UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
      CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE                      PRIMEIRA VERSÃO                  81
          PRIMEIRA VERSÃO                                      ISSN 1517-5421    lathé biosa

     ANO II, Nº81 - janeiro - PORTO VELHO, 2003
                        VOLUME VI
                       ISSN 1517-5421


                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
            ALBERTO LINS CALDAS - História
             ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                ARTUR MORETTI - Física
               CELSO FERRAREZI - Letras
            FABÍOLA LINS CALDAS - História
         JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
        MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
               MARIO COZZUOL - Biologia
                MIGUEL NENEVÉ - Letras
            VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia
Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times      EUCLIDES DA CUNHA E OS SERTÕES
New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows”
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                TIRAGEM 200 EXEMPLARES

      EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
Alberto Lins Caldas
Professor de Teoria da História – UFRO
caldas@unir.br - www.unir.br/~caldas/Alberto
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       Quando li Os Sertões de Euclydes da Cunha, aos quinze anos, envolto na deliciosa atmosfera de naftalina, livros velhos e claro-escuros de um conto
de Stevenson, numa deliciosa 14ª edição corrigida da livraria Francisco Alves, de 1938, com assinaturas do meu avô e do meu pai, no conforto da poltrona à
voltaire no centro da biblioteca, o fiz com horror, com tédio mortal, com um nojo sem limites, com juvenil arrogância. Mas a obrigação intelectual me
obrigava. Era impossível viver sem ter lido essa coisa, eu me dizia - querendo me convencer sem conseguir. Parece com este mundo ridículo onde vivo, mas
ainda assim deve ser lido, eu completava, seguindo aquela exposição cientificóide, árdua, envelhecida, imprestável. O homem, o autor, o tal do Euclydes da
Cunha - Um imbecil, incapaz e reacionário, dizia eu ao meu pai entristecido e calado por tanta incompreensão. Uma besta! Completava eu saindo para andar
longe daquela cidadezinha ridícula, minúscula e eternamente tacanha, dizia eu entre dentes, Igual ao Cunha, aquele Euclydes do tal Ser Tão Besta, e ria,
como se fosse coisa de se rir.
       E, estranhamente, estava certo!
       Todas as idéias de Euclides da Cunha eram, e ainda são, um legítimo horror sem medidas. Avaliadas individualmente ou em rede são terríveis, racistas,
cientificistas, monstruosamente ridículas, ingênuas e primárias: rascunhos de um provinciano. Ridículas, principalmente! Sequer se salvam numa bondosa “visão
histórica”, essa ficçãozinha de Estado, esquecida que é tudo menos “o real”. Somente intelectuais periféricos, integrados e rasos poderiam se abismar, se interessar ou
difundir palhaçadas-como-coisa-séria; somente facistóides de terceira categoria podem ainda levar a bandeira de um Euclides “herói da pátria” ou “gênio da raça”;
somente uma busca cega pelo “Brasil”, pela “Nacionalidade”, pela “Raça”, pela “Identidade”, poderia começar a dimensionar, coisa que aqui não nos importa, a
“produção, manutenção e difusão” de tais sandices patrióticas em forma de conhecimento-sério, como se isso existisse; somente uma horda ingênua poderia ter como
“chefe”, como “ídolo”, como “totem”, uma coisa como Euclides da Cunha e sua obra (excluindo Os Sertões, é coisa que não se discute por sua condição de
“documento”). Euclides, por qualquer perspectiva, faz parte de uma teratologia das idéias e, especificamente, de uma teratologia da “história dos intelectuais”, uma
específica teratologia do ridículo “pensamento brasileiro”, uma teratologia dos pesadelos, das ninharias daquilo que se luta para estabelecer como Brasil, e que alguns
querem esquecer.
Euclides faz parte, e é impossível dissociá-lo, das “Vidas dos Grandes Brasileiros”, junto com Tiradentes, Pedro I/Pedro II, José Bonifácio, Deodoro da Fonseca,
Osório, Duque de Caxias, Rondon, Vargas, Médice ou Fernando Henrique. É e lutou para ser uma “vaca de presépio”, um símbolo, um “legítimo representante de um
novo Brasil”. Euclides é isso que se entende como Brasil e que tanto limita, amortece, amortalha, avilta e destrói.
        E todos os “sites euclidianos” (praticamente todos os artigos ou livros) são mais ou menos uma patriotada sem medida e sem senso de ridículo. Suas
associações com o facista-projeto-nacionalista-militar-provinciano; a visão de uma “história brasileira”, de uma “raça brasileira”, do “grande livro nacional”; a
geografia, a grandeza da “nossa natureza”, do “nosso homem” é de dar náuseas. E tudo o que cerca Euclides é assim! Não vale a pena! E isso é realmente uma pena!
Euclides estranhamente merece mais do que aquilo que lhe fazem passar e ser, apesar dele mesmo ter sido isso mesmo: um idiota de família! um idiota nacional!
        Mas uma coisa justifica minha paixão, este livro on line reunindo textos sobre o livro, o autor e seu único livro: o estilo, a musicalidade, as vozes, a poiesis, a
ficção, a literatura viva d'Os Sertões. E um mistério: como alguém investido e revestido antes durante e depois de um “projeto” e uma vida tão grotescas conseguiu
escrever com tamanha língua? (mesmo tentando escrever a partir da palavra foi da língua que nasceu Os Sertões). E a ficção inesperada e não querida d'Os Sertões
fura esta barreira insignificante de patriotadas, aparecendo como literatura, integralmente como literatura e literalmente como ficção, jamais como História-Filosofia-
Geografia-Geologia-Climatologia-Biologia-Sociologia-Antropologia, ou o que tenha amalgamado com essa ficção fundante, que por sua própria existência separa-se do
resto ou o inclui em sua substância, virtualizando tudo com uma força inesquecível.
        Mas Euclides não é autor, não é senhor dessa perspectiva do livro (essa específica dimensão lingüística, ficcional, devires de um fantasma absolutamente sem
pátria), chegou a ela como um substrato, uma maneira secundária de dizer; para ele e aos tolos iguais a ele, o principal é a “História de Canudos”, uma “página da
nossa História Militar”, fazendo antes de tudo Ciência, entendendo a maneira de dizer como algo que, no fundo deveria ser perdoado, pois o centro era a verdade
científica, o real, a verdadeira “História de uma Guerra”, um cientista, um grande jornalista, que utilizava uma “linguagem literária” somente para ser agradável, pois
era dessa maneira que se devia escrever (o literário como adorno, moldura, inflexão de voz em leitura secundarista de poesia). E nada mais estranho e
desinteressante do que essa “História de Canudos”, essa “Página Militar”: o horror! o horror! Todo imbecil adora História! E lê dessa maneira destruidora, chã, terrível
e nadificante. E Euclides escreveu dessa maneira. Para ele a ficção, a literatura, o estilo, a língua eram coisas que deviam ser desculpadas n'Os Sertões: estavam ali
para dizer o principal. Ali naquelas instâncias não estava a razão do seu livro: uma besta babando na gravata! A única coisa que ali dentro se salvava e sempre foi
visto como “uma das perspectivas do livro”.
        Retirado o cascalho, a história-como-algo-fora-do-livro, acontecida daquela-maneira-fora-do-livro, o real-jornalístico, aparece a escritura; o ritmo, as palavras-
sem-história; nuas, grávidas, ásperas; dizendo nada sobre nada; fluindo como água sobre extensões de argila; deslizando e explodindo como lava dentro d'água;
como camadas de rocha em terremoto; como tubos invisíveis de vento materializadas pelo flanar dos urubus: para nada! dizendo nada! sendo nada! nada apontando!
criando corpo! sensação! prazer! toque e gozo em si mesmo e por si mesmo! pronta para o deleite da mais incompleta completude (música): a literatura, sem razão,
sem pátria, sem história, sem natureza, sem heróis, sem nomes, sem projeto nacional-socialista. Literatura, ficção e nada mais: eis Os Sertões, o livro: sem autor, sem

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história que o explique, sem Nação que o suporte, sem Língua Nacional que lhe peça nada, sem Território, sem Governo, sem Exército, sem Família, sem Natureza,
sem Ciência.
       Por isso e para isso precisamos ler novamente Os Sertões, retomando a língua dos “Sermões” de Vieira (fora do seu tempo, fora da sua crença, fora das suas
esperanças); a língua das “Memórias” de Pedro Nava (fora da sua crença na memória e da sua crença na história): imperadores de uma literatura que ainda não se fez
completamente, escondida por projetos historiográficos, abafadas por provincianos de meia pataca, por uma literatura nacional, sempre de terceira categoria por ser
nacional, de classe média, escrita por adolescentes criados em apartamentos como ratos de laboratório.
       Vieira/Euclides/Nava: e se desenha outra literatura, outra perspectiva ficcional, longe, bem longe das águas com açúcar, dos existencialismos, dos pequenos
realismos,      dos       minúsculos        lirismos,     dos        jornalismos,      divertimentos      e       auto-ajuda       travestidos      em        arte.




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          PRIMEIRA VERSÃO                                      ISSN 1517-5421       lathé biosa

     ANO II, Nº82 - JANEIRO - PORTO VELHO, 2003
                        VOLUME VI
                       ISSN 1517-5421


                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
            ALBERTO LINS CALDAS - História
             ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                ARTUR MORETTI - Física
               CELSO FERRAREZI - Letras
            FABÍOLA LINS CALDAS - História
         JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
        MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
               MARIO COZZUOL - Biologia
                MIGUEL NENEVÉ - Letras
            VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia
Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
                                                                DA METÁFORA FUNCIONAL E ALGUMAS
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Celso Ferrarezi Júnior
Diretor do Campus de Guajará-Mirim – UFRO
ferrarezi@gm-net.com.br
                                                                                                                    DA METÁFORA FUNCIONAL E ALGUMAS IMPLICAÇÕES


        Apresentei alhures1, embora de forma pouco sistematizada, o conceito de metáfora funcional. No decorrer desses últimos anos, porém, meus estudos
semântico-pragmáticos com a língua portuguesa e a línguas indígenas da Amazônia têm demonstrado a necessidade de uma formulação mais completa dessa
concepção teórica e a análise, mesmo que preliminar, de algumas de suas implicações mais diretas nos estudos lingüísticos que levem em conta os aspectos culturais
de uma língua, além dos aspectos meramente formais tradicionalmente estudados.
        Esta é a pretensão deste pequeno ensaio: uma apresentação formal do conceito de metáfora funcional e a demonstração da importância deste conceito nos
estudos lingüísticos e antropológicos, o que passamos a ver.
        Em um artigo sobre metáfora e metonímia2 considerei que uma metáfora é um tipo de construção lingüística que permite a atribuição de um sentido
construído dentro de um paradigma cultural definido a outra palavra (ou construção multivocabular) que, literalmente, pertencia a outro paradigma cultural
estabelecido. Assim é que quando chamo João de “touro”, estou transferindo, deslocando, reapropriando sentidos de um paradigma cultural (características do animal
touro) para outro paradigma cultural (características do animal homem).
        No corpo de minha obra em Semântica é importante observar que não creio em sentidos pré-definidos para palavras das línguas naturais. Creio que tudo pode
ser expresso por tudo, desde que a construção social da expressão assim o permita. Posso identificar qualquer referente usando qualquer palavra desde que haja uma
construção social que explicite (ou implicite) esse processo; assim também posso expressar quaisquer sentidos, mesmo os mais complexos, com qualquer palavra ou
expressão, desde que esse sentido seja associado à expressão que uso/usarei dentro do processo de criação do cenário3 enunciatório compartilhado entre mim e meu
interlocutor. Não existe nenhum sentido a priori, nenhuma regra pré-definida de significação. O que existe - e que nos dá essa sensação de pré-existência dos sentidos
– é um conjunto de construções mais comuns em uma comunidade, construções que em uma época definida já tiveram sentidos a elas comumente associados, e que,




1
   Celso Ferrarezi Jr.(1997). Nas Águas dos Itenês. Dissertação de Mestrado. Campinas : UNICAMP, e Celso Ferrarezi Jr.(1999). Considerações sobre a Hipótese de Interinfluência entre
Pensamento, Cultura e Linguagem . UNIR/GM: CEPLA Working Papers.
2
  Celso Ferrarezi Jr.(2000). “Metáfora e Metonímia: uma Análise através dos Paradigmas Semânticos”. In: Discutindo Linguagem com Professores de Português. São Paulo: Terceira
Margem.
3
  Uso cenário significando o conjunto máximo de situações e informações levadas em conta, consciente e inconscientemente, por um falante ao atribuir um sentido qualquer a uma
expressão lingüística.
justamente por isso, são mais conhecidas e repetidas pelos falantes. Mas essas construções mais comuns são tão passíveis de modificação quanto quaisquer outras
estruturas da língua4.
        Na construção dessas associações de sentido parece não haver nenhuma regra lingüística de ordem puramente gramatical explícita, ao contrário do que há na
construção das formas lingüísticas. Diferentemente, a gramática não é nada mais do que uma construção em segundo plano, tão momentânea quanto o restante do
processo de especialização do sentido da expressão.
        O sentido de uma expressão lingüística qualquer só se especializa em um contexto5 e este, por sua vez, só se especializa em um cenário. E é por essa razão
que nenhuma palavra ou expressão tem sentido a priori, mas tem especializado o seu sentido no processo de comunicação entre interlocutores, processo em que são
consideradas muito mais informações do que as etimologias e as peculiaridades gramaticais das palavras de uma língua. Aliás, como diz Bakhtin6, é somente quando
falantes podem desprezar a consciência dos aspectos gramaticais de uma língua, quando não precisam mais ficar racionalizando suas construções lingüísticas para
criar expressões inteligíveis e especializar os sentidos das expressões dos outros, que se pode dizer que realmente falam essa língua.
        Aceitar essa concepção de que nenhuma construção lingüística tem um sentido a priori representa aceitar implicações muito vastas para a teoria lingüística.
Uma das que mais me fascinam é a de que, por esse prisma, toda escritura é um “defunto lingüístico que, para ser entendido, precisa ser ressuscitado”. A escrita
fornece palavras e partes de um contexto, mas não fornece cenários7 em que esses contextos sejam especializados e possam criar condições para a especialização dos
sentidos das palavras, além do que, em comparação com os recursos comunicativos usados numa interação de fala, os recursos da escrita são pífios. Por isso é muito
mais freqüente a falha de comunicação na escrita do que na fala; por isso é, muitas vezes, muito mais fácil entender com exatidão o que se ouve do que aquilo que se
lê. Mas, para os fins deste artigo, uma outra implicação importante sobre a especialização de sentidos de palavras e expressões na comunicação é a de que, no bojo
do processo de comunicação, toda construção é funcional. E funcional por três razões básicas:
        a. porque deve funcionar como elemento de comunicação;
        b. porque, além de ser elemento de comunicação, deve funcionar adequadamente dentro do contexto e do cenário em questão;
        c. porque, funcionando adequadamente no contexto e no cenário, terá a função de consolidar o processo de compartilhamento de conteúdos entre os
interlocutores, sendo elemento ao mesmo tempo constituído e constituinte desses mesmos contexto e cenário.
        Em razão disso, toda construção lingüística – e toda metáfora, por conseqüência – é funcional. Mas, quando refiro-me a “metáfora funcional” o faço em
relação a uma função muito mais específica e bastante relevante na construção e perpetuação de uma cultura, função que não é exercida por palavras ou expressões

4
  E a História das línguas tem mostrado que alterações no sentido de estruturas lingüísticas comuns a uma comunidade são muito mais freqüentes do que, por exemplo, profundas
alterações na fonologia e na sintaxe.
5
  Uso contexto significando o restante do texto, a construção textual e intertextual mais imediata em que se insere uma expressão lingüística,
6
  Cf. M. Bakhtin (1999). Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec.
7
  Um dos fatores mais relevantes na especialização dos sentidos na fala, e que constituem parte do cenário de enunciação, é o conjunto de traços semânticos complementares fornecidos
pela entonação da fala, inexistente na escrita.
                                                                                                                                                                                   7
que deixarem de ser consideradas como “figuras da realidade”, palavras que só são entendidas pelos falantes como índices de referentes, às quais chamarei aqui,
seguindo a tradição gramatical, de literais.
        Voltemos, deste ponto, à metáfora: como uma construção metafórica implica, portanto, nessa transferência de sentidos, especificamente entre paradigmas, só
pode ser definida como tal, de forma única e independente, dentro de cada cultura, uma vez que em cada cultura teremos classificações semânticas naturais
diferentes, agrupamentos naturais distintos. Isso é que permite uma construção seja metafórica em uma cultura e, por exemplo, metonímica em outra, já que a
metonímia se caracteriza pela transferência de sentidos entre termos de um mesmo paradigma.
        Cumpre notar, também, que a metáfora, na maioria das línguas, não é obrigatoriamente uma construção lexicalmente complexa, nem obrigatoriamente
multivocabular e com tratamento estético de tipo poético como “as lindas pérolas dos olhos de Maria”. Ao contrário, esse perece ser um tipo de mais raro de metáfora,
cuja finalidade estética – pode-se considerar assim – sobrepõe-se à função de transferência de informações da metáfora cotidiana. A maioria das metáforas se
concretiza nos nomes atribuídos pela língua aos diversos referentes que representam. Trata-se de palavras comuns, de uso diário, de nomes de pessoas ou de
alcunhas atribuídos a esses referentes.
        Nesse momento, portanto, convém falar um pouco sobre nomes, para poder retomar a construção do conceito de metáfora funcional.
        O estudo dos nomes das línguas tem uma importância muitas vezes desprezada. Se consideramos que as línguas são como que “depósitos” naturais de
conhecimento humano - depósitos de cultura – e percebemos que esses depósitos são feitos essencialmente nos nomes dos referentes, entendemos o porque dessa
afirmação.
        Consideremos que toda língua possui um conjunto de palavras nominais – e, muitas vezes, apenas radicais nominais – das quais nenhum falante é capaz de
recuperar a motivação8 de sua atribuição como significante de um referente qualquer. São palavras “básicas”, cuja origem quase sempre só pode ser identificada por
profundos estudos etimológicos e, mesmo assim, nem sempre sendo possível identificar as atribuições e derivações do sentido. Essas palavras são, em sua maioria,
uma “herança” lingüística dos tempos ancestrais, de colonizações, de contatos lingüísticos. Por outro lado, existem nomes que têm o sentido de sua construção
facilmente identificado, que atuam de forma mais complexa do que como meros significantes-índices de um referente qualquer. Tomando isso como certo - e creio
que não há grande contestação dessa afirmação na academia – podemos, então, grosso-modo, dividir os nomes de uma língua em dois grupos principais: motivados e
não motivados9. Os primeiros, constituiriam esse grupo básico de palavras que a teoria lingüística tem chamado de “literais”, terminologia que, como disse, mantenho
aqui; o outro grupo, sobre o qual os falantes podem recuperar de alguma forma a motivação de sua atribuição, parece ter duas origens distintas: uma origem cultural
complexa e outra meramente lingüística .


8
  Uso motivação no sentido saussureano. Uma palavra qualquer da qual o falante não possa recuperar o tipo de recurso utilizado em sua construção será por ele considerada arbitrária,
sem motivação aparente para sua construção.
9
  Celso Ferrarezi Jr.(1997). Nas Águas dos Itenês. Dissertação de Mestrado. Campinas: UNICAMP.
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As construções cuja motivação é cultural, podem ocorrer a partir das palavras literais, seus sentidos e referentes (João é um “touro”) ou pela motivação direta
do nome por características dos referentes (“bumbo”). Esses seriam os nomes motivados ou, em última instância, nomes figurativos, ou seja, baseados em algum tipo
de figuratividade cultural. No primeiro caso, temos uma metáfora; no segundo caso uma imitação sonora10, uma onomatopéia. Para os fins deste artigo, interessa-nos
mais o primeiro tipo, ao qual voltaremos adiante.
        O outro tipo é o da atribuição de um nome a partir de uma construção meramente lingüística, portanto, unicamente baseada em aspectos estruturais do
sistema da língua. Veja-se a diferença: quando chamo o doce caseiro de amendoim originário do sudeste brasileiro de “pé-de-moleque” tenho uma motivação cultural:
o doce tem a aparência de um pé cascudo e escuro, como se acredita ser um pé de moleque; uso palavras literais e construo uma palavra composta de natureza
figurativa. Entretanto, quando digo que a pessoa que faz ou provoca muitos casamentos é “casamenteira”, tenho, para esta construção uma motivação meramente
lingüística resultante da construção regular portuguesa de cas (radical) + a (vogal temática) + -ment (sufixo) + -eir (sufixo) + -a (desinência do gênero feminino ).
Não há, neste último caso, nenhuma transferência de sentidos de uma palavra literal ou referente para outra palavra que designa um outro referente qualquer (até
porque apenas uma “consciência de filólogo” permite a identificação detalhada dos constituintes mórficos dessa palavra como a apresentei acima). Aliás, para a
maioria dos falantes do português casamenteiro/a é apenas a junção de casament + -eir + -a ou, como em alguns relatos que colhi, apenas de casamenteir + -a. Esse
tipo de motivação lingüística também não interessa propriamente à construção desse artigo.
        Deve-se observar que os nomes, como significantes nocionais utilizados para identificar cada um dos elementos de cada cultura, sem exceção, acabam
comportando-se como indicadores das características desses elementos e alteram nossa forma de pensar o referente. As palavras nominais de uma língua atuam na
configuração que fazemos de nosso mundo, na visão que temos dos elementos que o constituem. Assim é que um menino muito magro de cabeça grande chamado
João, pode ter suas características físicas despercebidas por alguns dos seus colegas de classe enquanto chamado de “João”, mas passa a ter suas idiossincrasias
corporais muito mais evidenciadas aos olhos dos demais logo após ser alcunhado por um colega – ou seja renomeado - de “Prego”. Da mesma forma, Maria tem sua
gordura muito mais destacada quando recebe o apelido de “Botijão”; os óculos de Joana passam a ter muito mais destaque quando ela é chamada de “Quatro-Olhos”
e as pernas tortas de Mário, nunca apareceram tanto como depois que ele ganhou apelido de “Garrincha11 ”. Assim ocorre com a valentia do menino acunhado de
“Leão”, com a covardia do outro que é chamado de “Mingau”, com a beleza (ou feiúra, em uma metáfora irônica ) da “Bonequinha”, e daí para adiante.
        O mero mencionar dessas alcunhas, que são “renomes”, altera a visão que os falantes têm dos referentes a elas associados. As alcunhas das cidades, das
instituições, de certas práticas, enfim, todas elas têm o mesmo efeito estruturante: por atuarem como nomes, alteram a percepção que o falante/ouvinte tem do
referente.


10
   Que também tem influência cultural, uma vez que os sons prototípicos atribuídos aos elementos naturais variam da cultura para cultura e são diferentemente materializados nas
respectivas línguas .
11
   Famoso jogador de futebol brasileiro conhecido pela habilidade em driblar e pelas pernas tortas .
                                                                                                                                                                                   9
E aí reside um fator de grande importância na relação entre língua e cultura: os nomes atuam como depósitos de conhecimento, que podem ser mais ou
menos reconhecidos pelos falantes, mas definitivamente como depósitos. E como tal são utilizados pelos falantes, que recorrem a seu conteúdo informativo o tempo
todo. Uma das provas mais evidentes que temos disso é que o falante recorrerá a uma renomeação do referente – e geralmente através de uma metáfora - quando
ocorrem dois fatos concomitantemente:
        a. o falante sentir necessidade de que o nome traga em seu sentido alguma informação relevante para uma construção cultural desejada e específica e
        b. esse mesmo falante não mais conseguir identificar nenhuma informatividade no nome usado como significante desse referente em questão – agora, por
isso mesmo , tido como literal – além da indicação direta do referente.
        É esta a razão que leva um grupo de jovens a atribuir as alcunhas aos membros da turma, uma vez que , João ,Maria, Joana, etc... não conseguem mais do
que meras indicações diretas dos seus referentes, ao passo que na hierarquização do grupo social se faz necessária uma discriminação das características que
justificam as posições ocupadas. Se eu posso fazer chacotas com você e porque você é “Mindinho”, mas nunca vou mexer com o seu brio se você é o “Destruidor” (a
menos que se trate de uma alcunha irônica...). Por isso, também na organização social sentimos necessidade de atribuir nomes como professor, aluno, prefeito,
presidente, marginal, mercenário, etc..: porque as informações contidas nos antropônimos nem sempre12 denotam as informações da organização social e sobre os
referentes como as desejamos evidenciar.
        Também por essa razão algumas culturas, principalmente as orientais e as indígenas tradicionais, têm um apreço muito maior pela significação dos nomes do
que as culturas capitalistas ocidentais. Os nomes cheios de significados dos orientais e dos indígenas expressam aspirações dos que nomeiam em relação aos
nomeados, planos, desejos pessoais, bênçãos e maldições, entre tantas outras marcações culturais.
        A troca de nomes, bastante comum em algumas nações13, é uma evidência bastante clara dessa função do nome na organização social, na marcação de
funções sociais, na marcação de aspectos idiossincráticos, enfim e portanto, na construção cultural.
        Os nomes, então, quando construídos metaforicamente, passam de mero “índice de referência” a depósitos de informações consideradas relevantes,
esclarecedoras, dignas de registro em uma comunidade. E essas construções metafóricas, como dissemos, não obrigatoriamente têm uma grande complexidade
vocabular ou gramatical, ou se obrigam a estruturas esteticamente trabalhadas: pode tratar-se de uma simples palavra, de uma palavra composta sem rebusques
estéticos, ou seja, pode tratar-se - e geralmente assim o é - de nomes comuns de uso cotidiano.
        Retomemos, então, o tipo de construção de nomes que considero mais importante nesse artigo: a construção figurativa que se origina de uma metáfora, e
isso com base em alguns exemplos úteis à identificação que pretendo aqui:


12
  Na verdade, nas chamadas modernas culturas ocidentais, essa informatividade do antropônimo é quase nula, preferindo-se a sonoridade do nome a sua significação.
13
  Como, por exemplo, entre os judeus, como evidenciando na Bíblia (Abrão para Abraão, Jacó para Israel, Simão para Pedro, Saulo para Paulo, entre tantos outros citados nas
Escrituras).
                                                                                                                                                                              10
Quando chamo uma árvore Citrus aurantium, que produz laranjas, de “laranjeira”, construo um nome a partir de uma motivação meramente lingüística e não
ofereço nenhuma informação cultural adicional além daquela que me permite a utilização da terminação “eira/eiro” juntada a um nome qualquer de fruta (como em
limoeiro, goiabeira, melancieira, mamoeiro, figueira, jambeiro, etc...) para indicar a árvore que produz essa mesma fruta . É claro que essa se constitui em informação
cultural, mas de um tipo muito mais restrito do que, por exemplo a fornecida pelo caboclo que chama a laranjeira de “pé-de-caba14”. Ao chamar a árvore de
“laranjeira”, repasso uma informação que é, do ponto de vista da lógica formal da língua, como que inerente ao referente. É quase que como que uma construção
óbvia, que pode informar-me, por exemplo, de que espécie é uma muda que ainda não produz frutos. Isso tem utilidade na língua e na cultura, mas a motivação da
construção não é stricto sensu um construto cultural e o nome atua literalmente no vocabulário da língua. Mas, ao usar “pé-de-caba”, registro uma informação muito
mais complexa do que com o primeiro nome, uma informação que não é inerente ao referente, cuja motivação não pode ser atribuída ao sistema da língua e que se
destingue da primeira por várias razões:
           a. como sua construção não é óbvia no sistema, sua compreensão demanda um processo interpretativo muito mais complexo;
           b. as informações contidas nesse nome têm implicações funcionais mais amplas do que a mera identificação da árvore da laranja;
           c. essa informação se constitui numa construção cultural funcional – agora no sentido que atribuo à metáfora funcional -, uma espécie de alerta aos incautos
de que é sempre de bom alvitre colher laranjas só depois de conferir se a árvore tem uma “casa de caba”;

            d. essa construção é muito mais regionalizada, muito mais específica de uma comunidade do que a palavra
      “laranjeira”.
           Da mesma forma encontramos no Brasil, para a laranjeir , nomes como “pé-de-chá” e “mata-febre”, cujas indicações e informações terapêuticas são
evidentemente funcionais, ou seja, constituem-se cada uma como uma metáfora funcional: a palavra metaforicamente construída apresenta uma clara função de
depósito cultural, uma função de registro, para comunidade que a usa, de algum tipo de construção resultante das experiências vivenciais dessa mesma comunidade
que atribuiu o nome ao referente.
           Entre as plantas de uso terapêutico ou culinário, essas metáforas funcionais são muito comuns, por razões facilmente compreensíveis. Vejamos alguns
exemplos no quadro abaixo:

        Nome literal (diferente de região para região)         Nome científico               Outros nomes que se constituem com metáforas funcionais no Brasil

        Manjericão                                             Ocimum gratissimum            remédio-de-vaqueiro, erva-de-cozinheiro




14
     Caba é uma denominação comum norte-brasileira para vespa ou maribondo.
                                                                                                                                                                   11
Mastruz                                                   Senebiera pinnatifida              erva-santa-maria, erva-vomigueira,

        Boldo                                                     Pneumos boldus                     erva-das-sete-dores
        Salsa                                                     Petroselinum sativum               cheiro-verde, erva-de-tempero
        Sasifraga                                                 Parietaria officinalis             quebra-pedra, rebenta-pedra



           Esses cinco exemplos são suficientes para demonstrar como nomes construídos como metáforas funcionais são informativos dentro do ambiente cultural,
como são muito mais do que meros índices de identificação de referentes. É interessante notar, porém que, muitas vezes, um nome que funciona como literal em
nossa cultura, era uma metáfora funcional na cultura que o originou. Este é o caso da “salsa”. Do latim Salsa ou Herba salsa, cujo sentido pode ser reconstruído como
“erva salgada” ou “erva de cozinhar comida salgada”, o que representa claramente a utilização cultural da erva naquela comunidade. O mesmo se dá no mapuche
boldo, que gerou o português “boldo” e no latim vulgar mastrutio, que gerou o português “mastruz” entre outros tantos exemplos.
           Em um artigo sobre a hipótese de interinfluência entre pensamento cultura e linguagem15, cito um exemplo que colhi da língua moré e que considero bastante
relevante neste contexto, porque demonstra uma das mais interessantes implicações do conceito de metáfora funcional, o qual peço permissão ao leitor para
transcrever aqui:
           “Um índio moré aprende, em sua cultura, que a árvore de tipo X tem como nome [kx aw kxa:pari:], “o pacu16 come”. Este nome, na verdade uma metáfora
funcional, leva a criança moré desde a primeira vez em que o ouve, a formular uma questão inicial acerca do objeto, que poderíamos definir como sendo “por que
esse objeto leva esse nome?” e, a partir dessa questão, a entronizar um conhecimento prático bastante importante para sua nação, porque referente à sobrevivência,
que é a busca e a consecução do alimento. Assim se o pacu se alimenta dos frutos desse tipo de árvore, e se os morés alimentam-se de pacus, a presença de tal
planta na beira de um lago ou rio pode indicar a presença de pacus, e isso está implícito na metáfora que nomeia a própria árvore. Entretanto, a língua moré tem sido
substituída pelo espanhol nos últimos cem anos, e essa mesma árvore passou a ser conhecida pelo morés como “canduru”, o nome espanhol. O fato é que os morés
não perderam o conhecimento de que os pacus se alimentam dos frutos do canduru, porque a prática cotidiana da pesca induz à necessidade desse tipo de
conhecimento, mas tal informação perdeu seu registro lingüístico e, agora, são necessários outros meios que conduzam à indagação inicial que levava ao
conhecimento da serventia do objeto determinado.”(Op.cit., pp. 3-4)
           Como se pode ver no exemplo, sempre que um nome atribuído por uma construção metafórica funcional típica de uma cultura é substituído por um
empréstimo lingüístico ou, no decorrer da existência da língua, perde sua identificação metafórica, informações da construção cultural da comunidade o que utilizava



15
     Celso Ferrarezi Jr.(1999). Considerações sobre a Hipótese da Interinfluência entre Pensamento, Cultura e Linguagem . UNIR/GM: Cepla Working Papers.
16
     Milossoma duriventris: peixe comum na Amazônia, de carne muito apreciada pelos índios.
                                                                                                                                                                 12
são invariavelmente perdidas. Este seria o processo de transposição de uma metáfora funcional ao estágio de palavra literal. E, por conseqüência, um processo muito
influente na perda de identidade, no primeiro caso, ou de evolução da identidade cultural de uma mesma comunidade, no segundo caso.
           Assim é que grande parte dos brasileiros que usam computadores não sabe porque aquele aparelhinho, geralmente branco e com um longo fio, em que
colocamos a mão e com o qual movimentamos o cursor e procedemos a seleções na tela do monitor, é chamado mouse. Primeiro, porque muitos desses brasileiros
não conhecem o significado da palavra inglesa mouse; segundo, porque certamente, a relação metafórica existente no nome inglês mouse seria muito mais facilmente
identificada se, como no caso do espanhol ratón ou do francês souris, o nome do aparelho tivesse sido traduzido para o português como “rato”.
           Da mesma forma que em mouse, como utilizado na informática no Brasil, a quase totalidade de empréstimos nominais apresenta um grau muito baixo - às
vezes realmente nulo - de informatividade em relação aos referentes. Teríamos aí, por se constituírem esses empréstimos como palavras literais, uma relação de
arbitrariedade verdadeiramente saussuriana, ao contrário do que acontece com os nomes construídos como metáforas funcionais.
      Uma implicação decorrente desta é também evidenciada no complemento ao excerto que transcrevi acima: “É por essa razão que qualquer empréstimo lingüístico
      constitui-se, a despeito da aparência de “ganho”, em uma perda incalculável para a cultura e a identidade de uma comunidade qualquer.”(idem, p. 4)

           É bom observar que, no contexto dessa assertiva, quando falo de “qualquer empréstimo”, refiro-me a qualquer empréstimo que venha em substituição de um
nome ou palavra da língua. Não me refiro aqui aos empréstimos nominais que denominam objetos culturais antes desconhecidos por uma comunidade, como, por
exemplo, as palavras “cassete” e “abajur” adotadas pelo português, entre tantas outras. Mas também não descarto a possibilidade de que essas palavras poderiam
ser, assim como vi em algumas nações indígenas que conheci, construídas ao sabor da cultura local. Lembro-me, meio invejoso, da “casinha-de-cantar-e-dançar”17,
nome dado aos morés para televisão, e do “corre-rápido-pela terra”, nome dado a carros e motocicletas por essa mesma nação.
           As metáforas funcionais presentes nesses nomes que venho descrevendo são uma marca identitária da comunidade. Elas revelam a organização do mundo, a
visão que a comunidade tem de seu mundo, seu conjunto de valores morais e éticos, enfim, um bastante complexo conjunto de traços culturais que não são
representados de outra forma nas estruturas da língua a não ser nos nomes. A perda dessa identidade tem valor inestimável na historia e na construção da auto-
imagem étnica. Ou seja, uma nação cuja língua perdeu grande parte do conteúdo de suas metáforas funcionais, perdeu, também, grande parte de sua identidade.
           Esta é, provavelmente uma das causas de a dominação imperialista, em todos os tempos, ser sempre acompanhada da dominação lingüística.
           Finalmente, cumpre observar que, juntamente com a identidade étnica e cultural, perdem-se os valores primordiais de uma cultura. As comunidades entram
em patente decadência de valores e a auto-estima da comunidade é muito afetada. Isso se dá porque com a destruição da nomenclatura que revela a compreensão
do mundo, destrói-se propriamente parte dessa compreensão. Torna-se necessário, então, acatar uma nova visão de mundo que, na maioria das vezes, se choca com




17
     Reconstruções de sentido aproximadas dos nomes morés.
                                                                                                                                                               13
as concepções próprias da comunidade, desenvolvidas ao longo de séculos ou milênios de construção cultural. A comunidade perde suas referências, tem seus
alicerces demolidos e, por isso, entra em estado depressivo.
        O conceito de metáfora funcional, como apresentado aqui, propicia um grande número de implicações nos estudos lingüísticos. Apresentei alguns deles, como
a construção funcional de informações culturais e seu registro na língua, mas gostaria de ressaltar três dos perigos da destruição dessas metáforas em uma
comunidade lingüística, conforme apresentei aqui: a perda de informações culturais, a perda de identidade cultural e a perda de valores primordiais da comunidade
        Esses perigos devem ser motivo de profunda meditação nos trabalhos que têm a oportunidade de monitorar os processos de contato cultural, principalmente
entre culturas de comunidades mais frágeis (como a dos indígenas amazônicos) com a cultura de comunidades mais fortes e agressivas (como a cultura capitalista
ocidental). Isto porque penso ser através da preservação dessas metáforas – entre tantos outros fatores culturais, é claro – que se conseguirá preservar o patrimônio
cultural desses povos – ou, pelo menos, parte dele -, patrimônios da humanidade, patrimônios inavaliáveis.




                                                                                                                                                                    14
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

           PRIMEIRA VERSÃO
                                                                   PRIMEIRA VERSÃO
                                                                    ISSN 1517-5421      lathé biosa   83
     ANO II, Nº83 - JANEIRO - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                         ISSN 1517-5421

                           EDITOR
                     NILSON SANTOS

                  CONSELHO EDITORIAL
              ALBERTO LINS CALDAS - História
               ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                  ARTUR MORETTI - Física
                 CELSO FERRAREZI - Letras
              FABÍOLA LINS CALDAS - História
            JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
           MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
                 MARIO COZZUOL - Biologia
                  MIGUEL NENEVÉ - Letras
               VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia

Primeira Versão destina-se a divulgar ensaios breves em todas as
Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows”
           deverão ser encaminhados para e-mail:                            A LITERATURA BRASILEIRA
                       nilson@unir.br

                       CAIXA POSTAL 775                                                ALBERTO LINS CALDAS
                       CEP: 78.900-970
                        PORTO VELHO-RO


                   TIRAGEM 200 EXEMPLARES


         EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA




                                                                                                           15
Alberto Lins Caldas
        Professor de Teoria da História – UFRO
        caldas@unir.br - www.unir.br/~caldas/Alberto
                                                                                                                                  A LITERATURA BRASILEIRA
                                                                                                                 A NATUREZA, A HISTÓRIA, A TEORIA E O POVO


                                                                                                                                                                  incipit

                                                                                                                           A ciência/filosofia têm compreendido o mundo:


        1) Como se houvesse um deus morto como suporte invisível, como garantia epistemológica, em última instância (a anterioridade, a não presença, e o depois
do “humano”): um em-si de pura materialidade organizada, com leis, em processo estrutural: um olho, uma vontade e uma impossibilidade de ver e sentir depois de
tudo;
        2) Como cosmo, natureza, exterioridade regida por uma lógica interna, esquecimento que essa lógica é a do mundo que a cria enquanto instrumento,
avaliação, vivência e poder;
        3) Há uma perspectiva mercantil em como a ciência vê o mundo: não somente enquanto objeto, mas mercadoria: o “pequeno mundo” burguês se transforma
num cosmo completo;
        4) O “humano” como criador da própria sensibilidade, percepção, idéias, relações, interioridade e exterioridade;
        5) Uma historicização radical jamais foi levada em consideração porque assim se desmontaria toda a estrutura de suporte da própria historicização;
        6) A prática como fundamento do teórico, mas não o teórico, o prático e os mundos a partir deles como algo absolutamente vindos de um horizonte
estritamente social, imaginário, virtual;
        7) O “mundo ativo” e o “mundo subjetivo” como dimensões vivas, não de um real-como-ele-é, mas fundamentos da virtualidade;
        8) A “atividade humana” não cria o mundo, mas faz parte não somente de determinado momento explicativo como na sua própria essência é virtualidade em
processo: programa social em movimento;
        9) A questão da verdade liga-se aos quadrantes sociais que a legitimam, provam e a fazem circular, e não a uma possível prova teórica ou prática;
        10) Não há um mundo real, objetivo, prático e um mundo fictício, mítico, religioso: não há o real e o imaginário: no viver como o vivemos o real só é real
porque é essencialmente imaginário, mítico, religioso, ideológico, ficcional: somente assim o reconhecemos, o trabalhamos, o modificamos;
        11) Para nós é o trabalho quem cria a virtualidade;
12) A universalidade e a naturalização são estratégias de um real que não se aceita imaginário, não se vê como mítico, não se concebe como ficcional: esse
não-se-vê estratégico funda suas filosofias, ciências e políticas como suporte ideológico da própria virtualidade;
        13) Os componentes do real, seus fundamentos, articulações, visibilidades e crenças não estão-aí: estão-aí simplesmente porque é assim que esta tribo vive e
faz o viver funcionar;
        14) A história, a natureza, a nação, o povo, a raça, a língua, o corpo, o território, a tradição são componentes de uma rede de programas estratégicos que
fazem funcionar o conjunto social como um todo.


                                                                  A CHAMADA LITERATURA BRASILEIRA


        - Aquilo que poderia ser a “cultura brasileira” seria, no mínimo, um nó desfeito. Não “cultura indígena”, “cultura européia”, “cultura africana”, “cultura asiática”.
Aquilo que se chama “brasileira” seria a dissolução, o fim, a descrença, o afastamento dessas “culturas”, “identidades”, “crenças”: deveria ser um afastamento objetivo
mas tem sido somente uma aproximação ingênua: teria tudo para ter se iniciado do caos, e ainda não saiu do seu galinheiro caseiro;
        - A “nossa literatura” não poderia ser aquela que se fez e se faz, sempre integrada, sempre estatal, sempre mimética, sempre aceitável, sempre europeizante
ou estadunidense, de um modo ou de outro sempre cega e surda aos movimentos mais profundos e complexos da virtualidade e dos programas de determinado
território (como se o território da literatura fosse um Território) proclamado como Brasil, ou das virtualidades em conflito, em devires;
        - Uma “literatura brasileira” deveria ter outra função: dizer a-partir, depois dos nós, podendo dizer não antes das dissoluções nem dizendo para aquilo que já
se dissolveu, mas a-partir da dissolução, a-partir da não-identidade, do não-povo, da não-nação, da não-língua, da não-natureza, da não-história: por isso não há
ainda uma “literatura brasileira” coerente com seus teóricos, com a historiografia, com a reflexão literária em geral, com seus ideólogos;
        - Esta reflexão “leva em conta” algumas naturalizações historiográficas como “cultura”, “negro”, “indígena”, “branco”, “cristão”, “europeu”, “português”,
“migrante”: se estas “histórias do Brasil” fossem realmente levadas em conta jamais poderia haver uma literatura como a que tem sido feita: sempre antes das
dissoluções que eles mesmos pregam. Fazem, ainda, uma literatura artesanal da identidade, da cor, da terra, do lugar, da classe, do povo, da elite, das tradições, das
influencias, dos folclores, dos galinheiros;
        Machado de Assis, José de Alencar, Euclides da Cunha, Gilberto Freire, Sergio Buarque de Holanda, Darci Ribeiro: corretos, fundar-se-ia outra literatura: criou-
se uma “literatura colonizada”, como se antes dos historiográficos nós desfeitos, antes da entrega, antes do abandono: uma literatura alienada no seu mais íntimo
fundamento: uma literatura para se tornar língua, território, povo, gramática, poder;
        - A ficção não rompendo com certa “tradição retórica” (uma lógica e um a metodologia) que a liga aos regionalismos, a Gramática, as tradições, a língua, não
consegue se tornar literatura;

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- A “literatura brasileira” não precisa mais “construir a nação”, “remodelar o Estado”, ou mesmo “ajudar a criar o povo”: então porque continua tão
provinciana, tão “naturalista”, tão regional e suburbana?
        - No “mundo ficcional” a “medida de todas as coisas” é o inverossímil, o absurdo, uma forma de relativismo que levanta o ser do real na medida do seu se
fazer: não é uma “evasão do mundo” mas um retorno por dentro, antes e depois, onde o sagrado se interpenetra com o mistério criando um holograma: não uma
alucinação ou uma miragem: mas o ser no seu sempre renovado aparecer;
        - Articular a singularidade ao coletivo, relativisando as realidades e seus fluxos: como se fosse criado um conceito, uma abstração: ficção não é o dentro da
realidade, mas a realidade ludicamente no seu se fazendo;
        - A literatura cria um mundo mais vivo, mais rico, mais movimentado porque não está saturado, imobilizado pela alma e pelo corpo da mercadoria.
        - Não há “língua culta”, “língua do povo”, “língua superior”, “língua literária”, “língua filosófica”, “língua técnica”, “língua primitiva”, “língua dominante”: cada
um com seu problema imaginário, com seus obstáculos: a literatura, a revolta, o grito, a fome, a indignação, a magia, o devaneio estão pouco se importando com
esses limites ridículos: a literatura não se faz numa língua, mas na linguagem. Essa “história da literatura” é resultado de nacionalismos ou imperialismos delirantes: a
literatura é o que flui entre as línguas, apesar das línguas: e se faz independente de todos os ridículos imaginários que tentam impedi-la de se realizar.
        - A aparência deve aparecer na literatura apenas metonimicamente: por dentro, sem aparecer (seu aparecer é no cotidiano: máscaras), vista através dos
reflexos, dos traços: como quem vê passar os que vão para uma festa, com suas roupas próprias, com sorrisos e esperanças, mas não vê o lugar da festa, não
esperiencia a festa.
        - A literatura enquanto magia rearticula a “diferença” entre “arte superior” e “arte inferior”, “arte de elite” e “arte popular”, “arte sagrada” e “arte mercantil”,
“arte interessada” e “arte desinteressada”. Mas exige que a liberdade como fundamento se encontre com a liberdade como formação: que a liberdade da obra se
encontre plenamente com a liberdade do leitor em aventura. A liberdade da obra, sendo muito maior que o prazer do simples consumir, ficará inconsumida, gasta,
perdida se não encontrar o consumidor livre (pervertido) que a exige para bem mais do que uma deglutição passageira, para um pão-pão queijo-queijo.




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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
                                                              PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421      lathé biosa   84
     ANO II, Nº84 - JANEIRO - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421

                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
             ALBERTO LINS CALDAS - História
              ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                 ARTUR MORETTI - Física
                CELSO FERRAREZI - Letras
             FABÍOLA LINS CALDAS - História
           JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
          MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
                MARIO COZZUOL - Biologia
                 MIGUEL NENEVÉ - Letras
              VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia

Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
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                     nilson@unir.br                                   A EDUCAÇÃO QUE ACREDITO

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                      PORTO VELHO-RO                                  MARIA DO SOCORRO NUNES OLIVEIRA

                  TIRAGEM 200 EXEMPLARES



        EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA




                                                                                                      19
Maria do Socorro Nunes Oliveira
          UFRO – Campus Guajará-Mirim
                                                                                                                                  A EDUCAÇÃO QUE ACREDITO
                                                                                                    Sobre as teorias Libertadora e Crítico Social dos Conteúdos

          Já há algum tempo venho me questionando sobre os objetivos últimos da teoria de Paulo Freire (pedagogia libertadora) e da teoria de Dermeval Saviani e
José Carlos Libâneo (pedagogia crítico social dos conteúdos) e refletindo sobre as críticas feitas por estudiosos às duas teorias.Como sou a favor do método dialógico e
da valorização da cultura do aluno proposto por Freire, mas também acredito na força cultural dos conteúdos historicamente acumulados pela humanidade, como
propostos pelos conteudistas, cheguei à conclusão de que as duas teorias se complementam, já que pelo menos em alguns aspectos, elas apontam para o mesmo fim
que é a transformação da sociedade. Senão vejamos:

          A teoria Freireana idealiza uma forma de educação na qual o educando, apropriando-se do conhecimento, passa a ser sujeito de sua história; essa apropriação
dá-se a partir do universo vocabular do aluno através da intercomunicação entre os sujeitos ativamente envolvidos no processo, intermediados pelo mundo
cognoscível, com vistas à transformação da sociedade.
          Já na análise dos conteudistas, a forma ideal de educação é priorizar o ensino dos conteúdos sistematizados, universais e que estão disponíveis para
apropriação não apenas por uma classe (dominante), mas por todos os grupos sociais que aspirem à mudança estrutural da sociedade. Sendo assim, não é válida a
aquisição de apenas o conhecimento do universo do aluno porque, dessa forma, a escola estaria privando os alunos de classe social baixa de se apropriarem do
restante dos saberes considerados patrimônio da humanidade e, conseqüentemente, condenando-os a “aceitarem” sua condição de pobres, sem chances de ascensão
social.
          Apesar de, em Freire, o educando construir o seu conhecimento, não ser ensinado por ninguém, e em Saviani ele apropriar-se dos conhecimentos, mediados
pelo professor, há que se considerar o momento histórico em que ambas as teorias foram elaboradas. Não é pretensão minha fazer análise filosófica de uma ou de
outra teoria. O que quero salientar é que, no limiar da teoria Freireana (época em que os movimentos de educação popular atingiram seu apogeu), a palavra que mais
se ouvia era “mudança”, dado o momento histórico por qual passava o país.
          Nesse contexto, foi adiada para depois da revolução a transformação da escola formal. A revolução não aconteceu. E, passados os anos de ditadura, outros
teóricos (dentre eles Saviani e Libâneo) teorizaram no que acreditavam ser o fio da meada para a transformação da escola e redimensionamento da sociedade: os
conteúdos.


          PROVOCANDO O DEBATE
Pedagogicamente falando, as duas teorias apresentam falhas. E é aí que está o ponto chave da questão: onde uma falha, a outra complementa e vice – versa.
        Se Paulo Freire teorizou sobre educação, mostrando a importância de se fazer uma leitura do mundo e apontando a possibilidade de se fazer a leitura da
palavra a partir do universo vocabular do aluno, Saviani e Libâneo praticamente excluíram de sua teoria o estudo da cultura do aluno, priorizando apenas os conteúdos
universais.
        Freire teorizou para a educação de adultos, enquanto os conteudistas priorizaram a educação formal.
        Mas, ao analisarmos os dois enfoques, vemos que , se aplicarmos a teoria Freireana na escola trabalhando o universo vocabular do aluno de classe social
subordinada e, após essa compreensão, ampliarmos seus conhecimentos com informações necessárias à sua vida, já que em nossa sociedade capitalista sobrevivemos
de empregos que exigem (para seu ingresso) que sejam feitos concursos nos quais são cobrados os conhecimentos sistematizados, assim, esse educando poderá lutar
por melhores condições de vida, já que lhe foram garantidas as informações necessárias e as habilidades requeridas para sua sobrevivência.
        Por outro lado, Saviani e Libâneo ao proporem uma prática educacional centrada nos conteúdos, repassados indistintamente para todas as classes sociais,
“esquecem” da influência que têm os conhecimentos prévios dos alunos para a apropriação correta desses mesmos conteúdos visando à transformação da sociedade.
Nesse sentido, à luz da teoria conteudista, alunos que não dispõem de recursos para embasar os conhecimentos repassados pela escola e que não ultrapassaram o
nível de consciência ingênua, podem igualar-se em nível de conhecimento aos que, não só têm esses recursos, como foram estimulados desde muito pequenos a
utilizá-los.A diferença entre os dois enfoques é que, em Freire, o aluno deve, antes de tudo, compreender o seu mundo, transpor as barreiras da falta de estimulação
e buscar os conhecimentos, enquanto que nos conteudistas esse conhecimento sistematizado é o ponto de partida para a reestruturação da sociedade,
independentemente de se fazer uma análise das condições sociais por quais passam esse aluno.
        Se, na teoria Freireana, o educando deixou de ser objeto, depósito de informações e passou a analisar sua realidade, seus conhecimentos e discutir com seus
pares a possibilidade de mudança, nesse ponto, a teorização libertadora dá um grande passo para promover a reorganização das classes sociais. Por outro lado, se os
conteudistas propõem que os alunos das classes subordinadas tenham acesso ao saber sistematizado, de forma crítica e contextualizada, transformando-se em seres
que pensam e agem para transformar a sociedade, também dão uma importante contribuição para o redimensionamento das classes sociais vigentes, isto é, ambas
reconhecem a relação entre conhecimento e poder.


        A TEORIA NA QUAL ACREDITO


        Se retirarmos o “calcanhar-de-aquiles” da teoria Freireana que é, a princípio, a não valorização dos conhecimentos sistematizados até que o aluno tome
consciência de sua posição como sujeito histórico e produtor de seu próprio conhecimento, o que, na minha opinião, poderia ocorrer simultaneamente (conscientização
e conhecimento sistematizado) e retirarmos também o da teoria conteudista que é a não valorização do universo cultural do aluno, teríamos o seguinte: uma teoria

                                                                                                                                                                 21
que valoriza os conhecimentos universais, mas não despreza o universo do aluno; que valoriza o ato dialógico do educar, reconhece as disparidades de saberes
trazidos por crianças de diferentes classes sociais e que se empenha em suprir as lacunas do aprendizado de alunos de classe menos favorecida; que não centraliza
apenas na figura do professor a responsabilidade de conduzir o processo educativo (Pode ser que este professor tenha tido uma formação acadêmica falha e que não
tenha condições intelectuais de mediar a contento o processo dentro da teoria escolhida); uma teoria que forneça instrumental para a aquisição dos conteúdos, que
valorize o ser enquanto sujeito ativo do conhecimento e analise as estruturas da sociedade através das relações travadas entre as classes. Enfim, a educação em que
eu acredito.
        Concluindo, acho injustas algumas das críticas feitas pelos conteudistas à teoria Freireana, assim como não concordo com os que dizem que a teoria crítico
social dos conteúdos se aproxima da teoria tradicional, porque, se observarmos o enfoque dado aos conteúdos numa e na outra teoria, perceberemos que os fins da
educação na tradicional são a manutenção das classes sociais,já que forma alunos acríticos, enquanto que na crítico social dos conteúdos é justamente o contrário,
visando-se através da formação de alunos críticos, a reconstrução social.




    BIBLIOGRAFIA

 ARANHA, Maria Lúcia de Arruda & FREIRE, Paulo. in: História da Educação. São Paulo: Moderna, 1998. p. 206-210.
 FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
 ______. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
 LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da Escola Pública: a Pedagogia Crítico Social dos Conteúdos. São Paulo: Loyola.
 SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. São Paulo: Cortez/Autores Associados.1983.
 SILVA, Tomaz Tadeu. Documentos de Identidade: uma Introdução às Teorias do Currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.




                                                                                                                                                               22
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
                                                              PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421    lathé biosa   85
    ANO II, Nº85 - FEVEREIRO - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421

                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
             ALBERTO LINS CALDAS - História
              ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                 ARTUR MORETTI - Física
                CELSO FERRAREZI - Letras
             FABÍOLA LINS CALDAS - História
           JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
          MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
                MARIO COZZUOL - Biologia
                 MIGUEL NENEVÉ - Letras
              VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia

                                                                 APONTAMENTOS SOBRE LITERATURA
Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows”
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                                                                                ALBERTO LINS CALDAS
                     nilson@unir.br

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                  TIRAGEM 200 EXEMPLARES


        EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA




                                                                                                    23
Alberto Lins Caldas
       Professor de Teoria da História – UFRO
       caldas@unir.br - www.unir.br/~caldas/Alberto
                                                                                                                          APONTAMENTOS SOBRE LITERATURA


                                                                                                     “A literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela.” Lima Barreto


       1 - As tradicionais inversões (“a realidade é sonho” / o “mundo das idéias” como arquétipo / deuses criando mundo e homem / deuses anteriores aos homens
/ “mundos paralelos” / a “existência precede a essência” / a matéria e seu movimento cria o universo / energia e matéria antecedendo o cosmos / mythos sendo
substituindo por logos) revelam o funcionamento da virtualidade em sua dimensão de holograma social reificado, projeção do entre-nós para um além-de-nós; e o
próprio “poder” desse holograma se personaliza num poder estranho (um algo-aí).
       O criado por nós, como fluxo vivo do entre-nós, escapa se tornando realidade (sem essa operação para-nós não haveria mundo), natureza, divindade, mundo
dos sonhos, mundo do além, misterium tremendum. Linguagem esquecida que é linguagem; práxis esquecida que é poíésis; ficção esquecida que é ficção; entre-nós
vivenciado como além-de-nós, voltando como um para-nós; interpretação desgarrada como Religião, Ciência, Filosofia, técnica, verdade (o esquecimento da
interpretação); a necessária duplicação escapando ao ser como interpretação e resultado da poíésis da práxis (os binarismos primários subjetivismo-objetivismo /
realismo-idealismo esquecidos que são interpretação, projetos, teoria, e não o-real-mesmo).
       O alheiamento fundamental acontece independentemente do “modo de produção” (conceito esquecido que é conceito): é “condição de existência”: único
modo desse “ser”, dessa “existência”: a linguagem (práxis-poíésis: real-imaginário) reificada como entes, cosmo, comunidade é categoria eixo da cultura: aparecendo
como exterioridade, a linguagem funda aqueles tipos do “viver humano”.
       Ao criar a virtualidade como princípio e resultante dessa alienação básica, podemos agir numa exterioridade não somente humana ou humanizada mas numa
exterioridade controlada (reconhecível enquanto código, signo, conhecimento, cartografia), onde a possibilidade de sobrevivência aumenta fundada numa rede viva de
relações materializadas enquanto realidade. E esta exterioridade não vem do mundo para o ser-social, mas se desdobra virtualmente da comunidade (in-visível), e
esse se desdobrar (sempre e necessariamente reificado) é a realidade, a exterioridade, a natureza: que voltará como exterioridade em-si, como conhecimento sobre a
exterioridade: conhecimento duplamente alienado: desconhece que seu objeto é fruto do movimento comunitário e que ele mesmo, com seus inescapáveis
paradigmas (universalização/naturalização), provém não somente da força do próprio desdobramento que cria o real, mas da força de ocultamento desse
desdobramento (somente a linguagem poderia se materializar e se flexibilizar a ponto de desaparecer deixando uma exterioridade-em-si).


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2 - O mundo e os conhecimentos sobre o mundo se fundam num mesmo movimento criativo e alienado ao mesmo tempo (sempre útil, mas esquecido, e se
esquecendo, torna-se um dos próprios fundamentos do existir, sua “substância”). A criação e expansão da Ciência não somente “corresponde” ao crescimento do
capitalismo mas fazem os dois parte de um mesmo processo-projeto reificado: esquecimentos essenciais tanto para a “vida social” quanto para a verdade do
conhecimento (que mesmo mudando existe como uma verdade, um espelho do mundo, um reflexo do ser-aí).
        O real é um conjunto de esquecimentos que possibilitam o “mundo do trabalho”, as redes vivas de signos que tornam o caos uma cartografia; a Ciência é um
conjunto sistemático de esquecimentos que criam, no capitalismo, tanto a materialidade industrial quanto as autoridades competentes e os caminhos corretos e
verdadeiros, numa substituição patética por uma das opções objetivas das dicotomias simplórias do “nosso mundo”.
        3 - Vivemos num universo essencialmente monetário: todas as lógicas, todas as formas, todos os fluxos, todos os conhecimentos, todas as dimensões, todas
as temporalidades, todos os deveres, todas as linguagens, todas as subjetividades, todos os corpos, todos os poderes devem obedecer, seguir, se espelhar no
monetário para não haver fissuras, não haver desnecessários “falsos espelhamentos” (o saber e o viver devem coincidir com o real para que seja considerado
verdadeiro: antes de tudo deve coincidir com o movimento fundamental de criação da própria comunidade que cria-o-real-sem-saber: a sedução dos realismos e da
própria Ciência).
        “Nosso universo” se constrói, se vê, se projeta e funciona somente enquanto imagem e movimento da sua própria atividade; as exterioridades e todas as
possíveis interioridades seguem este princípio: o objetivo, o subjetivo e seus conhecimentos se constituem antes de serem nos devires vivos da comunidade e só
aparecem quando devidamente cristalizados.
        Ver isto é um malabarismo dentro da própria ontologia monetária (fissuras entre contradições), permitida somente por ela: seu quadro de forças exige,
inclusive, as maiores e mais perigosas contradições para seu movimento, para sua reprodução: nada é perigoso ao “sistema”: o perigo é uma criação do próprio
“sistema” como condição ou da sua reprodução ou para a solução dos seus entupimentos: os devires criam os ácidos para o desentupimento: esses ácidos,
naturalmente, passada sua função, devem voltar a defender e reproduzir o “sistema” na lógica e nos meios do próprio “sistema”: o sistema é monetário, logo, Físico,
Biológico, Social, Histórico, Informacional (noções inseparáveis).
        O universo monetário não se funda sobre o “teórico”, sobre o “subjetivo”, sobre o “imaginário”, mas sobre o empírico, o utilitário: sua natureza exige o visível,
o tangível, o manuseável, as trocas vivas entre homens: suas próprias realidades líquidas, vaporosas, ígneas (pois invadem todos os poros do existente) fundam as
instâncias do real (o que é e o que não é real: o paradigma invisível, aquele que articulará por baixo todos os outros, não é teórico mas realmente ontológico: está na
formatação daquilo que entendemos como realidade) e aquilo que se afasta da verdade, da justa medida, do valor.
        A perspectiva (qualquer perspectiva, sejam as do “trabalho” sejam as do “capital”) que fala como se estivesse de fora, necessariamente, não é real ou
verdadeira: por isso deve fazer um pagamento, o pagamento por sua perspectiva e pela incapacidade em tornar “coisa” a si mesmo e seu lugar: a diferença deve ser
paga.

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A inteligibilidade acontece porque se funda nas múltiplas cristalizações e devires do entre-nós. Sendo o entre-nós essencialmente monetário (o que não é
esconde e esquece) a inteligibilidade e aquilo que é inteligível são constituídos pela “parte escondida” do entre-nós. Principalmente porque o conjunto da virtualidade
funciona para não comprometer o próprio equilíbrio (a moeda garante esse equilíbrio e os possíveis desequilíbrios, paga qualquer trabalho, qualquer força de trabalho,
qualquer dívida, qualquer compra; põe qualquer fluxo a fluir segundo sua medida e segundo sua tendência; cria materialidades e subjetividades; garante a existência;
está em todas as dimensões da comunidade; sua existência conclui devires, esconde fluxos, garante ou destrói realidades; funda poderes, inicia o entre-nós,
estabelece temporalidades; põe em cena todas as “forças disponíveis”: esse quadro disporá seu arsenal, seu poder, criando condições favoráveis e desfavoráveis que
regerão grande parte das singularidades, idiossincrasias, gostos e tendências de indivíduos e grupos).
        Com a transformação radical das sociedades ocidentais em sociedades financeiras, o passado (criação útil e real por muito tempo) começa a desaparecer, a
ser empurrado para um lugar sem interferência. O imediato do presente exige correções advindas somente de si mesmo: essa tendência não é somente econômica,
mas tem se tornado a lógica não dita ou a linguagem seja das mídias, das artes, dos conhecimentos ou dos sensos comuns (cada vez mais não há um desdobramento
vivo mas um funcionar como se esse desdobramento não existisse: o desdobramento já se tornou não-útil, não visível ou mecânico). A noção de memória se
transforma numa noção mais complexa, incluindo o esquecimento como constitutivo e não mais como aquilo que a destruirá.
        4 - Uma “Ciência da Literatura”, uma “Teoria da Literatura”, uma “análise do discurso literário”, tradicionalmente, esquecem completamente este “fundamento
ontológico”, partindo quase sempre de um ponto escuro (um não dito, um não sabido, um não visto, um não aceito: vazios ideológicos que vêm somente “idéias
políticas”, “teorias”, “discursos”, “linguagem”, “análises”: ideologias sobre ideologias, linguagem sobre linguagem, discurso sobre discursos), de um sistema de
conhecimento que se basta por sua competência, por seu rigor, com uma linguagem de casta, uma lógica com raízes muito claras em obras, sistemas, obviedades
estabelecidas: e a literatura vai ao largo, escapa de qualquer reflexão mais fundida à sua “matéria”.
        5 - A Literatura é um quadro específico de poderes que flui com determinadas regras. Sua posição jamais é neutra, inocente, “literária” ou “poética”: ao se
instaurar esconde sua posição (de onde jorra: o fundo escuro: a brecha) e o “quadro de força” que a produz, circula, reproduz e faz permanecer. Universalizada,
mantida por outros diversos discursos que não se dizem, reelabora as mesmas regras que, para se concretizar, teve que seguir ou romper. Esse rompimento (tão
comum nos séculos XIX e XX), na verdade, é uma refala (o mesmo dizendo-se diferente; a diferença na aparência se tornando diferença radical pelo ocultamento de
onde se fala e quais quadros de força a sustentam: a Literatura é um esquecimento ideológico que se apresenta como discurso, literatura, poética: um discurso
tornado Língua, Cultura: um discurso que não se vê como discurso: um Discurso contra os discursos).
        O escritor, para ser escritor e fazer-literatura, deve se deixar determinar por regras anteriores, discursos de poderes que o caracterizarão. Dentro do jogo, ele
pode, por ter aceito as regras, mudá-las (mas sempre segundo sua matéria, sua substância, suas leis, suas pulsações, suas permissões e proibições: sua economia): a
mudança será, sempre, aceita depois porque, desde o princípio, já fazia parte da lógica geral dos quadros de força.



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Não é uma voz qualquer nem uma posição qualquer de onde vem a Literatura. Também não é qualquer sistema de discursos que a suportam ou disseminam.
Os discursos que a legitimam (na medida da sua escritura, da sua publicação, da sua distribuição, da difusão crítica e de onde partem) são os mesmos que criam e
protegem e difundem a Religião, o Estado, a Indústria, o Comércio, a Língua, a Ciência, a Natureza, a História, a Gramática.
        6 - As revoluções (sonho criado e acalentado pelas fragmentações heréticas de cristãos, burgueses e românticos: idéia tardia no mundo cristão e burguês e
para se realizar exige condições ontológicas deste mesmo suporte cristão e burguês) só puderam ser pensadas ou feitas tendo como medida a “natureza”, a “natureza
social”, a específica máquina de tecer o real, criando sempre um “real natural” reificado e reificador exatamente por se manter natural; exigindo, assim, depois de
qualquer revolução, aparelhos que garantam a nova máquina de tecer o real, criando as novas “naturezas”, os novos “naturais”.
        As “revoluções reais” e as “revoluções imaginárias”, todas, esqueceram que eram projetos políticos, imaginários, hologramas nascendo de hologramas sociais
específicos, carregando todos os possíveis esquecimentos e reproduções invertidas, e que esses esquecimentos é que davam e dão a impressão de diferença do
mundo combatido.
        A “natureza” binária do “nosso ser social” condiciona as “revoluções possíveis” (aquelas que são logicamente conseqüência do “processo sócio-histórico”):
somente os mesmos (se dizendo os novos) seres-sociais, seres-biológicos, seres-econômicos exigindo Estado, Política, exército, Educação, Gramática, Ciências e
gêneros: periculosidades em nome da Verdade, da Natureza, do Homem, da História, do Estado, da Raça: hologramas sempre mergulhados no pântano da
exploração, no sofrimento da existência sem transcendência, no sangue coagulado de milhões de tolos, de vítimas, de um gado sempre num quase pasto invisível.
        7 - Se as Revoluções são “impossibilidades reais” (sempre um ‘gatilho’ para reacionar entraves gerais dos sistemas, realizando, assim, a lógica e a força das
lógicas do sistema), a Literatura não está fora desse controle: as “revoluções literárias” são apenas redizeres invertidos do mesmo quadro de poderes (quadro de
dizeres) ou do quadro de poderes que se constitui a partir do ainda vigente: o não aceito é somente o futuro vigente aparecendo.
        No entanto as revoluções são possíveis: nos cabe torná-las realizáveis.
        8 - A infidelidade dos escritores à literatura (a fama, o dinheiro, o mercado, as mídias, os jogos de poder, a inconsciências das lógicas em jogo, a má fé) têm
levado a literatura a uma situação estranha: parece ter acabado, ter se esgotado (as muitas mortes da literatura): a repetição não como uma lógica para desvendar as
lógicas do mercado mas a repetição como um oroboro. Nos moldes estritos do mercado e das modas é impossível criar literatura. Escrevem livros, não literatura: as
modas desvendam somente aspectos da “literatura de massas”, não da literatura. A fidelidade dos grandes escritores, sua atividade exclusivamente mágica, egoísta,
sem fim, é a madeira e a chama inicial da literatura: o resto pode ser engolido pelo mercado e se transformar em mercadoria (o inescapável): a literatura se fazendo
sem as ilusões monetárias e mercadológicas (seguindo suas lógicas internas, grupais, tradicionais ou inovadoras) está feita e inicia sempre como se fosse de um caos
instigante onde ainda e sempre falta tudo a ser dito.




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9 - A literatura é uma espécie de insatisfeito desejo; está sempre por-vir; está sempre-além; sempre adiante; visando sempre um além-que-escapa: somente
assim acumula a si mesma sem gozar, sem consumir, sem consumir-se, sem se entregar nessa entrega, mas acutilando, atacando, sonhando, imaginando um depois
(sempre presente e para o imediato) que a justifica: a caça sempre futura da arte gestualiza sempre um agora.
         10 - A verdadeira literatura transforma quem a deixou passar e quem a recebe (sempre porque a buscou, a pressentiu). Ela fornece uma linguagem, uma
outra linguagem (tão instável quanto a fome que a impulsiona: linguagem que inicia no caos e se delicia somente no caos), um outro saber à futura caça-da, ao futuro
(sempre imediato) viver. Uma linguagem que atinge exatamente no que nos falta, naquilo que em nós está crispado, enterrado, incompleto; aquilo que nos cega, nos
cala, nos impede de ouvir os sonhos (desejando somente a caça “real”), os desejos em suas sutilezas, as palavras e os outros. Uma linguagem que abre as portas
para os não-ditos, os não-formulados, os não-formuláveis, os não-conceituáveis, mas fundamentais ao continuar vivendo, ao continuar a aventura e a fome (sem se
ter iniciado uma aventura a literatura é inútil: somente ao buscarmos algo, ao desejarmos sem gozar é que se abre o caminho: a carne da literatura não é para os
dentes: exigindo outro movimento, linguagem, saberes, técnicas).
         11 - A literatura é sempre singular: ela é feita somente para nós, para aquele leitor específico e sua aventura. É uma porta exclusiva. Cada leitor tem em suas
mãos um livro para ele, diferente do mesmo livro para outros e diferente segundo suas aventuras.
         12 - A diferença entre a História e a literatura é que a primeira resiste em saber que é essencialmente ficção, e a segunda se rejubila por ser simplesmente
ficcional.
         Não há na História um “narrar o que sucedeu” e na literatura “aquilo que poderia ter acontecido”: a questão se dá por um esquecimento básico da História, o
que a afasta da produção imediata da realidade e a aproxima dos discursos que a obstruem e a fundam por baixo enquanto fonte ideológica do próprio real. Sua
criação de passados como “realidades acontecidas” comunga com as ilusões psicanalíticas que descrevem a interioridade, da Biologia que descreve os “seres vivos”, da
Física com seus “fenômenos naturais” ou as Ciências Humanas com seus paradigmas míopes.
         13 - Não há literatura sem um pacto vital. Compreendendo que seu exercício corresponde à própria criação e manutenção do mundo, a literatura articula os
pólos opostos (arte/vida) numa síntese contraditória porque esquece que não há pólos opostos. Essa oposição se dá somente com determinada arte compreendida
como “produto”, “determinada”, “inspirada”, “conseqüência”: existe pólos opostos somente quando o circuito autor/leitor/critico acreditam que existe a história e a
literatura e que a segunda provem daquela numa linearidade ou numa rede complexa, mas ainda numa idéia de articulação submissa ou de dependência lógica.
         14 - Ao ser equivalente visível da práxis (deus, espírito, natureza, mitos, idéia, história, musas, realidade, inspiração, utopia, ética, espírito santo, trabalho) a
literatura carrega não somente as multiplicidades, mas as alienações fundamentais do existir: a literatura não aparece para as Ciências da Literatura porque seus olhos
estão normalmente voltados para o real, um lugar vazio: lugar das ficções que garantem ao real ser considerado e vivido como real: esse lugar também se tornou o
lugar da literatura: a sedução do real enquanto visibilidade etnográfica, jornalística, historiográfica, nacional.



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15 - A literatura é o que plasma a origem invisível reificada, a surpresa banalizada pelo costume, fazendo-a saltar: os fantasmas da práxis. Nesse efeito
fantasmagórico da práxis é onde radica a literatura (para o bem e para o mal): seus fantasmas são os mesmos da práxis: sua força e seu movimento.
        16 - A literatura ao expandir a imaginação, a percepção, a cognição, o olhar, o pensamento, as relações espaciais e temporais; ao ampliar o sonho, o desejo, a
ambição, a sensibilidade – torna diferente a relação entre o indivíduo e o mundo.
        17 - A literatura é um jogo onde é encenado (as fomes, os sonhos, as ansiedades, os desejos, os medos, as esperanças) o futuro com as formas e as matérias
do passado.
        O presente como desdobramento vivo de passados e futuros já não é visto: um tipo de imediato se sobrepõe ao desdobramento, apagando seus devires.
Resta somente a aparência e o espetáculo: a literatura reduzida ao rótulo (com uma mercadoria dentro).
        18 - O que se canta, o que se fala, o que se dança, o que se esculpe, o que se escreve na caverna (grota) buscando o futuro (encontrando sempre o
presente) é a “alma do povo”, a alma dos sofrimentos, das fomes, dos trabalhos e humilhações, não especificidades que já são sabidas e em nada contribuem para as
articulações mágicas entre os desdobramentos temporais. As pressões vivas do imediato (a carne viva, a ferida que clama se fechar) recordam a carne do passado e a
esperança de carne no futuro (u-topos: o não-lugar como um dos lugares da literatura). As tecnologias, os nomes, as temporalidades, as relações de grupos e classes,
as palavras do poder, não fazem parte deste “canto” não somente porque o afastaria do centro da questão, mas porque não fazem parte dele, são elementos de
dissolução, não de consciência, de corpo, de magia.
        19 - O tempo da literatura deve ser o presente, não o imediato do presente, mas o presente contra o imediato (para o imediato). A literatura se faz ao mesmo
tempo do sendo-feito do imediato, sem se reduzir a ele (mercadoria).
        20 - Fotografar, radiografar, informatizar o real não o desventra: o real, ficcional que é, precisa ser exagerado, reunido em seu grotesco, em seu caricato
(reunindo traços, sendo sem ser), em seu monstruoso, em seu humor, em seu sem graça, para revelar-se: sem essa reunião alegórica (modelo literário das ficções do
real) cairemos nas ilusões do real, nas suas banais armadilhas, no seu sistema de crenças, nos seus artifícios de proteção.
        21 - A literatura é uma “operação simbólica”: nela o real, arsenal ficcional básico, aparece sem a “sensação” de que o real não é ficcional, simbólico,
lingüístico: a literatura é o real: um “modelo” do real sem a ilusão do real (ilusão que o impede de se aglutinar, o que a literatura realiza; e de se mostrar enquanto
“atividade social”). A literatura não imita o real, mas funde os ingredientes em fusão (ficções básicas do real) na mesma medida do real: os dois se fazem da mesma
maneira. A literatura, dessa maneira, alcança o centro do real sem precisar imitar, sem papaguear sua aparência, sem precisar ser folclórico, regional, nacional ou
ceder aos gostos e ditames internacionais: essas aparências literalizadas fazem parte das ilusões básicas do real e não das operações que buscam desvendá-lo: essas
ilusões devem aparecer no seu lugar, o que a literatura faz, e o seu lugar é dentro e não por fora.
        22 - A clivagem (a obra) é, antes de tudo, uma clivagem na virtualidade: o holograma da obra é o resultado de uma profunda “operação alquímica” no real. A
práxis literária é similar à práxis geradora do real (programa social vivo).

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23 - A história enquanto real é a virtualidade ficcional da ocidentalidade; enquanto disciplina (História) é escritura alienada da própria escritura (acredita e faz
acreditar na sua realidade acontecida escondendo suas operações ficcionais: ideologia) e da natureza do se objeto-de-estudo: somente assim pode se exercer
enquanto ideologia.
       24 - A educação do escritor se faz essencialmente através da literatura: é ela quem o educa: quem o transforma, quem o perverte, quem alimenta sua vida,
quem mantém a esperança, quem sustém a morte. A literatura se faz através dele porque sua convivência e sua prática poética, existencial, constituiu seu ser
enquanto passagem, enquanto aquele que ouve a miséria presente, pressente o canto futuro (a “aguda antecipação” de Jakobson).
       A literatura se faz, se aprende, se ensina em movimento: experiências em devires. Essa educação é, antes de tudo, a educação da “imaginação poética”: sem
essa imaginação não há autor, leitor ou obra: ela é a mesma que mantém o programa do real funcionando e visível.
       25 - A literatura é similar à substância profunda do viver humano e à sua atividade criadora. Por isso a literatura não é um problema teórico, mas existencial.
Ao não criar somente um “objeto” para um sujeito, mas um sujeito para esse “objeto”, cria um “objeto” que na verdade é um sujeito, e esse estranho sujeito não nos
põe a fluir, multiplicando nossos devires e nos posicionando no lugar onde tudo é linguagem, sem a armadilha do mundo em-si: da perspectiva aberta pela literatura o
real toma sua dimensão.
       26 - Como é um jogo sem conclusão a literatura só pode ser jogada e só existe enquanto é jogada.




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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
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                                                               ISSN 1517-5421        lathé biosa   86
    ANO II, Nº86 - FEVEREIRO - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421

                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
             ALBERTO LINS CALDAS - História
              ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                 ARTUR MORETTI - Física
                CELSO FERRAREZI - Letras
             FABÍOLA LINS CALDAS - História
           JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
          MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
                MARIO COZZUOL - Biologia
                 MIGUEL NENEVÉ - Letras
              VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia
                                                                       HISTÓRIAS DE INFÂNCIA
Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows”
           deverão ser encaminhados para e-mail:
                                                                                EUGÊNIA CORREIA KRUTZEN
                     nilson@unir.br
                     CAIXA POSTAL 775
                     CEP: 78.900-970
                      PORTO VELHO-RO


                  TIRAGEM 200 EXEMPLARES



        EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA




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Eugênia Correia Krutzen
Professora de Psicanálise – Universidade Potiguar - RN
echk@digi.com.br
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       A infância abandonada é uma questão que gera espanto, indignação, revolta, ao lado de uma igualmente apaixonada recusa a encarar a questão como um
problema passível de superação.
       Propomo-nos aqui acolher este fato, inclusive nas ocasiões em que é veementemente denegado. Neste sentido é que procuramos a área da História Social da
Infância e da Família, esperando encontrar esclarecimentos a respeito de como, na atualidade, nos tornamos – aparentemente - tão indiferentes à infância
abandonada.
       Em relação a outros problemas, as ONGs brasileiras encarregadas de crianças são significativamente numerosas, conforme Correia (1999). Esperamos, com
este estudo, contribuir para que se esclareça o sentido contemporâneo de infância, razão de ser do trabalho que realizam aquelas organizações.
       Handke (1990) começa sua História de uma infância descrevendo o lugar que já guardava para seu filho ou filha, antes que ele ou ela nascessem. Ao lado
de duas outras expectativas para o futuro, a criança era acalentada junto ao sonho da amada, que ele descreve como alguém que lhe seria destinado e da vida
profissional que lhe daria acesso a uma liberdade digna de um ser humano. O ponto fundamental da narrativa, para nós, ele sublinha na primeira página: em seus
sonhos, esses três anseios não apareceram sequer uma única vez unidos numa só imagem.
       Procurando uma ilustração brasileira, ocorreu-nos o filme “Central do Brasil”, dirigido por Walter Salles, que trata justamente desse tema, e não exibe, em
nenhum fotograma, a imagem dos filhos junto a pais e mães, fato ressaltado por Ariès (1973/198673) como novidade no século XVII.
       As narrativas de Handke e Salles delineiam uma característica instigante da infância contemporânea: o questionamento à sua naturalidade em relação à
família. Vivemos um tempo em que parece plausível afirmar uma infância que não supõe uma família. Para compreender essa situação, procuramos períodos
anteriores, quando estes dois termos encontravam-se naturalmente relacionados.


