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DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO
ACiência(que)quer
salvaraHumanidadeII
A Extinção em Massa.
Não há nada em mim que não seja da terra,
em nenhum instante estou separado,
nenhuma partícula me desliga do ambiente.
Eu não sou menos que a própria terra.
Os rios correm pelas minhas veias,
os ventos sopram para dentro e para fora com a minha respiração,
o solo faz minha carne,
o calor do sol queima dentro de mim.
Uma doença ou ferimento que cai sobre a terra me atinge.
Uma molécula suja que atravessa a terra corre através de mim.
Onde a terra é purificada e nutrida, sua pureza me infunde.
A vida da terra é a minha vida.
Meus olhos são a terra a olhar para si própria ...
Eu sou a ilha e a ilha sou eu.
Richard Nelson
Texto e Fotos: Jorge Moreira [Ambientalista e Investigador]
63
DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO
N
a edição de dezembro de 2017 dediquei este espaço
ao aviso que a comunidade científica tinha dado na
altura dirigido a toda a Humanidade sobre o rumo sui-
cida que esta estava a levar. Numa carta publicada na revista
BioScience, subscrita por mais de 15.000 cientistas de todo o
mundo e alavancada por dados científicos consubstanciados em
vários parâmetros, podemos ler: especialmente perturbadora é a
trajetória atual das alterações climáticas potencialmente catas-
tróficas, devidas ao aumento dos gases de efeito estufa emitidos
pela queima de combustíveis fósseis, desflorestação e produção
agropecuária – particularmente do gado ruminante para consumo
de carne. Além disso, desencadeamos um evento de extinção em
massa, o sexto em cerca de 540 milhões de anos, no âmbito do
qual muitas formas de vida atuais podem ser aniquiladas ou, ao
menos, condenadas à extinção até o final deste século.
Este aviso à Humanidade não foi o primeiro. Em 1992, antes 25
anos, a comunidade científica já se tinha pronunciado sobre o
caminho que estávamos a levar e alertava que era necessária uma
grande mudança na nossa gestão da Terra e da vida para se evitar
uma vasta miséria humana. Entre o primeiro e o segundo aviso, os
dados disponíveis em séries históricas só verificaram um progresso,
que corresponde à estabilização da camada de ozono estratosfé-
rico, tendo o resto piorado de forma alarmante. Contudo, deste
então, nem mesmo esse pequeno passo positivo foi alvo de des-
preocupação. Depois de um período em que efetivamente vimos o
buraco da camada de ozono começar a diminuir, chegaram as más
notícias, quando uma equipa de investigadores divulgou, em maio
de 2018, na revista ‘Nature’, que estavam a ser emitidos CFC11 para
a atmosfera e que estes estavam a contribuir para a destruição da
camada de ozono. Agora, um relatório da Agência de Investigação
Ambiental aponta duas províncias da China como locais da ori-
gem das emissões, provavelmente de fábricas de espuma para
isolamento. Os CFC (triclorofluorometanos), foram utilizados nos
sistemas refrigeradores, espumas, aerossóis e solventes, tendo
sido proibidos devido à sua relação com a destruição da camada de
ozono, que nos protege dos raios de sol prejudiciais e cuja debili-
dade da camada acarreta impactos tanto para a nossa saúde, como
para a vida em geral. Portanto, e infelizmente, voltamos à totali-
dade das preocupações declaradas em 1992, com a agravante da
situação estar atualmente de um modo geral muito pior do que
à data, onde já se temia o fato da humanidade estar a impelir os
ecossistemas da Terra para além da sua capacidade de suportar a
teia da vida (…) aproximando-nos de muitos dos limites do que o
planeta pode tolerar sem danos substanciais e irreversíveis. Muitos
dos danos já são substanciais e irreversíveis.Pelo menos 680 espé-
cies de vertebradas foram levadas à extinção por ações humanas
desde o século XVI e os refugiados que chegam à Europa, vindos
de países como a Síria, segundo o Príncipe Carlos e Al Gore, são
também por motivos climáticos. A seca de 2006-2010 converteu
a terra fértil num deserto. As cheias e as secas na América Central
também têm impulsionado a emigração em direção aos Estados
Unidos. Estamos cada vez mais conscientes com a intensidade e a
frequência dos fenómenos meteorológicos extremos relacionados
com as alterações climáticas, sendo alguns deles em locais histo-
ricamente sem registo de tais eventos. Moçambique continua na
memória e Portugal encontra-se agora na rota dos furacões.
