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DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO
FloresSilvestres:
adiversidadedeserviços
ecossistémicos,tão
importantes,belosegratuitos
Muitos olhos atravessam o prado,
mas poucos vêm as flores nele
Nas flores, a terra sorri
Ralph Waldo Emerson
Cada planta é uma “estrela” terrestre
cujas propriedades celestes estão marcadas nas cores das pétalas das suas flores,
e as suas propriedades terrestres na forma das folhas
Paracelso (séc XVI)
Texto e Fotos: Alcide Gonçalves [Arquiteta Paisagista] e
Jorge Moreira [Ambientalista e Investigador]
71
DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO
A
s nossas infâncias eram repletas de cor e fragrância. Não
éramos indiferentes a algo de misterioso que se elevava
da terra e se transformava em pétalas coloridas e per-
fumadas. Em cada esquina, em cada recanto, beira ou campo,
lá estavam elas sorridentes para quem passasse naquele sol de
primavera. Estas telas naturais, pintavam docemente a nossa
imaginação. Estamos a falar das flores silvestres, obviamente,
que encantavam as nossas brincadeiras e sonhos e que tinham
um papel importante no ecossistema onde se inseriam. Mas,
parece que o encanto da infância que muitos de nós tínhamos se
desvaneceu ou, infelizmente, muitos tiveram uma infância alie-
nada destes seres tanto misteriosos, como belos, porque, a dada
altura, começaram a exigir o seu corte por todo o lado, ora porque
poderiam ser vistas como potencial combustível num incêndio,
ora porque achavam que as flores silvestres não deveriam fazer
parte do nosso mundo. Pior ainda, quando eram envenenadas
com glifosato ou outro químico nocivo para o Ambiente. O nosso
mundo está a acabar com o sorriso das flores silvestres e isso não
é nada bom.
As flores silvestres estão adaptadas às condições locais e tra-
zem uma panóplia de serviços de ecossistema importantíssimos.
Alguns deles eram largamente conhecidos pelos cuidadores dos
campos agrícolas da nossa infância, nomeadamente o seu poten-
cial polinizador e controlador de pragas. Mas o mundo esqueceu
esses serviços gratuitos e preferiu pagar por químicos com a
mesma finalidade, esquecendo o enorme impacto que esses pro-
dutos provocam na Natureza e na saúde humana.
Foi preciso realizar alguns estudos académicos para demonstrar
novamente as valências das flores silvestres, também na ten-
tativa de começar a inverter todo o processo de desprezo que
temos mostrado por estes seres tão belos e importantes. Um
dos estudos mais interessantes realizados sobre esta temática,
liderado por Emily Martin, foi publicado este ano (7 de abril) na
revista ‘Ecology Letters’ com o título ‘The interplay of landscape
composition and configuration: new pathways to manage func-
tional biodiversity and agroecosystem services across Europe’.
Depois de analisadas mais de 1.500 paisagens por toda a Europa,
as conclusões do estudo foram óbvias: os locais onde se encon-
travam flores silvestres tinham uma produtividade superior das
colheitas agrícolas, porque esses locais tinham maior abundância
de artrópodes polinizadores e controladores naturais de pragas,
respectivamente 70% e 44%, do que os campos onde estas flo-
res estavam ausentes. Nesse sentido, tanto a Inglaterra como
a Suíça já estão a utilizar faixas de flores silvestres em algumas
plantações para diminuir o uso de pesticidas. Esta medida traduz
também uma preocupação com as abelhas, onde o uso de certos
pesticidas, especialmente os neonicotinóides, encontra uma rela-
ção direta com a diminuição das suas populações.
Assim, as flores silvestre contribuem para a diversidade biológica
nos ecossistemas, aumentam a produção agrícola, diminuem o
uso de pesticidas e tornam a agricultura mais sustentável e sadia.
Tudo isto, e ainda pintam com o aroma da cor, da forma e fra-
grância onde se encontram. São realmente seres especiais, que
merecem toda a nossa atenção e consideração.
