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cultura religiosa
apresentação
Prezado aluno,
A experiência de mais de 16 anos de docência tem mostrado o fascínio da disciplina Cultura Religiosa. O começo
sempre é difícil. Existe uma resistência natural do aluno em estudar os conteúdos. O preconceito fica claro quando se
define a disciplina como aula de religião. Outros ainda pensam em catequese. Mas não será esse o nosso objetivo.
Vamos caminhar com cada um de vocês no sentido de construir uma reflexão madura sobre a vivência e o
comportamento religioso das pessoas e a influência que esses fatores exercem sobre a vida de cada um de nós.
Ao final de cada semestre, ficamos surpresos com a reação dos alunos. A maioria considera a disciplina muito
interessante. É claro que alguns resistentes ficam indiferentes, pois não tiveram a coragem de abrir o coração e aceitar
conceitos essenciais para se viver uma boa vida. Respeitamos esses posicionamentos.
A Ulbra é uma universidade confessional, está ligada a uma instituição religiosa, mas nem por isso queremos impor o
que pensamos. Vamos apenas debater. Nossa intenção é ajudá-lo com esta reflexão.
Você irá encontrar neste livro um panorama das maiores religiões do mundo. Notará a pluralidade religiosa e terá
uma idéia da riqueza de pensamento e valores das religiões estudadas. Também iremos analisar mais detalhadamente
o cristianismo e a Reforma Luterana, pois são movimentos que influenciaram diretamente na existência da
Universidade Luterana do Brasil. Por fim, sempre é hora de estudar ética, particularmente a ética cristã e os valores que
ela pode acrescentar à vida de cada um de nós.
Nesta caminhada muitos dos textos têm a participação de professores de Cultura Religiosa que nestes 15 anos estão
ao nosso lado. Citamos aqui Ronaldo Steffen, Jonas Dietrich, Valter Kuchenbecker, Egon Seibert, Ricardo Rieth, Valter
Steyer, Thomas Heimann, Nereu Haag e Bruno Muller. Além desses, não podemos deixar de citar o capelão-geral da
Universidade Luterana do Brasil, pastor Gerhard Grasel, e o diretor do curso de Teologia da Ulbra, pastor Leopoldo
Heimann. São pessoas que têm ajudado não somente a construir esta trajetória em Cultura Religiosa, como têm
colaborado com o aprofundamento da reflexão sobre o tema e auxiliado muitas pessoas.
Douglas Moacir Flor
( 1 )
o fenômeno religioso
Paulo Augusto Seifert é mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia
do Seminário Concórdia (RS) e em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É professor nos Cursos de Teologia e Filosofia da Universidade
Luterana do Brasil (Ulbra).
Ronaldo Steffen é bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia do Seminário Concórdia (RS) e professor do Curso de Teologia da Universidade Luterana do
Brasil (Ulbra).
o desafio está posto: estudar religiões na universidade. A experiência tem demonstrado que não há
unanimidade na aceitação da disciplina, pelo menos a princípio. Há resistências das mais diversas ordens, desde as de
ordem econômica até as de informação técnica, que não contribuem para a complementação do curso em que o aluno
está matriculado. Vez ou outra rompem ainda as questões pertinentes à fé, ou à ausência dela, professada pelo aluno e
divergente daquilo que imagina que irá ocorrer na disciplina.
O repto está assentado. Não há como voltar atrás. É prerrogativa da universidade. Recuar ou enfrentar é o
elemento determinante. A esta altura, permita-nos, leitor, contribuir para a sua decisão a partir de algumas
considerações.
Damos o braço a torcer e damos razão a você que tem resistência a essa disciplina sob a alegação de que ela não
contribui com a sua formação técnica nem acrescentará nada a ela. Com exceção feita aos alunos matriculados no Curso
de Teologia, e para quem as informações da disciplina podem ser enquadradas como elementos técnicos importantes
para o exercício da função, não é pretensão da disciplina acrescentar informações técnicas específicas a nenhum outro
curso.
Estamos em sintonia com aqueles que vislumbram algum valor nas questões religiosas, mas discordamos da análise
puramente histórica dos movimentos religiosos. Acreditamos que a universidade é espaço privilegiado para o
aprofundamento das idéias. Escapar da linha histórica de tempo e aprofundar idéias parece-nos um caminho concreto
com vistas à busca da compreensão do universo e do ser humano a partir das percepções espirituais e religiosas.
Lamentamos discordar daqueles que esperam que a disciplina seja um manual de catequese com vistas à conversão
dos alunos ao cristianismo luterano. A plural sala de aula não é o espaço da catequese. É, sim, o momento de expor idéias,
confrontar razões, trocar experiências, colocar os contraditórios e trocar vivências. É o espaço do encantamento com os
caminhos que o ser humano tem construído ao longo de sua existência na tentativa de encontrar respostas religiosas
satisfatórias a respeito de sua origem e destino.
O que pretendemos é analisar os diversos cultos e práticas religiosas existentes no mundo, considerando a
confissão religiosa da instituição Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), uma instituição que se identifica como cristã
luterana, e sua proposta ética para a sociedade na qual vivemos.
Assim definidos, assentamos o núcleo da disciplina no ser humano, singular e plural. Seja qual for o curso
escolhido, não podemos escapar do fato inconteste de que não realizaremos nossas funções profissionais de forma
isolada. A vida é relacional: ou interagimos, ou rejeitamos, ou, ainda, buscamos compreender as razões alheias, com o
fim do bem-viver socialmente.
Nessa perspectiva, não podemos ignorar que convivemos com seres humanos que possuem individualidades,
independentes dos cursos profissionais para os quais se preparam. Respeitamos a confissão religiosa de nossos alunos
ou sua ausência. Pretendemos, simplesmente, apresentar os valores ético-cristãos como alternativa de vida, individual
e social.
(1.1)
a religião no dia-a-dia
De algum modo manifestações de natureza religiosa têm estado presentes no nosso cotidiano. Podemos, sem entrar em
detalhes por ora, mencionar algumas áreas, alguns eventos e algumas práticas pessoais e sociais marcados por idéias,
ritos e símbolos consagrados ao campo religioso.
Observemos, de forma rápida, práticas e situações familiares ligadas à tradição religiosa, como o casamento, o
batismo, a morte e o velamento; comportamentos de ordem pessoal regrados por normas morais ditadas por alguma
tradição religiosa; comportamento de busca de ajuda divina diante de qualquer doença ou de situações difíceis na vida.
As relações sociais mais amplas também estão marcadas por imperativos de ordem religiosa: no esporte estamos
acostumados, especialmente no futebol, à cena de uma oração conjunta antes da entrada no campo; no âmbito musical
não são raras as menções que se fazem a personagens religiosos e até mesmo a sentimentos de ordem religiosa; no
campo das artes somos conduzidos a milhares de imagens notadamente carregadas de simbolismo religioso dos mais
diversos matizes; a literatura de natureza religiosa não tem deixado por menos e tem sido o mercado que mais cresce
em termos de editoração nos últimos anos; adornos com diversos fins têm sido pautados por motivos religiosos; o
cinema tem sido pródigo nas temáticas de ordem religiosa; as novelas, fenômeno brasileiro que ganha o mundo,
jamais têm deixado de lado alguma alusão, personagem e até mesmo temática central ligados a fatos eminentemente
religiosos; o papel-moeda, seja o dólar, seja o real, tem feito menção a uma divindade; nossas vestimentas são
conduzidas por modismos, de estilo, de cores ou de tamanho, na maior parte inspirados por concepções religiosas;
nossa alimentação está em grande medida determinada por elementos de ordem religiosa; o modo de expressar
nossas idéias por meio da linguagem é, igualmente, em muito influenciado por formas religiosas; o turismo religioso é
hoje um grande filão na arrecadação de divisas para um município; a educação é fortemente marcada pelos valores
que ela prega, quase sempre idênticos aos valores de ordem religiosa; a área da saúde – o trato com a dor, a vida e a
morte – foi e ainda é construída com suporte religioso; nosso calendário – suas datas festivas e grandes eventos – tem
sua origem no meio eclesiástico; as diversas áreas do conhecimento humano, duma ou de outra maneira, têm se
ocupado com a temática religiosa, como a filosofia, a psicologia, a sociologia, a antropologia, a história, a medicina, a
física, a arqueologia, a geografia e assim por diante.
Apesar das diferentes atitudes de repulsa que caracterizam a negação dos elementos religiosos, as menções
apontam para o fato de que o ser humano busca ligar-se ao transcendente como se mantivesse com tal elemento uma
ligação umbilical, da qual retira os recursos vitais para a sua existência.
A questão que se coloca é a de como compreender essas ligações. Qual o fundamento capaz de sustentar uma
avaliação compreensiva da junção ser humano-transcendente? Há muitas possibilidades viáveis, tanto a partir das
diferentes perspectivas e entendimentos religiosos quanto a partir de escolas de reflexão filosófica.
Além disso, interessa considerar a relação que há, ou pode haver, entre a religião e as manifestações importantes do
espírito humano. A título de introdução, consideremos como se relacionam religião e filosofia, religião e ciência,
religião e moral, religião e teologia.
Religião e filosofia
O que tem a filosofia a ver com a religião? Essa é uma pergunta importante e cuja resposta não é óbvia ou simples. Ao
longo da história do pensamento humano, vemos cooperação e competição entre ambas as áreas. Em um certo sentido, a
cooperação e a competição pressupõem a mesma concepção: a de que compete à razão filosófica provar a veracidade das
idéias religiosas, ou, dito de outra maneira, que compete à razão filosófica determinar se religião e superstição são a
mesma coisa ou se são coisas distintas e separáveis.
Posta a questão dessa maneira, temos duas respostas possíveis: ou a filosofia apresenta provas de que a religião é
verdadeira, ou a filosofia apresenta provas de que a religião não é verdadeira. Se for o primeiro caso, dizemos que há
entre ambas cooperação; se for o segundo, que há competição. E, quando se fala em provas, isso significa que qualquer
pessoa racional deve concordar com o argumento; mesmo que não seja um argumento demonstrativo ao estilo da
matemática (um cálculo bem feito dá um único resultado, e o sujeito que não percebe o resultado ou não concorda com
ele é incapaz. Um exemplo simples: 3x3=9, e não faria nenhum sentido alguém dizer: “Para você, para mim é 8”), o
argumento deveria ser cognitivamente convincente. Aquele que não concorda com a conclusão, ou não compreende o
argumento, ou está agindo de má-fé.
Onde, porém, buscar tais provas? Historicamente, têm sido elas buscadas no raciocínio abstrato, na análise e na
comparação de idéias, na experiência sensorial, no senso comum, nas explicações científicas, no sentimento moral.
Diversos os pontos de partida, similaridade no modo de argumentar. Parte-se de elementos geralmente aceitos e, se for
o caso, de verdades evidentes ou necessárias (que não podem ser negadas), aplicam-se as regras básicas do raciocínio
lógico, dedutivo ou indutivo, alcançando-se uma conclusão, tal como se faz nos raciocínios comuns ou nos científicos.
Se o propósito é mostrar que a filosofia justifica a religião e prova a existência de Deus (ou da realidade última), temos
os argumentos ontológicos, teleológicos, cosmológicos, morais. Se o propósito é mostrar que a filosofia refuta a religião
e prova que Deus não existe, temos os argumentos do mal, os argumentos evidencialistas etc.
Exemplo do primeiro tipo: observamos que a natureza exibe ordem e finalidade, como se fosse uma grande
máquina, na qual as partes se ajustam umas às outras perfeitamente, de forma a fazer o todo funcionar. Na nossa
experiência, sempre que há ordem e finalidade em algo, tal objeto foi pensado e realizado por uma mente inteligente.
Logo, a ordem e a finalidade que observamos no universo indicam a existência de um criador inteligente. Este se chama
Deus. Logo, Deus existe. Exemplo do segundo tipo: observamos que há muitos e diversos males no universo. Se Deus
fosse bom, Ele desejaria eliminar todo e qualquer mal; se fosse onipotente, Ele o faria. Como o mal existe, Deus não é
onipotente ou não é bom, ou ambos. Logo, como a religião afirma que Deus é bom e onipotente, Deus não existe.
Mesmo aceitando que essa é a tarefa da filosofia, isso não quer dizer que o filósofo acredita que é assim que as
pessoas aceitam ou recusam uma religião, ou seja, com base em argumentos. As religiões seguem seu caminho
independente disso, e a preocupação com argumentos justificadores é, quando muito, secundária. Mas os argumentos
mostrariam se as pessoas são racionais na sua crença. Por outro lado, pode ser que o pressuposto esteja errado, e não
compete à filosofia fundamentar ou provar a verdade das crenças religiosas básicas. A tarefa da filosofia em relação à
religião seria mais modesta. Atualmente, muitos filósofos, tendo em vista o desenvolvimento histórico das explicações
filosóficas, julgam que a filosofia pode ajudar a melhor compreender as idéias religiosas e a auxiliar as religiões a se
livrarem de alguns elementos supersticiosos indevidamente acrescentados à fé básica, especialmente aqueles
relacionados a confusões conceituais, derivadas de um uso inadequado da linguagem, ou à compreensão equivocada de
teorias e hipóteses científicas, ou a preconceitos de natureza não religiosa. Essa abordagem tem se mostrado mais
produtiva do que as outras duas opções mencionadas.
Religião e ciência
E quanto à relação entre religião e ciência? Na maioria das vezes, quando isso é discutido, por ciência se entendem as
ciências naturais, como física, química e biologia. Há quem julgue que certas teorias científicas estão em direta
contradição com a crença religiosa. Um exemplo contemporâneo pode ser encontrado na discussão entre o
evolucionismo e a teoria do desígnio inteligente, ou criacionismo. Se olharmos para o passado, esse era o juízo feito por
alguns acerca da relação entre o heliocentrismo e o relato bíblico cristão sobre a criação e o papel do ser humano nela.
Críticos religiosos do heliocentrismo, à época, julgavam que a teoria geocêntrica era, esta sim, compatível com a crença
cristã, enquanto sua alternativa era incompatível. Hoje, nem mesmo grupos fundamentalistas percebem uma
contradição, e muito menos as igrejas tradicionais ou os cientistas ateus ou agnósticos.
A situação com o evolucionismo é, sem dúvida, um pouco mais complicada. Podemos, no entanto, dizer que isso se
deve em boa parte às conseqüências filosóficas, morais, teológicas extraídas por alguns de seus defensores. Se esse tipo
de argumento for legítimo, há um conflito. Por outro lado, também parece que esse conflito é alimentado por uma
interpretação literalista em demasia dos textos sagrados. Isso indica depender o conflito de certas concepções do
alcance das teorias científicas (concepções estas que não são científicas no mesmo sentido em que o são as teorias) e de
concepções hermenêuticas acerca de como deve ser entendida a revelação.
Contudo, há tanto teólogos quanto cientistas (crentes ou descrentes) que sustentam serem a ciência e a religião duas
esferas explicativas completamente independentes e sem relação. Assim, não há como surgir qualquer conflito. É
preciso preservar a integridade de cada esfera. Erram os teólogos que supõem poder extrair hipóteses científicas dos
relatos bíblicos (no caso do cristianismo, mas o mesmo raciocínio se aplica a qualquer outra religião que tenha texto
sagrado), e erram os cientistas que supõem poder extrair conseqüências morais, filosóficas ou religiosas de teorias e
hipóteses científicas. Água e óleo não se misturam, mas, por isso mesmo, não são incompatíveis, e um não anula o
outro.
Esta tese da independência ou da integridade da ciência e da teologia pode ser mantida, sem, no entanto, afirmar
que são duas esferas completamente separadas. Uma terceira abordagem sustenta a necessidade de integrar religião
(ou, talvez melhor, teologia) e ciência em uma explicação mais abrangente. Essa integração seria sempre historicamente
condicionada, podendo e devendo ser revisada, na medida em que se alteram e progridem ambas as esferas.
Essas considerações mostram que o conflito entre ciência e religião, ou o uso da ciência na religião, ou o uso da religião
na ciência, não é algo que deva ser simplesmente aceito ou recusado. É preciso considerar atentamente qual teoria científica
se tem em mente, qual interpretação teológica é suposta e qual visão geral da relação entre ambas é pressuposta.
Religião e moral
Algo que chama a atenção de quem participa das religiões ou as observa é a íntima conexão destas com a moral. Muitos
procedimentos e discursos religiosos (praticados no âmbito das religiões organizadas, especialmente) parecem consistir em
admoestações para que as pessoas corrijam seu modo de vida e passem a agir de acordo com códigos morais mais estritos,
que não se restringem a proibir determinados atos, mas também exigem do crente ações positivas, de auxílio aos doentes,
aos necessitados, por exemplo. Mesmo que haja diferença (embora não tão acentuada) entre os códigos morais professados
por diferentes religiões, não há como afirmar que essa relação seja meramente circunstancial, como parece ser o caso da
relação entre ciência (especialmente as chamadas ciências naturais) e religião. Como podemos explicar essa conexão íntima?
Uma proposta de explicação procura reduzir a religião à moral. Isso implica dizer que o significado essencial da
religião se encontra na moralidade. A religião consistiria em uma forma disfarçada ou mais eficiente de induzir as
pessoas a um comportamento ético desejável. Alguns pensadores sugeriram que há uma similaridade entre o papel das
religiões e o ensinamento moral de uma criança. Assim como se faz necessário por vezes ensinar bons modos a uma
criança na base de punições ou histórias fantasiosas, há pessoas (e são elas muitas) que precisam receber as idéias
morais acompanhadas de alguma narrativa cósmica ou divina. Caso contrário, não compreenderão a norma moral nem
se submeterão a ela. Mas, uma vez que se tornam maduras e autônomas, percebem que a moral se mantém por si
mesma e podem, então, abandonar a religião.
Esse tipo de explicação pressupõe a falsidade das histórias e/ou idéias religiosas. Se aceita por alguém, essa
pessoa deixa de ser, em um sentido mais forte, religiosa. Esse resultado não quer dizer que a explicação esteja
equivocada. Contudo, outras objeções que mostrariam a inadequação de uma tal hipótese podem ser mencionadas.
Primeiro, não faz jus ao fenômeno religioso. Mesmo que a moral seja parte integrante das religiões, não é tida como
única nem como a principal. Outros elementos importantes são a estética, os ritos, os mistérios, a ação de Deus na
história (no caso das religiões teístas). E o que, prestando atenção ao discurso religioso como tal, parece ser o mais
importante está naquilo que se poderia chamar de realidade última, o verdadeiro por trás das aparências, o
efetivamente real, o fundamento de tudo que existe (vamos chamar isso de o elemento metafísico). Por exemplo, no
cristianismo, considera-se como o ponto mais importante saber quem é Deus, quais seus atributos, qual sua relação
conosco. Se o Deus cristão fosse apenas um princípio moral, ou o princípio do bem, o cristianismo perderia muito de
seu sentido. Mesmo que alguém julgue ser o cristianismo, em última análise, falso, dizer que sua essência é a
moralidade constitui uma simplificação grosseira; além disso, para dizer que o cristianismo é falso, é preciso supor a
seriedade do elemento metafísico. Acrescentemos ainda que uma crítica feita constantemente por pessoas que
consideram os relatos religiosos como fantasia se refere à crueldade e à violência que as religiões exibem, ao terror
mental que exercem sobre os crentes, à sua intolerância. Se uma tal crítica faz sentido, é justamente porque a conexão
entre moral e religião não pode ser adequadamente explicada como se a essência da religião fosse a moral.
Outra explicação, e esta a favorecida pelos religiosos, está em que o elemento metafísico provê o fundamento da
moral. Esta depende da religião e lhe dá o suporte real de que ela necessita. Como a moral não é descritiva, mas
normativa, ou seja, diz como devemos agir ou que hábitos virtuosos devemos cultivar, não seria ela capaz de responder
à questão sobre sua própria validade. Se alguém pergunta por que deve ser moral, é preciso apontar para algo fora da
moral, para a realidade, para as coisas como elas realmente são. Devemos ser morais porque assim é o mundo. Por
exemplo, o cristão deve observar o decálogo porque Deus assim o quer, ou porque Deus criou o mundo de tal forma
que a inobservância dos princípios e das regras morais afeta e perverte toda a natureza.
Mas há uma outra alternativa de como compreender a relação entre moral e religião, pela qual nenhum desses dois
elementos serve de razão ou fundamento do outro, embora permaneçam intimamente ligados. A religião não é uma
forma mítica de impor regras morais nem necessita a moral de um fundamento religioso. São autônomas, sem, no
entanto, que isso implique que qualquer moral é compatível com qualquer religião.
Religião e teologia
Muitas vezes, os termos teologia e religião são considerados como sinônimos. Contudo, convém distingui-los para
melhor compreender o fenômeno religioso. Teologia é um termo grego e significa “conhecimento sobre Deus”. Hoje em
dia, é comum a distinção entre teologia natural e teologia revelada. Teologia natural se refere àquele conhecimento
sobre Deus que se baseia na experiência comum – quando, por exemplo, observamos o mundo ou quando consideramos
nossos sentimentos internos – e na racionalidade, enquanto teologia revelada se refere àquele conhecimento sobre Deus
que se baseia em alguma manifestação direta da divindade. E no que isso difere de religião?
A diferenciação pode ser especialmente útil para aquelas religiões que têm um texto sagrado e/ou uma tradição
considerada normativa. Assim, religião consistiria no conjunto de verdades reveladas (por exemplo, no cristianismo, que
Deus é triúno, que Jesus é Deus encarnado) de forma clara e não simbólica, enquanto teologia significaria a reflexão
organizada e sistematizada da revelação. Além disso, haveria os ritos e os modos de vida eclesial (de igreja, ou religião
organizada). Desse modo, seria possível manter um núcleo fixo e uma concepção progressiva da experiência e da
reflexão religiosas, consideradas então como teologia. A religião não muda, mas a teologia sim, especialmente no que se
refere a suas relações com a ciência e a cultura.
( 2 )
hinduísmo
Ronaldo Steffen
perfil
• Fundador: não há fundador.
• Ano de fundação: as raízes do hinduísmo
remontam a um período entre 1500 a.C. e 200 a.C.
• Textos sagrados: Livro dos Vedas, que consiste numa
coletânea de quatro obras, das quais certas partes
datam de 1500 a.C.
• Estatística: hoje, cerca de 80% da população da
Índia é hinduísta. O restante divide-se entre
muçulmanos (10%), cristãos (4%) e outros grupos
(6%). Em todo o mundo, os hinduístas perfazem
cerca de 13% da população mundial.
(2.1)
história
O passado
É difícil identificar uma data para registrar o início do hinduísmo. Costuma-se atribuir a alguma data entre 1500 a.C. e
200 a.C. Nesse período, um grupo de nobres (denominados de arianos) dominou o vale do rio Indo. Os nobres
trouxeram suas crenças, fortemente influenciadas por concepções religiosas indo-européias (grega, romana e
germânica). Esse período é denominado de período védico do hinduísmo em razão dos hinos recitados pelos sacerdotes.
Esses hinos eram chamados de vedas e significam “conhecimento”.
O sacrifício era importante para o culto ariano. Faziam-se oferendas aos deuses a fim de se conquistarem seus favores
e se manterem sob controle as forças do caos.
Achados arqueológicos no vale do rio Indo indicam que houve uma civilização avançada na Índia, anterior à
chegada dos indo-europeus, e é certo que essa civilização também contribuiu para o hinduísmo moderno.
Num período posterior, provavelmente entre 1000 a.C. e 500 a.C., surgiram os Upanishads, escritos em forma de
diálogos entre o mestre e o discípulo. É nesse período que é introduzida a noção de Brahman, a força espiritual essencial
sobre a qual se baseia todo o universo. É por essa razão que se diz que todos nascem do Brahman, vivem no Brahman e
retornam ao Brahman por ocasião da morte.
