Oficina I
Por que formar
leitores?
Sumário
Apresentação do tema.............................................2
Para pensar um pouco mais sobre a leitura.............3
Sugestão de prática .................................................8
Retomada do percurso ..........................................11
Para saber mais .....................................................11
Vamos compartilhar?.............................................15
Autoras: Maria Alice Armelim e América Marinho
Fotos: Renata Armelim
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Bem-vindo à oficina 1 do Entre na Roda! Veja os principais conteúdos que
serão trabalhados nesta oficina:
 A importância da leitura na vida das pessoas
 Características de um bom leitor
 Estratégias práticas para mobilizar a atenção dos leitores
Apresentação do tema
Visualize diferentes situações de leitura. Você já vivenciou situações
semelhantes a essas? Com certeza, elas não são totalmente estranhas, pois
grande parte delas está presente no cotidiano de praticamente todos nós:
 Ansiosa, Júlia lê a mensagem que acaba de receber do namorado.
 Marinalva é fã incondicional de literatura de cordel e nunca perde as
novidades.
 Na sala de aula, crianças, reunidas em pequenos grupos,
compartilham leituras.
 Para preparar um prato saboroso e rápido para a mulher, Antônio
recorre ao livro de receitas da sogra.
 Ao acordar, Caio folheia o jornal para ter uma visão geral dos
acontecimentos do dia.
 Ao preparar um lanche, Mariana confere o número de calorias do
requeijão, pois não quer engordar.
 No escritório, Paulo relê um relatório antes de enviá-lo ao chefe.
 No supermercado, Lúcia sempre observa o prazo de validade dos
produtos que vai comprar.
 No metrô, passageiros costumam se distrair, envolvendo-se na leitura
de um bom livro.
 Antes de pegar o ônibus João Paulo observa com atenção o itinerário ,
pois não quer se enganar.
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Nas sociedades letradas, como a nossa, a necessidade da leitura e da escrita
é cada vez maior.
Essa exigência é ainda mais forte no que diz respeito à leitura, já que estamos
imersos num universo de mensagens escritas presentes nos letreiros de
ônibus, nas placas de rua, nos folhetos de propaganda, nos cartazes, nos
impostos e demais contas, nos jornais, nos manuais de instrução, na Internet,
nos livros didáticos e em muitos outros suportes.
Hoje, mais do que nunca, saber ler é indispensável para a efetiva inserção do
indivíduo na sociedade.
Para pensar um pouco mais sobre a leitura
O simples ato da leitura transforma a nossa forma de pensar e enriquece o nosso
conhecimento, gerando uma capacidade imensurável de criar o inimaginável
Thiago Henrique Miranda
Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca.
Jorge Luís Borges
Ler não é simplesmente decifrar o código escrito, nem apenas saber localizar
e repetir conteúdos específicos de um texto, numa leitura linear e literal. É
importante destacar essa ideia, pois, durante muito tempo, se acreditou que
bastava estar alfabetizado ou ser capaz de repetir o que estava escrito para
se compreender qualquer texto.
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Definição
No link abaixo, veja todos os significados de ler, segundo o
dicionário Aulete: http://aulete.uol.com.br/ler
Curiosidade
Você sabia que no Ocidente, praticamente até o século X, a
leitura era feita em voz alta? Isso acontecia porque não
havia separação entre as palavras; além disso, a pontuação
e a ortografia ainda não estavam normatizadas. Só pela
oralização o leitor podia chegar ao significado do texto.
Saiba mais
LER, etimologicamente, vem do Latim: Lĕgo, is, lēgi,
lectum, legĕre: captar com os olhos, ler em voz alta. Mas
também significa: colher, armazenar, juntar
O que é um bom leitor?
Hoje sabemos que um bom leitor é aquele que sabe utilizar procedimentos
de leitura, de modo a reconstruir os sentidos do texto, dialogar com ele,
concordar, discordar etc.
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Portanto, ler é atribuir significado ao mundo (em sentido amplo) e ao texto
que se lê (em sentido específico). Durante e mesmo antes da leitura fazemos
antecipações sobre o texto.
Antes da leitura
Antes da leitura, antecipamos seu conteúdo a partir do título, do tema
abordado, dos conhecimentos prévios sobre o assunto ou o autor e dos
comentários feitos por quem já leu o texto.
