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Pequeno apontamento sobre

Vestígios arqueológicos em Lisboa
As Galerias Romanas da Rua da Prata

As primeiras notícias que temos destas Galerias datam de 1771 quando, durante a reconstrução
da cidade de Lisboa depois do grande terramoto de 1755, descobriu-se um pedestal romano com
uma inscrição em latim dedicado a Esculápio (Deus da Medicina) e a existência de um conjunto
de Galerias Romanas no subsolo da Baixa. Esse pedestal encontra-se hoje no Museu Nacional de
Arqueologia.







Durante muito tempo, e em virtude de as galerias terem sido descobertas parcialmente submersas,
como ainda hoje se encontram, julgou-se que se estava perante umas termas romanas.
O monumento apenas é visitável uma vez por ano, devido à difícil acessibilidade e ao facto de a
bombagem de água ter de ser constante para que essas visitas se possam efetuar, o que também
dificulta os trabalhos arqueológicos.
Nesta foto vê-se a Galeria das Nascentes, onde se encontram uma série de Olhos de Água e uma fenda
que se estende por todo o solo e teto, atualmente monitorizada com técnicas sofisticadas. Essa fenda,
segundo os arqueólogos, pode ter surgido durante o terramoto de 1755 ou noutro incidente geológico
do género.
Como se pode ver nesta e noutras fotos, é bem visível onde costuma estar o nível da água, pelas marcas
mais escuras nas paredes.
 A entrada nas Galerias é feita por um alçapão na Rua da Conceição junto ao nº 77, que como
podem ver fica no meio da estrada, o que obriga a restrições de trânsito durante os dias das
visitas ou quando estão a decorrer trabalhos arqueológicos.
Em 1859, obras de saneamento permitiram observar, pela única vez, restos das construções romanas que se
erguiam sobre as Galerias, não tendo sido possível, no entanto, identificar essas construções. Foi feito um
levantamento exaustivo das ruínas, conduzido por José Valentim de Freitas, sendo este um dos trabalhos
arqueológicos pioneiros na cidade de Lisboa. Houve várias interpretações, desde Termas a Fórum Municipal.

Devido aos trabalhos atuais conhece-se agora melhor a funcionalidade do monumento, construído na
primeira metade do Séc. I d.C. (época dos imperadores Júlio-Cláudios) e que indicam tratar-se de
“criptopórticos”, construções abobadadas e de grande robustez que os romanos frequentemente construíam
em terrenos instáveis, para servir de suporte a outras construções.
Infelizmente os coletores da cidade não permitem o acesso à totalidade do monumento,
desconhecendo-se a sua extensão. Apenas se sabe que este é um dos limites e pensase que esta área era visível do exterior quando foi construído, pela cuidada cantaria dos
arcos, técnica típica dos inícios da época imperial romana e por pedaços de mosaicos
encontrados perto do local.
Pela proximidade do porto da cidade, calcula-se que estas Galerias servissem de alicerce
de uma grande estrutura, talvez um mercado ligado às atividades portuárias e comerciais
da então cidade de Olisipo.
Pequenos compartimentos dispostos lateralmente às Galerias podem ter sido
utilizados para armazenamento de mercadorias. Os últimos trabalhos
arqueológicos revelaram que o monumento ergue-se sobre uma espessa placa
artificial colocada sobre a areia. Essa antiga argamassa (de nome opus
caementicium) é uma técnica de construção utilizada pelos romanos em que as
pedras são unidas com esse material fortíssimo, um antepassado remoto do
betão. Dada a sua robustez, essas Galerias ainda hoje servem de alicerce aos
prédios pombalinos.
Devido às suas condições hidráulicas as Galerias foram utilizadas pela população como
cisterna durante o século XIX, sendo ainda hoje visíveis diversas aberturas circulares no
cruzamento das abóbadas. Era assim que a população dos edifícios situados nesta zona
extraía a água, e o monumento era conhecido como “Conservas de Água da Rua da
Prata”. Acreditava-se que as águas do poço que se encontra por cima da Galeria das
Nascentes tinham um efeito terapêutico, pelo que foi apelidado “Poço das Águas
Santas”. É provável que um pensamento semelhante existisse na época da construção
do monumento, dado o pedestal dedicado a Esculápio.
A partir dos anos 80 a Câmara Municipal de Lisboa conseguiu criar condições para que as
galerias abrissem ao público, mas devido à acumulação de água no seu interior apenas pode ser
visitado uma vez por ano, sendo as visitas feitas em grupo e orientadas pelos técnicos do Museu
da Cidade.
Da parte da tarde assistimos à
inauguração da exposição sobre as
Galerias Romanas no Museu da
Cidade, ao que se seguiu uma série de
conferências sobre as intervenções
arqueológicas que se estão a efetuar,
uma síntese sobre a história do
monumento, assim como as sondagens
geotécnicas levadas a cabo no local.
Tivemos ainda oportunidade de assistir a uma reconstrução tridimensional do
monumento, por um novo sistema de modelação em três dimensões e que poderá ter
uma aplicação aos sítios arqueológicos. Esse sistema é constituído por um sensor laser,
uma câmara de vídeo e um computador portátil que desloca sensores sobre um
monocarril ao longo das galerias, obtendo-se uma descrição tridimensional das mesmas e
que poderá ser um apoio à investigação nos casos – como o das Galerias Romanas – em
que o acesso é condicionado.
Por curiosidade, aqui temos uma placa numa
rua de Lisboa onde se vê o nome antigo da
cidade - OLISIPO.
(perto da Sé de Lisboa).
Ruínas do Teatro Romano, onde se pode notar a área da orquestra e o
início das bancadas.

