Gil Vicente

7/3/2014

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Auto da Barca do Inferno
Gil Vicente

Auto da Barca do
Inferno
(1517, época do
Humanismo em Portugal)

7/3/2014

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Em Cena:
Duas barcas governadas: pelo Diabo, pelo Anjo.
1.ª alegoria: Diabo, o Arrais do
Inferno (alegre e irônico) e
companheiro

2.ª alegoria: Anjo, o Arrais do
Céu (lacônico e severo)
Fidalgo D. Anrique (1.ª alma)
Fidalgo: - Esta barca onde vai ora
que assi está apercebida?
(...)
Diabo: - Pera o Inferno, senhor.
(...)
Fidalgo: - E passageiros achais
pera tal habitação?
Diabo: Vejo-vos eu com feição
pera ir ao nosso cais...
Diabo: - Em que esperas ter guarida?
Fidalgo: - Que leixo na outra vida
Quem reze sempre por mi.
Diabo: - Quem reze sempre por ti?...
Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...
E tu viveste a teu prazer,
cuidando cá guarecer
por que rezam lá por ti?
Anjo: - Vós ireis mais espaçoso
com fumosa senhoria,
cuidando na tirania
do pobre povo queixoso;
e porque, de generoso,
desprezastes os pequenos,
achar-vos-eis tanto menos
quanto mais fostes fumoso.
Onzeneiro (2.ª)
Diabo : - Como tardastes vós tanto?
Onzeneiro: - Mais quisera eu lá tardar...
Na safra do apanhar
me deu Saturno quebranto
Diabo: - Ora mui muito m’espanto
não vos livrar o dinheiro!...
Onzeneiro: - Solamente pera o barqueiro
nom me leixaram nem tanto...
Anjo: - Essa barca que lá está
vai pera quem te enganou.
Onzeneiro: - Por quê?
Anjo: - Porque esse bolsão
tomará todo o navio.
Onzeneiro: - Juro a Deos que vai vazio!
Anjo: - Não já no teu coração.
(...)
Ó onzena, como és fea
e filha de maldição!
Diabo: - Entra, entra! Remarás!
Nom percamos mais maré!
Onzeneiro: - Todavia...
Diabo: - Per forç’é!
Que te pés, cá entrarás!
Irás servir Satanás
porque sempre te ajudou.
Parvo Joane (3.ª)
Diabo: - De que morreste?
Parvo: - De quê?
Samicas de caganeira.
Diabo: - De quê?
Parvo: - De cagamerdeira.
má ravugem que te dê!
Diabo: - Entra! Põe aqui o pé!
Parvo : - Hou da barca!
Anjo: - Que me queres?
(...)
Quem és tu?
Parvo: - Samica alguém.
Anjo: - Tu passarás, se quiseres;
porque em todos teus fazeres
por malícia não erraste.
Tua simpreza te baste
pera gozar dos prazeres.
Sapateiro Jam Antão (4.ª)
Sapateiro: - Hou da barca!
Diabo: - Quem vem í?
- Santo sapateiro honrado!
Como vens tão carregado?
Sapateiro: - Mandaram-me vir assi...
E pera onde é a viagem?
Diabo: - Pera o lago dos danados.
Sapateiro: - Os que morrem confessados
onde têm sua passagem?
Diabo:- Nom cures de mais linguagem!
Esta é tua barca, esta!
(...)
Sapateiro: - Como poderá isso ser,
Confessado e comungado?
Diabo: - E tu morreste excomungado:
nom o quiseste dizer.
Esperavas de viver;
calaste dous mil enganos.
Tu roubaste bem trint’anos
O povo com teu mester.
Frade, Frei Babriel (5.ª)
Frade : - Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã;
(...)
Diabo: - Que é isso, padre? Que vai lá?
Frade: - Deo Gratias! Sou cortesão.
Diabo: - Sabês também o tordião?
Frade: - Por que não? Como ora sei!
Diabo: - Pois entrai! Eu tangerei
