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O médico e o monstro: a poesia da deformidade
em Claudia Roquette-Pinto
POR ANGELI ROSE
CURSO DE JORNALISMO CULTURAL
PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO/UERJ
PROFESSOR CARLOS MORENOSEMIOLOGIA E LITERATURA
RIO DE JANEIRO, FEVEREIRO DE 2012
O médico e o monstro : a poesia da deformidade
“Acredito que aquele amor permanece tão forte e
intenso em sua lembrança porque foi sua primeira
solidão profunda,o primeiro trabalho íntimo com
que o senhor elaborou sua vida.”
(Cartas a um jovem poeta,Rainer Maria Rilker)
O romance de Robert L.Steveson,que também inspirou o filme de grande sucesso,lançado
em 1888,trata da dualidade entre corpo e alma , a que estamos submergidos desde a
antiguidade,buscando compreendê-la,em meio aos apelos da vida cotidiana .Nesta resenha
tomamos como ponto de partida e inspiração o tema, a fim de aproximar o fazer poético
que também elabora a palavra,forjando sentidos capazes de ferir e curar, como escreveu em
crônica Carlos Drummond de Andrade e tantos outros poetas e escritores.
Na bem apresentada antologia de poemas de Claudia Roquette –Pinto,por outro poeta Paulo
Henriques Britto,premiado autor,ensaísta, crítico,professor e tradutor,somos convidados a
enveredar pela leitura de parte da obra de Claudia,depois de conhecermos alguns dos
recursos de que se utiliza para fazer a sua voz chegar até o leitor.
Numa seleção de 27 poemas,editados na coleção “Ciranda da poesia”,editada pela
EDUERJ,em 2010,expresso intuito de formar, além de informar,um público leitor de
poesia(“aprender pela prática da análise”)como ressalta o coordenador ,professor Ítalo
Moriconi,na orelha deste volume de formato elegante,de 84 páginas e mais estreito do que
os clássicos volumes,em tom de rosa para causar o homônimo choque da cor(talvez
distinguindo a única poeta da coleção até o momento).
A marca d`água na capa confeccionada por fragmentos confere autenticidade às moedas
falsas ,as letras em estado de poesia,no poema sem título,tal página avulsa, que salta nesse
vai-da-valsa,que é a leitura aleatória sugerida.
A autora tem como pares na coleção Antonio Cícero,Carlito Azevedo,Chacal,Guilherme
Zarvos,Leonardo Fróes e Sebastião Uchoa Leite,apresentados por outros poetas, como
Alberto Pucheu,Susana Scramim,Fernanda Medeiros,Renato Rezende,Ângela Melim e
Franklin Alves Dassie.
Para além da dualidade que a modernidade manifestada na obra de Robert Steveson,através
dos extremos da forma positivada – o médico – e a negativa do monstro,de outro modo
percebidas como herói e algoz;entre diversas possibilidades que a literatura traçou em seu
percurso,a presente antologia carrega a palavra lavrada de “deformidade” que se opõe,pela
diferença,aos sentidos que podem ser tomados como estabelecidos.
Claudia em “Alma Corsária”,poema de fechamento do livro,singulariza-se sem deixar de
reconhecer a tradição dualista entre corpo e alma e,assertiva,escreve “o poeta é uma
deformidade.”A partir deste último verso dentre os poemas escolhidos para integrarem este
“caderno” de poesias,como a nós soam,parece advir o convite para reabri-lo numa releitura
que agora brevemente encaminhamos acompanhados de você , leitor.
É em “Zerando” uma primeira leitura e ao mesmo tempo título do poema que abre o
volume,já sem o “feitiço” que o jogo de palavras poderia apenas incitar,a marca inicial do
mês de janeiro que passa a rodo a tua vida” e abre um ano de vida,que quer dos
poemas,quer do leitor. Nem tão curto,nem tão longo,com a quantidade que alude ao
soneto,forma fixa,clássica,de 14 versos,desconstrói a estrutura como se todo o
esquecimento de certa tradição pudesse ser atualizado pela intenção.
