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Índice
Lista de gráficos.......................................................................................................................IV
Lista de Tabelas ........................................................................................................................V
Lista de abreviaturas ................................................................................................................VI
Resumo....................................................................................................................................VII
1. Introdução ...........................................................................................................................6
1.1. Objectivos..................................................................................................................10
1.1.1. Geral...................................................................................................................10
1.1.2. Específicos .........................................................................................................10
2. Metodologia......................................................................................................................11
2.1. Colheita de amostras .................................................................................................11
3. Vaginose bacteriana..........................................................................................................12
4. Resultados.........................................................................................................................13
5. Discussão ..........................................................................................................................15
6. Conclusão .........................................................................................................................18
7. Bibliografia .......................................................................................................................19
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Lista de gráficos
Gráfico 1: Classificação da Vaginose bacteriana segundo método de Nugent........................13
Gráfico 2: Comportamento de risco em mulheres com Vaginose bacteriana.........................15
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Lista de Tabelas
Tabela 1: Critério de Nugent modificado para diagnóstico de Vaginose bacteriana..............12
Tabela 2: Prevalência da Vaginose bacteriana por grupos etários...........................................14
Tabela 3: Prevalência da Vaginose bacteriana por idade gestacional em trimestres...............14
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Lista de abreviaturas
IST: Infecções sexualmente transmissíveis
KOH: Hidróxido de potássio
VB: Vaginose bacteriana
pH: Potencial hidrogeniónico
HIV: Vírus da imunodeficiência humana
CSM: Centro de Saúde da Maxixe
OMS: Organização Mundial da Saúde
MISAU: Ministério da Saúde
INE: Instituto Nacional de Estatística
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Resumo
A vaginose bacteriana é uma síndrome caracterizada pelo corrimento vaginal podendo ou não
ter um cheiro característico, decréscimo do pH vaginal e constitui um dos problemas de saúde
pública mais comuns em todo o mundo em mulheres com idade reprodutiva. A infertilidade
feminina, perdas gestacionais e o aumento do risco para a infeção pelo HIV são algumas das
suas consequências. Nos países da Àfrica Subsariana como Moçambique, a prevalência real
desta infeção é quase desconhecida.
Assim, desenvolveu-se este estudo com o objectivo analisar a prevalência de Vaginose
bacteriana em mulheres grávidas atendidas no Centro de Saúde da Cidade de Maxixe e
identificar os factores de riscos a esta associada. No estudo foram usadas 87 amostras de
mulheres grávidas que frequentavam as consultas externas pré-natais no CSM. As amostras
de exsudado vaginal foram obtidas, coradas pelo método de Gram e observadas
microscopicamente usando método de Nugent para identificação da vaginose bacteriana.
A prevalência da vaginose bacteriana foi de 17 %, sendo que a maior prevalência foi
registada na faixa etária de 15-24 anos de idade. Nesta população, o uso inconsistente do
preservativo nas relações sexuais e parceiros múltiplos constituem factores de risco na
aquisição desta infecção. Portanto, conclui-se que o conhecimento da etiologia, o diagnóstico
correcto e o tratamento adequado da vaginose bacteriana pode contribuir para a realização de
exame pré-natal mais completo, visando reduzir as taxas de vaginose bacteriana e suas
consequências na gravidez.
Palavras-chave: vaginose bacteriana, prevalência, mulheres grávidas.
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1. Introdução
A incidência das infecções sexualmente transmissíveis (IST) e vaginais tem
aumentado significativamente, tornando-se um grave problema de saúde pública em todo o
mundo (WHO, 2007). O aumento da incidência das IST e vaginais representa um importante
problema de saúde pública, com um elevado peso socioeconómico (WHO, 2007; NUNES,
2015), quer pela significativa morbilidade e mortalidade que provocam em indivíduos jovens,
quer pelas consequências nefastas que podem ter a nível da saúde materno-infantil
(MENÉNDEZ et al, 2010).
O controlo dessas infecções tem se tornado alvo de acções em saúde pública, no
entanto, apesar de haver medidas básicas de prevenção as IST, continuam a disseminar-se
pela população (WHO, 2007; OLIVEIRA, 2011).
As mulheres são biologicamente mais susceptíveis às infecções sexualmente transmis-
síveis (ISTs) e a maioria é assintomática. No entanto, em todo mundo, uma das causas mais
comuns de infecção vaginal, em mulheres em idade fértil, é a Vaginose bacteriana. Esta tem
sido frequentemente encontrada nas clínicas de ginecologia, quer como queixa da doente,
quer ocasionalmente numa consulta de rotina (DALL, 2014; MOTA, 2000).
A vaginose bacteriana é uma síndrome caracterizada pelo decréscimo do pH vaginal,
corrimento leitoso, podendo ou não ter um cheiro característico. Microbiologicamente, a
vaginose bacteriana caracteriza-se pelo decréscimo de Lactobacillus spp os quais fazem
parte da população microbiana normal do aparelho genital feminino, e aumento de
Gardnerella vaginalis, Bacteroides spp., Mobilluncus spp., e Mycoplasma hominis. Porque a
Vaginose bacteriana é o sindrome clínico que tem sido associado com grupos de
microrganismos genitais mais que qualquer outro agente etiológico, foi definida
primariamente pelos seguintes sinais clínicos: pH vaginal >4.5, odor fétido ou a presença de
odor de amina após a adição de KOH, corrimento vaginal branco-acinzentado, ocasionando a
esfoliação das células epiteliais (DALL, 2014; NUGENT, 1990).
Como esta infecção pode levar a corioamnionite (infecção do fluido amniótico), a
morte intrauterina do feto e está associada a nascimentos prematuros, torna-se necessária a
padronização de um método de diagnóstico eficaz para a mesma.
Normalmente, o diagnóstico de Vaginose bacteriana baseia-se em vários factores,
como corrimento vaginal, teste de KOH positivo e presença de clue-cells na preparação a
fresco ou na coloração pelo Gram.
7
Este método, que se baseia parcialmente em sinais clínicos e por vezes controverso,
pois é subjectivo e os sinais podem ser muito subtís e passarem despercebidos. Por estas
razões, SPIEGEL et al (1997) propôs um método alternativo baseado apenas na interpretação
de esfregaços vaginais corados pelo Gram. Este consiste na quantificação de Lactobacillus,
G. vaginalis e outros morfotipos (cocos, bacilos curvos e fusiformes), atribuindo-lhes uma
classificação de 0 a 4+, sendo diagnosticada Vaginose bacteriana quando a sua soma for 7 ou
superior. Por sua vez, NUGENT et al (1991), modificou este método de diagnóstico, tendo
em atenção os morfotipos mais comuns na Vaginose bacteriana (Gardnerella vaginalis,
Mobiluncus sp. e Bacteriodes sp.) e os Lactobacillus. Trata-se de um método rápido,
económico, de fácil padronização e passível de ser utilizado por qualquer laboratório e até
mesmo por um clínico no seu consultório. Com base em estudos comparativos, percebeu-se
que a técnica de Nugent foi a mais eficaz em relação à de Amsel, sendo assim, resolveu-se
efectuar o estudo de com base no método de Nugent. Por outro lado, e uma vez que o
isolamento deste microrganismo tem sido difícil e controverso, tentou-se também relacionar
este parâmetro com as duas técnicas anteriores. De notar, no entanto, que o isolamento de
Gardnerella vaginalis não tem sido até agora recomendado como método de diagnóstico
laboratorial de rotina, já que este microrganismo pode fazer parte da população microbiana
normal de algumas mulheres (MOTA et al, 2000).
