Sérgio Buarque de Holanda
RAÍZES DO BRASIL
Apresentação
Leonara Margotto Tartaglia
 Nasceu em São Paulo em 1902 e faleceu em 1982.
 Lecionou em várias escolas superiores e, em 1956 tornou-se
catedrático de Hsitória da Civilização Brasileira na Faculdade
de Filosofia da Universidade de São Paulo.
 Outras obras: Cobra de vidro (1944);Caminhos e fronteiras
(1956); Visão do paraíso (1958); Livro dos prefácios (1996); O
espírito e a letra (1996).
O AUTOR
 O livro Raízes do Brasil (1936) destaca-se no tempo entre
duas outras grandes obras: Casa Grande e Senzala (1933) e
Formação do Brasil Contemporâneo (1942).
 Considerado de “escrita historiográfica e de modo de criação
ensaística e investigativa”.
 Construído sobre uma “metodologia dos contrários, o autor
explora conceitos polares”.
CONTEXTUALIZAÇÃO
 A visão de um determinado aspecto da realidade
histórica é obtida pelo enfoque simultâneo dos dois:
um suscita o outro, ambos se interpenetram e o
resultado possui uma grande força de
esclarecimento.
 Beneficia-se do critério metodológico de Max Weber
alterando a pluralidade de tipos para focalizar em
pares.
CONTEXTUALIZAÇÃO
 Trata os pares de maneira dinâmica e sua interação
no processo histórico.
CONTEXTUALIZAÇÃO
Capítulo I: Fronteiras da Europa – região
ibérica: Espanha e Portugal. Colonização da
América – diferenças resultantes dos dois
países.
Capítulo II – Trabalho & Aventura – tipologia
básica do livro: o trabalhador e o aventureiro.
Capítulo III – Herança rural – marca da vida
rural na formação da sociedade brasileira.
O LIVRO
 Capítulo IV: O semeador e o ladrilhador – a
importância da cidade como instrumento de
dominação e da circunstância de ter sido fundada
nesse sentido.
 Capítulo V – O homem cordial – características que
nos são próprias: relações familiares, de simpatia
em detrimento da impessoalidade do estado:
patrimonialismo e burocracia.
 Capítulo VI – Novos tempos – consequências do que
foi explorado anteriormente: sociabilidade aparente,
individualismo, ausência do verdadeiro espírito
democrático.
O LIVRO
A tentativa de implantação da cultura européia em extenso
território é o fato dominante e mais rico em conseqüências nas
origens da sociedade brasileira. Influência na nossa formação.
O índice de valor de um homem infere-se da extensão em que
não precise depender dos demais, em que não necessite de
ninguém, em que se baste. Cada qual é filho de si mesmo, de
seu esforço próprio, de suas virtudes.
Os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente.
As iniciativas, mesmo quando se quiseram construtivas, foram
continuamente no sentido de separar os homens, não de os
unir.
CAP. I - FRONTEIRAS DA EUROPA
 Não tem sentido uma nostalgia de um passado
hipoteticamente mais ordenado. “as épocas realmente vivas
nunca foram tradicionalistas por deliberação.” (p. 33).
 “A falta de coesão em nossa vida social não representa,
assim, um fenômeno moderno”. (p.33)
CAP. I - FRONTEIRAS DA EUROPA
 Toda hierarquia nunca chegou a importar de fato entre nós.
Ela fundamenta-se, necessariamente, em privilégios. (p.35)
 Nas nações ibéricas o princípio unificador foi sempre
representado pelos governos que nos tempos modernos,
encontrou uma das suas formas características nas ditaduras
militares.
CAP. I - FRONTEIRAS DA EUROPA
 As teorias negadoras do livre-arbítrio foram sempre
encaradas com desconfiança e antipatia pelos espanhóis e
portugueses. Mérito e responsabilidade individuais tinham
pleno reconhecimento. (p. 37)
 Ócio ao negócio – ideal: vida de grande senhor, exclusiva de
qualquer esforço ou preocupação.
CAP. I - FRONTEIRAS DA EUROPA
“Moral do trabalho” – a vontade de mandar e a disposição para
cumprir ordens são igualmente peculiares: ditadura, o Santo
Ofício, anarquia e desordem. Jesuítas.
Nem o contato e a mistura com raças indígenas ou adventícias
fizeram-nos tão diferentes dos nossos avós de além-mar como
às vezes gostaríamos.
CAP. I - FRONTEIRAS DA EUROPA
 A exploração dos trópicos não se processou por um
empreendimento metódico e racional – emanou de uma
vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e
certo abandono.
 Homem aventureiro – o ponto de chegada, o final são
relevantes. Seu ideal é colher o fruto sem plantar a árvore. (p.
