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Teoria
Macroeconômica
TEORIA MACROECONÔMICA.pdf
Carlândia Brito Santos Fernandes
Teoria macroeconômica
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Fernandes, Carlândia Brito Santos
	
	 ISBN 978-85-8482-326-0
1.	Macroeconomia. 2. Brasil - Política econômica. 3.
Economia keynesiana. I. Título.
	 CDD 339
Fernandes. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional
S.A., 2016.
176 p.
F7363t Teoria macroeconômica / Carlândia Brito Santos
© 2016 por Editora e Distribuidora Educacional S.A
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2016
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Homepage: http://www.kroton.com.br/
Sumário
Unidade 1 | Macroeconomia Clássica
Seção 1 - Produto, emprego e equilíbrio
1.1 | Demanda e oferta de trabalho
1.2 | A oferta agregada de longo prazo
Seção 2 - Demanda agregada, moeda e preços
Seção 3 - Consumo, investimento, poupança e juros
3.1 | Equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada
3.2 | Algumas questões comentadas
Unidade 2 | Macroeconomia Keynesiana
Seção 1 - O princípio da demanda efetiva
1.1 | O princípio de demanda efetiva
Seção 2 - Modelo keynesiano simples
2.1 | Modelo keynesiano com consumo
Seção 3 - Os componentes da demanda agregada
3.1 | Modelo keynesiano com consumo e investimento
3.2 | O multiplicador
3.4 | Modelo keynesiano com governo e setor externo
Unidade 3 | Estrutura Geral da Análise Macroeconômica: IS-LM e IS-LM-BP
Seção 1 - O modelo IS-LM
1.1 | Derivação da curva IS
1.2 | Derivação da curva LM
Seção 2 - Equilíbrio no modelo IS-LM
2.1 | Efeitos da política fiscal no modelo iS-lM
2.2 | Efeitos da política monetária no modelo IS-LM
2.3 | Combinação de políticas monetária e fiscal
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53
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107
109
Seção 3 - Modelo IS-LM-BP
3.1 | A curva de balanço de pagamentos (BP)
3.2 | A curva BP sem mobilidade de capital
3.3 | Curva BP com livre mobilidade de capital
113
114
115
118
Unidade 4 | O papel da política econômica
Seção 1 - O modelo de oferta agregada e demanda
agregada (OA-DA)
1.1 | Derivando a demanda agregada
1.2 | Derivando a oferta agregada
1.3 | Equilíbrio entre demanda agregada e oferta agregada
1.4 | O papel das políticas econômicas no modelo oa-Da
Seção 2 - A curva de Phillips
2.1 | A curva de Phillips: origem e transformações
2.2 | Derivando a curva de Phillips a partir da relação de oferta agregada
Seção 3 - Expectativas, novo-clássicos, ciclos reais de
negócios e novo-keynesianos
3.1 | Expectativas
3.2 | Ciclos reais de negócios, novo-clássicos e novo-keynesianos
131
135
135
140
144
146
153
153
155
161
161
163
Apresentação
Caro aluno, sabemos que na macroeconomia estudamos os agregados
econômicos. Nesta disciplina os estudaremos sob as perspectivas clássica e
keynesiana, principalmente.
Na primeira unidade estudaremos a macroeconomia clássica, que pode ser
considerada uma análise de longo prazo, pois os preços e os salários são flexíveis.
Para isto, veremos o comportamento do mercado de trabalho e de fundos de
empréstimos.
Na segunda unidade entenderemos o comportamento básico do modelo
keynesiano, que, ao contrário do clássico, é considerado de curto prazo, pois preços
e salários são inflexíveis. Veremos, entre outros aspectos, como a despesa agregada
é composta e como o nível de renda da economia é determinado.
Na terceira unidade aprenderemos o funcionamento dos modelos IS-LM simples
e IS-LM-BP, veremos que as ideias de Keynes são a base destes modelos.
Na quarta e última unidade analisaremos o papel das políticas econômicas
integrando os mercados de bens, financeiro e de trabalho. Isso possibilitará termos
claro como se dará o equilíbrio do curto para o longo prazo.
No final seremos capazes de definir o que gera, de acordo com diferentes teorias,
as flutuações econômicas e como o equilíbrio é alcançado. Veremos também como
as políticas econômicas são aplicadas para este fim.
Tenhaemmentequeassimcomoasoutrasdisciplinas,estaexigemuitadedicação,
é importante que faça sempre as atividades sugeridas. Fique atento às questões para
reflexão e para aprofundar seus conhecimentos recorra às sugestões de leituras
complementares. Você tem ciência que há uma ampla equipe de professores e
tutores para atendê-lo e tornar o processo de aprendizado o mais simples possível?
Lembre-se sempre disso e, mediante dúvidas, comentários e sugestões, não hesite
em nos procurar.
Vamos então compreender a macroeconomia?
Bons estudos!
Profª Drª Carlândia Brito Santos Fernandes
TEORIA MACROECONÔMICA.pdf
Unidade 1
MACROECONOMIA CLÁSSICA
Objetivos de aprendizagem:
Nesta unidade você será levado a compreender a macroeconomia
clássica.
Carlândia Brito Santos Fernandes
Nesta seção estudaremos a oferta agregada clássica, a oferta e demanda
de trabalho, o equilíbrio no mercado de trabalho e os deslocamentos da
curva de oferta. Para isso, precisaremos ter claro o que envolve os fatores
de produção e a função de produção.
Nesta seção discutiremos a demanda agregada clássica, os
comportamentos da moeda e dos preços e os deslocamentos da curva
de demanda.
Nesta seção serão abordados o funcionamento do mercado de fundos
de empréstimos e o equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada.
Seção 1 | Produto, emprego e equilíbrio
Seção 2 | Demanda agregada, moeda e preços
Seção 3 | Consumo, investimento, poupança e juros
Macroeconomia Clássica
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Macroeconomia Clássica
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Introdução à unidade
Caro aluno! Quantas vezes você deve ter ouvido falar na mídia sobre desemprego,
capacidade ociosa e crescimento econômico? Estas preocupações são a base da
macroeconomia.
Assim, na evolução do pensamento econômico encontramos as raízes de tais
preocupações. Com os mercantilistas e fisiocratas a resposta a essas questões era
dada ainda de maneira pontual, propondo que o crescimento depende do acúmulo
de metais preciosos ou aumento da produção agrícola.
Porém, os fundamentos macroeconômicos com uma teoria sistematicamente
organizada para explicar as questões do crescimento e desemprego foram
primeiramente organizados pelos economistas da Escola Clássica.
Desta forma a macroeconomia clássica está relacionada à escola fundadora do
pensamento econômico, que inclui autores como Adam Smith e David Ricardo.
Conforme afirma Bresser-Pereira (1976) a macroeconomia clássica, assim como
toda a teoria econômica clássica, parte do pressuposto fundamental de que o
mundo econômico é governado por leis naturais, que ao funcionarem livremente,
produzirão sempre os melhores resultados possíveis. O modelo clássico que será
apresentado nesta unidade, assim como em outros livros texto, não se trata de
um modelo desenvolvido por um autor clássico em específico, mas sim da junção
das ideias de diferentes autores. É importante sabermos que o modelo clássico
apresentado nos livros-texto de macroeconomia, na verdade refere-se ao modelo
neoclássico, que se baseia na hipótese de racionalidade dos agentes econômicos
(LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
Antes de darmos sequência ao estudo, precisamos abordar alguns aspectos que
nos auxiliarão na compreensão dos próximos itens.
•	 No estudo da macroeconomia há dois grupos de variáveis: as que descrevem
a economia real, pois não consideram a influência dos preços, ou ainda, são
variáveis medidas em unidades físicas. Como o produto real, o investimento,
a poupança, o emprego e a taxa de juros real; e as variáveis que descrevem
as variações nos valores nominais, são mensuradas em unidades monetárias.
Como a inflação, a taxa de juros nominal, o produto nominal e o salário
nominal. A divisão destas variáveis será muito importante no entendimento
da macroeconomia clássica.
Macroeconomia Clássica
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•	 Os economistas clássicos consideram que a economia opera sempre em
nível de pleno emprego. Todos os indivíduos que desejam trabalhar estão
trabalhando, o que acontece em função da hipótese de preços e salários
flexíveis.
•	 Dentro da macroeconomia clássica é válida a Lei de Say (Jean Batiste Say) de
que a oferta cria a sua própria demanda. Assim, os indivíduos utilizam toda a
sua renda na aquisição de mercadorias.
Nesta unidade concentraremos os estudos na oferta agregada e na demanda
agregada. Para isso, exploraremos os principais agregados macroeconômicos
(produto, investimentos, poupança, emprego, estoque de moeda, nível de preços
etc.) e veremos como se dá o equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada,
considerando, inclusive, uma economia com governo. No final dessa unidade
teremos os elementos suficientes para se compreender a macroeconomia clássica.
Macroeconomia Clássica
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Seção 1
Produto, emprego e equilíbrio
Introdução à seção
O foco desta seção é a oferta agregada, que se refere à quantidade total de
produtos que o setor produtivo (empresas e famílias) deseja disponibilizar no
mercado, por período de tempo, a um determinado preço. Assim, tudo que
é produzido na economia compõe o produto agregado, o produto interno
bruto (PIB). Para explorarmos e obtermos a oferta agregada de uma economia,
precisamos entender os seus componentes, que são os fatores de produção e a
função de produção.
Sabemos que o processo de produção envolve a combinação de vários fatores,
os quais são chamados de fatores de produção ou insumos. As empresas se utilizam
desses fatores, que são, principalmente, trabalho (N) e capital (K), dada a tecnologia
(A), e os combinam para se gerar produto (Y). O capital não se refere a dinheiro,
mas sim aos estoques de equipamentos e estruturas que os trabalhadores utilizam
para realizarem suas tarefas e que os tornam mais produtivos, como, por exemplo,
os computadores, as colheitadeiras utilizadas na agricultura, os caminhões que
uma transportadora utiliza e os fogões e freezers de um restaurante. Trabalho é
o tempo de trabalho humano que as pessoas dispendem durante a produção.
Tecnologia é o nível tecnológico, o conhecimento da melhor forma possível para
se produzir bens e serviços. São exemplos de tecnologia a linha de montagem de
carros de Henry Ford, a telefonia móvel e as tecnologias de acesso remoto como a
Caro aluno, para entender os conceitos de oferta, demanda e os
demais agregados macroeconômicos você deve ler o Capítulo 1 e
2 do livro de ABEL, Andrew. Macroeconomia. São Paulo: Pearson
Prentice Hall, 2008. Disponível na Biblioteca Digital.
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wi-fi. Há ainda outros fatores de produção, como os recursos naturais (como terra
e minerais) e o capital humano, que envolve as habilidades e conhecimentos dos
trabalhadores, obtidos por meio de investimento em educação e treinamentos ou
por meio da própria experiência. Por motivos de simplificação, não os incluiremos
na função de produção.
A forma como os fatores de produção é combinada para se gerar o máximo
de produto (PIB real) é expressa por meio de uma função de produção, como a
que podemos ver na figura 1.1. De outra forma, a função de produção evidencia a
tecnologia (A), pois a tecnologia é exatamente a forma como a função transforma
os fatores de produção em produto. Assim, por exemplo, uma melhora do nível
tecnológico, mantendo os demais fatores constantes, leva a um aumento na
quantidade produzida.
O fato é que a função de produção tem relação direta com as variáveis que
a determina: um aumento (redução) na quantidade utilizada de capital leva a um
aumento (redução) do produto; um aumento (redução) no número empregado
de trabalhadores leva a um aumento (redução) do produto. Além disto, para uma
dada tecnologia (A), a função de produção apresenta retornos constantes de
escala, ou seja, a produção responde em proporção exatamente igual à proporção
de alteração nos fatores de produção. Por exemplo, dada a tecnologia (A), uma
redução de 10% nas quantidades utilizadas de capital (K) e trabalho (N), gera uma
redução de 10% no produto (Y).
Y= A.F(K, N)
O que acontece se somente um dos fatores de produção variar e o outro se
manter fixo? Imagine que você é um empresário e que mantém fixa a quantidade
utilizada de máquinas em seu processo de produção, alterando somente a
quantidade de trabalho. Nesta situação, os aumentos marginais na quantidade de
trabalho provocarão aumentos na quantidade produzida, porém os aumentos serão
cada vez menores. Isto significa que a produtividade marginal do fator de produção
(o incremento da produção em resultado do aumento de uma unidade do fator,
tomando os demais como fixos) é decrescente (LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
Os termos retornos de escala, produtividade marginal de um fator (ou
produto marginal) e curto prazo, são da microeconomia. Você pode
saber mais sobre estes e outros termos no capítulo 6 - Produção -
Macroeconomia Clássica
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Agora que conhecemos um pouco sobre a produção, podemos obter
graficamente a função de produção agregada. Sendo o curto prazo o período no
qual existe pelo menos um fator de produção fixo, considerando o trabalho como
o único fator variável, a função de produção é ilustrada na figura 1.1, no espaço de
produto (Y) e quantidade de trabalho (N), e é positivamente inclinada, pois conforme
vimos a relação entre o produto e os fatores que o determina é direta.
do livro de PINDYCK, Robert; RUBINFELD, Daniel. Microeconomia.
8. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2013. Disponível na
Biblioteca Digital.
A relação entre a taxa de desemprego e o produto real é inversa, um
aumento na taxa de desemprego está associado a uma redução no
PIB (produto interno bruto) real. Esta relação é chamada de Lei de
Okun, em homenagem a Arthur Okun. Para conhecer mais sobre esta
lei, você pode consultar o “Estudo de caso 2.4 - Desemprego, PIB e
Lei de Okun” apresentado no livro do Mankiw (2004 p. 28-29).
Figura 1.1 | Função de produção agregada
Fonte: Adaptado de: Lopes e Vasconcellos (2008, p. 108)
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A função de produção pode se deslocar para cima (esquerda) ou para baixo
(direita). Suponha um aumento no estoque de capital, a função de produção se
desloca para cima, com isto, obtém-se mais produto com uma mesma quantidade
de trabalho. Em resumo, temos que os fatores de produção e a função de produção
determinam a produção agregada.
Vimos que a quantidade de trabalho influencia diretamente a quantidade
produzida, assim, precisamos entender melhor como se comporta o mercado de
trabalho, é o que veremos no próximo item.
1.1	 Demanda e oferta de trabalho
O comportamento do mercado de trabalho lembra o comportamento do
mercado de bens e serviços, por exemplo, a análise da oferta e demanda de artigos
de vestuário, mas tem algumas diferenças. Primeiro, no mercado de trabalho os
ofertantes de mão de obra são os trabalhadores e os demandantes os empresários.
No mercado de bens e serviços os ofertantes são os produtores e os demandantes
os consumidores. Segundo, no mercado de trabalho a demanda por este fator é
derivada, ou seja, a demanda dos empresários por trabalho somente existe porque
os empresários decidiram ofertar um determinado bem ou serviço no respectivo
mercado de bens e serviços. Por exemplo, a demanda por costureiros(as) é
derivada da decisão do empresário da indústria de confecção a ofertar artigos de
vestuário. Uma semelhança importante é que em ambos os mercados, a relação
é dada entre preço e quantidade: no mercado de bens e serviços, o preço é o
próprio preço de venda e quantidade, o montante de produto; no mercado de
trabalho, o preço é o salário e a quantidade é o montante em horas de trabalho ou
em número de trabalhadores.
Na macroeconomia clássica, a demanda de trabalho representa a relação entre
a quantidade demandada de trabalhadores e o salário real - poder de compra, isto é,
a quantidade em produtos que se pode comprar com determinado tempo (horas)
de dedicação em trabalho - mantendo-se constante os demais fatores de produção.
Novamente retomando um conceito da microeconomia, consideramos que o
Quais seriam os efeitos de uma piora do nível tecnológico na
funçãodeprodução?Comoilustraressesefeitosgraficamente?
Macroeconomia Clássica
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mercado de trabalho (assim como o de bens e serviços) é do tipo concorrência
perfeita, a empresa é competitiva, pois há um grande número de empresas que
não conseguem afetar nem o preço de seus produtos e nem o preço do fator
trabalho. As firmas contratarão trabalhadores pensando em maximizar seus lucros
(LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
O lucro das empresas é a diferença entre a receita total e o custo total. De
outra forma, representa a diferença entre o montante que obtém com a venda
de seus produtos e o montante que gasta para produzi-los. Os custos envolvem
a remuneração do trabalho, o salário nominal (W) e o custo com o capital,
representado por (R), sendo que o preço pago por qualquer fator de produção
depende das quantidades ofertadas e demandas. A receita total é obtida por meio
da multiplicação da quantidade produzida (Y) pelo preço (P).
Lucro = Receita total – custo total
Lucro = P*Y - (WN + RK)
O que acontece quando, em decorrência de um aumento da demanda, a
empresa precisa aumentar sua produção?
A empresa está sempre considerando o fato de maximizar o lucro, então, se
precisa contratar mais trabalhadores, para aumentar sua produção, fará isso até o
pontoemqueforlucrativo.Aprodutividademarginaldotrabalho(PMgN)representa
quanto a produção aumenta a cada unidade empregada a mais de trabalho.
Porém, dado que os outros fatores se mantêm constantes, a função de produção
apresenta um produto marginal, do fator em questão, decrescente. Tomemos
como exemplo o caso de um restaurante. Ao se contratar mais trabalhadores o
restaurante servirá mais refeições, o PMgN é a quantidade a mais em refeições que
é obtida em função de mais um trabalhador. Fixando-se a quantidade de capital,
a estrutura da cozinha do restaurante, por exemplo, não adianta o empresário
contratar cada vez mais trabalhadores, pois a estrutura não comportará. A questão
é que, se o empresário fizer isto o número de refeições servidas irá reduzir a cada
unidade adicional de trabalho, pois haverá muitos trabalhadores para uma dada
estrutura. A isto se deve o formato da curva de função de produção da figura 1.1,
que vai se tornando mais horizontal com o aumento no número de trabalhadores,
pois a sua inclinação representa a produtividade marginal do trabalho.
Você acha que, tudo o mais constante, compensa para o empresário contratar
mais trabalhadores se o incremento que obtém em sua produção é menor do
que o gasto que tem com salários? Acredito que você já saiba a resposta. Assim,
para a empresa aumentar a sua demanda de trabalho, que reflete a produtividade
(ou produto) marginal do trabalho, o salário real deve cair, pois a produtividade
marginal do trabalho também está caindo, o que nos dá uma relação negativa
entre o salário real e a quantidade de trabalho, que é ilustrada na figura 1.2. Para
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dado salário real (W/P), a demanda de trabalho (ou de outro fator) aumenta até o
ponto em que a sua produtividade marginal se iguala ao seu preço real, o salário
real (MANKIW, 2004).
Figura 1.2 | Demanda de trabalho no modelo clássico
Fonte: Adaptado de: Mankiw (2009, p. 380)
É possível encontramos formalmente (matematicamente) o ponto
onde a PMgN se iguala a W/P, para isto basta maximizar a função lucro
em relação a N, ou seja, derivar a função em relação a N. Lembre-se
de que o produto (Y) é função do trabalho, Y=F(N), então é possível
substituir o Y da função lucro por F(N). Para mais detalhes, consulte
Lopes e Vasconcellos (2008, p. 109).
Mankiw (2009) apresenta alguns fatores que podem fazer a curva de demanda
de trabalho se deslocar:
• O preço do produto: para uma determinada empresa o valor do produto
marginal do trabalho é o produto marginal multiplicado pelo preço de venda
produto. Quando o preço do produto se altera, o seu valor marginal também
se altera e a curva de demanda de mão de obra se desloca. Um aumento
do preço do produto, por exemplo, aumenta o valor do produto marginal
de cada trabalhador e a empresa aumenta sua demanda por trabalhadores,
deslocando a curva de demanda de trabalho para a direita. No caso de
redução do preço do produto, ocorre uma redução do produto marginal,
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17
reduzindo a demanda da empresa por trabalhadores e deslocando a curva
de demanda de trabalho para a esquerda.
•	 Mudanças tecnológicas: para dada empresa um avanço tecnológico
aumenta o produto marginal do trabalho, o que leva a empresa a demandar
mais trabalhadores e então, a curva de demanda de trabalho se desloca
para a direita. Porém, mudanças tecnológicas também podem reduzir a
demanda por trabalhadores. Por exemplo, a invenção de um robô industrial
de baixo custo para a empresa, poderia reduzir o produto marginal do
trabalho, deslocando a curva de demanda de trabalho para a esquerda. Este
tipo de mudança é conhecido como economia de mão de obra.
•	 A oferta de outros fatores: a quantidade disponível de um fator de produção
pode afetar o produto marginal de outros fatores. Por exemplo, em uma
indústria de confecção, a redução no número de máquinas de costura
reduzirá o produto marginal dos(as) costureiros(as) e então, a empresa
reduzirá a demanda por eles. Perceba que geralmente os fatores de
produção são utilizados em conjunto, por exemplo, não há como utilizar
máquinas de costura sem costureiros(as), ou vice e versa, isso faz com que
a produtividade de cada fator dependa da quantidade dos demais fatores
que está sendo utilizada no processo de produção.
No caso do nosso país, o que você pensa sobre o progresso
tecnológico, aumenta ou reduz a mão de obra empregada? Qual
a importância da tecnologia para a produtividade do trabalho?
Você sabia que a produtividade de um trabalhador brasileiro é, em
média, um quarto da produtividade de um trabalhador americano?
Acesse reportagens sobre este assunto nos links disponíveis em:
<http://www.fgv.br/professor/ferreira/FerreiraFolha.pdf> e
<http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/05/140519_
produtividade_porque_ru>. Acesso em: 23 ago. 2015.
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Fonte: Adaptado de: Mankiw (2009, p. 384)
No que se refere à quantidade de trabalho oferecida pelas famílias no mercado,
precisamos entender como a mesma é influenciada pelo salário real. No modelo
clássico, a decisão do indivíduo de quanto trabalhar corresponde à escolha de
como alocar as horas do dia entre o trabalho e o lazer. O trabalho não gera prazer,
apenas a renda necessária para poder consumir e obter a satisfação decorrente do
consumo de mercadorias. O lazer, porém, gera satisfação por si mesmo. A decisão
de quanto trabalhar decorre da maximização de uma função utilidade cuja “cesta”
de bens é composta pela renda (consumo de bens) e lazer. Cada hora adicional
de trabalho é o custo de oportunidade do lazer (o quanto se sacrifica de produto
para obter lazer) (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). A curva de oferta de trabalho
(figura 1.3) reflete a desutilidade marginal do trabalho, ou seja, mostra o quanto
deve ser o salário real para que o indivíduo abra mão do lazer e dedique seu tempo
ao trabalho.
Através da figura 1.3 evidencia-se a relação positiva entre oferta de trabalho e
salário real. Os indivíduos estão dispostos a ofertarem mais trabalho a salários reais
cada vez mais elevados. Mankiw (2009) elenca alguns fatores que podem provocar
O indivíduo pode escolher quanto do seu tempo será reservado
ao trabalho. O que você pensa sobre esta hipótese?
