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A Alfabetização do individuo Surdo: primeiro em LIBRAS ou em
Português?
         Ana Carolina Siqueira Veloso – Universidade do estado do Rio de Janeiro.


                                       "Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida,
                                       aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade
                                       em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
                                                                                   (Mário Quintana)


        Este trabalho tem como objetivo principal discutir a alfabetização do
indivíduo surdo, e, para isso, é preciso saber de que alfabetização estamos
falando - da alfabetização em Língua Portuguesa Brasileira ou em Língua
Brasileira de Sinais, visto que esses dois campos, historicamente, se
confundem. Além disso, requer precisar as bases teórico-metodológicas da
análise.
         Um dos pressupostos teórico-metodológico a ser utilizado ao longo
deste trabalho será o do Bilingüismo, cuja perspectiva compreende que o
indivíduo surdo deva adquirir sua língua materna, língua de sinais, e a língua
oficial do seu país.
        Há de se destacar a importância dessas duas línguas (Língua
Portuguesa Brasileira – LP e Língua Brasileira de Sinais- LIBRAS) na vida do
surdo, uma vez que se trata de um indivíduo bicultural ,ou seja , aquele que
está inserido ao mesmo tempo em mais de uma cultura, neste caso, a cultura
surda e a cultura do ouvinte.
         Na cultura surda não há o sentimento da perda auditiva. Se
observarmos o conteúdo expresso em uma apostila de Ensino de Língua
Portuguesa para Surdos (2004) do Programa Nacional de Apoio à Educação
dos Surdos1, do Ministéro da Educação, constatamos que “não há limite entre a
grandeza e a pequenez, e nenhum ser humano é exatamente igual a outro.
Podemos concluir que ser surdo não é melhor nem pior que ser ouvinte, mas
diferente” (p. 37), uma vez que o indivíduo surdo “tem uma forma peculiar de
apreender o mundo que gera valores” (p.40). Já que esse indivíduo compartilha
duas culturas, necessita saber se comunicar e se apropriar das linguagens que
lhe permitiram interagir nessas culturas.
        No que diz respeito à abordagem sócio-interacionista, a linguagem é
percebida como interação e intervenção do indivíduo em seu meio social.




1
    Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos - O Ministério da Educação criou o
Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos e, através dele, vem lançando apostilas e
livros, para ajudar na formação do professor e outros profissionais de Educação que lidam com
surdos, entre eles estão: Ensino de Língua Portuguesa para Surdos I (2004), Ensino de Língua
Portuguesa para Surdos II ( 2004 ) e Educação Infantil - Saberes e práticas da Inclusão. (2006)
Verificamos, portanto, que a língua materna do surdo é a LIBRAS2, uma vez
que é esta a língua que ele adquire espontaneamente e que ele pode dominar
plenamente, pois utiliza o meio espaço-visual, que é o normalmente
desenvolvido pelo indivíduo surdo, e a Língua Portuguesa é sua segunda
língua, já que ela não é natural para este indivíduo e sua apropriação é
comprometida. Rocha-Coutinho (1986) esclarece, a esse respeito, quando
escreve, que:

          O deficiente auditivo apesar de contar com expressões faciais e movimentos corporais,
          não possui uma das fontes de informação mais rica da língua oral: monitorar sua
          própria fala e elaborar sutilezas através da entonação, volume de voz, hesitação, etc.
          (p. 79-80)

        Com base nesse pressuposto bilíngüe, defendemos que ocorra a
alfabetização e o letramento em LIBRAS anteriormente à alfabetização e ao
letramento em Língua Portuguesa, seja qual for sua modalidade, oral ou
escrita. Faria diz a esse respeito que: “No caso do surdo, que para ser ‘ igual ’
é preciso, antes, ser diferente” (Faria, 2001, p.111).
        Primeiro, é preciso respeitar a individualidade, para que o sujeito tenha
uma aprendizagem igualmente qualitativa.
Como nos mostra o relato de uma estudante de nove anos de idade da 4ºsérie:
“Eu gosto de estudar, gosto de escrever recados para os meus amigos, gosto
de ler histórias, piadas...A LIBRAS é muito importante porque ela que ajuda a
entender o que estou lendo”.
        Verificamos que a LIBRAS, como toda Língua materna, é a língua que
desperta a subjetividade e a capacidade de compreensão do indivíduo. Apesar
da utilização espontânea e do gosto pelo português , ela é a ponte para a
compreensão do indivíduo surdo. A LIBRAS é como a luz que reflete a imagem
(pensamento) do indivíduo em um espelho (mundo), ou seja, ela é quem forma
a auto-imagem e move a escrita do surdo, e, ao mesmo tempo, ela é quem
permite que ele se identifique na superfície do espelho, se reconheça e
compreenda aquilo que lê.
         A LIBRAS é responsável pela passagem da fala egocêntrica para a
planejadora, por meio da qual o sujeito se torna consciente, através da fala e

