Brasilidades bahianas

821 visualizações

Publicada em

Publicada em: Educação, Turismo, Tecnologia
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
821
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
3
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
0
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Brasilidades bahianas

  1. 1. Entrevista: Mariana (Mainha) e Cleusa Oliveira, Baianas do Acarajé M ariana Oliveira, mais conhecida como “a baiana da torre de TV”, é uma das personagens mais conhecidas de Bra- sília. Há quase quarenta anos na capital brasilei- ra, a “Barraca da Mainha”, como é conhecido seu pequeno empreendimento, faz sucesso entre os turistas brasileiros e estrangeiros que visitam a Capital Federal. Indicativo desse prestígio são os convites que tanto Dona Mariana como sua filha Dona Cleusa recebem de diversas autoridades para fazerem o famoso acarajé em cerimônias públicas. Nesta entrevista cedida a Textos do Brasil, Dona Cleusa comenta algumas peculia- ridades de seu ofício, registrado, recentemente, como Patrimônio Histórico Imaterial. Sabores do Brasil 123
  2. 2. Foto: Anneluize Shmeil TB: A senhora sabe o que significa a beça”, fazem oferenda para Iansã. É aconselhável palavra acarajé? que seja feito por quem é filha de Iansã. Baiana: A origem é da África. Vem de “aca- rá”, que significa bola de fogo. “Jé” quer dizer TB: Quais são os rituais de uso do comer. acarajé no candomblé? Baiana: É a comida de Iansã. A gente faz TB: Apenas os filhos-de-santo podem os bolinhos e oferece para ela. Na origem – assim fazer o acarajé? conta a história, que não é da minha época, nem Baiana: Sim. Os filhos-de-santo fazem aca- da minha mãe, foi da minha “bisa” – as africanas rajé para oferenda. Quando estão “fazendo a ca- vinham e faziam. Você sabe que a religião delas 124 Textos do Brasil . Nº 13
  3. 3. era o candomblé. E só recebiam a graça se elas As negras, as africanas rezassem, dançassem para o santo e oferecessem o acarajé. Umas oferecem só o bolinho cru. De- que vieram para o pende do que o santo pede. Outras oferecem frito nosso país, davam um também, puro, sem nada. Oferecem no bambu- zal. Isso é para Iansã, isso não é “trabalho”! A bolinho para Iansã gente vende o acarajé como “trabalho” também. acalmar a sinhá. Não Mas, primeiro, nós damos a graça e, depois, nós “trabalhamos”. E as africanas – segundo as his- era fazendo o mal, era tórias que ouço desde que nasci – eram muito fazendo o bem, para maltratadas pelas “sinhás”. Então, elas faziam o acarajé para comer e davam um pouco para que ela a sinhá não Iansã para que ela desse uma surra na “iaiá”. A fé remove montanha, né? Elas tinha fé de que a judiasse tanto delas. E, “sinhá” ficaria mansinha, ficaria boa, acalmaria. na mediação da fome, Iansã é dona do vento, é Santa Bárbara. Então elas faziam essa oferenda. É igual a quem tem fé fritava e comia. A em Santo Antônio. O que dar para Santo Antô- nossa história é linda! nio?! Um pãozinho. Ofereço um pãozinho para uma criança e Santo Antônio me dá uma graça. TB: Como o acarajé é servido? As negras, as africanas que vieram para o nosso Baiana: Quando eu nasci, minha mãe fazia país, davam um bolinho para Iansã acalmar a si- o bolinho de feijão, fritava três camarõezinhos, nhá. Não era fazendo o mal, era fazendo o bem, cortava, botava uma pimentinha e vatapá. Só para que ela, a sinhá, não judiasse tanto delas. E, isso! Agora, não, como muita gente não come ca- na mediação da fome, fritava e comia. A nossa marão, muitas baianas preparam tudo separado: história é linda! vatapá, camarão e salada. Em Salvador, tem mui- ta gente que já serve com caruru – outra comida TB: O acarajé utilizado no candomblé de orixá que não tem nada a ver com o acarajé. é diferente do que é vendido nos Isso é para o turista aprender a comer caruru. tabuleiros? Baiana: Depende do orixá que pedir. Al- TB: O modo de se fazer acarajé se guns pedem frito, outros pedem cru. Iansã gosta tornou patrimônio cultural do bem pequeno e frito. Puro, sem recheio. Brasil... Baiana: Graças a Deus! Principalmente ao TB: Quais são os “segredos” para se nosso esforço, porque se a gente não corresse fazer um bom acarajé? atrás!... Havia pessoas fazendo a farinha de feijão Baiana: Bom, é segredo, né? (risos) de qualquer jeito para exportação. Na embala- gem tinha a figura de uma baiana, para dizer que Sabores do Brasil 125
