AUTO DA BARCA DO INFERNO GIL VICENTE
Guimarães: onde tudo começou Nasceu lá o ‘Pai do teatro português?’ Origem de Portugal?!
Gil Vicente Pai do teatro português Nascimento (?) Guimarães (mais provável) Barcelos Lisboa  entre 1465/1470
Gil Vicente: ourives? Segundo Cleonice Berardinelli: 1509 - Gil Vicente nomeado ourives da rainha D. Leonor (viúva de D.João II); Segundo um pesquisador, o ofício foi herdado do pai (segundo o costume da época);  Seria um homônimo?
Momento histórico Segunda metade do XV a primeira do XVI – ‘século de ouro’; Transição da Idade Média para  Renascimento; Expansão marítima e estabelecimento do império .
Teatro popular de Gil Vicente Tipos de encenações na Idade Média: Religiosa ou litúrgica: mistérios, milagres e moralidades; Profana ( pro -  fora  fanum –  templo): farsas, arremedos e momos; Influência de Juan del Encina
Teatro popular de Gil Vicente 46 peças  Português, castelhano e bilíngües Classificação própria Moralidades, comédias e farsas. Caracterizadas principalmente pela sátira
Principais obras Auto da Índia Quem tem Farelos? Trilogia das Barcas Auto da barca do inferno Auto da barca do purgatório Auto da barca da Glória (Céu) Auto da alma Farsa de Inês Pereira Velho da horta A Floresta dos Enganos
Características Dramatiza preceitos morais critica vícios e costumes da sociedade portuguesa; Castigat ridendo mores Função pedagógica e moralizadora
Traços estilísticos ‘ Auto ’ – tradição medieval; Em versos: predominantemente em redondilhas maiores; Não adere à  Medida Nova .
Linguagem Rica e variada; Enraizada nas tradições populares: termos chulos (palavrões); frases feitas (provérbios);  ditados populares; trocadilhos; falares regionais;
Trilogia das barcas Cenário comum:  duas embarcações na praia do Purgatório: uma para o Paraíso, outra para o Inferno; Argumento:  antítese salvação-condenação.
Auto da Barca do Inferno Estrutura: ato único; subdivisão em cenas: unidade: Anjo e Diabo Cenário:  ancoradouro
Personagens Tipos sociais; Ausência de caracterização psicológica ATENÇÃO: possível paralelo com os personagens de  Memórias de um sargento de milícias
Fidalgo:  nobreza Parvo:  ingenuidade Sapateiro:  desonestidade Corregedor (juiz) Procurador (advogado) O enforcado Personagens e críticas justiça?
Frade e amante:  hipocrisia clerical Alcoviteira:  prostituição Cavaleiros da Ordem Cristo:  defensores de Deus Onzeneiro:  agiotagem Judeu:  execrado até pelo Diabo Personagens e críticas
irônico; debochado; ‘ advogado de Deus’; condena o que há de errado na sociedade. Diabo
acostumado ao luxo; símbolos terrenos: cadeira, manto, pajem; consegue o que o dinheiro pode comprar. Fidalgo
Anjo: Que mandais? Fidalgo:   Que me digais? pois parti tão sem aviso, se a barca do paraíso é esta em que navegais. Anjo: Esta e; que lhe buscais? Fidalgo: Que me deixeis embarcar; sou fidalgo de solar, é bem que me recolhais Anjo: Não se embarca tirania neste batel divinal Fidalgo: Não sei por que haveis por mal. que entre minha senhoria. Anjo: Pra vossa fantasia Mui pequena é esta barca. Fidalgo: Para senhor de tal não há aqui mais cortesia?
Venha prancha e atavio! Levai-me desta ribeira!  Anjo: Não vindes vós de maneira para entrar neste navio. Essoutro vai mais vazio: a cadeira entrará, e o rabo caberá e todo o vosso senhorio. Ireis lá mais espaçoso, vós e... Vossa senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso; e porque, de generoso, desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos Quanto mais fostes fumoso.
juros exorbitantes  (onze por cento ) ; símbolo terreno – bolsão; “ meu parente” = lado do mal. Onzeneiro
Onzeneiro: Para onde caminhais? Diabo: Oh! Que má-hora venhais, onzeneiro meu parente! Como tardastes vós tanto? Onzeneiro:   Mais quisera eu lá tardar. Na safra do apanhar me deu saturno quebranto Diabo: Ora mui muito me espanto não vos livrar o dinheiro. Onzeneiro: Nem tão só para o barqueiro não me deixaram nem tanto. Diabo: Ora entrai, entrai aqui! Onzeneiro: Não hei eu i de embarcar! Diabo: Oh! Que gentil recear, e que coisas para mi!...