Os “Upanishads” introduzem a idéia de “Brahman”. Todos
nascem dele, vivem nele e na morte retornam a ele.
Hoje
O hinduísmo, embora originário da Índia, possui adeptos espalhados por todos os países a sua volta, em especial
Nepal, Bangladesh e Sri Lanka.
Apenas em 1947 é que a Índia deixa de ser um Estado religioso e passa a garantir direito de expressão religiosa a
todas as denominações religiosas.
Nesse mesmo ano, a tensão entre hinduístas e muçulmanos em razão da independência da Índia resultou na
criação do Paquistão como um Estado muçulmano separado, dividido em duas partes distintas, o Paquistão do Leste e
o Paquistão do Oeste. Depois da guerra de 1971 entre a Índia e o Paquistão, o Paquistão do Leste se tornou um Estado
independente com o nome de Bangladesh.
(2.2)
ensinamentos
Deuses
A multiplicidade do hinduísmo também se manifesta em seu conceito de transcendente. Há duas formas de compreender
o tema: uma filosófica (Brahman é o princípio e a realidade última; o universo em sua totalidade é um só com a
divindade; Brahman toma a forma de três divindades: Brahma, Vishnu e Shiva, respectivamente o Criador, o
Mantenedor da criação e o Destruidor) e outra popular, ou menos acadêmica (acredita-se num grande número de
divindades a tal ponto que as aldeias elegem sua divindade local).
Deusas
O hinduísmo tem uma série de deusas. Alguns adotam a teoria de que essa abundância de deusas não passa da
expressão de uma grande e poderosa divindade feminina, a Rainha do Universo ou Deusa-Mãe. Sua manifestação mais
conhecida é Kali, a deusa negra, adorada, sobretudo, no Leste da Índia e a quem se sacrificam animais. O alto status de
Kali no mundo dos deuses é evidente pelas imagens que a mostram pisoteando o corpo de Shiva.
A importância das deusas na religião indiana é visível pela escolha da Mãe Índia (Bhárata Mata ou Bharthamata)
como a divindade nacional do moderno Estado da Índia. Na cidade de Varanasi há um templo especial que lhe é
dedicado. Ali, em vez de uma representação da deusa, está exposto um mapa da Índia.
Divindades menores
A maioria das aldeias tem seu templo dedicado a Vishnu ou a Shiva. Esses deuses se concentram nas questões maiores,
universais e, em geral, são homenageados nos grandes festivais. Num nível mais doméstico, as pessoas costumam
visitar pequenos templos dedicados a divindades menos importantes.
Embora não sejam tão poderosas como Vishnu ou Shiva, é mais fácil se aproximar delas para assuntos de menor
importância, tais como os problemas pessoais.
Há deuses para as questões universais
e deuses para as questões pessoais.
Os deuses menores por vezes exercem influência em áreas específicas, como, por exemplo, em certos tipos de
doença. Muitos deles têm origem humana: podem ser heróis que morreram em batalha ou esposas que se ofereceram
para serem queimadas na pira funerária do marido. Alguns deuses são espíritos malignos que foram deixados para trás
por homens maus. Ao cultivar esses espíritos como deuses, é possível controlar e neutralizar sua maldade.
Ser humano
A concepção que o hinduísmo desenvolve a respeito do ser humano está intimamente vinculada a uma compreensão
ampla que privilegia os entendimentos sobre carma, reencarnação e o sistema de castas.
Carma e reencarnação
O ser humano tem uma alma imortal que não lhe pertence. Depois da morte, a alma volta a aparecer pelo
renascimento, não necessariamente em forma humana, podendo, também, vir a renascer num animal.
O conceito que explica esse eterno vai-e-vem da alma é o carma (“ato” ou “ação”) do ser humano, referindo-se tanto
às ações como aos pensamentos, às palavras e aos sentimentos. Desse modo, entende-se que o carma é determinante
para o que irá ocorrer numa próxima existência. Muito embora se possa concluir que o carma é uma punição ou uma
recompensa das ações humanas, não é esse o modo de compreender sua extensão. É como se ele fosse apenas uma lei
natural da existência. Colhe-se aquilo que se planta, e é justamente isso que explica as diferenças entre as pessoas. O ser
humano é responsável por si mesmo e de posse do livre-arbítrio está apto a produzir as mudanças necessárias com
vistas a uma melhor existência posterior, quando renascer.
O sistema de castas
O surgimento do conceito de casta é confuso. O fato a ressaltar é a chegada dos arianos à Índia, com língua, cultura e
traços fisionômicos (altos, pele clara, olhos azuis e cabelos lisos) diferentes. A diferença propiciou um sistema de
identificação pela cor (varna, em sânscrito). As classificações tiveram ampliação à medida que a organização se fazia
necessária, de modo que se chegou a uma estratificação com quatro classes sociais: videntes, administradores,
produtores e seguidores.
Religiosamente, as castas indicam o grau
de pureza ou impureza de uma pessoa.
Na prática popular, hoje, a casta é entendida como as possibilidades que alguém tem de se relacionar com coisas
mais puras ou impuras. Essas possibilidades são determinadas pelas regras que conduzem cada casta: castas elevadas
buscam cada vez mais distanciamento das coisas materiais; castas mais baixas se permitem a aproximação com as
coisas da matéria. Duma ou doutra forma, se alguém quebrar alguma das regras de sua casta, restam-lhe os rituais de
purificação, sendo o mais conhecido o banho num dos muitos rios sagrados.
Os efeitos do sistema de castas e suas regras específicas influenciam diretamente a base da divisão de trabalho na
comunidade. Certas atividades e certos trabalhos são tão impuros que somente determinadas castas podem realizá-
los. Essas castas têm o dever de ajudar os outros a manterem sua pureza. Por outro lado, apenas as castas que
preencham os requisitos de pureza podem se aproximar dos deuses mais elevados. Para que isso ocorra com mais
facilidade, outras pessoas devem ser impuras. Entretanto, todos se beneficiam da limpeza dos puros, pois todos os
hinduístas tiram proveito dos ritos que são praticados.
O sistema de castas deu um novo contexto à vida do indiano moderno. Assim, ser expulso de sua casta é o pior
castigo imaginável e, por isso, só utilizado para crimes muito sérios. O nível mais baixo no sistema de castas é o dos
intocáveis ou sem-casta (também chamados de párias): criminosos, lixeiros e curtidores de couro de animais, por exemplo.
As complexas regras que controlam o contrato social entre as castas eram muito rígidas. A Constituição da Índia, de
1947, introduziu, no entanto, medidas com a finalidade de banir a discriminação por casta. Como não basta mudar a
legislação para acabar com antigas divisões sociais e religiosas, o sistema de castas continua tendo um papel
importante, em especial nas aldeias.
Vida e morte
Durante o período védico, as doutrinas do carma e dos renascimentos eram vistas como algo positivo. Por meio dos
sacrifícios e das boas ações, o ser humano podia garantir que viveria várias vidas. Mais tarde, o hinduísmo passou a
considerar esse ciclo como algo negativo, como um círculo vicioso a ser quebrado. É possível, assim, distinguir três
caminhos para a libertação: as vias do sacrifício, do conhecimento e da devoção.
A via do sacrifício
Como vimos, a palavra indiana para ”ato” é carma. Hoje ela é usada para denotar todos os atos humanos e até mesmo a
coletividade desses atos. No período védico, o termo se referia basicamente a atos religiosos ou rituais, em especial aos
atos sacrificiais. Estes eram necessários para incrementar a fertilidade e manter a ordem universal, além de propiciar a
possibilidade de libertação do constante nascer-renascer, integrando-se de modo definitivo com Brahman.
A via da compreensão ou do conhecimento
A compreensão ou o conhecimento é apenas uma das formas de libertar-se do ciclo de renascimentos, pois se enfatiza que
é a ignorância que aprisiona o ser humano a esse ciclo.
Compreender a verdadeira natureza da existência, o oposto da ignorância, é, portanto, um caminho para a
libertação. É apenas quando o ser humano adquire o reto conhecimento que ele é redimido da implacável roda da
transmigração. O reto conhecimento mencionado nada mais é do que a compreensão de que a alma humana (atmã: é o
reflexo da alma universal e encontra-se nos seres humanos, nas plantas e nos animais) e o mundo espiritual (Brahman)
são uma e a mesma coisa.
A via da devoção
Uma terceira rota para a salvação é a via da devoção. Essa proposta começou a difundir-se no Sul da Índia, por volta de
600 a.C. e logo se espalhou por toda a região da Índia. Já no século III a.C. esse caminho para a libertação encontrara
sua expressão no Bhagavad Gita, um poema catequético. Essa terceira tendência do hinduísmo é a que predomina na
Índia moderna, e o livro Bhagavad Gita é o texto sagrado que ocupa o lugar supremo na consciência do indiano médio.
Cumprir os rituais. Buscar o conhecimento.
Contemplar.A religião na Índia oferece a possibilidade de
vários caminhos para a libertação, e essa multiplicidade
é mais uma característica do hinduísmo.
Mundo
É plural
O mundo não é uno, mas plural. Há diversos mundos interconectados pela mesma razão. É como se fossem infinitas
galáxias, e cada uma com o seu ponto de referência, como a Terra. Para dar uma dimensão superlativa ao conceito de
infinitas galáxias, o hinduísmo entende que entre esse ponto de referência e o restante da galáxia há diversos outros
mundos mais sutis, acima, e mais grosseiros, abaixo. Os mundos sutis e grosseiros são os espaços ocupados pelas almas
e que por eles transitam conforme os méritos adquiridos ou não.
Cada mundo e galáxia têm ciclos diferentes de tempo. Há tempo que se expande e tempo que se recolhe, eterna e
incontavelmente no mesmo movimento, estabelecendo os ciclos cósmicos.
É meio
O mundo e suas galáxias têm uma razão. É o espaço onde as almas individuais cumprem a inexorável lei do carma até
sua libertação. Inerente ao conceito de carma está que toda decisão do ser humano terá determinadas conseqüências.
Não há fatalismos no universo.
Nos mundos mais grosseiros há uma percepção maior dos elementos sensoriais. Em razão dos prazeres
proporcionados, geralmente assentados no eu individual, o ser humano deve buscar a libertação para mundos cada vez
mais sensíveis, em direção ao EU absoluto, o Transcendente, até sua integração completa.
É moderado
O mundo e suas galáxias são o espaço onde bem e mal, prazer e dor, conhecimento e ignorância se entrelaçam em
proporções quase iguais. Não faz parte dos propósitos do universo ser um paraíso, mas o espaço onde o espírito do ser
humano pode viabilizar seu aprendizado de integração ao Transcendente. É como se o universo perceptível servisse
apenas para poder perceber-se que há outra realidade além dele.
É maya
O mundo e suas galáxias são maya. A palavra maya possui a mesma raiz que mágica. Na mágica, o que vemos nem
sempre é o que pensamos ver. Assim é o universo. Enquanto em processo de constantes renascimentos, o ser humano
pode cair no ardil de que a materialidade e a multiplicidade são realidades independentes, quando, em realidade, são
Brahman, o todo inclusivo de tudo o que é e de tudo o que não é.
O mundo e suas galáxias podem ser a prisão do ciclo de constantes e infindáveis renascimentos do ser humano. O
universo aí está para poder perceber-se sua unidade, que é Brahman. Mesmo que o ser humano não o perceba ou o
perceba apenas parcialmente, ele continua sendo Brahman.
É lila
O mundo e suas galáxias são o espaço lila (“dança”) do Transcendente. É onde ele dança, numa espécie de jogo, de
forma incansável, infinda, irresistível, mas absolutamente benéfica. É o jogo que o Transcendente criou a fim de que o
finito seja superado e destruído pelo infinito.
(2.3)
principais tendências
Escolas do pensamento hindu
Entre os séculos II a.C. e IV d.C., surgiram seis escolas ortodoxas da filosofia clássica hindu, descritas a seguir. Não
eram grupos organizados, mas sistemas de pensamento que apresentavam perspectivas diversas, porém
complementares, de métodos devocionais, interpretação das escrituras e cosmologia.
• Vaiseshika – Defende que a libertação do ser humano se dá pela compreensão das leis da natureza.
• Nyaya – A libertação do ser humano se dá pelo conhecimento por meio do raciocínio lógico.
• Samkhya – A libertação do ser humano ocorre quando se alcança a união da alma individual com o
Transcendente (moksha) por meio da consciência que se desvencilha das preocupações mundanas e materiais.
• Mimamsa – A libertação do ser humano dar-se-á à medida que os escritos sagrados forem adequadamente
interpretados e, em decorrência, produzirem o justo agir (darma).
• Vedanta – A libertação do ser humano é decorrência da correta compreensão do Transcendente e dos
conhecimentos espirituais, possibilitada pela igualdade entre a alma individual e o Transcendente.
• Bhakti – A libertação do ser humano é possível em razão das atitudes devocionais que permitem a união entre
a alma individual e o Transcendente, embora sejam diferentes.
Correntes hindus modernas no Ocidente
Em meados do século XX, surgiu na Europa e nos Estados Unidos um grande interesse pela espiritualidade oriental.
Dentre as muitas razões para isso, podemos afirmar que o Ocidente materialista, espiritualmente estéril, percebeu que a
vida e o viver iam muito além dos reducionistas aspectos biológicos. Esse interesse, que atingiu seu ponto culminante
nas décadas de 1960 e 1970, concentrou-se no budismo e no hinduísmo, com destaque para a ioga. Surgiram inúmeros
movimentos que apresentaram o modo hinduísta de responder às questões da vida. Eram, em regra, movimentos
centrados na personalidade de algum mestre (guru) carismático, venerado como se fosse um avatar. Dos movimentos
que permaneceram na ativa após a morte de seus fundadores, destacamos:
• Meher Baba (1894-1969) – Foi o primeiro guru moderno de importância a conquistar adeptos no Ocidente.
Nascido na Índia, elaborou uma doutrina que sintetizava várias tradições religiosas, inclusive os conceitos de
carma e samsara (“renascimento cíclico”). Ensinava que o estado de iluminação que liberta só se alcança por
meio do amor puro, desinteressado.
• Sociedade Internacional da Consciência de Krishna – Foi fundada em meados da década de 1960 no Ocidente por A. C.
Bhaktivedanta Swami Prabhupada (1896-1977). Seus discípulos de túnica amarela procuram a iluminação por
meio do estudo das escrituras védicas, em especial o Bhagavad Gita, e do canto de um mantra em louvor a
Krishna e Rama (graças ao qual o movimento é popularmente conhecido como Hare Krishna). Praticam um
ascetismo rigoroso, que inclui o celibato, a não ser com finalidade de procriação e dentro do casamento.
• Meditação transcendental – Ensina um método simples de meditação que se baseia em um mantra pessoal (palavra
ou frase) que, constantemente repetido, produz o efeito de reduzir o estresse e de promover a integração
pessoal e, por conseqüência, a iluminação que liberta. Foi trazido para o Ocidente por Maharishi Mahesh
Yogi, nascido em 1911, em fins da década de 1950 e alcançou popularidade quando os Beatles se tornaram
seus adeptos.
• Missão da Luz Divina – Fundado na Índia em 1960 e no Ocidente em 1971, proclamou um menino guru, Maharah
Ji, nascido em 1958, o mais recente avatar do Transcendente. Ensina quatro técnicas de meditação que
capacitam os devotos a se voltarem para dentro de si mesmos a fim de experimentarem o estado de
iluminação: a Luz Divina, a Harmonia Divina, o Néctar Divino e a Palavra Divina.
• Bhagwan Shri Rajneesh (1931-1990) – Também conhecido como Osho. Ministra a doutrina do amor livre, da
sexualidade desinibida e dos atos impulsivos, juntamente com uma forma de meditação dinâmica que visa
liberar a energia da Terra. Uma das técnicas de liberação das energias reprimidas é o riso. Possui centros de
meditação em todo o mundo. Só no Brasil são oito centros, além de um jornal de circulação nacional.
( 3 )
budismo
Ronaldo Steffen
• perfil
• Fundador: Siddartha Gautama, identificado por
seus seguidores como Sakyamuni (pertencente ao clã
dos Sakya), Buddha (“o iluminado”) ou Bhagavat
(“senhor”). É tido como o quarto dos cinco budas
encarnados.
• Data de nascimento: não há certezas. As biografias
mencionam datas desde 624 a.C. até 410 a.C.
• Local de nascimento: reino dos Sakyas, na cidade de
Kapilavastu, próxima à fronteira atual entre a Índia
e o Nepal.
• Ano de fundação: estima-se que Siddartha tenha
atingido o estado de iluminação por volta de seus
35 anos de idade.
• Textos sagrados e reverenciados: os ensinamentos
de Buddha não foram originalmente escritos por
ele, mas transmitidos oralmente por seus
seguidores. Ao surgirem os primeiros escritos, duas
formas podem ser identificadas: o cânone sulista de
Pali, da tradição Theravada (escrito no Sri Lanka por
volta do século I a.C.), e o cânone nortista sânscrito,
da tradição Mahayana. O cânone de Pali é composto
por três obras (pitaka): a) Sutra: os discursos de
Buddha; b) Vinaya: as origens das regras da
disciplina monástica e c) Abdhidharma: tratados
escolásticos sobre a psicologia e a filosofia budistas.
Já o cânone de tradição Mahayana crê que as
doutrinas primeiras são incompletas e necessitam
ser aperfeiçoadas com os tratados interpretativos.
• Estatística: atualmente é um dos quatro maiores
grupos de tradição religiosa. Os números
correspondentes a essa afirmação são difíceis de
serem comprovados em vista das diversas escolas
budistas. Hoje é muito difundido no Sri Lanka e no
Sudoeste da Ásia, embora esteja também presente
na China, na Coréia e no Japão. Excluindo a China,
estima-se que cerca de 200 milhões de pessoas
professam a fé budista.
(3.1)
história
A Índia antes do budismo
O mundo à época do nascimento de Siddartha era de mudanças. Por volta de 1500 a.C., a Índia passou a ser
influenciada pela religião védica, trazida pelos guerreiros arianos. Possivelmente o processo sincrético ocorrido entre os
arianos e os não-arianos tenha originado o hinduísmo após séculos de evolução. Essas mudanças teriam ocorrido entre
os anos 1000 a.C. e 200 a.C. Além das revoltas filosóficas contra o vedismo e o bramanismo, duas religiões surgiram na
Índia: o jainismo e o budismo. Acresce que nesse tempo surgiram duas grandes escolas filosóficas: a Ajivakas, ou
nihilistas, e a Lokayatas, ou materialistas. Posteriormente, essas duas escolas opuseram-se ao hinduísmo. Popular
também à época do nascimento de Siddartha era um movimento denominado Sâmara, uma espécie de contracultura
dos mendicantes religiosos, que optaram pela renúncia ao mundo. Todos esses movimentos surgiram no exato
momento em que o ambiente da Índia era um campo fértil para novas idéias.
Nascimento e vida de Siddartha
O príncipe Siddartha cresceu em meio à fortuna e ao luxo. Seu pai ouvira uma profecia de que seu filho ou seria um
poderoso governante, ou abandonaria por completo o mundo. Esta última opção ocorreria caso o príncipe
testemunhasse as mazelas e o sofrimento das pessoas. Para evitar essa situação, tentou proteger seu filho, mantendo-o
recluso aos limites do palácio e cercado de delícias e diversões. Casou-se jovem com uma prima e mantinha um harém
de dançarinas.
Aos 29 anos, Siddartha experimenta uma situação que mudaria por completo sua vida palaciana. Embora proibido
pelo pai, arriscou-se a sair do palácio e viu, pela primeira vez, um velho, um homem doente e um cadáver em
decomposição. A contradição se interpôs quando, a seguir, viu um asceta com uma expressão de radiante alegria.
Percebeu que a vida de riqueza e prazer não traduz uma existência plena e com sentido. Questionou-se sobre a
possibilidade de haver algo que ultrapassasse a velhice, a doença e a morte. Percebeu-se tocado por um profundo
sentimento de compaixão pelas pessoas e por um chamado a fim de libertá-las do sofrimento. Ato contínuo, renuncia à
vida prazerosa do palácio, à sua esposa e filho e parte para uma vida de andarilho.
Da vida de abundância passa aos extremos dos exercícios ascéticos. Come cada vez menos; chega a alimentar-se
apenas com um grão de arroz por dia. O que esperava conseguir era o domínio do sofrimento. Sem resultado, adota o
“caminho do meio”, a meditação. Após seis anos de meditação ascética, aos 35 anos, chega à iluminação (bodhi), à
margem de um afluente do rio Ganges. Agora era um buda, um iluminado. Alcançara a percepção de que todo o
sofrimento do mundo é causado pelo desejo. É apenas suprimindo o desejo que o homem pode escapar de outras
encarnações e atingir a realidade última: o nirvana. Encontrara para si uma saída para a superação do sofrimento.
Passo seguinte, Siddartha decide compartilhar sua percepção.
À época, Benares era um grande centro religioso. É para lá que se dirige. Faz sua primeira pregação e desencadeia o
que se denomina de rodas de instrução. Monges mendigos tornam-se seus discípulos e por aproximadamente 40 anos o
seguem pelo Nordeste da Índia. Seus seguidores, desde o princípio, dividem-se em dois grupos: os leigos e os monges.
Por volta dos 80 anos, adoece e despede-se de seus discípulos. Daí para frente eles poderiam contar somente com o
darma (“instrução”) que Siddartha lhes havia dado nos anos anteriores.
(3.2)
ensinamentos
Uma vez que o budismo surge dentro do contexto hinduísta como um caminho individual para a libertação dos
renascimentos, é natural que muitos de seus ensinamentos estejam marcados por esse pensamento. Destacam-se, de
modo especial, os pensamentos referentes às doutrinas do renascimento, do carma e da libertação (ou salvação).
Deuses
Buda não negou a existência dos deuses. Todavia, acreditava que esta era transitória, assim como a existência humana.
Embora eles vivessem mais tempo que os seres humanos, também estavam atrelados ao ciclo de renascimentos e em
nada podiam ajudar os seres humanos a se redimirem de tal ciclo.
Outro aspecto a ressaltar diz respeito à adoração de demônios, espíritos e outras divindades. Todos são seres vivos
e, se cultuados de modo correto, podem trazer vantagens para a vida neste mundo.
Ser humano
Para o hinduísmo, originalmente, todo ser humano, bem como todo o universo, possui uma única alma (atmã), que
sobrevive de uma existência a outra e é idêntica, total ou parcialmente, ao Transcendente universal (Brahman).
Buda rompe essa lógica. Nega que o ser humano tenha alma e rejeita a existência de um espírito universal. A alma é
fugaz e fruto da ignorância humana, que promove o desejo, fundamental para a criação do carma individual.
Nessa dimensão, o budismo entende a vida humana como uma série de processos mentais e físicos que alteram o
ser humano de momento a momento. Tudo é transitório.
“Aquilo que você planta é o que colhe.” O ser humano
é dono de seu destino: o que pensa e faz é determinante
de seu futuro cósmico.
Vida e morte
A lei do carma
Para Siddartha, o Buda, o ser humano é escravizado por uma série de renascimentos. Como todas as ações têm
conseqüências, o princípio propulsor que está por detrás do ciclo nascimento-morte-renascimento são os pensamentos
dos seres humanos, suas palavras e seus atos (carma).
A idéia básica consiste em que tudo o que fizemos em determinada vida, ainda que passada, repercute e alcança-
nos no presente. As ações de uma vida estendem-se a outra. O ser humano irá colher no presente aquilo que plantou
no passado. Não há “destino cego” nem “divina providência”. Daí a impossibilidade de escapar do carma. Enquanto
houver um carma, o ser humano está fadado a renascer e manter-se preso à existência humana, não transcendendo.
Em razão disso, torna-se imperiosa a busca por uma saída que seja capaz de produzir a libertação humana.
