LIDERANÇA e MUDANÇA

Fernando Henrique da Silveira Neto

Mudança, ao contrário do que se diz hoje, é a mais antiga experiência que o homem tem vivido, e
não uma novidade dos tempos atuais.

A queda da Constantinopla, a descoberta das Américas, a invenção da máquina a vapor e as
guerras mundiais do século XX são apenas alguns exemplos de mudanças profundas ocorridas
ao longo dos séculos. Afirmar que a mudança é a novidade do mundo de hoje é o mesmo que
afirmar que não leu e não entendeu as lições da História.

Então, por que se fala tanto de mudanças hoje em dia?

Um dos motivos é que elas estão repercutindo com maior rapidez na vida das pessoas e das em-
presas, e é preciso saber entendê-las e administrá-las em nosso benefício. As mudanças trazem
oportunidades, e saber usá-las pode nos tornar mais competitivos, mais inovadores, mais respei-
tados, mais poderosos ou simplesmente mais felizes.

E os avanços tecnológicos estão produzindo instrumentos que acelerem às mudanças: a televisão
com notícias ao vivo para todo o mundo, os computadores e sua incrível capacidade de tratar
grandes volumes de informações, o transporte aéreo que nos leva a qualquer parte do mundo em
questão de horas e a automação crescente nas empresas e nos lares são apenas algumas delas.

Nas empresas, diversos enganos tem sido cometidos ao se lidar com mudanças tecnológicas. A
tarefa de conduzi-las tem sido muitas vezes entregue a profissionais com boa formação técnica,
cuja promoção à gerência é vista como o crescimento natural em suas carreiras, e algumas vezes
como um prêmio. Poucos recebem treinamento gerencial para assumirem suas novas funções, e
por vezes nem sempre isso é o bastante.

Por quê? Ora, planejamento, organização, controle e direção, as tarefas básicas da gerência, a-
penas tornam os gerentes "eficazes em subir a escada com sucesso", como diz Stephen Covey. A
mudança pede mais: pede liderança. É ela que determina se a escada está apoiada na parede
correta.

Uma boa gerência é importante, pois é capaz de manter o já alcançado e ainda conseguir melho-
rias continuas ao longo do tempo. Mas estamos vivendo tempos de reengenharia, e necessitamos
ganhos dramáticos, saltos em ordem de magnitude, e isto consegue através de liderança efetiva e
não apenas com uma boa gerência.

Estamos falando de uma liderança baseada em princípios, e não apenas em carisma, imagem ou
personalidade. Estamos falando em preparar líderes. Estamos falando de visão, definição clara de
metas, estratégias e objetivos, coragem para mudar e até começar de novo, equipes motivadas e
em contínuo aprendizado, paixão pelo consumidor e resultados obtidos de forma a surpreender a
concorrência pela qualidade que apresentam e rapidez com que foram alcançados.

Mas como deve agir um líder no processo de mudança?

Um líder reconhece três estágios para que as pessoas e equipes usem talentos para alcançar
resultados. De acordo com Mike Pegg em Positive Leadership, primeiro o líder trabalha na Crarifi-
cação, isto é, comunicação eficaz para que todos identifiquem e entendam seus objetivos e traba-
lhem na mesma direção. Em seguida consegue a Adesão, onde cada um deve sentir-se partici-
pante e contribuinte vital para o sucesso final do trabalho, e o orgulho de poder participar do
mesmo. Por último, ele exercita a Condução, ou seja, a habilidade de administrar a obtenção de
resultados produzidos por uma equipe composta de pessoas comuns, com seus acertos e enga-
nos, dúvidas e sugestões, conhecimentos e limitações, vontades e habilidades.

Embalados por processos tecnológicos e ferramentas sofisticadas, muitos gerentes não trabalham
adesão e participação da equipe, e a mudança pode falhar menos por fatores técnicos e muito
mais por fatores motivacionais.

