SlideShare uma empresa Scribd logo
1 de 2
Baixar para ler offline
A perda da aura

Um crítico francês do século passado, Paul de Saint-Victor, exclamou, certa vez, que os deuses
haviam abandonado a pintura moderna. Essa exclamação transformou-se numa verdade para
Malraux. No seu Museu imaginário da escultura mundial, Malraux acompanha o processo de
dessacralização da Arte, ocorrido a partir do Renascimento, quando ela começou a deixar de ser,
como Hegel suspeitou, um instrumento do homem na sua eterna busca da divindade. Perdendo o
contato com o numinoso, ela conquistou autonomia, e de representação do sagrado que era,
tornou-se sagrada. O culto votado à imagem dos deuses transferiu-se para o culto da Beleza,
último refúgio das ligações originárias da arte com a religião.
A sedução do objeto estético, o desinteresse do Belo, o seu caráter contemplativo, proviriam
dessa conaturalidade inicial entre o fenômeno artístico e o fenômeno religioso.
Não nos interessa a discussão da legitimidade dessa tese. O certo, porém, é que o objeto estético
- templo, monumento ou quadro - possui, para quem sabe contemplá-lo, uma inesgotabilidade,
uma estranha presença, palpável e fugidia, próxima e distante, que se impõe a cada ato de
contemplação dirigido para o objeto estético, singular e único, que guarda uma essência só dele
possuída e que só nele pode ser captada. É a aura, assim denominada por Walter Benjamin
("L'oeuvre d'art au temps de ses techniques de reproduction", in Oeuvres choisies, Julliard), essa
espécie de transcendência que assinala a presença única e singular das obras de arte. Uma das
mais importantes transformações a que estamos assistindo hoje, em decorrência dos meios
técnicos de reprodução de imagens - fotografia, cinema, televisão -, é, segundo Walter Benjamin,
a perda da aura das obras de arte, que, reproduzidas, divulgadas e vulgarizadas, para satisfazer às
necessidades da cultura de massa, multiplicam-se em grande número, tornando-se familiares e
banais. O resultado é o desgaste, pela multiplicação daquilo que é singular e irrepetível, da
presença que constitui a autenticidade da obra de arte. Concomitantemente, os meios de
reprodução, que causam a perda da aura, condicionam uma nova atitude em relação à Arte, que
não é mais a contemplativa solicitada pelas obras artísticas, cuja singularidade as técnicas de
reprodução de imagens vieram conturbar, e sim a atitude participante, condicionada sobretudo
pela ação do Cinema. Do Cinema, cuja natureza artística tanto se discute, da influência contínua
do espetáculo cinematográfico, resultariam novas condições psicológicas, de ordem emocional,
incompatíveis com a apreensão contemplativa exigida pela arte tradicional.
A cultura de massa é espetacular: assenta no espetáculo, requer o interessante, o raro, e são estes
que, como nos faz ver Lefebvre, em sua arguta análise das condições do espírito moderno, vão,
aos poucos, tomando o lugar do Belo. Os espetáculos que se apóiam nos meios técnicos de
reprodução da imagem, tais como os proporcionados pelo cinema e pela televisão, têm uma força
persuasiva que os da Antiguidade e do Renascimento jamais puderam alcançar. Com a
transmissão de imagens curiosas e interessantes pelos meios audiovisuais, os mitos do nosso
tempo se multiplicam, mas a linguagem simbólica, essencial à arte, estiola-se.
Entre mitos ativos e símbolos que o passado nos legou, qual a alternativa do artista? Terá ele,
teremos nós, consciência de que talvez estejamos engajados em algo que já não é mais arte; mas
o que será então e qual o seu nome?