Durante da leitura
Durante a leitura, a partir dos elementos que o texto traz e das experiências
anteriores, continuamos fazendo antecipações que podem vir a se confirmar
ou não. Sempre buscamos confirmação de nossas predições durante a
leitura, nas informações trazidas pelo próprio texto e, depois, em conversas e
debates com outras pessoas. Fazemos também, inferências, tiramos
conclusões que não estão explícitas, com base em outras leituras,
experiências de vida, crenças, valores etc.
A leitura não é linear
A leitura não é um processo linear e um mesmo texto possibilita diferentes
leituras. Além disso, ao ler, percebemos algumas palavras globalmente e
adivinhamos outras, guiados por nossas experiências anteriores e por nossas
hipóteses de leitura. Muito da nossa eficiência como leitores vem da
capacidade de anteciparmos o que um texto diz por meio de uma série de
indícios que vão além do que está escrito.
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Saiba mais
Um texto é sempre o resultado das experiências do autor à
época de sua produção, isto é, de sua maneira de ver o
mundo, de suas expectativas, crenças, valores, dos
conhecimentos de que dispunha naquele momento, das
influências que recebeu.
E a leitura desse texto também é fruto das experiências e
dos conhecimentos de que dispõe o leitor e do momento
histórico em que ocorre a leitura. Portanto, nem sempre os
leitores atribuem ao texto o sentido pretendido pelo seu
autor, mesmo que autor e leitores dominem uma mesma
língua e vivam num mesmo tempo.
Indícios
Alguns indícios para uma leitura eficiente nos
são dados pela forma como o texto está
organizado. Quando queremos instruções
sobre como fazer um bolo, não vamos buscá-
las num dicionário, nem numa lista telefônica;
a notícia de um fato recente vamos procurar
num jornal ou na internet; quando recebemos
a conta de luz, sabemos localizar a informação
do valor que devemos pagar.
Esse conhecimento que nos permite ganhar
tempo e autonomia vem de uma larga
experiência no manuseio de diversos materiais
de leitura e do contato com diferentes
gêneros textuais.
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De grão em grão
O processo de apropriação do conhecimento dos diferentes gêneros textuais
e de sua organização é longo, ocorrendo pela mediação de leitores mais
experientes e pela interação com diversos materiais escritos. Assim, o leitor
em formação vai ganhando cada vez mais autonomia até fazer sozinho o que
antes só conseguia com ajuda.
Leitores iniciantes
Os leitores iniciantes precisam adquirir experiência. Para muitas pessoas, ela
começa muito antes de entrar para a escola, quando presenciam atos de
leitura e escrita praticados pelas pessoas que as rodeiam. É assim que
começam a perceber as diferenças entre
a oralidade e a escrita.
A oralidade dispensa uma série de
informações e expressões que são
preenchidas pelo gesto, pela expressão
facial, pela entonação de quem fala e
pelos questionamentos do ouvinte. A
escrita tem de suprir de antemão as
lacunas, antecipando os possíveis
questionamentos e dúvidas do
interlocutor, por meio da organização
do texto, de elementos de coesão
(advérbios, conjunções, tempos verbais
adequados etc.), sinais de pontuação...
Um longo percurso
Formar leitores é mais do que colocá-los diante de materiais escritos. É
acompanhá-los ao longo desse percurso em busca de autonomia, ajudando-
os a compreender textos mais complexos, comentando, perguntando, lendo
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junto, oferecendo orientações e informações sobre gêneros, autores e
obras. E esse papel cabe ao mediador de leitura.
Sugestão de prática
Sem leitura não há educação possível.
Antonio Basanta
(...) ainda que não se leve alguém a ser escritor, a leitura pode, mediante um mecanismo
parecido, nos tornar um pouco mais aptos para enunciar nossas próprias palavras, nosso
próprio texto, nos tornar um pouco mais autores de nossa vida.
Michèle Petit
Quando se quer formar um leitor, é preciso criar momentos ou situações
para que ele construa ou amplie sua experiência, lendo para ele com
frequência.