Os sinais claros de uma mística pautada em informações milenares de filosofias e
religiosidades diferentes é a marca subliminar dos poemas. A linha de uma mão a ser lida
abre-se com o primeiro mês do ano, que muitos contam ter nos seus 11os.dias as ações
sobre os meses seguintes. Tomamos a liberdade de entrar por essas vias, considerando que
em evento de 2010,na PUC-Rio,Claudia,na mesa de debate de que participava sobre poesia
na contemporaneidade,esclarecia que era afeita à leitura das cartas de tarô.
Pode-se dizer e já houve quem dissesse que a literatura é um caminho(rota),tal o tarô em
sua tradição que remonta a povos milenares,tanto pela adivinhação como pelas
possibilidades de aberturas terapêuticas(no seu uso mais atualizado e veiculado amplamente
para os adeptos da “nova era”.
Sob a inspiração de outro Ítalo(Calvino),a partir de “O castelo dos destinos
cruzados”,seguimos o jogo de cartas como o jogo que dá lugar à senhora,dançarina,de Bizet
na ópera Carmen,o mito instaurado na obra literária de Prospero Merrimé.A cigana
malfadada até a trágica morte, anunciada no tabuleiro de cartas que ela mesma põe e
dispõe, como o rumo de sua vida. Na história, assassinada pelas mãos do “escravo” José,de
dentro de uma prisão,o ex-militar narra desde o instante em que recebe a flor rubra lançada
em sua testa(o chamado terceiro olho,capaz de abrir a visão para outra forma de
percepção)até o desencontro com a mulher desejada,chegando ao encontro de sua vocação
como narrador,também escravo de outro amor, o de contar histórias pela memória.
O militar desertor,sob a sedução sagaz e a desfeita da amante,dada a preferência clara ao
toureiro vitorioso,mata aquela que irá ser o instrumento de certa liberdade,paradoxal.
Carmen nos fundos de um pátio,solitária e esquecida,tem o pescoço cortado como se a
expressão pessoal daquele feminino se dobrasse sob o estigma do desejo do outro. Na roda
da vida,da fortuna e das cartas ou letras,também a literatura ou a poesia em flor de poemas
pode ser esquecida depois que o leitor – escravo dos sentidos – encontra algum significado
para abandonar a sedutora palavra em estado de poesia.
Esta rápida analogia prepara para o “Blefe” de que somos objetos e sujeitos como “existe
azul,mas é um azul de asma”,assim,antes que o leitor acredite na sorte protetora de
qualquer “azul”.O “Blefe” faz parte de alguns jogos,como “maio”,o mês do
movimento,pode sugerir trânsitos sem que se desloque espacialmente, do ponto de vista da
fisicalidade dos sujeitos e objetos. Quem sabe,blefes da vida cotidiana,reafirmada por mais
14 versos da memória dos sonetos?Em “Jazz”,podemos encontrar a ouvinte de música no
gênero que combina a noite com “ o sax[que] desperta flores nos quadris”.Cabe aqui
resgatar certa alusão que nossa leitura privilegia: Habanera,ária famosa da ópera Carmen
de Bizet ou em Carmen na África,sobre certa mesa seria uma forma de lembrar a
ciganagem carmesina que um livro em curso de leitura – sobre qualquer mesa – também
seduz ,através da dança das palavras,tanto em versos como em frases,que jazem melodias
aparentemente improvisadas sobre (mesmos) temas.
Claudia, na voz lírica,pergunta-se e faz-nos perguntas,qual Fernando Pessoa e tantos outros
poetas : “de que lugar em um vento esse caos?” Um mito já não ocupa qualquer lugar em
forma de território. Um mito vaga pelos espaços que o poeta descobre, desapropria em si e
no mundo,porque nunca foram próprios,porém carregados de singularidades.
Singularidades delicadas (e por que não dizer também, perigosas?),frágeis como
“porcelana”. Uma brincadeira sonora(a vespa/crespa/chispa/e espera:/cada nêspera/uma
véspera). Mais do que a permuta de letras a sinestesia entre sentidos que bailam entre as
mãos criadoras prudentes no ritmo que respira pela a espera e pela pausa entre dois pontos.
A espera do amadurecimento que é véspera também de toda nutrição,mesmo quando a
aspereza sugerida risca o traçado veloz(quem sabe dizer se de uma moto na urbanidade
feminina?).Nessa ludicidade que abre e fecha troca e desloca(-se),para abrir (uma outra
vez,diriam outros poetas na canção popular)um outro vaso de significados.
