O slideshow foi denunciado.
Utilizamos seu perfil e dados de atividades no LinkedIn para personalizar e exibir anúncios mais relevantes. Altere suas preferências de anúncios quando desejar.

Livro Educação do Campo, Artes e Formação Docente

360 visualizações

Publicada em

Este livro é fruto de pesquisas desenvolvidas sobre educação do campo/pedagogia da alternância, artes e formação docente, especialmente relacionadas as experiências dos autores na formação inicial de professores(as) do campo no curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da Universidade Federal do Tocantins (UFT) campus de Tocantinópolis. O objetivo da obra é registrar e socializar pesquisas realizadas pelos docentes desse curso, contribuindo para a afirmação de um projeto de educação condizente com a realidade dos camponeses, seja no ensino básico ou no superior. 

Publicada em: Educação
  • Seja o primeiro a comentar

Livro Educação do Campo, Artes e Formação Docente

  1. 1. EDUCAÇÃO DO CAMPO, ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 1 23/05/2017 16:14:42
  2. 2. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 2 23/05/2017 16:14:42
  3. 3. EDUFT Cícero da Silva Cássia Ferreira Miranda Helena Quirino Porto Aires Ubiratan Francisco de Oliveira (Orgs.) EDUCAÇÃO DO CAMPO, ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE Palmas – TO 2016 EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 3 23/05/2017 16:14:43
  4. 4. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Sistema de Bibliotecas da Universidade Federal do Tocantins – SISBIB/UFT E24 Educação do campo, artes e formação docente / Cícero da Silva, Cássia Ferreira Miranda, Helena Quirino Porto Aires, Ubiratan Francisco de Oliveira (orgs). – Palmas/TO: EDUFT, 2016. 244 p.:il. ISBN: 978-85-60487-12-7 1. Educação do Campo. 2. Formação docente. 3. Artes. 4. Práticas pedagógicas. I.Título. CDD 370.71 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS – A reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio deste documento é autorizado desde que citada a fonte. A violação dos direitos do autor (Lei nº 9.610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. Reitora Isabel Cristina Auler Pereira Vice-Reitor Luis Eduardo Bovolato Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Raphael Sanzio Pimenta Diretor de Pesquisa Guilherme Nobre L. Nascimento Conselho Editorial Waldecy Rodrigues (Presidente) Claudionor Renato da Silva Jorge Luís Ferreira Liliana Pena Naval Milanez Silva de Souza Renata Junqueira Pereira Capa Sings sunflower. 2017. Renata Lopes Cipriano/ Tássia Martins Cipriano/ Clivia Iasmim Lima de Souza/ Leidiane Gomes da Silva Lima/ Andreza Sousa de Castro/ Marilda Pereira da Silva Projeto Gráfico e Diagramação M&W Comunicação Integrada Revisão Gramatical Cícero da Silva / Neusa Teresinha Bohnen Impresso no Brasil Printed in Brazil EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 4 23/05/2017 16:14:43
  5. 5. DEDICAMOS ESTE LIVRO Aos companheiros Flavio Moreira (in memoriam) e Claudemiro Godoy do Nascimento (in memoriam), pelas lutas empreendidas em prol da educação do campo, especialmente no estado do Tocantins. A todo(a)s o(a)s camponeses (a)s e professores (a)s das escolas do campo, vinculado(a)s aos cursos de licenciatura em Educação do Campo, que lutam por uma formação de qualidade para o fortaleci- mento do ensino básico no meio rural brasileiro. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 5 23/05/2017 16:14:43
  6. 6. 6 SUMÁRIO Prefácio ...................................................................................................09 Introdução ..............................................................................................15 Parte I – Educação do campo, alternância e questões agrárias ................23 Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins............................................................ 25 Rejane Cleide Medeiros de Almeida A proposta da pedagogia da alternância: uma possibilidade de construção de conhecimento......................................................................................53 Helena Quirino Porto Aires Interdisciplinaridade e Licenciatura em Educação do Campo.................87 Cássia Ferreira Miranda e Maciel Cover Percurso metodológico para construções identitárias na formação de professoras e professores do campo no norte do Tocantins: reflexões a partir da experiência com o curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da UFT, Câmpus Tocantinópolis.......................................................................................105 Ubiratan Francisco de Oliveira EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 6 23/05/2017 16:14:43
  7. 7. 7 A reforma agrária e a educação no campo,potencialidades para a promoção do desenvolvimento territorial: um estudo sobre a região norte do estado do Tocantins..........................................................................................123 Sidinei Esteves de Oliveira de Jesus e Rosa Ana Gubert Parte II – Artes e educação do campo...................................................145 Arte/educação no campo: algumas reflexões..........................................147 Gustavo Cunha de Araújo Campo em vídeo: experiências artístico-educativas na produção de audiovisuais no norte do Tocantins .......................................................169 Leon de Paula, Marcus Facchin Bonilla e Cícero da Silva Música e educação do campo na UFT: reflexões sobre as matrizes curriculares musicais de Arraias e Tocantinópolis .................................195 Mara Pereira da Silva e José Jarbas Pinheiro Ruas Junior Música e transformação social: ensino e aprendizado a partir da perspectiva dooutro..................................................................................................219 Anderson Fabrício Andrade Brasil Informações sobre os organizadores e colaboradores da coletânea.........239 EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 7 23/05/2017 16:14:43
  8. 8. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 8 23/05/2017 16:14:43
  9. 9. 9 PREFÁCIO Com muita honra recebi o convite para prefaciar o livro Educação do campo, artes e formação docente. As lembranças da luta para criar o primeiro curso de Licenciatura em Educação do Campo, na Universidade Federal de Minas Gerais em 2004, e o desafio de registrar essa experiência em uma publicação semelhante em 2010, voltaram à minha mente e passo a descrever algumas. Em 2016, já foi possível avaliar os resultados pelos editais do Ministério da Educação para a criação de novos cursos e a constatação de que estávamos com cerca de 44 cursos em funcionamento. Desafios, possibilidades, ousadia e ruptura são palavras que marcaram essa caminhada. Em cada universidade houve grupos de professores e estudantes que provocaram as estruturas acadêmicas ao propor a inclusão de um curso de graduação no rol de formações já consolidadas, em termos de conteúdos, na forma de organização dos processos formativos e no perfil dos sujeitos atendidos. E não foi diferente na Universidade Federal do Tocantins (UFT),CâmpusdeTocantinópolis,microrregiãodoBicodoPapagaio, na criação do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, a partir da adesão ao Edital SESU/ SETEC/SECADI nº 02/2012. O curso é um ponto de referência que marca a longa caminhada em torno do desenvolvimento de projetos de formação continuada de educadores na perspectiva da educação do campo, no envolvimento, na realização de eventos e no EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 9 23/05/2017 16:14:43
  10. 10. Educação do campo, artes e formação docente 10 desenvolvimento de pesquisas. Nessa experiência, pode-se ressaltar a parceria da universidade com os movimentos sociais e sindicais. Ao ler o livro, toma-se conhecimento de que o fator decisivo para a concretização do curso foi a demanda dos trabalhadores e trabalhadoras do campo, expressa por meio de organizações sociais locais. O livro também discute a concepção de artes e música entendida como uma forma de linguagem que acessa a sensibilidade, a imaginação,o poético e o estético na luta política,no fortalecimento identitário e na ampliação das possibilidades de compreender o mundo. Como registra Carvalho (2015, p. 47)1 : “Uma proposta de arte que se propõe a estimular o debate a respeito de questões políticas e sociais em uma perspectiva de que a obra de arte é também uma ação política do artista.” Desafio considerável se levarmos em conta que o curso propôs uma temática formativa que provocou pelo menos duas ousadias. A primeira diz respeito ao direito de acesso, por parte da população campesina, aos saberes e práticas de uma área do conhecimento que tem sido historicamente ocupada por um pequeno grupo de pessoas. A segunda coloca a arte para além da distração, do lazer, da fruição ao reafirmar sua dimensão política, sua força como conhecimento criativo e transformador das estruturas instituídas. 1 Em sua dissertação: CARVALHO, C. A. S. Práticas artísticas dos estudantes do curso de licenciatura em educação do campo: um estudo na perspectiva das representações sociais. Mestrado em Educação. Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2015. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 10 23/05/2017 16:14:44
  11. 11. Prefácio 11 Outra lembrança. Certa vez ouvi uma artesã do Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, responder a um comentário de uma pessoa que estava interessada em comprar bonecas de barro:“Você deve ser uma pessoa feliz, pois fazer bonecas é como brincar a vida toda”. E a artesã respondeu: “Eu moldo bonecas e neste fazer eu brinco, ganho a vida e digo o que acho que é ser mulher”. Foi com essas palavras que aquela artesã ensinou à outra mulher o sentido da arte como prática concreta, produtora e produto da existência real das pessoas. Nessa perspectiva, li a descrição do projeto feito com o tema gerador Direito à memória e à verdade,trabalhado no curso como uma forma de lidar com “[...] o silêncio relacionado a esses acontecimentos que imperam na região [...]”, fazendo referência às consequências da Guerrilha do Araguaia ocorrida na região no período da Ditadura Militar. A perspectiva da arte como prática política se anuncia na estrutura do livro.Na Parte I,são abordados temas como movimentos sociais do campo e práxis política, a pedagogia da alternância, interdisciplinaridade, identidade e reforma agrária, princípios estruturantes da educação do campo. O diálogo com a literatura disponível sobre a formação de educadores do campo e a busca de formatos metodológicos que buscam a participação dos sujeitos e o tensionamento entre teoria e prática (seminários integradores, temas geradores, oficinas pedagógicas) aparecem com centralidade no curso. Por meio desses temas, a articulação entre projeto de escola, de campo e de sociedade assume prioridade na formação dos educadores. A ênfase na articulação entre tempo universidade EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 11 23/05/2017 16:14:44
  12. 12. Educação do campo, artes e formação docente 12 e tempo comunidade sinaliza para uma perspectiva formativa que direciona o compromisso da superação do modelo social de produção e reprodução da realidade que exclui os sujeitos do direito à vida. Na Parte II, temos as práticas formativas com a produção de vídeos, músicas e reflexões teóricas sobre as artes na formação de educadores. Nelas identifica-se como é possível articular as práticas artísticas com as questões concretas da realidade campesina bem como as relações estabelecidas com outras áreas do conhecimento. Não há como não se envolver na atividade de produção de vídeos ao ver estudantes produzindo audiovisuais e registrando suas experiências no Diário de processo criativo. Os sujeitos de direito são a referência que articula essas práticas, que dá sentido aos diferentes percursos e instrumentos pedagógicos utilizados na formação. Foi possível entender o que significa a arte como práxis, como conhecimento e técnica produtora de indignação e de esperança. Enfim, é uma produção no e sobre o curso. Queremos ressaltar que o livro deixa ver uma contribuição relevante por parte dos sujeitos que estão construindo o curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da Universidade Federal de Tocantins (UFT). Cada capítulo traz a marca e os sujeitos que estão construindo a experiência. Um ponto de destaque é a criação do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo (Gepec/UFT), em torno do qual se discute, sistematiza, analisa e registra as atividades desenvolvidas. O que se lê são descrições densas,análises consistentes,metodologias adequadas e o compromisso com a produção de conhecimento como parte EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 12 23/05/2017 16:14:44
