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Opinião
AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS
Colóquio Vita Contemplativa - Mãe Natureza,
Terra Viva
Ecosofia, Ecologia
Profunda e Ecologia Espiritual
perante a crise ambiental - Parte II
Textos e Fotos_Alcide Gonçalves [Arquiteta Paisagista] e Jorge Moreira [Ambientalista e Investigador]
Contribuiu ainda com fotos José Alex Gandum [Instalador]
Da Ciência Holística à
Espiritualidade
Um outro ponto largamente abordado foi
o contributo da ciência para a compreensão
dos fenómenos da vida. É o caso da Eco-
logia que nos mostra uma teia de vida que
tudo une, biota e abiota, patente no fluxo de
matéria e energia nos ecossistemas. Tam-
bém é verdade que a ciência cartesiana foi
co-responsável pelo paradigma insustentável
vigente. No entanto, tem surgido muitas evi-
dências científicas que dificilmente terão uma
apreensão total a partir do tradicional método
científico. Isto, por várias razões: 1. Temos
limitações cognitivas (baseadas nos sentidos
e na mente) e tecnológicas para “medir”
certos fenómenos; 2. Há uma influência entre
o observador e o objeto observado, pelo
que dificilmente conseguiremos a apreensão
espaço-temporal do objeto sem interferência
do observador; 3. Há propriedades emer-
gentes que só são detectadas no todo e
nunca nas partes constituintes isoladas; 4.
Existem estados amplamente alargados de
consciência, que dificilmente conseguem ser
transpostos para uma linguagem corrente ou
sequer provados. Mas isso não quer dizer
que não existam. Por exemplo estados mís-
ticos e holotrópicos - de plena compreensão
e comunhão com a vida. E já que falamos da
vida, existe um princípio intrínseco da vida,
que diferencia os seres “animados” da ma-
téria morta. Os constituintes de uma árvore
e da madeira são os mesmos, mas a árvore
tem algo que a “anima” e que é capaz de
se renovar. Esta vida não pode ser descrita
como algo meramente físico. No entanto,
essa vida “comanda” a matéria.
As teorias científicas mais abordadas
durante o colóquio foram os campos
morfogenéticos de Rupert Sheldrake – uma
espécie de memória coletiva, que está por
detrás das formas de todos os seres e tem
efeito organizativo sobre o seu comporta-
mento; a teoria Gaia de James Lovelock, em
que todo o planeta Terra se comporta como
um superorganismo, num complexo sistema
biogeoquímico que regula o clima e mantém
as condições homeostáticas indispensáveis
à vida; a teoria da ordem implícita de David
Bohm, uma teoria quântica que revela a
interconectividade de tudo o que existe e
que cada elemento individual pode revelar
informação sobre cada outro elemento no
universo. Foi, aliás, a Física quântica, que
teve maior debate nesta área. Bruno Antu-
nes descreveu o “enlace quântico” (quantum
entanglement), um fenómeno no qual dois
sistemas quânticos largamente afastados
no espaço partilham a mesma condição, de
forma que, dada qualquer alteração numa
das duas partículas, se deteta, direta e ime-
diatamente, uma repercussão na outra. A
partir daqui Antunes utilizou as palavras de
Albert Einstein a propósito deste fenómeno,
que descreveu como uma assombrosa
ação à distância. A adjetivação “assombro-
sa” (spooky) transpõe o discurso de uma
ciência “exata”, podendo levar à ideia de que
Einstein queria referir-se (também) a algo
“sobrenatural”. Já Isadora Migliori explicou
bem os mecanismos paradoxais da Física
Quântica, indo ao encontro do físico Amit
Goswami, que defende o princípio de que
é a consciência que cria a matéria, Por esse
motivo, temos dever acrescido com a forma
como a usamos (a nossa consciência) no
nosso quotidiano.