A vaginose bacteriana pode surgir e resolver espontaneamente. Embora não seja
considerada uma infecção sexualmente transmissível (IST), está muitas vezes associada à
frequência da actividade sexual. Verifica-se uma maior prevalência em mulheres
com múltiplos parceiros sexuais, e naquelas com novo parceiro sexual (se não for utilizado
preservativo). No entanto, as mulheres que nunca foram sexualmente activas podem também
ser afectadas (MARÇALO & BEIRÃO, 2018).
A presença de outras IST’s vaginais tais como a tricomoníase, a gonorreia, a infecção
por herpes ou a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), parece estar
associada a um aumento do risco de vaginose bacteriana. O uso exagerado de duche vaginal,
com eliminação de lactobacilos vaginais, é outro factor de risco.
Um estudo com o objectivo de determinar a prevalência das IST’s em mulheres
atendidas nas clínicas de planeamento familiar em Moçambique foi realizado em 2003,
detectou entre essas mulheres, 64% de casos de vaginose bacteriana (MISAU, 2006).
8
Um estudo realizado em 2011 em Maputo com objectivo de determinar a etiologia
das IST teve uma prevalência de 45% de vaginose bacteriana ( ZIMBA et al.,2011) e o outro
realizado também em Maputo em 2008 com objectivo de Determinar a prevalência de
infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) em um grupo de jovens mulheres que
frequentam o Serviço Amigável de Adolescentes e Jovens foi de 12.9% (MELO et al., 2008).
A informação sobre a prevalência da vaginose bacteriana em mulheres grávidas em
Moçambique é escassa e sabe-se que, tal como as restantes IST, estas são cofactores de
infecção pelo HIV (MISAU, 2006). As IST durante a gravidez podem ter consequências
drásticas para a grávida e para o recém-nascido, associam-se a um desconforto considerável
podendo ter como consequências a interrupção da gravidez, baixo peso ao nascer e o aumento
da mortalidade infantil (OMS, 2008; OLOWE et al, 2014).
Nas consultas pré-natais do Centro de Saúde de Maxixe, o diagnóstico da vaginose
bacteriana, candidíase, tricomoníase, entre outras é baseado na abordagem sindromática,
sendo efectuada terapêutica quando estão presentes sintomas, segundo o esquema daquela
abordagem (MISAU, 2006). Em todo mundo, uma das causas mais comuns de infecção
vaginal, em mulheres em idade fértil, é a vaginose bacteriana (DALL & JASKULSKI, 2014;
SCHALKWYK & YUDIN, 2008), sendo a vaginose bacteriana (VB), a candidíase e a
tricomoníase são responsáveis por 90% dos casos de vaginites (DALL & JASKULSKI, 2014;
SCHALKWYK & YUDIN, 2008). As vaginites podem causar diferentes tipos de
morbilidade nas mulheres principalmente em idade reprodutiva, particularmente durante a
gravidez tais como: aborto e nados mortos (SCHALKWYK & YUDIN, 2008).
Ao longo da história da saúde pública, a atenção materno-infantil é tida como uma
área prioritária e que permanece como um campo de especial e intensa preocupação,
destacando-se os cuidados crescentes durante a gestação (GUIMARÃES, 2012).
Na gravidez observa-se o aumento da incidência de patologias, já que organismo da
mulher está se adaptando às novas mudanças provenientes do feto, sendo uma das queixas
mais comuns, a vulvovaginite, destacando-se a Vaginose bacteriana. Vários autores apontam
esta infecção como a principal causa de complicações na gravidez, tais como: prematuridade
do feto, baixo peso ao nascer, ruptura prematura de membranas e infecção puerperal
(GOMES et al, 2016).
9
A única estratégia para evitar todas as complicações citadas anteriormente é a
assistência durante a gestação, isto é, nas consultas pré-natais. Assistência pré-natal é a
avaliação sistemática e cuidadosa e o acompanhamento da paciente grávida, a fim de
assegurar as melhores condições de saúde possíveis para a mãe e para o feto (GUIMARÃES,
2012).
Sendo este problema causa importante de complicações como trabalho de parto
prematuro, rotura permanente das membranas, prematuridade e recém-nascido de baixo peso,
tornou-se de todo o interesse desenvolver um estudo nesta temática, de modo a contribuir
para a promoção da saúde da mulher e da criança.
10
1.1. Objectivos
1.1.1. Geral
 Analisar a prevalência de Vaginose bacteriana em mulheres grávidas atendidas no
Centro de Saúde da Cidade de Maxixe.
1.1.2. Específicos
 Identificar a vaginose bacteriana em mulheres grávidas;
 Identificar os factores relacionados com a Vaginose bacteriana entre mulheres em
período gestacional.
11
2. Metodologia
O presente trabalho foi elaborado com base em um estudo realizado em 2016 onde a
população incluía mulheres grávidas que frequentaram as consultas externas pré-natais no
Centro de Saúde de Maxixe, localizado na Cidade de Maxixe, Província de Inhambane região
Sul de Moçambique, no período de Janeiro a Abril de 2016.
Todos os procedimentos éticos, os critérios de inclusão, exclusão e de recrutamento
das participantes exigidos, numa pesquisa na área de Saúde foram seguidos no estudo
principal, neste estudo foram feitas análises laboratoriais das lâminas coradas pelo método de
Gram usando o método de Nugent no laboratório de Microbiologia da Faculdade de Ciências
da Saúde da Universidade Pedagógica em Julho 2018. Alguns dados socio-demográficos e
comportamentais das participantes como a idade, trimestre da gravidez, uso de preservativo,
número de parceiros entre outros foram incluídos neste estudo, estes dados foram retirados da
base de dados do estudo principal.
2.1. Colheita de amostras
À todas as mulheres grávidas incluídas no estudo foi efectuada a colheita de amostras
de exsudado vaginal, após obtenção da assinatura do consentimento informado. A colheita do
exsudado vaginal foi efectuada pelas próprias mulheres grávidas (auto-colheita) após a
explicação do investigador.
Para tal, foi entregue uma zaragatoa simples. A partir da colheita do exsudado vaginal
com zaragatoa simples foi efectuado um esfregaço em lâmina para corar pela técnica de
Gram. A colheita de exsudado vaginal teve por finalidade o diagnóstico de vaginose
bacteriana.
