REVISTA SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL ANO 5 – Nº 55 DEZEMBRO DE 2006. ESPELHOSWWW.SCIAM.COM.BRQUEBRADOS                      ...
propensão à doença é hereditária, embora fatores ambientais exerçam importante papel. A partir do final da década de 90,pe...
O que surpreendeu o grupo de Ri-zzolatti foi que também um subgrupo de neurônios de comando motor disparava quandoo animal...
antropóides, e é bastante acentuada em humanos. A aptidão para imitar é inata, ao menos parcialmente. Andrew Meltzoff, daU...
seria preciso encontrar um meio de monitorar a atividade dessas células sem lançar mão de eletrodos - procedimento adotado...
Esses resultados são a confirmação    incontestável de que autistas têm disfunção do    sistema de neurônios-espelhoEspelh...
neurotransmissores ou reproduzam seus efeitos nos neurônios-espelho. Um candidato que merece análise é o MDMA, mais conhec...
Se as funções dos neurônios-espelho estiverem                                                                        adorm...
Se as funções dos neurônios-espelho estiverem                                                                        adorm...
Neuroniosespelhosquebrados1
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Neuroniosespelhosquebrados1

333 visualizações

Publicada em

0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
333
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
2
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
2
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Neuroniosespelhosquebrados1

  1. 1. REVISTA SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL ANO 5 – Nº 55 DEZEMBRO DE 2006. ESPELHOSWWW.SCIAM.COM.BRQUEBRADOS UMA TEORIA SOBRE O AUTISMO Estudos sobre o sistema de neurônios-espelho podem revelar as causas da doença e ajudar pesquisadores a desenvolver novos métodos de diagnóstico e tratamento PorVilayanurS. Ramachandran e Lindsay M. Oberman CRIANÇAS COM AUTISMO têm dificuldade de interagir socialmente porque seu sistema de neurônios-espelho A primeira vista, nada chama atenção no menino que você acaba de não funciona adequadamente conhecer. Mas no momento em que começa a falar com ele, logo percebe algo errado. Ele não olha nos seus olhos, evita-os; balança o corpo parafrente e para trás; bate a cabeça contra a parede. Não consegue manter uma conversação nem remotamente próxima ao quechamaríamos normal. E apesar de sentir medo, raiva e prazer, ele é incapaz de demonstrar empatia e de apreender os sinaisnão-verbais da comunicação, como faz sem dificuldade a maior parte das crianças. Na década de 40, dois médicos, o psiquiatra americano Leo Kanner e o pediatra austríaco Hans Asperger, descobriram odistúrbio de desenvolvimento que afeta milhares de crianças no mundo. Foi uma descoberta isolada - nenhum dos dois sabia o que ooutro pesquisava, e, por uma dessas coincidências inacreditáveis, ambos deram o mesmo nome à síndrome: autismo. A palavra vemdo grego autos, que significa "de si mesmo". O nome é perfeito. O traço mais flagrante da doença é o isolamento do mundoexterior, com a consequente perda da interação social. Atualmente, os médicos adotam o termo "transtornos do espectro doautismo", deixando claro que a patologia varia amplamente em seu grau de seriedade, mantendo em comum certos sintomascaracterísticos. Desde que o autismo foi identificado, cientistas concentram esforços para estabelecer suas causas. Eles sabem que a Neuronios-espelho parecem desempenhar as mesmas funções que nos autistas estariam desintegradas
  2. 2. propensão à doença é hereditária, embora fatores ambientais exerçam importante papel. A partir do final da década de 90,pesquisadores de nosso laboratório da Universidade da Califórnia em San Diego passaram a se empenhar em determinar umapossível conexão entre autismo e uma classe de células nervosas recentemente descoberta, os neuronios-espelho. Porque pareceexistir uma associação entre essas células e aptidões como emparia e percepção das intenções alheias, era lógico formular a hipótese dedisfunção do sistema de neurônios-espelho na origem de certos sintomas autísticos. Vários estudos deram respaldo a essa tese ao longoda década passada. Novas pesquisas sobre os neuronios-espelho deverão explicar como surge o autismo, e, paralelamente, médicosserão capazes de desenvolver métodos mais eficazes para diagnosticar a doença e tratá-la.Explicando Os SintomasEMBORA os PRINCIPAIS sinais do autismo sejam isolamento social, ausência de contato visual, pobreza de expressão verbal einexistência de empatia, outros, menos conhecidos, nem