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O MMM NAS SÉRIES INICIAIS: O PRIMEIRO LIVRO DIDÁTICO DE MANHUCIA 
LIBERMAN 
MEDINA, Denise- denise.medina@uol.com.br1 
PUCSP 
GHEMAT-Grupo de Pesquisa em Historia da Educação Matemática do Brasil 
Entrevista concedida em dez./06 e jun./07. 
A professora Manhucia Liberman, grande referência para a 
Educação Matemática das séries inicias, nos concedeu esta entrevista, 
em seu aconchegante apartamento, em São Paulo. Lá recebe muitos 
pesquisadores interessados em sua trajetória profissional e intelectual, 
intimamente ligada à história da educação matemática brasileira. 
Nessa conversa informal, abordamos a inserção do MMM2 nas 
séries iniciais e as rupturas provocadas com a publicação do livro “Curso moderno de 
Matemática”, de autoria de Liberman, Bechara e Franchi, em relação às inovações editoriais, 
curriculares e metodológicas. 
Liberman é licenciada em Matemática pela Faculdade Nacional de Filosofia do Rio 
de Janeiro, em 1947. Ingressou no magistério público do estado de São Paulo em 1949, 
trabalhando no Serviço de Medidas e Pesquisas Educacionais do Estado. 
Foi sócia fundadora do GEEM3, onde organizou e ministrou vários cursos para 
professores das séries iniciais. Dedicou sua vida profissional ao Ensino Primário4, com a 
publicação de livros didáticos, oferecendo cursos para professores e coordenando o grupo de 
matemática que elaborou o primeiro Programa da Escola Primária do Estado de São Paulo em 
1969. 
Denise: Como sabemos, o professor Sangiorgi, de volta de seus estudos em Kansas, onde 
participou do “Summer Institute for High School and College Teachers of Mathematics”, em 
1960, articulou um convênio com a Secretaria Estadual de Educação para um curso de 
matemática moderna para professores secundários. Como foi sua adesão e participação nesse 
curso? Foi o primeiro contato com o ideário do MMM? 
1 GHEMAT-PUCSP-denise.medina@uol.com.br. 
2 Movimento da Matemática Moderna. 
3 Grupo de Estudos do Ensino da Matemática. 
4 Hoje correspondente às quatro primeiras séries do ensino fundamental.
2 
Manhucia: Há muito, eu já estava insatisfeita com o ensino da matemática... E quando saiu 
uma nota no jornal convocando os professores em período integral, no mês de agosto, com 
dispensa de ponto, eu logo me interessei. 
Éramos quase 30 professores.. Éramos poucos naquele tempo5. A escola publica era elitista. O 
único pré-requisito, é que soubéssemos inglês... Não precisava comprovar... As aulas eram em 
inglês. 
O curso foi uma oportunidade única para os professores de matemática, já que na época não 
existia mestrado ou outro tipo de especialização para educadores matemáticos. 
Denise: Com a repercussão e o entusiasmo dos participantes desse curso, foi fundado o 
GEEM, em 31 de outubro de 1961, tendo Sangiorgi como presidente e o professor George 
Springer como colaborador. O que os participantes do GEEM acreditavam? 
Manhucia: Acreditávamos que a compreensão da matemática moderna pelos novos cidadãos 
facilitaria a apropriação das novas tecnologias e contemplaria as demandas da “nova 
sociedade”. Para isso uma nova metodologia para o ensino de matemática deveria ser adotada. 
A matemática seria um instrumento para o desenvolvimento da capacidade de pensar do 
estudante, dando-lhe subsídios para entendimento da nova linguagem tecnológica. O MMM 
encontrou em Piaget fortes justificativas para a reforma no ensino de Matemática, e foi no 
Ensino Primário que a sua teoria reuniu mais adeptos. 
Denise: Concomitantemente aos cursos do GEEM, ocorriam os cursos nos Ginásios 
Vocacionais6, que uniam, em ambiente agradável, uma elite de professores de matemática, 
com grande potencial criativo e empenhado em realizar um trabalho de reformulação 
curricular no qual acreditavam, desejando mudanças no ensino de matemática. Como eram 
esses cursos? 
Manhucia: No Vocacional, estudávamos muito Piaget, o construtivismo, e no GEEM líamos 
muita bibliografia estrangeira sobre novas metodologias. 
Denise: Como surgiu a idéia da parceria profissional com Lucília Bechara e Anna Franchi? 
Como vocês se conheceram? 