1.000.000 de espécies ameaçadas de extinção
A Plataforma Intergovernamental da Ciência-Política em
Biodiversidade e Serviços de Ecossistemadas Nações Unidas
(IPBES), que esteve recentemente reunida em Paris, na sua 7ª ses-
são, lançou um relatório que também traça um cenário dantesco
para a vida no Planeta. Há um declínio perigoso da Natureza sem
precedentes, com um aceleramento das taxas de extinção de
espécies. O relatório, baseado em 15.000 trabalhos científicos,
menciona 1.000.000 de espécies ameaçadas de extinção; sendo
40% das espécies de anfíbios; cerca de 33% dos mamíferos mari-
nhos, tubarões e recifes que formam corais; 25% da proporção
média das espécies nos grupos terrestres, de água doce e verte-
brados marinhos, invertebrados e plantas; e 10% da proporção de
espécies de insetos. Há um declínio de mais de 20% na abundância
média de espécies nativas na maioria dos principais biomas terres-
tres; cerca de 10% das raças de mamíferos domesticados foram
extintas até 2016, estando pelo menos mais 1.000 ameaçadas; e
6464
DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO
3,5% das raças de aves domesticadas foram extintas até 2016. 30%
dos habitats viram a sua integridade ameaçada; 47% da proporção
de mamíferos terrestres que não voam e 23% das aves ameaçadas
podem ter já as suas distribuições impactadas negativamente pelas
alterações climáticas. Em contrapartida, desde os anos 70 do século
passado, houve um aumento de 70% do número de espécies exó-
ticas invasoras, nos 21 países com registos detalhados. As florestas
viram a sua área diminuir cerca de 32% relativamente ao período
pré-industrial.
Paralelamente, o último relatório ‘Planeta Vivo’ da WWF revela uma
redução mundial da população de animais vertebrados em 52% em
apenas quatro décadas. A investigação baseou-se em dados de
mais de três mil espécies entre 1970 e 2010.
O Relatório do IPBES dá-nos ainda uma série de outros elementos
valiosos para percebermos a as causas antrópicas que ameaçam a
vida e a diversidade na Terra. Uma delas está relacionada com a área
dedicada à produção agrícola e pecuária, que ocupa mais de 33% da
superfície terrestre e consome cerca de 75% dos recursos de água
doce. Este problema agrava-se quando percebemos que muita da
desflorestação acontece precisamente para dar lugar à agropecuá-
ria e que ambas emitem num total de 25% de gases com efeito de
estufa, coma produção de alimentos de origem animal a contribuir
com 75% desse valor.Para além desta(s) causa(s), o relatório refere
as alterações do uso do solo, a pesca intensiva, a exploração direta
de organismos, as alterações climáticas, a poluição e as espécies
exóticas invasoras como promotoras do problema.Contudo, o rela-
tório do IPBES menciona o aumento demográfico, a economia e o
6666
DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO
comércio globais e a política como as causas mais profundas: nos
últimos 50 anos, a população humana dobrou, a economia global
cresceu quase quatro vezes e o comércio global cresceu dez vezes,
juntos impulsionaram as necessidades de energia e materiais. Uma
variedade de fatores económicos, políticos e sociais, incluindo o
comércio global e a dissociação espacial entre produção e con-
sumo, deslocaram os ganhos e perdas económicas e ambientais da
produção e do consumo, contribuindo para novas oportunidades
económicas, mas também impactos na natureza e seus contributos
para as pessoas.
