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 Surgimento: Europa, meados do século XVI - Brasil, início do século XVII. (Lembrar
   que, no Brasil, a literatura barroca acaba no século XVII, junto com o declínio da
   sociedade açucareira baiana. Contudo, na arquitetura e nas artes plásticas, o estilo
   barroco atingirá o seu apogeu apenas nos séculos XVIII e início do XIX, em Minas
   Gerais.)


a) Duração no Brasil: 1601 a 1768 (todo o século XVII e mais da metade do século
   XVIII).

b) Obra inauguradora: Prosopopéia, poema épico de Bento Teixeira.

c) Outros nomes para o movimento:

Seiscentismo: em homenagem aos anos de 1600 no Brasil.
Grupo Baiano: no Brasil, o Barroco literário desenvolve-se na Bahia (Salvador).
Gongorismo: em homenagem a Luiz de Gôngora; é também a denominação do
   Barroco na Espanha.
a) CULTISMO ou GONGORISMO ("como dizer") - É o jogo de
   palavras; é o rebuscamento da forma, é a obsessão pela linguagem
   culta, erudita. Viram moda a inversão da frase (hipérbato) e o uso
   de palavras difíceis.

 É o abuso no emprego de três figuras de linguagem: a metáfora, a
  antítese e o hipérbato.


 O principal cultista do barroco mundial é o espanhol Luiz de
  Gôngora. No Brasil, Gregório de Matos.
b) CONCEPTISMO ("o que dizer") - É o aspecto
construtivo do Barroco, voltado para o jogo das idéias e
dos conceitos.

  É a preocupação com as associações inesperadas,
seguindo um raciocínio lógico, racionalista.

  O principal conceptista do barroco mundial é o
espanhol Francisco de Quevedo. No Brasil, padre Antônio
Vieira.
 TEOCENTRISMO x ANTROPOCENTRISMO - O rebusca-mento da arte
barroca é reflexo do dilema em que vive o homem do seiscentismo (os anos de
1600). Daí as preferências por temas opostos: espírito e matéria, perdão e
pecado, bem e mal, céu e inferno. Tudo isso gera a preocupação com a brevidade
da vida (carpe diem)

Conflito entre corpo e alma. Dividido entre os prazeres renascentistas e o fervor
religioso, o homem barroco oscila entre:

 A celebração do corpo, da vida terrena, do gozo mundano e do pecado;

Os cuidados com a alma visando à graça divina e à salvação para a vida eterna.
   Gregório de Matos Guerra nasceu na Bahia, filho de família
    abastada e poderosa, de fortes raízes em Portugal. Fez seus
    primeiros estudos no colégio jesuítico da Bahia. Com dezesseis
    anos, ingressou na Universidade de Coimbra, onde viria a se
    formar em Direito. No ano de 1663, tornou-se juiz, sendo
    nomeado para um lugarejo do interior português. Em seguida,
    tornou-se juiz em Lisboa, casando-se com a filha de um
    importante magistrado e da qual enviuvou em 1678. Retornaria ao
    Brasil já com quarenta e seis anos, recebendo a tonsura (ordens
    eclesiásticas menores) e assim virando padre. Dois anos depois foi
    destituído da condição clerical por levar uma "vida sem modo de
    cristão".
   Poesia religiosa: O exemplo mais conhecido de
    sua literatura sacra é o soneto A Jesus Cristo
    Nosso Senhor. Numa curiosa dialética
    (discussão), o poeta apela para a infinita
    capacidade de Cristo em redimir os piores
    pecadores, alegando que a ausência de perdão
    representaria o fim da glória divina. Trata-se,
    pois, de um poema simultaneamente contrito e
    desafiador, humilde e presunçoso.
A Jesus Cristo nosso senhor

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,
     Da vossa alta clemência me despido;
    Porque quanto mais tenho delinqüido,
    Vos tenho a perdoar mais empenhado.

     Se basta a vos irar tanto pecado,
    A abrandar-vos sobeja* um só gemido:
   Que a mesma culpa que vos há ofendido,
      Vos tem para o perdão lisonjeado.