Da funcionalidade ecológica à estética da paisagem
Papoila, camomila, esteva, urze, serralha, olho-de-mocho,
malmequer, dente-de-leão, verbasco, dedaleira, rosa brava,
silva, margacinha, carqueja, maias, cizirão, rosmaninho, ale-
crim, fazem parte de um extenso elenco de flores que povoam
o nosso imaginário de uma natureza silvestre ou espontânea e
que as associamos de imediato ao campo ou a diversas zonas
naturais. São elas as responsáveis, em grande parte, pelos cro-
mas na paisagem, marcando a sazonalidade das estações e os
ciclos naturais. Este é o imaginário colectivo inesquecivelmente
retratado por pintores como Claude Monet (1840-1926), Pierre
Auguste Renoir (1841-1919), Vincent Van Gogh (1853-1890) e
que eternizam as flores campestres nas paisagens transcritas
para as telas.
É esta característica de cor que as flores imprimem à paisagem
e lhes cria atributos de grande interesse visual e qualidade
paisagística. Cunham uma certa vivacidade aos lugares e confe-
7272
DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO
rem-lhes um elevado valor estético, apreendido pelo ser humano
como cenários idílicos apetecíveis de permanecer e deles pode-
mos extrair a tranquilidade, plenitude, bem-estar e felicidade,
aproximando-nos ainda da imagem dos Campos Elíseos, isto é,
da ideia do Paraíso, que reside no âmago da nossa essência.
O movimento ‘Garden for wildlife’, criado nos anos 70, incen-
tiva os americanos a plantar espécies nativas (autóctones na
terminologia portuguesa), desde flores silvestres a árvores,
e fornecer fontes naturais de alimento, água e abrigo para o
desenvolvimento da vida silvestre nos seus quintais, pátios ou
outros espaços comuns. Só em 2018, pelo seu 45º aniversá-
rio, entre quintais, jardins, campos e outras áreas, a federação
onde este movimento está ancorado, certificou mais de 2,5
milhões de acres (equivalente a 1,10 milhões de hectares) que
suportam e protegem animais silvestres incluindo pássaros,
abelhas, borboletas e outras espécies de interesse faunístico
(blog.nwf.org).
Esta iniciativa (re)conecta os vários espaços de vizinhança,
como bairros, cidades e faz interconexão com outras cidades
criando-se, assim, surpreendentes habitats e corredores ecoló-
gicos, à escala do país, para a conservação da vida silvestre. Em
Portugal, esta iniciativa está contemplada no quadro legal que
sustenta o bom ordenamento do território, e é (ou deveria ser)
promovida pelos PMOT’s - Planos Municipais de Ordenamento
do Território, [D.L. 310/2003], através da criação de uma
Estrutura Verde Ecológica, no qual os Corredores Verdes -
espaços com espécies da flora local - desempenham esta função
ecológica de interconectividade.
Para termos uma ideia mais concreta da importância destas
estruturas ecológicas e das campanhas que fomentam a vida
silvestre, damos como exemplo o trabalho de uma só abelha que
visita dez flores por minuto em busca de pólen e do néctar, faz
em média, quarenta voos diários, tocando em 40 mil flores.
As flores silvestres são essa fonte inesgotável de alimento.
Os seus doces néctares ricos em água, açúcares e hidratos de
carbono tornam-se manjares faustosos para uma miríade de
espécies – aves, insectos e mamíferos. Em termos biológicos,
o néctar é o suco da vida e o que promove o aparecimento na
Terra de muitas espécies vegetais e animais, através desta rela-
ção mútua entre estes dois reinos. É como um leite materno que
alimenta a vida. Para a tradição ‘Veda’, o néctar é o líquido pre-
cioso da compaixão que jorra dos ‘Bodhisattva’, isto é, dos seres
já iluminados. É esta compaixão entre seres que a Natureza nos
mostra, pois ela é intrínseca à orgânica da vida. Néctar, vem do
sânscrito e significa imortal, sendo também um dos símbolos
sagrados associado à renovação da vida.
É exactamente a renovação da Natureza que nos trazem as
flores silvestres, tanto mais valiosa, quanto estas se encontram
em ambiente “inerte” como são o caso das cidades. Trazer estas
plantas para os nossos espaços de lazer - jardins e parques - é
integrar a diversidade biológica, é criar habitats e nichos ecoló-
gicos, mas também, é trazer a dimensão do sagrado manifestado
em cada uma dessas flores, permitindo-nos estar próximo e
fazer parte deste plasma subtil que envolve a vida.
