FREUD, Sigmund. Obras Completas. em CD. Editora Imago.
Resumo por: Carlos Jorge Burke – www.cburke.com.br
OBS: Se desejar, solicitar arquivo pelo blog.



Totem e Tabu e outros trabalhos – Livro XIII – (1913-1914)
O Interesse Científico da Psicanálise
Parte I – O interesse psicológico da psicanálise

“A psicanálise é um procedimento médico que visa à cura de certas formas de doenças
nervosas (as neuroses) através de uma técnica psicológica. Num pequeno volume
publicado em 1910, descrevi a evolução da psicanálise a partir do procedimento
catártico de Josef Breuer e de sua relação com as teorias de Charcot e Pierre Janet.
Podemos citar como exemplos de distúrbios que são acessíveis ao tratamento
psicanalítico as convulsões histéricas e as paralisias, bem como os diversos sintomas da
neurose obsessiva (idéias e ações obsessivas). Todas elas são condições que estão
ocasionalmente sujeitas a recuperação espontânea e dependem da influência pessoal do
médico, de uma maneira fortuita que ainda não foi explicada. A psicanálise não tem
efeito terapêutico sobre as formas mais graves da perturbação mental propriamente dita.
Mas possibilitou — pela primeira vez na história da medicina — uma certa
compreensão (insight) da origem e do mecanismo das neuroses e das psicoses.
Esta importância da psicanálise para a medicina, entretanto, não justificaria que a
trouxesse à apreciação de um círculo de savants interessados na síntese das ciências e
isso poderia parecer particularmente prematuro na medida em que grande número de
psiquiatras e neurologistas se opõem ao novo método terapêutico e rejeitam tanto os
seus postulados quanto as suas descobertas. Se, não obstante, considero a experiência
legítima, é porque a psicanálise pode também pretender o interesse de outras pessoas
além dos psiquiatras, desde que ela toca em várias outras esferas do conhecimento e
revela inesperadas relações entre estas e a patologia da vida mental.”

“A explicação das parapraxias deve o seu valor teórico à facilidade com que podem ser
solucionadas e à sua freqüência nas pessoas normais. Entretanto, o sucesso da
psicanálise em explicá-las é ultrapassado de muito, em importância, por outra conquista
realizada pela própria psicanálise relacionada com outro fenômeno da vida mental
normal. Trata-se de interpretação de sonhos, que causou o primeiro conflito da
psicanálise com a ciência oficial, o que passou a ser seu destino. A pesquisa médica
explica os sonhos como sendo fenômenos puramente somáticos, sem sentido ou
significação, e considera-os como a reação de um órgão mental, mergulhado em estado
de sono, aos estímulos físicos que o mantêm parcialmente desperto. A psicanálise eleva
a condição dos sonhos à de atos psíquicos possuidores de sentido e intenção e com um
lugar na vida mental do indivíduo, apesar de sua estranheza, incoerência e absurdo.
Segundo esse ponto de vista, os estímulos somáticos simplesmente desempenham o
papel de material que é elaborado no decurso da construção do sonho. Não existe um
meio termo entre essas duas opiniões sobre o sonhos. O argumento usado contra a
hipótese fisiológica é a sua esterilidade, e o que pode ser argumentado em favor da
hipótese psicanalítica é o fato de ter traduzido e dado um sentido a milhares de sonhos,
usando esse sentido para iluminar os pormenores mais íntimos da mente humana.”
“A elaboração onírica é um processo psicológico que até hoje não encontrou similar na
psicologia, reclamando o nosso interesse em dois sentidos principais. Em primeiro
lugar, traz ao nosso conhecimento processos novos como a ‘condensação’ (de idéias) e
o ‘deslocamento’ (da ênfase psíquica de uma idéia para outra), processos com os quais
nunca, de forma nenhuma, nos deparamos em nossa vida desperta, a não ser como base
daquilo que é conhecido como ‘erros de pensamento’. Em segundo lugar, nos permite
detectar no funcionamento da mente um jogo de forças que estava escondido de nossa
percepção consciente. Descobrimos que há uma ‘censura’, um órgão de verificação a
funcionar em nós, que decide se uma idéia que surge na mente deve ter ou não
permissão de chegar à consciência e que, até onde está em seu poder, exclui
implacavelmente qualquer coisa que possa produzir ou reviver um desprazer. Aqui
lembramos que na análise das parapraxias encontramos traços dessa mesma intenção de
evitar desprazer na recordação de coisas, e de conflitos similares entre os impulsos
mentais.”

“Pode-se afirmar com segurança que o estudo psicanalítico dos sonhos nos deu nossa
primeira compreensão (insight) de uma ‘psicologia profunda’, cuja existência até então
não fora suspeitada. Modificações fundamentais terão de ser introduzidas na psicologia
normal, se esta quiser colocar-se em harmonia com as novas descobertas.”

Parte II – O interesse psicológico da psicanálise para as ciências não-psicológicas


   (A)    O INTERESSE FILOLÓGICO DA PSICANÁLISE

“Estarei sem dúvida infringindo o uso lingüístico comum ao postular um interesse na
psicanálise por parte dos filólogos, isto é, dos peritos na fala, porque, no que se segue, a
expressão ‘fala’ deve ser entendida não apenas como significando a expressão do
pensamento por palavras, mas incluindo a linguagem dos gestos e todos os outros
métodos, por exemplo a escrita, através dos quais a atividade mental pode ser expressa.
Assim sendo, pode-se salientar que as interpretações feitas por psicanalistas são, antes
de tudo, traduções de um método estranho de expressão para outro que nos é familiar.
Quando interpretamos um sonho estamos apenas traduzindo um determinado conteúdo
de pensamento (os pensamentos oníricos latentes) da ‘linguagem de sonhos’ para a
nossa fala de vigília. À medida que fazemos isso, aprendemos as peculiaridades dessa
linguagem onírica e nos convencemos de quem ela faz parte de um sistema altamente
arcaico de expressão. Assim, para dar um exemplo, não existe uma indicação especial
para o negativo na linguagem dos sonhos. Os contrários podem se representar uns aos
outros no conteúdo do sonho e serem representados pelo mesmo elemento. Ou, noutras
palavras: na linguagem onírica, os conceitos são ainda ambivalentes e unem dentro de si
significados contrários — como é o caso, de acordo com as hipóteses dos filólogos, das
mais antigas raízes das línguas históricas. Outra característica notável de nossa
linguagem onírica é seu emprego extremamente freqüente de símbolos, o que nos
possibilita, até certo ponto, traduzir o conteúdo dos sonhos sem referência às
associações de quem sonhou. Nossas pesquisas ainda não elucidaram suficientemente a
natureza essencial desses símbolos. São em parte analogias e sucedâneos baseados em
semelhanças óbvias; mas, em alguns deles, o tertium comparationis presumivelmente
presente foge ao nosso entendimento consciente. É precisamente essa última classe de
símbolos que deve provavelmente originar-se das primeiras fases de evolução
lingüística e construção conceitual. Nos sonhos, são acima de tudo os órgãos e as
atividades sexuais que são representados simbolicamente, em vez de sê-lo de modo
direto. Um filólogo de Upsala, Hans Sperber, apenas recentemente (1912) tentou provar
que as palavras que originalmente representavam atividades sexuais, sofreram, com
base em analogias dessa espécie, uma modificação de grandes e extraordinárias
conseqüências em seu significado.
Se pensarmos que os meios de representação nos sonhos são principalmente imagens
visuais e não palavras, veremos que é ainda mais apropriado comparar os sonhos a um
sistema de escrita do que a uma linguagem. Na realidade, a interpretação dos sonhos é
totalmente análoga ao deciframento de uma antiga escrita pictográfica, como os
hieróglifos egípcios. Em ambos os casos há certos elementos que não se destinam a ser
interpretados (ou lidos, segundo for o caso), mas têm por intenção servir de
‘determinativos’, ou seja, estabelecer o significado de algum outro elemento. A
ambigüidade dos diversos elementos dos sonhos encontra paralelo nesses antigos
sistemas de escrita, bem como a omissão de várias relações, que em ambos os casos tem
de ser suprida pelo contexto. Se esta concepção do método de representação nos sonhos
ainda não foi levada avante, isto, como facilmente se compreenderá, deve ser atribuído
ao fato de os psicanalistas ignorarem completamente a atitude e o conhecimento com
que um filólogo abordaria um problema como o apresentado pelos sonhos.”

“A linguagem dos sonhos pode ser encarada como o método pelo qual a atividade
mental inconsciente se expressa. Mas o inconsciente fala mais de um dialeto. De acordo
com as diferentes condições psicológicas que orientam e distinguem as diversas formas
de neurose, encontramos modificações regulares na maneira pela qual os impulsos
mentais inconscientes se expressam. Enquanto a linguagem de gestos da histeria
concorda em geral com a representação pictórica dos sonhos e das visões etc., a
linguagem de pensamento das neuroses obsessivas e das parafrenias (demência precoce
e paranóia) apresenta peculiaridades idiomáticas especiais, que, num certo número de
casos, fomos capazes de compreender e inter-relacionar. Por exemplo, o que um
histérico expressa através de vômitos, um obsessivo expressará por meio de penosas
medidas de proteção contra infecções, enquanto um parafrênico será levado a queixas
ou suspeitas de estar sendo envenenado. Todas essas são representações diferentes do
desejo de engravidar do paciente que foi reprimido para o inconsciente, ou de sua
reação defensiva contra esse desejo.”

(C) O INTERESSE BIOLÓGICO DA PSICANÁLISE

“A psicanálise não teve a sorte de ser acolhida (como outras ciências novas) com o
incentivo simpático daqueles que se acham interessados no progresso do saber. Por
longo tempo foi desprezada e, quando por fim não mais podia ser negligenciada, tornou-
se, por razões emocionais, objeto dos mais violentos ataques por parte de pessoas que
não se deram ao trabalho de conhecê-la bem. Essa recepção inamistosa deve-se a uma
única circunstância: numa primeira fase de suas pesquisas, a psicanálise foi levada à
conclusão de que as doenças nervosas constituíam a expressão de um distúrbio da
função sexual, sendo assim conduzida a dedicar sua atenção à investigação dessa função
— que tinha sido negligenciada por tempo demasiado. Mas qualquer pessoa que
respeite a regra de que o julgamento científico não deve ser influenciado por atitudes
emocionais atribuirá um alto grau de interesse biológico à psicanálise, por causa dessas
próprias investigações, e há de encarar as resistências a ela como uma prova real em
favor da correção de suas afirmações.
A psicanálise fez justiça à função sexual no homem fazendo um exame pormenorizado
de sua importância na vida prática e mental — importância que foi enfatizada por tantos
escritores criativos e por alguns filósofos, mas nunca fora reconhecida pela ciência. De
início, no entanto, foi necessário ampliar o conceito indevidamente restrito de
sexualidade, ampliação justificada pela conexão com as extensões da sexualidade que
ocorrem nas chamadas perversões e com o comportamento das crianças. Resultou ser
impossível sustentar por mais tempo que a infância era assexual, sendo invadida pela
primeira vez por uma súbita incursão de impulsos sexuais na época da puberdade. Pelo
contrário, quando os artifícios protetores da parcialidade e do preconceito foram
afastados, a observação não encontrou dificuldade em revelar que interesses e atividades
sexuais se acham presentes na criança, em quase todas as idades desde o começo da
vida mesmo. A importância dessa sexualidade normal dos adultos surge da sexualidade
infantil não é prejudicada pelo fato de não podermos em todos os pontos traçar uma
linha clara entre ela e a atividade assexual de uma criança. Difere, entretanto, daquilo
que é descrito como a sexualidade ‘normal’ dos adultos. Inclui os germes de todas
aquelas atividades sexuais que, na vida posterior, apresentam agudo contraste com a
vida sexual normal sendo tidas como perversões e, assim, fadadas a parecerem
incompreensíveis e viciadas. A sexualidade normal dos adultos surge da sexualidade
infantil através de uma série de desenvolvimentos, combinações, divisões e repressões
que dificilmente se completam com perfeição ideal, deixando conseqüentemente em seu
rastro predisposições a uma regressão da função, sob a forma de doença.”

“A sexualidade infantil apresenta duas outras características que são importantes do
ponto de vista biológico. Mostra ser formada de certo número de instintos componentes
que parecem estar ligados a certas regiões do corpo (‘zonas erógenas’), surgindo alguns
deles desde o início em pares opostos — instintos com um objetivo ativo e outro
passivo. Assim como na vida posterior o que é amado não são simplesmente os órgãos
sexuais do objeto, mas todo o seu corpo, também desde o começo não são simplesmente
os órgãos genitais mas muitas outras partes do corpo que constituem sede da excitação
sexual e reagem a estímulos apropriados com prazer sexual. Esse fato tem estreita
relação com a segunda característica da sexualidade infantil — ou seja, com o fato de
que no início, ela se acha ligada às funções autopreservativas da nutrição e da excreção
e, com toda a probabilidade, da excitação muscular e da atividade sensorial.
Se examinarmos a sexualidade do adulto com o auxílio da psicanálise e considerarmos a
vida das crianças à luz dos conhecimentos que assim obtivermos, perceberemos que a
sexualidade não é simplesmente uma função que serve aos fins da reprodução, no
mesmo nível que a digestão, a respiração etc. Trata-se de algo muito mais independente,
que se coloca em contraste com todas as outras atividades do indivíduo e só é forçado a
uma aliança com a economia individual após um complicado curso de desenvolvimento
que envolve a imposição de numerosas restrições. Casos — em teoria inteiramente
concebíveis — em que os interesses desses impulsos sexuais deixam de coincidir com a
autopreservação do indivíduo parecem realmente ser apresentados pelo grupo das
doenças neuróticas, porque a fórmula final a que a psicanálise chegou quanto à natureza
das neuroses é a seguinte: o conflito primário que leva às neuroses é um conflito entre
os instintos sexuais e os instintos que sustentam o ego. As neuroses representam uma
dominação mais ou menos parcial do ego pela sexualidade, depois de terem falhado os
esforços do ego para reprimi-la.”

“Julgamos necessário nos manter afastados de considerações biológicas durante nosso
trabalho psicanalítico e abster-nos de utilizá-las para propósitos heurísticos, de maneira
a não nos afastarmos de um julgamento imparcial dos fatos psicanalíticos que nos
apresentam. Mas, depois de completar nosso trabalho psicanalítico, teremos de
encontrar um ponto de contato com a biologia e será justa a nossa satisfação se
constatarmos que esse contato já está assegurado num ou noutro ponto importante. O
contraste entre os instintos do ego e o instinto sexual, ao qual fomos obrigados a atribuir
a origem das neuroses, é transposto para a esfera da biologia pelo contraste entre os
instintos que servem à preservação do indivíduo e os que servem à sobrevivência da
espécie. Na biologia encontramos a mais abrangente concepção de um plasma germinal
imoral ao qual os diferentes indivíduos transitórios se ligam como órgãos que se
desenvolvem sucessivamente. É somente essa concepção que nos permite compreender
corretamente o papel desempenhado pelas forças instintivas sexuais na filosofia e na
psicologia.
Apesar de todos os nossos esforços para que a terminologia e as considerações
biológicas não dominassem o trabalho psicanalítico, não pudemos evitar o seu emprego
mesmo na descrição dos fenômenos que estudamos. Não podemos deixar de considerar
o termo ‘instinto’ como um conceito fronteiriço entre as esferas da psicologia e da
biologia. Falamos também de atributos e impulsos mentais ‘masculinos’ e ‘femininos’,
embora, estritamente falando, as diferenças entre os sexos não possam pretender
nenhuma característica psíquica especial. Aquilo de que falamos na vida comum como
‘masculino’ e ‘feminino’ reduz-se, do ponto de vista da psicologia, às qualidades de
‘atividade’ e ‘passividade’ — isto é, a qualidades determinadas não pelos próprios
instintos, mas por seus objetivos. A associação regular destes ‘ativos’ e ‘passivos’ na
vida mental reflete a bissexualidade dos indivíduos, que está entre os postulados
clínicos da psicanálise.
Ficarei satisfeito se estas poucas observações chamarem a atenção para muitos aspectos
em que a psicanálise atua como intermediária entre a biologia e a psicologia.”

(D) O INTERESSE DA PSICANÁLISE DE UM PONTO DE VISTA DE
DESENVOLVIMENTO

“Nem toda análise de fenômenos psicológicos merece o nome de psicanálise, pois esta
implica mais que a simples análise de fenômenos compostos em outros mais simples.
Consiste em remontar uma determinada estrutura psíquica a outra que a precedeu no
tempo e da qual se desenvolveu. O procedimento médico psicanalítico não pode
eliminar um sintoma até haver traçado a origem e a evolução desse sintoma. Assim,
desde o início, a psicanálise dirigiu-se no sentido de delinear processos de
desenvolvimento. Começou por descobrir a gênese dos sintomas neuróticos e foi levada,
à medida que o tempo passava, a voltar sua atenção para outras estruturas psíquicas e a
construir uma psicologia genética que também se lhe aplicasse.
A psicanálise foi obrigada a atribuir a origem da vida mental dos adultos à vida das
crianças e teve de levar a sério o velho ditado que diz que a criança é o pai do homem.
Delineou a continuidade entre a mente infantil e a mente adulta e observou também as
transformações e os remanejamentos que ocorrem no processo. Na maioria de nós
existe, em nossas lembranças, uma lacuna que abrange os primeiros anos da infância
dos quais apenas algumas recordações fragmentárias sobrevivem. Pode-se dizer que a
psicanálise preencheu essa lacuna e aboliu a amnésia infantil do homem.”


“Algumas descobertas notáveis foram efetuadas no curso dessa investigação da mente
infantil. Assim foi possível confirmar — o que já fora muitas vezes suspeitado — a
influência extraordinariamente importante exercida pelas impressões da infância (e
particularmente pelos seus primeiros anos) sobre todo o curso da evolução posterior.
Isso nos conduz ao paradoxo psicológico — que somente para a psicanálise não é
paradoxo — de serem precisamente estas, as mais importantes de todas as impressões,
as que não são recordadas em anos posteriores. A psicanálise pôde estabelecer o caráter
decisivo e indestrutível dessas primeiras experiências da maneira mais clara possível, no
caso da vida sexual. ‘On revient toujours à ses premiers amours‘ é pura verdade. Os
muitos enigmas da vida sexual dos adultos só podem ser solucionados se forem
ressaltados os fatores infantis existentes no amor. Uma luz teórica é lançada sobre a
influência deles depois de considerarmos que as primeiras experiências de um indivíduo
na infância não ocorrem somente por acaso, mas correspondem também às primeiras
atividades de suas disposições instintivas inatas ou constitucionais.
Outra descoberta muito mais surpreendente foi que, a despeito de toda a evolução
posterior que ocorre no adulto, nenhuma das formações mentais infantis perece. Todos
os desejos, impulsos instintivos, modalidades de reação e atitudes da infância acham-se
ainda demonstravelmente presentes na maturidade e, em circunstância apropriada,
podem mais uma vez surgir. Elas não são destruídas, mas simplesmente se sobrepõem
— para empregar o modo espacial de descrição que a psicologia psicanalítica foi
obrigada a adotar. Assim, faz parte da natureza do passado mental diferentemente do
passado histórico, não ser absorvido pelos seus derivados; persiste (seja na realidade ou
apenas potencialmente) juntamente com o que se originou dele. A prova desta
afirmação reside no fato de os sonhos das pessoas normais reviverem seus caracteres de
infância a cada noite e reduzirem toda a sua vida mental a um nível infantil. Esse
mesmo retorno ao infantilismo psíquico (‘regressão’) ocorre nas neuroses e psicoses,
cujas peculiaridades podem, em grande parte, ser descritas como arcaísmos psíquicos. A
intensidade com que os resíduos da infância ainda se acham presentes na mente nos é
mostrada pelo grau de disposição para a doença; essa disposição pode, por conseguinte,
ser encarada como expressão de uma inibição do desenvolvimento. A parte do material
psíquico de uma pessoa que permaneceu infantil e foi reprimida como imprestável
constitui o cerne de seu inconsciente. E acreditamos que podemos seguir nas histórias
de nossos pacientes a maneira pela qual esse inconsciente subjugado como é pelas
forças de repressão, fica à espera de uma possibilidade de tornar-se ativo e fazer uso de
suas oportunidades, se as estruturas psíquicas posteriores e mais elevadas fracassarem
no domínio das dificuldades da vida real.”




(E) O INTERESSE DA PSICANÁLISE DO PONTO DE VISTA DA HISTÓRIA DA
CIVILIZAÇÃO

“A comparação entre a infância dos homens e a primitiva história das sociedades já
provou sua fecundidade em diversos sentidos, ainda que seu estudo esteja apenas
começando. Nesta conexão o modo de pensar psicanalítico atua como um novo
instrumento de pesquisa. A aplicação de suas hipóteses à psicologia social torna
possível tanto o levantamento de novos problemas como a visão dos antigos sob nova
luz e nos capacita a contribuir para a sua solução.
Em primeiro lugar, parece inteiramente possível aplicar os pontos de vista psicanalíticos
deduzidos dos sonhos a produtos da imaginação étnica, como os mitos e os contos de
fadas. Há muito tempo se sentia a necessidade de interpretar essas produções;
suspeitava-se existir algum ‘sentido secreto’ por trás delas e presumiu-se que esse
sentido se mantivesse oculto através de mudanças e transformações. O estudo dos
sonhos e das neuroses feito pela psicanálise lhe trouxe a experiência necessária para
capacitá-la a adivinhar os procedimentos técnicos que orientaram essas deformações.
Num certo número de casos, porém, ela pode também revelar os motivos que levaram a
essa modificação do sentido original dos mitos. Não se pode aceitar como primeiro
impulso para a construção de mitos um anseio teórico por encontrar uma explicação
para os fenômenos naturais ou para elucidar observâncias e práticas de culto que se
tornaram ininteligíveis. A psicanálise procura esse impulso nos mesmos ‘complexos’
psíquicos, nas mesmas inclinações emocionais que descobriu como sendo a base dos
sonhos e dos sintomas.
Uma aplicação semelhante de seus pontos de vista, suas hipóteses e suas descobertas
permitiu à psicanálise lançar luz sobre as origens de nossas grandes instituições
culturais: a religião, a moralidade, a justiça e a filosofia. Examinando as primitivas
situações psicológicas que poderiam fornecer o motivo para criações desse tipo, ficou
em posição de rejeitar certas tentativas de explicação que se baseavam numa psicologia
demasiado superficial e substituí-las por uma compreensão (insight) mais penetrante.
A psicanálise estabeleceu uma estreita conexão entre essas realizações psíquicas de
indivíduos, por um lado, e de sociedades, por outro, postulando uma mesma e única
fonte dinâmica para ambas. Ela parte da idéia básica de que a principal função do
mecanismo mental é aliviar o indivíduo das tensões nele criadas por suas necessidades.
Uma parte desta tarefa pode ser realizada extraindo-se satisfação do mundo externo e,
para esse fim, é essencial possuir controle sobre o mundo real. Mas a satisfação de outra
parte dessas necessidades — entre elas, certos impulsos afetivos — é regularmente
frustrada pela realidade. Isto conduz a uma nova tarefa de encontrar algum outro meio
de manejar os impulsos insatisfeitos. Todo o curso da história da civilização nada mais é
que um relato dos diversos métodos adotados pela humanidade para ‘sujeitar’ seus
desejos insatisfeitos, que, de acordo com as condições cambiantes (modificadas,
ademais, pelos progressos tecnológicos) defrontaram-se com a realidade, às vezes
favoravelmente e outras com frustração.”

“Uma investigação dos povos primitivos mostra a humanidade inicialmente aprisionada
pela crença infantil em sua própria onipotência. Toda uma gama de estruturas mentais
pode ser então compreendida como tentativas de negar tudo o que pudesse perturbar
esse sentimento de onipotência e impedir assim que a vida emocional fosse afetada pela
realidade, até que esta pôde ser mais bem controlada e utilizada para propósitos de
satisfação. O princípio de evitar o desprazer domina as ações humanas até ser
substituído pelo princípio melhor de adaptação ao mundo externo. Pari passu com o
controle progressivo dos homens sobre o mundo segue uma evolução de sua
Weltanschauung, sua visão do universo como um todo. Cada vez eles se afastam mais
de sua crença original na própria onipotência, elevando-se da fase animista para a
religiosa e desta para a científica. Os mitos, a religião e a moralidade podem ser
situados nesse esquema como tentativas de busca de compensação da falta de satisfação
dos desejos humanos.”

“Nosso conhecimento das doenças neuróticas dos indivíduos foi de grande auxílio para
a compreensão das grandes instituições sociais, porque as neuroses mostraram ser
tentativas de encontrar soluções individuais para o problema de compensar os desejos
insatisfeitos, enquanto que as instituições buscam proporcionar soluções sociais para
esses mesmos problemas. A recessão do fator social e a predominância do sexual
transforma essas soluções neuróticas do problema psicológico em caricaturas que de
nada servem, a não ser para ajudar-nos a explicar essas importantes questões.”


(F) O INTERESSE DA PSICANÁLISE DO PONTODE VISTA DA CIÊNCIA DA
ESTÉTICA


“A psicanálise esclarece satisfatoriamente alguns dos problemas referentes às artes e aos
artistas, embora outros lhe escapem inteiramente. No exercício de uma arte vê-se mais
uma vez uma atividade destinada a apaziguar desejos não gratificados — em primeiro
lugar, do próprio artista e, subseqüentemente, de sua assistência ou espectadores. As
forças motivadoras dos artistas são os mesmos conflitos que impulsionam outras
pessoas à neurose e incentivaram a sociedade a construir suas instituições. De onde o
artista retira sua capacidade criadora não constitui questão para a psicologia. O objetivo
primário do artista é libertar-se e, através da comunicação de sua obra a outras pessoas
que sofram dos mesmos desejos sofreados, oferecer-lhes a mesma libertação. Ele
representa suas fantasias mais pessoais plenas de desejo como realizadas; mas elas só se
tornam obra de arte quando passaram por uma transformação que atenua o que nelas é
ofensivo, oculta sua origem pessoal e, obedecendo às leis da beleza, seduz outras
pessoas com uma gratificação prazerosa. A psicanálise não tem dificuldade em ressaltar,
juntamente com a parte manifesta do prazer artístico, uma outra que é latente, embora
muito mais poderosa, derivada das fontes ocultas da libertação instintiva. A conexão
entre as impressões da infância do artista e a história de sua vida, por um lado, e suas
obras como reações a essas impressões, por outro, constitui um dos temas mais atraentes
de estudo analítico.”

(G) O INTERESSE SOCIOLÓGICO DA PSICANÁLISE

“É verdade que a psicanálise tomou como tema a mente individual, mas, ao fazer
investigações sobre o indivíduo, não podia deixar de tratar da base emocional da relação
dele com a sociedade. Foi descoberto que os sentimentos sociais contêm
invariavelmente um elemento erótico — elemento que, se for superenfatizado e depois
reprimido, tornar-se-á um dos sinais distintivos de um grupo particular de distúrbios
mentais. A psicanálise reconheceu que, em geral, as neuroses são associais em sua
natureza e visam sempre a impulsionar o indivíduo para fora da sociedade e a substituir
a segura reclusão monástica dos primeiros dias pelo isolamento da doença.
Demonstrou-se que o intenso sentimento de culpa que domina tantas neuroses constitui
uma modificação social da ansiedade neurótica.
Por outro lado, a psicanálise demonstrou plenamente o papel desempenhado pelas
condições e exigências sociais como causadores de neurose. As forças que, operando
desde o ego, ocasionam a restrição e a repressão do instinto devem fundamentalmente
sua origem à submissão às exigências da civilização. Uma constituição e um conjunto
de experiências de infância que, noutros casos, conduziriam inevitavelmente a uma
neurose não produz tal resultado onde essa submissão esteja ausente ou onde tais
exigências não sejam feitas pelo círculo social em que esse indivíduo se situa. A antiga
afirmativa de que o aumento de distúrbios nervosos constitui um produto da civilização
é pelo menos uma meia-verdade. As pessoas jovens são postas em contato com as
exigências da civilização pela criação e pelo exemplo e, se a repressão instintiva ocorre
independentemente desses dois fatores, é uma hipótese plausível supor que uma
exigência primeva e pré-histórica passou finalmente a fazer parte da dotação organizada
e herdada da humanidade. Uma criança que produza repressões instintivas
espontaneamente está assim simplesmente repetindo uma parte da história da
civilização. O que hoje é um ato de coibição interna foi outrora externo, imposto, talvez
pelas necessidades do momento. Da mesma maneira, o que hoje se aplica a todo
indivíduo em crescimento como uma exigência externa da civilização, poderá um dia
tornar-se uma disposição interna à repressão.”

“(H) O INTERESSE EDUCACIONAL DA PSICANÁLISE

 O interesse dominante que tem a psicanálise para a teoria da educação baseia-se num
ato que se tornou evidente. Somente alguém que possa sondar as mentes das crianças
será capaz de educá-las e nós, pessoas adultas, não podemos entender as crianças
porque não mais entendemos a nossa própria infância. Nossa amnésia infantil prova que
nos tornamos estranhos à nossa infância. A psicanálise trouxe à luz os desejos, as
estruturas de pensamento e os processos de desenvolvimento da infância. Todos os
esforços anteriores nesse sentido foram, no mais alto grau, incompletos e enganadores
por menosprezarem inteiramente o fator inestimavelmente importante da sexualidade
em suas manifestações físicas e mentais. O espanto incrédulo com que se defrontam as
descobertas estabelecidas com maior grau de certeza pela psicanálise sobre o tema da
infância — o complexo de Édipo, o amor a si próprio (ou ‘narcisismo’), a disposição
para as perversões, o erotismo anal, a curiosidade sexual — é uma medida do abismo
que separa nossa vida mental, nossos juízos de valor e, na verdade, nossos processos de
pensamento daqueles encontrados mesmo em crianças normais.
Quando os educadores se familiarizarem com as descobertas da psicanálise, será mais
fácil se reconciliarem com certas fases do desenvolvimento infantil e, entre outras
coisas, não correrão o risco de superestimar a importância dos impulsos instintivos
socialmente imprestáveis ou perversos que surgem nas crianças. Pelo contrário, vão se
abster de qualquer tentativa de suprimir esses impulsos pela força, quando aprenderem
que esforços desse tipo com freqüência produzem resultados não menos indesejáveis
que a alternativa, tão temida pelos educadores, de dar livre trânsito às travessuras das
crianças. A supressão forçada de fortes instintos por meios externos nunca produz,
numa criança, o efeito de esses instintos se extinguirem ou ficarem sob controle; conduz
à repressão, que cria uma predisposição a doenças nervosas no futuro. A psicanálise tem
freqüentes oportunidades de observar o papel desempenhado pela severidade inoportuna
e sem discernimento da educação na produção de neuroses, ou o preço, em perda de
eficiência e capacidade de prazer, que tem de ser pago pela normalidade na qual o
educador insiste. E a psicanálise pode também demonstrar que preciosas contribuições
para a formação do caráter são realizadas por esses instintos associais e perversos na
criança, se não forem submetidos à repressão, e sim desviados de seus objetivos
originais para outros mais valiosos, através do processo conhecido como ‘sublimação’.”

“Nossas mais elevadas virtudes desenvolveram-se, como formações reativas e
sublimações, de nossas piores disposições.”

“A educação deve escrupulosamente abster-se de soterrar essas preciosas fontes de ação
e restringir-se a incentivar os processos pelos quais essas energias são conduzidas ao
longo de trilhas seguras. Tudo o que podemos esperar a título de profilaxia das neuroses
no indivíduo se encontra nas mãos de uma educação psicanaliticamente esclarecida.”
IV – O Retorno do Totemismo na Infância

“No primeiro desta série de ensaios, familiarizamo-nos com o conceito de totemismo.
Aprendemos que o totemismo é um sistema que ocupa o lugar da religião entre certos
povos primitivos da Austrália, da América e da África e provê a base de sua
organização social. Como ficamos sabendo, foi um escocês, McLennan, que em 1869
pela primeira vez chamou a atenção geral para o fenômeno do totemismo (que até então
tinha sido encarado como simples curiosidade), dando expressão à suspeita de que um
grande número de costumes e práticas comuns em várias sociedades antigas e modernas
deveriam ser explicados como remanescentes de uma época totêmica. A partir daí a
ciência aceitou inteiramente essa avaliação do totemismo.”

“O aspecto social do totemismo se expressa principalmente por uma injunção feita
respeitar severamente e uma ampla restrição.
Os membros de um clã totêmico são irmãos e irmãs e estão obrigados a ajudar-se e
proteger-se mutuamente. Se o membro de um clã é morto por alguém não pertencente a
ele, todo o clã do assassinado se une no pedido de satisfações pelo sangue que foi
derramado. O laço totêmico é mais forte que o de família, em nosso sentido. Os dois
não coincidem, uma vez que o totem, via de regra, é herdado através da linhagem
feminina, sendo possível que a descendência paterna fosse deixada, originalmente,
inteiramente fora de consideração.
A restrição de tabu correspondente proíbe aos membros do mesmo clã totêmico de
casar-se ou de ter relações sexuais uns com os outros. Temos aí o notório e misterioso
correlato do totemismo: a exogamia. Dediquei todo o primeiro ensaio da presente obra a
esse assunto, de maneira que aqui preciso apenas repetir que ele se origina da
intensificação entre os selvagens do horror ao incesto, a qual seria plenamente explicada
como uma garantia contra este último sob condições de casamento grupal, visando
primariamente a afastar do incesto a geração mais jovem e interferindo com a geração
mais velha apenas com um desenvolvimento posterior.”

“Se procurarmos penetrar até a natureza original do totemismo, sem considerar os
acréscimos ou atenuações subseqüentes, descobriremos que suas características
essenciais são as seguintes: Originalmente, todos os totens eram animais e eram
considerados como ancestrais dos diferentes clãs. Os totens eram herdados apenas
através da linha feminina. Havia uma proibição contra matar o totem (ou — o que em
condições primitivas, constitui a mesma coisa — comê-lo). Os membros de um clã
totêmico estavam proibidos de ter relações sexuais uns com os outros.”

“Quanto mais incontestável se torna a conclusão de que o totemismo constitui uma fase
regular em todas as culturas, mais urgente se torna a necessidade de chegar-se a uma
compreensão dele e lançar luz sobre o enigma de sua natureza essencial. Tudo o que se
relaciona com o totemismo parece misterioso: os problemas decisivos relacionam-se
com a origem da idéia da descendência do totem e com as razões para a exogamia (ou
melhor, para o tabu sobre o incesto de que a exogamia é expressão), bem como a
relação entre estas duas instituições, a organização totêmica e a proibição do incesto.
Qualquer explicação satisfatória deverá ser, ao mesmo tempo, histórica e psicológica.
Deverá dizer-nos sob que condições essa instituição peculiar se desenvolveu e a quais
necessidades psíquicas do homem dá expressão.
Meus leitores, estou seguro, ficarão espantados ao tomar conhecimento da variedade de
ângulos de que se fizeram tentativas para responder a estas questões e das amplas
divergências de opinião sobre ela apresentadas pelos peritos. Quase toda generalização
que se possa fazer sobre o assunto do totemismo e da exogamia parece aberta à
discussão.”

“Outros estudiosos da exogamia, ao contrário, e evidentemente com a maior justiça,
viram na exogamia uma instituição destinada à prevenção do incesto. Quando se
consideram as complicações gradativamente crescentes das restrições australianas ao
casamento, é impossível deixar de aceitar as opiniões de Morgan (1877), Frazer (1910,
4, 105 e segs.), Howitt [1904, 143] e Baldwin Spencer de que esses regulamentos
trazem (nas palavras de Frazer) ‘a marca de um desígnio deliberado’ e que visam a
alcançar o resultado que na realidade alcançaram. ‘De nenhuma outra maneira parece
possível explicar em todos os seus pormenores um sistema ao mesmo tempo tão
regular.’ (Frazer, ibid., 106.)
É interessante observar que as primeiras restrições produzidas pela introdução das
classes matrimoniais afetaram a liberdade sexual da geração mais jovem (isto é, o
incesto entre irmãos e irmãs e entre filhos e mães), enquanto que o incesto entre pais e
filhas só foi impedido por uma extensão ulterior dos regulamentos.
Mas o fato de as restrições sexuais exógamas terem sido impostas intencionalmente não
esclarece o motivo que levou à sua imposição. Qual é a fonte suprema do horror ao
incesto que tem de ser identificada como sendo a raiz da exogamia? Explicá-lo pela
existência de uma antipatia instintiva pelas relações sexuais com os parentes
consangüíneos — ou seja, apelando para o fato de que existe um horror ao incesto — é
claramente insatisfatório, porque a experiência social mostra que, a despeito desse
suposto instinto, o incesto não é um fato fora do comum mesmo em nossa sociedade
atual e a história nos fala de casos em que o casamento incestuoso entre pessoas
privilegiadas era na realidade a regra.”

“Mas alguns outros comentários de Frazer vão mais fundo e estes reproduzirei na
íntegra, visto que se acham essencialmente de acordo com os argumentos que apresentei
em meu ensaio sobre o tabu:
‘Não é fácil perceber porque qualquer instinto humano profundo deva necessitar ser
reforçado pela lei. Não há lei que ordene aos homens comer e beber ou os proíba de
colocar as mãos no fogo. Os homens comem e bebem e mantém as mãos afastadas do
fogo instintivamente por temor a penalidades naturais, não legais, que seriam
acarretadas pela violência aplicada a esses instintos. A lei apenas proíbe os homens de
fazer aquilo a que seus instintos os inclinam; o que a própria natureza proíbe e pune,
seria supérfluo para a lei proibir e punir. Por conseguinte, podemos sempre com
segurança pressupor que os crimes proibidos pela lei são crimes que muitos homens têm
uma propensão natural a cometer. Se não existisse tal propensão, não haveriam tais
crimes e se esses crimes não fossem cometidos, que necessidade haveria de proíbi-los?
Desse modo, em vez de presumir da proibição legal do incesto que existe uma aversão
natural a ele, deveríamos antes pressupor haver um instinto natural em seu favor e que
se a lei o reprime, como reprime outros instintos naturais, assim o faz porque os homens
civilizados chegaram à conclusão de que a satisfação desses instintos naturais é
prejudicial aos interesses gerais da sociedade.’ (Frazer, 1910, 4, 97 e seg.)
Posso acrescentar a estes excelentes argumentos de Frazer que as descobertas da
psicanálise torna a hipótese de uma aversão inata à relação sexual incestuosa totalmente
insustentável. Demonstram, pelo contrário, que as mais precoces excitações sexuais dos
seres humanos muito novos são invariavelmente de caráter incestuoso e que tais
impulsos, quando reprimidos, desempenham um papel que pode ser seguramente
considerado — sem que isso implique uma superestima — como forças motivadoras de
neuroses, na vida posterior.
Dessa maneira, o ponto de vista que explica o horror ao incesto como sendo um instinto
inato deve ser abandonado.”

           (b) e (c) A ORIGEM DA EXOGAMIA E SUA
               RELAÇÃO COM O TOTEMISMO


“Tampouco pode-se dizer algo mais favorável sobre outra explicação da lei contra o
incesto, amplamente defendida, segundo a qual os povos primitivos desde cedo notaram
os perigos com que a endogamia ameaçava a raça e, devido a essa razão,
deliberadamente adotaram a proibição. Há uma infinidade de objeções a esta teoria. (Cf.
Durkheim, 1898 [33 e segs.].) Não somente a proibição contra o incesto deve ser mais
antiga que a domesticação de animais — a qual poderia ter capacitado os homens a
observar os efeitos prejudiciais da endogamia sobre os caracteres raciais —, mas ainda
hoje os efeitos prejudiciais da endogamia não se acham estabelecidos com certeza e não
podem ser facilmente demonstrados no homem. Ademais, tudo o que sabemos sobre os
selvagens contemporâneos torna altamente improvável que seus ancestrais mais remotos
já estivessem preocupados em preservar de danos a progênie. Na verdade, é quase
absurdo atribuir a criaturas tão imprevidentes razões de higiene e de eugenia que mal
são consideradas em nossa própria civilização de hoje.
Por último, deve-se levar em conta o fato de que uma proibição contra a endogamia,
baseada em motivos práticos de higiene, com fundamento na sua tendência à debilitação
racial, parece inteiramente inadequada para explicar a profunda aversão de nossa
sociedade pelo incesto. Como já demonstrei anteriormente, esse sentimento parece ser
ainda mais ativo e intenso entre os povos primitivos contemporâneos que entre os
civilizados.
Poder-se-ia esperar que aqui, mais uma vez, tivéssemos diante de nós uma escolha entre
explicações sociológicas, biológicas e psicológicas. (Com relação a isto, os motivos
psicológicos talvez devam ser considerados como representando forças biológicas).”

“Ignoramos a origem do horror ao incesto e nem mesmo podemos informar em que
direção procurá-la. Nenhuma das soluções que foram propostas ao enigma parece
satisfatória.
Tenho, entretanto, de mencionar uma outra tentativa de solucioná-lo. É de um tipo
inteiramente diferente de qualquer uma que até aqui consideramos e poderia ser descrita
como ‘histórica’.
Essa tentativa baseia-se numa hipótese de Charles Darwin sobre o estado social dos
homens primitivos. Deduziu ele dos hábitos dos símios superiores, que também o
homem vivia originalmente em grupos ou hordas relativamente pequenos, dentro dos
quais o ciúme do macho mais velho e mais forte impedia a promiscuidade sexual.
‘Podemos na verdade concluir, do que sabemos do ciúme de todos os quadrúpedes
masculinos, armados, como muitos se acham, de armas especiais para bater-se com os
rivais, que as relações sexuais promíscuas em um estado natural são extremamente
improváveis (…) Dessa maneira, se olharmos bastante para trás na corrente do tempo
(…) a julgar pelos hábitos sociais do homem, tal como ele hoje existe (…) a visão mais
provável é que o homem primevo vivia originalmente em pequenas comunidades, cada
um com tantas esposas quantas podia sustentar e obter, as quais zelosamente guardava
contra todos os outros homens. Ou pode ter vivido sozinho com diversas esposas, como
o gorila, pois todos os antigos “concordam que apenas um macho adulto é visto num
grupo; quando o macho novo cresce, há uma disputa pelo domínio, e o mais forte,
matando ou expulsando os outros, estabelece-se como chefe da comunidade”. (Dr.
Savage, no Boston Journal of Nat. Hist., vol. V, 1845-7, p. 423.) Os machos mais
novos, sendo assim expulsos e forçados a vaguear por outros lugares, quando por fim
conseguiam encontrar uma companheira, preveniram também uma endogamia muito
estreita dentro dos limites da mesma família.’ (Darwin, 1871, 2, 362 e seg.)
Atkinson parece ter sido o primeiro a perceber que a conseqüência prática das condições
reinantes na horda primeva de Darwin deve ter sido a exogamia para os jovens do sexo
masculino. Cada um deles poderia, depois de ter sido expulso, estabelecer uma horda
semelhante, na qual a mesma proibição sobre as relações sexuais imperaria, por causa
do ciúme do líder. Com o decorrer do tempo, isto produziria o que se tornaria uma lei
consciente: ‘Nenhuma relação sexual entre os que partilham de um lar comum’. Após o
estabelecimento do totemismo, a regra assumiria outra forma e diria: ‘Nenhuma relação
sexual dentro do totem’.”

“Nessa obscuridade, um raio de luz isolado é lançado pela observação psicanalítica.
Há uma grande semelhança entre as relações das crianças e dos homens primitivos com
os animais. As crianças não demonstram sinais da arrogância que faz com que os
homens civilizados adultos tracem uma linha rígida entre a sua própria natureza e a de
todos os outros animais. As crianças não têm escrúpulos em permitir que os animais se
classifiquem como seus plenos iguais. Desinibidas como são na admissão de suas
necessidades corporais, sem dúvida sentem-se mais aparentadas com os animais do que
com seus semelhantes mais velhos, que bem podem constituir um mistério para elas.
Não raramente, porém, uma estranha lenda ocorre nas excelentes relações existentes
entre as crianças e os animais. Uma criança de repente começa a ter medo de uma
determinada espécie de animal e a evitar tocar ou ver qualquer exemplar daquela
espécie. Surge o quadro clínico de uma fobia de animal — uma forma muito comum,
talvez a mais antiga, das doenças psiconeuróticas que ocorrem na infância. (...).Ainda
não se fez nenhum exame analítico pormenorizado das fobias de animais em crianças,
embora esse estudo fosse grandemente compensador. Essa negligência, deve-se, sem
dúvida, à dificuldade de analisar crianças de tão tenra idade. Assim, não se pode dizer
que conheçamos o significado geral dessas perturbações, e eu mesmo sou de opinião
que estas podem mostrar não ser de natureza uniforme. Mas alguns casos de fobias
desse tipo dirigidas no sentido de animais maiores mostraram-se acessíveis à análise e
revelaram assim seu segredo ao investigador. Era a mesma coisa em todos os casos:
quando as crianças em causa eram meninos, o medo, no fundo, estava relacionado com
o pai e havia simplesmente sido deslocado para o animal.”

“Publiquei recentemente (1909b), uma ‘Análise de uma Fobia num Menino de Cinco
Anos’, cujo material me foi fornecido pelo pai do pequeno paciente. O menino tinha
uma fobia de cavalos e, como conseqüência disso, recusava-se a sair à rua. Expressava o
temor de que o cavalo entrasse no quarto e o mordesse e viu-se que isso seria o castigo
por um desejo de que o cavalo caísse (isto é, morresse). Depois de ter sido removido o
medo do menino pelo pai através de uma confiança renovada, tornou-se evidente que
ele estava lutando contra desejos que tinham como tema a idéia de o pai estar ausente
(partindo para uma viagem, morrendo). Encarava o pai (como deixou bem claro) como
um competidor nos favores da mãe, para quem eram dirigidos os obscuros prenúncios
de seus desejos sexuais nascentes. Desse modo, estava situado na atitude típica de uma
criança do sexo masculino para com os pais a que demos o nome do ‘complexo de
Édipo’ e que em geral consideramos como o complexo nuclear das neuroses. O fato
novo que aprendemos com a análise do ‘pequeno Hans’ — fato com uma importante
relação com o totemismo — foi que, em tais circunstâncias, as crianças deslocam alguns
de seus sentimentos do pai para um animal.
A análise pode reconstituir os caminhos associativos ao longo dos quais esse
deslocamento se passa — tanto os fortuitos como os possuidores de um conteúdo
significativo. A análise também nos permite descobrir os motivos do deslocamento. O
ódio pelo pai que surge num menino por causa da rivalidade em relação à mãe não é
capaz de adquirir uma soberania absoluta sobre a mente da criança; tem de lutar contra a
afeição e admiração de longa data pela mesma pessoa. A criança se alivia do conflito
que surge dessa atitude emocional de duplo aspecto, ambivalente, para com o pai
deslocando seus sentimentos hostis e temerosos para um substituto daquele. O
deslocamento, no entanto, não pode dar cabo do conflito, não pode efetuar uma nítida
separação entre os sentimentos afetuosos e os hostis. Pelo contrário, o conflito é
retomado em relação ao objeto para o qual foi feito o deslocamento: a ambivalência é
estendida a ele. Não pode haver dúvida de que o pequeno Hans não apenas tinha medo
de cavalos, mas também se aproximava deles com admiração e interesse. Assim que sua
ansiedade começou a diminuir, identificou-se com a criatura temida: começou a
pinotear como um cavalo e, por sua vez, mordeu o pai. Em outra etapa da resolução de
sua fobia, não hesitou em identificar os pais com alguns outros animais de grande
porte.”

“Quando o pequeno Árpád tinha dois anos e meio de idade, tentara certa vez, nas férias
de verão, urinar no galinheiro e uma galinha bicara ou dera uma bicada na direção de
seu pênis. Um ano depois, quando de volta ao mesmo lugar, ele próprio transformou-se
numa galinha: seu único interesse era o galinheiro e o que lá se passava, tendo trocado o
falar humano por cacarejos e cocoricós. Na ocasião em que a observação foi feita
(quando estava com cinco anos), tinha recobrado a fala, mas seus interesses e sua
conversa relacionavam-se totalmente com galinhas e outros tipos de aves domésticas.
Eram os seus únicos brinquedos e somente entoava cantigas que fizessem menção a
aves de quintal. Sua atitude para com o animal totêmico era superativamente
ambivalente: mostrava tanto ódio quanto amor num grau exorbitante. Seu jogo favorito
era brincar de matar galinhas. ‘A matança de aves domésticas constituía para ele um
festival regular. Dançava em volta dos corpos dos animais por horas a fio, num estado
de intensa excitação.’ A seguir, porém, beijava e alisava o animal morto ou limpava e
acariciava as aves de brinquedo que ele mesmo tinha maltratado.
O próprio pequeno Árpád cuidou para que o significado de seu estranho comportamento
não permanecesse oculto. De tempos em tempos, traduzia seus desejos, da linguagem
totêmica para a da vida cotidiana. ‘Meu pai é galo’, disse em certa ocasião, e, noutra:
‘Agora sou pequeno, sou um frango. Quando ficar maior, serei uma galinha e quando
for maior ainda, serei um galo.’ Em outra ocasião, disse subitamente que gostaria de
comer um pouco de ‘fricassée de mãe’ (por analogia com o fricassée de frango). [Ibid.,
249.] Era muito generoso em ameaçar outras pessoas com a castração, tal como ele
próprio fora por ela ameaçado, por causa das atividades masturbatórias.
Não há dúvida, segundo Ferenczi, quanto às fontes do interesse de Árpád nos
acontecimentos do galinheiro: ‘a contínua atividade sexual entre galos e galinhas, a
postura de ovos e o nascimento da nova ninhada’ gratificavam a sua curiosidade sexual,
cujo objeto real era a vida familiar humana. [Ibid. 250.] Mostrou ter formado sua
própria escolha de objetos sexuais segundo o modelo da vida no galinheiro, porque
certo dia disse à esposa do vizinho: ‘Vou me casar com você, com sua irmã, minhas três
primas e com a cozinheira; não, com a cozinheira, não; em vez dela, casarei com minha
mãe.’ [Ibid., 252.]
Mais tarde poderemos apreciar mais completamente o valor desta observação. De
momento, enfatizarei apenas dois aspectos dela que oferecem valiosos pontos de
concordância com o totemismo: a completa identificação do menino com seu animal
totêmico e sua atitude emocional ambivalente para com este. Essas observações, em
minha opinião, justificam nossa substituição desse animal pelo pai na fórmula do
totemismo (no caso de indivíduos do sexo masculino). Vai-se observar que não há nada
de novo ou particularmente ousado nesse passo à frente. Na verdade, os homens
primitivos dizem a mesma coisa e, onde o sistema totêmico ainda se acha em vigor
atualmente, descrevem o totem como sendo seu ancestral comum e pai primevo. Tudo o
que fizemos foi tomar no sentido literal uma expressão utilizada por essas pessoas, da
qual os antropólogos muito pouco souberam extrair e, por essa razão, contentaram-se
em manter em segundo plano. A psicanálise, pelo contrário, leva-nos a dar uma ênfase
especial ao mesmo ponto e tomá-lo como ponto de partida de nossa tentativa de explicar
o totemismo.
A primeira conseqüência de nossa substituição é notabilíssima. Se o animal totêmico é o
pai, então as duas principais ordenanças do totemismo, as duas proibições de tabu que
constituem seu âmago — não matar o totem e não ter relações sexuais com os dois
crimes de Édipo, que matou o pai e casou com a mãe, assim como os dois desejos
primários das crianças, cuja repressão insuficiente ou redespertar formam talvez o
núcleo de todas as psiconeuroses. Se essa equação for algo mais que um enganador
truque de sorte, deverá capacitar-nos a lançar luz sobre a origem do totemismo num
passado inconcebivelmente remoto. Em outras palavras, nos permitirá provar que o
sistema totêmico — como a fobia de animal do pequeno Hans e a perversão galinácea
do pequeno Árpád — é um produto das condições em jogo no complexo de Édipo.”

“Voltemo-nos agora para o animal sacrificatório. Como soubemos, não há reunião de
um clã sem um sacrifício animal, nem — e isto agora se torna significativo — nenhuma
matança de animal exceto nessas ocasiões cerimoniais. Embora a caça e o leite dos
animais domésticos possam ser consumidos sem quaisquer receios, os escrúpulos
religiosos tornam impossível matar um animal doméstico para fins privados. [William
Robertson Smith, falecido em 1894 — físico, filólogo, crítico da Bíblia e arqueólogo -
Religion of Semites (publicado pela primeira vez em 1889-Ibid. 280, 281.] Não pode
haver a mais leve dúvida, diz Robertson Smith, de que a matança de uma vítima se
achava originalmente entre os atos que ‘são ilegais para um indivíduo e só podem ser
justificados quando todo o clã partilha a responsabilidade do ato. Até onde sei, há
apenas uma classe de ações reconhecidas pelas nações primitivas a que essa descrição
se aplica, a saber, as ações que envolvem a invasão da santidade no sangue tribal. Na
verdade, uma vida que nenhum integrante isolado da tribo se permite invadir e que só
pode ser sacrificada pelo consentimento e ação comum dos parentes, está em pé de
igualdade com a vida dos companheiros de tribo’. A regra de que todo participante na
refeição sacrificatória tenha de comer uma parte da carne da vítima tem o mesmo
significado da determinação de que a execução de um membro culpado da tribo deve ser
efetuada pela tribo como um todo. [Ibid., 284-5.] Noutras palavras, o animal sacrificado
era tratado como um membro da tribo; a comunidade sacrificante, o deus e o animal
sacrificado eram do mesmo sangue e membros de um só clã.
Robertson Smith apresenta provas abundantes para identificar o animal sacrificatório
com o primitivo animal totêmico. Na antiguidade mais remota, havia duas classes de
sacrifício: uma em que as vítimas eram animais domésticos das espécies habitualmente
utilizadas para a alimentação e a outra, sacrifícios extraordinários de animais impuros e
cujo consumo era proibido. A investigação mostra que esses animais impuros eram
animais sagrados, que eles eram oferecidos como sacrifício aos deuses a quem eram
consagrados, que originalmente eram idênticos aos próprios deuses e que, por meio do
sacrifício, os adoradores de certa maneira enfatizavam seu parentesco consangüíneo
com o animal e o deus. [Ibid., 290-5.] Mas em épocas ainda mais antigas, essa distinção
entre sacrifícios comuns e ‘místicos’ desaparece. Originalmente, todos os animais
[sacrificatórios] eram sagrados, sua carne era proibida e só podia ser consumida em
ocasiões cerimoniais e com a participação de todo o clã. A matança de um animal [desse
tipo] equivalia ao derramamento do sangue tribal e só podia ocorrer sujeita às mesmas
precauções e às mesmas garantias contra a incorrência em censuras. [Ibid., 312, 313.]
A domesticação dos animais e a introdução da criação de gado parece ter dado fim em
toda parte ao totemismo estrito e inadulterado dos dias primevos. Mas esse caráter
sagrado, tal como continuou sendo para os animais domésticos sob o que então se
tornou uma religião ‘pastoral’ é suficientemente óbvio para permitir-nos deduzir sua
natureza totêmica original. Mesmo em fins da época clássica, o ritual prescrevia em
muitos lugares que o sacerdote sacrificante devia fugir depois de efetuar o sacrifício,
como se para escapar à represália. A idéia de que matar bois constituía um crime deve,
em determinada época, ter predominado na Grécia em geral. No festival ateniense da
Bufônia [‘morte do boi’], um processo regular era instituído após o sacrifício e todos os
participantes eram convocados como testemunhas. Ao final, concordava-se que a
responsabilidade pelo crime deveria ser atribuída à faca e, por conseguinte, esta era
jogada ao mar. [Smith, 1894, 304.]”

“A despeito da proibição que protegia a vida dos animais sagrados na qualidade de
companheiros de clã, surgiu a necessidade de matar um deles de tempos em tempos, em
comunhão solene, e de dividir sua carne e sangue entre os membros do clã. Os motivos
que levaram a esse ato revelam o significado mais profundo da natureza do sacrifício. Já
sabemos como, em épocas posteriores, sempre que o alimento é comido em comum, a
participação na mesma substância estabelece um laço sagrado entre aqueles que a
consomem quando o alimento penetrou em seus corpos. Nos tempos antigos, esse
resultado parece só ter sido efetivado pela participação na substância de uma vítima
sacrossanta. O sagrado mistério da morte sacrificatória ‘é justificado pela
consideração de que apenas desta maneira pode ser conseguido o vínculo sagrado que
cria e mantém ativo um elo vivo de união entre os adoradores e seu deus.’. (Ibid., 313.)
Este elo ou vínculo nada mais é que a vida do animal sacrificatório, a qual reside em sua
carne e seu sangue, sendo distribuída entre todos os participantes na refeição
sacrificatória. Uma idéia desse tipo jaz na raiz de todos os pactos de sangue por meio
dos quais os homens fizeram convênios uns com os outros, mesmo em períodos
posteriores da história. [Loc. cit.] Essa maneira completamente literal de encarar o
parentesco de sangue como identidade de substância torna fácil compreender a
necessidade de renová-lo de tempos em tempos pelo processo físico da refeição
sacrificatória. [Ibid., 319.]
Aqui interrompo o seguimento da linha de pensamento de Robertson Smith e passo a
renunciar o essencial dela em termos mais concisos. Com o estabelecimento da idéia de
propriedade privada, o sacrifício veio a ser considerado uma doação à divindade, uma
transferência da propriedade dos homens para o deus. Mas essa interpretação deixa
inexplicada todas as peculiaridades do ritual do sacrifício. Nos tempos mais remotos, o
próprio animal sacrificatório fora sagrado e sua vida intocável; só podia ser morto se
todos os membros do clã participassem da morte e partilhassem da culpa na presença do
deus de maneira que a substância sagrada pudesse ser produzida e consumida pelos
membros do clã, garantindo assim sua identidade uns com os outros e com a divindade.
O sacrifício constituía um sacramento e o próprio animal sacrificado era membro do clã.
Era de fato o antigo animal totêmico, o próprio deus primitivo, através de cuja morte e
consumo os integrantes do clã renovavam e asseguravam sua semelhança com ele.
Dessa análise da natureza do sacrifício, Robertson Smith tira a conclusão de que a morte
e a ingestão periódicas do totem em tempos anteriores à adoração de deidades
antropomórficas constituiu um elemento importante da religião totêmica. [Ibid., 295.] O
cerimonial de uma refeição totêmica dessa espécie, sugere ele, pode ser encontrado na
descrição de um sacrifício de data comparativamente posterior. São Nilo registra um
ritual sacrificatório corrente entre os beduínos do deserto do Sinai em fins do século IV.
A vítima do sacrifício, um camelo, ‘é amarrado a um grosseiro altar de pedras
empilhadas e o líder do grupo, depois de conduzir por três vezes os adoradores em volta
do altar numa solene procissão acompanhada de cantos, inflige o primeiro ferimento
(…) e, com toda a pressa, bebe o sangue que jorra. Imediatamente, todos os
acompanhantes caem sobre a vítima com suas espadas recortando pedaços da carne
palpitante e devorando-os crus com pressa tão selvagem que, no curto intervalo que vai
do nascer da estrela matutina o qual assinalou a hora para o serviço começar — ao
desaparecimento de seus raios ante o sol nascente, todo o camelo, corpo e ossos, pele,
sangue e entranhas, é inteiramente devorado.’ [Ibid., 338.] Todas as provas tendem a
mostrar que esse ritual bárbaro, que apresenta todos os sinais de extrema antiguidade,
não era um caso isolado, e sim, em toda parte, a forma original assumida pelo sacrifício
totêmico embora mais tarde atenuada em muitos sentidos diferentes.”

“Vamos presumir ser um fato, então, que no decurso do desenvolvimento posterior das
religiões, os dois fatores propulsores, o sentimento de culpa do filho e sua rebeldia,
nunca se tenham extinguido. Todas as tentativas feitas para solucionar os problemas
religiosos, todos os tipos de reconciliação efetuados entre essas duas forças mentais
opostas mais cedo ou mais tarde ruíam sob a influência combinada, sem dúvida, dos
fatos históricos, das mudanças culturais e das modificações psíquicas internas.
Os esforços do filho para colocar-se no lugar do deus-pai tornaram-se ainda mais
óbvios. A introdução da agricultura aumentou sua família patriarcal. Ele aventurou-se a
novas demonstrações de sua libido incestuosa, que encontraram satisfação simbólica no
cultivo da Terra-Mãe. Surgiram figuras divinas como Átis, Adônis e Tamuz, espíritos
da vegetação e, ao mesmo tempo, divindades cheias de juventude, a desfrutar dos
favores das deusas-mães e a cometer incesto com a mãe, em desafio ao pai. Mas o
sentimento de culpa, que não fora aliviado por essas criações, encontrou expressão em
mitos que conferiam apenas vidas breves a esses favoritos juvenis das deusas-mães e
decretavam sua punição pela emasculação ou pela ira do pai manifestada sob a forma de
um animal. Adônis foi morto por um javali, o animal sagrado de Afrodite; Átis, amado
de Cibele, pereceu por castração. O luto por esses deuses e o júbilo por sua ressurreição
foram transferidos para o ritual de outra divindade-filho que estava destinada a alcançar
um sucesso permanente.
Quando o cristianismo pela primeira vez penetrou no mundo antigo, defrontou-se com a
competição da religião de Mitras e, durante algum tempo, houve dúvida em relação a
qual das duas divindades alcançaria a vitória. Não obstante o halo de luz que rodeia a
sua forma, o jovem deus persa continua a ser obscuro para nós. Podemos talvez deduzir
das esculturas de Mitras matando um touro que ele representava um filho sozinho no
sacrifício do pai, redimindo assim os irmãos do ônus de cumplicidade no ato. Havia um
método alternativo de mitigar a culpa e ele foi adotado pela primeira vez por Cristo.
Sacrificou a própria vida e assim redimiu do pecado original o conjunto de irmãos. A
doutrina do pecado original era de origem órfica. Constituía parte dos mistérios e deles
propagou-se para as escolas de filosofia da antiga Grécia.”

“Não pode haver dúvida de que no mito cristão o pecado original foi um pecado
cometido contra o Deus-Pai. Se, entretanto, Cristo redimiu a humanidade do peso do
pecado original pelo sacrifício da própria vida, somos levados a concluir que o pecado
foi um homicídio. A lei de talião, que se acha tão profundamente enraizada nos
sentimentos humanos, estabelece que um homicídio só pode ser expiado pelo sacrifício
de outra vida: o auto-sacrifício aponta para a culpa sanguínea. E se este sacrifício de
uma vida ocasionou uma expiação para com o Deus-Pai, o crime a ser expiado só pode
ter sido o homicídio do pai.
Na doutrina cristã, assim, os homens estavam reconhecendo da maneira mais
indisfarçada o ato primevo culpado, uma vez que encontraram a mais plena expiação
para ele no sacrifício desse filho único. A expiação para o pai foi ainda mais completa
visto que o sacrifício se fez acompanhar de uma renúncia total às mulheres, por causa de
quem a rebelião contra aquele fora iniciada. Mas, neste ponto, a inexorável lei
psicológica da ambivalência apareceu. O próprio ato pelo qual o filho oferecia a maior
expiação possível ao pai conduzia-o, ao mesmo tempo, à realização de seus desejos
contra o pai. Ele próprio tornava-se Deus, ao lado, ou, mais corretamente, em lugar do
pai. Uma religião filial deslocava a religião paterna. Como sinal dessa substituição, a
antiga refeição totêmica era revivida sob a forma da comunhão, em que a associação de
irmãos consumia a carne e o sangue do filho — não mais do pai — obtinha santidade
por esse e identificava-se com ele.”

“Assim podemos acompanhar, através das idades, a identidade da refeição totêmica com
o sacrifício animal, com o sacrifício humano teantrópico e com a eucaristia cristã,
podendo identificar em todos esses rituais o efeito do crime pelo qual os homens se
encontravam tão profundamente abatidos, mas do qual, não obstante, devem sentir-se
tão orgulhosos. A comunhão cristã, no entanto, constitui essencialmente uma nova
eliminação do pai, uma repetição do ato culposo. Podemos perceber a inteira justiça da
declaração de Frazer de que ‘a comunhão cristã absorveu um sacramento que é sem
dúvida muito mais antigo que o cristianismo’.”

“Ao concluir, então, esta investigação excepcionalmente condensada, gostaria de insistir
em que o resultado dela mostra que os começos da religião, da moral, da sociedade e da
arte convergem para o complexo de Édipo. Isso entra em completo acordo com a
descoberta psicanalítica de que o mesmo complexo constitui o núcleo de todas as
neuroses, pelo menos até onde vai nosso conhecimento atual. Parece-me ser uma
descoberta muito supreendente que também os problemas da psicologia social se
mostrem solúveis com base num único ponto concreto: — a relação do homem com o
pai. É mesmo possível que ainda outro problema psicológico se encaixe nesta mesma
conexão. Muitas vezes tive ocasião de assinalar que a ambivalência emocional, no
sentido próprio da expressão — ou seja, a existência simultânea de amor e ódio para os
mesmos objetos — jaz na raiz de muitas instituições culturais importantes. Não
sabemos nada da origem dessa ambivalência. Uma das pressuposições possíveis é que
ela seja um fenômeno fundamental de nossa vida emocional. Mas parece-me bastante
válido considerar outra possibilidade, ou seja, que originalmente ela não fazia parte de
nossa vida emocional, mas foi adquirida pela raça humana em conexão com o
complexo-pai, precisamente onde o exame psicanalítico de indivíduos modernos ainda a
encontra revelada em toda a sua força.
Antes de concluir minhas observações, porém, não devo deixar de salientar que, embora
meus argumentos tenham conduzido a um alto grau de convergência para um único e
abrangente nexo de idéias, esse fato não deve fazer-nos deixar de ver as incertezas de
minhas premissas ou as dificuldades envolvidas em minhas conclusões. Mencionarei
apenas duas das últimas, que podem também ter chamado a atenção de um certo número
de leitores.
Ninguém pode ter deixado de observar, em primeiro lugar, que tomei como base de toda
minha posição a existência de uma mente coletiva, em que ocorrem processos mentais
exatamente como acontece na mente de um indivíduo. Em particular, supus que o
sentimento de culpa por uma determinada ação persistiu por muitos milhares de anos e
tem permanecido operativo em gerações que não poderiam ter tido conhecimento dela.
Supus que um processo emocional, tal como se poderia ter desenvolvido em gerações
de filhos que foram maltratados pelos pais, estendeu-se a gerações novas livres de tal
tratamento, pela própria razão de o pai ter sido eliminado. Devo admitir que estas são
dificuldades graves e qualquer explicação que pudesse evitar pressuposições dessa
espécie seria preferível.”

“O problema pareceria ainda mais difícil se tivéssemos de admitir que os impulsos
mentais podem ser tão completamente reprimidos que deles não reste nenhum vestígio.
Mas não é este o caso. Mesmo a mais implacável repressão tem de deixar lugar para
impulsos substitutos deformados e para as reações que deles resultem. Se assim for,
portanto, podemos presumir com segurança que nenhuma geração pode ocultar, à
geração que a sucede, nada de seus processos mentais mais importantes, pois a
psicanálise nos mostrou que todos possuem, na atividade mental inconsciente, um
apparatus que os capacita a interpretar as reações de outras pessoas, isto é, a desfazer as
deformações que os outros impuseram à expressão de seus próprios sentimentos. Uma
tal compreensão inconsciente de todos os costumes, cerimônias e dogmas que restaram
da relação original com o pai pode ter possibilitado às gerações posteriores receberem
sua herança de emoção.”

“Os preceitos e restrições morais mais antigos da sociedade primitiva foram por nós
explicados como reações a um ato que deu àqueles que o cometeram o conceito de
‘crime’. Sentiram remorso por ele e decidiram que não se deveria repetir e que sua
execução não traria vantagens. Este sentimento de culpa criativo ainda persiste entre
nós. Encontramo-lo operando de uma maneira não social nos neuróticos e produzindo
novos preceitos morais e restrições persistentes, como expiação por crimes que foram
cometidos e precaução contra a prática de novos. Se, contudo, pesquisarmos entre esses
neuróticos para descobrir quais foram os atos que provocaram tais reações, ficaremos
desapontados. Não encontraremos atos, mas apenas impulsos e emoções, pretendendo
fins malignos, mas impedidos de realizar-se. O que jaz por trás do sentimento de culpa
dos neuróticos são sempre realidades psíquicas, nunca realidades concretas. O que
caracteriza os neuróticos é preferirem a realidade psíquica à concreta, reagindo tão
seriamente a pensamentos como as pessoas normais às realidades.
Não poderá o mesmo ser verdade quanto aos homens primitivos? Temos justificativas
para acreditar que, como um dos fenômenos de sua organização narcisista, eles
supervalorizam seus atos psíquicos a um grau extraordinário. Conseqüentemente, o
simples impulso hostil contra o pai, a mera existência de uma fantasia — plena de
desejo de matá-lo e devorá-lo, teriam sido suficientes para produzir a reação moral que
criou o totemismo e o tabu. Desta maneira, evitaríamos a necessidade de atribuir a
origem de nosso legado cultural, de que com justiça nos orgulhamos, a um crime
odioso, revoltante para todos os nossos sentimentos. Nenhum dano seria assim feito à
cadeia causal que se estende desde os começos aos dias atuais, pois a realidade psíquica
seria suficientemente forte para suportar o peso dessas conseqüências. A isto se poderá
objetar que realmente efetuou-se uma alteração na forma da sociedade, de uma horda
patriarcal para um clã fraterno. Trata-se de um argumento poderoso, mas não
conclusivo. A alteração poderia ter sido efetuada de uma maneira menos violenta e, não
obstante, capaz de determinar o aparecimento da reação moral. Enquanto a pressão
exercida pelo pai primevo podia ser sentida, os sentimentos hostis para com ele eram
justificados e o remorso por sua causa teria de esperar por seu dia. E se se argumentar
ainda que tudo que tem sua origem na relação ambivalente com o pai — o tabu e a
ordenação sacrificatória — se caracteriza pela mais profunda seriedade e a mais
completa realidade, essa nova objeção tem tão pouco peso quanto a outra, porque os
cerimoniais e as inibições dos neuróticos obsessivos apresentam essas mesmas
características e, não obstante, têm sua origem apenas na realidade psíquica — provêm
de intenções e não da execução delas. Temos de evitar transplantar para o mundo dos
homens primitivos e dos neuróticos, cuja riqueza reside apenas no interior deles
próprios, o desprezo de nosso mundo corriqueiro — com sua riqueza de valores
materiais — pelo que é simplesmente pensado ou desejado.
Aqui nos defrontamos com uma decisão que, na verdade, não é fácil. Em primeiro lugar,
porém, devo confessar que a distinção, que pode parecer fundamental para outras
pessoas, a nosso ver não afeta o âmago da questão. Se desejos e impulsos possuem o
pleno valor de fatos para os homens primitivos, compete a nós conceder à sua atitude
uma atenção compreensiva, em vez de corrigi-la de acordo com nossos próprios
padrões. Examinemos, então, mais de perto o caso da neurose — a comparação com a
qual nos conduziu à nossa presente incerteza. Não é exato dizer que os neuróticos
obsessivos, curvados sob o peso de uma moralidade excessiva, estão-se defendendo
apenas da realidade psíquica e se punindo através de impulsos que foram simplesmente
sentidos. A realidade histórica também tem a sua parte na questão. Na infância, eles
tiveram esses impulsos malignos de modo puro e simples e transformaram-nos em atos
até onde a impotência da infância permitia. Cada um desses indivíduos excessivamente
virtuosos passou por um período de maldade na infância — uma fase de perversão que
foi precursora e pré-condição do período posterior de moralidade excessiva. A analogia
entre os homens primitivos e os neuróticos será estabelecida assim de modo muito mais
completo, se supusermos que também no primeiro caso a realidade psíquica — a
respeito da qual não temos dúvida quanto à forma que tomou — coincidiu no princípio
com a realidade concreta, ou seja, que os homens primitivos realmente fizeram aquilo
que todas as provas mostram que pretendiam fazer.
Tampouco devemos deixar-nos influenciar demais em nosso julgamento dos homens
primitivos pela analogia com os neuróticos. Há distinções, também, que devem ser
levadas em conta. Sem dúvida alguma, é verdade que o contraste nítido que nós
traçamos entre o pensar e o fazer acha-se ausente em ambos. Mas os neuróticos são,
acima de tudo, inibidos em suas ações: neles, o pensamento constitui um substituto
completo do ato. Os homens primitivos, por outro lado, são desinibidos: o pensamento
transforma-se diretamente em ação. Neles, é antes o ato que constitui um substituto do
pensamento, sendo por isso que, sem pretender qualquer finalidade de julgamento,
penso que no caso que se nos apresenta pode-se presumir com segurança que ‘no
princípio foi Ato’.”


A história do movimento psicanalítico,
artigos sobre metapsicologia
e outros trabalhos

VOLUME XIV
(1914-1916)

REFLEXÕES PARA O TEMPO DE GUERRA E MORTE

I - A DESILUSÃO DA GUERRA


“Duas coisas nessa guerra despertaram nosso sentimento de desilusão: a baixa
moralidade revelada externamente por Estados que, em suas relações internas, se
intitulam guardiães dos padrões morais, e a brutalidade demonstrada por indivíduos que,
enquanto participantes da mais alta civilização humana, não julgaríamos capazes de tal
comportamento.
Comecemos pelo segundo ponto e tentemos formular, em poucas palavras, o ponto de
vista que desejamos criticar. De fato, como é que imaginamos o processo pelo qual um
indivíduo se alça a um plano comparativamente alto de moralidade? A primeira resposta
será, sem dúvida, simplesmente que ele é virtuoso e nobre desde o seu nascimento —
desde o começo mesmo de sua vida. Não consideraremos mais esse ponto de vista aqui.
Uma segunda resposta sugerirá que estamos preocupados com um processo de
desenvolvimento, e provavelmente presumirá que o desenvolvimento consiste em
erradicar as tendências humanas más desse indivíduo e, sob a influência da educação e
de um ambiente civilizado, em substituí-las por boas. Caso isso seja assim, é, não
obstante, surpreendente que o mal ressurja com tamanha força em qualquer um que
tenha sido educado dessa forma.
No entanto, essa resposta também encerra a tese que nos propomos contradizer. Na
realidade, não existe essa ‘erradicação’ do mal. A pesquisa psicológica — ou, falando
mais rigorosamente, psicanalítica — revela, ao contrário, que a essência mais profunda
da natureza humana consiste em impulsos instintuais de natureza elementar,
semelhantes em todos os homens e que visam à satisfação de certas necessidades
primevas. Em si mesmos, esses impulsos não são nem bons e nem maus. Classificamos
esses impulsos, bem como suas expressões, dessa maneira, segundo sua relação com as
necessidades e as exigências da comunidade humana. Deve-se admitir que todos os
impulsos que a sociedade condena como maus — tomemos como representativos os
egoísticos e cruéis — são de natureza primitiva.
Esses impulsos primitivos passam por um longo processo de desenvolvimento antes que
se lhes permita tornarem-se ativos no adulto. São inibidos, dirigidos no sentido de
outras finalidades e outros campos, mesclam-se, alteram seus objetos e revertem, até
certo ponto, a seu possuidor. Formações de reação contra certos instintos assumem a
forma enganadora de uma mudança em seu conteúdo, como se o egoísmo se tivesse
transmudado em altruísmo ou a crueldade em piedade. Essas formações de reação são
facilitadas pela circunstância de que alguns impulsos instintuais surgem, quase que
desde o início, em pares de opostos — um fenômeno muito marcante, e estranho ao
público leigo, denominado ‘ambivalência de sentimento’. O exemplo mais facilmente
observado e compreensível disso reside no fato de que o amor intenso e o ódio intenso
são, com tanta freqüência, encontrados juntos na mesma pessoa. A psicanálise
acrescenta que esses dois sentimentos opostos, não raramente, têm como objeto a
mesma pessoa.
Só quando todas essas ‘vicissitudes instintuais’ foram superadas é que se forma aquilo
que denominamos de caráter de uma pessoa, e este, como sabemos, só de forma
inadequada pode ser classificado como ‘bom’ ou ‘mau’. Raramente um ser humano é
totalmente bom ou mau; via de regra ele é ‘bom’ em relação a determinada coisa e
‘mau’ em relação a outra, ou ‘bom’ em certas circunstâncias externas e em outras
indiscutivelmente ‘mau’. É interessante verificar que, na primeira infância, a
preexistência de fortes impulsos ‘maus’ constitui muitas vezes a condição para uma
inequívoca inclinação no sentido do ‘bom’ no adulto. Aqueles que, enquanto crianças,
foram os mais pronunciados egoístas, podem muito bem tornar-se os mais prestimosos e
abnegados membros da comunidade; a maioria dos sentimentalistas, amigos da
humanidade e protetores de animais, evoluíram de pequenos sádicos e atormentadores
de animais.
A transformação dos ‘maus’ instintos é ocasionada por dois fatores, um interno e outro
externo, que atuam na mesma direção. O fator interno consiste na influência exercida
sobre os instintos maus (digamos, egoístas) pelo erotismo — isto é, pela necessidade
humana de amor, tomada em seu sentido mais amplo. Pela mistura dos componentes
eróticos, os instintos egoístas são transformados em sociais. Aprendemos a valorizar o
fato de sermos amados como uma vantagem em função da qual estamos dispostos a
sacrificar outras vantagens. O fator externo é a força exercida pela educação, que
representa as reivindicações de nosso ambiente cultural, posteriormente continuadas
pela pressão direta desse ambiente. A civilização foi alcançada através da renúncia à
satisfação instintual, exigindo ela, por sua vez, a mesma renúncia de cada recém-
chegado. No decorrer da vida de um indivíduo, há uma substituição constante da
compulsão externa pela interna. As influências da civilização provocam, por uma
mescla de elementos eróticos, uma sempre crescente formação das tendências egoístas
em tendências altruístas e sociais. Em última instância, pode-se supor que toda
compulsão interna que se faz sentir no desenvolvimento dos seres humanos foi
originalmente — isto é, na história da humanidade — apenas uma compulsão externa.
Os que nascem hoje trazem consigo, como organização herdada, certo grau de tendência
(disposição) para a formação dos instintos egoístas em sociais, sendo essa disposição
facilmente estimulada a provocar esse resultado. Outra parte dessa transformação
instintual tem de ser realizada durante a vida do próprio indivíduo. Assim, o ser humano
está sujeito não só à pressão de seu ambiente cultural imediato, mas também à
influência da história cultural de seus ancestrais.”

“Aprendemos que a compulsão externa exercida sobre um ser humano por sua educação
e por seu ambiente produz ulterior transformação no sentido do bem em sua vida
instintual — um afastamento ulterior do egoísmo para o altruísmo. Esse, porém, não é o
efeito regular ou necessário da compulsão externa. A educação e o ambiente não só
oferecem benefícios no tocante ao amor, como também empregam outros tipos de
incentivo, a saber, recompensas e punições. Dessa maneira, seu efeito pode vir a ser que
uma pessoa sujeita à sua influência escolha comportar-se bem, no sentido cultural dessa
expressão, embora nenhum enobrecimento do instinto, nenhuma transformação de
inclinações egoístas em altruístas se tenham operado nela. O resultado será, grosso
modo, o mesmo; só uma específica concatenação de circunstâncias revelará que um
homem sempre age bem porque suas inclinações instintuais o compelem a isso, e que
outro só é bom na medida em que, e enquanto, esse comportamento cultural for
vantajoso para seus propósitos egoístas. Contudo, o conhecimento superficial de um
indivíduo não nos permitirá distinguir entre esses dois casos, e decerto somos
enganosamente levados por nosso otimismo a exagerar grosseiramente o número de
seres humanos que têm sido transformados num sentido cultural.
A sociedade civilizada, que exige boa conduta e não se preocupa com a base instintual
dessa conduta, conquistou assim a obediência de muitas pessoas que, para tanto, deixam
de seguir suas próprias naturezas. Estimulada por esse êxito, a sociedade se permitiu o
engano de tornar maximamente rigoroso o padrão moral, e assim forçou os seus
membros a um alheamento ainda maior de sua disposição instintual. Conseqüentemente,
eles estão sujeitos a uma incessante supressão do instinto, e a tensão resultante disso se
trai nos mais notáveis fenômenos de reação e compensação. No domínio da sexualidade,
onde é mais difícil realizar essa supressão, o resultado se manifesta nos fenômenos
reativos das desordens neuróticas. Em outros lugares, é verdade que a pressão da
civilização não traz em seu rastro quaisquer resultados patológicos, mas se revela em
deformações do caráter e na perpétua presteza dos instintos inibidos em irromper, em
qualquer oportunidade adequada, em proveito da satisfação. Qualquer um, compelido
dessa forma a agir continuamente em conformidade com preceitos que não são a
expressão de suas inclinações instintuais, está, psicologicamente falando, vivendo acima
de seus meios, e pode objetivamente ser descrito como um hipócrita, esteja ou não
claramente cônscio dessa incongruência. É inegável que nossa civilização
contemporânea favorece, num grau extraordinário, a produção dessa forma de
hipocrisia. Poder-se-ia dizer que ela está alicerçada nessa hipocrisia, e que teria de se
submeter a modificações de grande alcance, caso as pessoas se comprometessem a viver
em conformidade com a verdade psicológica. Assim, existem muito mais hipócritas
culturais do que homens verdadeiramente civilizados — na realidade, trata-se de um
ponto discutível saber se certo grau de hipocrisia cultural não é indispensável à
manutenção da civilização, uma vez que a suscetibilidade à cultura, que até agora se
organizou nas mentes dos homens dos nossos dias, talvez não se revele suficiente para
essa tarefa. Por outro lado, a manutenção da civilização, mesmo numa base tão dúbia,
fornece a perspectiva de, a cada nova geração, preparar o caminho para uma
transformação de maior alcance do instinto, a qual será o veículo de uma civilização
melhor.”

“Os estudiosos da natureza humana e os filósofos de há muito nos ensinaram que nos
enganamos ao considerar nossa inteligência uma força independente e ao negligenciar
sua dependência em relação à vida emocional. Nosso intelecto, segundo nos ensinam, só
pode funcionar de maneira digna de confiança quando afastado das influências de fortes
impulsos emocionais; do contrário, comporta-se simplesmente como um instrumento da
vontade e fornece a inferência que a vontade exige. Assim, na opinião deles, os
argumentos lógicos são impotentes contra os interesses afetivos; por isso, os debates
apoiados por razões, na frase de Falstaff ‘tão abundantes quanto as amoras silvestres’,
mostram-se tão infrutíferos no mundo dos interesses.”

II – NOSSA ATITUDE PARA COM A MORTE


“Talvez nos sirva de ajuda proceder dessa forma, se dirigirmos nossa indagação
psicológica no sentido de duas outras relações com a morte — a que podemos atribuir
aos homens primevos, pré-históricos, e a que ainda existe em cada um de nós, mas que
se oculta, invisível à consciência, nas camadas mais profundas de nossa vida mental.
Naturalmente, só podemos saber qual era a atitude do homem pré-histórico para com a
morte por meio de inferências e interpretações; creio, porém, que esses métodos nos têm
proporcionado conclusões mais ou menos dignas de confiança.
O homem primevo assumia uma atitude notável em relação à morte. Longe de ser
coerente, era, na realidade, altamente contraditória. Por um lado, encarava a morte
seriamente, reconhecia-a como o término da vida, utilizando-a nesse sentido; por outro,
também negava a morte e a reduzia a nada. Essa contradição surgia do fato de que ele
assumia atitudes radicalmente diferentes para com a morte de outras pessoas, de
estranhos, de inimigos, e para com sua própria morte. Não fazia qualquer objeção à
morte de outrem; ela significava o aniquilamento de alguém que ele odiava, e o homem
primitivo não tinha quaisquer escrúpulos em ocasioná-lo. Era, sem dúvida, uma criatura
muito impulsiva e mais cruel e maligna do que outros animais. Gostava de matar, e
fazia isso como uma coisa natural. O instinto que, segundo se diz, refreia outros animais
de matar e de devorar sua própria espécie, não precisa ser atribuído a ele.
Por isso, a história primeva da humanidade está repleta de assassinatos. Mesmo hoje, a
história do mundo que nossos filhos aprendem na escola é essencialmente uma série de
assassinatos de povos. O obscuro sentimento de culpa ao qual a humanidade tem estado
sujeita desde épocas pré-históricas e que, em algumas religiões, foi condensado na
doutrina da culpa primeva, do pecado original, é provavelmente o resultado de uma
culpa de homicídio em que teria incorrido o homem pré-histórico. Em meu livro Totem
e Tabu (1912-13) tentei, seguindo pistas fornecidas por Robertson Smith, Atkinson e
Charles Darwin, adivinhar a natureza dessa culpa primeva, e creio, também, que a
doutrina cristã de nossos dias nos permite deduzi-la. Se o Filho de Deus foi obrigado a
sacrificar sua vida para redimir a humanidade do pecado original, então, pela lei de
talião, dente por dente, olho por olho, aquele pecado deve ter sido uma morte, um
assassinato. Nada mais poderia exigir o sacrifício de uma vida para a sua expiação. E, se
o pecado original foi uma ofensa contra Deus Pai, o crime primevo da humanidade deve
ter sido um parricídio, a morte do pai primevo da horda humana primitiva, cuja imagem
mnêmica foi depois transfigurada numa deidade.
Para o homem primevo, sua própria morte era certamente tão inimaginável e irreal
quanto o é para qualquer um de nós hoje em dia. No entanto, no seu caso, uma
circunstância fez com que as duas atitudes opostas para com a morte colidissem e
entrassem em conflito uma com a outra, circunstância essa que se tornou altamente
importante, produzindo conseqüências de longo alcance. Ocorreu quando o homem
primevo viu morrer alguém que lhe pertencia — a esposa, o filho, o amigo — a quem
indubitavelmente ele amava como amamos os nossos, já que o amor não pode ser muito
mais jovem do que a volúpia de matar. Então, em sua dor, foi forçado a aprender que
cada um de nós pode morrer, e todo o seu ser revoltou-se contra a admissão desse fato,
pois cada um desses antes amados era, afinal de contas, uma parte de seu próprio eu
amado. Por outro lado, porém, mortes como essas também o agradavam, de uma vez
que em cada uma das pessoas amadas havia também alguma coisa de estranho. A lei de
ambivalência do sentimento, que até hoje rege nossas relações emocionais com aqueles
a quem mais amamos, por certo tinha uma validade muito mais ampla nos tempos
primevos. Assim, esses mortos amados também tinham sido inimigos e estranhos que
haviam despertado nele certo grau de sentimento hostil.”

“Sem dúvida, as almas piedosas, que gostariam de crer que nossa natureza está
distanciada de qualquer contato com o que é mau e degradante, não deixarão de utilizar
o aparecimento e a premência iniciais da proibição contra o assassinato como a base
para conclusões gratificantes quanto à força dos impulsos éticos que devem ter sido
implantados em nós. Infelizmente, esse argumento fortalece ainda mais o ponto de vista
oposto. Uma proibição tão poderosa só pode ser dirigida contra um impulso igualmente
poderoso. O que nenhuma alma humana deseja não precisa de proibição; é excluído
automaticamente. A própria ênfase dada ao mandamento ‘Não matarás’ nos assegura
que brotamos de uma série interminável de gerações de assassinos, que tinham a sede de
matar em seu sangue, como, talvez, nós próprios tenhamos hoje. Os esforços éticos da
humanidade, cuja força e significância não precisamos absolutamente depreciar, foram
adquiridos no curso da história do homem; desde então se tornaram, embora
infelizmente apenas em grau variável, o patrimônio herdado pelos homens
contemporâneos.”

“O medo da morte, que nos domina com mais freqüência do que pensamos, é, por outro
lado, algo secundário e, via de regra, o resultado de um sentimento de culpa.
Por outro lado, admitimos a morte para estranhos e inimigos, destinando-os a ela tão
prontamente e tão sem hesitação quanto o homem primitivo. Aqui, é verdade, há uma
distinção que será declarada decisiva no que diz respeito à vida real. Nosso inconsciente
não executa o ato de matar; ele simplesmente o pensa e o deseja. Mas seria
completamente errado subestimar essa realidade psíquica quando posta em confronto
com a realidade factual. Ela é bastante importante e grave. Em nossos impulsos
inconscientes, diariamente e a todas as horas, nos livramos de alguém que nos atrapalha,
de alguém que nos ofendeu ou nos prejudicou. A expressão ‘Que o Diabo o carregue!’,
que tantas vezes o aflora aos lábios das pessoas em tom de brincadeira e que, na
realidade, significa ‘Que a morte o carregue!’, é em nosso inconsciente um sério e
poderoso desejo de morte. De fato, nosso inconsciente assassinará até mesmo por
motivos insignificantes; como o antigo ateniense de Drácon, ele não conhece outra
punição para o crime a não ser a morte. E isso mostra certa coerência, já que cada
agravo a nosso ego todo-poderoso e autocrático é, no fundo, um crime de lesa-
majestade.”

APÊNDICE: CARTA A FREDERICK VAN EEDEN

“Aventuro-me, sob o impacto da guerra (I Grande Guerra – grifo meu), a lembrar-lhe
duas teses formuladas pela psicanálise e que, sem dúvida, contribuíram para sua
impopularidade.
A psicanálise inferiu dos sonhos e das parapraxias das pessoas saudáveis, bem como
dos sintomas dos neuróticos, que os impulsos primitivos, selvagens e maus da
humanidade não desapareceram em qualquer de seus membros individuais, mas
persistem, embora num estado reprimido, no inconsciente (para empregar nossos termos
técnicos) e aguardam as oportunidades para se tornarem ativos mais uma vez. Ela nos
ensinou, ainda, que nosso intelecto é algo débil e dependente, um joguete e um
instrumento de nossos instintos e afetos, e que todos nós somos compelidos a nos
comportar inteligente ou estupidamente, de acordo com as ordens de nossas atitudes
[emocionais] e resistências internas.”


Livro XIV – A História do Movimento Psicanalítico
Fluctuat Nec Mergitur
(...)
“A visão da vida refletida no sistema adleriano fundamenta-se exclusivamente no
instinto agressivo; nele não há lugar para o amor. Talvez nos surpreenda que essa
Weltanschauung tão melancólica tenha merecido alguma atenção, mas não devemos
esquecer que os seres humanos, vergados sob o fardo de suas necessidades sexuais,
estão prontos a aceitar qualquer coisa se pelo menos a “superação da sexualidade” lhes
for oferecida como isca.
A deserção de Adler ocorreu antes do Congresso de Weimar em 1911; depois dessa data
teve início a dos suíços. Os primeiros sinais dela, o que é bastante curioso, foram certas
observações de Riklin em uns artigos populares aparecidos em publicações suíças, de
modo que o grande público soube, antes do que aqueles mais intimamente ligados ao
assunto, que a psicanálise havia superado alguns erros lamentáveis que anteriormente a
haviam desacreditado. Em 1912, Jung vangloriou-se, numa carta procedente dos
Estados Unidos, de que suas modificações da psicanálise haviam vencido as resistências
de muitas pessoas que até então não queriam nada com ela. Repliquei que aquilo não
constituía nenhum motivo de vanglória, e que quanto mais ele sacrificasse as verdades
da psicanálise conquistadas arduamente, mais veria as resistências desaparecendo. Essa
modificação, da qual os suíços tanto se orgulharam, mais uma vez nada mais era do que
impelir para o segundo plano o fator sexual na teoria psicanalítica. Confesso que desde
o começo considerei esse “avanço” como um ajustamento muito exagerado às
exigências da realidade.
Esses dois movimentos de afastamento da psicanálise, que eu agora devo comparar um
com o outro, assinalam outro ponto em comum: ambos cortejam uma opinião favorável
mediante a formulação de certas idéias elevadas, que encaram as coisas, por assim dizer,
sub specie aeternitatis. Em Adler, esse papel é desempenhado pela relatividade de todo
conhecimento e pelo direito da personalidade de basear uma interpretação artificial nos
dados de conhecimento de acordo com o gosto individual; em Jung, faz-se apelo ao
direito histórico da juventude de romper os grilhões com os quais a tirania dos mais
velhos e seus pontos de vista tacanhos procuram aprisioná-la. Algumas palavras devem
ser dedicadas ao esclarecimento da falácia dessas idéias.”

“Quem quer que dê grande valor ao pensamento científico procurará, antes, todos os
meios e métodos possíveis para limitar o fator predileções pessoais fantasiosas tanto
quanto possível, onde quer que ele desempenhe papel grande demais. Além disso, vale a
pena lembrar que não tem cabimento o excessivo zelo em defendermos a nós mesmos.
Esses argumentos de Adler não têm intenção séria. Destinam-se apenas a ser utilizados
contra seus adversários; não se referem às suas próprias teorias, nem impediram seus
seguidores de aclamá-lo como o Messias, para cujo advento a humanidade ansiosa foi
preparada por grande número de precursores. O Messias certamente não é nenhum
fenômeno relativo.
O argumento ad captandam benevolentiam de Jung repousa na suposição demasiado
otimista de que o progresso da raça humana, da civilização e do conhecimento sempre
seguiu uma linha ininterrupta, como se não tivesse havido períodos de decadência,
reações e restaurações após cada revolução, e gerações não tivessem dado um passo
para trás e abandonado as vantagens de seus antecessores. Sua abordagem do ponto de
vista das massas, sua renúncia a uma inovação que foi mal recebida, tornam a priori
pouco provável que a versão jungiana da psicanálise possa com justiça pretender ser
uma atitude jovem de liberação. Afinal de contas, não é a idade do autor que decide
isso, mas o caráter da ação.
Dos dois movimentos em discussão, o de Adler é, sem dúvida alguma, o mais
importante; embora radicalmente falso, apresenta consistência e coerência. Além disso,
se baseia, apesar de tudo, numa teoria dos instintos. A modificação de Jung, por outro
lado, afrouxa a conexão dos fenômenos com a vida instintiva; e além disso, conforme
seus críticos (p. ex. Abraham, Ferenczi e Jones) ressaltaram, é tão obscura, ininteligível
e confusa a ponto de se tornar difícil assumir uma posição em relação a ela. Quando se
pensa que se entendeu alguma coisa, pode-se ficar preparado para ouvir dizer que não se
entendeu e não se pode saber como tirar uma conclusão correta. Tudo é formulado de
uma maneira particularmente vacilante, ora como “uma divergência sutil que não
justifica o escarcéu que se fez em torno dela” (Jung), ora como uma nova mensagem de
salvação que irá iniciar uma nova era para a psicanálise, e mais ainda, uma nova
Weltanschauung para todos.”

“Quando se pensa nas várias incoerências reveladas em diversos pronunciamentos
públicos e privados feitos pelo movimento jungiano, somos levados a perguntar quanto
disso se deve à falta de clareza e quanto à falta de sinceridade. Deve-se admitir,
contudo, que os expoentes da nova teoria se encontram numa posição difícil. Combatem
agora coisas que anteriormente defendiam, e o fazem, além disso, não baseados em
novas observações que lhes poderiam ter ensinado algo mais, mas em conseqüência de
novas interpretações que fazem com que as coisas que vêem lhes pareçam diferentes do
que viam antes. Por esse motivo não estão dispostos a abrir mão da ligação com a
psicanálise, como representantes da qual se tornaram conhecidos perante o mundo, e
preferem anunciar que a psicanálise mudou. No Congresso de Munique achei necessário
esclarecer essa confusão, e o fiz declarando que não reconhecia as inovações dos suíços
como continuações legítimas e desenvolvimentos ulteriores da psicanálise que se
originou comigo. Críticos alheios ao movimento psicanalítico (como Furtmüller) já
haviam observado isso antes, e Abraham tem razão em dizer que Jung se afastou
inteiramente da psicanálise. É claro que sou perfeitamente capaz de admitir que cada um
tem o direito de pensar e escrever o que quiser, mas não tem o direito de apresentá-lo
como uma coisa que não é.”

“Da mesma forma que a investigação de Adler trouxe algo de novo à psicanálise —
uma contribuição à psicologia do ego — e cobrou por esse presente um preço
demasiado alto jogando fora todas as teorias fundamentais da análise, assim também
Jung e seus seguidores prepararam o caminho para a sua luta contra a psicanálise
presenteando-a com uma nova aquisição. Investigaram em detalhes (como Pfister fizera
antes deles) o caminho através do qual o material das idéias sexuais pertencentes ao
complexo de família e à escolha de objeto incestuoso é utilizado na representação dos
interesses éticos e religiosos mais elevados do homem, isto é, aclarando assim um
importante exemplo de sublimação das forças eróticas instintivas e de sua
transformação em tendências que não podem mais ser chamadas de eróticas. Isso
concordava perfeitamente com todas as expectativas da psicanálise e poderia
harmonizar-se muito bem com a idéia segundo a qual nos sonhos e neuroses uma
dissolução regressiva dessa sublimação, como de todas as outras, se torna visível. Mas o
mundo inteiro teria protestado indignado contra a sexualização da ética e da religião.
Pelo menos dessa vez não consigo deixar de pensar teologicamente e concluir que esses
descobridores não tinham condições de enfrentar essa tormenta de indignação, talvez
mesmo presente no íntimo deles próprios.”
“Suponhamos — para fazer uma comparação — que num determinado grupo social
vive um parvenu (aventureiro) que se vangloria de ser descendente de uma família
nobre que reside em outro lugar. Um dia se descobre que seus pais moram na
vizinhança, e são pessoas muito modestas. Só há uma maneira de contornar essa
dificuldade e ele se agarra a ela. Já não pode repudiar os pais, mas insiste em que são de
linhagem nobre e que simplesmente perderam sua posição social no mundo; e consegue
uma árvore genealógica de alguma fonte oficial complacente. Parece-me que os suíços
foram obrigados a se comportar da mesma maneira. Se não se permitiu que a ética e a
religião fossem sexualizadas porque tinham de ser algo de origem mais “elevada” e se,
não obstante, as idéias nelas contidas pareciam ter-se, inegavelmente, originado do
complexo de Édipo e do complexo familiar, só podia haver uma saída; que esses
complexos não tenham o sentido que aparentam, mas contenham um elevado sentido
“anagógico” (como Silberer o denomina) que tenha tornado possível o seu emprego nas
abstratas seqüências de pensamento da ética e do misticismo religioso.”

“Não será surpresa para mim ouvir dizer novamente que não compreendi a substância e
objetivo da teoria neozuriquiana; mas o que me interessa é protestar antecipadamente
contra pontos de vista contrários às minhas teorias que possam ser encontrados nas
publicações daquela escola sendo atribuídos a mim e não a eles. Não vejo outro meio de
tornar inteligível a mim próprio o conjunto de inovações de Jung, e de apreender todas
as suas implicações. As modificações que Jung propôs que se fizessem na psicanálise
decorrem todas de sua intenção de eliminar o lado reprovável dos complexos familiares
para não voltar a encontrá-lo na religião e na ética. A libido sexual foi substituída por
um conceito abstrato, sobre o qual se pode dizer com segurança que continua tão
enigmático e incompreensível para os entendidos quanto para os leigos. O complexo de
Édipo tem um significado meramente “simbólico”: a mãe, nele, representa o inacessível,
a que se tem de renunciar no interesse da civilização; o pai que é assassinado no mito de
Édipo é o pai “interior”, de quem nos devemos libertar a fim de nos tornarmos
independentes. Outras partes do material das idéias sexuais serão, por certo, submetidas
a reinterpretações semelhantes no decorrer do tempo. Em lugar de um conflito entre as
tendências eróticas ego-distônicas e as autopreservadoras, surge um conflito entre as
“tarefas da vida” e a “inércia psíquica”; o sentimento de culpa do neurótico corresponde
a sua auto-recriminação por não cumprir adequadamente seu “trabalho de viver”. Dessa
forma, criou-se um novo sistema ético-religioso, que, tal qual o sistema adleriano,
estava destinado a reinterpretar, distorcer ou alijar os achados efetivos da análise. A
verdade é que essas pessoas detectaram algumas nuanças culturais da sinfonia da vida e
mais uma vez não deram ouvidos à poderosa e primordial melodia dos instintos.
A fim de preservar intacto esse sistema, foi necessário afastar-se inteiramente da
observação e da técnica da psicanálise. Vez por outra, o entusiasmo pela causa deu
margem até mesmo à inobservância da lógica científica — quando Jung acha, por
exemplo, que o complexo de Édipo não é bastante “específico” para a etiologia das
neuroses, e passa a atribuir essa qualidade específica à inércia, a característica mais
universal de toda matéria, animada e inanimada! Deve-se notar, a propósito, que o
“complexo de Édipo” representa apenas um tópico com o qual as forças mentais do
indivíduo têm de lidar, e não é, em si próprio, uma força, como a “inércia psíquica”. O
estudo dos indivíduos tinha demonstrado (e sempre demonstrará) que os complexos
sexuais em seu sentido original estão vivos neles. Em conseqüência disso, a
investigação de indivíduos foi relegada a segundo plano [nas novas teorias] e
substituída por conclusões baseadas em provas oriundas da pesquisa antropológica. O
maior risco de defrontar-se com o sentido original e sem disfarces desses complexos
reinterpretados seria na tenra infância de cada indivíduo; em conseqüência, na terapia
estabeleceu-se a injunção de que essa história passada deve ser resolvida o mínimo
possível e a ênfase principal posta no conflito do presente, no qual, além do mais, a
coisa essencial de modo algum deveria ser o que era acidental e pessoal, mas o que era
geral — de fato, a não-realização das tarefas da vida. Como sabemos, no entanto, o
conflito de um neurótico torna-se compreensível e admite solução somente quando é
remontado à sua pré-história, quando uma pessoa volta atrás ao longo do caminho que
sua libido seguiu quando ela adoeceu.”

