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A Cidade e as Serras   Eça de Queirós
Eça de Queirós 1845 – Póvoa de Varzim 1900 – Paris
Posição de  A Cidade e as Serras  na obra de Eça de Queirós 1875    O Crime do Padre Amaro 1878    O Primo Basílio   1887    A Relíquia   1888    Os Maias 1900     A Ilustre Casa de Ramires  1901     A Cidade e as Serras Ano Obra Portugal crítica reconciliação
A Reconciliação com Portugal: nacionalismo A Ilustre Casa de Ramires “ Os três amigos retomaram o caminho de Vila-Clara. No céu branco uma estrelinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquede. E Padre Soeiro, com seu guarda-sol sob o braço, recolheu à Torre vagarosamente, no silêncio e doçura da tarde, rezando as suas ave-marias, e pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras.” A Cidade e as Serras “ E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparável beleza daquela serra bendita! Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o Divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado!”
Narrador “ Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em Paris, nas escolas do Bairro Latino” Foco narrativo Primeira pessoa Narrador-personagem Narrador – personagem secundário (deuteragonista) Protagonista – Jacinto
Caracterização do narrador Onisciente ou observador? “ Reparei então que o meu amigo emagrecera; e que o nariz se lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as de um comediante cansado. Os anéis do seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de mármore bem polido. Não frisava agora o bigode, murcho, caído em fios pensativos. Também notei que corcovava.” Visão “de fora” Narrador “testemunha”
Tempo 1834 – partida do avô para a França 1854 – 10/1: nascimento de Jacinto –  23 anos –amizade com Zé Fernandes 1880 – partida de Zé Fernandes para Portugal 1887 – retorno do narrador a Paris; reencontro com Jacinto 1888 – ida de Jacinto e Zé Fernandes a Portugal 1889 – casamento de Jacinto 1893 – viagem a Paris e volta definitiva a Portugal
Narração Linear – tempo cronológico Atenção! “ O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.” Paris, 1854 1834 Exílio do avô 1854 Nascimento de Jacinto 1875 Amizade com o narrador 1893 Volta definitiva a Portugal Narrativa em  flashback Narrativa testemunhal
Espaço urbano: Paris rural: Tormes
Tormes começou por ser o nome do lugar onde se passa a acção de um dos mais famosos romances de Eça de Queirós,  A Cidade e as Serras . A fonte de inspiração para a invenção daquele que hoje é, porventura, o mais alto lugar queirosiano, foi a Quinta de Vila Nova, situada na região de Ribadouro, na freguesia de Santa Cruz do Douro (Baião), aonde Eça se deslocou mais de uma vez para tratar de negócios familiares. A força da ficção queirosiana acabou por gerar um topónimo novo – TORMES – que passou a designar a quinta e a casa e por extensão o lugar e a estação de caminho de ferro de Aregos. (...)
Enredo Jacinto “Galeão” e o miguelismo “ E quando soube que o Sr. D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro –  “Jacinto Galeão” correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrado furiosamente: –  Também cá não fico! Também cá não fico! Não, não queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e escorraçado, aquele rei de Portugal (...) Embarcou para França com a mulher, a Sr.ª D. Angelina Fafes (da tão falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o Cintinho”
Jacinto: “Príncipe da Grã-Ventura” “ Pois um rio de verão, manso, translúcido, harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas aldeias, não ofereceria àquele que o descesse num barco de cedro, bem toldado e bem almofadado, com frutas e champanhe a refrescar em gelo, um anjo governado ao leme, outros anjos puxando à sirga, mais segurança e doçura do que a vida oferecia ao meu amigo Jacinto. Por isso nós lhe chamávamos o “Príncipe da Grã-Ventura !”
Apologia da civilização:  O homem superior “ Ora nesse tempo Jacinto concebera uma idéia... Este Príncipe concebera a idéia de que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”. (...) apto portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do progresso (tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder...”
Ciência = Civilização “ –  Aqui tens tu, Zé Fernandes, – começou Jacinto, encostado à janela do mirante – a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que recebemos da Madre Natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas distinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça alumiada. Mas nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um binóculo de corridas, percebo, por trás da vidraça, presuntos, queijos, boiões de geléia e caixas de ameixa seca. Concluo portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção: tenho sobre ti, que com os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se agora, em vez deste vidros simples, eu usasse os do meu telescópio, de composição mais científica, poderia avistar além, no planeta Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos,
toda a geografia de um astro que circula a milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado pela Civilização á sua máxima potência de visão. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que está privado. (...) Claro é portanto que nos devemos cercar de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?”
Civilização = Cidade “ Por um conclusão bem natural, a idéia de Civilização, para Jacinto, não se separava da imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os vastos órgãos funcionando poderosamente. (...) Que criação augusta, a da Cidade! Só por ela, Zé Fernandes, só por ela, pode o homem soberbamente afirmar a sua alma!...”
Saber,  poder e felicidade Suma ciência X Suma potência = suma felicidade
Campo = vida animal “ Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e só resta a bestialidade. Nesses reinos crassos do vegetal e do Animal duas únicas funções se mantêm vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem ocupação, entre focinhos e raízes que não cessam de sugar e de pastar, sufocando no cálido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de matéria; e nessa matéria dois instintos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu ser tão nobremente composto só restava um estômago e por baixo um falo! A alma? Sumida sob a besta.”
Retorno de Zé Fernandes 202, um “depósito ” elevador calorífero biblioteca de 30 mil volumes “ toda uma mecânica suntuosa, aparelhos, lâminas, rodas, tubos, engrenagens...” Zé Fernandes: “Eis a Civilização!”
