Teorias da Cultura e do Contemporâneo Prof. Dr. Fábio Fonseca de Castro Faculdade de Comunicação - UFPA Roteiro das Aulas 16 e 17 Introdução às Teorias da Pós-Modernidade 29 de maio de 2011
  O que, na modernidade, era angústia, individualidade e exclusão - geradas no contexto de um fascínio produzido pelo progresso - torna-se, na pós-modernidade, perplexidade.
  De acordo com Boaventura de Souza Santos, vivemos uma condição de perplexidade diante de inúmeros dilemas nos mais diversos campos do saber e do viver:  o mundo se transforma em seus fundamentos, revendo tudo aquilo que fora colocado modernamente.
Senão, vejamos:  na economia,  ressaltam-se os fracassos modernos essenciais: a incapacidade do progresso – palavra moderna por excelência – em promover uma prosperidade geral, em organizar-se do modo a evitar a catástrofe ambiental e em diminuir as desigualdades. Como resultado desse fracasso, o econômico passa a ser desvalorizado face ao cultural e ao simbólico. Passa-se a substituir as macro-visões pelas micro-soluções e pelas experiências locais.
- na política,  demonstra-se a corrosão do papel do Estado como elemento fundamental do processo internacional, tal como proposto pela modernidade, sempre excessivamente crente das identidades nacionais e sociais. Em resultado, intensificam-se os fluxos migratórios, as redes de informação, as uniões aduaneiras, a globalização econômica. Para melhor gerir a esfera pública surgem as organizações não-governamentais. Desordenam-se as utopias e o senso de história.
  - na organização social,  as identidades transliteram-se, desterritorializam-se. Estabelece-se uma situação de interdependência internacional que tem o efeito de gerar grupos e indivíduos “translocalizados” – ou seja, sujeitos pertencentes a múltiplas identidades em simultâneo, estejam elas no plano das regiões e nacionalidades ou no plano dos hábitos de consumo. Rompe-se a crença numa história linear, num fluxo progressivo dos fatos, o que faz com que as subjetividades, bem como as relações sociais, passem a se formar por meio de uma perspectiva não mais linear, mas processual, atendendo às demandas do instante presente.
Três metodologias  de investigação, a partir desses princípios, conduzem a pesquisa pós-moderna:  a desconstrução, a interpretação e a mistificação.
A Desconstrução,  elaborada por Jacques Derrida, pretende ser uma indagação anti-objetivista do objeto estudado. Ela parte de uma espécie de desmistificação desse objeto, de maneira a romper os vínculos que ele pressupõe - na soma das leituras anteriormente produzidas sobre ele - com uma coerência exterior e metafísica: uma lógica que lhe seria exterior. Em seguida, a descontrução procura demonstrar as hierarquias internas presentes no texto e como essas hierarquias estabelecem pressupostos, inclusive de leitura. Numa terceira operação, a desconstrução procura revelar as " margens" do texto, ou seja, tudo aquilo que não é dito no texto mas que esta nele presente, gerando, se se desejar vê-las, incongruências.
A interpretação intuitiva é, por sua vez, uma interpretação introspectiva, algumas vezes fechada, a respeito de determinado objeto. Ela tende a rejeitar a indagação empírica, funcionando como um complemento da investigação os como o lançamento de pressupostos. Constitui, assim, um texto livre, algumas grandemente divagativo, no qual se fundem a consciência individual do sujeito investigador com a consciência social do objeto investigado. Foucault já dizia que tudo é interpretação. Ou seja, que a interpretação constitui uma estratégia essencial de conhecimento do mundo, sendo que, na visão pós-moderna, nenhuma interpretação seria "superior" a outra, o que institui o principio do paralelismo entre as interpretações. Parte-se do principio ético e estratégico geral de que o pesquisador deve considerar a influência da sua própria cultura na interpretação que produz sobre a cultura que encontra.
A desmistificação ,  enfim, seria uma focalização, um desvelamento, das motivações epistemologicas e ideologicas presentes em todo texto social. Acredita a teoria pós-moderna que a Modernidade impõe esse vinculo a todas as idéias, a todos esquemas, a todas as interpretações do mundo. Pela desmistificação, procura-se denunciar as "amarras" da Modernidade, procura-se denunciar a imposição dessas "amarras" como uma estratégia de mistificação cultural entre o individuo e o mundo.
