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acredita que no próximo século os estúdios                  Bradbury ou Isaac Asimov, já nos anos 40 evão utilizar câmaras...
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simplesmente uma troca de ferramenta                        de problemas formais, imaginando novaspara a solução formal. O...
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Criação do humano maquina

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Criação do humano maquina

  1. 1. IMAGEMLeiturasIconográficas ePós-Modernidade:da criaçãohumana àcriação dohumano/máquina GRANDES SOMBRAS, REPRESENTAÇÕES de angús- tia e sofrimento nas imagens humanas doRESUMO início do século materializaram-se pelasA criação de imagens ou das propostas visuais pelos artistas técnicas de xilogravura, em torno de 1905,de diversas épocas foi, gradativamente, sofrendo transfor- manifestando e comunicando não só o dra-mações no modo representativo nos campos da iconografia e ma individual do ser, mas, igualmente, oda iconologia, devido às novas tecnologias e aos novos méto- drama da sociedade. Esta técnica, introdu-dos científicos. zida na Europa por volta do século XV e inspirada nos vitrais góticos, com linhasABSTRACT negras contornando as figuras, a dramatici-This article describes the means for creating imagery in the dade e os sentimentos evocativos do con-context of the new thecnologies and scientific developments. traste, já fornecia uma antecipação de umaThese changes are seen within the context of the post- Pós-Modernidade emergente.modernity condition.Maria Beatriz Furtado RahdeProf. Dr. do Prog. de Pós-graduação da FAMECOS/PUCRS Amedeu Modigliani - Expressionismo: Cabeça de mulher (1917) Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 11 • dezembro 1999 • semestral 75
  2. 2. Se teoricamente foram os anos setenta transcurso de sua expressividade.que marcaram o início da Pós-Modernida- Experiências de representações visu-de (Harvey, 1992), os movimentos icono- ais levaram os artistas dos anos 60 a intera-gráficos pós-modernos tiveram sua origem gir com a ciência e a tecnologia sob o nomeno Expressionismo, no Cubismo, no Dada- de arte cinética, utilizando-se da luz, do mo-ísmo, com técnicas de combinações de ma- vimento e da cor, numa tentativa de siste-teriais, como a colagem, na sua maneira li- matizar a arte visual.vre de pintar. Imagens de histórias em qua- Era a busca de resolução de proble-drinhos, garrafas de coca-cola, restos de pa- mas propostos pelo Construtivismo, pelopel pintado, pedaços de tecido, que se de- Dadaísmo, pelo Surrealismo e os artistas,nominaram de combine-painting na década na sua maioria, passaram a interessar-sede sessenta foram as pioneiras concepções por uma tecnologia crescente, que os con-imagísticas elaboradas pelo americano Ro- duziu, gradativamente, na procura de no-bert Rauschenberg entre 1960-1970 , no mo- vos caminhos experimentais.vimento Neo-Dada (Thomas, 1994) . Esta busca levou-os a abandonar exer- Fernand Léger – Cubismo: Jazz (1912-1925) Alexander Calder – Móbile (1968) O environment, uma organização artís- cícios com materiais tradicionais , pois es-tica dos espaços, destaca-se, entre muitos, tavam mais preocupados em realizar mu-neste período de transição, empregando di- danças no interior do universo gráfico/versos materiais e elementos da mídia para plástico, do que na realização da obra dechamar diretamente a atenção sobre a capa- arte, buscando alternativas de construçãocidade de associação e predisponibilidade formal e visual que modificassem a expres-de reflexão por parte do espectador. Nesta sividade das imagens, por meio da inova-direção, novas figurações foram alcançando ção da arte com a tecnologia e a ciêncianumerosas e diversificadas formas, no Em 1967, no Museu de Arte Moderna76 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 11 • dezembro 1999 • semestral