As quatro nobres verdades sobre o sofrimento
O denominado Sermão de Benares, que apresentou as quatro verdades sobre o sofrimento humano, ocorreu depois que
Siddartha obteve o estado de iluminação. As quatro verdades demonstram o seguinte:
• Tudo é sofrimento – Para o budismo, o sofrimento implica algo mais do que mero desconforto físico e
psicológico. Toda a existência é manchada pelo sofrimento, pois tudo é passageiro. Quem não percebe isso é
cego. Isso, no entanto, não significa que o budismo negue toda a felicidade material e mental. A felicidade
pode ser encontrada em muitos setores da vida, como na família, e em muitas coisas que estão à volta do ser
humano. Porém, nada disso vai durar para sempre.
• A causa do sofrimento é o desejo – O desejo é o mesmo que ânsia. Há três tipos de desejos: desejo pela sensualidade,
desejo por ser/existir e desejo por não ser/não existir. Resumida e metaforicamente, significa prender-se a algo
no curso da existência como se ele fosse absolutamente substancial para o ato de existir. É o desejo que
produz a existência continuada e a necessidade do renascimento. Não é a transitoriedade da felicidade que
causa o sofrimento, mas a atitude frente a ela, como o apego e a ignorância.
• O sofrimento cessa quando o desejo cessa – A experiência de interrupção do sofrimento é tão real quanto a própria
experiência do sofrimento. À interrupção do sofrimento dá-se o nome de nirvana. O nirvana é a cessação de
mudança. O nirvana pode apenas ser experimentado, mas não descrito. Resumidamente pode ser definido
como a cessação dos apegos ou dos desejos e certamente não é identificado com o céu. O nirvana não é um
lugar real ou metafórico. Em vez disso, o pressuposto é que a dor e a cessação da dor são duas
experiências reais realizadas aqui e agora e, por isso, nirvana não é um estado futuro. Simplesmente é o
estado em que o desejo cessa completamente.
O desejo cessa seguindo-se o caminho das oito vias – São elas:
• Entendimento (ou percepção/visão) justo: para conhecer a natureza e a origem do sofrimento, a cessação do
sofrimento e o caminho que conduz para a cessação do sofrimento.
• Resolução justa: renunciar à materialidade presente no mundo e não prejudicar ou eliminar qualquer ser vivo.
• Palavra justa: abster-se da mentira ou da calúnia, da injúria e dos mexericos.
• Conduta justa: abster-se de tirar a vida, roubar e praticar a luxúria.
• Sustento de vida justo: abster-se de pegar ou comercializar armas, consumir álcool e tóxicos e de qualquer outra
atividade que possa trazer prejuízo a outros.
• Esforço justo: é a vontade necessária para estancar as más qualidades que afloram à mente, eliminar todas as
que ali ainda estão e desenvolver bons estados mentais.
• Pensamento justo: ter consciência do seu próprio corpo, dos sentimentos e das atividades da mente.
• Meditação justa: é quando, privado de luxúria e disposições erradas, a serenidade interna é desenvolvida por
meio da prática de meditação. Esta é a atividade que, em última análise, conduz ao nirvana.
Analise os oito caminhos como uma proposta de
conduta ética e tire suas próprias conclusões.
Para pesquisar e confrontar:
Como o cristianismo explica o sofrimento?
Nirvana e céu são a mesma coisa?
Ética
Com a decisão de Buda, depois de alcançar a iluminação, de tornar-se guia do ser humano, passam a ser fundamentais
para o budismo o amor e a compaixão. Não só as ações, mas também os sentimentos e os afetos são importantes. A
caridade realizada não apenas afeta aos outros, mas contribui para enobrecer o próprio caráter de quem a pratica.
Nessa dimensão, o budismo tem cinco regras de conduta:
• Com relação às criaturas vivas: evitar toda maldade.
• Evitar o roubo.
• Ser responsável nos prazeres sensuais.
• Falar apenas a verdade.
• Evitar o uso de álcool e drogas.
Mundo
No mundo tudo é transitório. Nada é definitivo e, por isso, essa transitoriedade deve ser abandonada para evitar-se
todo e qualquer desejo. Notemos, no entanto, que, quando se fala em abandonar a transitoriedade da materialidade
constante no mundo, o que se tem em mente é o apegar-se a essa materialidade como se ela fosse capaz de resolver os
problemas da natureza humana. A única saída para a transitoriedade do mundo é o nirvana.
Uma vez que o nirvana é o oposto direto do ciclo de renascimentos, e uma vez que ele não pode ser comparado a
nada neste mundo, só é possível dizer que o nirvana não é. Alcançá-lo só é possível por meio do estado de iluminação e de
nada adiantam, por si sós, as boas obras.
Embora o mundo não tenha autonomia, seja transitório e pleno de sofrimento, este é o espaço dado e no qual o ser
humano pode chegar à libertação plena dos renascimentos.
(3.3)
principais tendências
Os pensamentos de Buda foram transmitidos oralmente. O resultado foi o surgimento de, pelo menos, 18 escolas
diferentes. As escolas relacionadas a seguir representam apenas as mais importantes ramificações do budismo no
mundo moderno.
• Budismo Theravada – É a mais antiga escola da tradição budista. Defende que cada ser humano é responsável
sozinho pela sua própria iluminação. Apenas poucos alcançam esse estado. A sabedoria e a disciplina são
virtudes valiosas. Os rituais não são fundamentais, e sim a devoção. Está presente no Sri Lanka, na Tailândia,
em Mianmar, em Laos e no Camboja.
• Budismo Mahayana – É o budismo das pessoas comuns. Enfatiza que qualquer pessoa pode alcançar o estado de
iluminação que liberta. A compaixão e o amor pelos menos afortunados são mais importantes que a
sabedoria.
• Budismo Zen – É um amálgama da escola Mahayana com o taoísmo. Zen é o caminho da iluminação por meio da
meditação e da vida simples, evitando as teorias abstratas e favorecendo a experiência direta de um espírito
“vazio” e aberto. Há duas grandes escolas: a Rinzai Zen, que dá ênfase à iluminação espontânea, e a Soto, que
enfatiza a concentração espiritual e corporal disciplinada na meditação. As escolas Zen também enfatizam a
pintura, a caligrafia e até a cerimônia do chá como expressões de um vínculo não interpretado com a
natureza. Tornou-se popular no Ocidente a partir da década de 1950, com o surgimento dos movimentos
holísticos.
• Budismo da Terra Pura – É o culto de um buda ou bodhisattva que vive numa terra pura, celestial. Seus devotos
procuram renascer na Terra Pura, onde alcançarão a iluminação libertadora.
• Budismo Nichiren – Também conhecido como Seita do Lótus, ensina que o budista verdadeiro é o que segue os
ensinamentos contidos no Sutra do Lótus, escritura do século I d.C. A ênfase é que Buda é eterno e cósmico,
manifestando-se incessantemente em budas terrenos. O maior grupo dessa tendência é o Nichiren Shoshu.
• Budismo tibetano – Também conhecido como lamaísmo, adota a doutrina do bodhisattva e o caminho gradual
rumo ao estado de iluminação por meio de rígidas disciplinas monásticas. O grupo mais importante nessa
tendência é de Gelugpa, fundado em fins do século XIV d.C. Seu líder espiritual é o Dalai-Lama (“guru
oceano”), cuja sabedoria é profunda e ampla como o mar. O Dalai-Lama é considerado a encarnação de um
bodhisattva, e cada dalai-lama sucessivo é a reencarnação do anterior. A partir do século XVII, o Dalai-Lama
passou a ser também o líder secular do Tibete, até o país ser ocupado pela China, em 1959, quando o Dalai-
Lama passou a viver em exílio.
No Brasil, como podemos ver a seguir, podem ser identificadas três grandes escolas budistas. Devemos levar em
conta que cada escola pode estar subdividida em vários grupos.
Escolha seu veículo
As diversas escolas budistas existentes podem ser
agrupadas em três tradições fundamentais. Ainda na
Índia, desenvolveram-se diferentes correntes com
interpretações específicas dos ensinamentos de Buda.
Desse budismo primitivo, sobrevive até hoje a tradição
Theravada. Simultaneamente, a doutrina de Buda correu
a Ásia e foi adaptada a diferentes culturas. O resultado é
a diversidade.
Quadro 1 – As três grandes escolas budistas
Início Região de
Consolidação
Filosofia Grupos no
Brasil
Membros no
Brasil
Alguns líderes no
Brasil
Theravada
(Hinayana)
Séc. IV
a.C.
Sul da Ásia
(Sri Lanka,
Tailândia,
Mianmar,
Laos,
Camboja)
A figura do “veículo pequeno” resume o espírito
da tradição Theravada, também chamada de
Hinayana. Cada um é responsável por guiar o
próprio barco. Sozinho, o praticante busca a
auto-iluminação por meio da meditação e de
uma conduta condizente com a doutrina de
Buda.
Cerca de 5 Menos de 1
mil
Pushwelle
Vipasse
Mahayana Séc. I
a.C.
Norte da Ásia
(China,
Coréia, Japão)
A tradição Mahayana pode ser simbolizada pela
figura do “veículo grande”. O fiel não apenas
busca a própria iluminação como pode contribuir
para que todos a sua volta evoluam
espiritualmente. O bodhisattva (ser iluminado) é
o timoneiro em um barco com muitos
passageiros.
Cerca
de 85
Cerca de 220
mil
Monja
Sinceridade e
Monja Coen
Vajrayana Séc. VII
d.C.
Tibete Os primeiros missionários a visitar o Tibete
tiveram de incorporar algumas práticas
xamânicas da população nativa. A tradição
Vajrayana, ou “veículo de diamante”, combina a
ética Mahayana com doutrinas esotéricas do
Tantrismo.
Cerca
de 45
Cerca
de 3 mil
Lama Michel e
Segyu
Rinpoche
Consultoria: Prof. Frank Usarski, programa de pós-graduação em Ciências da Religião da PUC de São Paulo.
Fonte: Revista Isto É, 2003.
( 4 )
islamismo
• perfil
• Fundador: o profeta Muhammad (Maomé).
• Data de nascimento: 570 d.C.
• Local de nascimento: Meca, atual Arábia Saudita.
• Ano e local de fundação: 622 d.C., em Meca.
• Textos sagrados e reverenciados: Qu´ran (Corão),
coleção das escrituras divinas como reveladas ao
profeta Maomé pelo arcanjo Gabriel, e Hadith,
coleção de ditos de Maomé e seus seguidores e que
se perpetuaram com o decorrer do tempo.
• Estatísticas: estima-se hoje em cerca de 1 bilhão e
300 milhões de adeptos distribuídos por várias
localidades: Turquia, Oeste da África, Sul da Ásia,
Filipinas, Indonésia, Índia, Oriente Médio, Europa e
as três Américas. No Brasil, fala-se em 1 milhão de
adeptos.
(4.1)
história
Com origem na Arábia, o islã está profundamente relacionado com a cultura árabe. Ressaltemos, no entanto, que hoje
apenas uma minoria de seus seguidores são árabes. O islã está difundido por regiões da África e da Ásia, em especial, e
é seguido por cerca de 15% da população mundial.
A palavra árabe islam significa “submissão”. É pertinente ao seu conteúdo que o ser humano deve entregar-se a
Deus e submeter-se a Sua vontade em todas as áreas da vida. Esse entendimento sugere que, enquanto religião, o islã
abrange todas as áreas da vida humana, pessoal e social.
É a terceira e última das religiões originadas com Abraão, após o judaísmo e o cristianismo. Fruto de um “segundo
casamento” de Abraão, agora com Hagar, Ismael dá origem aos muçulmanos.
De importância capital para a compreensão do islã é a figura de Muhammad, ou Mohammed, ou, ainda, Maomé.
Maomé
Nasceu em Meca, na Arábia, por volta de 570 d.C. Nascido numa das principais famílias da cidade, ficou órfão ainda
criança. Criado por um tio, Abu Talib, foi trabalhar como condutor de camelos para Khadidja, viúva de um rico
mercador. Quinze anos mais velha que Maomé, veio a ser sua esposa e exerceu grande influência no desenvolvimento
religioso de seu esposo, que não teve outra mulher.
A formação religiosa de Maomé
Meca era um importante centro comercial e religioso da Arábia. Tribos nômades já adoravam, bem antes de Maomé, a
pedra preta, objeto de muitas peregrinações de beduínos. Era prática comum na região, também, cultuar muitos deuses
e seres sobrenaturais, quase sempre ligados a práticas animistas. Em geral, os cultos eram tribais. Aliás, a tribo e a
família eram estruturas centrais para o modo de vida dos nômades. Todo o sistema legal estava vinculado à tribo,
originada e mantida pelos laços de sangue. Era recorrente o exercício da lei do “olho por olho”, quando um dos
membros de uma tribo era assassinado por um membro de outra. Um cenário de constantes e sangrentas rixas fixou-se
como prática comum.
Maomé foi fortemente influenciado pelos ideais
judaicos e cristãos, especialmente o monoteísmo.
Já à época de Maomé, apresentava-se um quadro de transição. A sociedade beduína nômade começava a dar lugar a
uma sociedade urbana mais fixa. Com isso, a religião e as práticas tradicionais passaram a ser revistas. Nesse hiato
aumentou em muito a influência do judaísmo e do cristianismo. Com toda a certeza, Maomé foi fortemente influenciado
pelo monoteísmo e pela noção de fim de mundo acompanhado de juízo final.
O judaísmo havia se estabelecido em toda a Arábia depois da queda de Jerusalém em 70 d.C. Aos poucos, os judeus
incorporaram a língua e o estilo de vida dos árabes, mantendo, porém, sua própria crença e seu culto mosaico.
O cristianismo, por sua vez, também havia avançado por muitas regiões do Oriente Médio. Estados como a
Abissínia (atual Etiópia) e muitas tribos beduínas tornaram-se cristãos. Com certeza o grupo que mais influenciou
Maomé em sua formação religiosa foram monges e eremitas cristãos, que viviam isolados nos desertos da Arábia.
Devotos e generosos eram pródigos na ajuda aos viajantes.
Deus revela-se a Maomé
A recitação de Maomé resulta no Alcorão.
Era costume de Maomé retirar-se todos os anos para uma caverna aos arredores de Meca com o fim de meditar. Esse
hábito também era prática corrente dos eremitas cristãos, que, diferentemente de Maomé, fundamentavam sua
meditação em algum texto sagrado, em geral os Evangelhos da tradição cristã.
Aos 40 anos, Maomé teve uma revelação. Apareceu-lhe o arcanjo Gabriel com um pergaminho ordenando-lhe que
o lesse. Maomé não sabia ler e, em vista disso, o arcanjo incitou-lhe a recitar o que ouvia.
As recitações transmitidas por Maomé foram reunidas num livro, o Qu´ran, o Corão, apenas após a sua morte.
Assim como no judaísmo e no cristianismo, o islamismo também passa a ter seu livro sagrado.
De Meca a Medina
Após a revelação, Maomé começa sua pregação em Meca. Proclama-se profeta e mensageiro de Deus. As famílias abastadas
entenderam essa pregação como manobra para usurpar o poder político da cidade. Também as famílias assentadas no
tradicionalismo religioso se lhe opuseram por entenderem que, se abandonassem suas antigas crenças, estariam
reconhecendo que seus antepassados foram pagãos.
A crise estava instalada. A situação de Maomé piora após a morte de seu tio e esposa. Alguns de seus seguidores,
residentes em Medina, mostraram-se dispostos a aceitá-lo na cidade. Assim, em 622 d.C. Maomé sai de Meca e vai para
Medina.
Esse episódio é conhecido como hégira, que significa “rompimento” ou “partida”, mas jamais “fuga”.
A hégira é uma partida estratégica.
Lembre-se de que não é uma fuga.
Líder religioso e político
Em Medina, Maomé torna-se um líder religioso e político. Sem perder de vista seu futuro retorno a Meca, procura se
estabelecer financeiramente por meio de assaltos a caravanas pertencentes às famílias ricas de Meca. O conjunto das
atividades desenvolvidas por Maomé com vistas ao retorno a Meca é conhecido como jihad, hoje empregado para
designar a guerra santa.
Na década seguinte, Maomé toma a cidade de Meca por meios militares e diplomáticos. Ocupou, a seguir, grande
parte da Arábia. Em 632 d.C., pouco antes de morrer, havia realizado o feito de unir o país e torná-lo um só domínio,
no qual a religião tinha mais representatividade que os antigos laços familiares e tribais.
Atribui-se o nome “Jihad” ao conjunto das ações
que Maomé desenvolveu para voltar a Meca.
O Cisma no islã após Maomé
Após a morte de Maomé, a liderança do movimento foi assumida pelos califas, ou sucessores. Os três primeiros califas
eram parentes de Maomé. O quarto califa, Ali, genro de Maomé, casado com sua filha Fátima, era filho de seu tio, Abu
Talib, que o havia criado.
Surgem os xiitas e os sunitas.
O Cisma no mundo islâmico começa na época de Ali. Sua liderança foi repleta de controvérsias, e ele acabou sendo
assassinado por seus adversários. Os seguidores de Ali defendiam e acreditavam que, por ser o parente mais próximo
de Maomé, ele era o seu sucessor natural. Esses seguidores eram identificados como os Shiat Ali (o partido de Ali), ou
xiitas, que formam a base da religião oficial do Irã de hoje.
Os xiitas entendiam que a liderança do movimento deveria ser concedida a um descendente direto de Maomé,
enquanto o grupo divergente, facção bem maior que os xiitas, identificados como sunitas, julgava que a liderança cabia
ao indivíduo que de fato controlava o poder.
Após a morte de Ali, o califado teve sede em Damasco por algum tempo e, a seguir, instalou-se em Bagdá, onde
permaneceu por 500 anos. Depois disso, a liderança passou para o sultão turco de Istambul. O último sultão foi
derrubado em 1924 e, desde então, o mundo islâmico deixou de ter um califa como líder.
(4.2)
ensinamentos
Deus
Não há Deus, senão Alá, e Maomé é seu profeta. Este é o resumo da fé islâmica: o monoteísmo e a revelação dada a
Maomé.
Monoteísmo
O termo “alah”, árabe, e o termo “el”,
hebraico, referem-se a “Deus”.
Alá não constitui um nome pessoal, mas, sim, a palavra árabe que significa “Deus”. Etimologicamente, a palavra alah se
relaciona com a palavra hebraica el, que é utilizada na Bíblia para nomear o Deus dos hebreus.
O politeísmo é atacado com veemência, ressaltando-se a crença num só Deus, que é criador e juiz. Ele criou o mundo
e tudo o que há nele. No último dia irá trazer todos os mortos de volta à vida para julgá-los.
Há uma forte ênfase no amor e na compaixão divinos. Embora Deus seja aquele a quem todos devem submeter-se,
também é o que perdoa e auxilia o ser humano. Este não merece nada de Deus nem pode invocar direitos sobre nada. A
salvação e a fé brotam somente da graça de Deus e são coisas que os seres humanos podem apenas ter esperança de
conseguir.
Revelação
Deus falou ao ser humano por intermédio de seu profeta Maomé. Ele é o último dos profetas enviados por Deus à
humanidade. Embora, de início, Maomé estivesse próximo às tradições judaico-cristãs, delas se distancia em razão de
controvérsias tidas com os judeus sobre narrativas do Antigo Testamento.
O fundo histórico do movimento desencadeado por Maomé é encontrado em Abraão e seu filho, Ismael,
antepassado dos árabes. Maomé ensinou que Abraão e Ismael tinham reconstruído a sagrada Kaaba, que fora erigida
por Adão e destruída pelo dilúvio. Para Maomé, tanto os judeus como os cristãos distanciaram-se do monoteísmo de
Abraão.
Quando em Medina, Maomé ensinara que, ao orar, o rosto deveria estar voltado para Jerusalém. Depois de
rompidas as relações com os judeus, a orientação mudou: o fiel, agora, deve estar de frente para Meca ao orar. Por essa
época também, designou-se a sexta-feira como dia sagrado da semana.
Em relação ao cristianismo, a diferença acentuou-se em relação à questão da Trindade. Além disso, houve
divergência quanto ao papel de Jesus, que, para o cristianismo, é o Verbo (Palavra) revelado, enquanto, para o
islamismo, a revelação é o próprio Qu´ran (Corão).
Ser humano
O ser humano possui um estatuto especial e uma posição privilegiada no universo. A vida é dádiva divina. O ser
humano é criatura divina perfeita e possuidor de uma alma que perdura após a morte.
A bondade lhe é inata por graça divina e não se perde por qualquer meio ou motivo. Não há a noção de um pecado
herdado. O ser humano é sempre bom. Quando muito, ele se esquece de sua origem divina e da bondade que lhe é
inerente. Para que isso não ocorra, o ser humano necessita constantemente reavivar suas origens e qualidades divinas.
O fato de ter sido escolhido por Deus para revelar-Se dá a dimensão exata dos grandes valores e qualidades
humanas.
Vida e morte
Os cinco pilares
A vida de um seguidor do islamismo está marcada por cinco passos bem definidos, denominados de Os cinco pilares,
descritos a seguir.
• Credo – “Não há outro Deus senão Alá, e Maomé é seu Profeta.” É a primeira coisa que se deve sussurrar ao
ouvido da criança recém-nascida e a última a ser sussurrada no ouvido do moribundo.
• Oração – Deve ser feita cinco vezes ao dia; o pressuposto é estar ritualmente limpo das impurezas, causadas
pelas funções corporais, o que é obtido pelo banho em água corrente.
• Caridade – É uma espécie de taxa sobre a riqueza e a propriedade, fixada em cerca de 2,5% sobre o montante;
ela é destinada a usos sociais, objetivando diminuir as desigualdades entre ricos e pobres, sem interferir no
princípio da propriedade privada. O islã não proíbe que se desfrute a vida na terra, mas lembra que se deve
ter sempre em mente o fato de que esta não passa de uma preparação para a vida que começará depois do
julgamento divino.
• Jejum – O Corão proíbe comer porco e beber álcool. De resto, nada se proíbe. A exceção é o jejum durante o
Ramadan, mês em que Maomé teve sua primeira revelação. Nesse período, entre o nascer do sol e o pôr-do-sol,
é proibido comer, beber, fumar ou ter relações sexuais. Os viajantes, os doentes, as crianças e as mulheres
grávidas ou que estão amamentando são exortados a cumprir o jejum numa data posterior.
• Peregrinação a Meca – Todo muçulmano adulto que dispõe de meios financeiros deve realizar, pelo menos uma
vez na vida, uma peregrinação a Meca. Os peregrinos que para lá se dirigem, passam a usar vestes brancas e
caminham em torno da Kaaba por sete vezes. Outro momento importante é quando os peregrinos vão ao
monte Arafat e lá ficam, sem cobrir a cabeça, do meio-dia até o pôr-do-sol. Foi no monte Arafat que Adão e
Eva se encontraram de novo, depois que foram expulsos do jardim do Éden. O ponto alto das festividades é o
sacrifício de algum animal (carneiro, bode, camelo, boi etc.). A finalidade é relembrar que Abraão foi tão
obediente a Deus que se dispôs a sacrificar seu próprio filho, Ismael. Deus foi misericordioso com Abraão e
enviou-lhe um animal para que ele o sacrificasse em lugar do filho.
Relações humanas – ética e política
Não há no islã distinção entre religião e política, tampouco entre a fé e a moral. O Corão é suficiente para resolver todas
as questões que envolvem os relacionamentos humanos. Quando as instruções do Livro não forem suficientes, recorre-
se a dois princípios:
• princípio da similaridade ou analogia: busca-se no Corão um exemplo semelhante e capaz de sugerir uma decisão;
• princípio do consenso: uma decisão de consenso pode ser vista como lei a ser observada.
Os xiitas adotam um terceiro princípio: o da revelação. Acreditam que a revelação não está concluída e que seus
líderes são os instrumentos divinos para as novas interpretações. Essa posição contraria a dos sunitas, que afirmam que
a revelação veio apenas uma vez, em sua forma final.