44)
CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
 Homem trabalhador – enxerga primeiro a dificuldade a
vencer, não o triunfo a alcançar. Seu campo visual é
naturalmente restrito. (p. 44)
 Não há uma oposição entre os dois tipos. Esses dois conceitos
ajudam a situar e a melhor ordenar nosso conhecimento dos
homens e dos conjuntos sociais. (p. 45)
CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
 O gosto da aventura teve influência decisiva em nossa vida
nacional. Foi o elemento orquestrador por excelência
favoreceu a mobilidade social, estimulou os homens a
enfrentar resistências da natureza e criou-lhes as condições
adequadas para as conquistas.
CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
 Não foi uma civilização tipicamente agrícola o que os
portugueses instauraram aqui. (p. 49)
 “O princípio que, desde os tempos mais remotos da
colonização, norteara a criação da riqueza no país, não
cessou de valer um só momento para a produção agrária.
Todos queriam extrair do solo excessivos benefícios sem
grandes sacrifícios”. (p. 52)
CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
 Havia a ausência completa, entre eles, de qualquer orgulho de
raça. Essa modalidade de seu caráter explica-se muito pelo
fato de serem os portugueses, em parte, um povo de
mestiços, por ostentarem um contingente maior de sangue
negro. (p. 53)
CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
 a tendência da população pendia para um abandono de todas
as barreiras sociais, políticas e econômicas entre brancos e
homens de cor, livres e escravos. (p. 54-55)
 A desonra (labéu) era mais associada aos trabalhos vis a que
obrigava a escravidão e que não infamava apenas quem os
praticava, mas igualmente seus descendentes. (p. 55-56)
CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
 Pernambuco com a entrada dos holandeses distinguia-se do
restante do país com palácios, parques, institutos científicos
e culturais, organismos políticos e administrativos, a sede do
governo. (p. 63)
 Estimulava, mesmo que de modo prematuro, a divisão entre o
engenho e a cidade. (p. 63-64)
CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
 Toda a estrutura de nossa sociedade colonial teve sua base
fora dos meios urbanos. Se não foi uma civilização agrícola o
que os portugueses instauraram no Brasil, foi, sem dúvida,
uma civilização de raízes rurais.
 Monarquia – fazendeiros e suas famílias controlavam a
política e a estabilidade das instituições.
CAP. III - HERANÇA RURAL
 1851 – 1855 – diversas reformas o que levou à liquidação
mais ou menos rápida de nossa velha herança rural e
colonial (fim do comércio escravo). (p. 74)
 extinção de um comércio que constituíra a origem de algumas
das maiores fortunas brasileiras do tempo deveria deixar em
disponibilidade os capitais até então comprometidos na
importação de negros. (p. 76)
CAP. III - HERANÇA RURAL
 Das cinzas do tráfico negreiro iria surgir uma era de aparato
sem precedentes em nossa história comercial (p. 77).
 A ânsia de enriquecimento, favorecida pelas excessivas
facilidades de crédito, contaminou logo todas as classes e foi
uma das características notáveis desse período de
“prosperidade”. (p. 77)
CAP. III - HERANÇA RURAL
 Evidenciavam-se dois mundos distintos que se hostilizavam: o
racional ao tradicional, o cosmopolita ao regional ou
paroquial (p. 78).
 A instabilidade das novas fortunas, vinha dar boas razões a
esses nostálgicos do Brasil rural e patriarcal.
 1864 – Lei 22/08/1860 – arrocho no crédito. Crise comercial
de 1864.
CAP. III - HERANÇA RURAL
 Força da família patriarcal - um indivíduo filiado a
determinado partido político assumiu compromissos que não
pode romper pertence a um círculo de idéias que a ascensão
da burguesia urbana tenderia a depreciar cada vez mais.
 as facções são constituídas à semelhança das famílias de
estilo patriarcal, onde os vínculos biológicos e afetivos hão de
preponderar sobre as demais considerações. Os membros se
acham associados por sentimentos e deveres, nunca por
interesses e idéias. (p. 79-80)
CAP. III - HERANÇA RURAL
 O engenho constituía um organismo completo e, que tanto
possível, se bastava a si mesmo. (p. 80).
 O grupo familiar mantém-se imune de qualquer restrição ou
abalo. A entidade privada precede sempre, neles a entidade
pública. O princípio da autoridade é indisputável.
Predominavam, em toda vida social, sentimentos próprios à
comunidade doméstica, naturalmente particularista e
antipolítica, uma invasão do público pelo privado, do Estado
pela família. (p. 81-82)
CAP. III - HERANÇA RURAL
 Com o declínio da velha lavoura e a quase concomitante
ascensão dos centros urbanos, os senhores rurais principiam
a perder sua posição privilegiada. Outras ocupações
reclamam agora igual eminência, ocupações citadinas, como
a atividade política, a burocracia, as profissões liberais.
CAP. III - HERANÇA RURAL
 O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo,
pode constituir ocupação de antigos senhores de escravos e
dos seus herdeiros. Amor à frase sonora, à erudição
ostentosa. Inteligência há de ser ornamento, não instrumento
de conhecimento e de ação. (p. 84)
CAP. III - HERANÇA RURAL
 Com o crescimento dos núcleos urbanos, o processo de
absorção das populações rurais encontra aqui menores
resistências do que nos países europeus.