  3. 3. de Paris realizou-se a exposição “Luz e cebendo-se a música cinética de cor, a sínteseMovimento”, organizada por Frank Po- cosmológica da música, das matemáticas,pper. Esta mostra reuniu artistas plásticos numa conjugação dos conhecimentos cientí-que buscavam a expansão da arte cinética e ficos com os conhecimentos pictóricos.os trabalhos apresentados foram constituí- Propostas ambientais passaram a domi-dos de obras criadas e construídas pelo nar os anos setenta, por meio de labirintos, jo-movimento real da luz artificial , conforme gos , transformações de estruturas em espaçoso organizador da mostra. Alguns estavam internos, criados com técnicas coloridas ou efei-ainda preocupados ou inspirados pelos fe- tos musicais e reflexões em torno de formas fo-nômenos estéticos, entretanto, a maioria tografadas e expostas com textos, na sua maio-deles buscou na técnica os meios de ex- ria herméticos, que eram colocados diante dopressão ainda pouco usados até aquela dé- espectador para serem interpretados. A inter-cada (Popper, in: Parente, 1993). venção do público na obra tornou-se um fator natural, já que esta era uma das muitas inten- “Deste modo, arcos, spots projetores ções destas propostas. dos mais variados tipos...tubos de néon...brancos ou coloridos, tubos flu- orescentes faziam sua entrada maciça num museu, criando ritmos engendra- dos ou produzindo efeitos...da inten- sidade, da diversidade dos projetores ...Essas características técnicas do componente da ‘luz’ combinavam-se de uma maneira extremamente diver- sa dos movimentos mecânicos simples ...eletrônicos, ...hidráulicos ...dos mo- vimentos aleatórios dos ‘móbiles’ e dos movimentos com fonte de luz pró- Vera Chaves – Testartes: O que há por detrás? (1975) pria.” (Popper, in: Parente, 1993) Na XXXVII Bienal Internacional de Entretanto, cabe salientar que o artista Veneza, em 1976, diversos artistas apresen-tcheco, Zdenek Pesánek já havia construído taram tais propostas. Interessante e intri-formas cinéticas , por volta de 1925, que gante era o trabalho da gaúcha Vera Cha-operavam com a exploração da luminosida- ves, com seus “Testartes”, enfocando as-de artificial e as possibilidades óticas da luz pectos da percepção do observador frente àelétrica. Pesánek explorou uma análise teó- fotografias em preto e branco, que mostra-rica da luz artificial, buscando as diferenças vam portas, portões, janelas fechadas, bal-entre a luz/plano e a luz/espacial. Nestes cões. Envolvendo o espectador nos seusaparatos e acordes obtidos por teclados de processos imaginários e mentais, a artistapiano, acoplados matematicamente ao ele- estava interessada nas leituras destas ima-mento de transmissão de luz, os efeitos da gens e, principalmente, nas respostas queluz e do som exibiam formas multicores de tais fotografias desencadeavam naquelesluminosidade, numa composição de man- que observavam estas imagens e deixavamchas abstratas de cor que fascinava os artis- por escrito suas impressões pessoais, diantetas (Thomas, 1994). Era uma nova abstração da questão: “O que há por detrás?”de imagens projetadas no espaço, que al- Estas e outras propostas , como já ha-cançou o seu auge nos anos sessenta: as via realizado a escultora Lygia Clark, entreformas imagísticas deixavam de ser apenas tantos, constituíam-se na desestetização davisuais para se tornarem audiovisuais, con- arte, não importando, realmente, se os tra- Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 11 • dezembro 1999 • semestral 77
  4. 4. balhos se configuravam como obra de arte, e/ou digitalizadas em programas específi-mas procurando também envolver o espec- cos dos computadores interagem com o es-tador nos aspectos psicológicos da leitura pectador, conduzindo-o a uma nova alfa-imagística. betização em que o simbólico e o imaginá- Na década de oitenta houve uma que- rio se entrelaçam, criando uma nova “bele-bra de relações na arte visual das décadas za” estética, que muitas vezes foge à com-anteriores e passaram- se a pesquisar as no- preensão do fruidor da obra .vas tecnologias, como o computador e o Se a arte /tecnologia vem se tornandoaudiovisual , estabelecendo-se verdadeira cada vez mais interativa ela está se transfor-revolução nas artes. mando num meio pelo qual nós refletimos e A técnica passa a ser valorizada para nos comunicamos com nós mesmos, argu-finalidades estéticas e é a partir daí que se menta Rokeby (1997) , da mesma forma quepode estabelecer uma arte da tecnologia e um reflexo de nossa imagem num espelho,da ciência, na qual a pesquisa estética e a que se transforma pelas muitas distorçõespesquisa tecnológica se interrelacionam. das sombras refletidas. Os artistas deixaram-se envolver