte tem; e em toda a parte Começa e acaba13 , enfim, por divina arte14 , 79 Uniforme, perfeito, em si sustido, Qual, enfim, o Arquetipo15 que o criou. Vendo o Gama este globo, comovido De espanto e de desejo ali ficou. Diz-lhe a Deusa: – «O transunto16 , reduzido Em pequeno volume17 , aqui te dou Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas Por onde vás e irás e o que desejas. Luís de Camões, op. cit., pp. 458-459 1 v. 4 (est. 75): o sujeito é a ninfa Sirena, que anteriormente descre- vera as glórias futuras dos lusos no Oriente. 2 Tétis: deusa do mar que se uniu amorosamente a Vasco da Gama. 3 Claro: ilustre. 4 Sapiência / Suprema: omnisciên- cia, própria dos deuses. 5 Dos errados: dos que se enganam. 6 Tu cos mais: tu e os teus compa- nheiros. 7 v. 6 (est. 77): o «globo» era translúcido. 8 Não se enxerga: não se com- preende. 9 Vários orbes: várias esferas ou céus que, segundo Ptolomeu, se encontravam a seguir às esferas do Ar e do Fogo, com a Terra no centro. 10 Divina verga: o poder de Deus. 11 Volvendo: girando. 12 v. 5 (est. 78): a esfera não se ergue nem se baixa relativamente ao seu centro. 13 Começa e acaba: como no círculo, não há princípio nem fim deter- minados. 14 Divina arte: à semelhança de Deus, por divino modo. 15 Arquetipo: modelo do mundo, criado por Deus. 16 Transunto: a cópia do Universo. 17 Pequeno volume: em miniatura. PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.6; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 16.1. Gramática 17.3. MC CD 1 Faixa n.o 39
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    255 Os Lusíadas: CantoX 4. Depois de a ninfa Sirena ter profetizado os feitos futuros do povo luso no Oriente (est. 75), Tétis convida Vasco da Gama a ver algo que «não pode a vã ciência / Dos errados e míseros mortais» (est. 76, vv. 3-4). 4.1 Indica o que ele vê e explica por que razão lhe foi concedido esse dom, digno ape- nas dos deuses. 5. Relê, agora, a estância 79. 5.1 Identifica uma enumeração e explicita o seu valor expressivo. 6. Após a descrição da Máquina do Mundo,Tétis inicia um discurso profético sobre as futuras conquistas dos portugueses no mundo. 6.1 Comprova a afirmação com elementos textuais. GRAMÁTICA 1. Identifica os processos fonológicos que ocorreram na evolução das seguintes palavras (considera as unidades destacadas): a) DEPOST despois (est. 75, v. 1) b) BASSIARE abaxar (cf.«abaxa» [Est. 78, v. 6]) José de Almada Negreiros, Ilha dos Amores, 1961 (incisão, átrio do edifício da Faculdade de Letras de Lisboa). Representa Vasco da Gama, acompanhado da deusa Tétis, que lhe apresenta a «Máquina do Mundo», figurada na Cosmografia de Ptolomeu. A Máquina do Mundo diz respeito ao cosmos, descrito pelo matemático e cosmógrafo português Pedro Nunes (1502-1578) como sendo composto por dez esferas celestes concêntricas. No centro estava a Terra, formada pelos quatro elementos: terra, água, ar e fogo. Nesta composição entram ainda as esferas das sete estrelas errantes (Lua, Mercúrio, Vénus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno), as esferas das estrelas fixas e mais duas esferas que explicavam o movimento diurno das estrelas e o movimento dos pontos equinociais. A Terra, ao contrário do celestial, encontrava-se em perpétua transformação. CURIOSIDADE Fonética e fonologia p. 38 FI PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. Narração, na Ilha dos Amores, aquando da viagem de regresso a Portugal. 2. Os planos são o da viagem e o da mitologia. Na viagem de regresso a Portugalencaixa-seoepisódiomara- vilhoso da Ilha dos Amores. Neste excerto, Tétis mostra a Vasco da 3?33$tCG;@36A$G@6A 3.1 Os adjetivos simbolizam as dificuldades que o Homem tem de 7@8D7@F3D B3D3 353@{3D 3 9†D;3 conhecimento. É necessário percor- rerumcaminho«árduo,difícil,duro» para se chegar ao conhecimento do Universo. 4.1 i$tCG;@36A$G@6A i-3E5A63 Gama, simbolicamente divinizado (através da sua união física com a deusa Tétis), é-lhe concedido esse dom, de modo a premiar a coragem e heroicidade evidenciadas ao longo dasuaviagemàÍndia. 5.1 @G?7D3{yA¤De espanto e de desejo¥7EF H +D36GLA7EF36A 677EB€D;FA67-3E5A633?37EFG- pefação pela novidade e maravilha do globo; e uma vontade imensa de conhecer os mistérios daquilo que Tétislheapresenta. 6.1 «A$G@6A3AEA:AEF7GEB7D3 CG7H73E 'ADA@67HtE7;DtE7ACG7 desejas¥7EF HH Gramática 1.a)epêntese; b)apócopeeprótese.
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    256 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES EDUCAÇÃO LITERÁRIA A Máquina do Mundo Constituição da matéria épica 80 «Vês aqui a grande máquina do Mundo, Etérea1 e elemental2 , que fabricada Assi foi do Saber, alto e profundo, Que é sem princípio e meta limitada3 . Quem cerca em derredor este rotundo Globo e sua superfícia tão limada, ÉDeus:masoqueéDeus,ninguémoentende, Queatantooengenhohumanonãoseestende. 81 «Este orbe que, primeiro, vai cercando Os outros mais pequenos que em si tem, Que está com luz tão clara radiando Que a vista cega e a mente vil também, Empíreo4 se nomeia, onde logrando5 Puras almas estão daquele Bem Tamanho, que ele só se entende e alcança, De quem não há no mundo semelhança. 82 «Aqui, só verdadeiros, gloriosos Divos6 estão, porque eu, Saturno7 e Jano8 , Júpiter, Juno9 , fomos fabulosos, Fingidos de mortal e cego engano. Só pera fazer versos deleitosos Servimos; e, se mais o trato humano Nos pode dar, é só que o nome nosso Nestas estrelas10 pôs o engenho vosso. 83 «E também, porque a santa Providência, Que em Júpiter aqui se representa11 , Por espíritos mil12 que têm prudência Governa o Mundo todo que sustenta (Ensina-lo13 a profética ciência, Em muitos dos exemplos que apresenta); Os que são bons, guiando, favorecem, Os maus, em quanto podem, nos empecem; 84 «Quer logo aqui a pintura que varia Agora deleitando, ora ensinando14 , Dar-lhe nomes que a antiga Poesia A seus Deuses já dera, tabulando; Que os Anjos de celeste companhia15 Deuses o sacro verso está chamando, Nem nega que esse nome preminente Também aos maus se dá, mas falsamente. 85 «Enfim que o Sumo Deus, que por segundas Causas obra no Mundo, tudo manda16 . E tornando a contar-te das profundas Obras da Mão Divina veneranda, Debaxo deste círculo17 onde as mundas Almas18 divinas gozam, que não anda, Outro corre, tão leve e tão ligeiro Que não se enxerga: é o Móbile primeiro19 . 1 Etérea: celestial. 2 Elemental: composta pelos quatro elementos. 3 Sem princípio e meta limitada: Deus. 4 Empíreo: paraíso cristão. 5 Logrando: usufruindo. 6 Divos: título dado, após a sua morte, aos imperadores diviniza- dos e, em primeiro lugar, a Júlio César; Santos (da Igreja Católica). 7 Saturno: filho do Céu e da Terra. 8 Jano: filho de Apolo. 9 Juno: esposa de Júpiter. 10 Estrelas: estrelas em sentido geral, incluindo, portanto, os planetas. 11 Júpiter aqui se representa: Júpiter, apesar de «fabuloso», é o deus supremo. 12 Por espíritos mil: Júpiter governa o mundo por intermédio de espíri- tos mil bons e maus. 13 Ensina-lo: ensina-no-lo. 14 vv. 1-2 (est. 84): quer, portanto, a poesia, que ora deleita ora ensina, dar nomes aos falsos deuses. 15 v. 5 (est. 84): que o «sacro verso» (a Sagrada Escritura) também chama deuses aos anjos da celeste companhia e mesmo aos maus, embora falsamente. 16 v. 2 (est. 85): quem manda é o Sumo Deus e tudo o mais é poesia «deleitosa». 17 Círculo: o mesmo que esfera. 18 Mundas /Almas: almas puras. 19 Móbile primeiro: o primeiro movi- mento. Representação artística do modelo geocêntrico de Ptolomeu, 1660. PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.9; 14.11; 15.1; 15.2; 15.3; 15.5; 16.1; 16.2. Gramática 17.7; 18.1; 18.2; 18.4; 19.1; 19.3. Escrita 10.1; 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 12.5; 13.1. MC
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    257 Os Lusíadas, CantoX 86 «Com este rapto20 e grande21 movimento Vão todos os que dentro tem no seio22 ; Por obra deste, o Sol, andando a tento23 , O dia e noite faz, com curso alheio24 . Debaxo deste leve, anda outro25 lento, Tão lento e sojugado a duro freio, Que enquanto Febo26 , de luz nunca escasso, Duzentos cursos faz, dá ele um passo27 . 87 «Olha estoutro debaxo28 , que esmaltado De corpos lisos anda e radiantes29 , Que também nele tem curso ordenado E nos seus axes correm30 cintilantes. Bem vês como se veste e faz ornado Co largo Cinto d’ ouro31 , que estelantes Animais doze traz afigurados32 , Apousentos de Febo limitados. 88 «Olha por outras partes33 a pintura34 Que as Estrelas fulgentes vão fazendo: Olha a Carreta35 , atenta a Cinosura36 , Andrómedaeseupai37 ,eoDrago38 horrendo; Vê de Cassiopeia39 a formosura E do Orionte o gesto turbulento40 ; Olha o Cisne morrendo que suspira, A Lebre e os Cães, a Nau41 e a doce Lira. 89 «Debaxo deste grande Firmamento42 , Vês o céu de Saturno, Deus antigo; Júpiter logo faz o movimento, E Marte abaxo, bélico inimigo; O claro Olho do céu43 , no quarto assento, E Vénus, que os amores traz consigo; Mercúrio, de eloquência soberana; Com três rostos, debaxo vai Diana44 . 90 «Em todos estes orbes, diferente Curso verás, nuns grave e noutros leve; Ora fogem do Centro longamente, Ora da Terra estão caminho breve45 , Bem como quis o Padre omnipotente46 , Que o fogo fez e o ar, o vento e neve, Os quais verás que jazem mais a dentro E tem co Mar a Terra por seu centro. 91 «Neste centro47 , pousada dos humanos, Que não sòmente, ousados, se contentam De sofrerem da terra firme os danos, Mas inda o mar instábil exprimentam, Verás as várias partes48 , que os insanos49 Mares dividem, onde se apousentam Várias nações que mandam vários Reis, Vários costumes seus e várias leis50 . Luís de Camões, op. cit., pp. 460-462 20 Rapto: giratório. 21 Grande: rapidez do movimento diurno é tanta que num dia dá uma volta completa, produzindo o dia e a noite. 22 v. 2 (est. 86): o primeiro movimento move e leva com o seu ímpeto todas as outras esferas – os planetas como os seus céus. 23 Andando a tento: com regularidade. 24 Curso alheio: movimento proveniente do primeiro móbil. 25 Debaxo deste leve, anda outro: o segundo móbil ou Céu cristalino. 26 Febo: deus da luz e do dia. 27 v. 8 (est. 86): de tão lento, o seu movimento é de um grau em duzentos cursos do Sol. 28 Estoutro debaxo: a oitava esfera: o firmamento. 29 v. 2 (est. 87): as estrelas fixas. 30 E nos seus axes correm: os eixos próprios da oitava esfera. 31 Cinto d’ouro: o Zodíaco. 32 v. 7 (est. 87): os doze signos do Zodíaco, considerados casas do Sol. 33 Outras partes: por outras partes do firmamento, mas fora do Zodíaco. 34 Pintura: figuras que as estrelas formam no céu (as doze constelações). 35 Carreta: Ursa Maior. 36 Cinosura: Ursa Menor. 37 Andrómeda e seu pai: constelação do hemisfério boreal e seu pai Cefeu. 38 Drago: Dragão. 39 Cassiopeia: mãe de Andrómeda. 40 v. 6 (est. 88): Orion, que traz chuvas e tempestades. 41 Nau: Argo. 42 v. 1 (est. 89): sete esferas planetárias. 43 Olho do céu: o Sol. 44 v. 8 (est. 89): a Lua e as suas três fases. 45 vv. 3-4 (est. 90): cada um com o seu movimento, os planetas ora estão longe ora perto da Terra. 46 v. 5 (est. 90): o poeta vai falar da região «elemental» muito brevemente, para depois se ocupar de dois deles, a terra e a água. 47 Neste centro: na Terra. 48 Partes: continentes. 49 Insanos: enfurecidos. 50 Leis: leis civis e religiosas.
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    258 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES 1. Identifica o narrador, das estâncias 80 a 91, e classifica-o quanto à presença e ciência. 2. Atenta nos versos «Quem cerca em derredor este rotundo / Globo e sua superfícia tão limada, / É Deus…» (est. 80 vv. 5-7) e «Aqui, só verdadeiros, gloriosos / Divos estão, porque eu, Saturno e Jano, / Júpiter, Juno, fomos fabulosos, / Fingidos de mortal e cego engano» (est. 82, vv. 1-4). 2.1 Explica a relação que se estabelece entre o Deus cristão e os deuses da mitologia. 2.2 Refere o objetivo de Camões ao incluir os deuses mitológicos na sua epopeia. Justifica a tua resposta com elementos textuais. 3. Completa o texto que apresenta a constituição da Máquina do Mundo, ou seja, do Universo, segundo a teoria de Ptolomeu, indicando as estâncias correspondentes ao assunto. 4. Atenta na estância 91. 4.1 Indica a constituição da Terra. 4.2 No contexto da ação épica de Os Lusíadas, explica o uso do adjetivo «ousados» (v. 2). 5. Explicita a alegoria presente nas estâncias em análise. 6. Relê agora os versos 7 e 8 da estância 79. Explica como a mitificação do herói está, mais uma vez, presente nestes versos. 7. Mostra como a sublimidade do canto é notória na descrição do Universo. 8. A Ilha dos Amores, cantos IX e X, é o símbolo de todas as recompensas que os Descobri- mentos trouxeram ao povo português. 8.1 Sintetiza-as. O mundo apresenta uma parte celestial (transparente) e outra elementar, constituída pelos quatro elementos (est. a) ). Na parte elementar encontra-se a terra imóvel – centro do mundo –, seguida logo pela água (os mares), pelo ar e finalmente pelo fogo que chega ao céu da Lua (est. b) e c) ). A parte celestial é composta por sete céus (os planetas), disposta em círculos concên- tricos, nomeadamente a esfera da Lua (que representa Diana), de Mercúrio, de Vénus, do Sol (que representa Febo), de Marte, de Júpiter e de Saturno (est. d) e e) , vv. 1-4). Depois destes sete céus, aparece o Firmamento, com estrelas fixas, (est. f) e g) ), seguido pelo Céu Áqueo ou Cristalino (est. h) , vv. 4 a 8) e depois pelo Primeiro Móbil (est. i) , v. 7, à est. j) , v. 4), esfera que, através do seu movimento, arrasta todas as outras consigo. Finalmente, a circundar toda a máquina, encontra-se o Empíreo, esfera imóvel (est. k) , v. 5, à est. l) ). No total, são onze esferas. PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.%3DD36AD+|F;E o:A?A6;79|F;5A7 omnisciente. 2.1 Estabelece-se uma relação de oposição entre o Deus cristão e os deuses mitológicos. Tétis proclama a falsidade dos segundos e a supre- maciadoDeuscristão,queenvolveo globoeestáemtodaaparte. 2.2 Além de serem constituintes obrigatórios de uma epopeia, os deuses mitológicos têm como obje- tivo embelezar a poesia («Só pera 83L7DH7DEAE677;FAEAE *7DH;?AE»– 7EF HH 763D@A?7E3AEB3- netas («|E†CG7A@A?7@AEEA %7E- tas estrelas pôs o engenho vosso» ¬7EF HH 3. a)7EF b)7EF c)7EF d) 7EF e) 7EF f) 7EF g)7EF h)7EF i)7EF j)7EF k)7EF l)7EF 4.1 Os mares dividem («$3D7E6;H;- dem¥¬7EF H AEHtD;AE5A@F;- nentes («várias partes¥¬7EF H com os seus diversos países («Várias nações¥¬7EF H 4.2 O adjetivo sugere a coragem e o esforço do povo luso ao enfrentar os «danos» da terra (conquistas milita- reseterritoriais),ainstabilidadeeos perigos dos mares na descoberta de outros destinos, contribuindo para a suavalorização. 5.VascodaGamarecebeoprémiode veraquiloquesóintelectualmenteé dado a conhecer ao Homem comum –aconstituiçãodoUniverso.Alegori- camente,éaquisimbolizadaadivini- zação e, consequente, imortalidade doHomem,prémiomáximodaheroi- cidade. Com poderes divinos atribuí- dos, Vasco da Gama torna-se Senhor do Espaço ao ver a representação do globoterrestre. 6. Além de Senhor do Espaço, Vasco daGamatorna-seSenhordoTempo, ao poder ver o futuro. Com a leitura 6AEHH 637EF H7D;¹53?AECG7 Vasco da Gama terá acesso aos ter- ritóriosqueosportuguesesconquis- F3DyA¤B7D3CG7H73E 'ADA@67HtE eirás¥7EF HH 7. Descreve-se poeticamente o funcionamento do Universo, recor- rendo-se à temática heroica (dom concedido a Vasco da Gama), à pre- sença da mitologia, ao vocabulário erudito («rotundo», «meta») e a D75GDEAE7JBD7EE;HAE379AD;3¦
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    259 Os Lusíadas: CantoX GRAMÁTICA 1. Transcreve três arcaísmos das estâncias 90 e 91. 2. Classifica as atuais formas «padre» e «pai», tendo em conta a origem latina comum PATRE-. 3. Identifica e classifica as orações subordinadas nos seguintes versos: a) «Nem nega que esse nome preminente / Também aos maus se dá» (est. 84, vv. 7-8). b) «a pintura / Que as Estrelas fulgentes vão fazendo» (est. 88, vv. 1-2). c) «Verás as várias partes, […] / onde se apousentam / Várias nações» (est. 91; vv. 5-7). 3.1 Indica a função sintática desempenhada por cada uma. 4. Expande os seguintes grupos adjetivais, acrescentando-lhes complementos do adjetivo. a) Uma escolha diferente… b) Fiquei esclarecido… 5. Constrói duas frases com o campo semântico das palavras «estrela» e «sol». ESCRITA Exposição sobre um tema Visiona alguns excertos do filme Troia. 1. Toma as notas que considerares necessárias, de acordo com o plano de texto abaixo apresentado. 2. Numa exposição, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, estabelece compa- rações entre a obra Os Lusíadas e o filme Troia. Segue os tópicos do plano de texto: Introdução: 1.º parágrafo – classificação da obra e do filme quanto ao género. Desenvolvimento: 2.º parágrafo – personagens intervenientes na ação; 3.º parágrafo – caracterização/classificação do herói; 4.º parágrafo – procura da imortalidade. Conclusão: 5.º parágrafo – cumprimento da profecia de Tétis (mãe de Aquiles); oposição morte física/imortalidade. No final, revê o teu texto para fazeres correções e melhorias que consideres necessárias. Exposição sobre um tema p. 311 SIGA PROFESSOR 8.1 A ilha simboliza um prazer para os cinco sentidos (paisagem «locus amoenus»), uma satisfação erótica presente na união entre ninfas e nau- F3ECG75A@FD;4G;B3D336;H;@;L3{yA imortalização dos navegadores e D7EGF3@A@3E5;?7@FA67G?3BDA7 raça superior. Simboliza também o conhecimento do amor sublime, do Universo e do futuro (profecias de SirenaeTétis). Gramática 1.«orbes»,«Padre»,«instábil». 2.Palavrasdivergentes. 3. a) «CG77EE7@A?7BD7?;@7@F7 _¦ase dá» – oração subordinada subs- tantiva completiva; b) «Que as Estre- las fulgentes vão fazendo» – oração subordinada adjetiva relativa restri- tiva; c) «A@67E73BAGE7@F3? -tD;3E nações» – oração subordinada adje- tivarelativaexplicativa. 3.1. a) complemeto direto; b) modi- ficador restritivo do nome; c) modi- ficadorapositivodo nome. 4. a)¦67FA63E3EAGFD3Eb)¦5A?3 leituradaobra. 5. “3|G?37EFD73675;@7?3§@A;F7 vemosmuitasestrelasnocéu; “EA;DD36;3?G;FA53ADoEAEA63 minhavida. Escrita Sugestão: Introdução o parágrafo – género épico; Desenvolvimento o parágrafo – reais (Gama) e mitológicas (Vénus, +|F;E¦ ?;FA†9;53EiCG;7E+|F;E ,;EE7E¦ o parágrafo – herói coletivo e real representado por Vasco Gama, que lutapelaglóriadePortugal,eAquiles, herói mitológico que procura a glória individual. Dois tipos de heróis refe- renciados em oposição na Proposição e Dedicatória; ambos apresentam qualidadesbélicas; o parágrafo – a procura da imortali- 6367B7DB3EE33A4D37A¹?79†D;3 associada ao sofrimento e morte; a coragem como caminho para a imor- talidade; no filme, referida por Aqui- 7E+|F;E7,;EE7E @3A4D3D787D;63 pelopoetanocantoV. Conclusão o parágrafo – morte física do herói Aquiles (na guerra de Troia com a seta no calcanhar), tal 5A?ABDA87F;L3D33EG3?y7+|F;E AE heróisportuguesestambémsofreram uma morte física, mas o seu nome e a sua coragem continuam inscritos nas páginasdaHistória. Link Trailer do filme Troia
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    260 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES PONTO DE PARTIDA 1. Visiona um excerto do filme Camões, intitulado «Camões lê Os Lusíadas a D. Sebastião». 1.1 Apresenta, em tópicos, pontos de con- tacto entre as estâncias dos cantos ante- riores e o excerto do filme visionado, bem como comparações pertinentes com as temáticas estudadas correspon- dentes ao plano das reflexões do poeta. Partilha-os oralmente com a tua turma. EDUCAÇÃO LITERÁRIA Lamentações e profecia de futuras glórias nacionais Reflexões do poeta 145 Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho Destemperada1 e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida2 . O favor3 com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Dùa austera, apagada e vil tristeza4 . 146 E não sei por que influxo de Destino Não tem5 um ledo orgulho e geral gosto, Que os ânimos levanta de contino6 A ter pera trabalhos ledo o rosto. Por isso vós, ó Rei, que por divino Conselho7 estais no régio sólio posto, Olhai que sois (e vede as outras gentes) Senhor só de vassalos excelentes. 147 Olhai que8 ledos vão, por várias vias, Quais rompentes liões e bravos touros, Dando os corpos a fomes e vigias9 , A ferro, a fogo, a setas e pelouros10 , A quentes regiões, a plagas frias, A golpes de Idolátras e de Mouros, A perigos incógnitos do mundo, A naufrágios, a pexes, ao profundo11 . 148 Por vos servir, a tudo aparelhados12 ; De vós tão longe, sempre obedientes; A quaisquer vossos ásperos mandados, Sem dar reposta, prontos e contentes. Só com saber que são de vós olhados, Demónios infernais, negros e ardentes13 , Cometerão14 convosco, e não duvido Que vencedor vos façam, não vencido. 149 Favorecei-os logo15 , e alegrai-os Com a presença e leda humanidade16 ; De rigorosas leis desalivai-os17 , Que assi se abre o caminho à santidade18 . Os mais exprimentados levantai-os, Se, com a experiência, têm bondade19 Pera vosso conselho, pois que sabem O como, o quando, e onde as cousas cabem. 150 Todos favorecei em seus ofícios, Segundo têm das vidas o talento20 ; Tenham Religiosos exercícios21 De rogarem, por vosso regimento, Com jejuns, disciplina, pelos vícios Comuns22 ; toda ambição terão por vento23 , Que o bom Religioso verdadeiro Glória vã não pretende nem dinheiro. 1 Destemperada: desafinada. 2 Endurecida: indiferente. 3 O favor: o apoio. 4 v. 8 (est. 145): de uma som- bria, amortecida e mesquinha tristeza. 5 Não tem: ela, a Pátria. 6 Contino: contínuo. 7 Por divino / Conselho: por Providência Divina. 8 Que: quão. 9 Vigias: vigílias. 10 Pelouros: balas de pedra ou metal. 11 Ao profundo: ao mar. 12 Aparelhados: preparados. 13 v. 6 (est. 148): imagem do guerreiro invencível.Negros da pólvora e do fumo das batalhas. 14 Cometerão: acometerão, atacarão. 15 Logo: portanto. 16 v. 2 (est. 149): com alegre afabilidade. 17 Desalivai-os: aliviai-os. 18 v. 9 (est. 149): à veneração dos súbditos. 19 Bondade: competência. 20 Talento: a cada um conforme a sua capacidade. 21 Tenham Religiosos exercícios: tenham os religiosos a ocu- pação. 22 Vícios / Comuns: de rogarem pelo cumprimento de vossas leis («regimento») e pelos vícios comuns. 23 Toda ambição terão por vento: desprezarão. PROFESSOR Oralidade 1.1; 1.3; 2.1; 2.2; 3.2; 4.1; 4.2; 5.2; 5.3. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.11; 15.1; 15.2; 15.3; 15.7; 16.1; 16.2. Leitura 8.1; 8.2. Escrita 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. MC PontodePartida 1.1 Lamentações do poeta; pouco valor dado à cultura; estado da @3{yA 5A4;{3 DG67L3 H; FD;EF7L3 superioridade dos portugueses; quem deve dar conselhos ao rei; apresenta-se como um homem de armasedeletrasparaservirorei.
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    261 Os Lusíadas: CantoX 151 Os Cavaleiros tende em muita estima, Pois com seu sangue intrépido e fervente Estendem não sòmente a Lei de cima24 , Mas inda vosso Império preminente. Pois aqueles que a tão remoto clima Vos vão servir, com passo diligente, Dous inimigos vencem: uns, os vivos25 , E (o que é mais) os trabalhos excessivos. 152 Fazei, Senhor, que nunca os admirados Alemães, Galos26 , Ítalos e Ingleses, Possam dizer que são pera mandados27 , Mais que pera mandar, os Portugueses. Tomai conselho só d’ exprimentados, Que viram largos anos, largos meses, Que, posto que em cientes28 muito cabe, Mais em particular o experto sabe29 . 153 De Formião, filósofo elegante30 , Vereis como Anibal escarnecia, Quando das artes bélicas, diante Dele, com larga voz tratava e lia31 . A disciplina militar prestante Não se aprende, Senhor, na fantasia, Sonhando, imaginando ou estudando, Senão vendo, tratando e pelejando. 154 Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo, De vós não conhecido nem sonhado? Da boca dos pequenos sei, contudo, Que o louvor sai às vezes acabado32 . Nem me falta na vida honesto estudo, Com longa experiência misturado, Nem engenho, que aqui vereis presente, Cousas que juntas se acham raramente. 155 Pera servir-vos, braço às armas feito33 , Pera cantar-vos, mente às Musas dada; Só me falece34 ser a vós aceito, De quem virtude35 deve ser prezada. Se me isto o Céu concede, e o vosso peito Dina empresa tomar de ser cantada36 , Como a pres[s]aga mente vaticina Olhando a vossa inclinação divina37 , 156 Ou fazendo que, mais que a de Medusa38 , A vista vossa tema o monte Atlante39 , Ou rompendo nos campos de Ampelusa40 Os muros de Marrocos e Trudante41 , A minha já estimada e leda Musa Fico42 que em todo o mundo de vós cante, De sorte que Alexandro em vós se veja43 , Sem à dita de Aquiles ter enveja44 . Luís de Camões, op. cit., pp. 476-479 24 Lei de cima: a lei de Deus. 25 Os vivos: os homens. 26 Galos: Franceses. 27 São pera mandados: são para serem mandados. 28 Cientes: sábios. 29 v. 4 (est. 152): o poeta faz a apologia da experiência e exemplifica na estância seguinte. 30 Filósofo elegante: filósofo peri- patético do tempo de Aníbal que falou doutoralmente sobre artes bélicas diante do chefe militar. A anedota é contada por Cícero no De Oratore, II.18. 31 Com larga voz tratava e lia: expunha com exibicionismo. 32 Acabado: perfeito. 33 Feito: afeito, habituado. 34 Falece: falta. 35 Virtude: merecimento. 36 v. 6 (est. 155): praticar feitos dignos de serem cantados em poesia. 37 A vossa inclinação divina: a vossa propensão divina. 38 Medusa: personagem mitoló- gica com serpentes no lugar de cabelos; transformava em pedra quem para ela olhasse. 39 Atlante: Atlas (em Marrocos)/ os Mouros devem temer mais ainda a vista do rei D. Sebastião. 40 Campos de Ampelusa: cabo Espartel, próximo de Tânger. 41 Trudante: capital de província vizinha de Marrocos. 42 Fico: asseguro. 43 v. 7 (est. 156): de modo que se veja em vós um novo Alexandre Magno. 44 v. 8 (est. 156): sem invejar Aquiles, cuja heroicidade foi cantada na obra Ilíada, de Homero (porque D. Sebastião também será cantado futura- mente por Camões). Eustache Le Sueur, As musas Clio, Euterpe e Tália, 1640-1645 (pormenor).
