SlideShare uma empresa Scribd logo
AUTO DA BARCA DO INFERNO
A expressão latina ridendo castigat mores traduz-se por “A rir castigam-se/ corrigem-se
os costumes” e está associada à obra de Gil Vicente, que, através de várias situações lúdicas e
cómicas, procura criticar e corrigir os vícios da sociedade do seu tempo, procurando moldá-la e
alterar os maus comportamentos.
Escrita em 1517, durante a transição entre Idade Média e Renascimento, o Auto da Barca
do Inferno é uma das obras mais representativas do teatro vicentino, onde prevalece a
temática religiosa como pretexto para a crítica de costumes. É considerada uma das peças
mais famosas do dramaturgo.
Gil Vicente, ao apresentar o Auto da Barca do Inferno, utiliza a expressão "auto de
moralidade", considerando necessário declarar o argumento utilizado para compor o
desenlace. As almas, após se libertarem dos seus corpos, em terra, dirigem-se a uma zona,
onde estão dois barcos: um conduzido pelo Anjo, que levará as almas para o Paraíso, e o outro
tripulado pelo Diabo, que dirigirá as almas até ao Inferno. As personagens do Auto da Barca do
Inferno são representantes das mais variadas classes sociais e de algumas atividades
diversas, além de quatro cavaleiros cruzados. Cada personagem é julgada e condenada ao seu
destino, embarcando na companhia do Diabo ou do Anjo.
Esta obra foi escrita em versos rimados, fundindo poesia e teatro, fazendo com que o texto,
cheio de ironia, trocadilhos, metáforas e ritmo, fluísse naturalmente.
TEMÁTICA
O Auto da Barca do Inferno retrata a sociedade portuguesa do século XVI, sendo clara
a intenção do autor em expor de forma satírica e despojada os grandes vícios humanos,
encontrados nas personagens, ou melhor, nas almas que se apresentam no porto em busca do
transporte para o outro lado, dentro da visão católica e platónica de céu e inferno. É um auto
onde o barqueiro do inferno e o do céu esperam os condenados e os honrados, que chegam e
são acusados pelo Diabo e pelo Anjo, tendo este último poder para absolvição.
Esta peça proporciona uma amostra do que era a sociedade lisboeta das décadas
iniciais do século XVI, embora alguns dos assuntos passados sejam pertinentes à atualidade.
ESTILO
A obra está escrita em versos heptassílabos, de forma coloquial e com intenção
marcadamente doutrinária, envolvendo o português, o latim e o espanhol. Cada personagem
apresenta, através da fala, traços que denunciam sua condição social.
ESTRUTURA
A peça tem a finalidade de divertir e instruir, considerando temas como religiosos ou
profanos, sérios ou cómicos, que devem guardar um profundo sentimento moralizador. O Auto
da Barca do Inferno não tem uma estrutura definida, ou seja, não está dividido em atos ou
cenas. É apenas uma peça teatral apresentada num único ato, subdividido em cenas marcadas
pelos diálogos entre o Anjo ou o Diabo e as personagens.
CENÁRIO
A peça é apresentada num porto, no qual estão atracadas duas barcas, pelas quais,
todos os mortos terão de passar para serem julgados e condenados à barca da Glória ou à
barca do Inferno. A peça inicia-se quando as almas chegam ao porto imaginário.
PERSONAGENS
1. Diabo e Anjo: condutores das almas ao Inferno e ao Paraíso, respetivamente.
Conhecem muito bem cada personagem. O Diabo é troçador, irónico e bom
argumentador. Gil Vicente não pinta estas personagens como responsáveis pelos
fracassos e males humanos, considerando-os juízes, que entram na consciência de
cada alma, revelando o que cada uma delas procura esconder.
2. Fidalgo: representa a nobreza. Chega acompanhado de um pajem e vem vestido com
uma roupa exagerada e uma cadeira: elementos característicos do seu estatuto social.
O diabo alega que o Fidalgo o acompanhará por ter tido uma vida de luxúria e de
pecados, sendo portanto condenado pela vida pecaminosa, em que a luxúria, a tirania e
a falta de modéstia pesam como graves defeitos. Ao Fidalgo, de nada valem as
misericórdias ou orações encomendadas. A sua figura arrogante e orgulhosa permite a
crítica vicentina à nobreza, estando centrada nos dois principais defeitos humanos: o
orgulho e a prática da tirania.
3. Onzeneiro: é a segunda alma a ser inquirida. Ao chegar à barca do Diabo, percebe que
deixou o seu dinheiro em terra. Utiliza este pretexto para convencer o Diabo a deixá-lo
regressar à terra, demonstrando apreço pelas coisas mundanas. O Diabo não aceita e
condena-o ao Inferno.
4. Parvo: um dos poucos a não ser condenado ao Inferno. Chega desprovido de tudo,
carregado de simplicidade e sem malícia. Consegue enganar o Diabo e até mesmo
injuriá-lo. É uma alma pura, cujos valores são legítimos e sinceros. Ao passar pela
barca do Anjo, diz ser ninguém. E é pela sua humildade e pelos seus verdadeiros
valores que é conduzido ao Paraíso. Em vários momentos da peça, o Parvo ironiza a
reivindicação das outras personagens, que se querem passar por "inocentes" diante do
Diabo.
5. Sapateiro: representante dos mestres de ofício, chega à embarcação do Diabo
acompanhado do seu instrumento de trabalho: o avental e as formas. É desonesto
