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A CRISE DA LEITURA NA FORMAÇÃO DOCENTE:
UMA ANÁLISE DAS PRÁTICAS LEITORAS DOS FUTUROS PROFESSORES
Antonio Fernando de Araújo dos Santos – PUCPR
Maria Sílvia Bacila Winkeler – PUCPR
Resumo: Este trabalho discute a crise da leitura mediante a participação dos pesquisadores, bolsistas do
Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), de agosto de 2010 a novembro de 2011,
provenientes do Curso de Pedagogia de uma universidade de Curitiba, em uma instituição pública de ensino, na
formação de professores alfabetizadores. A pesquisa que tem como tema a crise da leitura na formação de
docentes foi procedente dos relatórios dos bolsistas, das reuniões de estudos com os supervisores locais e
bolsistas, das observações e das produções acadêmicas dos bolsistas, tendo como premissa a ação-reflexão-ação
e por fim, a aplicação de um questionário, os quais constituem o “corpus” para a análise dos resultados até aqui
possíveis de compreender. A formação de professores foi baseada em Freire (1987, 2003) e Pimenta (1990); a
leitura e suas concepções basearam-se em Zilberman (1991), Lajolo (2010), Andrade (2007), Maia (2007) e
Silva (1985). Foi possível ratificar as primeiras impressões alcançadas, motivando assim para um estudo mais
aprofundado, a fim de reconhecer as causas da pouca prática leitora entre os jovens pesquisados.
Palavra- chaves: Leitura, formação docente, aprendizagem.
Introdução
Não é possível se pensar na formação de professores sob o jugo de uma crise da
leitura, pois se pensa que o professor é um disseminador de leitura nas escolas e
“não um mero intermediário entre seu destinatário (seja o aluno, seja o usuário da
biblioteca) e um saber neutro”. (SILVA, 1985, p.10)
Mediante a materialização do espaço da formação de docentes em nível médio, na
modalidade Normal, releva-se o projeto de pesquisa emergido nas ações do PIBID de
Pedagogia, que tem como tema a Formação de Professor Leitor. Seu estudo enfatiza a crise da
leitura no processo de formação profissional dos futuros professores do curso de Formação de
Docentes, em nível médio.
Sabe-se que a formação do sujeito leitor tem fomentado muitos debates e proposições
no âmbito escolar, isso porque se percebe fortemente o estado de crise em que se encontra a
leitura. Segundo Maia (2007) tal crise não pode ser desvencilhada da crise da escola, até
mesmo porque, em grande parte é no espaço educativo onde o trabalho com a leitura se dá de
2
forma mais sistematizada e onde se encontram os principais sujeitos no processo de formação
de leitores: o professor e o aluno.
A questão da leitura tem sido objeto de análise desde o final da década de 1970
quando se convencionou a denominar o problema de “a crise da leitura”. Alguns autores
utilizam tal termo em suas produções como Zilberman (1991) e Silva (1985). A crise da
leitura instaurada no processo de formação de professores traz à luz a problemática de uma
formação leitora deficiente dos futuros professores. Vale ressaltar que estes são educandos
que passaram pelos anos escolares com práticas de leituras focadas na obrigatoriedade.
Para tanto, é necessário se pensar na formação de professores leitores, capazes de
instrumentalizarem seus educandos e, sobretudo, formarem novos leitores. Quando no
processo de ensino-aprendizagem da língua materna se reproduzem práticas pedagógicas
mecanicistas-pragmáticas, não se contribuem para a formação leitora e sim para sujeitos
resistentes a sua prática, pois, nesse contexto, o ensino da leitura é voltado a uma finalidade,
isto é, para responder questões como “quem é o autor?”, “quem é a personagem principal” ou
“qual a ideia central do texto”. Para que se construa a habilidade leitora, faz-se necessário que
a leitura não seja utilizada como pretexto, pois esse mecanismo de trabalho pedagógico
entrava a relação leitura informação-conhecimento-prazer, tão importante na constituição de
um sujeito leitor. Nessa conjuntura, o trabalho de conscientização, de questionamento e de
libertação dos alunos é ignorado. Conforme Silva (1985, p.27)
A divergência, o conflito, a rebeldia são imediatamente abafados durante as aulas de
leitura- estas transformam-se em meros exercícios de reprodução e de acatamento de
“produtos” (...).