O progresso: perspectiva irônica “ Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve estar a correr. E, com efeito,(...) escorria para o tapete, como uma tênia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, apanhei maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa  Azoff  entrara em Marselha com avaria! (...) Desejei saber, inquieto, se o prejudicava diretamente aquela avaria da  Azoff . –  Da  Azoff ?... A mim?... Não! É uma notícia.”
O jantar Fruteiros de Saxe Toalha Bordada de Seda Tzigazes Couvert – Consommé frio com trufas Chateau-Yquem e Lagrange Ortolans Gelado  (recitando soneto à Santa Clara) Peixe da Dalmácia Do Grão Duque Psicólogo – Autor de Livros Historiador da Academia Francesa Duque de Marizac  Conde e Madame de Trèves Banqueiro – David Efraim  Madame D´Oriol teatrofone
O tédio de Jacinto “ Claramente percebia eu que o meu Jacinto atravessava uma densa névoa de tédio, tão densa (...) Pobre Príncipe da Grã-Ventura, tombado para o sofá de inércia (...) E esse fastio não o escondeu mais do se velho Zé Fernandes (...)  aquele murmurar que se tornara perene e natural: ´Para quê?`  – ´Não vale a pena!` – ´Que maçada!...`”
–  V. Ex.ª sofre de fartura “ Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grilo: ´ –  Jacinto anda tão murcho, tão corcunda... Que será, Grilo? O venerando preto declarou com uma certeza imensa: –  V. Ex.ª sofre de fartura. Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de Paris; e na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do século XIX nunca poderia saborear plenamente a ´delícia de viver`, ele não encontrava agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o esforço de uma corrida curta numa tipóia fácil. Pobre Jacinto! ”
Questão central Progresso X Felicidade
Notícias da serra “ Três dias depois desta festa no 202 recebeu o meu príncipe inesperadamente, de Portugal, uma nova considerável. Sobre a sua quinta e solar de Tormes, por toda a serra, passara uma tormenta devastadora de vento, corisco e água. Com as grossas chuvas, ´ou por outras causas que os peritos dirão` (como exclamava na sua carta angustiada o procurador Silvério), um pedaço de monte, que se avançava em socalcos sobre o vale da carriça, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha rústica do século XVI, onde jaziam sepultados os avós de Jacinto desde os tempos de el-rei D. Manuel. Os ossos veneráveis desses Jacintos jaziam agora soterrados sob um montão informe de terra e pedra. O Silvério já começara com os moços da quinta a desatulhar os ´preciosos restos`. Mas esperava ansiosamente as ordens de S. Ex.ª...”
“ Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo e firme desde os godos, que de repente ruía! Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro fundo de vale! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, uma história, confundidas num lixo de ruína! –  Coisa estranha, coisa estranha !... ”
Desenterrar o passado: obsessão do “último Eça ” “ Não adormecia; a noite findava (...) E então, através das pálpebras cerradas, Gonçalo percebeu, através do quarto, destacando palidamente da treva, faces lentas que passavam. Eram faces muito antigas, (...)” “ Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonçalo não duvidava da realidade maravilhosa! Sim! Eram os seus avós Ramires, os seus formidáveis avós históricos, que das suas tumbas dispersas corriam, se juntavam na velha casa de Santa Irenéia nove vezes secular  – e formavam em torno do seu leito, do leito em que ele nascera, como a assembléia majestosa da sua raça ressurgida.  ”
“ Como sombras levadas num vento transcendente, todos os avós formidáveis perpassavam  – e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e provadas armas, todas através de toda a história, enobrecidas nas arrancadas contra a moirama, nos trabalhados cercos de castelos e vilas, nas batalhadas formosas com o castelhano soberbo... Era, em torno do leito, um heróico reluzir e retinir de ferros.  E todos soberbamente gritavam:  – ‘Oh neto, toma as nossas armas e vence a sorte inimiga!...’ Mas Gonçalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras ondeantes, volveu: – ‘Oh avós, de que me servem vossas armas – se me falta a vossa alma?...’”
Aristocracia guerreira/rural “ As armas e os barões assinalados” Luta contra os mouros Época de conquistas e formação do império Forte ligação com a terra Passado heróico e glorioso Gonçalo Ramires Jacinto Elite desfibrada, covarde, desinteressada da pátria, desenraizada Portugal decadente Portugal Passado Presente
Valor simbólico dos episódios Jacinto ressurgimento dos antepassados “ chamam” seus descendentes ressurgimento do velho Portugal Ramires
Volta de Jacinto a Portugal Trasladação dos antepassados
“ Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes? Afastei do espelho a cara ensaboada  para encarar com divertido espanto o meu Príncipe: - Oh Jacinto! Foi em ti, só em ti que nasceu a idéia desse dever! E honra te seja, menino... Não cedas a ninguém essa honra! ” Volta    religação com Portugal dever honra
“ O meu pobre Príncipe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava ao destino: –  Acabou !...  Alea jacta est ! E como só partimos para abril, há tempo de pintar, de assoalhar, de envidraçar... Mando daqui de Paris tapetes e camas... Um estofador de Lisboa vai depois forrar e disfarçar algum buraco... Levamos livros, uma máquina para fabricar gelo... E é mesmo uma ocasião de pôr enfim numa das minhas casas de Portugal alguma decência e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Império Bizantino! ” Problema:  casa de Tormes inabitável Solução:  transferir parte do 202 para Tormes
A viagem Chegada em Medina (Espanha) Bagagem vai para Tormes de Espanha divisão da composição
Importância do episódio Caixas do 202 Paris Civilização Jacinto “sem civilização” Purificação
Chegada à Estação de Tormes Ausência de recepção Pimenta, chefe da estação, consegue-lhes uma égua e um jumento Subida da serra: “Jacinto, na suada égua, e eu atrás, no burro de Sancho”
D. Quixote/Sancho; Jacinto/Zé Fernandes: contraponto (Jacinto) Acredita, não há senão a Cidade, Zé Fernandes, não há senão a Cidade! (Zé Fernandes) Então chasqueei risonhamente o meu Príncipe. Aí estava pois a Cidade, augusta criação da humanidade! Ei-la aí, belo Jacinto! (...) o homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! A sua tranqüilidade onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! (...) As amizades (...) estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o amor, na Cidade, (...) onde a nobre carne de Eva se vende (...) como a de vaca!
Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava: –  Que beleza! (...) (Zé Fernandes) (...) não se trata de saber se a terra é linda, mas se ela é boa.
Ressurreição de Jacinto “ era um Jacinto novíssimo” – “desanuviado”, desenvencilhado” Descoberta da Natureza “ Beleza” na simplicidade Culinária campestre rústica “ Almoçara uma pratada de ovos com chouriço, sublime. Passeara por toda aquela magnificência da serra com pensamentos ligeiros de liberdade e de paz” “ por uma clemência de Deus, que fizera  reflorir o tronco seco”
Jacinto era dotado de grande beleza e Apolo apaixonou-se por ele. Um dia em que todos os deuses lançaram o disco, o vento desviou-o, ou então o disco bateu contra um rochedo e ressaltou de tal forma que atingiu Jacinto na cabeça, matando-o imediatamente. Apolo sofreu um grande desgosto e, para imortalizar o nome de seu amigo, transformou o sangue que correra da ferida numa nova flor, o “jacinto” (...)  Segundo alguns autores, o verdadeiro responsável do triste acontecimento seria Zéfiro, rival infeliz de Apolo junto de Jacinto. Ele teria desviado propositadamente o disco para se vingar de ambos. Jacinto   Jacinto – Mitologia
Apolo deus da luz Paris “ morte” de Jacinto restituído à terra Jacinto morte restituído à terra cidade-luz símbolo da civilização revive revive
–  S. Ex.ª brotou! “ O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o ar os cinco dedos em círculo como pétalas de uma tulipa: –  S. Ex.ª brotou! Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de cidade, plantado na serra, pegara, chupara o húmus do torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, cem casais em redor o bendiziam.”
A descoberta da miséria “ –  Mas este pequeno também parece doente! – exclamou Jacinto. – Coitadito, tão amarelo... Tu também estás doente? O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silveira sorria, com bondade: –  Nada, este é o sãozinho... Coitado, assim amarelito e enfezadito porque... Que quer V. Ex.ª? Mal comido, muita miséria... Quando há o bocadito de pão aquilo é para todo o rancho. Muita fomezinha, muita fomezinha. Jacinto pulou bruscamente a borda do carro. –  Fome? Então ele tem fome? Mas há aqui fome?”
“ O Silveira sorria, respeitosamente, ante aquela cândida ignorância das realidades da serra: –  Pois está bem de ver, meu senhor, que há aqui na quinta caseiros que são muito pobrinhos – quase todos. Isso vai por aí uma miséria, que se não fosse alguma ajuda que se lhes dá, nem eu sei... Este Esgueira, com o rancho de filhos, é uma desgraça... Havia V. Ex.ª de ver as casitas em que eles vivem... São chiqueiros.”
A lenda de Santo Ambrósio “ –  Que miséria, Zé Fernandes, eu nem sonhava... Haver por aí, à vista da minha casa, outras casas, onde crianças têm fome! É horrível...” “ –  Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu aquela lenda de Santo Ambrósio... Não, não era Santo Ambrósio. Não me lembra o santo. Ainda não era mesmo santo, apenas um cavaleiro pecador, que se enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só para a avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído por uma chaga!
Sentido da comparação Tu também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de verão. E a serra, hoje, zás! De repente, descobre a sua grande chaga... É talvez a tua preparação para S. Jacinto. Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete: –  É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, é uma chaga que eu posso curar! Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos bem alegremente a escadaria do casarão.
Exmo. Sr., é uma revolução! Caridade: casa, mobília e roupa Justiça social: “Está mandado, Silvério. E também quero saber as rendas que paga essa gente, os contratos que existem, para melhorar. Há muito que melhorar.”
Jacinto: “era como um rei fundador de um reino”  “ o bom senhor era D. Sebastião que voltara”
Jacinto: símbolo social elite portuguesa desenraizada, ausente aristocracia: promotora do progresso e da justiça social X
Jacinto e a volta de D. Miguel Poder local: liberal Boato da volta de D. Miguel Jacinto: preparo da restauração de D. Miguel inimigo político
Jacinto gente humilde D. Sebastião amor elite local D. Miguel hostilidade
Visita à tia Vicência: casamento de Jacinto “ Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha, corada do passo e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos cabelos, - lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azuis. E foi assim que Jacinto, nessa tarde de setembro, na Flor da Malva, viu aquela com quem casou, em maio, na capelinha de azulejos, quando o grande pé de roseira se cobrira já de rosas.
Joaninha: uma imagem cristã “ Ao outro dia, depois do almoço, eu e Jacinto montamos a cavalo para um passeio até à Flor da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu furúnculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de testemunhar a impressão que daria ao meu Príncipe aquela nossa prima Joaninha, que era o  orgulho da nossa casa. Já nessa manhã, andando todos no jardim a escolher uma bela rosa-chá para a botoeira do meu príncipe, a tia Vicência celebrara com tanto fervor a beleza, a graça, a caridade e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei: –  Oh! Tia Vicência, olhe esses elogios todos competem apenas à Virgem Maria! A tia Vicência está a cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!”
Jacinto: incorporação do espírito franciscano “ Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por trás das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam as suas maças verdes, porque as não tinham maduras. (...) Muito tempo um melro nos seguiu, de azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmão melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre contigo fiquemos, serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras!”