  Esses três métodos apresentam grandes semelhanças entre si e, portanto, dispositivos operacionais comuns.  Dentre esses dispositivos, três destacam-se, assinalando posturas gerais adotadas por toda a reflexão pós-moderna:
Relativismo O principio do relativismo corresponde ao ponto ético central da teoria pós-moderna: a exigência do respeito absoluto para com todas os indivíduos, culturas, etnias, sociedades. Essa demanda pelo relativismo esta presente na essência da anti-modernidade que conforma a Pós-modernidade, ou seja, no desejo de rompimento com a normatividade logocênctrica e etnocêntrica da Modernidade.
Imanência A valorização da imanência corresponde à critica, elaborada pela Pós-modernidade, aos fundamentos "transcendentes" da Modernidade - ou seja, à fundamentação metafisica que coloca a historia como uma conseqüência da razão ou da falta de razão. A imanência dialoga com o principio da realidade e, por extensão, ou por corruptela, com o realismo. Lembremos que realismo é um doutrina filosofica baseada na suposição de que os fatos naturais e sociais têm uma exuistência objetiva. De acordo com Gellner, realismo "é a doutrina platônica que diz que o universal e o abstrato têm uma existência independente da mente humana"
Auto-reflexividade Trata-se de uma valorização da dimensão subjetiva do pesquisador a partir da admissão do principio da parcialidade no desenvolvimento metodológico de uma questão e/ou na pesquisa empírica realizada. A auto-reflexividade leva a uma conscientização, do pesquisador, a respeito do processo de produção do conhecimento. A Pós-modernidade valoriza essa pratica norteada pela critica à "ilusão de objetividade" que a orienta em seus princípios fundamentais.

TeCon Aulas 17 e 18

  • 1.
    Teorias da Culturae do Contemporâneo Prof. Dr. Fábio Fonseca de Castro Faculdade de Comunicação - UFPA Roteiro das Aulas 16 e 17 Introdução às Teorias da Pós-Modernidade 29 de maio de 2011
  • 2.
    Oque, na modernidade, era angústia, individualidade e exclusão - geradas no contexto de um fascínio produzido pelo progresso - torna-se, na pós-modernidade, perplexidade.
  • 3.
    Deacordo com Boaventura de Souza Santos, vivemos uma condição de perplexidade diante de inúmeros dilemas nos mais diversos campos do saber e do viver: o mundo se transforma em seus fundamentos, revendo tudo aquilo que fora colocado modernamente.
  • 4.
    Senão, vejamos: na economia, ressaltam-se os fracassos modernos essenciais: a incapacidade do progresso – palavra moderna por excelência – em promover uma prosperidade geral, em organizar-se do modo a evitar a catástrofe ambiental e em diminuir as desigualdades. Como resultado desse fracasso, o econômico passa a ser desvalorizado face ao cultural e ao simbólico. Passa-se a substituir as macro-visões pelas micro-soluções e pelas experiências locais.
  • 5.
    - na política, demonstra-se a corrosão do papel do Estado como elemento fundamental do processo internacional, tal como proposto pela modernidade, sempre excessivamente crente das identidades nacionais e sociais. Em resultado, intensificam-se os fluxos migratórios, as redes de informação, as uniões aduaneiras, a globalização econômica. Para melhor gerir a esfera pública surgem as organizações não-governamentais. Desordenam-se as utopias e o senso de história.
  • 6.
    -na organização social, as identidades transliteram-se, desterritorializam-se. Estabelece-se uma situação de interdependência internacional que tem o efeito de gerar grupos e indivíduos “translocalizados” – ou seja, sujeitos pertencentes a múltiplas identidades em simultâneo, estejam elas no plano das regiões e nacionalidades ou no plano dos hábitos de consumo. Rompe-se a crença numa história linear, num fluxo progressivo dos fatos, o que faz com que as subjetividades, bem como as relações sociais, passem a se formar por meio de uma perspectiva não mais linear, mas processual, atendendo às demandas do instante presente.