e faremos um serão.
Essa dama, é ela vossa?
Diabo : - Fezestes bem, que é lindura!
E não vos punham lá grosa
no vosso convento santo?
Frade: - E eles fazem outro tanto!
Diabo: - Que cousa tão preciosa!
(...)
Diabo: - Pois dada está já a sentença!
(...)
Frade: - Como? Por ser namorado
e folgar com ua mulher
se há um frade de perder,
com tanto salmo rezado?
Diabo: - Ora está bem aviado!
Alcoviteira Brísida Vaz (6.ª)
Brisida: - Hou lá da barca, hou lá!
Diabo: - Quem chama?
Brisida: - Brísida Vaz.
(...)
Diabo: - Que é o qu’havês d’embarcar?
Brísida: - Seiscentos virgos postiços
e três arcas de feitiços
que não podem mais levar.
Três almários de mentir,
e cinco cofres de enlheos,
e alguns furtos alheos,
assi em jóias de vestir
guarda- roupa de encobrir,
(...)
A mor cárrega que é:
Essas moças que vendia.
Brisida: - Eu sô aquela preciosa
(...)
A que criava meninas
pera os cônegos da Sé...
(...)
Diabo: - Ora entrai, minha senhora,
e sereis bem recebida;
se vivestes santa vida,
vós o sentirês agora.
Judeu Semifará (7.ª) – é atrelado
à Barca do Inferno
Judeu: - Que vai cá? Hou marinheiro!
Diabo: - Oh! Que má-hora vieste!
Judeu: - Cuj’é esta barca que preste?
Diabo: - Esta barca é do barqueiro.
Judeu: - Passai-me por meu dinheiro.
Diabo: - E esse bode há cá de vir?
Judeu: - Pois também bode há-de ir.
Diabo: - Que escusado passageiro!
Corregedor (8.ª)
Corregedor: - Hou da barca!
Diabo: - Que quereis?
Corregedor: - Está aqui o senhor juiz?
(...)
Nom é de regulae juris, não!
(...)
Diabo: - Quando éreis ouvidor
nonne accepistis rapina?
Diabo: - Quando éreis ouvidor
nonne accipistis rapina?
(...)
A largo modo adquiristis
Sanguinis laboratorum
Ignorantes peccatorum.
(...)
Ora, entrai nos negros fados!
Procurador (9.ª)
Procurador : - Beijo-vo-las mãos, Juiz!
Que diz esse arrais? Que diz?
Diabo: - Que sereis bom remador. (...)
Procurador: - Bacharel som... Dou-me ò Demo!
(...)
Parvo: - Hou, homens dos breviairos,
rapinastis coelhorum
et pernis perdiguitorum
e mijais nos campanairos (...)
Anjo: - A justiça divinal
vos manda vir carregados
porque vades embarcados
nesse batel infernal.
Enforcado Pero de Lisboa (10.ª)
Diabo: - Venhais embora, Enforcado!
Que diz lá Garcia Moniz?
Enforcado: - (...) que fui bem-aventurado
em morrer dependurado
(...)
e diz que os feitos que fiz
me fazem canonizado.
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Cavaleiros
(vêm quatro, cantando, com a cruz)
Diabo: - Cavaleiros, vós passais
e nom perguntais onde is?
Cavaleiro: - Vós, Satanás, presumis?
Atentai com quem falais!
(...)
Diabo: - Entrai cá! Que cousa é essa?
(...)
Cavaleiro: - Quem morre por Jesu Cristo
Não vai em tal barca como essa!
E nós, para onde embarcaremos?
Até mais ...
Você decide ...
-AUTO de moralidade (alegoria,
religiosidade)
- farsa (painel social da época)
- versos redondilhos maiores
-disposição das rimas: ABBAACCA
-estrutura: único ato; cenas com
diálogos
-linguagem: típica de cada grupo
social
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1.ª alegoria: Diabo, o Arrais do
Inferno (alegre e irônico) e
companheiro