(Henri Lefebvre, Introduction à Ia modernité, Les Éditions de Minuit, p. 272.)
NUNES, Benedito. “A perda da aura”. In: Introdução à Filosofia da Arte. São Paulo: Editora
Ática, 1999.p.52

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Movimentos de Vanguarda no Modernismo
Movimentos de Vanguarda no ModernismoMovimentos de Vanguarda no Modernismo
Movimentos de Vanguarda no ModernismoThiago Rodrigues
 
Amor, Desejo e Morte na Pintura e na Fotografia
Amor, Desejo e Morte na Pintura e na FotografiaAmor, Desejo e Morte na Pintura e na Fotografia
Amor, Desejo e Morte na Pintura e na FotografiaResumo Fotográfico
 
A pintura e as artes plásticas no barroco
A pintura e as artes plásticas no barrocoA pintura e as artes plásticas no barroco
A pintura e as artes plásticas no barrocoma.no.el.ne.ves
 
História da arte - Os ismos - Movimentos da Arte Moderna
História da arte - Os ismos - Movimentos da Arte ModernaHistória da arte - Os ismos - Movimentos da Arte Moderna
História da arte - Os ismos - Movimentos da Arte ModernaAndrea Dressler
 
As vanguardas artísticas
As vanguardas artísticasAs vanguardas artísticas
As vanguardas artísticascr962019
 
Caderno e anotações Teoria 2 - Cassia Chaffin
Caderno e anotações Teoria 2 - Cassia Chaffin Caderno e anotações Teoria 2 - Cassia Chaffin
Caderno e anotações Teoria 2 - Cassia Chaffin agccf
 
A arte do século xx 1
A arte do século xx 1A arte do século xx 1
A arte do século xx 1Carla Teixeira
 
Modernismo e os –Ismos da Vanguarda
Modernismo e os –Ismos da VanguardaModernismo e os –Ismos da Vanguarda
Modernismo e os –Ismos da VanguardaDina Baptista
 
Expressionismo (2) (1)
Expressionismo (2) (1)Expressionismo (2) (1)
Expressionismo (2) (1)Laguat
 
Arte 3 série_slide aula 02
Arte 3 série_slide aula 02Arte 3 série_slide aula 02
Arte 3 série_slide aula 02JulianoFonseca17
 
Do romantismo ao sec xx
Do romantismo ao sec xxDo romantismo ao sec xx
Do romantismo ao sec xxdenise lugli
 
Apresentação arte m oderna até início contemporânea
Apresentação  arte m oderna até início contemporâneaApresentação  arte m oderna até início contemporânea
Apresentação arte m oderna até início contemporânearosadebora
 

Mais procurados (20)

Moderno e pós moderno
Moderno e pós modernoModerno e pós moderno
Moderno e pós moderno
 
Movimentos de Vanguarda no Modernismo
Movimentos de Vanguarda no ModernismoMovimentos de Vanguarda no Modernismo
Movimentos de Vanguarda no Modernismo
 
Amor, Desejo e Morte na Pintura e na Fotografia
Amor, Desejo e Morte na Pintura e na FotografiaAmor, Desejo e Morte na Pintura e na Fotografia
Amor, Desejo e Morte na Pintura e na Fotografia
 
A pintura e as artes plásticas no barroco
A pintura e as artes plásticas no barrocoA pintura e as artes plásticas no barroco
A pintura e as artes plásticas no barroco
 
COR
CORCOR
COR
 
História da arte - Os ismos - Movimentos da Arte Moderna
História da arte - Os ismos - Movimentos da Arte ModernaHistória da arte - Os ismos - Movimentos da Arte Moderna
História da arte - Os ismos - Movimentos da Arte Moderna
 
As vanguardas artísticas
As vanguardas artísticasAs vanguardas artísticas
As vanguardas artísticas
 
Funções da arte
Funções da arteFunções da arte
Funções da arte
 
Arte moderna (4)
Arte moderna (4)Arte moderna (4)
Arte moderna (4)
 