Sabemos que todos os significados são frágeis quando os deitamos sobre os textos. Leitores
que somos em mote contínum,insistimos nesta empresa com os fígados entregues aos
abutres que nos cabem a cada dia. Uma promessa cumprida no comprimento de cada
existência.
Seja por “blefe” ou por movimentos de qualquer “maio”,encontramos
“Móbile”,”Rastros”,”Space-wrinting”,poemas de estruturas e ritmos diferenciados entre
si,tanto pelo vocabulário inesperado como pela versificação livre. E assim submersos na
leitura dos textos, vamos em direção à espontaneidade e ao esmero, como pontos de
oscilação para “ a escrita que perdura para o/espasmo o “olho armado” em “Poema
submerso”.No vo “blefe”,haveria entre as palavras em estado de poesia um jogo de ganha e
perde?haveria entre poeta e leitor este mesmo jogo?Haveria algo que não seja apenas a
leitura e a escritura sobre leituras?Quantos significados o “jogo” pode assumir num poema,
ou numa antologia?
Parece que o jogo(de que jogo se fala/escreve/canta?)da necessidade de criar,inventar,a
poiesis da voz lírica que subjaz da força impulsiva de Claudia Roquette-Pinto em “Fait-
accompli” entremeia a realidade do vivido com a realidade criadora,como bem observou
Britto em seu ensaio de apresentação: “ A matéria-prima dessa poesia, como a de toda
obra poética digna de nota, é a existência da autora.”E podemos reafirmar a existência
fundida depois da preocupação didática de compreender que ao leitor cabe: do vivido que
rememora e assim cria e do imaginado prescrito que também recria.
Britto observa os traços biográficos presentes na poesia que chega às mãos do leitor,através
de detalhes mais pessoais, individualizantes(“detalhes tão pequenos”para os eus- de um
poeta.).
E num rasgo mais filosófico, a poesia tinge a “tela” em branco(para nós leitores e críticos
que ainda não alcançamos a virtualidade criadora)de um “palimpsesto”,dando tons
escuros,soturnos até que se exploda(“densidade máxima!”)uma fusão de vozes(sejam
pessoas ou personagens).
Segue-se a rota em “A caminho”,uma trilha aberta pela epígrafe drummondiana(Abriu-se
majestosa e circunspecta/sem emitir um som que fosse impuro”).Os dois caminhos do
carro do tarô,são também o espelho d`água dividido em “as duas/águas se
apartam/súditas”).a mão nua– cigana -que joga cartas também seduz pela nudez “abrindo o
fio/(começa comigo)a costura invisível/do rio”,como dissesse,da leitura,da escrita.
Entretanto o “caminho “ encontra algum descanso sem pacificação possível na linguagem
que perscruta, na “Cadeira de em mikonos”.Nela,uma visão platônica sobre o conceito é
anunciada para dar lugar a certa reflexão sobre o fazer poético: “sobre a camurça-
conceito:/na lingua,terceirto objeto,/menos cadeira,se a escrevo/ tampouco devo(se a
quero)/nos arrebaldes das sílabas”(...).
Encontra-se em seguida um nome “georg trakl” grafado por letra minúscula, dando uma
dimensão de anônimo ao que ganha algum destaque em reconhecimento ao dar título ao
poema.Um processo de humanização pelo individual sem dar traços ao individualismo de
uma celebridade.
Tal personificação da palavra por um nome própria desapropriado é seguida por “Fósforo”
que paradoxalmente vem numa prosa poética tomada pelo curso de uma palavra pausada,
refletida,e ao mesmo tempo com ares de onírica noite ígnea.Os poemas que seguem são
sem título, mas dão continuidade ao espaço de sonho e pulverização de idéias incendiadas
na encenação noturna da mente criativa, que descobre imagens entre olhos
anoitecidos/despencando no hiato das ventanias(...), que talvez ficaram insones diante dos
textos de Novalis, a quem o penúltimo poema desta série , sem- título, é dedicado.
A escrita, a criação pela palavra é sem dúvida o mote destes versos em seu conjunto, mas a
explicitação no final do livro é a certeza que seduzirá o leitor para voltar e reler os textos
sob outra ótica.