Figura 1.3 | Oferta de trabalho
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Fonte: adaptado de: Lopes e Vasconcellos (2008, p. 113-114)
Figura 1.4 | Equilíbrio no mercado de trabalho e o produto
de pleno emprego
em que a oferta
de trabalho se
iguala à demanda
de trabalho. O
mercado de
trabalho estará
sempre em
equilíbrio? Não,
poderão ocorrer
d e s e q u i l í b r i o s
na forma de
excesso de oferta
de trabalho ou
de excesso de
demanda de
trabalho. Nestes
casos, a variável
de ajuste será o
salário real. Vamos
analisar a figura
1.4 para melhor
entendermos o
funcionamento
do mercado de
trabalho.
deslocamentos na curva de oferta de trabalho:
• Mudanças das preferências: há algumas gerações as mulheres normalmente
ficavam em casa cuidando dos filhos. Hoje, as famílias são menores e mais
mães optam por estar no mercado de trabalho. Mudanças como essas
provocam aumento na oferta de mão de obra.
• Imigração: a movimentação de trabalhadores entre regiões ou entre países
é outro fator que causa deslocamentos da oferta de mão de obra.
Agora que conhecemos a demanda e oferta de trabalho podemos analisar
como ocorre o equilíbrio no mercado de trabalho. Este equilíbrio ocorre no ponto
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O ponto A, por exemplo, na figura 1.4, corresponde a um excesso de oferta
de trabalho, pois o salário real é superior àquele que garante o equilíbrio, então
os indivíduos oferecem uma quantidade de trabalho superior àquela que os
empresários demandam, representando uma situação de desemprego. O ponto
A é de desequilíbrio. Para o mercado de trabalho retornar ao ponto de equilíbrio
é necessário que o salário real reduza, o que ocorrerá em razão da disputa entre
os indivíduos para conseguir uma vaga de emprego. Porém, é importante que
tenhamos claro que a redução do salário real acontece, dado o nível de preços,
mediante uma redução do salário nominal, que é flexível. À medida que o salário
real for reduzindo os indivíduos reduzirão a quantidade ofertada de trabalho e
o mercado tenderá ao ponto de equilíbrio, que é, na macroeconomia clássica,
o ponto de pleno emprego. Este ponto é representado por Y* e será a oferta
agregada da economia, podemos identificá-lo no painel inferior da figura 1.4.
Perceba que é derivado a partir do equilíbrio do mercado de trabalho e da função
de produção. No ponto de pleno emprego todos os indivíduos que desejam
trabalhar àquele salário estão trabalhando. Desta forma, a economia está sempre
em pleno emprego, dado o salário real, não acontece de um indivíduo que deseja
trabalhar ficar desempregado.
Vejamos como Bresser-Pereira (1976) analisa essa situação:
[...] O nível de emprego seria determinado pela renda apenas
indiretamente. Diretamente dependeria do nível dos salários,
os quais dependeriam da produtividade marginal do trabalho,
ou seja, da derivada da renda em relação ao trabalhador. No
momento transitório em que houvesse desemprego, teríamos
uma indicação de que os salários estariam artificialmente
altos, de forma que estes começariam automaticamente a
declinar devido à pressão dos trabalhadores desempregados,
que estariam agora dispostos a trabalhar por um menor
salário. Como conseqüência do excesso da oferta de trabalho
baixariam os salários nominais e reais. As empresas, em vista
disso, aumentariam o número de empregados (já que a curva
de procura de empregados não sofrera alteração). Com o
aumento do número de empregados, aumentaria a renda real,
Y. Este processo continuaria até que todos os trabalhadores
fossem empregados, voltando-se à situação normal de pleno
emprego (BRESSER-PEREIRA, 1976, p. 17).
Macroeconomia Clássica
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21
O ponto B, por sua vez, que se encontra abaixo da curva de demanda,
corresponde a um excesso de demanda de trabalho, ou de alto nível de emprego. O
salário real neste ponto é inferior àquele que garante o pleno emprego. As empresas
desejam aumentar o número de postos de trabalho, mas os trabalhadores não
estão dispostos a aceitarem as propostas dos empresários àquele salário. A disputa
dos empresários por trabalhadores provoca uma pressão sobre o salário nominal
e então, do salário real, que começa a aumentar. Assim, com o salário mais alto,
os trabalhadores estão dispostos a aceitar as propostas dos empresários, o que
vai ocorrendo até que o excesso de demanda de trabalho esteja completamente
eliminado. O mercado retorna ao equilíbrio de pleno emprego, no qual o número
de trabalhadores que as empresas desejam contratar é igual ao número de
indivíduos dispostos a trabalhar por aquele salário.
O que você acha, o ponto de equilíbrio de pleno emprego pode se alterar?
A resposta a esta pergunta é sim. Os fatores que vimos anteriormente que são
responsáveis pelos deslocamentos na curva de oferta e demanda de trabalho, são,
portanto, fatores que provocam mudanças no ponto de equilíbrio do mercado
de trabalho. Sempre que ocorrerem deslocamentos nessas curvas o ponto de
equilíbrio se alterará. Se, por algum motivo, ocorrer uma redução da oferta de
trabalho, devido a um controle de natalidade, por exemplo, a curva de oferta de
trabalho se deslocará para a esquerda (e para cima). O novo ponto de cruzamento
entre as curvas de oferta e demanda de trabalho representará um novo equilíbrio
de pleno emprego, mas que terá um salário real superior ao ponto de equilíbrio
inicial, pois com a redução da oferta de trabalho o salário real terá de se ajustar de
forma a equilibrar o mercado.
O mercado de trabalho é do tipo concorrência perfeita, em
que há muitos indivíduos ofertando mão de obra e um grande
número de empresas que demandam esse fator. Um único
indivíduo tem poder de influenciar o salário que irá receber? Uma
única empresa tem poder de determinar o salário que irá pagar?
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Desde a crise global do final de 2008, a taxa de desemprego
tem oscilado muito no Brasil e também em outros países. Faça
uma pesquisa sobre a evolução da taxa de desemprego no
Brasil e compare os resultados com algum outro país de seu
interesse. Você poderá encontrar dados sobre o desemprego
nesses links:
<http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/
trabalhoerendimento/pme_nova/default.shtm> e <http://
www.ipeadata.gov.br>. Acesso em: 23 set. 2015.
Podemos frisar esta questão do pleno emprego e do mercado de trabalho na
macroeconomia clássica através da análise de uma questão do ENADE (2012),
conforme abaixo:
•	 De acordo com a teoria clássica, a economia funciona no nível de pleno
emprego; e o desemprego é o resultado da recusa dos trabalhadores de
trabalharem pelo salário vigente. Segundo essa corrente teórica, o desemprego
pode ser classificado como voluntário ou friccional (ENADE, 2012).
•	 Na teoria clássica a economia opera a pleno emprego, a dado nível de
salário real, todos os que desejam trabalhar encontrarão emprego. Assim,
nesta teoria não há possibilidade de ocorrência de desemprego involuntário.
Mas pode ocorrer desemprego friccional, que pode surgir da mobilidade da
mão de obra, de um período para adaptação dos trabalhadores às novas
condições, ou de mudanças estruturais no sistema de produção. Pode
ocorrer também, mesmo que brevemente, o desemprego voluntário, em
que o indivíduo não deseja trabalhar a determinado salário, e então, prefere
esperar que o salário se ajuste.
1.2 A oferta agregada de longo prazo
A oferta agregada (OA) de longo prazo é a relação entre a quantidade real
ofertada de produto (PIB real) e o nível de preços, em que o salário nominal se
altera de acordo com o nível de preços para manter o pleno emprego. Vimos
isso no item anterior. No nível de pleno emprego a quantidade de produto real
ofertada representa o produto potencial da economia, ou seja, o máximo que
Macroeconomia Clássica
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23
determinada economia tem condições de produzir quando todos os fatores de
produção estão sendo plenamente empregados, considerando que não haja
desperdício. O produto potencial permanecerá o mesmo independente do nível
de preços. Ao longo da curva de oferta agregada de longo prazo, à medida que o
nível de preços se altera, o salário nominal também se altera. Assim, o salário real
permanece no nível de equilíbrio de pleno emprego e o produto real no nível de
produto potencial (PARKIN, 2010).
Vimos no início da seção 1.1 que a quantidade produzida depende de capital,
trabalho e do nível de tecnologia disponível. Percebemos que de acordo com a
teoria clássica a quantidade produzida não depende do nível de preços ou salário
nominal, que são variáveis monetárias, nominais, mas sim das variáveis reais. Uma
melhora na tecnologia, por exemplo, aumenta a produtividade marginal do trabalho,
levando os empresários a demandarem mais trabalhadores e, consequentemente,
ampliando a quantidade produzida. Se o produto não depende dos preços a oferta
agregada também não. Então, se ilustramos a oferta agregada no espaço produto
e preço, como será essa curva de longo prazo? Veja a figura 1.5, em que YP
é o
produto de pleno emprego ou a renda e YE
é a renda ou o produto de equilíbrio.
A curva de oferta agregada, ou de pleno emprego, é vertical, pois o produto
potencial independe do nível de preços e a razão para isto é que um movimento
ao longo da curva é acompanhado por uma mudança tanto nos preços de
mercadorias e serviços quanto nos preços dos fatores de produção, aqui o salário
nominal. Exemplo: suponha um aumento de 5% no nível geral de preços, ou seja,
nos preços das mercadorias, como os agentes não sofrem de ilusão monetária
Fonte: Adaptado de: Lopes e Vasconcellos (2008, p. 115)
Figura 1.5 | Oferta agregada de pleno emprego
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(eles sabem que os preços subiram) este aumento será acompanhado por um
aumento correspondente de 5% no salário nominal, o que manterá o poder de
compra (salário real) no mesmo patamar de pleno emprego, mantendo o nível de
emprego constante e o produto real no nível potencial (PARKIN, 2010).
A curva de oferta agregada de pleno emprego pode se deslocar, para a esquerda
ou para a direita e o que influencia nesses descolamentos são as alterações no
nível de produto potencial. Para entendermos isso melhor, precisamos entender
como o produto potencial pode ser influenciado.
•	 Mantendo-se constante os demais fatores, o produto potencial aumenta quando
aumenta a quantidade de trabalhadores de pleno emprego, o que pode ocorrer
em função de um aumento da população economicamente ativa.
•	 Aumentos no estoque de capital (incluindo capital humano) geram
aumentos no produto potencial, pois quanto maior o nível de capital por
trabalhador, maior é a produtividade do trabalho.
•	 Avanço tecnológico leva a aumento do produto potencial, uma economia
que possui melhores níveis tecnológicos produz relativamente mais do que
aquela que utiliza tecnologia obsoleta.
Aqui, compreendemos o que é a oferta agregada, como ela se comporta e
como é influenciada. Na próxima seção veremos a demanda agregada clássica.
População economicamente ativa (PEA) é um conceito elaborado
para indicar qual a parcela população está inserida no mercado de
trabalho ou que, de certa forma, está procurando se inserir nele
para exercer algum tipo de atividade remunerada. Pesquisas para
o Brasil sobre trabalho e rendimento, dentre outras características
gerais da população, são efetuadas pelo Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE) por meio da Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (PNAD). Para obter mais informações acesse
o link: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/
trabalhoerendimento/pnad2013/default.shtm>. Acesso em: 23 set.
2015.
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Por que a curva de oferta agregada de pleno emprego é de
longo prazo? É possível ilustrar graficamente os efeitos de um
aumento do capital humano no produto potencial? Se sim,
tente realizar esta atividade.
1. A respeito da função de produção, avalie as afirmações
abaixo.
I. A função de produção tem relação direta com as variáveis
que a determina, assim, uma piora do nível tecnológico,
mantendo os demais fatores constantes, leva a um aumento
na quantidade produzida.
II. A função de produção apresenta retornos constantes
de escala. Isto significa que a produção responde em
proporção exatamente igual à proporção de alteração
nos fatores de produção. Por exemplo, dada a tecnologia,
um aumento de 8% nas quantidades utilizadas de capital
e trabalho, gerará um aumento de 8% na quantidade
produzida.
III. Se somente um dos fatores de produção variar e o
outro se manter fixo, a produtividade marginal do fator de
produção será constante.
É correto o que se afirma em:
a) I e II.
b) I e III.
c) II.
d) III e II.
e) III, II e I.
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2. Desenhe e explique a curva de oferta agregada de
longo prazo do modelo clássico. Há algum fator que pode
deslocar esta curva?
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Seção 2
Demanda agregada clássica, moeda e preços
Introdução à seção
Podemos definir a demanda agregada (DA) como a relação entre a quantidade
demandada e o nível geral de preços. Assim a sua curva expressa a quantidade
de bens e serviços que serão adquiridos a dado nível de preços. A partir da teoria
quantitativa da moeda podemos derivar a demanda agregada.
Na teoria quantitativa da moeda temos que MV = PY. Sendo M a oferta de
moeda, V a sua velocidade, por hipótese constante, P o nível de preços e Y o
produto real. Então, PY é o produto nominal ou monetário e a equação é vista
como uma equação de equilíbrio do mercado monetário que mostra que a oferta
de moeda é igual à sua demanda e que a demanda é proporcional à quantidade do
produto real (LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
Bresser-Pereira (1976) resume da seguinte forma o papel da moeda na teoria
clássica:
A moeda para os clássicos é uma unidade de conta e um
meio de troca. Além de servir para se somarem mercadorias
diferentes, a moeda é fundamentalmente um meio de troca.
Os homens só teriam interesse em mantê-la em seu poder
na medida em que dela necessitassem para realizar suas
transações. Segundo os clássicos, portanto, existiria apenas
um motivo para a procura de moeda: o motivo transacional. O
outro possível uso do dinheiro, como um meio de reserva de
ativos líquidos, e, portanto, seu consequente entesouramento,
era considerado irracional. Conservando o dinheiro em forma
líquida, nos bancos, sem que haja tomadores de empréstimos
ou debaixo do colchão, o capitalista estaria perdendo os juros
que poderia ganhar se houvesse aplicado seu dinheiro em
ativos fixos ou em títulos. O entesouramento, portanto, era
considerado inexistente (BRESSER-PEREIRA, 1976, p. 11).
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Precisamos de moeda para efetuar nossas transações, este é o motivo
transacional da demanda de moeda que está por traz da teoria
quantitativa da moeda. Para saber mais sobre esta teoria consulte o
capítulo 6 do livro de Mankiw (2004).
Observe a figura 1.6, a curva de demanda agregada tem inclinação negativa.
Por quê? Para determinada oferta de moeda, se o produto (renda) da economia
é mais elevado (lembre-se de que alterações no produto somente ocorrem em
função de alterações nas variáveis reais, na seção anterior citamos alguns fatores),
então a demanda por moeda transacional é mais elevada e um maior estoque real
de moeda seria necessário para atender às transações. Porém, como a oferta de
moeda está dada, a variável de ajuste é o nível de preços, que reduzirá. Suponha,
por exemplo, que ocorra um aumento no estoque de capital, isso gerará um
aumento no produto potencial, ou seja, crescimento econômico, pois as empresas
utilizarão um maior nível de capital por trabalhador, ampliando o produto marginal
do trabalho. O aumento do produto potencial gera aumento da demanda por
moeda, então os preços cairão de forma a ampliar o estoque real de moeda.
Fonte: Adaptado de: Mankiw (2004, p. 176)
Figura 1.6 | Demanda agregada no modelo clássico
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A curva de demanda agregada pode se deslocar para a direita ou para a esquerda
e isto ocorrerá devido a alterações na quantidade ofertada de moeda. Por exemplo,
uma redução na oferta de moeda gera uma redução nos saldos monetários reais,
ou seja, do estoque real de moeda (Mo/P), reduzindo a demandada agregada (sua
curva se desloca para a esquerda), o que provoca, somente, uma redução no nível
de preços, ou seja, o produto da economia se mantém, a demanda não tem poder
em determinar o produto da economia, tem poder somente sobre o nível de
preços, o nível de produto é determinado pelas condições de oferta (quantidade
de capital, de trabalho e nível tecnológico).
Analogamente um aumento na oferta de moeda provoca um aumento do
estoque real de moeda, aumentando a demanda agregada e, então, deslocando
sua curva para a direita, conforme figura 1.7. Dado o produto potencial, um maior
nível de demanda gera uma elevação nos preços.
Figura 1.7 | Deslocamentos da demanda agregada
Fonte: Adaptado de: Mankiw (2004, p.179)
A lei de Say […] afirma que as crises de superprodução ou
subconsumo são impossíveis, a não ser muito transitoriamente,
e no mais das vezes, setorialmente. Isto porque toda produção
implica em uma remuneração que vai se transformar
imediatamente em procura. As pessoas não produzem e
oferecem suas mercadorias no mercado pelo simples prazer
de fazê-lo. Elas têm em mira produzir para, com isso, obter
Macroeconomia Clássica
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recursos que lhes permitiam comprar outros bens (de consumo
ou investimento) que desejam. Quando a produção aumenta,
ou seja, quando a oferta aumenta, a procura também aumenta
concomitantemente. Em outras palavras, a oferta cria sua
própria procura. A economia de mercado possuiria assim um
mecanismo de controle automático, que a levaria sempre
para o equilíbrio, tornando a superprodução geral impensável.
Desequilíbrios setoriais poderiam ocorrer com frequência,
quando, por exemplo, os produtores de um determinado
artigo superestimassem sua procura, mas tais desequilíbrios
seriam rapidamente corrigidos pelo mecanismo dos preços
(BRESSER-PEREIRA, 1976, p. 11).
Vimos que no modelo clássico a quantidade de moeda não afeta as variáveis reais
(produto, emprego, salário real etc.), afeta somente as variáveis nominais, como o
nível geral de preços. Esta separação das variáveis em dois grupos é conhecida por
dicotomia clássica, que evidencia a neutralidade da moeda e reserva um papel
passivo para a demanda agregada (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). Quando o
Banco Central dobra a quantidade de moeda, o nível de preços dobra, o salário em
reais dobra e todos os demais valores em reais dobram. Porém, as variáveis reais
mantêm-se inalteradas. Essa irrelevância das alterações monetárias para estes tipos
de variáveis é chamada de neutralidade da moeda (MANKIW, 2009).
A aplicação da dicotomia clássica é um pouco complicada
quando nos voltamos para os preços. Os preços na economia
são normalmente cotados em termos de moeda e, portanto,
são variáveis nominais. Por exemplo, quando dizemos que o
preço do milho é de $ 2 por saca ou que o preço do trigo é de $
1 por saca, os dois preços são variáveis nominais. Mas e quanto
aos preços relativos – o preço de uma coisa comparado ao
preço de outra? Em nosso exemplo, poderíamos dizer que o
preço de uma saca de milho são duas sacas de trigo. Observe
que o preço relativo não mais é medido em termos de moeda.
Quando comparamos os preços de dois bens quaisquer, os
sinais de dólar se cancelam e o número resultante é medido em
unidades físicas. A lição é que os preços em dólar são variáveis
nominais, ao passo que os preços relativos são variáveis reais
(MANKIW, 2009, p. 640-641).
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O PIB nominal é uma variável nominal porque mede o valor em reais
(R$) da produção de bens e serviços da economia; o PIB real é uma
variável real porque mede a quantidade total de bens e serviços
produzidos na economia e não é influenciado pelos preços correntes
desses bens e serviços (MANKIW, 2009).
Diante do que vem estudando, defina Lei de Say?
1. Desenhe e explique os efeitos de uma redução na oferta
de moeda e, consequentemente, na demanda agregada,
sobre o produto potencial e o nível de preços.
2. Explique a expressão “dicotomia clássica”.
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Seção 3
Consumo, investimento, poupança e juros
Introdução à seção
No modelo clássico, a poupança representa um “sacrifício” ao consumo
presente que exige um “prêmio pela espera”, ou seja, o indivíduo só poupará
se puder consumir no futuro mais do que consumiria no presente. A poupança
depende, assim, do tamanho do prêmio pela espera, ou seja, da taxa de juros que
remunerará a poupança do indivíduo. Quanto maior a taxa de juros mais caro o
consumo presente em termos de consumo futuro e, portanto, maior o estímulo à
poupança (LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
A poupança é a fonte da oferta de fundos para empréstimos (MANKIW, 2009).
Todos os agentes que possuem renda extra, por isso podem ser chamados de
superavitários, vão ao mercado de fundos de empréstimos para depositarem
(pouparem) seus recursos e emprestar. Por outro lado, os agentes que precisam
de recursos, os deficitários, vão a este mercado para adquirir empréstimos. Os
empréstimos podem ser de forma direta, por exemplo, quando um indivíduo
compra o título de uma empresa, ou indiretamente, quando um indivíduo faz um
depósito em um banco e o banco utiliza os fundos para conceder empréstimos
(MANKIW, 2009). De outra forma, o dinheiro que depositamos nos bancos é
utilizado por estes para empréstimos a outros indivíduos ou empresas.
Da mesma forma que os indivíduos consomem, empresas e famílias adquirem
bens com o objetivo de investir. Por exemplo, o proprietário de uma fábrica pode
desejar investir na ampliação da planta e uma determinada família na aquisição
da casa própria (investimento corresponde ao aumento do estoque de capital na
economia). A decisão de investir também é influenciada pela taxa de juros, assim,
o empresário precisará adquirir empréstimos para investir na planta de sua fábrica,
por exemplo, e fará isso somente se a taxa de juros oferecida for menor do que
o retorno que terá com o investimento. Mesmo que o empresário não necessite
recorrer a empréstimos para realizar o investimento, ele deve considerar o custo
de oportunidade, pois ao utilizar recursos próprios ele está deixando de aplicar
seus recursos em títulos, portanto, deixando de receber os juros que os títulos
renderiam. Da mesma forma, a família decidirá pela aquisição da casa própria ou
não, a depender da taxa de juros que será negociada.
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Investimento refere-se à compra de novo capital, como equipamentos
ou prédios. Quando um indivíduo toma um empréstimo do banco para
construir uma casa nova, ele aumenta o investimento nacional, pois
a compra de um imóvel é considerada investimento e não consumo.
Similarmente, quando uma empresa vende ações e usa os recursos
para construir uma nova fábrica, ela também está aumentando o
investimento nacional (MANKIW, 2009).
Fonte: Adaptado de: Lopes e Vasconcellos (2008, p. 121)
Figura 1.8 | Equilíbrio entre poupança e investimento no modelo clássico
No geral, taxa de juros relativamente alta incentiva a poupança e desincentiva
o investimento. De outra forma, quanto mais elevada a taxa de juros menor a
demanda por investimento e maior a quantidade ofertada de recursos no mercado
financeiro (ou mercado de fundos de empréstimos), ou seja, maior a poupança.
Desta forma, a curva de demanda por fundos para empréstimos, a de investimento,
tem inclinação negativa e a curva de oferta de recursos, a poupança, tem inclinação
positiva, conforme figura 1.8.
Na figura 1.8, o ponto no qual se cruzam as curvas de investimento e poupança
representa os valores de equilíbrio dessas variáveis e também da taxa real de juros,
Macroeconomia Clássica
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que se ajusta para equilibrar a oferta e demanda de fundos para empréstimos. A taxa
de juros é o custo do investimento que se tem para adquirir empréstimos e, então,
bens de capital. A taxa real de juros é afetada pelas preferências intertemporais dos
indivíduos e pela produtividade marginal do capital. Da mesma forma que para o
fator trabalho, a produtividade marginal do capital é decrescente (incrementos no
investimento geram aumentos no produto, mas a taxas cada vez menores), por
isso, a curva de investimento vai se tornando cada vez mais horizontal, para que
o investimento aumente a taxa real de juros precisa reduzir. A política monetária,
ao afetar somente a taxa de juros nominal, não afeta as decisões de poupança e
investimento na economia (LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
Suponha que a taxa de juros esteja abaixo da taxa de equilíbrio, haverá um
excesso na demanda por investimentos, consequentemente a oferta de recursos
não será suficiente para atender ao aumento de demanda. A disputa entre os
agentes por aquisição de empréstimos leva os fornecedores de empréstimos
a aumentarem a taxa de juros, ou seja, o custo de empréstimo será mais alto.
