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João Cabral de Melo Neto
  A Linguagem Objeto
" Poderia a linguagem de um poema não apenas se referir a um objeto, mas imitá-lo, sugeri-
                                                                          imitá- sugeri-
lo,a ponto de nós senti-los no próprio poema?
                  senti-
Essa era uma das preocupações de João Cabral de Melo Neto; poeta que também se
inspirou em problemas sociais do Nordeste, por temas relacionados à arte e ao futebol. "
Índice
Introdução
Biografia
Poemas e Obras
Curiosidades
Vamos aprender mais um pouco?
Conclusão
Bibliografia
Introdução
Foram reunidas nessa obra um pouco da vida do grande poeta da
  Terceira Fase do Modernismo João Cabral de Melo Neto
  (1920- 1999). Vida que foi para João Cabral uma bonita e ao
  (1920-
  mesmo tempo sofrida obra de engenharia poética, como
  demonstrou no seu inesquecível Morte e Vida Severina.
Aos 79 anos, apaga-se a voz de significação universal, com a
             apaga-
  singularidade do seu verso, tantas vezes lembrado para a glória
  do Prêmio Nobel de Literatura.
Como lembrança se mantém a convicção de que foi ele um dos
  maiores poetas brasileiros de todos os tempos - o poeta da
  razão - que jamais esqueceu, mesmo nos 40 anos de vida
  diplomática, as suas raízes pernambucanas. O homem que
  soube desenhar em versos cálidos a saga do retirante
  nordestino, quando ainda não havia passado dos 35 anos de
  idade.
Biografia
João Cabral de Melo Neto nasceu na cidade de Recife - PE, no dia 09 de janeiro de 1920. Primo, pelo lado
paterno, de Manuel Bandeira e, pelo lado materno, de Gilberto Freyre. Passa a infância em engenhos de
açúcar. Primeiro no Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, e depois nos engenhos Pacoval e Dois
Irmãos, no município de Moreno.Em 1930, com a mudança da família para Recife, inicia o curso primário no
Colégio Marista. João Cabral era um amante do futebol, tendo sido campeão juvenil pelo Santa Cruz
Futebol Clube em 1935.Foi na Associação Comercial de Pernambuco, em 1937, que obteve seu primeiro
emprego, tendo depois trabalhado no Departamento de Estatística do Estado.
 Já com 18 anos, começa a freqüentar a roda literária do Café Lafayette, que se reúne em volta de Willy
Lewin e do pintor Vicente do Rego Monteiro, que regressara de Paris por causa da guerra. Em 1940 viaja
com a família para o Rio de Janeiro, onde conhece Murilo Mendes. Esse o apresenta a Carlos Drummond de
Andrade e ao círculo de intelectuais que se reunia no consultório de Jorge de Lima.
No ano seguinte, participa do Congresso de Poesia do Recife, ocasião em que apresenta suasConsiderações
sobre o poeta dormindo.
Em 1942 marca a publicação de seu primeiro livro, Pedra do Sono ,em que é nítida a influência de Carlos
Drummond de Andrade e de Murilo Mendes. Em novembro viaja, por terra, para o Rio de
Janeiro. Convocado para servir à Força Expedicionária Brasileira (FEB), é dispensado por motivo de saúde.
Mas permanece no Rio, sendo aprovado em concurso e nomeado Assistente de Seleção do DASP
(Departamento de Administração do Serviço Público). Freqüenta, então, os intelectuais que se reuniam no
Café Amarelinho e Café Vermelhinho, no Centro do Rio de Janeiro. Publica Os três mal-amadosna Revista do
                                                                                  mal-
Brasil.
O engenheiro é publicado em 1945, em edição custeada por Augusto Frederico Schmidt. Faz concurso para a
carreira diplomática, para a qual é nomeado em dezembro. Começa a trabalhar em 1946, no Departamento
Cultural do Itamaraty, depois no Departamento Político e, posteriormente, na comissão de Organismos
Internacionais. Em fevereiro, casa-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira, no Rio de Janeiro. Em dezembro,
                              casa-
nasce seu primeiro filho, Rodrigo.É removido, em 1947, para o Consulado Geral em Barcelona, como vice-
                                                                                                     vice-
cônsul. Adquire uma pequena tipografia artesanal, com a qual publica livros de poetas brasileiros e
espanhóis. Nessa prensa manual imprime Psicologia da composição.
Nos dois anos seguintes ganha dois filhos: Inês e Luiz, respectivamente. Residindo na Catalunha, escreve
seu ensaio sobre Joan Miró,cujo estúdio freqüenta. Miró faz publicar o ensaio com texto em português, com
suas primeiras gravuras em madeira.
Removido para o Consulado Geral em Londres, em 1950, publica O cão sem plumas. Dois anos depois retorna
   ao Brasil para responder por inquérito onde é acusado de subversão. Escreve o livro O rio, em 1953, com o
   qual recebe o Prêmio José de Anchieta do IV Centenário de São Paulo (em 1954).
   É colocado em disponibilidade pelo Itamaraty, sem rendimentos, enquanto responde ao inquérito, período
   em que trabalha como secretário de redação do Jornal A Vanguarda, dirigido por Joel Silveira. Arquivado o
   inquérito policial, a pedido do promotor público, vai para Pernambuco com a família.
    Lá, é recebido em sessão solene pela Câmara Municipal do Recife.Em 1954 é convidado a participar do
   Congresso Internacional de Escritores, em São Paulo. Participa também do Congresso Brasileiro de Poesia,
   reunido na mesma época. A Editora Orfeu publica seus Poemas Reunidos. Reintegrado à carreira diplomática
   pelo Supremo Tribunal Federal, passa a trabalhar no Departamento Cultural do Itamaraty.Duas alegrias em
   1955: o nascimento de sua filha Isabel e o recebimento do Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de
   Letras. A Editora José Olympio publica, em 1956, Duas águas, volume que reúne seus livros anteriores e os
   inéditos: Morte e vida severina, Paisagens com figuras e Uma faca só lâmina.Removido para Barcelona, como
   cônsul adjunto, vai com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, onde passa
   a residir.
Em 1958 é removido para o Consulado Geral em Marselha. Recebe o prêmio de melhor autor no Festival de
   Teatro do Estudante, realizado no Recife. Publica em Lisboa seu livro Quaderna, em 1960. É removido para
   Madri, como primeiro secretário da embaixada. Publica, em Madri, Dois parlamentos.
   Em 1961 é nomeado chefe de gabinete do ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa, e passa a residir
   em Brasília. Com o fim do governo Jânio Quadros, poucos meses depois, é removido outra vez para a
   embaixada em Madri. A Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabino, publica Terceira feira, livro
   que reúne Quaderna, Dois parlamentos, ainda inéditos no Brasil, e um novo livro: Serial. Com a mudança do
  consulado brasileiro de Cádiz para Sevilha, João Cabral muda-se para essa cidade, onde reside pela
                                                            muda-
  segunda vez. Continuando seu vai-e-vem pelo mundo, em 1964 é removido como conselheiro para a
                                  vai-
  Delegação do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. Nesse ano nasce seu quinto filho, João.
  Como ministro conselheiro, em 1966, muda-se para Berna. O Teatro da Universidade Católica de São Paulo
                                         muda-
  produz o auto Morte e Vida Severina, com música de Chico Buarque de Holanda, primeiro encenado em
  várias cidades brasileiras e depois no Festival de Nancy, no Théatre des Nations, em Paris e, posteriormente,
  em Lisboa, Coimbra e Porto. Em Nancy recebe o prêmio de Melhor Autor Vivo do Festival. Publica A
  educação pela pedra, que recebe os prêmios Jabuti; da União de Escritores de São Paulo; Luisa Cláudio de
  Souza, do Pen Club; e o prêmio do Instituto Nacional do Livro. É designado pelo Itamaraty para representar
  o Brasil na Bienal de Knock-le-Zontew, na Bélgica.
                        Knock-le-
Em 1967 marca sua volta a Barcelona, como cônsul geral. No ano seguinte é publicada a primeira edição
   de Poesias completas. É eleito, em 15 de agosto de 1968, para a Academia Brasileira de Letras na vaga
   de Assis Chateaubriand. É recebido em sessão solene pela Assembléia Legislativa de Pernambuco como
   membro do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT). Toma posse na
   Academia em 06 de maio de 1969, na cadeira número 6, sendo recebido por José Américo de
   Almeida. A Companhia Paulo Autran encena Morte e vida Severina em diversas cidades do Brasil. É removido
   para a embaixada de Assunção, no Paraguai, como ministro conselheiro. Torna-se membro da Hispania
                                                                            Torna-
   Society of America e recebe a comenda da Ordem de Mérito Pernambucano.
   Após três anos em Assunção, é nomeado embaixador em Dacar, no Senegal, cargo que exerce
   cumulativamente com o de embaixador da Mauritânia, no Mali e na Giné-Conakry.
                                                                       Giné-
   Em 1974 é agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco. No ano seguinte publica Museu de Tudo, que
                                Grã-
   recebe o Grande Prêmio de Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte. É agraciado com a Medalha de
   Humanidades do Nordeste. Em 1976 é condecorado Grande Oficial da Ordem do Mérito do Senegal e, em
   1979, como Grande Oficial da Ordem do Leão do Senegal. É nomeado embaixador em Quito, Equador e
   publica A escola das facas.
   A convite do governador de Pernambuco, vai a Recife (em 1980) para fazer o discurso inaugural da Ordem
   do Mérito de Guararapes, sendo condecorado com a Grã-Cruz da Ordem. Ali é inaugurada uma exposição
                                                        Grã-
   bibliográfica de sua obra, no Palácio do Governo de Pernambuco, organizada por Zila Mamede. Recebe a
   Comenda do Mérito Aeronáutico e a Grã-Cruz do Equador.
                                         Grã-
   No ano seguinte vai para Honduras, como embaixador. Publica a antologia Poesia crítica. Em 1982 é
   agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Vai para
   a cidade do Porto, em Portugal, como cônsul geral. Recebe o Prêmio Golfinho de Ouro do Estado do Rio de
   Janeiro. Publica Auto do frade, escrito em Tegucigalpa.
   Ganha o Prêmio Moinho Recife, em 1984 e, no ano seguinte, publica os poemas de Agrestes. Nesse livro há
   uma sessão dedicada à morte ("A indesejada das gentes"). Em 1986 é agraciado com o título de Doutor
   Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco. Sua esposa, Stella Maria, falece no Rio de
   Janeiro. João Cabral reassume o Consulado Geral no Porto. Casa-se em segundas núpcias com a
                                                               Casa-
   poeta Marly de Oliveira.
   Em 1987 publica Crime na Calle Relator, poemas narrativos. Recebe o prêmio da União Brasileira de
   Escritores. É removido para o Rio de Janeiro.
   Em Recife, no ano de 1988, lança sua antologia Poemas pernambucanos. Publica, também, o segundo
   volume de poesias completas: Museu de tudo e depois. Recebe o Prêmio da Bienal Nestlé de Literatura pelo
conjunto da obra, e o Prêmio Lily de Carvalho da ABCL, Rio de Janeiro. Aposenta-se como embaixador em 1990 e
                                                                        Aposenta-
    publica Sevilha andando. É eleito para a Academia Pernambucana de Letras, da qual havia recebido, anos
    antes, a medalha Carneiro Vilela. Recebe os seguintes prêmios: Criadores de Cultura da Prefeitura do Recife,
    Luis de Camões (concedido conjuntamente pelos governos de Portugal e do Brasil), em Lisboa. É
    condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Judiciário e do Trabalho. A Faculdade Letras da
                           Grã-
    Universidade Federal do Rio de Janeiro publica Primeiros Poemas.
    Outros prêmios: Pedro Nava (1991) pelo livro Sevilha andando; Casa das Américas, concedido pelo Estado de
    São Paulo (1992); e também nesse ano o Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de
    Oklahoma. Viaja a Sevilha para representar o presidente da República nas comemorações do dia 7 de
    Setembro, que tiveram lugar na Exposição do IV Centenário da Descoberta da América. No Pavilhão do
    Brasil, foi distribuída sua antologiaPoemas sevilhanos, em edição especial. No Rio de Janeiro, na Casa da
    Espanha, recebe do embaixador espanhol a Grã-Cruz da Ordem de Isabel, a Católica.
                                                 Grã-
    Em 1993 recebe o Prêmio Jabuti, instituído pela Câmara Brasileira do Livro.
João Cabral era atormentado por uma dor de cabeça que não o deixava de forma alguma. Ao saber que sofria
    de uma doença degenerativa incurável, que faria sua visão desaparecer aos poucos, o poeta anunciou que ia
    parar de escrever. Já em 1990, com a finalidade de ajudá-lo a vencer os males físicos e a depressão, Marly,
                                                         ajudá-
    sua segunda esposa, passa a escrever alguns textos tidos como de autoria do biografado. Conforme
    declarações de amigos, escreveu o discurso de agradecimento feito pelo autor ao receber o Prêmio Luis de
    Camões, considerado o mais importante prêmio concedido a escritores da língua portuguesa, entre outros.
    Foi a forma encontrada para tentar tirá-lo do estado depressivo em que se encontrava. Como não admirava a
                                          tirá-
    música, o autor foi perdendo também a vontade de falar ("Não tenho muito o que dizer", argumentava). Era,
    sem dúvida, o nosso mais forte concorrente ao prêmio Nobel, com diversas indicações dos mais variados
    segmentos de nossa sociedade.
    Quando preparava a Cabraliana, que foi o seu primeiro audiolivro, foram ouvidas fantásticas histórias da vida
    diplomática, especialmente dos tempos de Portugal, Espanha e Marrocos, além de nele reconhecer um
    orgulho especial pela família, parente que foi de grandes escritores brasileiros, como Gilberto Freyre, Manuel
    Bandeira, Mauro Mota e Antônio de Moraes e Silva, o famoso Moraes do Dicionário de Língua Portuguesa.
    Parece que era herdeiro, no seu jeito tão humilde e cativante, de uma genética literária originalíssima.
Transcrevemos abaixo o discurso proferido por Arnaldo Niskier, presidente da Academia Brasileira de Letras, por
                                  ocasião da morte do poeta, em 09/10/1999:

                                           "Adeus a João Cabral"
                                              "Severino retirante,
                                             deixe agora que lhe diga:
                                            eu não sei bem a resposta
                                               da pergunta que fazia,
                                               se não vale mais saltar
                                              fora da ponte e da vida;
                                           nem conheço essa resposta,
                                           se quer mesmo que lhe diga;
                                                  é difícil defender,
                                             só com palavras, a vida,
                                             ainda mais quando ela é
                                               esta que vê, Severina;
                                            mas se responder não pude
                                                à pergunta que fazia
                                              ela, a vida, a respondeu
                                             com sua presença viva."