Em “Sítio” temos o lugar do cotidiano citadino presente pelo evento da violência de uma
bala.Aquele “morro pegando fogo” não tem incêndio do fósforo, mas das balas de um
tiroteio noturno, como tantas notícias de jornais comentam.Um certo ar de Bandeira volta e
se nos apresenta como referência de um poema tirado de uma notícia de jornal, mesmo que
este, de Claudia Roquette não o tenha sido.A tragicidade é a mesma: a bala na cabeça do
menino que brincava na varanda.
Tragicidade que é em seguida contraposta pela cidade partida que traz “Praia linda”,um
canto à beleza.A beleza masculina e feminina que caminha pelas praias de qualquer cidade
litorânea e tropical, encontrando em “você” um diálogo, ou uma chamada que faz do leitor
um comparsa como o sol da praia.A inconstância da versificação dentro do próprio poema,
por exemplo em “Praia linda”,é a inconstância da paisagem por que passeia a voz criativa,
nos múltiplos estímulos que encontra e delineia com as palavras sentidas.”As pernas
emberbes” parecem encontrar o “Primeiro beijo” ,o íntimo do medo,como a primeira
palavra de um poema, ou o primeiro poema,são íntimos de todo medo.
A palavra poética vai para o cinema, pelo menos é como a plasticidade de “Na montanha
dos macacos” se apresenta interrompendo o fio condutor do livro de poemas.Interrupção
com teor de pausa, mais do que de corte, pois é no esclarecimento do título que se tem a
informação da área de um lugar no Vietnã, onde Johnny e Susie são os personagens.Uma
narratividade pouco esclarecedora e ao mesmo tempo clara e objetiva sobre o encontro
sexual entre os personagens.
A análise extensa de Paulo Henriques, crítico responsável pelo volume, dá a ver a
deformidade positivada no poeta e em específico em Claudia Roquette- Pinto, deformidade
que em “Odre”, o corpo,/ este odre enganador,comenta o envelhecimento como fim de
uma aparência fixada e a ser transformada, tal qual a palavra lavra no poema,os sentidos.
E para tanto, nada melhor do que uma Alma corsária (último poema) que na solidão
recorrente e nomeada em vários momentos ao longo da antologia, por diferentes textos, se
refaz da deformidade de escrever deformando a palavra de seu sentido dicionarizado, sem
dele abdicar.Alma pirata que rouba em forma de aventura poética até palavras de outro
escritor, como em “tenho um coração que estala/com o peteleco das palavras de
Clarice”(Lispector, observamos tendenciosamente).Alma encarnada que acredita na
existência de um espírito no corpo para afirmar a crença no corpo: Sim,eu acredito no
corpo.Lição que, aliás, em Clarice Lispector encontramos em “Uma aprendizagem ou o
livro dos prazeres.”E finaliza: se me perguntarem o que é um poeta/(eu daria tudo o que
era meu por nada),/eu digo,/O poeta é uma deformidade.
O que podemos dizer sobre a poesia de Claudia Roquette-Pinto?Uma poesia múltipla que
rasteja sob um céu de palavras de contextos familiares e que é submetida ao processo de
desfamiliarização para dar voz à experiência sensível de um tempo único, presente nas
mãos que deformam a normalidade da visão do lugar-comum e ao mesmo tempo quer nele
estar inscrita para apartar-se do que preenche a solidão.
A poesia de Claudia está consciente da tradição poética que a antecipou, entretanto, dá-se a
permissão necessária para fazer a própria experiência antenada com o tempo de agora, um
agora também perceptível em um tempo passado.A poesia como deformidade do passado,
uma forma no presente, deformidade futura aos olhos de outrem, certamente, dando
continuidade ao processo de contínuas descontinuidades que em paradoxos permitem o ato
de criação poética.Ela é uma voz do seu tempo, sem abrir mão da história, ao seu modo,
que a perpassa pelas palavras já deformadas pelas leituras e desleituras de si e do Outro.
A modernidade com suas ambigüidades e dualidade como Zigmun Bauman veio apontando
no final do século passado e no início deste século com seus estudos fundamentados pela
sociologia, principalmente, são elementos que compõem a poesia de Claudia Roquette,mas
também a busca de uma terceira margem que deixa a nu o paradoxo da experiência pós-
moderna, em parte amortizada pela banalidade, em parte,anunciada sem ares de
panfletagem, porém crítica em relação ao presente.Nenhuma escola ou corrente, apenas o
fluxo da palavra filtrada no corpo do poeta, que se desdobra, se deforma e deforma,
desenforma, para achar a poiésis.