Neste presente estudo as análises laboratoriais usando método de Nugent foram
efectuadas com base nas lâminas conservadas nas laminatecas (cada laminateca continha 100
lâminas coradas) disponibilizadas pelo próprio pesquisador. A escolha duma laminateca para
observação das lâminas no laboratório, nessas três laminatecas foi aleatória. A observação foi
feita no laboratório de Microbiologia da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade
Pedagógica em Julho de 2018.
12
3. Vaginose bacteriana
O diagnóstico laboratorial de vaginose bacteriana foi efectuado pelo método de
Nugent, a partir das lâminas contendo o esfregaço vaginal, corada pela técnica de Gram e
observadas ao microscópio óptico com objectiva de imersão de 100X.
As estruturas visualizadas foram quantificadas (Tabela 1) de 1+ a 4+, tendo sido
avaliadas a redução de lactobacilos e o predomínio de coco bacilos de coloração de Gram
variável tipo Gardnerella vaginalis e ou bacilos curvos tipo Mobiluncus spp. Para cada
morfotipo foi verificado o valor correspondente na Tabela 1 (Nugent et al, 1991). A
pontuação individual para cada um dos quatro morfotipos foi somado, obtendo-se pontuação
total com seguinte interpretação: Flora normal (0-3), Flora intermédia (4-6) e Vaginose
bacteriana (7-10).
Para a realização do método de Nugent et al, classificaram-se os morfotipos de 0 a 4+,
consoante o número observado por campo óptico que esta é depois convertida em Score
(pontuação):
 0: sem morfotipos;
 1+: < um morfotipo;
 2+: 1 a 4 morfotipos;
 3+: 5 a 30 morfotipos;
 4+: 30 morfotipos.
Tabela 1: Critério de Nugent modificado para diagnóstico de Vaginose bacteriana
Tipos morfológicos dos
microorganismos
Pontuação segundo a quantidade de
microrganismos
Nada 1+ 2+ 3+ 4+
Bacilos longos Gram (+) 4 3 2 1 0
Cocobacilos Gram (+) ou Gram
variáveis
0 1 2 2 4
Bacilos curvos Gram (-) 0 1 2 3 2
 0-3: Flora Normal
 4-6: Flora Intermediária
 7-10: Vaginose bacteriana
13
4. Resultados
No presente estudo foram incluídas 100 amostras (lâminas coradas) das utentes do
Centro de Saúde de Maxixe. No entanto, apenas foram analisadas 87, porque as outras 13
estavam quebradas o que dificultou a sua análise. Na totalidade, 13 foram excluídas do
estudo. Das amostras analisadas, as participantes tinham idades compreendidas entre os 15 e
os 44 anos. A média das idades foi de 24,2.
Foram analisadas um total de 87 amostras de mulheres grávidas das quais 28/87
(32%) apresentavam uma flora normal, 44/87 (51%) apresentavam flora intermédia e 15/87
(17%) foram descritas com Vaginose bacteriana (Gráfico 1).
Gráfico 1: Classificação da Vaginose bacteriana segundo método de Nugent
Os dados em relação à idade das participantes foram agrupados em quatro grupos, de
acordo com a classificação do Instituto Nacional de Estatística (INE, 2011; EATON et al,
2014), 15-24, 25-34, 35-44 e ≥45 (Tabela 2). O grupo etário correspondente à maioria dos
casos com Vaginose bacteriana foi o de 15-24 anos, seguido do 25-34, com 11/15 (73,3%) e
4/15 (26,7%), respectivamente. Noutros grupos etários, não foram observados casos da
Vaginose bacteriana.
32%
51%
17%
0%
10%
20%
30%
40%
50%
60%
Flora Normal Flora Intermédia Vaginose Bacteriana
28
44
15
14
Tabela 2: Prevalência da Vaginose bacteriana por grupos etários
Grupo etário ou faixa
etária (anos)
Número total Número com
Vaginose
bacterina
Prevalência (%)
15-24 53 11 73,3%
25-34 28 4 26,7%
35-44 6 0 0%
≥45 0 0 0%
Total 87 15 100%
Das amostras analisadas, o maior número de participantes estava no segundo trimestre
de gravidez, pese embora a maioria dos casos da vaginose bacteriana verificou-se no terceiro
trimestre de gravidez com maior prevalência de 7/15 (46,7%), seguido pelo segundo trimestre
com 6/15 (40%) e primeiro trimestre com 2/15 (13,3%), respectivamente (Tabela 3).
Tabela 3: Prevalência da Vaginose bacteriana por idade gestacional em trimestres
Idade gestacional em
Trimestres
Número
total
Número com
Vaginose bacteriana
Prevalência
(%)
1o 15 2 13,3%
2o 37 6 40%
3o 35 7 46,7%
Total 87 15 100%
As gestantes foram inquiridas sobre o número de parceiros que tiveram nos últimos
seis meses, com base nesses dados colhidos constatou-se que das que tinham vaginose
bacteriana, na sua maioria apenas tiveram um parceiro com o qual mantinham relações
sexuais 10/15 (66,7%), 4/15 (26,7%) possuíam 2 parceiros e 1/15 (6,6%) teve mais de 3
parceiros. Neste mesmo conjunto de gestantes com vaginose bacteriana, observou-se que
mais da metade 10/15 (66,7%) nunca havia usado preservativo em suas relações sexuais e as
restantes 5/15 (33,3%) não usavam constantemente, apenas em algumas ocasiões (Gráfico 2).
15
Gráfico 2: Comportamento de risco em mulheres com Vaginose bacteriana
5. Discussão
A vaginose bacteriana tem uma correlação directa com trabalho de parto e rotura de
membrana prematura, recém-nascidos de baixo peso, abortos, morte fetal, nados mortos
necessitando de estratégias preventivas e terapêuticas eficazes para evitar estas complicações
(ALESSI & OKASAKI, 2007). Por outro lado a vaginose bacteriana associa-se como
cofactor de risco na aquisição de IST e HIV, tornando-se tal como as outras IST um problema
de saúde pública (ALESSI & OKASAKI, 2007).
Em muitos locais de Moçambique a vaginose bacteriana é tratada utilizando a
abordagem sindromática (MISAU, 2006). O diagnóstico sindromático é vantajoso devido a
rapidez no atendimento a uma maior cobertura da rede sanitária básica, uma vez que não
necessita de equipamento laboratorial. As suas desvantagens são o facto de ser dispendioso
devido à quantidade de medicamento necessário para tratar todas as possíveis causas de
sintomas de infecções vaginais e de não abranger as utentes assintomáticas (MISAU, 2006).
Durante a gravidez, a presença de um corrimento vaginal é comum e decorre principalmente
da hipertrofia do epitélio vaginal com aumento de células contendo glicogénio.