As histórias da tradição oral, crônicas, contos - incluindo os de fada -, os
textos de cordel, os poemas são motivo de prazer para adultos e crianças; ao
mesmo tempo que ampliam a visão de mundo, representando
simbolicamente problemas humanos, fornecem um modelo de organização
do texto escrito.
Se você se dispõe a formar leitores, escolha textos de boa qualidade para
apresentar a eles e prepare-se para esse momento. Estude o texto antes,
para que a leitura seja bastante expressiva e crie um clima de envolvimento.
Se possível, prepare um ambiente aconchegante e confortável para realizar a
leitura.
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Veja as dicas abaixo
Levante os conhecimentos
que eles têm sobre o assunto
e peça-lhes que antecipem o
que o texto trará. Faça isso
também durante a leitura.
Perguntas que podem ser feitas
Vocês já leram algo sobre esse
assunto? Já ouviram falar nesse autor
ou nesse personagem?
O que vocês acham que vai acontecer
agora? Como ele vai reagir?
Estimule-os a relacionar esses
conhecimentos com o que o
texto traz, a compreender o
que não está explícito no
texto, a ler nas entrelinhas.
Perguntas que podem ser feitas
Por que vocês acham que ele disse
isso? Por que será que ele agiu assim?
Proponha que avaliem tanto
os recursos do texto como as
situações ou fatos narrados.
Perguntas que podem ser feitas
Se a história fosse contada por esse
personagem seria melhor? O que
vocês fariam no lugar dele? Foi legal o
autor usar gírias? Por quê?
Incentive-os a exercitar o
raciocínio lógico, a coerência,
questionando sobre o que
aconteceria se determinado
fato fosse alterado.
Perguntas que podem ser feitas
E se o rei tivesse agido diferente? O
que mudaria na história, se o
mercador tivesse respondido de outro
jeito?
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Desafie-os a ir além do texto,
relacionando sua temática
com ideias afins.
Perguntas que podem ser feitas
A maioria das pessoas é honesta ou
desonesta? Deve-se sempre dizer a
verdade, mesmo que ela possa
prejudicar alguém?
Abra espaço para que todos
possam manifestar seus
sentimentos, emoções,
preferências, seja em relação
a situações presentes no
texto, seja no que diz respeito
às escolhas feitas pelo autor.
Perguntas que podem ser feitas
Vocês gostaram do final da história?
Ou prefeririam que o autor tivesse
continuado, em vez de parar aqui?
Além disso...
Estimule comentários e discussões sobre outros aspectos presentes no texto.
Por exemplo: usos e costumes de outras épocas e povos, o comportamento dos
personagens etc.
Com certeza, depois de um momento como esse, todos estarão ansiosos para
saborear mais uma boa história!
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Retomada do percurso
Confira as principais ideias trabalhadas nesta oficina:
 A importância da leitura na vida das pessoas.
 Diferentes práticas sociais que requerem a leitura: para se
informar, se orientar, se distrair, se entreter, para
partilhar informações com outros...
 Ler é mais que decodificar, é atribuir significado ao texto.
 Não basta colocar livros à disposição de leitores
inexperientes, é preciso uma mediação de leitores
maduros.
 Sugestão de estratégias que mobilizam a atenção de
leitores.
Para saber mais
Veja indicações interessantes sobre o tema:
Livros
ANDRUETTO, Maria Teresa. Por uma literatura sem
adjetivos. São Paulo: Pulo do Gato, 2012.
PETIT, Michèle. A arte de ler ou como resistir à
adversidade. São Paulo: Editora 34, 2009.
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VERSIANI, Daniela Beccaccia, CARVALHO, Gilda, Yunes,
Eliana. Manual sobre boas práticas de leitura. São Paulo:
UNESP; Rio de Janeiro: Cátedra Unesco de Leitura PUC-
RIO, 2012.
Filmes
Nunca te vi, sempre te amei, 1986. Direção: David Hugh
Jones
Durante vinte anos, Helene Hanff (Anne Bancroft), uma
escritora americana, se corresponde com Frank Doel
(Anthony Hopkins), o gerente de uma livraria especializada
em edições raras e esgotadas. Nesse período uma amizade
muito especial surge entre os dois.