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    262 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES 1. Indica o assunto destas estâncias, selecionando a opção correta. a) Desalentado, mas esperançoso, o poeta afirma não escrever mais e apela a D. Sebas- tião para liderar os seus excelentes vassalos e iniciar um novo período de glória para Portugal, o qual ele promete cantar. b) Desalentado, o poeta afirma não escrever mais e apela a D. Sebastião para liderar os seus excelentes vassalos e iniciar um novo período de glória para Portugal, o qual ele não promete cantar, pois está cansado de não ser valorizado. 2. Quanto à estrutura interna, é possível dividir o texto em partes. 2.1 Delimita-as, sintetizando o assunto tratado em cada uma delas. 3. Atenta, agora, nas estâncias 145 e 146. 3.1 Explicita o desânimo do poeta perante os seus contemporâneos. 3.2 Sintetiza as críticas dirigidas aos portugueses. 4. Nas estâncias 149 à 153, o poeta sugere que o rei se empenhe na realização de feitos gloriosos. 4.1 Refere as recomendações que lhe são dirigidas. 5. Relaciona estas recomendações com as referências pessoais do poeta nas três últimas estâncias. 6. Indica a intenção de Camões ao analisar e criticar o estado em que se encontrava a pátria. 7. Apresenta o teu ponto de vista acerca do valor de Os Lusíadas, enquanto obra simbó- lica, no plano do imaginário português individual e coletivo. ESCRITA Síntese Lê, atentamente, o texto da página seguinte. O excerto de Oliveira Macêdo ajudar-te-á a compreender melhor a relação entre a Propo- sição, a Dedicatória e as estâncias finais do Canto X. Elabora uma síntese do texto, utilizando entre cento e sessenta e cento e oitenta pala- vras. Toma as notas que considerares necessárias. Síntese p. 313 SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1.a). 2. 1.a parte7EF 7AEBD;?7;- DAE H7DEAE 63 7EF ¬ 3?Š7E lamenta-se da decadência da pátria edizestarcansadodecantarasgló- riasportuguesas; 2.a parte6AE‹F;?AEH7DEAE637EF u7EF ¬3?Š7E6;D;97 E73 D. Sebastião fazendo-o notar que é senhor de súbditos excelentes dis- postos a servi-lo, elogiando-os. São guerreiros valentes e dispostos a enfrentar todos os perigos com ale- gria e obediência, de forma a trans- formaroreinumvencedor; 3.a parte 7EFE ¬ A BA7F3 aconselha o rei a reinar bem, fazendo-lhe algumas recomenda- ções; 4.a parte7EFE ¬7?4AD3:G mildemente, Camões reconhece o seu valor feito de conhecimentos e 677JB7D;~@5;37EF 7A87D757 E7 aoreiparaoservirnaguerraecantar AEE7GE87;FAE7EF BD7EE39;3@6A uma façanha de D. Sebastião – o combate e a destruição dos mouros 7EFE 3.1 O poeta mostra-se desanimado, pois vê o seu talento menosprezado e a sua mensagem não é ouvida; a açãoultramarinaqueelecantounão évalorizada(«Cantaragentesurdae endurecida¥¬7EF H 3.2 Os portugueses não permitiam a realização de novas glórias, uma vez que se mostravam indiferen- tes ao canto dos feitos heroicos do passado («Cantar a gente surda e endurecida¥¬7EF H FD;EF7E e apáticos («austera, apagada e vil tristeza¥¬7EF H 7B7DE79G;3? valores individuais e não coletivos e patriotas(«Nogostodacobiça»–est. H
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    263 Os Lusíadas: CantoX A Dedicatória a D. Sebastião, ao traçar um retrato da imagem ideal da realeza, e até certo ponto espelho dos requisitos do Herói, prolonga algumas das linhas defini- doras da heroicidade pela Proposição: é curioso verificar a importância da genealogia, da nobreza de sangue, do cariz messiânico e salvador – «bem-nascida segurança», «que nenhuma nascida no Ocidente» – logo à cabeça desta Dedicatória. Repercutem-se as notas da valentia guerreira («novo temor da maura lança»), da missão religiosa e de cruzada («novo ramo florescente / duma árvore de Cristo mais amada»), da imensidão do Império e do Poder. […] Assim é proposta, no limiar do poema, uma imagem de heroicidade […] que dominará o poema inteiro: o valor excecional e incomparável do rei e de homens ilustres lusitanos que, rompendo os limites humanos, vencendo perigos, distâncias e o desconhecido, constroem um império longínquo onde propagam a fé, a civilização e o Império. […] Camões invoca D. Sebastião (I, 6-8) a fim de o estimular para o desempenho das suas funções (apesar da tenra idade e da anarquia política que se desenhava) […]. O rei será o Messias para enfrentar a influência castelhana na corte e eliminar a crise política instalada («E vós ó bem nascida segurança / Da lusitana antiga liberdade») e lutar contra o Mouro («ó novo temor da Maura lança»). De seguida, introduz apelos ao futuro rei: primeiro para que tome «as rédeas do Reino» (se assuma como rei); segundo, «estes meus versos vossos sejam» (se reveja no canto do poeta). Assim, D. Sebastião será cantado e entrará também no Panteão da Glória Imortal. Também nas estâncias 146 a 156, Luís de Camões procura animar o rei com a visão do exemplo dos Heróis («Olha que sois […] / Senhor só de vassalos excelentes.»), que estarão sempre prontos, na obediência e ao seu serviço, a cometer os mesmos feitos narrados. […] Por fim, a oferta total do poeta à causa do rei e da pátria, com «a pena», indo ao encontro do já apresentado na Proposição («Cantando espalharei a toda a parte»), e com a «espada», considerando-se, embora humildemente, estudioso, experiente e engenhoso – ao contrário da maioria «apagada» e ociosa, que vegetava pelos salões. […] Mas desta vez, não se oferece para cantar os feitos gloriosos do passado, mas sim uma glória futura que será alcançada por D. Sebastião com a derrota dos Mouros no Norte de África. Mais uma vez, e à semelhança do que já anunciara na Proposição, os feitos glo- riosos dos Gregos e Romanos, «Alexandre» (conquistador) e «Aquiles» (herói da Ilíada) são postos em causa e subordinados aos dos Portugueses, de tal modo que Roma e Grécia serão pálidos espelhos, não merecendo sequer a inveja do mundo, o qual se voltará e cantará, agora e apenas, a glória dos descendentes de Luso – Por- tugal… e o seu rei: «de sorte que Alexandre em vós se veja, / Sem à dita de Aquiles ter inveja» (156). J. Oliveira Macêdo, op.cit., pp.147-157 (texto adaptado) 5 10 15 20 25 30 35 PROFESSOR 4.13HAD757DAEE7GEE7DH;6AD7E3;- viando-os de leis severas; reconhe- cer o mérito dos mais experientes, tornando-osseusconselheiros(ests. 7 3BA;3DFA6AE@3EEG3E8G@- ções específicas, desde os religiosos 3AE53H37;DAE7EFE 7 73EE7- gurar que outros povos não afirmem que os lusos são para ser vencidos e @yAH7@576AD7E7EF 5. O desejo de glória nacional suge- D;6A@3E7EFv@5;3E3@F7D;AD7EEGD97 aliado à glória literária do poeta. Camões, «Com longa experiência misturado», oferece-se para lutar ao lado do seu rei, e caso este guie Portugal para uma nova ação épica através da conquista do Norte de Ã8D;537EF ABA7F33CG7?@yA falta «honesto estudo» e «engenho», predispõe-se a escrever uma nova epopeia. 6.Comaanálisedodesencantogeral da pátria, Camões pretende incen- F;H3DAEE7GE5A@F7?BADv@7AE3E3;D 6A67Ev@;?A73GF3DBADG?@AHA períododeglóriaparaPortugal. Sugestão :3?3D 3 3F7@{yA 6AE alunos para o facto de a crise nacio- @3 5A7Fv@73 67 3?Š7E F7D 3F;@- gido o seu ponto máximo com a derrotadaBatalhadeAlcácerQuibir, ?ADF76AD7; *743EF;yA7? e perda da independência para Cas- F737? 7.)7EBAEF3B7EEA3 Sugestão i @€H7 ;@6;H;6G3 5363 português sente-se orgulhoso de pertenceraumpovoquefoicapazde realizar façanhas históricas impor- tantes para o mundo, veiculadas pela obra de Camões. A nível cole- tivo, a obra fortalece-nos enquanto povo e inspira-nos para a realização de novos feitos, igualáveis aos dos nossos antepassados, honrando-os e homenageando-os.
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    264 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES FICHA INFORMATIVA N.O 7 Canto X Lamentações e profecia de futuras glórias nacionais [Nos discursos do poeta] vemos aparecer a figura do humanista pedagogo que aponta o ideal, que admoesta, que ensina. Considera-se em geral que a épica deveria implicar um certo apagamento do sujeito enunciador, em favor da objetividade daquilo que é cantado, de tal modo que o tom natural e conveniente a este género deveria ser o da serenidade que o distanciamento do enunciador garantiria. Porém, no canto X, 128, lemos o seguinte, com referência direta ao rio Mecong: «Este receberá, plácido e brando, /No seu regaço os Cantos que molhados /Vêm do naufrágio triste e miserando, /Dos procelosos baxos escapados, /Das fomes, dos perigos grandes, quando/Será o injusto mando executado / Naquele cuja Lira sonorosa / Será mais afamada que ditosa.» Trata-se da referência ao naufrágio que Camões sofreu no regresso do Oriente, no qual perdeu tudo, a não ser o poema que salvou a nado. Vemos assim que o poeta se designa a si mesmo como uma das personalidades que fazem parte da gesta, e que é digno de ser mencionado […]. O Camões-personagem faz uma aparição dramática neste episódio biográfico que o confirmou no mito que Portugal criou em torno dele. […] De repente, tomamos consciência de que esta personagem, que também é o autor, não escreveu a epopeia em Lisboa, a partir de livros, mapas e roteiros. Participou dos perigos, sofreu naufrágios e outras provas, experimentou a curiosidade, o êxtase da vitória, mas também o medo, as ânsias e o desejo da Ilha dos Amores. E veio a saber depois o que era não ser reco- nhecido, a sofrer na carne «o injusto mando executado», e ficar ignorado e esquecido. Assim, neste final do poema o sujeito irrompe, ao menos para dar relevo ao valor que vai oferecer ao rei: o canto. […] A sua vida está misturada no poema. E este obteve uma altura sublime. Sente-se seguro para, liberto das regras, dar livre voz a si mesmo, com autoridade para reco- mendar os heróis, ditar ao rei como deve recompensá-los, e dizer-lhe com quem deve aconselhar-se. «Tomai conselho só de exp’rimentados, / Que viram largos anos, largos meses.» […] Camões projetou-se profundamente na sua obra: a sua situação social, o modelo de heroísmo que propõe, o seu naufrágio, o seu serviço desinteressado, os desencan- José de Guimarães, Naufrágio de Camões, 1983. Camões presenciou a fase final da glória de Portugal e o início da dissolução do Império, motivada por uma decadência política e moral. A glória ultramarina tinha sido substituída pelo baixo gosto da cobiça individual e adivinhava-se já uma crise nacional. Assim, ao tom eufórico com que Camões canta a heroicidade do seu povo, sucede-se um tom disfórico, no final do canto X, quando finaliza o discurso que iniciou ao seu rei, no canto I. 5 10 15 20 25 30
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    265 Ficha informativa tos, asingratidões, o receio de que aquele canto, a joia preciosa e ímpar que estende ao rei não seja sequer recebida. Seja como for, ele aí está: «Pera servir-vos, braço às armas feito / Pera cantar-vos, mente às Musas dada» (Os Lusíadas, X.155). Num poema que não designa nenhum herói, Camões apresenta-se com a imagem que o concretiza. Orgulho e narcisismo? Seja como for, Portugal sempre o amou perdidamente, e anseia por merecer a obra e o génio que lhe foi dado. Maria Vitalina Leal de Matos, «Os Lusíadas», in Vítor Aguiar e Silva (coord.), op.cit., pp. 513-515 (texto adaptado) CONSOLIDA 1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1 a 1.5, seleciona a opção que te permite obter uma afirmação correta. 1.1 No final do canto X de Os Lusíadas, Camões adota um tom disfórico, pois a pátria (A) sente orgulho da glória ultramarina. (B) vive um período de glória e desencanto. (C) canta a heroicidade do seu povo. (D) imerge num período de decadência política e moral. 1.2 A objetividade e serenidade do discurso exigidas por um poema épico dão lugar à subjetividade, quando Camões refere factos (A) biográficos de heróis que sofreram pela pátria. (B) autobiográficos: o naufrágio e a consciência de que é um poeta que deve ser valorizado pela pátria. (C) biográficos que contribuem para o engrandecimento individual de um herói. (D) autobiográficos: o naufrágio, os desamores e a consciência de que é um poeta que deve ser valorizado pela pátria. 1.3 A epopeia Os Lusíadas reflete (A) a experiência de vida do seu autor. (B) o conhecimento da vida que o seu autor adquiriu através dos livros. (C) a curiosidade do seu autor pela vida. (D) a ânsia pelo desconhecido. 1.4 No final do canto X, Camões lamenta-se, declarando que (A) não é um poeta de valor. (B) é injustamente desvalorizado pelos portugueses. (C) sente orgulho dos portugueses. (D) não é desvalorizado pelos portugueses. 1.5 O poeta reconhece o valor da sua obra e é no epílogo que (A) aconselha o rei e afirma não querer mais servir a pátria. (B) projeta o orgulho que sentia pelos portugueses. (C) dá conselhos ao rei, oferecendo-se para o servir na guerra e cantar as suas gló- rias futuras. (D) afirma que o único herói português é ele próprio. 35 PROFESSOR Leitura 8.1. Educação Literária 14.3; 15.1; 15.2. MC Consolida 1.1(D); 1.2(B); 1.3(A); 1.4(B); 1.5(C). PowerPoint Ficha informativa n.o 7
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    266 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES LEITURA Artigo de divulgação científica 1. Hoje em dia novos heróis se destacam dos comuns dos mortais. Lê atentamente o seguinte texto. O pessimismo dos jogadores pode levar ao fracasso. Nas últimas décadas, o nível fute- bolístico subiu em muitos locais do planeta e tornou-se mais igualitário. Vencer um mundial ou ser eliminado logo na primeira fase pode ser decidido nos primeiros dez minutos de jogo. Fatores que não se limitam à forma física adquirem extrema importância, e a mente dos jogadores tornou-se, cada vez mais, uma variável decisiva. Mesmo questões que parecem total- mente orgânicas estão relacionadas com elementos que não são precisamente fisiológicos. Uma investigação recente da Universidade de Múrcia (Espanha) analisou a incidência psicológica dos trau- matismos. A conclu- são foi que provocam, na maior parte dos jogadores, falta de confiança em si pró- prios e uma sensação de vulnerabilidade. Os efeitos prolon- gam-se por meses após a lesão e podem ser decisivos na carreira do jogador, se não forem tratados. […] O desporto de alta competição implica sempre sobre-esforço. A nível físico, esse stress tem consequências que foram definidas, pela primeira vez, pelo médico austro-húngaro Hans Selye (1907-1982): subida das hor- monas suprarrenais, […] aumento da frequência cardíaca e da tensão mus- cular […]. Os seres humanos estão preparados para suportar esse sacrifí- cio biológico desde que seja temporá- rio e faça sentido em termos psicológicos, dando origem a um stress positivo. […] Por isso, a motivação é uma das primei- ras variáveis a ana- lisar para explicar o êxito. […] As pessoas que a possuem têm um grande desejo de dominar as suas capacidades, contro- lar pessoas ou situa- ções e chegar o mais depressa possível a Na mente do futebolista COMO SE FAZ UM CAMPEÃO Além da preparação física e da sorte, a psicologia é essencial para que uma equipa possa ganhar um campeonato mundial. Convidamo-lo a entrar na cabeça dos grandes jogadores de futebol. 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 PROFESSOR Leitura 7.1; 7.3; 7.4; 7.6; 8.1; 9.1. Gramática 18.1. MC
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    267 Artigo de divulgaçãocientífica 1. Explicita o sentido global do texto. 2. Apresenta a estrutura do texto quanto à sua organização externa e interna. 3. Indica três fontes referidas no texto. 4. Identifica duas marcas de género do artigo de divulgação científica presentes no texto. 5. Exprime o teu ponto de vista sobre a temática do artigo. GRAMÁTICA 1. Indica a função sintática dos elementos destacados nas frases seguintes. a) «tornou-se mais igualitário» (l. 3). b) «foram definidas, pela primeira vez, pelo médico austro-húngaro Hans Selye» (ll. 35-37). c) «As pessoas que a possuem têm um grande desejo de dominar» (ll. 51-54). d) «É possível lubrificar o motor psíquico dos jogadores?» (ll. 59-60). níveis elevados. É possível lubrificar o motor psíquico dos jogadores? Treinar com cabeça Uma recente investigação de neu- rologistas do Instituto Karolinska, de Estocolmo, analisou as aptidões especiais que caracterizam os gran- des futebolistas. Uma das capacidades cognitivas que sublinharam foi o reco- nhecimento de padrões, […] «saber interpretar o jogo»: […] calcular probabilidades e tomada de decisões baseada nessa estimativa – […] «finto o defesa ou tento marcar daqui?...». […] O estudo provou ainda que os jogadores profissionais eram superiores (relativamente ao grupo de controlo, constituído por atletas não profissionais), na antecipação visual e visão periférica. Trabalho de equipa Falta falar de uma variável essencial: o trabalho em equipa. Alguns êxitos em campeonatos mundiais são recordados por jogadores decisivos, como a vitó- ria no Mundial de 86, no México, em que Maradona foi protagonista de um jogo épico contra a Inglaterra e no qual marcou os que são, provavelmente, os dois golos mais famosos da História. Todavia, na maior parte das vezes o que se recorda são as equipas, como a seleção do Brasil em 1970 e a da Ale- manha em 1974 [e em 2014] […]. A grande capacidade de trabalho cole- tivo podia ser matematicamente expli- cada: uma estrutura muito rica, com redes de passes estruturadas, sequên- cias mais longas, […] maior velocidade e continuidade no jogo. As expectativas mais altas são as mais fáceis de defraudar, e seria injusto que um resultado pior do que se espera faça esquecer o que se conquistou nos últi- mos anos. Contudo, no futebol, o mais difícil é não sonhar. Superinteressante, n.º 194, junho, 2014, pp. 32-37 (texto adaptado) 60 65 70 75 80 85 90 95 100 Artigo de divulgação científica p. 268 FI Funções sintáticas pp. 324-325 SIGA PROFESSOR Leitura 1. 3DF;9AFD3F33D77Hv@5;363BE;- cologia no mundo desportivo, sobre- tudonofutebol. 2. Antetítulo – «Na mente do fute- bolista»; título – «Como se faz um campeão»; resumo – «Além da preparação física e da sorte, a psi- cologia é essencial para que uma equipa possa ganhar um campeo- natomundial.Convidamo-loaentrar na cabeça dos grandes jogadores de futebol.» Introdução(1.o parágrafo)3BD7E7@- F3{yA6AF7?3¬3;?BADFv@5;363 menteparaobomrendimentofísico. Desenvolvimento (do 2.o ao 5.o pa- rágrafos)7JBAE;{yA 6;HG93{yA67 estudoseapresentaçãodeexemplos CG78G@63?7@F3?3;?BADFv@5;363 psicologianofutebol. Conclusão(últimoparágrafo)3;? BADFv@5;36AED7EGF36AE7F3?4|? do«sonho»nofutebol. 3. Uma investigação recente da Uni- H7DE;6367 67 $‹D5;3 7EFG6AE D73 lizados pelo médico austro-húngaro Hans Selye e uma investigação de neurologistas do Instituto Karo- linska,deEstocolmo. 4. Presença de vocabulário técnico- -científico «suprarrenais», «stress», ¤@7GDAA9;EF3E¥¦ :;7D3DCG;L3{yA das ideias – antetítulo, título, resu- mo, secções; predomínio do rigor e objetividadedalinguagem. 5. SugestãoEG4;@:3DA5A@FD;4GFA de estudos científicos, oriundos da 'E;5AA9;3 $76;5;@3 $3F7?tF;53 no melhoramento do desempenho desportivo. Gramática 1. a) predicativo do sujeito; b) com- plemento agente da passiva; c) mo- dificador restritivo do nome; d) su- jeito.
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    268 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES FICHA INFORMATIVA N.O 8 Artigo de divulgação científica O que é? O artigo de divulgação científica aborda temas na área da ciência, comunicando novos dados sobre estudos em determinadas matérias. Existem níveis diferentes de especialização: artigos mais simplificados, destinados ao público em geral, e outros, mais complexos, dirigidos a especialistas (médicos, informáticos, linguistas…). Qual o seu objetivo? Tem como objetivo expor e difundir os resultados de uma investigação ou desen- volvimento de uma determinada teoria ou ideia, contribuindo para o conhecimento progressivo do objeto em estudo. Que estrutura tem? Um artigo de divulgação científica deve obedecer a uma estrutura coesa e coe- rente, cujas partes se articulam de forma lógica. t5ÓUVMP apresentação da temática (pode ter antetítulo e subtítulo). t3FTVNP descrição de forma concisa dos itens essenciais. Pode não estar identificado. t5FYUPtIntrodução – exposição sucinta do tema que irá ser desenvolvido (enqua- dramento e relevância do tema…). tCorpo do trabalho – desenvolvimento do tema (pesquisas realizadas – metodologias, análise de dados e discussão de resultados). t Conclusão – síntese dos tópicos relevantes. tBibliografia – referência às fontes utilizadas. /PUBPoderá apresentar notas de rodapé, tabelas, quadros e gráficos e, ainda, em anexo, questionários e/ou outros elementos complementares. Que características tem? O artigo de divulgação científica apresenta as seguintes características: tcaráter expositivo; thierarquização de ideias (com título, subtítulo, secções…); tinformação seletiva (exposição dos dados e conclusões relevantes); t rigor e objetividade (registo de língua corrente e técnico-científico, predomí- nio da denotação, uso da terceira pessoa...); texplicitação das fontes (consultadas e/ou citadas). PowerPoint Ficha informativa n.o 8
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    269 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 9 Genealogia linguística O português: génese, variação e mudança Os grupos de línguas que têm um antepassado comum, mantendo algumas afinida- des, constituem uma família de línguas. 1. Principais etapas da formação e da evolução do português 1.1 Família das línguas indo-europeias O indo-europeu é uma língua hipotética, reconstituída através de vários estu- dos, realizados por linguistas do século XIX, que concluíram ter havido um tronco comum para a maioria das línguas faladas em algumas regiões da Ásia e em grande parte da Europa. A este conjunto de línguas chama-se família das línguas indo-euro- peias. As migrações dos povos indo-europeus deram origem a vários ramos linguísticos (itálico, grego, germânico, etc.). INDO-EUROPEU Itálico Latim – línguas românicas: português, galego, castelhano, catalão, francês, (franco-)provençal, italiano, rético, sardo, romeno. Grego Grego (moderno). Germânico Inglês, alemão, neerlandês (holandês), sueco, dinamarquês, norueguês, islandês. Celta Línguas célticas – bretão, galês (País de Gales), gaélico (irlandês e escocês). Eslavo Línguas eslavas – búlgaro, servo-croata, esloveno, polaco, russo, bielorusso, ucraniano, checo e eslovaco. 1.2 Família das línguas românicas O latim vulgar (expressão tradicionalmente utilizada para referir a variedade falada do latim, particularmente pelas classes mais baixas – soldados, comercian- tes, artesãos), instrumento de comunicação oral, foi levado pelos colonos para as diversas partes do Império, sobrepondo-se em muitos casos às línguas dos povos dominados. Foi o fenómeno de transformação lenta desta língua (também ela não homogénea) em contacto com as já existentes em cada região que deu origem à família das línguas românicas. Vejam-se algumas semelhanças entre as cinco lín- guas nacionais europeias: LÍNGUAS ROMÂNICAS Étimo Português Castelhano Francês Italiano Romeno PANE- pão pan pain pane pâine OCULU- olho ojo oeil occhio ochi LACTE- leite leche lait latte lapte PowerPoint Ficha informativa n.o 9
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    270 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES 2. A geografia do português no mundo No tempo das grandes viagens de descoberta do mundo, a língua portuguesa foi língua de prestígio na qual se comunicavam com asiáticos e africanos os mareantes europeus ao tocarem longínquos litorais. Durante o período do reconhecimento das terras descobertas, o português adaptado a diferentes culturas manteve-se como lín- gua geral nas costas de África e Ásia durante os séculos XV, XVI e XVII e foi, também, língua de expansão cuja difusão ocorria naturalmente no trato do comércio, na domi- nação dos escravos, na construção do império. Não era, então, necessário justificar a importância da língua nem forçar a sua difusão: ela impunha-se no facto consumado de um povo em crescimento que estendia o seu poder. A dilatação da fé e do impé- rio tinha um veículo: o português. Recordemos que, desde finais do século XVI até ao século XIX, esta era a língua que, além de utilizada no Brasil, tinha o estatuto de língua de comunicação generalizada no litoral africano e de língua franca nos portos da Índia e do Sudeste Asiático. […] Como entender a língua portuguesa hoje, no cenário da sua difusão no mundo? […] O português é hoje uma língua de tradição, um repositório de memórias que os povos que a falam reconhecem como parte do seu património, ao lado dos monu- mentos, das artes e ofícios, da música. […] Mas o português não é só um repositório de referências histórico-culturais. Como língua de utilização em todas as áreas da sociedade, ele é também uma língua da ciên- cia atual e das tecnologias. Frequentemente esta função da língua é subsumida com o argumento falsamente pragmático da vantagem no uso de uma única língua para a comunicação nos domínios científicos e tecnológicos. […] Todas as pessoas possuem uma língua materna; a pretensão de a tornar conhecida é natural e desejável. Foi com essa língua que encontrámos o nosso lugar no mundo, foi com ela que nos construímos. Torná-la conhecida junto dos outros é algo que nos compete a todos, com convicção, iniciativa, saber e um entusiasmo sem desistência. Maria Helena Mira Mateus, «Difusão da língua portuguesa no mundo» (comunicação), in Simpósio mundial de estudos de língua portuguesa, Universidade de São Paulo, 2008 (disponível em www.fflch.usp.br, consultado em julho de 2014) (texto adaptado) O português é a quarta língua mais falada no mundo, segundo dados apresentados na exposição «Potencial Económico da Língua Portuguesa», realizada no Parlamento Europeu em 2014. A língua portuguesa atingiu a sua plena identidade linguística no início dos Des- cobrimentos, no século XV, e hoje é usada por mais de 250 milhões de pessoas como idioma oficial. Este universo de falantes representa mais de 7% da superfície continental da Terra. São nove os países de língua oficial (cooficial) portuguesa, Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, todos eles países «plantados à beira-mar» e que representam 4% da 5 10 15 20 25 5 10
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    271 Ficha informativa (Fonte: euronews.pt) riquezamundial. [A Guiné Equatorial é membro da CPLP apenas a partir de julho de 2014 e deve cumprir as condições de adesão à organização, nomeadamente o respeito pelos direitos humanos e o uso do português como língua oficial. Acrescente-se ainda que também em Macau o português é língua oficial juntamente com o mandarim.] Tudo indica que em 2050, mais 100 milhões de pessoas se vão juntar ao número de falantes de português. 350 milhões vão manter a língua portuguesa no topo de idiomas mundiais […]. O português é ainda uma das línguas que regista uma das taxas de crescimento mais elevadas nas redes sociais e na aprendizagem como língua estrangeira. In http://pt.euronews.com (texto adaptado, consultado em julho de 2014) 2.1. Português europeu e português não europeu Ao longo da História de Portugal, os falantes de língua materna portuguesa entraram em contacto com falantes de outras línguas e daí resultaram [em conjugação com outros fatores] variedades do português: t7BSJFEBEFFVSPQFJB – português falado em Portugal continental e nos arquipélagos da Madeira e dos Açores. A língua-padrão corresponde à variedade de Lisboa e no território do continente distinguem-se dois grandes grupos dialetais, o setentrional e o centro-meridional. O primeiro difere do segundo, entre outras características, por não opor b a v e por conservar, na pronúncia, os ditongos ou e ei. t7BSJFEBEFCSBTJMFJSB– português falado no Brasil que se distingue do português europeu, entre outros aspetos, pelo facto de os seus falantes pronunciarem as vogais pretónicas mais baixas ou pela colocação dos pronomes pessoais átonos em posição pré-verbal; apresenta um léxico variado resultante da influência de outras línguas, nomeadamente do tupi e do guarani ou de línguas africanas. 15 Oceano Índico Oceano Atlântico Oceano Pacífico 0 3000 km Portugal P Po Po ort bo V Cabo Verde Verd d C b V d G G é é B é G p p S.Tomé e Princi S.Tomé e Princi .Tomé e P P .T T S Tomé e rincipe Ango Ang A Brasi O U U PA PA A PA PA PA PA A U UR U U U UR R UR R U O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O O OP E A E E EU U U U U U U U U U U U U U U UR R R R EU U P P P P P P E P P P P P P P P P R R RO RO O ÁSIA ÁSIA ÁSIA ÁS ÁSI C F F F FR R F F F F F F F A A Á ÁF ÁF A CA CA FRICA C CA C CA C CA C CA CA A C C C I Á Á Á Á Á Á Á Á RI I F F F F F F C A A A CA C ÉRI I MÉ A AMÉ AMÉRI RI ÉRI I É U U U O S O DO D UL UL L L O O O D D S S D D D L L L U U SU U DO S 5 milhões ilh , 10 0 5 ilh h m m 7 7 47 47 4 m 4 milhõ 1,4 4 4 hõ h m 2 2 ilh q ç ç oçamb b ç ç que M M M Mo M M b Timor- T o L Lest es e mor m h m m 4 2 24 m h h Portugal Cabo Verde Guiné-Bissau São Tomé e Príncipe Angola Brasil EUROPA ÁSIA ÁFRICA AMÉRICA DO SUL 10,5 milhões 475 mil 1,4 milhões 165 mil 12 milhões Moçambique Timor-Leste 19 milhões 924 mil 190 milhões P o r t u g a l C a b o v e r d e S ã o T o m é e P r í n c i p e T i m o r - L e s t e G u i n é - B i s s a u A n g o l a M o ç a m b i q u e B r a s i l 0 50 100 150 200 250 Milhões de pessoas 2010 2050 (estimativa) Falantes de português em 2010. (Fonte: euronews.pt) Falantes de português em 2010 e projeção para 2050
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    272 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES t7BSJFEBEFTBGSJDBOBT – português falado nos países africanos de expressão por- tuguesa; só as variedades do português de Angola, da região de Luanda, e do português falado em Moçambique é que têm sido mais analisadas, apresentando diferenças em relação ao português europeu quer a nível fonético, quer mor- fossintático [por exemplo, na colocação dos pronomes pessoais átonos ou na construção de estruturas de subordinação], quer lexical (por influência da língua kimbundu no caso da zona de Luanda ou de outras línguas bantu no caso de Moçambique). Maria Olga Azeredo et al., Da comunicação à expressão – Gramática prática de Português 3.º ciclo do ensino básico e ensino secundário, Lisboa, Raiz Editora, 2014, p. 29 (texto adaptado) 1.2 Principais crioulos de base portuguesa 1.2.1 Crioulo Os crioulos são línguas novas que emergem em comunidades onde previamente se desenvolveu um pidgin para a comunicação entre os falantes das diferentes línguas maternas em presença. Devido ao seu uso continuado, num número cada vez maior de situações, esse pidgin acaba por se reestruturar, complexificar e sistematizar, com a ajuda das novas gerações de crianças que o adotam como língua materna, dando assim origem aos crioulos. Dulce Pereira, Crioulos de base portuguesa, coleção «O essencial», Lisboa, Editorial Caminho, 2006, p. 117 1.2.2 Crioulos de base portuguesa No processo de formação dos crioulos, a língua socialmente dominante (de superstrato) é a língua que «dá» o léxico. Diz-se, então, que um crioulo é «de base portuguesa» quando as unidades lexicais são, na sua maioria, reconhecidamente de origem portuguesa, embora, na sua estrutura, se rejam por regras fonológicas e mor- fológicas próprias, possam ter significados diferentes e impliquem construções sintá- ticas também diferentes. Idem, ibidem, p. 47 Mapas dos crioulos de base portuguesa «mais resistentes» Oceano Índico Oceano Atlântico Oceano Pacífico 0 3000 km Legenda: Cabo Verde Casamansa (Senegal) Guiné-Bissau Príncipe São Tomé (Santomense e Angolar) Ano Bom Papiamento (base ibérica) Damão Korlai Malaca Fonte: Dulce Pereira, Crioulos de base portuguesa, Lisboa, Caminho, 2006, pp. 59-63 PROFESSOR Sugestão: Ouvir e ler as transcrições dos vários 5D;AGAE7?3573D6A%3E5;?7@FA $3D;37D@3@63AD9 Português fa- 36A A5G?7@FAE 3GF~@F;5AE 9D3- vações audio com transcrição ali- nhada),Lisboa,CentrodeLinguística daUniversidadedeLisboaInstituto 3?Š7E _ )$a pidgin língua simplificada com- posta de elementos de duas ou mais línguas, utilizada como forma de comunicação entre comunidades linguísticasdiferentes.
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    273 Ficha informativa CONSOLIDA 1. Apósa leitura dos textos da página 269, responde às seguintes questões. 1.1 Identifica as línguas nacionais de origem românica. 1.2 Com base na tabela das diferentes línguas românicas, indica a relação que se pode estabelecer entre os vocábulos. Justifica a tua resposta. 2. Após a leitura dos textos relativos à geografia do português no mundo, responde a cada um dos itens 2.1 a 2.5, selecionando a opção correta. 2.1 O português, adaptado a diferentes culturas, manteve-se como língua geral nas costas de África e Ásia dos séculos (A) XIV a XVI. (B) XV a XVII. (C) XV a XVI. (D) XIV a XVII. 2.2 Atualmente, o português é (A) apenas uma língua de tradição e património comum. (B) um simples repositório de referências históricas e culturais. (C) um idioma de ciência e de tecnologia. (D) um repositório de referências históricas e culturais e uma língua de ciência e de tecnologia. 2.3 O português é a (A) terceira língua mais falada no mundo e a quinta mais falada na Europa. (B) quarta língua mais falada no mundo e a quinta mais falada na Europa. (C) quarta língua mais falada no mundo e a terceira mais falada na Europa. (D) quarta língua mais falada no mundo e na Europa. 2.4 O português regista uma das taxas de maior crescimento enquanto (A) língua de cultura e de tecnologia. (B) língua estrangeira objeto de ensino e língua usada nas redes sociais. (C) língua estrangeira objeto de ensino e língua de tecnologia. (D) língua oficial e língua estrangeira objeto de ensino. 2.5 As variedades não europeias de português divergem da europeia (A) na pronúncia das palavras, na construção das frases e no vocabulário. (B) apenas a nível morfossintático. (C) unicamente a nível fonético e lexical. (D) exclusivamente a nível lexical. 3. Atenta nos textos de «Principais crioulos de base portuguesa». Define, por palavras tuas, crioulo de base portuguesa. PROFESSOR Gramática 17.2; 17.8; 17.9. MC Consolida 1.1 Português, castelhano, francês, italianoeromeno. 1.2 As semelhanças que se obser- vamentreaspalavrasdasdiferentes línguas mostram que existe uma origem comum; as diferenças que existem entre elas permitem perce- berque,apartirdeummesmoétimo, cadalínguaapresentaumaevolução particular. 2.1(B); 2.2(D); 2.3(C); 2.4(B); 2.5(C). 3. O crioulo é uma língua que resulta da necessidade urgente de comuni- cação entre indivíduos com línguas diferentes. Recorrendo-se à língua socialmente dominante e à já falada no local, cria-se uma língua mais simples, mas eficaz, em termos comunicativos. Este idioma comple- xifica-seealarga-seanovosusos,daí resulta um crioulo, língua materna de novas gerações. Os crioulos de base portuguesa são aqueles cujo léxico é fornecido pela língua portu- guesa.