considerado um explorador do povo. Habituado a enganar os homens, procura também
enganar o Diabo, que, espertamente, não se deixa influenciar pelas suas artimanhas e
condena-o.
6. Frade: como todos os representantes do clero, evidenciados por Gil Vicente, o Frade é
alegre, cantante, bom dançarino e dissimulado. Chega acompanhado da sua amante, e
acredita que, por ter rezado e estar a serviço da fé, deveria ser perdoado. Dá uma lição
de esgrima ao Diabo (que finge não saber manobrar uma arma), o que prova a culpa do
provocador, já que frades não lidam com armas. É então condenado ao fogo do inferno.
Gil Vicente crítica o clero e julga-o incapaz de pregar as três coisas mais simples: a
paz, a verdade e a fé.
7. Alcoviteira (Brísida Vaz): agenciadora de prostitutas, misto de alcoviteira e feiticeira. É
condenada por falta de escrúpulos e corrupção. É conhecida de outras personagens,
que utilizaram, em vida, os seus serviços. Traiçoeira e cheia de astúcias, não consegue
fugir à condenação.
8. Judeu: entra acompanhado de seu bode. Detestado por todos, até mesmo pelo Diabo,
que quase se recusa a levá-lo, é igualmente condenado, inclusive por não seguir os
preceitos religiosos da fé cristã. Será importante referir que, durante o reinado de D.
Manuel, houve uma perseguição aos judeus originando a sua expulsão do território
português: alguns saíram carregados de grandes fortunas e outros converteram-se ao
cristianismo, considerados como cristãos novos.
9. Corregedor e o Procurador: ambos representantes da justiça: juiz e advogado.
Deveriam ser exemplos de bom comportamento, mas acabaram condenados
justamente por manipularem a justiça de acordo com as propinas recebidas, pois
faziam da lei uma fonte de recursos ilícitos e de manipulação de sentenças. O carácter
moralizador do teatro vicentino fica bem mais explícito com esta condenação,
envolvendo a Justiça humana na figura dos representantes do Direito.
10. Enforcado: chega ao porto a acreditar que tem o perdão garantido, por ter já cumprido,
em terra, o julgamento e posterior condenação à morte, mas é condenado ao Inferno.
11. Quatro Cavaleiros: finalmente chegam à barca quatro cavaleiros cruzados, que
lutaram pelo triunfo da fé cristã e morreram em poder dos mouros. Obviamente, com
uma ficha impecável, serão todos julgados, perdoados e conduzidos à Barca do Anjo.
O destaque deve ser feito à figura do Diabo, personagem vigorosa que conhece a arte de
persuadir. É ágil no ataque, troça, responde, argumenta e entra nas consciências humanas. Ao
Diabo cabe denunciar os vícios e as fraquezas, sendo a personagem mais importante na crítica
que Gil Vicente liga à sua época.
Surgem ao longo do Auto três tipos de cómico: caráter, situação e linguagem.
 Cómico de caráter - aquele que é demonstrado pela personalidade da personagem
Parvo, que devido à sua pobreza de espírito não mede as palavras, não podendo ser
responsabilizado pelos seus erros.
 Cómico de situação - o Fidalgo, cujo orgulho é ridicularizado pelo Diabo.
 Cómico de linguagem - aquele que é proferido por exemplo nas falas do Diabo.
Personagem
Símbolos
cénicos
Linguagem Acusações Indícios textuais Observações
Fidalgo
Pajem, cadeira
de espaldas,
manto
Altiva e
insolente
Vaidade,
presunção,
soberba e
tirania
“Sou fidalgo de
solar”; “Para
senhor de tal
marca, não há
aqui mais
cortesia?”;
“Cuidando na
tirania do pobre
povo queixoso”;
“desprezastes os
mais pequenos”
O Diabo
identifica-o
como D.
Anrique; o
pajem não
entra na barca
Onzeneiro Bolsão Vulgar
Avareza e
usura
“Na safra do
apanhar”; “Lá me
fica de roldão,
minha fazenda e
alhea”
Parvo Desbocada
Simplicidade e
ingenuidade
“Per malícia nom
erraste”
De nome Joane
Sapateiro
Avental e
formas
Vulgar, com
alguns termos
técnicos
Roubo
“Tu roubaste bem
trint’anos o povo
com teu mester”
Ele próprio se
identifica como
João Antão
Frade
Moça, broquel,
espada, casco
sobre o capelo
Exuberante
Libertinagem
(mundano,
dançarino e
esgrimista)
“Um padre tão
namorado”; “dê
Vossa Revença
lição d’esgrima,
que é cousa boa!”
É referido mais
à frente como
Frei Gabriel; a
Moça
acompanha-o
na barca
Judeu Bode Indecorosa Profanação
“E ele mijou nos
finados n’ergueja
de São Gião”; “E
comia a carne da
panela no dia de
Nosso Senhor”
Identifica-se
como Jema
Fará e
representa o
carácter errante
dos judeus
Corregedor
Processos e
livros
Técnica e latim
macarrónico
Corrupção e
parcialidade
“Quando éreis
ouvidor nonne
acceptistis rapina?”;
“E as peitas que
vossa mulher
levava?
Procurador Livros Vulgar
Atrevimento e
convencimento
“Bacharel som…
Dou-me ó Demo!
Não cuidei que era
extremo, nem de
morte minha dor”
Completa a
figura do
Corregedor
Enforcado Baraço Coloquial
Ignorância e
credulidade
“Que fui
bem-aventurado
em morrer
dependurado”; “E
era santo meu
baraço”
Não se conhece
o motivo pelo
qual foi
enforcado
Quatro
Cavaleiros
Cruz de Cristo,
espada e
escudo
Categórica
“Morremos nas
partes d’Além, e
não quereis saber
mais”; “Quem
morre em tal peleja
merece paz eternal”
Entram
directamente
para a Barca da
Glória

