FRUTOS DOS CERRADOS
REPORTAGEM
                           Preservação gera muitos frutos
                                                                                           Maria Fernanda Diniz Avidos
                                                                                                   Lucas Tadeu Ferreira

                                  Os cerrados possuem 204 milhões de hectares e grande diversificação de fauna e flora
                                                                                                  Fotos: José Antônio da Silva




                Brasil possui cerca de           como uma espécie de “patinho feio”,           ção de alimentos do país, contribuindo
              trinta por cento das es-           região de solos pobres e pouco férteis,       com mais de 25% da produção nacio-
              pécies de plantas e de             que não despertavam muito interesse           nal de grãos alimentícios, além de
              animais conhecidas no              nos agricultores e nos órgãos de defe-        abrigar mais de 40% do rebanho bovi-
              mundo, que estão distri-           sa ambiental.                                 no do país.
 buídas em seus diferentes ecossiste-                A partir dos anos 60, com a trans-           Apesar das limitações impostas ao
 mas. É o país detentor da maior diver-          ferência da capital federal do Rio de         crescimento e ao desenvolvimento das
 sidade biológica do planeta. A região           Janeiro para Brasília, localizada no          plantas pelo regime de chuvas e pelas
 dos cerrados, com seus 204 milhões de           coração dos cerrados, com a constru-          características do solo, o ecossistema
 hectares – aproximadamente 25% do               ção de estradas e com a adoção da             cerrados apresenta surpreendente va-




 território nacional – apresenta grande          política de interiorização e de integra-      riabilidade de espécies. Distinguem-
 diversificação faunística e florística em       ção nacional, essa região foi inserida        se, nessa região, mais de 40 tipos
 suas diferentes fisionomias vegetais.           no contexto da produção de alimentos          fisionômicos de paisagens, dentre es-
     Até meados deste século, essa re-           e de energia. Dessa maneira, de pe-           ses o cerrado, o cerradão, o campo
 gião, que abrange principalmente os             quena atividade agrícola de subsistên-        limpo, o campo sujo, a vereda, a mata
 estados de Minas Gerais, Goiás, Mato            cia e criação extensiva de gado, a            de galeria e a mata calcárea. Essa
 Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocan-              região passou a contribuir com grande         vegetação, ainda pouco estudada, apre-
 tins, Bahia, Maranhão, Piauí e Distrito         parte da produção de grãos e a abrigar        senta grande potencial alimentar, ma-
 Federal, era considerada secundária             expressivo número do rebanho bovi-            deireiro, combustível, agroindustrial,
 para a produção agrícola. Naquele               no do país.                                   forrageiro, medicinal e ornamental.
 período, em que o mundo inteiro                     Hoje, graças ao desenvolvimento
 voltava a atenção para a Amazônia,              de pesquisas e tecnologias que viabi-                     Fruteiras nativas
 preocupado com a devastação do que              lizaram a sua utilização em bases eco-
 se costumava chamar de “o pulmão do             nômicas, a região dos cerrados é um              As fruteiras nativas ocupam lugar
 mundo”, os cerrados apareciam assim             dos mais importantes pólos de produ-          de destaque no ecossistema do cerra-

36   Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
do e seus frutos já são comercializados    FIG. 1. Área de Cerrado degradada.            Apesar da existência de leis de
em feiras e com grande aceitação           Ausência de práticas de conservação       proteção à fauna, à flora e ao uso do
popular. Esses frutos apresentam sa-       do solo e presença de voçorocas e         solo e água, elas são ignoradas pela
bores sui generis e elevados teores de     açoriamento de vereda                     maioria dos agricultores, que utilizam
açúcares, proteínas, vitaminas e sais                                                esses recursos naturais erroneamente,
minerais e podem ser consumidos in                                                   na expectativa de maximizarem seus
natura ou na forma de sucos, licores,                                                lucros. Neste cenário, o ecossistema
sorvetes, geléias etc. Hoje, existem                                                 cerrado tem sido agredido e depreda-
mais de 58 espécies de frutas nativas                                                do pela ação do fogo e dos tratores,
dos cerrados conhecidas e utilizadas                                                 colocando em risco de extinção várias
pela população da região e de outros       rodovias a preços competitivos e al-      espécies de plantas, entre elas algu-
estados.                                   cançando grande aceitação popular.        mas fruteiras nativas, antes mesmo de
    O consumo das frutas nativas dos       Observa-se, hoje, a existência de mer-    serem classificadas pelos pesquisado-
cerrados, há milênios consagrado pe-       cado potencial e emergente para as        res.
los índios, foi de suma importância
para a sobrevivência dos primeiros
desbravadores e colonizadores da re-
gião. Através da adaptação e do desen-
volvimento de técnicas de beneficia-
mento dessas frutas, o homem elabo-
rou verdadeiros tesouros culinários
regionais, tais como licores, doces,
geléias, mingaus, bolos, sucos, sorve-
tes e aperitivos. O interesse por essas
frutas tem atingido diversos segmen-
tos da sociedade, entre os quais desta-
cam-se agricultores, industriais, do-
nas-de-casa, comerciantes, instituições
de pesquisa e assistência técnica, coo-
perativas, universidades, órgãos de
saúde e de alimentação, entre outros.
    O interesse industrial pelas frutas
nativas dos cerrados foi intensificado      FIG. 2. Desmatamento irracional,         FIG. 3. Comercialização de frutos
após os anos 40. A mangaba, por             onde nem as plantas jovens são           de araticum, oriundos de explora-
exemplo, foi intensivamente explora-        poupadas. Seu principal destino é        ção extrativista e predatória, às
da durante a Segunda Guerra Mundial,        a carvoaria                              margens das estradas da região
para exploração de látex. O babaçu e
a macaúba foram bastante estudados         frutas nativas do cerrado, a ser melhor      A destruição de plantas e animais e
na década de 70, em decorrência da         explorado pelos agricultores, pois todo   a poluição do solo, dos rios e da
crise de petróleo, e mostraram grandes     o aproveitamento desses frutos tem        atmosfera vêm ocorrendo em proces-
possibilidades para utilização em mo-      sido feito de forma extrativista e pre-   so acelerado, o que certamente com-
tores de combustão, em substituição        datória.                                  prometerá de maneira significativa as
ao óleo diesel. O pequi já foi industri-
alizado, sendo o seu óleo enlatado e        FIG. 4. Frutos de pequi
comercializado. A polpa e o óleo da         (Caryocar brasiliense Camb.)
macaúba são utilizados na fabricação
de sabão de coco. O palmito da guari-
roba, de sabor amargo, começou a ser
comercializado em conserva recente-
mente, à semelhança do palmito doce.
