Da psicologia à neurologia
                                              simbólica no estudo da drogadição
  Prefácio
                                                        Carlos Amadeu Botelho Byington




    Este livro, além do mérito de publicar os re-    psicológica para símbolo e função estruturantes,
sultados das pesquisas dos autores e de seus co-     que incluem a parte concreta junto com os
legas convidados, tem ainda um outro, que é a        significados de todas as coisas e forças que as
coragem de confrontar na Neurologia a                operam. Os símbolos estruturantes são elabora-
dissociação mente-corpo, que domina as Ciên-         dos pelas funções estruturantes, coordenadas
cias Naturais e a Medicina desde o final do          por arquétipos, e os significados produzidos por
século dezoito. Esta dissociação dificulta o         sua elaboração formam a identidade do Ego e
estudo conjunto da neurofisiologia e dos fatores     do Objeto (o Outro) na Consciência. Concebe-
ideativos-emocionais, individuais e culturais        se, assim, a Ciência Simbólica, que descreve o
que compõem o distúrbio da droga-adição.             Processo de Humanização do Cosmos e que
     Quando a Ciência tomou o poder na Uni-          inclui a Medicina Simbólica e, por conseguinte,
versidade e daí expulsou a Inquisição, ela           também a Neurologia simbólica. Este processo,
passou a subordinar a verdade exclusivamente         formulado na obra de Teilhard de Chardin,
à objetividade, e dela excluiu a subjetividade e     descreve a formação da Consciência a partir da
a totalidade subjetivo-objetivo. Apesar de hoje      evolução da vida e da complexificação progres-
a filosofia da pesquisa científica buscar resgatar   siva do Sistema Nervoso das espécies.
esse subjetivo banido, como por exemplo, na              A Neurologia simbólica continua a idéia de
Fenomenologia de Husserl e de Heidegger, e           Freud esboçada no Projeto para uma Psicolo-
nas Ciências Sociais de um modo geral, falta         gia Científica, de 1895: “A finalidade deste
ainda a formulação da dimensão subjetivo-            projeto é estruturar uma psicologia que seja
objetivo para formar a consciência a partir da       uma ciência natural, isto é, que represente os
coisa-em-si, que no caso do sistema nervoso          processos      psíquicos     como      estados
inclui neurônios, neurotransmissores e tudo          quantitativamente determinados de partículas
mais que o compõe, inclusive a dimensão              materiais especificáveis, dando assim a esses
ideativa-emocional, individual e cultural.           processos um caráter concreto e inequívoco”. O
    Para perceber os achados neurológicos            conceito de Psicologia proposto pelo Projeto de
anatômicos e fisiológicos junto com seus com-        Freud é a Neurologia simbólica aqui
ponentes ideativos-emocionais, ampliei os con-       conceituada.
ceitos tradicionais de símbolo e de função
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    No caso das droga-adições, a Neurologia        quirido durante os séculos dezenove e vinte,
que se atém à físico-química se limita ao estudo   tem dele se afastado.
da dependência emocional e orgânica principal-         Para conceituar a Neurologia simbólica, ba-
mente em função do que ocorre com os               seada nos conceitos de símbolo e de função
neurotransmissores do paciente em virtude do       estruturantes, é necessário reconhecer e incluir
consumo da droga. Já uma Neurologia simbóli-       no conhecimento do Sistema Nervoso todas as
ca necessita incluir na compreensão da droga-      descobertas da Psicologia e da Psiquiatria. É
adição o significado emocional das vivências       preciso romper o paradigma positivista,
individuais, familiares e socioculturais que       segundo o qual aquilo que ainda não foi
acompanham o uso da droga e o papel que elas       constatado pela neurofisiologia não deve ser
desempenham no desenvolvimento da                  incluído na Neurologia.