Esta nova taxa de juros mais elevada incentiva a poupança, o que, em seguida,
gerará novamente aumento na oferta de recursos e redução na demanda por
investimento, guiando o mercado de volta ao ponto de equilíbrio.
No caso de a taxa de juros estar acima da taxa que garante o equilíbrio, a
demanda por investimentos ou por empréstimos será inferior à oferta de recursos.
Como há excesso de recursos, e poucas pessoas ou empresas estão dispostas a
adquiri-los àquela taxa, os ofertantes passam a cobrar uma taxa mais baixa para
a concessão de empréstimos, reduzindo a oferta e aumentando a demanda por
Através do mecanismo da taxa de juros, portanto, investimento
e poupança são sempre mantidos em equilíbrio. O consumo,
por sua vez, dependendo também da taxa de juros, aumenta
ou diminui, à medida que a taxa de juros varia. E nesses
termos, verificamos novamente a impossibilidade de uma
crise de subconsumo. A macroeconomia clássica conduz-nos
novamente à conclusão que, dentro do sistema capitalista
do laissez-faire, em que impera a concorrência perfeita,
estamos no melhor dos mundos possíveis - um mundo
sem desemprego, sem subconsumo, no qual a renda seria
distribuída segundo a produtividade marginal dos fatores,
os consumidores maximizariam sua utilidade e as empresas
maximizariam seus lucros, dentro de um espírito de harmonia
universal... (BRESSER-PEREIRA, 1976, p. 18).
Macroeconomia Clássica
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recursos, até o mercado retornar ao ponto de equilíbrio inicial. Perceba que estas
alterações, tanto no caso de a taxa de juros ser maior que a de equilíbrio, quanto no
caso de ser menor, ocorrem ao longo das curvas de investimento ou de poupança,
ou seja, alterações na taxa de juros não provocam deslocamentos das curvas.
A pergunta que se faz é: o que provoca deslocamentos na curva de poupança
e de investimento? Veremos isso no próximo item.
3.1 Equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada
O equilíbrio no mercado de bens e serviços é dado pela igualdade entre oferta
agregada e demanda agregada. O consumo (C), o investimento (I) e os gastos
do governo (G) compõem a demanda agregada, que é o PIB. O setor externo,
computado pela diferença entre exportações e importações é outro componente
da demanda agregada, mas, para os objetivos desta unidade e por simplificação,
trabalharemos com os três primeiros, ou seja, com economia fechada. Com a
participação do governo no modelo clássico, devemos considerar que os impostos
arrecadados (T) reduzem a renda do setor privado e, portanto, as suas despesas.
Neste modelo, tanto a arrecadação de impostos, quanto os gastos do governo,
serão tomados como variáveis exógenas. O equilíbrio é representado pela seguinte
expressão:
Y = DA
Y = C + I + G
A equação acima é uma identidade porque cada unidade monetária da despesa
que surge no lado esquerdo também aparece em um dos três componentes do
lado direito (MANKIW, 2009). Podemos reescrever essa equação da seguinte forma:
Y – C – G = I
O lado esquerdo da equação (Y – C – G) é o que resta da renda total após o
setor privado efetuar o pagamento de seus dispêndios e o setor público dos seus
gastos. Esse montante é a poupança nacional (S). Substituindo (Y – C – G) por S, a
Qual a diferença entre taxa de juros real e nominal? Qual delas
importa nas decisões dos agentes?
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37
equação acima é escrita de forma a afirmar que poupança é igual a investimento.
S=I
Esta identidade indica que, para a economia como um todo, a poupança deve
ser igual ao investimento. É o mercado financeiro que coordena os agentes que
estão decidindo quanto poupar (aqueles que chamamos de superavitários) e os que
estão decidindo quando investir (os deficitários). Os intermediários financeiros − as
instituições financeiras por meio das quais os poupadores podem indiretamente
ofertar fundos aos tomadores de empréstimos – se colocam entre os dois lados
da equação S=I, recolhendo a poupança nacional e direcionando ao investimento
nacional. É importante destacar que para a economia em geral embora poupança
seja igual a investimento, isso não precisa ser verdade para cada família ou empresa
individualmente (MANKIW, 2009).
Sabemos que o consumo depende positivamente da renda, mas, da renda
disponível, pois como temos o governo no modelo, a renda disponível é aquela
que resta aos indivíduos após o pagamento de impostos (Y-T). Consideraremos
que a decisão de consumo depende desta renda e da taxa de juros real (r) (LOPES;
VASCONCELLOS, 2008). Assim, temos as seguintes expressões para o consumo e
para a poupança:
C = C (Y – T; r)
S = S (Y – T; r)
Para se manter a igualdade entre oferta agregada e demanda agregada, a
receita em impostos, que é uma parcela da renda que deixa de ser consumida (ou
poupada), deve ser gasta pelo governo (LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
S (Y – T; r) + T = I(r) + G
Rearranjando, temos:
S (Y – T; r) + (T – G) = I(r)
Sendo S (Y – T; r) a poupança privada (Sp) e (T – G) a poupança do governo
(Sg), a parte não gasta da arrecadação em tributos. A soma dessas duas poupanças
compõe a poupança nacional ou interna (S).
S = Sp + Sg
Vejamos então o que pode provocar deslocamentos nas curvas de poupança
ou investimento. O que acontece se o governo aumentar seus gastos? Esta
situação está ilustrada na figura 1.9. Com o aumento dos dispêndios do setor
público ocorre um excesso de demanda por recursos financeiros, pois o governo
sai do seu orçamento equilibrado gastando mais do que arrecadou, ou seja, gera
Macroeconomia Clássica
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um déficit orçamentário, e precisa de recursos para financiá-lo.
Este excesso de demanda por recursos provoca o aumento da taxa de juros
para r2, pois os ofertantes de recursos cobrarão uma taxa mais elevada para
realizar empréstimos. Porém, a taxa de juros real mais elevada reduz o investimento
privado (–∆I), mas, gera um aumento na poupança ou queda no consumo (∆S ou
- ∆C), mantendo o equilíbrio entre oferta e demanda de recursos. Resumindo,
o impacto da política fiscal de aumento de gastos do governo é de redução
do consumo e do investimento, esse efeito é conhecido como crowding-out,
ou efeito deslocamento. Na verdade, a política fiscal não provoca aumento no
produto ou renda da economia, somente altera a composição da demanda, sendo
composta por uma proporção maior de gastos públicos e menores de gastos
privados (LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
Figura 1.9 | Efeito deslocamento
Fonte: Adaptado de: Lopes e Vasconcellos (2008, p. 125)
Se a política fiscal adotada fosse de redução dos impostos, os efeitos seriam
semelhantes ao de aumento dos gastos? Vamos entender isso. Uma redução em
impostos provoca uma redução nas receitas do governo, isto é, na poupança do
governo, fazendo com que a oferta de recursos seja inferior à quantidade necessária
para os agentes realizarem suas transações, a curva de poupança se deslocaria
para a esquerda, ocorrendo uma disputa por recursos e fazendo com que a taxa de
juros se eleve. Taxa de juros mais elevada, como já sabemos, provoca redução no
investimento e aumento na oferta de recursos, reestabelecendo o equilíbrio. Uma
vez que ocorre redução nos impostos, o que acontece com o consumo? A renda
disponível dos indivíduos será maior e a tendência é de aumento do consumo,
reduzindo a oferta de recursos e, posteriormente, aumentando a taxa de juros. A
Macroeconomia Clássica
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taxa de juros se eleva em função do aumento do consumo ou redução da poupança
privada que ocorre com a redução dos impostos. Caso a redução de impostos não
provocasse aumento de consumo, o efeito seria aumento de poupança privada,
compensando a redução da poupança pública e então, mantendo inalterada a
taxa de juros, já que não houve alteração na oferta de recursos. O que podemos
concluir sobre a política fiscal no modelo clássico? Os componentes da demanda
agregada (C, I e G) são afetados e provocam alterações na taxa de juros, mas
não no nível de produto, este se mantém no nível de pleno emprego (LOPES;
VASCONCELLOS, 2008).
3.2 Algumas questões comentadas
Neste tópico veremos algumas questões comentadas sobre o que estudamos
nesta análise. O objetivo desses exercícios é de reforçar os principais aspectos da
macroeconomia clássica que foram explorados nesta unidade.
As afirmativas abaixo serão classificadas em correta ou falsa e serão
detalhadamente comentadas.
a)	 Na teoria clássica, mudanças no nível de produto da economia somente
ocorrem se houverem mudanças nas curvas de oferta e demanda de trabalho.
Falsa. O produto pode ser alterado em virtude de alterações nas variáveis reais
da economia, isto inclui os fatores que deslocam as curvas de oferta e demanda
de trabalho, mas não se limitam a estes. Veja a próxima alternativa.
b)	 Dentre os determinantes da curva de oferta agregada podemos citar o
número de pessoas no mercado de trabalho, ou seja, a população economicamente
ativa, a produtividade da força de trabalho, o nível tecnológico e o tamanho do
estoque de capital.
Correta. Perceba que alterações em variáveis como os preços, oferta nominal
de moeda e demanda agregada não afetam o produto real.
c)	 A demanda de moeda para os clássicos existe somente com o objetivo de
entesouramento. Assim, dada uma determinada oferta de moeda, um maior nível
de produto na economia elevará a demanda para entesouramento.
Esta afirmativa é falsa. Na teoria clássica, o entesouramento, guardar o dinheiro
em casa, por exemplo, era considerado inexistente, pois os agentes estariam
deixando de receber os juros com a aplicação do seu dinheiro. Na verdade, a
moeda para os clássicos existe somente para fins transacionais. Assim, dada a
oferta de moeda, maiores níveis de produto na economia, gerarão um aumento
no número de transações e então um aumento na demanda por moeda real, o
Macroeconomia Clássica
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que será possível com redução do nível de preços.
d)	 Na teoria clássica quanto mais alta a taxa de juros maior tende a ser a
quantidade poupada.
Correta. Quando maior a taxa de juros mais caro será o consumo presente em
relação ao consumo futuro, o prêmio por deixar de consumir no presente é alto,
o que incentiva a poupança.
e)	 Na teoria clássica a decisão de investimento pelo empresário depende da
taxa de juros nominal. Quanto maior a taxa de juros nominal menor o incentivo
para o empresário investir.
Falsa. A decisão de investimento do empresário depende da taxa de juros real,
pois nesta teoria os agentes não sofrem de ilusão monetária.
f)	 Diferentemente do produto marginal do trabalho, dados os demais fatores,
o produto marginal do capital é positivo e crescente.
Falsa. Incrementos em qualquer fator de produção geram um produto marginal
decrescente. Assim, em um sistema de produção, incrementos na utilização de
capital, mantendo-se os demais fatores constantes, geram aumentos no produto,
mas a taxas cada vez menores.
g)	 No mercado de trabalho da teoria clássica o salário real é a variável de
ajuste, caso ocorram desequilíbrios. No mercado de fundos de empréstimos a
variável de ajuste são os preços.
Falsa. A primeira parte da afirmativa está correta, mas a segunda não. No
mercado de trabalho, se houver excesso de oferta de trabalho o salário real cairá
até o ponto de equilíbrio e no caso de excesso de demanda de trabalho, o salário
real aumentará atraindo cada vez mais trabalhadores até o ponto de equilíbrio. No
mercado de fundos de empréstimos a variável de ajuste é a taxa de juros real. Um
excesso na demanda por investimentos provoca um aumento na taxa de juros,
pois a quantidade de recursos disponível no mercado é inferior àquela que os
agentes desejam. Um excesso de oferta de recursos provoca uma redução na taxa
de juros, até que o mercado atinja o equilíbrio.
1. Sobre o conceito de crowding-out, ou efeito
deslocamento, é correto afirmar que:
Macroeconomia Clássica
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2. Como podemos definir a renda disponível dos indivíduos?
a) É o aumento da proporção dos gastos do governo na
demanda agregada ao custo de uma redução do consumo
e do investimento, ou seja, o gasto público aumenta, mas
o gasto privado se reduz.
b) É o aumento da poupança em função de uma maior taxa
de juros.
c) É a redução na renda disponível em função de aumento
de impostos.
d) É o deslocamento da curva de poupança.
e) É o deslocamento da curva de oferta agregada.
Nesta unidade você aprendeu sobre a macroeconomia clássica.
Podemos destacar os seguintes aspectos.
• A análise da macroeconomia clássica concentra-se no longo
prazo, o que se deve à flexibilidade de preços e salários.
• A economia está sempre a pleno emprego.
• No mercado de trabalho a variável que ajusta possíveis
desequilíbrios é o salário real. No mercado de fundos de
empréstimos a variável de ajuste é a taxa de juros real.
• A curva de oferta agregada é vertical, ou seja, inelástica, em
relação ao nível de preço.
• A curva de oferta agregada e, então, o produto potencial, pode
se deslocar em razão de alterações em variáveis reais, como no
estoque de capital.
• A separação entre variáveis reais e nominais denomina-se
Macroeconomia Clássica
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dicotomia clássica.
• A neutralidade da moeda indica que alterações na oferta de
moeda afetam a demanda agregada, mas não o produto.
• Política fiscal de aumento dos gastos do governo não provoca
aumento do produto, pois ocorre um crowding-out, ou efeito
deslocamento.
• No modelo clássico o governo fica impossibilitado de interferir
no nível de produto ou de emprego da economia. Lembre-se: na
teoria clássica a Lei de Say é válida.
Chegamos ao final dessa primeira unidade. Você poderá
saber mais sobre a macroeconomia clássica consultando o
terceiro capítulo do livro de Lopes e Vasconcellos (2008) e o
artigo “Da macroeconomia clássica à keynesiana” de Bresser-
Pereira (1976). Este último encontra-se disponível no seguinte
link: <http://www.bresserpereira.org.br/papers/1968/68-
98DaMacroclassicaAKeynesiana.apostila.pdf>. Acesso em: 14
out. 2015.
1. Sobre a macroeconomia clássica, considere as
afirmativas:
I. A macroeconomia clássica é considerada uma teoria que
explica o comportamento da economia no longo prazo. ( )
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2. Sobre o conceito de produtividade marginal do trabalho,
considere as afirmativas:
I. A sua curva tem formato positivo, pois aumentos na
quantidade utilizada de trabalho levará a aumentos cada
vez maiores no produto. ( )
II. A produtividade marginal do trabalho é representada
pela inclinação da função de produção. ( )
III. As empresas, sendo maximizadoras de lucro, sempre
contratam trabalhadores até o ponto em que o salário
nominal se iguala à produtividade marginal do trabalho. ( )
IV. Para uma dada empresa, considerando constantes
o estoque de capital e a tecnologia, quanto mais essa
empresa aumenta o número de indivíduos empregados,
menor será a produtividade marginal do trabalho. ( )
Estão corretas as afirmativas:
a) I e II.
b) I, II e III.
c) III e IV.
d) II, III e IV.
e) II e IV.
II. Na macroeconomia clássica os preços são rígidos,
portanto, não respondem a alterações da oferta agregada.
( )
III. O ponto de pleno emprego corresponde à rigidez de
preços e salários. ( )
IV. Na visão da macroeconomia clássica é válida a Lei de
Say, ou seja, de que a oferta cria a sua própria demanda. ( )
Estão corretas as afirmativas:
a) I e II.
b) I, II e III.
c) III e IV.
d) I e IV.
e) II, III e IV.
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3. Sobre o equilíbrio no mercado de trabalho, considere as
afirmativas:
I. O mercado de trabalho pode ser considerando como
do tipo concorrência perfeita. Assim, quando ocorrer de
as empresas demandarem um número de trabalhadores
superior àquele oferecido pelas famílias, o salário real,
em consequência de um aumento no salário nominal,
aumentará até que oferta e demanda de trabalho sejam
iguais.
II. Deslocamentos das curvas de oferta ou de demanda de
trabalho levam a mudanças do equilíbrio no mercado de
trabalho.
III. Na perspectiva da teoria clássica o salário que importa
na tomada de decisão tanto de empresários quanto de
trabalhadores é o salário real.
IV. Pleno emprego significa que a um determinado
salário real não haverá indivíduos que desejem trabalhar,
desempregados. Da mesma forma, não haverá uma única
empresa que deseje contratar trabalhadores que não
encontrará.
Estão corretas as afirmativas:
a) I e II, apenas.
b) II e IV, apenas.
c) III e IV, apenas.
d) I, II e III, apenas.
e) I, II, III e IV.
4. Sobre a oferta e a demanda agregada clássica, é correto
afirmar que:
a) O produto da economia não é afetado por variáveis
nominais como a oferta de moeda.
b) A oferta agregada de pleno emprego pode ser alterada
em função de mudança na taxa de juros nominal.
c) Deslocamentos na curva de demanda agregada clássica
provocam deslocamentos na curva de oferta agregada
clássica.
d) A demanda agregada tem influência sobre o produto da
economia e sobre o nível de preços.
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5. Na teoria clássica defende-se a hipótese de neutralidade
da moeda. Sobre esta hipótese considere as afirmativas:
I. Alterações na quantidade de moeda da economia alteram
a curva de demanda.
II. O nível de produto da economia é afetado apenas
por variáveis reais. Esta separação entre variáveis reais
e nominais na teoria clássica é chamada de dicotomia
clássica.
III. Mudanças no nível de preços provocam mudanças
sobre o produto real.
IV. A curva de oferta agregada de longo prazo é vertical,
pois o produto potencial independe do nível de preços.
Estão corretas as afirmativas:
a) I, II e IV.
b) II, III e IV.
c) II e III.
d) III e IV.
e) I, III e IV.
e) A curva de oferta agregada clássica é horizontal.
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Macroeconomia Clássica
Referências
BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia. 5. ed. São Paulo: Pearson, 2011.
BRASIL. Ministério da Educação. Exame Nacional de desempenho dos estudantes
(ENADE). Ciências Econômicas. Novembro de 2012. Disponível em: <http://
download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/provas/2012/03_CIENCIAS_
ECONOMICAS.pdf>. Acesso em: 18 set. 2015.
BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Da macroeconomia clássica à keynesiana. São
Paulo, abr. 1976. Disponível em: <http://www.bresserpereira.org.br/papers/1968/68-
98DaMacroclassicaAKeynesiana.apostila.pdf>. Acesso em: 17 set. 2015.
LOPES, L.; VASCONCELLOS, M. (Orgs.). Manual de macroeconomia: básico e
intermediário. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
MANKIW, N. G. Macroeconomia. Rio de Janeiro: LTC, 2004.
MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia. São Paulo: Cengage Learning,
2009.
PARKIN, M. Macroeconomics. 10th
. ed. Boston: Pearson, 2010.
VARIAN, H. Microeconomia: princípios básicos: uma abordagem moderna.
Tradução: Maria José Cyhlar Monteiro e Ricardo Doninelli. 7. ed. Rio de Janeiro:
Campus, 2006.
TEORIA MACROECONÔMICA.pdf
Unidade 2
MACROECONOMIA
KEYNESIANA
Objetivos de aprendizagem:
O objetivo desta unidade é entender o comportamento básico do
modelo keynesiano. Isto significa que você será capaz de explicar: como
a despesa agregada é determinada; como o nível de produto/renda da
economia é determinado; a dinâmica dos multiplicadores keynesianos.
Carlândia Brito Santos Fernandes
Nesta seção veremos em que se fundamenta o princípio da demanda
efetiva de Keynes. Entenderemos como as mudanças na demanda
agregada podem afetar o produto da economia e como os empresários
ajustam suas expectativas de forma a buscar lucros maiores. Além disso,
veremos uma representação gráfica do princípio da demanda efetiva.
Nesta seção veremos o modelo keynesiano com gastos em consumo.
Para isso entenderemos o comportamento da oferta agregada de curto
prazo, conheceremos alguns conceitos da Teoria Geral, como os de
propensão a consumir e a poupar. Ilustraremos graficamente o equilíbrio
entre oferta agregada e demanda agregada, por meio do formato que é
conhecido na literatura como cruz keynesiana.
Seção 1 | O princípio da demanda efetiva
Seção 2 | Modelo keynesiano simples
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Nesta seção veremos o modelo keynesiano com os outros
componentes da demanda agregada. Primeiramente faremos a análise
incluindo o investimento, depois, incluiremos o governo e por último
o setor externo. Nesta parte do estudo precisaremos compreender os
multiplicadores de gastos e de tributos.
Seção 3 | Os componentes da demanda agregada
Macroeconomia Keynesiana
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Introdução à unidade
A teoria predominante até início do século XX defendia que quedas no nível
de atividade econômica eram normais, assim, diante de flutuações a economia
alcançaria um novo equilíbrio automaticamente. A Lei de Say, a de que a oferta cria
sua própria demanda, era válida. Você deve lembrar que vimos na unidade 1 que esta
era a concepção defendida pelos clássicos, de que toda produção gera uma renda
de igual valor, de modo que qualquer produção terá a sua realização garantida.
Baseada nessa lei, a escola clássica chega à conclusão de que o único limite para a
acumulação de capital são os recursos disponíveis, entendidos como a poupança
própria, e que a demanda não representa qualquer empecilho ao crescimento da
produção ou do emprego. Associava-se a esse aspecto a doutrina do laissez-faire.
Para Carson (1992), intervenções no mercado poderiam ser necessárias, mas ainda
eram exceções, o laissez-faire ainda era regra, ou seja, era mínima a atuação do
Estado na economia.
Os anos 1920 foram marcados pela Grande Depressão econômica, o
desemprego aumentava mesmo com os salários nominais despencando. Então,
o que aconteceu com a Lei de Say? Entre 1929 e 1932, nos Estados Unidos, o
índice de produção industrial caiu de 114 pontos para 54 pontos e o desemprego
passou de 3,2% para 22% da força de trabalho. Esta situação nos remete ao fato
de que existia um desemprego permanente numa economia em condições de
laissez-faire (CARSON, 1992). Para termos uma noção do comportamento da
economia brasileira nesse período, observe o gráfico 2.1, o produto interno bruto
(PIB) real caiu de uma taxa de crescimento superior a 11% em 1928 para uma da
ordem de -3% em 1931. Veja também que a economia brasileira, assim como as
demais economias são marcadas por flutuações, períodos de elevadas taxas de
crescimento e períodos de recessão e baixas taxas de crescimento. Porém, como
explicar essas flutuações?
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Gráfico 2.1 | Produto Interno Bruto (PIB) de 1920 a 2013
Nota: PIB - preços de mercado - var. real anual - ref. 2000 - (% a.a.).
Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Sistema de Contas Nacionais.
O episódio da Grande Depressão levou muitos economistas a questionarem
a validade do modelo clássico, já que esta teoria não apresentava explicações
para as flutuações que estavam acontecendo, a economia não estava voltando ao
equilíbrio automaticamente. A publicação da Teoria Geral do Emprego, do Juro
e da Moeda, em 1936 por J. M. Keynes, viria a encerrar uma era dominada pela
tradição econômica clássica.
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Seção 1
O princípio da demanda efetiva
Introdução
Keynes apresenta em seu livro “A Teoria Geral” uma nova maneira de se analisar
a economia que contrapõe a teoria clássica. Para o autor as crises têm como fonte
as insuficiências de demanda efetiva.