As mulheres no islã
Há profundos contrastes no tratamento concedido a homens e mulheres na vida social e nas leis relativas ao casamento.
Devemos, no entanto, ressaltar que o Corão, em relação às mulheres, determina tanto obrigações (“os homens têm
autoridade sobre as mulheres”) quanto direitos (o dote pago pelo marido, por ocasião do casamento, é propriedade da
mulher e não pode ser usado sem o consentimento dela).
A mulher só pode ter um marido. Já o homem pode ter até quatro esposas, desde que as possa sustentar. A
poligamia é proibida na Turquia e na Tunísia. Outra particularidade com relação ao casamento e que é pouco
conhecida, embora bastante difundida, é o casamento por contrato com tempo determinado. É utilizado, em especial,
quando o marido fica por muito tempo fora de casa e tem por fim preservar a sustentabilidade da mulher.
O divórcio é possível, mas apenas quando iniciado pelo marido, que é o responsável pelo lado financeiro do
casamento. O marido também tem o direito de punir fisicamente a mulher se ela for desobediente.
A excisão do clitóris (mutilação genital feminina) não é obrigatória, mas mesmo assim é praticada com freqüência
no Norte da África. Não há no Corão menção a essa prática, bem como à tradição de usar o chador, o véu.
A morte
Após a morte, a alma do fiel muçulmano vai a um paraíso desfrutar dos seus deleites e contemplar o rosto de Alá. A
alma do infiel, por seu turno, vai ao inferno. Aguardar-se-á o dia do juízo, quando as ações dos seres humanos serão
definitivamente julgadas e receberão a devida paga. As almas dos mártires e dos profetas não passarão pelo juízo final,
pois já estão no paraíso. O ato final será a proclamação do islã como religião mundial, liderada por Jesus.
A crença num julgamento final após a morte é necessária, segundo muitos muçulmanos, para que o ser humano
assuma a responsabilidade sobre seus atos. A idéia de um julgamento cria um senso moral de dever que é relevante
para a comunidade.
Mundo
O mundo foi criado por um ato deliberativo de Alá. Em decorrência, dois aspectos emergem: o mundo da matéria é
real e importante, e, por ser obra de Alá, que é perfeito em bondade e poder, o mundo material também o é.
(4.3)
principais tendências
• Sunitas – Defendem que a unidade da comunidade islâmica é muito mais importante que a genealogia de seu
líder. Acreditam que o profeta morreu sem indicar um sucessor e que os líderes que o sucederam, os califas,
representam a sucessão legítima. Distinguem-se, ainda, pela ênfase dada à inescrutabilidade racional de Alá e
à extensão limitada do livre-arbítrio humano.
• Xiitas – Defendem que a unidade da comunidade islâmica só é possível reconhecendo-se que os descendentes
do profeta são os líderes (imã) ou modelos naturais escolhidos por Alá. É particularmente importante para
esse grupo não perder de vista que o terceiro líder, assassinado em 680 d.C. ao recusar-se jurar fidelidade ao
califa regente, optou pelo martírio como forma de obediência às revelações dadas ao profeta. Essa lembrança
manifesta-se no sentimento de luto que toma conta dos xiitas por ocasião da morte, quando em luta, de um de
seus adeptos. Possuem um clero hierárquico organizado, no qual a ascensão se dá segundo o grau de cultura,
sendo o mais alto nível o de aiatolá.
• Sufismo – É o grupo islâmico com tendência mística e cuja característica mais marcante é a renúncia ao eu por
meio de hábitos devocionais e pela convicção de que Alá é a verdade suprema da existência humana e o
caminho para os estados mais elevados de consciência e iluminação. O termo sufi designa “o que se veste com
lã”, numa referência possível às vestes dos primeiros sufis.
• Fundamentalismo islâmico – Defendem que a shari´ah (conjunto de regras islâmicas extraídas do Corão e dos
ensinamentos de Maomé) tem validade eterna e deve ser seguida à risca. O movimento surgiu por volta do
século XVIII como uma reação ao avanço ocidental e ao conseqüente relaxamento dos princípios da shari´ah.
Imaginam que será por meio de uma inserção cada vez maior na política que poderão ser restabelecidos os
princípios islâmicos. Defendem uma estrutura familiar patriarcal e entendem que os postos militares e
políticos só devem ser entregues a muçulmanos comprometidos com a comunidade islâmica e que aos
empregados deve ser dado tempo para as orações diárias. Acreditam ainda que se deve solidariedade aos
muçulmanos no mundo todo e opõem-se ao homossexualismo e ao aborto.
( 5 )
judaísmo
Ronaldo Steffen
perfil
• Fundador: Abraão e seus descendentes Isaque e
Jacó.
• Data de nascimento: por volta de 1700 AEC (antes
da Era Comum; é assim que os judeus preferem
identificar a cronologia antes de Cristo).
• Local de nascimento: provavelmente em Ur, na
Caldéia.
• Textos sagrados e reverenciados: a Torah, que
descreve a criação do mundo e a fundação do
reino de Israel, além de contar as leis divinas; o
Talmude, um conjunto de escritos jurídicos, éticos
e litúrgicos, bem como de histórias e lendas
judaicas.
• Estatísticas: fala-se em 15 milhões de adeptos,
dos quais seis milhões estão fora de Israel. No
Brasil, estima-se em 130 mil adeptos.
(5.1)
história
O judaísmo é uma religião inteiramente ligada à história. As narrativas bíblicas começam com Adão e Eva e os relatos
que apontam as conseqüências do pecado, manifestadas no desejo humano de rebelar-se contra Elohim (Deus). Segue-
se a expulsão do paraíso. Mais tarde, o mundo inteiro é destruído pelo dilúvio, salvando-se apenas Noé e sua família,
juntamente com todos os animais da Terra. Sodoma e Gomorra, cidades sem Elohim, são aniquiladas, e a torre de Babel
é derrubada por representar a tentativa humana de chegar até o céu.
De Abraão a Moisés
A fase histórica seguinte tem seu ponto de partida com Abraão, ao sair da cidade de Ur, localizada no atual Sul do
Iraque, por volta de 1700 AEC. Seguindo orientação divina, Abraão saiu de sua terra e foi em direção à terra indicada
por Elohim, a fim de formar um grande povo. Esse povo ganhou um nome após uma dramática luta entre Jacó, neto de
Abraão, e um anjo de Elohim. O anjo lhe dá o nome de Israel (o que venceu a Elohim). Os filhos de Jacó, mais tarde,
vieram a ser identificados como as doze tribos de Israel.
Confira esses relatos no “Livro de Êxodo”,
disponível em: http://www.sbb.org.br.
Com José, um dos filhos de Jacó, as narrativas bíblicas mostram como os israelitas foram parar no Egito. Após
serem escravizados, foram retirados do Egito com a ajuda de Moisés, numa jornada de 40 anos pelo deserto antes de
chegarem à Canaã, a terra prometida.
Fato marcante da travessia acontece no monte Sinai, quando Elohim dá a Moisés as duas tábuas da Lei com os Dez
Mandamentos.
Por volta de 1200 AEC, os israelitas conquistaram parte de Canaã, convivendo com povos não israelitas. Foi a época
dos juízes que cuidavam para que o povo respeitasse as leis dadas por Elohim. A luta com os filisteus, nesse período, foi
o episódio determinante da necessidade da criação de um poder político centralizado.
O reino de Israel
O ano 1000 AEC marca a introdução da monarquia por meio de Saul. Davi e Salomão são os expoentes desse período.
Com Davi, nascido em Belém, dá-se a unificação das tribos de Israel. Com Salomão, dá-se a construção do Templo de
Jerusalém no século X AEC.
A prática de sacrifícios no templo, espécie de oferenda, passou a ser uma forma mecânica de adoração. Surgem daí
os profetas. Destaca-se Amós, que viveu por volta de 750 AEC e atacava os males sociais, como a opressão dos pobres
pelos ricos.
O exílio na Babilônia
Advertidos pelos profetas do juízo e da punição divinos em razão do descumprimento das leis divinas, os israelitas,
sem retroceder, viram o seu reino dividido em dois: o reino do Norte (Israel) e o do Sul (Judá). Em 722 AEC os assírios
invadiram e devastaram o reino do Norte, que deixa de ter importância política e religiosa.
O reino do Sul foi conquistado em 587 AEC pelos babilônios, que deixaram como marca da ocupação a destruição
do Templo de Jerusalém. Os habitantes do reino do Sul tiveram permissão para voltarem a sua terra em 539 AEC e daí
em diante se tornaram conhecidos como judeus. O Templo de Jerusalém foi reerguido em 516 AEC.
Ocupação estrangeira
Seguidas vezes, após o retorno da Babilônia, os judeus caíram sob o domínio político estrangeiro. Foi assim que, em 70 EC
(Era Comum), uma revolta contra os romanos levou ao saque de Jerusalém. O Templo, que recentemente havia sido
ampliado pelo rei Herodes, foi outra vez arrasado. Dessa época em diante se estabelece um novo formato do judaísmo,
desvinculado do Templo e centrado na sinagoga. Muitos judeus estavam agora dispersos pelas terras do Mar Mediterrâneo.
História mais recente
A dispersão dos judeus provocada pelas diversas ocupações permitiu que eles, em muitas ocasiões e em diferentes
lugares, assumissem papel de grande importância e destaque, tanto nas letras como na economia (a religião lhes
permitia ganhar juros emprestando dinheiro).
No entanto, o que mais tem marcado a dispersão dos judeus é a constante campanha que diferentes países e
culturas têm desencadeado com o fim de afastar os judeus de seus limites geográficos, em especial a partir da Baixa
Idade Média. Por muito tempo o cristianismo encabeçou a perseguição aos judeus sob a alegação de terem sido os
judeus os culpados pela morte de Jesus. Da França e da Inglaterra os judeus foram deportados nos séculos XIII e XIV;
na Espanha a perseguição dá-se no século XV, e os judeus são expulsos desse país em 1492; em 1687, foram proibidos
de entrar no território da Noruega. Culmina o cenário de perseguição, na história recente, com o avanço nazista na
Europa, entre 1933 e 1945.
Mesmo em épocas em que as perseguições explícitas não ocorriam, os judeus continuaram a sofrer restrições:
tratados como párias sociais; obrigados a adotar nomes de fácil identificação e a residir em lugares específicos;
proibidos de possuir terras e assim por diante.
Apenas em 1948 veio o reconhecimento mundial com um ato da ONU, que criou o Estado de Israel. Os primeiros
passos foram dados no fim do século XIX. Muitos judeus pensaram na possibilidade de voltar para sua antiga pátria e,
assim, fugir das constantes perseguições de que eram alvo. Essa idéia foi chamada de sionismo. A princípio, muitos
sionistas desejavam criar um estado laico, secular, mas os judeus ortodoxos conseguiram realizar o seu desejo de que o
país fosse fundado com base na religião judaica.
Esse novo Estado tem vivido em contínuo conflito com o mundo árabe, também por causa dos milhares de
palestinos que foram deslocados de suas propriedades na época da fundação de Israel.
Hoje as terras israelenses abrigam apenas cinco dos onze milhões de judeus.
(5.2)
ensinamentos
Deus
O judaísmo é uma religião monoteísta. Elohim, o Deus único, é o criador do mundo e o senhor da história. Toda vida
depende dele, e tudo o que é bom flui dele. É pessoal e tem preocupação com as coisas que criou.
Quem é Elohim é algo que não pode ser expresso em palavras. O nome de Deus é representado pelas letras IHVH,
um acrônimo que em hebraico significa “eu sou o que sou”. Esse acrônimo costuma ser lido como Jeová ou Javé, porém
o nome real é tão sagrado que sempre se usa algum sinônimo, como “o Senhor” ou “o nome”. Jeová é o criador e o
sustentador do mundo. A idéia de que Elohim possa não existir é alheia a um judeu.
Particularmente específica na concepção de Elohim é a expectativa nutrida pela vinda de um messias (“o ungido”)
que virá criar um reino de paz na terra. Historicamente, a expectativa remonta à época do rei Davi, quando os reis eram
ungidos ao subir ao trono. Desde o exílio babilônico, os judeus alimentam a expectativa da chegada de um messias,
saído da linhagem de Davi. Esse rei ideal restabeleceria Israel como uma grande potência, e seu povo desfrutaria de
eterna felicidade.
Até hoje essa expectativa continua viva. Nem todos os judeus, entretanto, identificam o Messias como uma pessoa;
alguns falam numa “era messiânica” – um estado de paz na Terra, com destaque especial para Israel. Há alguns judeus
que identificam a criação do Estado de Israel, em 1948, como o cumprimento dessa expectativa.
Messias:
• Alguns esperam a vinda de uma pessoa.
• Outros esperam uma era messiânica.
• Outros identificam que essa era chegou
com a criação do Estado de Israel.
Ser humano
O fato de que Elohim é um, e apenas um, reflete-se na existência humana. Toda a vida do ser humano deve ser
consagrada. Não há linha divisória que separe o sagrado do profano.
O ser humano, embora biológico, faz parte da essência
divina e deve cumprir a missão de Elohim aqui na
Terra.
Enquanto ser biológico, o ser humano faz parte do cosmo. No entanto, de tudo o que há no cosmo, o ser humano
foi escolhido como parte da essência divina, ultrapassando os limites biológicos. Por isso, faz parte da missão divina no
cosmo, realizando a mediação entre o Criador e a criatura. A tarefa mais importante do ser humano é cumprir todos os
seus deveres para com Elohim e para com seus semelhantes.
Vida e morte
A vida e a morte de um judeu têm seus caminhos e atalhos traçados nas Escrituras Sagradas.
Os Escritos Sagrados
O chamado cânone judaico foi fixado por um concílio em Jabne por volta de 100 EC. São 24 livros divididos em três
grupos:
• Torá (a Lei): os cinco livros de Moisés.
• Nevim (os Profetas): os livros históricos e proféticos.
• Ketuvim (os Escritos): os demais livros.
Além da Torá, os judeus obedeciam às regras transmitidas oralmente. Conforme a tradição, no monte Sinai, Moisés
teria recebido a Lei Escrita e a Lei Falada. A Lei Falada era proibida de ser escrita, pois deveria adaptar-se às condições
reais da vida em diferentes lugares e épocas. Após a dispersão dos judeus, sob pena de perder-se a tradição oral,
decidiu-se registrar as orientações. Esse material se chama Talmude. Não é em si um livro de ensinamentos, e sim um
texto usado pelos rabinos em seus ensinamentos, para orientação dos fiéis em situações concretas.
A sinagoga e o sábado
Desde o exílio, a sinagoga tem desempenhado papel primordial na preservação das práticas religiosas dos judeus. É
nesse espaço que se encontra a Arca, uma espécie de armário colocado sistematicamente na direção de Jerusalém e
onde são guardados os rolos da Torá. Nas manhãs dos sábados (shabat), das segundas e das quintas-feiras, os rolos são
lidos de tal forma que todo o livro é lido no decurso de um ano. A sinagoga pode abrir suas portas para os serviços
religiosos três vezes por dia, desde que dez homens estejam presentes. As mulheres não desempenham parte ativa no
serviço religioso, pelo menos nos grupos ortodoxos. No entanto, encontram seu espaço nos rituais do Shabat.
O Shabat dura desde o pôr-do-sol de sexta-feira até o pôr-do-sol de sábado. É uma relembrança do ato criador de
Jeová que descansa no sétimo dia. O sábado se tornou uma festa semanal de renovação que ocorre em família. A esposa
abençoa as velas do Shabat na mesa já posta, e o marido abençoa o vinho e o pão. É mais um grande momento para a
união familiar judaica.
As regras alimentares
É responsabilidade da mulher zelar pela alimentação da família. Há, para tanto, que respeitar as regras definidas nos
livros sagrados.
A carne só pode provir de animais que ruminam e têm o casco partido, o que exclui o porco, o camelo, a lebre, o
coelho e outros. Das aves pode-se comer as não-predatórias. Dos peixes pode-se comer os que possuem escamas e
barbatanas, excluindo-se polvos, lagostas, mariscos, caranguejos, camarões etc.
Toda comida feita de sangue também é proibida, já que a vida está no sangue. Os animais com sangue e permitidos
para alimentação devem ser abatidos de forma que o máximo possível de sangue seja extraído. Além disso, é proibido
comer derivados de carne juntamente com derivados de leite. As frutas, as verduras, as bebidas alcoólicas e não
alcoólicas são permitidas.
Refletir:
Quem olha hoje pelos cuidados
da alimentação na família?
A ética
O religioso e o ético se fundem na vida de um judeu. Tudo pertence à Lei de Elohim. Além das 248 ordens afirmativas e
das 365 proibições, a vida do judeu ainda deve respeitar os costumes e as práticas que se consolidaram ao longo de sua
história.
Dentre as qualidades éticas recomendadas estão a generosidade, a hospitalidade, a boa vontade para ajudar, a
honestidade e o respeito pelos pais.
O dízimo (10%) faz parte do comportamento de muitos judeus. Com relação aos pobres e necessitados, é curioso
notar que o ato de dar esmolas não é considerado caridade, mas justiça. O dever de combater a pobreza é preceito
bíblico a fim de cumprir-se a palavra de que jamais haverá pobre no povo escolhido. A mesma concepção é mantida em
relação às viúvas, aos órfãos e aos estrangeiros.
Quando em determinada situação não houver clareza sobre o que fazer ou se a atitude gerar conflito, prevalece a
vida humana.
Refletir:
Dar esmola não é caridade, mas ato de justiça.
As fases da vida
Nascimento, juventude, casamento e morte são fases da vida, marcadas por costumes antigos e ainda mantidos.
• Circuncisão – Oito dias após o nascimento, os meninos são circuncidados e recebem formalmente seu nome. A
menina também recebe seu nome na sinagoga uma semana após o nascimento.
• Bar Mitsvá e Bat Mitsvá – No primeiro sábado após completar treze anos, o menino é recebido como “filho do
mandamento” (bar mitsvá). No ano precedente, ele é instruído nas leis e nos costumes judaicos, bem como
aprende a ler o trecho da leitura da Torá que fará no sábado de sua recepção. Já a menina torna-se “filha do
mandamento” (bat mitsvá) automaticamente ao completar doze anos. Por volta dos quinze anos, ela aprende o
principal da história e dos costumes judaicos e, particularmente, empenha-se em aprender as regras
alimentares, que é sua responsabilidade doméstica.
• Casamento – A família tem papel primordial na manutenção da cultura e da educação judaicas. O casamento é o
modo de vida ideal e o único tipo de coabitação permitido. Por princípio, judeu deve casar com judeu. O
divórcio é permitido, mas, para que seja legítimo, deve ser sancionado por um tribunal rabínico e selado pelo
marido, que dá à esposa a carta de divórcio.
• Enterro – O enterro deve ocorrer o mais rápido possível depois da morte. A cremação não é permitida. No
cerimonial de sepultamento, não se usam flores nem música. O cemitério é sempre muito bem cuidado em
razão de ser o lugar onde os mortos descansam até a ressurreição.
Os festivais
As festas judaicas marcam não apenas momentos de alegria. Elas trazem consigo uma forte conotação histórica e religiosa
e servem para marcar eventos que ressaltam a intervenção divina na vida do povo judaico, tanto no passado como no
presente.
• Rosh há-shaná (Ano Novo) – Celebrado em setembro ou outubro, rememora Jeová como criador e rei, conduzindo
as pessoas a se concentrarem na auto-análise e no arrependimento.
• Iom Kippur (Dia do Perdão) – É o fim do período de dez dias de arrependimento, iniciado no Ano Novo.
• Sukot (Festa dos Tabernáculos) – Ocorre alguns dias após o Dia do Perdão e procura relembrar o período em que
os judeus, durante sua peregrinação pelo deserto, residiam em tendas.
• Chanuká (Festa da Inauguração) – Realizada em novembro ou dezembro por oito dias, comemora a reinauguração
do Templo de Jerusalém, ocorrida em 165 AEC.
• Pessach (Páscoa) – Celebrada em março ou abril, relembra a passagem do anjo do Senhor “por cima” (pessach)
das casas dos israelitas, quando no Egito, por ocasião da décima praga, matou os primogênitos egípcios. Tem
a duração de oito dias e só se come pão sem fermento.
• Shavuot (Festa das Semanas) – Ocorre em maio ou junho e comemora a ocasião em que a Torá foi dada ao povo no
monte Sinai.
Mundo
Reza o texto sagrado, registrado em Gênesis, capítulo 1, que Elohim criou o “céu e a terra” (o universo), o ser humano
inclusive. Tendo concluído sua obra criadora, emanada exclusivamente de sua inexplicável vontade, constata que o
universo é bom. A força da qual flui o ato criador é sua ordem, a partir do nada e concretizada por suas palavras. A
soberania divina está realçada. Ele é o criador.
Uma vez criado, o universo continua a existir por vontade divina e não por moto próprio. A força vem de fora, não
de forma impessoal, mas pessoal e, ainda que o universo possua características materiais evolutivas, percebe-se nesse
processo a vontade divina presente no ato criador que lhe deu essa característica.
(5.3)
tendências
O judaísmo é tanto uma identidade hereditária e um modo de vida quanto um sistema religioso. Essa colocação faz
perceber a existência de uma diversidade de entendimentos.
A partir do século XIX, três comunidades religiosas distintas, descritas a seguir, desenvolveram-se com opiniões
divergentes acerca da importância da tradição e da teologia judaica.
• Judaísmo ortodoxo – Mantém as crenças tradicionais, inclusive a doutrina de que tanto a lei bíblica quanto a lei
oral são de inspiração divina, e obedece aos costumes e aos rituais tradicionais, com a rígida observância do
Shabat e das leis de alimentação.
• Judaísmo reformista – Surgiu no período do Iluminismo e, menosprezando a autoridade talmúdica, realiza cultos
simplificados no vernáculo, dando maior importância aos padrões éticos do que às leis rituais, grande parte
das quais considera irrelevantes no mundo moderno.
• Judaísmo conservador – Situa-se entre a aceitação da autoridade das Escrituras e a permissão de adaptação às
mudanças dos tempos e das situações.
No século XX, outras tendências se acentuaram, como a corrente liberal da Reforma Judaica e o Movimento
Reconstrucionista, fundado por Mordecai Kaplan, que entende o judaísmo como uma “civilização religiosa”.
( 6 )
confucionismo, xintoísmo e taoísmo
Douglas Moacir Flor é pós-graduado em Administração
e Planejamento para Docentes pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) e bacharel em Jornalismo pela Unisinos (RS) e em Teologia pela Escola Superior de Teologia
do Seminário Concórdia (RS). É professor nos Cursos de Comunicação e Teologia da Ulbra.
apresentamos nestecapítulo três grandes religiões. Apesar de não serem populares no Brasil, consideramos
interessante esta análise para nos darmos conta de como pensam outros povos e da diversidade religiosa encontrada no
mundo. Essas religiões, sapienciais, buscam o caminho por meio da sabedoria e do conhecimento. É bom ressaltar que o
pensamento oriental é diferente do ocidental.
(6.1)
confucionismo
Observamos hoje que a China está despontando em todo o mundo pelo seu crescimento econômico e aos poucos vem
sendo reconhecida como uma grande potência mundial. Talvez o que o leitor não saiba é que até 1911 a China foi uma
potência imperial, na qual o imperador reinava acima de tudo. Era considerado o representante do país diante do
supremo deus Céu.