Há também, sem haver necessariamente uma infecção uma maior vulnerabilidade para
infecções vaginais, como por exemplo, para a candidíase (BATES, 2003).
5
10
10
4
1
0
2
4
6
8
10
12
Nᵒ de parceiros Uso de preservativo
Sempre
Às vezes
Nunca
1
2
3 ou mais
33.3%
66.7%
26.7%
6.6%
66.7%
16
O tratamento sindromático não diferencia estas situações por isso sempre que possível
deve efectuar-se o diagnóstico laboratorial destas infecções ou na sua impossibilidade, um
misto de microscopia e de abordagem sindromática.
No presente estudo observou-se uma prevalência de 17% de vaginose bacteriana em
87 mulheres. Um estudo realizado na Nigéria em 2017 registou uma taxa de prevalência de
40,1% entre 212 mulheres grávidas (ABDULLATEEF et al, 2017), a qual foi muito elevada
em relação ao encontrado neste estudo. Noutro estudo também realizado na Nigéria em 2015
foi descrita uma prevalência de 33,3% de Vaginose bacteriana, numa de amostra de 150
mulheres gestantes (OLARINDE et al, 2015), em Mwanza, Tanzania observou-se uma
prevalência de Vaginose bacteriana de 28.5% em 283 mulheres (SHAYO et al. 2012). Outro
estudo feito no Zimbabwe teve uma prevalência de vaginose bacteriana de 36.2% em 691
mulheres gravidas (NYARADZAI et al. 2010), em Gaborone, Botswana, a prevalência foi de
38% em 268 mulheres gravidas avaliadas (ROMOREN et al. 2006).
As altas prevalências relatadas noutras pesquisas poderiam estar aliadas em primeira
instância, ao tamanho da amostra usada nas pesquisas em referências. Neste estudo foram
usadas somente 87 amostras, o que não faz sequer metade do tamanho da amostra usada nos
outros estudos.
Sendo assim, pode-se observar que independentemente da amostra reduzida usada, a
prevalência foi significativa (17%) o que não deixa de ser uma preocupação para as
instituições provedoras de saúde, particularmente para genecologia e obstetrícia
No presente estudo houve maior prevalência de vaginose bacteriana em gestantes no
segundo e terceiro trimestres de gravidez, 40% e 46.7% respectivamente. CAUCI et al (2005)
diz que mulheres no segundo e terceiro trimestre de gestação, apresentam maior risco de
desenvolver vaginose bacteriana e possível parto prematuro, devido às inter-relações
sinergísticas entre os factores de virulência, produzidos por bactérias, presentes na microbiota
vaginal alterada, com consequente elevação do risco de resultados gestacionais adversos.
Existem poucos estudos sobre o impacto da vaginose bacteriana em mulheres gravidas em
países em desenvolvimento. A vaginose bacteriana foi associada ao parto prematuro em um
estudo prospectivo na Indonésia, especialmente quando diagnosticada no início do segundo
trimestre de gravidez entre 16 e 20 semanas de gestação (GUIMARÃES, 2012).
17
No presente estudo observou-se por um lado, que as gestantes com vaginose
bacteriana, na sua maioria tinham apenas um parceiro com o qual mantinham relações
sexuais sendo que algumas tinham de 2 a até 6 parceiros e por outro lado a maioria nunca
tinham usado o preservativo em suas relações sexuais sendo que uma minoria confirmou o
uso do mesmo apenas em algumas das ocasiões. Acredita-se que estes factores estejam
directamente ligados a alta prevalência da vaginose bacteriana em gestantes que participaram
no estudo.
MARÇALO & BEIRÃO (2018) em seu estudo relacionam a vaginose bacteriana a
factores muitas vezes associados a frequência da actividade sexual pois, verifica-se uma
maior prevalência em mulheres com múltiplos parceiros sexuais e naquelas com novo
parceiro sexual (se não for utilizado preservativo). Também há um risco aumentado
em mulheres que têm relações sexuais com outras mulheres embora não seja bem explícito.
No entanto, as mulheres que nunca foram sexualmente activas podem também ser afectadas
uma vez que a vaginose bacteriana pode ser espontânea. MARÇALO & BEIRÃO (2018)
ainda apontam a presença de outras IST (tricomoníase, a gonorreia, a infecção por herpes ou
a infecção pelo HIV), associados a um aumento do risco de vaginose bacteriana assim como,
o uso exagerado de duche vaginal, com eliminação de lactobacilos vaginais. Embora, a
prática sexual com parceiros múltiplos seja factor de risco para a aquisição, neste estudo não
foi encontrada a relação parceiro múltiplo-vaginose bactriana visto que, maior parte das
gestantes com vaginose bacteriana apresentavam apenas um parceiro sexual.
18
6. Conclusão
A Vaginose bacteriana destaca-se entre as alterações da microbiota vaginal como sendo a
principal causa de corrimento e mau odor vaginal. A incidência da vaginose bacteriana é elevada
a nível mundial, tanto em gestantes quanto em não gestantes. O diagnóstico dessa infecção é
especialmente importante durante a gestação, uma vez que tem sido associado a aumento das
taxas de complicações gestacionais. As diferenças no nível socioeconómico e cultural, além de
factores genéticos e ambientais, podem afectar tanto a prevalência desta infecção, como também
as metodologias de diagnóstico e a adesão ao tratamento.
O presente estudo não permitiu tirar grandes conclusões a respeito das gestantes atendidas
no CSM, pois embora tenha havido uma prevalência de 17% o nosso universo populacional era
de apenas 100 amostras. Porém a prevalência é tida como alta visto que a vaginose bacteriana tem
uma incidência elevada e tem consequências graves na gravidez. Além disso, a vaginose
bacteriana está directamente associada a outros factores como os parceiros sexuais múltiplos e
sexo desprotegido embora possa ocorrer em mulheres que ainda não têm vida sexual activa.
Apesar da elevada incidência e grande importância da vaginose bacteriana para as
gestantes assim como as não gestantes no contexto gineco-obstétrico nota-se ainda a falta de
conhecimento sobre a vaginose bacteriana no seu todo assim como as outras vulvovaginites,
assim como a falta de conhecimento sobre certos factores de risco relacionados a vaginose e a
uma vida sexual saudável. Em contra partida, o diagnóstico de vaginose bacteriana continua
sendo negligenciado pelos clínicos assim como pelos serviços de saúde devido a falta dos
meios de diagnóstico de rotina. Portanto, conclui-se que o conhecimento da etiologia, o
diagnóstico correcto e o tratamento adequado da vaginose bacteriana pode contribuir para a
realização de exame pré-natal mais completo, visando reduzir as taxas de vaginose bacteriana
e suas consequências na população.