  13. 13. Prefácio 13 indissociável da formação.Há uma produção de conceitos,de categorias e de metodologias que pode sinalizar para formas diferenciadas para articular ensino,pesquisa e extensão no âmbito acadêmico. Fico pensando que a tarefa desenvolvida pelo grupo do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música pode se constituir como uma referência para todos que estão envolvidos na construção das licenciaturas em Educação do Campo em suas instituições. Registrar, sistematizar e analisar as práticas formativas são ações que potencializam e fertilizam nossas lutas! Esses aspectos sinalizados só assumem amplitude em função de uma característica presente em todos os textos, da apresentação ao currículodosautores.Ossujeitoseocontextocampesinoestãopresentes nas práticas cotidianas do curso.As temáticas relacionadas aos desafios para produzir e reproduzir a vida são conteúdos trabalhados com o uso de metodologias comprometidas com um conhecimento capaz de gerar transformações na realidade. Os autores possuem trajetórias de envolvimento com o campo e seus sujeitos. Por isso é que o livro é pleno de vida, com suas contradições, desafios e possibilidades. Maria Isabel Antunes-Rocha Professora associada da FaE/UFMG. Coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo (Nepcampo/UFMG). Membro da Comissão Nacional do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária e da Comissão Estadual de Educação do Campo de Minas Gerais. Desenvolve pesquisas com as seguintes temáticas: formação e prática docente, educação do campo, representações sociais. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 13 23/05/2017 16:14:44
  14. 14. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 14 23/05/2017 16:14:44
  15. 15. 15 INTRODUÇÃO A obra Educação do campo, artes e formação docente, gestada de pesquisas e trabalhos desenvolvidos no curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da Universidade Federal de Tocantins (UFT), Câmpus de Tocantinópolis,traz reflexões a respeito das experiências na formação inicial de educadores e educadoras do campo na microrregião do Bico do Papagaio, estado do Tocantins. As investigações aqui relatadas reforçam que a reflexão acerca da prática docente pode contribuir significativamente para a implementação de práticas didático- pedagógicas interdisciplinares na educação do campo. Ao produzir esta obra, os autores assumiram o compromisso de romper barreiras impostas a essa modalidade de educação. Os trabalhos produzidos à luz das concepções teórico-metodológicas da educação do campo, pedagogia da alternância e artes trazem críticas, sugestões e reflexões de fundamental importância para a afirmação de um projeto de educação condizente com a realidade dos camponeses, seja no ensino básico ou superior. Em sua maioria, as pesquisas que resultaram nos trabalhos que compõem esta obra foram desenvolvidas no âmbito das atividades científicas do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo – Gepec (UFT/CNPq). O grupo foi criado em agosto de 2015 e está vinculado ao curso de Licenciatura em Educação do Campo com EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 15 23/05/2017 16:14:44
  16. 16. Educação do campo, artes e formação docente 16 habilitação em Artes e Música da Universidade Federal de Tocantins (UFT),Câmpus deTocantinópolis.Além de ser um espaço de debate a respeito das tendências teórico-metodológicas que se vinculam, principalmente, à educação do campo, as discussões realizadas no Gepec também permitiram aos professores/pesquisadores refletir acerca da própria prática didático-pedagógica. Os capítulos do presente livro estão organizados em duas partes, conforme escopo das pesquisas. A Parte I – Educação do campo, alternância e questões agrárias traz cinco capítulos; a Parte II – Artes e educação do campo apresenta quatro trabalhos. A primeira parte inicia com o capítulo Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins,de Rejane Cleide Medeiros de Almeida.A autora discute a trajetória de luta por uma educação do campo no estado deTocantins, sobretudo, a participação dos movimentos sociais nessa construção. Explicita a concepção dessa modalidade de educação,de movimentos sociais e suas características enquanto sujeitos do campo. O texto traz também um breve histórico do Programa Projovem Campo – Saberes da Terra, Experiências em Educação do Campo – UFT-TO, bem como a trajetória do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da Universidade Federal de Tocantins (UFT), Câmpus de Tocantinópolis, para a formação de professores. Em seguida, no capítulo A proposta da pedagogia da alternância: uma possibilidade de construção de conhecimento, Helena Quirino Porto Aires focaliza experiências formativas na educação básica em EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 16 23/05/2017 16:14:44
  17. 17. Introdução 17 uma escola família agrícola (EFA). O texto apresenta uma breve contextualização da educação do campo no Brasil e enfatiza a proposta da pedagogia da alternância como alternativa viável para os povos que vivem no e do campo. Em seguida, são expostos os caminhos percorridos para a realização da pesquisa e elucidados os encaminhamentos metodológicos (escolha dos participantes, instrumentos utilizados na coleta de dados e organização das entrevistas). Na sequência, apresenta-se um histórico da trajetória da pedagogia da alternância e seus aportes teóricos. Discutem-se também as concepções das propostas de educação por alternância, com destaque à legislação que a respalda. Na análise dos dados, a autora apresenta os registros verbais acerca do Projeto Político- Pedagógico (PPP) da EFA de Porto Nacional, a caracterização da referida escola, as percepções e os pontos de vistas expressos nos relatos dos entrevistados. Com base em algumas considerações, a autora retoma o tema, discute os resultados obtidos na pesquisa de campo e reforça a necessidade da ampliação e do aprofundamento de estudos que analisem a educação por alternância na perspectiva dos estudantes, pais e comunidade. No capítulo Interdisciplinaridade e licenciatura em educação do campo, Cássia Ferreira Miranda e Maciel Cover apresentam experiências do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música,da Universidade Federal de Tocantins (UFT), Câmpus de Tocantinópolis. Miranda e Cover mencionam as estratégias utilizadas para efetivar a interdisciplinaridade com base EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 17 23/05/2017 16:14:44
  18. 18. Educação do campo, artes e formação docente 18 na proposta formativa do curso e analisam o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) e as experiências com a realização de atividades vinculadas às disciplinas Seminários Integradores I, II, III e IV nos tempos2 universidade e comunidade. Em Percursometodológicoparaconstruçõesidentitáriasnaformação de professoras e professores do campo no norte do Tocantins: reflexões a partir da experiência com o curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da UFT – Câmpus Tocantinópolis- TO,Ubiratan Francisco de Oliveira apresenta algumas reflexões sobre a criação e o funcionamento, a partir das experiências metodológicas, do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da UFT, explicitando as características próprias da educação, dos sujeitos e sujeitas do campo. Traz uma experiência de atividade com os alunos do curso sobre a “História de Vida”, desenvolvida no tempo universidade e tempo comunidade. Para fechar a primeira parte, a obra traz o capítulo A reforma agrária e a educação no campo, potencialidades para a promoção do desenvolvimento territorial: um estudo sobre a região norte do Estado do Tocantins, de Sidinei Esteves de Oliveira de Jesus e Rosa Ana Gubert. O trabalho apresenta resultados de um estudo a respeito da importância da reforma agrária e da educação do campo no Brasil, 2 Inspirado na proposta formativa da Pedagogia da Alternância, o curso de licenciatura caracterizado adota dois tempos e dois espaços formativos diferentes: Tempo Universidade (período de aulas na universidade) e Tempo Comunidade (período de permanência no meio socioprofissional ou comunidade, espaço social em que os discentes desenvolvem suas pesquisas, isto é, estabelecem a relação teoria/prática). EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 18 23/05/2017 16:14:44
  19. 19. Introdução 19 como meios para tentar resolver os confrontos pela posse de terra entre latifundiários e camponeses. É assumida na pesquisa a abordagem qualitativa, conduzida a partir de levantamentos bibliográficos baseados em autores/ pesquisadores que têm se debruçado sobre essa temática nos últimos anos. Fundamentam o trabalho autores como Oliveira (2007), Fernandes (2008), Feliciano (2006), Guanziroli et al. (2001) e outros das ciências sociais que acreditam que a estratégia para solucionar a questão agrária atual seja a realização de uma reforma agrária de forma justa.No contexto da educação do campo,Fernandes e Molina (2004) e Rodo e Enderle (2012) são alguns dos autores utilizados para discutir a importância da educação no campo para os movimentos sociais campesinos. Iniciando a segunda parte – Artes e educação do campo –,Gustavo Cunha de Araújo, em Arte/educação no campo: algumas reflexões, propõe-se a desenvolver algumas reflexões sobre a importância da arte na educação do campo a partir de uma pesquisa teórica realizada nesses dois campos de conhecimento. De abordagem qualitativa e de caráter descritivo e interpretativo, as reflexões produzidas nessa pesquisa teórica são frutos de leituras realizadas a respeito da história do ensino de arte no Brasil dos últimos trinta anos, a estética sociológica e a educação do campo, sendo esta última área recente de pesquisa. Araújo defende em sua pesquisa que a arte possibilita ao estudante jovem e adulto do campo desenvolver um olhar crítico a partir do contato com diversas manifestações artísticas, suas matrizes EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 19 23/05/2017 16:14:44
  20. 20. Educação do campo, artes e formação docente 20 teóricas e seus diferentes procedimentos técnicos. A arte tem papel fundamental na educação do campo ao produzir novas ideias e saberes. Pesquisar a temática arte/educação na educação do campo é uma forma de contribuir para a produção de conhecimento nessa área e para outros grupos de pesquisadores que se interessam por essa temática. Nesse sentido,o estudo pode contribuir de maneira significativa para a área focalizada, pois há escassez de pesquisas no Brasil sobre arte/educação no campo. Em seguida, temos o capítulo Campo em vídeo: experiências artístico-educativas na produção de audiovisuais no norte do Tocantins, elaborado pelos autores Leon de Paula, Marcus Facchin Bonilla e Cícero da Silva, que discute a produção de audiovisual realizada por discentes do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da Universidade Federal de Tocantins (UFT),nas disciplinas Seminário Integrador I e Seminário Integrador II. As obras produzidas integraram a I e II Mostras de Vídeos de 1 Minuto do curso de Educação do Campo,cujas temáticas eram A comunidade (semestre 2014-2) e Vida em imagem e som (semestre 2015-2). Além de aspectos estéticos vinculados à música e às artes visuais, os autores analisam a produção escrita do Diário de processo criativo, gênero discursivo utilizado pelos educandos e educandas como registro escrito do desenvolvimento das diferentes etapas ou atividades, e o resultado final de suas obras de arte. O penúltimo capítulo, Música e educação do campo na UFT: reflexões sobre as matrizes curriculares musicais de Arraias e EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 20 23/05/2017 16:14:44