João Cabral, o poeta João, é o mesmo que escreveu aos 22 anos o livro Pedra do Sono, para depois nos brindar,
    entre outros, com O engenheiro, O cão sem plumas, Poesias completas, A educação pela pedra e o
    antológico Morte e Vida Severina, com versões no teatro e na mídia eletrônica.
    Fecham-
    Fecham-se os olhos cansados do poeta João e não conseguiu realizar o sonho que agora desvendamos: ver
    o América Futebol Clube voltar aos seus dias de glória. Nem do Rio, nem aquele que era a sua verdadeira
    paixão: o América do Recife.
Poemas e
 Obras
Morte e Vida Severina
  (Auto de Natal Pernambucano)
                      (1954-1955)
O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUE É E A QUE VAI   na mesma cabeça grande
 - O meu nome é Severino,                         que a custo é que se equilibra,
não tenho outro de pia.                           no mesmo ventre crescido
Como há muitos Severinos,                         sobre as mesmas pernas finas,
que é santo de romaria,                           e iguais também porque o sangue
deram então de me chamar                          que usamos tem pouca tinta.
Severino de Maria;                                E se somos Severinos
como há muitos Severinos                          iguais em tudo na vida,
com mães chamadas Maria;                          morremos de morte igual,
fiquei sendo o da Maria                           mesma morte severina:
do finado Zacarias.                               que é a morte que se morre
Mas isso ainda diz pouco:                         de velhice antes dos trinta,
há muitos na freguesia,                           de emboscada antes dos vinte,
por causa de um coronel                           de fome um pouco por dia
que se chamou Zacarias                            (de fraqueza e de doença
e que foi o mais antigo                           é que a morte severina
senhor desta sesmaria.                            ataca em qualquer idade,
Como então dizer quem fala                        e até gente não nascida).
ora a Vossas Senhorias?                           Somos muitos Severinos
Vejamos: é o Severino                             iguais em tudo e na sina:
da Maria do Zacarias,                             a de abrandar estas pedras
lá da Serra da Costela,                           suando-
                                                  suando-se muito em cima,
limites da Paraíba.                               a de tentar despertar
Mas isso ainda diz pouco:                         terra sempre mais extinta,
se ao menos mais cinco havia                      a de querer arrancar
com nome de Severino                              algum roçado da cinza.
filhos de tantas Marias                           Mas, para que me conheçam
mulheres de tantos outros, já finados Zacarias,   melhor Vossas Senhorias
vivendo na mesma serra                            e melhor possam seguir
magra e ossuda em que eu vivia.                   a história de minha vida,
Somos muitos Severinos                            passo a ser Severino
iguais em tudo na vida:                           que em vossa presença emigra.
ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA          - E foi morrida essa morte,
    REDE,AOS GRITOS DE : Ó IRMÃO DAS ALMAS! IRMÃOS DAS
    ALMAS! NÃO FUI EU QUE MATEI NÃO!                     irmãos das almas,
- A quem está carregando,                                essa foi morte morrida
irmãos das almas,                                        ou foi matada?
embrulhado nessa rede?                                   - Até que não foi morrida,
dizei que eu sabia?                                      irmão das almas,
- A um defunto de nada,                                  esta foi morte matada,
irmão das almas,                                         numa emboscada.
que há muitas horas viaja                                - E o que guardava a emboscada,
à sua morada.                                            irmãos das almas,
- E sabeis quem era ele,                                 e com que foi que mataram,
irmãos das almas,                                        com faca ou bala?
sabeis como ele se chama                                 -Este foi morto de bala,
ou se chamava?                                           irmão das almas,
- Severino Lavrador,                                     mais garantido é de bala,
irmão das almas,                                         mais longe vara.
Severino Lavrador,                                       - E quem foi que emboscou,
mas já não lavra.                                        irmãos das almas,
- E de onde que o estais trazendo,                       quem contra ele soltou
irmãos das almas,                                        essa ave-bala?
                                                               ave-
onde foi que começou                                     - Ali é difícil dizer,
vossa jornada?                                           irmão das almas,
- Onde a Caatinga é mais seca,                           sempre há uma bala voando
irmão das almas,                                         desocupada.
onde uma terra que não dá                                - E o que havia ele feito,
nem planta brava.                                        irmãos das almas,
e o que havia ele feito          irmão das almas,
contra tal pássara?              queria voar mas livre
- Ter uns hectares de terra,     essa ave-bala.
                                         ave-
irmão das almas,                 - E agora o que passará,
de pedra e areia lavada          irmãos das almas,
que cultivava.                   o que é que acontecerá
- Mas que roças que ele tinha,   contra a espingarda?
irmãos das almas,                - Mais campo tem para soltar,
que podia ele plantar            irmão das almas,
na pedra avara?                  tem mais onde fazer voar
- Nos magros lábios de areia,    as filhas-balas.
                                     filhas-
irmão das almas,                 - E onde o levais a enterrar,
dos intervalos das pedras        irmãos das almas,
plantava palha.                  com a semente do chumbo
- E era grande sua lavoura,      que tem guardada?
irmãos das almas,                - Ao cemitério de Torres,
lavoura de muitas covas,         irmão das almas,
tão cobiçada?                    que hoje se diz Toritama,
- Tinha somente dez quadras,     de madrugada.
irmãos das almas,                - E poderei ajudar,
todas nos ombros da serra,       irmãos das almas?
nenhuma várzea.                  Vou passar por Toritama,
- Mas então porque o mataram,    é minha estrada.
irmãos das almas,                - Bem que poderá ajudar,
mas então porque o mataram       irmão das almas,
com espingarda?                  é irmão das almas quem houve
- Queria mais espalhar-se,
               espalhar-         nossa chamada.
- E um de nós pode voltar,                               Sei que há muitas vilas grandes,
irmão das almas,                                         cidades que elas são ditas;
pode voltar daqui mesmo                                  sei que há simples arruados,
para sua casa.                                           sei que há vilas pequeninas
- Vou eu, que a viagem é longa,                          todas formando um rosário
irmãos das almas,                                        cujas contas fossem vilas,
é muito longa a viagem                                   todas formando um rosário
e a serra é alta.                                        de que a estrada fosse a linha.
- Mais sorte tem o defunto,                              Devo rezar tal rosário
irmãos das almas,                                        até o mar onde termina,
pois já não fará na volta                                saltando de conta em conta,
a caminhada.                                             passando de vila em vila.
- Toritama não cai longe,                                Vejo agora: não é fácil
irmão das almas,                                         seguir essa ladainha;
seremos no campo santo                                   entre uma conta e outra conta,
de madrugada.                                            entre uma e outra ave-maria,
                                                                            ave-
- Partamos enquanto é noite,                             há certas paragens brancas,
irmão das almas,                                         de planta e bicho vazias,
que é o melhor lençol dos mortos                         vazias até de donos,
noite fechada.                                           e onde o pé se descaminha.
                                                         Não desejo emaranhar
 O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR PORQUE SEU GUIA,   o fio de minha linha
         O RIO CAPIBARIBE,CORTOU COM O VERÃO
                                                         nem que se enrede no pelo
- Antes de sair de casa                                  hirsuto desta caatinga.
aprendi a ladainha                                       Pensei que seguindo o rio
das vilas que vou passar                                 eu amais me perderia:
na minha longe descida.                                  ele é o caminho mais certo,
de todos o melhor guia.                               - Finado Severino,
Mas como segui-lo agora
           segui-                                     quando passares em Jordão
que interrompeu a descida?                            e os demônios te atalharem
Vejo que o Capibaribe,
                                                      perguntando o que é que levas...
como os rios lá de cima,
                                                      -Dize que levas cera,
é tão pobre que nem sempre
pode cumprir sua sina                                 capuz e cordão
e no verão também corta,                              mais a Virgem da Conceição.
com pernas que não caminham.                          -Finado Severino
Tenho de saber agora                                  etc...
qual a verdadeira via                                 - Dizes que levas somente
entre essas que escancaradas                          coisas de não:
frente a mim se multiplicam.                          fome, sede, privação.
Mas não vejo almas aqui,                              - Finado Severino
nem almas mortas nem vivas;                           etc...
ouço somente à distância                              - Dizes que coisas de não,
o que parece cantoria.                                ocas , leves:
Será novena de santo,                                 como o caixão, que ainda deves.
será algum mês de Maria;                              -Uma excelência
quem sabe até se uma festa                            dizendo que a hora é hora.
ou uma dança não seria?
                                                      -Ajunta os carregadores,
                                                      que o corpo quer ir embora.
   NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO
 EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO   - Duas excelências...
       LADO DE FORA, VAI PARODIANDO AS PALAVRAS DOS
                        CANTADORES                    -...dizendo é a hora da plantação.
                                                      -Ajunta os carregadores...
                                                      - ... que a terra vai colher a mão.
CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA INTERROMPÊ-LA POR
                                    INTERROMPÊ-         Ou será que aqui cortando
      UNS INSTANTES E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE
                        ENCONTRA                        agora minha descida
- Desde que estou retirando                             já não poderei seguir
só a morte vejo ativa,                                  nunca mais em minha vida?
só a morte deparei                                      (será que a água destes poços
e às vezes até festiva;                                 é toda aqui consumida
só a morte tem encontrado                               pelas roças, pelos bichos,
quem pensava encontrar vida,                            pelo sol com suas línguas?
e pouco que não foi morte                               será que quando chegar
foi de vida severina                                    o rio da nova invernia
(aquela vida que é menos                                um resto de água no antigo
vivida que defendida,                                   sobrará nos poços ainda?)
e é ainda mais severina                                 Mas isso depois verei:
para o homem que retira).                               tempo há para que decida;
Penso agora: mas por que                                primeiro é preciso achar
parar aqui e não podia                                  um trabalho de que viva.
e como Capibaribe                                       Vejo uma mulher na janela,
interromper minha linha?                                ali, que se não é rica,
Ao menos até que as águas                               parece remediada
de uma próxima invernia                                 ou dona de sua vida:
me levem direto ao mar                                  vou saber se de trabalho
ao refazer sua rotina?                                  poderá me dar notícia.
                                                        DIRIGE-
                                                        DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS DESCOBRE
Na verdade,por uns tempos,                                   TRATAR-
                                                             TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ
para aqui eu bem podia
e retomar a viagem                                        Muito bom dia, senhora,
quando vencesse a fadiga.                               que nessa janela está;
                                                        sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?        mas diga-me, retirante,
                                      diga-
   Trabalho aqui nunca falta     o que mais fazia lá?
a quem sabe trabalhar;              Melhor do que eu ninguém
o que fazia o compadre           sei combater, quiçá,
na sua terra de lá?              tanta planta de rapina
   Pois fui sempre lavrador,     que tenho visto por cá.
lavrador de terra má;               Essas plantas de rapina
não há espécie de terra          são tudo o que a terra dá;
que eu não possa cultivar.       diga-
                                 diga-me ainda, compadre;
   Isso aqui de nada adianta,    que mais fazia por lá?
pouco existe o que lavrar;          Tirei mandioca de chãs
mas diga-me, retirante,
      diga-                      que o vento vive a esfolar
que mais fazia por lá?           e de outras escalavradas
   Também lá na minha terra      pela seca faca solar.
de terra mesmo pouco há;            Isto aqui não é Vitória
mas até a calva da pedra         nem é Glória do Goitá;
sinto-
sinto-me capaz de arar.          e além da terra, me diga,
   Também de pouco adianta,      que mais sabe trabalhar?
nem pedra há aqui que amassar;      Sei também tratar de gado,
diga-
diga-me ainda, compadre,         entre urtigas pastorear:
que mais fazia por lá?           gado de comer do chão
   Conheço todas as roças        ou de comer ramas no ar.
que nesta chã podem dar:            Aqui não é Surubimnem
o algodão, a mamona,             Limoeiro, oxalá!
a pita, o milho, o caroá.        mas diga-me, retirante,
                                      diga-
   Esses roçados o banco         que mais fazia por lá?
já não quer financiar;
Sabe tirar ladainhas,
   Em qualquer das cinco tachas   sabe mortos enterrar?
de um banguê sei cozinhar;           Já velei muitos defuntos,
sei cuidar de uma moenda,         na serra é coisa vulgar;
de uma casa de purgar.            mas nunca aprendi as rezas
   Com a vinda das usinas         sei somente acompanhar.
há poucos engenhos já;               Pois se o compadre soubesse
nada mais o retirante             rezar ou mesmo cantar,
aprendeu a fazer lá?              trabalhávamos a meias,
   Ali ninguém aprendeu            que a freguesia bem dá.
outro ofício, ou aprenderá:          Agora se me permite
mas o sol, de sol a sol,          minha vez de perguntar:
bem se aprende a suportar.        como senhora, comadre,
   Mas isso então será tudo       pode manter o seu lar?
em que sabe trabalhar?               Vou explicar rapidamente,
vamos, diga, retirante,           logo compreenderá:
outras coisas saberá.             como aqui a morte é tanta,
   Deseja mesmo saber             vivo de a morte ajudar.
o que eu fazia por lá?                E ainda se me permite
comer quando havia o quê          que volte a perguntar:
e, havendo ou não, trabalhar.     é aqui uma profissão
   Essa vida por aqui             trabalho tão singular?
é coisa familiar;                    É, sim, uma profissão,
mas diga-me retirante,
     diga-                        e a melhor de quantas há:
sabe benditos rezar?              sou de toda a região
Sabe cantar excelências,          rezadora titular.
defuntos encomendar?                 E ainda se me permite
mais outra vez indagar:          não se precisa de limpa,
é boa essa profissão             de adubar nem de regar;
em que a comadre ora está?       as estiagens e as pragas
   De um raio de muitas léguas   fazem-
                                 fazem-nos mais prosperar;
vem gente aqui me chamar;        e dão lucro imediato;
a verdade é que não pude         nem é preciso esperar
queixar-
queixar-me ainda de azar.        pela colheita: recebe-se
                                                recebe-
   E se pela última vez                     na hora mesma de semear.
                                         O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA, QUE O FAZ
me permite perguntar:                    PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM
não existe outro trabalho
para mim nesse lugar?               Bem me diziam que a terra
   Como aqui a morte é tanta,    se faz mais branda e macia
só é possível trabalhar          quando mais do litoral
nessas profissões que fazem      a viagem se aproxima.
da morte ofício ou bazar.        Agora afinal cheguei
Imagine que outra gente          nesta terra que diziam.
de profissão similar,            Como ela é uma terra doce
farmacêuticos, coveiros,         para os pés e para a vista.
doutor de anel no anular,        Os rios que correm aqui
remando contra a corrente        têm a água vitalícia.
da gente que baixa ao mar,       Cacimbas por todo lado;
retirantes às avessas,           cavando o chão, água mina.
sobem do mar para cá.            Vejo agora que é verdade
Só os roçados da morte           o que pensei ser mentira.
compensam aqui cultivar,         Quem sabe se nesta terra
e cultivá-los é fácil:
  cultivá-                       não plantarei minha sina?
simples questão de plantar;      Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),     ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O
                                     QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO
e para quem lutou a braço                              CEMITÉRIO
contra a piçarra da Caatinga       Essa cova em que estás,
será fácil amansar             com palmos medida,
esta aqui, tão feminina.       é a cota menor
Mas não avisto ninguém,        que tiraste em vida.
só folhas de cana fina;           É de bom tamanho,
somente ali à distância        nem largo nem fundo,
aquele bueiro de usina;        é a parte que te cabe
somente naquela várzea         deste latifúndio.
um banguê velho em ruína.         Não é cova grande,
Por onde andará a gente        é cova medida,
que tantas canas cultiva?      é a terra que querias
Feriando: que nesta terra      ver dividida.
tão fácil, tão doce e rica,       É uma cova grande
não é preciso trabalhar        para teu pouco defunto,
todas as horas do dia,         mas estarás mais ancho
os dias todos do mês,          que estavas no mundo.
os meses todos da vida.           É uma cova grande
Decerto a gente daqui          para teu defunto parco,
jamais envelhece aos trinta    porém mais que no mundo
nem sabe da morte em vida,     te sentirás largo.
vida em morte, severina;          É uma cova grande
e aquele cemitério ali,        para tua carne pouca,
branco na verde colina,        mas a terra dada
decerto pouco funciona         não se abre a boca.
e poucas covas aninha.             Viverás, e para sempre,
na terra que aqui aforas:                     Tua roupa melhor
e terás enfim tua roça.                    será de terra e não de fazenda:
    Aí ficarás para sempre,                não se rasga nem se remenda.
livre do sol e da chuva,                      Tua roupa melhor
criando tuas saúvas.                       e te ficará bem cingida:
    Agora trabalharás                      como roupa feita à medida.
só para ti, não a meias,                      Esse chão te é bem conhecido
como antes em terra alheia.                (bebeu teu suor vendido).
    Trabalharás uma terra                     Esse chão te é bem conhecido
da qual, além de senhor,                   (bebeu o moço antigo).
serás homem de eito e trator.                 Esse chão te é bem conhecido
    Trabalhando nessa terra,               (bebeu tua força de marido).
tu sozinho tudo empreitas:                    Desse chão és bem conhecido
serás semente, adubo, colheita.            (através de parentes e amigos).
    Trabalharás numa terra                    Desse chão és bem conhecido
que também te abriga e te veste:           (vive com tua mulher, teus filhos).
embora com o brim do Nordeste.                Desse chão és bem conhecido
    Será de terra tua derradeira camisa:   (te espera de recém-nascido).
                                                         recém-
te veste, como nunca em vida.                 Não tens mais força contigo:
    Será de terra e tua melhor camisa:     deixa-
                                           deixa-te semear ao comprido.
te veste e ninguém cobiça.                    Já não levas semente viva:
    Terás de terra                         teu corpo é a própria maniva.
completo agora o teu fato:                    Não levas rebolo de cana:
e pela primeira vez, sapato.               és o rebolo, e não de caiana.
    Como és homem,                            Não levas semente na mão:
a terra te dará chapéu:                    és agora o próprio grão.
fosses mulher, xale ou véu.                   Já não tens força na perna:
deixa-
deixa-te semear na coveta.                  Se abre o chão e te fecha,
   Já não tens força na mão:              dando-
                                          dando-te agora cama e coberta.
deixa-
deixa-te semear no leirão.                  Se abre o chão e te envolve,
   Dentro da rede não vinha nada,                como mulher com quem se dorme.
                                                 O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA
só tua espiga debulhada.                                   CHEGAR LOGO AO RECIFE
   Dentro da rede vinha tudo,                 Nunca esperei muita coisa,
só tua espiga no sabugo.                  digo a Vossas Senhorias.
   Dentro da rede coisa vasqueira,        O que me fez retirar
só a maçaroca banguela.                   não foi a grande cobiça;
   Dentro da rede coisa pouca,            o que apenas busquei
tua vida que deu sem soca.                foi defender minha vida
   Na mão direita um rosário,             de tal velhice que chega
milho negro e ressecado.                  antes de se inteirar trinta;
   Na mão direita somente                 se na serra vivi vinte,
o rosário, seca semente.                  se alcancei lá tal medida,
   Na mão direita, de cinza,              o que pensei, retirando,
o rosário, semente maninha                foi estendê-la um pouco ainda
                                              estendê-
   Na mão direita o rosário,              Mas não senti diferença
semente inerte e sem salto.               entre o Agreste e a Caatinga,
   Despido vieste no caixão,              e entre a Caatinga e aqui a Mata
despido também se enterra o grão.         a diferença é a mais mínima.
   De tanto te despiu a privação          Está apenas em que a terra
que escapou de teu peito a viração.       é por aqui mais macia;
   Tanta coisa despiste em vida           está apenas no pavio,
que fugiu de teu peito a brisa.           ou melhor, na lamparina:
   E agora, se abre o chão e te abriga,   pois é igual o querosene
lençol que não tiveste em vida.
que em toda parte ilumina,                                 O dia de hoje está difícil;
e quer nesta terra gorda                                não sei onde vamos parar.
quer na serra, de caliça,                               Deviam dar um aumento,
a vida arde sempre, com                                 ao menos aos deste setor de cá.
a mesma chama mortiça.                                  As avenidas do centro são melhores,
Agora é que compreendo                                  mas são para os protegidos:
porque em paragens tão ricas                            há sempre menos trabalho
o rio não corta em poços                                e gorjetas pelo serviço;
como ele faz na Caatinga:                               e é mais numeroso o pessoal
vivi a fugir dos remansos                               (toma mais tempo enterrar os ricos).
a que a paisagem o convida,                                Pois eu me daria por contente
com medo de se deter                                    se me mandassem para cá.
grande que seja a fadiga.                               Se trabalhasses no de Casa Amarela
Sim, o melhor é apressar                                não estarias a reclamar.
o fim desta ladainha,                                   De trabalhar no de Santo Amaro
o fim do rosário de nomes                               deve alegrar-se o colega
                                                              alegrar-
que a linha do rio enfia;                               porque parece que a gente
é chegar logo ao Recife,                                que se enterra no de Casa Amarela
derradeira ave-maria
             ave-                                       está decidida a mudar-se
                                                                        mudar-
do rosário, derradeira                                  toda para debaixo da terra.
invocação da ladainha,                                     É que o colega ainda não viu
Recife, onde o rio some                                 o movimento: não é o que se vê.
            e esta minha viagem se fina.                Fique-
                                                        Fique-se por aí um momento
                                                        e não tardarão a aparecer
    CHEGANDO AO RECIFE, O RETIRANTE SENTA-SE PARA
                                    SENTA-
     DESCANSAR AO PÉ DE UM MURO ALTO E CAIADO E OUVE,   os defuntos que ainda hoje
       SEM SER NOTADO, A CONVERSA DE DOIS COVEIROS      vão chegar (ou partir, não sei).
                                                        As avenidas do centro,
onde se enterram os ricos,         isto é, para o bairro dos usineiros,
são como o porto do mar:           dos políticos, dos banqueiros,
não é muito ali o serviço:         e no tempo antigo, dos banguezeiros
no máximo um transatlântico        (hoje estes se enterram em carneiros);
chega ali cada dia,                bairro também dos industriais,
com muita pompa, protocolo,        dos membros das associações patronais
e ainda mais cenografia.           e dos que foram mais horizontais
Mas este setor de cá               nas profissões liberais.
é como a estação dos trens:        Difícil é que consigas
diversas vezes por dia             aquele bairro, logo de saída.
chega o comboio de alguém.             Só pedi que me mandassem
   Mas se teu setor é comparado    para as urbanizações discretas,
à estação central dos trens,       com seus quarteirões apertados,
o que dizer de Casa Amarela        com suas cômodas de pedra.
onde não pára o vaivém?                Esse é o bairro dos funcionários,
Pode ser uma estação               inclusive extranumerários,
mas não estação de trem:           contratados e mensalistas
será parada de ônibus,             (menos os tarefeiros e diaristas).
com filas de mais de cem.          Para lá vão os jornalistas,
   Então por que não pedes,        os escritores, os artistas;
já que és de carreira, e antigo,   ali vão também os bancários,
que te mandem para Santo Amaro     as altas patentes dos comerciários,
se achas mais leve o serviço?      os lojistas, os boticários,
Não creio que te mandassem         os localizados aeroviários
para as belas avenidas             e os de profissões liberais
onde estão os endereços            que não se liberaram jamais.
e o bairro da gente fina:              Também um bairro dessa gente
temos no de Casa Amarela:            No de Casa Amarela me deixou
cada um em seu escaninho,         mas me mudou de arrabalde.
cada um em sua gaveta,               E onde vais trabalhar agora,
com o nome aberto na lousa        qual o subúrbio que te cabe?
quase sempre em letras pretas.       Passo para o dos industriários,
Raras as letras douradas,         que é também o dos ferroviários,
raras também as gorjetas.         de todos os rodoviários
   Gorjetas aqui, também,         e praças-de-pré dos comerciários.
                                    praças-de-
só dá mesmo a gente rica,            Passas para o dos operários,
em cujo bairro não se pode        deixas o dos pobres vários;
trabalhar em mangas de camisa;    melhor: não são tão contagiosos
onde se exige quépi               e são muito menos numerosos.
e farda engomada e limpa.            É, deixo o subúrbio dos indigentes
   Mas não foi pelas gorjetas,    onde se enterra toda essa gente
não, que vim pedir remoção:       que o rio afoga na preamar
é porque tem menos trabalho       e sufoca na baixa-mar.
                                               baixa-
que quero vir para Santo Amaro;      É a gente sem instituto,
aqui ao menos há mais gente       gente de braços devolutos;
para atender a freguesia,         são os que jamais usam luto
para botar a caixa cheia          e se enterram sem salvo-conduto.
                                                      salvo-
dentro da caixa vazia.               É a gente dos enterros gratuitos
   E que disse o Administrador,   e dos defuntos ininterruptos.
se é que te deu ouvido?              É a gente retirante
   Que quando apareça a ocasião   que vem do Sertão de longe.
atenderá meu pedido.                 Desenrolam todo o barbante
   E do senhor Administrador      e chegam aqui na jante.
isso foi tudo que arrancaste?
E que então, ao chegar,            a ser feito no mar de sal.
não têm mais o que esperar.               E não precisava dinheiro,
    Não podem continuar                e não precisava coveiro,
pois têm pela frente o mar.            e não precisava oração
    Não têm onde trabalhar             e não precisava inscrição.
e muito menos onde morar.                 Mas o que se vê não é isso:
    E da maneira em que está           é sempre nosso serviço
não vão ter onde se enterrar.          crescendo mais cada dia;
    Eu também, antigamente,            morre gente que nem vivia.
fui do subúrbio dos indigentes,           E esse povo lá de riba
e uma coisa notei                       de Pernambuco, da Paraíba,
que jamais entenderei:                  que vem buscar no Recife
essa gente do Sertão                   poder morrer de velhice,
que desce para o litoral, sem razão,   encontra só, aqui chegando
fica vivendo no meio da lama,          cemitérios esperando.
comendo os siris que apanha;              Não é viagem o que fazem,
pois bem: quando sua morte chega,      vindo por essas caatingas, vargens;
temos que enterrá-los em terra seca.
            enterrá-                   aí está o seu erro:
    Na verdade, seria mais rápido      vêm é seguindo seu próprio enterro.
e também muito mais barato
                                        O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE
                                                    APROXIMA-
que os sacudissem de qualquer ponte
                                          Nunca esperei muita coisa,
dentro do rio e da morte.
                                       é preciso que eu repita.
    O rio daria a mortalha
                                       Sabia que no rosário
e até um macio caixão de água;
                                       de cidade e de vilas,
e também o acompanhamento
                                       e mesmo aqui no Recife
que levaria com passo lento
                                       ao acabar minha descida,
 defunto ao enterro final
não seria diferente              que me faça aquele enterro
a vida de cada dia:              que o coveiro descrevia:
que sempre pás e enxadas         caixão macio de lama,
foices de corte e capina,        mortalha macia e líquida,
ferros de cova, estrovengas      coroas de baronesa
o meu braço esperariam.          junto com flores de aninga,
Mas que se este não mudasse      e aquele acompanhamento
seu uso de toda vida,            de água que sempre desfila
esperei, devo dizer,             (que o rio, aqui no Recife,
que ao menos aumentaria          não seca, vai toda a vida).
                                     APROXIMA-
                                     APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS
na quartinha, a água pouca,          MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,           Seu José, mestre carpina,
ao meu aluguel com a vida.       que habita este lamaçal,
E chegando, aprendo que,         sabes me dizer se o rio
nessa viagem que eu fazia,       a esta altura dá vau?
sem saber desde o Sertão,        sabe me dizer se é funda
meu próprio enterro eu seguia.   esta água grossa e carnal?
Só que devo ter chegado             Severino, retirante,
adiantado de uns dias;           jamais o cruzei a nado;
o enterro espera na porta:       quando a maré está cheia
o morto ainda está com vida.     vejo passar muitos barcos,
A solução é apressar             barcaças, alvarengas,
a morte a que se decida          muitas de grande calado.
e pedir a este rio,                 Seu José, mestre carpina,
que vem também lá de cima,       para cobrir corpo de homem
                                 não é preciso muito água:
basta que chega ao abdome,          Severino, retirante,
basta que tenha fundura          o mar de nossa conversa
igual à de sua fome.             precisa ser combatido,
   Severino, retirante,          sempre, de qualquer maneira,
pois não sei o que lhe conte;    porque senão ele alaga
sempre que cruzo este rio        e devasta a terra inteira.
costumo tomar a ponte;              Seu José, mestre carpina,
quanto ao vazio do estômago,     e em que nos faz diferença
se cruza quando se come.         que como frieira se alastre,
   Seu José, mestre carpina,     ou como rio na cheia,
e quando ponte não há?           se acabamos naufragados
quando os vazios da fome         num braço do mar miséria?
não se tem com que cruzar?          Severino, retirante,
quando esses rios sem água       muita diferença faz
são grandes braços de mar?       entre lutar com as mãos
   Severino, retirante,          e abandoná-las para trás,
                                   abandoná-
o meu amigo é bem moço;          porque ao menos esse mar
sei que a miséria é mar largo,   não pode adiantar-se mais.
                                            adiantar-
não é como qualquer poço:           Seu José, mestre carpina,
mas sei que para cruzá-la
                   cruzá-        e que diferença faz
vale bem qualquer esforço.       que esse oceano vazio
   Seu José, mestre carpina,     cresça ou não seus cabedais,
e quando é fundo o perau?        se nenhuma ponte mesmo
quando a força que morreu        é de vencê-lo capaz?
                                      vencê-
nem tem onde se enterrar,           Seu José, mestre carpina,
por que ao puxão das águas       que lhe pergunte permita:
não é melhor se entregar?
há muito no lamaçal              fora da ponte e da vida?
apodrece a sua vida?
                                 UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE
                                                                            ANUNCIA-
e a vida que tem vivido                                 O QUE SE VERÁ
foi sempre comprada à vista?
                                 - Compadre José, compadre,
    Severino, retirante,
                                 que na relva estais deitado:
sou de Nazaré da Mata,
                                 conversais e não sabeis
mas tanto lá como aqui
                                 que vosso filho é chegado?
jamais me fiaram nada:
                                 Estais aí conversando
a vida de cada dia
                                 em vossa prosa entretida:
cada dia hei de comprá-la.
                  comprá-
                                 não sabeis que vosso filho
    Seu José, mestre carpina,
                                 saltou para dentro da vida?
e que interesse, me diga,
                                 Saltou para dento da vida
há nessa vida a retalho
                                 ao dar o primeiro grito;
que é cada dia adquirida?
                                 e estais aí conversando;
espera poder um dia
                                 pois sabei que ele é nascido.
comprá-
comprá-la em grandes partidas?
                                  APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS,
    Severino, retirante,                          AMIGOS, DUAS CIGANAS ETC.