A FORMAÇÃO DO PROFESSOR FACE À CRISE DA LEITURA
A presente pesquisa ocorre em um colégio pertencente à rede estadual de ensino,
situada no centro de Curitiba e possui aproximadamente 641 estudantes no Curso de
Formação de Docentes na forma Integrada (turno matutino) e 121 alunos na forma
Subsequente (turno noturno).
A pesquisa formou-se a partir de um questionário estruturado, o qual propunha
conhecer os estilos de aprendizagem e os mecanismos que os estudantes construíam para
efetivarem seus processos de ensino-aprendizagem. Foi possível ler pelas respostas obtidas
3
por meio deste instrumento o pouco interesse pelas indicações bibliográficas indicadas pelos
professores formadores. A despeito da instituição de ensino (campo de pesquisa) possuir
alguns projetos para incentiva a leitura, percebeu-se uma ausência da prática de leitura de
grande parte dos jovens futuros professores.
No segundo semestre de 2011, foi realizada uma nova entrevista com quarenta
formandos do curso de Formação de Docentes, visando conhecer as práticas leitoras dos
futuros professores do referido curso, verificando suas impressões sobre a leitura. Para tanto,
percebeu-se que portadores como revistas, jornais e livros obtiveram juntos 12,5% da
preferência dos estudantes. Em contrapartida, os livros sobre educação, tão comuns na
formação de professores não obtiveram nenhum indicador. Os livros de romance
apresentaram 30% da preferência dos quarenta sujeitos da pesquisa.
Ao dar significância à leitura 35% dos respondentes atribuíram-na a uma concepção de
prazer. Quando questionados quanto à frequência das práticas leitoras, 55% afirmaram que
liam pouco e 60% quando pressionados a cumprir determinada tarefa escolar como provas,
relatórios, resumos, para projetos de leitura do colégio. Quanto ao número de livros lidos,
integralmente, durante o curso, 45% indicaram uma média de dez livros.
No campo da pesquisa, as coordenadoras pedagógicas juntamente com a equipe de
professores e, sobretudo, os da área de Língua Portuguesa fazem um acompanhamento com os
alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem. No curso de Formação de Docentes
noturno, a coordenadora pedagógica relatou que, às vezes, é necessário o resgate da
alfabetização, pois os alunos apresentam dificuldades que não cabem ao Ensino Médio, pois
se espera que esses alunos já possuam certos domínios linguísticos estruturados. Portanto,
como alfabetizar uma turma de 30, 40 alunos, se os próprios professorandos possuem
deficiências? Segundo Pimenta (1990, p.125) “a alfabetização é o eixo central da atividade na
faixa da 1ª. à 4ª. série do 1º. grau”. Os professores formados sem a consciência crítica de sua
ação docente, normalmente seguem receitas prontas, são como ligados no piloto automático, e
consequentemente impedem que o processo de ensino e aprendizagem se constitua.
O campo de pesquisa vem utilizando alguns projetos de incentivo à leitura, a fim de
que atenue a problemática. Há projetos como Ler é Cultura, organizado pelas coordenadoras
pedagógicas e que envolvem professores e alunos. O projeto abarca diferentes obras com
cunho pedagógico, e os alunos escolhem aqueles que lhes interessam. Cada aluno fica com a
incumbência de ler a obra escolhida e na semana marcada para o projeto, apresenta suas
4
reflexões. Vale ressaltar que o grupo de pesquisa também participou do projeto realizado em
abril de 2010, ora observando ora lendo e participando das discussões. Existem também
outros projetos como: Leitura de Obras Clássicas, destinado aos formandos do Curso e
enfatiza as obras recomendadas para o vestibular, e Meu gosto literário, onde os alunos
apresentam seus livros favoritos. Para ambos os projetos, são organizadas bancas para as
apresentações.