O que havia por trás de tudo isso era uma ideologia confucionista. O conjunto de pensamentos, regras e rituais
sociais foi desenvolvido pelo filósofo K’ung-Fu-Tzu, conhecido no Brasil como Confúcio, que também formulou normas
para a vida religiosa, os sacrifícios e os rituais. Acrescentemos ainda que
O confucionismo era, na verdade, uma religião estatal praticada pela elite e pelas classes dominantes, a qual, no entanto, nunca
se disseminou muito entre as massas, as camadas mais amplas da população. Da mesma forma que o imperador, em seu palácio
em Pequim, ficava remotamente afastado das pessoas comuns, o Céu era remoto e impessoal para a grande massa dos chineses
pobres, trabalhadores e camponeses. A Religião dos pobres era a adoração dos espíritos, particularmente dos antepassados,
religiosidade carregada de magia e traços de outras religiões.1
Quem foi Confúcio
Filho de pessoas pobres, Confúcio nasceu em 551 a.C. e desde cedo demonstrou um grande interesse que se referia à
vida. Diz a história que, após iniciar sua carreira pública como um oficial de segunda classe no estado de Lu, aos 18 anos,
tornou-se professor e começou a ensinar história, filosofia, ética, música, poesia e boas maneiras. A idéia era mostrar aos
seus alunos os princípios que ele sentiu necessários naquele momento de decadência da ordem feudal chinesa.
Embora suas lembranças da infância contenham referências nostálgicas à caça, à pesca e ao arco, sugerindo com isso que ele foi
tudo menos uma traça de livro, Confúcio dedicou-se cedo aos estudos e se saiu bem. ‘Chegando aos quinze anos de idade, forcei
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Cultura religiosa

  • 1. cultura religiosa apresentação Prezado aluno, A experiência de mais de 16 anos de docência tem mostrado o fascínio da disciplina Cultura Religiosa. O começo sempre é difícil. Existe uma resistência natural do aluno em estudar os conteúdos. O preconceito fica claro quando se define a disciplina como aula de religião. Outros ainda pensam em catequese. Mas não será esse o nosso objetivo. Vamos caminhar com cada um de vocês no sentido de construir uma reflexão madura sobre a vivência e o comportamento religioso das pessoas e a influência que esses fatores exercem sobre a vida de cada um de nós. Ao final de cada semestre, ficamos surpresos com a reação dos alunos. A maioria considera a disciplina muito interessante. É claro que alguns resistentes ficam indiferentes, pois não tiveram a coragem de abrir o coração e aceitar conceitos essenciais para se viver uma boa vida. Respeitamos esses posicionamentos. A Ulbra é uma universidade confessional, está ligada a uma instituição religiosa, mas nem por isso queremos impor o que pensamos. Vamos apenas debater. Nossa intenção é ajudá-lo com esta reflexão. Você irá encontrar neste livro um panorama das maiores religiões do mundo. Notará a pluralidade religiosa e terá uma idéia da riqueza de pensamento e valores das religiões estudadas. Também iremos analisar mais detalhadamente o cristianismo e a Reforma Luterana, pois são movimentos que influenciaram diretamente na existência da Universidade Luterana do Brasil. Por fim, sempre é hora de estudar ética, particularmente a ética cristã e os valores que ela pode acrescentar à vida de cada um de nós. Nesta caminhada muitos dos textos têm a participação de professores de Cultura Religiosa que nestes 15 anos estão ao nosso lado. Citamos aqui Ronaldo Steffen, Jonas Dietrich, Valter Kuchenbecker, Egon Seibert, Ricardo Rieth, Valter Steyer, Thomas Heimann, Nereu Haag e Bruno Muller. Além desses, não podemos deixar de citar o capelão-geral da Universidade Luterana do Brasil, pastor Gerhard Grasel, e o diretor do curso de Teologia da Ulbra, pastor Leopoldo Heimann. São pessoas que têm ajudado não somente a construir esta trajetória em Cultura Religiosa, como têm colaborado com o aprofundamento da reflexão sobre o tema e auxiliado muitas pessoas. Douglas Moacir Flor
  • 2. ( 1 ) o fenômeno religioso Paulo Augusto Seifert é mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia do Seminário Concórdia (RS) e em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É professor nos Cursos de Teologia e Filosofia da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Ronaldo Steffen é bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia do Seminário Concórdia (RS) e professor do Curso de Teologia da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra).
  • 3. o desafio está posto: estudar religiões na universidade. A experiência tem demonstrado que não há unanimidade na aceitação da disciplina, pelo menos a princípio. Há resistências das mais diversas ordens, desde as de ordem econômica até as de informação técnica, que não contribuem para a complementação do curso em que o aluno está matriculado. Vez ou outra rompem ainda as questões pertinentes à fé, ou à ausência dela, professada pelo aluno e divergente daquilo que imagina que irá ocorrer na disciplina. O repto está assentado. Não há como voltar atrás. É prerrogativa da universidade. Recuar ou enfrentar é o elemento determinante. A esta altura, permita-nos, leitor, contribuir para a sua decisão a partir de algumas considerações. Damos o braço a torcer e damos razão a você que tem resistência a essa disciplina sob a alegação de que ela não contribui com a sua formação técnica nem acrescentará nada a ela. Com exceção feita aos alunos matriculados no Curso de Teologia, e para quem as informações da disciplina podem ser enquadradas como elementos técnicos importantes para o exercício da função, não é pretensão da disciplina acrescentar informações técnicas específicas a nenhum outro curso. Estamos em sintonia com aqueles que vislumbram algum valor nas questões religiosas, mas discordamos da análise puramente histórica dos movimentos religiosos. Acreditamos que a universidade é espaço privilegiado para o aprofundamento das idéias. Escapar da linha histórica de tempo e aprofundar idéias parece-nos um caminho concreto com vistas à busca da compreensão do universo e do ser humano a partir das percepções espirituais e religiosas. Lamentamos discordar daqueles que esperam que a disciplina seja um manual de catequese com vistas à conversão dos alunos ao cristianismo luterano. A plural sala de aula não é o espaço da catequese. É, sim, o momento de expor idéias, confrontar razões, trocar experiências, colocar os contraditórios e trocar vivências. É o espaço do encantamento com os caminhos que o ser humano tem construído ao longo de sua existência na tentativa de encontrar respostas religiosas satisfatórias a respeito de sua origem e destino. O que pretendemos é analisar os diversos cultos e práticas religiosas existentes no mundo, considerando a confissão religiosa da instituição Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), uma instituição que se identifica como cristã luterana, e sua proposta ética para a sociedade na qual vivemos. Assim definidos, assentamos o núcleo da disciplina no ser humano, singular e plural. Seja qual for o curso escolhido, não podemos escapar do fato inconteste de que não realizaremos nossas funções profissionais de forma isolada. A vida é relacional: ou interagimos, ou rejeitamos, ou, ainda, buscamos compreender as razões alheias, com o fim do bem-viver socialmente. Nessa perspectiva, não podemos ignorar que convivemos com seres humanos que possuem individualidades, independentes dos cursos profissionais para os quais se preparam. Respeitamos a confissão religiosa de nossos alunos ou sua ausência. Pretendemos, simplesmente, apresentar os valores ético-cristãos como alternativa de vida, individual e social. (1.1) a religião no dia-a-dia De algum modo manifestações de natureza religiosa têm estado presentes no nosso cotidiano. Podemos, sem entrar em detalhes por ora, mencionar algumas áreas, alguns eventos e algumas práticas pessoais e sociais marcados por idéias, ritos e símbolos consagrados ao campo religioso.
  • 4. Observemos, de forma rápida, práticas e situações familiares ligadas à tradição religiosa, como o casamento, o batismo, a morte e o velamento; comportamentos de ordem pessoal regrados por normas morais ditadas por alguma tradição religiosa; comportamento de busca de ajuda divina diante de qualquer doença ou de situações difíceis na vida. As relações sociais mais amplas também estão marcadas por imperativos de ordem religiosa: no esporte estamos acostumados, especialmente no futebol, à cena de uma oração conjunta antes da entrada no campo; no âmbito musical não são raras as menções que se fazem a personagens religiosos e até mesmo a sentimentos de ordem religiosa; no campo das artes somos conduzidos a milhares de imagens notadamente carregadas de simbolismo religioso dos mais diversos matizes; a literatura de natureza religiosa não tem deixado por menos e tem sido o mercado que mais cresce em termos de editoração nos últimos anos; adornos com diversos fins têm sido pautados por motivos religiosos; o cinema tem sido pródigo nas temáticas de ordem religiosa; as novelas, fenômeno brasileiro que ganha o mundo, jamais têm deixado de lado alguma alusão, personagem e até mesmo temática central ligados a fatos eminentemente religiosos; o papel-moeda, seja o dólar, seja o real, tem feito menção a uma divindade; nossas vestimentas são conduzidas por modismos, de estilo, de cores ou de tamanho, na maior parte inspirados por concepções religiosas; nossa alimentação está em grande medida determinada por elementos de ordem religiosa; o modo de expressar nossas idéias por meio da linguagem é, igualmente, em muito influenciado por formas religiosas; o turismo religioso é hoje um grande filão na arrecadação de divisas para um município; a educação é fortemente marcada pelos valores que ela prega, quase sempre idênticos aos valores de ordem religiosa; a área da saúde – o trato com a dor, a vida e a morte – foi e ainda é construída com suporte religioso; nosso calendário – suas datas festivas e grandes eventos – tem sua origem no meio eclesiástico; as diversas áreas do conhecimento humano, duma ou de outra maneira, têm se ocupado com a temática religiosa, como a filosofia, a psicologia, a sociologia, a antropologia, a história, a medicina, a física, a arqueologia, a geografia e assim por diante. Apesar das diferentes atitudes de repulsa que caracterizam a negação dos elementos religiosos, as menções apontam para o fato de que o ser humano busca ligar-se ao transcendente como se mantivesse com tal elemento uma ligação umbilical, da qual retira os recursos vitais para a sua existência. A questão que se coloca é a de como compreender essas ligações. Qual o fundamento capaz de sustentar uma avaliação compreensiva da junção ser humano-transcendente? Há muitas possibilidades viáveis, tanto a partir das diferentes perspectivas e entendimentos religiosos quanto a partir de escolas de reflexão filosófica. Além disso, interessa considerar a relação que há, ou pode haver, entre a religião e as manifestações importantes do espírito humano. A título de introdução, consideremos como se relacionam religião e filosofia, religião e ciência, religião e moral, religião e teologia. Religião e filosofia O que tem a filosofia a ver com a religião? Essa é uma pergunta importante e cuja resposta não é óbvia ou simples. Ao longo da história do pensamento humano, vemos cooperação e competição entre ambas as áreas. Em um certo sentido, a cooperação e a competição pressupõem a mesma concepção: a de que compete à razão filosófica provar a veracidade das idéias religiosas, ou, dito de outra maneira, que compete à razão filosófica determinar se religião e superstição são a mesma coisa ou se são coisas distintas e separáveis. Posta a questão dessa maneira, temos duas respostas possíveis: ou a filosofia apresenta provas de que a religião é verdadeira, ou a filosofia apresenta provas de que a religião não é verdadeira. Se for o primeiro caso, dizemos que há entre ambas cooperação; se for o segundo, que há competição. E, quando se fala em provas, isso significa que qualquer pessoa racional deve concordar com o argumento; mesmo que não seja um argumento demonstrativo ao estilo da matemática (um cálculo bem feito dá um único resultado, e o sujeito que não percebe o resultado ou não concorda com ele é incapaz. Um exemplo simples: 3x3=9, e não faria nenhum sentido alguém dizer: “Para você, para mim é 8”), o
  • 5. argumento deveria ser cognitivamente convincente. Aquele que não concorda com a conclusão, ou não compreende o argumento, ou está agindo de má-fé. Onde, porém, buscar tais provas? Historicamente, têm sido elas buscadas no raciocínio abstrato, na análise e na comparação de idéias, na experiência sensorial, no senso comum, nas explicações científicas, no sentimento moral. Diversos os pontos de partida, similaridade no modo de argumentar. Parte-se de elementos geralmente aceitos e, se for o caso, de verdades evidentes ou necessárias (que não podem ser negadas), aplicam-se as regras básicas do raciocínio lógico, dedutivo ou indutivo, alcançando-se uma conclusão, tal como se faz nos raciocínios comuns ou nos científicos. Se o propósito é mostrar que a filosofia justifica a religião e prova a existência de Deus (ou da realidade última), temos os argumentos ontológicos, teleológicos, cosmológicos, morais. Se o propósito é mostrar que a filosofia refuta a religião e prova que Deus não existe, temos os argumentos do mal, os argumentos evidencialistas etc. Exemplo do primeiro tipo: observamos que a natureza exibe ordem e finalidade, como se fosse uma grande máquina, na qual as partes se ajustam umas às outras perfeitamente, de forma a fazer o todo funcionar. Na nossa experiência, sempre que há ordem e finalidade em algo, tal objeto foi pensado e realizado por uma mente inteligente. Logo, a ordem e a finalidade que observamos no universo indicam a existência de um criador inteligente. Este se chama Deus. Logo, Deus existe. Exemplo do segundo tipo: observamos que há muitos e diversos males no universo. Se Deus fosse bom, Ele desejaria eliminar todo e qualquer mal; se fosse onipotente, Ele o faria. Como o mal existe, Deus não é onipotente ou não é bom, ou ambos. Logo, como a religião afirma que Deus é bom e onipotente, Deus não existe. Mesmo aceitando que essa é a tarefa da filosofia, isso não quer dizer que o filósofo acredita que é assim que as pessoas aceitam ou recusam uma religião, ou seja, com base em argumentos. As religiões seguem seu caminho independente disso, e a preocupação com argumentos justificadores é, quando muito, secundária. Mas os argumentos mostrariam se as pessoas são racionais na sua crença. Por outro lado, pode ser que o pressuposto esteja errado, e não compete à filosofia fundamentar ou provar a verdade das crenças religiosas básicas. A tarefa da filosofia em relação à religião seria mais modesta. Atualmente, muitos filósofos, tendo em vista o desenvolvimento histórico das explicações filosóficas, julgam que a filosofia pode ajudar a melhor compreender as idéias religiosas e a auxiliar as religiões a se livrarem de alguns elementos supersticiosos indevidamente acrescentados à fé básica, especialmente aqueles relacionados a confusões conceituais, derivadas de um uso inadequado da linguagem, ou à compreensão equivocada de teorias e hipóteses científicas, ou a preconceitos de natureza não religiosa. Essa abordagem tem se mostrado mais produtiva do que as outras duas opções mencionadas. Religião e ciência E quanto à relação entre religião e ciência? Na maioria das vezes, quando isso é discutido, por ciência se entendem as ciências naturais, como física, química e biologia. Há quem julgue que certas teorias científicas estão em direta contradição com a crença religiosa. Um exemplo contemporâneo pode ser encontrado na discussão entre o evolucionismo e a teoria do desígnio inteligente, ou criacionismo. Se olharmos para o passado, esse era o juízo feito por alguns acerca da relação entre o heliocentrismo e o relato bíblico cristão sobre a criação e o papel do ser humano nela. Críticos religiosos do heliocentrismo, à época, julgavam que a teoria geocêntrica era, esta sim, compatível com a crença cristã, enquanto sua alternativa era incompatível. Hoje, nem mesmo grupos fundamentalistas percebem uma contradição, e muito menos as igrejas tradicionais ou os cientistas ateus ou agnósticos. A situação com o evolucionismo é, sem dúvida, um pouco mais complicada. Podemos, no entanto, dizer que isso se deve em boa parte às conseqüências filosóficas, morais, teológicas extraídas por alguns de seus defensores. Se esse tipo de argumento for legítimo, há um conflito. Por outro lado, também parece que esse conflito é alimentado por uma interpretação literalista em demasia dos textos sagrados. Isso indica depender o conflito de certas concepções do alcance das teorias científicas (concepções estas que não são científicas no mesmo sentido em que o são as teorias) e de concepções hermenêuticas acerca de como deve ser entendida a revelação.
  • 6. Contudo, há tanto teólogos quanto cientistas (crentes ou descrentes) que sustentam serem a ciência e a religião duas esferas explicativas completamente independentes e sem relação. Assim, não há como surgir qualquer conflito. É preciso preservar a integridade de cada esfera. Erram os teólogos que supõem poder extrair hipóteses científicas dos relatos bíblicos (no caso do cristianismo, mas o mesmo raciocínio se aplica a qualquer outra religião que tenha texto sagrado), e erram os cientistas que supõem poder extrair conseqüências morais, filosóficas ou religiosas de teorias e hipóteses científicas. Água e óleo não se misturam, mas, por isso mesmo, não são incompatíveis, e um não anula o outro. Esta tese da independência ou da integridade da ciência e da teologia pode ser mantida, sem, no entanto, afirmar que são duas esferas completamente separadas. Uma terceira abordagem sustenta a necessidade de integrar religião (ou, talvez melhor, teologia) e ciência em uma explicação mais abrangente. Essa integração seria sempre historicamente condicionada, podendo e devendo ser revisada, na medida em que se alteram e progridem ambas as esferas. Essas considerações mostram que o conflito entre ciência e religião, ou o uso da ciência na religião, ou o uso da religião na ciência, não é algo que deva ser simplesmente aceito ou recusado. É preciso considerar atentamente qual teoria científica se tem em mente, qual interpretação teológica é suposta e qual visão geral da relação entre ambas é pressuposta. Religião e moral Algo que chama a atenção de quem participa das religiões ou as observa é a íntima conexão destas com a moral. Muitos procedimentos e discursos religiosos (praticados no âmbito das religiões organizadas, especialmente) parecem consistir em admoestações para que as pessoas corrijam seu modo de vida e passem a agir de acordo com códigos morais mais estritos, que não se restringem a proibir determinados atos, mas também exigem do crente ações positivas, de auxílio aos doentes, aos necessitados, por exemplo. Mesmo que haja diferença (embora não tão acentuada) entre os códigos morais professados por diferentes religiões, não há como afirmar que essa relação seja meramente circunstancial, como parece ser o caso da relação entre ciência (especialmente as chamadas ciências naturais) e religião. Como podemos explicar essa conexão íntima? Uma proposta de explicação procura reduzir a religião à moral. Isso implica dizer que o significado essencial da religião se encontra na moralidade. A religião consistiria em uma forma disfarçada ou mais eficiente de induzir as pessoas a um comportamento ético desejável. Alguns pensadores sugeriram que há uma similaridade entre o papel das religiões e o ensinamento moral de uma criança. Assim como se faz necessário por vezes ensinar bons modos a uma criança na base de punições ou histórias fantasiosas, há pessoas (e são elas muitas) que precisam receber as idéias morais acompanhadas de alguma narrativa cósmica ou divina. Caso contrário, não compreenderão a norma moral nem se submeterão a ela. Mas, uma vez que se tornam maduras e autônomas, percebem que a moral se mantém por si mesma e podem, então, abandonar a religião. Esse tipo de explicação pressupõe a falsidade das histórias e/ou idéias religiosas. Se aceita por alguém, essa pessoa deixa de ser, em um sentido mais forte, religiosa. Esse resultado não quer dizer que a explicação esteja equivocada. Contudo, outras objeções que mostrariam a inadequação de uma tal hipótese podem ser mencionadas. Primeiro, não faz jus ao fenômeno religioso. Mesmo que a moral seja parte integrante das religiões, não é tida como única nem como a principal. Outros elementos importantes são a estética, os ritos, os mistérios, a ação de Deus na história (no caso das religiões teístas). E o que, prestando atenção ao discurso religioso como tal, parece ser o mais importante está naquilo que se poderia chamar de realidade última, o verdadeiro por trás das aparências, o efetivamente real, o fundamento de tudo que existe (vamos chamar isso de o elemento metafísico). Por exemplo, no cristianismo, considera-se como o ponto mais importante saber quem é Deus, quais seus atributos, qual sua relação conosco. Se o Deus cristão fosse apenas um princípio moral, ou o princípio do bem, o cristianismo perderia muito de seu sentido. Mesmo que alguém julgue ser o cristianismo, em última análise, falso, dizer que sua essência é a moralidade constitui uma simplificação grosseira; além disso, para dizer que o cristianismo é falso, é preciso supor a seriedade do elemento metafísico. Acrescentemos ainda que uma crítica feita constantemente por pessoas que
  • 7. consideram os relatos religiosos como fantasia se refere à crueldade e à violência que as religiões exibem, ao terror mental que exercem sobre os crentes, à sua intolerância. Se uma tal crítica faz sentido, é justamente porque a conexão entre moral e religião não pode ser adequadamente explicada como se a essência da religião fosse a moral. Outra explicação, e esta a favorecida pelos religiosos, está em que o elemento metafísico provê o fundamento da moral. Esta depende da religião e lhe dá o suporte real de que ela necessita. Como a moral não é descritiva, mas normativa, ou seja, diz como devemos agir ou que hábitos virtuosos devemos cultivar, não seria ela capaz de responder à questão sobre sua própria validade. Se alguém pergunta por que deve ser moral, é preciso apontar para algo fora da moral, para a realidade, para as coisas como elas realmente são. Devemos ser morais porque assim é o mundo. Por exemplo, o cristão deve observar o decálogo porque Deus assim o quer, ou porque Deus criou o mundo de tal forma que a inobservância dos princípios e das regras morais afeta e perverte toda a natureza. Mas há uma outra alternativa de como compreender a relação entre moral e religião, pela qual nenhum desses dois elementos serve de razão ou fundamento do outro, embora permaneçam intimamente ligados. A religião não é uma forma mítica de impor regras morais nem necessita a moral de um fundamento religioso. São autônomas, sem, no entanto, que isso implique que qualquer moral é compatível com qualquer religião. Religião e teologia Muitas vezes, os termos teologia e religião são considerados como sinônimos. Contudo, convém distingui-los para melhor compreender o fenômeno religioso. Teologia é um termo grego e significa “conhecimento sobre Deus”. Hoje em dia, é comum a distinção entre teologia natural e teologia revelada. Teologia natural se refere àquele conhecimento sobre Deus que se baseia na experiência comum – quando, por exemplo, observamos o mundo ou quando consideramos nossos sentimentos internos – e na racionalidade, enquanto teologia revelada se refere àquele conhecimento sobre Deus que se baseia em alguma manifestação direta da divindade. E no que isso difere de religião? A diferenciação pode ser especialmente útil para aquelas religiões que têm um texto sagrado e/ou uma tradição considerada normativa. Assim, religião consistiria no conjunto de verdades reveladas (por exemplo, no cristianismo, que Deus é triúno, que Jesus é Deus encarnado) de forma clara e não simbólica, enquanto teologia significaria a reflexão organizada e sistematizada da revelação. Além disso, haveria os ritos e os modos de vida eclesial (de igreja, ou religião organizada). Desse modo, seria possível manter um núcleo fixo e uma concepção progressiva da experiência e da reflexão religiosas, consideradas então como teologia. A religião não muda, mas a teologia sim, especialmente no que se refere a suas relações com a ciência e a cultura.