Arte romantica
Arte romanticaArte romantica
Arte romantica
 
Arte Contemporânea
Arte ContemporâneaArte Contemporânea
Arte Contemporânea
 
Arte século xx 2
Arte século xx  2Arte século xx  2
Arte século xx 2
 
Caderno e anotações Teoria 2 - Cassia Chaffin
Caderno e anotações Teoria 2 - Cassia Chaffin Caderno e anotações Teoria 2 - Cassia Chaffin
Caderno e anotações Teoria 2 - Cassia Chaffin
 
A arte do século xx 1
A arte do século xx 1A arte do século xx 1
A arte do século xx 1
 
Modernismo e os –Ismos da Vanguarda
Modernismo e os –Ismos da VanguardaModernismo e os –Ismos da Vanguarda
Modernismo e os –Ismos da Vanguarda
 
Artes.
Artes.Artes.
Artes.
 
Expressionismo (2) (1)
Expressionismo (2) (1)Expressionismo (2) (1)
Expressionismo (2) (1)
 
Arte 3 série_slide aula 02
Arte 3 série_slide aula 02Arte 3 série_slide aula 02
Arte 3 série_slide aula 02
 
Do romantismo ao sec xx
Do romantismo ao sec xxDo romantismo ao sec xx
Do romantismo ao sec xx
 
Apresentação arte m oderna até início contemporânea
Apresentação  arte m oderna até início contemporâneaApresentação  arte m oderna até início contemporânea
Apresentação arte m oderna até início contemporânea
 

Semelhante a A perda da aura

Estética e Arte Contemporânea - Aulas 1 e 2
Estética e Arte Contemporânea - Aulas 1 e 2Estética e Arte Contemporânea - Aulas 1 e 2
Estética e Arte Contemporânea - Aulas 1 e 2Fernando Alves
 
Introdução à arte
Introdução à arteIntrodução à arte
Introdução à arteEllen_A
 
A obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnica
A obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnicaA obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnica
A obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnicaFLAVIO DIUNIZIO
 
As artes na atualidade
As artes na atualidadeAs artes na atualidade
As artes na atualidadeAna Barreiros
 
Criação do humano maquina
Criação do humano maquinaCriação do humano maquina
Criação do humano maquinaVenise Melo
 
Aula 01 introdução a arte como experiência
Aula 01 introdução a arte como experiênciaAula 01 introdução a arte como experiência
Aula 01 introdução a arte como experiênciaElizeu Nascimento Silva
 
Oficina Imagem Complexa e Analise de Imagem na Contemporaneidade na Semana de...
Oficina Imagem Complexa e Analise de Imagem na Contemporaneidade na Semana de...Oficina Imagem Complexa e Analise de Imagem na Contemporaneidade na Semana de...
Oficina Imagem Complexa e Analise de Imagem na Contemporaneidade na Semana de...UNIP. Universidade Paulista
 
Rancière, jacques. de uma imagem à outra deleuze e as eras do cinema
Rancière, jacques. de uma imagem à outra deleuze e as eras do cinemaRancière, jacques. de uma imagem à outra deleuze e as eras do cinema
Rancière, jacques. de uma imagem à outra deleuze e as eras do cinemananablue2007
 
Arte Conceitual Semina´Rio
Arte Conceitual  Semina´RioArte Conceitual  Semina´Rio
Arte Conceitual Semina´Rioguest2b9b0d
 
A arte somos_nos_web
A arte somos_nos_webA arte somos_nos_web
A arte somos_nos_webZimaldo Melo
 

Semelhante a A perda da aura (20)

Estética e Arte Contemporânea - Aulas 1 e 2
Estética e Arte Contemporânea - Aulas 1 e 2Estética e Arte Contemporânea - Aulas 1 e 2
Estética e Arte Contemporânea - Aulas 1 e 2
 
Arte 1o2o ano 11.02.2014
Arte 1o2o ano 11.02.2014Arte 1o2o ano 11.02.2014
Arte 1o2o ano 11.02.2014
 
