Disciplina: HTSP I
Profa. Gisele Toassa
1
 Introduzir aos estudantes o voluntarismo de Wundt,
cujo objetivo era descobrir as leis gerais da experiência
imediata
 Biografia de Wundt, posição da psicologia entre as
ciências, conceito de experiência (mediata, imediata),
objeto da psicologia, princípios fundamentais da
psicologia (paralelismo psicofísico e causalidade
psíquica), metodologias de estudo da experiência
2
• Considerado como o pioneiro da psicologia
experimental (1º Laboratório de Psicologia,
Universidade de Leipzig, Alemanha – 1879), foi
um autor que recebeu alunos do mundo todo,
espalhando sua influência em muitos países
3
4
 Laboratório de Psicologia de Universidade de Leipzig:
pequena sala, antes um auditório. Posteriormente, o
Instituto mudou-se para prédio próprio
 Escreveu com a linguagem rebuscada do alemão
filosófico, estranha ao pensamento psicológico
dominante hoje
5
 Livro mais conhecido: “Elementos de psicologia
fisiológica” (1874)
 Foi um médico (uma espécie de “médico-filósofo”),
compromissado com a elaboração de uma visão de
mundo baseada no resultado de ciências particulares
 Psicologia: ciência da experiência imediata
6
7
 Dupla possibilidade de se fazer ciência empírica: a
ciência natural (física, química, fisiologia, etc.),
que se ocupa com os conteúdos específicos da
experiência mediata (objetos do mundo exterior),
e a psicologia (fisiológica e dos povos), que tem
como objeto toda experiência imediata (aspectos
subjetivos da experiência).
 Ciências naturais e psicologia trabalhariam de
forma complementar, com o intuito de abranger o
conteúdo da experiência como um todo
8
“É a experiência tal como o sujeito a vive antes de se
pôr a pensar sobre ela, antes de comunicá-la, antes
de ‘conhecê-la’” (Figueiredo, 1991b, p.34-35)
A psicologia é, então, com Wundt: ciência do que se
apresenta à consciência
9
“O conteúdo de nossa experiência
imediata varia entre dois pólos,
um objetivo e outro subjetivo, os
elementos podem ser, seguindo
essa divisão, de dois tipos: as
sensações ligadas ao conteúdo
objetivo (som, luz etc.) e os
sentimentos [...] relacionados ao
conteúdo subjetivo (prazer,
desprazer etc.)” (Araújo, 2006,
p.112)
10
 Depende de características/limitações constitutivas do
sujeito da experiência (estrutura biológica, cognitiva
etc.) e, portanto, em geral, demanda o uso de meios
indiretos de conhecimento.
 seu modo de conhecer é mediato e conceitual,
demandando, na maior parte das vezes, uso de
instrumentos auxiliares (telescópios, microscópios,
aceleradores de partículas, instrumentos de registro etc);
 Mundo subjetivo: sem mediação – por isso, só a
psicologia pode abordar a experiência imediata (na
forma de psi fisiológica ou dos povos)
11
 “também de acordo com a definição apresentada por
Wundt, não há uma diferença essencial de natureza
entre o mundo interno e o externo – uma vez que a
experiência é um todo organizado que abrange ambos
–, mas apenas uma diferença na maneira de abordá-
los.” (p.213)
 Há, pois, uma unidade ontológica da experiência
12
 Há muitos, mas Araújo seleciona dois que
fundamentam a autonomia da psicologia: o princípio
do paralelismo psicofísico e o princípio da causalidade
psíquica, que se desdobra na síntese criadora
 Causalidade psíquica
 Síntese criadora: composta por processos com características mais
gerais que não aparecem nos elementos singulares
13
 Paralelismo psicofísico: físico e psíquico não se
determinam, não interagem entre si e não podem ser
reduzidos um ao outro
 Desdobra-se na ideia de “autonomia do psíquico”
 Causalidade psíquica: relacionada ao paralelismo
psicofísico – a experiência pode ser conhecida a partir
de dois pontos de vista: objetivo (experiência mediata)
e subjetivo (imediata)
 Desdobra-se no princípio da síntese criadora, formadora
dos complexos psíquicos
 A ênfase recai no sujeito ou no objeto
14
 Wundt observa que existem vários conteúdos da nossa
experiência que só podem ser conhecidos a partir de
um único ponto de vista, seja ele físico (por exemplo,
no caso dos estados e processos cerebrais) ou
psicológico (por exemplo, no caso dos aspectos
qualitativos da experiência religiosa).