Os sorvetes de cagaita, araticum, pe-
qui e mangaba continuam fazendo
sucesso nas sorveterias do Distrito
Federal e de Belo Horizonte.

  Extrativismo pode ser ameaça

   Atualmente, é possível encontrar
grande quantidade de frutas nativas
dos cerrados sendo comercializadas
em feiras da região e nas margens das
                                                                                       Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento   37
sustentável.
                                                     A Embrapa, através de uma de suas
                                                 39 unidades de pesquisa: a Embrapa
                                                 Cerrados, localizada em Planaltina, DF,
                                                 tem realizado vários estudos sobre a
                                                 germinação das sementes, produção
                                                 de mudas, plantio, valor nutricional,
     FIG. 5. Frutos de baru ( Dipteryx           beneficiamento, aproveitamento ali-
     alata Vog.), na planta                      mentar e armazenagem dos frutos dos
                                                 cerrados. Uma boa solução para con-
                                                 ter a devastação da região do cerrado,
                                                 como explica o pesquisador da Em-
                                                 brapa Recursos Genéticos e Biotecno-
                                                 logia, também localizada em Brasília,
                                                 DF, Dijalma Barbosa da Silva, é utilizar
                                                 as áreas já abertas e abandonadas,          FIG. 8. Frutos de mangaba
     FIG. 6. Amêndoas/sementes de                para a produção, pois assim não seria       (Hancornia speciosa Gomez.)
     frutos de baru ( Dipteryx alata             preciso devastar novas áreas. Além
     Vog.)                                       disso, a utilização dessas áreas reduzi-
                                                 ria os custos para os produtores, visto    de uma agricultura itinerante, como
 futuras gerações. O maior predador é,           que já estão preparadas e limpas para      faziam nossos ancestrais”, enfatiza Di-
 sem dúvida, o próprio homem, que                o plantio, exigindo apenas investi-        jalma.
 desconhece o potencial de utilização            mentos em corretivos, adubações e              Segundo o pesquisador, há cerca
 racional desse ecossistema, onde po-            práticas conservacionistas.                de duas décadas, a Embrapa iniciou
 dem estar guardados muitos segredos                 Existem várias tecnologias viáveis     trabalho de investigação com as comu-
 de sua alimentação, saúde, proteção e           e disponíveis para isso. Já é tempo do     nidades rurais e indígenas da região,
 da sua própria vida.                            conceito de quantidade de área explo-      com o objetivo de descobrir novas
                                                                                            formas de aproveitamento das frutei-
                                                                                            ras nativas dos cerrados. A riqueza dos
                                      FIG. 7. Frutos de araticum ( Annona                   cerrados ainda é pouco conhecida,
                                      crassiflora Mart.)                                    como afirma Dijalma. De acordo com
                                                                                            ele, o potencial mais conhecido hoje é
                                                                                            a utilização das fruteiras, mas muito
                                                                                            ainda tem que ser feito para o seu
                                                                                            melhor aproveitamento. “Atualmente,
                                                                                            essas frutas são consumidas mais na
                                                                                            forma in natura e a sua comercializa-
                                                                                            ção ainda é feita de maneira informal”,
                                                                                            ressalta o pesquisador.
                                                                                                Dentre as possibilidades atuais de
                                                                                            utilização das fruteiras do cerrado,
                                                                                            destacam-se: o plantio em áreas de
                                                                                            proteção ambiental; o enriquecimento
                                                                                            da flora das áreas mais pobres; a
                                                                                            recuperação de áreas desmatadas ou
                                                                                            degradadas; a formação de pomares
                                                                                            domésticos e comerciais; e o plantio
                                                                                            em áreas de reflorestamento, parques
                                                                                            e jardins, e em áreas acidentadas.
                                                                                            Nesse sentido, muitos agricultores e
                                                 rada ser definitivamente substituído       chacareiros já estão implantando po-
        Preservação dos cerrados                 pelo conceito de produtividade, onde       mares de frutas nativas dos cerrados e
                                                 o uso dos fatores de produção (solo,       os viveiristas estão intensificando a
     Nos últimos anos, órgãos de pes-            água, insumos, serviços etc.) são maxi-    produção de mudas.
 quisa, ensino, proteção ambiental e             mizados e a produção verticalizada,
 extensão rural da região têm estudado           através de enfoque duradouro de sus-           Fruteiras nativas têm que
 e divulgado o potencial de utilização           tentabilidade do sistema de produção.           ganhar novos espaços
 das espécies do cerrado, além de in-            “Em pleno século XXI, conscientes de
 vestir na conscientização dos agricul-          tantos erros do passado, não podemos           Dijalma lembra que há grande po-
 tores quanto à importância de preser-           admitir que a região dos cerrados          tencial para a exportação dessas fru-
 vá-las e utilizá-las de forma racional e        continue a ser explorada à semelhança      tas, já que possuem um sabor sui
38    Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
generis e não são encontradas em           até 8 metros de altura, com tronco
                                outros países. Hoje, o licor de pequi já   tortuoso de casca áspera e rugosa. No
                                é exportado para o Japão e a amêndoa       período de setembro a dezembro, sur-
                                do baru é demandada pela Alemanha;         gem flores grandes amarelas.
                                mas existem ainda muitas possibilida-      Fruto: A polpa de coloração amarelo
                                des de exportação de outras espécies       intensa envolve um caroço duro for-
                                nativas. “Precisamos investir na divul-    mado por grande quantidade de pe-
                                gação da importância dessas fruteiras      quenos espinhos. Frutifica-se de
                                e fazer com que elas saiam da beira da     outubro a março. Em cem gramas de
                                estrada, onde são vendidas hoje, e         polpa de pequi podemos encontrar 20
                                cheguem às prateleiras dos supermer-       mil microgramas de vitamina A.
                                cados no Brasil e em outros países”,       Cultivo: Como todas as fruteiras nati-
                                afirma.                                    vas do Cerrado, as mudas de pequi
                                    Entretanto, como explica o pesqui-     devem ser produzidas em viveiros a
                                sador, existem muitas limitações para      “céu aberto”, logo após a coleta dos
                                a exploração comercial das fruteiras       frutos, em meados da estação chuvosa
                                nativas, já que ainda não foram do-        e o plantio pode ser feito no início da
                                mesticadas e vêm sendo exploradas          estação chuvosa seguinte. A planta
FIG. 9. Frutos de cagaita
                                de forma extrativista e predatória. Em     prefere regiões quentes, sendo ideais
(Eugenia dysenterica DC.)