Quando observamos a estrutura do
cosmos revelada por supercomputadores,
verificamos que mesmo a nível macro existe
união da matéria visível pela influência da
matéria escura. Mas o que é isso de matéria e
energia escura? Algo que não conseguimos
apreender pelos nossos “instrumentos”,
mas existe e comanda o universo todo. Por
conseguinte, tudo se encontra ligado, enxa-
mes de galáxias por elos invisíveis. Trata-se
de uma Ecologia Cósmica e até hermética,
no sentido do que o está em cima é igual
ao que está em baixo. A consciência que
compreende e se liga à rede cósmica é uma
consciência espiritual, tal como diz Fritjof
Capra: a ecologia e a espiritualidade encon-
tram-se fundamentalmente ligadas porque
a consciência ecológica profunda é em
última análise uma consciência espiritual. Da
mesma forma disse Carl Sagan, a ciência
não é só compatível com a espiritualidade
mas também é uma fonte de espiritualidade
profunda. Mas o conceito de espiritualidade
é muito mal compreendido tanto no meio
académico como religioso. A espirituali-
dade não é nenhum dogma religioso ou
qualquer tipo de organização humana. O
seu conceito é inefável. Podemos contudo
identificar alguns aspetos intrínsecos, como
a capacidade do indivíduo penetrar nos
mistérios mais profundos do cosmos e des-
pertar para uma Realidade percecionada
unicamente na profundidade do seu interior
que vislumbra a unidade da vida, descrita
por místicos como a consciência divina e
por investigadores contemporâneos como
a consciência quântica não local. O contato
com esta Realidade interna é transformador
e transmuta toda a ação do indivíduo no
mundo. Ele passa progressivamente a ser
um agente criativo que labora em beleza,
harmonia e cooperação com a Natureza do
Logos (Jorge Moreira).
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AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS
A Responsabilidade
A responsabilidade foi abordada sobre
diversos prismas. Alexandra Pinto apre-
sentou-nos o trabalho Ashes and Snow
do artista canadiano Gregory Colbert, que
retrata pessoas e povos que vivem em har-
monia com os animais “selvagens”. Uma
obra fotográfica e cinepoética em sépia e
terra, de um mundo ainda romântico e real
e, ao mesmo tempo, onírico e utópico, belo
e pacífico, ecológico e silencioso. O próprio
realizador entrou como actor em vários
takes e montou uma exposição itinerante
que tem percorrido o mundo, com um êxito
avassalador. Este trabalho teve um impacto
profundo por onde passou, levando as
pessoas a questionarem a sua perspetiva
em relação aos animais e a possibilidade
de todos podermos viver em harmonia na
Biosfera. Colbert utilizou a arte para criar
consciência ecológica e Pinto recordou
como o cinema pode ser utilizado como
propaganda, alertando para a responsa-
bilidade ecológica e social daquilo que
o artista faz. Nesta linha foi apresentado
pela organização do Colóquio a curta-me-
tragem Huni Kuin - Os Últimos Guardiões,
premiada internacionalmente. Foi filmado
numa aldeia da tribo Huni Kuin, Aldeia Novo
Segredo do Rio Envira, no Acre, em plena
selva amazónica, mostrando a luta dos
habitantes da floresta pela preservação da
mata que está sendo devastada e coloca
lado a lado o paradigma índio com o do
“homem branco”.
Já Migliori, na sua apresentação sofre
a Física Quântica alerta para o papel da
consciência na realidade. Assim, e como
a mente e as emoções se relacionam com
a consciência, não é de desconsiderar
que aquilo que pensamos e sentimos tem
também impacto no cosmos. Já sabíamos
que a meditação tinha a capacidade de
alterar a rede de conexões sinápticas no
cérebro e, com isso, a nossa forma de
ver o mundo. Agora podemos considerar
que a forma como vemos o mundo pode
influenciá-lo. Migliori acrescenta que os
paradigmas da Física Quântica conduzem
a uma reflexão profunda da dinâmica das
relações humanas em todos os níveis,
incluindo a Natureza. Por esse motivo têm
surgido movimentos muitos concretos
como o Ativismo Quântico que integra na
prática a visão holística.
Noutra vertente, a Área de Ciência das
Religiões da Universidade Lusófona, na
pessoa de Paulo Mendes Pinto, apresentou
o "Compromisso pela Casa Comum e pela
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AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS
Ética do Cuidado". Partindo de um denomi-
nador comum, como a ideia de Criação e o
dever de respeitar o acto criador e daquilo
que dele resultou, passando a outra ideia, a
da Casa Comum, a morada que todos nos
acolhe, para re-ligar as várias correntes
religiosas à ecologia e à “salvação” do
mundo. Este compromisso cruza-se com a
já referida Laudato Si do Papa Francisco e
o Princípio da Responsabilidade de Hans
Jonas, que alarga o compromisso com as
gerações futuras.