pe-las possibilidades da inteligência artificial,buscando o conhecimento de dados técni-cos que permitiram o aperfeiçoamento deprogramas de computação gráfica capazesde realizar com a máquina, o que antes eraproduzido pela mão humana. Novas propostas imagísticas foramcriadas, buscando-se a ligação entre o co-nhecimento artístico do homem e as novastecnologias para a solução das criações es-téticas. A teoria e o fazer artístico, antes dis-tanciados do apoio da solução científica,encontraram novas formulações, atendo-se George Segal – Instalação: A janela do restaurante (1967)mais ao processo do que ao produto finalno conceito de obra. Supõe-se que estas novas tecnologias As imagens ocuparam outros espaços, estão provocando surgimento de novas lin-pois que numerosas produções artísticas guagens imagísticas, novos pensamentos,passaram a necessitar de cálculos e siste- sentimentos e percepções, como a lenda ja-matização matemática. Iniciou-se, assim, ponesa Das imagens misteriosas dos reflexos,uma nova era na qual o impacto das novas que oferece uma interessante analogia.tecnologias, utilizadas como ferramenta de Numa distante aldeia japonesa de Yo-criação, provocaram mudanças fundamen- wcuski os espelhos eram desconhecidos.tais na concepção da cultura (Popper, in: Certo dia um jovem camponês encontrouParente, 1993). na rua um espelho de bolso e, como era a É desta forma que a imagem não primeira vez que via tal objeto, admirou-semais é o lugar da metáfora mas da meta- ao ver nele a imagem de um rosto moreno,morfose, diz Couchot (1988), pois os artis- de olhos escuros e inteligentes. Imediata-tas que trocaram o lápis, o papel, as telas e mente pensou ser o retrato de seu falecidoas tintas por outras possibilidades tecnoló- pai, julgando ser um aviso dos deuses.gicas encontraram novas formas de explo- Guardou o objeto num lenço e levou-o pararação das imagens, unindo criatividade sua casa, escondendo-o num jarro para quecom soluções técnicas, ou mesmo soluções estivesse seguro. Dia após dia, olhava o ros-matemáticas. E estas imagens manipuladas to refletido com veneração, sem saber que78 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 11 • dezembro 1999 • semestral
  5. 5. sua esposa, Lili-Tsee observava seus movi- compreensão do mundo... A auto-imagemmentos. Intrigada com a repetição dos atos é a referência conhecida contra a qual osdo marido, Lili-Tsee esperou ficar só e pe- fenômenos da transformação são registra-gou o objeto, olhando-o atentamente. Que dos” (Rokeby, 1997). O reflexo de umaviu ela? O retrato de uma linda mulher o imagem pode nos iludir com a referênciaque a encheu de ciúme e ódio. Com o rosto do nosso próprio reflexo. Por esta razão acontorcido, olhou mais uma vez a terrível imagem pode transmitir um sem númeroimagem, sem entender porque o marido de reflexos, de significações diferenciadas,admirava um rosto tão feio! Sem animo dependendo do ângulo prismático pelopara nada, Lili-Tsee esperou o marido que, qual a visão humana dirige a sua atenção.ao chegar , foi logo agredido por palavras As obras de arte não são espelhos diz Gom-ásperas. “É assim que mereço ser tratado brich (1986), mas, como espelhos, elas par-depois de um ano de casamento?” pergun- ticipam da ardilosa magia da transforma-tou, indignado. “O mesmo te posso per- ção imagística, tornando as imagens simu-guntar – disse a esposa –uma vez que guar- lacros de algo ausente, ou, como diz Maffe-das retratos de mulheres no meu jarro de soli (1995) , a sombra das coisas num movi-rosas”. “Que queres dizer” ? perguntou o mento sem fim.camponês admirado e estendendo a mão A descoberta da fotografia no séculopara o espelho que a mulher lhe mostrava: passado e, posteriormente, a decomposição“Que tens outra mulher, que é feia e que fotográfica para a obtenção do movimentoisto eu não compreendo!”