“A forma assumida pela terapêutica neozuriquiana sob essas influências pode ser
expressa nas palavras de um paciente que vivenciou isso pessoalmente: “Dessa vez
nenhum vestígio de atenção foi dado ao passado ou à transferência. Onde quer que eu
pensava haver apreendido esta última, diziam-me tratar-se de um puro símbolo libidinal.
Os ensinamentos morais eram muito bonitos e eu os seguia fielmente, mas não avancei
um passo. Isso era, naturalmente, muito mais incômodo para mim do que para ele, mas
como poderia evitá-lo?… Em vez de libertar-me pela análise, cada dia fazia-me novas e
tremendas exigências, que tinham de ser cumpridas se se quisesse que a neurose fosse
dominada — por exemplo: concentração interior através da introversão, meditação
religiosa, nova vida em comum com uma mulher com amor e dedicação etc. Isso estava
quase além das forças de qualquer um; visava a uma radical transformação de toda a
minha natureza interna. Deixei a análise como um pobre pecador, com intensos
sentimentos de arrependimento e as melhores intenções, mas ao mesmo tempo
totalmente desanimado. Qualquer sacerdote teria aconselhado o que ele recomendava,
mas onde iria eu encontrar forças para isso?” O paciente chegou mesmo a lembrar ter
ouvido falar que a análise do passado e da transferência deveria ser compreendida
primeiramente, mas lhe haviam dito que disso ele já tivera o bastante. Desde que essa
primeira espécie de análise não o havia ajudado mais, parece-me justificada a conclusão
de que o paciente não tivera dela o bastante. Por certo, o tratamento subseqüente, que já
não podia pretender chamar-se de psicanálise, não melhorou as coisas. É impressionante
que os membros da escola de Zurique tivessem de fazer uma volta tão longa e passar
por Viena para chegar à vizinha cidade de Berna, onde Dubois cura as neuroses por
meio de incentivos morais, de uma maneira mais sensata.”

“Não é difícil refutar com argumentos concretos as concepções errôneas de Jung sobre a
psicanálise e os desvios dela. Toda análise conduzida de maneira adequada, e em
particular toda análise de criança, fortalece as convicções sobre as quais se fundamenta
a teoria da psicanálise, negando as reinterpretações feitas tanto pelos sistemas de Jung
como de Adler. Nos dias que antecederam sua iluminação, o próprio Jung [1910b, v.
pág. 40] levou a efeito e publicou uma análise dessa espécie, de uma criança; resta ver
se ele empreenderá uma nova interpretação dos resultados dessa análise com a ajuda de
um diferente “arranjo unilateral dos fatos”, para utilizar a expressão empregada por
Adler nesse sentido (ver em [1] e [2]).
O ponto de vista de que a representação sexual de pensamentos “mais elevados” nos
sonhos e na neurose nada mais é senão uma modalidade arcaica de expressão, é,
naturalmente, inconciliável com o fato de que na neurose esses complexos sexuais
provam ser os portadores das quantidades de libido subtraídas à utilização na vida real.
Se isso fosse apenas uma questão de “jargão” sexual, não alteraria de maneira nenhuma
a economia da libido. O próprio Jung admite isso no seu Darstellung der
psychoanalytischen Theorie [1913] e formula a tarefa da terapia como o desligamento
das catexias libidinais desses complexos. Entretanto, isso jamais pode ser realizado
desviando-se o paciente delas e concitando-o a sublimar, e sim através do exame
exaustivo das mesmas que as torne plena e completamente conscientes. O primeiro item
de realidade com o qual o paciente deve lidar é a sua doença. Esforços no sentido de
poupar-lhe essa tarefa indicam incapacidade do médico em ajudá-lo a superar suas
resistências, ou então o medo que tem o médico dos resultados do seu trabalho.
Por último, pode-se dizer que com sua “modificação” da psicanálise Jung nos oferece
um equivalente da famosa faca de Lichtenberg. Mudou o cabo e botou uma lâmina
nova, e porque gravou nela o mesmo nome espera que seja considerada como o
instrumento original.
Creio ter deixado claro que, pelo contrário, a nova teoria que visa a substituir a
psicanálise significa um abandono da análise e uma deserção da mesma. Algumas
pessoas podem ser inclinadas a temer que essa deserção esteja fadada a ter
conseqüências mais graves para a análise do que outras, devido ao fato de ter sido
iniciada por homens que desempenharam um papel tão grande no movimento e
contribuíram tanto para o seu avanço. Eu não compartilho dessa apreensão.
Os homens são fortes enquanto representam uma idéia forte; se enfraquecem quando se
opõem a ela. A psicanálise sobreviverá a essa perda e a compensará com a conquista de
novos partidários. Para concluir, quero expressar o desejo de que a sorte proporcione
um caminho de elevação muito agradável a todos aqueles que acharam a estada no
submundo da psicanálise desagradável demais para o seu gosto. E possamos nós, os que
ficamos, desenvolver até o fim, sem atropelos, nosso trabalho nas profundezas.
Fevereiro de 1914.”


Conferências introdutórias
sobre psicanálise
(Partes I e II)

VOLUME XV
(1915-1916)


“São as crianças, e precisamente nesses primeiros anos, mais tarde velados pela
amnésia, que freqüentemente manifestam um tal egoísmo em grau extremamente
marcado e, invariavelmente, mostram evidentes rudimentos ou, expressando-se com
maior correção, resíduos dele. As crianças amam em primeiro lugar a si próprias, e
apenas mais tarde é que aprendem a amar os outros e a sacrificar algo de seu ego aos
outros. As próprias pessoas a quem uma criança parece amar desde o início, no começo
são amadas pela criança porque esta necessita delas e não pode dispensá-las — por
motivos egoístas, mais uma vez. Somente mais tarde o impulso de amar se torna
independente do egoísmo. É literalmente verdadeiro que seu egoísmo ensinou a amar.”

“O que tenho em mente é a rivalidade no amor, com nítida ênfase no sexo do indivíduo.
Quando é ainda uma criança, um filho já começa a desenvolver afeição particular por
sua mãe, a quem considera como pertencente a ele; começa a sentir o pai como rival que
disputa sua única posse. E da mesma forma uma menininha considera sua mãe como
uma pessoa que interfere na sua relação afetuosa com o pai e que ocupa uma posição
que ela mesma poderia muito bem ocupar. A observação nos mostra a quão precoces
anos essas atitudes remontam. A essas atitudes chamamos de ‘complexo de Édipo’,
visto que a lenda de Édipo materializa, com apenas uma leve atenuação, os dois desejos
extremos originários na situação do filho — matar o pai e tomar a mãe como esposa.
Não pretendo afirmar que o complexo de Édipo engloba toda a relação dos filhos com
os pais: esta pode ser muito mais complexa. O complexo de Édipo, ademais disso, pode
estar desenvolvido em maior ou menor intensidade, pode até mesmo estar invertido;
mas constitui fator constante e importante na vida mental de uma criança, e existe maior
risco de, antes, subestimarmos, do que superestimarmos sua influência e a dos
desenvolvimentos que nele se originam. Aliás, as crianças freqüentemente reagem, em
sua atitude edipiana, a um estímulo proveniente de seus pais, que amiúde se deixam
levar, nas suas preferências, pela diferença do sexo, de modo que o pai escolherá a filha
e a mãe escolherá o filho como favorito ou, no caso de um esfriamento conjugal, como
um substituto de um objeto de amor que perdeu seu valor. Não se pode dizer que o
mundo tenha demonstrado muita gratidão à investigação psicanalítica por sua revelação
do complexo de Édipo. Ao contrário, a descoberta provocou a mais violenta oposição
entre adultos; e aqueles que não se interessaram por tomar parte no repúdio a este
relacionamento emocional proscrito e tabu, compensaram seu débito mais tarde,
subtraindo a este complexo o seu valor, por meio de reinterpretações tortuosas.
Permanece inalterada minha convicção de que não há o que negar ou encobrir. Devemos
nos congratular com o fato de ter sido reconhecido pela própria lenda grega como
destino inevitável. Mais uma vez é interessante o fato de o complexo de Édipo, que tem
sido repudiado na vida real, ter sido deixado a cargo dos escritos imaginativos, ter sido
colocado, por assim dizer, livremente à sua disposição.”

“Primeiro e acima de tudo, é um erro injustificável negar que as crianças têm uma vida
sexual e supor que a sexualidade somente inicia na puberdade, com a maturação dos
genitais. Pelo contrário, bem desde o início as crianças têm uma intensa vida sexual, que
difere em muitos pontos daquilo que mais tarde é considerado normal. Aquilo que na
vida adulta é descrito como ‘perverso’ difere do normal por estes aspectos: primeiro,
porque despreza a barreira da espécie (o abismo entre o homem e o animal); segundo,
por transpor a barreira contra a repugnância; terceiro, a barreira contra o incesto
(proibição contra a busca da satisfação sexual em relações consangüíneas próximas);
quarto, a barreira contra pessoas do mesmo sexo; e quinto, por transferir a outros órgãos
e áreas do corpo o papel desempenhado pelos genitais. Nenhuma destas barreiras existia
desde o começo; foram estabelecidas apenas gradualmente, no decorrer do
desenvolvimento e da educação. Crianças de tenra idade são livres delas. Não
reconhecem qualquer abismo assustador entre seres humanos e animais; a soberba com
que os homens se distanciam dos animais não emerge senão mais tarde. Inicialmente, as
crianças não mostram qualquer repugnância pelas excreções; porém, adquirem-na
lentamente, sob a pressão da educação. Não dão importância especial à distinção entre
os sexos, mas atribuem a ambos a mesma conformação dos genitais; dirigem seus
primeiros desejos sexuais e sua curiosidade àqueles que lhes são mais próximos e, por
outras razões, mais caros — os pais, irmãos e irmãs, ou babás; e, finalmente,
demonstram (e isto mais tarde irrompe novamente no clímax de uma relação amorosa)
que esperam obter prazer não somente a partir de seus órgãos sexuais, mas que muitas
outras partes do corpo exibem a mesma sensibilidade, proporcionam-lhes sensações
análogas de prazer e, em decorrência, podem desempenhar o papel de genitais. Assim,
pode-se descrever as crianças como ‘perversos polimorfos’ e, se estes impulsos apenas
mostram traços de atividade, isso ocorre, por um lado, porque eles têm intensidade
menor quando comparados com os da vida posterior e, por outro lado, porque todas as
manifestações sexuais de uma criança são prontamente, energicamente suprimidas pela
educação. Esta supressão, por assim dizer, se estende à teoria; pois os adultos se
esforçam por não ver uma parte das manifestações sexuais das crianças e por disfarçar
uma outra parte, interpretando-lhes erroneamente a natureza sexual, conseguindo assim
negá-la em sua totalidade. Freqüentemente, são estas exatamente as mesmas pessoas
que, no trato com as crianças, se enfurecem com qualquer traquinagem sexual sua e,
depois, em seus escritos, defendem a pureza sexual das mesmas crianças.”

“Reunamos agora tudo aquilo com que nossas pesquisas acerca da psicologia da criança
têm contribuído para nossa compreensão dos sonhos. Não somente constatamos que o
material das vivências esquecidas da infância tem acesso aos sonhos, como também
vimos que a vida mental das crianças, com todas as suas características, seu egoísmo,
sua escolha incestuosa de objetos de amor, e assim por diante, ainda persiste nos sonhos
— isto é, no inconsciente; e que os sonhos nos levam de volta, todas as noites, a esse
nível infantil. Confirma-se assim o fato de que, na vida mental, o que é inconsciente é
também o que é infantil. A estranha impressão de haver tanta maldade nas pessoas
começa a reduzir-se. Esta maldade temida é simplesmente a inicial e primitiva parte
infantil da vida mental, que podemos encontrar em real atuação nas crianças, à qual,
contudo, em parte não damos importância, nas crianças, devido ao pequeno tamanho
delas, e, em parte, não a levamos a sério porque das crianças não esperamos elevado
padrão ético algum. Visto os sonhos regredirem a esse nível, eles dão a impressão de
terem revelado o mal que existe em nós. Esta, todavia, é uma aparência enganadora,
pela qual nos temos deixado atemorizar. Não somos tão maus como tenderíamos a
supor a partir da interpretação dos sonhos. Se esses impulsos maus nos sonhos são
meros fenômenos infantis, um retorno aos inícios de nossa evolução ética (de vez que os
sonhos simplesmente nos transformam novamente em crianças, em nossos pensamentos
e sentimentos), não temos, se formos racionais, necessidade de nos envergonhar desses
sonhos de maldade. Aquilo que é racional, porém, constitui apenas uma parte da vida
mental, inúmeras outras coisas se passam na vida mental e não são racionais; e assim
sucede irracionalmente estarmos envergonhados desses sonhos. Sujeitamo-los à censura
dos sonhos, envergonhamo-nos e nos irritamos se, por exceção, um desses desejos
consegue irromper na consciência em forma tão indisfarçada, que somos obrigados a
reconhecê-los; com efeito, às vezes nos envergonhamos tanto de um sonho deformado
como se o compreendêssemos.”

“Como resultado de nossas pesquisas, atenhamo-nos a duas descobertas, embora apenas
signifiquem o começo de novos enigmas e de novas dúvidas. Em primeiro lugar, a
regressão da elaboração onírica não é apenas formal, mas também material. Não só
traduz nossos pensamentos em uma forma primitiva de expressão; revive, também, as
características de nossa vida mental primitiva — a antiga dominância do ego, os
primeiros impulsos de nossa vida sexual e, realmente, até mesmo, nossa antiga
propriedade intelectual, caso assim possam ser consideradas as conexões simbólicas. E,
em segundo lugar, tudo isso que é antigo e infantil e que em certa época foi dominante,
e dominante sozinho, hoje deve ser atribuído ao inconsciente, acerca do qual nossas
idéias agora se estão modificando e ampliando. ‘Inconsciente’ já não é mais o nome
daquilo que é latente no momento; o inconsciente é um dos reinos da mente com seus
próprios impulsos plenos de desejos, seu modo de expressão próprio, e com seus
mecanismos mentais específicos que não vigoram em outros setores. No entanto, os
pensamentos oníricos latentes, que descobrimos ao interpretar sonhos, não pertencem a
este reino; são, ao contrário, pensamentos iguais àqueles que poderíamos ter pensado na
vida desperta. Não obstante, são inconscientes. Como, então, se pode solucionar esta
contradição? Começamos a suspeitar que aqui deve ser estabelecida uma distinção.
Alguma coisa que deriva de nossa vida consciente e compartilha de suas características
— nós a denominamos ‘resíduos diurnos’ — combina-se com alguma outra coisa
proveniente dos domínios do inconsciente, a fim de se construir um sonho. A
elaboração onírica se realiza entre estes dois componentes. A influência exercida sobre
os resíduos diurnos pela adição do inconsciente está, sem dúvida, entre os determinantes
da regressão.”



Conferências Introdutórias sobre Psicanálise – Parte II
Conferência X – Simbolismo nos sonhos

“O simbolismo é, talvez, o mais notável capítulo da teoria dos sonhos. Em primeiro
lugar, como os símbolos são versões constantes, realizam até certo ponto o ideal da
antiga, tanto como da popular, interpretação dos sonhos, do qual, com nossa técnica,
nos afastamos muito. Permitem-nos em certas circunstâncias interpretar um sonho sem
fazer perguntas ao sonhador que, de qualquer modo, realmente nada teria a nos dizer
acerca do símbolo. Se estivermos familiarizados com os símbolos oníricos comuns, e,
ademais disso, com a personalidade do sonhador, as circunstâncias em que ele vive e as
impressões que precederam a ocorrência do sonho, freqüentemente estaremos em
situação de interpretar um sonho com segurança — de traduzi-lo à vista, por assim
dizer. Um virtuosismo dessa espécie lisonjeia a quem interpreta o sonho e impressiona
aquele que teve o sonho; forma um agradável contraste com a laboriosa tarefa de
interrogar o sonhador. Contudo, não se deixem perder-se com isso. Não é de nosso
feitio executar atos de virtuosismo. A interpretação baseada no conhecimento dos
símbolos não é uma técnica que possa substituir a técnica associativa, nem competir
com esta. A técnica dos símbolos suplementa a técnica associativa e produz resultados
que apenas possuem utilidade, quando subordinada a esta. E, no que concerne ao
conhecimento que se tenha da situação psíquica da pessoa que nos relata seu sonho,
devem ter em mente que os sonhos das pessoas que os senhores bem conhecem, não são
os únicos que os senhores têm para analisar; ter em mente que, via de regra, os senhores
não estão familiarizados com os eventos do dia anterior, que foram aqueles que
provocaram o sonho, mas que as associações de idéias da pessoa que os senhores estão
analisando lhes proporcionarão um conhecimento preciso daquilo que chamamos
situação psíquica.”

“Agora, certamente, os senhores desejam ouvir algo sobre a natureza do simbolismo dos
sonhos e ter alguns exemplos. Com satisfação lhes direi o que sei, embora deva
confessar que nossa compreensão deste tema não é tão completa como desejaríamos.
A essência desta relação simbólica constitui em ela ser uma comparação, embora não
uma comparação de tipo qualquer. Limitações especiais parecem estar vinculadas à
comparação, porém é difícil dizer quais sejam elas. Nem tudo aquilo com que podemos
comparar um objeto ou um processo aparece nos sonhos como símbolo dessa
comparação. E, por outro lado, um sonho não simboliza cada elemento possível dos
pensamentos oníricos latentes, mas somente alguns pensamentos determinados. Assim,
existem limitações em ambos os sentidos. Devemos admitir, também, que o conceito de
símbolo, no momento atual, não pode ser definido com precisão: esse conceito se
transfigura gradualmente em noções tais como as de substituição ou representação, e
mesmo se aproxima do que entendemos por alusão. Em numerosos símbolos, a
comparação que subjaz é óbvia. Entretanto, também aí existem outros símbolos em
relação aos quais devemos nos perguntar onde buscaremos o elemento comum, o
tertium comparationis, da suposta comparação. Com outras reflexões, podemos
posteriormente descobri-lo, ou então ele pode permanecer definitivamente oculto. É
ademais estranho que, sendo o símbolo uma comparação, não seja elucidado por uma
associação, e que o sonhador não conheça, mas faça uso dele sem saber nada a seu
respeito: mais ainda, na verdade, que o sonhador não se sinta disposto a reconhecer a
comparação, mesmo depois de esta lhe ter sido mostrada. Os senhores observam, pois,
que uma relação simbólica é uma comparação de tipo muito especial, cuja base até
agora ainda não apreendemos, embora possamos, posteriormente, chegar a alguma
indicação sobre a mesma.”

“A gama de coisas às quais se confere uma representação simbólica nos sonhos, não é
ampla: o corpo humano como um todo, os pais, os filhos, irmãos e irmãs, nascimento,
morte, nudez — e algumas outras coisas mais. A representação típica — isto é, regular
— da figura humana como um todo é uma casa, conforme foi reconhecido por
Scherner, que até mesmo quis atribuir a este símbolo uma importância transcendental
que não tem. Em um sonho, pode acontecer alguém sentir-se descendo pela fachada de
uma casa, num momento deliciando-se com isso, depois atemorizando-se. As casas com
paredes lisas representam homens, e aquelas com saliências e sacadas, em que é
possível segurar-se, representam mulheres (...). Os pais aparecem nos sonhos como
imperador e imperatriz, rei e rainha [loc. cit.] ou outras personagens respeitadas; com
isso, os sonhos evidenciam muito respeito filial. Tratam, porém, com muito menos
ternura os filhos, os irmãos e as irmãs: estes são simbolizados como pequenos animais
ou bichinhos. O nascimento é quase que invariavelmente representado por algo que tem
uma conexão com água: ou a pessoa cai dentro da água ou sai da água, a pessoa salva
alguém da água ou é resgatada da água por alguém — ou seja, é uma relação mãe-filho
[...]. Morrer é substituído, nos sonhos, por partir, por viajar de trem ver em [...], estar
morto é representado por indícios diversos, por assim dizer, obscuros; a nudez, por meio
de roupas e uniformes. Os senhores vêem quão indistintos são os limites, aqui, entre a
representação simbólica e a alusiva.
É surpreendente que, em comparação com essa reduzida numeração, existe uma outra
área em que os objetos e assuntos são representados por um simbolismo
extraordinariamente rico. Essa área é a da vida sexual — os genitais, os processos
sexuais, a relação sexual. Nos sonhos, a grande maioria dos símbolos são símbolos
sexuais. E aqui se revela uma estranha desproporção. Os temas que mencionei são
poucos, os símbolos que os representam são, porém, extremamente numerosos, de
forma que cada uma dessas coisas pode ser expressa por numerosos símbolos quase
equivalentes. Quando interpretados, o resultado origina objeções generalizadas. Pois,
em contraste com a multiplicidade das representações no sonho, as interpretações dos
símbolos variam muito pouco, o que enfada qualquer pessoa que ouve falar nisso; mas,
o que podemos fazer quanto a isto?
Como esta é a primeira vez que falo no tema da vida sexual, em uma destas
conferências, devo-lhes uma explanação sobre a maneira pela qual me proponho a tratar
do assunto. A psicanálise não tem necessidade de ocultamentos nem de palpites, não
pensa que seja necessário envergonhar-se de lidar com esse importante material,
acredita que é correto e apropriado nomear cada coisa pelo seu nome certo e espera que
esta seja a melhor maneira de manter à distância idéias inadequadas, de natureza
desorientadora. O fato de estas conferências estarem sendo proferidas perante um
auditório misto de ambos os sexos, não faz qualquer diferença com relação a esse
aspecto. Assim como não pode haver ciência in usum Delphini, também não pode havê-
la para meninas de colégio; e as senhoras aqui presentes já evidenciaram, por sua
própria presença nesta sala de conferências, que desejam ser tratadas em condições de
igualdade com os homens. Os genitais masculinos então são representados nos sonhos
por numerosas formas que devem ser chamadas simbólicas, nas quais o elemento
comum da comparação é em geral muito evidente. Primeiramente, para os genitais
masculinos como um todo, o sagrado número 3 tem significação simbólica [...]. O mais
notável e, para ambos os sexos, mais interessante componente dos genitais, o órgão
masculino, encontra substitutos simbólicos primordialmente em coisas que a ele se
assemelham pela sua forma — coisas, portanto, que são alongadas e retas, tais como:
bengalas, guarda-chuvas, postes, árvores, e assim por diante; e também objetos que
compartilham, com a coisa que representam, da característica de penetrar no corpo e
ferir — ou seja, armas pontiagudas de toda espécie, facas, punhais, lanças, sabres e
também armas de fogo, rifles, pistolas e revólveres (especialmente adequados por causa
de sua forma). Nos sonhos de ansiedade de uma menina, ser seguida por um homem
com uma faca ou com arma de fogo desempenha importante papel. Esse talvez seja o
caso mais comum de simbolismo onírico, e agora os senhores estão aptos a traduzi-lo
com facilidade. E não é difícil compreender de que modo o órgão masculino pode ser
substituído por objetos dos quais flui água — torneira, regador, chafariz —, ou, ainda,
por outros objetos capazes de se distenderem, tais como lâmpadas suspensas, lápis
extensíveis, etc. Um aspecto não menos óbvio do órgão explica o fato de que lápis,
canetas, limas, martelos e outros instrumentos são indubitáveis símbolos sexuais
masculinos. A extraordinária característica do órgão masculino de ser capaz de erguer-
se em desafio às leis da gravidade, um dos fenômenos da ereção, faz com que seja
representado simbolicamente por balões, máquinas voadoras e, mais recentemente,
pelas aeronaves Zeppelin. Os sonhos, porém, podem simbolizar a ereção de outra
maneira, muito mais expressiva. Podem tratar o órgão sexual como sendo a essência da
pessoa inteira daquele que sonha e fazê-lo voar. Não se melindrem com a idéia de que
os sonhos com voar, tão comuns e freqüentemente tão agradáveis, devam ser
interpretados como sonhos de excitação sexual geral, como sonhos de ereção. Entre
alunos de psicanálise, Paul Federn [1914] colocou essa interpretação fora de dúvida;
contudo, através de suas investigações chegou à mesma conclusão Mourly Vold [1910-
12, 2, 791], que tem sido tão elogiado por sua seriedade, quem levou a cabo as
experiências com sonhos a que me referi [...] com posições artificialmente assumidas
dos braços e pernas, e estava muito distanciado da psicanálise e possivelmente nada
sabia a respeito dela. E não façam, a partir daí, a objeção ao fato de as mulheres
poderem ter os mesmos sonhos de voar, como os homens. Lembrem-se, antes, de que
nossos sonhos objetivam ser realizações de desejos e que o desejo de ser homem com
muita freqüência é encontrado, consciente ou inconscientemente, em mulheres. E
ninguém que conheça anatomia se espantará com o fato de que é possível às mulheres
realizar esse desejo através das mesmas sensações do homem. As mulheres possuem,
como parte de seus genitais, um pequeno órgão semelhante ao órgão masculino; e esse
pequeno órgão, o clitóris, realmente desempenha na infância e durante os anos
anteriores às relações sexuais o mesmo papel que desempenha o grande órgão dos
homens. Entre símbolos sexuais masculinos menos inteligíveis situam-se certos répteis
e peixes e, acima de tudo, o famoso símbolo da cobra. Certamente não é fácil adivinhar
por que chapéus e sobretudos ou capas são empregados da mesma maneira; contudo,
seu significado simbólico é bastante inquestionável [ver em [1]]. Finalmente, podemos
nos perguntar se a substituição do membro masculino por outro membro, o pé ou a mão,
deveria ser descrita como simbólica. Penso que somos compelidos a também fazê-lo,
em face ao contexto e aos equivalentes, no caso das mulheres. Os genitais femininos são
simbolicamente representados por todos esses objetos que compartilham da
característica de possuírem um espaço oco que pode conter algo dentro de si: buracos,
cavidades e concavidades, por exemplo; vasos e garrafas, recipientes, caixas, malas,
estojos, cofres, bolsas, e assim por diante. Barcos também se incluem nesta categoria.
Alguns símbolos têm mais conexão com o útero do que com os genitais femininos:
assim, armários, fogões e, mais especialmente, aposentos. Aqui o simbolismo de
aposento se aproxima do simbolismo de casa. Portas e portões também são símbolos do
orifício genital. Os materiais também são símbolos femininos [ver em [1]]: madeira,
papel e objetos feitos desses materiais como mesas e livros. Dentre os animais,
caramujos e conchas, pelo menos, são inegáveis símbolos femininos: entre as partes do
corpo, a boca (como substituto do orifício genital); entre as construções, igrejas e
capelas; como podem observar, nem todos os símbolos são igualmente inteligíveis. Os
seios devem ser incluídos nos genitais; sendo hemisférios volumosos do corpo
feminino, são representados por maçãs, pêras e frutas, em geral. Os pêlos pubianos de
ambos os sexos são representados nos sonhos por florestas e moitas. A complexa
topografia das partes genitais femininas torna compreensível o fato de elas serem
freqüentemente representadas por paisagens com rochedos, floresta e água, ao passo
que o imponente mecanismo do aparelho genital feminino explica por que todo tipo de
máquinas, difíceis de descrever, lhe serve de símbolo. Outro símbolo dos genitais
femininos, que merece ser mencionado, é o porta-jóias. Jóia e tesouro são usados nos
sonhos, assim como na vida desperta, para mencionar alguém que é amado. Doces
freqüentemente representam satisfação sexual. A satisfação que uma pessoa obtém com
seus próprios genitais é indicada por toda espécie de tocar, inclusive tocar piano.
Constituem representação simbólica par excellence da masturbação o deslizar ou
escorregar, o arrancar um ramo [ver em [1]]. A queda de um dente, ou a extração de
um dente são símbolos oníricos particularmente dignos de reparo. Sua significação
primeira é indubitavelmente a castração como castigo pela masturbação [loc. cit.].
Encontramos representações especiais do ato sexual com menos freqüência do que se
poderia esperar com base naquilo que se disse até aqui. Atividades rítmicas como
dançar, cavalgar e subir devem ser mencionadas aqui, bem como ocorrências violentas,
como ser atropelado; e ainda da mesma forma, certas atividades manuais e naturalmente
ameaças com armas. Os senhores não devem imaginar que seja muito simples o
emprego ou a tradução desses símbolos. No decurso deles, acontecem todos os tipos de
coisas que são contrárias às nossas expectativas. Parece quase inacreditável, por
exemplo, que nessas representações simbólicas as diferenças entre os sexos amiúde não
são nitidamente observadas. Alguns símbolos significam em geral, independentemente
de serem masculinos ou femininos, por exemplo: uma criança pequena, um filho
pequeno, uma filha pequena. Ou ainda, um símbolo predominantemente masculino pode
ser empregado para representar genitais femininos e vice-versa. Não podemos
compreender esse fato enquanto não tivermos obtido determinada compreensão interna
(insight) da evolução das idéias sexuais nos seres humanos. Em alguns casos, a
ambigüidade dos símbolos pode ser apenas aparente; e os símbolos mais marcados,
como armas, bolsas e cofres, se excluem desse uso bissexual.”

“Esse, pois, o material de que se serve o simbolismo nos sonhos. Não está completo e
poderia ser aprofundado e ampliado ainda mais. Imagino, porém, que lhes parecerá mais
que suficiente, e talvez até mesmo possa tê-los irritado. ‘Será que de fato vivo no meio
de símbolos sexuais?’ — poderão perguntar. ‘São todos os objetos ao meu redor, todas
as roupas que visto, todas as coisas que pego, todos símbolos sexuais, e nada mais?’
Existe, com efeito, fundamento suficiente para fazer perguntas atônitas, e, como
primeira delas, podemos nos interrogar sobre como realmente chegamos a conhecer a
significação desses símbolos oníricos, a respeito dos quais o sonhador nos dá
informação insuficiente, ou absolutamente nenhuma informação. Minha resposta é que a
aprendemos a partir de fontes muito diversas — de contos de fadas, de mitos, de
bufonarias e anedotas, do folclore (isto é, do conhecimento dos usos populares e
costumes, da maneira de falar e das canções) e de expressões idiomáticas, poéticas e
coloquiais. Em todas essas direções encontramos o mesmo simbolismo e, em alguns
deles, podemos entendê-lo sem maior erudição. Se penetrarmos nos detalhes dessas
fontes, encontraremos tantas semelhanças do simbolismo onírico, que não podemos
deixar de nos convencer de nossas interpretações.”

“De início parece surpreendente encontrar os pais, nos sonhos, como casal imperial ou
real. Isso, porém, tem seu similar nos contos de fadas. Começamos a compreender que
as variadas histórias de fadas que começam com ‘Era uma vez um rei e uma rainha’
apenas querem dizer que certa vez havia um pai e uma mãe. Em uma família as crianças
são, de brincadeira, chamadas de ‘príncipes’, e o mais velho, de ‘príncipe herdeiro’. O
próprio rei se denomina o pai de seu país. Por brincadeira falamos nos filhos como
‘Würmer‘ [‘bichinhos’] e com simpatia nos referimos a uma criança como ‘der arme
Wurm‘ [‘pobre bichinho’].”

“Pegar fogo, fazer fogo, e tudo o que com isso se relacione, está intimamente
entretecido de simbolismo sexual. A chama é sempre um genital masculino e a lareira, o
fogão, é seu equivalente feminino. Se os senhores puderem se surpreender com a
freqüência com que as paisagens são empregadas nos sonhos para representar os
genitais femininos, podem aprender da mitologia geral qual o papel desempenhado pela
Mãe Terra nos conceitos e cultos dos povos da Antigüidade, e como sua visão da
agricultura era determinada por esse simbolismo. O fato de, em sonhos, um quarto
representar uma mulher, os senhores tenderão a atribuí-lo ao uso idiomático de nossa
linguagem pelo qual ‘Frau‘ é substituído por ‘Frauenzimmer‘ — o ser humano sendo
substituído pelo aposento destinado a ele. De forma semelhante, falamos em ‘Sublime
Porte’ significando o sultão e seu governo. Assim, também o título do governante do
Egito antigo, ‘Faraó’, significa simplesmente ‘Grande Saguão do Paço’. (No antigo
oriente, os pátios entre os duplos portões de uma cidade eram locais de encontro
públicos, assim como as praças do mercado do mundo clássico). Essa derivação,
entretanto, parece ser excessivamente superficial. Parece-me mais provável que um
aposento se tornou símbolo de mulher por ser o espaço que encerra seres humanos. Já
verificamos que ‘casa’ é usada em sentido semelhante; e a mitologia e a linguagem
poética nos possibilitam acrescentar ‘cidade’, ‘cidadela’, ‘castelo’ e ‘fortaleza’ como
outros símbolos para ‘mulher’. Poder-se-ia facilmente levantar a questão a respeito de
sonhos de pessoas que não falam ou não entendem o idioma alemão. Durante esses
últimos anos tenho tratado principalmente pacientes de idioma estrangeiro e parece-me
que me lembro de que também em seus sonhos ‘Zimmer‘ [‘aposento’] significava
‘Frauenzimmer‘ embora em seus idiomas não tivessem uso semelhante. Existem outras
indicações de que a relação simbólica pode ultrapassar os limites da linguagem — o
que, aliás, foi afirmado há muito tempo por um antigo pesquisador de sonhos, Schubert
[1814]. No entanto, nenhum de meus pacientes ignorava completamente o alemão, de
modo que a decisão deve ser deixada aos analistas que podem coligir dados das pessoas
que usam um só idioma, em outros países.
Dificilmente alguma das representações simbólicas dos genitais masculinos não
reaparece no uso anedótico, vulgar ou poético, especialmente junto aos dramaturgos
clássicos antigos. Entretanto, aqui encontramos não apenas os símbolos que surgem nos
sonhos, porém outros mais como, por exemplo, utensílios usados em diversas
atividades, e, especialmente, o arado. Ademais, a representação simbólica da
masculinidade nos leva a uma região muito extensa e muito controvertida, que por
motivos de economia evitaremos.”

“O cogumelo é sem dúvida um símbolo do pênis: existem cogumelos [fungos] que
devem seu nome sistemático (Phallus impudicus) à sua inconfundível semelhança com
o órgão masculino. A ferradura reproduz o contorno do orifício genital feminino, ao
passo que a vassoura de chaminé, que se associa à escada, aparece em companhia desta
em face de suas funções, às quais vulgarmente se compara o ato sexual. (Cf.
Anthropophyteia.) Conhecemos essa escada, em sonhos, como símbolo sexual; aqui o
uso idiomático alemão vem em nosso auxílio e nos mostra como a palavra ‘steigen‘
[‘subir’, ou ‘montar’] é usada no que é par excellence um sentido sexual. Dizemos ‘den
Frauen nachsteigen‘ [‘perseguir’ (literalmente ‘trepar’) ‘mulheres’], e ‘ein alter Steiger‘
[‘um velho farrista’ (literalmente ‘trepador’)]. Em francês a palavra para degraus de
uma escada é ‘marches‘, e encontramos um termo exatamente análogo ‘un vieux
marcheur‘. O fato de que, em muitos animais de grande porte, subir ou ‘montar’ na
fêmea é um preliminar necessário ao ato sexual, provavelmente se presta a este
contexto. ‘Arrancar um galho’, como representação simbólica da masturbação, não
apenas se coaduna com as descrições vulgares do ato, como também possui
semelhanças mitológicas amplas. Mas, que a masturbação, ou melhor, a punição
correspondente — a castração — seja representada pela queda ou extração de dentes, é
fato especialmente notável, pois existe na antropologia um seu equivalente, o qual pode
ser do conhecimento de apenas um pequeno número das pessoas que sonham. Parece-
me inequívoco que a circuncisão, praticada por tantos povos, é um equivalente e
substituto da castração. E agora sabemos de determinadas tribos primitivas da Austrália
que realizam a circuncisão como um rito da puberdade (na cerimônia em que se celebra
o início da maturidade sexual de um menino), enquanto outras tribos, seus vizinhos
próximos, substituíram esse ato pela quebra de um dente. A este ponto, encerro minha
exposição desses exemplos. São apenas exemplos. A respeito deste assunto conhecemos
muito mais; porém os senhores podem imaginar como seria mais rica e mais
interessante uma coleção como essa, se fosse reunida não por amadores como nós, e sim
por verdadeiros profissionais da mitologia, antropologia, filologia e do folclore.”

“Deveríamos supor que os símbolos, que originalmente possuíam uma significação
sexual, mais tarde tenham adquirido outra aplicação e que, ademais disso, a atenuação
da representação por símbolos em outros tipos de representação pode estar em conexão
com este aspecto? Essas questões evidentemente não podem ser respondidas enquanto
não houvermos considerado o simbolismo onírico isoladamente. Podemos apenas
manter firme a suspeita de que existe uma relação especialmente íntima entre símbolos
verdadeiros e sexualidade.
Com referência a esse aspecto descobrimos importantes indícios durante esses últimos
anos. Um filólogo, Hans Sperber [1912], de Uppsala, que trabalha independentemente
da psicanálise, apresentou o argumento de que as necessidades sexuais desempenharam
o papel principal na origem e no desenvolvimento da linguagem. Segundo esse autor, os
sons originais da linguagem se destinavam à comunicação e atraíam o parceiro sexual; a
evolução ulterior das raízes lingüísticas acompanhou as atividades laborativas do
homem primitivo. Essas atividades, prossegue ele, eram executadas em comum e
acompanhadas por expressões ritmicamente repetidas. Assim, um interesse sexual
permaneceu vinculado ao trabalho. O homem primitivo tornou o trabalho aceitável, por
assim dizer, tratando-o como equivalente e substituto da atividade sexual. As palavras
enunciadas durante o trabalho em comum tinham, pois, dois significados: designavam
atos sexuais e também a atividade laborativa que a estes se equiparava. Com o decorrer
do tempo as palavras se desvincularam da significação sexual e fixaram-se no trabalho.
Em gerações posteriores a mesma coisa aconteceu com as palavras novas, que tinham
significado sexual e eram aplicadas a novas formas de trabalho. Desse modo, numerosas
raízes de palavras teriam sido formadas, todas elas de origem sexual, perdendo
subseqüentemente sua significação sexual. Se é correta a hipótese que delineei aqui, ela
nos possibilitaria compreender o simbolismo dos sonhos. Deveríamos entender por que
os sonhos, que conservam algumas das condições mais primitivas, mantêm um número
tão extraordinariamente grande de símbolos sexuais e por que geralmente armas e
utensílios representam o que é masculino, ao passo que materiais e coisas, que se
prestam para serem transformados pelo trabalho, representam o que é feminino. A
relação simbólica seria o resíduo de uma antiga identidade verbal, coisas que numa
época foram chamadas pelo mesmo nome, tanto que os genitais poderiam agora servir
como símbolo para os mesmos, nos sonhos. Os aspectos correlatos que encontramos no
simbolismo onírico também nos permitem formar uma estimativa dessa característica da
psicanálise que lhe permite atrair interesse geral, de uma forma que nem a psicologia
nem a psiquiatria conseguiram fazê-lo. No trabalho da psicanálise formam-se vínculos
com numerosas outras ciências mentais, cuja investigação promete resultados do mais
elevado valor: vínculos com a mitologia e a filosofia, com o folclore, com a psicologia
social e com a teoria da religião.”

“A propósito, ainda não lhes disse absolutamente nada com respeito às circunstâncias
em que podemos obter nossa mais profunda compreensão da hipotética ‘linguagem
primitiva’, e ao campo em que a maior parte desta sobreviveu. Até virem a conhecê-la,
os senhores não poderão formar uma opinião de sua total importância. Pois esse campo
é o das neuroses e seu material são os sintomas e outras manifestações dos pacientes
neuróticos, para cuja elucidação e tratamento a psicanálise foi, de fato, criada. A quarta
de minhas reflexões nos leva de volta ao começo e nos conduz por nosso caminho
previamente determinado. Eu disse [...] que os sonhos, ainda que não houvesse censura
de sonhos, não seriam facilmente inteligíveis para nós, de vez que ainda teríamos de nos
defrontar com a tarefa de traduzir a linguagem simbólica dos sonhos para a de nosso
pensamento desperto. Assim, o simbolismo é um segundo e independente fator de
deformação de sonhos, ao lado da censura de sonhos. É plausível supor, porém, que a
censura de sonhos julga conveniente fazer uso do simbolismo, porque isso conduz ao
mesmo fim: o caráter estranho e incompreensível dos sonhos. Em breve ficará
esclarecido se um estudo adicional dos sonhos não nos poderá colocar em face de um
outro fator que contribui para a deformação dos sonhos. Contudo, eu não gostaria de
abandonar o tema do simbolismo onírico sem mais uma vez [...] tocar no problema
sobre o modo como ele pode encontrar resistência tão acirrada em pessoas instruídas,
quando a ampla difusão do simbolismo nos mitos, na religião, na arte e na linguagem é
tão inquestionável. A responsável não será novamente sua conexão com a sexualidade?”


Conferências introdutórias
sobre psicanálise
(Parte III)
VOLUME XVI
(1916-1917)



Conferência XX
A Vida Sexual dos Seres Humanos


“Pois a investigação psicanalítica teve de ocupar-se também com a vida sexual das
crianças, e isto porque as lembranças e associações emergentes durante a análise de
sintomas de adultos remetiam-se regularmente aos primeiros anos da infância. O que
inferimos destas análises mais tarde se confirmou, ponto por ponto, nas observações
diretas de crianças. E, com isso, verificou-se que todas essas inclinações à perversão
tinham suas raízes na infância, que as crianças têm uma predisposição a todas elas e
põem-nas em execução numa medida correspondente à sua imaturidade — em suma,
que a sexualidade pervertida não é senão uma sexualidade infantil cindida em seus
impulsos separados. Em todo caso, agora os senhores verão as perversões sob um novo
prisma, e já não mais deixarão de perceber sua conexão com a vida sexual dos seres
humanos: mas à custa de quanta surpresa e de quanto sentimento de desagrado para com
estas incongruências! Sem dúvida, sentir-se-ão inclinados a negar todo este assunto: o
fato de que as crianças possuem tudo aquilo que se pode descrever como vida sexual, a
justeza de nossas observações e a explicação para o fato de encontrarmos tantas
afinidades entre a conduta das crianças e aquilo que mais tarde é condenado como
perversão. Por isso, permitam-me que comece explicando-lhes os motivos da oposição
dos senhores e, depois, lhes apresente a totalidade de nossas observações. Supor que as
crianças não têm vida sexual — excitações e necessidades sexuais e alguma forma de
satisfação —, mas adquirem-na subitamente, entre os doze e os quatorze anos de idade,
seria (abstraindo de todas as observações) biologicamente tão improvável, e, na
verdade, tão sem sentido, como supor que viessem ao mundo desprovidas de genitais e
que estes só aparecessem na época da puberdade. O que de fato desperta nas crianças,
nessa idade, é a função reprodutiva, que, para seus fins, faz uso dos componentes físicos
e mentais já anteriormente presentes. Os senhores estão cometendo o erro de confundir
sexualidade com reprodução, e com isto estão bloqueando seu caminho para a
compreensão da sexualidade, das perversões e das neuroses. Este é, contudo, um erro
tendencioso. Estranhamente, origina-se no fato de que os senhores mesmos uma vez
foram crianças e, enquanto eram crianças, estiveram sob a influência da educação. Pois
a sociedade deve assumir como uma de suas mais importantes tarefas educadoras domar
e restringir o instinto sexual quando este irrompe como impulso à reprodução, e sujeitá-
lo a uma vontade individual que é idêntica à ordem da sociedade. Esta também se
preocupa em adiar o pleno desenvolvimento do instinto até que a criança tenha atingido
certo grau de maturidade intelectual, de vez que, aí, com a completa irrupção do instinto
sexual, a educabilidade, para fins práticos, chega a seu fim. De outro modo, o instinto
romperia todos os diques e arrasaria todo o trabalho da civilização laboriosamente
construído. Ademais, nunca é fácil a tarefa de dominar o instinto; seu êxito, por vezes, é
muito pequeno, por vezes, muito grande. O móvel da sociedade humana é, em última
análise, econômico; como não possui provisões suficientes para manter vivos todos os
seus membros, a menos que trabalhem, ela deve limitar o número de seus membros e
desviar suas energias da atividade sexual para o trabalho. Em suma, defronta-se com as
eternas e primevas exigências da vida, que nos assediam até o dia de hoje. Sem dúvida,
a experiência deve ter ensinado aos educadores que a tarefa de docilizar a tendência
sexual da nova geração só poderia ser efetuada se começassem a exercer sua influência
muito cedo, se não esperassem pela tempestade da puberdade, mas interviessem logo na
vida sexual das crianças, que é preparatória para a puberdade. Por essa razão, todas as
atividades sexuais foram proibidas às crianças e vistas com maus olhos; erigiu-se o ideal
de tornar a vida das crianças assexual, e, no decorrer do tempo, as coisas chegaram ao
ponto de as pessoas realmente acreditarem que as crianças sejam assexuais e,
subseqüente, de a ciência proclamar isto como doutrina. Para evitar que sejam
contraditas suas crenças e suas intenções, a partir daí as pessoas passam por alto as
atividades sexuais das crianças (que não são de se desprezar) ou se mostram contentes
quando a ciência assume um ponto de vista diferente com relação a tais atividades. As
crianças são puras e inocentes, e todo aquele que as descreve de outra maneira, pode ser
acusado de ser um blasfemador infame dos ternos e sagrados sentimentos da
humanidade.
As crianças são as únicas a não concordar com essas convenções.”

“É por demais estranho que as pessoas que negam a existência da sexualidade nas
crianças nem por isso se tornam mais brandas em seus esforços educacionais, mas
perseguem as manifestações daquilo que negam que exista, com a máxima severidade
— descrevendo tais manifestações como ‘traquinagens pueris.’ É também do maior
interesse teórico o período de vida que contradiz mais flagrantemente o preconceito de
uma infância assexual — os anos de vida de uma criança até os cinco ou seis —, ser
posteriormente, na maioria das pessoas, coberto pelo véu da amnésia, o qual só é
completamente desfeito pela investigação analítica, embora anteriormente tenha sido
permeável à construção de alguns sonhos.”

“Permitam-me, ao mesmo tempo, por motivos de conveniência, apresentar o conceito de
‘libido’. Em exata analogia com a ‘fome’, empregamos ‘libido’ como nome da força
(neste caso, a força do instinto sexual, assim como, no caso da fome, a força do instinto
de nutrição) pela qual o instinto se manifesta.”

“Os senhores mesmos facilmente perceberão que as atividades sexuais de crianças de
colo são principalmente uma questão de interpretação, ou, então, provavelmente usarão
isso como motivo para objeções. A essas interpretações chega-se através do exame
analítico retrospectivo baseado nos sintomas. Numa criança da tenra idade, os primeiros
impulsos da sexualidade têm seu aparecimento ligado a outras funções vitais. Seu
principal interesse, como sabem, volta-se para a ingestão de alimentos; quando as
crianças adormecem, após se haverem saciado ao seio, mostram uma expressão de bem-
aventurada satisfação, que se repetirá, posteriormente na vida, após a experiência do
orgasmo sexual. Isto seria muito pouco para servir de base a uma conclusão.
Constatamos, todavia, como um bebê repetirá o ato de tomar alimento sem exigir mais
comida; a isto, portanto, o bebê não é levado devido a fome. Descrevemo-lo como
sucção sensual, e o fato de que, ao fazê-lo, o bebê adormece, igualmente, com uma
expressão beatífica, mostra-nos que o ato da sucção sensual lhe proporcionou, por si só,
uma satisfação. Conforme sabemos, muito cedo as coisas chegam a um ponto em que
não pode adormecer sem haver sugado. Um pediatra de Budapest, Dr. Lindner [1879],
foi o primeiro a apontar, há muito tempo, a natureza sexual dessa atividade. Aqueles
que cuidam de crianças, e que não têm opiniões teóricas sobre o assunto, parecem
formar um juízo semelhante a respeito da sucção. Não têm dúvidas de que esta somente
tem a finalidade de obter prazer, classificam-na como uma das ‘traquinagens’ da criança
e obrigam-na a abandoná-la, causando-lhe desprazer, no caso de a própria criança não
se decidir a deixá-la. Assim, aprendemos que o bebês executam ações que não têm outro
propósito senão o de obter prazer. Acreditamos que elas primeiro experimentam esse
prazer em conexão com a tomada do alimento, porém, logo aprendem a separar esse
prazer da condição que o acompanha. Só podemos atribuir esse prazer a uma excitação
das áreas da boca e dos lábios; a estas partes do corpo denominamos ‘zonas erógenas’ e
descrevemos como sexual o prazer derivado da sucção. Sem dúvida, haveremos de
discutir, posteriormente, se esta descrição se justifica.
Se um bebê pudesse falar, ele indubitavelmente afirmaria que o ato de sugar o seio
materno é de longe o ato mais importante de sua vida. E nisto o bebê não se engana
muito, pois nesse único ato está satisfazendo de uma só vez as duas grandes
necessidades vitais. Por isso, não nos surpreenderemos ao saber, por meio da
psicanálise, quanta importância psíquica conserva esse ato durante toda a vida. Sugar ao
seio materno é o ponto de partida de toda a vida sexual, o protótipo inigualável de toda
satisfação sexual ulterior, ao qual a fantasia retorna muitíssimas vezes, em épocas de
necessidade. Esse sugar importa em fazer o seio materno o primeiro objeto do instinto
sexual. Não posso dar-lhes idéia da importante relação entre esse primeiro objeto e a
escolha de todos os objetos subseqüentes, dos profundos efeitos que ele tem em suas
transformações e substituições, até mesmo nas mais remotas regiões de nossa vida
sexual. A princípio, contudo, o bebê, em sua atividade de sucção, abandonada esse
objeto e o substitui por uma parte do seu próprio corpo. Começa a sugar o polegar ou a
própria língua. Desse modo, torna-se independente do consentimento do mundo
externo, no que tange à obtenção de prazer, e, ademais disso, aumenta-a, acrescentando
a excitação de uma segunda área de seu corpo. As zonas erógenas não são todas
igualmente generosas em proporcionar prazer; ocorre, pois, uma importante experiência
quando o lactente, conforme relata Lindner, descobre, no decorrer de suas buscas, as
regiões especialmente excitáveis representadas por seus genitais e, com isso, passa da
sucção à masturbação.
Ao formarmos esta opinião referente à sucção sensual, já passamos a conhecer duas
características decisivas da sexualidade infantil. Ela surge ligada à satisfação das
principais necessidades orgânicas e se comporta de maneira auto-erótica — isto é,
procura seus objetos no próprio corpo da criança. O que ficou demonstrado tão
claramente com relação à tomada de alimentos repete-se, em parte, com as excreções.
Concluímos que os bebês têm sensações prazerosas no processo de evacuação da urina e
das fezes, e que logo conseguem dispor destes atos de maneira que estes lhes tragam a
máxima produção de prazer possível, através das correspondentes excitações das zonas
erógenas da membrana mucosa. É aqui que, pela primeira vez (conforme sutilmente
percebeu Lou Andreas-Salomé [1916]), os bebês se defrontam com o mundo externo
como força inibidora, hostil, ao seu desejo de prazer, e têm certa antevisão dos futuros
conflitos externos e internos. Um bebê não deve eliminar suas excreções em qualquer
momento de sua escolha, e sim quando outras pessoas decidem que deve fazê-lo. Para
induzi-lo a renunciar a essas fontes de prazer, é-lhes dito que tudo aquilo que se
relaciona com essas funções é vergonhoso e deve ser mantido em segredo. Então, pela
primeira vez, a criança é obrigada a trocar o prazer pela respeitabilidade social. No
início, sua atitude para com suas excreções é muito diferente. Não sente repugnância
por suas fezes, valoriza-as como parte de seu próprio corpo, da qual não se separa
facilmente, e usa-as como seu primeiro ‘presente’ com que distingue as pessoas a quem
preza de modo especial. Mesmo depois de a educação ter atingido seu objetivo de tornar
essas tendências incompatíveis com a criança, esta continua a atribuir elevado valor às
fezes, considerando-as ‘presentes’ e ‘dinheiro’. Por outro lado, parece considerar com
especial orgulho a proeza de urinar. Sei que, há muito, os senhores estavam esperando
para interromper-me e exclamar: ‘Chega de barbaridades! O senhor nos diz que defecar
é uma fonte de satisfação sexual explorada já na infância! que as fezes são uma
substância valiosa e que o ânus é uma espécie de genital! Absolutamente não
acreditamos nisso — mas compreendemos por que os pacientes e educadores se têm
mantido à distância da psicanálise e de suas descoberta.’ Não, senhores. Os Senhores
simplesmente se esqueceram de que estive procurando apresentar-lhes os fatos da vida
sexual infantil em relação aos fatos das perversões sexuais. Por que os senhores não
haveriam de se aperceber de que, para um grande número de adultos, tanto
homossexuais como heterossexuais, o ânus assume, na relação sexual, o papel de
vagina? E que há muitas pessoas que conservam, durante toda a vida, uma voluptuosa
sensação ao defecar, e a caracterizam como não sendo nada desprezível? Quanto ao
interesse pelo ato de defecar e ao prazer de olhar uma outra pessoa defecando, os
senhores podem conseguir que as próprias crianças confirmem o fato quando elas
tiverem alguns anos mais de idade, e forem capazes de lhes falar a respeito.
Naturalmente, os senhores não deverão tê-las intimidado sistematicamente, de antemão,
pois, nesse caso, elas compreenderão muito bem que devem silenciar sobre o assunto.
Quando às demais coisas nas quais os senhores tanto desejam não acreditar, remeto-os
às descobertas da análise e à observação direta de crianças, e acrescento que realmente é
necessário ser ingênuo para não ver tudo isso, ou vê-lo de modo diferente. E não me
queixo se os senhores consideram muito surpreendente esta semelhança entre atividade
sexual infantil e perversões sexuais. Esta semelhança, contudo, é evidente: se de fato
uma criança tem vida sexual, esta não pode ser senão uma vida sexual de tipo
pervertido; pois, exceto quanto a alguns detalhes obscuros, as crianças são desprovidas
daquilo que transforma a sexualidade em função reprodutiva. Por outro lado, o
abandono da função reprodutiva é o aspecto comum de todas as perversões. Realmente
consideramos pervertida uma atividade sexual, quando foi abandonando o objetivo da
reprodução e permanece a obtenção de prazer, como objetivo independente. Portanto,
conforme poderão ver, a brecha e o ponto crítico da evolução da vida sexual situam-se
no fato de esta permanecer subordinada aos propósitos da reprodução. Tudo o que
acontece antes dessa mudança de rumo, e igualmente tudo o que a despreza, e que visa
somente a obter prazer, recebe o nome pouco lisonjeiro de ‘pervertido’, e como tal é
proscrito.”

“As investigações sexuais das crianças começam muito precocemente, às vezes antes do
terceiro ano de vida. Não se referem à distinção entre os sexos, de vez que isto nada
significa para as crianças, já que estas (ao menos quanto aos meninos) atribuem a ambos
os sexos o mesmo genital masculino. Se, depois, um menino faz a descoberta da vagina
ao ver sua irmãzinha ou uma menina, companheira de brinquedos, ele procura,
inicialmente, negar a evidência dos seus sentidos, pois não pode imaginar uma criatura
humana, como ele próprio, desprovida de uma parte tão preciosa. Mais tarde,
amedronta-se com a possibilidade que assim se lhe apresenta; e quaisquer ameaças que
lhe tenham sido feitas anteriormente, porque tomou demasiado interesse por seu
pequeno órgão, agora produzem um efeito retardado. Cai sob o domínio do complexo
de castração, assumindo uma forma que desempenhará um grande papel na construção
do seu caráter se permanecer normal, na sua neurose se adoecer, e em suas resistências,
se vier a se tratar analiticamente. No que se refere às meninas de tenra idade, podemos
dizer que se sentem em grande desvantagem devido à sua falta de um pênis grande,
visível, que elas invejam os meninos por estes o possuírem e que, principalmente por
este motivo, desenvolvem o desejo de serem homem — desejo que torna a emergir,
mais tarde, em todas as neuroses e que pode surgir se lhes ocorrer algum revés no
desempenho do papel feminino. Ademais disso, na infância, o clitóris da menina assume
inteiramente o papel de pênis: caracteriza-se por especial excitabilidade e se situa na
área em que é obtida a satisfação auto-erótica. O processo pelo qual uma menina se
transforma em mulher depende muitíssimo da possibilidade de o clitóris ceder sua
sensibilidade ao orifício vaginal, na época oportuna e de forma completa. Nos casos
conhecidos como de anestesia sexual das mulheres, o clitóris reteve obstinadamente sua
sensibilidade.”

Conferência XXII
Algumas Idéias sobre Desenvolvimento e Regressão - Etiologia


“Ademais, via de regra, a educabilidade de pessoas jovens chega ao fim quando suas
necessidades sexuais surgem em toda a sua plenitude. Os educadores sabem disso e
agem de acordo; mas as descobertas da psicanálise talvez possam induzi-los a deslocar a
impacto principal da educação para os anos da meninice, partindo da infância
propriamente dita. A pequena criatura, freqüentemente, já esta completa ao redor do
quarto ou quinto ano de vida, e, depois disso, simplesmente revela o que já está dentro
de si.”

História de uma neurose infantil
E outros trabalhos

VOLUME XVII
(1917-1919)


HISTÓRIA DE UMA NEUROSE INFANTIL

IX – RECAPITULAÇÃO E PROBLEMAS


“O totem, conforme afirmei, era o primeiro substituto do pai e o deus era um substituto
posterior, no qual o pai recuperara a sua forma humana. E, em nosso paciente,
encontramos a mesma coisa. Em sua fobia do lobo, passara pelo estádio do substituto
totêmico do pai; mas, depois, esse estádio se interrompera e, como resultado das novas
relações entre ele e o pai, fora substituído por uma fase de devoção religiosa.
A influência que provocou essa transformação foi o conhecimento que obteve, por
instância de sua mãe, das doutrinas da religião e da história bíblica. Essa medida
educativa teve o efeito desejado. A organização sexual sadomasoquista aos poucos
chegou ao fim, a fobia do lobo desapareceu rapidamente e, em lugar de a sexualidade
ser repudiada com ansiedade, surgiu um método mais elevado de suprimi-la. A devoção
tornou-se a força dominante na vida do menino. Essas vitórias, no entanto, não foram
conquistadas sem esforços, dos quais seus pensamentos blasfemos eram um indício, e
dos quais o estabelecimento de um exagero obsessivo no cerimonial religioso foi o
resultado.
À parte esses fenômenos patológicos, pode-se dizer que, no presente caso, a religião
atingiu todos os objetivos pelos quais é incluída na educação do indivíduo. Restringiu as
impulsões sexuais do menino, propiciando-lhes uma sublimação e um ancoradouro
seguro; diminuiu a importância das suas relações familiares e, desse modo, protegeu-o
da ameaça do isolamento, dando-lhe acesso à grande comunidade humana. A criança
indomada e cheia de medos tornou-se sociável, bem comportada e sensível à educação.
A principal força motivadora da influência que a religião exerceu sobre ele era a sua
identificação com a figura de Cristo, que se estabeleceu com facilidade devido à
coincidência da data de seu nascimento. Ao longo desse caminho, o extravagante amor
que tinha pelo pai, que tornara necessária a repressão, encontrou, finalmente, sua forma
de sublimação ideal. Como Cristo, podia amar seu pai, que agora se chamava Deus,
com um fervor do qual procurara em vão libertar-se enquanto seu pai fora um mortal. O
meio pelo qual podia testemunhar esse amor era estabelecido pela religião, sem ser
perseguido por aquela sensação de culpa da qual seus sentimentos individuais de amor
não conseguiam libertar-se. Assim, era-lhe ainda possível esgotar a sua corrente sexual
mais profunda, que já se precipitara na forma de homossexualismo inconsciente; e, ao
mesmo tempo, sua impulsão masoquista, mais superficial, encontrou uma sublimação
incomparável, sem muita renúncia, na história da Paixão de Cristo, que, por ordem do
seu divino Pai e em sua honra, deixara-se maltratar e sacrificar. Foi assim que a religião
funcionou nessa criança atormentada — pela combinação, que proporcionava ao crente,
de satisfação, de sublimação, de desvio dos processos sensuais para os puramente
espirituais e de acesso ao relacionamento social.”



Além do princípio de prazer
psicologia de grupo
e outros trabalhos

VOLUME XVIII
(1925-1926)

DOIS VERBETES DE ENCICLOPÉDIA

A PSICANÁLISE

       “PSICANÁLISE é o nome de (1) um procedimento para a investigação de
processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo, (2) um método
(baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos e (3) uma
coleção de informações psicológicas obtidas ao longo dessas linhas, e que gradualmente
se acumula numa nova disciplina científica.
       História — A melhor maneira de compreender a psicanálise ainda é traçar sua
origem e evolução. Em 1880 e 1881, o Dr. Josef Breuer, de Viena, médico e fisiologista
experimental bem conhecido, ocupava-se do tratamento de uma jovem que caíra
enferma de grave histeria enquanto se achava cuidando do pai doente. O quadro clínico
era constituído de paralisias motoras, inibições e distúrbios de consciência. Seguindo
uma sugestão que lhe fora dada pela própria paciente, pessoa de grande inteligência, ele
colocou-a em estado de hipnose e conseguiu que, descrevendo-lhe os estados de ânimo
e os pensamentos que eram dominantes em sua mente, retornasse, em cada ocasião
específica, a uma condição mental normal. Repetindo sistematicamente o mesmo
laborioso processo, conseguiu libertá-la de todas as suas inibições e paralisias, de
maneira que, ao final, achou o seu trabalho recompensado por um grande sucesso
terapêutico, bem como por uma inesperada compreensão da natureza da enigmática
neurose. Não obstante, Breuer absteve-se de acompanhar sua descoberta ou de publicar
algo sobre o caso até cerca de 10 anos depois, quando a influência pessoal do presente
autor (Freud, que retornara a Viena em 1886, após estudar na escola de Charcot) o
persuadiu a retomar o assunto e empenhar-se num estudo conjunto dele. Os dois, Breuer
e Freud, publicaram um artigo preliminar em 1893, ‘Sobre o Mecanismo Psíquico dos
Fenômenos Histéricos’, e, em 1895, um volume intitulado Estudos sobre a Histeria (que
chegou à sua quarta edição em 1922), no qual descreviam seu procedimento terapêutico
como ‘catártico’.
        Catarse. — As investigações existentes na raiz dos estudos de Breuer e Freud
conduziram a dois resultados principais, que não foram abalados pela experiência
subseqüente: primeiro, que os sintomas histéricos têm sentido e significado, sendo
substitutos de atos mentais normais, e, segundo, que a descoberta desse significado
desconhecido é acompanhada pela remoção dos sintomas, de modo que, nesse caso, a
pesquisa científica e o esforço terapêutico coincidem. As observações foram efetuadas
sobre uma série de pacientes tratados da mesma maneira que a primeira paciente de
Breuer, ou seja, colocados em estados de hipnose profunda; os resultados pareceram
brilhantes até que, posteriormente, seu lado fraco tornou-se evidente. As idéias teóricas
apresentadas na ocasião por Breuer e Freud foram influenciadas pelas teorias de Charcot
sobre a histeria traumática e puderam apoiar-se nas descobertas de seu aluno Pierre
Janet, as quais, embora tenham sido publicadas antes dos ‘Estudos‘, foram na realidade
subseqüentes ao primeiro caso de Breuer.”

“A Transição para a Psicanálise. — Contrastes entre as conceituações dos dois autores
eram visíveis mesmo nos Estudos. Breuer supunha que as idéias patogênicas produziam
seu efeito traumático porque surgiam durante ‘estados hipnóides‘, nos quais o
funcionamento mental estava sujeito a limitações especiais. O presente autor rejeitou a
explicação e inclinou-se para a crença de que uma idéia se tornava patogênica se seu
conteúdo estava em oposição com a tendência predominante da vida mental do sujeito,
de maneira a incitá-lo a entrar em ‘defesa‘. (Janet atribuía aos pacientes histéricos uma
incapacidade constitucional para manter unido o conteúdo de suas mentes e foi neste
ponto que seu caminho divergiu do de Breuer e Freud.) Além disso, as duas inovações
que levaram o presente autor a afastar-se do método catártico já haviam sido
mencionadas nos Estudos. Após o afastamento de Breuer, elas se tornaram o ponto de
partida de novos desenvolvimentos.
        O Abandono da Hipnose. — A primeira dessas inovações baseou-se na
experiência prática e levou a uma mudança de técnica. A segunda consistiu num avanço
na compreensão clínica das neuroses. Logo mostrou-se que as esperanças terapêuticas,
antes depositadas no tratamento catártico da hipnose, achavam-se até certo ponto
irrealizadas. Era verdade que o desaparecimento dos sintomas ia de mãos dadas com a
catarse, mas o sucesso total revelara ser inteiramente dependente da relação do paciente
com o médico e, assim, assemelhava-se ao efeito da ‘sugestão’. Se essa relação era
perturbada, todos os sintomas reapareciam, como se nunca houvessem sido dissipados.
Além disso, o pequeno número de pessoas que podia ser colocado em profundo estado
de hipnose envolvia uma limitação considerável, do ponto de vista médico, da
aplicabilidade do procedimento catártico. Por essas razões, o presente autor decidiu
abandonar o emprego da hipnose, mas, ao mesmo tempo, as impressões que dela
derivara forneceram-lhe os meios de substituí-la.”

“A Associação Livre. — O efeito da condição hipnótica sobre o paciente fora aumentar
tão grandemente sua capacidade de efetuar associações que ele podia encontrar
diretamente o caminho — inacessível à sua reflexão consciente — que conduzia do
sintoma aos pensamentos e lembranças a ele vinculados. O abandono da hipnose parecia
tornar desesperadora a situação, até que o autor se recordou de uma observação de
Bernheim segundo a qual as coisas experimentadas em estado de sonambulismo eram
apenas aparentemente esquecidas e podiam ser trazidas à lembrança em qualquer época,
se o médico insistisse energicamente em que o paciente as conhecia. O autor, assim,
esforçou-se por insistir junto a seus pacientes não hipnotizados que lhe fornecessem
suas associações, a fim de que, do material assim fornecido, pudesse achar o caminho
que levava ao antes esquecido ou desviado. Observou, posteriormente, que a insistência
era desnecessária e que idéias copiosas quase sempre surgiam na mente do paciente,
mas eram retidas de serem comunicadas e, até mesmo, de se tornarem conscientes
devido a certas objeções colocadas pelo paciente, à sua própria maneira. Era de se
esperar — embora isso ainda não estivesse provado e somente depois fosse confirmado
por vasta experiência — que tudo o que acontecesse a um paciente, estendendo-se de
um ponto de partida específico, deveria também estar em conexão interna com esse
ponto de partida; daí surgiu a técnica de ensinar o paciente a abandonar toda a sua
atitude crítica e fazer uso do material que era então trazido à luz para o fim de revelar as
conexões que estavam sendo buscadas. Uma forte crença na determinação escrita dos
fatos mentais certamente desempenhou um papel na escolha dessa técnica como um
sucedâneo da hipnose.”

“A Psicanálise como Arte Interpretativa. — A nova técnica modificou tão grandemente
o quadro do tratamento, situou o médico em uma relação tão nova com o paciente e
produziu resultados tão surpreendentes que pareceu justificado diferenciar do método
catártico o procedimento, atribuindo-lhe nova denominação. O presente autor deu a esse
método de tratamento, que podia agora ser estendido a muitas outras formas de
distúrbio neurótico, o nome de psicanálise. Ora, em primeira instância, essa psicanálise
era uma arte de interpretação e estabeleceu a si própria a tarefa de levar mais a fundo a
primeira das grandes descobertas de Breuer, ou seja, que os sintomas neuróticos são
substitutos significantes de outros atos mentais que foram omitidos.”

“A Interpretação das Parapraxias e dos Atos Fortuitos. — Constituiu um triunfo para a
arte interpretativa da psicanálise conseguir demonstrar que certos atos mentais comuns
de pessoas normais, para os quais ninguém havia até então buscado apresentar
explicação psicológica, deveriam ser considerados sob o mesmo ângulo que os sintomas
dos neuróticos, isto é, que tinham um significado, desconhecido do sujeito, mas capaz
de ser facilmente descoberto pelos meios analíticos. Os fenômenos em causa eram
eventos como o esquecimento temporário de palavras e nomes familiares e de efetuar
tarefas prescritas, lapsos cotidianos de língua e de escrita, leituras erradas, perdas e
colocações erradas de objetos, certos erros, exemplos de danos a si próprio
aparentemente acidentais e, finalmente, movimentos habituais efetuados aparentemente
sem intenção ou brincando, melodias murmuradas ‘sem pensar’ etc. Todos foram
despidos de sua explicação fisiológica, se é que alguma fora um dia tentada,
demonstrados como estritamente determinados e revelados como expressão de
intenções suprimidas do sujeito ou como o resultado de um embate entre duas
intenções, uma das quais era permanente ou temporariamente inconsciente.”

“A Interpretação de Sonhos. — Uma nova abordagem às profundezas da vida mental
inaugurou-se quando a técnica da associação livre foi aplicada aos sonhos, fossem os
nossos próprios ou os dos pacientes em análise. Na realidade, a maior e melhor parte do
que sabemos dos processos nos níveis inconscientes da mente deriva-se da interpretação
dos sonhos. A psicanálise restaurou aos sonhos a importância que lhes era geralmente
atribuída nos tempos passados, mas os trata de modo diferente. Não se apóia na perícia
do intérprete onírico, mas, na maior parte, entrega a tarefa àquele mesmo que sonhou,
pedindo-lhe suas associações aos elementos independentes do sonho. Levando essas
associações mais além, logramos conhecimento de pensamentos que coincidem
inteiramente com o sonho, mas que podem ser identificados — até certo ponto — como
partes genuínas e completamente inteligíveis da atividade mental desperta. Assim, o
sonho relembrado surge como o conteúdo onírico manifesto, em contraste com os
pensamentos oníricos latentes, descobertos pela interpretação. O processo que
transformou os últimos no primeiro, isto é, no ‘sonho’, e que é desfeito pelo trabalho da
interpretação, pode ser chamado de ‘elaboração onírica‘”

“A Significação Etiológica da Vida Sexual. — A segunda novidade que surgiu após a
técnica hipnótica ter sido substituída pela associação livre, foi de natureza clínica,
havendo sido descoberta no decurso da prolongada busca das experiências traumáticas
de que os sintomas histéricos pareciam derivar-se. Quanto mais cuidadosamente a
procura era feita, mais extensa parecia ser a rede de impressões etiologicamente
significantes, mas retrocedendo, do mesmo modo, iam elas pela puberdade ou infância
do paciente. Ao mesmo tempo, assumiam um caráter uniforme e, finalmente, tornou-se
inevitável curvar-se perante a evidência e reconhecer que na raiz da formação de todo
sintoma deveriam encontrar-se experiências traumáticas do início da vida sexual.
Assim, um trauma sexual entrou no lugar de um trauma comum e viu-se que o último
devia sua significação etiológica a uma conexão associativa ou simbólica com o
primeiro, que o precedera. Uma investigação de casos de nervosismo comum (incidindo
nas duas classes da neurastenia e da neurose de angústia) empreendida simultaneamente
levou à conclusão de que esses distúrbios podiam ser remontados a abusos
contemporâneos na vida sexual dos pacientes e removidos se estes fossem levados a um
fim. Assim, foi fácil inferir que as neuroses em geral são expressão de distúrbios na vida
sexual, em que as chamadas neuroses atuais são conseqüência (por interferência
química) de danos contemporâneos e as psiconeuroses, conseqüência (por modificação
psíquica) de danos passados causados a uma função biológica que até então fora
gravemente negligenciada pela ciência. Nenhuma das teses da psicanálise defrontou-se
com tão tenaz ceticismo ou tão acerba resistência quanto essa assertida da significação
preponderantemente etiológica da vida sexual nas neuroses. Deve-se expressamente
observar, contudo, que, em sua evolução até os dias de hoje a psicanálise não encontrou
razões para retratar-se dessa opinião.”

“A Sexualidade Infantil. — Em resultado de suas pesquisas etiológicas, a psicanálise
ficou em posição de tratar de um assunto cuja própria existência mal havia sido
suspeitada anteriormente. A ciência acostumara-se a considerar a vida sexual como
iniciando-se na puberdade e encarava as manifestações de sexualidade em crianças
como sinais raros de precocidade anormal e degeneração. Porém, agora, a psicanálise
revelara uma opulência de fenômenos (notáveis, no entanto, de ocorrência regular) que
tornaram necessário remontar o início da função sexual nas crianças quase ao começo
da existência extra-uterina; e perguntou-se, com espanto, como tudo isso podia ter sido
desprezado. Os primeiros vislumbres da sexualidade nas crianças haviam, na verdade,
sido obtidos através do exame analítico de adultos e estavam conseqüentemente
carregados de todas as dúvidas e fontes de erro que podiam ser atribuídas a uma
retrospecção tão atrasada; subseqüentemente (de 1908 em diante), contudo, iniciou-se
com a análise das próprias crianças e com a observação desimpedida de seu
comportamento; dessa maneira, conseguiu-se confirmação direta para toda a base
concreta da nova visão.”

“O Desenvolvimento da Libido. — O instinto sexual, a manifestação dinâmica do que,
na vida mental, chamamos de ‘libido’, é constituído de instintos componentes nos quais
pode novamente desdobrar-se e que só gradualmente se unem em organizações bem
definidas. As fontes desses instintos componentes são os órgãos do corpo e, em
particular, certas zonas erógenas especialmente acentuadas; no entanto, a libido recebe
contribuições de todo processo funcional importante do corpo.”

“O Processo de Encontrar um Objeto e o Complexo de Édipo. — (...).
Em anos muito precoces da infância (aproximadamente entre as idades de dois e cinco
anos) ocorre uma convergência dos impulsos sexuais, da qual, no caso dos meninos, o
objeto é a mãe. Essa escolha de um objeto, em conjunção com uma atitude
correspondente de rivalidade e hostilidade para com o pai, fornece o conteúdo do que é
conhecido como o complexo de Édipo, que em todo ser humano é da maior importância
na determinação da forma final de sua vida erótica. Descobriu-se ser característica de
um indivíduo normal aprender a dominar seu complexo de Édipo, ao passo que o
neurótico permanece envolvido nele.”

“O Começo Difásico do Desenvolvimento Sexual. — Aproximando-se o final do quinto
ano de idade, esse período inicial da vida sexual normalmente chega ao fim. É sucedido
por um período de latência mais ou menos completa, durante o qual as coibições éticas
são construídas, para atuar como defesas contra os desejos do complexo de Édipo. No
período subseqüente da puberdade esse complexo é revivescido no inconsciente e
envolve-se em novas modificações. Somente na puberdade é que os instintos sexuais
chegam à sua plena intensidade, mas a direção desse desenvolvimento, bem como todas
as predisposições a ele, já foram determinadas pela eflorescência precoce da
sexualidade durante a infância que o precedeu. Esse desenvolvimento difásico da função
sexual — em duas fases, interrompidas pelo período de latência — parece constituir
uma peculiaridade biológia da espécie humana e conter o fator determinante da origem
das neuroses.”

        “A Teoria da Repressão. — Estas considerações teóricas, tomadas
conjuntamente com as impressões imediatas derivadas do trabalho analítico, conduzem
a uma visão das neuroses que se pode descrever, no mais grosseiro dos esboços, como
se segue. As neuroses são expressão de conflitos entre o ego e aqueles impulsos sexuais
que parecem ao ego incompatíveis com sua integridade ou com seus padrões éticos.
Visto esses impulsos não serem egossintônicos, o ego os reprimiu, isto é, afastou deles
seu interesse e impediu-os de se tornarem conscientes, bom como de obterem satisfação
através de descarga motora. Se, no curso do trabalho analítico, tentamos tornar
conscientes esses impulsos reprimidos, damo-nos conta das forças repressivas sob a
forma de resistência. A consecução da repressão, porém, fracassa de modo
especialmente fácil no caso dos instintos sexuais. Sua libido represada encontra outras
saídas do inconsciente, porque regride a fases anteriores do desenvolvimento e a
atitudes anteriores para com os objetos, e em pontos fracos de desenvolvimento
libidinal, onde existem fixações infantis, irrompe na consciência e obtém descarga. O
que resulta é um sintoma e, conseqüentemente, em sua essência, uma satisfação sexual
substitutiva.”
“Transferência. — Se hovesse necessidade de outras provas da verdade de que as forças
motivadoras por trás da formação de sintomas neuróticos são de natureza sexual, elas
seriam encontradas no fato de, no decurso do tratamento analítico, formar-se
regularmente entre o paciente e o médico uma relação emocional especial, relação que
vai muito além dos limites racionais. Ela varia entre a devoção mais afetuosa e a
inimizade mais obstinada e deriva todas as suas características de atitudes eróticas
anteriores do paciente, as quais se tornaram inconscientes. Essa transferência, tanto em
sua forma positiva quanto negativa, é utilizada como arma pela resistência; porém, nas
mãos do médico, transforma-se no mais poderoso instrumento terapêutico e
desempenha um papel que dificilmente se pode superestimar na dinâmica do processo
de cura.”

“As Pedras Angulares da Teoria Psicanalítica. — A pressuposição de existirem
processos mentais inconscientes, o reconhecimento da teoria da resistência e repressão,
a apreciação da importância da sexualidade e do complexo de Édipo constituem o
principal tema da psicanálise e os fundamentos de sua teoria. Aquele que não possa
aceitá-los a todos não deve considerar-se a si mesmo como psicanalista.”

“História Posterior da Psicanálise. — A psicanálise foi conduzida aproximadamente até
aí pelo trabalho do autor deste verbete, que por mais de dez anos foi seu único
representante. Em 1906, os psiquiatras suíços Bleuler e C. G. Jung começaram a
desempenhar um papel vigoroso na análise; em 1907, uma primeira conferência de seus
seguidores realizou-se em Salzburg e a jovem ciência cedo descobriu-se como centro de
interesse tanto entre psiquiatras quanto entre leigos. Sua recepção na Alemanha, o país
com seu mórbido anseio por autoridade, não foi precisamente meritória para a ciência
alemã e levou mesmo um partidário assim tão frio como Bleuler a um enérgico protesto.
Contudo, nenhuma condenação ou repúdio em congressos oficiais serviu para deter o
crescimento interno ou a expansão externa da psicanálise.”

“Entre 1911 e 1913 dois movimentos de divergência da psicanálise se efetuaram,
evidentemente com o objetivo de atenuar suas feições repelentes. Um deles (patrocinado
por C.G. Jung), num esforço por conformar-se aos padrões éticos, desvestiu o complexo
de Édipo de sua significação real, concedendo-lhe apenas um valor simbólico e, na
prática, desprezou a revelação do período infantil esquecido e, como podemos chamá-
lo, ‘pré-histórico’. O outro (originado por Alfred Adler em Viena) reproduziu muitos
fatores da psicanálise sob outros nomes; a repressão, por exemplo, aparecia numa
versão sexualizada como ‘protesto masculino’. Sob outros aspectos, porém, o
movimento afastou-se do inconsciente e dos instintos sexuais e esforçou-se por
remontar a origem do desenvolvimento do caráter e das neuroses à ‘vontade de poder’, a
qual, por meio de uma supercompensação, esforça-se por contrabalançar os perigos que
surgem da ‘inferioridade de órgão’. Nenhum desses movimentos, com suas estruturas
sistemáticas, teve qualquer influência permanente sobre a psicanálise. No caso das
teorias de Adler, logo ficou claro que pouco tinham em comum com a psicanálise, a
qual se destinavam a substituir.”

“Narcisismo. — O mais importante progresso teórico foi certamente a aplicação da
teoria da libido ao ego repressor. O próprio ego veio a ser encarado como um
reservatório do que foi descrito como libido narcísica, do qual as catexias libidinais dos
objetos fluíam e para o qual podiam ser novamente retiradas. Com a ajuda dessa
concepção tornou-se possível empenhar-se na análise do ego e efetuar uma distinção
clínica das psiconeuroses em neuroses de transferência e distúrbios narcísicos. Nas
primeiras (histeria e neurose obsessiva), o sujeito tem à sua disposição uma quantidade
de libido que se esforça por ser transferida para objetos externos, fazendo-se uso disso
para levar a cabo o tratamento analítico; por outro lado, os distúrbios narcísicos
(demência precoce, paranóia, melancolia) caracterizam-se por uma retirada da libido
dos objetos e, assim, raramente são acessíveis à terapia analítica. Sua inacessibilidade
terapêutica, contudo, não impediu a análise de efetuar os mais fecundos começos do
estudo mais profundo dessas moléstias, que se contam entre as psicoses.”

        “Desenvolvimento da Técnica. — Após a curiosidade do analista ter sido, por
assim dizer, gratificada pela elaboração da técnica da interpretação, era inevitável que o
interesse se voltasse para o problema de descobrir a maneira mais eficaz de influenciar o
paciente. Logo tornou-se evidente que a tarefa imediata do médico era assistir o
paciente e vir a conhecer — e, posteriormente, sobrepujar — as resistências que nele
surgiam durante o tratamento e das quais, inicialmente, ele próprio não estava
consciente. E ao mesmo tempo descobriu-se que a parte essencial do processo de cura
residia no sobrepujamento dessas resistências e que, a menos que isso fosse conseguido,
nenhuma modificação mental permanente poderia ser efetuada no paciente. Visto os
esforços do analista dirigirem-se dessa maneira para a resistência do paciente, a técnica
analítica atingiu uma certeza e uma delicadeza que rivalizam com as da cirurgia.
Conseqüentemente, todos são energicamente advertidos contra o empreendimento de
tratamentos psicanalíticos sem uma formação estrita, e um médico que neles se aventure
baseado em sua qualificação médica não é, sob qualquer aspecto, melhor que um leigo.”

“A Psicanálise como Processo Terapêutico. — A psicanálise nunca se apresentou como
uma panacéia e jamais reivindicou realizar milagres. Em uma das mais difíceis esferas
da atividade médica, ela constitui o único método possível de tratamento para certas
enfermidades e, para outras, é o método que rende os melhores ou os mais permanentes
resultados, embora nunca sem um dispêndio correspondente de tempo e de trabalho.
Um médico que não esteja inteiramente absorvido pelo trabalho de dar auxílio
descobrirá seus sacrifícios amplamente recompensados pela consecução de uma
compreensão inesperada das complicações da vida mental e das inter-relações entre o
mental e o físico. Onde atualmente ela não pode oferecer ajuda, senão apenas
compreensão teórica, pode talvez estar preparando o caminho para algum meio posterior
e mais direto de influenciar os distúrbios neuróticos. Sua província é, acima de tudo, as
duas neuroses de transferência, a histeria e a neurose obsessiva, onde contribuiu para a
descoberta de sua estrutura interna e mecanismos operativos, e, além delas, todas as
espécies de fobias, inibições, deformidades de caráter, perversões sexuais e dificuldades
da vida erótica.”

“Comparação entre a Psicanálise e os Métodos Hipnótico e Sugestivo. — O
procedimento psicanalítico difere de todos os métodos que fazem uso da sugestão,
persuasão, etc., pelo fato de não procurar suprimir através da autoridade qualquer
fenômeno mental que possa ocorrer no paciente. Esforça-se por traçar a causação de
fenômeno e removê-la pelo ocasionamento de uma modificação permanente nas
condições que levaram a ele. Na psicanálise, a influência sugestiva que é
inevitavelmente exercida pelo médico, desvia-se para a missão atribuída ao paciente de
sobrepujar suas resistências, isto é, de levar avante o processo curativo. Qualquer perigo
de falsificar os produtos da memória de um paciente pela sugestão pode ser evitado pelo
manejo prudente da técnica; mas, em geral, o despertar das resistências constitui uma
garantia contra os efeitos enganadores da influência sugestiva. Pode-se estabelecer que
o objetivo do tratamento é remover as resistências do paciente e passar em revista suas
repressões, ocasionando assim a unificação e o fortalecimento de mais longo alcance de
seu ego, capacitando-o a poupar a energia mental que está despendendo em conflitos
internos, obtendo do paciente o melhor que suas capacidades herdadas permitam, e
tornando-o assim tão eficiente e capaz de gozo quanto é possível. Não se visa
especificamente à remoção dos sintomas da doença, contudo ela é conseguida, por
assim dizer, como um subproduto, se a análise for corretamente efetuada. O analista
respeita a individualidade do paciente e não procura remoldá-lo de acordo com suas
próprias idéias pessoais, isto é, as do médico; contenta-se com evitar dar conselhos e,
em vez disso, com despertar o poder de iniciativa do paciente.”

       “Sua Relação com a Psiquiatria. — A psiquiatria é na atualidade essencialmente
uma ciência descritiva e classificatória cuja orientação ainda é no sentido do somático,
de preferência ao psicológico, e que se acha sem possibilidades de fornecer explicações
aos fenômenos que observa. A psicanálise, contudo, não se coloca em oposição a ela,
como o comportamento quase unânime dos psiquiatras poderia levar-nos a acreditar.
Pelo contrário, como uma psicologia profunda, uma psicologia daqueles processos da
vida mental que são retirados da consciência, ela é convocada a dar à psiquiatria um
fundamento indispensável e a libertá-la de suas atuais limitações. Podemos prever que
futuro dará origem a uma psiquiatria científica, à qual a psicanálise serviu de
introdução.”

“Críticas e Más Interpretações da Psicanálise. — A maioria do que é apresentado contra
a psicanálise, mesmo em obras científicas, baseia-se em informações insuficientes que,
por sua vez, parecem ser determinadas por resistências emocionais. Assim, é um
equívoco acusar a psicanálise de ‘pansexualismo’ e alegar que ela deriva da sexualidade
todas as ocorrências mentais e as remonta todas àquela. Ao contrário, a psicanálise
desde o início distinguiu os instintos sexuais de outros, que provisoriamente denominou
de ‘instintos do ego’. Ela jamais sonhou tentar explicar ‘tudo’, e mesmo das neuroses,
remontou sua origem não somente à sexualidade, mas ao conflito entre os impulsos
sexuais e o ego. Na psicanálise (diferentemente das obras de C.G. Jung), o termo
‘libido‘ não significa energia psíquica em geral, mas sim a força motivadora dos
instintos sexuais. Algumas assertivas, como a de que todo sonho é a realização de um
desejo sexual, nunca, em absoluto, foram sustentadas por ela. A acusação de
unilateralidade feita contra a psicanálise, que, como a ciência da mente inconsciente,
tem seu próprio campo de trabalho definido e restrito, é-lhe tão inaplicável quanto seria
se houvesse sido feita contra a química. Acreditar que a psicanálise busca a cura dos
distúrbios neuróticos dando rédea livre à sexualidade é uma grave má interpretação que
só pode ser desculpada pela ignorância. A tomada de consciência dos desejos sexuais
reprimidos na análise, ao contrário, torna possível obter sobre eles um domínio que a
repressão anterior fora incapaz de conseguir. Pode-se com mais verdade dizer que a
análise libera o neurótico das cadeias de sua sexualidade. Ademais, é inteiramente
anticientífico julgar a análise como calculada para solapar a religião, a autoridade e a
moral, porque, como todas as ciências, ela é inteiramente não tendenciosa e possui um
único objetivo, ou seja, chegar a uma visão harmônica de uma parte da realidade.
Finalmente, só se pode caracterizar como simplório o temor às vezes expresso de que
todos os mais elevados bens da humanidade, como são chamados — a pesquisa, a arte,
o amor, o senso ético e social — perderão seu valor ou sua dignidade porque a
psicanálise se encontra em posição de demonstrar sua origem em impulsos instintuais
elementares e animais.”




A TEORIA DA LIBIDO


“Reconhecimento de Duas Classes de Instintos na Vida Mental. — Embora a
psicanálise via de regra se esforce por desenvolver suas teorias tão independentemente
quanto possível das outras ciências, é contudo obrigada a procurar uma base para a
teoria dos instintos na biologia. Com fundamento em uma consideração de longo
alcance dos processos que empreendem construir a vida e que conduzem à morte, torna-
se provável que devamos reconhecer a existência de duas classes de instintos,
correspondentes aos processos contrários de construção e dissolução no organismo.
Segundo esse ponto de vista, um dos conjuntos de instintos, que trabalham
essencialmente em silêncio, seriam aqueles, cujo objetivo é conduzir a criatura viva à
morte e, assim, merecem ser chamados de ‘instintos de morte‘; dirigir-se-iam para fora
como resultado da combinação de grande número de organismos elementares
unicelulares e se manifestariam como impulsos destrutivos ou agressivos. O outro
conjunto de instintos seria o daqueles que nos são mais bem conhecidos na análise: os
instintos libidinais, sexuais ou instintos de vida, que são mais bem abrangidos pelo
nome de Eros; seu intuito seria constituir a substância viva em unidades cada vez
maiores, de maneira que a vida possa ser prolongada e conduzida a uma evolução mais
alta. Os instintos eróticos e os instintos de morte estariam presentes nos seres vivos em
misturas ou fusões regulares, mas ‘desfusões’ também estariam sujeitas a ocorrer. A
vida consistiria nas manifestações do conflito ou na interação entre as duas classes de
instintos; a morte significaria para o indivíduo a vitória dos instintos destrutivos, mas a
reprodução representaria para ele a vitória de Eros.”

“A Natureza dos Instintos. — Essa visão nos permitiria caracterizar os instintos como
tendências inerentes à substância viva no sentido da restauração de um estado anterior
de coisas, isto é, seriam historicamente determinados, de natureza conservadora e, por
assim dizer, expressão de uma inércia ou elasticidade presente no que é orgânico.
Ambas as classes de instintos, tanto Eros quanto o instinto de morte, segundo este ponto
de vista, teriam estado operando e trabalhando um contra o outro desde a primeira
origem da vida.”




ALÉM DO PRINCÍPIO DE PRAZER

                                     III

“Vinte e cinco anos de intenso trabalho tiveram por resultado que os objetivos imediatos
da psicanálise sejam hoje inteiramente diferentes do que eram no começo. A princípio,
o médico que analisava não podia fazer mais do que descobrir o material inconsciente
oculto para o paciente, reuni-lo e no momento oportuno comunicá-lo a este. A
psicanálise era então, primeiro e acima de tudo, uma arte interpretativa. Uma vez que
isso não solucionava o problema terapêutico, um outro objetivo rapidamente surgiu à
vista: obrigar o paciente a confirmar a construção teórica do analista com sua própria
memória. Nesse esforço, a ênfase principal reside nas resistências do paciente: a arte
consistia então em descobri-las tão rapidamente quanto possível, apontando-as ao
paciente e induzindo-o, pela influência humana — era aqui que a sugestão, funcionando
como ‘transferência’, desempenhava seu papel —, a abandonar suas resistências.
        Contudo, tornou-se cada vez mais claro que o objetivo que fora estabelecido —
que o inconsciente deve tornar-se consciente — não era completamente atingível
através desse método. O paciente não pode recordar a totalidade do que nele se acha
reprimido, e o que não lhe é possível recordar pode ser exatamente a parte essencial.
Dessa maneira, ele não adquire nenhum sentimento de convicção da correção da
construção teórica que lhe foi comunicada. É obrigado a repetir o material reprimido
como se fosse uma experiência contemporânea, em vez de, como o médico preferiria
ver, recordá-lo como algo pertencente ao passado. Essas reproduções, que surgem com
tal exatidão indesejada, sempre têm como tema alguma parte da vida sexual infantil, isto
é, do complexo de Édipo, e de seus derivativos, e são invariavelmente atuadas (acted
out) na esfera da transferência, da relação do paciente com o médico. Quando as coisas
atingem essa etapa, pode-se dizer que a neurose primitiva foi então substituída por outra
nova, pela ‘neurose de transferência’. O médico empenha-se por manter essa neurose de
transferência dentro dos limites mais restritos; forçar tanto quanto possível o canal da
memória, e permitir que surja como repetição o mínimo possível. A proporção entre o
que é lembrado e o que é reproduzido varia de caso para caso. O médico não pode, via
de regra, poupar ao paciente essa face do tratamento. Deve fazê-lo reexperimentar
alguma parte de sua vida esquecida, mas deve também cuidar, por outro lado, que o
paciente retenha certo grau de alheamento, que lhe permitirá, a despeito de tudo,
reconhecer que aquilo que parece ser realidade é, na verdade, apenas reflexo de um
passado esquecido. Se isso puder ser conseguido com êxito, o sentimento de convicção
do paciente será conquistado, juntamente com o sucesso terapêutico que dele depende.”

IV

“Contudo, temos mais a dizer sobre a vesícula viva, com sua camada cortical receptiva.
Esse pequeno fragmento de substância viva acha-se suspenso no meio de um mundo
externo carregado com as mais poderosas energias, e seria morto pela estimulação delas
emanadas, se não dispusesse de um escudo protetor contra os estímulos. Ele adquire
esse escudo da seguinte maneira: sua superfície mais externa deixa de ter a estrutura
apropriada à matéria viva, torna-se até certo ponto inorgânica e, daí por diante, funciona
como um envoltório ou membrana especial, resistente aos estímulos. Em conseqüência
disso, as energias do mundo externo só podem passar para as camadas subjacentes
seguintes, que permaneceram vivas, com um fragmento de sua intensidade original, e
essas camadas podem dedicar-se, por trás do escudo protetor, à recepção das
quantidades de estímulo que este deixou passar. Através de sua morte a camada exterior
salvou todas as camadas mais profundas de um destino semelhante, a menos que os
estímulos que a atinjam sejam tão fortes que atravessem o escudo protetor. A proteção
contra os estímulos é, para os organismos vivos, uma função quase mais importante do
que a recepção deles. O escudo protetor é suprido com seu próprio estoque de energia e
deve, acima de tudo, esforçar-se por preservar os modos especiais de transformação de
energia que nele operam, contra os efeitos ameaçadores das enormes energias em ação
no mundo externo, efeitos que tendem para o nivelamento deles e, assim, para a
destruição. O principal intuito da recepção de estímulos é descobrir a direção e a
natureza dos estímulos externos; para isso, é suficiente apanhar pequenos espécimes do
mundo externo, para classificá-lo em pequenas quantidades. Nos organismos altamente
desenvolvidos, a camada cortical receptiva da antiga vesícula há muito tempo já se
retirou para as profundezas do corpo, embora partes dela tenham sido deixadas sobre a
superfície, imediatamente abaixo do escudo geral contra os estímulos. Essas partes são
os órgãos dos sentidos, que consistem essencialmente em aparelhos para a recepção de
certos efeitos específicos de estimulação, mas que também incluem disposições
especiais para maior proteção contra quantidades excessivas de estimulação e para a
exclusão de tipos inapropriados de estímulos. É característico deles tratarem apenas com
quantidades muito pequenas de estimulação externa e apenas apanharem amostras do
mundo externo. Podem ser talvez comparados a tentáculos que estão sempre efetuando
avanços experimentais no sentido do mundo externo, e então retirando-se dele. (...).
Indicamos como a vesícula viva está provida de um escudo contra os estímulos
provenientes do mundo externo e mostramos anteriormente que a camada cortical
seguinte a esse escudo deve ser diferenciada como um órgão para a recepção de
estímulos do exterior. Esse córtex sensitivo, contudo, que posteriormente deve tornar-se
o sistema Cs., também recebe excitações desde o interior. A situação do sistema, entre o
exterior e o interior, e a diferença entre as condições que regem a recepção de
excitações nos dois casos, têm um efeito decisivo sobre o funcionamento do sistema e
de todo o aparelho mental. No sentido do exterior, acha-se resguardado contra os
estímulos, e as quantidades de excitação que sobre ele incidem possuem apenas efeito
reduzido. No sentido do interior, não pode haver esse escudo; as excitações das camadas
mais profundas estendem-se para o sistema diretamente e em quantidade não reduzida,
até onde algumas de suas características dão origem a sentimentos da série prazer-
desprazer. As excitações que provêm de dentro, entretanto, em sua intensidade e em
outros aspectos qualitativos — em sua amplitude, talvez —, são mais comensuradas
com o método de funcionamento do sistema do que os estímulos que afluem desde o
mundo externo. Esse estado de coisas produz dois resultados definidos. Primeiramente,
os sentimentos de prazer e desprazer (que constituem um índice do que está
acontecendo no interior do aparelho) predominam sobre todos os estímulos externos.
Em segundo lugar, é adotada uma maneira específica de lidar com quaisquer excitações
internas que produzam um aumento demasiado grande de desprazer; há uma tendência a
tratá-las como se atuassem, não de dentro, mas de fora, de maneira que seja possível
colocar o escudo contra estímulos em operação, como meio de defesa contra elas. É essa
a origem da projeção, destinada a desempenhar um papel tão grande na causação dos
processos patológicos. (...).
Descrevemos como ‘traumáticas’ quaisquer excitações provindas de fora que sejam
suficientemente poderosas para atravessar o escudo protetor. Parece-me que o conceito
de trauma implica necessariamente uma conexão desse tipo com uma ruptura numa
barreira sob outros aspectos eficazes contra os estímulos. Um acontecimento como um
trauma externo está destinado a provocar um distúrbio em grande escala no
funcionamento da energia do organismo e a colocar em movimento todas as medidas
defensivas possíveis. Ao mesmo tempo, o princípio de prazer é momentaneamente
posto fora de ação. Não há mais possibilidade de impedir que o aparelho mental seja
inundado com grandes quantidades de estímulos; em vez disso, outro problema surge, o
problema de dominar as quantidades de estímulo que irromperam, e de vinculá-las no
sentido psíquico, a fim de que delas se possa então desvencilhar.
O desprazer específico do sofrimento físico provavelmente resulta de que o
escudo protetor tenha sido atravessado numa área limitada. Dá-se então um fluxo
contínuo de excitações desde a parte da periferia relacionada até o aparelho central da
mente, tal como normalmente surgiria apenas desde o interior do aparelho.”

V

“O fato de a camada cortical que recebe os estímulos achar-se sem qualquer escudo
protetor contra as excitações provindas do interior deve ter como resultado que essas
últimas transmissões de estímulos possuam uma preponderância em importância
econômica e amiúde ocasionem distúrbios econômicos comparáveis às neuroses
traumáticas. As mais abundantes fontes dessa excitação interna são aquilo que é descrito
como os ‘instintos’ do organismo, os representantes de todas as forças que se originam
no interior do corpo e são transmitidas ao aparelho mental, desde logo o elemento mais
importante e obscuro da pesquisa psicológica.
        Não se pensará que é precipitado demais supor que os impulsos que surgem dos
instintos não pertencem ao tipo dos processos nervosos vinculados, mas sim ao de
processos livremente móveis, que pressionam no sentido da descarga. A maior parte do
que sabemos desses processos deriva de nosso estudo sobre a elaboração onírica. Nela
descobrimos que os processos dos sistemas inconscientes eram fundamentalmente
diferentes dos existentes nos sistemas pré-conscientes (ou conscientes). No
inconsciente, as catexias podem com facilidade ser completamente transferidas,
deslocadas e condensadas. Tal tratamento, no entanto, produziria apenas resultados não-
válidos se fosse aplicado ao material pré-consciente, e isso explica as familiares
peculiaridades apresentadas pelos sonhos manifestos depois que os resíduos pré-
conscientes do dia anterior foram elaborados de acordo com as leis que operam no
inconsciente. Descrevi o tipo de processo encontrado no inconsciente como sendo o
processo psíquico ‘primário’, em contraposição com o processo ‘secundário’, que é o
que impera em nossa vida de vigília normal. Visto que todos os impulsos instintuais têm
os sistemas inconscientes como seu ponto de impacto, quase não constitui novidade
dizer que eles obedecem ao processo primário.”