Ao menos em sua etapa inicial, esse processo correspondeu a
um desenvolvimento da situação de dependência em que se
achavam as cidades em face dos domínios agrários. Na
ausência de uma burguesia urbana independente, os
candidatos às funções criadas recrutam-se entre indivíduos
da massa dos antigos senhores rurais, portadores de
mentalidade e tendência dessa classe. (p. 86-87)
CAP. III - HERANÇA RURAL
 Ainda durante a segunda metade do século XVIII persistia
bem nítido tudo o que caracteriza a nossa vida colonial desde
os seus primeiros tempos.
 O predomínio esmagador do ruralismo, foi antes um
fenômeno típico do esforço dos nossos colonizadores do que
uma imposição do meio. (p. 90-91)
CAP. III - HERANÇA RURAL
 Para muitas nações conquistadoras, a construção de cidades
foi o mais decisivo instrumento de dominação que
conheceram. A experiência tem demonstrado que este
recurso, entre todos, é o mais duradouro e eficiente.
CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
 A colonização espanhola caracterizou-se pelo que faltou à
portuguesa: aplicação insistente em assegurar o predomínio
militar, econômico e político da metrópole sobre as terras
conquistadas, mediante a criação de grandes núcleos de
povoação estáveis e bem ordenados. (p. 95)
CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
 A colonização portuguesa foi litorânea e tropical; a
castelhana foge deliberadamente da marinha, preferindo as
terras do interior e os planaltos. Só em caso de haver bons
portos é que se poderiam instalar povoações novas ao longo
da orla marítima e somente aquelas indispensáveis para se
facilitar a entrada, o comércio e a defesa da terra.
 Já os portugueses criavam todas as dificuldades às entradas
adentro, receosos de que com isso se despovoasse a marinha.
(p. 100)
CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
 No terceiro séc. do domínio português é que temos um afluxo
maior de emigrantes para além da faixa litorânea, com o
descobrimento do ouro das Gerais.
 O descobrimento das minas, sobretudo de diamantes foi o
que determinou finalmente Portugal a pôr um pouco mais de
ordem em sua colônia com o objetivo de desfrutarem, sem
maior trabalho, dos benefícios. Para tal se utilizou a tirania.
(p. 102)
CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
 No Brasil, a exploração litorânea praticada pelos portugueses
encontrou mais uma facilidade no fato de se achar a costa
habitada de uma única família de indígenas, que de norte a
sul falava um mesmo idioma. (p. 105)
CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
 A obra realizada no Brasil pelos portugueses teve um caráter
mais acentuado de feitorização do que de colonização. Não
convinha que aqui se fizessem grande obras, ao menos
quando não produzissem imediatos benefícios. Nada que
acarretasse maiores despesas ou resultasse em prejuízo para
a metrópole.
CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
 Foi admitida aqui a livre entrada de estrangeiros que se
dispusessem a vir trabalhar.
 A cidade que os portugueses construíram na América não é
planejada, não chega a contradizer o quadro da natureza, e
seu formato se adequam à paisagem.
 A expansão dos portugueses no mundo representou sobretudo
obra de prudência, de juízo discreto.
CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
 Como corporação, a Igreja podia ser aliada a até cúmplice fiel
do poder civil; como indivíduos, porém, os religiosos lhe
foram constantemente contrários. As constantes intromissões
das autoridades nas coisas da igreja tendiam a provocar no
clero uma atitude de latente revolta contra as administrações.
CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
 Os maus padres nunca representaram exceções em nosso
meio colonial. E os que pretendessem reagir contra o
relaxamento geral dificilmente encontrariam meios para
tanto.
CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
 O Estado não é uma ampliação do círculo familiar nem uma
integração de certos agrupamentos, de certas vontades
particulares, de que a família é o melhor exemplo. Entre o
círculo familiar e o Estado existe uma descontinuidade e até
uma oposição. Pertencem a ordens diferentes em essência.
(p. 141)
CAP. V – O HOMEM CORDIAL
 o moderno sistema industrial que suprimiu a atmosfera de
intimidade que reinava entre empregadores e empregados e
estimou os antagonismos de classe. Para o empregador
moderno o empregado transforma-se em simples número: a
relação humana desapareceu. (p. 142)
CAP. V – O HOMEM CORDIAL
 No Brasil, onde imperou o tipo primitivo de família patriarcal,
o desenvolvimento da urbanização ia acarretar um
desequilíbrio social, cujos efeitos permanecem.
 Aqueles que foram formados por tal ambiente familiar
patriarcal tinham dificuldade de compreender a diferenças
entre o público e o privado. (p. 145)
CAP. V – O HOMEM CORDIAL
 Para o funcionário “patrimonial” a gestão política se
apresenta como assunto de interesse particular, o que não
deveria acontecer no verdadeiro Estado burocrático. Neste
velho estado de coisas, a escolha das pessoas para exercer
função pública se dá mediante confiança pessoal e não
segundo critérios de capacidade. (p. 146)
CAP. V – O HOMEM CORDIAL
 O homem cordial – superficial, intimista, familiar, sem coesão
social, avesso ao ritual, pouco polido, não suporta viver
consigo, “vive nos outros”.