não sei bem o que lhe diga:
                                 - Todo o céu e a terra
não é que espere comprar
                                 lhe cantam louvor.
em grosso tais partidas,
                                 Foi por ele que a maré
mas o que compro a retalho
                                 esta noite não baixou.
é, de qualquer forma, vida.
                                    Foi por ele que a maré
    Seu José, mestre carpina,
                                 fez parar o seu motor:
que diferença faria
                                 a lama ficou coberta
se em vez de continuar
                                 e o mau-cheiro não voou.
                                     mau-
tomasse a melhor saída:
                                    E a alfazema do sargaço,
a de saltar, numa noite,
ácida, desinfetante,                                  trago para a mãe caranguejos
veio varrer nossas ruas                               pescados por esses mangues;
enviada do mar distante.                              mamando leite de lama
   E a língua seca de esponja                         conservará nosso sangue.
que tem o vento terral                                    Minha pobreza tal é
veio enxugar a umidade                                que coisa não posso ofertar:
do encharcado lamaçal.                                somente o leite que tenho
   Todo o céu e a terra                               para meu filho amamentar;
lhe cantam louvor                                     aqui são todos irmãos,
e cada casa se torna                                  de leite, de lama, de ar.
num mocambo sedutor.                                     Minha pobreza tal é
   Cada casebre se torna                              que não tenho presente melhor:
no mocambo modelar                                    trago papel de jornal
que tanto celebram os                                 para lhe servir de cobertor;
sociólogos do lugar.                                  cobrindo-
                                                      cobrindo-se assim de letras
   E a banda de maruins                               vai um dia ser doutor.
que toda noite se ouvia                                  Minha pobreza tal é
por causa dele, esta noite,                           que não tenho presente caro:
creio que não irradia.                                como não posso trazer
   E este rio de água cega,                           um olho d'água de Lagoa do Carro,
ou baça, de comer terra,                              trago aqui água de Olinda,
que jamais espelha o céu,                             água da bica do Rosário.
hoje enfeitou-se de estrelas.
     enfeitou-                                            Minha pobreza tal é
 COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O   que grande coisa não trago:
                     RECÉM-
                     RECÉM-NASCIDO
                                                      trago este canário da terra
  Minha pobreza tal é                                 que canta corrido e de estalo.
que não trago presente grande:
Minha pobreza tal é                   da Avenida Sul e da Avenida Norte.
que minha oferta não é rica:               FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS
                                                                  VIZINHOS
trago daquela bolacha d'água
que só em Paudalho se fabrica.              Atenção peço, senhores,
   Minha pobreza tal é                   para esta breve leitura:
que melhor presente não tem:             somos ciganas do Egito,
dou este boneco de barro                 lemos a sorte futura.
de Severino de Tracunhaém.               Vou dizer todas as coisas
   Minha pobreza tal é                   que desde já posso ver
que pouco tenho o que dar:               na vida desse menino
dou da pitu que o pintor Monteiro        acabado de nascer:
fabricava em Gravatá.                    aprenderá a engatinhar
   Trago abacaxi de Goiana               por aí, com aratus,
e de todo o Estado rolete de cana.       aprenderá a caminhar
   Eis ostras chegadas agora,            na lama, como goiamuns,
apanhadas no cais da Aurora.             e a correr o ensinarão
   Eis tamarindos da Jaqueira            o anfíbios caranguejos,
e jaca da Tamarineira.                   pelo que será anfíbio
   Mangabas do Cajueiro                  como a gente daqui mesmo.
e cajus da Mangabeira.                   Cedo aprenderá a caçar:
   Peixe pescado no Passarinho,          primeiro, com as galinhas,
carne de boi dos Peixinhos.              que é catando pelo chão
   Siris apanhados no lamaçal            tudo o que cheira a comida;
que há no avesso da rua Imperial.        depois, aprenderá com
   Mangas compradas nos quintais ricos   outras espécies de bichos:
do Espinheiro e dos Aflitos.             com os porcos nos monturos,
   Goiamuns dados pela gente pobre       com os cachorros no lixo.
Vejo-
Vejo-o, uns anos mais tarde,       se está negro não é lama,
na ilha do Maruim,                 é graxa de sua máquina,
vestido negro de lama,             coisa mais limpa que a lama
voltar de pescar siris;            do pescador de maré
e vejo-o, ainda maior,
  vejo-                            que vemos aqui, vestido
pelo imenso lamarão                de lama da cara ao pé.
fazendo dos dedos iscas            E mais: para que não pensem
para pescar camarão.               que em sua vida tudo é triste,
   Atenção peço, senhores,         vejo coisa que o trabalho
também para minha leitura:         talvez até lhe conquiste:
também venho dos Egitos,           que é mudar-se destes mangues
                                          mudar-
vou completar a figura.            daqui do Capibaribe
Outras coisas que estou vendo      para um mocambo melhor
é necessário que eu diga:          nos mangues do Beberibe.
não ficará a pescar                  FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM
                                                         PRESENTES ETC.
de jereré toda a vida.
Minha amiga se esqueceu
de dizer todas as linhas;             De sua formosura
não pensem que a vida dele         já venho dizer:
há de ser sempre daninha.          é um menino magro,
Enxergo daqui a planura            de muito peso não é,
que é a vida do homem de ofício,   mas tem o peso de homem,
bem mais sadia que os mangues,     de obra de ventre de mulher.
tenha embora precipícios.             De sua formosura
Não o vejo dentro dos mangues,     deixai-
                                   deixai-me que diga:
vejo-
vejo-o dentro de uma fábrica:      é uma criança pálida,
é uma criança franzina,            De sua formosura
mas tem a marca de homem,       deixai-
                                deixai-me que diga:
marca de humana oficina.        é tão belo como um sim
   Sua formosura                numa sala negativa.
deixai-
deixai-me que cante:               É tão belo como a soca
é um menino guenzo              que o canavial multiplica.
como todos os desses mangues,      Belo porque é uma porta
mas a máquina de homem          abrindo-
                                abrindo-se em mais saídas.
já bate nele, incessante.          Belo como a última onda
   Sua formosura                que o fim do mar sempre adia.
eis aqui descrita:                 É tão belo como as ondas
é uma criança pequena,          em sua adição infinita.
enclenque e setemesinha,           Belo porque tem do novo
mas as mãos que criam coisas    a surpresa e a alegria.
nas suas já se adivinha.           Belo como a coisa nova
   De sua formosura             na prateleira até então vazia.
deixai-
deixai-me que diga:                Como qualquer coisa nova
é belo como o coqueiro          inaugurando o seu dia.
que vence a areia marinha.         Ou como o caderno novo
   De sua formosura             quando a gente o principia.
deixai-
deixai-me que diga:                E belo porque com o novo
belo como o avelós              todo o velho contagia.
contra o Agreste de cinza.         Belo porque corrompe
   De sua formosura             com sangue novo a anemia.
deixai-
deixai-me que diga:                Infecciona a miséria
belo como a palmatória          com vida nova e sadia.
na caatinga sem saliva.            Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.                                   em nova vida explodida;
 O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM   mesmo quando é assim pequena
                    TOMAR PARTE EM NADA
                                                          a explosão, como a ocorrida;
   Severino retirante,                                    mesmo quando é uma explosão
deixe agora que lhe diga:                                 como a de há pouco, franzina;
eu não sei bem a resposta                                 mesmo quando é a explosão
da pergunta que fazia,                                    de uma vida severina.
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-
vê-la brotar como há pouco
Análise:
  Morte e Vida Severina, o texto mais popular de João Cabral de Melo Neto, é um auto de natal do
              folclore pernambucano e, também, da tradição ibérica. Foi escrito entre 1954-55.
                                                                                        1954-
       O auto de natal Morte e Vida Severina possui estrutura dramática: é uma peça de teatro.
        O retirante vem do sertão para o litoral, seguindo a trilha do rio Capibaribe. Quando atinge o
      Recife, depois de encontrar muitas mortes pelo caminho, desengana-se com o sonho da cidade
                                                                  desengana-
                                              grande e do mar.
      Resolve então "saltar fora da ponte e da vida", atirando-se no Capibaribe. Enquanto se prepara
                                                       atirando-
     para morrer e conversa com seu José, uma mulher anuncia que o filho deste "saltou para dentro
                                              da vida" (nasceu).
      Severino assiste ao auto de natal (encenação comemorativa do nascimento). Seu José, mestre
              carpina, tenta demover Severino da resolução de "saltar fora da ponte e da vida".
            Enfim, o Auto, Morte e Vida Severina é um claro exemplo de como João Cabral
articulou o estético e o cultural numa perspectiva estruturalista que, embora escrito na década de 50,
     se permite a leituras e abordagens que se valem, também, de conceitos e categorias recentes de
                                              análises literárias
Tecendo o Amanhã
1