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    274 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES DESAFIO No passado, Portugal ficou conhecido graças às suas descobertas marítimas; no presente, os portugueses continuam a contribuir mundialmente com as suas descobertas e proezas. A pares, prepara uma apresentação oral, entre cinco e sete minutos, sobre portugueses que se distinguem em várias áreas artísticas ou do saber, como a medicina, a biologia, a informática, a literatura, o fado, o futebol... Planifica a tua apresentação, estruturando um guião que te permita produzir um discurso coeso e coerente. Durante a apresentação adota uma postura, tom de voz, articulação, ritmo e entoação adequados. Observa as imagens. Identifica e regista os valores cultural, ético e estético manifestados nestes textos icónicos. In http://porfalarnoutracoisa.blogspot. pt/2014/01/ser-portugues-e.html In http://www.portalsplishsplash.com (adaptado) In http //www portalsplishsplash com (ad d apta p do) n I htt // f l t i bl t PROFESSOR Oralidade 3.1; 3.2; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3; Educação Literária 15.1; 15.4. MC PowerPoint Síntese da unidade
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    275 GLOSSÁRIO A Armada de Vascoda Gama: composta por quatro navios: a nau São Gabriel, capitaneada por Vasco da Gama; a nau São Rafael, comandada por Paulo da Gama, irmão de Vasco da Gama; a caravela Bérrio, da responsabilidade de Nicolau Coelho; e a nau dos mantimentos (sem nome) comandada por Gonçalo Nunes. B Baco: deus romano correspondente ao deus grego Dioniso, deus do vinho, oponente dos portugueses. C Catual: intendente de negócios com os estrangeiros (povos do Oriente). Cupido: deus do amor (para os gregos, Eros), represen- tado geralmente com asas, às vezes de olhos vendados, e munido de arco e flechas, para acertar os corações. Era filho de Vénus e de Marte. H Homero: poeta grego que terá vivido no século VIII a.C. Consagrou o género épico com as suas grandiosas obras: a Ilíada e a Odisseia. A Ilíada relata o assédio de Troia pelos gregos até à queda da cidade e desenrola-se no acampa- mento grego. Na Odisseia, o argumento é centrado em Ulisses e seus companheiros, no seu filho (Telémaco) e na sua mulher (Penélope). Narra as viagens e aventuras de Ulisses. J Júpiter: rei dos deuses romanos (para os gregos, Zeus). Deus das condições meteorológicas. Depois de ter expul- sado Saturno, seu pai, ficou como rei dos deuses e deu o império das águas a Neptuno e o dos infernos a Plutão. M Melinde: cidade do Quénia, na costa do Índico, a norte de Mombaça. É uma cidade muito antiga, fundada no século XIV. Os portugueses estabeleceram aqui uma feito- ria no início do século XVI. Mombaça: cidade do Quénia, na costa do Índico. Musa: cada uma das divindades, filhas de Júpiter e Mne- mósine (deusa da Memória), presididas por Apolo, que protegem as ciências e as artes liberais. Calíope (musa da eloquência) é uma delas. N Neptuno: filho de Saturno e de Reia, irmão de Júpiter e de Plutão. deus do mar, casou com Anfitrite. É representado com um tridente na mão sobre um coche puxado por cavalos-marinhos. S Sirena: ser fabuloso, metade mulher, metade peixe que, pela doçura do seu canto, atrai os ma- rinheiros para os escolhos do mar, onde naufragam. T Tétis: é uma das Nereidas, filha de Nereu, o velho do mar, e de Dóris. É, por consequência, uma divindade marinha e imortal e é a mais célebre de todas as Nereidas. Esposa de Peleu, rei dos Mirmidões, e mãe de Aquiles. V Vénus: filha do Céu e da Terra. É a deusa do amor e da beleza. Após o nascimento foi levada para o Olimpo, onde os deuses ficaram maravilhados com tanta formo- sura. Casou com Vulcano, como recompensa de este ter fabricado os raios que Júpiter usou na guerra contra os Gigantes. A deusa, porém, desgostosa com a fealdade do marido, procurou a companhia dos outros deuses, entre os quais Marte, de quem teve Cupido. Amou também Adónis e Anquises, do qual nasceu Eneias. Virgílio: poeta romano clássico, autor de três grandes obras da literatura latina: Éclogas (ou Bucólicas), Geórgicas e a Eneida. A Eneida, considerada a epopeia da antiga Roma, refere-se à lenda do guerreiro Eneias, que fugiu de Troia, após a célebre guerra, e terá chegado à península Itálica, onde se tornou o antepassado do povo romano. Bibliografia/Webgrafia do Glossário AAVV, «Homero» (disponível em http://www.educ.fc.ul.pt) Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia, Lisboa, Temas e Debates, 2005 José Marques, «Roteiro da viagem de Vasco da Gama à Índia», 1999 (Álvaro Velho) (disponível em http://ler.letras.up.pt) Mário da Gama Kury, Dicionário de mitologia grega e romana, J. Zahar, 2003
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    276 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES Grupo I A Lê atentamente os seguintes textos e depois responde aos itens que se seguem, de forma clara e bem estruturada. Texto A Luís de Camões, Os Lusíadas, pref. de Costa Pimpão, 4.ª edição, Lisboa, MNE Instituto Camões, 2000, pp. 1 e 476 1. Atenta no texto A. Explicita a constituição da matéria épica que irá ser celebrada e o respetivo plano. 2. Relaciona, de forma sintética, o assunto dos dois textos. 3. Explica a função dos últimos quatro versos da estância 146 do texto B. FICHA FORMATIVA 2 E também as memórias gloriosas Daqueles Reis que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando, E aqueles que por obras valerosas Se vão da lei da Morte libertando, Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 3 Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Que outro valor mais alto se alevanta. Texto B 145 Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho Destemperada1 e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida2 . O favor3 com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Dùa austera, apagada e vil tristeza4 146 E não sei por que influxo de Destino Não tem um ledo orgulho e geral gosto, Que os ânimos levanta de contino5 A ter pera trabalhos ledo o rosto. Por isso vós, ó Rei, que por divino Conselho6 estais no régio sólio posto, Olhai que sois (e vede as outras gentes) Senhor só de vassalos excelentes. 1 Destemperada: desafinada. 2 Endurecida: indiferente. 3 O favor: o apoio. 4 Dùa austera, apagada e vil tristeza: de uma sombria, amor- tecida e mesquinha tristeza. 5 Contino: contínuo. 6 Por divino / Conselho: por Provi- dência Divina. COTAÇÕES GrupoI A 1. pontos 2. BA@FAE 3. BA@FAE B 4. BA@FAE 5. pontos pontos PROFESSOR GrupoI A 1.1 A matéria épica pertence ao pas- sado glorioso de Portugal, nomea- damente a dilatação da fé católica e o alargamento do Império a terras 67Ã8D;537ÃE;3B7AED7;E7AGFD3E «obras valerosas» (presentes, pas- sadas e futuras) conquistadas por heróis anónimos (plano da História de Portugal) e ainda as navegações superiores às dos heróis antigos (planodaviagem). 2. No texto A, Camões, assumindo um tom épico, eufórico, afirma pre- tender glorificar na sua epopeia os atos heroicos dos portugueses dignos de louvor. Pelo contrário, no texto B, o tom é antiépico ao mani- festar-se desiludido, perante o rei *743EF;yA5A?AEE7GE5A7Fv@7AE que não valorizam os heróis canta- dos por ele e adotam uma postura contráriaàdosseusantepassados. 3. Estes versos introduzem uma 5A@5GEyA G?35A@E7CG~@5;3¤Por isso») do anteriormente exposto. Como o país está dominado por homens indignos, Camões sensibi- liza o rei para a existência de lusita- nos excelentes que o servem com dignidade e sem ambição («Senhor só de vassalos excelentes»), com os quaisdeverácontarparaatingiruma novaglóriaparaPortugal.
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    277 Ficha formativa B Lê aseguinte estância. 5 Dai-me ùa fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso. Luís de Camões, op. cit., p. 2 4. Insere a estância nas estruturas externa e interna da obra a que pertence. 5. Indica dois recursos utilizados pelo poeta no texto acima para conferir sublimidade ao canto, exemplificando com elementos textuais. Grupo II Lê o seguinte texto. Os Lusíadas: epopeia sem herói Estranho paradoxo: possuímos uma epopeia mas não temos um herói. Queremos dizer, um herói literário, uma dessas figuras ideais, mais verdadeiras que gente viva, de pai e mãe muitas vezes desconhecidos, mas não de silhueta, diversificada até ao infinito: Ulisses, Eneias, El Cid, Tristão, Hamlet ou D. Quixote. Para compensar uma tal ausência – cujo mistério se repercute sobre a imagem global da nossa literatura – temos uma espécie de herói-vivo, cuja lenda verídica teve o condão de se converter em exis- tência ideal, como é apanágio da ficção perfeita. Referimo-nos, naturalmente, ao pró- prio Camões, herói da sua própria ficção, e que se tornou para um povo inteiro bem mais mítico e, mesmo, bem mais heroico que os heróis exaltados pelo seu Poema. Esta miti- ficação de um poeta não é apenas o produto suspeito e tardio do Romantismo necessi- tado de completar a sua panóplia do génio infeliz, Schlegel, Ludwig Tieck, o Morgado de Mateus ou Garrett não fizeram mais que redescobrir e aprofundar o sentido de uma criação e de um destino consagrados precisamente à invenção heroica de si mesmo. Ninguém duvidará que o poeta tenha realizado o seu projeto. O fervor de que rodea- mos a sua obra altiva e bem pouco popular, fervor que para além do canto se ende- reça ao próprio homem, bastaria para nos convencer disso. Costuma dizer-se – embora seja bem discutível – que a realidade Cervantes se dilui na dos seus heróis e das suas aventuras sem fim. Os Lusíadas não nos remetem senão para o autor. Convém subli- nhar esta característica capital antes de se abordar o tema do tempo da sua obra. Com efeito, o esforço original de automitificação através do qual Camões tenta escapar à 5 10 15 20 PROFESSOR GrupoI 4.3@FA 7EF @HA53{yA 5. O uso de palavras eruditas («avena», «ruda», «canora¥¦ 7 AE recursos expressivos, como a metá- fora(«Dai-meũafúriagrandeesono- DAE3 @yA 67 39D7EF7 3H7@3 AG 8D3GF3DG63 $3E67FG4353@AD37 belicosa»),porexemplo.
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    278 Unidade 5// LUÍS DE CAMÕES insignificância e ao esquecimento é mais decisivo para a compreensão profunda do seu destino de poeta que as múltiplas figuras da sua relação com a temporalidade. Antes do tempo na sua obra, há o tempo da sua obra e a essência deste reside na possibilidade, con- fessada e vivida, de se salvar salvando o seu próprio tempo numa imagem imperecível. […] Eduardo Lourenço, «Os Lusíadas: epopeia sem herói», in História crítica da literatura portuguesa, vol. II, Lisboa, Editorial Verbo, 1999, pp. 439-440 1. Para responderes a cada um dos itens 1.1 a 1.6, seleciona a opção correta. 1.1 A afirmação «temos uma espécie de herói vivo» (ll. 5-6), remete para (A) Vasco da Gama. (B) os portugueses. (C) o poeta. (D) Ulisses. 1.2 Na expressão «a sua panóplia do génio infeliz» (l. 11), o autor recorre a uma (A) metonímia. (B) metáfora. (C) hipérbole. (D) anástrofe. 1.3 «O fervor de que rodeamos a sua obra altiva e bem pouco popular» (ll. 14-15) demonstra o caráter (A) objetivo do texto. (B) informativo do texto. (C) subjetivo do texto. (D) subjetivo e informativo do texto. 1.4 Os travessões na linha 5 e nas linhas 16 e 17 são empregados para (A) introduzir um comentário pessoal à margem do que se afirma no texto. (B) indicar uma nota emocional. (C) assinalar uma explicação. (D) assinalar a hesitação do pensamento do autor. 1.5 Indica a alínea em que se reconhece o campo semântico da palavra «génio» (l. 11) (A) «Leonardo da Vinci era um génio», «Ninguém ultrapassa o génio de Mozart». (B) «O Zé tem um mau génio», «Ele é um génio, descobriu a fórmula sozinho!» e «Vou pedir inspiração ao génio da música». (C) «O génio apareceu ontem e protegeu a comunidade». (D) «O meu avô tem o génio dos negócios». 1.6 No segmento «do Romantismo necessitado de completar a sua panóplia» (ll. 10-11), o elemento destacado classifica-se como (A) uma conjunção. (B) uma preposição. (C) um advérbio. (D) um determinante. COTAÇÕES GrupoII 1. pontos 2.1 pontos 2.2 BA@FAE Bontos GrupoIII Bontos PROFESSOR GrupoII 1.1(C); 1.2(B); 1.3(C); 1.4(A); 1.5(B); 1.6(B).
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    279 Ficha formativa 2. Respondede forma correta aos itens apresentados. 2.1 Indica a função sintática dos elementos destacados nas seguintes frases: a) «se repercute sobre a imagem global da nossa literatura» (l. 5). b) «Camões, herói da sua própria ficção, e que se tornou para um povo inteiro» (l. 8). 2.2 Classifica a oração «que o poeta tenha realizado o seu projeto» (l. 14). Grupo III No canto I, mas principalmente a partir do canto V, Os Lusíadas mostram ser uma epo- peia pedagógica, dirigida aos portugueses, em particular, e a todos os homens, em geral. Partindo da afirmação, escreve uma exposição, entre cento e vinte e cento e cinquenta palavras, baseando-te na tua experiência de leitura da epopeia de Camões. PROFESSOR 2.1 a)Complementodoadjetivo. b)$A6;¹536AD3BAE;F;HA6A@A?7 2.2 Oração subordinada substantiva completiva. GrupoIII Sugestõesderesposta: Introdução 3B7E3D 6AE ;?;F7E 63 condição humana (efemeridade e obstáculosdavida),ohomem,«bicho da terra tão pequeno», consegue atingir a grandeza e a imortalidade 53@FA Críticas „o desprezo das artes e das letras (cantoV); „afaltadereconhecimentodospoe- taspátrios(casopessoaldeCamões) (cantoVII); „odinheirocorrompequemovenera (cantoVIII); „crítica à decadência moral dos por- tugueses que perseguem valores ;@6;H;6G3;E†5;A5ADDGB{yA¦?AE- trando-se indiferentes e apáticos à reconquistade umanovaglóriapara apátria(cantoX). Conselhos „ conselhos para atingir a fama, a 9†D;33;?ADF3;6367A7E8AD{A;@6;- vidual,odesprezopeloócio,acobiça, a ambição, a prática a igualdade, a luta contra os infiéis e o servir o rei (cantoIX). Conclusão+35A?AAE@A?7E9D3@- diososdanossaHistóriaalcançaram aimortalidade,apesardasuapeque- nez humana, também os portugue- ses (e todos os homens) poderão alcançá-la, mas, para isso, é neces- sáriopraticarosverdadeirosvalores.
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    6 EDUCAÇÃO LITERÁRIA História Trágico-Marítima(excertos) t$BQÓUVMP7jTUFSSÓWFJTBWFOUVSBTEF+PSHFEF MCVRVFSRVF$PFMIP x tWFOUVSBTFEFTWFOUVSBTEPT%FTDPCSJNFOUPT LEITURA 5FYUPTJOGPSNBUJWPT 3FMBUPEFWJBHFN COMPREENSÃO DO ORAL %PDVNFOUÈSJP 3FHJTUPTÈVEJPFBVEJPWJTVBJT EXPRESSÃO ORAL 4ÓOUFTF QSFTFOUBÎÍPPSBM ESCRITA 4ÓOUFTF QSFDJBÎÍPDSÓUJDB
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    HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA William Turner, Onaufrágio do Minotauro, 1805.
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    mensagens Afonso Cruz ² FTDSJUPS JMVTUSBEPS F NÞTJDP QFSUFODF Ë CBOEB 5IF 4PBLFE -BNC N KVMIP EF OB'JHVFJSBEB'P[ FSBDPNQMFUBNFOUF SFDÏNOBTDJEPFIBWFSJB BOPTNBJTUBSEF EF GSFRVFOUBSMVHBSFTDPNPBOUØOJPSSPJP BT #FMBTSUFTEF-JTCPB P*OTUJUVUP4VQFSJPSEF SUFT 1MÈTUJDBT EB .BEFJSB F NBJT EF NFJB DFOUFOBEFQBÓTFT Stultifera Navis Quando li a História trágico-marítima, senti sem- pre presente a ideia de erro enquanto fórmula de possível sucesso, mas sobretudo de audácia e visão. Colombo morreu a pensar que o continente americano era o oeste da Índia. Muitos dos equívocos e desacertos da humanidade resultaram nas suas maiores descobertas. Dessa ideia de erro, de aparente insucesso, de naufrágio, decidi escrever um texto que mostrasse exatamente esse espírito. É da ousadia que muitas vezes nasce a criação. Da coragem, do arrojo, aparecem novas terras, novos mun- dos. Muitas vezes à custa de naufrágios, de enganos, de acidentes. Ainda hoje é assim, vamos naufragando na polí- tica, na sociedade, até encontrar terra. Por vezes parece uma quimera, uma loucura distante, mas pode ser que, um dia, surja um novo continente. E é essa esperança que nos faz navegar, arriscar e ousar. Quando o San Lorenzo, que fazia uma viagem de Florença a Lisboa, naufragou a sul do Algarve, um homem chamado Ulisse Bronzino salvou-se com os seus dois filhos adolescentes, agarrando-se a alguns destroços da embarcação. Foram recolhidos, segundo o relato de Bronzino, por um barco dos loucos, Stul- tifera navis. Era costume, na época, meter os loucos num barco e deixá-los à deriva, ao sabor da sua própria loucura. Bronzino depressa se terá apercebido de que a tripulação daquele barco «era composta por doidos», pois «quando lhes perguntava para onde se dirigiam, diziam que procuravam terra, mas rumavam para oci- dente, quando a costa ficava obviamente para leste». Ulisse Bronzino registou no seu diário, e durante várias páginas, inúmeros comportamentos que considerou bizar- ros e que classificou de «patética insanidade», tendo, no entanto, ficado intrigado com a hierarquia estabelecida dentro da embarcação, que não parecia «própria de doi- dos». Essa ordem que se desenvolvera no seio da estultícia, da alucinação e do desatino, acabou por dominar uma boa parte das reflexões diárias de Ulisse Bronzino, numa ten- tativa de explicar esse facto tão estranho, tão pouco expec- tável, quando vindo de loucos. A convivência com os loucos no espaço confinado da embarcação acabou por criar uma enorme pressão em Bronzino, sobretudo porque «os tolos insistiam em rumar para ocidente» e ele tinha receio de que a Terra acabasse de repente, o barco caísse no abismo e morressem todos dessa forma escusada e ridícula, ou mortos pelos terríveis mons- tros marinhos que habitavam o Atlântico. Quanto mais Ulisse Bronzino os tentava chamar à razão e dissuadi-los de rumar em direção a um destino trágico, mais insistiam que iriam encontrar terra e que, mais inacreditável e insano ainda, chegariam às Índias. Por isso, ao avistarem uma ilha, que mais tarde foi batizada de San Anastasio, exigiu que o deixassem desembarcar, mais aos seus dois filhos, pois já não aguentava tanta demência e o perigo que essa estultícia impunha às suas vidas. «E foi assim que me estabeleci nesta ilha, no meio de selvagens, mas ainda assim menos imbecis do que os do barco que me trouxeram até aqui. Não faço ideia do des- tino que terão tido todos aqueles imbecis comandados pelo doido mais doido deles todos, um tal de Colombo.» Afonso Cruz (Texto inédito, 2014) 282 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55
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    cruzadas O mar eo espaco Hoje, quando astronautas viajam permanente- mente em órbita da Terra, convém recordar que a primeira era de exploração e descoberta foi protago- nizada por portugueses e espanhóis, nos séculos XV e XVI, quando eles chegaram por mar ao Brasil, à Amé- rica do Norte e ao Oriente. Os portugueses foram pioneiros na extraordiná- ria ousadia que é necessária para se encontrar novos mundos. Para conhecerem o desconhecido, tiveram de deixar não só as suas famílias mas também tudo o que lhes era familiar. Tiveram, em muitos casos, de deixar a vida: no início dos Descobrimentos, dois em cada três homens morriam na viagem. No meio do mar imenso, que sofregamente «comia» os barcos, os sobreviventes ficaram a saber que a linha entre a vida e a morte era bastante ténue. Os navegadores, para irem mais além no mar, tiveram acima de tudo de ir além de si pró- prios. Escreveu Fernando Pessoa no poema «Mar Por- tuguês»: Quem quer passar além do Bojador / Tem de passar além da dor. A experiência foi dolorosa, mas o certo é que esse e outros cabos foram passados, tendo o mundo ficado maior. A História trágico-marítima conta-nos, numa repor- tagem em direto, que os barcos eram engolidos pelo oceano ou, como acontece nesta história de Jorge de Albuquerque Coelho, numa viagem na nau Santo Antó- nio entre o Brasil e Portugal, como os marinheiros passa- vam enormes provações para sobreviver. Não era apenas a fúria dos elementos que causava a morte, era ainda a cobiça dos corsários, que, com artilharia bem apontada, podiam ser piores do que a natureza. Na recente era espacial saímos da superfície do nosso planeta, elevando-nos em direção ao espaço. Mas, hoje, como outrora, apesar de a ciência nos ter enchido a mão de instrumentos (as telecomunicações, o radar, o GPS), a aventura não pode ser feita sem consideráveis riscos, exigindo, por isso, aos aventureiros as mesmas qualidades que antigamente. Está nos nossos dias a ser escrita uma história trágico-espacial. Em 1967 o astro- nauta soviético Vladimir Komarov era a primeira vítima no espaço ao morrer no regresso da Soyuz I à Terra. E, em 1986 e 2003, explodiam dois vaivéns espaciais norte-americanos, o Challenger e o Columbia, um à partida e o outro à chegada, ceifando de cada vez sete vidas. Era o ar que engolia as naves, em vez de ser o mar. Mas, tal como antes, os desastres não diminuíram a vontade de conhecer o desconhecido. Aprendendo com os desastres, os vaivéns voltaram ao espaço. O astronauta da NASA John Phillips, que prota- gonizou duas missões a bordo dos vaivéns, declarou: «[No passado] navios perderam-se e pessoas corajosas morreram, mas isso não implicou que não voltássemos a essas partes do mundo. Passar-se-á o mesmo com a exploração espacial.» Ontem no mar, hoje no espaço, a grande aventura humana, que consiste afinal em irmos além de nós próprios, continua. Carlos Fiolhais (Texto inédito, 2014) Carlos Fiolhais ² EPVUPSBEP FN 'ÓTJDB QFMB 6OJWFSTJEBEF EF 'SBOLGVSUFQSPGFTTPSOB6OJWFSTJEBEFEF$PJNCSB ²BVUPSEFBSUJHPTDJFOUÓGJDPTFEFMJWSPT JODMVJOEP Física divertida Nova Física divertidaFDarwin aos tiros e outras histórias de Ciência (SBEJWB %JSJHJVB #JCMJPUFDB(FSBMEB6OJWFSTJEBEFEF$PJNCSBFEJSJHF IPKFP3ØNVMPo$FOUSP$JÐODJB7JWB 6OJWFSTJEBEF EF$PJNCSB 283 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55
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    284 6OJEBEFHISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA Aliteratura de catástrofe: a História Trágico-Marítima A obra intitulada História trágico-marítima é uma compilação efetuada no século XVIII, em dois volumes, publicados respetivamente em 1735 e 1736 por Bernardo Gomes de Brito, que se propusera reunir na mesma obra relatos (relações) de nau- frágios ocorridos durante o século XVI e início do XVII. Algumas dessas narrativas corriam em folhas avulsas e correspondiam à ansiedade e ao interesse quase febril da população em relação aos desastres marítimos que, de uma maneira ou de outra, envolviam os que ficavam. […] A causa fundamental da maior parte desses naufrágios residia na ambição exces- siva de lucro, ocasionando a sobrecarga da embarcação, a má reparação dos cascos, bem como a partida fora dos tempos aconselháveis para a navegação, com vista à valorização concorrencial das mercadorias. Além dessas e doutras circunstâncias cuja responsabilidade cabia quer aos capitães e armadores, quer aos diferentes membros da tripulação, há que citar os ataques frequentes de corsários, chineses, franceses e holandeses, os quais ocorriam principalmente nas viagens de regresso e que infesta- vam os mares. De autorias várias ou anónimos, estes relatos não apresentavam um estilo único, mas sim características comuns. Muitas vezes contadas por sobreviventes ou por aque- les a quem diretamente estes as haviam relatado, estas narrativas, geralmente carac- terizadas por um tom patético, despojado de retórica e de erudição, apresentam um tom dramático e por vezes pavoroso, dão conta de espantosas situações da realidade humana e da aven- tura pessoal. […] Libertos das peias1 e sanções da sociedade, assalta- dos pelo terror iminente da morte, os náufragos entre- gam-se, muitas vezes, aos mais profundos e ocultos instintos. Por isso, na História trágico-marítima se entrelaçam a cada passo a brutalidade e a abnegação2 , a animalidade e a grandeza moral, a força dos instintos e a sublimação3 deles. O sacrifício da própria vida, a tentação da rapina e até do canibalismo, invadem essas páginas trágicas. Se Os Lusíadas haviam sido uma epopeia de glória, a História trágico-marítima não é menos uma epo- peia, mas de morte e de pavor. Maria Leonor Carvalhão Buescu, «Literatura de Catástrofe: a História trágico-marítima», in Literatura Portuguesa Clássica, Lisboa, Universidade Aberta, 1992, pp. 155-156 CONSOLIDA 1. 5FOEPFNDPOUBPUFYUPRVFBDBCBTUFEFMFS GB[VNBsíntese escrita QBMBWSBT QSP DFEFOEPBVNBSFEVÎÍPEPUFYUPBPFTTFODJBM /PGJOBM SFWÐ BQFSGFJÎPBFQBSUJMIBBUVBTÓOUFTFDPNPSFTUPEBUVSNB 1 Peias: impedimentos, obstáculos. 2 Abnegação: renúncia espontânea do interesse, da vontade, da con- veniência própria. 3 Sublimação: purificação; expurgar do mal. «Naufrágio do Galeão Grande S. João de Manuel de Sousa Sepúlveda», in#FSOBSEP(PNFTEF#SJUP História trágico-marítima 5 10 15 20 25 30 PROFESSOR Leitura 8.1; 8.2. Escrita 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 13.1. MC Consolida 1. A obra História trágico-marítima, datada do século XVIII, é uma compila- ção de Bernardo Brito e reúne relatos de naufrágios dos séculos anteriores. Ointeresseporestesrelatoseragrande, devidoàsnavegaçõesconstantes; mos- travamosperigosecomopoderiamser evitados, bem como as circunstâncias dasviagens. As causas principais dos naufrágios envolviamexcessodecarga,negligente reparação das embarcações, datas de partida desaconselhadas e ataques de corsários de várias nacionalidades, sobretudonoregressoaPortugal. Grande parte de autoria anónima, os relatos eram contados por sobre- viventes, ou por alguém com eles relacionado, e davam conta dos tenebrosos acontecimentos, nar- rando o terror dos nautas e das práticas pouco morais cometidas, como o suicídio e o canabalismo. Esta obra constitui um contraponto à glóriadeOsLusíadas.
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    285 «As terríveis aventurasde Jorge de Albuquerque Coelho» Literatura de viagens PONTO DE PARTIDA 1.0VWFBUFOUBNFOUFBDBOÎÍPNo país do gelo EF3VJ 7FMPTP5JSBOPUBTTPCSFPTFNCBSDBEJÎPT BTTVBT NPUJWBÎÜFTFPRVFMIFTQPEFSJBBDPOUFDFSEVSBOUF BTWJBHFOT EDUCAÇÃO LITERÁRIA O início da aventura do herói Albuquerque Como se sabe, no tempo do rei D. João III foi o Brasil dividido em capitanias1 , cada uma concedida a um donatário2 . A de Pernambuco3 , uma das que primeiro se povoa- ram e que logo alcançou grande importância, coube a um fidalgo de reto espírito, nobre, perseverante, trabalhador, que tinha por nome Duarte Coelho. Parece que dis- punha de consideráveis recursos e é de supor que esses seus haveres fossem o resultado de trabalhos longos que passou em África e no Oriente. […] Passados alguns anos, resolveu vir até à metrópole, a fim de angariar colonos novos e contratar industriais competentes com que pudesse desenvolver a sua empresa. Confiou a um seu cunhado, Jerónimo de Albuquerque, o governo da capitania, e embarcou acompanhado de seus filhos: Duarte Coelho de Albuquerque e Jorge de Albuquerque Coelho, que tivera de sua mulher, Dona Brites de Albuquerque. Na metrópole veio a falecer Duarte Coelho em 1554 […]. Ordenou pois Dona Catarina que Duarte de Albuquerque Coelho, herdeiro da capitania,afossesemdemorasocorrer;e,entendendoelequelheseriautilíssimaacom- panhia e ajuda de seu irmão, Jorge de Albuquerque Coelho, suplicou à rainha-regente que lhe desse ordem de o acompanhar; e assim ela fez. Chegou em 1560 a Pernambuco, não contando mais de vinte anos de idade; e, havendo chamado a conselho alguns padres da Companhia de Jesus e várias persona- gens entre as principais da terra, assentou-se entre todos, ponderado o lance, que se elegesse por chefe militar da capitania a Jorge de Albuquerque Coelho, o qual, como lhe disseram que cumpria ao bem público o aceitar ele e servir tal cargo, o aceitou, e se aventurou, e se esforçou muitíssimo, correndo risco de perder a vida no zeloso cumpri- mento dos seus deveres. Começou o ataque aos inimigos naquele mesmo ano de 1560, com tropa de solda- dos e de criados seus, que alimentava, vestia e calçava à sua custa. Prosseguiu nas ope- rações de guerra através de montes e de desertos, durante verões e durante invernos, de noite e de dia, passando grandíssimos trabalhos […]. Frequentemente, não tinham mais para comer do que os caranguejos do mato que encontravam, cozinhados de fari- nha-de-pauefrutaselvagemdaquelescampos.Quandoacampavam,faziamosescravos L iteratura de viagens ÏVNHÏOFSPMJUFSÈSJPRVFDPOTJTUFOBOBSSBÎÍPEBTFYQFSJÐO DJBT EFTDPCFSUBTFSFGMFYÜFTEFVNWJBKBOUFEVSBOUFPTFVQFSDVSTP0UFYUPBQSF TFOUB SFHSBHFSBM DPFSÐODJBOBSSBUJWB EFNPEPRVFBBWFOUVSBQFTTPBMEPBVUPSTFKB NBJTBNQMBFVOJWFSTBM TFOEP QPSJTTP EJGFSFOUFEPTEJÈSJPTEFWJBHFNPVEFCPSEP DBSBDUFSJ[BEPTQPSVNBNBJPSPCKFUJWJEBEFOPSFHJTUPEFPDPSSÐODJBT 5 10 15 20 25 CD 1 Faixa n.o 40 PROFESSOR Oralidade 1.1; 1.3; 2.1; 2.2; 3.2; 4.1; 4.2; 5.1; 5.3. Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.7; 15.1; 15.2; 16.1. Gramática 18.1. MC PontodePartida Sugestãodetópicos: “ B7EEA3E34AD6A?G;F397@F7 fidalgos,membrosdoclero,prosti- tutas,marinheiros; “;9@AD3H3? A CG7 ;D;3? 7@8D7@F3D «Mais parecia um piquenique do queacarreiradasÍndias»; “7@8D7@F3D3?F7?B7EF367E “:AGH7?ADF7E34AD6AB;AFA “6A7@{3E53B;FyA7367F7D;AD3{yA do estado de saúde de todos a bordo; “7EF3H3?67EG?4D36AE5A?ACG7 poderiamganharnaÍndia; “B7D3@F7 3 36H7DE;6367 F7@F3D3? expiar os seus pecados através de autosdefé; “BDtF;536753@;43;E?AB3D3EA4D7- viverem; “3B7@3EG?3B7CG7@3B3DF7 6AE que embarcaram concluiu a via- gem. Esta atividade poderá ter como seguimento uma apreciação crítica oral, partindo das notas retiradas. $ 1 Capitanias: antigas divisões administrativas do Brasil. 2 Donatário: título atribuído a quem era concedida uma donataria (doação) de um deter- minado território. Geralmente as donatarias eram hereditárias. 3 Pernambuco: estado brasileiro no Nordeste do país, cuja capi- tal é Recife.
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    286 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA choupanas de palma, em que se agasalhava toda a tropa. Com estes cuidados que sem- pre tinha e com as boas palavras que lhes dizia, consolava e contentava a sua gente. […] Com esta diligência4 e brevidade pacificou em cinco anos a capitania. […] Então, deixando essa colónia5 conquistada, e os indígenas quietos e pacíficos com pedirem paz que lhes outorgaram6 , embarcou para a metrópole na nau Santo António, na qual viagem se deram os casos que nesta narrativa se contêm. Carregada a nau de muita fazenda no belo porto da vila de Olinda, deu à vela com vento em popa a 16 de maio de 65. Não eram ainda bem saídos da barra quando se acalmou o vento com que partiram; logo depois se lhes tornou contrário, os levou de través7 e os atirou para um baixo8 , onde permaneceram por quatro marés e se viram em risco de se perderem, o que lhes teria sem dúvida acontecido se fossem então os mares mais grossos. Acudiram-lhes com presteza muitos batéis, que lograram9 salvar a gente toda e a maior parte da carregação. Porém, nem assim descarregada se desencalhou, pelo que decidiram cortar-lhe os mastros; então, nadou e saiu dos baixos. Tornada a nau ao porto da vila, foi examinada por oficiais para verem se poderia seguirviagem;e,poracharemquenãoreceberadanoqueaimpossibilitasseparaanave- gação, se tornou a preparar e a carregar. Vários amigos de Albuquerque Coelho, vendo que ele pensava em reembarcar na nau, quiseram dissuadi-lo de tal proceder pelos maus princípios que já tivera; mas nem ele, nem os demais passageiros, quiseram dar ouvidos a tais prognósticos, e tornaram a embarcar na Santo António, que largou enfim da vila de Olinda a 29 de junho de 65. Cinco dias depois da largada mudou o vento de maneira súbita, tornando-se tão contrário e de tal violência que trataram de alijar10 fazenda ao mar, por isso que a nau lhes mareava mal, pela muita carga com que dali partira. Pela tarde piorou ainda, e o casco abriu água. Davam à bomba continuadamente, às seis mil zonchaduras11 entre noite e dia. Pouco depois, um pé de vento quebrou o gurupés12 . Finalmente, já nos doze graus de latitude norte, o vento acalmou. Andaram deza- nove dias em calmarias, acompanhadas de trovoadas. Resolveram, então, demandar uma das ilhas de Cabo Verde, em cuja latitude se encontravam, para tirarem a água que no navio entrava e repararem a avaria do gurupés. A 29 de julho, não estando já longe de uma das ilhas, deram vista de uma nau e de uma zabra13 de franceses. Estes seguiram a Santo António, e às três horas da noite estavamtãopertoquevieramàfalacomanossagente,intimidando-aaqueserendesse. 30 35 40 45 50 55 60 4 Diligência: zelo, cuidado. 5 Colónia: cidade (atual- mente) do estado de Per- nambuco, localizada na área metropolitana de Recife. 6 Outorgaram: concederam. 7 Través: transversalmente. 8 Baixo: pouca altura em relação ao nível do mar. 9 Lograram: conseguiram. 10 Alijar: tirar ou deitar fora (a carga, para aliviar o navio). 11 Zonchaduras: cada operação de levantar o zoncho (ala- vanca) da bomba do navio para fazer subir a água. 12 Gurupés: mastro colocado na extremidade da proa, para diante, formando com a horizontal um ângulo de 30 a 40 graus. 13 Zabra: embarcação pequena. 14 Cerração: nevoeiro espesso, escuridão.