CAP. V – O HOMEM CORDIAL
 Nossa conduta denuncia um apego singular aos valores da
personalidade configurada pelo recinto doméstico. Cada
indivíduo afirma-se ante os seus semelhantes indiferente à lei
geral, onde esta lei contrarie suas afinidades emotivas.
 Só raramente nos aplicamos de corpo e alma a um objeto
exterior a nós mesmos. (p. 155)
CAP. VI – NOVOS TEMPOS
 No trabalho não buscamos senão a própria satisfação, ele
tem o seu fim em nós mesmos e não na obra.
 Prestígio das profissões liberais. No vício do bacharelismo
ostenta-se nossa tendência para exaltar a personalidade
individual como valor próprio. (p. 155-157)
 P. 156 – “O funcionário...” – 2º parágrafo.
CAP. VI – NOVOS TEMPOS
 O sucesso do positivismo entre nós explica-se por esse
repouso que permite ao espírito as definições do sistema de
Comte.
 O liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós. Só
assimilamos esses princípios até onde coincidiram com a
negação de autoridade confirmando nosso horror às
hierarquias e permitindo tratar com familiaridade os
governantes. (p. 158-159)
CAP. VI – NOVOS TEMPOS
 A democracia entre nós sempre foi um mal entendido.
Aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de
acomodá-la aos seus direitos e privilégios.
 Os movimentos aparentemente reformadores no Brasil
partiram, quase sempre, de cima para baixo, quase sempre de
surpresa. O povo recebeu-os com displicência ou hostilidade.
Não emanavam de uma maturidade plena do povo que ficou
indiferente a tudo. (p. 160)
CAP. VI – NOVOS TEMPOS
 1808 – vinda da família real portuguesa. Começou a
patentear-se a distância entre o elemento “consciente” e a
massa brasileira. Transição do convívio no campo para as
cidades provavelmente estimulou crise em nossos homens.
CAP. VI – NOVOS TEMPOS
 Quanta inútil retórica se tem esperdiçado para provar que
todos os nossos males ficariam resolvidos se estivessem
amplamente difundidas as escolas primárias e o
conhecimento do ABC. A simples alfabetização em massa não
constitui talvez um benefício sem par. Desacompanhada de
outros elementos fundamentais da educação, que a
completem, não tem nenhum valor. (p. 165-166)
CAP. VI – NOVOS TEMPOS
 Nossa República foi além do Império. Neste, o principio do
Poder Moderador corrompeu-se bem cedo, graças à
inexperiência do povo, servindo de base para nossa
monarquia tutelar, compreensível onde dominava um sistema
agrário patriarcal. A divisão política em dois partidos, menos
representativos de idéias do que de pessoas e famílias,
satisfazia nossa necessidade fundamental de solidariedade e
luta. O Parlamento tinha uma função a cumprir dentro do
quadro da vida nacional, dando a imagem visível dessa
solidariedade e luta.(p. 167)
CAP. VI – NOVOS TEMPOS
 Abolição, Proclamação da República e outros acontecimentos
estabelecem uma revolução lenta, sem grande alarde.
 Novo sistema com centro de gravidade não mais nos domínios
rurais e sim nos centros urbanos; cai também entre nós a
influência dos portugueses.
 Definhamento das condições que estimularam a formação de
uma aristocracia rural poderosa.
CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
 O domínio agrário deixa, aos poucos, de ser uma baronia,
para se aproximar, em muitos dos seus aspectos, de um
centro de exploração industrial. (p. 175)
 P. 178 – 2º parágrafo.
 O racionalismo excedeu os seus limites somente quando, ao
erigir em regra suprema os conceitos assim arquitetados,
separou-os irremediavelmente da vida e criou com eles um
sistema lógico, homogêneo, a-histórico. (179)
CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
 P. 180 – revolução. Velha ordem colonial e patriarcal.
 P. 181 – “A sociedade foi mal formada...”.
CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
 As constituições feitas para não serem cumpridas, as leis
existentes para serem violadas, tudo em proveito de
indivíduos e oligarquias, são fenômeno corrente em toda a
história da América do Sul. É em vão que os políticos
imaginam interessar-se mais pelos princípios do que pelos
homens: seus próprios atos representam o desmentido
flagrante dessa pretensão. (p. 182)
CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
 É frequente imaginarmos prezar os princípios democráticos e
liberais quando, em realidade, lutamos por um personalismo
ou contra outro. (p. 184)
 Não faltam exemplos de ditadores que realizam atos de
autoridade perfeitamente arbirtrários e julgam, sem embargo,
fazer obra democrática. (p. 186)
CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
 O Estado, criatura espiritual, opõe-se à ordem natural e a
transcende. (p. 188)
CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
 HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. 26ed. São Paulo: Companhia
das Letras, 1995.
REFERÊNCIA

Raizes do brasil

  • 1.