por isso são difíceis de notar. Geralmente os autistas não compreendemmetáforas, e muitas vezes as interpretam literalmente. Têm dificuldade de imitar gestos alheios. Demonstram preocupaçãoexagerada com coisas insignificantes e não tomam conhecimento de aspectos fundamentais de seu entorno, especialmente o social.Manifestam extrema aversão a determinados sons que, por nenhuma razão aparente, têm o poder de lhes produzir alarmes sonorosno cérebro. As teorias propostas para explicar o autismo podem ser divididas em dois grupos: o anatómico e o psicológico (aos quais sejuntou um terceiro, logo rejeitado: o grupo da "mãe-geladeira", segundo o qual a frieza emocional materna é a causa da doença). EricCourchesne, da Universidade da Califórnia em San Diego, e outros anatomistas mostraram que crianças autistas apresentamanomalias típicas no cerebelo, a estrutura cerebral responsável pela coordenação dos movimentos musculares voluntários. Emboraessa explicação faça sentido, seria insensatez concluir que danos no cerebelo causam a patologia. Lesão cerebelar resultante de golpe nacabeça costuma produzir na criança tremores, contorções e movimentos oculares anormais - sintomas raramente associados aoautismo. Mais: nunca se registrou nenhum dos sinais típicos do distúrbio autístico em portadores de doença cerebelar. É possível que asmudanças ocorridas no cerebelo de crianças autistas sejam efeitos colaterais de genes anormais, não relacionados ao autismo. Averdadeira causa da doença estaria em outros efeitos dessa anormalidade. Talvez a hipótese psicológica mais engenhosa seja a teoria da mente, de Uta Frith, da University College de Londres, e deSimon Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge. Segundo essa tese, a principal anormalidade do autismo é a incapacidade deconstruir uma "teoria da mente alheia". Existe no cérebro um circuito neuronal especializado que permite ao indivíduo pensarsobre si próprio e sobre o outro, e assim criar formulações sofisticadas sobre sua mente e sobre a mente de outrem, e ainda prever ocomportamento de seus semelhantes. Essa compreensão dá respaldo à nossa capacidade de cooperar e aprender com o próximo. Emsuma, ela possibilita a interação social. Ora, muitos indivíduos autistas não compreendem que as pessoas têm seus própriospensamentos, pontos de vista e um modo único de ser. Consequentemente, tampouco entendem crenças, emoções e atitudes dosoutros. Essa "teoria da mente alheia" inexiste ou se apresenta seriamente deficiente em autistas e explica em grande parte sua di-ficuldade na comunicação social. Sem dúvida, Frith e Baron-Cohen estão no caminho certo. Porém, sua teoria não desvenda toda uma constelação de sintomasaparentemente não associados ao autismo. Dizer que autistas são incapazes de interagir socialmente porque têm "carência de teoria damente" não faz mais que chamar a atenção para os sintomas da doença. O que os pesquisadores precisam identificar são os mecanismoscerebrais cujas funções conhecidas se associam àquelas que, nos portadores da patologia, estão desintegradas. O trabalho de Giacomo Rizzolatti e seus colegas da Universidade de Parma, Itália, vai nessa direção. Na década de 90 elesobservaram o funcionamento neuronal de macacos resos enquanto esses animais desempenhavam (atividades induzidas) (ver"Espelhos na mente", na pág. 44). Já se vão algumas décadas desde que a ciência descobriu que certos neurônios do córtex pré-motor,região localizada no lobo frontal, são responsáveis pelo controle de movimentos voluntários. Há o neurônio que dispara quando omacaco pega um amendoim, por exemplo, ou no momento em que aciona uma alavanca e assim por diante. É comum chamar essascélulas nervosas de neurônios de comando motor. (É importante ter em mente que o neurônio cujaResumo/ Neurônios-espelho eAutismo Porque os neuronios-espelho estão aparentemente implicados na interação social, disfunções desse sistema neural específico estariam na origem de alguns dos principais sintomas do autismo, como isolamento social e ausência de empatia. Estudos sobre a doença atestam falta de ati vidade dos neuronios-espelho em diversas regiões do cérebro de autistas. Pesquisadores especulam se tratamentos com a finalidade de restaurar essa atividade poderiam minorar alguns sintomas. Uma hipótese complementar, a teoria do mapa topográfico emocional (salience landscape theory] elucidaria sintomas secundários como hipersensibilidade.atividade é mapeada não controla sozinho os movimentos do braço; esse neurônio faz parte de um circuito neuronal cujos sinaisemitidos permitem monitoração.)