 Um galo sozinho não tece uma manhã:
  ele precisará sempre de outros galos.
  De um que apanhe esse grito que ele
    e o lance a outro; de um outro galo
  que apanhe o grito de um galo antes
   e o lance a outro; e de outros galos
 que com muitos outros galos se cruzem
   os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
   se vá tecendo, entre todos os galos.

                       2

  E se encorpando em tela, entre todos,
 se erguendo tenda, onde entrem todos,
  se entretendendo para todos, no toldo
 (a manhã) que plana livre de armação.
 A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
  que, tecido, se eleva por si: luz balão.
Análise:
O poema apresenta uma construção em metro irregular, os versos não seguem um padrão referente
       ao número de sílabas poéticas, apesar da divisão em estrofes caracterizar o tratamento das
     divisões comuns em forma fixa. O poeta utiliza desde a situação das silabas tônicas e pausas,
           sem buscar a regularidade padrão na realização dos poemas em forma fixa, realiza
   reiteradamente das homofonias (mesmo som) para através da coincidência sonora e proximidade
   dos radicais, buscando um padrão sonoro coincidente e harmônico. Este tratamento estabeleceu
   uma relação original com os elementos de versificação e acrescentou valores importantes a obra
        deste poeta. Nestas oposições um único canto não será capaz de trazer a luz e anular a
      escuridão, torna-se necessário que o galo convoque todos os galos e que eles possam desta
                 torna-
     forma invocar a manhã, que pela alocação do artigo definido transforma-se em amanhã, numa
                                                                  transforma-
                                        clara projeção de futuro.
O Relógio
1.   Ao redor da vida do homem      2. O que eles cantam, se pássaros,
     há certas caixas de vidro,        é diferente de todos:
     dentro das quais, como em         cantam numa linha baixa,
     jaula,                            com voz de pássaro rouco;
     se ouve palpitar um bicho.
                                        desconhecem as variantes
     Se são jaulas não é certo;         e o estilo numeroso
     mais perto estão das gaiolas       dos pássaros que sabemos,
     ao menos, pelo tamanho             estejam presos ou soltos;
     e quadradiço de forma.
                                        têm sempre o mesmo compasso
     Uma vezes, tais gaiolas            horizontal e monótono,
     vão penduradas nos muros;          e nunca, em nenhum momento,
     outras vezes, mais privadas,       variam de repertório:
     vão num bolso, num dos
     pulsos.                            dir-se-
                                        dir-se-ia que não importa
                                        a nenhum ser escutado.
     Mas onde esteja: a gaiola          Assim, que não são artistas
     será de pássaro ou pássara:        nem artesãos, mas operários
     é alada a palpitação,
     a saltação que ela guarda;         para quem tudo o que cantam
                                        é simplesmente trabalho,
     e de pássaro cantor,               trabalho rotina, em série,
     não pássaro de plumagem:           impessoal, não assinado,
     pois delas se emite um canto
     de uma tal continuidade            de operário que executa
                                        seu martelo regular
     que continua cantando              proibido (ou sem querer)
     se deixa de ouvi-lo a gente:
                  ouvi-                 do mínimo variar.
     como a gente às vezes canta
     para sentir-se existente.
          sentir-
3. A mão daquele martelo             4.   Quando por algum motivo
   nunca muda de compasso.                a roda de água se rompe,
   Mas tão igual sem fadiga,              outra máquina se escuta:
   mal deve ser de operário;              agora, de dentro do homem;

   ela é por demais precisa               outra máquina de dentro,
   para não ser mão de máquina,           imediata, a reveza,
   a máquina independente                 soando nas veias, no fundo
   de operação operária.                  de poça no corpo, imersa.

   De máquina, mas movida                 Então se sente que o som
   por uma força qualquer                 da máquina, ora interior,
   que a move passando nela,              nada possui de passivo,
   regular, sem decrescer:                de roda de água: é motor;

   quem sabe se algum monjolo             se descobre nele o afogo
   ou antiga roda de água                 de quem, ao fazer, se esforça,
   que vai rodando, passiva,              e que êle, dentro, afinal,
   graçar a um fluido que a passa;        revela vontade própria,

   que fluido é ninguém vê:               incapaz, agora, dentro,
   da água não mostra os senões:          de ainda disfarçar que nasce
   além de igual, é contínuo,             daquela bomba motor
   sem marés, sem estações.               (coração, noutra linguagem)

   E porque tampouco cabe,                que, sem nenhum coração,
   por isso, pensar que é o vento,        vive a esgotar, gôta a gôta,
   há de ser um outro fluido              o que o homem, de reserva,
   que a move: quem sabe, o tempo.        possa ter na íntima poça.
Análise:
O poema é utilizado para discutir a dinâmica e a divisão do trabalho na Organização
    Clássica do Trabalho . A poesia é uma alternativa sensível, artística e criativa para
  tratar um tema sempre abordado de forma muito técnica. Através de O Relógio , é
   possível proporcionar um conhecimento e uma vivência da organização do trabalho
                          de forma sensível e muito envolvente.
Curiosidades
João Cabral de Melo Neto - Rua da Aurora

                                                                   João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife e
                                                                   faleceu no Rio de Janeiro. Membro da Academia
                                                                   Brasileira de Letras, o poeta recebeu o Prêmio Luiz
                                                                   de Camões, o mais importante concedido a
                                                                   escritores da Língua Portuguesa. A escultura
                                                                   apresenta João Cabral, na rua da Aurora, sentado
                                                                   em um banco de praça em gesto contemplativo.
                                                                   Sobre a perna segura um livro aberto em seu
                                                                   poema que fala do rio Capibaribe: o Cão sem
                                                                   Plumas .




      Estranhamente, João Cabral escreveu um poema sobre a Aspirina, que tomava regularmente,
      chamando-a de "Sol", de "Luz" De fato, desde sua juventude João Cabral tomava de três a
      dez aspirinas por dia. Em entrevista à "TV Cultura", certa vez, ele contava que boa parte da
      inspiração (inspiração sempre cerebral) provinha da aspirina, que a aspirina o salvava da
      nulidade!

      João Cabral de Melo Neto não compareceu a nenhuma reunião da Academia Pernambucana
      de Letras como acadêmico, nem mesmo a sua posse.




Nulidade:Qualidade do que é nulo,falta total de valor, de talento;pessoa sem competência,falta de validade.
Vamos aprender
mais um pouco?
1. (UFV) Leia atentamente o poema abaixo, de   Assinale a alternativa que NÃO traduz uma
João Cabral de Melo Neto:                      leitura possível do poema acima:

A educação pela pedra                          (A) O poeta apreende da pedra a própria
                                               vivência na vida agreste do Sertão: de
Uma educação pela pedra: por lições;           austeridade, resistência silenciosa e sempre
para aprender da pedra, freqüentá-la;          capaz de dar lições de vida e de poesia.
captar sua voz inenfática, impessoal           (B ) Os versos metalingüísticos revelam a
(pela de dicção ela começa as aulas).          própria poética cabralina: concreta,
A lição de moral, sua resistência fria         impessoal, concisa, embora profundamente
ao que flui e a fluir, a ser maleada;          social.
a de poética, sua carnadura concreta;          (C) Ao partir do pressuposto de que a pedra é
a de economia, seu adensar-se compacta:        muda, e, portanto, não ensina nada, o poeta
lições de pedra (de fora para dentro,          suscita uma reflexão sobre a situação
cartilha muda), para quem soletrá-la.          educacional precária no Nordeste.
                                               (D ) O eu lírico também apreende da pedra os
Outra educação pela pedra: no Sertão           próprios versos enxutos, num esforço de
(de dentro para fora, e pré-didática).         dissecação de quaisquer sentimentalismos.
No Sertão a pedra não sabe lecionar,           (E ) No poema, de intensa economia verbal, a
e se lecionasse não ensinaria nada;            pedra faz-se metáfora da paisagem do
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,         Sertão, que entranha a alma , e espelha o
uma pedra de nascença, entranha a alma.        fazer poético do autor pernambucano.

(MELO NETO, João Cabral de. A educação
pela pedra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1996. p. 21.)


                                                                                           1-C
3. (UFV) Leia com atenção as seguintes
       2.(FDV) O poema que dá o título da obra A
       2.(FDV)                                          afirmações a respeito da obra A Educação
           educação pela pedra apresenta tais           pela Pedra, de João Cabral de Melo Neto:
           características, com exceção de:
                                                        I. Neste livro, o engenheiro-poeta extrai dos
                                                                          engenheiro-
           (A) reflexão metalingüística;                motivos nordestinos e espanhóis a matéria
           (B) elaboração formal;                       bruta para a construção dos versos
           (C) lirismo sem sentimentalismo;             pautados pela discursividade lógica da
           (D) individualismo subjetivista;             sintaxe, despoetização e anti-musicalidade
                                                                                  anti-
           (E) construção arquitetônica do verso.       recursos intensamente utilizados na
                                                        literatura contemporânea.

                                                        II. A temática, principalmente centrada em
                                                        motivos nordestinos, é utilizada pelo autor
                                                        como imitação do romance social dos anos
                                                        30; daí a proposta de aprendizagem de uma
                                                        poesia mais engajada e popular, em
                                                        linguagem menos complexa.

                                                        III. No livro, como em grande parte da
                                                        poesia da modernidade, são constantes os
                                                        poemas metalingüísticos, expressivos da
                                                        tentativa do poeta de apreender seu próprio
                                                        processo de construção poética, e extrair
                                                        lições da realidade sua e da própria
                                                        linguagem.