                                1999, a Embrapa Cerrados iniciou a         as regiões norte e centro-oeste do
                                plantação do pequi e da mangaba para       Brasil. A germinação das sementes é
FIG. 10. Frutos de buriti       pesquisa. O objetivo é avaliar o com-      demorada. Para acelerá-la, deve-se
(Mauritia vinífera Mart.)       portamento dessas espécies em condi-       colocá-las em imersão, em uma solu-
                                ções de cultivo, inclusive com irriga-     ção de ácido giberélico, na concentra-
                                ção. “Em cerca de cinco anos, podere-      ção de 0,5g por litro de água, por um
                                mos ver os primeiros resultados”, afir-    período de 48 horas. Cada planta adul-
                                ma Dijalma.                                ta poderá produzir, em média, até dois
                                    É muito importante investir no tra-    mil frutos por safra. O preço do litro de
                                balho de domesticação das fruteiras        caroços de pequi, com aproximada-
                                nativas dos cerrados para que possam       mente 17 unidades, tem sido comerci-
                                ser cultivadas em lavouras comerciais,     alizado no varejo, em feiras livres e
                                afirma o pesquisador. Dessa forma,         Ceasa-DF, ao preço que varia entre
                                evita-se o extrativismo predatório, ao     R$1,50 a R$3,00. A frutificação ocorre
                                mesmo tempo em que se conservam            normalmente aos cinco anos após o
                                as espécies em seu hábitat natural. As     plantio.
                                pesquisas desenvolvidas pela Embra-        Aproveitamento alimentar: O pe-
                                pa têm ainda como objetivos a propa-       qui é muito apreciado nas regiões
                                gação vegetativa através de enxertia,      onde ocorre: o arroz, o frango e o
                                estaquia e cultura de tecidos e o me-      feijão cozidos com pequi são pratos
                                lhoramento genético das frutas nati-       fortes da culinária regional; o licor de
                                vas, através de cruzamentos entre es-      pequi tem fama nacional e já é expor-
                                pécies, o que certamente vai contri-       tado para outros países; e há, também,
                                buir ainda mais para aumentar a ex-        uma boa variedade de receitas de
                                portação e a comercialização em larga      doces aromatizados com seu sabor.
                                escala. “O cultivo das fruteiras nativas   Outros usos: planta melífera, orna-
                                dos cerrados em escala comercial evita     mental, medicinal, cosmético e tintu-
                                os riscos de sua extinção, aumenta a       raria.
                                renda dos agricultores, fornece maté-
FIG. 11. Frutos de gabiroba
                                ria-prima para a agroindústria e ali-      Baru - Figura 5 (frutos de baru)
(Camponesia cambessedeana
                                mentos saudáveis para a população”,        Figura 6 (amêndoas/sementes dos
Berg.)
                                finaliza Dijalma.                          frutos de baru)
                                    Informações Sobre as Fotos:            Nome popular: Baru e cumbaru
                                Pequi - Figura 4                           Nome científico: Dipteryx alata Vog.
                                Nome popular: pequi, pequi-do-             Família botânica: Leguminosae -
                                cerrado                                    Papilionoideae
                                Nome científico: Caryocar brasilien-       Vegetação de ocorrência: Cerrado,
                                se Camb.                                   Cerradão e Mata Seca
                                Família botânica: Caryocaceae              Características da planta: Árvore de
                                Vegetação de ocorrência: Cerrado,          até 10 metros de altura com tronco que
FIG. 12. Frutos de Jatobá       Cerradão e Mata Seca                       pode atingir 70 cm de diâmetro. Copa
(Hymenaea stigonocarpa Mart.)   Características da planta: Árvore de       densa e arredondada. Flores peque-
                                                                             Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento   39
nas, de coloração alva e esverdeada,          consumo in natura, são inúmeras as
 que surgem de outubro a janeiro.              receitas de doces e bebidas que levam
 Fruto: Fruto castanho com amêndoa e           o sabor perfumado e forte de sua
 polpa comestíveis, que amadurecem             polpa; entre elas, incluem-se: batidas,
 de setembro a outubro. Cem gramas             licores, refrescos, bolachas, bolos, sor-
 de amêndoas de Baru fornecem 617              vetes, cremes, geléias etc.
 calorias e 26% de proteína.                   Outros usos: ornamental e medici-           FIG. 13. Frutos de Jenipapo
                                                                                           (Genipa americana L.)
 Cultivo: O índice de germinação da            nal.
 semente é superior a 90%. No viveiro
 e no campo, após o plantio, as mudas          Mangaba - Figura 8
 mostram um rápido crescimento e aos           Nome popular: Mangaba
 quatro anos já iniciam a frutificação.        Nome científico: Hancornia specio-
 Aproveitamento alimentar: O baru              sa Gomez.
 fornece alimentos para o homem e              Família botânica: Apocynaceae               FIG. 14. Frutos de macaúba
 para os animais; torrada, a amêndoa           Vegetação de ocorrencia: Cerrado,           (Acrocomia aculeata (Jacq.)
 tem sabor igual ao do amendoim; e o           Cerradão e áreas de Caatinga                Lodd.)
 cultivo comercial poderá salvá-lo da          Características da planta: Árvore
 extinção.                                     com 4 a 6 metros de altura por 4 a 6
 Embora tenha bom potencial econô-             metros de diâmetro de copa. Durante
 mico, o fruto não é comercializado nas        a Segunda guerra mundial, essa planta
 cidades. Pode ser apreciado apenas            foi usada intensivamente para extra-
 como planta nativa nas fazendas do            ção de látex.
 centro-oeste, onde alguns fazendeiros         Fruto: A cor da casca do fruto maduro
 se preparam para iniciar seu cultivo          é verde-amarelada ou verde-rosada e
 racional principalmente em meio a             a polpa viscosa é esbranquiçada. A
 áreas de pastagens.                           frutificação ocorre entre os meses de
 Outros usos: ornamental e medicinal.          outubro e dezembro.
                                               Cultivo: As sementes perdem rapida-
 Araticum - Figura 7                           mente o poder germinativo. Por isso,
 Nome popular: anona; pinha-do-cer-            devem ser semeadas logo após a sua
 rado; coração de boi; cabeça-de-ne-           extração dos frutos. O uso de calcário
 gro; bruto, marolo                            e o excesso de irrigação e/ou matéria
 Nome científico: Annona crassiflora           orgânica no substrato, para a forma-
 Mart.                                         ção de mudas, prejudica o desenvolvi-       FIG. 15. Processamento
 Família botânica: Annonaceae                  mento delas, além de favorecer o            artesanal de frutos de cagaita
 Vegetação de ocorrência: Cerrado,             ataque de doenças do sistema radicu-
 Cerradão e Campo Rupestre                     lar. A frutificação ocorre normalmente
 Características da planta: Árvore de          aos cinco anos após o plantio.
 tamanho variável, podendo atingir até         Aproveitamento alimentar: A pol-
 sete metros de altura, de acordo com a        pa e a casca fina são consumidas in
 espécie. Flores freqüentemente car-           natura e o fruto pode ser usado para
 nosas, de coloração esverdeada ou             fazer sorvete, geléia, doces e licores.
 branco-amarelada. Florescem de se-            Outros usos: planta melífera, orna-
 tembro a outubro.                             mental, medicinal e industrial.
