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1. INTRODUÇÃO

       No Sítio do Pica pau Amarelo encontramos coisas surpreendentes que desafiam a
compreensão daquele leitor que analisar a obra desprevenido, ou com expectativas de
encontrar apenas um sítio, como outro qualquer. De fato esse sítio não é qualquer sítio. O que
o leitor encontra no Sítio do Pica-Pau Amarelo é um espaço de reflexão, onde Monteiro
Lobato retrata diversas questões pertinentes a época, além alguns aspectos de sua própria vida
e personalidade.
       Este trabalho possui o intuito de analisar a obra, destacando um tema específico, no
caso, o capítulo “A Gramática da Emília”, levantando assim questões sobre os personagens, e
principalmente sobre a personagem Emília. A escolha deste capítulo se deu devido à didática
presente no mesmo, fato que podemos observar não só neste capítulo como também em todos
os outros da série.
       Em paralelo com o tema do trabalho há a pesquisa de campo, onde foram elaboradas
questões para serem levadas às ruas da cidade de São Paulo. A pesquisa possui o intuito de
analisar os níveis de fala da população, analisando pessoas das classes A, B, C, D e E. O tema
desta foi elaborado a partir do tema deste trabalho, onde pudemos perceber a preocupação de
Monteiro Lobato com a questão da educação, e portanto esse foi o tema que utilizamos para
realizar as 50 entrevistas necessárias, das quais destacamos 10 para análise.
8

2. CONTEXTO NACIONAL


       Em 1920 ainda estava em vigência a política do café-com-leite, onde os Partidos
Republicanos Paulista e Mineiro se alternavam no poder do país, defendendo os interesses
oligárquicos da elite dessas regiões; porém, em 1922, surgiu uma reação republicana, na qual
se uniram Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, para apresentarem um
candidato, Nilo Peçanha, contra o de Minas e São Paulo, Artur Bernardes.
       Desaparecidos do cenário político desde 1910, os militares se inclinaram contra a
oligarquia presente.
       A disputa foi acirrada, todavia vencida por Artur Bernardes, o que fez eclodir uma
reação há muito tempo contida: dia 5 de julho de 1922, jovens oficiais do forte de Copacabana
se rebelaram com o intuito de impedir a posse de Artur Bernardes. A ação fora malograda,
porém os jovens decidiram marchar nas praias de Copacabana, numa atitude suicida, contra as
tropas legalistas. O episódio é conhecido como 18 do Forte, e iniciou um época com muitas
rebeliões, conhecida como Tenentismo.
       Desde o inicio o governo de Artur Bernardes foi instável politicamente. No Rio
Grande do Sul estourou uma guerra civil em 1923 e em São Paulo uma rebelião chefiada por
Isidoro Dias Lopes, em 1924, que mais tarde se uniu aos sulistas e a Coluna Prestes, em 1925.
       Já com um cenário urbano no eixo Rio-São Paulo, foi inevitável a aparição do
movimento operário, trazido junto aos imigrantes italianos, o que gerou o Partido Anarquista.
       Os anarquistas lutavam a favor do operário, por mais controle de duas funções para
eles próprios, além de serem totalmente contra o Estado.
       Uma série de movimentos espalhados pelo mundo pressionavam o Brasil a melhores
definições quanto a essa nova classe, e os anarquistas ficaram sem saber o que fazer, uma vez
que as leis iriam favorece-los, mas seria feita pelo Estado que queriam extinguir.
       Se os anarquistas se sentiram perdidos, os comunistas sabiam exatamente o que
queriam, e fundado em 1922 devido a onda que a Revolução Russa criou, o Partido
Comunista Brasileiro era a favor de medidas governamentais e ainda a centralização do poder
no estado, porém a divergência de interesses com os anarquistas fragmentou a classe operária,
o que a enfraqueceu, porém criou a base do controle estatal do governo Vargas.
       Ao final do mandato de Washington Luís, sucessor de Artur Bernardes, esperava-se
sua nomeação de um candidato mineiro para a próxima eleição, porém indicou um paulista, o
que gerou a cisão das oligarquias, o que fez o PRM juntar ao Rio Grande do Sul na
9

candidatura de Getúlio Vargas. Porém Júlio Prestes, candidato paulista, ganhou as eleições de
30.
       Apesar de tudo, antes de Prestes tomar poder, Washington Luís foi deposto pelos
generais gaúchos e o Partido Democrático, assumindo então Getúlio Vargas, no conhecido
Golpe de 30. Instituiu-se, então, o governo provisório, e Vargas tinha que se equilibrar entre
as pressões das outras peças políticas do país: de um lado a oligarquia, que já não fazia mais
parte do poder, de outro os tenentes, influenciados pelo fascismo, queriam o poder
centralizado, e de um terceiro lado os militares legalistas, apenas tentando estabelecer a
ordem. Fez concessões as partes, mas não resolveu os problemas delas, então os segundos se
organizavam em clubes políticos, a favor da ditadura, e os primeiros arranjavam um jeito de
acabarem com aquilo para voltarem ao poder. Então forças políticas paulistas se juntaram para
exigir uma reconstitucionalização do país, nomeando um interventor para o governo.
       Apesar da pressão tenentista, Getúlio publicou um novo código eleitoral e um
anteprojeto para a nova constituição. No novo código eleitoral foi estabelecido o voto secreto,
o voto feminino, além da representação classicista, ou seja, patrões e empregados poderiam
votar por seus representantes. Mesmo com as reformas eclodiu em São Paulo a Revolução
Constitucionalista, que durou três meses, feitas por militares de São Paulo com pequenos
reforços de Mato Grosso. Como muitos generais legalistas se recusavam dar apoio a Vargas
para reprimir a revolução, este rompeu com os tenentistas e conseguiu o apoio dos exército
central e deu fim a revolta em São Paulo, em 1932.
       Em 3 de maio de 1933, de acordo com o novo Código Eleitoral, foram feitas as
eleições para a Assembléia Constituinte, instituída no mesmo ano, com representantes da
antiga oligarquia e das classes trabalhistas dos sindicatos. No ano seguinte a terceira
Constituição do Brasil foi promulgada. A nova Constituição preservava o federalismo, o
presidencialismo e a independência dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.
       Estatização e nacionalização foram sempre presentes no governo provisório, afetando
a política de imigração, de empresas estrangeiras, extração de recursos naturais e imprensa.
       A novidade da nova constituição é referente as leis trabalhistas, o que no governo
anterior era tratado como caso de polícia, agora era de política. Proibições de diferenças
salariais com base em sexo, idade ou estado civil, 8 horas diárias de carga-horária, descanso
semanal, e várias outros direitos cedidos ao trabalhador. Muitos diziam que era uma manobra
populista para controlar os sindicatos e as greves. Também foi criado o Ministério da
Educação e Saúde, primeira demonstração de importância com o setor da educação, sendo
obrigatório o ensino primário.
10

         Entre 1932 e 35, quando começou-se a sentir a crise de 1929, intensificaram os
movimentos esquerdistas e, assim, também movimentos integralistas paramilitares que
reprimiam com violência os primeiros. Os esquerdistas chamaram atenção também do
governo, e Vargas mandou fechar as sedes da ANL, acabando com sua funcionalidade legal. E
mais uma vez os comunistas se rebelaram em várias partes do Brasil.
         Então Getúlio declarou estado de sítio no país, com pretexto de combater a ameaça
comunista, e teve tempo de planejar seu próximo passo referente as eleições que estavam por
vir.
         Congressistas impediram Vargas de renovar seu pedido de sítio, mas, com origem
duvidosa, foi apresentado o “Plano Cohen”, que, supostamente, seria um plano comunista de
assassinar personalidades importante. Então o Congresso declarou estado de guerra, cenário
perfeito para o golpe de Vargas, que com o apoio de vários governadores e das forças
armadas, no dia 10 de novembro de1937 apresentou a nova constituição e fechou o
Congresso. No dia 2 de dezembro do mesmo ano os partidos foram dissolvidos. Era o início
do Estado Novo.
         Dois ano depois começa a Segunda Guerra Mundial, e o Brasil se mantém neutro, ou
melhor, indeciso, com identificações aos governos do Eixo e pressão por parte do Estados
Unidos. Mas, em 1941, o Brasil rompe com o Eixo e no ano seguinte formaliza o apoio aos
Aliados.
         Depois de alguns navios brasileiros serem afundados por embarcações alemãs, o Brasil
é pressionado a declarar guerra a Alemanha e a Itália. No inicio de sua participação ele
contribuía com matérias-primas estratégicas, mas em 1944 enviou a Força Expedicionária
Brasileira para lutar na Itália.
         A vitória das forças democráticas, em 1945, na guerra pôs o governo ditatorial de
Vargas     em   situação     desconfortável,   chamando   atenção   para   as   manifestações
redemocratizadoras que aconteciam desde a aliança brasileira com os Aliados, e em 1946,
depois da tentativa de mais uma manobra para permanecer no governo, Getúlio foi obrigado a
abandonar o poder. Era o fim do Estado Novo.
         Com as manifestações de 1943 até o fim dos trabalhos da Constituinte, em 1946, se
encerra com êxito o processo de redemocratização no Brasil.
11

2.1 ECONOMIA


       Pouco antes de 1920, o Brasil passava por um processo de adaptação na sua economia,
era necessário uma nova medida de valorização do café, principal produto de exportação do
país na época, depois da Primeira Guerra Mundial. Porém, após os conflitos, o cenário
econômico mundial se caracterizou por grandes empresas controlando suas respectivas áreas
de atuação, o que levou ao governo do Brasil a criar o Instituto do Café, em São Paulo, a fim
de controlar os índices de oferta e demanda do produto no mercado internacional. Como o
Brasil mantinha 60% da produção de café mundial, o novo instituto tinha em mãos o controle
dos preços, mesmo que artificialmente, e para isso começou a estocar cada vez mais café.
       Porém, em 1924, constatou-se uma contradição nesse controle de mercado, o novo
projeto, por manter os preços do produto, incentivou novos produtores, o que aumentou ainda
mais o estoque do mesmo.
       Outra coisa que mudou na economia brasileira após a Primeira Guerra Mundial foi o
incentivo a industrialização no país. Uma vez que seus principais parceiros econômicos
estavam envolvidos diretamente com a Guerra, o Brasil adotou uma substituição de
importação e medidas de proteção alfandegária aos novos parceiros, o que gerou uma certa
proteção as indústrias nacionais. Antes, o desinteresse do governo quanto a industrialização
era explicado pelo modelo agro-exportador herdado da colônia, e o café sustentava isso, onde
o Brasil exportava produtos tropicais e em troca importava produtos manufaturados, mas com
a dificuldade de importação na época de guerra, o governo tomou medidas de incetivo a
industrialização durante toda a década de 1920.
       Durante a década de 20 o Brasil segue claramente um modelo mercadante capitalista,
tanto no setor agropecuário quanto no industrial, mas o que se ve no mundo é um declínio do
modelo capitalista liberal que se seguia desde a Segunda Revolução Industrial, onde o
governo não intervia nas relações econômicas, na crença da auto-regulamentação pelo próprio
mercado. Esse período acaba com a Crise de 29.
       Uma depressão profunda para o mundo capitalista, a Crise de 29, eclodiu nos Estados
Unidos, e repercutiu internacionalmente, inclusive no Brasil, onde abalou toda a economia
cafeeira, o que incentivou ainda mais a política industrial.
       Na década de 30, já no governo Vargas, o governo estipula medidas protecionistas, que
estimulam ainda mais a industrialização no país, revalorizam o café com a queima do estoque,
o que gera ainda mais renda para a industrialização. Fortalecimento do mercado interno com
alta intervenção do governo na economia.
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        Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial o desenvolvimento industrial se
beneficiou, tendo o mercado interno a sua disposição e buracos a serem preenchidos deixados
por empresas internacionais. O Estado se encarregou da infra-estrutura e ainda criou a
Petrobrás. A economia, apesar das conturbações políticas, se manteve característica até a saida
de Vargas e o processo de redemocratização, em 1946.


2.2 A SOCIEDADE REAGE AO MUNDO


        Uma proposta ainda duvidosa, que resolveria os problemas ou apenas os maximizaria,
ecoava nos pensamentos das pessoas pelo mundo todo.
        Em plenos destroços deixados pela recém-encerrada Primeira Guerra Mundial, que
eram não apenas estruturais e econômicos, mas também psicológicos; com a inauguração de
um novo sistema, que dizia se constituir de uma total reforma nos âmbitos todos – fossem eles
político, econômico ou social – em prol de uma sociedade mais igualitária; fez-se pairar sobre
as pessoas de todos os países o socialismo, disseminado através das ideias que embasavam a
Revolução Russa (1917), descritas em um Manifesto Comunista, publicado anos antes, por
Karl Marx, filósofo alemão.
        No Brasil, disseminavam-se essas ideologias por todo o país, e estas mesmas
embasariam mais tarde diversos movimentos como a famosa Coluna Prestes, que andou mais
de 26 km Brasil a dentro espalhando seus conceitos comunistas para depois exilar-se fora do
país.
        Foi por essa época também que foram criados alguns direitos favorecendo os
trabalhadores, que revoltaram-se por suas situações precárias de moradia, aviltamento de
salários, falta de segurança; e, após diversas manifestações, criaram sindicatos para
reivindicarem o que lhes deveria ser oferecido em troca de seu trabalho, força que movia o
mundo segundo Marx.
        Vivia-se um período de ditadura com Getúlio Vargas, o que tornava o povo subjugado
e limitava-lhes as idéias; ainda mais tendo-se que a simpatia do líder tornava muitas de suas
atitudes autoritárias irrelevantes perante os olhos cegos de seus fies admiradores.
        E, com tantas mudanças repentinas; tensões provocadas por uma guerra que tinha ido,
mas logo se manifestaria em uma nova e mais intensa; novos estilos de arte propostos em
âmbito nacional; as pessoas se mostravam estáticas, paradas no tempo, vulneráveis a qualquer
idéia que lhes pudesse reavivar a esperança. Uma sociedade ainda confusa, que mais tarde
despontaria rumo ao desenvolvimento e globalização que se vive atualmente.
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2.3 A LITERATURA DE CARA NOVA


       Em 1922, artistas de várias patentes reuniram-se e consagraram uma nova arte, a qual
diziam ter agora uma face pouco mais nacional, que era representada pela recusa em render-se
novamente – depois de séculos que já o era feito – à qualquer influência europeia.
       Assim, deu-se na literatura uma recusa das idealizações românticas, da musicalidade e
frivolidade simbolista, do perfeccionismo exacerbado parnasiano, da formalidade realista:
criou-se uma arte pura brasileira, levada pela criatividade sem métricas e regras, livre de
rimas, que trazia críticas e cenas cotidianas, que expressava a partir de então a liberdade do
escritor brasileiro em relação ao mundo.
       Nesse período destacaram-se Monteiro Lobato, acompanhado por Euclides da Cunha,
os poetas Oswald e Mário de Andrade, entre outros.
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3. MONTEIRO LOBATO: VIDA E OBRA


       José Bento Renato Monteiro Lobato, nascido em dia 18 de Abril de 1882 em Taubaté,
faleceu na mesma cidade em que seus ossos estão hoje sepultados, no cemitério da
Consolação, ou seja, São Paulo, no dia 4 de Julho de 1948, de um derrame cerebral. Passou a
sua infância em um sítio e aos sete anos entrou em um colégio, e foi nesta idade começou a
ter interesse pelos livros e particularmente pela biblioteca de seu avô o Visconde de
Tremembé. Monteiro Lobato Sempre mostrou talento para escrever, sempre escreveu textos
para os jornais das escolas que freqüentou.
       Aos 16 anos perdeu seu pai, José Bento Marcondes Lobato e a sua mãe faleceu um
ano depois. Como tinha um grande talento para o desenho, tornou-se desenhista e caricaturista
e começou a utilizar o dom como fonte de renda. Com a intenção de encontrar melhores
condições de vida, Lobato aos 17 anos muda-se para São Paulo, onde seu maior sonho era
freqüentar a Faculdade de Belas-Artes, mas por pressão do avô ingressou na Faculdade de
Direito do Largo São Francisco. Ele continuou escrevendo para jornais e tendo como
característica seu censo de humor sutil e fino. Era direto e sem rodeios, fazia críticas sem
saber se agradaria ou não. Defendia sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos.
       Em 1904, formou-se e voltou para Taubaté para assumir o cargo de promotor e nesse
tempo casou-se com Maria Pureza da Natividade. Mudou-se para Areias e assumiu o cargo de
promotor público, mas na essa a vida que ele queria, paralelamente ele continuava escrevendo
artigos para jornais do interior e passou a fazer traduções de revistas americanas para o jornal
O Estado de São Paulo e também traduziu obras da literatura internacional.
       Com o falecimento de seu avô, Lobato tornou-se herdeiro da fazendo Buquira e
mudou-se com toda a família para a casa da fazenda. Largou a promotoria e virou fazendeiro,
dedicou-se à modernização da lavoura e à criação de animais. Lobato não gostava da vida na
fazenda e tinha planos para se mudar para São Paulo, abrir negócios e continuar escrevendo.
       Em 1914, Lobato indignado com as freqüentes queimadas que os caboclos praticavam
na fazenda, ele escreveu para o Jornal O Estado de São Paulo uma indignação intitulada
“Velha Praga”, que caiu no gosto jornal e foi publicado no editorial. O artigo criou polêmica e
fez com que ele escrevesse outros artigos, como por exemplo, “Urupês”, que mais tarde virou
seu primeiro livro, criando um personagem marcante em seus textos o Jeca Tatu.
       Nesse tempo a Fazenda de Buquira enfrentou dificuldades com geadas e falta de
recursos o que o forçou a vendê-la em 1916 e mudar-se para São Paulo. Foi na fazenda que
Lobato encontrou inspiração para a criação da maioria de seus personagens. Lobato tornou-se
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um importante colaborador do jornal O Estado de São Paulo e escrevia muito sobre questões
agrícolas e sobre folclore brasileiro. Em 20 de Dezembro de 1916, Lobato publicou o artigo
“Paranóia ou Mistificação”, a famosa crítica à exposição de Anita Malfatti.
       Monteiro Lobato era a favor da arte criada aqui no país e não cópias nem reinvenções
de tendências européias. Isso criou certa indisposição com os modernistas que o intitularam
de reacionário. Lobato tinha por característica ser um nacionalista, e defender muito a pátria.
Em 1918, comprou a Revista do Brasil e começou a dar espaço para novos talentos, a revista
prosperou e ele pode montar uma empresa editorial. Sempre dando espaço aos bons artistas.
Monteiro inseriu no Brasil a idéia do livro-consumo, com capas atraentes ao olhar e feitas
com o esmero necessário para atrair o público. Criou novas políticas de distribuição e uma
gráfica impecável. Logo fundou a Companhia Editorial Nacional.
       A menina do Narizinho Arrebitado foi a sua primeira obra infantil e foi de um enorme
sucesso, dando suporte para novas criações, inclusive a coletânea Sítio do Pica - Pau Amarelo.
E como um bom nacionalista seus livros infantis eram recheados de personagens do folclore
brasileiro além dos assuntos didáticos que muito acrescentavam na educação das crianças.
       O sucesso foi tão alto que demandou investimentos, mas por ocasião de uma grave
seca o fornecimento de energia elétrica foi cortado e a gráfica só podia funcionar dois dias da
semana e com a desvalorização da moeda Lobato afundou em dívidas e a companhia foi à
falência. Logo depois abriu outra editora e desta vez variou as publicações, incluindo obras
internacionais, foi um enorme sucesso de público.
       Pelo presidente Washington Luis foi nomeado adido comercial nos Estados Unidos,
mudou-se para Nova York com a família e seus quatro filhos. Aproveitou esse tempo para
acompanhar os avanços tecnológicos americanos e fez de tudo para trazer essas inovações
para o Brasil. Interessou-se por questões ligadas ao petróleo e tinha a convicção de que o
Brasil tinha grandes reservas da matéria-prima tão requisitada por todos.
       Lobato fundou várias empresas para perfurações petrolíferas mas encontrou barreiras e
proibições com o governo de Getúlio Vargas. Foi convidado para entrar na Academia Paulista
de Letras , criou a União Jornalística Brasileira , foi preso por ter criticado o Governo e
passou a denunciar torturas e maus tratos na prisão.
        A editora brasiliense comprou os direitos dos livros de Lobato e publicou suas obras
completas em 1943. Lobato Recusou a indicação a Academia de Letras Brasileira e acabou se
aproximando do partido Comunista mas negou-se a entrar na vida pública.
       Seu último livro intitulado Zé Brasil, critica duramente o Governo do General Eurico
Gaspar Dutra. Sua obra é composta por 30 volumes.
16