5 O número de ginásios públicos no estado de São Paulo era de apenas três em 1930 e 41 em 1940. Essas poucas 
opções obrigavam os professores residentes na cidade a optar por outras cidades próximas. Só após os esforços 
para a expansão de vagas, foram criados, nos anos de 1956 e 1957, 61 novos ginásios, sendo 42 deles em prédios 
de grupos escolares já existentes. (Medina, 2007). 
6 Os Ginásios Vocacionais foram escolas pioneiras na rede pública de São Paulo nos anos 60. Continham uma 
proposta pedagógica revolucionária, que possibilitaram a implementação de uma série de inovações em relação à 
escola tradicional, com experiências na metodologia, e desenvolvimento de novos métodos, processos de 
avaliação do aluno, currículo e vínculo da comunidade com a escola. Foram extintos pelo governo militar em 
1969.
Manhucia: Eu fazia cursos e ministrava cursos no Experimental da Lapa, Grupo Escolar 
Experimental Edmundo de Carvalho, quando a Anna (Franchi) veio trabalhar lá. Comecei a 
conhecê-la e admirar seu trabalho como professora primária. Já a Lucília (Bechara), era 
professora de matemática no Vocacional e sócia do GEEM. Aí encontramos-nos. 
Denise: Quais acontecimentos a fizeram priorizar o ensino primário em sua vida profissional? 
Manhucia: A coordenação do curso primário no Colégio Peretz pode ser considerada como 
uma das muitas razões. Apesar de não ser professora primária, assumi essa função, em razão 
da experiência adquirida nos cursos oferecidos pelo GEEM. Além disso, a coordenação 
possibilitou a experimentação de novas metodologias e maior contato com as inquietações dos 
professores primários. 
Quando fui pra lá foi um “deus nos acuda”, porque as professoras não estavam acostumadas 
com as novas propostas. Nessa época, coincidentemente, o meu 2º filho foi reprovado em 
matemática, e a preocupação de mãe, aliou-se com o desejo de modificar o ensino de 
matemática. 
A nova visão que adquiri, participando do Ensino Primário dessa escola,os cursos que estava 
fazendo no Vocacional, meu trabalho de elaboração das provas de admissão do Estado de 
São Paulo, as discussões no grupo de estudo. Foi tudo um encaixe. Eu estava pré-destinada 
para o primário. 
Denise: O GEEM tornou-se referência em relação ao ensino de Matemática e foi declarado 
um órgão de serviço público, em 19637, podendo contar com apoio oficial para seus projetos. 
Desta maneira, aos professores estaduais era concedida dispensa de ponto para freqüentar os 
cursos ministrados pelo GEEM. Como surgiram os cursos para professores primários, 
oferecidos pelo GEEM? 
Manhucia: Os professores primários estavam muito inseguros, em relação aos novos 
conteúdos propostos pelo MMM, e a toda hora reivindicavam cursos de formação. 
Eu, Bechara e Franchi organizamos o primeiro curso oferecido pelo GEEM, em convênio 
com o Departamento de Educação do Estado, destinado a professores primários, em São 
Paulo no período de 5 a 15 de fevereiro de 1963. Contou com a participação de 300 
professores. O curso tinha como objetivo atualizar e introduzir conteúdos matemáticos aos 
professores. 
7 SÃO PAULO, Lei 2.663/63. 
3
4 
Denise: No contexto de expansão dos sistemas de ensino na década de 60, verificamos a 
aceleração do desenvolvimento do mercado de livros escolares. Como foi o convite da 
Companhia Editora Nacional para a elaboração do Curso Moderno de Matemática? 
Manhucia: Quem foi convidada fui eu na verdade, mas não quis fazer sozinha. Primeiro 
porque eu não era professora primária, e achei muita responsabilidade. Convidei a Lucília e a 
Anna. No secundário, o Sangiorgi, já havia lançado um livro em 1963, era preciso fazer o 
mesmo com o primário. 
Denise: Como vocês decidiram adotar a proposta estruturalista do 
MMM, com ênfase na linguagem de conjuntos? Fizeram muitas 
adaptações? 
Manhucia: Escrevemos este livro porque, sendo professoras de escola 
secundária, achamos que as crianças poderiam vir com uma bagagem 
muito melhor. Vimos à necessidade de nos voltarmos para o primário, 
pois estudamos muito Piaget e vimos que a criança poderia aprender 
pensando e fazendo. Diante da ausência de didáticos para as crianças, 
Figura 1-Capa do livro 
fomos solicitadas a escrever alguma coisa. 