Onzeneiro: Inda agora faleci, deixai-me buscar batel. Diabo:   Pesar de João Pimentel! Por que não irás aqui? Onzeneiro: E para onde é a viagem? Diabo: Para onde tu hás-de ir; estamos para partir, não cures de mais linguagem. Onzeneiro:   Mas para onde é a passagem? Diabo: Para a infernal comarca. Onzeneiro: Disse, não vou em tal barca. Estoutra tem avantagem. (...)
Onzeneiro: Hou-lá! Hou demo barqueiro!  Sabeis vós no que eu me fundo? Quero lá tornar ao mundo e trazê-lo meu dinheiro; que aqueloutro marinheiro, porque me vê vir sem nada, dá-me tanta borregada como arrais lá do Barreiro. Diabo :   Entra, entra e remarás! Não percamos mais maré! Onzeneiro: Todavia... Diabo: Por força é, que te pês, cá entrarás! Irás servir Satanás pois que sempre te ajudou. Onzeneiro: Oh! Triste, quem me cegou?! Diabo: Cal’te, que cá chorarás.
descompromisso; ingenuidade; inocência / criança. Parvo
Parvo : Hou da barca! Anjo : Tu que queres? Parvo: Quereis-me passar além? Anjo : Quem és tu? Parvo :   Não sou ninguém. Anjo: Tu passarás se quiseres; porque em todos seus fazeres por malícia não erraste. Tua simpleza te baste para gozar dos prazeres. Espera entanto por aí: veremos se vem alguém merecedor de tal bem que deva entrar aqui.
rouba e engana o próximo; símbolos do roubo: formas e tripeça. Sapateiro
Sapateiro : mandaram-me vir assi... Mas – para onde é a viagem? Diabo : Para a terra dos danados. Sapateiro: E os que morrem confessados onde têm sua passagem? Diabo : Não cures de mais linguagem, que esta é a tua barca, esta! Sapateiro: Renegaria eu da festa. e da barca e da barcagem. Como poderá isso ser, confessado e comungado?! Diabo: Tu morreste excomungado, não no quiseste dizer. Esperavas de viver; calaste dez mil enganos; tu roubaste bem trinta anos o povo com teu mister.
Embarca, eramá para ti, que há já muito que te espero! Sapateiro: Digo-te que re-não quero! Diabo : Digo-te que si, re-si! Sapateiro: Quantas missas eu ouvi não me hão elas prestar? Diabo:   Ouvir missa, então roubar – é caminho para aqui. Sapateiro: E as ofertas que darão? E as horas dos finados? Diabo:   E os dinheiros mal levados – que foi da satisfação? Sapateiro: Oh! Não praza ao cordovão, nem à puta da badana, se é esta boa traquitana em que se vê João Antão! Ora juro a Deus que é graça!
dançarino; espadachim; devasso; traz a amante. Frade
Frade : Juro a Deus que não te entendo! E este hábito não me val’? Diabo : Gentil padre mundanal, a Belzebu vos encomendo! Frade: Corpo de Deus consagrado! Pela fé de Jesus Cristo, que eu não posso entender isto! Eu hei-de ser condenado?! Um padre tão namorado tanto dado à virtude! Assim Deus me dê saúde que estou maravilhado! Diabo: Não façamos mais detença. Embarcai e partiremos: tomareis um par de remos. Frade: Não ficou isso na avença.
Diabo : Pois dada está já a sentença! Frade: Por Deus! Essa seria ela? Não vai em tal caravela minha senhora Florença. Como?! Por ser namorado e folgar com uma mulher se há um frade de perder com tanto salmo rezado?! Diabo: Ora estás bem aviado! Frade: Mas estás bem corrigido! Diabo: Devoto padre e marido, haveis de ser cá pingado...
prostituição; ‘ oferecimento’ moças ao clero; feitiçaria. Brísida Vaz
Brísida : Seisentos virgos postiços e três arcas de feitiços que não podem mais levar Três armários de mentir e cinco cofres de enleios, e alguns furtos alheios, assi em jóias de vestir; guarda-roupa de encobrir, enfim – casa movediça; um estrado de cortiça com dez coxins de embair.