- exclamou Lili- com o cinema, são exemplos significativosTsee. Tomando o espelho, o camponês da magia transformadora da imagem. Omurmurou: “Lili-Tsee, o que estás dizen- cinema como invenção científica e objetodo? O retrato é a viva imagem de meu ve- de lazer nos parques de diversões está fu-nerado e falecido pai. Encontrei-o na rua e gindo da esfera do contar uma história parao guardei comigo para relembrar-lhe a ima- se tornar uma verdadeira fábrica de ilu-gem...” “Supões-me incapaz de distinguir sões imagísticas. A arte e a tecnologia liga-o rosto de um homem do de uma mulher? ram-se tão intimamente para envolver o es-“- respondeu a esposa com indignação , pectador no mundo do entretenimento, quevoltando-lhe as costas e chorando , ao ima- a “arte de contar uma história” vem se tor-ginar sua felicidade destruída por aquele nando secundária. Parece que o drama, oretrato. Enquanto o marido achava comple- cotidiano não mais importam na era tecno-tamente ridícula a acusação de sua compa- lógica. As indústrias de efeitos especiais to-nheira passou pela porta aberta da peque- maram o lugar da criação literária, em quena casa, um monge que havia escutado as o roteirista trabalhava o significado parapalavras ásperas dos esposos. Inteirado que a história prendesse a atenção, desper-dos fatos pelo casal indignado, o monge re- tasse a curiosidade e o prazer de assistir atrucou: “Deixai-me ver este retrato”. Assim um filme, apreendendo as complexidadesque olhou a imagem refletida no espelho, o de uma trama bem urdida. Os efeitos espe-monge inclinou-se respeitosamente e disse ciais ilusórios, obtidos pela moderna com-com voz comovida: “É o retrato dum vene- putação gráfica tornam o roteiro secundá-rável sacerdote; não compreendo como pu- rio. Contar uma história em metros de celu-deram os dois enganarem-se desta forma! lóide, em poucos anos, será objeto do passa-Deixai-me guardar esta imagem junto às do, já que a digitalização vem dominando asantas relíquias do templo! ” E abençoan- indústria cinematográfica.do o casal, foi-se embora, segurando res- O diretor e produtor George Lucas,peitosamente o espelho contra o peito. da série Guerra nas Estrelas que lançou re- Esta fábula demonstra que os refle- centemente “Episódio I – A Ameaça Fantas-xos transformados “são as chaves para a ma”, com mais de 1900 efeitos especiais, Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 11 • dezembro 1999 • semestral 79
  6. 6. acredita que no próximo século os estúdios Bradbury ou Isaac Asimov, já nos anos 40 evão utilizar câmaras digitais com interfaces 50, projetaram imagens de condições pós-compatíveis a computadores que vão criar modernistas, nas quais a libertação do des-os efeitos especiais. O novo filme do dire- tino humano em campos ilimitados foramtor, já é 95% digital e o Episódio II da série, muito além das contingências do espaçoprogramado para lançamento em 2002 será real. A tecnologia criada pela literatura detodo produzido, editado e projetado com a ficção apresentou realidades sempre muitonova tecnologia. Desta forma, a tecnologia adiante da própria época e dentre estas en-digital dispensará as milhares de cópias tão fictícias realidades fantásticas, a reali-para distribuir às salas de projeção: Os fil- dade virtual já ia além do fliperama ou dames serão guardados em arquivos digitais televisão, num profundo desejo de proje-e transmitidos por satélite e fibra ótica. ção dos sentidos humanos, criando novos Nesta perspectiva os críticos de cine- mundos, novas imagens do inconsciente,ma são enfáticos em afirmar, na sua maio- numa comprovação da possibilidade daria, que a grande atração dos novos filmes existência de novas realidades. Numa con-são os efeitos especiais e as inovações tec- cepção Pós-Moderna, a criação gráfico/nológicas que cercam a geração destas no- plástica está presente no processo do ima-vas imagens, com riqueza de detalhes ex- ginário, das tecnologias de projeção de for-cepcionalmente elaborados , tornando-se mas e idéias que se transformam numa ou-possível mostrar na tela formas imagísticas tra realidade que não se pode denominar, as mais impossíveis de serem concebidas, irreal ou virtual, pois tudo o que a imagi-mas tornadas realidade pelo imaginário do nação projeta, a tecnologia vem tornandocineasta e pela visão do espectador, graças possível de se tornar realidade.aos recursos gráficos da tecnologia digital, O papel hermenêutico da arte é capazreflexo da transmutação de outros valores de reproduzir e re-interpretar os muitos sa-entendidos como Pós-Modernos, em que as beres humanos, permeados por estudos demais diversificadas manifestações das ima- resolução formal da arte/tecnologia, na cri-gens vêm apresentando um teor transfor- ação de mundos e cenários que interagemmador das