  21. 21. Introdução 21 Tocantinópolis, por Mara Pereira da Silva e José Jarbas Pinheiro Ruas Junior, analisa as matrizes curriculares que constam no PPC dos cursos de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da Universidade Federal de Tocantins (UFT), Câmpus Tocantinópolis, e Artes Visuais e Música, Câmpus Arraias, dando ênfase às disciplinas da habilitação Música.Para tanto,partiu- se da abordagem qualitativa e quantitativa para analisar o PPC de ambos os cursos, levando-se em consideração posicionamentos de autores da educação musical. Os resultados da pesquisa sinalizam a necessidade de formular um currículo musical que fuja da tendência conservatorial para atender as demandas da educação do campo. Para fechar a obra, o capítulo Música e transformação social: ensino e aprendizado a partir da perspectiva do outro, de Anderson Fabrício Andrade Brasil, discute de que forma o ensino de música pode contribuir para a formação de um profissional reflexivo, capaz de dialogar e construir metodologias alicerçadas pela compreensão e aceitação da subjetividade do outro. Por focalizar especificamente fenômenossociais,oautorenfatiza,desdeaprimeiraseçãodocapítulo, que a educação musical é tomada no estudo como área autônoma e, por seguinte, as interfaces que ela estabelece com outras ciências para responder a tais fenômenos. Ainda de acordo com a pesquisa de Brasil, a utilização da educação musical como instrumento de transformação social requer um diálogo estreito com certas áreas do conhecimento para entendê- la enquanto ciência. Nesse arcabouço teórico, precisaremos pensá- la epistemologicamente, compreendendo-a como uma área de EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 21 23/05/2017 16:14:44
  22. 22. Educação do campo, artes e formação docente 22 conhecimento relativamente jovem, mas que apresenta elementos capazes de potencializar a transformação social. Por fim, esperamos que esta obra ajude a fortalecer as raízes da educação do campo, de modo especial, a formação de educadores e educadoras. A todos e a todas, desejamos boa leitura! Tocantinópolis-TO, 26 de outubro de 2016. O(A)s organizadores (a)s. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 22 23/05/2017 16:14:44
  23. 23. Parte I Educação do campo, alternância e questões agrárias EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 23 23/05/2017 16:14:44
  24. 24. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 24 23/05/2017 16:14:44
  25. 25. 25 Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins Rejane Cleide Medeiros de Almeida3 1 Introdução Os movimentos sociais,tema deste capítulo,são ações coletivas de caráter sociopolítico e cultural com variadas formas de organiza- ção. Elaboram diagnósticos sobre a realidade social e desenvolvem proposições para mudanças.Por isso é que se discute sua importância na trajetória da luta por uma educação do campo. A reflexão sobre educação do campo está na dimensão educativa das práxis política e social, retomando a centralidade do trabalho, da cultura, da luta social, enquanto matrizes educativas da formação do ser humano, e observando a intencionalidade dessas práticas pedagógicas em um projeto educacional que pretende ser emancipatório. Este texto tem por objetivo refletir sobre a trajetória de luta por uma educação do campo no estado do Tocantins, apresentando des- de a trajetória dessas experiências até a identificação do protagonis- 3 Doutoranda em Sociologia. Professora do curso de Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da Universidade Federal do Tocantins, Câmpus de Tocantinópolis. E-mail: rejmedeiros@mail.uft.edu.br. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 25 23/05/2017 16:14:44
  26. 26. Educação do campo, artes e formação docente 26 mo dos movimentos sociais do campo nessa construção. Discute-se, também, o papel dos movimentos sociais do campo na condução do processo de luta pela educação do campo no estado, por constituir o campo material de resistência às práticas políticas conservadoras que não identificam a realidade social e cultural desse espaço. Como elemento relevante do processo de luta dos movimentos sociais, bus- ca-se refletir sobre o aspecto educativo da luta política por uma edu- cação do campo. O capítulo é fruto de pesquisa desenvolvida junto ao Programa Projovem Campo – Saberes daTerra,acompanhado pelos movimentos sociais que, no seu primeiro momento (2010-2012), contribuiu para a formação de professores do campo e potencializou o debate para a organização do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da Universidade Federal de Tocantins (UFT),Câmpus Tocantinópolis,configurando-se como materialidade de uma práxis política. A metodologia se embasou na análise de do- cumentos do MEC/Secad, na leitura de autores que oferecem aportes teóricos para as reflexões sobre o tema e no acompanhamento realiza- do junto aos referidos programas e sua elaboração. O resultado das reflexões apontou para o sentido que os mo- vimentos sociais do campo apresentam na luta por uma educação do campo no Tocantins, e têm na sua trajetória histórica a luta pela terra e pela educação dos trabalhadores que nela vivem e trabalham. 2 Movimentos sociais: conceitos e características Para Gohn (2011, p. 336), os movimentos sociais [...] possuem identidade, têm opositor e articulam ou fundamentam-se em um projeto de vida e de socieda- de. Historicamente, observa-se que têm contribuído para organizar e conscientizar a sociedade; apresentam EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 26 23/05/2017 16:14:44
  27. 27. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 27 conjuntos de demandas via práticas de pressão/mobili- zação; têm certa continuidade e permanência. Não são só reativos,nem são movidos apenas pelas necessidades (fome ou qualquer forma de opressão); podem surgir e desenvolver-se também a partir de uma reflexão sobre sua própria experiência. Na atualidade, apresentam um ideário civilizatório que coloca como horizonte a cons- trução de uma sociedade democrática. Um aspecto relevante para este estudo é compreender a rela- ção entre movimentos sociais e classes sociais, analisar a composição social deles, a hegemonia no interior da sociedade. Viana lembra que é indispensável o acompanhamento do conceito social, entendendo que movimento social é um movimento de um grupo social.“Consi- deramos mais adequado pensar essa categoria como sendo desloca- mento no tempo e/ou no espaço. O deslocamento espacial significa ir de um lugar para outro e o temporal significa sofrer alterações em sua composição original” (VIANA, 2015, p. 22). Nesse sentido, um movimento social só existe quando o con- junto de pessoas que o constitui possui algo em comum, que vai desde aspectos biológicos, por exemplo, raça e sexo, até aspectos culturais e ideológicos, que, nesse caso, se constitui em projeto político (JEN- SEN, 2014). Jensen (2014) elabora uma reflexão em que destaca que o movi- mento social é importante para o seu grupo social, pois desenvolve um processo de experiência e de consciência nos seus membros, sobretudo, porque adquire unidade e organicidade política, modificando os seus componentes, e, consequentemente, a sociedade, o que implicaria em mudança social. Partindo da premissa de que todo movimento social é provo- cado pelas determinações das relações de produção, e que, por con- seguinte, são relações de classes sociais, elencam-se alguns elementos fundantes para o entendimento do que são movimentos sociais. O EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 27 23/05/2017 16:14:44
  28. 28. Educação do campo, artes e formação docente 28 primeiro elemento é entender a relação entre movimentos sociais e classes sociais como formas de lutas, de resistências e de consciência. O outro elemento é pensar no movimento do capital e a dinâmica imposta pelo desenvolvimento desse modo de produção. E, sobretu- do, no processo de mercantilização das relações sociais que esse sis- tema promove e que provoca o surgimento dos movimentos sociais. Sobrepostos a todos esses elementos destacados, têm-se a he- gemonia e a cultura que se delineiam em todos esses processos. Isso quer dizer que os movimentos sociais não podem ser entendidos fora da totalidade, que é a sociedade (VIANA, 2015). Um movimento social existe quando há um princípio de iden- tidade construído coletivamente ou de identificação em torno de in- teresses e valores comuns no campo da cidadania. Existe também quando há a definição coletiva de um campo de conflitos e de adver- sários centrais nesse campo, bem como a construção de projeto de transformação ou de utopias comuns de mudança social nos campos societário, cultural ou sistêmico. No Brasil, em que a modernidade emergente trouxe consigo as evidências de um sistema de desigualdades, projetadas por forças de conflitos e lutas sociais no cenário público da sociedade brasileira, a desigualdade social é trazida para o lugar em que a linguagem elabora promessa de futuro. E sua ação se faz visível na sua capacidade de interromper o ciclo da natureza e dar início a um novo começo. Nessa perspectiva, a expressão movimentos sociais diz respeito aos processos, não só aos institucionalizados e aos grupos que desen- cadeiam as lutas políticas, mas também às organizações e aos discur- sos que fomentam as manifestações e os protestos com a finalidade de mudar, de modo frequentemente radical, a distribuição vigente dos direitos civis, políticos e sociais, as formas de interação entre o individual e os grandes ideais universais.Os movimentos sociais,por- tanto, são parte constitutiva das tramas sociais e políticas modernas. Os sujeitos que compõem os movimentos sociais desenvolvem EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 28 23/05/2017 16:14:44
  29. 29. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 29 uma práxis que alimenta as ações políticas para a organização de suas demandas e de seus repertórios políticos. Nesse sentido, faz-se neces- sário conhecer as dimensões da práxis e de seus elementos norteadores. 3 As dimensões da práxis A palavra práxis é de origem grega e foi empregada na Anti- guidade como ação, atividade humana. Práxis designava uma ação que tem um fim em si mesma e que não cria ou produz um objeto alheio ao agente ou à sua atividade. O termo foi usado por Aristó- teles, que lhe deu um significado de praxeis, no sentido de descrever as atividades vitais dos animais e o movimento das estrelas, mas pro- vocava reflexões a respeito do seu uso em relação aos seres humanos. Aristóteles destacava que a práxis é uma das atividades importantes do homem, seguida por theoria e a poiesis. A sugestão é feita no contexto de uma divisão das ciências ou do conhecimento, de acordo com o qual há três tipos básicos de co- nhecimento: o teórico, o prático e da poiesis (“o produtivo”), que se distinguem pela finalidade ou objetivo: para o conhecimento teórico, o objetivo é a verdade; para conhecimento da poiesis, a produção de alguma coisa, e, para o conhecimento prático a própria ação (BOT- TOMORE, 2012, p. 431). A práxis na perspectiva marxista é compreendida como a trans- formação objetiva do processo social, isso quer dizer que é transfor- mação das relações homem-natureza, portanto práxis produtiva, e homem-homem, que significa práxis revolucionária. Nesse aspecto, a práxis significa o elemento norteador do conhecimento, o critério da verdade e a finalidade da teoria. A relação entre teoria e prática é um movimento de unidade dialética, no qual a teoria não se reduz à práti- ca,mas,sim,sua complementariedade e sua efetivação se dão por meio da ação humana (VÁZQUEZ, 2007). Como essência humana,dá-se socialmente,e a prática é o funda- EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 29 23/05/2017 16:14:44