A mor cárrega que é: essas moças que vendia Daquesta mercadoria trago eu muita, à bofé! Diabo: Ora ponde aqui o pé. Brísida: Hui! Eu vou pra o paraíso! Diabo: E quem te disse a ti isso? Brísida:   Lá hei-de ir desta maré.
segregação; suborno; símbolo: bode (contraponto “Cordeiro de Deus”) . Judeu
Judeu: Que vai lá, hou marinheiro? Diabo: Oh! Que má-hora vieste! Judeu: Cuja é esta barca que preste? Diabo: Esta barca é do barqueiro. Judeu:   Passai-me, por meu dinheiro. Diabo: E esse bode há cá de vir? Judeu: O bode também há-de ir. Diabo: Oh! Que honrado passageiro!... Judeu:   Sem bode, como irei lá? Diabo:   Pois eu não passo cá cabrões! Judeu:   Eis aqui quatro tostões e mais se vos pagará. Por vida do semifará que me passeis o cabrão! Quereis mais outro tostão?  Diabo: Nem tu não hás-de vir cá. Judeu:   Por que não irá o judeu onde vai Brísida Vaz?
não assume seus atos; julga com parcialidade; ignora a justiça; busca proveitos próprios;  extorque os pobres; símbolo material: os processos. Corregedor
eloqüência; aparatos; omisso; símbolo material: os livros. Procurador
Corregedor: Oh! Renego da viagem e de quem me há-de levar! Há aqui meirinho do mar? Diabo: Não há cá tal costumagem. Corregedor:   Não entendo esta barcagem,  nem  hoc non potest esse . Diabo: Se ora vos parecesse que não sei mais que linguagem!... Entrai, entrai, corregedor!  Corregedor:   Hou!  Videtis que petatis!  Super jure majestatis tem vosso mando vigor?
Diabo : Quando éreis ouvidor non ne accepistis  rapina? Pois ireis pela bolina onde nossa mercê for. Oh! Que isca esse papel para um fogo que eu sei! Corregedor:   Domine, memento mei ! Diabo:   Non es tempus , bacharel! Imbarquemini in  batel q uia judicastis  malícia. Corregedor:  Semper ego in justicia fecit  e bem por nível. Diabo:   E as peitas dos judeus que vossa mulher levava? Corregedor:   Isso eu não no tomava, eram lá percalços seus.
Enforcado Diabo : Dava-te consolação isso, ou algum esforço? Enforcado:   Com o baraço no pescoço mui mal presta a pregação... Ele leva a devoção, que há de tornar a jantar... Mas quem há de estar no ar Aborrece-lhe o sermão.
Quem se salvará? Parvo (ingenuidade) Cavaleiros Cruzados (luta pela fé)
Diabo : Cavaleiros, vós passais e não perguntais onde is? Primeiro Cavaleiro : Vós, Satanás, presumis? Atentai com que falais! Segundo Cavaleiro : E vós, que  nos demandais? Sequer conhecei-nos bem: morremos nas partes de além, e não queirais saber mais. Diabo : Entra cá! Que coisa é essa? Eu não posso entender isto! Primeiro Cavaleiro : Quem morre por Jesus Cristo não vai em tal barca como essa!
Tornam a prosseguir, cantando, seu caminho direito à barca da glória, e tanto que chegam diz o  ANJO: Anjo : Ó cavaleiros de Deus, a vós estou esperando, que morrestes pelejando por Cristo, Senhor dos Céus! Sois livres de todo o mal, santos por certo sem falha, que quem morre em tal batalha merece paz eternal. E assim embarcam. Aqui fenece a primeira cena.
Vêm quatro fidalgos, Cavaleiros da ordem de Cristo que morreram nas partes da África. Vêm cantando a letra que se segue: À barca, à barca segura, guardar da barca perdida: à barca, à barca da vida!  Senhores, que trabalhais Pela vida transitória Memórias, por Deus, memória Deste temeroso cais! À barca, à barca, mortais! Porém na vida perdida Se perde a barca da vida.

O Auto da Barca do Inferno - Gil Vicente

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    AUTO DA BARCADO INFERNO GIL VICENTE
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    Guimarães: onde tudocomeçou Nasceu lá o ‘Pai do teatro português?’ Origem de Portugal?!