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    287 «As terríveis aventurasde Jorge de Albuquerque Coelho» Mas entendendo então da nossa nau que se estava aparelhando para defender-se, não ousaram acometê-la durante a noite, e deixaram-se andar na sua esteira, para tentarem abordá-la pela madrugada. Naantemanhã,porém,caiuumatrovoadamuitoforte,queosobrigouaapartarem- -se uns dos outros, sem que pudessem ver-se na cerração14 . […] Correram assim até 37 graus (latitude norte). Deviam achar-se bastante para oeste, porque a nau, com os ventos contrários, abatera muito. (Nesse tempo, ainda só se cal- culavaalatitude,pelaalturadaestrelapolaroupelaalturameridianadoSol;alongitude não se calculava, e apenas se estimava pelo caminho andado, imperfeitissimamente). Então, durante uma semana, foram outra vez as calmarias, – dias de repouso físico relativo,passadosnamonotoniadeumbalançolento,sonolento,queimpacientava.[…] Já por esse tempo se passava muita fome e muita sede; e, sabendo Jorge de Albu- querque Coelho a necessidade dos tripulantes e dos passageiros, e que não havia na nau mais mantimentos que o que ele trazia para si e para os seus criados, mandou colocar tudo adiante de todos e repartiu mui irmãmente pela companhia, sem nada pretender para si próprio, se bem que toda a gente lho quis pagar, por valer muito. Tudo o gene- roso fidalgo recusou: com o que ficaram todos mui contentes e se sustentaram por espaço de alguns dias. No entanto, levantaram-se grandes brigas e discórdias entre marinheiros e passa- geiros; mas Jorge de Albuquerque, sabedor do caso, interveio, – e lá os foi acalmando e pondo em paz. «As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho (1565)» (capítulo V), História trágico-marítima. Narrativas de naufrágios da época das conquistas, adaptação de António Sérgio, Lisboa, Sá da Costa, 2008, pp. 178-185 1.UFOUBOPTUSÐTQSJNFJSPTQBSÈHSBGPTEPUFYUPFJOEJDBPTFVBTTVOUP 2.FTUSVUVSBEFHFTUÍPEBEPOBUBSJBQPSQBSUFEF%VBSUFEFMCVRVFSRVFFSBBJOEBEF DBSJ[NFEJFWBM 2.1$PNQSPWBBWFSBDJEBEFEFTUBBGJSNBÎÍPDPNQBTTBHFOTUFYUVBJT 3.$BSBDUFSJ[BBGJHVSBEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIP 4.YQMJDJUBEFRVFGPSNBPQSJNFJSPDPOUSBUFNQPEBWJBHFNEF+PSHFEFMCVRVFSRVF $PFMIPQPEFTFSQSFTTBHJBOUF 5.*OEJDBBSB[ÍPBQPOUBEB RVFQPEFTFSEFTEFMPHPVNQSFTTÈHJP QBSBBTEJGJDVMEBEFTEF OBWFHBÎÍPEBFNCBSDBÎÍP GRAMÁTICA 1.*EFOUJGJDBBTGVOÎÜFTTJOUÈUJDBTEBTQBMBWSBTPVFYQSFTTÜFTEFTUBDBEBTOPTTFHVJOUFT TFHNFOUPTEFGSBTF a) jConfiou a um seu cunhado, Jerónimo de Albuquerque, o governo da capitaniax MM b) jque lhe seria utilíssima a companhiax MM c) jFrequentemente, não tinham mais para comerx MM d) jos atirou para um baixox M e) jTornada a nau ao portox M 65 70 75 80 Funções sintáticas QQ SIGA PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. A@F7JFG3;L3{yA :;EF†D;5A BA€ tica de Portugal, e informação sobre 383?€;3i4GCG7DCG7A7:A 2.1 «havendo chamado a conselho 39G@E B36D7E 63 A?B3@:;3 67 Jesus e várias personagens entre as principais da terra, assentou-se entre todos¥ EF7B3EEA63 obra mostra que as decisões eram tomadas à maneira medieval, em assembleiacomocleroeelementos 63@A4D7L3 3.!AD9767i4GCG7DCG7 A7:A| descrito como um homem valente, 5AD3AEA 67F7D?;@36A 7 53B3L 67 aceitardesafiosdignificantes. 4. O primeiro contratempo poderá constituir um sinal de que algo cor- rerá mal, aliás crença dos marinhei- ros expressa pelos amigos de Jorge 67i4GCG7DCG7A7:A 5. A carga excessiva com que tinha partido. Gramática 1. a) modificador apositivo do nome / complemento do nome; b) predi- cativo do sujeito; c) modificador; d) complementodireto/complemento oblíquo; e)complementooblíquo. Sugestão: *G97D7 E73ABDA87EEADCG7D77?- bre aos alunos o poema %3G3FD;- neta. ▪ %3G3FD;@7F3, Fausto
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    288 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA ORALIDADE Documentário «Caravelas e naus – um choque tecnológico no século XVI» 1. 7JTJPOBPEPDVNFOUÈSJPJOUJUVMBEPCaravelas e naus – um choque tecnológico no século XVI. 1.13FUJSBOPUBTUFOEPQPSCBTFPTUØQJDPTBTFHVJSBQSFTFOUBEPT a) 5FDOPMPHJBQPSUVHVFTBEPTÏDVMP97* b) UVBMJ[BÎÍPEBDBSBWFMB c) 3FHJTUPTFQBTTBHFNEFDPOIFDJNFOUP d) $BSBDUFSÓTUJDBTEBTDBSBWFMBT e) *NQPSUÉODJBEPT%FTDPCSJNFOUPT f) 0SJHFNEBDBSBWFMB g) 2VBMJEBEFEPTQPSUVHVFTFTFTTFODJBMËDPOTUSVÎÍPEBDBSBWFMB h) *OÓDJPEBFYQBOTÍPNBSÓUJNB i) $SFOÎBTEBÏQPDB JOEJDBSUSÐT j) *NQPSUÉODJBEPJOGBOUF%)FOSJRVF k) 4JOBMJ[BÎÍPEBTDPORVJTUBTQPSUVHVFTBT l) 'FJUPJOÏEJUPEBDBSBWFMB m) MFYBOESB1FMÞDJBoWJTÍPEPT%FTDPCSJNFOUPT n) .JIPLP0LBoWJTÍPEPT%FTDPCSJNFOUPT 1.24FMFDJPOBBDBSBDUFSÓTUJDBEPNJOBOUFEPTrecursos verbaisFnão verbaisVUJMJ[BEPT QFMPTJOUFSWFOJFOUFTOPEPDVNFOUÈSJP a) tom de vozNPOØUPOPWBSJBEPFQFSDFUÓWFMJNQFSDFUÓWFM b) articulação das ideiasDPNQFSUJOÐODJBEJTDVSTPEJTQFSTP c) ritmoMFOUPSFHVMBSSÈQJEP d) entoaçãoOBUVSBMNPOPDØSEJDBFOGÈUJDB e) expressividadeNVJUBQPVDBOVMB f) pausasFYDFTTJWBTPQPSUVOBT g) posturaSÓHJEBFTFNMJOHVBHFNHFTUVBMEFTDPOUSBÓEB OBUVSBM DPNMJOHVB HFNHFTUVBMFTQPOUÉOFB h) olharDPOUBDUPWJTVBMDPNPJOUFSMPDVUPSDPOUBDUPWJTVBMDPNBDÉNBSB 1.31SPWBRVFPDFOÈSJP SFDVSTPOÍPWFSCBM QSFTFOUFOPEPDVNFOUÈSJPTFBEFRVBË UFNÈUJDBBCPSEBEB Legenda: 1. Amurada 2. Beque 3. Bujarrona, giba 4. Castelo de popa 5. Castelo de proa 6. Convés 7. Cesto da gávea 8. Cesto do joanete 9. Cevadeira 10. Enxárcia 11. Escovém da âncora 12. Estai 13. Gata 14. Gávea 15. Gurupés 16. Joanete grande 17. Joanete da proa 18. Leme 19. Mastro grande (ou real) 20. Mastro da mezena 21. Mastro do traquete 22. Pavilhão 23. Penol, lais 24. Portinhola 25. Tombadilho 26. Vela grande 27. Vela da mezena 28. Vela do traquete 29. Velacho 30. Verga 22 13 8 16 4 18 24 7 20 27 23 30 26 17 29 25 28 14 12 1 6 5 2 11 19 10 21 15 3 9 $POTUJUVJÎÍPEFVNB OBVQPSUVHVFTB Documentário Q '* PROFESSOR Oralidade 1.3; 1.4; 1.5; 1.6; 1.7. MC PontodePartida 1.1 a) Portugal dominava o conheci- mento mais avançado sobre cons- trução naval; tecnologia de ponta; b) vaivém espacial; barco de corrida; c) por via oral, pois não existia tradi- ção de registo e convinha também manter o conhecimento longe do alcance de outras potências. Todo o trabalho técnico era feito sem que houvesse documentos elaborados por técnicos para o efeito. Sigilo profissional; d) principais caracte- D€EF;53EH7D93EA4€CG3E5A?H73E triangulares – pano latino; bolinava; t9;7H7ALH7DEtF;7?3@A4DtH7 mais carga…; e) conhecimento de novas raças e culturas; espalhar a fé católica e conquistar novas terras; f) árabe, caíque algarvio; g) inova- {yA ¹L7D3? H7DEŠ7E :€4D;63E 67 embarcações; h) 5A? 3 5A@- CG;EF3 67 7GF3 %ADF7 67 Ã8D;53 i)monstrosmarinhos,oceanosfecha- dos,omundoacabavanomarconhe- cido…; j) figura decisiva no arranque dos Descobrimentos; o grande impulsionador da aventura; início da Idade Moderna; k) colocação de B36DŠ7E7?B76D3l) passagem do cabo da Boa Esperança; m) globali- L3{yA5A?7{AG5A?AEBADFG9G7E7E que deram a conhecer ao mundo o mundo; n) deram conhecimento ao mundodoprópriomundo. 1.2 a) variado e percetível; b) com pertinência; c) regular; d) natural; e) pouca; f) oportunas; g) descon- traída; h) contacto visual com o interlocutor. 1.3Cenário:instrumentosdemarear; @3FGD7L3 7J†F;53¦ 77?7@FAE D73- cionados com as descobertas feitas comoauxíliodascaravelasenaus. Link Documentário: «Caravelas e naus – um choque tecnológico no séc. XVI».
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    289 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 1 Documentário 1. O que é? O documentário é um filme, geralmente de curta ou média metragem, de caráter informativo, em que se registam e documentam factos e situações da vida real. In Dicionário da língua portuguesa contemporânea da Academia de Ciências de Lisboa, Lisboa, Ed. Verbo, 2001 2. Qual o seu objetivo? O documentário aborda um tema ou assunto em profundidade, a partir da sele- ção de alguns aspetos e representações auditivas e visuais. O tema é selecionado em função da sua importância histórica, social, política, cultural, ambiental, científica ou económica, representando uma determinada visão do mundo. 3. Que características tem? O documentário caracteriza-se por: t SFDPMIFSPNÈYJNPEFJOGPSNBÎÜFTTPCSFVNEFUFSNJOBEPUFNB BUSBWÏTEFVN trabalho prévio de investigação e entrevistas a um ou mais interlocutores; t NPTUSBSVNBTJUVBÎÍPSFBMJEBEFBQBSUJSEFVNPVWÈSJPTQPOUPTEFWJTUB t GB[FSVNBBCPSEBHFNHMPCBMJ[BOUFFBQSPGVOEBEBEPUFNB BQBSUJSEFWÈSJPT ângulos de perspetiva; t BQSFTFOUBSVNFODBEFBNFOUPMØHJDPEBJOGPSNBÎÍPSFDPMIJEB t BQSFTFOUBS HFSBMNFOUF VNBOBSSBÎÍPJOGPSNBUJWBFNvoz-off; t BQSFTFOUBSJNBHFOTJMVTUSBUJWBT EBBUVBMJEBEFFPVEFBSRVJWP EBTJUVBÎÍP realidade em análise. No documentário encontramos: tWBSJFEBEFEFUFNBT tQSPYJNJEBEFDPNPSFBM tFODBEFBNFOUPMØHJDPEPTUØQJDPTUSBUBEPT tJOGPSNBÎÍPTFMFUJWBFSFQSFTFOUBUJWB DPCFSUVSBEFVNUFNBPVBDPOUFDJNFOUP ilustração de uma perspetiva sobre determinado assunto); tEJWFSTJEBEFEFSFHJTUPT NBSDBTEFTVCKFUJWJEBEF tSFDVSTPTWFSCBJTFOÍPWFSCBJT FYQPTUVSB UPNEFWP[ BSUJDVMBÎÍP SJUNP entoação, expressividade, silêncio e olhar). PowerPoint Ficha informativa n.o 1
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    290 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA EDUCAÇÃO LITERÁRIA Um duplo ataque: os corsários e a natureza A 3 de setembro, navegando eles em demanda das ilhas, alcançou-os uma nau de corsários franceses, bem artilhada e consertada1 , como costumavam. Vendo o piloto, o mestre e os demais tripulantes da Santo António que não iam em estado de se defen- derem, pois mais artilharia não havia a bordo que um falcão2 e um só berço3 (afora as armas que o Albuquerque trazia, para si e para os seus criados) determinaram de se render. Jorge de Albuquerque, porém, opôs-se a isso com a maior firmeza. Não! por Deus, não! Não permitisse Nosso Senhor que uma nau em que vinha ele se rendesse jamais sem combater, tanto quanto possível! Dispusessem todos ao que lhes cumpria, e ajudassem-no na resistência: pois somente com o berço e com o falcão tinha ele espe- rança que se defenderiam! Só sete homens, contudo, se lhe ofereceram para o acompanhar; e com esses sete, e contraoparecerdetodososdemais,sepôsàsbombardascomanaufrancesa,àsarcabu- zadas4 ,aostirosdefrecha,determinadoeenérgico.Durouestalutaquasetrêsdias,sem ousarem os franceses abordar os nossos pela dura resistência que neles achavam, apesar de os combatentes serem tão poucos e de não haver senão o berço e o falcão, aos quais Jorge de Albuquerque pessoalmente carregava, bordeava5 , punha fogo, por não vir na viagem bombardeiro, ou quem soubesse fazê-lo tão bem como ele. Ora,vendoopiloto,omestre,osmarinheiros,quehaviapertodetrêsdiasqueanda- vamnestetrabalho;querecebiamosnossosmuitodanodostirosdisparadospelosfran- ceses, e que já lhes ia faltando a pólvora, – pediram ao fidalgo e aos que o ajudavam que consentissem enfim na rendição, pois lhes era impossível o prosseguir na defesa: não fossem causa de os matarem a todos, ou de os meterem no fundo! Responderam a isto os combatentes que estavam decididos a não se renderem enquanto capazes para pele- jar. Os outros, vendo-os assim determinados, deram de súbito com as velas em baixo, e começaram a bradar para os franceses: entrassem, entrassem na nau, que se lhes rendia! Os que combatiam, indignados, quiseram matar o piloto e o mestre, pelo ato de fraquezaaqueforçavamtodos;nãotardou,porém,quesubissemeentrassemdezassete franceses, armados de espadas, de broquéis, de pistoletes, e alguns deles com alabardas. Num instante se assenhorearam da nau. 1 Consertada: preparada, apetrechada. 2 Falcão: pequena peça de artilharia. 3 Berço: peça de artilharia curta. 4 Arcabuzadas: descarga simultânea de arcabuzes (antiga arma de fogo, que se disparava inflamando a pólvora com um morrão). 5 Bordeava: voltar a aresta (de qualquer peça metálica). 5 10 15 20 25 CD 2 Faixa n.o 2 PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.6; 14.7; 14.9; 15.1; 15.2; 16.1. MC
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    291 «As terríveis aventurasde Jorge de Albuquerque Coelho» Verificandoamaneiracomovinhaesta,perguntaramcomqueartilhariaequemuni- ções se haviam defendido tantos dias, e o número dos homens que combatiam. Res- ponderam-lhes que só Jorge de Albuquerque fizera tudo, para o carregarem a ele com toda a culpa. Ouvindo isto, dirigiu-se o capitão dos franceses a Jorge de Albuquerque Coelho com o rosto soberbo e melancólico, e disse-lhe assim: – Que coração temerário é o teu, homem, que tentaste a defesa desta nau tendo tão poucos petrechos6 de guerra, contra a nossa, que vem tão armada, e que traz seis deze- nas de arcabuzeiros? Ao que respondeu o Albuquerque Coelho, bem seguro de si: – Nisso podes ver que infeliz fui eu, em me embarcar em nau tão despreparada para a guerra; que se viera aparelhada como cumpria, ou trouxera o que a tua traz de sobejo, creioquetivéramos,tueeu,estadosdiferentíssimosdaquelesemqueestamos.Aliás,aboa fortuna que tivestes, agradece-a à traição desses meus companheiros – o mestre, o piloto, os marujos, – que se declararam contra mim: pois se me houvessem ajudado, como me ajudaram estes amigos, não estarias aqui como vencedor, nem eu como vencido. Contraveio o capitão francês: – Não te desconsoles, amigo: é isto fortuna da guerra, que hoje favorece uns, ama- nhã outros. Pelo bom soldado que tu és, far-te-ei muito boa companhia, e àqueles que teajudaramacombater:quetudomerecequemfazoquedeve,cumprindoaobrigação da sua pessoa. Traziaanaufrancesaunsoitentahomens,entreosquaismuitosingleseseescoceses, e também alguns portugueses. Vinha toda ela maravilhosamente bem ordenada, cer- rada e empavesada7 da popa à proa […] havendo muitos meses que bordejava no mar, e tendo já roubado vários outros barcos. Verificando os corsários franceses o valor da carga que levava a nau, começaram a navegar para sua terra; e logo ao outro dia, que foram 6 de setembro, se avistaram as ilhasdoFaialePico,emaisaGraciosa.Eraseuintentodesembarcarosnossos,deixá-los numa ilha, e abalarem para França com a Santo António. Porém, como começasse a ventar rijo, desistiram de realizar a sua ideia. Resignaram-se a levá-los para o seu país, seguindo ao nordeste com vento em popa. […] Vendo Jorge de Albuquerque Coelho que os corsários se propunham levá-los paraFrança,descobriuaossoldadosseuscompanheiros,queotinhamajudadoadefen- der a nau, – o plano de se levantar contra os franceses. Responderam que o ajudariam, se vissem nisso salvação possível; reparasse ele, porém, que era a Santo António muito zorreira8 , mal aparelhada, ruim de leme, e fazendo além disso muita água; a nau fran- cesa que a seguiria, pelo contrário, mais avançava só com o traquete que a Santo Antó- nio com o pano todo. […] Respondeu-lhes o Albuquerque com o maior esforço, tentando animá-los. Não, nãoeraimpossível!Sematassemosfrancesesquenanaulevavam–dezassetehomens!– com as armas deles se defenderiam dos outros. […] Não se tinham defendido com tão poucasarmas,equaseportrêsdias?Quenãopoderiamfazeragora,comarmastãoboas como eram aquelas? […] Então, a 12 de setembro, o vento acalmou, para logo depois rondar ao sudoeste. Pouco tardou que soprasse em fúria, zunindo nas enxárcias9 , turbilhonando nuvens, rendilhando espumas açoitando no escuro os vagalhões roncantes. 30 35 40 45 50 55 60 65 70 6 Petrechos: munição, ins- trumento ou utensílio de guerra. 7 Empavesada: embandeirada. 8 Zorreira: vagarosa. 9 Enxárcias: conjunto de cabos fixos que, para um e outro bordo, aguentam os mastros reais, descendo até às mesas.
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    292 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA Alija! Alija! Alija carga! Alija! Alijaram tudo que na coberta havia, e debaixo da ponte. Como enfuriasse ainda mais o tempo, trataram de alijar os mastaréus10 das gáveas,etodasascaixasquecadaumtrazia.Paraquenãofosseistopesadoaalguém,foi a Jorge de Albuquerque Coelho a primeira de todas que se lançaram ao mar, na qual ele trazia os seus vestidos e outros objetos de importância. E, parecendo que não bastava isto, arrojaram para as águas a arti- lharia, com muitas caixas que continham açúcar, e numerosos far- dos de algodão. Um mar mais violento desmanchou o leme. Atravessou-se a nau aos escarcéus, e não foi possível desviá-la para a fazer tornar a correr em popa. Quase todos, então, se sentiram descoroçoar. […] Ajoelha- ram os outros, e pediram a Deus que os livrasse do perigo. Já a este tempo, que seriam nove horas da manhã, o navio dos corsários se não avistava; e os franceses que estavam na Santo António vendo a tormenta desencadeada, o leme desmanchado, atravessada a nau, o rumor que fazia toda a gente, – chegavam-se aos nossos em tom amigo e cum- priamtudoquelheselesmandavam,comosefossemcati- vos dos portugueses, e não os corsários e roubadores. Dispôs-se então um bolso de vela para o porem em torno do castelo de proa, a ver se com isso arribaria a nau, e deixaria assim de se atravessar ao mar. Às dez, escureceu por completo; parecia noite. O negro mar, em redor, todo se cobria de espumas bran- cas; o estrondo era tanto, – do mar e do vento, – que uns aos outros se não ouviam. Nisto, levanta-se de lá uma vaga altíssima, toda negra por baixo, coroada de espumas; e, dando na proa com um borbotão11 do vento, galga sobre ela, a submerge, e arrasa. Estrondeando e partindo, leva o mastro do traquete12 com a sua verga e enxárcia; leva a cevadeira13 , o castelo de proa, as âncoras; estilhaça a ponte, o batel, o beque, arre- batando pessoas, mantimentos, pipas. Tudo se quebra e lá vai no escuro. A nau, até o mastro grande, fica rasa e submersa, e mais de meia hora debaixo de água. Ossobreviventes,quesearrastavampávidos,confluemaumpadrequeseachaabordo e atropela as rezas e as confissões. Um relâmpago risca, ilumina a treva: veem-se todos de joelhos, com as mãos no ar, a pedir misericórdia e a clamar por Deus. Jorge de Albuquerque, como de costume, falava aos outros para lhes dar coragem. Confiassem em Deus, – e ao mesmo tempo fossem dando à bomba, esgotando a água que invadira o convés. Enquanto houver vida – dizia-lhes – trabalhem todos por a con- servar. E se Deus dispusesse por outra forma, tivessem paciência ante os seus decretos: somente Ele sabe o que nos é melhor. […] Mas outro vagalhão se lançou sobre a nau. Cobrindo o convés, arrebatou o mastro grande, verga, vela, enxárcias, camarotes, borda; levou o mastro da mezena14 com o aparelhotodo,umapartedapopa,etambémumdosfrancesesdosdemaiorjerarquia15 . 75 80 85 90 95 100 105 110 115 10 Mastaréus: pequeno mastro suplementar. 11 Borbotão: lufada. 12 Traquete: a mais baixa e maior vela redonda do mastro da proa. 13 Cevadeira: vela que pendia de uma verga atravessada no gurupés. 14 Mezena: mastro de ré. 15 Jerarquia: hierarquia.
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    293 «As terríveis aventurasde Jorge de Albuquerque Coelho» Os portugueses que trabalhavam na bomba foram logo arrojados aqui e além; cobertos pelo mar, todos se convenceram de que se afogariam. Levantaram-se aos poucos, quei- xando-se este de que partira um braço, aquele uma perna. […] Fuzilavam relâmpagos; a força do vento, a imensidade das ondas, aterravam os ânimos; a água que entrava vinha cheia de areia. Jorge de Albuquerque, apesar de tudo, consolava os tristes, afirmando- -lhes a esperança de se saírem daquilo. […] Passados três dias, em que continuamente se deu à bomba, começou enfim a abo- nançar a procela. Dos pedaços da ponte que o mar abatera, e de três remos do batel que escaparam do estrago, trataram logo de improvisar um mastro e armaram nele uma velazinha. Os nossos, então, pensaram em dar cabo dos estrangeiros. Jorge de Albuquerque dissuadiu-os disso. […] Assim discutiam, travando razões, quando deram vista da nau francesa. Fizeram-lhes fogos. Ela acudiu, desbaratada também, mas não destroçada como estava a nossa. […] Dois dias depois, aquietava o tempo. Os corsários, aproveitando a bonança, trata- ram de descarregar a Santo António das muitas mercadorias que nela vinham, e que haviam escapado do furacão ou do alijar de carga que se havia feito. Até despojaram alguns portugueses dos próprios fatos que traziam vestidos. […] Negaram-se a prover os desgraçados de algumas coisas que precisavam, […] [e] deram-lhesdoissacosdebiscoitopodre;enasegunda-feira,17desetembro,afastou-se a nau deles a todo o pano, e foi-se esbatendo na atmosfera turva. Sumiu-se com ela a esperança dos nossos. Desapareceu, por fim. «As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho (1565)» (capítulo 5), op.cit., pp. 185-202 1.$POTJEFSBPFYDFSUPRVFBDBCBTUFEFMFSFFMBCPSBUØQJDPTRVFTJTUFNBUJ[FNBTJEFJBT DIBWF PSHBOJ[BOEPPTTFRVFODJBMNFOUF 2.QPOUBBTDBSBDUFSÓTUJDBTQTJDPMØHJDBTEPQSPUBHPOJTUBEFTUBBWFOUVSB UFOEPFNDPOUB BTTVBTBUJUVEFTBPMPOHPEFTUFFYDFSUP 3.3FMBDJPOBPTQPOUPTEFWJTUBEPOBSSBEPSFEPQSPUBHPOJTUBSFMBUJWBNFOUFËBUJUVEFEP NFTUSFFEPQJMPUPEBSanto António MM 4.MFODBPTQFSJHPTRVFBNFBÎBWBNBTWJBHFOTEBTOBVT 5.*OEJDBPNPUJWPEBEFTDSJÎÍPQPSNFOPSJ[BEBEBUFNQFTUBEF 6.TUBCFMFDFVNBSFMBÎÍPEFTFOUJEPFOUSFPJOÓDJPFPGJNEFTUFFYDFSUP+VTUJGJDBBUVB SFTQPTUB 7.UFOUB BHPSB OPUFYUPEBTMJOIBTB 7.1YQMJDJUBBSFMJHJPTJEBEFEPTNBSJOIFJSPTQFSBOUFBBEWFSTJEBEF 7.23FGFSFPTJNCPMJTNPEPTPCTUÈDVMPTFYQFSJNFOUBEPT 8.*EFOUJGJDBPTSFDVSTPTFYQSFTTJWPTQSFTFOUFTOPTTFHVJOUFTWFSTPT a) jSumiu-se com ela a esperança dos nossosx M b) jàs bombardas com a nau francesa, às arcabuzadas, aos tiros de frechax MM c) jNão se tinham defendido com tão poucas armas, e quase por três dias?x MM 120 125 130 135 140 PROFESSOR EducaçãoLiterária 1. 1. Avistamento de uma nau francesa que tenta a abordagem. 2. Persegui- {yA6AEBADFG9G7E7EBAD@3G7H363 a cabo pelos corsários franceses. 3. Resistência duradoura à aborda- gem dos corsários, sem sucesso. 4. Abordagem da nau e perplexidade do capitão francês. 5. Decisão de levar a embarcação e os seus tripu- lantesparaFrança.6.JorgedeAlbu- querque desvenda o seu plano de fugaaosmarinheiros.7.Tempestade violenta que danifica seriamente a embarcação. 8. Os portugueses 83L7? B3@AE B3D3 3EE3EE;@3D AE corsários a bordo da Santo António. 9. Os franceses abandonam a Santo Antóniopraticamentesemrecursos. 2.Psicologicamente,écorajosoe de- terminado, quando não desiste do combate contra os corsários [defen- EAD63BtFD;3]43D5AaCG3@6A?3@- tém o ânimo durante a adversidade; altruísta, quando reparte os seus bens e alimentos com os outros e pensa no bem-estar comum; e racio- nal, quando evita derramamento de sanguedesnecessário. 3. Relação de semelhança, pois ambos a consideram uma atitude 67 FD3;{yA 7 D7@6;{yA além disso, o protagonista mostra resignação perante a traição sofrida D7H73 3EG3 @A4D7L3 67 53DtF7D ¬ 4. Os naufrágios, os ataques de pira- tas/corsários. 5. Através desta descrição porme- @AD;L363BD7F7@67 E75A@87D;D?3;E realismo e dramatismo à situação vividapelosportugueses. 6.Semelhança/circularidade.Oexcer- to inicia-se com o desespero dos marinheiros por uma possível abor- dagem dos corsários. No fim, o sen- timentodosmarinheiroséomesmo, agora com a nau quase destruída, sem alimentos e recursos de nave- gação. 7.1 Os marinheiros mostram profes- E3D 3 8| 53F†;53 )7L3? 7 5A@87E- sam-se,desejandoalcançaroperdão divino,peranteaiminênciadamorte. 7.2 Os perigos experimentados, tal comoastempestades,representam, naépoca,airadivinaeaexpiaçãodos pecados. 8. a) metáfora; b) enumeração; c)interrogaçãoretórica.
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    294 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA ORALIDADE Síntese 1.-ÐPTFHVJOUFUFYUP 2. 1BSUJOEPEBJOGPSNBÎÍPBQSFTFOUBEB SFHJTUBPTUØQJDPTQSJODJQBJTFGB[BTÓOUFTFEP UFYUPRVFOÍPQPEFSÈVMUSBQBTTBSPTUSÐTNJOVUPT Um estudo revela que o sequestro de navios no Corno de África rendeu até 400 milhões de dólares entre 2005 e 2012, e passou a ter investidores. A pirataria teve a sua idade de ouro nos mares internacionais entre os sécu- los XVI e XVII. Era uma atividade extre- mamente lucrativa e, em grande parte ilegal, já que apenas os corsários tinham autorização dos seus governos para ata- car e saquear navios de nações inimigas. Quatro séculos depois, os piratas ainda parecem ser capazes de ganhar grandes quantias em dinheiro. Entre abril de 2005 e dezembro de 2012, lucraram entre 339 e 413 milhões de dólares em resgates na costa da Somália e no Corno de África. […] O estudo [rela- tório da UNUDC, Gabinete da ONU para as Drogas e o Crime, do Banco Mundial e da Interpol] foi feito a par- tir de dados e evidências retirados de entrevistas com ex-piratas, autoridades governamentais, banqueiros e outros envolvidos no combate à pirataria. Pelo menos 179 barcos foram sequestrados neste período, tendo cerca de 85% deles sido libertados após o pagamento de resgates, que alimentaram uma vasta cadeia de atividades criminais à escala global. […] Segundo este estudo, o dinheiro dos resgates foi investido noutras ativi- dades como o tráfico, o financiamento de milícias, o tráfico de pessoas, novas atividades de pirataria e o aumento das capacidades militares da Somália. […] A economia da pirataria movimenta um mercado que vai desde a alimentação, prostitutas, advoga- dos e até mesmo veri- ficadores de notas que podem identifi- car falsificações. Da mesma forma que as comunidades locais «beneficiam» com o comércio de produtos e serviços aos piratas, as milícias também lucram com taxas cobradas pelo controlo dos por- tos. […] E esse facto tem grande impacto global, pois representa um risco para a segurança internacional e, principal- mente, porque ameaça as atividades comerciais numa rota marítima valiosa (canal do Suez). Segundo o relatório, a pirataria custa à economia global cerca de 18 mil milhões de dólares por ano em aumento dos custos em comércio. O surto de pirataria também reduziu a atividade marítima no Corno de África, prejudicando o turismo e a pesca nos países do leste africano desde 2006. A milionária cadeia da pirataria na Somália 5 10 15 20 25 30 35 50 55 60 65 40 45 (BCSJFM#POJT inXXXDBSUBDBQJUBMDPNCSJOUFSOBDJPOBM a-milionaria-cadeia-da-pirataria-na-somalia (texto adaptado, consultado em setembro de 2014) Síntese Q SIGA PROFESSOR Oralidade 1.3; 2.1; 2.2; 3.2; 4.2; 5.2; 5.3; 6.1; 6.2; 6.3. MC Oralidade A pirataria, que atingiu o auge nos séculos XVI e XVII, foi uma atividade muito rentável, mantendo-se ainda hojeativanacostadaSomália. Um estudo – relatório de diversas AD93@;L3{Š7E ¬ D7H73 5A@FAD@AE atuaisdailegalidadeedosrendimen- FAEA4F;6AEGF;;L36AEB3D3¹@3@5;3D outras atividades ilícitas, como o tráfico, as milícias e novas ativida- des de pirataria. Refere, ainda, que a pirataria alimenta uma rede que vai desde a prostituição, comércio local atépráticasdeadvogados. Esta atividade põe em risco a eco- nomia global devido à passagem no 53@36A*G7L3F;@9;@6A6;87D7@F7E setores,comosãoexemplooturismo eapesca.