Nessa época, 1963, já éramos conhecidas, pois dávamos os cursos, os professores nos 
pediram material para trabalhar. Procuramos colocar exercícios envolvendo as estruturas 
matemáticas. 
Figura 2-- Atividades com ênfase nas estruturas matemáticas, p.59 e p.121. 
Denise: E quanto às inovações na diagramação e estilo, com folhas soltas8, desenhos 
coloridos e nova distribuição de conteúdos, a capa com um formato maior e muitos desenhos, 
rompendo com o clássico. A editora incentivou sempre essas mudanças? 
8 O livro é uma publicação da Companhia Editora Nacional, com 114 páginas, trazendo inovações tanto na 
diagramação como no estilo, carregando uma nova concepção de editoração, diferenciando a publicação de todos 
os livros da época: folhas soltas, desenhos coloridos e nova distribuição de conteúdos. (MEDINA, 2007).
5 
Manhucia: Sim. Tudo que propomos foi acatado. O primeiro livro que escrevemos... Era de 
folhas soltas, o de primeira série. Eu fiz um livro de folhas soltas porque eu via as professoras 
primárias carregadas, cheias de material para corrigir em casa... Porém as professoras não 
gostaram porque tinham que organizar as folhas. É difícil agradar a todo mundo. 
Denise: O livro, lançado em fevereiro /67, com tiragem inicial de 51.849, foi um sucesso de 
vendas, superando alguns bestsellers didáticos da época. Quais as propostas inovadoras 
trazidas na publicação? 
Manhucia: Os professores já nos conheciam. Iniciávamos uma conversa com os professores. 
No prefácio procurávamos explicar a reforma para o currículo de matemática, que o momento 
era de mudanças, levando educadores a repensarem o ensino, transformando os métodos, 
técnicas e objetivos educacionais. 
Também trazia um manual para o professor, com textos que serviam para indicar os critérios 
de organização dos conteúdos e sugestões de atividades. 
As atividades foram agrupadas por objetivos, com o vocabulário específico necessário e as 
orientações de como conduzir as atividades de modo a obter resultados satisfatórios, conforme 
a tendência tecnicista9 da educação brasileira da época. 
Denise: O Guia do Mestre foi muito procurado. Em 1970, já estava 
na oitava edição com uma tiragem de 5500 exemplares. Trazia 
esclarecimento e justificação das alterações propostas. Constituído 
de prescrições sobre usos, para os professores, mostrando a forma 
que as atividades deveriam ser entendidas e manipuladas pelo 
professor. Estas características podem explicar a grande procura? 
Manhucia: A idéia era fazer um livro que facilitasse a vida do 
professor. Eles estavam muito inseguros em relação aos novos 
conteúdos e precisavam de subsídios que ensinassem como introduzir os novos conteúdos e 
sugestões de atividades. Os professores pediam muitas sugestões de atividades. 
Denise: O projeto editorial trazia grandes mudanças tanto na diagramação como no estilo, 
com muito colorido, novas formas de impressão tipográfica, desenhos variados, com gravuras 
feitas especialmente para o livro pelo ilustrador Aluízio Neves. Como os professores 
reagiram? 
9 Podemos dizer que o Tecnicismo, se baseia em princípios de racionalidade, eficiência e produtividade. Os 
professores tornam executores de medidas tomadas por especialistas.
6 
Figura 3-Atividades com figuras coloridas pertencentes ao universo infantil. P. 25, 39 e 62. 
Manhucia: Com exceção das folhas soltas, elas gostaram de tudo. 
Denise: Podemos dizer que vocês privilegiaram o método intuitivo10, concretizadas nas 
atividades que dão ênfase a observação e a experiência, por meio das ilustrações? Houve 
preocupação com os enunciados, no uso de uma linguagem adequada á compreensão dos 
alunos? 
Manhucia: A psicologia e pedagogia mostraram que as crianças aprendem de maneira 
diferente e precisam de linguagem e métodos especiais. Usamos uma linguagem fácil, 
pretendendo que o aluno fosse auto - suficiente na execução das atividades. Isso não foi 
possível: Eram crianças muito pequenas. 
Figura 4 - Enunciados curtos e simples-p. 59 e 121. 
Algumas considerações 
Analisando as edições posteriores do Curso Moderno de Matemática, verificamos grandes 
modificações. 
10 Processo de aprendizagem onde é valorizado a observação das coisas, dos objetos, da natureza, dos fenômenos 
e para a necessidade da educação dos sentidos como momentos fundamentais do processo de instrução escolar. 