4. O SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO


          Obra exímia de Monteiro Lobato, com volumes publicados ao longo de mais de vinte
anos, o Sítio do Pica-Pau Amarelo é permeado de coisas surpreendentes, que desafiam a
compreensão daquele leitor que analisar a obra desprevenido ou com expectativas de
encontrar apenas um sítio, como outro qualquer. De fato esse sítio não é qualquer sítio. O que
o leitor encontra nessa obra é um espaço de reflexão, onde Monteiro Lobato retrata diversas
questões pertinentes a época, e alguns aspectos de sua própria vida e personalidade, através do
personagem que muitos estudiosos acreditam tratar-se do alter-ego do autor, a Emília.
          Antes de Lobato não havia nem mesmo literatura específica para crianças e jovens. O
Sítio do Pica Pau Amarelo, apesar de tratar-se de histórias para crianças reflete uma
preocupação do autor com a questão da educação, além de algumas outras preocupações
pertinentes a época.
          A produção da literatura infantil se inicia em 1920 com a publicação, por Monteiro
Lobato, do livro “A Menina do Narizinho Arrebitado”. No ano seguinte, esse livro, com a
tiragem de 50 mil exemplares é adotado pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo
como o segundo livro de leitura para o uso em escolas primárias. Com esse livro, Lobato
inicia a sua produção de histórias infantis, voltadas à informação e também a formação da
juventude brasileira. Como inovação para a época, nas obras de Monteiro Lobato são
introduzidas ilustrações de desenhos vistosos, dando assim um ar colorido e gracioso aos
livros.
          Monteiro Lobato antes mesmo da publicação de suas obras infantis, dedicava-se a
crítica de arte, e possuía idéias avançadas para a época, entanto Monteiro Lobato acaba
ficando de fora do movimento que eclodia na época, o modernismo. Monteiro Lobato com
sua crônica “Paranóia ou Mistificação”, critica obras de Anita Malfati, pintora que expôs seus
quadros em um vernissage em 1917, e desse modo acaba sendo banido como participante do
movimento cultural mais importante da época, A Semana de Arte Moderna de 1922.
          Entretanto a genialidade de Monteiro Lobato não deixa de ser reconhecida, pois um
dos principais mentores daquele movimento, Oswald de Andrade lhe envia em 1943 uma
carta cumprimentando-o pelos vinte e cinco anos do lançamento de sua obra “O
Urupês”(1918) e chamando-o de “o Gandhi” do modernismo.
          O objetivo do autor, ao desenvolver a obra “Sítio do Pica Pau Amarelo” estava
baseado na máxima de que é necessário saber para crescer, não apenas de modo biológico,
mas também de modo cultural, pois só é pode considerar-se culturalmente livre quem possui o
17

conhecimento. Podemos observar que nas obras infanto-juvenis de Monteiro Lobato, não
existe a figura do vilão nem a figura do herói, como acontece em outras obras infantis. O
vilão, ou vilã, nas histórias de Lobato, é a ignorância, e isso pode ser claramente visualizado
em seus livros, através dos seus personagens, pois sempre existe a busca do conhecimento,
herói que sempre derrota a ignorância.
       Outro ponto que ressalta diferença nos livros de Monteiro Lobato é aquela íntima
união que o autor faz entre o real e o imaginário, e o autor faz isso de uma maneira onde o
leitor acaba achando perfeitamente aceitável a existência de um boneco feito de sabugo de
milho, que é um sábio pesquisador da ciência, e de uma boneca de pano, a Emília, que fala e é
muito esperta e que como acreditam muitos estudiosos, é o próprio pensamento e
procedimento – alter ego – de Monteiro Lobato. Há ainda o Burro Falante, um personagem
com pensamentos de filósofo, há o Quindim, um rinoceronte que foge de um circo e se acaba
abrigando-se no Sítio do Pica pau Amarelo, e é adotado pelos seus habitantes. Quindim é um
rinoceronte que fala e conhece a gramática, sendo uma espécie de guia dessa matéria quando
a turma do sítio busca esse tipo de conhecimento, mais especificamente no livro Emília no
País da Gramática.
       Ainda levando em conta a questão da fantasia, existe o Faz-de-conta da Emília, que o
usa quando algo de extravagante precisa ser feito, e o pó de pir-lim-pim-pim, advento do
Visconde, baseado em seus conhecimentos sobre química. Esse pó mágico permite que os
personagens do Sítio viagem à Grécia e a Ilha de Creta, nos livros “O Minotauro” e “Os Doze
Trabalhos de Hércules”, respectivamente. Ainda com esse pó mágico, os personagens viajam
à Lua, a Marte e à Saturno no livro “A viagem ao céu”.
       Na obra, além da representação das crianças e suas fantasias, existem os adultos,
representados por Dona Benta e Tia Nastácia. Dona Benta é a caricatura perfeita daquele
adulto culto, a avó conselheira, que transmite conhecimentos, mas também aceita as
atividades dos netos, já a Tia Nastácia representa aquele adulto popular, cheio de crendices.
Pedrinho e Narizinho representam as crianças na faixa etária entre 9 – 10 anos. Existe ainda o
marquês de Rabicó, um leitão que vive no sítio.
       Um personagem que possui um papel muito importante em alguns livros da série é o
Visconde de Sabugosa, no livro “A Reforma da Natureza”, Emília resolve mudar algumas
coisas, como por exemplo, implantar torneiras nos úberes das vacas, e fazer com que as
borboletas voem mais lentamente, nesse mesmo livro o Visconde altera o tamanho de alguns
animais, causando problemas no sítio, e desse modo é evidenciada a questão da natureza, que
não deve ser modificada. No livro “O Poço do Visconde”, o personagem fala sobre geologia,
18

ensinando sobre petróleo, fato que reflete um pouco da vida do autor, já que Monteiro Lobato
possuía certa paixão pelo assunto.
       Em outros livros da série Monteiro Lobato retrata outras questões relevantes, no livro
“História do Mundo para as Crianças” é contada a história da espécie humana, no livro “A
Chave do Tamanho”, Emília vai para o País das Chaves, e ao tentar desligar a chave da
guerra, a boneca acaba desligando a chave do tamanho, reduzindo assim todos os seres
humanos a três centímetros. No livro “A História das Invenções”, Dona Benta explica a
existência do vidro, do telégrafo, da lâmpada, do telescópio, entre outros instrumentos. A
“Aritmética da Emília” e “Geografia de Dona Benta”, também são livros muito didáticos, o
tipo de literatura a qual todas as crianças deveriam ter contato.
       A literatura infantil de Monteiro Lobato, apesar de possuir este título é destinada
também a adultos, para que estes revejam conceitos que talvez tenham esquecido. Para
Monteiro Lobato, “Um país se faz com homens e livros”, e para isso escreveu em seus 66
anos de vida 19 livros para adultos e 23 livros para a literatura infanto-juvenil. Contudo,
mesmo com obras geniais publicadas, Monteiro Lobato não faz parte da Academia Brasileira
de Letras.

4.1 A LITERATURA INFANTIL




       Antes de se pensar em literatura para crianças, os textos passados para os pequenos
eram os mesmos escritos para os adultos. Ainda que existissem contos, lendas contadas para
Europa um movimento de autores que faziam livros voltados diretamente para o público
infantil. Entre os principais autores dessa época incluem-se Perrault (Chapeuzinho Vermelho,
O Gato de Botas, A Bela Adormecida, etc.), os irmãos Grimm (João e Maria, Branca de Neve,
A Gata Borralheira, etc.), La Fontaine (O Lobo e o Cordeiro), Andersen (O Patinho Feio),
Esopo (A lebre e a tartaruga, O lobo e a cegonha, etc.). crianças, não havia a preocupação de
se registrar tais histórias. Por essa razão, as poucas crianças alfabetizadas liam os mesmos
textos que eram lidos por seus pais, ou tutores, sem distinção de idade. Dessa forma, pode-se
perceber como os mais novos eram vistos como pequenos adultos, e não como crianças. Essa
situação só começou a mudar depois de muito tempo.

       Todas as histórias citadas no parágrafo anterior possuem algum tipo de moral que
deveria ser passada aos pequenos leitores. Juntando esse objetivo ao contexto social e
19

econômico da época, criam-se semelhanças entre ambos. Por isso, alguns estudiosos
questionam a literatura infantil, como se esta fosse apenas um processo pedagógico-
comercial, e não uma obra artística, literária. Desse modo, a literatura infantil até então servia
como reforço para a nova doutrina capitalista que se desenvolvia na Europa, começando
desde os pequenos leitores, fazendo esse modelo social impor-se juntamente com o trabalho
da escola, transformando a sociedade em uma forma mais urbanizada. Porém, esta monografia
não tem como objetivo, e nem pretende discutir o mérito da questão, e tais histórias serão
consideradas como literatura.

        Como fortes características desse tipo de história estavam incluídas narrativas com
muitas aventuras, cenas e criaturas fantásticas, situações pertencentes ao cotidiano infantil,
uso de diálogos em forma de discurso direto, comumente finais felizes e, juntamente com o
texto, apareciam ilustrações para alimentar a fantasia da história. Todas essas características
foram aparecendo aos poucos, na medida em que se descobria as melhores formas de abordar
temas que estimulassem o interesse das crianças na leitura. Em diversas histórias, a moral
também se fazia presente, como já discutido anteriormente.

       A literatura infantil brasileira escrita não tem mais do que dois séculos de vida.
Surgida no século XIX, com influência do estilo europeu de fazer histórias para criança,
chegou por aqui com décadas de atraso. Porém não se pode pensar que não existiam histórias
infantis no Brasil. Elas já existiam, mas eram apenas circuladas pela forma oral.
       Partindo do pressuposto que as obras voltadas às crianças tinham um objetivo
pedagógico-comercial, pode-se perceber que a essas obras começaram a aparecer no Brasil a
partir do momento em que o país entra em um processo de modernização, e introdução de
modelos econômicos apoiados no capitalismo. Assim, os livros infantis estariam ligados ao
mesmo processo de educação que trará uma mudança no sistema econômico e de organização
da sociedade.
       Primeiramente, Alberto Figueiredo Pimentel e Carlos Jansen traduziram histórias
infantis europeias para o português, e assim começaram a aparecer os livros voltados para as
crianças brasileiras. Ainda que um grande passo, os livros infantis ainda continham apenas
histórias de outras culturas que eram diferentes das tradições brasileiras. Além disso, o
analfabetismo tinha um índice ainda muito elevado, e com isso a literatura escrita começou
mais voltada aos que podiam ler (pertencentes de famílias ricas). Foi a partir desses métodos
de escrita, elaborados pelos europeus, que alguns escritores brasileiros se arriscaram a
20

começar um trabalho de escrever histórias originais para crianças. Este começo ainda foi
tímido e teve seu maior reconhecimento justamente com Monteiro Lobato, apenas anos mais
tarde.
         No primeiro momento, a imprensa do Brasil ainda era muito atrasada, e a pouca
tradução dos livros europeus, e posteriormente a pouca elaboração dessas obras nacionais,
fizeram com que esse gênero obtivesse pouca divulgação nacional, tendo edições escassas e
mal distribuídas pelo território.
         Até aqui, pode-se resumir a literatura infantil brasileira como: surgimento baseado em
traduções; adaptações de histórias européias para o Brasil; e início da produção genuinamente
brasileira.
         Depois de estabelecido o gênero no Brasil, houve mudanças na produção das obras de
acordo com os movimentos literários vividos. No início do século XX, Monteiro Lobato criou
seu famoso “Sítio do Pica Pau Amarelo”, obra considerada de maior importância no gênero
infantil nacional.
         A partir dessa época, intensificou-se a produção da literatura para crianças, com novos
valores, como o nacionalismo, e novos autores como Ziraldo e Ana Maria Machado, fazendo
desse cenário uma constante na produção literária brasileira, obtendo apoio comercial das
editoras na segunda metade do século XX.


4.2 AS PERSONAGENS


         O universo social criado por Monteiro Lobato na obra “O Sítio do Pica Pau Amarelo”
é bastante caricato e, por isso, de certa forma, didático. A maioria dos personagens representa
estereótipos encontrados na sociedade brasileira, sendo, portanto, facilmente identificados
pelas crianças, que começam a desenvolver o seu próprio imaginário cultural em um processo
de aprendizado por assimilação. Também por isso, os livros da obra são marcados por
elementos e seres fantásticos, como viagens a lugares imaginários e criaturas do folclore
brasileiro, o que, além de marcar para sempre a literatura infantil, fortaleceu a cultura nacional
como importante patrimônio.
         Pode-se dividir os personagens do “Sítio” entre os tipos sociais e os seres fantásticos.
Os tipos sociais são as pessoas que possuem um comportamento típico, estereotipado. Dona
Benta, por exemplo, possui as características que representam o papel de avó: tem cabelos
brancos, sabe contar histórias muito bem e é, de certa forma, assexuada, já que a imagem da
avó, para as crianças, não envolve relacionamentos amorosos, mas, sim, um caráter familiar, a
21

senhora que vive em função dos seus parentes. Sendo assim, ela é a figura materna da obra,
vista aqui como a responsável pela criação e educação das crianças. Tia Nastácia e Tio
Barnabé, por sua vez, representam o papel do negro na sociedade da época, já que ambos
confirmam a ideologia escravista que ainda existia, a qual associava o negro ao trabalho
braçal e ao esforço físico. Tia Nastácia, como a cozinheira, e Tio Barnabé, como o trabalhador
da roça que conta as histórias do folclore, são figuras que representam, ainda hoje, as classes
sociais mais baixas, as quais ficam encarregadas dos trabalhos menos remunerados. Já
Narizinho e Pedrinho são as crianças da obra que, justamente por isso, protagonizam as
aventuras. Uma vez que os livros eram destinados ao público infanto-juvenil, o fato de se
utilizar protagonistas nessa faixa de idade promove uma maior identificação do leitor com a
obra. As crianças, por não terem tanta experiência e conhecimento de mundo, não discernem
muito bem o real do imaginário, permitindo-se acreditar em inúmeras fantasias, como as que
compõem as histórias do “Sítio”. Isso inclui não só as aventuras surreais, como um passeio no
“mundo da gramática”, como a presença dos seres fantásticos, presentes em toda a obra.
       Os seres fantásticos, diferentemente dos tipos sociais, representam características dos
seres humanos de uma forma mais metafórica, de modo que não são encontrados na sociedade
por serem imaginários, mas sugerem comportamentos observados nas pessoas. O Visconde de
Sabugosa, um sabugo de milho com personalidade humana, por ter um vasto conhecimento
adquirido nos livros da biblioteca do sítio, enaltece a razão científica, numa corrente de
pensamento que pode ser associada ao positivismo. Assim, ele classifica as crenças das
pessoas mais velhas do sítio como crendices e superstições, tirando a credibilidade das
mesmas, comportando-se como um positivista. Já os personagens Cuca e Saci Pererê foram
trazidos do folclore brasileiro e, por isso, materializam as histórias que compõem o mesmo.
Eles simbolizam as crenças que surgem, principalmente, nas regiões rurais do país e que, para
os habitantes dessas áreas, têm mais valor que o conhecimento científico. Como o ambiente
principal da obra é um sítio, é natural que o folclore apareça personificado e materializado, já
que essas histórias têm grande importância no cotidiano, inclusive, para explicar os
fenômenos da natureza, uma vez que a ciência não tem tanta propagação nas regiões menos
urbanas. Por fim, a personagem Emília, uma boneca que fala, possui um comportamento
bastante irreverente, sendo a criação mais lembrada de Monteiro Lobato, dentro da obra do
“Sítio”. Ela é uma metáfora tanto da curiosidade das crianças quanto de um comportamento
mais revolucionário que pode estar presente na sociedade. Através das “asneirinhas” que ela
fala, desconsideradas pela maioria dos outros personagens, há sempre uma opinião forte que
contesta os valores da sociedade. Por não ser gente, pode-se dizer que ela tem mais liberdade
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de reclamar dos modos de pensar das pessoas, e, através das falas dela nos livros, Monteiro
Lobato expunha modos diferentes de pensar que iam contra as ideias da época. Esse
comportamento contestador, apesar de condizer com os pensamentos de alguém que estudou
muito, como o autor, que possuía reflexões acerca dos mais variados assuntos, pode ser
associado também com os pensamentos de uma criança, que não está tão presa a modelos
comportamentais de uma sociedade e tem dúvidas quanto aos estilos de vida nela adotados.



4.3 O SÍTIO NA TV



       A série de TV “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, baseada nos livros de Monteiro Lobato
que compõem a obra de mesmo nome, começou no fim da década de 50, sendo transmitida
pela TV Tupi e foi uma importante forma de propagação do universo cultural apresentado
pelo autor, que perdurou durante muitos anos na televisão aberta. Este foi considerado o
primeiro seriado brasileiro e, não por acaso, se tornou líder de audiência no canal. Sendo um
projeto que buscou fidelidade tanto à imagem dos personagens como aos detalhes da obra, no
que diz respeito às ideias que Monteiro transmitia nas histórias, a série agradava adultos e
crianças, colocando os temas mais diversos de uma forma interessante e educativa. Assim,
durante as décadas posteriores, várias outras adaptações do “Sítio” foram feitas por variadas
emissoras, que, geralmente, faziam bastante sucesso com a transmissão das séries.
       Um importante contraponto a se fazer, no entanto, é a capacidade de aprendizado do
público infantil através da televisão. Isso porque, sendo um meio de comunicação
essencialmente baseado em imagens e sons, não há tanta retenção das informações por parte
do espectador, uma vez que há distração e eventuais interferências exteriores durante a
exibição programa que dificultam a absorção do conhecimento transmitido. Tais interrupções
na comunicação fazem com que os programas tendam a repetir mais vezes as ideias e explicá-
las de uma forma mais simples, menos detalhada: fácil de entender, mas sem todo o conteúdo
que o autor desejava passar. É interessante que leitura, um hábito culturalmente riquíssimo
para a criança e mais eficiente que a televisão na questão do aprendizado, não seja trocada
pelo uso da televisão, já que a obra original proporciona uma experiência mais produtiva, uma
vez que estimula a criança a criar as próprias imagens dos personagens, as respectivas vozes e
ela tem a liberdade de imaginar o universo de Monteiro Lobato da maneira dela, um enorme
incentivo à criatividade. Esse é o risco, portanto, de se adaptar os livros do “Sítio” a perda de
parte do seu valor cultural. Veicular a série de TV, ainda, numa emissora que não tem caráter
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educativo, como a Globo, o que ocorreu em 2001, por exemplo, é um perigo semelhante, já
que há um foco grande na comercialização de brinquedos, revistas e jogos para crianças e
nem sempre se mantém as histórias com a mesma conotação das originais.
5. LOBATO NO PAÍS DA GRAMÁTICA


          Volume pertencente ao grande leque de ramificações da obra de Lobato, o livro Emília
no País da Gramática conta a estória de como foi a visita de Narizinho, Emília, Pedrinho,
Visconde de Sabugosa e Quindim ao País da Gramática, onde residem todas as palavras e
expressões das línguas, focando-se em Portugália, cidade em que vivem as palavras do idioma
português.
          Para muitos estudiosos a obra foi feita por Lobato por um espécie de “vingança” ao
fato de ter sido reprovado aos quatorze anos de idade na prova de língua portuguesa, o que se
pode tirar de uma de suas frases, dezenove anos depois:


                         “Da gramática guardo a memória dos maus meses que em menino passei decorando,
                         sem nada entender, os esoterismos do Augusto Freire da Silva. Ficou-me da ‘bomba’
                         que levei, e da papagueação, uma revolta surda contra a gramática e gramáticos, e
                         uma certeza: a gramática fará letrados, não faz escritores.” (LOBATO, )


          Através do livro, percebe-se que o autor, por meio da fantasia, nos mostra uma nova
maneira de ver a gramática e o seu ensino, bem diferente da forma maçante que era utilizada
em seu tempo, e, pode-se dizer que é até hoje. No livro, através da fala de Quindim, o
rinoceronte gramático, o autor expressa sua opinião sobre a forma da gramática: “[...] Mas os
senhores gramáticos são uns sujeitos amigos de nomenclaturas rebarbativas, dessas que
deixam as crianças velhas antes do tempo.” (LOBATO, 1972, p. 296). Neste período, passa-se
a idéia de que as regras utilizadas pelos gramáticos tornam as crianças “velhas antes do
tempo”, ou seja, por terem que decorar tudo, acabam perdendo sua enorme capacidade
imaginativa e retardando seu desenvolvimento intelectual, já que não aprendem a fazer
relações e a memorizar tais regras, se tornam, de certa forma, adultas. Além disso, o termo
“(os gramáticos) são uns sujeitos (grifo nosso)” nos remete a idéia de que Monteiro Lobato os
via como pessoas que não mereciam tanto respeito quanto lhe davam. Sentimos, ao ler isto,
certo sentimento de repulsa e desrespeito por parte do autor quanto aos estudiosos da língua,
que, pela opinião de Monteiro, acabavam tornando-a mais complicada, por causa de suas
regras.
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          Lobato segue em sua obra a gramática normativa, e utiliza-se do livro Gramática
Histórica de Eduardo Carlos Pereira (editada pelo próprio Lobato, na Companhia Gráfico-
Editora Monteiro Lobato, nos anos 20) para a construção de “Emília no País da Gramática”,
que cita em certo momento a obra de Eduardo vista como a causa do grande conhecimento de
Quindim em gramática. O rinoceronte, aliás, acaba se tornando na história o educador e guia
da turma do sítio na nova aventura, permitindo que as próprias crianças escolham o que
desejam conhecer no novo mundo que lhes é apresentado, e, tornando o ensino mais divertido
e leve.
          O autor, de certa forma, pretendia criar um livro paradidático, e não apenas uma
ficção. Através da personificação das palavras e da criação de um país da língua portuguesa,
ele disfarça as regras, concretizando-as por meio da formação de imagens, e ensina a
gramática de um modo leve e divertido, sempre trabalhando com a imaginação pueril.


5.1 O LIVRO


          O volume foi escolhido para ser analisado, pois seu tema principal é a língua em si,
tendo uma relação direta com a nossa disciplina, Língua Portuguesa e Expressão Oral. Assim,
os temas abordados durante a leitura são todos voltados para as regras e forma da língua
portuguesa. O livro começa com Pedrinho dizendo que gramática é uma “caceteação”,
mostrando que a forma de ensino utilizada na época, baseada em regras decoradas, fazia com
que a criança não gostasse da matéria. Após algumas lições com Dona Benta, Emília tem a
idéia de ir ao país de Portugália, para que eles vivessem a gramática. É neste país que a turma
participa de muitas aventuras e aprende gramática brincando. Durante a leitura, observamos
temas relacionados ao português que são discutidos e ensinados, como a existência e
características das classes gramaticais (substantivos, adjetivos, pronomes, artigos e numerais,
verbos, advérbios, preposições, conjunções e interjeições). Após esse estudo, Lobato foca o
livro para a parte da Etimologia, a origem das palavras. A partir disso, a turma descobre como
formar palavras, aprendendo sobre a raiz, sufixos e prefixos. Descobrem também a existência
de palavras estrangeiras e as formas de pontuação, além da ortografia. As crianças vão, com
Quindim, nos “domínios da sintaxe”, além da morfologia, entra em discussão no livro a
sintaxe. Assim, aprendem sobre as figuras de sintaxe (ou sintáticas) e as orações e períodos da
língua. Também conhecem os vícios de linguagem, capítulo que analisaremos com maior
atenção mais para frente.
          Também observamos que, conforme lemos o livro, analisamos diversas falas das
25

personagens que acabam mostrando a visão de Monteiro e da sociedade sobre muitos
assuntos. Destaca-se nesse ponto a personagem Emília, que inclusive aparece no título. Por
ser uma boneca “atrevida”, que muitas vezes “abre” sua “torneirinha de asneiras”, falando
tudo o que pensa, a personagem mostra a nova visão que se tinha da língua, e demonstra, em
diversos períodos, que a lógica pueril teria mais sentido para formá-la do que a lógica dos
“grilos” (policiais) do Português, os gramáticos.
       Assim, além de estudarmos a língua portuguesa, sua estrutura e forma; podemos
também analisar as idéias passadas pelas personagens, através de suas falas e temas abordados
ao longo dos capítulos. Nossa análise em relação à língua tem, portanto, um fundo social e
histórico, além do técnico.