Jacinto: “o desejado” “ os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou afrouxarão a exploração das plebes, se uma influência celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! (...) Eis pois a esperança da terra novamente posta num messias!... (...) Assim tem de ser recomeçada a obra da redenção (...) Virá ele, o desejado?”
Joaninha: Personagem secundária Só aparece no final do capítulo XIV Não intervém no andamento do romance Não provoca alteração no protagonista Inexistência de diálogo entre ambos Não fala: nada sabemos sobre ela Personagem ausente Contraponto às mulheres de Paris
Importância de Joaninha Os filhos : valor simbólico “ E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Príncipe já não é o último Jacinto, Jacinto ponto-final – porque naquele solar que decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. ” Jacinto Paris - Desterrado - Desenraizado - Sem descendentes: “Jacinto ponto-final” MORTE Tormes - Descendência - Cria “raízes” na terra - Vitalidade VIDA + –
Modernização das serras Telefone Equilíbrio: Progresso-Natureza
Viagem de Zé Fernandes a Paris “ dias de tédio” O adeus: “ E enfim abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o Boulevard, um adeus à cidade: –  Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas. E o que tens de bom, que é o teu gênio, elegante e claro, lá o receberei na serra pelo correio!”
Volta de Zé Fernandes a Portugal “ E ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma papelada, de que eu me sortira na estação de Orleães, toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo: –  Deita isso fora! E eu atirei para um montão de lixo, ao canto do pátio, aquela podridão da ligeira Civilização. E montei.
Estética Literária: Realismo-Naturalismo 1- Romance de tese   Cidade  –  degradação da vida desumanização do homem Superioridade da vida rural
2- Crítica social “ Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem! Os séculos rolam; e sempre imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo deles, através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Príncipe, se edifica a abundância da Cidade! Ei-la agora coberta de moradas em que eles se abrigam; armazenada de estofos, com que eles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com que eles se não saciam! Para eles só a neve, quando a neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve cai, muda e branca
na treva; as criancinhas gelam nos seus trapos; e a polícia, em torno, ronda atenta para que não seja perturbado o tépido sono daqueles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com peliças de três mil francos. Mas quê, meu Jacinto! A tua Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga desarmonia social, se o capital der ao trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfaldada miséria é a condição do esplendor sereno da Cidade.”
3- Hipocrisia “ Ela parara diante da máquina de contar, de que Jacinto já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E de novo roçou os buracos donde espreitam os números negros, e com o seu enlevado sorriso murmurou: –  Prodigiosa, esta prensa elétrica!... Jacinto acudiu: –  Não! Não! Esta é... Mas ela sorria, seguia... Madame de Trèves não compreendera nenhum aparelho do meu Príncipe! Madame de Trèves não atendera a nenhuma dissertação do meu Príncipe! Naquele gabinete de suntuosa mecânica ela somente se ocupara em exercer, com proveito e com perfeição, a arte de agradar. Toda ela era uma sublime falsidade.
4- O instinto “animal” “ Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com amor, com todos os amores que estão no Amor, o amor divino, o amor humano, o amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama uma cabra.”
5- Zoomorfismo “ –  Oh Jacinto, eu daqui a um instante também quero água! E se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de cincoo em cinco minutos, quero uma coisa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda viva, da serra... O meu Príncipe sorria, com sinceridade: –  Não! Não nos iludamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcádia. É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. (...) temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade (...)
universal Teses: progresso  X  felicidade - superioridade da vida rural nacional/português Teses: -  “volta” a Portugal reencontro com a pátria identificação da elite com a terra aristocracia esclarecida e humanitária progresso e modernização bem-estar coletivo felicidade nacional romance A Cidade e as Serras
Intertextualidades Alberto Caeiro Iracema Arcadismo Vidas Secas A Cidade e as Serras

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A Cidade e as Serras - Eça de Queirós

  • 1. A Cidade e as Serras Eça de Queirós
  • 2. Eça de Queirós 1845 – Póvoa de Varzim 1900 – Paris
  • 3. Posição de A Cidade e as Serras na obra de Eça de Queirós 1875 O Crime do Padre Amaro 1878 O Primo Basílio 1887 A Relíquia 1888 Os Maias 1900 A Ilustre Casa de Ramires 1901 A Cidade e as Serras Ano Obra Portugal crítica reconciliação
  • 4. A Reconciliação com Portugal: nacionalismo A Ilustre Casa de Ramires “ Os três amigos retomaram o caminho de Vila-Clara. No céu branco uma estrelinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquede. E Padre Soeiro, com seu guarda-sol sob o braço, recolheu à Torre vagarosamente, no silêncio e doçura da tarde, rezando as suas ave-marias, e pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras.” A Cidade e as Serras “ E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparável beleza daquela serra bendita! Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o Divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado!”
  • 5. Narrador “ Jacinto e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em Paris, nas escolas do Bairro Latino” Foco narrativo Primeira pessoa Narrador-personagem Narrador – personagem secundário (deuteragonista) Protagonista – Jacinto
  • 6. Caracterização do narrador Onisciente ou observador? “ Reparei então que o meu amigo emagrecera; e que o nariz se lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas, como as de um comediante cansado. Os anéis do seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa, que perdera a antiga serenidade de mármore bem polido. Não frisava agora o bigode, murcho, caído em fios pensativos. Também notei que corcovava.” Visão “de fora” Narrador “testemunha”
  • 7. Tempo 1834 – partida do avô para a França 1854 – 10/1: nascimento de Jacinto – 23 anos –amizade com Zé Fernandes 1880 – partida de Zé Fernandes para Portugal 1887 – retorno do narrador a Paris; reencontro com Jacinto 1888 – ida de Jacinto e Zé Fernandes a Portugal 1889 – casamento de Jacinto 1893 – viagem a Paris e volta definitiva a Portugal
  • 8. Narração Linear – tempo cronológico Atenção! “ O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival.” Paris, 1854 1834 Exílio do avô 1854 Nascimento de Jacinto 1875 Amizade com o narrador 1893 Volta definitiva a Portugal Narrativa em flashback Narrativa testemunhal
  • 9. Espaço urbano: Paris rural: Tormes
  • 10. Tormes começou por ser o nome do lugar onde se passa a acção de um dos mais famosos romances de Eça de Queirós, A Cidade e as Serras . A fonte de inspiração para a invenção daquele que hoje é, porventura, o mais alto lugar queirosiano, foi a Quinta de Vila Nova, situada na região de Ribadouro, na freguesia de Santa Cruz do Douro (Baião), aonde Eça se deslocou mais de uma vez para tratar de negócios familiares. A força da ficção queirosiana acabou por gerar um topónimo novo – TORMES – que passou a designar a quinta e a casa e por extensão o lugar e a estação de caminho de ferro de Aregos. (...)