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Despedidas em belém
Despedidas em belémDespedidas em belém
Despedidas em belém
Lurdes
 
Ilha dos amores
Ilha dos amoresIlha dos amores
Ilha dos amores
Susana Sobrenome
 
Auto da barca do inferno - texto expositivo
Auto da barca do inferno - texto expositivoAuto da barca do inferno - texto expositivo
Auto da barca do inferno - texto expositivo
franciscaf
 
Adamastor
AdamastorAdamastor
Adamastor
sin3stesia
 
Cena do fidalgo_-_questionario
Cena do fidalgo_-_questionarioCena do fidalgo_-_questionario
Cena do fidalgo_-_questionario
Maria Gonçalves
 
Cena Fidalgo
Cena FidalgoCena Fidalgo
Cena Fidalgo
Fernanda Soares
 
Auto da barca do inferno, cena VI-O Frade
Auto da barca do inferno, cena VI-O FradeAuto da barca do inferno, cena VI-O Frade
Auto da barca do inferno, cena VI-O Frade
Beatriz Campos
 
Lusíadas - Episódio do Adamastor
Lusíadas - Episódio do AdamastorLusíadas - Episódio do Adamastor
Lusíadas - Episódio do Adamastor
cristianavieitas
 
Temática E Estrutura
Temática E EstruturaTemática E Estrutura
Temática E Estrutura
Susana Sobrenome
 
Consílio dos deuses
Consílio dos deusesConsílio dos deuses
Consílio dos deuses
pauloprofport
 
Invocação e Dedicarória
Invocação e DedicaróriaInvocação e Dedicarória
Invocação e Dedicarória
Paula Oliveira Cruz
 
Grelha de análise do auto da barca do inferno 9º
Grelha de análise do auto da barca do inferno 9ºGrelha de análise do auto da barca do inferno 9º
Grelha de análise do auto da barca do inferno 9º
Secretaria Regional de Educação da Madeira
 
O Mostrengo
O MostrengoO Mostrengo
O Mostrengo
António Teixeira
 
O fidalgo
O fidalgoO fidalgo
O fidalgo
annapasilva
 
Auto da barca analise completa
Auto da barca   analise completaAuto da barca   analise completa
Auto da barca analise completa
William Ferraz
 
Teste 9 b_auto (1)
Teste 9 b_auto (1)Teste 9 b_auto (1)
Teste 9 b_auto (1)
apfandradeg
 
Cena do Enforcado - Auto da Barca do Inferno
Cena do Enforcado - Auto da Barca do InfernoCena do Enforcado - Auto da Barca do Inferno
Cena do Enforcado - Auto da Barca do Inferno
Toninho Mata
 
Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
Auto da Barca do Inferno, de Gil VicenteAuto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
Lurdes Augusto
 
Invocação
InvocaçãoInvocação
Tétis e a ilha dos amores
Tétis e a ilha dos amoresTétis e a ilha dos amores
Tétis e a ilha dos amores
Bruno Neves
 

Mais procurados (20)

Despedidas em belém
Despedidas em belémDespedidas em belém
Despedidas em belém
 
Ilha dos amores
Ilha dos amoresIlha dos amores
Ilha dos amores
 
Auto da barca do inferno - texto expositivo
Auto da barca do inferno - texto expositivoAuto da barca do inferno - texto expositivo
Auto da barca do inferno - texto expositivo
 
Adamastor
AdamastorAdamastor
Adamastor
 
Cena do fidalgo_-_questionario
Cena do fidalgo_-_questionarioCena do fidalgo_-_questionario
Cena do fidalgo_-_questionario
 
Cena Fidalgo
Cena FidalgoCena Fidalgo
Cena Fidalgo
 
Auto da barca do inferno, cena VI-O Frade
Auto da barca do inferno, cena VI-O FradeAuto da barca do inferno, cena VI-O Frade
Auto da barca do inferno, cena VI-O Frade
 
Lusíadas - Episódio do Adamastor
Lusíadas - Episódio do AdamastorLusíadas - Episódio do Adamastor
Lusíadas - Episódio do Adamastor
 
Temática E Estrutura
Temática E EstruturaTemática E Estrutura
Temática E Estrutura
 
Consílio dos deuses
Consílio dos deusesConsílio dos deuses
Consílio dos deuses
 
Invocação e Dedicarória
Invocação e DedicaróriaInvocação e Dedicarória
Invocação e Dedicarória
 
Grelha de análise do auto da barca do inferno 9º
Grelha de análise do auto da barca do inferno 9ºGrelha de análise do auto da barca do inferno 9º
Grelha de análise do auto da barca do inferno 9º
 
O Mostrengo
O MostrengoO Mostrengo
O Mostrengo
 
O fidalgo
O fidalgoO fidalgo
O fidalgo
 
Auto da barca analise completa
Auto da barca   analise completaAuto da barca   analise completa
Auto da barca analise completa
 
Teste 9 b_auto (1)
Teste 9 b_auto (1)Teste 9 b_auto (1)
Teste 9 b_auto (1)
 
Cena do Enforcado - Auto da Barca do Inferno
Cena do Enforcado - Auto da Barca do InfernoCena do Enforcado - Auto da Barca do Inferno
Cena do Enforcado - Auto da Barca do Inferno
 
Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
Auto da Barca do Inferno, de Gil VicenteAuto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente
 