       Século XVII: A família e a infância como novidades
       Ariès, P. (1973/986) e Badinter (1980/1985) afirmam que a família enquanto grupo privado vai surgindo, no ocidente, ao lado da infância a ser protegida e
preservada dos perigos do meio, durante o século XVII.




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Antes dessa época, fils, valets, garçons, eram palavras do vocabulário das relações feudais ou senhoriais de dependência. Um petit garçon não era
   necessariamente uma criança, mas um empregado. Da mesma forma, o termo família referia-se à fidelidade dos servos a um senhor, sem nenhuma conotação

   sentimental ou natural.

       À princípio, pode parecer difícil imaginar que essa instituição, das mais sólidas em nosso imaginário, possa ter uma história onde seu próprio surgimento
indique um período em que não existia. Sua dissolução, entretanto, parecia fácil de conceber nos anos sessenta, em uma conotação quase pejorativa para este
conceito: na TFP (“Tradição Família e Propriedade”, um movimento civil de direita, dos anos 60); na Máfia; no seu papel de consolidação das heranças e das
ideologias, como sublinha o marxismo, ou nas neuroses, conforme a Psicanálise. Mas esses elementos fortaleciam, como perigos a evitar, o espaço onde a família
constituía o circuito aconchegante de afeto e segurança. ´E justamente esta conotação de reduto afetivo que alguns historiadores vão desnaturalizar.
       Além dos quadros de Rubens (1609), outros indícios são recortados por Ariès (1973/1986, p. 65) como características de um sentimento de infância: elas
começam a receber nomes próprios, a saber quantos anos têm, assim como os pais passam a considerar importante saber quantos são os seus filhos. Há um
reconhecimento da especificidade deste período da vida, expresso pelos novos lugares que lhe são determinados nos cômodos das casas, na dimensão dos móveis,
nas atividades que lhe seriam proibidas. E há também um lugar entre os saberes, justificando uma medicina especializada, uma pedagogia que lhe sejam próprias.
       Ressaltemos: assim como a infância existia, mas não justificava um lugar, um saber próprios, também havia união homem-mulher, que, entretanto, não
constituíam necessariamente uma família, não motivava produções culturais específicas. A novidade moderna consiste em unir essas concepções (1).
       Um fator presente nesta mudança é o espírito cartesiano, separando as idéias claras e distintas, contribuindo para consolidar representações de crianças
separáveis das de adultos, fortalecendo a família também como unidade distinta, lugar de proteção e isolamento onde os filhos podem ser educados à luz da razão. A
obra de Rousseau também pode ser representativa desta fase, quando predomina o interesse em prover à infância formação e cuidado.
       Mello e Martinez (1998) elaboram um instigante histórico da noção de criança classificando referências filosóficas em três grandes períodos: o primeiro deles
associa infância a pecado original, como em Santo Agostinho. Um outro entendimento é efetuado por Descartes, associando infância a erro, ressaltando a
suscetibilidade infantil às influências da paixão e da crença. Um terceiro período, também marcado pelo racionalismo iluminista, vincula infância a desperdício, à
prevalência do princípio do prazer de Freud. À sucessão histórica pecado-erro-máquina, corresponde a expiação-tutela-utilização.
       Lembrando da situação de um segmento considerável de crianças habitantes de grandes cidades contemporâneas que podem ser vistas como referência da
possibilidade, vislumbrada por determinados adultos, de se desenvolverem com um tipo de tutela limitada a alimento e abrigo, ousamos propor um ponto a mais no
histórico de Mello e Martinez (1998): à criança como pecado-erro-máquina, seguir-se-ia a criança-estorvo, tendo como contrapontos expiação-tutela-utilização e
pertencimento.



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Mello e Martinez (1998) também criticam a derivação da idéia de criança, ou seja, a tendência a tomá-la como um desdobramento de outras categorias.
Propomos, entretanto, que por nossa condição evolutiva de fragilidade ao nascer, seja impossível considerar uma autonomia entre maternagem e filiação, o que,
inevitavelmente inclui um terceiro, para que a simbiose se desfaça. Considerar uma tríade indissociável é, portanto, diferente de derivar um termo do outro. Um
histórico da infância, assim, vai nos levar a uma construção relativa à família, (considerando-se infinitas possibilidades de organização familiar), como figura e fundo, e
é nesse próprio eixo que se pode incluir o fenômeno atual da criança que sobrevive, aparentemente, destituída deste grupo. A família definida pela naturalidade
destaca, por contraste, a abjeção constituída por sua ausência: pais que supõem dispensável, opcional, sua ação junto ao filho. Nestes casos, não é que a família
deixe de existir: trata-se de uma forma de abandono e isenção que segue paralela, concomitante, às outras formas.
          Em outra direção, o Direito Napoleônico, de que somos herdeiros, define criança como aquele ser que, além de não trabalhar, não tem responsabilidade sobre
seus atos, sua assinatura não vale nada, qualquer ato seu exige o acompanhamento de um adulto.
          Como sucedâneo desta fragilidade, faz-se um investimento em um amor materno, tão natural que daria conta, sozinho, da consolidação da família. A
fragilidade em termos físicos de qualquer bebê humano situaria como natural uma suposta tendência da mulher a proteger o filho, justificando, inclusive, que seja
regra geral, no caso de separações de casais, que seja a mulher a ficar com a guardai. Os dados antropológicos e históricos, assim como as pesquisas com infância
abandonada, entretanto, são claros na relativização desta certeza.
          Elisabeth Badinter (1980/1985 p. 9) comenta no prefácio a uma edição revisada do seu polêmico livro História de um amor conquistado: o mito do amor
materno, o impacto causado por sua proposta de que o amor materno seja tão histórico quanto qualquer outro sentimento: A julgar pelas reações apaixonadas que
este livro provocou – e que me surpreenderam, confesso – a maternidade é, ainda hoje, um tema sagrado.(...)
          A autora observa que esta reação ocorre em países avançados ou não, demonstrando que ninguém sai imune da leitura de estudos onde se torne evidente
que o sentimento supostamente o mais puro e genuíno, aquele que situa a mãe acima de todas as coisas, pode ser situado historicamente.
          Para a autora, entretanto, é fundamental debelar preconceitos, inclusive esses mais arraigados, pois, na medida em que alguém é destituído desta quota
mínima inicial, haveria alguma coisa sinistra e mórbida já no início de sua história, legitimando-se, assim, estereótipos negativos sobre crianças abandonadas. Diz a
autora:
          Se é indiscutível que uma criança não pode sobreviver e desenvolver-se sem uma atenção e cuidados maternais, não é certo que todas a mães humanas
sejam predestinadas a oferecer-lhe este amor de que ela necessita. Não parece existir nenhuma harmonia preestabelecida nem interação necessária entre as
exigências da criança e as respostas da mãe. Nesse domínio, cada mulher é um caso particular. Algumas sabem compreender, outras menos, e outras ainda nada
compreendem. E talvez aí o mal metafísico, uma das causas essenciais da infelicidade humana. Mas será possível pensar em fugir desse mal negando sua existência?
(Badinter 1980/1985 p. 18)



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Tão pouco os pais, acrescentemos - o elemento masculino da parentalidade –, seria naturalmente informado de sua função, mas este reconhecimento não
causa tanto efeito quanto aquele discutido por Badinter.


A “naturalidade” da infância pobre
        Além da questão da “naturalidade” da infância em relação aos pais, uma outra nuance evidencia-se, na discussão contemporânea sobre crianças de rua. O
reconhecimento da dependência da criança em relação aos pais é diferente, quando se trata da criança proveniente de famílias empobrecidas. A própria denominação
se modifica para “menor”, situando automaticamente uma referência civil, legal, impensável para as outras crianças, e sugerindo uma vinculação direta ao Estado.

        Uma concepção genuína, tanto do amor materno quanto de uma infância definida por si, é ressaltada por Kramer (1992) como produzida pelas classes
dominantes, que divulgam uma infância universal, caracterizada pela idade e pela dependência aos adultos, mas que, de fato, se diferencia inteiramente em função da
classe social.
        Observamos, novamente, uma distinção possível entre desconhecimento e ignorância. A partir da literatura examinada, além das entrevistas do estudo
exploratório, não nos parece possível que educadores contemporâneos desconheçam um sentimento cuja origem remonta ao século XVII: aquele que associa, à
infância, a necessidade de proteção e educação. Tratando-se de crianças pobres, entretanto, as propostas de Ariès adquirem outra conotação.
        Há homens que desconhecem os filhos que têm, tanto no que se trata de registro no cartório quanto de reconhecimento da importância da função paterna
junto a eles, tal como supomos haver acontecido antes do século XVII.
        A literatura a respeito, por exemplo, Catela (1997) e as entrevistas do Projeto Axé, registra o quanto é freqüente que as crianças de rua não saibam quantos
anos têm, não portem documentos, sendo registradas pelos programas de assistência, demonstrando, assim, que a infância não é uma fase igualmente natural para
todos os seres humanos, nem a História constitui um fio linear onde os séculos se sucedam igualmente para todas as classes sociais.


Século XIX / XX
        Kramer (1992 p. 24) desenvolve seu trabalho a partir de uma concepção afeita ao ponto de vista marxista, que para nós, constitui, junto ao campo freudiano,
as principais referências teóricas dos autores que inspiraram nossa Oficina. Para a autora :
        O princípio fundamental é o de que a criança deve ser concebida em função da sociedade de classes, não existindo em si mesma. Encarar a infância dentro da
sociedade de classes significa que não existe “a” criança, mas sim indivíduos de pouca idade que são afetados diferentemente pela sua situação de classe social.
        A autora vai ressaltar então o discurso oficial, onde a infância genericamente definida em padrões universais serve de parâmetro para uma variação carente,
deficiente, inferior, em função das diferenças exibidas em relação ao padrão. Esta deficiência, por sua vez, dará margem aos programas de educação compensatória,
cujos efeitos ampliam e intensificam o não-reconhecimento da diferença, da diversidade cultural, fortalecendo a suposição de que os fortes e esforçados auferem os
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louros a que fazem jus. Assim, haveria famílias, e suas respectivas crianças, socialmente situadas em função do acesso ao capital econômico, tal como propõe a teoria
marxista.
        Ao contrário da autora, Vogel e Melo (em Fausto e Cervina 1991) posicionam-se favoravelmente à consideração de uma infância universalmente definida,
partindo do tipo de relação entre dois sujeitos envolvidos: um deles ocupando uma função materna e outro, a posição de filho. Para os autores a distinção conceitual
da infância em função das classes sociais é um absurdo que deve ser evitado nas discussões, defendendo, assim, que a infância encontre elementos definidores em
qualquer classe social.
        Para nós, uma das formas de tornar visível este elemento universalizante, almejado tanto pela crítica de Kramer quanto pela defesa de Vogel e Melo, pode ser
resumido pela indissociabilidade dos três termos: o filho situado pelas funções paterna e materna. Estas funções variam histórica e culturalmente, o que permite a
visibilidade daquilo que não se modifica e é imprescindível para o desenvolvimento infantil: a importância de serem funções distintas, mutuamente reconhecidas.
        Corroborando essa proposta, além de Ariès, (1973/1986), Badinter (1980/1985), Kramer (1992), Sluzki (1997), Dauster (1992 em Brauer 1994) e Fonseca (em
Brauer 1994) são unânimes em ressaltar como é fácil e igualmente falsa uma concepção universal tanto de família quanto de infância. Seus estudos são favoráveis à
conclusão de que aquilo que não varia, no decorrer da História, é o tabu do incesto, formulado em torno das relações de parentesco, que embora tomem as mais
diversas formas, sempre vão caracterizar o paradoxo da nossa natureza cultural. Essa conclusão indica a indissociabilidade ressaltada entre os termos, pois um tabu é
como um chiste, exige uma composição de, no mínimo, três elementos.
        Resumindo nosso percurso: infância abandonada supõe alguém que não abandone, o que remete ao grupo familiar. Este por sua vez, supõe uma tríade inicial,
viabilizando a transmissão de um pertencimento. Esta maneira de conceber o problema nos leva ao campo fundado por Freud, onde é possível acrescentar à proposta
de Kramer: assim como há diferentes infâncias em função de diferentes classes sociais, há diferentes infâncias em função de diferentes tipos de função paterna e
materna.
        Para nós, a perspectiva freudiana esclarece a discussão, enriquecendo os argumentos de Kramer (1994) e Campos (1992), que definem criança de rua como
um produto do capitalismo selvagem. Uma das formas de ampliar essa formulação pode ser uma preferência pelo termo criança socialmente abandonada, ao invés de
socialmente excluída, pela implicação que o termo promove em relação aos adultos supostamente responsáveis, envolvendo uma tomada de decisão frente ao fato,
irredutível à selvajaria do capital. Alguém pode ignorar que tem um filho, independentemente da classe social em que esteja incluído, e até mesmo
independentemente do fato de reconhecer este filho juridicamente. É possível, neste sentido, que uma herança econômica seja garantida, mas não a transmissão
simbólica de um significante afeito ao pai.
        Trata-se assim, de ressaltar que, mesmo intra-classes, há diferentes tipos de paternidade e de maternidade, que nos parecem irredutíveis ao fator econômico.
Sob o ângulo psicanalítico, há crianças abandonadas nas classes média e alta, e há famílias pobres que conservam seus membros unidos de maneira saudável. Esta
união ocorre em torno de um eixo ético, simbólico, onde alguma coisa própria àquela família se transmite ou se dissipa entre as gerações.

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Esta interpretação enfoca o lugar encontrado pelo sujeito em uma cena, o contexto edípico, onde se desenrola o romance familiar de que ninguém escaparia,
e que não pode ser flexionado em função da posição sócio-econômica de um sujeito, mas sim do capital afetivo traçado antes mesmo de seu nascimento. Deste modo,
a criança é definida como aquele ser que herda uma determinada posição no contexto edípico, podendo em seguida aceitar ou não, mas jamais ignorar esta
configuração inicial de sua existência. Um dos modos de compreender o abandono contemporâneo da infância em risco social remete à posição em que os pais situam
sua própria função nesta cena, acreditando que possam ser dispensáveis. Trata-se, assim, de um modo de encadear a História Social da Criança, partindo do
sentimento apontado por Ariès. Ao ser considerada relevante a formação de uma criança, admite-se, ao mesmo tempo, a necessidade de um adulto responsabilizar-
se por essa formação, confirmando a importância de ser discutida a noção de família.
        Chegando a este mesmo ponto, Sluzki (1997) intitula “Rede, família e narrativas” o capítulo do seu livro em que elabora um histórico das terapias de redes,
destacando quatro grandes fases: na primeira o foco era mantido no problema; na segunda, a família passa a constituir a unidade trabalhada; na terceira, o próprio
terapeuta – sua participação na observação e condução familiar do problema - passa a constituir o centro do processo; até que na quarta fase do histórico das
terapias de rede, o autor passa a enfatizar a narrativa como elemento fundamental: o foco passa a ser o modo como o problema é descrito, narrado.
        A família então, é delimitada pelo campo das histórias em comum, compartilhadas pelos seus membros, observando que ser parte de uma família implica em
compartilhar histórias, descrições, valores, ideologias, mitologias. Trata-se, portanto, de tornar visível – por meio do conceito de família - uma valorização da
transmissão desses elementos por meio de narrativas, onde o sujeito encontre seu lugar.
        Essa consideração nos levou ao campo dos personagens que promovem identificações, e daí à literatura como pretexto para a construção de um espaço onde
novas identificações se fizessem acessíveis através das tramas, dos personagens e movimentos que a própria literatura provocasse.
        Em suma: antes do século XVII “família” remetia à fidelidade dos servos e “criança” era definida como um adulto em miniatura. Durante aquele século,
instaura-se uma nova associação entre a criança, que precisa de proteção e formação, e a família, grupo voltado, entre outras coisas, para a missão de proteger e
educar seus membros. No final do século XX aparece outra novidade, aqui ilustradas pela histórias de Handke e Salles: cada vez há menos “filhos” e mais “crianças” e
as “famílias” são facilmente desfeitas em prol dos interesses individuais de cada membro do casal.
        Retomemos a história de Handke e a típica família monoparental contemporânea. Podemos então compreender a perplexidade desse escritor diante da
maneira como “a mulher” posicionava-se frente à “criança”, sempre movida pela opinião dos pedagogos e pediatras, destituindo, a ambos os pais, da possibilidade de
transmitirem um estilo de “criação” à filha recém-nascida.
        Ela se atinha aos livros e às regras de conduta dos especialistas a quem, por mais experiência que tivessem, ele desprezava em sua totalidade. Chegavam-lhe
mesmo a provocar indignação, na qualidade de interventores ilícitos e insolentes no mistério que havia entre ele e a criança.”
        Ou referindo-se também à ocasião do nascimento da filha:
                Por trás do vidro, o que lhe apresentavam não era uma “filha”, tampouco um “descendente”, mas uma criança (....). (Handke 1993 p. 11)

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Uma característica de nosso tempo seria a substituição da propriedade humana de se projetar no mundo por meio dos filhos, defendendo uma forma de
pertencimento próprio do ideal de cada um , pelas regras de cuidado e criação de filhos estereotipadas e universalizadas. O aumento de tantas crianças em situação
de abandono, explícitas ou não, nos autorizam a supor como um dos traços deste final de século, um tipo de infância – pobre ou não - entregue a instituições que
também prosseguem o mesmo discurso da desresponsabilização.
        Filhos de um saber sem sujeito, sem autor, sem desejo, destituídos do “dom”; movimentando-se em rotinas flexibilizadas pelos cálculos custo/benefício, esta
orfandade reconhecida em cartório e legitimada pela ciência seria uma das faces mais expressivas da miséria do nosso tempo.

Notas:
1
  Abrahan (1992) observa a historicidade da união entre homem e mulher. Em séculos anteriores ao ano mil, não havia registro de produções que demonstrassem o sentimento de amor
de um homem por uma mulher, mas sim dos homens entre si. Este é então um marco na história do ocidente, no ano mil: a possibilidade de expressão amorosa dos sentimentos entre
homem e mulher.
1
  Além da “naturalidade” com que a guarda é concedida à mãe, (de quem também se espera inserção no mercado de trabalho), nossa legislação “obriga” o pai a conceder uma pensão,
denominada “alimentícia”. O pai, deste modo, é reduzido ao provedor de alimentos, contemplando os custos mínimos necessários, sem alusão a sua participação na constituição
subjetiva do filho. O texto de J. Swift (1993) “Modesta proposta para que as crianças da Irlanda deixem de ser um fardo para seus pais e seu país”, considera, ironicamente, a hipótese
das crianças serem transformadas em alimentos, literalmente servidas à mesa. Seguindo o tom caricatural desse autor, a ênfase nas pensões alimentícias durante os processos de
separações no século XX, não nos deixa tão longe da Irlanda do século XVII: os filhos passam a ser considerados provedores das suas mães, vias de acesso a um alimento.




    BIBLIOGRAFIA
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BADINTER, E. Um Amor Conquistado: o Mito do Amor Materno. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
                                                              PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421           lathé biosa   87
    ANO II, Nº87 – FEVEREIRO - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421

                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
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Clodomir Santos de Morais
        Professor de Sociologia Rural
        jacintaclodomir@hotmail.com
                                                                                                                                O LADRÃO DA CALÇA DE CASIMIRA


        Devia ser gente, daqui mesmo, dizia o alfaiate Otacílio-de-Mariinha-de-Siá-Celina. Gente das pontas de rua, que vive morrendo de fome, anda por qui e sabe
dos hábitos de todo mundo. Gente de fora, brejeiro, ou remeiro, não tem tempo pra andar pelos fundos das casas espiando os costumes. Brejeiro, nem se fala.
Chegou, vendeu, comprou, vai embora antes do sol se por, se vem de pés. Se vier a cavalo, é porque mora mais arredado, e, por isso, arriba cedo. Não pode ver as
coisas dos outros.Interessa não. De mais a mais, ninguém nunca viu falar de brejeiro roubando. Vê não. Brigam lá no mato por causa de boi e porco que fuçam cerca;
por causa de melancia que menino furta e de jumento pastor-solto. Mas, roubo mesmo não se vê falar. São gente de muita vergonha e seriedade. Querem é lavrar
seu pedacim de terra, na meia ou na terça e não cuidam de mais nada
        - Não parece, seu Otacílio- interveio a vizinha dona Ingrácia de Queiroz - em vintoito os brejeiros...
        - Vintoito foi quadra de crise e muita fome, voltou Otacílio para reafirmar: brejeiro só rouba se a fome ou a crise é grande. Digo e não estou puxando pano pra
minha garupa, não. Não sou do interior do município, nem da cidade nem mexo com lavoura. Está aí o velho Diolindo, meu pai, que é alfaiate; eu continuo na arte e
Jeovah, meu filho, já está fezendo casa de paletó sem cabresto de dedal no dedo.
        Dona Ingrácia que já estava de passagem, com dois passos entrou na casa de Nita de Nezim Lisboa onde se deu o furto a fim de ver o que o delegado
Joaquim Lisboa e o soldado Mirão iriam resolver.
        Não só Mariinha, sua esposa e os discípulos da tenda ouviram as palavras de Otacílio. A sogra, Siá Celina, puxadeira de terço e de ladainha na Matriz,
rebuscando as coisas da cozinha com o credo e outras orações na boca, ouvia e murmurava. Vai não vai, soltava uns susurros sagrados com que, a qualquer hora do
dia ou da noite, procurava se proteger e proteger aos seus das tentações do Demo e dos maus espíritos.
        Era quem mais estava atenta ás danações dos pecados, não medindo terço nem rosários, ofícios e litanias demoradas para manter longe da Santa Maria da
Vitória as “ coisas feitas” do Véi Binigo, feiticeiro exímio e tirador de feitiços e mendracas a desamarrar esposos e noivos.
        No mês anterior fizera três promessas até acabar com um lobisomem que, na forma de porco-barrão arrastando correntes, comia as galinhas da rua das
Cobras. Desrespeitou até a cruz de rosário de coco tucum “que Siá Bertulina botou no quintal por previnimento.
        Já no ano passado, por causa de uma música de carnaval, as moças e os rapazes só viviam dizendo “ nem queira saber o gosto bom que tem” . Tornou-se a
moda em qualquer dedo de prosa um “nem queira saber”.
Foi uma epidemia de “nem queira” acompanhada sempre de “mangação e risadajem sem compostura” até menino pequeno tinha um “ nem queira” na
boca. Siá Celina já havia adivinhado: é invenção do Diabo.
        Siá Rimita e Siá Rôla, santeira da igreja do menino Deus, que até nas vestes procuravam se parecer com as santas das folhinhas e dos almanaques, se
protegiam com a cruz na boca, persignando-se toda vez que ouviam um “ nem queira”.
        Não tardou uma semana e, misteriosamente, três moças caíram no mundo, botadas na rua não se sabe por quem. Não ficaram mulher-dama, rapariga da rua
da confissão, porém os bochos cresceram e elas se mudaram antes de parir. Era o “nem queira” andava solto pegando as folhas dos outros. A velha tinha razão e era
a quem cabia dar a última palavra sobre o furto ocorrido no vizinho.
        A calça de casimira de Nezim Lisboa só tinha sido vestida umas poucas vezes: no casamento de Nita de Jão Augusto; nas festas do Divino e no enterro do
finado Henrique de França e da finada de Loló de Antônio de Bruno. Novinha, quase sem uso apesar dos sete anos.
        Para não desbotar com o sol, Nita estendeu a calça de casimira no sereno. Com álcool e uma boa escovada, no dia seguinte, estaria pronta para Nezim
envergar na missa da padroeira.
        Mas, de manhã, cadê? O arame estava limpo. Reviraram-se os baús. Um esquecimento, quem sbe!; doidice de empregada que não se acostumou ainda com a
casa nova.
        - Furto não pode ser, que ladrão não entra em quintal murado, ponderou o próprio Nezim. Oxent! - retrucou Mário Campos - Outro dia um ladrão não saltou,
de noite, o muro de Dona Astéria e o de seu Cassiano pra roubar a enxó dele? Besteira! Ladão não respeita fechadura, quanto mais muros!
        Houve um remexido na casa toda, sem resultado. Foi Nana, filha única do casal, quem deu fé, e Enéas-de-João Augusto, cunhado de Nezim, também metido
na procura do dasaparecido, soltou um suspiro de espanto e desabafo.
        - Tá vendo, gente! Menino vê coisa que a gente não vê. É de vera. Olha aí o rastro!
        Todos saíram acompanhando e afugentando as crianças para não desmanchar o decalque na areia do quintal. Era de manhãzinha e havia quem assegurasse
que, além de fresco, o rastro ainda estava quente.
        Falta o dedo minguinho do pé esquerdo, constatação que todo mundo ser invadida pela pergunta: quem na Santa Maria da Vitória não tem o minguinho do pé
esquerdo?
        E saíram Nezim Lisboa e os vizinhos recurvados, pesquisando os rastros até a várzea do campo de futebol, onde o pó amarelo deixava nítidas as rachaduras
do calcanhar.
        - Gente com defeito no pé, aqui, tem muito. Só na rua de cima, - calculou Pedro de Catulino-Seleiro, que àquela hora já vinha da manga de Ioiô Rocha, onde
fora buscar um burro - tem muito aleijado dos dedos. Falta um, dois,três e até todos. Quem trabalha na roça está arriscado a ficar até sem o pé quanto mais sem os
dedos. Deve ter sido algum brejeiro luxento que quer ficar lorde nas festas.

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Otacílio que entrara abusando na conversa, perguntando - que labóro é esse? - ao atravessa a cerca do quintal foi logo discordando da tese:
       - Se fosse assim Pezim Coveiro não tinha seis dedos em cada pé. Oxent! Não só é roceiro como também trabalha com covador e enxadão na abertura de
covas do cemitério. É coveiro há dez anos e nunca perdeu um dedo. o melhor mesmo - sugeriu - é cobrir os rastros com palha para depois o delegado investigar.
       A notícia correu de pressa como toda a má notícia. Do Tamarindo de Cima até a praça do Pequiseiro era só o que se falava: - Roubaram a calça de casimira de
Nezim Lisboa.
       - Hen, hen, gente! Logo nas ves’pras da padroeira. Quand’é fé dentro de casa mesmo. Gente rica, hum! Tem tanto baú que nem sabe onde guardou os trens.
Nem carece de afobação, basta procurar sem vexame. Dona Janoca dizia isso por experiência própria, pois já fora abastada antes de se enviuvar. O finado marido,
capitão Ernesto Branco, não sabia o que possuía, tanto era o dinheiro que mandava e desmandava na Santa Maria da Vitória. Só não tinha mais do que os Coronéis
Clemente Araújo e Bruno Martins da Cruz. Porém tinha mais do que Benevides da finada Dedé-Mãe de Vidigal.
       Na esquina de Quinca Afonso no açougue de Chicão Reiseiro e nas bodegas de Zome e de Luíz de Arsênio e em tido quanto é lugar o comentário era a calça
de casimira de Nezim Lisboa.
       O delegado também cedo soube do fato, mas os últimos reparos da partitura de um dobrado não o permitiu abalar-se. Era o maestro da Filarmônica “ 15 de
novembro” , a Vitória, e tinha mais, na saída da Bandeira da Padrueira. Mais maestro do que delegado, Joaquim Lisboa nem se lembrou de que era irmão da vítima.
Não deu ouvidos à conversa de boca. Continuando nos remendos do compasso hinário e dos bemóis aguardou a parte.
       Otacílio voltou à tenda de alfaiate cheio de dúvidas. Sabia que o autor do furto não poderia ser um brejeiro.
       Gente do campo é gente séria - repetia. Estou cansado de fiar feitio de roupa pra cobrar na safra e todo mundo me paga. Brejeiro é gente séria e quando o
dinheiro é curto porque o ano é ruim de chuva, livro sempre os aviamentos. A parte me pagam na safra seguinte. Para o ano sempre Deus ajuda. E suspirando - ai
dos pobres se não fosse o par’o ano!
       - Vai ver foi remeiro, Seu Otacílio, disse Elizário de Joaquim Piçarra. Remeiro mal encosta as barcas no cais e vai logo gastar dinheiro no cabaré de Mané
Jegue com as raparigas com as doenças do mundo.
       - Nem todos, meu filho - corrigiu o alfaiate. Os dedos das mãos não são iguais. Os remeiros de Luizim Barqueiro, por exemplo, não aborrecem ninguém. Já
vem dançando dos cabarés de Juazeiro. Aqui não gastam nem furtam, nem ficam sem que-fazer!
       Nita estava enfiada quando o delegado chegou acompanhado do soldado Mirão. Havia dado no quintal três gritos a São Lunguim, conforme fizera Dalina Piau
e sua comadre Palú pra reaver as roupas do marido que os ladrões levaram na noite de São João. A confusão dentro de casa um que chegasse “tinha que contar tim-
tim por tim-tim o ocorrido: do comecim até tudo” . E era um tal de entrar e sair gente comentando as coisas.
        André Mudo foi chamado pra rezar o rastro do ladrão riscando-o com espinho de jurema. Do outro pé, o dedo aleijado, tirou-se terra para a velha Febroína,
mãe de Zé Teixeira, amarrar na bainha da anágua, ao sussurro de rezas brabas. Tudo isso pra forçar o ladrão voltar ao local do crime ou deixar o furto em qualque

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lugar. Tinha que se tomar essas providências mais domésticas, pois sempre se disse que a polícia é grande mais a mata é maior. Ademais, a calça já ia longe. O pobre
diabo, mais pobre do que o diabo mesmo, que a furtara, apesar dos cinquenta e tantos anos no costado, era bom andador. Antes de meia noite arribara para
correntina, dose léguas, a fim de vender a calça de casimira e retornar a tempo de salvar os netinhos da disenteria e tosse-brava galopante.
       Na barra do dia ele estava arredado sete léguas: já ia do São José pra cima. Fazia cálculo de, meio dia, alcançar ainda a feira de Correntina. Aí mesmo
compraria os medicamentos que o doutor receitara para os meninos de Quuinca Lino e os de Manoel Afonso que também tinha as mesmas doenças e incômodos dos
seus netinhos. Se não tivesse na farmácia de Pedro Guerra, na loja de João Rego era certeza encontrar.
       Na primeira légua andou muito. Era o medo de ser seguido e pegado. Na segunda pensou muito na vergonha de sentir ladrão. Da terceira em diante só via
Tóin se acabando com a casimira e Tudinha, Gertrudes, de três anos, roxa, com fôlego cortado, vendo a hora de morrer de coqueluche. O menino já não tinha mais o
que defecar, coitadinho nos panos só vinha água. A netinha era só dizer - Vó, ói, lá vem ela, vó, e já soltava uma tosse de cachorro saída dos bofes e pronto. Perdia o
fôlego, arroxeava-se que só quem vai morrer.
       Essa semana de doença lhe fizera esquecer inclusive a morte da esposa e da filha, uma atrás da outra, na última seca. Elas, com a lavagem de roupa e uma
demão na roça ajudavam a tapear a fome dentro da tapera. Sempre pedira a Deus para morrer antes delas, mas não fora atendido embora fossem eloquentes os seus
argumento: idade avançada, saúde agravada pela “gastura” e pelo peso da boca do estômago e tontura toda vez que abaixava a cabeça. Julgava-se um inútil assim,
um dia na enxada e dois na esteira.
       Passou tudo isso e mesmo as flatulências se foram com a meia certeza, ou quase certeza, de um dia, dispor de dinheiro para cuidar os dois netinhos. Era tudo
o que possuia. Daí a pouco, com cinco ou seis anos, a exemplo dos meninos de Zé Quimara, os seus netos já lhe poderiam adjutora no carreto da água, no corte da
lenha e na limpa do milho ou de mandioca.
       Tudinha, por exemplo, refletia o velho na ladeira da Serra do Caixão - já é muito jeitosa. No tabuleiro cata gravetos para fazer fogo e bosta de boi pra se
vender na rua.
       Tudinha e Toín, quando ficarem grandes, terão sobrenomes de Jesus. Gertrudes Maria de Jesus e Antônio José de Jesus. Com efeito, a filha morrera e não lhe
confiou o segredo. Mas se supunha que o pai dos meninos era aquele almocreve da tropa de Felipe Santos que sumiu pro Goiás e até hoje! Quem sabe? Nem notícia.
De acordo com a tradição, menino sem pai leva Espírito Santo ou Jesus no sobrenome: sem mãe, o sobrenome é da Conceição; e quando o pai e a mãe são
desconhecidos, o sobrenome tem que ser “dos Santos”. Mas tudo é filho de Deus!
       Batucando essas e outras coisas na cabeça, o velho, com a calça de casimira no saco, rompia léguas sem sentir cansaço. Depois da chacrinha do coronel Félix
Araújo, achou-se fora de perigo. Pediria vestir de novo a roupa pelo direito porque os feiticeiros e rezas fortes não mais o lançariam. Deu graças a Deus e entrou na
rua da Correntina, ao entardecer.



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A feira tinha acabado, Restos de baixeiros com marcas de pisaduras de lombo de animal, cangalhas, bruacas e esteiras se espalhavam no chão da praça de
dona Suçu do finado cordeiro. O sol já queria baixar. Não sofreu dasãnimo, entretanto. Com a coisa mais ou menos planejada, o velho entrou na tenda de alfaiate mai
próxima, a de lozinho-irmão-de Vivido Capitão Miguel Coimbra. Alegou que a calça era de um filho que morrera ao retornar de São Paulo e cujo enterro lhe deixaria
dívidas.
           - Vale mais, Seu lozinho, mas, porém quarenta mil réis me aliveia e a precisão é grande lá em casa.
           Ao procurar algum estrago de traça, lozinho se surpreendeu. Com o bolso oblíquo, cós alto de três botões, “ moscas” duplas e ponto “ pé de galinha” no forro
dos quartos só poderia ser a calça que ele próprio fizera quando discípulo de Nezim Lisboa.
           Três palavras com Miro Telegrafista e tudo estava esclarecido. Logo mais o delegado Pedro Coimbra destacava dois praças para conduzir o ladrão a Santa
Maria. Mas dose léguas a pé.
           Dois dias depois a missa da Padroeira de Santa Maria foi solene. A professora Zizi, Dona Áurea - Mãe de criação de Almerinda e Miminha, a Dona Áurea de
Domingos Costa, Aurora de Nezim de Aurora e outras cantaram no coro com acompanhamento de Seu Argemiro Filardi, na flauta, Seu Honor-do-Cinema-Mudo, no
violino, e Quinca Ataíde no saxofone. Muita gente da cidade e dos brejos. Só de foguetes aviados por Zé de Santinha gastaram-se mais de vinte gurândolas, sem se
falar nos foguetões solteiros de três tiros e nos “caramurus” e “adrianinhos” do comércio.
           Almoço de três bois, dez porcos, vinte perus e mais de cem galinhas para o povo da cidade e para o povo do mato, brejeiros e catingueiros. Cachaça “Santa
Clara” de Seu Nezinho Coelho, uma dorna; e duas pipas da “Sem Rival” de Quinca Afonso.
           Como sempre o drama da Cavalhada só tem na festa do Divino, na da Virgem, à tarde, com a quebra da quentura do sol, só saiu a procissão cantada do
benedito e tocada de dobrados de filarmônica. Esse ano foi a mais comprida. Satú Sacristão e os coroinhas já iam pra lá da casa de Presilina, defronte Justina
Bedocha, eo andor de Nossa Senhora ainda não havia saído da Matriz. Andores do Coração de Jesus, do Santíssimo e o de São Sebastião Amarrado e Flechado que
haviam emprestado do oratório de dona Amanda de Tião ia ao lado da Virgem.
           O areião da Rua de Baixo era grande de modo a forçar mudança no itinerário. Além disso, a poeira toranava cada vez mais roucas as vozes piedoras que
antoavam o costumeiro Queremos Deus. Feito um atalho na esquina de Dona Senhora pra pegar a Rua de Agostinho Pança e de Seu Minas-Estrangeiro e desembocar
na Praça do Pequizeiro e decer a Rua de Manuel Bobó e de Dona Janoca, a procissão voltou triunfante à Rua de Manuel Afonso e atravessar o riacho em frente à casa
de Seu Dutra de Siá-Doida-Mãe-de-Ernesta-de-Zé-Carretão-e-da-Finada - Laura-de-Joaquim-Bodeira-Pai de Netim, Napu, Nestor, Nini e Neuza.
           Com o foguetótio defronte à casa de Zé Teixeira de Siá Febronia, já na rua da Vantajosa, onde teve gente restabelecida de saúde por crença, a banda vibrou
alto o dibrado mais alto em que trabalhavam o trombone de Celso Afonso, o bombardino de Zé Neto, a tuba de João Boca Velha e o clarinete de Joãozim de João
Barros.



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Quase ninguém nas janelas porque o povo quase todo estava na procissão. Os homens mais ricos deixaram pra acompanhar o préstito desse ponto em diante,
com chapéu à mão, casimira ressecada e sapato de verniz.
       Os cânticos sacros pereceram dasafiantes na esquina da escola protestante de Dona Rosa-de-Otaviano Magalhães-do-Correiro, mas arrefecendo, logo em
seguida, rua da Lagoa acima.
       Tanto nas procissões, como até mesmo dentro da igreja, nas missas e beça do Santíssimo, nunca faltam capadócios para atazanar os mais pobres.
       Se o paletó é comprido demais, os deboches falam de paletó de aparar-facadas, porque o defunto era maior do que o herdeiro. E se trata de paletó curto em
demasia eles chamam de paletó-de-cagar-em pé, pra não falar das calças de pular brejo. O que é certo é que o Pai de Zé Grande ia quase no rabo da procissão com
um paletó de brim que na priomeira lavagem encolheu demais. Os capadócios caíram de cima dele gritando discretamente colete curto! Quando ele virava pra trás
todo mundo ficava sério. Era Messias Corcunda-de-Dona-Isolina-de-Quinca Borba que atentava o Pai de Zé Grande. Lá pras tantas, em frente à casa de Seu Nezim-da-
Fessora-Etelvina, Dona Áurea puxou o hino:
                Os Anjos, todos os Anjos.
                Louvado Seja para sempre amém.
       Quando o povo todo já estava cantando “os anjos, todos os anjos”, alguém gritou alto: colete curto! Distraidamente o Pai de Zé Grande, também cantando,
trocou as bolas: “colete curto é o cu da mãe!”
       Satú, Saturnino Pereira, sacristão, filho de sacristão, o velho Marcolino (irmão de Zé Piau) pai de Adalberto, também sacristão, era quem mais tinha condições
e poderes para ratificar ou retificar o itinerário do préstito. Medira, com o descambar do sol, o tempo a se gastar no retorno Á Matriz, onde antes do jantar, ainda se
deveria ministrar a Bença do Santíssimo com a tamtum Ergo e aos sons do Hino Social da Banda, dos repiques do sino grande e dos foguetões de vareta de taboca.
Compartira, longos anos, desde menino, de procissão, “via-sacra”, “furto-de-santo” e outros atos litúrgicos campais, onde a combinação do tempo com a distância a
percorrer entra como fator de sucesso. De forma que não hesitou, sol baixo, em suprimir o resto da rua da Lagoa, quebrando à direita, na casa de Tenente, pra sair
do beco de Zé Bras Consertador de Tacho. Deixou sem procissão, é verdade, as casas de João Barros, Porcina esmoler, Siá Feliça, Francisquim Fiscal, Guarani-
Fazedor-de-Carranca-deBarca, Deraldo Gazozeiro, Zé Carretão e outro, porém ganhou tempo buscando logo a Rua da Caatinga.
       A manobra Satú a fez sem receios de desaprovação por parte de Cândido Bedocha, seu concorrente, Cândido-Batedor-de-Sino, como era mais conhecido o
altareiro da igrejinha do Menino Deus. Este não lhe regatearia muxoxos de crítica caso presenciasse o desvio. É que Cãndido, desde meio dia, se achava ocupado com
um anjo.
       Não havia melhor que Cândido Bedocha para anubciar com repique alegres, festivos, a subida de um anjo ao céu, do mesmo modo que, no sino de defunto,
compassado e triste, deixava claro a gravidade do momento em que, por ter sido casado, o falecido tinha em pendência o seu destino à mansão celestial; ou ao
Prugatório só de brasa e borralho, ou, ainda, - o que seria mais certo - ao Inferno de labaredas de fogo de angico e breu inglês. Cândido sempre foi o maior sincero

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daquele Rio Corrente, além de ser quem melhor conduzia a “Via-Sacra” anunciando-lhes os Mistérios, em legítimo vernáculo da Santa Maria, assim inteligíveis e ao
alcance do povo.
       Ganhava pouco com isso: um mil réis para dobre alegre de anjo, dois para dobre triste de defunto pecador. As mulheres adultas e sabidamente virgens
tinham direito aos dois tipos de dobres e de modo intermitente, o triste alternando o alegre e vice-versa. O ganho de Cândido Bedocha só veio melhoral quando o
Prefeito Bacharel em Ciências Contábeis Clóvis Araújo Castro, criou um posto para beneficiar esse sineiro da Rua de Baixo. Isso só foi possivel impondo um rigoroso
horário para o comercio: das 8 às 12 e das 14 às 18 horas. Com provento de 15 mil réis por mês Cândido havia comprado um relógio Roskoff, a fim de garantir em
horas certas o anúncio que a lei determinava, tranquilizando assim os comerciantes logistas ou bodegueiros, principalmente Zuza Normanha e Arnaldo Borba, na meia
hora de cochilo no período mais quente do dia.
       O anjo morrera de madrugada, mas somente ao meio dia uma alma caridosa apareceu com a notícia e “ dois tões do império” a casa de Cândido Bedocha. O
sino repicou a tarde toda chamando gente para o enterrinho modesto. E foi um enterrinho mesmo porque o povo todo estava com o sentido na procissão da Virgem.
Duas mocinha e meia dúzia de meninos descalços da rua de Terto Queiroz e pronto. Foi todo o acompanhamento de uma criancinha seminua dentro de uma caixa
grande de papelão, com a marca da fábrica de guarda-chuvas.
       O sino da igrejinha varou, como sempre, todas as ruas e becos do lugar, vencendo, nas costas do vento, uma légua até o taboleiro do Brejinho, do Coronel
Antôniio Cruz, onde cortejo estranho levantava poeira da estrada dos carros-de-bois.
       Dois soldados montados em burros e, entre uma montaria e outra, a pé, amarrado pela cintura, vinha abatido e trôpego o ancião preso na Correntina. Dormira
apenas uma noite a fim de descansado das doze léguas da ida, poder suportar as mesmas doze da volta.
       O fardo da fadiga, do vexame moral e da idade lhe era tão pesado e tão duro transe que nem pôde atender para os longínquos sons do “sino de anjo” que lhe
furavam os ouvidos. Preocupava-o apavorava-o tragicamente a idéia, mais três quartos de léguas, atravessar as ruas da cidade.
       Teve durante toda a viagem, vontade de morrer. A corda que lhe amarraram à cintura, quantas vezes a desejou no pescoço. Se assim o fosse - imaginava -
bastaria assustar o burro da frente e jogar terra no de trás e pronto. Nem sentira a dor da morte e se livraria da vergonha, da execração pública que lhe estava
reservada daí a pouco. Nas pausas da viagem, alguns minutos, muitas vezes procurou qualquer erva venenosa, cebola braba, cabacinha e nem isso conseguiu.
       - Pobre, nem a hora de morrer tem direito de escolher, repetia-lhe o cérebro conturbado a consciência de meio século de pobreza na forma de lei.
       Todo aquele pesadelo só serviu para encurtar-lhe a distância. O primeiro choque que recebeu foi na rua da Quixabeira.
       - Só vendo castigo, valha-me Nossa Senhora do Perpétuo Socorro - gemeu fundo a preta Siá Edivirge ao ver passar o preso. Entra pra dentro gente! Ô
Tibúrcio, ô Rogério, bota os meninos pra dentro, mode não ver. Ô meu Deus! Santa Cruz! - e se benzeu não sei quantas vezes.
       Siá Maria de Seu Manoel Coelho, que vinha do chiqueiro dos porcos, quase que teve um ataque. Mal pôde pronunciar um “ Deus me defenfda!” Perdeu a fala.



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- Corre gente, acuda, adjutora aqui, que Siá Maria vai morrer! - foi o grito dramático da velha Bertulina Papo-Grande. Inútil. O povo dos mocambos batiam as
portas apavorados com a dura provação daquele infeliz.
       - Quand’é fé ele nem sabe ainda que a neta já está sendo enterrada. Santa Virgovige!
       Resmungava , se benzendo, Limpinha-de-Luizinho-Barbeiro. Deus me livre de filho meu dar pra ladrão. Prefiro uma boa morte. Não folo com soberba - outra
cruz na boca - pra Deus não me castigar.
       O soldado da frente fez questão de entrar na rua da Caatinga pela rua da Confissão. Era rancoroso e truculento.
       _ É bom, pras putas vê ele assim amarrado pelo rabicho do burro pra nunca mais se meter a roubar calça de casimira dos outros. E não avexe o rojão, não,
hum! Pra você ver o animal lhe arrastar daqui até a cadeia.
       Trapos de um chapéu de coro quase cobrindo o rosto, cabeça e vista baixa eram a única defesa que resguardavam o miserável da fuzilante curiosidade
pública. Mal percebeu a infinidade de garotos esfarrapados, outros nus, meninos-cara-de-fome acompanhando-o processionalmente. Saíram moleques de todos
buraco numa enxurrada de andrajos que desaguou na esquina de Henrique de França, mesmo dentro da procissão da Virgem.
       Os andadores da Padroeira e de São Sebastião Amarrado e Flechado tremeram nos ombros dos condutores atônitos e retransidos de susto ante a interrupção
instantânea e involuntária dos cantos do Ofício de Nossa Senhora de Nezim de Aurora era quem puxava melhor os beneditos. Sentiu uma tremedeira nas pernas e um
nó na goela ao terminar a estrofe do Ofício de Nossa Senhora:
               Deus salve relógio
               Que anda atrasado,
               Serviu de sinal
               Ao verbo encarnado.
       O estribilho Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhora do Mundo ficou no ar por falta de quem o iniciasse face a confusão estabelecida pelo susto da
rezadeira. Escaparam apenas algumas vozes desentoadas e tímidas das velhas que circundavam os dois andores e o vigário.
       A banda Vitória, que vinha do beco de Zé Braz, preencheu o claro entoado o dobrado Capitão Elias Borba. É que o maestro Joaquim Lisboa imaginou ter
terminado o Ofício de Nossa Senhora.
       - Buumm!
       - Perê-rê - pê-pê-pê-pê, - Bombo e caixa, respectivamente, precederam o tchinn! dos pratos com Tião de Amanda empurrava na partitura todos os
ensurdecedores instrumentos de sopro. A veia do pescoço de Zé Neto sé faltava estourar com bombardino e tudo. Não foi linge: com meia dúzia de compassos
binários, só se ouviu o esguicho solto da requinta de Toín do finado Bento. O próprio maestro, Joaquim Lisboa, largou a batuta estarrecido com o quadro vergonhoso
e revoltante que a fome à míngua de sua netinha atiraram, na quele por de sol sinistro, à face dos donos do lugar. Mais maestro do que delegado, mais músico do

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que autoridade, o regente que tantas vezes recusava o cargo policial, tomando a frente do povo abalado de comiseração, ordenou fosse libertado o ladrão, tão logo
chegasse à delegacia.
       Nezim, com o coração grande, nem quis mais saber da calça de casimira.
       O inesperado cortejo quase acabou com a procissão Restaram apenas os andores , as rezadeiras, a banda de música, o padre, Satú, os coroinhas dos
lampiões e mais meia dúzia dos de casimira e sapatos de verniz. O grosso do povo seguiu, tumultuosamente, na frente para ver o avô de Tudinha ser libertado.
       Otacílio Carvalho, o alfaiate, continuou, a noite toda, arengando com a sogra Siá, Celina:
       - Bem que disse que era gente daqui mesmo; gente das pontas de rua que vive morrendo de fome por não ter terra pra plantar.
       É de vera!.. concorda seu vizinho Augusto Farmacêutico-de-Nena-do-Major-Leônidas.
       - Quem tem, como os brajeiros, ao menos um pedacim de terra, não fome e, por isso, não toca no que é dos outro. Não furta. Furta não.


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                                                                                                                                     Recife, 07 de Outubro de 1964




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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
           CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

              PRIMEIRA VERSÃO
                                                                     PRIMEIRA VERSÃO
       ANO II, Nº88 - FEVEREIRO - PORTO VELHO, 2003                  ISSN 1517-5421     lathé biosa   88
                         VOLUME VI

                          ISSN 1517-5421

                            EDITOR
                       NILSON SANTOS

                    CONSELHO EDITORIAL
                ALBERTO LINS CALDAS - História
                  ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                     ARTUR MORETTI - Física
                    CELSO FERRAREZI - Letras
                FABÍOLA LINS CALDAS - História
              JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
             MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
                    MARIO COZZUOL - Biologia
                     MIGUEL NENEVÉ - Letras
                 VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia



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Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser      O ESPELHO, A PERSONA E O PODER
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                         CEP: 78.900-970
                         PORTO VELHO-RO

                     TIRAGEM 200 EXEMPLARES



            EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
Henrique Torres
       Psicólogo
       torreshlm@uol.com.br
                                                                                                                             O ESPELHO, A PERSONA E O PODER


       Este Moitará juntou psicologia e literatura, pois então, vou ler uma história sobre o conto "O Espelho" de Machado de Assis.
       Espero ser conciso e claro, para transmitir o acontecido que tive o prazer de presenciar: um encontro entre 4 figuras especiais. Encontro denso, como sói
acontecer.
       O primeiro dos ilustres desse encontro, foi Nelson Rodrigues, que inventou as entrevistas imaginárias que aconteciam em um terreno baldio, e que,
exagerado, escancarava a condição humana, numa espécie de tragédia de costumes.
       Pois foi Nelson quem armou esse encontro no céu, onde já estavam todos os outros convidados, e onde eu, apesar de vivo, fui parar também.
       O segundo convidado foi o Glauber Rocha, guerreiro do cinema novo, que escrevia cinema com K, de Kine, e roliude com erre, de cultura nacional.
       Os outros dois eram o Jung e Machado de Assis.
       No céu do Brasil, Jung falaria nossa língua, leria Machado de Assis, e beberia psicologia às mancheias.
       E Machado de Assis, era, e claro o convidado de honra.
       Baldio será o céu se os homens não puderem lá se encontrar e cultivar suas fantasias.
       Esse era o quaternio da festa no céu, ao qual eu, por sorte de estar no lugar errado na hora errada, fui me juntar.
       Único ‘desilustre’, recebi o convite do bico do pelicano, ave símbolo de Cristo.
       O pássaro me disse, à boca pequena, que na festa haveria lugar para uns e outros.
       Entrei naquele papo e lá estava eu no céu, buscando um jeito de participar, e encontrei: vou cuidar do vinho, pois “in vino veritas”.
       Taças à mesa, todos sentados, começou a conversa.
       Nelson pediu a Machado:
       Conta pra ele, conta , aquela história, a do Jacobina.
       "A história do Jacobina? pois conto sim"



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E Machado começou a narração de como Jacobina inteirou-se de suas duas almas: “quatro ou cinco pessoas debatiam, uma noite, questões de alta
transcendência... a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora.”
        "Rigorosamente eram quatro os que falavam, mas além deles havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando..."
        "não discutia nunca; e defendia-se da abstenção dizendo que a discussão era a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem como uma herança
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e aliás eram a perfeição espiritual e eterna.”
        Glauber retrucou dizendo que era preciso lutar pelas verdades, posto que ninguém é anjo.
        Está certo, - disse Nelson – somos todos canalhas, mas deixe o homem falar, e Jacobina continuou
        “ .... A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma”
        “... se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata.
Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas... nada menos que duas almas. Cada criatura traz duas almas consigo; uma que olha de dentro para fora e outra
que olha de fora para dentro...
        A alma exterior pode ser um espírito, um fluído. Há casos em que um simples botão de camisa é a alma de uma pessoa. Há cavalheiros, por exemplo, cuja
alma exterior, aos primeiros anos, foi um chocalho com um cavalinho de pau, e mais tarde, uma provedoria de irmandade."
        "Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que metaforicamente é uma laranja: quem
perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior significa a da alma inteira.”
        Jung, atento, cachimbava e intuía, admirado, a sabedoria do escritor, vendo a sua teoria da Persona tomar corpo na história de Jacobina.
        Tomou a palavra e disse:
        “A consciência pessoal é, mais ou menos, um segmento arbitrário da psique coletiva. Ela consiste em uma soma de fatos psíquicos, sentidos como algo
pessoal... uma consciência apenas pessoal acentua, com certa ansiedade, seus direitos de autor e propriedade no que concerne a seus conteúdos, procurando,
desse modo, criar um todo. Mas os conteúdos que não se ajustam a esse todo são negligenciados, esquecidos, ou então reprimidos e negados. Isto constitui uma
forma de auto-educação, que não deixa de ser porém, demasiado arbitrária e violenta.
        Em benefício de uma imagem ideal, à qual o indivíduo deseja moldar-se, sacrifica-se muito de sua humanidade....
        A esse segmento arbitrário da psique coletiva, elaborado às vezes com grande esforço, dei o nome de Persona.”
        Jacobina continuou contando sua experiência:




                                                                                                                                           ISSN 1517 - 5421   51
“tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa.
Minha mãe ficou orgulhosa! Tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura; na vila, note-se bem, houve alguns
despeitados, choro e ranger de dentes, como na Escritura; ”
        Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova disso é que todo o fardamento me foi dado por amigos..."
        Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, que morava léguas de distância da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me e pediu que fosse ter com
ela e levasse a farda...
        ... Chamava-me também o seu alferes ...
        Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes, e ela abanava a cabeça, brandindo a mão, que era o “senhor alferes”. ... não imaginam.
        Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou a ponto de mandar por no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do
resto da casa...
        Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas, vindas em 1808, com a corte de D. João Vl.
        Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição.
        ... e finalmente que o “senhor alferes” merecia muito mais; o certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma
transformação que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou.
        O alferes eliminou o homem.
        Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse a outra: ficou-me uma parte mínima de humanidade.
        Era exclusivamente o alferes.
        Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave: uma de suas filhas, residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus sobrinho! Adeus
alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela e a mim que tomasse conta do sítio.
        ... o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito
de quatro paredes de um cárcere ...
Era a alma exterior que se reduzia.
        Enchendo minha taça pensei: Deus põe, a vida é mãe e a morte dispõe.
        E Jung falou novamente:




                                                                                                                                           ISSN 1517 - 5421      52
Seria incorreto, porém, encerrar o assunto sem reconhecer que subjaz algo de individual na escolha e definição da persona. Assim, apesar da consciência
identificar-se inicialmente com a persona – essa figura de compromisso que representamos diante da coletividade - o self inconsciente não pode ser reprimido a
ponto de extinguir-se.
            ... uma vez abolidas as repressões de ordem pessoal, a individualidade e a psique coletiva começam a emergir, fundidas umas na outra, liberando fantasias
pessoais até então reprimidas.
            Aparecem sonhos e fantasias, que se revestem de um aspecto diferente.
            Nelson, impaciente, pediu:
            - Fala Jacobina, fala, conta a história, e Jacobina seguiu contando:
            - Corri a casa toda, a senzala, tudo, nada, ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão somente, um par de mulas que filosofavam a vida
sacudindo as moscas, e três bois...
            Nenhum ente humano.
            Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido?
            "Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa.”
            Jung não pensou mais em seus pacientes; ali estava um exemplo vivo de suas teorias. Glauber não resistiu e filmou o mestre coçando o ouvido.
            Jacobina continuou:
            O sono dava-me alívio, não pela razão de ser irmão da morte, mas por outra ... o sono, eliminando a necessidade da alma exterior, deixava atuar a alma
interior.
            Mas quando acordava, o dia claro, esvaia-se com o sono a consciência do meu ser novo e único - porque a alma interior perdia a ação exclusiva e ficava
dependente da outra, que teimava em não tornar. Não tornava.
            Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo;
era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo ... no fim de oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim
justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; Não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga,
esfumada, difusa, sombra de sombra.
            ... então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo e enlouquecer.
            Vou-me embora, disse comigo
            Subitamente, por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo...



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lembro-me de vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e como estava diante do espelho, levantei os olhos, e não lhes digo nada: o vidro
reproduziu a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava enfim, a alma exterior, dispersa e fugida
com os escravos; ei-la recolhida no espelho.
        Olhava para o espelho, ia de um lado para o outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ser animado.
Daí em diante fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas,
despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir...”
Jung tornou a falar de sua teoria:
        “O colapso da orientação consciente não é assunto negligenciável. Corresponde a um fim de mundo em miniatura, como se tudo voltasse de novo ao caos
original. O indivíduo sente-se abandonado, desorientado, como um barco sem leme entregue aos caprichos dos elementos... na realidade, porém, mergulhou
novamente no inconsciente coletivo, que assume a direção.
        Poderíamos multiplicar os exemplos em que, no momento crítico, um pensamento “salvador”, uma visão, uma “voz interna” imprimem uma nova direção à
vida, com um poder de convicção irresistível. Provavelmente, seria possível mencionar também, outros tantos casos, em que o colapso significou uma catástrofe
que destruiu uma vida...”
        E eu ali, ouvindo aquelas palavras, pensava no processo de análise, que começa com o confronto da Persona, condição para o aparecimento claro da
sombra de toda luz, e da luz de toda sombra.
        E que, a partir daí, anima e animus podem continuar sua função de interação entre os opostos.
        Pensei na super identificação de Jacobina com a Persona, o poder lhe subira à cabeça.
        Pensei no risco da Persona se cristalizar, rígida, nos impedindo de tomar consciência da sombra e sua função na individuação.
        No plano coletivo social cultural, pensei na farda e na bandeira nacional:
        A bandeira nacional é a farda da pátria.
        Vencedore,s levantamos a bandeira para comemorar; torcedores, a vestimos em nosso desejo de vitória; nossos jovens caras pintadas, dão, no rosto,
bandeira de seus sonhos para o Brasil.
        O verde da juventude e da esperança;
        O azul de nossas águas, doces e salgadas;
        O amarelo de nossa Prima Matéria, de nosso Self.
        E o branco de nossa paz e das estrelas, de quem somos a poeira.



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Temos um jardim enorme, ali em cima, um dos pulmôes do mundo, no nosso terreno, mas temos também, pessoas, empresas e políticos que insistem em
destruí-lo.
        Temos um mar de navegantes, saveiros e jangadas, cultura e sabedoria popular. Dê-lhes tecnologia e os veremos à frente, pois temos também os
marinheiros modernos, - iatistas campeões, mundiais e olímpicos.
        Um de nossos barcos, medalha de ouro olímpico, é patrocinado pela Prada, grife de moda italiana e por um clube brasileiro falido.
        Tecnologia de ponta, brasileira, globalizada.
        Significativamente o barco chama-se " Vida Bandida".
        Somos também um povo muito religioso e damos a nossos pesqueiros nomes de santos, mulheres, sereias, invocando a proteção de Iemanjá.
        Entrando pelas nossas águas doces, temos um rio especial, que demos de presente a São Francisco, santo que fez voto de pobreza. É dele o velho Chico.
        São Francisco, com certeza, gostaria de irrigar com suas águas,
o corpo e a alma da seca nordestina.
        Mas, pobre homem, não consegue vencer a luta contra os políticos ... e o nosso povo tem que engolir, a seco, as gordas rãs da insensibilidade política. Voto
de miséria!
        Pensei na constituição e nos regimentos que são a farda das instituições. Nos tornam uniformes, nos abrigam, nos hierarquizam, nos fazem iguais apesar
das diferenças.
        Mas, olhar bem para cada um, faz a diferença.
        Pensei nos três poderes da nação:
        Um juiz presidente de tribunal se transforma num "lalau"
        Figuras expoentes do legislativo, nos roubam a ética e a moral,
e executivos de todos os escalões, se refestelam no bem público.
        Que mistura perversa de persona e poder paralisa os mecanismos reguladores internos - comissões de ética, corregedorias e ministério público, - fazendo
com que somente situações extra-muros, familiares, por exemplo, um irmão dolorido, um genro ameaçado, os façam, efetivamente, funcionar?
        Somos um povo jovem, só 500 anos. Adolescente. Temos tudo a nos educar. Somos capazes de aprender a economizar 20% da energia que gastamos, mas
na contra mão dessa lição, temos o exemplo da corrupção, dos 20% da propina, do ‘rouba mas faz'.
        Lembrei de Freud falando do superego, do ego ideal e do ideal de ego. Instâncias que regem nosso poder, que falam de como nos imaginamos, e do que
aspiramos ser.



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Pensei no desperdício de riqueza, energia e experiência criados pela impunidade.
          Temos um povo gentil, generoso, sensual e capaz. Mas somos, também capazes de judiar, maltratar, prostituir nossas crianças, pô-las para trabalhar ao
invés de comer, brincar e estudar. Também perseguimos, torturamos e matamos, afinal somos humanos por trás de nossas fardas cujos botões brilhantes não
refletem a sombra.
          Pensei nas parcerias e me vi de novo com o a psicologia analítica:
          Se o Self busca a totalidade, fatalmente os opostos se atualizarão na consciência coletiva, na persona cultural, e na mentalidade do grupo.
          Por trás da persona da interação perfeita, vamos encontrar uma distribuição às vezes canhestra de funções e poderes.
          Um pensa e o outro sente, um sonha e o outro faz, um subsidia e o outro não pode mais, um fala e o outro se cala, um se esconde e o outro se expõe
demais.
          Pensei ainda mais fundo, nas raízes narcísicas da persona, torcendo para que o desejo de evitar a dor, não nos faça surdos à fala original de Eco, e cegos à
repetitiva rejeição narcisista.
          Assim, há que se construir uma persona, pessoal e coletiva, que possa incorporar os conteúdos reprimidos ou a serem atualizados, com menos ameaça e
menos perigo de afundar o barco, e, ao mesmo tempo, sem nos perdermos de nossas raízes profundas, 'sélficas'.
          É possível uma identidade mais flexível, maleável, que atenda a um velho conceito de psicologia social, que reza que é saudável poder desempenhar outros
papeis sociais? Pode um analista ser bombeiro num incêndio, ou a ele só cabe interpretar o fogo?
          Lembrei-me das pessoas que inventam moda - farda da liberdade - que nos mostram, não onde todos devemos estar, mas sim até onde podemos ir. Pensei
na inglesa que inventou a mini-saia, liberando as pernas das moças, e no francês que inventou o biquini, no qual Leila Diniz levou sua barriga à praia, mostrando a
todos a vida nova que construía dentro de si.
          E foi assim com o pensamento indo e vindo, meia voltando num oito infinito, que me dei conta que a noite se fora, que outro dia chegara e que os quatro
comungavam a última taça de vinho.
          "Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas".
          Com estas palavras Joaquim Maria Machado de Assis, terminou a nossa história.




Bibliografia



                                                                                                                                               ISSN 1517 - 5421     56
O Espelho, de Machado de Assis, in Contos: Uma Antologia, Companhia Das Letras.
Persona, de C. G. Jung, in The relation between the ego and the unconscious" CW 7
Glauber Pátria Rocha Livre, de Gilberto Felisberto Vasconcellos, SENAC.
A             Cabra              Vadia,             de             Nelson           Rodrigues,   Companhia   Das                Letras.




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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
                                                              PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421           lathé biosa   89
      ANO II, Nº89 - MARÇO - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421

                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
             ALBERTO LINS CALDAS - História
              ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                 ARTUR MORETTI - Física
                CELSO FERRAREZI - Letras
             FABÍOLA LINS CALDAS - História
           JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
          MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
                MARIO COZZUOL - Biologia
                 MIGUEL NENEVÉ - Letras
              VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia

Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
                                                                           MESTRE AMBRÓSIO
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        EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA




                                                                                                           58
Clodomir Santos de Morais
        Professor de Sociologia Rural
        jacintaclodomir@hotmail.com
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        Mestre Ambrósio, naquele dia, chegou cedo, sol-entrando. Antes, quando deixava a roça, no Zé Araújo, o dia já estava turvo, boquinha-da-noite. O trabalho se
mostrava cada dia mais pesado. É bem verdade que a derribada, a queima e o destocamento foram trabalhosos do que o plantio e a limpa. Mas a idade, sessenta e
três janeiros, não mais o ajudava a reagir ao cansaço. Além disso, ele se desabituara do cabo da enxada em meio século de existência.
        Dos seis aos quinze anos ajudou a mãe, camponesa e viúva, no sustento de seus irmãos. Apesar de pequeno, menino ainda, a enxada ou o machado não lhe
causavam tanto desânimo. Tinha até muito entusiasmo na lavoura da terra.
        - A terra - ele sabia e repetia sempre - é o nascente de tudo quanto existe. Basta ser trabalhada para produzir trutos, riquezas. Riqueza é a casa do Coronel Zé
Afonso, é o dinheiro do coronel Zé Afonso, o gado, a loja, o depósito de cereais e as fazendas dele.
        A mãe é que lhe virou a cabeça e o destino mandando-o para a tenda de mercearia de Terto Serrote, pai de Erminio Maleiro.
        - Quero filho meu na enxada, não. Tu vai é aprender um ofício. Quem veve cavando o chão, da cova não tá longe. Quero não. Serrá pau pra fazê trepeça dá
mais dinheiro.
        Durante dez anos trabalhou na enxó, no cepo, no formão e no serrote. A arte, todavia não expulsou a fome de dentro de casa. Serviu, entretanto, para reduzir
os gastos do enterro da mão e de dois irmãos, cujos ataúdes ele mesmo, Ambrósio de Siá Pretinha, confeccionou de coração partido.
        Nas horas de folga, à noite, lamparina de azeite na mão, o preto de vinte e cinco anos começou a solfejar exercícios musicais da Filarmônica 6 de Outubro,
recém-fundada pelo Coronel Bruno. Tinha tendência para o saxofone e sonhava com esse instrumento. Influência das serenatas. Ademais, esse, como outros
instrumentos de sopro, era novidade no lugar. Tudo de adiantado que se conhecia nesse terreno se resumia no berimbau de Balduíno, o violão de Sérvulo, Pai de
Mané Jegue, e a sanfona-de-oito-baixos de Simão Viajante. O resto era viola, o pífe-de-taboca, o ganzá, o zabumba que desde o começo do mundo existem.
        O surgimento da filarmônica da Santa Maria da Vitória, em 1906, fez revolução em toda a Bacia do Rio Corrente. Outras, nos lugares vizinhos, apareceram
também com nome de datas do nascimento dos fundadores.
        Era chic ser músico da banda. Não pela música que nada rendia, mas, principalmente, pelo direito de ter uma farda, coisa que então era privativa das
autoridades, soldados da polícia e patentes da Guarda Nacional. Mais precisamente, só se concebia farda nos coronéis Zé Afonso, Bruno Martins da Cruz, Sebastião
Laranjeiras, Clemente de Araújo Castro, José Borba, nos capitães Ernesto Branco, Henrique de Castro e no soldado Ferreirinha Delegado.

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A Seis deu a todo mundo acesso à farda. E era fascinante aos olhos dos jovens aqueles instrumentos de cobre, ouro-de-mentira, fabricados em Turim, lugar
tão longe, a que somente o pai de Seu Argemiro Filardi, que era estrangeiro, poderia se reportar.
        O preto da finada Pretinha, com pouco tempo, além de mostrar embocadura para a palheta e o bocal, passava Quinau no regente, quando este não marcava
com precisão um compasso cheio de fusas e semi-fusas.
        Não tardou ser convidado, modesto ainda, para pegar a 15 de Novembro - filarmônica - Vitória, da correntina política contrária do Coronel Clemente.
        - Não houve melhora, mode não ter serventia mudança de política. O homem que não é severgonho, nascendo monarquista, morre monarquista na lei de
Deus, ainda que seja lutando cuma Antônio Conselheiro.
        Era ciumada, inveja de Firmino Cabelereiro que gastou dois anos para aprender tocar pratos e, mesmo assim, ainda errava nas valsas e nos maxixes.
        De Ambrósio de Siá Pretinha passou a Mestre Ambrósio. Mestre duas vezes: da marcenaria e, principalmente, da banda. Embora quase nada lhe rendesse o
novo carco e até lhe prejudicasse as encomenda da marcenaria pobre, ele o encarava com responsabilidade.
        Os meses subsequentes lhe foram de provações. Teve que sacrificar a marcenaria e por conseguinte, o estômago, a fim de não falhar no ensaio da artinha a
vários discípulos, alguns dos quais rudes, com muito entusiasmo, mas sem maior inclinação para a música. Não havia livro. O único compêndio conhecido era a
artinha, copiado de mão em mão por gerações de aficionados da música. Vários discípulos, semi-analfabetos, mal podiam copiar a artinha.
        O ensino era uma novidade para Mestre Ambrósio. Mas venceu os obstáculos que ocorrem sempre na formação ou na ressurreição de uma filarmônoca de
lugar pequeno e atrasado, superando-os todos.
        Ajeitou Zé Neto no bombardino, Henrique e os rapazes de Jão Lampião nas trompas Joãozinho de João Barros e Toin de Seu Bento no clarinete e Tonil no
pistão; João Boca-Velha na marcação; Tião de Amanda nos pratos; Celso Afonso no trombone; Cessin no barítono Francisquim Fiscal no bombo e assim até completar
as dozoito figuras.
        Foi um sucesso, na quermesse de 1932, o seu trabalho de meses. Jão Guará, mestre das Seis, que duvidou tanto da empreitada de Mestre Ambrósio, ficou
com o rabo entre as pernas.
        Todo um passado de dificuldade compensado por alguns momentos de satisfação. Mestre Ambrósio cascavilhou minuciosamente naquela dura tarde, como se
o cantasse saudoso, ao ritmo da enxada fustigante.
        Já esatava velho e jamais pensara em ter um ocaso tão infeliz, tão triste.
        O destino - era fatalista - lhe reservara para a década de quarenta, fim da vida, a injustiça de seua amigos, a desmoralização e resultante desta, um
enclausuramento compulsório, dentro de uma tapera de onde só saía para a roça distante, de madrugada.
        A lavoura, se bem que pesava para um desabituado naquela idade, era-lhe duas vezes útil Furtava de um doloroso isolamento dentro de um mocambo de
pobreza compungente, onde dois pretinhos nus e cheio de lombrigas roíam cacos de telhas, torrões de barro, ao lado da mãe, pobre rendeira que arrancava dos bilros

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a farinha e os restos de açougue a se consumir na semana; enquanto, do mesmo modo, ajudava a participar da feira semanal daquela única pessoa amiga que não
negou solidariedade moral, um pedaço de chão para dormir e um coité de passoca, naquela quadra ruím por que estava passando.
        O abalo moral que sofrera foi demasiado grande para um preto de vergonha, idoso e até então conceituado. Temia os olhares de três mil habitantes
estarrecidos e inconformados com o ocorrido. Por isso,partia cedo e chagava sempre tarde da tarefa e meia de mandioca, milho, feijão, abóbora e melancia que
plantara.
        Do mocambo onde se enfurnara na ponta da rua de Siá Francisca, ouvia repetirem-se as notas distantes de um ou outro discípulo executando em casa a
passagem de algum dobrado. Era uma lição que ele já não tomaria no ensaio noturno da Vitória.
        Às vezes, se protegendo da escuridão, rodeava os quintais dos mocambos de sua ruazinha pobre, passando pelos fundos de Binigo Feiticeiro, Chico de Bazílio
e de Zé-Boca Barbeiro, para , do Alto do Menino Deus, ouvir melhor, lá de baixo, beira-rio, o ensaio da Vitória.
        Casais românticos que venciam a ladeira do Beco de Manuel Afonso, à procura da enorme alcova soturna e sombria do morro, vai não vai, se surpreendiam
com a tosse daquele vulto solitário prostrado ao pé do cruzeiro da igrejinha. Era Mestre Ambrósio, esquivo sempre, quando se-lhe-aproximavam pessoas inadvertidas.
        O ensaio terminava e Mestre Ambrósio permanecia absorto até o piscar dos últimos candeeiros, revivendo o passado de tudo e de todos e maldizendo o seu
próprio destino
        - João Guará. Êh! Foi quem fez mais figura nesta Santa Maria da Vitória. Bom músico e regente de mão cheia. Não só regia e tocava todos os instrumentos
como compôs os mais belos dobrados da Seis: o Joaquim Afonso, o Claudelino Coimbra (dobrado cadu) e o próprio Seis de Outubro. Grande dobrado que até o bombo
e a caixa solam emparelhados com o pistão. E o maxixe que foi estreado, em trinta e três, no casamento da filha do finado Epifãnio? Magnífico! executado do começo
ao fim com passagens.
        Todas as obras perdidas. Partituras comidas pelo cupim nestas últimas veze que a Seis de Outubro esteve encaixotada. Ninguém se lembra mais dessas peças
de João Guará a não ser Otoniel de Dona Flormina, quando vem da tenda de alfaiate de Nezim Lisboa, assobiando. Menino de cabeça boa, guarda tudo. Fiz o possível
para atrair Otoniel. Seria bom no contrabaixo. Seu Norberto e dona Flormina, entretanto, querem que ele seja somente alfaiate e pastor adventista. Afora Otoniel, só
Alcide Papagaio-Fazedor-de-Bolsas se lembra dessas obras antigas. Alcides assovia os trechos mais difíceis do Dobrado Cadu sem errar na passagem do tom para o
maior, variação que existe entre o trio e o retorno à introdução.
        Maior do que João Guará só mesmo Pedro Leita, que compôs o dobrado de David Gomes, Dobrado Contínuo, pois o dono desejava que ele fosse tocado até o
fim da Seis. E era bom no dobrado, maior ainda na composição dos cateretês, maxixes, valsas, serenatas, cançonetes, etc.
        Fôra quem deu um banho de civilização nos músicos do lugar, falando em violino, piano, harpa, sarusfone, harmônio. Nunca vira um som desses instrumentos
da capital e grandes centros, mas o lera numa revista foi o suficiente para aprender. Muitos dos seus discípulos duvidavam da existência de semelhantes invenções.
        Não consebiam alguns a possibilidade de, em um só instrumento, se trabalhar com duas chaves, a de sol e a de fá.

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- É conversa de Pedro Leita, gente. - dizia, duvidando, Josias França-irmão-de-Arlindo-Cego. Existe o quê! Quem é que tem mão pra mexer nas oitenta chaves
de um piano? Demais, pelo que ele próprio diz, isso não serve pra banda devido o peso. Da harpa eu até não duvido pois a Bíblia fala nela. O resto deve ser exagero.
        A dúvida de Josias persistiu, mesmo depois que chegou a Santa Maria a vitrola de Seu David tocando música de piano, conforme anunciava, no inicio do disco,
a Casa Edson do Rio de Janeiro.
        Anos depois, tanto os descrentes como o próprio Mestre Ambrósio puderam, maravilhados conhecer o piano através do cinema mudo de Seu Honor-de-Coló-
do-Padre Othon.
        Noite adentro, enquanto a cidade lá em baixo dormia, no Alto do Menino Deus, Mestre Ambrósio buscava reminiscências para esquecer o momento difícil que
atravessava. De vez em quando, retirava detrás da orelha o cigarro de palha para espantar as muriçocas e o sono.
        Queria continuar pensando em tudo, em toda gente, menos em si mesmo. Pedro foi quem mais lhe causou inveja.
           - Esse era mestre mesmo - confirmava sua consciência. Mestre no instrumento e mestre na composição. Fazer o que ele fazia, ler de primeira vista uma
partitura; copiar como nu ditado, o assovio de uma serenata, está pra nascer homem em Santa Maria.
        Morte Coronel Bruno. As Seis encaixotadas há quatro anos. Com o fracasso das eleições de 1934, o coronel Bruno perdera na política e, por isso, a Seis, que
ele fundara, nunca mais tocou.
        Os músicos, uns ficaram velhos, outros se retiraram para São Paulo na idade de procurar emprego e os que ainda ficaram perderam a embocadura com a falta
de tocatas e a queda dos dentes. Não restava quase ninguém. Só os instrumentos. Mesmo assim, todos. Alguns furados, remendados de cera, sabão, elástico, e
outros, os de palheta, com abafador de pano. Era uma lástima. Dava pena, tudo se perdendo no azinhavre.
        Desde de trinta e seis que Seu Bruno já estava caducando e ninguém se incomodava com a Seis prevenindo a necessidade de ela ter que acompanhar o velho
à sepultura.
        Riquíssimo e caduco, havia quem afirmasse o ter visto na privada se limpando com pelega de quinhentos mil réis. Dias contados, só chegou aos oitenta e cinco
anos, quando, em um dia de julho de trinta e oito, a cidade acabou o almoço com a notícia: Seu Bruno está morrendo. Morrendo de devera.
        Para não agourar o moribundo, nenhuma providência foi tomada no sentido de solenizar o seu funeral. Nem da feitura de atúde se cuidou. Mesmo assim -
previdentes como sempre - Seu Hermínio Maleiro mais o irmão, Chico de Didi, escolheram, no Tamarindo de Cima, as táboas de cedro.
        Quando Siá Maria de Seu Bruno, criada dele e que lhe botou a vela na mão, anunciou, às 16 horas, o último suspiro, correu gente por todo lado. Uns para
mandar Cândido Bedocha bater o sino; outros para encomendar o caixão. Teve quem convocasse Joaquim Bodeiro, Simão Pilérico, Nemésio Contador-de-Causos pra
sustentar a sentinela, a noite toda, com as estórias e anedotas mais novas. Teve quem arranjasse logo Siá Coleta-de-Isidro, Siá Maria Teodora-de-Purnié, Siá Celina
de Mariinha de Otacílio e Siá Valentina Voz-de- Homi, conecidas carpideiras e razadeiras dos ofícios, do lamento das almas, das incelenças e da encomendação de
defunto.