 Fruto: Globoso ou alongado chegan-
 do a pesar até cinco quilos, contendo         Cagaita - Figura 9
 numerosas sementes presas a uma               Nome popular: cagaiteira
 polpa amarelada, envolvida por uma            Nome científico: Eugenia dysenteri-
 casca de coloração amarelo amarron-           ca DC.
 zada, recoberta por escamas carnosas.         Família botânica: Myrtaceae
 Frutificam de dezembro a abril.               Vegetação de ocorrência: Cerrado e
 Cultivo: A germinação das sementes é          Cerradão
 demorada. Para acelerá-la, deve-se            Características da planta: Árvore de
 colocar as sementes em imersão, em            porte médio que pode atingir de três a
 uma solução de ácido giberélico, na           oito metros de altura. Flores brancas       Fig. 16. Importância ecológica da
 concentração de 1,0g por litro de água,       e aromáticas.                               vegetação para a fauna. Casas de
                                                                                           João-de-barro do tipo BNH (Banco
 por um período de 36 horas. Prefere           Fruto: Frutos de coloração amarelo-
                                                                                           Nacional de Habitação). Até quan-
 clima quente com pouca chuva e esta-          pálida, com 1 a 3 sementes brancas
                                                                                           do os pássaros terão árvores para
 ção seca bem definida. Pode começar           envoltas em polpa de coloração cre-         fazer suas casas?
 a produzir em três anos após o plantio.       me, de sabor acidulado.
 Aproveitamento alimentar: Além do             Cultivo: No viveiro e no campo, após
40   Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
o plantio, as mudas mostram um rápi-      Normalmente ocorrem em moitas.            medicinal.
do crescimento e aos quatro anos de       Flores pequenas de coloração creme-
idade já iniciam a frutificação.          esbranquiçada.                            Jenipapo - Figura 13
Aproveitamento alimentar: a polpa         Fruto: Arredondados de coloração          Nome popular: Jenipapo
é utilizada como ingrediente de sucos,    verde-amarelada. Polpa amarelada,         Nome científico: Genipa americana
refrescos, sorvetes, doces, geléias e     suculenta, envolvendo numerosas se-       L.
licores. Os frutos maduros, se consu-     mentes. Frutifica de setembro a de-       Família botânica: Rubiaceae
midos em excesso, principalmente          zembro.                                   Vegetação de ocorrência: Cerrado,
aqueles caídos no solo e fermentados      Cultivo: À semelhança da mangaba,         Cerradão, Mata de Galeria e Mata
ao sol, provocam reações intestinais                                                Seca
desagradáveis com diarréias.                                                        Características da planta: A árvore
Outros usos: planta melífera, orna-                                                 tem de seis a oito metros de altura por
mental e medicinal.                                                                 quatro a seis metros de diâmetro de
                                                                                    copa.
Buriti - Figura 10                                                                  Fruto: A cor da casca do fruto maduro
Nome popular: Buriti, mirití, palmei-                                               é amarronzada, assim como a polpa.
ra-dos-brejos                                                                       Cultivo: No viveiro e no campo,
Nome científico: Mauritia vinífera                                                  após o plantio, as mudas mostram um
Mart.                                                                               rápido crescimento e aos cinco anos
Família botânica: Palmae                  FIG. 17. Produtos artesanais
                                                                                    já iniciam a frutificação.
Vegetação de ocorrência: Mata de          elaborados com os frutos nativos          Aproveitamento alimentar: A
Galeria e Veredas                         do Cerrado                                polpa pode ser consumida in natura
Características da planta: Palmeira                                                 ou utilizada para doces e licores.
de porte elegante com até 15 metros                                                 Outros usos: medicinal e artesanato.
de altura. Flores em longos cachos de     suas sementes perdem rapidamente o
até três metros de comprimento, de        poder germinativo. Por isso, devem        Macaúba - Figura 14
coloração amarelada.                      ser semeadas logo após a sua extração     Nome popular: bocaiúva, coco-
Fruto: Castanho-avermelhado, cober-       dos frutos. Pode ser cultivada em can-    babão, macaiba
to por escamas, com polpa marcada-        teiros.                                   Nome científico: Acrocomia
mente amarela e rica em cálcio. Fru-      Aproveitamento alimentar: Além do         aculeata (Jacq.) Lodd.
tifica de outubro a março.                consumo in natura, a gabiroba pode        Família botânica: Palmae
Cultivo: A germinação é lenta e irre-     ser aproveitada na forma de sucos,        Vegetação de ocorrência: Mata de
gular. No período de 60 dias germinam     doces e sorvetes, bem como servir de      Seca e Cerradão
cerca de 30% e mais 30% germinam          matéria-prima para um saboroso licor.     Características da planta: Palmeira
aos 10 meses após a semeadura. As                                                   com caule densamente espinhoso de
mudas podem ser produzidas em la-         Jatobá-do-cerrado - Figura 12             até 10 metros de altura. O óleo
boratório através da cultura de embri-    Nome popular: Jatobá-do-cerrado,          extraído dos frutos dessa planta foi
ões. O crescimento da planta é lento.     jataí e jutaí.                            bastante estudado durante os anos da
Aproveitamento alimentar: Dos fru-        Nome científico: Hymenaea stigono-        crise do petróleo, como fonte
tos do buriti, aproveita-se a polpa       carpa Mart.                               alternativa para a substituição do
amarelo-ouro. Com ela, são prepara-       Família botânica: Leguminoseae            óleo diesel, e mostrou grande
dos doces e outros subprodutos tradi-     Vegetação de ocorrência: Cerrado e        viabilidade técnica. Esse mesmo óleo
cionais. A polpa pode também ser          Cerradão                                  pode ser usado para a fabricação de
congelada e conservada por mais de        Características da planta: Árvore         sabões.
um ano. Com ela, produzem-se, hoje        com até dez metros de altura por          Fruto: Amarelo-castanho com polpa
em dia, diferentes tipos de sorvetes,     quatro a oito metros de diâmetro de       branca e amarelada. Semente redonda
cremes, geléias, licores e vitaminas de   copa.                                     e comestível. Frutifica de março a
sabores exóticos e alta concentração      Fruto: A época de coleta dos frutos é     junho.
de vitamina A.                            de setembro a novembro e a cor da         Cultivo: A germinação é baixa e
Outros usos: ornamental, medicinal e      casca do fruto maduro é castanho-         irregular. No período de 200 até 360
artesanato.                               amarronzada, com a polpa branca e         dias, germinam cerca de apenas 40%.