2
    A LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, foi regulamentada pela lei LEI Nº 10.436, DE 24 DE
ABRIL DE 2002 . E diz em seu Artigo 1º:
Art. 1º É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de
Sinais – Libras e outros recursos de expressão associados.
Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras a forma de
comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com
estrutura gramatical própria, constitui um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos,
oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.
Verificamos através deste parágrafo que a LIBRAS é uma outra língua brasileira que,
igualmente a língua portuguesa brasileira, vai além dos conteúdos lingüísticos (estruturas
gramaticais), trabalhando conteúdos históricos (história dos surdos e desenvolvimento da
LIBRAS) e conteúdos sociológicos (identidade surda e visão de mundo).
de suas ações. Para Bakhtin (1990), filósofo que afirma a importância da
linguagem e dos signos na construção da consciência humana, é através das
interações verbais e do diálogo que o sujeito desenvolve o pensamento e a
consciência. Esse signo ao qual o autor se refere não necessita ser oral, ao
contrário, “todo fenômeno que funciona como signo ideológico tem uma
encarnação material, seja como som, massa física, cor, movimento do corpo,
ou outra coisa qualquer”.(Bakhtin; 1990 p.33). Assim, exerce influência na
constituição da consciência do individuo, mesmo sendo utilizado no meio
espaço-visual.
        Segundo a teoria sócio-interacionista, o meio social e o momento
histórico é que determinam a língua e ela, por sua vez, a consciência do
indivíduo e não sua formação biológica de modo estrito. Verifica-se, portanto,
que a dificuldade na formação plena do surdo não é sua surdez, e seus
problemas biológicos, mas o meio social em que se encontra inserido, o qual
impede a apropriação de sua língua materna e de sua cultura.
        É importante lembrar que tanto para Vygotsky (1989a, 1989b) como
para Bakhtin (1990) teóricos sócio-interacionistas, a linguagem exerce outra
função além da comunicativa; ela é o meio ou forma de mediação que permite
o individuo interagir, refletindo e refratando a ideologia de sua comunidade. A
linguagem é responsável pela constituição do pensamento, sendo assim, o
surdo que não tiver livre acesso a sua língua, muito provavelmente, terá
dificuldades na constituição de seu pensamento. Não havendo pensamento,
não haverá como adquirir nenhum tipo de língua. Por meio da LIBRAS, poderá
constituir seu pensamento e sua consciência, habilitando o individuo a adquirir
a Língua Portuguesa ou qualquer outra. Segundo Vygostky (1989), a criança
adquire a linguagem do exterior para o interior, há um movimento do meio
social para o indivíduo. Como isso pode acontecer com uma criança surda em
um meio social oral, em que ele, mesmo querendo, não pode participar
plenamente? Mais uma vez, podemos perceber que o problema não está no
indivíduo, mas no que é oferecido a ele.
        É através da LIBRAS, ou seja, do meio espaço visual , que o surdo
interage e interpreta o mundo a sua volta. Tal como lemos em Paulo Freire,
inferimos que “ a leitura do mundo precede a leitura da palavra” ( 1981, p11).
Acrescentamos: a partir desta leitura de mundo, esse indivíduo realiza a leitura
da palavra, ou a leitura do gesto. Paulo Freire, em seus estudos (1921-1997) ,
mostra a importância de alfabetizar o indivíduo, trabalhando sua realidade, indo
além da memorização do sistema alfabético e do processo mecânico de
interpretar códigos.
        Para que haja o letramento do surdo na sua 2ª Língua, é preciso que o
indivíduo perceba a diferença entre a significação e o tema, que ele saiba que
as palavras têm uma significação compartilhada socialmente, mas só ganham
sentido na experiência individual, indissociável de seu contexto. Em outras
palavras, é necessário despertar no indivíduo sua capacidade de abstração,
distanciando o objeto de sua materialidade, elaborando novos conceitos
independentes da situação concreta.
        Convém ressaltar o conceito de letramento indicado por Magda Soares
(1998, p.47): “estado ou condição de quem não sabe apenas ler e escrever,
mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a leitura e a escrita”. E
somente exercendo a linguagem, podem-se criar novos conceitos, para o surdo
e para todos os outros indivíduos, dependendo da qualidade da relação que ele
mantenha com sua língua materna.
        Por outro lado, podemos encontrar nos estudos de Walter Benjamin
(1987) uma relação entre gestos e linguagem. O filósofo alemão, assim como
Vygotsky3 (1984), assinalou que o gesto precede a palavra; é a primeira
linguagem do ser humano. Segundo a teoria mimética de Benjamim (Benjamin
apud SOUZA, 1987) a palavra, ou seu som propriamente dito, no início, seria
um acompanhamento do gesto. Com o passar do tempo, a palavra assumiria o
papel predominante na comunicação do homem, aumentando seu vocabulário
de acordo com suas vivências.
        O surdo também teria como primeiro meio de comunicação o gesto,
mas não poderia se utilizar do som com propriedade. Sua comunicação, no
entanto, não poderá ser aprimorada? De acordo com a teoria socio-
interacionista, responderíamos sim. Se o indivíduo aprofunda suas vivências, o
mesmo ocorre com sua linguagem: as duas esferas seguem juntas,
constituindo o pensamento do homem, mesmo que ela não seja uma
linguagem legitimada.
       Os surdos, mesmo não tendo acesso a LIBRAS na infância, se
comunicam por uma linguagem rudimentar própria e gestual que é chamada
por Tervoort (1961) de “simbolismo esotérico”. Trata-se de um sistema
lingüístico restrito, que serve para comunicação na ausência de uma língua
comum com seus familiares. Como esse indivíduo não adquiriu plenamente
nem o português e, infelizmente, nem a LIBRAS, utiliza essa língua para se
comunicar. No entanto, essa língua não é compartilhada em seu contexto
social e restringe o indivíduo à interação com um sujeito determinado, na maior
parte das vezes, com membros de sua família. Com sua língua limitada, sua
vivência também diminui. Estudos de autores como Fernandes (1990) mostram
que surdos que tem convivência tardia com a LIBRAS apresentam problemas
cognitivos, emocionais e sociais. O seguinte trecho de Paulo Freire mostra a
importância da linguagem para a vivência do indivíduo:

          Na medida, porém, em que me fui tornando íntimo    do meu mundo, em que melhor o
          percebia e o entendia na “leitura” que dele ia     fazendo, os meus temores iam
          diminuindo...fui alfabetizado no chão do quintal   da minha casa, à sombra das
          mangueiras, com palavras do meu mundo e não        do mundo maior dos meus pais.
          (1981, p.15)

       A LIBRAS diminui os temores do surdo; é o que o constitui como
cidadão.
       Muitos     autores    cognitivistas Hawkins      (HAWKINS,        apud
Salles,(2004),Vigotsky (1984) defendem um faixa etária correta para tornar um
indivíduo íntimo de seu mundo, o período da primeira infância, que vai até os
cincos anos de idade, aproximadamente, e é conhecido como período crítico.
3
    Vigostky (1894) também discuti o aparecimento da função simbólica na aquisição da
linguagem pela criança e encontra no gesto de apontar um movimento expressivo que
antecede a palavra oralizada. Nos mostra que a criança mesmo sem ter se apropriado da
linguagem oral já se comunica, e como nos relata Benjamin (1987), através de gestos e sinais.
Nesse período, a criança faz a aquisição da linguagem; ela utiliza várias
hipóteses, experimentando diversas possibilidades até estruturar seu
pensamento e sua gramática, ou seja, suas regras de comunicação.
        É nesse período que o indivíduo surdo deve ter contato com a LIBRAS,
para, assim como o ouvinte, conhecer seus parâmetros e compreender sua
gramática. Com uma estruturação sólida e um domínio pleno de sua língua
materna, ele poderá aprender novas línguas e seus símbolos. Um dos
despropósitos cometidos contra os surdos é dizer que eles só compreendem o
concreto. Isso não é real, o surdo utiliza gírias, simbolismos e diferentes
significados para uma mesma palavra. Ocorre que sua vivência, sua cultura
são diferentes. Por isso, suas abstrações também o são. Assim como um
estrangeiro, ele não entende as expressões que não fazem parte de seu
contexto social. Esse fato ressalta a importância do letramento; demonstra que
não adianta conhecer a palavra. É preciso entendê-la em seu contexto. Neste
sentido, Magda Soares (1998) ressalta que :