  3. 3. O que surpreendeu o grupo de Ri-zzolatti foi que também um subgrupo de neurônios de comando motor disparava quandoo animal via outro desempenhar a mesma ação, fosse ele macaco, fosse ele pesquisador. O neurônio incumbido de controlar oato de pegar o amendoim entrava em ação quando o animal observava seu colega fazer esse movimento. Técnicas deimageamento cerebral revelaram posteriormente que os chamados neurônios-espelho existem nas mesmas regiões do córtexcerebral dos humanos. Essas observações levam a crer que os neurônios-espelho - mais exatamente as redes neurais de quefazem parte - não apenas emitem comandos motores como habilitam primatas e humanos a deter-minar as intenções de outros indivíduos através da simulação mental das ações destes. Nos macacos, o papel dos neurônios-espelho parece limitar-se a fazê-los prever simples ações direcionadas; mas nos humanos, tudo leva a crer que dizem respeito àcapacidade de interpretar intenções mais complexas. Estudos posteriores mostraram que os neurônios-espelho localizam-seem diferentes regiões do cérebro humano, como o córtex cingular e o córtex insular, e desempenham importante papel nasdemonstrações de empatia. Ao analisar o córtex cingular anterior de pessoas acordadas, pesquisadores descobriram que certosneurônios que normalmente disparam em resposta à dor emitiam os mesmos impulsos diante da dor de outrem. Os neurônios-espelho possivelmente têm a ver com a imitação, capacidade que se manifesta de forma rudimentar em grandes macacos
  4. 4. antropóides, e é bastante acentuada em humanos. A aptidão para imitar é inata, ao menos parcialmente. Andrew Meltzoff, daUniversidade de Washington, constatou que quando se mostra a língua a um recém-nascido, ele faz o mesmo. Como o bebé não vêa própria língua, é incapaz de usar feedback visual ou correção de erro para aprender a habilidade. Deve haver um mecanismo nocérebro da criança que lhe permite mapear a imagem da mãe - seja sua língua estirada, seja seu sorriso - nos neurônios docomando motor. O desenvolvimento da linguagem na infância requer integração de áreas cerebrais. Para que a criança imite as palavras do pai ou damãe, seu cérebro tem de transformar sinais auditivos nos centros responsáveis pela audição localizados nos lobos temporais emconteúdos verbais fornecidos pelo córtex motor. Se os neurônios-espelho estão diretamente envolvidos nesse mecanismo não se sabe,mas algum processo análogo deve existir. Por último, tudo indica que essa classe de células nervosas habilita o ser humano a enxergara si mesmo como seu semelhante o enxerga, e esse dom é essencial na autopercepção e na introspecção.Supressão de Ondas MuQUE isso TEM a ver com o autismo? No final da década de 90, nosso grupo notou que os neurônios-espelho pareciamdesempenhar exatamente as mesmas funções que, nos autistas, estariam desintegradas. Se esse circuito neuronal estiverde fato associado à interpretação de intenções complexas, sua ruptura explicaria a impressionante falta de habilidade social quecaracteriza pessoas que sofrem do distúrbio. Da mesma forma, outros traços fundamentais da doença - falta de empatia, déficitde linguagem, mimetismo precário - podem ser detectados em casos de disfunção desse sistema. Andrew Whit-ten, da Universidadede Saint Andrews, Escócia, e sua equipe chegaram às mesmas conclusões que nosso grupo, e quase na mesma época, mas aprimeira evidência experimental partiu de nosso laboratório, graças à colaboração entre Eric L. Altschu-ler e Jamie A. Pineda, ambosda Universidade da Califórnia em San Diego. Para demonstrarmos a disfunção dos neurônios-espelho em crianças autistas,
