SlideShare uma empresa Scribd logo
VOLTA POR CIMA
Um passo à frente
Adote medidas
para proteger
as crianças nos
ambientes
religiosos
Nova oportunidade
Agressores podem ser reintegrados
à sociedade com menor risco de
cometer o mesmo crime
Embora deixe marcas profundas, é possível superar
o trauma causado pelo abuso sexual infantil
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POR MARLI PEYERL
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Projeto
Designe
Foto de
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2 ED
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Sa
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GRITOS SILENCIOSOS
E
scuto com frequência os relatos de
pessoas que, durante a infância,
sofreram algum tipo de abuso,
seja na escola, igreja ou dentro do
próprio círculo familiar, ambien-
tes em que as crianças e adolescentes
deveriam estar protegidos. Os índices
relacionados a esse tipo de violência
têm aumentado de maneira assusta-
dora, e não podemos ficar indiferentes
a eles. Segundo uma pesquisa divul-
gada pelo Fundo das Nações Unidas
para a Infância (Unicef) em novembro
de 2017, 15 milhões de garotas de 15 a
19 anos haviam sido forçadas a fazer
sexo, sendo que 60% delas tinham
passado por isso no ano anterior à
pesquisa.
Quando nos deparamos com esse
quadro, o grande drama é saber que
por trás desses números encontram-
se vítimas indefesas que estão sendo
O ASSUNTO É
SENSÍVEL, MAS
PRECISA SER
DEBATIDO, POIS
É URGENTE
marcadas por dor e sofrimento, e colhendo
inúmeros problemas, como baixa auto-
estima, depressão, ansiedade, pânico e iso-
lamento social.
Para que esses índices diminuam e os
direitos das crianças e adolescentes sejam
garantidos, é preciso educar a população. E
isso poderá ocorrer se famílias e instituições
religiosas, educacionais e sociais se unirem
com o objetivo de instruir as novas gera-
ções a se protegerem e mostrar onde buscar
ajuda. Esse apoio pode ser oferecido, por
exemplo, por meio da realização de pales-
tras e debates sobre a temática, além da
distribuição de revistas como esta.
Com o objetivo de descobrir se as crian-
ças e adolescentes se tornaram vítimas,
é necessário observar mudanças de com-
portamento e verificar se eles apresentam
algum atraso no desenvolvimento físico,
emocional ou intelectual. O pedido de
ajuda deles pode vir também por meio
de um familiar, colega ou mesmo professor.
Acima de tudo, é preciso estar atento, pois
os agressores costumam ser pessoas conhe-
cidas da vítima e, muitas vezes, pertencer
ao núcleo familiar. Tudo isso aumenta o
drama da pessoa violentada, pois ela sofre
sem saber onde pedir ajuda. Ela tem medo
de as consequências de sua história se tor-
narem conhecidas.
Diante desse cenário, o projeto Que-
brando o Silêncio não poderia deixar de
debater sobre um assunto tão sensível, mas
urgente. Por isso, preparamos uma edição
especial para não apenas falar do problema,
mas principalmente apresentar ações de pre-
venção, evitar o aumento do número de víti-
mas e dar acolhimento
a fim de prestar suporte
àqueles que carregam
feridas ainda não cica-
trizadas.
MARLIPEYERLéeducadoraecoorde-
nadora da campanha Quebrando o
SilêncionaAméricadoSul
EDITORIAL
14 A
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Edição Especial • 2019
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2 EDITORIAL
4 ENTREVISTA
Advogada explica como denunciar
casos de violência contra crianças
SUMÁRIO
6 ATIVE SEU SISTEMA DE ALARME
Saiba como identificar
o abuso infantil
20 QUADRO SOMBRIO
Como as escolas
devem lidar com
a violência sexual
quando ela bate à
porta
hendo
auto-
e iso-
e os
sejam
ão. E
uições
nirem
gera-
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e pre-
e víti-
8 RESGATE DE SI MESMO
O psicólogo que superou um trauma
de violência na infância e hoje ajuda
outras vítimas
24 A HISTÓRIA QUE
NINGUÉM CONTA
O que pode ser
feito para recuperar
agressores e evitar a
reincidência?
14 ALÍVIO PARA
A DOR
O trabalho
de ONGs que
restauram
histórias
de vida
16 O MAL QUE RONDA
O SAGRADO
Abusos também
ocorrem em
ambientes
religiosos
23 FELIZES PARA SEMPRE?
Livro ajuda famílias
em crise a restaurar o
casamento
quando ela bate à
23
Tiragem: 1,06 milhão 18094/39305
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ENTREVISTA
FERNANDA BEATRIZ
PROTEÇÃO COMEÇA EM CASA
O
lar deveria ser um local de
referência em segurança
e cuidado para crianças e
adolescentes. Porém, nos casos
de violência sexual é geralmente
na privacidade do ambiente doméstico
que ocorre o abuso.
Um balanço realizado a partir
de ligações efetuadas em 2017 para
o Disque 100, serviço brasileiro de
recebimento de denúncias, constatou
que 62% dos atos de violência
contra menores foram praticados por
familiares, na residência da vítima ou
na dos acusados.
Em outros países sul-americanos,
a situação se repete. Na Argentina,
por exemplo, dados do governo
coletados em 2016 revelaram que
75% dos abusos sexuais contra
crianças e adolescentes foram
cometidos por um familiar.
A MAIORIA
DOS CASOS DE
VIOLÊNCIA
SEXUAL
ACONTECE
NO AMBIENTE
FAMILIAR.
REPRESENTANTE
DO UNICEF
NO NORTE
DO BRASIL
EXPLICA COMO
DENUNCIAR O
ABUSO
Diante desse cenário, a advogada Luíza
Teixeira, chefe do escritório do Fundo das
Nações Unidas para a Infância (Unicef)
na cidade de Manaus, no Norte do Brasil,
explica como esse tipo de violência pode
ser denunciado.
O que caracteriza o abuso sexual
infantil?
É a violência sexual em que menores
são usados para estimular ou satisfazer
sexualmente um adulto, com ou sem o uso
de violência, e com ou sem contato físico.
Diferentemente da exploração sexual,
o abuso sexual não tem gratificação
(monetária ou não) do abusador para a
vítima. Contudo, esse crime configura
uma grave invasão à sexualidade e à
integridade física e mental da criança
ou adolescente, violando assim o direito
deles a um sadio desenvolvimento físico,
mental, moral, espiritual e social.
Exi
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Foto:Divulgação|UNICEFBrasil
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E o que pode ser feito quanto à
prevenção?
É preciso divulgar informações
qualificadas sobre o abuso sexual contra
meninas e meninos, a fim de educar e
sensibilizar a sociedade sobre a necessidade
de combater esse crime. Além disso, é
necessário trabalhar pela mobilização de
diversos setores do governo e sociedade a fim
de que os direitos das crianças e adolescentes
sejam garantidos e protegidos de qualquer
violação. E, ainda, é preciso fortalecer o
sistema de responsabilização para combater
a impunidade e garantir o atendimento
adequado às vítimas. No entanto, para que a
prevenção seja bem-sucedida, é fundamental
que os menores participem de todas as
etapas do processo, para que conheçam seus
direitos e possam reivindicá-los.
Quais autoridades devem ser
informadas quando o abuso ocorrer?
As entidades de proteção à criança
ou a polícia devem ser imediatamente
informadas. São elas que darão
o encaminhamento para efetivar
a denúncia. Vale lembrar que
qualquer pessoa que suspeite ou tome
conhecimento de um caso de violência
sexual tem a obrigação de acionar
esses órgãos. Isso vale, inclusive,
para educadores, líderes religiosos,
profissionais de saúde e familiares.
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Existem políticas públicas com o
objetivo de prevenir esse tipo de crime?
O Brasil foi pioneiro ao elaborar um
importante instrumento legal voltado
à garantia dos direitos das crianças e
adolescentes: o Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA), em 1990. É um marco
legal histórico e o ponto de partida para
a promoção, elaboração e execução de
políticas públicas voltadas à prevenção
de crimes como o abuso sexual contra
crianças e adolescentes.
Por sua vez, o Conselho Nacional dos
Direitos da Criança e do Adolescente
(Conanda), criado pela Lei 8.242/1991, é
o principal órgão do sistema de garantia
de direitos previsto pelo ECA. Cabe a
ele aprovar documentos que norteiem
as políticas públicas nessa área, como
o Plano Nacional de Enfrentamento
da Violência Sexual contra Crianças e
Adolescentes, de 2014.
A prevenção é um dos eixos do plano,
que preconiza o envolvimento das
diferentes mídias em campanhas sobre
a temática, o fortalecimento da rede
familiar e comunitária e a inserção das
escolas nessas mobilizações.
O problema parece complexo para se
resolver.
Sim. O abuso sexual tem causas diversas
atribuídas a uma série de fatores sociais,
culturais e econômicos. Por isso, o
combate requer uma resposta abrangente
que leve em conta a complexidade desse
crime.
Para tanto, é preciso ter uma
abordagem que envolva outros órgãos
públicos e atores sociais e que promova
a ideia de que os direitos das crianças
e dos adolescentes devem ter absoluta
prioridade para a família, a sociedade e
o governo. Nesse sentido, a prevenção
requer, primeiramente, a correta
compreensão desse problema, por meio de
diagnósticos, pesquisas e dados.
Foto:Divulgação|UNICEFBrasil
PRINCIPAIS CANAIS DE DENÚNCIA
Brasil: Disque 100 e aplicativo Proteja Brasil
(gratuito, 24 h, todos os dias)
Argentina: 0800-222-1717 (gratuito, 24 h,
todos os dias)
Chile: 800 730 800 (de segunda a sexta-feira,
das 9h às 18h)
Paraguai: telefone (147) e aplicativo Fono
Ayuda (gratuito, 24 h, todos os dias)
Uruguai: Línea Azul 0800 5050 (gratuito)
Bolívia: Línea 156 (gratuito, 24 h, todos os dias)
Peru: Línea 100 (gratuito, 24 h, todos os dias)
Equador: 1800 DELITO (opção 4) ou ECU 911
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Ativeseusistema
dealarme
P
ode ser que a infância, uma das fases
mais belas da vida, esteja sendo roubada
pela violência sexual contra alguma
criança que você conhece. Trata-se de
uma situação complexa de identificar:
há aquelas que falam, demonstram ou ten-
tam dizer, de alguma forma, o que vivenciam.
Outras, no entanto, calam-se diante do medo
das consequências que podem se tornar reais
caso seu sofrimento seja exposto.
O abuso sexual infantil é um fator de risco
que pode levar à depressão, ansiedade, pânico,
isolamento social ou transtorno da personali-
dade. Por isso, é preciso ter um diálogo aberto
com as crianças, manter-se atento a esses sin-
tomas e pronto para agir rapidamente, sempre
com amor e cuidado. Atente para as orienta-
ções a seguir.
PABLO CANALIS
O MEDO PODE LEVAR UMA
CRIANÇA A SOFRER CALADA
DENTRO DE CASA. ENTENDA
COMO IDENTIFICAR SE ELA É
VÍTIMA DE ABUSO SEXUAL
GUIA
PABLO CANALIS é psiquiatra com especialização em Medicina
da Família
2
1
3
Saiba com quem a criança está e o que
fazem enquanto estão juntos
Desconfie se ela repentinamente não quer
estar perto de alguém conhecido
Observe se há uma mudança repentina de
comportamento, sem causa aparente, como
irritação e choro
Ilustrações:PauloVieira
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urinaredefecarnacamaànoite
Nunca desconsidere o que ela compartilha com
você, ainda que por meio de desenhos
Em caso de suspeita, investigue a situação
Marque uma consulta com um psicólogo infantil.
Pode ser que a criança esteja com medo de lhe
contar o que está vivendo
Se o abuso for confirmado, não se desespere.
Com um tratamento adequado, ela tem muitas
chances de superar o trauma
Ame, proteja, escute e se coloque
ao lado da criança
Ilustrações:PauloVieira
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Foto:©KevinCarden|AdobeStock
O ABUSO SEXUAL APRISIONA E AFETA A
AUTOESTIMA E A IDENTIDADE DA VÍTIMA.
CONHEÇA A HISTÓRIA DE UM PSICÓLOGO
QUE SUPEROU ESSE DRAMA E HOJE AJUDA SEUS
PACIENTES A FAZER O MESMO
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Bruna
P
ablo (nome fictício) me olha fixa-
mente e fala com a segurança de
quem conhece o assunto. Poucos
imaginam que por trás de seus olhos
azuis, intensos e inquietos, se esconde
uma história tão terrível. Suas palavras fluem,
cristalinas, rápidas, numa enxurrada de letras
que disputam entre si para serem ouvidas. Há
muito a ser dito.
Quando gesticula, tenta tornar as ideias
mais claras. Mas isso não é necessário. O
relato é real e contundente por si só: “Fui
abusado sexualmente desde os quatro anos
por um amigo da minha família. Na ado-
lescência, outra pessoa fez o mesmo. Minha
vida foi um inferno. Não tinha paz em lugar
nenhum. Na escola, eu sofria bullying de
todos por ter um jeito diferente dos demais
garotos. Apanhava e minhas professoras
nem percebiam. E eu não me defendia”,
desabafa.
Foto:©KevinCarden|AdobeStock
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“Isso é outro dos motivos que geram abuso: você não
se sente digno. E esse sentimento de indignidade o leva a
pensar: ‘Se alguém abusa de mim, e os demais me batem,
é porque eu mereço.’ E isso acaba crescendo: ‘Se alguém
próximo, que supostamente deveria me cuidar, abusou de
mim, então por que um estranho na escola não faria o
mesmo?’ E foi isso que aconteceu comigo. Cresci com uma
autoimagem totalmente distorcida, e também não tinha
clara a minha orientação sexual. Isso era muito notável,
e assim foi até o início da vida adulta.”
Essa é a história de Pablo, um cristão que hoje pode
contar sobre esse capítulo de sua vida com segurança e
paz. Graduado em Psicologia, exerce a profissão há mais
de 20 anos. Hoje, como pai de família ele se sente feliz.
No entanto, seu caminho foi mais longo do que isso.
“Como cristão, eu culpava a Deus por tudo o que acon-
tecia comigo. Estava zangado com Ele. Minha aflição era
tão forte que busquei uma fuga no que, equivocadamente,
achava que me traria paz. Abandonei a fé e me refugiei
no álcool e nas drogas. Comecei a ter um estilo de vida
totalmente livre, inclusive no aspecto sexual”, detalha.
“Isso trouxe consequências. Por exemplo, fui contagiado
com HIV e provoquei um verdadeiro desastre em meu
corpo e minha vida.”
Quando lhe pergunto se essa fuga ajudou a conter sua
dor, ele responde com precisão: “Sim, momentaneamente.
Você curte por um momento, e no outro dia se sente
vazio, sem nada... Com a mesma culpa, com o mesmo
ódio, pois era assim que eu vivia, com ódio de tudo e de
todos: daqueles que abusaram de mim, da vida, de Deus.
No entanto, Ele fez um milagre em mim. Não foi instan-
tâneo, mas gradual.”