      Ter-se apropriado da escrita é diferente de ter aprendido a ler e escrever: aprender a
      ler e escrever significa adquirir uma tecnologia, a de codificar em língua escrita
      “própria”, ou seja, é assumi-la com sua “propriedade” (p.89)

       É preciso alfabetizar e letrar o surdo em LIBRAS, para que ele adquira
habilidade na escrita do Português e vá além de sua mera decodificação. A
LIBRAS simboliza a língua escrita, tornando-a objeto de interação espontânea
e entendimento, que são os requisitos para capacitar uma pessoa como
letrada.
       A aquisição de uma segunda língua, não só para o surdo, é
extremamente complexa, pois envolve diferentes aspectos, inclusive o
emocional. É necessário que o aluno esteja pré-disposto a aprender e, para
isso, não pode considerar sua língua materna como inferior. Tornar-se letrado
em outra língua vai além de gravar suas regras e principais vocábulos; é
preciso compartilhar e conhecer a cultura e o espaço onde essa língua circula,
para se apropriar dela plenamente.
       Devemos lembrar que o processo de letramento muda a forma de
pensar do indivíduo e pode libertá-lo do alienamento em que vive, por isso:

      O letramento não pode ser considerado um “instrumento” neutro a ser usado nas
      práticas sociais quando exigido, mas é essencialmente um conjunto de práticas
      socialmente construídas que envolvem a leitura e a escrita, geradas por processos
      sociais mais amplos, e responsáveis por reforçar ou questionar valores, tradições e
      formas de distribuição de poder presentes nos contextos sociais.” (SOARES, 1998, p.
      75)

      O Letramento muda a forma do indivíduo lidar com o mundo, transforma
sua realidade, e, esperamos, que seja sempre para um nível de vida melhor.
       O letramento do surdo tanto na sua língua, a LIBRAS, e principalmente
no Português, a língua com a qual ele se comunica com a sociedade , não
pode subestimá-lo; ele tem o direito de ser visto com um indivíduo diferente, e
não menor; deve ter seus direitos , deveres e sua cultura respeitada.
Referências bibliográficas:

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução Michel Lahud
e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1990.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. In: BENJAMIN, Walter.
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BOTELHO, Paula. Linguagem e letramento na educação dos surdos –
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BRASIL, Secretaria de Educação Especial. A educação dos surdos.
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Brasília: MEC/ SEESP, 1997.

BRASIL, Secretaria de Educação Especial. Deficiência auditiva. . (Organizado
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SEESP, 1997.

FARIA,S.R (2001)Interface da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS coma
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Vol.12, 2002.

FERNANDES, Eulália. Problemas lingüísticos e cognitivos do surdo. Rio de
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FÓRUM. vol.06, (jul/dez) Rio de Janeiro. INES, 2002.

FÓRUM. vol 11, (jan,jun) Rio de Janeiro . INES, 2005.

FREIRE, Paulo, 19921-1997. A importância do ato de ler: em três artigos que
se completam. São Paulo: Cortez, 2006.

GOLDFELD, Márcia. A criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva
sóciointeracionista. São Paulo: Plexus Editora, 2001.

KRAMER, Sonia e SOUZA, Jobim (orgs). Histórias de Professores – Leitura,
escrita e pesquisa em educação. São Paulo: Editora Ática, 1996.

Perspectiva. Revista do Centro de Ciências da Educação. Volume: 34, nº
Especial – jul/dez .2006 – Florianópolis. Dossiê Língua de Sinais e Educação.

QUADROS, Ronice Muller (org).Estudos surdos I. [Petrópolis, RJ]:Arara Azul,
2006.

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ROCHA-COUTINHO, Maria Lúcia. Algumas considerações a respeito do uso
da língua de sinais pelos deficientes auditivos. Trabalhos em Lingüística
Aplicada. nº 8. Campinas, 1989.

SACKS, Oliver. W., 1993. Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos.
Oliver Sacks: tradução Laura Teixeira Motta. São Paulo: Compania das Letras,
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SALLES, Heloísa Maria Moreira Lima (org). Ensino de língua portuguesa para
surdos: caminhos para a prática pedagógica /(Programa Nacional de Apoio à
Educação dos Surdos) Brasília: MEC, SEESP, 2004.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes,
1989.