  30. 30. Educação do campo, artes e formação docente 30 mento que torna possível a atividade humana,uma vez que o homem é, essencialmente, um ser prático, produtor material. Nesse sentido, Váz- quez (2007, p. 407) afirma que Se o homem só tem essência como ser social, tem-na também como ser que produz; mas, por sua vez, esse processo de transformação da realiadade objetiva ao longo do qual o homem se produz a si mesmo é um processo que se desenvolve no tempo, o que impede de fixar o homem – como ser social e prático – em uma forma social determinada de sua atividade práti- ca. Desse modo, a essência humana radicaria na natu- reza social, prática (produtora) e histórica do homem. O homem é um ser que produz socialmente, e nesse processo se produz a si mesmo. Ao usar a expressão atividade, explica Vásquez (2007), Marx objetiva afirmar o caráter real e,sobretudo,objetivo da práxis,uma vez que ela transforma o mundo exterior, que é independente da consci- ência e existência humana. Por isso, o objeto da atividade prática são os homens concretos. O fim dessa atividade é a transformação real do mundo social e natural para atender às necessidades humanas. O resultado é uma nova realidade social, que existe independentemente da vontade dos sujeitos que as criaram, mas que só existe pela criação do homem enquanto ser social (VÁZQUEZ, 2007). Vázquez (2007) chama a atenção para o tipo de homens que serão os mediadores entre a crítica teórica e prática,e assinala a partir do que Marx define como relação entre a teoria e a práxis,destacando que, por si só, a teoria não se realiza, e sua efetivação depende de uma necessidade radical. Esta, por sua vez, se expressa como crítica radi- cal, o que torna possível sua aceitação. Isso significa que a passagem da teoria à prática, ou da crítica radical, é forjada pela história deter- minada. Implica dizer que a passagem da teoria à práxis revolucioná- ria, determinada pela existência de uma classe social, só libertará a si mesma libertando a humanidade. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 30 23/05/2017 16:14:44
  31. 31. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 31 [...] o proletariado não pode emancipar-se sem passar da teoria à práxis. Nem a teoria por si mesma pode emancipá-lo, nem sua existência social garante por si só sua libertação. É preciso que o proletariado adquira consciência de sua situação, de suas necessidades ra- dicais e da necessidade e condições de sua libertação. [...] a filosofia – diz Marx – não pode chegar a reali- zar-se sem a abolição do proletariado, e o proletariado não pode chegar a realizar-se sem a abolição da filo- sofia (VÁZQUEZ, 2007, p. 118). Entre as várias formas de práxis, destaca-se a atividade prática produtiva que o homem estabelece com a natureza, mediada pelo trabalho. É devido ao trabalho que o homem resiste às matérias e forças naturais e cria um mundo de objetos úteis para atender às suas necessidades. Mas isso só ocorre porque, como ser social, realiza as transformações através de um processo determinado por relações de produção. Para Vázquez (2007, p. 227), No processo de trabalho, o homem, valendo-se dos instrumentos ou meios adequados, transforma um objeto com relação a um fim. Na medida em que ma- terializa certo fim ou projeto, ele se objetiva de certo modo em seu produto. No trabalho – diz Marx – o homem assimila “as matérias da natureza sob uma forma útil para sua própria vida”, mas só pode assi- milá-las objetivando-se nelas, isto é, imprimindo na matéria trabalhada a marca de seus fins. Marx aponta essa adequação a um fim como um dos fatores essen- ciais do processo de trabalho: ‘Os elementos simples do processo de trabalho são a atividade orientada a um fim – ou seja, o próprio trabalho –, seu objeto e seus meios’. O autor afirma que a caracterização da forma e do conteúdo do processo de trabalho revela as condições subjetivas (que são as ativi- EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 31 23/05/2017 16:14:44
  32. 32. Educação do campo, artes e formação docente 32 dades do trabalhador) e as objetivas (que são as condições materiais do trabalho), representadas pelos instrumentos ou meios que operam as transformações. A práxis produtiva é, assim, a práxis fundamental por- que nela o homem não só produz um mundo humano ou humanizado, no sentido de um mundo de objetos que satisfazem necessidades humanas e que só podem ser produzidas na medida em que se plasmam neles fins ou projetos humanos, como também no sentido de que na práxis produtiva o homem se produz, forma ou transforma a si mesmo (VÁZQUEZ, 2007, p. 229). Quanto à práxis política, constitui uma atividade prática que baliza e orienta para transformações na sociedade, que vão desde as relações econômicas, políticas e sociais. A práxis social, por sua vez, consiste em uma atividade de grupos e classes sociais que pode trans- formar a organização, a direção da sociedade ou mesmo provocar mudanças no Estado. Essa forma de práxis é a atividade política. Nesse sentido, a política concebida enquanto atividade prática reali- zada pelos grupos ou classes sociais está ligada à determinada orga- nização de seus membros, como os movimentos sociais, instituições e partidos. A práxis política, enquanto atividade prática transfor- madora, alcança sua forma mais alta na práxis revolu- cionária como etapa superior da transformação prá- tica da sociedade. Na sociedade dividida em classes antagônicas,a atividade revolucionária permite mudar radicalmente as bases econômicas e sociais em que se assenta o poder material e espiritual da classe domi- nante e instaurar, assim, uma nova sociedade (VÁZ- QUEZ, 2007, p. 232). Pode-se afirmar que os movimentos sociais são agentes de mu- dança quando sustentados por uma luta consciente, organizada e EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 32 23/05/2017 16:14:45
  33. 33. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 33 dirigida, com estratégias e objetivos definidos, e, especialmente, por projetos que sejam capazes de transformar a sociedade. Nesse sentido, se o homem existe enquanto ser prático, afirmando-se como prática transformadora,a práxis revolucionária e a práxis produtiva constituem dimensões indispensáveis de seu ser prático (VÁZQUEZ, 2007). A práxis política dos movimentos sociais gesta um movimento de educação do campo no país,surgindo como crítica à educação mar- cada por exclusão dos camponeses dos processos de escolarização. Um país no qual a maioria da população que vive no campo é considerada como a parte atrasada e fora do lugar no projeto da modernidade no modelo de desenvolvimento. “O Brasil Moderno parece um caleidos- cópio de muitas épocas, formas de vida e trabalho, modos de ser e pensar. Mas é possível perceber as heranças do escravismo predomi- nando sobre todas as heranças” (IANNI, 1996, p. 61). No modelo de desenvolvimento, predominantemente urbano, os camponeses, povos tradicionais, quilombolas, são irrelevantes nesse processo. Assim, as políticas públicas não eram necessárias, pois não con- sideravam esses sujeitos. Mas, embora essa concepção política fosse dominante,as contradições eram presentes.Sobre isso,Fernandes,Ce- rioli e Caldart (2009) chamam a atenção para o processo migratório campo-cidade em função da crise do emprego e concomitante com as reações à condição de marginalização e exclusão sofridas por esses su- jeitos que viviam no campo (os autores referem-se à década de 1980). Com isso, esses sujeitos se organizam e buscam alternativas e resistências econômica, política e cultural. Consequentemente, o campo educacional vai ganhando contornos na luta por uma educa- ção que atenda a essas demanadas. Realiza-se em 1998, a primeira Conferência Nacional Por uma Educação do Campo, fruto das re- sistências de trabalhadores/as da educação, dos movimentos sociais do campo, que tem como principal objetivo “[...] ajudar a recolocar o rural, e a educação que a ela se vincula, na agenda política do país” (FERNANDES; CERIOLI; CALDART, 2009, p. 22). Entre os desafios,busca-se pautar uma educação do campo que EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 33 23/05/2017 16:14:45
  34. 34. Educação do campo, artes e formação docente 34 seja específica e diferenciada, quer dizer, alternativa. Uma educação que possibilite um processo de formação humana, que construa refe- rências culturais e políticas para a intervenção dos sujeitos sociais na realidade. Que, sobretudo, seja pautada a partir de políticas públicas para o campo,compreendendo e defendendo a reforma agrária e uma política agrícola para a agricultura camponesa. Defende-se aqui uma educação voltada aos interesses e ao desenvolvimento sociocultural e econômico dos povos que moram e trabalham no campo, atendendo às suas diferenças históricas e culturais (FERNANDES; CERIOLI; CALDART, 2009). 4 Dimensões da educação do campo A educação do campo está voltada ao conjunto da classe tra- balhadora do campo (camponeses, quilombolas, povos tradicionais, diversos tipos de assalariados),que está vinculada à vida e ao trabalho no meio rural. Para Caldart (2009), a expressão campo e não rural teve como objetivo na Conferência provocar o debate e a reflexão so- bre o sentido do trabalho camponês e das lutas sociais e culturais dos grupos e sua diversidade. Nesse sentido, discutir a educação do cam- po é, sobretudo, discutir a educação de trabalhadores/as do campo. Como conceito em construção, a educação do campo não se descola do movimento específico da realidade que a produz, “[...] já pode configurar-se como uma categoria de análise da situação ou de práticas e políticas de educação dos trabalhadores do campo, mes- mo as que se desenvolvem em outros lugares e com outras denomi- nações” (CALDART, 2012, p. 257). O termo educação do campo busca incluir no seu sentido e significado a valorização da identidade camponesa que possibilite a pluralidade das ideias e das concepções pedagógicas do camponês.A educação do campo representa um pro- jeto de sociedade e de educação contra-hegemônico dos trabalhado- res/as do campo e vinculado às questões sociais e políticas próprias EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 34 23/05/2017 16:14:45
  35. 35. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 35 do seu contexto. E, enquanto análise, a educação do campo é compreensão da realidade que ainda está por vir, mesmo que não tenha ocorrido historicamente, porém indicada pelos seus sujeitos ou mesmo pelas possibilidades de transformação em processo, constituída de práticas educativas concretas e políticas públicas de educação (CALDART, 2012). Por isso, “[...] sempre é dificil datar uma experiência datando um conceito, porém, quando aparece uma palavra – seja uma nova ou um novo sentido de uma palavra já existente –, alcança-se uma etapa específica, a mais próxima possível de uma consciência de mudança” (CALDART, 2012, p. 257). Assim sendo, os movimentos sociais camponeses são os pro- tagonistas da educação do campo e das experiências que ocorrem no percurso de sua trajetória. A educação do campo é resultado do movimento social “Por uma Educação do Campo”, que faz crítica à realidade educacional brasileira, em especial à dos povos que vivem do/no campo. O surgimento da expressão educação do campo nasce no con- texto preparatório da I Conferência Nacional por uma Educação do Campo, realizada em Luziânia, em julho de 1998, que passa a ser chamada assim a partir do Seminário Nacional, realizado em Bra- sília, em 2002. Depois, confirmada no I Encontro Nacional Edu- cadores da Reforma Agrária (Enera) realizado pelo MST, em 1997, e na II Conferência Nacional, em 2004. Outro desafio surgiu com o Programa de Educação na Reforma Agrária (Pronera), instituído pelo governo federal em 1998,que também recebe a denominação de educação do campo nos documentos produzidos, mesmo com ten- sões e contradições. O argumento para mudar o termo Educação Básica do Campo para Educação do Campo aparece nos de- bates de 2002,realizados no contexto da aprovação do parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 35 23/05/2017 16:14:45