O carteiro e o poeta, 1995. Direção: Michael Radford
Por razões políticas, o poeta Pablo Neruda (Philippe
Noiret) se exila em uma ilha na Itália. Lá, um rapaz quase
analfabeto e desempregado (Massimo Troisi) é contratado
como carteiro extra, encarregado de cuidar da
correspondência do poeta. Gradativamente entre os dois
se forma uma sólida amizade.
Poema
Livro...
Jorge Miguel Marinho
A primeira vez que peguei um livro na mão,
Eu tinha quinze anos
E percebi sem saber direito
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Que dentro do livro a vida se escrevia sem fim,
Se escrevia do começo da minha casa e ia até o final das
estrelas.
Depois voltava
E ficava ali na palma da minha mão,
Sempre vinha.
Por isso ainda essa saudade, não do “tempo perdido”,
O tempo nunca se perde quando acontece,
Saudade só das palavras que eu não vivi,
Esse sentimento de falta que é puríssima presença
E é ausência assimilada como diz Drummond,
Motivação para escrever querendo tanto fazer existir
O que ainda não existe.
Vontade de ler o que ainda não foi escrito,
O que é caligrafia de gente que nunca leu
E talvez nunca venha a ler
O que nunca será escrito,
Mas já é letra colada à vida,
Presença. E isto diz tudo.
Presença da realidade solta,
Então escondida e depois tão tocável,
Promessa do que eu ainda não tinha vivido,
Do que eu ainda não sabia nas páginas,
Do que eu ainda não via por trás das palavras,
Do que eu ainda não sabia como não se sabe
uma promessa que é porção virgem
do que se vai saber
e do que nunca se saberá porque o que não se sabe,
querendo saber e se pode saber sempre,
Agora, agora, agora...
É um livro na plenitude
Sempre tão provisória da vida.
A primeira vez que eu peguei um livro na mão,
Eu, sem saber sabendo, peguei a vida,
A vida diluída, a vida distraidamente eterna,
A vida despossuída com tanta palavra dentro,
A vida traída por falta de palavras, de verdades
mentirosas,
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De mentiras tão verdadeiras,
A vida de verdade mesmo,
De traição por ausência do que ia ser,
Do que já devia ter sido e era tão bom que ainda não era,
Que já estava sendo e era tão bom como qualquer coisa
Que se promete,
Que era quase tão bom como traição de amante mesmo
Que depois se torna tão fiel como água dentro da água,
Sincero como a ingenuidade de dois trens que trilham
Distraídos, juntos,
Como um encontro de iguais
Que resolve morar dentro de um livro.
Um livro sem o menor atributo
Porque isto diz tudo.
Um livro que avisa que o destino
Da vida guardada num livro
É de nunca saber o bastante
Que livro é como lâmina que recorta a vida,
Que é enseada que abraça,
Abraço sincero numa ilha em sol aberto
- Não há o que melhorar.
Livro é como fazer um breve movimento
E comungar a mão que escreve
Com os olhos de quem lê.
Por isso essa saudade,
Essa doce tristeza
De nunca saber sabendo tanto
Que livro sabe silenciosamente
De nós.
Isto desde a primeira vez que eu abri um livro.
Esqueci de escrever:
“Livro aqui nunca é só palavra,
Livro é página
Que inventa A VIDA.”
E mais: escrevi este poema hoje de manhã para os meus
amigos todos do Entre na roda, querendo que livro e
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amigo sejam como uma carta, a Roda da Fortuna do Tarô,
como um livro que nunca começa na hora que podia ter
começado, mas que nunca vai acabar. NUNCA.
21/10/2006
Jorge Miguel Marinho é autor de diversos livros, entre eles: Te dou a lua
amanhã, Lis no peito (prêmios Jabuti) e Na curva das emoções (prêmio
APCA). Mais informações em: www.casadojorge.com.br.
Vamos compartilhar?
María Teresa Andruetto, escritora argentina, atua há mais de 30 anos na
formação de professores e de mediadores de leitura. Segundo ela:
"(...) a leitura é, ademais daquela prática solitária e gostosa a que
frequentemente nos referimos, um instrumento de intervenção sobre
o mundo que nos permite pensar, tomar distância, refletir, uma
esplêndida possibilidade para dar lugar às perguntas, à discussão, ao
intercâmbio de percepções e à construção de um juízo próprio."