Um líder estimula simultaneamente dois tipos de melhoria: a de ganhos dramáticos da Reenge-
nharia, e a permanente do Kaizen. A soma dessas duas atitudes faz com que haja um ganho a-
brupto com o processo de reengenharia, somado ao ganho suave da melhoria permanente, no-
vamente seguido de uma nova reengenharia e assim por diante. Porque não basta uma reenge-
nharia apenas: a concorrência a percebe e em breve se aproxima da posição conquistada por sua
empresa. O líder sabe disso e trabalha com isso.

Um gerente faz com que os outros façam, mas um líder faz com que os outros queiram fazer. E,
segundo Jim Kouzes e Barry Posner, autores de O Desafio da Liderança, eles conseguem isto
através de cinco práticas:

   •   Desafiando o status-quo, assumindo riscos, experimentando e inovando;
   •   Inspirando uma visão comum a seus liderados, conseguindo com que os outros comprem
       os seus sonhos visões e aspirações;
   •   Capacitando os outros para agirem, pois sabem que só realizarão seus sonhos se conta-
       rem com pessoas treinadas e capacitadas para a ação;
   •   Modelando o caminho, praticando aquilo que pregam e partilhando os resultados obtidos; e
   •   Alentando o espírito de seus liderados, reconhecendo o que cada um é capaz de realizar e
       comemorando a obtenção de resultados com eles.

O líder trabalha com pessoas comuns e obtém resultados extraordinários com essas pessoas,
pois sabe que sua visão se tornará à realidade se a mudança naquela direção for feita com a ade-
são e a contribuição de cada participante da equipe.

Cuidado, pois, com a ilusão que a "cortina de fumaça tecnológica" cria, ao propor que a solução
está apenas em mudar para este ou aquela tecnologia, seguir este ou aquele modismo ou ler e
praticar o que prega esse ou aquele novo best-seller, supondo que tudo o mais se adequará à
mudança realizada.

É perfeitamente possível aprimorar as características de líderes em potencial que convivem co-
nosco no dia-a-dia através de programas de desenvolvimento e treinamento. E uma liderança real
poderá ser a diferença que fará as mudanças de fato acontecerem ou não em sua empresa.

