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RESUMO         Estudar a obra de Marçal Aquino é lançar um olhar sobre um gênero com grandeaceitação de público, mas que a...
SUMÁRIO Introdução...........................................................................................................
Introdução      Meu contato com a obra de Marçal Aquino começou em 2002, e coincidiu com olançamento de O Invasor. Vestibu...
trabalho mais recente como roteirista foi Eu Receberia as Piores Notícias de seus LindosLábios, adaptado de seu romance la...
de morte”, a preparação de um crime encomendado, as técnicas utilizadas nos ataques,entre outros aspectos. Com isso, Caval...
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jornalística que o autor fez na década de 80. Na entrevista 1 feita para o presente trabalho,Marçal contou como teve este ...
da esposa é justamente Alfredão, melhor amigo do traidor, após uma discussão, em queMúcio sugere que ele o deixe fugir. Al...
O Invasor narra a história de Ivan – o narrador, em primeira pessoa -, Alaor eEstevão, sócios de uma construtora. Após rec...
entrega à polícia, contando com detalhes como haviam planejado o assassinato deEstevão, o envolvimento de Alaor e de Paula...
Elaine se arrepende e, ao encontrar o namorado morto, decide se vingar do pai. O livroacaba com ela armada, chegando ao es...
Capítulo 2. A tipologia do pistoleiro       Em seu trabalho de pesquisa, Peregrina Cavalcante (2003) detalha o envolviment...
se define só como matador. O roubo, prática marginalizada pelo pistoleiro                     tradicional, é integrada ao ...
•   Por contarem com proteção dos mandantes – no caso dos pistoleiros tradicionais –       costumam arriscar a vida por se...
chega a intimidar seus contratantes, mas faz questão de mostrar que eles estão em umambiente desconhecido.                ...
Seu modo de “invasão” à empresa e à vida do protagonista vai se moldando deforma bem arquitetada. Marçal Aquino trabalhou ...
de Brito, o protagonista da trama, sabemos de seu passado e de sua relação amorosacom Marlene, que acabou antes da missão ...
disso (…) Vivendo de bicos como estava, Brito calculou que precisaria de                    pelo menos dois anos para junt...
a culpa não é uma carga comumente carregada por estes matadores: “A maioria dosmatadores que entrevistei me contou que não...
histórias em que dois sujos se amam com pureza”. Minha intenção era justamente falarde um romance em meio a um clima total...
Capítulo 3. O Pistoleiro como função narrativa      Para entender melhor a função que estes personagens pistoleiros têm na...
dos tipos ideais propostos por Propp no enredo da trama: temos o Falso Herói, Alaor, queo tempo todo parece estar “do lado...
vice-versa).      Vemos que nos dias seguintes ao crime, a empresa passa tanto pela investigaçãopolicial quanto por uma pr...
Anísio, resolve ir para o combate, procurando a polícia para contar o crime.Partida: Herói sai para enfrentar os desafios....
mais simples – se comparado a Brito, de Cabeça a Prêmio – sua função na trama vaimuito além de apenas eliminar um obstácul...
g r a ç a s a e s s a esquematização da qual faz parte. Essa coerência                          obtida pela personagem a f...
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Dito isso, algumas questões que ficam para um futuro aprofundamento são: qual overdadeiro papel – e poder – da Crítica Lit...
Considerações finais      Nesta breve pesquisa vimos algumas das características de personagens da obrado escritor paulist...
acadêmica de mais fôlego.                            36
Referências bibliográficasAQUINO, Marçal. As Fomes de Setembro. São Paulo: Estação Liberdade, 1991.________. Cabeça a prêm...
Anexo I – Entrevista com Marçal Aquino      Para a elaboração desta monografia, desde o início havia a ideia de trabalhar ...
gênese do conto Matadores, meu primeiro texto a abordar o mundo dos pistoleiros, queescrevi em 90/91. Todos os matadores q...
Já o Brito é muito mais humanizado. O leitor acompanha a história dele com aMarlene, se sensibiliza... Como foi construir ...
naquilo que fazem. Para eles, aquilo é apenas um trabalho. Concordo que essespersonagens atuam na linha de frente, como ex...
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Faroestes Urbanos - Thiago Kaczuroski

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Monografia de conclusão do Curso de Especialização em Literatura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Cogeae) sob a orientação da Prof.ª Doutoranda Geruza Zelnys de Almeida.

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  1. 1. THIAGO KACZUROSKI FAROESTES URBANOS: A TIPOLOGIA DO PISTOLEIRONA OBRA FICCIONAL DE MARÇAL AQUINO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM LITERATURA COGEAE PUC-SP SÃO PAULO 2013
  2. 2. THIAGO KACZUROSKI FAROESTES URBANOS: A TIPOLOGIA DO PISTOLEIRONA OBRA FICCIONAL DE MARÇAL AQUINO Monografia de conclusão do Curso de Especialização em Literatura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Cogeae) sob a orientação da Prof.ª Doutoranda Geruza Zelnys de Almeida. SÃO PAULO 2013 1
  3. 3. DEDICATÓRIA A José Geraldo Ferreira de Moura Campos, que me ensinou, entre um universo de coisas, a amar e respeitar os livros. 2
  4. 4. AGRADECIMENTOSA José Geraldo e Maria Therezinha, sem os quais eu não teria chegado nem perto dasconquistas que tive até hoje;A meus pais, Maria e Antonio, pelo carinho e apoio;A Cecília Lara, companheira querida, com quem divido a paixão pelas palavras, a casa, avida;A Marçal Aquino, pela inspiração, atenção e generosidade.Às coordenadoras, professores e colegas do curso, pelas interessantes trocas deconhecimentos e experiências ao longo dos últimos dois anos;À orientadora, Geruza Zelnys, pela paciência e prontidão nos momentos de angústiasacadêmicas. 3
  5. 5. Quando entrares na violência vai até o fim; se não aguentas, não entres. Agostinho Silva 4
  6. 6. RESUMO Estudar a obra de Marçal Aquino é lançar um olhar sobre um gênero com grandeaceitação de público, mas que ainda tem pouca entrada na Academia: a LiteraturaPolicial. Em tempos como o que vivemos, na cidade de São Paulo, uma visão sobre aliteratura que trata de temas que estão tão próximos - a escalada da violência, acorrupção invadindo diversos setores da sociedade - se faz muito importante enecessária. Neste trabalho, será feita a análise de três personagens da obra do escritor: Anísio,personagem chave da novela O Invasor, de 2002, e a dupla Albano e Brito, este últimoprotagonista do romance Cabeça a Prêmio, de 2003, a fim de detectar o processo decriação do autor. Tendo como base as edições originais das obras acima citadas e utilizando ominucioso trabalho de pesquisa da socióloga Peregrina Cavalcante, Como Se Fabrica UmPistoleiro, de 2003, pretendo mostrar como é o processo de criação e como se encaixamnas obras personagens tão singulares, que tem em comum o ofício de matadores e quese encarregam de um papel ficcional muito peculiar: o de eliminar outros personagens datrama.PALAVRAS-CHAVE: Marçal Aquino, Literatura Policial, personagem, matador, pistoleiro. 5
  7. 7. SUMÁRIO Introdução............................................................................................................................7Capítulo 1. Quem é Marçal Aquino?...................................................................................11 1.1 A origem dos pistoleiros na obra de Marçal Aquino............................................12 1.2 O Invasor x Os Invadidos..................................................................................14Capítulo 2. A Tipologia do Pistoleiro...................................................................................18 2.1 Anísio..................................................................................................................20 2.2 Os invadidos.......................................................................................................22 2.3 A entrada na pistolagem.....................................................................................23 2.4 Brito e Marlene...................................................................................................25Capítulo 3. O Pistoleiro como função narrativa..................................................................27 3.1 Anísio e sua função............................................................................................27 3.2 A função de Brito e Albano.................................................................................31 3.3 O Crítico como pistoleiro...................................................................................32Considerações finais...........................................................................................................35Referências Bibliográficas..................................................................................................37Anexo I – Entrevista com Marçal Aquino 6