    Sérgio Buarque deHolanda RAÍZES DO BRASIL Apresentação Leonara Margotto Tartaglia
  • 2.
     Nasceu emSão Paulo em 1902 e faleceu em 1982.  Lecionou em várias escolas superiores e, em 1956 tornou-se catedrático de Hsitória da Civilização Brasileira na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo.  Outras obras: Cobra de vidro (1944);Caminhos e fronteiras (1956); Visão do paraíso (1958); Livro dos prefácios (1996); O espírito e a letra (1996). O AUTOR
  • 3.
     O livroRaízes do Brasil (1936) destaca-se no tempo entre duas outras grandes obras: Casa Grande e Senzala (1933) e Formação do Brasil Contemporâneo (1942).  Considerado de “escrita historiográfica e de modo de criação ensaística e investigativa”.  Construído sobre uma “metodologia dos contrários, o autor explora conceitos polares”. CONTEXTUALIZAÇÃO
  • 4.
     A visãode um determinado aspecto da realidade histórica é obtida pelo enfoque simultâneo dos dois: um suscita o outro, ambos se interpenetram e o resultado possui uma grande força de esclarecimento.  Beneficia-se do critério metodológico de Max Weber alterando a pluralidade de tipos para focalizar em pares. CONTEXTUALIZAÇÃO
  • 5.
     Trata ospares de maneira dinâmica e sua interação no processo histórico. CONTEXTUALIZAÇÃO
  • 6.
    Capítulo I: Fronteirasda Europa – região ibérica: Espanha e Portugal. Colonização da América – diferenças resultantes dos dois países. Capítulo II – Trabalho & Aventura – tipologia básica do livro: o trabalhador e o aventureiro. Capítulo III – Herança rural – marca da vida rural na formação da sociedade brasileira. O LIVRO
  • 7.
     Capítulo IV:O semeador e o ladrilhador – a importância da cidade como instrumento de dominação e da circunstância de ter sido fundada nesse sentido.  Capítulo V – O homem cordial – características que nos são próprias: relações familiares, de simpatia em detrimento da impessoalidade do estado: patrimonialismo e burocracia.  Capítulo VI – Novos tempos – consequências do que foi explorado anteriormente: sociabilidade aparente, individualismo, ausência do verdadeiro espírito democrático. O LIVRO
  • 8.
    A tentativa deimplantação da cultura européia em extenso território é o fato dominante e mais rico em conseqüências nas origens da sociedade brasileira. Influência na nossa formação. O índice de valor de um homem infere-se da extensão em que não precise depender dos demais, em que não necessite de ninguém, em que se baste. Cada qual é filho de si mesmo, de seu esforço próprio, de suas virtudes. Os elementos anárquicos sempre frutificaram aqui facilmente. As iniciativas, mesmo quando se quiseram construtivas, foram continuamente no sentido de separar os homens, não de os unir. CAP. I - FRONTEIRAS DA EUROPA
  • 9.
     Não temsentido uma nostalgia de um passado hipoteticamente mais ordenado. “as épocas realmente vivas nunca foram tradicionalistas por deliberação.” (p. 33).  “A falta de coesão em nossa vida social não representa, assim, um fenômeno moderno”. (p.33) CAP. I - FRONTEIRAS DA EUROPA
  • 10.
     Toda hierarquianunca chegou a importar de fato entre nós. Ela fundamenta-se, necessariamente, em privilégios. (p.35)  Nas nações ibéricas o princípio unificador foi sempre representado pelos governos que nos tempos modernos, encontrou uma das suas formas características nas ditaduras militares. CAP. I - FRONTEIRAS DA EUROPA
  • 11.
     As teoriasnegadoras do livre-arbítrio foram sempre encaradas com desconfiança e antipatia pelos espanhóis e portugueses. Mérito e responsabilidade individuais tinham pleno reconhecimento. (p. 37)  Ócio ao negócio – ideal: vida de grande senhor, exclusiva de qualquer esforço ou preocupação. CAP. I - FRONTEIRAS DA EUROPA
  • 12.
    “Moral do trabalho”– a vontade de mandar e a disposição para cumprir ordens são igualmente peculiares: ditadura, o Santo Ofício, anarquia e desordem. Jesuítas. Nem o contato e a mistura com raças indígenas ou adventícias fizeram-nos tão diferentes dos nossos avós de além-mar como às vezes gostaríamos. CAP. I - FRONTEIRAS DA EUROPA
  • 13.
     A exploraçãodos trópicos não se processou por um empreendimento metódico e racional – emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono.  Homem aventureiro – o ponto de chegada, o final são relevantes. Seu ideal é colher o fruto sem plantar a árvore. (p. 44) CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
  • 14.
     Homem trabalhador– enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar. Seu campo visual é naturalmente restrito. (p. 44)  Não há uma oposição entre os dois tipos. Esses dois conceitos ajudam a situar e a melhor ordenar nosso conhecimento dos homens e dos conjuntos sociais. (p. 45) CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
  • 15.