(Faria Filho, 2000: 143).
7 
Uma mudança que se opera, e altera em muito a proposta anterior é o abandono do projeto do 
livro com folhas soltas. As autoras alegam que procuraram atender a solicitação das 
professoras usuárias que, na prática, perceberam a dificuldade das crianças menores com a 
organização. 
Após a conclusão do volume 2 do livro, a professora Anna Franchi saiu do grupo de autores. 
Da primeira a nona edição, verificamos grandes modificações: os conteúdos anteriormente 
previstos para os 2 volumes do primeiro ano, foram reduzidos e colocados em um único 
volume para a primeira serie. 
Tudo leva a crer que a introdução de novos usuários de livros didáticos, com menor renda, 
alavancou essa mudança. 
A coleção “Curso Moderno de Matemática” foi extinta em 1973, na 9ª edição, quando foi 
reformulada e lançada como GRUEMA (Grupo de Ensino de Matemática Atualizada), em 
1974, com oito volumes, para as oito séries do 1º Grau. 
Podemos dizer que a nova metodologia sugerida pelo livro, motivou a utilização de novos 
recursos didáticos, desde os materiais concretos e manipuláveis, até o uso de ilustrações de 
objetos próximos a realidade infantil. 
Cabe também mencionar, que a abordagem axiomática, apesar de todas as pressões 
ideológicas exercidas, talvez não tenha proliferado no Livro Curso Moderno de Matemática, 
pois sua operacionalização para crianças seria difícil e inapropriada, conforme as novas 
teorias da psicologia da aprendizagem. 
Foi o primeiro livro destinado às séries iniciais, utilizando a linguagem de conjuntos como 
elemento unificador, apresentando a Teoria de conjuntos sem ênfase ao rigor de linguagem e 
priorizando as relações entre conjuntos. 
Como o ideário do MMM era hegemônico na época, todas as diretrizes oficiais e os cursos 
oferecidos aos professores eram nele fundamentados, não parecendo haver alternativas. 
Consequentemente era esta matemática moderna cobrada nos concursos, nos livros didáticos e 
nas escolas. Logo os professores não tinham outra bibliografia acessível senão a da 
matemática moderna, que era imprescindível para o exercício da profissão. 
Podemos concluir que uma das grandes conquistas do Movimento foi à modernização e 
consolidação do mercado editorial de livros didáticos para o Ensino Primário, tendo 
professores de matemática como autores. Pela primeira vez no Brasil, matemáticos dedicaram 
sua atenção à elaboração de livros didáticos para crianças.
8 
Lembramos que a expansão do ensino público no Brasil e consequentemente, a inserção de 
milhares de professores na rede de ensino, em um curto intervalo de tempo, pediam 
estratégias rápidas de divulgação e circulação das novas propostas. 
A nova clientela, antes elitista e agora heterogênea, exigia novos materiais didáticos, o que 
foi aproveitado pela Companhia Editora Nacional como momento propício de ampliação de 
mercado. 
No Brasil, de acordo com as autoras do livro, o MMM no Ensino Primário estava ligado a 
uma proposta mais experimentalista. Logo o professor deveria assumir o papel de orientador 
das descobertas primeiramente intuitivas, que seriam sistematizadas e formalizadas 
gradativamente, sem grandes preocupações com a simbologia. 
O movimento dos professores, insistentemente reivindicando sugestões e formação, originou 
muitos cursos de formação que eram ministrados pelas autoras do Curso Moderno de 
Matemática, ocasionando a aceitação e adoção do Livro acriticamente e consequentemente 
seu enorme sucesso de vendas em todo o Brasil. 
4. BIBLIOGRAFIA 
BICCAS, M. Impresso pedagógico como objeto e fonte para a história da educação em Minas 
Gerais. In: Revista do Ensino (1925-1940). In: MORAIS, C., PORTES, Écio, 2004. 
LIBERMAN, Manhucia. Entrevista concedida à Denise Medina em 18 de dez. 2006 e 6 de 
junho de 2007. 
______________. Curso moderno de matemática para a escola elementar. São Paulo: Editora 
Nacional, 1967. 
MEDINA, Denise. A produção oficial do movimento da matemática moderna para o ensino 
primário do estado de São Paulo (1960-1980). Dissertação (Mestrado em Matemática). 
Departamento de Matemática, PUC-SP, 2007. 