“Parece, então que um instinto é um impulso, inerente à vida orgânica, a restaurar um
estado anterior de coisas, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar sob a
pressão de forças perturbadoras externas, ou seja, é uma espécie de elasticidade
orgânica, ou, para dizê-lo de outro modo, a expressão da inércia inerente à vida
orgânica.
         Essa visão dos instintos nos impressiona como estranha porque nos
acostumamos a ver neles um fator impelidor no sentido da mudança e do
desenvolvimento, ao passo que agora nos pedem para reconhecer neles o exato oposto,
isto é, uma expressão da natureza conservadora da substância viva.”

“Apresentar-se-nos-á a plausível objeção de que bem pode ser que, além dos instintos
de conservação que impelem à repetição, poderão existir outros que impulsionam no
sentido do progresso e da produção de nova formas. Esse argumento decerto não deve
ser desprezado e será levado em conta numa etapa posterior. No momento, porém, é
tentador perseguir até sua conclusão lógica a hipótese de que todos os instintos tendem
à restauração de um estado anterior de coisas. O resultado talvez dê a impressão de
misticismo ou de falsa profundidade, mas podemos sentir-nos inocentes de ter quaisquer
desses propósitos em vista. Buscamos apenas os sóbrios resultados da pesquisa ou da
reflexão nela baseada, e não temos desejo algum de encontrar neles qualquer outra
qualidade que não seja a certeza.
        Suponhamos, então, que todos os instintos orgânicos são conservadores, que são
adquiridos historicamente, e que tendem à restauração de um estado anterior de coisas.
Disso decorre que os fenômenos do desenvolvimento orgânico devem ser atribuídos a
influências perturbadoras e desviadoras externas. A entidade viva elementar, desde seu
início, não teria desejo de mudar; se as condições permanecessem as mesmas, não faria
mais do que constantemente repetir o mesmo curso de vida. Em última instância, o que
deixou sua marca sobre o desenvolvimento dos organismos deve ter sido a história da
Terra em que vivemos e de sua relação com o Sol. Toda modificação, assim imposta ao
curso da vida do organismo, é aceita pelos instintos orgânicos conservadores e
armazenada para ulterior repetição. Esses instintos, portanto, estão fadados a dar uma
aparência enganadora de serem forças tendentes à mudança e ao progresso, ao passo
que, de fato, estão apenas buscando alcançar um antigo objetivo por caminhos tanto
velhos quanto novos. Ademais, é possível especificar esse objetivo final de todo o
esforço orgânico. Estaria em contradição à natureza conservadora dos instintos que o
objetivo da vida fosse um estado de coisas que jamais houvesse sido atingido. Pelo
contrário, ele deve ser um estado de coisas antigo, um estado inicial de que a entidade
viva, numa ou noutra ocasião, se afastou e ao qual se esforça por retornar através dos
tortuosos caminhos ao longo dos quais seu desenvolvimento conduz. Se tomarmos
como verdade que não conhece exceção o fato de tudo o que vive morrer por razões
internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então compelidos a dizer que ‘o
objetivo de toda vida é a morte‘, e, voltando o olhar para trás, que ‘as coisas
inanimadas existiram antes das vivas‘.”

“Os atributos da vida foram, em determinada ocasião, evocados na matéria inanimada
pela ação de uma força de cuja natureza não podemos formar concepção. Pode ter sido
um processo de tipo semelhante ao que posteriormente provocou o desenvolvimento da
consciência num estrato particular da matéria viva. A tensão que então surgiu no que até
aí fora uma substância inanimada se esforçou por neutralizar-se e, dessa maneira, surgiu
o primeiro instinto: o instinto a retornar ao estado inanimado. Naquela época, era ainda
coisa fácil a uma substância viva morrer; o curso de sua vida era provavelmente breve
determinando-se sua direção pela estrutura química da jovem vida. Assim, por longo
tempo talvez, a substância viva esteve sendo constantemente criada de novo e morrendo
facilmente, até que influências externas decisivas se alteraram de maneira a obrigar a
substância ainda sobrevivente a divergir mais amplamente de seu original curso de vida
e a efetuar détours mais complicados antes de atingir seu objetivo de morte. Esses
tortuosos caminhos para a morte, fielmente seguidos pelos instintos de conservação, nos
apresentariam hoje, portanto, o quadro dos fenômenos da vida. Se sustentarmos com
firmeza a natureza exclusivamente conservadora dos instintos, não poderemos chegar a
nenhuma outra noção quanto à origem e ao objetivo da vida.
        As implicações referentes aos grandes grupos de instintos que, segundo
acreditamos, jazem por trás dos fenômenos da vida nos organismos, devem parecer não
menos desnorteantes. A hipótese de instintos de autoconservação, tais como os
atribuímos a todos os seres vivos, alteia-se em acentuada oposição à idéia de que a vida
instintual, como um todo, sirva para ocasionar a morte. Vista sob essa luz, a importância
teórica dos instintos de autoconservação, auto-afirmação e domínio diminui
grandemente. Trata-se de instintos componentes cuja função é garantir que o organismo
seguirá seu próprio caminho para a morte, e afastar todos os modos possíveis de
retornar à existência inorgânica que não sejam os imanentes ao próprio organismo. Não
temos mais de levar em conta a enigmática determinação do organismo (tão difícil de
encaixar em qualquer contexto) de manter sua própria existência frente a qualquer
obstáculo. O que nos resta é o fato de que o organismo deseja morrer apenas do seu
próprio modo. Assim, originalmente, esses guardiães da vida eram também os lacaios
da morte. Daí surgir a situação paradoxal de que o organismo vivo luta com toda a sua
energia contra fatos (perigos, na verdade) que poderiam auxiliá-lo a atingir mais
rapidamente seu objetivo de vida, por uma espécie de curto-circuito. Tal
comportamento, entretanto, é precisamente o que caracteriza os esforços puramente
instintuais, contrastados com os esforços inteligentes.”

“A pressão externa que provoca uma ampliação constantemente crescente do
desenvolvimento não se impôs a todos os organismos. Muitos conseguiram permanecer
até os dias de hoje em seu nível humilde. Na verdade, muitas — embora não todas —
dessas criaturas, que devem assemelhar-se às fases primitivas dos animais e vegetais
superiores, ainda hoje acham-se vivas. Da mesma maneira, a totalidade do caminho do
desenvolvimento para a morte natural não é percorrido por todas as entidades
elementares que compõem o complicado corpo de um dos organismos mais elevados.
Algumas delas, as células germinais, provavelmente retêm a estrutura original da
matéria viva e, após certo tempo, com todo o seu complemento de disposições
instintuais herdadas e recentemente adquiridas, separam-se do organismo como um
todo. Essas duas características podem ser exatamente aquilo que as capacita a ter uma
existência independente. Sob condições favoráveis, começam a desenvolver-se, isto é, a
repetir o desempenho a que devem sua existência, e, ao final, mais uma vez uma parte
de sua substância leva sua evolução a um término, ao passo que outra parte reverte
novamente, como um germe residual novo, ao início do processo de desenvolvimento.
Essas células germinais, portanto, trabalham contra a morte da substância viva e têm
êxito em conseguir para ela o que só podemos encarar como uma imortalidade
potencial, ainda que isso possa significar nada mais do que um alongamento da estrada
para a morte. Temos de considerar como significante, no mais elevado grau, o fato de
essa função da célula germinal ser reforçada, ou só tornada possível, se ela fundir-se
com outra célula similar a si mesma e, contudo, diferente dela.
        Os instintos que cuidam dos destinos desses organismos elementares que
sobrevivem à totalidade do indivíduo, que lhes fornecem um abrigo seguro enquanto se
acham indefesos contra os estímulos do mundo externo, que ocasionam seu encontro
com outras células germinais etc., constituem o grupo dos instintos sexuais. São
conservadores no mesmo sentido dos outros instintos porque trazem de volta estados
anteriores de substância viva; contudo, são conservadores num grau mais alto, por
serem peculiarmente resistentes às influências externas; e são conservadores ainda em
outro sentido, por preservarem a própria vida por um longo período. São os verdadeiros
instintos de vida. Operam contra o propósito dos outros instintos, que conduzem, em
razão de sua função, à morte, e este fato indica que existe oposição entre eles e os
outros, oposição que foi há muito tempo reconhecida pela teoria das neuroses. É como
se a vida do organismo se movimentasse num ritmo vacilante. Certo grupo de instintos
se precipita como que para atingir o objetivo final da vida tão rapidamente quanto
possível, mas, quando determinada etapa no avanço foi alcançada, o outro grupo atira-se
para trás até um certo ponto, a fim de efetuar nova saída e prolongar assim a jornada. E
ainda que seja certo que a sexualidade e a distinção entre os sexos não existiam quando
a vida começou, permanece a possibilidade de que os instintos que posteriormente
vieram a ser descritos como sexuais, possam ter estado em funcionamento desde o
início, e talvez não seja verdade que foi apenas em época posterior que eles começaram
seu trabalho de oposição às atividades dos ‘instintos do ego’.”

“Pode também ser difícil, para muitos de nós, abandonar a crença de que existe em ação
nos seres humanos um instinto para a perfeição, instinto que os trouxe a seu atual alto
nível de realização intelectual e sublimação ética, e do qual se pode esperar que zele
pelo seu desenvolvimento em super-homens. Não tenho fé, contudo, na existência de tal
instinto interno e não posso perceber por que essa ilusão benévola deva ser conservada.
A evolução atual dos seres humanos não exige, segundo me parece, uma explicação
diferente da dos animais. Aquilo que, numa minoria de indivíduos humanos, parece ser
um impulso incansável no sentido de maior perfeição, pode ser facilmente
compreendido como resultado da repressão instintual em que se baseia tudo o que é
mais precioso na civilização humana. O instinto reprimido nunca deixa de esforçar-se
em busca da satisfação completa, que consistiria na repetição de uma experiência
primária de satisfação. Formações reativas e substitutivas, bem como sublimações, não
bastarão para remover a tensão persistente do instinto reprimido, sendo que a diferença
de quantidade entre o prazer da satisfação que é exigida e a que é realmente conseguida,
é que fornece o fator impulsionador que não permite qualquer parada em nenhuma das
posições alcançadas, mas, nas palavras do poeta, ‘ungebändigt immer vorwärts dringt‘.
O caminho para trás que conduz à satisfação completa acha-se, via de regra, obstruído
pelas resistências que mantêm as repressões, de maneira que não há alternativa senão
avançar na direção em que o crescimento ainda se acha livre, embora sem perspectiva
de levar o processo a uma conclusão ou de ser capaz de atingir o objetivo. Os processos
envolvidos na formação de uma fobia neurótica, que nada mais é do que uma tentativa
de fuga da satisfação de um instinto, apresentam-nos um modelo do modo de origem
desse suposto ‘instinto para a perfeição’, o qual não tem possibilidades de ser atribuído
a todos os seres humanos. Na verdade, as condições dinâmicas para o seu
desenvolvimento estão universalmente presentes, mas apenas em raros casos a situação
econômica parece favorecer a produção do fenômeno.”

                             VI

       “A essência de nossa investigação até agora foi o traçado de uma distinção nítida
entre os ‘instintos do ego’ e os instintos sexuais, e a visão de que os primeiros exercem
pressão no sentido da morte e os últimos no sentido de um prolongamento da vida.
Contudo, essa conclusão está fadada a ser insatisfatória sob muitos aspectos, mesmo
para nós. Ademais, na realidade, é apenas quanto ao primeiro grupo de instintos que
podemos afirmar que possuem caráter conservador, ou melhor, retrógrado,
correspondente a uma compulsão à repetição, porque, em nossa hipótese, os instintos do
ego se originam da animação da matéria inanimada e procuram restaurar o estado
inanimado, ao passo que, quanto aos instintos sexuais, embora seja verdade que
reproduzem estados primitivos do organismo, aquilo a que claramente visam, por todos
os meios possíveis, é à coalescência de duas células germinais que são diferenciadas de
maneira particular. Se essa união não é efetuada, a célula germinal morre juntamente
com todos os outros elementos do organismo multicelular. É apenas com essa condição
que a função sexual pode prolongar a vida da célula e emprestar-lhe uma aparência de
imortalidade.”

“De nosso ponto de vista, o maior interesse prende-se ao tratamento dado ao tema da
duração da vida e da morte dos organismos nos escritos de Weismann (1882, 1884,
1892 etc.). Foi ele que introduziu a divisão da substância viva em partes mortais e
imortais. A parte mortal é o corpo no sentido mais estrito, o ‘soma’, que, somente ele, se
acha sujeito à morte natural. As células germinais, por outro lado, são potencialmente
imortais, na medida em que são capazes, em determinadas condições, de desenvolver-se
no indivíduo novo ou, em outras palavras, de cercar-se de um novo soma (Weismann,
1884).
        O que nos impressiona nisso é a inesperada analogia com nosso próprio ponto de
vista, ao qual chegamos ao longo de caminho tão diferente. Weismann, encarando
morfologicamente a substância viva, enxerga nela uma parte que está destinada a morrer
— o soma, o corpo separado da substância relacionada com o sexo e a herança —, e
uma parte imortal — o plasma germinal, que se relaciona com a sobrevivência da
espécie, com a reprodução. Nós, por outro lado, lidando não com a substância viva, mas
com as forças que nela operam, fomos levados a distinguir duas espécies de instintos:
aqueles que procuram conduzir o que é vivo à morte, e os outros, os instintos sexuais,
que estão perpetuamente tentando e conseguindo uma renovação da vida, o que soa
como um corolário dinâmico à teoria morfológica de Weismann.
        Contudo, a aparência de uma correspondência significante se dissipa tão logo
descobrimos as concepções de Weismann sobre o problema da morte, porque ele só
relaciona a distinção entre o soma mortal e o plasma germinal imortal aos organismos
multicelulares; nos organismos unicelulares, o indivíduo e a célula reprodutora são
ainda um só e o mesmo (Weismann, 1882, 38). Desse modo, considera que os
organismos unicelulares são potencialmente imortais e que a morte só faz seu
aparecimento com os metazoários multicelulares. É verdade que essa morte dos
organismos mais elevados é natural, uma morte provocada por causas internas, mas não
se funda em nenhuma característica primitiva da substância viva (Weismann, 1884, 84)
e não pode ser encarada como uma necessidade absoluta, com base na própria natureza
da vida (Weismann, 1882, 33). A morte é antes uma questão de conveniência, uma
manifestação de adaptação às condições externas da vida, porque, uma vez as células do
corpo tenham sido divididas em soma e plasma germinal, uma duração ilimitada da vida
individual se tornaria um luxo inteiramente sem sentido. Feita essa diferenciação nos
organismos multicelulares, a morte torna-se possível e conveniente. Desde então, o
soma dos organismos superiores morreu a períodos fixos por razões internas, ao passo
que os protistas permaneceram imortais. Não é o caso, por outro lado, de a reprodução
ter sido introduzida ao mesmo tempo que a morte. Pelo contrário, trata-se de uma
característica primitiva da matéria viva, como o crescimento (do qual se originou), e a
vida foi contínua desde seu início sobre a Terra (Weismann, 1884, 84 e seg.).
        Ver-se-á em seguida que concordar dessa maneira que os organismos superiores
tenham uma morte natural é de muito pouco auxílio para nós, porque, se a morte é uma
aquisição tardia dos organismos, então não há o que falar quanto a ter havido instintos
de morte desde o começo da vida sobre a Terra. Os organismos multicelulares podem
morrer por razões internas, devido a uma diferenciação deficiente ou a imperfeições de
seu metabolismo, mas a questão não tem interesse do ponto de vista de nosso problema.
Uma explicação da origem da morte como esta encontra-se, ademais, em muito menor
variância com nossos modos de pensamentos habituais do que a estranha pressuposição
dos ‘instintos de morte’.”

“Nesse ponto, bem pode surgir em nosso espírito a dúvida quanto a saber se servimos a
algum objetivo ao tentar solucionar o problema da morte natural a partir do estudo dos
protozoários. A organização primitiva dessas criaturas pode ocultar-nos condições
importantes que, embora de fato presentes nelas também, só se tornam visíveis nos
animais superiores, quando podem encontrar expressão morfológica. E, se
abandonarmos o ponto de vista morfológico e adotarmos o dinâmico, torna-se-nos
completamente indiferente poder demonstrar se a morte natural ocorre ou não nos
protozoários. A substância que posteriormente é reconhecida como imortal, neles não se
separou ainda da mortal. As forças instintuais que procuram conduzir a vida para a
morte podem também achar-se em funcionamento nos protozoários desde o início; no
entanto, seus esforços podem ser tão completamente ocultos pelas forças preservadoras
da vida, que talvez seja muito difícil encontrar qualquer prova direta de sua presença.
Vimos também, além disso, que as observações efetuadas pelos biólogos nos permitem
presumir que processos internos desse tipo, conducentes à morte, ocorrem também nos
protistas. Mas, mesmo que estes últimos se mostrassem imortais no sentido
weismanniano, a assertiva de Weismann de que a morte é uma aquisição tardia, se
aplicaria apenas a seus fenômenos manifestos e não tornaria impossível a pressuposição
de processos a ela tendentes.
        Assim, não se realizou nossa esperança de que a biologia contradissesse
redondamente o reconhecimento dos instintos de morte. Estamos livres para continuar a
nos preocupar com sua possibilidade, se tivermos outras razões para assim proceder. A
notável semelhança entre a distinção weismanniana de soma e plasma germinal e nossa
separação dos instintos de morte dos instintos de vida persiste e mantém a sua
significância.
        Podemos deter-nos por um momento sobre essa visão preeminentemente
dualística da vida instintual. De acordo com a teoria de E. Hering, dois tipos de
processos estão constantemente em ação na substância viva, operando em direções
contrárias, uma construtiva ou assimilatória, e a outra destrutiva ou dissimilatória.
Podemos atrever-nos a identificar nessas duas direções tomadas pelos processos vitais a
atividade de nossos dois impulsos instintuais, os instintos de vida e os instintos de
morte?”

“Façamos uma ousada tentativa de dar outro passo à frente. Considera-se geralmente
que a união de uma série de células numa associação vital — o caráter multicelular dos
organismos — se tornou um meio de prolongar a sua vida. Uma célula ajuda a
conservar a vida de outra, e a comunidade de células pode sobreviver mesmo que as
células individuais tenham de morrer. Já aprendemos que também a conjugação, a
coalescência temporária de dois organismos unicelulares, possui feito preservador de
vida e rejuvenescedor sobre ambos. Por conseguinte, podemos tentar aplicar a teoria da
libido a que se chegou na psicanálise à relação mútua das células. Podemos supor que
os instintos de vida ou instintos sexuais ativos em cada célula tomam as outras células
como seu objeto, que parcialmente neutralizam os instintos de morte (isto é, os
processos estabelecidos por estes) nessas células, preservando assim sua vida, ao passo
que as outras células fazem o mesmo para elas e outras ainda se sacrificam no
desempenho dessa função libidinal. As próprias células germinais se comportariam de
maneira completamente ‘narcisista’, para empregar a expressão que estamos
acostumados a utilizar na teoria das neuroses para descrever um indivíduo total que
retém sua libido em seu ego e nada desembolsa dela em catexias de objeto. As células
germinais exigem sua libido, a atividade de seus instintos de vida, para si mesmas,
como uma reserva para sua posterior e momentosa atividade construtiva. (As células
dos neoplasmas malignos que destroem o organismo, talvez também devessem ser
descritas como narcisistas nesse mesmo sentido: a patologia está preparada para
considerar seus germes como inatos e atribuir-lhes atitudes embriônicas.) Dessa
maneira, a libido de nossos instintos sexuais coincidiria com o Eros dos poetas e dos
filósofos, o qual mantém unidas todas as coisas vivas.
        Aqui se encontra, portanto, uma oportunidade para considerar o lento
desenvolvimento de nossa teoria da libido. Em primeira instância, a análise das
neuroses de transferência forçou à nossa observação a oposição entre os ‘instintos
sexuais’, que se dirigem para um objeto, e certos outros instintos, com os quais nos
achamos insuficientemente familiarizados e que descrevemos provisoriamente como
‘instintos do ego’. Um lugar de proa entre estes foi necessariamente concedido aos
instintos que servem à autoconservação do indivíduo. Foi impossível dizer que outras
distinções deveriam ser traçadas entre eles. Nenhum conhecimento seria mais valioso
como base para uma ciência verdadeiramente psicológica do que uma compreensão
aproximada das características comuns e dos possíveis aspectos distintivos dos instintos,
mas em nenhuma região da psicologia tateamos mais no escuro. Cada um supôs a
existência de tantos instintos ou ‘instintos básicos’ quantos quis e fez malabarismos
com eles, tal como os antigos filósofos naturalistas gregos faziam com seus quatro
elementos: a terra, o ar, o fogo e a água. A psicanálise, que não podia deixar de fazer
alguma suposição sobre os instintos, ateve-se primeiramente à popular divisão de
instintos tipificada na expressão ‘fome e amor’. Pelo menos, nada havia de arbitrário
nisso e, com sua ajuda, a análise das psiconeuroses foi levada à frente até uma boa
distância. O conceito de ‘sexualidade’ e, ao mesmo tempo, de instinto sexual, teve, é
verdade, de ser ampliado de modo a abranger muitas coisas que não podiam ser
classificadas sob a função reprodutora, e isso provocou não pouco alarido num mundo
austero, respeitável, ou simplesmente hipócrita.”

“Mas ainda nos é mais necessário enfatizar o caráter libidinal dos instintos de
autoconservação, agora que nos estamos aventurando ao novo passo de reconhecer o
instinto sexual como Eros, o conservador de todas as coisas, e de derivar a libido
narcisista do ego dos estoques de libido por meio da qual as células do soma estão
ligadas umas às outras. Mas agora, subitamente, defrontamo-nos com outra questão. Se
os instintos de autoconservação são também de natureza libidinal, talvez não existam
quaisquer outros instintos, a não ser os libidinais? De qualquer modo, não existem
outros visíveis. Nesse caso, porém, seremos, no fim das contas, levados a concordar
com os críticos que desconfiaram desde o início que a psicanálise explica tudo pela
sexualidade, ou com inovadores como Jung, que, fazendo um juízo apressado,
utilizaram a palavra ‘libido’ para significar força instintual em geral. Não deve isso ser
assim?
        De modo algum era nossa intenção produzir tal resultado. Nosso debate teve
como ponto de partida uma distinção nítida entre os instintos do ego, que equiparamos
aos instintos de morte, e os instintos sexuais, que equiparamos aos instintos de vida.
(Achávamo-nos preparados, em determinada etapa [ver em [1]], para incluir os
chamados instintos de autoconservação do ego entre os instintos de morte, mas
subseqüentemente [ver em [1]] nos corrigimos sobre esse ponto e o retiramos.) Nossas
concepções, desde o início, foram dualistas e são hoje ainda mais definidamente
dualistas do que antes, agora que descrevemos a oposição como se dando, não entre
instintos do ego e instintos sexuais, mas entre instintos de vida e instintos de morte. A
teoria da libido de Jung é, pelo contrário, monista; o fato de haver ele chamado sua
única força instintual de ‘libido’, destina-se a causar confusão, mas não precisa afetar-
nos sob outros aspectos. Suspeitamos que instintos outros que não os de
autoconservação funcionam no ego, e deveria ser-nos possível apontá-los. Infelizmente,
porém, a análise do ego fez tão poucos avanços, que nos é muito difícil proceder assim.
É possível, na verdade, que os instintos libidinais do ego possam estar vinculados de
maneira peculiar a esses outros instintos do ego que ainda nos são estranhos. Mesmo
antes de dispormos de qualquer compreensão clara do narcisismo, a psicanálise já
desconfiava que os ‘instintos do ego’ tinham componentes libidinais a eles ligados. Mas
trata-se de possibilidades muito incertas, a que nossos oponentes prestarão muito pouca
atenção. Permanece a dificuldade de que a psicanálise até aqui não nos permitiu indicar
quaisquer instintos [do ego] que não sejam os libidinais. Isso, contudo, não constitui
razão para concordarmos com a conclusão de que nenhum outro realmente existe.”

“Na obscuridade que reina atualmente na teoria dos instintos, não seria avisado rejeitar
qualquer idéia que prometa lançar luz sobre ela. Partimos da grande oposição entre os
instintos de vida e de morte. Ora, o próprio amor objetal nos apresenta um segundo
exemplo de polaridade semelhante: a existente entre o amor (ou afeição) e o ódio (ou
agressividade). Se pudéssemos conseguir relacionar mutuamente essas duas polaridades
e derivar uma da outra! Desde o início identificamos a presença de um componente
sádico no instinto sexual. Como sabemos, ele pode tornar-se independente e, sob a
forma de perversão dominar toda a atividade sexual de um indivíduo. Surge também
como um instinto componente predominante numa das ‘organizações pré-genitais’,
como as denominei. Mas, como pode o instinto sádico, cujo intuito é prejudicar o
objeto, derivar de Eros, o conservador da vida? Não é plausível imaginar que esse
sadismo seja realmente um instinto de morte que, sob a influência da libido narcisista,
foi expulso do ego e, conseqüentemente, só surgiu em relação ao objeto? Ele entra em
ação a serviço da função sexual. Durante a fase oral da organização da libido, o ato de
obtenção de domínio erótico sobre um objeto coincide com a destruição desse objeto;
posteriormente, o instinto sádico se isola, e, finalmente, na fase de primazia genital,
assume, para os fins da reprodução, a função de dominar o objeto sexual até o ponto
necessário à efetivação do ato sexual. Poder-se-ia verdadeiramente dizer que o sadismo
que for expulso do ego apontou o caminho para os componentes libidinais do instinto
sexual e que estes o seguiram para o objeto. Onde quer que o sadismo original não tenha
sofrido mitigação ou mistura, encontramos a ambivalência familiar de amor e ódio na
vida erótica.
        Se uma pressuposição assim é permissível, atendemos então a exigência de que
produzíssemos um exemplo de instinto de morte, embora se trate, na verdade, de um
instinto deslocado. Mas essa maneira de considerar as coisas está muito longe de ser
fácil de captar e cria uma impressão positivamente mística. Sua aparência é suspeita,
como se estivéssemos tentando achar um modo de sair a qualquer preço de uma situação
embaraçosa.”

“A origem da reprodução por células germinais sexualmente diferenciadas pode ser
representada segundo sóbrias linhas darwinianas, imaginando-se que a vantagem da
anfimixia, a que se chegou em determinada ocasião pela conjugação fortuita de dois
protistas, foi retida e posteriormente explorada para desenvolvimento ulterior. Segundo
essa concepção, o ‘sexo’ não seria nada de muito antigo e os instintos
extraordinariamente violentos, cujo objetivo é ocasionar a união sexual, estariam
repetindo algo que outrora ocorrera por acaso e desde então se estabelecera, por ser
vantajoso.
        Surge aqui a questão, como no caso da morte, de saber se estamos certos em
atribuir aos protistas só essas características que realmente apresentam, ou se será
correto supor que forças e processos que se tornam visíveis apenas nos organismos
superiores, se originaram pela primeira vez naqueles organismos. A concepção da
sexualidade que acabamos de mencionar é de pouca ajuda para nossos fins. Contra ela
pode ser levantada a objeção de postular a existência de instintos de vida já a funcionar
nos organismos mais simples, porque de outra maneira a conjugação, que trabalha
contra o curso da vida e torna a tarefa de deixar de viver mais difícil, não teria sido
mantida e elaborada, mas, ao contrário, seria evitada. Se, portanto, não quisermos
abandonar a hipótese dos instintos de morte, temos de supor que estão associados, desde
o início, com os instintos de vida. Deve-se, porém, admitir que, nesse caso, estaremos
trabalhando com uma equação de duas quantidades desconhecidas.
        À parte isso, a ciência tem tão pouco a nos dizer sobre a origem da sexualidade,
que podemos comparar o problema a uma escuridão em que nem mesmo o raio de luz
de uma hipótese penetrou. Em outra região, inteiramente diferente, é verdade,
defrontamo-nos realmente com tal hipótese, mas é de tipo tão fantástico, mais mito do
que explicação científica, que não me atreveria a apresentá-la aqui se ela não atendesse
precisamente àquela condição cujo preenchimento desejamos, porque faz remontar a
origem de um instinto a uma necessidade de restaurar um estado anterior de coisas.”

“Pode-se perguntar se, e até onde, eu próprio me acho convencido da verdade das
hipóteses que foram formuladas nestas páginas. Minha resposta seria que eu próprio não
me acho convencido e que não procuro persuadir outras pessoas a nelas acreditar, ou,
mais precisamente, que não sei até onde nelas acredito. Não há razão, segundo me
parece, para que o fator emocional da convicção tenha, de algum modo, de entrar nessa
questão. É certamente possível que nos lancemos por uma linha de pensamento e que a
sigamos aonde quer que ela leve, por simples curiosidade científica, ou, se o leitor
preferir, como um advocatus diaboli, que não se acha, por essa razão, vendido ao
demônio. Não discuto o fato de que o terceiro passo pela teoria dos instintos, por mim
dado aqui, não pode reivindicar o mesmo grau de certeza que os dois primeiros: a
extensão do conceito de sexualidade e a hipótese do narcisismo. Essas duas novidades
foram uma tradução direta da observação para a teoria e não se achavam mais abertas a
fontes de erro do que é inevitável em todos os casos assim. É verdade que minha
afirmativa do caráter regressivo dos instintos também se apóia em material observado,
ou seja, nos fatos da compulsão à repetição. Pode ser, contudo, que eu tenha
superestimado sua significação. E, de qualquer modo, é impossível perseguir uma idéia
desse tipo, exceto pela combinação repetida de material concreto com o que é
puramente especulativo e, assim, amplamente divergente da observação empírica.
Quanto mais freqüentemente isso é feito no decurso da construção de uma teoria, menos
fidedigno, como sabemos, deve ser o resultado final. Mas o grau de incertezas não é
atribuível. Podemos ter dado um golpe de sorte ou havermo-nos extraviado
vergonhosamente. Não penso que, num trabalho desse tipo, uma parte grande seja
desempenhada pelo que é chamado de ‘intuição’. Pelo que tenho visto da intuição, ela
me parece ser o produto de um tipo de imparcialidade intelectual. Infelizmente, porém,
as pessoas raramente são imparciais no que concerne às coisas supremas, aos grandes
problemas da ciência e da vida. Em tais casos, cada um de nós é dirigido por
preconceitos internos profundamente enraizados, aos quais nossa especulação
inadvertidamente dá vantagem. Já que possuímos tão bons fundamentos para sermos
desconfiados, nossa atitude para com os resultados de nossas próprias deliberações não
pode ser outra que a de uma fria benevolência. Apresso-me a acrescentar, contudo, que
uma autocrítica como esta acha-se longe de vincular-nos a qualquer tolerância especial
para com opiniões discordantes. É perfeitamente legítimo rejeitar sem remorsos teorias
que são contraditadas pelos próprios primeiros passos dados na análise dos fatos
observados, enquanto nos achamos ao mesmo tempo cientes de que a validade de
nossas próprias teorias é apenas provisória.
        Não precisamos sentir-nos grandemente perturbados em ajuizar nossas
especulações sobre os instintos de vida e de morte pelo fato de tantos processos
desnorteantes e obscuros nelas ocorrerem, tal como um instinto ser expulso por outro,
ou um instinto voltar-se do ego para um objeto, e assim por diante. Isso se deve
simplesmente ao fato de sermos obrigados a trabalhar com termos científicos, isto é,
com a linguagem figurativa, peculiar à psicologia (ou, mais precisamente, à psicologia
profunda). Não poderíamos, de outra maneira, descrever os processos em questão e, na
verdade, não nos teríamos tornado cientes deles. As deficiências de nossa posição
provavelmente se desvaneceriam se nos achássemos em posição de substituir os termos
psicológicos por expressões fisiológicas ou químicas. É verdade que estas também são
apenas parte de uma linguagem figurativa, mas trata-se de uma linguagem com que há
muito tempo nos familiarizamos, sendo também, talvez, uma linguagem mais simples.
        Por outro lado, deve-se deixar completamente claro que a incerteza de nossa
especulação foi muito aumentada pela necessidade de pedir empréstimos à ciência da
biologia. A biologia é, verdadeiramente, uma terra de possibilidades ilimitadas.
Podemos esperar que ela nos forneça as informações mais surpreendentes, e não
podemos imaginar que respostas nos dará, dentro de poucas dezenas de anos, às
questões que lhe formulamos. Poderão ser de um tipo que ponha por terra toda a nossa
estrutura artificial de hipóteses. Se assim for, poder-se-á perguntar por que nos
embrenhamos numa linha de pensamento como a presente e, em particular, por que
decidi torná-la pública. Bem, não posso negar que algumas das analogias, correlações e
vinculações que ela contém pareceram-me merecer consideração.”

“Nossa consciência nos comunica sentimentos provindos de dentro que não são apenas
de prazer e desprazer, mas também de uma tensão peculiar que, por sua vez, tanto pode
ser agradável quanto desagradável. Permitir-nos-á a diferença entre esses sentimentos
distinguir entre processos de energia vinculados e livres? Ou deve o sentimento de
tensão ser relacionado à magnitude absoluta, ou talvez ao nível da catexia, ao passo que
a série prazer e desprazer indica uma mudança na magnitude da catexia dentro de
determinada unidade de tempo? Outro fato notável é que os instintos de vida têm muito
mais contato com nossa percepção interna, surgindo como rompedores da paz e
constantemente produzindo tensões cujo alívio é sentido como prazer, ao passo que os
instintos de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente. O princípio de prazer
parece, na realidade, servir aos instintos de morte. É verdade que mantém guarda sobre
os estímulos provindos de fora, que são encarados como perigos por ambos os tipos de
instintos, mas se acha mais especialmente em guarda contra os aumentos de estimulação
provindos de dentro, que tornariam mais difícil a tarefa de viver. Isso, por sua vez,
levanta uma infinidade de outras questões, para as quais, no presente, não podemos
encontrar resposta. Temos de ser pacientes e aguardar novos métodos e ocasiões de
pesquisa. Devemos estar prontos, também, para abandonar um caminho que estivemos
seguindo por certo tempo, se parecer que ele não leva a qualquer bom fim. Somente os
crentes, que exigem que a ciência seja um substituto para o catecismo que
abandonaram, culparão um investigador por desenvolver ou mesmo transformar suas
concepções.”
PSICOLOGIA DE GRUPO E A ANÁLISE DO EGO



IV - SUGESTÃO E LIBIDO


“Libido é expressão extraída da teoria das emoções. Damos esse nome à energia,
considerada como uma magnitude quantitativa (embora na realidade não seja
presentemente mensurável), daqueles instintos que têm a ver com tudo o que pode ser
abrangido sob a palavra ‘amor’. O núcleo do que queremos significar por amor consiste
naturalmente (e é isso que comumente é chamado de amor e que os poetas cantam) no
amor sexual, com a união sexual como objetivo. Mas não isolamos disso — que, em
qualquer caso, tem sua parte no nome ‘amor’ —, por um lado, o amor próprio, e, por
outro, o amor pelos pais e pelos filhos, a amizade e o amor pela humanidade em geral,
bem como a devoção a objetos concretos e a idéias abstratas. Nossa justificativa reside
no fato de que a pesquisa psicanalítica nos ensinou que todas essas tendências
constituem expressão dos mesmos impulsos instintuais; nas relações entre os sexos,
esses impulsos forçam seu caminho no sentido da união sexual, mas, em outras
circunstâncias, são desviados desse objetivo ou impedidos de atingi-lo, embora sempre
conservem o bastante de sua natureza original para manter reconhecível sua identidade
(como em características tais como o anseio de proximidade e o auto-sacrifício).
        Somos de opinião, pois, que a linguagem efetuou uma unificação inteiramente
justificável ao criar a palavra ‘amor’ com seus numerosos usos, e que não podemos
fazer nada melhor senão tomá-la também como base de nossas discussões e exposições
científicas. Por chegar a essa decisão, a psicanálise desencadeou uma tormenta de
indignação, como se fosse culpada de um ato de ultrajante inovação. Contudo, não fez
nada de original em tomar o amor nesse sentido ‘mais amplo’. Em sua origem, função e
relação com o amor sexual, o ‘Eros’ do filósofo Platão coincide exatamente com a força
amorosa, a libido da psicanálise, tal como foi pormenorizadamente demonstrado por
Nachmansohn (1915) e Pfister (1921), e, quando o apóstolo Paulo, em sua famosa
Epístola aos Coríntios, louva o amor sobre tudo o mais, certamente o entende no mesmo
sentido ‘mais amplo’. Mas isso apenas demonstra que os homens nem sempre levam a
sério seus grandes pensadores, mesmo quando mais professam admirá-los. A
psicanálise, portanto, dá a esses instintos amorosos o nome de instintos sexuais, a
potiori e em razão de sua origem. A maioria das pessoas ‘instruídas’ encarou essa
nomenclatura como um insulto e fez sua vingança retribuindo à psicanálise a pecha de
‘pansexualismo’. Qualquer pessoa que considere o sexo como algo mortificante e
humilhante para a natureza humana está livre para empregar as expressões mais polidas
‘Eros’ e ‘erótico’. Eu poderia ter procedido assim desde o começo e me teria poupado
muita oposição. Mas não quis fazê-lo, porque me apraz evitar fazer concessões à
pusilanimidade. Nunca se pode dizer até onde esse caminho nos levará; cede-se
primeiro em palavras e depois, pouco a pouco, em substância também. Não posso ver
mérito algum em se ter vergonha do sexo; a palavra grega ‘Eros’, destinada a suavizar a
afronta, ao final nada mais é do que tradução de nossa palavra alemã Liebe [amor], e
finalmente, aquele que sabe esperar não precisa de fazer concessões.”

V - DOIS GRUPOS ARTIFICIAIS: A IGREJA E O EXÉRCITO
“A dissolução de um grupo religioso não é tão fácil de observar. Pouco tempo atrás,
caiu-me nas mãos um romance inglês de origem católica, recomendado pelo Bispo de
Londres, com o título When It Was Dark (Quando Estava Escuro). Esse romance
fornecia um hábil e, segundo me pareceu, convincente relato de tal possibilidade e suas
conseqüências. O romance, que pretende relacionar-se com os dias de hoje, conta como
uma conspiração de inimigos da pessoa de Cristo e da fé cristã teve êxito em conseguir
que um sepulcro fosse descoberto em Jerusalém. Nesse sepulcro encontra-se uma
inscrição em que José de Arimatéia confessa que, por razões de piedade, retirou
secretamente o corpo de Cristo de sua sepultura, no terceiro dia após o sepultamento, e
enterrou-o naquele lugar. A ressurreição de Cristo e sua natureza divina são dessa
maneira refutadas e o resultado da descoberta arqueológica é uma convulsão na
civilização européia e um extraordinário aumento em todos os crimes e atos de
violência, os quais só cessam quando a conspiração dos falsificadores é revelada.
        O fenômeno que acompanha a dissolução que aqui se supõe dominar um grupo
religioso, não é o medo, para o qual falta a ocasião. Em vez dele, impulsos cruéis e
hostis para com outras pessoas fazem seu aparecimento, impulsos que, devido ao amor
equânime de Cristo, haviam sido anteriormente incapazes de fazê-lo. Mas, mesmo
durante o reino de Cristo, aqueles que não pertencem à comunidade de crentes, que não
o amam e a quem ele não ama, permanecem fora de tal laço. Desse modo, uma religião,
mesmo que se chame a si mesma de religião do amor, tem de ser dura e inclemente para
com aqueles que a ela não pertencem. Fundamentalmente, na verdade, toda religião é,
dessa mesma maneira, uma religião de amor para todos aqueles a quem abrange, ao
passo que a crueldade e a intolerância para com os que não lhes pertencem, são naturais
a todas as religiões. Por mais difícil que possamos achá-lo pessoalmente, não devemos
censurar os crentes severamente demais por causa disso; as pessoas que são descrentes
ou indiferentes estão psicologicamente em situação muito melhor nessa questão [da
crueldade e da intolerância]. Se hoje a intolerância não mais se apresenta tão violenta e
cruel como em séculos anteriores, dificilmente podemos concluir que ocorreu uma
suavização nos costumes humanos. A causa deve ser antes achada no inegável
enfraquecimento dos sentimentos religiosos e dos laços libidinais que deles dependem.
Se outro laço grupal tomar o lugar do religioso — e o socialista parece estar obtendo
sucesso em conseguir isso —, haverá então a mesma intolerância para com os profanos
que ocorreu na época das Guerras de Religião, e, se diferenças entre opiniões científicas
chegassem um dia a atingir uma significação semelhante para grupos, o mesmo
resultado se repetiria mais uma vez com essa nova motivação.”


VII - IDENTIFICAÇÃO

       “A identificação é conhecida pela psicanálise como a mais remota expressão de
um laço emocional com outra pessoa. Ela desempenha um papel na história primitiva do
complexo de Édipo. Um menino mostrará interesse especial pelo pai; gostaria de crescer
como ele, ser como ele e tomar seu lugar em tudo. Podemos simplesmente dizer que
toma o pai como seu ideal. Este comportamento nada tem a ver com uma atitude passiva
ou feminina em relação ao pai (ou aos indivíduos do sexo masculino em geral); pelo
contrário, é tipicamente masculina. Combina-se muito bem com o complexo de Édipo,
cujo caminho ajuda a preparar.
       Ao mesmo tempo que essa identificação com o pai, ou pouco depois, o menino
começa a desenvolver uma catexia de objeto verdadeira em relação à mãe, de acordo
com o tipo [anaclítico] de ligação. Apresenta então, portanto, dois laços
psicologicamente distintos: uma catexia de objeto sexual e direta para com a mãe e uma
identificação com o pai que o toma como modelo. Ambos subsistem lado a lado durante
certo tempo, sem qualquer influência ou interferência mútua. Em conseqüência do
avanço irresistível no sentido de uma unificação da vida mental, eles acabam por reunir-
se e o complexo de Édipo normal origina-se de sua confluência. O menino nota que o
pai se coloca em seu caminho, em relação à mãe. Sua identificação com eles assume
então um colorido hostil e se identifica com o desejo de substituí-lo também em relação
à mãe. A identificação, na verdade, é ambivalente desde o início; pode tornar-se
expressão de ternura com tanta facilidade quanto um desejo do afastamento de alguém.
Comporta-se como um derivado da primeira fase da organização da libido, da fase oral,
em que o objeto que prezamos e pelo qual ansiamos é assimilado pela ingestão, sendo
dessa maneira aniquilado como tal. O canibal, como sabemos, permaneceu nessa etapa;
ele tem afeição devoradora por seus inimigos e só devora as pessoas de quem gosta.”

IX - O INSTINTO GREGÁRIO

“Poder-se-ia dizer que os intensos vínculos emocionais que observamos nos grupos, são
inteiramente suficientes para explicar uma de suas características: a falta de
independência e iniciativa de seus membros, a semelhança nas reações de todos eles,
sua redução, por assim dizer, ao nível de indivíduos grupais. Mas, se o considerarmos
como um todo, um grupo nos mostra mais que isso. Alguns de seus aspectos — a
fraqueza de capacidade intelectual, a falta de controle emocional, a incapacidade de
moderação ou adiamento, a inclinação a exceder todos os limites na expressão da
emoção e descarregá-la completamente sob a forma de ação — essas e outras
características semelhantes tão impressivamente descritas por Le Bon apresentam um
quadro inequívoco de regressão da atividade mental a um estágio anterior, como não
nos surpreendemos em descobri-la entre os selvagens e as crianças. Uma regressão
desse tipo é, particularmente, uma característica essencial dos grupos comuns, ao passo
que, como soubemos, nos grupos organizados e artificiais ela pode em grande parte ser
controlada.
        Temos assim a impressão de um estado no qual os impulsos emocionais
particulares e os atos intelectuais de um indivíduo são fracos demais para chegar a algo
por si próprios; para isso dependem inteiramente de serem reforçados por sua igual
repetição nos outros membros do grupo. Somos lembrados de quantos desses
fenômenos de dependência fazem parte da constituição normal da sociedade humana, de
quão pouca originalidade e coragem pessoal podem encontrar-se nela, de quanto cada
indivíduo é governado por essas atitudes da mente grupal que se apresentam sob formas
tais como características raciais, preconceitos de classe, opinião pública etc. A
influência da sugestão torna-se um grande enigma para nós quando admitimos que ela
não é exercida apenas pelo líder, mas por cada indivíduo sobre outro indivíduo, e temos
de censurar-nos por havermos injustamente enfatizado a relação com o líder e mantido
demais em segundo plano o outro fator da sugestão mútua.”

“O que posteriormente aparece na sociedade sob a forma de Gemeingeist, esprit de
corps, ‘espírito de grupo’ etc. não desmente a sua derivação do que foi originalmente
inveja. Ninguém deve querer salientar-se, todos devem ser o mesmo e ter o mesmo. A
justiça social significa que nos negamos muitas coisas a fim de que os outros tenham de
passar sem elas, também, ou, o que dá no mesmo, não possam pedi-las. Essa exigência
de igualdade é a raiz da consciência social e do senso de dever. Revela-se
inesperadamente no pavor que tem o sifilítico de contagiar outras pessoas, coisa que a
psicanálise nos ensinou a compreender. O pavor demonstrado por esses pobres infelizes
corresponde às suas violentas lutas contra o desejo inconsciente de propagar sua
infecção a outros; por que razão apenas eles deveriam ser infectados e apartados de
tantas coisas? Por que também não os outros? E o mesmo princípio pode-se encontrar
na apropriada história do julgamento de Salomão. Se o filho de uma mulher morreu, a
outra tampouco deverá ter um filho, e a mulher despojada é identificada por esse
desejo.”

“Já aprendemos do exame de dois grupos artificiais, a Igreja e o exército que sua
premissa necessária é que todos os membros sejam amados da mesma maneira por uma
só pessoa, o líder. Não nos esqueçamos, contudo, de que a exigência de igualdade num
grupo aplica-se apenas aos membros e não ao líder. Todos os membros devem ser iguais
uns aos outros, mas todos querem ser dirigidos por uma só pessoa. Muitos iguais, que
podem identificar-se uns com os outros, e uma pessoa isolada, superior a todos eles:
essa é a situação que vemos realizada nos grupos capazes de subsistir. Ousemos, então,
corrigir o pronunciamento de Trotter de que o homem é um animal gregário, e asseverar
ser ele de preferência um animal de horda, uma criatura individual numa horda
conduzida por um chefe.”

X - O GRUPO E A HORDA PRIMEVA

“Em 1912 concordei com uma conjectura de Darwin, segundo a qual a forma primitiva
da sociedade humana era uma horda governada despoticamente por um macho
poderoso. Tentei demonstrar que os destinos dessa horda deixaram traços indestrutíveis
na história da descendência humana e, especialmente, que o desenvolvimento do
totemismo, que abrange em si os primórdios da religião, da moralidade e da organização
social, está ligado ao assassinato do chefe pela violência e à transformação da horda
paterna em uma comunidade de irmãos. Para dizer a verdade, isso constitui apenas uma
hipótese, como tantas outras com que os arqueólogos se esforçam por iluminar as trevas
dos tempos pré-históricos, uma ‘estória mais ou menos’, como foi divertidamente
chamada por um crítico inglês sem maldade; porém essa hipótese para mim tem mérito
se se mostrar capaz de trazer coerência e compreensão a um número cada vez maior de
novas regiões.
        Os grupos humanos apresentam mais uma vez o quadro familiar de um
indivíduo de força superior em meio a um bando de companheiros iguais, quadro que
também é abarcado em nossa idéia da horda primeva.”

“A psicologia individual, pelo contrário, deve ser tão antiga quanto a psicologia de
grupo, porque, desde o princípio, houve dois tipos de psicologia, a dos membros
individuais do grupo e a do pai, chefe ou líder. Os membros do grupo achavam-se
sujeitos a vínculos, tais como os que percebemos atualmente; o pai da horda primeva,
porém, era livre. Os atos intelectuais deste eram fortes e independentes, mesmo no
isolamento, e sua vontade não necessitava do reforço de outros. A congruência leva-nos
a presumir que seu ego possuía poucos vínculos libidinais; ele não amava ninguém, a
não ser a si próprio, ou a outras pessoas, na medida em que atendiam às suas
necessidades. Aos objetos, seu ego não dava mais que o estritamente necessário.
        Ele, no próprio início da história da humanidade, era o ‘super-homem’ que
Nietzsche somente esperava do futuro. Ainda hoje os membros de um grupo
permanecem na necessidade da ilusão de serem igual e justamente amados por seu líder;
ele próprio, porém, não necessita amar ninguém mais, pode ser de uma natureza
dominadora, absolutamente narcisista, autoconfiante e independente. Sabemos que o
amor impõe um freio ao narcisismo, e seria possível demonstrar como, agindo dessa
maneira, ele se tornou um fator de civilização.
       O pai primevo da horda não era ainda imortal, como posteriormente veio a ser,
pela deificação. Se morria, tinha de ser substituído; seu lugar era provavelmente tomado
por um filho mais jovem, que até então fora um membro do grupo, como qualquer
outro. Deve existir, portanto, uma possibilidade de transformar a psicologia de grupo
em psicologia individual; há que descobrir uma condição sob a qual tal transformação
seja facilmente realizada, como é possível às abelhas transformarem, em caso de
necessidade, uma larva numa rainha em lugar de uma operária. Pode-se imaginar apenas
uma possibilidade: o pai primevo impedira os filhos de satisfazer seus impulsos
diretamente sexuais; forçara-os à abstinência e, conseqüentemente, aos laços
emocionais com ele e uns com os outros, que poderiam surgir daqueles de seus
impulsos antes inibidos em seu objetivo sexual. Ele os forçara, por assim dizer, à
psicologia de grupo. Seu ciúme e intolerância sexual tornaram-se, em última análise, as
causas da psicologia de grupo.”

“Vimos que, com o exército e a Igreja, esse artifício é a ilusão de que o líder ama todos
os indivíduos de modo igual e justo. Mas isso constitui apenas uma remodelação
idealística do estado de coisas na horda primeva, onde todos os filhos sabiam que eram
igualmente perseguidos pelo pai primevo e o temiam igualmente. Essa mesma
remoldagem sobre a qual todos os deveres sociais se erguem, já se acha pressuposta
pela forma seguinte da sociedade humana, o clã totêmico.”


XII - PÓS-ESCRITO (RESUMO)

“O desenvolvimento da libido nas crianças familiarizou-nos com o primeiro, mas
também o melhor, exemplo de instintos sexuais inibidos em seus objetivos. Todos os
sentimentos que uma criança tem para com os pais e para com aqueles que cuidam dela
transformam-se, por uma fácil transição, em desejos que dão expressão aos impulsos
sexuais da criança. Ela reivindica desses objetos de seu amor todos os sinais de afeição
que conhece; quer beijá-los, tocá-los e olhá-los; tem curiosidade de ver seus órgãos
genitais e estar com eles quando realizam suas funções excretórias íntimas; promete
casar-se com a mãe ou com a babá, não importa o que entenda por casamento; propõe-
se a si mesma ter um filho do pai etc. A observação direta, bem como a subseqüente
investigação analítica dos resíduos da infância, não deixa dúvidas quanto à completa
fusão de sentimentos ternos e ciumentos e de intenções sexuais, mostrando-nos de que
maneira fundamental a criança faz da pessoa que ama o objeto de todas as suas
tendências sexuais, ainda não corretamente centradas.
        Essa primeira configuração do amor da criança, que nos casos típicos toma a
forma do complexo de Édipo, sucumbe, tanto quanto sabemos a partir do começo do
período de latência, a uma onda de repressão. O que resta dela apresenta-se como um
laço emocional puramente afetuoso, referente às mesmas pessoas; porém, não mais
pode ser descrito como ‘sexual’. A psicanálise, que ilumina as profundezas da vida
mental, não tem dificuldade em demonstrar que os vínculos sexuais dos primeiros anos
da infância também persistem, embora reprimidos e inconscientes. (...). Uma psicologia
que não penetre ou não possa penetrar nas profundezas do que é reprimido, considera os
laços emocionais afetuosos como sendo invariavelmente a expressão de impulsos que
não possuem objetivo sexual, ainda que derivem de impulsos com esse fim. Temos
justificativa para dizer que eles foram desviados desses fins sexuais, embora exista certa
dificuldade de fornecer uma descrição de um desvio de objetivo assim, que se adapte às
exigências da metapsicologia. Ademais, esses instintos inibidos em seus objetivos
conservam alguns de seus objetivos sexuais originais; mesmo um devoto afetuoso,
mesmo um amigo ou um admirador, desejam a proximidade física e a visão da pessoa
que é agora amada apenas no sentido ‘paulino’. Se preferirmos, podemos identificar
nesse desvio de objetivo um início da sublimação dos instintos sexuais ou, por outro
lado, podemos fixar os limites da sublimação em algum ponto mais distante. Esses
instintos sexuais inibidos em seus objetivos possuem uma grande vantagem funcional
sobre os desinibidos. Desde que não são capazes de satisfação realmente completa,
acham-se especialmente aptos a criar vínculos permanentes, ao passo que os instintos
diretamente sexuais incorrem numa perda de energia sempre que se satisfazem e têm de
esperar serem renovados por um novo acúmulo de libido sexual; assim, nesse meio
tempo, o objeto pode ter-se alterado. Os instintos inibidos são capazes de realizar
qualquer grau de mescla com os desinibidos; podem ser novamente transformados em
desinibidos, exatamente como deles se originaram. É bem conhecido com que facilidade
se desenvolvem desejos eróticos a partir de relações emocionais de caráter amistoso,
baseadas na apreciação e na admiração (compare-se o ‘Beije-me pelo amor do grego’,
de Molière), entre professor e aluno, recitalista e ouvinte deliciada, especialmente no
caso das mulheres. Na realidade, o crescimento de laços emocionais desse tipo, com
seus começos despropositados, fornece uma via muito freqüentada para a escolha sexual
de objeto.”

“Naturalmente não ficaremos surpresos ao ouvir que os impulsos sexuais inibidos em
seus objetivos se originam daqueles diretamente sexuais quando obstáculos internos ou
externos tornam inatingíveis os objetivos sexuais. A repressão durante o período de
latência é um obstáculo interno desse tipo, ou melhor, um obstáculo que se tornou
interno. Presumimos que o pai da horda primeva, devido à sua intolerância sexual,
compeliu todos os filhos à abstinência, forçando-os assim a laços inibidos em seus
objetivos, enquanto reservava para si a liberdade de gozo sexual, permanecendo, desse
modo, sem vínculos. Todos os vínculos de que um grupo depende têm o caráter de
instintos inibidos em seus objetivos.”

“Existem abundantes indicações de que o estado de estar amando só fez seu
aparecimento tardiamente nas relações sexuais entre homens e mulheres, de maneira
que a oposição entre amor sexual e vínculos grupais constitui também um
desenvolvimento tardio. Ora, pode parecer que essa pressuposição seja incompatível
com nosso mito da família primeva, pois, afinal de contas, por seu amor pelas mães e
irmãs a turba de irmãos, conforme supomos, foi levada ao parricídio, sendo difícil
imaginar esse amor como algo que não fosse indiviso e primitivo, isto é, como uma
união íntima do afetuoso e do sensual. Uma consideração mais atenta, entretanto,
transforma essa objeção à nossa teoria em confirmação dela. Uma das reações ao
parricídio foi, em última análise, a instituição da exogamia totêmica, a proibição de
qualquer relação sexual com aquelas mulheres da família que haviam sido ternamente
amadas desde a infância. Desse modo, enfiou-se uma cunha entre os sentimentos
afetuosos e sensuais do homem, que, atualmente, ainda se acha firmemente fixada em
sua vida erótica. Em resultado dessa exogamia, as necessidades sensuais dos homens
tiveram de ser satisfeitas com mulheres estranhas e não amadas.”
“Pode-se dizer que uma neurose tem sobre o grupo o mesmo efeito desintegrador que o
estado de estar amando. Por outro lado, parece que onde foi dado um poderoso ímpeto à
formação de grupo, as neuroses podem diminuir ou, pelo menos temporariamente,
desaparecer. Justificáveis tentativas foram feitas para situar esse antagonismo entre as
neuroses e as formações de grupo a serviço da terapêutica. Mesmo os que não lamentam
o desaparecimento das ilusões religiosas do mundo civilizado de hoje, admitem que,
enquanto estiveram em vigor, ofereceram aos que a elas se achavam presos a mais
poderosa proteção contra o perigo da neurose. Tampouco é difícil discernir que todos os
vínculos que ligam as pessoas a seitas e comunidades místico-religiosas ou filosófico-
religiosas, são expressões de curas distorcidas de todos os tipos de neuroses. Tudo isso
se correlaciona com o contraste entre os impulsos diretamente sexuais e os inibidos em
seus objetivos.”




                                     O ego e o Id
                                           e
                                   outros trabalhos

                                    VOLUME XIX
                                     (1923-1925)

O EGO E O ID (1923)


UMA BREVE DESCRIÇÃO DA PSICANÁLISE


“Pode-se dizer que a psicanálise nasceu com o século XX, pois a publicação em que ela
emergiu perante o mundo como algo novo — A Interpretação de Sonhos — traz a data
‘1900’. Porém, como bem se pode supor, ela não caiu pronta dos céus. Teve seu ponto
de partida em idéias mais antigas, que ulteriormente desenvolveu; originou-se de
sugestões anteriores, as quais elaborou. Qualquer história a seu respeito deve, portanto,
começar por uma descrição das influências que determinaram sua origem, e não
desprezar a época e as circunstâncias que precederam sua criação.
A psicanálise cresceu num campo muitíssimo restrito. No início, tinha apenas um único
objetivo — o de compreender algo da natureza daquilo que era conhecido como
doenças nervosas ‘funcionais’, com vistas a superar a impotência que até então
caracterizara seu tratamento médico. Os neurologistas daquele período haviam sido
instruídos a terem um elevado respeito por fatos químico-físicos e patológico-
anatômicos e estavam ultimamente sob a influência dos achados de Hitzig e Fritsch, de
Ferrier, Goltz e outros, que pareciam ter estabelecido uma vinculação íntima e
possivelmente exclusiva entre certas funções e partes específicas do cérebro. Eles não
sabiam o que fazer do fator psíquico e não podiam entendê-lo. Deixavam-no aos
filósofos, aos místicos e — aos charlatães; e consideravam não científico ter qualquer
coisa a ver com ele. Por conseguinte, não podiam encontrar qualquer abordagem aos
segredos das neuroses, e, em particular, da enigmática ‘histeria’, que, na verdade, era o
protótipo de toda a espécie. Já em 1885, quando eu estava estudando na Salpêtrière,
descobri que as pessoas se contentavam em explicar as paralisias histéricas através de
uma fórmula que asseverava serem elas fundadas em ligeiros distúrbios funcionais das
mesmas partes do cérebro que, quando gravemente danificadas, levavam às paralisias
orgânicas correspondentes.”

“A guinada decisiva foi dada na década de 1880, quando os fenômenos do hipnotismo
fizeram mais uma tentativa de buscar admissão à ciência médica — dessa vez com mais
sucesso do que tantas vezes antes, graças ao trabalho de Liébeault, Bernheim,
Heidenhain e Forel. O essencial foi ter sido reconhecida a genuinidade desses
fenômenos. Uma vez isso admitido, duas lições fundamentais e inesquecíveis não
podiam deixar de ser extraídas do hipnotismo. Em primeiro lugar, recebia-se prova
convincente de que notáveis mudanças somáticas afinal de contas podiam ser
ocasionadas unicamente por influências mentais, as quais, nesse caso, nós próprios
tínhamos colocado em movimento. Em segundo, recebia-se a impressão mais clara —
especialmente do comportamento dos indivíduos após a hipnose — da existência de
processos mentais que só se poderia descrever como ‘inconscientes’. O ‘inconsciente’, é
verdade, há muito tempo estivera sob discussão entre os filósofos como conceito
teórico, mas agora, pela primeira vez, nos fenômenos do hipnotismo ele se tornava algo
concreto, tangível e sujeito a experimentação. Independentemente de tudo isso, os
fenômenos hipnóticos mostravam uma semelhança inequívoca com as manifestações de
algumas neuroses.
Não é fácil superestimar a importância do papel desempenhado pelo hipnotismo na
história da origem da psicanálise. Tanto de um ponto de vista teórico quanto terapêutico
a psicanálise teve às suas ordens um legado que herdou do hipnotismo.”

“O fator decisivo, (...), foi a experiência de um médico vienense, o Dr. Josef Breuer. Em
1881, independentemente de qualquer influência externa, ele pôde, com o auxílio da
hipnose, estudar e restituir à saúde uma jovem muito bem dotada que sofria de histeria.
Os achados de Breuer não foram comunicados ao público senão quinze anos mais tarde,
após ele haver tomado por colaborador o presente autor (Freud).”

“O método catártico foi o precursor imediato da psicanálise, e, apesar de toda a
ampliação da experiência e toda modificação da teoria, ainda está nela contido como seu
núcleo. Ele, porém, não era mais que um novo procedimento médico para influenciar
certas doenças nervosas e nada sugeria que se pudesse tornar tema para o interesse mais
geral e para a contradição mais violenta.
Logo após a publicação de Estudos sobre a Histeria, a associação entre Breuer e Freud
terminou. Breuer, que na realidade era consultor em medicina interna, abandonou o
tratamento de pacientes nervosos e Freud dedicou-se ao aperfeiçoamento ulterior do
instrumento que lhe deixara seu colaborador mais idoso. As novidades técnicas que
introduziu e as descobertas que efetuou transformaram o método catártico em
psicanálise. O passo mais momentoso foi sem dúvida sua determinação de passar sem a
assistência da hipnose em seu procedimento técnico. Procedeu assim por duas razões:
em primeiro lugar porque, apesar de um curso de instrução com Bernheim em Nancy,
ele não conseguia induzir a hipnose em um número suficiente de casos, e, em segundo,
porque estava insatisfeito com os resultados terapêuticos da catarse baseada na hipnose.
É verdade que esses resultados eram notáveis e apareciam após um tratamento de curta
duração, porém demonstravam não serem permanentes e dependerem demais das
relações pessoais do paciente com o médico. O abandono da hipnose causou uma brecha
no curso do desenvolvimento do procedimento até então e significou um novo começo.
A hipnose, contudo, desempenhara o serviço de restituir à lembrança do paciente aquilo
que ele havia esquecido. Era necessário encontrar alguma outra técnica para substituí-la
e a Freud ocorreu a idéia de colocar em seu lugar o método da ‘associação livre’.”

“Um conflito entre dois grupos de tendências mentais deve ser encarado como o
fundamento para a repressão, e, por conseguinte, como a causa de toda enfermidade
neurótica. E aqui a experiência nos ensinou um fato novo e surpreendente sobre a
natureza das forças que estiveram lutando uma contra a outra. A repressão
invariavelmente procedia da personalidade consciente da pessoa enferma (seu ego) e
baseava-se em motivos estéticos e éticos; os impulsos sujeitos à repressão eram os do
egoísmo e da crueldade, que em geral podem ser resumidos como o mal, porém, acima
de tudo, impulsos desejosos sexuais, freqüentemente da espécie mais grosseira e
proibida. Assim, os sintomas constituíam um substituto para satisfações proibidas e a
moléstia parecia corresponder a uma subjugação incompleta do lado imoral dos seres
humanos.
O progresso em conhecimento tornou ainda mais claro o enorme papel desempenhado
na vida mental pelos impulsos desejosos sexuais, e levou a um estudo pormenorizado da
natureza e desenvolvimento do instinto sexual. Também deparamos, porém, com outro
achado puramente empírico, na descoberta de que as experiências e conflitos dos
primeiros anos da infância representam uma parte insuspeitadamente importante no
desenvolvimento do indivíduo e deixam atrás de si disposições indeléveis que se abatem
sobre o período da maturidade. Isso nos trouxe à revelação de algo que até então fora
fundamentalmente negligenciado pela ciência — a sexualidade infantil, que, da mais
tenra idade em diante, se manifesta tanto em reações físicas quanto em atitudes
mentais.”

“Após a hipnose ter sido substituída pela técnica da associação livre, o procedimento
catártico de Breuer transformou-se em psicanálise, que por mais de uma década foi
desenvolvida pelo autor (Freud), sozinho. Durante esse tempo ela gradativamente
adquiriu uma teoria que parecia fornecer uma descrição satisfatória da origem,
significado e propósito dos sintomas neuróticos, e proporcionava uma base racional
para tentativas médicas de curar a queixa. Mais uma vez enumerei os fatores que
contribuem para a constituição dessa teoria. São eles: ênfase na vida instintual
(afetividade), na dinâmica mental, no fato de que mesmo os fenômenos mentais
aparentemente mais obscuros e arbitrários possuem invariavelmente um significado e
uma causação, a teoria do conflito psíquico e da natureza patogênica da repressão, a
visão de que os sintomas constituem satisfações substitutas, o reconhecimento da
importância etiológica da vida sexual, e especificamente, dos primórdios da sexualidade
infantil. De um ponto de vista filosófico, essa teoria estava fadada a adotar a opinião de
que o mental não coincide com oconsciente, que os processos mentais são, em si
próprios, inconscientes e só se tornam conscientes pelo funcionamento de órgãos
especiais (instâncias ou sintomas). Para completar essa lista acrescentarei que entre as
atitudes afetivas da infância a complicada relação emocional das crianças com os pais
— o que é conhecido por complexo de Édipo — surgiu em proeminência. Ficou cada
vez mais claro que ele era o núcleo de todo caso de neurose, e no comportamento do
paciente para com seu analista surgiram certos fenômenos de sua transferência
emocional que vieram a ser de grande importância para a teoria e a técnica, do mesmo
modo.”

“A fórmula que, no fundo, melhor atende à essência do sonho é esta: o sonho é uma
realização (disfarçada) de um desejo (reprimido). O estudo do processo que transforma
o desejo latente realizado no sonho no conteúdo manifesto do sonho — processo
conhecido como ‘trabalho do sonho’ — ensinou-nos a maior parte do que sabemos
sobre a vida mental inconsciente.
Ora, o sonho não constitui um sintoma mórbido, mas é o produto de uma mente normal.
Os desejos que ele representa como realizados são os mesmos que aqueles reprimidos
nas neuroses. Os sonhos devem a possibilidade de sua gênese simplesmente à
circunstância favorável de a repressão, durante o estado de sono que paralisa o poder de
movimento do homem, ser mitigada na censura do sonho. Assim, prova-se que as
mesmas forças e os mesmos processos que se realizam entre elas operam tanto na vida
mental moral quanto na patológica.”

“Um círculo sempre crescente de alunos e adeptos se havia reunido em torno dele,
dedicando-se, em primeiro lugar, à difusão das teorias da psicanálise; depois,
ampliaram, suplementaram e conduziram essas teorias a maior profundidade. Com o
decorrer dos anos diversos desses defensores, como era inevitável, separaram-se,
tomaram seus próprios rumos, ou se transformaram em uma oposição que pareceu
ameaçar a continuidade do desenvolvimento da psicanálise. Entre 1911 e 1913, C. G.
Jung, em Zurique, e Alfred Adler, em Viena, produziram determinada agitação por suas
tentativas de dar novas interpretações aos fatos da análise e por seus esforços para um
desvio do ponto de vista analítico. Entretanto, viu-se logo que essas secessões não
haviam causado danos permanentes. O sucesso temporário que tenham atingido foi
facilmente explicável pela presteza da massa das pessoas em livrar-se da pressão das
exigências da psicanálise por qualquer caminho que se lhes pudesse abrir. A grande
maioria dos colaboradores permaneceu firme e continuou seu trabalho orientada pelas
linhas a eles indicadas.”

“Se as descobertas psicológicas obtidas dos sonhos fossem firmemente lembradas, só
outro passo era necessário antes que a psicanálise pudesse ser proclamada como a teoria
dos processos mentais mais profundos não diretamente acessíveis à consciência —
como uma ‘psicologia profunda’ —, e antes que pudesse ser aplicada a quase todas as
ciências mentais. Esse passo residia na transição da atividade mental de homens
individuais para as funções psíquicas de comunidades humanas e povos, isto é, da
psicologia individual para a de grupo, e muitas analogias surpreendentes nos impuseram
essa transição. Fora descoberto, por exemplo, que nos estratos profundos da atividade
mental inconsciente os contrários não se distinguem um do outro, mas são expressos
pelo mesmo elemento. Já em 1884, porém, Karl Abel, o filólogo, havia apresentado a
opinião (em seu ‘Über dem Gegensinn der Urworte’) de que as línguas mais antigas
que nos são conhecidas tratam os contrários da mesma maneira. Assim, o antigo
egípcio, por exemplo, tinha em primeira instância apenas uma palavra para designar
‘forte’ e ‘fraco’, e somente mais tarde os dois lados da antítese foram distinguidos por
ligeiras modificações. Mesmo nas línguas mais modernas claras relíquias de tais
significados antitéticos podem ser encontradas. Assim, em alemão, ‘Boden‘ [‘sótão’ ou
‘chão’] significa tanto a coisa mais alta quanto a mais baixa da casa; semelhantemente,
em latim, ‘altus‘ significa ‘alto’ e ‘profundo’. Portanto, a equivalência dos contrários
nos sonhos constitui um traço arcaico universal no pensamento humano.
Tomando um exemplo de outro campo, é impossível fugir à impressão da
correspondência perfeita que pode ser descoberta entre as ações obsessivas de certos
pacientes obsessivos e as observâncias religiosas dos crentes em todo o mundo. Certos
casos de neurose obsessiva na realidade se comportam como uma caricatura de uma
religião particular, de modo que é tentador assemelhar as religiões oficiais a uma
neurose obsessiva, que foi mitigada por se tornar universalizada. Essa comparação, que
sem dúvida é altamente objetável a todos os crentes, não obstante se mostrou
psicologicamente muito frutífera, pois a psicanálise logo descobriu no caso da neurose
obsessiva, quais são as forças que nela combatem entre si até seus conflitos encontrarem
expressão notável no cerimonial das ações obsessivas. Nada de semelhante era
suspeitado no caso do cerimonial religioso até que, remontando o sentimento religioso à
relação com o pai como sua raiz mais profunda, tornou-se possível apontar para uma
situação dinâmica análoga também nesse caso. Esse exemplo, ademais, pode advertir ao
leitor que mesmo em sua aplicação a campos não médicos a psicanálise não pode evitar
ferir preconceitos acalentados, aflorar sensibilidades profundamente enraizadas e
provocar assim inimizades de base essencialmente emocional.”

“Se deixarmos fora de cogitação impulsos internos pouco conhecidos, podemos dizer
que a principal força motivadora no sentido do desenvolvimento cultural do homem foi
a exigência externa real, que retirou dele a satisfação fácil de suas necessidades naturais
e o expôs a perigos imensos. Essa frustração externa o impeliu a uma luta com a
realidade, a qual findou parcialmente em uma adaptação a ela e, em parte, no controle
sobre ela; contudo também o impeliu a trabalhar e viver em comum com os de sua
espécie, e isso já envolvia uma renúncia de certo número de impulsos instintuais
impossíveis de ser socialmente satisfeitos. Com os avanços ulteriores da civilização
cresceram também as exigências da repressão. A civilização, afinal de contas, está
construída inteiramente sobre a renúncia ao instinto, e todo indivíduo, em sua jornada
da infância à maturidade, precisa, em sua própria pessoa, recapitular esse
desenvolvimento da humanidade a um estado de criteriosa resignação. A psicanálise
demonstrou que foram predominantemente, embora não exclusivamente, os impulsos
instintuais que sucumbiram a essa supressão cultural. Parte deles, contudo, apresenta a
característica valiosa de se permitirem ser desviados de seus objetivos imediatos e
colocar assim sua energia à disposição do desenvolvimento cultural, sob a forma de
tendências ‘sublimadas’. Outra parte, porém, persiste no inconsciente como desejos
insatisfeitos e pressiona por alguma satisfação, ainda que deformada.”

“E então, como terceiro argumento, a psicanálise nos demonstrou, para nosso crescente
assombro, o papel enormemente importante desempenhado pelo que é conhecido por
‘complexo de Édipo’ — isto é, a relação emocional de uma criança humana com seus
dois pais — na vida mental dos seres humanos. Nosso assombro se reduz quando
compreendemos ser o complexo de Édipo o correlativo psíquico de dois fatos
biológicos fundamentais: o longo período de dependência da criança humana e a
maneira notável pela qual sua vida sexual atinge um primeiro clímax do terceiro ao
quinto ano de vida, e depois, passado um período de inibição, reinicia-se na puberdade.
E aqui se fez a descoberta de que uma terceira parte extremamente séria da atividade
intelectual humana, a parte criadora das grandes instituições da religião, do direito, da
ética e de todas as formas de vida cívica, tem como seu objetivo fundamental capacitar
o indivíduo a dominar seu complexo de Édipo e desviar-lhe a libido de suas ligações
infantis para as ligações sociais que são enfim desejadas.”

“Se aceitarmos a distinção que recentemente propus, de dividir o aparelho psíquico em
um ego, voltado para o mundo externo e aparelhado com a consciência, e em um id
inconsciente, dominado por suas necessidades instintuais, então a psicanálise deve ser
descrita como uma psicologia do id (e de seus efeitos sobre o ego). Em cada campo do
conhecimento, portanto, ela só pode fazer contribuições, que requerem ser completadas
a partir da psicologia do ego. Se essas contribuições amiúde contêm a essência dos
fatos, isso apenas corresponde ao importante papel que, pode-se reivindicar, é
desempenhado em nossas vidas pelo inconsciente mental que por tanto tempo
permaneceu desconhecido.”

IV – AS DUAS CLASSES DE INSTINTOS

“Desenvolvi ultimamente uma visão dos instintos que sustentarei aqui e tomarei como
base de meus debates ulteriores. Segundo essa visão, temos de distinguir duas classes de
instintos, uma das quais, os instintos sexuais ou Eros, é, de longe, a mais conspícua e
acessível ao estudo. Ela abrange não apenas o instinto sexual desinibido propriamente
dito e os impulsos instintuais de natureza inibida quanto ao objetivo ou sublimada que
dele derivam, mas também o instinto autopreservativo, que deve ser atribuído ao ego e
que, no início de nosso trabalho analítico, tínhamos boas razões para contrastar com os
instintos objetais sexuais. A segunda classe de instintos não foi tão fácil de indicar; ao
final, viemos a reconhecer o sadismo como seu representante. Com base em
considerações teóricas, apoiadas pela biologia, apresentamos a hipótese de um instinto
de morte, cuja tarefa é conduzir a vida orgânica de volta ao estado inanimado; por outro
lado, imaginamos que Eros, por ocasionar uma combinação de conseqüências cada vez
mais amplas das partículas em que a substância viva se acha dispersa, visa a complicar a
vida e, ao mesmo tempo, naturalmente, a preservá-la. Agindo dessa maneira, ambos os
instintos seriam conservadores no sentido mais estrito da palavra, visto que ambos
estariam se esforçando para restabelecer um estado de coisas que foi perturbado pelo
surgimento da vida. O surgimento da vida seria, então, a causa da continuação da vida e
também, ao mesmo tempo, do esforço no sentido da morte. E a própria vida seria um
conflito e uma conciliação entre essas duas tendências. O problema da origem da vida
permaneceria cosmológico, e o problema do objetivo e propósito da vida seria
respondido dualisticamente. Segundo este ponto de vista, um processo fisiológico
especial (de anabolismo ou catabolismo) estaria associado a cada uma das duas classes
de instintos; ambos os tipos de instinto estariam ativos em toda partícula de substância
viva, ainda que em proporções desiguais, de maneira que determinada substância
poderia ser o principal representante de Eros.
A hipótese não lança qualquer luz sobre a maneira pela qual as duas classes de instintos
se fundem, misturam e ligam uma com a outra, mas que isso se realiza de modo regular
e de modo muito extensivo, constitui pressuposição indispensável à nossa concepção.
Parece que, em resultado da combinação de organismos unicelulares em formas
multicelulares de vida, o instinto de morte da célula isolada pode ser neutralizado com
sucesso e os impulsos destrutivos desviados para o mundo externo, mediante o auxílio
de um órgão especial. Esse órgão especial pareceria ser o aparelho muscular; e o
instinto de morte pareceria, então, expressar-se — ainda que, provavelmente, apenas em
parte — como um instinto de destruição dirigido contra o mundo externo e outros
organismos.”
“A ejeção das substâncias sexuais no ato sexual corresponde, em certo sentido, à
separação do soma e do plasma germinal. Isto explica a semelhança do estado que se
segue à satisfação sexual completa com o ato de morrer, e o fato de a morte coincidir
com o ato da cópula em alguns dos animais inferiores. Essas criaturas morrem no ato da
reprodução porque, após Eros ter sido eliminado através do processo de satisfação, o
instinto de morte fica com as mãos livres para realizar seus objetivos. Finalmente, como
vimos, o ego, sublimando um pouco da libido para si próprio e para seus propósitos,
auxilia o id em seu trabalho de dominar as tensões.”


                              Um estudo autobiográfico
                           Inibições, sintomas e ansiedade
                              A questão da análise leiga
                                  e outros trabalhos

                                    VOLUME XX
                                     (1925-1926)



A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA: CONVERSAÇÕES COM UMA PESSOA
IMPARCIAL


III
“O senhor deve recordar-se das palavras do nosso poeta-filósofo: ‘A fome e o amor [são
o que move o mundo].’ Incidentalmente, um par de forças formidáveis! Damos a essas
necessidades corporais, até onde representam uma instigação à atividade mental, o
nome de ‘Triebe‘ [instintos], uma palavra por cuja causa somos invejados por muitas
línguas modernas. Bem, esses instintos enchem o id: toda a energia do id, expressando-
o em breves palavras, se origina deles. Nem as forças do ego têm qualquer outra
origem; provêm daquelas do id. O que, então, desejam esses instintos? Satisfação —
isto é, o estabelecimento de situações nas quais as necessidades corporais possam ser
extintas. Uma diminuição da tensão da necessidade é sentido pelo nosso órgão da
consciência como agradável; um aumento dela logo é sentido como desprazer. Dessas
oscilações surge a série de sentimentos de prazer-desprazer, de acordo com a qual todo
o aparelho mental regula sua atividade. Nesse sentido falamos de uma ‘dominância do
princípio de prazer’.
Se as exigências instintuais do id não encontrarem satisfação alguma, surgem condições
intoleráveis. A experiência logo revela que essas situações só podem ser estabelecidas
mediante a ajuda do mundo externo. Nesse ponto a parte do id que está dirigida para o
mundo externo — o ego — começa a funcionar. Se toda a força impulsora que põe o
veículo em movimento for derivada do id, o ego, por assim dizer, se encarrega da
direção, sem a qual meta alguma pode ser alcançada. Os instintos no id pressionam por
satisfação imediata a todo custo, e dessa forma nada alcançam nem chegam mesmo a
acarretar dano apreciável. Constitui tarefa do ego resguardar-se contra tais
contratempos, para servir de medianeiro entre as reivindicações do id e as objeções do
mundo externo.”
“Uma neurose é assim o resultado de um conflito entre o ego e o id, no qual o ego se
envolveu porque, como revela uma investigação cuidadosa, ele deseja a todo custo reter
sua adaptabilidade em relação com o mundo externo real. A divergência verifica-se
entre o mundo externo e o id; e é porque o ego, leal a sua natureza mais íntima, toma o
partido do mundo externo que ele se torna envolvido num conflito com seu id. Mas
observe que o que cria o determinante da doença não é o fato desse conflito — pois
discordâncias dessa natureza entre a realidade e o id são inevitáveis, sendo uma das
principais tarefas do ego servir de mediador nelas —, mas a circunstância de o ego
haver feito uso do instrumento ineficiente de repressão para lidar com o conflito. Mas
isto por sua vez se deve ao fato de que o ego, na ocasião em que se incumbiu da tarefa,
era não desenvolvido e impotente. Todas as repressões decisivas se verificam na
primeira infância.”

“É fácil agora descrever nossa finalidade terapêutica. Tentamos restaurar o ego, livrá-lo
de suas restrições, e dar-lhe de volta o domínio sobre o ego (id? – grifo meu) que ele
perdeu devido às suas primeiras repressões. É para esse único fim que efetuamos a
análise, toda nossa técnica está dirigida para essa finalidade. Temos de procurar as
repressões que foram estabelecidas e instigar o ego a corrigi-las com nossa ajuda e a
lidar com os conflitos melhor do que mediante uma tentativa de fuga. Visto que essas
repressões pertencem bem aos primeiros anos da infância, o trabalho de análise nos leva
também de volta àquele período. Nosso caminho a essas situações de conflito, que na
maior parte foram esquecidas e que tentamos reviver na lembrança do paciente, nos é
mostrado pelos seus sintomas, sonhos e associações livres. Estes devem, contudo, ser
em primeiro lugar interpretados — traduzidos —, pois, sob a influência da psicologia do
id, assumiram formas de expressão estranhas à nossa compreensão. Podemos presumir
que quaisquer associações, pensamentos e lembranças que o paciente seja incapaz de
comunicar-nos sem lutas internas estão de alguma maneira vinculados ao material
reprimido ou são seus derivados. Ao estimular o paciente a desprezar suas resistências
relatando essas coisas, estamos educando seu ego a superar sua inclinação no sentido de
tentativas de fuga e a tolerar uma abordagem ao que é reprimido. No fim, se a situação
da repressão puder ser reproduzida com êxito em sua memória, sua obediência será
brilhantemente recompensada. Toda a diferença entre sua idade então e agora atua a seu
favor, e a coisa da qual seu ego infantil fugiu aterrorizado muitas vezes parecerá ao seu
ego adulto e fortalecido nada mais que uma brincadeira de criança.”

IV

“Dir-lhe-ei, então, que o fato mais notável sobre a vida sexual das crianças, segundo me
parece, passa por todo seu desenvolvimento mais amplo nos cinco primeiros anos de
vida. A partir desse ponto até a puberdade estende-se o que se conhece como período de
latência. Durante ele a sexualidade normalmente não avança mais; pelo contrário, os
anseios sexuais diminuem de vigor e são abandonadas e esquecidas muitas coisas que a
criança fazia e conhecia. Nesse período da vida, depois que a primeira eflorescência da
sexualidade feneceu, surgem atitudes do ego como a vergonha, a repulsa e a moralidade,
que estão destinadas a fazer frente à tempestade ulterior da puberdade e a alicerçar o
caminho dos desejos sexuais que se vão despertando. Esse ‘desencadeamento bifásico’,
como é denominado, da vida sexual muito tem a ver com a gênese das doenças
neuróticas. Parece ocorrer somente nos seres humanos, e talvez seja um dos
determinantes do privilégio humano de tornar-se neurótico. A pré-história da vida
sexual foi tão desprezada antes da psicanálise como, em outro setor, os antecedentes da
vida mental consciente. O senhor com razão suspeitará de que os dois estão intimamente
ligados.”

“Nada, contudo, merece mais atenção do que o fato de as crianças regularmente
dirigirem seus desejos sexuais para os seus parentes mais próximos — em primeiro
lugar, portanto, para o pai e a mãe, e depois para seus irmãos e irmãs. O primeiro objeto
do amor de um menino é sua mãe, e de uma menina seu pai (exceto até onde uma
disposição bissexual inata favorece a presença simultânea da atitude contrária). Sente-se
o outro genitor como um rival perturbador, e não infreqüentemente é encarado com
forte hostilidade. O senhor deve compreender-me bem. O que quero dizer não é que a
criança deseja ser tratada por seu genitor predileto simplesmente com a espécie de
afeição que nós adultos gostamos de considerar como a essência da relação pai-filho.
Não, a análise não nos deixa dúvida alguma de que os desejos da criança se estendem,
além de tal afeição, a tudo que compreendemos por satisfação sensual — até onde, vale
dizer, o permitem os poderes de imaginação da criança. É fácil ver que a criança jamais
adivinha os fatos reais das relações sexuais; ela os substitui por outras idéias oriundas
de sua própria experiência e sentimentos. Em geral seus desejos culminam na intenção
de dar à luz ou, de alguma maneira indefinível, de procriar um bebê. Também os
meninos, em sua ignorância, não se excluem do desejo de dar à luz uma criança. Damos
a toda essa estrutura mental a denominação de ‘complexo de Édipo’, segundo a
conhecida lenda grega. Com o término do período sexual inicial ele deve normalmente
ser abandonado, deve desintegrar-se radicalmente e ser transformado, estando os
resultados dessa transformação destinados a importantes funções na vida mental
ulterior. Mas em geral isso não se efetua de maneira bastante radical, caso em que a
puberdade acarreta uma revivescência do complexo, que pode ter graves
conseqüências.”

" Ao afirmar que a primeira escolha de uma criança é, para empregar o termo técnico,
uma escolha incestuosa, a análise sem dúvida mais uma vez fere os sentimentos mais
sagrados da humanidade, e pode muito bem estar preparada para uma quantidade
correspondente de descrença, contradição e ataque. E estes ela tem recebido com
abundância. Nada a tem danificado mais na abalizada opinião dos seus contemporâneos
do que sua hipótese do complexo de Édipo como uma estrutura universalmente
vinculada ao destino humano. O mito grego, incidentalmente, deve ter tido o mesmo
significado; mas a maioria dos homens hoje em dia, eruditos igualmente, prefere crer
que a Natureza estabeleceu em nós uma aversão inata como salvaguarda contra a
possibilidade de incesto.”

“A cosmologia, não menos que a genealogia de raças reais, está fundamentada no
incesto. Para que finalidade o senhor supõe que essas lendas foram criadas? Para
estigmatizar deuses e reis como criminosos? para imputar-lhes a repulsa da raça
humana? De preferência, por certo, porque os desejos incestuosos constituem um legado
humano primordial e jamais foram plenamente superados, de modo que sua realização
ainda era concedida aos deuses e aos seus descendentes quando a maioria dos seres
humanos comuns já era obrigada a renunciar a tais desejos. Está em completa harmonia
com essas lições da história e da mitologia o fato de encontrarmos desejos ainda
presentes a atuantes na infância do indivíduo.”

“‘O quê? O senhor submeteu criancinhas à análise? crianças com menos de seis anos?
isso pode ser feito? E não é muito arriscado para as crianças?
Pode muito bem ser feito. Quase não se pode acreditar no que se passa numa criança de
quatro ou cinco anos de idade. As crianças têm uma mente muito ativa nessa idade; seu
período sexual prematuro é também um período de florescimento intelectual. Tenho a
impressão de que com o início do período de latência elas se tornam mentalmente
inibidas também, mais estúpidas. Também a partir dessa época muitas crianças perdem
seu encanto físico. E, no tocante ao dano causado pela análise prematura, posso
informar-lhe que a primeira criança na qual se aventurou o primeiro experimento, há
quase vinte anos, desde então se desenvolveu num jovem saudável e capaz, que
atravessou a puberdade de maneira irrepreensível, apesar de alguns graves traumas
psíquicos. Talvez seja de se esperar que as coisas não sejam piores para as outras
‘vítimas’ da análise prematura. Muito daquilo que é de interesse está ligado a essas
análises infantis; é possível que no futuro elas se tornem ainda mais importantes. Do
ponto de vista da teoria, seu valor é indubitável, proporcionando informações
destituídas de ambigüidade sobre problemas que permanecem insolúveis nas análises de
adultos; e dessa forma protegem o analista de erros que poderiam ter para ele
conseqüências graves. Surpreendemos os fatores que levam à formação de uma neurose
enquanto se acham realmente em ação e não podemos então confundi-los. No interesse
da criança, é verdade, a influência analítica deve ser combinada com medidas
educacionais. A técnica ainda tem de receber sua confirmação. Mas o interesse prático é
despertado pela observação de que grande número de nossas crianças passa por uma
fase claramente neurótica no curso de seu desenvolvimento. Visto termos aprendido a
observar com maior agudeza, somos tentados a afirmar que a neurose nas crianças não é
a exceção, mas a regra, como se ela quase não pudesse ser evitada na trilha desde a
disposição inata da infância até a sociedade civilizada. Na maioria dos casos essa fase
neurótica da infância é superada espontaneamente. Mas será que ela não pode também
regularmente deixar seus vestígios no adulto saudável comum? Por outro lado, naqueles
que se tornam neuróticos depois, nunca deixamos deencontrar elos com a doença na
infância, embora na época não tenha sido necessário ser muito observável. De forma
precisamente análoga os médicos hoje, creio, sustentam a opinião de que cada um de
nós passou por uma investida de tuberculose em sua infância. É verdade que no caso
das neuroses o fator de imunização não atua, mas somente o fator de predisposição.”

“Constitui um fato estranho que a parte regular e essencial dessa atividade sexual não
tenha sido desprezada. Ou antes, ela não é de forma alguma estranha, pois foi
impossível desprezá-la. Os impulsos sexuais das crianças encontram suas principais
expressões na autogratificação pela fricção de seus próprio órgãos genitais ou, mais
precisamente, da porção masculina deles. A distribuição extraordinariamente ampla
dessa forma de ‘travessura’ infantil sempre foi conhecida dos adultos, e foi considerada
como grave pecado e severamente punida. Mas, por favor, não me pergunte como as
pessoas podiam reconciliar essas observações das inclinações imorais das crianças —
porque as crianças o fazem, como elas próprias dizem, porque lhes dá prazer — com a
teoria de sua pureza e não-sensualidade inatas. O senhor tem de fazer com que nossos
adversários solucionem esse enigma. Nós temos um problema mais importante diante
de nós. Que atitude devemos adotar em relação à atividade sexual da primeira infância?
Sabemos a responsabilidade na qual estamos incorrendo se a suprimirmos; mas não nos
aventuramos a deixá-la seguir seu curso sem restrição. Entre as raças num baixo nível
de civilização, e entre as camadas inferiores das raças civilizadas, a sexualidade das
crianças parece ter recebido livre rédea. Isso provavelmente oferece poderosa proteção
contra o subseqüente desenvolvimento de neuroses no indivíduo. Mas isso ao mesmo
tempo não envolve uma extraordinária perda de aptidão para realizações culturais?”
O futuro de uma ilusão
O mal estar na civilização
E outros trabalhos

VOLUME XXI
(1927-1931)

O FUTURO DE UMA ILUSÃO

I

“A civilização humana, expressão pela qual quero significar tudo aquilo em que a vida
humana se elevou acima de sua condição animal e difere da vida dos animais — e
desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização —, apresenta, como sabemos, dois
aspectos ao observador. Por um lado, inclui todo o conhecimento e capacidade que o
homem adquiriu com o fim de controlar as forças da natureza e extrair a riqueza desta
para a satisfação das necessidades humanas; por outro, inclui todos os regulamentos
necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros e, especialmente, a
distribuição da riqueza disponível. As duas tendências da civilização não são
independentes uma da outra; em primeiro lugar, porque as relações mútuas dos homens
são profundamente influenciadas pela quantidade de satisfação instintual que a riqueza
existente torna possível; em segundo, porque, individualmente, um homem pode, ele
próprio, vir a funcionar como riqueza em relação a outro homem, na medida em que a
outra pessoa faz uso de sua capacidade de trabalho ou o escolha como objeto sexual; em
terceiro, ademais, porque todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização, embora
se suponha que esta constitui um objeto de interesse humano universal. É digno de nota
que, por pouco que os homens sejam capazes de existir isoladamente, sintam, não
obstante, como um pesado fardo os sacrifícios que a civilização deles espera, a fim de
tornar possível a vida comunitária. A civilização, portanto, tem de ser defendida contra
o indivíduo, e seus regulamentos, instituições e ordens dirigem-se a essa tarefa. Visam
não apenas a efetuar uma certa distribuição da riqueza, mas também a manter essa
distribuição; na verdade, têm de proteger contra os impulsos hostis dos homens tudo o
que contribui para a conquista da natureza e a produção de riqueza. As criações
humanas são facilmente destruídas, e a ciência e a tecnologia, que as construíram,
também podem ser utilizadas para sua aniquilação.”

“Pensar-se-ia ser possível um reordenamento das relações humanas, que removeria as
fontes de insatisfação para com a civilização pela renúncia à coerção e à repressão dos
instintos, de sorte que, imperturbados pela discórdia interna, os homens pudessem
dedicar-se à aquisição da riqueza e à sua fruição. Essa seria a idade de ouro, mas é
discutível se tal estado de coisas pode ser tornado realidade. Parece, antes, que toda
civilização tem de se erigir sobre a coerção e a renúncia ao instinto; sequer parece certo
se, caso cessasse a coerção, a maioria dos seres humanos estaria preparada para
empreender o trabalho necessário à aquisição de novas riquezas. Acho que se tem de
levar em conta o fato de estarem presentes em todos os homens tendências destrutivas e,
portanto, anti-sociais e anticulturais, e que, num grande número de pessoas, essas
tendências são suficientemente fortes para determinar o comportamento delas na
sociedade humana.
Esse fato psicológico tem importância decisiva para nosso julgamento da civilização
humana. Onde, a princípio, poderíamos pensar que sua essência reside no controle da
natureza para o fim de adquirir riqueza, e que os perigos que a ameaçam poderiam ser
eliminados por meio de uma distribuição apropriada dessa riqueza entre os homens,
parece agora que a ênfase se deslocou do material para o mental. A questão decisiva
consiste em saber se, e até que ponto, é possível diminuir o ônus dos sacrifícios
instintuais impostos aos homens, reconciliá-los com aqueles que necessariamente
devem permanecer e fornecer-lhes uma compensação.”

“II
Deslizamos, sem nos darmos conta, do campo econômico para o da psicologia. A
princípio, ficamos tentados a procurar as vantagens da civilização na riqueza disponível
e nos regulamentos para sua distribuição. Entretanto, com o reconhecimento de que toda
civilização repousa numa compulsão a trabalhar e numa renúncia ao instinto,
provocando, portanto, inevitavelmente, a oposição dos atingidos por essas exigências,
tornou-se claro que a civilização não pode consistir, principal ou unicamente na própria
riqueza, nos meios de adquiri-la e nas disposições para sua distribuição, de uma vez que
essas coisas são ameaçadas pela rebeldia e pela mania destrutiva dos participantes da
civilização. Junto com a riqueza deparamo-nos agora com os meios pelos quais a
civilização pode ser defendida: medidas de coerção e outras, que se destinam a
reconciliar os homens com ela e a recompensá-los por seus sacrifícios. Estas últimas
podem ser descritas como as vantagens mentais da civilização.
Em benefício de uma terminologia uniforme, descreveremos como ‘frustração’ o fato de
um instinto não poder ser satisfeito, como ‘proibição’ o regulamento pelo qual essa
frustração é estabelecida, e como ‘privação’ a condição produzida pela proibição. O
primeiro passo consiste em distinguir entre privações que afetam a todos e privações
que não afetam a todos, mas apenas a grupos, classes ou mesmo indivíduos isolados. As
primeiras são as mais antigas; com as proibições que as estabeleceram, a civilização —
quem sabe há quantos milhares de anos? — começou a separar o homem de sua
condição animal primordial. Para nossa surpresa, descobrimos que essas privações
ainda são operantes e ainda constituem o âmago da hostilidade para com a civilização.
Os desejos instintuais que sob elas padecem, nascem de novo com cada criança; há uma
classe de pessoas, os neuróticos, que reagem a essas frustrações através de um
comportamento associal. Entre esses desejos instintuais encontram-se os do
canibalismo, do incesto e da ânsia de matar. Soa estranho colocar lado a lado desejos
que todos parecem unânimes em repudiar e desejos sobre os quais existe tão vívida
disputa em nossa civilização quanto a sua permissão ou frustração; psicologicamente,
porém, é justificável proceder assim. Tampouco, de modo algum é uniforme a atitude da
civilização para com esses antigos desejos instintuais. Apenas o canibalismo parece ser
universalmente proscrito e — para a opinião não psicanalítica — ter sido
completamente dominado. A intensidade dos desejos incestuosos ainda pode ser
detectada por detrás da proibição contra eles, e, sob certas condições, o matar ainda é
praticado, e, na verdade, ordenado, por nossa civilização. É possível que ainda
tenhamos pela frente desenvolvimentos culturais em que a satisfação de outros desejos,
inteiramente permissíveis hoje, parecerá tão inaceitável quanto, atualmente, o
canibalismo.”

“Não é verdade que a mente humana não tenha passado por qualquer desenvolvimento
desde os tempos primitivos e que, em contraste com os avanços da ciência e da
tecnologia, seja hoje a mesma que era nos primórdios da história. Podemos assinalar de
imediato um desses progressos mentais. Acha-se em consonância com o curso do
desenvolvimento humano que a coerção externa se torne gradativamente internalizada,
pois um agente mental especial, o superego do homem, a assume e a inclui entre seus
mandamentos. Toda criança nos apresenta esse processo de transformação; é só por esse
meio que ela se torna um ser moral e social. Esse fortalecimento do superego constitui
uma vantagem cultural muito preciosa no campo psicológico. Aqueles em que se
realizou são transformados de opositores em veículos da civilização. Quanto maior é o
seu número numa unidade cultural, mais segura é a sua altura e mais ela pode passar
sem medidas externas de coerção. Ora, o grau dessa internalização difere grandemente
entre as diversas proibições instintuais. Com referência às primeiras exigências
culturais, que já mencionei, a internalização parece ter sido amplamente conseguida, se
não levarmos em conta a exceção desagradável dos neuróticos. Contudo, o caso se
altera quando nos voltamos para as outras reivindicações instintuais. Aqui observamos
com surpresa e preocupação que a maioria das pessoas obedece às proibições culturais
nesses pontos apenas sob pressão da coerção externa, isto é, somente onde essa coerção
pode fazer-se efetiva e enquanto deve ser temida. Isso também é verdade quanto ao que
é conhecido como sendo as exigências morais da civilização, que, do mesmo modo, se
aplicam a todos. A maioria das experiências que se tem da infidedignidade moral do
homem ocorre nessa categoria. Há incontáveis pessoas civilizadas que se recusam a
cometer assassinato ou a praticar incesto, mas que não se negam a satisfazer sua
avareza, seus impulsos agressivos ou seus desejos sexuais, e que não hesitam em
prejudicar outras pessoas por meio da mentira, da fraude e da calúnia, desde que possam
permanecer impunes; isso, indubitavelmente, foi sempre assim através de muitas épocas
da civilização.”

“III
Em que reside o valor peculiar das idéias religiosas?
Já falamos da hostilidade para com a civilização, produzida pela pressão que esta
exerce, pelas renúncias do instinto que exige. Se se imaginarem suspensas as suas
proibições — se, então, se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objeto sexual;
se fosse possível matar sem hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se
colocasse no caminho, e se, também, se pudesse levar consigo qualquer dos pertences
de outro homem sem pedir licença—, quão esplêndida, que sucessão de satisfações seria
a vida! É verdade que logo nos deparamos com a primeira dificuldade: todos os outros
têm exatamente os mesmos desejos que eu, e não me tratarão com mais consideração do
que eu os trato. Assim, na realidade, só uma única pessoa se poderia tornar
irrestritamente feliz através de uma tal remoção das restrições da civilização, e essa
pessoa seria um tirano, um ditador, que se tivesse apoderado de todos os meios de
poder. E mesmo ele teria todos os motivos para desejar que os outros observassem pelo
menos um mandamento cultural: ‘não matarás’.
Mas quão ingrato, quão insensato, no fim das contas, é esforçar-se pela abolição da
civilização! O que então restaria seria um estado de natureza, muito mais difícil de
suportar. É verdade que a natureza não exigiria de nós quaisquer restrições dos instintos,
deixar-nos-ia proceder como bem quiséssemos; contudo, ela possui seu próprio método,
particularmente eficiente, de nos coibir. Ela nos destrói, fria, cruel e incansavelmente,
segundo nos parece, e, possivelmente, através das próprias coisas que ocasionaram
nossa satisfação. Foi precisamente por causa dos perigos com que a natureza nos
ameaça que nos reunimos e criamos a civilização, a qual também, entre outras coisas, se
destina a tornar possível nossa vida comunal, pois a principal missão da civilização, sua
raison d’être real, é nos defender contra a natureza.”
“Tal como para a humanidade em geral, também para o indivíduo a vida é difícil de
suportar. A civilização de que participa impõe-lhe uma certa quantidade de privação, e
outros homens lhe trazem outro tanto de sofrimento, seja apesar dos preceitos de sua
civilização, seja por causa das imperfeições dela. A isso se acrescentam os danos que a
natureza indomada — o que ele chama de Destino — lhe inflige. Poder-se-ia supor que
essa condição das coisas resultaria num permanente estado de ansiosa expectativa
presente nele e em grave prejuízo a seu narcisismo natural. Já sabemos como o
indivíduo reage aos danos que a civilização e os outros homens lhe infligem:
desenvolve um grau correspondente de resistência aos regulamentos da civilização e de
hostilidade para com ela. Mas, como se defende ele contra os poderes superiores da
natureza, do Destino, que o ameaçam da mesma forma que a tudo mais?
(...).Porque essa situação não é nova. Possui um protótipo infantil, de que, na realidade,
é somente a continuação. Já uma vez antes, nos encontramos em semelhante estado de
desamparo: como crianças de tenra idade, em relação a nossos pais. Tínhamos razões
para temê-los, especialmente nosso pai; contudo, estávamos certos de sua proteção
contra os perigos que conhecíamos. Assim, foi natural assemelhar as duas situações.
Aqui, também, o desejar desempenhou seu papel, tal como faz na vida onírica. Aquele
que dorme pode ser tomado por um pressentimento da morte, que ameaça colocá-lo no
túmulo. A elaboração onírica, porém, sabe como selecionar uma condição que
transformará mesmo esse temível evento uma realização de desejo: aquele que sonha
vê-se a si mesmo numa antiga sepultura etrusca a que desceu, feliz por satisfazer seus
interesses arqueológicos. Do mesmo modo, um homem transforma as forças da natureza
não simplesmente em pessoas com quem pode associar-se como com seus iguais —
pois isso não faria justiça à impressão esmagadora que essas forças causam nele —, mas
lhes concede o caráter de um pai. Transforma-as em deuses, seguindo nisso, como já
tentei demonstrar, não apenas um protótipo infantil, mas um protótipo filogenético.
No decorrer do tempo, fizeram-se as primeiras observações de regularidade e
conformidade à lei nos fenômenos naturais, e, com isso, as forças da natureza perderam
seus traços humanos. O desamparo do homem, porém, permanece e, junto com ele, seu
anseio pelo pai e pelos deuses. Estes mantêm sua tríplice missão: exorcizar os terrores
da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é
demonstrada na morte,e compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida
civilizada em comum lhes impôs.”