Nesta seção veremos em que se fundamenta o princípio da demanda efetiva
de Keynes. Entenderemos como mudanças na demanda agregada podem afetar o
produto da economia e como os empresários ajustam suas expectativas de forma
a buscar lucros maiores.
1.1 O princípio de demanda efetiva
Para Keynes são as firmas que tomam as decisões fundamentais numa economia
capitalista: tanto o nível de emprego como o nível de poupança dependem das
decisões das firmas de produzir e investir. A decisão de produção e emprego deve
ser tomada com base em expectativas a respeito da demanda futura pelos produtos
Esta obra seria antes de mais nada uma denúncia do laissez-
faire. Keynes não era marxista, sequer socialista. Pelo contrário,
acreditava no sistema capitalista, dentro do qual fora educado.
Verificou, porém, que o sistema econômico capitalista estava
longe de assegurar automaticamente o pleno emprego
e o desenvolvimento econômico sem crises crônicas, de
duração indefinida, como pretendia a teoria econômica
vigente. Este fato fora também constatado pela maioria de
seus contemporâneos. Mas apenas Keynes logrou montar
um modelo teórico que tivesse condições de fazer frente ao
modelo clássico (BRESSER-PEREIRA, 1976, p. 22).
Macroeconomia Keynesiana
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da empresa, ou seja, os empresários tomam a decisão de quantos trabalhadores
contratarem e de quanto produzir com base em quanto ele espera vender.
O empresário então se defronta com duas curvas: a de oferta agregada, Z(N), que
resulta do emprego de N trabalhadores, é ascendente, expressa a renda necessária
(mínima) para se oferecer determinado volume de emprego e reflete as condições
de custos marginais crescentes; a de demanda agregada, D(N), ascendente para
a direita, expressa a renda/produto que o empresário espera receber por oferecer
determinado volume de emprego, reflete as expectativas dos empresários sobre
a demanda agregada, ou seja, as expectativas dos empresários sobre o quanto os
consumidores e demais empresários irão gastar.
Figura 2.1 | O ponto de demanda efetiva
Fonte: Adaptado de: Chick (1983)
Na figura 2.1 temos uma ilustração das curvas de oferta agregada e de demanda
agregada, o volume de emprego será determinado pelo ponto de intersecção
dessas curvas, E, neste ponto estabelece-se o nível de produção e assim a
demanda efetiva de trabalho. O volume de emprego é efetivo, e não esperado,
e é determinado pelas expectativas dos empresários, com base em quanto eles
esperam vender e não como no modelo clássico, que considera as reduções
salariais uma solução para o desemprego. Na realidade para Keynes reduções
salariais poderiam aumentar o desemprego, pois geraria uma redução da demanda
efetiva, principalmente por bens de consumo, e influenciariam negativamente as
decisões empresariais.
No ponto de demanda efetiva os empresários obtêm o máximo dos lucros
esperados, se oferecessem mais ou menos empregos os lucros seriam menores.
Neste ponto, os rendimentos esperados são exatamente iguais ao rendimento
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necessário para induzir um volume dado de emprego. Porém, nada garante que os
empresários formulem expectativas corretas a respeito da demanda efetiva, o que
significa que a receita efetivamente obtida pela venda da produção acabada no
mercado pode ser maior ou menor do que a receita esperada pelos empresários.
Se as expectativas forem incorretas os empresários irão rever suas expectativas.
Outro detalhe importante é de que o ponto de demanda efetiva não ocorre
necessariamente ao pleno emprego, ou seja, existe desemprego involuntário.
Keynes define o princípio da demanda efetiva no capítulo 3 do seu livro “A
Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”.
Em qualquer ponto que se situe à esquerda de E, veja que a curva D(N) fica
acima da Z(N), assim, ao nível de emprego oferecido pelos empresários, a receita
que elas esperam receber pela venda da produção é superior à receita mínima que
elas exigem para oferecer esse nível de emprego. Desta forma, os empresários
têm possibilidade de aumentar seus lucros se expandirem o nível de emprego até
o nível correspondente ao cruzamento das duas curvas, ou seja, até N*. Qualquer
ponto que se situe à direita de E, ou de N*, ao nível de emprego oferecido pelos
empresários, a receita que as empresas esperam obter pela venda da produção
é menor do que a receita mínima que elas exigem para oferecer esse nível de
emprego observe que agora Z(N) fica acima de D(N). Então, os empresários podem
aumentar os seus lucros se reduzirem o nível de emprego até N*.
No que se refere à remuneração do fator trabalho, para Keynes os salários
nominais são os que importam para os trabalhadores, pois é sobre estes que
eles podem ter controle (por meio das forças sindicais, por exemplo), o que não
acontece com os salários reais. Dado o nível de emprego, o salário real se ajustará
até o ponto em que for igual à produtividade marginal do trabalho compatível com
o respectivo nível de emprego, definindo o tamanho da massa salarial. Se lembre
que a produtividade marginal do trabalho é decrescente, assim, aumentos no nível
de emprego são seguidos por reduções no salário real, porém, não é sua queda
que leva ao aumento do emprego e do nível de produção da economia. Pense da
seguinte forma, dado o volume de salários reais, a disputa dos trabalhadores de
A quantidade de mão de obra N que os empresários resolvem
empregar depende da soma (D) de duas quantidades, a saber:
D1, o montante que se espera seja gasto pela comunidade
em consumo, e D2, o montante que se espera seja aplicado
em novos investimentos. D é o que já chamamos antes de
demanda efetiva (KEYNES, 1996, p. 63).
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diferentes categorias pela divisão entre si desse volume de salarial, é, na verdade,
a disputa dos trabalhadores por salários nominais. Por exemplo, em uma situação
de desemprego, se uma determinada categoria aceitasse a redução do salário
nominal, isto não garantiria a redução do desemprego, mas se as demais categorias
não aceitassem, essa categoria teria uma perda em termos de salário real, ou seja,
perda de poder de compra, pois o nominal seria mais baixo. Sabemos que os
trabalhadores não têm como controlar o nível de preços da economia, e dada a
disputa pela distribuição do salário nominal, é totalmente racional os trabalhadores
lutarem por salários nominais. Pela macroeconomia keynesiana, para se analisar a
determinação do nível de produto e de emprego, deve-se olhar o comportamento
da demanda efetiva (LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
Mikail Kalecki e a demanda efetiva
Antes de surgir a Teoria Geral de Keynes, Mikail Kalecki já havia
publicado, em polonês, três estudos que constituíram, em conjunto,
a primeira formulação precisa e sistemática do papel da demanda
efetiva no processo de reprodução capitalista. A partir deles Kalecki
foi ampliando e aprimorando suas concepções, que culminaram na
publicação de sua principal obra a “Teoria da Dinâmica Econômica”,
em 1954.
Mikail Kalecki nasceu em Lodz, em 22 de junho de 1899. Estudou na
EscolaPolitécnicadeVarsóviaedepoisnadeGdanski,masnãochegoua
graduar-se. Obteve seu primeiro título acadêmico aos 57 anos de idade,
quando já era internacionalmente reconhecido, o governo polonês o
nomeou professor universitário e em 1964 a Universidade de Varsóvia
lhe conferiu o título de doutor honoris causa. Foi um autodidata. Em
sua formação como economista, recebeu profunda influência das
obras de Marx e de outros autores marxistas. Se você quer saber mais
sobre esse autor e sua principal obra acesse o link: <http://home.ufam.
edu.br/andersonlfc/Coleção%20-%20Os%20Economistas/Michal_
Kalecki_-_Teoria_da_Din%25C3%25A2mica_Econ%25C3%25B4mica_
(Os_Economistas).pdf>. Acesso em: 23 set. 2015.
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Como podemos conceituar o princípio da demanda efetiva?
O que você acha, flutuações na demanda agregada podem
afetar o nível de produto da economia?
1. Sobre o princípio da demanda efetiva, avalie as afirmações
abaixo.
I. O princípio da demanda efetiva foi desenvolvido por John
Maynard Keynes, em seu livro “A teoria geral do emprego,
do juro e da moeda”.
II. No conceito de demanda efetiva mantém-se a ideia
de que toda a produção gera uma renda de igual valor,
de modo que qualquer produção terá a sua realização
garantida.
III. A decisão de produção e emprego deve ser tomada com
base em expectativas a respeito da demanda futura pelos
produtos da empresa, ou seja, os empresários tomam a
decisão de quantos trabalhadores contratarem e de quanto
produzir com base em quanto ele espera vender.
É correto o que se afirma em:
a) I e II.
b) I e III.
c) II.
d) III e II.
e) III, II e I.
2. Sobre as ideias de Keynes relacionadas ao mercado de
trabalho, avalie as alternativas abaixo em verdadeiro (V) ou
falso (F).
a) O volume de emprego será determinado no ponto de
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demanda efetiva.
b) Os salários reais são os que importam para os
trabalhadores, pois é sobre estes que eles podem ter
controle.
c) Reduções salariais poderiam aumentar o desemprego,
pois geraria uma redução da demanda efetiva,
principalmente por bens de consumo, e influenciariam
negativamente as decisões empresariais.
d) O ponto de demanda efetiva não ocorre necessariamente
ao pleno emprego, ou seja, existe desemprego involuntário.
e) A curva de oferta agregada Z(N) expressa a renda que
o empresário espera receber por oferecer determinado
volume de emprego.
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Seção 2
Modelo keynesiano simples
Introdução
No modelo keynesiano, a hipótese básica é de que os preços e salários nominais
são rígidos, por isso, pode se afirmar que esse modelo reflete o comportamento
da economia no curto prazo, portanto, não há pleno emprego, pode ocorrer de
capital e trabalho não estarem plenamente empregados. Nas palavras de Mankiw
(2004, p. 181), “A rigidez de preços é tida como um importante fator explicativo das
flutuações econômicas que observamos de um mês em relação ao outro, ou de
um ano ao outro.”
Nesta seção entenderemos o modelo keynesiano simples, o que envolve a
compreensão do comportamento da oferta agregada de curto prazo, a demanda
agregada e o equilíbrio no mercado de bens.
2.1 Modelo keynesiano com consumo
No modelo keynesiano, ao contrário do modelo clássico, não há restrições
de oferta para o aumento da produção na economia. Como se considera que
os recursos não são plenamente empregados, há possibilidade de as empresas
aumentarem a quantidade produzida sem pressionar seus custos unitários. Em
outras palavras, qualquer nível de demanda pode ser atendido a um nível constante
de preços, os empresários têm como ofertar qualquer quantidade ao nível de
preços estabelecido, por isso, a quantidade ofertada é a variável de ajuste e os
empresários produzirão o necessário para atender a demanda. Isto indica que se
esboçarmos no eixo das abscissas o nível de produto e no eixo das ordenadas
o preço, a curva de oferta agregada de curto prazo, ou do modelo keynesiano,
será horizontal, infinitamente elástica, conforme ilustramos na figura 2.2. Assim,
diferentemente do modelo clássico que vimos na unidade 1, a demanda agregada
tem total influência sobre o nível de produto, validando o princípio da demanda
efetiva (LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
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Figura 2.2 | Curva de oferta agregada keynesiana
Fonte: Mankiw (2004, p. 180)
Podemos inferir a partir da figura 2.2 que, nos casos de desequilíbrios no mercado
de bens, como um excesso de demanda ou de oferta, os preços, que são rígidos,
não se ajustarão, a quantidade produzida que aumentará ou reduzirá de acordo
com a demanda. Mankiw (2004) afirma que um caso extremo de rigidez de preços
seria aquele em que todas as empresas publicassem catálogos de preços e que
fosse caro republicá-los, mantendo todos os preços amarrados em um determinado
nível. A esse preço, continua o autor, as empresas estão dispostas a vender qualquer
quantidade que seus clientes desejarem comprar e contratam apenas o número de
trabalhadores necessários para produzir a quantidade demandada.
No modelo keynesiano o equilíbrio no mercado de bens e serviços, ou o
equilíbrio de curto prazo na economia, ocorre quando a oferta agregada (OA) de
bens e serviços é igual à demanda agregada (DA) de bens e serviços. Antes de
representarmos esse equilíbrio graficamente, vamos entender o que compõe a
demanda agregada.
Partindo, hipoteticamente, de uma economia fechada sem governo, o produto
real (Y) é composto pelas despesas em consumo (C) e pelos gastos com investimento
(I). Na contabilidade nacional esta composição é expressa da seguinte forma:
Y= C + l (1)
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A igualdade expressa na equação 1 acontece porque na contabilidade nacional,
para se calcular o valor dos bens e serviços produzidos na economia - de acordo
com sua utilização ou destino – são computados o consumo das famílias e a
formação de estoques, mais precisamente a variação de estoques. Os estoques
são constituídos por mercadorias que representam o consumo futuro, dessa
forma, tudo que é produzido num período, mas não é consumido nesse período,
significando consumo futuro, é chamado de investimento. Apesar de todos os
bens que ensejam consumo futuro serem considerados investimento, é comum
separá-los em duas categorias distintas: variação de estoques e formação de
capital fixo. A primeira é representada por bens cujo consumo ou absorção
futuros irão se dar de uma única vez. A segunda categoria expressa os bens que
não desaparecem depois de uma única utilização, e possibilitam a produção ao
longo de um determinado período de tempo, como, por exemplo, as máquinas e
as estradas de ferro (PAULANI; BRAGA, 2007).
Lopes e Vasconcellos (2008) argumentam que o comportamento dos estoques
não segue necessariamente os planos dos empresários, pois pode ser influenciado
por alterações nas condições de mercado. Se a quantidade produzida exceder a
demandada, ocorrerá um aumento nos estoques das empresas, pois não terão
como vender a quantidade excedente. Então, os empresários terão que acumular
estoques, mesmo sem o terem planejado. De forma similar, se a demanda exceder
a oferta, as empresas venderão os produtos em estoque para atender o aumento
da demanda, mesmo que esta estratégia não esteja em seus planos iniciais. De
forma um pouco diferente às definições de Paulani e Braga (2007), esses autores
nomeiam as duas categorias do investimento em investimento planejado ou
voluntário, representado pelas aquisições de bens de capital pelas empresas e à
variação pretendida no nível de estoques, e em investimento involuntário ou não
planejado em estoques, ou seja, as variações no nível de estoque devido a erros na
A Contabilidade nacional, ou contabilidade social, congrega
instrumentos de mensuração capazes de aferir o movimento da
economia de um país num determinado período de tempo: o quanto
se produziu, consumiu, investiu, vendeu para o exterior e comprou
do exterior. Você pode rever e/ou aprofundar seus conhecimentos
nesta área, consultando o livro “A nova contabilidade social: uma
introdução à macroeconomia” de Paulani e Braga (2007).
Macroeconomia Keynesiana
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62
previsão do nível de produção realizados pelas empresas.
Na verdade, a decomposição do investimento nas duas categorias, conforme
foi dito, é a forma normalmente apresentada nos livros-textos. Dadas as categorias
de investimentos, temos então o conceito de despesa planejada ou demanda
agregada planejada, que corresponde ao total que as empresas e famílias desejam
gastar na compra de bens e serviços. Sendo que, a despesa efetiva ou observada,
aquela que se realiza, pode ser maior ou menor do que a planejada, quando isto
acontece significa que houve alterações inesperadas no nível de estoques das
empresas, que venderam menos ou mais do que o planejado.
Para esclarecermos melhor estes conceitos, temos que a demanda agregada
efetiva ou observada, que é aquela cujo resultado é divulgado pela contabilidade
nacional, inclui o consumo e as duas partes do investimento, ou seja, o voluntário
(os bens de capital) e o involuntário (a variação de estoques), pois conforme
discutido anteriormente, a contabilidade nacional considera ambos em suas
apurações. Desta forma, produto da economia corresponderá à demanda agregada
efetiva. A demanda agregada planejada, ou despesa planejada, por sua vez, inclui
o consumo e a parte planejada do investimento. A economia estará em equilíbrio
quando a demanda agregada efetiva for igual à demanda agregada planejada, isto
é, quando o investimento involuntário for nulo. Antes de vermos isso graficamente,
veremos primeiramente como se determina a renda de equilíbrio. Para isto vamos
supor que o consumo seja o único componente da demanda agregada planejada,
conforme expressão 2 abaixo.
Y = C
									
Vimos no início desta seção que o consumo aumenta à medida que a
renda aumenta, mas em menor proporção. Assim, a função consumo pode ser
representada conforme a equação 3.
C = C (Y)
O consumo, portanto, pode ser dividido em dois componentes. O consumo
autônomo (C0), aquele que se realiza no curto prazo mesmo que os indivíduos não
tenham renda, por exemplo, o consumo de subsistência; e a propensão marginal
a consumir (PMC) ou (c), que é a proporção de uma variação na renda que é gasta
em consumo, o quanto o consumo cresce a partir de aumentos na renda. Por
exemplo, supondo uma propensão marginal a poupar de 0,7, significa que para
um dado aumento da renda de $ 6 bilhões a coletividade tende a consumir $ 4,2
bilhões. A propensão marginal a poupar é calculada da seguinte forma:
(2)
(3)
Macroeconomia Keynesiana
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63
Sabemos que em equilíbrio o produto é igual à demanda agregada planejada
(OA = DA), a qual é igual ao consumo (DA = C= C0
+ cY), pois, estamos supondo, de
momento, que este é seu único componente. Dadas estas condições e que a oferta
agregada é igual ao produto real da economia (OA = Y), substituindo as respectivas
expressões de OA e DA na condição de equilíbrio, conforme demonstrado abaixo,
podemos obter a renda de equilíbrio (YE
), resolvendo a equação para esta variável
(LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
Y = C0
+ cY
Y - cY + C0
YE = 1
(1-C)
. C0
Precisamos obter agora a função poupança. Sabemos que a poupança é a
parte da renda não consumida, assim temos:
S = Y - C
S = Y - (C0
+ cY)
S = - C0
+ (1 - c) Y
PMC = ∆C
∆Y
Como Keynes (1996) define a propensão a consumir?
Propensão a consumir: são as características psicológicas da
comunidade e são de tal forma que quando a renda agregada aumenta,
o consumo agregado também aumenta, mas não tanto quanto a renda.
Em outras palavras, a propensão a consumir expressa a variação positiva
no consumo em virtude de um aumento na renda. Essa resposta pode
ser influenciada por fatores como a distribuição de renda, variações
na política fiscal, precaução, orgulho e avareza. Lembrando que a
propensão a consumir será positiva, mas menor do que a unidade, pois
a coletividade não consome toda a renda que recebe.
(4)
(5)
(6)
Macroeconomia Keynesiana
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64
Perceba que a função poupança é o complemento da função consumo, assim,
o intercepto é o consumo autônomo com sinal negativo. A poupança aumenta
conforme a renda aumenta, assim como o consumo, mas em menor magnitude.
O termo (1-c) representa a propensão marginal a poupar (PMP), isto é, a fração da
variação da renda que é poupada, é calculada por meio da variação na poupança
dividida pela variação na renda (LOPES; VASCONCELLOS, 2008; PARKIN, 2010).
PMP = ∆S
∆Y
As funções consumo e poupança podem ser representadas graficamente. A
figura 2.3(a) ilustra a primeira relação. No eixo da abscissa temos o produto ou
a renda (Y) e na ordenada a demanda agregada, observe que conforme a renda
aumenta o consumo também aumenta e que há consumo mesmo quando a
renda é nula, o que representa o consumo autônomo (C0
). A propensão marginal
a consumir é a inclinação da função consumo. Esta figura também contém uma
linha de 45º, que divide o quadrante em duas partes iguais, em qualquer ponto
sobre esta reta o gasto em consumo é igual à renda. Observando a figura 2.3(a),
do lado esquerdo da reta, entre os pontos A e B da função consumo, o gasto
em consumo excede à renda, do lado direito, entre o pontos B e C, o gasto em
consumo é inferior à renda. O ponto B representa o equilíbrio, onde a função
consumo é igual à renda, ou seja, onde a função consumo intercepta a reta de 45º.
(7)
Como você diferencia a demanda agregada planejada e a
demanda agregada efetiva? O investimento involuntário está
de alguma forma, associado a estes conceitos?
Macroeconomia Keynesiana
U2
65
No painel (b) da figura 2.3 é ilustrada a função poupança, sua inclinação
representa a propensão marginal a poupar. Observe que quando o consumo excede
a renda no painel (a), a poupança é negativa no painel (b), o que é chamado de
despoupança. Quando a função consumo está abaixo da linha de 45º a poupança
é positiva. No ponto de equilíbrio, onde a função consumo intercepta a reta de
45º, toda a renda é gasta em consumo, então, a poupança é zero.
Figura 2.3 | Funções consumo e poupança e equilíbrio
Fonte: Adaptado de: Parkin (2010. p. 267)
Macroeconomia Keynesiana
U2
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Questão comentada
Vamos fixar um pouco mais o conceito de propensão marginal a poupar por
meio de uma questão comentada.
1. Avalie a afirmativa a seguir em verdadeira ou falsa.
Segundo a teoria keynesiana, variações absolutas no consumo são menores do
que variações absolutas na renda porque a propensão marginal é menor do que a
propensão média a consumir (ANPEC, 2003).
Resposta: esta afirmativa é falsa. Na teoria keynesiana variações absolutas no
consumo são menores do que variações absolutas na renda porque a propensão
marginal a consumir é positiva, mas inferior à unidade, pois se considera que os
indivíduos não gastam toda a renda que ganham.
1. Considerando as fórmulas de cálculo da propensão
marginal a consumir e da propensão marginal a poupar,
com as informações abaixo encontre os valores das
variáveis e explique seus conceitos.
a) Quando a renda aumenta em $1,5 trilhão o consumo
aumenta em $1 trilhão.
b) Quando a renda aumenta em $1,5 trilhão, a poupança
aumenta em $0,5 trilhão.
2. Explique o comportamento da curva de oferta agregada
no curto prazo e a influência da demanda agregada sobre
o nível de produto e de emprego da economia.
Macroeconomia Keynesiana
U2
67
Seção 3
Os componentes da demanda agregada
Introdução
Nesta seção incluiremos na análise os outros componentes da demanda
agregada, quais sejam: o investimento, os gastos públicos e o setor externo.
O que mudará no modelo com a introdução dessas variáveis? Entenderemos
esse e outros aspectos, por exemplo, a dinâmica de ajustamento da economia
quando a demanda agregada é diferente da efetiva. Qual variável cumprirá o papel
de ajuste?
3.1 Modelo keynesiano com consumo e investimento
Nesta versão do modelo keynesiano introduziremos o investimento e vamos
considerá-lo como sendo fixo ( ), isto é, autônomo ou independente da renda. Na
seção anterior a demanda agregada era composta apenas pelo consumo, agora
será composta por este e pelo investimento autônomo, de forma que a renda
também será expressa através da soma dessas variáveis, conforme abaixo.
DA = C + I0
Y = C = l
Substituindo na expressão (8) o consumo por sua função e o investimento por
I0
podemos derivar a renda de equilíbrio.
Y = C0
+ cY + I0
YE
= 1
1-c
(C0
+ I0
)
(8)
(9)
Macroeconomia Keynesiana
U2
68
O que você acha, a inclusão do investimento provocará alguma mudança na
representação gráfica do ponto de equilíbrio? Vejamos o que acontece analisando
a figura 2.4.