Sandra Díaz, uma das co-presidentes que fez a avaliação do IPBES,
refere que a biodiversidade e as contribuições da natureza para
as pessoas são a nossa herança comum e a mais importante 'rede
de segurança' de apoio à vida da humanidade. Isto quer dizer que
dependemos da Natureza e da biodiversidade para o nosso bem-
-estar e, acima de tudo, para a nossa sobrevivência como espécie
e como Humanidade. O relatório IPBES é perentório quanto à
importância da Natureza, quando referencia mais de 70% dos
medicamentos contra o cancro são produtos naturais ou sintéticos
inspirados na Natureza, e que 4 mil milhões de pessoas dependem
principalmente de medicamentos naturais. Perante estes factos,
quantas doenças novas poderão surgir no futuro, cujas soluções
se encontram nos elementos naturais? E se, entretanto, esses ele-
mentos já não existirem, se pertencessem a espécies entretanto
extintas? Esta é uma das muitas questões éticas que se colocam
relativamente ao uso e abuso dos recursos naturais e à extin-
ção maciça de espécies. Quem nos deu o direito para podermos
extinguir espécies na Terra? Com que direito destruímos o mundo
natural? Que mundo vamos deixar às gerações futuras? Que mora-
lidade temos quando colocamos o futuro da Humanidade em
causa? Não há dúvidas quanto à origem e dimensão dos proble-
mas ambientais e do impacto na biodiversidade, assim como para
as gerações futuras. Todas as perguntas terão de ser respondidas
mais cedo ou mais tarde, porque afinal somos seres humanos, com
valores e são esses valores que nos dão a humanidade. Uma coisa é
certa: a comunidade científica tem dado um inestimável contributo,
tanto para o esclarecimento da situação, perigos e soluções, como
na forma de ativismo. Recentemente um Manifesto assinado por
600 cientistas pediuà União Europeia para parar de 'importar des-
matamento' do Brasil.
Todos os relatórios/avisos da comunidade científica dizem que o
que temos feito para salvar o Planeta é insuficiente e precisamos
de alterações profundas na nossa sociedade, de uma ‘mudança
transformadora’ para restaurar e proteger a Natureza e garantir um
futuro para a Humanidade. Ainda não é tarde demais, mas ama-
nhã já vai ser tarde demais. É necessário começar hoje, agora, e
podemos fazê-lo através das nossas escolhas, nomeadamente
com o que comemos, o que vestimos, como nos deslocamos, etc.
Sejamos proativos. Mas também é necessário desconstruir os inte-
resses instalados na sociedade, para dar primazia ao bem-comum,
fazendo com que a defesa do bem-comum seja sinónimo de defesa
da Natureza. O relatório do IPBES diz que a ‘mudança transforma-
dora’, implica uma reorganização fundamental de todo o sistema,
incluindo paradigmas, metas e valores.