                                                        É CORRETO apenas o que se afirma em:


2- D                                                    (A) I. (B ) I e II. (C) I e III. D ) II. (E ) III.   3- C
Conclusão
João Cabral de Melo Neto alcançou sem dúvida um lugar de destaque na literatura
Brasileira, respectivamente, sendo hoje um dos grandes nomes da poesia Brasileira.
 Mergulhar nas obras de João Cabral é uma tarefa difícil, mas, muito atraente. Difícil
 porque se trata de mergulhar nas palavras de um poeta com o mais alto nível de
rigor, no seu trabalho de linguagem poética, que exige de quem lê os seus poemas,
uma atenção e um cuidado profundo. Atraente porque é um dos maiores poetas da
        língua portuguesa e suas obras merecem sempre uma leitura e releitura
      apaixonadas. João Cabral, naturalmente, conduz a poesia a um limite quase
   inalcançável, nesse trabalho intenso de linguagem temos uma poesia elaborada
       através de um trabalho de profundamente rigoroso, racional e próprio para
    concepção (um modo de ver único), poesia de construção , de um pedreiro e
  engenheiro" se inspirando na aridez geográfica e humana do Sertão, e sempre na
busca da justiça, quer seja social ou humana, quer seja a justiça sintática da palavra.
Afinal, ele soube determinar o fato, de que para fazer a crítica da realidade, é preciso
    ao mesmo tempo, fazer a crítica do material com que se investiga essa mesma
    realidade, ou seja, a palavra, a linguagem. O poeta perante o mundo (ou o seu
 mundo ), perante a palavra, perante o poder da palavra , sempre com um objetivo:
                   FAZER, MOSTRAR SUA ARTE.SUA REALIDADE!
Anexos
Bibliografia
Site Releituras- Resumos biográficos e bibliográficos: http://www.releituras.com/joaocabral_bio.asp
            Releituras-
              Site Best Western Manibu Recife: http://www.hotelmanibu.com.br/infoturisticas_poesia.html
Site Brasil Escola- http://www.brasilescola.com/literatura/joao-cabral-melo-neto-sua-engenhosidade-poetica.htm
            Escola- http://www.brasilescola.com/literatura/joao-cabral-melo-neto-sua-engenhosidade-
                   Site Literatura Online- http://www.graudez.com.br/literatura/modernismo.html
                                   Online-
             Site Algo Sobre- http://www.algosobre.com.br/biografias/joao-cabral-de-melo-neto.html
                        Sobre- http://www.algosobre.com.br/biografias/joao-cabral-de-melo-
                    Site UOL Educação- http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u573.jhtm
                               Educação-
                          Site Jornal de Poesia- http://www.revista.agulha.nom.br/joao.html
                                         Poesia-
 Site Portal São Francisco- http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/joao-cabral-de-melo-neto/joao-cabral-de-
                  Francisco- http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/joao-cabral-de-melo-neto/joao-cabral-de-
                                                      melo-neto-
                                                      melo-neto-2.php
Passei Web-http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/banco_de_questoes/portugues/a_educacao_pela_pedra
       Web-

                   Jornal "Folha de São Paulo'' ( Edição E1- Quarta-feira,8 de Junho de 2011)
                                                         E1- Quarta-
                  Livro João Cabral de Melo Neto - Morte e Vida Severina (Editora Alfaguara)
Nome: Suany Neto Roberto
                              N°: 31




Nome: Ingrid Geovana Vallin
N°: 19
Nome: Matheus Iohan Muniz
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Nome: Yuri César de Almeida
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3° Ano A