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Teve quem tratasse de areiar a espada e desencavar sua farda de coronel da Guarda Nacional roída de traça. Teve gente pra tudo. Mas só à noite é que se
lembraram da Seis.
        Foram buscar Pedro Leite na casa de Zé Cigarrista. Estava bêbado, dormindo. Tinha que se ressuscitar a filarmônica ja e já.
        Seria a pior das desgraças o coronel não ouvir a marcha fúnebre das Seis no último adeus. Inconcebível. Mas, cadê músico? Era impossível tentar-se o
pretendido. E o desânimo tornou-se maior quando se descobriu que a papeleta da marcha fúnebre o cupim havia comido. Pronto: acabou-se a esperança.
        Pedir músicos à Vitória, ou tentar tocar a marcha dela, seria uma desmoralização política sem precedentes que fazia apavorar os correligionários do morto. A
Vitória de Seu Clemente ter que tocar no enterro de Seu Bruno, era uma hipótese que ninguém se aventurava considerar. Seria uma traição inominável e com morto
não se deve brincar.
        Com a notícia e a convocatória, Pedro Leite se tornou lúcido imediatamente. Conhecedor da real situação da Seis, não perdeu tempo em entender, de pronto,
ao chamado. Mandou o portador dizer que fossem remendados os instrumentos para ver se estavam em condições de uso. Os ferreiros Antoín Pessoa, Evaristo
ferreira e João Ferreira cuidariam dos consertos, distribuíndo-os, logo, a cada músico bom ou ruim que ainda restasse.
        Um candeeiro fifó, uma pena de alumínio, um tinteiro de tinta sardinha e uma garrafa de cachaça ajudaram Pedro Leite na composiçaõ da nova marcha
fúnebre.
        Era terminado de compor os solos de clarinetes e mandando Cadú de Chico Coimbra e Zezito-de-Quinca-Afonso ensaiá-los em casa; a parte de contrabaixo
para Vadim de Josias Irmão-de-Arlindo-Cego; a do pistão para João Lima. Depois da meia noite despachou as partes dos saxofones para Jaime de Maria Vitória e
Quinca Ataíde; a de soprano para Chico de Guarany; a do trombone para Otacílio Carvalho; as das trompas para Jaime Coruja e Calixto de Severina Dona Bíu , a da
riquita para Tonhá de Zé Pau, a do bombo pro Aristóteles a assim por diante. A última foi a de Lauro-de-Zé-Sobral porque este executava qualquer música de primeira
vista, por mais acidente que tivesse.
        Ninguém dormiu com os toques dos instrumentos, noite adentro, um nessa, ou na outra rua. Aqui um desentoado, acolá outro descompassado e todos
zuadentos na abstinação dos seus executantes sem embocadura, ou sem dentes, ou ainda com dor de dentes; dedos entrevados sem treino, testando os instrumentos
com a frase músical do-mi-sol-do-sol-mi-do, que os capadócios traduziam em eu-u-ri-nei-n’u-ri-no. Para completar, cantorias tristes dos ofícios ao ritmo do serrote , do
martelo, noite velha, na labuta do caixão, trinta metros de fundo.
        Na sentinela risadagem alta dos causos e anedotas. A cidade não dormiu. Nem cochilar pôde.
        Antes do maio dia os músicos foram reunidos para o ensaio geral.
        Mais um dedo de tinta na harmonia e a Seis respirou de novo. Era a marcha fúnebre mais fúnebre, mais triste que já ecoou naqueles rincões do Rio Corrente.
Músicos houve que temiam o enterro, já que no ensaio a lágrima sufocava o sopro. Com efeito, no Cemitério de Santa Verônica, o Cemitério Novo, foi tão grande a
choradeira que ninguém desatou o nó da goela para pronunciar a ode mais simples e costumeira e sem rima:

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Deus o leve, leve e tranqüilo
                 como o incenso de turíbulo.
        Pedro Leite alcançara o máximo. Foi exigida nova execução da sua marcha fúnebre no retorno da banda à casa do morto. Novo aguaceiro de lágrimas. Só
depois disso é que o povo veio sentir que Seu Bruno havia morrido mesmo. Desceu sobre a cidade uma tristeza de cemitério. Muita gente foi dormir cedo por não ter
vontade de conversar. Seu Bruno parecia estar em todo canto, em toda a casa. Não ficara no cemitério, na sepultura. Descera o morro da Lavandeira, acompanhando
a Seis, na marcha fúnebre de Pedro Leite. Surgiu até quem jurasse o ter visto, madrugada, acordando os músicos para um novo ensaio. Da mesma forma que
aconteceu na morte do coronel Barbosa Laranjeira, a Vitória havia acompanhado o enterro, fardada e pronta para tocar a sua própria marcha fúnebre, na hipótese da
Seis falhar não lhe sobreveio, desta vez, essa oportunidade e, por isso, Mestre Ambrósio, o regente, teve sua vaidade ferida. O espírito do velho coronel o perseguia.
        Superstição besta - repelia sempre - que nos insucessos lhe vinha à cabeça. O coronel Bruno não o perdoaria, mesmo depois de morto, o fato de ter trocado a
Seis pela Vitória.
        Ninguém mais se lembrava disso, porém era só no que pensava Mestre Ambrósio toda vez que a Vitória sofria alguma derrota, ou perdia a ocasião de fazer
bonito. De resto, os seus próprios azares pessoais ele atribuía a alguma praga que Seu Bruno lhe houvesse rogado, em vida. Julgou haver perdido por completo o
receio , após a morte deste.
        Supôs que a Seis fosse desaparecer definitivamente. Seu Bruno morto, morta a Seis.
        A Vitória, que sempre apresentara melhor conjunto e mais harmonia, criou o vulto e o mestre pontificou na labuta.
        Muitos fatos contribuíram para transformá-la na melhor filarmônica da região. Um deles, o principal, foi a construção do navio Alfredo Viana, de propriedade
do coronel Clemente de Araújo Castro, chefe político local, fundado e mantenedor da Vitória.
        Lutando contra a política monopolista do transporte fluvial exercida no Rio São Francisco e afluentes pelas três companhia, a Bahiana, a Mineira e a Industria
Viação Pirapora, Clemente Araújo, criador e industrial ( apesar de tido como prefeito violento e voluntarioso, era progressista e arrojado), resolveu construir um navio
moderno para atender ao transporte no Rio Corrente. Vendeu quase todo o gado que possuía, mas o fez. Maquinas a vapor vindas da Europa foram montadas sobre
um casco construído no Estaleiro da Ilha do fogo em Juazeiro Oitenta toneladas nos seus porões e podendo arrastar mais duzentas em chatas anexas.
        Dispondo de uma industria de madeiras, o coronel Clemente achou menos dispendioso fazer os camarotes, convés e madeiramento em geral lá mesmo em
Santa Maria. Para tanto, contratou numerosos operários locais e de outras cidades do São Francisco, dentre os quais o próprio regente da Vitória, Mestre Ambrósio,
cuidadoso tanto na música como na mercearia. Joaquim Bento, carpinteiro fino vindo de Minas Gerais, era o chefe da obra.
        Foi uma quadra feliz para Mestre Ambrósio. Vislumbrou-a em todos os detalhes. Além de um salário de merceneiro, pequeno mais certo, os novos músicos
propiciavam-lhe perspectivas extraordinárias para transformação da Vitória na maior banda de todo o vale sanfranciscano.



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- Só seria inferior às filarmônicas de capital e à Euterpe de Juazeiro, assim mesmo, apenas no número de fdiguras. Sonhava, cosciente de sua reconhecida
capacidade, o Mestre Ambrósio.
          - Transporte de graça - não raro dentrava - a banda poderia fazer uma excursão pelas cidades grandes, Barra, Pirapora, Januária, Remanso, Juazeiro,
Petrolina, etc.
          Era a glória culminando-lhe os últimos anos de vida. Festejava-a po antecipação aos goles discretos de cachaça.
          No meio do operariado de fora havia inclusive novidades: um flautim do genro de Joaquim Padeiro e um clarone de Rau Montes Claros. Com os novos, a
Vitória somava trinta figuras. Um estouro. O coronel Clemente, ao ouvir-lhes os ensaios, se orgulhava de tudo: da banda , dos músicos e do Mestre Ambrósio e
sempre dizia que banda de música é que nem mulher-dama, só funciona se lhe der dinheiro. Sem dinheiro a banda não toca. Repertório novinho em folha com
dobrados vindos da capital do Estado.
          Os adversários políticos, os de baixo, correligionários do finado Bruno, escolheram má hora para ressuscitar a Seis. Era para ela não mais reaparecer, porém o
sorteio de Joaquim Inácio de Oliveira (“Joaquim Bodeiro”) para o festeiro do Divino Espírito Santo acelerou o processo.
          Músicos, se muito ainda restasse, uns cinco. Nem maestro tarimbado possuía. Todo mundo tinha se mudado, ou por insegurança política o por falta de ganha-
pão, de emprego.
          Lauro Sobral era a salvação. Desde mocinho já se mostrava bom músico e meio maestro. Bom de embocadura e bom na interpretação. Só o pai Zé Sobral
Sapateiro e Josias França foram maiores que ele no bombardino. Lia de diante-pra-trás e detrás-pra-diante qualquer partitura. E, ademais, compunha sem necessitar
de instrumento.
          Com dois meses passou dez discípulos da artinha para o solfejo e do solfejos para os instrumentos.
          - Só sendo milagre! - refletia, ameaçando, Mestre Ambrósio. E só não lhe voltava o pesadelo da praga do velho Bruno porque ele reconhecia a fraqueza ,
melhor ainda, a tibieza da Seis: instrumental velho, furado; repertório antigo e, de resto, músicos, além de poucos, imaturos e sob a inexperiente batuta de Lauro
Sobral.
          Para completar, este, Lauro, repentinamente, foi atirado à rede por uma hemiplegia de origem só explicada pela carga de sífilis que afirmara ter adquirido nas
aventuras do mundo. Era um condenado à morte, moço ainda, trinta anos, quando terminava um dobrado que, só postumamente, recebeu seu nome. O desespero e
a neurastenia proveniente da frustração que a paralisia parcial provoca não lhe permitiam prosseguir, ainda que ditando, a composição de um repertório
imprescindível ao sucesso da Festa do Divino e da própria Seis.
          Esforços perdidos. Músicos jovens, entusiasmados apesar de inseguros, mas sem maestro só com quatro dobrados: o de Lauro, o Crepúsculo, o Rosicler e o
Avante, Camaradas, de Antoninho Espírito Santo, antigo e demasiadamente batido. A falta de maestro foi suprida logo por Quinca Ataíde e os ensaios prosseguiram.



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Se houvesse um encontro de rua, a Seis seria fatalmente massacrada. Era fácil constatá-lo nos simples ensaios das duas bandas de música. Temiam-nos os
oposicionistas.
        Mas, desta vez, Mestre Ambrósio não colheria os louros da Vitória. Todo o seu modesto castelo de cartas desabara desastrosamente. Havia dois meses,
amargava o azar que a sorte cruel lhe reservara para o fim da vida.
        Quantas vezes, na roça, desejava uma picada de cobra venenosa. Trocaria o infortúnio a que foi atirado pela desgraça que se abateu sobre Lauro Sobral, a
paralisia do lado esquerdo com boca torta e tudo.
        Uma calúnia fundada em plano bem urdido levou o coronel Clemente a admitir, sem sombras de dúvidas, que Mestre Ambrósio houvera furtado um alicate do
almoxarifado do navio. Fora fácil concluí-lo.
        O preto anda bebendo muito antes de receber o salário - dizia um acusador - e ainda paga para os amigos. Quando, no revistamento, mexemos no bolso dele
já era quase certeza encontra o alicate. Não achei exagero nos nomes que o coronel usou pro velho, não. Ladrão é ladrão mesmo. É nome que serve pra cabelos
preto e pra cabelos brancos também. Basta pegar o que é dos outros. Ele teve sorte que não foi nem pra cadeia... Lá fora, seria negócio pra um ano de chá-de-grade.
        Nem uma e nem outra alternativa, entretanto, Mestre Ambrósio preferiria no momento em que ouviu o dono do navio e dono da banda, colérico, lhe expulsar
das duas coisas.
        Se tivesse morrido ali mesmo, tudo teria se passado rápido, sem grandes sofrimento, já que a dor da honra é maior que a dor da morte. Nem assim a sorte
lhe foi condescende.
        Após ouvir, na frente de todos, os insultos mais duros e brutais saiu, cego de vergonha, sem rumo, pois nem atinava onde se esconder. Pegando o leito
lamacento do riacho que divide a cidadezinha, passou por baixo das duas pontes em direção à Várzea. Daí, cortou o morro na altura da casa de Seu Bento Papudo
para ir se enfurnar numa tapera da rua de Siá Francisca. Quase ninguém o viu chegar, enquanto, lá em baixo, o povo atônito via nas ruas fervilhar as mais
contraditórias versões. Era o fuxico, essa generalizada diversão - o teatro e o cinema dos lugares pequenos.
        O assunto rendeu o mês inteiro e renascia toda ocasião em que alguns namorados surpreendiam o vulto solitário de Mestre Ambrósio tossindo no alto do
menino Deus. Era uma espécie de alma penada pelos escuros da noite. Enquanto este buscava ouvir os sons da Vitória. Lauro Sobral, semi-paralítico do fundo de uma
rede, escutava os ensaios distante da Seis. Um ao pé do Menino Deus e o outro vizinho da casa de Bernadete de Seu Antônio de Bruno, ao lado da casa de Anacleto
França, na rua da Caatinga. Dois músicos e maestros; os dois frustrados e infelizes e sobre ambos a iniqüidade da sorte.
        Faltava mês e pouco para a festa do Divino, a maior da Santa Maria da Vitória, quando Mestre Ambrósio conseguiu emprestado papel de pentagrama e tinta.
Sentado no chão do mocambo, apoiado num banco de três pernas, o velho rabiscou firme, quatro dias.
        As maniva de mandioca da roça iriam demorar ainda meses para lhe fornecer o sustento e ele se sentia pesado no orçamento miserável de sua amiga. Esta,
por sua vez, se tornara feliz ao ver desaparecer, por instantes, da face do velho aquele profundo olhar de tristeza. E o contemplava, horas inteiras, cantarolando

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baixinho algum lundu, sem entender as centenas de bilros que ele, sofregamente, desenhava, com se, procurando imitá-la, elaborasse um rendilhado no papel de
música.
           Trocou com ele, várias vezes, as pitadas de um cachimbo de barro, enlevada, agora, com a expressão profundamente humana que naqueles quatro dias
assumiu e seu olhar, antes sempre injetado de cor e de revolta. E foi com tamanho ardor o renascimento de um passado distante, cheio de amor e medo os dois ainda
jovens - que ela mesmo desceu o morro a fim de pessoalmente vender as três partituras que Mestre Ambrósio produzira. Não se envergonhava de dizer que ele se
homiziara no seu mocambo. A fome e uma afeição antiga impunham, ademais, buscar os adversários políticos para vender as peças musicais, pois a Seis era que mais
estava necessitando de repertório novo.
           Dois dobrados e uma valsa pra quinze figuras: mais de cinquenta páginas cobertas de arte. A valsa, Quinca Afonso comprou depois de ouvir o filho Zezito as
partes de solo, da introdução até a coda. Achou-a bonita enão regateou no preço. Pagou os dez mil réis pedidos e a ofereceu à Seis de Outubro com o título Maria de
Lourdes, nome da filha caçula.
           Um dobrado, comprou, também, por dez mil réis, o festeiro Joaquim Bodeiro, intitulando-o logo Dobrado Manoel Inácio de Oliveira, nome de Netinho, filho
mais velho. Esse dobrado, apesar de bem trabalhado, foi infeliz nos primeiros ensaios. Netinho como todo filhinho de festeiro que ingenuamente imagina ser a banda
de música uma propriedade do dono da festa, condenou à galhofa de seu próprio dobrado.
           Com efeito, todas as noites, batia o bombo a fim de chamar os músicos para o ensaio. E o fazia com tanta força - coisa de adolescente que resultou rompendo
o couro do instrumento Foi a conta. O maestro, daí por diante, quando anunciava o dobrado Manoel Inácio de Oliveira, provocava um burburinho de risos. Era o
dobrado Fura Bombo e co esse nome ficou.
           Para o outro não houve pretendente. Ninguém quis dar quinze mil réis por um dobrado. Por dez nã faltaria comprador. No dia seguinte, Mestra Ambrósio o
ofereceu de graça à Seis, com o nome de dobrado Para Todos. Era a sua obra prima. Nele havia jogado toda a sua inspiração. Só após Quinca Ataíde solfejá-lo de
ponta-a-ponta é que verificou a beleza, a preciosidade da peça. Dobrado sinfônico de cinco partes com ligeiras fugas polifônicas e contacantos surpreendentes.
Introdução grave e imponente prepara fácil o tema da primeira parte, marcada de um crescendo suave. Toda a linha melódica fora do costumeiros artifícios musicais
das bandinhas do interior. O máximo de desenvolvimento individual e de cada naipe instrumental, mas dentro de uma rara homogeneidade harmônica.
           O primeiro ensaio conjunto desse dobrado arrastou gente desde a praça do Pequiseiro, até onde chegaram os sons da Seis. Valia por todo repertório novo da
Vitória.
           Otoniel-de-Dona-Flormina, Alcides Papagaio, Morais de-Seu-Antônio Lisboa, Vanjú de-Cota-da-Rua-do-Riacho, Santinho de Chico Caburé e outro meninos
assubiadores, de ouvidos bons, no dia seguinte, encheram as ruas e as tendas de alfaiate do dobrado Para Todos. Foi a coqueluche do lugar.
           Mestre Ambrósio, do Alto do Menino Deus, apreciou por várias noites a evolução dos ensaios da Seis. Melhoraram dia a dia. Porém faltava ainda muito para
apresentar o rendimento harmônico que o Para Todos exigia. Reconhecia-o pesado em demais para uma filarmônica formada de iniciantes.

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Cinco dias antes da Festa do Divino, Quinca Ataíde se sentiu na obrigação moral de fazer uma visita a Lauro Sobral com o objetivo de conhecer-lhe a opinião
sobre o trabalho que o próprio Lauro havia iniciado. Era uma espécie de prestação de contas e, ao mesmo tempo, uma homenagem com que julgava confortar o
infeliz paralítico.
         O encontro foi terapêutico para o enferno. Este reconhecia que a Seis, apesar de falha, com mais cinco dias de repassos, estaria em condições de abrilhantar a
festa.
         O diálogo foi curto porque o bombo já havia dado a segunda chamada.
         - E as trompas, Quinca?
         - Progrediram muito e mais ainda o soprano de Chico de Guarany
         - Quem vai salvar tudo é o Para Todos. Durante o ano que eu estive no interior de São Paulo, onde eu arranjei essa sífilis amaldiçoada, nunca vi um dobrado
mais belo e mais rico do que esse do velho Ambrósio. O preto parece que ali deu tudo que podia dar. Não tenho certeza, mas - Quinca Ataíde já o esperava - eu acho
que está faltando qualquer coisa nele. Acho que.
         - É, falta do bombardino
         - Se Mestre Ambrósio escreveu a parte do bombardino, na falta deste, - reclamou Lauro por que não converter ela para o barítono ou ainda para o tenor
         - Zeca Coimbra não aguenta Zeca é bom, porém tem dedo enferrujado e a parte é toda cheia de acidentes. De mais a mais exige muita execução. Se você
quer ver vou mandar buscar em casa agora mesmo. E já foi pegando o menino mais próximo para dizer a dona Naninha que mandasse aquela folha de papel que
estava sobre a cama de Reinaldo.
         Ao passa a vista na parte do bombardino o inferno vibrou e, de repente, parou os olhos fuzilantes em um ponto fixo do telhado. Refletiu meio minuto e
erguendo com sacrifício a cabeça e o tronco, na rede incômoda, surpreendeu os circunstantes.
         - Arranje Chico Caburé, Joaquim Piçarra e mais uns dois carregadores pra me levar na rede até à praça, que hoje o Para Todos sairá completo.
         Deijinha, a irmã, e Siá Maria-de-Zé-Sobral, a mãe, cheias de cuidados e quase se desmaiando de medo, soltaram logo uns “ Deus lhe defenda!” co cara de
choro.
         - Não carece cuidado obstinava Lauro querendo se sentar na rede. Basta arranjar dois travesseiros para calçar os ombros que eu fico bem sentado no canto
da sala. A mão direita está boa e minha boca já desentortou muito. Chamem os cerregadores e, nervoso - me façam essa caridade.
         Foi um rebuliço em toda a rua da Caatinga. Aquele estranho préstito puxado por uma rede, lembrando um enterro de brejeiro, arrastou enorme multidão à
Esquina de Arnaldo Borba, onde ensaiava a Seis, na Praça da Bandeira.
         A rede penetrou inesperadamente, porta-adentro, na sala cheia de estantes, onde os músicos, retransidos de susto, interromperam os últimos afinamentos.



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Escorado nos travesseiros e com o bombardino a tiracolo, Lauro Sobral experimentou rapidamente o instrumento e os dedos nas passagens mais dificeis do
dobrado. Foi questão de segundos e os músicos, seus discípulos, ficaram radiantes ao verificar o ressurgimento do maestro de ontem. Correu por todas as veias o
frêmito desses momentos de extrema emoção, sobremodo quando, após a introdução do Para Todos, o bombardino, em florituras impressionantes, costurou de ponta
a ponta, notas limpas e impecáveis, a primeira parte.
       No Alto do Menino Deus, Mestre Ambrósio empertigou-se. Sentia-se arrebatado. Aqueles sons eram a sua alma, o seu sangue, e sua tosse, a sua fome, a sua
vergonha, a sua vida. Teve vontade de correr.
       À medida em que se desenvolviam as outras partes do dobrado sinfônico, os músicos percebiam que o bombardino descortinava todo um novo ângulo estético
da peça. Na altura do trio, enorme multidão se acotovelava na frente da casa, em silêncio, mas de tal forma vibrante que Quinca Ataíde, também emocionado,
chamou os músicos ao ritornello, à repetição. Foi um delírio sem precedentes. Tudo indicava que músicos e instrumentos iriam se desmanchar no entusiasmo e a
banda parecia que passara de quinze para trinta figuras. E, como se não bastasse todo aquele mundo de emoções irreprimidas, qual um fantasma saindo do chão,
maltrapilho, alquebrado, barba crescida, olhos fundos e marejados, o Mestre Ambrósio penetrou, de súbito, no recinto.
       Multiplicaram-se as cabeças inquietas dos curiosos que disputavam as quatro janelas da sala. Eletrizaram-se os músicos. E Quinca Ataíde entregou-lhe a
batuta. Repetiu-se mais uma vez o Para Todos, aqui e acolá entrecortado de aplausos incontidos. No meio do dobrado o velho sofreu um acesso de tosse. Procurou
coibi-la devolvendo a batuta a Quinca Ataíde e buscando um copo d’água no corredor vizinho, com a moradora, Siá Luzia de Luíz.
       Não voltou para os braços dos músicos e da enorme assistência que o aguardavam ansiosos. Saíram misteriosamente pelos fundos da casa.
       Nesta noite Santa Maria não dormiu, o povo procurando Mestre Ambrósio por todo canto. Ao amanhecer, canoeiros atiravam redes, inutilmente, ao longo do
Rio Corrente, na procura de um corpo afogado.
       Caminhada de vinte léguas até o São Francisco e cento e cinqüenta de balsa, salpicadas de sangue tossido á procura de caridade.
       Morreu solitário a seis légua de Juazeiro, entre indigentes do Sanatório de Carnaíba.




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                                                                                                                                         Recife, 2 de Janeiro de 1965




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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
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                                                               ISSN 1517-5421          lathé biosa   90
      ANO II, Nº90 - MARÇO - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421

                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
             ALBERTO LINS CALDAS - História
              ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                 ARTUR MORETTI - Física
                CELSO FERRAREZI - Letras
             FABÍOLA LINS CALDAS - História
           JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
          MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
                MARIO COZZUOL - Biologia
                 MIGUEL NENEVÉ - Letras
              VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia

                                                                 A VIDA AFETIVO-SEXUAL COLONIAL
Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows”       BRASILEIRA E AS CONSEQUÊNCIAS
           deverão ser encaminhados para e-mail:
                                                                         PSICO-CULTURAIS
                     nilson@unir.br


                     CAIXA POSTAL 775                                           MARCEL DE ALMEIDA FREITAS
                     CEP: 78.900-970
                      PORTO VELHO-RO



                  TIRAGEM 200 EXEMPLARES


        EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA


                                                                                                          70
Marcel de Almeida Freitas
        Antropólogo
        marleoni@Yahoo.com.br
                                                                                                           A VIDA AFETIVO–SEXUAL COLONIAL BRASILEIRA E
                                                                                                                        AS CONSEQÜÊNCIAS PSICO–CULTURAIS


        O tráfico de escravos foi iniciado no Brasil em 1526 e a escravatura foi abolida em 1836 (PRADO Jr., 1961). Durante estes três longos séculos, negros oriundos
de diferentes partes da África ajudaram a construir este país. Aqui também os portugueses(as) puderam exercer sobremaneira a dominação e a exploração sexual
sobre os colonizados – índias(os) e negras(os).
        Assim, este artigo é uma tentativa de abordar alguns aspectos da vida sexual de escravas(os) e senhores(as), investigação esta que pode esclarecer
características importantes do fenômeno escravidão em geral como também trazer algumas luzes sobre o comportamento sexual e as relações de gênero do povo
brasileiro atualmente. Desta forma, no cruzamento da História com a Psicologia, pretende–se pontuar alguns aspectos das relações interpessoais entre pessoas no
âmbito sexual e afetivo hierarquicamente desiguais.


                                                                           O SEU CORPO É MEU


        Durante a escravidão os corpos dos escravos pertenciam aos donos como se fossem corpos de animais. Assim, os brancos podiam manifestar livremente uma
agressiva luxúria sobre as negras, e não raro sobre os negros (MOTT, 1988). Segundo Gilberto FREYRE (1926) a licenciosidade, a depravação (segundo os costumes
ocidentais da época) e a subordinação sexual são inerentes ao sistema colonial brasileiro. Os portugueses, interessados em povoar a terra enorme e deserta logo
lançaram mão do corpo das nativas e posteriormente abusaram da importação de adolescentes negros (rapazes e moças), para que, na promiscuidade dos navios
negreiros, eles tivessem relações sexuais e as negras aqui chegassem grávidas, aumentando o patrimônio de seus futuros senhores – segundo as leis escravocratas
daquele período, o senhor não precisava pagar pelo feto no ventre da mãe (POMER, 1980).
        Na “Idea Geral de Pernambuco em 1871” (MOTT, 1988) um cronista anônimo fala da ‘grande lubricidade’ dos negros nos engenhos, fato que era estimulado
pelos senhores ávidos de aumentar seu plantel. Entretanto, tal crônica mostra apenas o caráter ideológico da época, já que não eram os negros os verdadeiros
lúbricos – mesmo porque eles não tinham os sistemas religiosos e as noções de pecado cristãs – eles foram, na grande maioria das vezes, vítimas do clima de
lubricidade existente na própria estrutura do sistema escravocrata, sendo que era o europeu o elemento ativo e o principal beneficiado de toda essa licenciosidade. Os


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pais – senhores de engenho – viam sempre com olhos simpáticos e de silenciosa aprovação a antecipação sexual dos filhos varões com as ‘negrinhas imberbes’
(FREYRE, 1926).
       Esta violência sexual (ainda que não tivesse caráter de violência física certamente era uma agressão psicológica e cultural), além de preservar as ‘moças de
família’, futuras esposas, significava o surgimento de mulatos para os trabalhos na lavoura. O fato de que estes rapazes brancos não tivessem nenhuma atividade,
nenhum trabalho (os trabalhos braçais eram vistos com extremo desprezo), também contribuía para essa extrema sexualização da vida cotidiana, ou seja, uma forma
de preencher o tédio (PRADO Jr., 1961).
       Segundo as tradições rurais nos engenhos até mesmo as senhoras – mães mais desembaraçadas – incentivavam que seus filhos fossem para os braços das
negras e das mulatas; recorrendo a Gilberto Freyre vemos que:
           “Nenhuma casa grande do tempo da escravidão quis para si a glória de conservar filhos maricas ou donzelões. O que a negra da senzala
   fez foi facilitar a depravação com sua docilidade de escrava: abrindo as pernas ao primeiro desejo do senhor–moço. Desejo não, ordem”
   (FREYRE, 1926:113).
       O clima de liberalismo e exploração sexual de negras(os), e em menor escala índias(os), favorecia o desejo de idosos e jovens. Sucedia muitas vezes que
justamente aqueles senhores mais severos com seus filhos e principalmente com suas filhas e esposa eram os que davam mais mostra de ímpeto de dominação sexual
sobre a ‘carne das negras’. Nessa época acreditava–se que era o calor dos trópicos que acelerava o precoce despertar sexual dos rapazes brancos e não os exemplos
paternos e mesmo dos avôs (STAVENHAGEN, 1973). Padre Lopes Gama disse que os meninos das fazendas de cana–de–açúcar “(...) apenas tocam os limiares da
virilidade e já se entregam desenfreadamente aos mais porcos apetites; são os garanhões daqueles contornos” (apud MOTT, 1988:45).
       A dupla moral, característica da sexualidade brasileira até os dias de hoje, se manifestava no fato de que, entre outras coisas, o senhor por pudores e
preceitos religiosos, se reprimia sexualmente com a esposa branca – figura exclusiva para a reprodução – mas geralmente não tinha freios no relacionamento com
escravas, consideradas simples objetos. Tais relacionamentos muitas vezes marcavam de maneira permanente o psiquismo dos homens da época, como mostra o
seguinte exemplo narrado por Raoul Dunlop (apud FREYRE, 1926): certo jovem de conhecida família escravocrata do Sul do país para excitar–se sexualmente diante
da noiva branca teve que levar para os aposentos a camisola úmida de suor de sua escrava negra, sua amante desde que entrara na adolescência.
       De qualquer forma, negras e negros de intensa beleza – os padrões estéticos não eram tão rígidos e autoritários como atualmente – deviam se constituir em
‘tentação’ para europeus sexualmente reprimidos no velho mundo, e que quando chegavam ao Brasil podiam dar vazão a impulsos sexuais mais facilmente. O
Reverendo Walsh em seu “Notices of Brazil” de 1830 diz o seguinte:
       “A superioridade da população negra não é tão grande em número quanto em atributos físicos. Muitos negros e mulatos são pessoas mais vigorosas e atléticas
que se pode contemplar e poderiam servir de modelos para um Hércules de Farnese” (apud ARANA, 1960:69).
       Já o francês Tollenare descrevia as negras como tendo “formas esculturais, proporções generosas de corpo, os tons quentes da pele, a paixão concentrada no
olhar” (NOVAIS, 1979:173). Ele admirava o próprio odor do corpo das negras, em contraste com o cheiro artificial produzido pela maquiagem das mulheres brancas.
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Um anúncio do “Jornal do Commércio” do século XIX dá bem a medida de como valorizavam–se os aspectos sexuais nas moças negras e mulatas – além do aspecto
força e disposição para o trabalho: “Procura–se negrinha de beiços finos, olhos grandes, pés pequenos, espigadinha de corpo, peito em pé. Rua das Violas, em São
Cristovão” (MOTT, 1988:55). Em outro anúncio do mesmo jornal vemos como tais seres humanos eram maltratados pelos seus senhores, como eram totalmente
coisificados:
           “Procura–se mulatinha puxando a sarará, de nome Joana, 14 anos prováveis, fugida de um engenho do Carmo, cor alvacenta, cabelo carapinho e russo, corpo
regular, com todos os dentes, mas com vestígios antigos de chibata no corpo (...). Fala às vezes viciosa. Padecendo de bouba18 nas partes ocultas” (POMER,
1980:106).
           A descrição dada aos ‘machos da espécie’ também primava em exaltar os caracteres selvagens, robustos e primitivos, que tanto distinguia os negros dos
brancos, e que muitas vezes vemos de modo subliminar na mídia de hoje: no “Diário de Pernambuco” do século XIX procurava–se um tal de Francisco com as
seguintes características: “23 anos, grosso de corpo, cabelos não encarapinhados, dentes perfeitos, pé e mãos regulares, negro pachola que fugiu trajando calça de
casimira preta (...)” (POMER, 1980:109).
           A partir deste e de vários outros anúncios percebemos que o interesse dos senhores (e mais camufladamente das senhoras) pelas(os) negras(os) e
mulatas(os) não se reduziam apenas aos serviços domésticos, da lavoura ou da garimpagem: a escravidão também incluía obrigações na alcova dos brancos. No
período colonial muitos portugueses optavam por amasiar–se com uma negra ou mulata; as leis lusitanas facilitavam como nenhuma outra o registro dos filhos
ilegítimos favorecendo que tais ligações não ficassem tanto na clandestinidade como em outras zonas coloniais – espanholas, francesas, inglesas. Nas palavras de
Gilberto Freyre isso se deveu ao fato de que
            “A falta de gente para a colonização do país fez diminuir os escrúpulos contra irregularidade sexuais. Talvez em nenhum país católico
      tenham até hoje os filhos ilegítimos – particularmente os de padre – recebido tratamento tão doce” (FREYRE, 1926:239).
           Em seu livro “Crônicas do negro no Brasil”, Sérgio Diogo Teixeira de Macedo (apud NOVAIS, 1979) se refere ao fato de que meninas negras de 10, 11 anos
eram estupradas por ‘sinhós–moços’ e ‘sinhós–velhos’; padres viviam abertamente com escravas, criando os filhos daí gerados com responsabilidade paterna, o que
deu origem até mesmo a algumas famílias ilustres, sobretudo no Nordeste. Muitas escravas eram obrigadas a se prostituir nas ruas de Salvador, Recife, Rio de Janeiro
para sustentar ávidos senhores. O Reverendo Walsh, anteriormente citado, também menciona o fato de europeus louros e ruivos – alemães, belgas, escoceses,
ingleses, dinamarqueses – venderem por altíssimos preços seus filhos mestiços bastardos devido aos olhos azuis e cabelos avermelhados ou alourados (POMER,
1980).




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     Doença venérea que às vezes se confundia com a sífilis.

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O SEXO COMO INSTRUMENTO DE LIBERTAÇÃO

       De acordo com a obra de Gilberto Freyre nos mercados negreiros os compradores faziam com que os negros ficassem quase nus, ‘arreganhavam’ suas bocas
para ver a dentição, mandava–os tossirem, sorrirem, saltarem e todo tipo de ignóbil exposição com o objetivo de avaliar a ‘qualidade do material’. Havia também
aqueles compradores que muito examinavam o tamanho do órgão sexual dos negros bem como a rigidez dos seios das negras; muitas vezes a ‘análise’ das partes
pudicas dos escravos se ligava aos interesses reprodutivos no cativeiro, porém não era raro que tal exame objetivava verificar o grau de prazer que tais ‘coisas’
poderiam proporcionar ao comprador (FREYRE, 1926). Os negros tinham que se submeter a tudo: eram apalpados, apertados, cheirados, quase que eram mordidos,
amolengados, etc. os ciganos eram os que mais expunham as negrinhas imberbes em posições de sedução para atrair os senhores compradores, tapando apenas seu
sexo com diminutos tecidos.
       Muitas vezes, e através disso podemos ver a dominação de gênero, de classe e étnica, as negras mesmo coisificadas desta maneira desenvolviam apreço,
afeição e até mesmo amor pelos seus senhores. Os versos de uma mulata desconhecida, coletados por Leon Pomer, mostram a atuação da ideologia dominante (a
vítima que se liga afetivamente ao algoz): “meu branquinho feiticeiro/doce ioiô do meu coração/adoro teu cativeiro/branquinho do coração./Pois tu chamas de
irmãzinha/a tua pobre negrinha/que estremece de prazer/e vais pescar à tardinha/mande piau e corvina/para sua negrinha comer” (POMER, 1980:10).
       Por outra mão, é preciso considerar que se tornar amante de um branco, ou mesmo prostituir–se, era uma das poucas alternativas que uma negra ou mulata
tinha para amenizar a escravidão, ou em casos mais raros, de se tornar livre. André João Antonil (apud FURTADO, 1969) postula que muitas negras conseguiam juntar
alguma quantia com a qual compravam sua alforria, e como mesmo depois de livres, como nada sabiam fazer, e nenhum patrimônio possuíam, continuavam a vender
o sexo em troca de dinheiro. Por outro lado, algumas ex–escravas se tornaram respeitáveis donas, mães de família e senhoras de outros escravos. Este foi o caso de
Xica da Silva (MOTT, 1988).
       Quando João Fernandes de Oliveira – o Contratador – se interessou por ela, Xica já não era mais tão jovem (de acordo com os padrões da época) e já era
mãe. No entanto o europeu a cobriu de ouro e lhe outorgou um poder enorme. Tiveram doze filhos e a ex–escrava viveu numa esplendorosa quinta. No período
colonial as negras mineiras tinham fama de serem mais dóceis e belas que as escravas de outras regiões (POMER, 1980). Acreditamos que a docilidade era devido ao
fato de que as negras que eram enviadas para aquelas paragens não eram utilizadas para os serviços de lavoura ou garimpo, mas se ocupavam dos serviços
domésticos e desta forma introjetavam, em alguma medida, os valores e etiquetas dos brancos. O próprio governador do Rio de Janeiro, Luís Bahia Monteiro, em 1730
chegou a afirmar que “(...) não há mineiro que possa viver sem sua preta, dizendo que só com ela tem sorte nas lavras” (apud POMER, 1980:19).
       Algumas destas negras, ao se tornarem concubinas de luxo, e mais raramente esposas de senhores abastados, viviam em grande luxo e vaidade; No Rio de
Janeiro não era raro ver–se negras e mulatas cobertas de jóias, trajando cetim, fileiras de miçangas e saias de baixo no mais puro linho de Flandres. Isso mostra uma



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certa permissividade da sociedade brasileira da época, e através da ostentação de suas negras concubinas os senhores do comércio ou de engenho afirmavam sua
riqueza e poder frente aos outros homens.


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       Numa situação em que seres humanos estavam submetidos a outros, econômica, social e psicologicamente é de se esperar que o sadismo e o masoquismo
florescessem. Deste modo, o costume de açoitar escravos era público e anunciado com antecedência por tambores que rufavam veementemente. Homens, mulheres,
crianças, negros, brancos, mestiços, indígenas, ricos e pobres, todos iam ver e fruir os açoites – verdadeiros espetáculos que misturam licenciosidade e crueldade.
Narradores estrangeiros ficavam surpresos como a multidão exultava a cena e como exigia mais (ARANA, 1960). À cada corte aberto nas costas dos escravos – nesse
tipo de punição era mais comum o elemento masculino – onde sangue, suor e lágrimas se misturavam, a turba excitada aplaudia o carrasco.
       As mulheres brancas, talvez para compensar a submissão que sofriam dos maridos, exageravam no sadismo quando puniam algum escrava, principalmente se
do sexo feminino – numa leitura psicológica podemos entender que também manifestam seu desejo sexual reprimido nestas torturas. Gilberto FREYRE (1926) conta
de iaiás que destroçavam dentes de negras com o salto do sapato, e outras que mandavam cortar os mamilos das negrinhas recém entradas na adolescências – como
se tais criaturas fossem as responsáveis pelos olhos gulosos dos maridos. Sérgio Diogo Teixeira (apud POMER, 1980) descreve a história de Dona Ana Paes, fazendeira
de Goiás. Suspeitando que uma das escravas da fazenda estava grávida de seu esposo, Dona Ana aguardou pacientemente o nascimento do bebê; quando nasceu a
criança mandou que suas escravas arrumassem luxuosamente uma mesa de jantar. Então ela mesma trouxe assado o recém–nascido. Partindo friamente a coxinha do
bebê, atirou o pedaço no rosto do marido em choque gritando: “anda bandalho, come o teu filho!”
       Desenvolveu–se também uma grande rivalidade entre senhoras e escravas – ambas desconhecendo que estavam todas submetidas ao mesmo poder: o
patriarcado. As brancas tinham o ócio, a riqueza, o status e o poder, mas devido à falta de atividade engordavam logo após o primeiro parto, perdiam os dentes com
facilidade – o que era acelerado pelo grande consumo de doces e guloseimas – e tinham então que ‘concorrer’ com as negras de corpo definido pela lida diária. Essas
disputas ficam bem evidentes na seguinte quadrinha anônima, recolhida por Lamego (apud MOTT, 1988) na região de Campos de Goytacazes: “Se as brancas se
vendessem/ou por ouro ou por prata/compraria uma delas/para servir às mulatas”.
       Era hábito naquele período que meninas brancas de 13, 14 anos se casassem com senhores de 50 anos. Em alguns anos o marido decrescia física e
sexualmente – especialmente pelas condições de trabalho adversas e pela vida licenciosa que levavam – e devido a isso, juntamente com a subordinação com a qual
eram obrigadas a tolerar destes maridos, algumas iaiás tinham amantes negros. Porém a mulher devia ser bastante ardilosa e audaciosa para proceder assim, pois
embora a sociedade fosse condescendente com as relações de brancos com escravas, punia severamente as relações de homens escravos com mulheres brancas.
(POMER, 1980). Muito escravo foi sumariamente castrado pela simples suspeita de ter atraído o desejo de alguma sinhá. M. Bonfini em sua obra intitulada “América

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Latina” (apud ARANA, 1960) conta que muitas sinhás–moças foram criadas se roçando nos moleques de cor, e entregavam–se sexualmente e eles; quando isso era
descoberto a moral patriarcal intervinha ferozmente: o negro era ‘capado’ com uma faca e sua ferida salgada; a rapariga, com um dote reforçado, era casada com um
primo pobre ou um jovem mancebo de alguma localidade distante que não havia recebido tais notícias.
       As relações homoeróticas também eram presentes – explícitas, como nos casos em que senhores exigiam serem sodomizados por seus escravos negros, ou
vice–versa, ou então mais sutis, como é o caso narrado a seguir pelo Padre Lopes Gama:
          “Conheço uma respeitável Sibita que, creando uma negrinha que hoje terá seus 14 annos, esta não vae de noite para a cama sem que
   primeiramente se deite no regaço da sua yayá gorda, que esta lhe vá dando trincos na carapinha e fazendo mechas do vestido da pateta, e
   chupando–as até adormecer! Aqui há porcaria, má creação e desaforo” (MOTT, 1988:88).
       Outro aspecto curioso era o enorme prestígio e participação das mucamas na vida particular e sentimental das sinhazinhas; Joaquim Manuel de Macedo, autor
de “A Moreninha” escreveu certa feita que a mucama, embora escrava, era ainda mais presente que o padre confessor ou o médico na vida íntima das donzelas
solteiras (FURTADO, 1969). A mucama, além de ser a confidente dos amores proibidos lhes fazia cafuné, lhes penteava o cabelo, dava banho nas sinhás–moças. E
considerando que a ociosidade era ainda maior para as mulheres brancas, ainda mais solteiras, deduzimos que as conversas eram a única diversão e passatempo
dessas moças e de suas aias. Temos que lembrar também que, nos casos em que a moça fugia com um outro rapaz não desejado pela família, ou mais raramente
com um negro ou mulato, a mucama era figura central em toda a trama, realizando–se, de certa forma, no ímpeto e na fuga da ‘amiga’.
       Enfim, durante os três séculos de escravidão africana no Brasil europeus, prevalentemente portugueses, e negros, sem mencionar os indígenas, se odiaram, se
amaram, se relacionaram, se excluíram, originando os pilares étnicos e culturais do povo brasileiro. E talvez os versos a seguir, coletados por Leon Pomer melhor
representem algumas situações com as quais viveram os contemporâneos da escravidão no Brasil, onde vemos as questões de dominação étnica, de gênero e as
relações incestuosas nitidamente:
          “A linda mulatinha/a cria da fazenda/a todos encantava, a todos seduzia./O lindo seio envolto em renda grossa/se ela caminhava
   estremecia./O filho do senhor, janota petulante/olhava a mulatinha e demorava no olhar/havia já pensado em ser seu amante/e dela o coração
   julgava dominar./um dia resolveu entrar ocultamente/aonde adormecera a pobre da criança/no seio foi bulir, e ela incontinenti/ergueu–se e
   lhe fugiu, deixando–o esperar./À velha preta mãe contou o que lhe aconteceu/a preta a soluçar, a mãe do coração/fitando a mulatinha a custo
   respondeu/cuidado minha filha, escuta... é teu irmão!” (POMER, 1980:234).
       Notamos pela passagem acima e pela análise dos historiadores referidos, que a colonização do Brasil por Portugal fundamentalmente foi alicerçada na
exploração do corpo do outro, o que exigiu a articulação de um forte aparelho ideológico (psíquico) repressivo e hierarquizante. A mentalidade produzida nesse
período, tanto pela igreja quanto pelas relações familiares, tiveram o cunho do controle e da dominação–subordinação. Desta feita, notamos que algumas destas
características se encontram presentes em nosso imaginário até o presente momento, embora mais sutis e complexificadas, e um exemplo disso é a diferença de
valor, atribuída pela mídia, às mulheres negras em detrimento das mulheres brancas, ou o vínculo da sexualidade dos homens negros com a animalidade.



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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
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                                                               ISSN 1517-5421     lathé biosa    91
      ANO II, Nº91 - MARÇO - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421

                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

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Nilson Santos
Professor de Filosofia e História da Educação - UFRO
nilson@enter-net.com.br
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        John Dewey, filósofo e educador norte americano, autor de 36 livros, sendo quatro traduzido para o português, é um dos poucos intelectuais da área de
filosofia e educação, de renome fora do eua, viveu mais intensamente sua carreira acadêmica na primeira metade do século XX. Em filosofia, absorveu o itinerário
anglo-germânico. Somando pragmatismo, liberalismo e idealismo hegeliano, produzindo obras pedagógicas cuja temática envolvia a democracia e a experiência.
        Na obra “Democracia e educação”, escrita em 1.916 e reescrita em 1.926, período de mais maduro da produção de suas obras, o autor trabalha com a
importância da experiência individual, pois ela é expressão da vida, assim: vida é educação, educação é vida, e vida é experiência.
        Ainda hoje, as obras de Dewey norteiam a prática pedagógica norte-americana e exercem forte influência sobre a prática pedagógica brasileira. Recentemente
o IUPAC - Institute for Advancement of Philosophy for Children contando com as contribuições de Matthew Lipman e Ann Sharp, desenvolveu vasto material didático,
visando fomentar e discutir os procedimentos da Filosofia nas escolas de 1º e 2º graus, baseando na pedagogia deweyana, no pensamento de Platão e na maiêutica
socrática. O projeto se estendeu por mais de 30 países, dentre os quais o Brasil, onde fora somado o pensamento de Paulo Freira através de diálogo estreito com sua
obra, principalmente no caráter reflexivo e dialógico da educação.
        Na referida obra, Dewey entende que a vida só se processa na medida em que o indivíduo interage com o meio, retirando deste os elementos fundamentais
de que necessita para gerar conhecimento.
        A experiência, enquanto interação com o meio, aparece como elemento importante, pois, ela possibilita tanto o indivíduo quanto a sociedade a renovação de
ideais, crenças, hábitos. É a educação quem possibilita a burilar do conhecimento acumulado, a assimilação e a transmissão aos membros mais jovens do grupo.
        Já que a escola proporciona de modo rápido e sistemático o contato com situações novas, o crescimento decorre da possibilidade de se conviver
democraticamente com diferentes indivíduos de diferentes grupos (leia-se também classes).
        A educação aparece como caminho privilegiado para despertar o interesse voluntário, a experiência conjunta, partilhada por todos, independente de sua
função, papel ou identidade social. O autor chama a atenção para a distinção entre vivência e partilha: a vivência é o momento em que o trabalho é realizado
individualmente, é o momento da experimentação, única possibilidade concreta de aprendizado; já a partilha, refere-se ao trabalho em grupo, onde são reveladas as



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descobertas individuais. Se a experiência é singular, todos falam a verdade, pois, cada uma capta o acúmulo de experiência que tem. Somente num grupo e numa
sociedade genuinamente democrática, se tem assegurado que a verdade individual será respeitada e aceita como base para a investigação.
        Se estabelecermos para aprendizagem um objetivo prévio, corremos o risco de tornarmos a aquisição do conhecimento pobre e mecânico. Na medida em que
se abre um leque de objetivos, tem -se não mais um fim mais um caminho, mas diversas hipóteses e descobertas que não foram previstas e que podem ser
exploradas num grupo ampliado.
        Fazer ciência para Dewey, não é ensinar conceitos acabados e paradigmas construídos, mas apropriar-se do instrumento mais próximo, quotidianos, como
base para a construção dos princípios fundamentais, que possibilitem a elaboração de procedimentos científicos, estruturados em idéias próprias.
        A Ciência pode fazer um tipo de Filosofia, desde que se torne uma atitude diante do mundo. Fazer filosofia, não implica em preservar e cultivar verdades e
ensinar conhecimentos, mas em colocar-se diante do mundo, na qualidade de quem quer descobri-lo ou significá-lo. Esta postura ativa implica na possibilidade de
acumulação qualitativa e na flexibilidade diante das novas situações, já que um fato não se repete de forma idêntica por duas vezes.
        A vida só se processa na medida em que os indivíduos interagem com os meios, retirando deste os elementos de que necessita para se perpetuar. A
experiência, enquanto integração com o meio, surge como elemento importante, pois, ela possibilita, tanto ao indivíduo quanto a sociedade, a renovação de ideais,
crenças, hábitos. E é a educação quem possibilita o burilar do conhecimento acumulado e a transmissão aos membros mais jovens do grupo.
        Desta forma, a educação significa fator primordial de sobrevivência à comunidade, porém, esta educação não deve se limitar a obedecer ordens ou a dá-las,
mas deve dirigir-se a co-participação.
        A vida e a prática social também são educativas. E a educação formal deve respeitar e valorizar esses momentos, não permitindo dicotomias entre o
aprendizado formal e o informal como se fossem instâncias epistemológicas estanques.
        A educação deve ser entendida como “condição de crescimento”, ciente disto ela deve libertar as aptidões; a linguagem, por exemplo, elemento importante
para transmitir experiências deve ser corrigida.
        Uma vez que os indivíduos convivem na sociedade com diferentes grupos, que mais ou menos influenciam seus hábitos e pensamentos, a escola aparece
como um grupo que possibilita o alargamento dos horizontes. A convivência na escola de crianças de diferentes condições culturais, econômicas, credos religiosos,
propiciam novas perspectivas que em seus grupos de origem, provavelmente não teriam.
        Cabe a escola integrar e purificar os costumes, fortalecer nos indivíduos mais maduros o equilíbrio da convivência social e a multiplicidade de interpretações
para o mundo.
        Os indivíduos mais imaturos caracterizados principalmente pelas crianças possuem seus “impulsos naturais”, não raras vezes, em dissonância com os hábitos
da sociedade a qual pertencem; assim, elas devem ser estimuladas com o intuito de influenciar diretamente o seu comportamento numa direção socialmente mais



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satisfatória e madura, não de maneira mecânica e controlada, pois, é importante que a criança tome parte neste processo, com ações até diferenciadas, porém,
atingindo o mesmo fim.
        A educação aparece não como sinônimo de falar e ouvir, mas como processo ativo que rompe o âmbito da repetição e obediência estabelecendo uma
identidade interior que cria mentalidade social e tornam conscientes as aptidões dos indivíduos.
        O crescimento decorre da possibilidade de conviver com outros indivíduos, desenvolvendo a reflexão, a capacidade inventiva, a iniciativa, decorrente das
experiências acumuladas. Neste processo de aprendizagem, se constroem os hábitos e se estabelecem domínios sobre o meio em que se vive, historicizando-o e,
portanto, humanizando-o.
        O entendimento da vida como desenvolvimento, leva-no a encarar as atitudes infantis como atitudes passiveis de crescimento; à educação compete fazer
desenvolver as potencialidades dessas atitudes, despertando o desejo de crescer.
        Dewey aponta o maior mérito de Herbart, que foi a de propor a observância dos modelos culturais e literários como metas a serem atingidas pela educação,
ou seja, Herbart retirou a educação do acaso, elucidando um método consciente, porém, Dewey se contrapõe a ele na medida que este omita a possibilidade do
desenvolvimento, quando em contato ativo e criativo com o mundo, que pela reorganização e reconstrução coordena as atividades inatas, no sentido de se apropriar e
aprimorar o conhecimento advindo do meio externo.
        Fica descartada a possibilidade de repetição do conhecimento na educação, pois ele significa estagnação, ao contrário do que se verifica na quotidianeidade. A
cada geração acrescentam-se novos conhecimentos aos já existentes, assim como a cada experiência individual surgem sempre novas relações que colocam o
conhecimento socialmente acumulado em cheque, sobrepondo-se a ela novos conceitos, novas prioridades, novos interesses, novas justificativas.
        Neste aspecto a educação tem fundamental papel como acelerador do ciclo de transformação e criação, propiciando ao aluno o rápido contato com situações
novas, estimulando a reorganização das experiências, mantendo vivo o processo de crescimento e reflexão.
        A educação tem profundos vínculos com a forma de governo. Um governo que se estabeleça legitima e democraticamente, não tem sustentação se aqueles
que o elegeram não forem devidamente formados (educados) dentro desses parâmetros. Uma sociedade genuinamente democrática, não deveria suportar imposições
a sua gestão, já que elas têm um caráter distinto e externo dos propósitos de pluralidade e diversidade do pensamento.
        A educação aparece como caminho privilegiado para despertar o interesse, a experiência conjunta, partilhada por todos, independente de sua função, ou papel
social (diga-se classe social). Aqui Dewey chama a atenção para a distinção entre vivência e partilha: a vivência é o método em que o trabalho é realizado
individualmente, é o momento da experimentação individual, possibilidade privilegiada e concreta de aprendizado; já a partilha refere-se ao trabalho grupal de
revelação das descobertas individuais, onde as construções individuais são aferidas e postas em prova. Se a experiência é singular, todos falam a verdade, pois cada
um capta segundo o acúmulo de experiência e o modo de significação que tem, mas esta verdade diz respeito também, e ao mesmo tempo, a certas condições
sociais, a certos limites espaço-temporais socialmente dados, o quer dizer que todo conhecimento passa pela validade social, e é reconhecida neste espaço dinâmico

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entre os argumentos individuais e os valores sociais. Somente numa sociedade genuinamente democrática e num grupo democrático, se tem assegurado que a
verdade individual será respeitada e aceita no sentido de ser considerada como objeto de reflexão e levada em conta.
        Se estabelecermos para a aprendizagem um objetivo prévio, corremos o risco de tornarmos a aquisição do conhecimento mecânico e pobre. Na medida em
que se abre um leque de pré-definido e objetivo, tem-se não mais um fim e um caminho, mas diversas hipóteses e descobertas que não foram previstas, não estavam
postas de antemão, permitindo processos mais livres e criativos.
        A natureza da experiência envolve dois aspectos: um ativo (que implica na expectativa e no contato), e outro passivo (cujo movimento nos remete a deixar-se
levar por ela). Essa expectativa é que possibilita a associação que se faz do calor com a dor, estabelecendo uma relação de causa-efeito, possibilitando uma
conclusão: o contato com o fogo pode significar ferimento e sofrimento. A reflexão é o momento do estabelecer os nexos causais da experiência, propiciando o
aprendizado, ultrapassando o mero caráter empírico causa-efeito, instigando a reflexão, o controle, o domínio e muitas outras relações que chegam, por exemplo, ao
domínio social dos potenciais do fogo.
        Em nossas escolas muito embora se reconheça a importância do ato de pensar, do desenvolvimento de algumas habilidades de raciocínio, da leitura e da
escrita, tem-se um modo ineficiente de empreendê-lo. Esquecemos que o caminho que assegura o aprendizado, implica antes de mais nada, na reflexão e no
pensamento. O estágio inicial desse processo está numa dinâmica que estimula o aluno para além da mera assimilação, para além do empírico.
        Essa experiência, contudo deve obedecer a parâmetros lógicos de abstração que no grupo são elucidados, manipulados e reconhecidos, dando-lhe a garantia
de revelação cognitiva socialmente válida, eliminando os caracteres acidentais e contingenciais.
        A crença na impossibilidade de conhecer por vias práticas, e a identificação dos valores espirituais como mais elevados, são heranças da cultura grega. Dewey,
apesar de valorizar sobremaneira o processo reflexivo, parte dele, nos encoraja a aceitar os seus desafios, até mesmo como provocações para confirmar as teorias que
temos. Ele, sobre os gregos (e de certa maneira sobre toda a pedagogia tradicional, principalmente norteada pelo pensamento de Herbart) dizia que eles se
esquecem, que os conceitos racionais necessitam de bases empírica para poderem postular seus preceitos.
        Esquecem-se por outro lado, aqueles que identificavam a experiência como puro conhecimento. O indivíduo possui elementos ativos, que reagem e interagem
na experiência tornando-a singular. A vida do indivíduo depende das condições em que vive, pensar em um homem sem estes condicionantes, é pensar em homem
vazio, abstrato, neutro, metafísico e, portanto, inexistente.
        No âmbito da epistemologia, uma sociedade que se define como democrática, deve estimular a livre troca de experiência e informações individuais, pois, elas
não sufocam o novo, mas sim, preparam o indivíduo para bem participar da vida em sociedade.
        Esta obra de Dewey, no que se refere ao âmbito pedagógico, é uma das mais importantes. Dentro do escolanovismo brasileiro marcadamente ocorrido entre
as décadas de 1930 e 1970, é ela quem inaugurará a corrente humanista moderna no Brasil, tendo importantes divulgadores como Anísio Teixeira, que, aliás,
introduzirá quase todos os livros de Dewey em português.

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Além de importante referência da filosofia da educação, o livro é fundamental para o entendimento de temas como democracia, convivência social e
liberalismo.


BIBLIOGRAFIA


DEWEY, John. Democracia e Educação. São Paulo, Melhoramentos, 1974.




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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
                                                              PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421        lathé biosa   92
      ANO II, Nº92 - MARÇO - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421

                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
             ALBERTO LINS CALDAS - História
              ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                 ARTUR MORETTI - Física
                CELSO FERRAREZI - Letras
             FABÍOLA LINS CALDAS - História
           JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
          MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
                MARIO COZZUOL - Biologia
                 MIGUEL NENEVÉ - Letras
              VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia


Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows”
           deverão ser encaminhados para e-mail:                     GESTIÓN ESTRATÉGICA E
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                  TIRAGEM 200 EXEMPLARES



        EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA



                                                                                                        84
Berenice Costa Tourinho
Professora do Departamento de Sociologia e Filosofia - UFRO
kang@netlig.com.br
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        Los analistas y los estudiosos de liderazgo y la dirección nos advierte que no sólo compiten los aparatos económicos sino también las condiciones
sociales, los sistemas educativos y las políticas de desarrollo científico y tecnológico. Esto es lo que se denomina la “competitividad sistémica” donde la
sociedad entera es la que compite y no sólo la empresa.
        Entonces si el sistema educativo también compite en el mundo globalizado, y está involucrado, en un proceso dialéctico con los cambios operados en el sistema económico y
político, es importante tener en cuenta un breve bosquejo histórico de las universidades para aportar el problema de su dirección en el mundo contemporáneo.


                                                                      Las Universidades en América Latina
        La fundación y desarrollo de la universidad en América Latina colonial ha sido explicado, según Tünnermann (1996), de distintas maneras y desde
diferentes posiciones. Las explicaciones de carácter más bien pragmático señalan como factores que determinaron las primeras fundaciones, entre otras, los
siguientes: a) la necesidad de proveer localmente de instrucción a los novicios de las órdenes religiosas; b) proporcionar oportunidades de educación a los
hijos de los peninsulares y criollos; c) la presencia de religiosos formados en las aulas de las universidades españolas. La mayoría de las universidades
coloniales fueron a la vez pontificias y reales. En realidad, afirma Tünnermann (1996), la universidad colonial existió y trabajó en función de los grupos
dominantes, creando una tradición clasista que aún se advierte en la mayoría de las universidades latinoamericanas.
        Portugal no creó ninguna universidad en el Brasil durante la época colonial: la universidad portuguesa de Coimbra asumió una buena parte de las tareas que en los
dominios españoles desempeñaron las Universidades coloniales.
        Según Tünnerman (1996), el advenimiento de la República no implicó la modificación de las estructuras socioeconómicas de la colonia. En este
sentido, el movimiento de independencia careció de un contenido realmente revolucionario, limitándose, en gran medida, a la substitución de las
autoridades peninsulares por los criollos, representantes de la oligarquía terrateniente y de la naciente burguesía comercial.
        La reforma de Córdoba, en 1918, fue un marco importante para las universidades latinoamericanas, tratada como el inicio de un movimiento original,
sin precedentes en el mundo, encaminado a democratizar a las universidades, buscando su vocación en contexto latinoamericano. Pero, según Tünnermann
(1996), el imperativo de la reforma es hoy muy distinto. De lo que se trata ahora es de hacer arraigar la ciencia entre nosotros, de socializar la universidad

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y volcarla a la nación entera, de formar a los universitarios al más alto nivel posible, mas con una conciencia social y crítica capaz de captar las causas de
nuestro subdesarrollo y dependencia; de lograr la mayor eficiencia en los servicios universitarios, a fin de que la universidad esté en las mejores
condiciones de dar el gran aporte que de ella esperan los pueblos latinoamericanos para alcanzar su verdadera independencia y realizar su destino histórico.
       De acuerdo con Tünnerman (1996), la educación superior hoy, como ocurriera en muchas ocasiones en el transcurso de su historia, está viviendo un
proceso de transformación estimulado por los cambios que experimentan las diversas realidades nacionales. Ese proceso, actualmente en desarrollo a escala
mundial, tiene manifestaciones peculiares en América Latina y el Caribe, cuyos gobiernos, avanzan de la segunda mitad de siglo XX, entre otras iniciativas y
en términos generales, han venido revisando el rol del estado y reduciendo sus magnitudes y funciones, aplicando políticas macroeconómicas de ajuste
estructural, abriendo sus economías y profundizando múltiples iniciativas de integración económica de alcance sub regional y regional.
       Como ha señalado Tünnerman (1996), los cambios advenidos de este proceso de transformación se ubican en un debate actual que se caracteriza
por la excelencia de toda una escuela de pensamiento, sustentada incluso por algunos organismos internacionales de financiamiento, que ponen en tela de
juicio la eficacia de la educación superior publica, cuestionando su rendimiento económico-social y la prioridad de las inversiones destinadas a ella. Quiere
eso decir, que el debate contemporáneo sobre la educación superior es complejo y lo que está ahora en juego es la confianza misma de la sociedad en la
educación superior pública, como uno de los medios privilegiados con que cuenta un país para promover su desarrollo y fortalecer su identidad nacional y
autodeterminación.
       El debate actual sobre la educación superior, fija Tünnermann (1996), se centra en la contribución que ésta puede hacer a la modernidad, plasmada
en un proyecto de sociedad comprometida con el desarrollo humano sustentable. Este autor destaca cuales son los temas dominantes en el debate
internacional sobre la educación superior, según el “Grupo Asesor en Educación Superior del Director General de la UNESCO”, de los cuales subrayamos dos
que tocan más directamente al sistema directivo de las universidades en lo general y las latinoamericanas en lo particular: 1) Medidas para asegurar la
democratización y al mismo tiempo promover la calidad de la educación superior; 2) La diversificación de los sistemas de educación superior y su
vinculación con el sector productivo.
       Entonces, según Tünnerman(1996), desde el mediados de la década de 90 se procesa un debate internacional sobre la calidad y la pertinencia de los
resultados logrados principalmente por la universidad pública con relación a la poca demanda procesada en las nuevas relaciones mercantiles
proporcionadas por la propalada globalización y el neoliberalismo como política económica. En el centro de este debate dos documentos sobre política de la
educación superior, elaborados uno por el Banco Mundial y el otro por la UNESCO empezaron a reflejar cambios. De estos dos documentos, hoy es posible
sospechar aquel presentado por el Banco Mundial (“La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiencia”, Washington, D.C., julio de 1995) fue
el que más fuertemente influyó en las nuevas directrices de política educacional tomadas por los países latinoamericanos, en términos de cambios



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tecnicistas, toda vez que la voluntad política de los gobiernos, en algunos países, como por ejemplo el Brasil, proclives a atender las recomendaciones del
Banco para no poner en riesgo el acceso a los préstamos, contempló casi prontamente a las propuestas del Banco Mundial, para la enseñanza superior.
         En su análisis Tünnerman (1996), observa que en el documento del Banco Mundial se presentaba                  a
las Universidades, especialmente las publicas, como parte de la problemática de la sociedad contemporánea, el documento de la UNESCO (“Documento de
política para el cambio y el desarrollo en la educación superior”, París, febrero de 1995), a su vez, asumía el análisis desde la perspectiva del aporte de las
universidades a la solución de esa problemática. Es decir el Banco veía las universidades como parte del problema y la UNESCO como parte de la solución.
         Tomando en cuenta que las propuestas del Banco Mundial en el decursar de tiempo continúan siendo contempladas por los países latinoamericanos
de economía dependiente, Tünnerman (1996) señala que es importante subrayar que a partir de lo que denominó de las “lecciones de la experiencia” con
vista a obtener financiamiento del Banco, tanto las universidades públicas como privadas, siguen implementando o ya lo tienen implementado un sistema de
competencia o concurso sobre la base de la calidad y eficiencia, citando incluso los ejemplos del Chile, Corea y Brasil sobre cómo lograr más eficiencia,
calidad y equidad en la educación superior.
         Según Tünnerman (1996), asumiendo la            perspectiva de la universidad pública como parte de la solución de                la problemática de la sociedad
contemporánea, una nueva visión de la educación superior, dando continuidad a la propuesta de la UNESCO, es el denominador común que surgió en las
Cumbres Mundiales y en las grandes conferencias internacionales, a lo largo de estos años, que el Estado, la sociedad civil, las comunidades profesionales y
de negocios, deben establecer acuerdos nacionales que conduzcan a un desarrollo humano sustentable. Existe, además, un acuerdo unánime en torno a que
la condición sine qua non para que la humanidad pueda superar los desafíos que actualmente enfrenta, es el desarrollo de los recursos humanos.
         Para la UNESCO, hay tres aspectos claves que determinan la posición estratégica de la educación superior, de cara al siglo XXI, en la sociedad
contemporánea y su funcionamiento interno. Ellos son: pertinencia, calidad e internacionalización. Pertinencia en función del papel de la educación superior
como sistema y del de cada una de sus instituciones hacia la sociedad, así como en función de la expectativa de ésta, respecto a la educación superior.
Pero, según Tünnermann (1996), no basta con que la educación superior sea lo suficientemente pertinente. Sino que debe ser además de mejor calidad. La
preocupación dominante en el actual debate sigue siendo la calidad. Este concepto de calidad en la educación superior es multidimensional que quiere decir
que no
   “sólo abarca las tres funciones clásicas del tríptico misional de Ortega y Gasset: docencia, investigación y extensión, lo que se traduce en calidad de su personal docente,
   calidad de su programa y calidad de sus métodos de enseñanza-aprendizaje, sino que comprende también la calidad de sus estudiantes, de su infraestructura y de su
   entorno académico. Todos estos aspectos relacionados con la calidad, más una buena dirección, un buen gobierno y una buena administración, determinan el
   funcionamiento de la Universidad y la ‘imagen institucional’que proyecta a la sociedad en general.” Tünnermann (1996)




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Tünermman (1996), señala que la internacionalización es la tercera posición estratégica propuesta para la educación superior y esta especialmente
ubicada en la propuesta del rol que las universidades latinoamericanas deben desempeñar en el sentido de integración de América Latina. Pero, la clave
para reinsertar favorablemente a los países latinoamericanos en una economía mundial                          abierta radica en el mejoramiento substancial de sus
competitividades y eso implica conocimiento, tecnología, manejo de información, destreza; pero además significa elevar la calidad de los sistemas
educativos y la preparación de los recursos humanos.
        Entonces las dos propuestas estratégicas presentadas por Tünnermann (1996) para las universidades de la América Latina y del Caribe de cara al
siglo XXI son: jugar un importante rol en la integración latinoamericana y la aplicabilidad de la educación permanente. Las educación permanente
quiere decir, no sólo poseer los conocimientos y las técnicas que nos permitan desempeñarnos eficientemente en el mundo en que vivimos, sino
fundamentalmente, estar capacitados para aprender, reaprender y desaprender permanentemente.
        Como ha señalado Tünnerman (1996), la educación permanente no permite diseñar una “educación para el cambio” sino una “educación en el
cambio”. Para asumir el compromiso de la educación permanente, la Universidad deberá flexibilizar sus estructuras académicas y métodos de trabajo pero,
además, deberá evolucionar hacia su integración en los sistemas nacionales de educación postsecundaria. Por lo tanto la idea fundamental es que las
instituciones de educación superior deberán transformarse en verdaderos centros de educación permanente, o sea actuar como centros de formación y
actualización permanente del saber, la educación superior habrá colocado a la persona humana como núcleo de sus preocupaciones y justificación de su
quehacer, lo que equivale a decir que el antiguo humanismo encontrará su albergue en la antigua academia.
        Portal (1998), refiriéndose a la reunión sobre los Nuevos Roles de la educación Superior en América Latina y el Caribe (1991), expresó que las
políticas neoliberales presionan e inspiran los cambios en la educación en búsqueda de mayor eficiencia, productividad, calidad total y competencia
internacional. Por otra parte, subraya que al tratar del arribo de la tan proclamada y necesaria condición de equidad e del desarrollo sostenible, debemos
cuidar que el trato de la dimensión política del vínculo educación y desarrollo no aparezca subordinado, ni opacado, por la fundamentación de soluciones
técnicas loables, sosteniendo que, no es precisamente de audacia y de visión de los nuevos roles de la educación contemporánea de lo que necesitan
dotarse primeramente el magisterio y la academia latinoamericana, si antes, o simultáneamente, no les son dadas las condiciones objetivas para apropiarse
del conocimiento, enriquecerlo y dotar del mismo a los educandos.
        Observa Portal (1998), que en el caso de la América Latina, para la mayor parte de la población, no es tan abundante, tan barato y tan fácil de
adquirir, ese bien tan determinante de la riqueza, del poder y de la realización del hombre que denominamos conocimiento. Sobre esta base, sé pregunta si
el nuevo valor, más justamente el nuevo valor económico, del conocimiento no es realmente, para esta región, un factor de discriminación, marginación y
desintegración social, más que de unidad y progreso. La mercancía educación tiende a dotarse de un valor de cambio tan alto que se va convirtiendo también en su valor de uso.



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No obstante este autor entiende que es loable abogar por una convocatoria a la integración como aparece en la propuesta de Tünnermann (1996),
sin embrago presenta otro aspecto importante del concepto de integración cuando aboga por la necesidad del ejercicio integral de Reingeniería
Académica, que debe informar la ciencia y el arte del diseño y aplicación de políticas educativas en el futuro.
        Según este concepto, la universidad está en la obligación de potenciarse, y para ello deberá lograr una necesidad real de su comunidad, mediante
una suerte de ejercicio autocrítico, o sea que es imprescindible una adecuación del pensamiento y de la acción universitarios, que deben disminuir su
excentricidad con respecto al sistema económico-productivo, así como la interiorización de la necesaria regulación de sus eficiencias. Portal (1998), afirma
que solo si las universidades son capaces de integrarse internamente y entre sí, y además si racionalizan su acción con una regulación y evaluación flexibles
y eficaces, si sus egresados, postgrados e investigaciones se hacen cada vez más necesarios para los países, y si se fortalecen su reconocimiento y protagonismo
con el apoyo del magisterio y de amplios sectores populares, estarán en condiciones de exigir y de lograr la voluntad política imprescindible para su desarrollo futuro.
        También con la intención de encontrar soluciones para los desafíos impuestos a las universidades por los profundos cambios en la sociedad
contemporánea y poner en marcha un proceso de profunda reforma de la educación superior, la UNESCO ha convocado una Conferencia Mundial sobre la
Educación Superior en el siglo XXI: Visión y acción (UNESCO, 1998). Como parte de los preparativos de la Conferencia, la UNESCO publicó en 1995 su
documento de orientación sobre Cambio y Desarrollo en la educación superior. Ulteriormente se celebraron cinco consultas regionales (La Habana, nov.
1996; Dakar, abr. 1997; Tokio, jul. 1997; Palermo, sep. 1997 y Beirut, mar. 1998).
        Sobre esta base se proclamaron las siguientes Misiones y Funciones de la Educación Superior: La misión de educar, formar y realizar investigaciones;
Función ética, autonomía, responsabilidad y prospectiva.
        De las 10 propuestas sugeridas por la UNESCO (1998) como para una nueva Visión de la Educación Superior, destacamos dos pautas que están
directamente relacionadas con la temática que enfocamos en este trabajo: el Art. 9. Métodos educativos innovadores: pensamiento crítico y creatividad y el
Art. 10. El personal y los estudiantes, principales protagonistas de la educación superior;
        En cuanto a las 17 pautas que llevan de la Visión a la Acción, destacamos el Art. 11. Evaluación de la calidad y el Art. 13. Reforzar la gestión y el
financiamiento de la educación superior;
        Los principales conceptos contenidos en estos 17 artículos, fueran enfocados cuando tratamos con anterioridad del documento de la UNESCO en el
trabajo de Tünnermann (1996), sin embargo los Artículos 11 y 13. “Evaluación de la calidad y Reforzar la gestión y el financiamiento de la educación
superior”, merecen especial destaque en nuestro trabajo, tomando en cuenta que la calidad y la gestión, que por supuesto implica financiamiento, es un
punto clave para lograr la visión propuesta por la UNESCO para la enseñanza superior en todo el mundo, especialmente en las universidades latinoamericanas.
        Según este artículo 13, la gestión y el financiamiento de la enseñanza superior exige la elaboración de capacidades y estrategias apropiadas
de planificación y análisis de las políticas, basadas en la cooperación establecida entre los establecimientos de enseñaza superior y los organismos

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nacionales de planificación y de coordinación a fin de garantizar una gestión debidamente racionalizada y una utilización sana de los recursos. Por ello, los
establecimientos de enseñanza superior deberían adoptar prácticas de gestión, con una perspectiva de futuro, que responda a las necesidades de
sus entornos. Los administradores de la enseñanza superior deben ser receptivos, competentes y capaces de evaluar regularmente – mediante mecanismos
internos e externos – la eficacia de los procedimientos y las reglas administrativas.
        En los artículos 11 y 13, también destaca que el objetivo último de la gestión debería ser el cumplimento óptimo de la misión institucional
asegurando una enseñanza, formación e investigación de gran calidad, y presentando servicios a la comunidad. Este objetivo requiere una dirección que
combine la visión social, incluida la comprensión de los problemas mundiales, con competencia de gestión eficaz. La función de dirección en l a
enseñaza superior constituye, por tanto, una responsabilidad social de primer orden y puede reforzarse de manera significativa a través del diálogo con
todos los que participan en ella, en particular con los profesores y los estudiantes.
        En esta base teórica, fundamentada en el trabajo realizado por un organismo internacional de peso como es la UNESCO y en los autores citados, se
observa la importancia de la gestión estratégica para la dirección de las universidades latinoamericanas con vistas a dar respuestas a los retos impuestos
por los cambios en la sociedad contemporánea. Creemos que la propia supervivencia de la universidad pública en la América Latina es también dependiente
de su propia capacidad para reaccionar frente a estos nuevos desafíos, y responder de forma competente a las nuevas demandas sociales, políticas y
económicas.


                                              Las Universidades Públicas Brasileñas y la Gestión Estratégica
        Tratando el actual contexto de las universidades públicas brasileñas, se observan que determinados puntos importantes que gravitan entorno a ellas, entre los
cuales se pueden destacar las cuestiones de la autonomía, de la evaluación, de la misión, del criterio de calidad, de la educación continuada, de la internacionalización
y de la integración latinoamericana.
        Estas cuestiones no están ajenas del contexto mayor que involucra otras universidades públicas de Latino América. Sin embargo, en la trayectoria
histórica de la universidad pública brasileña hay determinadas características que merecen ser destacadas. Según Tünnerman (1996), la corona portuguesa
no creó ninguna universidad en el Brasil durante la época colonial, pero de acuerdo con Nunes (1999) la creación de cursos superiores ocurre en 1808 con
la llegada de la corona portuguesa en el Brasil.
        Según Nunes (1999), en Brasil, hasta los años 20, la educación superior estaba organizada sobre la base de la formación de facultades aisladas. Al
inicio de la era del presidente Getulio Vargas existían solamente tres universidades: Rio de Janeiro (1920), Minas Gerais (1927) y la Escuela de Ingeniería de
Porto Alegre (1928). Nunes (1999) añade que en 1934 con la creación de la Universidad de São Paulo la discusión sobre la problemática de la enseñanza
superior fue de una importancia relevante para la organización y la difusión de la enseñanza y de la investigación.

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Como observa Nunes (1999), en 1935 la propuesta de Anísio Teixeira era la de una universidad brasileña como centro de debates libres de las ideas,
sin embargo, en 1937 con la implantación del Estado Nuevo, de la dictadura, la universidad brasileña continuó privilegiando a la elite social y repasando
conocimientos. En este mismo camino, apoyado en las ideas de Anísio Teixeira, según Nunes (1999), Darcy Ribeiro, en 1960 elabora el proyecto y convence a los
gobernantes de fundar en Brasilia, una universidad que reflexionase sobre los problemas nacionales. Sin embargo, esta nueva tentativa no tuvo éxito porque la llegada de una
nueva dictadura en 1964 descartó la idea de universidad como función de reflexión y renovación del saber.
        Otro punto que merece ser destacado, y que es señalado por Nunes (1999) es la evaluación de la enseñanza superior brasileña la cual se basó en el
plan Rudolp Acton planteando dos posibilidades: una, basada en los principios que idealizaron un modelo empresarial para el sistema universitario y otra
que pregonaba la autonomía y la independencia sugiriendo que la universidad fuese formada en una fundación privada. Este Plan Acton se fundamentaba
en los modelos americanos de universidad y promovió estudios evaluativos en doce instituciones universitarias brasileñas, con el objetivo de diagnosticar lo
que había sucedido en el proceso de transformación de la enseñanza superior al producirse su modernización, según los paradigmas del modelo americano.
        Según Nunes (1999), se hace evidente que en esta época las propuestas educacionales y de evaluación se fundamentan en la idea de eficiencia, de
productividad, correspondiente a la concepción neoliberal de modernización. De este modo, Nunes (1999) añade que el sentido                        empresarial dado a la
universidad no solo aparece en su conexión con el proyecto desarrollista, sino que también, en la pérdida, por parte del profesor, del control de valor de su
trabajo.
        En consecuencia, en la década de 60, existieron varios movimientos contestatarios y también hubo intervenciones gubernamentales en la educación,
principalmente en la educación superior, como observa Nunes (1999), añadiendo que en la década siguiente el problema continuaba como atesta el
Quinquenal 1975 a 1979, el cual pretendió expandir la oferta de enseñanza superior y la mejoría de su productividad sin una previa evaluación de sus reales
condiciones.
        En la década de 80, como ha señalado Nunes (1999), crecieron los movimientos internos, presionados fuertemente por la sociedad civil,
reivindicando la evaluación de la enseñanza superior apoyados por protestas contra el control oficial de la universidad. Entonces, el poder burocrático
intentó controlar la expansión de la enseñanza pública y además tuvo como perspectiva la de preparar el camino para la evaluación institucional de la
universidad brasileña. El gobierno acusaba, como argumentos, los costos y la poca eficacia de una evaluación en el nivel de la propia institución
universitaria.
        Todavía en los años 85/86 se inicia, a juzgar por Nunes (1999), un movimiento de reformulación de la política de educación superior. El proceso de
reflexión, iniciado en 1968, retoma en términos de costos y beneficios alcanzar un máximo rendimiento con una mínima inversión. La calidad es concebida
como la excelencia académica ligada a patrones calcados en modelos considerados ideales o ejemplos de instituciones de excelencia y la evaluación pasa a
ser asumida como un instrumento de mejoría de la calidad académica de la enseñaza superior.

