Mulheres que correm com os lobos

                                As mulheres livres e libertadoras correm com
                                os lobos.
                                Galgam o mundo montadas nas suas ilhargas
                                esguias e frementes, febris e lustrosas sob os
                                seus dedos, que ficam a cheirar a rosmaninho
                                e a cedro. Refrescam-se nas suas sombras,
                                aninham-se nas suas grutas e vivem nos
                                negrumes matizados de luz das florestas
                                espessas: respirando as folhas raiadas,
                                bebendo o orvalho cintilante, devorando os
                                frutos proibidos, quando descobrem a árvore
                                do conhecimento.

                                  Recusam o carcereiro da casa. E mantêm
                                  acesa a chama da imagem feminina das
                                  lendas, dos contos de fadas, dos mitos
                                  ancestrais: a deusa, a vestal, a amazona,
                                  «aquela dos bosques», a loba. Seres
                                  mitológicos, provavelmente irrecuperáveis e
inatingíveis. É de tudo isto que nos fala o excelente trabalho da psicanalista
americana Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com os lobos; por entre
mitos milenários e histórias do arquétipo da mulher selvagem, uma espécie em
vias de extinção nos nossos dias. Um livro feminista empolgante, galvanizante,
que fala de mulheres jubilosas, desvenda sinais, segue pistas, descobre passos
encobertos, tapados pela poeira do tempo. Interpreta narrativas antigas,
fábulas e legendas fantásticas.

Interpretações essas através das quais a autora identifica o arquétipo da
mulher selvagem já referido atrás, como sendo a essência da alma feminina,
propondo em seguida o assumir desse longínquo passado que agora nos escapa,
caso desejemos vir a atingir uma real e autêntica plenitude: «Quando as
mulheres reafirmam o seu relacionamento com a natureza selvagem, recebem
o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma
visionária, uma oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma
inventora e uma ouvinte que guia.». Seres intuitivos, sensíveis e orgulhosos,
dotados de uma percepção aguçada, de uma «determinação feroz e de uma
extrema coragem», que segundo Clarissa Estés têm bastante em comum com
os lobos. E tal como estes, ao longo dos séculos foram perseguidas, cercadas,
acossadas e inúmeras vezes mortas. Deixando claro o modo ostensivo como a
psicologia tradicional se mantém lacónica ou mesmo omissa, no que diz
respeito a questões importantes para as mulheres, tais como: «o aspecto
arquetípico, o intuitivo, o sexual, a sabedoria da mulher, seu fogo criador».

Mas, Mulheres que correm com os lobos é sobretudo um inteligente e corajoso
ensaio, completamente diverso do que é habitual publicar-se entre nós. Um
texto desafiador, que parte de uma corrente actual do feminismo, que recorre
aos saberes colaterais para seguir as pistas e entender os sinais que nos levam
até ao passado distante das mulheres, a fim de melhor se entender a causa da
feroz e deliberada destruição, que a partir de certa altura passou a marcar
todo o seu percurso, até chegar à sua anulada existência actual.
…
Neste livro, há a recuperação de uma sexualidade sagrada, ensinam-se rituais
de iniciação e fertilidade, refazendo a abordagem das deusas das culturas
matriarcais. Dando-nos a ver o ser que continua a habitar, apesar de tudo, no
subterrâneo selvagem da rebelde e esquiva natureza feminina.

Maria Teresa Horta, sobre o livro: Mulheres que correm com os lobos, de
Clarissa Pinkola Estés
Publicada por maria josé quintela em 10:59

http://dolugardosoutros.blogspot.com/2007/11/as-mulheres-livres-e-libertadoras.html

Falando sobre...

  • 1.
    Mulheres que corremcom os lobos As mulheres livres e libertadoras correm com os lobos. Galgam o mundo montadas nas suas ilhargas esguias e frementes, febris e lustrosas sob os seus dedos, que ficam a cheirar a rosmaninho e a cedro. Refrescam-se nas suas sombras, aninham-se nas suas grutas e vivem nos negrumes matizados de luz das florestas espessas: respirando as folhas raiadas, bebendo o orvalho cintilante, devorando os frutos proibidos, quando descobrem a árvore do conhecimento. Recusam o carcereiro da casa. E mantêm acesa a chama da imagem feminina das lendas, dos contos de fadas, dos mitos ancestrais: a deusa, a vestal, a amazona, «aquela dos bosques», a loba. Seres mitológicos, provavelmente irrecuperáveis e inatingíveis. É de tudo isto que nos fala o excelente trabalho da psicanalista americana Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que correm com os lobos; por entre mitos milenários e histórias do arquétipo da mulher selvagem, uma espécie em vias de extinção nos nossos dias. Um livro feminista empolgante, galvanizante, que fala de mulheres jubilosas, desvenda sinais, segue pistas, descobre passos encobertos, tapados pela poeira do tempo. Interpreta narrativas antigas, fábulas e legendas fantásticas. Interpretações essas através das quais a autora identifica o arquétipo da mulher selvagem já referido atrás, como sendo a essência da alma feminina, propondo em seguida o assumir desse longínquo passado que agora nos escapa, caso desejemos vir a atingir uma real e autêntica plenitude: «Quando as mulheres reafirmam o seu relacionamento com a natureza selvagem, recebem o dom de dispor de uma observadora interna permanente, uma sábia, uma visionária, uma oráculo, uma inspiradora, uma intuitiva, uma criadora, uma inventora e uma ouvinte que guia.». Seres intuitivos, sensíveis e orgulhosos, dotados de uma percepção aguçada, de uma «determinação feroz e de uma extrema coragem», que segundo Clarissa Estés têm bastante em comum com
  • 2.
    os lobos. Etal como estes, ao longo dos séculos foram perseguidas, cercadas, acossadas e inúmeras vezes mortas. Deixando claro o modo ostensivo como a psicologia tradicional se mantém lacónica ou mesmo omissa, no que diz respeito a questões importantes para as mulheres, tais como: «o aspecto arquetípico, o intuitivo, o sexual, a sabedoria da mulher, seu fogo criador». Mas, Mulheres que correm com os lobos é sobretudo um inteligente e corajoso ensaio, completamente diverso do que é habitual publicar-se entre nós. Um texto desafiador, que parte de uma corrente actual do feminismo, que recorre aos saberes colaterais para seguir as pistas e entender os sinais que nos levam até ao passado distante das mulheres, a fim de melhor se entender a causa da feroz e deliberada destruição, que a partir de certa altura passou a marcar todo o seu percurso, até chegar à sua anulada existência actual. … Neste livro, há a recuperação de uma sexualidade sagrada, ensinam-se rituais de iniciação e fertilidade, refazendo a abordagem das deusas das culturas matriarcais. Dando-nos a ver o ser que continua a habitar, apesar de tudo, no subterrâneo selvagem da rebelde e esquiva natureza feminina. Maria Teresa Horta, sobre o livro: Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés Publicada por maria josé quintela em 10:59 http://dolugardosoutros.blogspot.com/2007/11/as-mulheres-livres-e-libertadoras.html