Podemos começar com as metas sugeridas por um estudo publi-
cado na revista científica ScienceAdvances, intitulado “Um Acordo
Global pela Natureza: princípios norteadores, parâmetros e metas”,
onde se incentiva os países até 2030 a aumentar as suas áreas
de proteção para 30% e acrescentar mais 20% como áreas de
estabilização climática, para alcançar um total de 50% de área des-
tinada à conservação da Natureza. Estas ações daria a esperança
para nos mantermos abaixo da meta perigosa, que um aumento de
temperatura média global superior a 1,5º Celsius traria, e impedir
o declínio dos ecossistemas do mundo. Precisamos também de
mudar o paradigma de uma economia em guerra constante com
a Natureza, para uma economia solidária, equitativa e ecologi-
camente sustentável, e rever os nossos valores, para incluir uma
ética que integre a vida e a Natureza, porque a vida é a nossa mais
preciosa natureza e a Natureza é a nossa mãe e fonte do nosso
precioso sustento. Vamos dar ouvidos à ciência que quer salvar a
Humanidade e a biodiversidade! •

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A Ciência (que) Quer Salvar a Humanidade II - A Extinção em Massa, Jorge Moreira, O Instalador 278

  • 1. 62 DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO ACiência(que)quer salvaraHumanidadeII A Extinção em Massa. Não há nada em mim que não seja da terra, em nenhum instante estou separado, nenhuma partícula me desliga do ambiente. Eu não sou menos que a própria terra. Os rios correm pelas minhas veias, os ventos sopram para dentro e para fora com a minha respiração, o solo faz minha carne, o calor do sol queima dentro de mim. Uma doença ou ferimento que cai sobre a terra me atinge. Uma molécula suja que atravessa a terra corre através de mim. Onde a terra é purificada e nutrida, sua pureza me infunde. A vida da terra é a minha vida. Meus olhos são a terra a olhar para si própria ... Eu sou a ilha e a ilha sou eu. Richard Nelson Texto e Fotos: Jorge Moreira [Ambientalista e Investigador]
  • 2. 63 DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO N a edição de dezembro de 2017 dediquei este espaço ao aviso que a comunidade científica tinha dado na altura dirigido a toda a Humanidade sobre o rumo sui- cida que esta estava a levar. Numa carta publicada na revista BioScience, subscrita por mais de 15.000 cientistas de todo o mundo e alavancada por dados científicos consubstanciados em vários parâmetros, podemos ler: especialmente perturbadora é a trajetória atual das alterações climáticas potencialmente catas- tróficas, devidas ao aumento dos gases de efeito estufa emitidos pela queima de combustíveis fósseis, desflorestação e produção agropecuária – particularmente do gado ruminante para consumo de carne. Além disso, desencadeamos um evento de extinção em massa, o sexto em cerca de 540 milhões de anos, no âmbito do qual muitas formas de vida atuais podem ser aniquiladas ou, ao menos, condenadas à extinção até o final deste século. Este aviso à Humanidade não foi o primeiro. Em 1992, antes 25 anos, a comunidade científica já se tinha pronunciado sobre o caminho que estávamos a levar e alertava que era necessária uma grande mudança na nossa gestão da Terra e da vida para se evitar uma vasta miséria humana. Entre o primeiro e o segundo aviso, os dados disponíveis em séries históricas só verificaram um progresso, que corresponde à estabilização da camada de ozono estratosfé- rico, tendo o resto piorado de forma alarmante. Contudo, deste então, nem mesmo esse pequeno passo positivo foi alvo de des- preocupação. Depois de um período em que efetivamente vimos o buraco da camada de ozono começar a diminuir, chegaram as más notícias, quando uma equipa de investigadores divulgou, em maio de 2018, na revista ‘Nature’, que estavam a ser emitidos CFC11 para a atmosfera e que estes estavam a contribuir para a destruição da camada de ozono. Agora, um relatório da Agência de Investigação Ambiental aponta duas províncias da China como locais da ori- gem das emissões, provavelmente de fábricas de espuma para isolamento. Os CFC (triclorofluorometanos), foram utilizados nos sistemas refrigeradores, espumas, aerossóis e solventes, tendo sido proibidos devido à sua relação com a destruição da camada de ozono, que nos protege