Hoje Pablo está convencido de que tudo o que viveu e
suportou pôde ser direcionado para o bem. E reforça que
isso o ajuda no tratamento que oferece a seus pacientes
que foram vítimas de abuso. Sua triste experiência com
esse tipo de violência acabou contribuindo no seu preparo
profissional.
♦ O abuso que você sofreu ocorreu em um ambiente
familiar. Em geral, é nesse contexto que acontece esse
tipo de violência?
♦ Sim, na maioria dos casos. O abusador de menores
age dentro do círculo familiar e raramente é um estra-
nho que passa pela rua. Seja na América Latina ou em
outras partes do mundo, a violência ocorre no ambiente da
criança. O abusador a conhece e a manipula emocionalmente.
No meu caso foi assim. Ele me dava coisas e prometia outras.
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abuso
Foto:©Photographee.eu|AdobeStock
SILÊNCIO QUE MATA
ESTATÍSTICAS PREOCUPANTES
Os números assustam. Cerca de
300milhõesde crianças no
mundo vivem em situação de violência
e 15milhõesde mulheres
entre 15 e 19 anos já foram vítimas de
abuso, segundo dados do relatório “Uma
Situação Habitual: Violência na Vida de
Crianças e Adolescentes”, elaborado pelo
Fundo das Nações Unidas para a Infância
(Unicef), em 2017. Esses números fizeram
com que a questão da violência contra
a criança, incluindo a sexual, entrasse
na nova Agenda Global de Objetivos
de Desenvolvimento Sustentável 2030,
elaborada pela ONU.
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nores
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ou em
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mente.
utras.
É um mecanismo muito perverso, porque o agressor faz
você se sentir especial. Tão especial que faz o que quer
com você. Assim, a vítima chega a pensar: “Sou especial,
porque fui escolhido entre outros.” Isso também faz a
vítima pensar que é cúmplice do abuso, como se tivesse
culpa em ter atraído a atenção para si.
♦ Então há uma inversão de papéis?
♦ Sim, e isso nos atormenta por muito tempo. Além do
ressentimento e da raiva, a culpa é o pior sentimento
que fica após o abuso.
♦ Que consequências psicológicas decorrem de um
abuso? Como isso repercute no êxito ou fracasso na
vida adulta?
♦ As consequências são muitas e terríveis. Não se pode
generalizar porque, como seres humanos, somos dife-
rentes e únicos. Porém, em geral, o abuso pode gerar
baixa autoestima e distúrbios, como depressão e pro-
blemas sexuais. Meninos e meninas também tendem a
reagir de forma distinta. Ao crescer, o caminho mais
próximo para um garoto abusado é a homossexualidade
e o vício em drogas; e para uma garota é a dificuldade
de formar uma união estável ou de não conseguir viver
com prazer sua sexualidade.
♦ O que os pais podem fazer para prevenir o abuso
sexual infantil?
♦ Falando sobre esse problema e a questão da culpa. Eu
também culpei meus pais pelo que aconteceu comigo.
Eles não perceberam o que sofri e isso me marcou. Por
um lado, questiono por que não cuidaram de mim, mas
por outro entendo que dificilmente desconfiariam de
alguém próximo, em quem confiavam.
Por isso, os pais devem criar vínculos com os filhos,
nutrindo um ambiente de confiança, para que eles sem-
pre abram o coração. Muitas vezes, a criança não sabe
o que estão fazendo com ela e pode chegar a contar
isso de forma indireta. Certa vez, tive um caso no con-
sultório em que uma menina dizia: “Meu tio me faz
palavras más.” A professora a corrigiu e lhe disse: “Não
se diz me faz, e sim me diz.” Porém, investigaram e era
como a menina dizia: o tio fazia coisas más com ela.
♦ Se isso ocorre, o que fazer?
♦ Cuidar da vítima é a primeira providência. É neces-
sário levá-la a um centro especializado, ainda que o
abuso não tenha envolvido contato físico. Um adulto,
por exemplo, que sente prazer em ver uma criança
nua também é um abusador, mesmo que não lhe
tenha tocado. Isso não é normal. É perverso sentir
prazer tocando ou vendo o corpo de uma criança.
Depois de cuidar da vítima, os pais precisam denun-
ciar o abusador, por mais difícil que seja acusar um
familiar ou amigo próximo. No entanto, é preciso
enfrentar o problema e afastar o abusador.
♦ Como é possível superar um abuso?
♦ O importante é pensar não apenas a partir de uma
perspectiva psicológica, mas espiritual. Há angústia e
tristeza que contaminam todas as dimensões do ser.
Por isso, se agregarmos o aspecto espiritual, tudo
muda. A saída é espiritual. E por onde passa? Pelo
perdão. Assim é possível viver uma vida cheia de paz.
O perdão é incompreensível e grandioso. Mais do que
uma palavra, é uma atitude; é dar-se conta de quem
é verdadeiramente seu inimigo.
Durante muito tempo, culpei a Deus e Lhe perguntei
onde Ele estava quando tudo isso me acontecia. Para
mim, teve efeito curativo pensar que Deus sofria mais
do que eu. E sofria mais porque Ele podia impedir, mas
o permitia por alguma razão que eu desconhecia. Anos
mais tarde, compreendi que estamos imersos em um
grande conflito cósmico entre o bem e o mal. Quem
me feriu não é mais que um instrumento nas mãos do
diabo. Sei que é difícil entender, mas meu abusador
também necessita de ajuda e pode ser restaurado. Se
Deus me perdoou por tudo o que fiz como pecador,
também pode perdoar meu abusador. E, com a ajuda
divina, eu também posso fazer isso.
Pablo continua me olhando fixamente. Ele se emo-
ciona, chora e sorri, quase tudo ao mesmo tempo. O
caminho percorrido causou-lhe marcas profundas.
Hoje, essas marcas são medalhas de vitórias. Graças
a elas e a Deus, podem resgatar outros desse inespe-
rado e injusto abismo que é o abuso sexual infantil.
Não consigo continuar olhando para ele sem que
uma lágrima caia. Seu relato é comovente. “Se me
perguntar se essa tragédia pode ser superada, eu digo
que sim, pode ser superada.” Seu sim é um sim pleno,
contundente. Parte de quem sabe o que diz.
PABLO ALE é jornalista, pastor e mestre em Literatura. Ele trabalha como
editorderevistasnaAsociaciónCasaEditoraSudamericana,emBuenosAires,
Argentina
Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 11
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Foto:©Samuel|AdobeStock
Foto:©Photographee.eu–Fotolia
REALIDADE
São, sim. Segundo dados da
Organização Mundial da Saúde (OMS),
divulgados em 2016, uma em cada cinco
mulheres e um em cada 13 homens
declararam haver sofrido abuso
sexual na infância.
REALIDADE
O problema atinge todos os estratos
socioculturais. O que ocorre é que os
casos de abuso em classes sociais mais
altas são subnotificados e têm menor
visibilidade na mídia.
REALIDADE
Ao contrário, utilizam
estratégias de persuasão e
manipulação como jogos, mentiras e
ameaças. Essas táticas podem incluir
desde a compra de presentes até
mesmo a organização de
atividades especiais.
REALIDADE
Qualquer pessoa pode ser
um abusador. Tanto homens como
mulheres, heterossexuais ou homossexuais,
pessoas neuróticas, psicóticas ou perversas. Não
existe um perfil de personalidade específico nem testes
que detectem quem agrediu ou tem potencial de abusar
sexualmente de uma criança. Isso dificulta a prevenção,
pois o abusador costuma ser uma pessoa próxima e de
confiança da família, alguém cujo comportamento
social (que se vê) não revela sua conduta
sexual (que não se vê).
REALIDADE
Não está claro se as crianças mentem
mais que os adultos. Ao contrário, as crianças
são mais transparentes e sinceras. Em verdade, elas
aprendem a mentir quando crescem. Por outro lado, as
crianças pequenas não têm maturidade nem habilidades
cognitivas necessárias para inventar e sustentar uma
mentira complexa. Menos ainda poderiam fazê-lo
frente a profissionais de saúde mental treinados
para avaliá-los. No entanto, existe uma
porcentagem de denúncias desse tipo
que são falsas.
REALIDADE
MITO
Os abusos sexuais
contra crianças não
são frequentes.
REALIDADE
Aplicados de forma adequada
para cada idade, os programas
educativos, em vez de deixá-las
com medo, ajudam as crianças a
desenvolver habilidades a fim de
se protegerem dos agressores
de maneira eficaz.
com medo, ajudam as crianças a
desenvolver habilidades a fim de MITO
Crianças muito
pequenas não precisam
saber sobre o abuso sexual
porque teriam medo do
assunto.
REALIDADE
MITO
Os abusos sexuais
ocorrem contra crianças
de famílias socialmente
vulneráveis.
REALIDADE
Ao contrário, utilizam
estratégias de persuasão e
MITO
Os agressores usam
a força física para abusar
sexualmente das
crianças.
REALIDADE
Isso ocorre em uma
proporção muito pequena e nos
casos em que o menor não recebeu
tratamento. Por causa desse mito, muitos
adultos que foram violentados temem falar
da sua experiência, pois imaginam que
possam ser vistos como possíveis
abusadores.
proporção muito pequena e nos
casos em que o menor não recebeu
tratamento. Por causa desse mito, muitos
MITO
As crianças que
sofreram abusos sexuais
se tornam adultos
agressores.
um abusador. Tanto homens como
mulheres, heterossexuais ou homossexuais,
pessoas neuróticas, psicóticas ou perversas. Não
MITO
Os agressores têm um
perfil comportamental
específico, geralmente são
pessoas mais isoladas.
REALIDADE
Não está claro se as crianças mentem
MITO
As crianças
mentem e inventam
quando falam que
foramabusadas.
MITO OU REALIDADE?
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Segredos da Vitória no Amor
ERONILDES DE NICOLAS
Mais do que apenas um livro, esta é uma valiosa orientação psicológica para ajudar
você a alcançar êxito no amor. Para o autor, as pessoas que experimentam a derrota
na vida é porque geralmente estão fracassando também nos relacionamentos.
Elas têm dificuldade para dar e receber afeto. Por isso, é preciso aprender a amar.
E alguns dos segredos estão neste livro.
Amores que Matam
MIGUEL ÁNGEL NÚÑEZ
A violência contra a mulher é um problema que tem atingido praticamente todas
as classes sociais. Não importa se ela é física ou psicológica, os danos são terríveis
e podem se tornar irreversíveis se não forem tratados em tempo. Este livro surge
num momento oportuno, pois aborda questões como a violência doméstica, os
mitos sobre o agressor e a mulher agredida e o papel que a igreja deve assumir
com respeito ao assunto.
MKTCPB|Fotolia
Viva com
amor
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A
infância é uma fase de grandes
descobertas, alegrias e desenvolvi-
mento. Entretanto, tudo isso é rou-
bado quando a violência impera,
aproveitando-se da fragilidade e
inocência das crianças, e levando-as a cole-
cionar amargas memórias.
Por isso, os casos que são denunciados para
as autoridades precisam de intervenção: dos
órgãos públicos competentes e, muitas vezes,
do trabalho complementar das Organizações
Não Governamentais (ONGs) especializadas.
Uma delas é o Centro Regional de Atenção
aos Maus-Tratos na Infância (Crami), loca-
CONHEÇA O TRABALHO DE ONGS
QUE AJUDAM VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA
SEXUAL A SE RECUPERAREM DOS
TRAUMAS DA INFÂNCIA
JÉSSICA GUIDOLIN
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SOCIEDADE
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Alíviopara a dor
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mpera,
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zadas.
enção
loca-
Bolívia, atua em três frentes: eliminar
a violência contra meninos e meninas;
assegurar que estejam matriculados
em uma escola; e garantir que parti-
cipem ativamente da sociedade. Um
de seus projetos está ligado à preven-
ção da gravidez na adolescência. Em
outra região do território peruano, a
ênfase está na prevenção da violên-
cia sexual, por meio de conscientiza-
ção quanto aos riscos para crianças
e adolescentes tanto no mundo real
quanto no virtual.
“Trabalhamos muito com as
famílias e a comunidade. Nosso
objetivo é chegar a eles antes que
o abuso seja cometido. Em nossa
experiência, se os adultos são infor-
mados sobre os riscos de deixar as
crianças sozinhas durante todo o dia
ou de deixá-las ter acesso à inter-
net sem falar dos riscos de alguém
tentar seduzi-las, isso minimiza
os resultados negativos”, assegura
Maria Villalobos, diretora da Save
the Children no Peru.
A maioria dos casos atendidos
pela ONG é de meninas e garotas
adolescentes que não receberam
orientação preventiva a respeito de
abuso sexual na escola, em casa ou
na comunidade. É a partir desse
perfil de vítimas em potencial que
a entidade desenvolve metodologias
de prevenção.
“Independentemente do tipo de
projeto que façamos, queremos
que as crianças tenham protago-
nismo e conheçam seus direitos.
Quando não se sabe quais são seus
direitos, é mais fácil que pisem
em você e o manipulem. Porém,
se você conhece seus direitos, terá
ferramentas para se proteger”,
garante Maria.
JÉSSICA GUIDOLIN é jornalista (com colaboração
do jornalista DeylerVásquez)
ONGS
ÊNCIA
M DOS
NCIA
DOLIN
Foto:©ryanking999|AdobeStock
lizada em Campinas (SP), Brasil, que
atende 270 famílias por ano.
As crianças abusadas sexualmente
recebem o acolhimento de assisten-
tes sociais, psicólogos e educado-
res, que também dão suporte aos
familiares para a restauração dos
vínculos. A duração do tratamento
varia entre um e cinco anos.
Outra entidade que compartilha o
mesmo objetivo é o programa Dedica
(Defesa dos Direitos da Criança e do
Adolescente), localizado em Curitiba,
capital do Paraná, no Sul do Brasil.
Estabelecida em 2004 por uma equipe
voluntária de médicos, hoje a entidade
está ligada à Associação de Amigos do
Hospital de Clínicas da Universidade
Federal do Paraná, oferece atendimen-
tos diários e interdisciplinares para
vítimas de violência grave/gravíssima,
com o apoio de psicólogos, psiquia-
tras, pediatras, assistentes sociais e
outros especialistas.
A médica Luci Pfeiffer, criadora e
coordenadora da iniciativa, explica
que as crianças e adolescentes são
encaminhados ao ambulatório e pas-
sam por uma avaliação, assim como
suas famílias, a fim de diagnosticar o
tipo de violência e o nível de gravidade.
Na sequência, é determinado o tra-
tamento a ser aplicado à vítima e ao
agressor. “Em mais de 80% dos casos
que recebemos aqui, os agressores
foram vítimas de violência gravíssima
em sua infância, e não receberam tra-
tamento adequado. Nossa maior con-
tribuição é impedir que essas crianças
que hoje são vítimas, amanhã sejam
pais agressores também”, sublinha.
Em 2017, mais de 93% dos casos
que passaram pela equipe eram de
violência intrafamiliar, em que a
criança foi refém de seus agresso-
res. “Desse tipo de abuso, atende-
mos desde violência psíquica até a
sexual”, informa a pediatra.