A leitura, outra revolução - Revista Emília.
O que você pensa sobre essa afirmação?
Acesse o Fórum Trocando Ideias - Oficina 1 (menu à esquerda) e compartilhe
com os outros participantes opiniões, experiências e comentários a respeito
desse tema.

Oficina formação de leitores

  • 1.
    Oficina I Por queformar leitores? Sumário Apresentação do tema.............................................2 Para pensar um pouco mais sobre a leitura.............3 Sugestão de prática .................................................8 Retomada do percurso ..........................................11 Para saber mais .....................................................11 Vamos compartilhar?.............................................15 Autoras: Maria Alice Armelim e América Marinho Fotos: Renata Armelim
  • 2.
    2 Bem-vindo à oficina1 do Entre na Roda! Veja os principais conteúdos que serão trabalhados nesta oficina:  A importância da leitura na vida das pessoas  Características de um bom leitor  Estratégias práticas para mobilizar a atenção dos leitores Apresentação do tema Visualize diferentes situações de leitura. Você já vivenciou situações semelhantes a essas? Com certeza, elas não são totalmente estranhas, pois grande parte delas está presente no cotidiano de praticamente todos nós:  Ansiosa, Júlia lê a mensagem que acaba de receber do namorado.  Marinalva é fã incondicional de literatura de cordel e nunca perde as novidades.  Na sala de aula, crianças, reunidas em pequenos grupos, compartilham leituras.  Para preparar um prato saboroso e rápido para a mulher, Antônio recorre ao livro de receitas da sogra.  Ao acordar, Caio folheia o jornal para ter uma visão geral dos acontecimentos do dia.  Ao preparar um lanche, Mariana confere o número de calorias do requeijão, pois não quer engordar.  No escritório, Paulo relê um relatório antes de enviá-lo ao chefe.  No supermercado, Lúcia sempre observa o prazo de validade dos produtos que vai comprar.  No metrô, passageiros costumam se distrair, envolvendo-se na leitura de um bom livro.  Antes de pegar o ônibus João Paulo observa com atenção o itinerário , pois não quer se enganar.
  • 3.
    3 Nas sociedades letradas,como a nossa, a necessidade da leitura e da escrita é cada vez maior. Essa exigência é ainda mais forte no que diz respeito à leitura, já que estamos imersos num universo de mensagens escritas presentes nos letreiros de ônibus, nas placas de rua, nos folhetos de propaganda, nos cartazes, nos impostos e demais contas, nos jornais, nos manuais de instrução, na Internet, nos livros didáticos e em muitos outros suportes. Hoje, mais do que nunca, saber ler é indispensável para a efetiva inserção do indivíduo na sociedade. Para pensar um pouco mais sobre a leitura O simples ato da leitura transforma a nossa forma de pensar e enriquece o nosso conhecimento, gerando uma capacidade imensurável de criar o inimaginável Thiago Henrique Miranda Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca. Jorge Luís Borges Ler não é simplesmente decifrar o código escrito, nem apenas saber localizar e repetir conteúdos específicos de um texto, numa leitura linear e literal. É importante destacar essa ideia, pois, durante muito tempo, se acreditou que bastava estar alfabetizado ou ser capaz de repetir o que estava escrito para se compreender qualquer texto.
  • 4.
    4 Definição No link abaixo,veja todos os significados de ler, segundo o dicionário Aulete: http://aulete.uol.com.br/ler Curiosidade Você sabia que no Ocidente, praticamente até o século X, a leitura era feita em voz alta? Isso acontecia porque não havia separação entre as palavras; além disso, a pontuação e a ortografia ainda não estavam normatizadas. Só pela oralização o leitor podia chegar ao significado do texto. Saiba mais LER, etimologicamente, vem do Latim: Lĕgo, is, lēgi, lectum, legĕre: captar com os olhos, ler em voz alta. Mas também significa: colher, armazenar, juntar O que é um bom leitor? Hoje sabemos que um bom leitor é aquele que sabe utilizar procedimentos de leitura, de modo a reconstruir os sentidos do texto, dialogar com ele, concordar, discordar etc.
  • 5.