dos raios de sol prejudiciais e cuja debili- dade da camada acarreta impactos tanto para a nossa saúde, como para a vida em geral. Portanto, e infelizmente, voltamos à totali- dade das preocupações declaradas em 1992, com a agravante da situação estar atualmente de um modo geral muito pior do que à data, onde já se temia o fato da humanidade estar a impelir os ecossistemas da Terra para além da sua capacidade de suportar a teia da vida (…) aproximando-nos de muitos dos limites do que o planeta pode tolerar sem danos substanciais e irreversíveis. Muitos dos danos já são substanciais e irreversíveis.Pelo menos 680 espé- cies de vertebradas foram levadas à extinção por ações humanas desde o século XVI e os refugiados que chegam à Europa, vindos de países como a Síria, segundo o Príncipe Carlos e Al Gore, são também por motivos climáticos. A seca de 2006-2010 converteu a terra fértil num deserto. As cheias e as secas na América Central também têm impulsionado a emigração em direção aos Estados Unidos. Estamos cada vez mais conscientes com a intensidade e a frequência dos fenómenos meteorológicos extremos relacionados com as alterações climáticas, sendo alguns deles em locais histo- ricamente sem registo de tais eventos. Moçambique continua na memória e Portugal encontra-se agora na rota dos furacões. 1.000.000 de espécies ameaçadas de extinção A Plataforma Intergovernamental da Ciência-Política em Biodiversidade e Serviços de Ecossistemadas Nações Unidas (IPBES), que esteve recentemente reunida em Paris, na sua 7ª ses- são, lançou um relatório que também traça um cenário dantesco para a vida no Planeta. Há um declínio perigoso da Natureza sem precedentes, com um aceleramento das taxas de extinção de espécies. O relatório, baseado em 15.000 trabalhos científicos, menciona 1.000.000 de espécies ameaçadas de extinção; sendo 40% das espécies de anfíbios; cerca de 33% dos mamíferos mari- nhos, tubarões e recifes que formam corais; 25% da proporção média das espécies nos grupos terrestres, de água doce e verte- brados marinhos, invertebrados e plantas; e 10% da proporção de espécies de insetos. Há um declínio de mais de 20% na abundância média de espécies nativas na maioria dos principais biomas terres- tres; cerca de 10% das raças de mamíferos domesticados foram extintas até 2016, estando pelo menos mais 1.000 ameaçadas; e
  • 3. 6464 DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO 3,5% das raças de aves domesticadas foram extintas até 2016. 30% dos habitats viram a sua integridade ameaçada; 47% da proporção de mamíferos terrestres que não voam e 23% das aves ameaçadas podem ter já as suas distribuições impactadas negativamente pelas alterações climáticas. Em contrapartida, desde os anos 70 do século passado, houve um aumento de 70% do número de espécies exó- ticas invasoras, nos 21 países com registos detalhados. As florestas viram a sua área diminuir cerca de 32% relativamente ao período pré-industrial. Paralelamente, o último relatório ‘Planeta Vivo’ da WWF revela uma redução mundial da população de animais vertebrados em 52% em apenas quatro décadas. A investigação baseou-se em dados de mais de três mil espécies entre 1970 e 2010. O Relatório do IPBES dá-nos ainda uma série de outros elementos valiosos para percebermos a as causas antrópicas que ameaçam a vida e a diversidade na Terra. Uma delas está relacionada com a área dedicada à produção agrícola e pecuária, que ocupa mais de 33% da superfície terrestre e consome cerca de 75% dos recursos de água doce. Este problema agrava-se quando percebemos que muita da desflorestação acontece precisamente para dar lugar à agropecuá- ria e que ambas emitem num total de 25% de gases com efeito de estufa, coma produção de alimentos de origem animal a contribuir com 75% desse valor.Para além desta(s) causa(s), o relatório refere as alterações do uso do solo, a pesca intensiva, a exploração direta de organismos, as alterações climáticas, a poluição e as espécies exóticas invasoras como promotoras do problema.Contudo, o rela- tório do IPBES menciona o aumento demográfico, a economia e o