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O médico e o monstro artigo

  • 1. O médico e o monstro: a poesia da deformidade em Claudia Roquette-Pinto POR ANGELI ROSE CURSO DE JORNALISMO CULTURAL PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO/UERJ PROFESSOR CARLOS MORENOSEMIOLOGIA E LITERATURA RIO DE JANEIRO, FEVEREIRO DE 2012
  • 2. O médico e o monstro : a poesia da deformidade “Acredito que aquele amor permanece tão forte e intenso em sua lembrança porque foi sua primeira solidão profunda,o primeiro trabalho íntimo com que o senhor elaborou sua vida.” (Cartas a um jovem poeta,Rainer Maria Rilker) O romance de Robert L.Steveson,que também inspirou o filme de grande sucesso,lançado em 1888,trata da dualidade entre corpo e alma , a que estamos submergidos desde a antiguidade,buscando compreendê-la,em meio aos apelos da vida cotidiana .Nesta resenha tomamos como ponto de partida e inspiração o tema, a fim de aproximar o fazer poético que também elabora a palavra,forjando sentidos capazes de ferir e curar, como escreveu em crônica Carlos Drummond de Andrade e tantos outros poetas e escritores. Na bem apresentada antologia de poemas de Claudia Roquette –Pinto,por outro poeta Paulo Henriques Britto,premiado autor,ensaísta, crítico,professor e tradutor,somos convidados a enveredar pela leitura de parte da obra de Claudia,depois de conhecermos alguns dos recursos de que se utiliza para fazer a sua voz chegar até o leitor. Numa seleção de 27 poemas,editados na coleção “Ciranda da poesia”,editada pela EDUERJ,em 2010,expresso intuito de formar, além de informar,um público leitor de poesia(“aprender pela prática da análise”)como ressalta o coordenador ,professor Ítalo Moriconi,na orelha deste volume de formato elegante,de 84 páginas e mais estreito do que os clássicos volumes,em tom de rosa para causar o homônimo choque da cor(talvez distinguindo a única poeta da coleção até o momento). A marca d`água na capa confeccionada por fragmentos confere autenticidade às moedas falsas ,as letras em estado de poesia,no poema sem título,tal página avulsa, que salta nesse vai-da-valsa,que é a leitura aleatória sugerida. A autora tem como pares na coleção Antonio Cícero,Carlito Azevedo,Chacal,Guilherme Zarvos,Leonardo Fróes e Sebastião Uchoa Leite,apresentados por outros poetas, como Alberto Pucheu,Susana Scramim,Fernanda Medeiros,Renato Rezende,Ângela Melim e Franklin Alves Dassie. Para além da dualidade que a modernidade manifestada na obra de Robert Steveson,através dos extremos da forma positivada – o médico – e a negativa do monstro,de outro modo percebidas como herói e algoz;entre diversas possibilidades que a literatura traçou em seu
  • 3. percurso,a presente antologia carrega a palavra lavrada de “deformidade” que se opõe,pela diferença,aos sentidos que podem ser tomados como estabelecidos. Claudia em “Alma Corsária”,poema de fechamento do livro,singulariza-se sem deixar de reconhecer a tradição dualista entre corpo e alma e,assertiva,escreve “o poeta é uma deformidade.”A partir deste último verso dentre os poemas escolhidos para integrarem este “caderno” de poesias,como a nós soam,parece advir o convite para reabri-lo numa releitura que agora brevemente encaminhamos acompanhados de você , leitor. É em “Zerando” uma primeira leitura e ao mesmo tempo título do poema que abre o volume,já sem o “feitiço” que o jogo de palavras poderia apenas incitar,a marca inicial do mês de janeiro que passa a rodo a tua vida” e abre um ano de vida,que quer dos poemas,quer do leitor. Nem tão curto,nem tão longo,com a quantidade que alude ao soneto,forma fixa,clássica,de 14 versos,desconstrói a estrutura como se todo o esquecimento de certa tradição pudesse ser atualizado pela intenção. Os sinais claros de uma mística pautada em informações milenares de filosofias e religiosidades diferentes é a marca subliminar dos poemas. A linha de uma mão a ser lida abre-se com o primeiro mês do ano, que muitos contam ter nos seus 11os.dias as ações sobre os meses seguintes. Tomamos a liberdade de