Artigo10 LiderançA E MudançA

  • 1.
    LIDERANÇA e MUDANÇA FernandoHenrique da Silveira Neto Mudança, ao contrário do que se diz hoje, é a mais antiga experiência que o homem tem vivido, e não uma novidade dos tempos atuais. A queda da Constantinopla, a descoberta das Américas, a invenção da máquina a vapor e as guerras mundiais do século XX são apenas alguns exemplos de mudanças profundas ocorridas ao longo dos séculos. Afirmar que a mudança é a novidade do mundo de hoje é o mesmo que afirmar que não leu e não entendeu as lições da História. Então, por que se fala tanto de mudanças hoje em dia? Um dos motivos é que elas estão repercutindo com maior rapidez na vida das pessoas e das em- presas, e é preciso saber entendê-las e administrá-las em nosso benefício. As mudanças trazem oportunidades, e saber usá-las pode nos tornar mais competitivos, mais inovadores, mais respei- tados, mais poderosos ou simplesmente mais felizes. E os avanços tecnológicos estão produzindo instrumentos que acelerem às mudanças: a televisão com notícias ao vivo para todo o mundo, os computadores e sua incrível capacidade de tratar grandes volumes de informações, o transporte aéreo que nos leva a qualquer parte do mundo em questão de horas e a automação crescente nas empresas e nos lares são apenas algumas delas. Nas empresas, diversos enganos tem sido cometidos ao se lidar com mudanças tecnológicas. A tarefa de conduzi-las tem sido muitas vezes entregue a profissionais com boa formação técnica, cuja promoção à gerência é vista como o crescimento natural em suas carreiras, e algumas vezes como um prêmio. Poucos recebem treinamento gerencial para assumirem suas novas funções, e por vezes nem sempre isso é o bastante. Por quê? Ora, planejamento, organização, controle e direção, as tarefas básicas da gerência, a- penas tornam os gerentes "eficazes em subir a escada com sucesso", como diz Stephen Covey. A mudança pede mais: pede liderança. É ela que determina se a escada está apoiada na parede correta. Uma boa gerência é importante, pois é capaz de manter o já alcançado e ainda conseguir melho- rias continuas ao longo do tempo. Mas estamos vivendo tempos de reengenharia, e necessitamos ganhos dramáticos, saltos em ordem de magnitude, e isto consegue através de liderança efetiva e não apenas com uma boa gerência. Estamos falando de uma liderança baseada em princípios, e não apenas em carisma, imagem ou personalidade. Estamos falando em preparar líderes. Estamos falando de visão, definição clara de metas, estratégias e objetivos, coragem para mudar e até começar de novo, equipes motivadas e em contínuo aprendizado, paixão pelo consumidor e resultados obtidos de forma a surpreender a concorrência pela qualidade que apresentam e rapidez com que foram alcançados. Mas como deve agir um líder no processo de mudança? Um líder reconhece três estágios para que as pessoas e equipes usem talentos para alcançar resultados. De acordo com Mike Pegg em Positive Leadership, primeiro o líder trabalha na Crarifi- cação, isto é, comunicação eficaz para que todos identifiquem e entendam seus objetivos e traba-
  • 2.
    lhem na mesmadireção. Em seguida consegue a Adesão, onde cada um deve sentir-se partici- pante e contribuinte vital para o sucesso final do trabalho, e o orgulho de poder participar do mesmo. Por último, ele exercita a Condução, ou seja, a habilidade de administrar a obtenção de resultados produzidos por uma equipe composta de pessoas comuns, com seus acertos e enga- nos, dúvidas e sugestões, conhecimentos e limitações, vontades e habilidades. Embalados por processos tecnológicos e ferramentas sofisticadas, muitos gerentes não trabalham adesão e participação da equipe, e a mudança pode falhar menos por fatores técnicos e muito mais por fatores motivacionais. Um líder estimula simultaneamente dois tipos de melhoria: a de ganhos dramáticos da Reenge- nharia, e a permanente do Kaizen. A soma dessas duas atitudes faz com que haja um ganho a- brupto com o processo de reengenharia, somado ao ganho suave da melhoria permanente, no- vamente seguido de uma nova reengenharia e assim por diante. Porque não basta uma reenge- nharia apenas: a concorrência a percebe e em breve se aproxima da posição conquistada por sua empresa. O líder sabe disso e trabalha com isso. Um gerente faz com que os outros façam, mas um líder faz com que os outros queiram fazer. E, segundo Jim Kouzes e Barry Posner, autores de O Desafio da Liderança, eles conseguem isto através de cinco práticas: • Desafiando o status-quo, assumindo riscos, experimentando e inovando; • Inspirando uma visão comum a seus liderados, conseguindo com que os outros comprem os seus sonhos visões e aspirações; • Capacitando os outros para agirem, pois sabem que só realizarão seus sonhos se conta- rem com pessoas treinadas e capacitadas para a ação; • Modelando o caminho, praticando aquilo que pregam e partilhando os resultados obtidos; e • Alentando o espírito de seus liderados, reconhecendo o que cada um é capaz de realizar e comemorando a obtenção de resultados com eles. O líder trabalha com pessoas comuns e obtém resultados extraordinários com essas pessoas, pois sabe que sua visão se tornará à realidade se a mudança naquela direção for feita com a ade- são e a contribuição de cada participante da equipe. Cuidado, pois, com a ilusão que a "cortina de fumaça tecnológica" cria, ao propor que a solução está apenas em mudar para este ou aquela tecnologia, seguir este ou aquele modismo ou ler e praticar o que prega esse ou aquele novo best-seller, supondo que tudo o mais se adequará à mudança realizada. É perfeitamente possível aprimorar as características de líderes em potencial que convivem co- nosco no dia-a-dia através de programas de desenvolvimento e treinamento. E uma liderança real poderá ser a diferença que fará as mudanças de fato acontecerem ou não em sua empresa.