Analisando a figura 2.4 observe que são ilustradas duas formas de se verificar
o equilíbrio no modelo keynesiano simples. O investimento autônomo é
representado, no painel b, por uma reta, pois é constante. Sua inclusão provoca
um deslocamento na demanda agregada paralelamente para cima em magnitude
igual ao valor do investimento. Uma diferença importante com relação à figura 2.3
é que a condição de equilíbrio, antes Y = DA, agora se dá em S = I, ponto em que
a função poupança intercepta a função investimento e onde se determina a renda
de equilíbrio. Essa forma de determinar o equilíbrio macroeconômico é chamada
Figura 2.4 | Modelo keynesiano com investimento: equilíbrio
Fonte: Adaptado de: Mankiw e Parkin (2010, p. 267) e Lopes e Vasconcellos (2008, p. 147)
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  • 3. Carlândia Brito Santos Fernandes Teoria macroeconômica
  • 4. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Fernandes, Carlândia Brito Santos ISBN 978-85-8482-326-0 1. Macroeconomia. 2. Brasil - Política econômica. 3. Economia keynesiana. I. Título. CDD 339 Fernandes. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2016. 176 p. F7363t Teoria macroeconômica / Carlândia Brito Santos © 2016 por Editora e Distribuidora Educacional S.A Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Presidente: Rodrigo Galindo Vice-Presidente Acadêmico de Graduação: Rui Fava Gerente Sênior de Editoração e Disponibilização de Material Didático: Emanuel Santana Gerente de Revisão: Cristiane Lisandra Danna Coordenação de Produção: André Augusto de Andrade Ramos Coordenação de Disponibilização: Daniel Roggeri Rosa Editoração e Diagramação: eGTB Editora 2016 Editora e Distribuidora Educacional S.A Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/
  • 5. Sumário Unidade 1 | Macroeconomia Clássica Seção 1 - Produto, emprego e equilíbrio 1.1 | Demanda e oferta de trabalho 1.2 | A oferta agregada de longo prazo Seção 2 - Demanda agregada, moeda e preços Seção 3 - Consumo, investimento, poupança e juros 3.1 | Equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada 3.2 | Algumas questões comentadas Unidade 2 | Macroeconomia Keynesiana Seção 1 - O princípio da demanda efetiva 1.1 | O princípio de demanda efetiva Seção 2 - Modelo keynesiano simples 2.1 | Modelo keynesiano com consumo Seção 3 - Os componentes da demanda agregada 3.1 | Modelo keynesiano com consumo e investimento 3.2 | O multiplicador 3.4 | Modelo keynesiano com governo e setor externo Unidade 3 | Estrutura Geral da Análise Macroeconômica: IS-LM e IS-LM-BP Seção 1 - O modelo IS-LM 1.1 | Derivação da curva IS 1.2 | Derivação da curva LM Seção 2 - Equilíbrio no modelo IS-LM 2.1 | Efeitos da política fiscal no modelo iS-lM 2.2 | Efeitos da política monetária no modelo IS-LM 2.3 | Combinação de políticas monetária e fiscal 7 11 14 22 27 33 36 39 49 53 53 59 59 67 67 72 76 89 93 95 99 105 106 107 109
  • 6. Seção 3 - Modelo IS-LM-BP 3.1 | A curva de balanço de pagamentos (BP) 3.2 | A curva BP sem mobilidade de capital 3.3 | Curva BP com livre mobilidade de capital 113 114 115 118 Unidade 4 | O papel da política econômica Seção 1 - O modelo de oferta agregada e demanda agregada (OA-DA) 1.1 | Derivando a demanda agregada 1.2 | Derivando a oferta agregada 1.3 | Equilíbrio entre demanda agregada e oferta agregada 1.4 | O papel das políticas econômicas no modelo oa-Da Seção 2 - A curva de Phillips 2.1 | A curva de Phillips: origem e transformações 2.2 | Derivando a curva de Phillips a partir da relação de oferta agregada Seção 3 - Expectativas, novo-clássicos, ciclos reais de negócios e novo-keynesianos 3.1 | Expectativas 3.2 | Ciclos reais de negócios, novo-clássicos e novo-keynesianos 131 135 135 140 144 146 153 153 155 161 161 163
  • 7. Apresentação Caro aluno, sabemos que na macroeconomia estudamos os agregados econômicos. Nesta disciplina os estudaremos sob as perspectivas clássica e keynesiana, principalmente. Na primeira unidade estudaremos a macroeconomia clássica, que pode ser considerada uma análise de longo prazo, pois os preços e os salários são flexíveis. Para isto, veremos o comportamento do mercado de trabalho e de fundos de empréstimos. Na segunda unidade entenderemos o comportamento básico do modelo keynesiano, que, ao contrário do clássico, é considerado de curto prazo, pois preços e salários são inflexíveis. Veremos, entre outros aspectos, como a despesa agregada é composta e como o nível de renda da economia é determinado. Na terceira unidade aprenderemos o funcionamento dos modelos IS-LM simples e IS-LM-BP, veremos que as ideias de Keynes são a base destes modelos. Na quarta e última unidade analisaremos o papel das políticas econômicas integrando os mercados de bens, financeiro e de trabalho. Isso possibilitará termos claro como se dará o equilíbrio do curto para o longo prazo. No final seremos capazes de definir o que gera, de acordo com diferentes teorias, as flutuações econômicas e como o equilíbrio é alcançado. Veremos também como as políticas econômicas são aplicadas para este fim. Tenhaemmentequeassimcomoasoutrasdisciplinas,estaexigemuitadedicação, é importante que faça sempre as atividades sugeridas. Fique atento às questões para reflexão e para aprofundar seus conhecimentos recorra às sugestões de leituras complementares. Você tem ciência que há uma ampla equipe de professores e tutores para atendê-lo e tornar o processo de aprendizado o mais simples possível? Lembre-se sempre disso e, mediante dúvidas, comentários e sugestões, não hesite em nos procurar. Vamos então compreender a macroeconomia? Bons estudos! Profª Drª Carlândia Brito Santos Fernandes
  • 9. Unidade 1 MACROECONOMIA CLÁSSICA Objetivos de aprendizagem: Nesta unidade você será levado a compreender a macroeconomia clássica. Carlândia Brito Santos Fernandes Nesta seção estudaremos a oferta agregada clássica, a oferta e demanda de trabalho, o equilíbrio no mercado de trabalho e os deslocamentos da curva de oferta. Para isso, precisaremos ter claro o que envolve os fatores de produção e a função de produção. Nesta seção discutiremos a demanda agregada clássica, os comportamentos da moeda e dos preços e os deslocamentos da curva de demanda. Nesta seção serão abordados o funcionamento do mercado de fundos de empréstimos e o equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada. Seção 1 | Produto, emprego e equilíbrio Seção 2 | Demanda agregada, moeda e preços Seção 3 | Consumo, investimento, poupança e juros
  • 11. Macroeconomia Clássica U1 9 Introdução à unidade Caro aluno! Quantas vezes você deve ter ouvido falar na mídia sobre desemprego, capacidade ociosa e crescimento econômico? Estas preocupações são a base da macroeconomia. Assim, na evolução do pensamento econômico encontramos as raízes de tais preocupações. Com os mercantilistas e fisiocratas a resposta a essas questões era dada ainda de maneira pontual, propondo que o crescimento depende do acúmulo de metais preciosos ou aumento da produção agrícola. Porém, os fundamentos macroeconômicos com uma teoria sistematicamente organizada para explicar as questões do crescimento e desemprego foram primeiramente organizados pelos economistas da Escola Clássica. Desta forma a macroeconomia clássica está relacionada à escola fundadora do pensamento econômico, que inclui autores como Adam Smith e David Ricardo. Conforme afirma Bresser-Pereira (1976) a macroeconomia clássica, assim como toda a teoria econômica clássica, parte do pressuposto fundamental de que o mundo econômico é governado por leis naturais, que ao funcionarem livremente, produzirão sempre os melhores resultados possíveis. O modelo clássico que será apresentado nesta unidade, assim como em outros livros texto, não se trata de um modelo desenvolvido por um autor clássico em específico, mas sim da junção das ideias de diferentes autores. É importante sabermos que o modelo clássico apresentado nos livros-texto de macroeconomia, na verdade refere-se ao modelo neoclássico, que se baseia na hipótese de racionalidade dos agentes econômicos (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). Antes de darmos sequência ao estudo, precisamos abordar alguns aspectos que nos auxiliarão na compreensão dos próximos itens. • No estudo da macroeconomia há dois grupos de variáveis: as que descrevem a economia real, pois não consideram a influência dos preços, ou ainda, são variáveis medidas em unidades físicas. Como o produto real, o investimento, a poupança, o emprego e a taxa de juros real; e as variáveis que descrevem as variações nos valores nominais, são mensuradas em unidades monetárias. Como a inflação, a taxa de juros nominal, o produto nominal e o salário nominal. A divisão destas variáveis será muito importante no entendimento da macroeconomia clássica.
  • 12. Macroeconomia Clássica U1 10 • Os economistas clássicos consideram que a economia opera sempre em nível de pleno emprego. Todos os indivíduos que desejam trabalhar estão trabalhando, o que acontece em função da hipótese de preços e salários flexíveis. • Dentro da macroeconomia clássica é válida a Lei de Say (Jean Batiste Say) de que a oferta cria a sua própria demanda. Assim, os indivíduos utilizam toda a sua renda na aquisição de mercadorias. Nesta unidade concentraremos os estudos na oferta agregada e na demanda agregada. Para isso, exploraremos os principais agregados macroeconômicos (produto, investimentos, poupança, emprego, estoque de moeda, nível de preços etc.) e veremos como se dá o equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada, considerando, inclusive, uma economia com governo. No final dessa unidade teremos os elementos suficientes para se compreender a macroeconomia clássica.
  • 13. Macroeconomia Clássica U1 11 Seção 1 Produto, emprego e equilíbrio Introdução à seção O foco desta seção é a oferta agregada, que se refere à quantidade total de produtos que o setor produtivo (empresas e famílias) deseja disponibilizar no mercado, por período de tempo, a um determinado preço. Assim, tudo que é produzido na economia compõe o produto agregado, o produto interno bruto (PIB). Para explorarmos e obtermos a oferta agregada de uma economia, precisamos entender os seus componentes, que são os fatores de produção e a função de produção. Sabemos que o processo de produção envolve a combinação de vários fatores, os quais são chamados de fatores de produção ou insumos. As empresas se utilizam desses fatores, que são, principalmente, trabalho (N) e capital (K), dada a tecnologia (A), e os combinam para se gerar produto (Y). O capital não se refere a dinheiro, mas sim aos estoques de equipamentos e estruturas que os trabalhadores utilizam para realizarem suas tarefas e que os tornam mais produtivos, como, por exemplo, os computadores, as colheitadeiras utilizadas na agricultura, os caminhões que uma transportadora utiliza e os fogões e freezers de um restaurante. Trabalho é o tempo de trabalho humano que as pessoas dispendem durante a produção. Tecnologia é o nível tecnológico, o conhecimento da melhor forma possível para se produzir bens e serviços. São exemplos de tecnologia a linha de montagem de carros de Henry Ford, a telefonia móvel e as tecnologias de acesso remoto como a Caro aluno, para entender os conceitos de oferta, demanda e os demais agregados macroeconômicos você deve ler o Capítulo 1 e 2 do livro de ABEL, Andrew. Macroeconomia. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2008. Disponível na Biblioteca Digital.
  • 14. Macroeconomia Clássica U1 12 wi-fi. Há ainda outros fatores de produção, como os recursos naturais (como terra e minerais) e o capital humano, que envolve as habilidades e conhecimentos dos trabalhadores, obtidos por meio de investimento em educação e treinamentos ou por meio da própria experiência. Por motivos de simplificação, não os incluiremos na função de produção. A forma como os fatores de produção é combinada para se gerar o máximo de produto (PIB real) é expressa por meio de uma função de produção, como a que podemos ver na figura 1.1. De outra forma, a função de produção evidencia a tecnologia (A), pois a tecnologia é exatamente a forma como a função transforma os fatores de produção em produto. Assim, por exemplo, uma melhora do nível tecnológico, mantendo os demais fatores constantes, leva a um aumento na quantidade produzida. O fato é que a função de produção tem relação direta com as variáveis que a determina: um aumento (redução) na quantidade utilizada de capital leva a um aumento (redução) do produto; um aumento (redução) no número empregado de trabalhadores leva a um aumento (redução) do produto. Além disto, para uma dada tecnologia (A), a função de produção apresenta retornos constantes de escala, ou seja, a produção responde em proporção exatamente igual à proporção de alteração nos fatores de produção. Por exemplo, dada a tecnologia (A), uma redução de 10% nas quantidades utilizadas de capital (K) e trabalho (N), gera uma redução de 10% no produto (Y). Y= A.F(K, N) O que acontece se somente um dos fatores de produção variar e o outro se manter fixo? Imagine que você é um empresário e que mantém fixa a quantidade utilizada de máquinas em seu processo de produção, alterando somente a quantidade de trabalho. Nesta situação, os aumentos marginais na quantidade de trabalho provocarão aumentos na quantidade produzida, porém os aumentos serão cada vez menores. Isto significa que a produtividade marginal do fator de produção (o incremento da produção em resultado do aumento de uma unidade do fator, tomando os demais como fixos) é decrescente (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). Os termos retornos de escala, produtividade marginal de um fator (ou produto marginal) e curto prazo, são da microeconomia. Você pode saber mais sobre estes e outros termos no capítulo 6 - Produção -
  • 15. Macroeconomia Clássica U1 13 Agora que conhecemos um pouco sobre a produção, podemos obter graficamente a função de produção agregada. Sendo o curto prazo o período no qual existe pelo menos um fator de produção fixo, considerando o trabalho como o único fator variável, a função de produção é ilustrada na figura 1.1, no espaço de produto (Y) e quantidade de trabalho (N), e é positivamente inclinada, pois conforme vimos a relação entre o produto e os fatores que o determina é direta. do livro de PINDYCK, Robert; RUBINFELD, Daniel. Microeconomia. 8. ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2013. Disponível na Biblioteca Digital. A relação entre a taxa de desemprego e o produto real é inversa, um aumento na taxa de desemprego está associado a uma redução no PIB (produto interno bruto) real. Esta relação é chamada de Lei de Okun, em homenagem a Arthur Okun. Para conhecer mais sobre esta lei, você pode consultar o “Estudo de caso 2.4 - Desemprego, PIB e Lei de Okun” apresentado no livro do Mankiw (2004 p. 28-29). Figura 1.1 | Função de produção agregada Fonte: Adaptado de: Lopes e Vasconcellos (2008, p. 108)
  • 16. Macroeconomia Clássica U1 14 A função de produção pode se deslocar para cima (esquerda) ou para baixo (direita). Suponha um aumento no estoque de capital, a função de produção se desloca para cima, com isto, obtém-se mais produto com uma mesma quantidade de trabalho. Em resumo, temos que os fatores de produção e a função de produção determinam a produção agregada. Vimos que a quantidade de trabalho influencia diretamente a quantidade produzida, assim, precisamos entender melhor como se comporta o mercado de trabalho, é o que veremos no próximo item. 1.1 Demanda e oferta de trabalho O comportamento do mercado de trabalho lembra o comportamento do mercado de bens e serviços, por exemplo, a análise da oferta e demanda de artigos de vestuário, mas tem algumas diferenças. Primeiro, no mercado de trabalho os ofertantes de mão de obra são os trabalhadores e os demandantes os empresários. No mercado de bens e serviços os ofertantes são os produtores e os demandantes os consumidores. Segundo, no mercado de trabalho a demanda por este fator é derivada, ou seja, a demanda dos empresários por trabalho somente existe porque os empresários decidiram ofertar um determinado bem ou serviço no respectivo mercado de bens e serviços. Por exemplo, a demanda por costureiros(as) é derivada da decisão do empresário da indústria de confecção a ofertar artigos de vestuário. Uma semelhança importante é que em ambos os mercados, a relação é dada entre preço e quantidade: no mercado de bens e serviços, o preço é o próprio preço de venda e quantidade, o montante de produto; no mercado de trabalho, o preço é o salário e a quantidade é o montante em horas de trabalho ou em número de trabalhadores. Na macroeconomia clássica, a demanda de trabalho representa a relação entre a quantidade demandada de trabalhadores e o salário real - poder de compra, isto é, a quantidade em produtos que se pode comprar com determinado tempo (horas) de dedicação em trabalho - mantendo-se constante os demais fatores de produção. Novamente retomando um conceito da microeconomia, consideramos que o Quais seriam os efeitos de uma piora do nível tecnológico na funçãodeprodução?Comoilustraressesefeitosgraficamente?
  • 17. Macroeconomia Clássica U1 15 mercado de trabalho (assim como o de bens e serviços) é do tipo concorrência perfeita, a empresa é competitiva, pois há um grande número de empresas que não conseguem afetar nem o preço de seus produtos e nem o preço do fator trabalho. As firmas contratarão trabalhadores pensando em maximizar seus lucros (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). O lucro das empresas é a diferença entre a receita total e o custo total. De outra forma, representa a diferença entre o montante que obtém com a venda de seus produtos e o montante que gasta para produzi-los. Os custos envolvem a remuneração do trabalho, o salário nominal (W) e o custo com o capital, representado por (R), sendo que o preço pago por qualquer fator de produção depende das quantidades ofertadas e demandas. A receita total é obtida por meio da multiplicação da quantidade produzida (Y) pelo preço (P). Lucro = Receita total – custo total Lucro = P*Y - (WN + RK) O que acontece quando, em decorrência de um aumento da demanda, a empresa precisa aumentar sua produção? A empresa está sempre considerando o fato de maximizar o lucro, então, se precisa contratar mais trabalhadores, para aumentar sua produção, fará isso até o pontoemqueforlucrativo.Aprodutividademarginaldotrabalho(PMgN)representa quanto a produção aumenta a cada unidade empregada a mais de trabalho. Porém, dado que os outros fatores se mantêm constantes, a função de produção apresenta um produto marginal, do fator em questão, decrescente. Tomemos como exemplo o caso de um restaurante. Ao se contratar mais trabalhadores o restaurante servirá mais refeições, o PMgN é a quantidade a mais em refeições que é obtida em função de mais um trabalhador. Fixando-se a quantidade de capital, a estrutura da cozinha do restaurante, por exemplo, não adianta o empresário contratar cada vez mais trabalhadores, pois a estrutura não comportará. A questão é que, se o empresário fizer isto o número de refeições servidas irá reduzir a cada unidade adicional de trabalho, pois haverá muitos trabalhadores para uma dada estrutura. A isto se deve o formato da curva de função de produção da figura 1.1, que vai se tornando mais horizontal com o aumento no número de trabalhadores, pois a sua inclinação representa a produtividade marginal do trabalho. Você acha que, tudo o mais constante, compensa para o empresário contratar mais trabalhadores se o incremento que obtém em sua produção é menor do que o gasto que tem com salários? Acredito que você já saiba a resposta. Assim, para a empresa aumentar a sua demanda de trabalho, que reflete a produtividade (ou produto) marginal do trabalho, o salário real deve cair, pois a produtividade marginal do trabalho também está caindo, o que nos dá uma relação negativa entre o salário real e a quantidade de trabalho, que é ilustrada na figura 1.2. Para
  • 18. Macroeconomia Clássica U1 16 dado salário real (W/P), a demanda de trabalho (ou de outro fator) aumenta até o ponto em que a sua produtividade marginal se iguala ao seu preço real, o salário real (MANKIW, 2004). Figura 1.2 | Demanda de trabalho no modelo clássico Fonte: Adaptado de: Mankiw (2009, p. 380) É possível encontramos formalmente (matematicamente) o ponto onde a PMgN se iguala a W/P, para isto basta maximizar a função lucro em relação a N, ou seja, derivar a função em relação a N. Lembre-se de que o produto (Y) é função do trabalho, Y=F(N), então é possível substituir o Y da função lucro por F(N). Para mais detalhes, consulte Lopes e Vasconcellos (2008, p. 109). Mankiw (2009) apresenta alguns fatores que podem fazer a curva de demanda de trabalho se deslocar: • O preço do produto: para uma determinada empresa o valor do produto marginal do trabalho é o produto marginal multiplicado pelo preço de venda produto. Quando o preço do produto se altera, o seu valor marginal também se altera e a curva de demanda de mão de obra se desloca. Um aumento do preço do produto, por exemplo, aumenta o valor do produto marginal de cada trabalhador e a empresa aumenta sua demanda por trabalhadores, deslocando a curva de demanda de trabalho para a direita. No caso de redução do preço do produto, ocorre uma redução do produto marginal,
  • 19. Macroeconomia Clássica U1 17 reduzindo a demanda da empresa por trabalhadores e deslocando a curva de demanda de trabalho para a esquerda. • Mudanças tecnológicas: para dada empresa um avanço tecnológico aumenta o produto marginal do trabalho, o que leva a empresa a demandar mais trabalhadores e então, a curva de demanda de trabalho se desloca para a direita. Porém, mudanças tecnológicas também podem reduzir a demanda por trabalhadores. Por exemplo, a invenção de um robô industrial de baixo custo para a empresa, poderia reduzir o produto marginal do trabalho, deslocando a curva de demanda de trabalho para a esquerda. Este tipo de mudança é conhecido como economia de mão de obra. • A oferta de outros fatores: a quantidade disponível de um fator de produção pode afetar o produto marginal de outros fatores. Por exemplo, em uma indústria de confecção, a redução no número de máquinas de costura reduzirá o produto marginal dos(as) costureiros(as) e então, a empresa reduzirá a demanda por eles. Perceba que geralmente os fatores de produção são utilizados em conjunto, por exemplo, não há como utilizar máquinas de costura sem costureiros(as), ou vice e versa, isso faz com que a produtividade de cada fator dependa da quantidade dos demais fatores que está sendo utilizada no processo de produção. No caso do nosso país, o que você pensa sobre o progresso tecnológico, aumenta ou reduz a mão de obra empregada? Qual a importância da tecnologia para a produtividade do trabalho? Você sabia que a produtividade de um trabalhador brasileiro é, em média, um quarto da produtividade de um trabalhador americano? Acesse reportagens sobre este assunto nos links disponíveis em: <http://www.fgv.br/professor/ferreira/FerreiraFolha.pdf> e <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/05/140519_ produtividade_porque_ru>. Acesso em: 23 ago. 2015.