  • 11. Enredo Jacinto “Galeão” e o miguelismo “ E quando soube que o Sr. D. Miguel, com dois velhos baús amarrados sobre um macho, tomara o caminho de Sines e do final desterro – “Jacinto Galeão” correu pela casa, fechou todas as janelas como num luto, berrado furiosamente: – Também cá não fico! Também cá não fico! Não, não queria ficar na terra perversa donde partia, esbulhado e escorraçado, aquele rei de Portugal (...) Embarcou para França com a mulher, a Sr.ª D. Angelina Fafes (da tão falada casa dos Fafes da Avelã); com o filho, o Cintinho”
  • 12. Jacinto: “Príncipe da Grã-Ventura” “ Pois um rio de verão, manso, translúcido, harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas aldeias, não ofereceria àquele que o descesse num barco de cedro, bem toldado e bem almofadado, com frutas e champanhe a refrescar em gelo, um anjo governado ao leme, outros anjos puxando à sirga, mais segurança e doçura do que a vida oferecia ao meu amigo Jacinto. Por isso nós lhe chamávamos o “Príncipe da Grã-Ventura !”
  • 13. Apologia da civilização: O homem superior “ Ora nesse tempo Jacinto concebera uma idéia... Este Príncipe concebera a idéia de que “o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado”. (...) apto portanto a recolher dentro de uma sociedade e nos limites do progresso (tal como ele se comportava em 1875) todos os gozos e todos os proveitos que resultam de Saber e de Poder...”
  • 14. Ciência = Civilização “ – Aqui tens tu, Zé Fernandes, – começou Jacinto, encostado à janela do mirante – a teoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que recebemos da Madre Natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas distinguir além, através da Avenida, naquela loja, uma vidraça alumiada. Mas nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros simples de um binóculo de corridas, percebo, por trás da vidraça, presuntos, queijos, boiões de geléia e caixas de ameixa seca. Concluo portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção: tenho sobre ti, que com os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se agora, em vez deste vidros simples, eu usasse os do meu telescópio, de composição mais científica, poderia avistar além, no planeta Marte, os mares, as neves, os canais, o recorte dos golfos,
  • 15. toda a geografia de um astro que circula a milhares de léguas dos Campos Elísios. É outra noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza, elevado pela Civilização á sua máxima potência de visão. E desde já, pelo lado do olho portanto, eu, civilizado, sou mais feliz que o incivilizado, porque descubro realidades do universo que ele não suspeita e de que está privado. (...) Claro é portanto que nos devemos cercar de Civilização nas máximas proporções para gozar nas máximas proporções a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?”
  • 16. Civilização = Cidade “ Por um conclusão bem natural, a idéia de Civilização, para Jacinto, não se separava da imagem de Cidade, de uma enorme Cidade, com todos os vastos órgãos funcionando poderosamente. (...) Que criação augusta, a da Cidade! Só por ela, Zé Fernandes, só por ela, pode o homem soberbamente afirmar a sua alma!...”
  • 17. Saber, poder e felicidade Suma ciência X Suma potência = suma felicidade
  • 18. Campo = vida animal “ Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e só resta a bestialidade. Nesses reinos crassos do vegetal e do Animal duas únicas funções se mantêm vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada, sem ocupação, entre focinhos e raízes que não cessam de sugar e de pastar, sufocando no cálido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma, uma fagulhazinha espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de matéria; e nessa matéria dois instintos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu ser tão nobremente composto só restava um estômago e por baixo um falo! A alma? Sumida sob a besta.”
  • 19. Retorno de Zé Fernandes 202, um “depósito ” elevador calorífero biblioteca de 30 mil volumes “ toda uma mecânica suntuosa, aparelhos, lâminas, rodas, tubos, engrenagens...” Zé Fernandes: “Eis a Civilização!”
  • 20. O progresso: perspectiva irônica “ Vê aí o telégrafo!... Ao pé do divã. Uma tira de papel que deve estar a correr. E, com efeito,(...) escorria para o tapete, como uma tênia, a longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras, apanhei maravilhado. A linha, traçada em azul, anunciava ao meu amigo Jacinto que a fragata russa Azoff entrara em Marselha com avaria! (...) Desejei saber, inquieto, se o prejudicava diretamente aquela avaria da Azoff . – Da Azoff ?... A mim?... Não! É uma notícia.”