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    295 «As terríveis aventurasde Jorge de Albuquerque Coelho» EDUCAÇÃO LITERÁRIA Acabam-se os trabalhos: a justa recompensa Ficaram sós. Então, vendo-se desamparados na vastidão oceânica, sem nenhuns recursos, sem um livor de esperança, caíram de joelhos no convés da nau, puseram-se a rezar o Miserere1 . Rezado o Miserere e as ladainhas2 , Jorge de Albuquerque começou a mandar, a tomar providências para a salvação de todos. Só se encontraram em todo o navio: numa botija, duas canadas de vinho; uma pequena quantidade de cocos; alguns poucos punhados de farinha-de-pau, e meia dúzia, ao todo, de tassalhos3 de carne e de peixe- -cavalo. Isto, – para quarenta pessoas que a bordo havia. Jorge de Albuquerque repartiu os mantimentos por suas mãos, reservando para si mesmo um quinhão4 menor que o que dava aos outros. Todos se espantavam de como se sustentava de tão pouco, com tanto trabalho em que lidava sempre, tanto de dia como de noite. Ao parecer, mais se doía das necessidades alheias que das próprias. Homem para comandar liberalmente, pela bondade e pela persuasão, e de todo o ponto admirável. [...] No dia que se seguiu ao da partida dos corsários, mandou Jorge de Albuquerque coser uma vela com uns tantos guardanapos e toalhas de mesa, que se acrescentaram a uma velinha latina, do esquife5 dos franceses, que lhes ficara. De dois remos do batel fizeram a verga [...]. Ao leme, que ficara dependurado por um só ferro, lançaram umas cordas como bragueiros6 para que pudesse servir por uns três dias. Com este aparelho seguiram viagem, lançando rumo pelo nascer do sol à falta de instrumentos de marear, que todos lhes roubaram os franceses. [...] Pouco lhes durou essa alegria. No dia seguinte ao de se tomar a água voltou o nor- deste a soprar rijíssimo, com grandes vagas e com muito frio. Mal se aguentavam com osbalançosdanau;asmesasdaguarnição,porandaremsoltas,faziamumamatinadade mil demónios; as ondas galgavam e invadiam tudo; e já o alimento chegava ao fim. Só três cocos se distribuíam por dia, isto para cerca de quarenta pessoas. Assim seguiam, ao sabor do vento. Voltou a tortura de dar à bomba; vieram o desâ- nimo e a fome horrível. Jorge de Albuquerque, além dos trabalhos comuns aos outros – pois de todos irmãmente partilhava ele – tinha o cuidado de prover a tudo, e o de comandar, consolar, animar os homens, comunicar o seu fogo à companhia inteira; e em tão amigos, tão brandos, tão piedosos termos lhes falava sempre, que quase sem forças se levantava a gente: rediviva7 , pronta, – retomava a faina. Embarcara doente no Brasil; e agora, depois de tantas lutas e de tanto esforço, de tantas privações e de tantas penas, jamais se lhe ouvia a menor das queixas. Tão são lhes parecia e tão bem dis- posto, tão prazenteiro8 , tão forte continuador dos seus trabalhos, que causava espanto e envergonhava a todos. Para sugestioná-los, afirmava-se convicto de que iriam chegar, não a outro porto, mas à própria Lisboa. [...] Com a rijeza do vento, romperam-se as velas que levavam; e estando eles na faina de consertá-las, eis que acabou de desapegar-se o leme, quebrando-se o ferro que lhe restava e rompendo-se os cabos com que o tinham atado. Foi então o cúmulo do desespero. Deixaram-se cair todos no convés, desamparada- mente, com a certeza absoluta de que morreriam de fome. 5 10 15 20 25 30 35 40 1 Miserere: designação do 50.º salmo de David que começa por esta palavra (súplica do pecador arre- pendido). 2 Ladainhas: oração em que se pede à Virgem e aos santos para intercederem pelos fiéis. 3 Tassalhos: pedaço grande. 4 Um quinhão: parte que cabe a cada um na repartição de um todo. 5 Esquife: batel, bote. 6 Bragueiros: cabo com que se segurava o leme quando se quebravam os ferros que normalmente o prendiam. 7 Rediviva: rejuvenescida. 8 Prazenteiro: alegre, con- tente. PROFESSOR Educação Literária 14.2; 14.3; 14.4; 14.5; 14.7; 14.9; 15.1; 15.2; 15.3; 16.1. Gramática 19.2; 19.3; 19.4; 19.5. Escrita 10.2; 11.1; 12.1; 12.2; 12.3; 12.4; 12.5; 13.1. MC EducaçãoLiterária Sugestão: Visionamento do trailer dos filmes 3B;FyA ':;;BE ou A vida de Pi AG 3;@63 6A ¹?7 6A5G?7@FtD;A O mundo em duas voltas – uma aventura da família Schürmann. Sugere-se a elaboração de um breve comentário, apontando semelhan- ças e diferenças entre o relato lido e osfilmes-documentário. ▪ Vídeo3B;FyA':;;BE ▪ Vídeo A vida de Pi ▪ Vídeo O mundo em duas voltas
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    296 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA De súbito, Jorge de Albuquerque levantou-se rijo, com ledo aspeto; e, pegando num livro que trazia consigo, tirou duas imagens de Cristo e da Virgem, pegou-as no mastro, chamou os companheiros para o pé de si, cada um por seu nome, e começou a pregar-lhe animadamente, afirmando-lhes a certeza de que se salvariam. [...] Depois,àsescondidas,feztestamento;e,acrescentandoaessemuitosoutrospapéis, acomodou tudo num barril pequeno, que fechou e breou9 o melhor que pôde, dis- posto a lançar o barrilinho à água quando visse chegado o derradeiro instante. Mas isto o fez em tão grande segredo que nenhum dos outros por então o soube. [...] Chegados a 27 daquele mês, começou a necessidade de lançarem às ondas os pri- meiros companheiros que morreram de fome. Certos homens, nesse transe, lembra- ram-sedepediraJorgedeAlbuquerqueapermissãodecomeremaquelescadáveres.Ao ouvir este horrível requerimento, arrasaram-se-lhe os olhos de água. Não, não podia ser; não o consentiria, enquanto vivesse; se morresse, porém, dava-lhes licença de o comerem a ele. O desespero, então, levou alguns a uma outra ideia: arrombar a nau para acabarem de vez. Soube-o o Albuquerque, e impediu que o fizessem. [...] A 29, pela manhãzinha, avistou-se uma nau. Fizeram-se sinais alvoraçadamente; os da nau, porém, não lhes quiseram valer, e seguiram seu rumo. Mais três dias se passaram assim, no trabalho contínuo de dar à bomba. A 2 de outubro, entre a neblina, pareceu-lhes divisar arrumação de terra. Cerca do meio-dia, dissipou-se a névoa. Maravilha! Deus louvado! Era a serra de Sintra! Lá estava, ao cimo das rochas, a própria casa da Senhora da Pena! Mas não tinham maneira de se aproximar da praia. Iam numa carcaça sem governo algum. [...] Pouco depois, felizmente, avistaram uma barca pequenina, que navegava para a Atouguia10 . Começaram a bradar-lhes, de joelhos, que lhes valessem; e estando a barca a um tiro de berço, logo lhes acudiu com muita pressa. VinhaabordodessabarcaumRodrigoÁlvaresdeAtouguia,mestreesenhoriodela, e uns parentes e amigos seus. Todos começaram a esforçar os da nau. Não temessem nada; não os desamparariam, ainda que com risco de se perderem eles próprios. E não desejavam por isso prémio algum. Vendo o estado em que estavam os da nau, ficaram atónitos. Logo lhes deram pão, água e frutas, que para si traziam. 9 Breou: cobriu ou untou com resina. 10 Atouguia: (Atouguia da Baleia) vila do concelho de Peniche. 11 Fundeasse: ancorasse. 45 50 55 60 65 70 75
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    297 «As terríveis aventurasde Jorge de Albuquerque Coelho» O senhorio da barca, tanto que acabou de lhes dar de comer, passou-lhes um cabo dereboquecomqueafastaramanaudarochaeaforamtrazendoaolongodacostaatéà baía de Cascais, aonde chegaram pelo sol-posto. Acorreram botes, em que se meteram; uns desembarcaram ali em Cascais; outros só em Belém tomaram terra. A nau, durante a noite, ficou amarrada à popa da barca, por não ter âncora com que fundeasse11 . No dia seguinte, o cardeal infante D. Henrique, que governava o reino, fez expedir uma galé que a fosse trazendo pelo rio acima. Fundeou a nau, finalmente, diante da igreja de S. Paulo [...]. Jorge de Albuquerque, antes de tudo, satisfez largamente o senhorio da barca e os que o haviam ajudado no salvamento. Desembarcou em Belém com alguns com- panheiros, e dirigiu-se em romaria a Nossa Senhora da Luz, pelo caminho de Nossa Senhora da Ajuda. [...] Saudou-os então D. Jerónimo de Moura, inquirindo se eram eles, os do grupo, os que com Jorge de Albuquerque se tinham salvo. E confirmando eles que de facto o eram, perguntou D. Jerónimo: – E Jorge de Albuquerque? Vai adiante? Fica atrás? Ou tomou outro caminho? Jorge de Albuquerque, que se achava ali mesmo diante dele, lhe respondeu: – Senhor, Jorge de Albuquerque não vai adiante, nem fica atrás, nem tomou outro caminho. Cuidando D. Jerónimo que zombava, quase se houve por desconfiado, e lhe disse que não gracejasse, e respondesse à pergunta. E Jorge de Albuquerque: – Senhor D. Jerónimo: se vísseis Jorge de Albuquerque, conhecê-lo-íeis? – Decerto. – Pois sou eu, Jorge de Albuquerque! E vós sois meu primo, D. Jerónimo, filho de D. Isabel, minha tia. Julgai dos trabalhos por que passei! Só havia um ano que não se viam. «As terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho (1565)» (capítulo 5), op.cit., pp. 202-214 1.3FGFSFBTBEWFSTJEBEFTWJWJEBTBQØTBQBSUJEBEPTDPSTÈSJPTGSBODFTFT 2.QSFTFOUB QPSQBMBWSBTUVBT PRVFBSFEBÎÍPEPUFTUBNFOUPSFWFMBTPCSFPDBSÈUFSEF +PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIP 3.*EFOUJGJDBBBÎÍPEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIPBQØTPEFTFNCBSRVFFN-JTCPBFP RVFSFWFMBTPCSFBNFOUBMJEBEFEBÏQPDB 4.YQMJDJUBEFRVFGPSNBBOBVQPEFSÈDPOTUJUVJSVNBNFUPOÓNJBEBQFSTPOBHFNQSJODJQBM 5.0OBSSBEPSDPOTUSØJBJNBHFNEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIPDPNPIFSØJ 5.1.PTUSB QPSQBMBWSBTUVBT DPNPPGB[ 6.*EFOUJGJDBPUJQPEFSFMBÎÍPRVFTFQPEFFTUBCFMFDFSFOUSFFTUFSFMBUPFBWJTÍPPGJDJBM TPCSFPQFSÓPEPEPT%FTDPCSJNFOUPT KVTUJGJDBOEPBUVBSFTQPTUB 7.3FGFSFPTUSBÎPTDPNVOTEFTUBBWFOUVSBDPNVNSFMBUPEFWJBHFN 80 85 90 95 100 As aventuras e desventuras dos Descobrimentos Q '* Relato de viagem Q '* PROFESSOR 1. Falta de alimentos, nova tempes- tade, destruição parcial da nau, morte de marinheiros, falta de ajuda deoutrasembarcações. 2. Revela que, apesar de se mostrar corajoso e determinado, está cons- ciente das dificuldades e da sua pos- sívelmorte. 3. Após o desembarque, e depois de ter recompensado o dono da embar- cação que o ajudara, parte em roma- D;33%AEE3*7@:AD363#GL7?E;@3 de agradecimento, evidenciando a fortereligiosidadedaépocaeofacto de ter expiado os seus pecados com aquelatribulação. 4. A nau, apesar de maltratada pela intempérie e pelo assalto dos cor- sários, mantém-se à tona da água, nunca afundando. Tal como a nau, o protagonista mostra-se resiliente e combativo, tentando, apesar de tudo, manter-se firme e animar os AGFDAE A@EF;FG;BAD;EEAG?3meto- nímia, pois o protagonista está dire- tamente relacionado com a nau, emboranãosejapartedela. 5.1 O narrador, ao longo de toda a ação,vaicriandoaideiadeheróisobre a personagem principal, aquele que não desiste perante a adver- sidade,apoiaosoutros;portanto,um 3FDG€EF37JFD7?A5A?ABDAH3?AE 7J7?BAE@3E 6. Relação de contraste, porque o CG7|@3DD36A5A@FD36;L3H;EyA93- morosa que, genericamente, se tem sobreoperíododosDescobrimentos. Esterelatoprovaqueosmarinheiros passavampormuitasprovações,por muitas situações-limite que resul- F3D3??G;F3EH7L7E@3EG3BD†BD;3 morte. Para existirem os momentos gloriosos, houve momentos de tra- gédia. 7. Há uma seleção dos acontecimen- tos considerados mais marcantes; o relato não é objetivo e tenta trans- mitir a experiência vivida ao leitor, centrando-se na explicação, orien- tação e opinião, sempre com base @3 D73;6367 A?A 7? D73FAE 67 viagemtípicos,estenarradorregista as suas impressões sobre lugares, pessoas e situações com os quais se depara durante a viagem, caracteri- L3@6A AE
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    298 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA GRAMÁTICA 1. 3FDPMIFEPUFYUPUSÐTDPOTUJUVJOUFTEPDBNQPMFYJDBMEBQBMBWSBjOÈVUJDBx3FMBDJPOBP DPNPUFNBEPNJOBOUFEPUFYUPFDPNBSFTQFUJWBJOUFODJPOBMJEBEFDPNVOJDBUJWB 2. *EFOUJGJDBPDBNQPTFNÉOUJDPEBTQBMBWSBTjWFMBxFjWBHBx DPOTUSVJOEPEVBTGSBTFT QBSBDBEBWPDÈCVMP 3. *NBHJOBUFOPUFNQPEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIPFJOEJDBTFBTQBMBWSBTjGBSJOIB EFQBVx jDPDPxFjOBVxTFSJBNDPOTJEFSBEBTBSDBÓTNPTPVOFPMPHJTNPT+VTUJGJDBB UVBSFTQPTUB ESCRITA Apreciação crítica IJTUØSJBEPT%FTDPCSJNFOUPTQPSUVHVFTFTGPJHMPSJPTB NBTUBNCÏNGFJUBEFNPNFO UPTUFSSÓWFJTQJOUVSBHistória trágico-marítima EF)FMFOB7JFJSBEB4JMWB JOUFSQSFUB FTTBTDBUÈTUSPGFT QBSUJSEBPCTFSWBÎÍPFEFTDSJÎÍPEBJNBHFN QMBOJGJDBVNBapreciação crítica FOUSF DFOUPFWJOUFFDFOUPFDJORVFOUBQBMBWSBT OBRVBMSFGJSBTPTTFHVJOUFTUØQJDPT tEFTDSJÎÍPEPRVBESP tDPNQBSBÎÍPDPNPTFYDFSUPTFTUVEBEPTEBPCSBHistória trágico-marítima tDPNFOUÈSJPDSÓUJDPTPCSFPQFSÓPEPEPT%FTDPCSJNFOUPT /ÍPUFFTRVFÎBTEFJEFOUJGJDBSBTGPOUFTVUJMJ[BEBT EFDVNQSJSBTOPSNBTEFDJUBÎÍP EFVUJMJ[BSBTOPUBTEFSPEBQÏ TFOFDFTTÈSJP FBJOEBEFFMBCPSBSBCJCMJPHSBGJBEPTEP DVNFOUPTDPOTVMUBEPTQBSBSFDPMIFSFTJOGPSNBÎÍP )FMFOB7JFJSBEB4JMWB História trágico-marítima Apreciação crítica Q SIGA Campo lexical e campo semântico Q '* Arcaísmo e neologismo Q '* PROFESSOR Gramática 1. «ondas¥ ¤convés¥ «marear¥ ¬D735;A@3? E75A? o tema da viagem marítima numa nau. 2.-73i57@6;G?3H73 iH736A barcorasgou-se. -393 ,?3 H393 7@AD?7 5A4D;G A barco. / Há uma vaga de novos estu- dantes. 3. Neologismos, dado que desig- navam realidades novas daquele tempo, logo teriam sido recente- ?7@F7;@FDA6GL;63E@3€@9G3 Escrita O quadro apresenta um bote cheio de homens e mulheres que formam umamassaquaseindissociável.Este barco surge rodeado por uma onda que também é formada de homens e mulheres, remetendo para a parte trágicadosDescobrimentos,ouseja, este período de glória foi cimentado pelas mortes de várias tripulações. Numa das extremidades da onda parece desenhar-se uma criatura semelhante a um cão, ou lobo, BA67@6AE7DE€?4AA67|D47DAA cãodemuitascabeçasqueguardava a porta do Inferno. Todo o ambiente do quadro é escuro, indício de tragé- dia. O que se destaca na pintura é a amálgama de corpos mais coloridos do que o fundo do mar, e só através de uma observação mais pormeno- D;L363|CG7E7H;EG3;L3?AE5ADBAE daspessoas. A obra de Vieira da Silva é uma boa representação dos excertos dos capítulos analisados, pois retrata 3EFAD?7@F3EA67EF;@ABADH7L7E certo, dos que se lançavam ao mar nas naus; o lado menos auspicioso das Descobertas. Uma das partes descritas nos excertos é o desânimo que assolava os tripulantes depois de várias peripécias, bem como a destruição quase total da nau. O mesmo se pode observar neste quadro, nos rostos quase sem expressão e na embarcação cheia de pessoascomoutrastantasnomar.
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    299 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 2 Em pleno reinado de D. João V, ainda sob o influxo1 de uma cultura tardo-barroca, Bernardo Gomes de Brito publica em Lisboa – oficina da Congregação do Oratório, 1735-1736 – os dois primeiros volumes (previam-se mais três) de uma antologia de naufrágios, sucessivamente reeditada até aos nossos dias e intitulada História trágico- -marítima, em que se escrevem chronologicamente os Naufragios que tiveraõ as Naos de Portugal, depois que se poz em exercicio a Navegação da India. Recolhendo e ordenando cronologicamente uma dúzia de relatos de naufrágios ocorridos sobretudo na longa e difícil «carreira da Índia», a obra do erudito setecentista reafirmava o interesse his- tórico-literário, a notável popularidade e o sucesso editorial dessas relações de viagens atribuladas e desastres marítimos. […] Não restam dúvidas de que a representação trágica de viagens dramaticamente interrompidas singularizou este tipo de relatos de naufrágios, no contexto muito rico da chamada literatura de viagens, potenciada pela empresa expansionista de Portugal. Simbolicamente, o naufrágio é metáfora recorrente da vida humana, como se lê nas frequentes reflexões insertas nestes relatos. […] Ser em viagem (homo viator) pelas provações, calamidades e misérias deste mundo, o homem deveria ter aguda consciên- cia do pecado e da efemeridade da existência humana (dialética2 DSJNFFYQJBÎÍP F ao mesmo tempo, temeroso e desenganado, […] mostrar um reverencial temor da morte […]. Em vários relatos da História trágico-marítima, perante a iminência da catástrofe, todos confessavam em voz alta os seus pecados, invocando a misericórdia divina. […] A matéria trágico-marítima constitui assim parte integrante da aventura épica da nação portuguesa – o heroísmo e a glória são acompanhados pela desgraça e destrui- ção. […] Os relatos de naufrágios que acompanharam a época das grandes descobertas expressam a funesta ruína de vidas e des- truição de fazendas, inaugurando uma literatura de perda, cen- trada na dimensão mais negra e trágica desse período áureo da História de Portugal – a da devastação e da ruína de homens e de bens no «mar português». Já a partir de finais de Quinhen- tos, a imagem do naufrágio expressava um profundo senti- mento de crise e de declínio; e a trágica estatística dos desastres da carreira da Índia, bem como alguns relatos cronísticos, são por si só bem eloquentes. Nesta perspetiva, pode dizer-se que a simbólica obra de Ber- nardo Gomes de Brito se mostra bem mais profunda e intem- poral. Recordemos que é no seio da epopeia camoniana que se inaugura o contraponto do heroico, um sentimento antiépico que se aprofundará numa visão multissecular da decadência do Império de Portugal no Oriente e do próprio destino da pátria. As dramáticas viagens da História trágico-marítima adquirem assim, ao longo dos tempos uma semântica eminentemente disfórica3 , metaforizando de modo alegórico e simbólico o lado negro ou o necessário reverso da dimensão positiva da epopeia. 5 10 15 20 25 30 35 40 45 3FNCSBOEU Tempestade no mar da Galileia 1 Influxo: influência. 2 Dialética: método de raciocínio e de questionamento baseado na oposição que conduz a um termo superior de resolução. 3 Disfórica: valores ou significados negativos (ant. eufórica). As aventuras e desventuras dos Descobrimentos PowerPoint Ficha informativa n.o 2
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    300 6OJEBEF)*45»3*53«(*$0.3¶5*. Nas narrativasdestes sucessos, ouvem-se vozes acusadoras da ganância, da impre- vidência4 , da impreparação e de outras causas dos trágicos naufrágios que enlutaram a história da expansão ultramarina. […] Por tudo isto, não surpreende que a relação ambígua dos portugueses com o mar – heroica, dolorosa e sacrificial – enforme o pensamento de Fernando Pessoa na Mensa- gem em «Mar português», que assim sintetiza hiperbolicamente o espírito da História trágico-marítimaj»NBSTBMHBEP RVBOUPEPUFVTBMTÍPMÈHSJNBTEF1PSUVHBMx O domínio do mar (possessio maris) da epopeia ultramarina, configurador do Império português, foi protagonizado por ações gloriosas e por heróis admiráveis (espírito épico). Porém, os louros não evitaram o epitáfio5 , pois a conquista do mar também conheceu o avesso do heroico, na sua face crítica e negra do sofrimento e da miséria humanas, na contínua manifestação da morte e do luto […]. Em suma, ao projetar-se fecundamente no imaginário português, a História trágico-marítima assume uma inegável dimensão de «antiepopeia dos Descobri- mentos» […], transformando-se numa eloquente imagem disfórica da cartografia do imaginário português. José Cândido de Oliveira Martins, «História trágico-marítima», in Vítor Aguiar e Silva (coord.), Dicionário de Luís de Camões, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 410-416 CONSOLIDA 1. 1BSBSFTQPOEFSFTBDBEBVNEPTJUFOT1.1 B1.4 TFMFDJPOBBPQÎÍPDPSSFUB 1.1 MJUFSBUVSBEFWJBHFOTUPSOPVTFQPQVMBSOBÏQPDBQPSRVF (A) FSBVNBOPWBGPSNBEFPTMJWSFJSPTHBOIBSFNEJOIFJSP (B) BTQFTTPBTTFOUJBNTFSFMBDJPOBEBTDPNPTBDPOUFDJNFOUPT (C) IBWJBCBTUBOUFQVCMJDJEBEFËTWJBHFOTNBSÓUJNBT (D) #FSOBSEP(PNFTEF#SJUPDPOTFHVJVDPNQJMBSCBTUBOUFTSFMBUPT 1.2 /BFYQSFTTÍPjo naufrágio é metáfora recorrente da vida humanax M PBVUPS QSFUFOEF (A) EFTUBDBSRVFBEFTHSBÎBÏDPOTFRVÐODJBEBWJEBIVNBOB (B) FOGBUJ[BSRVFPOBVGSÈHJPÏDPNQBSÈWFMËUSJTUFWJEBEPTFSIVNBOP (C) SFBMÎBSRVFPOBVGSÈHJPÏDPOTFRVÐODJBEBWJEBEPTNBSJOIFJSPT (D) BDFOUVBSRVFBEFTHSBÎBÏQBSUFJOUFHSBOUFEBWJEBEPTFSIVNBOP 1.3 0IPNFN DPNPhomo viator,EFWFSJBSFDPOIFDFSPTTFVTFSSPTF (A) QFDBEPT OÍPUFNFSB%FVTFUFSDPOTDJÐODJBEBCSFWJEBEFEBWJEB (B) QFDBEPT OÍPUFNFSB%FVTFUFSDPOTDJÐODJBEBMPOHFWJEBEFEBWJEB (C) QFDBEPT TFSUFNFOUFB%FVTFUFSDPOTDJÐODJBEBCSFWJEBEFEBWJEB (D) BTTVBTWJSUVEFT TFSUFNFOUFB%FVTFUFSDPOTDJÐODJBEBMPOHFWJEBEFEBWJEB 1.4 5FOEPFNDPOUBPTFOUJEPHMPCBMEPUFYUPFPDPOIFDJNFOUPEBFQPQFJBDBNP OJBOB QPEFTFDPODMVJSRVFBPCSBHistória trágico-marítima (A) TFPQÜFUPUBMNFOUFËNFOTBHFNQPTJUJWBWFJDVMBEBOOs Lusíadas. (B) DPSSPCPSBUPUBMNFOUFBNFOTBHFNQPTJUJWBWFJDVMBEBOOs Lusíadas (C) TFPQÜFQBSDJBMNFOUFËNFOTBHFNQPTJUJWBWFJDVMBEBOOs Lusíadas (D) FYQMPSBDPNNBJTQPSNFOPSFTBTQFUPTOFHBUJWPTEBNFOTBHFNWFJDVMBEBOOs Lusíadas 4 Imprevidência: des- leixo, descuido. 5 Epitáfio: inscrição sepulcral. 50 55 60 PROFESSOR Leitura 8.1. MC Consolida 1.11.21.31.4
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    301 «As terríveis aventurasde Jorge de Albuquerque Coelho» LEITURA Relato de viagem 1. -ÐPTFHVJOUFUFYUP Todo o Marrocos citadino é destino de eterno retorno para quem consiga pairar au-dessus de la mêlée, que é como quem diz, acima da confusão. Na casa dos árabes, ou seja, de Tânger à Tur- quia, o caos é uma forma de harmonia sem conflito. Como se outro cenário, do tipo suíço, por exemplo, fosse um presságio de loucura, um convite ao desvario. Comecemos por Agadir, o destino balnear da burguesia berbere – também chez les arabes há destas coisas malsãs1 . Vista de raspão, a cidade tem ares de Albufeira no pino do verão, embora numa variante menos camone e mais moscovita (os novos russos já deram a esta costa). […] Vemos uma paisagem feliz de estrangeiros de variada proce- dência unidos pela adoração ao Sol e ao ritual da comida e da bebida – a maio- ria livres das punições do Ramadão2 . Vemos uma praia a perder de vista, que o mais certo é ir dali ao cabo da Boa Esperança e cujas únicas tormentas para os viajantes incautos serão os futebóis dos discípulos de Zinedine Zidane. Nada como uma bolada na testa para dissuadir um viajante a uma ida ao areal, o que, neste caso, é um mal menor. A praia quilométrica e banhada por um Atlântico turvo é apenas um dez avos do manancial de apelos da comarca de Agadir. A mim falou-me mais ao cora- ção a subida do promontório do antigo kasbagh, que, apesar de devastado por terramotos e turistas bulímicos, ainda é o mais adequado posto de vigia e contemplação. E lá do alto da gávea, entre camelos em pousio, músicos ociosos e aladinos sardónicos derrama- dos sobre tapetes de sarja, a panorâmica deste maravilhoso recanto de cânticos leva-me de viagem da pesca musculada à graciosa poesia sufi3 . Um Mohamed4 bigodudo garan- te-me que o porto de Agadir, embora atulhado de cargueiros ferrugentos e balsas5 carcomidas, é um dos mais prolí- ficos de África, e gaba-se de terem dado um bigode aos algarvios na guerra da petinga6 . Vou acreditar que sim, que aquela frota de marujos de doca seca, de ar ronceiro7 e aposentado, ainda dá lições de marear aos algarvios de Tavira. […] Fala-se da arte de lançar as redes e as moscas – e a julgar pelo que aporta às mesas dos restaurantes das docas, como o Le Port, os marroquinos não perderam o jeito de encantar sar- dinhas e camarões desde a Batalha de Álcacer-Quibir. Entrego-me pois a um Marrocos, uma comarca exótica 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 7JTUBQBOPSÉNJDBEFHBEJS 1PSUPEFHBEJS 1 Malsãs: nocivas à saúde. 2 Ramadão: nono mês do ano lunar muçulmano con- sagrado ao jejum absoluto durante o dia. 3 Sufi: poética dos sufistas, que tem como base o autoconhecimento místico e contemplativo, típico de povos islâmicos. 4 Mohamed: nome típico arábe. 5 Balsas: bote (salva-vidas). 6 Petinga: sardinha pequena. 7 Ronceiro: vagaroso, pachor- rento. PROFESSOR Leitura 7.1; 7.2; 7.3; 7.6; 8.1. MC