    Se uma ovelha perdida e já cobrada
       Glória tal e prazer tão repentino
   Vos deu, como afirmais na sacra história,

   Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
   Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
    Perder na vossa ovelha a vossa glória.
                                               * Sobeja: basta.
   Poesia amorosa: Exemplo dessa perspectiva é um
    dos sonetos dedicados a D. Ângela, provável objeto
    da paixão do poeta e que o teria rejeitado por outro
    pretendente. Observe-se o jogo de aproximações
    entre as palavras anjo e flor para designar a amada.
    Observe-se também que, ao mesmo tempo tais
    vocábulos possuem um caráter contraditório (anjo =
    eternidade; flor = brevidade). Como sugere um
    crítico, esta duplicidade de Angélica lança o poeta
    em tensão e quase desespero ("Sois Anjo, que me
    tenta, e não me guarda.")
Anjo no nome, Angélica na cara!
  Isso é ser flor, e Anjo juntamente:
  Ser Angélica flor, e Anjo florente*
Em quem, senão em vós, se uniformara?
Quem vira uma tal flor, que a não cortara,
   De verde pé, da rama florescente?
   A quem um Anjo vira tão luzente
  Que por seu Deus o não idolatrara?
Se pois como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio*, e minha guarda,
    Livrara eu de diabólicos azares.
  Mas vejo que tão bela, e tão galharda,
 Posto que* os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

                                            * Florente: florido.
                                            * Custódio: defesa
                                        * Posto que: ainda que.
   Poesia obscena-satírica: Na poesia obscena-
    satírica, Gregório de Matos não apresenta
    qualquer requinte voluptuoso. Sua visão do amor
    físico é agressiva e galhofeira. Quer despertar o
    riso ou o comentário maldoso da platéia. Por isso,
    manifesta desprezo pela concepção cristã do
    amor que envolve a camada espiritual.
O amor é finalmente
  um embaraço de pernas,
   uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
  Uma confusão de bocas,
    uma batalha de veias,
    um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta.
Se Pica-flor me chamais,
    Pica-flor aceito ser,
   mas resta agora saber,
 se no nome, que me dais,
meteis a flor, que guardais
  no passarinho melhor!
   se me dais este favor,
 sendo só de mim o Pica,
e o mais vosso, claro fica,
  que fico então Pica-flor.
   Poesia satírica: Contra tal ordem de coisas, contra
    este novo mundo, que revirou todos os princípios
    e hierarquias, que pôs tudo de cabeça para baixo,
    que está afundando a sua classe, ele vai protestar.
    O protesto dá-se através da linguagem poética,
    transformada quase sempre em caricatura, ofensa,
    praguejar, explosões de um cinismo cru e sem
    piedade. O gosto do poeta pelo insulto leva-o a
    acentuar os aspectos grotescos dos indivíduos e
    do contexto baiano.
A cada canto um grande conselheiro,
                            Quer nos governar cabana e vinha, *
                              Não sabem governar sua cozinha,
                             E podem governar o mundo inteiro.
                             Em cada porta um freqüente olheiro,
                              Que a vida do vizinho, e da vizinha
                           Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
                             Para a levar à Praça e ao Terreiro.
                                Muitos mulatos desavergonhados
                              Trazidos pelos pés os homens nobres,
                               Posta nas palmas toda a picardia.*

                             Estupendas usuras* nos mercados,
                             Todos os que não furtam muito pobres:
                                 E eis aqui a cidade da Bahia.
Cabana e vinha: no sentido de negócios particulares.
 Picardia: esperteza ou desconsideração.
 Usuras: juros ou lucros exagerados.
   Nasceu em Lisboa e veio menino (seis anos) para
    a Bahia com seu pai, alto funcionário da Coroa.
    Estudou no colégio dos jesuítas, onde brotaria
    sua vocação sacerdotal, ordenando-se aos 26
    anos. Em 1640, prega o seu audacioso sermão
    Contra as armas de Holanda. No ano seguinte, já
    reconhecido, volta para Lisboa, tornando-se o
    grande pregador da Corte. Entre os seus
    aficionados, encontrava-se o jovem rei D. João
    IV. A pedido dele executou várias funções
    políticas e diplomáticas.
   Crítica aos pregadores cultistas: No conhecido
    Sermão da Sexagésima, fulmina a linguagem
    rebuscada e defende a argumentação clara e
    harmoniosa. O principal alvo de sua crítica são os
    pregadores cultistas, com seu artificialismo e seu
    gosto exagerado pela antítese.
“O pregar há de ser como quem semeia e não como quem
  ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas. Não
  fez Deus o céu em xadrez de estrelas como os pregadores
  fazem o sermão em xadrez de estrelas. Se de uma parte
  está branco, da outra há de estar negro; se de uma parte
  está dia, da outra há de estar noite; se de uma parte dizem
  luz, da outra hão de dizer sombra; de uma parte dizem
  desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não
  havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas
  hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário.
  Aprendamos do céu o estilo da disposição e também o das
  palavras. Como hão de ser as palavras? Como as estrelas.
  As estrelas são muito distintas e claras. Assim há de ser o
  estilo do pregador, muito distinto e muito claro.”