Plante flores silvestres!

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Flores silvestres - O instalador 279

  • 1. 70 DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO FloresSilvestres: adiversidadedeserviços ecossistémicos,tão importantes,belosegratuitos Muitos olhos atravessam o prado, mas poucos vêm as flores nele Nas flores, a terra sorri Ralph Waldo Emerson Cada planta é uma “estrela” terrestre cujas propriedades celestes estão marcadas nas cores das pétalas das suas flores, e as suas propriedades terrestres na forma das folhas Paracelso (séc XVI) Texto e Fotos: Alcide Gonçalves [Arquiteta Paisagista] e Jorge Moreira [Ambientalista e Investigador]
  • 2. 71 DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO A s nossas infâncias eram repletas de cor e fragrância. Não éramos indiferentes a algo de misterioso que se elevava da terra e se transformava em pétalas coloridas e per- fumadas. Em cada esquina, em cada recanto, beira ou campo, lá estavam elas sorridentes para quem passasse naquele sol de primavera. Estas telas naturais, pintavam docemente a nossa imaginação. Estamos a falar das flores silvestres, obviamente, que encantavam as nossas brincadeiras e sonhos e que tinham um papel importante no ecossistema onde se inseriam. Mas, parece que o encanto da infância que muitos de nós tínhamos se desvaneceu ou, infelizmente, muitos tiveram uma infância alie- nada destes seres tanto misteriosos, como belos, porque, a dada altura, começaram a exigir o seu corte por todo o lado, ora porque poderiam ser vistas como potencial combustível num incêndio, ora porque achavam que as flores silvestres não deveriam fazer parte do nosso mundo. Pior ainda, quando eram envenenadas com glifosato ou outro químico nocivo para o Ambiente. O nosso mundo está a acabar com o sorriso das flores silvestres e isso não é nada bom. As flores silvestres estão adaptadas às condições locais e tra- zem uma panóplia de serviços de ecossistema importantíssimos. Alguns deles eram largamente conhecidos pelos cuidadores dos campos agrícolas da nossa infância, nomeadamente o seu poten- cial polinizador e controlador de pragas. Mas o mundo esqueceu esses serviços gratuitos e preferiu pagar por químicos com a mesma finalidade, esquecendo o enorme impacto que esses pro- dutos provocam na Natureza e na saúde humana. Foi preciso realizar alguns estudos académicos para demonstrar novamente as valências das flores silvestres, também na ten- tativa de começar a inverter todo o processo de desprezo que temos mostrado por estes seres tão belos e importantes. Um dos estudos mais interessantes realizados sobre esta temática, liderado por Emily Martin, foi publicado este ano (7 de abril) na revista ‘Ecology Letters’ com o título ‘The interplay of landscape composition and configuration: new pathways to manage func- tional biodiversity and agroecosystem services across Europe’. Depois de analisadas mais de 1.500 paisagens por toda a Europa, as conclusões do estudo foram óbvias: os locais onde se encon- travam flores silvestres tinham uma produtividade superior das colheitas agrícolas, porque esses locais tinham maior abundância de artrópodes polinizadores e controladores naturais de pragas, respectivamente 70% e 44%, do que os campos onde estas flo- res estavam ausentes. Nesse sentido, tanto a Inglaterra como a Suíça já estão a utilizar faixas de flores silvestres em algumas plantações para diminuir o uso de pesticidas. Esta medida traduz também uma preocupação com as abelhas, onde o uso de certos pesticidas, especialmente os neonicotinóides, encontra uma rela- ção direta com a diminuição das suas populações. Assim, as flores silvestre contribuem para a diversidade biológica nos ecossistemas, aumentam a produção agrícola, diminuem o uso de pesticidas e tornam a agricultura mais sustentável e sadia. Tudo isto, e ainda pintam com o aroma da cor, da forma e fra- grância onde se encontram. São realmente seres especiais, que merecem toda a nossa atenção e consideração. Da funcionalidade ecológica à estética da paisagem Papoila, camomila, esteva, urze, serralha, olho-de-mocho, malmequer, dente-de-leão, verbasco, dedaleira, rosa