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Alfabetização dos surdo

  • 1. A Alfabetização do individuo Surdo: primeiro em LIBRAS ou em Português? Ana Carolina Siqueira Veloso – Universidade do estado do Rio de Janeiro. "Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino. (Mário Quintana) Este trabalho tem como objetivo principal discutir a alfabetização do indivíduo surdo, e, para isso, é preciso saber de que alfabetização estamos falando - da alfabetização em Língua Portuguesa Brasileira ou em Língua Brasileira de Sinais, visto que esses dois campos, historicamente, se confundem. Além disso, requer precisar as bases teórico-metodológicas da análise. Um dos pressupostos teórico-metodológico a ser utilizado ao longo deste trabalho será o do Bilingüismo, cuja perspectiva compreende que o indivíduo surdo deva adquirir sua língua materna, língua de sinais, e a língua oficial do seu país. Há de se destacar a importância dessas duas línguas (Língua Portuguesa Brasileira – LP e Língua Brasileira de Sinais- LIBRAS) na vida do surdo, uma vez que se trata de um indivíduo bicultural ,ou seja , aquele que está inserido ao mesmo tempo em mais de uma cultura, neste caso, a cultura surda e a cultura do ouvinte. Na cultura surda não há o sentimento da perda auditiva. Se observarmos o conteúdo expresso em uma apostila de Ensino de Língua Portuguesa para Surdos (2004) do Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos1, do Ministéro da Educação, constatamos que “não há limite entre a grandeza e a pequenez, e nenhum ser humano é exatamente igual a outro. Podemos concluir que ser surdo não é melhor nem pior que ser ouvinte, mas diferente” (p. 37), uma vez que o indivíduo surdo “tem uma forma peculiar de apreender o mundo que gera valores” (p.40). Já que esse indivíduo compartilha duas culturas, necessita saber se comunicar e se apropriar das linguagens que lhe permitiram interagir nessas culturas. No que diz respeito à abordagem sócio-interacionista, a linguagem é percebida como interação e intervenção do indivíduo em seu meio social. 1 Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos - O Ministério da Educação criou o Programa Nacional de Apoio à Educação de Surdos e, através dele, vem lançando apostilas e livros, para ajudar na formação do professor e outros profissionais de Educação que lidam com surdos, entre eles estão: Ensino de Língua Portuguesa para Surdos I (2004), Ensino de Língua Portuguesa para Surdos II ( 2004 ) e Educação Infantil - Saberes e práticas da Inclusão. (2006)
  • 2. Verificamos, portanto, que a língua materna do surdo é a LIBRAS2, uma vez que é esta a língua que ele adquire espontaneamente e que ele pode dominar plenamente, pois utiliza o meio espaço-visual, que é o normalmente desenvolvido pelo indivíduo surdo, e a Língua Portuguesa é sua segunda língua, já que ela não é natural para este indivíduo e sua apropriação é comprometida. Rocha-Coutinho (1986) esclarece, a esse respeito, quando escreve, que: O deficiente auditivo apesar de contar com expressões faciais e movimentos corporais, não possui uma das fontes de informação mais rica da língua oral: monitorar sua própria fala e elaborar sutilezas através da entonação, volume de voz, hesitação, etc. (p. 79-80) Com base nesse pressuposto bilíngüe, defendemos que ocorra a alfabetização e o letramento em LIBRAS anteriormente à alfabetização e ao letramento em Língua Portuguesa, seja qual for sua modalidade, oral ou escrita. Faria diz a esse respeito que: “No caso do surdo, que para ser ‘ igual ’ é preciso, antes, ser diferente” (Faria, 2001, p.111). Primeiro, é preciso respeitar a individualidade, para que o sujeito tenha uma aprendizagem igualmente qualitativa. Como nos mostra o relato de uma estudante de nove anos de idade da 4ºsérie: “Eu gosto de estudar, gosto de escrever recados para os meus amigos, gosto de ler histórias, piadas...A LIBRAS é muito importante porque ela que ajuda a entender o que estou lendo”. Verificamos que a LIBRAS, como toda Língua materna, é a língua que desperta a subjetividade e a capacidade de compreensão do indivíduo. Apesar da utilização espontânea e do gosto pelo português , ela é a ponte para a compreensão do indivíduo surdo. A LIBRAS é como a luz que reflete a imagem (pensamento) do indivíduo em um espelho (mundo), ou seja, ela é quem forma a auto-imagem e move a escrita do surdo, e, ao mesmo tempo, ela é quem permite que ele se identifique na superfície do espelho, se reconheça e compreenda aquilo que lê. A LIBRAS é responsável pela passagem da fala egocêntrica para a planejadora, por meio da qual o sujeito se torna consciente, através da fala e 2 A LIBRAS – Língua Brasileira de Sinais, foi regulamentada pela lei LEI Nº 10.436, DE 24 DE ABRIL DE 2002 . E diz em seu Artigo 1º: Art. 1º É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais – Libras e outros recursos de expressão associados. Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema lingüístico de transmissão de idéias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. Verificamos através deste parágrafo que a LIBRAS é uma outra língua brasileira que, igualmente a língua portuguesa brasileira, vai além dos conteúdos lingüísticos (estruturas gramaticais), trabalhando conteúdos históricos (história dos surdos e desenvolvimento da LIBRAS) e conteúdos sociológicos (identidade surda e visão de mundo).
  • 3. de suas ações. Para Bakhtin (1990), filósofo que afirma a importância da linguagem e dos signos na construção da consciência humana, é através das interações verbais e do diálogo que o sujeito desenvolve o pensamento e a consciência. Esse signo ao qual o autor se refere não necessita ser oral, ao contrário, “todo fenômeno que funciona como signo ideológico tem uma encarnação material, seja como som, massa física, cor, movimento do corpo, ou outra coisa qualquer”.(Bakhtin; 1990 p.33). Assim, exerce influência na constituição da consciência do individuo, mesmo sendo utilizado no meio espaço-visual. Segundo a teoria sócio-interacionista, o meio social e o momento histórico é que determinam a língua e ela, por sua vez, a consciência do indivíduo e não sua formação biológica de modo estrito. Verifica-se, portanto, que a dificuldade na formação plena do surdo não é sua surdez, e seus problemas biológicos, mas o meio social em que se encontra inserido, o qual impede a apropriação de sua língua materna e de sua cultura. É importante lembrar que tanto para Vygotsky (1989a, 1989b) como para Bakhtin (1990) teóricos sócio-interacionistas, a linguagem exerce outra função além da comunicativa; ela é o meio ou forma de mediação que permite o individuo interagir, refletindo e refratando a ideologia de sua comunidade. A linguagem é responsável pela constituição do pensamento, sendo assim, o surdo que não tiver livre acesso a sua língua, muito provavelmente, terá dificuldades na constituição de seu pensamento. Não havendo pensamento, não haverá como adquirir nenhum tipo de língua. Por meio da LIBRAS, poderá constituir seu pensamento e sua consciência, habilitando o individuo a adquirir a Língua Portuguesa ou qualquer outra. Segundo Vygostky (1989), a criança adquire a linguagem do exterior para o interior, há um movimento do meio social para o indivíduo. Como isso pode acontecer com uma criança surda em um meio social oral, em que ele, mesmo querendo, não pode participar plenamente? Mais uma vez, podemos perceber que o problema não está no indivíduo, mas no que é oferecido a ele. É através da LIBRAS, ou seja, do meio espaço visual , que o surdo interage e interpreta o mundo a sua volta. Tal como lemos em Paulo Freire, inferimos que “ a leitura do mundo precede a leitura da palavra” ( 1981, p11). Acrescentamos: a partir desta leitura de mundo, esse indivíduo realiza a leitura da palavra, ou a leitura do gesto. Paulo Freire, em seus estudos (1921-1997) , mostra a importância de alfabetizar o indivíduo, trabalhando sua realidade, indo além da memorização do sistema alfabético e do processo mecânico de interpretar códigos. Para que haja o letramento do surdo na sua 2ª Língua, é preciso que o indivíduo perceba a diferença entre a significação e o tema, que ele saiba que as palavras têm uma significação compartilhada socialmente, mas só ganham sentido na experiência individual, indissociável de seu contexto. Em outras palavras, é necessário despertar no indivíduo sua capacidade de abstração, distanciando o objeto de sua materialidade, elaborando novos conceitos independentes da situação concreta. Convém ressaltar o conceito de letramento indicado por Magda Soares (1998, p.47): “estado ou condição de quem não sabe apenas ler e escrever, mas cultiva e exerce as práticas sociais que usam a leitura e a escrita”. E somente exercendo a linguagem, podem-se criar novos conceitos, para o surdo