                                          amarelada                                 A produção de frutos inicia-se aos
Gabiroba - Figura 11                      Cultivo: As sementes devem ser esca-      seis anos após o plantio.
Nome popular: Gabiroba e guavira          rificadas mecanicamente e imersas em      Aproveitamento alimentar: a polpa
Nome científico: Camponesia cam-          água por 24 horas antes da semeadura.     dos frutos pode ser consumida in
bessedeana Berg.                          O crescimento da planta é lento.          natura, ou na
Família botânica: Myrtaceae               Aproveitamento alimentar: A pol-          forma de doces e geléias. A amêndoa
Vegetação de ocorrência: Cerrado,         pa é consumida in natura e na forma       pode ser consumida in natura ou na
Cerradão e Campo Sujo                     de geléia, licor e farinhas para bolos,   forma de paçocas.
Características da planta: Arbusto        pães e mingaus.                           Outros usos: planta melífera, orna-
com 60 a 80 centímetros de altura.        Outros usos: ornamental, industrial e     mental, medicinal e industrial.
                                                                                      Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento   41

Frutas Do Cerrado 2

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    FRUTOS DOS CERRADOS REPORTAGEM Preservação gera muitos frutos Maria Fernanda Diniz Avidos Lucas Tadeu Ferreira Os cerrados possuem 204 milhões de hectares e grande diversificação de fauna e flora Fotos: José Antônio da Silva Brasil possui cerca de como uma espécie de “patinho feio”, ção de alimentos do país, contribuindo trinta por cento das es- região de solos pobres e pouco férteis, com mais de 25% da produção nacio- pécies de plantas e de que não despertavam muito interesse nal de grãos alimentícios, além de animais conhecidas no nos agricultores e nos órgãos de defe- abrigar mais de 40% do rebanho bovi- mundo, que estão distri- sa ambiental. no do país. buídas em seus diferentes ecossiste- A partir dos anos 60, com a trans- Apesar das limitações impostas ao mas. É o país detentor da maior diver- ferência da capital federal do Rio de crescimento e ao desenvolvimento das sidade biológica do planeta. A região Janeiro para Brasília, localizada no plantas pelo regime de chuvas e pelas dos cerrados, com seus 204 milhões de coração dos cerrados, com a constru- características do solo, o ecossistema hectares – aproximadamente 25% do ção de estradas e com a adoção da cerrados apresenta surpreendente va- território nacional – apresenta grande política de interiorização e de integra- riabilidade de espécies. Distinguem- diversificação faunística e florística em ção nacional, essa região foi inserida se, nessa região, mais de 40 tipos suas diferentes fisionomias vegetais. no contexto da produção de alimentos fisionômicos de paisagens, dentre es- Até meados deste século, essa re- e de energia. Dessa maneira, de pe- ses o cerrado, o cerradão, o campo gião, que abrange principalmente os quena atividade agrícola de subsistên- limpo, o campo sujo, a vereda, a mata estados de Minas Gerais, Goiás, Mato cia e criação extensiva de gado, a de galeria e a mata calcárea. Essa Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocan- região passou a contribuir com grande vegetação, ainda pouco estudada, apre- tins, Bahia, Maranhão, Piauí e Distrito parte da produção de grãos e a abrigar senta grande potencial alimentar, ma- Federal, era considerada secundária expressivo número do rebanho bovi- deireiro, combustível, agroindustrial, para a produção agrícola. Naquele no do país. forrageiro, medicinal e ornamental. período, em que o mundo inteiro Hoje, graças ao desenvolvimento voltava a atenção para a Amazônia, de pesquisas e tecnologias que viabi- Fruteiras nativas preocupado com a devastação do que lizaram a sua utilização em bases eco- se costumava chamar de “o pulmão do nômicas, a região dos cerrados é um As fruteiras nativas ocupam lugar mundo”, os cerrados apareciam assim dos mais importantes pólos de produ- de destaque no ecossistema do cerra- 36 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
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    do e seusfrutos já são comercializados FIG. 1. Área de Cerrado degradada. Apesar da existência de leis de em feiras e com grande aceitação Ausência de práticas de conservação proteção à fauna, à flora e ao uso do popular. Esses frutos apresentam sa- do solo e presença de voçorocas e solo e água, elas são ignoradas pela bores sui generis e elevados teores de açoriamento de vereda maioria dos agricultores, que utilizam açúcares, proteínas, vitaminas e sais esses recursos naturais erroneamente, minerais e podem ser consumidos in na expectativa de maximizarem seus natura ou na forma de sucos, licores, lucros. Neste cenário, o ecossistema sorvetes, geléias etc. Hoje, existem cerrado tem sido agredido e depreda- mais de 58 espécies de frutas nativas do pela ação do fogo e dos tratores, dos cerrados conhecidas e utilizadas colocando em risco de extinção várias pela população da região e de outros rodovias a preços competitivos e al- espécies de plantas, entre elas algu- estados. cançando grande aceitação popular. mas fruteiras nativas, antes mesmo de O consumo das frutas nativas dos Observa-se, hoje, a existência de mer- serem classificadas pelos pesquisado- cerrados, há milênios consagrado pe- cado potencial e emergente para as res. los índios, foi de suma importância para a sobrevivência dos primeiros desbravadores e colonizadores da re- gião. Através da adaptação e do desen- volvimento de técnicas de beneficia- mento dessas frutas, o homem elabo- rou verdadeiros tesouros culinários regionais, tais como licores, doces, geléias, mingaus, bolos, sucos, sorve- tes e aperitivos. O interesse por essas frutas tem atingido diversos segmen- tos da sociedade, entre os quais desta- cam-se agricultores, industriais, do- nas-de-casa, comerciantes, instituições de pesquisa e assistência técnica, coo- perativas, universidades, órgãos de saúde e de alimentação, entre outros. O interesse industrial pelas frutas nativas dos cerrados foi intensificado FIG. 2. Desmatamento irracional, FIG. 3. Comercialização de frutos após os anos 40. A mangaba, por onde nem as plantas jovens são