Pós Modernismo
Pós ModernismoPós Modernismo
Pós Modernismo
 
Introdução à arte
Introdução à arteIntrodução à arte
Introdução à arte
 
A obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnica
A obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnicaA obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnica
A obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnica
 
As artes na atualidade
As artes na atualidadeAs artes na atualidade
As artes na atualidade
 
Arteterapia 02
Arteterapia 02Arteterapia 02
Arteterapia 02
 
V dfilo cap4p_arte
V dfilo cap4p_arteV dfilo cap4p_arte
V dfilo cap4p_arte
 
benjamin-midiaeterritorio.pdf
benjamin-midiaeterritorio.pdfbenjamin-midiaeterritorio.pdf
benjamin-midiaeterritorio.pdf
 
Arte e mercado
Arte e mercadoArte e mercado
Arte e mercado
 
Estética2
Estética2Estética2
Estética2
 
9ano
9ano9ano
9ano
 
Arte
ArteArte
Arte
 
Aula barroco
Aula barrocoAula barroco
Aula barroco
 
Criação do humano maquina
Criação do humano maquinaCriação do humano maquina
Criação do humano maquina
 
Aula 01 introdução a arte como experiência
Aula 01 introdução a arte como experiênciaAula 01 introdução a arte como experiência
Aula 01 introdução a arte como experiência
 
Oficina Imagem Complexa e Analise de Imagem na Contemporaneidade na Semana de...
Oficina Imagem Complexa e Analise de Imagem na Contemporaneidade na Semana de...Oficina Imagem Complexa e Analise de Imagem na Contemporaneidade na Semana de...
Oficina Imagem Complexa e Analise de Imagem na Contemporaneidade na Semana de...
 
Rancière, jacques. de uma imagem à outra deleuze e as eras do cinema
Rancière, jacques. de uma imagem à outra deleuze e as eras do cinemaRancière, jacques. de uma imagem à outra deleuze e as eras do cinema
Rancière, jacques. de uma imagem à outra deleuze e as eras do cinema
 
Arte Conceitual Semina´Rio
Arte Conceitual  Semina´RioArte Conceitual  Semina´Rio
Arte Conceitual Semina´Rio
 
A arte somos_nos_web
A arte somos_nos_webA arte somos_nos_web
A arte somos_nos_web
 

Mais de Fernanda Câmara

Mais de Fernanda Câmara (20)

As mãos dos pretos.
As mãos dos pretos.As mãos dos pretos.
As mãos dos pretos.
 
Um amor conquistado o mito do amor materno (pdf) (rev)
Um amor conquistado o mito do amor materno (pdf) (rev)Um amor conquistado o mito do amor materno (pdf) (rev)
Um amor conquistado o mito do amor materno (pdf) (rev)
 
Elisabete badinter
Elisabete badinterElisabete badinter
Elisabete badinter
 
Cassandra rios e o tesão de mulher por mulher
Cassandra rios e o tesão de mulher por mulherCassandra rios e o tesão de mulher por mulher
Cassandra rios e o tesão de mulher por mulher
 
Bourdieu
BourdieuBourdieu
Bourdieu
 
Modalizadores
ModalizadoresModalizadores
Modalizadores
 
Carlos franchi mas o que é mesmo gramática.
Carlos franchi   mas o que é mesmo gramática.Carlos franchi   mas o que é mesmo gramática.
Carlos franchi mas o que é mesmo gramática.
 
Gramática travaglia
Gramática   travagliaGramática   travaglia
Gramática travaglia
 
Prática texto 2
Prática   texto 2Prática   texto 2
Prática texto 2
 
DIAGNÓSTICO DAS CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM E DE GRAMÁTICA NAS AULAS DE LÍNGUA PO...
DIAGNÓSTICO DAS CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM E DE GRAMÁTICA NAS AULAS DE LÍNGUA PO...DIAGNÓSTICO DAS CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM E DE GRAMÁTICA NAS AULAS DE LÍNGUA PO...
DIAGNÓSTICO DAS CONCEPÇÕES DE LINGUAGEM E DE GRAMÁTICA NAS AULAS DE LÍNGUA PO...
 