    5 Portanto, ler éatribuir significado ao mundo (em sentido amplo) e ao texto que se lê (em sentido específico). Durante e mesmo antes da leitura fazemos antecipações sobre o texto. Antes da leitura Antes da leitura, antecipamos seu conteúdo a partir do título, do tema abordado, dos conhecimentos prévios sobre o assunto ou o autor e dos comentários feitos por quem já leu o texto. Durante da leitura Durante a leitura, a partir dos elementos que o texto traz e das experiências anteriores, continuamos fazendo antecipações que podem vir a se confirmar ou não. Sempre buscamos confirmação de nossas predições durante a leitura, nas informações trazidas pelo próprio texto e, depois, em conversas e debates com outras pessoas. Fazemos também, inferências, tiramos conclusões que não estão explícitas, com base em outras leituras, experiências de vida, crenças, valores etc. A leitura não é linear A leitura não é um processo linear e um mesmo texto possibilita diferentes leituras. Além disso, ao ler, percebemos algumas palavras globalmente e adivinhamos outras, guiados por nossas experiências anteriores e por nossas hipóteses de leitura. Muito da nossa eficiência como leitores vem da capacidade de anteciparmos o que um texto diz por meio de uma série de indícios que vão além do que está escrito.
  • 6.
    6 Saiba mais Um textoé sempre o resultado das experiências do autor à época de sua produção, isto é, de sua maneira de ver o mundo, de suas expectativas, crenças, valores, dos conhecimentos de que dispunha naquele momento, das influências que recebeu. E a leitura desse texto também é fruto das experiências e dos conhecimentos de que dispõe o leitor e do momento histórico em que ocorre a leitura. Portanto, nem sempre os leitores atribuem ao texto o sentido pretendido pelo seu autor, mesmo que autor e leitores dominem uma mesma língua e vivam num mesmo tempo. Indícios Alguns indícios para uma leitura eficiente nos são dados pela forma como o texto está organizado. Quando queremos instruções sobre como fazer um bolo, não vamos buscá- las num dicionário, nem numa lista telefônica; a notícia de um fato recente vamos procurar num jornal ou na internet; quando recebemos a conta de luz, sabemos localizar a informação do valor que devemos pagar. Esse conhecimento que nos permite ganhar tempo e autonomia vem de uma larga experiência no manuseio de diversos materiais de leitura e do contato com diferentes gêneros textuais.
  • 7.
    7 De grão emgrão O processo de apropriação do conhecimento dos diferentes gêneros textuais e de sua organização é longo, ocorrendo pela mediação de leitores mais experientes e pela interação com diversos materiais escritos. Assim, o leitor em formação vai ganhando cada vez mais autonomia até fazer sozinho o que antes só conseguia com ajuda. Leitores iniciantes Os leitores iniciantes precisam adquirir experiência. Para muitas pessoas, ela começa muito antes de entrar para a escola, quando presenciam atos de leitura e escrita praticados pelas pessoas que as rodeiam. É assim que começam a perceber as diferenças entre a oralidade e a escrita. A oralidade dispensa uma série de informações e expressões que são preenchidas pelo gesto, pela expressão facial, pela entonação de quem fala e pelos questionamentos do ouvinte. A escrita tem de suprir de antemão as lacunas, antecipando os possíveis questionamentos e dúvidas do interlocutor, por meio da organização do texto, de elementos de coesão (advérbios, conjunções, tempos verbais adequados etc.), sinais de pontuação... Um longo percurso Formar leitores é mais do que colocá-los diante de materiais escritos. É acompanhá-los ao longo desse percurso em busca de autonomia, ajudando- os a compreender textos mais complexos, comentando, perguntando, lendo
  • 8.
    8 junto, oferecendo orientaçõese informações sobre gêneros, autores e obras. E esse papel cabe ao mediador de leitura. Sugestão de prática Sem leitura não há educação possível. Antonio Basanta (...) ainda que não se leve alguém a ser escritor, a leitura pode, mediante um mecanismo parecido, nos tornar um pouco mais aptos para enunciar nossas próprias palavras, nosso próprio texto, nos tornar um pouco mais autores de nossa vida. Michèle Petit Quando se quer formar um leitor, é preciso criar momentos ou situações para que ele construa ou amplie sua experiência, lendo para ele com frequência. As histórias da tradição oral, crônicas, contos - incluindo os de fada -, os textos de cordel, os poemas são motivo de prazer para adultos e crianças; ao mesmo tempo que ampliam a visão de mundo, representando simbolicamente problemas humanos, fornecem um modelo de organização do texto escrito. Se você se dispõe a formar leitores, escolha textos de boa qualidade para apresentar a eles e prepare-se para esse momento. Estude o texto antes, para que a leitura seja bastante expressiva e crie um clima de envolvimento. Se possível, prepare um ambiente aconchegante e confortável para realizar a leitura.