                                   (Fragmento do sermão da sexagésima)
   Temas religiosos: O interesse pela existência
    cotidiana da Colônia e pelo futuro histórico de
    Portugal não impedem Vieira de desenvolver uma
    oratória estritamente religiosa, onde as questões
    da morte e da eternidade avultam a todo
    momento.
“Duas coisas a Igreja prega hoje a todos os mortais: ambas
  grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas
  uma de tal maneira certa, e evidente, que não é necessário
  entendimento para a crer; outra de tal maneira certa, e
  dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar.
  Uma é presente, outra futura. (...) E que duas coisas enigmáticas
  são estas? Pulvis es et in pulverem reverteris. Sois pó e em pó
  vos haveis de converter. Sois pó é a presente. Em pó vos haveis
  de converter é a futura. (...)
Ora suposto que já somos pó e não pode deixar de ser, pois Deus o
  disse; perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos
  distinguimos os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós
  também somos pó. Distinguimo-nos, os vivos dos mortos,
  assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado,
  os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são
  pó que jaz.”

   (Fragmento do Sermão de Quarta-feira de Cinzas, pregado em Roma, no ano de 1672)
   O Olhar sobre a Vida Concreta: Inúmeros outros
    sermões desse padre jesuíta partem de alusões
    religiosas para comentar criticamente aspectos da
    sociedade brasileira ou portuguesa, mostrando
    sua profunda relação com a vida pública.
    Implacável inimigo dos corruptos, fulminou-os
    no Sermão do bom ladrão, apresentado diante de
    D. João IV, em 1655.
“Não são só ladrões - diz o Santo - os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para
   lhe colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles
   a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a
   administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os
   pobres. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam
   debaixo de seu risco, estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes
   furtam e enforcam. Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu
   que uma grande tropa de varas (juízes) e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões e
   começou a bradar: "Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos." Ditosa Grécia que tinha
   tal pregador! Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um
   carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul ou ditador por ter roubado uma
   província.”

                                                     (Fragmento do Sermão do bom ladrão, apresentado diante de D. João IV, em 1655)
A Questão do Escravismo: A ambigüidade de Vieira é visível
  no problema da escravatura. Como intelectual e homem de
  ação envolve-se na luta em defesa dos índios contra os
  colonos que desejavam aprisioná-los. É odiado pelos
  grandes proprietários que o tem como o maior inimigo.
  Contraditoriamente, não manifesta o mesmo ardor contra a
  escravidão de africanos, chegando a requerer a substituição
  dos escravos índios por negros. No entanto, ao ver as
  torturas e humilhações aplicadas aos últimos no Brasil, é
  tomado de ira santa, atacando os senhores rurais e
  comparando os sofrimentos dos cativos ao sofrimento de
  Cristo.
Embora isso hoje pareça hipocrisia ou ideologia justificatória
  do escravismo, na época tal pregação tinha um fundo
  sentido subversivo porque conferia aos escravos uma
  condição humana (em oposição á desumanidade dos
  senhores) e oferecia-lhes um passaporte para a eternidade,
  negada aos que os brutalizavam.
“Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos
   e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando
   em ouro e prata, os escravos carregados de ferros; os senhores tratando-os como brutos,
   os escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os senhores em pé apontando para
   o açoite, como estátuas da soberba e da tirania, os escravos prostrados com as mãos
   atadas atrás, como imagens valíssimas da servidão e espetáculos de extrema miséria. Oh
   Deus! Quantas graças devemos à Fé que nos destes, porque só ela cativa o entendimento
   para que, à vista destas desigualdades, reconheçamos contudo vossa justiça e
   providência! Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas
   não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e
   morrem com os nossos? Não respiram o mesmo ar? Não os aquenta o mesmo sol? Que
   estrela é logo aquela que os domina tão triste, tão inimiga, tão cruel?”
                                                             (Fragmento do Sermão Vigésimo Sétimo)