Invocação
InvocaçãoInvocação
Invocação
 
Tétis e a ilha dos amores
Tétis e a ilha dos amoresTétis e a ilha dos amores
Tétis e a ilha dos amores
 

Destaque

Google docs
Google docsGoogle docs
Google docs
Jacqueline Alvarez
 
0 A S M U L H E R E S (Com Música)
0  A S  M U L H E R E S (Com Música)0  A S  M U L H E R E S (Com Música)
0 A S M U L H E R E S (Com Música)
Nádia Souza
 
Eutanasiay sus consecuencias
Eutanasiay sus consecuenciasEutanasiay sus consecuencias
Eutanasiay sus consecuencias
joss2017
 
cv_LUMKILE MKWALO_2016
cv_LUMKILE MKWALO_2016cv_LUMKILE MKWALO_2016
cv_LUMKILE MKWALO_2016
Lumkile Mkwalo
 
Team A
Team ATeam A
ραλλειοσ κορυζή κοκοράκη
ραλλειοσ κορυζή κοκοράκηραλλειοσ κορυζή κοκοράκη
ραλλειοσ κορυζή κοκοράκη
annakaivivi
 
Unit 1 research methods worksheet for year 10
Unit 1 research methods worksheet for year 10Unit 1 research methods worksheet for year 10
Unit 1 research methods worksheet for year 10
ionaspencedingle
 
Efbes.com Tanıtım
Efbes.com TanıtımEfbes.com Tanıtım
Efbes.com Tanıtım
volkandeg
 
Program godzinowy konferencji 2015 (3)
Program godzinowy konferencji 2015 (3)Program godzinowy konferencji 2015 (3)
Program godzinowy konferencji 2015 (3)
ptwp
 
Siglo xxi en estados unidos barack obama 2013
Siglo xxi en estados unidos barack obama 2013Siglo xxi en estados unidos barack obama 2013
Siglo xxi en estados unidos barack obama 2013
wandy18
 
Apps and Extensions...it's a Smash NCTIES 16
Apps and Extensions...it's a Smash   NCTIES 16Apps and Extensions...it's a Smash   NCTIES 16
Apps and Extensions...it's a Smash NCTIES 16
Suzanne Blaszak
 
Eutanasia
EutanasiaEutanasia
Eutanasia
joss2017
 
Hadoop conference Japan 2011
Hadoop conference Japan 2011Hadoop conference Japan 2011
Hadoop conference Japan 2011
Takahiko Ito
 
Water ecosystems lcr
Water ecosystems lcrWater ecosystems lcr
Water ecosystems lcr
Jose Martínez Alcolea
 
Join the great
Join the greatJoin the great
Join the great
Jose Martínez Alcolea
 
Curs 1.1. Introducció a l'Open Data
Curs 1.1. Introducció a l'Open DataCurs 1.1. Introducció a l'Open Data
Curs 1.1. Introducció a l'Open Data
Iniciativa Barcelona Open Data
 
BioGeo11-argumentos evolucao
BioGeo11-argumentos evolucaoBioGeo11-argumentos evolucao
BioGeo11-argumentos evolucao
Rita Rainho
 
الصحافة الرقمية - الصحافة الالكترونية
  الصحافة الرقمية - الصحافة الالكترونية    الصحافة الرقمية - الصحافة الالكترونية
الصحافة الرقمية - الصحافة الالكترونية
Mamoun Matar
 
TOLERANCIA
TOLERANCIATOLERANCIA
Madrid & Catalonia
Madrid & CataloniaMadrid & Catalonia
Madrid & Catalonia
isarevi
 

Destaque (20)

Google docs
Google docsGoogle docs
Google docs
 
0 A S M U L H E R E S (Com Música)
0  A S  M U L H E R E S (Com Música)0  A S  M U L H E R E S (Com Música)
0 A S M U L H E R E S (Com Música)
 
Eutanasiay sus consecuencias
Eutanasiay sus consecuenciasEutanasiay sus consecuencias
Eutanasiay sus consecuencias
 
cv_LUMKILE MKWALO_2016
cv_LUMKILE MKWALO_2016cv_LUMKILE MKWALO_2016
cv_LUMKILE MKWALO_2016
 
Team A
Team ATeam A
Team A
 
ραλλειοσ κορυζή κοκοράκη
ραλλειοσ κορυζή κοκοράκηραλλειοσ κορυζή κοκοράκη
ραλλειοσ κορυζή κοκοράκη
 
Unit 1 research methods worksheet for year 10
Unit 1 research methods worksheet for year 10Unit 1 research methods worksheet for year 10
Unit 1 research methods worksheet for year 10
 
Efbes.com Tanıtım
Efbes.com TanıtımEfbes.com Tanıtım
Efbes.com Tanıtım
 
Program godzinowy konferencji 2015 (3)
Program godzinowy konferencji 2015 (3)Program godzinowy konferencji 2015 (3)
Program godzinowy konferencji 2015 (3)
 
Siglo xxi en estados unidos barack obama 2013
Siglo xxi en estados unidos barack obama 2013Siglo xxi en estados unidos barack obama 2013
Siglo xxi en estados unidos barack obama 2013
 
Apps and Extensions...it's a Smash NCTIES 16
Apps and Extensions...it's a Smash   NCTIES 16Apps and Extensions...it's a Smash   NCTIES 16
Apps and Extensions...it's a Smash NCTIES 16
 
Eutanasia
EutanasiaEutanasia
Eutanasia
 
Hadoop conference Japan 2011
Hadoop conference Japan 2011Hadoop conference Japan 2011
Hadoop conference Japan 2011
 