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En los 90, señala Nunes (1999), con el enfoque de Gestión de Calidad Total, se inducen nuevas relaciones entre capital y trabajo. La participación de
los trabajadores en las discusiones técnicas y en la planificación general, y además la participación del empleado en los lucros de la empresa, explicita la
filosofía empresarial del programa de calidad total lo cual motiva a muchos educadores.
        De éste movimiento en la búsqueda de una mejor calidad en los servicios y productos en los diversos sectores de la sociedad, la universidad pública
no se queda a parte, ya que su situación, en este contexto, esta involucrada en el proceso de disminución del propio Estado Nacional. Entonces, en 1993,
como señala Nunes (1999), se crea la Comisión Nacional de Evaluación que inició el Programa de evaluación Institucional de las Universidades Brasileñas –
PAIUB; lo cual, con el apoyo del Misterio de Educación y Cultura (MEC), que pasó a el ser órgano financiador del proceso, el orientador de las universidades a incorporarse
al “Programa”, para planificar su proyecto de Evaluación Institucional. Nunes (1999) observa que el documento base del PAIUB (Una Propuesta Nacional), llama a atención sobre
la importancia de la evaluación institucional y orienta los procedimientos que deben ser tomados por la universidad brasileña.
        Como ha señalado Nunes (1999), en 1996, el gobierno brasileño, deseando verificar la calidad de la educación superior, resuelve llevar a la práctica
la Política Educacional para la Evaluación de Enseñanza de Tercer Grado. En sus aspectos legales, según Nunes (1999), la ley dispone, en el artículo tercero,
sobre las evaluaciones periódicas de las instituciones y en el cuarto sobre los cursos superiores, además prevé que los resultados de las evaluaciones serán
utilizados por el Ministerio de Educación y Deporte para orientar acciones en el sentido de estimular y fomentar iniciativas enfocadas a mejorar de la calidad
de la enseñanza. En ese mismo año, señala Nunes (1999), el gobierno establece procedimientos para el proceso de evaluación de los cursos y instituciones
de enseñanza superior. Tales procedimientos obedecen a las normas del Banco Mundial para la educación superior: incentivar la diversidad de las
instituciones superiores y la competitividad entre ellas, además de vincular los financiamientos de los organismos oficiales a criterios de eficiencia y
productividad en términos mercadológicos.
        Aunque los procedimientos dictados por el Banco Mundial sean la dirección tomada por los organismos estatales en Brasil, estos reconocidos
procedimientos configuran una tendencia que se viene estableciendo de manera general en todas las organizaciones a nivel mundial. Sin embargo, desde el
evento del PAIUB, la mayoría de las universidades brasileñas reconocen la importancia de la evaluación de sus servicios en cuanto institución social, pero su
enfoque está más centrado en la cuestión de su autonomía dadas por las directrices propuestas por la UNESCO, las cuales fueron anteriormente abordadas,
puesto que el concepto de calidad de los servicios, según el Banco Mundial, vinculada a la “reducción de costes, el aumento de la producción se relaciona al
lucro del empresario, desprecia la creatividad y la participación de los individuos en la construcción del conocimiento con vistas a la transformación de la
sociedad.”(Nunes, 1999).
        Así, proponemos que antes de tratar de evaluar las universidades publicas brasileñas, es necesario establecer sus metas en función de las cuales se
procesa la evaluación. Entonces, entendemos que la gestión estratégica es un punto clave para promover su Reingeniería Académica (como aboga



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Portal,1998), a fin de suscitar su integración interna con vistas a la integración con su entorno, con la región en que está ubicada y por ultimo la integración
de la propia América Latina (como aporta el Documento de la UNESCO, 1996, 1998) como visión de futuro.
        Esta propuesta de la gestión estratégica es importante para las universidades públicas brasileñas y se aplica porque el momento vivido por estas instituciones
es crítico. Las universidades brasileñas de hoy, especialmente la públicas, están bastante debilitadas, ya que están funcionando en un contexto de permanente crisis.
        Las vías de la gestión estratégica, mediante las cuales se lleva a cabo la impronta de la visión en los subordinados se denominan, proceso de gestión formal y
proceso de gestión sutil respectivamente. Según los autores anteriormente citados, tenemos que los procesos de gestión formal corresponden a aquellos sistemas
organizados mediante los cuales es posible derivar indicadores de eficacia y eficiencia, en horizontes y escenarios previamente definidos. Por otro lado, los procesos de
gestión sutil consisten en un conjunto de actitudes y conductas desarrolladas por los altos ejecutivos, que están destinados a influir en el comportamiento
organizacional de una manera más intuitiva o global, o si se quiere, centrados en afectar la conducta de una manera más afectiva que racional.
        Por último, la visión de la organización, la gestión formal y sutil, más su interacción con la cultura organizacional, debieran producir, en última
instancia, el logro de la satisfacción de las necesidades individuales y, simultáneamente, el cumplimento de las metas de la organización, tomando en cuenta en
conjunto de variables entre la visión, la gestión formal u sutil y la cultura organizacional, los cuales constituyen los determinantes de la conducta individual, tales como
status de la profesión, la historia vital, los símbolos de status y otros componentes que pueden alterar el logro simultáneo de las necesidades individuales y las metas
de la organización. La gestión de los recursos humanos se centra en cuatro componentes principales (Greenley, 1989), citado por la UDUAL (1995): el liderazgo y la
delegación; la participación, motivación y recompensa; la administración del cambio; la integración y la comunicación. Pero, vamos particularmente enfocar el
liderazgo en función de su importancia en nuestro trabajo.
        El liderazgo se refiere a la influencia desplegada sobre las personas para que lleven a cabo determinadas actividades, la delegación concierne a la dirección
formal para que personas específicas desarrollen estas actividades. Aunque cualquier ejecutivo que se encuentre en una posición jerárquica le permita delegar tareas,
su habilidad para hacer efectiva dicha delegación, depende en gran medida de sus habilidades y destrezas de liderazgo.

        En acuerdo a la UDUAL (1995), los procesos de gestión sutil pueden hacerse equivalentes a algunos aspectos del sistema psicosocial de la organización; su
sistematización es difícil, pues no se puede construir una metodología única para su estudio.

        En las universidades, la gestión sutil adquiere especial relevancia, por cuanto los distintos estamentos (académicos, estudiantes, funcionarios y administrativos) son
esencialmente heterogéneos. Una de las características predominantes de los académicos y estudiantes es su alto grado de autonomía e individualismo.

        Con vistas a las propuestas de la UNESCO para la educación superior, entendemos que no es posible hacer un buen Planeamiento Estratégico, que oriente la
gestión de la universidad pública, sin hacer antes una investigación más precisa de la problemática de la eficacia directiva dentro de la organización universitaria,



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principalmente con vistas a ofrecer una mayor precisión en los estudios de la gestión estratégica de recursos humanos y de la gestión sutil, los cuales demandan fuerte enfoque
psicosocial.
         Así, el análisis de los factores del Estilo de los jefes (patrones comportamentales a partir de la visión de los subalternos), de relaciones y capacidad de
liderazgo de ellos, constituyen factores fundamentales para la identificación de las fortalezas y debilidades de la organización, porque las estrategias tienen que tomar
como base el diagnóstico que se ha hecho de los problemas de dirección que se encuentran dentro de la organización. Por tanto las estrategias para el éxito deben
apoyarse en un diagnóstico certero. De este modo entendemos que el estudio de la problemática de la dirección y el liderazgo, ofrecido por nuestro trabajo, es el
fundamento precedente al núcleo principal que es el Planeamiento Estratégico.




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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
                                                              PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421     lathé biosa   93
      ANO II, Nº93 - ABRIL - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421

                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
             ALBERTO LINS CALDAS - História
              ARNEIDE CEMIN - Antropologia
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                 MIGUEL NENEVÉ - Letras
              VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia


Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows”
           deverão ser encaminhados para e-mail:

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                  TIRAGEM 200 EXEMPLARES


        EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA



                                                                                                     95
Alberto Lins Caldas
Centro de Hermenêutica do Presente – UFRO
www.unir.br/~caldas/Alberto
linscaldas@enter-net.com.br
                                                                                                                                           O Grotesco e o Alegórico


                                                “A vida é cruel demais para não ser uma alegoria do inferno.” NEHRU GUPTA


                                                                                   I
       1 - A literatura, assim como o “prazer estético”, não é desinteressada nem “libera o sujeito do cotidiano”; não é “prazer desinteressado” nem se realiza numa
“relação” (sujeito/sujeito: sujeito/objeto). A busca por uma “ontologia da literatura” obscurece que, tanto na “origem” quanto no “usufruto” as razões, as relações, os
prazeres, os gozos, as lógicas, as matérias, as finalidades são múltiplas, inarticuladas, inconciliáveis. Não há nem um campo, nem uma relação, nem uma meta, mas
orgia para todos os mundos singulares (dispersão em todas as dimensões). Os corpos - são muitos; os desejos - incontáveis; os sonhos - infinitos; as matérias -
incalculáveis. Sem Natureza, sem Sociedade, sem Corpo a criação, o prazer e o gozo se libertam de partirem de um único ponto, exigirem um único caminho e
respeitarem uma única direção.
       2 - A literatura, como fluxo piroclástico da linguagem, se libera do corpo de deus, da palavra de deus, da lógica de deus, do povo de deus. Torna-se um ritual,
um jogo com inumeráveis regras dispersivas, polidimensionais (ante a conjunção literária todas as regras se alteram); aberto e fechado, centrífugo e centrípeto: dele
participam todos, cada um com sua técnica, sua vida seu olhar, sua técnica e sua experiência. O “prazer estético” é profundamente interessado: é a busca de armas,
instrumentos, rituais, matérias que ajudem o aventuroso (leitor/autor) em suas aventuras.
       3 - A dimensão política da literatura se redireciona: nem “arte pela arte” nem “arte engajada”: as duas posições reduzem a literatura a duas posições
nitidamente de classe: uma, aristocrática, outra pequeno burguesa: uma centrífuga, devorando seu próprio rabo, masturbatória, indiferente, feita por grupelhos com
uma linguagem esotérica; a outra, para o mundo, centrípeta, propagandista, popularesca, partidária, com uma linguagem de massa: uma reduz por dentro, a outra
reduz por fora, e todas as duas miram, sem querer ou saber, o consumo, o mercado, o agora, o futuro imediato, a inconsistência do gesto falsamente desinteressado,
dissolvendo todo o poder da literatura em posições impotentes diante tanto da aparência (arte engajada) quanto da profundidade (arte pela arte): são duas vítimas do
funcionamento ilusório da práxis (o inconsistente verbum factum est: porque a carne é verbum alienado da sua condição de linguagem e o próprio verbum pensa
existir somente enquanto carne). Existem como se fosse antes mesmo de ser literatura: uma envolvida com a aparência como se fosse com a profundidade (a

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roupagem da mercadoria aparecendo como ilustração, cultura, essência, tradição); a outra enroscada com uma falsa profundidade como se fosse com o imediato, com
a voz, com as políticas do momento (a literatura como propaganda, como palavra de ordem). Nenhuma das duas enfrenta as regras dispersivas e polidimencionais da
literatura, reduzindo-a a uma temporalidade castrada (nenhuma das duas enfrenta o presente, estarrecidas diante do passado ou do imediato).
        4 - A literatura, ao participar da essência da função fabuladora da práxis, geradora da própria realidade, não pode se reduzir a uma “palavra de ordem” ou a
uma “palavra tribal”: seu tempo é-são todos os tempos, seu corpo são todos os corpos, seu desejo são todos os desejos: sua orgia não pode se restringir à orgia do
imediato: sua ambição se estende em todas as direções. Seu poder está exatamente em ser afiada sempre e não somente num imediato e mantida em cânones por
“ajudar a construir a nação”.
        5 - A literatura é uma linguagem sem inocência, sem transparência, sem opacidades, cheia de fantasmas, de ecos, de visagens: é linguagem impura. Os
conceitos básicos para degustá-la é o de alegoria e o de grotesco.
        6 - Espaço holográfico onde reúno eu mesmo, minha percepção: campo onde exerço as plenitudes da minha fala, língua, visão e experiência, meu corpo, meu
tempo e minha aventura; ao mesmo tempo espaço de confluência e dispersão dos devires das ficções da virtualidade, da linguagem, das comunicações, das falas da
tribo, dos momentos sociais: eu e não-eu: mundo e não-mundo: antes, agora e depois: um jogo e bem mais que um jogo: forja dos instrumentos da aventura e a
própria aventura: intervenção no imediato para antes e sempre depois: uma linguagem dentro da linguagem gerando o universo capturando a essência.


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                                                          “O dinheiro é a alegoria do trabalho.” Flávio Kothe
        7 - Se é possível rir do "horror" e das "proporções escandalosas” enquanto caricatura do existente, se é possível replicar o mundo em devires significativos que
o encenem, fundando uma estética que consegue enraizar e fluir exatamente nos ritmos na fund-ação do real, então o conceito de grotesco, aliado ao conceito de
alegórico, pode, neste momento, ser capaz de gerar mais literatura e, ao mesmo tempo, apontar para uma “teoria literária” mais coerente ou mais próxima daquilo
que se pretende dizer.
        8 - O bom gosto não está no entre-pernas, da cintura para baixo (coisa do povo, da feira e seus espetáculos, do circo e do carnaval, do prostíbulo e dos bares,
dos banheiros públicos e das esquinas, dos hospitais e das prisões, dos matadouros e dos sonhos), mas sempre para cima, para o sublime, para o alto, o olhar
mirando longe a montanha. Esse olhar para cima se inicia exatamente onde termina o sangue, a terra, o animal, as fezes, a dor, a humilhação, o horror, a vida, o
trabalho, a alienação, os desprazeres: as forças que forçam o olhar para cima fazem também parte desse grotesco alegorizável.
        9 - A animalização pode se dar somente nas instâncias do trabalho, da casa, das relações de amizade, do mundo público e privado (sempre escondido, não-
dito, não-compreendido, não-visto): não na Arte, não na literatura: é aceita somente enquanto caricatura, nunca como uma real dissolução da visão e do existir: é



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sempre reaproveitado como “teatro”. Esse afastamento do “animal”, afastamento do grotesco em favor do sublime ou do normal, instaura o homem de classe média e
seu universo patético.
        10 - O grotesco é a aberração, o escandaloso, as regressões, o exagerado, o estranho, o esquisito, o equívoco, as infantilizações, o tumulto, o risível, o caótico
da substância (o grotesco é sempre considerado caricatamente por componentes negativos) levando ao riso: o humor acompanha bem de perto o grotesco construído
alegoricamente: riso terrível mas ainda assim riso, humor.
        11 - Toda “aproximação estranha”, toda “articulação anormal”, toda “convivência obscura”, toda “indistinção obscena” (homem/animal, homem/objeto,
homem/homem, homem/vida, homem/morte) pode significar mais que uma simples brincadeira: em direção a essas des-articulações encontramos nosso vi-ver e seus
tão com-batidos e criticados “padrões de regressão”.
        12 - “Só os animais fazem” e os políticos, e as mídias e os teóricos se horrorizam com as “hibridações culturais”, as indistinções, as monstruosidades em gozo,
o “jamais voltará a ser como antes”, as migrações humanas vistas como hordas animais perigosas, a invasão dos bárbaros. Tantos corpos, tantas línguas, tantos
deuses, tantos desejos, tantos universos, tantas bocas, tantas mãos: e tudo se torna realmente, não teoricamente, mas concretamente e vivencialmente relativo,
tornando absolutamente histórico e ficcional o que “sempre” nos pareceu absoluto, verdadeiro, certo, belo e justo: como conviver com tanta diferença inconciliável
apesar de sempre intercomunicável?
        13 - O “grotesco alegórico” tem como fonte as ficções sociais que se apresentam como o real; dessa maneira é um conceito que funde os “horizontes
simbólicos” em busca do próprio construir-se do mundo.
        14 - O belo é a perfeição das formas: por isso não pode dizer o mundo, mas somente aquilo que, para Platão era um simulacro: o belo rememora o além do
mundo, o antes: não pode dizer o mundo mas sua ilusão inacabada. Para os gregos seria o belo um aspecto do Bem, ou do bom, o bem fabricado, o sem vazios, sem
intervalos: para nós uma impossibilidade: para nós a exclusão do vazio anularia a própria possibilidade da arte assim como dissolveria tanto a ideologia quanto as
condições dos sistemas de crenças que possibilitam a alienação.
        15 - O belo ad-vêm da ponderação, da simetria da idéia que se projeta sobre as coisas. A proporção deve ser perfeita, sem exageros, sem desmedida, sem
raízes, sem bolores. Nem grande nem pequeno, nem todo visível, nem obscuro que não possa ser visto aos poucos inteiramente; luz e sombra. Nada fora do lugar e
do esperado, ainda que se espere o inesperado. Isso é “grego” mas ainda é esperado por todos, “produtores”, “distribuidores” e “consumidores”: como se. E o belo sai
do mundo porque não pertence a ele e não pode desvendá-lo. O sereno e o transcendente afastam o “leitor”, no seu “transe catártico”, exatamente daquilo que
deveria ser sua busca: o belo não faz parte da aventura literária contra o mundo. Serve somente para uma atitude estóica, para uma leitura estóica.
        16 - Alguns conceitos fundamentais do belo: ordem - como “disposição conveniente”, “disposição metódica”, “regras respeitáveis”: o racional como mentor da
ordem, mas razão do senhor e regras da propriedade; simetria - coisas paralelas que não se distingam, mas apareçam como duplicações do mesmo: o mesmo como
fundador do entre-nós, apagando as diferenças, as oposições, as revoltas: a outra palavra desaparece desta simetria do mesmo; proporção - como uma relação, uma

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igualdade entre razões: mediador como o dinheiro comparando valores, possibilitando articulações fictícias aparecerem como naturais e universais; graça - como a
simetria do movimento: escondendo ser graça somente para quem permitiu o movimento e seu específico gracejar.
       17 - O trágico se aproxima por priorizar a relação entre-nós, evocando sentimentos, emoções, afetos, intercâmbios da nossa vida, podendo ver o perverso e
o monstruoso. Mas o trágico não se dissolve, se entrega ao sublime, ao olhar para cima: ao olhar do dono. Alegorizando sem o grotesco o humano é reduzido ao
combate entre semideuses, e o mundo se perde: o trágico nos faz perder a voz.
       18 - O feio carrega as mesmas limitações do belo, exatamente porque se tornou um conceito dependente, ficando o belo com o ideal e o feio com o mal:
antítese insuficiente. Seria somente uma deterioração da harmonia. O desordenado, o delirante, o desregrado, o disforme, o desproporcional, o desarmônico, o
destoante, mas todos utilizados como exemplo, como elemento dentro do belo, segundo as regras. No entanto o feio se aproxima do grotesco e aponta para
elementos tensos, ricos, promissores que se transformam em grotesco ordenado pelo alegórico.
       19 - O grotesco foi transformado numa “arte das esdrúxulas combinações”, em “objetos combinados de maneira insólita ou fantasista”, em “aspecto anti-
natural composto de partes naturais”, fora do estético respeitável, indo parar no cômico e no carnavalesco adestrados, exilado do bem dizer e afiadamente desvendar.
       20 - O cômico é o rir e a possibilidade do riso. O imprevisto de uma articulação ou de um encontro. O cômico ao contrariar o esperado cria um vazio
perigoso. Não há alívio, como se pensa, no cômico; não há distensão a não ser no cômico adestrado Contraste entre vivo e mecânico pode chegar ao cerne da
reificação e da “sociedade depressiva” e perversa (Bérgson, Kafka, Chaplin).
       21 - Para dizer o mundo, o grotesco ficcional que se nos apresenta como o-real em suas polidimencionais alteridades, dizer esse outro que me invade, me
cerca e que sou eu mesmo, é preciso alegorizá-lo: o imediato ficcional do mundo (reificado) não é o ficcional que o produz, mantém e circula (ficcional que esconde:
se não escondesse não apareceria como real sendo somente uma cobertura inversora: o real é um ficcional encalacrado reapresentando-se como aquilo que não é,
mas funciona): o realismo (só é real na sua ilusão) é um artifício de certa aparência (cobertura inversora, essencialmente masturbatória), enquanto a postura alegórica
busca o grotesco como substância móvel do existente. Além disso “... aponta o próprio cerne da obra de arte e de sua interpretação” (Kothe, 1986: 7).
       22 - Os sistemas imediatos (o real) são ficcionais: alegóricos em seu próprio funcionar: sua apresentação é metafórica. Exatamente por ser metafórico o real
(a palavra também) pode ser compreendido, imitado, posto em movimento, criando mais de si mesmo, abrindo-se aos inesperados, - à diferença. A alegoria faz
aparecer a relação fundante entre o existir (sempre para-nós) e a linguagem; entre a ficção da práxis social criando o mundo e a ficção que encena o mundo e o
separa da encenação que é ele mesmo.
       23 - Tanto a operação da escrita literária quanto a teorização sobre esta escrita precisam “articular o desarticulado” e “desarticular o articulado”: o alegórico é
a síntese dos devires (tanto dos artifícios da aparência quanto do próprio funcionamento da práxis) da virtualidade: articulação polidimencional do “manifesto” e do
“latente”, desnaturalizando a si mesmo na medida em que desnaturaliza a virtualidade: o humor faz o resto, desviando, desfocando com irreverência os “universais”.
Ficção apontando sempre para um depois, para uma quebra de sua própria substância, para um so-rir de si mesma, para uma des-confiança em sua matéria.

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24 - As “perguntas do tempo” estão nas brechas estruturais das ficções da virtualidade (o resto é “vida inconsciente”, lugar-comum das práticas sociais que se
reunirão ao conjunto ficcional superadas em suas limitações de esconde-esconde), em suas fissuras in-coláveis, em suas in-articulações: as ficções literárias (assim
como sua “teoria”) serão as “respostas-perguntas”.
        25 - Princípio de escritura/princípio de interpretação:
                a - reunir (experiências, percepções, visões, opiniões pessoais e coletivas, indignações) num feixe ficcional que articule o desarticulado: passar do
singular ao coletivo, da pergunta a uma-resposta sem se entregar ao momento enquanto coisa universal;
                b - dissolver as ficções pessoais e coletivas (naturalizadas): desarticular o articulado;
                c - falar dentre as fissuras.
        26 - A escritura ficcional é um aglomerar o que encontra “solto no mundo” e que o nega, o põe a fluir, o critica na substância: para isso precisa de um esboço
de “ética”, de “moral”, de “política”, de “visão de mundo” (de posição) que articule utopicamente (transe alegórico) as vivências enquanto texto e supere esses limites
de “origem”: aquele-que-aceita (simples posição de reprodução e consumo) não pode criar esses textos pois seu horizonte comunga com o limite naturalizado
(tornado História) das ficções sociais: perspectiva do indivíduo-autor: de onde parte esse falar.]
        27 - Esse processo alegórico sobre o grotesco enquanto vivência ficcional da coletividade jamais esgota o reunido nem dissolve tudo que há para dissolver (o
incompleto e o não-realizado fazem parte dos dois princípios): a criação não é totalitária, mas dissipativa, criando vazios, brechas, incompletudes no cheio: a questão
não é responder (o “real responde” somente quando solicitado por uma teoria que articule uma pergunta), mas pôr em movimento, arejar; não é finalizar mas
circunavegar e mergulhar. Nem o literário “representa o real” nem o “real projeta o literário” (o real desnaturalizado não se reproduz enquanto inteiriço a não ser
enquanto ideologia: o caso dos realismos e das escritas de “classe média”: servem somente enquanto “documento”, não enquanto literatura).
        28 - A escritura literária plasma abstrações de fantasmas do existente: esses fantasmas “dizem o outro”: a vida, a carne, o desejo, a fala daquilo que ainda
não se realizou ou foi destroçado em sua realização.
        29 - Articular o desarticulado: a literatura condensa, atrai, funde, re-vê.
        Desarticular o articulado: a crítica espalha, desmembra, faz fluir, se choca.
        Articular o desarticulado: a crítica espalha, desmembra, faz fluir, se choca.
        Desarticular o articulado: a literatura condensa, atrai, funde, re-vê.
        O distante se torna próximo; o próximo, distante.
        30 - A literatura alegórica apresenta tanto o que ela não é quanto um universo contrário à sua representação: a diferença, a alteridade está na própria
substância, na matéria dessa escritura e não em suas “imagens”. É uma literatura que atinge a dimensão ontológica do real na medida da própria ficcionalidade viva



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do real. Ao dizer, ao se dizer, ela diz o “outro”, os devires polifônicos, dialógicos, do viver social. Ao dizer diz o outro se dizendo; desvenda o outro se desvendando; e
ao desvendar o outro se desvenda.
        31 - A literatura alegórica é um artifício interpretativo: a crítica é uma dupla tradução, um duplo movimento hermenêutico: interpretar a interpretação, dizer
aquilo que só poderia ser dito não sendo dito: sem que a interpretação também seja alegórica, o interpretado será desfigurado: sua “forma de vida” não pode ser a de
rótulo, se assim fosse, a própria literatura já o teria condensado desta maneira: a crítica não pode ser realista quando a obra é alegórica: a inversão destrói em vez de
compreender.
        32 - A literatura é uma paródia do mundo. Nela convergem e se separam todas as linguagens, todas as ficções que são a realidade (todos os programas e
linhas de programa convergem para o literário ou são destroçados por ele). Um texto literário é uma constelação de forças contraditórias exigindo uma não-conciliação
nem na leitura de prazer nem na leitura crítica.
        33 - Os realismos existem porque o alegórico foi rejeitado e a aparência foi considerada capaz de dizer todos os in-dizíveis (o transe da mercadoria como
fundação do real). Seu ponto hipnótico é o rótulo: esse ponto des-loca o literário para o visível de determinada posição; o reprimido, o esquecido, o combatido, o
vencido, os fragmentos de discordância desaparecem dentro do “jornalístico”. A palavra como essencialmente alegórica some em detrimento de uma palavra igual à
coisa (esquecendo que a coisa é palavra reificada, que é trabalho alienado, ficção social esquecida da sua própria forma de existência).
        34 - Separou-se a imagem (o rótulo, a aparência, o corpo, a natureza) do conteúdo, da experiência, do significado (deus expulso, desencalacrado das coisas):
dentro e fora com vidas autônomas: o invólucro da mercadoria e a substância interior posta à venda (o sistema de crenças deixou de crer piamente para crer
mercadologicamente): a alegoria é uma das maneiras de ler que além de articular estas instâncias (sem ceder à tentação da totalidade) pode trazer esta
desarticulação para o centro, dissolvendo tanto uma aparência quanto um conteúdo autônomos, falando ao mesmo tempo desse aqui e daquele lá sem ser nenhum
deles, sem ficar aprisionado em nenhuma dessas celas imaginárias: dois molambos ficcionais agarrados ainda a uma estrutura cada vez mais dissipativa,
polidimencional e com devires libertos das simples unidades fora e dentro.
        35 - A matéria da literatura ad-vêm dos cortes, das desarticulações, dos saltos, das cesuras, das interrupções, das diacronias, das ucronias, dos vazios: a
literatura não se faz, não é, não flui nos quadrinhos visíveis, mas no entre-quadrinho das Histórias em Quadrinhos.
        35 - A modernidade é uma intuição precisa da morte de um universo mas não ainda esse universo: o transe da modernidade é não haver aceitado o caos
aberto por ela mesma e enfrentado sua estranha ontologia: presa à Língua, ao Povo, à Natureza, à História não conseguiu seguir o caminho apontado por ela mesma.
        36 - A leitura alegórica não “encontra o mundo”, o “real”, a “sociedade” ou a “história”: faz fluir e se entrechocar as múltiplas ficções que se entrecruzam no
texto (ao mesmo tempo em que supera a intertextualidade como um dos transes que impedem a literatura de se abrir ao próximo), tanto enquanto “exterioridade”
quanto “interioridade”. O dizer-o-outro não é apontar um ali ou um aqui, mas aquilo que não se articula, que margeia as inteirezas ficcionais que se dizem
independentes, naturais, universais ou mesmo mercadológicas: esses vazios e seus movimentos podem dizer as concreções imaginárias porque exigem as próprias

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concreções como elementos da sua múltipla narratividade, enquanto as concreções são, normalmente, autônomas (quadrinhos que perderam tanto a ligação com
outros quadrinhos quanto com as infinitas possibilidades dos vazios entre eles na geração de outras-realidades).
        37 - Se “... para ser verdadeira, deve a arte realizar o acordo entre o exterior e o interior” (Hegel, 1964: 11), esse acordo só pode ser feito alegoricamente,
mas jamais poderá ser novamente acordado: o tempo desse acordo passou assim como o tempo da indefinição entre dentro e fora ou mesmo a existência natural ou
histórica de um dentro e um fora.
        Para Hegel “... a alegoria procura tornar perceptíveis certas propriedades de uma representação geral utilizando objetos sensíveis e concretos; mas em vez de
recorrer a formas veladas e enigmáticas, dá à significação toda a evidência possível por meio de um envoltório transparente que a torna, quanto possa ser, inteligível”
(1970: 174); é a “... abstração de uma representação geral que só adquire, da subjetividade, a forma vazia” (1970: 175): a literatura é essa “forma vazia”, esse
“envoltório transparente”: só permanece a literatura enquanto gênero, história, cultura, teoria exatamente porque sua ontologia permanece a mesma da mercadoria,
sem saber. Ao mesmo tempo põe em método a questão da alegoria:
        a) “tornar perceptíveis certas propriedades”;
        b) “de uma representação geral”;
        c) “utilizando objetos sensíveis e concretos”;
        d) “mas em vez de recorrer a formas veladas e enigmáticas, dá à significação toda a evidência possível”;
        e) “por meio de um envoltório transparente que a torna, quanto possa ser, inteligível”.
        [É uma ação criando uma forma vazia, um envoltório transparente que torna o geral singular: uma abstração do existente, do vivido em escritura.]


        (Hegel tem uma opinião tradicional ou mesmo negativa da alegoria, apesar de entendê-la como uma abertura para a negatividade e para a morte (perspectiva
importante tanto para Benjamin quanto para Adorno). A “dialética fatal” da alegoria (vida/morte, destruição de si mesma, negatividade) consegue pensar a existência
na medida do seu existir ficcional, instável e dissipativo: põe uma cunha entre as desarticulações.)
        38 - Não podemos mais encontrar Deus, o Homem, a Sociedade, a Verdade, a Realidade, a Totalidade, a Natureza: corroemos suas certezas independentes
(ficções reificadas): mesmo que os reencontrássemos riríamos deles: fluxos vivos do entre-nós, já fazem parte da nossa carne e do nosso sonho: voltaram a se unir à
substância e à medida do nosso suor: desvendado o ficcional do existente só nos resta afundar no “sempre novo” das ficções ou voltar à barbárie.
        39 - A literatura só pode dizer, só pode trazer à luz do dizer, só pode deslocar as fissuras, as inarticulações, as ficções fundamentais do existir e os desesperos
do viver: não que haja “continentes” ou “ilhas”: as fissuras são o único existente, é a ficcionalidade do mundo em estado bruto: delas ad-vêm a realidade
aparentemente autônoma daquilo que não é vazio, não é brecha. Dizer do “continente” é dizer sem saber que diz ficcionalmente um mundo ficcional. O texto literário
rearticula o mundo enquanto o mundo é o próprio texto amplificado.

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40 - A literatura é o feixe das vozes-corpos que não se dizem, dos corpos-vozes esquecidos, das vozes-corpos vencidas, dos corpos-vozes inexistentes, das
vozes-corpos fragmentadas, perdidas, saturadas: o resto é somente mercadoria que se esgota nos seus múltiplos consumos.
       41 - Aquelas leituras que buscam encontrar além-da-obra um contexto histórico, social, econômico, biográfico pensam sempre nessas “instâncias” enquanto
concretudes existenciais (naturalizações), com um negado olhar positivista, buscando sempre um real conjuntural ou estrutural já reificado, ficções e discursos já
tornados existentes, ficções esquecidas de que são ficções: a obra é da mesma “natureza” dos fluxos ficcionais do “seu mundo”, dos “mundos anteriores” e dos
mundos futuros. O dentro (a obra) e os foras (contextos históricos) são ex-pressões dos mesmos devires ficcionais. Ao ler alegoricamente leio, antes de tudo, a mim
mesmo e ao que me rodeia (o antes, o agora e o depois): entrego-me aos atritos dos fluxos ficcionais do meu mundo, das minhas negatividades; diálogos que
imponho por razões singulares: e o alegórico torna-se a própria obra, a leitura da obra o em-torno (o ficcional do mundo se aproxima e me olha nos olhos): e esse se
aproximar, esse dissolver a distância, esse retornar a singularidade, torna-se a subversão do diálogo, do texto, do que me circunda e da leitura: uma rede mais vasta e
polidimensional se armando numa inquirição, numa denúncia, numa inesperada superação.
       42 - Todo texto da literatura põe em questão os fluxos ficcionais que são a “comunidade”: aponta para os outros do mundo, para as múltiplas alteridades: seu
abismar-se é um desalojar-se e seu desalojar-se é um abismar-se: sua força centrífuga é centrípeta: é sempre o outro e ele mesmo: leitor/autor como a reversão da
mesma ficção do texto: o autor lendo e o leitor criando: tudo ao mesmo tempo: ficções de fora e ficções de dentro: diálogos que se devoram e se vomitam.




                                                                          BIBLIOGRAFIA
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                                                                                104
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
                                                              PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421          lathé biosa   94
      ANO II, Nº94 - ABRIL - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421


                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
             ALBERTO LINS CALDAS - História
              ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                 ARTUR MORETTI - Física
                CELSO FERRAREZI - Letras
             FABÍOLA LINS CALDAS - História
           JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
          MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
                MARIO COZZUOL - Biologia
                 MIGUEL NENEVÉ - Letras
              VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia


Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows”
           deverão ser encaminhados para e-mail:                 INVESTIGACION DE LA EFICACIA
                     nilson@unir.br
                                                                 DIRECTIVA EM LA UNIVERSIDAD

                     CAIXA POSTAL 775
                     CEP: 78.900-970
                      PORTO VELHO-RO
                                                                                BERENICE COSTA TOURINHO

                  TIRAGEM 200 EXEMPLARES


        EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA



                                                                                                          105
Berenice Costa Tourinho
Professora do Departamento de Sociologia e Filosofia - UFRO
kang@netlig.com.br
                                                                                                            Investigacion de la Eficacia Directiva en la Universidad



        El presente estudio efectuado en el Instituto Tecnológico da Amazônia – UTAM, en la ciudad de Manaus – Amazonas, Brasil, intenta contribuir al desarrollo de
un programa de investigaciones sobre el análisis de los factores que afectan la eficacia directiva en el ámbito de las estructuras grupales básicas (departamentos
académicos) de una institución de educación superior publica brasileña, sus practicas directivas y sus modelos de gestión.
        Bajo la dirección del Dr. Julio César Casales F., cumple la función de testar la aplicación de su modelo de investigación cerca del estilo de liderazgo y
desempeño grupal y ajustar el conjunto del método a las exigencias de una investigación metódicamente adecuada (calidad y precisión) al estudio en la realidad
brasileña. El modelo de análisis de los determinantes de la eficacia directiva desarrollado por Casales (1996a) es un modelo que constituye una adaptación mejor
articulada del Modelo de contingencia de la Efectividad del Liderazgo de F. Fidler, en que se incluyeron nuevas variables de importancia, y se reformularon algunas de
las ya existentes, con vista a adaptarlo mejor a la realidad de las organizaciones cubanas, en las que se validó.
        Por la importancia científica del tema, y por la utilidad del modelo desarrollado por Casales, nos planteamos la posibilidad de utilizarlo como una herramienta
que nos permita realizar un análisis de los determinantes de la eficacia directiva en una institución de Educación superior en Brasil.
        Nuestro objetivo es estudiar los Determinantes de la Eficacia Directiva de los Departamentos Académicos. O sea, analizar los factores que afectan la eficacia
directiva tomando como base las relaciones existentes entre un conjunto de variables en el ámbito de las estructuras grupales básicas de la universidad: los
Departamentos Académicos.
        Los aspectos (las variables) incluidos en el modelo son: La percepción grupal del estilo del directivo; las disposiciones reciprocan a la comunicación, existente
entre el dirigente y su grupo de trabajo (y las percepciones respectivas de tales disposiciones); así como la capacidad de liderazgo del directivo (en su aspecto
psicosocial), y la naturaleza de sus relaciones con los lideres emergentes. Este objetivo pretende realizar un análisis de los factores que afectan la eficacia directiva en
el ámbito de las estructuras grupales básicas de la UTAM, con la finalidad de poner a prueba el modelo, y realizar sus ajustes correspondientes.
        Como influyen en la eficacia de un grupo de trabajo, las relaciones existentes entre el estilo de dirección del directivo, las disposiciones recíprocas a la
comunicación, entre el dirigente y su grupo (y las percepciones recíprocas de tales disposiciones), su capacidad de liderazgo y la naturaleza de sus relaciones con los
lideres emergentes que eventualmente surgen.


                                                                                                                                                                       106
Definición de Variables
       Para la caracterización de las variables se asumirán las definiciones realizadas por el trabajo de Casales (1996 y 1999), desarrollados dentro del programa de
estudio cerca de los determinantes de la eficacia directiva de la Facultad de Psicología de la Universidad de la Habana: Estilo de Dirección (autoritario, democrático,
Centrado en las Tareas, Centrado en las Relaciones y Nivel de Intolerancia); Disposiciones Reciprocas a la Comunicación; Capacidad de Liderazgo Psicosocial del Jefe;
Liderazgo Emergente, Resultado de la Actividad Académica y Profesional de los Grupos.
   Hipótesis: Los departamentos académicos de mejor rendimiento serán aquellos que, en cuanto al estilo de dirección de sus jefes, alcancen
   puntuaciones más elevadas en las dimensiones de democratismo y orientación simultanea, a las relaciones y las tareas, así como puntuaciones
   intermedias en la intolerancia. En cuanto al proceso comunicativo obtendrán un desarrollo más favorable de las variables intervinientes en la
   estructura de disposiciones comunicativas dirigente-grupo y de las percepciones reciprocas de tal disposición. En cuanto al liderazgo poseerán
   mayor capacidad de liderazgo y/o mejores relaciones con los lideres emergentes de sus departamentos, si es que existen.
   Metodologia: La Muestra. Características: Cuatro departamentos académicos: Departamento de Ingeniería Eléctrica; Departamento de Ingeniería del Bosque;
   Departamento de Ingeniería Civil; Departamento de Ciencias Básicas.
   Situaciones de Estudio: 1ª. Situación de Estudio: Departamentos de Ingeniería Civil (7 profesores incluso el jefe) y Ingeniería Eléctrica (14
   profesores incluso el jefe);2ª. Situación de Estudio: Departamentos de Ingeniería Civil (7 profesores incluso el jefe) y Ingeniería del Bosque (10
   profesores incluso el jefe); 3ª. Situación de Estudio: Ingeniería Eléctrica (14 profesores incluso el jefe) y Ingeniería del Bosque (10 profesores
   incluso el jefe).
   Control de Variables: En nuestra investigación ha sido necesario controlar un conjunto de variables que por la influencia que ejercen pudieran
   estar presente en los resultados que se obtengan, llegando a ser la causa de las diferencias productivas entre los grupos. Para este control de
   variables fueron tomadas las definiciones y consideraciones señaladas por Rodriguez (1999): Tiempo de constitución del grupo; Tiempo en el
   grupo del dirigente; Experiencia de dirección del dirigente; Experiencia de trabajo del dirigente; Nivel de formación del dirigente; Experiencia de
   trabajo del grupo; Nivel de formación de los miembros del grupo; Tiempo promedio de permanencia en el grupo; Variables relativas a la
   satisfacción laboral; Satisfacción con el grupo de pertenencia; La satisfacción con el dirigente; Edad; Índice de ausentismo; Integración política.
INSTRUMENTOS
1. Cuestionario general de datos sociodemográficos y de control de variables. (Tomado de Rodriguez, 1999);
2. Cuestionario de Relaciones Interpersonales (adaptación del cuestionario sociométrico - tomado de Casales, 1989);
3. Cuestionario para la descripción de las dimensiones del estilo de dirección en grupos pequeños. (Forma B)(Tomado de Casales, 1999);
4. Escala Valorativa de Liderazgo Grupal. (Casales, 1996a);
5. Instrumento para Medición de Desempeño en los Departamentos.
   Análisis de los Resultados
   Primera Situación de Estudio: Departamento de Ingeniería Civil y Departamento de Ingeniería Eléctrica
   Con vistas a corroborar nuestra hipótesis presentamos la primera situación de estudio, compuesta por los departamentos de Ingeniería Civil e
   Ingeniería Eléctrica. Los resultados hallados en estos departamentos son los siguientes:
                                                                                                                                                                  107
1. Estilo de dirección.
La Tabla No. 1 presenta los estilos de dirección característicos de los dirigentes de cada departamento.
                                                        TABLA No. 1 - DIMENSIONES DEL ESTILO
                                                                       ESTILO DE DIRECCION (DIMENSIONES)

                           GRUPOS                         AUT - DEM               C.T.              C.R.      N. Int.
                                                           (-4 a +4)             (0 - 4)           (0 - 4)    (0 - 4)
                                  Ing. Civil                + 0,4                  2,5               2,6       1,0
                                                             (b)                   (a)               (a)       (b)
                                                            + 1,2                  2,5               2,7       1,4
                             Ingeniería Eléctrica
                                                             (b)                   (a)               (a)       (b)
                          Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo
Como se puede observar ambos dirigentes presentan estilos muy similares toda vez que obtienen puntajes altas en dos de las dimensiones
(centrado en la tarea y centrado en las relaciones), y puntajes bajos en la dimensión de democratismo-autoritarismo, y también obtienen
índices bajos de intolerancia. Se observa que el dirigente de Civil y el dirigente de Eléctrica no se diferencian substancialmente en cuanto a las
dimensiones de estilo (centrado en la tarea, centrado en las relaciones y nivel de intolerancia), aun cuando estos dirigentes alcanzan diferentes
valores, las diferencias numéricas no son considerables a nuestro juicio. El dirigente de Eléctrica presenta una cierta ventaja numérica en la
dimensión democratismo-autoritarismo.


2. Estructura Comunicativa.
En la Tabla No. 2 aparecen recogidos los datos que expresan los niveles alcanzados por los dos departamentos en esta variable, tanto en la
esfera funcional como afectiva.

                                                      Tabla No. 2 - RESULTADOS SOCIOMÉTRICOS
                                                                   Niveles de Disposición a la Comunicación
                                                                              Dirigente - Grupo.
                                                                      Percepciones de dicha disposición
                                                 GRUPOS
                                                              ESFERA FUNCIONAL             ESFERA EMOCIONAL

                                                                 SP  EP  PP  IP  SP  EP  PP  IP
                                                                6–1 6–1 5–0 5–0 5–0 5–0 4–0 4–0
                                               Ingeniería Civil
                                                                  5  2    3   2  4    2  2    2
                                                                (m) (m) (m) (m) (m) (m) (m) (m)



                                                                                                                                              108
Ingeniería6–1 6–1 4–0 4–0 6–1 6–1 6–1 6–1
                                                           Eléctrica  6      2     3      5    6   8   8   3
                                                                     (a)   (m) (m)       (a)  (a) (a) (a) (m)
                                                   Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo
   Como se puede observar el dirigente de Civil obtuvo en el 100% de las variables puntajes medios, mientras que el dirigente de Eléctrica alcanza
   altos puntajes en el 62,5% de las variables y las restantes se encuentra en el nivel intermedio. De lo antes expuesto se interpreta una situación
   más favorable en la estructura comunicativa desde el punto de vista funcional como afectivo, para el dirigente del departamento de Eléctrica.
   3. Análisis de la situación de liderazgo grupal.
   En la Tabla No. 3 aparece reflejada la percepción grupal de la condición de líder de su dirigente, en los departamentos que conforman esta
   situación, así como las relaciones del dirigente con los miembros que desempeñan roles de liderazgo emergente, (en ambos planos).

                                             TABLA No. 3 - DIMENSIONES VALORATIVAS DEL LIDERAZGO                                            Leyenda:
                                                                                                                                              a – alto
                                                                                                                            RELACIÓN
                                                   DIMENSIONES VALORATIVAS DE LIDERAZGO
                                                                                                                            DIR-LIDER         m – medio
    GRUPOS
                      SP (DIRIGENTE)                        APORTAR                INFLUIR               MOTIVAR
                                                                                                                           PF       PA      b – bajo
                  Funcional      Emocional            R         D      O      R       D      O      R       D      O                        R – Rango
                                                                                                                                            O – otros
                    6–1             5–0
   Ingeniería                                                   4                     4                     4                               PF     –     Plano
                      5               4            3-1                  -    7–4              -    4–0              -       -           -   Funcional
      Civil                                                    (a)                    (b)                   (a)                             PA      –    Plano
                     (m)            (m)
                                                                                                                                            Afectivo
                    6–1             6–1                                12                    9                     6                        D – Dirigente
   Ingeniería                                                   7                     4                     5                               D →--- L –
                      6               6          4–0                   #1    4–0             #1    3–0             #1    D....→L   D↔L
    Eléctrica                                                  (a)                    (a)                   (a)                             Relación unilateral
                     (a)             (a)                               (a)                   (a)                   (a)                      Dirigente Líder
                                                                                                                                            D ---← L –
Relación unilateral Líder Dirigente
D --- L – No hay escojas entre Dirigente y Líder
D ↔ L – Relación reciproca Dirigente Líder.

   En estos departamentos, como se puede observar, el dirigente de Eléctrica obtuvo puntajes más elevadas en todas las dimensiones de liderazgo
   respecto al dirigente de Civil, en cuanto el SP funcional la diferencia obtenida por el dirigente de Eléctrica es más alta. Además de eso el grupo
   de Eléctrica presentó el miembro #1 con puntajes altos en las dimensiones aportar, influir, motivar y Sp funcional (9) más alto que del propio
   dirigente, eso refleja su condición de líder emergente. En este análisis el dirigente de Eléctrica es un verdadero líder, sin embargo, el de Civil no
   llega a serlo. Las relaciones dirigente-líder, en el departamento de Eléctrica son satisfactorias en el plano afectivo, pues las disposiciones


                                                                                                                                                          109
comunicativas son reciprocas, pero no son completamente satisfactorias en el plano funcional, pues aunque el dirigente escoja el líder, no se
   cumple lo contrario. En resume, la situación del liderazgo resulta más favorable al grupo de Eléctrica.
   4. Resultados de desempeño grupal



                                                                         TABLA No. 4
                                                         Comparabilidad de Dese mpe ño Civ il/Eléctrica

                                                                                  100      100




                                                                        Mediana
                                                                                         40
                                                                                                  00     00     88
                                                                                    0
                                                                                          A       C      D      F

                                                                   Ing. Civil             40      0       0     8
                                                                   Ing. Eléctrica        100      0       0     8
                                                                                                 Factores


                                                                                  Ing. Civil   Ing. Eléctrica

                                              Leyenda:
                                              A – Evaluación de Enseñanza
                                              C – Actividades de Investigación y Extensión
                                              D – Actividades de Calificación
                                              F – Evaluación de los Docentes hecha por los Alumnos.
        En el análisis de desempeño el departamento de Eléctrica se destaca significativamente en el factor Evaluación de Enseñanza. El dirigente que representa el
departamento con desempeño académico en destaque es el de Eléctrica, y es este departamento precisamente el que obtiene una estructura comunicativa más
favorable y una mejor situación en la capacidad de liderazgo del jefe. Además, en las relaciones reciprocas con el miembro que desempeña roles de liderazgo
emergente, existen relaciones reciprocas en el plan emocional, y al menos unilateral en el funcional.
        En el análisis de la comparabilidad de las variables de desempeño entre los dos departamentos hay diferencia significativa de desempeño en el factor
Evaluación de Enseñanza a favor del departamento de Eléctrica. En los demás factores de desempeño los dos departamentos no se distinguen significativamente.
Todo lo antes expuesto corrobora nuestra hipótesis.
   Segunda Situación de Estudio: Departamento de Ingeniería Civil y Departamento de Ingeniería del Bosque
   Los resultados hallados en estos departamentos son los siguientes:
   1. Estilo de dirección.

                                                                                                                                                               110
La Tabla No. 5 presenta los estilos de dirección característicos de los dirigentes de cada departamento.

                                                   TABLA No. 5 - DIMENSIONES DEL ESTILO
                                                             ESTILO DE DIRECCION (DIMENSIONES)
                       GRUPOS                AUT - DEM             C.T.                   C.R.                  N. Int.
                                              (-4 a +4)           (0 - 4)                (0 - 4)                (0 - 4)
                          Ingeniería Civil      + 0,4               2,5                    2,6                      1,0
                                                 (b)                (a)                    (a)                      (b)
                           Ingeniería           +0,9                2,2                    2,0                      1,3
                           del Bosque            (b)                (m)                    (m)                      (b)
             Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo
Como se puede observar ambos dirigentes obtienen puntajes bajas en la dimensión autoritarismo-democratismo, con cierta ventaja para el
dirigente del Bosque, pero niveles de intolerancia también bajos, todavía el dirigente de Civil obtuvo una ligera ventaja sobre el dirigente del
Bosque con puntajes altas en las dimensiones de centrado en las tareas y centrado en las relaciones, aunque dichas puntajes presentan
diferencias no apreciables a nuestro juicio.
2. Estructura Comunicativa.
En la Tabla No. 6 aparecen recogidos los datos que expresan los niveles alcanzados por los departamentos en estas variables, tanto en la esfera
funcional como afectiva.

                                                    Tabla No. 6 - Resultados Sociométricos
                                                                   Niveles de Disposición a la Comunicación
                                                                              Dirigente - Grupo
                                                                      Percepciones de dicha disposición
      GRUPOS
                                             ESFERA FUNCIONAL                                                 ESFERA EMOCIONAL
                             SP             EP              PP               IP              SP                EP          PP              IP
                            6–1            6–1              5–0             5–0             5–0               5–0         4–0             4–0
   Ingeniería Civil
                              5              2               3                2               4                2           2                2
                             (m)           (m)              (m)             (m)             (m)               (m)         (m)             (m)
                            6–1            6–1              5–1             5–1             5–0               5–0         4–1             4–1
     Ingeniería
                              3              2               4                2               2                1           2                1
     del Bosque
                             (m)           (m)              (m)             (m)             (m)               (m)         (m)              (b)
Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo
   Como se puede observar en el 100% de las variables estudiadas el dirigente del departamento de Civil obtuvo puntuaciones medias,
mientras que el dirigente del Bosque obtuvo 90% puntajes medias en las mismas variables a excepción de su IP con puntaje baja en la
dimensión funcional. Observase entonces una ligera diferencia entre la estructura comunicativa del dirigente de Civil frente el dirigente del
Bosque, diferencia que favorece al primero, pero, que a nuestro juicio no son tan significativas.
                                                                                                                                                 111
3. Análisis de la situación de liderazgo grupal.
       En la Tabla No. 7 aparecen reflejados la percepción grupal de la condición de líder de su dirigente, en los departamentos que conforman
   esta situación, así como las relaciones del dirigente con los miembros que desempeñan roles del liderazgo, (en ambos planos).


                                                 TABLA No. 7 - DIMENSIONES VALORATIVAS DEL LIDERAZGO                                               Leyenda:
                                                                                                                                                      a – alto
                                                                                                                                RELACIÓN
                                                      DIMENSIONES VALORATIVAS DE LIDERZGO
                                                                                                                                DIR-LIDER
    GRUPOS                                                                                                                                         m – medio
                         SP (DIRIGENTE)                     APORTAR               INFLUIR               MOTIVAR
                                                                                                                           PF            PA
                   Funcional        Emocional          R       D      O      R       D      O      R       D      O
                                                                                                                                                   b – bajo
                      6–1              5–0                                                                                                         R – rango
   Ingeniería                                                  4                     4                     4                                       O – otros
                        5                4            3-1              -    7–4              -    4–0              -        -               -
      Civil                                                    (a)                  (b)                    (a)                                     PF – Plano
                       (m)              (m)                                                                                                        Funcional
                                                                                                                                                   PA – Plano
                      6–1              5–0                            4                     3                     3
   Ingeniería                                                  2                     2                     1                                           Afectivo
                        3                2            3–0             #2    3–0             #2    3–0             #2    D ...... L    D ...... L
   del Bosque                                                 (m)                   (m)                   (m)                                      D         –
                       (m)              (m)                           (a)                   (a)                   (a)
                                                                                                                                                   Dirigente
                                                                                                                                                   D →--- L –
Relación unilateral Dirigente Líder
D ---← L – Relación unilateral Líder Dirigente
D --- L – No hay escojas entre Dirigente y Líder
D ↔ L – Relación reciproca Dirigente Líder.




   Se observa que en las dimensiones valorativas del liderazgo el dirigente del Civil obtiene puntajes altas en dos dimensiones (aportar y motivar),
   pero puntaje baja en la dimensión de influir, todavía su SP funcional presenta valores medios más altos que del dirigente del Bosque quien
   además presenta valores no tan altos en lo restante de las variables, además de él de tener en su grupo el líder emergente con lo cual no
   mantiene relaciones reciprocas de comunicación.
       Por lo tanto en sentido general ambos líderes presentan situaciones de liderazgo semejantes, todavía con cierta ventaja numérica favorable
   al desempeño del liderazgo del departamento de Civil.

                                                                                                                                                          112
4. Resultados de desempeño grupal

                                                                             TABLA No. 8
                                                               Comparabiliadad de Desempeño Civil/Bosque


                                                                               100
                                                                                              75




                                                                     Mediana
                                                                               50       40
                                                                                                          15          8 9
                                                                                                     0          0 0
                                                                                0
                                                                                         A           C          D     F
                                                            Ing. Civil                   40           0           0   8
                                                            Ing. del Bosque              75          15           0   9

                                                                                                       Factores

                                                                                     Ing. Civil    Ing. del Bosque

                                        Leyenda:
                                        A – Evaluación de Enseñanza
                                        C – Actividades de Investigación y Extensión
                                        D – Actividades de Calificación
                                        F – Evaluación de los Docentes hecha por los Alumnos.

        El análisis de estos dos grupos pone de manifiesto que ellos no caracterizan una situación con resultados suficientemente contrastantes de las variables del
subsistema directriz (estilo, comunicación y liderazgo de los jefes), es decir, en cuanto al estilo, en realidad los valores se encuentran muy próximos; en la estructura
de disposiciones comunicativas, solo difieren en un indicador; mientras que en liderazgo del jefe, en uno de los grupos el jefe pose niveles medios en todas las
variables, mientras que el otro alcanza niveles altos en dos de ellos, pero bajo en la tercera, así que casi se compensan además no tenemos claridad cerca de qué
contribución real realiza el líder emergente en el grupo del Bosque, pues aunque no tenga relaciones con el jefe podría estar jugando un rol decisivo. Tal situación en
consecuencia, no permite establecer análisis concluyentes lo que nos conduce a la consideración de que, por falta de una comparación suficientemente contrastante
entre ellos no puede usarse esta situación como prototipo para la prueba de hipótesis.


   Tercera Situación de Estudio: Departamento de Ingeniería Eléctrica y Departamento de Ingeniería del Bosque
        Los resultados hallados en estos departamentos son los siguientes:

                                                                                                                                                                    113
1. Estilo de dirección.
     La Tabla No. 9 presenta los estilos de dirección característicos de los dirigentes de cada departamento.
                                                          TABLA No. 9 - DIMENSIONES DEL ESTILO
                                                                 ESTILO DE DIRECCION (DIMENSIONES)

                   GRUPOS                   AUT - DEM                    C.T.                       C.R.                N. Int.
                                             (-4 a +4)                  (0 - 4)                    (0 - 4)              (0 - 4)
                       Ingeniería             + 1,2                      2,5                         2,7                 1,4
                        Eléctrica              (b)                       (a)                         (a)                 (b)
                       Ingeniería             +0,9                       2,2                         2,0                 1,3
                      del Bosque               (b)                       (m)                         (m)                 (b)
                   Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo
    Como se puede observar los dirigentes del grupo de Eléctrica y del Bosque presentan puntuaciones bajas en la dimensión democratismo
autoritarismo, con una ligera diferencia favorable al primero, además ambos departamentos obtuvieron puntajes bajas en el nivel de
intolerancia. La diferencia entre ellos es la que el departamento de Eléctrica obtuvo puntajes más altas en dos dimensiones (centrado en la
tares y centrado en las relaciones), pero a nuestro juicio numéricamente no significativas.
     En modo de conclusión podemos decir que no se observan diferencias substanciales en dimensiones del estilo entre estos dos dirigentes.


2. Estructura Comunicativa.
     En la Tabla No. 10 aparecen recogidos los datos que expresan los niveles alcanzados por estos departamentos en estas variables, tanto en
la esfera funcional como afectiva.

                                                          Tabla No. 10 - Resultados Sociométricos
                                                         Niveles de Disposición a la Comunicación - Dirigente - Grupo
                                                                      Percepciones de dicha disposición
                                   GRUPOS               ESFERA FUNCIONAL                        ESFERA EMOCIONAL
                                                 SP         EP        PP          IP       SP       EP     PP     IP
                                   Ingeniería    6–1        6–1       4–0         4–0      6–1     6–1    6–1    6–1
                                    Eléctrica      6          2         3           5        6       8      8      3
                                                  (a)        (m)       (m)         (a)      (a)     (a)    (a)   (m)
                                                 6–1        6–1       5–1         5–1      5–0     5–0    4–1    4–1
                                  Ingeniería
                                                   3          2         4           2        2       1      2      1
                                  del Bosque
                                                 (m)         (m)       (m)        (m)      (m)      (m)   (m)     (b)

                                                                                                                                              114
Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo
          Como se puede observar el dirigente del Eléctrica obtiene 62,5% de las variables presentadas altas puntajes y los 37,5 restantes se
     encuentran en nivel medio, de lo cual se interpreta una situación favorable con relación al dirigente del Bosque que presenta un 87,5% de las
     variables estudiadas con puntajes medios, tanto en el plano funcional como afectivo, mientras que los restantes 12,5% de las variables de este
     dirigente presenta puntajes bajos. Por lo cual se interpreta una situación más favorable para el dirigente de Eléctrica, ya que obtiene mayor
     puntaje en la mayoría de las variables y por tanto una estructura comunicativa más favorable.


     3. Análisis de la situación de liderazgo grupal.
         En la Tabla No. 11 aparecen reflejadas la percepción grupal de la condición de líder de su dirigente, en los departamentos que conforman
     esta situación, así como las relaciones del dirigente con los miembros que desempeñan roles de liderazgo, (en ambos planos).

                                                  TABLA No. 11 - DIMENSIONES VALORATIVAS DEL LIDERAZGO
                                                                                                                                                       Leyenda:
                                                                                                                                    RELACIÓN              a – alto
                                                        DIMENSIONES VALORATIVAS DE LIDERZGO
                                                                                                                                    DIR-LIDER
      GRUPOS
                            SP (DIRIGENTE)                    APORTAR               INFLUIR               MOTIVAR                                      m – medio
                                                                                                                              PF             PA
                      Funcional       Emocional          R       D      O      R       D      O      R       D      O
                         6–1              6–1                           12                    9                     6                                  b – bajo
     Ingeniería                                                  7                     4                     5                ...                      R – rango
                           6                6           4–0             #1    4–0             #1    3–0             #1    D →L             D↔ L        O – otros
      Eléctrica                                                  (a)                   (a)                   (a)
                          (a)              (a)                          (a)                   (a)                   (a)                                PF – Plano
                                                                                                                                                       Funcional
                         6–1              5–0                           4                     3                     3                                  PA – Plano
     Ingeniería                                                  2                     2                     1
                           3                2           3–0             #2    3–0             #2    3–0             #2    D   ......
                                                                                                                                       L   D...... L       Afectivo
     del Bosque                                                 (m)                   (m)                   (m)
                         (m)              (m)                           (a)                   (a)                   (a)                                D         –
                                                                                                                                                       Dirigente
D   →--- L – Relación unilateral Dirigente Líder
D   ---← L – Relación unilateral Líder Dirigente
D   --- L – No hay escojas entre Dirigente y Líder
D   ↔ L – Relación reciproca Dirigente Líder.




                                                                                                                                                              115
Como se puede observar el dirigente de Eléctrica obtiene puntuaciones altas en cada una de las dimensiones, incluyendo el SP funcional,
   por lo que se percibe como líder en el grupo, mientras que el dirigente del Bosque obtiene puntajes medios en todas las dimensiones, incluso en
   el SP funcional. En cuanto a las relaciones que mantienen estos con los miembros del grupo que desempeñan roles de liderazgo, vemos que la
   situación resulta más favorable para el dirigente del Eléctrica en cuyo grupo hay el miembro #1 con puntajes altos en las dimensiones aportar,
   influir, motivar y Sp funcional (9) más alto que del propio dirigente, eso refleja su condición de líder emergente. Las relaciones dirigente-líder,
   en el departamento de Eléctrica, son satisfactorias en el plano afectivo, pues las disposiciones comunicativas son reciprocas, pero no son
   completamente satisfactorias en el plano funcional, pues aunque el dirigente escoja el líder, no se cumple lo contrario. En el departamento del
   Bosque el dirigente tiene en su grupo líder emergente con puntajes alto, pero no mantiene con él relaciones de reciprocidad.


   4. Resultados de desempeño grupal

                                                                                TABLA No. 12
                                                                         Comparabilidad Eléctrica/Bosque


                                                                                100    93




                                                                      Mediana
                                                                                            60
                                                                                50
                                                                                                      15            8   9
                                                                                 0
                                                                                                  0        0    0
                                                                                        A         C        D        F
                                                              Ing. Eléctrica           93         0         0       8
                                                              Ing. del Bosque          60        15         0       9

                                                                                                   Factores

                                                                                Ing. Eléctrica   Ing. del Bosque


                                               Leyenda:
                                               A – Evaluación de Enseñanza
                                               C – Actividades de Investigación y Extensión
                                               D – Actividades de Calificación
                                               F – Evaluación de los Docentes hecha por los Alumnos.

       El departamento de Ing. Eléctrica y el departamento de Ing. del Bosque se distinguen en las variables del subsistema directriz respecto al estilo de dirección,
comunicación dirigente-grupo, capacidad de liderazgo del jefe y relación con el líder emergente, mostrando una situación más favorable al grupo de Ing. Eléctrica que,
no se distingue significativamente en ninguno factor de desempeño del grupo del Bosque, o sea, presentan los mismos niveles de desempeño grupal. En vista de que
las variables del subsistema directriz están francamente favorables al grupo de Eléctrica eso no corrobora nuestra hipótesis referente al primer objetivo pero nos


                                                                                                                                                                 116
remite al análisis de variables motivacionales internas de los miembros de los departamentos, que pueden estar determinando el igual desempeño del grupo del
Bosque frente a la situación favorable presentada por el grupo de eléctrica, situación esa que vamos abordar en el segundo objetivo de nuestro trabajo.


Conclusiones


1.      Este estudio puso de manifiesto la importancia de colocar a prueba el modelo (Casales) a cerca del estilo de liderazgo y desempeño grupal dado los ajustes
necesarios que fueran requeridos respecto a las estructuras grupales básicas (departamentos académicos) para adaptar el conjunto del método (estilo de dirección,
liderazgo y productividad grupal) a las condiciones sociales y culturales en una institución de enseñaza superior brasileña. La realización de este estudio, de hecho, se
ha convertido en un punto crucial que permitió obtener las experiencias necesarias para los cambios y realizar las adaptaciones con vistas a la investigación de mayor
envergadura.
2.      La eficacia directiva en los departamentos académicos estudiados, dependiente del perfil que tenga el subsistema directriz y de los nexos comprobadamente
existentes entre estilo de dirección y desempeño, impacta el rendimiento presentado por grupo de profesores en instituciones de educación superior.
3.      Estas conclusiones se circunscriben a los grupos estudiados. El tamaño relativamente pequeño de la muestra utilizada (4 departamentos académicos),
constituye un factor que limita la validación y análisis a fondo de algunas de las relaciones encontradas, pero, como estudio piloto, aporta evidencias y adaptaciones
que justifican un ulterior desarrollo de estos estudios en condiciones que permitan el trabajo con muestras que establezcan contrastes significativos y admita
confrontar las hipótesis teóricas sobre bases empíricas más firmes.
Recomendaciones
        Para la investigación principal es necesario hacer un estudio detallado de los grupos de profesores (departamentos que serón investigados)como por ejemplo
aquellos departamentos que trabajan con laboratorios y de los que grade curricular posee disciplinas practicas lo que los torna laboriosamente distinto de otros.
        Recoger la dirección electrónica (e-mail) de los profesores que participaren da investigación, para sanar dudas emergentes de manera segura.
        Para la investigación principal es necesario también que se tomen en cuenta las siguientes variables que pueden tener influencia en el desempeño del grupo –
carga horaria de contratación de trabajo, cuantos profesores del grupo ejercen cargos de jefe en programas que no son del departamento y que por lo tanto les
disminuí tiempo de trabajo junto a su grupo.
        Para la investigación principal es necesario también una mayor cuantidad de grupos y sujetos en la muestra.
        Es necesario también una mayor fundamentación de las técnicas y profundización de la orientación de investigación de Casales.
        Por fin es necesario la inclusión del mayor referencial teórico basado en los modelos de liderazgo.



                                                                                                                                                                    117
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                                                                                                                                                            118
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
        CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

          PRIMEIRA VERSÃO
                                                              PRIMEIRA VERSÃO
                                                               ISSN 1517-5421       lathé biosa   95
      ANO II, Nº95 - ABRIL - PORTO VELHO, 2003
                     VOLUME VI

                       ISSN 1517-5421


                         EDITOR
                   NILSON SANTOS

                 CONSELHO EDITORIAL
             ALBERTO LINS CALDAS - História
              ARNEIDE CEMIN - Antropologia
                 ARTUR MORETTI - Física
                CELSO FERRAREZI - Letras
             FABÍOLA LINS CALDAS - História
           JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia
          MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação
                MARIO COZZUOL - Biologia
                 MIGUEL NENEVÉ - Letras
              VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia



Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times
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                      PORTO VELHO-RO


                  TIRAGEM 200 EXEMPLARES


        EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA


                                                                                                       119
Maria Terezinha Corrêa
           Filósofa, mestra em Antropologia
           mtec@usp.br
                                                                                                                                         Ribeirinhos do Madeira

                  “A um rio que tudo arrasta, todos chamam de violento; mas ninguém chama violentas as margens que o aprisionam há séculos.” (Brecht)


           Navegando à beira do rio Madeira, entre os interiores dos municípios de Humaitá/AM e de Porto Velho/RO, durante minha convivência com a sua população
   percebi o quanto o ribeirinho foi e, ainda é, uma categoria às margens da sociedade brasileira, carente de recursos e à revelia de projetos agro-políticos e debates
   nacionais ou internacionais sobre o seu habitat.

           Os ribeirinhos a que me refiro são homens, mulheres, jovens e crianças que nascem, vivem e se criam à beira dos rios denominando-se de “beiradeiro”, e,
   chamado por alguns de “caboclo”.

           Alguns estudiosos os têm classificado, particularmente, por terem um modo de vida próprio, de “campesinato amazônida”. (Furtado,1997). A maioria é
   predominantemente de ascendência indígena, pois o tipo físico se associa a sua tez de pele, cabelos, olhos. Porém, alguns são miscigenados com nordestinos
   vindo, principalmente, dos Estados do Maranhão e do Ceará, por ocasião do ciclo da borracha. Além disso, o vocabulário comum assemelha-se à língua Tupi, às
   crenças nos “encantados” (panema, cobra-grande, mapinguari, o uruá-peara), contado pelos antepassados, encontradas praticamente em toda comunidade
   ribeirinha, influenciando também os citadinos amazonenses.

        O interior amazonense tem uma configuração mesclada de parentes e herdeiros culturais retratados por cronistas e historiadores citados por Antônio Porro,
em O povo das águas (1996), quando tenta resgatar tribos ali existentes e registradas de modo exóticas, em séculos passados.
        Porém, segundo estatísticas citadas por Furtado, da UFPA, estima-se que aproximadamente 595.000 ribeirinhos (quase metade da população de todo o Estado
do Amazonas) moram nas áreas rurais amazonenses, sendo que a população total de indígenas neste Estado é calculada em termos de 54.503 (IBGE, 1994, p.46).
Portanto, mesmo que haja uma certa mobilidade, os ribeirinhos são em maior número que indígenas, trabalhadores “assalariados”, “posseiros” e “seringueiros” de
terra firme.


                                                                                                                                                                  120
Cabe aqui lembrar o que a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha expôs num debate sobre a desordem da Amazônia como conseqüência da integração
   dos anos 70 e 80 do século passado:

           As populações submetidas da Amazônia são os índios, os seringueiros, os ribeirinhos. Essas populações têm direitos. Os índios têm direitos de primeiros
   ocupantes (...) As populações de seringueiros foram levados para a Amazônia... têm direitos também... Mas há, também, um direito coletivo mais fundamental
   ainda: as sociedades tradicionais que se implantaram na Amazônia constituíram soluções originais de sociabilidade que, como todas as sociedades ditas ‘primitivas’
   são importantes não como se crê, às vezes, enquanto testemunho de nosso próprio passado, mas como testemunho de um presente que poderia ser outro: elas
   mostram, antes de tudo que o modelo em que estamos imersos de ‘desenvolvimento’ a qualquer custo, é um apenas entre os possíveis. Como fazem os biólogos
   quando instituem bancos genéticos que permitam um eventual desenvolvimento de novas espécies para a agricultura, da preservação de um ‘banco de saberes e
   sociabilidades’ quem não é tesouro do passado, mas reservatório de possibilidades para o futuro. (M. C. da Cunha, em artigo O aporte da antropologia ao debate
   sobre a desordem da Amazônia: apud NUPAUB/USP,1989)

       Também, Almeida Vaz (1996), pesquisador pela UFRJ, ao se referir sobre a identidade “ribeirinha” sugere que “novos estudos sobre a cultura, religião ou
economia seriam úteis, pois poderíamos conhecer mais sobre esse sistema.” (idem 60), e assim, tentarmos compreender melhor sua configuração.
       É nesta tentativa que, durante o período de minha permanência no município de Humaitá, entre 1994,1995 e 2001 e de visitas feitas aos interiores, observei o
fato da maioria da moradia nativa da população ribeirinha ser construída com paxiúba ou palha, onde, em geral, dorme-se em rede. No perímetro urbano é comum
ver, também, moradas nativas entre casas de alvenaria, feitas de madeira mas, atualmente algumas, com telha “eternit”, e não de palha conforme o costume local. As
casas de palafitas são construídas nas várzeas, também mesmo material regional. Há habitação temporária feita no meio da floresta, construída, às vezes, por
seringueiros e/ou madeireiros, chamada de “Tapiri”. Estes, também, utilizam esteios e palhas de palmeiras seguindo práticas indígenas.

       Outra prática semelhante, por exemplo, aos indígenas Parintintin, com quem convivi alguns meses em aldeia é o jeito das famílias “ribeirinhas” ou
“beiradeiras” de plantar. Esta prática tem uma forte influência cultural na região do Madeira. O mesmo podemos dizer da dieta amazonense, cuja a farinha d’água e o
peixe, ricos em proteínas, são fundamentais em sua alimentação.
       O amazonense da zona rural ribeirinha dedica-se à agricultura em seus roçados, à pesca, ao extrativismo da castanha, da goma não elástica - o látex, do óleo
de copaíba e de andiroba, da coleta de açaí, do tucumã e de outras frutas da época, durante as cheias dos rios. Na época da seca, é comum encontrar as famílias dos
povoados às margens do rio Madeira dedicando-se ao cultivo do milho, da mandioca, da melancia, da banana ou fazendo farinha d’água (feita da mandioca brava),
não só para o consumo próprio, mas também para comercializar na cidade; busca-se lenha, e, quando necessário, palha para fazer ou refazer o telhado da casa. A
pesca, a farinha, a coleta da castanha e o artesanato (no caso, feito pelos indígenas) são produtos que, vendidos na cidade, ajudam na renda familiar. Atualmente, o
açaí tem sido um produto procurado por atravessadores do Sul/Sudeste do Brasil.

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É na hora de vender seus produtos que se percebe o quanto o “ribeirinho” ou “beiradeiro” não é valorizado. É mal pago tanto pelo produto quanto pelo
trabalho que teve para, não só extraí-lo, mas também transportá-lo até a cidade. Muitos dependem de combustível para sua “rabeta” (uma canoa maior com motor
pequeno) ou da passagem para o “recreio” (barco grande), que devido as distâncias podem levar horas ou dias. Uma lata de dezoito litros de castanhas, equivalente a
vinte quilos, é pago pelo atravessador apenas por três reais, e, às vezes, nem tem preço, conforme disse um dos empresários residentes na cidade de Humaitá, mas
que tem representante em Manaus. Numa lata de açaí paga-se cinco reais, conforme acontece no município de Humaitá. Estes produtos quando comprados em outros
lugares, por exemplo, nos mercados, custam, por um quilo ou um pote para tomar, no caso do açaí, o mesmo que foi pago ao ribeirinho ou beiradeiro pela lata de
dezoito litros.
         Enquanto no perímetro urbano concentram-se os poderes políticos, jurídicos e religiosos, é na floresta que está presente toda a matéria-prima da economia
local. Quem conhece bem tais recursos oferecidos pela natureza são os próprios ribeirinhos que têm convivido com exploração por madeireiras, dragas de garimpos
(que, além de poluírem o rio com mercúrio, provocam mudanças no curso fluvial), colonização por sitiantes sulistas que “limpam” o terreno para fazer pasto,
devastando a mata, e mais a implantação de projetos agro-industriais promovidos pelos órgãos governamentais tais como IDAM (anteriormente chamada de
EMATER), INCRA e IBAMA. A pesca predatória é outro problema sério que atinge as famílias que vivem à beira rio.
         Os problemas relacionados à realidade sanitária é outro quesito percebido para quem se aventura a permanecer nas localidades desprevenido de um cantil
d’água e cuia para banhar-se.
         Com o crescimento de cidades amazonenses à beira do Madeira, a água ainda não recebe o necessário tratamento, prejudicando a saúde da população,
através da ingestão direta ou indireta na preparação de alimentos ou pelo uso na higiene pessoal, na agricultura ou no lazer. As doenças mais freqüentes causadas
pela água contaminada são: amebíase, cólera, disenteria, febre tifóide, febre paratifóide, gastrenterite, diarréia infantil, leptospirose. Em muitas localidades alguns
moradores utiliza fossa. Mas, a maioria da população ainda, utiliza os igarapés e até o próprio solo para destino dos dejetos, o qual é determinado numa área no meio
da mata.
         A Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) orienta as famílias ensinando a pingar o Hipoclorito de Sódio na água depois desta ser coada na vasilha, em geral de
barro, ou filtro, umas horas antes de beber e banhar-se com água do “olho d’água”. No entanto, há prática cotidiana das famílias ribeirinhas, o que se pode averiguar
é que ainda não há hábito quanto a esse cuidado de higiene. Onde há poço artesiano (alguns perfurados após campanha política), na maioria das vezes, não funciona
por falta de manutenção ou de óleo para o motor gerador.
         Segundo funcionários-inspetores da FUNASA de Humaitá/AM, a região do Madeira ainda é uma área endêmica de malária. “Sabe-se, também que se tem o
transmissor de dengue, mas ainda não constatou-se nenhum caso. Em 1999 houve 2.580 casos. Com os cuidados, visitas e orientações feitas às famílias, os casos de
malária em 2000, caiu para 1.066”.


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O Império das Águas
       Apesar de todo esse desconforto para quem não está acostumado, o morador beiradeiro dribla altivamente o “banzeiro” (onda provocada pelo barco) que,
embora violento, se desfaz com o movimento da água do rio, equilibrando-se como faz em sua canoa, desafiando jacarés, cobras e piranhas, que em meio a botos e
borboletas convivem nessa sócio-diversidade tropical.
       O camponês amazônida, não só do Madeira, mas também de outros rios amazônicos estudados, mantém seu ritmo conforme a baixa ou a cheia das águas do
rio, o tempo das chuvas, ou seja, a mudança das estações. A produção de subsistência do ribeirinho permanece tanto em terras devolutas, quanto em terras próprias
nos povoados e localidades do município. Além de depender da terra firme para sua subsistência, esse depende das águas, “plantando” sua casa nas beiras dos rios,
aproveitando-se, sabiamente, de seus recursos naturais. Diferentemente, o camponês tradicional das zonas rurais de outras regiões do Brasil, estudado por M. I. P.
Queiroz (1973) que diz “o consumo do sitiante tradicional se desequilibra” (idem 29), tem organizado sua produção sob a ótica capitalista ou influenciada nos negócios
de mercado.

       Outro autor, Antônio Cândido, de Os Parceiros do Rio Bonito (1964), observou esse desequilíbrio, definindo as várias formas, por exemplo, do morador do
campo do Estado de São Paulo, ao lidar com sua produção. M. M. Moura em Os Camponeses (1986) e Os herdeiros da terra (1978), constata os conflitos entre direito
civil e direito costumeiro que rege o casamento e o patrimônio rural. Polanyi em A Grande Transformação (1980) avaliou esse processo indo às origens de nossa
época ao ressaltar as implicações do sistema econômico particular, o sistema de mercado. Chayanov, economista agrícola, em sua obra The theory of Peasant
Economy (1966) explana bem a diferença da lógica camponesa que se choca com a lógica capitalista.

       Como já mencionei mais acima, a configuração da zona rural amazônida, no interior da floresta, é formada geralmente por sítios, chamadas de comunidades,
e, por algumas reservas indígenas. Uma localidade pode variar o número de casas, conforme as cheias. Para quem já esteve em área indígena Parintintin, essas
localidades lembram pequenas “aldeias”. O que não vejo de forma exótica, mas sim, confirmando a “tupinização” presente no modo de vida da população ribeirinha
amazonense. Às vezes, as enchentes são tão fortes que atingem todo o roçado, como ocorreu em 1997, causando mudanças de várias famílias da região.
       Dependendo da quantidade de ataque de carapanãs (pernilongos), esses transmissores de malária, podem ser um grande fator de mudanças, também. Outra
razão da mobilidade são os estudos dos filhos – cujas escolas só têm o primeiro ciclo do ensino fundamental (de 1ª a 4ª séries) com um único professor -, ou
problemas de saúde, fazendo com que a família hospede-se em casa ou no terreno de parentes de outra localidade, no mesmo rio Madeira ou na cidade, onde os
recursos são mais favoráveis.
       O fato do Amazonas ter sido disputado historicamente pelos ibéricos, os ribeirinhos encontram-se numa “situação de fronteira”, que segundo José de Souza
Martins (1997) não é só geográfica, mas também cultural. Vários registros demonstram que os municípios surgidos nos Estados amazônicos são marcados pelo ciclo
da borracha no fim do século XIX e início do XX. Autores como Ferreira de Castro (1930) que, viveu no seringal Paraíso pertencente ao município de Humaitá, retrata
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bem em A Selva os horrores da época do “ouro verde”, e Taussig, em sua obra Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem (1993) também demonstra
como a cultura do terror esteve muito presente em outras áreas da Amazônia.
        Na década de 70 do século passado, sofreu influência das iniciativas do governo militar de integração da Amazônia e de ocupação dos “espaços vazios” com a
abertura da Transamazônica e a colonização por famílias rurais vindas, principalmente, do sul, o que tem causado estranhamentos nos regimes de troca. De um lado,
os nativos ficam na expectativa de melhores recursos, de outro os migrantes buscam adaptar-se à nova terra, ainda desconhecida. Porém, tentam adaptá-la as suas
técnicas, a qual tem causado desgaste e secura do solo, por exemplo, como em lugares do Nordeste e, ultimamente, em Santa Catarina.
        O encontro da sociedade nacional com grupos étnicos minoritários, no contexto sócio-político-histórico, subordina-se, então, a essa “situação de fronteira”,
vista como lugar de “desencontro de temporalidades históricas” (Martins, 1997). Os festejos manifestam-se como material de análise em que se articulam a vida social
e os regimes de troca das populações ribeirinhas como um fato social total, no sentido maussiano. Também, para o aprofundamento de tal investigação perceber a
liminaridade desses eventos é para Turner perceber a inversão da realidade. Por isso, que o diálogo antropológico e sócio-histórico deve sintonizar para haver uma
boa interpretação dos significados das dimensões simbólicas das práticas sociais.
        Assim, diante dos estudos feitos sobre as populações indígenas que muito tem contribuído para a descoberta de nossa plurietnicidade cultural brasileira, faz-se
necessário, também, buscar a compreensão da “tupinização” (Vaz, 1996) daqueles que garantem a vida saudável de nosso maior patrimônio universal e que
preservam a Amazônia, as populações ribeirinhas.