  8. 8. Introdução Meu contato com a obra de Marçal Aquino começou em 2002, e coincidiu com olançamento de O Invasor. Vestibulando de jornalismo, me interessava por autores quefossem jornalistas e tivessem produções literárias de ficção e não-ficção. Desde então,acompanho a carreira do autor, com quem tive breves contatos em palestras e eventos delançamentos de suas obras e roteiros de cinema. Ao longo dos anos, fui percebendo traços que permeavam suas obras epersonagens que continham histórias e características semelhantes em seus contos eromances. Este trabalho é uma tentativa de revelar características de um tipo específicode personagens que aparece ao longo de sua escrita: os matadores de aluguel. Paulista de Amparo, Marçal Aquino se formou em jornalismo pela PontifíciaUniversidade Católica de Campinas em 1983. Desde 1985 atuou como repórter, redator eeditor de veículos de comunicação como A Gazeta Esportiva, O Estado de S.Paulo eJornal da Tarde. Ao longo da década de 1990, se dedicou à literatura, atuandoparalelamente como colaborador da revista Época e do jornal Folha de S. Paulo. Lançou livros de poesia (A Depilação da Noiva no Dia do Casamento, Abismos –Modos de Usar e Por Bares Nunca Antes Naufragados), literatura juvenil (O Mistério daCidade Fantasma, O Jogo do Camaleão, O Primeiro Amor e Outros Perigos, A Turma daRua Quinze e Coleção Sete Faces), mas é mais reconhecido por seus livros de literaturaadulta (O Invasor, Faroestes, O Amor e Outros Objetos Pontiagudos, As Fomes deSetembro, Miss Danúbio, Cabeça a Prêmio, Famílias Terrivelmente Felizes e EuReceberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios). Por ser jornalista, Marçal Aquino traz para a ficção a crueza e o realismo da crônicapolicial. Suas obras circulam pelo universo dos acertos de contas, das mortes porencomenda, das perseguições a criminosos, da corrupção e dos casos de amor proibidos,que geralmente acabam mal. A obra de Marçal Aquino é muito visual. Não por acaso, o autor se destaca tambémcomo roteirista de cinema e televisão, tendo adaptado para as telas alguns de seus livros,como os que serão estudados neste trabalho, além de Os Matadores (baseado em um deseus contos), O Cheiro do Ralo (adaptado da obra homônima de Lourenço Mutarelli),assim como criações originais, como Nina e a série para televisão Força Tarefa. Seu 7
  9. 9. trabalho mais recente como roteirista foi Eu Receberia as Piores Notícias de seus LindosLábios, adaptado de seu romance lançado em 2005. Apesar de premiada em diversas ocasiões, como em um concurso de contos doEstado do Paraná (em 1994, por Miss Danúbio), na V Bienal Nestlé de Literatura (em1991, por As Fomes de Setembro) e no Prêmio Jabuti (em 2000, por O Amor e OutrosObjetos Pontiagudos), a obra de Marçal Aquino tem pouca ou nenhuma entrada naAcademia, não existindo trabalho de peso sobre nenhum de seus livros. O presente trabalho busca trazer à tona as histórias e personagens de um autorainda em atividade, reconhecido por público e crítica por tramas bem elaboradas, de forteapelo visual, e que trata de questões como a violência e a fragmentação das grandescidades. Busca ainda valorizar a escrita de um autor ativo, peça importante no cenário daliteratura brasileira contemporânea. Em suas obras, Marçal Aquilo trabalha de forma literária um perfil de personagenscom uma tipologia muito distinta. Os pistoleiros têm uma profissão com traços sociaisbastante distintos, atuando em um campo marginalizado, que viola o senso comum deesferas jurídicas, sociais, morais. Estes tipos atuam como agentes de momentos deviolência que são determinantes para o andamento da narrativa nas obras. Assim, a partir do tema proposto no trabalho, algumas questões acerca do enredoe das personagens de Cabeça a Prêmio e O Invasor serão discutidas: os pistoleiros sãoos criadores das situações de violência presentes na obra, ou apenas catalisadores deum ambiente permeado por inúmeras situações de corrupção e impunidade? Como é feitaa construção de personagens – ainda que coadjuvantes em alguns casos – tão essenciaispara o enredo? Com quais características uma personagem com uma função tãoespecífica (eliminar peças da narrativa) é concebida? Para isso, será necessária uma fundamentação teórica que alicerce essasreflexões. Em 2003, a pesquisadora cearense Peregrina Cavalcante publicou o maiscompleto estudo sobre a pistolagem no Brasil. Como se Fabrica um Pistoleiro traça umapanhado sobre a gênese, os costumes e os agentes de um fenômeno muitocaracterístico do país: o das mortes por encomenda. Durante dois anos, a pesquisadora viajou pelos estados do Maranhão, Piauí eCeará, conversando com vítimas e autores de crimes de pistolagem, e produziu umdetalhado panorama sobre as causas, consequências e modus operandi destes agentesda violência. Sua obra passa por questões como a ética da pistolagem, o cotidiano dos “jurados 8
  10. 10. de morte”, a preparação de um crime encomendado, as técnicas utilizadas nos ataques,entre outros aspectos. Com isso, Cavalcante classificou três “tipos ideais” de pistoleiros: opistoleiro tradicional (subordinado a um coronel, espécie de patrão); o pistoleiro avulso(que aceita crimes por encomenda, sem vínculo com o mandante) e o pistoleiro bandido(que comete assassinatos e outros crimes, como sequestros, assaltos, estupros). Esta será a obra utilizada para justificar a construção das personagens, que serãoenquadradas nestes tipos de acordo com as características apresentadas na narrativa.Outros elementos expostos ao longo da construção do enredo apontam semelhanças como que foi pesquisado por Peregrina Cavalcante em sua pesquisa, e também serãoexpostos neste trabalho. Para que as características das personagens sejam afloradas e analisadas,algumas obras sobre a criação literária (principalmente de personagens) serão utilizadasna fundamentação do presente trabalho. Uma delas é Como Funciona a Ficção, do críticoe teórico inglês James Wood, que trata da criação das personagens, dos aspectos daempatia e da complexidade na caracterização dos mesmos e dos detalhes na narrativa –que podem ser a porta de entrada para a análise mais profunda dos tipos a seremanalisados neste trabalho. Também serão utilizadas livros sobre o papel da personagem nas narrativas, emespecial as análises de Vladimir I. Propp em A Morfologia do Conto Maravilhoso, além deobras que, se não citadas no texto, serviram como bases de leituras teóricas como APersonagem, de Beth Brait, Personagem e Antipersonagem, do Prof. Dr. FernandoSegolin, A Personagem de Ficção, de Antônio Cândido, Anatol Rosenfeld e Décio deAlmeida Prado, entre outros. No primeiro capítulo, Quem é Marçal Aquino, veremos a biografia e a produçãoliterária de Marçal Aquino e sua importância para o cenário da literatura brasileiracontemporânea. Também veremos uma entrevista com o autor sobre seu processo decriação e sobre características das personagens que serão analisadas no trabalho, a fimde esclarecer pontos sobre a trajetória dos mesmos em suas obras. O segundo capítulo, A Tipologia do Pistoleiro, trará a análise da obra sociológica dePeregrina Cavalcante, na qual apontaremos semelhanças e diferenças entre ospersonagens e os pistoleiros reais estudados pela autora. Também trataremos a funçãodestas personagens nas obras e uma característica muito singular: eles eliminam outrospersonagens da trama. O terceiro capítulo, A função do Pistoleiro, trará uma análise sobre as obras 9
  11. 11. estudadas e como as personagens influenciam seu desenvolvimento. Por fim, no quartocapítulo, O Crítico Pistoleiro, faremos uma reflexão sobre o papel deste pistoleiro e comoesta função de “seleção” do que permanece e do que sai de cena pode ser estendida aoutras áreas, como o ofício do autor e do crítico. 10
  12. 12. Capítulo 1. Quem é Marçal Aquino? Marçal Aquino nasceu em Amparo, interior paulista, em 28 de janeiro de 1958. Aos25 anos se formou jornalista pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, tendoatuado como repórter, redator e editor de veículos de comunicação como A GazetaEsportiva, O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde. Além de ter sido colaborador da revistaÉpoca e do jornal Folha de S. Paulo. A partir de 1985, quando se mudou para São Paulo, atuou em diversas editorias, ese aproximou em alguns momentos, principalmente nO Estado de S. Paulo e no Jornalda Tarde, da reportagem policial, algo que de certa forma marcaria seus trabalhos futuros. A estreia de Aquino na Literatura veio em 1984, com a edição independente do livrode poemas A Depilação da Noiva no Dia do Casamento. A poesia na carreira do escritorteria espaço em apenas mais um livro, Por Bares Nunca Antes Naufragados, publicadotambém de forma independente, no ano seguinte. Quatro anos depois, publicou seu primeiro livro infanto-juvenil, A Turma da RuaQuinze, sucesso de vendas, mas não lhe deu o reconhecimento que viria com trabalhosposteriores. Lança mais livros infanto juvenis até que em 1991 publica o volume de contos AsFomes de Setembro, vencedor do 5º Prêmio Bienal de Nestlé de Literatura, seu primeirolivro adulto. Foi neste ano que surgiu a parceria com o cineasta Beto Brant, que renderiasete filmes feitos pela dupla. Brant procurou Aquino pensando em adaptar o conto OnzeJantares para o cinema. O projeto não foi para a frente, mas nasceu aí a amizade. O ano de 1994 foi um divisor de águas na carreira de Marçal Aquino. Lançou MissDanúbio, também de contos, que foi premiado em um concurso no Paraná. Deste livrosaiu o argumento de Os Matadores, seu primeiro trabalho como roteirista e primeiro longaa ser lançado da parceria com Beto Brant, em 1997. Aquino decidiu então sair dasredações e se tornar um redator freelancer, para poder se dedicar à Literatura. Em 2000 veio o prêmio máximo da carreira do autor. Ele foi o vencedor dacategoria de contos do Jabuti, com O Amor e Outros Objetos Pontiagudos, que consolidousua carreira literária, afastando-o ainda mais do jornalismo. Em 2002 estreou o longa O Invasor, baseado em uma novela de mesmo nome, quedeu grande projetor a Marçal tanto em seu trabalho como escritor como de roteirista. O 11