Water ecosystems lcr
Water ecosystems lcrWater ecosystems lcr
Water ecosystems lcr
 
Join the great
Join the greatJoin the great
Join the great
 
Curs 1.1. Introducció a l'Open Data
Curs 1.1. Introducció a l'Open DataCurs 1.1. Introducció a l'Open Data
Curs 1.1. Introducció a l'Open Data
 
BioGeo11-argumentos evolucao
BioGeo11-argumentos evolucaoBioGeo11-argumentos evolucao
BioGeo11-argumentos evolucao
 
الصحافة الرقمية - الصحافة الالكترونية
  الصحافة الرقمية - الصحافة الالكترونية    الصحافة الرقمية - الصحافة الالكترونية
الصحافة الرقمية - الصحافة الالكترونية
 
TOLERANCIA
TOLERANCIATOLERANCIA
TOLERANCIA
 
Madrid & Catalonia
Madrid & CataloniaMadrid & Catalonia
Madrid & Catalonia
 

Semelhante a Resumo barcainferno

Trabalho de AP do 3º Período
Trabalho de AP do 3º PeríodoTrabalho de AP do 3º Período
Trabalho de AP do 3º Período
anafilipasampaiofreitas
 
Gil vicente aula
Gil vicente aulaGil vicente aula
Gil vicente aula resgate
Gil vicente aula resgateGil vicente aula resgate
Gil vicente aula resgate
Gil vicente aula resgateGil vicente aula resgate
Análise de auto da barca do inferno
Análise de auto da barca do infernoAnálise de auto da barca do inferno
Análise de auto da barca do inferno
ma.no.el.ne.ves
 
Humanismo - Gil Vicente
Humanismo  - Gil VicenteHumanismo  - Gil Vicente
Humanismo - Gil Vicente
Escola Estadual Joaquim Abarca -
 
Gil Vicente
Gil VicenteGil Vicente
Gil Vicente
Cláudia Heloísa
 
Auto da barca do inferno ppt bom
Auto da barca do inferno ppt bomAuto da barca do inferno ppt bom
Auto da barca do inferno ppt bom
paulaoliveiraoliveir2
 
50669819 auto-da-barca-do-inferno-introducao ppt
50669819 auto-da-barca-do-inferno-introducao ppt50669819 auto-da-barca-do-inferno-introducao ppt
50669819 auto-da-barca-do-inferno-introducao ppt
paulaoliveiraoliveir2
 
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
MarciaSilva440561
 
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
Elisabete Laginha
 
Auto da Barca do Inferno 3ª A - 2011
Auto da Barca do Inferno     3ª  A  - 2011Auto da Barca do Inferno     3ª  A  - 2011
Auto da Barca do Inferno 3ª A - 2011
Maria Inês de Souza Vitorino Justino
 
Auto da Barca do Inferno 3ª A - 2011
Auto da Barca do Inferno     3ª  A  - 2011Auto da Barca do Inferno     3ª  A  - 2011
Auto da Barca do Inferno 3ª A - 2011
Maria Inês de Souza Vitorino Justino
 
Barca gvicente
Barca gvicenteBarca gvicente
Barca gvicente
Vinicius O Resiliente
 
Tcvb2 marco gomes_gil v_icente
Tcvb2 marco gomes_gil v_icenteTcvb2 marco gomes_gil v_icente
Tcvb2 marco gomes_gil v_icente
Marco Gomes
 
Tcvb2 marco gomes_gil v_icente
Tcvb2 marco gomes_gil v_icenteTcvb2 marco gomes_gil v_icente
Tcvb2 marco gomes_gil v_icente
Marco Gomes
 
Questões fechadas sobre auto da barca do inferno
Questões fechadas sobre auto da barca do infernoQuestões fechadas sobre auto da barca do inferno
Questões fechadas sobre auto da barca do inferno
ma.no.el.ne.ves
 
O Auto da Barca do Inferno
O Auto da Barca do InfernoO Auto da Barca do Inferno
O Auto da Barca do Inferno
António Fernandes
 
O auto da barca do inferno de Gil Vicente
O auto da barca do inferno de Gil VicenteO auto da barca do inferno de Gil Vicente
O auto da barca do inferno de Gil Vicente
Otivo Junior
 
Auto da-barca-do-inferno
Auto da-barca-do-inferno Auto da-barca-do-inferno
Auto da-barca-do-inferno
Diógenes Zigar
 

Semelhante a Resumo barcainferno (20)

Trabalho de AP do 3º Período
Trabalho de AP do 3º PeríodoTrabalho de AP do 3º Período
Trabalho de AP do 3º Período
 
Gil vicente aula
Gil vicente aulaGil vicente aula
Gil vicente aula
 
Gil vicente aula resgate
Gil vicente aula resgateGil vicente aula resgate
Gil vicente aula resgate
 
Gil vicente aula resgate
Gil vicente aula resgateGil vicente aula resgate
Gil vicente aula resgate
 
Análise de auto da barca do inferno
Análise de auto da barca do infernoAnálise de auto da barca do inferno
Análise de auto da barca do inferno
 
Humanismo - Gil Vicente
Humanismo  - Gil VicenteHumanismo  - Gil Vicente
Humanismo - Gil Vicente
 
Gil Vicente
Gil VicenteGil Vicente
Gil Vicente
 
Auto da barca do inferno ppt bom
Auto da barca do inferno ppt bomAuto da barca do inferno ppt bom
Auto da barca do inferno ppt bom
 