  • 20. Macroeconomia Clássica U1 18 Fonte: Adaptado de: Mankiw (2009, p. 384) No que se refere à quantidade de trabalho oferecida pelas famílias no mercado, precisamos entender como a mesma é influenciada pelo salário real. No modelo clássico, a decisão do indivíduo de quanto trabalhar corresponde à escolha de como alocar as horas do dia entre o trabalho e o lazer. O trabalho não gera prazer, apenas a renda necessária para poder consumir e obter a satisfação decorrente do consumo de mercadorias. O lazer, porém, gera satisfação por si mesmo. A decisão de quanto trabalhar decorre da maximização de uma função utilidade cuja “cesta” de bens é composta pela renda (consumo de bens) e lazer. Cada hora adicional de trabalho é o custo de oportunidade do lazer (o quanto se sacrifica de produto para obter lazer) (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). A curva de oferta de trabalho (figura 1.3) reflete a desutilidade marginal do trabalho, ou seja, mostra o quanto deve ser o salário real para que o indivíduo abra mão do lazer e dedique seu tempo ao trabalho. Através da figura 1.3 evidencia-se a relação positiva entre oferta de trabalho e salário real. Os indivíduos estão dispostos a ofertarem mais trabalho a salários reais cada vez mais elevados. Mankiw (2009) elenca alguns fatores que podem provocar O indivíduo pode escolher quanto do seu tempo será reservado ao trabalho. O que você pensa sobre esta hipótese? Figura 1.3 | Oferta de trabalho
  • 21. Macroeconomia Clássica U1 19 Fonte: adaptado de: Lopes e Vasconcellos (2008, p. 113-114) Figura 1.4 | Equilíbrio no mercado de trabalho e o produto de pleno emprego em que a oferta de trabalho se iguala à demanda de trabalho. O mercado de trabalho estará sempre em equilíbrio? Não, poderão ocorrer d e s e q u i l í b r i o s na forma de excesso de oferta de trabalho ou de excesso de demanda de trabalho. Nestes casos, a variável de ajuste será o salário real. Vamos analisar a figura 1.4 para melhor entendermos o funcionamento do mercado de trabalho. deslocamentos na curva de oferta de trabalho: • Mudanças das preferências: há algumas gerações as mulheres normalmente ficavam em casa cuidando dos filhos. Hoje, as famílias são menores e mais mães optam por estar no mercado de trabalho. Mudanças como essas provocam aumento na oferta de mão de obra. • Imigração: a movimentação de trabalhadores entre regiões ou entre países é outro fator que causa deslocamentos da oferta de mão de obra. Agora que conhecemos a demanda e oferta de trabalho podemos analisar como ocorre o equilíbrio no mercado de trabalho. Este equilíbrio ocorre no ponto
  • 22. Macroeconomia Clássica U1 20 O ponto A, por exemplo, na figura 1.4, corresponde a um excesso de oferta de trabalho, pois o salário real é superior àquele que garante o equilíbrio, então os indivíduos oferecem uma quantidade de trabalho superior àquela que os empresários demandam, representando uma situação de desemprego. O ponto A é de desequilíbrio. Para o mercado de trabalho retornar ao ponto de equilíbrio é necessário que o salário real reduza, o que ocorrerá em razão da disputa entre os indivíduos para conseguir uma vaga de emprego. Porém, é importante que tenhamos claro que a redução do salário real acontece, dado o nível de preços, mediante uma redução do salário nominal, que é flexível. À medida que o salário real for reduzindo os indivíduos reduzirão a quantidade ofertada de trabalho e o mercado tenderá ao ponto de equilíbrio, que é, na macroeconomia clássica, o ponto de pleno emprego. Este ponto é representado por Y* e será a oferta agregada da economia, podemos identificá-lo no painel inferior da figura 1.4. Perceba que é derivado a partir do equilíbrio do mercado de trabalho e da função de produção. No ponto de pleno emprego todos os indivíduos que desejam trabalhar àquele salário estão trabalhando. Desta forma, a economia está sempre em pleno emprego, dado o salário real, não acontece de um indivíduo que deseja trabalhar ficar desempregado. Vejamos como Bresser-Pereira (1976) analisa essa situação: [...] O nível de emprego seria determinado pela renda apenas indiretamente. Diretamente dependeria do nível dos salários, os quais dependeriam da produtividade marginal do trabalho, ou seja, da derivada da renda em relação ao trabalhador. No momento transitório em que houvesse desemprego, teríamos uma indicação de que os salários estariam artificialmente altos, de forma que estes começariam automaticamente a declinar devido à pressão dos trabalhadores desempregados, que estariam agora dispostos a trabalhar por um menor salário. Como conseqüência do excesso da oferta de trabalho baixariam os salários nominais e reais. As empresas, em vista disso, aumentariam o número de empregados (já que a curva de procura de empregados não sofrera alteração). Com o aumento do número de empregados, aumentaria a renda real, Y. Este processo continuaria até que todos os trabalhadores fossem empregados, voltando-se à situação normal de pleno emprego (BRESSER-PEREIRA, 1976, p. 17).
  • 23. Macroeconomia Clássica U1 21 O ponto B, por sua vez, que se encontra abaixo da curva de demanda, corresponde a um excesso de demanda de trabalho, ou de alto nível de emprego. O salário real neste ponto é inferior àquele que garante o pleno emprego. As empresas desejam aumentar o número de postos de trabalho, mas os trabalhadores não estão dispostos a aceitarem as propostas dos empresários àquele salário. A disputa dos empresários por trabalhadores provoca uma pressão sobre o salário nominal e então, do salário real, que começa a aumentar. Assim, com o salário mais alto, os trabalhadores estão dispostos a aceitar as propostas dos empresários, o que vai ocorrendo até que o excesso de demanda de trabalho esteja completamente eliminado. O mercado retorna ao equilíbrio de pleno emprego, no qual o número de trabalhadores que as empresas desejam contratar é igual ao número de indivíduos dispostos a trabalhar por aquele salário. O que você acha, o ponto de equilíbrio de pleno emprego pode se alterar? A resposta a esta pergunta é sim. Os fatores que vimos anteriormente que são responsáveis pelos deslocamentos na curva de oferta e demanda de trabalho, são, portanto, fatores que provocam mudanças no ponto de equilíbrio do mercado de trabalho. Sempre que ocorrerem deslocamentos nessas curvas o ponto de equilíbrio se alterará. Se, por algum motivo, ocorrer uma redução da oferta de trabalho, devido a um controle de natalidade, por exemplo, a curva de oferta de trabalho se deslocará para a esquerda (e para cima). O novo ponto de cruzamento entre as curvas de oferta e demanda de trabalho representará um novo equilíbrio de pleno emprego, mas que terá um salário real superior ao ponto de equilíbrio inicial, pois com a redução da oferta de trabalho o salário real terá de se ajustar de forma a equilibrar o mercado. O mercado de trabalho é do tipo concorrência perfeita, em que há muitos indivíduos ofertando mão de obra e um grande número de empresas que demandam esse fator. Um único indivíduo tem poder de influenciar o salário que irá receber? Uma única empresa tem poder de determinar o salário que irá pagar?
  • 24. Macroeconomia Clássica U1 22 Desde a crise global do final de 2008, a taxa de desemprego tem oscilado muito no Brasil e também em outros países. Faça uma pesquisa sobre a evolução da taxa de desemprego no Brasil e compare os resultados com algum outro país de seu interesse. Você poderá encontrar dados sobre o desemprego nesses links: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/ trabalhoerendimento/pme_nova/default.shtm> e <http:// www.ipeadata.gov.br>. Acesso em: 23 set. 2015. Podemos frisar esta questão do pleno emprego e do mercado de trabalho na macroeconomia clássica através da análise de uma questão do ENADE (2012), conforme abaixo: • De acordo com a teoria clássica, a economia funciona no nível de pleno emprego; e o desemprego é o resultado da recusa dos trabalhadores de trabalharem pelo salário vigente. Segundo essa corrente teórica, o desemprego pode ser classificado como voluntário ou friccional (ENADE, 2012). • Na teoria clássica a economia opera a pleno emprego, a dado nível de salário real, todos os que desejam trabalhar encontrarão emprego. Assim, nesta teoria não há possibilidade de ocorrência de desemprego involuntário. Mas pode ocorrer desemprego friccional, que pode surgir da mobilidade da mão de obra, de um período para adaptação dos trabalhadores às novas condições, ou de mudanças estruturais no sistema de produção. Pode ocorrer também, mesmo que brevemente, o desemprego voluntário, em que o indivíduo não deseja trabalhar a determinado salário, e então, prefere esperar que o salário se ajuste. 1.2 A oferta agregada de longo prazo A oferta agregada (OA) de longo prazo é a relação entre a quantidade real ofertada de produto (PIB real) e o nível de preços, em que o salário nominal se altera de acordo com o nível de preços para manter o pleno emprego. Vimos isso no item anterior. No nível de pleno emprego a quantidade de produto real ofertada representa o produto potencial da economia, ou seja, o máximo que
  • 25. Macroeconomia Clássica U1 23 determinada economia tem condições de produzir quando todos os fatores de produção estão sendo plenamente empregados, considerando que não haja desperdício. O produto potencial permanecerá o mesmo independente do nível de preços. Ao longo da curva de oferta agregada de longo prazo, à medida que o nível de preços se altera, o salário nominal também se altera. Assim, o salário real permanece no nível de equilíbrio de pleno emprego e o produto real no nível de produto potencial (PARKIN, 2010). Vimos no início da seção 1.1 que a quantidade produzida depende de capital, trabalho e do nível de tecnologia disponível. Percebemos que de acordo com a teoria clássica a quantidade produzida não depende do nível de preços ou salário nominal, que são variáveis monetárias, nominais, mas sim das variáveis reais. Uma melhora na tecnologia, por exemplo, aumenta a produtividade marginal do trabalho, levando os empresários a demandarem mais trabalhadores e, consequentemente, ampliando a quantidade produzida. Se o produto não depende dos preços a oferta agregada também não. Então, se ilustramos a oferta agregada no espaço produto e preço, como será essa curva de longo prazo? Veja a figura 1.5, em que YP é o produto de pleno emprego ou a renda e YE é a renda ou o produto de equilíbrio. A curva de oferta agregada, ou de pleno emprego, é vertical, pois o produto potencial independe do nível de preços e a razão para isto é que um movimento ao longo da curva é acompanhado por uma mudança tanto nos preços de mercadorias e serviços quanto nos preços dos fatores de produção, aqui o salário nominal. Exemplo: suponha um aumento de 5% no nível geral de preços, ou seja, nos preços das mercadorias, como os agentes não sofrem de ilusão monetária Fonte: Adaptado de: Lopes e Vasconcellos (2008, p. 115) Figura 1.5 | Oferta agregada de pleno emprego
  • 26. Macroeconomia Clássica U1 24 (eles sabem que os preços subiram) este aumento será acompanhado por um aumento correspondente de 5% no salário nominal, o que manterá o poder de compra (salário real) no mesmo patamar de pleno emprego, mantendo o nível de emprego constante e o produto real no nível potencial (PARKIN, 2010). A curva de oferta agregada de pleno emprego pode se deslocar, para a esquerda ou para a direita e o que influencia nesses descolamentos são as alterações no nível de produto potencial. Para entendermos isso melhor, precisamos entender como o produto potencial pode ser influenciado. • Mantendo-se constante os demais fatores, o produto potencial aumenta quando aumenta a quantidade de trabalhadores de pleno emprego, o que pode ocorrer em função de um aumento da população economicamente ativa. • Aumentos no estoque de capital (incluindo capital humano) geram aumentos no produto potencial, pois quanto maior o nível de capital por trabalhador, maior é a produtividade do trabalho. • Avanço tecnológico leva a aumento do produto potencial, uma economia que possui melhores níveis tecnológicos produz relativamente mais do que aquela que utiliza tecnologia obsoleta. Aqui, compreendemos o que é a oferta agregada, como ela se comporta e como é influenciada. Na próxima seção veremos a demanda agregada clássica. População economicamente ativa (PEA) é um conceito elaborado para indicar qual a parcela população está inserida no mercado de trabalho ou que, de certa forma, está procurando se inserir nele para exercer algum tipo de atividade remunerada. Pesquisas para o Brasil sobre trabalho e rendimento, dentre outras características gerais da população, são efetuadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Para obter mais informações acesse o link: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/ trabalhoerendimento/pnad2013/default.shtm>. Acesso em: 23 set. 2015.
  • 27. Macroeconomia Clássica U1 25 Por que a curva de oferta agregada de pleno emprego é de longo prazo? É possível ilustrar graficamente os efeitos de um aumento do capital humano no produto potencial? Se sim, tente realizar esta atividade. 1. A respeito da função de produção, avalie as afirmações abaixo. I. A função de produção tem relação direta com as variáveis que a determina, assim, uma piora do nível tecnológico, mantendo os demais fatores constantes, leva a um aumento na quantidade produzida. II. A função de produção apresenta retornos constantes de escala. Isto significa que a produção responde em proporção exatamente igual à proporção de alteração nos fatores de produção. Por exemplo, dada a tecnologia, um aumento de 8% nas quantidades utilizadas de capital e trabalho, gerará um aumento de 8% na quantidade produzida. III. Se somente um dos fatores de produção variar e o outro se manter fixo, a produtividade marginal do fator de produção será constante. É correto o que se afirma em: a) I e II. b) I e III. c) II. d) III e II. e) III, II e I.
  • 28. Macroeconomia Clássica U1 26 2. Desenhe e explique a curva de oferta agregada de longo prazo do modelo clássico. Há algum fator que pode deslocar esta curva?
  • 29. Macroeconomia Clássica U1 27 Seção 2 Demanda agregada clássica, moeda e preços Introdução à seção Podemos definir a demanda agregada (DA) como a relação entre a quantidade demandada e o nível geral de preços. Assim a sua curva expressa a quantidade de bens e serviços que serão adquiridos a dado nível de preços. A partir da teoria quantitativa da moeda podemos derivar a demanda agregada. Na teoria quantitativa da moeda temos que MV = PY. Sendo M a oferta de moeda, V a sua velocidade, por hipótese constante, P o nível de preços e Y o produto real. Então, PY é o produto nominal ou monetário e a equação é vista como uma equação de equilíbrio do mercado monetário que mostra que a oferta de moeda é igual à sua demanda e que a demanda é proporcional à quantidade do produto real (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). Bresser-Pereira (1976) resume da seguinte forma o papel da moeda na teoria clássica: A moeda para os clássicos é uma unidade de conta e um meio de troca. Além de servir para se somarem mercadorias diferentes, a moeda é fundamentalmente um meio de troca. Os homens só teriam interesse em mantê-la em seu poder na medida em que dela necessitassem para realizar suas transações. Segundo os clássicos, portanto, existiria apenas um motivo para a procura de moeda: o motivo transacional. O outro possível uso do dinheiro, como um meio de reserva de ativos líquidos, e, portanto, seu consequente entesouramento, era considerado irracional. Conservando o dinheiro em forma líquida, nos bancos, sem que haja tomadores de empréstimos ou debaixo do colchão, o capitalista estaria perdendo os juros que poderia ganhar se houvesse aplicado seu dinheiro em ativos fixos ou em títulos. O entesouramento, portanto, era considerado inexistente (BRESSER-PEREIRA, 1976, p. 11).
  • 30. Macroeconomia Clássica U1 28 Precisamos de moeda para efetuar nossas transações, este é o motivo transacional da demanda de moeda que está por traz da teoria quantitativa da moeda. Para saber mais sobre esta teoria consulte o capítulo 6 do livro de Mankiw (2004). Observe a figura 1.6, a curva de demanda agregada tem inclinação negativa. Por quê? Para determinada oferta de moeda, se o produto (renda) da economia é mais elevado (lembre-se de que alterações no produto somente ocorrem em função de alterações nas variáveis reais, na seção anterior citamos alguns fatores), então a demanda por moeda transacional é mais elevada e um maior estoque real de moeda seria necessário para atender às transações. Porém, como a oferta de moeda está dada, a variável de ajuste é o nível de preços, que reduzirá. Suponha, por exemplo, que ocorra um aumento no estoque de capital, isso gerará um aumento no produto potencial, ou seja, crescimento econômico, pois as empresas utilizarão um maior nível de capital por trabalhador, ampliando o produto marginal do trabalho. O aumento do produto potencial gera aumento da demanda por moeda, então os preços cairão de forma a ampliar o estoque real de moeda. Fonte: Adaptado de: Mankiw (2004, p. 176) Figura 1.6 | Demanda agregada no modelo clássico
  • 31. Macroeconomia Clássica U1 29 A curva de demanda agregada pode se deslocar para a direita ou para a esquerda e isto ocorrerá devido a alterações na quantidade ofertada de moeda. Por exemplo, uma redução na oferta de moeda gera uma redução nos saldos monetários reais, ou seja, do estoque real de moeda (Mo/P), reduzindo a demandada agregada (sua curva se desloca para a esquerda), o que provoca, somente, uma redução no nível de preços, ou seja, o produto da economia se mantém, a demanda não tem poder em determinar o produto da economia, tem poder somente sobre o nível de preços, o nível de produto é determinado pelas condições de oferta (quantidade de capital, de trabalho e nível tecnológico). Analogamente um aumento na oferta de moeda provoca um aumento do estoque real de moeda, aumentando a demanda agregada e, então, deslocando sua curva para a direita, conforme figura 1.7. Dado o produto potencial, um maior nível de demanda gera uma elevação nos preços. Figura 1.7 | Deslocamentos da demanda agregada Fonte: Adaptado de: Mankiw (2004, p.179) A lei de Say […] afirma que as crises de superprodução ou subconsumo são impossíveis, a não ser muito transitoriamente, e no mais das vezes, setorialmente. Isto porque toda produção implica em uma remuneração que vai se transformar imediatamente em procura. As pessoas não produzem e oferecem suas mercadorias no mercado pelo simples prazer de fazê-lo. Elas têm em mira produzir para, com isso, obter
  • 32. Macroeconomia Clássica U1 30 recursos que lhes permitiam comprar outros bens (de consumo ou investimento) que desejam. Quando a produção aumenta, ou seja, quando a oferta aumenta, a procura também aumenta concomitantemente. Em outras palavras, a oferta cria sua própria procura. A economia de mercado possuiria assim um mecanismo de controle automático, que a levaria sempre para o equilíbrio, tornando a superprodução geral impensável. Desequilíbrios setoriais poderiam ocorrer com frequência, quando, por exemplo, os produtores de um determinado artigo superestimassem sua procura, mas tais desequilíbrios seriam rapidamente corrigidos pelo mecanismo dos preços (BRESSER-PEREIRA, 1976, p. 11). Vimos que no modelo clássico a quantidade de moeda não afeta as variáveis reais (produto, emprego, salário real etc.), afeta somente as variáveis nominais, como o nível geral de preços. Esta separação das variáveis em dois grupos é conhecida por dicotomia clássica, que evidencia a neutralidade da moeda e reserva um papel passivo para a demanda agregada (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). Quando o Banco Central dobra a quantidade de moeda, o nível de preços dobra, o salário em reais dobra e todos os demais valores em reais dobram. Porém, as variáveis reais mantêm-se inalteradas. Essa irrelevância das alterações monetárias para estes tipos de variáveis é chamada de neutralidade da moeda (MANKIW, 2009). A aplicação da dicotomia clássica é um pouco complicada quando nos voltamos para os preços. Os preços na economia são normalmente cotados em termos de moeda e, portanto, são variáveis nominais. Por exemplo, quando dizemos que o preço do milho é de $ 2 por saca ou que o preço do trigo é de $ 1 por saca, os dois preços são variáveis nominais. Mas e quanto aos preços relativos – o preço de uma coisa comparado ao preço de outra? Em nosso exemplo, poderíamos dizer que o preço de uma saca de milho são duas sacas de trigo. Observe que o preço relativo não mais é medido em termos de moeda. Quando comparamos os preços de dois bens quaisquer, os sinais de dólar se cancelam e o número resultante é medido em unidades físicas. A lição é que os preços em dólar são variáveis nominais, ao passo que os preços relativos são variáveis reais (MANKIW, 2009, p. 640-641).
  • 33. Macroeconomia Clássica U1 31 O PIB nominal é uma variável nominal porque mede o valor em reais (R$) da produção de bens e serviços da economia; o PIB real é uma variável real porque mede a quantidade total de bens e serviços produzidos na economia e não é influenciado pelos preços correntes desses bens e serviços (MANKIW, 2009). Diante do que vem estudando, defina Lei de Say? 1. Desenhe e explique os efeitos de uma redução na oferta de moeda e, consequentemente, na demanda agregada, sobre o produto potencial e o nível de preços. 2. Explique a expressão “dicotomia clássica”.
  • 35. Macroeconomia Clássica U1 33 Seção 3 Consumo, investimento, poupança e juros Introdução à seção No modelo clássico, a poupança representa um “sacrifício” ao consumo presente que exige um “prêmio pela espera”, ou seja, o indivíduo só poupará se puder consumir no futuro mais do que consumiria no presente. A poupança depende, assim, do tamanho do prêmio pela espera, ou seja, da taxa de juros que remunerará a poupança do indivíduo. Quanto maior a taxa de juros mais caro o consumo presente em termos de consumo futuro e, portanto, maior o estímulo à poupança (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). A poupança é a fonte da oferta de fundos para empréstimos (MANKIW, 2009). Todos os agentes que possuem renda extra, por isso podem ser chamados de superavitários, vão ao mercado de fundos de empréstimos para depositarem (pouparem) seus recursos e emprestar. Por outro lado, os agentes que precisam de recursos, os deficitários, vão a este mercado para adquirir empréstimos. Os empréstimos podem ser de forma direta, por exemplo, quando um indivíduo compra o título de uma empresa, ou indiretamente, quando um indivíduo faz um depósito em um banco e o banco utiliza os fundos para conceder empréstimos (MANKIW, 2009). De outra forma, o dinheiro que depositamos nos bancos é utilizado por estes para empréstimos a outros indivíduos ou empresas. Da mesma forma que os indivíduos consomem, empresas e famílias adquirem bens com o objetivo de investir. Por exemplo, o proprietário de uma fábrica pode desejar investir na ampliação da planta e uma determinada família na aquisição da casa própria (investimento corresponde ao aumento do estoque de capital na economia). A decisão de investir também é influenciada pela taxa de juros, assim, o empresário precisará adquirir empréstimos para investir na planta de sua fábrica, por exemplo, e fará isso somente se a taxa de juros oferecida for menor do que o retorno que terá com o investimento. Mesmo que o empresário não necessite recorrer a empréstimos para realizar o investimento, ele deve considerar o custo de oportunidade, pois ao utilizar recursos próprios ele está deixando de aplicar seus recursos em títulos, portanto, deixando de receber os juros que os títulos renderiam. Da mesma forma, a família decidirá pela aquisição da casa própria ou não, a depender da taxa de juros que será negociada.