  • 9.
    9 Veja as dicasabaixo Levante os conhecimentos que eles têm sobre o assunto e peça-lhes que antecipem o que o texto trará. Faça isso também durante a leitura. Perguntas que podem ser feitas Vocês já leram algo sobre esse assunto? Já ouviram falar nesse autor ou nesse personagem? O que vocês acham que vai acontecer agora? Como ele vai reagir? Estimule-os a relacionar esses conhecimentos com o que o texto traz, a compreender o que não está explícito no texto, a ler nas entrelinhas. Perguntas que podem ser feitas Por que vocês acham que ele disse isso? Por que será que ele agiu assim? Proponha que avaliem tanto os recursos do texto como as situações ou fatos narrados. Perguntas que podem ser feitas Se a história fosse contada por esse personagem seria melhor? O que vocês fariam no lugar dele? Foi legal o autor usar gírias? Por quê? Incentive-os a exercitar o raciocínio lógico, a coerência, questionando sobre o que aconteceria se determinado fato fosse alterado. Perguntas que podem ser feitas E se o rei tivesse agido diferente? O que mudaria na história, se o mercador tivesse respondido de outro jeito?
  • 10.
    10 Desafie-os a iralém do texto, relacionando sua temática com ideias afins. Perguntas que podem ser feitas A maioria das pessoas é honesta ou desonesta? Deve-se sempre dizer a verdade, mesmo que ela possa prejudicar alguém? Abra espaço para que todos possam manifestar seus sentimentos, emoções, preferências, seja em relação a situações presentes no texto, seja no que diz respeito às escolhas feitas pelo autor. Perguntas que podem ser feitas Vocês gostaram do final da história? Ou prefeririam que o autor tivesse continuado, em vez de parar aqui? Além disso... Estimule comentários e discussões sobre outros aspectos presentes no texto. Por exemplo: usos e costumes de outras épocas e povos, o comportamento dos personagens etc. Com certeza, depois de um momento como esse, todos estarão ansiosos para saborear mais uma boa história!
  • 11.
    11 Retomada do percurso Confiraas principais ideias trabalhadas nesta oficina:  A importância da leitura na vida das pessoas.  Diferentes práticas sociais que requerem a leitura: para se informar, se orientar, se distrair, se entreter, para partilhar informações com outros...  Ler é mais que decodificar, é atribuir significado ao texto.  Não basta colocar livros à disposição de leitores inexperientes, é preciso uma mediação de leitores maduros.  Sugestão de estratégias que mobilizam a atenção de leitores. Para saber mais Veja indicações interessantes sobre o tema: Livros ANDRUETTO, Maria Teresa. Por uma literatura sem adjetivos. São Paulo: Pulo do Gato, 2012. PETIT, Michèle. A arte de ler ou como resistir à adversidade. São Paulo: Editora 34, 2009.
  • 12.
    12 VERSIANI, Daniela Beccaccia,CARVALHO, Gilda, Yunes, Eliana. Manual sobre boas práticas de leitura. São Paulo: UNESP; Rio de Janeiro: Cátedra Unesco de Leitura PUC- RIO, 2012. Filmes Nunca te vi, sempre te amei, 1986. Direção: David Hugh Jones Durante vinte anos, Helene Hanff (Anne Bancroft), uma escritora americana, se corresponde com Frank Doel (Anthony Hopkins), o gerente de uma livraria especializada em edições raras e esgotadas. Nesse período uma amizade muito especial surge entre os dois. O carteiro e o poeta, 1995. Direção: Michael Radford Por razões políticas, o poeta Pablo Neruda (Philippe Noiret) se exila em uma ilha na Itália. Lá, um rapaz quase analfabeto e desempregado (Massimo Troisi) é contratado como carteiro extra, encarregado de cuidar da correspondência do poeta. Gradativamente entre os dois se forma uma sólida amizade. Poema Livro... Jorge Miguel Marinho A primeira vez que peguei um livro na mão, Eu tinha quinze anos E percebi sem saber direito
  • 13.