NOVA HISTÓRIA
Contudo, memórias amargas
podem ser substituídas por um ciclo
de recomeço. É o caso de Júlia (nome
fictício), que há alguns anos rece-
beu suporte do Dedica. Entretanto,
seu sofrimento não foi denunciado,
e sim observado até chegar ao tra-
tamento. Na época, a jovem de 25
anos de idade tinha dois filhos – um
de 14 e outro de 12 –, o que revela
que ela engravidou pela primeira vez
aos 11 anos.
Sua história veio à tona porque um
de seus filhos foi internado no Hospi-
tal de Clínicas. Porém, no momento
da alta, Júlia entrou em desespero e
não parava de chorar. A reação dela
chamou a atenção da equipe médica,
que solicitou uma avaliação. Os pro-
fissionais descobriram que desde os
sete anos de idade Júlia era violen-
tada pelo padrasto.
Seu desespero era o pedido de
ajuda de alguém que era escravizada
sexualmente e com o consentimento
da própria mãe. Sem poder frequen-
tar a escola, Júlia não foi alfabetizada
e seus filhos também sofriam vio-
lência psíquica e física. Mesmo sub-
metidos a tamanha crueldade, eles
conseguiram reconstruir a própria
vida com a ajuda da Dedica.
“Esse caso foi muito especial por-
que, desde a primeira conversa que
tivemos, ela entendeu toda a situação,
e a partir daí fez todas as denúncias
que eram possíveis. Foi uma história
muito emocionante para nós. Hoje
ela tem uma vida digna”, pontua a
médica Luci Pfeiffer.
PREVENÇÃO NECESSÁRIA
Por outro lado, há entidades que
investememmedidasparaevitarqueo
abuso aconteça. No Peru, a Save
the Children, organização presente
em mais de 120 países, incluindo a
r
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RELIGIÃO
A violência sexual também
ocorre em ambientes religiosos.
Saiba como as comunidades
de fé podem se envolver na
proteção das crianças
HE R ON S A N TA N A
16 Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O
sagrado
O mal
que ronda o
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Bruna
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bém
osos.
ades
er na
nças
A N A
O mal que os homens praticam sobrevive
a eles. O bem quase sempre é sepultado com
eles.” No texto da peça teatral Júlio César, do
poeta e dramaturgo inglês William Shakes-
peare, a frase acima faz parte do discurso
do imperador Marco Antônio, nas escadarias do Senado
Romano, em frente ao corpo de Júlio César, assassi-
nado a facadas pela conspiração de Brutus e Cassius.
A máxima parece extrapolar a ficção e se personificar
na realidade deste mundo em que a violência e o mal
são expressões de que algo de errado e muito grave está
enraizado na vida humana.
É o caso dos indicadores de violência sexual. Os dados
mostram que as crianças estão no epicentro dessa tor-
menta. Por exemplo, o estudo “Violência contra Crian-
ças e Adolescentes – Percepções Públicas no Brasil”, da
ONG cristã Visão Mundial, em parceria com a empresa
de pesquisa Ipsos, apontou o Brasil como o país mais
violento contra crianças e adolescentes, em comparação
com outras 13 nações da América Latina.
A pesquisa foi realizada em 2017 e ouviu mais de
6 mil pessoas. Abuso físico e psicológico, trabalho
infantil, casamento precoce, ameaça on-line e violência
sexual fazem parte de uma lista trágica que corrompe
a infância nessa região do mundo.
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Quanto à percepção dos entrevistados sobre a vio-
lência, 13% dos brasileiros disseram que enxergam
como alto o risco de uma criança sofrer esses tipos
de abuso no país; índice maior que os 11% dos mexi-
canos e 10% dos peruanos e bolivianos. Um recorte
do estudo também chama a atenção: os ambientes de
risco. De acordo com os entrevistados, o espaço público
(52%) oferece maior risco para crianças e adolescentes,
seguido do lar (21%), da escola (13%) e dos ambientes
religiosos (3%).
PROFANAÇÃO
Merece reflexão esse último dado apontado pelo
estudo latino-americano da Visão Mundial. A explosão
de denúncias na imprensa sobre abusos contra menores,
envolvendo líderes religiosos, indica que os ambientes
de culto também precisam da atenção e vigilância de
seus frequentadores. Quem reforça esse alerta é a advo-
gada Maíra Vida, conselheira da Ordem dos Advoga-
dos do Brasil (OAB), na seccional Bahia. Ela também
é presidente da Comissão de Combate à Intolerância
Religiosa na OAB-BA.
Maíra pontuou que o problema deve ser maior do
que o que se tem conhecimento e lamenta que exis-
tam poucos estudos sobre esse tipo de violência no
contexto religioso. Por sua atuação na OAB-BA, Maíra
tem recebido denúncias de mulheres que sofreram abuso
sexual de babalorixás, pastores e líderes religiosos de con-
fissões diversas. Para ela, o problema da violência sexual
é interconfessional. Porém, Maíra entende que poucas
denúncias envolvendo comunidades religiosas são notifi-
cadas, talvez, por causa do que ela chama de “temor reve-
rencial” (leia o quadro “Proteja as ovelhas dos lobos”).
Sua fala lembra a obra Microfísica do Poder, do
teórico social Michel Foucault, para quem a huma-
nidade se tornou escrava não apenas das instituições
políticas, mas de outras formas de poder, sem que a
maioria das pessoas tenha preparo para o exercício
do poder. Também transita pela teoria apresentada no
livro O Poder Simbólico, do sociólogo Pierre Bourdieu:
se o poder está em toda a parte, quando o assunto é
abuso de poder, é necessário saber descobri-lo onde
ele se deixa ver menos, onde ele é mais completa-
mente ignorado, sendo exercido com a cumplicidade
daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos
ou mesmo que o exercem.
“Em qualquer templo você encontra o irmão. Por-
tanto, cria-se a ideia de que aquele seja um ambiente
familiar, de confiança. Contudo, podemos acabar des-
considerando que as pessoas trazem para o ambiente
religioso as experiências de vida”, reflete Maíra. “Para
mim, parece que há até a negação veemente de que
esse problema possa ocorrer no ambiente religioso,
pois se pressupõe que haja ali a presença de Deus.
Para alguns, é difícil imaginar que nesses espaços
também se cogite o mal e possa haver a manifesta-
ção da crueldade, do ódio e da violência que estão
no indivíduo”, conclui.
HERON SANTANA é jornalista
A religião ajuda ou atrapalha no combate à violência sexual, especialmente contra as mulheres? Por vezes, o discurso e as estruturas das instituições
religiosas são usados para legitimar alguns tipos de violência contra a mulher ou para, no mínimo, favorecer o silenciamento delas. Negar, por exemplo,
que abusos ocorram nos círculos religiosos, não denunciar agressores, culpar as vítimas ou tratar a violência doméstica como um problema privado, no
qual não “se põe a colher”, são posturas que reforçam a cultura da violência.
Por outro lado, uma religiosidade saudável serve de impulso para quebrar o ciclo de violência, desenvolver resiliência e esperança e recuperar a pró-
pria autoestima. Comunidades religiosas podem ser muito importantes também no acolhimento das vítimas, dando a elas um senso de pertencimento.
Um estudo do Instituto de Pesquisas do Senado do Brasil mostrou que, em 2015, 7% das mulheres agredidas entrevistadas buscaram apoio na igreja,
sendo que, em 2017, esse número subiu para 19%. Essa demanda mostra também a necessidade de líderes religiosos serem preparados para atuar como
agentes de prevenção e combate à violência sexual.
Fontes: “Violência doméstica: uma cartilha para mulheres, técnicas e técnicos do poder público e lideranças religiosas” (Umesp, 2018) e pesquisa “Violência
doméstica e familiar contra a mulher” (DataSenado, 2017)
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OPRESSÃO OU LIBERTAÇÃO?
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mento.
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iolência
Líderes e comunidades religiosas podem ajudar a proteger as crianças
ao deixarem a postura meramente reativa para assumirem uma agenda
proativa de prevenção. Nessa direção, o pastor norte-americano Deepak
Reju, doutor em Teologia e líder do ministério de aconselhamento familiar
PROTEJA AS OVELHAS DOS LOBOS
Preparar pessoas para fazer
bem seu trabalho em programas
e ministérios que envolvam crian-
çaséalgomuitoimportante.Precisa
estarclaroparaosnovosvoluntários
eosveteranosoqueseesperadeles.
TREINAR VOLUNTÁRIOS
A maioria dos abusadores pre-
sumequenãoteráqueprestarcon-
tas.Porisso,verificarantecedentes
criminais de novos membros e de
voluntários pode ajudar a intimi-
darquemestivermal-intencionado.
FECHAR O CERCO
Idealmente, a construção do
templo deve valorizar a funciona-
lidade e a segurança de seus usuá-
rios. Portanto, avalie se os espaços
utilizadosparaasatividadesinfantis
não favorecem o isolamento.
ATENTE PARA ESPAÇOS
ISOLADOS
Esse procedimento cria uma
“cerca” ao redor dos pequenos,
permitindo que eles fiquem em
segurança até que sejam devol-
vidos aos pais.
IMPOR UM PROCESSO DE
CHECK-IN E CHECK-OUT DAS
CRIANÇAS
São diretrizes autoimpostas
pela comunidade religiosa que
indicam como ela pretende pro-
teger as crianças que estão sob
seus cuidados. As crenças de que
abusos não ocorrem em ambi-
entes“seguros”,comoosreligiosos,
ou de que todos ali se conhecem,
podem tornar a comunidade mais
vulnerável.
CRIAR E IMPLEMENTAR UMA
POLÍTICA DE PROTEÇÃO
INFANTIL
A comunidade religiosa pre-
cisa discutir previamente como
lidarcomumcasodeabusosexual
infantil, o que envolve oferecer
acolhimento para a vítima e a
família, denunciar e fazer os devi-
dos encaminhamentos em relação
ao agressor e talvez responder aos
questionamentos da imprensa e
vizinhança.
TER UM PLANO DE
RESPOSTA AO ABUSO
Abusadores sexuais podem se
valer do fato de que templos reli-
giosos geralmente são espaços de
livreacesso.Porisso,éimportante
que mesmo aqueles que não são
membros da comunidade rece-
bam alguma espécie de acom-
panhamento, como cadastro no
registro de visitantes ou sejam
visitados no lar.
CONHECER QUEM
FREQUENTA A IGREJA
Proteger as crianças precisa
estar no topo das prioridades da
comunidade. Se isso for levado a
sério, a liderança destinará recur-
sos e voluntários para essa finali-
dade, bem como pensará em pro-
tocolos para cuidar do ministério
infantil.
GARANTIR O APOIO DE
TODOS OS LÍDERES
Os líderes religiosos devem pro-
curarestabelecerumrelacionamento
próximo com profissionais, órgãos
públicos e ONGs que lidam com a
questão na cidade ou bairro. Dessa
maneira, além de um trabalho de
cooperaçãocomessasentidades,caso
essas instituições precisem ser acio-
nadas num eventual abuso infantil,
umcontatodiretopodeserfeito.
CONHECER SUA
COMUNIDADE
Conscientizar os pais sobre a
responsabilidade que eles têm de
mentorearespiritualmenteosfilhos
eprotegê-los.Orientarospaisares-
peito de como falar sobre sexuali-
dade e prevenção, além de estabe-
lecer vínculos significativos com os
filhos,éfundamentalnesseprocesso.
CONSCIENTIZAR E
CAPACITAR OS PAIS
na Igreja Batista de Capitol Hill, em Washington (EUA), apresenta dez suges-
tões com base em seus estudos e experiência. Apesar de essas orientações
virem de um contexto evangélico e norte-americano, sua aplicação pode
ser mais ampla, servindo para outras regiões do mundo e grupos religiosos.
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EDUCAÇÃO
ALEXIS VILLAR
A VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTIL
TAMBÉM BATE À PORTA DAS
ESCOLAS. ENTENDA COMO AS
INSTITUIÇÕES DE ENSINO PODEM
PREVENIR ESSE PROBLEMA E
LIDAR COM ELE
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Há uma voz interior que deseja gritar aos
quatro ventos, porém não pode. Não se
sabe como fazê-lo. Sente vergonha. Sente
culpa. Ninguém a compreende. A vio-
lência sexual infantil é uma epidemia silenciosa,
como todo abuso. Alguém manda, o outro escuta.
Alguém ordena, o outro obedece. Alguém abusa,
o outro é abusado. A história pode ter diferentes
versões. Contudo, as vítimas costumam ser as
mais fracas, como as crianças.
De acordo com a psicóloga Andrea Regalado,
professora da Universidade Adventista del Plata,
na Argentina, “o abuso sexual infantil é o resul-
tado da conjunção de uma série de fatores. Não
há um fator causal único. Por isso, a melhor ferra-
menta é a prevenção. Desde pequeno, respeitando
a maturidade dela, deve-se falar com a criança
sobre sexualidade”.
ATENÇÃO CONSTANTE
O fato é que a violência sexual infantil tam-
bém bate à porta da escola. Ao longo dos vários
anos de jornada acadêmica, é no ambiente esco-
lar que crianças e adolescentes passam uma par-
cela significativa do dia. É nesses espaços, nos
quais circulam centenas e milhares de pessoas
diariamente, que educadores, gestores, pais e
alunos devem estar atentos para possíveis inci-
dências de abuso.
Como em qualquer outra realidade, em casos
de maus-tratos no contexto educacional, a prio-
ridade é a proteção integral da criança. Não
cabe à unidade educacional determinar quem
são os responsáveis pelo abuso, pois essa tarefa
compete aos órgãos públicos. Porém, é respon-
sabilidade da escola identificar a violência e
solicitar a intervenção de equipes profissionais
especializadas no assunto.
Contudo, há diversas maneiras de identificar
uma situação de abuso. Às vezes, é a própria
criança que detalha o ocorrido. Em outros casos,
é necessário estar atento aos sinais de maus-
tratos, como mudanças de comportamento, lesões
e atraso no desenvolvimento físico, emocional ou
intelectual da criança. É preciso observar tam-
bém se a vítima não tem tentado pedir ajuda para
professores e/ou colegas, se tem usado roupas
mais compridas para esconder partes do corpo
ou se os responsáveis legais dela dão indícios de
negligência no cuidado da criança.
O QUE FAZER?
É importante observar o aluno em diferentes
momentos e situações, como em sala de aula, na
prática de esportes e no recreio. Atentar para
sua aparência e fisionomia, bem como para seu
modo de se relacionar com colegas, professores
e familiares. Se o abuso ocorrer na instituição
educacional, é importante ouvir o relato com
atenção, sem interromper nem julgar; regis-
trar as informações para não esquecer os deta-
lhes; se quem relata é a criança, não perguntar
detalhes do abuso, caso ela não compartilhe
mais informações; averiguar o relato e inter-
vir, tomando as medidas cabíveis; e comunicar
o ocorrido para as autoridades e órgãos com-
petentes. Na sequência, é importante prestar
auxílio à família no encaminhamento legal do
caso e direcionar a criança para um atendi-
mento psicológico
Hoje existe a necessidade concreta e inevitável
de se estabelecer um protocolo* a ser seguido
em caso de supostos crimes contra a integridade
sexual e maus tratos de crianças e adolescentes.