Teoria da enunciação
Teoria da enunciaçãoTeoria da enunciação
Teoria da enunciação
 
Linguística textual
Linguística textualLinguística textual
Linguística textual
 
Aspectos constitutivos da enunciação
Aspectos constitutivos da enunciaçãoAspectos constitutivos da enunciação
Aspectos constitutivos da enunciação
 
morfologia
morfologiamorfologia
morfologia
 
Arquivo 4
Arquivo 4Arquivo 4
Arquivo 4
 
Arquivo 3
Arquivo 3Arquivo 3
Arquivo 3
 
Arquivo 3
Arquivo 3Arquivo 3
Arquivo 3
 
Arquivo 1
Arquivo 1Arquivo 1
Arquivo 1
 
Teoria literária 2
Teoria literária 2Teoria literária 2
Teoria literária 2
 
Safo
SafoSafo
Safo
 

Último

19 de abril - Dia dos povos indigenas brasileiros
19 de abril - Dia dos povos indigenas brasileiros19 de abril - Dia dos povos indigenas brasileiros
19 de abril - Dia dos povos indigenas brasileirosMary Alvarenga
 
PLANEJAMENTO anual do 3ANO fundamental 1 MG.pdf
PLANEJAMENTO anual do  3ANO fundamental 1 MG.pdfPLANEJAMENTO anual do  3ANO fundamental 1 MG.pdf
PLANEJAMENTO anual do 3ANO fundamental 1 MG.pdfProfGleide
 
Linguagem verbal , não verbal e mista.pdf
Linguagem verbal , não verbal e mista.pdfLinguagem verbal , não verbal e mista.pdf
Linguagem verbal , não verbal e mista.pdfLaseVasconcelos1
 
TIPOS DE DISCURSO - TUDO SALA DE AULA.pdf
TIPOS DE DISCURSO - TUDO SALA DE AULA.pdfTIPOS DE DISCURSO - TUDO SALA DE AULA.pdf
TIPOS DE DISCURSO - TUDO SALA DE AULA.pdfmarialuciadasilva17
 
Slide de exemplo sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo.pptx
Slide de exemplo sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo.pptxSlide de exemplo sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo.pptx
Slide de exemplo sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo.pptxconcelhovdragons
 
Apresentação sobre o Combate a Dengue 2024
Apresentação sobre o Combate a Dengue 2024Apresentação sobre o Combate a Dengue 2024
Apresentação sobre o Combate a Dengue 2024GleyceMoreiraXWeslle
 
Mini livro sanfona - Povos Indigenas Brasileiros
Mini livro sanfona  - Povos Indigenas BrasileirosMini livro sanfona  - Povos Indigenas Brasileiros
Mini livro sanfona - Povos Indigenas BrasileirosMary Alvarenga
 
Combinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptx
Combinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptx
Combinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxalessandraoliveira324
 
Cultura e Sociedade - Texto de Apoio.pdf
Cultura e Sociedade - Texto de Apoio.pdfCultura e Sociedade - Texto de Apoio.pdf
Cultura e Sociedade - Texto de Apoio.pdfaulasgege
 
Prática de interpretação de imagens de satélite no QGIS
Prática de interpretação de imagens de satélite no QGISPrática de interpretação de imagens de satélite no QGIS
Prática de interpretação de imagens de satélite no QGISVitor Vieira Vasconcelos
 
DIA DO INDIO - FLIPBOOK PARA IMPRIMIR.pdf
DIA DO INDIO - FLIPBOOK PARA IMPRIMIR.pdfDIA DO INDIO - FLIPBOOK PARA IMPRIMIR.pdf
DIA DO INDIO - FLIPBOOK PARA IMPRIMIR.pdfIedaGoethe
 