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    302 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA 302 2. 5FOEPFNDPOUBPUFYUPEF5JBHP4BMB[BS JEFOUJGJDBBTNBSDBTEPSFMBUPEFWJBHFN EF BDPSEPDPNPTTFHVJOUFTUØQJDPT a) WBSJFEBEFEFUFNBT b) FODBEFBNFOUPMØHJDPEPTBTTVOUPTBCPSEBEPT c) EJTDVSTPQFTTPBM QSFWBMÐODJBEB‹QFTTPB d) EJNFOTÍPOBSSBUJWB QSFEPNJOÉODJBEFOPNFT FEJNFOTÍPEFTDSJUJWB QSFEPNJOÉO DJBEFBEKFUJWPT e) NVMUJNPEBMJEBEF GPSNBUPFSFDVSTP 8 Medina: parte mais antiga de uma cidade, geralmente em local elevado e fortificado. 9 Ditame: regra. 10 Dirham: moeda principal de Marrocos e dos Emirados Árabes Unidos. 11 Anabiose: hibernação; renasci- mento (depois de um período de morte aparente). 12 Mélange: mistura, combinação. 13 Narguilé: espécie de cachimbo de água, frequente em países orientais e do Norte de África. 14 Meliantes: deliquente, bandido, marginal. sargo assado na brasa e a um vinho de Meknès. […] Taroudant, uma cidadezinha catita a duas horas de Agadir, é outra das alter- nativas para quem vem de passeio a este Marrocos plebeu – o imperial fica nou- tros portos. Trata-se de uma das cida- des mais antigas e preservadas do país e os contrafortes da Medina8 estão lá para provar a justa fama. Os programas das agências costumam incluir a adenda do giro a Taroudant, pelo que o viajante corporativo não tem de se preocupar com as estratégias de locomoção. E, uma vez na cidade, perder-se nas ruas bulhentas e incensadas a especiarias (e caca de jumento) é a forma mais avisada de entrar no referido espírito de comarca exótica. A ida ao souk, o mercado tradicional onde se vende de tudo, é inevitável. Todo o Marrocos é na verdade um souk, segundo o princí- pio árabe de que tudo está à venda ou é passível de vazão. A regra do regateio (o ditame9 do dirham10 ) é descer a parada no mínimo para metade do que lhe é pedido. Ou então, se quiser deixar um marroquino em estado de anabiose11 , ofereça o dobro do que ele lhe pede. O mais provável é este ficar de bigodes alçados ao teto da tenda e premiar-lhe a ousadia com uma mélange12 de chás invariavelmente magníficos, e um pire- zinho de tâmaras (e se for à bola con- sigo, talvez umas passas de pólen num narguilé13 ). Depois, já a convalescer da tripa forrada de estímulos pagãos, ouvirá as histórias do charmoso árabe como um chamamento do muezim. Este, contar-lhe-á a vida desde o berço ou, se estiver com fadiga, apenas o res- caldo do gozoso serão da véspera. Pen- sará então para consigo: afinal, estes tipos com cara de perigosos meliantes14 não fazem mal a uma mosca. Tiago Salazar, «Marrocos, uma comarca exótica», in As rotas de sonho, Alfragide, Oficina do Livro, 2010, pp. 119-121 SoukFNHBEJS 65 70 75 80 85 90 95 100 105 Relato de viagem Q '* PROFESSOR Leitura 7.1; 7.2; 7.6; 8.1. MC Leitura 2.Propostaderesolução: a) viagem a duas cidades de Marro- 5AE67E5D;{yA6ACG7H~5A?7@FtD;A pessoalsobreoquevêeoutrasrefle- xões suscitadas pelos acontecimen- FAE¤a cidade tem ares de Albufeira no pino do verão, ¤leva-me deviagemdapescamusculadaàgra- ciosapoesiaEG¹¥ b) o narrador vai descrevendo os acontecimentos e a esse propósito encadeia as suas reflexões sobre váriosassuntos; c)BD7H3~@5;363 a B7EEA3@3DD3- 6AD3GFA6;79|F;5A¤A mim falou-me maisaocoraçãoasubidadopromon- tório do antigo kasbagh¥ «Entrego-mepoisaumsargoassado na brasa e a um vinho de MeknӁs», d)BD76A?;@v@5;367@A?7E¤Vemos G?3B3;E397?87;L677EFD3@97;DAE de variada procedência unidos pela adoraçãoaoSoleaoritualdacomida e da bebida» , «Vemos uma praia a perder de vista, que o mais certo é ir dali ao cabo da Boa Espe- rança¥ BD76A?;@v@5;3 67 367F;HAE ¤embora atulhado de cargueiros ferrugentos e balsas car- comidas, é um dos mais prolíficos 67Ã8D;53 ¤cidades mais antigas e preservadas do país e os contrafortesdaMedinaestãolápara provarajustafama¥ e)8AD?3FAD73FA67H;397?D75GD EA;HDA
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    303 Ficha informativa FICHA INFORMATIVAN.O 3 Relato de viagem 1. O que é? O relato de viagem é um subgénero da literatura de viagens que mistura o jornalismo e a literatura, a objetividade e a subje- tividade. 2. Qual o seu objetivo? Nos relatos de viagem, é importante que a seleção das infor- mações e dos acontecimentos mais marcantes possibilitem ao lei- tor imaginar os locais e as situações vivenciadas por quem as escreve (através da sua caracterização e descrição), o que permite ao narratário formar uma imagem conceptual dos espaços visitados pelo viajante. Estes relatos não pretendem apenas narrar objetivamente o que foi observado; ao invés disso procuram transmitir ao leitor a experiência vivida, ou seja, centram-se na explicação, orientação e opinião, sempre com base na realidade. NHFSBM OPTSFMBUPTEFWJBHFN PBVUPSSFHJTUBBTTVBTJNQSFTTÜFTQFTTPBJTTPCSFMVHBSFT QFTTPBTFPV situações com os quais se depara ao longo da viagem, procurando caracterizá-los. Este género também tem sido frequentemente produzido e publicado com o objetivo de informar ou entre- ter o leitor, ao retratar lugares e situações incomuns. 3. Que características tem? Além das informações presentes no texto, nos relatos de viagem é comum serem utilizadas as imagens, para que o leitor possa compreender melhor o que está a ser relatado. As imagens auxiliam na caracterização dos espaços e podem trazer novas informações. Nos relatos de viagem, são usados conectores com valor de tempo, que organizam as informações do texto, o que possibilita saber quando e em que sequência os factos ocorreram. Da mesma forma, a objetividade e a precisão das indicações de espaço possibilitam ao leitor acompa- nhar a viagem, associando as informações do texto aos locais visitados. Nos relatos de viagem, os sentimentos de quem escreve podem surgir como recursos para emocionar o leitor. Além dos aspetos já referidos no relato de viagem encontramos: tWBSJFEBEFEFUFNBT DPNQBSBÎÍPEFDVMUVSBTSFGMFYÍP sobre a sua própria cultura…); tFODBEFBNFOUPMØHJDPEPTBTTVOUPTBCPSEBEPT tEJTDVSTPQFTTPBM QSFWBMÐODJBEB‹QFTTPBoOBSSBEPS autodiegético); tEJNFOTÜFTOBSSBUJWB QSFEPNJOÉODJBEFOPNFT FEFTDSJ- tiva (predominância de adjetivos); tNVMUJNPEBMJEBEF EJWFSTJEBEFEFGPSNBUPTodiários, cartas, documentários…; e recursos – audiovisuais, blogues…). Da mesm nhar a viagem, ass Nos relatos de PowerPoint Ficha informativa n.o 3
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    304 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA DESAFIO 1FTRVJTBFTFMFDJPOBJOGPSNBÎÍPTPCSFVNEPTUFNBT t1MBOJGJDBFQSFQBSBVNBapresentação oral FOUSFDJODPFTFUFNJOVUPT tQSFTFOUBJOGPSNBÎÍPTJHOJGJDBUJWBFFTUBCFMFDFVNFODBEFBNFOUPMØHJDP EPUFNBUSBUBEP/PGJOBM EFWFTBJOEBJOEJDBSBCJCMJPHSBGJBwebgrafia DPOTVMUBEB 5BMDPNPBTEFTWFOUVSBTWJWJEBTOBÏQPDBEPT%FTDPCSJNFO UPT UBNCÏNIPKFOBWFHBNPTOBTPOEBTEPTbytesFTPNPT DPOGSPOUBEPTDPNNVJUBjQJSBUBSJBx NHSVQP TFMFDJPOBVNEPTUFNBTTFHVJOUFT t Cracking QJSBUBSJBJOGPSNÈUJDB t DownloadsJMFHBJT t Spamming SPAMoStupid Pointless Annoying Mes- sages TJHOJGJDBNFOTBHFNSJEÓDVMB OÍPTPMJDJUBEB t 7ÓSVT t Malwares malicious software software NBMJDJPTP EFTUJOBEPBJOGJMUSBSTF EFGPSNBJMÓDJUB OPTJTUFNB EFVNDPNQVUBEPSBMIFJP t #VSMBT t $IBOUBHFOT t 2VFCSBTEFQSJWBDJEBEF t Cyberbullying UJQP EF WJPMÐODJB DPOUSB VNB QFTTPB QSBUJDBEBBUSBWÏTEBJOUFSOFU PROFESSOR Educação Literária 15.4. MC PowerPoint Síntese da unidade
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    305 GLOSSÁRIO A Aventura:GFJUPFYUSBPSEJOÈSJPDBTPJOFTQFSBEPRVFTPCSF WÏNFRVFNFSFDFTFSSFMBUBEP B Bento Teixeira Pinto:QPFUB QPSUVHVÐT RVF OBTDFV OB TFHVOEBNFUBEFEPTÏDVMP97* OP1PSUP 1PSUVHBM 'JMIPEFDSJTUÍPTOPWPT QBSUJVQBSBP#SBTJMÓGSFRVFO UPVPDPMÏHJPEF+FTVÓUBTN DBTPVTFDPN'JMJQB 3BQPTB VNBDSJTUÍWFMIB FN*MIÏVTOUSFF NBOUFWF FN0MJOEB VNBFTDPMBN SFHSFTTPVB *MIÏVT POEFGPJQSPGFTTPS BEWPHBEPFDPNFSDJBOUF OUSF F GPJ BDVTBEP EF QSÈUJDB SFMJHJPTB KVEBJDB QSPJCJEBQFMP5SJCVOBMEB4BOUB*ORVJTJÎÍPN GPJ BCTPMWJEP OP BVUP EF GÏ QFMP PVWJEPS EB 7BSB DMFTJÈTUJDB %JPHP EP $PVUP N EF[FNCSP EF BTTBTTJOPVBFTQPTBQPSBEVMUÏSJPFSFGVHJPVTFOPNPT UFJSP EF 4ÍP #FOUP FN 0MJOEB 'PJ DBQUVSBEP B EF BHPTUPEFFSFQBUSJBEPQBSB-JTCPBFN*OUFS SPHBEP OPWBNFOUF QFMB*ORVJTJÎÍP #FOUP5FJYFJSBOFHPV RVBMRVFSQSÈUJDBEFKVEBÓTNP WJOEPEFQPJTBBTTVNJMB /PBVUPEFGÏEF SFOVODJPVBPKVEBÓTNP #FOUP5FJYFJSBGPJPBVUPSEPMJCSFUPAs terríveis aventuras de Jorge de Albuquerque Coelho#FOUP5FJYFJSB1JOUPGBMF DFVFN-JTCPB QSPWBWFMNFOUF FN C Corsário: DBQJUÍP PV USJQVMBOUF EF VN OBWJP QBSUJDVMBS BSNBEP QSPWJEP EF VNB DBSUB EF DPSTP BVUPSJ[BÎÍP EP HPWFSOPEPQBÓTBRVFQFSUFODF QBSBBUBDBSFQJMIBSPT OBWJPTNFSDBOUFTEFPVUSPQBÓT JOJNJHPPVDPNPRVBMTF FTUÈFNHVFSSB ²TFNFMIBOUFBVNpirata FNCPSBFTUF OÍPGPTTFSFDPOIFDJEPQFMPHPWFSOPEBTVBOBÎÍP Caravela: P UFSNP PDPSSF QFMB QSJNFJSB WF[ OB EPDV NFOUBÎÍP QPSUVHVFTB FN FODPOUSBOEPTF BJOEB FN OVNBPCSBJNQSFTTB² QPSUBOUP GÈDJMEFDPN QSFFOEFS RVF FODPCSF SFGFSÐODJBT B NÞMUJQMBT FNCBSDB ÎÜFT EFTEFBQFRVFOBDBSBWFMBMBUJOBEFVNNBTUSPBUÏ ËDBSBWFMBSFEPOEBPVEFBSNBEB QBTTBOEPQFMBDBSBWFMB MBUJOB EF EPJT NBTUSPT RVF QSPUBHPOJ[PV BT WJBHFOT EF FYQMPSBÎÍPBUMÉOUJDBBUÏ TFNEFJYBSEFDPOUJOVBSB TFSVUJMJ[BEBEFQPJTEFTUBEBUB DBSBWFMBMBUJOBBQBSFDFVOPT%FTDPCSJNFOUPTFN TFHVOEPBUFTUB;VSBSB5SBUBSTFJBEBDBSBWFMBDPNEPJT NBTUSPTEFQBOPMBUJOP VNBDPCFSUBFVNQFRVFOPDBT UFMPEFQPQB DPNVNTØQJTP/BWJPJEFBMQBSBTJOHSBSFN NBSFTEFTDPOIFDJEPT QFMBGBDJMJEBEFDPNRVFCPMJOBWB D Desventura: BVTÐODJB EF WFO UVSB NÈ GPSUVOB EFTHSBÎB JOGPSUÞOJP N Nau: OBWJP SFEPOEP EF BMUP CPSEP DPNVNBSFMBÎÍPEFFOUSFPDPN QSJNFOUP F B MBSHVSB NÈYJNB USÐT PV RVBUSP DPCFSUBT DBTUFMPT EF QPQB EF USÐT QBWJNFOUPT UPMEB BMDÈÎPWBFDIBQJUÏV FQSPBEF EPJT HVBSJUBFTPCSFHVBSJUB DVKBBSRVJUFUVSBTFJOUFHSB QFSGFJUBNFOUFOPDBTDPBSWPSBWBUSÐTNBTUSPT PHSBOEFF PUSBRVFUFDPNQBOPSFEPOEP FPEBNF[FOBDPNQBOP MBUJOP²VNOBWJPEFDBSHBQPSFYDFMÐODJB EFTUJOBEPB QFSDPSSFSMPOHBTEJTUÉODJBTFNSPUBTDPOIFDJEBT UJSBOEP QBSUJEP EP BQBSFMIP QFMP DPOIFDJNFOUP QSÏWJP EPT SFHJ NFTEFWFOUPT NBTBOEBWBBSNBEPDPNQFÎBTEFHSBOEF DBMJCSFTWJBHFOTQBSBP0SJFOUFFSBNNBJTMPOHBT QFMP RVFTFUSBOTQPSUBWBNBJPSRVBOUJEBEFEFBMJNFOUPTTØMJ EPTFMÓRVJEPTQBSBPTVTUFOUPEBUSJQVMBÎÍP UBOUPNBJT RVF B SPUB JNQVOIB MPOHPT QFSÓPEPT EF OBWFHBÎÍP TFN WFSBDPTUBPVRVBJTRVFSQPOUPTEFBQPJPDSFTDJBPGBUPS DPNFSDJBM P DPNÏSJP EBT FTQFDJBSJBT JNQMJDBWB P USBOT QPSUFEFVNBDBSHBWBMJPTB NBTWPMVNPTB RVFSFRVFSJB FTQBÎPTBEFRVBEPTQBSBPTFVBDPOEJDJPOBNFOUPUVEP SFTQPOEJBBOBV DPNPTFVDBTDPCPKVEP FBNQMBDBQBDJ EBEFEFBDPNPEBÎÍP V Ventura: GPSUVOBQSØTQFSBTPSUFGFMJDJEBEFSJTDP QFSJHP Bibliografia/Webgrafia do Glossário #FOUP5FJYFJSB1JOUPinXXXEFDVGDHFEVCSCJPHSBåBT Dicionário Houaiss da língua portuguesa *OTUJUVUP OUÙOJP )PVBJTT EF -FYJDPHSBåB -JTCPB 5FNBTF%FCBUFT Dicionário da língua portuguesa contemporânea,DBEFNJBEF$JÐODJBTEF -JTCPB -JTCPB 7FSCP Dicionário Priberam da Língua Portuguesa EJTQPOÓWFMFN IUUQXXXQSJCFSBNQU j$BSBWFMBx inXXXDWDJOTUJUVUPDBNPFTQUOBWFHBQPSUoDPOTVMUBEPFN KVOIPEF j/BVx inXXXDWDJOTUJUVUPDBNPFTQUoDPOTVMUBEPFNKVOIPEF
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    306 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA Grupo I A -ÐPTFHVJOUFFYDFSUPEPDBQÓUVMP7EBHistória trágico-marítima $BSSFHBEBBOBVEFNVJUBGB[FOEBOPCFMPQPSUPEBWJMBEF0MJOEB EFVËWFMBDPN WFOUPFNQPQBBEFNBJPEF/ÍPFSBNBJOEBCFNTBÓEPTEBCBSSBRVBOEPTF BDBMNPVPWFOUPDPNRVFQBSUJSBNMPHPEFQPJTTFMIFTUPSOPVDPOUSÈSJP PTMFWPVEF USBWÏT FPTBUJSPVQBSBVNCBJYP POEFQFSNBOFDFSBNQPSRVBUSPNBSÏTFTFWJSBNFN SJTDPEFTFQFSEFSFN PRVFMIFTUFSJBTFNEÞWJEBBDPOUFDJEPTFGPTTFNFOUÍPPTNBSFT NBJTHSPTTPT DVEJSBNMIFTDPNQSFTUF[BNVJUPTCBUÏJT RVFMPHSBSBN TBMWBSBHFOUFUPEBFB NBJPSQBSUFEBDBSSFHBÎÍP1PSÏN OFNBTTJNEFTDBSSFHBEBTFEFTFODBMIPV QFMPRVF EFDJEJSBNDPSUBSMIFPTNBTUSPTFOUÍP OBEPVFTBJVEPTCBJYPT 5PSOBEBBOBVBPQPSUPEBWJMB GPJFYBNJOBEBQPSPåDJBJTQBSBWFSFNTFQPEJBN TFHVJSWJBHFNF QPSBDIBSFNRVFOÍPSFDFCFSBEBOPRVFBJNQPTTJCJMJUBTTFQBSBB OBWFHBÎÍP TFUPSOPVBQSFQBSBSFBDBSSFHBS EFTFUFNCSP OBWFHBOEPFMFTFNEFNBOEBEBTJMIBT BMDBOÎPVPTVNBOBVEF DPSTÈSJPTGSBODFTFT CFNBSUJMIBEBFDPOTFSUBEB DPNPDPTUVNBWBN7FOEPPQJMPUP P NFTUSFFPTEFNBJTUSJQVMBOUFTEBSanto AntónioRVFOÍPJBNFNFTUBEPEFTFEFGFO EFSFN QPJTNBJTBSUJMIBSJBOÍPIBWJBBCPSEPRVFVNGBMDÍP FVNTØCFSÎP BGPSBBT BSNBTRVFPMCVRVFSRVFUSB[JB QBSBTJFQBSBPTTFVTDSJBEPT EFUFSNJOBSBNEFTFSFO EFS+PSHFEFMCVRVFSRVF QPSÏN PQÙTTFBJTTPDPNBNBJPSåSNF[B/ÍPQPS%FVT OÍP/ÍPQFSNJUJTTF/PTTP4FOIPSRVFVNBOBVFNRVFWJOIBFMFTFSFOEFTTFKBNBJT TFNDPNCBUFS UBOUPRVBOUPQPTTÓWFM%JTQVTFTTFNTFUPEPTBPRVFMIFTDVNQSJB FBKV EBTTFNOPOBSFTJTUÐODJBQPJTTPNFOUFDPNPCFSÎPFDPNPGBMDÍPUJOIBFMFFTQFSBOÎB RVFTFEFGFOEFSJBN 4ØTFUFIPNFOT DPOUVEP TFMIFPGFSFDFSBNQBSBPBDPNQBOIBSFDPNPTTFUF F DPOUSBPQBSFDFSEFUPEPTPTEFNBJT TFQÙTËTCPNCBSEBTDPNBOBVGSBODFTB ËTBSDB CV[BEBT BPTUJSPTEFGSFDIB EFUFSNJOBEPFFOÏSHJDP%VSPVFTUBMVUBRVBTFUSÐTEJBT TFNPVTBSFNPTGSBODFTFTBCPSEBSPTOPTTPTQFMBEVSBSFTJTUÐODJBRVFOFMFTBDIBWBN BQFTBSEFPTDPNCBUFOUFTTFSFNUÍPQPVDPTFEFOÍPIBWFSTFOÍPPCFSÎPFPGBMDÍP BPT RVBJT+PSHFEFMCVRVFSRVFQFTTPBMNFOUFDBSSFHBWB CPSEFBWB QVOIBGPHP QPSOÍPWJS OBWJBHFNCPNCBSEFJSP PVRVFNTPVCFTTFGB[ÐMPUÍPCFNDPNPFMF 0SB WFOEPPQJMPUP PNFTUSF PTNBSJOIFJSPT RVFIBWJBQFSUPEFUSÐTEJBTRVFBOEB WBNOFTUFUSBCBMIPRVFSFDFCJBNPTOPTTPTEBOPTEPTUJSPTEJTQBSBEPTQFMPTGSBODFTFT FRVFKÈMIFTJBGBMUBOEPBQØMWPSB oQFEJSBNBPåEBMHPFBPTRVFPBKVEBWBNRVFDPO TFOUJTTFNFOåNBSFOEJÎÍP QPJTMIFTFSBJNQPTTÓWFMPQSPTTFHVJSOBEFGFTBOÍPGPTTFN DBVTBEFPTNBUBSFNBUPEPT PVEFPTNFUFSFNOPGVOEP3FTQPOEFSBNBJTUPPTDPN CBUFOUFTRVFFTUBWBNEFDJEJEPTBOÍPTFSFOEFSFNFORVBOUPDBQB[FTQBSBQFMFKBS0T PVUSPT WFOEPPTBTTJNEFUFSNJOBEPT EFSBNEFTÞCJUPDPNBTWFMBTFNCBJYP FDPNFÎB SBNBCSBEBSQBSBPTGSBODFTFTFOUSBTTFN FOUSBTTFNOBOBV RVFTFMIFTSFOEJB jTUFSSÓWFJTBWFOUVSBTEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIP x DBQÓUVMP7 op. cit.,QQF FICHA FORMATIVA 5 10 15 20 25 30 35 COTAÇÕES GrupoI A 1. pontos 2. pontos 3. pontos 4. pontos 5. pontos 6. pontos B 7. pontos 8. pontos pontos 1 Través: transversalmente. 2 Baixo: pouca altura em relação ao nível do mar. 3 Lograram: conseguiram. 4 Consertada: preparada, apetrechada. 5 Falcão: pequena peça de artilharia. 6 Berço: peça de artilharia curta. 7 Arcabuzadas: descarga simultânea de arcabuzes (antiga arma de fogo, que se disparava, inflamando a pólvora com um morrão). 8 Bordeava: voltar a aresta (de qualquer peça metálica).
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    307 Ficha formativa 1.QPOUBPQPTTÓWFMNPUJWPQBSBBRVBTFJNFEJBUBJOUFSSVQÎÍPEBWJBHFN 2.OVNFSBBTEVBTEFTWFOUVSBTEFTDSJUBTOPFYDFSUP 3.$MBTTJGJDBBQFSTPOBHFNEF+PSHFEFMCVRVFSRVF$PFMIPRVBOUPBPSFMFWPFDBSBDUFSJ[BB 4.0OBSSBEPSÏTVCKFUJWPRVBOUPËQPTJÎÍP $PNQSPWBBWFSBDJEBEFEFTUBBåSNBÎÍPBUSBWÏTEFVNBDJUBÎÍPUFYUVBM 5.QSFTFOUBBUVBPQJOJÍPTPCSFBBUJUVEFEPNFTUSFEBSantoAntónio 6.*EFOUJGJDBPTSFDVSTPTFYQSFTTJWPTQSFTFOUFTOPTTFHVJOUFTTFHNFOUPTEFGSBTFFFTDMB SFDFPTFVWBMPSMJUFSÈSJP a) jEFUFSNJOBEPFFOÏSHJDPx M b) jPQJMPUP PNFTUSF PTNBSJOIFJSPTx M c) j3FTQPOEFSBNBJTUPPTDPNCBUFOUFTx MM B -ÐPTFHVJOUFUFYUP A viagem OBV BQJOIBEBEFDBSHBTQSFDJPTBToFTQFDJBSJBT MBDSF FTTÐODJBT FTQMÐOEJEPT QBOPTo MFWBOUBGFSSPEFVNQPSUPEBTDPTUBTPDJEFOUBJTEB¶OEJB EFWPMUBBPSFJOP ²KBOFJSP GFWFSFJSP QPSWF[FTNBSÎPoVNQFSÓPEP QPSUBOUP FNRVFPTWFOUPTOÍP HBSBOUFNTFHVSBNFOUF QBSBBQBTTBHFNEP$BCP NFTNPBPNBJTFYQFSJNFOUBEPUJNP OFJSPFËNBJTSPCVTUBFNCBSDBÎÍP FNCPSBGBWPSFDJEPTQFMBQSØWJEB WFOUVSB VNB OBWFHBÎÍPUSBORVJMB$PNPFTUBWBKÈQSFWJTUPPVFSBQSFWJTÓWFM PTFMFNFOUPT QSPWP DBEPT EFTFODBEFJBNSBJWPTBTUFNQFTUBEFTDFMFTUFTFNBSÓUJNBT BDVKBGÞSJBBOBV TØQPEFPQPS JOUSFQJEBNFOUF PTFVDPOKVOUPSFNFOEBEP PTFVpatchworkEFWFMBT MFNFT NBTUSPT DBCSFTUBOUFTFTJSHBTEBNBJTEJWFSTBQSPWFOJÐODJB 1BSBEFGSPOUBSPTHPMQFTOÍPIÈBKVEBRVFWBMIBBQSØEJHBDPPQFSBÎÍPEPTBSJTUPDSÈ UJDPTQBTTBHFJSPTRVFDPNQFUFNDPNNBSJOIFJSPT NPÎPTFPåDJBJTBFOUSBMIBSWFMBNFT MJCFSUBSBTCPNCBTFOUVQJEBTEFQJNFOUB DBMBGFUBSGFOEBTDPNTBDPTEFBSSP[FWPMVQ UVPTPTUFDJEPTPSJFOUBJTOBVBDBCBQPSEFTQFEBÎBSTFDPOUSBBTSPDIBTEBUFSSBIPTUJM EBTCÈSCBSBTHFOUFTDBGSFT FOUSFHSJUPTFFTUSJEPSFT MÈHSJNBTFQSBOUPTEFQFDBEPSFT VMUSBBSSFQFOEJEPT KÈTØJOUFSFTTBEPTFNTBMWBSBBMNBDPNQÞCMJDBTDPOåTTÜFTPT RVFDPOTFHVFNTBMWBSUBNCÏNBWJEB PTEFVTFTOÍPSFTFSWBNEFTUJOPTNBJTTVBWFTB GPNFQSJNPSEJBM BTFEF PDBMPSEJVSOP PGSJPOPUVSOP PFYUFOVBOUFBUSBWFTTBSEFSJPT WBMFT QÉOUBOPT ýPSFTUBTFNPOUFT BFNCPTDBEBEPTJOEÓHFOBTFEBTGFSBTSJUNBN PCTFTTJWBNFOUFBQFSFHSJOBÎÍPEPTFTDBQBEPTBPOBVGSÈHJP%SBTUJDBNFOUFTFMFDJPOB EPT EFNPEPNBJTPVNFOPTOBUVSBM CFNQPVDPTTÍPPTRVFDIFHBNBCPNQPSUPQBSB WPMUBSBPQSJODÓQJP KÈTFTBCF QPSRVFBDVQJEF[ IVNBOBOÍPUFNGVOEPFBTQSPNFTTBT EFNBSJOIFJSPT QPSNBJTWPMUBTRVFTFMIFTEÐ DPNPUBJTQFSNBOFDFN (JVMJB-BODJBOJ Os relatos de naufrágios na literatura portuguesa dos séculos XVI e XVII WPM USBE.BOVFM4JNÜFT *$1 #JCMJPUFDB#SFWF QQ 7.3FMBDJPOBPUFYUPRVFBDBCBTUFEFMFSDPNPUFYUP 8.YQMJDBBGSBTFGJOBMEPUFYUPja cupidez humana não tem fundo e as promessas de marinheiros, por mais voltas que se lhes dê, como tais permanecemx 5 10 15 20 PROFESSOR GrupoI A 1. A viagem foi interrompida pelo facto de a nau ir carregada com ¤?G;F383L7@63¥ 2. O encalhe logo a seguir à partida, maltinhasaídodoporto;oencontro, a resistência e a abordagem da nau doscorsários. 3. A personagem é principal. Jorge 67 i4GCG7DCG7 A7:A | 67E5D;FA como um homem valente, corajoso, altruísta, determinado, defensor da BtFD;3]43D5A 4. «Jorge de Albuquerque, porém, ABˆE E73;EEA5A?3?3;AD¹D?7L3 %yAZ BAD 7GE @yAZ¥ AG «Jorge de Albuquerque pessoal- mente carregava, bordeava, punha fogo, por não vir na viagem bombar- 67;DAAGCG7?EAG47EE783L~ AFyA 47?5A?A77¥ 6. a) dupla adjetivação, que acentua as características de Jorge de Albu- CG7DCG7A7:Ab)enumeração,que destaca quem traiu Jorge de Albu- CG7DCG7A7:A7AECG7A35A?B3- nhavam; c)3@tEFDA87CG77@83F;L3 oatoderesponder,enãoosujeitoda resposta. 7. O texto B relaciona-se com o A, poisambosrelatamosperigospelos quais passam as naus portuguesas no regresso à pátria. No texto A fala- -se do regresso do Brasil de Jorge de i4GCG7DCG7A7:A7@A B refere- -se o regresso das embarcações na 83?AE3 ¤3DD7;D3 63 Æ@6;3¥ #A9A no início do texto A refere-se a pos- sibilidade de naufrágio, tendo em conta o excesso de carga. No texto B, destacam-se, sobretudo, aspetos naturais, «tempestades celestes e marítimas», como justificação para os naufrágios. Neste sentido, os textos são complementares, pois os dois aspetos referidos eram motivo paraabruscainterrupçãodaviagem, bemcomoparaaperdadacargaede vidashumanas. 8. i 3?4;{yA 67E?76;63 ¤sem fundo¥8A;;9G3?7@F7D7EBA@EtH7 pela enorme perda de vidas huma- nas. Na tentativa de enriquecer, os marinheiros embarcavam com essa promessa, levados pela ambição, mesmo conhecendo histórias de naufrágiosdenausnarotadaÍndia. 1 Próvida: prudente. 2 Cupidez: ambição.
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    308 Unidade 6// HISTÓRIA TRÁGICO-MARÍTIMA Grupo II -ÐBTFHVJOUFOPUÓDJB Fragata Álvares Cabral socorre marinheiro no Índico A equipa médica da fragata portuguesa Álvares Cabral, que comanda a força naval da UE nos mares da Somália, prestou quarta-feira cuidados médicos urgentes a um tripu- lante do navio mercante JS Colorado, informou esta quinta-feira o Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA). Álvares Cabral FODPOUSBWBTFBDFSDB EF RVJMØNFUSPT EP OBWJP NFSDBOUF RVBOEPFTUFFNJUJVPQFEJEPEFBVYÓMJP QBSBVNNBSJOIFJSPDPNGFSJNFOUPTNÞM UJQMPTFQFSEBEFTBOHVFEFWJEPBVNBDJ EFOUF FRVJQBNÏEJDBDIFHPVBPDPOWÏTEP JS ColoradoDPNSFDVSTPBPHVJODIPEP IFMJDØQUFSPEBGSBHBUBQPSUVHVFTB OVNB PQFSBÎÍPEFMJDBEBEFWJEPBPTNBTUSPTF FTUSVUVSBTEPOBWJPNFSDBOUF CFNDPNP ËQPVDBWJTJCJMJEBEFEFDPSSFOUFEBIPSB RVBTFOPJUF SFGFSJVP.(' PQFSBÎÍP RVFQFSNJUJVUSBUBSFTVUV SBSBTMBDFSBÎÜFTEPNBSJOIFJSP EFDPSSFV OBÈSFBEFSFTQPOTBCJMJEBEFEP$FOUSPEF #VTDBF4BMWBNFOUPEP3FJOPEF0NÍ BEJBOUPVP.(' 0TVDFTTPEBPQFSBÎÍPjWFNWBMJEBSEF GPSNBJOEJTDVUÓWFMPMPOHPFFYJHFOUFQFSÓPEP EFUSFJOPFDFSUJåDBÎÍPBRVFUPEPPOBWJP GPJTVCNFUJEPBOUFTEFJOJDJBSBNJTTÍPEF DPNCBUFËQJSBUBSJBOPPDFBOP¶OEJDPx DPO TJEFSPVPTFVDPNBOEBOUF DBQJUÍPEFNBS FHVFSSB4PCSBM%PNJOHVFT /B Álvares Cabral FTUÈ UBNCÏN P DPNBOEBOUFEBOperação Atalanta DPNP EPSPQPSUVHVÐT/PWP1BMNB FPSFTQFUJWP FTUBEPNBJPS OVNUPUBMEFNJMJUBSFT BCPSEPEBGSBHBUB .$' JODiário de Notícias EFNBJPEF EJTQPOÓWFMFNXXXEOQU*OJDJPJOUFSJPS DPOTVMUBEPFNKVMIPEF 1. 1BSBSFTQPOEFSFTBDBEBVNEPTJUFOT1.1B1.6 TFMFDJPOBBPQÎÍPDPSSFUB 1.1 GSBTFjA operação, que permitiu tratar e suturar as lacerações do marinheiro, decorreu na área de responsabilidade do Centro de Busca e Salvamento do Reino de Omãx MM JOUFHSBVNBPSBÎÍPTVCPSEJOBEB (A) BEKFUJWBSFMBUJWBSFTUSJUJWB (B) TVCTUBOUJWBDPNQMFUJWB (C) BEKFUJWBSFMBUJWBFYQMJDBUJWB (D) BEWFSCJBMDPOTFDVUJWB 1.2 TQBMBWSBTjcapitão-de-mar-e-guerrax MM F.(' M TÍPGPSNBEBT SFTQFUJWBNFOUF QPS (A) EFSJWBÎÍPOÍPBåYBMFBDSØOJNP (B) EFSJWBÎÍPQBSBTTJOUÏUJDBFTJHMB (C) EFSJWBÎÍPBåYBMFBDSØOJNP (D) DPNQPTJÎÍPFTJHMB 1.3 QBMBWSBjparax M ÏVN B (A) DPOKVOÎÍPTVCPSEJOBUJWBDPNQMFUJWB (B) DPOKVOÎÍPTVCPSEJOBUJWBåOBM (C) QSFQPTJÎÍP (D) EFUFSNJOBOUFJOEFåOJEP 5 10 15 20 25 30 COTAÇÕES GrupoII 1. pontos 2. pontos 3. BA@FAE Bontos GrupoIII Bontos PROFESSOR GrupoII 1. i 2. «tripulante», «mastro», «coman- dante»e«marinheiro». 3. No tempo de Jorge de Albuquer- CG7 A7:A :3H;3 ?G;F3 pirataria nosmares. Atualmente, a pirataria cibernáu- ticatemaumentado.
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    309 Ficha formativa 1.4 0FMFNFOUPEFTUBDBEPOBGSBTFjemitiuo pedido de auxíliox M EFTFNQFOIBB GVOÎÍPTJOUÈUJDBEF (A) NPEJåDBEPSBQPTJUJWPEPOPNF (B) DPNQMFNFOUPEPOPNF (C) NPEJåDBEPS (D) NPEJåDBEPSSFTUSJUJWPEPOPNF 1.5 GSBTFRVFDPOUÏNBTFRVÐODJBEFQBMBWSBTDVKBTDMBTTFTTÍPjEFUFSNJOBOUF oOPNFoQSPOPNFoWFSCPoQSFQPTJÎÍPoOPNFoWFSCPoEFUFSNJOBOUFoOPNFo BEKFUJWPxÏ (A) jO comandante que veio a Lisboa reconheceu a tarefa difícilx (B) jA fragata onde decorreu aquele salvamento é da marinha portuguesax (C) jA operação que foi bem-sucedida foi realizada numa noite escurax (D) jO marinheiro com ferimentos estava num navio mercantex 1.6 FYQSFTTÍPjvem validarxEFNPOTUSBRVFPQFSÓPEPEFUSFJOPFDFSUJGJDBÎÍPB RVFPOBWJPGPJTVCNFUJEPBOUFTEFJOJDJBSBNJTTÍPGPJ M (A) VNBEFDJTÍPJMFHÓUJNB (B) FYUFNQPSÉOFP (C) MFHÓUJNPFFTTFODJBM (D) EFTOFDFTTÈSJP 2. 5SBOTDSFWFEPUFYUPRVBUSPWPDÈCVMPTRVFDPOTUJUVBNPDBNQPMFYJDBMEFjOBWJPx 3. 3FDPOIFDFBFYUFOTÍPTFNÉOUJDBEBQBMBWSBjQJSBUBSJBx DPOTUSVJOEPEVBTGSBTFT Grupo III -ÐPTFHVJOUFQPFNB .BS 5JOIBTVNOPNFRVFOJOHVÏNUFNJB SBVNDBNQPNBDJPEFMBWSBS y .BS 'PNPTFOUÍPBUJDIFJPTEFBNPS PåOHJEPMBNFJSP BTPMVÎBS GPHBWBPBSBEP FPMBWSBEPS .BS OHBOPTBTFSFJBSPVDBFUSJTUF 'PTUFUVRVFNOPTWFJPOBNPSBS GPTUFUVEFQPJTRVFOPTUSBÓTUF .BS RVBOEPUFSÈåNPTPGSJNFOUP RVBOEPEFJYBSÈEFOPTUFOUBS 0UFVFODBOUBNFOUP .JHVFM5PSHB Antologia poética ‹FEJÎÍP -JTCPB %PN2VJYPUF 1. /VNUFYUPCFNFTUSVUVSBEP FOUSFDFOUPFWJOUFFDFOUPFDJORVFOUBQBMBWSBT FQBS UJOEPEPQPFNBEF.JHVFM5PSHB GB[VNBFYQPTJÎÍPFNRVFSFGMJUBTTPCSFPUFNBEB BWFOUVSBEFTWFOUVSBNBSÓUJNB 'VOEBNFOUBPUFVQPOUPEFWJTUBDPNCBTFOPTDPOUFÞEPTFTUVEBEPTOFTUBVOJEBEF PROFESSOR GrupoIII Sugestãodetópicos: – definição de aventura e desven- tura; –a importância dos Descobrimen- FAE77HAG{yA63E7?43D53{Š7E e instrumentos de marear; conhe- cimento de outros povos e cultu- D3E¦ –os reveses desta aventura/desven- FGD3BAD7J7?BA@3G8Dt9;AE3F3- CG7E675ADEtD;AE¦ –a recorrência do tema marítimo na ;F7D3FGD3BADFG9G7E33BD7E7@F3D 7J7?BAE –omarcomofontedevida,mastam- bém de tragédia, como por exem- plo,ocasodospescadores… 1 Lameiro: terreno húmido ou tempora- riamente alagado. 2 Arado: instrumento agrícola utilizado para lavrar a terra.