O projeto de pesquisa demonstrou a necessidade de realizar-se um trabalho dinâmico
com os alunos adolescentes, pois os mesmos esperam que a escola seja menos engessada em
suas “verdades absolutas”. A escola necessita rever as metodologias utilizadas, seus
mecanismos avaliativos e as relações interpessoais presentes nela. Vale ressaltar, que são
futuros profissionais da educação e, portanto, faz-se necessário ter um ambiente que os
estimulem a uma prática pedagógica efetiva. Concluiu-se que os adolescentes do curso de
Formação de Docentes, de modo geral, possuem características ativas de estilo de
aprendizagem. Dificuldades para aprender a partir de livros e textos. Apresentam a
necessidade de visualizar imagens e mediação do professor. Por isso, é fundamental conhecer
como se dá o processo de aprendizagem dos educandos. A escola, muitas vezes, ignora ou
desconhece as particularidades desses sujeitos e determina uma padronização, acreditando que
todos aprendem da mesma forma. Sabe-se, hoje, que cada um possui seu tempo para aprender
e cabe à escola adequar-se a essa nova realidade.
O ensino na Formação de Docentes busca uma sólida fundamentação teórica que
resulte numa instrumentalização técnica de seus educandos, mas esbarra nas dificuldades
desses, que os impede terem uma s formação docente. Entretanto, é preciso propostas de
mudanças para a Formação de Docentes e não meras reformas que são como remendos que
nada alteram, e são por excelência, ações “antidialéticas”. Conforme Pimenta (1990, p.20):
O fracasso da escola pública de ensino fundamental é explicado, entre outros, pelo
fracasso do Curso de Formação de Docentes, que não tem conseguido formar
professores capazes de proceder às alterações necessárias na organização escolar de
forma a melhorá-la.
Então, começar por quem ensina, pode ser um caminho adequado para a
transformação da educação brasileira e consequentemente para uma sociedade mais justa e
democrática. A leitura no processo de formação docente encontra-se num descompasso, pois
5
muitos dos estudantes chegam ao curso de Formação de Docentes com grande precariedade
leitora, que provoca um desconhecimento de alguns vocábulos encontrados em livros de
Educação. Segundo caderno de registros (2012, p.02):
No 2.º semestre de 2011, observando a aula de História, a professora também
questionou a falta de leitura das professoradas e suas dificuldades quanto alguns
vocábulos expressos nos textos. Certa vez, numa conversa informal ela disse: “O
professor que não lê não é professor”.
O trabalho com a leitura no colégio versa em eventos que tematizam a cópia de textos,
onde os estudantes estabelecem uma relação de produção, isto é, um resumo, uma resenha ou
questionário.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Sabe-se que a escola possui o desafio de despertar o gosto pela literatura nos
educandos, pois ela é, muitas vezes, o único ambiente onde eles têm um maior contato com os
livros e é por excelência um organismo de importância na formação do leitor. Porém, há uma
grande resistência dos alunos à prática leitora. Vale lembrar, que a maioria das escolas ainda
possui práticas pedagógicas que evidenciam os questionários e resumos das obras literárias,
sem o trabalho de reflexão e compreensão do texto. Nessa conjuntura, o aluno percebe a
leitura como uma obrigação, acarretando assim, a aversão.
A crise da leitura no curso de Formação Docente é igualmente preocupante, pois se
acredita que os professorandos, futuramente, exercerão a função de disseminadores da prática
leitora e que desenvolverão nos alunos o interesse pela leitura. Portanto, para desempenhar tal
função, o professor “precisa gostar de ler muito, precisa envolver-se com o que lê” (LAJOLO,
2010, p.108) senão seu educando não construirá o gosto pela leitura e a educação deixará de
formar sujeitos críticos para formar sujeitos autômatos. Basta vislumbrar a analfabetismo
funcional que se constata em grande parte da população brasileira.
Segundo Pimenta (1990, p. 92)
A escola precisa traduzir o saber historicamente acumulado em conteúdos escolares
a serem ensinados, de modo que os alunos aprendam, deles se apossem como
condição do exercício de sua cidadania no processo de transformação da sociedade.
A educação escolar tem, pois, uma finalidade sócio-política.