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    Gil Vicente Paido teatro português Nascimento (?) Guimarães (mais provável) Barcelos Lisboa entre 1465/1470
  • 4.
    Gil Vicente: ourives?Segundo Cleonice Berardinelli: 1509 - Gil Vicente nomeado ourives da rainha D. Leonor (viúva de D.João II); Segundo um pesquisador, o ofício foi herdado do pai (segundo o costume da época); Seria um homônimo?
  • 5.
    Momento histórico Segundametade do XV a primeira do XVI – ‘século de ouro’; Transição da Idade Média para Renascimento; Expansão marítima e estabelecimento do império .
  • 6.
    Teatro popular deGil Vicente Tipos de encenações na Idade Média: Religiosa ou litúrgica: mistérios, milagres e moralidades; Profana ( pro - fora fanum – templo): farsas, arremedos e momos; Influência de Juan del Encina
  • 7.
    Teatro popular deGil Vicente 46 peças Português, castelhano e bilíngües Classificação própria Moralidades, comédias e farsas. Caracterizadas principalmente pela sátira
  • 8.
    Principais obras Autoda Índia Quem tem Farelos? Trilogia das Barcas Auto da barca do inferno Auto da barca do purgatório Auto da barca da Glória (Céu) Auto da alma Farsa de Inês Pereira Velho da horta A Floresta dos Enganos
  • 9.
    Características Dramatiza preceitosmorais critica vícios e costumes da sociedade portuguesa; Castigat ridendo mores Função pedagógica e moralizadora
  • 10.
    Traços estilísticos ‘Auto ’ – tradição medieval; Em versos: predominantemente em redondilhas maiores; Não adere à Medida Nova .
  • 11.
    Linguagem Rica evariada; Enraizada nas tradições populares: termos chulos (palavrões); frases feitas (provérbios); ditados populares; trocadilhos; falares regionais;
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    Trilogia das barcasCenário comum: duas embarcações na praia do Purgatório: uma para o Paraíso, outra para o Inferno; Argumento: antítese salvação-condenação.
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    Auto da Barcado Inferno Estrutura: ato único; subdivisão em cenas: unidade: Anjo e Diabo Cenário: ancoradouro
  • 14.
    Personagens Tipos sociais;Ausência de caracterização psicológica ATENÇÃO: possível paralelo com os personagens de Memórias de um sargento de milícias
  • 15.
    Fidalgo: nobrezaParvo: ingenuidade Sapateiro: desonestidade Corregedor (juiz) Procurador (advogado) O enforcado Personagens e críticas justiça?
  • 16.
    Frade e amante: hipocrisia clerical Alcoviteira: prostituição Cavaleiros da Ordem Cristo: defensores de Deus Onzeneiro: agiotagem Judeu: execrado até pelo Diabo Personagens e críticas
  • 17.
    irônico; debochado; ‘advogado de Deus’; condena o que há de errado na sociedade. Diabo
  • 18.
    acostumado ao luxo;símbolos terrenos: cadeira, manto, pajem; consegue o que o dinheiro pode comprar. Fidalgo
  • 19.
    Anjo: Que mandais?Fidalgo: Que me digais? pois parti tão sem aviso, se a barca do paraíso é esta em que navegais. Anjo: Esta e; que lhe buscais? Fidalgo: Que me deixeis embarcar; sou fidalgo de solar, é bem que me recolhais Anjo: Não se embarca tirania neste batel divinal Fidalgo: Não sei por que haveis por mal. que entre minha senhoria. Anjo: Pra vossa fantasia Mui pequena é esta barca. Fidalgo: Para senhor de tal não há aqui mais cortesia?
  • 20.
    Venha prancha eatavio! Levai-me desta ribeira! Anjo: Não vindes vós de maneira para entrar neste navio. Essoutro vai mais vazio: a cadeira entrará, e o rabo caberá e todo o vosso senhorio. Ireis lá mais espaçoso, vós e... Vossa senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso; e porque, de generoso, desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos Quanto mais fostes fumoso.
  • 21.
    juros exorbitantes (onze por cento ) ; símbolo terreno – bolsão; “ meu parente” = lado do mal. Onzeneiro
  • 22.