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Barroco

  • 1.  Surgimento: Europa, meados do século XVI - Brasil, início do século XVII. (Lembrar que, no Brasil, a literatura barroca acaba no século XVII, junto com o declínio da sociedade açucareira baiana. Contudo, na arquitetura e nas artes plásticas, o estilo barroco atingirá o seu apogeu apenas nos séculos XVIII e início do XIX, em Minas Gerais.) a) Duração no Brasil: 1601 a 1768 (todo o século XVII e mais da metade do século XVIII). b) Obra inauguradora: Prosopopéia, poema épico de Bento Teixeira. c) Outros nomes para o movimento: Seiscentismo: em homenagem aos anos de 1600 no Brasil. Grupo Baiano: no Brasil, o Barroco literário desenvolve-se na Bahia (Salvador). Gongorismo: em homenagem a Luiz de Gôngora; é também a denominação do Barroco na Espanha.
  • 2. a) CULTISMO ou GONGORISMO ("como dizer") - É o jogo de palavras; é o rebuscamento da forma, é a obsessão pela linguagem culta, erudita. Viram moda a inversão da frase (hipérbato) e o uso de palavras difíceis.  É o abuso no emprego de três figuras de linguagem: a metáfora, a antítese e o hipérbato.  O principal cultista do barroco mundial é o espanhol Luiz de Gôngora. No Brasil, Gregório de Matos.
  • 3. b) CONCEPTISMO ("o que dizer") - É o aspecto construtivo do Barroco, voltado para o jogo das idéias e dos conceitos. É a preocupação com as associações inesperadas, seguindo um raciocínio lógico, racionalista. O principal conceptista do barroco mundial é o espanhol Francisco de Quevedo. No Brasil, padre Antônio Vieira.
  • 4.  TEOCENTRISMO x ANTROPOCENTRISMO - O rebusca-mento da arte barroca é reflexo do dilema em que vive o homem do seiscentismo (os anos de 1600). Daí as preferências por temas opostos: espírito e matéria, perdão e pecado, bem e mal, céu e inferno. Tudo isso gera a preocupação com a brevidade da vida (carpe diem) Conflito entre corpo e alma. Dividido entre os prazeres renascentistas e o fervor religioso, o homem barroco oscila entre:  A celebração do corpo, da vida terrena, do gozo mundano e do pecado; Os cuidados com a alma visando à graça divina e à salvação para a vida eterna.
  • 5.
  • 6. Gregório de Matos Guerra nasceu na Bahia, filho de família abastada e poderosa, de fortes raízes em Portugal. Fez seus primeiros estudos no colégio jesuítico da Bahia. Com dezesseis anos, ingressou na Universidade de Coimbra, onde viria a se formar em Direito. No ano de 1663, tornou-se juiz, sendo nomeado para um lugarejo do interior português. Em seguida, tornou-se juiz em Lisboa, casando-se com a filha de um importante magistrado e da qual enviuvou em 1678. Retornaria ao Brasil já com quarenta e seis anos, recebendo a tonsura (ordens eclesiásticas menores) e assim virando padre. Dois anos depois foi destituído da condição clerical por levar uma "vida sem modo de cristão".
  • 7. Poesia religiosa: O exemplo mais conhecido de sua literatura sacra é o soneto A Jesus Cristo Nosso Senhor. Numa curiosa dialética (discussão), o poeta apela para a infinita capacidade de Cristo em redimir os piores pecadores, alegando que a ausência de perdão representaria o fim da glória divina. Trata-se, pois, de um poema simultaneamente contrito e desafiador, humilde e presunçoso.
  • 8. A Jesus Cristo nosso senhor Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado, Da vossa alta clemência me despido; Porque quanto mais tenho delinqüido, Vos tenho a perdoar mais empenhado. Se basta a vos irar tanto pecado, A abrandar-vos sobeja* um só gemido: Que a mesma culpa que vos há ofendido, Vos tem para o perdão lisonjeado. Se uma ovelha perdida e já cobrada Glória tal e prazer tão repentino Vos deu, como afirmais na sacra história, Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada, Cobrai-a; e não queirais, pastor divino, Perder na vossa ovelha a vossa glória. * Sobeja: basta.
