imunologia




                         Triagem neonatal
                         de imunodeficiências primárias
                         Uma gota de sangue a mais no teste do pezinho pode ser suficiente para avaliar o
                         sistema imunológico do recém-nascido e detectar a presença de imunodeficiência
                         grave combinada. O exame entrou em fase de teste em setembro último
                         Por   Cristiana Bravo



                         A
                                   s imunodeficiências primárias (IDPs) são enfer-   para detecção desses defeitos genéticos na triagem
                                   midades de origem genética que levam a uma        neonatal. O exame ainda está em fase experimental;
                                   resposta inadequada do sistema imune. Essas       as coletas de sangue neonatal, realizadas com o tes-
                         deficiências causam maior suscetibilidade a infecções,      te do pezinho, iniciaram-se em setembro. “As coletas
                         inclusive causadas por vacinas com microrganismos           vão durar dois anos e serão feitas em dois hospitais da
                         atenuados, como a BCG. Além disso, estima-se que a          cidade de São Paulo ligados à Unifesp [Universidade
                         incidência seja de um caso em 2 mil nascidos vivos, ou      Federal de São Paulo]”, informa o professor Antonio
                         seja, tão frequentes quanto doenças já incluídas na tria-   Condino Neto, coordenador do projeto. “Serão reali-
                         gem neonatal de distúrbios metabólicos (teste do pezi-      zados de dois a três mil testes”, diz ele. Essa pesquisa
                         nho) como fenilcetonúria (1/14.000) e hipotireoidismo       foi financiada pela Baxter International, empresa far-
                         (1/5.000).                                                  macêutica norte-americana, e pela Fundação Jeffrey
                           Entre as IDPs, está a imunodeficiência grave combi-       Modell, entidade dedicada ao estudo das IDPs.
                         nada (SCID − severe combined immunodeficiency), causada
                         por uma série de defeitos genéticos que provocam a dis-     Conscientização do pediatra
                         função das células T e B. Pacientes portadores de SCID        Atualmente, sem a triagem neonatal, o médico pe-
                         não diagnosticados evoluem para óbito no primeiro ano       diatra é fundamental para o reconhecimento clínico
                         de vida. Em virtude da gravidade da SCID, pesquisado-       das IDPs. Para facilitar esse diagnóstico, a Fundação
                         res do Instituto de Ciências Biomédicas da Universida-      Jeffrey Modell elaborou dez condições clínicas deno-
                         de de São Paulo (ICB-USP) desenvolveram um exame            minadas “Sinais de Alerta” (ver quadro, à página XX).
                                                                                     Esses sinais foram adaptados ao nosso meio pelo
                                                                                     Grupo Brasileiro de Imunodeficiências (Bragid).
 Os dez sinais de alerta para                                                          A presença de um ou mais sinais é indicativo de IDP
 imunodeficiência primária na criança                                                e é necessário que o médico peça exames laboratoriais
 1	       Duas ou mais pneumonias                6	   Infecções intestinais de       para investigação diagnóstica. É de extrema impor-
          no último ano                               repetição/diarreia crônica     tância que o pediatra esteja muito atento aos sinais de
 2	       Oito ou mais otites                    7	   Asma grave, doença             alerta para IDP e encaminhe os casos suspeitos para
          no último ano                               do colágeno ou                 os serviços de referência precocemente. Essa atitude
                                                      doença autoimune
 3	       Estomatites de repetição                                                   possibilita a adoção de medidas terapêuticas específi-
          ou monilíase por mais                  8	   Efeito adverso ao BCG e/ou     cas, como o transplante de medula, e melhora o prog-
          de dois meses                               infecção por micobactéria      nóstico e a qualidade de vida desses pacientes.
 4	       Abscessos de repetição                 9	   Fenótipo clínico sugestivo
          ou ectima                                   de síndrome associada          Para ler mais:
                                                      à imunodeficiência
 5	       Um episódio de infecção                                                    http://www.projetodiretrizes.org.br/ans/diretrizes/
          sistêmica grave (meningite,            10	 História familiar de               diretrizes_vii.pdf
          osteoartrite, septicemia)                   imunodeficiência
                                                                                     http://www.imunopediatria.org.br/
30    PESQUISA MÉDICA | No 16 | Out/Dez 2010