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    I. ESCRITA EORALIDADE Exposição. Apreciação crítica. Síntese. II. GÉNEROS LITERÁRIOS Texto poético. Texto narrativo. Texto dramático. III. GRAMÁTICA Morfologia. Classes de palavras. Sintaxe. Lexicologia. Semântica. Análise do discurso e pragmática; texto/linguística textual. IV. RECURSOS EXPRESSIVOS SÍNTESE INFORMATIVA E GRAMATICAL DE APOIO SIGA Kandinsky, Composição IX, 1936.
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    SIGA 311 Exposição sobreum tema Uma exposição é um texto conciso, de caráter demonstrativo. Tem como objetivo apresentar informações pormenorizadas sobre um assunto, tema, situação, acontecimento e pessoa. Pode assumir uma forma narrativa, des- critiva ou argumentativa. Assim, existem vários tipos de textos expositivos: o currículo vitae, a biografia, o artigo de divulgação científica, a ata, a repor- tagem, o relatório… TEXTO EXPOSITIVO O QUE DEVO FAZER? 1. Conhecimentos t Escolher o tema a desenvolver e definir o objetivo do texto. t Pesquisar informação relativa ao tema e selecionar os dados realmente im- portantes. 2. Expressão/discurso t Usar uma linguagem objetiva sem tecer juízos de valor. t Utilizar um registo de língua corrente, de forma que o leitor comum compreenda a mensagem que se pretende veicular, embora, por vezes, devido à natureza do texto, se recorra a termos técnicos e/ou científicos. t Fundamentar as ideias de forma clara e inequívoca através de exemplos universais e/ou citações. t Utilizar a terceira pessoa gramatical e o presente do indicativo. t Utilizar predominantemente frases declarativas. t Usar articuladores do discurso (consultar a página 328), para encadear de forma lógica os tópicos abordados. t Produzir um texto com clareza e com correção linguística. t Utilizar recursos expressivos (comparação, enumeração…). t Apresentar dados paratextuais (Ex.: título, bibliografia consultada, índice e ilustração, notas de rodapé ou finais). QUAL A ESTRUTURA? Introdução: apresentação, de forma sucinta, da temática a abordar. Desenvolvimento: descrição/informação do objeto em detalhe, fundamentados com exemplos ilustrativos, de forma a elucidar sobre o tema e destacar o caráter demonstrativo do mesmo. Conclusão: breve referência à importância do assunto tratado tendo em conta a informação apresentada. A I. Escrita e oralidade
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 312 Apreciação crítica Uma apreciação crítica é um comentário crítico, que visa apresentar e analisar manifestações culturais, como um livro, uma música, uma exposi- ção, uma peça de teatro, um filme, um documentário ou outro. É um texto subjetivo e valorativo que parte da análise do objeto para a formulação de um juízo de valor. Pode revestir uma forma oral ou escrita. APRECIAÇÃO CRÍTICA ESCRITA OU ORAL O QUE DEVO FAZER? 1. Conhecimentos t Descrever sucintamente o objeto, acompanhando-o de um comentário crítico. t Registar os sentimentos e as emoções suscitados pelo objeto. 2. Expressão/discurso t Usar uma linguagem valorativa (depreciativa ou apreciativa) através do uso de adjetivos, advérbios, repetições, etc. t Utilizar um registo de língua corrente, de forma que o leitor comum com- preenda a mensagem que se pretende veicular. t Utilizar a primeira ou a terceira pessoas gramaticais e o presente do indicativo. t Utilizar predominantemente frases declarativas e exclamativas. t Utilizar recursos expressivos (metáfora, hipérbole, comparação, eufemismo, ironia, etc.). t Usar articuladores do discurso (consultar a página 328). t Mobilizar adequadamente os recursos da língua, nomeadamente vocabulário adequado ao tema. Para a apreciação crítica oral: t Utilizar adequadamente os recursos verbais e não verbais: postura, tom de voz, articulação das palavras, dicção, entoação, ritmo e expressividade (ACO). t Utilizar adequadamente, sempre que oportuno, ferramentas tecnológicas de suporte à intervenção oral (ACO). QUAL A ESTRUTURA? Introdução: apresentação/descrição do objeto a apreciar. Desenvolvimento: descrição/informação do objeto em apreciação; posicionamento com apresentação de juízos de valor (argumentos a favor e/ou contra), fundamen- tados com exemplos ilustrativos. Conclusão: síntese do que foi apresentado e reforço do ponto de vista pessoal. B
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    SIGA 313 Síntese Uma sínteseé a condensação de texto que pode ordenar de forma diferente as sequências textuais do(s) texto(s)-fonte, sem, no entanto, desrespeitar o seu conteúdo e a intenção do autor. SÍNTESE ESCRITA E ORAL O QUE DEVO FAZER? 1. Conhecimentos t Ler/ouvir cuidadosamente o texto para apreender o seu sentido global. t Sublinhar/tirar notas de palavras e expressões que contenham as ideias essen- ciais do(s) texto(s)-fonte. t Anotar a ideia principal de cada parágrafo, à margem do texto (se a fonte for escrita). t Manter a fidelidade ao conteúdo do texto original. t Apresentar a ordem das ideias do texto original como achar mais conveniente. t Emitir comentários ou juízos de valor que considerar pertinentes. 2. Expressão/discurso t Transformar o discurso direto, caso esteja presente no(s) texto(s)-fonte, em in- direto. t Não utilizar marcas pessoais do autor do(s) texto(s)-fonte, tais como: «O autor diz que...», «Segundo o autor...», entre outras. t Utilizar a terceira pessoa gramatical e o presente do indicativo. t Evitar citações e transcrições do(s) texto(s)-fonte, substituindo-as por outras equivalentes. t Manter a rede lexical (vocabulário específico/palavras-chave) do(s) texto(s)-fonte. t Recorrer a hiperónimos com vista a uma linguagem mais económica. t Usar uma linguagem objetiva, simples, clara, coerente, concisa e cuidada. t Usar uma linguagem correta, respeitando as regras gramaticais. t Articular as diferentes ideias, utilizando os articuladores do discurso mais con- venientes (consultar a página 328). t Manter o estilo de escrita pessoal, não sendo obrigatório o uso do registo de língua utilizado no(s) texto(s)-fonte. Para a síntese oral: t Ter atenção aos recursos não verbais utilizados: postura, tom de voz, articulação das palavras, dicção, entoação, expressividade. t Utilizar adequadamente, sempre que oportuno, ferramentas tecnológicas de suporte à intervenção oral. C
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 314 II. Textos literários Texto poético 1. Noções de versificação 1. Verso Um verso é cada uma das linhas de uma composição poética. 2. Métrica De entre os elementos que criam o ritmo e a musicalidade dos versos, destaca-se a métrica. De acordo com o número de sílabas métricas, os versos classificam-se: N.º DE SÍLABAS CLASSIFICAÇÃO N.º DE SÍLABAS CLASSIFICAÇÃO 1 monossílabo 7 redondilha maior (ou heptassílabo) 2 dissílabo 8 octossílabo 3 trissílabo 9 eneassílabo 4 tetrassílabo 10 decassílabo 5 redondilha menor (ou pentassílabo) 11 hendecassílabo 6 hexassílabo 12 dodecassílabo (ou verso alexandrino) 3. Estrofe Uma estrofe corresponde a um conjunto de versos que constituem uma unidade gráfica. De acordo com o número de versos, as estrofes apresentam as seguintes designações: N.º DE SÍLABAS CLASSIFICAÇÃO N.º DE SÍLABAS CLASSIFICAÇÃO 1 monóstico 6 sextilha 2 dístico 7 sétima 3 terceto 8 oitava 4 quadra 9 nona 5 quintilha 10 décima 4. Rima Os versos de uma estrofe poderão não rimar (designam-se versos brancos ou soltos); poderão terminar todos com a mesma rima (designam-se versos monórrimos), ou podem rimar de acordo com diferentes combinações. As mais frequentes são: TIPO DEFINIÇÃO Emparelhada Os versos rimam dois a dois, de acordo com o esquema rimático AA, BB, CC. Cruzada Os versos rimam intercaladamente, de acordo com o esquema rimático ABAB. Interpolada Rima entre dois versos, com dois ou mais versos de permeio, como, por exemplo, nos seguintes esquemas rimáticos ABBA ou ABCA ou ABBCA. A
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    SIGA 315 Texto dramático Elementosconstitutivos do texto dramático 1. Ação – desenrolar dos acontecimentos, através do diálogo e da movimen- tação das personagens em palco. ESTRUTURA Interna exposição – apresentação das personagens e da situação inicial. conflito – sucessão de acontecimentos ou peripécias que conduzem ao seu ponto culminante. desenlace – conclusão da ação dramática. Externa ato – grande divisão do texto dramático (corresponde à mudança de cenário). cena – divisão de ato, determinada pela entrada ou saída de uma ou mais personagens. 2. Personagens – agentes/intervenientes da ação, encarnados por atores. RELEVO principal – assume um papel importante e é à volta dela que gira toda a ação. secundária – desempenha um papel de menor relevo, auxiliando a personagem principal. figurante – não intervém diretamente na ação, servindo apenas como figura decorativa. COMPOSIÇÃO modelada ou redonda – tem densidade psicológica, o seu comportamento altera-se ao longo da peça. plana – tem escassa complexidade psicológica, comporta- -se de forma previsível. tipo – representa um determinado grupo/estrato social e/ou profissional ou tipo psicológico. PROCESSOS DE CARACTERIZAÇÃO Direta autocaracterização – feita pela própria personagem. heterocaracterização – feita pelas outras personagens. Indireta deduzida pelo espectador a partir do comportamento, atitudes ou falas da personagem. B
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 316 3. Espaço – lugar, ambiente ou atmosfera interior onde decorre a ação; real ou imaginário. ESPAÇO cénico – corresponde ao ambiente recriado onde se movem as personagens (presença de luz, som, guarda-roupa, adereços). palco – espaço da representação. representado – ambiente recriado pelos atores, interligado à ação e ao espaço cénico. 4. Tempo – momento em que decorre a ação: passado, presente ou futuro. TEMPO de representação – é curto e corresponde à duração do espetáculo teatral. representado – corresponde ao momento histórico recriado pelos atores. Modalidades do texto dramático DISCURSO DRAMÁTICO texto principal, constituído pelas falas das personagens. Pode surgir sob a forma de diálogo, monólogo ou aparte. DIDASCÁLIA texto secundário, constituído pelas indicações cénicas, geralmente dentro de parênteses (informações sobre movimentação das personagens, tom de voz, cenário, luz, som, guarda-roupa, adereços...). Modos de representação do discurso MONÓLOGO A personagem fala consigo mesma. DIÁLOGO As personagens falam entre si. APARTE Discurso de uma personagem que é dirigido ao público. Aparentemente, e em jogo teatral, escapa às restantes personagens.
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    SIGA 317 Texto narrativo Elementosconstitutivos do texto narrativo 1. Ação – desenrolar dos acontecimentos, através do diálogo e da movimen- tação das personagens. RELEVO principal – composta pelos acontecimentos principais. secundária – composta pelos acontecimentos menos importantes, mas que contribuem para o desenrolar da ação principal. ESTRUTURA (SEQUÊNCIAS NARRATIVAS) encadeamento – sequências ordenadas de forma cronológica. encaixe – sequência encaixada dentro de outra (ações narradas no interior de outra). alternância – várias sequências são narradas de forma alternada, interrompendo a narração da ação principal. MOMENTOS situação inicial – apresentação do contexto da ação (tempo, espaço e personagens). desenvolvimento – desenrolar da ação, no qual decorrem as peripécias. desenlace – desfecho da ação. DELIMITAÇÃO aberta – o desfecho da ação fica suspenso ou não é conhecido o destino das personagens. fechada – o desfecho da ação é definitivo, conhece-se o destino das personagens. 2. Personagens – agentes/intervenientes na ação. RELEVO principal – assume um papel importante e é à volta dela que gira toda a ação. secundária – desempenha um papel de menor relevo, auxiliando a personagem principal. figurante – não intervém diretamente na ação, servindo apenas como figura decorativa. COMPOSIÇÃO modelada ou redonda – tem densidade psicológica, o seu comportamento altera-se ao longo da ação. plana – comporta-se sempre do mesmo modo. tipo – representa um determinado grupo/estrato social e/ou profissional. PROCESSOS DE CARACTERIZAÇÃO Direta autocaracterização – feita pela própria personagem. heterocaracterização – feita por outras personagens ou narrador. Indireta deduzida pelo espectador a partir do comportamento, atitudes ou falas da personagem. C
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 318 3. Espaço – lugar, ambiente ou atmosfera interior onde decorre a ação. ESPAÇO físico – local onde decorre a ação ou se desenrolam os acontecimentos. social – ambiente ou meio social a que pertencem as personagens ou onde elas se movem. psicológico – espaço que reflete o interior/pensamento/reflexões das personagens. 4. Tempo – momento em que decorre a ação. TEMPO da história – período de duração da ação, é cronológico e pode ou não coincidir com um momento da História (por exemplo, a Idade Média, os Descobrimentos...). psicológico – período temporal vivido pelas personagens, segundo o estado de espírito das mesmas. do discurso – forma de apresentação do discurso ou maneira como o narrador relata os acontecimentos, como, por exemplo, em analepse (recuo), prolepse (avanço), elipse (omissão), pausa (reflexões, descrições que interrompem o desenrolar da ação) e sumário (resumo de acontecimentos). 5. Narrador – entidade fictícia que narra a ação/os acontecimentos. PRESENÇA autodiegético – quando é a personagem principal (narra-a na primeira pessoa). homodiegético – quando é uma personagem secundária. heterodiegético – quando não participa na ação e a narra na terceira pessoa. CIÊNCIA Focalização omnisciente – quando tem conhecimento total da ação e das personagens. interna – quando adota o ponto de vista de uma personagem. externa – quando apenas conhece o exterior da personagem. POSIÇÃO subjetivo – quando narra de forma parcial, ou seja, tece juízos de valor ou opiniões e adota determinado ponto de vista. objetivo – quando narra de forma imparcial, não tecendo juízos de valor ou opiniões. 6. Modos de expressão NARRAÇÃO relato de acontecimentos/eventos que promovem o desenvolvimento da ação, o que lhe imprime maior dinamismo, requerendo os tempos verbais no pretérito perfeito e pretérito mais-que- -perfeito. Há ainda uma predominância de nomes e maior objetividade no que é relatado. Constitui, por isso, um momento de avanço na ação. DESCRIÇÃO espaço textual no qual se transmitem informações sobre as personagens, os objetos, o tempo e o espaço, requerendo os tempos verbais no pretérito imperfeito do indicativo. Há ainda uma predominância de adjetivos e advérbios, recursos expressivos e maior subjetividade no que é relatado. Constitui, por isso, um momento de pausa na ação. DIÁLOGO as personagens falam entre si. MONÓLOGO a personagem fala consigo mesma.
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    SIGA 319 Morfologia Processos regularesde formação de palavras 1. Derivação AFIXAL Prefixação adição de um prefixo antes de uma forma de base. Ex.: ante + braço = antebraço; vice + reitor = vice-reitor; re + fazer = refazer Sufixação adição de um sufixo depois de uma forma de base. Ex.: caldeira + ão = caldeirão; laranja + eira = laranjeira Prefixação e sufixação adição simultânea, não obrigatória, de um prefixo e de um sufixo a uma forma de base. Ex.: in + sensato + ez = insensatez; des + leal + dade = deslealdade Parassíntese adição simultânea e obrigatória de um prefixo e um sufixo a uma forma de base; sem os dois, a palavra não tem sentido. Ex.: em + bainha + ar = embainhar; en + ruga + ado = enrugado Derivação não afixal formação de nomes a partir de verbos no infinitivo, substituindo- -se as terminações –ar, –er, –ir por –a, –e ou –o. Ex.: err(ar) – erro; compr(ar) – compra; debat(er) – debate; toss(ir) – tosse Conversão ou derivação imprópria uma mesma palavra pode pertencer a classes ou subclasses de palavras diferentes. Ex.: silva (nome comum) / Silva (nome próprio); andar (verbo) / o andar (nome) 2. Composição por associação de palavras Ex.: passatempo, fim de semana, terça-feira por associação de vários radicais (ligados pelas vogais i ou o) Ex.: fot[o]grafia; carn[i]voro; astr[o]fot[o]metria por associação de radicais e palavras Ex.: agr[i] doce; afr[o]-lus [o]-americano A III. Gramática
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 320 Classes de palavras Classes e subclasses de palavras 1. Nome Próprio: designa uma entidade individualizada (nome de pessoa, localidade…). Ex.: Luís, Lisboa Comum: designa uma entidade de uma classe, sem a individualizar. Ex.: escola, mãe, festa Coletivo: conjunto de entidades do mesmo tipo. Ex.: turma, década, ramalhete, flora, fauna, gente 2. Adjetivo Qualificativo: refere uma qualidade do nome; admite grau; normalmente aparece depois do nome. Ex.: interessante, azul, saudável Numeral: refere a ordem ou sucessão de algo; normalmente aparece antes do nome, precedido por um determinante. Ex.: O quinto rei; Esta nona música 3. Verbo Principal: é a forma verbal que atribui significado à frase, pois constitui o núcleo do grupo verbal; pode inserir-se num complexo verbal. tJOUSBOTJUJWP não exige complementos. Ex.: Nós sorrimos. tUSBOTJUJWPEJSFUPexige um complemento direto. Ex.: Estou a comprar um carro novo. tUSBOTJUJWPJOEJSFUP exige um complemento indireto ou oblíquo. Ex.: Escrevi ao Zé; Eu fui à Madeira. tUSBOTJUJWPEJSFUPFJOEJSFUPexige um complemento direto e um indireto ou oblíquo. Ex.: A mãe leu o romance à avó; O Luís levou a prenda no carro. tUSBOTJUJWPQSFEJDBUJWP exige um complemento direto e um predicativo do complemento direto. Ex.: O juiz declarou a Ana inocente. Auxiliar: ocorre num complexo verbal, conjugado antes do verbo principal ou copulativo e é precedido, ou não, por uma preposição; apenas transmite informação. tUFNQPSBM ação acabada (fui escolhida); ação durativa (tenho andado a estudar)… tNPEBM desejo, possibilidade, dever, necessidade, certeza, permissão. Ex.: Tenho de alcançar o meu sonho; Podem sair. tBTQFUVBM ação habitual, pontual, durativa… Ex.: Acabei de chegar; Estou a ler. tEPTUFNQPTDPNQPTUPT verbos ter e haver, antes do particípio do verbo principal ou copulativo. Ex.: Eu havia acreditado nele; Ele tem estado ausente. tEBQBTTJWB verbo ser, antes do particípio do verbo principal. Ex.: A notícia foi publicada por mim. Copulativo: apenas liga o sujeito a uma informação característica que consta no predicativo do sujeito (estado, qualidade, localização). Ex.: Eu permaneço quieta; Ele é inteligente; Tu estás aqui; A data é 21 de setembro de 2014. B
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    SIGA 321 4. Advérbioe locução adverbial QUANTO AO VALOR SEMÂNTICO QUANTO ÀS FUNÇÕES de negação: nega uma ideia. Ex.: não interrogativo: introduz interrogações, diretas ou indiretas. Ex.: Onde, quando, como, porquê, por que de afirmação: afirma ou reforça uma ideia. Ex.: sim, certamente, realmente, efetivamente… conectivo: estabelece a ligação entre frases ou partes de frases. Ex.: assim, logo, portanto, porém, contudo, todavia, assim, pois (posposto), depois, primeiramente… de quantidade e grau: transmite ideia de porção ou de intensidade. Ex.: bastante, pouco, mais, tanto, tão, quase, bem... relativo: introduz uma oração relativa. Ex.: onde, como, quando de modo: indica a forma ou maneira de realizar uma ação. Ex.: assim, depressa, melhor, mal, calmamente… de tempo: indica o tempo da ação. Ex.: hoje, agora, depois, nunca, brevemente, já… de lugar: indica o local da ação. Ex.: abaixo, ali, através, longe, algures, aquém… de inclusão: inclui algo de um grupo. Ex.: até, mesmo, também... de exclusão: exclui algo de um grupo. Ex.: apenas, senão, simplesmente, só, somente, exclusivamente… de designação: Ex.: eis de dúvida: Ex.: acaso, porventura, talvez, provavelmente… locução adverbial: constituída por duas ou mais palavras, sendo a primeira uma preposição. Ex.: no entanto, por consequência, em breve, para onde, à vontade, de mais, no mínimo, de facto, de manhã, ao contrário, na verdade, de propósito, por vezes, sem dúvida, de repente, de vez em quando... 5. Quantificador Numeral: indica a quantidade numérica de algo. Ex.: dois, metade, o triplo… 6. Interjeição e locução interjetiva ALGUNS VALORES SEMÂNTICOS de chamamento: socorro!, psiu!, alô… de saudação: olá, adeus… de surpresa: ah!, credo!, hi!, caramba!... de ordem: rua!, caluda!, alto!... de resignação: pronto!, paciência!... de desejo: oh!, oxalá!... locução interjetiva: essa agora!, deixa lá!, toca a andar!, vamos lá!, Deus queira!, muito bem!
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 322 7. Determinante Artigo definido o(s), a(s) indefinido um, uma, uns, umas Demonstrativo este(s), esta(s), esse(s), essa(s), aquele(s), aquela(s), o(s) mesmo(s), a(s) mesma(s), o(s) próprio(s), a(s) própria(s), o(s) outro(s), a(s) outra(s), tal, tais Possessivo meu(s), minha(s), teu(s), tua(s), seu(s), sua(s), nosso(s), nossa(s), vosso(s), vossa(s) Interrogativo quanto(s), quanta(s), qual, quais, que Relativo cujo(s), cuja(s), quanto(s), quanta(s) Indefinido certo(s), certa(s), outro(s), outra(s) 8. Pronome PESSOAL, com função sintática de… Sujeito Complemento direto Complemento indireto Complemento oblíquo Complemento agente da passiva com preposição sem preposição (antecedido por até, contra, de, entre, para, sem, perante…) (antecedido por por) eu me (a) mim me mim, comigo mim tu te (a) ti te ti, contigo ti ele/ela/você o, a, se (a) ele/ela/si lhe si, consigo (com) ele/ela ele/ela/si nós nos (a) nós nos nós, connosco nós vós vos (a) vós vos vós, convosco vós eles/elas/ vocês os, as, se (a) eles/elas lhes si, consigo (com) eles, elas eles/elas/si Demonstrativos este(s), esta(s), isto, esse(s), essa(s), isso, aquele(s), aquela(s), aquilo, o(s) mesmo(s), a(s) mesma(s), o(s) outro(s), a(s) outra(s), tal, tais Possessivos meu(s), minha(s), teu(s), tua(s), seu(s), sua(s), nosso(s), nossa(s), vosso(s), vossa(s) Interrogativos quanto(s)?, quanta(s)?, qual?, quais?, que?, quê?, quem?, onde? Relativos o/a qual, os/as quais, quanto(s), quanta(s), que, quem, onde Indefinidos algum, alguma(s), alguns, nenhum, nenhuma(s), nenhuns, tanto(s), tanta(s), todo(s), toda(s), muito(s), muita(s), pouco(s), pouca(s), outro(s), outra(s), qualquer, quaisquer, alguém, ninguém, tudo, nada, outrem 9. Preposição e locução prepositiva Preposições ante, após, até, com, conforme, contra, consoante, de, desde, durante, em, exceto, entre, mediante, para, perante, por, salvo, sem, segundo, sob, sobre, trás… Locução prepositiva constituída por duas ou mais palavras, sendo a última uma preposição: abaixo de, acerca de, acima de, a fim de, além de, antes de, aquém de, apesar de, a respeito de, através de, de acordo com, em frente de, em vez de, perto de, longe de, quanto a...
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    SIGA 323 10. Conjunçãoe locução conjuncional a) Coordenativa Conjunções Locuções conjuncionais Copulativa (adição) e, também, nem nem… nem, não só… mas também, não só… como também, tanto… como Adversativa (oposição) mas Conclusiva (conclusão) logo Disjuntiva (alternativa) ou ou… ou, já… já, ora… ora, quer… quer, seja… seja Explicativa (explicação, justificação) pois, que b) Subordinativa adverbial Conjunções Locuções conjuncionais Causal (causa) porque, como (= porque), pois, porquanto, que (= porque),… já que, pois que, por isso mesmo que, por isso que, visto que, uma vez que… Consecutiva (consequência) que de modo que, de forma que, de maneira que Condicional (condição) se, caso desde que, a menos que, a não ser que, contanto que, desde que, exceto se, salvo se, sem que, uma vez que… Concessiva (concessão) embora, conquanto… apesar de (que), ainda que, por mais que, por menos que, não obstante, se bem que, mesmo que/se, nem que… Comparativa (comparação) como, qual (depois de tal), (do) que, quanto (depois de tanto)… ao passo que, assim como… assim, assim como… assim também, mais… do que, menos… do que, tão/tanto… como, conforme… assim… Temporal (tempo) quando, mal, apenas, enquanto… à medida que, antes que, ao passo que, assim que, até que, depois que, desde que, logo que, sempre que, todas as vezes que… Final (fim, finalidade, objetivo) que (= para que), para para que, a fim de que, de modo que, a fim de… c) Subordinativa substantiva Completiva (completa o sentido do verbo) que, se, para Relativa (o) que, onde, quem
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 324 Sintaxe 1. Funções sintáticas FUNÇÕES SINTÁTICAS AO NÍVEL DA FRASE EXEMPLOS Sujeito: grupo nominal ou oração. simples: um grupo nominal ou oração. A Rute vai à praia. É possível que chova. composto: dois ou mais grupos nominais ou oração coordenada. O Gil e o Manel vão à praia. É possível que chova e troveje. nulo indeterminado: não se consegue determinar o referente (na 3.ª pessoa do singular/plural e, normalmente, acompanhado do pronome impessoal -se). Fala-se de novos impostos. Dizem que vão aumentar os impostos. subentendido: subentende-se o referente pelo contexto e flexão verbal. A Ana está cansada. [A Ana] Vai agora dormir. Predicado: grupo verbal. Verbo ou complexo verbal, com os seus complementos e/ou modificadores. O Gil leu o livro na sala. Vocativo: grupo nominal. Interlocutor separado por vírgulas dos outros constituintes frásicos. Manel, traz-me esse livro, por favor! Modificador: grupo adverbial, preposicional ou oração. Referência a um domínio do saber ou juízo de valor sobre o que foi ou vai ser dito – separado por vírgulas dos outros constituintes frásicos. Matematicamente, o exercício está correto. Chove bastante, infelizmente! De facto, está mau tempo. Se chover, não saio. FUNÇÕES SINTÁTICAS INTERNAS AO GRUPO NOMINAL EXEMPLOS Complemento do nome: grupo preposicional ou grupo adjetival, menos frequente. O retrato do Pedro ficou perfeito. A oferta turística a sul é enorme. Modificador restritivo do nome: grupo adjetival, grupo preposicional, oração adjetiva relativa restritiva e oração adverbial final. O chapéu azul fica-te bem. A reunião de acionistas foi produtiva. O livro que me deste é interessante. Os instrumentos para a cirurgia estão preparados. Modificador apositivo do nome: grupo nominal, grupo adjetival, grupo preposicional, oração adjetiva relativa explicativa – sempre separado por vírgulas dos outros constituintes frásicos. Dom Dinis, o rei lavrador, também foi poeta. O Gil, estudioso e trabalhador, teve boas notas. O Gil, com trabalho e estudo, teve boas notas. Dom Dinis, que escreveu poesia, plantou o pinhal de Leiria. B C
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    SIGA 325 FUNÇÕES SINTÁTICASINTERNAS AO GRUPO VERBAL EXEMPLOS Complemento direto: grupo nominal ou oração substantiva completiva finita ou substantiva infinitiva. Comprei um carro novo. Disse que ia à praia. Espero ganhar o prémio. Complemento indireto: grupo preposicional introduzido por a. Dei a boneca à menina. Complemento oblíquo: grupo adverbial ou grupo preposicional. Moro aqui. Moro em Lisboa. Complemento agente da passiva: grupo preposicional, introduzido por por. Os Lusíadas são uma epopeia escrita por Camões. Modificador: grupo adverbial, grupo preposicional ou oração. Ontem jantei bem. Ontem jantei na sala. Ontem jantei logo que pude/porque tinha fome. Predicativo do sujeito: grupo nominal, grupo adjetival, grupo adverbial ou grupo preposicional. O Manel é um génio. O Pedro está doente. O Gil ficou ali. A Maria permanece em casa. Predicativo do complemento direto: grupo nominal, grupo adjetival ou grupo preposicional. Os alunos elegeram o Gil delegado de turma. A turma considerou a Maria inteligente. A professora tratou o Manel por tu. FUNÇÕES SINTÁTICAS INTERNAS AO GRUPO ADJETIVAL EXEMPLOS Complemento do adjetivo: grupo preposicional. O Pedro está consciente da verdade. VERBOS QUE SELECIONAM COMPLEMENTO OBLÍQUO (verbos regidos por preposição) abdicar de abster-se de abusar de acabar com aceder a acreditar em aderir a afastar-se de aludir a apaixonar-se por apoderar-se de aspirar a assistir a atrever-se a candidatar-se a cansar-se de chegar a concordar com concorrer a confiar em contar com convencer-se de crer em cuidar de delegar em depender de descer de desconfiar de descrer de desistir de dirigir-se a, para discordar de dispor de dispor-se a dotar de duvidar de entrar em esquecer-se de estar em falar de ficar em fugir de gostar de importar-se com insistir em interessar-se por interferir em investir em ir a, para livrar de munir-se de necessitar de olhar por participar em partir para pensar em precisar de recordar-se de recorrer a renunciar a residir em sair de simpatizar com sofrer de subir a suspeitar de transformar em vir de viver em voltar a, de votar em zelar por VERBOS QUE SELECIONAM PREDICATIVO DO SUJEITO (verbos copulativos) ser, estar, continuar, ficar, parecer, permanecer, revelar-se, tornar-se, andar (no sentido de estar)... VERBOS QUE SELECIONAM PREDICATIVO DO COMPLEMENTO DIRETO (verbos transitivos predicativos) achar, chamar, considerar, declarar, eleger, julgar, nomear, supor, ter(-se) por, tornar, tratar por...