        Bibliografia
CANDIDO, A. Os Parceiros do Rio Bonito. São Paulo, José Olympio, 1964.
CASTRO, Ferreira. A Selva. Lisboa, Guimarães Editores, 1930.
CHAYANOV, A. V. The Theory of Peasant Economy, Illinois, Richard D. Irwin Inc. 1966.
CUNHA, Manuela C. O Aporte da Antropologia ao Debate Sobre a Desordem da Amazônia: Comentários à Exposição de Marianne Schmink. São Paulo,
    USP, 1989.
FURTADO, L.G. Terra e Água: Identidade Camponesa Como Referência da Organização Política Entre os Ribeirinhos do Rio Solimões. In: Amazônia –
    Desenvolvimento, Sóciodiversidade e Qualidade de Vida, Belém, UFPA/ NUMA, 1997.
MARTINS, J. de S. Fronteira. A Degradação do Outro. São Paulo, Hucitec, 1997.
MAUSS, M. Ensaio Sobre a Dádiva. São Paulo, EPU, 1974.
MOURA, M. M. Camponeses. São Paulo, Ática, 1986.
________ Herdeiros da Terra. São Paulo, HUCITEC, 1978.
POLANYI, K. A Grande Transformação: as Origens da Nossa Época. Rio de Janeiro, Campus, 1980.
PORRO, A. O Povo das Águas: Ensaios de Etno-história Amazônica. Rio de Janeiro, Vozes, 1995.
QUEIROZ, M. I. P. O Campesinato Brasileiro. Petrópolis, Vozes/ Ed. USP, 1973.
TAUSSIG, M. Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem. Rio, Paz e Terra, 1993.
________ Cultura do Terror: Espaço da Morte na Amazônia, in: Religião e Sociedade 10, Rio, novembro de 1983, pp.49-64.

                                                                                                                                                                  124
VAZ, F. A. Ribeirinhos da Amazônia: Identidade e Magia na Floresta in: Cultura Vozes, n.2, março-abril/1996, (p. 47-65)




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                                                                                                  UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO)
                                                                                                   CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE

                                                                                                      PRIMEIRA VERSÃO
                                                                                                  ANO II, Nº95 - ABRIL - PORTO VELHO, 2003
                                                                                                                  VOLUME VI

                                                                                                                    ISSN 1517-5421

                                                                                                                      EDITOR
                                                                                                                NILSON SANTOS

                                                                                                                                             125
CONSELHO EDITORIAL
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        EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA

 ISSN 1517-5421                lathé biosa         95




                                                                                   126
Rubem Alves
Psicanalista e professor emérito da Unicamp
       www.rubemalves.com.br
       Artigo publicado na Folha de São Paulo, 05 de maio de 2002, pág. A3
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        “Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos
pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só
tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.
       Vou dizer àquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo.
       Em tempos passados evocava-se o nome de Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo... não sei se bom negócio; o
fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
       A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus
andam sempre em direção opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de
ouro. Voltando as alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os dez mandamentos.
       E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tina outra idéias. Amava a
prostituição. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou... Passando muito tempo, Oséias
perambulava solitário pelo mercado de escravos... E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse:
“Agora você será minha para sempre...”. Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.
       Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos
verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.
       Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o
povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.



                                                                                                                                                             127
O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas como o povo em festas, se
alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os
indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é
silenciosa pelas emoções coletivas.
        Indivíduo que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam
de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo
não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
        Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesse da comunidade. É sobre esse pressuposto que se constrói
o ideal da democracia.
        Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens, e não pelo poder da razão. Quem
decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo
não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático que
eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pela quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
        Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução
cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
        O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.
        O                         povo,                       unido,                        jamais                        será                            vencido!
        Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahma, de
Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho
medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, á
semelhança do que aconteceu na China.
        De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo
escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...” Isso é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.




                                                                                                                                       ISSN 1517 - 5421        128
VITRINE


           DIVULGUE:

                                                                 Agora,

                                                carrega minha alma
           PRIMEIRA VERSÃO
        NA INTERNET
                                                porque

http://www.unir.br/~primeira/index.html                  é melhor a morte

                                                que a vida


  Consulte o site e leia os artigos
            pub lic ados
                                                             CARLOS MOREIRA