  • 7.
    Três metodologias de investigação, a partir desses princípios, conduzem a pesquisa pós-moderna: a desconstrução, a interpretação e a mistificação.
  • 8.
    A Desconstrução, elaborada por Jacques Derrida, pretende ser uma indagação anti-objetivista do objeto estudado. Ela parte de uma espécie de desmistificação desse objeto, de maneira a romper os vínculos que ele pressupõe - na soma das leituras anteriormente produzidas sobre ele - com uma coerência exterior e metafísica: uma lógica que lhe seria exterior. Em seguida, a descontrução procura demonstrar as hierarquias internas presentes no texto e como essas hierarquias estabelecem pressupostos, inclusive de leitura. Numa terceira operação, a desconstrução procura revelar as " margens" do texto, ou seja, tudo aquilo que não é dito no texto mas que esta nele presente, gerando, se se desejar vê-las, incongruências.
  • 9.
    A interpretação intuitivaé, por sua vez, uma interpretação introspectiva, algumas vezes fechada, a respeito de determinado objeto. Ela tende a rejeitar a indagação empírica, funcionando como um complemento da investigação os como o lançamento de pressupostos. Constitui, assim, um texto livre, algumas grandemente divagativo, no qual se fundem a consciência individual do sujeito investigador com a consciência social do objeto investigado. Foucault já dizia que tudo é interpretação. Ou seja, que a interpretação constitui uma estratégia essencial de conhecimento do mundo, sendo que, na visão pós-moderna, nenhuma interpretação seria "superior" a outra, o que institui o principio do paralelismo entre as interpretações. Parte-se do principio ético e estratégico geral de que o pesquisador deve considerar a influência da sua própria cultura na interpretação que produz sobre a cultura que encontra.
  • 10.
    A desmistificação , enfim, seria uma focalização, um desvelamento, das motivações epistemologicas e ideologicas presentes em todo texto social. Acredita a teoria pós-moderna que a Modernidade impõe esse vinculo a todas as idéias, a todos esquemas, a todas as interpretações do mundo. Pela desmistificação, procura-se denunciar as "amarras" da Modernidade, procura-se denunciar a imposição dessas "amarras" como uma estratégia de mistificação cultural entre o individuo e o mundo.
  • 11.
      Esses trêsmétodos apresentam grandes semelhanças entre si e, portanto, dispositivos operacionais comuns. Dentre esses dispositivos, três destacam-se, assinalando posturas gerais adotadas por toda a reflexão pós-moderna:
  • 12.
    Relativismo O principiodo relativismo corresponde ao ponto ético central da teoria pós-moderna: a exigência do respeito absoluto para com todas os indivíduos, culturas, etnias, sociedades. Essa demanda pelo relativismo esta presente na essência da anti-modernidade que conforma a Pós-modernidade, ou seja, no desejo de rompimento com a normatividade logocênctrica e etnocêntrica da Modernidade.
  • 13.
    Imanência A valorizaçãoda imanência corresponde à critica, elaborada pela Pós-modernidade, aos fundamentos "transcendentes" da Modernidade - ou seja, à fundamentação metafisica que coloca a historia como uma conseqüência da razão ou da falta de razão. A imanência dialoga com o principio da realidade e, por extensão, ou por corruptela, com o realismo. Lembremos que realismo é um doutrina filosofica baseada na suposição de que os fatos naturais e sociais têm uma exuistência objetiva. De acordo com Gellner, realismo "é a doutrina platônica que diz que o universal e o abstrato têm uma existência independente da mente humana"
  • 14.
    Auto-reflexividade Trata-se deuma valorização da dimensão subjetiva do pesquisador a partir da admissão do principio da parcialidade no desenvolvimento metodológico de uma questão e/ou na pesquisa empírica realizada. A auto-reflexividade leva a uma conscientização, do pesquisador, a respeito do processo de produção do conhecimento. A Pós-modernidade valoriza essa pratica norteada pela critica à "ilusão de objetividade" que a orienta em seus princípios fundamentais.