Por na maior parte das vezes a vaginose bacteriana ser assintomática é necessário pôr
em prática as medidas de prevenção por um lado e por outro conhecer os factores de risco
para o aparecimento da vaginose bacteriana principalmente em mulheres grávidas, visto que,
esta pode ter consequências graves na gravidez. O tratamento assim como o rastreio das
mulheres com vaginose bacteriana assintomáticas tem sido um desafio para os sistemas de
saúde a nível mundial sendo por isso a melhor forma de diagnóstico é a abordagem
sindromática apesar de ser dispendiosa e transtornante.
19
7. Bibliografia
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Vaginoses e Vulvovaginites Durante a Gestação. Rev. Enferm UNISA. Disponível em:
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Vaginose bacteriana

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    1 Índice Lista de gráficos.......................................................................................................................IV Listade Tabelas ........................................................................................................................V Lista de abreviaturas ................................................................................................................VI Resumo....................................................................................................................................VII 1. Introdução ...........................................................................................................................6 1.1. Objectivos..................................................................................................................10 1.1.1. Geral...................................................................................................................10 1.1.2. Específicos .........................................................................................................10 2. Metodologia......................................................................................................................11 2.1. Colheita de amostras .................................................................................................11 3. Vaginose bacteriana..........................................................................................................12 4. Resultados.........................................................................................................................13 5. Discussão ..........................................................................................................................15 6. Conclusão .........................................................................................................................18 7. Bibliografia .......................................................................................................................19
  • 2.
    2 Lista de gráficos Gráfico1: Classificação da Vaginose bacteriana segundo método de Nugent........................13 Gráfico 2: Comportamento de risco em mulheres com Vaginose bacteriana.........................15
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    3 Lista de Tabelas Tabela1: Critério de Nugent modificado para diagnóstico de Vaginose bacteriana..............12 Tabela 2: Prevalência da Vaginose bacteriana por grupos etários...........................................14 Tabela 3: Prevalência da Vaginose bacteriana por idade gestacional em trimestres...............14
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    4 Lista de abreviaturas IST:Infecções sexualmente transmissíveis KOH: Hidróxido de potássio VB: Vaginose bacteriana pH: Potencial hidrogeniónico HIV: Vírus da imunodeficiência humana CSM: Centro de Saúde da Maxixe OMS: Organização Mundial da Saúde MISAU: Ministério da Saúde INE: Instituto Nacional de Estatística
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    5 Resumo A vaginose bacterianaé uma síndrome caracterizada pelo corrimento vaginal podendo ou não ter um cheiro característico, decréscimo do pH vaginal e constitui um dos problemas de saúde pública mais comuns em todo o mundo em mulheres com idade reprodutiva. A infertilidade feminina, perdas gestacionais e o aumento do risco para a infeção pelo HIV são algumas das suas consequências. Nos países da Àfrica Subsariana como Moçambique, a prevalência real desta infeção é quase desconhecida. Assim, desenvolveu-se este estudo com o objectivo analisar a prevalência de Vaginose bacteriana em mulheres grávidas atendidas no Centro de Saúde da Cidade de Maxixe e identificar os factores de riscos a esta associada. No estudo foram usadas 87 amostras de mulheres grávidas que frequentavam as consultas externas pré-natais no CSM. As amostras de exsudado vaginal foram obtidas, coradas pelo método de Gram e observadas microscopicamente usando método de Nugent para identificação da vaginose bacteriana. A prevalência da vaginose bacteriana foi de 17 %, sendo que a maior prevalência foi registada na faixa etária de 15-24 anos de idade. Nesta população, o uso inconsistente do preservativo nas relações sexuais e parceiros múltiplos constituem factores de risco na aquisição desta infecção. Portanto, conclui-se que o conhecimento da etiologia, o diagnóstico correcto e o tratamento adequado da vaginose bacteriana pode contribuir para a realização de exame pré-natal mais completo, visando reduzir as taxas de vaginose bacteriana e suas consequências na gravidez. Palavras-chave: vaginose bacteriana, prevalência, mulheres grávidas.
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    6 1. Introdução A incidênciadas infecções sexualmente transmissíveis (IST) e vaginais tem aumentado significativamente, tornando-se um grave problema de saúde pública em todo o mundo (WHO, 2007). O aumento da incidência das IST e vaginais representa um importante problema de saúde pública, com um elevado peso socioeconómico (WHO, 2007; NUNES, 2015), quer pela significativa morbilidade e mortalidade que provocam em indivíduos jovens, quer pelas consequências nefastas que podem ter a nível da saúde materno-infantil (MENÉNDEZ et al, 2010). O controlo dessas infecções tem se tornado alvo de acções em saúde pública, no entanto, apesar de haver medidas básicas de prevenção as IST, continuam a disseminar-se pela população (WHO, 2007; OLIVEIRA, 2011). As mulheres são biologicamente mais susceptíveis às infecções sexualmente transmis- síveis (ISTs) e a maioria é assintomática. No entanto, em todo mundo, uma das causas mais comuns de infecção vaginal, em mulheres em idade fértil, é a Vaginose bacteriana. Esta tem sido frequentemente encontrada nas clínicas de ginecologia, quer como queixa da doente, quer ocasionalmente numa consulta de rotina (DALL, 2014; MOTA, 2000). A vaginose bacteriana é uma síndrome caracterizada pelo decréscimo do pH vaginal, corrimento leitoso, podendo ou não ter um cheiro característico. Microbiologicamente, a vaginose bacteriana caracteriza-se pelo decréscimo de Lactobacillus spp os quais fazem parte da população microbiana normal do aparelho genital feminino, e aumento de Gardnerella vaginalis, Bacteroides spp., Mobilluncus spp., e Mycoplasma hominis. Porque a Vaginose bacteriana é o sindrome clínico que tem sido associado com grupos de microrganismos genitais mais que qualquer outro agente etiológico, foi definida primariamente pelos seguintes sinais clínicos: pH vaginal >4.5, odor fétido ou a presença de odor de amina após a adição de KOH, corrimento vaginal branco-acinzentado, ocasionando a esfoliação das células epiteliais (DALL, 2014; NUGENT, 1990). Como esta infecção pode levar a corioamnionite (infecção do fluido amniótico), a morte intrauterina do feto e está associada a nascimentos prematuros, torna-se necessária a padronização de um método de diagnóstico eficaz para a mesma. Normalmente, o diagnóstico de Vaginose bacteriana baseia-se em vários factores, como corrimento vaginal, teste de KOH positivo e presença de clue-cells na preparação a fresco ou na coloração pelo Gram.