 “contém apenas o pressuposto de que todo evento mental tem um processo
físico correspondente, enquanto que o inverso disso não é de modo algum
exigido, uma vez que inúmeros processos fisiológicos não têm relação alguma
não só com os próprios fenômenos da consciência, mas também com seus
processos auxiliares, que ocorrem no sistema nervoso central” (Wundt, in
Araújo, 2009)
15
16
Cont. objetivo = Sensações
[el. simples]
Acessíveis de imediato/variam muito [causalidade
‘física’]
Experimentação [demanda repetição em
condições controladas]
Sensações simbolizam o encontro entre o estudo
físico e psicológico (perceptual) da experiência
PSICOLOGIA FISIOLÓGICA
(EXPERIMENTAL)
Cont. subjet. = Sentimentos
simpl. e sua fusão em compl.
Complexos [por meio de seus produtos;
têm uma causalidade própria – a fusão
dos el.] –compartilhados - costumes,
religião, linguagem etc
Observação
Inexplicáveis em
termos de psicologia
individual
PSICOLOGIA DOS POVOS
17
Pensamento,
afeto, atividade
voluntária,
psicologia social
Memória,
imaginação e
atenção
Sensação e
percepção
18
19
 Objetos psíquicos – produtos mentais surgidos na
história: costumes, religião, linguagem, mitos
 Psicologia dos povos: objeto dos últimos 20 anos
de vida de Wundt (1900-20)
 A introspecção e a auto-observação não serviam para
estudar fenômenos mentais complexos. Era apenas
possível estudar processos sensoriais básicos (Figueiredo,
1991b)
 Psicologia experimental (fisiológica): estudo dos
elementos que estão presentes à consciência; de sua
síntese criativa
 Análise e estudos das associações são meio de descobrir
leis universais da vida psíquica, não o seu próprio fim,
como considerava Titchener
20
 Introspecção/percepção interna/auto-observação 
método de pesquisa psicológica baseado nos relatos do
sujeito a partir do que ele observa em si mesmo – na
auto-observação. O observador e o observado são a
mesma pessoa. Wundt critica a ideia de introspecção e
procura controlar as condições da auto-observação,
nomeando-a como percepção interna. (Araújo, 2006)
 Isso porque os processos psíquicos variam de acordo com a
intenção do observador. É preciso controlar essa ‘auto-
observação’
21
 1) Dividam-se em quartetos
 2) Vocês definiria as seguintes situações como passíveis
de estudo pela psi fisiológica?
 Jogar bola para um cão
 Treinamento de cães
 A língua chinesa
 Perceber sons agudos
 Perceber sons graves e cores primárias
22
 Maior parte das pesquisas sobre sensação e percepção
 Pesquisa importante - Lange: descoberta de que tempo
de reação muscular é menor que o sensorial
 Outros discípulos importantes: Emil Kraepelin (um
dos fundadores da psiquiatria moderna); Hugo
Munsterberg (criador da psicologia ‘aplicada’ nos
USA), Carl Lange (criador de uma renomada teoria da
emoção), G. Stanley Hall (criador do conceito
moderno de adolescência), C.H. Judd (um criador da
psicologia das instituições)
23
Nas raízes da psi social moderna
24
 Dividam-se em quartetos
 Respondam às perguntas:
 1) É interessante à psicologia estudar grupos e coletivos
de modo geral? Por quê?
 2) Podemos identificar grupos/povos “mais” e “menos”
desenvolvidos do que outros? Vê importância em
identificar isso?
 3) A linguagem se liga ao pensamento? Você percebe isso
em sua história de vida?
 4) O que é o “primitivismo”?