                                                                ISSN 1517 - 5421   129

Volume VI

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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO 81 PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa ANO II, Nº81 - janeiro - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times EUCLIDES DA CUNHA E OS SERTÕES New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br ALBERTO LINS CALDAS CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
  • 2.
    Alberto Lins Caldas Professorde Teoria da História – UFRO caldas@unir.br - www.unir.br/~caldas/Alberto EUCLIDES DA CUNHA E OS SERTÕES Quando li Os Sertões de Euclydes da Cunha, aos quinze anos, envolto na deliciosa atmosfera de naftalina, livros velhos e claro-escuros de um conto de Stevenson, numa deliciosa 14ª edição corrigida da livraria Francisco Alves, de 1938, com assinaturas do meu avô e do meu pai, no conforto da poltrona à voltaire no centro da biblioteca, o fiz com horror, com tédio mortal, com um nojo sem limites, com juvenil arrogância. Mas a obrigação intelectual me obrigava. Era impossível viver sem ter lido essa coisa, eu me dizia - querendo me convencer sem conseguir. Parece com este mundo ridículo onde vivo, mas ainda assim deve ser lido, eu completava, seguindo aquela exposição cientificóide, árdua, envelhecida, imprestável. O homem, o autor, o tal do Euclydes da Cunha - Um imbecil, incapaz e reacionário, dizia eu ao meu pai entristecido e calado por tanta incompreensão. Uma besta! Completava eu saindo para andar longe daquela cidadezinha ridícula, minúscula e eternamente tacanha, dizia eu entre dentes, Igual ao Cunha, aquele Euclydes do tal Ser Tão Besta, e ria, como se fosse coisa de se rir. E, estranhamente, estava certo! Todas as idéias de Euclides da Cunha eram, e ainda são, um legítimo horror sem medidas. Avaliadas individualmente ou em rede são terríveis, racistas, cientificistas, monstruosamente ridículas, ingênuas e primárias: rascunhos de um provinciano. Ridículas, principalmente! Sequer se salvam numa bondosa “visão histórica”, essa ficçãozinha de Estado, esquecida que é tudo menos “o real”. Somente intelectuais periféricos, integrados e rasos poderiam se abismar, se interessar ou difundir palhaçadas-como-coisa-séria; somente facistóides de terceira categoria podem ainda levar a bandeira de um Euclides “herói da pátria” ou “gênio da raça”; somente uma busca cega pelo “Brasil”, pela “Nacionalidade”, pela “Raça”, pela “Identidade”, poderia começar a dimensionar, coisa que aqui não nos importa, a “produção, manutenção e difusão” de tais sandices patrióticas em forma de conhecimento-sério, como se isso existisse; somente uma horda ingênua poderia ter como “chefe”, como “ídolo”, como “totem”, uma coisa como Euclides da Cunha e sua obra (excluindo Os Sertões, é coisa que não se discute por sua condição de “documento”). Euclides, por qualquer perspectiva, faz parte de uma teratologia das idéias e, especificamente, de uma teratologia da “história dos intelectuais”, uma específica teratologia do ridículo “pensamento brasileiro”, uma teratologia dos pesadelos, das ninharias daquilo que se luta para estabelecer como Brasil, e que alguns querem esquecer.
  • 3.
    Euclides faz parte,e é impossível dissociá-lo, das “Vidas dos Grandes Brasileiros”, junto com Tiradentes, Pedro I/Pedro II, José Bonifácio, Deodoro da Fonseca, Osório, Duque de Caxias, Rondon, Vargas, Médice ou Fernando Henrique. É e lutou para ser uma “vaca de presépio”, um símbolo, um “legítimo representante de um novo Brasil”. Euclides é isso que se entende como Brasil e que tanto limita, amortece, amortalha, avilta e destrói. E todos os “sites euclidianos” (praticamente todos os artigos ou livros) são mais ou menos uma patriotada sem medida e sem senso de ridículo. Suas associações com o facista-projeto-nacionalista-militar-provinciano; a visão de uma “história brasileira”, de uma “raça brasileira”, do “grande livro nacional”; a geografia, a grandeza da “nossa natureza”, do “nosso homem” é de dar náuseas. E tudo o que cerca Euclides é assim! Não vale a pena! E isso é realmente uma pena! Euclides estranhamente merece mais do que aquilo que lhe fazem passar e ser, apesar dele mesmo ter sido isso mesmo: um idiota de família! um idiota nacional! Mas uma coisa justifica minha paixão, este livro on line reunindo textos sobre o livro, o autor e seu único livro: o estilo, a musicalidade, as vozes, a poiesis, a ficção, a literatura viva d'Os Sertões. E um mistério: como alguém investido e revestido antes durante e depois de um “projeto” e uma vida tão grotescas conseguiu escrever com tamanha língua? (mesmo tentando escrever a partir da palavra foi da língua que nasceu Os Sertões). E a ficção inesperada e não querida d'Os Sertões fura esta barreira insignificante de patriotadas, aparecendo como literatura, integralmente como literatura e literalmente como ficção, jamais como História-Filosofia- Geografia-Geologia-Climatologia-Biologia-Sociologia-Antropologia, ou o que tenha amalgamado com essa ficção fundante, que por sua própria existência separa-se do resto ou o inclui em sua substância, virtualizando tudo com uma força inesquecível. Mas Euclides não é autor, não é senhor dessa perspectiva do livro (essa específica dimensão lingüística, ficcional, devires de um fantasma absolutamente sem pátria), chegou a ela como um substrato, uma maneira secundária de dizer; para ele e aos tolos iguais a ele, o principal é a “História de Canudos”, uma “página da nossa História Militar”, fazendo antes de tudo Ciência, entendendo a maneira de dizer como algo que, no fundo deveria ser perdoado, pois o centro era a verdade científica, o real, a verdadeira “História de uma Guerra”, um cientista, um grande jornalista, que utilizava uma “linguagem literária” somente para ser agradável, pois era dessa maneira que se devia escrever (o literário como adorno, moldura, inflexão de voz em leitura secundarista de poesia). E nada mais estranho e desinteressante do que essa “História de Canudos”, essa “Página Militar”: o horror! o horror! Todo imbecil adora História! E lê dessa maneira destruidora, chã, terrível e nadificante. E Euclides escreveu dessa maneira. Para ele a ficção, a literatura, o estilo, a língua eram coisas que deviam ser desculpadas n'Os Sertões: estavam ali para dizer o principal. Ali naquelas instâncias não estava a razão do seu livro: uma besta babando na gravata! A única coisa que ali dentro se salvava e sempre foi visto como “uma das perspectivas do livro”. Retirado o cascalho, a história-como-algo-fora-do-livro, acontecida daquela-maneira-fora-do-livro, o real-jornalístico, aparece a escritura; o ritmo, as palavras- sem-história; nuas, grávidas, ásperas; dizendo nada sobre nada; fluindo como água sobre extensões de argila; deslizando e explodindo como lava dentro d'água; como camadas de rocha em terremoto; como tubos invisíveis de vento materializadas pelo flanar dos urubus: para nada! dizendo nada! sendo nada! nada apontando! criando corpo! sensação! prazer! toque e gozo em si mesmo e por si mesmo! pronta para o deleite da mais incompleta completude (música): a literatura, sem razão, sem pátria, sem história, sem natureza, sem heróis, sem nomes, sem projeto nacional-socialista. Literatura, ficção e nada mais: eis Os Sertões, o livro: sem autor, sem 3
  • 4.
    história que oexplique, sem Nação que o suporte, sem Língua Nacional que lhe peça nada, sem Território, sem Governo, sem Exército, sem Família, sem Natureza, sem Ciência. Por isso e para isso precisamos ler novamente Os Sertões, retomando a língua dos “Sermões” de Vieira (fora do seu tempo, fora da sua crença, fora das suas esperanças); a língua das “Memórias” de Pedro Nava (fora da sua crença na memória e da sua crença na história): imperadores de uma literatura que ainda não se fez completamente, escondida por projetos historiográficos, abafadas por provincianos de meia pataca, por uma literatura nacional, sempre de terceira categoria por ser nacional, de classe média, escrita por adolescentes criados em apartamentos como ratos de laboratório. Vieira/Euclides/Nava: e se desenha outra literatura, outra perspectiva ficcional, longe, bem longe das águas com açúcar, dos existencialismos, dos pequenos realismos, dos minúsculos lirismos, dos jornalismos, divertimentos e auto-ajuda travestidos em arte. 4
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO 82 PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa ANO II, Nº82 - JANEIRO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times DA METÁFORA FUNCIONAL E ALGUMAS New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” IMPLICAÇÕES deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br CELSO FERRAREZI JUNIOR CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 5
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    Celso Ferrarezi Júnior Diretordo Campus de Guajará-Mirim – UFRO ferrarezi@gm-net.com.br DA METÁFORA FUNCIONAL E ALGUMAS IMPLICAÇÕES Apresentei alhures1, embora de forma pouco sistematizada, o conceito de metáfora funcional. No decorrer desses últimos anos, porém, meus estudos semântico-pragmáticos com a língua portuguesa e a línguas indígenas da Amazônia têm demonstrado a necessidade de uma formulação mais completa dessa concepção teórica e a análise, mesmo que preliminar, de algumas de suas implicações mais diretas nos estudos lingüísticos que levem em conta os aspectos culturais de uma língua, além dos aspectos meramente formais tradicionalmente estudados. Esta é a pretensão deste pequeno ensaio: uma apresentação formal do conceito de metáfora funcional e a demonstração da importância deste conceito nos estudos lingüísticos e antropológicos, o que passamos a ver. Em um artigo sobre metáfora e metonímia2 considerei que uma metáfora é um tipo de construção lingüística que permite a atribuição de um sentido construído dentro de um paradigma cultural definido a outra palavra (ou construção multivocabular) que, literalmente, pertencia a outro paradigma cultural estabelecido. Assim é que quando chamo João de “touro”, estou transferindo, deslocando, reapropriando sentidos de um paradigma cultural (características do animal touro) para outro paradigma cultural (características do animal homem). No corpo de minha obra em Semântica é importante observar que não creio em sentidos pré-definidos para palavras das línguas naturais. Creio que tudo pode ser expresso por tudo, desde que a construção social da expressão assim o permita. Posso identificar qualquer referente usando qualquer palavra desde que haja uma construção social que explicite (ou implicite) esse processo; assim também posso expressar quaisquer sentidos, mesmo os mais complexos, com qualquer palavra ou expressão, desde que esse sentido seja associado à expressão que uso/usarei dentro do processo de criação do cenário3 enunciatório compartilhado entre mim e meu interlocutor. Não existe nenhum sentido a priori, nenhuma regra pré-definida de significação. O que existe - e que nos dá essa sensação de pré-existência dos sentidos – é um conjunto de construções mais comuns em uma comunidade, construções que em uma época definida já tiveram sentidos a elas comumente associados, e que, 1 Celso Ferrarezi Jr.(1997). Nas Águas dos Itenês. Dissertação de Mestrado. Campinas : UNICAMP, e Celso Ferrarezi Jr.(1999). Considerações sobre a Hipótese de Interinfluência entre Pensamento, Cultura e Linguagem . UNIR/GM: CEPLA Working Papers. 2 Celso Ferrarezi Jr.(2000). “Metáfora e Metonímia: uma Análise através dos Paradigmas Semânticos”. In: Discutindo Linguagem com Professores de Português. São Paulo: Terceira Margem. 3 Uso cenário significando o conjunto máximo de situações e informações levadas em conta, consciente e inconscientemente, por um falante ao atribuir um sentido qualquer a uma expressão lingüística.
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    justamente por isso,são mais conhecidas e repetidas pelos falantes. Mas essas construções mais comuns são tão passíveis de modificação quanto quaisquer outras estruturas da língua4. Na construção dessas associações de sentido parece não haver nenhuma regra lingüística de ordem puramente gramatical explícita, ao contrário do que há na construção das formas lingüísticas. Diferentemente, a gramática não é nada mais do que uma construção em segundo plano, tão momentânea quanto o restante do processo de especialização do sentido da expressão. O sentido de uma expressão lingüística qualquer só se especializa em um contexto5 e este, por sua vez, só se especializa em um cenário. E é por essa razão que nenhuma palavra ou expressão tem sentido a priori, mas tem especializado o seu sentido no processo de comunicação entre interlocutores, processo em que são consideradas muito mais informações do que as etimologias e as peculiaridades gramaticais das palavras de uma língua. Aliás, como diz Bakhtin6, é somente quando falantes podem desprezar a consciência dos aspectos gramaticais de uma língua, quando não precisam mais ficar racionalizando suas construções lingüísticas para criar expressões inteligíveis e especializar os sentidos das expressões dos outros, que se pode dizer que realmente falam essa língua. Aceitar essa concepção de que nenhuma construção lingüística tem um sentido a priori representa aceitar implicações muito vastas para a teoria lingüística. Uma das que mais me fascinam é a de que, por esse prisma, toda escritura é um “defunto lingüístico que, para ser entendido, precisa ser ressuscitado”. A escrita fornece palavras e partes de um contexto, mas não fornece cenários7 em que esses contextos sejam especializados e possam criar condições para a especialização dos sentidos das palavras, além do que, em comparação com os recursos comunicativos usados numa interação de fala, os recursos da escrita são pífios. Por isso é muito mais freqüente a falha de comunicação na escrita do que na fala; por isso é, muitas vezes, muito mais fácil entender com exatidão o que se ouve do que aquilo que se lê. Mas, para os fins deste artigo, uma outra implicação importante sobre a especialização de sentidos de palavras e expressões na comunicação é a de que, no bojo do processo de comunicação, toda construção é funcional. E funcional por três razões básicas: a. porque deve funcionar como elemento de comunicação; b. porque, além de ser elemento de comunicação, deve funcionar adequadamente dentro do contexto e do cenário em questão; c. porque, funcionando adequadamente no contexto e no cenário, terá a função de consolidar o processo de compartilhamento de conteúdos entre os interlocutores, sendo elemento ao mesmo tempo constituído e constituinte desses mesmos contexto e cenário. Em razão disso, toda construção lingüística – e toda metáfora, por conseqüência – é funcional. Mas, quando refiro-me a “metáfora funcional” o faço em relação a uma função muito mais específica e bastante relevante na construção e perpetuação de uma cultura, função que não é exercida por palavras ou expressões 4 E a História das línguas tem mostrado que alterações no sentido de estruturas lingüísticas comuns a uma comunidade são muito mais freqüentes do que, por exemplo, profundas alterações na fonologia e na sintaxe. 5 Uso contexto significando o restante do texto, a construção textual e intertextual mais imediata em que se insere uma expressão lingüística, 6 Cf. M. Bakhtin (1999). Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec. 7 Um dos fatores mais relevantes na especialização dos sentidos na fala, e que constituem parte do cenário de enunciação, é o conjunto de traços semânticos complementares fornecidos pela entonação da fala, inexistente na escrita. 7
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    que deixarem deser consideradas como “figuras da realidade”, palavras que só são entendidas pelos falantes como índices de referentes, às quais chamarei aqui, seguindo a tradição gramatical, de literais. Voltemos, deste ponto, à metáfora: como uma construção metafórica implica, portanto, nessa transferência de sentidos, especificamente entre paradigmas, só pode ser definida como tal, de forma única e independente, dentro de cada cultura, uma vez que em cada cultura teremos classificações semânticas naturais diferentes, agrupamentos naturais distintos. Isso é que permite uma construção seja metafórica em uma cultura e, por exemplo, metonímica em outra, já que a metonímia se caracteriza pela transferência de sentidos entre termos de um mesmo paradigma. Cumpre notar, também, que a metáfora, na maioria das línguas, não é obrigatoriamente uma construção lexicalmente complexa, nem obrigatoriamente multivocabular e com tratamento estético de tipo poético como “as lindas pérolas dos olhos de Maria”. Ao contrário, esse perece ser um tipo de mais raro de metáfora, cuja finalidade estética – pode-se considerar assim – sobrepõe-se à função de transferência de informações da metáfora cotidiana. A maioria das metáforas se concretiza nos nomes atribuídos pela língua aos diversos referentes que representam. Trata-se de palavras comuns, de uso diário, de nomes de pessoas ou de alcunhas atribuídos a esses referentes. Nesse momento, portanto, convém falar um pouco sobre nomes, para poder retomar a construção do conceito de metáfora funcional. O estudo dos nomes das línguas tem uma importância muitas vezes desprezada. Se consideramos que as línguas são como que “depósitos” naturais de conhecimento humano - depósitos de cultura – e percebemos que esses depósitos são feitos essencialmente nos nomes dos referentes, entendemos o porque dessa afirmação. Consideremos que toda língua possui um conjunto de palavras nominais – e, muitas vezes, apenas radicais nominais – das quais nenhum falante é capaz de recuperar a motivação8 de sua atribuição como significante de um referente qualquer. São palavras “básicas”, cuja origem quase sempre só pode ser identificada por profundos estudos etimológicos e, mesmo assim, nem sempre sendo possível identificar as atribuições e derivações do sentido. Essas palavras são, em sua maioria, uma “herança” lingüística dos tempos ancestrais, de colonizações, de contatos lingüísticos. Por outro lado, existem nomes que têm o sentido de sua construção facilmente identificado, que atuam de forma mais complexa do que como meros significantes-índices de um referente qualquer. Tomando isso como certo - e creio que não há grande contestação dessa afirmação na academia – podemos, então, grosso-modo, dividir os nomes de uma língua em dois grupos principais: motivados e não motivados9. Os primeiros, constituiriam esse grupo básico de palavras que a teoria lingüística tem chamado de “literais”, terminologia que, como disse, mantenho aqui; o outro grupo, sobre o qual os falantes podem recuperar de alguma forma a motivação de sua atribuição, parece ter duas origens distintas: uma origem cultural complexa e outra meramente lingüística . 8 Uso motivação no sentido saussureano. Uma palavra qualquer da qual o falante não possa recuperar o tipo de recurso utilizado em sua construção será por ele considerada arbitrária, sem motivação aparente para sua construção. 9 Celso Ferrarezi Jr.(1997). Nas Águas dos Itenês. Dissertação de Mestrado. Campinas: UNICAMP. 8
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    As construções cujamotivação é cultural, podem ocorrer a partir das palavras literais, seus sentidos e referentes (João é um “touro”) ou pela motivação direta do nome por características dos referentes (“bumbo”). Esses seriam os nomes motivados ou, em última instância, nomes figurativos, ou seja, baseados em algum tipo de figuratividade cultural. No primeiro caso, temos uma metáfora; no segundo caso uma imitação sonora10, uma onomatopéia. Para os fins deste artigo, interessa-nos mais o primeiro tipo, ao qual voltaremos adiante. O outro tipo é o da atribuição de um nome a partir de uma construção meramente lingüística, portanto, unicamente baseada em aspectos estruturais do sistema da língua. Veja-se a diferença: quando chamo o doce caseiro de amendoim originário do sudeste brasileiro de “pé-de-moleque” tenho uma motivação cultural: o doce tem a aparência de um pé cascudo e escuro, como se acredita ser um pé de moleque; uso palavras literais e construo uma palavra composta de natureza figurativa. Entretanto, quando digo que a pessoa que faz ou provoca muitos casamentos é “casamenteira”, tenho, para esta construção uma motivação meramente lingüística resultante da construção regular portuguesa de cas (radical) + a (vogal temática) + -ment (sufixo) + -eir (sufixo) + -a (desinência do gênero feminino ). Não há, neste último caso, nenhuma transferência de sentidos de uma palavra literal ou referente para outra palavra que designa um outro referente qualquer (até porque apenas uma “consciência de filólogo” permite a identificação detalhada dos constituintes mórficos dessa palavra como a apresentei acima). Aliás, para a maioria dos falantes do português casamenteiro/a é apenas a junção de casament + -eir + -a ou, como em alguns relatos que colhi, apenas de casamenteir + -a. Esse tipo de motivação lingüística também não interessa propriamente à construção desse artigo. Deve-se observar que os nomes, como significantes nocionais utilizados para identificar cada um dos elementos de cada cultura, sem exceção, acabam comportando-se como indicadores das características desses elementos e alteram nossa forma de pensar o referente. As palavras nominais de uma língua atuam na configuração que fazemos de nosso mundo, na visão que temos dos elementos que o constituem. Assim é que um menino muito magro de cabeça grande chamado João, pode ter suas características físicas despercebidas por alguns dos seus colegas de classe enquanto chamado de “João”, mas passa a ter suas idiossincrasias corporais muito mais evidenciadas aos olhos dos demais logo após ser alcunhado por um colega – ou seja renomeado - de “Prego”. Da mesma forma, Maria tem sua gordura muito mais destacada quando recebe o apelido de “Botijão”; os óculos de Joana passam a ter muito mais destaque quando ela é chamada de “Quatro-Olhos” e as pernas tortas de Mário, nunca apareceram tanto como depois que ele ganhou apelido de “Garrincha11 ”. Assim ocorre com a valentia do menino acunhado de “Leão”, com a covardia do outro que é chamado de “Mingau”, com a beleza (ou feiúra, em uma metáfora irônica ) da “Bonequinha”, e daí para adiante. O mero mencionar dessas alcunhas, que são “renomes”, altera a visão que os falantes têm dos referentes a elas associados. As alcunhas das cidades, das instituições, de certas práticas, enfim, todas elas têm o mesmo efeito estruturante: por atuarem como nomes, alteram a percepção que o falante/ouvinte tem do referente. 10 Que também tem influência cultural, uma vez que os sons prototípicos atribuídos aos elementos naturais variam da cultura para cultura e são diferentemente materializados nas respectivas línguas . 11 Famoso jogador de futebol brasileiro conhecido pela habilidade em driblar e pelas pernas tortas . 9
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    E aí resideum fator de grande importância na relação entre língua e cultura: os nomes atuam como depósitos de conhecimento, que podem ser mais ou menos reconhecidos pelos falantes, mas definitivamente como depósitos. E como tal são utilizados pelos falantes, que recorrem a seu conteúdo informativo o tempo todo. Uma das provas mais evidentes que temos disso é que o falante recorrerá a uma renomeação do referente – e geralmente através de uma metáfora - quando ocorrem dois fatos concomitantemente: a. o falante sentir necessidade de que o nome traga em seu sentido alguma informação relevante para uma construção cultural desejada e específica e b. esse mesmo falante não mais conseguir identificar nenhuma informatividade no nome usado como significante desse referente em questão – agora, por isso mesmo , tido como literal – além da indicação direta do referente. É esta a razão que leva um grupo de jovens a atribuir as alcunhas aos membros da turma, uma vez que , João ,Maria, Joana, etc... não conseguem mais do que meras indicações diretas dos seus referentes, ao passo que na hierarquização do grupo social se faz necessária uma discriminação das características que justificam as posições ocupadas. Se eu posso fazer chacotas com você e porque você é “Mindinho”, mas nunca vou mexer com o seu brio se você é o “Destruidor” (a menos que se trate de uma alcunha irônica...). Por isso, também na organização social sentimos necessidade de atribuir nomes como professor, aluno, prefeito, presidente, marginal, mercenário, etc..: porque as informações contidas nos antropônimos nem sempre12 denotam as informações da organização social e sobre os referentes como as desejamos evidenciar. Também por essa razão algumas culturas, principalmente as orientais e as indígenas tradicionais, têm um apreço muito maior pela significação dos nomes do que as culturas capitalistas ocidentais. Os nomes cheios de significados dos orientais e dos indígenas expressam aspirações dos que nomeiam em relação aos nomeados, planos, desejos pessoais, bênçãos e maldições, entre tantas outras marcações culturais. A troca de nomes, bastante comum em algumas nações13, é uma evidência bastante clara dessa função do nome na organização social, na marcação de funções sociais, na marcação de aspectos idiossincráticos, enfim e portanto, na construção cultural. Os nomes, então, quando construídos metaforicamente, passam de mero “índice de referência” a depósitos de informações consideradas relevantes, esclarecedoras, dignas de registro em uma comunidade. E essas construções metafóricas, como dissemos, não obrigatoriamente têm uma grande complexidade vocabular ou gramatical, ou se obrigam a estruturas esteticamente trabalhadas: pode tratar-se de uma simples palavra, de uma palavra composta sem rebusques estéticos, ou seja, pode tratar-se - e geralmente assim o é - de nomes comuns de uso cotidiano. Retomemos, então, o tipo de construção de nomes que considero mais importante nesse artigo: a construção figurativa que se origina de uma metáfora, e isso com base em alguns exemplos úteis à identificação que pretendo aqui: 12 Na verdade, nas chamadas modernas culturas ocidentais, essa informatividade do antropônimo é quase nula, preferindo-se a sonoridade do nome a sua significação. 13 Como, por exemplo, entre os judeus, como evidenciando na Bíblia (Abrão para Abraão, Jacó para Israel, Simão para Pedro, Saulo para Paulo, entre tantos outros citados nas Escrituras). 10
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    Quando chamo umaárvore Citrus aurantium, que produz laranjas, de “laranjeira”, construo um nome a partir de uma motivação meramente lingüística e não ofereço nenhuma informação cultural adicional além daquela que me permite a utilização da terminação “eira/eiro” juntada a um nome qualquer de fruta (como em limoeiro, goiabeira, melancieira, mamoeiro, figueira, jambeiro, etc...) para indicar a árvore que produz essa mesma fruta . É claro que essa se constitui em informação cultural, mas de um tipo muito mais restrito do que, por exemplo a fornecida pelo caboclo que chama a laranjeira de “pé-de-caba14”. Ao chamar a árvore de “laranjeira”, repasso uma informação que é, do ponto de vista da lógica formal da língua, como que inerente ao referente. É quase que como que uma construção óbvia, que pode informar-me, por exemplo, de que espécie é uma muda que ainda não produz frutos. Isso tem utilidade na língua e na cultura, mas a motivação da construção não é stricto sensu um construto cultural e o nome atua literalmente no vocabulário da língua. Mas, ao usar “pé-de-caba”, registro uma informação muito mais complexa do que com o primeiro nome, uma informação que não é inerente ao referente, cuja motivação não pode ser atribuída ao sistema da língua e que se destingue da primeira por várias razões: a. como sua construção não é óbvia no sistema, sua compreensão demanda um processo interpretativo muito mais complexo; b. as informações contidas nesse nome têm implicações funcionais mais amplas do que a mera identificação da árvore da laranja; c. essa informação se constitui numa construção cultural funcional – agora no sentido que atribuo à metáfora funcional -, uma espécie de alerta aos incautos de que é sempre de bom alvitre colher laranjas só depois de conferir se a árvore tem uma “casa de caba”; d. essa construção é muito mais regionalizada, muito mais específica de uma comunidade do que a palavra “laranjeira”. Da mesma forma encontramos no Brasil, para a laranjeir , nomes como “pé-de-chá” e “mata-febre”, cujas indicações e informações terapêuticas são evidentemente funcionais, ou seja, constituem-se cada uma como uma metáfora funcional: a palavra metaforicamente construída apresenta uma clara função de depósito cultural, uma função de registro, para comunidade que a usa, de algum tipo de construção resultante das experiências vivenciais dessa mesma comunidade que atribuiu o nome ao referente. Entre as plantas de uso terapêutico ou culinário, essas metáforas funcionais são muito comuns, por razões facilmente compreensíveis. Vejamos alguns exemplos no quadro abaixo: Nome literal (diferente de região para região) Nome científico Outros nomes que se constituem com metáforas funcionais no Brasil Manjericão Ocimum gratissimum remédio-de-vaqueiro, erva-de-cozinheiro 14 Caba é uma denominação comum norte-brasileira para vespa ou maribondo. 11
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    Mastruz Senebiera pinnatifida erva-santa-maria, erva-vomigueira, Boldo Pneumos boldus erva-das-sete-dores Salsa Petroselinum sativum cheiro-verde, erva-de-tempero Sasifraga Parietaria officinalis quebra-pedra, rebenta-pedra Esses cinco exemplos são suficientes para demonstrar como nomes construídos como metáforas funcionais são informativos dentro do ambiente cultural, como são muito mais do que meros índices de identificação de referentes. É interessante notar, porém que, muitas vezes, um nome que funciona como literal em nossa cultura, era uma metáfora funcional na cultura que o originou. Este é o caso da “salsa”. Do latim Salsa ou Herba salsa, cujo sentido pode ser reconstruído como “erva salgada” ou “erva de cozinhar comida salgada”, o que representa claramente a utilização cultural da erva naquela comunidade. O mesmo se dá no mapuche boldo, que gerou o português “boldo” e no latim vulgar mastrutio, que gerou o português “mastruz” entre outros tantos exemplos. Em um artigo sobre a hipótese de interinfluência entre pensamento cultura e linguagem15, cito um exemplo que colhi da língua moré e que considero bastante relevante neste contexto, porque demonstra uma das mais interessantes implicações do conceito de metáfora funcional, o qual peço permissão ao leitor para transcrever aqui: “Um índio moré aprende, em sua cultura, que a árvore de tipo X tem como nome [kx aw kxa:pari:], “o pacu16 come”. Este nome, na verdade uma metáfora funcional, leva a criança moré desde a primeira vez em que o ouve, a formular uma questão inicial acerca do objeto, que poderíamos definir como sendo “por que esse objeto leva esse nome?” e, a partir dessa questão, a entronizar um conhecimento prático bastante importante para sua nação, porque referente à sobrevivência, que é a busca e a consecução do alimento. Assim se o pacu se alimenta dos frutos desse tipo de árvore, e se os morés alimentam-se de pacus, a presença de tal planta na beira de um lago ou rio pode indicar a presença de pacus, e isso está implícito na metáfora que nomeia a própria árvore. Entretanto, a língua moré tem sido substituída pelo espanhol nos últimos cem anos, e essa mesma árvore passou a ser conhecida pelo morés como “canduru”, o nome espanhol. O fato é que os morés não perderam o conhecimento de que os pacus se alimentam dos frutos do canduru, porque a prática cotidiana da pesca induz à necessidade desse tipo de conhecimento, mas tal informação perdeu seu registro lingüístico e, agora, são necessários outros meios que conduzam à indagação inicial que levava ao conhecimento da serventia do objeto determinado.”(Op.cit., pp. 3-4) Como se pode ver no exemplo, sempre que um nome atribuído por uma construção metafórica funcional típica de uma cultura é substituído por um empréstimo lingüístico ou, no decorrer da existência da língua, perde sua identificação metafórica, informações da construção cultural da comunidade o que utilizava 15 Celso Ferrarezi Jr.(1999). Considerações sobre a Hipótese da Interinfluência entre Pensamento, Cultura e Linguagem . UNIR/GM: Cepla Working Papers. 16 Milossoma duriventris: peixe comum na Amazônia, de carne muito apreciada pelos índios. 12
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    são invariavelmente perdidas.Este seria o processo de transposição de uma metáfora funcional ao estágio de palavra literal. E, por conseqüência, um processo muito influente na perda de identidade, no primeiro caso, ou de evolução da identidade cultural de uma mesma comunidade, no segundo caso. Assim é que grande parte dos brasileiros que usam computadores não sabe porque aquele aparelhinho, geralmente branco e com um longo fio, em que colocamos a mão e com o qual movimentamos o cursor e procedemos a seleções na tela do monitor, é chamado mouse. Primeiro, porque muitos desses brasileiros não conhecem o significado da palavra inglesa mouse; segundo, porque certamente, a relação metafórica existente no nome inglês mouse seria muito mais facilmente identificada se, como no caso do espanhol ratón ou do francês souris, o nome do aparelho tivesse sido traduzido para o português como “rato”. Da mesma forma que em mouse, como utilizado na informática no Brasil, a quase totalidade de empréstimos nominais apresenta um grau muito baixo - às vezes realmente nulo - de informatividade em relação aos referentes. Teríamos aí, por se constituírem esses empréstimos como palavras literais, uma relação de arbitrariedade verdadeiramente saussuriana, ao contrário do que acontece com os nomes construídos como metáforas funcionais. Uma implicação decorrente desta é também evidenciada no complemento ao excerto que transcrevi acima: “É por essa razão que qualquer empréstimo lingüístico constitui-se, a despeito da aparência de “ganho”, em uma perda incalculável para a cultura e a identidade de uma comunidade qualquer.”(idem, p. 4) É bom observar que, no contexto dessa assertiva, quando falo de “qualquer empréstimo”, refiro-me a qualquer empréstimo que venha em substituição de um nome ou palavra da língua. Não me refiro aqui aos empréstimos nominais que denominam objetos culturais antes desconhecidos por uma comunidade, como, por exemplo, as palavras “cassete” e “abajur” adotadas pelo português, entre tantas outras. Mas também não descarto a possibilidade de que essas palavras poderiam ser, assim como vi em algumas nações indígenas que conheci, construídas ao sabor da cultura local. Lembro-me, meio invejoso, da “casinha-de-cantar-e-dançar”17, nome dado aos morés para televisão, e do “corre-rápido-pela terra”, nome dado a carros e motocicletas por essa mesma nação. As metáforas funcionais presentes nesses nomes que venho descrevendo são uma marca identitária da comunidade. Elas revelam a organização do mundo, a visão que a comunidade tem de seu mundo, seu conjunto de valores morais e éticos, enfim, um bastante complexo conjunto de traços culturais que não são representados de outra forma nas estruturas da língua a não ser nos nomes. A perda dessa identidade tem valor inestimável na historia e na construção da auto- imagem étnica. Ou seja, uma nação cuja língua perdeu grande parte do conteúdo de suas metáforas funcionais, perdeu, também, grande parte de sua identidade. Esta é, provavelmente uma das causas de a dominação imperialista, em todos os tempos, ser sempre acompanhada da dominação lingüística. Finalmente, cumpre observar que, juntamente com a identidade étnica e cultural, perdem-se os valores primordiais de uma cultura. As comunidades entram em patente decadência de valores e a auto-estima da comunidade é muito afetada. Isso se dá porque com a destruição da nomenclatura que revela a compreensão do mundo, destrói-se propriamente parte dessa compreensão. Torna-se necessário, então, acatar uma nova visão de mundo que, na maioria das vezes, se choca com 17 Reconstruções de sentido aproximadas dos nomes morés. 13
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    as concepções própriasda comunidade, desenvolvidas ao longo de séculos ou milênios de construção cultural. A comunidade perde suas referências, tem seus alicerces demolidos e, por isso, entra em estado depressivo. O conceito de metáfora funcional, como apresentado aqui, propicia um grande número de implicações nos estudos lingüísticos. Apresentei alguns deles, como a construção funcional de informações culturais e seu registro na língua, mas gostaria de ressaltar três dos perigos da destruição dessas metáforas em uma comunidade lingüística, conforme apresentei aqui: a perda de informações culturais, a perda de identidade cultural e a perda de valores primordiais da comunidade Esses perigos devem ser motivo de profunda meditação nos trabalhos que têm a oportunidade de monitorar os processos de contato cultural, principalmente entre culturas de comunidades mais frágeis (como a dos indígenas amazônicos) com a cultura de comunidades mais fortes e agressivas (como a cultura capitalista ocidental). Isto porque penso ser através da preservação dessas metáforas – entre tantos outros fatores culturais, é claro – que se conseguirá preservar o patrimônio cultural desses povos – ou, pelo menos, parte dele -, patrimônios da humanidade, patrimônios inavaliáveis. 14
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 83 ANO II, Nº83 - JANEIRO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Primeira Versão destina-se a divulgar ensaios breves em todas as Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: A LITERATURA BRASILEIRA nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 ALBERTO LINS CALDAS CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 15
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    Alberto Lins Caldas Professor de Teoria da História – UFRO caldas@unir.br - www.unir.br/~caldas/Alberto A LITERATURA BRASILEIRA A NATUREZA, A HISTÓRIA, A TEORIA E O POVO incipit A ciência/filosofia têm compreendido o mundo: 1) Como se houvesse um deus morto como suporte invisível, como garantia epistemológica, em última instância (a anterioridade, a não presença, e o depois do “humano”): um em-si de pura materialidade organizada, com leis, em processo estrutural: um olho, uma vontade e uma impossibilidade de ver e sentir depois de tudo; 2) Como cosmo, natureza, exterioridade regida por uma lógica interna, esquecimento que essa lógica é a do mundo que a cria enquanto instrumento, avaliação, vivência e poder; 3) Há uma perspectiva mercantil em como a ciência vê o mundo: não somente enquanto objeto, mas mercadoria: o “pequeno mundo” burguês se transforma num cosmo completo; 4) O “humano” como criador da própria sensibilidade, percepção, idéias, relações, interioridade e exterioridade; 5) Uma historicização radical jamais foi levada em consideração porque assim se desmontaria toda a estrutura de suporte da própria historicização; 6) A prática como fundamento do teórico, mas não o teórico, o prático e os mundos a partir deles como algo absolutamente vindos de um horizonte estritamente social, imaginário, virtual; 7) O “mundo ativo” e o “mundo subjetivo” como dimensões vivas, não de um real-como-ele-é, mas fundamentos da virtualidade; 8) A “atividade humana” não cria o mundo, mas faz parte não somente de determinado momento explicativo como na sua própria essência é virtualidade em processo: programa social em movimento; 9) A questão da verdade liga-se aos quadrantes sociais que a legitimam, provam e a fazem circular, e não a uma possível prova teórica ou prática; 10) Não há um mundo real, objetivo, prático e um mundo fictício, mítico, religioso: não há o real e o imaginário: no viver como o vivemos o real só é real porque é essencialmente imaginário, mítico, religioso, ideológico, ficcional: somente assim o reconhecemos, o trabalhamos, o modificamos; 11) Para nós é o trabalho quem cria a virtualidade;
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    12) A universalidadee a naturalização são estratégias de um real que não se aceita imaginário, não se vê como mítico, não se concebe como ficcional: esse não-se-vê estratégico funda suas filosofias, ciências e políticas como suporte ideológico da própria virtualidade; 13) Os componentes do real, seus fundamentos, articulações, visibilidades e crenças não estão-aí: estão-aí simplesmente porque é assim que esta tribo vive e faz o viver funcionar; 14) A história, a natureza, a nação, o povo, a raça, a língua, o corpo, o território, a tradição são componentes de uma rede de programas estratégicos que fazem funcionar o conjunto social como um todo. A CHAMADA LITERATURA BRASILEIRA - Aquilo que poderia ser a “cultura brasileira” seria, no mínimo, um nó desfeito. Não “cultura indígena”, “cultura européia”, “cultura africana”, “cultura asiática”. Aquilo que se chama “brasileira” seria a dissolução, o fim, a descrença, o afastamento dessas “culturas”, “identidades”, “crenças”: deveria ser um afastamento objetivo mas tem sido somente uma aproximação ingênua: teria tudo para ter se iniciado do caos, e ainda não saiu do seu galinheiro caseiro; - A “nossa literatura” não poderia ser aquela que se fez e se faz, sempre integrada, sempre estatal, sempre mimética, sempre aceitável, sempre europeizante ou estadunidense, de um modo ou de outro sempre cega e surda aos movimentos mais profundos e complexos da virtualidade e dos programas de determinado território (como se o território da literatura fosse um Território) proclamado como Brasil, ou das virtualidades em conflito, em devires; - Uma “literatura brasileira” deveria ter outra função: dizer a-partir, depois dos nós, podendo dizer não antes das dissoluções nem dizendo para aquilo que já se dissolveu, mas a-partir da dissolução, a-partir da não-identidade, do não-povo, da não-nação, da não-língua, da não-natureza, da não-história: por isso não há ainda uma “literatura brasileira” coerente com seus teóricos, com a historiografia, com a reflexão literária em geral, com seus ideólogos; - Esta reflexão “leva em conta” algumas naturalizações historiográficas como “cultura”, “negro”, “indígena”, “branco”, “cristão”, “europeu”, “português”, “migrante”: se estas “histórias do Brasil” fossem realmente levadas em conta jamais poderia haver uma literatura como a que tem sido feita: sempre antes das dissoluções que eles mesmos pregam. Fazem, ainda, uma literatura artesanal da identidade, da cor, da terra, do lugar, da classe, do povo, da elite, das tradições, das influencias, dos folclores, dos galinheiros; Machado de Assis, José de Alencar, Euclides da Cunha, Gilberto Freire, Sergio Buarque de Holanda, Darci Ribeiro: corretos, fundar-se-ia outra literatura: criou- se uma “literatura colonizada”, como se antes dos historiográficos nós desfeitos, antes da entrega, antes do abandono: uma literatura alienada no seu mais íntimo fundamento: uma literatura para se tornar língua, território, povo, gramática, poder; - A ficção não rompendo com certa “tradição retórica” (uma lógica e um a metodologia) que a liga aos regionalismos, a Gramática, as tradições, a língua, não consegue se tornar literatura; 17
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    - A “literaturabrasileira” não precisa mais “construir a nação”, “remodelar o Estado”, ou mesmo “ajudar a criar o povo”: então porque continua tão provinciana, tão “naturalista”, tão regional e suburbana? - No “mundo ficcional” a “medida de todas as coisas” é o inverossímil, o absurdo, uma forma de relativismo que levanta o ser do real na medida do seu se fazer: não é uma “evasão do mundo” mas um retorno por dentro, antes e depois, onde o sagrado se interpenetra com o mistério criando um holograma: não uma alucinação ou uma miragem: mas o ser no seu sempre renovado aparecer; - Articular a singularidade ao coletivo, relativisando as realidades e seus fluxos: como se fosse criado um conceito, uma abstração: ficção não é o dentro da realidade, mas a realidade ludicamente no seu se fazendo; - A literatura cria um mundo mais vivo, mais rico, mais movimentado porque não está saturado, imobilizado pela alma e pelo corpo da mercadoria. - Não há “língua culta”, “língua do povo”, “língua superior”, “língua literária”, “língua filosófica”, “língua técnica”, “língua primitiva”, “língua dominante”: cada um com seu problema imaginário, com seus obstáculos: a literatura, a revolta, o grito, a fome, a indignação, a magia, o devaneio estão pouco se importando com esses limites ridículos: a literatura não se faz numa língua, mas na linguagem. Essa “história da literatura” é resultado de nacionalismos ou imperialismos delirantes: a literatura é o que flui entre as línguas, apesar das línguas: e se faz independente de todos os ridículos imaginários que tentam impedi-la de se realizar. - A aparência deve aparecer na literatura apenas metonimicamente: por dentro, sem aparecer (seu aparecer é no cotidiano: máscaras), vista através dos reflexos, dos traços: como quem vê passar os que vão para uma festa, com suas roupas próprias, com sorrisos e esperanças, mas não vê o lugar da festa, não esperiencia a festa. - A literatura enquanto magia rearticula a “diferença” entre “arte superior” e “arte inferior”, “arte de elite” e “arte popular”, “arte sagrada” e “arte mercantil”, “arte interessada” e “arte desinteressada”. Mas exige que a liberdade como fundamento se encontre com a liberdade como formação: que a liberdade da obra se encontre plenamente com a liberdade do leitor em aventura. A liberdade da obra, sendo muito maior que o prazer do simples consumir, ficará inconsumida, gasta, perdida se não encontrar o consumidor livre (pervertido) que a exige para bem mais do que uma deglutição passageira, para um pão-pão queijo-queijo. 18
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 84 ANO II, Nº84 - JANEIRO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br A EDUCAÇÃO QUE ACREDITO CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO MARIA DO SOCORRO NUNES OLIVEIRA TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 19
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    Maria do SocorroNunes Oliveira UFRO – Campus Guajará-Mirim A EDUCAÇÃO QUE ACREDITO Sobre as teorias Libertadora e Crítico Social dos Conteúdos Já há algum tempo venho me questionando sobre os objetivos últimos da teoria de Paulo Freire (pedagogia libertadora) e da teoria de Dermeval Saviani e José Carlos Libâneo (pedagogia crítico social dos conteúdos) e refletindo sobre as críticas feitas por estudiosos às duas teorias.Como sou a favor do método dialógico e da valorização da cultura do aluno proposto por Freire, mas também acredito na força cultural dos conteúdos historicamente acumulados pela humanidade, como propostos pelos conteudistas, cheguei à conclusão de que as duas teorias se complementam, já que pelo menos em alguns aspectos, elas apontam para o mesmo fim que é a transformação da sociedade. Senão vejamos: A teoria Freireana idealiza uma forma de educação na qual o educando, apropriando-se do conhecimento, passa a ser sujeito de sua história; essa apropriação dá-se a partir do universo vocabular do aluno através da intercomunicação entre os sujeitos ativamente envolvidos no processo, intermediados pelo mundo cognoscível, com vistas à transformação da sociedade. Já na análise dos conteudistas, a forma ideal de educação é priorizar o ensino dos conteúdos sistematizados, universais e que estão disponíveis para apropriação não apenas por uma classe (dominante), mas por todos os grupos sociais que aspirem à mudança estrutural da sociedade. Sendo assim, não é válida a aquisição de apenas o conhecimento do universo do aluno porque, dessa forma, a escola estaria privando os alunos de classe social baixa de se apropriarem do restante dos saberes considerados patrimônio da humanidade e, conseqüentemente, condenando-os a “aceitarem” sua condição de pobres, sem chances de ascensão social. Apesar de, em Freire, o educando construir o seu conhecimento, não ser ensinado por ninguém, e em Saviani ele apropriar-se dos conhecimentos, mediados pelo professor, há que se considerar o momento histórico em que ambas as teorias foram elaboradas. Não é pretensão minha fazer análise filosófica de uma ou de outra teoria. O que quero salientar é que, no limiar da teoria Freireana (época em que os movimentos de educação popular atingiram seu apogeu), a palavra que mais se ouvia era “mudança”, dado o momento histórico por qual passava o país. Nesse contexto, foi adiada para depois da revolução a transformação da escola formal. A revolução não aconteceu. E, passados os anos de ditadura, outros teóricos (dentre eles Saviani e Libâneo) teorizaram no que acreditavam ser o fio da meada para a transformação da escola e redimensionamento da sociedade: os conteúdos. PROVOCANDO O DEBATE
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    Pedagogicamente falando, asduas teorias apresentam falhas. E é aí que está o ponto chave da questão: onde uma falha, a outra complementa e vice – versa. Se Paulo Freire teorizou sobre educação, mostrando a importância de se fazer uma leitura do mundo e apontando a possibilidade de se fazer a leitura da palavra a partir do universo vocabular do aluno, Saviani e Libâneo praticamente excluíram de sua teoria o estudo da cultura do aluno, priorizando apenas os conteúdos universais. Freire teorizou para a educação de adultos, enquanto os conteudistas priorizaram a educação formal. Mas, ao analisarmos os dois enfoques, vemos que , se aplicarmos a teoria Freireana na escola trabalhando o universo vocabular do aluno de classe social subordinada e, após essa compreensão, ampliarmos seus conhecimentos com informações necessárias à sua vida, já que em nossa sociedade capitalista sobrevivemos de empregos que exigem (para seu ingresso) que sejam feitos concursos nos quais são cobrados os conhecimentos sistematizados, assim, esse educando poderá lutar por melhores condições de vida, já que lhe foram garantidas as informações necessárias e as habilidades requeridas para sua sobrevivência. Por outro lado, Saviani e Libâneo ao proporem uma prática educacional centrada nos conteúdos, repassados indistintamente para todas as classes sociais, “esquecem” da influência que têm os conhecimentos prévios dos alunos para a apropriação correta desses mesmos conteúdos visando à transformação da sociedade. Nesse sentido, à luz da teoria conteudista, alunos que não dispõem de recursos para embasar os conhecimentos repassados pela escola e que não ultrapassaram o nível de consciência ingênua, podem igualar-se em nível de conhecimento aos que, não só têm esses recursos, como foram estimulados desde muito pequenos a utilizá-los.A diferença entre os dois enfoques é que, em Freire, o aluno deve, antes de tudo, compreender o seu mundo, transpor as barreiras da falta de estimulação e buscar os conhecimentos, enquanto que nos conteudistas esse conhecimento sistematizado é o ponto de partida para a reestruturação da sociedade, independentemente de se fazer uma análise das condições sociais por quais passam esse aluno. Se, na teoria Freireana, o educando deixou de ser objeto, depósito de informações e passou a analisar sua realidade, seus conhecimentos e discutir com seus pares a possibilidade de mudança, nesse ponto, a teorização libertadora dá um grande passo para promover a reorganização das classes sociais. Por outro lado, se os conteudistas propõem que os alunos das classes subordinadas tenham acesso ao saber sistematizado, de forma crítica e contextualizada, transformando-se em seres que pensam e agem para transformar a sociedade, também dão uma importante contribuição para o redimensionamento das classes sociais vigentes, isto é, ambas reconhecem a relação entre conhecimento e poder. A TEORIA NA QUAL ACREDITO Se retirarmos o “calcanhar-de-aquiles” da teoria Freireana que é, a princípio, a não valorização dos conhecimentos sistematizados até que o aluno tome consciência de sua posição como sujeito histórico e produtor de seu próprio conhecimento, o que, na minha opinião, poderia ocorrer simultaneamente (conscientização e conhecimento sistematizado) e retirarmos também o da teoria conteudista que é a não valorização do universo cultural do aluno, teríamos o seguinte: uma teoria 21
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    que valoriza osconhecimentos universais, mas não despreza o universo do aluno; que valoriza o ato dialógico do educar, reconhece as disparidades de saberes trazidos por crianças de diferentes classes sociais e que se empenha em suprir as lacunas do aprendizado de alunos de classe menos favorecida; que não centraliza apenas na figura do professor a responsabilidade de conduzir o processo educativo (Pode ser que este professor tenha tido uma formação acadêmica falha e que não tenha condições intelectuais de mediar a contento o processo dentro da teoria escolhida); uma teoria que forneça instrumental para a aquisição dos conteúdos, que valorize o ser enquanto sujeito ativo do conhecimento e analise as estruturas da sociedade através das relações travadas entre as classes. Enfim, a educação em que eu acredito. Concluindo, acho injustas algumas das críticas feitas pelos conteudistas à teoria Freireana, assim como não concordo com os que dizem que a teoria crítico social dos conteúdos se aproxima da teoria tradicional, porque, se observarmos o enfoque dado aos conteúdos numa e na outra teoria, perceberemos que os fins da educação na tradicional são a manutenção das classes sociais,já que forma alunos acríticos, enquanto que na crítico social dos conteúdos é justamente o contrário, visando-se através da formação de alunos críticos, a reconstrução social. BIBLIOGRAFIA ARANHA, Maria Lúcia de Arruda & FREIRE, Paulo. in: História da Educação. São Paulo: Moderna, 1998. p. 206-210. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970. ______. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da Escola Pública: a Pedagogia Crítico Social dos Conteúdos. São Paulo: Loyola. SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. São Paulo: Cortez/Autores Associados.1983. SILVA, Tomaz Tadeu. Documentos de Identidade: uma Introdução às Teorias do Currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. 22
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 85 ANO II, Nº85 - FEVEREIRO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia APONTAMENTOS SOBRE LITERATURA Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: ALBERTO LINS CALDAS nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 23
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    Alberto Lins Caldas Professor de Teoria da História – UFRO caldas@unir.br - www.unir.br/~caldas/Alberto APONTAMENTOS SOBRE LITERATURA “A literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela.” Lima Barreto 1 - As tradicionais inversões (“a realidade é sonho” / o “mundo das idéias” como arquétipo / deuses criando mundo e homem / deuses anteriores aos homens / “mundos paralelos” / a “existência precede a essência” / a matéria e seu movimento cria o universo / energia e matéria antecedendo o cosmos / mythos sendo substituindo por logos) revelam o funcionamento da virtualidade em sua dimensão de holograma social reificado, projeção do entre-nós para um além-de-nós; e o próprio “poder” desse holograma se personaliza num poder estranho (um algo-aí). O criado por nós, como fluxo vivo do entre-nós, escapa se tornando realidade (sem essa operação para-nós não haveria mundo), natureza, divindade, mundo dos sonhos, mundo do além, misterium tremendum. Linguagem esquecida que é linguagem; práxis esquecida que é poíésis; ficção esquecida que é ficção; entre-nós vivenciado como além-de-nós, voltando como um para-nós; interpretação desgarrada como Religião, Ciência, Filosofia, técnica, verdade (o esquecimento da interpretação); a necessária duplicação escapando ao ser como interpretação e resultado da poíésis da práxis (os binarismos primários subjetivismo-objetivismo / realismo-idealismo esquecidos que são interpretação, projetos, teoria, e não o-real-mesmo). O alheiamento fundamental acontece independentemente do “modo de produção” (conceito esquecido que é conceito): é “condição de existência”: único modo desse “ser”, dessa “existência”: a linguagem (práxis-poíésis: real-imaginário) reificada como entes, cosmo, comunidade é categoria eixo da cultura: aparecendo como exterioridade, a linguagem funda aqueles tipos do “viver humano”. Ao criar a virtualidade como princípio e resultante dessa alienação básica, podemos agir numa exterioridade não somente humana ou humanizada mas numa exterioridade controlada (reconhecível enquanto código, signo, conhecimento, cartografia), onde a possibilidade de sobrevivência aumenta fundada numa rede viva de relações materializadas enquanto realidade. E esta exterioridade não vem do mundo para o ser-social, mas se desdobra virtualmente da comunidade (in-visível), e esse se desdobrar (sempre e necessariamente reificado) é a realidade, a exterioridade, a natureza: que voltará como exterioridade em-si, como conhecimento sobre a exterioridade: conhecimento duplamente alienado: desconhece que seu objeto é fruto do movimento comunitário e que ele mesmo, com seus inescapáveis paradigmas (universalização/naturalização), provém não somente da força do próprio desdobramento que cria o real, mas da força de ocultamento desse desdobramento (somente a linguagem poderia se materializar e se flexibilizar a ponto de desaparecer deixando uma exterioridade-em-si). 24
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    2 - Omundo e os conhecimentos sobre o mundo se fundam num mesmo movimento criativo e alienado ao mesmo tempo (sempre útil, mas esquecido, e se esquecendo, torna-se um dos próprios fundamentos do existir, sua “substância”). A criação e expansão da Ciência não somente “corresponde” ao crescimento do capitalismo mas fazem os dois parte de um mesmo processo-projeto reificado: esquecimentos essenciais tanto para a “vida social” quanto para a verdade do conhecimento (que mesmo mudando existe como uma verdade, um espelho do mundo, um reflexo do ser-aí). O real é um conjunto de esquecimentos que possibilitam o “mundo do trabalho”, as redes vivas de signos que tornam o caos uma cartografia; a Ciência é um conjunto sistemático de esquecimentos que criam, no capitalismo, tanto a materialidade industrial quanto as autoridades competentes e os caminhos corretos e verdadeiros, numa substituição patética por uma das opções objetivas das dicotomias simplórias do “nosso mundo”. 3 - Vivemos num universo essencialmente monetário: todas as lógicas, todas as formas, todos os fluxos, todos os conhecimentos, todas as dimensões, todas as temporalidades, todos os deveres, todas as linguagens, todas as subjetividades, todos os corpos, todos os poderes devem obedecer, seguir, se espelhar no monetário para não haver fissuras, não haver desnecessários “falsos espelhamentos” (o saber e o viver devem coincidir com o real para que seja considerado verdadeiro: antes de tudo deve coincidir com o movimento fundamental de criação da própria comunidade que cria-o-real-sem-saber: a sedução dos realismos e da própria Ciência). “Nosso universo” se constrói, se vê, se projeta e funciona somente enquanto imagem e movimento da sua própria atividade; as exterioridades e todas as possíveis interioridades seguem este princípio: o objetivo, o subjetivo e seus conhecimentos se constituem antes de serem nos devires vivos da comunidade e só aparecem quando devidamente cristalizados. Ver isto é um malabarismo dentro da própria ontologia monetária (fissuras entre contradições), permitida somente por ela: seu quadro de forças exige, inclusive, as maiores e mais perigosas contradições para seu movimento, para sua reprodução: nada é perigoso ao “sistema”: o perigo é uma criação do próprio “sistema” como condição ou da sua reprodução ou para a solução dos seus entupimentos: os devires criam os ácidos para o desentupimento: esses ácidos, naturalmente, passada sua função, devem voltar a defender e reproduzir o “sistema” na lógica e nos meios do próprio “sistema”: o sistema é monetário, logo, Físico, Biológico, Social, Histórico, Informacional (noções inseparáveis). O universo monetário não se funda sobre o “teórico”, sobre o “subjetivo”, sobre o “imaginário”, mas sobre o empírico, o utilitário: sua natureza exige o visível, o tangível, o manuseável, as trocas vivas entre homens: suas próprias realidades líquidas, vaporosas, ígneas (pois invadem todos os poros do existente) fundam as instâncias do real (o que é e o que não é real: o paradigma invisível, aquele que articulará por baixo todos os outros, não é teórico mas realmente ontológico: está na formatação daquilo que entendemos como realidade) e aquilo que se afasta da verdade, da justa medida, do valor. A perspectiva (qualquer perspectiva, sejam as do “trabalho” sejam as do “capital”) que fala como se estivesse de fora, necessariamente, não é real ou verdadeira: por isso deve fazer um pagamento, o pagamento por sua perspectiva e pela incapacidade em tornar “coisa” a si mesmo e seu lugar: a diferença deve ser paga. 25
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    A inteligibilidade aconteceporque se funda nas múltiplas cristalizações e devires do entre-nós. Sendo o entre-nós essencialmente monetário (o que não é esconde e esquece) a inteligibilidade e aquilo que é inteligível são constituídos pela “parte escondida” do entre-nós. Principalmente porque o conjunto da virtualidade funciona para não comprometer o próprio equilíbrio (a moeda garante esse equilíbrio e os possíveis desequilíbrios, paga qualquer trabalho, qualquer força de trabalho, qualquer dívida, qualquer compra; põe qualquer fluxo a fluir segundo sua medida e segundo sua tendência; cria materialidades e subjetividades; garante a existência; está em todas as dimensões da comunidade; sua existência conclui devires, esconde fluxos, garante ou destrói realidades; funda poderes, inicia o entre-nós, estabelece temporalidades; põe em cena todas as “forças disponíveis”: esse quadro disporá seu arsenal, seu poder, criando condições favoráveis e desfavoráveis que regerão grande parte das singularidades, idiossincrasias, gostos e tendências de indivíduos e grupos). Com a transformação radical das sociedades ocidentais em sociedades financeiras, o passado (criação útil e real por muito tempo) começa a desaparecer, a ser empurrado para um lugar sem interferência. O imediato do presente exige correções advindas somente de si mesmo: essa tendência não é somente econômica, mas tem se tornado a lógica não dita ou a linguagem seja das mídias, das artes, dos conhecimentos ou dos sensos comuns (cada vez mais não há um desdobramento vivo mas um funcionar como se esse desdobramento não existisse: o desdobramento já se tornou não-útil, não visível ou mecânico). A noção de memória se transforma numa noção mais complexa, incluindo o esquecimento como constitutivo e não mais como aquilo que a destruirá. 4 - Uma “Ciência da Literatura”, uma “Teoria da Literatura”, uma “análise do discurso literário”, tradicionalmente, esquecem completamente este “fundamento ontológico”, partindo quase sempre de um ponto escuro (um não dito, um não sabido, um não visto, um não aceito: vazios ideológicos que vêm somente “idéias políticas”, “teorias”, “discursos”, “linguagem”, “análises”: ideologias sobre ideologias, linguagem sobre linguagem, discurso sobre discursos), de um sistema de conhecimento que se basta por sua competência, por seu rigor, com uma linguagem de casta, uma lógica com raízes muito claras em obras, sistemas, obviedades estabelecidas: e a literatura vai ao largo, escapa de qualquer reflexão mais fundida à sua “matéria”. 5 - A Literatura é um quadro específico de poderes que flui com determinadas regras. Sua posição jamais é neutra, inocente, “literária” ou “poética”: ao se instaurar esconde sua posição (de onde jorra: o fundo escuro: a brecha) e o “quadro de força” que a produz, circula, reproduz e faz permanecer. Universalizada, mantida por outros diversos discursos que não se dizem, reelabora as mesmas regras que, para se concretizar, teve que seguir ou romper. Esse rompimento (tão comum nos séculos XIX e XX), na verdade, é uma refala (o mesmo dizendo-se diferente; a diferença na aparência se tornando diferença radical pelo ocultamento de onde se fala e quais quadros de força a sustentam: a Literatura é um esquecimento ideológico que se apresenta como discurso, literatura, poética: um discurso tornado Língua, Cultura: um discurso que não se vê como discurso: um Discurso contra os discursos). O escritor, para ser escritor e fazer-literatura, deve se deixar determinar por regras anteriores, discursos de poderes que o caracterizarão. Dentro do jogo, ele pode, por ter aceito as regras, mudá-las (mas sempre segundo sua matéria, sua substância, suas leis, suas pulsações, suas permissões e proibições: sua economia): a mudança será, sempre, aceita depois porque, desde o princípio, já fazia parte da lógica geral dos quadros de força. 26
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    Não é umavoz qualquer nem uma posição qualquer de onde vem a Literatura. Também não é qualquer sistema de discursos que a suportam ou disseminam. Os discursos que a legitimam (na medida da sua escritura, da sua publicação, da sua distribuição, da difusão crítica e de onde partem) são os mesmos que criam e protegem e difundem a Religião, o Estado, a Indústria, o Comércio, a Língua, a Ciência, a Natureza, a História, a Gramática. 6 - As revoluções (sonho criado e acalentado pelas fragmentações heréticas de cristãos, burgueses e românticos: idéia tardia no mundo cristão e burguês e para se realizar exige condições ontológicas deste mesmo suporte cristão e burguês) só puderam ser pensadas ou feitas tendo como medida a “natureza”, a “natureza social”, a específica máquina de tecer o real, criando sempre um “real natural” reificado e reificador exatamente por se manter natural; exigindo, assim, depois de qualquer revolução, aparelhos que garantam a nova máquina de tecer o real, criando as novas “naturezas”, os novos “naturais”. As “revoluções reais” e as “revoluções imaginárias”, todas, esqueceram que eram projetos políticos, imaginários, hologramas nascendo de hologramas sociais específicos, carregando todos os possíveis esquecimentos e reproduções invertidas, e que esses esquecimentos é que davam e dão a impressão de diferença do mundo combatido. A “natureza” binária do “nosso ser social” condiciona as “revoluções possíveis” (aquelas que são logicamente conseqüência do “processo sócio-histórico”): somente os mesmos (se dizendo os novos) seres-sociais, seres-biológicos, seres-econômicos exigindo Estado, Política, exército, Educação, Gramática, Ciências e gêneros: periculosidades em nome da Verdade, da Natureza, do Homem, da História, do Estado, da Raça: hologramas sempre mergulhados no pântano da exploração, no sofrimento da existência sem transcendência, no sangue coagulado de milhões de tolos, de vítimas, de um gado sempre num quase pasto invisível. 7 - Se as Revoluções são “impossibilidades reais” (sempre um ‘gatilho’ para reacionar entraves gerais dos sistemas, realizando, assim, a lógica e a força das lógicas do sistema), a Literatura não está fora desse controle: as “revoluções literárias” são apenas redizeres invertidos do mesmo quadro de poderes (quadro de dizeres) ou do quadro de poderes que se constitui a partir do ainda vigente: o não aceito é somente o futuro vigente aparecendo. No entanto as revoluções são possíveis: nos cabe torná-las realizáveis. 8 - A infidelidade dos escritores à literatura (a fama, o dinheiro, o mercado, as mídias, os jogos de poder, a inconsciências das lógicas em jogo, a má fé) têm levado a literatura a uma situação estranha: parece ter acabado, ter se esgotado (as muitas mortes da literatura): a repetição não como uma lógica para desvendar as lógicas do mercado mas a repetição como um oroboro. Nos moldes estritos do mercado e das modas é impossível criar literatura. Escrevem livros, não literatura: as modas desvendam somente aspectos da “literatura de massas”, não da literatura. A fidelidade dos grandes escritores, sua atividade exclusivamente mágica, egoísta, sem fim, é a madeira e a chama inicial da literatura: o resto pode ser engolido pelo mercado e se transformar em mercadoria (o inescapável): a literatura se fazendo sem as ilusões monetárias e mercadológicas (seguindo suas lógicas internas, grupais, tradicionais ou inovadoras) está feita e inicia sempre como se fosse de um caos instigante onde ainda e sempre falta tudo a ser dito. 27
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    9 - Aliteratura é uma espécie de insatisfeito desejo; está sempre por-vir; está sempre-além; sempre adiante; visando sempre um além-que-escapa: somente assim acumula a si mesma sem gozar, sem consumir, sem consumir-se, sem se entregar nessa entrega, mas acutilando, atacando, sonhando, imaginando um depois (sempre presente e para o imediato) que a justifica: a caça sempre futura da arte gestualiza sempre um agora. 10 - A verdadeira literatura transforma quem a deixou passar e quem a recebe (sempre porque a buscou, a pressentiu). Ela fornece uma linguagem, uma outra linguagem (tão instável quanto a fome que a impulsiona: linguagem que inicia no caos e se delicia somente no caos), um outro saber à futura caça-da, ao futuro (sempre imediato) viver. Uma linguagem que atinge exatamente no que nos falta, naquilo que em nós está crispado, enterrado, incompleto; aquilo que nos cega, nos cala, nos impede de ouvir os sonhos (desejando somente a caça “real”), os desejos em suas sutilezas, as palavras e os outros. Uma linguagem que abre as portas para os não-ditos, os não-formulados, os não-formuláveis, os não-conceituáveis, mas fundamentais ao continuar vivendo, ao continuar a aventura e a fome (sem se ter iniciado uma aventura a literatura é inútil: somente ao buscarmos algo, ao desejarmos sem gozar é que se abre o caminho: a carne da literatura não é para os dentes: exigindo outro movimento, linguagem, saberes, técnicas). 11 - A literatura é sempre singular: ela é feita somente para nós, para aquele leitor específico e sua aventura. É uma porta exclusiva. Cada leitor tem em suas mãos um livro para ele, diferente do mesmo livro para outros e diferente segundo suas aventuras. 12 - A diferença entre a História e a literatura é que a primeira resiste em saber que é essencialmente ficção, e a segunda se rejubila por ser simplesmente ficcional. Não há na História um “narrar o que sucedeu” e na literatura “aquilo que poderia ter acontecido”: a questão se dá por um esquecimento básico da História, o que a afasta da produção imediata da realidade e a aproxima dos discursos que a obstruem e a fundam por baixo enquanto fonte ideológica do próprio real. Sua criação de passados como “realidades acontecidas” comunga com as ilusões psicanalíticas que descrevem a interioridade, da Biologia que descreve os “seres vivos”, da Física com seus “fenômenos naturais” ou as Ciências Humanas com seus paradigmas míopes. 13 - Não há literatura sem um pacto vital. Compreendendo que seu exercício corresponde à própria criação e manutenção do mundo, a literatura articula os pólos opostos (arte/vida) numa síntese contraditória porque esquece que não há pólos opostos. Essa oposição se dá somente com determinada arte compreendida como “produto”, “determinada”, “inspirada”, “conseqüência”: existe pólos opostos somente quando o circuito autor/leitor/critico acreditam que existe a história e a literatura e que a segunda provem daquela numa linearidade ou numa rede complexa, mas ainda numa idéia de articulação submissa ou de dependência lógica. 14 - Ao ser equivalente visível da práxis (deus, espírito, natureza, mitos, idéia, história, musas, realidade, inspiração, utopia, ética, espírito santo, trabalho) a literatura carrega não somente as multiplicidades, mas as alienações fundamentais do existir: a literatura não aparece para as Ciências da Literatura porque seus olhos estão normalmente voltados para o real, um lugar vazio: lugar das ficções que garantem ao real ser considerado e vivido como real: esse lugar também se tornou o lugar da literatura: a sedução do real enquanto visibilidade etnográfica, jornalística, historiográfica, nacional. 28
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    15 - Aliteratura é o que plasma a origem invisível reificada, a surpresa banalizada pelo costume, fazendo-a saltar: os fantasmas da práxis. Nesse efeito fantasmagórico da práxis é onde radica a literatura (para o bem e para o mal): seus fantasmas são os mesmos da práxis: sua força e seu movimento. 16 - A literatura ao expandir a imaginação, a percepção, a cognição, o olhar, o pensamento, as relações espaciais e temporais; ao ampliar o sonho, o desejo, a ambição, a sensibilidade – torna diferente a relação entre o indivíduo e o mundo. 17 - A literatura é um jogo onde é encenado (as fomes, os sonhos, as ansiedades, os desejos, os medos, as esperanças) o futuro com as formas e as matérias do passado. O presente como desdobramento vivo de passados e futuros já não é visto: um tipo de imediato se sobrepõe ao desdobramento, apagando seus devires. Resta somente a aparência e o espetáculo: a literatura reduzida ao rótulo (com uma mercadoria dentro). 18 - O que se canta, o que se fala, o que se dança, o que se esculpe, o que se escreve na caverna (grota) buscando o futuro (encontrando sempre o presente) é a “alma do povo”, a alma dos sofrimentos, das fomes, dos trabalhos e humilhações, não especificidades que já são sabidas e em nada contribuem para as articulações mágicas entre os desdobramentos temporais. As pressões vivas do imediato (a carne viva, a ferida que clama se fechar) recordam a carne do passado e a esperança de carne no futuro (u-topos: o não-lugar como um dos lugares da literatura). As tecnologias, os nomes, as temporalidades, as relações de grupos e classes, as palavras do poder, não fazem parte deste “canto” não somente porque o afastaria do centro da questão, mas porque não fazem parte dele, são elementos de dissolução, não de consciência, de corpo, de magia. 19 - O tempo da literatura deve ser o presente, não o imediato do presente, mas o presente contra o imediato (para o imediato). A literatura se faz ao mesmo tempo do sendo-feito do imediato, sem se reduzir a ele (mercadoria). 20 - Fotografar, radiografar, informatizar o real não o desventra: o real, ficcional que é, precisa ser exagerado, reunido em seu grotesco, em seu caricato (reunindo traços, sendo sem ser), em seu monstruoso, em seu humor, em seu sem graça, para revelar-se: sem essa reunião alegórica (modelo literário das ficções do real) cairemos nas ilusões do real, nas suas banais armadilhas, no seu sistema de crenças, nos seus artifícios de proteção. 21 - A literatura é uma “operação simbólica”: nela o real, arsenal ficcional básico, aparece sem a “sensação” de que o real não é ficcional, simbólico, lingüístico: a literatura é o real: um “modelo” do real sem a ilusão do real (ilusão que o impede de se aglutinar, o que a literatura realiza; e de se mostrar enquanto “atividade social”). A literatura não imita o real, mas funde os ingredientes em fusão (ficções básicas do real) na mesma medida do real: os dois se fazem da mesma maneira. A literatura, dessa maneira, alcança o centro do real sem precisar imitar, sem papaguear sua aparência, sem precisar ser folclórico, regional, nacional ou ceder aos gostos e ditames internacionais: essas aparências literalizadas fazem parte das ilusões básicas do real e não das operações que buscam desvendá-lo: essas ilusões devem aparecer no seu lugar, o que a literatura faz, e o seu lugar é dentro e não por fora. 22 - A clivagem (a obra) é, antes de tudo, uma clivagem na virtualidade: o holograma da obra é o resultado de uma profunda “operação alquímica” no real. A práxis literária é similar à práxis geradora do real (programa social vivo). 29
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    23 - Ahistória enquanto real é a virtualidade ficcional da ocidentalidade; enquanto disciplina (História) é escritura alienada da própria escritura (acredita e faz acreditar na sua realidade acontecida escondendo suas operações ficcionais: ideologia) e da natureza do se objeto-de-estudo: somente assim pode se exercer enquanto ideologia. 24 - A educação do escritor se faz essencialmente através da literatura: é ela quem o educa: quem o transforma, quem o perverte, quem alimenta sua vida, quem mantém a esperança, quem sustém a morte. A literatura se faz através dele porque sua convivência e sua prática poética, existencial, constituiu seu ser enquanto passagem, enquanto aquele que ouve a miséria presente, pressente o canto futuro (a “aguda antecipação” de Jakobson). A literatura se faz, se aprende, se ensina em movimento: experiências em devires. Essa educação é, antes de tudo, a educação da “imaginação poética”: sem essa imaginação não há autor, leitor ou obra: ela é a mesma que mantém o programa do real funcionando e visível. 25 - A literatura é similar à substância profunda do viver humano e à sua atividade criadora. Por isso a literatura não é um problema teórico, mas existencial. Ao não criar somente um “objeto” para um sujeito, mas um sujeito para esse “objeto”, cria um “objeto” que na verdade é um sujeito, e esse estranho sujeito não nos põe a fluir, multiplicando nossos devires e nos posicionando no lugar onde tudo é linguagem, sem a armadilha do mundo em-si: da perspectiva aberta pela literatura o real toma sua dimensão. 26 - Como é um jogo sem conclusão a literatura só pode ser jogada e só existe enquanto é jogada. 30
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 86 ANO II, Nº86 - FEVEREIRO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia HISTÓRIAS DE INFÂNCIA Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: EUGÊNIA CORREIA KRUTZEN nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 31
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    Eugênia Correia Krutzen Professorade Psicanálise – Universidade Potiguar - RN echk@digi.com.br Histórias da Infância A infância abandonada é uma questão que gera espanto, indignação, revolta, ao lado de uma igualmente apaixonada recusa a encarar a questão como um problema passível de superação. Propomo-nos aqui acolher este fato, inclusive nas ocasiões em que é veementemente denegado. Neste sentido é que procuramos a área da História Social da Infância e da Família, esperando encontrar esclarecimentos a respeito de como, na atualidade, nos tornamos – aparentemente - tão indiferentes à infância abandonada. Em relação a outros problemas, as ONGs brasileiras encarregadas de crianças são significativamente numerosas, conforme Correia (1999). Esperamos, com este estudo, contribuir para que se esclareça o sentido contemporâneo de infância, razão de ser do trabalho que realizam aquelas organizações. Handke (1990) começa sua História de uma infância descrevendo o lugar que já guardava para seu filho ou filha, antes que ele ou ela nascessem. Ao lado de duas outras expectativas para o futuro, a criança era acalentada junto ao sonho da amada, que ele descreve como alguém que lhe seria destinado e da vida profissional que lhe daria acesso a uma liberdade digna de um ser humano. O ponto fundamental da narrativa, para nós, ele sublinha na primeira página: em seus sonhos, esses três anseios não apareceram sequer uma única vez unidos numa só imagem. Procurando uma ilustração brasileira, ocorreu-nos o filme “Central do Brasil”, dirigido por Walter Salles, que trata justamente desse tema, e não exibe, em nenhum fotograma, a imagem dos filhos junto a pais e mães, fato ressaltado por Ariès (1973/198673) como novidade no século XVII. As narrativas de Handke e Salles delineiam uma característica instigante da infância contemporânea: o questionamento à sua naturalidade em relação à família. Vivemos um tempo em que parece plausível afirmar uma infância que não supõe uma família. Para compreender essa situação, procuramos períodos anteriores, quando estes dois termos encontravam-se naturalmente relacionados. Século XVII: A família e a infância como novidades Ariès, P. (1973/986) e Badinter (1980/1985) afirmam que a família enquanto grupo privado vai surgindo, no ocidente, ao lado da infância a ser protegida e preservada dos perigos do meio, durante o século XVII. 32
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    Antes dessa época,fils, valets, garçons, eram palavras do vocabulário das relações feudais ou senhoriais de dependência. Um petit garçon não era necessariamente uma criança, mas um empregado. Da mesma forma, o termo família referia-se à fidelidade dos servos a um senhor, sem nenhuma conotação sentimental ou natural. À princípio, pode parecer difícil imaginar que essa instituição, das mais sólidas em nosso imaginário, possa ter uma história onde seu próprio surgimento indique um período em que não existia. Sua dissolução, entretanto, parecia fácil de conceber nos anos sessenta, em uma conotação quase pejorativa para este conceito: na TFP (“Tradição Família e Propriedade”, um movimento civil de direita, dos anos 60); na Máfia; no seu papel de consolidação das heranças e das ideologias, como sublinha o marxismo, ou nas neuroses, conforme a Psicanálise. Mas esses elementos fortaleciam, como perigos a evitar, o espaço onde a família constituía o circuito aconchegante de afeto e segurança. ´E justamente esta conotação de reduto afetivo que alguns historiadores vão desnaturalizar. Além dos quadros de Rubens (1609), outros indícios são recortados por Ariès (1973/1986, p. 65) como características de um sentimento de infância: elas começam a receber nomes próprios, a saber quantos anos têm, assim como os pais passam a considerar importante saber quantos são os seus filhos. Há um reconhecimento da especificidade deste período da vida, expresso pelos novos lugares que lhe são determinados nos cômodos das casas, na dimensão dos móveis, nas atividades que lhe seriam proibidas. E há também um lugar entre os saberes, justificando uma medicina especializada, uma pedagogia que lhe sejam próprias. Ressaltemos: assim como a infância existia, mas não justificava um lugar, um saber próprios, também havia união homem-mulher, que, entretanto, não constituíam necessariamente uma família, não motivava produções culturais específicas. A novidade moderna consiste em unir essas concepções (1). Um fator presente nesta mudança é o espírito cartesiano, separando as idéias claras e distintas, contribuindo para consolidar representações de crianças separáveis das de adultos, fortalecendo a família também como unidade distinta, lugar de proteção e isolamento onde os filhos podem ser educados à luz da razão. A obra de Rousseau também pode ser representativa desta fase, quando predomina o interesse em prover à infância formação e cuidado. Mello e Martinez (1998) elaboram um instigante histórico da noção de criança classificando referências filosóficas em três grandes períodos: o primeiro deles associa infância a pecado original, como em Santo Agostinho. Um outro entendimento é efetuado por Descartes, associando infância a erro, ressaltando a suscetibilidade infantil às influências da paixão e da crença. Um terceiro período, também marcado pelo racionalismo iluminista, vincula infância a desperdício, à prevalência do princípio do prazer de Freud. À sucessão histórica pecado-erro-máquina, corresponde a expiação-tutela-utilização. Lembrando da situação de um segmento considerável de crianças habitantes de grandes cidades contemporâneas que podem ser vistas como referência da possibilidade, vislumbrada por determinados adultos, de se desenvolverem com um tipo de tutela limitada a alimento e abrigo, ousamos propor um ponto a mais no histórico de Mello e Martinez (1998): à criança como pecado-erro-máquina, seguir-se-ia a criança-estorvo, tendo como contrapontos expiação-tutela-utilização e pertencimento. 33
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    Mello e Martinez(1998) também criticam a derivação da idéia de criança, ou seja, a tendência a tomá-la como um desdobramento de outras categorias. Propomos, entretanto, que por nossa condição evolutiva de fragilidade ao nascer, seja impossível considerar uma autonomia entre maternagem e filiação, o que, inevitavelmente inclui um terceiro, para que a simbiose se desfaça. Considerar uma tríade indissociável é, portanto, diferente de derivar um termo do outro. Um histórico da infância, assim, vai nos levar a uma construção relativa à família, (considerando-se infinitas possibilidades de organização familiar), como figura e fundo, e é nesse próprio eixo que se pode incluir o fenômeno atual da criança que sobrevive, aparentemente, destituída deste grupo. A família definida pela naturalidade destaca, por contraste, a abjeção constituída por sua ausência: pais que supõem dispensável, opcional, sua ação junto ao filho. Nestes casos, não é que a família deixe de existir: trata-se de uma forma de abandono e isenção que segue paralela, concomitante, às outras formas. Em outra direção, o Direito Napoleônico, de que somos herdeiros, define criança como aquele ser que, além de não trabalhar, não tem responsabilidade sobre seus atos, sua assinatura não vale nada, qualquer ato seu exige o acompanhamento de um adulto. Como sucedâneo desta fragilidade, faz-se um investimento em um amor materno, tão natural que daria conta, sozinho, da consolidação da família. A fragilidade em termos físicos de qualquer bebê humano situaria como natural uma suposta tendência da mulher a proteger o filho, justificando, inclusive, que seja regra geral, no caso de separações de casais, que seja a mulher a ficar com a guardai. Os dados antropológicos e históricos, assim como as pesquisas com infância abandonada, entretanto, são claros na relativização desta certeza. Elisabeth Badinter (1980/1985 p. 9) comenta no prefácio a uma edição revisada do seu polêmico livro História de um amor conquistado: o mito do amor materno, o impacto causado por sua proposta de que o amor materno seja tão histórico quanto qualquer outro sentimento: A julgar pelas reações apaixonadas que este livro provocou – e que me surpreenderam, confesso – a maternidade é, ainda hoje, um tema sagrado.(...) A autora observa que esta reação ocorre em países avançados ou não, demonstrando que ninguém sai imune da leitura de estudos onde se torne evidente que o sentimento supostamente o mais puro e genuíno, aquele que situa a mãe acima de todas as coisas, pode ser situado historicamente. Para a autora, entretanto, é fundamental debelar preconceitos, inclusive esses mais arraigados, pois, na medida em que alguém é destituído desta quota mínima inicial, haveria alguma coisa sinistra e mórbida já no início de sua história, legitimando-se, assim, estereótipos negativos sobre crianças abandonadas. Diz a autora: Se é indiscutível que uma criança não pode sobreviver e desenvolver-se sem uma atenção e cuidados maternais, não é certo que todas a mães humanas sejam predestinadas a oferecer-lhe este amor de que ela necessita. Não parece existir nenhuma harmonia preestabelecida nem interação necessária entre as exigências da criança e as respostas da mãe. Nesse domínio, cada mulher é um caso particular. Algumas sabem compreender, outras menos, e outras ainda nada compreendem. E talvez aí o mal metafísico, uma das causas essenciais da infelicidade humana. Mas será possível pensar em fugir desse mal negando sua existência? (Badinter 1980/1985 p. 18) 34
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    Tão pouco ospais, acrescentemos - o elemento masculino da parentalidade –, seria naturalmente informado de sua função, mas este reconhecimento não causa tanto efeito quanto aquele discutido por Badinter. A “naturalidade” da infância pobre Além da questão da “naturalidade” da infância em relação aos pais, uma outra nuance evidencia-se, na discussão contemporânea sobre crianças de rua. O reconhecimento da dependência da criança em relação aos pais é diferente, quando se trata da criança proveniente de famílias empobrecidas. A própria denominação se modifica para “menor”, situando automaticamente uma referência civil, legal, impensável para as outras crianças, e sugerindo uma vinculação direta ao Estado. Uma concepção genuína, tanto do amor materno quanto de uma infância definida por si, é ressaltada por Kramer (1992) como produzida pelas classes dominantes, que divulgam uma infância universal, caracterizada pela idade e pela dependência aos adultos, mas que, de fato, se diferencia inteiramente em função da classe social. Observamos, novamente, uma distinção possível entre desconhecimento e ignorância. A partir da literatura examinada, além das entrevistas do estudo exploratório, não nos parece possível que educadores contemporâneos desconheçam um sentimento cuja origem remonta ao século XVII: aquele que associa, à infância, a necessidade de proteção e educação. Tratando-se de crianças pobres, entretanto, as propostas de Ariès adquirem outra conotação. Há homens que desconhecem os filhos que têm, tanto no que se trata de registro no cartório quanto de reconhecimento da importância da função paterna junto a eles, tal como supomos haver acontecido antes do século XVII. A literatura a respeito, por exemplo, Catela (1997) e as entrevistas do Projeto Axé, registra o quanto é freqüente que as crianças de rua não saibam quantos anos têm, não portem documentos, sendo registradas pelos programas de assistência, demonstrando, assim, que a infância não é uma fase igualmente natural para todos os seres humanos, nem a História constitui um fio linear onde os séculos se sucedam igualmente para todas as classes sociais. Século XIX / XX Kramer (1992 p. 24) desenvolve seu trabalho a partir de uma concepção afeita ao ponto de vista marxista, que para nós, constitui, junto ao campo freudiano, as principais referências teóricas dos autores que inspiraram nossa Oficina. Para a autora : O princípio fundamental é o de que a criança deve ser concebida em função da sociedade de classes, não existindo em si mesma. Encarar a infância dentro da sociedade de classes significa que não existe “a” criança, mas sim indivíduos de pouca idade que são afetados diferentemente pela sua situação de classe social. A autora vai ressaltar então o discurso oficial, onde a infância genericamente definida em padrões universais serve de parâmetro para uma variação carente, deficiente, inferior, em função das diferenças exibidas em relação ao padrão. Esta deficiência, por sua vez, dará margem aos programas de educação compensatória, cujos efeitos ampliam e intensificam o não-reconhecimento da diferença, da diversidade cultural, fortalecendo a suposição de que os fortes e esforçados auferem os 35
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    louros a quefazem jus. Assim, haveria famílias, e suas respectivas crianças, socialmente situadas em função do acesso ao capital econômico, tal como propõe a teoria marxista. Ao contrário da autora, Vogel e Melo (em Fausto e Cervina 1991) posicionam-se favoravelmente à consideração de uma infância universalmente definida, partindo do tipo de relação entre dois sujeitos envolvidos: um deles ocupando uma função materna e outro, a posição de filho. Para os autores a distinção conceitual da infância em função das classes sociais é um absurdo que deve ser evitado nas discussões, defendendo, assim, que a infância encontre elementos definidores em qualquer classe social. Para nós, uma das formas de tornar visível este elemento universalizante, almejado tanto pela crítica de Kramer quanto pela defesa de Vogel e Melo, pode ser resumido pela indissociabilidade dos três termos: o filho situado pelas funções paterna e materna. Estas funções variam histórica e culturalmente, o que permite a visibilidade daquilo que não se modifica e é imprescindível para o desenvolvimento infantil: a importância de serem funções distintas, mutuamente reconhecidas. Corroborando essa proposta, além de Ariès, (1973/1986), Badinter (1980/1985), Kramer (1992), Sluzki (1997), Dauster (1992 em Brauer 1994) e Fonseca (em Brauer 1994) são unânimes em ressaltar como é fácil e igualmente falsa uma concepção universal tanto de família quanto de infância. Seus estudos são favoráveis à conclusão de que aquilo que não varia, no decorrer da História, é o tabu do incesto, formulado em torno das relações de parentesco, que embora tomem as mais diversas formas, sempre vão caracterizar o paradoxo da nossa natureza cultural. Essa conclusão indica a indissociabilidade ressaltada entre os termos, pois um tabu é como um chiste, exige uma composição de, no mínimo, três elementos. Resumindo nosso percurso: infância abandonada supõe alguém que não abandone, o que remete ao grupo familiar. Este por sua vez, supõe uma tríade inicial, viabilizando a transmissão de um pertencimento. Esta maneira de conceber o problema nos leva ao campo fundado por Freud, onde é possível acrescentar à proposta de Kramer: assim como há diferentes infâncias em função de diferentes classes sociais, há diferentes infâncias em função de diferentes tipos de função paterna e materna. Para nós, a perspectiva freudiana esclarece a discussão, enriquecendo os argumentos de Kramer (1994) e Campos (1992), que definem criança de rua como um produto do capitalismo selvagem. Uma das formas de ampliar essa formulação pode ser uma preferência pelo termo criança socialmente abandonada, ao invés de socialmente excluída, pela implicação que o termo promove em relação aos adultos supostamente responsáveis, envolvendo uma tomada de decisão frente ao fato, irredutível à selvajaria do capital. Alguém pode ignorar que tem um filho, independentemente da classe social em que esteja incluído, e até mesmo independentemente do fato de reconhecer este filho juridicamente. É possível, neste sentido, que uma herança econômica seja garantida, mas não a transmissão simbólica de um significante afeito ao pai. Trata-se assim, de ressaltar que, mesmo intra-classes, há diferentes tipos de paternidade e de maternidade, que nos parecem irredutíveis ao fator econômico. Sob o ângulo psicanalítico, há crianças abandonadas nas classes média e alta, e há famílias pobres que conservam seus membros unidos de maneira saudável. Esta união ocorre em torno de um eixo ético, simbólico, onde alguma coisa própria àquela família se transmite ou se dissipa entre as gerações. 36
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    Esta interpretação enfocao lugar encontrado pelo sujeito em uma cena, o contexto edípico, onde se desenrola o romance familiar de que ninguém escaparia, e que não pode ser flexionado em função da posição sócio-econômica de um sujeito, mas sim do capital afetivo traçado antes mesmo de seu nascimento. Deste modo, a criança é definida como aquele ser que herda uma determinada posição no contexto edípico, podendo em seguida aceitar ou não, mas jamais ignorar esta configuração inicial de sua existência. Um dos modos de compreender o abandono contemporâneo da infância em risco social remete à posição em que os pais situam sua própria função nesta cena, acreditando que possam ser dispensáveis. Trata-se, assim, de um modo de encadear a História Social da Criança, partindo do sentimento apontado por Ariès. Ao ser considerada relevante a formação de uma criança, admite-se, ao mesmo tempo, a necessidade de um adulto responsabilizar- se por essa formação, confirmando a importância de ser discutida a noção de família. Chegando a este mesmo ponto, Sluzki (1997) intitula “Rede, família e narrativas” o capítulo do seu livro em que elabora um histórico das terapias de redes, destacando quatro grandes fases: na primeira o foco era mantido no problema; na segunda, a família passa a constituir a unidade trabalhada; na terceira, o próprio terapeuta – sua participação na observação e condução familiar do problema - passa a constituir o centro do processo; até que na quarta fase do histórico das terapias de rede, o autor passa a enfatizar a narrativa como elemento fundamental: o foco passa a ser o modo como o problema é descrito, narrado. A família então, é delimitada pelo campo das histórias em comum, compartilhadas pelos seus membros, observando que ser parte de uma família implica em compartilhar histórias, descrições, valores, ideologias, mitologias. Trata-se, portanto, de tornar visível – por meio do conceito de família - uma valorização da transmissão desses elementos por meio de narrativas, onde o sujeito encontre seu lugar. Essa consideração nos levou ao campo dos personagens que promovem identificações, e daí à literatura como pretexto para a construção de um espaço onde novas identificações se fizessem acessíveis através das tramas, dos personagens e movimentos que a própria literatura provocasse. Em suma: antes do século XVII “família” remetia à fidelidade dos servos e “criança” era definida como um adulto em miniatura. Durante aquele século, instaura-se uma nova associação entre a criança, que precisa de proteção e formação, e a família, grupo voltado, entre outras coisas, para a missão de proteger e educar seus membros. No final do século XX aparece outra novidade, aqui ilustradas pela histórias de Handke e Salles: cada vez há menos “filhos” e mais “crianças” e as “famílias” são facilmente desfeitas em prol dos interesses individuais de cada membro do casal. Retomemos a história de Handke e a típica família monoparental contemporânea. Podemos então compreender a perplexidade desse escritor diante da maneira como “a mulher” posicionava-se frente à “criança”, sempre movida pela opinião dos pedagogos e pediatras, destituindo, a ambos os pais, da possibilidade de transmitirem um estilo de “criação” à filha recém-nascida. Ela se atinha aos livros e às regras de conduta dos especialistas a quem, por mais experiência que tivessem, ele desprezava em sua totalidade. Chegavam-lhe mesmo a provocar indignação, na qualidade de interventores ilícitos e insolentes no mistério que havia entre ele e a criança.” Ou referindo-se também à ocasião do nascimento da filha: Por trás do vidro, o que lhe apresentavam não era uma “filha”, tampouco um “descendente”, mas uma criança (....). (Handke 1993 p. 11) 37
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    Uma característica denosso tempo seria a substituição da propriedade humana de se projetar no mundo por meio dos filhos, defendendo uma forma de pertencimento próprio do ideal de cada um , pelas regras de cuidado e criação de filhos estereotipadas e universalizadas. O aumento de tantas crianças em situação de abandono, explícitas ou não, nos autorizam a supor como um dos traços deste final de século, um tipo de infância – pobre ou não - entregue a instituições que também prosseguem o mesmo discurso da desresponsabilização. Filhos de um saber sem sujeito, sem autor, sem desejo, destituídos do “dom”; movimentando-se em rotinas flexibilizadas pelos cálculos custo/benefício, esta orfandade reconhecida em cartório e legitimada pela ciência seria uma das faces mais expressivas da miséria do nosso tempo. Notas: 1 Abrahan (1992) observa a historicidade da união entre homem e mulher. Em séculos anteriores ao ano mil, não havia registro de produções que demonstrassem o sentimento de amor de um homem por uma mulher, mas sim dos homens entre si. Este é então um marco na história do ocidente, no ano mil: a possibilidade de expressão amorosa dos sentimentos entre homem e mulher. 1 Além da “naturalidade” com que a guarda é concedida à mãe, (de quem também se espera inserção no mercado de trabalho), nossa legislação “obriga” o pai a conceder uma pensão, denominada “alimentícia”. O pai, deste modo, é reduzido ao provedor de alimentos, contemplando os custos mínimos necessários, sem alusão a sua participação na constituição subjetiva do filho. O texto de J. Swift (1993) “Modesta proposta para que as crianças da Irlanda deixem de ser um fardo para seus pais e seu país”, considera, ironicamente, a hipótese das crianças serem transformadas em alimentos, literalmente servidas à mesa. Seguindo o tom caricatural desse autor, a ênfase nas pensões alimentícias durante os processos de separações no século XX, não nos deixa tão longe da Irlanda do século XVII: os filhos passam a ser considerados provedores das suas mães, vias de acesso a um alimento. BIBLIOGRAFIA ARIÈS, P. História Social da Infância e da Família. Rio de Janeiro, 1986. BADINTER, E. Um Amor Conquistado: o Mito do Amor Materno. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985. BRAUER. J. F. A criança no Discurso do Outro. São Paulo, Iluminuras, 1994. CATELA, F. A Clínica de Rua: Reflexões Sobre Uma Intervenção Clínica com Crianças e Adolescentes em Situação de Rua. Dissert. de Mestrado, UNB, Brasília. 1997. MATALLO, Eugênia C. Do risco à escritura: uma oficina de histórias junto a crianças e adolescentes em situação social de risco – Tese de doutorado. UNB, Brasília, 1999. FAUSTO & CERVINI. O Trabalho e a Rua: Crianças e Adolescentes no Brasil Urbano dos Anos 80. S. Paulo, Unicef/FLACSO/CBIA/Cortez. 1991. KRAMER, R.S. A política do pré-escolar no Brasil: a arte do disfarce. São Paulo, Cortez, 1990. MELO, G.A.R. e MARTINEZ. Criança Como Erro, Pecado e Máquina. In Psicologia em Estudo, 3(1), 69-103. São Paulo: Ícone. 1998. 38
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 87 ANO II, Nº87 – FEVEREIRO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times O LADRÃO DA CALÇA DE CASIMIRA New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br CLODOMIR SANTOS DE MORAIS CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 39
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    Clodomir Santos deMorais Professor de Sociologia Rural jacintaclodomir@hotmail.com O LADRÃO DA CALÇA DE CASIMIRA Devia ser gente, daqui mesmo, dizia o alfaiate Otacílio-de-Mariinha-de-Siá-Celina. Gente das pontas de rua, que vive morrendo de fome, anda por qui e sabe dos hábitos de todo mundo. Gente de fora, brejeiro, ou remeiro, não tem tempo pra andar pelos fundos das casas espiando os costumes. Brejeiro, nem se fala. Chegou, vendeu, comprou, vai embora antes do sol se por, se vem de pés. Se vier a cavalo, é porque mora mais arredado, e, por isso, arriba cedo. Não pode ver as coisas dos outros.Interessa não. De mais a mais, ninguém nunca viu falar de brejeiro roubando. Vê não. Brigam lá no mato por causa de boi e porco que fuçam cerca; por causa de melancia que menino furta e de jumento pastor-solto. Mas, roubo mesmo não se vê falar. São gente de muita vergonha e seriedade. Querem é lavrar seu pedacim de terra, na meia ou na terça e não cuidam de mais nada - Não parece, seu Otacílio- interveio a vizinha dona Ingrácia de Queiroz - em vintoito os brejeiros... - Vintoito foi quadra de crise e muita fome, voltou Otacílio para reafirmar: brejeiro só rouba se a fome ou a crise é grande. Digo e não estou puxando pano pra minha garupa, não. Não sou do interior do município, nem da cidade nem mexo com lavoura. Está aí o velho Diolindo, meu pai, que é alfaiate; eu continuo na arte e Jeovah, meu filho, já está fezendo casa de paletó sem cabresto de dedal no dedo. Dona Ingrácia que já estava de passagem, com dois passos entrou na casa de Nita de Nezim Lisboa onde se deu o furto a fim de ver o que o delegado Joaquim Lisboa e o soldado Mirão iriam resolver. Não só Mariinha, sua esposa e os discípulos da tenda ouviram as palavras de Otacílio. A sogra, Siá Celina, puxadeira de terço e de ladainha na Matriz, rebuscando as coisas da cozinha com o credo e outras orações na boca, ouvia e murmurava. Vai não vai, soltava uns susurros sagrados com que, a qualquer hora do dia ou da noite, procurava se proteger e proteger aos seus das tentações do Demo e dos maus espíritos. Era quem mais estava atenta ás danações dos pecados, não medindo terço nem rosários, ofícios e litanias demoradas para manter longe da Santa Maria da Vitória as “ coisas feitas” do Véi Binigo, feiticeiro exímio e tirador de feitiços e mendracas a desamarrar esposos e noivos. No mês anterior fizera três promessas até acabar com um lobisomem que, na forma de porco-barrão arrastando correntes, comia as galinhas da rua das Cobras. Desrespeitou até a cruz de rosário de coco tucum “que Siá Bertulina botou no quintal por previnimento. Já no ano passado, por causa de uma música de carnaval, as moças e os rapazes só viviam dizendo “ nem queira saber o gosto bom que tem” . Tornou-se a moda em qualquer dedo de prosa um “nem queira saber”.
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    Foi uma epidemiade “nem queira” acompanhada sempre de “mangação e risadajem sem compostura” até menino pequeno tinha um “ nem queira” na boca. Siá Celina já havia adivinhado: é invenção do Diabo. Siá Rimita e Siá Rôla, santeira da igreja do menino Deus, que até nas vestes procuravam se parecer com as santas das folhinhas e dos almanaques, se protegiam com a cruz na boca, persignando-se toda vez que ouviam um “ nem queira”. Não tardou uma semana e, misteriosamente, três moças caíram no mundo, botadas na rua não se sabe por quem. Não ficaram mulher-dama, rapariga da rua da confissão, porém os bochos cresceram e elas se mudaram antes de parir. Era o “nem queira” andava solto pegando as folhas dos outros. A velha tinha razão e era a quem cabia dar a última palavra sobre o furto ocorrido no vizinho. A calça de casimira de Nezim Lisboa só tinha sido vestida umas poucas vezes: no casamento de Nita de Jão Augusto; nas festas do Divino e no enterro do finado Henrique de França e da finada de Loló de Antônio de Bruno. Novinha, quase sem uso apesar dos sete anos. Para não desbotar com o sol, Nita estendeu a calça de casimira no sereno. Com álcool e uma boa escovada, no dia seguinte, estaria pronta para Nezim envergar na missa da padroeira. Mas, de manhã, cadê? O arame estava limpo. Reviraram-se os baús. Um esquecimento, quem sbe!; doidice de empregada que não se acostumou ainda com a casa nova. - Furto não pode ser, que ladrão não entra em quintal murado, ponderou o próprio Nezim. Oxent! - retrucou Mário Campos - Outro dia um ladrão não saltou, de noite, o muro de Dona Astéria e o de seu Cassiano pra roubar a enxó dele? Besteira! Ladão não respeita fechadura, quanto mais muros! Houve um remexido na casa toda, sem resultado. Foi Nana, filha única do casal, quem deu fé, e Enéas-de-João Augusto, cunhado de Nezim, também metido na procura do dasaparecido, soltou um suspiro de espanto e desabafo. - Tá vendo, gente! Menino vê coisa que a gente não vê. É de vera. Olha aí o rastro! Todos saíram acompanhando e afugentando as crianças para não desmanchar o decalque na areia do quintal. Era de manhãzinha e havia quem assegurasse que, além de fresco, o rastro ainda estava quente. Falta o dedo minguinho do pé esquerdo, constatação que todo mundo ser invadida pela pergunta: quem na Santa Maria da Vitória não tem o minguinho do pé esquerdo? E saíram Nezim Lisboa e os vizinhos recurvados, pesquisando os rastros até a várzea do campo de futebol, onde o pó amarelo deixava nítidas as rachaduras do calcanhar. - Gente com defeito no pé, aqui, tem muito. Só na rua de cima, - calculou Pedro de Catulino-Seleiro, que àquela hora já vinha da manga de Ioiô Rocha, onde fora buscar um burro - tem muito aleijado dos dedos. Falta um, dois,três e até todos. Quem trabalha na roça está arriscado a ficar até sem o pé quanto mais sem os dedos. Deve ter sido algum brejeiro luxento que quer ficar lorde nas festas. 41