Práticas Eco-espirituais
Uma das surpresas, que não estava
prevista no programa do Colóquio foi a
“cerimónia da água” preconizada por uma
jovem presente. No intervalo do almoço, do
segundo dia, a jovem convidou os presen-
tes a partilhar um momento ritualístico com
ela e uma taça de água perfumada com
flores. Sentados em posição de lótus ou
equivalente, os presentes acompanharam a
belíssima cerimónia, que incluía meditação,
mantras e uma espécie de cânticos xamâ-
nicos, que entoavam harmoniosamente
através da jovem. No final cada um tocou
naquela água “magnetizada” e voltaram
ao auditório ainda em plena vibração do
belo ritual. Este tipo de práticas criam laços
profundos entre os seres humanos e os
elementos naturais, uma espécie de reen-
contro entre a nossa alma e a Alma Mundi.
Por naturalidade, os elementos da Natureza
retomam o seu lugar sagrado no coração
dos seres humanos, a exploração cessa e a
harmonia surge tanto a nível interno, como
externo. É neste sentido que Maria Luísa
Francisco deu-nos a conhecer a ecoimi-
gração na Serra Algarvia, preconizada por
indivíduos normalmente com elevado nível
cultural, académico e económico, prove-
nientes de contextos urbanos do norte da
Europa e de outras partes do mundo, que
procuram espaços de significativo valor
ecológico, numa lógica de desenvolvimen-
to, espiritualidade e sustentabilidade, como
são os casos das comunidades do Centro
Karuna e Terra Amada. São Indivíduos que
procuram a qualidade de vida na simpli-
cidade e em comunhão profunda com a
Natureza. Francisco deu-nos a conhecer
uma comunidade de índios que vivem nas
montanhas algarvias, que decidiram mudar
as suas vidas após terem sido figurinos no
filme Danças com Lobos. Curiosamente ou
não, a relação de proximidade e o respeito
pela Natureza por parte destes indivíduos
permitiu que as populações portuguesas
autóctones passassem a valorizar aspectos
anteriormente descurados, bem como a
troca de conhecimentos e formas de estar
com respeito e cuidado com a Terra Mãe.
A ética do cuidado do outro e da Natureza,
a sacralidade dos elemento terra e água
levaram a novos estudos sobre a “fluviofeli-
cidade”, a partir da vivência de estrangeiros
em embarcações no Rio Guadiana. Este é
outro factor associado ao contacto com a
Natureza, um preenchimento interior tradu-
zido em felicidade, longe do cinzentismo
frenético da urbe.
Portugal é rico em ecoaldeias e muitas
delas utilizam materiais e técnicas de
arquitetura sustentáveis. Algumas dessas
técnicas têm eco na cidade, tal como nos
mostrou Alina Jerónimo. É possível requa-
lificar espaços com materiais ecológicos
e anexar tecnologias de autoprodução
energética. Outra característica que temos
assistido em espaços urbanos, e inspirado
em comunidades sustentáveis e com
características também políticas, segundo
José Pinheiro Neves e Paula Mascarenhas,
é a utilização de técnicas de agricultura
biológica, biodinâmica e permacultura,
como forma de alienação do atual sis-
tema económico/industrial. Para Neves,
estas práticas são como pequenas luzes
no meio da escuridão. Já o trabalho de
Mascarenhas apresenta a proliferação de
novas subjetividades alimentares envoltas
na perceção ecológica, que conduzem a
uma nova maneira interligada de pensar
a alimentação, incluindo a ecologia, a
saúde e a espiritualidade. Por esse motivo
temos assistido ao aumento do número de
pessoas que enveredam pela alimentação
vegetariana e vegana.
João Miguel Louro trouxe-nos a história
da permacultura e a sua visão holística da
Natureza, na abundância. O permacultor
liga-se à terra, estuda os ciclos e as carac-
terísticas do local. Adapta-se e adapta as
culturas ao meio. Apaixona-se por elas. Dá
exemplos em locais supostamente impos-
síveis de cultivar, como o projecto Greening
the Desert, na Jordânia, onde técnicas de
permacultura alimentam as populações
locais num ambiente de deserto. Louro re-
mata a sua intervenção citando Thich Nhat
Hanh: Somente quando realmente nos
apaixonarmos pela Terra as nossas ações
nascerão da reverência e da percepção
da nossa interconexão. Esta interconexão
também se encontra patente no Pedifesto
Eco-lógico de Pedro Cuiça, que traça três
actos para passar da teoria ecológica à
prática. A Eco-locação - integra as di-
mensões espaço-temporais do indivíduo,
levando-o a percorrer a história, o presente
e os cenários futuros; A Eco-lógica - integra
o pensamento holístico, sistémico e reve-
rêncial; e o Eco-activismo - uma prática
paradoxal de agir localmente, ancorada na
simplicidade, na humildade e até na renún-
cia, expressa através do amar/respeitar a
sacralidade de todos os seres ou cultivar
as andanças e o maravilhamento. Por
exemplo, o caminhante que ao caminhar
transforma-se no próprio caminho.