Portanto, cada unidade escolar ou a rede da qual
ela faz parte deve elaborar isso, bem como trei-
nar seus funcionários e gestores para que o apli-
quem. O delicado equilíbrio de direitos em jogo
e a relevância do bem jurídico protegido exigem
o maior esforço da instituição para que crimes
dessa natureza sejam definitivamente erradicados
da sociedade.
Para ajudar a diminuir os índices de violência
neste ambiente, o colégio também pode oferecer
palestras e debates regulares sobre o assunto, a
fim de conscientizar e proteger a comunidade
escolar.
*Este artigo foi escrito com base no “Protocolo de Atuação Diante
de Situações de Violência, Maus-Tratos ou Abuso”, da rede educacional
adventista na Argentina
ALEXISVILLAR é jornalista
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tuguê
da gra
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Fe
Livro
GUILO tratamento da depressão é geralmente feito com
medicamentos, mas o doutor Neil Nedley usa uma
nova abordagem. Essas informações certamente
trarão esperança aos que sofrem com esse mal
tão comum. Você vai vibrar com a proposta de
“cura em 20 semanas” que já trouxe alívio a
tantas pessoas. Sem dúvida alguma, você desejará
compartilhar este livro com seus familiares e
amigos que estão querendo descobrir Como
Sair da Depressão.
Sensação de inutilidade. Autoestima baixa. Culpa ilegítima. Incapacidade de perdoar. Am-
argura e ressentimento. Essas batalhas são travadas na mente de milhões de pessoas,
incluindo os cristãos. Elas fazem parte do conflito entre Cristo e Satanás: a disputa pelo
coração e a mente de cada um. A boa notícia é que você pode ser vitorioso nessa
batalha. Equipado com as ferramentas apresentadas neste livro, você pode cooperar
com Deus para alcançar o bem-estar mental e obter vitória espiritual.
PESADO DEMAIS?
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Simples demais
Como sair da depressão
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SUGESTÕES QUE
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Bruna
Em média, 14 anos é o tempo
de duração de um casamento
no Brasil, conforme o Insti-
tuto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE). De cada três
casais que prometem estar juntos na
saúde e na doença, até que a morte
os separe, um acaba se divorciando.
Enquanto alguns casamentos termi-
nam, espalhando feridas emocionais
entre cônjuges e filhos, outros con-
tinuam, como se marido e mulher
insistissem em morar numa área
de risco, prestes a desabar. Diante de
tantos casais infelizes e pessoas
machucadas por relacionamentos
abusivos, existe alguma esperança
para os casamentos, além de um fim
doloroso ou o prolongamento melan-
cólico de um sofrimento suportável?
Embora a vida real não se encaixe
em fórmulas prontas e soluções de
consultório, Willie e Elaine Oliver
acreditam que toda família tem
jeito. Essa é a mensagem principal
que os autores apresentam no livro
Esperança Para a Família, lançado
em 2019 pela Casa Publicadora
Brasileira (CPB), editora da Igreja
Adventista no Brasil. A obra terá
uma tiragem que ultrapassará os
22 milhões de exemplares em por-
tuguês e espanhol, e será distribuí-
da gratuitamente em oito países da
América do Sul.
O otimismo dos autores não é
ingenuidade de um casal imaturo.
Na verdade, é resultado de mais de
30 anos de uma união marcada por
desafios e realizações, entre eles a
educação de dois filhos. Além da
experiência de vida, o casal soma
muitas horas de estudo dedicadas ao
tema. Willie é formado em Teologia,
com mestrado em Aconselhamento
Pastoral e doutorado em Sociolo-
gia da Família. Elaine é educadora
com mestrado na área de Acon-
selhamento Psicológico e cursa o
doutorado em Psicopedagogia. Nos
Estados Unidos, eles apresentam o
programa Real Family Talk, na TV
Hope Channel, e são colunistas da
revista Message.
Com o livro Esperança para a
Família, Willie e Elaine desejam
compartilhar experiências pessoais
e de outros casais que renovaram o
amor e o respeito em meio a situ-
ações difíceis. De acordo com a
Bíblia, as turbulências familiares
acompanham a humanidade desde
que o primeiro casal se desenten-
deu (Gn 3). Porém, assim como
o Criador apontou o caminho da
restauração naquele momento, Ele
continua fazendo isso por meio de
Sua Palavra. Esse é o alicerce em
que os autores sustentam as orien-
tações práticas ao longo do livro.
Um dos pontos que se destacam
é a necessidade de aprimoramento
na comunicação. De acordo com
Willie e Elaine, marido e mulher
precisam superar os padrões rea-
tivos de diálogo para exercer uma
forma de comunicação miseri-
cordiosa. Os autores afirmam que
diante de qualquer ofensa feita
por um dos cônjuges, o outro sem-
pre terá a oportunidade de parar,
pensar e escolher a resposta certa:
“Aquela que acalmará o problema,
em vez de jogar lenha na fogueira”
(p. 51).
Embora a comunicação seja
importante, para se sustentar o casa-
mento é preciso algo mais do que
palavras. Por isso, os autores argu-
mentam que os casais devem ser leais
ao plano divino de construir uma
união exclusiva de respeito e fideli-
dade (p. 31). Willie e Elaine acredi-
tam que, diante das crises na vida
a dois, a solução não é buscar um
novo relacionamento, mas criar
um casamento renovado.
GUILHERME SILVA é editor de livros na CPB
DICA DE LEITURA
Felizes para sempre?
Livro apresenta soluções para famílias em crise
GUILHERME SILVA
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ALÉM DO ENCARCERAMENTO,
QUE MEDIDAS PRECISAM
SER ADOTADAS PARA QUE
O ABUSADOR NÃO VOLTE A
COMETER O MESMO CRIME?
ROSANA ALVES
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A historia oue
ROSTO
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Isso e
abusa
quer
E
ntre tantos aspectos do abuso sexual que
precisam ser cada vez mais esclarecidos,
não há como ignorar a importância de
se falar sobre o abusador, embora haja
quem defenda que não se deve pensar
nele, a não ser em sua punição prevista
em lei. Porém, para encarar a violência, é preciso
buscar respostas para algumas perguntas: qual
é o perfil do abusador? Há tratamento para ele?
Sua vida pode ser restaurada?
n
24 Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O
RECUPERAÇÃO
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e
ROSTO CONHECIDO
Antes de tudo, é preciso conside-
rar que existem, basicamente, dois
tipos de molestadores de crianças
e adolescentes: o preferencial e
o ocasional. O primeiro é aquele que
tem atração por menores de idade,
o que é conhecido como transtorno
de preferência sexual (parafilia), e
pode estar relacionado com proble-
mas psicológicos, questões ambien-
tais, ao fato de a pessoa ter sido
vítima de abuso sexual na infân-
cia, além de imaturidade emocio-
nal e sexual. Por sua vez, o molesta-
dor ocasional é aquele que pratica o
crime porque se aproveita da vulnera-
bilidade da vítima. Infelizmente, tem
crescido o número de adolescentes
que praticam esse abuso.
Quanto ao perfil psicológico,
estudos indicam uma grande multi-
plicidade de características dos
agressores, o que descarta a possi-
bilidade de se criar um estereótipo
para esse tipo de abusador. Ou seja,
imaginar que somente pessoas com
transtorno mental ou “bandidos”
coagem menores para obter favores
sexuais está distante da realidade.
Isso explica por que muitas vezes o
abusador é alguém acima de qual-
quer suspeita, um rosto conhecido
da vítima. O fato de ser alguém
próximo dificulta a denúncia,
prolonga a prática da violência e
agrava as consequências emocio-
nais da vítima.
TRATAMENTO E RECUPERAÇÃO
Quando se trata dos abusadores
preferenciais, aqueles que têm um
transtorno da sexualidade, apenas
a detenção para cumprir pena pelo
delito cometido não é suficiente
para que não se tornem reinciden-
tes. A psicoterapia é indicada para
identificação dos gatilhos (situa-
ções que disparam o comporta-
mento abusivo) e para que inter-
venções sejam feitas com o intuito
de mudança de comportamento.
Dependendo do perfil psicológico
ou da existência de um transtorno
mental, a medicação adequada
também deve ser prescrita.
É comum o abusador preferen-
cial ter uma imagem distorcida
sobre o próprio delito. Às vezes,
ele considera que estava apenas
dando carinho para a criança ou
adolescente ou que sua atitude é
menos grave do que a de outros
abusadores. Por isso, a terapia
em grupo, com histórias diferen-
tes sendo contadas, é uma estra-
tégia que costuma ser eficaz para
confrontar as justificativas dos
molestadores.
Para aqueles que são abusado-
res situacionais, além da deten-
ção, é necessário verificar se o
molestamento aconteceu sob
efeito de drogas ou de forma vio-
lenta. Dessa maneira, as inter-
venções são pensadas com base
nas motivações do crime e na
forma em que ele ocorreu. Nos
Estados Unidos, o programa de
recuperação de infratores do
Havaí é considerado um dos
mais eficientes do país. Uma
das técnicas utilizadas é expor
os abusadores às ligações de víti-
mas de estupro para a polícia. O
objetivo é fazer com que entrem
em contato com o sofrimento de
quem foi violentado.
Outro recurso empregado é
o psicodrama, técnica terapêu-
tica, cuja base é a representação
de papéis. Nessa abordagem,
o abusador assume o lugar da
vítima ou de algum parente dela,
a fim de exercitar empatia por
quem sofreu tamanha violência.
Experiências internacionais indi-
cam que os tratamentos dirigidos
para os infratores podem diminuir
ninguem conta
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significativamente a reincidência. É
o que mostra, por exemplo, o livro
Group Therapy with Sexual Abusers,
de Steven Sawyer e Jerry L. Jennings
(Safer Society Press, 2016). Assim, a
sociedade e o governo precisam rea-
lizar esforço conjunto, não somente
para prevenir o abuso, mas tam-
bém para evitar sua repetição. Além
de denunciar e prender, existe algo
mais a ser feito com o infrator: tentar
recuperá-lo.
PEDOFILIA
Ainda no campo da recuperação
e da busca por ajuda para transtor-
nos sexuais, vale destacar que nem
todo pedófilo é abusador de criança.
Pedofilia tem que ver com a atração
e o desejo pelo contato sexual com
crianças, mas isso nem sempre se
concretiza. Felizmente, a maioria
dos pedófilos mantém o desejo sob
controle, sem contato sexual com
menores. Eles muitas vezes se limi-
tam a consumir pornografia infantil,
o que também é crime.
Muitos dos que sentem desejo
por crianças sofrem por sentir tal
atração ilícita, mas não procuram
ajuda, pois têm medo e vergonha de
ser expostos. A pedofilia é um trans-
torno muitas vezes acompanhado de
outros, como, por exemplo, a depres-
são. Assim, é necessária uma aborda-
gem multidisciplinar para recuperar
esses indivíduos.
Outro fator importante nesse
processo é a participação efetiva
da família no tratamento. Como
os pedófilos costumam se isolar da
convivência com outros adultos, o
envolvimento dos familiares facilita
o desenvolvimento das capacidades
relacionais e serve de “mecanismo
de controle” quanto ao uso de medi-
camentos, consumo de internet e
contato com crianças.
O uso da psicoterapia em grupo
também se mostra muito válido,
pois ajuda os pacientes a se reco-
nhecerem nas histórias uns dos
outros e, juntos, reconstruírem
a própria identidade. Contudo,
infelizmente, centros especializa-
dos no tratamento desse tipo de
transtorno são quase inexistentes.
Resta, portanto, o atendimento
individual.
Por fim, sempre que existir
sofrimento, deve-se pensar em
solução. Se é possível restaurar
a vida do abusador, por que não
fazê-lo? Aliviar a dor, prevenir e
tratar deve ser o objetivo de todos
que procuram ajudar em situações
tão lamentáveis como a de um
abuso sexual infantil. Para tanto,
mais agentes de esperança e res-
tauração podem ser formados se
trabalharmos com informações
confiáveis e com a disposição de
superar preconceitos.