  • 4. 6666 DOSSIER AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS | OPINIÃO comércio globais e a política como as causas mais profundas: nos últimos 50 anos, a população humana dobrou, a economia global cresceu quase quatro vezes e o comércio global cresceu dez vezes, juntos impulsionaram as necessidades de energia e materiais. Uma variedade de fatores económicos, políticos e sociais, incluindo o comércio global e a dissociação espacial entre produção e con- sumo, deslocaram os ganhos e perdas económicas e ambientais da produção e do consumo, contribuindo para novas oportunidades económicas, mas também impactos na natureza e seus contributos para as pessoas. Sandra Díaz, uma das co-presidentes que fez a avaliação do IPBES, refere que a biodiversidade e as contribuições da natureza para as pessoas são a nossa herança comum e a mais importante 'rede de segurança' de apoio à vida da humanidade. Isto quer dizer que dependemos da Natureza e da biodiversidade para o nosso bem- -estar e, acima de tudo, para a nossa sobrevivência como espécie e como Humanidade. O relatório IPBES é perentório quanto à importância da Natureza, quando referencia mais de 70% dos medicamentos contra o cancro são produtos naturais ou sintéticos inspirados na Natureza, e que 4 mil milhões de pessoas dependem principalmente de medicamentos naturais. Perante estes factos, quantas doenças novas poderão surgir no futuro, cujas soluções se encontram nos elementos naturais? E se, entretanto, esses ele- mentos já não existirem, se pertencessem a espécies entretanto extintas? Esta é uma das muitas questões éticas que se colocam relativamente ao uso e abuso dos recursos naturais e à extin- ção maciça de espécies. Quem nos deu o direito para podermos extinguir espécies na Terra? Com que direito destruímos o mundo natural? Que mundo vamos deixar às gerações futuras? Que mora- lidade temos quando colocamos o futuro da Humanidade em causa? Não há dúvidas quanto à origem e dimensão dos proble- mas ambientais e do impacto na biodiversidade, assim como para as gerações futuras. Todas as perguntas terão de ser respondidas mais cedo ou mais tarde, porque afinal somos seres humanos, com valores e são esses valores que nos dão a humanidade. Uma coisa é certa: a comunidade científica tem dado um inestimável contributo, tanto para o esclarecimento da situação, perigos e soluções, como na forma de ativismo. Recentemente um Manifesto assinado por 600 cientistas pediuà União Europeia para parar de 'importar des- matamento' do Brasil. Todos os relatórios/avisos da comunidade científica dizem que o que temos feito para salvar o Planeta é insuficiente e precisamos de alterações profundas na nossa sociedade, de uma ‘mudança transformadora’ para restaurar e proteger a Natureza e garantir um futuro para a Humanidade. Ainda não é tarde demais, mas ama- nhã já vai ser tarde demais. É necessário começar hoje, agora, e podemos fazê-lo através das nossas escolhas, nomeadamente com o que comemos, o que vestimos, como nos deslocamos, etc. Sejamos proativos. Mas também é necessário desconstruir os inte- resses instalados na sociedade, para dar primazia ao bem-comum, fazendo com que a defesa do bem-comum seja sinónimo de defesa da Natureza. O relatório do IPBES diz que a ‘mudança transforma- dora’, implica uma reorganização fundamental de todo o sistema, incluindo paradigmas, metas e valores. Podemos começar com as metas sugeridas por um estudo publi- cado na revista científica ScienceAdvances, intitulado “Um Acordo Global pela Natureza: princípios norteadores, parâmetros e metas”, onde se incentiva os países até 2030 a aumentar as suas áreas de proteção para 30% e acrescentar mais 20% como áreas de estabilização climática, para alcançar um total de 50% de área des- tinada à conservação da Natureza. Estas ações daria a esperança para nos mantermos abaixo da meta perigosa, que um aumento de temperatura média global superior a 1,5º Celsius traria, e impedir o declínio dos ecossistemas do mundo. Precisamos também de mudar o paradigma de uma economia em guerra constante com a Natureza, para uma economia solidária, equitativa e ecologi- camente sustentável, e rever os nossos valores, para incluir uma ética que integre a vida e a Natureza, porque a vida é a nossa mais preciosa natureza e a Natureza é a nossa mãe e fonte do nosso precioso sustento. Vamos dar ouvidos à ciência que quer salvar a Humanidade e a biodiversidade! •