Conclusão
Jorge Leandro Rosa, fala-nos de um
grande silêncio. Silêncio este que é ex-
pressão de um rompimento com a vida e
que tem por base a destruição civilizada,
generalizada e quotidiana da vida. E, refere
que face a este silêncio, precisamos de
um pensamento que fala, que expõe e se
expõe. Que desloca a repartição entre o
dizível e o indizível, na medida em que o
impossível também se está a transformar
no possível. Este silêncio também pode ser
pressentimento de uma de duas situações:
1) a de um colapso da sociedade industrial,
que segundo Rosa seria necessário; 2) a
possibilidade do desaparecimento genera-
lizado de toda ou quase toda a vida, incluin-
do os humanos, perspectiva que atinge um
conjunto de fundamentos da repartição
dos papéis ontológicos e biológicos.
Mafalda Blanc, incorporando o pensa-
mento de Heidegger, diz-nos que o mundo
não tem origem humana, nem o próprio
Homem tem origem humana. Há uma
apropriação da realidade e do planeta pelo
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Opinião
AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS
tecnocapitalismo, que utiliza a tecnologia
como fascínio e forma de poder sobre as
massas. A técnica é a única que não tem
mundo porque destrói o horizonte holístico
da Existência do Ente e Ser. Portanto a
manifestação/expressão desse mundo não
tem perspectiva. A ciência que se encontra
ancorada neste paradigma é, segundo
Blanc o tiro no coração da realidade e subs-
titui o papel da poesia natural pelo mercado.
A autora refere ainda que a Humanidade
encontra-se num impasse histórico, com a
perda dos valores e da própria humanidade.
Diz que precisamos de nos despojarmos de
nós próprios, de ir à fonte do humano, para
um novo recomeço, uma nova aparição do
ser, e assim, ressurgir o poeta, o guardião
e o pastor. Da mesma forma pensa Rui Lo-
melino de Freitas, ao dizer que precisamos
urgentemente de resultados, porque as
intenções não chegam para alterar o atual
paradigma. Mas esse resultados só deverão
ter o efeito ecológico necessário quando
alavancados por uma profunda transforma-
ção alquímica do ser humano. Esta trans-
formação precisa de ser massificada, como
refere Isabel Correia, inspirada no Trabalho
que Reconecta de Joanna Macy, para se
dar a Grande Mudança. Macy desenvolveu
instrumentos para nos apoiar a reconectar
as nossas vidas com o mundo, para que
possamos arranjar coragem e compromisso
para mudarmos o percurso das nossa vidas
e sintonizá-las com a Natureza. Varandas
evoca a (co)memoração para relembrar
que somos terra, a originária natureza
humana, despontando naturalmente acção
ecológica.
Durante o Colóquio, muitos oradores
apontaram a crise ecológica, como reflexo
da crise multidimensional da contempora-
neidade, que pode ter tido a sua origem
numa crise de percepção da interdepen-
dência e relação profunda que existe entre
tudo e todos. Como diz Paulo Borges,
numa distorção ou obscurecimento da
consciência, incapaz de ver a realidade.
Assim, a Ecologia Profunda, a Ecosofia e
a Ecologia Espiritual surgem para dar uma
resposta profunda à crise multidimensional
da contemporaneidade, como formas de
colmatar o déficit de perceção que está
na base dos egoísmos, especismos e
antropocentrismos, e os seus efeitos des-
trutivos, tanto para a Natureza, como para
a sociedade e cada indivíduo em particular.
Paralelamente, tratam-se de éticas práticas
de vida cuidadas e interconetadas.
Quando observamos a Terra de fora,
todos os indivíduos, todas as etnias hu-
manas, todas as espécies de seres vivos,
todas as serras, florestas, rios, lagos e
mares, todos os Reinos da Natureza não
têm fronteiras e são em conjunto a Terra.
Da mesma forma decorreu o Colóquio Vita
Contemplativa Mãe Natureza, Terra Viva.
Muitos contributos, de áreas tão distintas,
mas todas apontaram caminhos ecosófi-
cos idênticos.
O Colóquio encerrou com a apresentação
por parte dos autores Paulo Borges e
Daniela Velho do livro Os Animais, Nossos
Próximos. Antologia do amor humano
aos animais (da Antiguidade a Fernando
Pessoa). Trata-se de uma recolha de textos
que expressam o amor do ser humano
pelos outros seres, com especial enfoque
para os animais não-humanos.