6°ano Uso de pontuação e acentuação.pptx
6°ano Uso de pontuação e acentuação.pptx6°ano Uso de pontuação e acentuação.pptx
6°ano Uso de pontuação e acentuação.pptxErivaldoLima15
 
Gametogênese, formação dos gametas masculino e feminino
Gametogênese, formação dos gametas masculino e femininoGametogênese, formação dos gametas masculino e feminino
Gametogênese, formação dos gametas masculino e femininoCelianeOliveira8
 
Slides Lição 3, CPAD, O Céu - o Destino do Cristão, 2Tr24,.pptx
Slides Lição 3, CPAD, O Céu - o Destino do Cristão, 2Tr24,.pptxSlides Lição 3, CPAD, O Céu - o Destino do Cristão, 2Tr24,.pptx
Slides Lição 3, CPAD, O Céu - o Destino do Cristão, 2Tr24,.pptxLuizHenriquedeAlmeid6
 
Slides Lição 3, Betel, Ordenança para congregar e prestar culto racional, 2Tr...
Slides Lição 3, Betel, Ordenança para congregar e prestar culto racional, 2Tr...Slides Lição 3, Betel, Ordenança para congregar e prestar culto racional, 2Tr...
Slides Lição 3, Betel, Ordenança para congregar e prestar culto racional, 2Tr...LuizHenriquedeAlmeid6
 
Slides Lição 2, Central Gospel, A Volta Do Senhor Jesus , 1Tr24.pptx
Slides Lição 2, Central Gospel, A Volta Do Senhor Jesus , 1Tr24.pptxSlides Lição 2, Central Gospel, A Volta Do Senhor Jesus , 1Tr24.pptx
Slides Lição 2, Central Gospel, A Volta Do Senhor Jesus , 1Tr24.pptxLuizHenriquedeAlmeid6
 
Aula 1, 2 Bacterias Características e Morfologia.pptx
Aula 1, 2  Bacterias Características e Morfologia.pptxAula 1, 2  Bacterias Características e Morfologia.pptx
Aula 1, 2 Bacterias Características e Morfologia.pptxpamelacastro71
 
Sistema de Bibliotecas UCS - A descoberta da terra
Sistema de Bibliotecas UCS  - A descoberta da terraSistema de Bibliotecas UCS  - A descoberta da terra
Sistema de Bibliotecas UCS - A descoberta da terraBiblioteca UCS
 
Dança Contemporânea na arte da dança primeira parte
Dança Contemporânea na arte da dança primeira parteDança Contemporânea na arte da dança primeira parte
Dança Contemporânea na arte da dança primeira partecoletivoddois
 

Último (20)

19 de abril - Dia dos povos indigenas brasileiros
19 de abril - Dia dos povos indigenas brasileiros19 de abril - Dia dos povos indigenas brasileiros
19 de abril - Dia dos povos indigenas brasileiros
 
PLANEJAMENTO anual do 3ANO fundamental 1 MG.pdf
PLANEJAMENTO anual do  3ANO fundamental 1 MG.pdfPLANEJAMENTO anual do  3ANO fundamental 1 MG.pdf
PLANEJAMENTO anual do 3ANO fundamental 1 MG.pdf
 
Linguagem verbal , não verbal e mista.pdf
Linguagem verbal , não verbal e mista.pdfLinguagem verbal , não verbal e mista.pdf
Linguagem verbal , não verbal e mista.pdf
 
TIPOS DE DISCURSO - TUDO SALA DE AULA.pdf
TIPOS DE DISCURSO - TUDO SALA DE AULA.pdfTIPOS DE DISCURSO - TUDO SALA DE AULA.pdf
TIPOS DE DISCURSO - TUDO SALA DE AULA.pdf
 
Slide de exemplo sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo.pptx
Slide de exemplo sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo.pptxSlide de exemplo sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo.pptx
Slide de exemplo sobre o Sítio do Pica Pau Amarelo.pptx
 