- Fidalgo D. Anrique (1.ª alma)
- Onzeneiro (2.ª)
- Sapateiro Jam Antão (4.ª)
- Frade, Frei Babriel (5.ª)
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- Alcoviteira Brísida Vaz (6.ª)
- Judeu Semifará (7.ª) – é
atrelado à Barca do Inferno
- Corregedor (8.ª)
- Procurador (9.ª)
- Enforcado Pero de Lisboa (10.ª)
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2.ª alegoria: Anjo, o Arrais do
Céu (lacônico e severo)
- Parvo Joane (3.ª)
- 4 Cavaleiros (11.ª)

E assi embarcam.
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Auto da barca do inferno

  • 1.
  • 2.
    Auto da Barcado Inferno
  • 3.
    Gil Vicente Auto daBarca do Inferno (1517, época do Humanismo em Portugal) 7/3/2014 3
  • 4.
    Em Cena: Duas barcasgovernadas: pelo Diabo, pelo Anjo.
  • 5.
    1.ª alegoria: Diabo,o Arrais do Inferno (alegre e irônico) e companheiro 2.ª alegoria: Anjo, o Arrais do Céu (lacônico e severo)
  • 6.
    Fidalgo D. Anrique(1.ª alma)
  • 7.
    Fidalgo: - Estabarca onde vai ora que assi está apercebida? (...) Diabo: - Pera o Inferno, senhor. (...) Fidalgo: - E passageiros achais pera tal habitação? Diabo: Vejo-vos eu com feição pera ir ao nosso cais...
  • 8.
    Diabo: - Emque esperas ter guarida? Fidalgo: - Que leixo na outra vida Quem reze sempre por mi. Diabo: - Quem reze sempre por ti?... Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!... E tu viveste a teu prazer, cuidando cá guarecer por que rezam lá por ti?
  • 9.
    Anjo: - Vósireis mais espaçoso com fumosa senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso; e porque, de generoso, desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos quanto mais fostes fumoso.
  • 10.
  • 11.
    Diabo : -Como tardastes vós tanto? Onzeneiro: - Mais quisera eu lá tardar... Na safra do apanhar me deu Saturno quebranto Diabo: - Ora mui muito m’espanto não vos livrar o dinheiro!... Onzeneiro: - Solamente pera o barqueiro nom me leixaram nem tanto...
  • 12.
    Anjo: - Essabarca que lá está vai pera quem te enganou. Onzeneiro: - Por quê? Anjo: - Porque esse bolsão tomará todo o navio. Onzeneiro: - Juro a Deos que vai vazio! Anjo: - Não já no teu coração. (...) Ó onzena, como és fea e filha de maldição!
  • 13.
    Diabo: - Entra,entra! Remarás! Nom percamos mais maré! Onzeneiro: - Todavia... Diabo: - Per forç’é! Que te pés, cá entrarás! Irás servir Satanás porque sempre te ajudou.
  • 14.
  • 15.
    Diabo: - Deque morreste? Parvo: - De quê? Samicas de caganeira. Diabo: - De quê? Parvo: - De cagamerdeira. má ravugem que te dê! Diabo: - Entra! Põe aqui o pé!
  • 16.
    Parvo : -Hou da barca! Anjo: - Que me queres? (...) Quem és tu? Parvo: - Samica alguém. Anjo: - Tu passarás, se quiseres; porque em todos teus fazeres por malícia não erraste. Tua simpreza te baste pera gozar dos prazeres.
  • 17.
  • 18.
    Sapateiro: - Houda barca! Diabo: - Quem vem í? - Santo sapateiro honrado! Como vens tão carregado? Sapateiro: - Mandaram-me vir assi... E pera onde é a viagem? Diabo: - Pera o lago dos danados.
  • 19.
    Sapateiro: - Osque morrem confessados onde têm sua passagem? Diabo:- Nom cures de mais linguagem! Esta é tua barca, esta! (...) Sapateiro: - Como poderá isso ser, Confessado e comungado?
  • 20.
    Diabo: - Etu morreste excomungado: nom o quiseste dizer. Esperavas de viver; calaste dous mil enganos. Tu roubaste bem trint’anos O povo com teu mester.
  • 21.
  • 22.
    Frade : -Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã; (...) Diabo: - Que é isso, padre? Que vai lá? Frade: - Deo Gratias! Sou cortesão. Diabo: - Sabês também o tordião? Frade: - Por que não? Como ora sei! Diabo: - Pois entrai! Eu tangerei e faremos um serão. Essa dama, é ela vossa?