coisas existentes. com a realidade vivida e a realidade deseja- O caráter antecipador das imagens da. Einsten já dizia que a imaginação huma-leva-nos à indagações sobre o seu futuro, na é mais poderosa que o conhecimento e,tendo como base as últimas décadas deste atualmente, a imaginação, aliada ao conhe-século. A informatização, a computação cimento das novas tecnologias, têm permiti-gráfica, a comunicação global, são fatos que do ao homem o alcance da mais inimaginá-corroboram a supremacia das novas tecno- vel idéia formal.logias, que vêm constituindo uma nova so- Considerando a imagem como frag-ciedade, embora ainda não haja o domínio mentária, Parente (1993) reflete sobre suade todas as pessoas que compõem esta so- desmitificação do todo. As imagens indife-ciedade pós-utópica sobre como dominar e renciadas da televisão, as imagens homoge-manipular estas novas linguagens visuais. neizadas do digital, as imagens totalizado- É assim que as inovações tecnológicas ras do holograma demonstram a racionali-no campo da imagem permeiam a criativi- dade cristalizada pelas novas tecnologias .dade humana na articulação de novas ela- A representação imagística deixa de ser aborações formais que se articulam com o “janela da alma”, passando a ser a “janelasocial, envolvendo o imaginário com novas do cérebro”, que passa a controlar as fun-formas e novos mundos possíveis de conce- ções do potencial criativo, controlar a ima-ber com o conhecimento das novas tecnolo- gem e o olhar para novos mundos. É, pois agias. linguagem que faz da imagem um objeto, e Autores de ficção científica como Ray do olho, um sujeito. Diz ainda Parente:80 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 11 • dezembro 1999 • semestral
  7. 7. “Primeiro encontramos... uma imagem que interrogar-nos sobre a natureza do que éfaz cintilar nossa percepção, nosso pensa- realidade pois que a imagem virtual, pro-mento. Em seguida nos encontramos mer- duto da imaginação complementada pelasgulhados nela, para pensar com ela... Hoje, inovações tecnológicas, recria o sonho ecom a industrialização da imagem, a ima- nos torna protagonistas do mundo antesgem pensa em nosso lugar. Havíamos feito considerado da fantasia, numa união dada imagem a nossa morada, doravante ela sensibilidade com a cognição.faz de nós sua morada...” A imagem passou a se reproduzir, refe- Para melhor compreensão destas idéi- re Parente. Ela passou a reproduzir o sujeito;as é necessário que se adquira um alfabetis- as imagens da era da sua reprodutibilidademo crítico no domínio da leitura destas no- técnica é a imagem na era da automatizaçãovas formas imagísticas , na compreensão do sujeito. “A imagem, que integrava umados seus significados formais e como estas cultura, se colocou ao lado da tecnociênciaformas podem ser analisadas no seu contex- como forma de estabelecer seu pequeno im-to cultural, o que elas significam, como elas pério de sujeição”, pondera ainda este autor.influenciam e como podem moldar seus lei-tores. Como o universo das letras, o univer-so imagístico necessita ser lido e interpreta-do. A imagem é elemento de escrita e leitu-ra, estabelecendo um diálogo entre o cria-dor e o receptor, tendo por base a experiên-cia visual da realidade, uma alusão, umalembrança, uma estrutura que pode criarmuitas formas de beleza harmônica. Asimagens da Pós-Modernidade, desconstruí-das , relidas, re-interpretadas apresentamoutros domínios e outros conceitos de lin-guagem em que imperam territórios livres eilimitados. A pluralidade da tecnologia vemproporcionando aos artistas e comunicadoresgráficos inumeráveis campos de exploraçãodo irreal/real com os mundos virtuais, quevão exigir uma atenção cada vez maior para asua compreensão: do lúdico, do onírico, dorealismo fantástico que vêem permeando osmovimentos artístico/culturais, através daHistória da Arte que recebe de braços abertosa arte/ciência nos últimos tempos. No virtual está sendo possível a cria-ção de novos “mundos”: As imagens dei-xam de ser apresentadas, delineadas à visãopara se tornarem parte de nós mesmos, se-rem habitadas, vivenciadas como extensãode nosso corpo e espírito em novas realida-des. Diante do mundo das artes, que con-sistia na criação e na contemplação imagís- Masaki Fujihata – Arte Virtual: Beyond Pages (1999)tica estará o homem preparado para fazerparte dos novos mundos virtuais? As reali- Construir imagens artesanalmente oudades virtuais que aí estão, obrigam-nos a construí-las com o auxílio das máquinas é Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 11 • dezembro 1999 • semestral 81