5.1.1 Análise do volume


       O livro não é escrito de uma forma pueril, já que são utilizados períodos mais
desenvolvidos, por exemplo. Podemos observar essa característica com o trecho: “Os meninos
entraram por um desses bairros pobres, chamado o bairro do Refugo, e viram um grande
número de palavras muito velhas, bem corocas, que ficavam tomando sol à porta de seus
casebres.” (LOBATO, 1972, p.p.296-297). Apesar de o período em questão ser formado por
palavras que podem ser consideradas simples, ou então que são mais condizentes ao
vocabulário infantil, ao mesmo tempo é comprido e formado por diferentes orações
(coordenadas, como “e viram um grande (...)” e subordinadas, como “que ficavam (...)”) e
conjunções (e, que), demonstrando um maior cuidado e desenvolvimento da escrita.
       Apesar de ser escrito de uma maneira complexa, de certa forma, ”Emília no País da
Gramática” é voltado para crianças. Assim, utilizaram-se palavras que eram comuns ao
universo delas, como podemos observar na primeira fala de Pedrinho: “Maçada, vovó. Basta
que eu tenha de lidar com essa caceteação (grifos nossos) lá na escola. As férias que venho
passar aqui são só pra brinquedo.” (LOBATO, 1972, p. 293). Nesta fala, o neto reclama, pois
a avó quer lhe ensinar gramática. Assim, mostrando que achava a matéria “tediosa” e
sacrificante, Pedrinho utiliza o termo “maçada”, comum às crianças da época em que o livro
foi escrito. Temos também a palavra “caceteação”, que demonstra o incômodo que a
gramática traz às crianças, por ter muitas regras. Mais uma vez, em alguma parte do texto, o
autor expressa sua opinião sobre o ensino da gramática. Algumas expressões também são
utilizadas, como: “pozinho levado da breca”, dizendo que o “pozinho” (de pirlimpimpim) é
“sapeca”, fazem coisas absurdas acontecer. Expressão utilizada pelas crianças da época, e,
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portanto, pelos adultos de hoje. Lobato utiliza também muitos diminutivos. Palavras como
“letreirinho”, “cordinhas”, “baitaquinhas”, “silabazinha” tornam a leitura mais leve, e fazem
com que a criança se identifique com a forma de falar das personagens.
       Seguindo essa idéia em relação ao ensino, o autor faz com que o livro seja mais leve
ao ensinar gramática, através da criação de um país (Portugália) e da personificação das
palavras. Assim, quando a turma resolve conversar com uma palavra (que, na história, é uma
pessoa de fato), acaba aprendendo tudo sobre sua classe e significado. As palavras em
Portugália vivem em bairros, moram em casas, têm famílias como seres humanos, se tornam,
portanto, seres vivos, que é a idéia que Lobato (1972, p. 297) passa: “(...) Porque as palavras
também nascem, crescem e morrem, como tudo mais.”, ou seja, a língua é viva! Há a idéia
também de que, a partir da criação de Portugália e da personificação das palavras, o autor nos
mostra a importância e as particularidades que a língua possui, como se, de fato, fosse um país
a parte, com suas próprias leis e habitantes.
       No livro, as diversas classes de palavras moram em diferentes lugares ou bairros,
assim: “A gente importante morava no centro e a gente de baixa condição, ou decrépita,
morava nos subúrbios.” (LOBATO, 1972, p. 296). Fazendo um paralelo com as cidades do
mundo real, e, ao mesmo tempo, uma crítica à essa realidade, Monteiro Lobato mostra que as
palavras mais utilizadas, ou seja, que prestam mais serviços aos homens, e que são
oficializadas pelos gramáticos; moravam no centro da cidade de Portugália, enquanto as
outras (arcaísmos, neologismos, gírias), que ou não eram oficiais na língua ou já não lhe
serviam mais, moravam nos subúrbios. Visto isso, os arcaísmos eram idosos que moravam em
um desses bairros mais pobres, os neologismos eram jovens, e as gírias são nomeadas de
“molecada”, já que são dinâmicas e mudam rapidamente, são como crianças brincando,
sempre em movimento.
       No texto, observamos que as palavras, como todas as pessoas, são nomeadas conforme
um nome próprio, que no caso, na verdade, é a própria palavra, só que escrita com letra
maiúscula e em itálico, para facilitar o entendimento da criança e ao mesmo tempo continuar
dentro da gramática normativa. Assim temos tal frase como exemplo: “Veio abrir o Pronome
Eu.” (LOBATO, 1972, p. 307).
       Podemos observar também algumas mudanças na língua, desde que ela foi escrita por
Monteiro. Algumas palavras que eram consideradas neologismos em sua época tornaram-se
muito usadas por nós, como Chutar ou Encrenca; alguns ditados e termos acabaram caindo no
desuso, como na fala de Narizinho (LOBATO, 1972, p. 300): “Falai no mau, aprontai o pau”,
“(...) suando em bicas”, “(...) só dando com um gato morto em cima”; além das mudanças
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recentes na gramática, como o desaparecimento do hífen e dos acentos de algumas palavras.
       Um aspecto muito interessante dessa obra de Lobato é o fato de conseguirmos
perceber, com sua leitura, algumas idéias que existiam na época ou que o autor defendia. Ele
demonstra em várias passagens seu pensamento em relação à língua e seus detalhes, através
das personagens.
       Assim, em uma parte do livro, quando a turma descobre os Barbarismos, palavras
estrangeiras, Quindim explica que estas só podem andar por Portugália se estiverem
acompanhadas por aspas ou grifos, regra utilizada até hoje. Lobato, então, expressa, por meio
de Narizinho, sua opinião de que tais palavras não deveriam ser tratadas diferentemente das
pertencentes à Língua Portuguesa. Para ele, tal regra não deveria existir, como ocorre com o
Inglês, defendendo essa idéia a menina fala: “Eu, se fosse ditadora, abria as portas da nossa
língua a todas as palavras que quisessem entrar – e não exigiria que as coitadinhas de fora
andassem marcadas com os tais grifos e tais aspas.” (LOBATO, 1972, p. 299).
       Lobato também nos remete à teorias de reconhecidos autores, como Saussure e
Vigotsky. Em relação ao primeiro estudioso, se analisarmos a fala da personagem Emília
(LOBATO, 1972): “(...) Nome é nome; não precisa ter relação com o “nomado”.” podemos
identificar a alusão à teoria da arbitrariedade do signo. Saussure (apud BLIKSTEIN, 1990)
defende a idéia de que a relação entre o signo e o significado que ele representa não é natural,
é estabelecido por um consenso social, e, então, um não possui relação direta com o outro,
como defende a boneca. Quanto à Vigotsky (2005), lembremos que o autor defendia que o
pensamento e a linguagem, a partir de certo momento da vida da criança, tornavam-se
inseparáveis, ou seja, o pensamento só poderia ser formulado e desenvolvido através da
linguagem. Visto isso, no livro “Emília no País da Gramática” temos o seguinte trecho: “(...)
Todas (palavras) somos por igual importantes, porque somos por igual indispensáveis à
expressão do pensamento dos homens.”, analisando tal afirmação do pronome Eu, podemos
entender que Lobato compartilhava da mesma opinião de Vigotsky, já que deixa claro que o
pensamento dos homens só pode ser expresso por meio da língua, e portanto, também é
formado por meio dessa relação de dependência (pensamento x linguagem).
       Lobato (1972) faz diversas relações entre Portugália e o mundo real. Assim, em um
desses trechos, ele lembra que os Nomes Próprios consideram-se muito importantes por
nomear pessoas, e possuem diversos nomes comuns a seu serviço. Segundo ele: “(...) Os
Nomes Comuns formam a plebe, o povo, o operariado, e têm a obrigação de designar cada
coisa que existe (...)” (LOBATO, 1972, p. 301). Se analisarmos esta frase do autor,
percebemos certo desdém em relação ao povo e aos nomes comuns, porém, se pensarmos
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realmente, lembramos que os nomes comuns, por mais insignificantes que sejam, são
substantivos, e então: “(...) indicam a substância de tudo.” (LOBATO, 1972, p. 300). Monteiro
então estaria nos passando que a plebe, o povo, o operariado também são a substância da
sociedade, são eles que a formam de fato, assim como os nomes comuns formam a língua.
       Ainda em relação aos substantivos, aos nomes próprios mais especificamente, temos
um trecho: “(...) O nome Europa era o mais empavesado de todos; louro, e dum orgulho
infinito. Passou rente ao nome América e torceu o nariz.” (LOBATO, 1972, p. 301).
Percebemos que o autor caracteriza as palavras conforme as pessoas que elas representam, no
caso, pessoas que moram no lugar que elas representam. Por isso, entendemos que a Europa,
assim como os europeus, é mais “empavesada” e se considera, de certa forma, mais
importante que continentes com uma história diferente, como a América, que foi colônia de
países europeus. Foi pela história de colonização também que a palavra Europa “torceu o
nariz” para a palavra América, pois, lá no fundo, sente como se essa ainda fosse um local de
domínio (que não merece o devido respeito dado à ela), porém que está se desenvolvendo,
fato impróprio para uma “colônia”.
       O autor, para explicar a origem do bairro da Brasiliana, que fica dentro de Portugália,
faz um paralelo com o descobrimento e formação do Brasil, assim: “(...) Com o andar do
tempo essas palavras (portuguesas) foram atravessando o mar e deram origem ao bairro de cá,
onde se misturaram com as palavras indígenas locais.” (LOBATO, 1972, p. 300). Entende-se,
portanto, que o bairro de Brasiliana, são as palavras utilizadas no Brasil, que foram para este
bairro depois que saíram do Bairro Antigo (das palavras portuguesas), atravessando o mar e
encontrando uma terra onde já haviam línguas indígenas.
       Voltando para um lado mais social do livro, percebemos que o termo “negra”,
referindo-se a Tia Nastácia, aparece diversas vezes nele, em alguns trechos como: “(...)
Danada para tudo, aquela negra...” (LOBATO, 1972, p. 317). Além de tal denominação
utilizada, aparece no livro também: “(...) Tomara que seja uma negrinha preta que nem
carvão...” (LOBATO, 1972, p. 301). Em uma primeira análise, não há como pensar que
Monteiro Lobato não era racista. Porém, devemos recordar que, atualmente, o assunto acerca
do racismo é muito mais presente e combatido em nossa sociedade do que era na época do
autor. Apesar de o racismo e os direitos dos negros serem discutidos, com mais força, no
Brasil desde o final da segunda guerra mundial, de fato, tal problema é realmente posto em
pauta a partir da década de 60, nos Estados Unidos da América, onde, em meio ao movimento
hippie e à guerra fria, os negros, através dos Panteras Negras e personalidades como Martin
Luther King, mostraram-se presentes na sociedade e exigiram seus direitos. Visto isso,
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podemos afirmar que Monteiro Lobato realmente utilizava termos que hoje são considerados
pejorativos e racistas, e que até nos remetiam à idéia de escravidão (lembrando que Tia
Nastácia era quem trabalhava no sítio), porém, esses termos que em sua época eram comuns,
e não tinham tamanha repercussão. É interessante observarmos como a nossa percepção da
realidade muda com o andar da história. A forma como Lobato descreve Tia Nastácia ou se
refere à população negra, hoje, seria considerado racismo, e o autor sofreria graves
repreensões por utilizá-los em um livro, principalmente um infantil, já que, para ele, a
educação das crianças é muito sensível, qualquer pensamento que seja passado pode marcá-
las, para o bem ou para o mal inclusive. Por outro lado, em sua época, esse modo de
tratamento em relação aos negros era considerado normal, portanto, Lobato apenas
demonstra, com isso, fazer parte de um certo período da sociedade brasileira.
       Um último assunto apresentado no livro é a ideia de Lobato (1972) de que, na verdade,
quem faz a língua é o povo, incluindo pessoas incultas, e não os gramáticos. Assim, o autor
mostra que, de certa forma, não concordava com o estruturalismo de Saussure, mas sim que
está em uma maior sintonia com a linguística moderna, comentada por Petter (2007), que
defende a ideia de que a língua também se modifica através da fala, e, por isso, ela também
deve ser estudada. Lobato, portanto, lembra que a língua se modifica, pois é viva. E essas
modificações, por sua vez, ocorrem por causa da utilização que o povo faz dela, assim, os
erros cometidos e repetidos também transformam a língua. Dona Etimologia, personagem de
Lobato, comenta:


                       (...) As pessoas cultas aprendem com professores, e, como aprendem, repetem certo
                       as palavras. Mas os incultos aprendem o pouco que sabem com outros incultos, e só
                       aprendem mais ou menos, de modo que não só repetem os erros aprendidos como
                       perpetram erros novos, que por sua vez passam a ser repetidos adiante. Por fim há
                       tanta gente a cometer o mesmo erro que o erro vira Uso e, portanto, deixa de ser
                       erro. (LOBATO, 1972, p. 321)


       A partir desse trecho, fica claro a importância social que o erro de português possui. O
povo, perpetuando o erro, acaba fixando-o na língua, e, por ser utilizado deixa de ser erro.
Dona Etimologia (LOBATO, 1972) ainda dá o exemplo da palavra espelho. No Latim era
Speculum, ao chegar em Portugal, através dos soldados romanos, foi sendo gradativamente
“errada” e tornou-se Espelho, e continua mudando, Narizinho lembra que as pessoas do
campo dizem “Espeio”. Assim, com um exemplo prático, Lobato mostra um lado social muito
forte, passando para as crianças que as pessoas ignorantes, ou seja, que não sabem utilizar
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direito a língua, devem ser bem vistas também e não repreendidas, já que: “(...) O que nós
hoje chamamos de certo, já foi erro em outros tempos.” (LOBATO, 1972, p. 321).


6. EMÍLIA: A DONA TORNEIRINHA DE ASNEIRAS


       A Emília foi escolhida para ser analisada por se tratar de uma das personagens mais
intrigantes e apaixonantes da coleção de histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo. A boneca


                        (...) foi feita por tia Nastácia, com olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em
                        cima que é ver uma bruxa. Apesar disso Narizinho gosta muito dela; não almoça
                        nem janta sem a ter ao lado, nem se deita sem primeiro acomodá-la numa redinha

                        entre dois pés de cadeira. (LOBATO, 1972, p. 11)



       Emília era feita de pano, e, como todas as bonecas, muda. Porém, em “Reinações de
Narizinho”, após engolir uma pílula falante do Doutor Caramujo, passou a falar muito e ter
opinião sobre tudo, apesar de, podendo considerá-la uma criança, saber pouco de fato:


                        Emília engoliu a pílula, muito bem engolida, e começou a falar no mesmo instante.
                        A primeira coisa que disse foi: ‘Estou com um horrível gosto de sapo na boca!’ E

                        falou, falou, falou mais de uma hora sem parar. (LOBATO, )



       Narizinho, desesperada por Emília falar tanto, em tão pouco tempo, pede ao Doutor
para que ele faça-a vomitar a tal pílula falante e engolir uma mais fraca, o médico responde,
porém, que aquilo era fala acumulada, e que a boneca voltaria ao normal. Emília, por sua vez,
sempre falou muito e sem pensar. Quando abria sua “torneirinha de asneiras” não tinha quem
a agüentasse.
       Dentro do “universo lobatiano”, Emília é a única personagem que muda, que evolui,
conforme as histórias. A personagem mostra-se dominadora e egocêntrica, se preocupa
principalmente com suas idéias e umbiguinho. É obstinada em conseguir as coisas e muito
teimosa, sempre mantendo sua opinião intacta, independente de tudo. Como uma criança, a
boneca possui uma curiosidade imensa e segue sempre uma lógica pueril em relação às coisas.
Demonstrando simplicidade de pensamento, muitas vezes nos surpreende com suas idéias
diferentes e visão filosófica, como sua teoria sobre a vida:


                        (...) A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a
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                       piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos
                       – viver é isso. É um dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais. (...)A vida
                       das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é
                       um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama;
                       pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e
                       morre.
                       - E depois que morre? – perguntou o Visconde.
                       - Depois que morre vira hipótese. É ou não é? (LOBATO, 1972, p. 243)

       A boneca mostra, portanto, um lado irreverente. Sempre demonstrando ser uma
“sabichona”. A exemplo de seu criador, Emília é inconformada e sempre faz muitas perguntas
para as pessoas, absorvendo todas as informações e criando novas teorias e significações a
partir delas. É também por meio de suas tiradas que vamos nos apropriando das idéias de
Lobato. O autor desenvolveu a personagem de tal maneira que, em uma carta endereçada a
Godofredo Rangel, declarou:


                       Emília começou uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior
                       custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente - cabritinho
                       novo - aos pinotes. E foi adquirindo tanta independência que, não sei em que livro,
                       quando lhe perguntam: 'Mas que você é, afinal de contas, Emília:' ela respondeu de
                       queixinho empinado: 'Sou a Independência ou Morte.' E é. Tão independente que
                       nem eu, seu pai, consigo dominá-la. (Monteiro Lobato, in: Barca de Gleyre, 14ª ed,
                       Brasiliense, S.Paulo, 1972)



       Um lado interessante da personagem é o fato de ser uma boneca, apesar de se
considerar gente: “(...) eu também sou gente e nada me modifica. Só Tia Nastácia às vezes...”
(LOBATO, 1972, p. 314). Essa simples característica acaba permitindo ações por parte de
Emília que não seriam bem vistas se fossem feitas por uma pessoa. Ela pode, assim, ser
malcriada e demonstrar certo egoísmo infantil, muito comum nas crianças. Também é rebelde,
possui muito interesse pelas coisas, tornando-se até inconveniente muitas vezes; e certa
maldade ingênua. Características que acabam indo de encontro ao público infantil, que, de
certa forma, se identifica com a boneca. Para Lobato era interessante uma personagem
irreverente e rebelde como ela para expressar suas verdadeiras opiniões acerca de
determinados assuntos. A idéia de que “Emília é só uma boneca, ela não sabe o que diz” tira o
foco do autor, que, teoricamente, está escrevendo apenas uma ficção, sem fundo crítico em
relação à língua (no caso de “Emília no País da Gramática”) ou à sociedade.
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       Por tais motivos, Emília tornou-se uma personagem de personalidade forte e esperteza
perspicaz. Chamando a atenção de todos os leitores: crianças, que se identificam com a
personagem, por causa de suas dúvidas e erros; e também adultos, que acabam rindo de sua
espontaneidade e idéias.
6.1 EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA


       Desde o começo do livro, Emília se mostra esperta e determinada, convidando
Pedrinho para ir ao país da gramática com o rinoceronte (que mais pra frente será nomeado de
Quindim). Como já dito anteriormente, o volume é escrito de maneira bem formulada e
desenvolvida, apesar de ser para crianças. Seguindo isto, podemos observar nesse convite que
a boneca faz ao menino essa forma trabalhada de se utilizar as palavras: “(...) por que em vez
de estarmos aqui a ouvir falar de gramática, não havemos de ir passear no país da
Gramática?” (LOBATO, 1972, p. 293). Analisando essa fala da Emília, observamos que a
boneca utiliza expressões como “estarmos aqui a ouvir” ou “havermos de ir passear” e
períodos compostos, indicando um maior desenvolvimento em sua fala do que a de uma
criança. Por outro lado, através de outros trechos, a personagem nos mostra um jeito simples
de se ver as coisas, seguindo uma lógica pueril e relacionando o que aprende com o seu
mundo, como uma criança faria ao ler esse livro.
       Emília, com sua torneirinha de asneiras, sempre expressa essa sua simples forma de
pensar e enxergar as coisas. No segundo capítulo do livro, quando a turma conhece os
arcaísmos, e Quindim explica o significado de uma coisa arcaica (velha), a boneca relaciona o
que está aprendendo no país da gramática com o mundo em que vive, assim: “Então, Dona
Benta e Tia Nastácia são arcaísmos!” (LOBATO, 1972, p. 297). Sem papas na língua, aprende
associando as coisas. Em outro trecho, a boneca demonstra novamente essa forma de
aprendizado relacionando os advérbios com a Tia Anastácia. Quando lhe perguntam quem é
essa senhora, Emília diz: “Uma advérbia preta como carvão, que mora lá no sítio de Dona
Benta. Isto é, Advérbia só para mim, porque só a mim é que ela modifica. Para os outros é
uma substantiva que faz bolinhos muito gostosos.” (LOBATO, 1972, p. 314). Um dos
melhores exemplos para mostrar essa capacidade de associação da boneca é quando as
crianças estão aprendendo sobre o grau das palavras (aumentativo, diminutivo):


                       Sei disso – declarou Emília – As palavras quando querem significar uma coisa
                       grande, latem; e quando querem significar uma coisa pequena, choramingam. (...)
                       Botar um Ão no fim duma palavra é latir, porque latido de cachorro é assim – ão, ão,
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                        ão! E botar um Inho, ou um Zinho no fim das palavras é choramingar como criança
                        nova. Panela, por exemplo; se late vira Panelão e se choraminga vira Panelinha.
                        (LOBATO, 1972, p. 304)




