Alfabetização e cotidiano escolar:  práticas e concepções mais favoráveis às crianças de classes populares     Carmen Sanches Sampaio   Escola de Educação/UniRio
“ Como aprendi a alfabetizar”?   Necessidade de preparar a criança para aprender a ler e a escrever. Exercícios com letras e sílabas soltas; palavras-chave; textos acartilhados como referência e eixo do trabalho. Ausência de sentido. Aprender como sinônimo de repetir para decorar  e a transmissão da professora como eixo da prática pedagógica. O erro como evidência do não-saber; do desconhecimento. Avaliação como sinônimo de medição. (Ana Paula, profª alfabetizadora/ISERJ)
 
 
 
 
 
 
 
 
O ensino da escrita tem se reduzido a uma simples técnica, enquanto a própria escrita é reduzida e apresentada como uma técnica, que serve e funciona num sistema de reprodução cultural e produção em massa. Os efeitos desse ensino são tragicamente evidentes, não apenas nos índices de evasão e repetência, mas nos resultados de uma alfabetização sem sentido que produz uma atividade sem consciência: desvinculada da práxis e desprovida de sentido, a escrita se transforma num instrumento de seleção, dominação e alienação.   ( Ana Luiza B.SMOLKA,  1988)  
Anos de 1980:  questionamento dos métodos e das cartilhas de alfabetização Intensa divulgação dos pensamentos construtivista e interacionista sobre alfabetização. Pensamento construtivista  – pesquisas sobre a Psicogênese da Língua Escrita (Ferreiro & Teberosky, 1985). Há um deslocamento do  como se ensina  para o  como se aprende  a língua escrita. Pensamento interacionista  – decorre das proposições de Geraldi (1984) – baseada em uma concepção interacionista de linguagem. Smolka (1988) retoma essa concepção e a torna mais conhecida no campo da alfabetização.
Alfabetização e Letramento? O que muda quando muda o nome? Letramento – palavra recém-chegada ao vocabulário da Educação e Ciências Lingüísticas: segunda metade dos anos 80. Letramento – o resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como conseqüência de ter-se apropriado da escrita. Pesquisas que avaliam o nível de letramento – não basta apenas saber ler e escrever – é preciso saber fazer uso de diferentes tipos de material escrito, compreendê-los, interpretá-los e extrair deles informações. (Soares, 1996)
Alfabetização e Letramento? O que muda quando muda o nome? Alfabetização como um processo discursivo: a criança aprende a ouvir, a entender o outro pela leitura; aprende a falar, a dizer o que quer pela escrita. (Esse aprender significa fazer, usar, praticar, conhecer. Enquanto escreve, a criança aprende a escrever e aprende sobre a escrita).  (Smolka, 1988) Aprender a ler é ampliar as possibilidades de interlocução com pessoas que jamais encontraremos frente a frente e, por interagirmos com elas, sermos capazes de compreender, criticar e avaliar seus modos de compreender o mundo, as coisas, as gentes e suas relações. Isto é ler. E escrever é ser capaz de colocar-se na posição daquele que registra suas compreensões para ser lido por outros e, portanto, com eles interagir.   (Geraldi, 1998 )
A leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. (Paulo Freire)
 
 
O que compreendemos por alfabetizar? Por ensinar? Por aprender? Como compreendemos o processo de ensino/aprendizagem? Quem ensina a quem? Quem aprende com quem? Como compreendemos os estudantes com os quais trabalhamos?
As crianças podem falar o que pensam na escola? Podem escrever o que falam? Podem escrever como falam? Quando? Por quê? ( Ana Luiza B. Smolka)
Qual o papel do/a professor/a? Chegar mais perto, se colocar disponível para ouvir os alunos e alunas com  mais atenção, procurando compreender como aprendem, o que aprendem, o que sabem e o que ainda não sabem.
Intervir deliberadamente fornecendo instruções, demonstrações, pistas, indicações, sinalizações. Investir nos  ainda não saberes  dos estudantes – conhecimentos prospectivos, ainda inexpressivos, mas potencialmente presentes. É preciso criar um clima de confiança na capacidade de aprendizagem de todos e não apenas de alguns ou da maioria dos alunos e alunas.
 
 
 
 
ERRO – Como aprendemos a compreendê-lo? Como a evidência do não saber. Como falta, incapacidade, ausência. Mas... Podemos (e precisamos) aprender a lidar com o erro de um outro modo.  O ERRO...  ERRO Pode sinalizar o movimento vivenciado pelos alunos e alunas no processo de aprendizagem. Pode indicar as aprendizagens já realizadas, os saberes consolidados e, também, novos saberes ainda em elaboração – espaços privilegiados para a intervenção/mediação pedagógica. Pode iluminar as diferenças ocultadas pela igualdade das respostas certas.