  • 36. Macroeconomia Clássica U1 34 Investimento refere-se à compra de novo capital, como equipamentos ou prédios. Quando um indivíduo toma um empréstimo do banco para construir uma casa nova, ele aumenta o investimento nacional, pois a compra de um imóvel é considerada investimento e não consumo. Similarmente, quando uma empresa vende ações e usa os recursos para construir uma nova fábrica, ela também está aumentando o investimento nacional (MANKIW, 2009). Fonte: Adaptado de: Lopes e Vasconcellos (2008, p. 121) Figura 1.8 | Equilíbrio entre poupança e investimento no modelo clássico No geral, taxa de juros relativamente alta incentiva a poupança e desincentiva o investimento. De outra forma, quanto mais elevada a taxa de juros menor a demanda por investimento e maior a quantidade ofertada de recursos no mercado financeiro (ou mercado de fundos de empréstimos), ou seja, maior a poupança. Desta forma, a curva de demanda por fundos para empréstimos, a de investimento, tem inclinação negativa e a curva de oferta de recursos, a poupança, tem inclinação positiva, conforme figura 1.8. Na figura 1.8, o ponto no qual se cruzam as curvas de investimento e poupança representa os valores de equilíbrio dessas variáveis e também da taxa real de juros,
  • 37. Macroeconomia Clássica U1 35 que se ajusta para equilibrar a oferta e demanda de fundos para empréstimos. A taxa de juros é o custo do investimento que se tem para adquirir empréstimos e, então, bens de capital. A taxa real de juros é afetada pelas preferências intertemporais dos indivíduos e pela produtividade marginal do capital. Da mesma forma que para o fator trabalho, a produtividade marginal do capital é decrescente (incrementos no investimento geram aumentos no produto, mas a taxas cada vez menores), por isso, a curva de investimento vai se tornando cada vez mais horizontal, para que o investimento aumente a taxa real de juros precisa reduzir. A política monetária, ao afetar somente a taxa de juros nominal, não afeta as decisões de poupança e investimento na economia (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). Suponha que a taxa de juros esteja abaixo da taxa de equilíbrio, haverá um excesso na demanda por investimentos, consequentemente a oferta de recursos não será suficiente para atender ao aumento de demanda. A disputa entre os agentes por aquisição de empréstimos leva os fornecedores de empréstimos a aumentarem a taxa de juros, ou seja, o custo de empréstimo será mais alto. Esta nova taxa de juros mais elevada incentiva a poupança, o que, em seguida, gerará novamente aumento na oferta de recursos e redução na demanda por investimento, guiando o mercado de volta ao ponto de equilíbrio. No caso de a taxa de juros estar acima da taxa que garante o equilíbrio, a demanda por investimentos ou por empréstimos será inferior à oferta de recursos. Como há excesso de recursos, e poucas pessoas ou empresas estão dispostas a adquiri-los àquela taxa, os ofertantes passam a cobrar uma taxa mais baixa para a concessão de empréstimos, reduzindo a oferta e aumentando a demanda por Através do mecanismo da taxa de juros, portanto, investimento e poupança são sempre mantidos em equilíbrio. O consumo, por sua vez, dependendo também da taxa de juros, aumenta ou diminui, à medida que a taxa de juros varia. E nesses termos, verificamos novamente a impossibilidade de uma crise de subconsumo. A macroeconomia clássica conduz-nos novamente à conclusão que, dentro do sistema capitalista do laissez-faire, em que impera a concorrência perfeita, estamos no melhor dos mundos possíveis - um mundo sem desemprego, sem subconsumo, no qual a renda seria distribuída segundo a produtividade marginal dos fatores, os consumidores maximizariam sua utilidade e as empresas maximizariam seus lucros, dentro de um espírito de harmonia universal... (BRESSER-PEREIRA, 1976, p. 18).
  • 38. Macroeconomia Clássica U1 36 recursos, até o mercado retornar ao ponto de equilíbrio inicial. Perceba que estas alterações, tanto no caso de a taxa de juros ser maior que a de equilíbrio, quanto no caso de ser menor, ocorrem ao longo das curvas de investimento ou de poupança, ou seja, alterações na taxa de juros não provocam deslocamentos das curvas. A pergunta que se faz é: o que provoca deslocamentos na curva de poupança e de investimento? Veremos isso no próximo item. 3.1 Equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada O equilíbrio no mercado de bens e serviços é dado pela igualdade entre oferta agregada e demanda agregada. O consumo (C), o investimento (I) e os gastos do governo (G) compõem a demanda agregada, que é o PIB. O setor externo, computado pela diferença entre exportações e importações é outro componente da demanda agregada, mas, para os objetivos desta unidade e por simplificação, trabalharemos com os três primeiros, ou seja, com economia fechada. Com a participação do governo no modelo clássico, devemos considerar que os impostos arrecadados (T) reduzem a renda do setor privado e, portanto, as suas despesas. Neste modelo, tanto a arrecadação de impostos, quanto os gastos do governo, serão tomados como variáveis exógenas. O equilíbrio é representado pela seguinte expressão: Y = DA Y = C + I + G A equação acima é uma identidade porque cada unidade monetária da despesa que surge no lado esquerdo também aparece em um dos três componentes do lado direito (MANKIW, 2009). Podemos reescrever essa equação da seguinte forma: Y – C – G = I O lado esquerdo da equação (Y – C – G) é o que resta da renda total após o setor privado efetuar o pagamento de seus dispêndios e o setor público dos seus gastos. Esse montante é a poupança nacional (S). Substituindo (Y – C – G) por S, a Qual a diferença entre taxa de juros real e nominal? Qual delas importa nas decisões dos agentes?
  • 39. Macroeconomia Clássica U1 37 equação acima é escrita de forma a afirmar que poupança é igual a investimento. S=I Esta identidade indica que, para a economia como um todo, a poupança deve ser igual ao investimento. É o mercado financeiro que coordena os agentes que estão decidindo quanto poupar (aqueles que chamamos de superavitários) e os que estão decidindo quando investir (os deficitários). Os intermediários financeiros − as instituições financeiras por meio das quais os poupadores podem indiretamente ofertar fundos aos tomadores de empréstimos – se colocam entre os dois lados da equação S=I, recolhendo a poupança nacional e direcionando ao investimento nacional. É importante destacar que para a economia em geral embora poupança seja igual a investimento, isso não precisa ser verdade para cada família ou empresa individualmente (MANKIW, 2009). Sabemos que o consumo depende positivamente da renda, mas, da renda disponível, pois como temos o governo no modelo, a renda disponível é aquela que resta aos indivíduos após o pagamento de impostos (Y-T). Consideraremos que a decisão de consumo depende desta renda e da taxa de juros real (r) (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). Assim, temos as seguintes expressões para o consumo e para a poupança: C = C (Y – T; r) S = S (Y – T; r) Para se manter a igualdade entre oferta agregada e demanda agregada, a receita em impostos, que é uma parcela da renda que deixa de ser consumida (ou poupada), deve ser gasta pelo governo (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). S (Y – T; r) + T = I(r) + G Rearranjando, temos: S (Y – T; r) + (T – G) = I(r) Sendo S (Y – T; r) a poupança privada (Sp) e (T – G) a poupança do governo (Sg), a parte não gasta da arrecadação em tributos. A soma dessas duas poupanças compõe a poupança nacional ou interna (S). S = Sp + Sg Vejamos então o que pode provocar deslocamentos nas curvas de poupança ou investimento. O que acontece se o governo aumentar seus gastos? Esta situação está ilustrada na figura 1.9. Com o aumento dos dispêndios do setor público ocorre um excesso de demanda por recursos financeiros, pois o governo sai do seu orçamento equilibrado gastando mais do que arrecadou, ou seja, gera
  • 40. Macroeconomia Clássica U1 38 um déficit orçamentário, e precisa de recursos para financiá-lo. Este excesso de demanda por recursos provoca o aumento da taxa de juros para r2, pois os ofertantes de recursos cobrarão uma taxa mais elevada para realizar empréstimos. Porém, a taxa de juros real mais elevada reduz o investimento privado (–∆I), mas, gera um aumento na poupança ou queda no consumo (∆S ou - ∆C), mantendo o equilíbrio entre oferta e demanda de recursos. Resumindo, o impacto da política fiscal de aumento de gastos do governo é de redução do consumo e do investimento, esse efeito é conhecido como crowding-out, ou efeito deslocamento. Na verdade, a política fiscal não provoca aumento no produto ou renda da economia, somente altera a composição da demanda, sendo composta por uma proporção maior de gastos públicos e menores de gastos privados (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). Figura 1.9 | Efeito deslocamento Fonte: Adaptado de: Lopes e Vasconcellos (2008, p. 125) Se a política fiscal adotada fosse de redução dos impostos, os efeitos seriam semelhantes ao de aumento dos gastos? Vamos entender isso. Uma redução em impostos provoca uma redução nas receitas do governo, isto é, na poupança do governo, fazendo com que a oferta de recursos seja inferior à quantidade necessária para os agentes realizarem suas transações, a curva de poupança se deslocaria para a esquerda, ocorrendo uma disputa por recursos e fazendo com que a taxa de juros se eleve. Taxa de juros mais elevada, como já sabemos, provoca redução no investimento e aumento na oferta de recursos, reestabelecendo o equilíbrio. Uma vez que ocorre redução nos impostos, o que acontece com o consumo? A renda disponível dos indivíduos será maior e a tendência é de aumento do consumo, reduzindo a oferta de recursos e, posteriormente, aumentando a taxa de juros. A
  • 41. Macroeconomia Clássica U1 39 taxa de juros se eleva em função do aumento do consumo ou redução da poupança privada que ocorre com a redução dos impostos. Caso a redução de impostos não provocasse aumento de consumo, o efeito seria aumento de poupança privada, compensando a redução da poupança pública e então, mantendo inalterada a taxa de juros, já que não houve alteração na oferta de recursos. O que podemos concluir sobre a política fiscal no modelo clássico? Os componentes da demanda agregada (C, I e G) são afetados e provocam alterações na taxa de juros, mas não no nível de produto, este se mantém no nível de pleno emprego (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). 3.2 Algumas questões comentadas Neste tópico veremos algumas questões comentadas sobre o que estudamos nesta análise. O objetivo desses exercícios é de reforçar os principais aspectos da macroeconomia clássica que foram explorados nesta unidade. As afirmativas abaixo serão classificadas em correta ou falsa e serão detalhadamente comentadas. a) Na teoria clássica, mudanças no nível de produto da economia somente ocorrem se houverem mudanças nas curvas de oferta e demanda de trabalho. Falsa. O produto pode ser alterado em virtude de alterações nas variáveis reais da economia, isto inclui os fatores que deslocam as curvas de oferta e demanda de trabalho, mas não se limitam a estes. Veja a próxima alternativa. b) Dentre os determinantes da curva de oferta agregada podemos citar o número de pessoas no mercado de trabalho, ou seja, a população economicamente ativa, a produtividade da força de trabalho, o nível tecnológico e o tamanho do estoque de capital. Correta. Perceba que alterações em variáveis como os preços, oferta nominal de moeda e demanda agregada não afetam o produto real. c) A demanda de moeda para os clássicos existe somente com o objetivo de entesouramento. Assim, dada uma determinada oferta de moeda, um maior nível de produto na economia elevará a demanda para entesouramento. Esta afirmativa é falsa. Na teoria clássica, o entesouramento, guardar o dinheiro em casa, por exemplo, era considerado inexistente, pois os agentes estariam deixando de receber os juros com a aplicação do seu dinheiro. Na verdade, a moeda para os clássicos existe somente para fins transacionais. Assim, dada a oferta de moeda, maiores níveis de produto na economia, gerarão um aumento no número de transações e então um aumento na demanda por moeda real, o
  • 42. Macroeconomia Clássica U1 40 que será possível com redução do nível de preços. d) Na teoria clássica quanto mais alta a taxa de juros maior tende a ser a quantidade poupada. Correta. Quando maior a taxa de juros mais caro será o consumo presente em relação ao consumo futuro, o prêmio por deixar de consumir no presente é alto, o que incentiva a poupança. e) Na teoria clássica a decisão de investimento pelo empresário depende da taxa de juros nominal. Quanto maior a taxa de juros nominal menor o incentivo para o empresário investir. Falsa. A decisão de investimento do empresário depende da taxa de juros real, pois nesta teoria os agentes não sofrem de ilusão monetária. f) Diferentemente do produto marginal do trabalho, dados os demais fatores, o produto marginal do capital é positivo e crescente. Falsa. Incrementos em qualquer fator de produção geram um produto marginal decrescente. Assim, em um sistema de produção, incrementos na utilização de capital, mantendo-se os demais fatores constantes, geram aumentos no produto, mas a taxas cada vez menores. g) No mercado de trabalho da teoria clássica o salário real é a variável de ajuste, caso ocorram desequilíbrios. No mercado de fundos de empréstimos a variável de ajuste são os preços. Falsa. A primeira parte da afirmativa está correta, mas a segunda não. No mercado de trabalho, se houver excesso de oferta de trabalho o salário real cairá até o ponto de equilíbrio e no caso de excesso de demanda de trabalho, o salário real aumentará atraindo cada vez mais trabalhadores até o ponto de equilíbrio. No mercado de fundos de empréstimos a variável de ajuste é a taxa de juros real. Um excesso na demanda por investimentos provoca um aumento na taxa de juros, pois a quantidade de recursos disponível no mercado é inferior àquela que os agentes desejam. Um excesso de oferta de recursos provoca uma redução na taxa de juros, até que o mercado atinja o equilíbrio. 1. Sobre o conceito de crowding-out, ou efeito deslocamento, é correto afirmar que:
  • 43. Macroeconomia Clássica U1 41 2. Como podemos definir a renda disponível dos indivíduos? a) É o aumento da proporção dos gastos do governo na demanda agregada ao custo de uma redução do consumo e do investimento, ou seja, o gasto público aumenta, mas o gasto privado se reduz. b) É o aumento da poupança em função de uma maior taxa de juros. c) É a redução na renda disponível em função de aumento de impostos. d) É o deslocamento da curva de poupança. e) É o deslocamento da curva de oferta agregada. Nesta unidade você aprendeu sobre a macroeconomia clássica. Podemos destacar os seguintes aspectos. • A análise da macroeconomia clássica concentra-se no longo prazo, o que se deve à flexibilidade de preços e salários. • A economia está sempre a pleno emprego. • No mercado de trabalho a variável que ajusta possíveis desequilíbrios é o salário real. No mercado de fundos de empréstimos a variável de ajuste é a taxa de juros real. • A curva de oferta agregada é vertical, ou seja, inelástica, em relação ao nível de preço. • A curva de oferta agregada e, então, o produto potencial, pode se deslocar em razão de alterações em variáveis reais, como no estoque de capital. • A separação entre variáveis reais e nominais denomina-se
  • 44. Macroeconomia Clássica U1 42 dicotomia clássica. • A neutralidade da moeda indica que alterações na oferta de moeda afetam a demanda agregada, mas não o produto. • Política fiscal de aumento dos gastos do governo não provoca aumento do produto, pois ocorre um crowding-out, ou efeito deslocamento. • No modelo clássico o governo fica impossibilitado de interferir no nível de produto ou de emprego da economia. Lembre-se: na teoria clássica a Lei de Say é válida. Chegamos ao final dessa primeira unidade. Você poderá saber mais sobre a macroeconomia clássica consultando o terceiro capítulo do livro de Lopes e Vasconcellos (2008) e o artigo “Da macroeconomia clássica à keynesiana” de Bresser- Pereira (1976). Este último encontra-se disponível no seguinte link: <http://www.bresserpereira.org.br/papers/1968/68- 98DaMacroclassicaAKeynesiana.apostila.pdf>. Acesso em: 14 out. 2015. 1. Sobre a macroeconomia clássica, considere as afirmativas: I. A macroeconomia clássica é considerada uma teoria que explica o comportamento da economia no longo prazo. ( )
  • 45. Macroeconomia Clássica U1 43 2. Sobre o conceito de produtividade marginal do trabalho, considere as afirmativas: I. A sua curva tem formato positivo, pois aumentos na quantidade utilizada de trabalho levará a aumentos cada vez maiores no produto. ( ) II. A produtividade marginal do trabalho é representada pela inclinação da função de produção. ( ) III. As empresas, sendo maximizadoras de lucro, sempre contratam trabalhadores até o ponto em que o salário nominal se iguala à produtividade marginal do trabalho. ( ) IV. Para uma dada empresa, considerando constantes o estoque de capital e a tecnologia, quanto mais essa empresa aumenta o número de indivíduos empregados, menor será a produtividade marginal do trabalho. ( ) Estão corretas as afirmativas: a) I e II. b) I, II e III. c) III e IV. d) II, III e IV. e) II e IV. II. Na macroeconomia clássica os preços são rígidos, portanto, não respondem a alterações da oferta agregada. ( ) III. O ponto de pleno emprego corresponde à rigidez de preços e salários. ( ) IV. Na visão da macroeconomia clássica é válida a Lei de Say, ou seja, de que a oferta cria a sua própria demanda. ( ) Estão corretas as afirmativas: a) I e II. b) I, II e III. c) III e IV. d) I e IV. e) II, III e IV.
  • 46. Macroeconomia Clássica U1 44 3. Sobre o equilíbrio no mercado de trabalho, considere as afirmativas: I. O mercado de trabalho pode ser considerando como do tipo concorrência perfeita. Assim, quando ocorrer de as empresas demandarem um número de trabalhadores superior àquele oferecido pelas famílias, o salário real, em consequência de um aumento no salário nominal, aumentará até que oferta e demanda de trabalho sejam iguais. II. Deslocamentos das curvas de oferta ou de demanda de trabalho levam a mudanças do equilíbrio no mercado de trabalho. III. Na perspectiva da teoria clássica o salário que importa na tomada de decisão tanto de empresários quanto de trabalhadores é o salário real. IV. Pleno emprego significa que a um determinado salário real não haverá indivíduos que desejem trabalhar, desempregados. Da mesma forma, não haverá uma única empresa que deseje contratar trabalhadores que não encontrará. Estão corretas as afirmativas: a) I e II, apenas. b) II e IV, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II e III, apenas. e) I, II, III e IV. 4. Sobre a oferta e a demanda agregada clássica, é correto afirmar que: a) O produto da economia não é afetado por variáveis nominais como a oferta de moeda. b) A oferta agregada de pleno emprego pode ser alterada em função de mudança na taxa de juros nominal. c) Deslocamentos na curva de demanda agregada clássica provocam deslocamentos na curva de oferta agregada clássica. d) A demanda agregada tem influência sobre o produto da economia e sobre o nível de preços.
  • 47. Macroeconomia Clássica U1 45 5. Na teoria clássica defende-se a hipótese de neutralidade da moeda. Sobre esta hipótese considere as afirmativas: I. Alterações na quantidade de moeda da economia alteram a curva de demanda. II. O nível de produto da economia é afetado apenas por variáveis reais. Esta separação entre variáveis reais e nominais na teoria clássica é chamada de dicotomia clássica. III. Mudanças no nível de preços provocam mudanças sobre o produto real. IV. A curva de oferta agregada de longo prazo é vertical, pois o produto potencial independe do nível de preços. Estão corretas as afirmativas: a) I, II e IV. b) II, III e IV. c) II e III. d) III e IV. e) I, III e IV. e) A curva de oferta agregada clássica é horizontal.
  • 49. U1 47 Macroeconomia Clássica Referências BLANCHARD, Olivier. Macroeconomia. 5. ed. São Paulo: Pearson, 2011. BRASIL. Ministério da Educação. Exame Nacional de desempenho dos estudantes (ENADE). Ciências Econômicas. Novembro de 2012. Disponível em: <http:// download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/provas/2012/03_CIENCIAS_ ECONOMICAS.pdf>. Acesso em: 18 set. 2015. BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Da macroeconomia clássica à keynesiana. São Paulo, abr. 1976. Disponível em: <http://www.bresserpereira.org.br/papers/1968/68- 98DaMacroclassicaAKeynesiana.apostila.pdf>. Acesso em: 17 set. 2015. LOPES, L.; VASCONCELLOS, M. (Orgs.). Manual de macroeconomia: básico e intermediário. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2008. MANKIW, N. G. Macroeconomia. Rio de Janeiro: LTC, 2004. MANKIW, N. Gregory. Introdução à economia. São Paulo: Cengage Learning, 2009. PARKIN, M. Macroeconomics. 10th . ed. Boston: Pearson, 2010. VARIAN, H. Microeconomia: princípios básicos: uma abordagem moderna. Tradução: Maria José Cyhlar Monteiro e Ricardo Doninelli. 7. ed. Rio de Janeiro: Campus, 2006.
  • 51. Unidade 2 MACROECONOMIA KEYNESIANA Objetivos de aprendizagem: O objetivo desta unidade é entender o comportamento básico do modelo keynesiano. Isto significa que você será capaz de explicar: como a despesa agregada é determinada; como o nível de produto/renda da economia é determinado; a dinâmica dos multiplicadores keynesianos. Carlândia Brito Santos Fernandes Nesta seção veremos em que se fundamenta o princípio da demanda efetiva de Keynes. Entenderemos como as mudanças na demanda agregada podem afetar o produto da economia e como os empresários ajustam suas expectativas de forma a buscar lucros maiores. Além disso, veremos uma representação gráfica do princípio da demanda efetiva. Nesta seção veremos o modelo keynesiano com gastos em consumo. Para isso entenderemos o comportamento da oferta agregada de curto prazo, conheceremos alguns conceitos da Teoria Geral, como os de propensão a consumir e a poupar. Ilustraremos graficamente o equilíbrio entre oferta agregada e demanda agregada, por meio do formato que é conhecido na literatura como cruz keynesiana. Seção 1 | O princípio da demanda efetiva Seção 2 | Modelo keynesiano simples
  • 52. Macroeconomia Keynesiana U2 50 Nesta seção veremos o modelo keynesiano com os outros componentes da demanda agregada. Primeiramente faremos a análise incluindo o investimento, depois, incluiremos o governo e por último o setor externo. Nesta parte do estudo precisaremos compreender os multiplicadores de gastos e de tributos. Seção 3 | Os componentes da demanda agregada
  • 53. Macroeconomia Keynesiana U2 51 Introdução à unidade A teoria predominante até início do século XX defendia que quedas no nível de atividade econômica eram normais, assim, diante de flutuações a economia alcançaria um novo equilíbrio automaticamente. A Lei de Say, a de que a oferta cria sua própria demanda, era válida. Você deve lembrar que vimos na unidade 1 que esta era a concepção defendida pelos clássicos, de que toda produção gera uma renda de igual valor, de modo que qualquer produção terá a sua realização garantida. Baseada nessa lei, a escola clássica chega à conclusão de que o único limite para a acumulação de capital são os recursos disponíveis, entendidos como a poupança própria, e que a demanda não representa qualquer empecilho ao crescimento da produção ou do emprego. Associava-se a esse aspecto a doutrina do laissez-faire. Para Carson (1992), intervenções no mercado poderiam ser necessárias, mas ainda eram exceções, o laissez-faire ainda era regra, ou seja, era mínima a atuação do Estado na economia. Os anos 1920 foram marcados pela Grande Depressão econômica, o desemprego aumentava mesmo com os salários nominais despencando. Então, o que aconteceu com a Lei de Say? Entre 1929 e 1932, nos Estados Unidos, o índice de produção industrial caiu de 114 pontos para 54 pontos e o desemprego passou de 3,2% para 22% da força de trabalho. Esta situação nos remete ao fato de que existia um desemprego permanente numa economia em condições de laissez-faire (CARSON, 1992). Para termos uma noção do comportamento da economia brasileira nesse período, observe o gráfico 2.1, o produto interno bruto (PIB) real caiu de uma taxa de crescimento superior a 11% em 1928 para uma da ordem de -3% em 1931. Veja também que a economia brasileira, assim como as demais economias são marcadas por flutuações, períodos de elevadas taxas de crescimento e períodos de recessão e baixas taxas de crescimento. Porém, como explicar essas flutuações?
  • 54. Macroeconomia Keynesiana U2 52 Gráfico 2.1 | Produto Interno Bruto (PIB) de 1920 a 2013 Nota: PIB - preços de mercado - var. real anual - ref. 2000 - (% a.a.). Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Sistema de Contas Nacionais. O episódio da Grande Depressão levou muitos economistas a questionarem a validade do modelo clássico, já que esta teoria não apresentava explicações para as flutuações que estavam acontecendo, a economia não estava voltando ao equilíbrio automaticamente. A publicação da Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, em 1936 por J. M. Keynes, viria a encerrar uma era dominada pela tradição econômica clássica.