  5. 5. seria preciso encontrar um meio de monitorar a atividade dessas células sem lançar mão de eletrodos - procedimento adotado porRizzolatti e colegas por ocasião de suas pesquisas com macacos. Optamos por medir as ondas cerebrais dos pequenos comeletroencefalograma (EEG). Há mais de 50 anos sabe-se que uma família de ondas cerebrais detectadas por esse exame, as ondas mu,são bloqueadas toda vez que o indivíduo faz movimentos musculares intencionais, como abrir e fechar as mãos. O interessante é quetal bloqueio ocorre também quando o indivíduo observa outra pessoa executar o mesmo movimento. Concluímos então que asupressão das ondas mu poderia nos servir de método simples e não-invasivo para monitorar a atividade dos neurônios-espelho. Decidimos concentrar nosso primeiro experimento em crianças autistas sem graves danos cognitivos aptas a operar coti-diana esocialmente em nível quase normal - autistas HFA, do inglês high-functioning autism. (Excluímos do estudo crianças muitopequenas seriamente afetadas pela doença porque queríamos ter certeza de que as eventuais diferenças encontradas não eram sintomasde distúrbios de atenção, de dificuldade de entender instruções ou de retardo mental.) O EEG detectou a supressão das ondas mu quandoa criança fazia um gesto voluntário, tal como se nota em crianças sadias. Mas quando ela observava outra pessoa desempenhar a ação,não ocorria a supressão. Concluímos que o sistema de comando motor da criança estava intacto, mas seu sistema de neurônios-espelho, deficiente. Essa conclusão, por nós apresentada na reunião anual da Sociedade de Neuro-ciências, em 2000, constituiu provacabal do acerto de nossa hipótese. Desnecessário dizer que não se deve generalizar com base num único caso. Algum tempo depois, nossa equipe realizou maisuma série de experimentos com um grupo de dez crianças portadoras de distúrbio do espectro autista HFA e um grupo controlede dez crianças sadias, do mesmo sexo e faixa etária. Comprovamos a supressão das ondas mu quando os indivíduos do grupo decontrole moviam as mãos ou assistiam a um vídeo de uma mão que se movia. Porém, o EEG das crianças com autismo acusousupressão das ondas apenas quando elas movimentavam as próprias mãos. Outros pesquisadores confirmaram nossos resultados por meio de diferentes técnicas de monitoramento da atividade neural.Por meio da magnetoencefalografia, que mede campos magnéticos produzidos por correntes elétricas no cérebro, uma equipe chefiada porRiitta Hari, da Universidade de Tecnologia de Helsinque, Finlândia, descobriu deficiência de neurônios-espelho em crianças autistas. Aressonância magnética funcional serviu para o grupo liderado por Mirella Dapretto, da Universidade da California em Los Angeles,registrar redução da atividade dos neurônios-espelho no córtex pré-frontal de autistas. E a estimulação magnética transcraniana,técnica que induz correntes elétricas no córtex motor a produzir movimentos musculares, foi a opção adotada por Hugo Théoret, daUniversidade de Montreal, e seus colaboradores para estudar a atividade dos neurônios-espelho em portadores da doença. Nosintegrantes dos grupos de controle, movimentos de mão induzidos eram mais acentuados quando eles assistiam ao vídeo dessesmovimentos; e menos intensos nos indivíduos autistas. Os resultados desses estudos são a confirmação incontestável da tese de que as pessoas com autismo sofrem de disfunção dosistema