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João Cabral de Melo Neto

  • 1. João Cabral de Melo Neto A Linguagem Objeto
  • 2. " Poderia a linguagem de um poema não apenas se referir a um objeto, mas imitá-lo, sugeri- imitá- sugeri- lo,a ponto de nós senti-los no próprio poema? senti- Essa era uma das preocupações de João Cabral de Melo Neto; poeta que também se inspirou em problemas sociais do Nordeste, por temas relacionados à arte e ao futebol. "
  • 3. Índice Introdução Biografia Poemas e Obras Curiosidades Vamos aprender mais um pouco? Conclusão Bibliografia
  • 5. Foram reunidas nessa obra um pouco da vida do grande poeta da Terceira Fase do Modernismo João Cabral de Melo Neto (1920- 1999). Vida que foi para João Cabral uma bonita e ao (1920- mesmo tempo sofrida obra de engenharia poética, como demonstrou no seu inesquecível Morte e Vida Severina. Aos 79 anos, apaga-se a voz de significação universal, com a apaga- singularidade do seu verso, tantas vezes lembrado para a glória do Prêmio Nobel de Literatura. Como lembrança se mantém a convicção de que foi ele um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos - o poeta da razão - que jamais esqueceu, mesmo nos 40 anos de vida diplomática, as suas raízes pernambucanas. O homem que soube desenhar em versos cálidos a saga do retirante nordestino, quando ainda não havia passado dos 35 anos de idade.
  • 7. João Cabral de Melo Neto nasceu na cidade de Recife - PE, no dia 09 de janeiro de 1920. Primo, pelo lado paterno, de Manuel Bandeira e, pelo lado materno, de Gilberto Freyre. Passa a infância em engenhos de açúcar. Primeiro no Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, e depois nos engenhos Pacoval e Dois Irmãos, no município de Moreno.Em 1930, com a mudança da família para Recife, inicia o curso primário no Colégio Marista. João Cabral era um amante do futebol, tendo sido campeão juvenil pelo Santa Cruz Futebol Clube em 1935.Foi na Associação Comercial de Pernambuco, em 1937, que obteve seu primeiro emprego, tendo depois trabalhado no Departamento de Estatística do Estado. Já com 18 anos, começa a freqüentar a roda literária do Café Lafayette, que se reúne em volta de Willy Lewin e do pintor Vicente do Rego Monteiro, que regressara de Paris por causa da guerra. Em 1940 viaja com a família para o Rio de Janeiro, onde conhece Murilo Mendes. Esse o apresenta a Carlos Drummond de Andrade e ao círculo de intelectuais que se reunia no consultório de Jorge de Lima. No ano seguinte, participa do Congresso de Poesia do Recife, ocasião em que apresenta suasConsiderações sobre o poeta dormindo. Em 1942 marca a publicação de seu primeiro livro, Pedra do Sono ,em que é nítida a influência de Carlos Drummond de Andrade e de Murilo Mendes. Em novembro viaja, por terra, para o Rio de Janeiro. Convocado para servir à Força Expedicionária Brasileira (FEB), é dispensado por motivo de saúde. Mas permanece no Rio, sendo aprovado em concurso e nomeado Assistente de Seleção do DASP (Departamento de Administração do Serviço Público). Freqüenta, então, os intelectuais que se reuniam no Café Amarelinho e Café Vermelhinho, no Centro do Rio de Janeiro. Publica Os três mal-amadosna Revista do mal- Brasil. O engenheiro é publicado em 1945, em edição custeada por Augusto Frederico Schmidt. Faz concurso para a carreira diplomática, para a qual é nomeado em dezembro. Começa a trabalhar em 1946, no Departamento Cultural do Itamaraty, depois no Departamento Político e, posteriormente, na comissão de Organismos Internacionais. Em fevereiro, casa-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira, no Rio de Janeiro. Em dezembro, casa- nasce seu primeiro filho, Rodrigo.É removido, em 1947, para o Consulado Geral em Barcelona, como vice- vice- cônsul. Adquire uma pequena tipografia artesanal, com a qual publica livros de poetas brasileiros e espanhóis. Nessa prensa manual imprime Psicologia da composição. Nos dois anos seguintes ganha dois filhos: Inês e Luiz, respectivamente. Residindo na Catalunha, escreve seu ensaio sobre Joan Miró,cujo estúdio freqüenta. Miró faz publicar o ensaio com texto em português, com suas primeiras gravuras em madeira.
  • 8. Removido para o Consulado Geral em Londres, em 1950, publica O cão sem plumas. Dois anos depois retorna ao Brasil para responder por inquérito onde é acusado de subversão. Escreve o livro O rio, em 1953, com o qual recebe o Prêmio José de Anchieta do IV Centenário de São Paulo (em 1954). É colocado em disponibilidade pelo Itamaraty, sem rendimentos, enquanto responde ao inquérito, período em que trabalha como secretário de redação do Jornal A Vanguarda, dirigido por Joel Silveira. Arquivado o inquérito policial, a pedido do promotor público, vai para Pernambuco com a família. Lá, é recebido em sessão solene pela Câmara Municipal do Recife.Em 1954 é convidado a participar do Congresso Internacional de Escritores, em São Paulo. Participa também do Congresso Brasileiro de Poesia, reunido na mesma época. A Editora Orfeu publica seus Poemas Reunidos. Reintegrado à carreira diplomática pelo Supremo Tribunal Federal, passa a trabalhar no Departamento Cultural do Itamaraty.Duas alegrias em 1955: o nascimento de sua filha Isabel e o recebimento do Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. A Editora José Olympio publica, em 1956, Duas águas, volume que reúne seus livros anteriores e os inéditos: Morte e vida severina, Paisagens com figuras e Uma faca só lâmina.Removido para Barcelona, como cônsul adjunto, vai com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, onde passa a residir. Em 1958 é removido para o Consulado Geral em Marselha. Recebe o prêmio de melhor autor no Festival de Teatro do Estudante, realizado no Recife. Publica em Lisboa seu livro Quaderna, em 1960. É removido para Madri, como primeiro secretário da embaixada. Publica, em Madri, Dois parlamentos. Em 1961 é nomeado chefe de gabinete do ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa, e passa a residir em Brasília. Com o fim do governo Jânio Quadros, poucos meses depois, é removido outra vez para a embaixada em Madri. A Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabino, publica Terceira feira, livro que reúne Quaderna, Dois parlamentos, ainda inéditos no Brasil, e um novo livro: Serial. Com a mudança do consulado brasileiro de Cádiz para Sevilha, João Cabral muda-se para essa cidade, onde reside pela muda- segunda vez. Continuando seu vai-e-vem pelo mundo, em 1964 é removido como conselheiro para a vai- Delegação do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. Nesse ano nasce seu quinto filho, João. Como ministro conselheiro, em 1966, muda-se para Berna. O Teatro da Universidade Católica de São Paulo muda- produz o auto Morte e Vida Severina, com música de Chico Buarque de Holanda, primeiro encenado em várias cidades brasileiras e depois no Festival de Nancy, no Théatre des Nations, em Paris e, posteriormente, em Lisboa, Coimbra e Porto. Em Nancy recebe o prêmio de Melhor Autor Vivo do Festival. Publica A educação pela pedra, que recebe os prêmios Jabuti; da União de Escritores de São Paulo; Luisa Cláudio de Souza, do Pen Club; e o prêmio do Instituto Nacional do Livro. É designado pelo Itamaraty para representar o Brasil na Bienal de Knock-le-Zontew, na Bélgica. Knock-le-
  • 9. Em 1967 marca sua volta a Barcelona, como cônsul geral. No ano seguinte é publicada a primeira edição de Poesias completas. É eleito, em 15 de agosto de 1968, para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Assis Chateaubriand. É recebido em sessão solene pela Assembléia Legislativa de Pernambuco como membro do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT). Toma posse na Academia em 06 de maio de 1969, na cadeira número 6, sendo recebido por José Américo de Almeida. A Companhia Paulo Autran encena Morte e vida Severina em diversas cidades do Brasil. É removido para a embaixada de Assunção, no Paraguai, como ministro conselheiro. Torna-se membro da Hispania Torna- Society of America e recebe a comenda da Ordem de Mérito Pernambucano. Após três anos em Assunção, é nomeado embaixador em Dacar, no Senegal, cargo que exerce cumulativamente com o de embaixador da Mauritânia, no Mali e na Giné-Conakry. Giné- Em 1974 é agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco. No ano seguinte publica Museu de Tudo, que Grã- recebe o Grande Prêmio de Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte. É agraciado com a Medalha de Humanidades do Nordeste. Em 1976 é condecorado Grande Oficial da Ordem do Mérito do Senegal e, em 1979, como Grande Oficial da Ordem do Leão do Senegal. É nomeado embaixador em Quito, Equador e publica A escola das facas. A convite do governador de Pernambuco, vai a Recife (em 1980) para fazer o discurso inaugural da Ordem do Mérito de Guararapes, sendo condecorado com a Grã-Cruz da Ordem. Ali é inaugurada uma exposição Grã- bibliográfica de sua obra, no Palácio do Governo de Pernambuco, organizada por Zila Mamede. Recebe a Comenda do Mérito Aeronáutico e a Grã-Cruz do Equador. Grã- No ano seguinte vai para Honduras, como embaixador. Publica a antologia Poesia crítica. Em 1982 é agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Vai para a cidade do Porto, em Portugal, como cônsul geral. Recebe o Prêmio Golfinho de Ouro do Estado do Rio de Janeiro. Publica Auto do frade, escrito em Tegucigalpa. Ganha o Prêmio Moinho Recife, em 1984 e, no ano seguinte, publica os poemas de Agrestes. Nesse livro há uma sessão dedicada à morte ("A indesejada das gentes"). Em 1986 é agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco. Sua esposa, Stella Maria, falece no Rio de Janeiro. João Cabral reassume o Consulado Geral no Porto. Casa-se em segundas núpcias com a Casa- poeta Marly de Oliveira. Em 1987 publica Crime na Calle Relator, poemas narrativos. Recebe o prêmio da União Brasileira de Escritores. É removido para o Rio de Janeiro. Em Recife, no ano de 1988, lança sua antologia Poemas pernambucanos. Publica, também, o segundo volume de poesias completas: Museu de tudo e depois. Recebe o Prêmio da Bienal Nestlé de Literatura pelo
  • 10. conjunto da obra, e o Prêmio Lily de Carvalho da ABCL, Rio de Janeiro. Aposenta-se como embaixador em 1990 e Aposenta- publica Sevilha andando. É eleito para a Academia Pernambucana de Letras, da qual havia recebido, anos antes, a medalha Carneiro Vilela. Recebe os seguintes prêmios: Criadores de Cultura da Prefeitura do Recife, Luis de Camões (concedido conjuntamente pelos governos de Portugal e do Brasil), em Lisboa. É condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Judiciário e do Trabalho. A Faculdade Letras da Grã- Universidade Federal do Rio de Janeiro publica Primeiros Poemas. Outros prêmios: Pedro Nava (1991) pelo livro Sevilha andando; Casa das Américas, concedido pelo Estado de São Paulo (1992); e também nesse ano o Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma. Viaja a Sevilha para representar o presidente da República nas comemorações do dia 7 de Setembro, que tiveram lugar na Exposição do IV Centenário da Descoberta da América. No Pavilhão do Brasil, foi distribuída sua antologiaPoemas sevilhanos, em edição especial. No Rio de Janeiro, na Casa da Espanha, recebe do embaixador espanhol a Grã-Cruz da Ordem de Isabel, a Católica. Grã- Em 1993 recebe o Prêmio Jabuti, instituído pela Câmara Brasileira do Livro. João Cabral era atormentado por uma dor de cabeça que não o deixava de forma alguma. Ao saber que sofria de uma doença degenerativa incurável, que faria sua visão desaparecer aos poucos, o poeta anunciou que ia parar de escrever. Já em 1990, com a finalidade de ajudá-lo a vencer os males físicos e a depressão, Marly, ajudá- sua segunda esposa, passa a escrever alguns textos tidos como de autoria do biografado. Conforme declarações de amigos, escreveu o discurso de agradecimento feito pelo autor ao receber o Prêmio Luis de Camões, considerado o mais importante prêmio concedido a escritores da língua portuguesa, entre outros. Foi a forma encontrada para tentar tirá-lo do estado depressivo em que se encontrava. Como não admirava a tirá- música, o autor foi perdendo também a vontade de falar ("Não tenho muito o que dizer", argumentava). Era, sem dúvida, o nosso mais forte concorrente ao prêmio Nobel, com diversas indicações dos mais variados segmentos de nossa sociedade. Quando preparava a Cabraliana, que foi o seu primeiro audiolivro, foram ouvidas fantásticas histórias da vida diplomática, especialmente dos tempos de Portugal, Espanha e Marrocos, além de nele reconhecer um orgulho especial pela família, parente que foi de grandes escritores brasileiros, como Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, Mauro Mota e Antônio de Moraes e Silva, o famoso Moraes do Dicionário de Língua Portuguesa. Parece que era herdeiro, no seu jeito tão humilde e cativante, de uma genética literária originalíssima.
  • 11. Transcrevemos abaixo o discurso proferido por Arnaldo Niskier, presidente da Academia Brasileira de Letras, por ocasião da morte do poeta, em 09/10/1999: "Adeus a João Cabral" "Severino retirante, deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia, se não vale mais saltar fora da ponte e da vida; nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga; é difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, Severina; mas se responder não pude à pergunta que fazia ela, a vida, a respondeu com sua presença viva." João Cabral, o poeta João, é o mesmo que escreveu aos 22 anos o livro Pedra do Sono, para depois nos brindar, entre outros, com O engenheiro, O cão sem plumas, Poesias completas, A educação pela pedra e o antológico Morte e Vida Severina, com versões no teatro e na mídia eletrônica. Fecham- Fecham-se os olhos cansados do poeta João e não conseguiu realizar o sonho que agora desvendamos: ver o América Futebol Clube voltar aos seus dias de glória. Nem do Rio, nem aquele que era a sua verdadeira paixão: o América do Recife.
  • 13. Morte e Vida Severina (Auto de Natal Pernambucano) (1954-1955)
  • 14. O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUE É E A QUE VAI na mesma cabeça grande - O meu nome é Severino, que a custo é que se equilibra, não tenho outro de pia. no mesmo ventre crescido Como há muitos Severinos, sobre as mesmas pernas finas, que é santo de romaria, e iguais também porque o sangue deram então de me chamar que usamos tem pouca tinta. Severino de Maria; E se somos Severinos como há muitos Severinos iguais em tudo na vida, com mães chamadas Maria; morremos de morte igual, fiquei sendo o da Maria mesma morte severina: do finado Zacarias. que é a morte que se morre Mas isso ainda diz pouco: de velhice antes dos trinta, há muitos na freguesia, de emboscada antes dos vinte, por causa de um coronel de fome um pouco por dia que se chamou Zacarias (de fraqueza e de doença e que foi o mais antigo é que a morte severina senhor desta sesmaria. ataca em qualquer idade, Como então dizer quem fala e até gente não nascida). ora a Vossas Senhorias? Somos muitos Severinos Vejamos: é o Severino iguais em tudo e na sina: da Maria do Zacarias, a de abrandar estas pedras lá da Serra da Costela, suando- suando-se muito em cima, limites da Paraíba. a de tentar despertar Mas isso ainda diz pouco: terra sempre mais extinta, se ao menos mais cinco havia a de querer arrancar com nome de Severino algum roçado da cinza. filhos de tantas Marias Mas, para que me conheçam mulheres de tantos outros, já finados Zacarias, melhor Vossas Senhorias vivendo na mesma serra e melhor possam seguir magra e ossuda em que eu vivia. a história de minha vida, Somos muitos Severinos passo a ser Severino iguais em tudo na vida: que em vossa presença emigra.
  • 15. ENCONTRA DOIS HOMENS CARREGANDO UM DEFUNTO NUMA - E foi morrida essa morte, REDE,AOS GRITOS DE : Ó IRMÃO DAS ALMAS! IRMÃOS DAS ALMAS! NÃO FUI EU QUE MATEI NÃO! irmãos das almas, - A quem está carregando, essa foi morte morrida irmãos das almas, ou foi matada? embrulhado nessa rede? - Até que não foi morrida, dizei que eu sabia? irmão das almas, - A um defunto de nada, esta foi morte matada, irmão das almas, numa emboscada. que há muitas horas viaja - E o que guardava a emboscada, à sua morada. irmãos das almas, - E sabeis quem era ele, e com que foi que mataram, irmãos das almas, com faca ou bala? sabeis como ele se chama -Este foi morto de bala, ou se chamava? irmão das almas, - Severino Lavrador, mais garantido é de bala, irmão das almas, mais longe vara. Severino Lavrador, - E quem foi que emboscou, mas já não lavra. irmãos das almas, - E de onde que o estais trazendo, quem contra ele soltou irmãos das almas, essa ave-bala? ave- onde foi que começou - Ali é difícil dizer, vossa jornada? irmão das almas, - Onde a Caatinga é mais seca, sempre há uma bala voando irmão das almas, desocupada. onde uma terra que não dá - E o que havia ele feito, nem planta brava. irmãos das almas,
  • 16. e o que havia ele feito irmão das almas, contra tal pássara? queria voar mas livre - Ter uns hectares de terra, essa ave-bala. ave- irmão das almas, - E agora o que passará, de pedra e areia lavada irmãos das almas, que cultivava. o que é que acontecerá - Mas que roças que ele tinha, contra a espingarda? irmãos das almas, - Mais campo tem para soltar, que podia ele plantar irmão das almas, na pedra avara? tem mais onde fazer voar - Nos magros lábios de areia, as filhas-balas. filhas- irmão das almas, - E onde o levais a enterrar, dos intervalos das pedras irmãos das almas, plantava palha. com a semente do chumbo - E era grande sua lavoura, que tem guardada? irmãos das almas, - Ao cemitério de Torres, lavoura de muitas covas, irmão das almas, tão cobiçada? que hoje se diz Toritama, - Tinha somente dez quadras, de madrugada. irmãos das almas, - E poderei ajudar, todas nos ombros da serra, irmãos das almas? nenhuma várzea. Vou passar por Toritama, - Mas então porque o mataram, é minha estrada. irmãos das almas, - Bem que poderá ajudar, mas então porque o mataram irmão das almas, com espingarda? é irmão das almas quem houve - Queria mais espalhar-se, espalhar- nossa chamada.
  • 17. - E um de nós pode voltar, Sei que há muitas vilas grandes, irmão das almas, cidades que elas são ditas; pode voltar daqui mesmo sei que há simples arruados, para sua casa. sei que há vilas pequeninas - Vou eu, que a viagem é longa, todas formando um rosário irmãos das almas, cujas contas fossem vilas, é muito longa a viagem todas formando um rosário e a serra é alta. de que a estrada fosse a linha. - Mais sorte tem o defunto, Devo rezar tal rosário irmãos das almas, até o mar onde termina, pois já não fará na volta saltando de conta em conta, a caminhada. passando de vila em vila. - Toritama não cai longe, Vejo agora: não é fácil irmão das almas, seguir essa ladainha; seremos no campo santo entre uma conta e outra conta, de madrugada. entre uma e outra ave-maria, ave- - Partamos enquanto é noite, há certas paragens brancas, irmão das almas, de planta e bicho vazias, que é o melhor lençol dos mortos vazias até de donos, noite fechada. e onde o pé se descaminha. Não desejo emaranhar O RETIRANTE TEM MEDO DE SE EXTRAVIAR PORQUE SEU GUIA, o fio de minha linha O RIO CAPIBARIBE,CORTOU COM O VERÃO nem que se enrede no pelo - Antes de sair de casa hirsuto desta caatinga. aprendi a ladainha Pensei que seguindo o rio das vilas que vou passar eu amais me perderia: na minha longe descida. ele é o caminho mais certo,