  • 55. Macroeconomia Keynesiana U2 53 Seção 1 O princípio da demanda efetiva Introdução Keynes apresenta em seu livro “A Teoria Geral” uma nova maneira de se analisar a economia que contrapõe a teoria clássica. Para o autor as crises têm como fonte as insuficiências de demanda efetiva. Nesta seção veremos em que se fundamenta o princípio da demanda efetiva de Keynes. Entenderemos como mudanças na demanda agregada podem afetar o produto da economia e como os empresários ajustam suas expectativas de forma a buscar lucros maiores. 1.1 O princípio de demanda efetiva Para Keynes são as firmas que tomam as decisões fundamentais numa economia capitalista: tanto o nível de emprego como o nível de poupança dependem das decisões das firmas de produzir e investir. A decisão de produção e emprego deve ser tomada com base em expectativas a respeito da demanda futura pelos produtos Esta obra seria antes de mais nada uma denúncia do laissez- faire. Keynes não era marxista, sequer socialista. Pelo contrário, acreditava no sistema capitalista, dentro do qual fora educado. Verificou, porém, que o sistema econômico capitalista estava longe de assegurar automaticamente o pleno emprego e o desenvolvimento econômico sem crises crônicas, de duração indefinida, como pretendia a teoria econômica vigente. Este fato fora também constatado pela maioria de seus contemporâneos. Mas apenas Keynes logrou montar um modelo teórico que tivesse condições de fazer frente ao modelo clássico (BRESSER-PEREIRA, 1976, p. 22).
  • 56. Macroeconomia Keynesiana U2 54 da empresa, ou seja, os empresários tomam a decisão de quantos trabalhadores contratarem e de quanto produzir com base em quanto ele espera vender. O empresário então se defronta com duas curvas: a de oferta agregada, Z(N), que resulta do emprego de N trabalhadores, é ascendente, expressa a renda necessária (mínima) para se oferecer determinado volume de emprego e reflete as condições de custos marginais crescentes; a de demanda agregada, D(N), ascendente para a direita, expressa a renda/produto que o empresário espera receber por oferecer determinado volume de emprego, reflete as expectativas dos empresários sobre a demanda agregada, ou seja, as expectativas dos empresários sobre o quanto os consumidores e demais empresários irão gastar. Figura 2.1 | O ponto de demanda efetiva Fonte: Adaptado de: Chick (1983) Na figura 2.1 temos uma ilustração das curvas de oferta agregada e de demanda agregada, o volume de emprego será determinado pelo ponto de intersecção dessas curvas, E, neste ponto estabelece-se o nível de produção e assim a demanda efetiva de trabalho. O volume de emprego é efetivo, e não esperado, e é determinado pelas expectativas dos empresários, com base em quanto eles esperam vender e não como no modelo clássico, que considera as reduções salariais uma solução para o desemprego. Na realidade para Keynes reduções salariais poderiam aumentar o desemprego, pois geraria uma redução da demanda efetiva, principalmente por bens de consumo, e influenciariam negativamente as decisões empresariais. No ponto de demanda efetiva os empresários obtêm o máximo dos lucros esperados, se oferecessem mais ou menos empregos os lucros seriam menores. Neste ponto, os rendimentos esperados são exatamente iguais ao rendimento
  • 57. Macroeconomia Keynesiana U2 55 necessário para induzir um volume dado de emprego. Porém, nada garante que os empresários formulem expectativas corretas a respeito da demanda efetiva, o que significa que a receita efetivamente obtida pela venda da produção acabada no mercado pode ser maior ou menor do que a receita esperada pelos empresários. Se as expectativas forem incorretas os empresários irão rever suas expectativas. Outro detalhe importante é de que o ponto de demanda efetiva não ocorre necessariamente ao pleno emprego, ou seja, existe desemprego involuntário. Keynes define o princípio da demanda efetiva no capítulo 3 do seu livro “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. Em qualquer ponto que se situe à esquerda de E, veja que a curva D(N) fica acima da Z(N), assim, ao nível de emprego oferecido pelos empresários, a receita que elas esperam receber pela venda da produção é superior à receita mínima que elas exigem para oferecer esse nível de emprego. Desta forma, os empresários têm possibilidade de aumentar seus lucros se expandirem o nível de emprego até o nível correspondente ao cruzamento das duas curvas, ou seja, até N*. Qualquer ponto que se situe à direita de E, ou de N*, ao nível de emprego oferecido pelos empresários, a receita que as empresas esperam obter pela venda da produção é menor do que a receita mínima que elas exigem para oferecer esse nível de emprego observe que agora Z(N) fica acima de D(N). Então, os empresários podem aumentar os seus lucros se reduzirem o nível de emprego até N*. No que se refere à remuneração do fator trabalho, para Keynes os salários nominais são os que importam para os trabalhadores, pois é sobre estes que eles podem ter controle (por meio das forças sindicais, por exemplo), o que não acontece com os salários reais. Dado o nível de emprego, o salário real se ajustará até o ponto em que for igual à produtividade marginal do trabalho compatível com o respectivo nível de emprego, definindo o tamanho da massa salarial. Se lembre que a produtividade marginal do trabalho é decrescente, assim, aumentos no nível de emprego são seguidos por reduções no salário real, porém, não é sua queda que leva ao aumento do emprego e do nível de produção da economia. Pense da seguinte forma, dado o volume de salários reais, a disputa dos trabalhadores de A quantidade de mão de obra N que os empresários resolvem empregar depende da soma (D) de duas quantidades, a saber: D1, o montante que se espera seja gasto pela comunidade em consumo, e D2, o montante que se espera seja aplicado em novos investimentos. D é o que já chamamos antes de demanda efetiva (KEYNES, 1996, p. 63).
  • 58. Macroeconomia Keynesiana U2 56 diferentes categorias pela divisão entre si desse volume de salarial, é, na verdade, a disputa dos trabalhadores por salários nominais. Por exemplo, em uma situação de desemprego, se uma determinada categoria aceitasse a redução do salário nominal, isto não garantiria a redução do desemprego, mas se as demais categorias não aceitassem, essa categoria teria uma perda em termos de salário real, ou seja, perda de poder de compra, pois o nominal seria mais baixo. Sabemos que os trabalhadores não têm como controlar o nível de preços da economia, e dada a disputa pela distribuição do salário nominal, é totalmente racional os trabalhadores lutarem por salários nominais. Pela macroeconomia keynesiana, para se analisar a determinação do nível de produto e de emprego, deve-se olhar o comportamento da demanda efetiva (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). Mikail Kalecki e a demanda efetiva Antes de surgir a Teoria Geral de Keynes, Mikail Kalecki já havia publicado, em polonês, três estudos que constituíram, em conjunto, a primeira formulação precisa e sistemática do papel da demanda efetiva no processo de reprodução capitalista. A partir deles Kalecki foi ampliando e aprimorando suas concepções, que culminaram na publicação de sua principal obra a “Teoria da Dinâmica Econômica”, em 1954. Mikail Kalecki nasceu em Lodz, em 22 de junho de 1899. Estudou na EscolaPolitécnicadeVarsóviaedepoisnadeGdanski,masnãochegoua graduar-se. Obteve seu primeiro título acadêmico aos 57 anos de idade, quando já era internacionalmente reconhecido, o governo polonês o nomeou professor universitário e em 1964 a Universidade de Varsóvia lhe conferiu o título de doutor honoris causa. Foi um autodidata. Em sua formação como economista, recebeu profunda influência das obras de Marx e de outros autores marxistas. Se você quer saber mais sobre esse autor e sua principal obra acesse o link: <http://home.ufam. edu.br/andersonlfc/Coleção%20-%20Os%20Economistas/Michal_ Kalecki_-_Teoria_da_Din%25C3%25A2mica_Econ%25C3%25B4mica_ (Os_Economistas).pdf>. Acesso em: 23 set. 2015.
  • 59. Macroeconomia Keynesiana U2 57 Como podemos conceituar o princípio da demanda efetiva? O que você acha, flutuações na demanda agregada podem afetar o nível de produto da economia? 1. Sobre o princípio da demanda efetiva, avalie as afirmações abaixo. I. O princípio da demanda efetiva foi desenvolvido por John Maynard Keynes, em seu livro “A teoria geral do emprego, do juro e da moeda”. II. No conceito de demanda efetiva mantém-se a ideia de que toda a produção gera uma renda de igual valor, de modo que qualquer produção terá a sua realização garantida. III. A decisão de produção e emprego deve ser tomada com base em expectativas a respeito da demanda futura pelos produtos da empresa, ou seja, os empresários tomam a decisão de quantos trabalhadores contratarem e de quanto produzir com base em quanto ele espera vender. É correto o que se afirma em: a) I e II. b) I e III. c) II. d) III e II. e) III, II e I. 2. Sobre as ideias de Keynes relacionadas ao mercado de trabalho, avalie as alternativas abaixo em verdadeiro (V) ou falso (F). a) O volume de emprego será determinado no ponto de
  • 60. Macroeconomia Keynesiana U2 58 demanda efetiva. b) Os salários reais são os que importam para os trabalhadores, pois é sobre estes que eles podem ter controle. c) Reduções salariais poderiam aumentar o desemprego, pois geraria uma redução da demanda efetiva, principalmente por bens de consumo, e influenciariam negativamente as decisões empresariais. d) O ponto de demanda efetiva não ocorre necessariamente ao pleno emprego, ou seja, existe desemprego involuntário. e) A curva de oferta agregada Z(N) expressa a renda que o empresário espera receber por oferecer determinado volume de emprego.
  • 61. Macroeconomia Keynesiana U2 59 Seção 2 Modelo keynesiano simples Introdução No modelo keynesiano, a hipótese básica é de que os preços e salários nominais são rígidos, por isso, pode se afirmar que esse modelo reflete o comportamento da economia no curto prazo, portanto, não há pleno emprego, pode ocorrer de capital e trabalho não estarem plenamente empregados. Nas palavras de Mankiw (2004, p. 181), “A rigidez de preços é tida como um importante fator explicativo das flutuações econômicas que observamos de um mês em relação ao outro, ou de um ano ao outro.” Nesta seção entenderemos o modelo keynesiano simples, o que envolve a compreensão do comportamento da oferta agregada de curto prazo, a demanda agregada e o equilíbrio no mercado de bens. 2.1 Modelo keynesiano com consumo No modelo keynesiano, ao contrário do modelo clássico, não há restrições de oferta para o aumento da produção na economia. Como se considera que os recursos não são plenamente empregados, há possibilidade de as empresas aumentarem a quantidade produzida sem pressionar seus custos unitários. Em outras palavras, qualquer nível de demanda pode ser atendido a um nível constante de preços, os empresários têm como ofertar qualquer quantidade ao nível de preços estabelecido, por isso, a quantidade ofertada é a variável de ajuste e os empresários produzirão o necessário para atender a demanda. Isto indica que se esboçarmos no eixo das abscissas o nível de produto e no eixo das ordenadas o preço, a curva de oferta agregada de curto prazo, ou do modelo keynesiano, será horizontal, infinitamente elástica, conforme ilustramos na figura 2.2. Assim, diferentemente do modelo clássico que vimos na unidade 1, a demanda agregada tem total influência sobre o nível de produto, validando o princípio da demanda efetiva (LOPES; VASCONCELLOS, 2008).
  • 62. Macroeconomia Keynesiana U2 60 Figura 2.2 | Curva de oferta agregada keynesiana Fonte: Mankiw (2004, p. 180) Podemos inferir a partir da figura 2.2 que, nos casos de desequilíbrios no mercado de bens, como um excesso de demanda ou de oferta, os preços, que são rígidos, não se ajustarão, a quantidade produzida que aumentará ou reduzirá de acordo com a demanda. Mankiw (2004) afirma que um caso extremo de rigidez de preços seria aquele em que todas as empresas publicassem catálogos de preços e que fosse caro republicá-los, mantendo todos os preços amarrados em um determinado nível. A esse preço, continua o autor, as empresas estão dispostas a vender qualquer quantidade que seus clientes desejarem comprar e contratam apenas o número de trabalhadores necessários para produzir a quantidade demandada. No modelo keynesiano o equilíbrio no mercado de bens e serviços, ou o equilíbrio de curto prazo na economia, ocorre quando a oferta agregada (OA) de bens e serviços é igual à demanda agregada (DA) de bens e serviços. Antes de representarmos esse equilíbrio graficamente, vamos entender o que compõe a demanda agregada. Partindo, hipoteticamente, de uma economia fechada sem governo, o produto real (Y) é composto pelas despesas em consumo (C) e pelos gastos com investimento (I). Na contabilidade nacional esta composição é expressa da seguinte forma: Y= C + l (1)
  • 63. Macroeconomia Keynesiana U2 61 A igualdade expressa na equação 1 acontece porque na contabilidade nacional, para se calcular o valor dos bens e serviços produzidos na economia - de acordo com sua utilização ou destino – são computados o consumo das famílias e a formação de estoques, mais precisamente a variação de estoques. Os estoques são constituídos por mercadorias que representam o consumo futuro, dessa forma, tudo que é produzido num período, mas não é consumido nesse período, significando consumo futuro, é chamado de investimento. Apesar de todos os bens que ensejam consumo futuro serem considerados investimento, é comum separá-los em duas categorias distintas: variação de estoques e formação de capital fixo. A primeira é representada por bens cujo consumo ou absorção futuros irão se dar de uma única vez. A segunda categoria expressa os bens que não desaparecem depois de uma única utilização, e possibilitam a produção ao longo de um determinado período de tempo, como, por exemplo, as máquinas e as estradas de ferro (PAULANI; BRAGA, 2007). Lopes e Vasconcellos (2008) argumentam que o comportamento dos estoques não segue necessariamente os planos dos empresários, pois pode ser influenciado por alterações nas condições de mercado. Se a quantidade produzida exceder a demandada, ocorrerá um aumento nos estoques das empresas, pois não terão como vender a quantidade excedente. Então, os empresários terão que acumular estoques, mesmo sem o terem planejado. De forma similar, se a demanda exceder a oferta, as empresas venderão os produtos em estoque para atender o aumento da demanda, mesmo que esta estratégia não esteja em seus planos iniciais. De forma um pouco diferente às definições de Paulani e Braga (2007), esses autores nomeiam as duas categorias do investimento em investimento planejado ou voluntário, representado pelas aquisições de bens de capital pelas empresas e à variação pretendida no nível de estoques, e em investimento involuntário ou não planejado em estoques, ou seja, as variações no nível de estoque devido a erros na A Contabilidade nacional, ou contabilidade social, congrega instrumentos de mensuração capazes de aferir o movimento da economia de um país num determinado período de tempo: o quanto se produziu, consumiu, investiu, vendeu para o exterior e comprou do exterior. Você pode rever e/ou aprofundar seus conhecimentos nesta área, consultando o livro “A nova contabilidade social: uma introdução à macroeconomia” de Paulani e Braga (2007).
  • 64. Macroeconomia Keynesiana U2 62 previsão do nível de produção realizados pelas empresas. Na verdade, a decomposição do investimento nas duas categorias, conforme foi dito, é a forma normalmente apresentada nos livros-textos. Dadas as categorias de investimentos, temos então o conceito de despesa planejada ou demanda agregada planejada, que corresponde ao total que as empresas e famílias desejam gastar na compra de bens e serviços. Sendo que, a despesa efetiva ou observada, aquela que se realiza, pode ser maior ou menor do que a planejada, quando isto acontece significa que houve alterações inesperadas no nível de estoques das empresas, que venderam menos ou mais do que o planejado. Para esclarecermos melhor estes conceitos, temos que a demanda agregada efetiva ou observada, que é aquela cujo resultado é divulgado pela contabilidade nacional, inclui o consumo e as duas partes do investimento, ou seja, o voluntário (os bens de capital) e o involuntário (a variação de estoques), pois conforme discutido anteriormente, a contabilidade nacional considera ambos em suas apurações. Desta forma, produto da economia corresponderá à demanda agregada efetiva. A demanda agregada planejada, ou despesa planejada, por sua vez, inclui o consumo e a parte planejada do investimento. A economia estará em equilíbrio quando a demanda agregada efetiva for igual à demanda agregada planejada, isto é, quando o investimento involuntário for nulo. Antes de vermos isso graficamente, veremos primeiramente como se determina a renda de equilíbrio. Para isto vamos supor que o consumo seja o único componente da demanda agregada planejada, conforme expressão 2 abaixo. Y = C Vimos no início desta seção que o consumo aumenta à medida que a renda aumenta, mas em menor proporção. Assim, a função consumo pode ser representada conforme a equação 3. C = C (Y) O consumo, portanto, pode ser dividido em dois componentes. O consumo autônomo (C0), aquele que se realiza no curto prazo mesmo que os indivíduos não tenham renda, por exemplo, o consumo de subsistência; e a propensão marginal a consumir (PMC) ou (c), que é a proporção de uma variação na renda que é gasta em consumo, o quanto o consumo cresce a partir de aumentos na renda. Por exemplo, supondo uma propensão marginal a poupar de 0,7, significa que para um dado aumento da renda de $ 6 bilhões a coletividade tende a consumir $ 4,2 bilhões. A propensão marginal a poupar é calculada da seguinte forma: (2) (3)
  • 65. Macroeconomia Keynesiana U2 63 Sabemos que em equilíbrio o produto é igual à demanda agregada planejada (OA = DA), a qual é igual ao consumo (DA = C= C0 + cY), pois, estamos supondo, de momento, que este é seu único componente. Dadas estas condições e que a oferta agregada é igual ao produto real da economia (OA = Y), substituindo as respectivas expressões de OA e DA na condição de equilíbrio, conforme demonstrado abaixo, podemos obter a renda de equilíbrio (YE ), resolvendo a equação para esta variável (LOPES; VASCONCELLOS, 2008). Y = C0 + cY Y - cY + C0 YE = 1 (1-C) . C0 Precisamos obter agora a função poupança. Sabemos que a poupança é a parte da renda não consumida, assim temos: S = Y - C S = Y - (C0 + cY) S = - C0 + (1 - c) Y PMC = ∆C ∆Y Como Keynes (1996) define a propensão a consumir? Propensão a consumir: são as características psicológicas da comunidade e são de tal forma que quando a renda agregada aumenta, o consumo agregado também aumenta, mas não tanto quanto a renda. Em outras palavras, a propensão a consumir expressa a variação positiva no consumo em virtude de um aumento na renda. Essa resposta pode ser influenciada por fatores como a distribuição de renda, variações na política fiscal, precaução, orgulho e avareza. Lembrando que a propensão a consumir será positiva, mas menor do que a unidade, pois a coletividade não consome toda a renda que recebe. (4) (5) (6)
  • 66. Macroeconomia Keynesiana U2 64 Perceba que a função poupança é o complemento da função consumo, assim, o intercepto é o consumo autônomo com sinal negativo. A poupança aumenta conforme a renda aumenta, assim como o consumo, mas em menor magnitude. O termo (1-c) representa a propensão marginal a poupar (PMP), isto é, a fração da variação da renda que é poupada, é calculada por meio da variação na poupança dividida pela variação na renda (LOPES; VASCONCELLOS, 2008; PARKIN, 2010). PMP = ∆S ∆Y As funções consumo e poupança podem ser representadas graficamente. A figura 2.3(a) ilustra a primeira relação. No eixo da abscissa temos o produto ou a renda (Y) e na ordenada a demanda agregada, observe que conforme a renda aumenta o consumo também aumenta e que há consumo mesmo quando a renda é nula, o que representa o consumo autônomo (C0 ). A propensão marginal a consumir é a inclinação da função consumo. Esta figura também contém uma linha de 45º, que divide o quadrante em duas partes iguais, em qualquer ponto sobre esta reta o gasto em consumo é igual à renda. Observando a figura 2.3(a), do lado esquerdo da reta, entre os pontos A e B da função consumo, o gasto em consumo excede à renda, do lado direito, entre o pontos B e C, o gasto em consumo é inferior à renda. O ponto B representa o equilíbrio, onde a função consumo é igual à renda, ou seja, onde a função consumo intercepta a reta de 45º. (7) Como você diferencia a demanda agregada planejada e a demanda agregada efetiva? O investimento involuntário está de alguma forma, associado a estes conceitos?
  • 67. Macroeconomia Keynesiana U2 65 No painel (b) da figura 2.3 é ilustrada a função poupança, sua inclinação representa a propensão marginal a poupar. Observe que quando o consumo excede a renda no painel (a), a poupança é negativa no painel (b), o que é chamado de despoupança. Quando a função consumo está abaixo da linha de 45º a poupança é positiva. No ponto de equilíbrio, onde a função consumo intercepta a reta de 45º, toda a renda é gasta em consumo, então, a poupança é zero. Figura 2.3 | Funções consumo e poupança e equilíbrio Fonte: Adaptado de: Parkin (2010. p. 267)
  • 68. Macroeconomia Keynesiana U2 66 Questão comentada Vamos fixar um pouco mais o conceito de propensão marginal a poupar por meio de uma questão comentada. 1. Avalie a afirmativa a seguir em verdadeira ou falsa. Segundo a teoria keynesiana, variações absolutas no consumo são menores do que variações absolutas na renda porque a propensão marginal é menor do que a propensão média a consumir (ANPEC, 2003). Resposta: esta afirmativa é falsa. Na teoria keynesiana variações absolutas no consumo são menores do que variações absolutas na renda porque a propensão marginal a consumir é positiva, mas inferior à unidade, pois se considera que os indivíduos não gastam toda a renda que ganham. 1. Considerando as fórmulas de cálculo da propensão marginal a consumir e da propensão marginal a poupar, com as informações abaixo encontre os valores das variáveis e explique seus conceitos. a) Quando a renda aumenta em $1,5 trilhão o consumo aumenta em $1 trilhão. b) Quando a renda aumenta em $1,5 trilhão, a poupança aumenta em $0,5 trilhão. 2. Explique o comportamento da curva de oferta agregada no curto prazo e a influência da demanda agregada sobre o nível de produto e de emprego da economia.
  • 69. Macroeconomia Keynesiana U2 67 Seção 3 Os componentes da demanda agregada Introdução Nesta seção incluiremos na análise os outros componentes da demanda agregada, quais sejam: o investimento, os gastos públicos e o setor externo. O que mudará no modelo com a introdução dessas variáveis? Entenderemos esse e outros aspectos, por exemplo, a dinâmica de ajustamento da economia quando a demanda agregada é diferente da efetiva. Qual variável cumprirá o papel de ajuste? 3.1 Modelo keynesiano com consumo e investimento Nesta versão do modelo keynesiano introduziremos o investimento e vamos considerá-lo como sendo fixo ( ), isto é, autônomo ou independente da renda. Na seção anterior a demanda agregada era composta apenas pelo consumo, agora será composta por este e pelo investimento autônomo, de forma que a renda também será expressa através da soma dessas variáveis, conforme abaixo. DA = C + I0 Y = C = l Substituindo na expressão (8) o consumo por sua função e o investimento por I0 podemos derivar a renda de equilíbrio. Y = C0 + cY + I0 YE = 1 1-c (C0 + I0 ) (8) (9)
  • 70. Macroeconomia Keynesiana U2 68 O que você acha, a inclusão do investimento provocará alguma mudança na representação gráfica do ponto de equilíbrio? Vejamos o que acontece analisando a figura 2.4. Analisando a figura 2.4 observe que são ilustradas duas formas de se verificar o equilíbrio no modelo keynesiano simples. O investimento autônomo é representado, no painel b, por uma reta, pois é constante. Sua inclusão provoca um deslocamento na demanda agregada paralelamente para cima em magnitude igual ao valor do investimento. Uma diferença importante com relação à figura 2.3 é que a condição de equilíbrio, antes Y = DA, agora se dá em S = I, ponto em que a função poupança intercepta a função investimento e onde se determina a renda de equilíbrio. Essa forma de determinar o equilíbrio macroeconômico é chamada Figura 2.4 | Modelo keynesiano com investimento: equilíbrio Fonte: Adaptado de: Mankiw e Parkin (2010, p. 267) e Lopes e Vasconcellos (2008, p. 147)