  • 4. e para todos os outros indivíduos, dependendo da qualidade da relação que ele mantenha com sua língua materna. Por outro lado, podemos encontrar nos estudos de Walter Benjamin (1987) uma relação entre gestos e linguagem. O filósofo alemão, assim como Vygotsky3 (1984), assinalou que o gesto precede a palavra; é a primeira linguagem do ser humano. Segundo a teoria mimética de Benjamim (Benjamin apud SOUZA, 1987) a palavra, ou seu som propriamente dito, no início, seria um acompanhamento do gesto. Com o passar do tempo, a palavra assumiria o papel predominante na comunicação do homem, aumentando seu vocabulário de acordo com suas vivências. O surdo também teria como primeiro meio de comunicação o gesto, mas não poderia se utilizar do som com propriedade. Sua comunicação, no entanto, não poderá ser aprimorada? De acordo com a teoria socio- interacionista, responderíamos sim. Se o indivíduo aprofunda suas vivências, o mesmo ocorre com sua linguagem: as duas esferas seguem juntas, constituindo o pensamento do homem, mesmo que ela não seja uma linguagem legitimada. Os surdos, mesmo não tendo acesso a LIBRAS na infância, se comunicam por uma linguagem rudimentar própria e gestual que é chamada por Tervoort (1961) de “simbolismo esotérico”. Trata-se de um sistema lingüístico restrito, que serve para comunicação na ausência de uma língua comum com seus familiares. Como esse indivíduo não adquiriu plenamente nem o português e, infelizmente, nem a LIBRAS, utiliza essa língua para se comunicar. No entanto, essa língua não é compartilhada em seu contexto social e restringe o indivíduo à interação com um sujeito determinado, na maior parte das vezes, com membros de sua família. Com sua língua limitada, sua vivência também diminui. Estudos de autores como Fernandes (1990) mostram que surdos que tem convivência tardia com a LIBRAS apresentam problemas cognitivos, emocionais e sociais. O seguinte trecho de Paulo Freire mostra a importância da linguagem para a vivência do indivíduo: Na medida, porém, em que me fui tornando íntimo do meu mundo, em que melhor o percebia e o entendia na “leitura” que dele ia fazendo, os meus temores iam diminuindo...fui alfabetizado no chão do quintal da minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. (1981, p.15) A LIBRAS diminui os temores do surdo; é o que o constitui como cidadão. Muitos autores cognitivistas Hawkins (HAWKINS, apud Salles,(2004),Vigotsky (1984) defendem um faixa etária correta para tornar um indivíduo íntimo de seu mundo, o período da primeira infância, que vai até os cincos anos de idade, aproximadamente, e é conhecido como período crítico. 3 Vigostky (1894) também discuti o aparecimento da função simbólica na aquisição da linguagem pela criança e encontra no gesto de apontar um movimento expressivo que antecede a palavra oralizada. Nos mostra que a criança mesmo sem ter se apropriado da linguagem oral já se comunica, e como nos relata Benjamin (1987), através de gestos e sinais.
  • 5. Nesse período, a criança faz a aquisição da linguagem; ela utiliza várias hipóteses, experimentando diversas possibilidades até estruturar seu pensamento e sua gramática, ou seja, suas regras de comunicação. É nesse período que o indivíduo surdo deve ter contato com a LIBRAS, para, assim como o ouvinte, conhecer seus parâmetros e compreender sua gramática. Com uma estruturação sólida e um domínio pleno de sua língua materna, ele poderá aprender novas línguas e seus símbolos. Um dos despropósitos cometidos contra os surdos é dizer que eles só compreendem o concreto. Isso não é real, o surdo utiliza gírias, simbolismos e diferentes significados para uma mesma palavra. Ocorre que sua vivência, sua cultura são diferentes. Por isso, suas abstrações também o são. Assim como um estrangeiro, ele não entende as expressões que não fazem parte de seu contexto social. Esse fato ressalta a importância do letramento; demonstra que não adianta conhecer a palavra. É preciso entendê-la em seu contexto. Neste sentido, Magda Soares (1998) ressalta que : Ter-se apropriado da escrita é diferente de ter aprendido a ler e escrever: aprender a ler e escrever significa adquirir uma tecnologia, a de