ROSANA ALVES é pós-doutora em Neurociências
pela Escola Paulista de Medicina (Brasil) e pela
Universidade Marshall (EUA). Ela é presidente do
Neurogenesis Institute, sediado na Flórida
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Revista quebrando silencio 2019

  • 1. VOLTA POR CIMA Um passo à frente Adote medidas para proteger as crianças nos ambientes religiosos Nova oportunidade Agressores podem ser reintegrados à sociedade com menor risco de cometer o mesmo crime Embora deixe marcas profundas, é possível superar o trauma causado pelo abuso sexual infantil 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna 39305_QuebrandoSilencio.indd 1 11/02/2019 17:17
  • 2. POR MARLI PEYERL Editores Projeto Designe Foto de Fotos:©NichizhenovaElena|AdobeStock/VictorTrivelato 2 ED 4 EN A ca S 6 AT Sa o GRITOS SILENCIOSOS E scuto com frequência os relatos de pessoas que, durante a infância, sofreram algum tipo de abuso, seja na escola, igreja ou dentro do próprio círculo familiar, ambien- tes em que as crianças e adolescentes deveriam estar protegidos. Os índices relacionados a esse tipo de violência têm aumentado de maneira assusta- dora, e não podemos ficar indiferentes a eles. Segundo uma pesquisa divul- gada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em novembro de 2017, 15 milhões de garotas de 15 a 19 anos haviam sido forçadas a fazer sexo, sendo que 60% delas tinham passado por isso no ano anterior à pesquisa. Quando nos deparamos com esse quadro, o grande drama é saber que por trás desses números encontram- se vítimas indefesas que estão sendo O ASSUNTO É SENSÍVEL, MAS PRECISA SER DEBATIDO, POIS É URGENTE marcadas por dor e sofrimento, e colhendo inúmeros problemas, como baixa auto- estima, depressão, ansiedade, pânico e iso- lamento social. Para que esses índices diminuam e os direitos das crianças e adolescentes sejam garantidos, é preciso educar a população. E isso poderá ocorrer se famílias e instituições religiosas, educacionais e sociais se unirem com o objetivo de instruir as novas gera- ções a se protegerem e mostrar onde buscar ajuda. Esse apoio pode ser oferecido, por exemplo, por meio da realização de pales- tras e debates sobre a temática, além da distribuição de revistas como esta. Com o objetivo de descobrir se as crian- ças e adolescentes se tornaram vítimas, é necessário observar mudanças de com- portamento e verificar se eles apresentam algum atraso no desenvolvimento físico, emocional ou intelectual. O pedido de ajuda deles pode vir também por meio de um familiar, colega ou mesmo professor. Acima de tudo, é preciso estar atento, pois os agressores costumam ser pessoas conhe- cidas da vítima e, muitas vezes, pertencer ao núcleo familiar. Tudo isso aumenta o drama da pessoa violentada, pois ela sofre sem saber onde pedir ajuda. Ela tem medo de as consequências de sua história se tor- narem conhecidas. Diante desse cenário, o projeto Que- brando o Silêncio não poderia deixar de debater sobre um assunto tão sensível, mas urgente. Por isso, preparamos uma edição especial para não apenas falar do problema, mas principalmente apresentar ações de pre- venção, evitar o aumento do número de víti- mas e dar acolhimento a fim de prestar suporte àqueles que carregam feridas ainda não cica- trizadas. MARLIPEYERLéeducadoraecoorde- nadora da campanha Quebrando o SilêncionaAméricadoSul EDITORIAL 14 A A O d r h d 16 O O A o a r Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O2 39305_QuebrandoSilencio.indd 2 11/02/2019 17:17
  • 3. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna Sinais dos Tempos é Marca Registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Todos os direitos reservados. Não é permitida a reprodução total ou parcial de matérias deste periódico sem autorização por escrito da editora. Diretor-geral: José Carlos de Lima Diretor financeiro: Uilson Garcia Redator-chefe: Marcos De Benedicto Gerente de produção: Reisner Martins Gerente de vendas: João Vicente Pereyra Editores: Jefferson Paradello e Wendel Lima Projeto gráfico: Eduardo Olszewski Designer: Bruna Ribeiro Foto de capa: Pakiwa | Adobe Stock Rodovia Estadual SP 127, km 106 Caixa Postal 34; CEP 18270-970 – Tatuí, SP Fone (15) 3205-8800 – Fax (15) 3205-8900 Site: www.cpb.com.br Atendimento ao cliente: sac@cpb.com.br Edição Especial • 2019 Casa Publicadora Brasileira Fotos:©NichizhenovaElena|AdobeStock/VictorTrivelato 2 EDITORIAL 4 ENTREVISTA Advogada explica como denunciar casos de violência contra crianças SUMÁRIO 6 ATIVE SEU SISTEMA DE ALARME Saiba como identificar o abuso infantil 20 QUADRO SOMBRIO Como as escolas devem lidar com a violência sexual quando ela bate à porta hendo auto- e iso- e os sejam ão. E uições nirem gera- uscar , por pales- m da rian- mas, com- ntam ísico, do de meio essor. , pois onhe- encer nta o sofre medo e tor- Que- ar de , mas dição lema, e pre- e víti- 8 RESGATE DE SI MESMO O psicólogo que superou um trauma de violência na infância e hoje ajuda outras vítimas 24 A HISTÓRIA QUE NINGUÉM CONTA O que pode ser feito para recuperar agressores e evitar a reincidência? 14 ALÍVIO PARA A DOR O trabalho de ONGs que restauram histórias de vida 16 O MAL QUE RONDA O SAGRADO Abusos também ocorrem em ambientes religiosos 23 FELIZES PARA SEMPRE? Livro ajuda famílias em crise a restaurar o casamento quando ela bate à 23 Tiragem: 1,06 milhão 18094/39305 39305_QuebrandoSilencio.indd 3 11/02/2019 17:18
  • 4. ENTREVISTA FERNANDA BEATRIZ PROTEÇÃO COMEÇA EM CASA O lar deveria ser um local de referência em segurança e cuidado para crianças e adolescentes. Porém, nos casos de violência sexual é geralmente na privacidade do ambiente doméstico que ocorre o abuso. Um balanço realizado a partir de ligações efetuadas em 2017 para o Disque 100, serviço brasileiro de recebimento de denúncias, constatou que 62% dos atos de violência contra menores foram praticados por familiares, na residência da vítima ou na dos acusados. Em outros países sul-americanos, a situação se repete. Na Argentina, por exemplo, dados do governo coletados em 2016 revelaram que 75% dos abusos sexuais contra crianças e adolescentes foram cometidos por um familiar. A MAIORIA DOS CASOS DE VIOLÊNCIA SEXUAL ACONTECE NO AMBIENTE FAMILIAR. REPRESENTANTE DO UNICEF NO NORTE DO BRASIL EXPLICA COMO DENUNCIAR O ABUSO Diante desse cenário, a advogada Luíza Teixeira, chefe do escritório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na cidade de Manaus, no Norte do Brasil, explica como esse tipo de violência pode ser denunciado. O que caracteriza o abuso sexual infantil? É a violência sexual em que menores são usados para estimular ou satisfazer sexualmente um adulto, com ou sem o uso de violência, e com ou sem contato físico. Diferentemente da exploração sexual, o abuso sexual não tem gratificação (monetária ou não) do abusador para a vítima. Contudo, esse crime configura uma grave invasão à sexualidade e à integridade física e mental da criança ou adolescente, violando assim o direito deles a um sadio desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social. Exi objet O B impo à gara adole Adole legal a pro políti de cri crian Por Direit (Cona o prin de dir ele ap as po o Plan da Vi Adole A p que p difere a tem famil escola O p resolv Sim atribu cultu comb que le crime Par abord públi a idei e dos priori o gov reque comp diagn ENTREVISTA Foto:Divulgação|UNICEFBrasil Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O4 39305_QuebrandoSilencio.indd 4 11/02/2019 17:18
  • 5. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna E o que pode ser feito quanto à prevenção? É preciso divulgar informações qualificadas sobre o abuso sexual contra meninas e meninos, a fim de educar e sensibilizar a sociedade sobre a necessidade de combater esse crime. Além disso, é necessário trabalhar pela mobilização de diversos setores do governo e sociedade a fim de que os direitos das crianças e adolescentes sejam garantidos e protegidos de qualquer violação. E, ainda, é preciso fortalecer o sistema de responsabilização para combater a impunidade e garantir o atendimento adequado às vítimas. No entanto, para que a prevenção seja bem-sucedida, é fundamental que os menores participem de todas as etapas do processo, para que conheçam seus direitos e possam reivindicá-los. Quais autoridades devem ser informadas quando o abuso ocorrer? As entidades de proteção à criança ou a polícia devem ser imediatamente informadas. São elas que darão o encaminhamento para efetivar a denúncia. Vale lembrar que qualquer pessoa que suspeite ou tome conhecimento de um caso de violência sexual tem a obrigação de acionar esses órgãos. Isso vale, inclusive, para educadores, líderes religiosos, profissionais de saúde e familiares. Luíza o das ef) rasil, ode s er o uso sico. , a a ito co, Existem políticas públicas com o objetivo de prevenir esse tipo de crime? O Brasil foi pioneiro ao elaborar um importante instrumento legal voltado à garantia dos direitos das crianças e adolescentes: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990. É um marco legal histórico e o ponto de partida para a promoção, elaboração e execução de políticas públicas voltadas à prevenção de crimes como o abuso sexual contra crianças e adolescentes. Por sua vez, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), criado pela Lei 8.242/1991, é o principal órgão do sistema de garantia de direitos previsto pelo ECA. Cabe a ele aprovar documentos que norteiem as políticas públicas nessa área, como o Plano Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, de 2014. A prevenção é um dos eixos do plano, que preconiza o envolvimento das diferentes mídias em campanhas sobre a temática, o fortalecimento da rede familiar e comunitária e a inserção das escolas nessas mobilizações. O problema parece complexo para se resolver. Sim. O abuso sexual tem causas diversas atribuídas a uma série de fatores sociais, culturais e econômicos. Por isso, o combate requer uma resposta abrangente que leve em conta a complexidade desse crime. Para tanto, é preciso ter uma abordagem que envolva outros órgãos públicos e atores sociais e que promova a ideia de que os direitos das crianças e dos adolescentes devem ter absoluta prioridade para a família, a sociedade e o governo. Nesse sentido, a prevenção requer, primeiramente, a correta compreensão desse problema, por meio de diagnósticos, pesquisas e dados. Foto:Divulgação|UNICEFBrasil PRINCIPAIS CANAIS DE DENÚNCIA Brasil: Disque 100 e aplicativo Proteja Brasil (gratuito, 24 h, todos os dias) Argentina: 0800-222-1717 (gratuito, 24 h, todos os dias) Chile: 800 730 800 (de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h) Paraguai: telefone (147) e aplicativo Fono Ayuda (gratuito, 24 h, todos os dias) Uruguai: Línea Azul 0800 5050 (gratuito) Bolívia: Línea 156 (gratuito, 24 h, todos os dias) Peru: Línea 100 (gratuito, 24 h, todos os dias) Equador: 1800 DELITO (opção 4) ou ECU 911 Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 5 39305_QuebrandoSilencio.indd 5 11/02/2019 17:18
  • 6. Ativeseusistema dealarme P ode ser que a infância, uma das fases mais belas da vida, esteja sendo roubada pela violência sexual contra alguma criança que você conhece. Trata-se de uma situação complexa de identificar: há aquelas que falam, demonstram ou ten- tam dizer, de alguma forma, o que vivenciam. Outras, no entanto, calam-se diante do medo das consequências que podem se tornar reais caso seu sofrimento seja exposto. O abuso sexual infantil é um fator de risco que pode levar à depressão, ansiedade, pânico, isolamento social ou transtorno da personali- dade. Por isso, é preciso ter um diálogo aberto com as crianças, manter-se atento a esses sin- tomas e pronto para agir rapidamente, sempre com amor e cuidado. Atente para as orienta- ções a seguir. PABLO CANALIS O MEDO PODE LEVAR UMA CRIANÇA A SOFRER CALADA DENTRO DE CASA. ENTENDA COMO IDENTIFICAR SE ELA É VÍTIMA DE ABUSO SEXUAL GUIA PABLO CANALIS é psiquiatra com especialização em Medicina da Família 2 1 3 Saiba com quem a criança está e o que fazem enquanto estão juntos Desconfie se ela repentinamente não quer estar perto de alguém conhecido Observe se há uma mudança repentina de comportamento, sem causa aparente, como irritação e choro Ilustrações:PauloVieira Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O6 39305_QuebrandoSilencio.indd 6 11/02/2019 17:18
  • 7. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna 4 5 6 78 9 o que os a de como Percebaseacriançaseisola,sealimentade maneiradiferente,tempesadelosepassaa urinaredefecarnacamaànoite Nunca desconsidere o que ela compartilha com você, ainda que por meio de desenhos Em caso de suspeita, investigue a situação Marque uma consulta com um psicólogo infantil. Pode ser que a criança esteja com medo de lhe contar o que está vivendo Se o abuso for confirmado, não se desespere. Com um tratamento adequado, ela tem muitas chances de superar o trauma Ame, proteja, escute e se coloque ao lado da criança Ilustrações:PauloVieira Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 7 39305_QuebrandoSilencio.indd 7 11/02/2019 17:18
  • 8. Puma h cristal que di muito Qu mais relato abusa por u lescên vida f nenhu todos garot nem desab PA BL O A L E COMPORTAMENTO Foto:©KevinCarden|AdobeStock O ABUSO SEXUAL APRISIONA E AFETA A AUTOESTIMA E A IDENTIDADE DA VÍTIMA. CONHEÇA A HISTÓRIA DE UM PSICÓLOGO QUE SUPEROU ESSE DRAMA E HOJE AJUDA SEUS PACIENTES A FAZER O MESMO Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O8 39305_QuebrandoSilencio.indd 8 11/02/2019 17:18
  • 9. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna P ablo (nome fictício) me olha fixa- mente e fala com a segurança de quem conhece o assunto. Poucos imaginam que por trás de seus olhos azuis, intensos e inquietos, se esconde uma história tão terrível. Suas palavras fluem, cristalinas, rápidas, numa enxurrada de letras que disputam entre si para serem ouvidas. Há muito a ser dito. Quando gesticula, tenta tornar as ideias mais claras. Mas isso não é necessário. O relato é real e contundente por si só: “Fui abusado sexualmente desde os quatro anos por um amigo da minha família. Na ado- lescência, outra pessoa fez o mesmo. Minha vida foi um inferno. Não tinha paz em lugar nenhum. Na escola, eu sofria bullying de todos por ter um jeito diferente dos demais garotos. Apanhava e minhas professoras nem percebiam. E eu não me defendia”, desabafa. Foto:©KevinCarden|AdobeStock Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 9 39305_QuebrandoSilencio.indd 9 11/02/2019 17:18