     O gostoda aventura teve influência decisiva em nossa vida nacional. Foi o elemento orquestrador por excelência favoreceu a mobilidade social, estimulou os homens a enfrentar resistências da natureza e criou-lhes as condições adequadas para as conquistas. CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
  • 16.
     Não foiuma civilização tipicamente agrícola o que os portugueses instauraram aqui. (p. 49)  “O princípio que, desde os tempos mais remotos da colonização, norteara a criação da riqueza no país, não cessou de valer um só momento para a produção agrária. Todos queriam extrair do solo excessivos benefícios sem grandes sacrifícios”. (p. 52) CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
  • 17.
     Havia aausência completa, entre eles, de qualquer orgulho de raça. Essa modalidade de seu caráter explica-se muito pelo fato de serem os portugueses, em parte, um povo de mestiços, por ostentarem um contingente maior de sangue negro. (p. 53) CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
  • 18.
     a tendênciada população pendia para um abandono de todas as barreiras sociais, políticas e econômicas entre brancos e homens de cor, livres e escravos. (p. 54-55)  A desonra (labéu) era mais associada aos trabalhos vis a que obrigava a escravidão e que não infamava apenas quem os praticava, mas igualmente seus descendentes. (p. 55-56) CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
  • 19.
     Pernambuco coma entrada dos holandeses distinguia-se do restante do país com palácios, parques, institutos científicos e culturais, organismos políticos e administrativos, a sede do governo. (p. 63)  Estimulava, mesmo que de modo prematuro, a divisão entre o engenho e a cidade. (p. 63-64) CAP. II - TRABALHO & AVENTURA
  • 20.
     Toda aestrutura de nossa sociedade colonial teve sua base fora dos meios urbanos. Se não foi uma civilização agrícola o que os portugueses instauraram no Brasil, foi, sem dúvida, uma civilização de raízes rurais.  Monarquia – fazendeiros e suas famílias controlavam a política e a estabilidade das instituições. CAP. III - HERANÇA RURAL
  • 21.
     1851 –1855 – diversas reformas o que levou à liquidação mais ou menos rápida de nossa velha herança rural e colonial (fim do comércio escravo). (p. 74)  extinção de um comércio que constituíra a origem de algumas das maiores fortunas brasileiras do tempo deveria deixar em disponibilidade os capitais até então comprometidos na importação de negros. (p. 76) CAP. III - HERANÇA RURAL
  • 22.
     Das cinzasdo tráfico negreiro iria surgir uma era de aparato sem precedentes em nossa história comercial (p. 77).  A ânsia de enriquecimento, favorecida pelas excessivas facilidades de crédito, contaminou logo todas as classes e foi uma das características notáveis desse período de “prosperidade”. (p. 77) CAP. III - HERANÇA RURAL
  • 23.
     Evidenciavam-se doismundos distintos que se hostilizavam: o racional ao tradicional, o cosmopolita ao regional ou paroquial (p. 78).  A instabilidade das novas fortunas, vinha dar boas razões a esses nostálgicos do Brasil rural e patriarcal.  1864 – Lei 22/08/1860 – arrocho no crédito. Crise comercial de 1864. CAP. III - HERANÇA RURAL
  • 24.
     Força dafamília patriarcal - um indivíduo filiado a determinado partido político assumiu compromissos que não pode romper pertence a um círculo de idéias que a ascensão da burguesia urbana tenderia a depreciar cada vez mais.  as facções são constituídas à semelhança das famílias de estilo patriarcal, onde os vínculos biológicos e afetivos hão de preponderar sobre as demais considerações. Os membros se acham associados por sentimentos e deveres, nunca por interesses e idéias. (p. 79-80) CAP. III - HERANÇA RURAL
  • 25.
     O engenhoconstituía um organismo completo e, que tanto possível, se bastava a si mesmo. (p. 80).  O grupo familiar mantém-se imune de qualquer restrição ou abalo. A entidade privada precede sempre, neles a entidade pública. O princípio da autoridade é indisputável. Predominavam, em toda vida social, sentimentos próprios à comunidade doméstica, naturalmente particularista e antipolítica, uma invasão do público pelo privado, do Estado pela família. (p. 81-82) CAP. III - HERANÇA RURAL
  • 26.
     Com odeclínio da velha lavoura e a quase concomitante ascensão dos centros urbanos, os senhores rurais principiam a perder sua posição privilegiada. Outras ocupações reclamam agora igual eminência, ocupações citadinas, como a atividade política, a burocracia, as profissões liberais. CAP. III - HERANÇA RURAL
  • 27.
     O trabalhomental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir ocupação de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Amor à frase sonora, à erudição ostentosa. Inteligência há de ser ornamento, não instrumento de conhecimento e de ação. (p. 84) CAP. III - HERANÇA RURAL
  • 28.