6
Entretanto, como a educação terá a finalidade sócio-política se na formação docente há
sujeitos resistentes à prática leitora? Para que a finalidade sócio-política da educação se
constitua é fundamental que na formação docente,
O professor tenha adquirido uma aguda consciência da realidade e uma sólida
fundamentação teórica que lhe permita interpretar e direcionar essa realidade, além
de uma consistente instrumentalização para que possa interferir na realidade em que
atuará. (PIMENTA, 1990, p.94)
É contraditório, presenciar na Formação de Docentes uma “crise de leitura”, pois é o
ambiente formador de novos profissionais da educação. Para que se conheça a futura
profissão é necessário ler. O professor deve ter uma atualização permanente; deve reconhecer
que as informações são importantes para que saiba concatenar diferentes saberes e,
principalmente, que faça o educando aprender. Segundo Andrade (2007, p.11) é fundamental
que o professor tenha a leitura e a escrita como “práticas incorporadas em seu horizonte de
experiências cotidianas”.
O professor que não lê, pratica engodo, pois tem o dever de formar novos leitores;
porém, se ele mesmo não possui a prática leitora, seus alunos consequentemente não gostarão
de ler. E para concluir, segundo Freire (1987, p.82):
A confiança implica o testemunho que um sujeito dá aos outros de suas reais e
concretas intenções. Não pode existir, se a palavra, descaracterizada, não coincide
com os atos. Dizer uma coisa e fazer outra, não levando a palavra a sério, não pode
ser estímulo à confiança.
REFERÊNCIAS
ANDRADE, Ludmila Thomé de. Professores leitores e sua formação: transformações
discursivas de conhecimentos e de saberes. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo:
Cortez, 2005.
______________. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 2010.
MAIA, Joseane; Literatura na formação de leitores e professores. São Paulo: Paulinas, 2007.
PIMENTA, Selma Garrido. GONÇALVES, Carlos Luiz. Revendo o ensino de 2º. Grau:
propondo a formação de professores. São Paulo: Cortez, 1990.
7
SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura e realidade brasileira. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1985.
ZILBERMAN. Regina (org.). Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. Porto
Alegre: Mercado Aberto, 1991.
Esquema do pôster: introdução / desenvolvimento / considerações finais / referências

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A crise da leitura na formação docente

  • 1. A CRISE DA LEITURA NA FORMAÇÃO DOCENTE: UMA ANÁLISE DAS PRÁTICAS LEITORAS DOS FUTUROS PROFESSORES Antonio Fernando de Araújo dos Santos – PUCPR Maria Sílvia Bacila Winkeler – PUCPR Resumo: Este trabalho discute a crise da leitura mediante a participação dos pesquisadores, bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), de agosto de 2010 a novembro de 2011, provenientes do Curso de Pedagogia de uma universidade de Curitiba, em uma instituição pública de ensino, na formação de professores alfabetizadores. A pesquisa que tem como tema a crise da leitura na formação de docentes foi procedente dos relatórios dos bolsistas, das reuniões de estudos com os supervisores locais e bolsistas, das observações e das produções acadêmicas dos bolsistas, tendo como premissa a ação-reflexão-ação e por fim, a aplicação de um questionário, os quais constituem o “corpus” para a análise dos resultados até aqui possíveis de compreender. A formação de professores foi baseada em Freire (1987, 2003) e Pimenta (1990); a leitura e suas concepções basearam-se em Zilberman (1991), Lajolo (2010), Andrade (2007), Maia (2007) e Silva (1985). Foi possível ratificar as primeiras impressões alcançadas, motivando assim para um estudo mais aprofundado, a fim de reconhecer as causas da pouca prática leitora entre os jovens pesquisados. Palavra- chaves: Leitura, formação docente, aprendizagem. Introdução Não é possível se pensar na formação de professores sob o jugo de uma crise da leitura, pois se pensa que o professor é um disseminador de leitura nas escolas e “não um mero intermediário entre seu destinatário (seja o aluno, seja o usuário da biblioteca) e um saber neutro”. (SILVA, 1985, p.10) Mediante a materialização do espaço da formação de docentes em nível médio, na modalidade