  • 8. ( 2 ) hinduísmo Ronaldo Steffen perfil • Fundador: não há fundador. • Ano de fundação: as raízes do hinduísmo remontam a um período entre 1500 a.C. e 200 a.C. • Textos sagrados: Livro dos Vedas, que consiste numa coletânea de quatro obras, das quais certas partes datam de 1500 a.C. • Estatística: hoje, cerca de 80% da população da Índia é hinduísta. O restante divide-se entre muçulmanos (10%), cristãos (4%) e outros grupos (6%). Em todo o mundo, os hinduístas perfazem cerca de 13% da população mundial. (2.1) história O passado É difícil identificar uma data para registrar o início do hinduísmo. Costuma-se atribuir a alguma data entre 1500 a.C. e 200 a.C. Nesse período, um grupo de nobres (denominados de arianos) dominou o vale do rio Indo. Os nobres
  • 9. trouxeram suas crenças, fortemente influenciadas por concepções religiosas indo-européias (grega, romana e germânica). Esse período é denominado de período védico do hinduísmo em razão dos hinos recitados pelos sacerdotes. Esses hinos eram chamados de vedas e significam “conhecimento”. O sacrifício era importante para o culto ariano. Faziam-se oferendas aos deuses a fim de se conquistarem seus favores e se manterem sob controle as forças do caos. Achados arqueológicos no vale do rio Indo indicam que houve uma civilização avançada na Índia, anterior à chegada dos indo-europeus, e é certo que essa civilização também contribuiu para o hinduísmo moderno. Num período posterior, provavelmente entre 1000 a.C. e 500 a.C., surgiram os Upanishads, escritos em forma de diálogos entre o mestre e o discípulo. É nesse período que é introduzida a noção de Brahman, a força espiritual essencial sobre a qual se baseia todo o universo. É por essa razão que se diz que todos nascem do Brahman, vivem no Brahman e retornam ao Brahman por ocasião da morte. Os “Upanishads” introduzem a idéia de “Brahman”. Todos nascem dele, vivem nele e na morte retornam a ele. Hoje O hinduísmo, embora originário da Índia, possui adeptos espalhados por todos os países a sua volta, em especial Nepal, Bangladesh e Sri Lanka. Apenas em 1947 é que a Índia deixa de ser um Estado religioso e passa a garantir direito de expressão religiosa a todas as denominações religiosas. Nesse mesmo ano, a tensão entre hinduístas e muçulmanos em razão da independência da Índia resultou na criação do Paquistão como um Estado muçulmano separado, dividido em duas partes distintas, o Paquistão do Leste e o Paquistão do Oeste. Depois da guerra de 1971 entre a Índia e o Paquistão, o Paquistão do Leste se tornou um Estado independente com o nome de Bangladesh. (2.2) ensinamentos Deuses A multiplicidade do hinduísmo também se manifesta em seu conceito de transcendente. Há duas formas de compreender o tema: uma filosófica (Brahman é o princípio e a realidade última; o universo em sua totalidade é um só com a divindade; Brahman toma a forma de três divindades: Brahma, Vishnu e Shiva, respectivamente o Criador, o Mantenedor da criação e o Destruidor) e outra popular, ou menos acadêmica (acredita-se num grande número de divindades a tal ponto que as aldeias elegem sua divindade local). Deusas O hinduísmo tem uma série de deusas. Alguns adotam a teoria de que essa abundância de deusas não passa da expressão de uma grande e poderosa divindade feminina, a Rainha do Universo ou Deusa-Mãe. Sua manifestação mais
  • 10. conhecida é Kali, a deusa negra, adorada, sobretudo, no Leste da Índia e a quem se sacrificam animais. O alto status de Kali no mundo dos deuses é evidente pelas imagens que a mostram pisoteando o corpo de Shiva. A importância das deusas na religião indiana é visível pela escolha da Mãe Índia (Bhárata Mata ou Bharthamata) como a divindade nacional do moderno Estado da Índia. Na cidade de Varanasi há um templo especial que lhe é dedicado. Ali, em vez de uma representação da deusa, está exposto um mapa da Índia. Divindades menores A maioria das aldeias tem seu templo dedicado a Vishnu ou a Shiva. Esses deuses se concentram nas questões maiores, universais e, em geral, são homenageados nos grandes festivais. Num nível mais doméstico, as pessoas costumam visitar pequenos templos dedicados a divindades menos importantes. Embora não sejam tão poderosas como Vishnu ou Shiva, é mais fácil se aproximar delas para assuntos de menor importância, tais como os problemas pessoais. Há deuses para as questões universais e deuses para as questões pessoais. Os deuses menores por vezes exercem influência em áreas específicas, como, por exemplo, em certos tipos de doença. Muitos deles têm origem humana: podem ser heróis que morreram em batalha ou esposas que se ofereceram para serem queimadas na pira funerária do marido. Alguns deuses são espíritos malignos que foram deixados para trás por homens maus. Ao cultivar esses espíritos como deuses, é possível controlar e neutralizar sua maldade. Ser humano A concepção que o hinduísmo desenvolve a respeito do ser humano está intimamente vinculada a uma compreensão ampla que privilegia os entendimentos sobre carma, reencarnação e o sistema de castas. Carma e reencarnação O ser humano tem uma alma imortal que não lhe pertence. Depois da morte, a alma volta a aparecer pelo renascimento, não necessariamente em forma humana, podendo, também, vir a renascer num animal. O conceito que explica esse eterno vai-e-vem da alma é o carma (“ato” ou “ação”) do ser humano, referindo-se tanto às ações como aos pensamentos, às palavras e aos sentimentos. Desse modo, entende-se que o carma é determinante para o que irá ocorrer numa próxima existência. Muito embora se possa concluir que o carma é uma punição ou uma recompensa das ações humanas, não é esse o modo de compreender sua extensão. É como se ele fosse apenas uma lei natural da existência. Colhe-se aquilo que se planta, e é justamente isso que explica as diferenças entre as pessoas. O ser humano é responsável por si mesmo e de posse do livre-arbítrio está apto a produzir as mudanças necessárias com vistas a uma melhor existência posterior, quando renascer. O sistema de castas O surgimento do conceito de casta é confuso. O fato a ressaltar é a chegada dos arianos à Índia, com língua, cultura e traços fisionômicos (altos, pele clara, olhos azuis e cabelos lisos) diferentes. A diferença propiciou um sistema de identificação pela cor (varna, em sânscrito). As classificações tiveram ampliação à medida que a organização se fazia
  • 11. necessária, de modo que se chegou a uma estratificação com quatro classes sociais: videntes, administradores, produtores e seguidores. Religiosamente, as castas indicam o grau de pureza ou impureza de uma pessoa. Na prática popular, hoje, a casta é entendida como as possibilidades que alguém tem de se relacionar com coisas mais puras ou impuras. Essas possibilidades são determinadas pelas regras que conduzem cada casta: castas elevadas buscam cada vez mais distanciamento das coisas materiais; castas mais baixas se permitem a aproximação com as coisas da matéria. Duma ou doutra forma, se alguém quebrar alguma das regras de sua casta, restam-lhe os rituais de purificação, sendo o mais conhecido o banho num dos muitos rios sagrados. Os efeitos do sistema de castas e suas regras específicas influenciam diretamente a base da divisão de trabalho na comunidade. Certas atividades e certos trabalhos são tão impuros que somente determinadas castas podem realizá- los. Essas castas têm o dever de ajudar os outros a manterem sua pureza. Por outro lado, apenas as castas que preencham os requisitos de pureza podem se aproximar dos deuses mais elevados. Para que isso ocorra com mais facilidade, outras pessoas devem ser impuras. Entretanto, todos se beneficiam da limpeza dos puros, pois todos os hinduístas tiram proveito dos ritos que são praticados. O sistema de castas deu um novo contexto à vida do indiano moderno. Assim, ser expulso de sua casta é o pior castigo imaginável e, por isso, só utilizado para crimes muito sérios. O nível mais baixo no sistema de castas é o dos intocáveis ou sem-casta (também chamados de párias): criminosos, lixeiros e curtidores de couro de animais, por exemplo. As complexas regras que controlam o contrato social entre as castas eram muito rígidas. A Constituição da Índia, de 1947, introduziu, no entanto, medidas com a finalidade de banir a discriminação por casta. Como não basta mudar a legislação para acabar com antigas divisões sociais e religiosas, o sistema de castas continua tendo um papel importante, em especial nas aldeias. Vida e morte Durante o período védico, as doutrinas do carma e dos renascimentos eram vistas como algo positivo. Por meio dos sacrifícios e das boas ações, o ser humano podia garantir que viveria várias vidas. Mais tarde, o hinduísmo passou a considerar esse ciclo como algo negativo, como um círculo vicioso a ser quebrado. É possível, assim, distinguir três caminhos para a libertação: as vias do sacrifício, do conhecimento e da devoção. A via do sacrifício Como vimos, a palavra indiana para ”ato” é carma. Hoje ela é usada para denotar todos os atos humanos e até mesmo a coletividade desses atos. No período védico, o termo se referia basicamente a atos religiosos ou rituais, em especial aos atos sacrificiais. Estes eram necessários para incrementar a fertilidade e manter a ordem universal, além de propiciar a possibilidade de libertação do constante nascer-renascer, integrando-se de modo definitivo com Brahman. A via da compreensão ou do conhecimento A compreensão ou o conhecimento é apenas uma das formas de libertar-se do ciclo de renascimentos, pois se enfatiza que é a ignorância que aprisiona o ser humano a esse ciclo. Compreender a verdadeira natureza da existência, o oposto da ignorância, é, portanto, um caminho para a libertação. É apenas quando o ser humano adquire o reto conhecimento que ele é redimido da implacável roda da
  • 12. transmigração. O reto conhecimento mencionado nada mais é do que a compreensão de que a alma humana (atmã: é o reflexo da alma universal e encontra-se nos seres humanos, nas plantas e nos animais) e o mundo espiritual (Brahman) são uma e a mesma coisa. A via da devoção Uma terceira rota para a salvação é a via da devoção. Essa proposta começou a difundir-se no Sul da Índia, por volta de 600 a.C. e logo se espalhou por toda a região da Índia. Já no século III a.C. esse caminho para a libertação encontrara sua expressão no Bhagavad Gita, um poema catequético. Essa terceira tendência do hinduísmo é a que predomina na Índia moderna, e o livro Bhagavad Gita é o texto sagrado que ocupa o lugar supremo na consciência do indiano médio. Cumprir os rituais. Buscar o conhecimento. Contemplar.A religião na Índia oferece a possibilidade de vários caminhos para a libertação, e essa multiplicidade é mais uma característica do hinduísmo. Mundo É plural O mundo não é uno, mas plural. Há diversos mundos interconectados pela mesma razão. É como se fossem infinitas galáxias, e cada uma com o seu ponto de referência, como a Terra. Para dar uma dimensão superlativa ao conceito de infinitas galáxias, o hinduísmo entende que entre esse ponto de referência e o restante da galáxia há diversos outros mundos mais sutis, acima, e mais grosseiros, abaixo. Os mundos sutis e grosseiros são os espaços ocupados pelas almas e que por eles transitam conforme os méritos adquiridos ou não. Cada mundo e galáxia têm ciclos diferentes de tempo. Há tempo que se expande e tempo que se recolhe, eterna e incontavelmente no mesmo movimento, estabelecendo os ciclos cósmicos. É meio O mundo e suas galáxias têm uma razão. É o espaço onde as almas individuais cumprem a inexorável lei do carma até sua libertação. Inerente ao conceito de carma está que toda decisão do ser humano terá determinadas conseqüências. Não há fatalismos no universo. Nos mundos mais grosseiros há uma percepção maior dos elementos sensoriais. Em razão dos prazeres proporcionados, geralmente assentados no eu individual, o ser humano deve buscar a libertação para mundos cada vez mais sensíveis, em direção ao EU absoluto, o Transcendente, até sua integração completa. É moderado O mundo e suas galáxias são o espaço onde bem e mal, prazer e dor, conhecimento e ignorância se entrelaçam em proporções quase iguais. Não faz parte dos propósitos do universo ser um paraíso, mas o espaço onde o espírito do ser humano pode viabilizar seu aprendizado de integração ao Transcendente. É como se o universo perceptível servisse apenas para poder perceber-se que há outra realidade além dele.
  • 13. É maya O mundo e suas galáxias são maya. A palavra maya possui a mesma raiz que mágica. Na mágica, o que vemos nem sempre é o que pensamos ver. Assim é o universo. Enquanto em processo de constantes renascimentos, o ser humano pode cair no ardil de que a materialidade e a multiplicidade são realidades independentes, quando, em realidade, são Brahman, o todo inclusivo de tudo o que é e de tudo o que não é. O mundo e suas galáxias podem ser a prisão do ciclo de constantes e infindáveis renascimentos do ser humano. O universo aí está para poder perceber-se sua unidade, que é Brahman. Mesmo que o ser humano não o perceba ou o perceba apenas parcialmente, ele continua sendo Brahman. É lila O mundo e suas galáxias são o espaço lila (“dança”) do Transcendente. É onde ele dança, numa espécie de jogo, de forma incansável, infinda, irresistível, mas absolutamente benéfica. É o jogo que o Transcendente criou a fim de que o finito seja superado e destruído pelo infinito. (2.3) principais tendências Escolas do pensamento hindu Entre os séculos II a.C. e IV d.C., surgiram seis escolas ortodoxas da filosofia clássica hindu, descritas a seguir. Não eram grupos organizados, mas sistemas de pensamento que apresentavam perspectivas diversas, porém complementares, de métodos devocionais, interpretação das escrituras e cosmologia. • Vaiseshika – Defende que a libertação do ser humano se dá pela compreensão das leis da natureza. • Nyaya – A libertação do ser humano se dá pelo conhecimento por meio do raciocínio lógico. • Samkhya – A libertação do ser humano ocorre quando se alcança a união da alma individual com o Transcendente (moksha) por meio da consciência que se desvencilha das preocupações mundanas e materiais. • Mimamsa – A libertação do ser humano dar-se-á à medida que os escritos sagrados forem adequadamente interpretados e, em decorrência, produzirem o justo agir (darma). • Vedanta – A libertação do ser humano é decorrência da correta compreensão do Transcendente e dos conhecimentos espirituais, possibilitada pela igualdade entre a alma individual e o Transcendente. • Bhakti – A libertação do ser humano é possível em razão das atitudes devocionais que permitem a união entre a alma individual e o Transcendente, embora sejam diferentes. Correntes hindus modernas no Ocidente Em meados do século XX, surgiu na Europa e nos Estados Unidos um grande interesse pela espiritualidade oriental. Dentre as muitas razões para isso, podemos afirmar que o Ocidente materialista, espiritualmente estéril, percebeu que a vida e o viver iam muito além dos reducionistas aspectos biológicos. Esse interesse, que atingiu seu ponto culminante nas décadas de 1960 e 1970, concentrou-se no budismo e no hinduísmo, com destaque para a ioga. Surgiram inúmeros movimentos que apresentaram o modo hinduísta de responder às questões da vida. Eram, em regra, movimentos
  • 14. centrados na personalidade de algum mestre (guru) carismático, venerado como se fosse um avatar. Dos movimentos que permaneceram na ativa após a morte de seus fundadores, destacamos: • Meher Baba (1894-1969) – Foi o primeiro guru moderno de importância a conquistar adeptos no Ocidente. Nascido na Índia, elaborou uma doutrina que sintetizava várias tradições religiosas, inclusive os conceitos de carma e samsara (“renascimento cíclico”). Ensinava que o estado de iluminação que liberta só se alcança por meio do amor puro, desinteressado. • Sociedade Internacional da Consciência de Krishna – Foi fundada em meados da década de 1960 no Ocidente por A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada (1896-1977). Seus discípulos de túnica amarela procuram a iluminação por meio do estudo das escrituras védicas, em especial o Bhagavad Gita, e do canto de um mantra em louvor a Krishna e Rama (graças ao qual o movimento é popularmente conhecido como Hare Krishna). Praticam um ascetismo rigoroso, que inclui o celibato, a não ser com finalidade de procriação e dentro do casamento. • Meditação transcendental – Ensina um método simples de meditação que se baseia em um mantra pessoal (palavra ou frase) que, constantemente repetido, produz o efeito de reduzir o estresse e de promover a integração pessoal e, por conseqüência, a iluminação que liberta. Foi trazido para o Ocidente por Maharishi Mahesh Yogi, nascido em 1911, em fins da década de 1950 e alcançou popularidade quando os Beatles se tornaram seus adeptos. • Missão da Luz Divina – Fundado na Índia em 1960 e no Ocidente em 1971, proclamou um menino guru, Maharah Ji, nascido em 1958, o mais recente avatar do Transcendente. Ensina quatro técnicas de meditação que capacitam os devotos a se voltarem para dentro de si mesmos a fim de experimentarem o estado de iluminação: a Luz Divina, a Harmonia Divina, o Néctar Divino e a Palavra Divina. • Bhagwan Shri Rajneesh (1931-1990) – Também conhecido como Osho. Ministra a doutrina do amor livre, da sexualidade desinibida e dos atos impulsivos, juntamente com uma forma de meditação dinâmica que visa liberar a energia da Terra. Uma das técnicas de liberação das energias reprimidas é o riso. Possui centros de meditação em todo o mundo. Só no Brasil são oito centros, além de um jornal de circulação nacional.
  • 15. ( 3 ) budismo Ronaldo Steffen • perfil • Fundador: Siddartha Gautama, identificado por seus seguidores como Sakyamuni (pertencente ao clã dos Sakya), Buddha (“o iluminado”) ou Bhagavat (“senhor”). É tido como o quarto dos cinco budas encarnados. • Data de nascimento: não há certezas. As biografias mencionam datas desde 624 a.C. até 410 a.C. • Local de nascimento: reino dos Sakyas, na cidade de Kapilavastu, próxima à fronteira atual entre a Índia e o Nepal. • Ano de fundação: estima-se que Siddartha tenha atingido o estado de iluminação por volta de seus 35 anos de idade. • Textos sagrados e reverenciados: os ensinamentos de Buddha não foram originalmente escritos por ele, mas transmitidos oralmente por seus seguidores. Ao surgirem os primeiros escritos, duas formas podem ser identificadas: o cânone sulista de Pali, da tradição Theravada (escrito no Sri Lanka por volta do século I a.C.), e o cânone nortista sânscrito, da tradição Mahayana. O cânone de Pali é composto por três obras (pitaka): a) Sutra: os discursos de Buddha; b) Vinaya: as origens das regras da
  • 16. disciplina monástica e c) Abdhidharma: tratados escolásticos sobre a psicologia e a filosofia budistas. Já o cânone de tradição Mahayana crê que as doutrinas primeiras são incompletas e necessitam ser aperfeiçoadas com os tratados interpretativos. • Estatística: atualmente é um dos quatro maiores grupos de tradição religiosa. Os números correspondentes a essa afirmação são difíceis de serem comprovados em vista das diversas escolas budistas. Hoje é muito difundido no Sri Lanka e no Sudoeste da Ásia, embora esteja também presente na China, na Coréia e no Japão. Excluindo a China, estima-se que cerca de 200 milhões de pessoas professam a fé budista. (3.1) história A Índia antes do budismo O mundo à época do nascimento de Siddartha era de mudanças. Por volta de 1500 a.C., a Índia passou a ser influenciada pela religião védica, trazida pelos guerreiros arianos. Possivelmente o processo sincrético ocorrido entre os arianos e os não-arianos tenha originado o hinduísmo após séculos de evolução. Essas mudanças teriam ocorrido entre os anos 1000 a.C. e 200 a.C. Além das revoltas filosóficas contra o vedismo e o bramanismo, duas religiões surgiram na Índia: o jainismo e o budismo. Acresce que nesse tempo surgiram duas grandes escolas filosóficas: a Ajivakas, ou nihilistas, e a Lokayatas, ou materialistas. Posteriormente, essas duas escolas opuseram-se ao hinduísmo. Popular também à época do nascimento de Siddartha era um movimento denominado Sâmara, uma espécie de contracultura dos mendicantes religiosos, que optaram pela renúncia ao mundo. Todos esses movimentos surgiram no exato momento em que o ambiente da Índia era um campo fértil para novas idéias. Nascimento e vida de Siddartha O príncipe Siddartha cresceu em meio à fortuna e ao luxo. Seu pai ouvira uma profecia de que seu filho ou seria um poderoso governante, ou abandonaria por completo o mundo. Esta última opção ocorreria caso o príncipe testemunhasse as mazelas e o sofrimento das pessoas. Para evitar essa situação, tentou proteger seu filho, mantendo-o recluso aos limites do palácio e cercado de delícias e diversões. Casou-se jovem com uma prima e mantinha um harém de dançarinas. Aos 29 anos, Siddartha experimenta uma situação que mudaria por completo sua vida palaciana. Embora proibido pelo pai, arriscou-se a sair do palácio e viu, pela primeira vez, um velho, um homem doente e um cadáver em decomposição. A contradição se interpôs quando, a seguir, viu um asceta com uma expressão de radiante alegria.
  • 17. Percebeu que a vida de riqueza e prazer não traduz uma existência plena e com sentido. Questionou-se sobre a possibilidade de haver algo que ultrapassasse a velhice, a doença e a morte. Percebeu-se tocado por um profundo sentimento de compaixão pelas pessoas e por um chamado a fim de libertá-las do sofrimento. Ato contínuo, renuncia à vida prazerosa do palácio, à sua esposa e filho e parte para uma vida de andarilho. Da vida de abundância passa aos extremos dos exercícios ascéticos. Come cada vez menos; chega a alimentar-se apenas com um grão de arroz por dia. O que esperava conseguir era o domínio do sofrimento. Sem resultado, adota o “caminho do meio”, a meditação. Após seis anos de meditação ascética, aos 35 anos, chega à iluminação (bodhi), à margem de um afluente do rio Ganges. Agora era um buda, um iluminado. Alcançara a percepção de que todo o sofrimento do mundo é causado pelo desejo. É apenas suprimindo o desejo que o homem pode escapar de outras encarnações e atingir a realidade última: o nirvana. Encontrara para si uma saída para a superação do sofrimento. Passo seguinte, Siddartha decide compartilhar sua percepção. À época, Benares era um grande centro religioso. É para lá que se dirige. Faz sua primeira pregação e desencadeia o que se denomina de rodas de instrução. Monges mendigos tornam-se seus discípulos e por aproximadamente 40 anos o seguem pelo Nordeste da Índia. Seus seguidores, desde o princípio, dividem-se em dois grupos: os leigos e os monges. Por volta dos 80 anos, adoece e despede-se de seus discípulos. Daí para frente eles poderiam contar somente com o darma (“instrução”) que Siddartha lhes havia dado nos anos anteriores. (3.2) ensinamentos Uma vez que o budismo surge dentro do contexto hinduísta como um caminho individual para a libertação dos renascimentos, é natural que muitos de seus ensinamentos estejam marcados por esse pensamento. Destacam-se, de modo especial, os pensamentos referentes às doutrinas do renascimento, do carma e da libertação (ou salvação). Deuses Buda não negou a existência dos deuses. Todavia, acreditava que esta era transitória, assim como a existência humana. Embora eles vivessem mais tempo que os seres humanos, também estavam atrelados ao ciclo de renascimentos e em nada podiam ajudar os seres humanos a se redimirem de tal ciclo. Outro aspecto a ressaltar diz respeito à adoração de demônios, espíritos e outras divindades. Todos são seres vivos e, se cultuados de modo correto, podem trazer vantagens para a vida neste mundo. Ser humano Para o hinduísmo, originalmente, todo ser humano, bem como todo o universo, possui uma única alma (atmã), que sobrevive de uma existência a outra e é idêntica, total ou parcialmente, ao Transcendente universal (Brahman). Buda rompe essa lógica. Nega que o ser humano tenha alma e rejeita a existência de um espírito universal. A alma é fugaz e fruto da ignorância humana, que promove o desejo, fundamental para a criação do carma individual. Nessa dimensão, o budismo entende a vida humana como uma série de processos mentais e físicos que alteram o ser humano de momento a momento. Tudo é transitório. “Aquilo que você planta é o que colhe.” O ser humano
  • 18. é dono de seu destino: o que pensa e faz é determinante de seu futuro cósmico. Vida e morte A lei do carma Para Siddartha, o Buda, o ser humano é escravizado por uma série de renascimentos. Como todas as ações têm conseqüências, o princípio propulsor que está por detrás do ciclo nascimento-morte-renascimento são os pensamentos dos seres humanos, suas palavras e seus atos (carma). A idéia básica consiste em que tudo o que fizemos em determinada vida, ainda que passada, repercute e alcança- nos no presente. As ações de uma vida estendem-se a outra. O ser humano irá colher no presente aquilo que plantou no passado. Não há “destino cego” nem “divina providência”. Daí a impossibilidade de escapar do carma. Enquanto houver um carma, o ser humano está fadado a renascer e manter-se preso à existência humana, não transcendendo. Em razão disso, torna-se imperiosa a busca por uma saída que seja capaz de produzir a libertação humana. As quatro nobres verdades sobre o sofrimento O denominado Sermão de Benares, que apresentou as quatro verdades sobre o sofrimento humano, ocorreu depois que Siddartha obteve o estado de iluminação. As quatro verdades demonstram o seguinte: • Tudo é sofrimento – Para o budismo, o sofrimento implica algo mais do que mero desconforto físico e psicológico. Toda a existência é manchada pelo sofrimento, pois tudo é passageiro. Quem não percebe isso é cego. Isso, no entanto, não significa que o budismo negue toda a felicidade material e mental. A felicidade pode ser encontrada em muitos setores da vida, como na família, e em muitas coisas que estão à volta do ser humano. Porém, nada disso vai durar para sempre. • A causa do sofrimento é o desejo – O desejo é o mesmo que ânsia. Há três tipos de desejos: desejo pela sensualidade, desejo por ser/existir e desejo por não ser/não existir. Resumida e metaforicamente, significa prender-se a algo no curso da existência como se ele fosse absolutamente substancial para o ato de existir. É o desejo que produz a existência continuada e a necessidade do renascimento. Não é a transitoriedade da felicidade que causa o sofrimento, mas a atitude frente a ela, como o apego e a ignorância. • O sofrimento cessa quando o desejo cessa – A experiência de interrupção do sofrimento é tão real quanto a própria experiência do sofrimento. À interrupção do sofrimento dá-se o nome de nirvana. O nirvana é a cessação de mudança. O nirvana pode apenas ser experimentado, mas não descrito. Resumidamente pode ser definido como a cessação dos apegos ou dos desejos e certamente não é identificado com o céu. O nirvana não é um lugar real ou metafórico. Em vez disso, o pressuposto é que a dor e a cessação da dor são duas experiências reais realizadas aqui e agora e, por isso, nirvana não é um estado futuro. Simplesmente é o estado em que o desejo cessa completamente. O desejo cessa seguindo-se o caminho das oito vias – São elas: • Entendimento (ou percepção/visão) justo: para conhecer a natureza e a origem do sofrimento, a cessação do sofrimento e o caminho que conduz para a cessação do sofrimento. • Resolução justa: renunciar à materialidade presente no mundo e não prejudicar ou eliminar qualquer ser vivo. • Palavra justa: abster-se da mentira ou da calúnia, da injúria e dos mexericos. • Conduta justa: abster-se de tirar a vida, roubar e praticar a luxúria.