       Com essa fala de Emília, o público infantil entenderia perfeitamente a lógica que ela
usa. Já que se utiliza de figuras conhecidas no universo infantil para explicar uma gramática,
as crianças se identificariam.
       Seguindo essa sua lógica pueril, Emília faz alguns comentários que seriam dignos de
uma criança que está descobrindo as coisas. Quando a turma está aprendendo sobre
substantivos próprios e a freqüência com que são chamados para batizar as pessoas, a boneca,
sabendo que o nome José era muito comum, e que, portanto, deveria “correr” muito em
Portugália, pensa: “Nesse caso o nome José deve ser fininho como um palito.” (LOBATO,
1972, p. 300).
       Podemos chegar à conclusão, portanto, de que tal forma de aprendizado de Emília, por
associação, é importante ser mostrada no livro. As crianças que o lêem também estão em uma
fase de aprendizado, além de entenderem a gramática com a história, absorvem as coisas de
forma associativa, como a Emília. Levando, assim, essa forma de aprender para a vida, e se
desenvolvendo.
       Ainda em relação à sua lógica de criança, a boneca cria neologismos ao longo do livro,
e age como se eles de fato existissem. É o exemplo de “botadeira”. Ela utiliza a palavra para
dizer que é ela quem coloca os nomes no Sítio do Picapau Amarelo. Assim, utiliza o verbo
“botar” com o sufixo “eira”, formando uma palavra através de uma derivação sufixal, como
aprenderia em outro capítulo. Erro que é muito comum no vocabulário de crianças, pois
seguem a mesma lógica que Emília. Há também neologismos que ela inventa
conscientemente, a palavra cavalência é um exemplo. Quando Dona Etimologia comenta que
não conhece essa expressão, Emília empolgada diz: “É minha! Foi inventada por mim com a
invençãozinha que Deus me deus. Faz parte dos meus “neologismos”.” (LOBATO, 1972, p.
322)
       No capítulo em que “Emília forma palavras”, já mencionado no parágrafo anterior, há
uma passagem que caracteriza muito bem o sentimento da boneca em relação à sua sabedoria.
Emília é uma “sabichona” e sempre teima com quem tenta corrigi-la. Dona Etimologia,
explicava que as palavras adquiriam novos significados com os sufixos e deu como exemplo
“cavalaria”. Emília, então, é obrigada a argumentar com a senhora, mostrando toda sua
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sabedoria e teimosia: “Não, senhora – protestou Emília – Cavalo com Aria atrás vira
cavaloaria e não Cavalaria.” (LOBATO, 1972, p. 322)
       A personagem, por não ter papas na língua, acaba tecendo alguns comentários
desconcertantes e muitas perguntas, que demonstram seu jeito atrevido de ser. Como exemplo,
podemos citar a passagem em que a boneca abre sua “torneirinha de asneiras” conversando
com Vossa Serência (verbo ser):


                        Por que Vossa Serência não aparece por lá, um dia, para uma visita a Dona Benta?
                        Por ser muito velho? Ora, deixe-se disso!...Estamos lá acostumados com a velhice.
                        Dona Benta é velha e Tia Nastácia também. (...) Dona Benta é viúva. Vá, que até

                        pode sair casamento... (LOBATO, 1972, p. 317)



       Percebemos com este trecho que a boneca, ao falar com o verbo ser, forma frases mais
bem elaboradas, provavelmente por pensar que está falando com alguém muito importante. O
atrevimento de Emília fica claro, tentando arranjar até um noivo para Dona Benta e chamando
o verbo ser de velho.
       A boneca também se expressa de modo imperativo com as pessoas. É um “espirro de
gente” que exige que todos a ouçam e se sente no direito de mandar nas pessoas. É a
Marquesa de Rabicó, uma boneca de classe, que merece respeito e muita atenção. Em várias
passagens do livro percebemos essa característica de Emília: “Chega de Advérbios! – berrou
(grifo nosso) Emília.” (LOBATO, 1972, p. 315). Em contrapartida, também observamos no
livro que em alguns momentos a boneca demonstra ainda obedecer à sua dona, Narizinho:


                        - Agora, não, Emília. Depois. Depois visitaremos Dona Prosódia. Neste momento eu
                        resolvo que se visite a etimologia. Você não manda.
                        E como o caso fosse assim despoticamente resolvido, dirigiram-se todos para a

                        residência da Senhora Etimologia. (LOBATO, 1972, p. 320)



       Emília também faz uso de superlativos para se expressar, sempre dando ênfase às suas
histórias e tornando-as mais grandiosas. Também acaba aumentando a intensidade de sua
frase para puxar a atenção do “ouvinte”: “(...) Para Tia Nastácia ser magro é defeito
gravíssimo (grifo nosso).” (LOBATO, 1972, p. 305). A bonequinha demonstra, assim, ser
exagerada, sempre em busca de atenção, como uma criança de fato.
       Mexendo com a imaginação e poder de criação das crianças, Lobato faz com que a
boneca tenha suas aventuras e seus “planos infalíveis”. Nesse volume, há dois principais
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planos: o de entrar na casa do verbo ser, que era super “disputado’, no qual a bonequinha
fingiu-se de jornalista; e o de expulsar os gramáticos da casa de Dona Etimologia, para que
ela conseguisse dar-lhes atenção. Ambos planos acabam nos mostrando que Emília faz de
tudo para conseguir o que quer, e ela sempre sabe o que quer! Se pensarmos um pouco mais
além percebemos que essa característica da bonequinha se liga ao fato de ela ser um pouco
egocêntrica. A frase pertencente ao plano de expulsar os gramáticos da casa de Dona
Etimologia (LOBATO, 1972, p. 230): “O melhor é espantarmos esses gramáticos e tomarmos
conta da velha só para nós!” mostra de forma clara o sentimento de egocentrismo bastante
presente também nas crianças, no início de suas vidas.
       No capítulo voltado para as preposições, podemos analisar um comentário de Emília,
que nos indica a forma como ela faz uso da gramática. Através dessa fala, percebemos que ela
utiliza muitas preposições, e portanto, usa construções bem desenvolvidas, períodos
compostos. Entendendo que as preposições são as “cordinhas” de nossa língua, Emília se
empolga e diz: “Bravo! São umas cordinhas preciosas estas. A gente não pode dizer nada sem
usá-las, sobretudo as menorzinhas, como A, Até, Com, De, Sem, Por...” (LOBATO, 1972, p.
315). Apesar disso, as preposições em questão também são das mais simples, indicando ainda
que apesar de falar de forma mais complexa, a personagem ainda se adapta a um universo
mais simples, mais próximo do infantil.
       Outro aspecto interessante da fala da Emília é o uso de diminutivos. Como dissemos
anteriormente, a personagem se utiliza de superlativos para dar mais emoção e exagero às
suas falas, chamando, assim, mais atenção, atenção essa que crianças necessitam que lhes
dêem. Por outro lado, se utiliza também de diminutivos, indicando que está mais próxima ao
universo infantil e que fala como uma menina. Podemos utilizar a palavra “cordinhas”,
apresentada na fala de Emília do parágrafo anterior, para ilustrar essa observação.
       Observamos também em meio a leitura que a personagem erra muitas vezes as
palavras e seu modo de pronunciá-las. Chegando até a dizer que queria conhecer a Dona
Prosódia em vez da Dona Etimologia (origem e história das palavras), para descobrir como se
pronuncia certas palavras, segundo a bonequinha, ela é “prática”.
       Um episódio também interessante é no desfile do verbo Ter. Emília acha a marcha do
verbo ter no presente maravilhosa, porque, segundo ela: “(...) Pelo jeito de marchar a gente vê
que eles têm mesmo...” (LOBATO, 1972, p. 310). Essa expressão que eles “têm” mesmo
deixa subentendido que esses verbos têm uma grande importância, por serem usados no
presente, ou seja, as pessoas estão utilizando-os. A boneca não gosta do jeito triste de marchar
do verbo tem no pretérito, já que eles não “têm mais nada”. Porém, a marcha que mais
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empolgou a turma foi a do verbo ter no futuro. O verbo passa esperança de um futuro que
“tem” muitas coisas, felicidades e desenvolvimento para o país, idéia de Monteiro que pode
ser retirada da seguinte frase de Pedrinho: “Viva o futuro!” (LOBATO, 1972, p. 311).
         Emília também nos dá material para sua análise quando vai conhecer os pronomes.
Quando ela vê os pronomes possessivos não se cabe de tanta felicidade: “Emília que achava
as palavras Meu e Minha as mais gostosas de quantas existem, agarrou o casalzinho e deu um
beijo no nariz de cada uma (...)” (LOBATO, 1972, p. 308). Entendemos, a partir desta cena,
que a boneca é possessiva, e adora que as coisas sejam dela, como, novamente, a maioria das
crianças é. Além dos pronomes possessivos, Emília se encontra com os pronomes
interrogativos, outros muito utilizados pela bonequinha. E fica feliz em conhecê-los. Com sua
curiosidade infinita, a personagem era a boneca que mais dava trabalho a eles.
         Após essa análise da Emília, percebemos que a boneca cometia muitos erros, e ao
mesmo tempo mostrava uma lógica simples em relação às coisas e regras. Monteiro Lobato
mostra, através da personagem que a língua portuguesa não precisa ser tão complexa para as
crianças, e que, mesmo o jeito delas de enxergá-la faz algum sentido. O público infantil se
identifica muito com a Emília, com suas dúvidas e comentários desconcertantes. A
personagem acaba se tornando a mais completa: se mostra entendida do assunto algumas
vezes e outras comete erros comuns às crianças, é espevitada, sem papas na língua, fala tudo o
que pensa, tem uma capacidade de associação imensa e, por fim, é uma boneca que parece
gente.

6.2 ANÁLISE DO DISCURSO DE EMÍLIA: VÍCIOS DE LINGUAGEM


         O capítulo de título “Os vícios de linguagem”, como o nome diz, tem como principal
assunto os vícios de linguagem que ocorrem na língua portuguesa. Antes de tudo, lembremos
que os fenômenos que dão nome ao capítulo são alterações defeituosas da norma que ocorrem
na língua, são mal vistos aos olhos dos gramáticos, portanto.
         Visto isso, já começaremos a analisar a linguagem desta parte do livro a partir do
primeiro diálogo. Quem está apresentando os vícios de linguagem à turma é a Dona Sintaxe,
quem organiza as palavras e orações. Observamos o receio que a senhora possui em relação
aos “monstrinhos”: “(...) Os vícios, eu os conservo em jaulas, como feras perigosas (grifo
nosso).” (LOBATO, 1972, p. 334). A partir dessa fala de Dona Sintaxe, podemos observar que
ela representa a visão dos gramáticos em relação à língua e aos vícios. É, então, amante das
regras e da ordem dentro do português.
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       Há então a apresentação de cada vício de linguagem. Todos eles são personificados em
pessoas sujas e mal encaradas, exceto dois: o Neologismo, muito bem arrumado e novo; e o
Provincianismo, que era considerado um “Jeca”, ingênuo e simples. Há 12 jaulas no local,
cada um para um vício de linguagem, são eles: o Barbarismo, o Solecismo, a Anfibologia
(mais conhecida como ambigüidade hoje), a Obscuridade, o Cacófato, o Eco, o Hiato, a
Colisão, o Arcaísmo, o Neologismo e o Provincianismo. Porém, uma das jaulas está fazia.
Dona Sintaxe então explica que tal vício se reabilitou, era o Brasileirismo, que, com o
desenvolvimento da língua portuguesa no Brasil, deixou de ser um vício, porém só pode andar
pela cidade nova, ou seja, Brasiliana.
       A visita começa: Emília, como é a mais curiosa, é quem vai a frente do grupo,
conversando com Dona Sintaxe. A boneca chega na primeira jaula e pergunta: “Que mal faz o
mundo esse “cara-de-coruja”?” (LOBATO, 1972, p. 334). Aparece nessa fala da personagem
o termo “cara de coruja” que vai se mostrar presente no vocabulário da bonequinha desde a
primeira vez em que ela fala, ainda no livro As reinações de Narizinho. Quando Emília não
sabe o nome de uma pessoa, e também não está interessada em saber, pois sua vontade é mais
importante, utiliza essa nomeação, simplesmente para ter um termo diferenciado de se chamar
alguém.
       Dona Sintaxe explica à boneca pelo o que cada vício é responsável, sempre
demonstrando uma hostilidade e grosseria em relação a eles. Muitas vezes em que ela fala
sobre algum deles utiliza termos como: “idiota”, “cretino” ou “imbecil”. Palavras que são
consideradas impróprias para serem adicionadas ao vocabulário de uma criança. Assim,
passam pelo Barbarismo, que faz com que as pessoas errem as palavras, seja a pronuncia ou a
escrita; pelo Solecismo, que causa erros de concordância; a Anfibologia, que deixa as frases
ambíguas; a Obscuridade, que faz com que as frases não sejam claras, objetivas; o Cacófato,
gera sons desagradáveis nas frases, fazendo com que estas tenham um sentido “feio”; o Eco,
faz com que haja repetição desagradável de terminações iguais; o Hiato, gera som
desagradável pela aproximação de vogais idênticas na frase; a Colisão, gera frases com
consonâncias desagradáveis; o Arcaísmo, palavras antigas em frases modernas que dificultam
o entendimento; o Neologismo, palavras recém-formadas, que, pela visão de Dona Sintaxe,
dificulta também o entendimento; e, por último, o Provincianismo, que faz as pessoas
utilizarem termos conhecidos em alguns locais somente, são os regionalismos.
       Emília, enquanto conhecia os vícios, dava apelidos para cada um deles, era “bicarada”
para a ambigüidade, pois ela tinha duas caras, ou seja, dois sentidos. A Obscuridade era
“pretuda”, obviamente por causa de sua cor. Chamava os outros de “cara de cachorro” e
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“pandorga”, além de “Matusalém” para o Arcaísmo. A boneca mostra, mais uma vez, seu jeito
atrevido de ser.
       As partes do capítulo que merecem uma maior atenção, porém, são as que Emília
liberta dois dos vícios de linguagem, para o espanto de Dona Sintaxe, que, todavia, fica
imóvel, não toma nenhuma ação.
       O primeiro que Emília solta é o Neologismo:


                       Emília, que era grande amiga de neologismos, protestou.
                       - Está aí uma coisa com a qual eu não concordo. Se numa língua não houver
                       neologismos, essa língua não aumenta. Assim como há sempre crianças novas no
                       mundo, para que a humanidade não se acabe, também é preciso que haja na língua
                       uma contínua entrada de Neologismos. Se as palavras envelhecem e morrem, como
                       já vimos, e se a senhora impede a entrada de palavras novas, a língua acaba
                       acabando! Não! Isto não está direito e vou soltar esse elegantíssimo vicio, já e já...
                       (LOBATO, 1972, p. 335)


       Nesta fala da boneca, podemos analisar diversos temas. Primeiramente, observamos
que Emília, seguindo sua característica de associar o que aprende com seu mundo, faz um
paralelo entre a manutenção da população, nascimento de novas crianças, e a manutenção da
língua, criação de neologismos. De fato, a lógica da bonequinha tem fundamento. Como ela
aprendera no início da história, as palavras nascem, crescem e morrem, como pessoas.
Portanto, se não há a introdução de neologismos, a língua estaria acabada um dia.
       Percebemos também neste trecho a presença do superlativo sintético, utilizado pela
bonequinha, que sempre exagera e dá ênfase ao que fala. Ao dizer “Elegantíssimo vício”, a
personagem já está mostrando ser contra a idéia da Dona Sintaxe, e tenta irritá-la, mudando
sua organização da língua. Esse plano continua quando a boneca diz: “(...) Temos de continuar
na “campeação” dele (do Visconde) – disse Emília, mordendo o lábio e olhando firme para a
Sintaxe (...)” (LOBATO, 1972, p. 335). Torna-se claro nesta passagem o desejo da
personagem em irritar a Dona Sintaxe utilizando um de seus neologismos.
       Além desses aspectos, é através de Emília que Lobato nos passa a idéia de que os
neologismos são bons para a língua. Novamente indo contra os gramáticos, já que o autor
discorda com os estudiosos em relação à forma de ensino da gramática, Monteiro faz com que
a boneca liberte esse vício de linguagem, mostrando uma nova visão da gramática, a de que as
palavras novas são muito importantes para a manutenção da língua.
       O segundo Vício de Linguagem solto foi o Provincianismo, Emília: “(...) não achou
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que fosse o caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou que ele também estava
trabalhando na evolução da língua e soltou-o.” (LOBATO, 1972, p. 335).
       A boneca novamente trabalha com lições aprendidas ao longo do livro. Quando ela
alega que o Provincianismo também estava trabalhando na evolução da língua, relembra do
que aprendeu com Dona Etimologia, que o inculto é quem faz a língua. O vício no caso não
era inculto propriamente, mas reproduzia as palavras de modo diferente do que devia, graças
ao local em que morava e aprendera a falar. Mais uma vez, o autor utiliza Emília como sua
porta-voz. Acreditando que o povo que faz a língua, Monteiro faz com que a boneca defenda
o matuto do Provincianismo, mostrando, assim, a visão de uma nova geração em relação à
gramática.
       Lobato mostra também uma visão um pouco arcaica ou preconceituosa em relação ao
caipira. A partir do modo que ele é descrito (LOBATO, 1972, p. 335): “Tão bobo, o coitado,
que nem teve a idéia de agradecer à sua libertadora.”, percebe-se que o autor quis nos passar a
falta de atitude e a ingenuidade das pessoas que vivem no campo. Idéia que encontramos em
sua outra obra “Urupês” (1918), em que a personagem Jeca Tatu se faz presente.
       Atualmente o provincianismo não é considerado um vício de linguagem propriamente
dito. Na verdade nos remetemos a ele ao falarmos de variações lingüísticas dentro de um país,
ou seja, de regionalismos. Característica muito presente em nosso país, e que, hoje, é aceita e
respeitada.
       Por último, observamos que o fato de Dona Sintaxe não ter feito nada para impedir
que Emília soltasse os Vícios, provavelmente indicaria como os gramáticos se sentiam ao ver
essa nova geração da gramática chegando, com as idéias que Monteiro Lobato nos passa.
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7. PESQUISA DE CAMPO


       Através de entrevistas, questionamentos sobre aspectos subjetivos, como opiniões ou
recordações passadas, conseguimos que as pessoas se expressem de forma a não darem
atenção ao modo como articulam a fala. Por esse motivo, uma pesquisa de campo que possua
o intuito de captar os níveis de fala de determinado grupo de pessoas precisa conter certo
aspecto informal. Conforme o tema deste trabalho, desenvolvemos questionamentos e os
levamos as ruas da cidade de São Paulo. Monteiro Lobato preocupava-se muito com a questão
da educação, principalmente quando o assunto eram crianças, desse modo, o tema escolhido
para a pesquisa foi exatamente este, a educação. De 50 entrevistas feitas, destacamos 10 para
análise, sendo estas variadas, duas de cada classe social (determinada por meio de um
questionário sócio econômico).


7.1 ENTREVISTAS


Classe A


Nome: Rosana
Idade: 41 anos
Local da entrevista: Estação Armênia.
*segue em anexos o questionário sócio econômico.


1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se
lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou?
“O que eu aprendi quando criança? Faz tempo, é por isso... Ah, o que eu aprendi na minha
família é... eram católicos, então era muito rígido, assim... com horário, que até hoje, marcou
um horário, é naquele horário que eu tenho que chegar, eu num admito nem chegar um minuto
depois nem um antes. Por que eu num gosto de esperar ninguém, quando eu marco alguma
41

coisa que demore eu me lembro disso e num deixo ninguém me esperando, foi uma coisa que
me marcou.”




2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender?
“A melhor maneira de aprender? Eu acho que é se conversando, a gente explicando, aquilo,
num é? Eu tenho os filhos, é o que eu passo pros meus filhos, né? Né..o certo da coisa...
explicar o por que é que tem que fazer o certo. Conversar, né? Desta forma.”



3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi?
“Já, né! Com quatro filhos, já ensinei um monte! Ah, ensinar o... o caminho certo das
coisas...e fazer a coisa correta...Em tudo...A vida no geral.”



4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por quê?

“Na escola? Acho que mais a parte de cidadania...é, que na minha época num tinha
muito...né? Muito esse lado de ética, cidadania, eu queria ter aprendido mais”



5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendem
com os meios de comunicação?
“Tudo. De certo e de errado, aprende tudo. Tudo. Não,todo lado! Toda coisa tem o lado bom e
lado o ruim né...isso que eu te falo, aprende tudo. Então, desenvolvimento é muito mais
rápido, o desenvolvimento de raciocínio de tudo, graças computadores e tudo mais, mas tem o
lado ruim também da história né? Num é só o lado bom, não. Que também é bem rápido o
lado ruim, né? O lado ruim, né?”

Nome: Marina
Idade: 44 anos
Local da entrevista: Avenida Paulista


1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se
42

lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou?
“Bom, estou com um pouco de pressa, algo que eu me lembro muito bem de ter aprendido,
que foi difícil e marcante, foi andar de bicicleta. Aprendi com meu pai, hoje falecido. Estou
dando esse exemplo porque acho que isso é uma coisa que uma vez aprendida não se esquece
mais, não se desaprende sabe.”




2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender?
“Acho que você realmente aprende alguma coisa quando tira da teoria e coloca na prática, ai
você realmente nunca mais esquece.”


3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi?
“Bom ensinei varias coisas aos meus filhos, como por exemplo, o hábito da leitura.”


4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por que?
“Na escola eu não me lembro, mas na faculdade eu acho que poderia ter tido professores
melhores, que incentivassem mais o aluno, porque faculdade é aquela coisa né... o aluno é só
um número.”


 5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendem
com os meios de comunicação?
“Acho que dependendo do que assistem, podem tirar boas coisas dos meios de comunicação,
os programas da TV Cultura são uma boa.”


Classe B


Nome: Maria.
Idade: 57 anos.
Local da entrevista: Parque da Luz.
*segue em anexos o questionário sócio econômico.


1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se
lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou?
“Tem muitas coisas que marcam a vida da gente... não uma só são várias... o dia que meu
43

primeiro cachorrinho que eu tive morreu, minha gatinha quando foi atropelada, quando nós
recebemos a visita de uns americanos...nossa...eu tinha 5 anos de idade e lembro até hoje...a
primeira vez que eu fui em um parque de diversão...ah foi muita coisas...”


2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender?
“Tudo que você tiver que aprender a melhor coisa q você faz é gravar num gravador e depois
você mesma escuta o que você ta falando... as coisas de escola, um lembrete, algumas coisas
que você quer escrever... você mesma dita pro gravador e depois vai escutando e consegue
gravar com mais facilidade...”


3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi?
“Sim... já dei aula de artesanato...”


4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por quê?
“Geografia... eu odeio geografia... queria aprender, mas não consigo guardar...”


5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendem
com os meios de comunicação?
“Ah com certeza ficou mais fácil hoje né... antes a única forma de aprender era a escola...o
campo de ensino hoje é muito mais amplo em vista do que era na minha época...hoje em dia
tem a televisão, o celular...muitas formas da criança se comunicar...”


Nome: Geralda
Idade: 52 anos
Local da entrevista: Pinacoteca do Estado
*segue em anexos o questionário sócio econômico


1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se
lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou?
“Não... não lembro não...”


2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender?
“Eu acho que na prática né...”
44

3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi?
“Já ensinei a fazer comida pra empregada...”