  36. 36. Educação do campo, artes e formação docente 36 nº 36/2001, relativo às Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo (Brasil, 2001) e com a marca de ampliação dos movimentos camponeses e sindicais envolvidos nessa luta (CAL- DART, 2012, p. 258). O direito à educação só será garantido no espaço público. E os movimentos sociais serão seus protagonistas e guardiões desse direito e o Estado deve cumprir e organizar políticas públicas para o aten- dimento das demandas dos povos do campo. Nessa perspectiva é que nasce o Projovem Campo – Saberes da Terra, programa que atenderá os jovens do campo no seu processo de retomada de escolarização. 5 Projovem Campo - Saberes da Terra - experiências em educação do campo - TO A construção de uma política educacional que reconheça as ne- cessidades dos sujeitos do campo, atenda a diversidade e a realidade diferenciada, conjugada a uma política pública para a juventude, em que os sujeitos do campo são reconhecidos como sujeitos de direitos, constituíram-se as demandas de pressão dos movimentos sociais do campo ao governo federal. Por esse motivo, a Secretaria de Educação Continuada, Alfa- betização e Diversidade (Secad) implementou o Programa Saberes da Terra – Programa Nacional de Educação de Jovens e Adultos in- tegrada com a qualificação social e profissional para agricultores/as familiares. A primeira etapa de execução do Programa ocorreu em dezem- bro de 2005, em 12 estados (BA, PB, PE, MA, PI, RO,TO, PA, MG, MS,PR,SC),junto às secretarias estaduais de educação,representações estaduais da união nacional (Undime), movimentos sociais do campo, integrantes dos comitês e fóruns estaduais de educação do campo. Entre 2005 e 2006, foi implantado o projeto piloto Saberes da EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 36 23/05/2017 16:14:45
  37. 37. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 37 Terra nesses estados, que conseguiu: • formar cinco mil educandos, com certificação correspon- dente ao ensino fundamental e qualificação profissional; • promover a formação continuada de seiscentos profissio- nais da educação – professores, educadores, instrutores, técnicos e gestores – durante a implementação e execução do programa; • produzir, em parceria com estados, municípios e movimen- tos sociais, a metodologia, o material didático-pedagógico e os cadernos pedagógicos que contemplavam os eixos te- máticos do Programa; • realizar os seminários nacionais de formação das equipes pedagógicas estaduais (BRASIL, 2008). Em 2007, o Ministério da Educação, por meio da Secad, parti- cipou do processo de construção do programa integrado de juventude/ presidência da república, no qual foram integrados seis programas: a) Agente Jovem, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome; b) Projovem, da Casa Civil; c) Saberes da Terra, do Ministério da Educação; d) Escola de Fábrica, do Ministério da Educação; e) Consórcio Social da Juventude, do Ministério do Trabalho e Emprego; f) Juventude Cidadã, do Ministério do Trabalho e Emprego. Foi instituído pela medida provisória nº 411/07, o Progra- ma Nacional de Inclusão de Jovens – PROJOVEM – que objeti- va promover a reintegração de jovens ao processo educacional, sua qualificação profissional e seu desenvolvimento humano e cidadão. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 37 23/05/2017 16:14:45
  38. 38. Educação do campo, artes e formação docente 38 Implementado pelo Ministério da Educação por meio da Secad e Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica – Setec (BRA- SIL, 2008). Em 2009, a Universidade Federal do Tocantins (UFT), Câm- pus de Tocantinópolis,aprova um projeto de formação de professores do campo, denominado curso de Pós-graduação Lato Sensu – Espe- cialização e aperfeiçoamento em Educação do Campo, Agricultura Familiar e Envolvimento Social no Tocantins, ministrado a educa- dores/as e coordenadores/as pedagógicos/as vinculados ao Programa ProJovem Campo – Saberes da Terra nos municípios do estado. O Ministério da Educação (MEC/Secad) e a Secretaria de Educação do Estado do Tocantins (Seduc) foram os parceiros na for- mação de 116 professores que atuaram diretamente com os jovens do campo. O programa foi proposto ao MEC pelos movimentos sociais que estiveram presentes cotidianamente na condução do programa, em que muitas lideranças também eram professores/as. A primeira turma do programa concluiu a formação em dezembro de 2012. Já na segunda turma, a formação contou com cerca de 60 professores. Essas turmas estudaram, entre outras, as seguintes temáticas: a ju- ventude camponesa, o envolvimento social, as políticas públicas, os territórios, a agricultura familiar e cidadania. Entretanto, a formação de educadores para atuar junto aos jo- vens entre 18 e 24 anos contribuiu timidamente para o avanço da edu- cação do campo no estado, devido às dificuldades encontradas, tanto estruturais como na efetivação da nova metodologia. No processo de formação dos educadores buscou-se um novo percurso formativo com base na metodologia da alternância que traz como diretriz um fazer pedagógico voltado para o exercício da política e um novo olhar sobre o currículo. E, como elemento articulador dessa formação, têm-se os mo- vimentos sociais que, com sua experiência política contribuíram para novas práticas educativas junto aos educadores/as do campo. A pro- blemática da efetiva atuação docente ocorreu quando os professores EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 38 23/05/2017 16:14:45
  39. 39. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 39 que receberam a formação para ministrar aulas no programa foram dispensados em sua maioria, uma vez que eram apenas contratados pelo Estado. E, em função da política local, entram e saem profes- sores indicados por políticos, o que, na época, dificultou o avanço da educação do campo no estado. A metodologia utilizada centrava-se em experiências acumula- das pelos movimentos sociais que tinha como eixo o percurso forma- tivo da alternância – Tempo Escola e Tempo Comunidade, realizado com os jovens em suas comunidades. A cada módulo, formadores da universidade e professores do programa elaboravam instrumentos para a pesquisa que seria desenvolvida com os alunos no Tempo Co- munidade. O resultado – informações sobre a realidade desses jovens – era discutido nos módulos seguintes. Como práticas de alternância compreendem-se as experiên- cias pedagógicas inovadoras na formação de jovens do campo. Esses jovens são pequenos agricultores, muitas vezes à margem dos bene- fícios sociais, na busca por alternativas educacionais que atendam às suas necessidades e aos desafios colocados pelo momento histórico familiar. A proposição da alternância ocorre no âmbito das relações pedagógicas e visa a desenvolver na formação dos agricultores situa- ções de interação entre o mundo da escola e o mundo da vida,a teoria e a prática, portanto, a práxis. A alternância coloca em interação diferentes atores com iden- tidades, preocupações e lógicas também diferentes, agrupando de um lado a escola e a relação com os saberes científicos e, de outro, a família e a pequena produção agrícola (MACHADO; CAMPOS; PALUDO, 2008). É com base nessa proposta que se desenvolve a metodologia no curso de especialização do Projovem Campo – Sa- beres da Terra, oferecido pela UFT. O percurso formativo do curso de especialização e/ou aperfeiço- amento está ancorado na indissociabilidade pesquisa-ensino-extensão- -práxis pedagógica, sintonizando-se com o projeto Político Pedagógi- co do Programa Projovem Campo – Saberes da Terra, especialmente EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 39 23/05/2017 16:14:45
  40. 40. Educação do campo, artes e formação docente 40 com a proposta de formação continuada do referido programa. Nesse sentido, os eixos temáticos e círculos epistemológicos foram elabora- dos com base no desenho curricular do programa (UFT, 2010). Na organização do processo educativo das escolas do campo, há de se buscar princípios e itinerários pedagógicos que orientem o desenvolvimento de processos formativos integrados e que articulem áreas de conhecimento, saberes popular e científico, formação huma- na e profissional, diferentes práticas, tempos e espaços pedagógicos. O objetivo é permitir a superação da fragmentação e descontextu- alização do currículo, além da afirmação de uma formação escolar crítica e criativa. Por essa perspectiva, é preciso assumir como princípios peda- gógicos da escola do campo os seguintes pontos: • formação escolar contextualizada, embasada pelo princípio da indissociabilidade teoria-prática, privilegiando o diálo- go entre os saberes científico e popular e a (re)construção contínua do conhecimento; • estímulo aos educadores/educandos para a realização de ati- vidades pedagógicas voltadas à problematização, pesquisa e estudo interdisciplinar sobre a realidade – local, regional, nacional e mundial –, tendo como elemento principal a pro- dução familiar e comunitária,suas demandas,desafios e pos- sibilidades; • incorporação da diversidade cultural como elemento educa- tivo e provocação da vivência de novas práticas e valores de solidariedade, cooperação e justiça; • subsídio à intervenção coletiva e sistemática sobre a realida- de e a construção de propostas de ação técnico-profissional voltadas à transformação social e melhoria das condições de vida dos povos do campo. Com base no estudo da realidade imediata e cotidiana e no es- EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 40 23/05/2017 16:14:45
  41. 41. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 41 tabelecimento de relações com elementos não cotidianos que impac- tam a vida dos povos do campo,propõe-se um processo educativo que possibilite o acesso a diversos saberes e à reflexão sobre questões de diversas ordens (políticas, históricas, naturais etc.). Articuladamente, esse acesso contribui para melhorar a compreensão e o aprendizado sobre a cultura e a realidade vivida pelos camponeses no próprio lo- cal,criando reais condições de propor ações técnico-profissionais que ajudem a transformar e melhorar tal realidade (BRASIL, 2009). Nesse movimento, assumir a pesquisa e o trabalho como prin- cípios educativos significa assumir o compromisso com o desenvol- vimento de um processo de escolarização que seja capaz de estimular atitudes e aprendizagens crítico-reflexivas. O objetivo foi promover entre os indivíduos a construção de saberes escolares por meio da reflexão sobre sua própria existência e sobre o mundo em que vivem, as relações que estabelecem, a cultura em que estão inseridos, o tra- balho que desenvolvem. Além disso, propôs-se a alimentar o pensar criativo na construção, desenvolvimento de projetos e de ações que envolvessem novas práticas sociais, produtivas, culturais. Todas essas ações foram voltadas à reinvenção da existência individual e coletiva, e à formação do hábito da análise crítica, da autoavaliação, da avalia- ção do processo para (re)planejar a ação, continuamente. 6 Práxis política dos movimentos sociais e educação do campo no Tocantins: novos horizontes Durante os encontros de formação de professores, as discus- sões surgiam em torno dos eixos temáticos e indicaram a necessidade de organização de uma mesa-redonda que posteriormente se reali- zou. A mesa-redonda foi intitulada Políticas e Ações em Educação do Campo e envolveu a participação das organizações sociais, movi- mentos sociais, Seduc e UFT. O debate girou em torno da consta- tação do descaso com a educação dos camponeses como uma nega- EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 41 23/05/2017 16:14:45