Nota de Redacção:
Esta é a segunda e última parte do artigo publicado, inicialmente, na edição de Junho da nossa revista.

Colóquio Vita Contemplativa - Mãe Natureza, Terra Viva Ecosofia, Ecologia Profunda e Ecologia Espiritual perante a crise ambiental - Parte II

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    72 O InstaladorJul'_Ago' 2018 www.oinstalador.com Opinião AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS Colóquio Vita Contemplativa - Mãe Natureza, Terra Viva Ecosofia, Ecologia Profunda e Ecologia Espiritual perante a crise ambiental - Parte II Textos e Fotos_Alcide Gonçalves [Arquiteta Paisagista] e Jorge Moreira [Ambientalista e Investigador] Contribuiu ainda com fotos José Alex Gandum [Instalador] Da Ciência Holística à Espiritualidade Um outro ponto largamente abordado foi o contributo da ciência para a compreensão dos fenómenos da vida. É o caso da Eco- logia que nos mostra uma teia de vida que tudo une, biota e abiota, patente no fluxo de matéria e energia nos ecossistemas. Tam- bém é verdade que a ciência cartesiana foi co-responsável pelo paradigma insustentável vigente. No entanto, tem surgido muitas evi- dências científicas que dificilmente terão uma apreensão total a partir do tradicional método científico. Isto, por várias razões: 1. Temos limitações cognitivas (baseadas nos sentidos e na mente) e tecnológicas para “medir” certos fenómenos; 2. Há uma influência entre o observador e o objeto observado, pelo que dificilmente conseguiremos a apreensão espaço-temporal do objeto sem interferência do observador; 3. Há propriedades emer- gentes que só são detectadas no todo e nunca nas partes constituintes isoladas; 4. Existem estados amplamente alargados de consciência, que dificilmente conseguem ser transpostos para uma linguagem corrente ou sequer provados. Mas isso não quer dizer que não existam. Por exemplo estados mís- ticos e holotrópicos - de plena compreensão e comunhão com a vida. E já que falamos da vida, existe um princípio intrínseco da vida, que diferencia os seres “animados” da ma- téria morta. Os constituintes de uma árvore e da madeira são os mesmos, mas a árvore tem algo que a “anima” e que é capaz de se renovar. Esta vida não pode ser descrita como algo meramente físico. No entanto, essa vida “comanda” a matéria. As teorias científicas mais abordadas durante o colóquio foram os campos morfogenéticos de Rupert Sheldrake – uma espécie de memória coletiva, que está por detrás das formas de todos os seres e tem efeito organizativo sobre o seu comporta- mento; a teoria Gaia de James Lovelock, em que todo o planeta Terra se comporta como um superorganismo, num complexo sistema biogeoquímico que regula o clima e mantém as condições homeostáticas indispensáveis à vida; a teoria da ordem implícita de David Bohm, uma teoria quântica que revela a interconectividade de tudo o que existe e que cada elemento individual pode revelar informação sobre cada outro elemento no universo. Foi, aliás, a Física quântica, que teve maior debate nesta área. Bruno Antu- nes descreveu o “enlace quântico” (quantum entanglement), um fenómeno no qual dois sistemas quânticos largamente afastados no espaço partilham a mesma condição, de forma que, dada qualquer alteração numa das duas partículas, se deteta, direta e ime- diatamente, uma repercussão na outra. A partir daqui Antunes utilizou as palavras de Albert Einstein a propósito deste fenómeno, que descreveu como uma assombrosa ação à distância. A adjetivação “assombro- sa” (spooky) transpõe o discurso de uma ciência “exata”, podendo levar à ideia de que Einstein queria referir-se (também) a algo “sobrenatural”. Já Isadora Migliori explicou bem os mecanismos paradoxais da Física Quântica, indo ao encontro do físico Amit Goswami, que defende o princípio de que é a consciência que cria a matéria, Por esse motivo, temos dever acrescido com a forma como a usamos (a nossa consciência) no nosso quotidiano. Quando observamos a estrutura do cosmos revelada por supercomputadores, verificamos que mesmo a nível macro existe união da matéria visível pela influência da matéria escura. Mas o que é isso de matéria e energia escura? Algo que não conseguimos apreender pelos nossos “instrumentos”, mas existe e comanda o universo todo. Por conseguinte, tudo se encontra ligado, enxa- mes de galáxias por elos invisíveis. Trata-se de uma Ecologia Cósmica e até hermética, no sentido do que o está em cima é igual ao que está em baixo. A consciência que compreende e se liga à rede cósmica é uma consciência espiritual, tal como diz Fritjof Capra: a ecologia e a espiritualidade encon- tram-se fundamentalmente ligadas porque a consciência ecológica profunda é em última análise uma consciência espiritual. Da mesma forma disse Carl Sagan, a ciência não é só compatível com a espiritualidade mas também é uma fonte de espiritualidade profunda. Mas o conceito de espiritualidade é muito mal compreendido tanto no meio académico como religioso. A espirituali- dade não é nenhum dogma religioso ou qualquer tipo de organização humana. O seu conceito é inefável. Podemos contudo identificar alguns aspetos intrínsecos, como a capacidade do indivíduo penetrar nos mistérios mais profundos do cosmos e des- pertar para uma Realidade percecionada unicamente na profundidade do seu interior que vislumbra a unidade da vida, descrita por místicos como a consciência divina e por investigadores contemporâneos como a consciência quântica não local. O contato com esta Realidade interna é transformador e transmuta toda a ação do indivíduo no mundo. Ele passa progressivamente a ser um agente criativo que labora em beleza, harmonia e cooperação com a Natureza do Logos (Jorge Moreira).