brava, silva, margacinha, carqueja, maias, cizirão, rosmaninho, ale- crim, fazem parte de um extenso elenco de flores que povoam o nosso imaginário de uma natureza silvestre ou espontânea e que as associamos de imediato ao campo ou a diversas zonas naturais. São elas as responsáveis, em grande parte, pelos cro- mas na paisagem, marcando a sazonalidade das estações e os ciclos naturais. Este é o imaginário colectivo inesquecivelmente retratado por pintores como Claude Monet (1840-1926), Pierre Auguste Renoir (1841-1919), Vincent Van Gogh (1853-1890) e que eternizam as flores campestres nas paisagens transcritas para as telas. É esta característica de cor que as flores imprimem à paisagem e lhes cria atributos de grande interesse visual e qualidade paisagística. Cunham uma certa vivacidade aos lugares e confe-
  • 3. 7272 DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO rem-lhes um elevado valor estético, apreendido pelo ser humano como cenários idílicos apetecíveis de permanecer e deles pode- mos extrair a tranquilidade, plenitude, bem-estar e felicidade, aproximando-nos ainda da imagem dos Campos Elíseos, isto é, da ideia do Paraíso, que reside no âmago da nossa essência. O movimento ‘Garden for wildlife’, criado nos anos 70, incen- tiva os americanos a plantar espécies nativas (autóctones na terminologia portuguesa), desde flores silvestres a árvores, e fornecer fontes naturais de alimento, água e abrigo para o desenvolvimento da vida silvestre nos seus quintais, pátios ou outros espaços comuns. Só em 2018, pelo seu 45º aniversá- rio, entre quintais, jardins, campos e outras áreas, a federação onde este movimento está ancorado, certificou mais de 2,5 milhões de acres (equivalente a 1,10 milhões de hectares) que suportam e protegem animais silvestres incluindo pássaros, abelhas, borboletas e outras espécies de interesse faunístico (blog.nwf.org). Esta iniciativa (re)conecta os vários espaços de vizinhança, como bairros, cidades e faz interconexão com outras cidades criando-se, assim, surpreendentes habitats e corredores ecoló- gicos, à escala do país, para a conservação da vida silvestre. Em Portugal, esta iniciativa está contemplada no quadro legal que sustenta o bom ordenamento do território, e é (ou deveria ser) promovida pelos PMOT’s - Planos Municipais de Ordenamento do Território, [D.L. 310/2003], através da criação de uma Estrutura Verde Ecológica, no qual os Corredores Verdes - espaços com espécies da flora local - desempenham esta função ecológica de interconectividade. Para termos uma ideia mais concreta da importância destas estruturas ecológicas e das campanhas que fomentam a vida silvestre, damos como exemplo o trabalho de uma só abelha que visita dez flores por minuto em busca de pólen e do néctar, faz em média, quarenta voos diários, tocando em 40 mil flores. As flores silvestres são essa fonte inesgotável de alimento. Os seus doces néctares ricos em água, açúcares e hidratos de carbono tornam-se manjares faustosos para uma miríade de espécies – aves, insectos e mamíferos. Em termos biológicos, o néctar é o suco da vida e o que promove o aparecimento na Terra de muitas espécies vegetais e animais, através desta rela- ção mútua entre estes dois reinos. É como um leite materno que alimenta a vida. Para a tradição ‘Veda’, o néctar é o líquido pre- cioso da compaixão que jorra dos ‘Bodhisattva’, isto é, dos seres já iluminados. É esta compaixão entre seres que a Natureza nos mostra, pois ela é intrínseca à orgânica da vida. Néctar, vem do sânscrito e significa imortal, sendo também um dos símbolos sagrados associado à renovação da vida. É exactamente a renovação da Natureza que nos trazem as flores silvestres, tanto mais valiosa, quanto estas se encontram em ambiente “inerte” como são o caso das cidades. Trazer estas plantas para os nossos espaços de lazer - jardins e parques - é integrar a diversidade biológica, é criar habitats e nichos ecoló- gicos, mas também, é trazer a dimensão do sagrado manifestado em cada uma dessas flores, permitindo-nos estar próximo e fazer parte deste plasma subtil que envolve a vida. Plante flores silvestres!