  • 10. “Isso é outro dos motivos que geram abuso: você não se sente digno. E esse sentimento de indignidade o leva a pensar: ‘Se alguém abusa de mim, e os demais me batem, é porque eu mereço.’ E isso acaba crescendo: ‘Se alguém próximo, que supostamente deveria me cuidar, abusou de mim, então por que um estranho na escola não faria o mesmo?’ E foi isso que aconteceu comigo. Cresci com uma autoimagem totalmente distorcida, e também não tinha clara a minha orientação sexual. Isso era muito notável, e assim foi até o início da vida adulta.” Essa é a história de Pablo, um cristão que hoje pode contar sobre esse capítulo de sua vida com segurança e paz. Graduado em Psicologia, exerce a profissão há mais de 20 anos. Hoje, como pai de família ele se sente feliz. No entanto, seu caminho foi mais longo do que isso. “Como cristão, eu culpava a Deus por tudo o que acon- tecia comigo. Estava zangado com Ele. Minha aflição era tão forte que busquei uma fuga no que, equivocadamente, achava que me traria paz. Abandonei a fé e me refugiei no álcool e nas drogas. Comecei a ter um estilo de vida totalmente livre, inclusive no aspecto sexual”, detalha. “Isso trouxe consequências. Por exemplo, fui contagiado com HIV e provoquei um verdadeiro desastre em meu corpo e minha vida.” Quando lhe pergunto se essa fuga ajudou a conter sua dor, ele responde com precisão: “Sim, momentaneamente. Você curte por um momento, e no outro dia se sente vazio, sem nada... Com a mesma culpa, com o mesmo ódio, pois era assim que eu vivia, com ódio de tudo e de todos: daqueles que abusaram de mim, da vida, de Deus. No entanto, Ele fez um milagre em mim. Não foi instan- tâneo, mas gradual.” Hoje Pablo está convencido de que tudo o que viveu e suportou pôde ser direcionado para o bem. E reforça que isso o ajuda no tratamento que oferece a seus pacientes que foram vítimas de abuso. Sua triste experiência com esse tipo de violência acabou contribuindo no seu preparo profissional. ♦ O abuso que você sofreu ocorreu em um ambiente familiar. Em geral, é nesse contexto que acontece esse tipo de violência? ♦ Sim, na maioria dos casos. O abusador de menores age dentro do círculo familiar e raramente é um estra- nho que passa pela rua. Seja na América Latina ou em outras partes do mundo, a violência ocorre no ambiente da criança. O abusador a conhece e a manipula emocionalmente. No meu caso foi assim. Ele me dava coisas e prometia outras. É um você s com v porqu vítima culpa ♦ En ♦ Sim ressen que fi ♦ Qu abuso vida a ♦ As gener rentes baixa blema reagir próxi e o ví de for com p ♦ O sexua ♦ Fal tamb Eles n um la por o algué Por nutrin pre ab o que isso d sultór palav se diz como ♦ Se ♦ Cu sário abuso Foto:©Photographee.eu|AdobeStock SILÊNCIO QUE MATA ESTATÍSTICAS PREOCUPANTES Os números assustam. Cerca de 300milhõesde crianças no mundo vivem em situação de violência e 15milhõesde mulheres entre 15 e 19 anos já foram vítimas de abuso, segundo dados do relatório “Uma Situação Habitual: Violência na Vida de Crianças e Adolescentes”, elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em 2017. Esses números fizeram com que a questão da violência contra a criança, incluindo a sexual, entrasse na nova Agenda Global de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2030, elaborada pela ONU. Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O10 39305_QuebrandoSilencio.indd 10 11/02/2019 17:18
  • 11. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna ê não leva a atem, guém ou de aria o m uma tinha tável, pode nça e mais feliz. o. acon- ão era mente, fugiei e vida talha. giado m meu er sua mente. sente esmo o e de Deus. nstan- iveu e a que ientes a com eparo biente e esse nores estra- ou em nte da mente. utras. É um mecanismo muito perverso, porque o agressor faz você se sentir especial. Tão especial que faz o que quer com você. Assim, a vítima chega a pensar: “Sou especial, porque fui escolhido entre outros.” Isso também faz a vítima pensar que é cúmplice do abuso, como se tivesse culpa em ter atraído a atenção para si. ♦ Então há uma inversão de papéis? ♦ Sim, e isso nos atormenta por muito tempo. Além do ressentimento e da raiva, a culpa é o pior sentimento que fica após o abuso. ♦ Que consequências psicológicas decorrem de um abuso? Como isso repercute no êxito ou fracasso na vida adulta? ♦ As consequências são muitas e terríveis. Não se pode generalizar porque, como seres humanos, somos dife- rentes e únicos. Porém, em geral, o abuso pode gerar baixa autoestima e distúrbios, como depressão e pro- blemas sexuais. Meninos e meninas também tendem a reagir de forma distinta. Ao crescer, o caminho mais próximo para um garoto abusado é a homossexualidade e o vício em drogas; e para uma garota é a dificuldade de formar uma união estável ou de não conseguir viver com prazer sua sexualidade. ♦ O que os pais podem fazer para prevenir o abuso sexual infantil? ♦ Falando sobre esse problema e a questão da culpa. Eu também culpei meus pais pelo que aconteceu comigo. Eles não perceberam o que sofri e isso me marcou. Por um lado, questiono por que não cuidaram de mim, mas por outro entendo que dificilmente desconfiariam de alguém próximo, em quem confiavam. Por isso, os pais devem criar vínculos com os filhos, nutrindo um ambiente de confiança, para que eles sem- pre abram o coração. Muitas vezes, a criança não sabe o que estão fazendo com ela e pode chegar a contar isso de forma indireta. Certa vez, tive um caso no con- sultório em que uma menina dizia: “Meu tio me faz palavras más.” A professora a corrigiu e lhe disse: “Não se diz me faz, e sim me diz.” Porém, investigaram e era como a menina dizia: o tio fazia coisas más com ela. ♦ Se isso ocorre, o que fazer? ♦ Cuidar da vítima é a primeira providência. É neces- sário levá-la a um centro especializado, ainda que o abuso não tenha envolvido contato físico. Um adulto, por exemplo, que sente prazer em ver uma criança nua também é um abusador, mesmo que não lhe tenha tocado. Isso não é normal. É perverso sentir prazer tocando ou vendo o corpo de uma criança. Depois de cuidar da vítima, os pais precisam denun- ciar o abusador, por mais difícil que seja acusar um familiar ou amigo próximo. No entanto, é preciso enfrentar o problema e afastar o abusador. ♦ Como é possível superar um abuso? ♦ O importante é pensar não apenas a partir de uma perspectiva psicológica, mas espiritual. Há angústia e tristeza que contaminam todas as dimensões do ser. Por isso, se agregarmos o aspecto espiritual, tudo muda. A saída é espiritual. E por onde passa? Pelo perdão. Assim é possível viver uma vida cheia de paz. O perdão é incompreensível e grandioso. Mais do que uma palavra, é uma atitude; é dar-se conta de quem é verdadeiramente seu inimigo. Durante muito tempo, culpei a Deus e Lhe perguntei onde Ele estava quando tudo isso me acontecia. Para mim, teve efeito curativo pensar que Deus sofria mais do que eu. E sofria mais porque Ele podia impedir, mas o permitia por alguma razão que eu desconhecia. Anos mais tarde, compreendi que estamos imersos em um grande conflito cósmico entre o bem e o mal. Quem me feriu não é mais que um instrumento nas mãos do diabo. Sei que é difícil entender, mas meu abusador também necessita de ajuda e pode ser restaurado. Se Deus me perdoou por tudo o que fiz como pecador, também pode perdoar meu abusador. E, com a ajuda divina, eu também posso fazer isso. Pablo continua me olhando fixamente. Ele se emo- ciona, chora e sorri, quase tudo ao mesmo tempo. O caminho percorrido causou-lhe marcas profundas. Hoje, essas marcas são medalhas de vitórias. Graças a elas e a Deus, podem resgatar outros desse inespe- rado e injusto abismo que é o abuso sexual infantil. Não consigo continuar olhando para ele sem que uma lágrima caia. Seu relato é comovente. “Se me perguntar se essa tragédia pode ser superada, eu digo que sim, pode ser superada.” Seu sim é um sim pleno, contundente. Parte de quem sabe o que diz. PABLO ALE é jornalista, pastor e mestre em Literatura. Ele trabalha como editorderevistasnaAsociaciónCasaEditoraSudamericana,emBuenosAires, Argentina Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 11 39305_QuebrandoSilencio.indd 11 11/02/2019 17:18
  • 12. Foto:©Samuel|AdobeStock Foto:©Photographee.eu–Fotolia REALIDADE São, sim. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados em 2016, uma em cada cinco mulheres e um em cada 13 homens declararam haver sofrido abuso sexual na infância. REALIDADE O problema atinge todos os estratos socioculturais. O que ocorre é que os casos de abuso em classes sociais mais altas são subnotificados e têm menor visibilidade na mídia. REALIDADE Ao contrário, utilizam estratégias de persuasão e manipulação como jogos, mentiras e ameaças. Essas táticas podem incluir desde a compra de presentes até mesmo a organização de atividades especiais. REALIDADE Qualquer pessoa pode ser um abusador. Tanto homens como mulheres, heterossexuais ou homossexuais, pessoas neuróticas, psicóticas ou perversas. Não existe um perfil de personalidade específico nem testes que detectem quem agrediu ou tem potencial de abusar sexualmente de uma criança. Isso dificulta a prevenção, pois o abusador costuma ser uma pessoa próxima e de confiança da família, alguém cujo comportamento social (que se vê) não revela sua conduta sexual (que não se vê). REALIDADE Não está claro se as crianças mentem mais que os adultos. Ao contrário, as crianças são mais transparentes e sinceras. Em verdade, elas aprendem a mentir quando crescem. Por outro lado, as crianças pequenas não têm maturidade nem habilidades cognitivas necessárias para inventar e sustentar uma mentira complexa. Menos ainda poderiam fazê-lo frente a profissionais de saúde mental treinados para avaliá-los. No entanto, existe uma porcentagem de denúncias desse tipo que são falsas. REALIDADE MITO Os abusos sexuais contra crianças não são frequentes. REALIDADE Aplicados de forma adequada para cada idade, os programas educativos, em vez de deixá-las com medo, ajudam as crianças a desenvolver habilidades a fim de se protegerem dos agressores de maneira eficaz. com medo, ajudam as crianças a desenvolver habilidades a fim de MITO Crianças muito pequenas não precisam saber sobre o abuso sexual porque teriam medo do assunto. REALIDADE MITO Os abusos sexuais ocorrem contra crianças de famílias socialmente vulneráveis. REALIDADE Ao contrário, utilizam estratégias de persuasão e MITO Os agressores usam a força física para abusar sexualmente das crianças. REALIDADE Isso ocorre em uma proporção muito pequena e nos casos em que o menor não recebeu tratamento. Por causa desse mito, muitos adultos que foram violentados temem falar da sua experiência, pois imaginam que possam ser vistos como possíveis abusadores. proporção muito pequena e nos casos em que o menor não recebeu tratamento. Por causa desse mito, muitos MITO As crianças que sofreram abusos sexuais se tornam adultos agressores. um abusador. Tanto homens como mulheres, heterossexuais ou homossexuais, pessoas neuróticas, psicóticas ou perversas. Não MITO Os agressores têm um perfil comportamental específico, geralmente são pessoas mais isoladas. REALIDADE Não está claro se as crianças mentem MITO As crianças mentem e inventam quando falam que foramabusadas. MITO OU REALIDADE? cp 12 Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 39305_QuebrandoSilencio.indd 12 11/02/2019 17:18
  • 13. 39305–QuebrandoSilêncio2019Bruna Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Foto:©Samuel|AdobeStock Foto:©Photographee.eu–Fotolia as e cluir té s es s nças ente tam que as. cpb.com.br | 0800-9790606 | CPB livraria | 15 98100-5073 Pessoa jurídica/distribuidor 15 3205-8910 | atendimentolivrarias@cpb.com.br /casapublicadora WhatsApp Segredos da Vitória no Amor ERONILDES DE NICOLAS Mais do que apenas um livro, esta é uma valiosa orientação psicológica para ajudar você a alcançar êxito no amor. Para o autor, as pessoas que experimentam a derrota na vida é porque geralmente estão fracassando também nos relacionamentos. Elas têm dificuldade para dar e receber afeto. Por isso, é preciso aprender a amar. E alguns dos segredos estão neste livro. Amores que Matam MIGUEL ÁNGEL NÚÑEZ A violência contra a mulher é um problema que tem atingido praticamente todas as classes sociais. Não importa se ela é física ou psicológica, os danos são terríveis e podem se tornar irreversíveis se não forem tratados em tempo. Este livro surge num momento oportuno, pois aborda questões como a violência doméstica, os mitos sobre o agressor e a mulher agredida e o papel que a igreja deve assumir com respeito ao assunto. MKTCPB|Fotolia Viva com amor 39305_QuebrandoSilencio.indd 13 11/02/2019 17:18
  • 14. A infância é uma fase de grandes descobertas, alegrias e desenvolvi- mento. Entretanto, tudo isso é rou- bado quando a violência impera, aproveitando-se da fragilidade e inocência das crianças, e levando-as a cole- cionar amargas memórias. Por isso, os casos que são denunciados para as autoridades precisam de intervenção: dos órgãos públicos competentes e, muitas vezes, do trabalho complementar das Organizações Não Governamentais (ONGs) especializadas. Uma delas é o Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância (Crami), loca- CONHEÇA O TRABALHO DE ONGS QUE AJUDAM VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL A SE RECUPERAREM DOS TRAUMAS DA INFÂNCIA JÉSSICA GUIDOLIN Foto:©ryanking999|AdobeStock SOCIEDADE lizada atend As receb tes so res, q famil víncu varia Ou mesm (Defe Adole capita Estab volunt está li Hosp Federa tos di vítima com o tras, p outro A m coord que a encam sam p suas f tipo d Na tamen agress que r foram em su tamen tribui que h pais a Em que p violên crian res. “ mos d sexua Alíviopara a dor Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O14 39305_QuebrandoSilencio.indd 14 11/02/2019 17:18
  • 15. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna andes volvi- é rou- mpera, ade e cole- s para o: dos vezes, ações zadas. enção loca- Bolívia, atua em três frentes: eliminar a violência contra meninos e meninas; assegurar que estejam matriculados em uma escola; e garantir que parti- cipem ativamente da sociedade. Um de seus projetos está ligado à preven- ção da gravidez na adolescência. Em outra região do território peruano, a ênfase está na prevenção da violên- cia sexual, por meio de conscientiza- ção quanto aos riscos para crianças e adolescentes tanto no mundo real quanto no virtual. “Trabalhamos muito com as famílias e a comunidade. Nosso objetivo é chegar a eles antes que o abuso seja cometido. Em nossa experiência, se os adultos são infor- mados sobre os riscos de deixar as crianças sozinhas durante todo o dia ou de deixá-las ter acesso à inter- net sem falar dos riscos de alguém tentar seduzi-las, isso minimiza os resultados negativos”, assegura Maria Villalobos, diretora da Save the Children no Peru. A maioria dos casos atendidos pela ONG é de meninas e garotas adolescentes que não receberam orientação preventiva a respeito de abuso sexual na escola, em casa ou na comunidade. É a partir desse perfil de vítimas em potencial que a entidade desenvolve metodologias de prevenção. “Independentemente do tipo de projeto que façamos, queremos que as crianças tenham protago- nismo e conheçam seus direitos. Quando não se sabe quais são seus direitos, é mais fácil que pisem em você e o manipulem. Porém, se você conhece seus direitos, terá ferramentas para se proteger”, garante Maria. JÉSSICA GUIDOLIN é jornalista (com colaboração do jornalista DeylerVásquez) ONGS ÊNCIA M DOS NCIA DOLIN Foto:©ryanking999|AdobeStock lizada em Campinas (SP), Brasil, que atende 270 famílias por ano. As crianças abusadas sexualmente recebem o acolhimento de assisten- tes sociais, psicólogos e educado- res, que também dão suporte aos familiares para a restauração dos vínculos. A duração do tratamento varia entre um e cinco anos. Outra entidade que compartilha o mesmo objetivo é o programa Dedica (Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente), localizado em Curitiba, capital do Paraná, no Sul do Brasil. Estabelecida em 2004 por uma equipe voluntária de médicos, hoje a entidade está ligada à Associação de Amigos do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná, oferece atendimen- tos diários e interdisciplinares para vítimas de violência grave/gravíssima, com o apoio de psicólogos, psiquia- tras, pediatras, assistentes sociais e outros especialistas. A médica Luci Pfeiffer, criadora e