  • 2.
    O Instalador Jul'_Ago'2018 www.oinstalador.com 73 Opinião AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS A Responsabilidade A responsabilidade foi abordada sobre diversos prismas. Alexandra Pinto apre- sentou-nos o trabalho Ashes and Snow do artista canadiano Gregory Colbert, que retrata pessoas e povos que vivem em har- monia com os animais “selvagens”. Uma obra fotográfica e cinepoética em sépia e terra, de um mundo ainda romântico e real e, ao mesmo tempo, onírico e utópico, belo e pacífico, ecológico e silencioso. O próprio realizador entrou como actor em vários takes e montou uma exposição itinerante que tem percorrido o mundo, com um êxito avassalador. Este trabalho teve um impacto profundo por onde passou, levando as pessoas a questionarem a sua perspetiva em relação aos animais e a possibilidade de todos podermos viver em harmonia na Biosfera. Colbert utilizou a arte para criar consciência ecológica e Pinto recordou como o cinema pode ser utilizado como propaganda, alertando para a responsa- bilidade ecológica e social daquilo que o artista faz. Nesta linha foi apresentado pela organização do Colóquio a curta-me- tragem Huni Kuin - Os Últimos Guardiões, premiada internacionalmente. Foi filmado numa aldeia da tribo Huni Kuin, Aldeia Novo Segredo do Rio Envira, no Acre, em plena selva amazónica, mostrando a luta dos habitantes da floresta pela preservação da mata que está sendo devastada e coloca lado a lado o paradigma índio com o do “homem branco”. Já Migliori, na sua apresentação sofre a Física Quântica alerta para o papel da consciência na realidade. Assim, e como a mente e as emoções se relacionam com a consciência, não é de desconsiderar que aquilo que pensamos e sentimos tem também impacto no cosmos. Já sabíamos que a meditação tinha a capacidade de alterar a rede de conexões sinápticas no cérebro e, com isso, a nossa forma de ver o mundo. Agora podemos considerar que a forma como vemos o mundo pode influenciá-lo. Migliori acrescenta que os paradigmas da Física Quântica conduzem a uma reflexão profunda da dinâmica das relações humanas em todos os níveis, incluindo a Natureza. Por esse motivo têm surgido movimentos muitos concretos como o Ativismo Quântico que integra na prática a visão holística. Noutra vertente, a Área de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona, na pessoa de Paulo Mendes Pinto, apresentou o "Compromisso pela Casa Comum e pela
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    74 O InstaladorJul'_Ago' 2018 www.oinstalador.com Opinião AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS Ética do Cuidado". Partindo de um denomi- nador comum, como a ideia de Criação e o dever de respeitar o acto criador e daquilo que dele resultou, passando a outra ideia, a da Casa Comum, a morada que todos nos acolhe, para re-ligar as várias correntes religiosas à ecologia e à “salvação” do mundo. Este compromisso cruza-se com a já referida Laudato Si do Papa Francisco e o Princípio da Responsabilidade de Hans Jonas, que alarga o compromisso com as gerações futuras. Práticas Eco-espirituais Uma das surpresas, que não estava prevista no programa do Colóquio foi a “cerimónia da água” preconizada por uma jovem presente. No intervalo do almoço, do segundo dia, a jovem convidou os presen- tes a partilhar um momento ritualístico com ela e uma taça de água perfumada com flores. Sentados em posição de lótus ou equivalente, os presentes acompanharam a belíssima cerimónia, que incluía meditação, mantras e uma espécie de cânticos xamâ- nicos, que entoavam harmoniosamente através da jovem. No final cada um tocou naquela água “magnetizada” e voltaram ao auditório ainda em plena vibração do belo ritual. Este tipo de práticas criam laços profundos entre os seres humanos e os elementos naturais, uma espécie de reen- contro entre a nossa alma e a Alma Mundi. Por naturalidade, os elementos da Natureza retomam o seu lugar sagrado no coração dos seres humanos, a exploração cessa e a harmonia surge tanto a nível interno, como externo. É neste