“Foi assim que se criou um cabedal de idéias, nascido da necessidade que tem o homem
de tornar tolerável seu desamparo, e construído com o material das lembranças do
desamparo de sua própria infância e da infância da raça humana. Pode-se perceber
claramente que a posse dessas idéias o protege em dois sentidos: contra os perigos da
natureza e do Destino, e contra os danos que o ameaçam por parte da própria sociedade
humana. Reside aqui a essência da questão. A vida neste mundo serve a um propósito
mais elevado; indubitavelmente, não é fácil adivinhar qual ele seja, mas decerto
significa um aperfeiçoamento da natureza do homem. É provavelmente a parte espiritual
deste, a alma, que, no decurso do tempo, tão lenta e relutantemente, se desprendeu do
corpo, que constitui o objeto desta elevação e exaltação. Tudo o que acontece neste
mundo constitui expressão das intenções de uma inteligência superior para conosco,
inteligência que, ao final, embora seus caminhos e desvios sejam difíceis de
acompanhar, ordena tudo para o melhor — isto é, torna-o desfrutável por nós. Sobre
cada um de nós vela uma Providência benevolente que só aparentemente é severa e que
não permitirá que nos tornemos um joguete das forças poderosas e impiedosas da
natureza. A própria morte não é uma extinção, não constitui um retorno ao inanimado
inorgânico, mas o começo de um novo tipo de existência que se acha no caminho da
evolução para algo mais elevado. E, olhando na outra direção, essa visão anuncia que as
mesmas leis morais que nossas civilizações estabeleceram, governam também o
universo inteiro, com a única diferença de serem mantidas por uma corte suprema de
justiça incomparavelmente mais poderosa e harmoniosa. Ao final, todo o bem é
recompensado e todo o mal, punido, se não na realidade, sob esta forma de vida, pelo
menos em existências posteriores que se iniciam após a morte. Assim, todos os terrores,
sofrimentos e asperezas da vida estão destinados a se desfazer. A vida após a morte, que
continua a vida sobre a terra exatamente como a parte invisível do espectro se une à
parte visível, nos conduz à perfeição que talvez tenhamos deixado de atingir aqui. E a
sabedoria superior que dirige esse curso das coisas, a bondade infinita que nela se
expressa, a justiça que nela atinge seu objetivo, são os atributos dos seres divinos que
também nos criaram, e ao mundo como um todo, ou melhor, de um ser divino no qual,
em nossa civilização, todos os deuses da Antiguidade foram condensados. O povo que
pela primeira vez alcançou êxito em concentrar assim os atributos divinos não ficou
pouco orgulhoso de seu progresso. Descerrara à vista o pai que sempre se achara oculto
por detrás de toda figura divina, como seu núcleo. Fundamentalmente, isso constituía
um retorno aos primórdios históricos da idéia de Deus. Agora que este era uma figura
isolada, as relações do homem com ele podiam recuperar a intimidade e a intensidade
do relacionamento do filho com o pai. Mas, já que se fizera tanto pelo próprio pai,
desejava-se obter uma recompensa, ou, pelo menos, ser o seu filho bem amado, o seu
Povo Escolhido. Muito mais tarde, a piedosa América reivindicou ser o ‘Próprio País de
Deus’, e, com referência a uma das formas pelas quais os homens adoram a divindade,
essa reivindicação é indubitavelmente válida.
As idéias religiosas acima resumidas naturalmente passaram por um longo processo de
desenvolvimento, e diversas civilizações a elas aderiram em diversas fases. Isolei uma
dessas fases que corresponde aproximadamente à forma final assumida por nossa atual
civilização branca e cristã.”

IV

“Em Totem e Tabu, não era meu propósito explicar a origem da religião, mas apenas do
totemismo. Poderá você (Freud havia criado um opositor fictício – grifo meu), segundo
qualquer dos pontos de vista que lhe são conhecidos, explicar o fato de que a primeira
forma pela qual a divindade protetora se revelou aos homens teve de ser a de um
animal, que tenha havido uma proibição contra matar e comer esse animal, e que, não
obstante, o costume solene tenha sido matá-lo e comê-lo comunalmente uma vez por
ano? É exatamente isso que acontece no totemismo. E dificilmente tem propósito
argumentar se o totemismo deve ser chamado de religião. Ele possui vinculações
estreitas com as posteriores religiões de deuses. Os animais totêmicos tornam-se os
animais sagrados dos deuses, e as mais antigas, mas fundamentais restrições morais —
as proibições contra o assassinato e o incesto — originam-se do totemismo. Aceite você
ou não as conclusões de Totem e Tabu, espero que admita que uma série de fatos
notáveis e desvinculados são nele reunidos num todo coerente.
A questão de saber por que, a longo prazo, o deus animal não bastou, e foi substituído
por um deus humano, mal foi abordada em Totem e Tabu, e outros problemas
concernentes à formação da religião não foram, de modo algum, mencionados no livro.
Considera você uma limitação desse tipo a mesma coisa que uma negação? Meu
trabalho constitui um bom exemplo do isolamento estrito da contribuição específica que
o exame psicanalítico pode efetuar quanto à solução do problema da religião. Se agora
estou tentando acrescentar a outra parte, menos profundamente oculta, acho que você
não deveria me acusar de estar me contradizendo, tal como antes me acusou de ser
unilateral. Naturalmente, é meu dever apontar os vínculos de união entre o que disse
antes e o que apresento agora, entre os motivos manifestos, entre o complexo paterno e
o desamparo e a necessidade de proteção do homem.”

“Você se recorda da escolha de objeto de acordo com o tipo anaclítico [ligação], de que
fala a psicanálise? A libido segue aí os caminhos das necessidades narcísicas e liga-se
aos objetos que asseguram a satisfação dessas necessidades. Desta maneira, a mãe, que
satisfaz a fome da criança, torna-se seu primeiro objeto amoroso e, certamente, também
sua primeira proteção contra todos os perigos indefinidos que a ameaçam no mundo
externo — sua primeira proteção contra a ansiedade, podemos dizer.
Nessa função [de proteção] a mãe é logo substituída pelo pai mais forte, que retém essa
posição pelo resto da infância. Mas a atitude da criança para com o pai é matizada por
uma ambivalência peculiar. O próprio pai constitui um perigo para a criança, talvez por
causa do relacionamento anterior dela com a mãe. Assim, ela o teme tanto quanto anseia
por ele e o admira. As indicações dessa ambivalência na atitude para com o pai estão
profundamente impressas em toda religião, tal como foi demonstrado em Totem e Tabu.
Quando o indivíduo em crescimento descobre que está destinado a permanecer uma
criança para sempre, que nunca poderá passar sem proteção contra estranhos poderes
superiores, empresta a esses poderes as características pertencentes à figura do pai; cria
para si próprio os deuses a quem teme, a quem procura propiciar e a quem, não
obstante, confia sua própria proteção. Assim, seu anseio por um pai constitui um motivo
idêntico à sua necessidade de proteção contra as conseqüências de sua debilidade
humana. É a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições
características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer — reação
que é, exatamente, a formação da religião. Mas não é minha intenção levar mais adiante
a investigação do desenvolvimento da idéia de Deus; aquilo em que aqui estamos
interessados é o corpo acabado das idéias religiosas, tal como transmitido pela
civilização ao indivíduo.”

V

“Devemos perguntar onde reside a força interior dessas doutrinas e a que devem sua
eficácia, independente, como é, do reconhecimento pela razão.
VI
Acho que preparamos suficientemente o caminho para uma resposta a ambas as
perguntas. Ela será encontrada se voltarmos nossa atenção para a origem psíquica das
idéias religiosas. Estas, proclamadas como ensinamentos, não constituem precipitados
de experiência ou resultados finais de pensamento: são ilusões, realizações dos mais
antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na
força desses desejos. Como já sabemos, a impressão terrificante de desamparo na
infância despertou a necessidade de proteção — de proteção através do amor —, a qual
foi proporcionada pelo pai; o reconhecimento de que esse desamparo perdura através da
vida tornou necessário aferrar-se à existência de um pai, dessa vez, porém, um pai mais
poderoso. Assim o governo benevolente de uma Providência divina mitiga nosso temor
dos perigos da vida; o estabelecimento de uma ordem moral mundial assegura a
realização das exigências de justiça, que com tanta freqüência permaneceram
irrealizadas na civilização humana; e o prolongamento da existência terrena numa vida
futura fornece a estrutura local e temporal em que essas realizações de desejo se
efetuarão. As respostas aos enigmas que tentam a curiosidade do homem, tais como a
maneira pela qual o universo começou ou a relação entre corpo e mente, são
desenvolvidas em conformidade com as suposições subjacentes a esse sistema.
Constitui alívio enorme para a psique individual se os conflitos de sua infância, que
surgem do complexo paterno — conflitos que nunca superou inteiramente —, são dela
retirados e levados a uma solução universalmente aceita.
Quando digo que todas essas coisas são ilusões, devo definir o significado da palavra.
Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro; tampouco é necessariamente um erro.”

“O que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos. Com
respeito a isso, aproximam-se dos delírios psiquiátricos, mas deles diferem também, à
parte a estrutura mais complicada dos delírios. No caso destes, enfatizamos como
essencial o fato de eles se acharem em contradição com a realidade. As ilusões não
precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis ou em contradição com a
realidade. Por exemplo, uma moça de classe média pode ter a ilusão de que um príncipe
aparecerá e se casará com ela. Isso é possível, e certos casos assim já ocorreram. Que o
Messias chegue e funde uma idade de ouro é muito menos provável. Classificar-se essa
crença como ilusão ou como algo análogo a um delírio dependerá da própria atitude
pessoal. Exemplos de ilusões que mostraram ser verdadeiras não são fáceis de
encontrar, mas a ilusão dos alquimistas de que todos os metais podiam ser
transformados em ouro poderia ser um deles. O desejo de possuir uma grande
quantidade de ouro, tanto ouro quanto possível, foi, é verdade, em grande parte
arrefecido por nosso conhecimento atual dos fatores determinantes da riqueza, mas a
química não mais encara a transmutação dos metais em ouro como impossível.
Podemos, portanto, chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo
constitui fator proeminente em sua motivação e, assim procedendo, desprezamos suas
relações com a realidade, tal como a própria ilusão não dá valor à verificação.”

“Havendo estabelecido desse modo nossas coordenadas, retornemos à questão das
doutrinas religiosas. Podemos agora repetir que todas elas são ilusões e insuscetíveis de
prova. Ninguém pode ser compelido a achá-las verdadeiras, a acreditar nelas. Algumas
são tão improváveis, tão incompatíveis com tudo que laboriosamente descobrimos sobre
a realidade do mundo, que podemos compará-las — se consideramos de forma
apropriada as diferenças psicológicas — a delírios. Do valor de realidade da maioria
delas não podemos ajuizar; assim como não podem ser provadas, também não podem
ser refutadas. Conhecemos ainda muito pouco para efetuar sua abordagem crítica. Os
enigmas do universo só lentamente se revelam à nossa investigação; existem muitas
questões a que a ciência atualmente não pode dar resposta. Mas o trabalho científico
constitui a única estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade externa a
nós mesmos. É, mais uma vez, simplesmente uma ilusão esperar qualquer coisa da
intuição e da introspecção; elas nada nos podem dar, a não ser detalhes sobre nossa
própria vida mental, detalhes difíceis de interpretar, nunca qualquer informação sobre as
perguntas que a doutrina religiosa acha tão fácil responder. Seria insolente permitir que
nossa própria vontade arbitrária ingressasse na questão e, de acordo com nossa
estimativa pessoal, declarasse esta ou aquela parte do sistema religioso como mais ou
menos aceitável. Tais questões são momentosas demais para isso; poderiam ser
chamadas de demasiadamente sagradas. Nesse ponto, é de esperar que se encontre uma
objeção. ‘Bem, então, se mesmos os céticos impenitentes admitem que as asserções da
religião não podem ser refutadas pela razão, por que não devo acreditar nelas, já que
possuem tanta coisa de seu lado — a tradição, a concordância da humanidade, e todas as
consolações que oferecem?’ De fato, por que não? Assim como ninguém pode ser
forçado a crer, também ninguém pode ser forçado a descrer. Mas não nos permitamos
ficar satisfeitos em nos enganarmos que argumentos desse tipo nos conduzirão pela
estrada do pensamento correto. Se algum dia já houve um exemplo de desculpa
esfarrapada, temo-lo aqui. Ignorância é ignorância; nenhum direito a acreditar em algo
pode ser derivado dela. Em outros assuntos, nenhuma pessoa sensata se comportaria tão
irresponsavelmente ou se contentaria com fundamentos tão débeis para suas opiniões e
para a posição que assume. É apenas nas coisas mais elevadas e sagradas que se permite
fazê-lo. Na realidade, trata-se apenas de tentativas de fingir para nós mesmos ou para
outras pessoas que ainda nos achamos firmemente ligados à religião, quando há muito
tempo já nos apartamos dela. Quanto a questões de religião, as pessoas são culpadas de
toda espécie possível de desonestidade e mau procedimento intelectual. Os filósofos
distendem tanto o sentido das palavras, que elas mal retêm algo de seu sentido original.
Dão o nome de ‘Deus’ a alguma vaga abstração que criaram para si mesmos e, assim,
podem posar perante todos como deístas, como crentes em Deus, e inclusive gabar-se de
terem identificado um conceito mais elevado e puro de Deus, não obstante significar seu
Deus agora nada mais que uma sombra sem substância, sem nada da vigorosa
personalidade das doutrinas religiosas. Os críticos insistem em descrever como
‘profundamente religioso’ qualquer um que admita uma sensação da insignificância ou
impotência do homem diante do universo, embora o que constitua a essência da atitude
religiosa não seja essa sensação, mas o passo seguinte, a reação que busca um remédio
para ela. O homem que não vai além, mas humildemente concorda com o pequeno papel
que os seres humanos desempenham no grande mundo, esse homem é, pelo contrário,
irreligioso no sentido mais verdadeiro da palavra.”

“VII
Tendo identificado as doutrinas religiosas como ilusões, somos imediatamente
defrontados por outra questão: não poderão ser de natureza semelhante outros
predicados culturais de que fazemos alta opinião e pelos quais deixamos nossas vidas
serem governadas? Não devem as suposições que determinam nossas regulamentações
políticas serem chamadas também de ilusões? E não acontece que, em nossa civilização,
as relações entre os sexos sejam perturbadas por ilusão erótica ou um certo número
dessas ilusões? E, uma vez despertada nossa suspeita, não nos esquivaremos de também
perguntar se nossa convicção de que podemos aprender algo sobre a realidade externa
pelo emprego da observação e do raciocínio no trabalho científico, possui um
fundamento melhor. Nada deveria impedir-nos de dirigir a observação para nossos
próprios eus e de aplicar o pensamento à crítica dele próprio. Nesse campo, uma série
de investigações se abre a nossa frente, cujos resultados não podem deixar de ser
decisivos para a construção de uma ‘Weltanschauung’. Imaginamos, ademais, que um
esforço desse tipo não seria vão e que, pelo menos em parte, justificaria nossas
suspeitas. O autor, porém, não dispõe dos meios para empreender tarefa tão abrangente;
necessita confinar seu trabalho ao seguimento de apenas uma dessas ilusões, a saber, a
da religião.”

“Aqui, a alta voz de nosso opositor nos interrompe. É-nos exigido que expliquemos
nossa má ação:
‘Os interesses arqueológicos são, indubitavelmente, bastante dignos de elogios, mas
ninguém empreende uma escavação se, assim procedendo, solapar as moradias de
pessoas vivas, de maneira que aquelas aluam e soterrem estas sob suas ruínas. As
doutrinas da religião não constituem um tema sobre o qual se possa tergiversar, como
outro qualquer. Nossa civilização se ergue sobre elas e a manutenção da sociedade
humana se baseia na crença da maioria dos homens na verdade dessas doutrinas. Caso
se lhes ensine que não existe um Deus todo-poderoso e justo, nem ordem mundial
divina, nem vida futura, se sentirão isentos de toda e qualquer obrigação de obedecer
aos preceitos da civilização. Sem inibição ou temor, seguirão seus instintos associais e
egoístas, e procurarão exercer seu poder; o Caos, que banimos através de muitos
milhares de anos de trabalho civilizatório, mais uma vez retornará. Mesmo que
soubéssemos, e pudéssemos provar, que a religião não se acha na posse da verdade,
deveríamos ocultar esse fato e nos comportarmos da maneira prescrita pela filosofia do
‘como se’, e isso no interesse da preservação de todos nós. E, à parte o perigo do
empreendimento, seria uma crueldade sem propósito. Não poucas pessoas encontram
sua única consolação nas doutrinas religiosas, e só conseguem suportar a vida com o
auxílio delas. Você as despojaria de seu apoio, sem ter nada melhor a lhes oferecer em
troca. Admite-se que, até agora, a ciência ainda não conseguiu muita coisa, mas, mesmo
que progredisse mais, não bastaria para o homem. Este possui necessidades imperiosas
de outro tipo, que jamais poderiam ser satisfeitas pela frígida ciência, sendo muito
estranho — na verdade, o auge da incoerência — que um psicólogo, que sempre insistiu
em que a inteligência, quando comparada à vida dos instintos, desempenha apenas um
papel de menor vulto nos assuntos humanos, tente agora despojar a humanidade de uma
preciosa realização de desejos e proponha compensá-la disso com um alimento
intelectual’.
Quantas acusações de uma só vez! Não obstante, estou preparado para refutá-las e, mais
ainda, afirmo que a civilização corre um risco muito maior se mantivermos nossa atual
atitude para com a religião do que se a abandonarmos.
Contudo, mal sei por onde começar minha réplica. Talvez sirva de garantia o fato de
que eu mesmo encare meu empreendimento como completamente inócuo e livre de
riscos. Aqui, não sou eu quem está supervalorizando o intelecto. Se as pessoas são como
meus opositores as descrevem — e não gostaria de contradizê-los —, então não há
perigo de que a crença de um devoto seja vencida pelos meus argumentos, e ele, privado
de sua fé. Além disso, não disse nada que outros homens, melhores do que eu, já não
tenham dito antes de mim, de modo muito mais completo, energético e impressivo. Seus
nomes são bem conhecidos e não vou citá-los porque não quero dar a impressão de estar
procurando colocar-me entre eles. Tudo o que fiz — e isso constitui a única coisa nova
em minha exposição — foi acrescentar uma certa base psicológica às críticas de meus
grandes predecessores. É difícil esperar que precisamente esse acréscimo produza o
efeito que foi negado àqueles esforços anteriores. Não há dúvida de que aqui se me
poderia perguntar qual a vantagem de escrever isso, se estou certo de que será ineficaz.
Retornarei a esse ponto mais tarde.
Sou a única pessoa a quem essa publicação pode prejudicar. Serei obrigado a ouvir as
mais desagradáveis censuras por causa de minha superficialidade, estreiteza de espírito
e falta de idealismo ou compreensão dos mais altos interesses da humanidade. Por um
lado, porém, tais admoestações não são novas para mim, e, por outro, se um homem já
aprendeu na juventude a se sobrepor à desaprovação de seus contemporâneos, que lhe
pode ela importar na velhice, quando ele está certo de que em breve se achará além do
alcance de todo favor ou desfavor? Em épocas passadas, era diferente. Então,
declarações como as minhas acarretavam um seguro cerceamento da existência terrena
de quem as proferisse e uma aceleração efetiva da oportunidade de conseguir uma
experiência pessoal do além. Mas, repito, esses tempos já passaram e, atualmente, os
escritos desse tipo não trazem para seu autor mais perigo do que para seus leitores. O
máximo que pode acontecer é que a tradução ou distribuição de seu livro sejam
proibidas num país ou noutro, e, precisamente, é natural, num país que esteja
convencido do alto padrão de sua cultura. Mas se alguém faz um apelo em favor da
renúncia aos desejos e da aquiescência ao Destino, tem que ser capaz de tolerar também
esse tipo de prejuízo.”

“É duvidoso que os homens tenham sido em geral mais felizes na época em que as
doutrinas religiosas dispunham de uma influência irrestrita; mais morais certamente não
foram. Sempre souberam como externalizar os preceitos da religião e anular assim suas
intenções. Os sacerdotes, cujo dever era assegurar a obediência à religião, foram a seu
encontro nesse aspecto. A bondade de Deus deve apor uma mão refreadora à Sua
justiça. Alguém peca; faz depois um sacrifício ou se penitencia e fica livre para pecar de
novo. A introspectividade russa atingiu o máximo ao concluir que o pecado é
indispensável à fruição de todas as bênçãos da graça divina, de maneira que, no fundo, o
pecado é agradável a Deus. Não é segredo que os sacerdotes só puderam manter as
massas submissas à religião pela efetivação de concessões tão grandes quanto essas à
natureza instintual do homem. Assim, concluíram: só Deus é forte e bom; o homem é
fraco e pecador. Em todas as épocas, a imoralidade encontrou na religião um apoio não
menor que a moralidade. Se as realizações da religião com respeito à felicidade do
homem, susceptibilidade à cultura e controle moral não são melhores que isso, não
pode deixar de surgir a questão de saber se não estamos superestimando sua necessidade
para a humanidade e se fazemos bem em basearmos nela nossas exigências
culturais.Consideremos a situação inequívoca do presente. Escutamos a admissão de
que a religião não mais possui sobre o povo a mesma influência que costumava
ter.(Estamos aqui interessados na civilização européia cristã.) E isso não aconteceu por
que suas promessas tenham diminuído, mas porque as pessoas as acham menos críveis.
Admitamos que o motivo — embora talvez não o único — para essa mudança seja o
aumento do espírito científico nos estratos mais elevados da sociedade humana. A
crítica desbastou o valor probatório dos documentos religiosos, a ciência natural
demonstrou os erros neles existentes, e a pesquisa comparativa ficou impressionada pela
semelhança fatal existente entre as idéias religiosas que reverenciamos e os produtos
mentais de povos e épocas primitivos.
O espírito científico provoca uma atitude específica para com os assuntos do mundo;
perante os assuntos religiosos, ele se detém um instante, hesita, e, finalmente, cruza-lhes
também o limiar. Nesse processo, não há interrupção; quanto maior é o número de
homens a quem os tesouros do conhecimento se tornam acessíveis, mais difundido é o
afastamento da crença religiosa, a princípio somente de seus ornamentos obsoletos e
objetáveis, mas, depois, também de seus postulados fundamentais.”

“A civilização pouco tem a temer das pessoas instruídas e dos que trabalham com o
cérebro. Neles, a substituição dos motivos religiosos para o comportamento civilizado
por outros motivos, seculares, se daria discretamente; ademais, essas pessoas são em
grande parte, elas próprias, veículos de civilização. Mas a coisa já é outra com a grande
massa dos não instruídos e oprimidos, que possuem todos os motivos para serem
inimigos da civilização. Enquanto não descobrirem que as pessoas não acreditam mais
em Deus, tudo correrá bem. Mas eles o descobrirão, infalivelmente, mesmo que este
meu trabalho não seja publicado. E estarão prontos a aceitar os resultados do
pensamento científico, mas sem que neles se tenha dado a modificação que o
pensamento científico provoca nas pessoas. Não existe aqui perigo de que a hostilidade
dessas massas à civilização se arremesse contra o ponto fraco que encontraram naquela
que lhe impõe tarefas? Se a única razão pela qual não se deve matar nosso próximo é
porque Deus proibiu e nos punirá severamente por isso nesta vida ou na vida futura,
então, quando descobrirmos que não existe Deus e que não precisamos temer Seu
castigo, certamente mataremos o próximo sem hesitação e só poderemos ser impedidos
de fazê-lo pela força terrena. Desse modo, ou essas massas perigosas terão de ser muito
severamente submetidas e com todo cuidado mantidas afastadas de qualquer
possibilidade de despertar intelectual, ou então o relacionamento entre civilização e
religião terá de sofrer uma revisão fundamental.”

VIII

“Visto ser tarefa difícil isolar aquilo que o próprio Deus exigiu, daquilo que pode ter sua
origem remontada à autoridade de um parlamento todo-poderoso ou de um alto
judiciário, constituiria vantagem indubitável que abandonássemos Deus inteiramente e
admitíssemos com honestidade a origem puramente humana de todas as
regulamentações e preceitos da civilização. Junto com sua pretensa santidade, esses
mandamentos e leis perderiam também sua rigidez e imutabilidade. As pessoas
compreenderiam que são elaborados, não tanto para dominá-las, mas, pelo contrário,
para servir a seus interesses, e adotariam uma atitude mais amistosa para com eles e, em
vez de visarem à sua abolição, visariam unicamente à sua melhoria. Isso constituiria um
importante avanço no caminho que leva à reconciliação com o fardo da civilização.
Aqui, porém, nosso apelo em favor da atribuição de motivos puramente racionais aos
preceitos da civilização — isto é, derivá-los da necessidade social — é interrompido por
uma dúvida repentina. Escolhemos como exemplo a origem da proibição do homicídio.
Mas nossa descrição dela concorda com a verdade histórica? Tememos que não; parece
não ser mais do que uma elaboração racionalista. Com o auxílio da psicanálise,
efetuamos um estudo precisamente dessa parte da história cultural da humanidade, e,
baseando-nos nele, somos obrigados a dizer que, na realidade, as coisas aconteceram de
outro modo. Mesmo no homem atual os motivos puramente racionais pouco podem
fazer contra impulsões apaixonadas. Quão mais fracos, então, eles devem ter sido no
animal humano das eras primevas! Talvez seus descendentes ainda hoje se matassem
uns aos outros sem inibição, não fosse o fato de entre aqueles atos homicidas ter
ocorrido um — a morte do pai primitivo — que evocou uma reação emocional
irresistível, com conseqüências momentosas. Foi dele que surgiu o mandamento. Não
matarás. Sob o totemismo, esse mandamento estava restrito ao substituto paterno, mas
posteriormente foi estendido às outras pessoas, embora ainda hoje não seja
universalmente obedecido.
Contudo, e tal como foi demonstrado por argumentos que não preciso repetir aqui, o pai
primevo constituiu a imagem original de Deus, o modelo a partir do qual as gerações
posteriores deram forma à figura de Deus. Daí a explicação religiosa ser correta. Deus
realmente desempenhou um papel na gênese daquela proibição; foi Sua influência, e
não uma compreensão interna (insight) de necessidade social, que a criou. E o
deslocamento da vontade do homem para Deus é plenamente justificado, pois os
homens sabiam que se tinham livrado do pai através da violência, e, em sua reação a
esse ato ímpio, resolveram respeitar doravante sua vontade. Dessa maneira, a doutrina
religiosa nos conta a verdade histórica — submetida embora, é verdade, a certa
modificação e disfarce —, ao passo que nossa descrição racional não a reconhece.”

“Observamos agora que o cabedal de idéias religiosas inclui não apenas realizações de
desejos, mas também importantes reminiscências históricas. Essa influência concorrente
de passado e presente tem de conceder à religião uma riqueza de poder verdadeiramente
incomparável. Entretanto, talvez, com o auxílio de uma analogia, outra descoberta ainda
possa começar a alvorecer em nós. Embora não seja boa política transplantar idéias para
longe do solo em que se desenvolveram, há aqui, contudo, uma consonância que não
podemos deixar de apontar. Sabemos que a criança humana não pode completar com
sucesso seu desenvolvimento para o estágio civilizado sem passar por uma fase de
neurose, às vezes mais distinta, outras, menos. Isso se dá porque muitas exigências
instintuais que posteriormente serão inaproveitáveis não podem ser reprimidas pelo
funcionamento racional do intelecto da criança, mas têm de ser domadas através de atos
de repressão, por trás dos quais, via de regra, se acha o motivo da ansiedade. A maioria
dessas neuroses infantis é superespontaneamente no decurso do crescimento, sendo isso
especialmente verdadeiro quanto às neuroses obsessivas da infância. O remanescente
pode ser eliminado mais tarde ainda, através do tratamento psicanalítico. Exatamente do
mesmo modo, pode-se supor, a humanidade como um todo, em seu desenvolvimento
através das eras, tombou em estados análogos às neuroses, e isso pelos mesmos
motivos — principalmente porque nas épocas de sua ignorância e debilidade intelectual,
as renúncias instintuais indispensáveis à existência comunal do homem só haviam sido
conseguidas pela humanidade através de forças puramente emocionais. Os precipitados
desses processos semelhantes à repressão que se efetuou nos tempos pré-históricos,
ainda permaneceram ligados à civilização por longos períodos. Assim, a religião seria a
neurose obsessiva universal da humanidade; tal como a neurose obsessiva das crianças,
ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai. A ser correta essa
conceituação, o afastamento da religião está fadado a ocorrer com a fatal inevitabilidade
de um processo de crescimento, e nos encontramos exatamente nessa junção, no meio
dessa fase de desenvolvimento. Nosso comportamento, portanto, deveria modelar-se no
de um professor sensato que não se opõe a um novo desenvolvimento iminente, mas que
procura facilitar-lhe o caminho e mitigar a violência de sua irrupção. Decerto nossa
analogia não esgota a natureza essencial da religião. Se, por um lado, a religião traz
consigo restrições obsessivas, exatamente como, num indivíduo, faz a neurose
obsessiva, por outro, ela abrange um sistema de ilusões plenas de desejo juntamente
com um repúdio da realidade, tal como não encontramos, em forma isolada, em parte
alguma senão na amência, num estado de confusão alucinatória beatífica. Mas tudo isso
não passa de analogias, com a ajuda das quais nos esforçamos por compreender um
fenômeno social; a patologia do indivíduo não nos provê de um correspondente
plenamente válido.”

“Já foram repetidamente indicados (por mim próprio e, particularmente, por Theodor
Reik) os múltiplos pormenores em que a analogia entre religião e neurose obsessiva
pode ser acompanhada, e quantas das peculiaridades e vicissitudes da formação da
religião podem ser entendidas a essa luz. E harmoniza-se bem com isso o fato de os
crentes devotos serem em alto grau salvaguardados do risco de certas enfermidades
neuróticas; sua aceitação da neurose universal poupa-lhes o trabalho de elaborar uma
neurose pessoal.
Nosso conhecimento do valor histórico de certas doutrinas religiosas aumenta nosso
respeito por elas, mas não invalida nossa posição, segundo a qual devem deixar de ser
apresentadas como os motivos para os preceitos da civilização. Pelo contrário! Esses
resíduos históricos nos auxiliaram a encarar os ensinamentos religiosos como relíquias
neuróticas, por assim dizer, e agora podemos argüir que provavelmente chegou a hora,
tal como acontece num tratamento analítico, de substituir os efeitos da repressão pelos
resultados da operação racional do intelecto. Podemos prever, mas dificilmente
lamentar, que tal processo de remodelamento não se deterá na renúncia a transfiguração
solene dos preceitos culturais, mas que sua revisão geral resultará em que muitos deles
sejam eliminados. Desse modo, nossa tarefa de reconciliar os homens com a civilização
estará, até um grande ponto, realizada. Não precisamos deplorar a renúncia à verdade
histórica quando apresentamos fundamentos racionais para os preceitos da civilização.
As verdades contidas nas doutrinas religiosas são, afinal de contas, tão deformadas e
sistematicamente disfarçadas, que a massa da humanidade não pode identificá-las como
verdade. O caso é semelhante ao que acontece quando dizemos a uma criança que os
recém-nascidos são trazidos pela cegonha. Aqui, também estamos contando a verdade
sob uma roupagem simbólica, pois sabemos o que essa ave significa. A criança, porém,
não sabe. Escuta apenas a parte deformada do que dizemos e sente que foi enganada;
sabemos com que freqüência sua desconfiança dos adultos e sua rebeldia têm realmente
começo nessa impressão. Tornamo-nos convencidos de que é melhor evitar esses
disfarces simbólicos da verdade no que contamos às crianças, e não afastar delas um
conhecimento do verdadeiro estado de coisas, comensurado a seu nível intelectual.”

“IX
‘Você se permite contradições difíceis de reconciliar. Começa dizendo que um trabalho
como o seu é inteiramente inócuo: ninguém se permitirá ser despojado de sua fé por
considerações do tipo das que apresenta. Não obstante, desde que, e tal como fica
depois evidente, é sua intenção perturbar essa fé, podemos perguntar-lhe por que, na
realidade, está publicando sua obra? Ademais, em outra passagem, admite que pode ser
perigoso, e de fato muito perigoso, que alguém descubra que as pessoas não acreditam
mais em Deus. Até então se mostrara dócil, mas agora parece desprezar sua obediência
aos preceitos da civilização. Entretanto, sua asserção de que basear os mandamentos da
civilização em fundamentos religiosos constitui um perigo para aquela, repousa na
presunção de que o crente pode ser transformado num incréu. Sem dúvida isso é uma
contradição completa.
‘E eis aqui uma outra. Por um lado, você admite que os homens não podem ser dirigidos
por sua inteligência, que são governados por suas paixões e suas exigências instintuais.
Por outro, porém, propõe substituir a base afetiva de sua obediência à civilização por
uma base racional. Quem puder, que compreenda. A mim, parece que não deve ser uma
coisa nem outra.
‘Além disso, não aprendeu nada da história? Já uma vez antes, uma tentativa desse tipo,
a de substituir a religião pela razão, foi feita oficialmente e em grande estilo. Decerto se
lembra da Revolução Francesa e de Robespierre? E deve também lembrar-se de quão
efêmera e deploravelmente ineficaz a experiência foi? A mesma experiência está sendo
repetida atualmente na Rússia e não precisamos ficar curiosos sobre o seu resultado.
Não acha que podemos aceitar como algo evidente o fato de que os homens não podem
passar sem religião?
‘Você mesmo disse que a religião é mais que uma neurose obsessiva. Mas não tratou
desse outro lado dela. Contentou-se em elaborar a analogia com uma neurose. Os
homens, diz você, devem ser libertados da neurose. O que se possa perder no processo
não lhe interessa.’
A aparência de contradição provavelmente surgiu porque lidei com assuntos
complicados de modo muito apressado. Até certo ponto, porém, podemos remediar isso.
Continuo a sustentar que o que escrevi é, sob determinado aspecto, inteiramente inócuo.
Nenhum crente se permitirá ser desviado de sua fé por esses argumentos ou outros
semelhantes. O crente está ligado aos ensinamentos da religião por certos vínculos
afetivos. Contudo, indubitavelmente existem inumeráveis outras pessoas que não são
crentes, no mesmo sentido. Obedecem aos preceitos da civilização porque se deixam
intimidar pelas ameaças da religião e têm medo dela enquanto se vêem obrigados a
considerá-la como parte da realidade que as cerca. São as pessoas que desertam tão logo
lhes é permitido abandonar sua crença no valor de realidade da religião. No entanto, elas
também não são afetadas por argumentos. Deixam de temer a religião quando observam
que os outros não a temem, e foi a respeito delas que afirmei que acabariam por saber
do declínio da influência religiosa mesmo que eu não publicasse meu trabalho.
Mas acho que você mesmo concede maior peso à outra contradição de que me acusa.
Visto os homens serem tão pouco acessíveis aos argumentos razoáveis e tão
completamente governados por seus desejos instintuais, por que tentar privá-los de uma
satisfação instintual e substituí-la por argumentos racionais? É verdade que os homens
são assim, mas você já se perguntou se eles têm de ser assim, se sua natureza mais
íntima tem necessidade disso? Pode um antropólogo fornecer o índice craniano de um
povo cujo costume é deformar a cabeça das crianças enrolando-as com ataduras desde
os primeiros anos? Pense no deprimente contraste entre a inteligência radiante de uma
criança sadia e os débeis poderes intelectuais do adulto médio. Não podemos estar
inteiramente certos de que é exatamente a educação religiosa que tem grande parte da
culpa por essa relativa atrofia? Penso que seria necessário muito tempo para que uma
criança, que não fosse influenciada, começasse a se preocupar com Deus e com as
coisas do outro mundo. Talvez seus pensamentos sobre esses assuntos tomassem então
os mesmos caminhos que os de seus antepassados. Mas não esperamos por um
desenvolvimento desse tipo; introduzimo-la às doutrinas da religião numa idade em que
nem está interessada nelas nem é capaz de apreender sua significação. Não é verdade
que os dois principais pontos do programa de educação infantil atualmente consistem no
retardamento do desenvolvimento sexual e na influência religiosa prematura? Dessa
maneira, à época em que o intelecto da criança desperta, as doutrinas da religião já se
tornaram inexpugnáveis. Mas acha você que é algo conducente ao fortalecimento da
função intelectual o fato de um campo tão importante lhe ser fechado pela ameaça do
fogo do Inferno? Quando outrora um homem se permitia aceitar sem crítica todos os
absurdos que as doutrinas religiosas punham à sua frente, e até mesmo desprezar as
contradições existentes entre elas, não precisamos ficar muito surpresos com a
debilidade de seu intelecto. Não dispomos, porém, de outros meios de controlar nossa
natureza instintual, exceto nossa inteligência. Como podemos esperar que pessoas que
estão sob domínio de proibições de pensamento atinjam o ideal psicológico, o primado
da inteligência? Você sabe também que se diz que em geral as mulheres padecem de
‘debilidade mental fisiológica’, isto é, de uma inteligência inferior à dos homens. O fato
em si é discutível, e sua interpretação, duvidosa; contudo, um argumento em favor de
essa atrofia intelectual ser de natureza secundária é o de que as mulheres vivem penando
sob o rigor de uma proibição precoce que as impede de voltarem seus pensamentos para
o que mais lhes interessaria, isto é, os problemas da vida sexual. Enquanto os primeiros
anos da vida de uma pessoa forem influenciados não só por uma inibição sexual mental,
mas também por uma inibição religiosa, e por uma inibição leal derivada desta última,
não podemos realmente dizer a que ela se assemelha.
Mas moderarei meu zelo e admitirei a possibilidade de que também eu esteja
perseguindo uma ilusão. Talvez o efeito da proibição religiosa do pensamento não seja
tão negativo quanto suponho; talvez acontecesse que a natureza humana permanecesse a
mesma, ainda que não se abusasse da educação para submeter as pessoas à religião. Não
sei, e tampouco você pode saber. Não são apenas os grandes problemas da vida que
atualmente parecem insolúveis; muitas questões menores também são difíceis de
responder. Mas você tem de admitir que, aqui, estamos justificados em ter esperanças
no futuro — a de que talvez exista, ainda a ser desenterrado, um tesouro capaz de
enriquecer a civilização, e de que vale a pena fazer a experiência de uma educação não
religiosa. Se ela se mostrar insatisfatória, estou pronto a abandonar a reforma e voltar a
meu juízo anterior, puramente descritivo, de que o homem é uma criatura de
inteligência débil, governada por seus desejos instintuais.
Sobre outro ponto concordo irrestritamente com você. Sem dúvida é insensato começar
a tentar eliminar a religião pela força, e de um só golpe. Acima de tudo, porque isso
seria irrealizável. O crente não permitirá que sua crença lhe seja arrancada, quer por
argumentos, quer por proibições. E mesmo que isso acontecesse com alguns, seria
crueldade. Um homem que passou dezenas de anos tomando pílulas soporíferas,
evidentemente fica incapaz de dormir se lhe tiram sua pílula. Que o efeito das
consolações religiosas pode ser assemelhado ao de um narcótico é fato bem ilustrado
pelo que está acontecendo nos Estados Unidos. Lá estão tentando agora — claro que
sob a influência de um domínio feminista — privar o povo de todos os estimulantes,
intoxicantes e outras substâncias produtoras de prazer, e, em vez delas, a título de
compensação, empanturram-no de devoção. Trata-se de outro experimento sobre cujo
resultado não precisamos sentir-nos curiosos.
Assim, tenho de contradizê-lo quando prossegue argumentando que os homens são
completamente incapazes de passar sem a consolação da ilusão religiosa, que, sem ela,
não poderiam suportar as dificuldades da vida e as crueldades da realidade. Isso é
certamente verdade quanto aos homens em que se instilou o doce (ou agridoce) veneno
desde a infância. Mas, e os outros, os que foram mais sensatamente criados? Os que não
padecem da neurose talvez não precisem de intoxicante para amortecê-la. Encontrar-se-
ão, é verdade, numa situação difícil. Terão de admitir para si mesmos toda a extensão de
seu desamparo e insignificância na maquinaria do universo; não podem mais ser o
centro da criação, o objeto de terno cuidado por parte de uma Providência beneficente.
Estarão na mesma posição de uma criança que abandonou a casa paterna, onde se
achava tão bem instalada e tão confortável. Mas não há dúvida de que o infantilismo
está destinado a ser superado.Os homens não podem permanecer crianças para sempre;
têm de, por fim, sair para a ‘vida hostil’. Podemos chamar isso de ‘educação para a
realidade‘. Precisarei confessar-lhe que o único propósito de meu livro é indicar a
necessidade desse passo à frente?”

X
“ ‘Isso soa esplêndido! Uma raça de homens que renunciou a todas as ilusões e assim se
tornou capaz de fazer tolerável sua existência na Terra! Entretanto, não posso partilhar
de suas expectativas. E isso não por ser o obstinado reacionário por quem talvez me
tome. Não, mas por ser sensato. Parece que agora trocamos de papéis: você surge como
um entusiasta que permite ser arrebatado por ilusões, e eu represento as reivindicações
da razão, os direitos do ceticismo. O que você expôs me parece ser construído sobre
erros que, seguindo seu exemplo, eu poderia chamar de ilusões, por traírem de modo
bastante claro a influência de seus desejos. Você prende sua esperança à possibilidade
de que gerações, que não experimentaram a influência das doutrinas religiosas na
primeira infância, alcançarão facilmente a desejada primazia da inteligência sobre a vida
dos instintos. Isso é decerto uma ilusão; nesse aspecto decisivo, a natureza humana
dificilmente tem probabilidade de mudar. Se não estou equivocado — conhece-se tão
pouco sobre as outras civilizações — ainda hoje existem povos que não se
desenvolveram sob a pressão de um sistema religioso e que, contudo, não se aproximam
mais do seu ideal do que do resto. Se você quiser expulsar a religião de nossa
civilização européia, só poderá fazê-lo através de outro sistema de doutrinas, e esse
sistema, desde o início, assumiria todas as características psicológicas da religião — a
mesma santidade, rigidez e intolerância, a mesma proibição do pensamento — para sua
própria defesa. Há que possuir algo desse tipo, a fim de atender aos requisitos da
educação. E é impossível passar sem educação. O caminho que vai da criança de peito
ao homem civilizado é longo; não poucos jovens se desviariam dele e fracassariam no
cumprimento de suas missões na vida, na época correta, se fossem deixados sem
orientação quanto a seu próprio desenvolvimento. As doutrinas que tivessem sido
aplicadas à sua criação, sempre estabeleceriam limites ao pensar de seus anos de
maturidade — que é exatamente o que você censura à religião fazer hoje. Não observa
que se trata de um defeito inato e inestimável de nossa e de qualquer outra civilização, o
fato de impor às crianças, que são movidas pelo instinto e fracas do intelecto, a tomada
de decisões que só a inteligência madura dos adultos pode reivindicar? A civilização,
porém, não pode operar de outro modo, de uma vez que o desenvolvimento, tão longo
quanto as eras, do gênero humano, está comprimido em uns poucos anos de infância; e é
só através de forças emocionais que a criança pode ser induzida a se assenhorear da
tarefa que lhe apresentam. Tais são, portanto, as perspectivas para sua “primazia do
intelecto”. ‘E você não deve ficar surpreso agora que eu perore em favor da retenção do
sistema doutrinal religioso como base da educação e da vida comunal do homem. Trata-
se de um problema prático, e não de uma questão de valor de realidade. Já que, para
preservar nossa civilização, não podemos adiar a influência sobre o indivíduo até que
ele esteja maduro para a civilização (e, ainda assim, muitos nunca estarão), já que
somos obrigados a impor à criança em crescimento um sistema doutrinário que nela
funcione como um axioma que não admita crítica, parece-me que o sistema religioso é,
de longe, o mais apropriado para esse fim. E o é, naturalmente, exatamente por causa de
sua realização de desejo e seu poder consolatório, devido aos quais você reivindica
identificá-lo como sendo ‘ilusão’. Diante da dificuldade de se descobrir qualquer coisa
sobre a realidade — na verdade, da dúvida de saber se nos será possível realmente
descobri-la —, não devemos desprezar o fato de que também as necessidades humanas
são uma realidade e, na verdade, uma realidade importante, uma realidade que nos
interessa especialmente de perto.
‘Outra vantagem da doutrina religiosa, em minha opinião, reside numa de suas
características a que você parece particularmente opor-se, pois permite um refinamento
e sublimação das idéias que tornam possível para ela livrar-se da maioria dos resíduos
oriundos do pensamento primitivo e infantil. O que então sobra é um corpo de idéias
que a ciência não mais contradiz e que é incapaz de refutar. Essas modificações da
doutrina religiosa, que você condenou como meias-medidas e transigências, tornam-lhe
possível evitar a cisão entre as massas não instruídas e o pensador filosófico, e preservar
o vínculo comum entre eles, tão importante para a salvaguarda da civilização. Com isso,
não haveria necessidade de temer que os homens do povo descobrissem que as camadas
superiores da sociedade “não mais acreditam em Deus”. Acho que agora lhe demonstrei
que seus esforços se reduzem a uma tentativa de substituir uma ilusão já provada e
emocionalmente valiosa, por outra, que não foi provada e não possui valor emocional.’
Não sou inacessível à sua crítica. Sei como é difícil evitar ilusões; talvez as esperanças
que confessei também sejam de natureza ilusória. Aferro-me, porém, a uma distinção. À
parte o fato de castigo algum ser imposto a quem não as partilha, minhas ilusões não
são, como as religiosas, incapazes de correção. Não possuem o caráter de um delírio. Se
a experiência demonstrar — não a mim, mas a outros depois de mim, que pensem como
eu — que estávamos enganados, abandonaremos nossas expectativas. Tome minha
tentativa pelo que ela é. Um psicólogo que não se ilude sobre a dificuldade de descobrir
a própria orientação neste mundo, efetua um esforço para avaliar o desenvolvimento do
homem, à luz da pequena porção de conhecimento que obteve através de um estudo dos
processos mentais de indivíduos, durante seu desenvolvimento de crianças a adultos. Ao
agir assim, impõe-se a ele a idéia de que a religião é comparável a uma neurose da
infância, e é otimista bastante para imaginar que a humanidade superará essa fase
neurótica, tal como muitas crianças evolvem de suas neuroses semelhantes. Essas
descobertas derivadas da psicologia individual podem ser insuficientes, injustificada sua
aplicação à raça humana, e infundado otimismo o dele. Concedo-lhes todas essas
incertezas. Mas freqüentemente não podemos impedir-nos de dizer o que pensamos, e
nos desculpamos disso com o fundamento de que só o dizemos pelo que vale.
Aqui temos dois pontos sobre os quais devo demorar-me um pouco mais. Em primeiro
lugar, a fraqueza de minha posição não acarreta fortalecimento algum da sua. Acho que
você está defendendo uma causa perdida. Podemos insistir, tão freqüentemente quanto
quisermos, em que o intelecto do homem não tem poder, em comparação com sua vida
instintual, e podemos estar certos quanto a isso. Não obstante, há algo de peculiar nessa
fraqueza. A voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue uma
audiência. Finalmente, após uma incontável sucessão de reveses, obtém êxito. Esse é
um dos poucos pontos sobre o qual se pode ser otimista a respeito do futuro da
humanidade, e, em si mesmo, é de não pequena importância. E dele se podem derivar
outras esperanças ainda. A primazia do intelecto jaz, é verdade, num futuro
infinitamente distante. Presumivelmente, ela estabelecerá para si os mesmos objetivos
que aqueles cuja realização você espera de seu Deus (naturalmente dentro de limites
humanos, na medida em que a realidade externa, ‘                , permita), a saber, o amor
do homem e a diminuição do sofrimento. Assim sendo, podemos dizer-nos que nosso
antagonismo é apenas temporário e não irreconciliável. Desejamos as mesmas coisas,
mas você é mais impaciente, mais exigente e — por que não dizer? — mais egoísta do
que eu e os que se encontram do meu lado. Você faria o estado de bem-aventurança
começar diretamente após a morte; espera dele o impossível e não desiste das
reivindicações do indivíduo. Nosso Deus,                , atenderá todos esses desejos que
a natureza a nós externa permita, mas fa-lo-á de modo muito gradativo, somente num
futuro imprevisível e para uma nova geração de homens. Não promete compensação
para nós, que sofremos penosamente com a vida. No caminho para esse objetivo
distante, suas doutrinas religiosas terão de ser postas de lado, por mais que as primeiras
tentativas falhem ou os primeiros substitutos se mostrem insustentáveis. Você sabe por
que: a longo prazo, nada pode resistir à razão e à experiência, e a contradição que a
religião oferece a ambas é palpável demais. Mesmo as idéias religiosas purificadas não
podem escapar a esse destino, enquanto tentarem preservar algo da consolação da
religião. Indubitavelmente, se se confinarem à crença num ser espiritual superior, cujas
qualidades sejam indefiníveis e cujos intuitos não possam ser discernidos, não só
estarão à prova do desafio da ciência, como também perderão sua influência sobre o
interesse humano.
Em segundo lugar, observe a diferença entre a sua atitude para com as ilusões e a
minha. Você tem de defender a ilusão religiosa com todas as suas forças. Se ela se
tornar desacreditada — e, na verdade, a ameaça disso é bastante grande — então seu
mundo desmoronará. Nada lhe resta a não ser desesperar de tudo, da civilização e do
futuro da humanidade. Dessa servidão, estou, estamos livres. Visto estarmos preparados
para renunciar a uma boa parte de nossos desejos infantis, podemos suportar que
algumas de nossas expectativas mostrem que não passam de ilusões.”

“Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não
nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar.”
O MAL-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO


(...)
VI

“De todas as partes lentamente desenvolvidas da teoria analítica, a teoria dos instintos
foi a que mais penosa e cautelosamente progrediu. Contudo, essa teoria era tão
indispensável a toda a estrutura, que algo tinha de ser colocado em seu lugar. No que
constituía, a princípio, minha completa perplexidade, tomei como ponto de partida uma
expressão do poeta-filósofo Schiller: ‘são a fome e o amor que movem o mundo’. A
fome podia ser vista como representando os instintos que visam a preservar o indivíduo,
ao passo que o amor se esforça na busca de objetos, e sua principal função, favorecida
de todos os modos pela natureza, é a preservação da espécie. Assim, de início, os
instintos do ego e os instintos objetais se confrontavam mutuamente. Foi para denotar a
energia destes últimos, e somente deles, que introduzi o termo ‘libido’. Assim, a antítese
se verificou entre os instintos do ego e os instintos ‘libidinais’ do amor (em seu sentido
mais amplo) que eram dirigidos a um objeto. Um desses instintos objetais, o instinto
sádico, destacou-se do restante, é verdade, pelo fato de o seu objetivo estar muito longe
de ser o amar. Ademais, ele se encontrava obviamente ligado, sob certos aspectos, aos
instintos do ego, pois não podia ocultar sua estreita afinidade com os instintos de
domínio que não possuem propósito libidinal. Mas essas discrepâncias foram superadas;
afinal de contas, o sadismo fazia claramente parte da vida sexual, em cujas atividades a
afeição podia ser substituída pela crueldade. A neurose foi encarada como o resultado
de uma luta entre o interesse de autopreservação e as exigências da libido, luta da qual o
ego saiu vitorioso, ainda que ao preço de graves sofrimentos e renúncias.
Todo analista admitirá que, ainda hoje, essa opinião não soa como um erro há muito
tempo abandonado. Não obstante, alterações nela se tornaram essenciais, à medida que
nossas investigações progrediam das forças reprimidas para as repressoras, dos instintos
objetais para o ego. O decisivo passo à frente consistiu na introdução do conceito de
narcisismo, isto é, a descoberta de que o próprio ego se acha catexizado pela libido, de
que o ego, na verdade, constitui o reduto original dela e continua a ser, até certo ponto,
seu quartel-general. Essa libido narcísica se volta para os objetos, tornando-se assim
libido objetal, e podendo transformar-se novamente em libido narcísica. O conceito do
narcisismo possibilitou a obtenção de uma compreensão analítica das neuroses
traumáticas, de várias das afecções fronteiriças às psicoses, bem como destas últimas.
Não foi necessário abandonar nossa interpretação das neuroses de transferência como se
fossem tentativas feitas pelo ego para se defender contra a sexualidade, mas o conceito
de libido ficou ameaçado. Como os instintos do ego também são libidinais, pareceu, por
certo tempo, inevitável que tivéssemos de fazer a libido coincidir com a energia
instintiva em geral, como C. G. Jung já advogara anteriormente. Não obstante, ainda
permanecia em mim uma espécie de convicção, para a qual ainda não me considerava
capaz de encontrar razões, de que os instintos não podiam ser todos da mesma espécie.
Meu passo seguinte foi dado em Mais Além do Princípio do Prazer (1920g), quando,
pela primeira vez, a compulsão para repetir e o caráter conservador da vida instintiva
atraíram minha atenção. Partindo de especulações sobre o começo da vida e de paralelos
biológicos, concluí que, ao lado do instinto para preservar a substância viva e para
reuni-la em unidades cada vez maiores, deveria haver outro instinto, contrário àquele,
buscando dissolver essas unidades e conduzi-las de volta a seu estado primevo e
inorgânico. Isso equivalia a dizer que, assim como Eros, existia também um instinto de
morte. Os fenômemos da vida podiam ser explicados pela ação concorrente, ou
mutuamente oposta, desses dois instintos. Não era fácil, contudo, demonstrar as
atividades desse suposto instinto de morte. As manifestações de Eros eram visíveis e
bastante ruidosas. Poder-se-ia presumir que o instinto de morte operava silenciosamente
dentro do organismo, no sentido de sua destruição, mas isso, naturalmente, não
constituía uma prova. Uma idéia mais fecunda era a de que uma parte do instinto é
desviada no sentido do mundo externo e vem à luz como um instinto de agressividade e
destrutividade. Dessa maneira, o próprio instinto podia ser compelido para o serviço de
Eros, no caso de o organismo destruir alguma outra coisa, inanimada ou animada, em
vez de destruir o seu próprio eu (self). Inversamente, qualquer restrição dessa
agressividade dirigida para fora estaria fadada a aumentar a autodestruição, a qual, em
todo e qualquer caso, prossegue. Ao mesmo tempo, pode-se suspeitar, a partir desse
exemplo, que os dois tipos de instinto raramente — talvez nunca — aparecem isolados
um do outro, mas que estão mutuamente mesclados em proporções variadas e muito
diferentes, tornando-se assim irreconhecíveis para nosso julgamento.”

“A afirmação da existência de um instinto de morte ou de destruição deparou-se com
resistências, inclusive em círculos analíticos; estou ciente de que existe, antes, uma
inclinação freqüente a atribuir o que é perigoso e hostil no amor a uma bipolaridade
original de sua própria natureza. A princípio, foi apenas experimentalmente que
apresentei as opiniões aqui desenvolvidas, mas, com o decorrer do tempo, elas
conseguiram tal poder sobre mim, que não posso mais pensar de outra maneira. Para
mim, elas são muito mais úteis, de um ponto de vista teórico do que quaisquer outras
possíveis; fornecem aquela simplificação, sem ignorar ou violentar os fatos, pela qual
nos esforçamos no trabalho científico. Sei que no sadismo e no masoquismo sempre
vimos diante de nós manifestações do instinto destrutivo (dirigidas para fora e para
dentro), fortemente mescladas ao erotismo, mas não posso mais entender como foi que
pudemos ter desprezado a ubiqüidade da agressividade e da destrutividade não eróticas
e falhado em conceder-lhe o devido lugar em nossa interpretação da vida. (O desejo de
destruição, quando dirigido para dentro, de fato foge, grandemente à nossa percepção, a
menos que esteja revestido de erotismo.) Recordo minha própria atitude defensiva
quando a idéia de um instinto de destruição surgiu pela primeira vez na literatura
psicanalítica, e quanto tempo levou até que eu me tornasse receptivo a ela. Que outros
tenham demonstrado, e ainda demonstrem, a mesma atitude de rejeição, surpreende-me
menos, pois ‘as criancinhas não gostam’ quando se fala na inata inclinação humana para
a ‘ruindade’, a agressividade e a destrutividade, e também para a crueldade.”

“O Demônio seria a melhor saída como desculpa para Deus; dessa maneira, ele estaria
desempenhando o mesmo papel, como agente de descarga econômica, que o judeu
desempenha no mundo do ideal ariano. Mas, ainda assim, pode-se responsabilizar Deus
pela existência do Demônio, bem como pela existência da malignidade que este
corporifica. Em vista dessas dificuldades, ser-nos-á mais aconselhável, nas ocasiões
apropriadas, fazer uma profunda reverência à natureza profundamente moral da
humanidade; isso nos ajudará a sermos populares e, por causa disso, muita coisa nos
será perdoada.”

“O instinto de destruição, moderado e domado, e, por assim dizer, inibido em sua
finalidade, deve, quando dirigido para objetos, proporcionar ao ego a satisfação de suas
necessidades vitais e o controle sobre a natureza. Como a afirmação da existência do
instinto se baseia principalmente em fundamentos teóricos, temos também de admitir
que ela não se acha inteiramente imune a objeções teóricas. Mas é assim que as coisas
se nos apresentam atualmente, no presente estado de nosso conhecimento; a pesquisa e a
reflexão futuras indubitavelmente trarão novas luzes decisivas para esse tema.
Em tudo o que se segue, adoto, portanto, o ponto de vista de que a inclinação para a
agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e auto-subsistente, e
retorno à minha opinião, de que ela é o maior impedimento à civilização. Em
determinado ponto do decorrer dessa investigação, fui conduzido à idéia de que a
civilização constituía um processo especial que a humanidade experimenta, e ainda me
acho sob a influência dela. Posso agora acrescentar que a civilização constitui um
processo a serviço de Eros, cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados,
depois famílias e, depois ainda, raças, povos e nações numa única grande unidade, a
unidade da humanidade. Porque isso tem de acontecer, não sabemos; o trabalho de Eros
é precisamente este. Essas reuniões de homens devem estar libidinalmente ligadas umas
às outras. A necessidade, as vantagens do trabalho em comum, por si sós, não as
manterão unidas. Mas o natural instinto agressivo do homem, a hostilidade de cada um
contra todos e a de todos contra cada um, se opõe a esse programa da civilização. Esse
instinto agressivo é o derivado e o principal representante do instinto de morte, que
descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo. Agora,
penso eu, o significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro. Ele deve
representar a luta entre Eros e a Morte, entre o instinto de vida e o instinto de
destruição, tal como ela se elabora na espécie humana. Nessa luta consiste
essencialmente toda a vida, e, portanto, a evolução da civilização pode ser simplesmente
descrita como a luta da espécie humana pela vida. E é essa batalha de gigantes que
nossas babás tentam apaziguar com sua cantiga de ninar sobre o Céu.”

“VII
Por que nossos parentes, os animais, não apresentam uma luta cultural desse tipo? Não
sabemos. Provavelmente alguns deles — as abelhas, as formigas, as térmitas —
batalharam durante milhares de anos antes de chegarem às instituições estatais, à
distribuição de funções e às restrições ao indivíduo pelas quais hoje os admiramos.
Constitui um sinal de nossa condição atual o fato de sabermos, por nossos próprios
sentimentos, que não nos sentiríamos felizes em quaisquer desses Estados animais ou
em qualquer dos papéis neles atribuídos ao indivíduo. No caso das outras espécies
animais, pode ser que um equilíbrio temporário tenha sido alcançado entre as
influências de seu meio ambiente e os instintos mutuamente conflitantes dentro delas,
havendo ocorrido assim uma cessação de desenvolvimento. Pode ser que no homem
primitivo um novo acréscimo de libido tenha provocado um surto renovado de atividade
por parte do instinto destrutivo. Temos aqui muitas questões para as quais ainda não
existe resposta.
Outra questão nos interessa mais de perto. Quais os meios que a civilização utiliza para
inibir a agressividade que se lhe opõe, torná-la inócua ou, talvez, livrar-se dela? Já nos
familiarizamos com alguns desses métodos, mas ainda não com aquele que parece ser o
mais importante. Podemos estudá-lo na história do desenvolvimento do indivíduo. O
que acontece neste para tornar inofensivo seu desejo de agressão? Algo notável, que
jamais teríamos adivinhado e que, não obstante, é bastante óbvio. Sua agressividade é
introjetada, internalizada; ela é, na realidade, enviada de volta para o lugar de onde
proveio, isto é, dirigida no sentido de seu próprio ego. Aí, é assumida por uma parte do
ego, que se coloca contra o resto do ego, como superego, e que então, sob a forma de
‘consciência’, está pronta para pôr em ação contra o ego a mesma agressividade rude
que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos, a ele estranhos. A tensão
entre o severo superego e o ego, que a ele se acha sujeito, é por nós chamada de
sentimento de culpa; expressa-se como uma necessidade de punição. A civilização,
portanto, consegue dominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo, enfraquecendo-
o, desarmando-o e estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele, como uma
guarnição numa cidade conquistada.”

“Quanto à origem do sentimento de culpa, as opiniões do analista diferem das dos
outros psicólogos, embora também ele não ache fácil descrevê-lo. Inicialmente, se
perguntarmos como uma pessoa vem a ter sentimento de culpa, chegaremos a uma
resposta indiscutível: uma pessoa sente-se culpada (os devotos diriam ‘pecadora’)
quando fez algo que sabe ser ‘mau’. Reparamos, porém, em quão pouco essa resposta
nos diz. Talvez, após certa hesitação, acrescentemos que, mesmo quando a pessoa não
fez realmente uma coisa má, mas apenas identificou em si uma intenção de fazê-la, ela
pode encarar-se como culpada. Surge então a questão de saber por que a intenção é
considerada equivalente ao ato. Ambos os casos, contudo, pressupõem que já se tenha
reconhecido que o que é mau é repreensível, é algo que não deve ser feito. Como se
chega a esse julgamento? Podemos rejeitar a existência de uma capacidade original, por
assim dizer, natural de distinguir o bom do mau. O que é mau, freqüentemente, não é de
modo algum o que é prejudicial ou perigoso ao ego; pelo contrário, pode ser algo
desejável pelo ego e prazeroso para ele. Aqui, portanto, está em ação uma influência
estranha, que decide o que deve ser chamado de bom ou mau. De uma vez que os
próprios sentimentos de uma pessoa não a conduziriam ao longo desse caminho, ela
deve ter um motivo para submeter-se a essa influência estranha. Esse motivo é
facilmente descoberto no desamparo e na dependência dela em relação a outras pessoas,
e pode ser mais bem designado como medo da perda de amor. Se ela perde o amor de
outra pessoa de quem é dependente, deixa também de ser protegida de uma série de
perigos. Acima de tudo, fica exposta ao perigo de que essa pessoa mais forte mostre a
sua superioridade sob forma de punição. De início, portanto, mau é tudo aquilo que,
com a perda do amor, nos faz sentir ameaçados. Por medo dessa perda, deve-se evitá-lo.
Esta também é a razão por que faz tão pouca diferença que já se tenha feito a coisa má
ou apenas se pretenda fazê-la. Em qualquer um dos casos, o perigo só se instaura, se e
quando a autoridade descobri-lo, e, em ambos, a autoridade se comporta da mesma
maneira.”

“(...), quando os santos se chamam a si próprios de pecadores, não estão errados —
considerando-se as tentações à satisfação instintiva a que se encontram expostos em
grau especialmente alto —, já que, como todos sabem, as tentações são simplesmente
aumentadas pela frustração constante, ao passo que a sua satisfação ocasional as faz
diminuir, ao menos por algum tempo.”

“Se um homem é desafortunado, isso significa que não é mais amado por esse poder
supremo, e, ameaçado por essa falta de amor, mais uma vez se curva ao representante
paterno em seu superego, representante que, em seus dias de boa sorte estava pronto a
desprezar. Esse fato se torna especialmente claro quando o Destino é encarado segundo
o sentido estritamente religioso de nada mais ser do que uma expressão da Vontade
Divina. O povo de Israel acreditava ser o filho favorito de Deus e, quando o grande Pai
fez com que infortúnios cada vez maiores desabassem sobre seu povo, jamais a crença
em Seu relacionamento com eles se abalou, nem o Seu poder ou justiça foi posto em
dúvida. Pelo contrário, foi então que surgiram os profetas, que apontaram a
pecaminosidade desse povo, e, de seu sentimento de culpa, criaram-se os mandamentos
superestritos de sua religião sacerdotal. É digno de nota o comportamento tão diferente
do homem primitivo. Se ele se defronta com um infortúnio, não atribui a culpa a si
mesmo, mas a seu fetiche, que evidentemente não cumpriu o dever, e dá-lhe uma surra,
em vez de se punir a si mesmo.”

“Conhecemos, assim, duas origens do sentimento de culpa: uma que surge do medo de
uma autoridade, e outra, posterior, que surge do medo do superego. A primeira insiste
numa renúncia às satisfações instintivas; a segunda, ao mesmo tempo em que faz isso
exige punição, de uma vez que a continuação dos desejos proibidos não pode ser
escondida do superego. Aprendemos também o modo como a severidade do superego
— as exigências da consciência — deve ser entendida. Trata-se simplesmente de uma
continuação da severidade da autoridade externa, à qual sucedeu e que, em parte,
substituiu. Percebemos agora em que relação a renúncia ao instinto se acha com o
sentimento de culpa. Originalmente, renúncia ao instinto constituía o resultado do medo
de uma autoridade externa: renunciava-se às próprias satisfação para não se perder o
amor da autoridade. Se se efetuava essa renúncia, ficava-se, por assim dizer, quite com a
autoridade e nenhum sentimento de culpa permaneceria. Quanto ao medo do superego,
porém, o caso é diferente. Aqui, a renúncia instintiva não basta, pois o desejo persiste e
não pode ser escondido do superego. Assim, a despeito da renúncia efetuada, ocorre um
sentimento de culpa. Isso representa uma grande desvantagem econômica na construção
de um superego ou, como podemos dizer, na formação de uma consciência. Aqui, a
renúncia instintiva não possui mais um efeito completamente liberador; a continência
virtuosa não é mais recompensada com a certeza do amor. Uma ameaça de infelicidade
externa — perda de amor e castigo por parte da autoridade externa — foi permutada por
uma permanente infelicidade interna, pela tensão do sentimento de culpa.”

“Em primeiro lugar, vem a renúncia ao instinto, devido ao medo de agressão por parte
da autoridade externa. (É a isso, naturalmente, que o medo da perda de amor equivale,
pois o amor constitui proteção contra essa agressão punitiva.) Depois, vem a
organização de uma autoridade interna e a renúncia ao instinto devido ao medo dela, ou
seja, devido ao medo da consciência. Nessa segunda situação, as más intenções são
igualadas às más ações e daí surgem sentimento de culpa e necessidade de punição. A
agressividade da consciência continua a agressividade da autoridade. Até aqui, sem
dúvida, as coisas são claras; mas onde é que isso deixa lugar para a influência
reforçadora do infortúnio (da renúncia imposta de fora),ver [[1]] e para a extraordinária
severidade da consciência nas pessoas melhores e mais dóceis ver [[1]]?Já explicamos
essas particularidades da consciência, mas provavelmente ainda temos a impressão de
que essas explicações não atingem o fundo da questão e deixam ainda inexplicado um
resíduo. Aqui, por fim, surge uma idéia que pertence inteiramente à psicanálise, sendo
estranha ao modo comum de pensar das pessoas. Essa idéia é de um tipo que nos
capacita a compreender por que o tema geral estava fadado a nos parecer confuso e
obscuro, pois nos diz que, de início, a consciência (ou, de modo mais correto, a
ansiedade que depois se torna consciência) é, na verdade, a causa da renúncia instintiva,
mas que, posteriormente, o relacionamento se inverte. Toda renúncia ao instinto torna-
se agora uma fonte dinâmica de consciência, e cada nova renúncia aumenta a severidade
e a intolerância desta última. Se pudéssemos colocar isso mais em harmonia com o que
já sabemos sobre a história da origem da consciência, ficaríamos tentados a defender a
afirmativa paradoxal de que a consciência é o resultado da renúncia instintiva, ou que a
renúncia instintiva (imposta a nós de fora) cria a consciência, a qual, então, exige mais
renúncias instintivas.
A contradição entre essa afirmativa e o que anteriormente dissemos sobre a gênese da
consciência não é, na realidade, tão grande, e vemos uma maneira de reduzi-la ainda
mais. A fim de facilitar nossa exposição, tomemos como exemplo o instinto agressivo e
suponhamos que a renúncia em estudo seja sempre uma renúncia à agressão. (Isso,
naturalmente, só deve ser tomado como uma suposição temporária.) O efeito da
renúncia instintiva sobre a consciência, então, é que cada agressão de cuja satisfação o
indivíduo desiste é assumida pelo superego e aumenta a agressividade deste (contra o
ego). Isso não se harmoniza bem com o ponto de vista segundo o qual a agressividade
original da consciência é uma continuação da severidade da autoridade externa, não
tendo, portanto, nada a ver com a renúncia. Mas a discrepância se anulará se
postularmos uma derivação diferente para essa primeira instalação da agressividade do
superego. É provável que, na criança, se tenha desenvolvido uma quantidade
considerável de agressividade contra a autoridade, que a impede de ter suas primeiras —
e, também, mais importantes — satisfações, não importando o tipo de privação
instintiva que dela possa ser exigida. Ela, porém, é obrigada a renunciar à satisfação
dessa agressividade vingativa e encontra saída para essa situação economicamente
difícil com o auxílio de mecanismos familiares. Através da identificação, incorpora a si
a autoridade inatacável. Esta transforma-se então em seu superego, entrando na posse de
toda a agressividade que a criança gostaria de exercer contra ele. O ego da criança tem
de contentar-se com o papel infeliz da autoridade — o pai — que foi assim degradada.
Aqui, como tão freqüentemente acontece, a situação [real] é invertida: ‘Se eu fosse o pai
e você fosse a criança, eu otrataria muito mal’. O relacionamento entre o superego e o
ego constitui um retorno, deformado por um desejo, dos relacionamentos reais
existentes entre o ego, ainda individido, e um objeto externo.”

“Ora, penso eu, finalmente podemos apreender duas coisas de modo perfeitamente
claro: o papel desempenhado pelo amor na origem da consciência e a fatal
inevitabilidade do sentimento de culpa. Matar o próprio pai ou abster-se de matá-lo não
é, realmente, a coisa decisiva. Em ambos os casos, todos estão fadados a sentir culpa,
porque o sentimento de culpa é expressão tanto do conflito devido à ambivalência,
quanto da eterna luta entre Eros e o instinto de destruição ou morte. Esse conflito é
posto em ação tão logo os homens se defrontem com a tarefa de viverem juntos.
Enquanto a comunidade não assume outra forma que não seja a da família, o conflito
está fadado a se expressar no complexo edipiano, a estabelecer a consciência e a criar o
primeiro sentimento de culpa. Quando se faz uma tentativa para ampliar a comunidade,
o mesmo conflito continua sob formas que dependem do passado; é fortalecido e resulta
numa intensificação adicional do sentimento de culpa. Visto que a civilização obedece a
um impulso erótico interno que leva os seres humanos a se unirem num grupo
estreitamente ligado, ela só pode alcançar seu objetivo através de um crescente
fortalecimento do sentimento de culpa. O que começou em relação ao pai é completado
em relação ao grupo. Se a civilização constitui o caminho necessário de
desenvolvimento, da família à humanidade como um todo, então, em resultado do
conflito inato surgido da ambivalência, da eterna luta entre as tendências de amor e de
morte, acha-se a ele inextricavelmente ligado um aumento do sentimento de culpa, que
talvez atinja alturas que o indivíduo considere difíceis de tolerar.”

“Por conseguinte, é bastante concebível que tampouco o sentimento de culpa produzido
pela civilização seja percebido como tal, e em grande parte permaneça inconsciente, ou
apareça como uma espécie de mal-estar, uma insatisfação, para a qual as pessoas
buscam outras motivações. As religiões, pelo menos, nunca desprezaram o papel
desempenhado na civilização pelo sentimento de culpa. Ademais — ponto que deixei de
apreciar em outro trabalho —, elas alegam redimir a humanidade desse sentimento de
culpa, a que chamam de pecado. Da maneira pela qual, no cristianismo, essa redenção é
conseguida — pela morte sacrificial de uma pessoa isolada, que, desse modo, toma
sobre si mesma a culpa comum a todos —, conseguimos inferir qual pode ter sido a
primeira ocasião em que essa culpa primária, que constitui também o primórdio da
civilização, foi adquirida.”

“Conforme aprendemos, os sintomas neuróticos são, em sua essência, satisfações
substitutivas para desejos sexuais não realizados. No decorrer de nosso trabalho
analítico, descobrimos, para nossa surpresa, que talvez toda neurose oculte uma quota
de sentimento inconsciente de culpa, o qual, por sua vez, fortifica os sintomas, fazendo
uso deles como punição. Agora parece plausível formular a seguinte proposição: quando
uma tendência instintiva experimenta a repressão, seus elementos libidinais são
transformados em sintomas e seus componentes agressivos em sentimento de culpa.
Mesmo que essa proposição não passe de uma aproximação mediana à verdade, é digna
de nosso interesse.
Alguns leitores deste trabalho podem ainda ter a impressão de que já ouviram, de modo
demasiado freqüente, a fórmula sobre a luta entre Eros e o instinto de morte. Ela foi não
só empregada para caracterizar o processo de civilização que a humanidade sofre,ver
[[1]],mas também vinculada ao desenvolvimento do indivíduo ver [[1]] e, além disso,
dela se disse que revelou o segredo da vida orgânica em geral,ver [[1]]. Acho que não
podemos deixar de penetrar nas relações existentes entre esses três processos. A
repetição da mesma fórmula se justifica pela consideração de que tanto o processo da
civilização humana quanto o do desenvolvimento do indivíduo são também processos
vitais — o que equivale a dizer que devem partilhar a mesma característica mais geral
da vida. Por outro lado, as provas da presença dessa característica geral, pela razão
mesma de sua natureza geral, fracassam em nos ajudar a estabelecer qualquer
diferenciação [entre os processos], enquanto não for reduzida por limitações especiais.
Só podemos ficar satisfeitos, portanto, afirmando que o processo civilizatório constitui
uma modificação, que o processo vital experimenta sob a influência de uma tarefa que
lhe é atribuída por Eros e incentivada por Ananké — pelas exigências da realidade —, e
que essa tarefa é a de unir indivíduos isolados numa comunidade ligada por vínculos
libidinais. Quando, porém, examinamos a relação existente entre o processo
desenvolvimental ou educativo dos seres humanos individuais, devemos concluir, sem
muita hesitação, que os dois apresentam uma natureza muito semelhante, caso não
sejam o mesmo processo aplicado a tipos diferentes de objeto. O processo da civilização
da espécie humana é, naturalmente, uma abstração de ordem mais elevada do que a do
desenvolvimento do indivíduo, sendo, portanto, de mais difícil apreensão em termos
concretos; tampouco devemos perseguir as analogias a um extremo obsessivo. Contudo,
diante da semelhança entre os objetivos dos dois processos — num dos casos, a
integração de um indivíduo isolado num grupo humano; no outro, a criação de um
grupo unificado a partir de muitos indivíduos —, não podemos surpreender-nos com a
similaridade entre os meios empregados e os fenômenos resultantes.”

“Assim como um planeta gira em torno de um corpo central enquanto roda em torno de
seu próprio eixo, assim também o indivíduo humano participa do curso do
desenvolvimento da humanidade, ao mesmo tempo que persegue o seu próprio caminho
na vida. Para nossos olhos enevoados, porém, o jogo de forças nos céus parece fixado
numa ordem que jamais muda; no campo da vida orgânica, ainda podemos perceber
como as forças lutam umas com as outras e como os efeitos desse conflito estão em
permanente mudança. Assim também as duas premências, a que se volta para a
felicidade pessoal e a que se dirige para a união com os outros seres humanos, devem
lutar entre si em todo indivíduo, e assim também os dois processos de desenvolvimento,
o individual e o cultural, têm de colocar-se numa oposição hostil um para com o outro e
disputar-se mutuamente a posse do terreno. Contudo, essa luta entre o indivíduo e a
sociedade não constitui um derivado da contradição — provavelmente irreconciliável —
entre os instintos primevos de Eros e da morte. Trata-se de uma luta dentro da economia
da libido, comparável àquela referente à distribuição da libido entre o ego e os objetos,
admitindo uma acomodação final no indivíduo, tal como, pode-se esperar, também o
fará no futuro da civilização, por mais que atualmente essa civilização possa oprimir a
vida do indivíduo.”

“Por conseguinte, somos freqüentemente obrigados, por propósitos terapêuticos, a nos
opormos ao superego e a nos esforçarmos por diminuir suas exigências. Exatamente as
mesmas objeções podem ser feitas contra as exigências éticas do superego cultural. Ele
também não se preocupa de modo suficiente com os fatos da constituição mental dos
seres humanos. Emite uma ordem e não pergunta se é possível às pessoas obedecê-la.
Pelo contrário, presume que o ego de um homem é psicologicamente capaz de tudo que
lhe é exigido, que o ego desse homem dispõe de um domínio ilimitado sobre seu id.
Trata-se de um equívoco e, mesmo naquelas que são conhecidas como pessoas normais,
o id não pode ser controlado além de certos limites. Caso se exija mais de um homem,
produzir-se-á nele uma revolta ou uma neurose, ou ele se tornará infeliz. O mandamento
‘Ama a teu próximo como a ti mesmo’ constitui a defesa mais forte contra a
agressividade humana e um excelente exemplo dos procedimentos não psicológicos do
superego cultural. É impossível cumprir esse mandamento; uma inflação tão enorme de
amor só pode rebaixar seu valor, sem se livrar da dificuldade. A civilização não presta
atenção a tudo isso; ela meramente nos adverte que quanto mais difícil é obedecer ao
preceito, mais meritório é proceder assim. Contudo, todo aquele que, na civilização
atual, siga tal preceito, só se coloca em desvantagem frente à pessoa que despreza esse
mesmo preceito. Que poderoso obstáculo à civilização a agressividade deve ser, se a
defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade! A ética
‘natural’, tal como é chamada, nada tem a oferecer aqui, exceto a satisfação narcísica de
se poder pensar que se é melhor do que os outros. Nesse ponto, a ética baseada na
religião introduz suas promessas de uma vida melhor depois da morte. Enquanto,
porém, a virtude não for recompensada aqui na Terra, a ética, imagino eu, pregará em
vão. Acho também bastante certo que, nesse sentido, uma mudança real nas relações dos
seres humanos com a propriedade seria de muito mais ajuda do que quaisquer ordens
éticas; mas o reconhecimento desse fato entre os socialistas foi obscurecido, e tornado
inútil para fins práticos, por uma nova e idealista concepção equivocada da natureza
humana.Ver [[1].]
Creio que a linha de pensamento que procura descobrir nos fenômenos de
desenvolvimento cultural o papel desempenhado por um superego promete ainda outras
descobertas. Apresso-me a chegar ao fim, mas há uma questão a que dificilmente posso
fugir. Se o desenvolvimento da civilização possui uma semelhança de tão grande
alcance com o desenvolvimento do indivíduo, e se emprega os mesmos métodos, não
temos nós justificativa em diagnosticar que, sob a influência de premências culturais,
algumas civilizações, ou algumas épocas da civilização — possivelmente a totalidade da
humanidade — se tornaram ‘neuróticas’? Uma dissecação analítica de tais neuroses
poderia levar a recomendações terapêuticas passíveis de reivindicarem um grande
interesse prático. Eu não diria que uma tentativa desse tipo, de transportar a psicanálise
para a comunidade cultural, seja absurda ou que esteja fadada a ser infrutífera. Mas
teríamos de ser muito cautelosos e não esquecer que, em suma, estamos lidando apenas
com analogias e que é perigoso, não somente para os homens mas também para os
conceitos, arrancá-los da esfera em que se originaram e se desenvolveram. Além disso,
a diagnose das neuroses comunais se defronta com uma dificuldade especial. Numa
neurose individual, tomamos como nosso ponto de partida o contraste que distingue o
paciente do seu meio ambiente, o qual se presume ser ‘normal’. Para um grupo de que
todos os membros estejam afetados pelo mesmo distúrbio, não poderia existir esse pano
de fundo; ele teria de ser buscado em outro lugar. E, quanto à aplicação terapêutica de
nosso conhecimento, qual seria a utilidade da mais corretaanálise das neuroses sociais,
se não se possui autoridade para impor essa terapia ao grupo? No entanto, e a despeito
de todas essas dificuldades, podemos esperar que, um dia, alguém se aventure a se
empenhar na elaboração de uma patologia das comunidades culturais.
Por uma ampla gama de razões, está muito longe de minha intenção exprimir uma
opinião sobre o valor da civilização humana. Esforcei-me por resguardar-me contra o
preconceito entusiástico que sustenta ser a nossa civilização a coisa mais preciosa que
possuímos ou poderíamos adquirir, e que seu caminho necessariamente conduzirá a
ápices de perfeição inimaginada. Posso, pelo menos, ouvir sem indignação o crítico cuja
opinião diz que, quando alguém faz o levantamento dos objetivos do esforço cultural e
dos meios que este emprega, está fadado a concluir que não vale a pena todo esse
esforço e que seu resultado só pode ser um estado de coisas que o indivíduo será
incapaz de tolerar. Minha imparcialidade se torna mais fácil para mim na medida em
que conheço muito pouco a respeito dessas coisas. Sei que apenas uma delas é certa: é
que os juízos de valor do homem acompanham diretamente os seus desejos de
felicidade, e que, por conseguinte, constituem uma tentativa de apoiar com argumentos
as suas ilusões. Acharia muito compreensível que alguém assinalasse a natureza
obrigatória do curso da civilização humana e que dissesse, por exemplo, que as
tendências para uma restrição da vida sexual ou para a instituição de um ideal
humanitário à custa da seleção natural foram tendências de desenvolvimento
impossíveis de serem desviadas ou postas de lado, e às quais é melhor para nós nos
submetermos, como se constituíssem necessidades da natureza. Também estou a par da
objeção que pode ser levantada contra isso, objeção segundo a qual, na história da
humanidade, tendências como estas, consideradas insuperáveis, freqüentemente foram
relegadas e substituídas por outras. Assim, não tenho coragem de me erguer diante de
meus semelhantes como um profeta; curvo-me à sua censura de que não lhes posso
oferecer consolo algum, pois, no fundo, é isso que todos estão exigindo, e os mais
arrebatados revolucionários não menos apaixonadamente do que os mais virtuosos
crentes.”

“A questão fatídica para a espécie humana parece-me ser saber se, e até que ponto, seu
desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal
causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição. Talvez, precisamente com
relação a isso, a época atual mereça um interesse especial. Os homens adquiriram sobre
as forças da natureza um tal controle, que, com sua ajuda, não teriam dificuldades em se
exterminarem uns aos outros, até o último homem. Sabem disso, e é daí que provém
grande parte de sua atual inquietação, de sua infelicidade e de sua ansiedade. Agora só
nos resta esperar que o outro dos dois ‘Poderes Celestes’ , o eterno Eros, desdobre suas
forças para se afirmar na luta com seu não menos imortal adversário. Mas quem pode
prever com que sucesso e com que resultado?”




Novas conferências introdutórias
sobre psicanálise
e outros trabalhos

VOLUME XXII
(1932-1936)


CARTA DE FREUD À EINSTEIN


“O senhor começou com a relação entre o direito e o poder. Não se pode duvidar de que
seja este o ponto de partida correto de nossa investigação. Mas, permita-me substituir a
palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua violência’? Atualmente, direito e violência
se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da
outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se
passaram, resolve-se o problema facilmente. Perdoe-me se, nessas considerações que se
seguem, eu trilhar chão familiar e comumente aceito, como se isto fosse novidade; o fio
de minhas argumentações o exige.
É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos
pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem
não tem motivo por que se excluir. No caso do homem, sem dúvida ocorrem também
conflitos de opinião que podem chegar a atingir a mais raras nuanças da abstração e que
parecem exigir alguma outra técnica para sua solução. Esta é, contudo, uma
complicação a mais. No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da
força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua
vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de
instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a
maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram
introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta;
mas o objetivo final da luta permanecia o mesmo — uma ou outra facção tinha de ser
compelida a abandonar suas pretensões ou suas objeções, por causa do dano que lhe
havia sido infligido e pelo desmantelamento de sua força. Conseguia-se esse objetivo de
modo mais completo se a violência do vencedor eliminasse para sempre o adversário,
ou seja, se o matasse. Isto tinha duas vantagens: o vencido não podia restabelecer sua
oposição, e o seu destino dissuadiria outros de seguirem seu exemplo. Ademais disso,
matar um inimigo satisfazia uma inclinação instintual, que mencionarei posteriormente.
À intenção de matar opor-se-ia a reflexão de que o inimigo podia ser utilizado na
realização de serviços úteis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidação. Nesse
caso, a violência do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o vencido.

Ademais, até hoje as unificações criadas pela conquista, embora de extensão
considerável, foram apenas parciais, e os conflitos entre elas ensejaram, mais do que
nunca, soluções violentas. O resultado de todos esses esforços bélicos consistiu, assim,
apenas em a raça humana haver trocado as numerosas e realmente infindáveis guerras
menores por guerras em grande escala, que são raras, contudo muito mais destrutivas.
Se nos voltamos para os nossos próprios tempos, chegamos a mesma conclusão a que o
senhor chegou por um caminho mais curto. As guerras somente serão evitadas com
certeza, se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que será
conferido o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses. Nisto estão envolvidos
claramente dois requisitos distintos: criar uma instância suprema e dotá-la do necessário
poder. Uma sem a outra seria inútil. A Liga das Nações é destinada a ser uma instância
dessa espécie, mas a segunda condição não foi preenchida: a Liga das Nações não
possui poder próprio, e só pode adquiri-lo se os membros da nova união, os diferentes
estados, se dispuserem a cedê-lo. E, no momento, parecem escassas as perspectivas
nesse sentido. A instituição da Liga das Nações seria totalmente ininteligível se se
ignorasse o fato de que houve uma tentativa corajosa, como raramente (talvez jamais em
tal escala) se fez antes. Ela é uma tentativa de fundamentar a autoridade sobre um apelo
a determinadas atitudes idealistas da mente (isto é, a influência coercitiva), que de outro
modo se baseia na posse da força. Já vimos que uma comunidade se mantém unida por
duas coisas: a força coercitiva da violência e os vínculos emocionais (identificações é o
nome técnico) entre seus membros. Se estiver ausente um dos fatores, é possível que a
comunidade se mantenha ainda pelo outro fator. As idéias a que se faz o apelo só
podem, naturalmente, ter importância se exprimirem afinidades importantes entre os
membros, e pode-se perguntar quanta força essas idéias podem exercer. A história nos
ensina que, em certa medida, elas foram eficazes. Por exemplo, a idéia do pan-
helenismo, o sentido de ser superior aos bárbaros de além-fronteiras — idéia que foi
expressa com tanto vigor no conselho anfictiônico, nos oráculos e nos jogos —, foi forte
a ponto de mitigar os costumes guerreiros entre os gregos, embora, é claro, não
suficientemente forte para evitar dissensões bélicas entre as diferentes partes da nação
grega, ou mesmo para impedir uma cidade ou confederação de cidades de se aliar com o
inimigo persa, a fim de obter vantagem contra algum rival. A identidade de sentimentos
entre os cristãos, embora fosse poderosa, não conseguiu, à época do Renascimento,
impedir os Estados Cristãos, tanto os grandes como os pequenos, de buscar o auxílio do
sultão em suas guerras de uns contra os outros. E atualmente não existe idéia alguma
que, espera-se, venha a exercer uma autoridade unificadora dessa espécie. Na realidade,
é por demais evidente que os ideais nacionais, pelos quais as nações se regem nos dias
de hoje, atuam em sentido oposto.”

“Assim sendo, presentemente, parece estar condenada ao fracasso a tentativa de
substituir a força real pela força das idéias. Estaremos fazendo um cálculo errado se
desprezarmos o fato de que a lei, originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não
pode prescindir do apoio da violência.”

”O senhor expressa surpresa ante o fato de ser tão fácil inflamar nos homens o
entusiasmo pela guerra, e insere a suspeita, de que neles exige em atividade alguma
coisa — um instinto de ódio e de destruição — que coopera com os esforços dos
mercadores da guerra. Também nisto apenas posso exprimir meu inteiro acordo.
Acreditamos na existência de um instinto dessa natureza, e durante os últimos anos
temo-nos ocupado realmente em estudar suas manifestações. Permita-me que me sirva
dessa oportunidade para apresentar-lhe uma parte da teoria dos instintos que, depois de
muitas tentativas hesitantes e muitas vacilações de opinião, foi formulada pelos que
trabalham na área da psicanálise?
De acordo com nossa hipótese, os instintos humanos são de apenas dois tipos: aqueles
que tendem a preservar e a unir — que denominamos ‘eróticos’, exatamente no mesmo
sentido em que Platão usa a palavra ‘Eros’ em seu Symposium, ou ‘sexuais’, com uma
deliberada ampliação da concepção popular de ‘sexualidade’ —; e aqueles que tendem a
destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. Como o
senhor vê, isto não é senão uma formulação teórica da universalmente conhecida
oposição entre amor e ódio, que talvez possa ter alguma relação básica com a polaridade
entre atração e repulsão, que desempenha um papel na sua área de conhecimentos.
Entretanto, não devemos ser demasiado apressados em introduzir juízos éticos de bem e
de mal. Nenhum desses dois instintos é menos essencial do que o outro; os fenômenos
da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambos. Ora, é como se
um instinto de um tipo dificilmente pudesse operar isolado; está sempre acompanhado
— ou, como dizemos, amalgamado — por determinada quantidade do outro lado, que
modifica o seu objetivo, ou, em determinados casos, possibilita a consecução desse
objetivo. Assim, por exemplo, o instinto de autopreservação certamente é de natureza
erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu
propósito. Dessa forma, também o instinto de amor, quando dirigido a um objeto,
necessita de alguma contribuição do instinto de domínio, para que obtenha a posse
desse objeto. A dificuldade de isolar as duas espécies de instinto em suas manifestações
reais, é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-los.”

“Receio que eu possa estar abusando do seu interesse, que, afinal, se volta para a
prevenção da guerra e não para nossas teorias. Gostaria, não obstante, de deter-me um
pouco mais em nosso instinto destrutivo, cuja popularidade não é de modo algum igual
à sua importância. Como conseqüência de um pouco de especulação, pudemos supor
que esse instinto está em atividade em toda criatura viva e procura levá-la ao
aniquilamento, reduzir a vida à condição original de matéria inanimada. Portanto,
merece, com toda seriedade, ser denominado instinto de morte, ao passo que os instintos
eróticos representam o esforço de viver. O instinto de morte torna-se instinto destrutivo
quando, com o auxílio de órgãos especiais, é dirigido para fora, para objetos. O
organismo preserva sua própria vida, por assim dizer, destruindo uma vida alheia. Uma
parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos
procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do
instinto de destruição. Foi-nos até mesmo imputada a culpa pela heresia de atribuir a
origem da consciência a esse desvio da agressividade para dentro. O senhor perceberá
que não é absolutamente irrelevante se esse processo vai longe demais: é positivamente
insano. Por outro lado, se essas forças se voltam para a destruição no mundo externo, o
organismo se aliviará e o efeito deve ser benéfico. Isto serviria de justificação biológica
para todos os impulsos condenáveis e perigosos contra os quais lutamos. Deve-se
admitir que eles se situam mais perto da Natureza do que a nossa resistência, para a qual
também é necessário encontrar uma explicação. Talvez ao senhor possa parecer serem
nossas teorias uma espécie de mitologia e, no presente caso, mitologia nada agradável.
Todas as ciências, porém, não chegam, afinal, a uma espécie de mitologia como esta?
Não se pode dizer o mesmo, atualmente, a respeito da sua física?
Para nosso propósito imediato, portanto, isto é tudo o que resulta daquilo que ficou dito:
de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos homens. Segundo se nos
conta, em determinadas regiões privilegiadas da Terra, onde a natureza provê em
abundância tudo o que é necessário ao homem, existem povos cuja vida transcorre em
meio à tranqüilidade, povosque não conhecem nem a coerção nem a agressão.
Dificilmente posso acreditar nisso, e me agradaria saber mais a respeito de coisas tão
afortunadas. Também os bolchevistas esperam ser capazes de fazer a agressividade
humana desaparecer mediante a garantia de satisfação de todas as necessidades
materiais e o estabelecimento da igualdade, em outros aspectos, entre todos os membros
da comunidade. Isto, na minha opinião, é uma ilusão. Eles próprios, hoje em dia, estão
armados da maneira mais cautelosa, e o método não menos importante que empregam
para manter juntos os seus adeptos é o ódio contra qualquer pessoa além das suas
fronteiras. Em todo caso, como o senhor mesmo observou, não há maneira de eliminar
totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-los num grau tal
que não necessitem encontrar expressão na guerra.
Nossa teoria mitológica dos instintos facilita-nos encontrar a fórmula para métodos
indiretos de combater a guerra. Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto
destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros.
Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve
atuar contra a guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos. Em primeiro lugar, podem
ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado, embora não tenham uma
finalidade sexual. A psicanálise não tem motivo porque se envergonhar se nesse ponto
fala de amor, pois a própria religião emprega as mesmas palavras: ‘Ama a teu próximo
como a ti mesmo.’ Isto, todavia, é mais facilmente dito do que praticado. O segundo
vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que leva os homens a
compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas
identificações. E a estrutura da sociedade humana se baseia nelas, em grande escala.”

“Uma queixa que o senhor formulou acerca do abuso de autoridade, leva-me a uma
outra sugestão para o combate indireto à propensão à guerra. Um exemplo da
desigualdade inata e irremovível dos homens é sua tendência a se classificarem em dois
tipos, o dos líderes e o dos seguidores. Esses últimos constituem a vasta maioria; têm
necessidade de uma autoridade que tome decisões por eles e à qual, na sua maioria
devotam uma submissão ilimitada. Isto sugere que se deva dar mais atenção, do que até
hoje se tem dado, à educação da camada superior dos homens dotados de mentalidade
independente, não passível de intimidação e desejosa de manter-se fiel à verdade, cuja
preocupação seja a de dirigir as massas dependentes. É desnecessário dizer que as
usurpações cometidas pelo poder executivo do Estado e a proibição estabelecida pela
Igreja contra a liberdade de pensamento não são nada favoráveis à formação de uma
classe desse tipo. A situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que
tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão. Nada mais poderia unir os
homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos
emocionais. No entanto, com toda a probabilidade isto é uma expectativa utópica. Não
há dúvida de que os outros métodos indiretos de evitar a guerra são mais exeqüíveis,
embora não prometam êxito imediato. Vale lembrar aquela imagem inquietante do
moinho que mói tão devagar, que as pessoas podem morrer de fome antes de ele poder
fornecer sua farinha.
O resultado, como o senhor vê, não é muito frutífero quando um teórico desinteressado
é chamado a opinar sobre um problema prático urgente. É melhor a pessoa, em qualquer
caso especial, dedicar-se a enfrentar o perigo com todos os meios à mão.”
“Penso que a principal razão por que nos rebelamos contra a guerra é que não podemos
fazer outra coisa. Somos pacifistas porque somos obrigados a sê-lo, por motivos
orgânicos, básicos. E sendo assim, temos dificuldade em encontrar argumentos que
justifiquem nossa atitude.
Sem dúvida, isto exige alguma explicação. Creio que se trata do seguinte. Durante
períodos de tempo incalculáveis, a humanidade tem passado por um processo de
evolução cultural. (Sei que alguns preferem empregar o termo ‘civilização’). É a esse
processo que devemos o melhor daquilo em que nos tornamos, bem como uma boa
parte daquilo de que padecemos. Embora suas causas e seus começos sejam obscuros e,
incerto o seu resultado, algumas de suas características são de fácil percepção. Talvez
esse processo esteja levando à extinção a raça humana, pois em mais de um sentido ele
prejudica a função sexual; povos incultos e camadas atrasadas da população já se
multiplicam mais rapidamente do que as camadas superiormente instruídas. Talvez se
possa comparar o processo à domesticação de determinadas espécies animais, e ele se
acompanha, indubitavelmente, de modificações físicas; mas ainda não nos
familiarizamos com a idéia de que a evolução da civilização é um processo orgânico
dessa ordem. As modificações psíquicas que acompanham o processo de civilização são
notórias e inequívocas. Consistem num progressivo deslocamento dos fins instintuais e
numa limitação imposta aos impulsos instintuais. Sensações que para os nossos
ancestrais eram agradáveis, tornaram-se indiferentes ou até mesmo intoleráveis para
nós; há motivos orgânicos para as modificações em nossos ideais éticos e estéticos.
Dentre as características psicológicas da civilização, duas aparecem como as mais
importantes: o fortalecimento do intelecto, que está começando a governar a vida
instintual, e a internalização dos impulsos agressivos com todas as suas conseqüentes
vantagens e perigos. Ora, a guerra se constitui na mais óbvia oposição à atitude psíquica
que nos foi incutida pelo processo de civilização, e por esse motivo não podemos evitar
de nos rebelar contra ela; simplesmente não podemos mais nos conformar com ela. Isto
não é apenas um repúdio intelectual e emocional; nós, os pacifistas, temos uma
intolerância constitucional à guerra, digamos, uma idiossincrasia exacerbada no mais
alto grau. Realmente, parece que o rebaixamento dos padrões estéticos na guerra
desempenha um papel dificilmente menor em nossa revolta do que as suas crueldades.
E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne
pacifista? Não há como dizê-lo. Mas pode não ser utópico esperar que esses dois
fatores, a atitude cultural e o justificado medo das conseqüências de uma guerra futura,
venham a resultar, dentro de um tempo previsível, em que se ponha um término à
ameaça de guerra. Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos
adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da
civilização trabalha simultaneamente contra a guerra.
Espero que o senhor me perdoe se o que eu disse o desapontou, e com a expressão de
toda estima, subscrevo-me, cordialmente, SIGM. FREUD.”

CONFERÊNCIA XXXI
A DISSECÇÃO DA PERSONALIDADE PSÍQUICA

“(...) O superego aplica o mais rígido padrão de moral ao ego indefeso que lhe fica à
mercê; representa, em geral, as exigências da moralidade, e compreendemos
imediatamente que nosso sentimento moral de culpa é expressão da tensão entre o ego e
o superego. Constitui experiência muitíssimo marcante ver a moralidade, que se supõe
ter-nos sido dada por Deus e, portanto,profundamente implantada em nós, funcionando
nesses pacientes como fenômeno periódico. Pois, após determinado número de meses,
todo o exagero moral passou, a crítica do superego silencia, o ego é reabilitado e
novamente goza de todos os direitos do homem, até o surto seguinte. Em determinadas
formas da doença, na verdade, passa-se algo de tipo contrário, nos intervalos; o ego
encontra-se em um estado beatífico de exaltação, celebra um triunfo, como se o
superego tivesse perdido toda a sua força ou estivesse fundido no ego; e esse ego
liberado, maníaco, permite-se uma satisfação verdadeiramente desinibida de todos os
seus apetites. Aqui estão acontecimentos ricos em enigmas não solucionados!”