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    7 Este método, quese baseia parcialmente em sinais clínicos e por vezes controverso, pois é subjectivo e os sinais podem ser muito subtís e passarem despercebidos. Por estas razões, SPIEGEL et al (1997) propôs um método alternativo baseado apenas na interpretação de esfregaços vaginais corados pelo Gram. Este consiste na quantificação de Lactobacillus, G. vaginalis e outros morfotipos (cocos, bacilos curvos e fusiformes), atribuindo-lhes uma classificação de 0 a 4+, sendo diagnosticada Vaginose bacteriana quando a sua soma for 7 ou superior. Por sua vez, NUGENT et al (1991), modificou este método de diagnóstico, tendo em atenção os morfotipos mais comuns na Vaginose bacteriana (Gardnerella vaginalis, Mobiluncus sp. e Bacteriodes sp.) e os Lactobacillus. Trata-se de um método rápido, económico, de fácil padronização e passível de ser utilizado por qualquer laboratório e até mesmo por um clínico no seu consultório. Com base em estudos comparativos, percebeu-se que a técnica de Nugent foi a mais eficaz em relação à de Amsel, sendo assim, resolveu-se efectuar o estudo de com base no método de Nugent. Por outro lado, e uma vez que o isolamento deste microrganismo tem sido difícil e controverso, tentou-se também relacionar este parâmetro com as duas técnicas anteriores. De notar, no entanto, que o isolamento de Gardnerella vaginalis não tem sido até agora recomendado como método de diagnóstico laboratorial de rotina, já que este microrganismo pode fazer parte da população microbiana normal de algumas mulheres (MOTA et al, 2000). A vaginose bacteriana pode surgir e resolver espontaneamente. Embora não seja considerada uma infecção sexualmente transmissível (IST), está muitas vezes associada à frequência da actividade sexual. Verifica-se uma maior prevalência em mulheres com múltiplos parceiros sexuais, e naquelas com novo parceiro sexual (se não for utilizado preservativo). No entanto, as mulheres que nunca foram sexualmente activas podem também ser afectadas (MARÇALO & BEIRÃO, 2018). A presença de outras IST’s vaginais tais como a tricomoníase, a gonorreia, a infecção por herpes ou a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), parece estar associada a um aumento do risco de vaginose bacteriana. O uso exagerado de duche vaginal, com eliminação de lactobacilos vaginais, é outro factor de risco. Um estudo com o objectivo de determinar a prevalência das IST’s em mulheres atendidas nas clínicas de planeamento familiar em Moçambique foi realizado em 2003, detectou entre essas mulheres, 64% de casos de vaginose bacteriana (MISAU, 2006).
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    8 Um estudo realizadoem 2011 em Maputo com objectivo de determinar a etiologia das IST teve uma prevalência de 45% de vaginose bacteriana ( ZIMBA et al.,2011) e o outro realizado também em Maputo em 2008 com objectivo de Determinar a prevalência de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) em um grupo de jovens mulheres que frequentam o Serviço Amigável de Adolescentes e Jovens foi de 12.9% (MELO et al., 2008). A informação sobre a prevalência da vaginose bacteriana em mulheres grávidas em Moçambique é escassa e sabe-se que, tal como as restantes IST, estas são cofactores de infecção pelo HIV (MISAU, 2006). As IST durante a gravidez podem ter consequências drásticas para a grávida e para o recém-nascido, associam-se a um desconforto considerável podendo ter como consequências a interrupção da gravidez, baixo peso ao nascer e o aumento da mortalidade infantil (OMS, 2008; OLOWE et al, 2014). Nas consultas pré-natais do Centro de Saúde de Maxixe, o diagnóstico da vaginose bacteriana, candidíase, tricomoníase, entre outras é baseado na abordagem sindromática, sendo efectuada terapêutica quando estão presentes sintomas, segundo o esquema daquela abordagem (MISAU, 2006). Em todo mundo, uma das causas mais comuns de infecção vaginal, em mulheres em idade fértil, é a vaginose bacteriana (DALL & JASKULSKI, 2014; SCHALKWYK & YUDIN, 2008), sendo a vaginose bacteriana (VB), a candidíase e a tricomoníase são responsáveis por 90% dos casos de vaginites (DALL & JASKULSKI, 2014; SCHALKWYK & YUDIN, 2008). As vaginites podem causar diferentes tipos de morbilidade nas mulheres principalmente em idade reprodutiva, particularmente durante a gravidez tais como: aborto e nados mortos (SCHALKWYK & YUDIN, 2008). Ao longo da história da saúde pública, a atenção materno-infantil é tida como uma área prioritária e que permanece como um campo de especial e intensa preocupação, destacando-se os cuidados crescentes durante a gestação (GUIMARÃES, 2012). Na gravidez observa-se o aumento da incidência de patologias, já que organismo da mulher está se adaptando às novas mudanças provenientes do feto, sendo uma das queixas mais comuns, a vulvovaginite, destacando-se a Vaginose bacteriana. Vários autores apontam esta infecção como a principal causa de complicações na gravidez, tais como: prematuridade do feto, baixo peso ao nascer, ruptura prematura de membranas e infecção puerperal (GOMES et al, 2016).
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    9 A única estratégiapara evitar todas as complicações citadas anteriormente é a assistência durante a gestação, isto é, nas consultas pré-natais. Assistência pré-natal é a avaliação sistemática e cuidadosa e o acompanhamento da paciente grávida, a fim de assegurar as melhores condições de saúde possíveis para a mãe e para o feto (GUIMARÃES, 2012). Sendo este problema causa importante de complicações como trabalho de parto prematuro, rotura permanente das membranas, prematuridade e recém-nascido de baixo peso, tornou-se de todo o interesse desenvolver um estudo nesta temática, de modo a contribuir para a promoção da saúde da mulher e da criança.
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    10 1.1. Objectivos 1.1.1. Geral Analisar a prevalência de Vaginose bacteriana em mulheres grávidas atendidas no Centro de Saúde da Cidade de Maxixe. 1.1.2. Específicos  Identificar a vaginose bacteriana em mulheres grávidas;  Identificar os factores relacionados com a Vaginose bacteriana entre mulheres em período gestacional.
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    11 2. Metodologia O presentetrabalho foi elaborado com base em um estudo realizado em 2016 onde a população incluía mulheres grávidas que frequentaram as consultas externas pré-natais no Centro de Saúde de Maxixe, localizado na Cidade de Maxixe, Província de Inhambane região Sul de Moçambique, no período de Janeiro a Abril de 2016. Todos os procedimentos éticos, os critérios de inclusão, exclusão e de recrutamento das participantes exigidos, numa pesquisa na área de Saúde foram seguidos no estudo principal, neste estudo foram feitas análises laboratoriais das lâminas coradas pelo método de Gram usando o método de Nugent no laboratório de Microbiologia da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Pedagógica em Julho 2018. Alguns dados socio-demográficos e comportamentais das participantes como a idade, trimestre da gravidez, uso de preservativo, número de parceiros entre outros foram incluídos neste estudo, estes dados foram retirados da base de dados do estudo principal. 2.1. Colheita de amostras À todas as mulheres grávidas incluídas no estudo foi efectuada a colheita de amostras de exsudado vaginal, após obtenção da assinatura do consentimento informado. A colheita do exsudado vaginal foi efectuada pelas próprias mulheres grávidas (auto-colheita) após a explicação do investigador. Para tal, foi entregue uma zaragatoa simples. A partir da colheita do exsudado vaginal com zaragatoa simples foi efectuado um esfregaço em lâmina para corar pela técnica de Gram. A colheita de exsudado vaginal teve por finalidade o diagnóstico de vaginose bacteriana. Neste presente estudo as análises laboratoriais usando método de Nugent foram efectuadas com base nas lâminas conservadas nas laminatecas (cada laminateca continha 100 lâminas coradas) disponibilizadas pelo próprio pesquisador. A escolha duma laminateca para observação das lâminas no laboratório, nessas três laminatecas foi aleatória. A observação foi feita no laboratório de Microbiologia da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Pedagógica em Julho de 2018.