sentido que Maria Luísa Francisco deu-nos a conhecer a ecoimi- gração na Serra Algarvia, preconizada por indivíduos normalmente com elevado nível cultural, académico e económico, prove- nientes de contextos urbanos do norte da Europa e de outras partes do mundo, que procuram espaços de significativo valor ecológico, numa lógica de desenvolvimen- to, espiritualidade e sustentabilidade, como são os casos das comunidades do Centro Karuna e Terra Amada. São Indivíduos que procuram a qualidade de vida na simpli- cidade e em comunhão profunda com a Natureza. Francisco deu-nos a conhecer uma comunidade de índios que vivem nas montanhas algarvias, que decidiram mudar as suas vidas após terem sido figurinos no filme Danças com Lobos. Curiosamente ou não, a relação de proximidade e o respeito pela Natureza por parte destes indivíduos permitiu que as populações portuguesas autóctones passassem a valorizar aspectos anteriormente descurados, bem como a troca de conhecimentos e formas de estar com respeito e cuidado com a Terra Mãe. A ética do cuidado do outro e da Natureza, a sacralidade dos elemento terra e água levaram a novos estudos sobre a “fluviofeli- cidade”, a partir da vivência de estrangeiros em embarcações no Rio Guadiana. Este é outro factor associado ao contacto com a Natureza, um preenchimento interior tradu- zido em felicidade, longe do cinzentismo frenético da urbe. Portugal é rico em ecoaldeias e muitas delas utilizam materiais e técnicas de arquitetura sustentáveis. Algumas dessas técnicas têm eco na cidade, tal como nos mostrou Alina Jerónimo. É possível requa- lificar espaços com materiais ecológicos e anexar tecnologias de autoprodução energética. Outra característica que temos assistido em espaços urbanos, e inspirado em comunidades sustentáveis e com características também políticas, segundo José Pinheiro Neves e Paula Mascarenhas, é a utilização de técnicas de agricultura biológica, biodinâmica e permacultura, como forma de alienação do atual sis- tema económico/industrial. Para Neves, estas práticas são como pequenas luzes no meio da escuridão. Já o trabalho de Mascarenhas apresenta a proliferação de novas subjetividades alimentares envoltas na perceção ecológica, que conduzem a uma nova maneira interligada de pensar a alimentação, incluindo a ecologia, a saúde e a espiritualidade. Por esse motivo temos assistido ao aumento do número de pessoas que enveredam pela alimentação vegetariana e vegana. João Miguel Louro trouxe-nos a história da permacultura e a sua visão holística da Natureza, na abundância. O permacultor liga-se à terra, estuda os ciclos e as carac- terísticas do local. Adapta-se e adapta as culturas ao meio. Apaixona-se por elas. Dá exemplos em locais supostamente impos- síveis de cultivar, como o projecto Greening the Desert, na Jordânia, onde técnicas de permacultura alimentam as populações locais num ambiente de deserto. Louro re- mata a sua intervenção citando Thich Nhat Hanh: Somente quando realmente nos apaixonarmos pela Terra as nossas ações nascerão da reverência e da percepção da nossa interconexão. Esta interconexão também se encontra patente no Pedifesto Eco-lógico de Pedro Cuiça, que traça três actos para passar da teoria ecológica à prática. A Eco-locação - integra as di- mensões espaço-temporais do indivíduo, levando-o a percorrer a história, o presente e os cenários futuros; A Eco-lógica - integra o pensamento holístico, sistémico e reve- rêncial; e o Eco-activismo - uma prática paradoxal de agir localmente, ancorada na simplicidade, na humildade e até na renún- cia, expressa através do amar/respeitar a sacralidade de todos os seres ou cultivar as andanças e o maravilhamento. Por exemplo, o caminhante que ao caminhar transforma-se no próprio caminho. Conclusão Jorge Leandro Rosa, fala-nos de um grande silêncio. Silêncio este que é ex- pressão de um rompimento com a vida e que tem por base a destruição civilizada, generalizada e quotidiana da vida. E, refere que face a este silêncio, precisamos de um pensamento que fala, que expõe e se expõe. Que