    13 Que dentro dolivro a vida se escrevia sem fim, Se escrevia do começo da minha casa e ia até o final das estrelas. Depois voltava E ficava ali na palma da minha mão, Sempre vinha. Por isso ainda essa saudade, não do “tempo perdido”, O tempo nunca se perde quando acontece, Saudade só das palavras que eu não vivi, Esse sentimento de falta que é puríssima presença E é ausência assimilada como diz Drummond, Motivação para escrever querendo tanto fazer existir O que ainda não existe. Vontade de ler o que ainda não foi escrito, O que é caligrafia de gente que nunca leu E talvez nunca venha a ler O que nunca será escrito, Mas já é letra colada à vida, Presença. E isto diz tudo. Presença da realidade solta, Então escondida e depois tão tocável, Promessa do que eu ainda não tinha vivido, Do que eu ainda não sabia nas páginas, Do que eu ainda não via por trás das palavras, Do que eu ainda não sabia como não se sabe uma promessa que é porção virgem do que se vai saber e do que nunca se saberá porque o que não se sabe, querendo saber e se pode saber sempre, Agora, agora, agora... É um livro na plenitude Sempre tão provisória da vida. A primeira vez que eu peguei um livro na mão, Eu, sem saber sabendo, peguei a vida, A vida diluída, a vida distraidamente eterna, A vida despossuída com tanta palavra dentro, A vida traída por falta de palavras, de verdades mentirosas,
  • 14.
    14 De mentiras tãoverdadeiras, A vida de verdade mesmo, De traição por ausência do que ia ser, Do que já devia ter sido e era tão bom que ainda não era, Que já estava sendo e era tão bom como qualquer coisa Que se promete, Que era quase tão bom como traição de amante mesmo Que depois se torna tão fiel como água dentro da água, Sincero como a ingenuidade de dois trens que trilham Distraídos, juntos, Como um encontro de iguais Que resolve morar dentro de um livro. Um livro sem o menor atributo Porque isto diz tudo. Um livro que avisa que o destino Da vida guardada num livro É de nunca saber o bastante Que livro é como lâmina que recorta a vida, Que é enseada que abraça, Abraço sincero numa ilha em sol aberto - Não há o que melhorar. Livro é como fazer um breve movimento E comungar a mão que escreve Com os olhos de quem lê. Por isso essa saudade, Essa doce tristeza De nunca saber sabendo tanto Que livro sabe silenciosamente De nós. Isto desde a primeira vez que eu abri um livro. Esqueci de escrever: “Livro aqui nunca é só palavra, Livro é página Que inventa A VIDA.” E mais: escrevi este poema hoje de manhã para os meus amigos todos do Entre na roda, querendo que livro e
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    15 amigo sejam comouma carta, a Roda da Fortuna do Tarô, como um livro que nunca começa na hora que podia ter começado, mas que nunca vai acabar. NUNCA. 21/10/2006 Jorge Miguel Marinho é autor de diversos livros, entre eles: Te dou a lua amanhã, Lis no peito (prêmios Jabuti) e Na curva das emoções (prêmio APCA). Mais informações em: www.casadojorge.com.br. Vamos compartilhar? María Teresa Andruetto, escritora argentina, atua há mais de 30 anos na formação de professores e de mediadores de leitura. Segundo ela: "(...) a leitura é, ademais daquela prática solitária e gostosa a que frequentemente nos referimos, um instrumento de intervenção sobre o mundo que nos permite pensar, tomar distância, refletir, uma esplêndida possibilidade para dar lugar às perguntas, à discussão, ao intercâmbio de percepções e à construção de um juízo próprio." A leitura, outra revolução - Revista Emília. O que você pensa sobre essa afirmação? Acesse o Fórum Trocando Ideias - Oficina 1 (menu à esquerda) e compartilhe com os outros participantes opiniões, experiências e comentários a respeito desse tema.