entrar por essas vias, considerando que em evento de 2010,na PUC-Rio,Claudia,na mesa de debate de que participava sobre poesia na contemporaneidade,esclarecia que era afeita à leitura das cartas de tarô. Pode-se dizer e já houve quem dissesse que a literatura é um caminho(rota),tal o tarô em sua tradição que remonta a povos milenares,tanto pela adivinhação como pelas possibilidades de aberturas terapêuticas(no seu uso mais atualizado e veiculado amplamente para os adeptos da “nova era”. Sob a inspiração de outro Ítalo(Calvino),a partir de “O castelo dos destinos cruzados”,seguimos o jogo de cartas como o jogo que dá lugar à senhora,dançarina,de Bizet na ópera Carmen,o mito instaurado na obra literária de Prospero Merrimé.A cigana malfadada até a trágica morte, anunciada no tabuleiro de cartas que ela mesma põe e dispõe, como o rumo de sua vida. Na história, assassinada pelas mãos do “escravo” José,de dentro de uma prisão,o ex-militar narra desde o instante em que recebe a flor rubra lançada em sua testa(o chamado terceiro olho,capaz de abrir a visão para outra forma de
  • 4. percepção)até o desencontro com a mulher desejada,chegando ao encontro de sua vocação como narrador,também escravo de outro amor, o de contar histórias pela memória. O militar desertor,sob a sedução sagaz e a desfeita da amante,dada a preferência clara ao toureiro vitorioso,mata aquela que irá ser o instrumento de certa liberdade,paradoxal. Carmen nos fundos de um pátio,solitária e esquecida,tem o pescoço cortado como se a expressão pessoal daquele feminino se dobrasse sob o estigma do desejo do outro. Na roda da vida,da fortuna e das cartas ou letras,também a literatura ou a poesia em flor de poemas pode ser esquecida depois que o leitor – escravo dos sentidos – encontra algum significado para abandonar a sedutora palavra em estado de poesia. Esta rápida analogia prepara para o “Blefe” de que somos objetos e sujeitos como “existe azul,mas é um azul de asma”,assim,antes que o leitor acredite na sorte protetora de qualquer “azul”.O “Blefe” faz parte de alguns jogos,como “maio”,o mês do movimento,pode sugerir trânsitos sem que se desloque espacialmente, do ponto de vista da fisicalidade dos sujeitos e objetos. Quem sabe,blefes da vida cotidiana,reafirmada por mais 14 versos da memória dos sonetos?Em “Jazz”,podemos encontrar a ouvinte de música no gênero que combina a noite com “ o sax[que] desperta flores nos quadris”.Cabe aqui resgatar certa alusão que nossa leitura privilegia: Habanera,ária famosa da ópera Carmen de Bizet ou em Carmen na África,sobre certa mesa seria uma forma de lembrar a ciganagem carmesina que um livro em curso de leitura – sobre qualquer mesa – também seduz ,através da dança das palavras,tanto em versos como em frases,que jazem melodias aparentemente improvisadas sobre (mesmos) temas. Claudia, na voz lírica,pergunta-se e faz-nos perguntas,qual Fernando Pessoa e tantos outros poetas : “de que lugar em um vento esse caos?” Um mito já não ocupa qualquer lugar em forma de território. Um mito vaga pelos espaços que o poeta descobre, desapropria em si e no mundo,porque nunca foram próprios,porém carregados de singularidades. Singularidades delicadas (e por que não dizer também, perigosas?),frágeis como “porcelana”. Uma brincadeira sonora(a vespa/crespa/chispa/e espera:/cada nêspera/uma véspera). Mais do que a permuta de letras a sinestesia entre sentidos que bailam entre as mãos criadoras prudentes no ritmo que respira pela a espera e pela pausa entre dois pontos. A espera do amadurecimento que é véspera também de toda nutrição,mesmo quando a aspereza sugerida risca o traçado veloz(quem sabe dizer se de uma moto na urbanidade