coordenadora da iniciativa, explica que as crianças e adolescentes são encaminhados ao ambulatório e pas- sam por uma avaliação, assim como suas famílias, a fim de diagnosticar o tipo de violência e o nível de gravidade. Na sequência, é determinado o tra- tamento a ser aplicado à vítima e ao agressor. “Em mais de 80% dos casos que recebemos aqui, os agressores foram vítimas de violência gravíssima em sua infância, e não receberam tra- tamento adequado. Nossa maior con- tribuição é impedir que essas crianças que hoje são vítimas, amanhã sejam pais agressores também”, sublinha. Em 2017, mais de 93% dos casos que passaram pela equipe eram de violência intrafamiliar, em que a criança foi refém de seus agresso- res. “Desse tipo de abuso, atende- mos desde violência psíquica até a sexual”, informa a pediatra. NOVA HISTÓRIA Contudo, memórias amargas podem ser substituídas por um ciclo de recomeço. É o caso de Júlia (nome fictício), que há alguns anos rece- beu suporte do Dedica. Entretanto, seu sofrimento não foi denunciado, e sim observado até chegar ao tra- tamento. Na época, a jovem de 25 anos de idade tinha dois filhos – um de 14 e outro de 12 –, o que revela que ela engravidou pela primeira vez aos 11 anos. Sua história veio à tona porque um de seus filhos foi internado no Hospi- tal de Clínicas. Porém, no momento da alta, Júlia entrou em desespero e não parava de chorar. A reação dela chamou a atenção da equipe médica, que solicitou uma avaliação. Os pro- fissionais descobriram que desde os sete anos de idade Júlia era violen- tada pelo padrasto. Seu desespero era o pedido de ajuda de alguém que era escravizada sexualmente e com o consentimento da própria mãe. Sem poder frequen- tar a escola, Júlia não foi alfabetizada e seus filhos também sofriam vio- lência psíquica e física. Mesmo sub- metidos a tamanha crueldade, eles conseguiram reconstruir a própria vida com a ajuda da Dedica. “Esse caso foi muito especial por- que, desde a primeira conversa que tivemos, ela entendeu toda a situação, e a partir daí fez todas as denúncias que eram possíveis. Foi uma história muito emocionante para nós. Hoje ela tem uma vida digna”, pontua a médica Luci Pfeiffer. PREVENÇÃO NECESSÁRIA Por outro lado, há entidades que investememmedidasparaevitarqueo abuso aconteça. No Peru, a Save the Children, organização presente em mais de 120 países, incluindo a r 15Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 39305_QuebrandoSilencio.indd 15 11/02/2019 17:18
  • 16. Foto:©yupachingping|AdobeStock RELIGIÃO A violência sexual também ocorre em ambientes religiosos. Saiba como as comunidades de fé podem se envolver na proteção das crianças HE R ON S A N TA N A 16 Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O sagrado O mal que ronda o 39305_QuebrandoSilencio.indd 16 11/02/2019 17:18
  • 17. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna Foto:©yupachingping|AdobeStock bém osos. ades er na nças A N A O mal que os homens praticam sobrevive a eles. O bem quase sempre é sepultado com eles.” No texto da peça teatral Júlio César, do poeta e dramaturgo inglês William Shakes- peare, a frase acima faz parte do discurso do imperador Marco Antônio, nas escadarias do Senado Romano, em frente ao corpo de Júlio César, assassi- nado a facadas pela conspiração de Brutus e Cassius. A máxima parece extrapolar a ficção e se personificar na realidade deste mundo em que a violência e o mal são expressões de que algo de errado e muito grave está enraizado na vida humana. É o caso dos indicadores de violência sexual. Os dados mostram que as crianças estão no epicentro dessa tor- menta. Por exemplo, o estudo “Violência contra Crian- ças e Adolescentes – Percepções Públicas no Brasil”, da ONG cristã Visão Mundial, em parceria com a empresa de pesquisa Ipsos, apontou o Brasil como o país mais violento contra crianças e adolescentes, em comparação com outras 13 nações da América Latina. A pesquisa foi realizada em 2017 e ouviu mais de 6 mil pessoas. Abuso físico e psicológico, trabalho infantil, casamento precoce, ameaça on-line e violência sexual fazem parte de uma lista trágica que corrompe a infância nessa região do mundo. Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 17 39305_QuebrandoSilencio.indd 17 11/02/2019 17:18
  • 18. Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O18 Foto:©highwaystarz|AdobeStock Quanto à percepção dos entrevistados sobre a vio- lência, 13% dos brasileiros disseram que enxergam como alto o risco de uma criança sofrer esses tipos de abuso no país; índice maior que os 11% dos mexi- canos e 10% dos peruanos e bolivianos. Um recorte do estudo também chama a atenção: os ambientes de risco. De acordo com os entrevistados, o espaço público (52%) oferece maior risco para crianças e adolescentes, seguido do lar (21%), da escola (13%) e dos ambientes religiosos (3%). PROFANAÇÃO Merece reflexão esse último dado apontado pelo estudo latino-americano da Visão Mundial. A explosão de denúncias na imprensa sobre abusos contra menores, envolvendo líderes religiosos, indica que os ambientes de culto também precisam da atenção e vigilância de seus frequentadores. Quem reforça esse alerta é a advo- gada Maíra Vida, conselheira da Ordem dos Advoga- dos do Brasil (OAB), na seccional Bahia. Ela também é presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa na OAB-BA. Maíra pontuou que o problema deve ser maior do que o que se tem conhecimento e lamenta que exis- tam poucos estudos sobre esse tipo de violência no contexto religioso. Por sua atuação na OAB-BA, Maíra tem recebido denúncias de mulheres que sofreram abuso sexual de babalorixás, pastores e líderes religiosos de con- fissões diversas. Para ela, o problema da violência sexual é interconfessional. Porém, Maíra entende que poucas denúncias envolvendo comunidades religiosas são notifi- cadas, talvez, por causa do que ela chama de “temor reve- rencial” (leia o quadro “Proteja as ovelhas dos lobos”). Sua fala lembra a obra Microfísica do Poder, do teórico social Michel Foucault, para quem a huma- nidade se tornou escrava não apenas das instituições políticas, mas de outras formas de poder, sem que a maioria das pessoas tenha preparo para o exercício do poder. Também transita pela teoria apresentada no livro O Poder Simbólico, do sociólogo Pierre Bourdieu: se o poder está em toda a parte, quando o assunto é abuso de poder, é necessário saber descobri-lo onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completa- mente ignorado, sendo exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem. “Em qualquer templo você encontra o irmão. Por- tanto, cria-se a ideia de que aquele seja um ambiente familiar, de confiança. Contudo, podemos acabar des- considerando que as pessoas trazem para o ambiente religioso as experiências de vida”, reflete Maíra. “Para mim, parece que há até a negação veemente de que esse problema possa ocorrer no ambiente religioso, pois se pressupõe que haja ali a presença de Deus. Para alguns, é difícil imaginar que nesses espaços também se cogite o mal e possa haver a manifesta- ção da crueldade, do ódio e da violência que estão no indivíduo”, conclui. HERON SANTANA é jornalista A religião ajuda ou atrapalha no combate à violência sexual, especialmente contra as mulheres? Por vezes, o discurso e as estruturas das instituições religiosas são usados para legitimar alguns tipos de violência contra a mulher ou para, no mínimo, favorecer o silenciamento delas. Negar, por exemplo, que abusos ocorram nos círculos religiosos, não denunciar agressores, culpar as vítimas ou tratar a violência doméstica como um problema privado, no qual não “se põe a colher”, são posturas que reforçam a cultura da violência. Por outro lado, uma religiosidade saudável serve de impulso para quebrar o ciclo de violência, desenvolver resiliência e esperança e recuperar a pró- pria autoestima. Comunidades religiosas podem ser muito importantes também no acolhimento das vítimas, dando a elas um senso de pertencimento. Um estudo do Instituto de Pesquisas do Senado do Brasil mostrou que, em 2015, 7% das mulheres agredidas entrevistadas buscaram apoio na igreja, sendo que, em 2017, esse número subiu para 19%. Essa demanda mostra também a necessidade de líderes religiosos serem preparados para atuar como agentes de prevenção e combate à violência sexual. Fontes: “Violência doméstica: uma cartilha para mulheres, técnicas e técnicos do poder público e lideranças religiosas” (Umesp, 2018) e pesquisa “Violência doméstica e familiar contra a mulher” (DataSenado, 2017) Líde ao deix proativ Reju, do PROT Prep bem se e minis çaséalg estarcla eosvete TRE São pela co indicam teger a seus cu abusos entes“s ou de q podem vulnerá CRIAR POL Pro estar n comun sério, a sos e vo dade, b tocolos infanti GA T OPRESSÃO OU LIBERTAÇÃO? 39305_QuebrandoSilencio.indd 18 11/02/2019 17:18
  • 19. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 19 Foto:©highwaystarz|AdobeStock notifi- r reve- bos”). er, do uma- uições que a rcício da no rdieu: unto é onde pleta- idade jeitos . Por- biente r des- biente “Para e que gioso, Deus. paços festa- estão tuições xemplo, ado, no r a pró- mento. a igreja, ar como iolência Líderes e comunidades religiosas podem ajudar a proteger as crianças ao deixarem a postura meramente reativa para assumirem uma agenda proativa de prevenção. Nessa direção, o pastor norte-americano Deepak Reju, doutor em Teologia e líder do ministério de aconselhamento familiar PROTEJA AS OVELHAS DOS LOBOS Preparar pessoas para fazer bem seu trabalho em programas e ministérios que envolvam crian- çaséalgomuitoimportante.Precisa estarclaroparaosnovosvoluntários eosveteranosoqueseesperadeles. TREINAR VOLUNTÁRIOS A maioria dos abusadores pre- sumequenãoteráqueprestarcon- tas.Porisso,verificarantecedentes criminais de novos membros e de voluntários pode ajudar a intimi- darquemestivermal-intencionado. FECHAR O CERCO Idealmente, a construção do templo deve valorizar a funciona- lidade e a segurança de seus usuá- rios. Portanto, avalie se os espaços utilizadosparaasatividadesinfantis não favorecem o isolamento. ATENTE PARA ESPAÇOS ISOLADOS Esse procedimento cria uma “cerca” ao redor dos pequenos, permitindo que eles fiquem em segurança até que sejam devol- vidos aos pais. IMPOR UM PROCESSO DE CHECK-IN E CHECK-OUT DAS CRIANÇAS São diretrizes autoimpostas pela comunidade religiosa que indicam como ela pretende pro- teger as crianças que estão sob seus cuidados. As crenças de que abusos não ocorrem em ambi- entes“seguros”,comoosreligiosos, ou de que todos ali se conhecem, podem tornar a comunidade mais vulnerável. CRIAR E IMPLEMENTAR UMA POLÍTICA DE PROTEÇÃO INFANTIL A comunidade religiosa pre- cisa discutir previamente como lidarcomumcasodeabusosexual infantil, o que envolve oferecer acolhimento para a vítima e a família, denunciar e fazer os devi- dos encaminhamentos em relação ao agressor e talvez responder aos questionamentos da imprensa e vizinhança. TER UM PLANO DE RESPOSTA AO ABUSO Abusadores sexuais podem se valer do fato de que templos reli- giosos geralmente são espaços de livreacesso.Porisso,éimportante que mesmo aqueles que não são membros da comunidade rece- bam alguma espécie de acom- panhamento, como cadastro no registro de visitantes ou sejam visitados no lar. CONHECER QUEM FREQUENTA A IGREJA Proteger as crianças precisa estar no topo das prioridades da comunidade. Se isso for levado a sério, a liderança destinará recur- sos e voluntários para essa finali- dade, bem como pensará em pro- tocolos para cuidar do ministério infantil. GARANTIR O APOIO DE TODOS OS LÍDERES Os líderes religiosos devem pro- curarestabelecerumrelacionamento próximo com profissionais, órgãos públicos e ONGs que lidam com a questão na cidade ou bairro. Dessa maneira, além de um trabalho de cooperaçãocomessasentidades,caso essas instituições precisem ser acio- nadas num eventual abuso infantil, umcontatodiretopodeserfeito. CONHECER SUA COMUNIDADE Conscientizar os pais sobre a responsabilidade que eles têm de mentorearespiritualmenteosfilhos eprotegê-los.Orientarospaisares- peito de como falar sobre sexuali- dade e prevenção, além de estabe- lecer vínculos significativos com os filhos,éfundamentalnesseprocesso. CONSCIENTIZAR E CAPACITAR OS PAIS na Igreja Batista de Capitol Hill, em Washington (EUA), apresenta dez suges- tões com base em seus estudos e experiência. Apesar de essas orientações virem de um contexto evangélico e norte-americano, sua aplicação pode ser mais ampla, servindo para outras regiões do mundo e grupos religiosos. 39305_QuebrandoSilencio.indd 19 11/02/2019 17:18
  • 20. 20 Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O Foto:©AfricaStudio|AdobeStock EDUCAÇÃO ALEXIS VILLAR A VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTIL TAMBÉM BATE À PORTA DAS ESCOLAS. ENTENDA COMO AS INSTITUIÇÕES DE ENSINO PODEM PREVENIR ESSE PROBLEMA E LIDAR COM ELE 39305_QuebrandoSilencio.indd 20 11/02/2019 17:18
  • 21. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 21 Há uma voz interior que deseja gritar aos quatro ventos, porém não pode. Não se sabe como fazê-lo. Sente vergonha. Sente culpa. Ninguém a compreende. A vio- lência sexual infantil é uma epidemia silenciosa, como todo abuso. Alguém manda, o outro escuta. Alguém ordena, o outro obedece. Alguém abusa, o outro é abusado. A história pode ter diferentes versões. Contudo, as vítimas costumam ser as mais fracas, como as crianças. De acordo com a psicóloga Andrea Regalado, professora da Universidade Adventista del Plata, na Argentina, “o abuso sexual infantil é o resul- tado da conjunção de uma série de fatores. Não há um fator causal único. Por isso, a melhor ferra- menta é a prevenção. Desde pequeno, respeitando a maturidade dela, deve-se falar com a criança sobre sexualidade”. ATENÇÃO CONSTANTE O fato é que a violência sexual infantil tam- bém bate à porta da escola. Ao longo dos vários anos de jornada acadêmica, é no ambiente esco- lar que crianças e adolescentes passam uma par- cela significativa do dia. É nesses espaços, nos quais circulam centenas e milhares de pessoas diariamente, que educadores, gestores, pais e alunos devem estar atentos para possíveis inci- dências de abuso. Como em qualquer outra realidade, em casos de maus-tratos no contexto educacional, a prio- ridade é a proteção integral da criança. Não cabe à unidade educacional determinar quem são os responsáveis pelo abuso, pois essa tarefa compete aos órgãos públicos. Porém, é respon- sabilidade da escola identificar a violência e solicitar a intervenção de equipes profissionais especializadas no assunto. Contudo, há diversas maneiras de identificar uma situação de abuso. Às vezes, é a própria criança que detalha o ocorrido. Em outros casos, é necessário estar atento aos sinais de maus- tratos, como mudanças de comportamento, lesões e atraso no desenvolvimento físico, emocional ou intelectual da criança. É preciso observar tam- bém se a vítima não tem tentado pedir ajuda para professores e/ou colegas, se tem usado roupas mais compridas para esconder partes do corpo ou se os responsáveis legais dela dão indícios de negligência no cuidado da criança. O QUE FAZER? É importante observar o aluno em diferentes momentos e situações, como em sala de aula, na prática de esportes e no recreio. Atentar para sua aparência e fisionomia, bem como para seu modo de se relacionar com colegas, professores e familiares. Se o abuso ocorrer na instituição educacional, é importante ouvir o relato com atenção, sem interromper nem julgar; regis- trar as informações para não esquecer os deta- lhes; se quem relata é a criança, não perguntar detalhes do abuso, caso ela não compartilhe mais informações; averiguar o relato e inter- vir, tomando as medidas cabíveis; e comunicar o ocorrido para as autoridades e órgãos com- petentes. Na sequência, é importante prestar auxílio à família no encaminhamento legal do caso e direcionar a criança para um atendi- mento psicológico Hoje existe a necessidade concreta e inevitável de se estabelecer um protocolo* a ser seguido em caso de supostos crimes contra a integridade sexual e maus tratos de crianças e adolescentes. Portanto, cada unidade escolar ou a rede da qual ela faz parte deve elaborar isso, bem como trei- nar seus funcionários e gestores para que o apli- quem. O delicado equilíbrio de direitos em jogo e a relevância do bem jurídico protegido exigem o maior esforço da instituição para que crimes dessa natureza sejam definitivamente erradicados da sociedade. Para ajudar a diminuir os índices de violência neste ambiente, o colégio também pode oferecer palestras e debates regulares sobre o assunto, a fim de conscientizar e proteger a comunidade escolar. *Este artigo foi escrito com base no “Protocolo de Atuação Diante de Situações de Violência, Maus-Tratos ou Abuso”, da rede educacional adventista na Argentina ALEXISVILLAR é jornalista Foto:©AfricaStudio|AdobeStock 39305_QuebrandoSilencio.indd 21 11/02/2019 17:18