25
 Wundt desenvolveu-a entre 1900 e 1920 (fim de sua
vida)
 Substantivo composto no alemão: Völkerpsychologie
(traduzido para o inglês como folk psychology)
 Começou a ser usada em meados do séc. XIX,
referindo-se aos povos particularmente interessantes
aos alemães (franceses, ingleses, americanos etc)
 O autor relata dificuldade inicial de separar a psi dos
povos da filosofia
26
 Língua e cultura são objetos que emergem da recíproca
interação entre muitos (Farr, 1998)
 A “Psicologia dos povos”: escrita em 10 volumes, ocupa-
se das manifestações externas do Geist – língua,
pensamento, memória, costumes, mitos, linguagem,
religião, magia etc. Investiga-se a relação das pessoas
com esses conteúdos
 Procura a observação dos produtos da interação (o
controle experimental não é possível)
 Kant, no século XVIII: já discutira a ideia de estudar a
mente em suas manifestações externas
27
• Ciências do espírito (não o espírito “individual”,
como na religião cristã, mas o espírito coletivo:
costumes, linguagem, práticas sociais que
partilhamos com outras pessoas, segundo Farr,
1998)  Geisteswissenschaften.
• Ciências da natureza  Naturwissenschaften
• Segundo Farr, Wundt escreve, sob influência de
Dilthey, tanto ciências da natureza quanto do
espírito.
28
 A psicologia dos povos é “um ramo da psicologia cuja
justificação e problema não pode haver mais disputa.
Seu problema relaciona-se àqueles produtos mentais
que são criados por uma comunidade de vida humana
e é, portanto, inexplicável em termos meramente de
consciência individual, desde que pressupõe a ação
recíproca de muitos. [...] Uma linguagem nunca pode
ser criada por um indivíduo” (Wundt, 1916, p.3), e se
criada, não pode se manter por alguém isolado
29
 A psicologia dos povos pressupõe a psicologia
individual OU geral (Wundt, 1916, p.3)
 Ela suplementa a geral
 Introspecção não serve para estudar fenômenos
mentais complexos – e a psicologia infantil não pode
servir à sua solução, pois a criança já nasce em
sociedade
30
31
 Para a psicologia dos povos: primitivo significa o
psicologicamente primitivo (em uma escala que vai das
civilizações mais baixas às mais altas), e não o que
surgiu antes dos demais (idem, p.5). Por exemplo, certa
tribo pode ser recente, mas culturalmente primitiva
 Há vários estágios de desenvolvimento mental
 Faz um corte entre povos ‘históricos’ e ‘pré-históricos’;
primitivos e culturais
 Família, grupo, tribo e comunidade local – associações
mais restritas. Psicologia dos povos = psicologia do
gênero humano
 Psicologia social  lembra a sociologia moderna, que
usualmente lida só com questões da moderna vida
cultural
 A ideia de “povo” abarca famílias, classes, clãs e grupos
32
 Ele nega a utilidade de destacar um fenômeno da vida
comunitária depois de outro, e traçar seu
desenvolvimento – isso ficaria fragmentado
 É importante adotar seções transversais ao invés de
longitudinais – é preciso atentar para a sequência, bem
como interconexão: começando do mais simples.
 A partir dos fatos informados pela etnologia
 Paralelismo entre desenvolvimento individual (da
infância à vida adulta) e dos povos (p.7) – um processo
contínuo do qual, no entanto, podemos identificar
distintas eras
33
 Evento importante na história mental
 A religião vai transcendendo o círculo mais restrito de
um povo, em busca de generalização  corresponde à
formação e extensão dos Estados nacionais
 “Correspondendo a esta expansão, encontramos aquelas
influências recíprocas de povos culturizados na vida
econômica, bem como nos costumes, arte, e ciência, o
que dá à sociedade humana seu caráter composto,
representando uma combinação de elementos nacionais
com universalmente humanos” (p.10). Foi o caso com o
Império romano
34
35
 É imensa a diferença entre o homem primitivo que
rouba da floresta primeva à noite e destina o produto
de seu roubo para troca VS. o comércio de uma época
em que uma frota comercial atravessa os oceanos,
unindo as “pessoas de todas as partes do mundo em
um grande comunidade comercial!” (Wundt, 1916,
p.10)
 Etnologia: ciência das origens dos povos,