  • 18. de todos o melhor guia. - Finado Severino, Mas como segui-lo agora segui- quando passares em Jordão que interrompeu a descida? e os demônios te atalharem Vejo que o Capibaribe, perguntando o que é que levas... como os rios lá de cima, -Dize que levas cera, é tão pobre que nem sempre pode cumprir sua sina capuz e cordão e no verão também corta, mais a Virgem da Conceição. com pernas que não caminham. -Finado Severino Tenho de saber agora etc... qual a verdadeira via - Dizes que levas somente entre essas que escancaradas coisas de não: frente a mim se multiplicam. fome, sede, privação. Mas não vejo almas aqui, - Finado Severino nem almas mortas nem vivas; etc... ouço somente à distância - Dizes que coisas de não, o que parece cantoria. ocas , leves: Será novena de santo, como o caixão, que ainda deves. será algum mês de Maria; -Uma excelência quem sabe até se uma festa dizendo que a hora é hora. ou uma dança não seria? -Ajunta os carregadores, que o corpo quer ir embora. NA CASA A QUE O RETIRANTE CHEGA ESTÃO CANTANDO EXCELÊNCIAS PARA UM DEFUNTO, ENQUANTO UM HOMEM, DO - Duas excelências... LADO DE FORA, VAI PARODIANDO AS PALAVRAS DOS CANTADORES -...dizendo é a hora da plantação. -Ajunta os carregadores... - ... que a terra vai colher a mão.
  • 19. CANSADO DA VIAGEM O RETIRANTE PENSA INTERROMPÊ-LA POR INTERROMPÊ- Ou será que aqui cortando UNS INSTANTES E PROCURAR TRABALHO ALI ONDE SE ENCONTRA agora minha descida - Desde que estou retirando já não poderei seguir só a morte vejo ativa, nunca mais em minha vida? só a morte deparei (será que a água destes poços e às vezes até festiva; é toda aqui consumida só a morte tem encontrado pelas roças, pelos bichos, quem pensava encontrar vida, pelo sol com suas línguas? e pouco que não foi morte será que quando chegar foi de vida severina o rio da nova invernia (aquela vida que é menos um resto de água no antigo vivida que defendida, sobrará nos poços ainda?) e é ainda mais severina Mas isso depois verei: para o homem que retira). tempo há para que decida; Penso agora: mas por que primeiro é preciso achar parar aqui e não podia um trabalho de que viva. e como Capibaribe Vejo uma mulher na janela, interromper minha linha? ali, que se não é rica, Ao menos até que as águas parece remediada de uma próxima invernia ou dona de sua vida: me levem direto ao mar vou saber se de trabalho ao refazer sua rotina? poderá me dar notícia. DIRIGE- DIRIGE-SE À MULHER NA JANELA QUE DEPOIS DESCOBRE Na verdade,por uns tempos, TRATAR- TRATAR-SE DE QUEM SE SABERÁ para aqui eu bem podia e retomar a viagem Muito bom dia, senhora, quando vencesse a fadiga. que nessa janela está; sabe dizer se é possível
  • 20. algum trabalho encontrar? mas diga-me, retirante, diga- Trabalho aqui nunca falta o que mais fazia lá? a quem sabe trabalhar; Melhor do que eu ninguém o que fazia o compadre sei combater, quiçá, na sua terra de lá? tanta planta de rapina Pois fui sempre lavrador, que tenho visto por cá. lavrador de terra má; Essas plantas de rapina não há espécie de terra são tudo o que a terra dá; que eu não possa cultivar. diga- diga-me ainda, compadre; Isso aqui de nada adianta, que mais fazia por lá? pouco existe o que lavrar; Tirei mandioca de chãs mas diga-me, retirante, diga- que o vento vive a esfolar que mais fazia por lá? e de outras escalavradas Também lá na minha terra pela seca faca solar. de terra mesmo pouco há; Isto aqui não é Vitória mas até a calva da pedra nem é Glória do Goitá; sinto- sinto-me capaz de arar. e além da terra, me diga, Também de pouco adianta, que mais sabe trabalhar? nem pedra há aqui que amassar; Sei também tratar de gado, diga- diga-me ainda, compadre, entre urtigas pastorear: que mais fazia por lá? gado de comer do chão Conheço todas as roças ou de comer ramas no ar. que nesta chã podem dar: Aqui não é Surubimnem o algodão, a mamona, Limoeiro, oxalá! a pita, o milho, o caroá. mas diga-me, retirante, diga- Esses roçados o banco que mais fazia por lá? já não quer financiar;
  • 21. Sabe tirar ladainhas, Em qualquer das cinco tachas sabe mortos enterrar? de um banguê sei cozinhar; Já velei muitos defuntos, sei cuidar de uma moenda, na serra é coisa vulgar; de uma casa de purgar. mas nunca aprendi as rezas Com a vinda das usinas sei somente acompanhar. há poucos engenhos já; Pois se o compadre soubesse nada mais o retirante rezar ou mesmo cantar, aprendeu a fazer lá? trabalhávamos a meias, Ali ninguém aprendeu que a freguesia bem dá. outro ofício, ou aprenderá: Agora se me permite mas o sol, de sol a sol, minha vez de perguntar: bem se aprende a suportar. como senhora, comadre, Mas isso então será tudo pode manter o seu lar? em que sabe trabalhar? Vou explicar rapidamente, vamos, diga, retirante, logo compreenderá: outras coisas saberá. como aqui a morte é tanta, Deseja mesmo saber vivo de a morte ajudar. o que eu fazia por lá? E ainda se me permite comer quando havia o quê que volte a perguntar: e, havendo ou não, trabalhar. é aqui uma profissão Essa vida por aqui trabalho tão singular? é coisa familiar; É, sim, uma profissão, mas diga-me retirante, diga- e a melhor de quantas há: sabe benditos rezar? sou de toda a região Sabe cantar excelências, rezadora titular. defuntos encomendar? E ainda se me permite
  • 22. mais outra vez indagar: não se precisa de limpa, é boa essa profissão de adubar nem de regar; em que a comadre ora está? as estiagens e as pragas De um raio de muitas léguas fazem- fazem-nos mais prosperar; vem gente aqui me chamar; e dão lucro imediato; a verdade é que não pude nem é preciso esperar queixar- queixar-me ainda de azar. pela colheita: recebe-se recebe- E se pela última vez na hora mesma de semear. O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA, QUE O FAZ me permite perguntar: PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM não existe outro trabalho para mim nesse lugar? Bem me diziam que a terra Como aqui a morte é tanta, se faz mais branda e macia só é possível trabalhar quando mais do litoral nessas profissões que fazem a viagem se aproxima. da morte ofício ou bazar. Agora afinal cheguei Imagine que outra gente nesta terra que diziam. de profissão similar, Como ela é uma terra doce farmacêuticos, coveiros, para os pés e para a vista. doutor de anel no anular, Os rios que correm aqui remando contra a corrente têm a água vitalícia. da gente que baixa ao mar, Cacimbas por todo lado; retirantes às avessas, cavando o chão, água mina. sobem do mar para cá. Vejo agora que é verdade Só os roçados da morte o que pensei ser mentira. compensam aqui cultivar, Quem sabe se nesta terra e cultivá-los é fácil: cultivá- não plantarei minha sina? simples questão de plantar; Não tenho medo de terra
  • 23. (cavei pedra toda a vida), ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO e para quem lutou a braço CEMITÉRIO contra a piçarra da Caatinga Essa cova em que estás, será fácil amansar com palmos medida, esta aqui, tão feminina. é a cota menor Mas não avisto ninguém, que tiraste em vida. só folhas de cana fina; É de bom tamanho, somente ali à distância nem largo nem fundo, aquele bueiro de usina; é a parte que te cabe somente naquela várzea deste latifúndio. um banguê velho em ruína. Não é cova grande, Por onde andará a gente é cova medida, que tantas canas cultiva? é a terra que querias Feriando: que nesta terra ver dividida. tão fácil, tão doce e rica, É uma cova grande não é preciso trabalhar para teu pouco defunto, todas as horas do dia, mas estarás mais ancho os dias todos do mês, que estavas no mundo. os meses todos da vida. É uma cova grande Decerto a gente daqui para teu defunto parco, jamais envelhece aos trinta porém mais que no mundo nem sabe da morte em vida, te sentirás largo. vida em morte, severina; É uma cova grande e aquele cemitério ali, para tua carne pouca, branco na verde colina, mas a terra dada decerto pouco funciona não se abre a boca. e poucas covas aninha. Viverás, e para sempre,
  • 24. na terra que aqui aforas: Tua roupa melhor e terás enfim tua roça. será de terra e não de fazenda: Aí ficarás para sempre, não se rasga nem se remenda. livre do sol e da chuva, Tua roupa melhor criando tuas saúvas. e te ficará bem cingida: Agora trabalharás como roupa feita à medida. só para ti, não a meias, Esse chão te é bem conhecido como antes em terra alheia. (bebeu teu suor vendido). Trabalharás uma terra Esse chão te é bem conhecido da qual, além de senhor, (bebeu o moço antigo). serás homem de eito e trator. Esse chão te é bem conhecido Trabalhando nessa terra, (bebeu tua força de marido). tu sozinho tudo empreitas: Desse chão és bem conhecido serás semente, adubo, colheita. (através de parentes e amigos). Trabalharás numa terra Desse chão és bem conhecido que também te abriga e te veste: (vive com tua mulher, teus filhos). embora com o brim do Nordeste. Desse chão és bem conhecido Será de terra tua derradeira camisa: (te espera de recém-nascido). recém- te veste, como nunca em vida. Não tens mais força contigo: Será de terra e tua melhor camisa: deixa- deixa-te semear ao comprido. te veste e ninguém cobiça. Já não levas semente viva: Terás de terra teu corpo é a própria maniva. completo agora o teu fato: Não levas rebolo de cana: e pela primeira vez, sapato. és o rebolo, e não de caiana. Como és homem, Não levas semente na mão: a terra te dará chapéu: és agora o próprio grão. fosses mulher, xale ou véu. Já não tens força na perna:
  • 25. deixa- deixa-te semear na coveta. Se abre o chão e te fecha, Já não tens força na mão: dando- dando-te agora cama e coberta. deixa- deixa-te semear no leirão. Se abre o chão e te envolve, Dentro da rede não vinha nada, como mulher com quem se dorme. O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA só tua espiga debulhada. CHEGAR LOGO AO RECIFE Dentro da rede vinha tudo, Nunca esperei muita coisa, só tua espiga no sabugo. digo a Vossas Senhorias. Dentro da rede coisa vasqueira, O que me fez retirar só a maçaroca banguela. não foi a grande cobiça; Dentro da rede coisa pouca, o que apenas busquei tua vida que deu sem soca. foi defender minha vida Na mão direita um rosário, de tal velhice que chega milho negro e ressecado. antes de se inteirar trinta; Na mão direita somente se na serra vivi vinte, o rosário, seca semente. se alcancei lá tal medida, Na mão direita, de cinza, o que pensei, retirando, o rosário, semente maninha foi estendê-la um pouco ainda estendê- Na mão direita o rosário, Mas não senti diferença semente inerte e sem salto. entre o Agreste e a Caatinga, Despido vieste no caixão, e entre a Caatinga e aqui a Mata despido também se enterra o grão. a diferença é a mais mínima. De tanto te despiu a privação Está apenas em que a terra que escapou de teu peito a viração. é por aqui mais macia; Tanta coisa despiste em vida está apenas no pavio, que fugiu de teu peito a brisa. ou melhor, na lamparina: E agora, se abre o chão e te abriga, pois é igual o querosene lençol que não tiveste em vida.
  • 26. que em toda parte ilumina, O dia de hoje está difícil; e quer nesta terra gorda não sei onde vamos parar. quer na serra, de caliça, Deviam dar um aumento, a vida arde sempre, com ao menos aos deste setor de cá. a mesma chama mortiça. As avenidas do centro são melhores, Agora é que compreendo mas são para os protegidos: porque em paragens tão ricas há sempre menos trabalho o rio não corta em poços e gorjetas pelo serviço; como ele faz na Caatinga: e é mais numeroso o pessoal vivi a fugir dos remansos (toma mais tempo enterrar os ricos). a que a paisagem o convida, Pois eu me daria por contente com medo de se deter se me mandassem para cá. grande que seja a fadiga. Se trabalhasses no de Casa Amarela Sim, o melhor é apressar não estarias a reclamar. o fim desta ladainha, De trabalhar no de Santo Amaro o fim do rosário de nomes deve alegrar-se o colega alegrar- que a linha do rio enfia; porque parece que a gente é chegar logo ao Recife, que se enterra no de Casa Amarela derradeira ave-maria ave- está decidida a mudar-se mudar- do rosário, derradeira toda para debaixo da terra. invocação da ladainha, É que o colega ainda não viu Recife, onde o rio some o movimento: não é o que se vê. e esta minha viagem se fina. Fique- Fique-se por aí um momento e não tardarão a aparecer CHEGANDO AO RECIFE, O RETIRANTE SENTA-SE PARA SENTA- DESCANSAR AO PÉ DE UM MURO ALTO E CAIADO E OUVE, os defuntos que ainda hoje SEM SER NOTADO, A CONVERSA DE DOIS COVEIROS vão chegar (ou partir, não sei). As avenidas do centro,
  • 27. onde se enterram os ricos, isto é, para o bairro dos usineiros, são como o porto do mar: dos políticos, dos banqueiros, não é muito ali o serviço: e no tempo antigo, dos banguezeiros no máximo um transatlântico (hoje estes se enterram em carneiros); chega ali cada dia, bairro também dos industriais, com muita pompa, protocolo, dos membros das associações patronais e ainda mais cenografia. e dos que foram mais horizontais Mas este setor de cá nas profissões liberais. é como a estação dos trens: Difícil é que consigas diversas vezes por dia aquele bairro, logo de saída. chega o comboio de alguém. Só pedi que me mandassem Mas se teu setor é comparado para as urbanizações discretas, à estação central dos trens, com seus quarteirões apertados, o que dizer de Casa Amarela com suas cômodas de pedra. onde não pára o vaivém? Esse é o bairro dos funcionários, Pode ser uma estação inclusive extranumerários, mas não estação de trem: contratados e mensalistas será parada de ônibus, (menos os tarefeiros e diaristas). com filas de mais de cem. Para lá vão os jornalistas, Então por que não pedes, os escritores, os artistas; já que és de carreira, e antigo, ali vão também os bancários, que te mandem para Santo Amaro as altas patentes dos comerciários, se achas mais leve o serviço? os lojistas, os boticários, Não creio que te mandassem os localizados aeroviários para as belas avenidas e os de profissões liberais onde estão os endereços que não se liberaram jamais. e o bairro da gente fina: Também um bairro dessa gente
  • 28. temos no de Casa Amarela: No de Casa Amarela me deixou cada um em seu escaninho, mas me mudou de arrabalde. cada um em sua gaveta, E onde vais trabalhar agora, com o nome aberto na lousa qual o subúrbio que te cabe? quase sempre em letras pretas. Passo para o dos industriários, Raras as letras douradas, que é também o dos ferroviários, raras também as gorjetas. de todos os rodoviários Gorjetas aqui, também, e praças-de-pré dos comerciários. praças-de- só dá mesmo a gente rica, Passas para o dos operários, em cujo bairro não se pode deixas o dos pobres vários; trabalhar em mangas de camisa; melhor: não são tão contagiosos onde se exige quépi e são muito menos numerosos. e farda engomada e limpa. É, deixo o subúrbio dos indigentes Mas não foi pelas gorjetas, onde se enterra toda essa gente não, que vim pedir remoção: que o rio afoga na preamar é porque tem menos trabalho e sufoca na baixa-mar. baixa- que quero vir para Santo Amaro; É a gente sem instituto, aqui ao menos há mais gente gente de braços devolutos; para atender a freguesia, são os que jamais usam luto para botar a caixa cheia e se enterram sem salvo-conduto. salvo- dentro da caixa vazia. É a gente dos enterros gratuitos E que disse o Administrador, e dos defuntos ininterruptos. se é que te deu ouvido? É a gente retirante Que quando apareça a ocasião que vem do Sertão de longe. atenderá meu pedido. Desenrolam todo o barbante E do senhor Administrador e chegam aqui na jante. isso foi tudo que arrancaste?
  • 29. E que então, ao chegar, a ser feito no mar de sal. não têm mais o que esperar. E não precisava dinheiro, Não podem continuar e não precisava coveiro, pois têm pela frente o mar. e não precisava oração Não têm onde trabalhar e não precisava inscrição. e muito menos onde morar. Mas o que se vê não é isso: E da maneira em que está é sempre nosso serviço não vão ter onde se enterrar. crescendo mais cada dia; Eu também, antigamente, morre gente que nem vivia. fui do subúrbio dos indigentes, E esse povo lá de riba e uma coisa notei de Pernambuco, da Paraíba, que jamais entenderei: que vem buscar no Recife essa gente do Sertão poder morrer de velhice, que desce para o litoral, sem razão, encontra só, aqui chegando fica vivendo no meio da lama, cemitérios esperando. comendo os siris que apanha; Não é viagem o que fazem, pois bem: quando sua morte chega, vindo por essas caatingas, vargens; temos que enterrá-los em terra seca. enterrá- aí está o seu erro: Na verdade, seria mais rápido vêm é seguindo seu próprio enterro. e também muito mais barato O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE APROXIMA- que os sacudissem de qualquer ponte Nunca esperei muita coisa, dentro do rio e da morte. é preciso que eu repita. O rio daria a mortalha Sabia que no rosário e até um macio caixão de água; de cidade e de vilas, e também o acompanhamento e mesmo aqui no Recife que levaria com passo lento ao acabar minha descida, defunto ao enterro final
  • 30. não seria diferente que me faça aquele enterro a vida de cada dia: que o coveiro descrevia: que sempre pás e enxadas caixão macio de lama, foices de corte e capina, mortalha macia e líquida, ferros de cova, estrovengas coroas de baronesa o meu braço esperariam. junto com flores de aninga, Mas que se este não mudasse e aquele acompanhamento seu uso de toda vida, de água que sempre desfila esperei, devo dizer, (que o rio, aqui no Recife, que ao menos aumentaria não seca, vai toda a vida). APROXIMA- APROXIMA-SE DO RETIRANTE O MORADOR DE UM DOS na quartinha, a água pouca, MOCAMBOS QUE EXISTEM ENTRE O CAIS E A ÁGUA DO RIO dentro da cuia, a farinha, o algodãozinho da camisa, Seu José, mestre carpina, ao meu aluguel com a vida. que habita este lamaçal, E chegando, aprendo que, sabes me dizer se o rio nessa viagem que eu fazia, a esta altura dá vau? sem saber desde o Sertão, sabe me dizer se é funda meu próprio enterro eu seguia. esta água grossa e carnal? Só que devo ter chegado Severino, retirante, adiantado de uns dias; jamais o cruzei a nado; o enterro espera na porta: quando a maré está cheia o morto ainda está com vida. vejo passar muitos barcos, A solução é apressar barcaças, alvarengas, a morte a que se decida muitas de grande calado. e pedir a este rio, Seu José, mestre carpina, que vem também lá de cima, para cobrir corpo de homem não é preciso muito água:
  • 31. basta que chega ao abdome, Severino, retirante, basta que tenha fundura o mar de nossa conversa igual à de sua fome. precisa ser combatido, Severino, retirante, sempre, de qualquer maneira, pois não sei o que lhe conte; porque senão ele alaga sempre que cruzo este rio e devasta a terra inteira. costumo tomar a ponte; Seu José, mestre carpina, quanto ao vazio do estômago, e em que nos faz diferença se cruza quando se come. que como frieira se alastre, Seu José, mestre carpina, ou como rio na cheia, e quando ponte não há? se acabamos naufragados quando os vazios da fome num braço do mar miséria? não se tem com que cruzar? Severino, retirante, quando esses rios sem água muita diferença faz são grandes braços de mar? entre lutar com as mãos Severino, retirante, e abandoná-las para trás, abandoná- o meu amigo é bem moço; porque ao menos esse mar sei que a miséria é mar largo, não pode adiantar-se mais. adiantar- não é como qualquer poço: Seu José, mestre carpina, mas sei que para cruzá-la cruzá- e que diferença faz vale bem qualquer esforço. que esse oceano vazio Seu José, mestre carpina, cresça ou não seus cabedais, e quando é fundo o perau? se nenhuma ponte mesmo quando a força que morreu é de vencê-lo capaz? vencê- nem tem onde se enterrar, Seu José, mestre carpina, por que ao puxão das águas que lhe pergunte permita: não é melhor se entregar?