VALENTE, W. R. A matemática na escola: um tema para a história da educação. IN: 
MOREIRA, D.; MATOS, J. M. História do Ensino da Matemática em Portugal. Lisboa: 
Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação, 2005. p. 21-32. 
__________.Projeto GHEMAT/CNPq. A matemática Moderna nas séries iniciais. São Paulo, 
2007. 
VILLELA, L. Mapa de edições de livros didáticos de matemática - Cia. Editora Nacional, 
1964-1978. São Paulo: GHEMAT-PUC, 2007 (mimeo).

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Entrevista manhucia liberman

  • 1. O MMM NAS SÉRIES INICIAIS: O PRIMEIRO LIVRO DIDÁTICO DE MANHUCIA LIBERMAN MEDINA, Denise- denise.medina@uol.com.br1 PUCSP GHEMAT-Grupo de Pesquisa em Historia da Educação Matemática do Brasil Entrevista concedida em dez./06 e jun./07. A professora Manhucia Liberman, grande referência para a Educação Matemática das séries inicias, nos concedeu esta entrevista, em seu aconchegante apartamento, em São Paulo. Lá recebe muitos pesquisadores interessados em sua trajetória profissional e intelectual, intimamente ligada à história da educação matemática brasileira. Nessa conversa informal, abordamos a inserção do MMM2 nas séries iniciais e as rupturas provocadas com a publicação do livro “Curso moderno de Matemática”, de autoria de Liberman, Bechara e Franchi, em relação às inovações editoriais, curriculares e metodológicas. Liberman é licenciada em Matemática pela Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro, em 1947. Ingressou no magistério público do estado de São Paulo em 1949, trabalhando no Serviço de Medidas e Pesquisas Educacionais do Estado. Foi sócia fundadora do GEEM3, onde organizou e ministrou vários cursos para professores das séries iniciais. Dedicou sua vida profissional ao Ensino Primário4, com a publicação de livros didáticos, oferecendo cursos para professores e coordenando o grupo de matemática que elaborou o primeiro Programa da Escola Primária do Estado de São Paulo em 1969. Denise: Como sabemos, o professor Sangiorgi, de volta de seus estudos em Kansas, onde participou do “Summer Institute for High School and College Teachers of Mathematics”, em 1960, articulou um convênio com a Secretaria Estadual de Educação para um curso de matemática moderna para professores secundários. Como foi sua adesão e participação nesse curso? Foi o primeiro contato com o ideário do MMM? 1 GHEMAT-PUCSP-denise.medina@uol.com.br. 2 Movimento da Matemática Moderna. 3 Grupo de Estudos do Ensino da Matemática. 4 Hoje correspondente às quatro primeiras séries do ensino fundamental.
  • 2. 2 Manhucia: Há muito, eu já estava insatisfeita com o ensino da matemática... E quando saiu uma nota no jornal convocando os professores em período integral, no mês de agosto, com dispensa de ponto, eu logo me interessei. Éramos quase 30 professores.. Éramos poucos naquele tempo5. A escola publica era elitista. O único pré-requisito, é que soubéssemos inglês... Não precisava comprovar... As aulas eram em inglês. O curso foi uma oportunidade única para os professores de matemática, já que na época não existia mestrado ou outro tipo de especialização para educadores matemáticos. Denise: Com a repercussão e o entusiasmo dos participantes desse curso, foi fundado o GEEM, em 31 de outubro de 1961, tendo Sangiorgi como presidente e o professor George Springer como colaborador. O que os participantes do GEEM acreditavam? Manhucia: Acreditávamos que a compreensão da matemática moderna pelos novos cidadãos facilitaria a apropriação das novas tecnologias e contemplaria as demandas da “nova sociedade”. Para isso uma nova metodologia para o ensino de matemática deveria ser adotada. A matemática seria um instrumento para o desenvolvimento da capacidade de pensar do estudante, dando-lhe subsídios para entendimento da nova linguagem tecnológica. O MMM encontrou em Piaget fortes justificativas para a reforma no ensino de Matemática, e foi no Ensino Primário que a sua teoria reuniu mais adeptos. Denise: Concomitantemente aos cursos do GEEM, ocorriam os cursos nos Ginásios Vocacionais6, que uniam, em ambiente agradável, uma elite de professores de matemática, com grande potencial criativo e empenhado em realizar um trabalho de reformulação curricular no qual acreditavam, desejando mudanças no ensino de matemática. Como eram esses cursos? Manhucia: No Vocacional, estudávamos muito Piaget, o construtivismo, e no GEEM líamos muita bibliografia estrangeira sobre novas metodologias. Denise: Como surgiu a idéia da parceria profissional com Lucília Bechara e Anna Franchi? Como vocês se conheceram? 5 O número de ginásios públicos no estado de São Paulo era de apenas três em 1930 e 41 em 1940. Essas poucas opções obrigavam os professores residentes na cidade a optar por outras cidades próximas. Só após os esforços para a expansão de vagas, foram criados, nos anos de 1956 e 1957, 61 novos ginásios, sendo 42 deles em prédios de grupos escolares já existentes. (Medina, 2007). 6 Os Ginásios Vocacionais foram escolas pioneiras na rede pública de São Paulo nos anos 60. Continham uma proposta pedagógica revolucionária, que possibilitaram a implementação de uma série de inovações em relação à escola tradicional, com experiências na metodologia, e desenvolvimento de novos métodos, processos de avaliação do aluno, currículo e vínculo da comunidade com a escola. Foram extintos pelo governo militar em 1969.