características (mentais e físicas) e distribuição deles
(p.5)
 É nela que Wundt se baseia, especialmente a partir de
relatos de viajantes, linguistas viajeiros nas colônias etc
36
 Trad. do inglês: publicação de George Allen & Unwin
Ltd. em 1916
 Duas seções do “Elements of folk psychology”, um
resumo de apenas 532 páginas da extensa psi dos povos
de Wundt
 Objeto: origem e o desenvolvimento do pensamento
humano pelo estudo comparativo da linguagem de
tribos primitivas
 Wundt inicia a tradição da psicologia de estudos da
relação pensamento-linguagem
37
 Texto dialoga diretamente com o público alemão
 A ‘luta pela existência’ explica a morte das linguagens
dos povos mais ‘fracos’ física e mentalmente
 Entretanto, deixa margem à percepção das influências
mútuas entre as línguas – as mais ‘fortes’
influenciando a sintaxe e as mais ‘fracas’, a pronúncia
das ‘mais fortes’
 Mas sustenta que formas primitivas de pensamento
podem subsistir mesmo mediante avanços linguísticos
38
 Primitivos fazem mais gestos – e assim comunicam
pensamentos aos seus semelhantes
 Ideias de Wundt: condizentes com uma desvalorização
do corpo como meio de comunicação
 Fenômenos semelhantes são identificáveis entre
surdos-mudos
 “os gestos servem algumas vezes como um tipo de
linguagem secreta” (p.94), que não intenta comunicar
pensamentos, mas escondê-los
39
 “Poderíamos transferir um surdo-mudo para esse
grupo de índios, e ele provavelmente não teria
dificuldade nenhuma em se comunicar” (p.94)
 A linguagem gestual surge dos afetos:
 “Essa forma de comunicação não é o resultado de
elaborações mentais ou propósitos conscientes, mas da
emoção e dos movimentos expressivos involuntários que
acompanham a emoção”
40
 [entre surdos] “a ideia de caminhar é comunicada pela
imitação dos movimentos de caminhar com os dedos
indicador e médio da mão direita sobre o braço
esquerdo, que é posto em posição horizontal; a ideia
de golpear é representada pela ação da mão em
movimentos de golpe. Contudo, não raramente
diversos sinais devem ser combinados para tornarem-
se um gesto inteligível.” (p.96)
41
 [entre surdos] “a palavra “jardim”, por exemplo, é
expressa primeiramente pela descrição de um círculo
com o dedo indicador para indicar um lugar, e então
pela elevação do polegar e do indicador ao nariz como
gesto para cheiro”
 “no caso de verbo e objeto, o objeto geralmente precede
o verbo” (p.96)
42
Herdeiros de Wundt Pesquisadores que repudiaram
Wundt (a maioria, positivistas)
Malinowski - antropólogo Cattell
Durkheim - sociólogo Galton
G.H. Mead - filósofo, psicólogo Ebbinghaus
Franz Boas - antropólogo Külpe
Os psicólogos da Gestalt (Köhler,
Koffka, Wertheimer, Zeigarnik etc)
Titchener
43
 Dividam-se em trios
 Identifiquem, no trecho dos “Elementos de psicologia
dos povos”:
 1) O que interessa a Wundt nesse texto?
 2) Acreditam que ele tenha um método para realizar
comparações linguísticas? Se há, como seria esse
método?
 3) Você percebe atenção apenas à língua ou uma
preocupação “transversal” que contemple outros
fenômenos mentais também?
 4) Wundt analisa a experiência imediata ou mediata?
44
 Wundt confunde cultura com história
 Há darwinismo social/racismo cultural na sua
interpretação das culturas
 Conta a “história dos vencedores”, sem a perspectiva dos
vencidos, os que não falam alemão
 Vemos busca por generalizar ideias tal como se
generalizava o imperialismo
 Dicotomia idealista entre razão vs. sensação/corpo/emoção
e seu papel na linguagem
 Ideias absurdas sobre os surdos-mudos, não reconhecendo
a complexidade e especificidade de suas línguas
45
 *Araújo, S. de F. (2009) Ideia de Uma Psicologia Científica em Wilhelm
Wundt: Uma Visão Panorâmica. Scientiae Studia, 7, 209-220.
 *Araújo, S. de F. (2006). Wilhelm Wundt e o estudo da experiência imediata.
In: A.M. Jacó-
 Vilela, A.A.L. Ferreira & F.T. Portugal. História da Psicologia: rumos e
percursos. pp.93-104.
Farr, R. M. (2002). As raízes da psicologia social moderna (1872-1954). InColeção
Psicologia Social. Vozes.
Figueiredo, L.C.M. (1991) Psicologia, uma introdução: uma visão histórica da
psicologia como ciência. São Paulo:EDUC, 1991b.