  • 9. Poesia amorosa: Exemplo dessa perspectiva é um dos sonetos dedicados a D. Ângela, provável objeto da paixão do poeta e que o teria rejeitado por outro pretendente. Observe-se o jogo de aproximações entre as palavras anjo e flor para designar a amada. Observe-se também que, ao mesmo tempo tais vocábulos possuem um caráter contraditório (anjo = eternidade; flor = brevidade). Como sugere um crítico, esta duplicidade de Angélica lança o poeta em tensão e quase desespero ("Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.")
  • 10. Anjo no nome, Angélica na cara! Isso é ser flor, e Anjo juntamente: Ser Angélica flor, e Anjo florente* Em quem, senão em vós, se uniformara? Quem vira uma tal flor, que a não cortara, De verde pé, da rama florescente? A quem um Anjo vira tão luzente Que por seu Deus o não idolatrara? Se pois como Anjo sois dos meus altares, Fôreis o meu custódio*, e minha guarda, Livrara eu de diabólicos azares. Mas vejo que tão bela, e tão galharda, Posto que* os Anjos nunca dão pesares, Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda. * Florente: florido. * Custódio: defesa * Posto que: ainda que.
  • 11. Poesia obscena-satírica: Na poesia obscena- satírica, Gregório de Matos não apresenta qualquer requinte voluptuoso. Sua visão do amor físico é agressiva e galhofeira. Quer despertar o riso ou o comentário maldoso da platéia. Por isso, manifesta desprezo pela concepção cristã do amor que envolve a camada espiritual.
  • 12. O amor é finalmente um embaraço de pernas, uma união de barrigas, um breve tremor de artérias. Uma confusão de bocas, uma batalha de veias, um reboliço de ancas, quem diz outra coisa, é besta.
  • 13. Se Pica-flor me chamais, Pica-flor aceito ser, mas resta agora saber, se no nome, que me dais, meteis a flor, que guardais no passarinho melhor! se me dais este favor, sendo só de mim o Pica, e o mais vosso, claro fica, que fico então Pica-flor.
  • 14. Poesia satírica: Contra tal ordem de coisas, contra este novo mundo, que revirou todos os princípios e hierarquias, que pôs tudo de cabeça para baixo, que está afundando a sua classe, ele vai protestar. O protesto dá-se através da linguagem poética, transformada quase sempre em caricatura, ofensa, praguejar, explosões de um cinismo cru e sem piedade. O gosto do poeta pelo insulto leva-o a acentuar os aspectos grotescos dos indivíduos e do contexto baiano.
  • 15. A cada canto um grande conselheiro, Quer nos governar cabana e vinha, * Não sabem governar sua cozinha, E podem governar o mundo inteiro. Em cada porta um freqüente olheiro, Que a vida do vizinho, e da vizinha Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha, Para a levar à Praça e ao Terreiro. Muitos mulatos desavergonhados Trazidos pelos pés os homens nobres, Posta nas palmas toda a picardia.* Estupendas usuras* nos mercados, Todos os que não furtam muito pobres: E eis aqui a cidade da Bahia. Cabana e vinha: no sentido de negócios particulares. Picardia: esperteza ou desconsideração. Usuras: juros ou lucros exagerados.
  • 16.
  • 17. Nasceu em Lisboa e veio menino (seis anos) para a Bahia com seu pai, alto funcionário da Coroa. Estudou no colégio dos jesuítas, onde brotaria sua vocação sacerdotal, ordenando-se aos 26 anos. Em 1640, prega o seu audacioso sermão Contra as armas de Holanda. No ano seguinte, já reconhecido, volta para Lisboa, tornando-se o grande pregador da Corte. Entre os seus aficionados, encontrava-se o jovem rei D. João IV. A pedido dele executou várias funções políticas e diplomáticas.
  • 18. Crítica aos pregadores cultistas: No conhecido Sermão da Sexagésima, fulmina a linguagem rebuscada e defende a argumentação clara e harmoniosa. O principal alvo de sua crítica são os pregadores cultistas, com seu artificialismo e seu gosto exagerado pela antítese.
  • 19. “O pregar há de ser como quem semeia e não como quem ladrilha ou azuleja. Ordenado, mas como as estrelas. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas como os pregadores fazem o sermão em xadrez de estrelas. Se de uma parte está branco, da outra há de estar negro; se de uma parte está dia, da outra há de estar noite; se de uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; de uma parte dizem desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrário. Aprendamos do céu o estilo da disposição e também o das palavras. Como hão de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e claras. Assim há de ser o estilo do pregador, muito distinto e muito claro.” (Fragmento do sermão da sexagésima)