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    Otacílio que entraraabusando na conversa, perguntando - que labóro é esse? - ao atravessa a cerca do quintal foi logo discordando da tese: - Se fosse assim Pezim Coveiro não tinha seis dedos em cada pé. Oxent! Não só é roceiro como também trabalha com covador e enxadão na abertura de covas do cemitério. É coveiro há dez anos e nunca perdeu um dedo. o melhor mesmo - sugeriu - é cobrir os rastros com palha para depois o delegado investigar. A notícia correu de pressa como toda a má notícia. Do Tamarindo de Cima até a praça do Pequiseiro era só o que se falava: - Roubaram a calça de casimira de Nezim Lisboa. - Hen, hen, gente! Logo nas ves’pras da padroeira. Quand’é fé dentro de casa mesmo. Gente rica, hum! Tem tanto baú que nem sabe onde guardou os trens. Nem carece de afobação, basta procurar sem vexame. Dona Janoca dizia isso por experiência própria, pois já fora abastada antes de se enviuvar. O finado marido, capitão Ernesto Branco, não sabia o que possuía, tanto era o dinheiro que mandava e desmandava na Santa Maria da Vitória. Só não tinha mais do que os Coronéis Clemente Araújo e Bruno Martins da Cruz. Porém tinha mais do que Benevides da finada Dedé-Mãe de Vidigal. Na esquina de Quinca Afonso no açougue de Chicão Reiseiro e nas bodegas de Zome e de Luíz de Arsênio e em tido quanto é lugar o comentário era a calça de casimira de Nezim Lisboa. O delegado também cedo soube do fato, mas os últimos reparos da partitura de um dobrado não o permitiu abalar-se. Era o maestro da Filarmônica “ 15 de novembro” , a Vitória, e tinha mais, na saída da Bandeira da Padrueira. Mais maestro do que delegado, Joaquim Lisboa nem se lembrou de que era irmão da vítima. Não deu ouvidos à conversa de boca. Continuando nos remendos do compasso hinário e dos bemóis aguardou a parte. Otacílio voltou à tenda de alfaiate cheio de dúvidas. Sabia que o autor do furto não poderia ser um brejeiro. Gente do campo é gente séria - repetia. Estou cansado de fiar feitio de roupa pra cobrar na safra e todo mundo me paga. Brejeiro é gente séria e quando o dinheiro é curto porque o ano é ruim de chuva, livro sempre os aviamentos. A parte me pagam na safra seguinte. Para o ano sempre Deus ajuda. E suspirando - ai dos pobres se não fosse o par’o ano! - Vai ver foi remeiro, Seu Otacílio, disse Elizário de Joaquim Piçarra. Remeiro mal encosta as barcas no cais e vai logo gastar dinheiro no cabaré de Mané Jegue com as raparigas com as doenças do mundo. - Nem todos, meu filho - corrigiu o alfaiate. Os dedos das mãos não são iguais. Os remeiros de Luizim Barqueiro, por exemplo, não aborrecem ninguém. Já vem dançando dos cabarés de Juazeiro. Aqui não gastam nem furtam, nem ficam sem que-fazer! Nita estava enfiada quando o delegado chegou acompanhado do soldado Mirão. Havia dado no quintal três gritos a São Lunguim, conforme fizera Dalina Piau e sua comadre Palú pra reaver as roupas do marido que os ladrões levaram na noite de São João. A confusão dentro de casa um que chegasse “tinha que contar tim- tim por tim-tim o ocorrido: do comecim até tudo” . E era um tal de entrar e sair gente comentando as coisas. André Mudo foi chamado pra rezar o rastro do ladrão riscando-o com espinho de jurema. Do outro pé, o dedo aleijado, tirou-se terra para a velha Febroína, mãe de Zé Teixeira, amarrar na bainha da anágua, ao sussurro de rezas brabas. Tudo isso pra forçar o ladrão voltar ao local do crime ou deixar o furto em qualque 42
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    lugar. Tinha quese tomar essas providências mais domésticas, pois sempre se disse que a polícia é grande mais a mata é maior. Ademais, a calça já ia longe. O pobre diabo, mais pobre do que o diabo mesmo, que a furtara, apesar dos cinquenta e tantos anos no costado, era bom andador. Antes de meia noite arribara para correntina, dose léguas, a fim de vender a calça de casimira e retornar a tempo de salvar os netinhos da disenteria e tosse-brava galopante. Na barra do dia ele estava arredado sete léguas: já ia do São José pra cima. Fazia cálculo de, meio dia, alcançar ainda a feira de Correntina. Aí mesmo compraria os medicamentos que o doutor receitara para os meninos de Quuinca Lino e os de Manoel Afonso que também tinha as mesmas doenças e incômodos dos seus netinhos. Se não tivesse na farmácia de Pedro Guerra, na loja de João Rego era certeza encontrar. Na primeira légua andou muito. Era o medo de ser seguido e pegado. Na segunda pensou muito na vergonha de sentir ladrão. Da terceira em diante só via Tóin se acabando com a casimira e Tudinha, Gertrudes, de três anos, roxa, com fôlego cortado, vendo a hora de morrer de coqueluche. O menino já não tinha mais o que defecar, coitadinho nos panos só vinha água. A netinha era só dizer - Vó, ói, lá vem ela, vó, e já soltava uma tosse de cachorro saída dos bofes e pronto. Perdia o fôlego, arroxeava-se que só quem vai morrer. Essa semana de doença lhe fizera esquecer inclusive a morte da esposa e da filha, uma atrás da outra, na última seca. Elas, com a lavagem de roupa e uma demão na roça ajudavam a tapear a fome dentro da tapera. Sempre pedira a Deus para morrer antes delas, mas não fora atendido embora fossem eloquentes os seus argumento: idade avançada, saúde agravada pela “gastura” e pelo peso da boca do estômago e tontura toda vez que abaixava a cabeça. Julgava-se um inútil assim, um dia na enxada e dois na esteira. Passou tudo isso e mesmo as flatulências se foram com a meia certeza, ou quase certeza, de um dia, dispor de dinheiro para cuidar os dois netinhos. Era tudo o que possuia. Daí a pouco, com cinco ou seis anos, a exemplo dos meninos de Zé Quimara, os seus netos já lhe poderiam adjutora no carreto da água, no corte da lenha e na limpa do milho ou de mandioca. Tudinha, por exemplo, refletia o velho na ladeira da Serra do Caixão - já é muito jeitosa. No tabuleiro cata gravetos para fazer fogo e bosta de boi pra se vender na rua. Tudinha e Toín, quando ficarem grandes, terão sobrenomes de Jesus. Gertrudes Maria de Jesus e Antônio José de Jesus. Com efeito, a filha morrera e não lhe confiou o segredo. Mas se supunha que o pai dos meninos era aquele almocreve da tropa de Felipe Santos que sumiu pro Goiás e até hoje! Quem sabe? Nem notícia. De acordo com a tradição, menino sem pai leva Espírito Santo ou Jesus no sobrenome: sem mãe, o sobrenome é da Conceição; e quando o pai e a mãe são desconhecidos, o sobrenome tem que ser “dos Santos”. Mas tudo é filho de Deus! Batucando essas e outras coisas na cabeça, o velho, com a calça de casimira no saco, rompia léguas sem sentir cansaço. Depois da chacrinha do coronel Félix Araújo, achou-se fora de perigo. Pediria vestir de novo a roupa pelo direito porque os feiticeiros e rezas fortes não mais o lançariam. Deu graças a Deus e entrou na rua da Correntina, ao entardecer. 43
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    A feira tinhaacabado, Restos de baixeiros com marcas de pisaduras de lombo de animal, cangalhas, bruacas e esteiras se espalhavam no chão da praça de dona Suçu do finado cordeiro. O sol já queria baixar. Não sofreu dasãnimo, entretanto. Com a coisa mais ou menos planejada, o velho entrou na tenda de alfaiate mai próxima, a de lozinho-irmão-de Vivido Capitão Miguel Coimbra. Alegou que a calça era de um filho que morrera ao retornar de São Paulo e cujo enterro lhe deixaria dívidas. - Vale mais, Seu lozinho, mas, porém quarenta mil réis me aliveia e a precisão é grande lá em casa. Ao procurar algum estrago de traça, lozinho se surpreendeu. Com o bolso oblíquo, cós alto de três botões, “ moscas” duplas e ponto “ pé de galinha” no forro dos quartos só poderia ser a calça que ele próprio fizera quando discípulo de Nezim Lisboa. Três palavras com Miro Telegrafista e tudo estava esclarecido. Logo mais o delegado Pedro Coimbra destacava dois praças para conduzir o ladrão a Santa Maria. Mas dose léguas a pé. Dois dias depois a missa da Padroeira de Santa Maria foi solene. A professora Zizi, Dona Áurea - Mãe de criação de Almerinda e Miminha, a Dona Áurea de Domingos Costa, Aurora de Nezim de Aurora e outras cantaram no coro com acompanhamento de Seu Argemiro Filardi, na flauta, Seu Honor-do-Cinema-Mudo, no violino, e Quinca Ataíde no saxofone. Muita gente da cidade e dos brejos. Só de foguetes aviados por Zé de Santinha gastaram-se mais de vinte gurândolas, sem se falar nos foguetões solteiros de três tiros e nos “caramurus” e “adrianinhos” do comércio. Almoço de três bois, dez porcos, vinte perus e mais de cem galinhas para o povo da cidade e para o povo do mato, brejeiros e catingueiros. Cachaça “Santa Clara” de Seu Nezinho Coelho, uma dorna; e duas pipas da “Sem Rival” de Quinca Afonso. Como sempre o drama da Cavalhada só tem na festa do Divino, na da Virgem, à tarde, com a quebra da quentura do sol, só saiu a procissão cantada do benedito e tocada de dobrados de filarmônica. Esse ano foi a mais comprida. Satú Sacristão e os coroinhas já iam pra lá da casa de Presilina, defronte Justina Bedocha, eo andor de Nossa Senhora ainda não havia saído da Matriz. Andores do Coração de Jesus, do Santíssimo e o de São Sebastião Amarrado e Flechado que haviam emprestado do oratório de dona Amanda de Tião ia ao lado da Virgem. O areião da Rua de Baixo era grande de modo a forçar mudança no itinerário. Além disso, a poeira toranava cada vez mais roucas as vozes piedoras que antoavam o costumeiro Queremos Deus. Feito um atalho na esquina de Dona Senhora pra pegar a Rua de Agostinho Pança e de Seu Minas-Estrangeiro e desembocar na Praça do Pequizeiro e decer a Rua de Manuel Bobó e de Dona Janoca, a procissão voltou triunfante à Rua de Manuel Afonso e atravessar o riacho em frente à casa de Seu Dutra de Siá-Doida-Mãe-de-Ernesta-de-Zé-Carretão-e-da-Finada - Laura-de-Joaquim-Bodeira-Pai de Netim, Napu, Nestor, Nini e Neuza. Com o foguetótio defronte à casa de Zé Teixeira de Siá Febronia, já na rua da Vantajosa, onde teve gente restabelecida de saúde por crença, a banda vibrou alto o dibrado mais alto em que trabalhavam o trombone de Celso Afonso, o bombardino de Zé Neto, a tuba de João Boca Velha e o clarinete de Joãozim de João Barros. 44
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    Quase ninguém nasjanelas porque o povo quase todo estava na procissão. Os homens mais ricos deixaram pra acompanhar o préstito desse ponto em diante, com chapéu à mão, casimira ressecada e sapato de verniz. Os cânticos sacros pereceram dasafiantes na esquina da escola protestante de Dona Rosa-de-Otaviano Magalhães-do-Correiro, mas arrefecendo, logo em seguida, rua da Lagoa acima. Tanto nas procissões, como até mesmo dentro da igreja, nas missas e beça do Santíssimo, nunca faltam capadócios para atazanar os mais pobres. Se o paletó é comprido demais, os deboches falam de paletó de aparar-facadas, porque o defunto era maior do que o herdeiro. E se trata de paletó curto em demasia eles chamam de paletó-de-cagar-em pé, pra não falar das calças de pular brejo. O que é certo é que o Pai de Zé Grande ia quase no rabo da procissão com um paletó de brim que na priomeira lavagem encolheu demais. Os capadócios caíram de cima dele gritando discretamente colete curto! Quando ele virava pra trás todo mundo ficava sério. Era Messias Corcunda-de-Dona-Isolina-de-Quinca Borba que atentava o Pai de Zé Grande. Lá pras tantas, em frente à casa de Seu Nezim-da- Fessora-Etelvina, Dona Áurea puxou o hino: Os Anjos, todos os Anjos. Louvado Seja para sempre amém. Quando o povo todo já estava cantando “os anjos, todos os anjos”, alguém gritou alto: colete curto! Distraidamente o Pai de Zé Grande, também cantando, trocou as bolas: “colete curto é o cu da mãe!” Satú, Saturnino Pereira, sacristão, filho de sacristão, o velho Marcolino (irmão de Zé Piau) pai de Adalberto, também sacristão, era quem mais tinha condições e poderes para ratificar ou retificar o itinerário do préstito. Medira, com o descambar do sol, o tempo a se gastar no retorno Á Matriz, onde antes do jantar, ainda se deveria ministrar a Bença do Santíssimo com a tamtum Ergo e aos sons do Hino Social da Banda, dos repiques do sino grande e dos foguetões de vareta de taboca. Compartira, longos anos, desde menino, de procissão, “via-sacra”, “furto-de-santo” e outros atos litúrgicos campais, onde a combinação do tempo com a distância a percorrer entra como fator de sucesso. De forma que não hesitou, sol baixo, em suprimir o resto da rua da Lagoa, quebrando à direita, na casa de Tenente, pra sair do beco de Zé Bras Consertador de Tacho. Deixou sem procissão, é verdade, as casas de João Barros, Porcina esmoler, Siá Feliça, Francisquim Fiscal, Guarani- Fazedor-de-Carranca-deBarca, Deraldo Gazozeiro, Zé Carretão e outro, porém ganhou tempo buscando logo a Rua da Caatinga. A manobra Satú a fez sem receios de desaprovação por parte de Cândido Bedocha, seu concorrente, Cândido-Batedor-de-Sino, como era mais conhecido o altareiro da igrejinha do Menino Deus. Este não lhe regatearia muxoxos de crítica caso presenciasse o desvio. É que Cãndido, desde meio dia, se achava ocupado com um anjo. Não havia melhor que Cândido Bedocha para anubciar com repique alegres, festivos, a subida de um anjo ao céu, do mesmo modo que, no sino de defunto, compassado e triste, deixava claro a gravidade do momento em que, por ter sido casado, o falecido tinha em pendência o seu destino à mansão celestial; ou ao Prugatório só de brasa e borralho, ou, ainda, - o que seria mais certo - ao Inferno de labaredas de fogo de angico e breu inglês. Cândido sempre foi o maior sincero 45
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    daquele Rio Corrente,além de ser quem melhor conduzia a “Via-Sacra” anunciando-lhes os Mistérios, em legítimo vernáculo da Santa Maria, assim inteligíveis e ao alcance do povo. Ganhava pouco com isso: um mil réis para dobre alegre de anjo, dois para dobre triste de defunto pecador. As mulheres adultas e sabidamente virgens tinham direito aos dois tipos de dobres e de modo intermitente, o triste alternando o alegre e vice-versa. O ganho de Cândido Bedocha só veio melhoral quando o Prefeito Bacharel em Ciências Contábeis Clóvis Araújo Castro, criou um posto para beneficiar esse sineiro da Rua de Baixo. Isso só foi possivel impondo um rigoroso horário para o comercio: das 8 às 12 e das 14 às 18 horas. Com provento de 15 mil réis por mês Cândido havia comprado um relógio Roskoff, a fim de garantir em horas certas o anúncio que a lei determinava, tranquilizando assim os comerciantes logistas ou bodegueiros, principalmente Zuza Normanha e Arnaldo Borba, na meia hora de cochilo no período mais quente do dia. O anjo morrera de madrugada, mas somente ao meio dia uma alma caridosa apareceu com a notícia e “ dois tões do império” a casa de Cândido Bedocha. O sino repicou a tarde toda chamando gente para o enterrinho modesto. E foi um enterrinho mesmo porque o povo todo estava com o sentido na procissão da Virgem. Duas mocinha e meia dúzia de meninos descalços da rua de Terto Queiroz e pronto. Foi todo o acompanhamento de uma criancinha seminua dentro de uma caixa grande de papelão, com a marca da fábrica de guarda-chuvas. O sino da igrejinha varou, como sempre, todas as ruas e becos do lugar, vencendo, nas costas do vento, uma légua até o taboleiro do Brejinho, do Coronel Antôniio Cruz, onde cortejo estranho levantava poeira da estrada dos carros-de-bois. Dois soldados montados em burros e, entre uma montaria e outra, a pé, amarrado pela cintura, vinha abatido e trôpego o ancião preso na Correntina. Dormira apenas uma noite a fim de descansado das doze léguas da ida, poder suportar as mesmas doze da volta. O fardo da fadiga, do vexame moral e da idade lhe era tão pesado e tão duro transe que nem pôde atender para os longínquos sons do “sino de anjo” que lhe furavam os ouvidos. Preocupava-o apavorava-o tragicamente a idéia, mais três quartos de léguas, atravessar as ruas da cidade. Teve durante toda a viagem, vontade de morrer. A corda que lhe amarraram à cintura, quantas vezes a desejou no pescoço. Se assim o fosse - imaginava - bastaria assustar o burro da frente e jogar terra no de trás e pronto. Nem sentira a dor da morte e se livraria da vergonha, da execração pública que lhe estava reservada daí a pouco. Nas pausas da viagem, alguns minutos, muitas vezes procurou qualquer erva venenosa, cebola braba, cabacinha e nem isso conseguiu. - Pobre, nem a hora de morrer tem direito de escolher, repetia-lhe o cérebro conturbado a consciência de meio século de pobreza na forma de lei. Todo aquele pesadelo só serviu para encurtar-lhe a distância. O primeiro choque que recebeu foi na rua da Quixabeira. - Só vendo castigo, valha-me Nossa Senhora do Perpétuo Socorro - gemeu fundo a preta Siá Edivirge ao ver passar o preso. Entra pra dentro gente! Ô Tibúrcio, ô Rogério, bota os meninos pra dentro, mode não ver. Ô meu Deus! Santa Cruz! - e se benzeu não sei quantas vezes. Siá Maria de Seu Manoel Coelho, que vinha do chiqueiro dos porcos, quase que teve um ataque. Mal pôde pronunciar um “ Deus me defenfda!” Perdeu a fala. 46
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    - Corre gente,acuda, adjutora aqui, que Siá Maria vai morrer! - foi o grito dramático da velha Bertulina Papo-Grande. Inútil. O povo dos mocambos batiam as portas apavorados com a dura provação daquele infeliz. - Quand’é fé ele nem sabe ainda que a neta já está sendo enterrada. Santa Virgovige! Resmungava , se benzendo, Limpinha-de-Luizinho-Barbeiro. Deus me livre de filho meu dar pra ladrão. Prefiro uma boa morte. Não folo com soberba - outra cruz na boca - pra Deus não me castigar. O soldado da frente fez questão de entrar na rua da Caatinga pela rua da Confissão. Era rancoroso e truculento. _ É bom, pras putas vê ele assim amarrado pelo rabicho do burro pra nunca mais se meter a roubar calça de casimira dos outros. E não avexe o rojão, não, hum! Pra você ver o animal lhe arrastar daqui até a cadeia. Trapos de um chapéu de coro quase cobrindo o rosto, cabeça e vista baixa eram a única defesa que resguardavam o miserável da fuzilante curiosidade pública. Mal percebeu a infinidade de garotos esfarrapados, outros nus, meninos-cara-de-fome acompanhando-o processionalmente. Saíram moleques de todos buraco numa enxurrada de andrajos que desaguou na esquina de Henrique de França, mesmo dentro da procissão da Virgem. Os andadores da Padroeira e de São Sebastião Amarrado e Flechado tremeram nos ombros dos condutores atônitos e retransidos de susto ante a interrupção instantânea e involuntária dos cantos do Ofício de Nossa Senhora de Nezim de Aurora era quem puxava melhor os beneditos. Sentiu uma tremedeira nas pernas e um nó na goela ao terminar a estrofe do Ofício de Nossa Senhora: Deus salve relógio Que anda atrasado, Serviu de sinal Ao verbo encarnado. O estribilho Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, Senhora do Mundo ficou no ar por falta de quem o iniciasse face a confusão estabelecida pelo susto da rezadeira. Escaparam apenas algumas vozes desentoadas e tímidas das velhas que circundavam os dois andores e o vigário. A banda Vitória, que vinha do beco de Zé Braz, preencheu o claro entoado o dobrado Capitão Elias Borba. É que o maestro Joaquim Lisboa imaginou ter terminado o Ofício de Nossa Senhora. - Buumm! - Perê-rê - pê-pê-pê-pê, - Bombo e caixa, respectivamente, precederam o tchinn! dos pratos com Tião de Amanda empurrava na partitura todos os ensurdecedores instrumentos de sopro. A veia do pescoço de Zé Neto sé faltava estourar com bombardino e tudo. Não foi linge: com meia dúzia de compassos binários, só se ouviu o esguicho solto da requinta de Toín do finado Bento. O próprio maestro, Joaquim Lisboa, largou a batuta estarrecido com o quadro vergonhoso e revoltante que a fome à míngua de sua netinha atiraram, na quele por de sol sinistro, à face dos donos do lugar. Mais maestro do que delegado, mais músico do 47
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    que autoridade, oregente que tantas vezes recusava o cargo policial, tomando a frente do povo abalado de comiseração, ordenou fosse libertado o ladrão, tão logo chegasse à delegacia. Nezim, com o coração grande, nem quis mais saber da calça de casimira. O inesperado cortejo quase acabou com a procissão Restaram apenas os andores , as rezadeiras, a banda de música, o padre, Satú, os coroinhas dos lampiões e mais meia dúzia dos de casimira e sapatos de verniz. O grosso do povo seguiu, tumultuosamente, na frente para ver o avô de Tudinha ser libertado. Otacílio Carvalho, o alfaiate, continuou, a noite toda, arengando com a sogra Siá, Celina: - Bem que disse que era gente daqui mesmo; gente das pontas de rua que vive morrendo de fome por não ter terra pra plantar. É de vera!.. concorda seu vizinho Augusto Farmacêutico-de-Nena-do-Major-Leônidas. - Quem tem, como os brajeiros, ao menos um pedacim de terra, não fome e, por isso, não toca no que é dos outro. Não furta. Furta não. Casa de Detenção Recife, 07 de Outubro de 1964 48
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ANO II, Nº88 - FEVEREIRO - PORTO VELHO, 2003 ISSN 1517-5421 lathé biosa 88 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser O ESPELHO, A PERSONA E O PODER encaminhados para e-mail: nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 HENRIQUE TORRES CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA
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    Henrique Torres Psicólogo torreshlm@uol.com.br O ESPELHO, A PERSONA E O PODER Este Moitará juntou psicologia e literatura, pois então, vou ler uma história sobre o conto "O Espelho" de Machado de Assis. Espero ser conciso e claro, para transmitir o acontecido que tive o prazer de presenciar: um encontro entre 4 figuras especiais. Encontro denso, como sói acontecer. O primeiro dos ilustres desse encontro, foi Nelson Rodrigues, que inventou as entrevistas imaginárias que aconteciam em um terreno baldio, e que, exagerado, escancarava a condição humana, numa espécie de tragédia de costumes. Pois foi Nelson quem armou esse encontro no céu, onde já estavam todos os outros convidados, e onde eu, apesar de vivo, fui parar também. O segundo convidado foi o Glauber Rocha, guerreiro do cinema novo, que escrevia cinema com K, de Kine, e roliude com erre, de cultura nacional. Os outros dois eram o Jung e Machado de Assis. No céu do Brasil, Jung falaria nossa língua, leria Machado de Assis, e beberia psicologia às mancheias. E Machado de Assis, era, e claro o convidado de honra. Baldio será o céu se os homens não puderem lá se encontrar e cultivar suas fantasias. Esse era o quaternio da festa no céu, ao qual eu, por sorte de estar no lugar errado na hora errada, fui me juntar. Único ‘desilustre’, recebi o convite do bico do pelicano, ave símbolo de Cristo. O pássaro me disse, à boca pequena, que na festa haveria lugar para uns e outros. Entrei naquele papo e lá estava eu no céu, buscando um jeito de participar, e encontrei: vou cuidar do vinho, pois “in vino veritas”. Taças à mesa, todos sentados, começou a conversa. Nelson pediu a Machado: Conta pra ele, conta , aquela história, a do Jacobina. "A história do Jacobina? pois conto sim" 50
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    E Machado começoua narração de como Jacobina inteirou-se de suas duas almas: “quatro ou cinco pessoas debatiam, uma noite, questões de alta transcendência... a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora.” "Rigorosamente eram quatro os que falavam, mas além deles havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando..." "não discutia nunca; e defendia-se da abstenção dizendo que a discussão era a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e aliás eram a perfeição espiritual e eterna.” Glauber retrucou dizendo que era preciso lutar pelas verdades, posto que ninguém é anjo. Está certo, - disse Nelson – somos todos canalhas, mas deixe o homem falar, e Jacobina continuou “ .... A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma” “... se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas... nada menos que duas almas. Cada criatura traz duas almas consigo; uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito, um fluído. Há casos em que um simples botão de camisa é a alma de uma pessoa. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, aos primeiros anos, foi um chocalho com um cavalinho de pau, e mais tarde, uma provedoria de irmandade." "Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que metaforicamente é uma laranja: quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior significa a da alma inteira.” Jung, atento, cachimbava e intuía, admirado, a sabedoria do escritor, vendo a sua teoria da Persona tomar corpo na história de Jacobina. Tomou a palavra e disse: “A consciência pessoal é, mais ou menos, um segmento arbitrário da psique coletiva. Ela consiste em uma soma de fatos psíquicos, sentidos como algo pessoal... uma consciência apenas pessoal acentua, com certa ansiedade, seus direitos de autor e propriedade no que concerne a seus conteúdos, procurando, desse modo, criar um todo. Mas os conteúdos que não se ajustam a esse todo são negligenciados, esquecidos, ou então reprimidos e negados. Isto constitui uma forma de auto-educação, que não deixa de ser porém, demasiado arbitrária e violenta. Em benefício de uma imagem ideal, à qual o indivíduo deseja moldar-se, sacrifica-se muito de sua humanidade.... A esse segmento arbitrário da psique coletiva, elaborado às vezes com grande esforço, dei o nome de Persona.” Jacobina continuou contando sua experiência: ISSN 1517 - 5421 51
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    “tinha vinte ecinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou orgulhosa! Tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura; na vila, note-se bem, houve alguns despeitados, choro e ranger de dentes, como na Escritura; ” Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova disso é que todo o fardamento me foi dado por amigos..." Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, que morava léguas de distância da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda... ... Chamava-me também o seu alferes ... Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes, e ela abanava a cabeça, brandindo a mão, que era o “senhor alferes”. ... não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou a ponto de mandar por no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas, vindas em 1808, com a corte de D. João Vl. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. ... e finalmente que o “senhor alferes” merecia muito mais; o certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse a outra: ficou-me uma parte mínima de humanidade. Era exclusivamente o alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave: uma de suas filhas, residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus sobrinho! Adeus alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela e a mim que tomasse conta do sítio. ... o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere ... Era a alma exterior que se reduzia. Enchendo minha taça pensei: Deus põe, a vida é mãe e a morte dispõe. E Jung falou novamente: ISSN 1517 - 5421 52
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    Seria incorreto, porém,encerrar o assunto sem reconhecer que subjaz algo de individual na escolha e definição da persona. Assim, apesar da consciência identificar-se inicialmente com a persona – essa figura de compromisso que representamos diante da coletividade - o self inconsciente não pode ser reprimido a ponto de extinguir-se. ... uma vez abolidas as repressões de ordem pessoal, a individualidade e a psique coletiva começam a emergir, fundidas umas na outra, liberando fantasias pessoais até então reprimidas. Aparecem sonhos e fantasias, que se revestem de um aspecto diferente. Nelson, impaciente, pediu: - Fala Jacobina, fala, conta a história, e Jacobina seguiu contando: - Corri a casa toda, a senzala, tudo, nada, ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão somente, um par de mulas que filosofavam a vida sacudindo as moscas, e três bois... Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? "Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa.” Jung não pensou mais em seus pacientes; ali estava um exemplo vivo de suas teorias. Glauber não resistiu e filmou o mestre coçando o ouvido. Jacobina continuou: O sono dava-me alívio, não pela razão de ser irmão da morte, mas por outra ... o sono, eliminando a necessidade da alma exterior, deixava atuar a alma interior. Mas quando acordava, o dia claro, esvaia-se com o sono a consciência do meu ser novo e único - porque a alma interior perdia a ação exclusiva e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar. Não tornava. Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo ... no fim de oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; Não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. ... então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo e enlouquecer. Vou-me embora, disse comigo Subitamente, por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo... ISSN 1517 - 5421 53
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    lembro-me de vestira farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e como estava diante do espelho, levantei os olhos, e não lhes digo nada: o vidro reproduziu a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava enfim, a alma exterior, dispersa e fugida com os escravos; ei-la recolhida no espelho. Olhava para o espelho, ia de um lado para o outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ser animado. Daí em diante fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir...” Jung tornou a falar de sua teoria: “O colapso da orientação consciente não é assunto negligenciável. Corresponde a um fim de mundo em miniatura, como se tudo voltasse de novo ao caos original. O indivíduo sente-se abandonado, desorientado, como um barco sem leme entregue aos caprichos dos elementos... na realidade, porém, mergulhou novamente no inconsciente coletivo, que assume a direção. Poderíamos multiplicar os exemplos em que, no momento crítico, um pensamento “salvador”, uma visão, uma “voz interna” imprimem uma nova direção à vida, com um poder de convicção irresistível. Provavelmente, seria possível mencionar também, outros tantos casos, em que o colapso significou uma catástrofe que destruiu uma vida...” E eu ali, ouvindo aquelas palavras, pensava no processo de análise, que começa com o confronto da Persona, condição para o aparecimento claro da sombra de toda luz, e da luz de toda sombra. E que, a partir daí, anima e animus podem continuar sua função de interação entre os opostos. Pensei na super identificação de Jacobina com a Persona, o poder lhe subira à cabeça. Pensei no risco da Persona se cristalizar, rígida, nos impedindo de tomar consciência da sombra e sua função na individuação. No plano coletivo social cultural, pensei na farda e na bandeira nacional: A bandeira nacional é a farda da pátria. Vencedore,s levantamos a bandeira para comemorar; torcedores, a vestimos em nosso desejo de vitória; nossos jovens caras pintadas, dão, no rosto, bandeira de seus sonhos para o Brasil. O verde da juventude e da esperança; O azul de nossas águas, doces e salgadas; O amarelo de nossa Prima Matéria, de nosso Self. E o branco de nossa paz e das estrelas, de quem somos a poeira. ISSN 1517 - 5421 54
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    Temos um jardimenorme, ali em cima, um dos pulmôes do mundo, no nosso terreno, mas temos também, pessoas, empresas e políticos que insistem em destruí-lo. Temos um mar de navegantes, saveiros e jangadas, cultura e sabedoria popular. Dê-lhes tecnologia e os veremos à frente, pois temos também os marinheiros modernos, - iatistas campeões, mundiais e olímpicos. Um de nossos barcos, medalha de ouro olímpico, é patrocinado pela Prada, grife de moda italiana e por um clube brasileiro falido. Tecnologia de ponta, brasileira, globalizada. Significativamente o barco chama-se " Vida Bandida". Somos também um povo muito religioso e damos a nossos pesqueiros nomes de santos, mulheres, sereias, invocando a proteção de Iemanjá. Entrando pelas nossas águas doces, temos um rio especial, que demos de presente a São Francisco, santo que fez voto de pobreza. É dele o velho Chico. São Francisco, com certeza, gostaria de irrigar com suas águas, o corpo e a alma da seca nordestina. Mas, pobre homem, não consegue vencer a luta contra os políticos ... e o nosso povo tem que engolir, a seco, as gordas rãs da insensibilidade política. Voto de miséria! Pensei na constituição e nos regimentos que são a farda das instituições. Nos tornam uniformes, nos abrigam, nos hierarquizam, nos fazem iguais apesar das diferenças. Mas, olhar bem para cada um, faz a diferença. Pensei nos três poderes da nação: Um juiz presidente de tribunal se transforma num "lalau" Figuras expoentes do legislativo, nos roubam a ética e a moral, e executivos de todos os escalões, se refestelam no bem público. Que mistura perversa de persona e poder paralisa os mecanismos reguladores internos - comissões de ética, corregedorias e ministério público, - fazendo com que somente situações extra-muros, familiares, por exemplo, um irmão dolorido, um genro ameaçado, os façam, efetivamente, funcionar? Somos um povo jovem, só 500 anos. Adolescente. Temos tudo a nos educar. Somos capazes de aprender a economizar 20% da energia que gastamos, mas na contra mão dessa lição, temos o exemplo da corrupção, dos 20% da propina, do ‘rouba mas faz'. Lembrei de Freud falando do superego, do ego ideal e do ideal de ego. Instâncias que regem nosso poder, que falam de como nos imaginamos, e do que aspiramos ser. ISSN 1517 - 5421 55
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    Pensei no desperdíciode riqueza, energia e experiência criados pela impunidade. Temos um povo gentil, generoso, sensual e capaz. Mas somos, também capazes de judiar, maltratar, prostituir nossas crianças, pô-las para trabalhar ao invés de comer, brincar e estudar. Também perseguimos, torturamos e matamos, afinal somos humanos por trás de nossas fardas cujos botões brilhantes não refletem a sombra. Pensei nas parcerias e me vi de novo com o a psicologia analítica: Se o Self busca a totalidade, fatalmente os opostos se atualizarão na consciência coletiva, na persona cultural, e na mentalidade do grupo. Por trás da persona da interação perfeita, vamos encontrar uma distribuição às vezes canhestra de funções e poderes. Um pensa e o outro sente, um sonha e o outro faz, um subsidia e o outro não pode mais, um fala e o outro se cala, um se esconde e o outro se expõe demais. Pensei ainda mais fundo, nas raízes narcísicas da persona, torcendo para que o desejo de evitar a dor, não nos faça surdos à fala original de Eco, e cegos à repetitiva rejeição narcisista. Assim, há que se construir uma persona, pessoal e coletiva, que possa incorporar os conteúdos reprimidos ou a serem atualizados, com menos ameaça e menos perigo de afundar o barco, e, ao mesmo tempo, sem nos perdermos de nossas raízes profundas, 'sélficas'. É possível uma identidade mais flexível, maleável, que atenda a um velho conceito de psicologia social, que reza que é saudável poder desempenhar outros papeis sociais? Pode um analista ser bombeiro num incêndio, ou a ele só cabe interpretar o fogo? Lembrei-me das pessoas que inventam moda - farda da liberdade - que nos mostram, não onde todos devemos estar, mas sim até onde podemos ir. Pensei na inglesa que inventou a mini-saia, liberando as pernas das moças, e no francês que inventou o biquini, no qual Leila Diniz levou sua barriga à praia, mostrando a todos a vida nova que construía dentro de si. E foi assim com o pensamento indo e vindo, meia voltando num oito infinito, que me dei conta que a noite se fora, que outro dia chegara e que os quatro comungavam a última taça de vinho. "Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas". Com estas palavras Joaquim Maria Machado de Assis, terminou a nossa história. Bibliografia ISSN 1517 - 5421 56
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    O Espelho, deMachado de Assis, in Contos: Uma Antologia, Companhia Das Letras. Persona, de C. G. Jung, in The relation between the ego and the unconscious" CW 7 Glauber Pátria Rocha Livre, de Gilberto Felisberto Vasconcellos, SENAC. A Cabra Vadia, de Nelson Rodrigues, Companhia Das Letras. ISSN 1517 - 5421 57
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 89 ANO II, Nº89 - MARÇO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times MESTRE AMBRÓSIO New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br CLODOMIR SANTOS DE MORAIS CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 58
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    Clodomir Santos deMorais Professor de Sociologia Rural jacintaclodomir@hotmail.com MESTRE AMBRÓSIO Mestre Ambrósio, naquele dia, chegou cedo, sol-entrando. Antes, quando deixava a roça, no Zé Araújo, o dia já estava turvo, boquinha-da-noite. O trabalho se mostrava cada dia mais pesado. É bem verdade que a derribada, a queima e o destocamento foram trabalhosos do que o plantio e a limpa. Mas a idade, sessenta e três janeiros, não mais o ajudava a reagir ao cansaço. Além disso, ele se desabituara do cabo da enxada em meio século de existência. Dos seis aos quinze anos ajudou a mãe, camponesa e viúva, no sustento de seus irmãos. Apesar de pequeno, menino ainda, a enxada ou o machado não lhe causavam tanto desânimo. Tinha até muito entusiasmo na lavoura da terra. - A terra - ele sabia e repetia sempre - é o nascente de tudo quanto existe. Basta ser trabalhada para produzir trutos, riquezas. Riqueza é a casa do Coronel Zé Afonso, é o dinheiro do coronel Zé Afonso, o gado, a loja, o depósito de cereais e as fazendas dele. A mãe é que lhe virou a cabeça e o destino mandando-o para a tenda de mercearia de Terto Serrote, pai de Erminio Maleiro. - Quero filho meu na enxada, não. Tu vai é aprender um ofício. Quem veve cavando o chão, da cova não tá longe. Quero não. Serrá pau pra fazê trepeça dá mais dinheiro. Durante dez anos trabalhou na enxó, no cepo, no formão e no serrote. A arte, todavia não expulsou a fome de dentro de casa. Serviu, entretanto, para reduzir os gastos do enterro da mão e de dois irmãos, cujos ataúdes ele mesmo, Ambrósio de Siá Pretinha, confeccionou de coração partido. Nas horas de folga, à noite, lamparina de azeite na mão, o preto de vinte e cinco anos começou a solfejar exercícios musicais da Filarmônica 6 de Outubro, recém-fundada pelo Coronel Bruno. Tinha tendência para o saxofone e sonhava com esse instrumento. Influência das serenatas. Ademais, esse, como outros instrumentos de sopro, era novidade no lugar. Tudo de adiantado que se conhecia nesse terreno se resumia no berimbau de Balduíno, o violão de Sérvulo, Pai de Mané Jegue, e a sanfona-de-oito-baixos de Simão Viajante. O resto era viola, o pífe-de-taboca, o ganzá, o zabumba que desde o começo do mundo existem. O surgimento da filarmônica da Santa Maria da Vitória, em 1906, fez revolução em toda a Bacia do Rio Corrente. Outras, nos lugares vizinhos, apareceram também com nome de datas do nascimento dos fundadores. Era chic ser músico da banda. Não pela música que nada rendia, mas, principalmente, pelo direito de ter uma farda, coisa que então era privativa das autoridades, soldados da polícia e patentes da Guarda Nacional. Mais precisamente, só se concebia farda nos coronéis Zé Afonso, Bruno Martins da Cruz, Sebastião Laranjeiras, Clemente de Araújo Castro, José Borba, nos capitães Ernesto Branco, Henrique de Castro e no soldado Ferreirinha Delegado. 59
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    A Seis deua todo mundo acesso à farda. E era fascinante aos olhos dos jovens aqueles instrumentos de cobre, ouro-de-mentira, fabricados em Turim, lugar tão longe, a que somente o pai de Seu Argemiro Filardi, que era estrangeiro, poderia se reportar. O preto da finada Pretinha, com pouco tempo, além de mostrar embocadura para a palheta e o bocal, passava Quinau no regente, quando este não marcava com precisão um compasso cheio de fusas e semi-fusas. Não tardou ser convidado, modesto ainda, para pegar a 15 de Novembro - filarmônica - Vitória, da correntina política contrária do Coronel Clemente. - Não houve melhora, mode não ter serventia mudança de política. O homem que não é severgonho, nascendo monarquista, morre monarquista na lei de Deus, ainda que seja lutando cuma Antônio Conselheiro. Era ciumada, inveja de Firmino Cabelereiro que gastou dois anos para aprender tocar pratos e, mesmo assim, ainda errava nas valsas e nos maxixes. De Ambrósio de Siá Pretinha passou a Mestre Ambrósio. Mestre duas vezes: da marcenaria e, principalmente, da banda. Embora quase nada lhe rendesse o novo carco e até lhe prejudicasse as encomenda da marcenaria pobre, ele o encarava com responsabilidade. Os meses subsequentes lhe foram de provações. Teve que sacrificar a marcenaria e por conseguinte, o estômago, a fim de não falhar no ensaio da artinha a vários discípulos, alguns dos quais rudes, com muito entusiasmo, mas sem maior inclinação para a música. Não havia livro. O único compêndio conhecido era a artinha, copiado de mão em mão por gerações de aficionados da música. Vários discípulos, semi-analfabetos, mal podiam copiar a artinha. O ensino era uma novidade para Mestre Ambrósio. Mas venceu os obstáculos que ocorrem sempre na formação ou na ressurreição de uma filarmônoca de lugar pequeno e atrasado, superando-os todos. Ajeitou Zé Neto no bombardino, Henrique e os rapazes de Jão Lampião nas trompas Joãozinho de João Barros e Toin de Seu Bento no clarinete e Tonil no pistão; João Boca-Velha na marcação; Tião de Amanda nos pratos; Celso Afonso no trombone; Cessin no barítono Francisquim Fiscal no bombo e assim até completar as dozoito figuras. Foi um sucesso, na quermesse de 1932, o seu trabalho de meses. Jão Guará, mestre das Seis, que duvidou tanto da empreitada de Mestre Ambrósio, ficou com o rabo entre as pernas. Todo um passado de dificuldade compensado por alguns momentos de satisfação. Mestre Ambrósio cascavilhou minuciosamente naquela dura tarde, como se o cantasse saudoso, ao ritmo da enxada fustigante. Já esatava velho e jamais pensara em ter um ocaso tão infeliz, tão triste. O destino - era fatalista - lhe reservara para a década de quarenta, fim da vida, a injustiça de seua amigos, a desmoralização e resultante desta, um enclausuramento compulsório, dentro de uma tapera de onde só saía para a roça distante, de madrugada. A lavoura, se bem que pesava para um desabituado naquela idade, era-lhe duas vezes útil Furtava de um doloroso isolamento dentro de um mocambo de pobreza compungente, onde dois pretinhos nus e cheio de lombrigas roíam cacos de telhas, torrões de barro, ao lado da mãe, pobre rendeira que arrancava dos bilros 60
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    a farinha eos restos de açougue a se consumir na semana; enquanto, do mesmo modo, ajudava a participar da feira semanal daquela única pessoa amiga que não negou solidariedade moral, um pedaço de chão para dormir e um coité de passoca, naquela quadra ruím por que estava passando. O abalo moral que sofrera foi demasiado grande para um preto de vergonha, idoso e até então conceituado. Temia os olhares de três mil habitantes estarrecidos e inconformados com o ocorrido. Por isso,partia cedo e chagava sempre tarde da tarefa e meia de mandioca, milho, feijão, abóbora e melancia que plantara. Do mocambo onde se enfurnara na ponta da rua de Siá Francisca, ouvia repetirem-se as notas distantes de um ou outro discípulo executando em casa a passagem de algum dobrado. Era uma lição que ele já não tomaria no ensaio noturno da Vitória. Às vezes, se protegendo da escuridão, rodeava os quintais dos mocambos de sua ruazinha pobre, passando pelos fundos de Binigo Feiticeiro, Chico de Bazílio e de Zé-Boca Barbeiro, para , do Alto do Menino Deus, ouvir melhor, lá de baixo, beira-rio, o ensaio da Vitória. Casais românticos que venciam a ladeira do Beco de Manuel Afonso, à procura da enorme alcova soturna e sombria do morro, vai não vai, se surpreendiam com a tosse daquele vulto solitário prostrado ao pé do cruzeiro da igrejinha. Era Mestre Ambrósio, esquivo sempre, quando se-lhe-aproximavam pessoas inadvertidas. O ensaio terminava e Mestre Ambrósio permanecia absorto até o piscar dos últimos candeeiros, revivendo o passado de tudo e de todos e maldizendo o seu próprio destino - João Guará. Êh! Foi quem fez mais figura nesta Santa Maria da Vitória. Bom músico e regente de mão cheia. Não só regia e tocava todos os instrumentos como compôs os mais belos dobrados da Seis: o Joaquim Afonso, o Claudelino Coimbra (dobrado cadu) e o próprio Seis de Outubro. Grande dobrado que até o bombo e a caixa solam emparelhados com o pistão. E o maxixe que foi estreado, em trinta e três, no casamento da filha do finado Epifãnio? Magnífico! executado do começo ao fim com passagens. Todas as obras perdidas. Partituras comidas pelo cupim nestas últimas veze que a Seis de Outubro esteve encaixotada. Ninguém se lembra mais dessas peças de João Guará a não ser Otoniel de Dona Flormina, quando vem da tenda de alfaiate de Nezim Lisboa, assobiando. Menino de cabeça boa, guarda tudo. Fiz o possível para atrair Otoniel. Seria bom no contrabaixo. Seu Norberto e dona Flormina, entretanto, querem que ele seja somente alfaiate e pastor adventista. Afora Otoniel, só Alcide Papagaio-Fazedor-de-Bolsas se lembra dessas obras antigas. Alcides assovia os trechos mais difíceis do Dobrado Cadu sem errar na passagem do tom para o maior, variação que existe entre o trio e o retorno à introdução. Maior do que João Guará só mesmo Pedro Leita, que compôs o dobrado de David Gomes, Dobrado Contínuo, pois o dono desejava que ele fosse tocado até o fim da Seis. E era bom no dobrado, maior ainda na composição dos cateretês, maxixes, valsas, serenatas, cançonetes, etc. Fôra quem deu um banho de civilização nos músicos do lugar, falando em violino, piano, harpa, sarusfone, harmônio. Nunca vira um som desses instrumentos da capital e grandes centros, mas o lera numa revista foi o suficiente para aprender. Muitos dos seus discípulos duvidavam da existência de semelhantes invenções. Não consebiam alguns a possibilidade de, em um só instrumento, se trabalhar com duas chaves, a de sol e a de fá. 61
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    - É conversade Pedro Leita, gente. - dizia, duvidando, Josias França-irmão-de-Arlindo-Cego. Existe o quê! Quem é que tem mão pra mexer nas oitenta chaves de um piano? Demais, pelo que ele próprio diz, isso não serve pra banda devido o peso. Da harpa eu até não duvido pois a Bíblia fala nela. O resto deve ser exagero. A dúvida de Josias persistiu, mesmo depois que chegou a Santa Maria a vitrola de Seu David tocando música de piano, conforme anunciava, no inicio do disco, a Casa Edson do Rio de Janeiro. Anos depois, tanto os descrentes como o próprio Mestre Ambrósio puderam, maravilhados conhecer o piano através do cinema mudo de Seu Honor-de-Coló- do-Padre Othon. Noite adentro, enquanto a cidade lá em baixo dormia, no Alto do Menino Deus, Mestre Ambrósio buscava reminiscências para esquecer o momento difícil que atravessava. De vez em quando, retirava detrás da orelha o cigarro de palha para espantar as muriçocas e o sono. Queria continuar pensando em tudo, em toda gente, menos em si mesmo. Pedro foi quem mais lhe causou inveja. - Esse era mestre mesmo - confirmava sua consciência. Mestre no instrumento e mestre na composição. Fazer o que ele fazia, ler de primeira vista uma partitura; copiar como nu ditado, o assovio de uma serenata, está pra nascer homem em Santa Maria. Morte Coronel Bruno. As Seis encaixotadas há quatro anos. Com o fracasso das eleições de 1934, o coronel Bruno perdera na política e, por isso, a Seis, que ele fundara, nunca mais tocou. Os músicos, uns ficaram velhos, outros se retiraram para São Paulo na idade de procurar emprego e os que ainda ficaram perderam a embocadura com a falta de tocatas e a queda dos dentes. Não restava quase ninguém. Só os instrumentos. Mesmo assim, todos. Alguns furados, remendados de cera, sabão, elástico, e outros, os de palheta, com abafador de pano. Era uma lástima. Dava pena, tudo se perdendo no azinhavre. Desde de trinta e seis que Seu Bruno já estava caducando e ninguém se incomodava com a Seis prevenindo a necessidade de ela ter que acompanhar o velho à sepultura. Riquíssimo e caduco, havia quem afirmasse o ter visto na privada se limpando com pelega de quinhentos mil réis. Dias contados, só chegou aos oitenta e cinco anos, quando, em um dia de julho de trinta e oito, a cidade acabou o almoço com a notícia: Seu Bruno está morrendo. Morrendo de devera. Para não agourar o moribundo, nenhuma providência foi tomada no sentido de solenizar o seu funeral. Nem da feitura de atúde se cuidou. Mesmo assim - previdentes como sempre - Seu Hermínio Maleiro mais o irmão, Chico de Didi, escolheram, no Tamarindo de Cima, as táboas de cedro. Quando Siá Maria de Seu Bruno, criada dele e que lhe botou a vela na mão, anunciou, às 16 horas, o último suspiro, correu gente por todo lado. Uns para mandar Cândido Bedocha bater o sino; outros para encomendar o caixão. Teve quem convocasse Joaquim Bodeiro, Simão Pilérico, Nemésio Contador-de-Causos pra sustentar a sentinela, a noite toda, com as estórias e anedotas mais novas. Teve quem arranjasse logo Siá Coleta-de-Isidro, Siá Maria Teodora-de-Purnié, Siá Celina de Mariinha de Otacílio e Siá Valentina Voz-de- Homi, conecidas carpideiras e razadeiras dos ofícios, do lamento das almas, das incelenças e da encomendação de defunto. 62
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    Teve quem tratassede areiar a espada e desencavar sua farda de coronel da Guarda Nacional roída de traça. Teve gente pra tudo. Mas só à noite é que se lembraram da Seis. Foram buscar Pedro Leite na casa de Zé Cigarrista. Estava bêbado, dormindo. Tinha que se ressuscitar a filarmônica ja e já. Seria a pior das desgraças o coronel não ouvir a marcha fúnebre das Seis no último adeus. Inconcebível. Mas, cadê músico? Era impossível tentar-se o pretendido. E o desânimo tornou-se maior quando se descobriu que a papeleta da marcha fúnebre o cupim havia comido. Pronto: acabou-se a esperança. Pedir músicos à Vitória, ou tentar tocar a marcha dela, seria uma desmoralização política sem precedentes que fazia apavorar os correligionários do morto. A Vitória de Seu Clemente ter que tocar no enterro de Seu Bruno, era uma hipótese que ninguém se aventurava considerar. Seria uma traição inominável e com morto não se deve brincar. Com a notícia e a convocatória, Pedro Leite se tornou lúcido imediatamente. Conhecedor da real situação da Seis, não perdeu tempo em entender, de pronto, ao chamado. Mandou o portador dizer que fossem remendados os instrumentos para ver se estavam em condições de uso. Os ferreiros Antoín Pessoa, Evaristo ferreira e João Ferreira cuidariam dos consertos, distribuíndo-os, logo, a cada músico bom ou ruim que ainda restasse. Um candeeiro fifó, uma pena de alumínio, um tinteiro de tinta sardinha e uma garrafa de cachaça ajudaram Pedro Leite na composiçaõ da nova marcha fúnebre. Era terminado de compor os solos de clarinetes e mandando Cadú de Chico Coimbra e Zezito-de-Quinca-Afonso ensaiá-los em casa; a parte de contrabaixo para Vadim de Josias Irmão-de-Arlindo-Cego; a do pistão para João Lima. Depois da meia noite despachou as partes dos saxofones para Jaime de Maria Vitória e Quinca Ataíde; a de soprano para Chico de Guarany; a do trombone para Otacílio Carvalho; as das trompas para Jaime Coruja e Calixto de Severina Dona Bíu , a da riquita para Tonhá de Zé Pau, a do bombo pro Aristóteles a assim por diante. A última foi a de Lauro-de-Zé-Sobral porque este executava qualquer música de primeira vista, por mais acidente que tivesse. Ninguém dormiu com os toques dos instrumentos, noite adentro, um nessa, ou na outra rua. Aqui um desentoado, acolá outro descompassado e todos zuadentos na abstinação dos seus executantes sem embocadura, ou sem dentes, ou ainda com dor de dentes; dedos entrevados sem treino, testando os instrumentos com a frase músical do-mi-sol-do-sol-mi-do, que os capadócios traduziam em eu-u-ri-nei-n’u-ri-no. Para completar, cantorias tristes dos ofícios ao ritmo do serrote , do martelo, noite velha, na labuta do caixão, trinta metros de fundo. Na sentinela risadagem alta dos causos e anedotas. A cidade não dormiu. Nem cochilar pôde. Antes do maio dia os músicos foram reunidos para o ensaio geral. Mais um dedo de tinta na harmonia e a Seis respirou de novo. Era a marcha fúnebre mais fúnebre, mais triste que já ecoou naqueles rincões do Rio Corrente. Músicos houve que temiam o enterro, já que no ensaio a lágrima sufocava o sopro. Com efeito, no Cemitério de Santa Verônica, o Cemitério Novo, foi tão grande a choradeira que ninguém desatou o nó da goela para pronunciar a ode mais simples e costumeira e sem rima: 63
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    Deus o leve,leve e tranqüilo como o incenso de turíbulo. Pedro Leite alcançara o máximo. Foi exigida nova execução da sua marcha fúnebre no retorno da banda à casa do morto. Novo aguaceiro de lágrimas. Só depois disso é que o povo veio sentir que Seu Bruno havia morrido mesmo. Desceu sobre a cidade uma tristeza de cemitério. Muita gente foi dormir cedo por não ter vontade de conversar. Seu Bruno parecia estar em todo canto, em toda a casa. Não ficara no cemitério, na sepultura. Descera o morro da Lavandeira, acompanhando a Seis, na marcha fúnebre de Pedro Leite. Surgiu até quem jurasse o ter visto, madrugada, acordando os músicos para um novo ensaio. Da mesma forma que aconteceu na morte do coronel Barbosa Laranjeira, a Vitória havia acompanhado o enterro, fardada e pronta para tocar a sua própria marcha fúnebre, na hipótese da Seis falhar não lhe sobreveio, desta vez, essa oportunidade e, por isso, Mestre Ambrósio, o regente, teve sua vaidade ferida. O espírito do velho coronel o perseguia. Superstição besta - repelia sempre - que nos insucessos lhe vinha à cabeça. O coronel Bruno não o perdoaria, mesmo depois de morto, o fato de ter trocado a Seis pela Vitória. Ninguém mais se lembrava disso, porém era só no que pensava Mestre Ambrósio toda vez que a Vitória sofria alguma derrota, ou perdia a ocasião de fazer bonito. De resto, os seus próprios azares pessoais ele atribuía a alguma praga que Seu Bruno lhe houvesse rogado, em vida. Julgou haver perdido por completo o receio , após a morte deste. Supôs que a Seis fosse desaparecer definitivamente. Seu Bruno morto, morta a Seis. A Vitória, que sempre apresentara melhor conjunto e mais harmonia, criou o vulto e o mestre pontificou na labuta. Muitos fatos contribuíram para transformá-la na melhor filarmônica da região. Um deles, o principal, foi a construção do navio Alfredo Viana, de propriedade do coronel Clemente de Araújo Castro, chefe político local, fundado e mantenedor da Vitória. Lutando contra a política monopolista do transporte fluvial exercida no Rio São Francisco e afluentes pelas três companhia, a Bahiana, a Mineira e a Industria Viação Pirapora, Clemente Araújo, criador e industrial ( apesar de tido como prefeito violento e voluntarioso, era progressista e arrojado), resolveu construir um navio moderno para atender ao transporte no Rio Corrente. Vendeu quase todo o gado que possuía, mas o fez. Maquinas a vapor vindas da Europa foram montadas sobre um casco construído no Estaleiro da Ilha do fogo em Juazeiro Oitenta toneladas nos seus porões e podendo arrastar mais duzentas em chatas anexas. Dispondo de uma industria de madeiras, o coronel Clemente achou menos dispendioso fazer os camarotes, convés e madeiramento em geral lá mesmo em Santa Maria. Para tanto, contratou numerosos operários locais e de outras cidades do São Francisco, dentre os quais o próprio regente da Vitória, Mestre Ambrósio, cuidadoso tanto na música como na mercearia. Joaquim Bento, carpinteiro fino vindo de Minas Gerais, era o chefe da obra. Foi uma quadra feliz para Mestre Ambrósio. Vislumbrou-a em todos os detalhes. Além de um salário de merceneiro, pequeno mais certo, os novos músicos propiciavam-lhe perspectivas extraordinárias para transformação da Vitória na maior banda de todo o vale sanfranciscano. 64
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    - Só seriainferior às filarmônicas de capital e à Euterpe de Juazeiro, assim mesmo, apenas no número de fdiguras. Sonhava, cosciente de sua reconhecida capacidade, o Mestre Ambrósio. - Transporte de graça - não raro dentrava - a banda poderia fazer uma excursão pelas cidades grandes, Barra, Pirapora, Januária, Remanso, Juazeiro, Petrolina, etc. Era a glória culminando-lhe os últimos anos de vida. Festejava-a po antecipação aos goles discretos de cachaça. No meio do operariado de fora havia inclusive novidades: um flautim do genro de Joaquim Padeiro e um clarone de Rau Montes Claros. Com os novos, a Vitória somava trinta figuras. Um estouro. O coronel Clemente, ao ouvir-lhes os ensaios, se orgulhava de tudo: da banda , dos músicos e do Mestre Ambrósio e sempre dizia que banda de música é que nem mulher-dama, só funciona se lhe der dinheiro. Sem dinheiro a banda não toca. Repertório novinho em folha com dobrados vindos da capital do Estado. Os adversários políticos, os de baixo, correligionários do finado Bruno, escolheram má hora para ressuscitar a Seis. Era para ela não mais reaparecer, porém o sorteio de Joaquim Inácio de Oliveira (“Joaquim Bodeiro”) para o festeiro do Divino Espírito Santo acelerou o processo. Músicos, se muito ainda restasse, uns cinco. Nem maestro tarimbado possuía. Todo mundo tinha se mudado, ou por insegurança política o por falta de ganha- pão, de emprego. Lauro Sobral era a salvação. Desde mocinho já se mostrava bom músico e meio maestro. Bom de embocadura e bom na interpretação. Só o pai Zé Sobral Sapateiro e Josias França foram maiores que ele no bombardino. Lia de diante-pra-trás e detrás-pra-diante qualquer partitura. E, ademais, compunha sem necessitar de instrumento. Com dois meses passou dez discípulos da artinha para o solfejo e do solfejos para os instrumentos. - Só sendo milagre! - refletia, ameaçando, Mestre Ambrósio. E só não lhe voltava o pesadelo da praga do velho Bruno porque ele reconhecia a fraqueza , melhor ainda, a tibieza da Seis: instrumental velho, furado; repertório antigo e, de resto, músicos, além de poucos, imaturos e sob a inexperiente batuta de Lauro Sobral. Para completar, este, Lauro, repentinamente, foi atirado à rede por uma hemiplegia de origem só explicada pela carga de sífilis que afirmara ter adquirido nas aventuras do mundo. Era um condenado à morte, moço ainda, trinta anos, quando terminava um dobrado que, só postumamente, recebeu seu nome. O desespero e a neurastenia proveniente da frustração que a paralisia parcial provoca não lhe permitiam prosseguir, ainda que ditando, a composição de um repertório imprescindível ao sucesso da Festa do Divino e da própria Seis. Esforços perdidos. Músicos jovens, entusiasmados apesar de inseguros, mas sem maestro só com quatro dobrados: o de Lauro, o Crepúsculo, o Rosicler e o Avante, Camaradas, de Antoninho Espírito Santo, antigo e demasiadamente batido. A falta de maestro foi suprida logo por Quinca Ataíde e os ensaios prosseguiram. 65
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    Se houvesse umencontro de rua, a Seis seria fatalmente massacrada. Era fácil constatá-lo nos simples ensaios das duas bandas de música. Temiam-nos os oposicionistas. Mas, desta vez, Mestre Ambrósio não colheria os louros da Vitória. Todo o seu modesto castelo de cartas desabara desastrosamente. Havia dois meses, amargava o azar que a sorte cruel lhe reservara para o fim da vida. Quantas vezes, na roça, desejava uma picada de cobra venenosa. Trocaria o infortúnio a que foi atirado pela desgraça que se abateu sobre Lauro Sobral, a paralisia do lado esquerdo com boca torta e tudo. Uma calúnia fundada em plano bem urdido levou o coronel Clemente a admitir, sem sombras de dúvidas, que Mestre Ambrósio houvera furtado um alicate do almoxarifado do navio. Fora fácil concluí-lo. O preto anda bebendo muito antes de receber o salário - dizia um acusador - e ainda paga para os amigos. Quando, no revistamento, mexemos no bolso dele já era quase certeza encontra o alicate. Não achei exagero nos nomes que o coronel usou pro velho, não. Ladrão é ladrão mesmo. É nome que serve pra cabelos preto e pra cabelos brancos também. Basta pegar o que é dos outros. Ele teve sorte que não foi nem pra cadeia... Lá fora, seria negócio pra um ano de chá-de-grade. Nem uma e nem outra alternativa, entretanto, Mestre Ambrósio preferiria no momento em que ouviu o dono do navio e dono da banda, colérico, lhe expulsar das duas coisas. Se tivesse morrido ali mesmo, tudo teria se passado rápido, sem grandes sofrimento, já que a dor da honra é maior que a dor da morte. Nem assim a sorte lhe foi condescende. Após ouvir, na frente de todos, os insultos mais duros e brutais saiu, cego de vergonha, sem rumo, pois nem atinava onde se esconder. Pegando o leito lamacento do riacho que divide a cidadezinha, passou por baixo das duas pontes em direção à Várzea. Daí, cortou o morro na altura da casa de Seu Bento Papudo para ir se enfurnar numa tapera da rua de Siá Francisca. Quase ninguém o viu chegar, enquanto, lá em baixo, o povo atônito via nas ruas fervilhar as mais contraditórias versões. Era o fuxico, essa generalizada diversão - o teatro e o cinema dos lugares pequenos. O assunto rendeu o mês inteiro e renascia toda ocasião em que alguns namorados surpreendiam o vulto solitário de Mestre Ambrósio tossindo no alto do menino Deus. Era uma espécie de alma penada pelos escuros da noite. Enquanto este buscava ouvir os sons da Vitória. Lauro Sobral, semi-paralítico do fundo de uma rede, escutava os ensaios distante da Seis. Um ao pé do Menino Deus e o outro vizinho da casa de Bernadete de Seu Antônio de Bruno, ao lado da casa de Anacleto França, na rua da Caatinga. Dois músicos e maestros; os dois frustrados e infelizes e sobre ambos a iniqüidade da sorte. Faltava mês e pouco para a festa do Divino, a maior da Santa Maria da Vitória, quando Mestre Ambrósio conseguiu emprestado papel de pentagrama e tinta. Sentado no chão do mocambo, apoiado num banco de três pernas, o velho rabiscou firme, quatro dias. As maniva de mandioca da roça iriam demorar ainda meses para lhe fornecer o sustento e ele se sentia pesado no orçamento miserável de sua amiga. Esta, por sua vez, se tornara feliz ao ver desaparecer, por instantes, da face do velho aquele profundo olhar de tristeza. E o contemplava, horas inteiras, cantarolando 66
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    baixinho algum lundu,sem entender as centenas de bilros que ele, sofregamente, desenhava, com se, procurando imitá-la, elaborasse um rendilhado no papel de música. Trocou com ele, várias vezes, as pitadas de um cachimbo de barro, enlevada, agora, com a expressão profundamente humana que naqueles quatro dias assumiu e seu olhar, antes sempre injetado de cor e de revolta. E foi com tamanho ardor o renascimento de um passado distante, cheio de amor e medo os dois ainda jovens - que ela mesmo desceu o morro a fim de pessoalmente vender as três partituras que Mestre Ambrósio produzira. Não se envergonhava de dizer que ele se homiziara no seu mocambo. A fome e uma afeição antiga impunham, ademais, buscar os adversários políticos para vender as peças musicais, pois a Seis era que mais estava necessitando de repertório novo. Dois dobrados e uma valsa pra quinze figuras: mais de cinquenta páginas cobertas de arte. A valsa, Quinca Afonso comprou depois de ouvir o filho Zezito as partes de solo, da introdução até a coda. Achou-a bonita enão regateou no preço. Pagou os dez mil réis pedidos e a ofereceu à Seis de Outubro com o título Maria de Lourdes, nome da filha caçula. Um dobrado, comprou, também, por dez mil réis, o festeiro Joaquim Bodeiro, intitulando-o logo Dobrado Manoel Inácio de Oliveira, nome de Netinho, filho mais velho. Esse dobrado, apesar de bem trabalhado, foi infeliz nos primeiros ensaios. Netinho como todo filhinho de festeiro que ingenuamente imagina ser a banda de música uma propriedade do dono da festa, condenou à galhofa de seu próprio dobrado. Com efeito, todas as noites, batia o bombo a fim de chamar os músicos para o ensaio. E o fazia com tanta força - coisa de adolescente que resultou rompendo o couro do instrumento Foi a conta. O maestro, daí por diante, quando anunciava o dobrado Manoel Inácio de Oliveira, provocava um burburinho de risos. Era o dobrado Fura Bombo e co esse nome ficou. Para o outro não houve pretendente. Ninguém quis dar quinze mil réis por um dobrado. Por dez nã faltaria comprador. No dia seguinte, Mestra Ambrósio o ofereceu de graça à Seis, com o nome de dobrado Para Todos. Era a sua obra prima. Nele havia jogado toda a sua inspiração. Só após Quinca Ataíde solfejá-lo de ponta-a-ponta é que verificou a beleza, a preciosidade da peça. Dobrado sinfônico de cinco partes com ligeiras fugas polifônicas e contacantos surpreendentes. Introdução grave e imponente prepara fácil o tema da primeira parte, marcada de um crescendo suave. Toda a linha melódica fora do costumeiros artifícios musicais das bandinhas do interior. O máximo de desenvolvimento individual e de cada naipe instrumental, mas dentro de uma rara homogeneidade harmônica. O primeiro ensaio conjunto desse dobrado arrastou gente desde a praça do Pequiseiro, até onde chegaram os sons da Seis. Valia por todo repertório novo da Vitória. Otoniel-de-Dona-Flormina, Alcides Papagaio, Morais de-Seu-Antônio Lisboa, Vanjú de-Cota-da-Rua-do-Riacho, Santinho de Chico Caburé e outro meninos assubiadores, de ouvidos bons, no dia seguinte, encheram as ruas e as tendas de alfaiate do dobrado Para Todos. Foi a coqueluche do lugar. Mestre Ambrósio, do Alto do Menino Deus, apreciou por várias noites a evolução dos ensaios da Seis. Melhoraram dia a dia. Porém faltava ainda muito para apresentar o rendimento harmônico que o Para Todos exigia. Reconhecia-o pesado em demais para uma filarmônica formada de iniciantes. 67
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    Cinco dias antesda Festa do Divino, Quinca Ataíde se sentiu na obrigação moral de fazer uma visita a Lauro Sobral com o objetivo de conhecer-lhe a opinião sobre o trabalho que o próprio Lauro havia iniciado. Era uma espécie de prestação de contas e, ao mesmo tempo, uma homenagem com que julgava confortar o infeliz paralítico. O encontro foi terapêutico para o enferno. Este reconhecia que a Seis, apesar de falha, com mais cinco dias de repassos, estaria em condições de abrilhantar a festa. O diálogo foi curto porque o bombo já havia dado a segunda chamada. - E as trompas, Quinca? - Progrediram muito e mais ainda o soprano de Chico de Guarany - Quem vai salvar tudo é o Para Todos. Durante o ano que eu estive no interior de São Paulo, onde eu arranjei essa sífilis amaldiçoada, nunca vi um dobrado mais belo e mais rico do que esse do velho Ambrósio. O preto parece que ali deu tudo que podia dar. Não tenho certeza, mas - Quinca Ataíde já o esperava - eu acho que está faltando qualquer coisa nele. Acho que. - É, falta do bombardino - Se Mestre Ambrósio escreveu a parte do bombardino, na falta deste, - reclamou Lauro por que não converter ela para o barítono ou ainda para o tenor - Zeca Coimbra não aguenta Zeca é bom, porém tem dedo enferrujado e a parte é toda cheia de acidentes. De mais a mais exige muita execução. Se você quer ver vou mandar buscar em casa agora mesmo. E já foi pegando o menino mais próximo para dizer a dona Naninha que mandasse aquela folha de papel que estava sobre a cama de Reinaldo. Ao passa a vista na parte do bombardino o inferno vibrou e, de repente, parou os olhos fuzilantes em um ponto fixo do telhado. Refletiu meio minuto e erguendo com sacrifício a cabeça e o tronco, na rede incômoda, surpreendeu os circunstantes. - Arranje Chico Caburé, Joaquim Piçarra e mais uns dois carregadores pra me levar na rede até à praça, que hoje o Para Todos sairá completo. Deijinha, a irmã, e Siá Maria-de-Zé-Sobral, a mãe, cheias de cuidados e quase se desmaiando de medo, soltaram logo uns “ Deus lhe defenda!” co cara de choro. - Não carece cuidado obstinava Lauro querendo se sentar na rede. Basta arranjar dois travesseiros para calçar os ombros que eu fico bem sentado no canto da sala. A mão direita está boa e minha boca já desentortou muito. Chamem os cerregadores e, nervoso - me façam essa caridade. Foi um rebuliço em toda a rua da Caatinga. Aquele estranho préstito puxado por uma rede, lembrando um enterro de brejeiro, arrastou enorme multidão à Esquina de Arnaldo Borba, onde ensaiava a Seis, na Praça da Bandeira. A rede penetrou inesperadamente, porta-adentro, na sala cheia de estantes, onde os músicos, retransidos de susto, interromperam os últimos afinamentos. 68
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    Escorado nos travesseirose com o bombardino a tiracolo, Lauro Sobral experimentou rapidamente o instrumento e os dedos nas passagens mais dificeis do dobrado. Foi questão de segundos e os músicos, seus discípulos, ficaram radiantes ao verificar o ressurgimento do maestro de ontem. Correu por todas as veias o frêmito desses momentos de extrema emoção, sobremodo quando, após a introdução do Para Todos, o bombardino, em florituras impressionantes, costurou de ponta a ponta, notas limpas e impecáveis, a primeira parte. No Alto do Menino Deus, Mestre Ambrósio empertigou-se. Sentia-se arrebatado. Aqueles sons eram a sua alma, o seu sangue, e sua tosse, a sua fome, a sua vergonha, a sua vida. Teve vontade de correr. À medida em que se desenvolviam as outras partes do dobrado sinfônico, os músicos percebiam que o bombardino descortinava todo um novo ângulo estético da peça. Na altura do trio, enorme multidão se acotovelava na frente da casa, em silêncio, mas de tal forma vibrante que Quinca Ataíde, também emocionado, chamou os músicos ao ritornello, à repetição. Foi um delírio sem precedentes. Tudo indicava que músicos e instrumentos iriam se desmanchar no entusiasmo e a banda parecia que passara de quinze para trinta figuras. E, como se não bastasse todo aquele mundo de emoções irreprimidas, qual um fantasma saindo do chão, maltrapilho, alquebrado, barba crescida, olhos fundos e marejados, o Mestre Ambrósio penetrou, de súbito, no recinto. Multiplicaram-se as cabeças inquietas dos curiosos que disputavam as quatro janelas da sala. Eletrizaram-se os músicos. E Quinca Ataíde entregou-lhe a batuta. Repetiu-se mais uma vez o Para Todos, aqui e acolá entrecortado de aplausos incontidos. No meio do dobrado o velho sofreu um acesso de tosse. Procurou coibi-la devolvendo a batuta a Quinca Ataíde e buscando um copo d’água no corredor vizinho, com a moradora, Siá Luzia de Luíz. Não voltou para os braços dos músicos e da enorme assistência que o aguardavam ansiosos. Saíram misteriosamente pelos fundos da casa. Nesta noite Santa Maria não dormiu, o povo procurando Mestre Ambrósio por todo canto. Ao amanhecer, canoeiros atiravam redes, inutilmente, ao longo do Rio Corrente, na procura de um corpo afogado. Caminhada de vinte léguas até o São Francisco e cento e cinqüenta de balsa, salpicadas de sangue tossido á procura de caridade. Morreu solitário a seis légua de Juazeiro, entre indigentes do Sanatório de Carnaíba. Casa de Detenção Recife, 2 de Janeiro de 1965 69
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 90 ANO II, Nº90 - MARÇO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia A VIDA AFETIVO-SEXUAL COLONIAL Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” BRASILEIRA E AS CONSEQUÊNCIAS deverão ser encaminhados para e-mail: PSICO-CULTURAIS nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 MARCEL DE ALMEIDA FREITAS CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 70
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    Marcel de AlmeidaFreitas Antropólogo marleoni@Yahoo.com.br A VIDA AFETIVO–SEXUAL COLONIAL BRASILEIRA E AS CONSEQÜÊNCIAS PSICO–CULTURAIS O tráfico de escravos foi iniciado no Brasil em 1526 e a escravatura foi abolida em 1836 (PRADO Jr., 1961). Durante estes três longos séculos, negros oriundos de diferentes partes da África ajudaram a construir este país. Aqui também os portugueses(as) puderam exercer sobremaneira a dominação e a exploração sexual sobre os colonizados – índias(os) e negras(os). Assim, este artigo é uma tentativa de abordar alguns aspectos da vida sexual de escravas(os) e senhores(as), investigação esta que pode esclarecer características importantes do fenômeno escravidão em geral como também trazer algumas luzes sobre o comportamento sexual e as relações de gênero do povo brasileiro atualmente. Desta forma, no cruzamento da História com a Psicologia, pretende–se pontuar alguns aspectos das relações interpessoais entre pessoas no âmbito sexual e afetivo hierarquicamente desiguais. O SEU CORPO É MEU Durante a escravidão os corpos dos escravos pertenciam aos donos como se fossem corpos de animais. Assim, os brancos podiam manifestar livremente uma agressiva luxúria sobre as negras, e não raro sobre os negros (MOTT, 1988). Segundo Gilberto FREYRE (1926) a licenciosidade, a depravação (segundo os costumes ocidentais da época) e a subordinação sexual são inerentes ao sistema colonial brasileiro. Os portugueses, interessados em povoar a terra enorme e deserta logo lançaram mão do corpo das nativas e posteriormente abusaram da importação de adolescentes negros (rapazes e moças), para que, na promiscuidade dos navios negreiros, eles tivessem relações sexuais e as negras aqui chegassem grávidas, aumentando o patrimônio de seus futuros senhores – segundo as leis escravocratas daquele período, o senhor não precisava pagar pelo feto no ventre da mãe (POMER, 1980). Na “Idea Geral de Pernambuco em 1871” (MOTT, 1988) um cronista anônimo fala da ‘grande lubricidade’ dos negros nos engenhos, fato que era estimulado pelos senhores ávidos de aumentar seu plantel. Entretanto, tal crônica mostra apenas o caráter ideológico da época, já que não eram os negros os verdadeiros lúbricos – mesmo porque eles não tinham os sistemas religiosos e as noções de pecado cristãs – eles foram, na grande maioria das vezes, vítimas do clima de lubricidade existente na própria estrutura do sistema escravocrata, sendo que era o europeu o elemento ativo e o principal beneficiado de toda essa licenciosidade. Os 71
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    pais – senhoresde engenho – viam sempre com olhos simpáticos e de silenciosa aprovação a antecipação sexual dos filhos varões com as ‘negrinhas imberbes’ (FREYRE, 1926). Esta violência sexual (ainda que não tivesse caráter de violência física certamente era uma agressão psicológica e cultural), além de preservar as ‘moças de família’, futuras esposas, significava o surgimento de mulatos para os trabalhos na lavoura. O fato de que estes rapazes brancos não tivessem nenhuma atividade, nenhum trabalho (os trabalhos braçais eram vistos com extremo desprezo), também contribuía para essa extrema sexualização da vida cotidiana, ou seja, uma forma de preencher o tédio (PRADO Jr., 1961). Segundo as tradições rurais nos engenhos até mesmo as senhoras – mães mais desembaraçadas – incentivavam que seus filhos fossem para os braços das negras e das mulatas; recorrendo a Gilberto Freyre vemos que: “Nenhuma casa grande do tempo da escravidão quis para si a glória de conservar filhos maricas ou donzelões. O que a negra da senzala fez foi facilitar a depravação com sua docilidade de escrava: abrindo as pernas ao primeiro desejo do senhor–moço. Desejo não, ordem” (FREYRE, 1926:113). O clima de liberalismo e exploração sexual de negras(os), e em menor escala índias(os), favorecia o desejo de idosos e jovens. Sucedia muitas vezes que justamente aqueles senhores mais severos com seus filhos e principalmente com suas filhas e esposa eram os que davam mais mostra de ímpeto de dominação sexual sobre a ‘carne das negras’. Nessa época acreditava–se que era o calor dos trópicos que acelerava o precoce despertar sexual dos rapazes brancos e não os exemplos paternos e mesmo dos avôs (STAVENHAGEN, 1973). Padre Lopes Gama disse que os meninos das fazendas de cana–de–açúcar “(...) apenas tocam os limiares da virilidade e já se entregam desenfreadamente aos mais porcos apetites; são os garanhões daqueles contornos” (apud MOTT, 1988:45). A dupla moral, característica da sexualidade brasileira até os dias de hoje, se manifestava no fato de que, entre outras coisas, o senhor por pudores e preceitos religiosos, se reprimia sexualmente com a esposa branca – figura exclusiva para a reprodução – mas geralmente não tinha freios no relacionamento com escravas, consideradas simples objetos. Tais relacionamentos muitas vezes marcavam de maneira permanente o psiquismo dos homens da época, como mostra o seguinte exemplo narrado por Raoul Dunlop (apud FREYRE, 1926): certo jovem de conhecida família escravocrata do Sul do país para excitar–se sexualmente diante da noiva branca teve que levar para os aposentos a camisola úmida de suor de sua escrava negra, sua amante desde que entrara na adolescência. De qualquer forma, negras e negros de intensa beleza – os padrões estéticos não eram tão rígidos e autoritários como atualmente – deviam se constituir em ‘tentação’ para europeus sexualmente reprimidos no velho mundo, e que quando chegavam ao Brasil podiam dar vazão a impulsos sexuais mais facilmente. O Reverendo Walsh em seu “Notices of Brazil” de 1830 diz o seguinte: “A superioridade da população negra não é tão grande em número quanto em atributos físicos. Muitos negros e mulatos são pessoas mais vigorosas e atléticas que se pode contemplar e poderiam servir de modelos para um Hércules de Farnese” (apud ARANA, 1960:69). Já o francês Tollenare descrevia as negras como tendo “formas esculturais, proporções generosas de corpo, os tons quentes da pele, a paixão concentrada no olhar” (NOVAIS, 1979:173). Ele admirava o próprio odor do corpo das negras, em contraste com o cheiro artificial produzido pela maquiagem das mulheres brancas. 72
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    Um anúncio do“Jornal do Commércio” do século XIX dá bem a medida de como valorizavam–se os aspectos sexuais nas moças negras e mulatas – além do aspecto força e disposição para o trabalho: “Procura–se negrinha de beiços finos, olhos grandes, pés pequenos, espigadinha de corpo, peito em pé. Rua das Violas, em São Cristovão” (MOTT, 1988:55). Em outro anúncio do mesmo jornal vemos como tais seres humanos eram maltratados pelos seus senhores, como eram totalmente coisificados: “Procura–se mulatinha puxando a sarará, de nome Joana, 14 anos prováveis, fugida de um engenho do Carmo, cor alvacenta, cabelo carapinho e russo, corpo regular, com todos os dentes, mas com vestígios antigos de chibata no corpo (...). Fala às vezes viciosa. Padecendo de bouba18 nas partes ocultas” (POMER, 1980:106). A descrição dada aos ‘machos da espécie’ também primava em exaltar os caracteres selvagens, robustos e primitivos, que tanto distinguia os negros dos brancos, e que muitas vezes vemos de modo subliminar na mídia de hoje: no “Diário de Pernambuco” do século XIX procurava–se um tal de Francisco com as seguintes características: “23 anos, grosso de corpo, cabelos não encarapinhados, dentes perfeitos, pé e mãos regulares, negro pachola que fugiu trajando calça de casimira preta (...)” (POMER, 1980:109). A partir deste e de vários outros anúncios percebemos que o interesse dos senhores (e mais camufladamente das senhoras) pelas(os) negras(os) e mulatas(os) não se reduziam apenas aos serviços domésticos, da lavoura ou da garimpagem: a escravidão também incluía obrigações na alcova dos brancos. No período colonial muitos portugueses optavam por amasiar–se com uma negra ou mulata; as leis lusitanas facilitavam como nenhuma outra o registro dos filhos ilegítimos favorecendo que tais ligações não ficassem tanto na clandestinidade como em outras zonas coloniais – espanholas, francesas, inglesas. Nas palavras de Gilberto Freyre isso se deveu ao fato de que “A falta de gente para a colonização do país fez diminuir os escrúpulos contra irregularidade sexuais. Talvez em nenhum país católico tenham até hoje os filhos ilegítimos – particularmente os de padre – recebido tratamento tão doce” (FREYRE, 1926:239). Em seu livro “Crônicas do negro no Brasil”, Sérgio Diogo Teixeira de Macedo (apud NOVAIS, 1979) se refere ao fato de que meninas negras de 10, 11 anos eram estupradas por ‘sinhós–moços’ e ‘sinhós–velhos’; padres viviam abertamente com escravas, criando os filhos daí gerados com responsabilidade paterna, o que deu origem até mesmo a algumas famílias ilustres, sobretudo no Nordeste. Muitas escravas eram obrigadas a se prostituir nas ruas de Salvador, Recife, Rio de Janeiro para sustentar ávidos senhores. O Reverendo Walsh, anteriormente citado, também menciona o fato de europeus louros e ruivos – alemães, belgas, escoceses, ingleses, dinamarqueses – venderem por altíssimos preços seus filhos mestiços bastardos devido aos olhos azuis e cabelos avermelhados ou alourados (POMER, 1980). 18 Doença venérea que às vezes se confundia com a sífilis. 73
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    O SEXO COMOINSTRUMENTO DE LIBERTAÇÃO De acordo com a obra de Gilberto Freyre nos mercados negreiros os compradores faziam com que os negros ficassem quase nus, ‘arreganhavam’ suas bocas para ver a dentição, mandava–os tossirem, sorrirem, saltarem e todo tipo de ignóbil exposição com o objetivo de avaliar a ‘qualidade do material’. Havia também aqueles compradores que muito examinavam o tamanho do órgão sexual dos negros bem como a rigidez dos seios das negras; muitas vezes a ‘análise’ das partes pudicas dos escravos se ligava aos interesses reprodutivos no cativeiro, porém não era raro que tal exame objetivava verificar o grau de prazer que tais ‘coisas’ poderiam proporcionar ao comprador (FREYRE, 1926). Os negros tinham que se submeter a tudo: eram apalpados, apertados, cheirados, quase que eram mordidos, amolengados, etc. os ciganos eram os que mais expunham as negrinhas imberbes em posições de sedução para atrair os senhores compradores, tapando apenas seu sexo com diminutos tecidos. Muitas vezes, e através disso podemos ver a dominação de gênero, de classe e étnica, as negras mesmo coisificadas desta maneira desenvolviam apreço, afeição e até mesmo amor pelos seus senhores. Os versos de uma mulata desconhecida, coletados por Leon Pomer, mostram a atuação da ideologia dominante (a vítima que se liga afetivamente ao algoz): “meu branquinho feiticeiro/doce ioiô do meu coração/adoro teu cativeiro/branquinho do coração./Pois tu chamas de irmãzinha/a tua pobre negrinha/que estremece de prazer/e vais pescar à tardinha/mande piau e corvina/para sua negrinha comer” (POMER, 1980:10). Por outra mão, é preciso considerar que se tornar amante de um branco, ou mesmo prostituir–se, era uma das poucas alternativas que uma negra ou mulata tinha para amenizar a escravidão, ou em casos mais raros, de se tornar livre. André João Antonil (apud FURTADO, 1969) postula que muitas negras conseguiam juntar alguma quantia com a qual compravam sua alforria, e como mesmo depois de livres, como nada sabiam fazer, e nenhum patrimônio possuíam, continuavam a vender o sexo em troca de dinheiro. Por outro lado, algumas ex–escravas se tornaram respeitáveis donas, mães de família e senhoras de outros escravos. Este foi o caso de Xica da Silva (MOTT, 1988). Quando João Fernandes de Oliveira – o Contratador – se interessou por ela, Xica já não era mais tão jovem (de acordo com os padrões da época) e já era mãe. No entanto o europeu a cobriu de ouro e lhe outorgou um poder enorme. Tiveram doze filhos e a ex–escrava viveu numa esplendorosa quinta. No período colonial as negras mineiras tinham fama de serem mais dóceis e belas que as escravas de outras regiões (POMER, 1980). Acreditamos que a docilidade era devido ao fato de que as negras que eram enviadas para aquelas paragens não eram utilizadas para os serviços de lavoura ou garimpo, mas se ocupavam dos serviços domésticos e desta forma introjetavam, em alguma medida, os valores e etiquetas dos brancos. O próprio governador do Rio de Janeiro, Luís Bahia Monteiro, em 1730 chegou a afirmar que “(...) não há mineiro que possa viver sem sua preta, dizendo que só com ela tem sorte nas lavras” (apud POMER, 1980:19). Algumas destas negras, ao se tornarem concubinas de luxo, e mais raramente esposas de senhores abastados, viviam em grande luxo e vaidade; No Rio de Janeiro não era raro ver–se negras e mulatas cobertas de jóias, trajando cetim, fileiras de miçangas e saias de baixo no mais puro linho de Flandres. Isso mostra uma 74
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    certa permissividade dasociedade brasileira da época, e através da ostentação de suas negras concubinas os senhores do comércio ou de engenho afirmavam sua riqueza e poder frente aos outros homens. RELAÇÕES DE PODER E SEXUALIDADE Numa situação em que seres humanos estavam submetidos a outros, econômica, social e psicologicamente é de se esperar que o sadismo e o masoquismo florescessem. Deste modo, o costume de açoitar escravos era público e anunciado com antecedência por tambores que rufavam veementemente. Homens, mulheres, crianças, negros, brancos, mestiços, indígenas, ricos e pobres, todos iam ver e fruir os açoites – verdadeiros espetáculos que misturam licenciosidade e crueldade. Narradores estrangeiros ficavam surpresos como a multidão exultava a cena e como exigia mais (ARANA, 1960). À cada corte aberto nas costas dos escravos – nesse tipo de punição era mais comum o elemento masculino – onde sangue, suor e lágrimas se misturavam, a turba excitada aplaudia o carrasco. As mulheres brancas, talvez para compensar a submissão que sofriam dos maridos, exageravam no sadismo quando puniam algum escrava, principalmente se do sexo feminino – numa leitura psicológica podemos entender que também manifestam seu desejo sexual reprimido nestas torturas. Gilberto FREYRE (1926) conta de iaiás que destroçavam dentes de negras com o salto do sapato, e outras que mandavam cortar os mamilos das negrinhas recém entradas na adolescências – como se tais criaturas fossem as responsáveis pelos olhos gulosos dos maridos. Sérgio Diogo Teixeira (apud POMER, 1980) descreve a história de Dona Ana Paes, fazendeira de Goiás. Suspeitando que uma das escravas da fazenda estava grávida de seu esposo, Dona Ana aguardou pacientemente o nascimento do bebê; quando nasceu a criança mandou que suas escravas arrumassem luxuosamente uma mesa de jantar. Então ela mesma trouxe assado o recém–nascido. Partindo friamente a coxinha do bebê, atirou o pedaço no rosto do marido em choque gritando: “anda bandalho, come o teu filho!” Desenvolveu–se também uma grande rivalidade entre senhoras e escravas – ambas desconhecendo que estavam todas submetidas ao mesmo poder: o patriarcado. As brancas tinham o ócio, a riqueza, o status e o poder, mas devido à falta de atividade engordavam logo após o primeiro parto, perdiam os dentes com facilidade – o que era acelerado pelo grande consumo de doces e guloseimas – e tinham então que ‘concorrer’ com as negras de corpo definido pela lida diária. Essas disputas ficam bem evidentes na seguinte quadrinha anônima, recolhida por Lamego (apud MOTT, 1988) na região de Campos de Goytacazes: “Se as brancas se vendessem/ou por ouro ou por prata/compraria uma delas/para servir às mulatas”. Era hábito naquele período que meninas brancas de 13, 14 anos se casassem com senhores de 50 anos. Em alguns anos o marido decrescia física e sexualmente – especialmente pelas condições de trabalho adversas e pela vida licenciosa que levavam – e devido a isso, juntamente com a subordinação com a qual eram obrigadas a tolerar destes maridos, algumas iaiás tinham amantes negros. Porém a mulher devia ser bastante ardilosa e audaciosa para proceder assim, pois embora a sociedade fosse condescendente com as relações de brancos com escravas, punia severamente as relações de homens escravos com mulheres brancas. (POMER, 1980). Muito escravo foi sumariamente castrado pela simples suspeita de ter atraído o desejo de alguma sinhá. M. Bonfini em sua obra intitulada “América 75
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    Latina” (apud ARANA,1960) conta que muitas sinhás–moças foram criadas se roçando nos moleques de cor, e entregavam–se sexualmente e eles; quando isso era descoberto a moral patriarcal intervinha ferozmente: o negro era ‘capado’ com uma faca e sua ferida salgada; a rapariga, com um dote reforçado, era casada com um primo pobre ou um jovem mancebo de alguma localidade distante que não havia recebido tais notícias. As relações homoeróticas também eram presentes – explícitas, como nos casos em que senhores exigiam serem sodomizados por seus escravos negros, ou vice–versa, ou então mais sutis, como é o caso narrado a seguir pelo Padre Lopes Gama: “Conheço uma respeitável Sibita que, creando uma negrinha que hoje terá seus 14 annos, esta não vae de noite para a cama sem que primeiramente se deite no regaço da sua yayá gorda, que esta lhe vá dando trincos na carapinha e fazendo mechas do vestido da pateta, e chupando–as até adormecer! Aqui há porcaria, má creação e desaforo” (MOTT, 1988:88). Outro aspecto curioso era o enorme prestígio e participação das mucamas na vida particular e sentimental das sinhazinhas; Joaquim Manuel de Macedo, autor de “A Moreninha” escreveu certa feita que a mucama, embora escrava, era ainda mais presente que o padre confessor ou o médico na vida íntima das donzelas solteiras (FURTADO, 1969). A mucama, além de ser a confidente dos amores proibidos lhes fazia cafuné, lhes penteava o cabelo, dava banho nas sinhás–moças. E considerando que a ociosidade era ainda maior para as mulheres brancas, ainda mais solteiras, deduzimos que as conversas eram a única diversão e passatempo dessas moças e de suas aias. Temos que lembrar também que, nos casos em que a moça fugia com um outro rapaz não desejado pela família, ou mais raramente com um negro ou mulato, a mucama era figura central em toda a trama, realizando–se, de certa forma, no ímpeto e na fuga da ‘amiga’. Enfim, durante os três séculos de escravidão africana no Brasil europeus, prevalentemente portugueses, e negros, sem mencionar os indígenas, se odiaram, se amaram, se relacionaram, se excluíram, originando os pilares étnicos e culturais do povo brasileiro. E talvez os versos a seguir, coletados por Leon Pomer melhor representem algumas situações com as quais viveram os contemporâneos da escravidão no Brasil, onde vemos as questões de dominação étnica, de gênero e as relações incestuosas nitidamente: “A linda mulatinha/a cria da fazenda/a todos encantava, a todos seduzia./O lindo seio envolto em renda grossa/se ela caminhava estremecia./O filho do senhor, janota petulante/olhava a mulatinha e demorava no olhar/havia já pensado em ser seu amante/e dela o coração julgava dominar./um dia resolveu entrar ocultamente/aonde adormecera a pobre da criança/no seio foi bulir, e ela incontinenti/ergueu–se e lhe fugiu, deixando–o esperar./À velha preta mãe contou o que lhe aconteceu/a preta a soluçar, a mãe do coração/fitando a mulatinha a custo respondeu/cuidado minha filha, escuta... é teu irmão!” (POMER, 1980:234). Notamos pela passagem acima e pela análise dos historiadores referidos, que a colonização do Brasil por Portugal fundamentalmente foi alicerçada na exploração do corpo do outro, o que exigiu a articulação de um forte aparelho ideológico (psíquico) repressivo e hierarquizante. A mentalidade produzida nesse período, tanto pela igreja quanto pelas relações familiares, tiveram o cunho do controle e da dominação–subordinação. Desta feita, notamos que algumas destas características se encontram presentes em nosso imaginário até o presente momento, embora mais sutis e complexificadas, e um exemplo disso é a diferença de valor, atribuída pela mídia, às mulheres negras em detrimento das mulheres brancas, ou o vínculo da sexualidade dos homens negros com a animalidade. 76
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    BIBLIOGRAFIA ARANA, Diego B.Historia da América. Buenos Aires, Editorial Futuro, 1960. BOCK, Ana Mercês B et alii (org). Psicologia sócio–histórica: uma perspectiva crítica em Psicologia. São Paulo, Cortez, 2001. FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. FURTADO, Celso. Formação Econômica da América Latina. Rio de Janeiro, Lia Editor, 1969. MOTT, Luís. Escravidão, Homossexualidade e Demonologia. São Paulo, Ícone, 1988.NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777 – 1808). São Paulo, Hucitec, 1979. POMER, Leon. América: História, Delírios e Outras Magias. São Paulo: Brasiliense, 1980. PRADO Jr., Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1961. STAVENHAGEN, Rodolfo. Sept Théses Erronées Sur L’amérique Latine ou Comment Décoloniser Les Sciences Humaines. Paris, Anthropos, 1973. 77
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 91 ANO II, Nº91 - MARÇO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br DEWEY, POLÍTICA E EDUCAÇÃO CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO NILSON SANTOS TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 78
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    Nilson Santos Professor deFilosofia e História da Educação - UFRO nilson@enter-net.com.br Dewey, Política e Educação John Dewey, filósofo e educador norte americano, autor de 36 livros, sendo quatro traduzido para o português, é um dos poucos intelectuais da área de filosofia e educação, de renome fora do eua, viveu mais intensamente sua carreira acadêmica na primeira metade do século XX. Em filosofia, absorveu o itinerário anglo-germânico. Somando pragmatismo, liberalismo e idealismo hegeliano, produzindo obras pedagógicas cuja temática envolvia a democracia e a experiência. Na obra “Democracia e educação”, escrita em 1.916 e reescrita em 1.926, período de mais maduro da produção de suas obras, o autor trabalha com a importância da experiência individual, pois ela é expressão da vida, assim: vida é educação, educação é vida, e vida é experiência. Ainda hoje, as obras de Dewey norteiam a prática pedagógica norte-americana e exercem forte influência sobre a prática pedagógica brasileira. Recentemente o IUPAC - Institute for Advancement of Philosophy for Children contando com as contribuições de Matthew Lipman e Ann Sharp, desenvolveu vasto material didático, visando fomentar e discutir os procedimentos da Filosofia nas escolas de 1º e 2º graus, baseando na pedagogia deweyana, no pensamento de Platão e na maiêutica socrática. O projeto se estendeu por mais de 30 países, dentre os quais o Brasil, onde fora somado o pensamento de Paulo Freira através de diálogo estreito com sua obra, principalmente no caráter reflexivo e dialógico da educação. Na referida obra, Dewey entende que a vida só se processa na medida em que o indivíduo interage com o meio, retirando deste os elementos fundamentais de que necessita para gerar conhecimento. A experiência, enquanto interação com o meio, aparece como elemento importante, pois, ela possibilita tanto o indivíduo quanto a sociedade a renovação de ideais, crenças, hábitos. É a educação quem possibilita a burilar do conhecimento acumulado, a assimilação e a transmissão aos membros mais jovens do grupo. Já que a escola proporciona de modo rápido e sistemático o contato com situações novas, o crescimento decorre da possibilidade de se conviver democraticamente com diferentes indivíduos de diferentes grupos (leia-se também classes). A educação aparece como caminho privilegiado para despertar o interesse voluntário, a experiência conjunta, partilhada por todos, independente de sua função, papel ou identidade social. O autor chama a atenção para a distinção entre vivência e partilha: a vivência é o momento em que o trabalho é realizado individualmente, é o momento da experimentação, única possibilidade concreta de aprendizado; já a partilha, refere-se ao trabalho em grupo, onde são reveladas as 79
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    descobertas individuais. Sea experiência é singular, todos falam a verdade, pois, cada uma capta o acúmulo de experiência que tem. Somente num grupo e numa sociedade genuinamente democrática, se tem assegurado que a verdade individual será respeitada e aceita como base para a investigação. Se estabelecermos para aprendizagem um objetivo prévio, corremos o risco de tornarmos a aquisição do conhecimento pobre e mecânico. Na medida em que se abre um leque de objetivos, tem -se não mais um fim mais um caminho, mas diversas hipóteses e descobertas que não foram previstas e que podem ser exploradas num grupo ampliado. Fazer ciência para Dewey, não é ensinar conceitos acabados e paradigmas construídos, mas apropriar-se do instrumento mais próximo, quotidianos, como base para a construção dos princípios fundamentais, que possibilitem a elaboração de procedimentos científicos, estruturados em idéias próprias. A Ciência pode fazer um tipo de Filosofia, desde que se torne uma atitude diante do mundo. Fazer filosofia, não implica em preservar e cultivar verdades e ensinar conhecimentos, mas em colocar-se diante do mundo, na qualidade de quem quer descobri-lo ou significá-lo. Esta postura ativa implica na possibilidade de acumulação qualitativa e na flexibilidade diante das novas situações, já que um fato não se repete de forma idêntica por duas vezes. A vida só se processa na medida em que os indivíduos interagem com os meios, retirando deste os elementos de que necessita para se perpetuar. A experiência, enquanto integração com o meio, surge como elemento importante, pois, ela possibilita, tanto ao indivíduo quanto a sociedade, a renovação de ideais, crenças, hábitos. E é a educação quem possibilita o burilar do conhecimento acumulado e a transmissão aos membros mais jovens do grupo. Desta forma, a educação significa fator primordial de sobrevivência à comunidade, porém, esta educação não deve se limitar a obedecer ordens ou a dá-las, mas deve dirigir-se a co-participação. A vida e a prática social também são educativas. E a educação formal deve respeitar e valorizar esses momentos, não permitindo dicotomias entre o aprendizado formal e o informal como se fossem instâncias epistemológicas estanques. A educação deve ser entendida como “condição de crescimento”, ciente disto ela deve libertar as aptidões; a linguagem, por exemplo, elemento importante para transmitir experiências deve ser corrigida. Uma vez que os indivíduos convivem na sociedade com diferentes grupos, que mais ou menos influenciam seus hábitos e pensamentos, a escola aparece como um grupo que possibilita o alargamento dos horizontes. A convivência na escola de crianças de diferentes condições culturais, econômicas, credos religiosos, propiciam novas perspectivas que em seus grupos de origem, provavelmente não teriam. Cabe a escola integrar e purificar os costumes, fortalecer nos indivíduos mais maduros o equilíbrio da convivência social e a multiplicidade de interpretações para o mundo. Os indivíduos mais imaturos caracterizados principalmente pelas crianças possuem seus “impulsos naturais”, não raras vezes, em dissonância com os hábitos da sociedade a qual pertencem; assim, elas devem ser estimuladas com o intuito de influenciar diretamente o seu comportamento numa direção socialmente mais 80
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    satisfatória e madura,não de maneira mecânica e controlada, pois, é importante que a criança tome parte neste processo, com ações até diferenciadas, porém, atingindo o mesmo fim. A educação aparece não como sinônimo de falar e ouvir, mas como processo ativo que rompe o âmbito da repetição e obediência estabelecendo uma identidade interior que cria mentalidade social e tornam conscientes as aptidões dos indivíduos. O crescimento decorre da possibilidade de conviver com outros indivíduos, desenvolvendo a reflexão, a capacidade inventiva, a iniciativa, decorrente das experiências acumuladas. Neste processo de aprendizagem, se constroem os hábitos e se estabelecem domínios sobre o meio em que se vive, historicizando-o e, portanto, humanizando-o. O entendimento da vida como desenvolvimento, leva-no a encarar as atitudes infantis como atitudes passiveis de crescimento; à educação compete fazer desenvolver as potencialidades dessas atitudes, despertando o desejo de crescer. Dewey aponta o maior mérito de Herbart, que foi a de propor a observância dos modelos culturais e literários como metas a serem atingidas pela educação, ou seja, Herbart retirou a educação do acaso, elucidando um método consciente, porém, Dewey se contrapõe a ele na medida que este omita a possibilidade do desenvolvimento, quando em contato ativo e criativo com o mundo, que pela reorganização e reconstrução coordena as atividades inatas, no sentido de se apropriar e aprimorar o conhecimento advindo do meio externo. Fica descartada a possibilidade de repetição do conhecimento na educação, pois ele significa estagnação, ao contrário do que se verifica na quotidianeidade. A cada geração acrescentam-se novos conhecimentos aos já existentes, assim como a cada experiência individual surgem sempre novas relações que colocam o conhecimento socialmente acumulado em cheque, sobrepondo-se a ela novos conceitos, novas prioridades, novos interesses, novas justificativas. Neste aspecto a educação tem fundamental papel como acelerador do ciclo de transformação e criação, propiciando ao aluno o rápido contato com situações novas, estimulando a reorganização das experiências, mantendo vivo o processo de crescimento e reflexão. A educação tem profundos vínculos com a forma de governo. Um governo que se estabeleça legitima e democraticamente, não tem sustentação se aqueles que o elegeram não forem devidamente formados (educados) dentro desses parâmetros. Uma sociedade genuinamente democrática, não deveria suportar imposições a sua gestão, já que elas têm um caráter distinto e externo dos propósitos de pluralidade e diversidade do pensamento. A educação aparece como caminho privilegiado para despertar o interesse, a experiência conjunta, partilhada por todos, independente de sua função, ou papel social (diga-se classe social). Aqui Dewey chama a atenção para a distinção entre vivência e partilha: a vivência é o método em que o trabalho é realizado individualmente, é o momento da experimentação individual, possibilidade privilegiada e concreta de aprendizado; já a partilha refere-se ao trabalho grupal de revelação das descobertas individuais, onde as construções individuais são aferidas e postas em prova. Se a experiência é singular, todos falam a verdade, pois cada um capta segundo o acúmulo de experiência e o modo de significação que tem, mas esta verdade diz respeito também, e ao mesmo tempo, a certas condições sociais, a certos limites espaço-temporais socialmente dados, o quer dizer que todo conhecimento passa pela validade social, e é reconhecida neste espaço dinâmico 81
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    entre os argumentosindividuais e os valores sociais. Somente numa sociedade genuinamente democrática e num grupo democrático, se tem assegurado que a verdade individual será respeitada e aceita no sentido de ser considerada como objeto de reflexão e levada em conta. Se estabelecermos para a aprendizagem um objetivo prévio, corremos o risco de tornarmos a aquisição do conhecimento mecânico e pobre. Na medida em que se abre um leque de pré-definido e objetivo, tem-se não mais um fim e um caminho, mas diversas hipóteses e descobertas que não foram previstas, não estavam postas de antemão, permitindo processos mais livres e criativos. A natureza da experiência envolve dois aspectos: um ativo (que implica na expectativa e no contato), e outro passivo (cujo movimento nos remete a deixar-se levar por ela). Essa expectativa é que possibilita a associação que se faz do calor com a dor, estabelecendo uma relação de causa-efeito, possibilitando uma conclusão: o contato com o fogo pode significar ferimento e sofrimento. A reflexão é o momento do estabelecer os nexos causais da experiência, propiciando o aprendizado, ultrapassando o mero caráter empírico causa-efeito, instigando a reflexão, o controle, o domínio e muitas outras relações que chegam, por exemplo, ao domínio social dos potenciais do fogo. Em nossas escolas muito embora se reconheça a importância do ato de pensar, do desenvolvimento de algumas habilidades de raciocínio, da leitura e da escrita, tem-se um modo ineficiente de empreendê-lo. Esquecemos que o caminho que assegura o aprendizado, implica antes de mais nada, na reflexão e no pensamento. O estágio inicial desse processo está numa dinâmica que estimula o aluno para além da mera assimilação, para além do empírico. Essa experiência, contudo deve obedecer a parâmetros lógicos de abstração que no grupo são elucidados, manipulados e reconhecidos, dando-lhe a garantia de revelação cognitiva socialmente válida, eliminando os caracteres acidentais e contingenciais. A crença na impossibilidade de conhecer por vias práticas, e a identificação dos valores espirituais como mais elevados, são heranças da cultura grega. Dewey, apesar de valorizar sobremaneira o processo reflexivo, parte dele, nos encoraja a aceitar os seus desafios, até mesmo como provocações para confirmar as teorias que temos. Ele, sobre os gregos (e de certa maneira sobre toda a pedagogia tradicional, principalmente norteada pelo pensamento de Herbart) dizia que eles se esquecem, que os conceitos racionais necessitam de bases empírica para poderem postular seus preceitos. Esquecem-se por outro lado, aqueles que identificavam a experiência como puro conhecimento. O indivíduo possui elementos ativos, que reagem e interagem na experiência tornando-a singular. A vida do indivíduo depende das condições em que vive, pensar em um homem sem estes condicionantes, é pensar em homem vazio, abstrato, neutro, metafísico e, portanto, inexistente. No âmbito da epistemologia, uma sociedade que se define como democrática, deve estimular a livre troca de experiência e informações individuais, pois, elas não sufocam o novo, mas sim, preparam o indivíduo para bem participar da vida em sociedade. Esta obra de Dewey, no que se refere ao âmbito pedagógico, é uma das mais importantes. Dentro do escolanovismo brasileiro marcadamente ocorrido entre as décadas de 1930 e 1970, é ela quem inaugurará a corrente humanista moderna no Brasil, tendo importantes divulgadores como Anísio Teixeira, que, aliás, introduzirá quase todos os livros de Dewey em português. 82
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    Além de importantereferência da filosofia da educação, o livro é fundamental para o entendimento de temas como democracia, convivência social e liberalismo. BIBLIOGRAFIA DEWEY, John. Democracia e Educação. São Paulo, Melhoramentos, 1974. 83
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 92 ANO II, Nº92 - MARÇO - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: GESTIÓN ESTRATÉGICA E nilson@unir.br AUTONOMÍ PARA LA UNIVERSIDAD CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO BERENICE COSTA TOURINHO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 84