 *Wundt, W. (2013). Elementos de psicologia dos povos: o princípio da
linguagem e o pensamento do homem primitivo. Psicologia da Educação, 37,
91-101.
46

Aula wundt

  • 1.
  • 2.
     Introduzir aosestudantes o voluntarismo de Wundt, cujo objetivo era descobrir as leis gerais da experiência imediata  Biografia de Wundt, posição da psicologia entre as ciências, conceito de experiência (mediata, imediata), objeto da psicologia, princípios fundamentais da psicologia (paralelismo psicofísico e causalidade psíquica), metodologias de estudo da experiência 2
  • 3.
    • Considerado comoo pioneiro da psicologia experimental (1º Laboratório de Psicologia, Universidade de Leipzig, Alemanha – 1879), foi um autor que recebeu alunos do mundo todo, espalhando sua influência em muitos países 3
  • 4.
  • 5.
     Laboratório dePsicologia de Universidade de Leipzig: pequena sala, antes um auditório. Posteriormente, o Instituto mudou-se para prédio próprio  Escreveu com a linguagem rebuscada do alemão filosófico, estranha ao pensamento psicológico dominante hoje 5
  • 6.
     Livro maisconhecido: “Elementos de psicologia fisiológica” (1874)  Foi um médico (uma espécie de “médico-filósofo”), compromissado com a elaboração de uma visão de mundo baseada no resultado de ciências particulares  Psicologia: ciência da experiência imediata 6
  • 7.
  • 8.
     Dupla possibilidadede se fazer ciência empírica: a ciência natural (física, química, fisiologia, etc.), que se ocupa com os conteúdos específicos da experiência mediata (objetos do mundo exterior), e a psicologia (fisiológica e dos povos), que tem como objeto toda experiência imediata (aspectos subjetivos da experiência).  Ciências naturais e psicologia trabalhariam de forma complementar, com o intuito de abranger o conteúdo da experiência como um todo 8
  • 9.
    “É a experiênciatal como o sujeito a vive antes de se pôr a pensar sobre ela, antes de comunicá-la, antes de ‘conhecê-la’” (Figueiredo, 1991b, p.34-35) A psicologia é, então, com Wundt: ciência do que se apresenta à consciência 9
  • 10.
    “O conteúdo denossa experiência imediata varia entre dois pólos, um objetivo e outro subjetivo, os elementos podem ser, seguindo essa divisão, de dois tipos: as sensações ligadas ao conteúdo objetivo (som, luz etc.) e os sentimentos [...] relacionados ao conteúdo subjetivo (prazer, desprazer etc.)” (Araújo, 2006, p.112) 10
  • 11.
     Depende decaracterísticas/limitações constitutivas do sujeito da experiência (estrutura biológica, cognitiva etc.) e, portanto, em geral, demanda o uso de meios indiretos de conhecimento.  seu modo de conhecer é mediato e conceitual, demandando, na maior parte das vezes, uso de instrumentos auxiliares (telescópios, microscópios, aceleradores de partículas, instrumentos de registro etc);  Mundo subjetivo: sem mediação – por isso, só a psicologia pode abordar a experiência imediata (na forma de psi fisiológica ou dos povos) 11
  • 12.
     “também deacordo com a definição apresentada por Wundt, não há uma diferença essencial de natureza entre o mundo interno e o externo – uma vez que a experiência é um todo organizado que abrange ambos –, mas apenas uma diferença na maneira de abordá- los.” (p.213)  Há, pois, uma unidade ontológica da experiência 12
  • 13.
     Há muitos,mas Araújo seleciona dois que fundamentam a autonomia da psicologia: o princípio do paralelismo psicofísico e o princípio da causalidade psíquica, que se desdobra na síntese criadora  Causalidade psíquica  Síntese criadora: composta por processos com características mais gerais que não aparecem nos elementos singulares 13
  • 14.
     Paralelismo psicofísico:físico e psíquico não se determinam, não interagem entre si e não podem ser reduzidos um ao outro  Desdobra-se na ideia de “autonomia do psíquico”  Causalidade psíquica: relacionada ao paralelismo psicofísico – a experiência pode ser conhecida a partir de dois pontos de vista: objetivo (experiência mediata) e subjetivo (imediata)  Desdobra-se no princípio da síntese criadora, formadora dos complexos psíquicos  A ênfase recai no sujeito ou no objeto 14
  • 15.