4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por quê?
“Ah,,,Tudo o que eu aprendi na escola eu sei até hoje...”




5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendem
com os meios de comunicação?
“Acho que hoje ta tudo mais fácil, exatamente por causa disso... Antigamente tinha que
prestar mais atenção.”


Classe C


Nome: Melissa
Idade: 31 anos
Local: Estação da Luz
*segue em anexos o questionário sócio econômico


1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se
lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou?
“Melissa meu nome... eu acho que foi o catecismo... porque quando eu era jovem... eu entrei
no catecismo... eu me tornei até coroinha da igreja e tudo... isso quando eu era homem... mas
acho que foi por isso... somente por isso que eu me lembro... e pelas minhas orações
também... somente por isso...


2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender?
“Eu acho que as pessoas se aprendem é somente na prática... porque muitas coisas que a
escola ensina fica só na teoria querida... e se não for pra pratica você não progride...isso é o
que eu acho...uma opinião minha...”


3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi? Por quê?
“Eu já ensinei coisas no Ceará pros meus primos e sobrinhos... algumas coisas... do dever de
casa eu ensinava....”
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Monografia LP1

  • 1. 7 1. INTRODUÇÃO No Sítio do Pica pau Amarelo encontramos coisas surpreendentes que desafiam a compreensão daquele leitor que analisar a obra desprevenido, ou com expectativas de encontrar apenas um sítio, como outro qualquer. De fato esse sítio não é qualquer sítio. O que o leitor encontra no Sítio do Pica-Pau Amarelo é um espaço de reflexão, onde Monteiro Lobato retrata diversas questões pertinentes a época, além alguns aspectos de sua própria vida e personalidade. Este trabalho possui o intuito de analisar a obra, destacando um tema específico, no caso, o capítulo “A Gramática da Emília”, levantando assim questões sobre os personagens, e principalmente sobre a personagem Emília. A escolha deste capítulo se deu devido à didática presente no mesmo, fato que podemos observar não só neste capítulo como também em todos os outros da série. Em paralelo com o tema do trabalho há a pesquisa de campo, onde foram elaboradas questões para serem levadas às ruas da cidade de São Paulo. A pesquisa possui o intuito de analisar os níveis de fala da população, analisando pessoas das classes A, B, C, D e E. O tema desta foi elaborado a partir do tema deste trabalho, onde pudemos perceber a preocupação de Monteiro Lobato com a questão da educação, e portanto esse foi o tema que utilizamos para realizar as 50 entrevistas necessárias, das quais destacamos 10 para análise.
  • 2. 8 2. CONTEXTO NACIONAL Em 1920 ainda estava em vigência a política do café-com-leite, onde os Partidos Republicanos Paulista e Mineiro se alternavam no poder do país, defendendo os interesses oligárquicos da elite dessas regiões; porém, em 1922, surgiu uma reação republicana, na qual se uniram Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro, para apresentarem um candidato, Nilo Peçanha, contra o de Minas e São Paulo, Artur Bernardes. Desaparecidos do cenário político desde 1910, os militares se inclinaram contra a oligarquia presente. A disputa foi acirrada, todavia vencida por Artur Bernardes, o que fez eclodir uma reação há muito tempo contida: dia 5 de julho de 1922, jovens oficiais do forte de Copacabana se rebelaram com o intuito de impedir a posse de Artur Bernardes. A ação fora malograda, porém os jovens decidiram marchar nas praias de Copacabana, numa atitude suicida, contra as tropas legalistas. O episódio é conhecido como 18 do Forte, e iniciou um época com muitas rebeliões, conhecida como Tenentismo. Desde o inicio o governo de Artur Bernardes foi instável politicamente. No Rio Grande do Sul estourou uma guerra civil em 1923 e em São Paulo uma rebelião chefiada por Isidoro Dias Lopes, em 1924, que mais tarde se uniu aos sulistas e a Coluna Prestes, em 1925. Já com um cenário urbano no eixo Rio-São Paulo, foi inevitável a aparição do movimento operário, trazido junto aos imigrantes italianos, o que gerou o Partido Anarquista. Os anarquistas lutavam a favor do operário, por mais controle de duas funções para eles próprios, além de serem totalmente contra o Estado. Uma série de movimentos espalhados pelo mundo pressionavam o Brasil a melhores definições quanto a essa nova classe, e os anarquistas ficaram sem saber o que fazer, uma vez que as leis iriam favorece-los, mas seria feita pelo Estado que queriam extinguir. Se os anarquistas se sentiram perdidos, os comunistas sabiam exatamente o que queriam, e fundado em 1922 devido a onda que a Revolução Russa criou, o Partido Comunista Brasileiro era a favor de medidas governamentais e ainda a centralização do poder no estado, porém a divergência de interesses com os anarquistas fragmentou a classe operária, o que a enfraqueceu, porém criou a base do controle estatal do governo Vargas. Ao final do mandato de Washington Luís, sucessor de Artur Bernardes, esperava-se sua nomeação de um candidato mineiro para a próxima eleição, porém indicou um paulista, o que gerou a cisão das oligarquias, o que fez o PRM juntar ao Rio Grande do Sul na
  • 3. 9 candidatura de Getúlio Vargas. Porém Júlio Prestes, candidato paulista, ganhou as eleições de 30. Apesar de tudo, antes de Prestes tomar poder, Washington Luís foi deposto pelos generais gaúchos e o Partido Democrático, assumindo então Getúlio Vargas, no conhecido Golpe de 30. Instituiu-se, então, o governo provisório, e Vargas tinha que se equilibrar entre as pressões das outras peças políticas do país: de um lado a oligarquia, que já não fazia mais parte do poder, de outro os tenentes, influenciados pelo fascismo, queriam o poder centralizado, e de um terceiro lado os militares legalistas, apenas tentando estabelecer a ordem. Fez concessões as partes, mas não resolveu os problemas delas, então os segundos se organizavam em clubes políticos, a favor da ditadura, e os primeiros arranjavam um jeito de acabarem com aquilo para voltarem ao poder. Então forças políticas paulistas se juntaram para exigir uma reconstitucionalização do país, nomeando um interventor para o governo. Apesar da pressão tenentista, Getúlio publicou um novo código eleitoral e um anteprojeto para a nova constituição. No novo código eleitoral foi estabelecido o voto secreto, o voto feminino, além da representação classicista, ou seja, patrões e empregados poderiam votar por seus representantes. Mesmo com as reformas eclodiu em São Paulo a Revolução Constitucionalista, que durou três meses, feitas por militares de São Paulo com pequenos reforços de Mato Grosso. Como muitos generais legalistas se recusavam dar apoio a Vargas para reprimir a revolução, este rompeu com os tenentistas e conseguiu o apoio dos exército central e deu fim a revolta em São Paulo, em 1932. Em 3 de maio de 1933, de acordo com o novo Código Eleitoral, foram feitas as eleições para a Assembléia Constituinte, instituída no mesmo ano, com representantes da antiga oligarquia e das classes trabalhistas dos sindicatos. No ano seguinte a terceira Constituição do Brasil foi promulgada. A nova Constituição preservava o federalismo, o presidencialismo e a independência dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Estatização e nacionalização foram sempre presentes no governo provisório, afetando a política de imigração, de empresas estrangeiras, extração de recursos naturais e imprensa. A novidade da nova constituição é referente as leis trabalhistas, o que no governo anterior era tratado como caso de polícia, agora era de política. Proibições de diferenças salariais com base em sexo, idade ou estado civil, 8 horas diárias de carga-horária, descanso semanal, e várias outros direitos cedidos ao trabalhador. Muitos diziam que era uma manobra populista para controlar os sindicatos e as greves. Também foi criado o Ministério da Educação e Saúde, primeira demonstração de importância com o setor da educação, sendo obrigatório o ensino primário.
  • 4. 10 Entre 1932 e 35, quando começou-se a sentir a crise de 1929, intensificaram os movimentos esquerdistas e, assim, também movimentos integralistas paramilitares que reprimiam com violência os primeiros. Os esquerdistas chamaram atenção também do governo, e Vargas mandou fechar as sedes da ANL, acabando com sua funcionalidade legal. E mais uma vez os comunistas se rebelaram em várias partes do Brasil. Então Getúlio declarou estado de sítio no país, com pretexto de combater a ameaça comunista, e teve tempo de planejar seu próximo passo referente as eleições que estavam por vir. Congressistas impediram Vargas de renovar seu pedido de sítio, mas, com origem duvidosa, foi apresentado o “Plano Cohen”, que, supostamente, seria um plano comunista de assassinar personalidades importante. Então o Congresso declarou estado de guerra, cenário perfeito para o golpe de Vargas, que com o apoio de vários governadores e das forças armadas, no dia 10 de novembro de1937 apresentou a nova constituição e fechou o Congresso. No dia 2 de dezembro do mesmo ano os partidos foram dissolvidos. Era o início do Estado Novo. Dois ano depois começa a Segunda Guerra Mundial, e o Brasil se mantém neutro, ou melhor, indeciso, com identificações aos governos do Eixo e pressão por parte do Estados Unidos. Mas, em 1941, o Brasil rompe com o Eixo e no ano seguinte formaliza o apoio aos Aliados. Depois de alguns navios brasileiros serem afundados por embarcações alemãs, o Brasil é pressionado a declarar guerra a Alemanha e a Itália. No inicio de sua participação ele contribuía com matérias-primas estratégicas, mas em 1944 enviou a Força Expedicionária Brasileira para lutar na Itália. A vitória das forças democráticas, em 1945, na guerra pôs o governo ditatorial de Vargas em situação desconfortável, chamando atenção para as manifestações redemocratizadoras que aconteciam desde a aliança brasileira com os Aliados, e em 1946, depois da tentativa de mais uma manobra para permanecer no governo, Getúlio foi obrigado a abandonar o poder. Era o fim do Estado Novo. Com as manifestações de 1943 até o fim dos trabalhos da Constituinte, em 1946, se encerra com êxito o processo de redemocratização no Brasil.
  • 5. 11 2.1 ECONOMIA Pouco antes de 1920, o Brasil passava por um processo de adaptação na sua economia, era necessário uma nova medida de valorização do café, principal produto de exportação do país na época, depois da Primeira Guerra Mundial. Porém, após os conflitos, o cenário econômico mundial se caracterizou por grandes empresas controlando suas respectivas áreas de atuação, o que levou ao governo do Brasil a criar o Instituto do Café, em São Paulo, a fim de controlar os índices de oferta e demanda do produto no mercado internacional. Como o Brasil mantinha 60% da produção de café mundial, o novo instituto tinha em mãos o controle dos preços, mesmo que artificialmente, e para isso começou a estocar cada vez mais café. Porém, em 1924, constatou-se uma contradição nesse controle de mercado, o novo projeto, por manter os preços do produto, incentivou novos produtores, o que aumentou ainda mais o estoque do mesmo. Outra coisa que mudou na economia brasileira após a Primeira Guerra Mundial foi o incentivo a industrialização no país. Uma vez que seus principais parceiros econômicos estavam envolvidos diretamente com a Guerra, o Brasil adotou uma substituição de importação e medidas de proteção alfandegária aos novos parceiros, o que gerou uma certa proteção as indústrias nacionais. Antes, o desinteresse do governo quanto a industrialização era explicado pelo modelo agro-exportador herdado da colônia, e o café sustentava isso, onde o Brasil exportava produtos tropicais e em troca importava produtos manufaturados, mas com a dificuldade de importação na época de guerra, o governo tomou medidas de incetivo a industrialização durante toda a década de 1920. Durante a década de 20 o Brasil segue claramente um modelo mercadante capitalista, tanto no setor agropecuário quanto no industrial, mas o que se ve no mundo é um declínio do modelo capitalista liberal que se seguia desde a Segunda Revolução Industrial, onde o governo não intervia nas relações econômicas, na crença da auto-regulamentação pelo próprio mercado. Esse período acaba com a Crise de 29. Uma depressão profunda para o mundo capitalista, a Crise de 29, eclodiu nos Estados Unidos, e repercutiu internacionalmente, inclusive no Brasil, onde abalou toda a economia cafeeira, o que incentivou ainda mais a política industrial. Na década de 30, já no governo Vargas, o governo estipula medidas protecionistas, que estimulam ainda mais a industrialização no país, revalorizam o café com a queima do estoque, o que gera ainda mais renda para a industrialização. Fortalecimento do mercado interno com alta intervenção do governo na economia.
  • 6. 12 Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial o desenvolvimento industrial se beneficiou, tendo o mercado interno a sua disposição e buracos a serem preenchidos deixados por empresas internacionais. O Estado se encarregou da infra-estrutura e ainda criou a Petrobrás. A economia, apesar das conturbações políticas, se manteve característica até a saida de Vargas e o processo de redemocratização, em 1946. 2.2 A SOCIEDADE REAGE AO MUNDO Uma proposta ainda duvidosa, que resolveria os problemas ou apenas os maximizaria, ecoava nos pensamentos das pessoas pelo mundo todo. Em plenos destroços deixados pela recém-encerrada Primeira Guerra Mundial, que eram não apenas estruturais e econômicos, mas também psicológicos; com a inauguração de um novo sistema, que dizia se constituir de uma total reforma nos âmbitos todos – fossem eles político, econômico ou social – em prol de uma sociedade mais igualitária; fez-se pairar sobre as pessoas de todos os países o socialismo, disseminado através das ideias que embasavam a Revolução Russa (1917), descritas em um Manifesto Comunista, publicado anos antes, por Karl Marx, filósofo alemão. No Brasil, disseminavam-se essas ideologias por todo o país, e estas mesmas embasariam mais tarde diversos movimentos como a famosa Coluna Prestes, que andou mais de 26 km Brasil a dentro espalhando seus conceitos comunistas para depois exilar-se fora do país. Foi por essa época também que foram criados alguns direitos favorecendo os trabalhadores, que revoltaram-se por suas situações precárias de moradia, aviltamento de salários, falta de segurança; e, após diversas manifestações, criaram sindicatos para reivindicarem o que lhes deveria ser oferecido em troca de seu trabalho, força que movia o mundo segundo Marx. Vivia-se um período de ditadura com Getúlio Vargas, o que tornava o povo subjugado e limitava-lhes as idéias; ainda mais tendo-se que a simpatia do líder tornava muitas de suas atitudes autoritárias irrelevantes perante os olhos cegos de seus fies admiradores. E, com tantas mudanças repentinas; tensões provocadas por uma guerra que tinha ido, mas logo se manifestaria em uma nova e mais intensa; novos estilos de arte propostos em âmbito nacional; as pessoas se mostravam estáticas, paradas no tempo, vulneráveis a qualquer idéia que lhes pudesse reavivar a esperança. Uma sociedade ainda confusa, que mais tarde despontaria rumo ao desenvolvimento e globalização que se vive atualmente.
  • 7. 13 2.3 A LITERATURA DE CARA NOVA Em 1922, artistas de várias patentes reuniram-se e consagraram uma nova arte, a qual diziam ter agora uma face pouco mais nacional, que era representada pela recusa em render-se novamente – depois de séculos que já o era feito – à qualquer influência europeia. Assim, deu-se na literatura uma recusa das idealizações românticas, da musicalidade e frivolidade simbolista, do perfeccionismo exacerbado parnasiano, da formalidade realista: criou-se uma arte pura brasileira, levada pela criatividade sem métricas e regras, livre de rimas, que trazia críticas e cenas cotidianas, que expressava a partir de então a liberdade do escritor brasileiro em relação ao mundo. Nesse período destacaram-se Monteiro Lobato, acompanhado por Euclides da Cunha, os poetas Oswald e Mário de Andrade, entre outros.
  • 8. 14 3. MONTEIRO LOBATO: VIDA E OBRA José Bento Renato Monteiro Lobato, nascido em dia 18 de Abril de 1882 em Taubaté, faleceu na mesma cidade em que seus ossos estão hoje sepultados, no cemitério da Consolação, ou seja, São Paulo, no dia 4 de Julho de 1948, de um derrame cerebral. Passou a sua infância em um sítio e aos sete anos entrou em um colégio, e foi nesta idade começou a ter interesse pelos livros e particularmente pela biblioteca de seu avô o Visconde de Tremembé. Monteiro Lobato Sempre mostrou talento para escrever, sempre escreveu textos para os jornais das escolas que freqüentou. Aos 16 anos perdeu seu pai, José Bento Marcondes Lobato e a sua mãe faleceu um ano depois. Como tinha um grande talento para o desenho, tornou-se desenhista e caricaturista e começou a utilizar o dom como fonte de renda. Com a intenção de encontrar melhores condições de vida, Lobato aos 17 anos muda-se para São Paulo, onde seu maior sonho era freqüentar a Faculdade de Belas-Artes, mas por pressão do avô ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Ele continuou escrevendo para jornais e tendo como característica seu censo de humor sutil e fino. Era direto e sem rodeios, fazia críticas sem saber se agradaria ou não. Defendia sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos. Em 1904, formou-se e voltou para Taubaté para assumir o cargo de promotor e nesse tempo casou-se com Maria Pureza da Natividade. Mudou-se para Areias e assumiu o cargo de promotor público, mas na essa a vida que ele queria, paralelamente ele continuava escrevendo artigos para jornais do interior e passou a fazer traduções de revistas americanas para o jornal O Estado de São Paulo e também traduziu obras da literatura internacional. Com o falecimento de seu avô, Lobato tornou-se herdeiro da fazendo Buquira e mudou-se com toda a família para a casa da fazenda. Largou a promotoria e virou fazendeiro, dedicou-se à modernização da lavoura e à criação de animais. Lobato não gostava da vida na fazenda e tinha planos para se mudar para São Paulo, abrir negócios e continuar escrevendo. Em 1914, Lobato indignado com as freqüentes queimadas que os caboclos praticavam na fazenda, ele escreveu para o Jornal O Estado de São Paulo uma indignação intitulada “Velha Praga”, que caiu no gosto jornal e foi publicado no editorial. O artigo criou polêmica e fez com que ele escrevesse outros artigos, como por exemplo, “Urupês”, que mais tarde virou seu primeiro livro, criando um personagem marcante em seus textos o Jeca Tatu. Nesse tempo a Fazenda de Buquira enfrentou dificuldades com geadas e falta de recursos o que o forçou a vendê-la em 1916 e mudar-se para São Paulo. Foi na fazenda que Lobato encontrou inspiração para a criação da maioria de seus personagens. Lobato tornou-se
  • 9. 15 um importante colaborador do jornal O Estado de São Paulo e escrevia muito sobre questões agrícolas e sobre folclore brasileiro. Em 20 de Dezembro de 1916, Lobato publicou o artigo “Paranóia ou Mistificação”, a famosa crítica à exposição de Anita Malfatti. Monteiro Lobato era a favor da arte criada aqui no país e não cópias nem reinvenções de tendências européias. Isso criou certa indisposição com os modernistas que o intitularam de reacionário. Lobato tinha por característica ser um nacionalista, e defender muito a pátria. Em 1918, comprou a Revista do Brasil e começou a dar espaço para novos talentos, a revista prosperou e ele pode montar uma empresa editorial. Sempre dando espaço aos bons artistas. Monteiro inseriu no Brasil a idéia do livro-consumo, com capas atraentes ao olhar e feitas com o esmero necessário para atrair o público. Criou novas políticas de distribuição e uma gráfica impecável. Logo fundou a Companhia Editorial Nacional. A menina do Narizinho Arrebitado foi a sua primeira obra infantil e foi de um enorme sucesso, dando suporte para novas criações, inclusive a coletânea Sítio do Pica - Pau Amarelo. E como um bom nacionalista seus livros infantis eram recheados de personagens do folclore brasileiro além dos assuntos didáticos que muito acrescentavam na educação das crianças. O sucesso foi tão alto que demandou investimentos, mas por ocasião de uma grave seca o fornecimento de energia elétrica foi cortado e a gráfica só podia funcionar dois dias da semana e com a desvalorização da moeda Lobato afundou em dívidas e a companhia foi à falência. Logo depois abriu outra editora e desta vez variou as publicações, incluindo obras internacionais, foi um enorme sucesso de público. Pelo presidente Washington Luis foi nomeado adido comercial nos Estados Unidos, mudou-se para Nova York com a família e seus quatro filhos. Aproveitou esse tempo para acompanhar os avanços tecnológicos americanos e fez de tudo para trazer essas inovações para o Brasil. Interessou-se por questões ligadas ao petróleo e tinha a convicção de que o Brasil tinha grandes reservas da matéria-prima tão requisitada por todos. Lobato fundou várias empresas para perfurações petrolíferas mas encontrou barreiras e proibições com o governo de Getúlio Vargas. Foi convidado para entrar na Academia Paulista de Letras , criou a União Jornalística Brasileira , foi preso por ter criticado o Governo e passou a denunciar torturas e maus tratos na prisão. A editora brasiliense comprou os direitos dos livros de Lobato e publicou suas obras completas em 1943. Lobato Recusou a indicação a Academia de Letras Brasileira e acabou se aproximando do partido Comunista mas negou-se a entrar na vida pública. Seu último livro intitulado Zé Brasil, critica duramente o Governo do General Eurico Gaspar Dutra. Sua obra é composta por 30 volumes.