  • 22. Em d n t e Esta casais saúde os sep Enqu nam, entre tinua insist de risc tanto mach abusi para o doloro cólico Em em fó consu acred jeito. que o Esper em 2 Brasi Adve uma 22 m tuguê da gra Amér DICA Fe Livro GUILO tratamento da depressão é geralmente feito com medicamentos, mas o doutor Neil Nedley usa uma nova abordagem. Essas informações certamente trarão esperança aos que sofrem com esse mal tão comum. Você vai vibrar com a proposta de “cura em 20 semanas” que já trouxe alívio a tantas pessoas. Sem dúvida alguma, você desejará compartilhar este livro com seus familiares e amigos que estão querendo descobrir Como Sair da Depressão. Sensação de inutilidade. Autoestima baixa. Culpa ilegítima. Incapacidade de perdoar. Am- argura e ressentimento. Essas batalhas são travadas na mente de milhões de pessoas, incluindo os cristãos. Elas fazem parte do conflito entre Cristo e Satanás: a disputa pelo coração e a mente de cada um. A boa notícia é que você pode ser vitorioso nessa batalha. Equipado com as ferramentas apresentadas neste livro, você pode cooperar com Deus para alcançar o bem-estar mental e obter vitória espiritual. PESADO DEMAIS? PODEM AJUDAR VOCÊ Simples demais Como sair da depressão MKTCPB|Fotolia cpb.com.br | 0800-9790606 | CPB livraria | 15 98100-5073 /casapublicadora WhatsApp Pessoa jurídica/distribuidor 15 3205-8910 | atendimentolivrarias@cpb.com.br SUGESTÕES QUE PROVAPDF Redação Designer CQ Marketing 39305_QuebrandoSilencio.indd 22 11/02/2019 17:18
  • 23. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna Em média, 14 anos é o tempo de duração de um casamento no Brasil, conforme o Insti- tuto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De cada três casais que prometem estar juntos na saúde e na doença, até que a morte os separe, um acaba se divorciando. Enquanto alguns casamentos termi- nam, espalhando feridas emocionais entre cônjuges e filhos, outros con- tinuam, como se marido e mulher insistissem em morar numa área de risco, prestes a desabar. Diante de tantos casais infelizes e pessoas machucadas por relacionamentos abusivos, existe alguma esperança para os casamentos, além de um fim doloroso ou o prolongamento melan- cólico de um sofrimento suportável? Embora a vida real não se encaixe em fórmulas prontas e soluções de consultório, Willie e Elaine Oliver acreditam que toda família tem jeito. Essa é a mensagem principal que os autores apresentam no livro Esperança Para a Família, lançado em 2019 pela Casa Publicadora Brasileira (CPB), editora da Igreja Adventista no Brasil. A obra terá uma tiragem que ultrapassará os 22 milhões de exemplares em por- tuguês e espanhol, e será distribuí- da gratuitamente em oito países da América do Sul. O otimismo dos autores não é ingenuidade de um casal imaturo. Na verdade, é resultado de mais de 30 anos de uma união marcada por desafios e realizações, entre eles a educação de dois filhos. Além da experiência de vida, o casal soma muitas horas de estudo dedicadas ao tema. Willie é formado em Teologia, com mestrado em Aconselhamento Pastoral e doutorado em Sociolo- gia da Família. Elaine é educadora com mestrado na área de Acon- selhamento Psicológico e cursa o doutorado em Psicopedagogia. Nos Estados Unidos, eles apresentam o programa Real Family Talk, na TV Hope Channel, e são colunistas da revista Message. Com o livro Esperança para a Família, Willie e Elaine desejam compartilhar experiências pessoais e de outros casais que renovaram o amor e o respeito em meio a situ- ações difíceis. De acordo com a Bíblia, as turbulências familiares acompanham a humanidade desde que o primeiro casal se desenten- deu (Gn 3). Porém, assim como o Criador apontou o caminho da restauração naquele momento, Ele continua fazendo isso por meio de Sua Palavra. Esse é o alicerce em que os autores sustentam as orien- tações práticas ao longo do livro. Um dos pontos que se destacam é a necessidade de aprimoramento na comunicação. De acordo com Willie e Elaine, marido e mulher precisam superar os padrões rea- tivos de diálogo para exercer uma forma de comunicação miseri- cordiosa. Os autores afirmam que diante de qualquer ofensa feita por um dos cônjuges, o outro sem- pre terá a oportunidade de parar, pensar e escolher a resposta certa: “Aquela que acalmará o problema, em vez de jogar lenha na fogueira” (p. 51). Embora a comunicação seja importante, para se sustentar o casa- mento é preciso algo mais do que palavras. Por isso, os autores argu- mentam que os casais devem ser leais ao plano divino de construir uma união exclusiva de respeito e fideli- dade (p. 31). Willie e Elaine acredi- tam que, diante das crises na vida a dois, a solução não é buscar um novo relacionamento, mas criar um casamento renovado. GUILHERME SILVA é editor de livros na CPB DICA DE LEITURA Felizes para sempre? Livro apresenta soluções para famílias em crise GUILHERME SILVA 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna Livroterádistribuiçãogratuitaetiragemsuperior a22milhõesdeexemplares.Aversãodigitalda obraestádisponívelemlivro.esperanca.com.br MKTCPB|Fotolia PROVAPDF Redação Designer CQ Marketing Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 23 39305_QuebrandoSilencio.indd 23 11/02/2019 17:18
  • 24. ALÉM DO ENCARCERAMENTO, QUE MEDIDAS PRECISAM SER ADOTADAS PARA QUE O ABUSADOR NÃO VOLTE A COMETER O MESMO CRIME? ROSANA ALVES Foto:©EVGENIY|AdobeStock A historia oue ROSTO An rar qu tipos e ado o oca tem a o que de pr pode mas p tais, vítim cia, a nal e dor o crime bilida cresci que p Qu estud plicid agres bilida para e imagi trans coage sexua Isso e abusa quer E ntre tantos aspectos do abuso sexual que precisam ser cada vez mais esclarecidos, não há como ignorar a importância de se falar sobre o abusador, embora haja quem defenda que não se deve pensar nele, a não ser em sua punição prevista em lei. Porém, para encarar a violência, é preciso buscar respostas para algumas perguntas: qual é o perfil do abusador? Há tratamento para ele? Sua vida pode ser restaurada? n 24 Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O RECUPERAÇÃO 39305_QuebrandoSilencio.indd 24 11/02/2019 17:18
  • 25. 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna Foto:©EVGENIY|AdobeStock e ROSTO CONHECIDO Antes de tudo, é preciso conside- rar que existem, basicamente, dois tipos de molestadores de crianças e adolescentes: o preferencial e o ocasional. O primeiro é aquele que tem atração por menores de idade, o que é conhecido como transtorno de preferência sexual (parafilia), e pode estar relacionado com proble- mas psicológicos, questões ambien- tais, ao fato de a pessoa ter sido vítima de abuso sexual na infân- cia, além de imaturidade emocio- nal e sexual. Por sua vez, o molesta- dor ocasional é aquele que pratica o crime porque se aproveita da vulnera- bilidade da vítima. Infelizmente, tem crescido o número de adolescentes que praticam esse abuso. Quanto ao perfil psicológico, estudos indicam uma grande multi- plicidade de características dos agressores, o que descarta a possi- bilidade de se criar um estereótipo para esse tipo de abusador. Ou seja, imaginar que somente pessoas com transtorno mental ou “bandidos” coagem menores para obter favores sexuais está distante da realidade. Isso explica por que muitas vezes o abusador é alguém acima de qual- quer suspeita, um rosto conhecido da vítima. O fato de ser alguém próximo dificulta a denúncia, prolonga a prática da violência e agrava as consequências emocio- nais da vítima. TRATAMENTO E RECUPERAÇÃO Quando se trata dos abusadores preferenciais, aqueles que têm um transtorno da sexualidade, apenas a detenção para cumprir pena pelo delito cometido não é suficiente para que não se tornem reinciden- tes. A psicoterapia é indicada para identificação dos gatilhos (situa- ções que disparam o comporta- mento abusivo) e para que inter- venções sejam feitas com o intuito de mudança de comportamento. Dependendo do perfil psicológico ou da existência de um transtorno mental, a medicação adequada também deve ser prescrita. É comum o abusador preferen- cial ter uma imagem distorcida sobre o próprio delito. Às vezes, ele considera que estava apenas dando carinho para a criança ou adolescente ou que sua atitude é menos grave do que a de outros abusadores. Por isso, a terapia em grupo, com histórias diferen- tes sendo contadas, é uma estra- tégia que costuma ser eficaz para confrontar as justificativas dos molestadores. Para aqueles que são abusado- res situacionais, além da deten- ção, é necessário verificar se o molestamento aconteceu sob efeito de drogas ou de forma vio- lenta. Dessa maneira, as inter- venções são pensadas com base nas motivações do crime e na forma em que ele ocorreu. Nos Estados Unidos, o programa de recuperação de infratores do Havaí é considerado um dos mais eficientes do país. Uma das técnicas utilizadas é expor os abusadores às ligações de víti- mas de estupro para a polícia. O objetivo é fazer com que entrem em contato com o sofrimento de quem foi violentado. Outro recurso empregado é o psicodrama, técnica terapêu- tica, cuja base é a representação de papéis. Nessa abordagem, o abusador assume o lugar da vítima ou de algum parente dela, a fim de exercitar empatia por quem sofreu tamanha violência. Experiências internacionais indi- cam que os tratamentos dirigidos para os infratores podem diminuir ninguem conta 25Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O 39305_QuebrandoSilencio.indd 25 11/02/2019 17:18
  • 26. Foto:©Photographee.eu|AdobeStock significativamente a reincidência. É o que mostra, por exemplo, o livro Group Therapy with Sexual Abusers, de Steven Sawyer e Jerry L. Jennings (Safer Society Press, 2016). Assim, a sociedade e o governo precisam rea- lizar esforço conjunto, não somente para prevenir o abuso, mas tam- bém para evitar sua repetição. Além de denunciar e prender, existe algo mais a ser feito com o infrator: tentar recuperá-lo. PEDOFILIA Ainda no campo da recuperação e da busca por ajuda para transtor- nos sexuais, vale destacar que nem todo pedófilo é abusador de criança. Pedofilia tem que ver com a atração e o desejo pelo contato sexual com crianças, mas isso nem sempre se concretiza. Felizmente, a maioria dos pedófilos mantém o desejo sob controle, sem contato sexual com menores. Eles muitas vezes se limi- tam a consumir pornografia infantil, o que também é crime. Muitos dos que sentem desejo por crianças sofrem por sentir tal atração ilícita, mas não procuram ajuda, pois têm medo e vergonha de ser expostos. A pedofilia é um trans- torno muitas vezes acompanhado de outros, como, por exemplo, a depres- são. Assim, é necessária uma aborda- gem multidisciplinar para recuperar esses indivíduos. Outro fator importante nesse processo é a participação efetiva da família no tratamento. Como os pedófilos costumam se isolar da convivência com outros adultos, o envolvimento dos familiares facilita o desenvolvimento das capacidades relacionais e serve de “mecanismo de controle” quanto ao uso de medi- camentos, consumo de internet e contato com crianças. O uso da psicoterapia em grupo também se mostra muito válido, pois ajuda os pacientes a se reco- nhecerem nas histórias uns dos outros e, juntos, reconstruírem a própria identidade. Contudo, infelizmente, centros especializa- dos no tratamento desse tipo de transtorno são quase inexistentes. Resta, portanto, o atendimento individual. Por fim, sempre que existir sofrimento, deve-se pensar em solução. Se é possível restaurar a vida do abusador, por que não fazê-lo? Aliviar a dor, prevenir e tratar deve ser o objetivo de todos que procuram ajudar em situações tão lamentáveis como a de um abuso sexual infantil. Para tanto, mais agentes de esperança e res- tauração podem ser formados se trabalharmos com informações confiáveis e com a disposição de superar preconceitos. ROSANA ALVES é pós-doutora em Neurociências pela Escola Paulista de Medicina (Brasil) e pela Universidade Marshall (EUA). Ela é presidente do Neurogenesis Institute, sediado na Flórida N Q U E B R A N D O O S I L Ê N C I O26 39305_QuebrandoSilencio.indd 26 11/02/2019 17:18
  • 27. Foto:©Photographee.eu|AdobeStock Como ar da tos, o acilita dades nismo medi- net e grupo álido, reco- s dos uírem tudo, aliza- po de entes. mento xistir r em aurar e não enir e todos ações e um anto, e res- os se ações ão de ciências ) e pela ente do a 39305–QuebrandoSilêncio2019 Designer Editor C.Qualidade Depto.Arte Bruna MKTCPB|Fotolia cpb.com.br | 0800-9790606 | CPB livraria | 15 98100-5073 /casapublicadora WhatsApp Pessoa jurídica/distribuidor 15 3205-8910 | atendimentolivrarias@cpb.com.br Crer Faz Bem Julián Melgosa Em Crer Faz Bem, o psicólogo Julián Melgosa utiliza pesquisas e relatos pessoais para revelar os benefícios surpreendentes que todos podem obter vivendo a fé cristã. Lágrimas Roberto Badenas Este livro irá ajudar você a enfrentar a dor com dignidade e realismo, encarando os dramas humanos a partir do ponto de vista psicológico, social, filosófico e espiritual. Não perca a fé em meio ao sofrimento PROVAPDF Redação Designer CQ Marketing 39305_QuebrandoSilencio.indd 27 11/02/2019 17:18
  • 28. Fontes: Mapa da Violência contra Idosos (2013) e Mapa da Violência contra a Mulher (2012) MKTCPB|Fotolia Ira Sob Controle Larry Yeagley Saiba como romper o hábito da ira e experimente a transformação radical que se origina em dar e receber perdão. Comece do princípio e aprenda a controlar a ira, a desvencilhar-se do rancor e a sentir-se livre. Eu perdoo, mas... Por que é tão difícil? Lourdes E. Morales Este livro é para as pessoas que creem que perdoar é importante, mas que não podem entender o que realmente é o perdão. Ele é para aqueles que sentem uma dor profunda e não sabem como enfrentá-la. Abra as portas para a renovação interior e a reconciliação. cpb.com.br | 0800-9790606 | CPB livraria | 15 98100-5073 /casapublicadora WhatsApp Pessoa jurídica/distribuidor 15 3205-8910 | atendimentolivrarias@cpb.com.br PROVAPDF Redação Designer CQ Marketing 39305_QuebrandoSilencio.indd 28 11/02/2019 17:18