    Onzeneiro: Para ondecaminhais? Diabo: Oh! Que má-hora venhais, onzeneiro meu parente! Como tardastes vós tanto? Onzeneiro: Mais quisera eu lá tardar. Na safra do apanhar me deu saturno quebranto Diabo: Ora mui muito me espanto não vos livrar o dinheiro. Onzeneiro: Nem tão só para o barqueiro não me deixaram nem tanto. Diabo: Ora entrai, entrai aqui! Onzeneiro: Não hei eu i de embarcar! Diabo: Oh! Que gentil recear, e que coisas para mi!...
  • 23.
    Onzeneiro: Inda agorafaleci, deixai-me buscar batel. Diabo: Pesar de João Pimentel! Por que não irás aqui? Onzeneiro: E para onde é a viagem? Diabo: Para onde tu hás-de ir; estamos para partir, não cures de mais linguagem. Onzeneiro: Mas para onde é a passagem? Diabo: Para a infernal comarca. Onzeneiro: Disse, não vou em tal barca. Estoutra tem avantagem. (...)
  • 24.
    Onzeneiro: Hou-lá! Houdemo barqueiro! Sabeis vós no que eu me fundo? Quero lá tornar ao mundo e trazê-lo meu dinheiro; que aqueloutro marinheiro, porque me vê vir sem nada, dá-me tanta borregada como arrais lá do Barreiro. Diabo : Entra, entra e remarás! Não percamos mais maré! Onzeneiro: Todavia... Diabo: Por força é, que te pês, cá entrarás! Irás servir Satanás pois que sempre te ajudou. Onzeneiro: Oh! Triste, quem me cegou?! Diabo: Cal’te, que cá chorarás.
  • 25.
  • 26.
    Parvo : Houda barca! Anjo : Tu que queres? Parvo: Quereis-me passar além? Anjo : Quem és tu? Parvo : Não sou ninguém. Anjo: Tu passarás se quiseres; porque em todos seus fazeres por malícia não erraste. Tua simpleza te baste para gozar dos prazeres. Espera entanto por aí: veremos se vem alguém merecedor de tal bem que deva entrar aqui.
  • 27.
    rouba e enganao próximo; símbolos do roubo: formas e tripeça. Sapateiro
  • 28.
    Sapateiro : mandaram-mevir assi... Mas – para onde é a viagem? Diabo : Para a terra dos danados. Sapateiro: E os que morrem confessados onde têm sua passagem? Diabo : Não cures de mais linguagem, que esta é a tua barca, esta! Sapateiro: Renegaria eu da festa. e da barca e da barcagem. Como poderá isso ser, confessado e comungado?! Diabo: Tu morreste excomungado, não no quiseste dizer. Esperavas de viver; calaste dez mil enganos; tu roubaste bem trinta anos o povo com teu mister.
  • 29.
    Embarca, eramá parati, que há já muito que te espero! Sapateiro: Digo-te que re-não quero! Diabo : Digo-te que si, re-si! Sapateiro: Quantas missas eu ouvi não me hão elas prestar? Diabo: Ouvir missa, então roubar – é caminho para aqui. Sapateiro: E as ofertas que darão? E as horas dos finados? Diabo: E os dinheiros mal levados – que foi da satisfação? Sapateiro: Oh! Não praza ao cordovão, nem à puta da badana, se é esta boa traquitana em que se vê João Antão! Ora juro a Deus que é graça!
  • 30.
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    Frade : Juroa Deus que não te entendo! E este hábito não me val’? Diabo : Gentil padre mundanal, a Belzebu vos encomendo! Frade: Corpo de Deus consagrado! Pela fé de Jesus Cristo, que eu não posso entender isto! Eu hei-de ser condenado?! Um padre tão namorado tanto dado à virtude! Assim Deus me dê saúde que estou maravilhado! Diabo: Não façamos mais detença. Embarcai e partiremos: tomareis um par de remos. Frade: Não ficou isso na avença.
  • 32.
    Diabo : Poisdada está já a sentença! Frade: Por Deus! Essa seria ela? Não vai em tal caravela minha senhora Florença. Como?! Por ser namorado e folgar com uma mulher se há um frade de perder com tanto salmo rezado?! Diabo: Ora estás bem aviado! Frade: Mas estás bem corrigido! Diabo: Devoto padre e marido, haveis de ser cá pingado...
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    prostituição; ‘ oferecimento’moças ao clero; feitiçaria. Brísida Vaz
  • 34.