  • 3. Manhucia: Eu fazia cursos e ministrava cursos no Experimental da Lapa, Grupo Escolar Experimental Edmundo de Carvalho, quando a Anna (Franchi) veio trabalhar lá. Comecei a conhecê-la e admirar seu trabalho como professora primária. Já a Lucília (Bechara), era professora de matemática no Vocacional e sócia do GEEM. Aí encontramos-nos. Denise: Quais acontecimentos a fizeram priorizar o ensino primário em sua vida profissional? Manhucia: A coordenação do curso primário no Colégio Peretz pode ser considerada como uma das muitas razões. Apesar de não ser professora primária, assumi essa função, em razão da experiência adquirida nos cursos oferecidos pelo GEEM. Além disso, a coordenação possibilitou a experimentação de novas metodologias e maior contato com as inquietações dos professores primários. Quando fui pra lá foi um “deus nos acuda”, porque as professoras não estavam acostumadas com as novas propostas. Nessa época, coincidentemente, o meu 2º filho foi reprovado em matemática, e a preocupação de mãe, aliou-se com o desejo de modificar o ensino de matemática. A nova visão que adquiri, participando do Ensino Primário dessa escola,os cursos que estava fazendo no Vocacional, meu trabalho de elaboração das provas de admissão do Estado de São Paulo, as discussões no grupo de estudo. Foi tudo um encaixe. Eu estava pré-destinada para o primário. Denise: O GEEM tornou-se referência em relação ao ensino de Matemática e foi declarado um órgão de serviço público, em 19637, podendo contar com apoio oficial para seus projetos. Desta maneira, aos professores estaduais era concedida dispensa de ponto para freqüentar os cursos ministrados pelo GEEM. Como surgiram os cursos para professores primários, oferecidos pelo GEEM? Manhucia: Os professores primários estavam muito inseguros, em relação aos novos conteúdos propostos pelo MMM, e a toda hora reivindicavam cursos de formação. Eu, Bechara e Franchi organizamos o primeiro curso oferecido pelo GEEM, em convênio com o Departamento de Educação do Estado, destinado a professores primários, em São Paulo no período de 5 a 15 de fevereiro de 1963. Contou com a participação de 300 professores. O curso tinha como objetivo atualizar e introduzir conteúdos matemáticos aos professores. 7 SÃO PAULO, Lei 2.663/63. 3
  • 4. 4 Denise: No contexto de expansão dos sistemas de ensino na década de 60, verificamos a aceleração do desenvolvimento do mercado de livros escolares. Como foi o convite da Companhia Editora Nacional para a elaboração do Curso Moderno de Matemática? Manhucia: Quem foi convidada fui eu na verdade, mas não quis fazer sozinha. Primeiro porque eu não era professora primária, e achei muita responsabilidade. Convidei a Lucília e a Anna. No secundário, o Sangiorgi, já havia lançado um livro em 1963, era preciso fazer o mesmo com o primário. Denise: Como vocês decidiram adotar a proposta estruturalista do MMM, com ênfase na linguagem de conjuntos? Fizeram muitas adaptações? Manhucia: Escrevemos este livro porque, sendo professoras de escola secundária, achamos que as crianças poderiam vir com uma bagagem muito melhor. Vimos à necessidade de nos voltarmos para o primário, pois estudamos muito Piaget e vimos que a criança poderia aprender pensando e fazendo. Diante da ausência de didáticos para as crianças, Figura 1-Capa do livro fomos solicitadas a escrever alguma coisa. Nessa época, 1963, já éramos conhecidas, pois dávamos os cursos, os professores nos pediram material para trabalhar. Procuramos colocar exercícios envolvendo as estruturas matemáticas. Figura 2-- Atividades com ênfase nas estruturas matemáticas, p.59 e p.121. Denise: E quanto às inovações na diagramação e estilo, com folhas soltas8, desenhos coloridos e nova distribuição de conteúdos, a capa com um formato maior e muitos desenhos, rompendo com o clássico. A editora incentivou sempre essas mudanças? 8 O livro é uma publicação da Companhia Editora Nacional, com 114 páginas, trazendo inovações tanto na diagramação como no estilo, carregando uma nova concepção de editoração, diferenciando a publicação de todos os livros da época: folhas soltas, desenhos coloridos e nova distribuição de conteúdos. (MEDINA, 2007).