  13. 13. filme foi premiado em diversos festivais pelo mundo e Aquino foi convidado para serconsultor do 4º Laboratório de Roteiros Sundance/RioFilme, a convite do SundanceInstitute, Utah, Estados Unidos – uma das principais entidades do cinema independentemundial. Desde então foram lançados outros livros e roteiros para o cinema e para atelevisão. Seu filme mais recente, Eu Receberia As Piores Notícias de Seus LindosLábios, baseado em seu romance homônimo, foi sucesso de crítica e público, trazendo aatriz Camila Pitanga em atuação memorável. Após a primeira temporada bem sucedida dasérie Força Tarefa, da Rede Globo, assumiu novos trabalhos como roteirista de televisão,sua principal atividade atualmente. Seu novo livro, Como Se o Mundo Fosse um BomLugar, um romance sobre uma família de criminosos de um bairro de São Paulo, temprevisão de lançamento para o fim de 2012. Herdeiro de mestres da literatura policial como Dashiell Hammett, James Ellroy,Lawrence Block, F.X. Toole (de quem é um dos tradutores no Brasil) e Rubem Fonseca, aliteratura de Marçal Aquino é marcada por climas tensos, a violência sempre presente efrases curtas e precisas. O amor, embora marque presença em diversas de suas obras, foge do clichê democinhos e mocinhas. Seus personagens, em sua maioria, são sujeitos que vivem àmargem, envolvidos com atividades ilícitas, e que têm dificuldade de se relacionar. Os matadores, tipo a ser analisado neste trabalho, são bastante presentes na obrade Marçal Aquino. Como este trabalho tem um foco específico em três destespersonagens, não analisarei todas as incidências de pistoleiros em sua obra. Mas umdestes casos merece destaque: o conto Matadores, escrito em 1991 e publicado em MissDanúbio, de 1994. Matadores têm diversos elementos que serão revisitados pelo autor nas duas obrasanalisadas neste texto – principalmente em Cabeça a Prêmio. Percebe-se nesta obra agênese de um personagem que aparecerá diversas vezes ao longo de sua carreira.Podemos considerar estes personagens do conto – que foi o primeiro do autor adaptadopor Beto Brant ao cinema, dando início à longa parceria – como proto-matadores,modelos que serão revisitados em obras seguintes.1.1 A origem dos pistoleiros na obra de Marçal Aquino O universo de Os Matadores surgiu durante um trabalho de investigação 12
  14. 14. jornalística que o autor fez na década de 80. Na entrevista 1 feita para o presente trabalho,Marçal contou como teve este primeiro contato com o mundo da pistolagem: “Tomeicontato com o universo dos pistoleiros de aluguel pela primeira vez nos tempos derepórter, no começo da década de 1980. Estava recolhendo material para um futuro livro-reportagem, que acabei não levando em frente. Dizia respeito ao assassinato de umamulher em Campinas por pistoleiros contratados no Paraguai pelo próprio marido damorta. A pesquisa me levou para a fronteira Ponta Porã-Pedro Juan Caballero e encontreilá um clima meio de faroeste que me interessou muito. Percebi que existia toda umamitologia por trás daqueles homens e resolvi investigar com a ficção. Essa foi a gênesedo conto Matadores, meu primeiro texto a abordar o mundo dos pistoleiros, que escreviem 90/91.” Ele afirma, porém, que seus personagens não são baseados em algum casoespecífico que viu em seu trabalho como repórter policial, mas sim criações puramenteficcionais: “Todos os matadores que aparecem na minha literatura são apenaspersonagens. Mas é evidente que uma ou outra característica vem do mundo real, dessasvivências que eu tive”, completa o autor. Isso posto, vejamos o enredo de Matadores: o conto narra a história de trêspistoleiros: Alfredão, Múcio e do narrador, que não tem o nome revelado. O narrador eAlfredão estão em uma tocaia, em um bordel frequentado por caminhoneiros na divisaentre Brasil e Paraguai. O narrador, novo no ofício, está em sua primeira missãoacompanhando Alfredão, capanga de confiança do empresário Turco. A todo tempo, elesrelembram Múcio, antigo parceiro de Alfredão, morto em uma emboscada em um quartode hotel no Paraguai. Alfredão conta sobre missões anteriores, sobre a perícia e aperspicácia de Múcio e lamenta não ter mais o parceiro a seu lado. Após um momento em que eles saem da boate e Alfredão vai ao banheiro e nãovolta, o narrador descobre que o parceiro acaba de ser assassinado e agoniza sobre umaprivada. Ele então se recorda de que, quando estava vigiando Múcio, em sua primeiramissão a mando de Turco, suspeitava que seu pistoleiro estava saindo com sua mulher. O conto passa então a narrar as origens de Múcio, como se tornou destemido apósser aprendiz de um famoso matador da região, e de como se envolveu com a esposa dopatrão, até o momento em que vão para o derradeiro quarto de hotel. Então, o leitor descobre que o matador enviado por Turco para dar cabo do amante1 Todas as falas de Marçal Aquino, não assinaladas com a fonte ao longo deste trabalho, sereferem à entrevista concedida para nossa pesquisa e que se encontra na íntegra como Anexo aofinal. 13
  15. 15. da esposa é justamente Alfredão, melhor amigo do traidor, após uma discussão, em queMúcio sugere que ele o deixe fugir. Alfredão fala que isso não adiantaria, e que foi enviadopara este serviço justamente para provar ao patrão que era de confiança. Mata então oamigo com três tiros – algo incomum para um atirador exímio, que resolvia suas missõescom apenas uma bala. Este conto, embora escrito mais de dez anos antes dos textos que serãoanalisados aqui, já apresenta diversos elementos sobre o modo de vida e a forma comoagem estes personagens. E traz ainda um recurso narrativo que marcaria diversos dostextos de Marçal Aquino. Como é de praxe na literatura policial, o leitor deve ser surpreendido. EmMatadores, Marçal trabalha com maestria este recurso, induzindo o leitor a pensar que onarrador, novo no esquema de Turco, havia matado Múcio para tomar seu lugar, quandopercebe que foi o parceiro, que lamentava seu assassinato, o verdadeiro autor dos tiros. Este conto também mostra alguns detalhes do modo de atuação dos matadoresdas áreas mais afastadas dos grandes centros: trabalham sempre em duplas, fazendoelaboradas tocaias para aprender a rotina de seus alvos, para que os serviços sejam osmais rápidos e sem imprevistos. Há também um traço bastante comum entre estes personagens: o de envolvimentocom prostitutas ou mulheres mais velhas das regiões em que estão fazendo algumserviço. Mulheres que fazem poucas perguntas e que de uma hora para outra serãoabandonadas sem nenhum tipo de contato posterior. Este conto, porém, fala sobre as origens de um dos matadores, algo que seriapresente em Cabeça a Prêmio. Também humaniza o narrador, nos diálogos com oparceiro e com uma das prostitutas, nos quais o leitor consegue ver que por trás de umassassino existe um ser humano semelhante em alguns aspectos a muitos de nós.1.2 O Invasor x Os Invadidos Embora tratem de temas semelhantes – o trabalho de matadores de aluguel – asduas obras têm diferenças marcantes, que serão exploradas a seguir.O Invasor – Enredo 14
  16. 16. O Invasor narra a história de Ivan – o narrador, em primeira pessoa -, Alaor eEstevão, sócios de uma construtora. Após receberem uma proposta, via um ex-colegaque agora é assessor em Brasília, de fazerem um negócio fraudulento, os sócios entramem conflito. Ivan e Alaor querem participar do esquema, que lhes trará muito dinheiro,algo que não recebiam sendo sócios minoritários. Estevão não quer e ameaça desfazer asociedade. Ivan e Alaor decidem então contratar Anísio, um matador de aluguel, indicado porum amigo de Alaor, Norberto. O livro começa com o encontro dos três para acertar onegócio em um bar da periferia de São Paulo. O preço, avaliado inicialmente em 20 milreais, dobra para que o serviço seja feito com rapidez e para que Estevão sofra antes demorrer, condição pedida por Alaor. Mesmo tendo apenas 10 mil reais em dinheiro, decidem confirmar o negócio, queserá efetuado nas próximas horas. Para comemorar, Alaor leva Ivan a um bordel, e eledescobre que o parceiro era o dono do lugar, um negócio que ele não conhecia. Ivan passa então a se sentir culpado, e tenta desistir, mas é advertido pelo parceirode que não havia mais volta. Anísio cumpre a promessa e Estevão e sua mulher sãoencontrados mortos a tiros no porta-malas de seu carro. A polícia começa uma investigação, e o sentimento de culpa de Ivan aumenta acada momento. Alaor tem medo que o parceiro levante suspeitas e tenta manter osnegócios da empresa funcionando normalmente. É quando Anísio aparece na sede daconstrutora para pressionar os dois a pagarem a segunda parte. Aos poucos, ele vai seinfiltrando cada vez mais na vida dos personagens, começa a trabalhar como segurançada companhia e a se envolver com Marina, filha de Estevão, agora herdeira majoritária daconstrutora. Ivan, cujo casamento está em ruínas, se envolve com Paula, jovem estudante queconhece em um bar. A culpa de Ivan somada à pressão de Anísio fazem com que oprotagonista chegue a seu limite, planejando uma fuga com Paula para o nordeste. Eleentão decide desfalcar a empresa e ir embora de São Paulo. Armado, vai ao apartamentode Paula e não a encontra como planejado, deduz que Anísio já sabia do golpe e haviasequestrado a garota. Ao ver uma conta de celular presa à geladeira, descobre que Paulaconversava diariamente com Alaor, ou seja, fazia parte do esquema. Desnorteado, vai ao bordel tentar falar com Alaor, mas ao chutar uma porta, quebrao pé. Dentro da sala estava Norberto, que não o atende. Sai do bordel e sofre umacidente de trânsito, que inutiliza seu carro. Toma então uma medida desesperada: se 15
  17. 17. entrega à polícia, contando com detalhes como haviam planejado o assassinato deEstevão, o envolvimento de Alaor e de Paula e dá detalhes da negociação com Anísio. O delegado então o coloca numa viatura e vai à casa de Marina, onde todosestariam comemorando o aniversário de Anísio. Ao chegar lá, Ivan é surpreendido aosaber que o delegado era Norberto, que o entrega a Alaor e Anísio, ordenando que eles“cuidem deste problema”.Cabeça a Prêmio – Enredo O livro conta a história dos negócios ilícitos da família Menezes, comandada pelosirmãos Mirão e Abílio. O esquema envolve eliminar desafetos, papel dos matadoresAlbano e Brito (o protagonista da história, cuja perspectiva, ainda que na terceira pessoa,norteia a trama). Muito ativos no tráfico de drogas em parceria com o cartel de Cali, osMenezes têm um piloto, Dênis. Sedutor, acaba se envolvendo com Elaine, filha de Mirão. Abílio – único personagem homossexual presente nas duas tramas – descobre oenvolvimento da sobrinha e do piloto e passa a chantageá-lo. Ele então decide armar umgolpe para fugir com Elaine e rouba um avião carregado de cocaína, que é vendido noParaguai. Enquanto isso, Brito e Albano estão em uma tocaia para matar um líder sindicalista.Durante o período, se envolvem com mulheres da região, o que serve de estímulo para aslembranças de Brito com Marlene, a mulher de quem havia acabado de se separar emSão Paulo, antes da viagem. Ao saber da fuga do piloto e de que o irmão estava acobertando o romance dasobrinha, Mirão espanca Abílio, que é hospitalizado. Brito e Albano são obrigados acancelar a tocaia ao sindicalista e retornam à fazenda para pegar as coordenadas deonde estariam o piloto e Elaine, agora parte do Sistema de Proteção a Testemunhas daPolícia Federal. Após comprarem a informação de um contato dos Menezes em Brasília, os doismatadores seguem então para o esconderijo. Antes, conversam com Abílio e este pedepara que eles matem a sobrinha, como vingança do irmão. Sabemos então que ele foi oresponsável pelo assassinato do irmão mais velho, Nicanor, que o humilhava por conta desua homossexualidade. Elaine, grávida, decide abandonar o esconderijo da polícia. Neste momento, Albanoe Brito rendem o policial que fazia a guarda da casa e conseguem assassinar Dênis. 16