  4. 4. falam que o baiano é mais preguiçoso. Ele não A nossa culinária gosta de levantar cedo, ele não gosta muito do tem mil e tantos “batente”. São as baianas as que vão à luta. Le- vantam cedo. Algumas vão lavar roupa na Lagoa pratos, então com um do Abaeté. Outras vão para a casa da sinhá tra- pedacinho de pimenta, balhar. Outras são ótimas cozinheiras – porque a nossa culinária tem mil e tantos pratos, então um pouquinho de dendê com um pedacinho de pimenta, um pouquinho e uma água de peixe, de dendê e uma água de peixe, a gente faz di- versas comidas. Por isso, ficamos felizes com es- a gente faz diversas sas iniciativas. O acarajé é nosso, das baianas do comidas. acarajé. Agora, no resto do Brasil ainda falta regu- foi uma baiana que fez. Foi a nossa associação, lá lamentação. Tem gente de todas as partes do Bra- de Salvador, que correu atrás para ser patrimônio sil falando que é baiano e vendendo acarajé fei- nosso, para patentear a nossa culinária. Porque, to de qualquer jeito. Eu não sei porque eles não se não, ia ser igual ao açaí, que o japonês paten- regularizam. Já tem muito acarajé na rua. Tem teou. E não tem nada a ver! Veio aqui no Brasil, muito, muito mesmo. Antigamente, muita gente comprou o açaí, patenteou e é dele! O acarajé é olhava para o acarajé e dizia: “ai, eu não como nosso com muito orgulho! esse bicho!”. Hoje o Brasil inteiro come acarajé. TB: Por que a receita do acarajé não TB: Quais são os adereços típicos da pode ser modificada? baiana do acarajé? Baiana: Porque não dá certo. Primeiro, Baiana: A nossa farda. É importante a nossa porque é uma comida sagrada. Além disso, se farda. Tem gente que gosta de estampada; outros modificasse não teria graça, ficaria ruim. Por branca. Como a baiana geralmente é bem preti- exemplo, tinha uma propaganda que nós, baia- nha, ela fica o máximo com a farda toda bran- nas, lutamos para tirar. Era uma propaganda de quinha. Tem também as nossas guias-de-santo. uma fábrica de frios em que se colocava lingüiça Tem muitas que usam guia e nem sabem quem no acarajé. Aquilo foi um deboche! Por ela ser de é o santo! Aí não dá, né? É só para enfeite! Tem uma nação, por ela ser de uma religião, ninguém que falar logo que é só para enfeite. Tem algumas deixa modificar a receita. baianas que também colocam uma folhinha de arruda na cabeça, para afastar mau-olhado. As TB: Qual a importância da pessoas acham que é para tirar a dor-de-cabeça, regulamentação da profissão de mas é contra “quebranto”. E seca rapidinho... baiana do acarajé, como acontece em Salvador? TB: O que mais existe no tabuleiro da Baiana: Para nós isso é muito importan- baiana além do acarajé? te. Até porque já somos muitas. Muitas pessoas Baiana: Ah! Tem muita coisa! Pode ter abará, vatapá, cuscuz, cocada. No tabuleiro da 126 Textos do Brasil . Nº 13
  5. 5. baiana não pode faltar cocada. Inclusive quan- Os estrangeiros ficam do a gente faz eventos, onde muitas vezes não querem cocada porque tem muita sobremesa, eu encantados! Muito levo pelo menos 30, e se o freguês “panha”, tem encantados. Às vezes que pagar! (risos). Tabuleiro sem cocada não tem graça! chega um ônibus, uma van de estrangeiros. TB: Como a senhora vê a concorrência da venda de acarajé em bares e Eles vêem e começam supermercados? É uma coisa boa ou a provar desconfiados, ruim? Baiana: Para nós, não prejudicou em nada. porque têm medo de Só expandiu a exposição do nosso produto, que é maravilhoso. É igual a churrasquinho que tem “azangar a barriga”. em todo lugar e todo mundo vende. Mas o bom Aí pedem um, e fazem acarajé, só o feito na hora, pela baiana. “hummm” TB: As novidades tecnológicas, como o liqüidificador, facilitaram o TB: E eles costumam pedir quente preparo do acarajé? (apimentado)? Baiana: Não. A gente não usa nada disso. Baiana: Não. Eles têm medo. Só quem Liqüidificador a gente só usa para bater a man- pede apimentado é o indonésio e o africano. Eles dioca e fazer o bobó. Até para bater o pão, a gente comem o bolinho puro, puro com pimenta. Aí deixa de molho e bate com a mão. Nós temos que eles falam “bagadu, bagadu”. Sei lá o que é “ba- manter a tradição. A gente não usa muito o li- gadu”. Tô botando é pimenta!... (risos) qüidificador, principalmente para bater a massa. E tem mais: quando se começa a bater a massa, TB: A senhora poderia nos dar a não se pode passar para outra. Quando começa a receita do acarajé? bater, tem que bater até o fim. Baiana: Na medida do possível, posso. Até porque, o acarajé depende sobretudo da “mão” TB: Qual a reação dos estrangeiros ao da baiana! Você compra o feijão-fradinho. Me- provar o acarajé? lhor comprar muito (uns dois quilos) porque a Baiana: Ah! Ficam encantados! Muito en- gente “quebra” um saco por dia. Quebra e deixa cantados. Às vezes chega um ônibus, uma van de de molho para tirar a casca. Depois, você mói e estrangeiros. Eles vêem e começam a provar des- bota tempero: sal e cebolinha branca. Cebola de confiados, porque têm medo de “azangar a bar- cabeça. Não é a verde! Você pode bater bastante. riga”. Aí pedem um, e fazem “hummm”, igual a Bota um pouquinho de sal, cebola e bate. O se- Ana Maria Braga, e, então, todo mundo come. gredo é a batida! Depois faz o bolinho e frita no dendê para dar cor. No óleo, fica branquinho. Sabores do Brasil 127

×