“Longe de nós desprezarmos a parcela de verdade psicológica da afirmação segundo a
qual a consciência é de origem divina; contudo a tese requer interpretação. Conquanto a
consciência seja algo ‘dentro de nós’, ela, mesmo assim, não o é desde o início. Nesse
ponto, ela é um contraste real com a vida sexual, que existe de fato desde o início da
vida e não é apenas um acréscimo posterior. Pois bem, como todos sabem, as crianças
de tenra idade são amorais e não possuem inibições internas contra seus impulsos que
buscam o prazer. O papel que mais tarde é assumido pelo superego é desempenhado, no
início, por um poder externo, pela autoridade dos pais. A influência dos pais governa a
criança, concedendo-lhe provas de amor e ameaçando com castigos, os quais, para a
criança, são sinais de perda do amor e se farão temer por essa mesma causa. Essa
ansiedade realística é o precursor da ansiedade moral subseqüente. Na medida em que
ela é dominante, não há necessidade de falar em superego e consciência. Apenas
posteriormente é que se desenvolve a situação secundária (que todos nós com
demasiada rapidez havemos de considerar como sendo a situação normal), quando a
coerção externa é internalizada, e o superego assume o lugar da instância parental e
observa, dirige e ameaça o ego, exatamente da mesma forma como anteriormente os
pais faziam com a criança.
O superego, que assim assume o poder, a função e até mesmo os métodos da instância
parental, é, porém, não simplesmente seu sucessor, mas também, realmente, seu
legítimo herdeiro. Procede diretamente dele, e verificaremos agora por que processo.
(...).
A base do processo é o que se chama ‘identificação’ — isto é, a ação de assemelhar um
ego a outro ego, em conseqüência do que o primeiro ego se comporta como o segundo
em determinados aspectos, imita-o e, em certo sentido, assimila-o dentro de si. A
identificação tem sido comparada, não inadequadamente, com a incorporação oral,
canibalística, da outra pessoa. É uma forma muito importante de vinculação a uma outra
pessoa, provavelmente a primeira forma, e não é o mesmo que escolha objetal. A
diferença entre ambas pode ser expressa mais ou menos da seguinte maneira. Se um
menino se identifica com seu pai, ele quer ser igual a seu pai; se fizer dele o objeto de
sua escolha, o menino quer tê-lo, possuí-lo. No primeiro caso, seu ego modifica-se
conforme o modelo de seu pai; no segundo caso, isso não é necessário. Identificação e
escolha objetal são, em grande parte, independentes uma da outra; no entanto, é possível
identificar-se com alguém que, por exemplo, foi tomado como objeto sexual, e
modificar o ego segundo esse modelo. Diz-se que a influência sobre o ego, motivada
pelo objeto sexual, ocorre com particular freqüência em mulheres e é característica da
feminilidade. Devo ter-lhes falado, já, em minhas conferências anteriores, daquilo que é,
sem dúvida, a relação mais esclarecedora entre identificação e escolha objetal. Pode ser
observado com igual facilidade em crianças e em adultos, tanto em pessoas normais
como em pessoas doentes. Se alguém perdeu um objeto, ou foi obrigado a se desfazer
dele, muitas vezes se compensa disto identificando-se com ele e restabelecendo-o
novamente no ego, de modo que, aqui, a escolha objetal regride, por assim dizer à
identificação.
Eu próprio não estou, de modo algum, satisfeito com esses comentários sobre
identificação; mas isto será suficiente se os senhores puderem assegurar-me de que a
instalação do superego pode ser classificada como exemplo bem-sucedido de
identificação com a instância parental.”

“Uma investigação atenta mostrou-nos, também, que o superego é tolhido em sua força
e crescimento se a superação do complexo de Édipo tem êxito apenas parcial. No
decurso do desenvolvimento, o superego também assimila as influências que tomaram o
lugar dos pais — educadores, professores, pessoas escolhidas como modelos ideais.
Normalmente, o superego se afasta mais e mais das figuras parentais originais; torna-se,
digamos assim, mais impessoal. E não se deve esquecer que uma criança tem conceitos
diferentes sobre seus pais, em diferentes períodos de sua vida. À época em que o
complexo de Édipo dá lugar ao superego, eles são algo de muito extraordinário; depois,
porém, perdem muito desse atributo. Realizam-se, pois, identificações também com
esses pais dessa fase ulterior, e, na verdade, regularmente fazem importantes
contribuições à formação do caráter; nesse caso, porém, apenas atingem o ego, já não
mais influenciam o superego que foi determinado pelas imagens parentais mais
primitivas.”

“Daquilo que dissemos sobre sua origem, segue-se que ele pressupõe um fato biológico
extremamente importante e um fato psicológico decisivo; ou seja, a prolongada
dependência da criança em relação a seus pais e o complexo de Édipo, ambos
intimamente inter-relacionados. O superego é para nós o representante de todas as
restrições morais, o advogado de um esforço tendente à perfeição — é, em resumo, tudo
o que pudemos captar psicologicamente daquilo que é catalogado como o aspecto mais
elevado da vida do homem. Como remonta à influência dos pais, educadores, etc.,
aprendemos mais sobre seu significado se nos voltamos para aqueles que são sua
origem. Via de regra, os pais, e as autoridades análogas a eles, seguem os preceitos de
seus próprios superegos ao educar as crianças. Seja qual for o entendimento a que
possam ter chegado entre si o seu ego e o seu superego, são severos e exigentes ao
educar os filhos. Esqueceram as dificuldades de sua própria infância e agora se sentem
contentes com identificar-se eles próprios, inteiramente, com seus pais, que no passado
impuseram sobre eles restrições tão severas. Assim, o superego de uma criança é, com
efeito, construído segundo o modelo não de seus pais, mas do superego de seus pais; os
conteúdos que ele encerra são os mesmos, e torna-se veículo da tradição e de todos os
duradouros julgamentos de valores que dessa forma se transmitiram de geração em
geração. Facilmente podem adivinhar que, quando levamos em conta o superego,
estamos dando um passo importante para a nossa compreensão do comportamento
social da humanidade — do problema da delinqüência, por exemplo — e, talvez, até
mesmo estejamos dando indicações práticas referentes à educação. Parece provável que
aquilo que se conhece como visão materialista da história peque por subestimar esse
fator. Eles o põem de lado, com o comentário de que as ‘ideologias’ do homem nada
mais são do que produto e superestrutura de suas condições econômicas
contemporâneas. Isto é verdade, mas muito provavelmente não a verdade inteira. A
humanidade nunca vive inteiramente no presente. O passado, a tradição da raça e do
povo, vive nas ideologias do superego e só lentamente cede às influências do
presente,no sentido de mudanças novas; e, enquanto opera através do superego,
desempenha um poderoso papel na vida do homem, independentemente de condições
econômicas.”

“Em face da dúvida quanto a saber se o ego e o superego são inconscientes, ou se
simplesmente produzem efeitos inconscientes, decidimo-nos, por boas razões, a favor
da primeira possibilidade. E é realmente este o caso: grande parte do ego e do superego
pode permanecer inconsciente e é normalmente inconsciente. Isto é, a pessoa nada sabe
dos conteúdos dos mesmos, e é necessário dispender esforços para torná-los
conscientes. É um fato que o ego e o consciente, o reprimido e o inconsciente não
coincidem.”

“Uma reflexão sobre essa relação dinâmica permite-nos, agora, distinguir duas espécies
de inconsciente — uma que é facilmente transformada, em circunstâncias de ocorrência
freqüente, em algo consciente; e uma outra, na qual essa transformação é difícil e
apenas se realiza quando sujeita a considerável dispêndio de esforços, ou,
possivelmente, jamais se efetue, absolutamente. Com a finalidade de evitar a
ambigüidade no sentido de estarmo-nos referindo, a um ou a outro inconsciente, de
estarmos usando a palavra no sentido descritivo ou no sentido dinâmico, utilizamo-nos
de um expediente permissível e simples. O inconsciente que está apenas latente, e
portanto facilmente se torna consciente, denominamo-lo ‘pré-consciente’, e reservamos
o termo ‘inconsciente’ para o outro. Temos, agora, três termos, ‘consciente’, ‘pré-
consciente’ e ‘inconsciente’, com os quais podemos ser bem-sucedidos em nossa
descrição dos fenômenos mentais.”

“A descoberta, realmente inconveniente, de que partes do ego e também do superego
são inconscientes, no sentido dinâmico, atua, nesse ponto, como um alívio — possibilita
a remoção de uma complicação. Percebemos não termos o direito de denominar
‘sistema Inc.’ a região mental alheia ao ego, de vez que a característica de ser
inconsciente não lhe é exclusiva. Assim sendo, não usaremos mais o termo
‘inconsciente’ no sentido sistemático e daremos àquilo que até agora temos assim
descrito um nome melhor, um nome que não seja mais passível de equívocos. Aceitando
uma palavra empregada por Nietzsche e acolhendo uma sugestão de George Groddeck
[1923], de ora em diante chama-lo-emos de ‘id’. Esse pronome impessoal parece
especialmente bem talhado para expressar a principal característica dessa região da
mente — o fato de ser alheia ao ego. O superego, o ego e o id — estes são, pois, os três
reinos, regiões, províncias em que dividimos o aparelho mental de um indivíduo, (...).”

“Os senhores não haverão de esperar que eu tenha muita coisa nova a dizer-lhes acerca
do id, exceto o seu nome novo. É a parte obscura, a parte inacessível de nossa
personalidade; o pouco que sabemos a seu respeito, aprendemo-lo de nosso estudo da
elaboração onírica e da formação dos sintomas neuróticos, e a maior parte disso é de
caráter negativo e pode ser descrita somente como um contraste com o ego. Abordamos
o id com analogias; denominamo-lo caos, caldeirão cheio de agitação fervilhante.
Descrevemo-lo como estando aberto, no seu extremo, a influências somáticas e como
contendo dentro de si necessidades instintuais que nele encontram expressão psíquica;
não sabemos dizer, contudo, em que substrato. Está repleto de energias que a ele
chegam dos instintos, porém não possui organização, não expressa uma vontade
coletiva, mas somente uma luta pela consecução da satisfação das necessidades
instintuais, sujeita à observância do princípio de prazer. As leis lógicas do pensamento
não se aplicam ao id, e isto é verdadeiro, acima de tudo, quanto à lei da contradição.
Impulsos contrários existem lado a lado, sem que um anule o outro, ou sem que um
diminua o outro: quando muito, podem convergir para formar conciliações, sob a
pressão econômica dominante, com vistas à descarga da energia. No id não há nada que
se possa comparar à negativa e é com surpresa que percebemos uma exceção ao teorema
filosófico segundo o qual espaço e tempo são formas necessárias de nossos atos
mentais. No id, não existe nada que corresponda à idéia de tempo; não há
reconhecimento da passagem do tempo, e — coisa muito notável e merecedora de
estudo no pensamento filosófico nenhuma alteração em seus processos mentais é
produzida pela passagem do tempo. Impulsos plenos de desejos, que jamais passaram
além do id, e também impressões, que foram mergulhadas no id pelas repressões, são
virtualmente imortais; depois de se passarem décadas, comportam-se como se tivessem
ocorrido há pouco. Só podem ser reconhecidos como pertencentes ao passado, só
podem perder sua importância e ser destituídos de sua catexia de energia, quando
tornados conscientes pelo trabalho da análise, e é nisto que, em grande parte, se baseia o
efeito terapêutico do tratamento analítico.”

“Naturalmente, o id não conhece nenhum julgamento de valores: não conhece o bem,
nem o mal, nem moralidade. Domina todos os seus processos o fator econômico ou, se
preferirem, o fator quantitativo, que está intimamente vinculado ao princípio de prazer.
Catexias instintuais que procuram a descarga — isto, em nossa opinião, é tudo o que
existe no id. Parece mesmo que a energia desses impulsos instintuais se acha num
estado diferente daquele encontrado em outras regiões da mente, muito mais móvel e
capaz de descarga; de outro modo, não ocorreriam os deslocamentos e as condensações,
que são tão característicos do id e que tão radicalmente desprezam a qualidade daquilo
que é catexizado — aquilo que no ego chamaríamos de uma idéia. Daríamos muito para
entender mais acerca dessas coisas! Aliás, os senhores podem verificar que estamos em
condições de atribuir ao id características outras além dessa de ser inconsciente, e
podem reconhecer a possibilidade de partes do ego e do superego serem inconscientes,
sem possuírem as mesmas características primitivas e irracionais.—Podemos esclarecer
melhor as características do ego real, na medida em que este pode ser diferenciado do id
e do superego, examinando sua relação com a parte mais superficial do aparelho mental,
que descrevemos como o sistema Pcpt.-Cs. Esse sistema está voltado para o mundo
externo, é o meio de percepção daquilo que surge de fora, e durante o seu
funcionamento surge nele o fenômeno da consciência. É o órgão sensorial de todo o
aparelho; ademais, é receptivo não só às excitações provenientes de fora, mas também
àquelas que emergem do interior da mente. Quase não necessitamos procurar uma
justificativa para a opinião segundo a qual o ego é aquela parte do id que se modificou
pela proximidade e influência do mundo externo, que está adaptada para a recepção de
estímulos, e adaptada como escudo protetor contra os estímulos, comparável à camada
cortical que circunda uma pequena massa de substância viva. A relação com o mundo
externo tornou-se o fator decisivo para o ego; este assumiu a tarefa de representar o
mundo externo perante o id — o que é uma sorte para o id, que não poderia escapar à
destruição se, em seus cegos intentos que visam à satisfação de seus instintos, não
atentasse para esse poder externo supremo. Ao cumprir com essa função, o ego deve
observar o mundo externo, deve estabelecer um quadro preciso do mesmo nos traços de
memória de suas percepções, e, pelo seu exercício da função de ‘teste de realidade’,
deve excluir tudo o que nesse quadro do mundo externo é um acréscimo decorrente de
fontes internas de excitação. O ego controla os acessos à motilidade, sob as ordens do
id; mas, entre uma necessidade e uma ação, interpôs uma protelação sob forma de
atividade do pensamento, durante a qual se utiliza dos resíduos mnêmicos da
experiência. Dessa maneira, o ego destronou o princípio de prazer, que domina o curso
dos eventos no id sem qualquer restrição, e o substituiu pelo princípio de realidade, que
promete maior certeza e maior êxito.”

“Até aqui, temo-nos deixado impressionar pelos méritos e capacidades do ego; é tempo,
agora, de considerar também o outro lado. O ego, afinal, é apenas uma parte do id, uma
parte que foi adequadamente modificada pela proximidade com o mundo externo, com
sua ameaça de perigo. Do ponto de vista dinâmico, ele é fraco, tomou emprestadas ao id
as suas forças, e em parte entendemos os métodos — poderíamos chamá-los
subterfúgios — pelos quais extrai do id quantidades adicionais de energia.”

“Adverte-nos um provérbio de que não sirvamos a dois senhores ao mesmo tempo. O
pobre do ego passa por coisas ainda piores: ele serve a três severos senhores e faz o que
pode para harmonizar entre si seus reclamos e exigências. Esses reclamos são sempre
divergentes e freqüentemente parecem incompatíveis. Não é para admirar se o ego
tantas vezes falha em sua tarefa. Seus três tirânicos senhores são o mundo externo, o
superego e o id. Quando acompanhamos os esforços do ego para satisfazê-los
simultaneamente — ou antes, para obedecer-lhes simultaneamente —, não podemos nos
arrepender por termo-lo personificado ou por termo-lo erigido em um organismo
separado. Ele se sente cercado por três lados, ameaçado por três tipos de perigo, aos
quais reage, quando duramente pressionado, gerando ansiedade.”

“Assim, o ego, pressionado pelo id, confinado pelo superego, repelido pela realidade,
luta por exercer eficientemente sua incumbência econômica de instituir a harmonia
entre as forças e as influências que atuam nele e sobre ele; e podemos compreender
como é que com tanta freqüência não podemos reprimir uma exclamação: ‘A vida não é
fácil!’ Se o ego é obrigado a admitir sua fraqueza, ele irrompe em ansiedade —
ansiedade realística referente ao mundo externo, ansiedade moral referente ao superego
e ansiedade neurótica referente à força das paixões do id.”

“Ao pensar nessa divisão da personalidade em um ego, um superego e um id,
naturalmente, os senhores não terão imaginado fronteiras nítidas como as fronteiras
artificiais delineadas na geografia política. Não podemos fazer justiça às características
da mente por esquemas lineares como os de um desenho ou de uma pintura primitiva,
mas de preferência por meio de áreas coloridas fundindo-se umas com as outras,
segundo as apresentam artistas modernos. Depois de termos feito a separação, devemos
permitir que novamente se misture, conjuntamente, o que havíamos separado. Os
senhores não devem julgar com demasiado rigor uma primeira tentativa de proporcionar
uma representação gráfica de algo tão intangível como os processos psíquicos. É
altamente provável que o desenvolvimento dessas divisões esteja sujeito a grandes
variações em diferentes indivíduos; é possível que, no decurso do funcionamento real,
elas possam mudar e passar por uma fase temporária de involução. Particularmente no
caso da que é filogeneticamente a última e a mais delicada dessas divisões — a
diferenciação entre o ego e o superego — algo desse teor parece verdadeiro. Está fora
de dúvida que a mesma coisa se produz através da doença psíquica. Também é fácil
imaginar que determinadas práticas místicas possam conseguir perturbar as relações
normais entre as diferentes regiões da mente, de modo que, por exemplo, a percepção
pode ser capaz de captar acontecimentos, nas profundezas do ego e no id, os quais de
outro modo lhe seriam inacessíveis. Pode-se, porém, com segurança, duvidar se a esse
caminho nos levará às últimas verdades das quais é de se esperar a salvação. Não
obstante, pode-se admitir que os intentos terapêuticos da psicanálise têm escolhido uma
linha de abordagem semelhante. Seu propósito é, na verdade, fortalecer o ego, fazê-lo
mais independente do superego, ampliar seu campo de percepção e expandir sua
organização, de maneira a poder assenhorear-se de novas partes do id. Onde estava o id,
ali estará o ego. É uma obra de cultura — não diferente da drenagem do Zuider Zee.”


CONFERÊNCIA XXXII
ANSIEDADE E VIDA INSTINTUAL


“O temor de castração não é, naturalmente, o único motivo para repressão: na verdade,
não sucede nas mulheres, pois, embora tenham elas um complexo de castração, não
podem ter medo de serem castradas. Em seu sexo, o que sucede é o temor à perda do
amor, o que é, evidentemente, um prolongamento posterior de ansiedade da criança
quando constata a ausência da mãe. Os senhores perceberão quão real é a situação de
perigo indicada por essa ansiedade. Se uma mãe está ausente ou retirou seu amor de seu
filho, este não tem mais certeza de que suas necessidades serão satisfeitas e talvez seja
exposto aos mais angustiantes sentimentos de tensão. Não rejeitem a idéia de que esses
fatores determinantes de ansiedade possam, no fundo, repetir a situação de ansiedade
original, ocorrida no nascimento, que, de fato, também representou uma separação da
mãe. Realmente, se os senhores acompanharem uma seqüência de idéias sugeridas por
Ferenczi [1925], podem acrescentar a essa série o temor de castração, pois a perda do
órgão masculino resulta na incapacidade de unir-se novamente à mãe (ou a uma
substituta dela) no ato sexual. Posso dizer-lhes, aliás, que a tão freqüente fantasia de
retornar ao útero materno é um sucedâneo desse desejo de copular. Haveria, nesse
ponto, muitas coisas interessantes e correlações surpreendentes para referir aos
senhores; porém, não posso afastar-me do esquema de uma introdução à psicanálise.
Apenas chamarei a atenção dos senhores para o fato de que, aqui, as pesquisas
psicológicas invadem os fatos da biologia.”

“O perigo de desamparo psíquico ajusta-se ao estádio da imaturidade inicial do ego; o
perigo de perda de um objeto (ou perda do amor) ajusta-se à falta de auto-suficiência
dos primeiros anos da infância; o perigo de ser castrado ajusta-se à fase fálica; e,
finalmente, o temor ao superego, que assume uma posição especial, ajusta-se ao período
de latência. No decorrer do desenvolvimento, os antigos fatores determinantes de
ansiedade deveriam sumir, pois as situações de perigo correspondentes a eles perderam
sua importância devido ao fortalecimento do ego. Isto, contudo, só ocorre de forma
muito incompleta. Muitas pessoas são incapazes de superar o temor da perda do amor;
nunca se tornam suficientemente independentes do amor de outras pessoas e, nesse
aspecto, comportam-se como crianças. O temor ao superego normalmente jamais deve
cessar, pois, sob a forma de ansiedade moral, é indispensável nas relações sociais, e
somente em casos muito raros pode um indivíduo tornar-se independente da sociedade
humana. Algumas das antigas situações de perigo também conseguem sobreviver em
períodos posteriores, fazendo modificações concomitantes nos fatores determinantes de
ansiedade. Assim, por exemplo, o perigo de castração persiste sob a marca da fobia à
sífilis. É verdade que, como adulto, se sabe que a castração não mais faz parte do
costume de punir excessos de desejos sexuais, mas, por outro lado, verifica-se que a
liberdade instintual desse tipo é ameaçada por graves doenças. Não há dúvida de que as
pessoas que qualificamos como neuróticas, permanecem infantis em sua atitude relativa
ao perigo e não venceram as obsoletas causas determinantes de ansiedade.”

“Deixemos, pois, que Abraham nos lembre que, embriologicamente, o ânus corresponde
à boca primitiva que migrou para baixo, para a parte terminal do intestino. Temos
constatado, ainda, que, depois que as fezes, os excrementos de uma pessoa, perderam
seu valor para essa pessoa, esse interesse intestinal, derivado da origem anal, transfere-
se para objetos que podem ser dados como dádivas. E isto é exatamente assim, pois as
fezes foram a primeira dádiva que uma criança pôde dar, algo que ela pôde entregar por
amor a quem estivesse cuidando dela. Depois disso, correspondendo exatamente a
mudanças análogas de significado que ocorrem na evolução lingüística, esse antigo
interesse pelas fezes transforma-se no grande valor concedido ao ouro e ao dinheiro,
mas também contribui para a catexia afetiva de bebê e de pênis. Entre as crianças, as
quais por longo tempo conservam a teoria da cloaca, constitui convicção universal que
os bebês nascem do intestino como o excremento: a defecação é o modelo do ato do
nascimento. No entanto, também o pênis tem o seu precursor na coluna fecal que enche
e estimula a membrana mucosa do intestino. Quando uma criança, muito a contragosto,
vem a perceber que há criaturas humanas que não possuem pênis, este aparece-lhe como
algo destacável do corpo e se torna inequivocamente análogo ao excremento, que foi a
primeira peça de material corporal a que teve de renunciar. Assim, uma grande parte do
erotismo anal é transportada para a catexia do pênis. O interesse por essa parte do corpo
tem, contudo, além de sua origem anal-erótica, uma origem oral, que talvez seja ainda
mais poderosa: pois quando a sucção chega ao fim, o pênis também se torna herdeiro do
mamilo do seio materno.
Se não se está cônscio dessas conexões profundas, é impossível orientar-se nas fantasias
dos seres humanos, nas suas associações, que são tão influenciadas pelo inconsciente, e
na sua linguagem sintomática. Fezes — dinheiro — dádiva — bebê — pênis são aí
tratados como se significassem a mesma coisa, e representados, também, pelos mesmos
símbolos. E não devem esquecer que apenas pude dar-lhes informações muito
incompletas. Rapidamente posso acrescentar, talvez, que o interesse pela vagina, que
desperta mais tarde, também é essencialmente de origem anal-erótica.”

“Não mantivemos muito tempo essa posição. Nossa intuição de haver um antagonismo
na vida instintual encontrou, em pouco tempo, uma outra expressão mais nítida. Não é
meu desejo, todavia, expor aos senhores a origem dessa inovação na teoria dos instintos;
também ela se baseia essencialmente em razões biológicas. Mostrá-la-ei aos senhores,
como um produto acabado. Nossa hipótese reside em que existem essencialmente duas
classes diferentes de instintos: os instintos sexuais, compreendidos no mais amplo
sentido — Eros, se preferem esse nome —, e os instintos agressivos, cuja finalidade é a
destruição. Quando isto é, assim, posto diante dos senhores, dificilmente o considerarão
novidade. Parece uma tentativa de transfiguração teórica da comum oposição entre amar
e odiar, que coincide, quem sabe, com a outra polaridade, atração e repulsão, que a
física supõe existir no mundo inorgânico. Contudo, deve-se observar que essa hipótese,
não obstante, é sentida por muitas pessoas como inovação e, na verdade, como inovação
das mais indesejáveis, que deveria ser eliminada tão depressa quanto possível. Suponho
que nessa rejeição está em jogo um poderoso fator afetivo. Por que necessitamos de
tempo tão longo para nos decidirmos a reconhecer uminstinto agressivo? Por que
hesitamos em utilizarmos, em benefício de nossa teoria, de fatos que eram óbvios e
familiares a todos? Teríamos, provavelmente, encontrado pouco resistência, se
quiséssemos atribuir a animais um instinto com uma tal finalidade. Todavia, parece
sacrílego incluí-lo na constituição humana; contradiz muitíssimas suposições religiosas
e convenções sociais. Não; naturalmente, o homem deve ser bom, ou, ao menos, de boa
índole. Se, ocasionalmente, se mostra brutal, violento ou cruel, isto são apenas
perturbações transitórias de sua vida emocional, na sua maior parte provocadas, ou,
talvez, apenas conseqüências das regras sociais inadequadas que ele, até então, impôs a
si mesmo.
Infelizmente, o que a História nos conta e o que nós mesmos temos experimentado, não
fala nesse sentido, mas, antes, justifica a conclusão de que a crença na ‘bondade’ da
natureza humana é uma dessas perniciosas ilusões com as quais a humanidade espera
seja sua vida embelezada e facilitada, enquanto, na realidade, só causam prejuízo.”

“Os instintos regem não só a vida mental, mas também a vida vegetativa, e esses
instintos essenciais exibem uma característica que merece o nosso mais profundo
interesse. (Não poderemos julgar, senão mais tarde, se se trata de uma característica
geral dos instintos.) O fato é que eles revelam uma propensão a restaurar uma situação
anterior. Podemos supor que, desde o momento em que uma situação, tendo sido uma
vez alcançada, é desfeita, surge um instinto para criá-la novamente e ocasiona
fenômenos que podemos descrever como uma ‘compulsão à repetição’. Assim, toda a
embriologia é um exemplo da compulsão à repetição. Uma capacidade de regenerar
órgãos perdidos estende-se amplamente ao reino animal, e o instinto de recuperação, ao
qual, ao lado da ajuda terapêutica, devemos nossas curas, deve ser o remanescente dessa
capacidade tão extraordinariamente desenvolvida em animais inferiores. Peixes que
migram para a desova, pássaros que voam em migração, e possivelmente tudo o que
qualificamos como manifestação de instinto em animais, realizam-se sob as ordens da
compulsão à repetição, que exprime a natureza conservadora dos instintos. E não temos
de procurar muito por suas manifestações na área mental. Chamou-nos a atenção o fato
de que experiências reprimidas e esquecidas da infância são reproduzidas, durante o
trabalho da análise, nos sonhos e nas reações, particularmente naquelas ocorrentes na
transferência, embora seu revivescimento vá de encontro ao interesse do princípio de
prazer. [Cf. [1]]; explicamos esse fato com a suposição de que, nesses casos, uma
compulsão à repetição vence até mesmo o princípio de prazer. Fora da análise, também,
pode-se observar algo semelhante. Há pessoas em cujas vidas se repetem
indefinidamente as mesmas reações não-corrigidas, em prejuízo delas próprias, assim
como há outras pessoas que parecem perseguidas por um destino implacável, embora
uma investigação mais atenta nos mostre que tais pessoas, sem se aperceberem, causam
a si mesmas esse destino. Em tais casos, atribuímos um caráter ‘demoníaco’ à
compulsão à repetição.
Como essa característica conservadora dos instintos pode, contudo, auxiliar-nos a
entender nossa autodestrutividade? Que situação anterior um instinto desses quer
restaurar? Bem, a resposta, não é tão difícil encontrá-la, e ela abre amplas perspectivas.
Se é verdade que — em alguma época incomensuravelmente remota e numa forma que
não podemos imaginar — a vida se originou da matéria inorgânica, então, de acordo
com nossa suposição, deve ter surgido um instinto que procurou eliminar a vida
novamente e restabelecer o estado inorgânico. Se reconhecemos nesse instinto a
autodestrutividade de nossa hipótese, podemos considerar a autodestrutividade
expressão de um ‘instinto de morte’ que não pode deixar de estar presente em todo
processo vital. Ora, os instintos, nos quais acreditamos, dividem-se em dois grupos —
os instintos eróticos, que buscam combinar cada vez mais substância viva em unidades
cada vez maiores, e os instintos de morte, que se opõem a essa tendência e levam o que
está vivo de volta a um estado inorgânico. Da ação concorrente e antagônica desses dois
procedem os fenômenos da vida que chegam ao seu fim com a morte.
Talvez os senhores venham a sacudir os ombros e dizer: ‘Isto não é ciência natural, é
filosofia de Schopenhauer!’ Mas, senhoras e senhores, por que um pensador ousado não
poderia ter entrevisto algo que depois se confirma por intermédio de uma pesquisa séria
e laboriosa? Ademais, não há nada que já não tenha sido dito, e coisas parecidas tinham
sido ditas por muitas pessoas, antes de Schopenhauer. E mais, o que estamos dizendo
não é nem mesmo Schopenhauer autêntico. Não estamos afirmando que a morte é o
único objetivo da vida; não estamos desprezando o fato de que existe vida, assim como
existe morte. Reconhecemos dois instintos básicos, e atribuímos a cada um deles a sua
própria finalidade. Como os dois se mesclam no processo de viver, como o instinto de
morte é posto a serviço dos propósitos de Eros, especialmente sendo voltado para fora
na forma de agressividade — estas são tarefas reservadas à investigação futura.”

“Tornou-se hábito nosso dizer que nossa civilização foi construída à custa das
tendências sexuais que, sendo inibidas pela sociedade, são, com efeito, em parte
reprimidas, mas, em parte, tornaram-se utilizáveis em outros fins. Também temos
admitido que, a despeito de todo o nosso orgulho por nossas conquistas culturais, não
nos é fácil satisfazer os requisitos dessa civilização e sentir-nos à vontade nela, porque
as restrições instintuais impostas a nós constituem uma pesada carga psíquica. Pois
bem, o que vimos acerca dos instintos sexuais aplica-se igualmente, e talvez ainda mais,
a outros instintos, os instintos agressivos. São estes, acima de tudo, que tornam difícil a
vida do homem em comunidade e ameaçam sua sobrevivência. A restrição à
agressividade do indivíduo é o primeiro e talvez o mais severo sacrifício que dele exige
a sociedade. Temos verificado de que maneira simplista se conseguiu domar essa coisa
indomável. A instituição do superego, que toma conta dos impulsos agressivos
perigosos, introduz um destacamento armado, por assim dizer, nas regiões inclinadas à
rebelião. Mas, por outro lado, se a encaramos exclusivamente do ponto de vista
psicológico, devemos reconhecer que o ego não se sente feliz ao ser assim sacrificado às
necessidades da sociedade, ao ter que se submeter às tendências destrutivas da
agressividade, que ele teria tido a satisfação de empregar contra os outros. É como que
um prolongamento, na esfera mental, do dilema ‘comer ou ser comido’ que domina o
mundo orgânico animado. Felizmente, os instintos agressivos nunca estão sozinhos, mas
sempre amalgamados aos eróticos. Estes, os instintos eróticos, têm muita coisa a atenuar
e muita coisa a obviar sob as condições da civilização que a humanidade criou.”

Novas conferências introdutórias
sobre psicanálise
e outros trabalhos

VOLUME XXII
(1932-1936)

CONFERÊNCIA XXXIII
FEMINILIDADE



“Ambos os sexos parecem atravessar da mesma maneira as fases iniciais do
desenvolvimento libidinal. Poder-se-ia esperar que, nas meninas, já teria havido algum
abrandamento da agressividade na fase sádico-anal, mas não é este o caso. A análise do
brinquedo de crianças mostrou às nossas analistas de crianças que os impulsos
agressivos de menininhas não deixam nada a desejar em matéria de quantidade e de
violência. Com seu ingresso na fase fálica, as diferenças entre os sexos são
completamente eclipsadas pelas suas semelhanças. Nisto somos obrigados a reconhecer
que a menininha é um homenzinho. Nos meninos, conforme sabemos, essa fase é
marcada pelo fato de que aprenderam a obter sensações prazerosas do seu pequeno
pênis, e relacionam seu estado de excitação às suas idéias de relação sexual. As
menininhas fazem o mesmo com seu diminuto clitóris. Parece que em todas elas a
atividade masturbatória é executada nesse equivalente do pênis e que a vagina
verdadeiramente feminina, a essa época, ainda não foi descoberta por ambos os sexos. É
verdade que há também alguns relatos isolados de sensações vaginais precoces, mas não
poderia ser fácil distingui-las de sensações no ânus ou no vestíbulo; de qualquer
maneira, não podem ter muita importância. Estamos autorizados a manter nossa opinião
segundo a qual, na fase fálica das meninas, o clitóris é a principal zona erógena. Mas,
naturalmente, não vai permanecer assim. Com a mudança para a feminilidade, o clitóris
deve, total ou parcialmente, transferir sua sensibilidade, e ao mesmo tempo sua
importância, para a vagina. Esta seria uma das duas tarefas que uma mulher tem de
realizar no decorrer do seu desenvolvimento, ao passo que o homem, mais afortunado,
só precisa continuar, na época de sua maturidade, a atividade que executara
anteriormente, no período inicial do surgimento de sua sexualidade.”

“Para um menino, sua mãe é o primeiro objeto de seu amor, e ela assim permanece
também durante a formação do complexo de Édipo e, em essência, por toda a vida dele.
Para a menina, também, o seu primeiro objeto deve ser sua mãe (e as figuras da babá e
da nutriz, que nela se fundem). As primeiras catexias objetais ocorrem em conexão com
a satisfação de necessidades vitais importantes e simples, e as circunstâncias relativas à
criação dos filhos são as mesmas para ambos os sexos. Na situação edipiana, porém, a
menina tem seu pai como objeto amoroso, e espera-se que no curso normal do
desenvolvimento ela haverá de passar desse objeto paterno para sua escolha objetal
definitiva. Com o passar do tempo, portanto, uma menina tem de mudar de zona
erógena e de objeto — e um menino mantém ambos. Surge então a questão de saber
como isto ocorre: particularmente, como é que a menina passa da vinculação com sua
mãe para a vinculação com seu pai? ou, em outros termos, como passa ela da fase
masculina para a feminina, à qual biologicamente está destinada?
Seria uma solução idealmente simples, se pudéssemos supor que, a partir de
determinada idade em diante, a influência fundamental da atração recíproca entre os
sexos se faz sentir e impele a mulherzinha para o homem, enquanto a mesma lei permite
ao menino continuar com sua mãe. Poderíamos supor, de resto, que nesse ponto os
filhos estão seguindo a indicação que lhes foi dada pela preferência sexual de seus pais.
Não haveremos de encontrar as coisas tão fáceis assim, contudo; mal sabemos se
podemos acreditar com seriedade no poder do qual os poetas falam tanto e com tanto
entusiasmo, o qual, porém, analiticamente não pode ser investigado em maior
profundidade. Encontramos uma resposta de tipo bem diverso à custa de laboriosas
investigações, e pelo menos foi fácil chegar ao material respectivo. Pois ossenhores
devem saber que é muito grande o número de mulheres que continuam, ainda em idade
madura, dependentes de um objeto paterno, ou, na verdade, de seu pai real. A respeito
dessas mulheres com uma intensa vinculação de longa duração para com o pai, temos
constatado alguns fatos surpreendentes. Sabíamos, naturalmente, que houvera um
estádio preliminar de vinculação com a mãe, mas não sabíamos que pudesse ser tão rico
e tão duradouro, e pudesse deixar atrás de si tantas oportunidades para fixações e
disposições. Durante essa fase, o pai da menina é apenas um rival incômodo; em alguns
casos, a vinculação à mãe perdura além do quarto ano de vida. Quase tudo o que
posteriormente encontramos em sua relação com o pai, já estava presente em sua
vinculação inicial e foi transferido, subseqüentemente, para seu pai, Em suma, fica-nos
a impressão de que não conseguimos entender as mulheres, a menos que valorizemos
essa fase de sua vinculação pré-edipiana à mãe.
Será então de nosso agrado conhecermos a natureza das relações libidinais da menina
para com sua mãe. A resposta é que tais relações se apresentam sob muitas formas
diferentes. De vez que persistem através de todas as três fases da sexualidade infantil,
também assumem as características das diversas fases e se expressam por desejos orais,
sádico-anais e fálicos. Esses desejos representam impulsos ativos e também passivos; se
os relacionamos à diferenciação dos sexos que vai surgir depois — embora devamos
evitar de fazê-lo, até onde for possível —, podemos chamá-los de masculino e feminino.
A par disto, são completamente ambivalentes, possuindo tanto uma natureza carinhosa,
como hostil e agressiva. Esta última muitas vezes só vem à luz depois de haver-se
transformado em idéias angustiantes. Nem sempre é fácil precisar uma formulação
desses desejos sexuais iniciais; o que mais claramente se expressa é um desejo da
menina, de ter da mãe um filho, e o desejo correspondente de ela mesma ter um filho —
ambos desejos pertencentes ao período fálico e certamente surpreendentes, porém
estabelecidos, acima de qualquer dúvida, pela observação analítica. O aspecto atraente
dessas investigações está nas detalhadas e surpreendentes descobertas que nos trazem.
Assim, por exemplo, descobrimos o medo de ser assassinada ou envenenada, o qual
posteriormente poderá formar o núcleo de uma doença paranóide, presente já nesse
período pré-edipiano, em relação à mãe.”

“No período em que o principal interesse voltava-se para a descoberta de traumas
sexuais infantis, quase todas as minhas pacientes contavam-me haverem sido seduzidas
pelo pai. Fui forçado a reconhecer, por fim, que tais relatos eram inverídicos, e assim
cheguei a compreender que os sintomas histéricos derivam de fantasias, e não de
ocorrências reais. Apenas mais tarde pude reconhecer nessa fantasia de ser seduzida
pelo pai a expressão do típico complexo de Édipo nas mulheres. E agora encontramos
mais uma vez a fantasia de sedução na pré-história pré-edipiana das meninas; contudo, o
sedutor é regularmente a mãe. Aqui, a fantasia toca o chão da realidade, pois foi
realmente a mãe quem, por suas atividades concernentes à higiene corporal da criança,
inevitavelmente estimulou e, talvez, até mesmo despertou, pela primeira vez, sensações
prazerosas nos genitais da menina.
Não tenho dúvidas de que os senhores estão dispostos a manifestar a suspeita de que
esse quadro da quantidade e da intensidade do relacionamento sexual da menininha com
sua mãe estaria exagerado. Afinal, tem-se ocasião de ver menininhas, e não se observa
nada dessa espécie. A objeção não procede, entretanto. São muitas as coisas que se pode
ver nas crianças, basta saber olhar. Ademais, deveriam considerar quão pouco dos seus
desejos sexuais uma criança pode admitir em plano pré-consciente, ou, muito menos,
pode comunicar. Por conseguinte, estamos simplesmente dentro dos nossos direitos
quando estudamos, em retrospecto, os remanescentes e as conseqüências do mundo
emocional de pessoas nas quais esses processos de desenvolvimento atingiram um grau
de expansão especialmente evidente, e até mesmo excessivo. A patologia sempre nos
serviu para tornar perceptíveis,ao isolar e exagerar, aquelas situações que
permaneceriam ocultas em um estado normal. (...).
Orientaremos, agora, nosso interesse no sentido de saber unicamente que coisa põe fim
a essa poderosa vinculação da menina à sua mãe. Conforme sabemos, este é o seu
destino habitual: está determinado a dar lugar a uma vinculação a seu pai. Aqui,
deparamos com um fato que constitui uma indicação para nosso esclarecimento
subseqüente. Esse passo no desenvolvimento não envolve apenas uma simples troca de
objeto. O afastar-se da mãe, na menina, é um passo que se acompanha de hostilidade; a
vinculação à mãe termina em ódio. Um ódio dessa espécie pode tornar-se muito
influente e durar toda a vida; pode ser muito cuidadosamente supercompensado,
posteriormente; geralmente, uma parte dele é superada, ao passo que a parte restante
persiste.”

“Uma fonte abundante de hostilidade de uma criança para com sua mãe é o que
proporcionam os desejos sexuais multiformes, que se modificam de acordo com a fase
da libido e que, em sua maior parte, não podem ser satisfeitos. As mais intensas
frustrações ocorrem no período fálico, se a mãe proíbe a atividade prazerosa com os
genitais — muitas vezes com ameaças severas e todos os sinais de desagrado —,
atividade em que, afinal de contas, ela mesma iniciara a criança. Daria para pensar que
estas são razões bastantes para fazer com que a menina se afaste de sua mãe. Se assim
for, seria de julgar que a desavença decorra inevitavelmente da natureza da sexualidade
infantil, do caráter ilimitado de suas exigências de amor e da impossibilidade de realizar
seus desejos sexuais. Na verdade, poder-se-ia pensar que essa primeira relação amorosa
da criança está destinada à dissolução pelo próprio motivo de ser a primeira, pois essas
primeiras catexias objetais são, habitualmente, em grau elevado ambivalentes. Uma
poderosa tendência à agressividade está sempre presente ao lado de um amor intenso, e
quanto mais profundamente uma criança ama seu objeto, mais sensível se torna aos
desapontamentos e frustrações provenientes desse objeto; e, no final, o amor deve
sucumbir à hostilidade acumulada. Ou então deve ser rejeitada a idéia de que haja uma
ambivalência inicial básica como esta nas catexias objetais, podendo ser assinalado que
é a natureza especial da relação mãe-filho que leva, com igual inevitabilidade, à
destruição do amor da criança; a própria educação mais branda não pode evitar o uso da
coerção e a introdução de restrições, e toda intervenção desse tipo na liberdade da
criança deve provocar como reação uma inclinação à rebeldia e à agressividade. Penso
que seria muito interessante uma discussão dessas possibilidades; no entanto, logo surge
uma objeção que força o nosso interesse noutra direção. Todos esses fatores — as
desfeitas, os desapontamentos no amor, o ciúme, a sedução seguida da proibição —
afinal também estão atuantes na relação do menino com sua mãe e, ainda assim, não são
capazes de afastá-lo do objeto materno. A menos que possamos encontrar algo que seja
específico das meninas e não esteja presente, ou não esteja presente da mesma maneira,
nos meninos, não teremos explicado o término da vinculação das meninas à sua mãe.
Acredito havermos encontrado esse fator específico, e, na verdade, no lugar onde
esperávamos encontrá-lo, embora numa forma surpreendente. Eu disse onde
esperávamos encontrá-lo, pois se situa no complexo de castração. Afinal, a distinção
anatômica [entre os sexos] deve expressar-se em conseqüências psíquicas. Foi uma
surpresa, no entanto, constatar, na análise, que as meninas responsabilizam sua mãe pela
falta de pênis nelas e não perdoam por terem sido, desse modo, colocadas em
desvantagem.
Como vêem, pois, atribuímos às mulheres um complexo de castração. E por boas razões
o fazemos, embora seu conteúdo não possa ser o mesmo que o dos meninos. Nestes, o
complexo de castração surge depois de haverem constatado, à vista dos genitais
femininos, que o órgão, que tanto valorizam,não acompanha necessariamente o corpo.
Nisto, acodem à lembrança do menino as ameaças que provocou contra si, ao brincar
com esse órgão; começa a dar crédito a elas, e cai sob a influência do temor de
castração, que será a mais poderosa força motriz do seu desenvolvimento subseqüente.
O complexo de castração nas meninas também inicia ao verem elas os genitais do outro
sexo. De imediato percebem a diferença e, deve-se admiti-lo, também a sua
importância. Sentem-se injustiçadas, muitas vezes declaram que querem ‘ter uma coisa
assim, também’, e se tornam vítimas da ‘inveja do pênis’; esta deixará marcas
indeléveis em seu desenvolvimento e na formação de seu caráter, não sendo superada,
sequer nos casos mais favoráveis, sem um extremo dispêndio de energia psíquica. O
fato de a menina reconhecer que lhe falta o pênis, não implica, absolutamente, que ela
se submeta a tal fato com facilidade. Pelo contrário, continua a alimentar, por longo
tempo, o desejo de possuir algo semelhante e acredita nessa possibilidade durante
muitos anos; e a análise pode mostrar que, num período em que o conhecimento da
realidade há muito rejeitou a realização do desejo, por sabê-lo inatingível, ele persiste
no inconsciente e conserva uma considerável catexia de energia. O desejo de ter o pênis
tão almejado pode, apesar de tudo finalmente contribuir para os motivos que levam uma
mulher à análise, e o que ela racionalmente pode esperar da análise — capacidade de
exercer uma profissão intelectual, por exemplo — amiúde pode ser identificado como
uma modificação sublimada desse desejo reprimido.
É difícil duvidar da importância da inveja do pênis. Os senhores podem imaginar como
sendo um exemplo de injustiça masculina eu afirmar que a inveja e o ciúme
desempenham, mesmo, um papel de relevo maior na vida mental das mulheres, do que
na dos homens. Não é que eu pense estarem essas características ausentes nos homens,
ou julgue que elas não tenham nas mulheres outras raízes além da inveja do pênis; estou
inclinado, no entanto, a atribuir sua quantidade maior nas mulheres a essa influência.”

“A descoberta de que é castrada representa um marco decisivo no crescimento da
menina. Daí partem três linhas de desenvolvimento possíveis: uma conduz à inibição
sexual ou à neurose, outra, à modificação do caráter no sentido de um complexo de
masculinidade, a terceira, finalmente, à feminilidade normal. (...).
Por muito tempo, o complexo de Édipo da menina ocultou à nossa observação a sua
vinculação pré-edipiana com sua mãe, embora seja tão importante e deixe atrás de si
fixações tão duradouras. Para as meninas, a situação edipiana é o resultado de uma
evolução longa e difícil; é uma espécie de solução preliminar, uma posição de repouso
que não é logo abandonada, especialmente porque o início do período de latência não
está muito distante. E então nos surpreende uma diferença entre os dois sexos,
provavelmente transitória, no que diz respeito à relação do complexo de Édipo com o
complexo de castração. Num menino, o complexo de Édipo, no qual ele deseja a mãe e
gostaria de eliminar seu pai, por ser este um rival, evolui naturalmente da fase de
sexualidade fálica. A ameaça de castração, porém, impele-o a abandonar essa atitude.
Sob a impressão do perigo de perder o pênis, o complexo deÉdipo é abandonado,
reprimido e, na maioria dos casos, inteiramente destruído [ver [1]],e um severo
superego instala-se como seu herdeiro. O que acontece à menina é quase o oposto. O
complexo de castração prepara para o complexo de Édipo, em vez de destruí-lo; a
menina é forçada a abandonar a ligação com sua mãe através da influência de sua inveja
do pênis, e entra na situação edipiana como se esta fora um refúgio. Na ausência do
temor de castração, falta o motivo principal que leva o menino a superar o complexo de
Édipo. As meninas permanecem nele por um tempo indeterminado; destroem-no
tardiamente e, ainda assim, de modo incompleto. Nessas circunstâncias, a formação do
superego deve sofrer um prejuízo; não consegue atingir a intensidade e a independência,
as quais lhe conferem sua importância cultural, e as feministas não gostam quando lhes
assinalamos os efeitos desse fator sobre o caráter feminino em geral.”

“Se a menina permaneceu vinculada a seu pai — isto é, no complexo de Édipo —, sua
escolha se faz segundo o tipo paterno. De vez que, quando se afastou da mãe e se voltou
para o pai, permaneceu a hostilidade de sua relação ambivalente com a mãe, uma
escolha desse tipo asseguraria um casamento feliz. Muito freqüentemente, porém, o
resultado é de molde a representar uma ameaça geral à solução do conflito devido à
ambivalência. A hostilidade que ficou para trás segue na trilha da vinculação positiva e
se alastra ao novo objeto. O marido da mulher, inicialmente herdado, por ela, do pai,
após algum tempo se torna também o herdeiro da mãe. Assim, facilmente pode
acontecer que a segunda metade da vida da mulher venha a ser preenchida pela luta
contra seu marido, do mesmo modo como a primeira metade, mais breve, fora
preenchida pela rebelião contra a mãe. Quando essa reação foi esgotada no decurso da
vida, um segundo casamento pode facilmente vir a ser muito mais satisfatório. Uma
outra modificação na natureza da mulher, para a qual o casal não está preparado, pode,
num casamento, ocorrer após o nascimento do primeiro filho. Sob a influência da
transformação da mulher em mãe, pode ser revivida uma identificação com sua própria
mãe, contra a qual ela vinha batalhando até a época do casamento, e isto é capaz de
atrair para si toda a libido disponível, de modo que a compulsão à repetição reproduz
um casamento infeliz dos pais. A diferença na reação da mãe ao nascimento de um filho
ou de uma filha mostra que o velho fator representado pela falta de pênis não perdeu,
até agora, a sua força. A mãe somente obtém satisfação sem limites na sua relação com
seu filho menino; este é, sem exceção, o mais perfeito, o mais livre de ambivalência de
todos os relacionamentos humanos. Uma mãe pode transferir para o seu filho aquela
ambição que teve de suprimir em si mesma, e dele esperar a satisfação de tudo aquilo
que nela restou do seu complexo de masculinidade. Um casamento não se torna seguro
enquantoa esposa não conseguir tornar seu marido também seu filho, e agir com relação
a ele como mãe.”

“A identificação de uma mulher com sua mãe permite-nos distinguir duas camadas: a
pré-edipiana, sobre a qual se apóia a vinculação afetuosa com a mãe e esta é tomada
como modelo, e a camada subseqüente, advinda do complexo de Édipo, que procura
eliminar a mãe e tomar-lhe o lugar junto ao pai. Sem dúvida justifica-se dizermos que
muita coisa de ambas subsiste no futuro e que nenhuma das duas é adequadamente
superada no curso do desenvolvimento. A fase da ligação afetuosa pré-edipiana,
contudo, é decisiva para o futuro de uma mulher: durante essa fase são feitos os
preparativos para a aquisição das características com que mais tarde exercerá seu papel
na função sexual e realizará suas inestimáveis tarefas sociais. É também nessa
identificação que ela adquire aquilo que constitui motivo de atração para um homem; a
ligação edipiana deste à sua mãe transfigura a atração da mulher em paixão. No entanto,
com quanta freqüência sucede que apenas o filho obtém aquilo a que o homem aspirava!
Tem-se a impressão de que o amor do homem e o amor da mulher psicologicamente
sofrem de uma diferença de fase.”

“Um homem, nos seus trinta anos, parece-nos um adolescente, um indivíduo não
formado, que esperamos faça pleno uso das possibilidades de desenvolvimento que se
lhe abrem com a análise. Uma mulher da mesma idade, porém, muitas vezes nos
atemoriza com sua rigidez psíquica e imutabilidade. Sua libido assumiu posições
definitivas e parece incapaz de trocá-las por outras. Não há vias abertas para um novo
desenvolvimento; é como se todo o processo já tivesse efetuado seu percurso e
permanecesse, daí em diante, insuscetível de ser influenciado — como se, na verdade, o
difícil desenvolvimento na direção da feminilidade tivesse exaurido as possibilidades da
pessoa em questão. Como terapeutas, lamentamos tal estado de coisas, ainda quando
conseguimos pôr um fim à doença da paciente eliminando o conflito neurótico.
Isto é tudo o que tinha a dizer-lhes a respeito da feminilidade. Certamente está
incompleto e fragmentário, e nem sempre parece agradável. Mas não se esqueçam de
que estive apenas descrevendo as mulheres na medida em que sua natureza é
determinada por sua função sexual. É verdade que essa influência se estende muito
longe; não desprezamos, todavia, o fato de que uma mulher possa ser uma criatura
humana também em outros aspectos. Se desejarem saber mais a respeito da
feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou consultem os
poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e
mais coerentes.”

A QUESTÃO DE UMA WELTANSCHAUUNG
CONFERÊNCIA XXXV

“Suponho que Weltanschauung seja um conceito especificamente alemão, cuja tradução
para línguas estrangeiras certamente apresenta dificuldades. Se eu tentar uma definição
sua, minha definição estará fadada a ser incompleta. Em minha opinião, a
Weltanschauung é uma construção intelectual que soluciona todos os problemas de
nossa existência, uniformemente, com base em uma hipótese superior dominante, a
qual, por conseguinte, não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo o que
nos interessa encontra seu lugar fixo. Facilmente se compreenderá que a posse de uma
Weltanschauung desse tipo situa-se entre os desejos ideais dos seres humanos.
Acreditando-se nela, pode-se sentir segurança na vida, pode-se saber o que se procura
alcançar e como se pode lidar com as emoções e interesses próprios da maneira mais
apropriada.
Sendo esta a natureza da Weltanschauung, torna-se fácil a resposta, no que respeita à
psicanálise. Na qualidade de ciência especializada, ramo da psicologia — psicologia
profunda, ou psicologia do inconsciente —, ela é praticamente incapaz de construir por
si mesma uma Weltanschauung: tem de aceitar uma Weltanschauung científica.”


“Dos três poderes que podem disputar a posição básica da ciência, apenas a religião
deve ser considerada seriamente como adversária. A arte quase sempre é inócua e
benéfica; não procura ser nada mais do que uma ilusão. Excetuando algumas pessoas
que se diz serem ‘possessas’ pela arte, esta não tenta invadir o reino da realidade. A
filosofia não se opõe à ciência, comporta-se como uma ciência e, em parte, trabalha com
os mesmos métodos; (...). Por outro lado, a religião é um poder imenso que tem a seu
serviço as mais fortes emoções dos seres humanos. Sabe-se muito bem que, em períodos
anteriores, abrangia tudo o que desempenhava um papel intelectual na vida do homem,
que ela assumia o lugar da ciência ali onde mal havia algo que se assemelhasse à
ciência, e que ela construía uma Weltanschauung coerente e auto-suficiente num grau
sem paralelo e que, embora profundamente abalada, persiste na atualidade.
Se quisermos dar uma noção da natureza grandiosa da religião, devemos ter em mente o
que ela se propõe fazer pelos seres humanos. Dá-lhes informações a respeito da origem
e da existência do universo, assegura-lhes proteção e felicidade definitiva nos altos e
baixos da vida e dirige seus pensamentos e ações mediante preceitos, os quais
estabelece com toda a sua autoridade. Com isto ela preenche três funções. Com a
primeira delas satisfaz a sede de conhecimento do homem; faz a mesma coisa que a
ciência tenta fazer, com os seus próprios meios, e nesse ponto entra em choque com ela.
É à segunda das suas funções que a religião deve certamente a maior parte de sua
influência. A ciência não pode competir com a religião quando esta acalma o medo que
o homem sente em relação aos perigos e vicissitudes da vida, quando lhe garante um
fim feliz e lhe oferece conforto na desventura. É verdade que a ciência nos pode ensinar
como evitar determinados perigos e mostrar-nos existirem determinados sofrimentos
que ela é capaz de combater com êxito; seria muito injusto negar que ela ela é um
poderoso auxiliar do homem; há, contudo, muitas situações em que se vê obrigada a
deixar o homem entregue ao sofrimento e apenas pode aconselhá-lo a resignar-se. Em
sua terceira função, mediante a qual estabelece preceitos, proibições e restrições, a
religião vai muito além da ciência.”

“O mesmo pai (ou instância parental) que deu a vida à criança e a protegeu contra os
perigos, ensinou-lhe também o que podia fazer e o que devia deixar de fazer, instruiu-a
no sentido de adaptar-se a determinadas restrições em seus desejos instintuais e fê-la
compreender o respeito que devia ter para com os pais e os irmãos, se quisesse tornar-se
um membro tolerado e benquisto do círculo familiar e, posteriormente, de associações
mais amplas. A criança é educada no sentido de conhecer os seus deveres sociais
mediante um sistema de recompensas carinhosas e de punições; é-lhe ensinado que sua
segurança na vida depende de que seus pais (e, depois, de que outras pessoas) a amem e
de que eles possam acreditar que a criança os ama. Todas essas relações são
posteriormente introduzidas, inalteradas, pelo homem, na religião. A quantidade de
proteção e de satisfação destinada a uma pessoa depende do seu cumprimento das
exigências éticas; seu amor a Deus e sua consciência de ser amado por Deus são os
fundamentos da segurança que adquire contra os perigos do mundo externo e do seu
ambiente humano.”

“Enquanto as diferentes religiões altercam entre si pela posse da verdade, nossa opinião
reside em que a questão da verdade das crenças religiosas pode ser totalmente colocada
à parte. A religião é uma tentativa de obter domínio do mundo perceptível no qual nos
situamos, através do mundo dos desejos que desenvolvemos dentro de nós em
conseqüência de necessidades biológicas e psicológicas. Mas a religião não pode
conseguir isso. Suas doutrinas conservam a marca dos tempos em que surgiram, dos
tempos de ignorância da infância da humanidade. Seu consolo não merece fé. A
experiência nos ensina que o mundo não é um aposento de crianças. As exigências
éticas, sobre as quais a religião procura apoiar-se, acentuam, antes, a necessidade de lhe
serem dadas outras bases; pois são elas indispensáveis à sociedade humana, e é perigoso
vincular à fé religiosa a obediência aos princípios éticos. Se tentarmos situar o lugar da
religião na evolução da humanidade, ela aparece não como uma aquisição permanente,
mas sim como um equivalente da neurose pela qual o homem civilizado,
individualmente, teve de passar, em sua transição da infância à maturidade.”

“A proibição do pensamento, estabelecida pela religião para assegurar sua
autopreservação, também está longe de ser isenta de perigos, seja para o indivíduo, seja
para a sociedade humana. A experiência analítica nos ensinou que uma proibição como
esta, embora originalmente limitada a apenas uma determinada área, tende a alastrar-se
e, daí, a se tornar causa de graves inibições na conduta de vida da pessoa. Pode-se
observar esse resultado também no sexo feminino, conseqüente à proibição que lhe é
feita de relacionar-se com qualquer coisa concernente à sua sexualidade, ainda que em
pensamento. As biografias podem mostrar os danos causados pela inibição religiosa do
pensamento, na história da vida de quase todas as pessoas célebres do passado. Por
outro lado, o intelecto — ou chamemo-lo pelo nome que nos é familiar, a razão — está
entre os poderes que mais esperamos vir a exercer uma influência unificadora sobre os
homens — sobre os homens que são tão difíceis de manter unidos e tão difíceis de
governar. Pode-se imaginar como seria impossível existir a sociedade humana, se cada
pessoa simplesmente tivesse a sua tabuada particular para multiplicar e suas próprias
medidas para aferir comprimento e peso. Nossa maior esperança para o futuro é que o
intelecto — o espírito científico, a razão — possa, com o decorrer do tempo, estabelecer
seu domínio sobre a vida mental do homem. A natureza da razão é uma garantia de que,
depois, ela não deixará de dar aos impulsos emocionais do homem, e àquilo que estes
determinam, a posição que merecem. A compulsão comum exercida por um tal domínio
da razão, contudo, provará ser o mais forte elo de união entre os homens e mostrará o
caminho para uniões subseqüentes. Tudo aquilo que, à semelhança das proibições da
religião contra o pensamento, se opõe a uma evolução nesse sentido, é um perigo para o
futuro da humanidade.”

“Apesar de ser atualmente incompleta (a ciência – grifo meu), apesar das dificuldades
que isto representa, ela continua indispensável para nós, e nada pode tomar o seu lugar.
É capaz de melhoramentos jamais sonhados, ao passo que a Weltanschauung religiosa
não o é. Esta está completa em todas as suas partes essenciais; se ela foi um erro, assim
deve ser, para sempre. Nenhum menosprezo à ciência pode de algum modo alterar o
fato de que ela está procurando levar em conta nossa dependência do mundo externo
real, ao passo que a religião é uma ilusão e deriva sua força da sua presteza em ajustar-
se aos nossos impulsos instintuais plenos de desejos.”

“O marxismo teórico, tal como foi concebido no bolchevismo russo, adquiriu a energia
e o caráter auto-suficiente de uma Weltanschauung; contudo, adquiriu, ao mesmo
tempo, uma sinistra semelhança com aquilo contra o que está lutando. Embora sendo
originalmente uma parcela da ciência, e construído, em sua implementação, sobre a
ciência e a tecnologia, criou uma proibição para o pensamento que é exatamente tão
intolerante como o era a religião, no passado. Qualquer exame crítico do marxismo está
proibido, dúvidas referentes à sua correção são punidas, do mesmo modo que uma
heresia, em outras épocas, era punida pela Igreja Católica. Os escritos de Marx
assumiram o lugar da Bíblia e do Alcorão, como fonte de revelação, embora não
parecessem estar mais isentos de contradições e obscuridades do que esses antigos
livros sagrados.
Embora o marxismo prático tenha varrido impiedosamente todos os sistemas
idealísticos e as ilusões, ele próprio desenvolveu ilusões que não são menos
questionáveis e merecedoras de desaprovação do que as anteriores. Ele espera, no curso
de algumas gerações, de tal modo alterar a natureza humana, que as pessoas viverão
juntas quase sem atrito na nova ordem da sociedade e que elas assumirão as tarefas do
trabalho sem qualquer coerção. Nesse meio-tempo, ele muda para algum outro setor as
restrições instintuais que são essenciais na sociedade; desvia para o exterior as
tendências agressivas que ameaçam todas as comunidades humanas e apóia-se na
hostilidade do pobre contra o rico e na hostilidade daquele que até então esteve
impotente contra os governantes anteriores. Mas uma transformação da natureza
humana, como esta que pretende, é altamente improvável. O entusiasmo com que a
massa do povo segue a instigação bolchevista, atualmente, enquanto a nova ordem está
incompleta e ameaçada de fora, não oferece nenhuma certeza para um futuro no qual
estaria completamente construída e isenta de perigos. Exatamente da mesma forma
como a religião, o bolchevismo deve também oferecer aos seus crentes determinadas
compensações pelos sofrimentos e privações de sua vida atual, mediante promessas de
um futuro melhor, em que não haverá mais qualquer necessidade insatisfeita. Esse
paraíso, no entanto, tem de ser nesta vida, ser instituído sobre a terra e ser descerrado
num tempo previsível.”

“Numa época em que as grandes nações anunciam que esperam a salvação apenas da
manutenção da fé cristã, a revolução na Rússia — apesar de todos os seus detalhes
desagradáveis — assemelha-se, não obstante, com uma mensagem de futuro melhor.
Infelizmente nem o nosso ceticismo, nem a fé fanática do outro lado fornecem uma
indicação de como será o desfecho desse experimento. O futuro no-lo dirá; talvez venha
a mostrar-nos que o experimento foi empreendido prematuramente, que uma
modificação radical da ordem social tem escassas perspectivas de êxito até o momento
em que novas descobertas tiverem aumentado nosso controle sobre as forças da natureza
e, dessa forma, tiverem tornado mais fácil a satisfação de nossas necessidades. Talvez
somente então se tornaria possível que uma nova ordem social não só dê um fim às
necessidades materiais das massas, como também se disponha a ouvir as exigências
culturais do indivíduo. Mesmo então, na realidade ainda teremos de lutar, durante um
tempo incalculável, com as dificuldades que o caráter indomável da natureza humana
apresenta a qualquer espécie de comunidade social.”

“Senhoras e senhores: permitam-me que, para concluir, eu resuma o que tinha a dizer
sobre a relação da psicanálise com a questão de uma Weltanschauung. Em minha
opinião, a psicanálise é incapaz de criar uma Weltanschauung por si mesma. A
psicanálise não precisa de uma Weltanschauung; faz parte da ciência e pode aderir à
Weltanschauung científica. Esta, porém, dificilmente merece um nome tão
grandiloqüente, pois não é capaz de abranger tudo, é muito incompleta e não pretende
ser auto-suficiente e construir sistemas. O pensamento científico ainda é muito novo
entre os seres humanos; ainda são muitos os grandes problemas que até agora não
conseguiu solucionar. Uma Weltanschauung erigida sobre a ciência possui, excetuada a
sua ênfase no mundo externo real, principalmente traços negativos, tais como a
submissão à verdade e a rejeição às ilusões. Todo semelhante nosso que está insatisfeito
com essa situação, que exige mais do que isso para seu consolo momentâneo, haverá de
procurá-lo onde o possa encontrar. Não o levaremos a mal, não podemos ajudá-lo, mas
nem podemos, por causa disso, pensar de modo diferente.”




Moisés e o monoteísmo
Esboço de psicanálise
e outros trabalhos

VOLUME XXIII
(1937-1939)

ESBOÇO DE PSICANÁLISE
PARTE I – A MENTE E O SEU FUNCIONAMENTO

A TEORIA DOS INSTINTOS

O poder do id expressa o verdadeiro propósito da vida do organismo do indivíduo. Isto
consiste na satisfação de suas necessidades inatas. Nenhum intuito tal como o de
manter-se vivo ou de proteger-se dos perigos por meio da ansiedade pode ser atribuído
ao id. Essa é a tarefa do ego, cuja missão é também descobrir o método mais favorável e
menos perigoso de obter a satisfação, levando em conta o mundo externo. O superego
pode colocar novas necessidades em evidência, mas sua função principal permanece
sendo a limitação das satisfações.
As forças que presumimos existir por trás das tensões causadas pelas necessidades do id
são chamadas de instintos. Representam as exigências somáticas que são feitas à mente.
Embora sejam a suprema causa de toda atividade, elas são de natureza conservadora; o
estado, seja qual for, que um organismo atingiu dá origem a uma tendência a
restabelecer esse estado assim que ele é abandonado. É assim possível distinguir um
número determinado de instintos, e, na prática comum, isto é realmente feito. Para nós,
contudo, surge a importante questão de saber se não será possível fazer remontar todos
esses numerosos instintos a uns poucos básicos. Descobrimos que os instintos podem
mudar de objetivo (através do deslocamento) e também que podem substituir-se
mutuamente, a energia de um instinto transferindo-se para outro. Este último processo é
ainda insuficientemente compreendido. Depois de muito hesitar e vacilar, decidimos
presumir a existência de apenas dois instintos básicos, Eros e o instinto destrutivo. (O
contraste entre os instintos de autopreservação e a preservação da espécie, assim como o
contraste entre o amor do ego e o amor objetal, incidem dentro de Eros.) O objetivo do
primeiro desses instintos básicos é estabelecer unidades cada vez maiores e assim
preservá-las — em resumo, unir; o objetivo do segundo, pelo contrário, é desfazer
conexões e, assim, destruir coisas. No caso do instinto destrutivo, podemos supor que
seu objetivo final é levar o que é vivo a um estado inorgânico. Por essa razão,
chamâmo-lo também de instinto de morte. Se presumirmos que as coisas vivas
apareceram mais tarde que as inanimadas e delas se originaram, então o instinto de
morte se ajusta à fórmula que propusemos, a qual postula que os instintos tendem a
retornar a um estado anterior. No caso de Eros (ou instinto do amor), não podemos
aplicar esta fórmula. Fazê-lo pressuporia que a substância viva foi outrora uma unidade
posteriormente desmembrada e que se esforça no sentido da reunião.
Nas funções biológicas, os dois instintos básicos operam um contra o outro ou
combinam-se mutuamente. Assim, o ato de comer é uma destruição do objeto como o
objetivo final de incorporá-lo, e o ato sexual é um ato de regressão com o intuito da
mais íntima união. Esta ação concorrente e mutuamente oposta dos dois instintos
fundamentais dá origem a toda a variedade de fenômenos da vida. A analogia de nossos
dois instintos básicos estende-se da esfera das coisas vivas até o par de forças opostas
— atração e repulsão — que governa o mundo orgânico.”

“Modificações nas proporções da fusão entre os instintos apresentam os resultados mais
tangíveis. Um excesso de agressividade sexual transformará um amante num criminoso
sexual, enquanto uma nítida diminuição no fator agressivo torna-lo-á acanhado ou
impotente.
Não se pode pensar em restringir um ou outro dos instintos básicos a uma das regiões da
mente. Eles, necessariamente, têm de ser encontrados em toda parte. Podemos imaginar
um estado inicial como sendo o estado em que a energia total disponível de Eros, a qual,
doravante, mencionaremos como ‘’libido”, acha-se presente no ego-id ainda
indiferenciado e serve para neutralizar as tendências destrutivas que estão
simultaneamente presentes. (Não dispomos de um termo análogo a “libido” para
descrever a energia do instinto destrutivo.) Num estágio posterior, torna-se
relativamente fácil acompanhar as vicissitudes da libido, mas isto é mais difícil com o
instinto destrutivo.
Enquanto esse instinto opera internamente, como instinto de morte, ele permanece
silencioso; só nos chama a atenção quando é desviado para fora, como instinto de
destruição. Parece ser essencial à preservação do indivíduo que esse desvio ocorra e o
aparelho muscular serve a esse intuito. Quando o superego se estabelece, quantidades
consideráveis do instinto agressivo fixam-se no interior do ego e lá operam
autodestrutivamente. Este é um dos perigos para a saúde com que os seres humanos se
defrontam em seu caminho para o desenvolvimento cultural. Conter a agressividade é,
em geral, nocivo e conduz à doença (à mortificação). Uma pessoa num acesso de raiva
com freqüência demonstra como a transição da agressividade, que foi impedida, para a
autodestrutividade, é ocasionada pelo desvio da agressividade contra si própria: arrancar
os cabelos ou esmurrar a face, embora, evidentemente, tivesse preferido aplicar esse
tratamento a outrem. Uma porção de autodestrutividade permanece interna, quaisquer
que sejam as circunstâncias, até que, por fim, consegue matar o indivíduo, talvez não
antes de sua libido ter sido usada ou fixada de uma maneira desvantajosa. Assim, é
possível suspeitar de que, de uma maneira geral, o indivíduo morre de seus conflitos
internos, mas que a espécie morre de sua luta malsucedida contra o mundo externo se
este mudar a ponto de as adaptações adquiridas pela espécie não serem suficientes para
lidar com as dificuldades surgidas.”

“Uma característica da libido que é importante na vida é a sua mobilidade, a facilidade
com que passa de um objeto para outro. Isto deve ser contrastado com a fixação da
libido a objetos específicos, a qual freqüentemente persiste durante toda a vida. Não se
pode discutir que a libido tenha fontes somáticas, que ela flua para o ego de diversos
órgãos e partes do corpo. Isto se vê mais claramente no caso daquela porção da libido
que, por seu objetivo instintivo, é descrita como excitação sexual. As partes mais
proeminentes do corpo de que esta libido se origina são conhecidas pelo nome de
“zonas erógenas”, embora, de fato, o corpo inteiro seja uma zona erógena desse tipo. A
maior parte do que conhecemos sobre Eros — isto é, sobre o seu expoente, a libido —
foi obtida de um estudo da função sexual, que, na verdade, segundo a opinião
dominante, ainda que não segundo a nossa teoria, coincide com Eros. Pudemos formar
uma imagem da maneira como o impulso sexual, que está destinado a exercer uma
influência decisiva em nossa vida, desenvolve-se gradativamente a partir de
contribuições sucessivas de um certo número de instintos componentes que representam
zonas erógenas específicas.”


III – MOISÉS, O SEU POVO E A RELIGIÃO MONOTEÍSTA

C - A ANALOGIA

“Esses três pontos — o aparecimento bastante precoce dessas experiências (durante os
cinco primeiros anos de vida), o fato de serem esquecidas, e seu conteúdo sexual-
agressivo — estão estreitamente intervinculados. Os traumas são ou experiências sobre
o próprio corpo do indivíduo ou percepções sensórias, principalmente de algo visto e
ouvido, isto é, experiências ou impressões. A intervinculação desses três pontos é
estabelecida por uma teoria, um produto do trabalho de análise que, apenas ele, pode
provocar um conhecimento das experiências esquecidas, ou, para expressá-lo do modo
mais vivo, embora também mais incorretamente, trazê-las de volta à memória. A teoria
é que, em contraste com a opinião popular, a vida sexual dos seres humanos (ou o que a
ela corresponde mais tarde) apresenta uma eflorescência precoce que chega ao fim por
volta do quinto ano, sendo seguida pelo que é conhecido como período de latência (até a
puberdade), em que não há desenvolvimento ulterior da sexualidade e, na verdade, o
que fora atingido experimenta uma retrogressão. Essa teoria é confirmada pela
investigação anatômica do crescimento dos órgãos genitais internos; ela nos leva a
supor que a raça humana descende de uma espécie animal que atingiu a maturidade
sexual aos cinco anos e desperta a suspeita de que o adiamento da vida sexual e seu
desencadeamento difásico [em duas ondas] estão intimamente vinculados à função de
hominização. Os seres humanos parecem ser os únicos organismos animais com um
período de latência e um retardamento sexual desse tipo. Investigações efetuadas em
primatas (que, até onde sei, não estão disponíveis) seriam indispensáveis para a
verificação dessa teoria. Não pode ser psicologicamente indiferente que o período de
amnésia infantil coincida com esse período primitivo da sexualidade. Pode ser que esse
estado de coisas forneça o verdadeiro determinante para a possibilidade da neurose, que
é, em certo sentido, uma prerrogativa humana e, desse ponto de vista, aparece como um
vestígio — um ‘survival’ — de tempos primevos, tal como certas partes de nossa
anatomia corporal.”

“Dois pontos devem ser acentuados quanto às características ou peculiaridades comuns
dos fenômenos neuróticos: (a) Os efeitos dos traumas são de dois tipos, positivos e
negativos. Os primeiros são tentativas de pôr o trauma em funcionamento mais uma
vez, isto é, recordar a experiência esquecida ou, melhor ainda, torná-la real,
experimentar uma repetição dela de novo, ou, mesmo que ela seja apenas um
relacionamento emocional primitivo, revivê-la num relacionamento análogo com outra
pessoa. Resumimos esses esforços sob o nome de ‘fixações’ no trauma e como uma
‘compulsão a repetir’. Eles podem ser percebidos no que passa por ser um ego normal e,
como tendências permanentes nele, podem emprestar-lhe traços caracterológicos
inalteráveis, embora, ou melhor, precisamente por causa disso, sua verdadeira base e
origem históricas estejam esquecidas. Assim, um homem que passou a infância numa
ligação excessiva e atualmente esquecida com a mãe pode passar toda a vida
procurando uma esposa de quem possa conseguir ser nutrido e apoiado. Uma menina
que foi tornada objeto de uma sedução sexual na infância pode orientar sua vida sexual
posterior de maneira a constantemente provocar ataques semelhantes. Pode-se
facilmente adivinhar que, a partir de tais descobertas sobre o problema da neurose,
podemos penetrar numa compreensão da formação do caráter em geral.
As reações negativas seguem o objetivo oposto: que nada dos traumas esquecidos seja
recordado e repetido. Podemos resumi-las como ‘reações defensivas’. Sua expressão
principal constitui aquilo que é chamado de ‘evitações’, que se podem intensificar em
‘inibições’ e ‘fobias’. Essas reações negativas também efetuam as contribuições mais
poderosas para a cunhagem do caráter. Fundamentalmente, elas são fixações no trauma,
tanto quanto seus opostos, exceto por serem fixações com intuito contrário. Os sintomas
de neurose, no sentido mais estrito, são conciliações em que ambas as tendências
procedentes dos traumas se reúnem, de maneira que a cota, ora de uma, ora de outra
tendência, encontre nelas expressão preponderante.”
“Trauma primitivo — defesa — latência — desencadeamento da doença neurótica —
retorno parcial reprimido: tal é a fórmula que estabelecemos para o desenvolvimento de
uma neurose. O leitor é agora convidado a dar o passo de supor que ocorreu na vida da
espécie humana algo semelhante ao que ocorre na vida dos indivíduos, de supor, isto é,
que também aqui ocorreram eventos de natureza sexualmente agressiva, que deixaram
atrás de si conseqüências permanentes, mas que foram, em sua maioria, desviados e
esquecidos, e que após uma longa latência entraram em vigor e criaram fenômenos
semelhantes a sintomas, em sua estrutura e propósito.
Acreditamos que podemos adivinhar esses eventos e nos propomos demonstrar que suas
conseqüências semelhantes a sintomas são os fenômenos da religião. Visto que o
surgimento da idéia da evolução não mais deixa lugar para dúvidas de que a raça
humana possui uma pré-história, e visto que esta é desconhecida — isto é, esquecida —,
uma conclusão desse tipo carrega quase o peso de um postulado. Quando aprendemos
que, em ambos os casos, os traumas operantes e esquecidos se referem à vida na família
humana, podemos acolher isso como um prêmio altamente bem-vindo e imprevisto, que
não foi invocado por nossos estudos até esse ponto.
Apresentei essas asserções já um quarto de século atrás, em meu Totem e Tabu (1912-
13), e basta que eu as repita aqui. Minha construção parte de um enunciado de Darwin
(1871, 2, p. 362 e seg.] e inclui uma hipótese de Atkinson [1903, p. 220 e seg.]. Afirma
ela que, em épocas primevas, o homem primitivo vivia em pequenas hordas cada uma
das quais sob o domínio de um macho poderoso. Nenhuma data pode ser atribuída a
isso; tampouco isso se acha sincronizado às épocas geológicas que nos são conhecidas;
é provável que essas criaturas humanas não tivessem progredido muito no
desenvolvimento da fala. Uma parte essencial da construção é a hipótese de que os
eventos que me disponho a descrever ocorreram a todos os homens primitivos, isto é, a
todos os nossos antepassados. A história é contada sob forma enormemente condensada,
como se tivesse acontecido numa só ocasião, ao passo que, de fato, ela abrange milhares
de anos e se repetiu incontáveis vezes durante esse longo período. O macho forte era
senhor e pai de toda a horda, e irrestrito em seu poder, que exercia com violência. Todas
as fêmeas eram propriedade sua — esposas e filhas de sua própria horda, e algumas,
talvez, roubadas de outras hordas. A sorte dos filhos era dura: se despertavam o ciúme
do pai, eram mortos, castrados, ou expulsos. Seu único recurso era reunirem-se em
pequenas comunidades, arranjarem esposas para si através do rapto, e, quando um ou
outro deles podia ter êxito nisso, elevarem-se a uma posição semelhante à do pai, na
horda primeva. Por razões naturais, os filhos mais novos ocupavam uma posição
excepcional. Eram protegidos pelo amor de suas mães e podiam tirar vantagem da idade
crescente do pai e sucedê-lo quando de sua morte. Podemos detectar, em lendas e contos
de fadas, ecos tanto da expulsão dos filhos mais velhos quanto do favorecimento dos
mais novos.
O primeiro passo decisivo no sentido de uma modificação nesse tipo de organização
‘social’ parece ter sido que os irmãos expulsos, vivendo numa comunidade, uniram-se
para derrotar o pai e, como era costume naqueles dias, devoraram-no cru. Não há
necessidade de esquivar-se a esse canibalismo; ele continuou bem adiante, em épocas
posteriores. O ponto essencial, contudo, é que atribuímos a esses homens primitivos as
mesmas atitudes emocionais que pudemos estabelecer pela investigação analítica nos
primitivos da época atual — em nossos filhos. Isto é, supomos que eles não apenas
odiaram e temeram o pai, mas também o honraram como modelo, e que cada um deles
desejou ocupar seu lugar na realidade. Podemos, se assim for, compreender o
canibalismo como uma tentativa de assegurar uma identificação com ele, pela
incorporação de um pedaço seu.
Deve-se supor que, após o parricídio, um tempo considerável se passou, durante o qual
os irmãos disputaram uns com os outros a herança do pai, que cada um deles queria para
si sozinho. Uma compreensão dos perigos e da inutilidade dessas lutas, uma
rememoração do ato de liberação que haviam realizado juntos, e os vínculos emocionais
mútuos que haviam surgido durante o período de sua expulsão, conduziram por fim a
um acordo entre eles, a uma espécie de contrato social. A primeira forma de
organização social ocorreu com uma renúncia ao instinto, um reconhecimento das
obrigações mútuas, a introdução de instituições definidas, pronunciadas invioláveis
(sagradas), o que equivale a dizer, os primórdios da moralidade e da justiça.Cada
indivíduo renunciou a seu ideal de adquirir a posição do pai para si e de possuir a mãe e
as irmãs. Assim, surgiram o tabu do incesto e a injunção à exagomia. Boa parte do
poder absoluto liberado pelo afastamento do pai passou para as mulheres; veio um
período de matriarcado. A recordação do pai persistiu nesse período da ‘aliança
fraterna’. Um animal poderoso — a princípio, talvez, sempre um que também era
temido — foi escolhido como substituto do pai. Uma escolha desse tipo pode parecer
estranha, mas o abismo que os homens estabeleceram mais tarde entre eles próprios e os
animais não existia para os novos primitivos, nem tampouco existe para nossas crianças,
cujas fobias animais podemos compreender como sendo medo do pai. Com relação ao
animal totêmico, a dicotomia original na relação emocional com o pai (ambivalência)
foi inteiramente mantida. Por um lado, o totem era encarado como ancestral de sangue e
espírito protetor do clã, a ser adorado e protegido, e, por outro, marcava-se um festival
em que se lhe achava preparado o mesmo destino que o pai primevo havia encontrado.
Ele era morto e devorado por todos os membros da tribo, em comum. (A refeição
totêmica, segundo Robertson Smith [1894].) Esse grande festival, na realidade, era uma
celebração triunfante da vitória dos filhos combinados sobre o pai.
Qual é o lugar da religião com relação a isso? Penso que estamos completamente
justificados em encarar o totemismo, com sua adoração de um substituto paterno, com
sua instituição de festivais comemorativos e de proibições cuja infração era punida pela
morte, estamos justificados, dizia eu, em encarar o totemismo como a primeira forma
em que a religião se manifestou na história humana, e em confirmar o fato de ele ter
sido vinculado, desde o início, aos regulamentos sociais e às obrigações morais. Aqui,
só podemos fornecer o levantamento mais resumido dos outros desenvolvimentos da
religião. Eles, sem dúvida, progrediram paralelamente com os avanços culturais da raça
humana e com as modificações na estrutura das comunidades humanas.”

“O primeiro passo para longe do totemismo foi a humanização do ser que era adorado.
Em lugar dos animais, aparecem deuses humanos, cuja derivação do totem não é
escondida. O deus ainda é representado sob a forma de um animal ou, pelo menos, com
um rosto de animal, ou o totem se torna o companheiro favorito do deus, inseparável
dele, ou a lenda nos conta que o deus matou esse animal exato, que era, afinal de contas,
apenas um estádio preliminar dele próprio. Em certo ponto dessa evolução, que não é
facilmente determinado, aparecem grandes deusas-mães provavelmente antes mesmo
dos deuses masculinos, persistindo após, por longo tempo, ao lado destes. Nesse meio
tempo, uma grande revolução social ocorrera. O matriarcado fora sucedido pelo
restabelecimento de uma ordem patriarcal. Os novos pais, é verdade, jamais
conquistaram a onipotência do pai primevo; havia muitos deles que viviam juntos em
associações maiores do que a horda. Estavam obrigados a se manter em bons termos uns
com os outros, e permaneceram sob as limitações das ordenanças sociais. É provável
que as deusas-mães se tenham originado na época do cerceamento do matriarcado,
como compensação da desatenção às mães. As divindades masculinas aparecem a
princípio com filhos, ao lado das grandes mães, e só mais tarde assumem claramente as
características de figuras paternas. Esses deuses masculinos do politeísmo refletem as
condições existentes durante a era patriarcal. São numerosos, mutuamente restritivos, e
ocasionalmente subordinados a um deus superior. O passo seguinte, contudo, nos
conduz ao tema que aqui nos interessa: ao retorno de um deus-pai único, de domínio
ilimitado.”

“Tem-se de admitir que esse levantamento histórico possui lacunas e é incerto em
alguns pontos. Mas todo aquele que esteja inclinado a pronunciar nossa construção da
história primeva como sendo puramente imaginária estaria subestimando gravemente a
riqueza e o valor probatório do material nela contido. Grandes partes do passado, que
aqui foram reunidas num todo, estão historicamente atestadas: totemismo e as
confederações masculinas, por exemplo. Outras partes sobreviveram em réplicas
excelentes. Assim, as autoridades freqüentemente se impressionaram pela maneira fiel
mediante a qual o sentido e o conteúdo da antiga refeição totêmica são repetidos no rito
da Comunhão Cristã, na qual o crente incorpora o sangue e a carne de seu deus, em
forma simbólica. Numerosas relíquias da era primeva esquecida sobrevieram nas lendas
populares e nos contos de fadas, e o estudo analítico da vida mental das crianças
proporcionou inesperada abundância de material para preencher as lacunas em nosso
conhecimento dos tempos primitivos. Como contribuições à nossa compreensão da
relação do filho com o pai, de tão grande importância, basta-me apenas apresentar as
fobias animais, o medo, que nos impressiona como tão estranho, de ser comido pelo pai,
e a enorme intensidade do pavor de ser castrado. Nada existe de inteiramente fabricado
em nossa construção, nada que não possa apoiar-se em fundamentos sólidos.”

“Vale a pena acentuar especialmente o fato de que cada parte que retorna do olvido
afirma-se com força peculiar, exerce uma influência incomparavelmente poderosa sobre
as pessoas na massa, e ergue uma reivindicação irresistível à verdade, contra a qual as
objeções lógicas permanecem impotentes: uma espécie de ‘credo quia absurdum‘. Essa
característica fora do comum só pode ser compreendida segundo o modelo dos delírios
dos psicóticos. Há muito tempo compreendemos, que uma parte de verdade esquecida
jaz oculta nas idéias delirantes, que quando aquela retorna tem de se apresentar com
deformações e más compreensões, e que a convicção compulsiva que se liga ao delírio
surge desse cerne de verdade e se espalha para os erros que a envolvem. Temos de
conceder a existência de um ingrediente como esse, do que pode ser chamado de
verdade histórica, também nos dogmas da religião, os quais, é verdade, apresentam o
caráter de sintomas psicóticos, mas que, como fenômenos grupais, fogem à maldição do
isolamento.”

“Nenhuma outra parte da história da religião se nos tornou tão clara quanto a introdução
do monoteísmo no judaísmo e sua continuação no cristianismo, se deixamos de lado o
desenvolvimento, que podemos traçar não menos ininterruptamente, do animal totêmico
ao deus humano, com seus companheiros regulares. (Cada um dos quatro evangelistas
cristãos ainda possui seu próprio animal favorito.) Se provisoriamente aceitarmos o
império mundial dos faraós como causa determinante do surgimento da idéia
monoteísta, veremos que essa idéia, libertada de seu solo nativo e transferida para outro
povo, foi, após longo período de latência, assumida por este, por ele preservada como
uma possessão preciosa, e, por sua vez, ela própria o manteve vivo, por fornecer-lhe o
orgulho de ser um povo escolhido: foi à religião de seu pai primevo que ligou sua
esperança de recompensa, de distinção e, finalmente, de domínio mundial. Essa última
fantasia de desejo, há muito tempo abandonada pelo povo judeu, ainda sobrevive entre
os inimigos desse povo, na crença numa conspiração por parte dos ‘Velhos de Sion’.
Reservamos para exame em páginas posteriores a maneira pela qual as peculiaridades
especiais da religião monoteísta, tomada de empréstimo ao Egito, afetaram o povo
judeu, e como estava fadada a deixar uma marca permanente em seu caráter, através de
sua rejeição da magia e do misticismo, de seu convite a avanços em intelectualidade, e
de seu incentivo às sublimações; como o povo, extasiado pela posse da verdade,
esmagado pela consciência de ser escolhido, veio a ter uma alta opinião do que é
intelectual e a dar ênfase ao que é moral, e como seus melancólicos destinos e seus
desapontamentos na realidade serviram apenas para intensificar todas essas tendências.”

“O restabelecimento do pai primevo em seu direitos históricos constituiu um grande
passo à frente, mas não podia ser o fim. As outras partes da tragédia pré-histórica
insistiam em ser reconhecidas. Não é fácil discernir o que colocou esse processo em
movimento. Parece como se um crescente sentimento de culpa se tivesse apoderado do
povo judeu, ou, talvez, de todo o mundo civilizado da época, como um precursor de
retorno do material reprimido, até que, por fim, um desses judeus encontrou, ao
justificar um agitador político-religioso, ocasião para desligar do judaísmo uma nova
religião — a cristã. Paulo, um judeu romano de Tarso, apoderou-se desse sentimento de
culpa e o fez remontar corretamente à sua fonte original. Chamou essa fonte de ‘pecado
original’; fora um crime contra Deus, e só podia ser expiado pela morte. Com o pecado
original, a morte apareceu no mundo. Na verdade, esse crime merecedor de morte fora o
assassinato do pai primevo posteriormente deificado. Mas o assassinato não era
recordado; ao invés, havia uma fantasia de sua expiação, e, por essa razão, essa fantasia
podia ser saudada como uma mensagem de redenção (evangelium). Um filho de Deus se
permitira ser morto sem culpa e assim tomara sobre si próprio a culpa de todos os
homens. Tinha de ser um filho, visto que fora o assassinato de um pai. É provável que
tradições de mistérios orientais e gregos tenham exercido influência na fantasia da
redenção. O essencial nela parece ter sido a própria contribuição de Paulo. No sentido
mais próprio, ele foi um homem de disposição inatamente religiosa: os traços sombrios
do passado espreitavam em sua mente, prontos a irromperem para suas regiões mais
conscientes.
Que o redentor se sacrificara sem culpa era evidentemente uma deformação
tendenciosa, que oferecia dificuldades para a compreensão lógica, pois como podia
alguém sem culpa do ato do assassinato tomar sobre si a culpa dos assassinos,
permitindo-se ser morto? Na realidade histórica, não havia tal contradição. O ‘redentor’
não podia ser outro senão a pessoa mais culpada, o cabeça da reunião de irmãos que
havia derrotado o pai. A meu juízo, temos de deixar indecidido se houve esse rebelde
principal e cabeça. É possível, mas temos também de manter em mente que cada um do
grupo de irmãos certamente tinha desejo de cometer o feito por si próprio, sozinho, e
criar assim uma posição excepcional para si e encontrar um substituto para sua
identificação com o pai, que estava tendo de ser abandonada e se estava fundindo na
comunidade. Se não houve tal cabeça, então Cristo foi o herdeiro de uma fantasia de
desejo que permaneceu irrealizada; se houve, então ele foi seu sucessor e sua
reencarnação. Mas não importa que aquilo que temos aqui seja uma fantasia ou o
retorno de uma realidade esquecida; seja como for, a origem do conceito de um herói
deve ser encontrada neste ponto; o herói que sempre se rebela contra o pai e o mata sob
a uma forma ou outra.”
“Já dissemos que a cerimônia cristã da Sagrada Comunhão, na qual o crente incorpora o
sangue e a carne do Salvador, repete o conteúdo da antiga refeição totêmica,
indubitavelmente apenas em seu significado agressivo. A ambivalência que domina a
relação com o pai foi claramente demonstrada, contudo, no desfecho final da inovação
religiosa. Ostensivamente visando a propiciar o deus paterno, termina por ele ser
destronado e por livrar-se dele. O judaísmo fora uma religião do pai; o cristianismo
tornou-se uma religião do filho. O antigo Deus Pai tombou para trás de Cristo; Cristo, o
Filho, tomou seu lugar, tal como todo filho tivera esperanças de fazê-lo, nos tempos
primevos. Paulo, que conduziu o judaísmo à frente, também o destruiu. Fora de dúvida,
ele deveu seu sucesso, no primeiro caso, ao fato de, através da idéia do redentor,
exorcizar o sentimento de culpa da humanidade, mas deveu-o também à circunstância
de ter abandonado o caráter ‘escolhido’ de seu povo e seu sinal visível — a circuncisão
—, de maneira que a nova religião podia ser uma religião universal, a abranger todos os
homens. Ainda que no fato de Paulo dar esse passo um papel possa ter sido
desempenhado por seu desejo pessoal de vingança pela rejeição de sua inovação nos
círculos judaicos, ele, contudo, restaurou também uma característica da antiga religião
de Aten; afastou uma restrição que essa religião havia adquirido quando fora transmitida
a um novo veículo, o povo judeu.
Sob certos aspectos, a nova religião significou uma regressão cultural, comparada com a
mais antiga, a judaica, tal como regularmente acontece quando uma nova massa de
povo, de um nível mais baixo, consegue ingresso à força ou recebe admissão. A religião
cristã não manteve o alto nível em coisas da mente a que o judaísmo se havia alçado.
Não era mais estritamente monoteísta, tomou numerosos rituais simbólicos de povos
circunvizinhos, restabeleceu a grande deusa-mãe e achou lugar para introduzir muitas
das figuras divinas do politeísmo, apenas ligeiramente veladas, ainda que em posições
subordinadas. Acima de tudo, como a religião de Aten e a religião mosaica que a seguiu
haviam feito, não excluiu o ingresso de elementos surpersticiosos, mágicos e místicos,
que deveriam mostrar-se como uma inibição grave sobre o desenvolvimento intelectual
dos dois mil anos seguintes.
O triunfo do cristianismo foi um novo triunfo dos sacerdotes de Amun sobre o deus de
Akhenaten, após um intervalo de mil e quinhentos anos e num palco mais amplo. E,
contudo, na história da religião — isto é, com referência ao retorno do reprimido — o
cristianismo constituía um avanço e, a partir dessa época, a religião judaica foi, até certo
ponto, um fóssil.”

“Valeria a pena entender como foi que a idéia monoteísta causou uma impressão tão
profunda exatamente sobre o povo judeu, e como foram eles capazes de mantê-la tão
tenazmente. É possível, penso, encontrar uma resposta. O destino trouxera o grande
feito e o malfeito dos dias primevos, a morte do pai, para mais perto do povo judeu,
fazendo-o repeti-lo na pessoa de Moisés, uma destacada figura paterna. Tratou-se de um
caso de ‘atuação’ (acting out) ao invés de recordação, como sucede tão amiúde com os
neuróticos durante o trabalho de análise. À sugestão de que deviam recordar, que lhes
foi feita pela doutrina de Moisés, reagiram, contudo, pelo repúdio de sua ação;
permaneceram detidos no reconhecimento do grande pai e bloquearam assim seu acesso
ao ponto a partir do qual, mais tarde, Paulo deveria iniciar sua continuação da história
primeva. Dificilmente pode ser questão indiferente ou fortuita que a morte violenta de
outro grande homem se tenha tornado também o ponto de partida da nova criação
religiosa de Paulo. Tratava-se de um homem a quem um pequeno número de adeptos na
Judéia encarava como sendo o Filho de Deus e o Messias anunciado, e a quem,
igualmente, uma parte da história da infância inventada para Moisés foi posteriormente
transferida ver em[[1]], mas de quem, na verdade, pouco mais conhecemos, com
certeza, do que de Moisés: se ele foi realmente o grande mestre retratado pelos
Evangelhos, ou se, antes, não foram o fato e as circunstâncias de sua morte que foram
decisivos para a importância que sua figura adquiriu. O próprio Paulo, que se tornou
apóstolo, não o conhecera.
A morte de Moisés por seu povo judeu, identificada por Sellin a partir de traços dela na
tradição (e também, estranho é dizê-lo, aceita pelo jovem Goethe sem qualquer prova),
torna-se assim parte indispensável de nossa construção, um vínculo importante entre o
evento olvidado dos tempos primevos e seu surgimento posterior sob a forma de
religiões monoteístas. É plausível conjecturar que o remorso pelo assassinato de Moisés
forneceu o estímulo para a fantasia de desejo do Messias, que deveria retornar e
conduzir seu povo à redenção e ao prometido domínio mundial. Se Moisés foi o
primeiro Messias, Cristo tornou-se seu substituto e sucessor, e Paulo poderia exclamar
para os povos, com certa justificação histórica: Olhai! O Messias realmente veio: ele foi
assassinado perante vossos olhos!’ Além disso, também, existe um fragmento de
verdade histórica na ressurreição de Cristo, pois ele foi o Moisés ressurrecto e, por trás
deste, o pai primevo retornado da horda primitiva, transfigurado e, como o filho,
colocado no lugar do pai.O pobre povo judeu, que, com sua obstinação habitual,
continuava a repudiar o assassinato do pai, expiou-o pesadamente no decurso do tempo.
Defrontou-se constantemente com a recriminação: ‘Vocês mataram nosso Deus!’ E essa
censura é verdadeira, se for corretamente traduzida. Colocada em relação com a história
das religiões, ela diz: ‘Vocês não admitem que mataram Deus (a figura primeva de
Deus, o pai primevo, e suas reencarnações posteriores).’ Deveria haver um acréscimo,
declarando-se: ‘Fizemos a mesma coisa, é verdade, mas o admitimos, e, desde então,
fomos absolvidos.’ “

“Um fenômeno de tal intensidade e permanência como o ódio do povo pelos judeus
deve, naturalmente, possuir mais de um fundamento, alguns deles claramente derivados
da realidade, que não exigem interpretação, e outros a jazer mais profundamente,
derivados de fontes ocultas, que poderiam ser consideradas as razões específicas. Dos
primeiros, a censura por serem estrangeiros é talvez a mais débil, visto que em muitos
lugares hoje dominados pelo anti-semitismo, os judeus estavam entre as partes mais
antigas da população, ou mesmo lá se encontravam antes dos atuais habitantes. Isso se
aplica, por exemplo, à cidade de Colônia, à qual os judeus chegaram junto com os
romanos, antes que fosse ocupada pelos germânicos. Outros fundamentos para odiar os
judeus são mais fortes; assim, as circunstâncias de eles viverem, em sua maior parte,
como minorias entre outros povos, pois o sentimento comunal dos grupos exige, a fim
de completá-lo, a hostilidade para com alguma minoria externa, e a debilidade numérica
dessa minoria excluída encoraja sua supressão. Há, contudo, duas outras características
dos judeus que são inteiramente imperdoáveis. A primeira é o fato de, sob alguns
aspectos, serem diferentes de suas nações ‘hospedeiras’. Não são fundamentalmente
diferentes, pois não são asiáticos, de uma raça estrangeira, conforme seus inimigos
sustentam, mas compostos, na maioria, de remanescentes dos povos mediterrâneos e
herdeiros da civilização mediterrânea. São, não obstante, diferentes, com freqüência
diferentes de maneira indefinível, especialmente dos povos nórdicos, e a intolerância
dos grupos é quase sempre, de modo bastante estranho, exibida mais intensamente
contrapequenas di ferenças do que contra diferenças fundamentais. O outro ponto possui
um efeito ainda maior: a saber, que eles desafiam toda opressão, que as perseguições
mais cruéis não conseguiram exterminá-los e que, na verdade, pelo contrário, exibem
uma capacidade de manter o que é seu na vida comercial e, onde são admitidos, de
efetuar contribuições valiosas a todas as formas de atividade cultural.
Os motivos mais profundos do ódio pelos judeus estão enraizados nas mais remotas eras
passadas; operam desde o inconsciente dos povos, e acho-me preparado para descobrir
que, a princípio, não parecerão críveis. Aventuro-me a asseverar que o ciúme para com
o povo que se declarou o filho primogênito e favorito de Deus Pai ainda hoje não foi
superado entre os outros povos; é como se estes tivessem pensado que havia verdade na
reivindicação. Ademais, entre os costumes pelos quais os judeus se tornam separados, o
da circuncisão causou impressão desagradável e sinistra, que deve ser explicada,
indubitavelmente, por ela relembrar a temida castração e, juntamente com ela, uma
parte do passado primevo que fora alegremente esquecida. E finalmente, como último
motivo dessa série, não devemos esquecer que todos os povos que hoje sobressaem em
seu ódio pelos judeus se tornaram cristãos apenas em épocas históricas tardias, amiúde
impulsionados a isso por sanguinolenta coerção. Poder-se-ia dizer que todos eles são
‘mal batizados’. Sobrou-lhes, sob delgado verniz de cristianismo, aquilo que eram seus
ancestrais, que adoravam um politeísmo bárbaro. Ainda não superaram um
ressentimento contra a nova religião que lhes foi imposta, mas deslocaram esse
ressentimento para a fonte de onde o cristianismo os foi buscar. O fato de os
Evangelhos contarem uma história que se desenrola entre judeus e que, na verdade, trata
apenas de judeus, tornou-lhes fácil esse deslocamento. Seu ódio pelos judeus é, no
fundo, um ódio pelos cristãos, e não precisamos surpreender-nos de que, na revolução
nacional-socialista alemã, essa relação íntima entre as duas religiões monoteístas
encontre expressão tão clara no tratamento hostil que é dado a ambas.”