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    12 3. Vaginose bacteriana Odiagnóstico laboratorial de vaginose bacteriana foi efectuado pelo método de Nugent, a partir das lâminas contendo o esfregaço vaginal, corada pela técnica de Gram e observadas ao microscópio óptico com objectiva de imersão de 100X. As estruturas visualizadas foram quantificadas (Tabela 1) de 1+ a 4+, tendo sido avaliadas a redução de lactobacilos e o predomínio de coco bacilos de coloração de Gram variável tipo Gardnerella vaginalis e ou bacilos curvos tipo Mobiluncus spp. Para cada morfotipo foi verificado o valor correspondente na Tabela 1 (Nugent et al, 1991). A pontuação individual para cada um dos quatro morfotipos foi somado, obtendo-se pontuação total com seguinte interpretação: Flora normal (0-3), Flora intermédia (4-6) e Vaginose bacteriana (7-10). Para a realização do método de Nugent et al, classificaram-se os morfotipos de 0 a 4+, consoante o número observado por campo óptico que esta é depois convertida em Score (pontuação):  0: sem morfotipos;  1+: < um morfotipo;  2+: 1 a 4 morfotipos;  3+: 5 a 30 morfotipos;  4+: 30 morfotipos. Tabela 1: Critério de Nugent modificado para diagnóstico de Vaginose bacteriana Tipos morfológicos dos microorganismos Pontuação segundo a quantidade de microrganismos Nada 1+ 2+ 3+ 4+ Bacilos longos Gram (+) 4 3 2 1 0 Cocobacilos Gram (+) ou Gram variáveis 0 1 2 2 4 Bacilos curvos Gram (-) 0 1 2 3 2  0-3: Flora Normal  4-6: Flora Intermediária  7-10: Vaginose bacteriana
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    13 4. Resultados No presenteestudo foram incluídas 100 amostras (lâminas coradas) das utentes do Centro de Saúde de Maxixe. No entanto, apenas foram analisadas 87, porque as outras 13 estavam quebradas o que dificultou a sua análise. Na totalidade, 13 foram excluídas do estudo. Das amostras analisadas, as participantes tinham idades compreendidas entre os 15 e os 44 anos. A média das idades foi de 24,2. Foram analisadas um total de 87 amostras de mulheres grávidas das quais 28/87 (32%) apresentavam uma flora normal, 44/87 (51%) apresentavam flora intermédia e 15/87 (17%) foram descritas com Vaginose bacteriana (Gráfico 1). Gráfico 1: Classificação da Vaginose bacteriana segundo método de Nugent Os dados em relação à idade das participantes foram agrupados em quatro grupos, de acordo com a classificação do Instituto Nacional de Estatística (INE, 2011; EATON et al, 2014), 15-24, 25-34, 35-44 e ≥45 (Tabela 2). O grupo etário correspondente à maioria dos casos com Vaginose bacteriana foi o de 15-24 anos, seguido do 25-34, com 11/15 (73,3%) e 4/15 (26,7%), respectivamente. Noutros grupos etários, não foram observados casos da Vaginose bacteriana. 32% 51% 17% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% Flora Normal Flora Intermédia Vaginose Bacteriana 28 44 15
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    14 Tabela 2: Prevalênciada Vaginose bacteriana por grupos etários Grupo etário ou faixa etária (anos) Número total Número com Vaginose bacterina Prevalência (%) 15-24 53 11 73,3% 25-34 28 4 26,7% 35-44 6 0 0% ≥45 0 0 0% Total 87 15 100% Das amostras analisadas, o maior número de participantes estava no segundo trimestre de gravidez, pese embora a maioria dos casos da vaginose bacteriana verificou-se no terceiro trimestre de gravidez com maior prevalência de 7/15 (46,7%), seguido pelo segundo trimestre com 6/15 (40%) e primeiro trimestre com 2/15 (13,3%), respectivamente (Tabela 3). Tabela 3: Prevalência da Vaginose bacteriana por idade gestacional em trimestres Idade gestacional em Trimestres Número total Número com Vaginose bacteriana Prevalência (%) 1o 15 2 13,3% 2o 37 6 40% 3o 35 7 46,7% Total 87 15 100% As gestantes foram inquiridas sobre o número de parceiros que tiveram nos últimos seis meses, com base nesses dados colhidos constatou-se que das que tinham vaginose bacteriana, na sua maioria apenas tiveram um parceiro com o qual mantinham relações sexuais 10/15 (66,7%), 4/15 (26,7%) possuíam 2 parceiros e 1/15 (6,6%) teve mais de 3 parceiros. Neste mesmo conjunto de gestantes com vaginose bacteriana, observou-se que mais da metade 10/15 (66,7%) nunca havia usado preservativo em suas relações sexuais e as restantes 5/15 (33,3%) não usavam constantemente, apenas em algumas ocasiões (Gráfico 2).