  • 20. Temas religiosos: O interesse pela existência cotidiana da Colônia e pelo futuro histórico de Portugal não impedem Vieira de desenvolver uma oratória estritamente religiosa, onde as questões da morte e da eternidade avultam a todo momento.
  • 21. “Duas coisas a Igreja prega hoje a todos os mortais: ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa, e evidente, que não é necessário entendimento para a crer; outra de tal maneira certa, e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura. (...) E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es et in pulverem reverteris. Sois pó e em pó vos haveis de converter. Sois pó é a presente. Em pó vos haveis de converter é a futura. (...) Ora suposto que já somos pó e não pode deixar de ser, pois Deus o disse; perguntar-me-eis, e com muita razão, em que nos distinguimos os vivos dos mortos? Os mortos são pó, nós também somos pó. Distinguimo-nos, os vivos dos mortos, assim como se distingue o pó do pó. Os vivos são pó levantado, os mortos são pó caído; os vivos são pó que anda, os mortos são pó que jaz.” (Fragmento do Sermão de Quarta-feira de Cinzas, pregado em Roma, no ano de 1672)
  • 22. O Olhar sobre a Vida Concreta: Inúmeros outros sermões desse padre jesuíta partem de alusões religiosas para comentar criticamente aspectos da sociedade brasileira ou portuguesa, mostrando sua profunda relação com a vida pública. Implacável inimigo dos corruptos, fulminou-os no Sermão do bom ladrão, apresentado diante de D. João IV, em 1655.
  • 23. “Não são só ladrões - diz o Santo - os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhe colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os pobres. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo de seu risco, estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam. Diógenes que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas (juízes) e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões e começou a bradar: "Lá vão os ladrões grandes enforcar os pequenos." Ditosa Grécia que tinha tal pregador! Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul ou ditador por ter roubado uma província.” (Fragmento do Sermão do bom ladrão, apresentado diante de D. João IV, em 1655)
  • 24. A Questão do Escravismo: A ambigüidade de Vieira é visível no problema da escravatura. Como intelectual e homem de ação envolve-se na luta em defesa dos índios contra os colonos que desejavam aprisioná-los. É odiado pelos grandes proprietários que o tem como o maior inimigo. Contraditoriamente, não manifesta o mesmo ardor contra a escravidão de africanos, chegando a requerer a substituição dos escravos índios por negros. No entanto, ao ver as torturas e humilhações aplicadas aos últimos no Brasil, é tomado de ira santa, atacando os senhores rurais e comparando os sofrimentos dos cativos ao sofrimento de Cristo. Embora isso hoje pareça hipocrisia ou ideologia justificatória do escravismo, na época tal pregação tinha um fundo sentido subversivo porque conferia aos escravos uma condição humana (em oposição á desumanidade dos senhores) e oferecia-lhes um passaporte para a eternidade, negada aos que os brutalizavam.
  • 25. “Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os como deuses; os senhores em pé apontando para o açoite, como estátuas da soberba e da tirania, os escravos prostrados com as mãos atadas atrás, como imagens valíssimas da servidão e espetáculos de extrema miséria. Oh Deus! Quantas graças devemos à Fé que nos destes, porque só ela cativa o entendimento para que, à vista destas desigualdades, reconheçamos contudo vossa justiça e providência! Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem com os nossos? Não respiram o mesmo ar? Não os aquenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela que os domina tão triste, tão inimiga, tão cruel?” (Fragmento do Sermão Vigésimo Sétimo)