  • 5. 5 Manhucia: Sim. Tudo que propomos foi acatado. O primeiro livro que escrevemos... Era de folhas soltas, o de primeira série. Eu fiz um livro de folhas soltas porque eu via as professoras primárias carregadas, cheias de material para corrigir em casa... Porém as professoras não gostaram porque tinham que organizar as folhas. É difícil agradar a todo mundo. Denise: O livro, lançado em fevereiro /67, com tiragem inicial de 51.849, foi um sucesso de vendas, superando alguns bestsellers didáticos da época. Quais as propostas inovadoras trazidas na publicação? Manhucia: Os professores já nos conheciam. Iniciávamos uma conversa com os professores. No prefácio procurávamos explicar a reforma para o currículo de matemática, que o momento era de mudanças, levando educadores a repensarem o ensino, transformando os métodos, técnicas e objetivos educacionais. Também trazia um manual para o professor, com textos que serviam para indicar os critérios de organização dos conteúdos e sugestões de atividades. As atividades foram agrupadas por objetivos, com o vocabulário específico necessário e as orientações de como conduzir as atividades de modo a obter resultados satisfatórios, conforme a tendência tecnicista9 da educação brasileira da época. Denise: O Guia do Mestre foi muito procurado. Em 1970, já estava na oitava edição com uma tiragem de 5500 exemplares. Trazia esclarecimento e justificação das alterações propostas. Constituído de prescrições sobre usos, para os professores, mostrando a forma que as atividades deveriam ser entendidas e manipuladas pelo professor. Estas características podem explicar a grande procura? Manhucia: A idéia era fazer um livro que facilitasse a vida do professor. Eles estavam muito inseguros em relação aos novos conteúdos e precisavam de subsídios que ensinassem como introduzir os novos conteúdos e sugestões de atividades. Os professores pediam muitas sugestões de atividades. Denise: O projeto editorial trazia grandes mudanças tanto na diagramação como no estilo, com muito colorido, novas formas de impressão tipográfica, desenhos variados, com gravuras feitas especialmente para o livro pelo ilustrador Aluízio Neves. Como os professores reagiram? 9 Podemos dizer que o Tecnicismo, se baseia em princípios de racionalidade, eficiência e produtividade. Os professores tornam executores de medidas tomadas por especialistas.
  • 6. 6 Figura 3-Atividades com figuras coloridas pertencentes ao universo infantil. P. 25, 39 e 62. Manhucia: Com exceção das folhas soltas, elas gostaram de tudo. Denise: Podemos dizer que vocês privilegiaram o método intuitivo10, concretizadas nas atividades que dão ênfase a observação e a experiência, por meio das ilustrações? Houve preocupação com os enunciados, no uso de uma linguagem adequada á compreensão dos alunos? Manhucia: A psicologia e pedagogia mostraram que as crianças aprendem de maneira diferente e precisam de linguagem e métodos especiais. Usamos uma linguagem fácil, pretendendo que o aluno fosse auto - suficiente na execução das atividades. Isso não foi possível: Eram crianças muito pequenas. Figura 4 - Enunciados curtos e simples-p. 59 e 121. Algumas considerações Analisando as edições posteriores do Curso Moderno de Matemática, verificamos grandes modificações. 10 Processo de aprendizagem onde é valorizado a observação das coisas, dos objetos, da natureza, dos fenômenos e para a necessidade da educação dos sentidos como momentos fundamentais do processo de instrução escolar. (Faria Filho, 2000: 143).