  42. 42. Educação do campo, artes e formação docente 42 ção de política social por parte do Estado. Defendeu-se, então, como proposta, a construção de uma educação do campo como política pública de educação. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Alternativas para Pequena Agricultura do Tocantins (APA-TO), Pastoral da Juven- tude Rural (PJR) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) participa- ram dos processos de luta por uma educação de qualidade, voltados para a formação de crianças, jovens e adultos. Por essa razão, eles têm desenvolvido ações para cobrar do Estado oferta e qualidade de educação do campo que tem como princípio norteador a defesa da identidade e da diversidade cultural camponesa. São temas que muitas vezes aparecem como apêndices na própria Seduc,como ficou evidenciado no debate. No Fórum de Educação do Campo do Estado (FEECT) foi redigida uma carta em que se apresentou a intencionalidade edu- cativa, política e formativa dos movimentos e organizações sociais. O Fórum procurou articular sujeitos coletivos de sua composição, norteado pelo princípio da autonomia em relação ao Estado. O seu objetivo é exercer a análise crítica e a ação política independente, desde a elaboração das políticas públicas de educação do campo até a sua consolidação no Tocantins, em articulação com o movimento nacional pela educação do campo (CARTA FEECT, 2012). A criação do Fórum fundamentou-se nos seguintes pontos: • desigualdades sociais e educacionais a que estão submeti- das as populações do campo, o que é perceptível com base nos dados do IDEB e outras pesquisas apresentadas no ce- nário brasileiro; • negação do direito à educação nas modalidades da educa- ção infantil, fundamental, médio e superior às populações do campo; EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 42 23/05/2017 16:14:45
  43. 43. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 43 • formato da organização da educação do campo do estado do Tocantins, o mesmo da cidade, desrespeitando a cultura camponesa; • aprofundamento da pedagogia dos tempos e espaços alter- nados de trabalho com a terra e aprendizagem escolar; • monitoramento do Decreto 7.352, de 4 de novembro de 2010, como política pública de educação do campo, como contraponto ao rural. Nesse sentido,as ações políticas conferem a esse Fórum um es- paço potencializador da construção da educação do campo no estado. E os atores sociais no Fórum decidiram organizar a I Conferência Estadual de Educação do Campo no Tocantins, na qual os movi- mentos e organizações sociais do campo (MAB, MST, Fetaet, PJR, CPT), assim como a Seduc, a EFA de Porto Nacional e a Universi- dade Federal do Tocantins - Câmpus de Tocantinópolis, organiza- ram a I Conferência. Militantes dos movimentos sociais do campo e da cidade e demais instituições públicas realizaram 12 conferências regionais e a I Conferência Estadual entre os dias 09 e 10 de julho de 2012, para debater o tema “Por uma política de Educação do Campo no estado do Tocantins”. As conferências apontaram para uma realidade mar- cada pelo fechamento das escolas e transferências dos alunos para escolas urbanas, condições físicas e pedagógicas de funcionamento das escolas, em todos os níveis de ensino, que não atendem à realidade do campo, currículo inadequado à educação do campo, desconsiderando a cultura, identidade e saberes dos camponeses. (CARTA, 2013). Afirmou-se nesse encontro uma agenda de luta pela imple- mentação de uma educação do campo que de fato tenha relação com EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 43 23/05/2017 16:14:45
  44. 44. Educação do campo, artes e formação docente 44 a identidade e a cultura camponesas. Um documento foi apresentado ao final da conferência propondo a criação de um grupo de trabalho composto pela UFT, IFTO, Unitins, Movimentos sociais, Seduc e Undime que, partindo das proposições da I Conferência, elaborasse uma proposta de educação do campo para o estado. Aponta-se, tam- bém, a partir desse encontro, para a organização do curso de Licen- ciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da Universidade Federal de Tocantins (UFT), em Tocantinópolis. 7 Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes Visuais e Música:trajetória de educação e formação de professores do campo A partir do histórico de luta por uma educação do campo,o MEC cria o Programa de Apoio à Formação Superior em Licenciaturas em Educação do Campo (Procampo), com o objetivo de apoiar a imple- mentação de cursos regulares nas instituições públicas de ensino supe- rior, especificamente para formação de educadores para a docência em escolas rurais nas séries finais do ensino fundamental e no ensino médio (FREITAS,2011).Quando pauta seu projeto pela escola e formação de professores,o movimento que luta por uma educação do campo disputa princípios, valores e práticas ao ocupar a esfera pública. Para Molina e Antunes-Rocha (2014,p.227), Uma das principais características e diferenças das po- líticas públicas de educação do campo pautadas pelos movimentos sociais e sindicais refere-se à sua parti- cipação e protagonismo, na concepção e elaboração de tais políticas. Durante a primeira década de sua história, dada a correlação de forças à época, o Movi- mento da Educação do Campo foi capaz de garantir este princípio, tendo forte participação na concepção e elaboração do Pronera (MOLINA, 2003), no Resi- EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 44 23/05/2017 16:14:45
  45. 45. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 45 dência Agrária (MOLINA,2010),no Saberes da Terra (ANTUNES-ROCHA, 2010), na construção e par- ticipação em instâncias executivas, como a Comissão Pedagógica Nacional do Pronera e consultivas como a Comissão Nacional de Educação do Campo (Conec), vinculada à Secretaria de Educação Continuada, Alfa- betização, Diversidade e Inclusão (Secadi), do Minis- tério da Educação. Antes de implementar essa política, o MEC, através da Se- cretaria de Educação Superior (SESU) e da Secad em 2006, com a contribuição e o protagonismo dos movimentos sociais, desenvolveu um plano de trabalho com algumas universidades federais (UFMG, UFS, Unb e UFBA), para executar um projeto piloto de implemen- tação dos primeiros cursos de Licenciatura em Educação do Campo (LEdoC). Tal escolha se deu em virtude de essas universidades já apresentarem um percurso de práticas de ensino, pesquisa e extensão em educação do campo (MOLINA; ANTUNES-ROCHA, 2014). O MEC consolidou, mesmo com as experiências piloto em curso,outras ações voltadas para a educação do campo.Lançou o edi- tal de Convocação nº 09, de 29 de abril de 2009, convocando outras Instituições de Ensino Superior (IES) a apresentarem projetos de cursos de LEdoC, visando, sobretudo, a Estabelecer critérios e procedimentos para fomento de cursos regulares de Licenciaturas em Educação, para a formação de professores, para a docência nos anos finais do ensino fundamental e ensino médio nas escolas localizadas em áreas rurais, mediante assistên- cia financeira às Instituições Públicas de Ensino Su- perior – IES (BRASIL, 2009, p. 1). A partir dessa concorrência, 32 universidades ofertaram a Li- cenciatura em Educação do Campo. Mas, por se tratar de um edital EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 45 23/05/2017 16:14:45
  46. 46. Educação do campo, artes e formação docente 46 que autorizava apenas o funcionamento de uma turma específica, ge- rou-se o problema da continuidade e da permanência dos cursos nas IES. Portanto, isso gerou conflitos com os movimentos sociais e as IES que ofertavam os cursos. Com a conquista dos movimentos da assinatura do Decreto n. 7352/2010, que instituiu a Política Na- cional de Educação do Campo, se impôs a exigência da elaboração de um Programa Nacional de Edu- cação do Campo (Pronacampo) para dar materiali- dade às ações nele previstas, e institui-se então, em 2012, um outro grupo de trabalho para dar conta desta tarefa, o qual também contou com a partici- pação de membros dos movimentos sociais e sindi- cais para conceber as ações que integrariam o refe- rido Programa (MOLINA; ANTUNES-ROCHA, 2014, p. 238). O MEC lançou o Edital SESU/SETEC/SECADI nº 02/2012, cujo objetivo era ampliar a oferta de vagas dos cursos já existentes e selecionar outras 32 IES para 35 novos cursos, voltados para a formação dos professores do campo. A proposta de matriz curricular foi organizada de forma multidisciplinar com os compo- nentes curriculares a partir de quatro áreas do conhecimento: Artes, Literatura e Linguagens; Ciências Humanas e Sociais; Ciências da Natureza, Matemática; e Ciências Agrárias. Apesar da forma interdisciplinar, muitas contradições apare- cem no edital de chamada pública para os novos cursos. As áreas de conhecimento apresentam-se separadas, o que dificultou o entendi- mento para elaboração do projeto. A UFT apresentou o projeto na área de Códigos e Linguagens: Artes visuais e Música. Mas, devido aos conflitos internos no câmpus – marcados por disputas em torno da aprovação ou não do curso – dificultou-se a escolha do melhor formato curricular para o curso. Curso aprovado, os movimentos so- ciais comemoraram a ocupação do espaço público. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 46 23/05/2017 16:14:45
  47. 47. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 47 O fator relevante que contribuiu para a materialização do cur- so no Câmpus de Tocantinópolis foi a demanda dos trabalhadores e trabalhadoras do campo manifestada pelas organizações sociais localizadas no Bico do Papagaio (que compreende 25 municípios), especialmente os assentamentos da reforma agrária (364 projetos de assentamentos com 24 mil famílias assentadas), com os quais tam- bém há parcerias para a realização de projetos de pesquisa e extensão, além de ter estudantes em cursos de graduação oriundos dessas e de outras comunidades camponesas. E especialmente como síntese da agenda criada a partir da I Conferência Estadual de Educação do Campo em 2013 para construir o curso em Tocantinópolis. A viabilização de formação superior específica teve como pre- tensão promover a expansão da oferta da educação básica nas co- munidades rurais; o atendimento à demanda apresentada no campo, local em que há carência de professores qualificados para o ensino de diversas áreas,incluindo-se artes visuais e música; auxílio à superação das desvantagens educacionais, observando os princípios de igualda- de e gratuidade quanto às condições de acesso. O curso tem caráter regular e apoia-se em duas dimensões de alternância formativa integradas: o Tempo Universidade e o Tempo Comunidade. A organização curricular do curso prevê etapas pre- senciais (equivalentes a semestres de cursos regulares) em regime de alternância entre tempo-espaço universidade e tempo-espaço comu- nidade, tendo em vista a articulação intrínseca entre educação e a realidade específica das populações do campo. Outra preocupação é facilitar o acesso e a permanência dos professores em exercício no curso, na intenção de se evitar que o ingresso de jovens e adultos na educação superior reforce a alternativa de que eles deixem de viver no campo. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 47 23/05/2017 16:14:45
  48. 48. Educação do campo, artes e formação docente 48 8 Considerações finais Pensar em movimentos sociais é pensar na sua complexidade, pois eles possuem uma dinâmica na qual sua existência imbrica não no antagonismo, mas na oposição. As mazelas criadas pelo modo de produção capitalista só serão resolvidas com a superação desse mo- delo, e isso significa que o proletariado deve protagonizar sua tarefa histórica, qual seja, criar novas relações de produção. Portanto, os movimentos sociais terão uma tarefa histórica: destruir a velha ordem. Remete-se aqui ao que Marx afirma na déci- ma tese sobre Feuerbach, como síntese das reflexões aqui propostas: “O ponto de vista do velho materialismo é a sociedade “burguesa”; o ponto de vista do novo é a sociedade humana, ou a humanidade socializada” (MARX, 2009, p. 126). Com isso, defende-se que, para participarem da realização da utopia, ou seja, da superação da velha ordem burguesa, os movimentos sociais sejam capazes de aglutinar forças à luta da classe trabalhadora e superar as contradições do sis- tema capitalista. Assim sendo, a práxis política desenvolvida pelos movimentos sociais do campo busca, principalmente, a superação das desigualda- des sociais, outro modelo de sociedade. Assim como a educação que emancipe a classe trabalhadora e que possibilite a organização do desenvolvimento humano pautado na práxis emancipadora. No plano da práxis pedagógica, a educação do campo projeta futuro quando recupera o vín- culo essencial entre formação humana e pro- dução material da existência, quando concebe a intencionalidade educativa na direção de novos padrões de relações sociais, pelos vínculos com novas formas de produção, com o trabalho as- sociado livre, com outros valores e compromis- sos políticos, com lutas sociais que enfrentam as EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 48 23/05/2017 16:14:45