  • 10. 16 4. O SÍTIO DO PICA-PAU AMARELO Obra exímia de Monteiro Lobato, com volumes publicados ao longo de mais de vinte anos, o Sítio do Pica-Pau Amarelo é permeado de coisas surpreendentes, que desafiam a compreensão daquele leitor que analisar a obra desprevenido ou com expectativas de encontrar apenas um sítio, como outro qualquer. De fato esse sítio não é qualquer sítio. O que o leitor encontra nessa obra é um espaço de reflexão, onde Monteiro Lobato retrata diversas questões pertinentes a época, e alguns aspectos de sua própria vida e personalidade, através do personagem que muitos estudiosos acreditam tratar-se do alter-ego do autor, a Emília. Antes de Lobato não havia nem mesmo literatura específica para crianças e jovens. O Sítio do Pica Pau Amarelo, apesar de tratar-se de histórias para crianças reflete uma preocupação do autor com a questão da educação, além de algumas outras preocupações pertinentes a época. A produção da literatura infantil se inicia em 1920 com a publicação, por Monteiro Lobato, do livro “A Menina do Narizinho Arrebitado”. No ano seguinte, esse livro, com a tiragem de 50 mil exemplares é adotado pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo como o segundo livro de leitura para o uso em escolas primárias. Com esse livro, Lobato inicia a sua produção de histórias infantis, voltadas à informação e também a formação da juventude brasileira. Como inovação para a época, nas obras de Monteiro Lobato são introduzidas ilustrações de desenhos vistosos, dando assim um ar colorido e gracioso aos livros. Monteiro Lobato antes mesmo da publicação de suas obras infantis, dedicava-se a crítica de arte, e possuía idéias avançadas para a época, entanto Monteiro Lobato acaba ficando de fora do movimento que eclodia na época, o modernismo. Monteiro Lobato com sua crônica “Paranóia ou Mistificação”, critica obras de Anita Malfati, pintora que expôs seus quadros em um vernissage em 1917, e desse modo acaba sendo banido como participante do movimento cultural mais importante da época, A Semana de Arte Moderna de 1922. Entretanto a genialidade de Monteiro Lobato não deixa de ser reconhecida, pois um dos principais mentores daquele movimento, Oswald de Andrade lhe envia em 1943 uma carta cumprimentando-o pelos vinte e cinco anos do lançamento de sua obra “O Urupês”(1918) e chamando-o de “o Gandhi” do modernismo. O objetivo do autor, ao desenvolver a obra “Sítio do Pica Pau Amarelo” estava baseado na máxima de que é necessário saber para crescer, não apenas de modo biológico, mas também de modo cultural, pois só é pode considerar-se culturalmente livre quem possui o
  • 11. 17 conhecimento. Podemos observar que nas obras infanto-juvenis de Monteiro Lobato, não existe a figura do vilão nem a figura do herói, como acontece em outras obras infantis. O vilão, ou vilã, nas histórias de Lobato, é a ignorância, e isso pode ser claramente visualizado em seus livros, através dos seus personagens, pois sempre existe a busca do conhecimento, herói que sempre derrota a ignorância. Outro ponto que ressalta diferença nos livros de Monteiro Lobato é aquela íntima união que o autor faz entre o real e o imaginário, e o autor faz isso de uma maneira onde o leitor acaba achando perfeitamente aceitável a existência de um boneco feito de sabugo de milho, que é um sábio pesquisador da ciência, e de uma boneca de pano, a Emília, que fala e é muito esperta e que como acreditam muitos estudiosos, é o próprio pensamento e procedimento – alter ego – de Monteiro Lobato. Há ainda o Burro Falante, um personagem com pensamentos de filósofo, há o Quindim, um rinoceronte que foge de um circo e se acaba abrigando-se no Sítio do Pica pau Amarelo, e é adotado pelos seus habitantes. Quindim é um rinoceronte que fala e conhece a gramática, sendo uma espécie de guia dessa matéria quando a turma do sítio busca esse tipo de conhecimento, mais especificamente no livro Emília no País da Gramática. Ainda levando em conta a questão da fantasia, existe o Faz-de-conta da Emília, que o usa quando algo de extravagante precisa ser feito, e o pó de pir-lim-pim-pim, advento do Visconde, baseado em seus conhecimentos sobre química. Esse pó mágico permite que os personagens do Sítio viagem à Grécia e a Ilha de Creta, nos livros “O Minotauro” e “Os Doze Trabalhos de Hércules”, respectivamente. Ainda com esse pó mágico, os personagens viajam à Lua, a Marte e à Saturno no livro “A viagem ao céu”. Na obra, além da representação das crianças e suas fantasias, existem os adultos, representados por Dona Benta e Tia Nastácia. Dona Benta é a caricatura perfeita daquele adulto culto, a avó conselheira, que transmite conhecimentos, mas também aceita as atividades dos netos, já a Tia Nastácia representa aquele adulto popular, cheio de crendices. Pedrinho e Narizinho representam as crianças na faixa etária entre 9 – 10 anos. Existe ainda o marquês de Rabicó, um leitão que vive no sítio. Um personagem que possui um papel muito importante em alguns livros da série é o Visconde de Sabugosa, no livro “A Reforma da Natureza”, Emília resolve mudar algumas coisas, como por exemplo, implantar torneiras nos úberes das vacas, e fazer com que as borboletas voem mais lentamente, nesse mesmo livro o Visconde altera o tamanho de alguns animais, causando problemas no sítio, e desse modo é evidenciada a questão da natureza, que não deve ser modificada. No livro “O Poço do Visconde”, o personagem fala sobre geologia,
  • 12. 18 ensinando sobre petróleo, fato que reflete um pouco da vida do autor, já que Monteiro Lobato possuía certa paixão pelo assunto. Em outros livros da série Monteiro Lobato retrata outras questões relevantes, no livro “História do Mundo para as Crianças” é contada a história da espécie humana, no livro “A Chave do Tamanho”, Emília vai para o País das Chaves, e ao tentar desligar a chave da guerra, a boneca acaba desligando a chave do tamanho, reduzindo assim todos os seres humanos a três centímetros. No livro “A História das Invenções”, Dona Benta explica a existência do vidro, do telégrafo, da lâmpada, do telescópio, entre outros instrumentos. A “Aritmética da Emília” e “Geografia de Dona Benta”, também são livros muito didáticos, o tipo de literatura a qual todas as crianças deveriam ter contato. A literatura infantil de Monteiro Lobato, apesar de possuir este título é destinada também a adultos, para que estes revejam conceitos que talvez tenham esquecido. Para Monteiro Lobato, “Um país se faz com homens e livros”, e para isso escreveu em seus 66 anos de vida 19 livros para adultos e 23 livros para a literatura infanto-juvenil. Contudo, mesmo com obras geniais publicadas, Monteiro Lobato não faz parte da Academia Brasileira de Letras. 4.1 A LITERATURA INFANTIL Antes de se pensar em literatura para crianças, os textos passados para os pequenos eram os mesmos escritos para os adultos. Ainda que existissem contos, lendas contadas para Europa um movimento de autores que faziam livros voltados diretamente para o público infantil. Entre os principais autores dessa época incluem-se Perrault (Chapeuzinho Vermelho, O Gato de Botas, A Bela Adormecida, etc.), os irmãos Grimm (João e Maria, Branca de Neve, A Gata Borralheira, etc.), La Fontaine (O Lobo e o Cordeiro), Andersen (O Patinho Feio), Esopo (A lebre e a tartaruga, O lobo e a cegonha, etc.). crianças, não havia a preocupação de se registrar tais histórias. Por essa razão, as poucas crianças alfabetizadas liam os mesmos textos que eram lidos por seus pais, ou tutores, sem distinção de idade. Dessa forma, pode-se perceber como os mais novos eram vistos como pequenos adultos, e não como crianças. Essa situação só começou a mudar depois de muito tempo. Todas as histórias citadas no parágrafo anterior possuem algum tipo de moral que deveria ser passada aos pequenos leitores. Juntando esse objetivo ao contexto social e
  • 13. 19 econômico da época, criam-se semelhanças entre ambos. Por isso, alguns estudiosos questionam a literatura infantil, como se esta fosse apenas um processo pedagógico- comercial, e não uma obra artística, literária. Desse modo, a literatura infantil até então servia como reforço para a nova doutrina capitalista que se desenvolvia na Europa, começando desde os pequenos leitores, fazendo esse modelo social impor-se juntamente com o trabalho da escola, transformando a sociedade em uma forma mais urbanizada. Porém, esta monografia não tem como objetivo, e nem pretende discutir o mérito da questão, e tais histórias serão consideradas como literatura. Como fortes características desse tipo de história estavam incluídas narrativas com muitas aventuras, cenas e criaturas fantásticas, situações pertencentes ao cotidiano infantil, uso de diálogos em forma de discurso direto, comumente finais felizes e, juntamente com o texto, apareciam ilustrações para alimentar a fantasia da história. Todas essas características foram aparecendo aos poucos, na medida em que se descobria as melhores formas de abordar temas que estimulassem o interesse das crianças na leitura. Em diversas histórias, a moral também se fazia presente, como já discutido anteriormente. A literatura infantil brasileira escrita não tem mais do que dois séculos de vida. Surgida no século XIX, com influência do estilo europeu de fazer histórias para criança, chegou por aqui com décadas de atraso. Porém não se pode pensar que não existiam histórias infantis no Brasil. Elas já existiam, mas eram apenas circuladas pela forma oral. Partindo do pressuposto que as obras voltadas às crianças tinham um objetivo pedagógico-comercial, pode-se perceber que a essas obras começaram a aparecer no Brasil a partir do momento em que o país entra em um processo de modernização, e introdução de modelos econômicos apoiados no capitalismo. Assim, os livros infantis estariam ligados ao mesmo processo de educação que trará uma mudança no sistema econômico e de organização da sociedade. Primeiramente, Alberto Figueiredo Pimentel e Carlos Jansen traduziram histórias infantis europeias para o português, e assim começaram a aparecer os livros voltados para as crianças brasileiras. Ainda que um grande passo, os livros infantis ainda continham apenas histórias de outras culturas que eram diferentes das tradições brasileiras. Além disso, o analfabetismo tinha um índice ainda muito elevado, e com isso a literatura escrita começou mais voltada aos que podiam ler (pertencentes de famílias ricas). Foi a partir desses métodos de escrita, elaborados pelos europeus, que alguns escritores brasileiros se arriscaram a
  • 14. 20 começar um trabalho de escrever histórias originais para crianças. Este começo ainda foi tímido e teve seu maior reconhecimento justamente com Monteiro Lobato, apenas anos mais tarde. No primeiro momento, a imprensa do Brasil ainda era muito atrasada, e a pouca tradução dos livros europeus, e posteriormente a pouca elaboração dessas obras nacionais, fizeram com que esse gênero obtivesse pouca divulgação nacional, tendo edições escassas e mal distribuídas pelo território. Até aqui, pode-se resumir a literatura infantil brasileira como: surgimento baseado em traduções; adaptações de histórias européias para o Brasil; e início da produção genuinamente brasileira. Depois de estabelecido o gênero no Brasil, houve mudanças na produção das obras de acordo com os movimentos literários vividos. No início do século XX, Monteiro Lobato criou seu famoso “Sítio do Pica Pau Amarelo”, obra considerada de maior importância no gênero infantil nacional. A partir dessa época, intensificou-se a produção da literatura para crianças, com novos valores, como o nacionalismo, e novos autores como Ziraldo e Ana Maria Machado, fazendo desse cenário uma constante na produção literária brasileira, obtendo apoio comercial das editoras na segunda metade do século XX. 4.2 AS PERSONAGENS O universo social criado por Monteiro Lobato na obra “O Sítio do Pica Pau Amarelo” é bastante caricato e, por isso, de certa forma, didático. A maioria dos personagens representa estereótipos encontrados na sociedade brasileira, sendo, portanto, facilmente identificados pelas crianças, que começam a desenvolver o seu próprio imaginário cultural em um processo de aprendizado por assimilação. Também por isso, os livros da obra são marcados por elementos e seres fantásticos, como viagens a lugares imaginários e criaturas do folclore brasileiro, o que, além de marcar para sempre a literatura infantil, fortaleceu a cultura nacional como importante patrimônio. Pode-se dividir os personagens do “Sítio” entre os tipos sociais e os seres fantásticos. Os tipos sociais são as pessoas que possuem um comportamento típico, estereotipado. Dona Benta, por exemplo, possui as características que representam o papel de avó: tem cabelos brancos, sabe contar histórias muito bem e é, de certa forma, assexuada, já que a imagem da avó, para as crianças, não envolve relacionamentos amorosos, mas, sim, um caráter familiar, a
  • 15. 21 senhora que vive em função dos seus parentes. Sendo assim, ela é a figura materna da obra, vista aqui como a responsável pela criação e educação das crianças. Tia Nastácia e Tio Barnabé, por sua vez, representam o papel do negro na sociedade da época, já que ambos confirmam a ideologia escravista que ainda existia, a qual associava o negro ao trabalho braçal e ao esforço físico. Tia Nastácia, como a cozinheira, e Tio Barnabé, como o trabalhador da roça que conta as histórias do folclore, são figuras que representam, ainda hoje, as classes sociais mais baixas, as quais ficam encarregadas dos trabalhos menos remunerados. Já Narizinho e Pedrinho são as crianças da obra que, justamente por isso, protagonizam as aventuras. Uma vez que os livros eram destinados ao público infanto-juvenil, o fato de se utilizar protagonistas nessa faixa de idade promove uma maior identificação do leitor com a obra. As crianças, por não terem tanta experiência e conhecimento de mundo, não discernem muito bem o real do imaginário, permitindo-se acreditar em inúmeras fantasias, como as que compõem as histórias do “Sítio”. Isso inclui não só as aventuras surreais, como um passeio no “mundo da gramática”, como a presença dos seres fantásticos, presentes em toda a obra. Os seres fantásticos, diferentemente dos tipos sociais, representam características dos seres humanos de uma forma mais metafórica, de modo que não são encontrados na sociedade por serem imaginários, mas sugerem comportamentos observados nas pessoas. O Visconde de Sabugosa, um sabugo de milho com personalidade humana, por ter um vasto conhecimento adquirido nos livros da biblioteca do sítio, enaltece a razão científica, numa corrente de pensamento que pode ser associada ao positivismo. Assim, ele classifica as crenças das pessoas mais velhas do sítio como crendices e superstições, tirando a credibilidade das mesmas, comportando-se como um positivista. Já os personagens Cuca e Saci Pererê foram trazidos do folclore brasileiro e, por isso, materializam as histórias que compõem o mesmo. Eles simbolizam as crenças que surgem, principalmente, nas regiões rurais do país e que, para os habitantes dessas áreas, têm mais valor que o conhecimento científico. Como o ambiente principal da obra é um sítio, é natural que o folclore apareça personificado e materializado, já que essas histórias têm grande importância no cotidiano, inclusive, para explicar os fenômenos da natureza, uma vez que a ciência não tem tanta propagação nas regiões menos urbanas. Por fim, a personagem Emília, uma boneca que fala, possui um comportamento bastante irreverente, sendo a criação mais lembrada de Monteiro Lobato, dentro da obra do “Sítio”. Ela é uma metáfora tanto da curiosidade das crianças quanto de um comportamento mais revolucionário que pode estar presente na sociedade. Através das “asneirinhas” que ela fala, desconsideradas pela maioria dos outros personagens, há sempre uma opinião forte que contesta os valores da sociedade. Por não ser gente, pode-se dizer que ela tem mais liberdade
  • 16. 22 de reclamar dos modos de pensar das pessoas, e, através das falas dela nos livros, Monteiro Lobato expunha modos diferentes de pensar que iam contra as ideias da época. Esse comportamento contestador, apesar de condizer com os pensamentos de alguém que estudou muito, como o autor, que possuía reflexões acerca dos mais variados assuntos, pode ser associado também com os pensamentos de uma criança, que não está tão presa a modelos comportamentais de uma sociedade e tem dúvidas quanto aos estilos de vida nela adotados. 4.3 O SÍTIO NA TV A série de TV “Sítio do Pica-Pau Amarelo”, baseada nos livros de Monteiro Lobato que compõem a obra de mesmo nome, começou no fim da década de 50, sendo transmitida pela TV Tupi e foi uma importante forma de propagação do universo cultural apresentado pelo autor, que perdurou durante muitos anos na televisão aberta. Este foi considerado o primeiro seriado brasileiro e, não por acaso, se tornou líder de audiência no canal. Sendo um projeto que buscou fidelidade tanto à imagem dos personagens como aos detalhes da obra, no que diz respeito às ideias que Monteiro transmitia nas histórias, a série agradava adultos e crianças, colocando os temas mais diversos de uma forma interessante e educativa. Assim, durante as décadas posteriores, várias outras adaptações do “Sítio” foram feitas por variadas emissoras, que, geralmente, faziam bastante sucesso com a transmissão das séries. Um importante contraponto a se fazer, no entanto, é a capacidade de aprendizado do público infantil através da televisão. Isso porque, sendo um meio de comunicação essencialmente baseado em imagens e sons, não há tanta retenção das informações por parte do espectador, uma vez que há distração e eventuais interferências exteriores durante a exibição programa que dificultam a absorção do conhecimento transmitido. Tais interrupções na comunicação fazem com que os programas tendam a repetir mais vezes as ideias e explicá- las de uma forma mais simples, menos detalhada: fácil de entender, mas sem todo o conteúdo que o autor desejava passar. É interessante que leitura, um hábito culturalmente riquíssimo para a criança e mais eficiente que a televisão na questão do aprendizado, não seja trocada pelo uso da televisão, já que a obra original proporciona uma experiência mais produtiva, uma vez que estimula a criança a criar as próprias imagens dos personagens, as respectivas vozes e ela tem a liberdade de imaginar o universo de Monteiro Lobato da maneira dela, um enorme incentivo à criatividade. Esse é o risco, portanto, de se adaptar os livros do “Sítio” a perda de parte do seu valor cultural. Veicular a série de TV, ainda, numa emissora que não tem caráter
  • 17. 23 educativo, como a Globo, o que ocorreu em 2001, por exemplo, é um perigo semelhante, já que há um foco grande na comercialização de brinquedos, revistas e jogos para crianças e nem sempre se mantém as histórias com a mesma conotação das originais. 5. LOBATO NO PAÍS DA GRAMÁTICA Volume pertencente ao grande leque de ramificações da obra de Lobato, o livro Emília no País da Gramática conta a estória de como foi a visita de Narizinho, Emília, Pedrinho, Visconde de Sabugosa e Quindim ao País da Gramática, onde residem todas as palavras e expressões das línguas, focando-se em Portugália, cidade em que vivem as palavras do idioma português. Para muitos estudiosos a obra foi feita por Lobato por um espécie de “vingança” ao fato de ter sido reprovado aos quatorze anos de idade na prova de língua portuguesa, o que se pode tirar de uma de suas frases, dezenove anos depois: “Da gramática guardo a memória dos maus meses que em menino passei decorando, sem nada entender, os esoterismos do Augusto Freire da Silva. Ficou-me da ‘bomba’ que levei, e da papagueação, uma revolta surda contra a gramática e gramáticos, e uma certeza: a gramática fará letrados, não faz escritores.” (LOBATO, ) Através do livro, percebe-se que o autor, por meio da fantasia, nos mostra uma nova maneira de ver a gramática e o seu ensino, bem diferente da forma maçante que era utilizada em seu tempo, e, pode-se dizer que é até hoje. No livro, através da fala de Quindim, o rinoceronte gramático, o autor expressa sua opinião sobre a forma da gramática: “[...] Mas os senhores gramáticos são uns sujeitos amigos de nomenclaturas rebarbativas, dessas que deixam as crianças velhas antes do tempo.” (LOBATO, 1972, p. 296). Neste período, passa-se a idéia de que as regras utilizadas pelos gramáticos tornam as crianças “velhas antes do tempo”, ou seja, por terem que decorar tudo, acabam perdendo sua enorme capacidade imaginativa e retardando seu desenvolvimento intelectual, já que não aprendem a fazer relações e a memorizar tais regras, se tornam, de certa forma, adultas. Além disso, o termo “(os gramáticos) são uns sujeitos (grifo nosso)” nos remete a idéia de que Monteiro Lobato os via como pessoas que não mereciam tanto respeito quanto lhe davam. Sentimos, ao ler isto, certo sentimento de repulsa e desrespeito por parte do autor quanto aos estudiosos da língua, que, pela opinião de Monteiro, acabavam tornando-a mais complicada, por causa de suas regras.
  • 18. 24 Lobato segue em sua obra a gramática normativa, e utiliza-se do livro Gramática Histórica de Eduardo Carlos Pereira (editada pelo próprio Lobato, na Companhia Gráfico- Editora Monteiro Lobato, nos anos 20) para a construção de “Emília no País da Gramática”, que cita em certo momento a obra de Eduardo vista como a causa do grande conhecimento de Quindim em gramática. O rinoceronte, aliás, acaba se tornando na história o educador e guia da turma do sítio na nova aventura, permitindo que as próprias crianças escolham o que desejam conhecer no novo mundo que lhes é apresentado, e, tornando o ensino mais divertido e leve. O autor, de certa forma, pretendia criar um livro paradidático, e não apenas uma ficção. Através da personificação das palavras e da criação de um país da língua portuguesa, ele disfarça as regras, concretizando-as por meio da formação de imagens, e ensina a gramática de um modo leve e divertido, sempre trabalhando com a imaginação pueril. 5.1 O LIVRO O volume foi escolhido para ser analisado, pois seu tema principal é a língua em si, tendo uma relação direta com a nossa disciplina, Língua Portuguesa e Expressão Oral. Assim, os temas abordados durante a leitura são todos voltados para as regras e forma da língua portuguesa. O livro começa com Pedrinho dizendo que gramática é uma “caceteação”, mostrando que a forma de ensino utilizada na época, baseada em regras decoradas, fazia com que a criança não gostasse da matéria. Após algumas lições com Dona Benta, Emília tem a idéia de ir ao país de Portugália, para que eles vivessem a gramática. É neste país que a turma participa de muitas aventuras e aprende gramática brincando. Durante a leitura, observamos temas relacionados ao português que são discutidos e ensinados, como a existência e características das classes gramaticais (substantivos, adjetivos, pronomes, artigos e numerais, verbos, advérbios, preposições, conjunções e interjeições). Após esse estudo, Lobato foca o livro para a parte da Etimologia, a origem das palavras. A partir disso, a turma descobre como formar palavras, aprendendo sobre a raiz, sufixos e prefixos. Descobrem também a existência de palavras estrangeiras e as formas de pontuação, além da ortografia. As crianças vão, com Quindim, nos “domínios da sintaxe”, além da morfologia, entra em discussão no livro a sintaxe. Assim, aprendem sobre as figuras de sintaxe (ou sintáticas) e as orações e períodos da língua. Também conhecem os vícios de linguagem, capítulo que analisaremos com maior atenção mais para frente. Também observamos que, conforme lemos o livro, analisamos diversas falas das