     Com ocrescimento dos núcleos urbanos, o processo de absorção das populações rurais encontra aqui menores resistências do que nos países europeus. Ao menos em sua etapa inicial, esse processo correspondeu a um desenvolvimento da situação de dependência em que se achavam as cidades em face dos domínios agrários. Na ausência de uma burguesia urbana independente, os candidatos às funções criadas recrutam-se entre indivíduos da massa dos antigos senhores rurais, portadores de mentalidade e tendência dessa classe. (p. 86-87) CAP. III - HERANÇA RURAL
  • 29.
     Ainda durantea segunda metade do século XVIII persistia bem nítido tudo o que caracteriza a nossa vida colonial desde os seus primeiros tempos.  O predomínio esmagador do ruralismo, foi antes um fenômeno típico do esforço dos nossos colonizadores do que uma imposição do meio. (p. 90-91) CAP. III - HERANÇA RURAL
  • 30.
     Para muitasnações conquistadoras, a construção de cidades foi o mais decisivo instrumento de dominação que conheceram. A experiência tem demonstrado que este recurso, entre todos, é o mais duradouro e eficiente. CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
  • 31.
     A colonizaçãoespanhola caracterizou-se pelo que faltou à portuguesa: aplicação insistente em assegurar o predomínio militar, econômico e político da metrópole sobre as terras conquistadas, mediante a criação de grandes núcleos de povoação estáveis e bem ordenados. (p. 95) CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
  • 32.
     A colonizaçãoportuguesa foi litorânea e tropical; a castelhana foge deliberadamente da marinha, preferindo as terras do interior e os planaltos. Só em caso de haver bons portos é que se poderiam instalar povoações novas ao longo da orla marítima e somente aquelas indispensáveis para se facilitar a entrada, o comércio e a defesa da terra.  Já os portugueses criavam todas as dificuldades às entradas adentro, receosos de que com isso se despovoasse a marinha. (p. 100) CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
  • 33.
     No terceiroséc. do domínio português é que temos um afluxo maior de emigrantes para além da faixa litorânea, com o descobrimento do ouro das Gerais.  O descobrimento das minas, sobretudo de diamantes foi o que determinou finalmente Portugal a pôr um pouco mais de ordem em sua colônia com o objetivo de desfrutarem, sem maior trabalho, dos benefícios. Para tal se utilizou a tirania. (p. 102) CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
  • 34.
     No Brasil,a exploração litorânea praticada pelos portugueses encontrou mais uma facilidade no fato de se achar a costa habitada de uma única família de indígenas, que de norte a sul falava um mesmo idioma. (p. 105) CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
  • 35.
     A obrarealizada no Brasil pelos portugueses teve um caráter mais acentuado de feitorização do que de colonização. Não convinha que aqui se fizessem grande obras, ao menos quando não produzissem imediatos benefícios. Nada que acarretasse maiores despesas ou resultasse em prejuízo para a metrópole. CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
  • 36.
     Foi admitidaaqui a livre entrada de estrangeiros que se dispusessem a vir trabalhar.  A cidade que os portugueses construíram na América não é planejada, não chega a contradizer o quadro da natureza, e seu formato se adequam à paisagem.  A expansão dos portugueses no mundo representou sobretudo obra de prudência, de juízo discreto. CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
  • 37.
     Como corporação,a Igreja podia ser aliada a até cúmplice fiel do poder civil; como indivíduos, porém, os religiosos lhe foram constantemente contrários. As constantes intromissões das autoridades nas coisas da igreja tendiam a provocar no clero uma atitude de latente revolta contra as administrações. CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
  • 38.
     Os mauspadres nunca representaram exceções em nosso meio colonial. E os que pretendessem reagir contra o relaxamento geral dificilmente encontrariam meios para tanto. CAP. IV O SEMEADOR E O LADRILHADOR
  • 39.
     O Estadonão é uma ampliação do círculo familiar nem uma integração de certos agrupamentos, de certas vontades particulares, de que a família é o melhor exemplo. Entre o círculo familiar e o Estado existe uma descontinuidade e até uma oposição. Pertencem a ordens diferentes em essência. (p. 141) CAP. V – O HOMEM CORDIAL
  • 40.
     o modernosistema industrial que suprimiu a atmosfera de intimidade que reinava entre empregadores e empregados e estimou os antagonismos de classe. Para o empregador moderno o empregado transforma-se em simples número: a relação humana desapareceu. (p. 142) CAP. V – O HOMEM CORDIAL
  • 41.
     No Brasil,onde imperou o tipo primitivo de família patriarcal, o desenvolvimento da urbanização ia acarretar um desequilíbrio social, cujos efeitos permanecem.  Aqueles que foram formados por tal ambiente familiar patriarcal tinham dificuldade de compreender a diferenças entre o público e o privado. (p. 145) CAP. V – O HOMEM CORDIAL
  • 42.
     Para ofuncionário “patrimonial” a gestão política se apresenta como assunto de interesse particular, o que não deveria acontecer no verdadeiro Estado burocrático. Neste velho estado de coisas, a escolha das pessoas para exercer função pública se dá mediante confiança pessoal e não segundo critérios de capacidade. (p. 146) CAP. V – O HOMEM CORDIAL
  • 43.