desloca a repartição entre o dizível e o indizível, na medida em que o impossível também se está a transformar no possível. Este silêncio também pode ser pressentimento de uma de duas situações: 1) a de um colapso da sociedade industrial, que segundo Rosa seria necessário; 2) a possibilidade do desaparecimento genera- lizado de toda ou quase toda a vida, incluin- do os humanos, perspectiva que atinge um conjunto de fundamentos da repartição dos papéis ontológicos e biológicos. Mafalda Blanc, incorporando o pensa- mento de Heidegger, diz-nos que o mundo não tem origem humana, nem o próprio Homem tem origem humana. Há uma apropriação da realidade e do planeta pelo
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    O Instalador Jul'_Ago'2018 www.oinstalador.com 75 Opinião AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS tecnocapitalismo, que utiliza a tecnologia como fascínio e forma de poder sobre as massas. A técnica é a única que não tem mundo porque destrói o horizonte holístico da Existência do Ente e Ser. Portanto a manifestação/expressão desse mundo não tem perspectiva. A ciência que se encontra ancorada neste paradigma é, segundo Blanc o tiro no coração da realidade e subs- titui o papel da poesia natural pelo mercado. A autora refere ainda que a Humanidade encontra-se num impasse histórico, com a perda dos valores e da própria humanidade. Diz que precisamos de nos despojarmos de nós próprios, de ir à fonte do humano, para um novo recomeço, uma nova aparição do ser, e assim, ressurgir o poeta, o guardião e o pastor. Da mesma forma pensa Rui Lo- melino de Freitas, ao dizer que precisamos urgentemente de resultados, porque as intenções não chegam para alterar o atual paradigma. Mas esse resultados só deverão ter o efeito ecológico necessário quando alavancados por uma profunda transforma- ção alquímica do ser humano. Esta trans- formação precisa de ser massificada, como refere Isabel Correia, inspirada no Trabalho que Reconecta de Joanna Macy, para se dar a Grande Mudança. Macy desenvolveu instrumentos para nos apoiar a reconectar as nossas vidas com o mundo, para que possamos arranjar coragem e compromisso para mudarmos o percurso das nossa vidas e sintonizá-las com a Natureza. Varandas evoca a (co)memoração para relembrar que somos terra, a originária natureza humana, despontando naturalmente acção ecológica. Durante o Colóquio, muitos oradores apontaram a crise ecológica, como reflexo da crise multidimensional da contempora- neidade, que pode ter tido a sua origem numa crise de percepção da interdepen- dência e relação profunda que existe entre tudo e todos. Como diz Paulo Borges, numa distorção ou obscurecimento da consciência, incapaz de ver a realidade. Assim, a Ecologia Profunda, a Ecosofia e a Ecologia Espiritual surgem para dar uma resposta profunda à crise multidimensional da contemporaneidade, como formas de colmatar o déficit de perceção que está na base dos egoísmos, especismos e antropocentrismos, e os seus efeitos des- trutivos, tanto para a Natureza, como para a sociedade e cada indivíduo em particular. Paralelamente, tratam-se de éticas práticas de vida cuidadas e interconetadas. Quando observamos a Terra de fora, todos os indivíduos, todas as etnias hu- manas, todas as espécies de seres vivos, todas as serras, florestas, rios, lagos e mares, todos os Reinos da Natureza não têm fronteiras e são em conjunto a Terra. Da mesma forma decorreu o Colóquio Vita Contemplativa Mãe Natureza, Terra Viva. Muitos contributos, de áreas tão distintas, mas todas apontaram caminhos ecosófi- cos idênticos. O Colóquio encerrou com a apresentação por parte dos autores Paulo Borges e Daniela Velho do livro Os Animais, Nossos Próximos. Antologia do amor humano aos animais (da Antiguidade a Fernando Pessoa). Trata-se de uma recolha de textos que expressam o amor do ser humano pelos outros seres, com especial enfoque para os animais não-humanos. Nota de Redacção: Esta é a segunda e última parte do artigo publicado, inicialmente, na edição de Junho da nossa revista.