     Wundt observaque existem vários conteúdos da nossa experiência que só podem ser conhecidos a partir de um único ponto de vista, seja ele físico (por exemplo, no caso dos estados e processos cerebrais) ou psicológico (por exemplo, no caso dos aspectos qualitativos da experiência religiosa).  “contém apenas o pressuposto de que todo evento mental tem um processo físico correspondente, enquanto que o inverso disso não é de modo algum exigido, uma vez que inúmeros processos fisiológicos não têm relação alguma não só com os próprios fenômenos da consciência, mas também com seus processos auxiliares, que ocorrem no sistema nervoso central” (Wundt, in Araújo, 2009) 15
  • 16.
  • 17.
    Cont. objetivo =Sensações [el. simples] Acessíveis de imediato/variam muito [causalidade ‘física’] Experimentação [demanda repetição em condições controladas] Sensações simbolizam o encontro entre o estudo físico e psicológico (perceptual) da experiência PSICOLOGIA FISIOLÓGICA (EXPERIMENTAL) Cont. subjet. = Sentimentos simpl. e sua fusão em compl. Complexos [por meio de seus produtos; têm uma causalidade própria – a fusão dos el.] –compartilhados - costumes, religião, linguagem etc Observação Inexplicáveis em termos de psicologia individual PSICOLOGIA DOS POVOS 17
  • 18.
  • 19.
    19  Objetos psíquicos– produtos mentais surgidos na história: costumes, religião, linguagem, mitos  Psicologia dos povos: objeto dos últimos 20 anos de vida de Wundt (1900-20)
  • 20.
     A introspecçãoe a auto-observação não serviam para estudar fenômenos mentais complexos. Era apenas possível estudar processos sensoriais básicos (Figueiredo, 1991b)  Psicologia experimental (fisiológica): estudo dos elementos que estão presentes à consciência; de sua síntese criativa  Análise e estudos das associações são meio de descobrir leis universais da vida psíquica, não o seu próprio fim, como considerava Titchener 20
  • 21.
     Introspecção/percepção interna/auto-observação método de pesquisa psicológica baseado nos relatos do sujeito a partir do que ele observa em si mesmo – na auto-observação. O observador e o observado são a mesma pessoa. Wundt critica a ideia de introspecção e procura controlar as condições da auto-observação, nomeando-a como percepção interna. (Araújo, 2006)  Isso porque os processos psíquicos variam de acordo com a intenção do observador. É preciso controlar essa ‘auto- observação’ 21
  • 22.
     1) Dividam-seem quartetos  2) Vocês definiria as seguintes situações como passíveis de estudo pela psi fisiológica?  Jogar bola para um cão  Treinamento de cães  A língua chinesa  Perceber sons agudos  Perceber sons graves e cores primárias 22
  • 23.
     Maior partedas pesquisas sobre sensação e percepção  Pesquisa importante - Lange: descoberta de que tempo de reação muscular é menor que o sensorial  Outros discípulos importantes: Emil Kraepelin (um dos fundadores da psiquiatria moderna); Hugo Munsterberg (criador da psicologia ‘aplicada’ nos USA), Carl Lange (criador de uma renomada teoria da emoção), G. Stanley Hall (criador do conceito moderno de adolescência), C.H. Judd (um criador da psicologia das instituições) 23
  • 24.
    Nas raízes dapsi social moderna 24
  • 25.
     Dividam-se emquartetos  Respondam às perguntas:  1) É interessante à psicologia estudar grupos e coletivos de modo geral? Por quê?  2) Podemos identificar grupos/povos “mais” e “menos” desenvolvidos do que outros? Vê importância em identificar isso?  3) A linguagem se liga ao pensamento? Você percebe isso em sua história de vida?  4) O que é o “primitivismo”? 25
  • 26.
     Wundt desenvolveu-aentre 1900 e 1920 (fim de sua vida)  Substantivo composto no alemão: Völkerpsychologie (traduzido para o inglês como folk psychology)  Começou a ser usada em meados do séc. XIX, referindo-se aos povos particularmente interessantes aos alemães (franceses, ingleses, americanos etc)  O autor relata dificuldade inicial de separar a psi dos povos da filosofia 26
  • 27.