     O homemcordial – superficial, intimista, familiar, sem coesão social, avesso ao ritual, pouco polido, não suporta viver consigo, “vive nos outros”. CAP. V – O HOMEM CORDIAL
  • 44.
     Nossa condutadenuncia um apego singular aos valores da personalidade configurada pelo recinto doméstico. Cada indivíduo afirma-se ante os seus semelhantes indiferente à lei geral, onde esta lei contrarie suas afinidades emotivas.  Só raramente nos aplicamos de corpo e alma a um objeto exterior a nós mesmos. (p. 155) CAP. VI – NOVOS TEMPOS
  • 45.
     No trabalhonão buscamos senão a própria satisfação, ele tem o seu fim em nós mesmos e não na obra.  Prestígio das profissões liberais. No vício do bacharelismo ostenta-se nossa tendência para exaltar a personalidade individual como valor próprio. (p. 155-157)  P. 156 – “O funcionário...” – 2º parágrafo. CAP. VI – NOVOS TEMPOS
  • 46.
     O sucessodo positivismo entre nós explica-se por esse repouso que permite ao espírito as definições do sistema de Comte.  O liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós. Só assimilamos esses princípios até onde coincidiram com a negação de autoridade confirmando nosso horror às hierarquias e permitindo tratar com familiaridade os governantes. (p. 158-159) CAP. VI – NOVOS TEMPOS
  • 47.
     A democraciaentre nós sempre foi um mal entendido. Aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la aos seus direitos e privilégios.  Os movimentos aparentemente reformadores no Brasil partiram, quase sempre, de cima para baixo, quase sempre de surpresa. O povo recebeu-os com displicência ou hostilidade. Não emanavam de uma maturidade plena do povo que ficou indiferente a tudo. (p. 160) CAP. VI – NOVOS TEMPOS
  • 48.
     1808 –vinda da família real portuguesa. Começou a patentear-se a distância entre o elemento “consciente” e a massa brasileira. Transição do convívio no campo para as cidades provavelmente estimulou crise em nossos homens. CAP. VI – NOVOS TEMPOS
  • 49.
     Quanta inútilretórica se tem esperdiçado para provar que todos os nossos males ficariam resolvidos se estivessem amplamente difundidas as escolas primárias e o conhecimento do ABC. A simples alfabetização em massa não constitui talvez um benefício sem par. Desacompanhada de outros elementos fundamentais da educação, que a completem, não tem nenhum valor. (p. 165-166) CAP. VI – NOVOS TEMPOS
  • 50.
     Nossa Repúblicafoi além do Império. Neste, o principio do Poder Moderador corrompeu-se bem cedo, graças à inexperiência do povo, servindo de base para nossa monarquia tutelar, compreensível onde dominava um sistema agrário patriarcal. A divisão política em dois partidos, menos representativos de idéias do que de pessoas e famílias, satisfazia nossa necessidade fundamental de solidariedade e luta. O Parlamento tinha uma função a cumprir dentro do quadro da vida nacional, dando a imagem visível dessa solidariedade e luta.(p. 167) CAP. VI – NOVOS TEMPOS
  • 51.
     Abolição, Proclamaçãoda República e outros acontecimentos estabelecem uma revolução lenta, sem grande alarde.  Novo sistema com centro de gravidade não mais nos domínios rurais e sim nos centros urbanos; cai também entre nós a influência dos portugueses.  Definhamento das condições que estimularam a formação de uma aristocracia rural poderosa. CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
  • 52.
     O domínioagrário deixa, aos poucos, de ser uma baronia, para se aproximar, em muitos dos seus aspectos, de um centro de exploração industrial. (p. 175)  P. 178 – 2º parágrafo.  O racionalismo excedeu os seus limites somente quando, ao erigir em regra suprema os conceitos assim arquitetados, separou-os irremediavelmente da vida e criou com eles um sistema lógico, homogêneo, a-histórico. (179) CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
  • 53.
     P. 180– revolução. Velha ordem colonial e patriarcal.  P. 181 – “A sociedade foi mal formada...”. CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
  • 54.
     As constituiçõesfeitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas, tudo em proveito de indivíduos e oligarquias, são fenômeno corrente em toda a história da América do Sul. É em vão que os políticos imaginam interessar-se mais pelos princípios do que pelos homens: seus próprios atos representam o desmentido flagrante dessa pretensão. (p. 182) CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
  • 55.
     É frequenteimaginarmos prezar os princípios democráticos e liberais quando, em realidade, lutamos por um personalismo ou contra outro. (p. 184)  Não faltam exemplos de ditadores que realizam atos de autoridade perfeitamente arbirtrários e julgam, sem embargo, fazer obra democrática. (p. 186) CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
  • 56.
     O Estado,criatura espiritual, opõe-se à ordem natural e a transcende. (p. 188) CAP. VII – NOSSA REVOLUÇÃO
  • 57.
     HOLANDA, S.B. Raízes do Brasil. 26ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. REFERÊNCIA