  • 19. 25 personagens que acabam mostrando a visão de Monteiro e da sociedade sobre muitos assuntos. Destaca-se nesse ponto a personagem Emília, que inclusive aparece no título. Por ser uma boneca “atrevida”, que muitas vezes “abre” sua “torneirinha de asneiras”, falando tudo o que pensa, a personagem mostra a nova visão que se tinha da língua, e demonstra, em diversos períodos, que a lógica pueril teria mais sentido para formá-la do que a lógica dos “grilos” (policiais) do Português, os gramáticos. Assim, além de estudarmos a língua portuguesa, sua estrutura e forma; podemos também analisar as idéias passadas pelas personagens, através de suas falas e temas abordados ao longo dos capítulos. Nossa análise em relação à língua tem, portanto, um fundo social e histórico, além do técnico. 5.1.1 Análise do volume O livro não é escrito de uma forma pueril, já que são utilizados períodos mais desenvolvidos, por exemplo. Podemos observar essa característica com o trecho: “Os meninos entraram por um desses bairros pobres, chamado o bairro do Refugo, e viram um grande número de palavras muito velhas, bem corocas, que ficavam tomando sol à porta de seus casebres.” (LOBATO, 1972, p.p.296-297). Apesar de o período em questão ser formado por palavras que podem ser consideradas simples, ou então que são mais condizentes ao vocabulário infantil, ao mesmo tempo é comprido e formado por diferentes orações (coordenadas, como “e viram um grande (...)” e subordinadas, como “que ficavam (...)”) e conjunções (e, que), demonstrando um maior cuidado e desenvolvimento da escrita. Apesar de ser escrito de uma maneira complexa, de certa forma, ”Emília no País da Gramática” é voltado para crianças. Assim, utilizaram-se palavras que eram comuns ao universo delas, como podemos observar na primeira fala de Pedrinho: “Maçada, vovó. Basta que eu tenha de lidar com essa caceteação (grifos nossos) lá na escola. As férias que venho passar aqui são só pra brinquedo.” (LOBATO, 1972, p. 293). Nesta fala, o neto reclama, pois a avó quer lhe ensinar gramática. Assim, mostrando que achava a matéria “tediosa” e sacrificante, Pedrinho utiliza o termo “maçada”, comum às crianças da época em que o livro foi escrito. Temos também a palavra “caceteação”, que demonstra o incômodo que a gramática traz às crianças, por ter muitas regras. Mais uma vez, em alguma parte do texto, o autor expressa sua opinião sobre o ensino da gramática. Algumas expressões também são utilizadas, como: “pozinho levado da breca”, dizendo que o “pozinho” (de pirlimpimpim) é “sapeca”, fazem coisas absurdas acontecer. Expressão utilizada pelas crianças da época, e,
  • 20. 26 portanto, pelos adultos de hoje. Lobato utiliza também muitos diminutivos. Palavras como “letreirinho”, “cordinhas”, “baitaquinhas”, “silabazinha” tornam a leitura mais leve, e fazem com que a criança se identifique com a forma de falar das personagens. Seguindo essa idéia em relação ao ensino, o autor faz com que o livro seja mais leve ao ensinar gramática, através da criação de um país (Portugália) e da personificação das palavras. Assim, quando a turma resolve conversar com uma palavra (que, na história, é uma pessoa de fato), acaba aprendendo tudo sobre sua classe e significado. As palavras em Portugália vivem em bairros, moram em casas, têm famílias como seres humanos, se tornam, portanto, seres vivos, que é a idéia que Lobato (1972, p. 297) passa: “(...) Porque as palavras também nascem, crescem e morrem, como tudo mais.”, ou seja, a língua é viva! Há a idéia também de que, a partir da criação de Portugália e da personificação das palavras, o autor nos mostra a importância e as particularidades que a língua possui, como se, de fato, fosse um país a parte, com suas próprias leis e habitantes. No livro, as diversas classes de palavras moram em diferentes lugares ou bairros, assim: “A gente importante morava no centro e a gente de baixa condição, ou decrépita, morava nos subúrbios.” (LOBATO, 1972, p. 296). Fazendo um paralelo com as cidades do mundo real, e, ao mesmo tempo, uma crítica à essa realidade, Monteiro Lobato mostra que as palavras mais utilizadas, ou seja, que prestam mais serviços aos homens, e que são oficializadas pelos gramáticos; moravam no centro da cidade de Portugália, enquanto as outras (arcaísmos, neologismos, gírias), que ou não eram oficiais na língua ou já não lhe serviam mais, moravam nos subúrbios. Visto isso, os arcaísmos eram idosos que moravam em um desses bairros mais pobres, os neologismos eram jovens, e as gírias são nomeadas de “molecada”, já que são dinâmicas e mudam rapidamente, são como crianças brincando, sempre em movimento. No texto, observamos que as palavras, como todas as pessoas, são nomeadas conforme um nome próprio, que no caso, na verdade, é a própria palavra, só que escrita com letra maiúscula e em itálico, para facilitar o entendimento da criança e ao mesmo tempo continuar dentro da gramática normativa. Assim temos tal frase como exemplo: “Veio abrir o Pronome Eu.” (LOBATO, 1972, p. 307). Podemos observar também algumas mudanças na língua, desde que ela foi escrita por Monteiro. Algumas palavras que eram consideradas neologismos em sua época tornaram-se muito usadas por nós, como Chutar ou Encrenca; alguns ditados e termos acabaram caindo no desuso, como na fala de Narizinho (LOBATO, 1972, p. 300): “Falai no mau, aprontai o pau”, “(...) suando em bicas”, “(...) só dando com um gato morto em cima”; além das mudanças
  • 21. 27 recentes na gramática, como o desaparecimento do hífen e dos acentos de algumas palavras. Um aspecto muito interessante dessa obra de Lobato é o fato de conseguirmos perceber, com sua leitura, algumas idéias que existiam na época ou que o autor defendia. Ele demonstra em várias passagens seu pensamento em relação à língua e seus detalhes, através das personagens. Assim, em uma parte do livro, quando a turma descobre os Barbarismos, palavras estrangeiras, Quindim explica que estas só podem andar por Portugália se estiverem acompanhadas por aspas ou grifos, regra utilizada até hoje. Lobato, então, expressa, por meio de Narizinho, sua opinião de que tais palavras não deveriam ser tratadas diferentemente das pertencentes à Língua Portuguesa. Para ele, tal regra não deveria existir, como ocorre com o Inglês, defendendo essa idéia a menina fala: “Eu, se fosse ditadora, abria as portas da nossa língua a todas as palavras que quisessem entrar – e não exigiria que as coitadinhas de fora andassem marcadas com os tais grifos e tais aspas.” (LOBATO, 1972, p. 299). Lobato também nos remete à teorias de reconhecidos autores, como Saussure e Vigotsky. Em relação ao primeiro estudioso, se analisarmos a fala da personagem Emília (LOBATO, 1972): “(...) Nome é nome; não precisa ter relação com o “nomado”.” podemos identificar a alusão à teoria da arbitrariedade do signo. Saussure (apud BLIKSTEIN, 1990) defende a idéia de que a relação entre o signo e o significado que ele representa não é natural, é estabelecido por um consenso social, e, então, um não possui relação direta com o outro, como defende a boneca. Quanto à Vigotsky (2005), lembremos que o autor defendia que o pensamento e a linguagem, a partir de certo momento da vida da criança, tornavam-se inseparáveis, ou seja, o pensamento só poderia ser formulado e desenvolvido através da linguagem. Visto isso, no livro “Emília no País da Gramática” temos o seguinte trecho: “(...) Todas (palavras) somos por igual importantes, porque somos por igual indispensáveis à expressão do pensamento dos homens.”, analisando tal afirmação do pronome Eu, podemos entender que Lobato compartilhava da mesma opinião de Vigotsky, já que deixa claro que o pensamento dos homens só pode ser expresso por meio da língua, e portanto, também é formado por meio dessa relação de dependência (pensamento x linguagem). Lobato (1972) faz diversas relações entre Portugália e o mundo real. Assim, em um desses trechos, ele lembra que os Nomes Próprios consideram-se muito importantes por nomear pessoas, e possuem diversos nomes comuns a seu serviço. Segundo ele: “(...) Os Nomes Comuns formam a plebe, o povo, o operariado, e têm a obrigação de designar cada coisa que existe (...)” (LOBATO, 1972, p. 301). Se analisarmos esta frase do autor, percebemos certo desdém em relação ao povo e aos nomes comuns, porém, se pensarmos
  • 22. 28 realmente, lembramos que os nomes comuns, por mais insignificantes que sejam, são substantivos, e então: “(...) indicam a substância de tudo.” (LOBATO, 1972, p. 300). Monteiro então estaria nos passando que a plebe, o povo, o operariado também são a substância da sociedade, são eles que a formam de fato, assim como os nomes comuns formam a língua. Ainda em relação aos substantivos, aos nomes próprios mais especificamente, temos um trecho: “(...) O nome Europa era o mais empavesado de todos; louro, e dum orgulho infinito. Passou rente ao nome América e torceu o nariz.” (LOBATO, 1972, p. 301). Percebemos que o autor caracteriza as palavras conforme as pessoas que elas representam, no caso, pessoas que moram no lugar que elas representam. Por isso, entendemos que a Europa, assim como os europeus, é mais “empavesada” e se considera, de certa forma, mais importante que continentes com uma história diferente, como a América, que foi colônia de países europeus. Foi pela história de colonização também que a palavra Europa “torceu o nariz” para a palavra América, pois, lá no fundo, sente como se essa ainda fosse um local de domínio (que não merece o devido respeito dado à ela), porém que está se desenvolvendo, fato impróprio para uma “colônia”. O autor, para explicar a origem do bairro da Brasiliana, que fica dentro de Portugália, faz um paralelo com o descobrimento e formação do Brasil, assim: “(...) Com o andar do tempo essas palavras (portuguesas) foram atravessando o mar e deram origem ao bairro de cá, onde se misturaram com as palavras indígenas locais.” (LOBATO, 1972, p. 300). Entende-se, portanto, que o bairro de Brasiliana, são as palavras utilizadas no Brasil, que foram para este bairro depois que saíram do Bairro Antigo (das palavras portuguesas), atravessando o mar e encontrando uma terra onde já haviam línguas indígenas. Voltando para um lado mais social do livro, percebemos que o termo “negra”, referindo-se a Tia Nastácia, aparece diversas vezes nele, em alguns trechos como: “(...) Danada para tudo, aquela negra...” (LOBATO, 1972, p. 317). Além de tal denominação utilizada, aparece no livro também: “(...) Tomara que seja uma negrinha preta que nem carvão...” (LOBATO, 1972, p. 301). Em uma primeira análise, não há como pensar que Monteiro Lobato não era racista. Porém, devemos recordar que, atualmente, o assunto acerca do racismo é muito mais presente e combatido em nossa sociedade do que era na época do autor. Apesar de o racismo e os direitos dos negros serem discutidos, com mais força, no Brasil desde o final da segunda guerra mundial, de fato, tal problema é realmente posto em pauta a partir da década de 60, nos Estados Unidos da América, onde, em meio ao movimento hippie e à guerra fria, os negros, através dos Panteras Negras e personalidades como Martin Luther King, mostraram-se presentes na sociedade e exigiram seus direitos. Visto isso,
  • 23. 29 podemos afirmar que Monteiro Lobato realmente utilizava termos que hoje são considerados pejorativos e racistas, e que até nos remetiam à idéia de escravidão (lembrando que Tia Nastácia era quem trabalhava no sítio), porém, esses termos que em sua época eram comuns, e não tinham tamanha repercussão. É interessante observarmos como a nossa percepção da realidade muda com o andar da história. A forma como Lobato descreve Tia Nastácia ou se refere à população negra, hoje, seria considerado racismo, e o autor sofreria graves repreensões por utilizá-los em um livro, principalmente um infantil, já que, para ele, a educação das crianças é muito sensível, qualquer pensamento que seja passado pode marcá- las, para o bem ou para o mal inclusive. Por outro lado, em sua época, esse modo de tratamento em relação aos negros era considerado normal, portanto, Lobato apenas demonstra, com isso, fazer parte de um certo período da sociedade brasileira. Um último assunto apresentado no livro é a ideia de Lobato (1972) de que, na verdade, quem faz a língua é o povo, incluindo pessoas incultas, e não os gramáticos. Assim, o autor mostra que, de certa forma, não concordava com o estruturalismo de Saussure, mas sim que está em uma maior sintonia com a linguística moderna, comentada por Petter (2007), que defende a ideia de que a língua também se modifica através da fala, e, por isso, ela também deve ser estudada. Lobato, portanto, lembra que a língua se modifica, pois é viva. E essas modificações, por sua vez, ocorrem por causa da utilização que o povo faz dela, assim, os erros cometidos e repetidos também transformam a língua. Dona Etimologia, personagem de Lobato, comenta: (...) As pessoas cultas aprendem com professores, e, como aprendem, repetem certo as palavras. Mas os incultos aprendem o pouco que sabem com outros incultos, e só aprendem mais ou menos, de modo que não só repetem os erros aprendidos como perpetram erros novos, que por sua vez passam a ser repetidos adiante. Por fim há tanta gente a cometer o mesmo erro que o erro vira Uso e, portanto, deixa de ser erro. (LOBATO, 1972, p. 321) A partir desse trecho, fica claro a importância social que o erro de português possui. O povo, perpetuando o erro, acaba fixando-o na língua, e, por ser utilizado deixa de ser erro. Dona Etimologia (LOBATO, 1972) ainda dá o exemplo da palavra espelho. No Latim era Speculum, ao chegar em Portugal, através dos soldados romanos, foi sendo gradativamente “errada” e tornou-se Espelho, e continua mudando, Narizinho lembra que as pessoas do campo dizem “Espeio”. Assim, com um exemplo prático, Lobato mostra um lado social muito forte, passando para as crianças que as pessoas ignorantes, ou seja, que não sabem utilizar
  • 24. 30 direito a língua, devem ser bem vistas também e não repreendidas, já que: “(...) O que nós hoje chamamos de certo, já foi erro em outros tempos.” (LOBATO, 1972, p. 321). 6. EMÍLIA: A DONA TORNEIRINHA DE ASNEIRAS A Emília foi escolhida para ser analisada por se tratar de uma das personagens mais intrigantes e apaixonantes da coleção de histórias do Sítio do Pica Pau Amarelo. A boneca (...) foi feita por tia Nastácia, com olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa. Apesar disso Narizinho gosta muito dela; não almoça nem janta sem a ter ao lado, nem se deita sem primeiro acomodá-la numa redinha entre dois pés de cadeira. (LOBATO, 1972, p. 11) Emília era feita de pano, e, como todas as bonecas, muda. Porém, em “Reinações de Narizinho”, após engolir uma pílula falante do Doutor Caramujo, passou a falar muito e ter opinião sobre tudo, apesar de, podendo considerá-la uma criança, saber pouco de fato: Emília engoliu a pílula, muito bem engolida, e começou a falar no mesmo instante. A primeira coisa que disse foi: ‘Estou com um horrível gosto de sapo na boca!’ E falou, falou, falou mais de uma hora sem parar. (LOBATO, ) Narizinho, desesperada por Emília falar tanto, em tão pouco tempo, pede ao Doutor para que ele faça-a vomitar a tal pílula falante e engolir uma mais fraca, o médico responde, porém, que aquilo era fala acumulada, e que a boneca voltaria ao normal. Emília, por sua vez, sempre falou muito e sem pensar. Quando abria sua “torneirinha de asneiras” não tinha quem a agüentasse. Dentro do “universo lobatiano”, Emília é a única personagem que muda, que evolui, conforme as histórias. A personagem mostra-se dominadora e egocêntrica, se preocupa principalmente com suas idéias e umbiguinho. É obstinada em conseguir as coisas e muito teimosa, sempre mantendo sua opinião intacta, independente de tudo. Como uma criança, a boneca possui uma curiosidade imensa e segue sempre uma lógica pueril em relação às coisas. Demonstrando simplicidade de pensamento, muitas vezes nos surpreende com suas idéias diferentes e visão filosófica, como sua teoria sobre a vida: (...) A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a
  • 25. 31 piscar. Quem para de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais. (...)A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre. - E depois que morre? – perguntou o Visconde. - Depois que morre vira hipótese. É ou não é? (LOBATO, 1972, p. 243) A boneca mostra, portanto, um lado irreverente. Sempre demonstrando ser uma “sabichona”. A exemplo de seu criador, Emília é inconformada e sempre faz muitas perguntas para as pessoas, absorvendo todas as informações e criando novas teorias e significações a partir delas. É também por meio de suas tiradas que vamos nos apropriando das idéias de Lobato. O autor desenvolveu a personagem de tal maneira que, em uma carta endereçada a Godofredo Rangel, declarou: Emília começou uma feia boneca de pano, dessas que nas quitandas do interior custavam 200 réis. Mas rapidamente evoluiu, e evoluiu cabritamente - cabritinho novo - aos pinotes. E foi adquirindo tanta independência que, não sei em que livro, quando lhe perguntam: 'Mas que você é, afinal de contas, Emília:' ela respondeu de queixinho empinado: 'Sou a Independência ou Morte.' E é. Tão independente que nem eu, seu pai, consigo dominá-la. (Monteiro Lobato, in: Barca de Gleyre, 14ª ed, Brasiliense, S.Paulo, 1972) Um lado interessante da personagem é o fato de ser uma boneca, apesar de se considerar gente: “(...) eu também sou gente e nada me modifica. Só Tia Nastácia às vezes...” (LOBATO, 1972, p. 314). Essa simples característica acaba permitindo ações por parte de Emília que não seriam bem vistas se fossem feitas por uma pessoa. Ela pode, assim, ser malcriada e demonstrar certo egoísmo infantil, muito comum nas crianças. Também é rebelde, possui muito interesse pelas coisas, tornando-se até inconveniente muitas vezes; e certa maldade ingênua. Características que acabam indo de encontro ao público infantil, que, de certa forma, se identifica com a boneca. Para Lobato era interessante uma personagem irreverente e rebelde como ela para expressar suas verdadeiras opiniões acerca de determinados assuntos. A idéia de que “Emília é só uma boneca, ela não sabe o que diz” tira o foco do autor, que, teoricamente, está escrevendo apenas uma ficção, sem fundo crítico em relação à língua (no caso de “Emília no País da Gramática”) ou à sociedade.
  • 26. 32 Por tais motivos, Emília tornou-se uma personagem de personalidade forte e esperteza perspicaz. Chamando a atenção de todos os leitores: crianças, que se identificam com a personagem, por causa de suas dúvidas e erros; e também adultos, que acabam rindo de sua espontaneidade e idéias. 6.1 EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA Desde o começo do livro, Emília se mostra esperta e determinada, convidando Pedrinho para ir ao país da gramática com o rinoceronte (que mais pra frente será nomeado de Quindim). Como já dito anteriormente, o volume é escrito de maneira bem formulada e desenvolvida, apesar de ser para crianças. Seguindo isto, podemos observar nesse convite que a boneca faz ao menino essa forma trabalhada de se utilizar as palavras: “(...) por que em vez de estarmos aqui a ouvir falar de gramática, não havemos de ir passear no país da Gramática?” (LOBATO, 1972, p. 293). Analisando essa fala da Emília, observamos que a boneca utiliza expressões como “estarmos aqui a ouvir” ou “havermos de ir passear” e períodos compostos, indicando um maior desenvolvimento em sua fala do que a de uma criança. Por outro lado, através de outros trechos, a personagem nos mostra um jeito simples de se ver as coisas, seguindo uma lógica pueril e relacionando o que aprende com o seu mundo, como uma criança faria ao ler esse livro. Emília, com sua torneirinha de asneiras, sempre expressa essa sua simples forma de pensar e enxergar as coisas. No segundo capítulo do livro, quando a turma conhece os arcaísmos, e Quindim explica o significado de uma coisa arcaica (velha), a boneca relaciona o que está aprendendo no país da gramática com o mundo em que vive, assim: “Então, Dona Benta e Tia Nastácia são arcaísmos!” (LOBATO, 1972, p. 297). Sem papas na língua, aprende associando as coisas. Em outro trecho, a boneca demonstra novamente essa forma de aprendizado relacionando os advérbios com a Tia Anastácia. Quando lhe perguntam quem é essa senhora, Emília diz: “Uma advérbia preta como carvão, que mora lá no sítio de Dona Benta. Isto é, Advérbia só para mim, porque só a mim é que ela modifica. Para os outros é uma substantiva que faz bolinhos muito gostosos.” (LOBATO, 1972, p. 314). Um dos melhores exemplos para mostrar essa capacidade de associação da boneca é quando as crianças estão aprendendo sobre o grau das palavras (aumentativo, diminutivo): Sei disso – declarou Emília – As palavras quando querem significar uma coisa grande, latem; e quando querem significar uma coisa pequena, choramingam. (...) Botar um Ão no fim duma palavra é latir, porque latido de cachorro é assim – ão, ão,
  • 27. 33 ão! E botar um Inho, ou um Zinho no fim das palavras é choramingar como criança nova. Panela, por exemplo; se late vira Panelão e se choraminga vira Panelinha. (LOBATO, 1972, p. 304) Com essa fala de Emília, o público infantil entenderia perfeitamente a lógica que ela usa. Já que se utiliza de figuras conhecidas no universo infantil para explicar uma gramática, as crianças se identificariam. Seguindo essa sua lógica pueril, Emília faz alguns comentários que seriam dignos de uma criança que está descobrindo as coisas. Quando a turma está aprendendo sobre substantivos próprios e a freqüência com que são chamados para batizar as pessoas, a boneca, sabendo que o nome José era muito comum, e que, portanto, deveria “correr” muito em Portugália, pensa: “Nesse caso o nome José deve ser fininho como um palito.” (LOBATO, 1972, p. 300). Podemos chegar à conclusão, portanto, de que tal forma de aprendizado de Emília, por associação, é importante ser mostrada no livro. As crianças que o lêem também estão em uma fase de aprendizado, além de entenderem a gramática com a história, absorvem as coisas de forma associativa, como a Emília. Levando, assim, essa forma de aprender para a vida, e se desenvolvendo. Ainda em relação à sua lógica de criança, a boneca cria neologismos ao longo do livro, e age como se eles de fato existissem. É o exemplo de “botadeira”. Ela utiliza a palavra para dizer que é ela quem coloca os nomes no Sítio do Picapau Amarelo. Assim, utiliza o verbo “botar” com o sufixo “eira”, formando uma palavra através de uma derivação sufixal, como aprenderia em outro capítulo. Erro que é muito comum no vocabulário de crianças, pois seguem a mesma lógica que Emília. Há também neologismos que ela inventa conscientemente, a palavra cavalência é um exemplo. Quando Dona Etimologia comenta que não conhece essa expressão, Emília empolgada diz: “É minha! Foi inventada por mim com a invençãozinha que Deus me deus. Faz parte dos meus “neologismos”.” (LOBATO, 1972, p. 322) No capítulo em que “Emília forma palavras”, já mencionado no parágrafo anterior, há uma passagem que caracteriza muito bem o sentimento da boneca em relação à sua sabedoria. Emília é uma “sabichona” e sempre teima com quem tenta corrigi-la. Dona Etimologia, explicava que as palavras adquiriam novos significados com os sufixos e deu como exemplo “cavalaria”. Emília, então, é obrigada a argumentar com a senhora, mostrando toda sua