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    Berenice Costa Tourinho Professorado Departamento de Sociologia e Filosofia - UFRO kang@netlig.com.br Gestión Estratégica e Autonomía para la Universidad Los analistas y los estudiosos de liderazgo y la dirección nos advierte que no sólo compiten los aparatos económicos sino también las condiciones sociales, los sistemas educativos y las políticas de desarrollo científico y tecnológico. Esto es lo que se denomina la “competitividad sistémica” donde la sociedad entera es la que compite y no sólo la empresa. Entonces si el sistema educativo también compite en el mundo globalizado, y está involucrado, en un proceso dialéctico con los cambios operados en el sistema económico y político, es importante tener en cuenta un breve bosquejo histórico de las universidades para aportar el problema de su dirección en el mundo contemporáneo. Las Universidades en América Latina La fundación y desarrollo de la universidad en América Latina colonial ha sido explicado, según Tünnermann (1996), de distintas maneras y desde diferentes posiciones. Las explicaciones de carácter más bien pragmático señalan como factores que determinaron las primeras fundaciones, entre otras, los siguientes: a) la necesidad de proveer localmente de instrucción a los novicios de las órdenes religiosas; b) proporcionar oportunidades de educación a los hijos de los peninsulares y criollos; c) la presencia de religiosos formados en las aulas de las universidades españolas. La mayoría de las universidades coloniales fueron a la vez pontificias y reales. En realidad, afirma Tünnermann (1996), la universidad colonial existió y trabajó en función de los grupos dominantes, creando una tradición clasista que aún se advierte en la mayoría de las universidades latinoamericanas. Portugal no creó ninguna universidad en el Brasil durante la época colonial: la universidad portuguesa de Coimbra asumió una buena parte de las tareas que en los dominios españoles desempeñaron las Universidades coloniales. Según Tünnerman (1996), el advenimiento de la República no implicó la modificación de las estructuras socioeconómicas de la colonia. En este sentido, el movimiento de independencia careció de un contenido realmente revolucionario, limitándose, en gran medida, a la substitución de las autoridades peninsulares por los criollos, representantes de la oligarquía terrateniente y de la naciente burguesía comercial. La reforma de Córdoba, en 1918, fue un marco importante para las universidades latinoamericanas, tratada como el inicio de un movimiento original, sin precedentes en el mundo, encaminado a democratizar a las universidades, buscando su vocación en contexto latinoamericano. Pero, según Tünnermann (1996), el imperativo de la reforma es hoy muy distinto. De lo que se trata ahora es de hacer arraigar la ciencia entre nosotros, de socializar la universidad 85
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    y volcarla ala nación entera, de formar a los universitarios al más alto nivel posible, mas con una conciencia social y crítica capaz de captar las causas de nuestro subdesarrollo y dependencia; de lograr la mayor eficiencia en los servicios universitarios, a fin de que la universidad esté en las mejores condiciones de dar el gran aporte que de ella esperan los pueblos latinoamericanos para alcanzar su verdadera independencia y realizar su destino histórico. De acuerdo con Tünnerman (1996), la educación superior hoy, como ocurriera en muchas ocasiones en el transcurso de su historia, está viviendo un proceso de transformación estimulado por los cambios que experimentan las diversas realidades nacionales. Ese proceso, actualmente en desarrollo a escala mundial, tiene manifestaciones peculiares en América Latina y el Caribe, cuyos gobiernos, avanzan de la segunda mitad de siglo XX, entre otras iniciativas y en términos generales, han venido revisando el rol del estado y reduciendo sus magnitudes y funciones, aplicando políticas macroeconómicas de ajuste estructural, abriendo sus economías y profundizando múltiples iniciativas de integración económica de alcance sub regional y regional. Como ha señalado Tünnerman (1996), los cambios advenidos de este proceso de transformación se ubican en un debate actual que se caracteriza por la excelencia de toda una escuela de pensamiento, sustentada incluso por algunos organismos internacionales de financiamiento, que ponen en tela de juicio la eficacia de la educación superior publica, cuestionando su rendimiento económico-social y la prioridad de las inversiones destinadas a ella. Quiere eso decir, que el debate contemporáneo sobre la educación superior es complejo y lo que está ahora en juego es la confianza misma de la sociedad en la educación superior pública, como uno de los medios privilegiados con que cuenta un país para promover su desarrollo y fortalecer su identidad nacional y autodeterminación. El debate actual sobre la educación superior, fija Tünnermann (1996), se centra en la contribución que ésta puede hacer a la modernidad, plasmada en un proyecto de sociedad comprometida con el desarrollo humano sustentable. Este autor destaca cuales son los temas dominantes en el debate internacional sobre la educación superior, según el “Grupo Asesor en Educación Superior del Director General de la UNESCO”, de los cuales subrayamos dos que tocan más directamente al sistema directivo de las universidades en lo general y las latinoamericanas en lo particular: 1) Medidas para asegurar la democratización y al mismo tiempo promover la calidad de la educación superior; 2) La diversificación de los sistemas de educación superior y su vinculación con el sector productivo. Entonces, según Tünnerman(1996), desde el mediados de la década de 90 se procesa un debate internacional sobre la calidad y la pertinencia de los resultados logrados principalmente por la universidad pública con relación a la poca demanda procesada en las nuevas relaciones mercantiles proporcionadas por la propalada globalización y el neoliberalismo como política económica. En el centro de este debate dos documentos sobre política de la educación superior, elaborados uno por el Banco Mundial y el otro por la UNESCO empezaron a reflejar cambios. De estos dos documentos, hoy es posible sospechar aquel presentado por el Banco Mundial (“La enseñanza superior: las lecciones derivadas de la experiencia”, Washington, D.C., julio de 1995) fue el que más fuertemente influyó en las nuevas directrices de política educacional tomadas por los países latinoamericanos, en términos de cambios 86
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    tecnicistas, toda vezque la voluntad política de los gobiernos, en algunos países, como por ejemplo el Brasil, proclives a atender las recomendaciones del Banco para no poner en riesgo el acceso a los préstamos, contempló casi prontamente a las propuestas del Banco Mundial, para la enseñanza superior. En su análisis Tünnerman (1996), observa que en el documento del Banco Mundial se presentaba a las Universidades, especialmente las publicas, como parte de la problemática de la sociedad contemporánea, el documento de la UNESCO (“Documento de política para el cambio y el desarrollo en la educación superior”, París, febrero de 1995), a su vez, asumía el análisis desde la perspectiva del aporte de las universidades a la solución de esa problemática. Es decir el Banco veía las universidades como parte del problema y la UNESCO como parte de la solución. Tomando en cuenta que las propuestas del Banco Mundial en el decursar de tiempo continúan siendo contempladas por los países latinoamericanos de economía dependiente, Tünnerman (1996) señala que es importante subrayar que a partir de lo que denominó de las “lecciones de la experiencia” con vista a obtener financiamiento del Banco, tanto las universidades públicas como privadas, siguen implementando o ya lo tienen implementado un sistema de competencia o concurso sobre la base de la calidad y eficiencia, citando incluso los ejemplos del Chile, Corea y Brasil sobre cómo lograr más eficiencia, calidad y equidad en la educación superior. Según Tünnerman (1996), asumiendo la perspectiva de la universidad pública como parte de la solución de la problemática de la sociedad contemporánea, una nueva visión de la educación superior, dando continuidad a la propuesta de la UNESCO, es el denominador común que surgió en las Cumbres Mundiales y en las grandes conferencias internacionales, a lo largo de estos años, que el Estado, la sociedad civil, las comunidades profesionales y de negocios, deben establecer acuerdos nacionales que conduzcan a un desarrollo humano sustentable. Existe, además, un acuerdo unánime en torno a que la condición sine qua non para que la humanidad pueda superar los desafíos que actualmente enfrenta, es el desarrollo de los recursos humanos. Para la UNESCO, hay tres aspectos claves que determinan la posición estratégica de la educación superior, de cara al siglo XXI, en la sociedad contemporánea y su funcionamiento interno. Ellos son: pertinencia, calidad e internacionalización. Pertinencia en función del papel de la educación superior como sistema y del de cada una de sus instituciones hacia la sociedad, así como en función de la expectativa de ésta, respecto a la educación superior. Pero, según Tünnermann (1996), no basta con que la educación superior sea lo suficientemente pertinente. Sino que debe ser además de mejor calidad. La preocupación dominante en el actual debate sigue siendo la calidad. Este concepto de calidad en la educación superior es multidimensional que quiere decir que no “sólo abarca las tres funciones clásicas del tríptico misional de Ortega y Gasset: docencia, investigación y extensión, lo que se traduce en calidad de su personal docente, calidad de su programa y calidad de sus métodos de enseñanza-aprendizaje, sino que comprende también la calidad de sus estudiantes, de su infraestructura y de su entorno académico. Todos estos aspectos relacionados con la calidad, más una buena dirección, un buen gobierno y una buena administración, determinan el funcionamiento de la Universidad y la ‘imagen institucional’que proyecta a la sociedad en general.” Tünnermann (1996) 87
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    Tünermman (1996), señalaque la internacionalización es la tercera posición estratégica propuesta para la educación superior y esta especialmente ubicada en la propuesta del rol que las universidades latinoamericanas deben desempeñar en el sentido de integración de América Latina. Pero, la clave para reinsertar favorablemente a los países latinoamericanos en una economía mundial abierta radica en el mejoramiento substancial de sus competitividades y eso implica conocimiento, tecnología, manejo de información, destreza; pero además significa elevar la calidad de los sistemas educativos y la preparación de los recursos humanos. Entonces las dos propuestas estratégicas presentadas por Tünnermann (1996) para las universidades de la América Latina y del Caribe de cara al siglo XXI son: jugar un importante rol en la integración latinoamericana y la aplicabilidad de la educación permanente. Las educación permanente quiere decir, no sólo poseer los conocimientos y las técnicas que nos permitan desempeñarnos eficientemente en el mundo en que vivimos, sino fundamentalmente, estar capacitados para aprender, reaprender y desaprender permanentemente. Como ha señalado Tünnerman (1996), la educación permanente no permite diseñar una “educación para el cambio” sino una “educación en el cambio”. Para asumir el compromiso de la educación permanente, la Universidad deberá flexibilizar sus estructuras académicas y métodos de trabajo pero, además, deberá evolucionar hacia su integración en los sistemas nacionales de educación postsecundaria. Por lo tanto la idea fundamental es que las instituciones de educación superior deberán transformarse en verdaderos centros de educación permanente, o sea actuar como centros de formación y actualización permanente del saber, la educación superior habrá colocado a la persona humana como núcleo de sus preocupaciones y justificación de su quehacer, lo que equivale a decir que el antiguo humanismo encontrará su albergue en la antigua academia. Portal (1998), refiriéndose a la reunión sobre los Nuevos Roles de la educación Superior en América Latina y el Caribe (1991), expresó que las políticas neoliberales presionan e inspiran los cambios en la educación en búsqueda de mayor eficiencia, productividad, calidad total y competencia internacional. Por otra parte, subraya que al tratar del arribo de la tan proclamada y necesaria condición de equidad e del desarrollo sostenible, debemos cuidar que el trato de la dimensión política del vínculo educación y desarrollo no aparezca subordinado, ni opacado, por la fundamentación de soluciones técnicas loables, sosteniendo que, no es precisamente de audacia y de visión de los nuevos roles de la educación contemporánea de lo que necesitan dotarse primeramente el magisterio y la academia latinoamericana, si antes, o simultáneamente, no les son dadas las condiciones objetivas para apropiarse del conocimiento, enriquecerlo y dotar del mismo a los educandos. Observa Portal (1998), que en el caso de la América Latina, para la mayor parte de la población, no es tan abundante, tan barato y tan fácil de adquirir, ese bien tan determinante de la riqueza, del poder y de la realización del hombre que denominamos conocimiento. Sobre esta base, sé pregunta si el nuevo valor, más justamente el nuevo valor económico, del conocimiento no es realmente, para esta región, un factor de discriminación, marginación y desintegración social, más que de unidad y progreso. La mercancía educación tiende a dotarse de un valor de cambio tan alto que se va convirtiendo también en su valor de uso. 88
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    No obstante esteautor entiende que es loable abogar por una convocatoria a la integración como aparece en la propuesta de Tünnermann (1996), sin embrago presenta otro aspecto importante del concepto de integración cuando aboga por la necesidad del ejercicio integral de Reingeniería Académica, que debe informar la ciencia y el arte del diseño y aplicación de políticas educativas en el futuro. Según este concepto, la universidad está en la obligación de potenciarse, y para ello deberá lograr una necesidad real de su comunidad, mediante una suerte de ejercicio autocrítico, o sea que es imprescindible una adecuación del pensamiento y de la acción universitarios, que deben disminuir su excentricidad con respecto al sistema económico-productivo, así como la interiorización de la necesaria regulación de sus eficiencias. Portal (1998), afirma que solo si las universidades son capaces de integrarse internamente y entre sí, y además si racionalizan su acción con una regulación y evaluación flexibles y eficaces, si sus egresados, postgrados e investigaciones se hacen cada vez más necesarios para los países, y si se fortalecen su reconocimiento y protagonismo con el apoyo del magisterio y de amplios sectores populares, estarán en condiciones de exigir y de lograr la voluntad política imprescindible para su desarrollo futuro. También con la intención de encontrar soluciones para los desafíos impuestos a las universidades por los profundos cambios en la sociedad contemporánea y poner en marcha un proceso de profunda reforma de la educación superior, la UNESCO ha convocado una Conferencia Mundial sobre la Educación Superior en el siglo XXI: Visión y acción (UNESCO, 1998). Como parte de los preparativos de la Conferencia, la UNESCO publicó en 1995 su documento de orientación sobre Cambio y Desarrollo en la educación superior. Ulteriormente se celebraron cinco consultas regionales (La Habana, nov. 1996; Dakar, abr. 1997; Tokio, jul. 1997; Palermo, sep. 1997 y Beirut, mar. 1998). Sobre esta base se proclamaron las siguientes Misiones y Funciones de la Educación Superior: La misión de educar, formar y realizar investigaciones; Función ética, autonomía, responsabilidad y prospectiva. De las 10 propuestas sugeridas por la UNESCO (1998) como para una nueva Visión de la Educación Superior, destacamos dos pautas que están directamente relacionadas con la temática que enfocamos en este trabajo: el Art. 9. Métodos educativos innovadores: pensamiento crítico y creatividad y el Art. 10. El personal y los estudiantes, principales protagonistas de la educación superior; En cuanto a las 17 pautas que llevan de la Visión a la Acción, destacamos el Art. 11. Evaluación de la calidad y el Art. 13. Reforzar la gestión y el financiamiento de la educación superior; Los principales conceptos contenidos en estos 17 artículos, fueran enfocados cuando tratamos con anterioridad del documento de la UNESCO en el trabajo de Tünnermann (1996), sin embargo los Artículos 11 y 13. “Evaluación de la calidad y Reforzar la gestión y el financiamiento de la educación superior”, merecen especial destaque en nuestro trabajo, tomando en cuenta que la calidad y la gestión, que por supuesto implica financiamiento, es un punto clave para lograr la visión propuesta por la UNESCO para la enseñanza superior en todo el mundo, especialmente en las universidades latinoamericanas. Según este artículo 13, la gestión y el financiamiento de la enseñanza superior exige la elaboración de capacidades y estrategias apropiadas de planificación y análisis de las políticas, basadas en la cooperación establecida entre los establecimientos de enseñaza superior y los organismos 89
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    nacionales de planificacióny de coordinación a fin de garantizar una gestión debidamente racionalizada y una utilización sana de los recursos. Por ello, los establecimientos de enseñanza superior deberían adoptar prácticas de gestión, con una perspectiva de futuro, que responda a las necesidades de sus entornos. Los administradores de la enseñanza superior deben ser receptivos, competentes y capaces de evaluar regularmente – mediante mecanismos internos e externos – la eficacia de los procedimientos y las reglas administrativas. En los artículos 11 y 13, también destaca que el objetivo último de la gestión debería ser el cumplimento óptimo de la misión institucional asegurando una enseñanza, formación e investigación de gran calidad, y presentando servicios a la comunidad. Este objetivo requiere una dirección que combine la visión social, incluida la comprensión de los problemas mundiales, con competencia de gestión eficaz. La función de dirección en l a enseñaza superior constituye, por tanto, una responsabilidad social de primer orden y puede reforzarse de manera significativa a través del diálogo con todos los que participan en ella, en particular con los profesores y los estudiantes. En esta base teórica, fundamentada en el trabajo realizado por un organismo internacional de peso como es la UNESCO y en los autores citados, se observa la importancia de la gestión estratégica para la dirección de las universidades latinoamericanas con vistas a dar respuestas a los retos impuestos por los cambios en la sociedad contemporánea. Creemos que la propia supervivencia de la universidad pública en la América Latina es también dependiente de su propia capacidad para reaccionar frente a estos nuevos desafíos, y responder de forma competente a las nuevas demandas sociales, políticas y económicas. Las Universidades Públicas Brasileñas y la Gestión Estratégica Tratando el actual contexto de las universidades públicas brasileñas, se observan que determinados puntos importantes que gravitan entorno a ellas, entre los cuales se pueden destacar las cuestiones de la autonomía, de la evaluación, de la misión, del criterio de calidad, de la educación continuada, de la internacionalización y de la integración latinoamericana. Estas cuestiones no están ajenas del contexto mayor que involucra otras universidades públicas de Latino América. Sin embargo, en la trayectoria histórica de la universidad pública brasileña hay determinadas características que merecen ser destacadas. Según Tünnerman (1996), la corona portuguesa no creó ninguna universidad en el Brasil durante la época colonial, pero de acuerdo con Nunes (1999) la creación de cursos superiores ocurre en 1808 con la llegada de la corona portuguesa en el Brasil. Según Nunes (1999), en Brasil, hasta los años 20, la educación superior estaba organizada sobre la base de la formación de facultades aisladas. Al inicio de la era del presidente Getulio Vargas existían solamente tres universidades: Rio de Janeiro (1920), Minas Gerais (1927) y la Escuela de Ingeniería de Porto Alegre (1928). Nunes (1999) añade que en 1934 con la creación de la Universidad de São Paulo la discusión sobre la problemática de la enseñanza superior fue de una importancia relevante para la organización y la difusión de la enseñanza y de la investigación. 90
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    Como observa Nunes(1999), en 1935 la propuesta de Anísio Teixeira era la de una universidad brasileña como centro de debates libres de las ideas, sin embargo, en 1937 con la implantación del Estado Nuevo, de la dictadura, la universidad brasileña continuó privilegiando a la elite social y repasando conocimientos. En este mismo camino, apoyado en las ideas de Anísio Teixeira, según Nunes (1999), Darcy Ribeiro, en 1960 elabora el proyecto y convence a los gobernantes de fundar en Brasilia, una universidad que reflexionase sobre los problemas nacionales. Sin embargo, esta nueva tentativa no tuvo éxito porque la llegada de una nueva dictadura en 1964 descartó la idea de universidad como función de reflexión y renovación del saber. Otro punto que merece ser destacado, y que es señalado por Nunes (1999) es la evaluación de la enseñanza superior brasileña la cual se basó en el plan Rudolp Acton planteando dos posibilidades: una, basada en los principios que idealizaron un modelo empresarial para el sistema universitario y otra que pregonaba la autonomía y la independencia sugiriendo que la universidad fuese formada en una fundación privada. Este Plan Acton se fundamentaba en los modelos americanos de universidad y promovió estudios evaluativos en doce instituciones universitarias brasileñas, con el objetivo de diagnosticar lo que había sucedido en el proceso de transformación de la enseñanza superior al producirse su modernización, según los paradigmas del modelo americano. Según Nunes (1999), se hace evidente que en esta época las propuestas educacionales y de evaluación se fundamentan en la idea de eficiencia, de productividad, correspondiente a la concepción neoliberal de modernización. De este modo, Nunes (1999) añade que el sentido empresarial dado a la universidad no solo aparece en su conexión con el proyecto desarrollista, sino que también, en la pérdida, por parte del profesor, del control de valor de su trabajo. En consecuencia, en la década de 60, existieron varios movimientos contestatarios y también hubo intervenciones gubernamentales en la educación, principalmente en la educación superior, como observa Nunes (1999), añadiendo que en la década siguiente el problema continuaba como atesta el Quinquenal 1975 a 1979, el cual pretendió expandir la oferta de enseñanza superior y la mejoría de su productividad sin una previa evaluación de sus reales condiciones. En la década de 80, como ha señalado Nunes (1999), crecieron los movimientos internos, presionados fuertemente por la sociedad civil, reivindicando la evaluación de la enseñanza superior apoyados por protestas contra el control oficial de la universidad. Entonces, el poder burocrático intentó controlar la expansión de la enseñanza pública y además tuvo como perspectiva la de preparar el camino para la evaluación institucional de la universidad brasileña. El gobierno acusaba, como argumentos, los costos y la poca eficacia de una evaluación en el nivel de la propia institución universitaria. Todavía en los años 85/86 se inicia, a juzgar por Nunes (1999), un movimiento de reformulación de la política de educación superior. El proceso de reflexión, iniciado en 1968, retoma en términos de costos y beneficios alcanzar un máximo rendimiento con una mínima inversión. La calidad es concebida como la excelencia académica ligada a patrones calcados en modelos considerados ideales o ejemplos de instituciones de excelencia y la evaluación pasa a ser asumida como un instrumento de mejoría de la calidad académica de la enseñaza superior. 91
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    En los 90,señala Nunes (1999), con el enfoque de Gestión de Calidad Total, se inducen nuevas relaciones entre capital y trabajo. La participación de los trabajadores en las discusiones técnicas y en la planificación general, y además la participación del empleado en los lucros de la empresa, explicita la filosofía empresarial del programa de calidad total lo cual motiva a muchos educadores. De éste movimiento en la búsqueda de una mejor calidad en los servicios y productos en los diversos sectores de la sociedad, la universidad pública no se queda a parte, ya que su situación, en este contexto, esta involucrada en el proceso de disminución del propio Estado Nacional. Entonces, en 1993, como señala Nunes (1999), se crea la Comisión Nacional de Evaluación que inició el Programa de evaluación Institucional de las Universidades Brasileñas – PAIUB; lo cual, con el apoyo del Misterio de Educación y Cultura (MEC), que pasó a el ser órgano financiador del proceso, el orientador de las universidades a incorporarse al “Programa”, para planificar su proyecto de Evaluación Institucional. Nunes (1999) observa que el documento base del PAIUB (Una Propuesta Nacional), llama a atención sobre la importancia de la evaluación institucional y orienta los procedimientos que deben ser tomados por la universidad brasileña. Como ha señalado Nunes (1999), en 1996, el gobierno brasileño, deseando verificar la calidad de la educación superior, resuelve llevar a la práctica la Política Educacional para la Evaluación de Enseñanza de Tercer Grado. En sus aspectos legales, según Nunes (1999), la ley dispone, en el artículo tercero, sobre las evaluaciones periódicas de las instituciones y en el cuarto sobre los cursos superiores, además prevé que los resultados de las evaluaciones serán utilizados por el Ministerio de Educación y Deporte para orientar acciones en el sentido de estimular y fomentar iniciativas enfocadas a mejorar de la calidad de la enseñanza. En ese mismo año, señala Nunes (1999), el gobierno establece procedimientos para el proceso de evaluación de los cursos y instituciones de enseñanza superior. Tales procedimientos obedecen a las normas del Banco Mundial para la educación superior: incentivar la diversidad de las instituciones superiores y la competitividad entre ellas, además de vincular los financiamientos de los organismos oficiales a criterios de eficiencia y productividad en términos mercadológicos. Aunque los procedimientos dictados por el Banco Mundial sean la dirección tomada por los organismos estatales en Brasil, estos reconocidos procedimientos configuran una tendencia que se viene estableciendo de manera general en todas las organizaciones a nivel mundial. Sin embargo, desde el evento del PAIUB, la mayoría de las universidades brasileñas reconocen la importancia de la evaluación de sus servicios en cuanto institución social, pero su enfoque está más centrado en la cuestión de su autonomía dadas por las directrices propuestas por la UNESCO, las cuales fueron anteriormente abordadas, puesto que el concepto de calidad de los servicios, según el Banco Mundial, vinculada a la “reducción de costes, el aumento de la producción se relaciona al lucro del empresario, desprecia la creatividad y la participación de los individuos en la construcción del conocimiento con vistas a la transformación de la sociedad.”(Nunes, 1999). Así, proponemos que antes de tratar de evaluar las universidades publicas brasileñas, es necesario establecer sus metas en función de las cuales se procesa la evaluación. Entonces, entendemos que la gestión estratégica es un punto clave para promover su Reingeniería Académica (como aboga 92
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    Portal,1998), a finde suscitar su integración interna con vistas a la integración con su entorno, con la región en que está ubicada y por ultimo la integración de la propia América Latina (como aporta el Documento de la UNESCO, 1996, 1998) como visión de futuro. Esta propuesta de la gestión estratégica es importante para las universidades públicas brasileñas y se aplica porque el momento vivido por estas instituciones es crítico. Las universidades brasileñas de hoy, especialmente la públicas, están bastante debilitadas, ya que están funcionando en un contexto de permanente crisis. Las vías de la gestión estratégica, mediante las cuales se lleva a cabo la impronta de la visión en los subordinados se denominan, proceso de gestión formal y proceso de gestión sutil respectivamente. Según los autores anteriormente citados, tenemos que los procesos de gestión formal corresponden a aquellos sistemas organizados mediante los cuales es posible derivar indicadores de eficacia y eficiencia, en horizontes y escenarios previamente definidos. Por otro lado, los procesos de gestión sutil consisten en un conjunto de actitudes y conductas desarrolladas por los altos ejecutivos, que están destinados a influir en el comportamiento organizacional de una manera más intuitiva o global, o si se quiere, centrados en afectar la conducta de una manera más afectiva que racional. Por último, la visión de la organización, la gestión formal y sutil, más su interacción con la cultura organizacional, debieran producir, en última instancia, el logro de la satisfacción de las necesidades individuales y, simultáneamente, el cumplimento de las metas de la organización, tomando en cuenta en conjunto de variables entre la visión, la gestión formal u sutil y la cultura organizacional, los cuales constituyen los determinantes de la conducta individual, tales como status de la profesión, la historia vital, los símbolos de status y otros componentes que pueden alterar el logro simultáneo de las necesidades individuales y las metas de la organización. La gestión de los recursos humanos se centra en cuatro componentes principales (Greenley, 1989), citado por la UDUAL (1995): el liderazgo y la delegación; la participación, motivación y recompensa; la administración del cambio; la integración y la comunicación. Pero, vamos particularmente enfocar el liderazgo en función de su importancia en nuestro trabajo. El liderazgo se refiere a la influencia desplegada sobre las personas para que lleven a cabo determinadas actividades, la delegación concierne a la dirección formal para que personas específicas desarrollen estas actividades. Aunque cualquier ejecutivo que se encuentre en una posición jerárquica le permita delegar tareas, su habilidad para hacer efectiva dicha delegación, depende en gran medida de sus habilidades y destrezas de liderazgo. En acuerdo a la UDUAL (1995), los procesos de gestión sutil pueden hacerse equivalentes a algunos aspectos del sistema psicosocial de la organización; su sistematización es difícil, pues no se puede construir una metodología única para su estudio. En las universidades, la gestión sutil adquiere especial relevancia, por cuanto los distintos estamentos (académicos, estudiantes, funcionarios y administrativos) son esencialmente heterogéneos. Una de las características predominantes de los académicos y estudiantes es su alto grado de autonomía e individualismo. Con vistas a las propuestas de la UNESCO para la educación superior, entendemos que no es posible hacer un buen Planeamiento Estratégico, que oriente la gestión de la universidad pública, sin hacer antes una investigación más precisa de la problemática de la eficacia directiva dentro de la organización universitaria, 93
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    principalmente con vistasa ofrecer una mayor precisión en los estudios de la gestión estratégica de recursos humanos y de la gestión sutil, los cuales demandan fuerte enfoque psicosocial. Así, el análisis de los factores del Estilo de los jefes (patrones comportamentales a partir de la visión de los subalternos), de relaciones y capacidad de liderazgo de ellos, constituyen factores fundamentales para la identificación de las fortalezas y debilidades de la organización, porque las estrategias tienen que tomar como base el diagnóstico que se ha hecho de los problemas de dirección que se encuentran dentro de la organización. Por tanto las estrategias para el éxito deben apoyarse en un diagnóstico certero. De este modo entendemos que el estudio de la problemática de la dirección y el liderazgo, ofrecido por nuestro trabajo, es el fundamento precedente al núcleo principal que es el Planeamiento Estratégico. 94
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 93 ANO II, Nº93 - ABRIL - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br O GROTESCO E O ALEGÓRICO CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO ALBERTO LINS CALDAS TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 95
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    Alberto Lins Caldas Centrode Hermenêutica do Presente – UFRO www.unir.br/~caldas/Alberto linscaldas@enter-net.com.br O Grotesco e o Alegórico “A vida é cruel demais para não ser uma alegoria do inferno.” NEHRU GUPTA I 1 - A literatura, assim como o “prazer estético”, não é desinteressada nem “libera o sujeito do cotidiano”; não é “prazer desinteressado” nem se realiza numa “relação” (sujeito/sujeito: sujeito/objeto). A busca por uma “ontologia da literatura” obscurece que, tanto na “origem” quanto no “usufruto” as razões, as relações, os prazeres, os gozos, as lógicas, as matérias, as finalidades são múltiplas, inarticuladas, inconciliáveis. Não há nem um campo, nem uma relação, nem uma meta, mas orgia para todos os mundos singulares (dispersão em todas as dimensões). Os corpos - são muitos; os desejos - incontáveis; os sonhos - infinitos; as matérias - incalculáveis. Sem Natureza, sem Sociedade, sem Corpo a criação, o prazer e o gozo se libertam de partirem de um único ponto, exigirem um único caminho e respeitarem uma única direção. 2 - A literatura, como fluxo piroclástico da linguagem, se libera do corpo de deus, da palavra de deus, da lógica de deus, do povo de deus. Torna-se um ritual, um jogo com inumeráveis regras dispersivas, polidimensionais (ante a conjunção literária todas as regras se alteram); aberto e fechado, centrífugo e centrípeto: dele participam todos, cada um com sua técnica, sua vida seu olhar, sua técnica e sua experiência. O “prazer estético” é profundamente interessado: é a busca de armas, instrumentos, rituais, matérias que ajudem o aventuroso (leitor/autor) em suas aventuras. 3 - A dimensão política da literatura se redireciona: nem “arte pela arte” nem “arte engajada”: as duas posições reduzem a literatura a duas posições nitidamente de classe: uma, aristocrática, outra pequeno burguesa: uma centrífuga, devorando seu próprio rabo, masturbatória, indiferente, feita por grupelhos com uma linguagem esotérica; a outra, para o mundo, centrípeta, propagandista, popularesca, partidária, com uma linguagem de massa: uma reduz por dentro, a outra reduz por fora, e todas as duas miram, sem querer ou saber, o consumo, o mercado, o agora, o futuro imediato, a inconsistência do gesto falsamente desinteressado, dissolvendo todo o poder da literatura em posições impotentes diante tanto da aparência (arte engajada) quanto da profundidade (arte pela arte): são duas vítimas do funcionamento ilusório da práxis (o inconsistente verbum factum est: porque a carne é verbum alienado da sua condição de linguagem e o próprio verbum pensa existir somente enquanto carne). Existem como se fosse antes mesmo de ser literatura: uma envolvida com a aparência como se fosse com a profundidade (a 96
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    roupagem da mercadoriaaparecendo como ilustração, cultura, essência, tradição); a outra enroscada com uma falsa profundidade como se fosse com o imediato, com a voz, com as políticas do momento (a literatura como propaganda, como palavra de ordem). Nenhuma das duas enfrenta as regras dispersivas e polidimencionais da literatura, reduzindo-a a uma temporalidade castrada (nenhuma das duas enfrenta o presente, estarrecidas diante do passado ou do imediato). 4 - A literatura, ao participar da essência da função fabuladora da práxis, geradora da própria realidade, não pode se reduzir a uma “palavra de ordem” ou a uma “palavra tribal”: seu tempo é-são todos os tempos, seu corpo são todos os corpos, seu desejo são todos os desejos: sua orgia não pode se restringir à orgia do imediato: sua ambição se estende em todas as direções. Seu poder está exatamente em ser afiada sempre e não somente num imediato e mantida em cânones por “ajudar a construir a nação”. 5 - A literatura é uma linguagem sem inocência, sem transparência, sem opacidades, cheia de fantasmas, de ecos, de visagens: é linguagem impura. Os conceitos básicos para degustá-la é o de alegoria e o de grotesco. 6 - Espaço holográfico onde reúno eu mesmo, minha percepção: campo onde exerço as plenitudes da minha fala, língua, visão e experiência, meu corpo, meu tempo e minha aventura; ao mesmo tempo espaço de confluência e dispersão dos devires das ficções da virtualidade, da linguagem, das comunicações, das falas da tribo, dos momentos sociais: eu e não-eu: mundo e não-mundo: antes, agora e depois: um jogo e bem mais que um jogo: forja dos instrumentos da aventura e a própria aventura: intervenção no imediato para antes e sempre depois: uma linguagem dentro da linguagem gerando o universo capturando a essência. II “O dinheiro é a alegoria do trabalho.” Flávio Kothe 7 - Se é possível rir do "horror" e das "proporções escandalosas” enquanto caricatura do existente, se é possível replicar o mundo em devires significativos que o encenem, fundando uma estética que consegue enraizar e fluir exatamente nos ritmos na fund-ação do real, então o conceito de grotesco, aliado ao conceito de alegórico, pode, neste momento, ser capaz de gerar mais literatura e, ao mesmo tempo, apontar para uma “teoria literária” mais coerente ou mais próxima daquilo que se pretende dizer. 8 - O bom gosto não está no entre-pernas, da cintura para baixo (coisa do povo, da feira e seus espetáculos, do circo e do carnaval, do prostíbulo e dos bares, dos banheiros públicos e das esquinas, dos hospitais e das prisões, dos matadouros e dos sonhos), mas sempre para cima, para o sublime, para o alto, o olhar mirando longe a montanha. Esse olhar para cima se inicia exatamente onde termina o sangue, a terra, o animal, as fezes, a dor, a humilhação, o horror, a vida, o trabalho, a alienação, os desprazeres: as forças que forçam o olhar para cima fazem também parte desse grotesco alegorizável. 9 - A animalização pode se dar somente nas instâncias do trabalho, da casa, das relações de amizade, do mundo público e privado (sempre escondido, não- dito, não-compreendido, não-visto): não na Arte, não na literatura: é aceita somente enquanto caricatura, nunca como uma real dissolução da visão e do existir: é 97
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    sempre reaproveitado como“teatro”. Esse afastamento do “animal”, afastamento do grotesco em favor do sublime ou do normal, instaura o homem de classe média e seu universo patético. 10 - O grotesco é a aberração, o escandaloso, as regressões, o exagerado, o estranho, o esquisito, o equívoco, as infantilizações, o tumulto, o risível, o caótico da substância (o grotesco é sempre considerado caricatamente por componentes negativos) levando ao riso: o humor acompanha bem de perto o grotesco construído alegoricamente: riso terrível mas ainda assim riso, humor. 11 - Toda “aproximação estranha”, toda “articulação anormal”, toda “convivência obscura”, toda “indistinção obscena” (homem/animal, homem/objeto, homem/homem, homem/vida, homem/morte) pode significar mais que uma simples brincadeira: em direção a essas des-articulações encontramos nosso vi-ver e seus tão com-batidos e criticados “padrões de regressão”. 12 - “Só os animais fazem” e os políticos, e as mídias e os teóricos se horrorizam com as “hibridações culturais”, as indistinções, as monstruosidades em gozo, o “jamais voltará a ser como antes”, as migrações humanas vistas como hordas animais perigosas, a invasão dos bárbaros. Tantos corpos, tantas línguas, tantos deuses, tantos desejos, tantos universos, tantas bocas, tantas mãos: e tudo se torna realmente, não teoricamente, mas concretamente e vivencialmente relativo, tornando absolutamente histórico e ficcional o que “sempre” nos pareceu absoluto, verdadeiro, certo, belo e justo: como conviver com tanta diferença inconciliável apesar de sempre intercomunicável? 13 - O “grotesco alegórico” tem como fonte as ficções sociais que se apresentam como o real; dessa maneira é um conceito que funde os “horizontes simbólicos” em busca do próprio construir-se do mundo. 14 - O belo é a perfeição das formas: por isso não pode dizer o mundo, mas somente aquilo que, para Platão era um simulacro: o belo rememora o além do mundo, o antes: não pode dizer o mundo mas sua ilusão inacabada. Para os gregos seria o belo um aspecto do Bem, ou do bom, o bem fabricado, o sem vazios, sem intervalos: para nós uma impossibilidade: para nós a exclusão do vazio anularia a própria possibilidade da arte assim como dissolveria tanto a ideologia quanto as condições dos sistemas de crenças que possibilitam a alienação. 15 - O belo ad-vêm da ponderação, da simetria da idéia que se projeta sobre as coisas. A proporção deve ser perfeita, sem exageros, sem desmedida, sem raízes, sem bolores. Nem grande nem pequeno, nem todo visível, nem obscuro que não possa ser visto aos poucos inteiramente; luz e sombra. Nada fora do lugar e do esperado, ainda que se espere o inesperado. Isso é “grego” mas ainda é esperado por todos, “produtores”, “distribuidores” e “consumidores”: como se. E o belo sai do mundo porque não pertence a ele e não pode desvendá-lo. O sereno e o transcendente afastam o “leitor”, no seu “transe catártico”, exatamente daquilo que deveria ser sua busca: o belo não faz parte da aventura literária contra o mundo. Serve somente para uma atitude estóica, para uma leitura estóica. 16 - Alguns conceitos fundamentais do belo: ordem - como “disposição conveniente”, “disposição metódica”, “regras respeitáveis”: o racional como mentor da ordem, mas razão do senhor e regras da propriedade; simetria - coisas paralelas que não se distingam, mas apareçam como duplicações do mesmo: o mesmo como fundador do entre-nós, apagando as diferenças, as oposições, as revoltas: a outra palavra desaparece desta simetria do mesmo; proporção - como uma relação, uma 98
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    igualdade entre razões:mediador como o dinheiro comparando valores, possibilitando articulações fictícias aparecerem como naturais e universais; graça - como a simetria do movimento: escondendo ser graça somente para quem permitiu o movimento e seu específico gracejar. 17 - O trágico se aproxima por priorizar a relação entre-nós, evocando sentimentos, emoções, afetos, intercâmbios da nossa vida, podendo ver o perverso e o monstruoso. Mas o trágico não se dissolve, se entrega ao sublime, ao olhar para cima: ao olhar do dono. Alegorizando sem o grotesco o humano é reduzido ao combate entre semideuses, e o mundo se perde: o trágico nos faz perder a voz. 18 - O feio carrega as mesmas limitações do belo, exatamente porque se tornou um conceito dependente, ficando o belo com o ideal e o feio com o mal: antítese insuficiente. Seria somente uma deterioração da harmonia. O desordenado, o delirante, o desregrado, o disforme, o desproporcional, o desarmônico, o destoante, mas todos utilizados como exemplo, como elemento dentro do belo, segundo as regras. No entanto o feio se aproxima do grotesco e aponta para elementos tensos, ricos, promissores que se transformam em grotesco ordenado pelo alegórico. 19 - O grotesco foi transformado numa “arte das esdrúxulas combinações”, em “objetos combinados de maneira insólita ou fantasista”, em “aspecto anti- natural composto de partes naturais”, fora do estético respeitável, indo parar no cômico e no carnavalesco adestrados, exilado do bem dizer e afiadamente desvendar. 20 - O cômico é o rir e a possibilidade do riso. O imprevisto de uma articulação ou de um encontro. O cômico ao contrariar o esperado cria um vazio perigoso. Não há alívio, como se pensa, no cômico; não há distensão a não ser no cômico adestrado Contraste entre vivo e mecânico pode chegar ao cerne da reificação e da “sociedade depressiva” e perversa (Bérgson, Kafka, Chaplin). 21 - Para dizer o mundo, o grotesco ficcional que se nos apresenta como o-real em suas polidimencionais alteridades, dizer esse outro que me invade, me cerca e que sou eu mesmo, é preciso alegorizá-lo: o imediato ficcional do mundo (reificado) não é o ficcional que o produz, mantém e circula (ficcional que esconde: se não escondesse não apareceria como real sendo somente uma cobertura inversora: o real é um ficcional encalacrado reapresentando-se como aquilo que não é, mas funciona): o realismo (só é real na sua ilusão) é um artifício de certa aparência (cobertura inversora, essencialmente masturbatória), enquanto a postura alegórica busca o grotesco como substância móvel do existente. Além disso “... aponta o próprio cerne da obra de arte e de sua interpretação” (Kothe, 1986: 7). 22 - Os sistemas imediatos (o real) são ficcionais: alegóricos em seu próprio funcionar: sua apresentação é metafórica. Exatamente por ser metafórico o real (a palavra também) pode ser compreendido, imitado, posto em movimento, criando mais de si mesmo, abrindo-se aos inesperados, - à diferença. A alegoria faz aparecer a relação fundante entre o existir (sempre para-nós) e a linguagem; entre a ficção da práxis social criando o mundo e a ficção que encena o mundo e o separa da encenação que é ele mesmo. 23 - Tanto a operação da escrita literária quanto a teorização sobre esta escrita precisam “articular o desarticulado” e “desarticular o articulado”: o alegórico é a síntese dos devires (tanto dos artifícios da aparência quanto do próprio funcionamento da práxis) da virtualidade: articulação polidimencional do “manifesto” e do “latente”, desnaturalizando a si mesmo na medida em que desnaturaliza a virtualidade: o humor faz o resto, desviando, desfocando com irreverência os “universais”. Ficção apontando sempre para um depois, para uma quebra de sua própria substância, para um so-rir de si mesma, para uma des-confiança em sua matéria. 99
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    24 - As“perguntas do tempo” estão nas brechas estruturais das ficções da virtualidade (o resto é “vida inconsciente”, lugar-comum das práticas sociais que se reunirão ao conjunto ficcional superadas em suas limitações de esconde-esconde), em suas fissuras in-coláveis, em suas in-articulações: as ficções literárias (assim como sua “teoria”) serão as “respostas-perguntas”. 25 - Princípio de escritura/princípio de interpretação: a - reunir (experiências, percepções, visões, opiniões pessoais e coletivas, indignações) num feixe ficcional que articule o desarticulado: passar do singular ao coletivo, da pergunta a uma-resposta sem se entregar ao momento enquanto coisa universal; b - dissolver as ficções pessoais e coletivas (naturalizadas): desarticular o articulado; c - falar dentre as fissuras. 26 - A escritura ficcional é um aglomerar o que encontra “solto no mundo” e que o nega, o põe a fluir, o critica na substância: para isso precisa de um esboço de “ética”, de “moral”, de “política”, de “visão de mundo” (de posição) que articule utopicamente (transe alegórico) as vivências enquanto texto e supere esses limites de “origem”: aquele-que-aceita (simples posição de reprodução e consumo) não pode criar esses textos pois seu horizonte comunga com o limite naturalizado (tornado História) das ficções sociais: perspectiva do indivíduo-autor: de onde parte esse falar.] 27 - Esse processo alegórico sobre o grotesco enquanto vivência ficcional da coletividade jamais esgota o reunido nem dissolve tudo que há para dissolver (o incompleto e o não-realizado fazem parte dos dois princípios): a criação não é totalitária, mas dissipativa, criando vazios, brechas, incompletudes no cheio: a questão não é responder (o “real responde” somente quando solicitado por uma teoria que articule uma pergunta), mas pôr em movimento, arejar; não é finalizar mas circunavegar e mergulhar. Nem o literário “representa o real” nem o “real projeta o literário” (o real desnaturalizado não se reproduz enquanto inteiriço a não ser enquanto ideologia: o caso dos realismos e das escritas de “classe média”: servem somente enquanto “documento”, não enquanto literatura). 28 - A escritura literária plasma abstrações de fantasmas do existente: esses fantasmas “dizem o outro”: a vida, a carne, o desejo, a fala daquilo que ainda não se realizou ou foi destroçado em sua realização. 29 - Articular o desarticulado: a literatura condensa, atrai, funde, re-vê. Desarticular o articulado: a crítica espalha, desmembra, faz fluir, se choca. Articular o desarticulado: a crítica espalha, desmembra, faz fluir, se choca. Desarticular o articulado: a literatura condensa, atrai, funde, re-vê. O distante se torna próximo; o próximo, distante. 30 - A literatura alegórica apresenta tanto o que ela não é quanto um universo contrário à sua representação: a diferença, a alteridade está na própria substância, na matéria dessa escritura e não em suas “imagens”. É uma literatura que atinge a dimensão ontológica do real na medida da própria ficcionalidade viva 100
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    do real. Aodizer, ao se dizer, ela diz o “outro”, os devires polifônicos, dialógicos, do viver social. Ao dizer diz o outro se dizendo; desvenda o outro se desvendando; e ao desvendar o outro se desvenda. 31 - A literatura alegórica é um artifício interpretativo: a crítica é uma dupla tradução, um duplo movimento hermenêutico: interpretar a interpretação, dizer aquilo que só poderia ser dito não sendo dito: sem que a interpretação também seja alegórica, o interpretado será desfigurado: sua “forma de vida” não pode ser a de rótulo, se assim fosse, a própria literatura já o teria condensado desta maneira: a crítica não pode ser realista quando a obra é alegórica: a inversão destrói em vez de compreender. 32 - A literatura é uma paródia do mundo. Nela convergem e se separam todas as linguagens, todas as ficções que são a realidade (todos os programas e linhas de programa convergem para o literário ou são destroçados por ele). Um texto literário é uma constelação de forças contraditórias exigindo uma não-conciliação nem na leitura de prazer nem na leitura crítica. 33 - Os realismos existem porque o alegórico foi rejeitado e a aparência foi considerada capaz de dizer todos os in-dizíveis (o transe da mercadoria como fundação do real). Seu ponto hipnótico é o rótulo: esse ponto des-loca o literário para o visível de determinada posição; o reprimido, o esquecido, o combatido, o vencido, os fragmentos de discordância desaparecem dentro do “jornalístico”. A palavra como essencialmente alegórica some em detrimento de uma palavra igual à coisa (esquecendo que a coisa é palavra reificada, que é trabalho alienado, ficção social esquecida da sua própria forma de existência). 34 - Separou-se a imagem (o rótulo, a aparência, o corpo, a natureza) do conteúdo, da experiência, do significado (deus expulso, desencalacrado das coisas): dentro e fora com vidas autônomas: o invólucro da mercadoria e a substância interior posta à venda (o sistema de crenças deixou de crer piamente para crer mercadologicamente): a alegoria é uma das maneiras de ler que além de articular estas instâncias (sem ceder à tentação da totalidade) pode trazer esta desarticulação para o centro, dissolvendo tanto uma aparência quanto um conteúdo autônomos, falando ao mesmo tempo desse aqui e daquele lá sem ser nenhum deles, sem ficar aprisionado em nenhuma dessas celas imaginárias: dois molambos ficcionais agarrados ainda a uma estrutura cada vez mais dissipativa, polidimencional e com devires libertos das simples unidades fora e dentro. 35 - A matéria da literatura ad-vêm dos cortes, das desarticulações, dos saltos, das cesuras, das interrupções, das diacronias, das ucronias, dos vazios: a literatura não se faz, não é, não flui nos quadrinhos visíveis, mas no entre-quadrinho das Histórias em Quadrinhos. 35 - A modernidade é uma intuição precisa da morte de um universo mas não ainda esse universo: o transe da modernidade é não haver aceitado o caos aberto por ela mesma e enfrentado sua estranha ontologia: presa à Língua, ao Povo, à Natureza, à História não conseguiu seguir o caminho apontado por ela mesma. 36 - A leitura alegórica não “encontra o mundo”, o “real”, a “sociedade” ou a “história”: faz fluir e se entrechocar as múltiplas ficções que se entrecruzam no texto (ao mesmo tempo em que supera a intertextualidade como um dos transes que impedem a literatura de se abrir ao próximo), tanto enquanto “exterioridade” quanto “interioridade”. O dizer-o-outro não é apontar um ali ou um aqui, mas aquilo que não se articula, que margeia as inteirezas ficcionais que se dizem independentes, naturais, universais ou mesmo mercadológicas: esses vazios e seus movimentos podem dizer as concreções imaginárias porque exigem as próprias 101
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    concreções como elementosda sua múltipla narratividade, enquanto as concreções são, normalmente, autônomas (quadrinhos que perderam tanto a ligação com outros quadrinhos quanto com as infinitas possibilidades dos vazios entre eles na geração de outras-realidades). 37 - Se “... para ser verdadeira, deve a arte realizar o acordo entre o exterior e o interior” (Hegel, 1964: 11), esse acordo só pode ser feito alegoricamente, mas jamais poderá ser novamente acordado: o tempo desse acordo passou assim como o tempo da indefinição entre dentro e fora ou mesmo a existência natural ou histórica de um dentro e um fora. Para Hegel “... a alegoria procura tornar perceptíveis certas propriedades de uma representação geral utilizando objetos sensíveis e concretos; mas em vez de recorrer a formas veladas e enigmáticas, dá à significação toda a evidência possível por meio de um envoltório transparente que a torna, quanto possa ser, inteligível” (1970: 174); é a “... abstração de uma representação geral que só adquire, da subjetividade, a forma vazia” (1970: 175): a literatura é essa “forma vazia”, esse “envoltório transparente”: só permanece a literatura enquanto gênero, história, cultura, teoria exatamente porque sua ontologia permanece a mesma da mercadoria, sem saber. Ao mesmo tempo põe em método a questão da alegoria: a) “tornar perceptíveis certas propriedades”; b) “de uma representação geral”; c) “utilizando objetos sensíveis e concretos”; d) “mas em vez de recorrer a formas veladas e enigmáticas, dá à significação toda a evidência possível”; e) “por meio de um envoltório transparente que a torna, quanto possa ser, inteligível”. [É uma ação criando uma forma vazia, um envoltório transparente que torna o geral singular: uma abstração do existente, do vivido em escritura.] (Hegel tem uma opinião tradicional ou mesmo negativa da alegoria, apesar de entendê-la como uma abertura para a negatividade e para a morte (perspectiva importante tanto para Benjamin quanto para Adorno). A “dialética fatal” da alegoria (vida/morte, destruição de si mesma, negatividade) consegue pensar a existência na medida do seu existir ficcional, instável e dissipativo: põe uma cunha entre as desarticulações.) 38 - Não podemos mais encontrar Deus, o Homem, a Sociedade, a Verdade, a Realidade, a Totalidade, a Natureza: corroemos suas certezas independentes (ficções reificadas): mesmo que os reencontrássemos riríamos deles: fluxos vivos do entre-nós, já fazem parte da nossa carne e do nosso sonho: voltaram a se unir à substância e à medida do nosso suor: desvendado o ficcional do existente só nos resta afundar no “sempre novo” das ficções ou voltar à barbárie. 39 - A literatura só pode dizer, só pode trazer à luz do dizer, só pode deslocar as fissuras, as inarticulações, as ficções fundamentais do existir e os desesperos do viver: não que haja “continentes” ou “ilhas”: as fissuras são o único existente, é a ficcionalidade do mundo em estado bruto: delas ad-vêm a realidade aparentemente autônoma daquilo que não é vazio, não é brecha. Dizer do “continente” é dizer sem saber que diz ficcionalmente um mundo ficcional. O texto literário rearticula o mundo enquanto o mundo é o próprio texto amplificado. 102
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    40 - Aliteratura é o feixe das vozes-corpos que não se dizem, dos corpos-vozes esquecidos, das vozes-corpos vencidas, dos corpos-vozes inexistentes, das vozes-corpos fragmentadas, perdidas, saturadas: o resto é somente mercadoria que se esgota nos seus múltiplos consumos. 41 - Aquelas leituras que buscam encontrar além-da-obra um contexto histórico, social, econômico, biográfico pensam sempre nessas “instâncias” enquanto concretudes existenciais (naturalizações), com um negado olhar positivista, buscando sempre um real conjuntural ou estrutural já reificado, ficções e discursos já tornados existentes, ficções esquecidas de que são ficções: a obra é da mesma “natureza” dos fluxos ficcionais do “seu mundo”, dos “mundos anteriores” e dos mundos futuros. O dentro (a obra) e os foras (contextos históricos) são ex-pressões dos mesmos devires ficcionais. Ao ler alegoricamente leio, antes de tudo, a mim mesmo e ao que me rodeia (o antes, o agora e o depois): entrego-me aos atritos dos fluxos ficcionais do meu mundo, das minhas negatividades; diálogos que imponho por razões singulares: e o alegórico torna-se a própria obra, a leitura da obra o em-torno (o ficcional do mundo se aproxima e me olha nos olhos): e esse se aproximar, esse dissolver a distância, esse retornar a singularidade, torna-se a subversão do diálogo, do texto, do que me circunda e da leitura: uma rede mais vasta e polidimensional se armando numa inquirição, numa denúncia, numa inesperada superação. 42 - Todo texto da literatura põe em questão os fluxos ficcionais que são a “comunidade”: aponta para os outros do mundo, para as múltiplas alteridades: seu abismar-se é um desalojar-se e seu desalojar-se é um abismar-se: sua força centrífuga é centrípeta: é sempre o outro e ele mesmo: leitor/autor como a reversão da mesma ficção do texto: o autor lendo e o leitor criando: tudo ao mesmo tempo: ficções de fora e ficções de dentro: diálogos que se devoram e se vomitam. BIBLIOGRAFIA ALBERTI, Verena. O RISO E O RISÍVEL. Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1999. ALVAREZ, A.. NOITE: A VIDA NOTURNA, A LINGUAGEM DA NOITE, O SONO E OS SONHOS. Companhia das Letras, São Paulo, 1996. BAKHTIN, Mikhail. A CULTURA POPULAR NA IDADE MÉDIA E NO RENASCIMENTO. Edunb/Hucitec, São Paulo-Brasília, 1996. BATAILLE, Georges. O EROTISMO. Edições Antígona, Lisboa, 1988. BENJAMIN, Walter. OBRAS ESCOLHIDAS. Vol I, II, III, Brasiliense, São Paulo, 1985/1987/1989. FREUD, SIGMUND. OS CHISTES E SUA RELAÇÃO COM O INCONSCIENTE. E.S.B., Vol. VIII, Rio de Janeiro, Imago, 1980. __________. O ESTRANHO. E.S.B., Vol XVII, Rio de Janeiro, Imago, 1980. __________. O HUMOR. E.S.B., Vol. XXI, Rio de Janeiro, Imago, 1980. GAGNEBIN, Jeanne Marie. HISTÓRIA E NARRAÇÃO EM WALTER BENJAMIN. Perspectiva, São Paulo, 1999. HANSEN, João Adolfo. ALEGORIA. Atual, São Paulo, 1986. HEGEL. ESTÉTICA II: O BELO ARTÍSTICO OU O IDEAL. Guimarães Editores, Lisboa, 1964. 103
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 94 ANO II, Nº94 - ABRIL - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: INVESTIGACION DE LA EFICACIA nilson@unir.br DIRECTIVA EM LA UNIVERSIDAD CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO BERENICE COSTA TOURINHO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 105
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    Berenice Costa Tourinho Professorado Departamento de Sociologia e Filosofia - UFRO kang@netlig.com.br Investigacion de la Eficacia Directiva en la Universidad El presente estudio efectuado en el Instituto Tecnológico da Amazônia – UTAM, en la ciudad de Manaus – Amazonas, Brasil, intenta contribuir al desarrollo de un programa de investigaciones sobre el análisis de los factores que afectan la eficacia directiva en el ámbito de las estructuras grupales básicas (departamentos académicos) de una institución de educación superior publica brasileña, sus practicas directivas y sus modelos de gestión. Bajo la dirección del Dr. Julio César Casales F., cumple la función de testar la aplicación de su modelo de investigación cerca del estilo de liderazgo y desempeño grupal y ajustar el conjunto del método a las exigencias de una investigación metódicamente adecuada (calidad y precisión) al estudio en la realidad brasileña. El modelo de análisis de los determinantes de la eficacia directiva desarrollado por Casales (1996a) es un modelo que constituye una adaptación mejor articulada del Modelo de contingencia de la Efectividad del Liderazgo de F. Fidler, en que se incluyeron nuevas variables de importancia, y se reformularon algunas de las ya existentes, con vista a adaptarlo mejor a la realidad de las organizaciones cubanas, en las que se validó. Por la importancia científica del tema, y por la utilidad del modelo desarrollado por Casales, nos planteamos la posibilidad de utilizarlo como una herramienta que nos permita realizar un análisis de los determinantes de la eficacia directiva en una institución de Educación superior en Brasil. Nuestro objetivo es estudiar los Determinantes de la Eficacia Directiva de los Departamentos Académicos. O sea, analizar los factores que afectan la eficacia directiva tomando como base las relaciones existentes entre un conjunto de variables en el ámbito de las estructuras grupales básicas de la universidad: los Departamentos Académicos. Los aspectos (las variables) incluidos en el modelo son: La percepción grupal del estilo del directivo; las disposiciones reciprocan a la comunicación, existente entre el dirigente y su grupo de trabajo (y las percepciones respectivas de tales disposiciones); así como la capacidad de liderazgo del directivo (en su aspecto psicosocial), y la naturaleza de sus relaciones con los lideres emergentes. Este objetivo pretende realizar un análisis de los factores que afectan la eficacia directiva en el ámbito de las estructuras grupales básicas de la UTAM, con la finalidad de poner a prueba el modelo, y realizar sus ajustes correspondientes. Como influyen en la eficacia de un grupo de trabajo, las relaciones existentes entre el estilo de dirección del directivo, las disposiciones recíprocas a la comunicación, entre el dirigente y su grupo (y las percepciones recíprocas de tales disposiciones), su capacidad de liderazgo y la naturaleza de sus relaciones con los lideres emergentes que eventualmente surgen. 106
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    Definición de Variables Para la caracterización de las variables se asumirán las definiciones realizadas por el trabajo de Casales (1996 y 1999), desarrollados dentro del programa de estudio cerca de los determinantes de la eficacia directiva de la Facultad de Psicología de la Universidad de la Habana: Estilo de Dirección (autoritario, democrático, Centrado en las Tareas, Centrado en las Relaciones y Nivel de Intolerancia); Disposiciones Reciprocas a la Comunicación; Capacidad de Liderazgo Psicosocial del Jefe; Liderazgo Emergente, Resultado de la Actividad Académica y Profesional de los Grupos. Hipótesis: Los departamentos académicos de mejor rendimiento serán aquellos que, en cuanto al estilo de dirección de sus jefes, alcancen puntuaciones más elevadas en las dimensiones de democratismo y orientación simultanea, a las relaciones y las tareas, así como puntuaciones intermedias en la intolerancia. En cuanto al proceso comunicativo obtendrán un desarrollo más favorable de las variables intervinientes en la estructura de disposiciones comunicativas dirigente-grupo y de las percepciones reciprocas de tal disposición. En cuanto al liderazgo poseerán mayor capacidad de liderazgo y/o mejores relaciones con los lideres emergentes de sus departamentos, si es que existen. Metodologia: La Muestra. Características: Cuatro departamentos académicos: Departamento de Ingeniería Eléctrica; Departamento de Ingeniería del Bosque; Departamento de Ingeniería Civil; Departamento de Ciencias Básicas. Situaciones de Estudio: 1ª. Situación de Estudio: Departamentos de Ingeniería Civil (7 profesores incluso el jefe) y Ingeniería Eléctrica (14 profesores incluso el jefe);2ª. Situación de Estudio: Departamentos de Ingeniería Civil (7 profesores incluso el jefe) y Ingeniería del Bosque (10 profesores incluso el jefe); 3ª. Situación de Estudio: Ingeniería Eléctrica (14 profesores incluso el jefe) y Ingeniería del Bosque (10 profesores incluso el jefe). Control de Variables: En nuestra investigación ha sido necesario controlar un conjunto de variables que por la influencia que ejercen pudieran estar presente en los resultados que se obtengan, llegando a ser la causa de las diferencias productivas entre los grupos. Para este control de variables fueron tomadas las definiciones y consideraciones señaladas por Rodriguez (1999): Tiempo de constitución del grupo; Tiempo en el grupo del dirigente; Experiencia de dirección del dirigente; Experiencia de trabajo del dirigente; Nivel de formación del dirigente; Experiencia de trabajo del grupo; Nivel de formación de los miembros del grupo; Tiempo promedio de permanencia en el grupo; Variables relativas a la satisfacción laboral; Satisfacción con el grupo de pertenencia; La satisfacción con el dirigente; Edad; Índice de ausentismo; Integración política. INSTRUMENTOS 1. Cuestionario general de datos sociodemográficos y de control de variables. (Tomado de Rodriguez, 1999); 2. Cuestionario de Relaciones Interpersonales (adaptación del cuestionario sociométrico - tomado de Casales, 1989); 3. Cuestionario para la descripción de las dimensiones del estilo de dirección en grupos pequeños. (Forma B)(Tomado de Casales, 1999); 4. Escala Valorativa de Liderazgo Grupal. (Casales, 1996a); 5. Instrumento para Medición de Desempeño en los Departamentos. Análisis de los Resultados Primera Situación de Estudio: Departamento de Ingeniería Civil y Departamento de Ingeniería Eléctrica Con vistas a corroborar nuestra hipótesis presentamos la primera situación de estudio, compuesta por los departamentos de Ingeniería Civil e Ingeniería Eléctrica. Los resultados hallados en estos departamentos son los siguientes: 107
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    1. Estilo dedirección. La Tabla No. 1 presenta los estilos de dirección característicos de los dirigentes de cada departamento. TABLA No. 1 - DIMENSIONES DEL ESTILO ESTILO DE DIRECCION (DIMENSIONES) GRUPOS AUT - DEM C.T. C.R. N. Int. (-4 a +4) (0 - 4) (0 - 4) (0 - 4) Ing. Civil + 0,4 2,5 2,6 1,0 (b) (a) (a) (b) + 1,2 2,5 2,7 1,4 Ingeniería Eléctrica (b) (a) (a) (b) Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo Como se puede observar ambos dirigentes presentan estilos muy similares toda vez que obtienen puntajes altas en dos de las dimensiones (centrado en la tarea y centrado en las relaciones), y puntajes bajos en la dimensión de democratismo-autoritarismo, y también obtienen índices bajos de intolerancia. Se observa que el dirigente de Civil y el dirigente de Eléctrica no se diferencian substancialmente en cuanto a las dimensiones de estilo (centrado en la tarea, centrado en las relaciones y nivel de intolerancia), aun cuando estos dirigentes alcanzan diferentes valores, las diferencias numéricas no son considerables a nuestro juicio. El dirigente de Eléctrica presenta una cierta ventaja numérica en la dimensión democratismo-autoritarismo. 2. Estructura Comunicativa. En la Tabla No. 2 aparecen recogidos los datos que expresan los niveles alcanzados por los dos departamentos en esta variable, tanto en la esfera funcional como afectiva. Tabla No. 2 - RESULTADOS SOCIOMÉTRICOS Niveles de Disposición a la Comunicación Dirigente - Grupo. Percepciones de dicha disposición GRUPOS ESFERA FUNCIONAL ESFERA EMOCIONAL SP EP PP IP SP EP PP IP 6–1 6–1 5–0 5–0 5–0 5–0 4–0 4–0 Ingeniería Civil 5 2 3 2 4 2 2 2 (m) (m) (m) (m) (m) (m) (m) (m) 108
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    Ingeniería6–1 6–1 4–04–0 6–1 6–1 6–1 6–1 Eléctrica 6 2 3 5 6 8 8 3 (a) (m) (m) (a) (a) (a) (a) (m) Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo Como se puede observar el dirigente de Civil obtuvo en el 100% de las variables puntajes medios, mientras que el dirigente de Eléctrica alcanza altos puntajes en el 62,5% de las variables y las restantes se encuentra en el nivel intermedio. De lo antes expuesto se interpreta una situación más favorable en la estructura comunicativa desde el punto de vista funcional como afectivo, para el dirigente del departamento de Eléctrica. 3. Análisis de la situación de liderazgo grupal. En la Tabla No. 3 aparece reflejada la percepción grupal de la condición de líder de su dirigente, en los departamentos que conforman esta situación, así como las relaciones del dirigente con los miembros que desempeñan roles de liderazgo emergente, (en ambos planos). TABLA No. 3 - DIMENSIONES VALORATIVAS DEL LIDERAZGO Leyenda: a – alto RELACIÓN DIMENSIONES VALORATIVAS DE LIDERAZGO DIR-LIDER m – medio GRUPOS SP (DIRIGENTE) APORTAR INFLUIR MOTIVAR PF PA b – bajo Funcional Emocional R D O R D O R D O R – Rango O – otros 6–1 5–0 Ingeniería 4 4 4 PF – Plano 5 4 3-1 - 7–4 - 4–0 - - - Funcional Civil (a) (b) (a) PA – Plano (m) (m) Afectivo 6–1 6–1 12 9 6 D – Dirigente Ingeniería 7 4 5 D →--- L – 6 6 4–0 #1 4–0 #1 3–0 #1 D....→L D↔L Eléctrica (a) (a) (a) Relación unilateral (a) (a) (a) (a) (a) Dirigente Líder D ---← L – Relación unilateral Líder Dirigente D --- L – No hay escojas entre Dirigente y Líder D ↔ L – Relación reciproca Dirigente Líder. En estos departamentos, como se puede observar, el dirigente de Eléctrica obtuvo puntajes más elevadas en todas las dimensiones de liderazgo respecto al dirigente de Civil, en cuanto el SP funcional la diferencia obtenida por el dirigente de Eléctrica es más alta. Además de eso el grupo de Eléctrica presentó el miembro #1 con puntajes altos en las dimensiones aportar, influir, motivar y Sp funcional (9) más alto que del propio dirigente, eso refleja su condición de líder emergente. En este análisis el dirigente de Eléctrica es un verdadero líder, sin embargo, el de Civil no llega a serlo. Las relaciones dirigente-líder, en el departamento de Eléctrica son satisfactorias en el plano afectivo, pues las disposiciones 109
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    comunicativas son reciprocas,pero no son completamente satisfactorias en el plano funcional, pues aunque el dirigente escoja el líder, no se cumple lo contrario. En resume, la situación del liderazgo resulta más favorable al grupo de Eléctrica. 4. Resultados de desempeño grupal TABLA No. 4 Comparabilidad de Dese mpe ño Civ il/Eléctrica 100 100 Mediana 40 00 00 88 0 A C D F Ing. Civil 40 0 0 8 Ing. Eléctrica 100 0 0 8 Factores Ing. Civil Ing. Eléctrica Leyenda: A – Evaluación de Enseñanza C – Actividades de Investigación y Extensión D – Actividades de Calificación F – Evaluación de los Docentes hecha por los Alumnos. En el análisis de desempeño el departamento de Eléctrica se destaca significativamente en el factor Evaluación de Enseñanza. El dirigente que representa el departamento con desempeño académico en destaque es el de Eléctrica, y es este departamento precisamente el que obtiene una estructura comunicativa más favorable y una mejor situación en la capacidad de liderazgo del jefe. Además, en las relaciones reciprocas con el miembro que desempeña roles de liderazgo emergente, existen relaciones reciprocas en el plan emocional, y al menos unilateral en el funcional. En el análisis de la comparabilidad de las variables de desempeño entre los dos departamentos hay diferencia significativa de desempeño en el factor Evaluación de Enseñanza a favor del departamento de Eléctrica. En los demás factores de desempeño los dos departamentos no se distinguen significativamente. Todo lo antes expuesto corrobora nuestra hipótesis. Segunda Situación de Estudio: Departamento de Ingeniería Civil y Departamento de Ingeniería del Bosque Los resultados hallados en estos departamentos son los siguientes: 1. Estilo de dirección. 110
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    La Tabla No.5 presenta los estilos de dirección característicos de los dirigentes de cada departamento. TABLA No. 5 - DIMENSIONES DEL ESTILO ESTILO DE DIRECCION (DIMENSIONES) GRUPOS AUT - DEM C.T. C.R. N. Int. (-4 a +4) (0 - 4) (0 - 4) (0 - 4) Ingeniería Civil + 0,4 2,5 2,6 1,0 (b) (a) (a) (b) Ingeniería +0,9 2,2 2,0 1,3 del Bosque (b) (m) (m) (b) Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo Como se puede observar ambos dirigentes obtienen puntajes bajas en la dimensión autoritarismo-democratismo, con cierta ventaja para el dirigente del Bosque, pero niveles de intolerancia también bajos, todavía el dirigente de Civil obtuvo una ligera ventaja sobre el dirigente del Bosque con puntajes altas en las dimensiones de centrado en las tareas y centrado en las relaciones, aunque dichas puntajes presentan diferencias no apreciables a nuestro juicio. 2. Estructura Comunicativa. En la Tabla No. 6 aparecen recogidos los datos que expresan los niveles alcanzados por los departamentos en estas variables, tanto en la esfera funcional como afectiva. Tabla No. 6 - Resultados Sociométricos Niveles de Disposición a la Comunicación Dirigente - Grupo Percepciones de dicha disposición GRUPOS ESFERA FUNCIONAL ESFERA EMOCIONAL SP EP PP IP SP EP PP IP 6–1 6–1 5–0 5–0 5–0 5–0 4–0 4–0 Ingeniería Civil 5 2 3 2 4 2 2 2 (m) (m) (m) (m) (m) (m) (m) (m) 6–1 6–1 5–1 5–1 5–0 5–0 4–1 4–1 Ingeniería 3 2 4 2 2 1 2 1 del Bosque (m) (m) (m) (m) (m) (m) (m) (b) Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo Como se puede observar en el 100% de las variables estudiadas el dirigente del departamento de Civil obtuvo puntuaciones medias, mientras que el dirigente del Bosque obtuvo 90% puntajes medias en las mismas variables a excepción de su IP con puntaje baja en la dimensión funcional. Observase entonces una ligera diferencia entre la estructura comunicativa del dirigente de Civil frente el dirigente del Bosque, diferencia que favorece al primero, pero, que a nuestro juicio no son tan significativas. 111
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    3. Análisis dela situación de liderazgo grupal. En la Tabla No. 7 aparecen reflejados la percepción grupal de la condición de líder de su dirigente, en los departamentos que conforman esta situación, así como las relaciones del dirigente con los miembros que desempeñan roles del liderazgo, (en ambos planos). TABLA No. 7 - DIMENSIONES VALORATIVAS DEL LIDERAZGO Leyenda: a – alto RELACIÓN DIMENSIONES VALORATIVAS DE LIDERZGO DIR-LIDER GRUPOS m – medio SP (DIRIGENTE) APORTAR INFLUIR MOTIVAR PF PA Funcional Emocional R D O R D O R D O b – bajo 6–1 5–0 R – rango Ingeniería 4 4 4 O – otros 5 4 3-1 - 7–4 - 4–0 - - - Civil (a) (b) (a) PF – Plano (m) (m) Funcional PA – Plano 6–1 5–0 4 3 3 Ingeniería 2 2 1 Afectivo 3 2 3–0 #2 3–0 #2 3–0 #2 D ...... L D ...... L del Bosque (m) (m) (m) D – (m) (m) (a) (a) (a) Dirigente D →--- L – Relación unilateral Dirigente Líder D ---← L – Relación unilateral Líder Dirigente D --- L – No hay escojas entre Dirigente y Líder D ↔ L – Relación reciproca Dirigente Líder. Se observa que en las dimensiones valorativas del liderazgo el dirigente del Civil obtiene puntajes altas en dos dimensiones (aportar y motivar), pero puntaje baja en la dimensión de influir, todavía su SP funcional presenta valores medios más altos que del dirigente del Bosque quien además presenta valores no tan altos en lo restante de las variables, además de él de tener en su grupo el líder emergente con lo cual no mantiene relaciones reciprocas de comunicación. Por lo tanto en sentido general ambos líderes presentan situaciones de liderazgo semejantes, todavía con cierta ventaja numérica favorable al desempeño del liderazgo del departamento de Civil. 112
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    4. Resultados dedesempeño grupal TABLA No. 8 Comparabiliadad de Desempeño Civil/Bosque 100 75 Mediana 50 40 15 8 9 0 0 0 0 A C D F Ing. Civil 40 0 0 8 Ing. del Bosque 75 15 0 9 Factores Ing. Civil Ing. del Bosque Leyenda: A – Evaluación de Enseñanza C – Actividades de Investigación y Extensión D – Actividades de Calificación F – Evaluación de los Docentes hecha por los Alumnos. El análisis de estos dos grupos pone de manifiesto que ellos no caracterizan una situación con resultados suficientemente contrastantes de las variables del subsistema directriz (estilo, comunicación y liderazgo de los jefes), es decir, en cuanto al estilo, en realidad los valores se encuentran muy próximos; en la estructura de disposiciones comunicativas, solo difieren en un indicador; mientras que en liderazgo del jefe, en uno de los grupos el jefe pose niveles medios en todas las variables, mientras que el otro alcanza niveles altos en dos de ellos, pero bajo en la tercera, así que casi se compensan además no tenemos claridad cerca de qué contribución real realiza el líder emergente en el grupo del Bosque, pues aunque no tenga relaciones con el jefe podría estar jugando un rol decisivo. Tal situación en consecuencia, no permite establecer análisis concluyentes lo que nos conduce a la consideración de que, por falta de una comparación suficientemente contrastante entre ellos no puede usarse esta situación como prototipo para la prueba de hipótesis. Tercera Situación de Estudio: Departamento de Ingeniería Eléctrica y Departamento de Ingeniería del Bosque Los resultados hallados en estos departamentos son los siguientes: 113
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    1. Estilo dedirección. La Tabla No. 9 presenta los estilos de dirección característicos de los dirigentes de cada departamento. TABLA No. 9 - DIMENSIONES DEL ESTILO ESTILO DE DIRECCION (DIMENSIONES) GRUPOS AUT - DEM C.T. C.R. N. Int. (-4 a +4) (0 - 4) (0 - 4) (0 - 4) Ingeniería + 1,2 2,5 2,7 1,4 Eléctrica (b) (a) (a) (b) Ingeniería +0,9 2,2 2,0 1,3 del Bosque (b) (m) (m) (b) Leyenda: (a) – alto (m) – media (b) – bajo Como se puede observar los dirigentes del grupo de Eléctrica y del Bosque presentan puntuaciones bajas en la dimensión democratismo autoritarismo, con una ligera diferencia favorable al primero, además ambos departamentos obtuvieron puntajes bajas en el nivel de intolerancia. La diferencia entre ellos es la que el departamento de Eléctrica obtuvo puntajes más altas en dos dimensiones (centrado en la tares y centrado en las relaciones), pero a nuestro juicio numéricamente no significativas. En modo de conclusión podemos decir que no se observan diferencias substanciales en dimensiones del estilo entre estos dos dirigentes. 2. Estructura Comunicativa. En la Tabla No. 10 aparecen recogidos los datos que expresan los niveles alcanzados por estos departamentos en estas variables, tanto en la esfera funcional como afectiva. Tabla No. 10 - Resultados Sociométricos Niveles de Disposición a la Comunicación - Dirigente - Grupo Percepciones de dicha disposición GRUPOS ESFERA FUNCIONAL ESFERA EMOCIONAL SP EP PP IP SP EP PP IP Ingeniería 6–1 6–1 4–0 4–0 6–1 6–1 6–1 6–1 Eléctrica 6 2 3 5 6 8 8 3 (a) (m) (m) (a) (a) (a) (a) (m) 6–1 6–1 5–1 5–1 5–0 5–0 4–1 4–1 Ingeniería 3 2 4 2 2 1 2 1 del Bosque (m) (m) (m) (m) (m) (m) (m) (b) 114
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    Leyenda: (a) –alto (m) – media (b) – bajo Como se puede observar el dirigente del Eléctrica obtiene 62,5% de las variables presentadas altas puntajes y los 37,5 restantes se encuentran en nivel medio, de lo cual se interpreta una situación favorable con relación al dirigente del Bosque que presenta un 87,5% de las variables estudiadas con puntajes medios, tanto en el plano funcional como afectivo, mientras que los restantes 12,5% de las variables de este dirigente presenta puntajes bajos. Por lo cual se interpreta una situación más favorable para el dirigente de Eléctrica, ya que obtiene mayor puntaje en la mayoría de las variables y por tanto una estructura comunicativa más favorable. 3. Análisis de la situación de liderazgo grupal. En la Tabla No. 11 aparecen reflejadas la percepción grupal de la condición de líder de su dirigente, en los departamentos que conforman esta situación, así como las relaciones del dirigente con los miembros que desempeñan roles de liderazgo, (en ambos planos). TABLA No. 11 - DIMENSIONES VALORATIVAS DEL LIDERAZGO Leyenda: RELACIÓN a – alto DIMENSIONES VALORATIVAS DE LIDERZGO DIR-LIDER GRUPOS SP (DIRIGENTE) APORTAR INFLUIR MOTIVAR m – medio PF PA Funcional Emocional R D O R D O R D O 6–1 6–1 12 9 6 b – bajo Ingeniería 7 4 5 ... R – rango 6 6 4–0 #1 4–0 #1 3–0 #1 D →L D↔ L O – otros Eléctrica (a) (a) (a) (a) (a) (a) (a) (a) PF – Plano Funcional 6–1 5–0 4 3 3 PA – Plano Ingeniería 2 2 1 3 2 3–0 #2 3–0 #2 3–0 #2 D ...... L D...... L Afectivo del Bosque (m) (m) (m) (m) (m) (a) (a) (a) D – Dirigente D →--- L – Relación unilateral Dirigente Líder D ---← L – Relación unilateral Líder Dirigente D --- L – No hay escojas entre Dirigente y Líder D ↔ L – Relación reciproca Dirigente Líder. 115
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    Como se puedeobservar el dirigente de Eléctrica obtiene puntuaciones altas en cada una de las dimensiones, incluyendo el SP funcional, por lo que se percibe como líder en el grupo, mientras que el dirigente del Bosque obtiene puntajes medios en todas las dimensiones, incluso en el SP funcional. En cuanto a las relaciones que mantienen estos con los miembros del grupo que desempeñan roles de liderazgo, vemos que la situación resulta más favorable para el dirigente del Eléctrica en cuyo grupo hay el miembro #1 con puntajes altos en las dimensiones aportar, influir, motivar y Sp funcional (9) más alto que del propio dirigente, eso refleja su condición de líder emergente. Las relaciones dirigente-líder, en el departamento de Eléctrica, son satisfactorias en el plano afectivo, pues las disposiciones comunicativas son reciprocas, pero no son completamente satisfactorias en el plano funcional, pues aunque el dirigente escoja el líder, no se cumple lo contrario. En el departamento del Bosque el dirigente tiene en su grupo líder emergente con puntajes alto, pero no mantiene con él relaciones de reciprocidad. 4. Resultados de desempeño grupal TABLA No. 12 Comparabilidad Eléctrica/Bosque 100 93 Mediana 60 50 15 8 9 0 0 0 0 A C D F Ing. Eléctrica 93 0 0 8 Ing. del Bosque 60 15 0 9 Factores Ing. Eléctrica Ing. del Bosque Leyenda: A – Evaluación de Enseñanza C – Actividades de Investigación y Extensión D – Actividades de Calificación F – Evaluación de los Docentes hecha por los Alumnos. El departamento de Ing. Eléctrica y el departamento de Ing. del Bosque se distinguen en las variables del subsistema directriz respecto al estilo de dirección, comunicación dirigente-grupo, capacidad de liderazgo del jefe y relación con el líder emergente, mostrando una situación más favorable al grupo de Ing. Eléctrica que, no se distingue significativamente en ninguno factor de desempeño del grupo del Bosque, o sea, presentan los mismos niveles de desempeño grupal. En vista de que las variables del subsistema directriz están francamente favorables al grupo de Eléctrica eso no corrobora nuestra hipótesis referente al primer objetivo pero nos 116
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    remite al análisisde variables motivacionales internas de los miembros de los departamentos, que pueden estar determinando el igual desempeño del grupo del Bosque frente a la situación favorable presentada por el grupo de eléctrica, situación esa que vamos abordar en el segundo objetivo de nuestro trabajo. Conclusiones 1. Este estudio puso de manifiesto la importancia de colocar a prueba el modelo (Casales) a cerca del estilo de liderazgo y desempeño grupal dado los ajustes necesarios que fueran requeridos respecto a las estructuras grupales básicas (departamentos académicos) para adaptar el conjunto del método (estilo de dirección, liderazgo y productividad grupal) a las condiciones sociales y culturales en una institución de enseñaza superior brasileña. La realización de este estudio, de hecho, se ha convertido en un punto crucial que permitió obtener las experiencias necesarias para los cambios y realizar las adaptaciones con vistas a la investigación de mayor envergadura. 2. La eficacia directiva en los departamentos académicos estudiados, dependiente del perfil que tenga el subsistema directriz y de los nexos comprobadamente existentes entre estilo de dirección y desempeño, impacta el rendimiento presentado por grupo de profesores en instituciones de educación superior. 3. Estas conclusiones se circunscriben a los grupos estudiados. El tamaño relativamente pequeño de la muestra utilizada (4 departamentos académicos), constituye un factor que limita la validación y análisis a fondo de algunas de las relaciones encontradas, pero, como estudio piloto, aporta evidencias y adaptaciones que justifican un ulterior desarrollo de estos estudios en condiciones que permitan el trabajo con muestras que establezcan contrastes significativos y admita confrontar las hipótesis teóricas sobre bases empíricas más firmes. Recomendaciones Para la investigación principal es necesario hacer un estudio detallado de los grupos de profesores (departamentos que serón investigados)como por ejemplo aquellos departamentos que trabajan con laboratorios y de los que grade curricular posee disciplinas practicas lo que los torna laboriosamente distinto de otros. Recoger la dirección electrónica (e-mail) de los profesores que participaren da investigación, para sanar dudas emergentes de manera segura. Para la investigación principal es necesario también que se tomen en cuenta las siguientes variables que pueden tener influencia en el desempeño del grupo – carga horaria de contratación de trabajo, cuantos profesores del grupo ejercen cargos de jefe en programas que no son del departamento y que por lo tanto les disminuí tiempo de trabajo junto a su grupo. Para la investigación principal es necesario también una mayor cuantidad de grupos y sujetos en la muestra. Es necesario también una mayor fundamentación de las técnicas y profundización de la orientación de investigación de Casales. Por fin es necesario la inclusión del mayor referencial teórico basado en los modelos de liderazgo. 117
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    BIBLIOGRAFÍA Amaral, Alberto. Sistemade Avaliação. Educação Brasileira. Brasília, 16 (32): 221-232, 1o. sem., Brasil.1994. Barreto, José A E., Nóbrega, Ana M, Marques, Soraia de F., Viana, Úrsula M. P. y Magalhães, Suzana M. da C. A avaliação departamental: dificuldades e perspectivas, pags. 93-118, Brasil. 1989 Casales, J.C. Estilo de dirección, liderazgo y productividad grupal, Rev. Cubana de Psicología, Vol. 13, No. 2-3, pags.157 – 177, La Habana, 1996ª; Casales, J.C. Cuestionario para la medición del estilo de liderazgo manual de utilización (forma B), Rev. Cubana de Psicología, Vol. 16, No.1, pags. 70 – 90, La Habana, 1999 Casales, J. C. Patrones de liderazgo, stress y desempeño profesional en instituciones de salud, Rev. Interamericana de Psicología Ocupacional, V. 18, N. 1, p. 31 – 40, Medellín, 1999. Casales, J. C. (1988) Actividad de dirección y proceso de comunicación dirigente-grupo, Rev. Cubana de Psicología, Vol. V, No.1, pags. 51 – 63, La Habana. Cuba. Casales, J. C. La jerarquía de necesidades de la personalidad del directivo y su relación con la efectividad de la dirección, Rev. Interamericana de Psicología Ocupacional, Vol. 15, No. 2, pags. 81 – 97, Medellín, Colombia. 1996b. Casales, J. C. Psicología Social contribución a su estudio, Editorial de Ciencias Sociales, La Habana, Cuba. 1989. Demo, Pedro. Qualidade da Educação – tentativa de definir conceitos e critérios de avaliação. Fundação Carlos Chagas jul-dez, No. 2, pags. 11-25. Brasil. 1990. Fiedler, F. y Chemer, M. Liderazgo y administración efectiva, Editorial Trillas, México. 1990 Hoy K. W. y Miskel C. G. Educational administration theory, research, and practice. Edition Mc. Graw-Hill, USA, 1996 Rodriguez, L. L. R. Liderazgo, bases de poder y su relación con la productividad grupal, Trabajo de Diploma, Facultad de Psicología. La Habana,1999 Stark, J. Visão dos docentes e administradores sobre o desempenho acadêmico. New Directions for Institutional Research. No. 50, pags. 233 - 252) San Francisco, Jossey-Bass. Traducción de Marília R. O. Rebello. USA, 1986. UTAM – Regulamento Acadêmico, impresso, Manaus, Brasil, 1990 UTAM – Regimento Interno, impresso, Manaus, Brasil, 1999 118
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    UNIVERSIDADE FEDERAL DERONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO PRIMEIRA VERSÃO ISSN 1517-5421 lathé biosa 95 ANO II, Nº95 - ABRIL - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: RIBEIRINHOS DO MADEIRA nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 CEP: 78.900-970 MARIA TEREZINHA CORRÊA PORTO VELHO-RO TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA 119
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    Maria Terezinha Corrêa Filósofa, mestra em Antropologia mtec@usp.br Ribeirinhos do Madeira “A um rio que tudo arrasta, todos chamam de violento; mas ninguém chama violentas as margens que o aprisionam há séculos.” (Brecht) Navegando à beira do rio Madeira, entre os interiores dos municípios de Humaitá/AM e de Porto Velho/RO, durante minha convivência com a sua população percebi o quanto o ribeirinho foi e, ainda é, uma categoria às margens da sociedade brasileira, carente de recursos e à revelia de projetos agro-políticos e debates nacionais ou internacionais sobre o seu habitat. Os ribeirinhos a que me refiro são homens, mulheres, jovens e crianças que nascem, vivem e se criam à beira dos rios denominando-se de “beiradeiro”, e, chamado por alguns de “caboclo”. Alguns estudiosos os têm classificado, particularmente, por terem um modo de vida próprio, de “campesinato amazônida”. (Furtado,1997). A maioria é predominantemente de ascendência indígena, pois o tipo físico se associa a sua tez de pele, cabelos, olhos. Porém, alguns são miscigenados com nordestinos vindo, principalmente, dos Estados do Maranhão e do Ceará, por ocasião do ciclo da borracha. Além disso, o vocabulário comum assemelha-se à língua Tupi, às crenças nos “encantados” (panema, cobra-grande, mapinguari, o uruá-peara), contado pelos antepassados, encontradas praticamente em toda comunidade ribeirinha, influenciando também os citadinos amazonenses. O interior amazonense tem uma configuração mesclada de parentes e herdeiros culturais retratados por cronistas e historiadores citados por Antônio Porro, em O povo das águas (1996), quando tenta resgatar tribos ali existentes e registradas de modo exóticas, em séculos passados. Porém, segundo estatísticas citadas por Furtado, da UFPA, estima-se que aproximadamente 595.000 ribeirinhos (quase metade da população de todo o Estado do Amazonas) moram nas áreas rurais amazonenses, sendo que a população total de indígenas neste Estado é calculada em termos de 54.503 (IBGE, 1994, p.46). Portanto, mesmo que haja uma certa mobilidade, os ribeirinhos são em maior número que indígenas, trabalhadores “assalariados”, “posseiros” e “seringueiros” de terra firme. 120
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    Cabe aqui lembraro que a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha expôs num debate sobre a desordem da Amazônia como conseqüência da integração dos anos 70 e 80 do século passado: As populações submetidas da Amazônia são os índios, os seringueiros, os ribeirinhos. Essas populações têm direitos. Os índios têm direitos de primeiros ocupantes (...) As populações de seringueiros foram levados para a Amazônia... têm direitos também... Mas há, também, um direito coletivo mais fundamental ainda: as sociedades tradicionais que se implantaram na Amazônia constituíram soluções originais de sociabilidade que, como todas as sociedades ditas ‘primitivas’ são importantes não como se crê, às vezes, enquanto testemunho de nosso próprio passado, mas como testemunho de um presente que poderia ser outro: elas mostram, antes de tudo que o modelo em que estamos imersos de ‘desenvolvimento’ a qualquer custo, é um apenas entre os possíveis. Como fazem os biólogos quando instituem bancos genéticos que permitam um eventual desenvolvimento de novas espécies para a agricultura, da preservação de um ‘banco de saberes e sociabilidades’ quem não é tesouro do passado, mas reservatório de possibilidades para o futuro. (M. C. da Cunha, em artigo O aporte da antropologia ao debate sobre a desordem da Amazônia: apud NUPAUB/USP,1989) Também, Almeida Vaz (1996), pesquisador pela UFRJ, ao se referir sobre a identidade “ribeirinha” sugere que “novos estudos sobre a cultura, religião ou economia seriam úteis, pois poderíamos conhecer mais sobre esse sistema.” (idem 60), e assim, tentarmos compreender melhor sua configuração. É nesta tentativa que, durante o período de minha permanência no município de Humaitá, entre 1994,1995 e 2001 e de visitas feitas aos interiores, observei o fato da maioria da moradia nativa da população ribeirinha ser construída com paxiúba ou palha, onde, em geral, dorme-se em rede. No perímetro urbano é comum ver, também, moradas nativas entre casas de alvenaria, feitas de madeira mas, atualmente algumas, com telha “eternit”, e não de palha conforme o costume local. As casas de palafitas são construídas nas várzeas, também mesmo material regional. Há habitação temporária feita no meio da floresta, construída, às vezes, por seringueiros e/ou madeireiros, chamada de “Tapiri”. Estes, também, utilizam esteios e palhas de palmeiras seguindo práticas indígenas. Outra prática semelhante, por exemplo, aos indígenas Parintintin, com quem convivi alguns meses em aldeia é o jeito das famílias “ribeirinhas” ou “beiradeiras” de plantar. Esta prática tem uma forte influência cultural na região do Madeira. O mesmo podemos dizer da dieta amazonense, cuja a farinha d’água e o peixe, ricos em proteínas, são fundamentais em sua alimentação. O amazonense da zona rural ribeirinha dedica-se à agricultura em seus roçados, à pesca, ao extrativismo da castanha, da goma não elástica - o látex, do óleo de copaíba e de andiroba, da coleta de açaí, do tucumã e de outras frutas da época, durante as cheias dos rios. Na época da seca, é comum encontrar as famílias dos povoados às margens do rio Madeira dedicando-se ao cultivo do milho, da mandioca, da melancia, da banana ou fazendo farinha d’água (feita da mandioca brava), não só para o consumo próprio, mas também para comercializar na cidade; busca-se lenha, e, quando necessário, palha para fazer ou refazer o telhado da casa. A pesca, a farinha, a coleta da castanha e o artesanato (no caso, feito pelos indígenas) são produtos que, vendidos na cidade, ajudam na renda familiar. Atualmente, o açaí tem sido um produto procurado por atravessadores do Sul/Sudeste do Brasil. 121
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    É na horade vender seus produtos que se percebe o quanto o “ribeirinho” ou “beiradeiro” não é valorizado. É mal pago tanto pelo produto quanto pelo trabalho que teve para, não só extraí-lo, mas também transportá-lo até a cidade. Muitos dependem de combustível para sua “rabeta” (uma canoa maior com motor pequeno) ou da passagem para o “recreio” (barco grande), que devido as distâncias podem levar horas ou dias. Uma lata de dezoito litros de castanhas, equivalente a vinte quilos, é pago pelo atravessador apenas por três reais, e, às vezes, nem tem preço, conforme disse um dos empresários residentes na cidade de Humaitá, mas que tem representante em Manaus. Numa lata de açaí paga-se cinco reais, conforme acontece no município de Humaitá. Estes produtos quando comprados em outros lugares, por exemplo, nos mercados, custam, por um quilo ou um pote para tomar, no caso do açaí, o mesmo que foi pago ao ribeirinho ou beiradeiro pela lata de dezoito litros. Enquanto no perímetro urbano concentram-se os poderes políticos, jurídicos e religiosos, é na floresta que está presente toda a matéria-prima da economia local. Quem conhece bem tais recursos oferecidos pela natureza são os próprios ribeirinhos que têm convivido com exploração por madeireiras, dragas de garimpos (que, além de poluírem o rio com mercúrio, provocam mudanças no curso fluvial), colonização por sitiantes sulistas que “limpam” o terreno para fazer pasto, devastando a mata, e mais a implantação de projetos agro-industriais promovidos pelos órgãos governamentais tais como IDAM (anteriormente chamada de EMATER), INCRA e IBAMA. A pesca predatória é outro problema sério que atinge as famílias que vivem à beira rio. Os problemas relacionados à realidade sanitária é outro quesito percebido para quem se aventura a permanecer nas localidades desprevenido de um cantil d’água e cuia para banhar-se. Com o crescimento de cidades amazonenses à beira do Madeira, a água ainda não recebe o necessário tratamento, prejudicando a saúde da população, através da ingestão direta ou indireta na preparação de alimentos ou pelo uso na higiene pessoal, na agricultura ou no lazer. As doenças mais freqüentes causadas pela água contaminada são: amebíase, cólera, disenteria, febre tifóide, febre paratifóide, gastrenterite, diarréia infantil, leptospirose. Em muitas localidades alguns moradores utiliza fossa. Mas, a maioria da população ainda, utiliza os igarapés e até o próprio solo para destino dos dejetos, o qual é determinado numa área no meio da mata. A Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) orienta as famílias ensinando a pingar o Hipoclorito de Sódio na água depois desta ser coada na vasilha, em geral de barro, ou filtro, umas horas antes de beber e banhar-se com água do “olho d’água”. No entanto, há prática cotidiana das famílias ribeirinhas, o que se pode averiguar é que ainda não há hábito quanto a esse cuidado de higiene. Onde há poço artesiano (alguns perfurados após campanha política), na maioria das vezes, não funciona por falta de manutenção ou de óleo para o motor gerador. Segundo funcionários-inspetores da FUNASA de Humaitá/AM, a região do Madeira ainda é uma área endêmica de malária. “Sabe-se, também que se tem o transmissor de dengue, mas ainda não constatou-se nenhum caso. Em 1999 houve 2.580 casos. Com os cuidados, visitas e orientações feitas às famílias, os casos de malária em 2000, caiu para 1.066”. 122
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    O Império dasÁguas Apesar de todo esse desconforto para quem não está acostumado, o morador beiradeiro dribla altivamente o “banzeiro” (onda provocada pelo barco) que, embora violento, se desfaz com o movimento da água do rio, equilibrando-se como faz em sua canoa, desafiando jacarés, cobras e piranhas, que em meio a botos e borboletas convivem nessa sócio-diversidade tropical. O camponês amazônida, não só do Madeira, mas também de outros rios amazônicos estudados, mantém seu ritmo conforme a baixa ou a cheia das águas do rio, o tempo das chuvas, ou seja, a mudança das estações. A produção de subsistência do ribeirinho permanece tanto em terras devolutas, quanto em terras próprias nos povoados e localidades do município. Além de depender da terra firme para sua subsistência, esse depende das águas, “plantando” sua casa nas beiras dos rios, aproveitando-se, sabiamente, de seus recursos naturais. Diferentemente, o camponês tradicional das zonas rurais de outras regiões do Brasil, estudado por M. I. P. Queiroz (1973) que diz “o consumo do sitiante tradicional se desequilibra” (idem 29), tem organizado sua produção sob a ótica capitalista ou influenciada nos negócios de mercado. Outro autor, Antônio Cândido, de Os Parceiros do Rio Bonito (1964), observou esse desequilíbrio, definindo as várias formas, por exemplo, do morador do campo do Estado de São Paulo, ao lidar com sua produção. M. M. Moura em Os Camponeses (1986) e Os herdeiros da terra (1978), constata os conflitos entre direito civil e direito costumeiro que rege o casamento e o patrimônio rural. Polanyi em A Grande Transformação (1980) avaliou esse processo indo às origens de nossa época ao ressaltar as implicações do sistema econômico particular, o sistema de mercado. Chayanov, economista agrícola, em sua obra The theory of Peasant Economy (1966) explana bem a diferença da lógica camponesa que se choca com a lógica capitalista. Como já mencionei mais acima, a configuração da zona rural amazônida, no interior da floresta, é formada geralmente por sítios, chamadas de comunidades, e, por algumas reservas indígenas. Uma localidade pode variar o número de casas, conforme as cheias. Para quem já esteve em área indígena Parintintin, essas localidades lembram pequenas “aldeias”. O que não vejo de forma exótica, mas sim, confirmando a “tupinização” presente no modo de vida da população ribeirinha amazonense. Às vezes, as enchentes são tão fortes que atingem todo o roçado, como ocorreu em 1997, causando mudanças de várias famílias da região. Dependendo da quantidade de ataque de carapanãs (pernilongos), esses transmissores de malária, podem ser um grande fator de mudanças, também. Outra razão da mobilidade são os estudos dos filhos – cujas escolas só têm o primeiro ciclo do ensino fundamental (de 1ª a 4ª séries) com um único professor -, ou problemas de saúde, fazendo com que a família hospede-se em casa ou no terreno de parentes de outra localidade, no mesmo rio Madeira ou na cidade, onde os recursos são mais favoráveis. O fato do Amazonas ter sido disputado historicamente pelos ibéricos, os ribeirinhos encontram-se numa “situação de fronteira”, que segundo José de Souza Martins (1997) não é só geográfica, mas também cultural. Vários registros demonstram que os municípios surgidos nos Estados amazônicos são marcados pelo ciclo da borracha no fim do século XIX e início do XX. Autores como Ferreira de Castro (1930) que, viveu no seringal Paraíso pertencente ao município de Humaitá, retrata 123
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    bem em ASelva os horrores da época do “ouro verde”, e Taussig, em sua obra Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem (1993) também demonstra como a cultura do terror esteve muito presente em outras áreas da Amazônia. Na década de 70 do século passado, sofreu influência das iniciativas do governo militar de integração da Amazônia e de ocupação dos “espaços vazios” com a abertura da Transamazônica e a colonização por famílias rurais vindas, principalmente, do sul, o que tem causado estranhamentos nos regimes de troca. De um lado, os nativos ficam na expectativa de melhores recursos, de outro os migrantes buscam adaptar-se à nova terra, ainda desconhecida. Porém, tentam adaptá-la as suas técnicas, a qual tem causado desgaste e secura do solo, por exemplo, como em lugares do Nordeste e, ultimamente, em Santa Catarina. O encontro da sociedade nacional com grupos étnicos minoritários, no contexto sócio-político-histórico, subordina-se, então, a essa “situação de fronteira”, vista como lugar de “desencontro de temporalidades históricas” (Martins, 1997). Os festejos manifestam-se como material de análise em que se articulam a vida social e os regimes de troca das populações ribeirinhas como um fato social total, no sentido maussiano. Também, para o aprofundamento de tal investigação perceber a liminaridade desses eventos é para Turner perceber a inversão da realidade. Por isso, que o diálogo antropológico e sócio-histórico deve sintonizar para haver uma boa interpretação dos significados das dimensões simbólicas das práticas sociais. Assim, diante dos estudos feitos sobre as populações indígenas que muito tem contribuído para a descoberta de nossa plurietnicidade cultural brasileira, faz-se necessário, também, buscar a compreensão da “tupinização” (Vaz, 1996) daqueles que garantem a vida saudável de nosso maior patrimônio universal e que preservam a Amazônia, as populações ribeirinhas. Bibliografia CANDIDO, A. Os Parceiros do Rio Bonito. São Paulo, José Olympio, 1964. CASTRO, Ferreira. A Selva. Lisboa, Guimarães Editores, 1930. CHAYANOV, A. V. The Theory of Peasant Economy, Illinois, Richard D. Irwin Inc. 1966. CUNHA, Manuela C. O Aporte da Antropologia ao Debate Sobre a Desordem da Amazônia: Comentários à Exposição de Marianne Schmink. São Paulo, USP, 1989. FURTADO, L.G. Terra e Água: Identidade Camponesa Como Referência da Organização Política Entre os Ribeirinhos do Rio Solimões. In: Amazônia – Desenvolvimento, Sóciodiversidade e Qualidade de Vida, Belém, UFPA/ NUMA, 1997. MARTINS, J. de S. Fronteira. A Degradação do Outro. São Paulo, Hucitec, 1997. MAUSS, M. Ensaio Sobre a Dádiva. São Paulo, EPU, 1974. MOURA, M. M. Camponeses. São Paulo, Ática, 1986. ________ Herdeiros da Terra. São Paulo, HUCITEC, 1978. POLANYI, K. A Grande Transformação: as Origens da Nossa Época. Rio de Janeiro, Campus, 1980. PORRO, A. O Povo das Águas: Ensaios de Etno-história Amazônica. Rio de Janeiro, Vozes, 1995. QUEIROZ, M. I. P. O Campesinato Brasileiro. Petrópolis, Vozes/ Ed. USP, 1973. TAUSSIG, M. Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem. Rio, Paz e Terra, 1993. ________ Cultura do Terror: Espaço da Morte na Amazônia, in: Religião e Sociedade 10, Rio, novembro de 1983, pp.49-64. 124
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    VAZ, F. A.Ribeirinhos da Amazônia: Identidade e Magia na Floresta in: Cultura Vozes, n.2, março-abril/1996, (p. 47-65) PRIMEIRA VERSÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UFRO) CENTRO DE HERMENÊUTICA DO PRESENTE PRIMEIRA VERSÃO ANO II, Nº95 - ABRIL - PORTO VELHO, 2003 VOLUME VI ISSN 1517-5421 EDITOR NILSON SANTOS 125
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    CONSELHO EDITORIAL ALBERTO LINS CALDAS - História ARNEIDE CEMIN - Antropologia ARTUR MORETTI - Física CELSO FERRAREZI - Letras FABÍOLA LINS CALDAS - História JOSÉ JANUÁRIO DO AMARAL – Geografia MARIA CELESTE SAID MARQUES - Educação MARIO COZZUOL - Biologia MIGUEL NENEVÉ - Letras VALDEMIR MIOTELLO – Filosofia Os textos de até 5 laudas, tamanho de folha A4, fonte Times New Roman 11, espaço 1.5, formatados em “Word for Windows” deverão ser encaminhados para e-mail: nilson@unir.br CAIXA POSTAL 775 GANHEI CORAGEM CEP: 78.900-970 PORTO VELHO-RO RUBEM ALVES TIRAGEM 200 EXEMPLARES EDITORA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA ISSN 1517-5421 lathé biosa 95 126
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    Rubem Alves Psicanalista eprofessor emérito da Unicamp www.rubemalves.com.br Artigo publicado na Folha de São Paulo, 05 de maio de 2002, pág. A3 Ganhei Coragem “Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece”, observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer àquilo sobre o que me calei: “O povo unido jamais será vencido”, é disso que eu tenho medo. Em tempos passados evocava-se o nome de Deus foi exilado e o “povo” tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo... não sei se bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere. A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direção opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando as alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os dez mandamentos. E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tina outra idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou... Passando muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos... E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre...”. Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus. Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga. Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. 127
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    O circo cristãoera diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas como o povo em festas, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral” observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciosa pelas emoções coletivas. Indivíduo que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesse da comunidade. É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens, e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pela quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. O povo, unido, jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahma, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, á semelhança do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...” Isso é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança. ISSN 1517 - 5421 128
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    VITRINE DIVULGUE: Agora, carrega minha alma PRIMEIRA VERSÃO NA INTERNET porque http://www.unir.br/~primeira/index.html é melhor a morte que a vida Consulte o site e leia os artigos pub lic ados CARLOS MOREIRA ISSN 1517 - 5421 129