     Língua ecultura são objetos que emergem da recíproca interação entre muitos (Farr, 1998)  A “Psicologia dos povos”: escrita em 10 volumes, ocupa- se das manifestações externas do Geist – língua, pensamento, memória, costumes, mitos, linguagem, religião, magia etc. Investiga-se a relação das pessoas com esses conteúdos  Procura a observação dos produtos da interação (o controle experimental não é possível)  Kant, no século XVIII: já discutira a ideia de estudar a mente em suas manifestações externas 27
  • 28.
    • Ciências doespírito (não o espírito “individual”, como na religião cristã, mas o espírito coletivo: costumes, linguagem, práticas sociais que partilhamos com outras pessoas, segundo Farr, 1998)  Geisteswissenschaften. • Ciências da natureza  Naturwissenschaften • Segundo Farr, Wundt escreve, sob influência de Dilthey, tanto ciências da natureza quanto do espírito. 28
  • 29.
     A psicologiados povos é “um ramo da psicologia cuja justificação e problema não pode haver mais disputa. Seu problema relaciona-se àqueles produtos mentais que são criados por uma comunidade de vida humana e é, portanto, inexplicável em termos meramente de consciência individual, desde que pressupõe a ação recíproca de muitos. [...] Uma linguagem nunca pode ser criada por um indivíduo” (Wundt, 1916, p.3), e se criada, não pode se manter por alguém isolado 29
  • 30.
     A psicologiados povos pressupõe a psicologia individual OU geral (Wundt, 1916, p.3)  Ela suplementa a geral  Introspecção não serve para estudar fenômenos mentais complexos – e a psicologia infantil não pode servir à sua solução, pois a criança já nasce em sociedade 30
  • 31.
    31  Para apsicologia dos povos: primitivo significa o psicologicamente primitivo (em uma escala que vai das civilizações mais baixas às mais altas), e não o que surgiu antes dos demais (idem, p.5). Por exemplo, certa tribo pode ser recente, mas culturalmente primitiva  Há vários estágios de desenvolvimento mental  Faz um corte entre povos ‘históricos’ e ‘pré-históricos’; primitivos e culturais
  • 32.
     Família, grupo,tribo e comunidade local – associações mais restritas. Psicologia dos povos = psicologia do gênero humano  Psicologia social  lembra a sociologia moderna, que usualmente lida só com questões da moderna vida cultural  A ideia de “povo” abarca famílias, classes, clãs e grupos 32
  • 33.
     Ele negaa utilidade de destacar um fenômeno da vida comunitária depois de outro, e traçar seu desenvolvimento – isso ficaria fragmentado  É importante adotar seções transversais ao invés de longitudinais – é preciso atentar para a sequência, bem como interconexão: começando do mais simples.  A partir dos fatos informados pela etnologia  Paralelismo entre desenvolvimento individual (da infância à vida adulta) e dos povos (p.7) – um processo contínuo do qual, no entanto, podemos identificar distintas eras 33
  • 34.
     Evento importantena história mental  A religião vai transcendendo o círculo mais restrito de um povo, em busca de generalização  corresponde à formação e extensão dos Estados nacionais  “Correspondendo a esta expansão, encontramos aquelas influências recíprocas de povos culturizados na vida econômica, bem como nos costumes, arte, e ciência, o que dá à sociedade humana seu caráter composto, representando uma combinação de elementos nacionais com universalmente humanos” (p.10). Foi o caso com o Império romano 34
  • 35.
    35  É imensaa diferença entre o homem primitivo que rouba da floresta primeva à noite e destina o produto de seu roubo para troca VS. o comércio de uma época em que uma frota comercial atravessa os oceanos, unindo as “pessoas de todas as partes do mundo em um grande comunidade comercial!” (Wundt, 1916, p.10)
  • 36.
     Etnologia: ciênciadas origens dos povos, características (mentais e físicas) e distribuição deles (p.5)  É nela que Wundt se baseia, especialmente a partir de relatos de viajantes, linguistas viajeiros nas colônias etc 36
  • 37.
     Trad. doinglês: publicação de George Allen & Unwin Ltd. em 1916  Duas seções do “Elements of folk psychology”, um resumo de apenas 532 páginas da extensa psi dos povos de Wundt  Objeto: origem e o desenvolvimento do pensamento humano pelo estudo comparativo da linguagem de tribos primitivas  Wundt inicia a tradição da psicologia de estudos da relação pensamento-linguagem 37
  • 38.