50669819 auto-da-barca-do-inferno-introducao ppt
50669819 auto-da-barca-do-inferno-introducao ppt50669819 auto-da-barca-do-inferno-introducao ppt
50669819 auto-da-barca-do-inferno-introducao ppt
 
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
 
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
«Auto da Barca do Inferno», Gil Vicente.PPTX
 
Auto da Barca do Inferno 3ª A - 2011
Auto da Barca do Inferno     3ª  A  - 2011Auto da Barca do Inferno     3ª  A  - 2011
Auto da Barca do Inferno 3ª A - 2011
 
Auto da Barca do Inferno 3ª A - 2011
Auto da Barca do Inferno     3ª  A  - 2011Auto da Barca do Inferno     3ª  A  - 2011
Auto da Barca do Inferno 3ª A - 2011
 
Barca gvicente
Barca gvicenteBarca gvicente
Barca gvicente
 
Tcvb2 marco gomes_gil v_icente
Tcvb2 marco gomes_gil v_icenteTcvb2 marco gomes_gil v_icente
Tcvb2 marco gomes_gil v_icente
 
Tcvb2 marco gomes_gil v_icente
Tcvb2 marco gomes_gil v_icenteTcvb2 marco gomes_gil v_icente
Tcvb2 marco gomes_gil v_icente
 
Questões fechadas sobre auto da barca do inferno
Questões fechadas sobre auto da barca do infernoQuestões fechadas sobre auto da barca do inferno
Questões fechadas sobre auto da barca do inferno
 
O Auto da Barca do Inferno
O Auto da Barca do InfernoO Auto da Barca do Inferno
O Auto da Barca do Inferno
 
O auto da barca do inferno de Gil Vicente
O auto da barca do inferno de Gil VicenteO auto da barca do inferno de Gil Vicente
O auto da barca do inferno de Gil Vicente
 
Auto da-barca-do-inferno
Auto da-barca-do-inferno Auto da-barca-do-inferno
Auto da-barca-do-inferno
 

Último

Divulgação científica: o cientista e a mídia
Divulgação científica: o cientista e a mídiaDivulgação científica: o cientista e a mídia
Divulgação científica: o cientista e a mídia
N G
 
GEOGRAFIA DO BRASIL para estudo de concurso
GEOGRAFIA DO BRASIL para estudo de concursoGEOGRAFIA DO BRASIL para estudo de concurso
GEOGRAFIA DO BRASIL para estudo de concurso
IagoSoares13
 
MANUAL DE TAROT 2 manual de tarot 2 manual de tarot 2
MANUAL DE TAROT 2 manual de tarot 2 manual de tarot 2MANUAL DE TAROT 2 manual de tarot 2 manual de tarot 2
MANUAL DE TAROT 2 manual de tarot 2 manual de tarot 2
supremusmaster1
 
Cromatografia Gasosa - 1.ppt_Histórico e aplicabilidade.
Cromatografia Gasosa - 1.ppt_Histórico e aplicabilidade.Cromatografia Gasosa - 1.ppt_Histórico e aplicabilidade.
Cromatografia Gasosa - 1.ppt_Histórico e aplicabilidade.
Alexandre Isaac Bueno
 
Divulgação científica: o jornalista, o cientista e a mídia
Divulgação científica: o jornalista, o cientista e a mídiaDivulgação científica: o jornalista, o cientista e a mídia
Divulgação científica: o jornalista, o cientista e a mídia
N G
 
FRATURAS DE PUNHO E ANTEBRAÇO NA CRIANÇA E EPIFISIÓLISE.pptx
FRATURAS DE PUNHO E ANTEBRAÇO NA CRIANÇA E EPIFISIÓLISE.pptxFRATURAS DE PUNHO E ANTEBRAÇO NA CRIANÇA E EPIFISIÓLISE.pptx
FRATURAS DE PUNHO E ANTEBRAÇO NA CRIANÇA E EPIFISIÓLISE.pptx
consultarapidakmorai
 

Último (6)

Divulgação científica: o cientista e a mídia
Divulgação científica: o cientista e a mídiaDivulgação científica: o cientista e a mídia
Divulgação científica: o cientista e a mídia
 
GEOGRAFIA DO BRASIL para estudo de concurso
GEOGRAFIA DO BRASIL para estudo de concursoGEOGRAFIA DO BRASIL para estudo de concurso
GEOGRAFIA DO BRASIL para estudo de concurso
 
MANUAL DE TAROT 2 manual de tarot 2 manual de tarot 2
MANUAL DE TAROT 2 manual de tarot 2 manual de tarot 2MANUAL DE TAROT 2 manual de tarot 2 manual de tarot 2
MANUAL DE TAROT 2 manual de tarot 2 manual de tarot 2
 
Cromatografia Gasosa - 1.ppt_Histórico e aplicabilidade.
Cromatografia Gasosa - 1.ppt_Histórico e aplicabilidade.Cromatografia Gasosa - 1.ppt_Histórico e aplicabilidade.
Cromatografia Gasosa - 1.ppt_Histórico e aplicabilidade.
 