  • 19. • Sustento de vida justo: abster-se de pegar ou comercializar armas, consumir álcool e tóxicos e de qualquer outra atividade que possa trazer prejuízo a outros. • Esforço justo: é a vontade necessária para estancar as más qualidades que afloram à mente, eliminar todas as que ali ainda estão e desenvolver bons estados mentais. • Pensamento justo: ter consciência do seu próprio corpo, dos sentimentos e das atividades da mente. • Meditação justa: é quando, privado de luxúria e disposições erradas, a serenidade interna é desenvolvida por meio da prática de meditação. Esta é a atividade que, em última análise, conduz ao nirvana. Analise os oito caminhos como uma proposta de conduta ética e tire suas próprias conclusões. Para pesquisar e confrontar: Como o cristianismo explica o sofrimento? Nirvana e céu são a mesma coisa? Ética Com a decisão de Buda, depois de alcançar a iluminação, de tornar-se guia do ser humano, passam a ser fundamentais para o budismo o amor e a compaixão. Não só as ações, mas também os sentimentos e os afetos são importantes. A caridade realizada não apenas afeta aos outros, mas contribui para enobrecer o próprio caráter de quem a pratica. Nessa dimensão, o budismo tem cinco regras de conduta: • Com relação às criaturas vivas: evitar toda maldade. • Evitar o roubo. • Ser responsável nos prazeres sensuais. • Falar apenas a verdade. • Evitar o uso de álcool e drogas. Mundo No mundo tudo é transitório. Nada é definitivo e, por isso, essa transitoriedade deve ser abandonada para evitar-se todo e qualquer desejo. Notemos, no entanto, que, quando se fala em abandonar a transitoriedade da materialidade constante no mundo, o que se tem em mente é o apegar-se a essa materialidade como se ela fosse capaz de resolver os problemas da natureza humana. A única saída para a transitoriedade do mundo é o nirvana. Uma vez que o nirvana é o oposto direto do ciclo de renascimentos, e uma vez que ele não pode ser comparado a nada neste mundo, só é possível dizer que o nirvana não é. Alcançá-lo só é possível por meio do estado de iluminação e de nada adiantam, por si sós, as boas obras. Embora o mundo não tenha autonomia, seja transitório e pleno de sofrimento, este é o espaço dado e no qual o ser humano pode chegar à libertação plena dos renascimentos.
  • 20. (3.3) principais tendências Os pensamentos de Buda foram transmitidos oralmente. O resultado foi o surgimento de, pelo menos, 18 escolas diferentes. As escolas relacionadas a seguir representam apenas as mais importantes ramificações do budismo no mundo moderno. • Budismo Theravada – É a mais antiga escola da tradição budista. Defende que cada ser humano é responsável sozinho pela sua própria iluminação. Apenas poucos alcançam esse estado. A sabedoria e a disciplina são virtudes valiosas. Os rituais não são fundamentais, e sim a devoção. Está presente no Sri Lanka, na Tailândia, em Mianmar, em Laos e no Camboja. • Budismo Mahayana – É o budismo das pessoas comuns. Enfatiza que qualquer pessoa pode alcançar o estado de iluminação que liberta. A compaixão e o amor pelos menos afortunados são mais importantes que a sabedoria. • Budismo Zen – É um amálgama da escola Mahayana com o taoísmo. Zen é o caminho da iluminação por meio da meditação e da vida simples, evitando as teorias abstratas e favorecendo a experiência direta de um espírito “vazio” e aberto. Há duas grandes escolas: a Rinzai Zen, que dá ênfase à iluminação espontânea, e a Soto, que enfatiza a concentração espiritual e corporal disciplinada na meditação. As escolas Zen também enfatizam a pintura, a caligrafia e até a cerimônia do chá como expressões de um vínculo não interpretado com a natureza. Tornou-se popular no Ocidente a partir da década de 1950, com o surgimento dos movimentos holísticos. • Budismo da Terra Pura – É o culto de um buda ou bodhisattva que vive numa terra pura, celestial. Seus devotos procuram renascer na Terra Pura, onde alcançarão a iluminação libertadora. • Budismo Nichiren – Também conhecido como Seita do Lótus, ensina que o budista verdadeiro é o que segue os ensinamentos contidos no Sutra do Lótus, escritura do século I d.C. A ênfase é que Buda é eterno e cósmico, manifestando-se incessantemente em budas terrenos. O maior grupo dessa tendência é o Nichiren Shoshu. • Budismo tibetano – Também conhecido como lamaísmo, adota a doutrina do bodhisattva e o caminho gradual rumo ao estado de iluminação por meio de rígidas disciplinas monásticas. O grupo mais importante nessa tendência é de Gelugpa, fundado em fins do século XIV d.C. Seu líder espiritual é o Dalai-Lama (“guru oceano”), cuja sabedoria é profunda e ampla como o mar. O Dalai-Lama é considerado a encarnação de um bodhisattva, e cada dalai-lama sucessivo é a reencarnação do anterior. A partir do século XVII, o Dalai-Lama passou a ser também o líder secular do Tibete, até o país ser ocupado pela China, em 1959, quando o Dalai- Lama passou a viver em exílio. No Brasil, como podemos ver a seguir, podem ser identificadas três grandes escolas budistas. Devemos levar em conta que cada escola pode estar subdividida em vários grupos.
  • 21. Escolha seu veículo As diversas escolas budistas existentes podem ser agrupadas em três tradições fundamentais. Ainda na Índia, desenvolveram-se diferentes correntes com interpretações específicas dos ensinamentos de Buda. Desse budismo primitivo, sobrevive até hoje a tradição Theravada. Simultaneamente, a doutrina de Buda correu a Ásia e foi adaptada a diferentes culturas. O resultado é a diversidade. Quadro 1 – As três grandes escolas budistas Início Região de Consolidação Filosofia Grupos no Brasil Membros no Brasil Alguns líderes no Brasil Theravada (Hinayana) Séc. IV a.C. Sul da Ásia (Sri Lanka, Tailândia, Mianmar, Laos, Camboja) A figura do “veículo pequeno” resume o espírito da tradição Theravada, também chamada de Hinayana. Cada um é responsável por guiar o próprio barco. Sozinho, o praticante busca a auto-iluminação por meio da meditação e de uma conduta condizente com a doutrina de Buda. Cerca de 5 Menos de 1 mil Pushwelle Vipasse Mahayana Séc. I a.C. Norte da Ásia (China, Coréia, Japão) A tradição Mahayana pode ser simbolizada pela figura do “veículo grande”. O fiel não apenas busca a própria iluminação como pode contribuir para que todos a sua volta evoluam espiritualmente. O bodhisattva (ser iluminado) é o timoneiro em um barco com muitos passageiros. Cerca de 85 Cerca de 220 mil Monja Sinceridade e Monja Coen Vajrayana Séc. VII d.C. Tibete Os primeiros missionários a visitar o Tibete tiveram de incorporar algumas práticas xamânicas da população nativa. A tradição Vajrayana, ou “veículo de diamante”, combina a ética Mahayana com doutrinas esotéricas do Tantrismo. Cerca de 45 Cerca de 3 mil Lama Michel e Segyu Rinpoche Consultoria: Prof. Frank Usarski, programa de pós-graduação em Ciências da Religião da PUC de São Paulo. Fonte: Revista Isto É, 2003.
  • 22. ( 4 ) islamismo • perfil • Fundador: o profeta Muhammad (Maomé). • Data de nascimento: 570 d.C. • Local de nascimento: Meca, atual Arábia Saudita. • Ano e local de fundação: 622 d.C., em Meca. • Textos sagrados e reverenciados: Qu´ran (Corão), coleção das escrituras divinas como reveladas ao profeta Maomé pelo arcanjo Gabriel, e Hadith, coleção de ditos de Maomé e seus seguidores e que se perpetuaram com o decorrer do tempo. • Estatísticas: estima-se hoje em cerca de 1 bilhão e 300 milhões de adeptos distribuídos por várias localidades: Turquia, Oeste da África, Sul da Ásia, Filipinas, Indonésia, Índia, Oriente Médio, Europa e as três Américas. No Brasil, fala-se em 1 milhão de adeptos.
  • 23. (4.1) história Com origem na Arábia, o islã está profundamente relacionado com a cultura árabe. Ressaltemos, no entanto, que hoje apenas uma minoria de seus seguidores são árabes. O islã está difundido por regiões da África e da Ásia, em especial, e é seguido por cerca de 15% da população mundial. A palavra árabe islam significa “submissão”. É pertinente ao seu conteúdo que o ser humano deve entregar-se a Deus e submeter-se a Sua vontade em todas as áreas da vida. Esse entendimento sugere que, enquanto religião, o islã abrange todas as áreas da vida humana, pessoal e social. É a terceira e última das religiões originadas com Abraão, após o judaísmo e o cristianismo. Fruto de um “segundo casamento” de Abraão, agora com Hagar, Ismael dá origem aos muçulmanos. De importância capital para a compreensão do islã é a figura de Muhammad, ou Mohammed, ou, ainda, Maomé. Maomé Nasceu em Meca, na Arábia, por volta de 570 d.C. Nascido numa das principais famílias da cidade, ficou órfão ainda criança. Criado por um tio, Abu Talib, foi trabalhar como condutor de camelos para Khadidja, viúva de um rico mercador. Quinze anos mais velha que Maomé, veio a ser sua esposa e exerceu grande influência no desenvolvimento religioso de seu esposo, que não teve outra mulher. A formação religiosa de Maomé Meca era um importante centro comercial e religioso da Arábia. Tribos nômades já adoravam, bem antes de Maomé, a pedra preta, objeto de muitas peregrinações de beduínos. Era prática comum na região, também, cultuar muitos deuses e seres sobrenaturais, quase sempre ligados a práticas animistas. Em geral, os cultos eram tribais. Aliás, a tribo e a família eram estruturas centrais para o modo de vida dos nômades. Todo o sistema legal estava vinculado à tribo, originada e mantida pelos laços de sangue. Era recorrente o exercício da lei do “olho por olho”, quando um dos membros de uma tribo era assassinado por um membro de outra. Um cenário de constantes e sangrentas rixas fixou-se como prática comum. Maomé foi fortemente influenciado pelos ideais judaicos e cristãos, especialmente o monoteísmo. Já à época de Maomé, apresentava-se um quadro de transição. A sociedade beduína nômade começava a dar lugar a uma sociedade urbana mais fixa. Com isso, a religião e as práticas tradicionais passaram a ser revistas. Nesse hiato aumentou em muito a influência do judaísmo e do cristianismo. Com toda a certeza, Maomé foi fortemente influenciado pelo monoteísmo e pela noção de fim de mundo acompanhado de juízo final. O judaísmo havia se estabelecido em toda a Arábia depois da queda de Jerusalém em 70 d.C. Aos poucos, os judeus incorporaram a língua e o estilo de vida dos árabes, mantendo, porém, sua própria crença e seu culto mosaico. O cristianismo, por sua vez, também havia avançado por muitas regiões do Oriente Médio. Estados como a Abissínia (atual Etiópia) e muitas tribos beduínas tornaram-se cristãos. Com certeza o grupo que mais influenciou
  • 24. Maomé em sua formação religiosa foram monges e eremitas cristãos, que viviam isolados nos desertos da Arábia. Devotos e generosos eram pródigos na ajuda aos viajantes. Deus revela-se a Maomé A recitação de Maomé resulta no Alcorão. Era costume de Maomé retirar-se todos os anos para uma caverna aos arredores de Meca com o fim de meditar. Esse hábito também era prática corrente dos eremitas cristãos, que, diferentemente de Maomé, fundamentavam sua meditação em algum texto sagrado, em geral os Evangelhos da tradição cristã. Aos 40 anos, Maomé teve uma revelação. Apareceu-lhe o arcanjo Gabriel com um pergaminho ordenando-lhe que o lesse. Maomé não sabia ler e, em vista disso, o arcanjo incitou-lhe a recitar o que ouvia. As recitações transmitidas por Maomé foram reunidas num livro, o Qu´ran, o Corão, apenas após a sua morte. Assim como no judaísmo e no cristianismo, o islamismo também passa a ter seu livro sagrado. De Meca a Medina Após a revelação, Maomé começa sua pregação em Meca. Proclama-se profeta e mensageiro de Deus. As famílias abastadas entenderam essa pregação como manobra para usurpar o poder político da cidade. Também as famílias assentadas no tradicionalismo religioso se lhe opuseram por entenderem que, se abandonassem suas antigas crenças, estariam reconhecendo que seus antepassados foram pagãos. A crise estava instalada. A situação de Maomé piora após a morte de seu tio e esposa. Alguns de seus seguidores, residentes em Medina, mostraram-se dispostos a aceitá-lo na cidade. Assim, em 622 d.C. Maomé sai de Meca e vai para Medina. Esse episódio é conhecido como hégira, que significa “rompimento” ou “partida”, mas jamais “fuga”. A hégira é uma partida estratégica. Lembre-se de que não é uma fuga. Líder religioso e político Em Medina, Maomé torna-se um líder religioso e político. Sem perder de vista seu futuro retorno a Meca, procura se estabelecer financeiramente por meio de assaltos a caravanas pertencentes às famílias ricas de Meca. O conjunto das atividades desenvolvidas por Maomé com vistas ao retorno a Meca é conhecido como jihad, hoje empregado para designar a guerra santa. Na década seguinte, Maomé toma a cidade de Meca por meios militares e diplomáticos. Ocupou, a seguir, grande parte da Arábia. Em 632 d.C., pouco antes de morrer, havia realizado o feito de unir o país e torná-lo um só domínio, no qual a religião tinha mais representatividade que os antigos laços familiares e tribais. Atribui-se o nome “Jihad” ao conjunto das ações que Maomé desenvolveu para voltar a Meca.
  • 25. O Cisma no islã após Maomé Após a morte de Maomé, a liderança do movimento foi assumida pelos califas, ou sucessores. Os três primeiros califas eram parentes de Maomé. O quarto califa, Ali, genro de Maomé, casado com sua filha Fátima, era filho de seu tio, Abu Talib, que o havia criado. Surgem os xiitas e os sunitas. O Cisma no mundo islâmico começa na época de Ali. Sua liderança foi repleta de controvérsias, e ele acabou sendo assassinado por seus adversários. Os seguidores de Ali defendiam e acreditavam que, por ser o parente mais próximo de Maomé, ele era o seu sucessor natural. Esses seguidores eram identificados como os Shiat Ali (o partido de Ali), ou xiitas, que formam a base da religião oficial do Irã de hoje. Os xiitas entendiam que a liderança do movimento deveria ser concedida a um descendente direto de Maomé, enquanto o grupo divergente, facção bem maior que os xiitas, identificados como sunitas, julgava que a liderança cabia ao indivíduo que de fato controlava o poder. Após a morte de Ali, o califado teve sede em Damasco por algum tempo e, a seguir, instalou-se em Bagdá, onde permaneceu por 500 anos. Depois disso, a liderança passou para o sultão turco de Istambul. O último sultão foi derrubado em 1924 e, desde então, o mundo islâmico deixou de ter um califa como líder. (4.2) ensinamentos Deus Não há Deus, senão Alá, e Maomé é seu profeta. Este é o resumo da fé islâmica: o monoteísmo e a revelação dada a Maomé. Monoteísmo O termo “alah”, árabe, e o termo “el”, hebraico, referem-se a “Deus”. Alá não constitui um nome pessoal, mas, sim, a palavra árabe que significa “Deus”. Etimologicamente, a palavra alah se relaciona com a palavra hebraica el, que é utilizada na Bíblia para nomear o Deus dos hebreus. O politeísmo é atacado com veemência, ressaltando-se a crença num só Deus, que é criador e juiz. Ele criou o mundo e tudo o que há nele. No último dia irá trazer todos os mortos de volta à vida para julgá-los. Há uma forte ênfase no amor e na compaixão divinos. Embora Deus seja aquele a quem todos devem submeter-se, também é o que perdoa e auxilia o ser humano. Este não merece nada de Deus nem pode invocar direitos sobre nada. A
  • 26. salvação e a fé brotam somente da graça de Deus e são coisas que os seres humanos podem apenas ter esperança de conseguir. Revelação Deus falou ao ser humano por intermédio de seu profeta Maomé. Ele é o último dos profetas enviados por Deus à humanidade. Embora, de início, Maomé estivesse próximo às tradições judaico-cristãs, delas se distancia em razão de controvérsias tidas com os judeus sobre narrativas do Antigo Testamento. O fundo histórico do movimento desencadeado por Maomé é encontrado em Abraão e seu filho, Ismael, antepassado dos árabes. Maomé ensinou que Abraão e Ismael tinham reconstruído a sagrada Kaaba, que fora erigida por Adão e destruída pelo dilúvio. Para Maomé, tanto os judeus como os cristãos distanciaram-se do monoteísmo de Abraão. Quando em Medina, Maomé ensinara que, ao orar, o rosto deveria estar voltado para Jerusalém. Depois de rompidas as relações com os judeus, a orientação mudou: o fiel, agora, deve estar de frente para Meca ao orar. Por essa época também, designou-se a sexta-feira como dia sagrado da semana. Em relação ao cristianismo, a diferença acentuou-se em relação à questão da Trindade. Além disso, houve divergência quanto ao papel de Jesus, que, para o cristianismo, é o Verbo (Palavra) revelado, enquanto, para o islamismo, a revelação é o próprio Qu´ran (Corão). Ser humano O ser humano possui um estatuto especial e uma posição privilegiada no universo. A vida é dádiva divina. O ser humano é criatura divina perfeita e possuidor de uma alma que perdura após a morte. A bondade lhe é inata por graça divina e não se perde por qualquer meio ou motivo. Não há a noção de um pecado herdado. O ser humano é sempre bom. Quando muito, ele se esquece de sua origem divina e da bondade que lhe é inerente. Para que isso não ocorra, o ser humano necessita constantemente reavivar suas origens e qualidades divinas. O fato de ter sido escolhido por Deus para revelar-Se dá a dimensão exata dos grandes valores e qualidades humanas. Vida e morte Os cinco pilares A vida de um seguidor do islamismo está marcada por cinco passos bem definidos, denominados de Os cinco pilares, descritos a seguir. • Credo – “Não há outro Deus senão Alá, e Maomé é seu Profeta.” É a primeira coisa que se deve sussurrar ao ouvido da criança recém-nascida e a última a ser sussurrada no ouvido do moribundo. • Oração – Deve ser feita cinco vezes ao dia; o pressuposto é estar ritualmente limpo das impurezas, causadas pelas funções corporais, o que é obtido pelo banho em água corrente. • Caridade – É uma espécie de taxa sobre a riqueza e a propriedade, fixada em cerca de 2,5% sobre o montante; ela é destinada a usos sociais, objetivando diminuir as desigualdades entre ricos e pobres, sem interferir no princípio da propriedade privada. O islã não proíbe que se desfrute a vida na terra, mas lembra que se deve ter sempre em mente o fato de que esta não passa de uma preparação para a vida que começará depois do julgamento divino. • Jejum – O Corão proíbe comer porco e beber álcool. De resto, nada se proíbe. A exceção é o jejum durante o Ramadan, mês em que Maomé teve sua primeira revelação. Nesse período, entre o nascer do sol e o pôr-do-sol,
  • 27. é proibido comer, beber, fumar ou ter relações sexuais. Os viajantes, os doentes, as crianças e as mulheres grávidas ou que estão amamentando são exortados a cumprir o jejum numa data posterior. • Peregrinação a Meca – Todo muçulmano adulto que dispõe de meios financeiros deve realizar, pelo menos uma vez na vida, uma peregrinação a Meca. Os peregrinos que para lá se dirigem, passam a usar vestes brancas e caminham em torno da Kaaba por sete vezes. Outro momento importante é quando os peregrinos vão ao monte Arafat e lá ficam, sem cobrir a cabeça, do meio-dia até o pôr-do-sol. Foi no monte Arafat que Adão e Eva se encontraram de novo, depois que foram expulsos do jardim do Éden. O ponto alto das festividades é o sacrifício de algum animal (carneiro, bode, camelo, boi etc.). A finalidade é relembrar que Abraão foi tão obediente a Deus que se dispôs a sacrificar seu próprio filho, Ismael. Deus foi misericordioso com Abraão e enviou-lhe um animal para que ele o sacrificasse em lugar do filho. Relações humanas – ética e política Não há no islã distinção entre religião e política, tampouco entre a fé e a moral. O Corão é suficiente para resolver todas as questões que envolvem os relacionamentos humanos. Quando as instruções do Livro não forem suficientes, recorre- se a dois princípios: • princípio da similaridade ou analogia: busca-se no Corão um exemplo semelhante e capaz de sugerir uma decisão; • princípio do consenso: uma decisão de consenso pode ser vista como lei a ser observada. Os xiitas adotam um terceiro princípio: o da revelação. Acreditam que a revelação não está concluída e que seus líderes são os instrumentos divinos para as novas interpretações. Essa posição contraria a dos sunitas, que afirmam que a revelação veio apenas uma vez, em sua forma final. As mulheres no islã Há profundos contrastes no tratamento concedido a homens e mulheres na vida social e nas leis relativas ao casamento. Devemos, no entanto, ressaltar que o Corão, em relação às mulheres, determina tanto obrigações (“os homens têm autoridade sobre as mulheres”) quanto direitos (o dote pago pelo marido, por ocasião do casamento, é propriedade da mulher e não pode ser usado sem o consentimento dela). A mulher só pode ter um marido. Já o homem pode ter até quatro esposas, desde que as possa sustentar. A poligamia é proibida na Turquia e na Tunísia. Outra particularidade com relação ao casamento e que é pouco conhecida, embora bastante difundida, é o casamento por contrato com tempo determinado. É utilizado, em especial, quando o marido fica por muito tempo fora de casa e tem por fim preservar a sustentabilidade da mulher. O divórcio é possível, mas apenas quando iniciado pelo marido, que é o responsável pelo lado financeiro do casamento. O marido também tem o direito de punir fisicamente a mulher se ela for desobediente. A excisão do clitóris (mutilação genital feminina) não é obrigatória, mas mesmo assim é praticada com freqüência no Norte da África. Não há no Corão menção a essa prática, bem como à tradição de usar o chador, o véu. A morte Após a morte, a alma do fiel muçulmano vai a um paraíso desfrutar dos seus deleites e contemplar o rosto de Alá. A alma do infiel, por seu turno, vai ao inferno. Aguardar-se-á o dia do juízo, quando as ações dos seres humanos serão definitivamente julgadas e receberão a devida paga. As almas dos mártires e dos profetas não passarão pelo juízo final, pois já estão no paraíso. O ato final será a proclamação do islã como religião mundial, liderada por Jesus.