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    15 Gráfico 2: Comportamentode risco em mulheres com Vaginose bacteriana 5. Discussão A vaginose bacteriana tem uma correlação directa com trabalho de parto e rotura de membrana prematura, recém-nascidos de baixo peso, abortos, morte fetal, nados mortos necessitando de estratégias preventivas e terapêuticas eficazes para evitar estas complicações (ALESSI & OKASAKI, 2007). Por outro lado a vaginose bacteriana associa-se como cofactor de risco na aquisição de IST e HIV, tornando-se tal como as outras IST um problema de saúde pública (ALESSI & OKASAKI, 2007). Em muitos locais de Moçambique a vaginose bacteriana é tratada utilizando a abordagem sindromática (MISAU, 2006). O diagnóstico sindromático é vantajoso devido a rapidez no atendimento a uma maior cobertura da rede sanitária básica, uma vez que não necessita de equipamento laboratorial. As suas desvantagens são o facto de ser dispendioso devido à quantidade de medicamento necessário para tratar todas as possíveis causas de sintomas de infecções vaginais e de não abranger as utentes assintomáticas (MISAU, 2006). Durante a gravidez, a presença de um corrimento vaginal é comum e decorre principalmente da hipertrofia do epitélio vaginal com aumento de células contendo glicogénio. Há também, sem haver necessariamente uma infecção uma maior vulnerabilidade para infecções vaginais, como por exemplo, para a candidíase (BATES, 2003). 5 10 10 4 1 0 2 4 6 8 10 12 Nᵒ de parceiros Uso de preservativo Sempre Às vezes Nunca 1 2 3 ou mais 33.3% 66.7% 26.7% 6.6% 66.7%
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    16 O tratamento sindromáticonão diferencia estas situações por isso sempre que possível deve efectuar-se o diagnóstico laboratorial destas infecções ou na sua impossibilidade, um misto de microscopia e de abordagem sindromática. No presente estudo observou-se uma prevalência de 17% de vaginose bacteriana em 87 mulheres. Um estudo realizado na Nigéria em 2017 registou uma taxa de prevalência de 40,1% entre 212 mulheres grávidas (ABDULLATEEF et al, 2017), a qual foi muito elevada em relação ao encontrado neste estudo. Noutro estudo também realizado na Nigéria em 2015 foi descrita uma prevalência de 33,3% de Vaginose bacteriana, numa de amostra de 150 mulheres gestantes (OLARINDE et al, 2015), em Mwanza, Tanzania observou-se uma prevalência de Vaginose bacteriana de 28.5% em 283 mulheres (SHAYO et al. 2012). Outro estudo feito no Zimbabwe teve uma prevalência de vaginose bacteriana de 36.2% em 691 mulheres gravidas (NYARADZAI et al. 2010), em Gaborone, Botswana, a prevalência foi de 38% em 268 mulheres gravidas avaliadas (ROMOREN et al. 2006). As altas prevalências relatadas noutras pesquisas poderiam estar aliadas em primeira instância, ao tamanho da amostra usada nas pesquisas em referências. Neste estudo foram usadas somente 87 amostras, o que não faz sequer metade do tamanho da amostra usada nos outros estudos. Sendo assim, pode-se observar que independentemente da amostra reduzida usada, a prevalência foi significativa (17%) o que não deixa de ser uma preocupação para as instituições provedoras de saúde, particularmente para genecologia e obstetrícia No presente estudo houve maior prevalência de vaginose bacteriana em gestantes no segundo e terceiro trimestres de gravidez, 40% e 46.7% respectivamente. CAUCI et al (2005) diz que mulheres no segundo e terceiro trimestre de gestação, apresentam maior risco de desenvolver vaginose bacteriana e possível parto prematuro, devido às inter-relações sinergísticas entre os factores de virulência, produzidos por bactérias, presentes na microbiota vaginal alterada, com consequente elevação do risco de resultados gestacionais adversos. Existem poucos estudos sobre o impacto da vaginose bacteriana em mulheres gravidas em países em desenvolvimento. A vaginose bacteriana foi associada ao parto prematuro em um estudo prospectivo na Indonésia, especialmente quando diagnosticada no início do segundo trimestre de gravidez entre 16 e 20 semanas de gestação (GUIMARÃES, 2012).
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    17 No presente estudoobservou-se por um lado, que as gestantes com vaginose bacteriana, na sua maioria tinham apenas um parceiro com o qual mantinham relações sexuais sendo que algumas tinham de 2 a até 6 parceiros e por outro lado a maioria nunca tinham usado o preservativo em suas relações sexuais sendo que uma minoria confirmou o uso do mesmo apenas em algumas das ocasiões. Acredita-se que estes factores estejam directamente ligados a alta prevalência da vaginose bacteriana em gestantes que participaram no estudo. MARÇALO & BEIRÃO (2018) em seu estudo relacionam a vaginose bacteriana a factores muitas vezes associados a frequência da actividade sexual pois, verifica-se uma maior prevalência em mulheres com múltiplos parceiros sexuais e naquelas com novo parceiro sexual (se não for utilizado preservativo). Também há um risco aumentado em mulheres que têm relações sexuais com outras mulheres embora não seja bem explícito. No entanto, as mulheres que nunca foram sexualmente activas podem também ser afectadas uma vez que a vaginose bacteriana pode ser espontânea. MARÇALO & BEIRÃO (2018) ainda apontam a presença de outras IST (tricomoníase, a gonorreia, a infecção por herpes ou a infecção pelo HIV), associados a um aumento do risco de vaginose bacteriana assim como, o uso exagerado de duche vaginal, com eliminação de lactobacilos vaginais. Embora, a prática sexual com parceiros múltiplos seja factor de risco para a aquisição, neste estudo não foi encontrada a relação parceiro múltiplo-vaginose bactriana visto que, maior parte das gestantes com vaginose bacteriana apresentavam apenas um parceiro sexual.
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    18 6. Conclusão A Vaginosebacteriana destaca-se entre as alterações da microbiota vaginal como sendo a principal causa de corrimento e mau odor vaginal. A incidência da vaginose bacteriana é elevada a nível mundial, tanto em gestantes quanto em não gestantes. O diagnóstico dessa infecção é especialmente importante durante a gestação, uma vez que tem sido associado a aumento das taxas de complicações gestacionais. As diferenças no nível socioeconómico e cultural, além de factores genéticos e ambientais, podem afectar tanto a prevalência desta infecção, como também as metodologias de diagnóstico e a adesão ao tratamento. O presente estudo não permitiu tirar grandes conclusões a respeito das gestantes atendidas no CSM, pois embora tenha havido uma prevalência de 17% o nosso universo populacional era de apenas 100 amostras. Porém a prevalência é tida como alta visto que a vaginose bacteriana tem uma incidência elevada e tem consequências graves na gravidez. Além disso, a vaginose bacteriana está directamente associada a outros factores como os parceiros sexuais múltiplos e sexo desprotegido embora possa ocorrer em mulheres que ainda não têm vida sexual activa. Apesar da elevada incidência e grande importância da vaginose bacteriana para as gestantes assim como as não gestantes no contexto gineco-obstétrico nota-se ainda a falta de conhecimento sobre a vaginose bacteriana no seu todo assim como as outras vulvovaginites, assim como a falta de conhecimento sobre certos factores de risco relacionados a vaginose e a uma vida sexual saudável. Em contra partida, o diagnóstico de vaginose bacteriana continua sendo negligenciado pelos clínicos assim como pelos serviços de saúde devido a falta dos meios de diagnóstico de rotina. Portanto, conclui-se que o conhecimento da etiologia, o diagnóstico correcto e o tratamento adequado da vaginose bacteriana pode contribuir para a realização de exame pré-natal mais completo, visando reduzir as taxas de vaginose bacteriana e suas consequências na população. Por na maior parte das vezes a vaginose bacteriana ser assintomática é necessário pôr em prática as medidas de prevenção por um lado e por outro conhecer os factores de risco para o aparecimento da vaginose bacteriana principalmente em mulheres grávidas, visto que, esta pode ter consequências graves na gravidez. O tratamento assim como o rastreio das mulheres com vaginose bacteriana assintomáticas tem sido um desafio para os sistemas de saúde a nível mundial sendo por isso a melhor forma de diagnóstico é a abordagem sindromática apesar de ser dispendiosa e transtornante.
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