Parte II

D - A RENUNCIA AO INSTINTO

Não é óbvio nem imediatamente compreensível por que um avanço em intelectualidade,
um retrocesso da sensualidade, deva elevar a autoconsideração tanto de um indivíduo
quanto de um povo. Esse avanço parece pressupor a existência de um padrão definido
de valor e de alguma outra pessoa ou instância que o sustente. Para uma explicação,
voltemo-nos para um caso análogo na psicologia individual, caso que chegamos a
compreender.
Se o id de um ser humano dá origem a uma exigência instintual de natureza agressiva ou
erótica, o mais simples e natural é que o ego, que tem o aparelho de pensamento e o
aparelho muscular à sua disposição, satisfaça a exigência através de uma ação. Essa
satisfação do instinto é sentida pelo ego como prazer, tal como sua não satisfação
indubitavelmente se tornaria fonte de desprazer. Ora, pode surgir um caso em que o ego
se abstenha de satisfazer o instinto, por causa de obstáculos externos, a saber, se
percebesse que a ação em apreço provocaria um sério perigo ao ego. Uma abstenção da
satisfação desse tipo, a renúncia a um instinto por causa de um obstáculo externo — ou,
como podemos dizer, em obediência ao princípio da realidade —, não é agradável em
caso algum. A renúncia ao instinto conduziria a uma tensão duradoura, devida ao
desprazer, se não fosse possível reduzir a intensidade do próprio instinto mediante
deslocamentos de energia. A renúncia instintual, contudo, pode também ser imposta por
outras razões, as quais corretamente descrevemos como internas. No curso do
desenvolvimento de um indivíduo, uma parte das forças inibidoras do mundo externo é
internalizada e constrói-se no ego uma instância que confronta o restante do ego num
sentido observador, crítico e proibidor. Chamamos essa nova instância de superego.
Doravante o ego, antes de colocar em funcionamento as satisfações instintuais exigidas
pelo id, tem de levar em conta não simplesmente os perigos do mundo externo, mas
também as objeções do superego, e terá ainda mais fundamentos para abster-se de
satisfazer o instinto. Mas onde a renúncia instintual, quando se dá por razões externas, é
apenas desprazerosa, quando ela se deve a razões internas, em obediência ao superego,
ela tem um efeito econômico diferente. Em acréscimo às inevitáveis conseqüências
desprazerosas, ela também traz ao ego um rendimento de prazer — uma satisfação
substitutiva, por assim dizer. O ego se sente elevado; orgulha-se da renúncia instintual,
como se ela constituísse uma realização de valor. Acreditamos quepodemos entender o
mecanismo desse rendimento de prazer. O superego é o sucessor e o representante dos
pais (e educadores) do indivíduo, que lhe supervisionaram as ações no primeiro período
de sua vida; ele continua as funções deles quase sem mudança. Mantém o ego num
permanente estado de dependência e exerce pressão constante sobre ele. Tal como na
infância, o ego fica apreensivo em pôr em risco o amor de seu senhor supremo; sente
sua aprovação como libertação e satisfação, e suas censuras como tormentos de
consciência. Quando o ego traz ao superego o sacrifício de uma renúncia instintual, ele
espera ser recompensado recebendo mais amor deste último. A consciência de merecer
esse amor é sentida por ele como orgulho. Na época em que a autoridade ainda não fora
internalizada como superego, poderia ter havido a mesma relação entre a ameaça de
perda do amor e as reivindicações do instinto; havia um sentimento de segurança e
satisfação quando se conseguia uma renúncia instintual por amor ao país. Mas esse
sentimento feliz só poderia assumir o peculiar caráter narcísico de orgulho depois que a
própria autoridade se tivesse tornado parte do ego.”

“O totemismo, a forma mais primitiva de religião que identificamos, traz consigo, como
constituintes indispensáveis de seu sistema, uma série de ordens e proibições que não
possuem outra significação, naturalmente, que a de renúncias instintuais: a adoração do
totem, que inclui uma proibição contra danificá-lo ou matá-lo; a exogamia — isto é, a
renúncia às apaixonadamente desejadas mães e irmãs da horda —, a concessão de
direitos iguais a todos os membros da aliança fraterna — isto é, a restrição da inclinação
para a rivalidade violenta entre eles. Nesses regulamentos, devem ser visto os
primórdios de uma ordem moral e social. Não nos escapa que dois motivos diferentes
estão em ação aqui. As duas primeiras proibições operam do lado do pai, que foi
eliminado: dão continuidade a sua vontade, por assim dizer. A terceira ordem — a
concessão de direitos iguais aos irmãos aliados — despreza essa vontade; justifica-se
por um apelo à necessidade de manter permanentemente a nova ordem que sucedeu ao
afastamento do pai, pois, de outra maneira, uma recaída no estado anterior se tornaria
inevitável. É aqui que as ordens sociais divergem das outras, as quais, como poderíamos
dizer, se derivam diretamente de vinculações religiosas.
A parte essencial desse curso de acontecimentos repete-se no desenvolvimento
abreviado do indivíduo humano. Também aqui é autoridade dos pais da criança —
essencialmente, a de seu pai autocrático, a ameaçá-la com seu poder de punir — que lhe
exige uma renúncia ao instinto e que por ela decide o que lhe deve ser concedido e
proibido. Mais tarde, quando a Sociedade e o superego assumiram o lugar dos pais, o
que na criança era chamado de ‘bem-comportado’ ou ‘travesso’, é descrito como ‘bom’
e ‘mau’, ou ‘virtuoso’ e ‘vicioso’. Mas ainda é sempre a mesma coisa — renúncia
instintual sob a pressão da autoridade que substitui e prolonga o pai.”

“A ordem em favor da exogamia, da qual o horror ao incesto é a expressão negativa, era
um produto da vontade do pai e deu continuidade a essa vontade depois que ele foi
afastado. Daí provém a força de seu tom emocional e a impossibilidade de descobrir
uma base racional para ela — isto é, sua sacralidade. Confiantemente esperamos que
uma investigação de todos os outros casos de proibição sagrada conduza à mesma
conclusão que à do horror ao incesto: que aquilo que é sagrado originalmente nada mais
era do que o prolongamento da vontade do pai primevo. Isso também lançaria luz sobre
a ambivalência até aqui incompreensível das palavras que expressam o conceito de
sacralidade. Trata-se da ambivalência que em geral domina a relação com o pai. [O
latim] ‘sacer‘ significa não apenas ‘sagrado’, ‘consagrado’, mas também algo que só
podemos traduzir por ‘infame’, ‘detestável’, (e.g., ‘auri sacra fames’).
 Mas a vontade do pai não era apenas algo que não podia ser tocado, que se tinha de ter
em elevado respeito, mas também algo perante o que se tremia, por exigir uma penosa
renúncia instintual. Quando ouvimos que Moisés tornou santo seu povo, pela introdução
do costume da circuncisão, compreendemos o significado profundo dessa asserção. A
circuncisão é o substituto simbólico da castração que o pai primevo outrora infligira aos
filhos na plenitude de seu poder absoluto, e todo aquele que aceitava esse símbolo
demonstrava através disso que estava preparado para submeter-se à vontade do pai,
mesmo que esta lhe impusesse o mais penoso sacrifício.
Retornando à ética, podemos dizer, em conclusão, que uma parte de seus preceitos se
justifica racionalmente pela necessidade de delimitar os direitos da sociedade contra o
indivíduo, os direitos do indivíduo contra a sociedade, e os dos indivíduos uns contra os
outros. Mas o que nos parece tão grandioso a respeito da ética, tão misterioso e, de
modo místico, tão auto-evidente, deve essas características à sua vinculação com a
religião, à sua origem na vontade do pai.”


ANÁLISE TERMINÁVEL E INTERMINÁVEL
(...)

Parte - VI


“Em outro grupo ainda de casos, as características distintivas do ego, que devem ser
consideradas como fontes de resistências ao tratamento analítico e obstáculos ao êxito
terapêutico, podem originar-se de raízes diferentes e mais profundas. Estamos lidando
aqui com as coisas supremas que a pesquisa psicológica pode aprender: o
comportamento dos dois instintos primevos, sua distribuição, mistura e defusão —
coisas que não podemos imaginar como confinadas a uma única província do aparelho
psíquico, ao id, ao ego ou ao superego. Impressão alguma mais forte surge das
resistências durante o trabalho de análise do que a de existir uma força que se está
defendendo por todos os meios possíveis contra o restabelecimento e que está
absolutamente decidida a apegar-se à doença e ao sofrimento. Uma parte dessa força já
foi por nós identificada, indubitavelmente com justiça, como sentimento de culpa e
necessidade de punição, e foi por nós localizada na relação do ego com o superego. Mas
essa é apenas a parte dela que, por assim dizer, está psiquicamente presa pelo superego
e assim se torna reconhecível; outras cotas da mesma força, quer presas, quer livres,
podem estar em ação em outros lugares não especificados. Se tomarmos em
consideração o quadro total formado pelos fenômenos de masoquismo imanentes em
tantas pessoas, a reação terapêutica negativa e o sentimento de culpa encontrados em
tantos neuróticos, não mais poderemos aderir à crença de que os eventos mentais são
governados exclusivamente pelo desejo de prazer. Esses fenômenos constituem
indicações inequívocas da presença de um poder na vida mental que chamamos de
instinto de agressividade ou de destruição, segundo seus objetivos, e que remontamos
ao instinto de morte original da matéria viva. Não se trata de uma antítese entre uma
teoria pessimista da vida e outra otimista. Somente pela ação concorrente ou
mutuamente oposta dos dois instintos primevos — Eros e o instinto de morte —, e
nunca por um ou outro sozinho, podemos explicar a rica multiplicidade dos fenômenos
da vida.”

“Afinal de contas, presumimos que, no decurso do desenvolvimento do homem de um
estado primitivo para um civilizado, sua agressividade experimenta um grau bastante
considerável de internalização ou volta para o interior; se assim for, seus conflitos
internos certamente seriam o equivalente apropriado para as lutas internas que então
cessaram. Estou bem cônscio de que a teoria dualista, segundo a qual um instinto de
morte ou de destruição ou agressão reivindica iguais direitos como sócio de Eros, tal
como este se manifesta na libido, encontrou pouca simpatia e na realidade não foi
aceita, mesmo entre psicanalistas. Isso me deixou ainda mais satisfeito quando, não
muito tempo atrás, me deparei com essa teoria de minha autoria nos escritos de um dos
maiores pensadores da antiga Grécia. Estou prontíssimo a ceder o prestígio da
originalidade em favor de tal confirmação, em especial porque nunca pode ficar certo,
em vista da ampla extensão de minhas leituras nos primeiros anos, se aquilo que tomei
por uma nova criação não constituía um efeito da criptoamnésia.
Empédocles de Acragas (Girgenti), nascido por volta de 495 a.C., é uma das maiores e
mais notáveis figuras da história da civilização grega. As atividades de sua
personalidade multifacetada seguiram as mais variadas direções. Ele foi investigador e
pensador, profeta e mágico, político, filantropo e médico com conhecimentos de
ciências naturais. Diz-se que libertou a cidade de Selinunte da malária e seus
contemporâneos o reverenciavam como a um deus. Sua mente parece ter unido os mais
agudos contrastes. Era exato e sóbrio em suas pesquisas físicas e fisiológicas; contudo,
não se retraiu ante as obscuridades do misticismo e construiu especulações cósmicas de
audácia espantosamente imaginativa. Capelle compara-o ao Dr. Fausto, ‘a quem muitos
segredos foram revelados’. Nascido, como foi, numa época em que o reino da ciência
ainda não estava dividido em tantas províncias, algumas de suas teorias devem
inevitavelmente impressionavas coisas pela mistura dos quatros elementos, a terra, o ar,
o fogo e a água. Sustentava que toda a natureza era animada, e acreditava na
transmigração das almas. Mas também incluiu no corpo teórico do conhecimento idéias
modernas, como a evolução gradual das criaturas vivas, a sobrevivência dos mais aptos
e o reconhecimento do papel desempenhado pelo acaso              nessa evolução.
Mas a teoria de Empédocles que merece especialmente nosso interesse é uma que se
aproxima tanto da teoria psicanalítica dos instintos, que ficaríamos tentados a sustentar
que as duas são idênticas, não fosse pela diferença de a teoria do filósofo grego ser uma
fantasia cósmica, ao passo que a nossa se contenta em reivindicar validade biológica.
Ao mesmo tempo, o ato de Empédocles atribuir ao universo a mesma natureza animada
que aos organismos individuais despoja essa diferença de grande parte de sua
importância.
O filósofo ensinou que dois princípios dirigem os eventos na vida do universo e na vida
da mente, e que esses princípios estão perenemente em guerra um com o outro.
Chamou-os de             (amor) e              (discórdia). Desses dois princípios — que
ele concebeu como sendo, no fundo, ‘forças naturais a operar como instintos, e de
maneira alguma inteligências com um intuito consciente’ —, um deles se esforça por
aglomerar as partículas primevas dos quatro elementos numa só unidade, ao passo que o
outro, ao contrário, procura desfazer todas essas fusões e separar umas das outras as
partículas primevas dos elementos. Empédocles imaginou o processo do universo como
uma alternação contínua e incessante de períodos, nos quais uma ou outra das duas
forças fundamentais leva a melhor, de maneira que em determinada ocasião o amor e
noutra a discórdia realizam completamente seu intuito e dominam o universo, após o
que o outro lado, vencido, se afirma e, por sua voz, derrota seu parceiro.
Os dois princípios fundamentais de Empédocles —                          — são, tanto
em nome quanto em função, os mesmos que nossos dois instintos primevos, Eros e
destrutividade, dos quais o primeiro se esforça por combinar o que existe em unidades
cada vez maiores, ao passo que o segundo se esforça por dissolver essas combinações e
destruir as estruturas a que elas deram origem. Não ficaremos surpresos, contudo, em
descobrir que, em seu ressurgimento após dois milênios e meio, essa teoria se alterou
em algumas de suas características. À parte a restrição ao campo biofísico que se nos
impõe, não mais temos como substâncias básicas os quatro elementos de Empédocles: o
que é vivo foi nitidamente diferenciado do que é inanimado, e não mais pensamos em
mistura e separação de partículas de substância, mas na solda e na defusão dos
componentes instintuais. Ademais, fornecemos um certo tipo de fundamento ao
princípio de ‘discórdia’, fazendo nosso instinto de destruição remontar ao instinto de
morte, ao impulso que tem o que é vivo a retornar a um estado inanimado. Isso não se
destina a negar que um instinto análogo já existiu anteriormente, nem, é natural, a
asseverar que um instinto desse tipo só passou a existir com o surgimento da vida. E
ninguém pode prever sob que disfarce o núcleo de verdade contida na teoria de
Empédocles se apresentará à compreensão posterior.”

Parte - VII

“Nos homens, o esforço por ser masculino é completamente egossintônico desde o
início; a atitude passiva, de uma vez que pressupõe uma aceitação da castração, é
energicamente reprimida e amiúde sua presença só é indicada por supercompensações
excessivas. Nas mulheres, também, o esforço por ser masculino é egossintônico em
determinado período — a saber, na fase fálica, antes que o desenvolvimento para a
feminilidade se tenha estabelecido. Depois, porém, ele sucumbe ao momentoso
processo de repressão cujo desfecho, como tão freqüentemente foi demonstrado,
determina a sorte da feminilidade de uma mulher. Muita coisa depende de que uma
quantidade suficiente de seu complexo de masculinidade escape à repressão e exerça
influência permanente em seu caráter. Normalmente, grandes partes do complexo se
transformam e contribuem para a construção de sua feminilidade; o desejo apaziguado
de um pênis destina-se a ser convertido no desejo de um bebê e de um marido, que
possui um pênis.É estranho, contudo, quão amiúde descobrimos que o desejo de
masculinidade foi retido no inconsciente e que, a partir de seu estado de repressão,
exerce uma influência perturbadora.
Como se verá pelo que eu disse, em ambos os casos foi a atitude própria ao sexo oposto
que sucumbiu à repressão. Já afirmei em outro lugar que foi Wilhelm Fliess que chamou
minha atenção para esse ponto. Fliess inclinava-se a encarar a antítese entre os sexos
como a verdadeira causa e a força motivadora primeva da repressão. Estou apenas
repetindo o que disse então ao discordar de sua opinião, quando declino de sexualizar a
repressão dessa maneira — isto é, explicá-la em fundamentos biológicos, em vez de
puramente psicológicos.”
“A importância suprema desses dois temas — nas mulheres, o desejo de um pênis, e,
nos homens, a luta contra a passividade — não escapou à observação de Ferenczi. No
artigo lido por ele em 1927, transformou num requisito que, em toda análise bem-
sucedida, esses dois complexos tivessem sido dominados. Gostaria de acrescentar que,
falando por minha própria experiência, acho que quanto a isso Ferenczi estava pedindo
muito. Em nenhum ponto de nosso trabalho analítico, se sofre mais da sensação
opressiva de que todos os nossos repetidos esforços foram em vão, e da suspeita de que
estivemos ‘pregando ao vento’, do que quando estamos tentando persuadir uma mulher
a abandonar seu desejo de um pênis, com fundamento de que é irrealizável, ou quando
estamos procurando convencer um homem de que uma atitude passiva para com
homens nem sempre significa castração e que ela é indispensável em muitos
relacionamentos na vida. A supercompensação rebelde do homem produz uma das mais
fortes resistências transferenciais. Ele se recusa a submeter-se a um substituto paterno,
ou a sentir-se em débito para com ele por qualquer coisa, e, conseqüentemente, se
recusa a aceitar do médico seu restabelecimento. Nenhuma transferência análoga pode
surgir do desejo da mulher por um pênis, mas esse desejo é fonte de irrupções de grave
depressão nela, devido à convicção interna de que a análise não lhe será útil e de que
nada pode ser feito para ajudá-la. E só podemos concordar que ela está com a razão,
quando aprendemos que seu mais forte motivo para buscar tratamento foi a esperança
de que, ao fim de tudo, ainda poderia obter um órgão masculino, cuja falta lhe era tão
penosa.
Mas também aprendemos com isso que não é importante sob que forma a resistência
aparece, seja como transferência ou não. A coisa decisiva permanece sendo que a
resistência impede a ocorrência de qualquer mudança — tudo fica como era.
Freqüentemente temos a impressão de que o desejo de um pênis e o protesto masculino
penetraram através de todos os estratos psicológicos e alcançaram o fundo, e que, assim,
nossas atividades encontram um fim. Isso é provavelmente verdadeiro, já que, para o
campo psíquico, o campo biológico desempenha realmente o papel de fundo subjacente.
O repúdio da feminilidade pode ser nada mais do que um fato biológico, uma parte do
grande enigma do sexo. Seria difícil dizer se e quando conseguimos êxito em dominar
esse fator num tratamento analítico. Só podemos consolar-nos com a certeza de que
demos à pessoa analisada todo incentivo possível para reexaminar e alterar sua atitude
para com ele.”