  18. 18. Elaine se arrepende e, ao encontrar o namorado morto, decide se vingar do pai. O livroacaba com ela armada, chegando ao esconderijo do pai, já muito debilitado, planejandosua vingança. Antes da análise dos personagens, vamos às características do trabalho dePeregrina Cavalcante, que servirá como base de comparação entre as obras. 17
  19. 19. Capítulo 2. A tipologia do pistoleiro Em seu trabalho de pesquisa, Peregrina Cavalcante (2003) detalha o envolvimentoque teve durante seus anos de trabalho junto aos pistoleiros. Algumas características doque ela elenca como Tipos Ideais serão minuciosamente destrinchadas ao longo dovolume, em especial na terceira parte de seu livro: O Pistoleiro: as múltiplas faces elugares. No capítulo 26, Esboço de uma leitura do tipo ideal de pistoleiro, a autora detalhaos três perfis encontrados por ela: O pistoleiro tradicional: tipo que está ligado a “um dono”, a “um patrão”, sem autonomia para praticar crimes de pistolagem se não houver a ordem desse mesmo patrão. A ligação ocorre por laços de fidelidade, existindo entre as partes uma troca de favores e um rígido código de honra, justificando assim quaisquer “serviços arbitrários”. O pistoleiro tradicional jamais se ausenta dos limites geográficos do patrão, permanecendo assim “cativo” a esse espaço, que, na maioria das vezes, é a fazenda. É interessante reafirmar que esse tipo, segundo meus informantes, encontra- se em extinção, por causa da “modernização” das estruturas dos poderes locais. (CAVALCANTE, 2003, p. 155.) Este tipo ideal, como veremos adiante, condiz com o modus operandi dospersonagens de Cabeça a Prêmio. Há, ainda,O Pistoleiro avulso: tipo caracterizado pala autonomia, funcionando como um prestador deserviço, sem ligação a nenhuma hierarquia de mando. É dono da sua força de trabalho, e é o seupróprio patrão. Encara a prática da pistolagem como uma profissão. Seu código de honra estácircunscrito ao que chama de “fazer o serviço bem feito”, não existindo laços de fidelidade com umpatrão da hora, com um proprietário. O seu corpo é móvel e nômade, em deslocamento constante,não se fixando, assim, em um só lugar. A sua trajetória espacial é determinada pela procura deseus serviços. Existe na vida do pistoleiro avulso um outro agente, o intermediário; é por ele quese arma a sua teia de relações de trabalho. (CAVALCANTE, 2003, p. 156.) Este tipo claramente se relaciona ao personagem Anísio e seu modo de atuar. Por fim, há O pistoleiro bandido: tipo com atividades múltiplas: mata, rouba, assalta, sequestra, estupra. Ele é um agente de práticas “marginais” múltiplas, não 18
  20. 20. se define só como matador. O roubo, prática marginalizada pelo pistoleiro tradicional, é integrada ao comportamento do pistoleiro bandido. A honra e o grupo em que atua são efêmeros, fazendo-se e desfazendo-se na velocidade do dia, no jogo das temporalidades e dos movimentos transitórios. É também chamado de “elemento”, “marginal”, “sem- vergonha”, “cabra ruim da peste”, “pervertido”, “crápula”. Faz parte das cenas das sociedades rurais e urbanas. O pistoleiro bandido envolve-se constantemente com a rendosa “profissão” de assaltantes de bancos e de cargas de caminhão. (CAVALCANTE, 2003, p. 156). Embora este tipo ideal não se relacione com os personagens estudados nopresente trabalho, é talvez o tipo mais comum que vem à mente da opinião públicaquando se fala em pistoleiro, remontando uma imagem dos bandos de cangaceiros dosertão brasileiro, passando por grupos que atuam hoje em cidades pequenas do norte enordeste do país, organizando roubos simultâneos a diversas instituições do lugar, até oslatrocidas que vemos diariamente nos noticiários. Além dos tipos tradicionais, Cavalcante organiza em seu livro uma série dequalidades que seriam comuns aos agentes da pistolagem, e que, veremos, muito têm aver com os personagens analisados. No mesmo capítulo 26, ela elenca essas características, coletadas de suasconversas com mandantes, vítimas e pistoleiros: • Sua atuação está atrelada a poderosos mandantes de crimes; • São conhecidos por cabras, capangas ou guarda-costas; • Atuam nas cidades e nas fazendas; • São indivíduos que matam por dinheiro; • Não são homens de lutar peito a peito, nem para tiroteios. São perigosos, traiçoeiros, astutos e covardes; • Atuam sempre em tocaia, para conseguirem evadir-se das cenas dos crimes com rapidez, por isso precisam ser exímios motoristas ou pilotos de motocicletas (veículo muito utilizado hoje em dia por conta da agilidade, o que facilita escapar de cercos após os crimes); • Premeditam os crimes, geralmente escolhendo um local favorável a fugas. Usualmente essa escolha é feita e informada ao mandante, que pode ajudar ou não na escolha da melhor ocasião por conhecer a rotina da vítima; • Ingressam no mundo da pistolagem geralmente ainda jovens, muitas vezes depois de cumprir pena por algum crime; 19
  21. 21. • Por contarem com proteção dos mandantes – no caso dos pistoleiros tradicionais – costumam arriscar a vida por seus patrões e serem determinados: quando um serviço é dado, não há desistência. E ficam comprometidos com o mandante até o assassinato ser efetuado; • A causa principal do êxito na prática é a impunidade: como geralmente os mandantes são pessoas influentes na política ou na economia local, os crimes não são investigados com rigor, o que faz com que após algum tempo o crime seja arquivado e o pistoleiro esteja apto a atuar novamente. Essas características encaixam-se perfeitamente na atuação de Anísio, Albano eBrito. Embora em ambientes diferentes, a atuação e vínculos são bastante semelhantesao que Cavalcante encontrou em sua pesquisa. Na visão de Marçal Aquino, os personagens também têm características distintas,que condizem com os tipos elencados pela pesquisadora: O Anísio, de O invasor, é aquilo que a polícia chama de “pé-de-pato”, um matador que em geral vive na favela e faz uma espécie de saneamento no lugar, eliminando aqueles que são indesejados pela comunidade. Trabalham sozinhos e de forma independente ou contratados por comerciantes, por exemplo. Brito e Anísio são aqueles profissionais que vi muito na fronteira, que na maioria dos casos trabalham para sob contrato para algum poderoso.2.1 Anísio O “invasor” da novela é caracterizado como um homem calculista, eficiente em seuofício, mas que não dá detalhes sobre sua vida. Era um homem atarracado, de braços fortes e mãos grandes. Tinha a pele bem morena, olhos verdes e usava o cabelo crespo penteado para trás. Uma dessas misturas que o Nordeste brasileiro produz com certa frequência. Ao contrário do que eu imaginava, ele não parecia ameaçador – embora houvesse dureza em seu jeito de olhar.” (AQUINO, 2002, p. 9) Diferente do que aconteceu em Os Matadores, não sabemos sobre o passado, asorigens, nem mesmo os crimes cometidos por Anísio. Em seu primeiro contato, ele não 20
  22. 22. chega a intimidar seus contratantes, mas faz questão de mostrar que eles estão em umambiente desconhecido. Eu nunca erro. Sei olhar para uma pessoa e dizer direitinho quem ela é e o que ela faz na vida. Tem a Ver com meu trabalho. (…) Dá só uma olhada no povo desse bar: tudo cara fodido, de pele manchada, cabelo ruim, faltando dente, unha preta. Qualquer um é capaz de dizer que vocês não são daqui.” (AQUINO, 2002, p. 9) Também, de forma sutil, sabe se impor para cobrar sua dívida ao saber que a pastasó continha 10 mil. Olha, normalmente eu não aceitaria esse tipo de coisa. Mas eu gostei de vocês. E, além do mais, foi o Norberto quem indicou e eu confio em quem ele confia. Vou aceitar isso aqui como um sinal. Espero que vocês não estejam pensando em me dar um calote. Que é isso, Anísio?, Alaor se mexeu na cadeira. A gente vai pagar direitinho. Tenho certeza que vão, Anísio colocou a pasta no colo.” (AQUINO, 2002, p. 16). Começa aí a sombra do personagem sobre a empresa e principalmente sobre Ivan.Curioso, ainda que seja um personagem chave que dá título ao livro, nas 126 páginas,Anísio tem apenas cinco diálogos com Ivan. Porém, seu nome aparece pelo menos umavez em cada um dos 15 capítulos da trama. Segundo Marçal Aquino, este recurso foi umasaída para manter o clima de suspense da narrativa. O Invasor começou a ser escritocomo livro, mas foi abandonado. A história acabou virando um roteiro de cinema, filmadopor Beto Brant, que insistiu para que o autor terminasse a história. O autor conta estapassagem da seguinte forma: Comecei a escrever O Invasor em 1997. No final daquele ano, mostrei o material pro Beto Brant, que em seus dois primeiros longas tinha usado minha literatura como matriz – Os Matadores (97) e Ação Entre Amigos (98). Ele me convidou pra adaptar a história, que, até aquele momento, cobria apenas um terço da narrativa. Todo o restante foi criado e resolvido diretamente no roteiro. Com isso, abandonei a novela; não via razão para contar de novo uma história que eu conhecia a fundo. Porém, o Beto me instigou a concluir o livro e a publicá-lo. Então voltei pro texto. E a solução foi aquela narrativa na primeira pessoa, que permitia ao narrador conhecer apenas uma parte da trama, aquela a que ele tinha acesso. Daí o Anísio pairar sobre o pesadelo vivido pelo narrador como uma sombra. 21