personalidade e da cultura. Não se trata de dar        A Psicologia Simbólica reconhece o Proces-
exclusividade dos significados simbólicos para     so de Elaboração Simbólica para formar a
a Psiquiatria ou para a Psicologia, e sim, ao      Consciência como o centro e a finalidade
contrário, de compreendê-los e estudá-los          última de toda a atividade neurológica e
dentro do Sistema Nervoso, junto com o funci-      biológica. Sua coordenação é feita pelo
onamento dos neurotransmissores.                   Quatérnio Arquetípico Regente composto pelos
    A Neurologia simbólica propõe a analogia       Arquétipos Matriarcal, Patriarcal, de Alteridade
das estruturas do Sistema Nervoso com os           e de Totalidade, que operam através da
hardwares dos computadores, e o programa dos       atividade criativa e centralizadora do Arquétipo
softwares com as reações cognitivas e emocio-      Central. O Arquétipo Matriarcal, matriz coorde-
nais adquiridas. Estabelecemos assim uma           nadora do desejo e da sensualidade, opera prin-
inclusão da Cultura na Neurologia, ao              cipalmente através do sistema neurovegetativo.
percebermos que o Sistema Nervoso incorpora        O Arquétipo Patriarcal, que coordena a organi-
progressivamente, desde o nascimento, o            zação psíquica e a execução de tarefas, se
aprendizado realizado nas gerações passadas.       exerce principalmente através do sistema
Trata-se, portanto, de um Sistema Nervoso          cérebro-espinhal. O Arquétipo de Alteridade,
intensamente “recheado de significados simbó-      que coordena a interação das polaridades,
licos, pois reconhece e assume tudo o que é e      inclusive da grande polaridade matriarcal-
tem”.                                              patriarcal, ou seja, neurovegetativa cérebro-es-
    A divisão entre a Psiquiatria e a Psicologia   pinhal, funciona através das interações das
de um lado, e a Neurologia de outro, preservou     lateralidades, como por exemplo, da decussação
nesta, indevidamente, o predomínio da              das pirâmides, do Corpo Caloso e dos inúmeros
organicidade em detrimento da psicodinâmica.       circuitos associativos. Restam o Arquétipo da
Infelizmente, a Psiquiatria, hoje, ao se           Totalidade, que rege a Consciência
reaproximar da Neurologia pelo maior conheci-      contemplativa do Todo e o Arquétipo Central,
mento dos neurotransmissores, ao invés de tra-     que coordena a relação dos eventos existenciais
zer consigo o conhecimento psicodinâmico ad-       com o desenvolvimento prospectivo da persona-
Da psicologia à neurologia simbólica no estudo da drogadição                 19


lidade, como bem descreveu Jung ao enfatizar           No entanto, para se compreender fisiológica
em toda a sua obra que o principal instinto       e emocionalmente as droga-adições, o maior
humano é o Instinto da Individuação.              desafio da Neurologia simbólica é saber a loca-
    O desafio médico e humanista da Neurolo-      lização e o funcionamento do Arquétipo Cen-
gia simbólica é assumir e pesquisar estas gran-   tral no Sistema Nervoso. É que os símbolos e
des descobertas da Psicologia. No processo de     funções estruturantes que os droga-aditos
globalização, que favorece a integração plane-    denominam “barato”, e que buscam para
tária do conhecimento, a setorização da           produzir o estado alterado de Consciência que
Neurologia dentro de uma torre de marfim          os vicia, referem-se a um estado de euforia,
neurofisiológica é cada vez mais inadmissível.    bem-estar, paz, totalidade, auto-realização e
Dentro do Humanismo Simbólico, que relaciona      felicidade, a uma sensação de que tudo está no
toda e qualquer parte com o Todo através de       seu lugar, de que o mundo é coerente, de se
seus significados, a setorização do saber tem     estar encarnado em si mesmo e no Cosmos:
cada vez menos lugar por propiciar a alienação    exatamente os símbolos e funções estruturantes
do Ser.                                           que trazem à Consciência a noção da existência
    O assunto se complica extraordinariamente     e do funcionamento centralizado e sistêmico do
quando tentamos compreender o fenômeno da         Arquétipo Central. A droga propicia à
Sombra pela Neurologia simbólica, seguindo a      Consciência a vivência que as pessoas muito
intenção de Freud quando buscou uma explica-      diferenciadas conquistam após um grande es-
ção neurológica para a defesa da repressão (in-   forço de amadurecimento.
consciente reprimido) no Projeto.                     O ser humano tem necessidade de Deus.