Normal, releva-se o projeto de pesquisa emergido nas ações do PIBID de Pedagogia, que tem como tema a Formação de Professor Leitor. Seu estudo enfatiza a crise da leitura no processo de formação profissional dos futuros professores do curso de Formação de Docentes, em nível médio. Sabe-se que a formação do sujeito leitor tem fomentado muitos debates e proposições no âmbito escolar, isso porque se percebe fortemente o estado de crise em que se encontra a leitura. Segundo Maia (2007) tal crise não pode ser desvencilhada da crise da escola, até mesmo porque, em grande parte é no espaço educativo onde o trabalho com a leitura se dá de
  • 2. 2 forma mais sistematizada e onde se encontram os principais sujeitos no processo de formação de leitores: o professor e o aluno. A questão da leitura tem sido objeto de análise desde o final da década de 1970 quando se convencionou a denominar o problema de “a crise da leitura”. Alguns autores utilizam tal termo em suas produções como Zilberman (1991) e Silva (1985). A crise da leitura instaurada no processo de formação de professores traz à luz a problemática de uma formação leitora deficiente dos futuros professores. Vale ressaltar que estes são educandos que passaram pelos anos escolares com práticas de leituras focadas na obrigatoriedade. Para tanto, é necessário se pensar na formação de professores leitores, capazes de instrumentalizarem seus educandos e, sobretudo, formarem novos leitores. Quando no processo de ensino-aprendizagem da língua materna se reproduzem práticas pedagógicas mecanicistas-pragmáticas, não se contribuem para a formação leitora e sim para sujeitos resistentes a sua prática, pois, nesse contexto, o ensino da leitura é voltado a uma finalidade, isto é, para responder questões como “quem é o autor?”, “quem é a personagem principal” ou “qual a ideia central do texto”. Para que se construa a habilidade leitora, faz-se necessário que a leitura não seja utilizada como pretexto, pois esse mecanismo de trabalho pedagógico entrava a relação leitura informação-conhecimento-prazer, tão importante na constituição de um sujeito leitor. Nessa conjuntura, o trabalho de conscientização, de questionamento e de libertação dos alunos é ignorado. Conforme Silva (1985, p.27) A divergência, o conflito, a rebeldia são imediatamente abafados durante as aulas de leitura- estas transformam-se em meros exercícios de reprodução e de acatamento de “produtos” (...). A FORMAÇÃO DO PROFESSOR FACE À CRISE DA LEITURA A presente pesquisa ocorre em um colégio pertencente à rede estadual de ensino, situada no centro de Curitiba e possui aproximadamente 641 estudantes no Curso de Formação de Docentes na forma Integrada (turno matutino) e 121 alunos na forma Subsequente (turno noturno). A pesquisa formou-se a partir de um questionário estruturado, o qual propunha conhecer os estilos de aprendizagem e os mecanismos que os estudantes construíam para efetivarem seus processos de ensino-aprendizagem. Foi possível ler pelas respostas obtidas
  • 3. 3 por meio deste instrumento o pouco interesse pelas indicações bibliográficas indicadas pelos professores formadores. A despeito da instituição de ensino (campo de pesquisa) possuir alguns projetos para incentiva a leitura, percebeu-se uma ausência da prática de leitura de grande parte dos jovens futuros professores. No segundo semestre de 2011, foi realizada uma nova entrevista com quarenta formandos do curso de Formação de Docentes, visando conhecer as práticas leitoras dos futuros professores do referido curso, verificando suas impressões sobre a leitura. Para tanto, percebeu-se que portadores como revistas, jornais e livros obtiveram juntos 12,5% da preferência dos estudantes. Em contrapartida, os livros sobre educação, tão comuns na formação de professores não obtiveram nenhum indicador. Os livros de romance apresentaram 30% da preferência dos quarenta sujeitos da pesquisa. Ao dar significância à leitura 35% dos respondentes atribuíram-na a uma concepção de prazer. Quando questionados quanto à frequência das práticas leitoras, 55% afirmaram que liam pouco e 60% quando pressionados a cumprir determinada tarefa escolar como provas, relatórios, resumos, para projetos de leitura do colégio. Quanto ao número de livros lidos, integralmente, durante