  23. 23. Seu modo de “invasão” à empresa e à vida do protagonista vai se moldando deforma bem arquitetada. Marçal Aquino trabalhou muito bem a situação de troca de favorese de gratidões de honra, algo que dita aspectos importantes da vida de matadores dealuguel. Aqui, além da situação de contratação para o serviço, há o chamado “rabopreso”, expressão usada algumas vezes ao longo da trama. Anísio sabe usar bem este artifício. Pede, por exemplo, para que Alaor e Ivanguardem o que sobrou do dinheiro pago por eles pelo assassinato, criando assim mais umvínculo. Depois, já trabalhando como segurança extraoficial da empresa, mata umadversário de negócios, para o qual os dois sócios deviam. Isso vai criando umaintrincada rede da qual Ivan não consegue se safar. Apesar de ser um matador, Anísio não aparenta a nenhum momento estar armado.Quando Ivan, antes da fuga, decide comprar um revólver para se proteger, tem a falsailusão de que poderia enfrentar o matador caso houvesse um confronto. A dominaçãoproposta por Anísio é muito mais intimidatória, psicológica, que física. A não ser nadescrição do assassinato, ele não pratica violência física em momento algum. Essa cordialidade e, de certa forma, seu carisma, faz com que conquiste espaço naempresa, principalmente após seduzir Marina. Aqui, há uma diferença em relação à outraobra a ser analisada: enquanto Brito e Albano são apenas funcionários, que ganham, sim,bastante dinheiro com suas operações, eles não apresentam ambições de poder.Parecem acomodados na função, que lhes causa certo prestígio no submundo. Não têm intenção, por exemplo, de assumir os negócios dos irmãos Menezes.Enquanto isso, Anísio quer o contrário. Encontra na situação de Alaor e Ivan umaoportunidade de ascender socialmente, fazendo parte da sociedade da empresa, depoisque Marina lhe dá direitos de administrar sua parte. Ao final, o leitor percebe que ele, quejá era o lado da força, da violência em um esquema de corrupção que envolvia até apolícia, sobe mais um degrau, deixando de ser apenas um matador contratado para setornar um “igual” a Alaor e Norberto.2.2 Os invadidos Se em O Invasor há uma “sombra” constante de Anísio, que domina as páginas dolivro e faz com que o protagonista, Ivan, fique em constante paranoia até o desfechotrágico, em Cabeça a Prêmio Marçal Aquino escancara a vida dos matadores: sabemoscomo atuam, como se dá a sua relação de trabalho com os irmãos Menezes e, no caso 22
  24. 24. de Brito, o protagonista da trama, sabemos de seu passado e de sua relação amorosacom Marlene, que acabou antes da missão principal da trama. Albano e Brito se encaixam na descrição de Peregrina Cavalcante para osPistoleiros Tradicionais: estão ligados a um dono – os irmãos Menezes -, e não praticamoutros crimes que não sejam ligados ao interesse do patrão. Eles estão sob um código dehonra - parte deste código é descrito num interessante diálogo que abre o décimoprimeiro capítulo: E freira? Albano refletiu por um instante. Ele havia falado que existiam duas espécies que não aceitava matar: padres e mulheres grávidas. Daí, riu. Diacho, Brito, por que alguém ia querer matar uma freira? Sei lá. Você faria? Acho que não. (…) Brito lembrou que Mirão nunca falava em matar. Preferia pedir que você cuidasse de uma pessoa. Ou que desse um jeito em alguém. Sutilezas de um homem que até o tamanho impedia de ser sutil. (AQUINO, 2003, p. 59) Os matadores tradicionais descritos por Peregrina Cavalcante dificilmente seausentavam dos limites geográficos da propriedade de seus patrões. Neste aspecto, ospersonagens de Cabeça a Prêmio se diferenciam: eles não ficam limitados às fazendasdos irmãos, porque o campo de atuação da quadrilha é muito amplo, o que geravadesavenças em diversos lugares. Por isso, moram cada um em sua casa e sãoconvocados para resolver os problemas, sendo enviados aonde quer que fossenecessária sua atuação. Ainda assim, esta é a categoria descrita pela pesquisadora quemais engloba o tipo de atuação destes personagens.2.3 A entrada na pistolagem O livro narra a entrada de Brito para o mundo da pistolagem, algo que nãoacontece em O Invasor. A passagem se dá no início do capítulo 11: Na boate em Campo Grande, quando se conheceram, Brito demorou um pouco para compreender o que ele estava pedindo. Albano o levou até a mesa e o apresentou aos irmãos Menezes (…) Beberam, conversaram sobre a vida, contaram piadas. Brito notou que Mirão dava as cartas. Abílio pouco falava (…) Tem um radialista no Paraná que está incomodando um amigo nosso. O Albano disse que talvez você possa ir até lá para cuidar 23
  25. 25. disso (…) Vivendo de bicos como estava, Brito calculou que precisaria de pelo menos dois anos para juntar aquela quantia. E entendeu na hora o que esperavam dele. Depois de expulso da polícia, nunca mais tivera um trabalho fixo. Vivia como dava (...)É um trabalho como outro qualquer. Você vai ver, Brito, dá até um certo prazer (AQUINO, 2003, p. 95-98). Ficamos sabendo então que o autor do assassinato descrito no começo do livro,em que um radialista é assassinado de madrugada, após telefonemas misteriosos paraum encontro onde seria presenteado com informações importantes sobre um político queele denunciava com frequência, fora o primeiro trabalho de Brito no mundo da pistolagem. Cavalcante também trata essa iniciação em seus relatos dos encontros compistoleiros. Segundo ela, geralmente a contratação de um pistoleiro se dava através deum teste na região do Jaguaribe, onde sua pesquisa se desenvolveu: O fazendeiro sempre perguntava e testava se o cabra era valente. Quando havia uma briga no vale do Jaguaribe, eles mandavam o sujeito ir e, se ele matasse o cabra mais valente da briga, tinha passado no teste” (CAVALCANTE, 2003, p. 123) A frieza e a coragem são elementos quase fundamentais para exercer o ofício dematador. A clareza na hora de executar um alvo, o treinamento necessário e a disposiçãode encarar uma situação adversa é o que faz um profissional bem sucedido neste meio. A noção de coragem, porém, é algo muito discutido no livro de Cavalcante. Parauns, o modo de operação dos pistoleiros é visto como covarde, já que agem semprepegando o alvo de surpresa: “O que não varia é a coragem, como capacidade de superaro medo, que vale mais que a covardia. A coragem é a virtude dos heróis e pode servirtanto para o bem quanto para o mal” (CAVALCANTE, 2003, p. 123). Essa coragem é discutida por conta do modo sorrateiro com que os pistoleirosaproveitam as falhas na segurança de seus alvos para dar o bote. Segundo apesquisadora, este tipo de abordagem tem origem nos conflitos de terra das regiõescentro-oeste e norte do Brasil, mais especificamente em terras onde os índios brigavamcom fazendeiros por propriedades. Dada a natureza caçadora dos índios, os ataqueseram feitos de surpresa, pegando os fazendeiros e seus capangas – mesmo que comtecnologia bélica superior – de surpresa. Esta “herança” indígena influenciou o modo deatuação da pistolagem nestas regiões. Quanto à afirmação final de Mirão, falando sobre o possível prazer da atividade,Marçal Aquino afirmou – na entrevista concedida para a elaboração deste trabalho – que 24
  26. 26. a culpa não é uma carga comumente carregada por estes matadores: “A maioria dosmatadores que entrevistei me contou que não contemplam a culpa naquilo que fazem.Para eles, aquilo é apenas um trabalho.” Outro ponto importante do trabalho dos pistoleiros é a discrição. SegundoCavalcante (2003, p. 163), “O pistoleiro é treinado para ser desconfiado, para falar poucoe ter atenção e, entre outras qualidades, deverá também ser anônimo, isto é, não informara sua procedência quando chegar a um lugar”. Este tipo de comportamento contrasta comum aspecto importante na tipologia dos pistoleiros: como são “cabras machos”, procuramsempre a companhia de uma mulher do local onde estão trabalhando, algumas vezesprostitutas que atendem nos locais onde precisam exercer um trabalho. Isso é visto em diversas passagens de Cabeça a Prêmio: quando estão de tocaiaem algum lugar, Albano e Brito sempre acabam por se envolverem com mulheres locais –o que de certa forma pode servir para conseguirem informações sobre as rotinas ecostumes daquela região, mas que também pode ser um ponto vulnerável em seusdisfarces. Porém, se tratam por nomes falsos quando estão na companhia de alguém quenão é da quadrilha: Brito atende por Chico e Albano é Mário, como ficamos sabendo noinício do capítulo 5.2.4 Brito e Marlene É justamente essa falha na discrição que faz com que Marlene, uma cafetina quemorava com Brito em um apartamento no centro de São Paulo, descubra a atividade donamorado e decida abandoná-lo. A ação se dá ao longo do capítulo 15, quando, apósMarlene encontrar um ex-cliente em um restaurante, Brito tem uma crise de ciúmes. Elesdiscutem em casa e ela pergunta se ele vai voltar lá para matar o homem. Ele entãopercebe que ela havia descoberto seu segredo: ele voltou de uma missão com uma fotode seu alvo no paletó. Dias depois, a mesma foto – de um empresário assassinado – estáem todos os jornais. Esta relação entre Brito e Marlene apresenta um ponto interessante na obra: comouma figura tão dura, capaz de assassinar pessoas a sangue frio, pode ficar tão abaladocom o fim de uma relação amorosa. Marçal Aquino conta que a relação entre estas personagens surgiu como forma deimaginar como se dá um romance entre pessoas com caminhos tão virtuosos: “Meuinteresse com o encontro Brito-Marlene em Cabeça a Prêmio era examinar uma daquelas 25