de araticum, oriundos de explora- exemplo, foi intensivamente explora- poupadas. Seu principal destino é ção extrativista e predatória, às da durante a Segunda Guerra Mundial, a carvoaria margens das estradas da região para exploração de látex. O babaçu e a macaúba foram bastante estudados frutas nativas do cerrado, a ser melhor A destruição de plantas e animais e na década de 70, em decorrência da explorado pelos agricultores, pois todo a poluição do solo, dos rios e da crise de petróleo, e mostraram grandes o aproveitamento desses frutos tem atmosfera vêm ocorrendo em proces- possibilidades para utilização em mo- sido feito de forma extrativista e pre- so acelerado, o que certamente com- tores de combustão, em substituição datória. prometerá de maneira significativa as ao óleo diesel. O pequi já foi industri- alizado, sendo o seu óleo enlatado e FIG. 4. Frutos de pequi comercializado. A polpa e o óleo da (Caryocar brasiliense Camb.) macaúba são utilizados na fabricação de sabão de coco. O palmito da guari- roba, de sabor amargo, começou a ser comercializado em conserva recente- mente, à semelhança do palmito doce. Os sorvetes de cagaita, araticum, pe- qui e mangaba continuam fazendo sucesso nas sorveterias do Distrito Federal e de Belo Horizonte. Extrativismo pode ser ameaça Atualmente, é possível encontrar grande quantidade de frutas nativas dos cerrados sendo comercializadas em feiras da região e nas margens das Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento 37
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    sustentável. A Embrapa, através de uma de suas 39 unidades de pesquisa: a Embrapa Cerrados, localizada em Planaltina, DF, tem realizado vários estudos sobre a germinação das sementes, produção de mudas, plantio, valor nutricional, FIG. 5. Frutos de baru ( Dipteryx beneficiamento, aproveitamento ali- alata Vog.), na planta mentar e armazenagem dos frutos dos cerrados. Uma boa solução para con- ter a devastação da região do cerrado, como explica o pesquisador da Em- brapa Recursos Genéticos e Biotecno- logia, também localizada em Brasília, DF, Dijalma Barbosa da Silva, é utilizar as áreas já abertas e abandonadas, FIG. 8. Frutos de mangaba FIG. 6. Amêndoas/sementes de para a produção, pois assim não seria (Hancornia speciosa Gomez.) frutos de baru ( Dipteryx alata preciso devastar novas áreas. Além Vog.) disso, a utilização dessas áreas reduzi- ria os custos para os produtores, visto de uma agricultura itinerante, como futuras gerações. O maior predador é, que já estão preparadas e limpas para faziam nossos ancestrais”, enfatiza Di- sem dúvida, o próprio homem, que o plantio, exigindo apenas investi- jalma. desconhece o potencial de utilização mentos em corretivos, adubações e Segundo o pesquisador, há cerca racional desse ecossistema, onde po- práticas conservacionistas. de duas décadas, a Embrapa iniciou dem estar guardados muitos segredos Existem várias tecnologias viáveis trabalho de investigação com as comu- de sua alimentação, saúde, proteção e e disponíveis para isso. Já é tempo do nidades rurais e indígenas da região, da sua própria vida. conceito de quantidade de área explo- com o objetivo de descobrir novas formas de aproveitamento das frutei- ras nativas dos cerrados. A riqueza dos FIG. 7. Frutos de araticum ( Annona cerrados ainda é pouco conhecida, crassiflora Mart.) como afirma Dijalma. De acordo com ele, o potencial mais conhecido hoje é a utilização das fruteiras, mas muito ainda tem que ser feito para o seu melhor aproveitamento. “Atualmente, essas frutas são consumidas mais na forma in natura e a sua comercializa- ção ainda é feita de maneira informal”, ressalta o pesquisador. Dentre as possibilidades atuais de utilização das fruteiras do cerrado, destacam-se: o plantio em áreas de proteção ambiental; o enriquecimento da flora das áreas mais pobres; a recuperação de áreas desmatadas ou degradadas; a formação de pomares domésticos e comerciais; e o plantio em áreas de reflorestamento, parques e jardins, e em áreas acidentadas. Nesse sentido, muitos agricultores e rada ser definitivamente substituído chacareiros já estão implantando po- Preservação dos cerrados pelo conceito de produtividade, onde mares de frutas nativas dos cerrados e o uso dos fatores de produção (solo, os viveiristas estão intensificando a Nos últimos anos, órgãos de pes- água, insumos, serviços etc.) são maxi- produção de mudas. quisa, ensino, proteção ambiental e mizados e a produção verticalizada, extensão rural da região têm estudado através de enfoque duradouro de sus- Fruteiras nativas têm que e divulgado o potencial de utilização tentabilidade do sistema de produção. ganhar novos espaços das espécies do cerrado, além de in- “Em pleno século XXI, conscientes de vestir na conscientização dos agricul- tantos erros do passado, não podemos Dijalma lembra que há grande po- tores quanto à importância de preser- admitir que a região dos cerrados tencial para a exportação dessas fru- vá-las e utilizá-las de forma racional e continue a ser explorada à semelhança tas, já que possuem um sabor sui 38 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
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    generis e nãosão encontradas em até 8 metros de altura, com tronco outros países. Hoje, o licor de pequi já tortuoso de casca áspera e rugosa. No é exportado para o Japão e a amêndoa período de setembro a dezembro, sur- do baru é demandada pela Alemanha; gem flores grandes amarelas. mas existem ainda muitas possibilida- Fruto: A polpa de coloração amarelo des de exportação de outras espécies intensa envolve um caroço duro for- nativas. “Precisamos investir na divul- mado por grande quantidade de pe- gação da importância dessas fruteiras quenos espinhos. Frutifica-se de e fazer com que elas saiam da beira da outubro a março. Em cem gramas de estrada, onde são vendidas hoje, e polpa de pequi podemos encontrar 20 cheguem às prateleiras dos supermer- mil microgramas de vitamina A. cados no Brasil e em outros países”, Cultivo: Como todas as fruteiras nati- afirma. vas do Cerrado, as mudas de pequi Entretanto, como explica o pesqui- devem ser produzidas em viveiros a sador, existem muitas limitações para “céu aberto”, logo após a coleta dos a exploração comercial das fruteiras frutos, em meados da estação chuvosa nativas, já que