Divulgação científica: o jornalista, o cientista e a mídia
Divulgação científica: o jornalista, o cientista e a mídiaDivulgação científica: o jornalista, o cientista e a mídia
Divulgação científica: o jornalista, o cientista e a mídia
 
FRATURAS DE PUNHO E ANTEBRAÇO NA CRIANÇA E EPIFISIÓLISE.pptx
FRATURAS DE PUNHO E ANTEBRAÇO NA CRIANÇA E EPIFISIÓLISE.pptxFRATURAS DE PUNHO E ANTEBRAÇO NA CRIANÇA E EPIFISIÓLISE.pptx
FRATURAS DE PUNHO E ANTEBRAÇO NA CRIANÇA E EPIFISIÓLISE.pptx
 

Resumo barcainferno

  • 1. AUTO DA BARCA DO INFERNO A expressão latina ridendo castigat mores traduz-se por “A rir castigam-se/ corrigem-se os costumes” e está associada à obra de Gil Vicente, que, através de várias situações lúdicas e cómicas, procura criticar e corrigir os vícios da sociedade do seu tempo, procurando moldá-la e alterar os maus comportamentos. Escrita em 1517, durante a transição entre Idade Média e Renascimento, o Auto da Barca do Inferno é uma das obras mais representativas do teatro vicentino, onde prevalece a temática religiosa como pretexto para a crítica de costumes. É considerada uma das peças mais famosas do dramaturgo. Gil Vicente, ao apresentar o Auto da Barca do Inferno, utiliza a expressão "auto de moralidade", considerando necessário declarar o argumento utilizado para compor o desenlace. As almas, após se libertarem dos seus corpos, em terra, dirigem-se a uma zona, onde estão dois barcos: um conduzido pelo Anjo, que levará as almas para o Paraíso, e o outro tripulado pelo Diabo, que dirigirá as almas até ao Inferno. As personagens do Auto da Barca do Inferno são representantes das mais variadas classes sociais e de algumas atividades diversas, além de quatro cavaleiros cruzados. Cada personagem é julgada e condenada ao seu destino, embarcando na companhia do Diabo ou do Anjo. Esta obra foi escrita em versos rimados, fundindo poesia e teatro, fazendo com que o texto, cheio de ironia, trocadilhos, metáforas e ritmo, fluísse naturalmente. TEMÁTICA O Auto da Barca do Inferno retrata a sociedade portuguesa do século XVI, sendo clara a intenção do autor em expor de forma satírica e despojada os grandes vícios humanos, encontrados nas personagens, ou melhor, nas almas que se apresentam no porto em busca do transporte para o outro lado, dentro da visão católica e platónica de céu e inferno. É um auto onde o barqueiro do inferno e o do céu esperam os condenados e os honrados, que chegam e são acusados pelo Diabo e pelo Anjo, tendo este último poder para absolvição. Esta peça proporciona uma amostra do que era a sociedade lisboeta das décadas iniciais do século XVI, embora alguns dos assuntos passados sejam pertinentes à atualidade.
  • 2. ESTILO A obra está escrita em versos heptassílabos, de forma coloquial e com intenção marcadamente doutrinária, envolvendo o português, o latim e o espanhol. Cada personagem apresenta, através da fala, traços que denunciam sua condição social. ESTRUTURA A peça tem a finalidade de divertir e instruir, considerando temas como religiosos ou profanos, sérios ou cómicos, que devem guardar um profundo sentimento moralizador. O Auto da Barca do Inferno não tem uma estrutura definida, ou seja, não está dividido em atos ou cenas. É apenas uma peça teatral apresentada num único ato, subdividido em cenas marcadas pelos diálogos entre o Anjo ou o Diabo e as personagens. CENÁRIO A peça é apresentada num porto, no qual estão atracadas duas barcas, pelas quais, todos os mortos terão de passar para serem julgados e condenados à barca da Glória ou à barca do Inferno. A peça inicia-se quando as almas chegam ao porto imaginário. PERSONAGENS 1. Diabo e Anjo: condutores das almas ao Inferno e ao Paraíso, respetivamente. Conhecem muito bem cada personagem. O Diabo é troçador, irónico e bom argumentador. Gil Vicente não pinta estas personagens como responsáveis pelos fracassos e males humanos, considerando-os juízes, que entram na consciência de cada alma, revelando o que cada uma delas procura esconder. 2. Fidalgo: representa a nobreza. Chega acompanhado de um pajem e vem vestido com uma roupa exagerada e uma cadeira: elementos característicos do seu estatuto social. O diabo alega que o Fidalgo o acompanhará por ter tido uma vida de luxúria e de pecados, sendo portanto condenado pela vida pecaminosa, em que a luxúria, a tirania e a falta de modéstia pesam como graves defeitos. Ao Fidalgo, de nada valem as misericórdias ou orações encomendadas. A sua figura arrogante e orgulhosa permite a crítica vicentina à nobreza, estando centrada nos dois principais defeitos humanos: o orgulho e a prática da tirania.