  27. 27. histórias em que dois sujos se amam com pureza”. Minha intenção era justamente falarde um romance em meio a um clima totalmente hostil, tanto na vida dele, como matador,quanto na dela, na condição de cafetina. Entre outras coisas, me fascinava descobrir oquanto vale para personagens desse tipo aqueles sentimentos prosaicos em qualquerrelação, como o ciúme e a dominação”. Cavalcante também relata as relações amorosas dos pistoleiros no capítulo 41,Pistoleiro: um homem apaixonado, no qual relata o constante envolvimento destesprofissionais com mulheres dos locais onde atuam. Segundo ela, o tipo pistoleiro causaum fascínio feminino, por conta da valentia, dos modos viris: A construção social da relação amorosa na pistolagem é revestida de significações que que expressam a ordem do masculino e do feminino dessa realidade. As mulheres são passivas, ordeiras, obedientes, monogâmicas; os homens são ativos, inquietos, migrantes, poligâmicos, reativando sempre os símbolos dos imaginários masculino e feminino dessa organização social. (CAVALCANTE, 2003, p. 217) Essas relações também são vistas pela pesquisadora como uma certa fraqueza.Muitas vezes as investigações policiais focam nas mulheres destes criminosos, já queelas sempre funcionam como um elo destes sujeitos com os locais dos crimes e não raroum criminoso, após cometer um assassinato, se esconde na casa de sua amante. Este expediente é utilizado na obra de Marçal Aquino: muitas vezes é por meio damulher que se chega ao criminoso. 26
  28. 28. Capítulo 3. O Pistoleiro como função narrativa Para entender melhor a função que estes personagens pistoleiros têm na trama,vamos recorrer às analises de Vladimir I. Propp que, em sua obra Morfologia do ContoMaravilhoso, elencou uma série de funções narrativas e papéis básicos das personagensdeste tipo de literatura. É evidente que O Invasor e Cabeça a Prêmio não são alegoriascomo as estudadas pelo teórico russo. Mas suas observações nos ajudam a esclarecer aconstrução de Anísio, Brito e Albano. Vendo os sete tipos criados por Propp (Agressor/Antagonista, Doador, Auxiliar,Princesa e Seu Pai, Mandante, Herói e Falso Herói), nos parece claro que tanto Anísioquanto os pistoleiros de Cabeça a prêmio se encaixam na primeira categoria. No caso deAnísio, isso se confirma, mas no caso de Cabeça a Prêmio, a trama dos papéis é umpouco mais complexa.3.1 Anísio e sua função Anísio, o matador de O Invasor é um daqueles vilões clássicos: de aparênciaintimidadora, que faz uso da violência para conseguir seus meios; é ardiloso, consegue,com carisma, criar situações que intimidam outros personagens da trama, principalmenteo herói – neste caso, Ivan: O antagonista é o responsável pela infelicidade do herói e pelos perigos que este deve enfrentar. Esse conflito ocorre por várias razões. O agressor é caracterizado pela sua crueldade e por fazer de tudo para conseguir o que almeja. A maioria das vezes, o vilão vai em busca do poder absoluto. É esse o motivo que faz com que o vilão deseje extinguir o herói, pois o agressor o vê como algo que pode impedi-lo de alcançar seu objetivo. (DAMIÃO, 2008, p.26-27.) Como vimos anteriormente no enredo de O Invasor, a presença de Anísio naconstrutora é a causa da infelicidade de Ivan. Suas táticas de aproximação intimidam oprotagonista, que se vê sufocado pela proximidade com o autor do assassinato de seusócio. E a busca do poder que Anísio promove inclui artifícios como deixar o dinheiro docrime em poder dos mandantes e até mesmo se envolver intimamente com a filha doassassinado. Fazendo um exercício de interpretação, podemos ver inclusive outros elementos 27
  29. 29. dos tipos ideais propostos por Propp no enredo da trama: temos o Falso Herói, Alaor, queo tempo todo parece estar “do lado” de Ivan, mas no final se revela criador de umcomplexo esquema de crimes e corrupção; temos a Princesa e seu Pai (Marina, filha dosócio assassinado); temos o Doador, Norberto, que é quem indica o matador, que nestecaso, funciona como o “elemento mágico” para que o herói resolva seu problema,eliminando seu obstáculo. É evidente que esta abstração funciona até certo ponto, já queo enredo da trama não funciona exatamente como um conto fantástico ou mágico, mas aestrutura da narrativa segue alguns pontos comuns à outras histórias, como veremos aseguir. Pegando como base uma aula dada pelo professor Ivan Paganotti, convidado docurso "Ciências da Linguagem: Práticas Midiáticas 2" – CJE-ECA-USP, em dezembro de2010, vemos que a estrutura de O Invasor, pelo menos em sua criação, tem elementosque correspondem à estrutura narrativa proposta por Propp. Paganotti desmembra asfunções narrativas das situações dramáticas de Propp em algumas situações:Situação Inicial: bem estar prévio/status quo inicial. Ivan é um empresário bem sucedido, embora esteja descontente com os rumos esua participação na empresa.Afastamento: saída para o desconhecido. A história começa com a ida de Ivan e Alaor a um bar na periferia, um ambienteestranho e hostil, no qual se encontrarão com Anísio, um pistoleiro.Proibição: Interdição. Local secreto, ato proibido. Os dois vão a um bar, em um ambiente escondido, contratar o assassinato de umsócio, conhecido deles desde a faculdade, com quem tem uma empresa. O crime deveser efetuado sem que as suspeitas caiam sobre eles.Transgressão: violação rompe a interdição. Após o acordo firmado, Ivan tenta desistir da ideia, mas é dissuadido por Alaor, jáque o acordo já havia sido firmado. Não há mais volta. Ivan já é um criminoso, ummandante de homicídio.Interrogatório: Investigação - antagonista procura informações sobre o herói (ou 28
  30. 30. vice-versa). Vemos que nos dias seguintes ao crime, a empresa passa tanto pela investigaçãopolicial quanto por uma procura de Ivan em saber se Anísio é mesmo confiável –principalmente depois que o matador se aproxima da rotina da empresa.Informação obtida. Aqui o enredo da trama começa a se distanciar da estrutura proposta porPaganotti. Ivan só descobrirá que Anísio está mancomunado com Alaor e Norberto no fimdo enredo.Ardil/Fraude: Vilão tenta ludibriar o herói. Agressor assume feições alheias.Estratégia de persuasão, mágica, fraude ou coação. A presença de Anísio na empresa é de total coação, mesmo que implícita.Enquanto conquista a confiança de funcionários – e da herdeira do assassinado -, oInvasor demarca seu território, deixando Ivan sem ação.Cumplicidade: Vítimas se deixam enganar ou ajudam involuntariamente o crime. Após o envolvimento de Anísio com a filha do assassinado, ela lhe dá carta brancapara que administre sua parte dos negócios, uma manobra que reforça a busca por podercitada anteriormente.Carência: Situação de precariedade, prejuízo/injustiça. Fragilidade (propicia a açãoda vilania). Desesperado com a ação de Anísio e a ruína de seu casamento, Ivan se deixaenvolver por uma jovem que conhece em um bar. Posteriormente vai descobrir que elaera apenas uma peça no esquema criado por Alaor.Mediação - Conexão: proposta de tarefa para o herói “Buscadores”/”Herói vítima”. É quando começa a parte final da trama, em que Ivan decide se armar e tentar fugirdo país após roubar uma parte do dinheiro da construtora. É então que ele “liga ospontos” e percebe que está sendo vítima de uma rede de interesses.Decisão: Herói decide enfrentar o desafio. É quando Ivan, ao achar que sua nova namorada havia sido sequestrada por 29
  31. 31. Anísio, resolve ir para o combate, procurando a polícia para contar o crime.Partida: Herói sai para enfrentar os desafios. Todo o trajeto da última parte da novela, em que quase é abordado pela polícia,depois provoca um acidente e vai ao bordel de Alaor para tentar esclarecer a história.Enfrentamento: Comprovação do mérito do herói com provação de capacidade. É quando Ivan, neste percurso todo já citado, precisa enfrentar diversos obstáculosaté optar pelo sacrifício de, mesmo confessando um crime com perspectiva de váriosanos de prisão, contar seu envolvimento no assassinato do sócio para fazer com queAlaor e Anísio também paguem pelo erro.Adjuvante: Artefato/Coadjuvante que dá “poder fazer” mágico ou tecnológico. Aqui podemos interpretar como duas opções: tanto o amigo que lhe vendeclandestinamente a arma, que serviria para um confronto com Alaor ou Anísio, quanto ocomputador com o qual ele faz a transferência financeira que lhe daria os meios deescapar do país.Deslocamento: Transpor distâncias longas, instantaneamente. Aqui não há exatamente uma forma mágica, o trajeto é feito, como já citado,enfrentando diversos contratempos.Combate: Herói enfrenta vilão. Aqui é talvez o ponto claro de que a história, embora seja estruturalmentetradicional, leva a um desfecho inesperado. No confronto com o vilão, Ivan acha que vaidesmantelar um esquema criminoso, mas não sabe que o delegado para qual acabou decontar todo o esquema é Norberto, aliado de Alaor e Anísio. Então em vez de umaposição favorável no combate, o herói aqui se encontra em maus lençóis.Estigma: Marca do combate. Signo de heroicidade. Aqui a marca do combate é implícita. Ivan está prestes a ser morto pela dupla –algo que não é contado no livro. Sua heroicidade de nada valeu. Com estes exemplos, vemos que embora a princípio Anísio pareça um personagem 30