  49. 49. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 49 contradições envolvidas nesses processos (CAL- DART, 2012, p. 263). O modo de fazer da educação do campo,os desafios da formação de professores e de ocupar a universidade pública como espaço de lutas de classes e de disputas pela produção da teoria do conhecimento é que se torna um projeto de utopia da classe trabalhadora. E a educação do campo, por meio da práxis política dos movimentos sociais, continua e pode revigorar velhas questões da educação emancipatória, formulan- do novos questionamentos à política educacional e à teoria pedagógica. Para Caldart (2009,p.43), Uma retomada que é também a recuperação de uma visão mais alargada de educação, algo que já aparece como tendência de muitas práticas e reflexões neste novo século: não confundir educação com escola nem absolutizar a educação escolar, como fez no discurso a pedagogia moderna liberal, para que o capital pudesse ‘educar’ mais livremente as pessoas em outras esferas (uma armadilha em que muitos pedagogos de esquer- da também caíram). É preciso pensar a escola sim, e com prioridade, mas sempre em perspectiva, para que se possa transformá-la profundamente, na direção de um projeto educativo vinculado a práticas sociais emancipatórias mais radicais. Ao potencializar a educação do campo, os movimentos sociais reforçam as discussões sobre a dimensão educativa, provocam refle- xões sobre uma pedagogia que afirma a luta social e a organização coletiva como matrizes formadoras. Nesse sentido, o curso de Licen- ciatura em Educação do Campo como matriz formativa e perspecti- va política, nasce na UFT no Câmpus de Tocantinópolis, a partir das lutas pela terra no Bico do Papagaio, pela educação dos sujeitos que vivem no campo e por outra sociedade. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 49 23/05/2017 16:14:45
  50. 50. Educação do campo, artes e formação docente 50 REFERÊNCIAS BOTTOMORE, T. Dicionário do pensamento marxista. 2.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. BRASIL.MinistériodaEducação.EditaldeSeleçãonº02/2012-SESU/ SETEC/SECADI/MEC de 31 de agosto de 2012.Chamada pública para seleção de Instituições Federais de Educação Superior – IFES e de Institutos Federais de Educação,Ciência eTecnologia IFET,para criação de cursos de licenciatura em educação do campo, na modalidade presencial. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&task= doc_ download&gid=13300&Itemid=>. Acesso em: 12 jun. 2016. ________. Ministério da Educação. Projovem Campo – Saberes da Terra. Curso de especialização e aperfeiçoamento em educação do campo, agricultura familiar e envolvimento social noTocantins. Brasília: MEC/ Secad, 2009. ________. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – Secad.Cadernos Pedagógicos do Projovem Campo Saberes da Terra. Projeto Político Pedagógico. Brasília: MEC/ SECAD, 2008. ________. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – Secad. Edital de Convocação N.º 09. De 29 de Abril de 2009. Disponível em: <http://portl.mec.gov.br>. Acesso em: 28 jul. 2006. ________. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade – Secad. Cadernos pedagógicos Saberes da Terra. Brasília: MEC/Secad, 2006. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 50 23/05/2017 16:14:45
  51. 51. Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins 51 CALDART,R.S.Educação do campo: notas para uma análise de percurso. Revista Trab. Educ. Saúde, Rio de Janeiro, v. 7 n.1, p.35-64, mar./jun. 2009. ________. Educação do campo. In: CALDART, R.S.; PEREIRA, I. B.; ALENTEJANO, P.; FRIGOTTO, G. (Orgs.). Dicionário da educação do campo. Rio de Janeiro/São Paulo: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio/Expressão Popular, 2012. CARTA DA I CONFERÊNCIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DO CAMPO DE TOCANTINS, 2013 (mimeo). CARTA FEECT. Carta do Fórum Estadual de Educação do Campo do Tocantins, 2012 (mimeo). FERNANDES, B. M.; CERIOLI, P. R.; CALDART, R. S. Primeira Conferência Nacional “Por Uma Educação Básica do Campo” (Texto Preparatório). In: ARROYO, M. G.; CALDART, R. S.; MOLINA, M. C. (Orgs.). Por uma educação do campo. 4.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, p. 19-64. FREITAS, H. C. A. Rumos da educação do campo. Em Aberto. Brasília. v. 24, n. 85, p.35-49, abr. 2011. GOHN, M. G. Movimentos sociais na contemporaneidade. Revista Brasileira de Educação, v. 16, n. 47, mai./ago. 2011. IANNI, O. A ideia de Brasil moderno. São Paulo: Brasiliense, 1996. JENSEN, K. Teses sobre os movimentos sociais. Revista Marxismo e Autogestão. n.1, ano 1, jan./jun., 2014. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 51 23/05/2017 16:14:45
  52. 52. Educação do campo, artes e formação docente 52 MACHADO, C. L. B.; CAMPOS, C. S. S.; PALUDO, C. (Org.). Teoria e prática da educação do campo: análises de experiências. Brasília; MDA, 2008. MARX, K. A ideologia alemã. São Paulo: Expressão Popular, 2009. MOLINA, M. C.; ANTUNES-ROCHA, M. I. Educação do campo: história, práticas e desafios no âmbito das políticas públicas de formação de educadores – Reflexões sobre o Pronera e o Procampo. Revista Reflexão e Ação. Santa Cruz do Sul, v. 22, n.2, p. 220 -253, jul/dez, 2014. UFT. UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS. Projeto de formação de professores/ especialização, UFT. Palmas, 2010. VÁZQUEZ,A.S. Filosofia da práxis.São Paulo: Expressão Popular,2007. VIANA, N. Os movimentos sociais: teoria e história. Florianópolis: Bookess, 2015. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 52 23/05/2017 16:14:46
  53. 53. 53 A proposta da pedagogia da alternância: uma possibilidade de construção de conhecimento Helena Quirino Porto Aires4 1 Introdução Nas últimas décadas, o tema educação do campo vem conquis- tando espaço nas discussões sobre as políticas públicas e suscitando inúmeras pesquisas na tentativa de repensar essa modalidade de ensi- no.No entanto,mesmo com esse crescente interesse na área,ainda há muito a se pesquisar e discutir a respeito da real situação das escolas do campo e do ensino nelas praticado. Pensar em educação do campo exige a compreensão das carac- terísticas do espaço cultural e as necessidades próprias do estudante que vive no e do campo,sem abrir mão da pluralidade de saberes como fonte de conhecimento prévio para a aprendizagem. Brasil (2002) compreende que a educação do campo se cons- titui em um espaço de lutas dos movimentos sociais, traduzida como uma concepção político-pedagógica voltada para dinamizar a ligação dos seres humanos com a produção das condições de existência social, na relação com a terra e o meio ambiente, incorporando os espaços 4 Mestra em Educação. Professora do Curso de Licenciatura em Educação do Campo da UFT, campus de Tocantinópolis. E-mail: hequirino.uft@mail.uft.edu.br EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 53 23/05/2017 16:14:46
  54. 54. Educação do campo, artes e formação docente 54 da floresta, da pecuária, das minas, da agricultura, dos pesqueiros, dos caiçaras,dos ribeirinhos,dos quilombolas,dos indígenas e extrativistas. A educação do campo consiste em uma modalidade de Edu- cação Básica do Campo prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) nº 9.394/96 (BRASIL, 1996), com ca- racterísticas e estrutura singulares para atender as demandas dos po- vos que vivem no e do campo. O artigo 28 da LDB preconiza que, na oferta de educação básica para a população campesina,os sistemas de ensino devem promover as adaptações necessárias às peculiaridades da vida no campo e de cada região,especialmente no que se refere aos conteúdos curriculares, às metodologias apropriadas, à organização escolar própria e à adequação do trabalho no campo à natureza. É nesse contexto de educação do campo que a pedagogia da al- ternância se caracteriza como um modo de promover a educação com características próprias para o atendimento da população do campo. A proposta educacional da pedagogia da alternância contempla, res- peita e valoriza os saberes em contextos socioculturais, considerando escola-família-comunidade como espaços de produção, organização e articulação de conhecimentos, por meio dos instrumentos pedagó- gicos. Tal proposta tem sido idealizada por estudiosos como Bour- geon (1979), Begnami (2003), Gimonet (2007), Silva (2012), dentre outros, como uma possibilidade de educação que atende as especifi- cidades da educação do campo. Nesse sentido,a educação por alternância está vinculada à ideia de um movimento pedagógico dinâmico, conforme assevera Gadotti (2003, p. 48), para quem [a] pedagogia da alternância se apresenta como meio para atingir a finalidade de reflexão e ação no e com o contexto do tempo. É o movimento alternado poten- cializado por uma organização imbricada num con- texto que se propõe a um processo de aprendizagem pautado na relação que diagnostica, problematiza, re- flete. Dialoga, planeja e age através do coletivo. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 54 23/05/2017 16:14:46
  55. 55. A proposta da pedagogia da alternância: uma possibilidade de construção de conhecimento 55 Sob o entendimento de que a dimensão da ação e da reflexão acontece por meio do diálogo, em que o processo de ensino e apren- dizagem busca a transformação da realidade (FREIRE, 1987), a al- ternância deve ser pensada para além de uma proposta metodológica de ensino. Diante da importância dessa proposta,faz-se oportuno realizar estudos sobre como ela se estrutura e se efetiva em diversos ambien- tes educacionais. Nesse intento, o presente texto traz um recorte de uma pesquisa de mestrado em educação e apresenta uma análise das perspectivas de pedagogia da alternância desenvolvida na Escola Fa- mília Agrícola de Porto Nacional,Tocantins (ESCOLA, 2015). Para a realização desta pesquisa qualitativa, analisamos o Pro- jeto Político Pedagógico (PPP) da instituição, lançamos mão de entrevistas semiestruturadas com questões abertas direcionadas aos profissionais da respectiva instituição (diretor, coordenador pedagó- gico e professor/monitor),buscando caracterizar os fatores relaciona- dos à pedagogia da alternância, tanto no cotidiano escolar como nas comunidades. No intuito de preservar a identidade dos entrevistados, eles fo- ram indicados por letras maiúsculas de nosso alfabeto, seguidas da função (Diretor - D, monitor - M) e localização da escola. Desse modo, os professores são indicados, respectivamente, por A, B, e C, seguido da função (Professor – P) e indicação do município onde se localiza a escola (Porto Nacional – P); o Coordenador será indicado pela letra C, seguida da letra inicial do município onde se localiza a escola; o Diretor será indicado pela letra D,seguida da letra inicial do município onde se localiza a escola; e, o Professor/Monitor de Disci- plinas que atua na EFA de Porto Nacional será indicado por PMDP. Registra-se que o diretor, coordenador e demais professores também são monitores, por isso não fizemos a indicação dessa função, exceto no caso específico de PMDP. Assim, busca-se aqui apresentar o contexto da pedagogia da al- EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 55 23/05/2017 16:14:46