    Segundo a Psicologia Simbólica, a Sombra      Funda tantas religiões porque, para realizar o
se forma com suas defesas inconscientes pela      potencial da sua plenitude, projeta no Universo
fixação da elaboração de determinados símbolos    o Arquétipo Central do Self, descoberto por
e funções estruturantes, que passarão a ser ex-   Jung, e que coordena o funcionamento da
pressos inconscientemente pela compulsão de       Psique e, por conseguinte, do Sistema Nervoso.
repetição descoberta por Freud. Embasar o             Não se trata de “reduzir” Deus ao cérebro,
fenômeno da fixação ao lado da elaboração         mas sim de embasar as características todo-po-
criativa dos símbolos no funcionamento dos        derosas de ubiqüidade, atribuídas às divindades
neurotransmissores é hoje um grande desafio,      em todas as culturas, a um arquétipo que
principalmente quando nos damos conta que a       coordena todo o Processo de Elaboração
fixação, além de ser responsável pelas adições,   Simbólica. Para o droga-adito, a droga é o seu
é a sede do crime e do mal na personalidade.      salvo-conduto para a presença mágica da
Pesquisar neurofisiologicamente o fenômeno da     transcendência e da divindade. Para ajudá-lo é
fixação simbólica significa, por conseguinte,     necessário admitir que esse arquétipo existe e
abrir a Neurologia para estudar a função          buscar o seu funcionamento no Sistema
estruturante da ética.                            Nervoso através dos neurotransmissores. O
                                                  terapeuta que quer tratar da droga-adição e que
20                               Carlos Amadeu Botelho Byington


não sabe como relacionar as pessoas com a To-          A dimensão familiar do Arquétipo Central
talidade está em grande desvantagem para com-      permite à Neurologia simbólica relacionar a re-
petir com o poder simbólico das drogas. Não é      ação química dos neurotransmissores com a cri-
por acaso que tantas religiões conseguem a cura    se de adolescência e o consumo de drogas,
de droga-aditos pela conversão. É importante       como uma arma poderosa na polarização com a
para o neurologista saber que isto não ocorreu     família. Só assim podemos compreender que a
porque a cura “caiu do céu”, e sim porque, ao      mesma arma usada para fortalecer a auto-estima
estabelecer a religação da Consciência com o       e a formação da identidade da maioria dos ado-
Arquétipo Central através do símbolo da            lescentes pode se transformar no vício que a al-
divindade, o sacerdote deu ao paciente o           guns escraviza e destrói.
significado existencial que a droga química            Dentro do Self Cultural, a compreensão
magicamente lhe proporciona. Só quem tem           simbólica das drogas também nos permite en-
essa relação simbólica com a vida e a              tender a busca mágica da ligação da Consciên-
Totalidade pode dizer a um droga-adito: “Lar-      cia com o Arquétipo Central dentro da ideolo-
gue o que você sente com a droga para buscar       gia da cultura materialista e imediatista de
essa mesma vivência no trabalho e na relação       consumo, condicionada pela ideologia de mer-
com as pessoas que você preza.”                    cado neoliberal que, por sua desumanização,
    Para entender a droga-adição além da           desqualifica a dignidade do trabalho, ao mesmo
neurofisiologia, é necessário compreender o        tempo em que corrompe valores culturais que
funcionamento dos símbolos dentro da persona-      promovem a beleza e o sentido da vida.
lidade, da família, da cultura e do Planeta como        Outro ponto importante a ser destacado é a
Sistemas de Totalidade representativos do Ar-      compreensão que a Neurologia simbólica pode ter
quétipo Central do Self. Esses sistemas são        e, através dela, esclarecer a Medicina e Cultura
afetados de uma forma ou de outra pelas            sobre o gravíssimo e crescente problema gerado
drogas, que também são símbolos que alteram        pela receita indiscriminada de antidepressivos. Se,
a Consciência e a Sombra, formando-as e            por um lado, a pesquisa neurofisiológica tem pro-
transformando-as nas várias dimensões              duzido drogas prodigiosas que tornaram as indús-
humanas.                                           trias de medicamentos mais lucrativas que as in-
    As duas grandes funções simbólicas que di-     dústrias de armamentos, por outro, ela apresenta
rigem o Arquétipo Central na coordenação           uma terrível Sombra que aproxima a emblemática
neuro-endócrina do organismo são o amor e o        imagem do médico à figura hedionda do
poder. O amor rege a interação afetiva com as      narcotraficante, pelo fato de fomentar o
pessoas, o corpo e a natureza, e o poder coorde-   embotamento da Consciência e a alienação que,
na a busca de um lugar ao sol pelo esforço do      tal como a droga-adição, inibe pela dependência
crescimento de cada um. A droga-adição             de psicofármacos o potencial de auto-realização
substitui magicamente estas duas funções           do Ser.
feridas, cujo conhecimento simbólico é
necessário para a sua reparação.