  32. 32. mais simples – se comparado a Brito, de Cabeça a Prêmio – sua função na trama vaimuito além de apenas eliminar um obstáculo, no caso um dos sócios da empresa. Aquino também rebate essa afirmação de que os personagens são mais ou menoscomplexos: “É difícil falar que um personagem é mais complexo que outro. Acho que elestêm semelhanças, mas também grandes diferenças, em especial na razão pela qualfazem o que fazem: o Anísio em busca de ascensão social e o Brito apenas cumprindoum trabalho com o qual ganha a vida”. Em minha conversa com Aquino, questiono oporquê de pouco se saber sobre a vida e o passado de Anísio, suas aspirações, seuobjetivo por trás das ações – algo que é muito mais explícito em Cabeça a Prêmio.“Quando escrevo, tenho muito pouco previamente definido sobre os personagens, quevou descobrindo à medida que a narrativa avança. Foi assim com o Brito e com o Anísio.Eu diria que tudo que sei sobre eles está no livro.”3.2 A função de Brito e Albano No segundo romance analisado, embora Brito seja o protagonista e um dosmatadores, sua função é mais clara: eliminar desafetos de seu patrão, visãocompartilhada pelo autor na resposta citada anteriormente. Embora a construção de seupersonagem seja mais elaborada: acompanhamos sua história de amor, seu passado napolícia, detalhes de seu modus operandi, Brito funciona muito mais como um agente daviolência em uma complexa rede. Aqui, os tipos descritos por Propp confundem-se e se mesclam de forma menosclara. O herói não tem exatamente um vilão, um antagonista com o qual se confrontar.Também não tem uma jornada nos moldes clássicos. A princesa se volta contra seu paiapós ser contrariada e perseguida, o falso herói, um dos irmãos Menezes, também podeser caracterizado como vilão. Enfim, esta é uma história na qual esta estrutura tradicionalda narrativa não se aplica com clareza. Como já citado no capítulo X, as personagens de Cabeça a Prêmio –principalmente Brito – são muito mais humanizadas: As personagens, além de serem reproduções do ser humano, também são consideradas como modelos morais. Ao criar uma personagem, o escritor tem o intuito de torná-la a mais real possível, oferecendo traços humanos a fim de aproximá-la, cada vez m a i s , d a r e a l i d a d e . Por fim a personagem a c a b a sendo mais coerente que o próprio ser humano 31
  33. 33. g r a ç a s a e s s a esquematização da qual faz parte. Essa coerência obtida pela personagem a faz viva, real. ( D A M I Ã O , 2 0 0 8 , p . 20-21) Parece claro que um matador de aluguel não é exatamente um modelo moral. Masexpor sentimentos e traços da vida pessoal do matador certamente aproxima o leitor dopersonagem, reconhecendo traços de sua vida e sua personalidade ali. Com isso, vimos que as personagens aqui estudadas de Marçal Aquino têm umafunção bastante específica: eliminar personagens que funcionam como “travas” da trama,o que reforça a ideia de personagem função de Propp. Como antagonistas das histórias,segundo vimos anteriormente, estes matadores atuam de forma aguda, e cumprem afunção a qual são destinados: matar. Tanto que nos dois livros, não há um momento emque são mal sucedidos em seus ofícios: os trabalhos dados são cumpridos. Evidente quemudam o modus operandi, a motivação, o envolvimento com as vítimas, conforme vimosnos exemplos e citações da obra de Cavalcante, evidentemente mais focada na análisedos tipos populares com que teve contato em sua pesquisa. Mas o ato é semprecometido, o que os coloca em uma categoria – seguindo a análise de Propp – rígida depersonagens. Essa característica é determinante para a escolha desta abordagem crítica,em detrimento a outras possíveis análises - teóricas ou psicológicas – neste momento dapesquisa. A fala de Marçal Aquino, “Quando escrevo, tenho muito pouco previamente definidosobre os personagens, que vou descobrindo à medida que a narrativa avança. Foi assimcom o Brito e com o Anísio. Eu diria que tudo que sei sobre eles está no livro”, citada háalguns parágrafos, corrobora com esta afirmação: o que existe sobre essas personagensesta em suas páginas, sua função é mais importante que qualquer outro traço.3.3 O crítico como pistoleiro Após ver estes aspectos sobre o modo de operação dos pistoleiros, chegamos aalgumas conclusões e questões. O pistoleiro é o agente de um ambiente violento, permeado por crimes decorrupção, politicagens e atividades ilegais. Eles são os agentes de uma atividadecondenável, mas necessária para o “bom andamento” dos negócios de seus patrões:eliminam peças que estão dificultando o desenrolar dos negócios. É deles a tarefa de 32
  34. 34. eliminar das “tramas” sociais quem não deve estar ali – por uma série de fatores einteresses. Este expediente dá ao pistoleiro um poder imenso: ainda que não seja deles adecisão sobre quem deve viver e morrer – normalmente, como vimos, a ordem vem “decima”, de uma instância da qual ele não toma partido nas decisões – é deles a ação queelimina essas peças do complicado tabuleiro social de diversas partes do Brasil. O mesmo acontece na ficção. Ainda que os pistoleiros sejam criação ficcional,estão a serviço de uma entidade maior – o autor – atuando como agentes quedeterminam a saída de personagens na trama, de acordo com interesses dos maisvariados para o bom andamento do enredo do conto, novela, romance, roteiro. Sendo assim, uma reflexão que lanço é sobre o papel do crítico literário nocontexto acadêmico. Fazendo um breve exercício de reflexão, a função pode sercomparada – evidentemente no sentido figurado – à do pistoleiro que vimosanteriormente. É do crítico o poder de iluminar ou apagar uma obra ou autor. Ainda queseja uma intrincada rede de valores, referências e interesses. É na mão dele que está aarma – as palavras, o texto – que ajuda a elevar uma obra, movimento, escritor, poeta aoOlimpo dos relevantes, ou ajuda a cavar ainda mais a cova dos que não devem merecer aatenção do meio literato. O crítico pode atuar como qualquer um dos três tipos ideais elencados porPeregrina Cavalcante: pode ser um Pistoleiro Bandido, que além de circular pelaAcademia, comete também outros crimes – é jornalista, escreve uma ou outra orelha depublicações de autores para uma editora, é tradutor, revisor; pode ser um PistoleiroAvulso, que não tem ligação com instituições de ensino ou pesquisa, que age por “contaprópria” fazendo trabalhos independentes. Pode ser, ainda, um Pistoleiro Tradicional, estecom relações muito estreitas com um patrão que não faz julgamentos relacionados àmoral dita universal, mas que segue regras pré-determinadas, ligadas ao que interessa aum determinado grupo em um determinado período histórico/social, sem questionar, ouquestionando pouco, já que a troca de favores lhe é vantajosa. Assim como na pistolagem, a crítica tem seu modus operandi muito peculiar, quepode ser estranho aos não iniciados, mas que é perfeitamente entendida pelos que fazemparte daquele meio. Conta com treinamento, provas de valentia, coragem e tem todo seuarsenal, que se bem usado, cria lendas. Mas isso pode levar a um cenário perigoso, quemuitas vezes não é percebido por seus membros, que veem a “pistolagem” como “apenasum trabalho”. 33
  35. 35. Dito isso, algumas questões que ficam para um futuro aprofundamento são: qual overdadeiro papel – e poder – da Crítica Literária? Será que é dela, e de seus agentes -nós, os críticos, professores, pesquisadores – a função de decidir sobre quem deve ounão sobreviver neste restrito meio da Literatura, que ainda que seja visto com certodesdém quando pensamos no mundo em que vivemos, tão voltado a resultados,números, sucessos e insucessos, ainda rende tanto prestígio? Quantos inocentes jáforam mortos pelo caminho? Em nome de quais interesses protegemos alguns eeliminamos outros? Será que este modelo, que no caso da pistolagem é algo que remontaa séculos passados, onde a dominação de um pequeno grupo usando ferramentas depoder lhe garantia a soberania, ainda funciona quando estamos falando de Literatura? 34
  36. 36. Considerações finais Nesta breve pesquisa vimos algumas das características de personagens da obrado escritor paulista Marçal Aquino. Por meio da análise de duas de suas obras – OInvasor e Cabeça a Prêmio – vimos como é feita a construção de personagens de umaclasse distinta: a dos matadores de aluguel. Começamos pela importância em se estudar um autor tão produtivo em diversasmídias e querido do público como Marçal Aquino, que é quase que esquecido pelaAcademia. Talvez por estar ainda na ativa, talvez por ainda ser jovem, ou ainda por setratar de um gênero marginalizado como a literatura policial. Mas suas credenciais, obrase premiações o credenciam a um estudo – ainda que breve – e ressaltam sua relevância. Depois passamos pelos enredos das duas obras, que ainda que tenham sidoadaptados para o cinema, pode ser de conhecimento de poucos leitores quando se tratade uma pesquisa acadêmica como esta. Vimos ainda as características de trêspersonagens em especial: Anísio, de O Invasor, e Albano e Brito, de Cabeça a Prêmio. Aolongo de trechos e análises das obras, além de uma entrevista com o autor, vimos comoeles foram construídos e quais seus papéis nas tramas. Como auxílio teórico para esta análise, foram usadas a pesquisa da ProfessoraPeregrina Cavalcante, que durante anos conviveu com pistoleiros, mandantes e juradosde morte nas regiões norte e nordeste do Brasil. Sua obra Como se Fabrica um Pistoleiromostra as características e o modus operandi destes tipos, comuns em algumas regiõesdo país, e que serviram como base de comparação entre o mundo real e o da ficção.Também contamos com as análises de Propp sobre a função narrativa e daspersonagens, que nos serviu como base para mostrar a importância das personagensanalisadas nas tramas e na obra de Marçal Aquino. Por fim, lanço algumas questões, baseado nas análises das obras ficcionais sobreo papel e a importância da crítica, fazendo um breve exercício de imaginação,comparando o papel do crítico e do pesquisador literário com o do pistoleiro e sua funçãoprimordial: ditar quem vive e quem morre nas complexas tramas sociais que tratamosneste trabalho. É evidente que uma pesquisa com esta brevidade não dá conta da complexidadeda criação de uma personagem em uma obra ficcional – ainda mais se tratando de tiposcom características tão complexas quanto os matadores. Há uma infinidade decaracterísticas que ficaram de fora, mas que podem ser desenvolvidas em uma pesquisa 35
  37. 37. acadêmica de mais fôlego. 36