o curso, 45% indicaram uma média de dez livros. No campo da pesquisa, as coordenadoras pedagógicas juntamente com a equipe de professores e, sobretudo, os da área de Língua Portuguesa fazem um acompanhamento com os alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem. No curso de Formação de Docentes noturno, a coordenadora pedagógica relatou que, às vezes, é necessário o resgate da alfabetização, pois os alunos apresentam dificuldades que não cabem ao Ensino Médio, pois se espera que esses alunos já possuam certos domínios linguísticos estruturados. Portanto, como alfabetizar uma turma de 30, 40 alunos, se os próprios professorandos possuem deficiências? Segundo Pimenta (1990, p.125) “a alfabetização é o eixo central da atividade na faixa da 1ª. à 4ª. série do 1º. grau”. Os professores formados sem a consciência crítica de sua ação docente, normalmente seguem receitas prontas, são como ligados no piloto automático, e consequentemente impedem que o processo de ensino e aprendizagem se constitua. O campo de pesquisa vem utilizando alguns projetos de incentivo à leitura, a fim de que atenue a problemática. Há projetos como Ler é Cultura, organizado pelas coordenadoras pedagógicas e que envolvem professores e alunos. O projeto abarca diferentes obras com cunho pedagógico, e os alunos escolhem aqueles que lhes interessam. Cada aluno fica com a incumbência de ler a obra escolhida e na semana marcada para o projeto, apresenta suas
  • 4. 4 reflexões. Vale ressaltar que o grupo de pesquisa também participou do projeto realizado em abril de 2010, ora observando ora lendo e participando das discussões. Existem também outros projetos como: Leitura de Obras Clássicas, destinado aos formandos do Curso e enfatiza as obras recomendadas para o vestibular, e Meu gosto literário, onde os alunos apresentam seus livros favoritos. Para ambos os projetos, são organizadas bancas para as apresentações. O projeto de pesquisa demonstrou a necessidade de realizar-se um trabalho dinâmico com os alunos adolescentes, pois os mesmos esperam que a escola seja menos engessada em suas “verdades absolutas”. A escola necessita rever as metodologias utilizadas, seus mecanismos avaliativos e as relações interpessoais presentes nela. Vale ressaltar, que são futuros profissionais da educação e, portanto, faz-se necessário ter um ambiente que os estimulem a uma prática pedagógica efetiva. Concluiu-se que os adolescentes do curso de Formação de Docentes, de modo geral, possuem características ativas de estilo de aprendizagem. Dificuldades para aprender a partir de livros e textos. Apresentam a necessidade de visualizar imagens e mediação do professor. Por isso, é fundamental conhecer como se dá o processo de aprendizagem dos educandos. A escola, muitas vezes, ignora ou desconhece as particularidades desses sujeitos e determina uma padronização, acreditando que todos aprendem da mesma forma. Sabe-se, hoje, que cada um possui seu tempo para aprender e cabe à escola adequar-se a essa nova realidade. O ensino na Formação de Docentes busca uma sólida fundamentação teórica que resulte numa instrumentalização técnica de seus educandos, mas esbarra nas dificuldades desses, que os impede terem uma s formação docente. Entretanto, é preciso propostas de mudanças para a Formação de Docentes e não meras reformas que são como remendos que nada alteram, e são por excelência, ações “antidialéticas”. Conforme Pimenta (1990, p.20): O fracasso da escola pública de ensino fundamental é explicado, entre outros, pelo fracasso do Curso de Formação de Docentes, que não tem conseguido formar professores capazes de proceder às alterações necessárias na organização escolar de forma a melhorá-la. Então, começar por quem ensina, pode ser um caminho adequado para a transformação da educação brasileira e consequentemente para uma sociedade mais justa e democrática. A leitura no processo de formação docente encontra-se num descompasso, pois