  • 5. feminina?).Nessa ludicidade que abre e fecha troca e desloca(-se),para abrir (uma outra vez,diriam outros poetas na canção popular)um outro vaso de significados. Sabemos que todos os significados são frágeis quando os deitamos sobre os textos. Leitores que somos em mote contínum,insistimos nesta empresa com os fígados entregues aos abutres que nos cabem a cada dia. Uma promessa cumprida no comprimento de cada existência. Seja por “blefe” ou por movimentos de qualquer “maio”,encontramos “Móbile”,”Rastros”,”Space-wrinting”,poemas de estruturas e ritmos diferenciados entre si,tanto pelo vocabulário inesperado como pela versificação livre. E assim submersos na leitura dos textos, vamos em direção à espontaneidade e ao esmero, como pontos de oscilação para “ a escrita que perdura para o/espasmo o “olho armado” em “Poema submerso”.No vo “blefe”,haveria entre as palavras em estado de poesia um jogo de ganha e perde?haveria entre poeta e leitor este mesmo jogo?Haveria algo que não seja apenas a leitura e a escritura sobre leituras?Quantos significados o “jogo” pode assumir num poema, ou numa antologia? Parece que o jogo(de que jogo se fala/escreve/canta?)da necessidade de criar,inventar,a poiesis da voz lírica que subjaz da força impulsiva de Claudia Roquette-Pinto em “Fait- accompli” entremeia a realidade do vivido com a realidade criadora,como bem observou Britto em seu ensaio de apresentação: “ A matéria-prima dessa poesia, como a de toda obra poética digna de nota, é a existência da autora.”E podemos reafirmar a existência fundida depois da preocupação didática de compreender que ao leitor cabe: do vivido que rememora e assim cria e do imaginado prescrito que também recria. Britto observa os traços biográficos presentes na poesia que chega às mãos do leitor,através de detalhes mais pessoais, individualizantes(“detalhes tão pequenos”para os eus- de um poeta.). E num rasgo mais filosófico, a poesia tinge a “tela” em branco(para nós leitores e críticos que ainda não alcançamos a virtualidade criadora)de um “palimpsesto”,dando tons escuros,soturnos até que se exploda(“densidade máxima!”)uma fusão de vozes(sejam pessoas ou personagens). Segue-se a rota em “A caminho”,uma trilha aberta pela epígrafe drummondiana(Abriu-se majestosa e circunspecta/sem emitir um som que fosse impuro”).Os dois caminhos do
  • 6. carro do tarô,são também o espelho d`água dividido em “as duas/águas se apartam/súditas”).a mão nua– cigana -que joga cartas também seduz pela nudez “abrindo o fio/(começa comigo)a costura invisível/do rio”,como dissesse,da leitura,da escrita. Entretanto o “caminho “ encontra algum descanso sem pacificação possível na linguagem que perscruta, na “Cadeira de em mikonos”.Nela,uma visão platônica sobre o conceito é anunciada para dar lugar a certa reflexão sobre o fazer poético: “sobre a camurça- conceito:/na lingua,terceirto objeto,/menos cadeira,se a escrevo/ tampouco devo(se a quero)/nos arrebaldes das sílabas”(...). Encontra-se em seguida um nome “georg trakl” grafado por letra minúscula, dando uma dimensão de anônimo ao que ganha algum destaque em reconhecimento ao dar título ao poema.Um processo de humanização pelo individual sem dar traços ao individualismo de uma celebridade. Tal personificação da palavra por um nome própria desapropriado é seguida por “Fósforo” que paradoxalmente vem numa prosa poética tomada pelo curso de uma palavra pausada, refletida,e ao mesmo tempo com ares de onírica noite ígnea.Os poemas que seguem são sem título, mas dão continuidade ao espaço de sonho e pulverização de idéias incendiadas na encenação noturna da mente criativa, que descobre imagens entre olhos anoitecidos/despencando no hiato das ventanias(...), que talvez ficaram insones diante dos textos de Novalis, a quem o penúltimo poema desta série , sem- título, é dedicado. A escrita, a criação pela palavra é sem dúvida o mote destes versos em seu conjunto, mas a explicitação no final do livro é a certeza que seduzirá o leitor para voltar e reler os textos sob outra ótica. Em “Sítio” temos o lugar do cotidiano citadino presente pelo evento da violência de uma bala.Aquele “morro pegando fogo” não tem incêndio do fósforo, mas das balas de um tiroteio noturno, como tantas notícias de jornais comentam.Um certo ar de Bandeira volta e se nos apresenta como referência de um poema tirado de uma notícia de jornal, mesmo que este, de Claudia Roquette não o tenha sido.A tragicidade é a mesma: a bala na cabeça do menino que brincava na varanda. Tragicidade que é em seguida contraposta pela cidade partida que traz “Praia linda”,um canto à beleza.A beleza masculina e feminina que caminha pelas praias de qualquer cidade litorânea e tropical, encontrando em “você” um diálogo, ou uma chamada que faz do leitor