  • 21. O jantar Fruteiros de Saxe Toalha Bordada de Seda Tzigazes Couvert – Consommé frio com trufas Chateau-Yquem e Lagrange Ortolans Gelado (recitando soneto à Santa Clara) Peixe da Dalmácia Do Grão Duque Psicólogo – Autor de Livros Historiador da Academia Francesa Duque de Marizac Conde e Madame de Trèves Banqueiro – David Efraim Madame D´Oriol teatrofone
  • 22. O tédio de Jacinto “ Claramente percebia eu que o meu Jacinto atravessava uma densa névoa de tédio, tão densa (...) Pobre Príncipe da Grã-Ventura, tombado para o sofá de inércia (...) E esse fastio não o escondeu mais do se velho Zé Fernandes (...) aquele murmurar que se tornara perene e natural: ´Para quê?` – ´Não vale a pena!` – ´Que maçada!...`”
  • 23. – V. Ex.ª sofre de fartura “ Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grilo: ´ – Jacinto anda tão murcho, tão corcunda... Que será, Grilo? O venerando preto declarou com uma certeza imensa: – V. Ex.ª sofre de fartura. Era fartura! O meu Príncipe sentia abafadamente a fartura de Paris; e na Cidade, na simbólica Cidade, fora de cuja vida culta e forte (como ele outrora gritava, iluminado) o homem do século XIX nunca poderia saborear plenamente a ´delícia de viver`, ele não encontrava agora forma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o esforço de uma corrida curta numa tipóia fácil. Pobre Jacinto! ”
  • 25. Notícias da serra “ Três dias depois desta festa no 202 recebeu o meu príncipe inesperadamente, de Portugal, uma nova considerável. Sobre a sua quinta e solar de Tormes, por toda a serra, passara uma tormenta devastadora de vento, corisco e água. Com as grossas chuvas, ´ou por outras causas que os peritos dirão` (como exclamava na sua carta angustiada o procurador Silvério), um pedaço de monte, que se avançava em socalcos sobre o vale da carriça, desabara, arrastando a velha igreja, uma igrejinha rústica do século XVI, onde jaziam sepultados os avós de Jacinto desde os tempos de el-rei D. Manuel. Os ossos veneráveis desses Jacintos jaziam agora soterrados sob um montão informe de terra e pedra. O Silvério já começara com os moços da quinta a desatulhar os ´preciosos restos`. Mas esperava ansiosamente as ordens de S. Ex.ª...”
  • 26. “ Jacinto empalidecera, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo e firme desde os godos, que de repente ruía! Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro fundo de vale! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, uma história, confundidas num lixo de ruína! – Coisa estranha, coisa estranha !... ”
  • 27. Desenterrar o passado: obsessão do “último Eça ” “ Não adormecia; a noite findava (...) E então, através das pálpebras cerradas, Gonçalo percebeu, através do quarto, destacando palidamente da treva, faces lentas que passavam. Eram faces muito antigas, (...)” “ Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonçalo não duvidava da realidade maravilhosa! Sim! Eram os seus avós Ramires, os seus formidáveis avós históricos, que das suas tumbas dispersas corriam, se juntavam na velha casa de Santa Irenéia nove vezes secular – e formavam em torno do seu leito, do leito em que ele nascera, como a assembléia majestosa da sua raça ressurgida. ”
  • 28. “ Como sombras levadas num vento transcendente, todos os avós formidáveis perpassavam – e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e provadas armas, todas através de toda a história, enobrecidas nas arrancadas contra a moirama, nos trabalhados cercos de castelos e vilas, nas batalhadas formosas com o castelhano soberbo... Era, em torno do leito, um heróico reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente gritavam: – ‘Oh neto, toma as nossas armas e vence a sorte inimiga!...’ Mas Gonçalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras ondeantes, volveu: – ‘Oh avós, de que me servem vossas armas – se me falta a vossa alma?...’”
  • 29. Aristocracia guerreira/rural “ As armas e os barões assinalados” Luta contra os mouros Época de conquistas e formação do império Forte ligação com a terra Passado heróico e glorioso Gonçalo Ramires Jacinto Elite desfibrada, covarde, desinteressada da pátria, desenraizada Portugal decadente Portugal Passado Presente
  • 30. Valor simbólico dos episódios Jacinto ressurgimento dos antepassados “ chamam” seus descendentes ressurgimento do velho Portugal Ramires
  • 31. Volta de Jacinto a Portugal Trasladação dos antepassados
  • 32. “ Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes? Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o meu Príncipe: - Oh Jacinto! Foi em ti, só em ti que nasceu a idéia desse dever! E honra te seja, menino... Não cedas a ninguém essa honra! ” Volta  religação com Portugal dever honra
  • 33. “ O meu pobre Príncipe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava ao destino: – Acabou !... Alea jacta est ! E como só partimos para abril, há tempo de pintar, de assoalhar, de envidraçar... Mando daqui de Paris tapetes e camas... Um estofador de Lisboa vai depois forrar e disfarçar algum buraco... Levamos livros, uma máquina para fabricar gelo... E é mesmo uma ocasião de pôr enfim numa das minhas casas de Portugal alguma decência e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Império Bizantino! ” Problema: casa de Tormes inabitável Solução: transferir parte do 202 para Tormes
  • 34. A viagem Chegada em Medina (Espanha) Bagagem vai para Tormes de Espanha divisão da composição
  • 35. Importância do episódio Caixas do 202 Paris Civilização Jacinto “sem civilização” Purificação
  • 36. Chegada à Estação de Tormes Ausência de recepção Pimenta, chefe da estação, consegue-lhes uma égua e um jumento Subida da serra: “Jacinto, na suada égua, e eu atrás, no burro de Sancho”
  • 37. D. Quixote/Sancho; Jacinto/Zé Fernandes: contraponto (Jacinto) Acredita, não há senão a Cidade, Zé Fernandes, não há senão a Cidade! (Zé Fernandes) Então chasqueei risonhamente o meu Príncipe. Aí estava pois a Cidade, augusta criação da humanidade! Ei-la aí, belo Jacinto! (...) o homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. Vê, Jacinto! A sua tranqüilidade onde está, meu Jacinto? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de ouro! (...) As amizades (...) estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o amor, na Cidade, (...) onde a nobre carne de Eva se vende (...) como a de vaca!