  38. 38. Referências bibliográficasAQUINO, Marçal. As Fomes de Setembro. São Paulo: Estação Liberdade, 1991.________. Cabeça a prêmio. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.________. Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios. São Paulo: Companhiadas Letras, 2005.________. Famílias terrivelmente felizes. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.________. Faroestes. São Paulo: Ciência do Acidente, 2001.________. O amor e outros objetos pontiagudos. São Paulo: Geração Editorial, 2000.________. O Invasor. São Paulo: Geração Editorial, 2002.________. Miss Danúbio. São Paulo: Scritta, 1994.BRAIT, Beth. A personagem. São Paulo: Ática, 1985.CÂNDIDO, Antonio. ROSENFELD, Anatol, PRADO, Decio de Almeida, GOMES, PauloEmílio Salles. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1968.CAVALCANTE, Peregrina. Como se fabrica um pistoleiro. São Paulo: A Girafa Editora,2003.DALCASTAGNÈ, Regina.Ver e imaginar o outro: alteridade,desigualdade,violência, naliteratura brasileira contemporânea. São Paulo: Editora Horizonte, 2008.DAMIÃO, Amanda Orfão. Os Seres Narrativos em Harry Potter. 2008. 58 p. Monografia(Licenciatura em Letras) – Universidade Católica de Santos, Santos, 2008.PAGANOTTI, Ivan. Estruturas e funções da narrativa – Propp. In: Curso Ciências daLinguagem: Práticas Midiáticas 2 – Aula 4 – CJE-ECA-USP, 2010. Disponível em:http://prezi.com/ujdmw6bhefr-/estruturas-e-funcoes-da-narrativa-propp/. Acesso em 19set. 2012.PELLEGRINI, Tânia. Despropósitos: estudos de ficção brasileira contemporânea. SãoPaulo: Annablume; Fapesp, 2008.PROPP, Vladimir Iakovlevich. Morfologia do conto maravilhoso. Rio de Janeiro:ForenseUniversitária, 1984.SEGOLIN, Fernando. Personagem e Antipersonagem. São paulo: Cortez & Moraes,1978.WOOD. James. Como funciona a ficção. São Paulo: Cosac & Naify, 2011. 37
  39. 39. Anexo I – Entrevista com Marçal Aquino Para a elaboração desta monografia, desde o início havia a ideia de trabalhar coma palavra do autor fazendo um contraponto aos referenciais teóricos. Por ser um autorvivo e em atividade, gostaríamos que suas opiniões sobre seu processo criativo fossemconsideradas na análise de suas personagens. O primeiro contato com Aquino foi feito por e-mail, em novembro de 2012, já comas questões teóricas sobre as personagens bem desenvolvidas. A escolha por fazer estecontato já com boa parte do trabalho escrito se deu na intenção de que a entrevista –diferente de um trabalho jornalístico que falasse sobre a carreira ou alguma obra recentedo autor – abordasse temas mais específicos de seu processo criativo e suas referênciaspara a construção das personagens. Muito solícito, Aquino respondeu a todas as perguntas enviadas em dezembro domesmo ano. A entrevista foi realizada por e-mail, por conta da indisponibilidade geográficado entrevistado em cedê-la pessoalmente, já que hoje passa boa parte de seu tempo emcompromissos profissionais no Rio de Janeiro. A seguir está a íntegra da entrevista concedida: Essa “familiaridade” com os matadores de aluguel vem do tempo em quevocê atuou como repórter policial? Você cobriu algum caso especial que inspiroualguma história? E estes pistoleiros, o Anísio, o Albano e o Brito são inspirados emalguém que você viu por aí, ou são criações que levam em conta traços comuns adiversos pistoleiros? Tomei contato com o universo dos pistoleiros de aluguel pela primeira vez nostempos de repórter, no começo da década de 1980. Estava recolhendo material para umfuturo livro-reportagem, que acabei não levando em frente. Dizia respeito ao assassinatode uma mulher em Campinas por pistoleiros contratados no Paraguai pelo próprio maridoda morta. A pesquisa me levou para a fronteira Ponta Porã-Pedro Juan Caballero eencontrei lá um clima meio de faroeste que me interessou muito. Percebi que existia todauma mitologia por trás daqueles homens e resolvi investigar com a ficção. Essa foi a 38
  40. 40. gênese do conto Matadores, meu primeiro texto a abordar o mundo dos pistoleiros, queescrevi em 90/91. Todos os matadores que aparecem na minha literatura são apenaspersonagens. E uma ou outra característica vem necessariamente do mundo real, dessasvivências. A diferença no modus operandi dos pistoleiros de diferentes regiões do paísfica evidente com esses personagens... O Anísio trabalha sozinho, os personagensd’Os Matadores e do Cabeça a prêmio trabalham em dupla; o Anísio tem um quê decrueldade, que os outros não aparentam, são mais precisos, mais profissionais...Que outras diferenças você apontaria na forma em que eles trabalham? O Anísio, de O invasor, é aquilo que a polícia chama de “pé-de-pato”, um matadorque em geral vive na favela e faz uma espécie de saneamento no lugar, eliminandoaqueles que são indesejados pela comunidade. Trabalham sozinhos e de formaindependente ou contratados por comerciantes, por exemplo. Brito e Anísio são aquelesprofissionais que vi muito na fronteira, que na maioria dos casos trabalham para sobcontrato para algum poderoso. No Invasor, o leitor não fica simpático ao Anísio, o que acontece com o Britoe o Albano, por exemplo... Apesar de não aparecer tanto nos diálogos, há um“fantasma” do Anísio que ronda a história toda. Queria que você falasse um poucosobre como foi a criação deste personagem. Tem algo que você imaginava sobreele mas que não está no livro? Comecei a escrever O Invasor em 1997. No final daquele ano, mostrei o materialpro Beto Brant, que em seus dois primeiros longas tinha usado minha literatura comomatriz – Matadores (97) e Ação Entre Amigos (98). Ele me convidou pra adaptar ahistória, que, até aquele momento, cobria apenas um terço da narrativa. Todo o restantefoi criado e resolvido diretamente no roteiro. Com isso, abandonei a novela; não via razãopara contar de novo uma história que eu conhecia a fundo. Porém, o Beto me instigou aconcluir o livro e a publicá-lo. Então voltei pro texto. E a solução foi aquela narrativa naprimeira pessoa, que permitia ao narrador conhecer apenas uma parte da trama, aquela aque ele tinha acesso. Daí o Anísio pairar sobre o pesadelo vivido pelo narrador como umasombra ameaçadora. 39
  41. 41. Já o Brito é muito mais humanizado. O leitor acompanha a história dele com aMarlene, se sensibiliza... Como foi construir uma história de amor com umpersonagem que está inserido em um ambiente tão hostil? Meu interesse com o encontro Brito-Marlene em Cabeça a prêmio era examinaruma daquelas histórias em que “dois sujos se amam com pureza”. Minha intenção erajustamente falar de um romance em meio a um clima totalmente hostil, tanto na vida dele,como matador, quanto na dela, na condição de cafetina. Entre outras coisas, mefascinava descobrir o quanto vale para personagens desse tipo aqueles sentimentosprosaicos em qualquer relação, como o ciúme e a dominação. Por conta disso você acha que o Brito é um personagem mais complexo queo Anísio? É difícil falar que um personagem é mais complexo que outro. Acho que eles têmsemelhanças, mas também grandes diferenças, em especial na razão pela qual fazem oque fazem: o Anísio em busca de ascensão social e o Brito apenas cumprindo umtrabalho com o qual ganha a vida. De certa forma, o mistério que temos sobre o Anísio (não sabemos sobre opassado, onde ele mora, que outros crimes cometeu) não aparece da mesma formacom o Albano e o Brito. Sabemos sobre seus passados, seus medos etc., coisasque eles escondem das pessoas que o cercam, mas que o leitor fica sabendo.Existe uma intenção especial em fazer isso? Quando escrevo, tenho muito pouco previamente definido sobre os personagens,que vou “descobrindo” à medida que a narrativa avança. Foi assim com o Brito e com oAnísio. Eu diria que tudo que sei sobre eles está no livro. Outro ponto que tento defender no meu trabalho é que os matadores, apesarde serem os agentes da violência - são eles que matam efetivamente - são apenaspeças de um ambiente marcado pela corrupção, pela violência, por jogos de poder...Tanto que em Matadores, nO Invasor e no Cabeça a Prêmio, chega uma hora emque o leitor percebe que o personagem está em um esquema tão fechado, comtantos envolvidos, que percebe que será muito difícil escapar... Você concorda comisso? Até onde vai a “culpa” dos matadores? A maioria dos matadores que entrevistei me contou que não contemplam a culpa 40
  42. 42. naquilo que fazem. Para eles, aquilo é apenas um trabalho. Concordo que essespersonagens atuam na linha de frente, como executores, mas ocupam posiçãosecundária numa teia maior, dos grandes criminosos que se utilizam dos seus serviçospara atingir objetivos. E como é para você como escritor ter um personagem que elimina outrospersonagens da trama? Imagino que quando se está escrevendo um romance, vocêfica meses, talvez mais de ano, trabalhando com um círculo de personagens, dehistórias... Uma das questões que surgiu durante as conversas com a orientadora éjustamente sobre isso, esse recurso, que de certa forma “limpa as mãos” do autor -é claro que, como você é quem cria as personagens, a rigor dá na mesma, seriamais em um sentido figurado isso que estou dizendo... mas tem alguma diferençapara você eliminar um personagem que foi morto “pelo autor”, em umacircunstância qualquer da narrativa e ter um matador/personagem que “resolve”essa questão? Uma vez um jornalista fez uma resenha do livro Faroestes (2001) e teve apaciência de contar os cadáveres. Fiquei estarrecido, pois, embora estivesse conscienteda natureza violenta daquelas historias, os tais “faroestes” do cotidiano, não tinhapensado no assunto por esse ângulo. Nunca tive problema de nenhuma natureza emeliminar os personagens de uma trama. Personagem faz aquilo que tem de fazer para quea história possa ser contada. É assim que vejo. E como está o Como se o Mundo Fosse um Bom Lugar? Tem previsão delançamento, está pronto? Rapaz, interrompi por um tempo a escrita do romance Como se o Mundo Fosse umBom Lugar, no qual vinha trabalhando nos últimos quatro anos. É que, inesperadamente,“esbarrei” numa outra história, que me pareceu muito mais urgente. Então estou mededicando a colocá-la no papel, com a previsão de que o livro, que ainda nem titulo tem,seja lançado no segundo semestre do ano que vem. 41

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