ainda não foram do- e o plantio pode ser feito no início da mesticadas e vêm sendo exploradas estação chuvosa seguinte. A planta FIG. 9. Frutos de cagaita de forma extrativista e predatória. Em prefere regiões quentes, sendo ideais (Eugenia dysenterica DC.) 1999, a Embrapa Cerrados iniciou a as regiões norte e centro-oeste do plantação do pequi e da mangaba para Brasil. A germinação das sementes é FIG. 10. Frutos de buriti pesquisa. O objetivo é avaliar o com- demorada. Para acelerá-la, deve-se (Mauritia vinífera Mart.) portamento dessas espécies em condi- colocá-las em imersão, em uma solu- ções de cultivo, inclusive com irriga- ção de ácido giberélico, na concentra- ção. “Em cerca de cinco anos, podere- ção de 0,5g por litro de água, por um mos ver os primeiros resultados”, afir- período de 48 horas. Cada planta adul- ma Dijalma. ta poderá produzir, em média, até dois É muito importante investir no tra- mil frutos por safra. O preço do litro de balho de domesticação das fruteiras caroços de pequi, com aproximada- nativas dos cerrados para que possam mente 17 unidades, tem sido comerci- ser cultivadas em lavouras comerciais, alizado no varejo, em feiras livres e afirma o pesquisador. Dessa forma, Ceasa-DF, ao preço que varia entre evita-se o extrativismo predatório, ao R$1,50 a R$3,00. A frutificação ocorre mesmo tempo em que se conservam normalmente aos cinco anos após o as espécies em seu hábitat natural. As plantio. pesquisas desenvolvidas pela Embra- Aproveitamento alimentar: O pe- pa têm ainda como objetivos a propa- qui é muito apreciado nas regiões gação vegetativa através de enxertia, onde ocorre: o arroz, o frango e o estaquia e cultura de tecidos e o me- feijão cozidos com pequi são pratos lhoramento genético das frutas nati- fortes da culinária regional; o licor de vas, através de cruzamentos entre es- pequi tem fama nacional e já é expor- pécies, o que certamente vai contri- tado para outros países; e há, também, buir ainda mais para aumentar a ex- uma boa variedade de receitas de portação e a comercialização em larga doces aromatizados com seu sabor. escala. “O cultivo das fruteiras nativas Outros usos: planta melífera, orna- dos cerrados em escala comercial evita mental, medicinal, cosmético e tintu- os riscos de sua extinção, aumenta a raria. renda dos agricultores, fornece maté- FIG. 11. Frutos de gabiroba ria-prima para a agroindústria e ali- Baru - Figura 5 (frutos de baru) (Camponesia cambessedeana mentos saudáveis para a população”, Figura 6 (amêndoas/sementes dos Berg.) finaliza Dijalma. frutos de baru) Informações Sobre as Fotos: Nome popular: Baru e cumbaru Pequi - Figura 4 Nome científico: Dipteryx alata Vog. Nome popular: pequi, pequi-do- Família botânica: Leguminosae - cerrado Papilionoideae Nome científico: Caryocar brasilien- Vegetação de ocorrência: Cerrado, se Camb. Cerradão e Mata Seca Família botânica: Caryocaceae Características da planta: Árvore de Vegetação de ocorrência: Cerrado, até 10 metros de altura com tronco que FIG. 12. Frutos de Jatobá Cerradão e Mata Seca pode atingir 70 cm de diâmetro. Copa (Hymenaea stigonocarpa Mart.) Características da planta: Árvore de densa e arredondada. Flores peque- Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento 39
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    nas, de coloraçãoalva e esverdeada, consumo in natura, são inúmeras as que surgem de outubro a janeiro. receitas de doces e bebidas que levam Fruto: Fruto castanho com amêndoa e o sabor perfumado e forte de sua polpa comestíveis, que amadurecem polpa; entre elas, incluem-se: batidas, de setembro a outubro. Cem gramas licores, refrescos, bolachas, bolos, sor- de amêndoas de Baru fornecem 617 vetes, cremes, geléias etc. calorias e 26% de proteína. Outros usos: ornamental e medici- FIG. 13. Frutos de Jenipapo (Genipa americana L.) Cultivo: O índice de germinação da nal. semente é superior a 90%. No viveiro e no campo, após o plantio, as mudas Mangaba - Figura 8 mostram um rápido crescimento e aos Nome popular: Mangaba quatro anos já iniciam a frutificação. Nome científico: Hancornia specio- Aproveitamento alimentar: O baru sa Gomez. fornece alimentos para o homem e Família botânica: Apocynaceae FIG. 14. Frutos de macaúba para os animais; torrada, a amêndoa Vegetação de ocorrencia: Cerrado, (Acrocomia aculeata (Jacq.) tem sabor igual ao do amendoim; e o Cerradão e áreas de Caatinga Lodd.) cultivo comercial poderá salvá-lo da Características da planta: Árvore extinção. com 4 a 6 metros de altura por 4 a 6 Embora tenha bom potencial econô- metros de diâmetro de copa. Durante mico, o fruto não é comercializado nas a Segunda guerra mundial, essa planta cidades. Pode ser apreciado apenas foi usada intensivamente para extra- como planta nativa nas fazendas do ção de látex. centro-oeste, onde alguns fazendeiros Fruto: A cor da casca do fruto maduro se preparam para iniciar seu cultivo é verde-amarelada ou verde-rosada e racional principalmente em meio a a polpa viscosa é esbranquiçada. A áreas de pastagens. frutificação ocorre entre os meses de Outros usos: ornamental e medicinal. outubro e dezembro. Cultivo: As sementes perdem rapida- Araticum - Figura 7 mente o poder germinativo. Por isso, Nome popular: anona; pinha-do-cer- devem ser semeadas logo após a sua rado; coração de boi; cabeça-de-ne- extração dos frutos. O uso de calcário gro; bruto, marolo e o excesso de irrigação e/ou matéria Nome científico: Annona crassiflora orgânica no substrato, para a forma- Mart. ção de mudas, prejudica o desenvolvi- FIG. 15. Processamento Família botânica: Annonaceae mento delas, além de favorecer o artesanal de frutos de cagaita Vegetação de ocorrência: Cerrado, ataque de doenças do sistema radicu- Cerradão e Campo Rupestre lar. A frutificação ocorre normalmente Características da planta: Árvore de aos cinco anos após o plantio. tamanho variável, podendo atingir até Aproveitamento alimentar: A pol- sete metros de altura, de acordo com a pa e a casca fina são consumidas in espécie. Flores freqüentemente car- natura e o fruto pode ser usado para nosas, de coloração esverdeada ou fazer sorvete, geléia, doces e licores. branco-amarelada. Florescem de se- Outros usos: planta melífera, orna- tembro a outubro. mental, medicinal e industrial. Fruto: Globoso ou alongado chegan- do a pesar até cinco quilos, contendo