Triagem Neonatal

  • 1.
    imunologia Triagem neonatal de imunodeficiências primárias Uma gota de sangue a mais no teste do pezinho pode ser suficiente para avaliar o sistema imunológico do recém-nascido e detectar a presença de imunodeficiência grave combinada. O exame entrou em fase de teste em setembro último Por Cristiana Bravo A s imunodeficiências primárias (IDPs) são enfer- para detecção desses defeitos genéticos na triagem midades de origem genética que levam a uma neonatal. O exame ainda está em fase experimental; resposta inadequada do sistema imune. Essas as coletas de sangue neonatal, realizadas com o tes- deficiências causam maior suscetibilidade a infecções, te do pezinho, iniciaram-se em setembro. “As coletas inclusive causadas por vacinas com microrganismos vão durar dois anos e serão feitas em dois hospitais da atenuados, como a BCG. Além disso, estima-se que a cidade de São Paulo ligados à Unifesp [Universidade incidência seja de um caso em 2 mil nascidos vivos, ou Federal de São Paulo]”, informa o professor Antonio seja, tão frequentes quanto doenças já incluídas na tria- Condino Neto, coordenador do projeto. “Serão reali- gem neonatal de distúrbios metabólicos (teste do pezi- zados de dois a três mil testes”, diz ele. Essa pesquisa nho) como fenilcetonúria (1/14.000) e hipotireoidismo foi financiada pela Baxter International, empresa far- (1/5.000). macêutica norte-americana, e pela Fundação Jeffrey Entre as IDPs, está a imunodeficiência grave combi- Modell, entidade dedicada ao estudo das IDPs. nada (SCID − severe combined immunodeficiency), causada por uma série de defeitos genéticos que provocam a dis- Conscientização do pediatra função das células T e B. Pacientes portadores de SCID Atualmente, sem a triagem neonatal, o médico pe- não diagnosticados evoluem para óbito no primeiro ano diatra é fundamental para o reconhecimento clínico de vida. Em virtude da gravidade da SCID, pesquisado- das IDPs. Para facilitar esse diagnóstico, a Fundação res do Instituto de Ciências Biomédicas da Universida- Jeffrey Modell elaborou dez condições clínicas deno- de de São Paulo (ICB-USP) desenvolveram um exame minadas “Sinais de Alerta” (ver quadro, à página XX). Esses sinais foram adaptados ao nosso meio pelo Grupo Brasileiro de Imunodeficiências (Bragid). Os dez sinais de alerta para A presença de um ou mais sinais é indicativo de IDP imunodeficiência primária na criança e é necessário que o médico peça exames laboratoriais 1 Duas ou mais pneumonias 6 Infecções intestinais de para investigação diagnóstica. É de extrema impor- no último ano repetição/diarreia crônica tância que o pediatra esteja muito atento aos sinais de 2 Oito ou mais otites 7 Asma grave, doença alerta para IDP e encaminhe os casos suspeitos para no último ano do colágeno ou os serviços de referência precocemente. Essa atitude doença autoimune 3 Estomatites de repetição possibilita a adoção de medidas terapêuticas específi- ou monilíase por mais 8 Efeito adverso ao BCG e/ou cas, como o transplante de medula, e melhora o prog- de dois meses infecção por micobactéria nóstico e a qualidade de vida desses pacientes. 4 Abscessos de repetição 9 Fenótipo clínico sugestivo ou ectima de síndrome associada Para ler mais: à imunodeficiência 5 Um episódio de infecção http://www.projetodiretrizes.org.br/ans/diretrizes/ sistêmica grave (meningite, 10 História familiar de diretrizes_vii.pdf osteoartrite, septicemia) imunodeficiência http://www.imunopediatria.org.br/ 30 PESQUISA MÉDICA | No 16 | Out/Dez 2010