de neurônios-espelho. Embora ainda não saibam quais fatores genéticos ou ambientais de risco impedem o desenvolvimentodesses neurônios ou alteram seu funcionamento, pesquisadores empenham-se com rigor em confirmar a hipótese, pois ela explicasintomas que são exclusivos do autismo. Não só estes: a deficiência dessa classe de células nervosas responde por outros, menosconhecidos. Sabe-se há tempos que crianças autistas costumam ter dificuldade de interpretar provérbios e metáforas. Uma vez pedimos aum dos nossos meninos que "baixasse a bola". Ele levou a instrução ao pé da letra: pegou uma bola e colocou-a no chão. Presente apenasem algumas crianças que sofrem do distúrbio, essa dificuldade permanece inexplicada. Entender metáforas exige a capacidade de extrair um denominador comum de realidades aparentemente desconexas.Tomemos como exemplo o efeito bouba-kiki, descoberto há mais de 60 anos por Wolfgang Kohler, um dos fundadores da escolagestalt. No teste desenvolvido pelo psicólogo teuto-americano, dois desenhos são apresentados, um curvilíneo, lembrando um borrãode tinta, o outro pontudo, como uma lasca de vidro. À pergunta qual é bouba, qual é kiki, 98% das pessoas apontarão o objetoarredondado como bouba e o pontudo como kiki, qualquer que seja seu idioma nativo. Isso significa que o cérebro é capaz deestabelecer propriedades abstraías de formas e sons. A boca assume abruptamente formato angular enquanto a língua faz rápida flexãono palato para produzirem a entrecortada e áspera sonoridade kiki; já a suave ondulação da figura amebia-na mimetiza metaforicamente ocírculo que os lábios descrevem para produzir o som bouba. Note-se que, no alfabeto romano, a forma angular está presente nodesenho da letra k e da letra i, e a arredondada, no traço do b, do o e do a. Nossa conjectura: essas inter-relações por analogia devemser similares ao mecanismo mental da criação da metáfora, e delas certamente participam circuitos neurais aparentados com o sistemados neurônios-espelho. Crianças com autismo submetidas ao teste invariavelmente atribuem nome errado às figuras. Que parte do nosso órgão do pensamento atua nessa habilidade? O giro angular, localizado bem no cruzamento dos centrosresponsáveis pela audição, visão e tato, parecia ser o melhor candidato, não só por sua posição estratégica como por terem nele sido identificadas células nervosas OS AUTORES dotadas das mesmas VILAYANUR S.RAMACHANDRAN e LINDSAYM. OBERMAN investigam as propriedades dos neurônios- relações entre autismo e neurônios-espelho no Centro de Pesquisas Cerebrais e Cognitivas da Universidade da Califórnia em San Diego. Ramachandran, que espelho. Quando estudamos dirige o centro, tem doutorado em neurociências pela Universidade de indivíduos não-autistas com Cambridge. Renomado especialista em anomalias cerebrais, ele é profundo lesão nessa área, descobrimos conhecedor da sinestesia e do fenómeno dos membros fantasmas. OBERMAN é que a maioria falhava no teste aluno de graduação da universidade, onde atua como pesquisador no grupo de bouba-kiki e tinha dificuldade Ramachandran desde 2002. de entender metáforas. Esses resultados apontam que afaculdade de fazer analogias pode ter surgido para ajudar os primatas na execução de tarefas motoras complexas como agarrargalhos de árvore (que exige assimilação imediata e simultânea de informações visuais, auditivas e táteis) e evoluído como aptidãode criar metáforas. O céu é o limite: os neurônios-espelhos permitem ao homem alcançar as estrelas, não só o topo das árvores.