A exposição das Ruínas do Teatro Romano – no Pátio do Aljube, entre a Sé e a Rua de S.
Mamede - engloba várias áreas onde se podem observar diversos testemunhos
arqueológicos, não só referentes ao Teatro Romano como também a outras construções
que foram sendo edificadas ao longo dos séculos nessa área.
Foi após o terramoto de 1755 que as ruínas foram descobertas, durante a reconstrução da
cidade, sendo atualmente visível cerca de um terço do monumento.
A entrada para uma casa junto às ruínas do Teatro Romano.
Conforme muita coisa foi descoberta depois do terramoto, também muito ficou
soterrado com o mesmo, deixando debaixo dos nossos pés muito da antiga cidade.
Perspetiva da intervenção arqueológica junto ao Museu do teatro Romano.
Muitas habitações foram construídas “aproveitando” o muro de sustentação do Teatro.

Fica um agradecimento aos técnicos do Museu da Cidade que proporcionaram momentos tão
interessantes, bem como aos meus colegas (que me aturaram) e Prof. Lurdes que incentivou este
apontamento sobre a nossa riqueza arqueológica e uma das minhas paixões.

Fernanda Esteves

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Vestígios arqueologicos em lisboa

  • 1. Pequeno apontamento sobre Vestígios arqueológicos em Lisboa
  • 2. As Galerias Romanas da Rua da Prata As primeiras notícias que temos destas Galerias datam de 1771 quando, durante a reconstrução da cidade de Lisboa depois do grande terramoto de 1755, descobriu-se um pedestal romano com uma inscrição em latim dedicado a Esculápio (Deus da Medicina) e a existência de um conjunto de Galerias Romanas no subsolo da Baixa. Esse pedestal encontra-se hoje no Museu Nacional de Arqueologia.
  • 3.     Durante muito tempo, e em virtude de as galerias terem sido descobertas parcialmente submersas, como ainda hoje se encontram, julgou-se que se estava perante umas termas romanas. O monumento apenas é visitável uma vez por ano, devido à difícil acessibilidade e ao facto de a bombagem de água ter de ser constante para que essas visitas se possam efetuar, o que também dificulta os trabalhos arqueológicos. Nesta foto vê-se a Galeria das Nascentes, onde se encontram uma série de Olhos de Água e uma fenda que se estende por todo o solo e teto, atualmente monitorizada com técnicas sofisticadas. Essa fenda, segundo os arqueólogos, pode ter surgido durante o terramoto de 1755 ou noutro incidente geológico do género. Como se pode ver nesta e noutras fotos, é bem visível onde costuma estar o nível da água, pelas marcas mais escuras nas paredes.
  • 4.  A entrada nas Galerias é feita por um alçapão na Rua da Conceição junto ao nº 77, que como podem ver fica no meio da estrada, o que obriga a restrições de trânsito durante os dias das visitas ou quando estão a decorrer trabalhos arqueológicos.
  • 5. Em 1859, obras de saneamento permitiram observar, pela única vez, restos das construções romanas que se erguiam sobre as Galerias, não tendo sido possível, no entanto, identificar essas construções. Foi feito um levantamento exaustivo das ruínas, conduzido por José Valentim de Freitas, sendo este um dos trabalhos arqueológicos pioneiros na cidade de Lisboa. Houve várias interpretações, desde Termas a Fórum Municipal. Devido aos trabalhos atuais conhece-se agora melhor a funcionalidade do monumento, construído na primeira metade do Séc. I d.C. (época dos imperadores Júlio-Cláudios) e que indicam tratar-se de “criptopórticos”, construções abobadadas e de grande robustez que os romanos frequentemente construíam em terrenos instáveis, para servir de suporte a outras construções.
  • 6. Infelizmente os coletores da cidade não permitem o acesso à totalidade do monumento, desconhecendo-se a sua extensão. Apenas se sabe que este é um dos limites e pensase que esta área era visível do exterior quando foi construído, pela cuidada cantaria dos arcos, técnica típica dos inícios da época imperial romana e por pedaços de mosaicos encontrados perto do local. Pela proximidade do porto da cidade, calcula-se que estas Galerias servissem de alicerce de uma grande estrutura, talvez um mercado ligado às atividades portuárias e comerciais da então cidade de Olisipo.