  • 32. há muito no lamaçal fora da ponte e da vida? apodrece a sua vida? UMA MULHER, DA PORTA DE ONDE SAIU O HOMEM, ANUNCIA-LHE ANUNCIA- e a vida que tem vivido O QUE SE VERÁ foi sempre comprada à vista? - Compadre José, compadre, Severino, retirante, que na relva estais deitado: sou de Nazaré da Mata, conversais e não sabeis mas tanto lá como aqui que vosso filho é chegado? jamais me fiaram nada: Estais aí conversando a vida de cada dia em vossa prosa entretida: cada dia hei de comprá-la. comprá- não sabeis que vosso filho Seu José, mestre carpina, saltou para dentro da vida? e que interesse, me diga, Saltou para dento da vida há nessa vida a retalho ao dar o primeiro grito; que é cada dia adquirida? e estais aí conversando; espera poder um dia pois sabei que ele é nascido. comprá- comprá-la em grandes partidas? APARECEM E SE APROXIMAM DA CASA DO HOMEM VIZINHOS, Severino, retirante, AMIGOS, DUAS CIGANAS ETC. não sei bem o que lhe diga: - Todo o céu e a terra não é que espere comprar lhe cantam louvor. em grosso tais partidas, Foi por ele que a maré mas o que compro a retalho esta noite não baixou. é, de qualquer forma, vida. Foi por ele que a maré Seu José, mestre carpina, fez parar o seu motor: que diferença faria a lama ficou coberta se em vez de continuar e o mau-cheiro não voou. mau- tomasse a melhor saída: E a alfazema do sargaço, a de saltar, numa noite,
  • 33. ácida, desinfetante, trago para a mãe caranguejos veio varrer nossas ruas pescados por esses mangues; enviada do mar distante. mamando leite de lama E a língua seca de esponja conservará nosso sangue. que tem o vento terral Minha pobreza tal é veio enxugar a umidade que coisa não posso ofertar: do encharcado lamaçal. somente o leite que tenho Todo o céu e a terra para meu filho amamentar; lhe cantam louvor aqui são todos irmãos, e cada casa se torna de leite, de lama, de ar. num mocambo sedutor. Minha pobreza tal é Cada casebre se torna que não tenho presente melhor: no mocambo modelar trago papel de jornal que tanto celebram os para lhe servir de cobertor; sociólogos do lugar. cobrindo- cobrindo-se assim de letras E a banda de maruins vai um dia ser doutor. que toda noite se ouvia Minha pobreza tal é por causa dele, esta noite, que não tenho presente caro: creio que não irradia. como não posso trazer E este rio de água cega, um olho d'água de Lagoa do Carro, ou baça, de comer terra, trago aqui água de Olinda, que jamais espelha o céu, água da bica do Rosário. hoje enfeitou-se de estrelas. enfeitou- Minha pobreza tal é COMEÇAM A CHEGAR PESSOAS TRAZENDO PRESENTES PARA O que grande coisa não trago: RECÉM- RECÉM-NASCIDO trago este canário da terra Minha pobreza tal é que canta corrido e de estalo. que não trago presente grande:
  • 34. Minha pobreza tal é da Avenida Sul e da Avenida Norte. que minha oferta não é rica: FALAM AS DUAS CIGANAS QUE HAVIAM APARECIDO COM OS VIZINHOS trago daquela bolacha d'água que só em Paudalho se fabrica. Atenção peço, senhores, Minha pobreza tal é para esta breve leitura: que melhor presente não tem: somos ciganas do Egito, dou este boneco de barro lemos a sorte futura. de Severino de Tracunhaém. Vou dizer todas as coisas Minha pobreza tal é que desde já posso ver que pouco tenho o que dar: na vida desse menino dou da pitu que o pintor Monteiro acabado de nascer: fabricava em Gravatá. aprenderá a engatinhar Trago abacaxi de Goiana por aí, com aratus, e de todo o Estado rolete de cana. aprenderá a caminhar Eis ostras chegadas agora, na lama, como goiamuns, apanhadas no cais da Aurora. e a correr o ensinarão Eis tamarindos da Jaqueira o anfíbios caranguejos, e jaca da Tamarineira. pelo que será anfíbio Mangabas do Cajueiro como a gente daqui mesmo. e cajus da Mangabeira. Cedo aprenderá a caçar: Peixe pescado no Passarinho, primeiro, com as galinhas, carne de boi dos Peixinhos. que é catando pelo chão Siris apanhados no lamaçal tudo o que cheira a comida; que há no avesso da rua Imperial. depois, aprenderá com Mangas compradas nos quintais ricos outras espécies de bichos: do Espinheiro e dos Aflitos. com os porcos nos monturos, Goiamuns dados pela gente pobre com os cachorros no lixo.
  • 35. Vejo- Vejo-o, uns anos mais tarde, se está negro não é lama, na ilha do Maruim, é graxa de sua máquina, vestido negro de lama, coisa mais limpa que a lama voltar de pescar siris; do pescador de maré e vejo-o, ainda maior, vejo- que vemos aqui, vestido pelo imenso lamarão de lama da cara ao pé. fazendo dos dedos iscas E mais: para que não pensem para pescar camarão. que em sua vida tudo é triste, Atenção peço, senhores, vejo coisa que o trabalho também para minha leitura: talvez até lhe conquiste: também venho dos Egitos, que é mudar-se destes mangues mudar- vou completar a figura. daqui do Capibaribe Outras coisas que estou vendo para um mocambo melhor é necessário que eu diga: nos mangues do Beberibe. não ficará a pescar FALAM OS VIZINHOS, AMIGOS, PESSOAS QUE VIERAM COM PRESENTES ETC. de jereré toda a vida. Minha amiga se esqueceu de dizer todas as linhas; De sua formosura não pensem que a vida dele já venho dizer: há de ser sempre daninha. é um menino magro, Enxergo daqui a planura de muito peso não é, que é a vida do homem de ofício, mas tem o peso de homem, bem mais sadia que os mangues, de obra de ventre de mulher. tenha embora precipícios. De sua formosura Não o vejo dentro dos mangues, deixai- deixai-me que diga: vejo- vejo-o dentro de uma fábrica: é uma criança pálida,
  • 36. é uma criança franzina, De sua formosura mas tem a marca de homem, deixai- deixai-me que diga: marca de humana oficina. é tão belo como um sim Sua formosura numa sala negativa. deixai- deixai-me que cante: É tão belo como a soca é um menino guenzo que o canavial multiplica. como todos os desses mangues, Belo porque é uma porta mas a máquina de homem abrindo- abrindo-se em mais saídas. já bate nele, incessante. Belo como a última onda Sua formosura que o fim do mar sempre adia. eis aqui descrita: É tão belo como as ondas é uma criança pequena, em sua adição infinita. enclenque e setemesinha, Belo porque tem do novo mas as mãos que criam coisas a surpresa e a alegria. nas suas já se adivinha. Belo como a coisa nova De sua formosura na prateleira até então vazia. deixai- deixai-me que diga: Como qualquer coisa nova é belo como o coqueiro inaugurando o seu dia. que vence a areia marinha. Ou como o caderno novo De sua formosura quando a gente o principia. deixai- deixai-me que diga: E belo porque com o novo belo como o avelós todo o velho contagia. contra o Agreste de cinza. Belo porque corrompe De sua formosura com sangue novo a anemia. deixai- deixai-me que diga: Infecciona a miséria belo como a palmatória com vida nova e sadia. na caatinga sem saliva. Com oásis, o deserto,
  • 37. com ventos, a calmaria. em nova vida explodida; O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM mesmo quando é assim pequena TOMAR PARTE EM NADA a explosão, como a ocorrida; Severino retirante, mesmo quando é uma explosão deixe agora que lhe diga: como a de há pouco, franzina; eu não sei bem a resposta mesmo quando é a explosão da pergunta que fazia, de uma vida severina. se não vale mais saltar fora da ponte e da vida; nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga; é difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, severina; mas se responder não pude à pergunta que fazia, ela, a vida, a respondeu com sua presença viva. E não há melhor resposta que o espetáculo da vida: vê- vê-la desfiar seu fio, que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma, teimosamente, se fabrica, vê- vê-la brotar como há pouco
  • 38. Análise: Morte e Vida Severina, o texto mais popular de João Cabral de Melo Neto, é um auto de natal do folclore pernambucano e, também, da tradição ibérica. Foi escrito entre 1954-55. 1954- O auto de natal Morte e Vida Severina possui estrutura dramática: é uma peça de teatro. O retirante vem do sertão para o litoral, seguindo a trilha do rio Capibaribe. Quando atinge o Recife, depois de encontrar muitas mortes pelo caminho, desengana-se com o sonho da cidade desengana- grande e do mar. Resolve então "saltar fora da ponte e da vida", atirando-se no Capibaribe. Enquanto se prepara atirando- para morrer e conversa com seu José, uma mulher anuncia que o filho deste "saltou para dentro da vida" (nasceu). Severino assiste ao auto de natal (encenação comemorativa do nascimento). Seu José, mestre carpina, tenta demover Severino da resolução de "saltar fora da ponte e da vida". Enfim, o Auto, Morte e Vida Severina é um claro exemplo de como João Cabral articulou o estético e o cultural numa perspectiva estruturalista que, embora escrito na década de 50, se permite a leituras e abordagens que se valem, também, de conceitos e categorias recentes de análises literárias
  • 40. 1 Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos. 2 E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão.
  • 41. Análise: O poema apresenta uma construção em metro irregular, os versos não seguem um padrão referente ao número de sílabas poéticas, apesar da divisão em estrofes caracterizar o tratamento das divisões comuns em forma fixa. O poeta utiliza desde a situação das silabas tônicas e pausas, sem buscar a regularidade padrão na realização dos poemas em forma fixa, realiza reiteradamente das homofonias (mesmo som) para através da coincidência sonora e proximidade dos radicais, buscando um padrão sonoro coincidente e harmônico. Este tratamento estabeleceu uma relação original com os elementos de versificação e acrescentou valores importantes a obra deste poeta. Nestas oposições um único canto não será capaz de trazer a luz e anular a escuridão, torna-se necessário que o galo convoque todos os galos e que eles possam desta torna- forma invocar a manhã, que pela alocação do artigo definido transforma-se em amanhã, numa transforma- clara projeção de futuro.
  • 43. 1. Ao redor da vida do homem 2. O que eles cantam, se pássaros, há certas caixas de vidro, é diferente de todos: dentro das quais, como em cantam numa linha baixa, jaula, com voz de pássaro rouco; se ouve palpitar um bicho. desconhecem as variantes Se são jaulas não é certo; e o estilo numeroso mais perto estão das gaiolas dos pássaros que sabemos, ao menos, pelo tamanho estejam presos ou soltos; e quadradiço de forma. têm sempre o mesmo compasso Uma vezes, tais gaiolas horizontal e monótono, vão penduradas nos muros; e nunca, em nenhum momento, outras vezes, mais privadas, variam de repertório: vão num bolso, num dos pulsos. dir-se- dir-se-ia que não importa a nenhum ser escutado. Mas onde esteja: a gaiola Assim, que não são artistas será de pássaro ou pássara: nem artesãos, mas operários é alada a palpitação, a saltação que ela guarda; para quem tudo o que cantam é simplesmente trabalho, e de pássaro cantor, trabalho rotina, em série, não pássaro de plumagem: impessoal, não assinado, pois delas se emite um canto de uma tal continuidade de operário que executa seu martelo regular que continua cantando proibido (ou sem querer) se deixa de ouvi-lo a gente: ouvi- do mínimo variar. como a gente às vezes canta para sentir-se existente. sentir-
  • 44. 3. A mão daquele martelo 4. Quando por algum motivo nunca muda de compasso. a roda de água se rompe, Mas tão igual sem fadiga, outra máquina se escuta: mal deve ser de operário; agora, de dentro do homem; ela é por demais precisa outra máquina de dentro, para não ser mão de máquina, imediata, a reveza, a máquina independente soando nas veias, no fundo de operação operária. de poça no corpo, imersa. De máquina, mas movida Então se sente que o som por uma força qualquer da máquina, ora interior, que a move passando nela, nada possui de passivo, regular, sem decrescer: de roda de água: é motor; quem sabe se algum monjolo se descobre nele o afogo ou antiga roda de água de quem, ao fazer, se esforça, que vai rodando, passiva, e que êle, dentro, afinal, graçar a um fluido que a passa; revela vontade própria, que fluido é ninguém vê: incapaz, agora, dentro, da água não mostra os senões: de ainda disfarçar que nasce além de igual, é contínuo, daquela bomba motor sem marés, sem estações. (coração, noutra linguagem) E porque tampouco cabe, que, sem nenhum coração, por isso, pensar que é o vento, vive a esgotar, gôta a gôta, há de ser um outro fluido o que o homem, de reserva, que a move: quem sabe, o tempo. possa ter na íntima poça.
  • 45. Análise: O poema é utilizado para discutir a dinâmica e a divisão do trabalho na Organização Clássica do Trabalho . A poesia é uma alternativa sensível, artística e criativa para tratar um tema sempre abordado de forma muito técnica. Através de O Relógio , é possível proporcionar um conhecimento e uma vivência da organização do trabalho de forma sensível e muito envolvente.
  • 47. João Cabral de Melo Neto - Rua da Aurora João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife e faleceu no Rio de Janeiro. Membro da Academia Brasileira de Letras, o poeta recebeu o Prêmio Luiz de Camões, o mais importante concedido a escritores da Língua Portuguesa. A escultura apresenta João Cabral, na rua da Aurora, sentado em um banco de praça em gesto contemplativo. Sobre a perna segura um livro aberto em seu poema que fala do rio Capibaribe: o Cão sem Plumas . Estranhamente, João Cabral escreveu um poema sobre a Aspirina, que tomava regularmente, chamando-a de "Sol", de "Luz" De fato, desde sua juventude João Cabral tomava de três a dez aspirinas por dia. Em entrevista à "TV Cultura", certa vez, ele contava que boa parte da inspiração (inspiração sempre cerebral) provinha da aspirina, que a aspirina o salvava da nulidade! João Cabral de Melo Neto não compareceu a nenhuma reunião da Academia Pernambucana de Letras como acadêmico, nem mesmo a sua posse. Nulidade:Qualidade do que é nulo,falta total de valor, de talento;pessoa sem competência,falta de validade.
  • 49. 1. (UFV) Leia atentamente o poema abaixo, de Assinale a alternativa que NÃO traduz uma João Cabral de Melo Neto: leitura possível do poema acima: A educação pela pedra (A) O poeta apreende da pedra a própria vivência na vida agreste do Sertão: de Uma educação pela pedra: por lições; austeridade, resistência silenciosa e sempre para aprender da pedra, freqüentá-la; capaz de dar lições de vida e de poesia. captar sua voz inenfática, impessoal (B ) Os versos metalingüísticos revelam a (pela de dicção ela começa as aulas). própria poética cabralina: concreta, A lição de moral, sua resistência fria impessoal, concisa, embora profundamente ao que flui e a fluir, a ser maleada; social. a de poética, sua carnadura concreta; (C) Ao partir do pressuposto de que a pedra é a de economia, seu adensar-se compacta: muda, e, portanto, não ensina nada, o poeta lições de pedra (de fora para dentro, suscita uma reflexão sobre a situação cartilha muda), para quem soletrá-la. educacional precária no Nordeste. (D ) O eu lírico também apreende da pedra os Outra educação pela pedra: no Sertão próprios versos enxutos, num esforço de (de dentro para fora, e pré-didática). dissecação de quaisquer sentimentalismos. No Sertão a pedra não sabe lecionar, (E ) No poema, de intensa economia verbal, a e se lecionasse não ensinaria nada; pedra faz-se metáfora da paisagem do lá não se aprende a pedra: lá a pedra, Sertão, que entranha a alma , e espelha o uma pedra de nascença, entranha a alma. fazer poético do autor pernambucano. (MELO NETO, João Cabral de. A educação pela pedra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. p. 21.) 1-C
  • 50. 3. (UFV) Leia com atenção as seguintes 2.(FDV) O poema que dá o título da obra A 2.(FDV) afirmações a respeito da obra A Educação educação pela pedra apresenta tais pela Pedra, de João Cabral de Melo Neto: características, com exceção de: I. Neste livro, o engenheiro-poeta extrai dos engenheiro- (A) reflexão metalingüística; motivos nordestinos e espanhóis a matéria (B) elaboração formal; bruta para a construção dos versos (C) lirismo sem sentimentalismo; pautados pela discursividade lógica da (D) individualismo subjetivista; sintaxe, despoetização e anti-musicalidade anti- (E) construção arquitetônica do verso. recursos intensamente utilizados na literatura contemporânea. II. A temática, principalmente centrada em motivos nordestinos, é utilizada pelo autor como imitação do romance social dos anos 30; daí a proposta de aprendizagem de uma poesia mais engajada e popular, em linguagem menos complexa. III. No livro, como em grande parte da poesia da modernidade, são constantes os poemas metalingüísticos, expressivos da tentativa do poeta de apreender seu próprio processo de construção poética, e extrair lições da realidade sua e da própria linguagem. É CORRETO apenas o que se afirma em: 2- D (A) I. (B ) I e II. (C) I e III. D ) II. (E ) III. 3- C
  • 52. João Cabral de Melo Neto alcançou sem dúvida um lugar de destaque na literatura Brasileira, respectivamente, sendo hoje um dos grandes nomes da poesia Brasileira. Mergulhar nas obras de João Cabral é uma tarefa difícil, mas, muito atraente. Difícil porque se trata de mergulhar nas palavras de um poeta com o mais alto nível de rigor, no seu trabalho de linguagem poética, que exige de quem lê os seus poemas, uma atenção e um cuidado profundo. Atraente porque é um dos maiores poetas da língua portuguesa e suas obras merecem sempre uma leitura e releitura apaixonadas. João Cabral, naturalmente, conduz a poesia a um limite quase inalcançável, nesse trabalho intenso de linguagem temos uma poesia elaborada através de um trabalho de profundamente rigoroso, racional e próprio para concepção (um modo de ver único), poesia de construção , de um pedreiro e engenheiro" se inspirando na aridez geográfica e humana do Sertão, e sempre na busca da justiça, quer seja social ou humana, quer seja a justiça sintática da palavra. Afinal, ele soube determinar o fato, de que para fazer a crítica da realidade, é preciso ao mesmo tempo, fazer a crítica do material com que se investiga essa mesma realidade, ou seja, a palavra, a linguagem. O poeta perante o mundo (ou o seu mundo ), perante a palavra, perante o poder da palavra , sempre com um objetivo: FAZER, MOSTRAR SUA ARTE.SUA REALIDADE!
  • 54.
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  • 58. Site Releituras- Resumos biográficos e bibliográficos: http://www.releituras.com/joaocabral_bio.asp Releituras- Site Best Western Manibu Recife: http://www.hotelmanibu.com.br/infoturisticas_poesia.html Site Brasil Escola- http://www.brasilescola.com/literatura/joao-cabral-melo-neto-sua-engenhosidade-poetica.htm Escola- http://www.brasilescola.com/literatura/joao-cabral-melo-neto-sua-engenhosidade- Site Literatura Online- http://www.graudez.com.br/literatura/modernismo.html Online- Site Algo Sobre- http://www.algosobre.com.br/biografias/joao-cabral-de-melo-neto.html Sobre- http://www.algosobre.com.br/biografias/joao-cabral-de-melo- Site UOL Educação- http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u573.jhtm Educação- Site Jornal de Poesia- http://www.revista.agulha.nom.br/joao.html Poesia- Site Portal São Francisco- http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/joao-cabral-de-melo-neto/joao-cabral-de- Francisco- http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/joao-cabral-de-melo-neto/joao-cabral-de- melo-neto- melo-neto-2.php Passei Web-http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/banco_de_questoes/portugues/a_educacao_pela_pedra Web- Jornal "Folha de São Paulo'' ( Edição E1- Quarta-feira,8 de Junho de 2011) E1- Quarta- Livro João Cabral de Melo Neto - Morte e Vida Severina (Editora Alfaguara)
  • 59. Nome: Suany Neto Roberto N°: 31 Nome: Ingrid Geovana Vallin N°: 19
  • 60. Nome: Matheus Iohan Muniz N°: 23 Nome: Yuri César de Almeida Nº: 36