Palestra carmen sanches parte1

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    Alfabetização e cotidianoescolar: práticas e concepções mais favoráveis às crianças de classes populares Carmen Sanches Sampaio Escola de Educação/UniRio
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    “ Como aprendia alfabetizar”? Necessidade de preparar a criança para aprender a ler e a escrever. Exercícios com letras e sílabas soltas; palavras-chave; textos acartilhados como referência e eixo do trabalho. Ausência de sentido. Aprender como sinônimo de repetir para decorar e a transmissão da professora como eixo da prática pedagógica. O erro como evidência do não-saber; do desconhecimento. Avaliação como sinônimo de medição. (Ana Paula, profª alfabetizadora/ISERJ)
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    O ensino daescrita tem se reduzido a uma simples técnica, enquanto a própria escrita é reduzida e apresentada como uma técnica, que serve e funciona num sistema de reprodução cultural e produção em massa. Os efeitos desse ensino são tragicamente evidentes, não apenas nos índices de evasão e repetência, mas nos resultados de uma alfabetização sem sentido que produz uma atividade sem consciência: desvinculada da práxis e desprovida de sentido, a escrita se transforma num instrumento de seleção, dominação e alienação. ( Ana Luiza B.SMOLKA, 1988)  
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    Anos de 1980: questionamento dos métodos e das cartilhas de alfabetização Intensa divulgação dos pensamentos construtivista e interacionista sobre alfabetização. Pensamento construtivista – pesquisas sobre a Psicogênese da Língua Escrita (Ferreiro & Teberosky, 1985). Há um deslocamento do como se ensina para o como se aprende a língua escrita. Pensamento interacionista – decorre das proposições de Geraldi (1984) – baseada em uma concepção interacionista de linguagem. Smolka (1988) retoma essa concepção e a torna mais conhecida no campo da alfabetização.
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    Alfabetização e Letramento?O que muda quando muda o nome? Letramento – palavra recém-chegada ao vocabulário da Educação e Ciências Lingüísticas: segunda metade dos anos 80. Letramento – o resultado da ação de ensinar ou de aprender a ler e escrever: o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como conseqüência de ter-se apropriado da escrita. Pesquisas que avaliam o nível de letramento – não basta apenas saber ler e escrever – é preciso saber fazer uso de diferentes tipos de material escrito, compreendê-los, interpretá-los e extrair deles informações. (Soares, 1996)
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    Alfabetização e Letramento?O que muda quando muda o nome? Alfabetização como um processo discursivo: a criança aprende a ouvir, a entender o outro pela leitura; aprende a falar, a dizer o que quer pela escrita. (Esse aprender significa fazer, usar, praticar, conhecer. Enquanto escreve, a criança aprende a escrever e aprende sobre a escrita). (Smolka, 1988) Aprender a ler é ampliar as possibilidades de interlocução com pessoas que jamais encontraremos frente a frente e, por interagirmos com elas, sermos capazes de compreender, criticar e avaliar seus modos de compreender o mundo, as coisas, as gentes e suas relações. Isto é ler. E escrever é ser capaz de colocar-se na posição daquele que registra suas compreensões para ser lido por outros e, portanto, com eles interagir. (Geraldi, 1998 )
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    A leitura domundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. (Paulo Freire)
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    O que compreendemospor alfabetizar? Por ensinar? Por aprender? Como compreendemos o processo de ensino/aprendizagem? Quem ensina a quem? Quem aprende com quem? Como compreendemos os estudantes com os quais trabalhamos?
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    As crianças podemfalar o que pensam na escola? Podem escrever o que falam? Podem escrever como falam? Quando? Por quê? ( Ana Luiza B. Smolka)
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    Qual o papeldo/a professor/a? Chegar mais perto, se colocar disponível para ouvir os alunos e alunas com mais atenção, procurando compreender como aprendem, o que aprendem, o que sabem e o que ainda não sabem.
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    Intervir deliberadamente fornecendoinstruções, demonstrações, pistas, indicações, sinalizações. Investir nos ainda não saberes dos estudantes – conhecimentos prospectivos, ainda inexpressivos, mas potencialmente presentes. É preciso criar um clima de confiança na capacidade de aprendizagem de todos e não apenas de alguns ou da maioria dos alunos e alunas.
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    ERRO – Comoaprendemos a compreendê-lo? Como a evidência do não saber. Como falta, incapacidade, ausência. Mas... Podemos (e precisamos) aprender a lidar com o erro de um outro modo. O ERRO... ERRO Pode sinalizar o movimento vivenciado pelos alunos e alunas no processo de aprendizagem. Pode indicar as aprendizagens já realizadas, os saberes consolidados e, também, novos saberes ainda em elaboração – espaços privilegiados para a intervenção/mediação pedagógica. Pode iluminar as diferenças ocultadas pela igualdade das respostas certas.

Notas do Editor

  • #3 Prática alfabetizadora subsidiada por uma concepção de língua como um sistema estável e imutável, um conjunto de signos que se combinam de acordo com regras específicas que precisam ser aprendidas e reproduzidas.