FREUD - Obras Completas

  • 1.
    FREUD, Sigmund. ObrasCompletas. em CD. Editora Imago. Resumo por: Carlos Jorge Burke – www.cburke.com.br OBS: Se desejar, solicitar arquivo pelo blog. Totem e Tabu e outros trabalhos – Livro XIII – (1913-1914) O Interesse Científico da Psicanálise Parte I – O interesse psicológico da psicanálise “A psicanálise é um procedimento médico que visa à cura de certas formas de doenças nervosas (as neuroses) através de uma técnica psicológica. Num pequeno volume publicado em 1910, descrevi a evolução da psicanálise a partir do procedimento catártico de Josef Breuer e de sua relação com as teorias de Charcot e Pierre Janet. Podemos citar como exemplos de distúrbios que são acessíveis ao tratamento psicanalítico as convulsões histéricas e as paralisias, bem como os diversos sintomas da neurose obsessiva (idéias e ações obsessivas). Todas elas são condições que estão ocasionalmente sujeitas a recuperação espontânea e dependem da influência pessoal do médico, de uma maneira fortuita que ainda não foi explicada. A psicanálise não tem efeito terapêutico sobre as formas mais graves da perturbação mental propriamente dita. Mas possibilitou — pela primeira vez na história da medicina — uma certa compreensão (insight) da origem e do mecanismo das neuroses e das psicoses. Esta importância da psicanálise para a medicina, entretanto, não justificaria que a trouxesse à apreciação de um círculo de savants interessados na síntese das ciências e isso poderia parecer particularmente prematuro na medida em que grande número de psiquiatras e neurologistas se opõem ao novo método terapêutico e rejeitam tanto os seus postulados quanto as suas descobertas. Se, não obstante, considero a experiência legítima, é porque a psicanálise pode também pretender o interesse de outras pessoas além dos psiquiatras, desde que ela toca em várias outras esferas do conhecimento e revela inesperadas relações entre estas e a patologia da vida mental.” “A explicação das parapraxias deve o seu valor teórico à facilidade com que podem ser solucionadas e à sua freqüência nas pessoas normais. Entretanto, o sucesso da psicanálise em explicá-las é ultrapassado de muito, em importância, por outra conquista realizada pela própria psicanálise relacionada com outro fenômeno da vida mental normal. Trata-se de interpretação de sonhos, que causou o primeiro conflito da psicanálise com a ciência oficial, o que passou a ser seu destino. A pesquisa médica explica os sonhos como sendo fenômenos puramente somáticos, sem sentido ou significação, e considera-os como a reação de um órgão mental, mergulhado em estado de sono, aos estímulos físicos que o mantêm parcialmente desperto. A psicanálise eleva a condição dos sonhos à de atos psíquicos possuidores de sentido e intenção e com um lugar na vida mental do indivíduo, apesar de sua estranheza, incoerência e absurdo. Segundo esse ponto de vista, os estímulos somáticos simplesmente desempenham o papel de material que é elaborado no decurso da construção do sonho. Não existe um meio termo entre essas duas opiniões sobre o sonhos. O argumento usado contra a hipótese fisiológica é a sua esterilidade, e o que pode ser argumentado em favor da hipótese psicanalítica é o fato de ter traduzido e dado um sentido a milhares de sonhos, usando esse sentido para iluminar os pormenores mais íntimos da mente humana.”
  • 2.
    “A elaboração oníricaé um processo psicológico que até hoje não encontrou similar na psicologia, reclamando o nosso interesse em dois sentidos principais. Em primeiro lugar, traz ao nosso conhecimento processos novos como a ‘condensação’ (de idéias) e o ‘deslocamento’ (da ênfase psíquica de uma idéia para outra), processos com os quais nunca, de forma nenhuma, nos deparamos em nossa vida desperta, a não ser como base daquilo que é conhecido como ‘erros de pensamento’. Em segundo lugar, nos permite detectar no funcionamento da mente um jogo de forças que estava escondido de nossa percepção consciente. Descobrimos que há uma ‘censura’, um órgão de verificação a funcionar em nós, que decide se uma idéia que surge na mente deve ter ou não permissão de chegar à consciência e que, até onde está em seu poder, exclui implacavelmente qualquer coisa que possa produzir ou reviver um desprazer. Aqui lembramos que na análise das parapraxias encontramos traços dessa mesma intenção de evitar desprazer na recordação de coisas, e de conflitos similares entre os impulsos mentais.” “Pode-se afirmar com segurança que o estudo psicanalítico dos sonhos nos deu nossa primeira compreensão (insight) de uma ‘psicologia profunda’, cuja existência até então não fora suspeitada. Modificações fundamentais terão de ser introduzidas na psicologia normal, se esta quiser colocar-se em harmonia com as novas descobertas.” Parte II – O interesse psicológico da psicanálise para as ciências não-psicológicas (A) O INTERESSE FILOLÓGICO DA PSICANÁLISE “Estarei sem dúvida infringindo o uso lingüístico comum ao postular um interesse na psicanálise por parte dos filólogos, isto é, dos peritos na fala, porque, no que se segue, a expressão ‘fala’ deve ser entendida não apenas como significando a expressão do pensamento por palavras, mas incluindo a linguagem dos gestos e todos os outros métodos, por exemplo a escrita, através dos quais a atividade mental pode ser expressa. Assim sendo, pode-se salientar que as interpretações feitas por psicanalistas são, antes de tudo, traduções de um método estranho de expressão para outro que nos é familiar. Quando interpretamos um sonho estamos apenas traduzindo um determinado conteúdo de pensamento (os pensamentos oníricos latentes) da ‘linguagem de sonhos’ para a nossa fala de vigília. À medida que fazemos isso, aprendemos as peculiaridades dessa linguagem onírica e nos convencemos de quem ela faz parte de um sistema altamente arcaico de expressão. Assim, para dar um exemplo, não existe uma indicação especial para o negativo na linguagem dos sonhos. Os contrários podem se representar uns aos outros no conteúdo do sonho e serem representados pelo mesmo elemento. Ou, noutras palavras: na linguagem onírica, os conceitos são ainda ambivalentes e unem dentro de si significados contrários — como é o caso, de acordo com as hipóteses dos filólogos, das mais antigas raízes das línguas históricas. Outra característica notável de nossa linguagem onírica é seu emprego extremamente freqüente de símbolos, o que nos possibilita, até certo ponto, traduzir o conteúdo dos sonhos sem referência às associações de quem sonhou. Nossas pesquisas ainda não elucidaram suficientemente a natureza essencial desses símbolos. São em parte analogias e sucedâneos baseados em semelhanças óbvias; mas, em alguns deles, o tertium comparationis presumivelmente presente foge ao nosso entendimento consciente. É precisamente essa última classe de símbolos que deve provavelmente originar-se das primeiras fases de evolução lingüística e construção conceitual. Nos sonhos, são acima de tudo os órgãos e as
  • 3.
    atividades sexuais quesão representados simbolicamente, em vez de sê-lo de modo direto. Um filólogo de Upsala, Hans Sperber, apenas recentemente (1912) tentou provar que as palavras que originalmente representavam atividades sexuais, sofreram, com base em analogias dessa espécie, uma modificação de grandes e extraordinárias conseqüências em seu significado. Se pensarmos que os meios de representação nos sonhos são principalmente imagens visuais e não palavras, veremos que é ainda mais apropriado comparar os sonhos a um sistema de escrita do que a uma linguagem. Na realidade, a interpretação dos sonhos é totalmente análoga ao deciframento de uma antiga escrita pictográfica, como os hieróglifos egípcios. Em ambos os casos há certos elementos que não se destinam a ser interpretados (ou lidos, segundo for o caso), mas têm por intenção servir de ‘determinativos’, ou seja, estabelecer o significado de algum outro elemento. A ambigüidade dos diversos elementos dos sonhos encontra paralelo nesses antigos sistemas de escrita, bem como a omissão de várias relações, que em ambos os casos tem de ser suprida pelo contexto. Se esta concepção do método de representação nos sonhos ainda não foi levada avante, isto, como facilmente se compreenderá, deve ser atribuído ao fato de os psicanalistas ignorarem completamente a atitude e o conhecimento com que um filólogo abordaria um problema como o apresentado pelos sonhos.” “A linguagem dos sonhos pode ser encarada como o método pelo qual a atividade mental inconsciente se expressa. Mas o inconsciente fala mais de um dialeto. De acordo com as diferentes condições psicológicas que orientam e distinguem as diversas formas de neurose, encontramos modificações regulares na maneira pela qual os impulsos mentais inconscientes se expressam. Enquanto a linguagem de gestos da histeria concorda em geral com a representação pictórica dos sonhos e das visões etc., a linguagem de pensamento das neuroses obsessivas e das parafrenias (demência precoce e paranóia) apresenta peculiaridades idiomáticas especiais, que, num certo número de casos, fomos capazes de compreender e inter-relacionar. Por exemplo, o que um histérico expressa através de vômitos, um obsessivo expressará por meio de penosas medidas de proteção contra infecções, enquanto um parafrênico será levado a queixas ou suspeitas de estar sendo envenenado. Todas essas são representações diferentes do desejo de engravidar do paciente que foi reprimido para o inconsciente, ou de sua reação defensiva contra esse desejo.” (C) O INTERESSE BIOLÓGICO DA PSICANÁLISE “A psicanálise não teve a sorte de ser acolhida (como outras ciências novas) com o incentivo simpático daqueles que se acham interessados no progresso do saber. Por longo tempo foi desprezada e, quando por fim não mais podia ser negligenciada, tornou- se, por razões emocionais, objeto dos mais violentos ataques por parte de pessoas que não se deram ao trabalho de conhecê-la bem. Essa recepção inamistosa deve-se a uma única circunstância: numa primeira fase de suas pesquisas, a psicanálise foi levada à conclusão de que as doenças nervosas constituíam a expressão de um distúrbio da função sexual, sendo assim conduzida a dedicar sua atenção à investigação dessa função — que tinha sido negligenciada por tempo demasiado. Mas qualquer pessoa que respeite a regra de que o julgamento científico não deve ser influenciado por atitudes emocionais atribuirá um alto grau de interesse biológico à psicanálise, por causa dessas próprias investigações, e há de encarar as resistências a ela como uma prova real em favor da correção de suas afirmações.
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    A psicanálise fezjustiça à função sexual no homem fazendo um exame pormenorizado de sua importância na vida prática e mental — importância que foi enfatizada por tantos escritores criativos e por alguns filósofos, mas nunca fora reconhecida pela ciência. De início, no entanto, foi necessário ampliar o conceito indevidamente restrito de sexualidade, ampliação justificada pela conexão com as extensões da sexualidade que ocorrem nas chamadas perversões e com o comportamento das crianças. Resultou ser impossível sustentar por mais tempo que a infância era assexual, sendo invadida pela primeira vez por uma súbita incursão de impulsos sexuais na época da puberdade. Pelo contrário, quando os artifícios protetores da parcialidade e do preconceito foram afastados, a observação não encontrou dificuldade em revelar que interesses e atividades sexuais se acham presentes na criança, em quase todas as idades desde o começo da vida mesmo. A importância dessa sexualidade normal dos adultos surge da sexualidade infantil não é prejudicada pelo fato de não podermos em todos os pontos traçar uma linha clara entre ela e a atividade assexual de uma criança. Difere, entretanto, daquilo que é descrito como a sexualidade ‘normal’ dos adultos. Inclui os germes de todas aquelas atividades sexuais que, na vida posterior, apresentam agudo contraste com a vida sexual normal sendo tidas como perversões e, assim, fadadas a parecerem incompreensíveis e viciadas. A sexualidade normal dos adultos surge da sexualidade infantil através de uma série de desenvolvimentos, combinações, divisões e repressões que dificilmente se completam com perfeição ideal, deixando conseqüentemente em seu rastro predisposições a uma regressão da função, sob a forma de doença.” “A sexualidade infantil apresenta duas outras características que são importantes do ponto de vista biológico. Mostra ser formada de certo número de instintos componentes que parecem estar ligados a certas regiões do corpo (‘zonas erógenas’), surgindo alguns deles desde o início em pares opostos — instintos com um objetivo ativo e outro passivo. Assim como na vida posterior o que é amado não são simplesmente os órgãos sexuais do objeto, mas todo o seu corpo, também desde o começo não são simplesmente os órgãos genitais mas muitas outras partes do corpo que constituem sede da excitação sexual e reagem a estímulos apropriados com prazer sexual. Esse fato tem estreita relação com a segunda característica da sexualidade infantil — ou seja, com o fato de que no início, ela se acha ligada às funções autopreservativas da nutrição e da excreção e, com toda a probabilidade, da excitação muscular e da atividade sensorial. Se examinarmos a sexualidade do adulto com o auxílio da psicanálise e considerarmos a vida das crianças à luz dos conhecimentos que assim obtivermos, perceberemos que a sexualidade não é simplesmente uma função que serve aos fins da reprodução, no mesmo nível que a digestão, a respiração etc. Trata-se de algo muito mais independente, que se coloca em contraste com todas as outras atividades do indivíduo e só é forçado a uma aliança com a economia individual após um complicado curso de desenvolvimento que envolve a imposição de numerosas restrições. Casos — em teoria inteiramente concebíveis — em que os interesses desses impulsos sexuais deixam de coincidir com a autopreservação do indivíduo parecem realmente ser apresentados pelo grupo das doenças neuróticas, porque a fórmula final a que a psicanálise chegou quanto à natureza das neuroses é a seguinte: o conflito primário que leva às neuroses é um conflito entre os instintos sexuais e os instintos que sustentam o ego. As neuroses representam uma dominação mais ou menos parcial do ego pela sexualidade, depois de terem falhado os esforços do ego para reprimi-la.” “Julgamos necessário nos manter afastados de considerações biológicas durante nosso trabalho psicanalítico e abster-nos de utilizá-las para propósitos heurísticos, de maneira
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    a não nosafastarmos de um julgamento imparcial dos fatos psicanalíticos que nos apresentam. Mas, depois de completar nosso trabalho psicanalítico, teremos de encontrar um ponto de contato com a biologia e será justa a nossa satisfação se constatarmos que esse contato já está assegurado num ou noutro ponto importante. O contraste entre os instintos do ego e o instinto sexual, ao qual fomos obrigados a atribuir a origem das neuroses, é transposto para a esfera da biologia pelo contraste entre os instintos que servem à preservação do indivíduo e os que servem à sobrevivência da espécie. Na biologia encontramos a mais abrangente concepção de um plasma germinal imoral ao qual os diferentes indivíduos transitórios se ligam como órgãos que se desenvolvem sucessivamente. É somente essa concepção que nos permite compreender corretamente o papel desempenhado pelas forças instintivas sexuais na filosofia e na psicologia. Apesar de todos os nossos esforços para que a terminologia e as considerações biológicas não dominassem o trabalho psicanalítico, não pudemos evitar o seu emprego mesmo na descrição dos fenômenos que estudamos. Não podemos deixar de considerar o termo ‘instinto’ como um conceito fronteiriço entre as esferas da psicologia e da biologia. Falamos também de atributos e impulsos mentais ‘masculinos’ e ‘femininos’, embora, estritamente falando, as diferenças entre os sexos não possam pretender nenhuma característica psíquica especial. Aquilo de que falamos na vida comum como ‘masculino’ e ‘feminino’ reduz-se, do ponto de vista da psicologia, às qualidades de ‘atividade’ e ‘passividade’ — isto é, a qualidades determinadas não pelos próprios instintos, mas por seus objetivos. A associação regular destes ‘ativos’ e ‘passivos’ na vida mental reflete a bissexualidade dos indivíduos, que está entre os postulados clínicos da psicanálise. Ficarei satisfeito se estas poucas observações chamarem a atenção para muitos aspectos em que a psicanálise atua como intermediária entre a biologia e a psicologia.” (D) O INTERESSE DA PSICANÁLISE DE UM PONTO DE VISTA DE DESENVOLVIMENTO “Nem toda análise de fenômenos psicológicos merece o nome de psicanálise, pois esta implica mais que a simples análise de fenômenos compostos em outros mais simples. Consiste em remontar uma determinada estrutura psíquica a outra que a precedeu no tempo e da qual se desenvolveu. O procedimento médico psicanalítico não pode eliminar um sintoma até haver traçado a origem e a evolução desse sintoma. Assim, desde o início, a psicanálise dirigiu-se no sentido de delinear processos de desenvolvimento. Começou por descobrir a gênese dos sintomas neuróticos e foi levada, à medida que o tempo passava, a voltar sua atenção para outras estruturas psíquicas e a construir uma psicologia genética que também se lhe aplicasse. A psicanálise foi obrigada a atribuir a origem da vida mental dos adultos à vida das crianças e teve de levar a sério o velho ditado que diz que a criança é o pai do homem. Delineou a continuidade entre a mente infantil e a mente adulta e observou também as transformações e os remanejamentos que ocorrem no processo. Na maioria de nós existe, em nossas lembranças, uma lacuna que abrange os primeiros anos da infância dos quais apenas algumas recordações fragmentárias sobrevivem. Pode-se dizer que a psicanálise preencheu essa lacuna e aboliu a amnésia infantil do homem.” “Algumas descobertas notáveis foram efetuadas no curso dessa investigação da mente infantil. Assim foi possível confirmar — o que já fora muitas vezes suspeitado — a
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    influência extraordinariamente importanteexercida pelas impressões da infância (e particularmente pelos seus primeiros anos) sobre todo o curso da evolução posterior. Isso nos conduz ao paradoxo psicológico — que somente para a psicanálise não é paradoxo — de serem precisamente estas, as mais importantes de todas as impressões, as que não são recordadas em anos posteriores. A psicanálise pôde estabelecer o caráter decisivo e indestrutível dessas primeiras experiências da maneira mais clara possível, no caso da vida sexual. ‘On revient toujours à ses premiers amours‘ é pura verdade. Os muitos enigmas da vida sexual dos adultos só podem ser solucionados se forem ressaltados os fatores infantis existentes no amor. Uma luz teórica é lançada sobre a influência deles depois de considerarmos que as primeiras experiências de um indivíduo na infância não ocorrem somente por acaso, mas correspondem também às primeiras atividades de suas disposições instintivas inatas ou constitucionais. Outra descoberta muito mais surpreendente foi que, a despeito de toda a evolução posterior que ocorre no adulto, nenhuma das formações mentais infantis perece. Todos os desejos, impulsos instintivos, modalidades de reação e atitudes da infância acham-se ainda demonstravelmente presentes na maturidade e, em circunstância apropriada, podem mais uma vez surgir. Elas não são destruídas, mas simplesmente se sobrepõem — para empregar o modo espacial de descrição que a psicologia psicanalítica foi obrigada a adotar. Assim, faz parte da natureza do passado mental diferentemente do passado histórico, não ser absorvido pelos seus derivados; persiste (seja na realidade ou apenas potencialmente) juntamente com o que se originou dele. A prova desta afirmação reside no fato de os sonhos das pessoas normais reviverem seus caracteres de infância a cada noite e reduzirem toda a sua vida mental a um nível infantil. Esse mesmo retorno ao infantilismo psíquico (‘regressão’) ocorre nas neuroses e psicoses, cujas peculiaridades podem, em grande parte, ser descritas como arcaísmos psíquicos. A intensidade com que os resíduos da infância ainda se acham presentes na mente nos é mostrada pelo grau de disposição para a doença; essa disposição pode, por conseguinte, ser encarada como expressão de uma inibição do desenvolvimento. A parte do material psíquico de uma pessoa que permaneceu infantil e foi reprimida como imprestável constitui o cerne de seu inconsciente. E acreditamos que podemos seguir nas histórias de nossos pacientes a maneira pela qual esse inconsciente subjugado como é pelas forças de repressão, fica à espera de uma possibilidade de tornar-se ativo e fazer uso de suas oportunidades, se as estruturas psíquicas posteriores e mais elevadas fracassarem no domínio das dificuldades da vida real.” (E) O INTERESSE DA PSICANÁLISE DO PONTO DE VISTA DA HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO “A comparação entre a infância dos homens e a primitiva história das sociedades já provou sua fecundidade em diversos sentidos, ainda que seu estudo esteja apenas começando. Nesta conexão o modo de pensar psicanalítico atua como um novo instrumento de pesquisa. A aplicação de suas hipóteses à psicologia social torna possível tanto o levantamento de novos problemas como a visão dos antigos sob nova luz e nos capacita a contribuir para a sua solução. Em primeiro lugar, parece inteiramente possível aplicar os pontos de vista psicanalíticos deduzidos dos sonhos a produtos da imaginação étnica, como os mitos e os contos de
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    fadas. Há muitotempo se sentia a necessidade de interpretar essas produções; suspeitava-se existir algum ‘sentido secreto’ por trás delas e presumiu-se que esse sentido se mantivesse oculto através de mudanças e transformações. O estudo dos sonhos e das neuroses feito pela psicanálise lhe trouxe a experiência necessária para capacitá-la a adivinhar os procedimentos técnicos que orientaram essas deformações. Num certo número de casos, porém, ela pode também revelar os motivos que levaram a essa modificação do sentido original dos mitos. Não se pode aceitar como primeiro impulso para a construção de mitos um anseio teórico por encontrar uma explicação para os fenômenos naturais ou para elucidar observâncias e práticas de culto que se tornaram ininteligíveis. A psicanálise procura esse impulso nos mesmos ‘complexos’ psíquicos, nas mesmas inclinações emocionais que descobriu como sendo a base dos sonhos e dos sintomas. Uma aplicação semelhante de seus pontos de vista, suas hipóteses e suas descobertas permitiu à psicanálise lançar luz sobre as origens de nossas grandes instituições culturais: a religião, a moralidade, a justiça e a filosofia. Examinando as primitivas situações psicológicas que poderiam fornecer o motivo para criações desse tipo, ficou em posição de rejeitar certas tentativas de explicação que se baseavam numa psicologia demasiado superficial e substituí-las por uma compreensão (insight) mais penetrante. A psicanálise estabeleceu uma estreita conexão entre essas realizações psíquicas de indivíduos, por um lado, e de sociedades, por outro, postulando uma mesma e única fonte dinâmica para ambas. Ela parte da idéia básica de que a principal função do mecanismo mental é aliviar o indivíduo das tensões nele criadas por suas necessidades. Uma parte desta tarefa pode ser realizada extraindo-se satisfação do mundo externo e, para esse fim, é essencial possuir controle sobre o mundo real. Mas a satisfação de outra parte dessas necessidades — entre elas, certos impulsos afetivos — é regularmente frustrada pela realidade. Isto conduz a uma nova tarefa de encontrar algum outro meio de manejar os impulsos insatisfeitos. Todo o curso da história da civilização nada mais é que um relato dos diversos métodos adotados pela humanidade para ‘sujeitar’ seus desejos insatisfeitos, que, de acordo com as condições cambiantes (modificadas, ademais, pelos progressos tecnológicos) defrontaram-se com a realidade, às vezes favoravelmente e outras com frustração.” “Uma investigação dos povos primitivos mostra a humanidade inicialmente aprisionada pela crença infantil em sua própria onipotência. Toda uma gama de estruturas mentais pode ser então compreendida como tentativas de negar tudo o que pudesse perturbar esse sentimento de onipotência e impedir assim que a vida emocional fosse afetada pela realidade, até que esta pôde ser mais bem controlada e utilizada para propósitos de satisfação. O princípio de evitar o desprazer domina as ações humanas até ser substituído pelo princípio melhor de adaptação ao mundo externo. Pari passu com o controle progressivo dos homens sobre o mundo segue uma evolução de sua Weltanschauung, sua visão do universo como um todo. Cada vez eles se afastam mais de sua crença original na própria onipotência, elevando-se da fase animista para a religiosa e desta para a científica. Os mitos, a religião e a moralidade podem ser situados nesse esquema como tentativas de busca de compensação da falta de satisfação dos desejos humanos.” “Nosso conhecimento das doenças neuróticas dos indivíduos foi de grande auxílio para a compreensão das grandes instituições sociais, porque as neuroses mostraram ser tentativas de encontrar soluções individuais para o problema de compensar os desejos insatisfeitos, enquanto que as instituições buscam proporcionar soluções sociais para
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    esses mesmos problemas.A recessão do fator social e a predominância do sexual transforma essas soluções neuróticas do problema psicológico em caricaturas que de nada servem, a não ser para ajudar-nos a explicar essas importantes questões.” (F) O INTERESSE DA PSICANÁLISE DO PONTODE VISTA DA CIÊNCIA DA ESTÉTICA “A psicanálise esclarece satisfatoriamente alguns dos problemas referentes às artes e aos artistas, embora outros lhe escapem inteiramente. No exercício de uma arte vê-se mais uma vez uma atividade destinada a apaziguar desejos não gratificados — em primeiro lugar, do próprio artista e, subseqüentemente, de sua assistência ou espectadores. As forças motivadoras dos artistas são os mesmos conflitos que impulsionam outras pessoas à neurose e incentivaram a sociedade a construir suas instituições. De onde o artista retira sua capacidade criadora não constitui questão para a psicologia. O objetivo primário do artista é libertar-se e, através da comunicação de sua obra a outras pessoas que sofram dos mesmos desejos sofreados, oferecer-lhes a mesma libertação. Ele representa suas fantasias mais pessoais plenas de desejo como realizadas; mas elas só se tornam obra de arte quando passaram por uma transformação que atenua o que nelas é ofensivo, oculta sua origem pessoal e, obedecendo às leis da beleza, seduz outras pessoas com uma gratificação prazerosa. A psicanálise não tem dificuldade em ressaltar, juntamente com a parte manifesta do prazer artístico, uma outra que é latente, embora muito mais poderosa, derivada das fontes ocultas da libertação instintiva. A conexão entre as impressões da infância do artista e a história de sua vida, por um lado, e suas obras como reações a essas impressões, por outro, constitui um dos temas mais atraentes de estudo analítico.” (G) O INTERESSE SOCIOLÓGICO DA PSICANÁLISE “É verdade que a psicanálise tomou como tema a mente individual, mas, ao fazer investigações sobre o indivíduo, não podia deixar de tratar da base emocional da relação dele com a sociedade. Foi descoberto que os sentimentos sociais contêm invariavelmente um elemento erótico — elemento que, se for superenfatizado e depois reprimido, tornar-se-á um dos sinais distintivos de um grupo particular de distúrbios mentais. A psicanálise reconheceu que, em geral, as neuroses são associais em sua natureza e visam sempre a impulsionar o indivíduo para fora da sociedade e a substituir a segura reclusão monástica dos primeiros dias pelo isolamento da doença. Demonstrou-se que o intenso sentimento de culpa que domina tantas neuroses constitui uma modificação social da ansiedade neurótica. Por outro lado, a psicanálise demonstrou plenamente o papel desempenhado pelas condições e exigências sociais como causadores de neurose. As forças que, operando desde o ego, ocasionam a restrição e a repressão do instinto devem fundamentalmente sua origem à submissão às exigências da civilização. Uma constituição e um conjunto de experiências de infância que, noutros casos, conduziriam inevitavelmente a uma neurose não produz tal resultado onde essa submissão esteja ausente ou onde tais exigências não sejam feitas pelo círculo social em que esse indivíduo se situa. A antiga afirmativa de que o aumento de distúrbios nervosos constitui um produto da civilização é pelo menos uma meia-verdade. As pessoas jovens são postas em contato com as exigências da civilização pela criação e pelo exemplo e, se a repressão instintiva ocorre
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    independentemente desses doisfatores, é uma hipótese plausível supor que uma exigência primeva e pré-histórica passou finalmente a fazer parte da dotação organizada e herdada da humanidade. Uma criança que produza repressões instintivas espontaneamente está assim simplesmente repetindo uma parte da história da civilização. O que hoje é um ato de coibição interna foi outrora externo, imposto, talvez pelas necessidades do momento. Da mesma maneira, o que hoje se aplica a todo indivíduo em crescimento como uma exigência externa da civilização, poderá um dia tornar-se uma disposição interna à repressão.” “(H) O INTERESSE EDUCACIONAL DA PSICANÁLISE O interesse dominante que tem a psicanálise para a teoria da educação baseia-se num ato que se tornou evidente. Somente alguém que possa sondar as mentes das crianças será capaz de educá-las e nós, pessoas adultas, não podemos entender as crianças porque não mais entendemos a nossa própria infância. Nossa amnésia infantil prova que nos tornamos estranhos à nossa infância. A psicanálise trouxe à luz os desejos, as estruturas de pensamento e os processos de desenvolvimento da infância. Todos os esforços anteriores nesse sentido foram, no mais alto grau, incompletos e enganadores por menosprezarem inteiramente o fator inestimavelmente importante da sexualidade em suas manifestações físicas e mentais. O espanto incrédulo com que se defrontam as descobertas estabelecidas com maior grau de certeza pela psicanálise sobre o tema da infância — o complexo de Édipo, o amor a si próprio (ou ‘narcisismo’), a disposição para as perversões, o erotismo anal, a curiosidade sexual — é uma medida do abismo que separa nossa vida mental, nossos juízos de valor e, na verdade, nossos processos de pensamento daqueles encontrados mesmo em crianças normais. Quando os educadores se familiarizarem com as descobertas da psicanálise, será mais fácil se reconciliarem com certas fases do desenvolvimento infantil e, entre outras coisas, não correrão o risco de superestimar a importância dos impulsos instintivos socialmente imprestáveis ou perversos que surgem nas crianças. Pelo contrário, vão se abster de qualquer tentativa de suprimir esses impulsos pela força, quando aprenderem que esforços desse tipo com freqüência produzem resultados não menos indesejáveis que a alternativa, tão temida pelos educadores, de dar livre trânsito às travessuras das crianças. A supressão forçada de fortes instintos por meios externos nunca produz, numa criança, o efeito de esses instintos se extinguirem ou ficarem sob controle; conduz à repressão, que cria uma predisposição a doenças nervosas no futuro. A psicanálise tem freqüentes oportunidades de observar o papel desempenhado pela severidade inoportuna e sem discernimento da educação na produção de neuroses, ou o preço, em perda de eficiência e capacidade de prazer, que tem de ser pago pela normalidade na qual o educador insiste. E a psicanálise pode também demonstrar que preciosas contribuições para a formação do caráter são realizadas por esses instintos associais e perversos na criança, se não forem submetidos à repressão, e sim desviados de seus objetivos originais para outros mais valiosos, através do processo conhecido como ‘sublimação’.” “Nossas mais elevadas virtudes desenvolveram-se, como formações reativas e sublimações, de nossas piores disposições.” “A educação deve escrupulosamente abster-se de soterrar essas preciosas fontes de ação e restringir-se a incentivar os processos pelos quais essas energias são conduzidas ao longo de trilhas seguras. Tudo o que podemos esperar a título de profilaxia das neuroses no indivíduo se encontra nas mãos de uma educação psicanaliticamente esclarecida.”
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    IV – ORetorno do Totemismo na Infância “No primeiro desta série de ensaios, familiarizamo-nos com o conceito de totemismo. Aprendemos que o totemismo é um sistema que ocupa o lugar da religião entre certos povos primitivos da Austrália, da América e da África e provê a base de sua organização social. Como ficamos sabendo, foi um escocês, McLennan, que em 1869 pela primeira vez chamou a atenção geral para o fenômeno do totemismo (que até então tinha sido encarado como simples curiosidade), dando expressão à suspeita de que um grande número de costumes e práticas comuns em várias sociedades antigas e modernas deveriam ser explicados como remanescentes de uma época totêmica. A partir daí a ciência aceitou inteiramente essa avaliação do totemismo.” “O aspecto social do totemismo se expressa principalmente por uma injunção feita respeitar severamente e uma ampla restrição. Os membros de um clã totêmico são irmãos e irmãs e estão obrigados a ajudar-se e proteger-se mutuamente. Se o membro de um clã é morto por alguém não pertencente a ele, todo o clã do assassinado se une no pedido de satisfações pelo sangue que foi derramado. O laço totêmico é mais forte que o de família, em nosso sentido. Os dois não coincidem, uma vez que o totem, via de regra, é herdado através da linhagem feminina, sendo possível que a descendência paterna fosse deixada, originalmente, inteiramente fora de consideração. A restrição de tabu correspondente proíbe aos membros do mesmo clã totêmico de casar-se ou de ter relações sexuais uns com os outros. Temos aí o notório e misterioso correlato do totemismo: a exogamia. Dediquei todo o primeiro ensaio da presente obra a esse assunto, de maneira que aqui preciso apenas repetir que ele se origina da intensificação entre os selvagens do horror ao incesto, a qual seria plenamente explicada como uma garantia contra este último sob condições de casamento grupal, visando primariamente a afastar do incesto a geração mais jovem e interferindo com a geração mais velha apenas com um desenvolvimento posterior.” “Se procurarmos penetrar até a natureza original do totemismo, sem considerar os acréscimos ou atenuações subseqüentes, descobriremos que suas características essenciais são as seguintes: Originalmente, todos os totens eram animais e eram considerados como ancestrais dos diferentes clãs. Os totens eram herdados apenas através da linha feminina. Havia uma proibição contra matar o totem (ou — o que em condições primitivas, constitui a mesma coisa — comê-lo). Os membros de um clã totêmico estavam proibidos de ter relações sexuais uns com os outros.” “Quanto mais incontestável se torna a conclusão de que o totemismo constitui uma fase regular em todas as culturas, mais urgente se torna a necessidade de chegar-se a uma compreensão dele e lançar luz sobre o enigma de sua natureza essencial. Tudo o que se relaciona com o totemismo parece misterioso: os problemas decisivos relacionam-se com a origem da idéia da descendência do totem e com as razões para a exogamia (ou melhor, para o tabu sobre o incesto de que a exogamia é expressão), bem como a relação entre estas duas instituições, a organização totêmica e a proibição do incesto. Qualquer explicação satisfatória deverá ser, ao mesmo tempo, histórica e psicológica. Deverá dizer-nos sob que condições essa instituição peculiar se desenvolveu e a quais necessidades psíquicas do homem dá expressão.
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    Meus leitores, estouseguro, ficarão espantados ao tomar conhecimento da variedade de ângulos de que se fizeram tentativas para responder a estas questões e das amplas divergências de opinião sobre ela apresentadas pelos peritos. Quase toda generalização que se possa fazer sobre o assunto do totemismo e da exogamia parece aberta à discussão.” “Outros estudiosos da exogamia, ao contrário, e evidentemente com a maior justiça, viram na exogamia uma instituição destinada à prevenção do incesto. Quando se consideram as complicações gradativamente crescentes das restrições australianas ao casamento, é impossível deixar de aceitar as opiniões de Morgan (1877), Frazer (1910, 4, 105 e segs.), Howitt [1904, 143] e Baldwin Spencer de que esses regulamentos trazem (nas palavras de Frazer) ‘a marca de um desígnio deliberado’ e que visam a alcançar o resultado que na realidade alcançaram. ‘De nenhuma outra maneira parece possível explicar em todos os seus pormenores um sistema ao mesmo tempo tão regular.’ (Frazer, ibid., 106.) É interessante observar que as primeiras restrições produzidas pela introdução das classes matrimoniais afetaram a liberdade sexual da geração mais jovem (isto é, o incesto entre irmãos e irmãs e entre filhos e mães), enquanto que o incesto entre pais e filhas só foi impedido por uma extensão ulterior dos regulamentos. Mas o fato de as restrições sexuais exógamas terem sido impostas intencionalmente não esclarece o motivo que levou à sua imposição. Qual é a fonte suprema do horror ao incesto que tem de ser identificada como sendo a raiz da exogamia? Explicá-lo pela existência de uma antipatia instintiva pelas relações sexuais com os parentes consangüíneos — ou seja, apelando para o fato de que existe um horror ao incesto — é claramente insatisfatório, porque a experiência social mostra que, a despeito desse suposto instinto, o incesto não é um fato fora do comum mesmo em nossa sociedade atual e a história nos fala de casos em que o casamento incestuoso entre pessoas privilegiadas era na realidade a regra.” “Mas alguns outros comentários de Frazer vão mais fundo e estes reproduzirei na íntegra, visto que se acham essencialmente de acordo com os argumentos que apresentei em meu ensaio sobre o tabu: ‘Não é fácil perceber porque qualquer instinto humano profundo deva necessitar ser reforçado pela lei. Não há lei que ordene aos homens comer e beber ou os proíba de colocar as mãos no fogo. Os homens comem e bebem e mantém as mãos afastadas do fogo instintivamente por temor a penalidades naturais, não legais, que seriam acarretadas pela violência aplicada a esses instintos. A lei apenas proíbe os homens de fazer aquilo a que seus instintos os inclinam; o que a própria natureza proíbe e pune, seria supérfluo para a lei proibir e punir. Por conseguinte, podemos sempre com segurança pressupor que os crimes proibidos pela lei são crimes que muitos homens têm uma propensão natural a cometer. Se não existisse tal propensão, não haveriam tais crimes e se esses crimes não fossem cometidos, que necessidade haveria de proíbi-los? Desse modo, em vez de presumir da proibição legal do incesto que existe uma aversão natural a ele, deveríamos antes pressupor haver um instinto natural em seu favor e que se a lei o reprime, como reprime outros instintos naturais, assim o faz porque os homens civilizados chegaram à conclusão de que a satisfação desses instintos naturais é prejudicial aos interesses gerais da sociedade.’ (Frazer, 1910, 4, 97 e seg.) Posso acrescentar a estes excelentes argumentos de Frazer que as descobertas da psicanálise torna a hipótese de uma aversão inata à relação sexual incestuosa totalmente insustentável. Demonstram, pelo contrário, que as mais precoces excitações sexuais dos
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    seres humanos muitonovos são invariavelmente de caráter incestuoso e que tais impulsos, quando reprimidos, desempenham um papel que pode ser seguramente considerado — sem que isso implique uma superestima — como forças motivadoras de neuroses, na vida posterior. Dessa maneira, o ponto de vista que explica o horror ao incesto como sendo um instinto inato deve ser abandonado.” (b) e (c) A ORIGEM DA EXOGAMIA E SUA RELAÇÃO COM O TOTEMISMO “Tampouco pode-se dizer algo mais favorável sobre outra explicação da lei contra o incesto, amplamente defendida, segundo a qual os povos primitivos desde cedo notaram os perigos com que a endogamia ameaçava a raça e, devido a essa razão, deliberadamente adotaram a proibição. Há uma infinidade de objeções a esta teoria. (Cf. Durkheim, 1898 [33 e segs.].) Não somente a proibição contra o incesto deve ser mais antiga que a domesticação de animais — a qual poderia ter capacitado os homens a observar os efeitos prejudiciais da endogamia sobre os caracteres raciais —, mas ainda hoje os efeitos prejudiciais da endogamia não se acham estabelecidos com certeza e não podem ser facilmente demonstrados no homem. Ademais, tudo o que sabemos sobre os selvagens contemporâneos torna altamente improvável que seus ancestrais mais remotos já estivessem preocupados em preservar de danos a progênie. Na verdade, é quase absurdo atribuir a criaturas tão imprevidentes razões de higiene e de eugenia que mal são consideradas em nossa própria civilização de hoje. Por último, deve-se levar em conta o fato de que uma proibição contra a endogamia, baseada em motivos práticos de higiene, com fundamento na sua tendência à debilitação racial, parece inteiramente inadequada para explicar a profunda aversão de nossa sociedade pelo incesto. Como já demonstrei anteriormente, esse sentimento parece ser ainda mais ativo e intenso entre os povos primitivos contemporâneos que entre os civilizados. Poder-se-ia esperar que aqui, mais uma vez, tivéssemos diante de nós uma escolha entre explicações sociológicas, biológicas e psicológicas. (Com relação a isto, os motivos psicológicos talvez devam ser considerados como representando forças biológicas).” “Ignoramos a origem do horror ao incesto e nem mesmo podemos informar em que direção procurá-la. Nenhuma das soluções que foram propostas ao enigma parece satisfatória. Tenho, entretanto, de mencionar uma outra tentativa de solucioná-lo. É de um tipo inteiramente diferente de qualquer uma que até aqui consideramos e poderia ser descrita como ‘histórica’. Essa tentativa baseia-se numa hipótese de Charles Darwin sobre o estado social dos homens primitivos. Deduziu ele dos hábitos dos símios superiores, que também o homem vivia originalmente em grupos ou hordas relativamente pequenos, dentro dos quais o ciúme do macho mais velho e mais forte impedia a promiscuidade sexual. ‘Podemos na verdade concluir, do que sabemos do ciúme de todos os quadrúpedes masculinos, armados, como muitos se acham, de armas especiais para bater-se com os rivais, que as relações sexuais promíscuas em um estado natural são extremamente improváveis (…) Dessa maneira, se olharmos bastante para trás na corrente do tempo (…) a julgar pelos hábitos sociais do homem, tal como ele hoje existe (…) a visão mais provável é que o homem primevo vivia originalmente em pequenas comunidades, cada
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    um com tantasesposas quantas podia sustentar e obter, as quais zelosamente guardava contra todos os outros homens. Ou pode ter vivido sozinho com diversas esposas, como o gorila, pois todos os antigos “concordam que apenas um macho adulto é visto num grupo; quando o macho novo cresce, há uma disputa pelo domínio, e o mais forte, matando ou expulsando os outros, estabelece-se como chefe da comunidade”. (Dr. Savage, no Boston Journal of Nat. Hist., vol. V, 1845-7, p. 423.) Os machos mais novos, sendo assim expulsos e forçados a vaguear por outros lugares, quando por fim conseguiam encontrar uma companheira, preveniram também uma endogamia muito estreita dentro dos limites da mesma família.’ (Darwin, 1871, 2, 362 e seg.) Atkinson parece ter sido o primeiro a perceber que a conseqüência prática das condições reinantes na horda primeva de Darwin deve ter sido a exogamia para os jovens do sexo masculino. Cada um deles poderia, depois de ter sido expulso, estabelecer uma horda semelhante, na qual a mesma proibição sobre as relações sexuais imperaria, por causa do ciúme do líder. Com o decorrer do tempo, isto produziria o que se tornaria uma lei consciente: ‘Nenhuma relação sexual entre os que partilham de um lar comum’. Após o estabelecimento do totemismo, a regra assumiria outra forma e diria: ‘Nenhuma relação sexual dentro do totem’.” “Nessa obscuridade, um raio de luz isolado é lançado pela observação psicanalítica. Há uma grande semelhança entre as relações das crianças e dos homens primitivos com os animais. As crianças não demonstram sinais da arrogância que faz com que os homens civilizados adultos tracem uma linha rígida entre a sua própria natureza e a de todos os outros animais. As crianças não têm escrúpulos em permitir que os animais se classifiquem como seus plenos iguais. Desinibidas como são na admissão de suas necessidades corporais, sem dúvida sentem-se mais aparentadas com os animais do que com seus semelhantes mais velhos, que bem podem constituir um mistério para elas. Não raramente, porém, uma estranha lenda ocorre nas excelentes relações existentes entre as crianças e os animais. Uma criança de repente começa a ter medo de uma determinada espécie de animal e a evitar tocar ou ver qualquer exemplar daquela espécie. Surge o quadro clínico de uma fobia de animal — uma forma muito comum, talvez a mais antiga, das doenças psiconeuróticas que ocorrem na infância. (...).Ainda não se fez nenhum exame analítico pormenorizado das fobias de animais em crianças, embora esse estudo fosse grandemente compensador. Essa negligência, deve-se, sem dúvida, à dificuldade de analisar crianças de tão tenra idade. Assim, não se pode dizer que conheçamos o significado geral dessas perturbações, e eu mesmo sou de opinião que estas podem mostrar não ser de natureza uniforme. Mas alguns casos de fobias desse tipo dirigidas no sentido de animais maiores mostraram-se acessíveis à análise e revelaram assim seu segredo ao investigador. Era a mesma coisa em todos os casos: quando as crianças em causa eram meninos, o medo, no fundo, estava relacionado com o pai e havia simplesmente sido deslocado para o animal.” “Publiquei recentemente (1909b), uma ‘Análise de uma Fobia num Menino de Cinco Anos’, cujo material me foi fornecido pelo pai do pequeno paciente. O menino tinha uma fobia de cavalos e, como conseqüência disso, recusava-se a sair à rua. Expressava o temor de que o cavalo entrasse no quarto e o mordesse e viu-se que isso seria o castigo por um desejo de que o cavalo caísse (isto é, morresse). Depois de ter sido removido o medo do menino pelo pai através de uma confiança renovada, tornou-se evidente que ele estava lutando contra desejos que tinham como tema a idéia de o pai estar ausente (partindo para uma viagem, morrendo). Encarava o pai (como deixou bem claro) como um competidor nos favores da mãe, para quem eram dirigidos os obscuros prenúncios
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    de seus desejossexuais nascentes. Desse modo, estava situado na atitude típica de uma criança do sexo masculino para com os pais a que demos o nome do ‘complexo de Édipo’ e que em geral consideramos como o complexo nuclear das neuroses. O fato novo que aprendemos com a análise do ‘pequeno Hans’ — fato com uma importante relação com o totemismo — foi que, em tais circunstâncias, as crianças deslocam alguns de seus sentimentos do pai para um animal. A análise pode reconstituir os caminhos associativos ao longo dos quais esse deslocamento se passa — tanto os fortuitos como os possuidores de um conteúdo significativo. A análise também nos permite descobrir os motivos do deslocamento. O ódio pelo pai que surge num menino por causa da rivalidade em relação à mãe não é capaz de adquirir uma soberania absoluta sobre a mente da criança; tem de lutar contra a afeição e admiração de longa data pela mesma pessoa. A criança se alivia do conflito que surge dessa atitude emocional de duplo aspecto, ambivalente, para com o pai deslocando seus sentimentos hostis e temerosos para um substituto daquele. O deslocamento, no entanto, não pode dar cabo do conflito, não pode efetuar uma nítida separação entre os sentimentos afetuosos e os hostis. Pelo contrário, o conflito é retomado em relação ao objeto para o qual foi feito o deslocamento: a ambivalência é estendida a ele. Não pode haver dúvida de que o pequeno Hans não apenas tinha medo de cavalos, mas também se aproximava deles com admiração e interesse. Assim que sua ansiedade começou a diminuir, identificou-se com a criatura temida: começou a pinotear como um cavalo e, por sua vez, mordeu o pai. Em outra etapa da resolução de sua fobia, não hesitou em identificar os pais com alguns outros animais de grande porte.” “Quando o pequeno Árpád tinha dois anos e meio de idade, tentara certa vez, nas férias de verão, urinar no galinheiro e uma galinha bicara ou dera uma bicada na direção de seu pênis. Um ano depois, quando de volta ao mesmo lugar, ele próprio transformou-se numa galinha: seu único interesse era o galinheiro e o que lá se passava, tendo trocado o falar humano por cacarejos e cocoricós. Na ocasião em que a observação foi feita (quando estava com cinco anos), tinha recobrado a fala, mas seus interesses e sua conversa relacionavam-se totalmente com galinhas e outros tipos de aves domésticas. Eram os seus únicos brinquedos e somente entoava cantigas que fizessem menção a aves de quintal. Sua atitude para com o animal totêmico era superativamente ambivalente: mostrava tanto ódio quanto amor num grau exorbitante. Seu jogo favorito era brincar de matar galinhas. ‘A matança de aves domésticas constituía para ele um festival regular. Dançava em volta dos corpos dos animais por horas a fio, num estado de intensa excitação.’ A seguir, porém, beijava e alisava o animal morto ou limpava e acariciava as aves de brinquedo que ele mesmo tinha maltratado. O próprio pequeno Árpád cuidou para que o significado de seu estranho comportamento não permanecesse oculto. De tempos em tempos, traduzia seus desejos, da linguagem totêmica para a da vida cotidiana. ‘Meu pai é galo’, disse em certa ocasião, e, noutra: ‘Agora sou pequeno, sou um frango. Quando ficar maior, serei uma galinha e quando for maior ainda, serei um galo.’ Em outra ocasião, disse subitamente que gostaria de comer um pouco de ‘fricassée de mãe’ (por analogia com o fricassée de frango). [Ibid., 249.] Era muito generoso em ameaçar outras pessoas com a castração, tal como ele próprio fora por ela ameaçado, por causa das atividades masturbatórias. Não há dúvida, segundo Ferenczi, quanto às fontes do interesse de Árpád nos acontecimentos do galinheiro: ‘a contínua atividade sexual entre galos e galinhas, a postura de ovos e o nascimento da nova ninhada’ gratificavam a sua curiosidade sexual, cujo objeto real era a vida familiar humana. [Ibid. 250.] Mostrou ter formado sua
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    própria escolha deobjetos sexuais segundo o modelo da vida no galinheiro, porque certo dia disse à esposa do vizinho: ‘Vou me casar com você, com sua irmã, minhas três primas e com a cozinheira; não, com a cozinheira, não; em vez dela, casarei com minha mãe.’ [Ibid., 252.] Mais tarde poderemos apreciar mais completamente o valor desta observação. De momento, enfatizarei apenas dois aspectos dela que oferecem valiosos pontos de concordância com o totemismo: a completa identificação do menino com seu animal totêmico e sua atitude emocional ambivalente para com este. Essas observações, em minha opinião, justificam nossa substituição desse animal pelo pai na fórmula do totemismo (no caso de indivíduos do sexo masculino). Vai-se observar que não há nada de novo ou particularmente ousado nesse passo à frente. Na verdade, os homens primitivos dizem a mesma coisa e, onde o sistema totêmico ainda se acha em vigor atualmente, descrevem o totem como sendo seu ancestral comum e pai primevo. Tudo o que fizemos foi tomar no sentido literal uma expressão utilizada por essas pessoas, da qual os antropólogos muito pouco souberam extrair e, por essa razão, contentaram-se em manter em segundo plano. A psicanálise, pelo contrário, leva-nos a dar uma ênfase especial ao mesmo ponto e tomá-lo como ponto de partida de nossa tentativa de explicar o totemismo. A primeira conseqüência de nossa substituição é notabilíssima. Se o animal totêmico é o pai, então as duas principais ordenanças do totemismo, as duas proibições de tabu que constituem seu âmago — não matar o totem e não ter relações sexuais com os dois crimes de Édipo, que matou o pai e casou com a mãe, assim como os dois desejos primários das crianças, cuja repressão insuficiente ou redespertar formam talvez o núcleo de todas as psiconeuroses. Se essa equação for algo mais que um enganador truque de sorte, deverá capacitar-nos a lançar luz sobre a origem do totemismo num passado inconcebivelmente remoto. Em outras palavras, nos permitirá provar que o sistema totêmico — como a fobia de animal do pequeno Hans e a perversão galinácea do pequeno Árpád — é um produto das condições em jogo no complexo de Édipo.” “Voltemo-nos agora para o animal sacrificatório. Como soubemos, não há reunião de um clã sem um sacrifício animal, nem — e isto agora se torna significativo — nenhuma matança de animal exceto nessas ocasiões cerimoniais. Embora a caça e o leite dos animais domésticos possam ser consumidos sem quaisquer receios, os escrúpulos religiosos tornam impossível matar um animal doméstico para fins privados. [William Robertson Smith, falecido em 1894 — físico, filólogo, crítico da Bíblia e arqueólogo - Religion of Semites (publicado pela primeira vez em 1889-Ibid. 280, 281.] Não pode haver a mais leve dúvida, diz Robertson Smith, de que a matança de uma vítima se achava originalmente entre os atos que ‘são ilegais para um indivíduo e só podem ser justificados quando todo o clã partilha a responsabilidade do ato. Até onde sei, há apenas uma classe de ações reconhecidas pelas nações primitivas a que essa descrição se aplica, a saber, as ações que envolvem a invasão da santidade no sangue tribal. Na verdade, uma vida que nenhum integrante isolado da tribo se permite invadir e que só pode ser sacrificada pelo consentimento e ação comum dos parentes, está em pé de igualdade com a vida dos companheiros de tribo’. A regra de que todo participante na refeição sacrificatória tenha de comer uma parte da carne da vítima tem o mesmo significado da determinação de que a execução de um membro culpado da tribo deve ser efetuada pela tribo como um todo. [Ibid., 284-5.] Noutras palavras, o animal sacrificado era tratado como um membro da tribo; a comunidade sacrificante, o deus e o animal sacrificado eram do mesmo sangue e membros de um só clã.
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    Robertson Smith apresentaprovas abundantes para identificar o animal sacrificatório com o primitivo animal totêmico. Na antiguidade mais remota, havia duas classes de sacrifício: uma em que as vítimas eram animais domésticos das espécies habitualmente utilizadas para a alimentação e a outra, sacrifícios extraordinários de animais impuros e cujo consumo era proibido. A investigação mostra que esses animais impuros eram animais sagrados, que eles eram oferecidos como sacrifício aos deuses a quem eram consagrados, que originalmente eram idênticos aos próprios deuses e que, por meio do sacrifício, os adoradores de certa maneira enfatizavam seu parentesco consangüíneo com o animal e o deus. [Ibid., 290-5.] Mas em épocas ainda mais antigas, essa distinção entre sacrifícios comuns e ‘místicos’ desaparece. Originalmente, todos os animais [sacrificatórios] eram sagrados, sua carne era proibida e só podia ser consumida em ocasiões cerimoniais e com a participação de todo o clã. A matança de um animal [desse tipo] equivalia ao derramamento do sangue tribal e só podia ocorrer sujeita às mesmas precauções e às mesmas garantias contra a incorrência em censuras. [Ibid., 312, 313.] A domesticação dos animais e a introdução da criação de gado parece ter dado fim em toda parte ao totemismo estrito e inadulterado dos dias primevos. Mas esse caráter sagrado, tal como continuou sendo para os animais domésticos sob o que então se tornou uma religião ‘pastoral’ é suficientemente óbvio para permitir-nos deduzir sua natureza totêmica original. Mesmo em fins da época clássica, o ritual prescrevia em muitos lugares que o sacerdote sacrificante devia fugir depois de efetuar o sacrifício, como se para escapar à represália. A idéia de que matar bois constituía um crime deve, em determinada época, ter predominado na Grécia em geral. No festival ateniense da Bufônia [‘morte do boi’], um processo regular era instituído após o sacrifício e todos os participantes eram convocados como testemunhas. Ao final, concordava-se que a responsabilidade pelo crime deveria ser atribuída à faca e, por conseguinte, esta era jogada ao mar. [Smith, 1894, 304.]” “A despeito da proibição que protegia a vida dos animais sagrados na qualidade de companheiros de clã, surgiu a necessidade de matar um deles de tempos em tempos, em comunhão solene, e de dividir sua carne e sangue entre os membros do clã. Os motivos que levaram a esse ato revelam o significado mais profundo da natureza do sacrifício. Já sabemos como, em épocas posteriores, sempre que o alimento é comido em comum, a participação na mesma substância estabelece um laço sagrado entre aqueles que a consomem quando o alimento penetrou em seus corpos. Nos tempos antigos, esse resultado parece só ter sido efetivado pela participação na substância de uma vítima sacrossanta. O sagrado mistério da morte sacrificatória ‘é justificado pela consideração de que apenas desta maneira pode ser conseguido o vínculo sagrado que cria e mantém ativo um elo vivo de união entre os adoradores e seu deus.’. (Ibid., 313.) Este elo ou vínculo nada mais é que a vida do animal sacrificatório, a qual reside em sua carne e seu sangue, sendo distribuída entre todos os participantes na refeição sacrificatória. Uma idéia desse tipo jaz na raiz de todos os pactos de sangue por meio dos quais os homens fizeram convênios uns com os outros, mesmo em períodos posteriores da história. [Loc. cit.] Essa maneira completamente literal de encarar o parentesco de sangue como identidade de substância torna fácil compreender a necessidade de renová-lo de tempos em tempos pelo processo físico da refeição sacrificatória. [Ibid., 319.] Aqui interrompo o seguimento da linha de pensamento de Robertson Smith e passo a renunciar o essencial dela em termos mais concisos. Com o estabelecimento da idéia de propriedade privada, o sacrifício veio a ser considerado uma doação à divindade, uma transferência da propriedade dos homens para o deus. Mas essa interpretação deixa
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    inexplicada todas aspeculiaridades do ritual do sacrifício. Nos tempos mais remotos, o próprio animal sacrificatório fora sagrado e sua vida intocável; só podia ser morto se todos os membros do clã participassem da morte e partilhassem da culpa na presença do deus de maneira que a substância sagrada pudesse ser produzida e consumida pelos membros do clã, garantindo assim sua identidade uns com os outros e com a divindade. O sacrifício constituía um sacramento e o próprio animal sacrificado era membro do clã. Era de fato o antigo animal totêmico, o próprio deus primitivo, através de cuja morte e consumo os integrantes do clã renovavam e asseguravam sua semelhança com ele. Dessa análise da natureza do sacrifício, Robertson Smith tira a conclusão de que a morte e a ingestão periódicas do totem em tempos anteriores à adoração de deidades antropomórficas constituiu um elemento importante da religião totêmica. [Ibid., 295.] O cerimonial de uma refeição totêmica dessa espécie, sugere ele, pode ser encontrado na descrição de um sacrifício de data comparativamente posterior. São Nilo registra um ritual sacrificatório corrente entre os beduínos do deserto do Sinai em fins do século IV. A vítima do sacrifício, um camelo, ‘é amarrado a um grosseiro altar de pedras empilhadas e o líder do grupo, depois de conduzir por três vezes os adoradores em volta do altar numa solene procissão acompanhada de cantos, inflige o primeiro ferimento (…) e, com toda a pressa, bebe o sangue que jorra. Imediatamente, todos os acompanhantes caem sobre a vítima com suas espadas recortando pedaços da carne palpitante e devorando-os crus com pressa tão selvagem que, no curto intervalo que vai do nascer da estrela matutina o qual assinalou a hora para o serviço começar — ao desaparecimento de seus raios ante o sol nascente, todo o camelo, corpo e ossos, pele, sangue e entranhas, é inteiramente devorado.’ [Ibid., 338.] Todas as provas tendem a mostrar que esse ritual bárbaro, que apresenta todos os sinais de extrema antiguidade, não era um caso isolado, e sim, em toda parte, a forma original assumida pelo sacrifício totêmico embora mais tarde atenuada em muitos sentidos diferentes.” “Vamos presumir ser um fato, então, que no decurso do desenvolvimento posterior das religiões, os dois fatores propulsores, o sentimento de culpa do filho e sua rebeldia, nunca se tenham extinguido. Todas as tentativas feitas para solucionar os problemas religiosos, todos os tipos de reconciliação efetuados entre essas duas forças mentais opostas mais cedo ou mais tarde ruíam sob a influência combinada, sem dúvida, dos fatos históricos, das mudanças culturais e das modificações psíquicas internas. Os esforços do filho para colocar-se no lugar do deus-pai tornaram-se ainda mais óbvios. A introdução da agricultura aumentou sua família patriarcal. Ele aventurou-se a novas demonstrações de sua libido incestuosa, que encontraram satisfação simbólica no cultivo da Terra-Mãe. Surgiram figuras divinas como Átis, Adônis e Tamuz, espíritos da vegetação e, ao mesmo tempo, divindades cheias de juventude, a desfrutar dos favores das deusas-mães e a cometer incesto com a mãe, em desafio ao pai. Mas o sentimento de culpa, que não fora aliviado por essas criações, encontrou expressão em mitos que conferiam apenas vidas breves a esses favoritos juvenis das deusas-mães e decretavam sua punição pela emasculação ou pela ira do pai manifestada sob a forma de um animal. Adônis foi morto por um javali, o animal sagrado de Afrodite; Átis, amado de Cibele, pereceu por castração. O luto por esses deuses e o júbilo por sua ressurreição foram transferidos para o ritual de outra divindade-filho que estava destinada a alcançar um sucesso permanente. Quando o cristianismo pela primeira vez penetrou no mundo antigo, defrontou-se com a competição da religião de Mitras e, durante algum tempo, houve dúvida em relação a qual das duas divindades alcançaria a vitória. Não obstante o halo de luz que rodeia a sua forma, o jovem deus persa continua a ser obscuro para nós. Podemos talvez deduzir
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    das esculturas deMitras matando um touro que ele representava um filho sozinho no sacrifício do pai, redimindo assim os irmãos do ônus de cumplicidade no ato. Havia um método alternativo de mitigar a culpa e ele foi adotado pela primeira vez por Cristo. Sacrificou a própria vida e assim redimiu do pecado original o conjunto de irmãos. A doutrina do pecado original era de origem órfica. Constituía parte dos mistérios e deles propagou-se para as escolas de filosofia da antiga Grécia.” “Não pode haver dúvida de que no mito cristão o pecado original foi um pecado cometido contra o Deus-Pai. Se, entretanto, Cristo redimiu a humanidade do peso do pecado original pelo sacrifício da própria vida, somos levados a concluir que o pecado foi um homicídio. A lei de talião, que se acha tão profundamente enraizada nos sentimentos humanos, estabelece que um homicídio só pode ser expiado pelo sacrifício de outra vida: o auto-sacrifício aponta para a culpa sanguínea. E se este sacrifício de uma vida ocasionou uma expiação para com o Deus-Pai, o crime a ser expiado só pode ter sido o homicídio do pai. Na doutrina cristã, assim, os homens estavam reconhecendo da maneira mais indisfarçada o ato primevo culpado, uma vez que encontraram a mais plena expiação para ele no sacrifício desse filho único. A expiação para o pai foi ainda mais completa visto que o sacrifício se fez acompanhar de uma renúncia total às mulheres, por causa de quem a rebelião contra aquele fora iniciada. Mas, neste ponto, a inexorável lei psicológica da ambivalência apareceu. O próprio ato pelo qual o filho oferecia a maior expiação possível ao pai conduzia-o, ao mesmo tempo, à realização de seus desejos contra o pai. Ele próprio tornava-se Deus, ao lado, ou, mais corretamente, em lugar do pai. Uma religião filial deslocava a religião paterna. Como sinal dessa substituição, a antiga refeição totêmica era revivida sob a forma da comunhão, em que a associação de irmãos consumia a carne e o sangue do filho — não mais do pai — obtinha santidade por esse e identificava-se com ele.” “Assim podemos acompanhar, através das idades, a identidade da refeição totêmica com o sacrifício animal, com o sacrifício humano teantrópico e com a eucaristia cristã, podendo identificar em todos esses rituais o efeito do crime pelo qual os homens se encontravam tão profundamente abatidos, mas do qual, não obstante, devem sentir-se tão orgulhosos. A comunhão cristã, no entanto, constitui essencialmente uma nova eliminação do pai, uma repetição do ato culposo. Podemos perceber a inteira justiça da declaração de Frazer de que ‘a comunhão cristã absorveu um sacramento que é sem dúvida muito mais antigo que o cristianismo’.” “Ao concluir, então, esta investigação excepcionalmente condensada, gostaria de insistir em que o resultado dela mostra que os começos da religião, da moral, da sociedade e da arte convergem para o complexo de Édipo. Isso entra em completo acordo com a descoberta psicanalítica de que o mesmo complexo constitui o núcleo de todas as neuroses, pelo menos até onde vai nosso conhecimento atual. Parece-me ser uma descoberta muito supreendente que também os problemas da psicologia social se mostrem solúveis com base num único ponto concreto: — a relação do homem com o pai. É mesmo possível que ainda outro problema psicológico se encaixe nesta mesma conexão. Muitas vezes tive ocasião de assinalar que a ambivalência emocional, no sentido próprio da expressão — ou seja, a existência simultânea de amor e ódio para os mesmos objetos — jaz na raiz de muitas instituições culturais importantes. Não sabemos nada da origem dessa ambivalência. Uma das pressuposições possíveis é que ela seja um fenômeno fundamental de nossa vida emocional. Mas parece-me bastante
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    válido considerar outrapossibilidade, ou seja, que originalmente ela não fazia parte de nossa vida emocional, mas foi adquirida pela raça humana em conexão com o complexo-pai, precisamente onde o exame psicanalítico de indivíduos modernos ainda a encontra revelada em toda a sua força. Antes de concluir minhas observações, porém, não devo deixar de salientar que, embora meus argumentos tenham conduzido a um alto grau de convergência para um único e abrangente nexo de idéias, esse fato não deve fazer-nos deixar de ver as incertezas de minhas premissas ou as dificuldades envolvidas em minhas conclusões. Mencionarei apenas duas das últimas, que podem também ter chamado a atenção de um certo número de leitores. Ninguém pode ter deixado de observar, em primeiro lugar, que tomei como base de toda minha posição a existência de uma mente coletiva, em que ocorrem processos mentais exatamente como acontece na mente de um indivíduo. Em particular, supus que o sentimento de culpa por uma determinada ação persistiu por muitos milhares de anos e tem permanecido operativo em gerações que não poderiam ter tido conhecimento dela. Supus que um processo emocional, tal como se poderia ter desenvolvido em gerações de filhos que foram maltratados pelos pais, estendeu-se a gerações novas livres de tal tratamento, pela própria razão de o pai ter sido eliminado. Devo admitir que estas são dificuldades graves e qualquer explicação que pudesse evitar pressuposições dessa espécie seria preferível.” “O problema pareceria ainda mais difícil se tivéssemos de admitir que os impulsos mentais podem ser tão completamente reprimidos que deles não reste nenhum vestígio. Mas não é este o caso. Mesmo a mais implacável repressão tem de deixar lugar para impulsos substitutos deformados e para as reações que deles resultem. Se assim for, portanto, podemos presumir com segurança que nenhuma geração pode ocultar, à geração que a sucede, nada de seus processos mentais mais importantes, pois a psicanálise nos mostrou que todos possuem, na atividade mental inconsciente, um apparatus que os capacita a interpretar as reações de outras pessoas, isto é, a desfazer as deformações que os outros impuseram à expressão de seus próprios sentimentos. Uma tal compreensão inconsciente de todos os costumes, cerimônias e dogmas que restaram da relação original com o pai pode ter possibilitado às gerações posteriores receberem sua herança de emoção.” “Os preceitos e restrições morais mais antigos da sociedade primitiva foram por nós explicados como reações a um ato que deu àqueles que o cometeram o conceito de ‘crime’. Sentiram remorso por ele e decidiram que não se deveria repetir e que sua execução não traria vantagens. Este sentimento de culpa criativo ainda persiste entre nós. Encontramo-lo operando de uma maneira não social nos neuróticos e produzindo novos preceitos morais e restrições persistentes, como expiação por crimes que foram cometidos e precaução contra a prática de novos. Se, contudo, pesquisarmos entre esses neuróticos para descobrir quais foram os atos que provocaram tais reações, ficaremos desapontados. Não encontraremos atos, mas apenas impulsos e emoções, pretendendo fins malignos, mas impedidos de realizar-se. O que jaz por trás do sentimento de culpa dos neuróticos são sempre realidades psíquicas, nunca realidades concretas. O que caracteriza os neuróticos é preferirem a realidade psíquica à concreta, reagindo tão seriamente a pensamentos como as pessoas normais às realidades. Não poderá o mesmo ser verdade quanto aos homens primitivos? Temos justificativas para acreditar que, como um dos fenômenos de sua organização narcisista, eles supervalorizam seus atos psíquicos a um grau extraordinário. Conseqüentemente, o
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    simples impulso hostilcontra o pai, a mera existência de uma fantasia — plena de desejo de matá-lo e devorá-lo, teriam sido suficientes para produzir a reação moral que criou o totemismo e o tabu. Desta maneira, evitaríamos a necessidade de atribuir a origem de nosso legado cultural, de que com justiça nos orgulhamos, a um crime odioso, revoltante para todos os nossos sentimentos. Nenhum dano seria assim feito à cadeia causal que se estende desde os começos aos dias atuais, pois a realidade psíquica seria suficientemente forte para suportar o peso dessas conseqüências. A isto se poderá objetar que realmente efetuou-se uma alteração na forma da sociedade, de uma horda patriarcal para um clã fraterno. Trata-se de um argumento poderoso, mas não conclusivo. A alteração poderia ter sido efetuada de uma maneira menos violenta e, não obstante, capaz de determinar o aparecimento da reação moral. Enquanto a pressão exercida pelo pai primevo podia ser sentida, os sentimentos hostis para com ele eram justificados e o remorso por sua causa teria de esperar por seu dia. E se se argumentar ainda que tudo que tem sua origem na relação ambivalente com o pai — o tabu e a ordenação sacrificatória — se caracteriza pela mais profunda seriedade e a mais completa realidade, essa nova objeção tem tão pouco peso quanto a outra, porque os cerimoniais e as inibições dos neuróticos obsessivos apresentam essas mesmas características e, não obstante, têm sua origem apenas na realidade psíquica — provêm de intenções e não da execução delas. Temos de evitar transplantar para o mundo dos homens primitivos e dos neuróticos, cuja riqueza reside apenas no interior deles próprios, o desprezo de nosso mundo corriqueiro — com sua riqueza de valores materiais — pelo que é simplesmente pensado ou desejado. Aqui nos defrontamos com uma decisão que, na verdade, não é fácil. Em primeiro lugar, porém, devo confessar que a distinção, que pode parecer fundamental para outras pessoas, a nosso ver não afeta o âmago da questão. Se desejos e impulsos possuem o pleno valor de fatos para os homens primitivos, compete a nós conceder à sua atitude uma atenção compreensiva, em vez de corrigi-la de acordo com nossos próprios padrões. Examinemos, então, mais de perto o caso da neurose — a comparação com a qual nos conduziu à nossa presente incerteza. Não é exato dizer que os neuróticos obsessivos, curvados sob o peso de uma moralidade excessiva, estão-se defendendo apenas da realidade psíquica e se punindo através de impulsos que foram simplesmente sentidos. A realidade histórica também tem a sua parte na questão. Na infância, eles tiveram esses impulsos malignos de modo puro e simples e transformaram-nos em atos até onde a impotência da infância permitia. Cada um desses indivíduos excessivamente virtuosos passou por um período de maldade na infância — uma fase de perversão que foi precursora e pré-condição do período posterior de moralidade excessiva. A analogia entre os homens primitivos e os neuróticos será estabelecida assim de modo muito mais completo, se supusermos que também no primeiro caso a realidade psíquica — a respeito da qual não temos dúvida quanto à forma que tomou — coincidiu no princípio com a realidade concreta, ou seja, que os homens primitivos realmente fizeram aquilo que todas as provas mostram que pretendiam fazer. Tampouco devemos deixar-nos influenciar demais em nosso julgamento dos homens primitivos pela analogia com os neuróticos. Há distinções, também, que devem ser levadas em conta. Sem dúvida alguma, é verdade que o contraste nítido que nós traçamos entre o pensar e o fazer acha-se ausente em ambos. Mas os neuróticos são, acima de tudo, inibidos em suas ações: neles, o pensamento constitui um substituto completo do ato. Os homens primitivos, por outro lado, são desinibidos: o pensamento transforma-se diretamente em ação. Neles, é antes o ato que constitui um substituto do pensamento, sendo por isso que, sem pretender qualquer finalidade de julgamento,
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    penso que nocaso que se nos apresenta pode-se presumir com segurança que ‘no princípio foi Ato’.” A história do movimento psicanalítico, artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos VOLUME XIV (1914-1916) REFLEXÕES PARA O TEMPO DE GUERRA E MORTE I - A DESILUSÃO DA GUERRA “Duas coisas nessa guerra despertaram nosso sentimento de desilusão: a baixa moralidade revelada externamente por Estados que, em suas relações internas, se intitulam guardiães dos padrões morais, e a brutalidade demonstrada por indivíduos que, enquanto participantes da mais alta civilização humana, não julgaríamos capazes de tal comportamento. Comecemos pelo segundo ponto e tentemos formular, em poucas palavras, o ponto de vista que desejamos criticar. De fato, como é que imaginamos o processo pelo qual um indivíduo se alça a um plano comparativamente alto de moralidade? A primeira resposta será, sem dúvida, simplesmente que ele é virtuoso e nobre desde o seu nascimento — desde o começo mesmo de sua vida. Não consideraremos mais esse ponto de vista aqui. Uma segunda resposta sugerirá que estamos preocupados com um processo de desenvolvimento, e provavelmente presumirá que o desenvolvimento consiste em erradicar as tendências humanas más desse indivíduo e, sob a influência da educação e de um ambiente civilizado, em substituí-las por boas. Caso isso seja assim, é, não obstante, surpreendente que o mal ressurja com tamanha força em qualquer um que tenha sido educado dessa forma. No entanto, essa resposta também encerra a tese que nos propomos contradizer. Na realidade, não existe essa ‘erradicação’ do mal. A pesquisa psicológica — ou, falando mais rigorosamente, psicanalítica — revela, ao contrário, que a essência mais profunda da natureza humana consiste em impulsos instintuais de natureza elementar, semelhantes em todos os homens e que visam à satisfação de certas necessidades primevas. Em si mesmos, esses impulsos não são nem bons e nem maus. Classificamos esses impulsos, bem como suas expressões, dessa maneira, segundo sua relação com as necessidades e as exigências da comunidade humana. Deve-se admitir que todos os impulsos que a sociedade condena como maus — tomemos como representativos os egoísticos e cruéis — são de natureza primitiva. Esses impulsos primitivos passam por um longo processo de desenvolvimento antes que se lhes permita tornarem-se ativos no adulto. São inibidos, dirigidos no sentido de outras finalidades e outros campos, mesclam-se, alteram seus objetos e revertem, até certo ponto, a seu possuidor. Formações de reação contra certos instintos assumem a forma enganadora de uma mudança em seu conteúdo, como se o egoísmo se tivesse transmudado em altruísmo ou a crueldade em piedade. Essas formações de reação são facilitadas pela circunstância de que alguns impulsos instintuais surgem, quase que desde o início, em pares de opostos — um fenômeno muito marcante, e estranho ao
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    público leigo, denominado‘ambivalência de sentimento’. O exemplo mais facilmente observado e compreensível disso reside no fato de que o amor intenso e o ódio intenso são, com tanta freqüência, encontrados juntos na mesma pessoa. A psicanálise acrescenta que esses dois sentimentos opostos, não raramente, têm como objeto a mesma pessoa. Só quando todas essas ‘vicissitudes instintuais’ foram superadas é que se forma aquilo que denominamos de caráter de uma pessoa, e este, como sabemos, só de forma inadequada pode ser classificado como ‘bom’ ou ‘mau’. Raramente um ser humano é totalmente bom ou mau; via de regra ele é ‘bom’ em relação a determinada coisa e ‘mau’ em relação a outra, ou ‘bom’ em certas circunstâncias externas e em outras indiscutivelmente ‘mau’. É interessante verificar que, na primeira infância, a preexistência de fortes impulsos ‘maus’ constitui muitas vezes a condição para uma inequívoca inclinação no sentido do ‘bom’ no adulto. Aqueles que, enquanto crianças, foram os mais pronunciados egoístas, podem muito bem tornar-se os mais prestimosos e abnegados membros da comunidade; a maioria dos sentimentalistas, amigos da humanidade e protetores de animais, evoluíram de pequenos sádicos e atormentadores de animais. A transformação dos ‘maus’ instintos é ocasionada por dois fatores, um interno e outro externo, que atuam na mesma direção. O fator interno consiste na influência exercida sobre os instintos maus (digamos, egoístas) pelo erotismo — isto é, pela necessidade humana de amor, tomada em seu sentido mais amplo. Pela mistura dos componentes eróticos, os instintos egoístas são transformados em sociais. Aprendemos a valorizar o fato de sermos amados como uma vantagem em função da qual estamos dispostos a sacrificar outras vantagens. O fator externo é a força exercida pela educação, que representa as reivindicações de nosso ambiente cultural, posteriormente continuadas pela pressão direta desse ambiente. A civilização foi alcançada através da renúncia à satisfação instintual, exigindo ela, por sua vez, a mesma renúncia de cada recém- chegado. No decorrer da vida de um indivíduo, há uma substituição constante da compulsão externa pela interna. As influências da civilização provocam, por uma mescla de elementos eróticos, uma sempre crescente formação das tendências egoístas em tendências altruístas e sociais. Em última instância, pode-se supor que toda compulsão interna que se faz sentir no desenvolvimento dos seres humanos foi originalmente — isto é, na história da humanidade — apenas uma compulsão externa. Os que nascem hoje trazem consigo, como organização herdada, certo grau de tendência (disposição) para a formação dos instintos egoístas em sociais, sendo essa disposição facilmente estimulada a provocar esse resultado. Outra parte dessa transformação instintual tem de ser realizada durante a vida do próprio indivíduo. Assim, o ser humano está sujeito não só à pressão de seu ambiente cultural imediato, mas também à influência da história cultural de seus ancestrais.” “Aprendemos que a compulsão externa exercida sobre um ser humano por sua educação e por seu ambiente produz ulterior transformação no sentido do bem em sua vida instintual — um afastamento ulterior do egoísmo para o altruísmo. Esse, porém, não é o efeito regular ou necessário da compulsão externa. A educação e o ambiente não só oferecem benefícios no tocante ao amor, como também empregam outros tipos de incentivo, a saber, recompensas e punições. Dessa maneira, seu efeito pode vir a ser que uma pessoa sujeita à sua influência escolha comportar-se bem, no sentido cultural dessa expressão, embora nenhum enobrecimento do instinto, nenhuma transformação de inclinações egoístas em altruístas se tenham operado nela. O resultado será, grosso modo, o mesmo; só uma específica concatenação de circunstâncias revelará que um
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    homem sempre agebem porque suas inclinações instintuais o compelem a isso, e que outro só é bom na medida em que, e enquanto, esse comportamento cultural for vantajoso para seus propósitos egoístas. Contudo, o conhecimento superficial de um indivíduo não nos permitirá distinguir entre esses dois casos, e decerto somos enganosamente levados por nosso otimismo a exagerar grosseiramente o número de seres humanos que têm sido transformados num sentido cultural. A sociedade civilizada, que exige boa conduta e não se preocupa com a base instintual dessa conduta, conquistou assim a obediência de muitas pessoas que, para tanto, deixam de seguir suas próprias naturezas. Estimulada por esse êxito, a sociedade se permitiu o engano de tornar maximamente rigoroso o padrão moral, e assim forçou os seus membros a um alheamento ainda maior de sua disposição instintual. Conseqüentemente, eles estão sujeitos a uma incessante supressão do instinto, e a tensão resultante disso se trai nos mais notáveis fenômenos de reação e compensação. No domínio da sexualidade, onde é mais difícil realizar essa supressão, o resultado se manifesta nos fenômenos reativos das desordens neuróticas. Em outros lugares, é verdade que a pressão da civilização não traz em seu rastro quaisquer resultados patológicos, mas se revela em deformações do caráter e na perpétua presteza dos instintos inibidos em irromper, em qualquer oportunidade adequada, em proveito da satisfação. Qualquer um, compelido dessa forma a agir continuamente em conformidade com preceitos que não são a expressão de suas inclinações instintuais, está, psicologicamente falando, vivendo acima de seus meios, e pode objetivamente ser descrito como um hipócrita, esteja ou não claramente cônscio dessa incongruência. É inegável que nossa civilização contemporânea favorece, num grau extraordinário, a produção dessa forma de hipocrisia. Poder-se-ia dizer que ela está alicerçada nessa hipocrisia, e que teria de se submeter a modificações de grande alcance, caso as pessoas se comprometessem a viver em conformidade com a verdade psicológica. Assim, existem muito mais hipócritas culturais do que homens verdadeiramente civilizados — na realidade, trata-se de um ponto discutível saber se certo grau de hipocrisia cultural não é indispensável à manutenção da civilização, uma vez que a suscetibilidade à cultura, que até agora se organizou nas mentes dos homens dos nossos dias, talvez não se revele suficiente para essa tarefa. Por outro lado, a manutenção da civilização, mesmo numa base tão dúbia, fornece a perspectiva de, a cada nova geração, preparar o caminho para uma transformação de maior alcance do instinto, a qual será o veículo de uma civilização melhor.” “Os estudiosos da natureza humana e os filósofos de há muito nos ensinaram que nos enganamos ao considerar nossa inteligência uma força independente e ao negligenciar sua dependência em relação à vida emocional. Nosso intelecto, segundo nos ensinam, só pode funcionar de maneira digna de confiança quando afastado das influências de fortes impulsos emocionais; do contrário, comporta-se simplesmente como um instrumento da vontade e fornece a inferência que a vontade exige. Assim, na opinião deles, os argumentos lógicos são impotentes contra os interesses afetivos; por isso, os debates apoiados por razões, na frase de Falstaff ‘tão abundantes quanto as amoras silvestres’, mostram-se tão infrutíferos no mundo dos interesses.” II – NOSSA ATITUDE PARA COM A MORTE “Talvez nos sirva de ajuda proceder dessa forma, se dirigirmos nossa indagação psicológica no sentido de duas outras relações com a morte — a que podemos atribuir
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    aos homens primevos,pré-históricos, e a que ainda existe em cada um de nós, mas que se oculta, invisível à consciência, nas camadas mais profundas de nossa vida mental. Naturalmente, só podemos saber qual era a atitude do homem pré-histórico para com a morte por meio de inferências e interpretações; creio, porém, que esses métodos nos têm proporcionado conclusões mais ou menos dignas de confiança. O homem primevo assumia uma atitude notável em relação à morte. Longe de ser coerente, era, na realidade, altamente contraditória. Por um lado, encarava a morte seriamente, reconhecia-a como o término da vida, utilizando-a nesse sentido; por outro, também negava a morte e a reduzia a nada. Essa contradição surgia do fato de que ele assumia atitudes radicalmente diferentes para com a morte de outras pessoas, de estranhos, de inimigos, e para com sua própria morte. Não fazia qualquer objeção à morte de outrem; ela significava o aniquilamento de alguém que ele odiava, e o homem primitivo não tinha quaisquer escrúpulos em ocasioná-lo. Era, sem dúvida, uma criatura muito impulsiva e mais cruel e maligna do que outros animais. Gostava de matar, e fazia isso como uma coisa natural. O instinto que, segundo se diz, refreia outros animais de matar e de devorar sua própria espécie, não precisa ser atribuído a ele. Por isso, a história primeva da humanidade está repleta de assassinatos. Mesmo hoje, a história do mundo que nossos filhos aprendem na escola é essencialmente uma série de assassinatos de povos. O obscuro sentimento de culpa ao qual a humanidade tem estado sujeita desde épocas pré-históricas e que, em algumas religiões, foi condensado na doutrina da culpa primeva, do pecado original, é provavelmente o resultado de uma culpa de homicídio em que teria incorrido o homem pré-histórico. Em meu livro Totem e Tabu (1912-13) tentei, seguindo pistas fornecidas por Robertson Smith, Atkinson e Charles Darwin, adivinhar a natureza dessa culpa primeva, e creio, também, que a doutrina cristã de nossos dias nos permite deduzi-la. Se o Filho de Deus foi obrigado a sacrificar sua vida para redimir a humanidade do pecado original, então, pela lei de talião, dente por dente, olho por olho, aquele pecado deve ter sido uma morte, um assassinato. Nada mais poderia exigir o sacrifício de uma vida para a sua expiação. E, se o pecado original foi uma ofensa contra Deus Pai, o crime primevo da humanidade deve ter sido um parricídio, a morte do pai primevo da horda humana primitiva, cuja imagem mnêmica foi depois transfigurada numa deidade. Para o homem primevo, sua própria morte era certamente tão inimaginável e irreal quanto o é para qualquer um de nós hoje em dia. No entanto, no seu caso, uma circunstância fez com que as duas atitudes opostas para com a morte colidissem e entrassem em conflito uma com a outra, circunstância essa que se tornou altamente importante, produzindo conseqüências de longo alcance. Ocorreu quando o homem primevo viu morrer alguém que lhe pertencia — a esposa, o filho, o amigo — a quem indubitavelmente ele amava como amamos os nossos, já que o amor não pode ser muito mais jovem do que a volúpia de matar. Então, em sua dor, foi forçado a aprender que cada um de nós pode morrer, e todo o seu ser revoltou-se contra a admissão desse fato, pois cada um desses antes amados era, afinal de contas, uma parte de seu próprio eu amado. Por outro lado, porém, mortes como essas também o agradavam, de uma vez que em cada uma das pessoas amadas havia também alguma coisa de estranho. A lei de ambivalência do sentimento, que até hoje rege nossas relações emocionais com aqueles a quem mais amamos, por certo tinha uma validade muito mais ampla nos tempos primevos. Assim, esses mortos amados também tinham sido inimigos e estranhos que haviam despertado nele certo grau de sentimento hostil.” “Sem dúvida, as almas piedosas, que gostariam de crer que nossa natureza está distanciada de qualquer contato com o que é mau e degradante, não deixarão de utilizar
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    o aparecimento ea premência iniciais da proibição contra o assassinato como a base para conclusões gratificantes quanto à força dos impulsos éticos que devem ter sido implantados em nós. Infelizmente, esse argumento fortalece ainda mais o ponto de vista oposto. Uma proibição tão poderosa só pode ser dirigida contra um impulso igualmente poderoso. O que nenhuma alma humana deseja não precisa de proibição; é excluído automaticamente. A própria ênfase dada ao mandamento ‘Não matarás’ nos assegura que brotamos de uma série interminável de gerações de assassinos, que tinham a sede de matar em seu sangue, como, talvez, nós próprios tenhamos hoje. Os esforços éticos da humanidade, cuja força e significância não precisamos absolutamente depreciar, foram adquiridos no curso da história do homem; desde então se tornaram, embora infelizmente apenas em grau variável, o patrimônio herdado pelos homens contemporâneos.” “O medo da morte, que nos domina com mais freqüência do que pensamos, é, por outro lado, algo secundário e, via de regra, o resultado de um sentimento de culpa. Por outro lado, admitimos a morte para estranhos e inimigos, destinando-os a ela tão prontamente e tão sem hesitação quanto o homem primitivo. Aqui, é verdade, há uma distinção que será declarada decisiva no que diz respeito à vida real. Nosso inconsciente não executa o ato de matar; ele simplesmente o pensa e o deseja. Mas seria completamente errado subestimar essa realidade psíquica quando posta em confronto com a realidade factual. Ela é bastante importante e grave. Em nossos impulsos inconscientes, diariamente e a todas as horas, nos livramos de alguém que nos atrapalha, de alguém que nos ofendeu ou nos prejudicou. A expressão ‘Que o Diabo o carregue!’, que tantas vezes o aflora aos lábios das pessoas em tom de brincadeira e que, na realidade, significa ‘Que a morte o carregue!’, é em nosso inconsciente um sério e poderoso desejo de morte. De fato, nosso inconsciente assassinará até mesmo por motivos insignificantes; como o antigo ateniense de Drácon, ele não conhece outra punição para o crime a não ser a morte. E isso mostra certa coerência, já que cada agravo a nosso ego todo-poderoso e autocrático é, no fundo, um crime de lesa- majestade.” APÊNDICE: CARTA A FREDERICK VAN EEDEN “Aventuro-me, sob o impacto da guerra (I Grande Guerra – grifo meu), a lembrar-lhe duas teses formuladas pela psicanálise e que, sem dúvida, contribuíram para sua impopularidade. A psicanálise inferiu dos sonhos e das parapraxias das pessoas saudáveis, bem como dos sintomas dos neuróticos, que os impulsos primitivos, selvagens e maus da humanidade não desapareceram em qualquer de seus membros individuais, mas persistem, embora num estado reprimido, no inconsciente (para empregar nossos termos técnicos) e aguardam as oportunidades para se tornarem ativos mais uma vez. Ela nos ensinou, ainda, que nosso intelecto é algo débil e dependente, um joguete e um instrumento de nossos instintos e afetos, e que todos nós somos compelidos a nos comportar inteligente ou estupidamente, de acordo com as ordens de nossas atitudes [emocionais] e resistências internas.” Livro XIV – A História do Movimento Psicanalítico Fluctuat Nec Mergitur
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    (...) “A visão davida refletida no sistema adleriano fundamenta-se exclusivamente no instinto agressivo; nele não há lugar para o amor. Talvez nos surpreenda que essa Weltanschauung tão melancólica tenha merecido alguma atenção, mas não devemos esquecer que os seres humanos, vergados sob o fardo de suas necessidades sexuais, estão prontos a aceitar qualquer coisa se pelo menos a “superação da sexualidade” lhes for oferecida como isca. A deserção de Adler ocorreu antes do Congresso de Weimar em 1911; depois dessa data teve início a dos suíços. Os primeiros sinais dela, o que é bastante curioso, foram certas observações de Riklin em uns artigos populares aparecidos em publicações suíças, de modo que o grande público soube, antes do que aqueles mais intimamente ligados ao assunto, que a psicanálise havia superado alguns erros lamentáveis que anteriormente a haviam desacreditado. Em 1912, Jung vangloriou-se, numa carta procedente dos Estados Unidos, de que suas modificações da psicanálise haviam vencido as resistências de muitas pessoas que até então não queriam nada com ela. Repliquei que aquilo não constituía nenhum motivo de vanglória, e que quanto mais ele sacrificasse as verdades da psicanálise conquistadas arduamente, mais veria as resistências desaparecendo. Essa modificação, da qual os suíços tanto se orgulharam, mais uma vez nada mais era do que impelir para o segundo plano o fator sexual na teoria psicanalítica. Confesso que desde o começo considerei esse “avanço” como um ajustamento muito exagerado às exigências da realidade. Esses dois movimentos de afastamento da psicanálise, que eu agora devo comparar um com o outro, assinalam outro ponto em comum: ambos cortejam uma opinião favorável mediante a formulação de certas idéias elevadas, que encaram as coisas, por assim dizer, sub specie aeternitatis. Em Adler, esse papel é desempenhado pela relatividade de todo conhecimento e pelo direito da personalidade de basear uma interpretação artificial nos dados de conhecimento de acordo com o gosto individual; em Jung, faz-se apelo ao direito histórico da juventude de romper os grilhões com os quais a tirania dos mais velhos e seus pontos de vista tacanhos procuram aprisioná-la. Algumas palavras devem ser dedicadas ao esclarecimento da falácia dessas idéias.” “Quem quer que dê grande valor ao pensamento científico procurará, antes, todos os meios e métodos possíveis para limitar o fator predileções pessoais fantasiosas tanto quanto possível, onde quer que ele desempenhe papel grande demais. Além disso, vale a pena lembrar que não tem cabimento o excessivo zelo em defendermos a nós mesmos. Esses argumentos de Adler não têm intenção séria. Destinam-se apenas a ser utilizados contra seus adversários; não se referem às suas próprias teorias, nem impediram seus seguidores de aclamá-lo como o Messias, para cujo advento a humanidade ansiosa foi preparada por grande número de precursores. O Messias certamente não é nenhum fenômeno relativo. O argumento ad captandam benevolentiam de Jung repousa na suposição demasiado otimista de que o progresso da raça humana, da civilização e do conhecimento sempre seguiu uma linha ininterrupta, como se não tivesse havido períodos de decadência, reações e restaurações após cada revolução, e gerações não tivessem dado um passo para trás e abandonado as vantagens de seus antecessores. Sua abordagem do ponto de vista das massas, sua renúncia a uma inovação que foi mal recebida, tornam a priori pouco provável que a versão jungiana da psicanálise possa com justiça pretender ser uma atitude jovem de liberação. Afinal de contas, não é a idade do autor que decide isso, mas o caráter da ação.
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    Dos dois movimentosem discussão, o de Adler é, sem dúvida alguma, o mais importante; embora radicalmente falso, apresenta consistência e coerência. Além disso, se baseia, apesar de tudo, numa teoria dos instintos. A modificação de Jung, por outro lado, afrouxa a conexão dos fenômenos com a vida instintiva; e além disso, conforme seus críticos (p. ex. Abraham, Ferenczi e Jones) ressaltaram, é tão obscura, ininteligível e confusa a ponto de se tornar difícil assumir uma posição em relação a ela. Quando se pensa que se entendeu alguma coisa, pode-se ficar preparado para ouvir dizer que não se entendeu e não se pode saber como tirar uma conclusão correta. Tudo é formulado de uma maneira particularmente vacilante, ora como “uma divergência sutil que não justifica o escarcéu que se fez em torno dela” (Jung), ora como uma nova mensagem de salvação que irá iniciar uma nova era para a psicanálise, e mais ainda, uma nova Weltanschauung para todos.” “Quando se pensa nas várias incoerências reveladas em diversos pronunciamentos públicos e privados feitos pelo movimento jungiano, somos levados a perguntar quanto disso se deve à falta de clareza e quanto à falta de sinceridade. Deve-se admitir, contudo, que os expoentes da nova teoria se encontram numa posição difícil. Combatem agora coisas que anteriormente defendiam, e o fazem, além disso, não baseados em novas observações que lhes poderiam ter ensinado algo mais, mas em conseqüência de novas interpretações que fazem com que as coisas que vêem lhes pareçam diferentes do que viam antes. Por esse motivo não estão dispostos a abrir mão da ligação com a psicanálise, como representantes da qual se tornaram conhecidos perante o mundo, e preferem anunciar que a psicanálise mudou. No Congresso de Munique achei necessário esclarecer essa confusão, e o fiz declarando que não reconhecia as inovações dos suíços como continuações legítimas e desenvolvimentos ulteriores da psicanálise que se originou comigo. Críticos alheios ao movimento psicanalítico (como Furtmüller) já haviam observado isso antes, e Abraham tem razão em dizer que Jung se afastou inteiramente da psicanálise. É claro que sou perfeitamente capaz de admitir que cada um tem o direito de pensar e escrever o que quiser, mas não tem o direito de apresentá-lo como uma coisa que não é.” “Da mesma forma que a investigação de Adler trouxe algo de novo à psicanálise — uma contribuição à psicologia do ego — e cobrou por esse presente um preço demasiado alto jogando fora todas as teorias fundamentais da análise, assim também Jung e seus seguidores prepararam o caminho para a sua luta contra a psicanálise presenteando-a com uma nova aquisição. Investigaram em detalhes (como Pfister fizera antes deles) o caminho através do qual o material das idéias sexuais pertencentes ao complexo de família e à escolha de objeto incestuoso é utilizado na representação dos interesses éticos e religiosos mais elevados do homem, isto é, aclarando assim um importante exemplo de sublimação das forças eróticas instintivas e de sua transformação em tendências que não podem mais ser chamadas de eróticas. Isso concordava perfeitamente com todas as expectativas da psicanálise e poderia harmonizar-se muito bem com a idéia segundo a qual nos sonhos e neuroses uma dissolução regressiva dessa sublimação, como de todas as outras, se torna visível. Mas o mundo inteiro teria protestado indignado contra a sexualização da ética e da religião. Pelo menos dessa vez não consigo deixar de pensar teologicamente e concluir que esses descobridores não tinham condições de enfrentar essa tormenta de indignação, talvez mesmo presente no íntimo deles próprios.”
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    “Suponhamos — parafazer uma comparação — que num determinado grupo social vive um parvenu (aventureiro) que se vangloria de ser descendente de uma família nobre que reside em outro lugar. Um dia se descobre que seus pais moram na vizinhança, e são pessoas muito modestas. Só há uma maneira de contornar essa dificuldade e ele se agarra a ela. Já não pode repudiar os pais, mas insiste em que são de linhagem nobre e que simplesmente perderam sua posição social no mundo; e consegue uma árvore genealógica de alguma fonte oficial complacente. Parece-me que os suíços foram obrigados a se comportar da mesma maneira. Se não se permitiu que a ética e a religião fossem sexualizadas porque tinham de ser algo de origem mais “elevada” e se, não obstante, as idéias nelas contidas pareciam ter-se, inegavelmente, originado do complexo de Édipo e do complexo familiar, só podia haver uma saída; que esses complexos não tenham o sentido que aparentam, mas contenham um elevado sentido “anagógico” (como Silberer o denomina) que tenha tornado possível o seu emprego nas abstratas seqüências de pensamento da ética e do misticismo religioso.” “Não será surpresa para mim ouvir dizer novamente que não compreendi a substância e objetivo da teoria neozuriquiana; mas o que me interessa é protestar antecipadamente contra pontos de vista contrários às minhas teorias que possam ser encontrados nas publicações daquela escola sendo atribuídos a mim e não a eles. Não vejo outro meio de tornar inteligível a mim próprio o conjunto de inovações de Jung, e de apreender todas as suas implicações. As modificações que Jung propôs que se fizessem na psicanálise decorrem todas de sua intenção de eliminar o lado reprovável dos complexos familiares para não voltar a encontrá-lo na religião e na ética. A libido sexual foi substituída por um conceito abstrato, sobre o qual se pode dizer com segurança que continua tão enigmático e incompreensível para os entendidos quanto para os leigos. O complexo de Édipo tem um significado meramente “simbólico”: a mãe, nele, representa o inacessível, a que se tem de renunciar no interesse da civilização; o pai que é assassinado no mito de Édipo é o pai “interior”, de quem nos devemos libertar a fim de nos tornarmos independentes. Outras partes do material das idéias sexuais serão, por certo, submetidas a reinterpretações semelhantes no decorrer do tempo. Em lugar de um conflito entre as tendências eróticas ego-distônicas e as autopreservadoras, surge um conflito entre as “tarefas da vida” e a “inércia psíquica”; o sentimento de culpa do neurótico corresponde a sua auto-recriminação por não cumprir adequadamente seu “trabalho de viver”. Dessa forma, criou-se um novo sistema ético-religioso, que, tal qual o sistema adleriano, estava destinado a reinterpretar, distorcer ou alijar os achados efetivos da análise. A verdade é que essas pessoas detectaram algumas nuanças culturais da sinfonia da vida e mais uma vez não deram ouvidos à poderosa e primordial melodia dos instintos. A fim de preservar intacto esse sistema, foi necessário afastar-se inteiramente da observação e da técnica da psicanálise. Vez por outra, o entusiasmo pela causa deu margem até mesmo à inobservância da lógica científica — quando Jung acha, por exemplo, que o complexo de Édipo não é bastante “específico” para a etiologia das neuroses, e passa a atribuir essa qualidade específica à inércia, a característica mais universal de toda matéria, animada e inanimada! Deve-se notar, a propósito, que o “complexo de Édipo” representa apenas um tópico com o qual as forças mentais do indivíduo têm de lidar, e não é, em si próprio, uma força, como a “inércia psíquica”. O estudo dos indivíduos tinha demonstrado (e sempre demonstrará) que os complexos sexuais em seu sentido original estão vivos neles. Em conseqüência disso, a investigação de indivíduos foi relegada a segundo plano [nas novas teorias] e substituída por conclusões baseadas em provas oriundas da pesquisa antropológica. O maior risco de defrontar-se com o sentido original e sem disfarces desses complexos
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    reinterpretados seria natenra infância de cada indivíduo; em conseqüência, na terapia estabeleceu-se a injunção de que essa história passada deve ser resolvida o mínimo possível e a ênfase principal posta no conflito do presente, no qual, além do mais, a coisa essencial de modo algum deveria ser o que era acidental e pessoal, mas o que era geral — de fato, a não-realização das tarefas da vida. Como sabemos, no entanto, o conflito de um neurótico torna-se compreensível e admite solução somente quando é remontado à sua pré-história, quando uma pessoa volta atrás ao longo do caminho que sua libido seguiu quando ela adoeceu.” “A forma assumida pela terapêutica neozuriquiana sob essas influências pode ser expressa nas palavras de um paciente que vivenciou isso pessoalmente: “Dessa vez nenhum vestígio de atenção foi dado ao passado ou à transferência. Onde quer que eu pensava haver apreendido esta última, diziam-me tratar-se de um puro símbolo libidinal. Os ensinamentos morais eram muito bonitos e eu os seguia fielmente, mas não avancei um passo. Isso era, naturalmente, muito mais incômodo para mim do que para ele, mas como poderia evitá-lo?… Em vez de libertar-me pela análise, cada dia fazia-me novas e tremendas exigências, que tinham de ser cumpridas se se quisesse que a neurose fosse dominada — por exemplo: concentração interior através da introversão, meditação religiosa, nova vida em comum com uma mulher com amor e dedicação etc. Isso estava quase além das forças de qualquer um; visava a uma radical transformação de toda a minha natureza interna. Deixei a análise como um pobre pecador, com intensos sentimentos de arrependimento e as melhores intenções, mas ao mesmo tempo totalmente desanimado. Qualquer sacerdote teria aconselhado o que ele recomendava, mas onde iria eu encontrar forças para isso?” O paciente chegou mesmo a lembrar ter ouvido falar que a análise do passado e da transferência deveria ser compreendida primeiramente, mas lhe haviam dito que disso ele já tivera o bastante. Desde que essa primeira espécie de análise não o havia ajudado mais, parece-me justificada a conclusão de que o paciente não tivera dela o bastante. Por certo, o tratamento subseqüente, que já não podia pretender chamar-se de psicanálise, não melhorou as coisas. É impressionante que os membros da escola de Zurique tivessem de fazer uma volta tão longa e passar por Viena para chegar à vizinha cidade de Berna, onde Dubois cura as neuroses por meio de incentivos morais, de uma maneira mais sensata.” “Não é difícil refutar com argumentos concretos as concepções errôneas de Jung sobre a psicanálise e os desvios dela. Toda análise conduzida de maneira adequada, e em particular toda análise de criança, fortalece as convicções sobre as quais se fundamenta a teoria da psicanálise, negando as reinterpretações feitas tanto pelos sistemas de Jung como de Adler. Nos dias que antecederam sua iluminação, o próprio Jung [1910b, v. pág. 40] levou a efeito e publicou uma análise dessa espécie, de uma criança; resta ver se ele empreenderá uma nova interpretação dos resultados dessa análise com a ajuda de um diferente “arranjo unilateral dos fatos”, para utilizar a expressão empregada por Adler nesse sentido (ver em [1] e [2]). O ponto de vista de que a representação sexual de pensamentos “mais elevados” nos sonhos e na neurose nada mais é senão uma modalidade arcaica de expressão, é, naturalmente, inconciliável com o fato de que na neurose esses complexos sexuais provam ser os portadores das quantidades de libido subtraídas à utilização na vida real. Se isso fosse apenas uma questão de “jargão” sexual, não alteraria de maneira nenhuma a economia da libido. O próprio Jung admite isso no seu Darstellung der psychoanalytischen Theorie [1913] e formula a tarefa da terapia como o desligamento das catexias libidinais desses complexos. Entretanto, isso jamais pode ser realizado
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    desviando-se o pacientedelas e concitando-o a sublimar, e sim através do exame exaustivo das mesmas que as torne plena e completamente conscientes. O primeiro item de realidade com o qual o paciente deve lidar é a sua doença. Esforços no sentido de poupar-lhe essa tarefa indicam incapacidade do médico em ajudá-lo a superar suas resistências, ou então o medo que tem o médico dos resultados do seu trabalho. Por último, pode-se dizer que com sua “modificação” da psicanálise Jung nos oferece um equivalente da famosa faca de Lichtenberg. Mudou o cabo e botou uma lâmina nova, e porque gravou nela o mesmo nome espera que seja considerada como o instrumento original. Creio ter deixado claro que, pelo contrário, a nova teoria que visa a substituir a psicanálise significa um abandono da análise e uma deserção da mesma. Algumas pessoas podem ser inclinadas a temer que essa deserção esteja fadada a ter conseqüências mais graves para a análise do que outras, devido ao fato de ter sido iniciada por homens que desempenharam um papel tão grande no movimento e contribuíram tanto para o seu avanço. Eu não compartilho dessa apreensão. Os homens são fortes enquanto representam uma idéia forte; se enfraquecem quando se opõem a ela. A psicanálise sobreviverá a essa perda e a compensará com a conquista de novos partidários. Para concluir, quero expressar o desejo de que a sorte proporcione um caminho de elevação muito agradável a todos aqueles que acharam a estada no submundo da psicanálise desagradável demais para o seu gosto. E possamos nós, os que ficamos, desenvolver até o fim, sem atropelos, nosso trabalho nas profundezas. Fevereiro de 1914.” Conferências introdutórias sobre psicanálise (Partes I e II) VOLUME XV (1915-1916) “São as crianças, e precisamente nesses primeiros anos, mais tarde velados pela amnésia, que freqüentemente manifestam um tal egoísmo em grau extremamente marcado e, invariavelmente, mostram evidentes rudimentos ou, expressando-se com maior correção, resíduos dele. As crianças amam em primeiro lugar a si próprias, e apenas mais tarde é que aprendem a amar os outros e a sacrificar algo de seu ego aos outros. As próprias pessoas a quem uma criança parece amar desde o início, no começo são amadas pela criança porque esta necessita delas e não pode dispensá-las — por motivos egoístas, mais uma vez. Somente mais tarde o impulso de amar se torna independente do egoísmo. É literalmente verdadeiro que seu egoísmo ensinou a amar.” “O que tenho em mente é a rivalidade no amor, com nítida ênfase no sexo do indivíduo. Quando é ainda uma criança, um filho já começa a desenvolver afeição particular por sua mãe, a quem considera como pertencente a ele; começa a sentir o pai como rival que disputa sua única posse. E da mesma forma uma menininha considera sua mãe como uma pessoa que interfere na sua relação afetuosa com o pai e que ocupa uma posição que ela mesma poderia muito bem ocupar. A observação nos mostra a quão precoces anos essas atitudes remontam. A essas atitudes chamamos de ‘complexo de Édipo’, visto que a lenda de Édipo materializa, com apenas uma leve atenuação, os dois desejos
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    extremos originários nasituação do filho — matar o pai e tomar a mãe como esposa. Não pretendo afirmar que o complexo de Édipo engloba toda a relação dos filhos com os pais: esta pode ser muito mais complexa. O complexo de Édipo, ademais disso, pode estar desenvolvido em maior ou menor intensidade, pode até mesmo estar invertido; mas constitui fator constante e importante na vida mental de uma criança, e existe maior risco de, antes, subestimarmos, do que superestimarmos sua influência e a dos desenvolvimentos que nele se originam. Aliás, as crianças freqüentemente reagem, em sua atitude edipiana, a um estímulo proveniente de seus pais, que amiúde se deixam levar, nas suas preferências, pela diferença do sexo, de modo que o pai escolherá a filha e a mãe escolherá o filho como favorito ou, no caso de um esfriamento conjugal, como um substituto de um objeto de amor que perdeu seu valor. Não se pode dizer que o mundo tenha demonstrado muita gratidão à investigação psicanalítica por sua revelação do complexo de Édipo. Ao contrário, a descoberta provocou a mais violenta oposição entre adultos; e aqueles que não se interessaram por tomar parte no repúdio a este relacionamento emocional proscrito e tabu, compensaram seu débito mais tarde, subtraindo a este complexo o seu valor, por meio de reinterpretações tortuosas. Permanece inalterada minha convicção de que não há o que negar ou encobrir. Devemos nos congratular com o fato de ter sido reconhecido pela própria lenda grega como destino inevitável. Mais uma vez é interessante o fato de o complexo de Édipo, que tem sido repudiado na vida real, ter sido deixado a cargo dos escritos imaginativos, ter sido colocado, por assim dizer, livremente à sua disposição.” “Primeiro e acima de tudo, é um erro injustificável negar que as crianças têm uma vida sexual e supor que a sexualidade somente inicia na puberdade, com a maturação dos genitais. Pelo contrário, bem desde o início as crianças têm uma intensa vida sexual, que difere em muitos pontos daquilo que mais tarde é considerado normal. Aquilo que na vida adulta é descrito como ‘perverso’ difere do normal por estes aspectos: primeiro, porque despreza a barreira da espécie (o abismo entre o homem e o animal); segundo, por transpor a barreira contra a repugnância; terceiro, a barreira contra o incesto (proibição contra a busca da satisfação sexual em relações consangüíneas próximas); quarto, a barreira contra pessoas do mesmo sexo; e quinto, por transferir a outros órgãos e áreas do corpo o papel desempenhado pelos genitais. Nenhuma destas barreiras existia desde o começo; foram estabelecidas apenas gradualmente, no decorrer do desenvolvimento e da educação. Crianças de tenra idade são livres delas. Não reconhecem qualquer abismo assustador entre seres humanos e animais; a soberba com que os homens se distanciam dos animais não emerge senão mais tarde. Inicialmente, as crianças não mostram qualquer repugnância pelas excreções; porém, adquirem-na lentamente, sob a pressão da educação. Não dão importância especial à distinção entre os sexos, mas atribuem a ambos a mesma conformação dos genitais; dirigem seus primeiros desejos sexuais e sua curiosidade àqueles que lhes são mais próximos e, por outras razões, mais caros — os pais, irmãos e irmãs, ou babás; e, finalmente, demonstram (e isto mais tarde irrompe novamente no clímax de uma relação amorosa) que esperam obter prazer não somente a partir de seus órgãos sexuais, mas que muitas outras partes do corpo exibem a mesma sensibilidade, proporcionam-lhes sensações análogas de prazer e, em decorrência, podem desempenhar o papel de genitais. Assim, pode-se descrever as crianças como ‘perversos polimorfos’ e, se estes impulsos apenas mostram traços de atividade, isso ocorre, por um lado, porque eles têm intensidade menor quando comparados com os da vida posterior e, por outro lado, porque todas as manifestações sexuais de uma criança são prontamente, energicamente suprimidas pela educação. Esta supressão, por assim dizer, se estende à teoria; pois os adultos se
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    esforçam por nãover uma parte das manifestações sexuais das crianças e por disfarçar uma outra parte, interpretando-lhes erroneamente a natureza sexual, conseguindo assim negá-la em sua totalidade. Freqüentemente, são estas exatamente as mesmas pessoas que, no trato com as crianças, se enfurecem com qualquer traquinagem sexual sua e, depois, em seus escritos, defendem a pureza sexual das mesmas crianças.” “Reunamos agora tudo aquilo com que nossas pesquisas acerca da psicologia da criança têm contribuído para nossa compreensão dos sonhos. Não somente constatamos que o material das vivências esquecidas da infância tem acesso aos sonhos, como também vimos que a vida mental das crianças, com todas as suas características, seu egoísmo, sua escolha incestuosa de objetos de amor, e assim por diante, ainda persiste nos sonhos — isto é, no inconsciente; e que os sonhos nos levam de volta, todas as noites, a esse nível infantil. Confirma-se assim o fato de que, na vida mental, o que é inconsciente é também o que é infantil. A estranha impressão de haver tanta maldade nas pessoas começa a reduzir-se. Esta maldade temida é simplesmente a inicial e primitiva parte infantil da vida mental, que podemos encontrar em real atuação nas crianças, à qual, contudo, em parte não damos importância, nas crianças, devido ao pequeno tamanho delas, e, em parte, não a levamos a sério porque das crianças não esperamos elevado padrão ético algum. Visto os sonhos regredirem a esse nível, eles dão a impressão de terem revelado o mal que existe em nós. Esta, todavia, é uma aparência enganadora, pela qual nos temos deixado atemorizar. Não somos tão maus como tenderíamos a supor a partir da interpretação dos sonhos. Se esses impulsos maus nos sonhos são meros fenômenos infantis, um retorno aos inícios de nossa evolução ética (de vez que os sonhos simplesmente nos transformam novamente em crianças, em nossos pensamentos e sentimentos), não temos, se formos racionais, necessidade de nos envergonhar desses sonhos de maldade. Aquilo que é racional, porém, constitui apenas uma parte da vida mental, inúmeras outras coisas se passam na vida mental e não são racionais; e assim sucede irracionalmente estarmos envergonhados desses sonhos. Sujeitamo-los à censura dos sonhos, envergonhamo-nos e nos irritamos se, por exceção, um desses desejos consegue irromper na consciência em forma tão indisfarçada, que somos obrigados a reconhecê-los; com efeito, às vezes nos envergonhamos tanto de um sonho deformado como se o compreendêssemos.” “Como resultado de nossas pesquisas, atenhamo-nos a duas descobertas, embora apenas signifiquem o começo de novos enigmas e de novas dúvidas. Em primeiro lugar, a regressão da elaboração onírica não é apenas formal, mas também material. Não só traduz nossos pensamentos em uma forma primitiva de expressão; revive, também, as características de nossa vida mental primitiva — a antiga dominância do ego, os primeiros impulsos de nossa vida sexual e, realmente, até mesmo, nossa antiga propriedade intelectual, caso assim possam ser consideradas as conexões simbólicas. E, em segundo lugar, tudo isso que é antigo e infantil e que em certa época foi dominante, e dominante sozinho, hoje deve ser atribuído ao inconsciente, acerca do qual nossas idéias agora se estão modificando e ampliando. ‘Inconsciente’ já não é mais o nome daquilo que é latente no momento; o inconsciente é um dos reinos da mente com seus próprios impulsos plenos de desejos, seu modo de expressão próprio, e com seus mecanismos mentais específicos que não vigoram em outros setores. No entanto, os pensamentos oníricos latentes, que descobrimos ao interpretar sonhos, não pertencem a este reino; são, ao contrário, pensamentos iguais àqueles que poderíamos ter pensado na vida desperta. Não obstante, são inconscientes. Como, então, se pode solucionar esta contradição? Começamos a suspeitar que aqui deve ser estabelecida uma distinção.
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    Alguma coisa quederiva de nossa vida consciente e compartilha de suas características — nós a denominamos ‘resíduos diurnos’ — combina-se com alguma outra coisa proveniente dos domínios do inconsciente, a fim de se construir um sonho. A elaboração onírica se realiza entre estes dois componentes. A influência exercida sobre os resíduos diurnos pela adição do inconsciente está, sem dúvida, entre os determinantes da regressão.” Conferências Introdutórias sobre Psicanálise – Parte II Conferência X – Simbolismo nos sonhos “O simbolismo é, talvez, o mais notável capítulo da teoria dos sonhos. Em primeiro lugar, como os símbolos são versões constantes, realizam até certo ponto o ideal da antiga, tanto como da popular, interpretação dos sonhos, do qual, com nossa técnica, nos afastamos muito. Permitem-nos em certas circunstâncias interpretar um sonho sem fazer perguntas ao sonhador que, de qualquer modo, realmente nada teria a nos dizer acerca do símbolo. Se estivermos familiarizados com os símbolos oníricos comuns, e, ademais disso, com a personalidade do sonhador, as circunstâncias em que ele vive e as impressões que precederam a ocorrência do sonho, freqüentemente estaremos em situação de interpretar um sonho com segurança — de traduzi-lo à vista, por assim dizer. Um virtuosismo dessa espécie lisonjeia a quem interpreta o sonho e impressiona aquele que teve o sonho; forma um agradável contraste com a laboriosa tarefa de interrogar o sonhador. Contudo, não se deixem perder-se com isso. Não é de nosso feitio executar atos de virtuosismo. A interpretação baseada no conhecimento dos símbolos não é uma técnica que possa substituir a técnica associativa, nem competir com esta. A técnica dos símbolos suplementa a técnica associativa e produz resultados que apenas possuem utilidade, quando subordinada a esta. E, no que concerne ao conhecimento que se tenha da situação psíquica da pessoa que nos relata seu sonho, devem ter em mente que os sonhos das pessoas que os senhores bem conhecem, não são os únicos que os senhores têm para analisar; ter em mente que, via de regra, os senhores não estão familiarizados com os eventos do dia anterior, que foram aqueles que provocaram o sonho, mas que as associações de idéias da pessoa que os senhores estão analisando lhes proporcionarão um conhecimento preciso daquilo que chamamos situação psíquica.” “Agora, certamente, os senhores desejam ouvir algo sobre a natureza do simbolismo dos sonhos e ter alguns exemplos. Com satisfação lhes direi o que sei, embora deva confessar que nossa compreensão deste tema não é tão completa como desejaríamos. A essência desta relação simbólica constitui em ela ser uma comparação, embora não uma comparação de tipo qualquer. Limitações especiais parecem estar vinculadas à comparação, porém é difícil dizer quais sejam elas. Nem tudo aquilo com que podemos comparar um objeto ou um processo aparece nos sonhos como símbolo dessa comparação. E, por outro lado, um sonho não simboliza cada elemento possível dos pensamentos oníricos latentes, mas somente alguns pensamentos determinados. Assim, existem limitações em ambos os sentidos. Devemos admitir, também, que o conceito de símbolo, no momento atual, não pode ser definido com precisão: esse conceito se transfigura gradualmente em noções tais como as de substituição ou representação, e mesmo se aproxima do que entendemos por alusão. Em numerosos símbolos, a comparação que subjaz é óbvia. Entretanto, também aí existem outros símbolos em
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    relação aos quaisdevemos nos perguntar onde buscaremos o elemento comum, o tertium comparationis, da suposta comparação. Com outras reflexões, podemos posteriormente descobri-lo, ou então ele pode permanecer definitivamente oculto. É ademais estranho que, sendo o símbolo uma comparação, não seja elucidado por uma associação, e que o sonhador não conheça, mas faça uso dele sem saber nada a seu respeito: mais ainda, na verdade, que o sonhador não se sinta disposto a reconhecer a comparação, mesmo depois de esta lhe ter sido mostrada. Os senhores observam, pois, que uma relação simbólica é uma comparação de tipo muito especial, cuja base até agora ainda não apreendemos, embora possamos, posteriormente, chegar a alguma indicação sobre a mesma.” “A gama de coisas às quais se confere uma representação simbólica nos sonhos, não é ampla: o corpo humano como um todo, os pais, os filhos, irmãos e irmãs, nascimento, morte, nudez — e algumas outras coisas mais. A representação típica — isto é, regular — da figura humana como um todo é uma casa, conforme foi reconhecido por Scherner, que até mesmo quis atribuir a este símbolo uma importância transcendental que não tem. Em um sonho, pode acontecer alguém sentir-se descendo pela fachada de uma casa, num momento deliciando-se com isso, depois atemorizando-se. As casas com paredes lisas representam homens, e aquelas com saliências e sacadas, em que é possível segurar-se, representam mulheres (...). Os pais aparecem nos sonhos como imperador e imperatriz, rei e rainha [loc. cit.] ou outras personagens respeitadas; com isso, os sonhos evidenciam muito respeito filial. Tratam, porém, com muito menos ternura os filhos, os irmãos e as irmãs: estes são simbolizados como pequenos animais ou bichinhos. O nascimento é quase que invariavelmente representado por algo que tem uma conexão com água: ou a pessoa cai dentro da água ou sai da água, a pessoa salva alguém da água ou é resgatada da água por alguém — ou seja, é uma relação mãe-filho [...]. Morrer é substituído, nos sonhos, por partir, por viajar de trem ver em [...], estar morto é representado por indícios diversos, por assim dizer, obscuros; a nudez, por meio de roupas e uniformes. Os senhores vêem quão indistintos são os limites, aqui, entre a representação simbólica e a alusiva. É surpreendente que, em comparação com essa reduzida numeração, existe uma outra área em que os objetos e assuntos são representados por um simbolismo extraordinariamente rico. Essa área é a da vida sexual — os genitais, os processos sexuais, a relação sexual. Nos sonhos, a grande maioria dos símbolos são símbolos sexuais. E aqui se revela uma estranha desproporção. Os temas que mencionei são poucos, os símbolos que os representam são, porém, extremamente numerosos, de forma que cada uma dessas coisas pode ser expressa por numerosos símbolos quase equivalentes. Quando interpretados, o resultado origina objeções generalizadas. Pois, em contraste com a multiplicidade das representações no sonho, as interpretações dos símbolos variam muito pouco, o que enfada qualquer pessoa que ouve falar nisso; mas, o que podemos fazer quanto a isto? Como esta é a primeira vez que falo no tema da vida sexual, em uma destas conferências, devo-lhes uma explanação sobre a maneira pela qual me proponho a tratar do assunto. A psicanálise não tem necessidade de ocultamentos nem de palpites, não pensa que seja necessário envergonhar-se de lidar com esse importante material, acredita que é correto e apropriado nomear cada coisa pelo seu nome certo e espera que esta seja a melhor maneira de manter à distância idéias inadequadas, de natureza desorientadora. O fato de estas conferências estarem sendo proferidas perante um auditório misto de ambos os sexos, não faz qualquer diferença com relação a esse aspecto. Assim como não pode haver ciência in usum Delphini, também não pode havê-
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    la para meninasde colégio; e as senhoras aqui presentes já evidenciaram, por sua própria presença nesta sala de conferências, que desejam ser tratadas em condições de igualdade com os homens. Os genitais masculinos então são representados nos sonhos por numerosas formas que devem ser chamadas simbólicas, nas quais o elemento comum da comparação é em geral muito evidente. Primeiramente, para os genitais masculinos como um todo, o sagrado número 3 tem significação simbólica [...]. O mais notável e, para ambos os sexos, mais interessante componente dos genitais, o órgão masculino, encontra substitutos simbólicos primordialmente em coisas que a ele se assemelham pela sua forma — coisas, portanto, que são alongadas e retas, tais como: bengalas, guarda-chuvas, postes, árvores, e assim por diante; e também objetos que compartilham, com a coisa que representam, da característica de penetrar no corpo e ferir — ou seja, armas pontiagudas de toda espécie, facas, punhais, lanças, sabres e também armas de fogo, rifles, pistolas e revólveres (especialmente adequados por causa de sua forma). Nos sonhos de ansiedade de uma menina, ser seguida por um homem com uma faca ou com arma de fogo desempenha importante papel. Esse talvez seja o caso mais comum de simbolismo onírico, e agora os senhores estão aptos a traduzi-lo com facilidade. E não é difícil compreender de que modo o órgão masculino pode ser substituído por objetos dos quais flui água — torneira, regador, chafariz —, ou, ainda, por outros objetos capazes de se distenderem, tais como lâmpadas suspensas, lápis extensíveis, etc. Um aspecto não menos óbvio do órgão explica o fato de que lápis, canetas, limas, martelos e outros instrumentos são indubitáveis símbolos sexuais masculinos. A extraordinária característica do órgão masculino de ser capaz de erguer- se em desafio às leis da gravidade, um dos fenômenos da ereção, faz com que seja representado simbolicamente por balões, máquinas voadoras e, mais recentemente, pelas aeronaves Zeppelin. Os sonhos, porém, podem simbolizar a ereção de outra maneira, muito mais expressiva. Podem tratar o órgão sexual como sendo a essência da pessoa inteira daquele que sonha e fazê-lo voar. Não se melindrem com a idéia de que os sonhos com voar, tão comuns e freqüentemente tão agradáveis, devam ser interpretados como sonhos de excitação sexual geral, como sonhos de ereção. Entre alunos de psicanálise, Paul Federn [1914] colocou essa interpretação fora de dúvida; contudo, através de suas investigações chegou à mesma conclusão Mourly Vold [1910- 12, 2, 791], que tem sido tão elogiado por sua seriedade, quem levou a cabo as experiências com sonhos a que me referi [...] com posições artificialmente assumidas dos braços e pernas, e estava muito distanciado da psicanálise e possivelmente nada sabia a respeito dela. E não façam, a partir daí, a objeção ao fato de as mulheres poderem ter os mesmos sonhos de voar, como os homens. Lembrem-se, antes, de que nossos sonhos objetivam ser realizações de desejos e que o desejo de ser homem com muita freqüência é encontrado, consciente ou inconscientemente, em mulheres. E ninguém que conheça anatomia se espantará com o fato de que é possível às mulheres realizar esse desejo através das mesmas sensações do homem. As mulheres possuem, como parte de seus genitais, um pequeno órgão semelhante ao órgão masculino; e esse pequeno órgão, o clitóris, realmente desempenha na infância e durante os anos anteriores às relações sexuais o mesmo papel que desempenha o grande órgão dos homens. Entre símbolos sexuais masculinos menos inteligíveis situam-se certos répteis e peixes e, acima de tudo, o famoso símbolo da cobra. Certamente não é fácil adivinhar por que chapéus e sobretudos ou capas são empregados da mesma maneira; contudo, seu significado simbólico é bastante inquestionável [ver em [1]]. Finalmente, podemos nos perguntar se a substituição do membro masculino por outro membro, o pé ou a mão, deveria ser descrita como simbólica. Penso que somos compelidos a também fazê-lo, em face ao contexto e aos equivalentes, no caso das mulheres. Os genitais femininos são
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    simbolicamente representados portodos esses objetos que compartilham da característica de possuírem um espaço oco que pode conter algo dentro de si: buracos, cavidades e concavidades, por exemplo; vasos e garrafas, recipientes, caixas, malas, estojos, cofres, bolsas, e assim por diante. Barcos também se incluem nesta categoria. Alguns símbolos têm mais conexão com o útero do que com os genitais femininos: assim, armários, fogões e, mais especialmente, aposentos. Aqui o simbolismo de aposento se aproxima do simbolismo de casa. Portas e portões também são símbolos do orifício genital. Os materiais também são símbolos femininos [ver em [1]]: madeira, papel e objetos feitos desses materiais como mesas e livros. Dentre os animais, caramujos e conchas, pelo menos, são inegáveis símbolos femininos: entre as partes do corpo, a boca (como substituto do orifício genital); entre as construções, igrejas e capelas; como podem observar, nem todos os símbolos são igualmente inteligíveis. Os seios devem ser incluídos nos genitais; sendo hemisférios volumosos do corpo feminino, são representados por maçãs, pêras e frutas, em geral. Os pêlos pubianos de ambos os sexos são representados nos sonhos por florestas e moitas. A complexa topografia das partes genitais femininas torna compreensível o fato de elas serem freqüentemente representadas por paisagens com rochedos, floresta e água, ao passo que o imponente mecanismo do aparelho genital feminino explica por que todo tipo de máquinas, difíceis de descrever, lhe serve de símbolo. Outro símbolo dos genitais femininos, que merece ser mencionado, é o porta-jóias. Jóia e tesouro são usados nos sonhos, assim como na vida desperta, para mencionar alguém que é amado. Doces freqüentemente representam satisfação sexual. A satisfação que uma pessoa obtém com seus próprios genitais é indicada por toda espécie de tocar, inclusive tocar piano. Constituem representação simbólica par excellence da masturbação o deslizar ou escorregar, o arrancar um ramo [ver em [1]]. A queda de um dente, ou a extração de um dente são símbolos oníricos particularmente dignos de reparo. Sua significação primeira é indubitavelmente a castração como castigo pela masturbação [loc. cit.]. Encontramos representações especiais do ato sexual com menos freqüência do que se poderia esperar com base naquilo que se disse até aqui. Atividades rítmicas como dançar, cavalgar e subir devem ser mencionadas aqui, bem como ocorrências violentas, como ser atropelado; e ainda da mesma forma, certas atividades manuais e naturalmente ameaças com armas. Os senhores não devem imaginar que seja muito simples o emprego ou a tradução desses símbolos. No decurso deles, acontecem todos os tipos de coisas que são contrárias às nossas expectativas. Parece quase inacreditável, por exemplo, que nessas representações simbólicas as diferenças entre os sexos amiúde não são nitidamente observadas. Alguns símbolos significam em geral, independentemente de serem masculinos ou femininos, por exemplo: uma criança pequena, um filho pequeno, uma filha pequena. Ou ainda, um símbolo predominantemente masculino pode ser empregado para representar genitais femininos e vice-versa. Não podemos compreender esse fato enquanto não tivermos obtido determinada compreensão interna (insight) da evolução das idéias sexuais nos seres humanos. Em alguns casos, a ambigüidade dos símbolos pode ser apenas aparente; e os símbolos mais marcados, como armas, bolsas e cofres, se excluem desse uso bissexual.” “Esse, pois, o material de que se serve o simbolismo nos sonhos. Não está completo e poderia ser aprofundado e ampliado ainda mais. Imagino, porém, que lhes parecerá mais que suficiente, e talvez até mesmo possa tê-los irritado. ‘Será que de fato vivo no meio de símbolos sexuais?’ — poderão perguntar. ‘São todos os objetos ao meu redor, todas as roupas que visto, todas as coisas que pego, todos símbolos sexuais, e nada mais?’ Existe, com efeito, fundamento suficiente para fazer perguntas atônitas, e, como
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    primeira delas, podemosnos interrogar sobre como realmente chegamos a conhecer a significação desses símbolos oníricos, a respeito dos quais o sonhador nos dá informação insuficiente, ou absolutamente nenhuma informação. Minha resposta é que a aprendemos a partir de fontes muito diversas — de contos de fadas, de mitos, de bufonarias e anedotas, do folclore (isto é, do conhecimento dos usos populares e costumes, da maneira de falar e das canções) e de expressões idiomáticas, poéticas e coloquiais. Em todas essas direções encontramos o mesmo simbolismo e, em alguns deles, podemos entendê-lo sem maior erudição. Se penetrarmos nos detalhes dessas fontes, encontraremos tantas semelhanças do simbolismo onírico, que não podemos deixar de nos convencer de nossas interpretações.” “De início parece surpreendente encontrar os pais, nos sonhos, como casal imperial ou real. Isso, porém, tem seu similar nos contos de fadas. Começamos a compreender que as variadas histórias de fadas que começam com ‘Era uma vez um rei e uma rainha’ apenas querem dizer que certa vez havia um pai e uma mãe. Em uma família as crianças são, de brincadeira, chamadas de ‘príncipes’, e o mais velho, de ‘príncipe herdeiro’. O próprio rei se denomina o pai de seu país. Por brincadeira falamos nos filhos como ‘Würmer‘ [‘bichinhos’] e com simpatia nos referimos a uma criança como ‘der arme Wurm‘ [‘pobre bichinho’].” “Pegar fogo, fazer fogo, e tudo o que com isso se relacione, está intimamente entretecido de simbolismo sexual. A chama é sempre um genital masculino e a lareira, o fogão, é seu equivalente feminino. Se os senhores puderem se surpreender com a freqüência com que as paisagens são empregadas nos sonhos para representar os genitais femininos, podem aprender da mitologia geral qual o papel desempenhado pela Mãe Terra nos conceitos e cultos dos povos da Antigüidade, e como sua visão da agricultura era determinada por esse simbolismo. O fato de, em sonhos, um quarto representar uma mulher, os senhores tenderão a atribuí-lo ao uso idiomático de nossa linguagem pelo qual ‘Frau‘ é substituído por ‘Frauenzimmer‘ — o ser humano sendo substituído pelo aposento destinado a ele. De forma semelhante, falamos em ‘Sublime Porte’ significando o sultão e seu governo. Assim, também o título do governante do Egito antigo, ‘Faraó’, significa simplesmente ‘Grande Saguão do Paço’. (No antigo oriente, os pátios entre os duplos portões de uma cidade eram locais de encontro públicos, assim como as praças do mercado do mundo clássico). Essa derivação, entretanto, parece ser excessivamente superficial. Parece-me mais provável que um aposento se tornou símbolo de mulher por ser o espaço que encerra seres humanos. Já verificamos que ‘casa’ é usada em sentido semelhante; e a mitologia e a linguagem poética nos possibilitam acrescentar ‘cidade’, ‘cidadela’, ‘castelo’ e ‘fortaleza’ como outros símbolos para ‘mulher’. Poder-se-ia facilmente levantar a questão a respeito de sonhos de pessoas que não falam ou não entendem o idioma alemão. Durante esses últimos anos tenho tratado principalmente pacientes de idioma estrangeiro e parece-me que me lembro de que também em seus sonhos ‘Zimmer‘ [‘aposento’] significava ‘Frauenzimmer‘ embora em seus idiomas não tivessem uso semelhante. Existem outras indicações de que a relação simbólica pode ultrapassar os limites da linguagem — o que, aliás, foi afirmado há muito tempo por um antigo pesquisador de sonhos, Schubert [1814]. No entanto, nenhum de meus pacientes ignorava completamente o alemão, de modo que a decisão deve ser deixada aos analistas que podem coligir dados das pessoas que usam um só idioma, em outros países. Dificilmente alguma das representações simbólicas dos genitais masculinos não reaparece no uso anedótico, vulgar ou poético, especialmente junto aos dramaturgos
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    clássicos antigos. Entretanto,aqui encontramos não apenas os símbolos que surgem nos sonhos, porém outros mais como, por exemplo, utensílios usados em diversas atividades, e, especialmente, o arado. Ademais, a representação simbólica da masculinidade nos leva a uma região muito extensa e muito controvertida, que por motivos de economia evitaremos.” “O cogumelo é sem dúvida um símbolo do pênis: existem cogumelos [fungos] que devem seu nome sistemático (Phallus impudicus) à sua inconfundível semelhança com o órgão masculino. A ferradura reproduz o contorno do orifício genital feminino, ao passo que a vassoura de chaminé, que se associa à escada, aparece em companhia desta em face de suas funções, às quais vulgarmente se compara o ato sexual. (Cf. Anthropophyteia.) Conhecemos essa escada, em sonhos, como símbolo sexual; aqui o uso idiomático alemão vem em nosso auxílio e nos mostra como a palavra ‘steigen‘ [‘subir’, ou ‘montar’] é usada no que é par excellence um sentido sexual. Dizemos ‘den Frauen nachsteigen‘ [‘perseguir’ (literalmente ‘trepar’) ‘mulheres’], e ‘ein alter Steiger‘ [‘um velho farrista’ (literalmente ‘trepador’)]. Em francês a palavra para degraus de uma escada é ‘marches‘, e encontramos um termo exatamente análogo ‘un vieux marcheur‘. O fato de que, em muitos animais de grande porte, subir ou ‘montar’ na fêmea é um preliminar necessário ao ato sexual, provavelmente se presta a este contexto. ‘Arrancar um galho’, como representação simbólica da masturbação, não apenas se coaduna com as descrições vulgares do ato, como também possui semelhanças mitológicas amplas. Mas, que a masturbação, ou melhor, a punição correspondente — a castração — seja representada pela queda ou extração de dentes, é fato especialmente notável, pois existe na antropologia um seu equivalente, o qual pode ser do conhecimento de apenas um pequeno número das pessoas que sonham. Parece- me inequívoco que a circuncisão, praticada por tantos povos, é um equivalente e substituto da castração. E agora sabemos de determinadas tribos primitivas da Austrália que realizam a circuncisão como um rito da puberdade (na cerimônia em que se celebra o início da maturidade sexual de um menino), enquanto outras tribos, seus vizinhos próximos, substituíram esse ato pela quebra de um dente. A este ponto, encerro minha exposição desses exemplos. São apenas exemplos. A respeito deste assunto conhecemos muito mais; porém os senhores podem imaginar como seria mais rica e mais interessante uma coleção como essa, se fosse reunida não por amadores como nós, e sim por verdadeiros profissionais da mitologia, antropologia, filologia e do folclore.” “Deveríamos supor que os símbolos, que originalmente possuíam uma significação sexual, mais tarde tenham adquirido outra aplicação e que, ademais disso, a atenuação da representação por símbolos em outros tipos de representação pode estar em conexão com este aspecto? Essas questões evidentemente não podem ser respondidas enquanto não houvermos considerado o simbolismo onírico isoladamente. Podemos apenas manter firme a suspeita de que existe uma relação especialmente íntima entre símbolos verdadeiros e sexualidade. Com referência a esse aspecto descobrimos importantes indícios durante esses últimos anos. Um filólogo, Hans Sperber [1912], de Uppsala, que trabalha independentemente da psicanálise, apresentou o argumento de que as necessidades sexuais desempenharam o papel principal na origem e no desenvolvimento da linguagem. Segundo esse autor, os sons originais da linguagem se destinavam à comunicação e atraíam o parceiro sexual; a evolução ulterior das raízes lingüísticas acompanhou as atividades laborativas do homem primitivo. Essas atividades, prossegue ele, eram executadas em comum e acompanhadas por expressões ritmicamente repetidas. Assim, um interesse sexual
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    permaneceu vinculado aotrabalho. O homem primitivo tornou o trabalho aceitável, por assim dizer, tratando-o como equivalente e substituto da atividade sexual. As palavras enunciadas durante o trabalho em comum tinham, pois, dois significados: designavam atos sexuais e também a atividade laborativa que a estes se equiparava. Com o decorrer do tempo as palavras se desvincularam da significação sexual e fixaram-se no trabalho. Em gerações posteriores a mesma coisa aconteceu com as palavras novas, que tinham significado sexual e eram aplicadas a novas formas de trabalho. Desse modo, numerosas raízes de palavras teriam sido formadas, todas elas de origem sexual, perdendo subseqüentemente sua significação sexual. Se é correta a hipótese que delineei aqui, ela nos possibilitaria compreender o simbolismo dos sonhos. Deveríamos entender por que os sonhos, que conservam algumas das condições mais primitivas, mantêm um número tão extraordinariamente grande de símbolos sexuais e por que geralmente armas e utensílios representam o que é masculino, ao passo que materiais e coisas, que se prestam para serem transformados pelo trabalho, representam o que é feminino. A relação simbólica seria o resíduo de uma antiga identidade verbal, coisas que numa época foram chamadas pelo mesmo nome, tanto que os genitais poderiam agora servir como símbolo para os mesmos, nos sonhos. Os aspectos correlatos que encontramos no simbolismo onírico também nos permitem formar uma estimativa dessa característica da psicanálise que lhe permite atrair interesse geral, de uma forma que nem a psicologia nem a psiquiatria conseguiram fazê-lo. No trabalho da psicanálise formam-se vínculos com numerosas outras ciências mentais, cuja investigação promete resultados do mais elevado valor: vínculos com a mitologia e a filosofia, com o folclore, com a psicologia social e com a teoria da religião.” “A propósito, ainda não lhes disse absolutamente nada com respeito às circunstâncias em que podemos obter nossa mais profunda compreensão da hipotética ‘linguagem primitiva’, e ao campo em que a maior parte desta sobreviveu. Até virem a conhecê-la, os senhores não poderão formar uma opinião de sua total importância. Pois esse campo é o das neuroses e seu material são os sintomas e outras manifestações dos pacientes neuróticos, para cuja elucidação e tratamento a psicanálise foi, de fato, criada. A quarta de minhas reflexões nos leva de volta ao começo e nos conduz por nosso caminho previamente determinado. Eu disse [...] que os sonhos, ainda que não houvesse censura de sonhos, não seriam facilmente inteligíveis para nós, de vez que ainda teríamos de nos defrontar com a tarefa de traduzir a linguagem simbólica dos sonhos para a de nosso pensamento desperto. Assim, o simbolismo é um segundo e independente fator de deformação de sonhos, ao lado da censura de sonhos. É plausível supor, porém, que a censura de sonhos julga conveniente fazer uso do simbolismo, porque isso conduz ao mesmo fim: o caráter estranho e incompreensível dos sonhos. Em breve ficará esclarecido se um estudo adicional dos sonhos não nos poderá colocar em face de um outro fator que contribui para a deformação dos sonhos. Contudo, eu não gostaria de abandonar o tema do simbolismo onírico sem mais uma vez [...] tocar no problema sobre o modo como ele pode encontrar resistência tão acirrada em pessoas instruídas, quando a ampla difusão do simbolismo nos mitos, na religião, na arte e na linguagem é tão inquestionável. A responsável não será novamente sua conexão com a sexualidade?” Conferências introdutórias sobre psicanálise (Parte III)
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    VOLUME XVI (1916-1917) Conferência XX AVida Sexual dos Seres Humanos “Pois a investigação psicanalítica teve de ocupar-se também com a vida sexual das crianças, e isto porque as lembranças e associações emergentes durante a análise de sintomas de adultos remetiam-se regularmente aos primeiros anos da infância. O que inferimos destas análises mais tarde se confirmou, ponto por ponto, nas observações diretas de crianças. E, com isso, verificou-se que todas essas inclinações à perversão tinham suas raízes na infância, que as crianças têm uma predisposição a todas elas e põem-nas em execução numa medida correspondente à sua imaturidade — em suma, que a sexualidade pervertida não é senão uma sexualidade infantil cindida em seus impulsos separados. Em todo caso, agora os senhores verão as perversões sob um novo prisma, e já não mais deixarão de perceber sua conexão com a vida sexual dos seres humanos: mas à custa de quanta surpresa e de quanto sentimento de desagrado para com estas incongruências! Sem dúvida, sentir-se-ão inclinados a negar todo este assunto: o fato de que as crianças possuem tudo aquilo que se pode descrever como vida sexual, a justeza de nossas observações e a explicação para o fato de encontrarmos tantas afinidades entre a conduta das crianças e aquilo que mais tarde é condenado como perversão. Por isso, permitam-me que comece explicando-lhes os motivos da oposição dos senhores e, depois, lhes apresente a totalidade de nossas observações. Supor que as crianças não têm vida sexual — excitações e necessidades sexuais e alguma forma de satisfação —, mas adquirem-na subitamente, entre os doze e os quatorze anos de idade, seria (abstraindo de todas as observações) biologicamente tão improvável, e, na verdade, tão sem sentido, como supor que viessem ao mundo desprovidas de genitais e que estes só aparecessem na época da puberdade. O que de fato desperta nas crianças, nessa idade, é a função reprodutiva, que, para seus fins, faz uso dos componentes físicos e mentais já anteriormente presentes. Os senhores estão cometendo o erro de confundir sexualidade com reprodução, e com isto estão bloqueando seu caminho para a compreensão da sexualidade, das perversões e das neuroses. Este é, contudo, um erro tendencioso. Estranhamente, origina-se no fato de que os senhores mesmos uma vez foram crianças e, enquanto eram crianças, estiveram sob a influência da educação. Pois a sociedade deve assumir como uma de suas mais importantes tarefas educadoras domar e restringir o instinto sexual quando este irrompe como impulso à reprodução, e sujeitá- lo a uma vontade individual que é idêntica à ordem da sociedade. Esta também se preocupa em adiar o pleno desenvolvimento do instinto até que a criança tenha atingido certo grau de maturidade intelectual, de vez que, aí, com a completa irrupção do instinto sexual, a educabilidade, para fins práticos, chega a seu fim. De outro modo, o instinto romperia todos os diques e arrasaria todo o trabalho da civilização laboriosamente construído. Ademais, nunca é fácil a tarefa de dominar o instinto; seu êxito, por vezes, é muito pequeno, por vezes, muito grande. O móvel da sociedade humana é, em última análise, econômico; como não possui provisões suficientes para manter vivos todos os seus membros, a menos que trabalhem, ela deve limitar o número de seus membros e desviar suas energias da atividade sexual para o trabalho. Em suma, defronta-se com as eternas e primevas exigências da vida, que nos assediam até o dia de hoje. Sem dúvida,