  • 28. 34 sabedoria e teimosia: “Não, senhora – protestou Emília – Cavalo com Aria atrás vira cavaloaria e não Cavalaria.” (LOBATO, 1972, p. 322) A personagem, por não ter papas na língua, acaba tecendo alguns comentários desconcertantes e muitas perguntas, que demonstram seu jeito atrevido de ser. Como exemplo, podemos citar a passagem em que a boneca abre sua “torneirinha de asneiras” conversando com Vossa Serência (verbo ser): Por que Vossa Serência não aparece por lá, um dia, para uma visita a Dona Benta? Por ser muito velho? Ora, deixe-se disso!...Estamos lá acostumados com a velhice. Dona Benta é velha e Tia Nastácia também. (...) Dona Benta é viúva. Vá, que até pode sair casamento... (LOBATO, 1972, p. 317) Percebemos com este trecho que a boneca, ao falar com o verbo ser, forma frases mais bem elaboradas, provavelmente por pensar que está falando com alguém muito importante. O atrevimento de Emília fica claro, tentando arranjar até um noivo para Dona Benta e chamando o verbo ser de velho. A boneca também se expressa de modo imperativo com as pessoas. É um “espirro de gente” que exige que todos a ouçam e se sente no direito de mandar nas pessoas. É a Marquesa de Rabicó, uma boneca de classe, que merece respeito e muita atenção. Em várias passagens do livro percebemos essa característica de Emília: “Chega de Advérbios! – berrou (grifo nosso) Emília.” (LOBATO, 1972, p. 315). Em contrapartida, também observamos no livro que em alguns momentos a boneca demonstra ainda obedecer à sua dona, Narizinho: - Agora, não, Emília. Depois. Depois visitaremos Dona Prosódia. Neste momento eu resolvo que se visite a etimologia. Você não manda. E como o caso fosse assim despoticamente resolvido, dirigiram-se todos para a residência da Senhora Etimologia. (LOBATO, 1972, p. 320) Emília também faz uso de superlativos para se expressar, sempre dando ênfase às suas histórias e tornando-as mais grandiosas. Também acaba aumentando a intensidade de sua frase para puxar a atenção do “ouvinte”: “(...) Para Tia Nastácia ser magro é defeito gravíssimo (grifo nosso).” (LOBATO, 1972, p. 305). A bonequinha demonstra, assim, ser exagerada, sempre em busca de atenção, como uma criança de fato. Mexendo com a imaginação e poder de criação das crianças, Lobato faz com que a boneca tenha suas aventuras e seus “planos infalíveis”. Nesse volume, há dois principais
  • 29. 35 planos: o de entrar na casa do verbo ser, que era super “disputado’, no qual a bonequinha fingiu-se de jornalista; e o de expulsar os gramáticos da casa de Dona Etimologia, para que ela conseguisse dar-lhes atenção. Ambos planos acabam nos mostrando que Emília faz de tudo para conseguir o que quer, e ela sempre sabe o que quer! Se pensarmos um pouco mais além percebemos que essa característica da bonequinha se liga ao fato de ela ser um pouco egocêntrica. A frase pertencente ao plano de expulsar os gramáticos da casa de Dona Etimologia (LOBATO, 1972, p. 230): “O melhor é espantarmos esses gramáticos e tomarmos conta da velha só para nós!” mostra de forma clara o sentimento de egocentrismo bastante presente também nas crianças, no início de suas vidas. No capítulo voltado para as preposições, podemos analisar um comentário de Emília, que nos indica a forma como ela faz uso da gramática. Através dessa fala, percebemos que ela utiliza muitas preposições, e portanto, usa construções bem desenvolvidas, períodos compostos. Entendendo que as preposições são as “cordinhas” de nossa língua, Emília se empolga e diz: “Bravo! São umas cordinhas preciosas estas. A gente não pode dizer nada sem usá-las, sobretudo as menorzinhas, como A, Até, Com, De, Sem, Por...” (LOBATO, 1972, p. 315). Apesar disso, as preposições em questão também são das mais simples, indicando ainda que apesar de falar de forma mais complexa, a personagem ainda se adapta a um universo mais simples, mais próximo do infantil. Outro aspecto interessante da fala da Emília é o uso de diminutivos. Como dissemos anteriormente, a personagem se utiliza de superlativos para dar mais emoção e exagero às suas falas, chamando, assim, mais atenção, atenção essa que crianças necessitam que lhes dêem. Por outro lado, se utiliza também de diminutivos, indicando que está mais próxima ao universo infantil e que fala como uma menina. Podemos utilizar a palavra “cordinhas”, apresentada na fala de Emília do parágrafo anterior, para ilustrar essa observação. Observamos também em meio a leitura que a personagem erra muitas vezes as palavras e seu modo de pronunciá-las. Chegando até a dizer que queria conhecer a Dona Prosódia em vez da Dona Etimologia (origem e história das palavras), para descobrir como se pronuncia certas palavras, segundo a bonequinha, ela é “prática”. Um episódio também interessante é no desfile do verbo Ter. Emília acha a marcha do verbo ter no presente maravilhosa, porque, segundo ela: “(...) Pelo jeito de marchar a gente vê que eles têm mesmo...” (LOBATO, 1972, p. 310). Essa expressão que eles “têm” mesmo deixa subentendido que esses verbos têm uma grande importância, por serem usados no presente, ou seja, as pessoas estão utilizando-os. A boneca não gosta do jeito triste de marchar do verbo tem no pretérito, já que eles não “têm mais nada”. Porém, a marcha que mais
  • 30. 36 empolgou a turma foi a do verbo ter no futuro. O verbo passa esperança de um futuro que “tem” muitas coisas, felicidades e desenvolvimento para o país, idéia de Monteiro que pode ser retirada da seguinte frase de Pedrinho: “Viva o futuro!” (LOBATO, 1972, p. 311). Emília também nos dá material para sua análise quando vai conhecer os pronomes. Quando ela vê os pronomes possessivos não se cabe de tanta felicidade: “Emília que achava as palavras Meu e Minha as mais gostosas de quantas existem, agarrou o casalzinho e deu um beijo no nariz de cada uma (...)” (LOBATO, 1972, p. 308). Entendemos, a partir desta cena, que a boneca é possessiva, e adora que as coisas sejam dela, como, novamente, a maioria das crianças é. Além dos pronomes possessivos, Emília se encontra com os pronomes interrogativos, outros muito utilizados pela bonequinha. E fica feliz em conhecê-los. Com sua curiosidade infinita, a personagem era a boneca que mais dava trabalho a eles. Após essa análise da Emília, percebemos que a boneca cometia muitos erros, e ao mesmo tempo mostrava uma lógica simples em relação às coisas e regras. Monteiro Lobato mostra, através da personagem que a língua portuguesa não precisa ser tão complexa para as crianças, e que, mesmo o jeito delas de enxergá-la faz algum sentido. O público infantil se identifica muito com a Emília, com suas dúvidas e comentários desconcertantes. A personagem acaba se tornando a mais completa: se mostra entendida do assunto algumas vezes e outras comete erros comuns às crianças, é espevitada, sem papas na língua, fala tudo o que pensa, tem uma capacidade de associação imensa e, por fim, é uma boneca que parece gente. 6.2 ANÁLISE DO DISCURSO DE EMÍLIA: VÍCIOS DE LINGUAGEM O capítulo de título “Os vícios de linguagem”, como o nome diz, tem como principal assunto os vícios de linguagem que ocorrem na língua portuguesa. Antes de tudo, lembremos que os fenômenos que dão nome ao capítulo são alterações defeituosas da norma que ocorrem na língua, são mal vistos aos olhos dos gramáticos, portanto. Visto isso, já começaremos a analisar a linguagem desta parte do livro a partir do primeiro diálogo. Quem está apresentando os vícios de linguagem à turma é a Dona Sintaxe, quem organiza as palavras e orações. Observamos o receio que a senhora possui em relação aos “monstrinhos”: “(...) Os vícios, eu os conservo em jaulas, como feras perigosas (grifo nosso).” (LOBATO, 1972, p. 334). A partir dessa fala de Dona Sintaxe, podemos observar que ela representa a visão dos gramáticos em relação à língua e aos vícios. É, então, amante das regras e da ordem dentro do português.
  • 31. 37 Há então a apresentação de cada vício de linguagem. Todos eles são personificados em pessoas sujas e mal encaradas, exceto dois: o Neologismo, muito bem arrumado e novo; e o Provincianismo, que era considerado um “Jeca”, ingênuo e simples. Há 12 jaulas no local, cada um para um vício de linguagem, são eles: o Barbarismo, o Solecismo, a Anfibologia (mais conhecida como ambigüidade hoje), a Obscuridade, o Cacófato, o Eco, o Hiato, a Colisão, o Arcaísmo, o Neologismo e o Provincianismo. Porém, uma das jaulas está fazia. Dona Sintaxe então explica que tal vício se reabilitou, era o Brasileirismo, que, com o desenvolvimento da língua portuguesa no Brasil, deixou de ser um vício, porém só pode andar pela cidade nova, ou seja, Brasiliana. A visita começa: Emília, como é a mais curiosa, é quem vai a frente do grupo, conversando com Dona Sintaxe. A boneca chega na primeira jaula e pergunta: “Que mal faz o mundo esse “cara-de-coruja”?” (LOBATO, 1972, p. 334). Aparece nessa fala da personagem o termo “cara de coruja” que vai se mostrar presente no vocabulário da bonequinha desde a primeira vez em que ela fala, ainda no livro As reinações de Narizinho. Quando Emília não sabe o nome de uma pessoa, e também não está interessada em saber, pois sua vontade é mais importante, utiliza essa nomeação, simplesmente para ter um termo diferenciado de se chamar alguém. Dona Sintaxe explica à boneca pelo o que cada vício é responsável, sempre demonstrando uma hostilidade e grosseria em relação a eles. Muitas vezes em que ela fala sobre algum deles utiliza termos como: “idiota”, “cretino” ou “imbecil”. Palavras que são consideradas impróprias para serem adicionadas ao vocabulário de uma criança. Assim, passam pelo Barbarismo, que faz com que as pessoas errem as palavras, seja a pronuncia ou a escrita; pelo Solecismo, que causa erros de concordância; a Anfibologia, que deixa as frases ambíguas; a Obscuridade, que faz com que as frases não sejam claras, objetivas; o Cacófato, gera sons desagradáveis nas frases, fazendo com que estas tenham um sentido “feio”; o Eco, faz com que haja repetição desagradável de terminações iguais; o Hiato, gera som desagradável pela aproximação de vogais idênticas na frase; a Colisão, gera frases com consonâncias desagradáveis; o Arcaísmo, palavras antigas em frases modernas que dificultam o entendimento; o Neologismo, palavras recém-formadas, que, pela visão de Dona Sintaxe, dificulta também o entendimento; e, por último, o Provincianismo, que faz as pessoas utilizarem termos conhecidos em alguns locais somente, são os regionalismos. Emília, enquanto conhecia os vícios, dava apelidos para cada um deles, era “bicarada” para a ambigüidade, pois ela tinha duas caras, ou seja, dois sentidos. A Obscuridade era “pretuda”, obviamente por causa de sua cor. Chamava os outros de “cara de cachorro” e
  • 32. 38 “pandorga”, além de “Matusalém” para o Arcaísmo. A boneca mostra, mais uma vez, seu jeito atrevido de ser. As partes do capítulo que merecem uma maior atenção, porém, são as que Emília liberta dois dos vícios de linguagem, para o espanto de Dona Sintaxe, que, todavia, fica imóvel, não toma nenhuma ação. O primeiro que Emília solta é o Neologismo: Emília, que era grande amiga de neologismos, protestou. - Está aí uma coisa com a qual eu não concordo. Se numa língua não houver neologismos, essa língua não aumenta. Assim como há sempre crianças novas no mundo, para que a humanidade não se acabe, também é preciso que haja na língua uma contínua entrada de Neologismos. Se as palavras envelhecem e morrem, como já vimos, e se a senhora impede a entrada de palavras novas, a língua acaba acabando! Não! Isto não está direito e vou soltar esse elegantíssimo vicio, já e já... (LOBATO, 1972, p. 335) Nesta fala da boneca, podemos analisar diversos temas. Primeiramente, observamos que Emília, seguindo sua característica de associar o que aprende com seu mundo, faz um paralelo entre a manutenção da população, nascimento de novas crianças, e a manutenção da língua, criação de neologismos. De fato, a lógica da bonequinha tem fundamento. Como ela aprendera no início da história, as palavras nascem, crescem e morrem, como pessoas. Portanto, se não há a introdução de neologismos, a língua estaria acabada um dia. Percebemos também neste trecho a presença do superlativo sintético, utilizado pela bonequinha, que sempre exagera e dá ênfase ao que fala. Ao dizer “Elegantíssimo vício”, a personagem já está mostrando ser contra a idéia da Dona Sintaxe, e tenta irritá-la, mudando sua organização da língua. Esse plano continua quando a boneca diz: “(...) Temos de continuar na “campeação” dele (do Visconde) – disse Emília, mordendo o lábio e olhando firme para a Sintaxe (...)” (LOBATO, 1972, p. 335). Torna-se claro nesta passagem o desejo da personagem em irritar a Dona Sintaxe utilizando um de seus neologismos. Além desses aspectos, é através de Emília que Lobato nos passa a idéia de que os neologismos são bons para a língua. Novamente indo contra os gramáticos, já que o autor discorda com os estudiosos em relação à forma de ensino da gramática, Monteiro faz com que a boneca liberte esse vício de linguagem, mostrando uma nova visão da gramática, a de que as palavras novas são muito importantes para a manutenção da língua. O segundo Vício de Linguagem solto foi o Provincianismo, Emília: “(...) não achou
  • 33. 39 que fosse o caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou que ele também estava trabalhando na evolução da língua e soltou-o.” (LOBATO, 1972, p. 335). A boneca novamente trabalha com lições aprendidas ao longo do livro. Quando ela alega que o Provincianismo também estava trabalhando na evolução da língua, relembra do que aprendeu com Dona Etimologia, que o inculto é quem faz a língua. O vício no caso não era inculto propriamente, mas reproduzia as palavras de modo diferente do que devia, graças ao local em que morava e aprendera a falar. Mais uma vez, o autor utiliza Emília como sua porta-voz. Acreditando que o povo que faz a língua, Monteiro faz com que a boneca defenda o matuto do Provincianismo, mostrando, assim, a visão de uma nova geração em relação à gramática. Lobato mostra também uma visão um pouco arcaica ou preconceituosa em relação ao caipira. A partir do modo que ele é descrito (LOBATO, 1972, p. 335): “Tão bobo, o coitado, que nem teve a idéia de agradecer à sua libertadora.”, percebe-se que o autor quis nos passar a falta de atitude e a ingenuidade das pessoas que vivem no campo. Idéia que encontramos em sua outra obra “Urupês” (1918), em que a personagem Jeca Tatu se faz presente. Atualmente o provincianismo não é considerado um vício de linguagem propriamente dito. Na verdade nos remetemos a ele ao falarmos de variações lingüísticas dentro de um país, ou seja, de regionalismos. Característica muito presente em nosso país, e que, hoje, é aceita e respeitada. Por último, observamos que o fato de Dona Sintaxe não ter feito nada para impedir que Emília soltasse os Vícios, provavelmente indicaria como os gramáticos se sentiam ao ver essa nova geração da gramática chegando, com as idéias que Monteiro Lobato nos passa.
  • 34. 40 7. PESQUISA DE CAMPO Através de entrevistas, questionamentos sobre aspectos subjetivos, como opiniões ou recordações passadas, conseguimos que as pessoas se expressem de forma a não darem atenção ao modo como articulam a fala. Por esse motivo, uma pesquisa de campo que possua o intuito de captar os níveis de fala de determinado grupo de pessoas precisa conter certo aspecto informal. Conforme o tema deste trabalho, desenvolvemos questionamentos e os levamos as ruas da cidade de São Paulo. Monteiro Lobato preocupava-se muito com a questão da educação, principalmente quando o assunto eram crianças, desse modo, o tema escolhido para a pesquisa foi exatamente este, a educação. De 50 entrevistas feitas, destacamos 10 para análise, sendo estas variadas, duas de cada classe social (determinada por meio de um questionário sócio econômico). 7.1 ENTREVISTAS Classe A Nome: Rosana Idade: 41 anos Local da entrevista: Estação Armênia. *segue em anexos o questionário sócio econômico. 1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou? “O que eu aprendi quando criança? Faz tempo, é por isso... Ah, o que eu aprendi na minha família é... eram católicos, então era muito rígido, assim... com horário, que até hoje, marcou um horário, é naquele horário que eu tenho que chegar, eu num admito nem chegar um minuto depois nem um antes. Por que eu num gosto de esperar ninguém, quando eu marco alguma
  • 35. 41 coisa que demore eu me lembro disso e num deixo ninguém me esperando, foi uma coisa que me marcou.” 2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender? “A melhor maneira de aprender? Eu acho que é se conversando, a gente explicando, aquilo, num é? Eu tenho os filhos, é o que eu passo pros meus filhos, né? Né..o certo da coisa... explicar o por que é que tem que fazer o certo. Conversar, né? Desta forma.” 3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi? “Já, né! Com quatro filhos, já ensinei um monte! Ah, ensinar o... o caminho certo das coisas...e fazer a coisa correta...Em tudo...A vida no geral.” 4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por quê? “Na escola? Acho que mais a parte de cidadania...é, que na minha época num tinha muito...né? Muito esse lado de ética, cidadania, eu queria ter aprendido mais” 5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendem com os meios de comunicação? “Tudo. De certo e de errado, aprende tudo. Tudo. Não,todo lado! Toda coisa tem o lado bom e lado o ruim né...isso que eu te falo, aprende tudo. Então, desenvolvimento é muito mais rápido, o desenvolvimento de raciocínio de tudo, graças computadores e tudo mais, mas tem o lado ruim também da história né? Num é só o lado bom, não. Que também é bem rápido o lado ruim, né? O lado ruim, né?” Nome: Marina Idade: 44 anos Local da entrevista: Avenida Paulista 1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se
  • 36. 42 lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou? “Bom, estou com um pouco de pressa, algo que eu me lembro muito bem de ter aprendido, que foi difícil e marcante, foi andar de bicicleta. Aprendi com meu pai, hoje falecido. Estou dando esse exemplo porque acho que isso é uma coisa que uma vez aprendida não se esquece mais, não se desaprende sabe.” 2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender? “Acho que você realmente aprende alguma coisa quando tira da teoria e coloca na prática, ai você realmente nunca mais esquece.” 3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi? “Bom ensinei varias coisas aos meus filhos, como por exemplo, o hábito da leitura.” 4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por que? “Na escola eu não me lembro, mas na faculdade eu acho que poderia ter tido professores melhores, que incentivassem mais o aluno, porque faculdade é aquela coisa né... o aluno é só um número.” 5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendem com os meios de comunicação? “Acho que dependendo do que assistem, podem tirar boas coisas dos meios de comunicação, os programas da TV Cultura são uma boa.” Classe B Nome: Maria. Idade: 57 anos. Local da entrevista: Parque da Luz. *segue em anexos o questionário sócio econômico. 1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou? “Tem muitas coisas que marcam a vida da gente... não uma só são várias... o dia que meu
  • 37. 43 primeiro cachorrinho que eu tive morreu, minha gatinha quando foi atropelada, quando nós recebemos a visita de uns americanos...nossa...eu tinha 5 anos de idade e lembro até hoje...a primeira vez que eu fui em um parque de diversão...ah foi muita coisas...” 2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender? “Tudo que você tiver que aprender a melhor coisa q você faz é gravar num gravador e depois você mesma escuta o que você ta falando... as coisas de escola, um lembrete, algumas coisas que você quer escrever... você mesma dita pro gravador e depois vai escutando e consegue gravar com mais facilidade...” 3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi? “Sim... já dei aula de artesanato...” 4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por quê? “Geografia... eu odeio geografia... queria aprender, mas não consigo guardar...” 5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendem com os meios de comunicação? “Ah com certeza ficou mais fácil hoje né... antes a única forma de aprender era a escola...o campo de ensino hoje é muito mais amplo em vista do que era na minha época...hoje em dia tem a televisão, o celular...muitas formas da criança se comunicar...” Nome: Geralda Idade: 52 anos Local da entrevista: Pinacoteca do Estado *segue em anexos o questionário sócio econômico 1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou? “Não... não lembro não...” 2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender? “Eu acho que na prática né...”
  • 38. 44 3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi? “Já ensinei a fazer comida pra empregada...” 4- O que você gostaria de ter aprendido (melhor) na escola? Por quê? “Ah,,,Tudo o que eu aprendi na escola eu sei até hoje...” 5- O que você acha que as pessoas, principalmente as crianças, aprendem com os meios de comunicação? “Acho que hoje ta tudo mais fácil, exatamente por causa disso... Antigamente tinha que prestar mais atenção.” Classe C Nome: Melissa Idade: 31 anos Local: Estação da Luz *segue em anexos o questionário sócio econômico 1- Conte para a gente algo que você aprendeu quando criança e que se lembra até hoje. Por que você se lembra/ Por que te marcou? “Melissa meu nome... eu acho que foi o catecismo... porque quando eu era jovem... eu entrei no catecismo... eu me tornei até coroinha da igreja e tudo... isso quando eu era homem... mas acho que foi por isso... somente por isso que eu me lembro... e pelas minhas orações também... somente por isso... 2- Para você, como é mais fácil/ qual a melhor maneira de se aprender? “Eu acho que as pessoas se aprendem é somente na prática... porque muitas coisas que a escola ensina fica só na teoria querida... e se não for pra pratica você não progride...isso é o que eu acho...uma opinião minha...” 3- Você já ensinou alguma coisa para alguém? O que? Como foi? Por quê? “Eu já ensinei coisas no Ceará pros meus primos e sobrinhos... algumas coisas... do dever de casa eu ensinava....”