Byington - Prefácio do Livro: Cérebro, Inteligência e Vínculo Emocional na Dependência de Drogas

  • 1.
    Da psicologia àneurologia simbólica no estudo da drogadição Prefácio Carlos Amadeu Botelho Byington Este livro, além do mérito de publicar os re- psicológica para símbolo e função estruturantes, sultados das pesquisas dos autores e de seus co- que incluem a parte concreta junto com os legas convidados, tem ainda um outro, que é a significados de todas as coisas e forças que as coragem de confrontar na Neurologia a operam. Os símbolos estruturantes são elabora- dissociação mente-corpo, que domina as Ciên- dos pelas funções estruturantes, coordenadas cias Naturais e a Medicina desde o final do por arquétipos, e os significados produzidos por século dezoito. Esta dissociação dificulta o sua elaboração formam a identidade do Ego e estudo conjunto da neurofisiologia e dos fatores do Objeto (o Outro) na Consciência. Concebe- ideativos-emocionais, individuais e culturais se, assim, a Ciência Simbólica, que descreve o que compõem o distúrbio da droga-adição. Processo de Humanização do Cosmos e que Quando a Ciência tomou o poder na Uni- inclui a Medicina Simbólica e, por conseguinte, versidade e daí expulsou a Inquisição, ela também a Neurologia simbólica. Este processo, passou a subordinar a verdade exclusivamente formulado na obra de Teilhard de Chardin, à objetividade, e dela excluiu a subjetividade e descreve a formação da Consciência a partir da a totalidade subjetivo-objetivo. Apesar de hoje evolução da vida e da complexificação progres- a filosofia da pesquisa científica buscar resgatar siva do Sistema Nervoso das espécies. esse subjetivo banido, como por exemplo, na A Neurologia simbólica continua a idéia de Fenomenologia de Husserl e de Heidegger, e Freud esboçada no Projeto para uma Psicolo- nas Ciências Sociais de um modo geral, falta gia Científica, de 1895: “A finalidade deste ainda a formulação da dimensão subjetivo- projeto é estruturar uma psicologia que seja objetivo para formar a consciência a partir da uma ciência natural, isto é, que represente os coisa-em-si, que no caso do sistema nervoso processos psíquicos como estados inclui neurônios, neurotransmissores e tudo quantitativamente determinados de partículas mais que o compõe, inclusive a dimensão materiais especificáveis, dando assim a esses ideativa-emocional, individual e cultural. processos um caráter concreto e inequívoco”. O Para perceber os achados neurológicos conceito de Psicologia proposto pelo Projeto de anatômicos e fisiológicos junto com seus com- Freud é a Neurologia simbólica aqui ponentes ideativos-emocionais, ampliei os con- conceituada. ceitos tradicionais de símbolo e de função
  • 2.