  6. 6. Esses resultados são a confirmação incontestável de que autistas têm disfunção do sistema de neurônios-espelhoEspelhos Quebrados Podem SerOUTRA POSSIBILIDADE fascinante de tratar ou aliviar os sintomas: o biofeedback. O médico monitoraria as ondas mu da criança eas exibiria para ela num monitor. Se as funções de seus neurônios-espelho estiverem adormecidas em vez de ausentes, ela poderiarecobrá-las aprendendo - através de tentativa e erro e de feedback visual - a suprimir as ondas mu na própria tela. Nosso colega JamiePineda segue essa linha. Os primeiros resultados foram promissores. Esse tipo de técnica, porém, terá de complementar, jamais substituiras tradicionais terapias cognitivo-comportamentais.Nova abordagem terapêutica talvez possa corrigir desequilíbrios químicos que incapacitam os neurônios-espelho em autistas. Nossogrupo indicou que neurotrans-missores especializados podem aumentar a atividade de neurônios-espelho envolvidos nas respostasemocionais. Segundo essa hipótese, a carência parcial de substâncias explicaria a ausência de manifestações de emparia em quemsofre do distúrbio. Portanto, os pesquisadores devem procurar identificar compostos que estimulem a liberação dos
  7. 7. neurotransmissores ou reproduzam seus efeitos nos neurônios-espelho. Um candidato que merece análise é o MDMA, mais conhecidocomo ecstasy, que parece intensificar o contato emocional e a comunicação. Talvez seja possível identificar o composto paradesenvolver um tratamento eficaz e seguro capaz de aliviar ao menos alguns sintomas do autismo.O alívio trazido por esses tratamentos seria apenas parcial. A hipótese dos neurônios-espelho não consegue explicar outros sintomasdo autismo como movimentos repetitivos, contorções, ausência de contato visual, hipersensibilidade, aversão a determinados sons.Ao tentar estabelecer de que maneira esses sintomas secundários se manifestariam, nosso grupo (com a colaboração de WilliamHirstein, da Faculdade Elmhurst, estado de Illinois, e Portia Iversen, da fundação sem fins lucrativos Cure o Autismo Agora, comsede em Los Angeles) desenvolveu a salience landscape theory, que aqui chamaremos de "teoria do mapa topográfico emocional".Quando olhamos o mundo ao redor, recebemos uma carga descomunal de informações sensoriais - visuais, sonoras, olfativas eoutras. Depois de processadas nas regiões sensoriais do cérebro, elas são transmitidas para a amígdala, que atua como portal dosistema límbico, a unidade responsável pelas emoções. Usando o conhecimento armazenado, a amígdala determina como devemosreagir emocio-nalmente - com medo (ante um ladrão), sensualidade (diante da pessoa amada) ou indiferença (perante umainsignificância). As mensagens fluem em cascata por todo o sistema límbico, atingindo o sistema nervoso autónomo, que prepara ocorpo para a ação. Diante de um ladrão, o coração dispara e o corpo transpira para dissipar o calor causado pelo esforço muscular.A estimulação do sistema nervoso autónomo, por sua vez, envia sinais ao cérebro, ampliando a resposta emocional. Com o tempo,a amígdala cria uma espécie de banco de dados, um mapa topográfico detalhado dos significados emocionais do ambiente decada um de nós. Nosso grupo decidiu explorar a possibilidade de crianças autistas terem esse mapa distorcido, em razão de conexõesdeformadas entre as áreas corticais que processam dados sensoriais e a amígdala ou entre as estruturas límbicas e os lobos frontaisque regulam o comportamento resultante. Em decorrência dessas conexões anormais, qualquer objeto ou episódio trivialdesencadearia na mente uma resposta emocional extremada - uma tempestade autonômica. A hipótese explicaria por que criançasautistas tendem a evitar contato visual ou qualquer outra sensação nova capaz de deflagrar um turbilhão de sentimentos intensos. Apercepção distorcida de emoções significativas esclarece a razão de elas atribuírem importância exagerada a banalidades comohorários de trem e não expressarem interesse algum por coisas que as demais crianças julgam fascinantes.Obtivemos fundamentação para nossa hipótese quando monitoramos respostas autonômicas de um grupo de 37 crianças comtranstorno autístico. Com sensores de biofeedback mensuramos seu nível de condutibilidade da pele causado pela sudo-rese.Comparadas às crianças do grupo de controle, as autistas apresentaram índices gerais mais elevados de estimulação autonômica.Embora ficassem agitadas quando confrontadas com objetos e episódios triviais, na maioria