Cagaita - Figura 9 numerosas sementes presas a uma Nome popular: cagaiteira polpa amarelada, envolvida por uma Nome científico: Eugenia dysenteri- casca de coloração amarelo amarron- ca DC. zada, recoberta por escamas carnosas. Família botânica: Myrtaceae Frutificam de dezembro a abril. Vegetação de ocorrência: Cerrado e Cultivo: A germinação das sementes é Cerradão demorada. Para acelerá-la, deve-se Características da planta: Árvore de colocar as sementes em imersão, em porte médio que pode atingir de três a uma solução de ácido giberélico, na oito metros de altura. Flores brancas Fig. 16. Importância ecológica da concentração de 1,0g por litro de água, e aromáticas. vegetação para a fauna. Casas de João-de-barro do tipo BNH (Banco por um período de 36 horas. Prefere Fruto: Frutos de coloração amarelo- Nacional de Habitação). Até quan- clima quente com pouca chuva e esta- pálida, com 1 a 3 sementes brancas do os pássaros terão árvores para ção seca bem definida. Pode começar envoltas em polpa de coloração cre- fazer suas casas? a produzir em três anos após o plantio. me, de sabor acidulado. Aproveitamento alimentar: Além do Cultivo: No viveiro e no campo, após 40 Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento
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    o plantio, asmudas mostram um rápi- Normalmente ocorrem em moitas. medicinal. do crescimento e aos quatro anos de Flores pequenas de coloração creme- idade já iniciam a frutificação. esbranquiçada. Jenipapo - Figura 13 Aproveitamento alimentar: a polpa Fruto: Arredondados de coloração Nome popular: Jenipapo é utilizada como ingrediente de sucos, verde-amarelada. Polpa amarelada, Nome científico: Genipa americana refrescos, sorvetes, doces, geléias e suculenta, envolvendo numerosas se- L. licores. Os frutos maduros, se consu- mentes. Frutifica de setembro a de- Família botânica: Rubiaceae midos em excesso, principalmente zembro. Vegetação de ocorrência: Cerrado, aqueles caídos no solo e fermentados Cultivo: À semelhança da mangaba, Cerradão, Mata de Galeria e Mata ao sol, provocam reações intestinais Seca desagradáveis com diarréias. Características da planta: A árvore Outros usos: planta melífera, orna- tem de seis a oito metros de altura por mental e medicinal. quatro a seis metros de diâmetro de copa. Buriti - Figura 10 Fruto: A cor da casca do fruto maduro Nome popular: Buriti, mirití, palmei- é amarronzada, assim como a polpa. ra-dos-brejos Cultivo: No viveiro e no campo, Nome científico: Mauritia vinífera após o plantio, as mudas mostram um Mart. rápido crescimento e aos cinco anos Família botânica: Palmae FIG. 17. Produtos artesanais já iniciam a frutificação. Vegetação de ocorrência: Mata de elaborados com os frutos nativos Aproveitamento alimentar: A Galeria e Veredas do Cerrado polpa pode ser consumida in natura Características da planta: Palmeira ou utilizada para doces e licores. de porte elegante com até 15 metros Outros usos: medicinal e artesanato. de altura. Flores em longos cachos de suas sementes perdem rapidamente o até três metros de comprimento, de poder germinativo. Por isso, devem Macaúba - Figura 14 coloração amarelada. ser semeadas logo após a sua extração Nome popular: bocaiúva, coco- Fruto: Castanho-avermelhado, cober- dos frutos. Pode ser cultivada em can- babão, macaiba to por escamas, com polpa marcada- teiros. Nome científico: Acrocomia mente amarela e rica em cálcio. Fru- Aproveitamento alimentar: Além do aculeata (Jacq.) Lodd. tifica de outubro a março. consumo in natura, a gabiroba pode Família botânica: Palmae Cultivo: A germinação é lenta e irre- ser aproveitada na forma de sucos, Vegetação de ocorrência: Mata de gular. No período de 60 dias germinam doces e sorvetes, bem como servir de Seca e Cerradão cerca de 30% e mais 30% germinam matéria-prima para um saboroso licor. Características da planta: Palmeira aos 10 meses após a semeadura. As com caule densamente espinhoso de mudas podem ser produzidas em la- Jatobá-do-cerrado - Figura 12 até 10 metros de altura. O óleo boratório através da cultura de embri- Nome popular: Jatobá-do-cerrado, extraído dos frutos dessa planta foi ões. O crescimento da planta é lento. jataí e jutaí. bastante estudado durante os anos da Aproveitamento alimentar: Dos fru- Nome científico: Hymenaea stigono- crise do petróleo, como fonte tos do buriti, aproveita-se a polpa carpa Mart. alternativa para a substituição do amarelo-ouro. Com ela, são prepara- Família botânica: Leguminoseae óleo diesel, e mostrou grande dos doces e outros subprodutos tradi- Vegetação de ocorrência: Cerrado e viabilidade técnica. Esse mesmo óleo cionais. A polpa pode também ser Cerradão pode ser usado para a fabricação de congelada e conservada por mais de Características da planta: Árvore sabões. um ano. Com ela, produzem-se, hoje com até dez metros de altura por Fruto: Amarelo-castanho com polpa em dia, diferentes tipos de sorvetes, quatro a oito metros de diâmetro de branca e amarelada. Semente redonda cremes, geléias, licores e vitaminas de copa. e comestível. Frutifica de março a sabores exóticos e alta concentração Fruto: A época de coleta dos frutos é junho. de vitamina A. de setembro a novembro e a cor da Cultivo: A germinação é baixa e Outros usos: ornamental, medicinal e casca do fruto maduro é castanho- irregular. No período de 200 até 360 artesanato. amarronzada, com a polpa branca e dias, germinam cerca de apenas 40%. amarelada A produção de frutos inicia-se aos Gabiroba - Figura 11 Cultivo: As sementes devem ser esca- seis anos após o plantio. Nome popular: Gabiroba e guavira rificadas mecanicamente e imersas em Aproveitamento alimentar: a polpa Nome científico: Camponesia cam- água por 24 horas antes da semeadura. dos frutos pode ser consumida in bessedeana Berg. O crescimento da planta é lento. natura, ou na Família botânica: Myrtaceae Aproveitamento alimentar: A pol- forma de doces e geléias. A amêndoa Vegetação de ocorrência: Cerrado, pa é consumida in natura e na forma pode ser consumida in natura ou na Cerradão e Campo Sujo de geléia, licor e farinhas para bolos, forma de paçocas. Características da planta: Arbusto pães e mingaus. Outros usos: planta melífera, orna- com 60 a 80 centímetros de altura. Outros usos: ornamental, industrial e mental, medicinal e industrial. Biotecnologia Ciência & Desenvolvimento 41