Apresentação sobre o Combate a Dengue 2024
Apresentação sobre o Combate a Dengue 2024Apresentação sobre o Combate a Dengue 2024
Apresentação sobre o Combate a Dengue 2024
 
Mini livro sanfona - Povos Indigenas Brasileiros
Mini livro sanfona  - Povos Indigenas BrasileirosMini livro sanfona  - Povos Indigenas Brasileiros
Mini livro sanfona - Povos Indigenas Brasileiros
 
Combinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptx
Combinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptx
Combinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptxCombinatória.pptx
 
Cultura e Sociedade - Texto de Apoio.pdf
Cultura e Sociedade - Texto de Apoio.pdfCultura e Sociedade - Texto de Apoio.pdf
Cultura e Sociedade - Texto de Apoio.pdf
 
Prática de interpretação de imagens de satélite no QGIS
Prática de interpretação de imagens de satélite no QGISPrática de interpretação de imagens de satélite no QGIS
Prática de interpretação de imagens de satélite no QGIS
 
DIA DO INDIO - FLIPBOOK PARA IMPRIMIR.pdf
DIA DO INDIO - FLIPBOOK PARA IMPRIMIR.pdfDIA DO INDIO - FLIPBOOK PARA IMPRIMIR.pdf
DIA DO INDIO - FLIPBOOK PARA IMPRIMIR.pdf
 
6°ano Uso de pontuação e acentuação.pptx
6°ano Uso de pontuação e acentuação.pptx6°ano Uso de pontuação e acentuação.pptx
6°ano Uso de pontuação e acentuação.pptx
 
Gametogênese, formação dos gametas masculino e feminino
Gametogênese, formação dos gametas masculino e femininoGametogênese, formação dos gametas masculino e feminino
Gametogênese, formação dos gametas masculino e feminino
 
Slides Lição 3, CPAD, O Céu - o Destino do Cristão, 2Tr24,.pptx
Slides Lição 3, CPAD, O Céu - o Destino do Cristão, 2Tr24,.pptxSlides Lição 3, CPAD, O Céu - o Destino do Cristão, 2Tr24,.pptx
Slides Lição 3, CPAD, O Céu - o Destino do Cristão, 2Tr24,.pptx
 
treinamento brigada incendio 2024 no.ppt
treinamento brigada incendio 2024 no.ppttreinamento brigada incendio 2024 no.ppt
treinamento brigada incendio 2024 no.ppt
 
Slides Lição 3, Betel, Ordenança para congregar e prestar culto racional, 2Tr...
Slides Lição 3, Betel, Ordenança para congregar e prestar culto racional, 2Tr...Slides Lição 3, Betel, Ordenança para congregar e prestar culto racional, 2Tr...
Slides Lição 3, Betel, Ordenança para congregar e prestar culto racional, 2Tr...
 
Slides Lição 2, Central Gospel, A Volta Do Senhor Jesus , 1Tr24.pptx
Slides Lição 2, Central Gospel, A Volta Do Senhor Jesus , 1Tr24.pptxSlides Lição 2, Central Gospel, A Volta Do Senhor Jesus , 1Tr24.pptx
Slides Lição 2, Central Gospel, A Volta Do Senhor Jesus , 1Tr24.pptx
 
Aula 1, 2 Bacterias Características e Morfologia.pptx
Aula 1, 2  Bacterias Características e Morfologia.pptxAula 1, 2  Bacterias Características e Morfologia.pptx
Aula 1, 2 Bacterias Características e Morfologia.pptx
 
Sistema de Bibliotecas UCS - A descoberta da terra
Sistema de Bibliotecas UCS  - A descoberta da terraSistema de Bibliotecas UCS  - A descoberta da terra
Sistema de Bibliotecas UCS - A descoberta da terra
 