     Texto dialogadiretamente com o público alemão  A ‘luta pela existência’ explica a morte das linguagens dos povos mais ‘fracos’ física e mentalmente  Entretanto, deixa margem à percepção das influências mútuas entre as línguas – as mais ‘fortes’ influenciando a sintaxe e as mais ‘fracas’, a pronúncia das ‘mais fortes’  Mas sustenta que formas primitivas de pensamento podem subsistir mesmo mediante avanços linguísticos 38
  • 39.
     Primitivos fazemmais gestos – e assim comunicam pensamentos aos seus semelhantes  Ideias de Wundt: condizentes com uma desvalorização do corpo como meio de comunicação  Fenômenos semelhantes são identificáveis entre surdos-mudos  “os gestos servem algumas vezes como um tipo de linguagem secreta” (p.94), que não intenta comunicar pensamentos, mas escondê-los 39
  • 40.
     “Poderíamos transferirum surdo-mudo para esse grupo de índios, e ele provavelmente não teria dificuldade nenhuma em se comunicar” (p.94)  A linguagem gestual surge dos afetos:  “Essa forma de comunicação não é o resultado de elaborações mentais ou propósitos conscientes, mas da emoção e dos movimentos expressivos involuntários que acompanham a emoção” 40
  • 41.
     [entre surdos]“a ideia de caminhar é comunicada pela imitação dos movimentos de caminhar com os dedos indicador e médio da mão direita sobre o braço esquerdo, que é posto em posição horizontal; a ideia de golpear é representada pela ação da mão em movimentos de golpe. Contudo, não raramente diversos sinais devem ser combinados para tornarem- se um gesto inteligível.” (p.96) 41
  • 42.
     [entre surdos]“a palavra “jardim”, por exemplo, é expressa primeiramente pela descrição de um círculo com o dedo indicador para indicar um lugar, e então pela elevação do polegar e do indicador ao nariz como gesto para cheiro”  “no caso de verbo e objeto, o objeto geralmente precede o verbo” (p.96) 42
  • 43.
    Herdeiros de WundtPesquisadores que repudiaram Wundt (a maioria, positivistas) Malinowski - antropólogo Cattell Durkheim - sociólogo Galton G.H. Mead - filósofo, psicólogo Ebbinghaus Franz Boas - antropólogo Külpe Os psicólogos da Gestalt (Köhler, Koffka, Wertheimer, Zeigarnik etc) Titchener 43
  • 44.
     Dividam-se emtrios  Identifiquem, no trecho dos “Elementos de psicologia dos povos”:  1) O que interessa a Wundt nesse texto?  2) Acreditam que ele tenha um método para realizar comparações linguísticas? Se há, como seria esse método?  3) Você percebe atenção apenas à língua ou uma preocupação “transversal” que contemple outros fenômenos mentais também?  4) Wundt analisa a experiência imediata ou mediata? 44
  • 45.
     Wundt confundecultura com história  Há darwinismo social/racismo cultural na sua interpretação das culturas  Conta a “história dos vencedores”, sem a perspectiva dos vencidos, os que não falam alemão  Vemos busca por generalizar ideias tal como se generalizava o imperialismo  Dicotomia idealista entre razão vs. sensação/corpo/emoção e seu papel na linguagem  Ideias absurdas sobre os surdos-mudos, não reconhecendo a complexidade e especificidade de suas línguas 45
  • 46.
     *Araújo, S.de F. (2009) Ideia de Uma Psicologia Científica em Wilhelm Wundt: Uma Visão Panorâmica. Scientiae Studia, 7, 209-220.  *Araújo, S. de F. (2006). Wilhelm Wundt e o estudo da experiência imediata. In: A.M. Jacó-  Vilela, A.A.L. Ferreira & F.T. Portugal. História da Psicologia: rumos e percursos. pp.93-104. Farr, R. M. (2002). As raízes da psicologia social moderna (1872-1954). InColeção Psicologia Social. Vozes. Figueiredo, L.C.M. (1991) Psicologia, uma introdução: uma visão histórica da psicologia como ciência. São Paulo:EDUC, 1991b.  *Wundt, W. (2013). Elementos de psicologia dos povos: o princípio da linguagem e o pensamento do homem primitivo. Psicologia da Educação, 37, 91-101. 46