  • 5. 5 muitos dos estudantes chegam ao curso de Formação de Docentes com grande precariedade leitora, que provoca um desconhecimento de alguns vocábulos encontrados em livros de Educação. Segundo caderno de registros (2012, p.02): No 2.º semestre de 2011, observando a aula de História, a professora também questionou a falta de leitura das professoradas e suas dificuldades quanto alguns vocábulos expressos nos textos. Certa vez, numa conversa informal ela disse: “O professor que não lê não é professor”. O trabalho com a leitura no colégio versa em eventos que tematizam a cópia de textos, onde os estudantes estabelecem uma relação de produção, isto é, um resumo, uma resenha ou questionário. CONSIDERAÇÕES FINAIS Sabe-se que a escola possui o desafio de despertar o gosto pela literatura nos educandos, pois ela é, muitas vezes, o único ambiente onde eles têm um maior contato com os livros e é por excelência um organismo de importância na formação do leitor. Porém, há uma grande resistência dos alunos à prática leitora. Vale lembrar, que a maioria das escolas ainda possui práticas pedagógicas que evidenciam os questionários e resumos das obras literárias, sem o trabalho de reflexão e compreensão do texto. Nessa conjuntura, o aluno percebe a leitura como uma obrigação, acarretando assim, a aversão. A crise da leitura no curso de Formação Docente é igualmente preocupante, pois se acredita que os professorandos, futuramente, exercerão a função de disseminadores da prática leitora e que desenvolverão nos alunos o interesse pela leitura. Portanto, para desempenhar tal função, o professor “precisa gostar de ler muito, precisa envolver-se com o que lê” (LAJOLO, 2010, p.108) senão seu educando não construirá o gosto pela leitura e a educação deixará de formar sujeitos críticos para formar sujeitos autômatos. Basta vislumbrar a analfabetismo funcional que se constata em grande parte da população brasileira. Segundo Pimenta (1990, p. 92) A escola precisa traduzir o saber historicamente acumulado em conteúdos escolares a serem ensinados, de modo que os alunos aprendam, deles se apossem como condição do exercício de sua cidadania no processo de transformação da sociedade. A educação escolar tem, pois, uma finalidade sócio-política.
  • 6. 6 Entretanto, como a educação terá a finalidade sócio-política se na formação docente há sujeitos resistentes à prática leitora? Para que a finalidade sócio-política da educação se constitua é fundamental que na formação docente, O professor tenha adquirido uma aguda consciência da realidade e uma sólida fundamentação teórica que lhe permita interpretar e direcionar essa realidade, além de uma consistente instrumentalização para que possa interferir na realidade em que atuará. (PIMENTA, 1990, p.94) É contraditório, presenciar na Formação de Docentes uma “crise de leitura”, pois é o ambiente formador de novos profissionais da educação. Para que se conheça a futura profissão é necessário ler. O professor deve ter uma atualização permanente; deve reconhecer que as informações são importantes para que saiba concatenar diferentes saberes e, principalmente, que faça o educando aprender. Segundo Andrade (2007, p.11) é fundamental que o professor tenha a leitura e a escrita como “práticas incorporadas em seu horizonte de experiências cotidianas”. O professor que não lê, pratica engodo, pois tem o dever de formar novos leitores; porém, se ele mesmo não possui a prática leitora, seus alunos consequentemente não gostarão de ler. E para concluir, segundo Freire (1987, p.82): A confiança implica o testemunho que um sujeito dá aos outros de suas reais e concretas intenções. Não pode existir, se a palavra, descaracterizada, não coincide com os atos. Dizer uma coisa e fazer outra, não levando a palavra a sério, não pode ser estímulo à confiança. REFERÊNCIAS ANDRADE, Ludmila Thomé de. Professores leitores e sua formação: transformações discursivas de conhecimentos e de saberes. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 2005. ______________. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 2010. MAIA, Joseane; Literatura na formação de leitores e professores. São Paulo: Paulinas, 2007. PIMENTA, Selma Garrido. GONÇALVES, Carlos Luiz. Revendo o ensino de 2º. Grau: propondo a formação de professores. São Paulo: Cortez, 1990.
  • 7. 7 SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura e realidade brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. ZILBERMAN. Regina (org.). Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991. Esquema do pôster: introdução / desenvolvimento / considerações finais / referências