  • 7. um comparsa como o sol da praia.A inconstância da versificação dentro do próprio poema, por exemplo em “Praia linda”,é a inconstância da paisagem por que passeia a voz criativa, nos múltiplos estímulos que encontra e delineia com as palavras sentidas.”As pernas emberbes” parecem encontrar o “Primeiro beijo” ,o íntimo do medo,como a primeira palavra de um poema, ou o primeiro poema,são íntimos de todo medo. A palavra poética vai para o cinema, pelo menos é como a plasticidade de “Na montanha dos macacos” se apresenta interrompendo o fio condutor do livro de poemas.Interrupção com teor de pausa, mais do que de corte, pois é no esclarecimento do título que se tem a informação da área de um lugar no Vietnã, onde Johnny e Susie são os personagens.Uma narratividade pouco esclarecedora e ao mesmo tempo clara e objetiva sobre o encontro sexual entre os personagens. A análise extensa de Paulo Henriques, crítico responsável pelo volume, dá a ver a deformidade positivada no poeta e em específico em Claudia Roquette- Pinto, deformidade que em “Odre”, o corpo,/ este odre enganador,comenta o envelhecimento como fim de uma aparência fixada e a ser transformada, tal qual a palavra lavra no poema,os sentidos. E para tanto, nada melhor do que uma Alma corsária (último poema) que na solidão recorrente e nomeada em vários momentos ao longo da antologia, por diferentes textos, se refaz da deformidade de escrever deformando a palavra de seu sentido dicionarizado, sem dele abdicar.Alma pirata que rouba em forma de aventura poética até palavras de outro escritor, como em “tenho um coração que estala/com o peteleco das palavras de Clarice”(Lispector, observamos tendenciosamente).Alma encarnada que acredita na existência de um espírito no corpo para afirmar a crença no corpo: Sim,eu acredito no corpo.Lição que, aliás, em Clarice Lispector encontramos em “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.”E finaliza: se me perguntarem o que é um poeta/(eu daria tudo o que era meu por nada),/eu digo,/O poeta é uma deformidade. O que podemos dizer sobre a poesia de Claudia Roquette-Pinto?Uma poesia múltipla que rasteja sob um céu de palavras de contextos familiares e que é submetida ao processo de desfamiliarização para dar voz à experiência sensível de um tempo único, presente nas mãos que deformam a normalidade da visão do lugar-comum e ao mesmo tempo quer nele estar inscrita para apartar-se do que preenche a solidão.
  • 8. A poesia de Claudia está consciente da tradição poética que a antecipou, entretanto, dá-se a permissão necessária para fazer a própria experiência antenada com o tempo de agora, um agora também perceptível em um tempo passado.A poesia como deformidade do passado, uma forma no presente, deformidade futura aos olhos de outrem, certamente, dando continuidade ao processo de contínuas descontinuidades que em paradoxos permitem o ato de criação poética.Ela é uma voz do seu tempo, sem abrir mão da história, ao seu modo, que a perpassa pelas palavras já deformadas pelas leituras e desleituras de si e do Outro. A modernidade com suas ambigüidades e dualidade como Zigmun Bauman veio apontando no final do século passado e no início deste século com seus estudos fundamentados pela sociologia, principalmente, são elementos que compõem a poesia de Claudia Roquette,mas também a busca de uma terceira margem que deixa a nu o paradoxo da experiência pós- moderna, em parte amortizada pela banalidade, em parte,anunciada sem ares de panfletagem, porém crítica em relação ao presente.Nenhuma escola ou corrente, apenas o fluxo da palavra filtrada no corpo do poeta, que se desdobra, se deforma e deforma, desenforma, para achar a poiésis.