  56. 56. Educação do campo, artes e formação docente 56 ternância,fazendo uma análise dessa proposta de educação que é efeti- vada na Escola Família Agrícola de Porto Nacional em seus diferentes contextos/espaços de ensino (tempo-escola e tempo-família/comuni- dade), a partir dos elementos e/ou ideias expressos nas respostas dos entrevistados e documentos analisados. 2 A trajetória da pedagogia da alternância Na educação por alternância, o processo de ensino e aprendi- zagem acontece em espaços e territórios diferenciados e alternativos. Trata-se de uma possibilidade de valorização dos saberes produzidos pelos povos em um processo de interação entre escola-família-co- munidade. Etimologicamente, a palavra alternância tem suas origens no vocábulo em latim alternare, proveniente de alter, que significa outro. Nascimento (2007) explica que a terminologia alternância surge pela primeira vez nos Estados Unidos em 1906, com a designação de “rit- mo apropriado” e procura associar a formação geral com a formação profissional. Nesse sentido, a formação geral hoje seria a formação integral do ser humano, estimulando sua capacidade de pensar cri- ticamente, de saber lidar com os desafios e problemas existentes na sociedade da qual ele faz parte. Diante dos movimentos de articulação, da sensibilização cam- pesina francesa, principiou-se, em 1935, a primeira experiência da pedagogia da alternância, que dois anos depois – em 1937, daria origem à Maison Familiale Rurale (MFR) ou Casa Familiar Rural (CFR) ou Escola da Família Agrícola (EFA),instituições que se con- figuraram como possibilidade de ensino para atender as demandas dos/das filhos/filhas de camponeses franceses e mantê-los no campo, via oferta de uma educação com qualidade (GIMONET, 1999). A partir de 1945, a proposta de educação por alternância foi difundida em vários países e hoje está, em sua maioria, na América, EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 56 23/05/2017 16:14:46
  57. 57. A proposta da pedagogia da alternância: uma possibilidade de construção de conhecimento 57 além da França. Em cada localidade para onde a experiência foi le- vada foram feitas adaptações pelas instituições em decorrência das especificidades locais. A primeira experiência brasileira com a pedagogia da alter- nância ocorreu no final da década de 1960, no Espírito Santo, com a participação de várias forças sociais por meio da atuação do Pa- dre Humberto Pietrogrande5 , quando foram instaladas as primeiras escolas famílias com base na experiência italiana (PESSOTI, 1978; QUEIROZ, 1997; 2004). Embora a pedagogia da alternância tenha surgido há décadas, ela permite a utilização de processos avançados de ensino e aprendi- zagem e possui conceitos que perpassam as atuais propostas educa- cionais, como aponta Azevedo (1998, p. 117). Por empregar, na execução do processo de ensino- -aprendizagem, princípios educativos modernos, tais como o envolvimento e a participação dos pais na educação formal dos filhos e na gestão da escola, em- basamento teórico construtivista e adoção de método dialético de ensino, a Pedagogia da Alternância cons- titui-se numa proposta educacional inovadora. Nascimento (2007, p. 40) ressalta que as EFAs têm por obje- tivo pedagógico oferecer aos povos do campo “uma possibilidade de educação a partir da sua realidade, de sua vida familiar e comunitária e das suas atividades”, proporcionando um processo de “reflexão e ação que possa transformar essa mesma realidade”. Isso porque, a 5 Fundador do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (MEPES), em 1969, mais precisamente na cidade de Anchieta. Trabalhou intensamente na promoção integral do homem do campo, foi o grande incentivador da instalação das primeiras Escolas Famílias Agrícola no Brasil. Exerceu o ministério sacerdotal como cooperador e Pároco de Anchieta e Alfredo Chaves-ES. EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 57 23/05/2017 16:14:46
  58. 58. Educação do campo, artes e formação docente 58 [...] escola-família ajuda o jovem rural na sua formação humana e técnico-profissional de maneira a torná-lo, dentro das possibilidades, um homem preparado, res- ponsável e dinâmico para o desenvolvimento de sua propriedade e da sua família.E,se por qualquer motivo ele não encontrar no seu ambiente a oportunidade de formar a sua família e de se integrar numa atividade econômica, que ele seja um homem apto a tomar de- cisões e escolher sua profissão para o seu bem-estar da sua comunidade a que irá se integrar (MEPES,1976,p. 90, apud NASCIMENTO, 2007, p. 40). Nessa perspectiva, a pedagogia da alternância consiste em uma proposta educativa de organização do ensino escolar conjugada em diferentes espaços de aprendizagem, que possibilita a formação inte- gral dos estudantes em seus aspectos sociais, intelectuais e culturais (GIMONET, 1999; NASCIMENTO, 2007). Configurando como uma possibilidade de valorização dos sa- beres produzidos pelos povos em interação entre escola-família-co- munidade, a pedagogia da alternância é [...] uma outra maneira de aprender, de se formar, associando teoria e prática, ação e reflexão, o empreender e o aprender dentro de um mesmo processo (GIMO- NET, 1999, p. 44). Desse modo, a alternância significa uma ma- neira de aprender pela vida, partindo da própria vida cotidiana, dos momentos de experiências, colocando, assim, a experiência antes do conceito” (GIMONET, 1999, p. 44). [...] associação e participação das famílias constituem, assim, componentes indissociáveis e fundamentais na expressão das realidades, necessidades e desafios no contexto socioeconômico, cultural e político da escola, e na articulação com as organizações, entidades e mo- vimentos presentes na realidade local,orientados para a construção de projeto não apenas para o futuro dos alu- nos, mas também para a região (SILVA, 2012, p. 182). EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 58 23/05/2017 16:14:46
  59. 59. A proposta da pedagogia da alternância: uma possibilidade de construção de conhecimento 59 Há a necessidade de uma relação estreita entre família e escola para que a alternância realmente aconteça. É nesse contexto mútuo que se constrói uma formação integral do aluno e, ao mesmo tempo, se atende aos anseios da sociedade. Silva (2012), citando Gimonet (1998), menciona que uma verdadeira alternância não se resume à abertura de uma escola e muito menos a um ensino descontextuali- zado dos sujeitos envolvidos; mas sim na articulação entre escola, fa- mília e comunidade, construindo uma alternância integrativa. É sob esse aspecto que se insere o verdadeiro processo pedagógico para o que se propõe na formação por alternância. A alternância é uma “compenetração efetiva de meios de vida socioprofissional e escolar em uma unidade de tempos informati- vos” (BOURGEON, 1979, apud QUEIROZ, 2004, p. 204). Nesse sentido, a alternância possibilita aos sujeitos envolvidos no processo de ensino e aprendizagem uma interação com o contexto escolar, fa- miliar e comunidade, proporcionando, assim, saberes diversos, que podem contribuir para a formação integral. Assim, a ideia de alter- nância tem um sentido de estratégia de escolarização que, segundo Silva (2012), possibilita aos estudantes conjugar a formação escolar com os afazeres do produtivo familiar, sem perder seu vínculo com sua família e com seu meio, fator importante para esse processo de alternância. Nessas proposições, Girod de I’Ain (1974, apud SILVA, 2012, p. 24) foi o mentor da classificação da alternância e propôs dois modelos, denominados alternância externa e interna.A externa consiste na rela- ção escola-empresa,que tem como objetivo desenvolver os saberes esco- lares com sujeitos que já tenham experiência com o meio profissional. A alternância interna é articulada no meio da formação com a realização de atividades profissionais no período de estudo e não utiliza o trabalho como fator essencial para a formação. Malglaive (1979) definiu três tipos de alternâncias que são praticadas: a falsa alternância, que consiste em espaços vazios du- EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 59 23/05/2017 16:14:46
  60. 60. Educação do campo, artes e formação docente 60 rante os períodos de alternância (falta de conexão entre a formação acadêmica e as atividades práticas); a alternância aproximativa, que possui instrumentos pedagógicos que associam os tempos formativos limitados à observação e à análise, sem oferecer meios de atuação na realidade; e a alternância real, que busca a formação teórica e prática global, permitindo ao estudante a construção do seu próprio projeto pedagógico que possibilita a atuação crítica sobre a realidade. Alguns autores como Gimonet (1983), Bachelard (1994) e Bourgeon (1979) retomam as classificações de alternância propostas por Malglaive (1979) e as readaptam com outras denominações, e que, segundo Silva (2010, p. 185), “propõem, sucessivamente, tipo- logias específicas a partir de diferentes critérios: seja de disjunção e divisão entre os dois períodos da alternância ou, ao contrário, de articulação e unidade da formação entre os dois momentos”. Den- tre eles, destacamos Queiroz (2004), segundo o qual há três tipos de alternância nos Centros Familiares de Formação por Alternância (CEFFAs). Alternância justapositiva, que se caracteriza pela su- cessão dos tempos ou períodos consagrados ao traba- lho e ao estudo, sem que haja uma relação entre eles. Alternância associativa, quando ocorre uma associa- ção entre a formação geral e profissional, verificando- -se, portanto, a existência da relação entre a atividade escolar e atividade profissional, mas ainda como uma simples adição. Alternância integrativa real ou co- pulativa, com a compenetração efetiva dos meios de vida socioprofissional e escolar em uma unidade de tempos formativos (QUEIROZ, 2004, apud BRA- SIL, 2012, p. 41-2). Como enfatizado por Silva (2010),embora cada autor apresen- te categorizações diversas de alternância, as tipologias estabelecidas apresentam semelhanças. Todavia, como bem destacado por Gimo- net (2007), a distância entre a teoria (os nomes e conceitos dados) e EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 60 23/05/2017 16:14:46
  61. 61. A proposta da pedagogia da alternância: uma possibilidade de construção de conhecimento 61 a prática da alternância (o ensino que realmente acontece) ainda é bastante comum nas escolas. Encontramos pelo país diversas insti- tuições que anunciam em seus documentos a alternância e na prática não a fazem: há apenas uma alternância de tempos e de espaços e não de ações em um processo de construção do conhecimento via ação-reflexão-ação. Como se pode perceber, a alternância é uma proposta educa- cional que veio como uma possibilidade de resposta à problemática da educação do campo, como bem ressalta Silva (2012), tornando- -se, com o passar dos anos, uma alternativa viável e promissora para a educação dos filhos/filhas dos sujeitos que vivem no e do campo por possibilitar aos envolvidos no processo de ensino e aprendiza- gem uma interação com o contexto escolar, familiar e da comunida- de, proporcionando assim a aprendizagem de saberes diversos, que podem contribuir para formação integral desses atores. 3 A pedagogia da alternância na EFA de Porto Nacional Intentando conhecer como a proposta da pedagogia da alter- nância é efetivada em escolas do campo,no estado deTocantins,neste trabalho verificou-se como ela é expressa no PPP da Escola Família Agrícola de Porto Nacional e como ela é entendida por profissionais que nela atuam. Iniciamos falando um pouco sobre a EFA. Em 2015, 389 estudantes frequentavam a instituição, oriundos de 324 famílias residentes em 93 comunidades camponesas distri- buídas em 45 municípios6 tocantinenses. A EFA oferece o ensino 6 Porto Nacional, Brejinho de Nazaré, Nova Fátima, Miracema do Tocantins, Rio Sono, Marianópolis, Caseara, Chapada da Natividade, Palmas, Monte do Carmo, Ponte Alta do Tocantins, Pium, Esperantina, Nova Rosalândia, Oliveira de Fátima, Cristalândia, Silvanópolis, Lizarda, Lagoa do Tocantins, Novo Acordo, Dois Irmãos, Araguatins, São Bento, Cachoeirinha, Ananás, Angico, Darcinópolis, Araguaína, Babaçulândia, Nova Olinda, Juarina, Pequizeiro, Pium, Araguacema, EDU CAMPO ARTES E FORMAÇÃO DOCENTE_V2.indd 61 23/05/2017 16:14:46

×