  • 38. Jacinto adiante, na sua égua ruça, murmurava: – Que beleza! (...) (Zé Fernandes) (...) não se trata de saber se a terra é linda, mas se ela é boa.
  • 39. Ressurreição de Jacinto “ era um Jacinto novíssimo” – “desanuviado”, desenvencilhado” Descoberta da Natureza “ Beleza” na simplicidade Culinária campestre rústica “ Almoçara uma pratada de ovos com chouriço, sublime. Passeara por toda aquela magnificência da serra com pensamentos ligeiros de liberdade e de paz” “ por uma clemência de Deus, que fizera reflorir o tronco seco”
  • 40. Jacinto era dotado de grande beleza e Apolo apaixonou-se por ele. Um dia em que todos os deuses lançaram o disco, o vento desviou-o, ou então o disco bateu contra um rochedo e ressaltou de tal forma que atingiu Jacinto na cabeça, matando-o imediatamente. Apolo sofreu um grande desgosto e, para imortalizar o nome de seu amigo, transformou o sangue que correra da ferida numa nova flor, o “jacinto” (...) Segundo alguns autores, o verdadeiro responsável do triste acontecimento seria Zéfiro, rival infeliz de Apolo junto de Jacinto. Ele teria desviado propositadamente o disco para se vingar de ambos. Jacinto Jacinto – Mitologia
  • 41. Apolo deus da luz Paris “ morte” de Jacinto restituído à terra Jacinto morte restituído à terra cidade-luz símbolo da civilização revive revive
  • 42. – S. Ex.ª brotou! “ O Grilo arredou os óculos para a testa, e levantando para o ar os cinco dedos em círculo como pétalas de uma tulipa: – S. Ex.ª brotou! Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquele ressequido galho de cidade, plantado na serra, pegara, chupara o húmus do torrão herdado, criara seiva, afundara raízes, engrossara de tronco, atirara ramos, rebentara em flores, forte, sereno, ditoso, benéfico, nobre, dando frutos, derramando sombra. E abrigados pela grande árvore, e por ela nutridos, cem casais em redor o bendiziam.”
  • 43. A descoberta da miséria “ – Mas este pequeno também parece doente! – exclamou Jacinto. – Coitadito, tão amarelo... Tu também estás doente? O rapazinho emudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silveira sorria, com bondade: – Nada, este é o sãozinho... Coitado, assim amarelito e enfezadito porque... Que quer V. Ex.ª? Mal comido, muita miséria... Quando há o bocadito de pão aquilo é para todo o rancho. Muita fomezinha, muita fomezinha. Jacinto pulou bruscamente a borda do carro. – Fome? Então ele tem fome? Mas há aqui fome?”
  • 44. “ O Silveira sorria, respeitosamente, ante aquela cândida ignorância das realidades da serra: – Pois está bem de ver, meu senhor, que há aqui na quinta caseiros que são muito pobrinhos – quase todos. Isso vai por aí uma miséria, que se não fosse alguma ajuda que se lhes dá, nem eu sei... Este Esgueira, com o rancho de filhos, é uma desgraça... Havia V. Ex.ª de ver as casitas em que eles vivem... São chiqueiros.”
  • 45. A lenda de Santo Ambrósio “ – Que miséria, Zé Fernandes, eu nem sonhava... Haver por aí, à vista da minha casa, outras casas, onde crianças têm fome! É horrível...” “ – Sabes o que eu estava pensando, Jacinto?... Que te aconteceu aquela lenda de Santo Ambrósio... Não, não era Santo Ambrósio. Não me lembra o santo. Ainda não era mesmo santo, apenas um cavaleiro pecador, que se enamorara de uma mulher, pusera toda a sua alma nessa mulher, só para a avistar a distância na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ela entrou num portal de igreja, e aí, de repente, ergueu o véu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavaleiro o seio roído por uma chaga!
  • 46. Sentido da comparação Tu também andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua beleza de verão. E a serra, hoje, zás! De repente, descobre a sua grande chaga... É talvez a tua preparação para S. Jacinto. Ele parou, pensativo, com os dedos nas cavas do colete: – É verdade! Vi a chaga! Mas enfim, esta, louvado seja Deus, é uma chaga que eu posso curar! Não desiludi o meu Príncipe. E ambos subimos bem alegremente a escadaria do casarão.
  • 47. Exmo. Sr., é uma revolução! Caridade: casa, mobília e roupa Justiça social: “Está mandado, Silvério. E também quero saber as rendas que paga essa gente, os contratos que existem, para melhorar. Há muito que melhorar.”
  • 48. Jacinto: “era como um rei fundador de um reino” “ o bom senhor era D. Sebastião que voltara”
  • 49. Jacinto: símbolo social elite portuguesa desenraizada, ausente aristocracia: promotora do progresso e da justiça social X
  • 50. Jacinto e a volta de D. Miguel Poder local: liberal Boato da volta de D. Miguel Jacinto: preparo da restauração de D. Miguel inimigo político
  • 51. Jacinto gente humilde D. Sebastião amor elite local D. Miguel hostilidade
  • 52. Visita à tia Vicência: casamento de Jacinto “ Mas, à porta, que de repente se abriu, apareceu minha prima Joaninha, corada do passo e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no pescoço, que fundia mais docemente, numa larga claridade, o esplendor branco da sua pele, e o louro ondeado dos seus belos cabelos, - lindamente risonha, na surpresa que alargava os seus largos, luminosos olhos negros, e trazendo ao colo uma criancinha, gorda e cor-de-rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azuis. E foi assim que Jacinto, nessa tarde de setembro, na Flor da Malva, viu aquela com quem casou, em maio, na capelinha de azulejos, quando o grande pé de roseira se cobrira já de rosas.