  • 28. A crença num julgamento final após a morte é necessária, segundo muitos muçulmanos, para que o ser humano assuma a responsabilidade sobre seus atos. A idéia de um julgamento cria um senso moral de dever que é relevante para a comunidade. Mundo O mundo foi criado por um ato deliberativo de Alá. Em decorrência, dois aspectos emergem: o mundo da matéria é real e importante, e, por ser obra de Alá, que é perfeito em bondade e poder, o mundo material também o é. (4.3) principais tendências • Sunitas – Defendem que a unidade da comunidade islâmica é muito mais importante que a genealogia de seu líder. Acreditam que o profeta morreu sem indicar um sucessor e que os líderes que o sucederam, os califas, representam a sucessão legítima. Distinguem-se, ainda, pela ênfase dada à inescrutabilidade racional de Alá e à extensão limitada do livre-arbítrio humano. • Xiitas – Defendem que a unidade da comunidade islâmica só é possível reconhecendo-se que os descendentes do profeta são os líderes (imã) ou modelos naturais escolhidos por Alá. É particularmente importante para esse grupo não perder de vista que o terceiro líder, assassinado em 680 d.C. ao recusar-se jurar fidelidade ao califa regente, optou pelo martírio como forma de obediência às revelações dadas ao profeta. Essa lembrança manifesta-se no sentimento de luto que toma conta dos xiitas por ocasião da morte, quando em luta, de um de seus adeptos. Possuem um clero hierárquico organizado, no qual a ascensão se dá segundo o grau de cultura, sendo o mais alto nível o de aiatolá. • Sufismo – É o grupo islâmico com tendência mística e cuja característica mais marcante é a renúncia ao eu por meio de hábitos devocionais e pela convicção de que Alá é a verdade suprema da existência humana e o caminho para os estados mais elevados de consciência e iluminação. O termo sufi designa “o que se veste com lã”, numa referência possível às vestes dos primeiros sufis. • Fundamentalismo islâmico – Defendem que a shari´ah (conjunto de regras islâmicas extraídas do Corão e dos ensinamentos de Maomé) tem validade eterna e deve ser seguida à risca. O movimento surgiu por volta do século XVIII como uma reação ao avanço ocidental e ao conseqüente relaxamento dos princípios da shari´ah. Imaginam que será por meio de uma inserção cada vez maior na política que poderão ser restabelecidos os princípios islâmicos. Defendem uma estrutura familiar patriarcal e entendem que os postos militares e políticos só devem ser entregues a muçulmanos comprometidos com a comunidade islâmica e que aos empregados deve ser dado tempo para as orações diárias. Acreditam ainda que se deve solidariedade aos muçulmanos no mundo todo e opõem-se ao homossexualismo e ao aborto.
  • 29. ( 5 ) judaísmo Ronaldo Steffen perfil • Fundador: Abraão e seus descendentes Isaque e Jacó. • Data de nascimento: por volta de 1700 AEC (antes da Era Comum; é assim que os judeus preferem identificar a cronologia antes de Cristo). • Local de nascimento: provavelmente em Ur, na Caldéia. • Textos sagrados e reverenciados: a Torah, que descreve a criação do mundo e a fundação do reino de Israel, além de contar as leis divinas; o Talmude, um conjunto de escritos jurídicos, éticos e litúrgicos, bem como de histórias e lendas judaicas. • Estatísticas: fala-se em 15 milhões de adeptos, dos quais seis milhões estão fora de Israel. No Brasil, estima-se em 130 mil adeptos.
  • 30. (5.1) história O judaísmo é uma religião inteiramente ligada à história. As narrativas bíblicas começam com Adão e Eva e os relatos que apontam as conseqüências do pecado, manifestadas no desejo humano de rebelar-se contra Elohim (Deus). Segue- se a expulsão do paraíso. Mais tarde, o mundo inteiro é destruído pelo dilúvio, salvando-se apenas Noé e sua família, juntamente com todos os animais da Terra. Sodoma e Gomorra, cidades sem Elohim, são aniquiladas, e a torre de Babel é derrubada por representar a tentativa humana de chegar até o céu. De Abraão a Moisés A fase histórica seguinte tem seu ponto de partida com Abraão, ao sair da cidade de Ur, localizada no atual Sul do Iraque, por volta de 1700 AEC. Seguindo orientação divina, Abraão saiu de sua terra e foi em direção à terra indicada por Elohim, a fim de formar um grande povo. Esse povo ganhou um nome após uma dramática luta entre Jacó, neto de Abraão, e um anjo de Elohim. O anjo lhe dá o nome de Israel (o que venceu a Elohim). Os filhos de Jacó, mais tarde, vieram a ser identificados como as doze tribos de Israel. Confira esses relatos no “Livro de Êxodo”, disponível em: http://www.sbb.org.br. Com José, um dos filhos de Jacó, as narrativas bíblicas mostram como os israelitas foram parar no Egito. Após serem escravizados, foram retirados do Egito com a ajuda de Moisés, numa jornada de 40 anos pelo deserto antes de chegarem à Canaã, a terra prometida. Fato marcante da travessia acontece no monte Sinai, quando Elohim dá a Moisés as duas tábuas da Lei com os Dez Mandamentos. Por volta de 1200 AEC, os israelitas conquistaram parte de Canaã, convivendo com povos não israelitas. Foi a época dos juízes que cuidavam para que o povo respeitasse as leis dadas por Elohim. A luta com os filisteus, nesse período, foi o episódio determinante da necessidade da criação de um poder político centralizado. O reino de Israel O ano 1000 AEC marca a introdução da monarquia por meio de Saul. Davi e Salomão são os expoentes desse período. Com Davi, nascido em Belém, dá-se a unificação das tribos de Israel. Com Salomão, dá-se a construção do Templo de Jerusalém no século X AEC. A prática de sacrifícios no templo, espécie de oferenda, passou a ser uma forma mecânica de adoração. Surgem daí os profetas. Destaca-se Amós, que viveu por volta de 750 AEC e atacava os males sociais, como a opressão dos pobres pelos ricos. O exílio na Babilônia Advertidos pelos profetas do juízo e da punição divinos em razão do descumprimento das leis divinas, os israelitas, sem retroceder, viram o seu reino dividido em dois: o reino do Norte (Israel) e o do Sul (Judá). Em 722 AEC os assírios invadiram e devastaram o reino do Norte, que deixa de ter importância política e religiosa.
  • 31. O reino do Sul foi conquistado em 587 AEC pelos babilônios, que deixaram como marca da ocupação a destruição do Templo de Jerusalém. Os habitantes do reino do Sul tiveram permissão para voltarem a sua terra em 539 AEC e daí em diante se tornaram conhecidos como judeus. O Templo de Jerusalém foi reerguido em 516 AEC. Ocupação estrangeira Seguidas vezes, após o retorno da Babilônia, os judeus caíram sob o domínio político estrangeiro. Foi assim que, em 70 EC (Era Comum), uma revolta contra os romanos levou ao saque de Jerusalém. O Templo, que recentemente havia sido ampliado pelo rei Herodes, foi outra vez arrasado. Dessa época em diante se estabelece um novo formato do judaísmo, desvinculado do Templo e centrado na sinagoga. Muitos judeus estavam agora dispersos pelas terras do Mar Mediterrâneo. História mais recente A dispersão dos judeus provocada pelas diversas ocupações permitiu que eles, em muitas ocasiões e em diferentes lugares, assumissem papel de grande importância e destaque, tanto nas letras como na economia (a religião lhes permitia ganhar juros emprestando dinheiro). No entanto, o que mais tem marcado a dispersão dos judeus é a constante campanha que diferentes países e culturas têm desencadeado com o fim de afastar os judeus de seus limites geográficos, em especial a partir da Baixa Idade Média. Por muito tempo o cristianismo encabeçou a perseguição aos judeus sob a alegação de terem sido os judeus os culpados pela morte de Jesus. Da França e da Inglaterra os judeus foram deportados nos séculos XIII e XIV; na Espanha a perseguição dá-se no século XV, e os judeus são expulsos desse país em 1492; em 1687, foram proibidos de entrar no território da Noruega. Culmina o cenário de perseguição, na história recente, com o avanço nazista na Europa, entre 1933 e 1945. Mesmo em épocas em que as perseguições explícitas não ocorriam, os judeus continuaram a sofrer restrições: tratados como párias sociais; obrigados a adotar nomes de fácil identificação e a residir em lugares específicos; proibidos de possuir terras e assim por diante. Apenas em 1948 veio o reconhecimento mundial com um ato da ONU, que criou o Estado de Israel. Os primeiros passos foram dados no fim do século XIX. Muitos judeus pensaram na possibilidade de voltar para sua antiga pátria e, assim, fugir das constantes perseguições de que eram alvo. Essa idéia foi chamada de sionismo. A princípio, muitos sionistas desejavam criar um estado laico, secular, mas os judeus ortodoxos conseguiram realizar o seu desejo de que o país fosse fundado com base na religião judaica. Esse novo Estado tem vivido em contínuo conflito com o mundo árabe, também por causa dos milhares de palestinos que foram deslocados de suas propriedades na época da fundação de Israel. Hoje as terras israelenses abrigam apenas cinco dos onze milhões de judeus. (5.2) ensinamentos Deus O judaísmo é uma religião monoteísta. Elohim, o Deus único, é o criador do mundo e o senhor da história. Toda vida depende dele, e tudo o que é bom flui dele. É pessoal e tem preocupação com as coisas que criou.
  • 32. Quem é Elohim é algo que não pode ser expresso em palavras. O nome de Deus é representado pelas letras IHVH, um acrônimo que em hebraico significa “eu sou o que sou”. Esse acrônimo costuma ser lido como Jeová ou Javé, porém o nome real é tão sagrado que sempre se usa algum sinônimo, como “o Senhor” ou “o nome”. Jeová é o criador e o sustentador do mundo. A idéia de que Elohim possa não existir é alheia a um judeu. Particularmente específica na concepção de Elohim é a expectativa nutrida pela vinda de um messias (“o ungido”) que virá criar um reino de paz na terra. Historicamente, a expectativa remonta à época do rei Davi, quando os reis eram ungidos ao subir ao trono. Desde o exílio babilônico, os judeus alimentam a expectativa da chegada de um messias, saído da linhagem de Davi. Esse rei ideal restabeleceria Israel como uma grande potência, e seu povo desfrutaria de eterna felicidade. Até hoje essa expectativa continua viva. Nem todos os judeus, entretanto, identificam o Messias como uma pessoa; alguns falam numa “era messiânica” – um estado de paz na Terra, com destaque especial para Israel. Há alguns judeus que identificam a criação do Estado de Israel, em 1948, como o cumprimento dessa expectativa. Messias: • Alguns esperam a vinda de uma pessoa. • Outros esperam uma era messiânica. • Outros identificam que essa era chegou com a criação do Estado de Israel. Ser humano O fato de que Elohim é um, e apenas um, reflete-se na existência humana. Toda a vida do ser humano deve ser consagrada. Não há linha divisória que separe o sagrado do profano. O ser humano, embora biológico, faz parte da essência divina e deve cumprir a missão de Elohim aqui na Terra. Enquanto ser biológico, o ser humano faz parte do cosmo. No entanto, de tudo o que há no cosmo, o ser humano foi escolhido como parte da essência divina, ultrapassando os limites biológicos. Por isso, faz parte da missão divina no cosmo, realizando a mediação entre o Criador e a criatura. A tarefa mais importante do ser humano é cumprir todos os seus deveres para com Elohim e para com seus semelhantes. Vida e morte A vida e a morte de um judeu têm seus caminhos e atalhos traçados nas Escrituras Sagradas. Os Escritos Sagrados O chamado cânone judaico foi fixado por um concílio em Jabne por volta de 100 EC. São 24 livros divididos em três grupos: • Torá (a Lei): os cinco livros de Moisés. • Nevim (os Profetas): os livros históricos e proféticos.
  • 33. • Ketuvim (os Escritos): os demais livros. Além da Torá, os judeus obedeciam às regras transmitidas oralmente. Conforme a tradição, no monte Sinai, Moisés teria recebido a Lei Escrita e a Lei Falada. A Lei Falada era proibida de ser escrita, pois deveria adaptar-se às condições reais da vida em diferentes lugares e épocas. Após a dispersão dos judeus, sob pena de perder-se a tradição oral, decidiu-se registrar as orientações. Esse material se chama Talmude. Não é em si um livro de ensinamentos, e sim um texto usado pelos rabinos em seus ensinamentos, para orientação dos fiéis em situações concretas. A sinagoga e o sábado Desde o exílio, a sinagoga tem desempenhado papel primordial na preservação das práticas religiosas dos judeus. É nesse espaço que se encontra a Arca, uma espécie de armário colocado sistematicamente na direção de Jerusalém e onde são guardados os rolos da Torá. Nas manhãs dos sábados (shabat), das segundas e das quintas-feiras, os rolos são lidos de tal forma que todo o livro é lido no decurso de um ano. A sinagoga pode abrir suas portas para os serviços religiosos três vezes por dia, desde que dez homens estejam presentes. As mulheres não desempenham parte ativa no serviço religioso, pelo menos nos grupos ortodoxos. No entanto, encontram seu espaço nos rituais do Shabat. O Shabat dura desde o pôr-do-sol de sexta-feira até o pôr-do-sol de sábado. É uma relembrança do ato criador de Jeová que descansa no sétimo dia. O sábado se tornou uma festa semanal de renovação que ocorre em família. A esposa abençoa as velas do Shabat na mesa já posta, e o marido abençoa o vinho e o pão. É mais um grande momento para a união familiar judaica. As regras alimentares É responsabilidade da mulher zelar pela alimentação da família. Há, para tanto, que respeitar as regras definidas nos livros sagrados. A carne só pode provir de animais que ruminam e têm o casco partido, o que exclui o porco, o camelo, a lebre, o coelho e outros. Das aves pode-se comer as não-predatórias. Dos peixes pode-se comer os que possuem escamas e barbatanas, excluindo-se polvos, lagostas, mariscos, caranguejos, camarões etc. Toda comida feita de sangue também é proibida, já que a vida está no sangue. Os animais com sangue e permitidos para alimentação devem ser abatidos de forma que o máximo possível de sangue seja extraído. Além disso, é proibido comer derivados de carne juntamente com derivados de leite. As frutas, as verduras, as bebidas alcoólicas e não alcoólicas são permitidas. Refletir: Quem olha hoje pelos cuidados da alimentação na família? A ética O religioso e o ético se fundem na vida de um judeu. Tudo pertence à Lei de Elohim. Além das 248 ordens afirmativas e das 365 proibições, a vida do judeu ainda deve respeitar os costumes e as práticas que se consolidaram ao longo de sua história. Dentre as qualidades éticas recomendadas estão a generosidade, a hospitalidade, a boa vontade para ajudar, a honestidade e o respeito pelos pais.
  • 34. O dízimo (10%) faz parte do comportamento de muitos judeus. Com relação aos pobres e necessitados, é curioso notar que o ato de dar esmolas não é considerado caridade, mas justiça. O dever de combater a pobreza é preceito bíblico a fim de cumprir-se a palavra de que jamais haverá pobre no povo escolhido. A mesma concepção é mantida em relação às viúvas, aos órfãos e aos estrangeiros. Quando em determinada situação não houver clareza sobre o que fazer ou se a atitude gerar conflito, prevalece a vida humana. Refletir: Dar esmola não é caridade, mas ato de justiça. As fases da vida Nascimento, juventude, casamento e morte são fases da vida, marcadas por costumes antigos e ainda mantidos. • Circuncisão – Oito dias após o nascimento, os meninos são circuncidados e recebem formalmente seu nome. A menina também recebe seu nome na sinagoga uma semana após o nascimento. • Bar Mitsvá e Bat Mitsvá – No primeiro sábado após completar treze anos, o menino é recebido como “filho do mandamento” (bar mitsvá). No ano precedente, ele é instruído nas leis e nos costumes judaicos, bem como aprende a ler o trecho da leitura da Torá que fará no sábado de sua recepção. Já a menina torna-se “filha do mandamento” (bat mitsvá) automaticamente ao completar doze anos. Por volta dos quinze anos, ela aprende o principal da história e dos costumes judaicos e, particularmente, empenha-se em aprender as regras alimentares, que é sua responsabilidade doméstica. • Casamento – A família tem papel primordial na manutenção da cultura e da educação judaicas. O casamento é o modo de vida ideal e o único tipo de coabitação permitido. Por princípio, judeu deve casar com judeu. O divórcio é permitido, mas, para que seja legítimo, deve ser sancionado por um tribunal rabínico e selado pelo marido, que dá à esposa a carta de divórcio. • Enterro – O enterro deve ocorrer o mais rápido possível depois da morte. A cremação não é permitida. No cerimonial de sepultamento, não se usam flores nem música. O cemitério é sempre muito bem cuidado em razão de ser o lugar onde os mortos descansam até a ressurreição. Os festivais As festas judaicas marcam não apenas momentos de alegria. Elas trazem consigo uma forte conotação histórica e religiosa e servem para marcar eventos que ressaltam a intervenção divina na vida do povo judaico, tanto no passado como no presente. • Rosh há-shaná (Ano Novo) – Celebrado em setembro ou outubro, rememora Jeová como criador e rei, conduzindo as pessoas a se concentrarem na auto-análise e no arrependimento. • Iom Kippur (Dia do Perdão) – É o fim do período de dez dias de arrependimento, iniciado no Ano Novo. • Sukot (Festa dos Tabernáculos) – Ocorre alguns dias após o Dia do Perdão e procura relembrar o período em que os judeus, durante sua peregrinação pelo deserto, residiam em tendas. • Chanuká (Festa da Inauguração) – Realizada em novembro ou dezembro por oito dias, comemora a reinauguração do Templo de Jerusalém, ocorrida em 165 AEC.
  • 35. • Pessach (Páscoa) – Celebrada em março ou abril, relembra a passagem do anjo do Senhor “por cima” (pessach) das casas dos israelitas, quando no Egito, por ocasião da décima praga, matou os primogênitos egípcios. Tem a duração de oito dias e só se come pão sem fermento. • Shavuot (Festa das Semanas) – Ocorre em maio ou junho e comemora a ocasião em que a Torá foi dada ao povo no monte Sinai. Mundo Reza o texto sagrado, registrado em Gênesis, capítulo 1, que Elohim criou o “céu e a terra” (o universo), o ser humano inclusive. Tendo concluído sua obra criadora, emanada exclusivamente de sua inexplicável vontade, constata que o universo é bom. A força da qual flui o ato criador é sua ordem, a partir do nada e concretizada por suas palavras. A soberania divina está realçada. Ele é o criador. Uma vez criado, o universo continua a existir por vontade divina e não por moto próprio. A força vem de fora, não de forma impessoal, mas pessoal e, ainda que o universo possua características materiais evolutivas, percebe-se nesse processo a vontade divina presente no ato criador que lhe deu essa característica. (5.3) tendências O judaísmo é tanto uma identidade hereditária e um modo de vida quanto um sistema religioso. Essa colocação faz perceber a existência de uma diversidade de entendimentos. A partir do século XIX, três comunidades religiosas distintas, descritas a seguir, desenvolveram-se com opiniões divergentes acerca da importância da tradição e da teologia judaica. • Judaísmo ortodoxo – Mantém as crenças tradicionais, inclusive a doutrina de que tanto a lei bíblica quanto a lei oral são de inspiração divina, e obedece aos costumes e aos rituais tradicionais, com a rígida observância do Shabat e das leis de alimentação. • Judaísmo reformista – Surgiu no período do Iluminismo e, menosprezando a autoridade talmúdica, realiza cultos simplificados no vernáculo, dando maior importância aos padrões éticos do que às leis rituais, grande parte das quais considera irrelevantes no mundo moderno. • Judaísmo conservador – Situa-se entre a aceitação da autoridade das Escrituras e a permissão de adaptação às mudanças dos tempos e das situações. No século XX, outras tendências se acentuaram, como a corrente liberal da Reforma Judaica e o Movimento Reconstrucionista, fundado por Mordecai Kaplan, que entende o judaísmo como uma “civilização religiosa”. ( 6 )
  • 36. confucionismo, xintoísmo e taoísmo Douglas Moacir Flor é pós-graduado em Administração e Planejamento para Docentes pela Universidade Luterana do Brasil (Ulbra) e bacharel em Jornalismo pela Unisinos (RS) e em Teologia pela Escola Superior de Teologia do Seminário Concórdia (RS). É professor nos Cursos de Comunicação e Teologia da Ulbra. apresentamos nestecapítulo três grandes religiões. Apesar de não serem populares no Brasil, consideramos interessante esta análise para nos darmos conta de como pensam outros povos e da diversidade religiosa encontrada no mundo. Essas religiões, sapienciais, buscam o caminho por meio da sabedoria e do conhecimento. É bom ressaltar que o pensamento oriental é diferente do ocidental. (6.1) confucionismo Observamos hoje que a China está despontando em todo o mundo pelo seu crescimento econômico e aos poucos vem sendo reconhecida como uma grande potência mundial. Talvez o que o leitor não saiba é que até 1911 a China foi uma potência imperial, na qual o imperador reinava acima de tudo. Era considerado o representante do país diante do supremo deus Céu. O que havia por trás de tudo isso era uma ideologia confucionista. O conjunto de pensamentos, regras e rituais sociais foi desenvolvido pelo filósofo K’ung-Fu-Tzu, conhecido no Brasil como Confúcio, que também formulou normas para a vida religiosa, os sacrifícios e os rituais. Acrescentemos ainda que O confucionismo era, na verdade, uma religião estatal praticada pela elite e pelas classes dominantes, a qual, no entanto, nunca se disseminou muito entre as massas, as camadas mais amplas da população. Da mesma forma que o imperador, em seu palácio em Pequim, ficava remotamente afastado das pessoas comuns, o Céu era remoto e impessoal para a grande massa dos chineses pobres, trabalhadores e camponeses. A Religião dos pobres era a adoração dos espíritos, particularmente dos antepassados, religiosidade carregada de magia e traços de outras religiões.1 Quem foi Confúcio Filho de pessoas pobres, Confúcio nasceu em 551 a.C. e desde cedo demonstrou um grande interesse que se referia à vida. Diz a história que, após iniciar sua carreira pública como um oficial de segunda classe no estado de Lu, aos 18 anos, tornou-se professor e começou a ensinar história, filosofia, ética, música, poesia e boas maneiras. A idéia era mostrar aos seus alunos os princípios que ele sentiu necessários naquele momento de decadência da ordem feudal chinesa. Embora suas lembranças da infância contenham referências nostálgicas à caça, à pesca e ao arco, sugerindo com isso que ele foi tudo menos uma traça de livro, Confúcio dedicou-se cedo aos estudos e se saiu bem. ‘Chegando aos quinze anos de idade, forcei