  • 23.
    Diabo : -Fezestes bem, que é lindura! E não vos punham lá grosa no vosso convento santo? Frade: - E eles fazem outro tanto! Diabo: - Que cousa tão preciosa! (...)
  • 24.
    Diabo: - Poisdada está já a sentença! (...) Frade: - Como? Por ser namorado e folgar com ua mulher se há um frade de perder, com tanto salmo rezado? Diabo: - Ora está bem aviado!
  • 25.
  • 26.
    Brisida: - Houlá da barca, hou lá! Diabo: - Quem chama? Brisida: - Brísida Vaz. (...) Diabo: - Que é o qu’havês d’embarcar? Brísida: - Seiscentos virgos postiços e três arcas de feitiços que não podem mais levar.
  • 27.
    Três almários dementir, e cinco cofres de enlheos, e alguns furtos alheos, assi em jóias de vestir guarda- roupa de encobrir, (...) A mor cárrega que é: Essas moças que vendia.
  • 28.
    Brisida: - Eusô aquela preciosa (...) A que criava meninas pera os cônegos da Sé... (...) Diabo: - Ora entrai, minha senhora, e sereis bem recebida; se vivestes santa vida, vós o sentirês agora.
  • 29.
    Judeu Semifará (7.ª)– é atrelado à Barca do Inferno
  • 30.
    Judeu: - Quevai cá? Hou marinheiro! Diabo: - Oh! Que má-hora vieste! Judeu: - Cuj’é esta barca que preste? Diabo: - Esta barca é do barqueiro. Judeu: - Passai-me por meu dinheiro. Diabo: - E esse bode há cá de vir? Judeu: - Pois também bode há-de ir. Diabo: - Que escusado passageiro!
  • 31.
  • 32.
    Corregedor: - Houda barca! Diabo: - Que quereis? Corregedor: - Está aqui o senhor juiz? (...) Nom é de regulae juris, não! (...) Diabo: - Quando éreis ouvidor nonne accepistis rapina?
  • 33.
    Diabo: - Quandoéreis ouvidor nonne accipistis rapina? (...) A largo modo adquiristis Sanguinis laboratorum Ignorantes peccatorum. (...) Ora, entrai nos negros fados!
  • 34.
  • 35.
    Procurador : -Beijo-vo-las mãos, Juiz! Que diz esse arrais? Que diz? Diabo: - Que sereis bom remador. (...) Procurador: - Bacharel som... Dou-me ò Demo! (...) Parvo: - Hou, homens dos breviairos, rapinastis coelhorum et pernis perdiguitorum e mijais nos campanairos (...)
  • 36.
    Anjo: - Ajustiça divinal vos manda vir carregados porque vades embarcados nesse batel infernal.
  • 37.
    Enforcado Pero deLisboa (10.ª)
  • 38.
    Diabo: - Venhaisembora, Enforcado! Que diz lá Garcia Moniz? Enforcado: - (...) que fui bem-aventurado em morrer dependurado (...) e diz que os feitos que fiz me fazem canonizado.
  • 39.
  • 40.
  • 41.
    Diabo: - Cavaleiros,vós passais e nom perguntais onde is? Cavaleiro: - Vós, Satanás, presumis? Atentai com quem falais! (...) Diabo: - Entrai cá! Que cousa é essa? (...) Cavaleiro: - Quem morre por Jesu Cristo Não vai em tal barca como essa!
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    E nós, paraonde embarcaremos?
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  • 44.
    -AUTO de moralidade(alegoria, religiosidade) - farsa (painel social da época) - versos redondilhos maiores -disposição das rimas: ABBAACCA -estrutura: único ato; cenas com diálogos -linguagem: típica de cada grupo social 7/3/2014 44
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    1.ª alegoria: Diabo,o Arrais do Inferno (alegre e irônico) e companheiro - Fidalgo D. Anrique (1.ª alma) - Onzeneiro (2.ª) - Sapateiro Jam Antão (4.ª) - Frade, Frei Babriel (5.ª) 7/3/2014 45
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    - Alcoviteira BrísidaVaz (6.ª) - Judeu Semifará (7.ª) – é atrelado à Barca do Inferno - Corregedor (8.ª) - Procurador (9.ª) - Enforcado Pero de Lisboa (10.ª) 7/3/2014 46
  • 47.
    2.ª alegoria: Anjo,o Arrais do Céu (lacônico e severo) - Parvo Joane (3.ª) - 4 Cavaleiros (11.ª) E assi embarcam. 7/3/2014 47
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