codificar em língua escrita “própria”, ou seja, é assumi-la com sua “propriedade” (p.89) É preciso alfabetizar e letrar o surdo em LIBRAS, para que ele adquira habilidade na escrita do Português e vá além de sua mera decodificação. A LIBRAS simboliza a língua escrita, tornando-a objeto de interação espontânea e entendimento, que são os requisitos para capacitar uma pessoa como letrada. A aquisição de uma segunda língua, não só para o surdo, é extremamente complexa, pois envolve diferentes aspectos, inclusive o emocional. É necessário que o aluno esteja pré-disposto a aprender e, para isso, não pode considerar sua língua materna como inferior. Tornar-se letrado em outra língua vai além de gravar suas regras e principais vocábulos; é preciso compartilhar e conhecer a cultura e o espaço onde essa língua circula, para se apropriar dela plenamente. Devemos lembrar que o processo de letramento muda a forma de pensar do indivíduo e pode libertá-lo do alienamento em que vive, por isso: O letramento não pode ser considerado um “instrumento” neutro a ser usado nas práticas sociais quando exigido, mas é essencialmente um conjunto de práticas socialmente construídas que envolvem a leitura e a escrita, geradas por processos sociais mais amplos, e responsáveis por reforçar ou questionar valores, tradições e formas de distribuição de poder presentes nos contextos sociais.” (SOARES, 1998, p. 75) O Letramento muda a forma do indivíduo lidar com o mundo, transforma sua realidade, e, esperamos, que seja sempre para um nível de vida melhor. O letramento do surdo tanto na sua língua, a LIBRAS, e principalmente no Português, a língua com a qual ele se comunica com a sociedade , não pode subestimá-lo; ele tem o direito de ser visto com um indivíduo diferente, e não menor; deve ter seus direitos , deveres e sua cultura respeitada.
  • 6. Referências bibliográficas: BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1990. BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. In: BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1987. BOTELHO, Paula. Linguagem e letramento na educação dos surdos – Ideologias e práticas pedagógicas. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. BRASIL, Secretaria de Educação Especial. A educação dos surdos. (Organizado por Giuseppe Rinaldi) et al. Séries atualidades pedagógicas. Brasília: MEC/ SEESP, 1997. BRASIL, Secretaria de Educação Especial. Deficiência auditiva. . (Organizado por Giuseppe Rinaldi) et al. Séries atualidades pedagógicas. Brasília: MEC/ SEESP, 1997. FARIA,S.R (2001)Interface da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS coma lingua portuguesa e suas implicações no ensino de português para surdos. Pesquisa Lingüística. nº 6. Universidade de Brasília. Revista Intercâmbio. Vol.12, 2002. FERNANDES, Eulália. Problemas lingüísticos e cognitivos do surdo. Rio de Janeiro: Agir, 1990. FÓRUM. vol.06, (jul/dez) Rio de Janeiro. INES, 2002. FÓRUM. vol 11, (jan,jun) Rio de Janeiro . INES, 2005. FREIRE, Paulo, 19921-1997. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2006. GOLDFELD, Márcia. A criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva sóciointeracionista. São Paulo: Plexus Editora, 2001. KRAMER, Sonia e SOUZA, Jobim (orgs). Histórias de Professores – Leitura, escrita e pesquisa em educação. São Paulo: Editora Ática, 1996. Perspectiva. Revista do Centro de Ciências da Educação. Volume: 34, nº Especial – jul/dez .2006 – Florianópolis. Dossiê Língua de Sinais e Educação. QUADROS, Ronice Muller (org).Estudos surdos I. [Petrópolis, RJ]:Arara Azul, 2006. QUADROS, Ronice Muller. Educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
  • 7. ROCHA-COUTINHO, Maria Lúcia. Algumas considerações a respeito do uso da língua de sinais pelos deficientes auditivos. Trabalhos em Lingüística Aplicada. nº 8. Campinas, 1989. SACKS, Oliver. W., 1993. Vendo vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. Oliver Sacks: tradução Laura Teixeira Motta. São Paulo: Compania das Letras, 1998. SALLES, Heloísa Maria Moreira Lima (org). Ensino de língua portuguesa para surdos: caminhos para a prática pedagógica /(Programa Nacional de Apoio à Educação dos Surdos) Brasília: MEC, SEESP, 2004. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes, 1989. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo, Martins Fontes,