  • 7. Pequenos compartimentos dispostos lateralmente às Galerias podem ter sido utilizados para armazenamento de mercadorias. Os últimos trabalhos arqueológicos revelaram que o monumento ergue-se sobre uma espessa placa artificial colocada sobre a areia. Essa antiga argamassa (de nome opus caementicium) é uma técnica de construção utilizada pelos romanos em que as pedras são unidas com esse material fortíssimo, um antepassado remoto do betão. Dada a sua robustez, essas Galerias ainda hoje servem de alicerce aos prédios pombalinos.
  • 8. Devido às suas condições hidráulicas as Galerias foram utilizadas pela população como cisterna durante o século XIX, sendo ainda hoje visíveis diversas aberturas circulares no cruzamento das abóbadas. Era assim que a população dos edifícios situados nesta zona extraía a água, e o monumento era conhecido como “Conservas de Água da Rua da Prata”. Acreditava-se que as águas do poço que se encontra por cima da Galeria das Nascentes tinham um efeito terapêutico, pelo que foi apelidado “Poço das Águas Santas”. É provável que um pensamento semelhante existisse na época da construção do monumento, dado o pedestal dedicado a Esculápio.
  • 9. A partir dos anos 80 a Câmara Municipal de Lisboa conseguiu criar condições para que as galerias abrissem ao público, mas devido à acumulação de água no seu interior apenas pode ser visitado uma vez por ano, sendo as visitas feitas em grupo e orientadas pelos técnicos do Museu da Cidade. Da parte da tarde assistimos à inauguração da exposição sobre as Galerias Romanas no Museu da Cidade, ao que se seguiu uma série de conferências sobre as intervenções arqueológicas que se estão a efetuar, uma síntese sobre a história do monumento, assim como as sondagens geotécnicas levadas a cabo no local.
  • 10. Tivemos ainda oportunidade de assistir a uma reconstrução tridimensional do monumento, por um novo sistema de modelação em três dimensões e que poderá ter uma aplicação aos sítios arqueológicos. Esse sistema é constituído por um sensor laser, uma câmara de vídeo e um computador portátil que desloca sensores sobre um monocarril ao longo das galerias, obtendo-se uma descrição tridimensional das mesmas e que poderá ser um apoio à investigação nos casos – como o das Galerias Romanas – em que o acesso é condicionado.
  • 11. Por curiosidade, aqui temos uma placa numa rua de Lisboa onde se vê o nome antigo da cidade - OLISIPO. (perto da Sé de Lisboa).
  • 12. Ruínas do Teatro Romano, onde se pode notar a área da orquestra e o início das bancadas. A exposição das Ruínas do Teatro Romano – no Pátio do Aljube, entre a Sé e a Rua de S. Mamede - engloba várias áreas onde se podem observar diversos testemunhos arqueológicos, não só referentes ao Teatro Romano como também a outras construções que foram sendo edificadas ao longo dos séculos nessa área. Foi após o terramoto de 1755 que as ruínas foram descobertas, durante a reconstrução da cidade, sendo atualmente visível cerca de um terço do monumento.
  • 13. A entrada para uma casa junto às ruínas do Teatro Romano. Conforme muita coisa foi descoberta depois do terramoto, também muito ficou soterrado com o mesmo, deixando debaixo dos nossos pés muito da antiga cidade.
  • 14. Perspetiva da intervenção arqueológica junto ao Museu do teatro Romano. Muitas habitações foram construídas “aproveitando” o muro de sustentação do Teatro. Fica um agradecimento aos técnicos do Museu da Cidade que proporcionaram momentos tão interessantes, bem como aos meus colegas (que me aturaram) e Prof. Lurdes que incentivou este apontamento sobre a nossa riqueza arqueológica e uma das minhas paixões. Fernanda Esteves