    Brísida : Seisentosvirgos postiços e três arcas de feitiços que não podem mais levar Três armários de mentir e cinco cofres de enleios, e alguns furtos alheios, assi em jóias de vestir; guarda-roupa de encobrir, enfim – casa movediça; um estrado de cortiça com dez coxins de embair.
  • 35.
    A mor cárregaque é: essas moças que vendia Daquesta mercadoria trago eu muita, à bofé! Diabo: Ora ponde aqui o pé. Brísida: Hui! Eu vou pra o paraíso! Diabo: E quem te disse a ti isso? Brísida: Lá hei-de ir desta maré.
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    segregação; suborno; símbolo:bode (contraponto “Cordeiro de Deus”) . Judeu
  • 37.
    Judeu: Que vailá, hou marinheiro? Diabo: Oh! Que má-hora vieste! Judeu: Cuja é esta barca que preste? Diabo: Esta barca é do barqueiro. Judeu: Passai-me, por meu dinheiro. Diabo: E esse bode há cá de vir? Judeu: O bode também há-de ir. Diabo: Oh! Que honrado passageiro!... Judeu: Sem bode, como irei lá? Diabo: Pois eu não passo cá cabrões! Judeu: Eis aqui quatro tostões e mais se vos pagará. Por vida do semifará que me passeis o cabrão! Quereis mais outro tostão? Diabo: Nem tu não hás-de vir cá. Judeu: Por que não irá o judeu onde vai Brísida Vaz?
  • 38.
    não assume seusatos; julga com parcialidade; ignora a justiça; busca proveitos próprios; extorque os pobres; símbolo material: os processos. Corregedor
  • 39.
    eloqüência; aparatos; omisso;símbolo material: os livros. Procurador
  • 40.
    Corregedor: Oh! Renegoda viagem e de quem me há-de levar! Há aqui meirinho do mar? Diabo: Não há cá tal costumagem. Corregedor: Não entendo esta barcagem, nem hoc non potest esse . Diabo: Se ora vos parecesse que não sei mais que linguagem!... Entrai, entrai, corregedor! Corregedor: Hou! Videtis que petatis! Super jure majestatis tem vosso mando vigor?
  • 41.
    Diabo : Quandoéreis ouvidor non ne accepistis rapina? Pois ireis pela bolina onde nossa mercê for. Oh! Que isca esse papel para um fogo que eu sei! Corregedor: Domine, memento mei ! Diabo: Non es tempus , bacharel! Imbarquemini in batel q uia judicastis malícia. Corregedor: Semper ego in justicia fecit e bem por nível. Diabo: E as peitas dos judeus que vossa mulher levava? Corregedor: Isso eu não no tomava, eram lá percalços seus.
  • 42.
    Enforcado Diabo :Dava-te consolação isso, ou algum esforço? Enforcado: Com o baraço no pescoço mui mal presta a pregação... Ele leva a devoção, que há de tornar a jantar... Mas quem há de estar no ar Aborrece-lhe o sermão.
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    Quem se salvará?Parvo (ingenuidade) Cavaleiros Cruzados (luta pela fé)
  • 44.
    Diabo : Cavaleiros,vós passais e não perguntais onde is? Primeiro Cavaleiro : Vós, Satanás, presumis? Atentai com que falais! Segundo Cavaleiro : E vós, que nos demandais? Sequer conhecei-nos bem: morremos nas partes de além, e não queirais saber mais. Diabo : Entra cá! Que coisa é essa? Eu não posso entender isto! Primeiro Cavaleiro : Quem morre por Jesus Cristo não vai em tal barca como essa!
  • 45.
    Tornam a prosseguir,cantando, seu caminho direito à barca da glória, e tanto que chegam diz o ANJO: Anjo : Ó cavaleiros de Deus, a vós estou esperando, que morrestes pelejando por Cristo, Senhor dos Céus! Sois livres de todo o mal, santos por certo sem falha, que quem morre em tal batalha merece paz eternal. E assim embarcam. Aqui fenece a primeira cena.
  • 46.
    Vêm quatro fidalgos,Cavaleiros da ordem de Cristo que morreram nas partes da África. Vêm cantando a letra que se segue: À barca, à barca segura, guardar da barca perdida: à barca, à barca da vida! Senhores, que trabalhais Pela vida transitória Memórias, por Deus, memória Deste temeroso cais! À barca, à barca, mortais! Porém na vida perdida Se perde a barca da vida.