  • 3. 3. Onzeneiro: é a segunda alma a ser inquirida. Ao chegar à barca do Diabo, percebe que deixou o seu dinheiro em terra. Utiliza este pretexto para convencer o Diabo a deixá-lo regressar à terra, demonstrando apreço pelas coisas mundanas. O Diabo não aceita e condena-o ao Inferno. 4. Parvo: um dos poucos a não ser condenado ao Inferno. Chega desprovido de tudo, carregado de simplicidade e sem malícia. Consegue enganar o Diabo e até mesmo injuriá-lo. É uma alma pura, cujos valores são legítimos e sinceros. Ao passar pela barca do Anjo, diz ser ninguém. E é pela sua humildade e pelos seus verdadeiros valores que é conduzido ao Paraíso. Em vários momentos da peça, o Parvo ironiza a reivindicação das outras personagens, que se querem passar por "inocentes" diante do Diabo. 5. Sapateiro: representante dos mestres de ofício, chega à embarcação do Diabo acompanhado do seu instrumento de trabalho: o avental e as formas. É desonesto considerado um explorador do povo. Habituado a enganar os homens, procura também enganar o Diabo, que, espertamente, não se deixa influenciar pelas suas artimanhas e condena-o. 6. Frade: como todos os representantes do clero, evidenciados por Gil Vicente, o Frade é alegre, cantante, bom dançarino e dissimulado. Chega acompanhado da sua amante, e acredita que, por ter rezado e estar a serviço da fé, deveria ser perdoado. Dá uma lição de esgrima ao Diabo (que finge não saber manobrar uma arma), o que prova a culpa do provocador, já que frades não lidam com armas. É então condenado ao fogo do inferno. Gil Vicente crítica o clero e julga-o incapaz de pregar as três coisas mais simples: a paz, a verdade e a fé. 7. Alcoviteira (Brísida Vaz): agenciadora de prostitutas, misto de alcoviteira e feiticeira. É condenada por falta de escrúpulos e corrupção. É conhecida de outras personagens, que utilizaram, em vida, os seus serviços. Traiçoeira e cheia de astúcias, não consegue fugir à condenação.
  • 4. 8. Judeu: entra acompanhado de seu bode. Detestado por todos, até mesmo pelo Diabo, que quase se recusa a levá-lo, é igualmente condenado, inclusive por não seguir os preceitos religiosos da fé cristã. Será importante referir que, durante o reinado de D. Manuel, houve uma perseguição aos judeus originando a sua expulsão do território português: alguns saíram carregados de grandes fortunas e outros converteram-se ao cristianismo, considerados como cristãos novos. 9. Corregedor e o Procurador: ambos representantes da justiça: juiz e advogado. Deveriam ser exemplos de bom comportamento, mas acabaram condenados justamente por manipularem a justiça de acordo com as propinas recebidas, pois faziam da lei uma fonte de recursos ilícitos e de manipulação de sentenças. O carácter moralizador do teatro vicentino fica bem mais explícito com esta condenação, envolvendo a Justiça humana na figura dos representantes do Direito. 10. Enforcado: chega ao porto a acreditar que tem o perdão garantido, por ter já cumprido, em terra, o julgamento e posterior condenação à morte, mas é condenado ao Inferno. 11. Quatro Cavaleiros: finalmente chegam à barca quatro cavaleiros cruzados, que lutaram pelo triunfo da fé cristã e morreram em poder dos mouros. Obviamente, com uma ficha impecável, serão todos julgados, perdoados e conduzidos à Barca do Anjo. O destaque deve ser feito à figura do Diabo, personagem vigorosa que conhece a arte de persuadir. É ágil no ataque, troça, responde, argumenta e entra nas consciências humanas. Ao Diabo cabe denunciar os vícios e as fraquezas, sendo a personagem mais importante na crítica que Gil Vicente liga à sua época. Surgem ao longo do Auto três tipos de cómico: caráter, situação e linguagem.  Cómico de caráter - aquele que é demonstrado pela personalidade da personagem Parvo, que devido à sua pobreza de espírito não mede as palavras, não podendo ser responsabilizado pelos seus erros.  Cómico de situação - o Fidalgo, cujo orgulho é ridicularizado pelo Diabo.  Cómico de linguagem - aquele que é proferido por exemplo nas falas do Diabo.
  • 5. Personagem Símbolos cénicos Linguagem Acusações Indícios textuais Observações Fidalgo Pajem, cadeira de espaldas, manto Altiva e insolente Vaidade, presunção, soberba e tirania “Sou fidalgo de solar”; “Para senhor de tal marca, não há aqui mais cortesia?”; “Cuidando na tirania do pobre povo queixoso”; “desprezastes os mais pequenos” O Diabo identifica-o como D. Anrique; o pajem não entra na barca Onzeneiro Bolsão Vulgar Avareza e usura “Na safra do apanhar”; “Lá me fica de roldão, minha fazenda e alhea” Parvo Desbocada Simplicidade e ingenuidade “Per malícia nom erraste” De nome Joane Sapateiro Avental e formas Vulgar, com alguns termos técnicos Roubo “Tu roubaste bem trint’anos o povo com teu mester” Ele próprio se identifica como João Antão Frade Moça, broquel, espada, casco sobre o capelo Exuberante Libertinagem (mundano, dançarino e esgrimista) “Um padre tão namorado”; “dê Vossa Revença lição d’esgrima, que é cousa boa!” É referido mais à frente como Frei Gabriel; a Moça acompanha-o na barca
  • 6. Judeu Bode Indecorosa Profanação “E ele mijou nos finados n’ergueja de São Gião”; “E comia a carne da panela no dia de Nosso Senhor” Identifica-se como Jema Fará e representa o carácter errante dos judeus Corregedor Processos e livros Técnica e latim macarrónico Corrupção e parcialidade “Quando éreis ouvidor nonne acceptistis rapina?”; “E as peitas que vossa mulher levava? Procurador Livros Vulgar Atrevimento e convencimento “Bacharel som… Dou-me ó Demo! Não cuidei que era extremo, nem de morte minha dor” Completa a figura do Corregedor Enforcado Baraço Coloquial Ignorância e credulidade “Que fui bem-aventurado em morrer dependurado”; “E era santo meu baraço” Não se conhece o motivo pelo qual foi enforcado Quatro Cavaleiros Cruz de Cristo, espada e escudo Categórica “Morremos nas partes d’Além, e não quereis saber mais”; “Quem morre em tal peleja merece paz eternal” Entram directamente para a Barca da Glória