    18 Carlos Amadeu Botelho Byington No caso das droga-adições, a Neurologia quirido durante os séculos dezenove e vinte, que se atém à físico-química se limita ao estudo tem dele se afastado. da dependência emocional e orgânica principal- Para conceituar a Neurologia simbólica, ba- mente em função do que ocorre com os seada nos conceitos de símbolo e de função neurotransmissores do paciente em virtude do estruturantes, é necessário reconhecer e incluir consumo da droga. Já uma Neurologia simbóli- no conhecimento do Sistema Nervoso todas as ca necessita incluir na compreensão da droga- descobertas da Psicologia e da Psiquiatria. É adição o significado emocional das vivências preciso romper o paradigma positivista, individuais, familiares e socioculturais que segundo o qual aquilo que ainda não foi acompanham o uso da droga e o papel que elas constatado pela neurofisiologia não deve ser desempenham no desenvolvimento da incluído na Neurologia. personalidade e da cultura. Não se trata de dar A Psicologia Simbólica reconhece o Proces- exclusividade dos significados simbólicos para so de Elaboração Simbólica para formar a a Psiquiatria ou para a Psicologia, e sim, ao Consciência como o centro e a finalidade contrário, de compreendê-los e estudá-los última de toda a atividade neurológica e dentro do Sistema Nervoso, junto com o funci- biológica. Sua coordenação é feita pelo onamento dos neurotransmissores. Quatérnio Arquetípico Regente composto pelos A Neurologia simbólica propõe a analogia Arquétipos Matriarcal, Patriarcal, de Alteridade das estruturas do Sistema Nervoso com os e de Totalidade, que operam através da hardwares dos computadores, e o programa dos atividade criativa e centralizadora do Arquétipo softwares com as reações cognitivas e emocio- Central. O Arquétipo Matriarcal, matriz coorde- nais adquiridas. Estabelecemos assim uma nadora do desejo e da sensualidade, opera prin- inclusão da Cultura na Neurologia, ao cipalmente através do sistema neurovegetativo. percebermos que o Sistema Nervoso incorpora O Arquétipo Patriarcal, que coordena a organi- progressivamente, desde o nascimento, o zação psíquica e a execução de tarefas, se aprendizado realizado nas gerações passadas. exerce principalmente através do sistema Trata-se, portanto, de um Sistema Nervoso cérebro-espinhal. O Arquétipo de Alteridade, intensamente “recheado de significados simbó- que coordena a interação das polaridades, licos, pois reconhece e assume tudo o que é e inclusive da grande polaridade matriarcal- tem”. patriarcal, ou seja, neurovegetativa cérebro-es- A divisão entre a Psiquiatria e a Psicologia pinhal, funciona através das interações das de um lado, e a Neurologia de outro, preservou lateralidades, como por exemplo, da decussação nesta, indevidamente, o predomínio da das pirâmides, do Corpo Caloso e dos inúmeros organicidade em detrimento da psicodinâmica. circuitos associativos. Restam o Arquétipo da Infelizmente, a Psiquiatria, hoje, ao se Totalidade, que rege a Consciência reaproximar da Neurologia pelo maior conheci- contemplativa do Todo e o Arquétipo Central, mento dos neurotransmissores, ao invés de tra- que coordena a relação dos eventos existenciais zer consigo o conhecimento psicodinâmico ad- com o desenvolvimento prospectivo da persona-
  • 3.
    Da psicologia àneurologia simbólica no estudo da drogadição 19 lidade, como bem descreveu Jung ao enfatizar No entanto, para se compreender fisiológica em toda a sua obra que o principal instinto e emocionalmente as droga-adições, o maior humano é o Instinto da Individuação. desafio da Neurologia simbólica é saber a loca- O desafio médico e humanista da Neurolo- lização e o funcionamento do Arquétipo Cen- gia simbólica é assumir e pesquisar estas gran- tral no Sistema Nervoso. É que os símbolos e des descobertas da Psicologia. No processo de funções estruturantes que os droga-aditos globalização, que favorece a integração plane- denominam “barato”, e que buscam para tária do conhecimento, a setorização da produzir o estado alterado de Consciência que Neurologia dentro de uma torre de marfim os vicia, referem-se a um estado de euforia, neurofisiológica é cada vez mais inadmissível. bem-estar, paz, totalidade, auto-realização e Dentro do Humanismo Simbólico, que relaciona felicidade, a uma sensação de que tudo está no toda e qualquer parte com o Todo através de seu lugar, de que o mundo é coerente, de se seus significados, a setorização do saber tem estar encarnado em si mesmo e no Cosmos: cada vez menos lugar por propiciar a alienação exatamente os símbolos e funções estruturantes do Ser. que trazem à Consciência a noção da existência O assunto se complica extraordinariamente e do funcionamento centralizado e sistêmico do quando tentamos compreender o fenômeno da Arquétipo Central. A droga propicia à Sombra pela Neurologia simbólica, seguindo a Consciência a vivência que as pessoas muito intenção de Freud quando buscou uma explica- diferenciadas conquistam após um grande es- ção neurológica para a defesa da repressão (in- forço de amadurecimento. consciente reprimido) no Projeto. O ser humano tem necessidade de Deus. Segundo a Psicologia Simbólica, a Sombra Funda tantas religiões porque, para realizar o se forma com suas defesas inconscientes pela potencial da sua plenitude, projeta no Universo fixação da elaboração de determinados símbolos o Arquétipo Central do Self, descoberto por e funções estruturantes, que passarão a ser ex- Jung, e que coordena o funcionamento da pressos inconscientemente pela compulsão de Psique e, por conseguinte, do Sistema Nervoso. repetição descoberta por Freud. Embasar o Não se trata de “reduzir” Deus ao cérebro, fenômeno da fixação ao lado da elaboração mas sim de embasar as características todo-po- criativa dos símbolos no funcionamento dos derosas de ubiqüidade, atribuídas às divindades neurotransmissores é hoje um grande desafio, em todas as culturas, a um arquétipo que principalmente quando nos damos conta que a coordena todo o Processo de Elaboração fixação, além de ser responsável pelas adições, Simbólica. Para o droga-adito, a droga é o seu é a sede do crime e do mal na personalidade. salvo-conduto para a presença mágica da Pesquisar neurofisiologicamente o fenômeno da transcendência e da divindade. Para ajudá-lo é fixação simbólica significa, por conseguinte, necessário admitir que esse arquétipo existe e abrir a Neurologia para estudar a função buscar o seu funcionamento no Sistema estruturante da ética. Nervoso através dos neurotransmissores. O terapeuta que quer tratar da droga-adição e que
  • 4.