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 326 2. Colocação do pronome pessoal átono FUNÇÕES SINTÁTICAS INTERNAS AO GRUPO VERBAL EXEMPLOS 1.Os pronomes pessoais átonos (me, te, se, o/a, lhe, nos, vos) surgem à direita do verbo em frases com polaridade afirmativa. Casos particulares: i. mudam para -lo(s), -la(s), se a forma verbal terminar em -r, -s ou -z. ii. mudam para -no(s), -na(s), se a forma verbal terminar em -m, ditongo ou vogal nasal (ã, ãe, ão, õe). O João leu o romance todo. O João leu-o todo. A Lara traz as chaves. A Lara trá-las. Estou a terminar o trabalho. Estou a terminá-lo. Eles dão as mãos. Eles dão-nas. Elas concluíram o projeto. Elas concluíram-no. 2. Quando os verbos estão flexionados no futuro do indicativo ou condicional, os pronomes surgem integrados na forma verbal. O Dinis dará um concerto. O Dinis dá-lo-á. Leria o texto, se conseguisse. Lê-lo-ia, se conseguisse. Enviarei um e-mail ao Tiago. Enviar-lho-ei. 3. Os pronomes pessoais átonos são colocados à esquerda da forma verbal quando surgem integrados em: i. frases com polaridade negativa. ii. frases do tipo interrogativo começadas por advérbios ou pronomes. iii. frases com alguns advérbios/locuções adverbiais (bem, mal, ainda, antes de, já, talvez, sempre, só…). iv. frases com pronomes indefinidos. v. orações subordinadas. Não trouxe o livro. Não o trouxe. Que fizeste ao Pedro? Que lhe fizeste? Onde viste as alunas? Onde as viste? Já visitei o Oceanário. Já o visitei. Talvez veja o João. Talvez o veja. Ninguém viu a Sofia na festa. Ninguém a viu na festa. Lamento que tenhas perdido o espetáculo. Lamento que o tenhas perdido. 3. Transformação da voz ativa em passiva A utilização da voz ativa ou da voz passiva resulta de uma escolha feita pelo locutor, de acordo com a sua intenção. Na passagem de uma frase na voz ativa para a voz passiva verificam-se as seguintes modificações: VOZ ATIVA VOZ PASSIVA EXEMPLOS t 0sujeito da frase na voz ativa passa a DPNQMF mento agente da passiva da frase na voz passiva. Camões dedica o poema a D. Sebastião. (voz ativa) O poema é dedicado a D. Sebastião por Camões. (voz passiva) t 0DPNQMFNFOUPEJSFUPEBGSBTFOBWP[BUJWB passa a sujeito da frase na voz passiva. Camões dedica o poema a D. Sebastião. (voz ativa) O poema é dedicado a D. Sebastião por Camões. (voz passiva) t GPSNBWFSCBMOBWP[QBTTJWBÏGPSNBEBQFMPWFSCP auxiliar ser, no tempo em que se encontra o verbo principal da frase na voz ativa + particípio do verbo principal da frase na voz ativa. Camões dedica o poema a D. Sebastião. (voz ativa) O poema é dedicado a D. Sebastião por Camões. (voz passiva)
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    SIGA 327 4. Coordenaçãoe subordinação Frases complexas – com dois (ou mais) grupos verbais 4.1 Coordenação ORAÇÕES COORDENADAS CONJUNÇÕES/ LOCUÇÕES CONJUNCIONAIS/ ADVÉRBIOS CONECTIVOS EXEMPLOS Copulativas (adição) e, nem… nem, também… A Joana foi ao cinema e viu um filme excelente. Adversativas (oposição) mas, porém, todavia… Não gosto de bananas, mas gosto de maçãs. Conclusivas (conclusão) portanto, logo, pois… O Ferrari é mais rápido, logo vai à frente. Disjuntivas (alternativa) ou , ora… ora, quer… quer Ou lês ou vês televisão. Explicativas (explicação, justificação) porquanto, pois, que Quero falar contigo, porquanto tenho notícias para te dar. 4.2. Subordinação 4.2.1 Adverbiais SUBORDINADAS CONJUNÇÕES/LOCUÇÕES CONJUNCIONAIS EXEMPLOS Causais (causa) porque, como (= porque), pois, porquanto, que (= porque), já que, pois que, por isso mesmo que, por isso que, visto que A Joana foi ao cinema porque queria ver o filme. Consecutivas (consequência) que, de forma que, de maneira que, de modo que, de sorte que Gosto tanto de maçãs, que as comi todas. Condicionais (condição) se, caso, desde que, a menos que, a não ser que, contanto que, desde que, exceto se, no caso que, salvo se, sem que, uma vez que Desde que sejas mais rápido, ganhas. Concessivas (concessão) embora, conquanto, apesar de que, ainda que, ainda quando, por mais que, por menos que, posto que, se bem que, sem que Ainda que digas a verdade, não acredito em ti. Comparativa (comparação) como, conforme, qual, que, segundo, ao passo que, assim como… assim, assim como… assim também, mais… do que, menos… do que, tão (tanto)… como O Ferrari é mais rápido do que é o Mini. Temporal (tempo) à medida que, antes que, ao passo que, assim que, até que, depois que, desde que, logo que, primeiro que, sempre que, tanto que, todas as vezes que Mal chegou, pôs-se a ler. Final (fim, finalidade, objetivo) que (= para que) para que, a fim de que, por que Leva o casaco para que não tenhas frio. COORDENAÇÃO SUBORDINAÇÃO
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 328 4.2.2 Adjetivas relativas SUBORDINADAS CONJUNÇÕES/LOCUÇÕES CONJUNCIONAIS EXEMPLOS Restritivas (limitam, restringem) que, quem, onde, cujo, qual Dá-me aquele livro que está sobre a mesa. A situação que ele criou é insustentável. Explicativas (explicam, adicionam) O restaurante, onde a comida é deliciosa, é do meu pai. 4.2.3 Substantivas SUBORDINADAS PRONOMES RELATIVOS/ CONJUNÇÃO/DETERMINANTE/ QUANTIFICADOR… EXEMPLOS Relativas sem antecedente (o pronome relativo não tem um antecedente) (o) que, onde, quem Quem desdenha, quer comprar. Completivas (completam o sentido da frase) que É possível que chova. Lamento que seja assim. Completivas interrogativas indiretas (interrogativas indiretas, no discurso indireto) que, se, para Perguntou se ia à praia. Ela pediu-me para descansar. Infinitivas (verbo no infinitivo pessoal) para Digo para estares aqui a horas. Lexicologia Arcaísmo: palavra ou construção cujo uso é considerado antiquado pela comunidade linguística.1 Ex.: u (onde), ca (porque), coita (dor, sofrimento), al (outra coisa) Neologismo: palavra cujo significante ou cuja relação significante-significado era inexistente num estádio de língua anterior ao da sua atestação.1 Ex.: teclar, googlar, internauta Campo semântico: conjunto dos significados que uma palavra pode ter nos diferentes contextos em que se encontra. Ex.: «peça» – peça de teatro, peça de carne, peça de automóvel, peça de arte… Campo lexical: conjunto de palavras associadas, pelo seu significado, a um determinado domínio conceptual. Ex.: «escola» – professor, aluno, aula, teste, disciplina… B D 1 Dicionário Terminológico (disponível em http://dt.dgidc.min-edu.pt, consultado em março de 2015)
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    SIGA 329 Semântica 1. Valoresde tempo, modo e aspeto em algumas formas verbais MODO VERBAL VALOR EXEMPLOS Infinitivo utiliza-se para exprimir ideias/verdades intemporais. Ex.: Falar sem cuidar é atirar sem apontar. Indicativo utiliza-se para exprimir, geralmente, uma ação, um estado ou um facto considerado como realidade. Ex.: O meu pai corre muito. Conjuntivo utiliza-se para exprimir as ações, os estados ou os factos incertos, prováveis, eventuais ou irreais. Ex.: Não sei o que faça. Se eu soubesse os números do Euromilhões… Imperativo utiliza-se para exprimir permissão, obrigação ou ordem, podendo também ser usado para transmitir informações, instruções, conselhos, convites, súplicas… Ex.: Vai para casa! Segue este caminho. Condicional utiliza-se para referir factos que não se realizaram e cuja realização é incerta. Ex.: Perderia menos tempo se fosse por ali. TEMPO VERBAL VALOR EXEMPLOS Presente do indicativo – refere um evento que ocorre no momento de enunciação; – enuncia ações ou estados permanentes; – refere ações habituais ou características do sujeito; – narra factos do passado com vivacidade; – apresenta um facto no futuro próximo. Ex.: Daqui fala o João. Ex.: A água ferve aos 100 ºC. Ex.: As aulas começam às 8:30. Ex.: Fernão Lopes narra com pormenor. Ex.: Amanhã, vou à praia. Pretérito perfeito do indicativo – indica ações ou eventos ocorridos num determinado momento no passado. Ex.: Ontem, comprei um CD. Pretérito imperfeito do indicativo – apresenta factos ocorridos no passado, mas inacabados; – transmite valores de continuidade e duração; – indica ações simultâneas; – designa ações passadas habituais ou repetidas; – expressa delicadeza/cortesia; – situa narrações em tempos indefinidos. Ex.: Estava a ler, quando ela chegou. Ex.: Ele continuava a andar sem perceber o que se passara. Ex: Ele lavava a loiça enquanto eu aspirava. Ex.: Todos os sábados íamos ao cinema. Ex.: Queria um café, por favor. Ex.: Era uma vez… 1SFUÏSJUPNBJT RVFQFSGFJUPEP indicativo – enuncia ações mais distantes no passado relativamente a um ponto de referência que já é passado também. Ex.: Ele continuou a andar sem perceber o que se passara. Futuro do indicativo – indica factos futuros; – expressa incerteza acerca de factos atuais; – manifesta uma súplica ou pedido. Ex.: Irei amanhã ao Porto. Ex.: Será ele o assaltante? Ex.: Fará o favor de se calar? Presente do conjuntivo – usa-se para apresentar hipóteses, probabilidades ou intenções a partir de um ponto de enunciação no presente. Ex.: Eu quero que o meu filho mais novo coma mais. Pretérito imperfeito do conjuntivo – usa-se para apresentar hipóteses, probabilidades, intenções, colocando o ponto de ocorrência do evento no passado. Ex.: A minha mãe queria que eu comesse mais. Futuro do conjuntivo – usa-se para apresentar hipóteses, probabilidades, intenções, colocando o ponto de ocorrência do evento no futuro. Ex.: Se nós o virmos, damos-lhe o recado. B E
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 330 Análise do discurso e pragmática Texto/linguística textual 1. Articuladores/conectores do discurso Os conectores ou articuladores do discurso são palavras e/ou expressões que servem para ligar frases, períodos/parágrafos de um texto. Estes vocábulos/ expressões asseguram a coesão textual e podem ser conjunções/locuções conjuncionais, preposições/locuções preposicionais e advérbios/locuções adverbiais. VALOR DE EXEMPLOS Adição/enumeração e, ora, pois, também, além disso, e ainda, não só… mas também, por um lado… por outro (lado)… Alternativa fosse... fosse, ou, ou então, ou... ou, ora... ora, quer... quer, seja... seja, alternativamente, em alternativa, senão... Causa visto que, pois, porque, pois que, por causa de, dado que, já que, uma vez que, porquanto… Certeza sem dúvida, é evidente que, evidentemente, certamente, com toda a certeza, decerto, naturalmente… Consequência de tal modo, de tal forma que, de modo que, tanto… que, por tudo isto… Conclusão/inferência assim, portanto, logo, daí, enfim, em conclusão, em suma, por conseguinte… Dúvida possivelmente, talvez, provavelmente, porventura, é provável, é possível… Ênfase/realce efetivamente, com efeito, na verdade, como vimos, note-se que, atente-se em, repare-se que, veja-se que, constate-se que… Esclarecimento quer isto dizer que, (não) significa isto que, com isto não se pretende que, não se pense que… Exemplificação por exemplo, como se pode ver, isto é, é o caso de, é o que acontece com… Sequência/ordem em primeiro lugar, em segundo lugar, de seguida, depois, por fim, antes de mais… Finalidade/objetivo para, para que, com o fim de, com o intuito de, a fim de, com o objetivo de… Hipótese/condição se, a menos que, (mesmo) admitindo que, exceto se, supondo que, salvo se… Espaço aqui, ali, acolá, além, lá, ao lado, sobre, à esquerda, no meio, naquele lugar, o lugar onde, mais adiante… Tempo quando, após, antes, depois, seguidamente, anteriormente, em seguida, até que, por fim, então… Opinião a meu ver, parece-me que, estou em crer que, em nosso entender… Oposição, contraste mas, apesar de, no entanto, porém, contudo, todavia, por outro lado, pelo contrário, contrariamente, com a ressalva que… Reafirmação, resumo por outras palavras, ou melhor, ou seja, em resumo, em suma, em nosso entender, a meu ver… Semelhança do mesmo modo, tal como, pelo mesmo motivo, assim como… B F
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    SIGA 331 2. Reproduçãodo discurso no discurso 2.1 Transformação do discurso direto para indireto 1. Discurso direto: reprodução do discurso anterior de um enunciador, respei- tando o que foi dito e como foi dito. CARACTERÍSTICAS (NA ESCRITA) EXEMPLOS 1. É representado por dois pontos, parágrafo e travessão. Logo a secundá-lo, Fernando sussurava: – Uma coroa, Inês. Rainha de Portugal. João Aguiar, Inês de Portugal 2. É introduzido por verbos declarativos, que podem surgir no início, no meio ou no fim do discurso: dizer, responder, indagar, explicar… 3. O verbo declarativo pode, por vezes, ser eliminado. Diz-lhe a deusa: «Ó trasunto, reduzido Em pequeno volume, aqui te dou Do Mundo aos olhos teus…» Luís de Camões, Os Lusíadas 4. É marcado por aspas, itálicos, quando se apresenta diretamente no meio do discurso direto. 2. Discurso indireto: reprodução do discurso de um enunciador, através de um narrador. DISCURSO DIRETO DISCURSO INDIRETO 1. Uso da 1.ª e 2.ª pessoas (pronomes, verbos): eu, tu, nós, me, (con)vosco; fiquei, ficaste, ficastes. 1. Uso da 3.ª pessoa (pronomes, verbos): ele, o/a, lhe, se, eles; ficara, ficaram. 2. Pronomes e determinantes demonstrativos: este, esta, esse, essa, isto e isso. 2. Pronomes e determinantes demonstrativos: aquele, aquela, aquilo. 3. Pronomes e determinantes possessivos: meu, minha, teu, tua... 3. Pronomes e determinantes possessivos: seu/sua, dele/dela... 4. Advérbio de predicado aqui. 4. Advérbio de predicado ali. 5. Advérbios de predicado: hoje, agora, amanhã... 5. Locuções adverbiais de predicado: nesse dia, naquele dia, naquele momento, no dia seguinte... 6. Vocativo. 6. Complemento indireto. 7. Frase interrogativa direta. 7. Oração subordinada substantiva completiva. 8. Verbos no presente do indicativo. 8. Verbos no pretérito imperfeito. 9. Verbos no presente do conjuntivo. 9. Verbos no pretérito imperfeito do conjuntivo. 10. Verbos no pretérito perfeito do indicativo. 10. Verbos no pretérito mais-que-perfeito. 11. Verbos no pretérito imperfeito do conjuntivo. 11. Verbos no pretérito imperfeito do conjuntivo. 12. Verbos no futuro do indicativo. 12. Verbos no modo condicional. 13. Verbos no futuro do conjuntivo. 13. Verbos no pretérito imperfeito do conjuntivo. 14. Verbos no modo imperativo. 14. Verbos no pretérito imperfeito do modo conjuntivo. 15. Verbos no modo infinitivo. 15. Verbos no modo infinitivo. 16. Verbo vir. 16. Verbo ir. 17. Verbos introdutores do discurso. 17. Verbos introdutores do discurso não sofrem alterações.
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 332 3. Paratextos 3.1 Índice Elemento paratextual que serve para situar o leitor quanto ao conteúdo de uma obra, listando os itens que a compõem e a respetiva página onde se encontram. Existem diferentes tipos de índice: geral, onomástico (lista alfabética dos autores referidos numa obra), remissivo (lista alfabética dos assuntos principais referidos numa obra), de tabelas, de figuras/imagens, de abreviaturas. 3.2 Citação textual Não é correto, nem legítimo recorrer a citações sem indicar a sua fonte (origem), isto é, apropriarmo-nos indevidamente de parte ou da totalidade do trabalho de outrem e apresentá-lo como nosso. Podes e deves usar ideias e discursos de outros, pois estes comprovam as tuas ideias e ajudam a fundamentá-las. No entanto, terás sempre de indicar a sua fonte, caso contrário isso será plágio. Apresentamos-te duas formas de evitares o plágio: t citação direta – verifica-se quando citas integralmente (ipsis verbis) as ideias/discurso do autor; t citação indireta – verifica-se quando fazes um resumo ou paráfrase das ideias/discurso do autor, introduzindo expressões como «segundo...», «de acordo com…», «tal como afirma/defende…», que indicam a fonte do que estás a expor/defender. A citação deverá ser inserida no corpo do texto e entre aspas («»). As citações não deverão ser longas. Apenas deves escolher o excerto que contribui para enriquecer o teu texto como forma de complemento ou fundamentação. Quando se citam versos, estes devem ser separados por uma barra oblíqua (/) com um espaço antes e depois. 3.3 Nota final e de rodapé São indicações que surgem no final do documento ou no final da página (rodapé) e que são utilizadas para explicar, comentar ou fazer referências a uma parte do texto no documento. Ao utilizar a nota final ou de rodapé podemos não complicar o nosso texto com informação adicional, tornando-o mais fluido e entendível. 3.3.1 Nota final Podem utilizar-se as notas finais para inserir comentários (explicação de um determinado termo ou estrangeirismo, por exemplo) ou para citação de
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    SIGA 333 fontes, emalternativa à inserção de citações ou de bibliografia. Poderão ter o inconveniente para o leitor de não estarem junto ao texto, mas sim no final do capítulo ou da obra. 3.3.2 Nota de rodapé Podem utilizar-se as notas de rodapé para inserir comentários (explicação de um determinado termo ou estrangeirismo, por exemplo) ou indicação breve do autor e obra a que nos referimos no corpo do texto, sem a referência bibliográfica completa. Permitem ao leitor dispor da informação na mesma página, o que não acontece com as notas finais. 3.4 Referência bibliográfica A referência bibliográfica pode ser elaborada de vários modos, sendo funda- mental manter a coerência nas escolhas. 1. nome do autor apelido, em maiúsculas ou minúsculas, seguido de nome próprio (esta inversão só é necessária numa lista bibliográfica), título da obra (em itálico), volume, número da edição (se apenas houver uma, não se indica), tradutor, coleção, local de edição, editora, ano da publicação, número de páginas (totais ou consultadas). Ex.: MATHIAS, Énard, Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes, trad. de Pedro Tamen, Lisboa, Dom Quixote, 2013. 2. TJTUFNBBVUPSEBUB nome do autor, em maiúsculas ou minúsculas, ano da publicação entre parênteses, título da obra, volume, número da edição, tradutor, coleção, local da edição, editora, ano de publicação, páginas (totais ou consultadas), conforme o caso. Ex.: ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner (1996), Navegações, 3.ª edição, Lisboa, Editorial Caminho. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Livros ZINK, Rui, Anibaleitor, Lisboa, Teorema, 2010. Capítulos de livros MONTEIRO, N. G., «Sistemas familiares», in J. Mattoso (dir.), História de Portugal, vol. IV: O Antigo Regime, Lisboa, Círculo de Leitores, 1993, pp. 278-283. Verbetes de dicionário/ enciclopédia AMADO, Teresa, «Fernão Lopes, in Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (org. e coord.), Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa, 2.ª edição, Lisboa, Caminho, 2000, pp. 271-273. Artigos de revista e jornal MOURA, Vasco Graça, «A escrita e o real», in Jornal de Letras Artes e Ideias, 17 de agosto, 2005, pp. 17-18. Página de internet «Caravela», in Instituto Camões (disponível em http://cvc.instituto-camoes.pt, consultado em 25/07/2014). Material audiovisual BOTELHO, João (2010), Filme do desassossego [filme], distribuído por Ar de Filmes.
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    SÍNTESE INFORMATIVA EGRAMATICAL DE APOIO 334 Adjetivação (simples, dupla, tripla) – apresentação sucessiva de vários adjetivos. Ex.: É simplesmente rápido, perfeito e natural. Alegoria – «No seu significado etimológico, alegoria significa dizer uma coisa por outra, representando figurativamente um conceito ou uma abstração.»1 Ex.: O diabo (concreto) representa o mal (abstrato). Aliteração – «Repetição da mesma consoante, muitas vezes na sílaba inicial de palavras contíguas, tanto no verso como na prosa.»1 Ex.: «Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe.» (Bernardim Ribeiro) Anáfora – repetição da mesma palavra ou conjunto de palavras no início de cada verso ou de frases sucessivas. Ex.: «Cresci de mais, como destino. Cresci de mais para o meu berço.» (José Régio) Anástrofe – inversão da ordem direta dos elementos da frase. Ex.: «Longas são as estradas da Galileia.» (Eça de Queirós) Antítese – combinação de ideias contrárias ou opostas. Ex.: «o berço de um era magnífico e de marfim entre brocados; o berço do outro, pobre e de verga» (Eça de Queirós) Apóstrofe–chamamentoouinterpelaçãoaalguémouaalgumacoisapersonificada. Ex.: «Ó glória de mandar, ó vá cobiça» «Bem puderas, ó Sol, da vista destes…» (Luís de Camões) Comparação – Relação de semelhança entre dois elementos, através da palavra «como» ou das expressões «parecer-se com» e «assemelhar-se a». Ex.: «Dentro da casa o mar ressoa como no interior de um búzio.» (Sophia M. B. Andresen) «A rua [...] parece um formigueiro agitado.» (Érico Veríssimo) Enumeração – «[…] nomeação acumulativa das partes de um todo e de elementos que mantêm entre si uma correlação lógica ou semântica».1 Esta nomeação pode ser feita através de nomes ou verbos. Ex.: «Os Romanos chegaram, viram e venceram.» «As cerejas, peras e maçãs transbordavam da fruteira.» Eufemismo – forma de suavizar o caráter desagradável, horrível, penoso, de uma notícia, de um pensamento, de uma situação. Ex.: «Entregar a alma ao criador.» (por «morrer») Hipérbole – exagero (por excesso ou defeito) da realidade. Ex.: «A sua alma era um vulcão»; «Red Bull dá-te asas». IV. Recursos expressivos 1 Dicionário Terminológico (disponível em http://dt.dgidc. min-edu.pt, consultado em março de 2015)
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    SIGA 335 Interrogação retórica– questão retórica, isto é, que não visa uma resposta, antes procura dar ênfase e criar expectativa através de uma formulação próxima da exclamação ou da afirmação. Ex.: «Sem a loucura que é o homem / Mais do que a besta sadia, Cadáver adiado que procria?» (Fernando Pessoa) Ironia – exprimir uma ideia dizendo o significado contrário ou divergente, o que corresponde ao propósito do emissor e que o recetor deve descodificar de acordo com a situação. Ex.: Fizeste um lindo serviço! Metáfora – «substituição de uma palavra própria […] por uma palavra com a qual aquela possui elementos sémicos em comum, com supressão daquela, ao contrário do que acontece na comparação […]. A transposição do signifi- cado baseia-se numa analogia manifesta ou oculta, que a metáfora desvela e dá a conhecer.» Ex.: «Amor é fogo que arde sem se ver» (Camões) Metonímia – emprego de um vocábulo por outro, com o qual estabelece uma relação de contiguidade (o continente pelo conteúdo; o lugar pelo produto, o autor pela sua obra, etc.). Ex.: «Belém mantém-se na expectativa» = O Presidente da República «amigo de Baco» = amigo do vinho Perífrase – utilização de um número de palavras maior do que o necessário para exprimir determinada ideia. Ex.: «E aqueles que por obras valorosas / Se vão da lei da morte libertando.» (Camões) Personificação – atribuição de qualidades/propriedades humanas a animais, objetos ou entidades abstratas. Ex.: «Sobre as ervas, entre as folhagens, / O vento passa, sonhador e distraído.» (Sophia de M. B. Andresen) Pleonasmo – palavra ou palavras que reforça(m) uma ideia que já está expressa. Ex.: «pera sobir acima» (Fernão Lopes) Sinédoque – transferência de significado de uma palavra para outra, numa relação que toma a parte pelo todo ou vice-versa. Ex.: «Que da Ocidental praia lusitana» (= Portugal) Trocadilho – «[…] jogo de palavras, ou jogo do equívoco, sendo que o mais comum é utilizar uma palavra recorrendo ao signo de uma outra, porque as duas são homófonas (por exemplo “conselho” por “concelho”) ou servir-se de palavras ou expressões homónimas, utilizando a sua ambiguidade de sen- tidos. Esta figura de estilo constitui um jogo verbal para tornar animado, ou para avivar um determinado momento da escrita […].»2 Ex.: Joana flores colhia. / «Jano colhia cuidados.» (Bernardim Ribeiro) 2 Dicionário de Termos Literários (Carlos Ceia)
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    336 A D. Afonso Mendes de Besteiros SéculoXIII Foi um trovador portu- guês de ascendência fidalga, nascido, provavelmente, em Santa Maria de Besteiros, atual Tondela. Pensa-se que terá participado nas campanhas guer- reiras de Afonso X (de Leão e Castela) e que terá sido forçado a exilar-se em Castela, devido à derrota de D. Sancho II, de quem era partidário. Airas Nunes Século XIII Clérigo, provavelmente galego, cuja atividade se situará nos finais do rei- nado de Afonso X e inícios do reinado de Sancho IV (1284-1289). Trovador culto, como nos indicam o seu perfeito domínio das formas e ainda o seu gosto pela citação. B Bernardo Gomes de Brito Lisboa, 1688 – depois de 1759 Foi um erudito português e destacou-se por ser o responsável pela compilação de relatos de naufrágios. Estes relatos, também conhecidos por «relações», narram naufrágios ocorridos entre 1552 e 1602 com navios portugueses. C Carlos Drummond de Andrade Itabira, 1902 – Rio de Janeiro, 1987 Foi um poeta, con- tista e cronista bra-sileiro. Começou a publicar artigos no Diário de Minas, em 1921 e em 1922 ganhou um prémio num concurso com o conto Joaquim do telhado. Em 1946, foi distinguido pela Sociedade Felipe de Oliveira, pelo conjunto da sua obra. O estilo poético de Drummond carac- teriza-se pela ironia, pelas observa- ções do quotidiano e pelo pessimismo perante a vida, acrescentando-se a estes o humor. Destacam-se algu- mas obras: Alguma poesia; Contos plausíveis; O observador no escritó- rio; Brejo das almas; História de dois amores. D D. Dinis Lisboa, 1261 – Santarém, 1325 Foi o sexto rei de Portu- gal, com o cognome o Lavrador, pelo grande impulso que deu à agricultura, e Rei-Poeta, devido à sua obra literária. Foi aclamado em Lisboa em 1279, tendo subido ao trono com 17 anos. Ao longo de 46 anos a gover- nar o Reino de Portugal e dos Algar- ves, foi um dos principais responsáveis pela criação da identidade nacional e pelo nascer da consciência de Portu- gal enquanto estado-nação. Foi grande amante das artes e das letras, tendo sido um famoso trovador. F Fernão Lopes (1380? – 1460?) Foi tabelião-geral do reino, guarda-mor da Torre do Tombo (1418- -1454) e cronista dos reis D. Pedro I, D. Fernando e D. João Ie do infante D. Fernando. Em 1434, sob o reinado de D. João I, é-lhe dada a missão de escrever as crónicas dos reis portugueses. Fernão Lopes foi con-siderado o primeiro cronista-histo- riador, tendo adotado um estilo muito particular no qual dá voz à classe social menos privilegiada: o povo. O estilo de Fernão Lopes também é caracterizado pela determinação do cronista em escrever «a nua verdade», tentando estabelecer distanciamento e isenção quanto aos factos narrados. Faleceu em Lisboa, provavelmente, em 1460. G Gil Vicente ? – depois de 1536? Desconhece-se tanto a data e local do seu nascimento como da sua morte; porém, supõe-se que terá falecido após 1536, data do último auto conhecido. Frequentou as cortes régias de D. Manuel I e D. João III. De 1502 a 1536, Gil Vicente produziu cerca de cinquenta peças de teatro e obras menores. Colaborou também no Cancioneiro geral, de Garcia de Resende, o primeiro a considerá-lo «o pai do teatro português». Chegou a publicar em vida alguns autos em fólios, mas só em 1562, postumamente, é que a sua obra foi reunida e editada pelos seus filhos Luís e Paula Vicente, com o título de Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, a qual se reparte em cinco livros. J João Garcia de Guilhade Século XIII Trovador português, natural de Guilhade, na freguesia de Milha- zes (Barcelos). Encontra-se documen- tado no segundo e terceiro quartéis do século XIII. A referência mais antiga que dele possuímos é a de um documento datado de 1239. Pelas suas composições depreende-se que terá frequentado a corte castelhana de Afonso X. Dicionário de autores
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    337 Dicionário de autores L LuísVaz de Camões ? – Lisboa, 1580 Filho de Simão Vaz de Camões e de Ana de Sá e Macedo. Desconhecem-se o local (Constância, Coimbra...?)eadata doseunascimento (que possivelmente ronda os anos de 1524, 1525). Distinguiu-se pelos seus feitos militares e pelo seu talento como poeta. Terá viajado bastante e conhecido culturas diferentes. Terá tido vários relacionamentos amorosos. Em vida, publicou Os Lusíadas, dedicado ao rei D. Sebastião. Postumamente, publicaram-se as peças teatrais – Anfitriões, juntamente com Filodemo; foi, ainda, publicada a compilação da sua poesia dispersa com o título Rimas. Morreu a 10 de junho de 1580. M Manuel Alegre Águeda, 1936 Estudou Direito na Universidade de Coim- bra, onde foi um ativo dirigente estudantil. A sua tomada de posição sobre a ditadura e a Guerra Colonial levam o regime de Salazar a chamá-lo para o serviço militar em 1961. Poemas seus, cantados, entre outros, por Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire e Luís Cília, tornam-se emblemáticos da luta pela liberdade. Regressa, finalmente, a Por- tugal a 2 de maio de 1974, dias após o 25 de Abril. Foi candidato à Presi- dência da República em 2006 e em 2011. É autor de várias obras como: Praça da canção; O canto e as armas; Um barco para Ítaca; O homem do país azul; Cão como nós. Tem edições em italiano, espanhol, alemão, catalão, francês, romeno e russo. Martim Codax Século XIII Provavelmente um jogral galego, ativo em meados ou no terceiro quartel do século XIII. É um dos dois únicos autores presentes nos cancioneiros medievais, cujas composições se con- servaram igualmente num manuscrito individual, o Pergaminho Vindel, sendo acompanhadas da respetiva notação musical. O seu apelido parece excluir a hipótese de um estatuto social ele- vado. Seria pois um jogral ou segrel, muito possivelmente ligado a Vigo, localidade repetidamente cantada nas suas composições. Miguel Esteves Cardoso Lisboa, 1955 É crítico, escritor e jornalista. Licenciou-se em Estu- dos Políticos e doutorou-se em Filosofia Política. Em 1988, foi cofundador do semanário O Independente. Em 1991, funda a revista K, que durou dois anos. De entre as suas obras destacam-se as seguintes: Escrítica pop; A causa das coisas; As minhas aventuras na Repú- blica Portuguesa; A vida inteira; Expli- cações de português; Em Portugal não se come mal; Amores e saudades de um português arreliado. N Nuno Fernandez Torneol Século XIII Pouco se sabe deste trovador do século XIII. Julga-se ter desenvolvido a sua atividade trovadoresca por meados do século XIII, muito provavelmente na corte castelhana de Fernando III ou Afonso X. P Pero da Ponte Século XIII Trovador muito pro- vavelmente galego, ativo nas cortes cas- telhanas de Fernando III e Afonso X. A sua condição de escudeiro e trova- dor é referida pelo próprio em duas composições,maséprovávelqueoseuver- dadeiro estatuto social fosse o de segrel. Autor de cantigas de amor, de amigo, de escárnio, de prantos e de uma tenção. Pero Garcia Burgalês Século XIII Trovador ou jogral castelhano, certa- mente natural de Burgos, como o seu nome indica. Até há pouco tempo, quase nada se sabia sobre a sua biografia, exceto o que se pode deduzir das suas composições, que no-lo mostram integrado na geração dos trovadores que rodeiam Afonso X. R Rui Queimado Século XIII Trovador português, ativo em meados do século XIII. A sua linhagem, certamente da pequena nobreza, está documentada na região da bacia do rio Vez, afluente do Lima, havendo também notícia da criação do trovador na localidade de S. Salvador de Sabadim (Valdevez). As suas cantigas satíricas, versando temas e personagens igualmente satirizados por autores do círculo de Afonso X, parecem indicar que esteve em Castela na década de 40. Rui Zink Lisboa, 1961 É escritor e professor universitário. Licenciou-se em Estu- dos Portugueses e obteve o grau de mestre em Cultura e Literatura Popular. Doutorou-se em Literatura Portuguesa. Atualmente, é professor auxiliar na Universidade Nova de Lisboa. Autor de vários livros, de entre os quais, ensaios e ficção, salientam-se os romances Hotel lusi- tano, Apocalipse nau, O suplente, Os surfistas e os livros de contos A reali- -dade agora a cores, Homens-aranhas e Anibaleitor.
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    338 T Tiago Salazar Lisboa, 1972 Formou-seem Rela- -ções Internacionais e estudou Guionis- moe Dramaturgia. Jornalista desde 1991, tem publica- ção dispersa pela imprensa portuguesa e brasileira. Apresentou o programa «Endereço Desconhecido», na RTP2, e é colaborador permanente da revista NS, do Diário de Notícias. Elaborou ainda guiões para televisão, foi asses- sor do gabinete de imprensa do Insti- tuto Camões e ganhou o Prémio Jovem Repórter do Centro Nacional de Cul- tura, em 1995. É ainda autor de con- tos publicados no DN Jovem e no DNa, do Diário de Notícias, no Expresso e na revista Ficções. V Vasco Graça Moura Porto, 1942 – Lisboa, 2014 Foi escritor, tradutor, advogado e político. Dirigiu a RTP2, foi administrador da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, presidente da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Fer- nando Pessoa e da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobri- mentos Portugueses e diretor do Ser- viço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian. Exerceu também a função de deputado no Parlamento Europeu. Foi nomeado, em 2012, para a presidência da Fun- dação Centro Cultural de Belém. De entre as suas obras, destacam-se as seguintes: Poesia: Uma carta no inverno; Os nossos tristes assuntos; Ensaio: Luís de Camões: alguns desafios; Sobre Camões, Gândavo e outras persona- gens; Romance: Quatro últimas can- ções; Meu amor, era de noite. Breve dicionário de símbolos (Poesia trovadoresca) Água Símbolo da harmonia amorosa entre os dois namorados. Alva Símbolo da inocência, da pureza e da virgindade. Aves Representam, com a beleza do seu can- to, a sedução e o enamoramento que podem surgir em qualquer momento. Flores/avelaneiras Símbolo da delicadeza e da feminili- dade; remetendo também para a ferti- lidade e fecundidade. Luz Deslumbramento do amor e, tal como a luz nos pode cegar, também o amor nos pode impedir de ver as situações com clarividência e com sensatez. Mar Subjetividade da tempestuosidade do mar. Este elemento pode ser aliado a uma ideia hostil por originar a sepa- ração entre os amigos no período dos Descobrimentos. Ondas Símbolo do tumulto interior. Por outro lado, as ondas são amigas e próximas, opondo-se ao mar hostil e distante. Ramos Símbolo dos laços amorosos.
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    PARA O ALUNO •Manual do Aluno • Caderno de Atividades • (OFERTA) • Simulador de Testes (OFERTA) • Apoio Internet www.mensagens10.te.pt • www.leya.com www.texto.pt IVA INCLUÍDO 6% €28,42 978-111-11-3795-3 Recomenda-se a utilização conjunta do Manual e do Caderno de Atividades para facilitar a aprendizagem e contribuir para o sucesso escolar. Estes materiais podem, no entanto, ser vendidos separadamente. PararegistonabasededadosdoMinistériodaEducaçãodeve ser inserido o ISBN da edição do aluno: 978-972-47-5302-7 AMOSTRA NÃO COMERCIALIZÁVEL PARA O PROFESSOR (EXCLUSIVO) • Manual do Professor + Desdobrável • 2 CD Áudio do Professor • DVD (representação da ) • Caderno de Apoio ao Professor • Apoio Internet www.mensagens10.te.pt • Pen App 20 Manual CD Online Farsa de Inês Pereira Auto da Feira