Dança Contemporânea na arte da dança primeira parte
Dança Contemporânea na arte da dança primeira parteDança Contemporânea na arte da dança primeira parte
Dança Contemporânea na arte da dança primeira parte
 

A perda da aura

  • 1. A perda da aura Um crítico francês do século passado, Paul de Saint-Victor, exclamou, certa vez, que os deuses haviam abandonado a pintura moderna. Essa exclamação transformou-se numa verdade para Malraux. No seu Museu imaginário da escultura mundial, Malraux acompanha o processo de dessacralização da Arte, ocorrido a partir do Renascimento, quando ela começou a deixar de ser, como Hegel suspeitou, um instrumento do homem na sua eterna busca da divindade. Perdendo o contato com o numinoso, ela conquistou autonomia, e de representação do sagrado que era, tornou-se sagrada. O culto votado à imagem dos deuses transferiu-se para o culto da Beleza, último refúgio das ligações originárias da arte com a religião. A sedução do objeto estético, o desinteresse do Belo, o seu caráter contemplativo, proviriam dessa conaturalidade inicial entre o fenômeno artístico e o fenômeno religioso. Não nos interessa a discussão da legitimidade dessa tese. O certo, porém, é que o objeto estético - templo, monumento ou quadro - possui, para quem sabe contemplá-lo, uma inesgotabilidade, uma estranha presença, palpável e fugidia, próxima e distante, que se impõe a cada ato de contemplação dirigido para o objeto estético, singular e único, que guarda uma essência só dele possuída e que só nele pode ser captada. É a aura, assim denominada por Walter Benjamin ("L'oeuvre d'art au temps de ses techniques de reproduction", in Oeuvres choisies, Julliard), essa espécie de transcendência que assinala a presença única e singular das obras de arte. Uma das mais importantes transformações a que estamos assistindo hoje, em decorrência dos meios técnicos de reprodução de imagens - fotografia, cinema, televisão -, é, segundo Walter Benjamin, a perda da aura das obras de arte, que, reproduzidas, divulgadas e vulgarizadas, para satisfazer às necessidades da cultura de massa, multiplicam-se em grande número, tornando-se familiares e banais. O resultado é o desgaste, pela multiplicação daquilo que é singular e irrepetível, da presença que constitui a autenticidade da obra de arte. Concomitantemente, os meios de reprodução, que causam a perda da aura, condicionam uma nova atitude em relação à Arte, que não é mais a contemplativa solicitada pelas obras artísticas, cuja singularidade as técnicas de reprodução de imagens vieram conturbar, e sim a atitude participante, condicionada sobretudo pela ação do Cinema. Do Cinema, cuja natureza artística tanto se discute, da influência contínua do espetáculo cinematográfico, resultariam novas condições psicológicas, de ordem emocional, incompatíveis com a apreensão contemplativa exigida pela arte tradicional.
  • 2. A cultura de massa é espetacular: assenta no espetáculo, requer o interessante, o raro, e são estes que, como nos faz ver Lefebvre, em sua arguta análise das condições do espírito moderno, vão, aos poucos, tomando o lugar do Belo. Os espetáculos que se apóiam nos meios técnicos de reprodução da imagem, tais como os proporcionados pelo cinema e pela televisão, têm uma força persuasiva que os da Antiguidade e do Renascimento jamais puderam alcançar. Com a transmissão de imagens curiosas e interessantes pelos meios audiovisuais, os mitos do nosso tempo se multiplicam, mas a linguagem simbólica, essencial à arte, estiola-se. Entre mitos ativos e símbolos que o passado nos legou, qual a alternativa do artista? Terá ele, teremos nós, consciência de que talvez estejamos engajados em algo que já não é mais arte; mas o que será então e qual o seu nome? (Henri Lefebvre, Introduction à Ia modernité, Les Éditions de Minuit, p. 272.) NUNES, Benedito. “A perda da aura”. In: Introdução à Filosofia da Arte. São Paulo: Editora Ática, 1999.p.52