  • 53. Joaninha: uma imagem cristã “ Ao outro dia, depois do almoço, eu e Jacinto montamos a cavalo para um passeio até à Flor da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu furúnculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de testemunhar a impressão que daria ao meu Príncipe aquela nossa prima Joaninha, que era o orgulho da nossa casa. Já nessa manhã, andando todos no jardim a escolher uma bela rosa-chá para a botoeira do meu príncipe, a tia Vicência celebrara com tanto fervor a beleza, a graça, a caridade e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei: – Oh! Tia Vicência, olhe esses elogios todos competem apenas à Virgem Maria! A tia Vicência está a cair em pecado de idolatria! O Jacinto depois vai encontrar uma criatura apenas humana, e tem um desapontamento tremendo!”
  • 54. Jacinto: incorporação do espírito franciscano “ Frescos ramos roçavam os nossos ombros com familiaridade e carinho. Por trás das sebes, carregadas de amoras, as macieiras estendidas ofereciam as suas maças verdes, porque as não tinham maduras. (...) Muito tempo um melro nos seguiu, de azinheiro a olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmão melro! Ramos de macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre contigo fiquemos, serra tão acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bendita entre as serras!”
  • 55. Jacinto: “o desejado” “ os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou afrouxarão a exploração das plebes, se uma influência celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! (...) Eis pois a esperança da terra novamente posta num messias!... (...) Assim tem de ser recomeçada a obra da redenção (...) Virá ele, o desejado?”
  • 56. Joaninha: Personagem secundária Só aparece no final do capítulo XIV Não intervém no andamento do romance Não provoca alteração no protagonista Inexistência de diálogo entre ambos Não fala: nada sabemos sobre ela Personagem ausente Contraponto às mulheres de Paris
  • 57. Importância de Joaninha Os filhos : valor simbólico “ E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco anos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Príncipe já não é o último Jacinto, Jacinto ponto-final – porque naquele solar que decaíra, correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Teresinha, minha afilhada, e um Jacintinho, senhor muito da minha amizade. ” Jacinto Paris - Desterrado - Desenraizado - Sem descendentes: “Jacinto ponto-final” MORTE Tormes - Descendência - Cria “raízes” na terra - Vitalidade VIDA + –
  • 58. Modernização das serras Telefone Equilíbrio: Progresso-Natureza
  • 59. Viagem de Zé Fernandes a Paris “ dias de tédio” O adeus: “ E enfim abalei uma tarde, depois de lançar da minha janela, sobre o Boulevard, um adeus à cidade: – Pois adeusinho, até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaidade, outra vez, não me pilhas. E o que tens de bom, que é o teu gênio, elegante e claro, lá o receberei na serra pelo correio!”
  • 60. Volta de Zé Fernandes a Portugal “ E ajudara a prima Joaninha a montar, quando o carregador apareceu com um maço de jornais e papéis, que eu esquecera na carruagem. Era uma papelada, de que eu me sortira na estação de Orleães, toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo, de erotismo. Jacinto, que as reconhecera, gritou rindo: – Deita isso fora! E eu atirei para um montão de lixo, ao canto do pátio, aquela podridão da ligeira Civilização. E montei.
  • 61. Estética Literária: Realismo-Naturalismo 1- Romance de tese Cidade – degradação da vida desumanização do homem Superioridade da vida rural
  • 62. 2- Crítica social “ Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura, imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela existem! Os séculos rolam; e sempre imutáveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo deles, através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Príncipe, se edifica a abundância da Cidade! Ei-la agora coberta de moradas em que eles se abrigam; armazenada de estofos, com que eles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com que eles se não saciam! Para eles só a neve, quando a neve cai, e entorpece e sepulta as criancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve cai, muda e branca
  • 63. na treva; as criancinhas gelam nos seus trapos; e a polícia, em torno, ronda atenta para que não seja perturbado o tépido sono daqueles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com peliças de três mil francos. Mas quê, meu Jacinto! A tua Civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, nesta amarga desarmonia social, se o capital der ao trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada. Irremediável é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe pene! A sua esfaldada miséria é a condição do esplendor sereno da Cidade.”
  • 64. 3- Hipocrisia “ Ela parara diante da máquina de contar, de que Jacinto já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E de novo roçou os buracos donde espreitam os números negros, e com o seu enlevado sorriso murmurou: – Prodigiosa, esta prensa elétrica!... Jacinto acudiu: – Não! Não! Esta é... Mas ela sorria, seguia... Madame de Trèves não compreendera nenhum aparelho do meu Príncipe! Madame de Trèves não atendera a nenhuma dissertação do meu Príncipe! Naquele gabinete de suntuosa mecânica ela somente se ocupara em exercer, com proveito e com perfeição, a arte de agradar. Toda ela era uma sublime falsidade.
  • 65. 4- O instinto “animal” “ Amei aquela criatura. Amei aquela criatura com amor, com todos os amores que estão no Amor, o amor divino, o amor humano, o amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julieta, como um bode ama uma cabra.”
  • 66. 5- Zoomorfismo “ – Oh Jacinto, eu daqui a um instante também quero água! E se compete a esta rapariga trazer as coisas, eu, de cincoo em cinco minutos, quero uma coisa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda viva, da serra... O meu Príncipe sorria, com sinceridade: – Não! Não nos iludamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcádia. É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. (...) temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade (...)
  • 67. universal Teses: progresso X felicidade - superioridade da vida rural nacional/português Teses: - “volta” a Portugal reencontro com a pátria identificação da elite com a terra aristocracia esclarecida e humanitária progresso e modernização bem-estar coletivo felicidade nacional romance A Cidade e as Serras
  • 68. Intertextualidades Alberto Caeiro Iracema Arcadismo Vidas Secas A Cidade e as Serras