  8. 8. simplesmente uma troca de ferramenta de problemas formais, imaginando novaspara a solução formal. O importante é sa- inferências, pois é com a imaginação que ober, saber ver , saber fazer e saber ser, isto é, homem vem construindo o mundo para abuscar caminhos capazes de ativar a criati- transformação do universo.vidade, a sensibilização para a construção Ao lado da filosofia a arte há de serde novos saberes, plurais, nos quais os atos considerada entre as mais altas atividadesde conhecimento serão, na sua essência di- humanas, pois ela tem por objeto aquelarigidos e orientados pela imaginação cria- mesma essência das coisas, aquele universaldora, sem sujeições, sem preconceitos ou que é o objeto da filosofia. Enquanto a filo-busca de modismos. A procura por uma or- sofia apresenta este universal mediantedem estética é imprescindível, prevalecen- conceitos abstratos, a arte o representa, me-do não mais o indivíduo encastelado no diante imagens, que, abstratas ou não, reali-seu ato criativo, mas o homem, a criativida- zadas como tecnociência ou não concreti-de a estética e a ética como peças de um zam fantasticamente o universal racional noproduto da obra para a sua comunicação particular sensível. É o oferecimento do in-com o mundo por meio da imagem. Estas teligível quando aprendemos a compreen-ponderações poderão se constituir na cha- der o alfabeto cada vez mais amplo dasve para a não automação humana , mas a concepções iconográficas; é o racional con-sua relação com a cultura em que vive, cretizado no sensível que há de ser objetoquando padrões éticos e estéticos se torna- de múltiplas leituras para a compreensãorem reais sustentáculos do processo de cri- conceptual.ação. A imagem é infinita. Refletir sobre ela e seus fractais poderá ser a grande chance das novas leituras imagísticas da arte e daConsiderações finais tecnologia para o século XXI s Estas reflexões conduzem-nos à visãode uma interpenetração cultural em que os Referênciascontrários se tornam aliados, pondera Ma-ffesoli (1995) , parafraseando uma afirmati- COUCHOT, Edmond. Images: de l’optique au numérique. Lesva já preconizada por Leonardo da Vinci arts visuels et l’évolution(1452-1519), quando afirmou que a verda- des technologies. Paris: Hermès, 1988.deira harmonia se encontra na repetiçãodos contrários, que, em última análise, é DE VINCI, Leonardo. Tratado de la pintura. Madrid: Aguilar,uma das características da Pós-Modernida- 1950.de, isto é, a união e a repetição das formascontrárias. É desta maneira que os estilos GOMBRICH, E.M. Arte e ilusão. São Paulo: Martins Fontes,específicos deixaram de existir como câno- 1986.nes imutáveis e se mesclaram a novas con-figurações, numa associação de novos fato- HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo: Loyola,res que aumentam a eficiência das soluções 1992.formais. A compreensão e a releitura do uni- MAFFESOLI, Michel. A contemplação do mundo. Porto Alegre:verso das imagens possibilita o encontro de Artes e Ofícios, 1995.caminhos diversificados, direcionando-nospara novas reflexões sobre o processo criati- PADOVANI, U. História da filosofia. São Paulo: Melhoramen-vo das muitas formas imagísticas, relacio- tos: 1961.nando conceitos e sentimentos, buscando aciência como um dos pontos de soluções PARENTE, André (org). Imagem máquina. A era das tecnologias82 Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 11 • dezembro 1999 • semestral
  9. 9. do virtual. Rio de Janeiro: Ed.34, 1993.POPPER, Frank. As imagens artísticas e a tecnociência. In: PARENTE, André. Imagem máquina. A era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993, p. 201-213.ROKEBY, David. Espelhos transformadores. In: DOMIN- GUES, Diana. A arte no século XXI. A humanização das tecnologias. São Paulo: UNESP, 1997, p. 67-69.THOMAS, Karin. Hasta hoy: estilos de las artes plasticas em el siglo XX. Barcelona: Ediciones del Serbal, 1994. Revista FAMECOS • Porto Alegre • nº 11 • dezembro 1999 • semestral 83

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