  • 7. 7 Uma mudança que se opera, e altera em muito a proposta anterior é o abandono do projeto do livro com folhas soltas. As autoras alegam que procuraram atender a solicitação das professoras usuárias que, na prática, perceberam a dificuldade das crianças menores com a organização. Após a conclusão do volume 2 do livro, a professora Anna Franchi saiu do grupo de autores. Da primeira a nona edição, verificamos grandes modificações: os conteúdos anteriormente previstos para os 2 volumes do primeiro ano, foram reduzidos e colocados em um único volume para a primeira serie. Tudo leva a crer que a introdução de novos usuários de livros didáticos, com menor renda, alavancou essa mudança. A coleção “Curso Moderno de Matemática” foi extinta em 1973, na 9ª edição, quando foi reformulada e lançada como GRUEMA (Grupo de Ensino de Matemática Atualizada), em 1974, com oito volumes, para as oito séries do 1º Grau. Podemos dizer que a nova metodologia sugerida pelo livro, motivou a utilização de novos recursos didáticos, desde os materiais concretos e manipuláveis, até o uso de ilustrações de objetos próximos a realidade infantil. Cabe também mencionar, que a abordagem axiomática, apesar de todas as pressões ideológicas exercidas, talvez não tenha proliferado no Livro Curso Moderno de Matemática, pois sua operacionalização para crianças seria difícil e inapropriada, conforme as novas teorias da psicologia da aprendizagem. Foi o primeiro livro destinado às séries iniciais, utilizando a linguagem de conjuntos como elemento unificador, apresentando a Teoria de conjuntos sem ênfase ao rigor de linguagem e priorizando as relações entre conjuntos. Como o ideário do MMM era hegemônico na época, todas as diretrizes oficiais e os cursos oferecidos aos professores eram nele fundamentados, não parecendo haver alternativas. Consequentemente era esta matemática moderna cobrada nos concursos, nos livros didáticos e nas escolas. Logo os professores não tinham outra bibliografia acessível senão a da matemática moderna, que era imprescindível para o exercício da profissão. Podemos concluir que uma das grandes conquistas do Movimento foi à modernização e consolidação do mercado editorial de livros didáticos para o Ensino Primário, tendo professores de matemática como autores. Pela primeira vez no Brasil, matemáticos dedicaram sua atenção à elaboração de livros didáticos para crianças.
  • 8. 8 Lembramos que a expansão do ensino público no Brasil e consequentemente, a inserção de milhares de professores na rede de ensino, em um curto intervalo de tempo, pediam estratégias rápidas de divulgação e circulação das novas propostas. A nova clientela, antes elitista e agora heterogênea, exigia novos materiais didáticos, o que foi aproveitado pela Companhia Editora Nacional como momento propício de ampliação de mercado. No Brasil, de acordo com as autoras do livro, o MMM no Ensino Primário estava ligado a uma proposta mais experimentalista. Logo o professor deveria assumir o papel de orientador das descobertas primeiramente intuitivas, que seriam sistematizadas e formalizadas gradativamente, sem grandes preocupações com a simbologia. O movimento dos professores, insistentemente reivindicando sugestões e formação, originou muitos cursos de formação que eram ministrados pelas autoras do Curso Moderno de Matemática, ocasionando a aceitação e adoção do Livro acriticamente e consequentemente seu enorme sucesso de vendas em todo o Brasil. 4. BIBLIOGRAFIA BICCAS, M. Impresso pedagógico como objeto e fonte para a história da educação em Minas Gerais. In: Revista do Ensino (1925-1940). In: MORAIS, C., PORTES, Écio, 2004. LIBERMAN, Manhucia. Entrevista concedida à Denise Medina em 18 de dez. 2006 e 6 de junho de 2007. ______________. Curso moderno de matemática para a escola elementar. São Paulo: Editora Nacional, 1967. MEDINA, Denise. A produção oficial do movimento da matemática moderna para o ensino primário do estado de São Paulo (1960-1980). Dissertação (Mestrado em Matemática). Departamento de Matemática, PUC-SP, 2007. VALENTE, W. R. A matemática na escola: um tema para a história da educação. IN: MOREIRA, D.; MATOS, J. M. História do Ensino da Matemática em Portugal. Lisboa: Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação, 2005. p. 21-32. __________.Projeto GHEMAT/CNPq. A matemática Moderna nas séries iniciais. São Paulo, 2007. VILLELA, L. Mapa de edições de livros didáticos de matemática - Cia. Editora Nacional, 1964-1978. São Paulo: GHEMAT-PUC, 2007 (mimeo).