das vezes não davam a menorimportância aos estímulos que, no grupo de controle, provocavam exata-mente as respostas esperadas.Como é possível o mapa topográfico emocional tornar-se tão distorcido? Pesquisas dão conta de que quase um terço das criançasautistas teve epilepsia do lobo temporal na primeira infância, mas a proporção deve ser bem maior, pois muitos ataques epiléticospassam despercebidos. Causadas por saraivadas aleatórias de impulsos nervosos que atravessam o sistema límbico, as convulsõesembaralham as conexões entre o córtex visual e a amígdala, indiscriminadamente fortalecendo umas e enfraquecendo outras. Emadultos, a epilepsia do lobo temporal causa distúrbios emocionais variados que não afetam radicalmente a cognição. Nas criançasde até 3 anos, ao contrário, resultam em grave deficiência. E, da mesma forma que o autismo, o risco da doença no lobo temporal naprimeira infância parece ser de ordem genética e ambiental. Alguns genes tornariam a criança suscetível a infecções virais, e estas apredisporiam a crises epiléticas. Nossas descobertas sobre as respostas autonômicas talvez ajudem a entender por que os médicos dizem que febre alta costumaaliviar temporariamente os sintomas do autismo. O sistema nervoso autónomo controla a temperatura do corpo; como é a mesmamalha neural que regula temperatura do corpo e explosões emocionais autísticas, possivelmente a febre diminua os efeitos dessasexplosões.A teoria do mapa topográfico emocional poderia igualmente elucidar os movi mentos corporais repetitivos e as pancadas na cabeçaauto-infligidas por crianças autistas. Esse comportamento, denominado auto-estimulação, talvez consiga amortecer as chamadastempestades autonômicas. Descobrimos que a auto-estimulação tinha, além do efeito calmante, o poder de comprovadamentereduzir a condutância da pele. Essa constatação aponta a probabilidade de terapia sintomatológica para tratar a doença a contento.Atualmente Hirstein desenvolve um dispositivo portátil para monitorar a condutância da pele de crianças autistas. Quando oaparelho detecta superexcitação autonômica, ele liga automaticamente outro dispositivo: um colete de suave compressão, queenvolve a criança e lhe dá a sensação de que alguém a abraça de modo gentil e caloroso. Nossas duas teorias candidatas a explicar os sintomas do autismo - disfunção dos neurônios-espelho e distorção do mapatopográfico emocional - não são necessariamente opostas. É possível que a mesma ocorrência que distorce o mapa topográfico -conexões embaralhadas entre o sistema límbico e as demais regiões cerebrais -danifique também os neurônios-espelho. Ou então, asconexões límbicas alteradas seriam um efeito colateral dos mesmos genes que desencadeiam as disfunções do sistema deneurônios-espelho. Muitos experimentos serão necessários para testar com rigor essas hipóteses. A verdadeira causa do autismopermanece um mistério. Enquanto ele não é desvendado, nossas especulações talvez ofereçam uma base útil para futuraspesquisas.
  8. 8. Se as funções dos neurônios-espelho estiverem adormecidas em vez de ausentes, será possível à criança recobrá-las PARA CONHECER MAISAbrieftourof humanconsciousness.VilayanurS. Ramachandran. Pi Press, 1995.Autonomic responses of autistic children to people and objects. William Mirstein, Portia Iverson e Vilaya-nur Ramachandran, emProceedings o/the Royal Soc/ety ofLondon B, vol. 268, págs. 1883-1888,2001.EEG evidence for mirrar neuron dysfunction in autism spectrum disorders. Lindsay M. Qberman, Edward M. Hubbard,Joseph P. McCIeery, Eric L. Altschuler, Jaime A. Pineda e Vilayanur S. Ramachandran, em Cogn/f/ve Brain Research, vol. 24,págs. 190-198,2005.Reflexos reveladores. David Dobbs, em Meme&Cérebro, edição 161, junho de 2006.
  9. 9. Se as funções dos neurônios-espelho estiverem adormecidas em vez de ausentes, será possível à criança recobrá-las PARA CONHECER MAISAbrieftourof humanconsciousness.VilayanurS. Ramachandran. Pi Press, 1995.Autonomic responses of autistic children to people and objects. William Mirstein, Portia Iverson e Vilaya-nur Ramachandran, emProceedings o/the Royal Soc/ety ofLondon B, vol. 268, págs. 1883-1888,2001.EEG evidence for mirrar neuron dysfunction in autism spectrum disorders. Lindsay M. Qberman, Edward M. Hubbard,Joseph P. McCIeery, Eric L. Altschuler, Jaime A. Pineda e Vilayanur S. Ramachandran, em Cogn/f/ve Brain Research, vol. 24,págs. 190-198,2005.Reflexos reveladores. David Dobbs, em Meme&Cérebro, edição 161, junho de 2006.

×