    20 Carlos Amadeu Botelho Byington não sabe como relacionar as pessoas com a To- A dimensão familiar do Arquétipo Central talidade está em grande desvantagem para com- permite à Neurologia simbólica relacionar a re- petir com o poder simbólico das drogas. Não é ação química dos neurotransmissores com a cri- por acaso que tantas religiões conseguem a cura se de adolescência e o consumo de drogas, de droga-aditos pela conversão. É importante como uma arma poderosa na polarização com a para o neurologista saber que isto não ocorreu família. Só assim podemos compreender que a porque a cura “caiu do céu”, e sim porque, ao mesma arma usada para fortalecer a auto-estima estabelecer a religação da Consciência com o e a formação da identidade da maioria dos ado- Arquétipo Central através do símbolo da lescentes pode se transformar no vício que a al- divindade, o sacerdote deu ao paciente o guns escraviza e destrói. significado existencial que a droga química Dentro do Self Cultural, a compreensão magicamente lhe proporciona. Só quem tem simbólica das drogas também nos permite en- essa relação simbólica com a vida e a tender a busca mágica da ligação da Consciên- Totalidade pode dizer a um droga-adito: “Lar- cia com o Arquétipo Central dentro da ideolo- gue o que você sente com a droga para buscar gia da cultura materialista e imediatista de essa mesma vivência no trabalho e na relação consumo, condicionada pela ideologia de mer- com as pessoas que você preza.” cado neoliberal que, por sua desumanização, Para entender a droga-adição além da desqualifica a dignidade do trabalho, ao mesmo neurofisiologia, é necessário compreender o tempo em que corrompe valores culturais que funcionamento dos símbolos dentro da persona- promovem a beleza e o sentido da vida. lidade, da família, da cultura e do Planeta como Outro ponto importante a ser destacado é a Sistemas de Totalidade representativos do Ar- compreensão que a Neurologia simbólica pode ter quétipo Central do Self. Esses sistemas são e, através dela, esclarecer a Medicina e Cultura afetados de uma forma ou de outra pelas sobre o gravíssimo e crescente problema gerado drogas, que também são símbolos que alteram pela receita indiscriminada de antidepressivos. Se, a Consciência e a Sombra, formando-as e por um lado, a pesquisa neurofisiológica tem pro- transformando-as nas várias dimensões duzido drogas prodigiosas que tornaram as indús- humanas. trias de medicamentos mais lucrativas que as in- As duas grandes funções simbólicas que di- dústrias de armamentos, por outro, ela apresenta rigem o Arquétipo Central na coordenação uma terrível Sombra que aproxima a emblemática neuro-endócrina do organismo são o amor e o imagem do médico à figura hedionda do poder. O amor rege a interação afetiva com as narcotraficante, pelo fato de fomentar o pessoas, o corpo e a natureza, e o poder coorde- embotamento da Consciência e a alienação que, na a busca de um lugar ao sol pelo esforço do tal como a droga-adição, inibe pela dependência crescimento de cada um. A droga-adição de psicofármacos o potencial de auto-realização substitui magicamente estas duas funções do Ser. feridas, cujo conhecimento simbólico é necessário para a sua reparação.