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    a experiência deveter ensinado aos educadores que a tarefa de docilizar a tendência sexual da nova geração só poderia ser efetuada se começassem a exercer sua influência muito cedo, se não esperassem pela tempestade da puberdade, mas interviessem logo na vida sexual das crianças, que é preparatória para a puberdade. Por essa razão, todas as atividades sexuais foram proibidas às crianças e vistas com maus olhos; erigiu-se o ideal de tornar a vida das crianças assexual, e, no decorrer do tempo, as coisas chegaram ao ponto de as pessoas realmente acreditarem que as crianças sejam assexuais e, subseqüente, de a ciência proclamar isto como doutrina. Para evitar que sejam contraditas suas crenças e suas intenções, a partir daí as pessoas passam por alto as atividades sexuais das crianças (que não são de se desprezar) ou se mostram contentes quando a ciência assume um ponto de vista diferente com relação a tais atividades. As crianças são puras e inocentes, e todo aquele que as descreve de outra maneira, pode ser acusado de ser um blasfemador infame dos ternos e sagrados sentimentos da humanidade. As crianças são as únicas a não concordar com essas convenções.” “É por demais estranho que as pessoas que negam a existência da sexualidade nas crianças nem por isso se tornam mais brandas em seus esforços educacionais, mas perseguem as manifestações daquilo que negam que exista, com a máxima severidade — descrevendo tais manifestações como ‘traquinagens pueris.’ É também do maior interesse teórico o período de vida que contradiz mais flagrantemente o preconceito de uma infância assexual — os anos de vida de uma criança até os cinco ou seis —, ser posteriormente, na maioria das pessoas, coberto pelo véu da amnésia, o qual só é completamente desfeito pela investigação analítica, embora anteriormente tenha sido permeável à construção de alguns sonhos.” “Permitam-me, ao mesmo tempo, por motivos de conveniência, apresentar o conceito de ‘libido’. Em exata analogia com a ‘fome’, empregamos ‘libido’ como nome da força (neste caso, a força do instinto sexual, assim como, no caso da fome, a força do instinto de nutrição) pela qual o instinto se manifesta.” “Os senhores mesmos facilmente perceberão que as atividades sexuais de crianças de colo são principalmente uma questão de interpretação, ou, então, provavelmente usarão isso como motivo para objeções. A essas interpretações chega-se através do exame analítico retrospectivo baseado nos sintomas. Numa criança da tenra idade, os primeiros impulsos da sexualidade têm seu aparecimento ligado a outras funções vitais. Seu principal interesse, como sabem, volta-se para a ingestão de alimentos; quando as crianças adormecem, após se haverem saciado ao seio, mostram uma expressão de bem- aventurada satisfação, que se repetirá, posteriormente na vida, após a experiência do orgasmo sexual. Isto seria muito pouco para servir de base a uma conclusão. Constatamos, todavia, como um bebê repetirá o ato de tomar alimento sem exigir mais comida; a isto, portanto, o bebê não é levado devido a fome. Descrevemo-lo como sucção sensual, e o fato de que, ao fazê-lo, o bebê adormece, igualmente, com uma expressão beatífica, mostra-nos que o ato da sucção sensual lhe proporcionou, por si só, uma satisfação. Conforme sabemos, muito cedo as coisas chegam a um ponto em que não pode adormecer sem haver sugado. Um pediatra de Budapest, Dr. Lindner [1879], foi o primeiro a apontar, há muito tempo, a natureza sexual dessa atividade. Aqueles que cuidam de crianças, e que não têm opiniões teóricas sobre o assunto, parecem formar um juízo semelhante a respeito da sucção. Não têm dúvidas de que esta somente tem a finalidade de obter prazer, classificam-na como uma das ‘traquinagens’ da criança
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    e obrigam-na aabandoná-la, causando-lhe desprazer, no caso de a própria criança não se decidir a deixá-la. Assim, aprendemos que o bebês executam ações que não têm outro propósito senão o de obter prazer. Acreditamos que elas primeiro experimentam esse prazer em conexão com a tomada do alimento, porém, logo aprendem a separar esse prazer da condição que o acompanha. Só podemos atribuir esse prazer a uma excitação das áreas da boca e dos lábios; a estas partes do corpo denominamos ‘zonas erógenas’ e descrevemos como sexual o prazer derivado da sucção. Sem dúvida, haveremos de discutir, posteriormente, se esta descrição se justifica. Se um bebê pudesse falar, ele indubitavelmente afirmaria que o ato de sugar o seio materno é de longe o ato mais importante de sua vida. E nisto o bebê não se engana muito, pois nesse único ato está satisfazendo de uma só vez as duas grandes necessidades vitais. Por isso, não nos surpreenderemos ao saber, por meio da psicanálise, quanta importância psíquica conserva esse ato durante toda a vida. Sugar ao seio materno é o ponto de partida de toda a vida sexual, o protótipo inigualável de toda satisfação sexual ulterior, ao qual a fantasia retorna muitíssimas vezes, em épocas de necessidade. Esse sugar importa em fazer o seio materno o primeiro objeto do instinto sexual. Não posso dar-lhes idéia da importante relação entre esse primeiro objeto e a escolha de todos os objetos subseqüentes, dos profundos efeitos que ele tem em suas transformações e substituições, até mesmo nas mais remotas regiões de nossa vida sexual. A princípio, contudo, o bebê, em sua atividade de sucção, abandonada esse objeto e o substitui por uma parte do seu próprio corpo. Começa a sugar o polegar ou a própria língua. Desse modo, torna-se independente do consentimento do mundo externo, no que tange à obtenção de prazer, e, ademais disso, aumenta-a, acrescentando a excitação de uma segunda área de seu corpo. As zonas erógenas não são todas igualmente generosas em proporcionar prazer; ocorre, pois, uma importante experiência quando o lactente, conforme relata Lindner, descobre, no decorrer de suas buscas, as regiões especialmente excitáveis representadas por seus genitais e, com isso, passa da sucção à masturbação. Ao formarmos esta opinião referente à sucção sensual, já passamos a conhecer duas características decisivas da sexualidade infantil. Ela surge ligada à satisfação das principais necessidades orgânicas e se comporta de maneira auto-erótica — isto é, procura seus objetos no próprio corpo da criança. O que ficou demonstrado tão claramente com relação à tomada de alimentos repete-se, em parte, com as excreções. Concluímos que os bebês têm sensações prazerosas no processo de evacuação da urina e das fezes, e que logo conseguem dispor destes atos de maneira que estes lhes tragam a máxima produção de prazer possível, através das correspondentes excitações das zonas erógenas da membrana mucosa. É aqui que, pela primeira vez (conforme sutilmente percebeu Lou Andreas-Salomé [1916]), os bebês se defrontam com o mundo externo como força inibidora, hostil, ao seu desejo de prazer, e têm certa antevisão dos futuros conflitos externos e internos. Um bebê não deve eliminar suas excreções em qualquer momento de sua escolha, e sim quando outras pessoas decidem que deve fazê-lo. Para induzi-lo a renunciar a essas fontes de prazer, é-lhes dito que tudo aquilo que se relaciona com essas funções é vergonhoso e deve ser mantido em segredo. Então, pela primeira vez, a criança é obrigada a trocar o prazer pela respeitabilidade social. No início, sua atitude para com suas excreções é muito diferente. Não sente repugnância por suas fezes, valoriza-as como parte de seu próprio corpo, da qual não se separa facilmente, e usa-as como seu primeiro ‘presente’ com que distingue as pessoas a quem preza de modo especial. Mesmo depois de a educação ter atingido seu objetivo de tornar essas tendências incompatíveis com a criança, esta continua a atribuir elevado valor às fezes, considerando-as ‘presentes’ e ‘dinheiro’. Por outro lado, parece considerar com
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    especial orgulho aproeza de urinar. Sei que, há muito, os senhores estavam esperando para interromper-me e exclamar: ‘Chega de barbaridades! O senhor nos diz que defecar é uma fonte de satisfação sexual explorada já na infância! que as fezes são uma substância valiosa e que o ânus é uma espécie de genital! Absolutamente não acreditamos nisso — mas compreendemos por que os pacientes e educadores se têm mantido à distância da psicanálise e de suas descoberta.’ Não, senhores. Os Senhores simplesmente se esqueceram de que estive procurando apresentar-lhes os fatos da vida sexual infantil em relação aos fatos das perversões sexuais. Por que os senhores não haveriam de se aperceber de que, para um grande número de adultos, tanto homossexuais como heterossexuais, o ânus assume, na relação sexual, o papel de vagina? E que há muitas pessoas que conservam, durante toda a vida, uma voluptuosa sensação ao defecar, e a caracterizam como não sendo nada desprezível? Quanto ao interesse pelo ato de defecar e ao prazer de olhar uma outra pessoa defecando, os senhores podem conseguir que as próprias crianças confirmem o fato quando elas tiverem alguns anos mais de idade, e forem capazes de lhes falar a respeito. Naturalmente, os senhores não deverão tê-las intimidado sistematicamente, de antemão, pois, nesse caso, elas compreenderão muito bem que devem silenciar sobre o assunto. Quando às demais coisas nas quais os senhores tanto desejam não acreditar, remeto-os às descobertas da análise e à observação direta de crianças, e acrescento que realmente é necessário ser ingênuo para não ver tudo isso, ou vê-lo de modo diferente. E não me queixo se os senhores consideram muito surpreendente esta semelhança entre atividade sexual infantil e perversões sexuais. Esta semelhança, contudo, é evidente: se de fato uma criança tem vida sexual, esta não pode ser senão uma vida sexual de tipo pervertido; pois, exceto quanto a alguns detalhes obscuros, as crianças são desprovidas daquilo que transforma a sexualidade em função reprodutiva. Por outro lado, o abandono da função reprodutiva é o aspecto comum de todas as perversões. Realmente consideramos pervertida uma atividade sexual, quando foi abandonando o objetivo da reprodução e permanece a obtenção de prazer, como objetivo independente. Portanto, conforme poderão ver, a brecha e o ponto crítico da evolução da vida sexual situam-se no fato de esta permanecer subordinada aos propósitos da reprodução. Tudo o que acontece antes dessa mudança de rumo, e igualmente tudo o que a despreza, e que visa somente a obter prazer, recebe o nome pouco lisonjeiro de ‘pervertido’, e como tal é proscrito.” “As investigações sexuais das crianças começam muito precocemente, às vezes antes do terceiro ano de vida. Não se referem à distinção entre os sexos, de vez que isto nada significa para as crianças, já que estas (ao menos quanto aos meninos) atribuem a ambos os sexos o mesmo genital masculino. Se, depois, um menino faz a descoberta da vagina ao ver sua irmãzinha ou uma menina, companheira de brinquedos, ele procura, inicialmente, negar a evidência dos seus sentidos, pois não pode imaginar uma criatura humana, como ele próprio, desprovida de uma parte tão preciosa. Mais tarde, amedronta-se com a possibilidade que assim se lhe apresenta; e quaisquer ameaças que lhe tenham sido feitas anteriormente, porque tomou demasiado interesse por seu pequeno órgão, agora produzem um efeito retardado. Cai sob o domínio do complexo de castração, assumindo uma forma que desempenhará um grande papel na construção do seu caráter se permanecer normal, na sua neurose se adoecer, e em suas resistências, se vier a se tratar analiticamente. No que se refere às meninas de tenra idade, podemos dizer que se sentem em grande desvantagem devido à sua falta de um pênis grande, visível, que elas invejam os meninos por estes o possuírem e que, principalmente por este motivo, desenvolvem o desejo de serem homem — desejo que torna a emergir,
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    mais tarde, emtodas as neuroses e que pode surgir se lhes ocorrer algum revés no desempenho do papel feminino. Ademais disso, na infância, o clitóris da menina assume inteiramente o papel de pênis: caracteriza-se por especial excitabilidade e se situa na área em que é obtida a satisfação auto-erótica. O processo pelo qual uma menina se transforma em mulher depende muitíssimo da possibilidade de o clitóris ceder sua sensibilidade ao orifício vaginal, na época oportuna e de forma completa. Nos casos conhecidos como de anestesia sexual das mulheres, o clitóris reteve obstinadamente sua sensibilidade.” Conferência XXII Algumas Idéias sobre Desenvolvimento e Regressão - Etiologia “Ademais, via de regra, a educabilidade de pessoas jovens chega ao fim quando suas necessidades sexuais surgem em toda a sua plenitude. Os educadores sabem disso e agem de acordo; mas as descobertas da psicanálise talvez possam induzi-los a deslocar a impacto principal da educação para os anos da meninice, partindo da infância propriamente dita. A pequena criatura, freqüentemente, já esta completa ao redor do quarto ou quinto ano de vida, e, depois disso, simplesmente revela o que já está dentro de si.” História de uma neurose infantil E outros trabalhos VOLUME XVII (1917-1919) HISTÓRIA DE UMA NEUROSE INFANTIL IX – RECAPITULAÇÃO E PROBLEMAS “O totem, conforme afirmei, era o primeiro substituto do pai e o deus era um substituto posterior, no qual o pai recuperara a sua forma humana. E, em nosso paciente, encontramos a mesma coisa. Em sua fobia do lobo, passara pelo estádio do substituto totêmico do pai; mas, depois, esse estádio se interrompera e, como resultado das novas relações entre ele e o pai, fora substituído por uma fase de devoção religiosa. A influência que provocou essa transformação foi o conhecimento que obteve, por instância de sua mãe, das doutrinas da religião e da história bíblica. Essa medida educativa teve o efeito desejado. A organização sexual sadomasoquista aos poucos chegou ao fim, a fobia do lobo desapareceu rapidamente e, em lugar de a sexualidade ser repudiada com ansiedade, surgiu um método mais elevado de suprimi-la. A devoção tornou-se a força dominante na vida do menino. Essas vitórias, no entanto, não foram conquistadas sem esforços, dos quais seus pensamentos blasfemos eram um indício, e dos quais o estabelecimento de um exagero obsessivo no cerimonial religioso foi o resultado. À parte esses fenômenos patológicos, pode-se dizer que, no presente caso, a religião atingiu todos os objetivos pelos quais é incluída na educação do indivíduo. Restringiu as impulsões sexuais do menino, propiciando-lhes uma sublimação e um ancoradouro
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    seguro; diminuiu aimportância das suas relações familiares e, desse modo, protegeu-o da ameaça do isolamento, dando-lhe acesso à grande comunidade humana. A criança indomada e cheia de medos tornou-se sociável, bem comportada e sensível à educação. A principal força motivadora da influência que a religião exerceu sobre ele era a sua identificação com a figura de Cristo, que se estabeleceu com facilidade devido à coincidência da data de seu nascimento. Ao longo desse caminho, o extravagante amor que tinha pelo pai, que tornara necessária a repressão, encontrou, finalmente, sua forma de sublimação ideal. Como Cristo, podia amar seu pai, que agora se chamava Deus, com um fervor do qual procurara em vão libertar-se enquanto seu pai fora um mortal. O meio pelo qual podia testemunhar esse amor era estabelecido pela religião, sem ser perseguido por aquela sensação de culpa da qual seus sentimentos individuais de amor não conseguiam libertar-se. Assim, era-lhe ainda possível esgotar a sua corrente sexual mais profunda, que já se precipitara na forma de homossexualismo inconsciente; e, ao mesmo tempo, sua impulsão masoquista, mais superficial, encontrou uma sublimação incomparável, sem muita renúncia, na história da Paixão de Cristo, que, por ordem do seu divino Pai e em sua honra, deixara-se maltratar e sacrificar. Foi assim que a religião funcionou nessa criança atormentada — pela combinação, que proporcionava ao crente, de satisfação, de sublimação, de desvio dos processos sensuais para os puramente espirituais e de acesso ao relacionamento social.” Além do princípio de prazer psicologia de grupo e outros trabalhos VOLUME XVIII (1925-1926) DOIS VERBETES DE ENCICLOPÉDIA A PSICANÁLISE “PSICANÁLISE é o nome de (1) um procedimento para a investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo, (2) um método (baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos e (3) uma coleção de informações psicológicas obtidas ao longo dessas linhas, e que gradualmente se acumula numa nova disciplina científica. História — A melhor maneira de compreender a psicanálise ainda é traçar sua origem e evolução. Em 1880 e 1881, o Dr. Josef Breuer, de Viena, médico e fisiologista experimental bem conhecido, ocupava-se do tratamento de uma jovem que caíra enferma de grave histeria enquanto se achava cuidando do pai doente. O quadro clínico era constituído de paralisias motoras, inibições e distúrbios de consciência. Seguindo uma sugestão que lhe fora dada pela própria paciente, pessoa de grande inteligência, ele colocou-a em estado de hipnose e conseguiu que, descrevendo-lhe os estados de ânimo e os pensamentos que eram dominantes em sua mente, retornasse, em cada ocasião específica, a uma condição mental normal. Repetindo sistematicamente o mesmo laborioso processo, conseguiu libertá-la de todas as suas inibições e paralisias, de maneira que, ao final, achou o seu trabalho recompensado por um grande sucesso terapêutico, bem como por uma inesperada compreensão da natureza da enigmática
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    neurose. Não obstante,Breuer absteve-se de acompanhar sua descoberta ou de publicar algo sobre o caso até cerca de 10 anos depois, quando a influência pessoal do presente autor (Freud, que retornara a Viena em 1886, após estudar na escola de Charcot) o persuadiu a retomar o assunto e empenhar-se num estudo conjunto dele. Os dois, Breuer e Freud, publicaram um artigo preliminar em 1893, ‘Sobre o Mecanismo Psíquico dos Fenômenos Histéricos’, e, em 1895, um volume intitulado Estudos sobre a Histeria (que chegou à sua quarta edição em 1922), no qual descreviam seu procedimento terapêutico como ‘catártico’. Catarse. — As investigações existentes na raiz dos estudos de Breuer e Freud conduziram a dois resultados principais, que não foram abalados pela experiência subseqüente: primeiro, que os sintomas histéricos têm sentido e significado, sendo substitutos de atos mentais normais, e, segundo, que a descoberta desse significado desconhecido é acompanhada pela remoção dos sintomas, de modo que, nesse caso, a pesquisa científica e o esforço terapêutico coincidem. As observações foram efetuadas sobre uma série de pacientes tratados da mesma maneira que a primeira paciente de Breuer, ou seja, colocados em estados de hipnose profunda; os resultados pareceram brilhantes até que, posteriormente, seu lado fraco tornou-se evidente. As idéias teóricas apresentadas na ocasião por Breuer e Freud foram influenciadas pelas teorias de Charcot sobre a histeria traumática e puderam apoiar-se nas descobertas de seu aluno Pierre Janet, as quais, embora tenham sido publicadas antes dos ‘Estudos‘, foram na realidade subseqüentes ao primeiro caso de Breuer.” “A Transição para a Psicanálise. — Contrastes entre as conceituações dos dois autores eram visíveis mesmo nos Estudos. Breuer supunha que as idéias patogênicas produziam seu efeito traumático porque surgiam durante ‘estados hipnóides‘, nos quais o funcionamento mental estava sujeito a limitações especiais. O presente autor rejeitou a explicação e inclinou-se para a crença de que uma idéia se tornava patogênica se seu conteúdo estava em oposição com a tendência predominante da vida mental do sujeito, de maneira a incitá-lo a entrar em ‘defesa‘. (Janet atribuía aos pacientes histéricos uma incapacidade constitucional para manter unido o conteúdo de suas mentes e foi neste ponto que seu caminho divergiu do de Breuer e Freud.) Além disso, as duas inovações que levaram o presente autor a afastar-se do método catártico já haviam sido mencionadas nos Estudos. Após o afastamento de Breuer, elas se tornaram o ponto de partida de novos desenvolvimentos. O Abandono da Hipnose. — A primeira dessas inovações baseou-se na experiência prática e levou a uma mudança de técnica. A segunda consistiu num avanço na compreensão clínica das neuroses. Logo mostrou-se que as esperanças terapêuticas, antes depositadas no tratamento catártico da hipnose, achavam-se até certo ponto irrealizadas. Era verdade que o desaparecimento dos sintomas ia de mãos dadas com a catarse, mas o sucesso total revelara ser inteiramente dependente da relação do paciente com o médico e, assim, assemelhava-se ao efeito da ‘sugestão’. Se essa relação era perturbada, todos os sintomas reapareciam, como se nunca houvessem sido dissipados. Além disso, o pequeno número de pessoas que podia ser colocado em profundo estado de hipnose envolvia uma limitação considerável, do ponto de vista médico, da aplicabilidade do procedimento catártico. Por essas razões, o presente autor decidiu abandonar o emprego da hipnose, mas, ao mesmo tempo, as impressões que dela derivara forneceram-lhe os meios de substituí-la.” “A Associação Livre. — O efeito da condição hipnótica sobre o paciente fora aumentar tão grandemente sua capacidade de efetuar associações que ele podia encontrar
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    diretamente o caminho— inacessível à sua reflexão consciente — que conduzia do sintoma aos pensamentos e lembranças a ele vinculados. O abandono da hipnose parecia tornar desesperadora a situação, até que o autor se recordou de uma observação de Bernheim segundo a qual as coisas experimentadas em estado de sonambulismo eram apenas aparentemente esquecidas e podiam ser trazidas à lembrança em qualquer época, se o médico insistisse energicamente em que o paciente as conhecia. O autor, assim, esforçou-se por insistir junto a seus pacientes não hipnotizados que lhe fornecessem suas associações, a fim de que, do material assim fornecido, pudesse achar o caminho que levava ao antes esquecido ou desviado. Observou, posteriormente, que a insistência era desnecessária e que idéias copiosas quase sempre surgiam na mente do paciente, mas eram retidas de serem comunicadas e, até mesmo, de se tornarem conscientes devido a certas objeções colocadas pelo paciente, à sua própria maneira. Era de se esperar — embora isso ainda não estivesse provado e somente depois fosse confirmado por vasta experiência — que tudo o que acontecesse a um paciente, estendendo-se de um ponto de partida específico, deveria também estar em conexão interna com esse ponto de partida; daí surgiu a técnica de ensinar o paciente a abandonar toda a sua atitude crítica e fazer uso do material que era então trazido à luz para o fim de revelar as conexões que estavam sendo buscadas. Uma forte crença na determinação escrita dos fatos mentais certamente desempenhou um papel na escolha dessa técnica como um sucedâneo da hipnose.” “A Psicanálise como Arte Interpretativa. — A nova técnica modificou tão grandemente o quadro do tratamento, situou o médico em uma relação tão nova com o paciente e produziu resultados tão surpreendentes que pareceu justificado diferenciar do método catártico o procedimento, atribuindo-lhe nova denominação. O presente autor deu a esse método de tratamento, que podia agora ser estendido a muitas outras formas de distúrbio neurótico, o nome de psicanálise. Ora, em primeira instância, essa psicanálise era uma arte de interpretação e estabeleceu a si própria a tarefa de levar mais a fundo a primeira das grandes descobertas de Breuer, ou seja, que os sintomas neuróticos são substitutos significantes de outros atos mentais que foram omitidos.” “A Interpretação das Parapraxias e dos Atos Fortuitos. — Constituiu um triunfo para a arte interpretativa da psicanálise conseguir demonstrar que certos atos mentais comuns de pessoas normais, para os quais ninguém havia até então buscado apresentar explicação psicológica, deveriam ser considerados sob o mesmo ângulo que os sintomas dos neuróticos, isto é, que tinham um significado, desconhecido do sujeito, mas capaz de ser facilmente descoberto pelos meios analíticos. Os fenômenos em causa eram eventos como o esquecimento temporário de palavras e nomes familiares e de efetuar tarefas prescritas, lapsos cotidianos de língua e de escrita, leituras erradas, perdas e colocações erradas de objetos, certos erros, exemplos de danos a si próprio aparentemente acidentais e, finalmente, movimentos habituais efetuados aparentemente sem intenção ou brincando, melodias murmuradas ‘sem pensar’ etc. Todos foram despidos de sua explicação fisiológica, se é que alguma fora um dia tentada, demonstrados como estritamente determinados e revelados como expressão de intenções suprimidas do sujeito ou como o resultado de um embate entre duas intenções, uma das quais era permanente ou temporariamente inconsciente.” “A Interpretação de Sonhos. — Uma nova abordagem às profundezas da vida mental inaugurou-se quando a técnica da associação livre foi aplicada aos sonhos, fossem os nossos próprios ou os dos pacientes em análise. Na realidade, a maior e melhor parte do
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    que sabemos dosprocessos nos níveis inconscientes da mente deriva-se da interpretação dos sonhos. A psicanálise restaurou aos sonhos a importância que lhes era geralmente atribuída nos tempos passados, mas os trata de modo diferente. Não se apóia na perícia do intérprete onírico, mas, na maior parte, entrega a tarefa àquele mesmo que sonhou, pedindo-lhe suas associações aos elementos independentes do sonho. Levando essas associações mais além, logramos conhecimento de pensamentos que coincidem inteiramente com o sonho, mas que podem ser identificados — até certo ponto — como partes genuínas e completamente inteligíveis da atividade mental desperta. Assim, o sonho relembrado surge como o conteúdo onírico manifesto, em contraste com os pensamentos oníricos latentes, descobertos pela interpretação. O processo que transformou os últimos no primeiro, isto é, no ‘sonho’, e que é desfeito pelo trabalho da interpretação, pode ser chamado de ‘elaboração onírica‘” “A Significação Etiológica da Vida Sexual. — A segunda novidade que surgiu após a técnica hipnótica ter sido substituída pela associação livre, foi de natureza clínica, havendo sido descoberta no decurso da prolongada busca das experiências traumáticas de que os sintomas histéricos pareciam derivar-se. Quanto mais cuidadosamente a procura era feita, mais extensa parecia ser a rede de impressões etiologicamente significantes, mas retrocedendo, do mesmo modo, iam elas pela puberdade ou infância do paciente. Ao mesmo tempo, assumiam um caráter uniforme e, finalmente, tornou-se inevitável curvar-se perante a evidência e reconhecer que na raiz da formação de todo sintoma deveriam encontrar-se experiências traumáticas do início da vida sexual. Assim, um trauma sexual entrou no lugar de um trauma comum e viu-se que o último devia sua significação etiológica a uma conexão associativa ou simbólica com o primeiro, que o precedera. Uma investigação de casos de nervosismo comum (incidindo nas duas classes da neurastenia e da neurose de angústia) empreendida simultaneamente levou à conclusão de que esses distúrbios podiam ser remontados a abusos contemporâneos na vida sexual dos pacientes e removidos se estes fossem levados a um fim. Assim, foi fácil inferir que as neuroses em geral são expressão de distúrbios na vida sexual, em que as chamadas neuroses atuais são conseqüência (por interferência química) de danos contemporâneos e as psiconeuroses, conseqüência (por modificação psíquica) de danos passados causados a uma função biológica que até então fora gravemente negligenciada pela ciência. Nenhuma das teses da psicanálise defrontou-se com tão tenaz ceticismo ou tão acerba resistência quanto essa assertida da significação preponderantemente etiológica da vida sexual nas neuroses. Deve-se expressamente observar, contudo, que, em sua evolução até os dias de hoje a psicanálise não encontrou razões para retratar-se dessa opinião.” “A Sexualidade Infantil. — Em resultado de suas pesquisas etiológicas, a psicanálise ficou em posição de tratar de um assunto cuja própria existência mal havia sido suspeitada anteriormente. A ciência acostumara-se a considerar a vida sexual como iniciando-se na puberdade e encarava as manifestações de sexualidade em crianças como sinais raros de precocidade anormal e degeneração. Porém, agora, a psicanálise revelara uma opulência de fenômenos (notáveis, no entanto, de ocorrência regular) que tornaram necessário remontar o início da função sexual nas crianças quase ao começo da existência extra-uterina; e perguntou-se, com espanto, como tudo isso podia ter sido desprezado. Os primeiros vislumbres da sexualidade nas crianças haviam, na verdade, sido obtidos através do exame analítico de adultos e estavam conseqüentemente carregados de todas as dúvidas e fontes de erro que podiam ser atribuídas a uma retrospecção tão atrasada; subseqüentemente (de 1908 em diante), contudo, iniciou-se
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    com a análisedas próprias crianças e com a observação desimpedida de seu comportamento; dessa maneira, conseguiu-se confirmação direta para toda a base concreta da nova visão.” “O Desenvolvimento da Libido. — O instinto sexual, a manifestação dinâmica do que, na vida mental, chamamos de ‘libido’, é constituído de instintos componentes nos quais pode novamente desdobrar-se e que só gradualmente se unem em organizações bem definidas. As fontes desses instintos componentes são os órgãos do corpo e, em particular, certas zonas erógenas especialmente acentuadas; no entanto, a libido recebe contribuições de todo processo funcional importante do corpo.” “O Processo de Encontrar um Objeto e o Complexo de Édipo. — (...). Em anos muito precoces da infância (aproximadamente entre as idades de dois e cinco anos) ocorre uma convergência dos impulsos sexuais, da qual, no caso dos meninos, o objeto é a mãe. Essa escolha de um objeto, em conjunção com uma atitude correspondente de rivalidade e hostilidade para com o pai, fornece o conteúdo do que é conhecido como o complexo de Édipo, que em todo ser humano é da maior importância na determinação da forma final de sua vida erótica. Descobriu-se ser característica de um indivíduo normal aprender a dominar seu complexo de Édipo, ao passo que o neurótico permanece envolvido nele.” “O Começo Difásico do Desenvolvimento Sexual. — Aproximando-se o final do quinto ano de idade, esse período inicial da vida sexual normalmente chega ao fim. É sucedido por um período de latência mais ou menos completa, durante o qual as coibições éticas são construídas, para atuar como defesas contra os desejos do complexo de Édipo. No período subseqüente da puberdade esse complexo é revivescido no inconsciente e envolve-se em novas modificações. Somente na puberdade é que os instintos sexuais chegam à sua plena intensidade, mas a direção desse desenvolvimento, bem como todas as predisposições a ele, já foram determinadas pela eflorescência precoce da sexualidade durante a infância que o precedeu. Esse desenvolvimento difásico da função sexual — em duas fases, interrompidas pelo período de latência — parece constituir uma peculiaridade biológia da espécie humana e conter o fator determinante da origem das neuroses.” “A Teoria da Repressão. — Estas considerações teóricas, tomadas conjuntamente com as impressões imediatas derivadas do trabalho analítico, conduzem a uma visão das neuroses que se pode descrever, no mais grosseiro dos esboços, como se segue. As neuroses são expressão de conflitos entre o ego e aqueles impulsos sexuais que parecem ao ego incompatíveis com sua integridade ou com seus padrões éticos. Visto esses impulsos não serem egossintônicos, o ego os reprimiu, isto é, afastou deles seu interesse e impediu-os de se tornarem conscientes, bom como de obterem satisfação através de descarga motora. Se, no curso do trabalho analítico, tentamos tornar conscientes esses impulsos reprimidos, damo-nos conta das forças repressivas sob a forma de resistência. A consecução da repressão, porém, fracassa de modo especialmente fácil no caso dos instintos sexuais. Sua libido represada encontra outras saídas do inconsciente, porque regride a fases anteriores do desenvolvimento e a atitudes anteriores para com os objetos, e em pontos fracos de desenvolvimento libidinal, onde existem fixações infantis, irrompe na consciência e obtém descarga. O que resulta é um sintoma e, conseqüentemente, em sua essência, uma satisfação sexual substitutiva.”
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    “Transferência. — Sehovesse necessidade de outras provas da verdade de que as forças motivadoras por trás da formação de sintomas neuróticos são de natureza sexual, elas seriam encontradas no fato de, no decurso do tratamento analítico, formar-se regularmente entre o paciente e o médico uma relação emocional especial, relação que vai muito além dos limites racionais. Ela varia entre a devoção mais afetuosa e a inimizade mais obstinada e deriva todas as suas características de atitudes eróticas anteriores do paciente, as quais se tornaram inconscientes. Essa transferência, tanto em sua forma positiva quanto negativa, é utilizada como arma pela resistência; porém, nas mãos do médico, transforma-se no mais poderoso instrumento terapêutico e desempenha um papel que dificilmente se pode superestimar na dinâmica do processo de cura.” “As Pedras Angulares da Teoria Psicanalítica. — A pressuposição de existirem processos mentais inconscientes, o reconhecimento da teoria da resistência e repressão, a apreciação da importância da sexualidade e do complexo de Édipo constituem o principal tema da psicanálise e os fundamentos de sua teoria. Aquele que não possa aceitá-los a todos não deve considerar-se a si mesmo como psicanalista.” “História Posterior da Psicanálise. — A psicanálise foi conduzida aproximadamente até aí pelo trabalho do autor deste verbete, que por mais de dez anos foi seu único representante. Em 1906, os psiquiatras suíços Bleuler e C. G. Jung começaram a desempenhar um papel vigoroso na análise; em 1907, uma primeira conferência de seus seguidores realizou-se em Salzburg e a jovem ciência cedo descobriu-se como centro de interesse tanto entre psiquiatras quanto entre leigos. Sua recepção na Alemanha, o país com seu mórbido anseio por autoridade, não foi precisamente meritória para a ciência alemã e levou mesmo um partidário assim tão frio como Bleuler a um enérgico protesto. Contudo, nenhuma condenação ou repúdio em congressos oficiais serviu para deter o crescimento interno ou a expansão externa da psicanálise.” “Entre 1911 e 1913 dois movimentos de divergência da psicanálise se efetuaram, evidentemente com o objetivo de atenuar suas feições repelentes. Um deles (patrocinado por C.G. Jung), num esforço por conformar-se aos padrões éticos, desvestiu o complexo de Édipo de sua significação real, concedendo-lhe apenas um valor simbólico e, na prática, desprezou a revelação do período infantil esquecido e, como podemos chamá- lo, ‘pré-histórico’. O outro (originado por Alfred Adler em Viena) reproduziu muitos fatores da psicanálise sob outros nomes; a repressão, por exemplo, aparecia numa versão sexualizada como ‘protesto masculino’. Sob outros aspectos, porém, o movimento afastou-se do inconsciente e dos instintos sexuais e esforçou-se por remontar a origem do desenvolvimento do caráter e das neuroses à ‘vontade de poder’, a qual, por meio de uma supercompensação, esforça-se por contrabalançar os perigos que surgem da ‘inferioridade de órgão’. Nenhum desses movimentos, com suas estruturas sistemáticas, teve qualquer influência permanente sobre a psicanálise. No caso das teorias de Adler, logo ficou claro que pouco tinham em comum com a psicanálise, a qual se destinavam a substituir.” “Narcisismo. — O mais importante progresso teórico foi certamente a aplicação da teoria da libido ao ego repressor. O próprio ego veio a ser encarado como um reservatório do que foi descrito como libido narcísica, do qual as catexias libidinais dos objetos fluíam e para o qual podiam ser novamente retiradas. Com a ajuda dessa
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    concepção tornou-se possívelempenhar-se na análise do ego e efetuar uma distinção clínica das psiconeuroses em neuroses de transferência e distúrbios narcísicos. Nas primeiras (histeria e neurose obsessiva), o sujeito tem à sua disposição uma quantidade de libido que se esforça por ser transferida para objetos externos, fazendo-se uso disso para levar a cabo o tratamento analítico; por outro lado, os distúrbios narcísicos (demência precoce, paranóia, melancolia) caracterizam-se por uma retirada da libido dos objetos e, assim, raramente são acessíveis à terapia analítica. Sua inacessibilidade terapêutica, contudo, não impediu a análise de efetuar os mais fecundos começos do estudo mais profundo dessas moléstias, que se contam entre as psicoses.” “Desenvolvimento da Técnica. — Após a curiosidade do analista ter sido, por assim dizer, gratificada pela elaboração da técnica da interpretação, era inevitável que o interesse se voltasse para o problema de descobrir a maneira mais eficaz de influenciar o paciente. Logo tornou-se evidente que a tarefa imediata do médico era assistir o paciente e vir a conhecer — e, posteriormente, sobrepujar — as resistências que nele surgiam durante o tratamento e das quais, inicialmente, ele próprio não estava consciente. E ao mesmo tempo descobriu-se que a parte essencial do processo de cura residia no sobrepujamento dessas resistências e que, a menos que isso fosse conseguido, nenhuma modificação mental permanente poderia ser efetuada no paciente. Visto os esforços do analista dirigirem-se dessa maneira para a resistência do paciente, a técnica analítica atingiu uma certeza e uma delicadeza que rivalizam com as da cirurgia. Conseqüentemente, todos são energicamente advertidos contra o empreendimento de tratamentos psicanalíticos sem uma formação estrita, e um médico que neles se aventure baseado em sua qualificação médica não é, sob qualquer aspecto, melhor que um leigo.” “A Psicanálise como Processo Terapêutico. — A psicanálise nunca se apresentou como uma panacéia e jamais reivindicou realizar milagres. Em uma das mais difíceis esferas da atividade médica, ela constitui o único método possível de tratamento para certas enfermidades e, para outras, é o método que rende os melhores ou os mais permanentes resultados, embora nunca sem um dispêndio correspondente de tempo e de trabalho. Um médico que não esteja inteiramente absorvido pelo trabalho de dar auxílio descobrirá seus sacrifícios amplamente recompensados pela consecução de uma compreensão inesperada das complicações da vida mental e das inter-relações entre o mental e o físico. Onde atualmente ela não pode oferecer ajuda, senão apenas compreensão teórica, pode talvez estar preparando o caminho para algum meio posterior e mais direto de influenciar os distúrbios neuróticos. Sua província é, acima de tudo, as duas neuroses de transferência, a histeria e a neurose obsessiva, onde contribuiu para a descoberta de sua estrutura interna e mecanismos operativos, e, além delas, todas as espécies de fobias, inibições, deformidades de caráter, perversões sexuais e dificuldades da vida erótica.” “Comparação entre a Psicanálise e os Métodos Hipnótico e Sugestivo. — O procedimento psicanalítico difere de todos os métodos que fazem uso da sugestão, persuasão, etc., pelo fato de não procurar suprimir através da autoridade qualquer fenômeno mental que possa ocorrer no paciente. Esforça-se por traçar a causação de fenômeno e removê-la pelo ocasionamento de uma modificação permanente nas condições que levaram a ele. Na psicanálise, a influência sugestiva que é inevitavelmente exercida pelo médico, desvia-se para a missão atribuída ao paciente de sobrepujar suas resistências, isto é, de levar avante o processo curativo. Qualquer perigo de falsificar os produtos da memória de um paciente pela sugestão pode ser evitado pelo
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    manejo prudente datécnica; mas, em geral, o despertar das resistências constitui uma garantia contra os efeitos enganadores da influência sugestiva. Pode-se estabelecer que o objetivo do tratamento é remover as resistências do paciente e passar em revista suas repressões, ocasionando assim a unificação e o fortalecimento de mais longo alcance de seu ego, capacitando-o a poupar a energia mental que está despendendo em conflitos internos, obtendo do paciente o melhor que suas capacidades herdadas permitam, e tornando-o assim tão eficiente e capaz de gozo quanto é possível. Não se visa especificamente à remoção dos sintomas da doença, contudo ela é conseguida, por assim dizer, como um subproduto, se a análise for corretamente efetuada. O analista respeita a individualidade do paciente e não procura remoldá-lo de acordo com suas próprias idéias pessoais, isto é, as do médico; contenta-se com evitar dar conselhos e, em vez disso, com despertar o poder de iniciativa do paciente.” “Sua Relação com a Psiquiatria. — A psiquiatria é na atualidade essencialmente uma ciência descritiva e classificatória cuja orientação ainda é no sentido do somático, de preferência ao psicológico, e que se acha sem possibilidades de fornecer explicações aos fenômenos que observa. A psicanálise, contudo, não se coloca em oposição a ela, como o comportamento quase unânime dos psiquiatras poderia levar-nos a acreditar. Pelo contrário, como uma psicologia profunda, uma psicologia daqueles processos da vida mental que são retirados da consciência, ela é convocada a dar à psiquiatria um fundamento indispensável e a libertá-la de suas atuais limitações. Podemos prever que futuro dará origem a uma psiquiatria científica, à qual a psicanálise serviu de introdução.” “Críticas e Más Interpretações da Psicanálise. — A maioria do que é apresentado contra a psicanálise, mesmo em obras científicas, baseia-se em informações insuficientes que, por sua vez, parecem ser determinadas por resistências emocionais. Assim, é um equívoco acusar a psicanálise de ‘pansexualismo’ e alegar que ela deriva da sexualidade todas as ocorrências mentais e as remonta todas àquela. Ao contrário, a psicanálise desde o início distinguiu os instintos sexuais de outros, que provisoriamente denominou de ‘instintos do ego’. Ela jamais sonhou tentar explicar ‘tudo’, e mesmo das neuroses, remontou sua origem não somente à sexualidade, mas ao conflito entre os impulsos sexuais e o ego. Na psicanálise (diferentemente das obras de C.G. Jung), o termo ‘libido‘ não significa energia psíquica em geral, mas sim a força motivadora dos instintos sexuais. Algumas assertivas, como a de que todo sonho é a realização de um desejo sexual, nunca, em absoluto, foram sustentadas por ela. A acusação de unilateralidade feita contra a psicanálise, que, como a ciência da mente inconsciente, tem seu próprio campo de trabalho definido e restrito, é-lhe tão inaplicável quanto seria se houvesse sido feita contra a química. Acreditar que a psicanálise busca a cura dos distúrbios neuróticos dando rédea livre à sexualidade é uma grave má interpretação que só pode ser desculpada pela ignorância. A tomada de consciência dos desejos sexuais reprimidos na análise, ao contrário, torna possível obter sobre eles um domínio que a repressão anterior fora incapaz de conseguir. Pode-se com mais verdade dizer que a análise libera o neurótico das cadeias de sua sexualidade. Ademais, é inteiramente anticientífico julgar a análise como calculada para solapar a religião, a autoridade e a moral, porque, como todas as ciências, ela é inteiramente não tendenciosa e possui um único objetivo, ou seja, chegar a uma visão harmônica de uma parte da realidade. Finalmente, só se pode caracterizar como simplório o temor às vezes expresso de que todos os mais elevados bens da humanidade, como são chamados — a pesquisa, a arte, o amor, o senso ético e social — perderão seu valor ou sua dignidade porque a
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    psicanálise se encontraem posição de demonstrar sua origem em impulsos instintuais elementares e animais.” A TEORIA DA LIBIDO “Reconhecimento de Duas Classes de Instintos na Vida Mental. — Embora a psicanálise via de regra se esforce por desenvolver suas teorias tão independentemente quanto possível das outras ciências, é contudo obrigada a procurar uma base para a teoria dos instintos na biologia. Com fundamento em uma consideração de longo alcance dos processos que empreendem construir a vida e que conduzem à morte, torna- se provável que devamos reconhecer a existência de duas classes de instintos, correspondentes aos processos contrários de construção e dissolução no organismo. Segundo esse ponto de vista, um dos conjuntos de instintos, que trabalham essencialmente em silêncio, seriam aqueles, cujo objetivo é conduzir a criatura viva à morte e, assim, merecem ser chamados de ‘instintos de morte‘; dirigir-se-iam para fora como resultado da combinação de grande número de organismos elementares unicelulares e se manifestariam como impulsos destrutivos ou agressivos. O outro conjunto de instintos seria o daqueles que nos são mais bem conhecidos na análise: os instintos libidinais, sexuais ou instintos de vida, que são mais bem abrangidos pelo nome de Eros; seu intuito seria constituir a substância viva em unidades cada vez maiores, de maneira que a vida possa ser prolongada e conduzida a uma evolução mais alta. Os instintos eróticos e os instintos de morte estariam presentes nos seres vivos em misturas ou fusões regulares, mas ‘desfusões’ também estariam sujeitas a ocorrer. A vida consistiria nas manifestações do conflito ou na interação entre as duas classes de instintos; a morte significaria para o indivíduo a vitória dos instintos destrutivos, mas a reprodução representaria para ele a vitória de Eros.” “A Natureza dos Instintos. — Essa visão nos permitiria caracterizar os instintos como tendências inerentes à substância viva no sentido da restauração de um estado anterior de coisas, isto é, seriam historicamente determinados, de natureza conservadora e, por assim dizer, expressão de uma inércia ou elasticidade presente no que é orgânico. Ambas as classes de instintos, tanto Eros quanto o instinto de morte, segundo este ponto de vista, teriam estado operando e trabalhando um contra o outro desde a primeira origem da vida.” ALÉM DO PRINCÍPIO DE PRAZER III “Vinte e cinco anos de intenso trabalho tiveram por resultado que os objetivos imediatos da psicanálise sejam hoje inteiramente diferentes do que eram no começo. A princípio,
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    o médico queanalisava não podia fazer mais do que descobrir o material inconsciente oculto para o paciente, reuni-lo e no momento oportuno comunicá-lo a este. A psicanálise era então, primeiro e acima de tudo, uma arte interpretativa. Uma vez que isso não solucionava o problema terapêutico, um outro objetivo rapidamente surgiu à vista: obrigar o paciente a confirmar a construção teórica do analista com sua própria memória. Nesse esforço, a ênfase principal reside nas resistências do paciente: a arte consistia então em descobri-las tão rapidamente quanto possível, apontando-as ao paciente e induzindo-o, pela influência humana — era aqui que a sugestão, funcionando como ‘transferência’, desempenhava seu papel —, a abandonar suas resistências. Contudo, tornou-se cada vez mais claro que o objetivo que fora estabelecido — que o inconsciente deve tornar-se consciente — não era completamente atingível através desse método. O paciente não pode recordar a totalidade do que nele se acha reprimido, e o que não lhe é possível recordar pode ser exatamente a parte essencial. Dessa maneira, ele não adquire nenhum sentimento de convicção da correção da construção teórica que lhe foi comunicada. É obrigado a repetir o material reprimido como se fosse uma experiência contemporânea, em vez de, como o médico preferiria ver, recordá-lo como algo pertencente ao passado. Essas reproduções, que surgem com tal exatidão indesejada, sempre têm como tema alguma parte da vida sexual infantil, isto é, do complexo de Édipo, e de seus derivativos, e são invariavelmente atuadas (acted out) na esfera da transferência, da relação do paciente com o médico. Quando as coisas atingem essa etapa, pode-se dizer que a neurose primitiva foi então substituída por outra nova, pela ‘neurose de transferência’. O médico empenha-se por manter essa neurose de transferência dentro dos limites mais restritos; forçar tanto quanto possível o canal da memória, e permitir que surja como repetição o mínimo possível. A proporção entre o que é lembrado e o que é reproduzido varia de caso para caso. O médico não pode, via de regra, poupar ao paciente essa face do tratamento. Deve fazê-lo reexperimentar alguma parte de sua vida esquecida, mas deve também cuidar, por outro lado, que o paciente retenha certo grau de alheamento, que lhe permitirá, a despeito de tudo, reconhecer que aquilo que parece ser realidade é, na verdade, apenas reflexo de um passado esquecido. Se isso puder ser conseguido com êxito, o sentimento de convicção do paciente será conquistado, juntamente com o sucesso terapêutico que dele depende.” IV “Contudo, temos mais a dizer sobre a vesícula viva, com sua camada cortical receptiva. Esse pequeno fragmento de substância viva acha-se suspenso no meio de um mundo externo carregado com as mais poderosas energias, e seria morto pela estimulação delas emanadas, se não dispusesse de um escudo protetor contra os estímulos. Ele adquire esse escudo da seguinte maneira: sua superfície mais externa deixa de ter a estrutura apropriada à matéria viva, torna-se até certo ponto inorgânica e, daí por diante, funciona como um envoltório ou membrana especial, resistente aos estímulos. Em conseqüência disso, as energias do mundo externo só podem passar para as camadas subjacentes seguintes, que permaneceram vivas, com um fragmento de sua intensidade original, e essas camadas podem dedicar-se, por trás do escudo protetor, à recepção das quantidades de estímulo que este deixou passar. Através de sua morte a camada exterior salvou todas as camadas mais profundas de um destino semelhante, a menos que os estímulos que a atinjam sejam tão fortes que atravessem o escudo protetor. A proteção contra os estímulos é, para os organismos vivos, uma função quase mais importante do que a recepção deles. O escudo protetor é suprido com seu próprio estoque de energia e deve, acima de tudo, esforçar-se por preservar os modos especiais de transformação de
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    energia que neleoperam, contra os efeitos ameaçadores das enormes energias em ação no mundo externo, efeitos que tendem para o nivelamento deles e, assim, para a destruição. O principal intuito da recepção de estímulos é descobrir a direção e a natureza dos estímulos externos; para isso, é suficiente apanhar pequenos espécimes do mundo externo, para classificá-lo em pequenas quantidades. Nos organismos altamente desenvolvidos, a camada cortical receptiva da antiga vesícula há muito tempo já se retirou para as profundezas do corpo, embora partes dela tenham sido deixadas sobre a superfície, imediatamente abaixo do escudo geral contra os estímulos. Essas partes são os órgãos dos sentidos, que consistem essencialmente em aparelhos para a recepção de certos efeitos específicos de estimulação, mas que também incluem disposições especiais para maior proteção contra quantidades excessivas de estimulação e para a exclusão de tipos inapropriados de estímulos. É característico deles tratarem apenas com quantidades muito pequenas de estimulação externa e apenas apanharem amostras do mundo externo. Podem ser talvez comparados a tentáculos que estão sempre efetuando avanços experimentais no sentido do mundo externo, e então retirando-se dele. (...). Indicamos como a vesícula viva está provida de um escudo contra os estímulos provenientes do mundo externo e mostramos anteriormente que a camada cortical seguinte a esse escudo deve ser diferenciada como um órgão para a recepção de estímulos do exterior. Esse córtex sensitivo, contudo, que posteriormente deve tornar-se o sistema Cs., também recebe excitações desde o interior. A situação do sistema, entre o exterior e o interior, e a diferença entre as condições que regem a recepção de excitações nos dois casos, têm um efeito decisivo sobre o funcionamento do sistema e de todo o aparelho mental. No sentido do exterior, acha-se resguardado contra os estímulos, e as quantidades de excitação que sobre ele incidem possuem apenas efeito reduzido. No sentido do interior, não pode haver esse escudo; as excitações das camadas mais profundas estendem-se para o sistema diretamente e em quantidade não reduzida, até onde algumas de suas características dão origem a sentimentos da série prazer- desprazer. As excitações que provêm de dentro, entretanto, em sua intensidade e em outros aspectos qualitativos — em sua amplitude, talvez —, são mais comensuradas com o método de funcionamento do sistema do que os estímulos que afluem desde o mundo externo. Esse estado de coisas produz dois resultados definidos. Primeiramente, os sentimentos de prazer e desprazer (que constituem um índice do que está acontecendo no interior do aparelho) predominam sobre todos os estímulos externos. Em segundo lugar, é adotada uma maneira específica de lidar com quaisquer excitações internas que produzam um aumento demasiado grande de desprazer; há uma tendência a tratá-las como se atuassem, não de dentro, mas de fora, de maneira que seja possível colocar o escudo contra estímulos em operação, como meio de defesa contra elas. É essa a origem da projeção, destinada a desempenhar um papel tão grande na causação dos processos patológicos. (...). Descrevemos como ‘traumáticas’ quaisquer excitações provindas de fora que sejam suficientemente poderosas para atravessar o escudo protetor. Parece-me que o conceito de trauma implica necessariamente uma conexão desse tipo com uma ruptura numa barreira sob outros aspectos eficazes contra os estímulos. Um acontecimento como um trauma externo está destinado a provocar um distúrbio em grande escala no funcionamento da energia do organismo e a colocar em movimento todas as medidas defensivas possíveis. Ao mesmo tempo, o princípio de prazer é momentaneamente posto fora de ação. Não há mais possibilidade de impedir que o aparelho mental seja inundado com grandes quantidades de estímulos; em vez disso, outro problema surge, o problema de dominar as quantidades de estímulo que irromperam, e de vinculá-las no sentido psíquico, a fim de que delas se possa então desvencilhar.
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    O desprazer específicodo sofrimento físico provavelmente resulta de que o escudo protetor tenha sido atravessado numa área limitada. Dá-se então um fluxo contínuo de excitações desde a parte da periferia relacionada até o aparelho central da mente, tal como normalmente surgiria apenas desde o interior do aparelho.” V “O fato de a camada cortical que recebe os estímulos achar-se sem qualquer escudo protetor contra as excitações provindas do interior deve ter como resultado que essas últimas transmissões de estímulos possuam uma preponderância em importância econômica e amiúde ocasionem distúrbios econômicos comparáveis às neuroses traumáticas. As mais abundantes fontes dessa excitação interna são aquilo que é descrito como os ‘instintos’ do organismo, os representantes de todas as forças que se originam no interior do corpo e são transmitidas ao aparelho mental, desde logo o elemento mais importante e obscuro da pesquisa psicológica. Não se pensará que é precipitado demais supor que os impulsos que surgem dos instintos não pertencem ao tipo dos processos nervosos vinculados, mas sim ao de processos livremente móveis, que pressionam no sentido da descarga. A maior parte do que sabemos desses processos deriva de nosso estudo sobre a elaboração onírica. Nela descobrimos que os processos dos sistemas inconscientes eram fundamentalmente diferentes dos existentes nos sistemas pré-conscientes (ou conscientes). No inconsciente, as catexias podem com facilidade ser completamente transferidas, deslocadas e condensadas. Tal tratamento, no entanto, produziria apenas resultados não- válidos se fosse aplicado ao material pré-consciente, e isso explica as familiares peculiaridades apresentadas pelos sonhos manifestos depois que os resíduos pré- conscientes do dia anterior foram elaborados de acordo com as leis que operam no inconsciente. Descrevi o tipo de processo encontrado no inconsciente como sendo o processo psíquico ‘primário’, em contraposição com o processo ‘secundário’, que é o que impera em nossa vida de vigília normal. Visto que todos os impulsos instintuais têm os sistemas inconscientes como seu ponto de impacto, quase não constitui novidade dizer que eles obedecem ao processo primário.” “Parece, então que um instinto é um impulso, inerente à vida orgânica, a restaurar um estado anterior de coisas, impulso que a entidade viva foi obrigada a abandonar sob a pressão de forças perturbadoras externas, ou seja, é uma espécie de elasticidade orgânica, ou, para dizê-lo de outro modo, a expressão da inércia inerente à vida orgânica. Essa visão dos instintos nos impressiona como estranha porque nos acostumamos a ver neles um fator impelidor no sentido da mudança e do desenvolvimento, ao passo que agora nos pedem para reconhecer neles o exato oposto, isto é, uma expressão da natureza conservadora da substância viva.” “Apresentar-se-nos-á a plausível objeção de que bem pode ser que, além dos instintos de conservação que impelem à repetição, poderão existir outros que impulsionam no sentido do progresso e da produção de nova formas. Esse argumento decerto não deve ser desprezado e será levado em conta numa etapa posterior. No momento, porém, é tentador perseguir até sua conclusão lógica a hipótese de que todos os instintos tendem à restauração de um estado anterior de coisas. O resultado talvez dê a impressão de misticismo ou de falsa profundidade, mas podemos sentir-nos inocentes de ter quaisquer desses propósitos em vista. Buscamos apenas os sóbrios resultados da pesquisa ou da
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    reflexão nela baseada,e não temos desejo algum de encontrar neles qualquer outra qualidade que não seja a certeza. Suponhamos, então, que todos os instintos orgânicos são conservadores, que são adquiridos historicamente, e que tendem à restauração de um estado anterior de coisas. Disso decorre que os fenômenos do desenvolvimento orgânico devem ser atribuídos a influências perturbadoras e desviadoras externas. A entidade viva elementar, desde seu início, não teria desejo de mudar; se as condições permanecessem as mesmas, não faria mais do que constantemente repetir o mesmo curso de vida. Em última instância, o que deixou sua marca sobre o desenvolvimento dos organismos deve ter sido a história da Terra em que vivemos e de sua relação com o Sol. Toda modificação, assim imposta ao curso da vida do organismo, é aceita pelos instintos orgânicos conservadores e armazenada para ulterior repetição. Esses instintos, portanto, estão fadados a dar uma aparência enganadora de serem forças tendentes à mudança e ao progresso, ao passo que, de fato, estão apenas buscando alcançar um antigo objetivo por caminhos tanto velhos quanto novos. Ademais, é possível especificar esse objetivo final de todo o esforço orgânico. Estaria em contradição à natureza conservadora dos instintos que o objetivo da vida fosse um estado de coisas que jamais houvesse sido atingido. Pelo contrário, ele deve ser um estado de coisas antigo, um estado inicial de que a entidade viva, numa ou noutra ocasião, se afastou e ao qual se esforça por retornar através dos tortuosos caminhos ao longo dos quais seu desenvolvimento conduz. Se tomarmos como verdade que não conhece exceção o fato de tudo o que vive morrer por razões internas, tornar-se mais uma vez inorgânico, seremos então compelidos a dizer que ‘o objetivo de toda vida é a morte‘, e, voltando o olhar para trás, que ‘as coisas inanimadas existiram antes das vivas‘.” “Os atributos da vida foram, em determinada ocasião, evocados na matéria inanimada pela ação de uma força de cuja natureza não podemos formar concepção. Pode ter sido um processo de tipo semelhante ao que posteriormente provocou o desenvolvimento da consciência num estrato particular da matéria viva. A tensão que então surgiu no que até aí fora uma substância inanimada se esforçou por neutralizar-se e, dessa maneira, surgiu o primeiro instinto: o instinto a retornar ao estado inanimado. Naquela época, era ainda coisa fácil a uma substância viva morrer; o curso de sua vida era provavelmente breve determinando-se sua direção pela estrutura química da jovem vida. Assim, por longo tempo talvez, a substância viva esteve sendo constantemente criada de novo e morrendo facilmente, até que influências externas decisivas se alteraram de maneira a obrigar a substância ainda sobrevivente a divergir mais amplamente de seu original curso de vida e a efetuar détours mais complicados antes de atingir seu objetivo de morte. Esses tortuosos caminhos para a morte, fielmente seguidos pelos instintos de conservação, nos apresentariam hoje, portanto, o quadro dos fenômenos da vida. Se sustentarmos com firmeza a natureza exclusivamente conservadora dos instintos, não poderemos chegar a nenhuma outra noção quanto à origem e ao objetivo da vida. As implicações referentes aos grandes grupos de instintos que, segundo acreditamos, jazem por trás dos fenômenos da vida nos organismos, devem parecer não menos desnorteantes. A hipótese de instintos de autoconservação, tais como os atribuímos a todos os seres vivos, alteia-se em acentuada oposição à idéia de que a vida instintual, como um todo, sirva para ocasionar a morte. Vista sob essa luz, a importância teórica dos instintos de autoconservação, auto-afirmação e domínio diminui grandemente. Trata-se de instintos componentes cuja função é garantir que o organismo seguirá seu próprio caminho para a morte, e afastar todos os modos possíveis de retornar à existência inorgânica que não sejam os imanentes ao próprio organismo. Não
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    temos mais delevar em conta a enigmática determinação do organismo (tão difícil de encaixar em qualquer contexto) de manter sua própria existência frente a qualquer obstáculo. O que nos resta é o fato de que o organismo deseja morrer apenas do seu próprio modo. Assim, originalmente, esses guardiães da vida eram também os lacaios da morte. Daí surgir a situação paradoxal de que o organismo vivo luta com toda a sua energia contra fatos (perigos, na verdade) que poderiam auxiliá-lo a atingir mais rapidamente seu objetivo de vida, por uma espécie de curto-circuito. Tal comportamento, entretanto, é precisamente o que caracteriza os esforços puramente instintuais, contrastados com os esforços inteligentes.” “A pressão externa que provoca uma ampliação constantemente crescente do desenvolvimento não se impôs a todos os organismos. Muitos conseguiram permanecer até os dias de hoje em seu nível humilde. Na verdade, muitas — embora não todas — dessas criaturas, que devem assemelhar-se às fases primitivas dos animais e vegetais superiores, ainda hoje acham-se vivas. Da mesma maneira, a totalidade do caminho do desenvolvimento para a morte natural não é percorrido por todas as entidades elementares que compõem o complicado corpo de um dos organismos mais elevados. Algumas delas, as células germinais, provavelmente retêm a estrutura original da matéria viva e, após certo tempo, com todo o seu complemento de disposições instintuais herdadas e recentemente adquiridas, separam-se do organismo como um todo. Essas duas características podem ser exatamente aquilo que as capacita a ter uma existência independente. Sob condições favoráveis, começam a desenvolver-se, isto é, a repetir o desempenho a que devem sua existência, e, ao final, mais uma vez uma parte de sua substância leva sua evolução a um término, ao passo que outra parte reverte novamente, como um germe residual novo, ao início do processo de desenvolvimento. Essas células germinais, portanto, trabalham contra a morte da substância viva e têm êxito em conseguir para ela o que só podemos encarar como uma imortalidade potencial, ainda que isso possa significar nada mais do que um alongamento da estrada para a morte. Temos de considerar como significante, no mais elevado grau, o fato de essa função da célula germinal ser reforçada, ou só tornada possível, se ela fundir-se com outra célula similar a si mesma e, contudo, diferente dela. Os instintos que cuidam dos destinos desses organismos elementares que sobrevivem à totalidade do indivíduo, que lhes fornecem um abrigo seguro enquanto se acham indefesos contra os estímulos do mundo externo, que ocasionam seu encontro com outras células germinais etc., constituem o grupo dos instintos sexuais. São conservadores no mesmo sentido dos outros instintos porque trazem de volta estados anteriores de substância viva; contudo, são conservadores num grau mais alto, por serem peculiarmente resistentes às influências externas; e são conservadores ainda em outro sentido, por preservarem a própria vida por um longo período. São os verdadeiros instintos de vida. Operam contra o propósito dos outros instintos, que conduzem, em razão de sua função, à morte, e este fato indica que existe oposição entre eles e os outros, oposição que foi há muito tempo reconhecida pela teoria das neuroses. É como se a vida do organismo se movimentasse num ritmo vacilante. Certo grupo de instintos se precipita como que para atingir o objetivo final da vida tão rapidamente quanto possível, mas, quando determinada etapa no avanço foi alcançada, o outro grupo atira-se para trás até um certo ponto, a fim de efetuar nova saída e prolongar assim a jornada. E ainda que seja certo que a sexualidade e a distinção entre os sexos não existiam quando a vida começou, permanece a possibilidade de que os instintos que posteriormente vieram a ser descritos como sexuais, possam ter estado em funcionamento desde o
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    início, e talveznão seja verdade que foi apenas em época posterior que eles começaram seu trabalho de oposição às atividades dos ‘instintos do ego’.” “Pode também ser difícil, para muitos de nós, abandonar a crença de que existe em ação nos seres humanos um instinto para a perfeição, instinto que os trouxe a seu atual alto nível de realização intelectual e sublimação ética, e do qual se pode esperar que zele pelo seu desenvolvimento em super-homens. Não tenho fé, contudo, na existência de tal instinto interno e não posso perceber por que essa ilusão benévola deva ser conservada. A evolução atual dos seres humanos não exige, segundo me parece, uma explicação diferente da dos animais. Aquilo que, numa minoria de indivíduos humanos, parece ser um impulso incansável no sentido de maior perfeição, pode ser facilmente compreendido como resultado da repressão instintual em que se baseia tudo o que é mais precioso na civilização humana. O instinto reprimido nunca deixa de esforçar-se em busca da satisfação completa, que consistiria na repetição de uma experiência primária de satisfação. Formações reativas e substitutivas, bem como sublimações, não bastarão para remover a tensão persistente do instinto reprimido, sendo que a diferença de quantidade entre o prazer da satisfação que é exigida e a que é realmente conseguida, é que fornece o fator impulsionador que não permite qualquer parada em nenhuma das posições alcançadas, mas, nas palavras do poeta, ‘ungebändigt immer vorwärts dringt‘. O caminho para trás que conduz à satisfação completa acha-se, via de regra, obstruído pelas resistências que mantêm as repressões, de maneira que não há alternativa senão avançar na direção em que o crescimento ainda se acha livre, embora sem perspectiva de levar o processo a uma conclusão ou de ser capaz de atingir o objetivo. Os processos envolvidos na formação de uma fobia neurótica, que nada mais é do que uma tentativa de fuga da satisfação de um instinto, apresentam-nos um modelo do modo de origem desse suposto ‘instinto para a perfeição’, o qual não tem possibilidades de ser atribuído a todos os seres humanos. Na verdade, as condições dinâmicas para o seu desenvolvimento estão universalmente presentes, mas apenas em raros casos a situação econômica parece favorecer a produção do fenômeno.” VI “A essência de nossa investigação até agora foi o traçado de uma distinção nítida entre os ‘instintos do ego’ e os instintos sexuais, e a visão de que os primeiros exercem pressão no sentido da morte e os últimos no sentido de um prolongamento da vida. Contudo, essa conclusão está fadada a ser insatisfatória sob muitos aspectos, mesmo para nós. Ademais, na realidade, é apenas quanto ao primeiro grupo de instintos que podemos afirmar que possuem caráter conservador, ou melhor, retrógrado, correspondente a uma compulsão à repetição, porque, em nossa hipótese, os instintos do ego se originam da animação da matéria inanimada e procuram restaurar o estado inanimado, ao passo que, quanto aos instintos sexuais, embora seja verdade que reproduzem estados primitivos do organismo, aquilo a que claramente visam, por todos os meios possíveis, é à coalescência de duas células germinais que são diferenciadas de maneira particular. Se essa união não é efetuada, a célula germinal morre juntamente com todos os outros elementos do organismo multicelular. É apenas com essa condição que a função sexual pode prolongar a vida da célula e emprestar-lhe uma aparência de imortalidade.” “De nosso ponto de vista, o maior interesse prende-se ao tratamento dado ao tema da duração da vida e da morte dos organismos nos escritos de Weismann (1882, 1884,
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    1892 etc.). Foiele que introduziu a divisão da substância viva em partes mortais e imortais. A parte mortal é o corpo no sentido mais estrito, o ‘soma’, que, somente ele, se acha sujeito à morte natural. As células germinais, por outro lado, são potencialmente imortais, na medida em que são capazes, em determinadas condições, de desenvolver-se no indivíduo novo ou, em outras palavras, de cercar-se de um novo soma (Weismann, 1884). O que nos impressiona nisso é a inesperada analogia com nosso próprio ponto de vista, ao qual chegamos ao longo de caminho tão diferente. Weismann, encarando morfologicamente a substância viva, enxerga nela uma parte que está destinada a morrer — o soma, o corpo separado da substância relacionada com o sexo e a herança —, e uma parte imortal — o plasma germinal, que se relaciona com a sobrevivência da espécie, com a reprodução. Nós, por outro lado, lidando não com a substância viva, mas com as forças que nela operam, fomos levados a distinguir duas espécies de instintos: aqueles que procuram conduzir o que é vivo à morte, e os outros, os instintos sexuais, que estão perpetuamente tentando e conseguindo uma renovação da vida, o que soa como um corolário dinâmico à teoria morfológica de Weismann. Contudo, a aparência de uma correspondência significante se dissipa tão logo descobrimos as concepções de Weismann sobre o problema da morte, porque ele só relaciona a distinção entre o soma mortal e o plasma germinal imortal aos organismos multicelulares; nos organismos unicelulares, o indivíduo e a célula reprodutora são ainda um só e o mesmo (Weismann, 1882, 38). Desse modo, considera que os organismos unicelulares são potencialmente imortais e que a morte só faz seu aparecimento com os metazoários multicelulares. É verdade que essa morte dos organismos mais elevados é natural, uma morte provocada por causas internas, mas não se funda em nenhuma característica primitiva da substância viva (Weismann, 1884, 84) e não pode ser encarada como uma necessidade absoluta, com base na própria natureza da vida (Weismann, 1882, 33). A morte é antes uma questão de conveniência, uma manifestação de adaptação às condições externas da vida, porque, uma vez as células do corpo tenham sido divididas em soma e plasma germinal, uma duração ilimitada da vida individual se tornaria um luxo inteiramente sem sentido. Feita essa diferenciação nos organismos multicelulares, a morte torna-se possível e conveniente. Desde então, o soma dos organismos superiores morreu a períodos fixos por razões internas, ao passo que os protistas permaneceram imortais. Não é o caso, por outro lado, de a reprodução ter sido introduzida ao mesmo tempo que a morte. Pelo contrário, trata-se de uma característica primitiva da matéria viva, como o crescimento (do qual se originou), e a vida foi contínua desde seu início sobre a Terra (Weismann, 1884, 84 e seg.). Ver-se-á em seguida que concordar dessa maneira que os organismos superiores tenham uma morte natural é de muito pouco auxílio para nós, porque, se a morte é uma aquisição tardia dos organismos, então não há o que falar quanto a ter havido instintos de morte desde o começo da vida sobre a Terra. Os organismos multicelulares podem morrer por razões internas, devido a uma diferenciação deficiente ou a imperfeições de seu metabolismo, mas a questão não tem interesse do ponto de vista de nosso problema. Uma explicação da origem da morte como esta encontra-se, ademais, em muito menor variância com nossos modos de pensamentos habituais do que a estranha pressuposição dos ‘instintos de morte’.” “Nesse ponto, bem pode surgir em nosso espírito a dúvida quanto a saber se servimos a algum objetivo ao tentar solucionar o problema da morte natural a partir do estudo dos protozoários. A organização primitiva dessas criaturas pode ocultar-nos condições importantes que, embora de fato presentes nelas também, só se tornam visíveis nos
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    animais superiores, quandopodem encontrar expressão morfológica. E, se abandonarmos o ponto de vista morfológico e adotarmos o dinâmico, torna-se-nos completamente indiferente poder demonstrar se a morte natural ocorre ou não nos protozoários. A substância que posteriormente é reconhecida como imortal, neles não se separou ainda da mortal. As forças instintuais que procuram conduzir a vida para a morte podem também achar-se em funcionamento nos protozoários desde o início; no entanto, seus esforços podem ser tão completamente ocultos pelas forças preservadoras da vida, que talvez seja muito difícil encontrar qualquer prova direta de sua presença. Vimos também, além disso, que as observações efetuadas pelos biólogos nos permitem presumir que processos internos desse tipo, conducentes à morte, ocorrem também nos protistas. Mas, mesmo que estes últimos se mostrassem imortais no sentido weismanniano, a assertiva de Weismann de que a morte é uma aquisição tardia, se aplicaria apenas a seus fenômenos manifestos e não tornaria impossível a pressuposição de processos a ela tendentes. Assim, não se realizou nossa esperança de que a biologia contradissesse redondamente o reconhecimento dos instintos de morte. Estamos livres para continuar a nos preocupar com sua possibilidade, se tivermos outras razões para assim proceder. A notável semelhança entre a distinção weismanniana de soma e plasma germinal e nossa separação dos instintos de morte dos instintos de vida persiste e mantém a sua significância. Podemos deter-nos por um momento sobre essa visão preeminentemente dualística da vida instintual. De acordo com a teoria de E. Hering, dois tipos de processos estão constantemente em ação na substância viva, operando em direções contrárias, uma construtiva ou assimilatória, e a outra destrutiva ou dissimilatória. Podemos atrever-nos a identificar nessas duas direções tomadas pelos processos vitais a atividade de nossos dois impulsos instintuais, os instintos de vida e os instintos de morte?” “Façamos uma ousada tentativa de dar outro passo à frente. Considera-se geralmente que a união de uma série de células numa associação vital — o caráter multicelular dos organismos — se tornou um meio de prolongar a sua vida. Uma célula ajuda a conservar a vida de outra, e a comunidade de células pode sobreviver mesmo que as células individuais tenham de morrer. Já aprendemos que também a conjugação, a coalescência temporária de dois organismos unicelulares, possui feito preservador de vida e rejuvenescedor sobre ambos. Por conseguinte, podemos tentar aplicar a teoria da libido a que se chegou na psicanálise à relação mútua das células. Podemos supor que os instintos de vida ou instintos sexuais ativos em cada célula tomam as outras células como seu objeto, que parcialmente neutralizam os instintos de morte (isto é, os processos estabelecidos por estes) nessas células, preservando assim sua vida, ao passo que as outras células fazem o mesmo para elas e outras ainda se sacrificam no desempenho dessa função libidinal. As próprias células germinais se comportariam de maneira completamente ‘narcisista’, para empregar a expressão que estamos acostumados a utilizar na teoria das neuroses para descrever um indivíduo total que retém sua libido em seu ego e nada desembolsa dela em catexias de objeto. As células germinais exigem sua libido, a atividade de seus instintos de vida, para si mesmas, como uma reserva para sua posterior e momentosa atividade construtiva. (As células dos neoplasmas malignos que destroem o organismo, talvez também devessem ser descritas como narcisistas nesse mesmo sentido: a patologia está preparada para considerar seus germes como inatos e atribuir-lhes atitudes embriônicas.) Dessa
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    maneira, a libidode nossos instintos sexuais coincidiria com o Eros dos poetas e dos filósofos, o qual mantém unidas todas as coisas vivas. Aqui se encontra, portanto, uma oportunidade para considerar o lento desenvolvimento de nossa teoria da libido. Em primeira instância, a análise das neuroses de transferência forçou à nossa observação a oposição entre os ‘instintos sexuais’, que se dirigem para um objeto, e certos outros instintos, com os quais nos achamos insuficientemente familiarizados e que descrevemos provisoriamente como ‘instintos do ego’. Um lugar de proa entre estes foi necessariamente concedido aos instintos que servem à autoconservação do indivíduo. Foi impossível dizer que outras distinções deveriam ser traçadas entre eles. Nenhum conhecimento seria mais valioso como base para uma ciência verdadeiramente psicológica do que uma compreensão aproximada das características comuns e dos possíveis aspectos distintivos dos instintos, mas em nenhuma região da psicologia tateamos mais no escuro. Cada um supôs a existência de tantos instintos ou ‘instintos básicos’ quantos quis e fez malabarismos com eles, tal como os antigos filósofos naturalistas gregos faziam com seus quatro elementos: a terra, o ar, o fogo e a água. A psicanálise, que não podia deixar de fazer alguma suposição sobre os instintos, ateve-se primeiramente à popular divisão de instintos tipificada na expressão ‘fome e amor’. Pelo menos, nada havia de arbitrário nisso e, com sua ajuda, a análise das psiconeuroses foi levada à frente até uma boa distância. O conceito de ‘sexualidade’ e, ao mesmo tempo, de instinto sexual, teve, é verdade, de ser ampliado de modo a abranger muitas coisas que não podiam ser classificadas sob a função reprodutora, e isso provocou não pouco alarido num mundo austero, respeitável, ou simplesmente hipócrita.” “Mas ainda nos é mais necessário enfatizar o caráter libidinal dos instintos de autoconservação, agora que nos estamos aventurando ao novo passo de reconhecer o instinto sexual como Eros, o conservador de todas as coisas, e de derivar a libido narcisista do ego dos estoques de libido por meio da qual as células do soma estão ligadas umas às outras. Mas agora, subitamente, defrontamo-nos com outra questão. Se os instintos de autoconservação são também de natureza libidinal, talvez não existam quaisquer outros instintos, a não ser os libidinais? De qualquer modo, não existem outros visíveis. Nesse caso, porém, seremos, no fim das contas, levados a concordar com os críticos que desconfiaram desde o início que a psicanálise explica tudo pela sexualidade, ou com inovadores como Jung, que, fazendo um juízo apressado, utilizaram a palavra ‘libido’ para significar força instintual em geral. Não deve isso ser assim? De modo algum era nossa intenção produzir tal resultado. Nosso debate teve como ponto de partida uma distinção nítida entre os instintos do ego, que equiparamos aos instintos de morte, e os instintos sexuais, que equiparamos aos instintos de vida. (Achávamo-nos preparados, em determinada etapa [ver em [1]], para incluir os chamados instintos de autoconservação do ego entre os instintos de morte, mas subseqüentemente [ver em [1]] nos corrigimos sobre esse ponto e o retiramos.) Nossas concepções, desde o início, foram dualistas e são hoje ainda mais definidamente dualistas do que antes, agora que descrevemos a oposição como se dando, não entre instintos do ego e instintos sexuais, mas entre instintos de vida e instintos de morte. A teoria da libido de Jung é, pelo contrário, monista; o fato de haver ele chamado sua única força instintual de ‘libido’, destina-se a causar confusão, mas não precisa afetar- nos sob outros aspectos. Suspeitamos que instintos outros que não os de autoconservação funcionam no ego, e deveria ser-nos possível apontá-los. Infelizmente, porém, a análise do ego fez tão poucos avanços, que nos é muito difícil proceder assim.
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    É possível, naverdade, que os instintos libidinais do ego possam estar vinculados de maneira peculiar a esses outros instintos do ego que ainda nos são estranhos. Mesmo antes de dispormos de qualquer compreensão clara do narcisismo, a psicanálise já desconfiava que os ‘instintos do ego’ tinham componentes libidinais a eles ligados. Mas trata-se de possibilidades muito incertas, a que nossos oponentes prestarão muito pouca atenção. Permanece a dificuldade de que a psicanálise até aqui não nos permitiu indicar quaisquer instintos [do ego] que não sejam os libidinais. Isso, contudo, não constitui razão para concordarmos com a conclusão de que nenhum outro realmente existe.” “Na obscuridade que reina atualmente na teoria dos instintos, não seria avisado rejeitar qualquer idéia que prometa lançar luz sobre ela. Partimos da grande oposição entre os instintos de vida e de morte. Ora, o próprio amor objetal nos apresenta um segundo exemplo de polaridade semelhante: a existente entre o amor (ou afeição) e o ódio (ou agressividade). Se pudéssemos conseguir relacionar mutuamente essas duas polaridades e derivar uma da outra! Desde o início identificamos a presença de um componente sádico no instinto sexual. Como sabemos, ele pode tornar-se independente e, sob a forma de perversão dominar toda a atividade sexual de um indivíduo. Surge também como um instinto componente predominante numa das ‘organizações pré-genitais’, como as denominei. Mas, como pode o instinto sádico, cujo intuito é prejudicar o objeto, derivar de Eros, o conservador da vida? Não é plausível imaginar que esse sadismo seja realmente um instinto de morte que, sob a influência da libido narcisista, foi expulso do ego e, conseqüentemente, só surgiu em relação ao objeto? Ele entra em ação a serviço da função sexual. Durante a fase oral da organização da libido, o ato de obtenção de domínio erótico sobre um objeto coincide com a destruição desse objeto; posteriormente, o instinto sádico se isola, e, finalmente, na fase de primazia genital, assume, para os fins da reprodução, a função de dominar o objeto sexual até o ponto necessário à efetivação do ato sexual. Poder-se-ia verdadeiramente dizer que o sadismo que for expulso do ego apontou o caminho para os componentes libidinais do instinto sexual e que estes o seguiram para o objeto. Onde quer que o sadismo original não tenha sofrido mitigação ou mistura, encontramos a ambivalência familiar de amor e ódio na vida erótica. Se uma pressuposição assim é permissível, atendemos então a exigência de que produzíssemos um exemplo de instinto de morte, embora se trate, na verdade, de um instinto deslocado. Mas essa maneira de considerar as coisas está muito longe de ser fácil de captar e cria uma impressão positivamente mística. Sua aparência é suspeita, como se estivéssemos tentando achar um modo de sair a qualquer preço de uma situação embaraçosa.” “A origem da reprodução por células germinais sexualmente diferenciadas pode ser representada segundo sóbrias linhas darwinianas, imaginando-se que a vantagem da anfimixia, a que se chegou em determinada ocasião pela conjugação fortuita de dois protistas, foi retida e posteriormente explorada para desenvolvimento ulterior. Segundo essa concepção, o ‘sexo’ não seria nada de muito antigo e os instintos extraordinariamente violentos, cujo objetivo é ocasionar a união sexual, estariam repetindo algo que outrora ocorrera por acaso e desde então se estabelecera, por ser vantajoso. Surge aqui a questão, como no caso da morte, de saber se estamos certos em atribuir aos protistas só essas características que realmente apresentam, ou se será correto supor que forças e processos que se tornam visíveis apenas nos organismos superiores, se originaram pela primeira vez naqueles organismos. A concepção da
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    sexualidade que acabamosde mencionar é de pouca ajuda para nossos fins. Contra ela pode ser levantada a objeção de postular a existência de instintos de vida já a funcionar nos organismos mais simples, porque de outra maneira a conjugação, que trabalha contra o curso da vida e torna a tarefa de deixar de viver mais difícil, não teria sido mantida e elaborada, mas, ao contrário, seria evitada. Se, portanto, não quisermos abandonar a hipótese dos instintos de morte, temos de supor que estão associados, desde o início, com os instintos de vida. Deve-se, porém, admitir que, nesse caso, estaremos trabalhando com uma equação de duas quantidades desconhecidas. À parte isso, a ciência tem tão pouco a nos dizer sobre a origem da sexualidade, que podemos comparar o problema a uma escuridão em que nem mesmo o raio de luz de uma hipótese penetrou. Em outra região, inteiramente diferente, é verdade, defrontamo-nos realmente com tal hipótese, mas é de tipo tão fantástico, mais mito do que explicação científica, que não me atreveria a apresentá-la aqui se ela não atendesse precisamente àquela condição cujo preenchimento desejamos, porque faz remontar a origem de um instinto a uma necessidade de restaurar um estado anterior de coisas.” “Pode-se perguntar se, e até onde, eu próprio me acho convencido da verdade das hipóteses que foram formuladas nestas páginas. Minha resposta seria que eu próprio não me acho convencido e que não procuro persuadir outras pessoas a nelas acreditar, ou, mais precisamente, que não sei até onde nelas acredito. Não há razão, segundo me parece, para que o fator emocional da convicção tenha, de algum modo, de entrar nessa questão. É certamente possível que nos lancemos por uma linha de pensamento e que a sigamos aonde quer que ela leve, por simples curiosidade científica, ou, se o leitor preferir, como um advocatus diaboli, que não se acha, por essa razão, vendido ao demônio. Não discuto o fato de que o terceiro passo pela teoria dos instintos, por mim dado aqui, não pode reivindicar o mesmo grau de certeza que os dois primeiros: a extensão do conceito de sexualidade e a hipótese do narcisismo. Essas duas novidades foram uma tradução direta da observação para a teoria e não se achavam mais abertas a fontes de erro do que é inevitável em todos os casos assim. É verdade que minha afirmativa do caráter regressivo dos instintos também se apóia em material observado, ou seja, nos fatos da compulsão à repetição. Pode ser, contudo, que eu tenha superestimado sua significação. E, de qualquer modo, é impossível perseguir uma idéia desse tipo, exceto pela combinação repetida de material concreto com o que é puramente especulativo e, assim, amplamente divergente da observação empírica. Quanto mais freqüentemente isso é feito no decurso da construção de uma teoria, menos fidedigno, como sabemos, deve ser o resultado final. Mas o grau de incertezas não é atribuível. Podemos ter dado um golpe de sorte ou havermo-nos extraviado vergonhosamente. Não penso que, num trabalho desse tipo, uma parte grande seja desempenhada pelo que é chamado de ‘intuição’. Pelo que tenho visto da intuição, ela me parece ser o produto de um tipo de imparcialidade intelectual. Infelizmente, porém, as pessoas raramente são imparciais no que concerne às coisas supremas, aos grandes problemas da ciência e da vida. Em tais casos, cada um de nós é dirigido por preconceitos internos profundamente enraizados, aos quais nossa especulação inadvertidamente dá vantagem. Já que possuímos tão bons fundamentos para sermos desconfiados, nossa atitude para com os resultados de nossas próprias deliberações não pode ser outra que a de uma fria benevolência. Apresso-me a acrescentar, contudo, que uma autocrítica como esta acha-se longe de vincular-nos a qualquer tolerância especial para com opiniões discordantes. É perfeitamente legítimo rejeitar sem remorsos teorias que são contraditadas pelos próprios primeiros passos dados na análise dos fatos
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    observados, enquanto nosachamos ao mesmo tempo cientes de que a validade de nossas próprias teorias é apenas provisória. Não precisamos sentir-nos grandemente perturbados em ajuizar nossas especulações sobre os instintos de vida e de morte pelo fato de tantos processos desnorteantes e obscuros nelas ocorrerem, tal como um instinto ser expulso por outro, ou um instinto voltar-se do ego para um objeto, e assim por diante. Isso se deve simplesmente ao fato de sermos obrigados a trabalhar com termos científicos, isto é, com a linguagem figurativa, peculiar à psicologia (ou, mais precisamente, à psicologia profunda). Não poderíamos, de outra maneira, descrever os processos em questão e, na verdade, não nos teríamos tornado cientes deles. As deficiências de nossa posição provavelmente se desvaneceriam se nos achássemos em posição de substituir os termos psicológicos por expressões fisiológicas ou químicas. É verdade que estas também são apenas parte de uma linguagem figurativa, mas trata-se de uma linguagem com que há muito tempo nos familiarizamos, sendo também, talvez, uma linguagem mais simples. Por outro lado, deve-se deixar completamente claro que a incerteza de nossa especulação foi muito aumentada pela necessidade de pedir empréstimos à ciência da biologia. A biologia é, verdadeiramente, uma terra de possibilidades ilimitadas. Podemos esperar que ela nos forneça as informações mais surpreendentes, e não podemos imaginar que respostas nos dará, dentro de poucas dezenas de anos, às questões que lhe formulamos. Poderão ser de um tipo que ponha por terra toda a nossa estrutura artificial de hipóteses. Se assim for, poder-se-á perguntar por que nos embrenhamos numa linha de pensamento como a presente e, em particular, por que decidi torná-la pública. Bem, não posso negar que algumas das analogias, correlações e vinculações que ela contém pareceram-me merecer consideração.” “Nossa consciência nos comunica sentimentos provindos de dentro que não são apenas de prazer e desprazer, mas também de uma tensão peculiar que, por sua vez, tanto pode ser agradável quanto desagradável. Permitir-nos-á a diferença entre esses sentimentos distinguir entre processos de energia vinculados e livres? Ou deve o sentimento de tensão ser relacionado à magnitude absoluta, ou talvez ao nível da catexia, ao passo que a série prazer e desprazer indica uma mudança na magnitude da catexia dentro de determinada unidade de tempo? Outro fato notável é que os instintos de vida têm muito mais contato com nossa percepção interna, surgindo como rompedores da paz e constantemente produzindo tensões cujo alívio é sentido como prazer, ao passo que os instintos de morte parecem efetuar seu trabalho discretamente. O princípio de prazer parece, na realidade, servir aos instintos de morte. É verdade que mantém guarda sobre os estímulos provindos de fora, que são encarados como perigos por ambos os tipos de instintos, mas se acha mais especialmente em guarda contra os aumentos de estimulação provindos de dentro, que tornariam mais difícil a tarefa de viver. Isso, por sua vez, levanta uma infinidade de outras questões, para as quais, no presente, não podemos encontrar resposta. Temos de ser pacientes e aguardar novos métodos e ocasiões de pesquisa. Devemos estar prontos, também, para abandonar um caminho que estivemos seguindo por certo tempo, se parecer que ele não leva a qualquer bom fim. Somente os crentes, que exigem que a ciência seja um substituto para o catecismo que abandonaram, culparão um investigador por desenvolver ou mesmo transformar suas concepções.”
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    PSICOLOGIA DE GRUPOE A ANÁLISE DO EGO IV - SUGESTÃO E LIBIDO “Libido é expressão extraída da teoria das emoções. Damos esse nome à energia, considerada como uma magnitude quantitativa (embora na realidade não seja presentemente mensurável), daqueles instintos que têm a ver com tudo o que pode ser abrangido sob a palavra ‘amor’. O núcleo do que queremos significar por amor consiste naturalmente (e é isso que comumente é chamado de amor e que os poetas cantam) no amor sexual, com a união sexual como objetivo. Mas não isolamos disso — que, em qualquer caso, tem sua parte no nome ‘amor’ —, por um lado, o amor próprio, e, por outro, o amor pelos pais e pelos filhos, a amizade e o amor pela humanidade em geral, bem como a devoção a objetos concretos e a idéias abstratas. Nossa justificativa reside no fato de que a pesquisa psicanalítica nos ensinou que todas essas tendências constituem expressão dos mesmos impulsos instintuais; nas relações entre os sexos, esses impulsos forçam seu caminho no sentido da união sexual, mas, em outras circunstâncias, são desviados desse objetivo ou impedidos de atingi-lo, embora sempre conservem o bastante de sua natureza original para manter reconhecível sua identidade (como em características tais como o anseio de proximidade e o auto-sacrifício). Somos de opinião, pois, que a linguagem efetuou uma unificação inteiramente justificável ao criar a palavra ‘amor’ com seus numerosos usos, e que não podemos fazer nada melhor senão tomá-la também como base de nossas discussões e exposições científicas. Por chegar a essa decisão, a psicanálise desencadeou uma tormenta de indignação, como se fosse culpada de um ato de ultrajante inovação. Contudo, não fez nada de original em tomar o amor nesse sentido ‘mais amplo’. Em sua origem, função e relação com o amor sexual, o ‘Eros’ do filósofo Platão coincide exatamente com a força amorosa, a libido da psicanálise, tal como foi pormenorizadamente demonstrado por Nachmansohn (1915) e Pfister (1921), e, quando o apóstolo Paulo, em sua famosa Epístola aos Coríntios, louva o amor sobre tudo o mais, certamente o entende no mesmo sentido ‘mais amplo’. Mas isso apenas demonstra que os homens nem sempre levam a sério seus grandes pensadores, mesmo quando mais professam admirá-los. A psicanálise, portanto, dá a esses instintos amorosos o nome de instintos sexuais, a potiori e em razão de sua origem. A maioria das pessoas ‘instruídas’ encarou essa nomenclatura como um insulto e fez sua vingança retribuindo à psicanálise a pecha de ‘pansexualismo’. Qualquer pessoa que considere o sexo como algo mortificante e humilhante para a natureza humana está livre para empregar as expressões mais polidas ‘Eros’ e ‘erótico’. Eu poderia ter procedido assim desde o começo e me teria poupado muita oposição. Mas não quis fazê-lo, porque me apraz evitar fazer concessões à pusilanimidade. Nunca se pode dizer até onde esse caminho nos levará; cede-se primeiro em palavras e depois, pouco a pouco, em substância também. Não posso ver mérito algum em se ter vergonha do sexo; a palavra grega ‘Eros’, destinada a suavizar a afronta, ao final nada mais é do que tradução de nossa palavra alemã Liebe [amor], e finalmente, aquele que sabe esperar não precisa de fazer concessões.” V - DOIS GRUPOS ARTIFICIAIS: A IGREJA E O EXÉRCITO
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    “A dissolução deum grupo religioso não é tão fácil de observar. Pouco tempo atrás, caiu-me nas mãos um romance inglês de origem católica, recomendado pelo Bispo de Londres, com o título When It Was Dark (Quando Estava Escuro). Esse romance fornecia um hábil e, segundo me pareceu, convincente relato de tal possibilidade e suas conseqüências. O romance, que pretende relacionar-se com os dias de hoje, conta como uma conspiração de inimigos da pessoa de Cristo e da fé cristã teve êxito em conseguir que um sepulcro fosse descoberto em Jerusalém. Nesse sepulcro encontra-se uma inscrição em que José de Arimatéia confessa que, por razões de piedade, retirou secretamente o corpo de Cristo de sua sepultura, no terceiro dia após o sepultamento, e enterrou-o naquele lugar. A ressurreição de Cristo e sua natureza divina são dessa maneira refutadas e o resultado da descoberta arqueológica é uma convulsão na civilização européia e um extraordinário aumento em todos os crimes e atos de violência, os quais só cessam quando a conspiração dos falsificadores é revelada. O fenômeno que acompanha a dissolução que aqui se supõe dominar um grupo religioso, não é o medo, para o qual falta a ocasião. Em vez dele, impulsos cruéis e hostis para com outras pessoas fazem seu aparecimento, impulsos que, devido ao amor equânime de Cristo, haviam sido anteriormente incapazes de fazê-lo. Mas, mesmo durante o reino de Cristo, aqueles que não pertencem à comunidade de crentes, que não o amam e a quem ele não ama, permanecem fora de tal laço. Desse modo, uma religião, mesmo que se chame a si mesma de religião do amor, tem de ser dura e inclemente para com aqueles que a ela não pertencem. Fundamentalmente, na verdade, toda religião é, dessa mesma maneira, uma religião de amor para todos aqueles a quem abrange, ao passo que a crueldade e a intolerância para com os que não lhes pertencem, são naturais a todas as religiões. Por mais difícil que possamos achá-lo pessoalmente, não devemos censurar os crentes severamente demais por causa disso; as pessoas que são descrentes ou indiferentes estão psicologicamente em situação muito melhor nessa questão [da crueldade e da intolerância]. Se hoje a intolerância não mais se apresenta tão violenta e cruel como em séculos anteriores, dificilmente podemos concluir que ocorreu uma suavização nos costumes humanos. A causa deve ser antes achada no inegável enfraquecimento dos sentimentos religiosos e dos laços libidinais que deles dependem. Se outro laço grupal tomar o lugar do religioso — e o socialista parece estar obtendo sucesso em conseguir isso —, haverá então a mesma intolerância para com os profanos que ocorreu na época das Guerras de Religião, e, se diferenças entre opiniões científicas chegassem um dia a atingir uma significação semelhante para grupos, o mesmo resultado se repetiria mais uma vez com essa nova motivação.” VII - IDENTIFICAÇÃO “A identificação é conhecida pela psicanálise como a mais remota expressão de um laço emocional com outra pessoa. Ela desempenha um papel na história primitiva do complexo de Édipo. Um menino mostrará interesse especial pelo pai; gostaria de crescer como ele, ser como ele e tomar seu lugar em tudo. Podemos simplesmente dizer que toma o pai como seu ideal. Este comportamento nada tem a ver com uma atitude passiva ou feminina em relação ao pai (ou aos indivíduos do sexo masculino em geral); pelo contrário, é tipicamente masculina. Combina-se muito bem com o complexo de Édipo, cujo caminho ajuda a preparar. Ao mesmo tempo que essa identificação com o pai, ou pouco depois, o menino começa a desenvolver uma catexia de objeto verdadeira em relação à mãe, de acordo
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    com o tipo[anaclítico] de ligação. Apresenta então, portanto, dois laços psicologicamente distintos: uma catexia de objeto sexual e direta para com a mãe e uma identificação com o pai que o toma como modelo. Ambos subsistem lado a lado durante certo tempo, sem qualquer influência ou interferência mútua. Em conseqüência do avanço irresistível no sentido de uma unificação da vida mental, eles acabam por reunir- se e o complexo de Édipo normal origina-se de sua confluência. O menino nota que o pai se coloca em seu caminho, em relação à mãe. Sua identificação com eles assume então um colorido hostil e se identifica com o desejo de substituí-lo também em relação à mãe. A identificação, na verdade, é ambivalente desde o início; pode tornar-se expressão de ternura com tanta facilidade quanto um desejo do afastamento de alguém. Comporta-se como um derivado da primeira fase da organização da libido, da fase oral, em que o objeto que prezamos e pelo qual ansiamos é assimilado pela ingestão, sendo dessa maneira aniquilado como tal. O canibal, como sabemos, permaneceu nessa etapa; ele tem afeição devoradora por seus inimigos e só devora as pessoas de quem gosta.” IX - O INSTINTO GREGÁRIO “Poder-se-ia dizer que os intensos vínculos emocionais que observamos nos grupos, são inteiramente suficientes para explicar uma de suas características: a falta de independência e iniciativa de seus membros, a semelhança nas reações de todos eles, sua redução, por assim dizer, ao nível de indivíduos grupais. Mas, se o considerarmos como um todo, um grupo nos mostra mais que isso. Alguns de seus aspectos — a fraqueza de capacidade intelectual, a falta de controle emocional, a incapacidade de moderação ou adiamento, a inclinação a exceder todos os limites na expressão da emoção e descarregá-la completamente sob a forma de ação — essas e outras características semelhantes tão impressivamente descritas por Le Bon apresentam um quadro inequívoco de regressão da atividade mental a um estágio anterior, como não nos surpreendemos em descobri-la entre os selvagens e as crianças. Uma regressão desse tipo é, particularmente, uma característica essencial dos grupos comuns, ao passo que, como soubemos, nos grupos organizados e artificiais ela pode em grande parte ser controlada. Temos assim a impressão de um estado no qual os impulsos emocionais particulares e os atos intelectuais de um indivíduo são fracos demais para chegar a algo por si próprios; para isso dependem inteiramente de serem reforçados por sua igual repetição nos outros membros do grupo. Somos lembrados de quantos desses fenômenos de dependência fazem parte da constituição normal da sociedade humana, de quão pouca originalidade e coragem pessoal podem encontrar-se nela, de quanto cada indivíduo é governado por essas atitudes da mente grupal que se apresentam sob formas tais como características raciais, preconceitos de classe, opinião pública etc. A influência da sugestão torna-se um grande enigma para nós quando admitimos que ela não é exercida apenas pelo líder, mas por cada indivíduo sobre outro indivíduo, e temos de censurar-nos por havermos injustamente enfatizado a relação com o líder e mantido demais em segundo plano o outro fator da sugestão mútua.” “O que posteriormente aparece na sociedade sob a forma de Gemeingeist, esprit de corps, ‘espírito de grupo’ etc. não desmente a sua derivação do que foi originalmente inveja. Ninguém deve querer salientar-se, todos devem ser o mesmo e ter o mesmo. A justiça social significa que nos negamos muitas coisas a fim de que os outros tenham de passar sem elas, também, ou, o que dá no mesmo, não possam pedi-las. Essa exigência de igualdade é a raiz da consciência social e do senso de dever. Revela-se
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    inesperadamente no pavorque tem o sifilítico de contagiar outras pessoas, coisa que a psicanálise nos ensinou a compreender. O pavor demonstrado por esses pobres infelizes corresponde às suas violentas lutas contra o desejo inconsciente de propagar sua infecção a outros; por que razão apenas eles deveriam ser infectados e apartados de tantas coisas? Por que também não os outros? E o mesmo princípio pode-se encontrar na apropriada história do julgamento de Salomão. Se o filho de uma mulher morreu, a outra tampouco deverá ter um filho, e a mulher despojada é identificada por esse desejo.” “Já aprendemos do exame de dois grupos artificiais, a Igreja e o exército que sua premissa necessária é que todos os membros sejam amados da mesma maneira por uma só pessoa, o líder. Não nos esqueçamos, contudo, de que a exigência de igualdade num grupo aplica-se apenas aos membros e não ao líder. Todos os membros devem ser iguais uns aos outros, mas todos querem ser dirigidos por uma só pessoa. Muitos iguais, que podem identificar-se uns com os outros, e uma pessoa isolada, superior a todos eles: essa é a situação que vemos realizada nos grupos capazes de subsistir. Ousemos, então, corrigir o pronunciamento de Trotter de que o homem é um animal gregário, e asseverar ser ele de preferência um animal de horda, uma criatura individual numa horda conduzida por um chefe.” X - O GRUPO E A HORDA PRIMEVA “Em 1912 concordei com uma conjectura de Darwin, segundo a qual a forma primitiva da sociedade humana era uma horda governada despoticamente por um macho poderoso. Tentei demonstrar que os destinos dessa horda deixaram traços indestrutíveis na história da descendência humana e, especialmente, que o desenvolvimento do totemismo, que abrange em si os primórdios da religião, da moralidade e da organização social, está ligado ao assassinato do chefe pela violência e à transformação da horda paterna em uma comunidade de irmãos. Para dizer a verdade, isso constitui apenas uma hipótese, como tantas outras com que os arqueólogos se esforçam por iluminar as trevas dos tempos pré-históricos, uma ‘estória mais ou menos’, como foi divertidamente chamada por um crítico inglês sem maldade; porém essa hipótese para mim tem mérito se se mostrar capaz de trazer coerência e compreensão a um número cada vez maior de novas regiões. Os grupos humanos apresentam mais uma vez o quadro familiar de um indivíduo de força superior em meio a um bando de companheiros iguais, quadro que também é abarcado em nossa idéia da horda primeva.” “A psicologia individual, pelo contrário, deve ser tão antiga quanto a psicologia de grupo, porque, desde o princípio, houve dois tipos de psicologia, a dos membros individuais do grupo e a do pai, chefe ou líder. Os membros do grupo achavam-se sujeitos a vínculos, tais como os que percebemos atualmente; o pai da horda primeva, porém, era livre. Os atos intelectuais deste eram fortes e independentes, mesmo no isolamento, e sua vontade não necessitava do reforço de outros. A congruência leva-nos a presumir que seu ego possuía poucos vínculos libidinais; ele não amava ninguém, a não ser a si próprio, ou a outras pessoas, na medida em que atendiam às suas necessidades. Aos objetos, seu ego não dava mais que o estritamente necessário. Ele, no próprio início da história da humanidade, era o ‘super-homem’ que Nietzsche somente esperava do futuro. Ainda hoje os membros de um grupo permanecem na necessidade da ilusão de serem igual e justamente amados por seu líder;
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    ele próprio, porém,não necessita amar ninguém mais, pode ser de uma natureza dominadora, absolutamente narcisista, autoconfiante e independente. Sabemos que o amor impõe um freio ao narcisismo, e seria possível demonstrar como, agindo dessa maneira, ele se tornou um fator de civilização. O pai primevo da horda não era ainda imortal, como posteriormente veio a ser, pela deificação. Se morria, tinha de ser substituído; seu lugar era provavelmente tomado por um filho mais jovem, que até então fora um membro do grupo, como qualquer outro. Deve existir, portanto, uma possibilidade de transformar a psicologia de grupo em psicologia individual; há que descobrir uma condição sob a qual tal transformação seja facilmente realizada, como é possível às abelhas transformarem, em caso de necessidade, uma larva numa rainha em lugar de uma operária. Pode-se imaginar apenas uma possibilidade: o pai primevo impedira os filhos de satisfazer seus impulsos diretamente sexuais; forçara-os à abstinência e, conseqüentemente, aos laços emocionais com ele e uns com os outros, que poderiam surgir daqueles de seus impulsos antes inibidos em seu objetivo sexual. Ele os forçara, por assim dizer, à psicologia de grupo. Seu ciúme e intolerância sexual tornaram-se, em última análise, as causas da psicologia de grupo.” “Vimos que, com o exército e a Igreja, esse artifício é a ilusão de que o líder ama todos os indivíduos de modo igual e justo. Mas isso constitui apenas uma remodelação idealística do estado de coisas na horda primeva, onde todos os filhos sabiam que eram igualmente perseguidos pelo pai primevo e o temiam igualmente. Essa mesma remoldagem sobre a qual todos os deveres sociais se erguem, já se acha pressuposta pela forma seguinte da sociedade humana, o clã totêmico.” XII - PÓS-ESCRITO (RESUMO) “O desenvolvimento da libido nas crianças familiarizou-nos com o primeiro, mas também o melhor, exemplo de instintos sexuais inibidos em seus objetivos. Todos os sentimentos que uma criança tem para com os pais e para com aqueles que cuidam dela transformam-se, por uma fácil transição, em desejos que dão expressão aos impulsos sexuais da criança. Ela reivindica desses objetos de seu amor todos os sinais de afeição que conhece; quer beijá-los, tocá-los e olhá-los; tem curiosidade de ver seus órgãos genitais e estar com eles quando realizam suas funções excretórias íntimas; promete casar-se com a mãe ou com a babá, não importa o que entenda por casamento; propõe- se a si mesma ter um filho do pai etc. A observação direta, bem como a subseqüente investigação analítica dos resíduos da infância, não deixa dúvidas quanto à completa fusão de sentimentos ternos e ciumentos e de intenções sexuais, mostrando-nos de que maneira fundamental a criança faz da pessoa que ama o objeto de todas as suas tendências sexuais, ainda não corretamente centradas. Essa primeira configuração do amor da criança, que nos casos típicos toma a forma do complexo de Édipo, sucumbe, tanto quanto sabemos a partir do começo do período de latência, a uma onda de repressão. O que resta dela apresenta-se como um laço emocional puramente afetuoso, referente às mesmas pessoas; porém, não mais pode ser descrito como ‘sexual’. A psicanálise, que ilumina as profundezas da vida mental, não tem dificuldade em demonstrar que os vínculos sexuais dos primeiros anos da infância também persistem, embora reprimidos e inconscientes. (...). Uma psicologia que não penetre ou não possa penetrar nas profundezas do que é reprimido, considera os laços emocionais afetuosos como sendo invariavelmente a expressão de impulsos que
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    não possuem objetivosexual, ainda que derivem de impulsos com esse fim. Temos justificativa para dizer que eles foram desviados desses fins sexuais, embora exista certa dificuldade de fornecer uma descrição de um desvio de objetivo assim, que se adapte às exigências da metapsicologia. Ademais, esses instintos inibidos em seus objetivos conservam alguns de seus objetivos sexuais originais; mesmo um devoto afetuoso, mesmo um amigo ou um admirador, desejam a proximidade física e a visão da pessoa que é agora amada apenas no sentido ‘paulino’. Se preferirmos, podemos identificar nesse desvio de objetivo um início da sublimação dos instintos sexuais ou, por outro lado, podemos fixar os limites da sublimação em algum ponto mais distante. Esses instintos sexuais inibidos em seus objetivos possuem uma grande vantagem funcional sobre os desinibidos. Desde que não são capazes de satisfação realmente completa, acham-se especialmente aptos a criar vínculos permanentes, ao passo que os instintos diretamente sexuais incorrem numa perda de energia sempre que se satisfazem e têm de esperar serem renovados por um novo acúmulo de libido sexual; assim, nesse meio tempo, o objeto pode ter-se alterado. Os instintos inibidos são capazes de realizar qualquer grau de mescla com os desinibidos; podem ser novamente transformados em desinibidos, exatamente como deles se originaram. É bem conhecido com que facilidade se desenvolvem desejos eróticos a partir de relações emocionais de caráter amistoso, baseadas na apreciação e na admiração (compare-se o ‘Beije-me pelo amor do grego’, de Molière), entre professor e aluno, recitalista e ouvinte deliciada, especialmente no caso das mulheres. Na realidade, o crescimento de laços emocionais desse tipo, com seus começos despropositados, fornece uma via muito freqüentada para a escolha sexual de objeto.” “Naturalmente não ficaremos surpresos ao ouvir que os impulsos sexuais inibidos em seus objetivos se originam daqueles diretamente sexuais quando obstáculos internos ou externos tornam inatingíveis os objetivos sexuais. A repressão durante o período de latência é um obstáculo interno desse tipo, ou melhor, um obstáculo que se tornou interno. Presumimos que o pai da horda primeva, devido à sua intolerância sexual, compeliu todos os filhos à abstinência, forçando-os assim a laços inibidos em seus objetivos, enquanto reservava para si a liberdade de gozo sexual, permanecendo, desse modo, sem vínculos. Todos os vínculos de que um grupo depende têm o caráter de instintos inibidos em seus objetivos.” “Existem abundantes indicações de que o estado de estar amando só fez seu aparecimento tardiamente nas relações sexuais entre homens e mulheres, de maneira que a oposição entre amor sexual e vínculos grupais constitui também um desenvolvimento tardio. Ora, pode parecer que essa pressuposição seja incompatível com nosso mito da família primeva, pois, afinal de contas, por seu amor pelas mães e irmãs a turba de irmãos, conforme supomos, foi levada ao parricídio, sendo difícil imaginar esse amor como algo que não fosse indiviso e primitivo, isto é, como uma união íntima do afetuoso e do sensual. Uma consideração mais atenta, entretanto, transforma essa objeção à nossa teoria em confirmação dela. Uma das reações ao parricídio foi, em última análise, a instituição da exogamia totêmica, a proibição de qualquer relação sexual com aquelas mulheres da família que haviam sido ternamente amadas desde a infância. Desse modo, enfiou-se uma cunha entre os sentimentos afetuosos e sensuais do homem, que, atualmente, ainda se acha firmemente fixada em sua vida erótica. Em resultado dessa exogamia, as necessidades sensuais dos homens tiveram de ser satisfeitas com mulheres estranhas e não amadas.”
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    “Pode-se dizer queuma neurose tem sobre o grupo o mesmo efeito desintegrador que o estado de estar amando. Por outro lado, parece que onde foi dado um poderoso ímpeto à formação de grupo, as neuroses podem diminuir ou, pelo menos temporariamente, desaparecer. Justificáveis tentativas foram feitas para situar esse antagonismo entre as neuroses e as formações de grupo a serviço da terapêutica. Mesmo os que não lamentam o desaparecimento das ilusões religiosas do mundo civilizado de hoje, admitem que, enquanto estiveram em vigor, ofereceram aos que a elas se achavam presos a mais poderosa proteção contra o perigo da neurose. Tampouco é difícil discernir que todos os vínculos que ligam as pessoas a seitas e comunidades místico-religiosas ou filosófico- religiosas, são expressões de curas distorcidas de todos os tipos de neuroses. Tudo isso se correlaciona com o contraste entre os impulsos diretamente sexuais e os inibidos em seus objetivos.” O ego e o Id e outros trabalhos VOLUME XIX (1923-1925) O EGO E O ID (1923) UMA BREVE DESCRIÇÃO DA PSICANÁLISE “Pode-se dizer que a psicanálise nasceu com o século XX, pois a publicação em que ela emergiu perante o mundo como algo novo — A Interpretação de Sonhos — traz a data ‘1900’. Porém, como bem se pode supor, ela não caiu pronta dos céus. Teve seu ponto de partida em idéias mais antigas, que ulteriormente desenvolveu; originou-se de sugestões anteriores, as quais elaborou. Qualquer história a seu respeito deve, portanto, começar por uma descrição das influências que determinaram sua origem, e não desprezar a época e as circunstâncias que precederam sua criação. A psicanálise cresceu num campo muitíssimo restrito. No início, tinha apenas um único objetivo — o de compreender algo da natureza daquilo que era conhecido como doenças nervosas ‘funcionais’, com vistas a superar a impotência que até então caracterizara seu tratamento médico. Os neurologistas daquele período haviam sido instruídos a terem um elevado respeito por fatos químico-físicos e patológico- anatômicos e estavam ultimamente sob a influência dos achados de Hitzig e Fritsch, de Ferrier, Goltz e outros, que pareciam ter estabelecido uma vinculação íntima e
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    possivelmente exclusiva entrecertas funções e partes específicas do cérebro. Eles não sabiam o que fazer do fator psíquico e não podiam entendê-lo. Deixavam-no aos filósofos, aos místicos e — aos charlatães; e consideravam não científico ter qualquer coisa a ver com ele. Por conseguinte, não podiam encontrar qualquer abordagem aos segredos das neuroses, e, em particular, da enigmática ‘histeria’, que, na verdade, era o protótipo de toda a espécie. Já em 1885, quando eu estava estudando na Salpêtrière, descobri que as pessoas se contentavam em explicar as paralisias histéricas através de uma fórmula que asseverava serem elas fundadas em ligeiros distúrbios funcionais das mesmas partes do cérebro que, quando gravemente danificadas, levavam às paralisias orgânicas correspondentes.” “A guinada decisiva foi dada na década de 1880, quando os fenômenos do hipnotismo fizeram mais uma tentativa de buscar admissão à ciência médica — dessa vez com mais sucesso do que tantas vezes antes, graças ao trabalho de Liébeault, Bernheim, Heidenhain e Forel. O essencial foi ter sido reconhecida a genuinidade desses fenômenos. Uma vez isso admitido, duas lições fundamentais e inesquecíveis não podiam deixar de ser extraídas do hipnotismo. Em primeiro lugar, recebia-se prova convincente de que notáveis mudanças somáticas afinal de contas podiam ser ocasionadas unicamente por influências mentais, as quais, nesse caso, nós próprios tínhamos colocado em movimento. Em segundo, recebia-se a impressão mais clara — especialmente do comportamento dos indivíduos após a hipnose — da existência de processos mentais que só se poderia descrever como ‘inconscientes’. O ‘inconsciente’, é verdade, há muito tempo estivera sob discussão entre os filósofos como conceito teórico, mas agora, pela primeira vez, nos fenômenos do hipnotismo ele se tornava algo concreto, tangível e sujeito a experimentação. Independentemente de tudo isso, os fenômenos hipnóticos mostravam uma semelhança inequívoca com as manifestações de algumas neuroses. Não é fácil superestimar a importância do papel desempenhado pelo hipnotismo na história da origem da psicanálise. Tanto de um ponto de vista teórico quanto terapêutico a psicanálise teve às suas ordens um legado que herdou do hipnotismo.” “O fator decisivo, (...), foi a experiência de um médico vienense, o Dr. Josef Breuer. Em 1881, independentemente de qualquer influência externa, ele pôde, com o auxílio da hipnose, estudar e restituir à saúde uma jovem muito bem dotada que sofria de histeria. Os achados de Breuer não foram comunicados ao público senão quinze anos mais tarde, após ele haver tomado por colaborador o presente autor (Freud).” “O método catártico foi o precursor imediato da psicanálise, e, apesar de toda a ampliação da experiência e toda modificação da teoria, ainda está nela contido como seu núcleo. Ele, porém, não era mais que um novo procedimento médico para influenciar certas doenças nervosas e nada sugeria que se pudesse tornar tema para o interesse mais geral e para a contradição mais violenta. Logo após a publicação de Estudos sobre a Histeria, a associação entre Breuer e Freud terminou. Breuer, que na realidade era consultor em medicina interna, abandonou o tratamento de pacientes nervosos e Freud dedicou-se ao aperfeiçoamento ulterior do instrumento que lhe deixara seu colaborador mais idoso. As novidades técnicas que introduziu e as descobertas que efetuou transformaram o método catártico em psicanálise. O passo mais momentoso foi sem dúvida sua determinação de passar sem a assistência da hipnose em seu procedimento técnico. Procedeu assim por duas razões: em primeiro lugar porque, apesar de um curso de instrução com Bernheim em Nancy,
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    ele não conseguiainduzir a hipnose em um número suficiente de casos, e, em segundo, porque estava insatisfeito com os resultados terapêuticos da catarse baseada na hipnose. É verdade que esses resultados eram notáveis e apareciam após um tratamento de curta duração, porém demonstravam não serem permanentes e dependerem demais das relações pessoais do paciente com o médico. O abandono da hipnose causou uma brecha no curso do desenvolvimento do procedimento até então e significou um novo começo. A hipnose, contudo, desempenhara o serviço de restituir à lembrança do paciente aquilo que ele havia esquecido. Era necessário encontrar alguma outra técnica para substituí-la e a Freud ocorreu a idéia de colocar em seu lugar o método da ‘associação livre’.” “Um conflito entre dois grupos de tendências mentais deve ser encarado como o fundamento para a repressão, e, por conseguinte, como a causa de toda enfermidade neurótica. E aqui a experiência nos ensinou um fato novo e surpreendente sobre a natureza das forças que estiveram lutando uma contra a outra. A repressão invariavelmente procedia da personalidade consciente da pessoa enferma (seu ego) e baseava-se em motivos estéticos e éticos; os impulsos sujeitos à repressão eram os do egoísmo e da crueldade, que em geral podem ser resumidos como o mal, porém, acima de tudo, impulsos desejosos sexuais, freqüentemente da espécie mais grosseira e proibida. Assim, os sintomas constituíam um substituto para satisfações proibidas e a moléstia parecia corresponder a uma subjugação incompleta do lado imoral dos seres humanos. O progresso em conhecimento tornou ainda mais claro o enorme papel desempenhado na vida mental pelos impulsos desejosos sexuais, e levou a um estudo pormenorizado da natureza e desenvolvimento do instinto sexual. Também deparamos, porém, com outro achado puramente empírico, na descoberta de que as experiências e conflitos dos primeiros anos da infância representam uma parte insuspeitadamente importante no desenvolvimento do indivíduo e deixam atrás de si disposições indeléveis que se abatem sobre o período da maturidade. Isso nos trouxe à revelação de algo que até então fora fundamentalmente negligenciado pela ciência — a sexualidade infantil, que, da mais tenra idade em diante, se manifesta tanto em reações físicas quanto em atitudes mentais.” “Após a hipnose ter sido substituída pela técnica da associação livre, o procedimento catártico de Breuer transformou-se em psicanálise, que por mais de uma década foi desenvolvida pelo autor (Freud), sozinho. Durante esse tempo ela gradativamente adquiriu uma teoria que parecia fornecer uma descrição satisfatória da origem, significado e propósito dos sintomas neuróticos, e proporcionava uma base racional para tentativas médicas de curar a queixa. Mais uma vez enumerei os fatores que contribuem para a constituição dessa teoria. São eles: ênfase na vida instintual (afetividade), na dinâmica mental, no fato de que mesmo os fenômenos mentais aparentemente mais obscuros e arbitrários possuem invariavelmente um significado e uma causação, a teoria do conflito psíquico e da natureza patogênica da repressão, a visão de que os sintomas constituem satisfações substitutas, o reconhecimento da importância etiológica da vida sexual, e especificamente, dos primórdios da sexualidade infantil. De um ponto de vista filosófico, essa teoria estava fadada a adotar a opinião de que o mental não coincide com oconsciente, que os processos mentais são, em si próprios, inconscientes e só se tornam conscientes pelo funcionamento de órgãos especiais (instâncias ou sintomas). Para completar essa lista acrescentarei que entre as atitudes afetivas da infância a complicada relação emocional das crianças com os pais — o que é conhecido por complexo de Édipo — surgiu em proeminência. Ficou cada
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    vez mais claroque ele era o núcleo de todo caso de neurose, e no comportamento do paciente para com seu analista surgiram certos fenômenos de sua transferência emocional que vieram a ser de grande importância para a teoria e a técnica, do mesmo modo.” “A fórmula que, no fundo, melhor atende à essência do sonho é esta: o sonho é uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido). O estudo do processo que transforma o desejo latente realizado no sonho no conteúdo manifesto do sonho — processo conhecido como ‘trabalho do sonho’ — ensinou-nos a maior parte do que sabemos sobre a vida mental inconsciente. Ora, o sonho não constitui um sintoma mórbido, mas é o produto de uma mente normal. Os desejos que ele representa como realizados são os mesmos que aqueles reprimidos nas neuroses. Os sonhos devem a possibilidade de sua gênese simplesmente à circunstância favorável de a repressão, durante o estado de sono que paralisa o poder de movimento do homem, ser mitigada na censura do sonho. Assim, prova-se que as mesmas forças e os mesmos processos que se realizam entre elas operam tanto na vida mental moral quanto na patológica.” “Um círculo sempre crescente de alunos e adeptos se havia reunido em torno dele, dedicando-se, em primeiro lugar, à difusão das teorias da psicanálise; depois, ampliaram, suplementaram e conduziram essas teorias a maior profundidade. Com o decorrer dos anos diversos desses defensores, como era inevitável, separaram-se, tomaram seus próprios rumos, ou se transformaram em uma oposição que pareceu ameaçar a continuidade do desenvolvimento da psicanálise. Entre 1911 e 1913, C. G. Jung, em Zurique, e Alfred Adler, em Viena, produziram determinada agitação por suas tentativas de dar novas interpretações aos fatos da análise e por seus esforços para um desvio do ponto de vista analítico. Entretanto, viu-se logo que essas secessões não haviam causado danos permanentes. O sucesso temporário que tenham atingido foi facilmente explicável pela presteza da massa das pessoas em livrar-se da pressão das exigências da psicanálise por qualquer caminho que se lhes pudesse abrir. A grande maioria dos colaboradores permaneceu firme e continuou seu trabalho orientada pelas linhas a eles indicadas.” “Se as descobertas psicológicas obtidas dos sonhos fossem firmemente lembradas, só outro passo era necessário antes que a psicanálise pudesse ser proclamada como a teoria dos processos mentais mais profundos não diretamente acessíveis à consciência — como uma ‘psicologia profunda’ —, e antes que pudesse ser aplicada a quase todas as ciências mentais. Esse passo residia na transição da atividade mental de homens individuais para as funções psíquicas de comunidades humanas e povos, isto é, da psicologia individual para a de grupo, e muitas analogias surpreendentes nos impuseram essa transição. Fora descoberto, por exemplo, que nos estratos profundos da atividade mental inconsciente os contrários não se distinguem um do outro, mas são expressos pelo mesmo elemento. Já em 1884, porém, Karl Abel, o filólogo, havia apresentado a opinião (em seu ‘Über dem Gegensinn der Urworte’) de que as línguas mais antigas que nos são conhecidas tratam os contrários da mesma maneira. Assim, o antigo egípcio, por exemplo, tinha em primeira instância apenas uma palavra para designar ‘forte’ e ‘fraco’, e somente mais tarde os dois lados da antítese foram distinguidos por ligeiras modificações. Mesmo nas línguas mais modernas claras relíquias de tais significados antitéticos podem ser encontradas. Assim, em alemão, ‘Boden‘ [‘sótão’ ou ‘chão’] significa tanto a coisa mais alta quanto a mais baixa da casa; semelhantemente,
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    em latim, ‘altus‘significa ‘alto’ e ‘profundo’. Portanto, a equivalência dos contrários nos sonhos constitui um traço arcaico universal no pensamento humano. Tomando um exemplo de outro campo, é impossível fugir à impressão da correspondência perfeita que pode ser descoberta entre as ações obsessivas de certos pacientes obsessivos e as observâncias religiosas dos crentes em todo o mundo. Certos casos de neurose obsessiva na realidade se comportam como uma caricatura de uma religião particular, de modo que é tentador assemelhar as religiões oficiais a uma neurose obsessiva, que foi mitigada por se tornar universalizada. Essa comparação, que sem dúvida é altamente objetável a todos os crentes, não obstante se mostrou psicologicamente muito frutífera, pois a psicanálise logo descobriu no caso da neurose obsessiva, quais são as forças que nela combatem entre si até seus conflitos encontrarem expressão notável no cerimonial das ações obsessivas. Nada de semelhante era suspeitado no caso do cerimonial religioso até que, remontando o sentimento religioso à relação com o pai como sua raiz mais profunda, tornou-se possível apontar para uma situação dinâmica análoga também nesse caso. Esse exemplo, ademais, pode advertir ao leitor que mesmo em sua aplicação a campos não médicos a psicanálise não pode evitar ferir preconceitos acalentados, aflorar sensibilidades profundamente enraizadas e provocar assim inimizades de base essencialmente emocional.” “Se deixarmos fora de cogitação impulsos internos pouco conhecidos, podemos dizer que a principal força motivadora no sentido do desenvolvimento cultural do homem foi a exigência externa real, que retirou dele a satisfação fácil de suas necessidades naturais e o expôs a perigos imensos. Essa frustração externa o impeliu a uma luta com a realidade, a qual findou parcialmente em uma adaptação a ela e, em parte, no controle sobre ela; contudo também o impeliu a trabalhar e viver em comum com os de sua espécie, e isso já envolvia uma renúncia de certo número de impulsos instintuais impossíveis de ser socialmente satisfeitos. Com os avanços ulteriores da civilização cresceram também as exigências da repressão. A civilização, afinal de contas, está construída inteiramente sobre a renúncia ao instinto, e todo indivíduo, em sua jornada da infância à maturidade, precisa, em sua própria pessoa, recapitular esse desenvolvimento da humanidade a um estado de criteriosa resignação. A psicanálise demonstrou que foram predominantemente, embora não exclusivamente, os impulsos instintuais que sucumbiram a essa supressão cultural. Parte deles, contudo, apresenta a característica valiosa de se permitirem ser desviados de seus objetivos imediatos e colocar assim sua energia à disposição do desenvolvimento cultural, sob a forma de tendências ‘sublimadas’. Outra parte, porém, persiste no inconsciente como desejos insatisfeitos e pressiona por alguma satisfação, ainda que deformada.” “E então, como terceiro argumento, a psicanálise nos demonstrou, para nosso crescente assombro, o papel enormemente importante desempenhado pelo que é conhecido por ‘complexo de Édipo’ — isto é, a relação emocional de uma criança humana com seus dois pais — na vida mental dos seres humanos. Nosso assombro se reduz quando compreendemos ser o complexo de Édipo o correlativo psíquico de dois fatos biológicos fundamentais: o longo período de dependência da criança humana e a maneira notável pela qual sua vida sexual atinge um primeiro clímax do terceiro ao quinto ano de vida, e depois, passado um período de inibição, reinicia-se na puberdade. E aqui se fez a descoberta de que uma terceira parte extremamente séria da atividade intelectual humana, a parte criadora das grandes instituições da religião, do direito, da ética e de todas as formas de vida cívica, tem como seu objetivo fundamental capacitar
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    o indivíduo adominar seu complexo de Édipo e desviar-lhe a libido de suas ligações infantis para as ligações sociais que são enfim desejadas.” “Se aceitarmos a distinção que recentemente propus, de dividir o aparelho psíquico em um ego, voltado para o mundo externo e aparelhado com a consciência, e em um id inconsciente, dominado por suas necessidades instintuais, então a psicanálise deve ser descrita como uma psicologia do id (e de seus efeitos sobre o ego). Em cada campo do conhecimento, portanto, ela só pode fazer contribuições, que requerem ser completadas a partir da psicologia do ego. Se essas contribuições amiúde contêm a essência dos fatos, isso apenas corresponde ao importante papel que, pode-se reivindicar, é desempenhado em nossas vidas pelo inconsciente mental que por tanto tempo permaneceu desconhecido.” IV – AS DUAS CLASSES DE INSTINTOS “Desenvolvi ultimamente uma visão dos instintos que sustentarei aqui e tomarei como base de meus debates ulteriores. Segundo essa visão, temos de distinguir duas classes de instintos, uma das quais, os instintos sexuais ou Eros, é, de longe, a mais conspícua e acessível ao estudo. Ela abrange não apenas o instinto sexual desinibido propriamente dito e os impulsos instintuais de natureza inibida quanto ao objetivo ou sublimada que dele derivam, mas também o instinto autopreservativo, que deve ser atribuído ao ego e que, no início de nosso trabalho analítico, tínhamos boas razões para contrastar com os instintos objetais sexuais. A segunda classe de instintos não foi tão fácil de indicar; ao final, viemos a reconhecer o sadismo como seu representante. Com base em considerações teóricas, apoiadas pela biologia, apresentamos a hipótese de um instinto de morte, cuja tarefa é conduzir a vida orgânica de volta ao estado inanimado; por outro lado, imaginamos que Eros, por ocasionar uma combinação de conseqüências cada vez mais amplas das partículas em que a substância viva se acha dispersa, visa a complicar a vida e, ao mesmo tempo, naturalmente, a preservá-la. Agindo dessa maneira, ambos os instintos seriam conservadores no sentido mais estrito da palavra, visto que ambos estariam se esforçando para restabelecer um estado de coisas que foi perturbado pelo surgimento da vida. O surgimento da vida seria, então, a causa da continuação da vida e também, ao mesmo tempo, do esforço no sentido da morte. E a própria vida seria um conflito e uma conciliação entre essas duas tendências. O problema da origem da vida permaneceria cosmológico, e o problema do objetivo e propósito da vida seria respondido dualisticamente. Segundo este ponto de vista, um processo fisiológico especial (de anabolismo ou catabolismo) estaria associado a cada uma das duas classes de instintos; ambos os tipos de instinto estariam ativos em toda partícula de substância viva, ainda que em proporções desiguais, de maneira que determinada substância poderia ser o principal representante de Eros. A hipótese não lança qualquer luz sobre a maneira pela qual as duas classes de instintos se fundem, misturam e ligam uma com a outra, mas que isso se realiza de modo regular e de modo muito extensivo, constitui pressuposição indispensável à nossa concepção. Parece que, em resultado da combinação de organismos unicelulares em formas multicelulares de vida, o instinto de morte da célula isolada pode ser neutralizado com sucesso e os impulsos destrutivos desviados para o mundo externo, mediante o auxílio de um órgão especial. Esse órgão especial pareceria ser o aparelho muscular; e o instinto de morte pareceria, então, expressar-se — ainda que, provavelmente, apenas em parte — como um instinto de destruição dirigido contra o mundo externo e outros organismos.”
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    “A ejeção dassubstâncias sexuais no ato sexual corresponde, em certo sentido, à separação do soma e do plasma germinal. Isto explica a semelhança do estado que se segue à satisfação sexual completa com o ato de morrer, e o fato de a morte coincidir com o ato da cópula em alguns dos animais inferiores. Essas criaturas morrem no ato da reprodução porque, após Eros ter sido eliminado através do processo de satisfação, o instinto de morte fica com as mãos livres para realizar seus objetivos. Finalmente, como vimos, o ego, sublimando um pouco da libido para si próprio e para seus propósitos, auxilia o id em seu trabalho de dominar as tensões.” Um estudo autobiográfico Inibições, sintomas e ansiedade A questão da análise leiga e outros trabalhos VOLUME XX (1925-1926) A QUESTÃO DA ANÁLISE LEIGA: CONVERSAÇÕES COM UMA PESSOA IMPARCIAL III “O senhor deve recordar-se das palavras do nosso poeta-filósofo: ‘A fome e o amor [são o que move o mundo].’ Incidentalmente, um par de forças formidáveis! Damos a essas necessidades corporais, até onde representam uma instigação à atividade mental, o nome de ‘Triebe‘ [instintos], uma palavra por cuja causa somos invejados por muitas línguas modernas. Bem, esses instintos enchem o id: toda a energia do id, expressando- o em breves palavras, se origina deles. Nem as forças do ego têm qualquer outra origem; provêm daquelas do id. O que, então, desejam esses instintos? Satisfação — isto é, o estabelecimento de situações nas quais as necessidades corporais possam ser extintas. Uma diminuição da tensão da necessidade é sentido pelo nosso órgão da consciência como agradável; um aumento dela logo é sentido como desprazer. Dessas oscilações surge a série de sentimentos de prazer-desprazer, de acordo com a qual todo o aparelho mental regula sua atividade. Nesse sentido falamos de uma ‘dominância do princípio de prazer’. Se as exigências instintuais do id não encontrarem satisfação alguma, surgem condições intoleráveis. A experiência logo revela que essas situações só podem ser estabelecidas mediante a ajuda do mundo externo. Nesse ponto a parte do id que está dirigida para o mundo externo — o ego — começa a funcionar. Se toda a força impulsora que põe o veículo em movimento for derivada do id, o ego, por assim dizer, se encarrega da direção, sem a qual meta alguma pode ser alcançada. Os instintos no id pressionam por satisfação imediata a todo custo, e dessa forma nada alcançam nem chegam mesmo a acarretar dano apreciável. Constitui tarefa do ego resguardar-se contra tais contratempos, para servir de medianeiro entre as reivindicações do id e as objeções do mundo externo.”
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    “Uma neurose éassim o resultado de um conflito entre o ego e o id, no qual o ego se envolveu porque, como revela uma investigação cuidadosa, ele deseja a todo custo reter sua adaptabilidade em relação com o mundo externo real. A divergência verifica-se entre o mundo externo e o id; e é porque o ego, leal a sua natureza mais íntima, toma o partido do mundo externo que ele se torna envolvido num conflito com seu id. Mas observe que o que cria o determinante da doença não é o fato desse conflito — pois discordâncias dessa natureza entre a realidade e o id são inevitáveis, sendo uma das principais tarefas do ego servir de mediador nelas —, mas a circunstância de o ego haver feito uso do instrumento ineficiente de repressão para lidar com o conflito. Mas isto por sua vez se deve ao fato de que o ego, na ocasião em que se incumbiu da tarefa, era não desenvolvido e impotente. Todas as repressões decisivas se verificam na primeira infância.” “É fácil agora descrever nossa finalidade terapêutica. Tentamos restaurar o ego, livrá-lo de suas restrições, e dar-lhe de volta o domínio sobre o ego (id? – grifo meu) que ele perdeu devido às suas primeiras repressões. É para esse único fim que efetuamos a análise, toda nossa técnica está dirigida para essa finalidade. Temos de procurar as repressões que foram estabelecidas e instigar o ego a corrigi-las com nossa ajuda e a lidar com os conflitos melhor do que mediante uma tentativa de fuga. Visto que essas repressões pertencem bem aos primeiros anos da infância, o trabalho de análise nos leva também de volta àquele período. Nosso caminho a essas situações de conflito, que na maior parte foram esquecidas e que tentamos reviver na lembrança do paciente, nos é mostrado pelos seus sintomas, sonhos e associações livres. Estes devem, contudo, ser em primeiro lugar interpretados — traduzidos —, pois, sob a influência da psicologia do id, assumiram formas de expressão estranhas à nossa compreensão. Podemos presumir que quaisquer associações, pensamentos e lembranças que o paciente seja incapaz de comunicar-nos sem lutas internas estão de alguma maneira vinculados ao material reprimido ou são seus derivados. Ao estimular o paciente a desprezar suas resistências relatando essas coisas, estamos educando seu ego a superar sua inclinação no sentido de tentativas de fuga e a tolerar uma abordagem ao que é reprimido. No fim, se a situação da repressão puder ser reproduzida com êxito em sua memória, sua obediência será brilhantemente recompensada. Toda a diferença entre sua idade então e agora atua a seu favor, e a coisa da qual seu ego infantil fugiu aterrorizado muitas vezes parecerá ao seu ego adulto e fortalecido nada mais que uma brincadeira de criança.” IV “Dir-lhe-ei, então, que o fato mais notável sobre a vida sexual das crianças, segundo me parece, passa por todo seu desenvolvimento mais amplo nos cinco primeiros anos de vida. A partir desse ponto até a puberdade estende-se o que se conhece como período de latência. Durante ele a sexualidade normalmente não avança mais; pelo contrário, os anseios sexuais diminuem de vigor e são abandonadas e esquecidas muitas coisas que a criança fazia e conhecia. Nesse período da vida, depois que a primeira eflorescência da sexualidade feneceu, surgem atitudes do ego como a vergonha, a repulsa e a moralidade, que estão destinadas a fazer frente à tempestade ulterior da puberdade e a alicerçar o caminho dos desejos sexuais que se vão despertando. Esse ‘desencadeamento bifásico’, como é denominado, da vida sexual muito tem a ver com a gênese das doenças neuróticas. Parece ocorrer somente nos seres humanos, e talvez seja um dos determinantes do privilégio humano de tornar-se neurótico. A pré-história da vida sexual foi tão desprezada antes da psicanálise como, em outro setor, os antecedentes da
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    vida mental consciente.O senhor com razão suspeitará de que os dois estão intimamente ligados.” “Nada, contudo, merece mais atenção do que o fato de as crianças regularmente dirigirem seus desejos sexuais para os seus parentes mais próximos — em primeiro lugar, portanto, para o pai e a mãe, e depois para seus irmãos e irmãs. O primeiro objeto do amor de um menino é sua mãe, e de uma menina seu pai (exceto até onde uma disposição bissexual inata favorece a presença simultânea da atitude contrária). Sente-se o outro genitor como um rival perturbador, e não infreqüentemente é encarado com forte hostilidade. O senhor deve compreender-me bem. O que quero dizer não é que a criança deseja ser tratada por seu genitor predileto simplesmente com a espécie de afeição que nós adultos gostamos de considerar como a essência da relação pai-filho. Não, a análise não nos deixa dúvida alguma de que os desejos da criança se estendem, além de tal afeição, a tudo que compreendemos por satisfação sensual — até onde, vale dizer, o permitem os poderes de imaginação da criança. É fácil ver que a criança jamais adivinha os fatos reais das relações sexuais; ela os substitui por outras idéias oriundas de sua própria experiência e sentimentos. Em geral seus desejos culminam na intenção de dar à luz ou, de alguma maneira indefinível, de procriar um bebê. Também os meninos, em sua ignorância, não se excluem do desejo de dar à luz uma criança. Damos a toda essa estrutura mental a denominação de ‘complexo de Édipo’, segundo a conhecida lenda grega. Com o término do período sexual inicial ele deve normalmente ser abandonado, deve desintegrar-se radicalmente e ser transformado, estando os resultados dessa transformação destinados a importantes funções na vida mental ulterior. Mas em geral isso não se efetua de maneira bastante radical, caso em que a puberdade acarreta uma revivescência do complexo, que pode ter graves conseqüências.” " Ao afirmar que a primeira escolha de uma criança é, para empregar o termo técnico, uma escolha incestuosa, a análise sem dúvida mais uma vez fere os sentimentos mais sagrados da humanidade, e pode muito bem estar preparada para uma quantidade correspondente de descrença, contradição e ataque. E estes ela tem recebido com abundância. Nada a tem danificado mais na abalizada opinião dos seus contemporâneos do que sua hipótese do complexo de Édipo como uma estrutura universalmente vinculada ao destino humano. O mito grego, incidentalmente, deve ter tido o mesmo significado; mas a maioria dos homens hoje em dia, eruditos igualmente, prefere crer que a Natureza estabeleceu em nós uma aversão inata como salvaguarda contra a possibilidade de incesto.” “A cosmologia, não menos que a genealogia de raças reais, está fundamentada no incesto. Para que finalidade o senhor supõe que essas lendas foram criadas? Para estigmatizar deuses e reis como criminosos? para imputar-lhes a repulsa da raça humana? De preferência, por certo, porque os desejos incestuosos constituem um legado humano primordial e jamais foram plenamente superados, de modo que sua realização ainda era concedida aos deuses e aos seus descendentes quando a maioria dos seres humanos comuns já era obrigada a renunciar a tais desejos. Está em completa harmonia com essas lições da história e da mitologia o fato de encontrarmos desejos ainda presentes a atuantes na infância do indivíduo.” “‘O quê? O senhor submeteu criancinhas à análise? crianças com menos de seis anos? isso pode ser feito? E não é muito arriscado para as crianças?
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    Pode muito bemser feito. Quase não se pode acreditar no que se passa numa criança de quatro ou cinco anos de idade. As crianças têm uma mente muito ativa nessa idade; seu período sexual prematuro é também um período de florescimento intelectual. Tenho a impressão de que com o início do período de latência elas se tornam mentalmente inibidas também, mais estúpidas. Também a partir dessa época muitas crianças perdem seu encanto físico. E, no tocante ao dano causado pela análise prematura, posso informar-lhe que a primeira criança na qual se aventurou o primeiro experimento, há quase vinte anos, desde então se desenvolveu num jovem saudável e capaz, que atravessou a puberdade de maneira irrepreensível, apesar de alguns graves traumas psíquicos. Talvez seja de se esperar que as coisas não sejam piores para as outras ‘vítimas’ da análise prematura. Muito daquilo que é de interesse está ligado a essas análises infantis; é possível que no futuro elas se tornem ainda mais importantes. Do ponto de vista da teoria, seu valor é indubitável, proporcionando informações destituídas de ambigüidade sobre problemas que permanecem insolúveis nas análises de adultos; e dessa forma protegem o analista de erros que poderiam ter para ele conseqüências graves. Surpreendemos os fatores que levam à formação de uma neurose enquanto se acham realmente em ação e não podemos então confundi-los. No interesse da criança, é verdade, a influência analítica deve ser combinada com medidas educacionais. A técnica ainda tem de receber sua confirmação. Mas o interesse prático é despertado pela observação de que grande número de nossas crianças passa por uma fase claramente neurótica no curso de seu desenvolvimento. Visto termos aprendido a observar com maior agudeza, somos tentados a afirmar que a neurose nas crianças não é a exceção, mas a regra, como se ela quase não pudesse ser evitada na trilha desde a disposição inata da infância até a sociedade civilizada. Na maioria dos casos essa fase neurótica da infância é superada espontaneamente. Mas será que ela não pode também regularmente deixar seus vestígios no adulto saudável comum? Por outro lado, naqueles que se tornam neuróticos depois, nunca deixamos deencontrar elos com a doença na infância, embora na época não tenha sido necessário ser muito observável. De forma precisamente análoga os médicos hoje, creio, sustentam a opinião de que cada um de nós passou por uma investida de tuberculose em sua infância. É verdade que no caso das neuroses o fator de imunização não atua, mas somente o fator de predisposição.” “Constitui um fato estranho que a parte regular e essencial dessa atividade sexual não tenha sido desprezada. Ou antes, ela não é de forma alguma estranha, pois foi impossível desprezá-la. Os impulsos sexuais das crianças encontram suas principais expressões na autogratificação pela fricção de seus próprio órgãos genitais ou, mais precisamente, da porção masculina deles. A distribuição extraordinariamente ampla dessa forma de ‘travessura’ infantil sempre foi conhecida dos adultos, e foi considerada como grave pecado e severamente punida. Mas, por favor, não me pergunte como as pessoas podiam reconciliar essas observações das inclinações imorais das crianças — porque as crianças o fazem, como elas próprias dizem, porque lhes dá prazer — com a teoria de sua pureza e não-sensualidade inatas. O senhor tem de fazer com que nossos adversários solucionem esse enigma. Nós temos um problema mais importante diante de nós. Que atitude devemos adotar em relação à atividade sexual da primeira infância? Sabemos a responsabilidade na qual estamos incorrendo se a suprimirmos; mas não nos aventuramos a deixá-la seguir seu curso sem restrição. Entre as raças num baixo nível de civilização, e entre as camadas inferiores das raças civilizadas, a sexualidade das crianças parece ter recebido livre rédea. Isso provavelmente oferece poderosa proteção contra o subseqüente desenvolvimento de neuroses no indivíduo. Mas isso ao mesmo tempo não envolve uma extraordinária perda de aptidão para realizações culturais?”
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    O futuro deuma ilusão O mal estar na civilização E outros trabalhos VOLUME XXI (1927-1931) O FUTURO DE UMA ILUSÃO I “A civilização humana, expressão pela qual quero significar tudo aquilo em que a vida humana se elevou acima de sua condição animal e difere da vida dos animais — e desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização —, apresenta, como sabemos, dois aspectos ao observador. Por um lado, inclui todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu com o fim de controlar as forças da natureza e extrair a riqueza desta para a satisfação das necessidades humanas; por outro, inclui todos os regulamentos necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros e, especialmente, a distribuição da riqueza disponível. As duas tendências da civilização não são independentes uma da outra; em primeiro lugar, porque as relações mútuas dos homens são profundamente influenciadas pela quantidade de satisfação instintual que a riqueza existente torna possível; em segundo, porque, individualmente, um homem pode, ele próprio, vir a funcionar como riqueza em relação a outro homem, na medida em que a outra pessoa faz uso de sua capacidade de trabalho ou o escolha como objeto sexual; em terceiro, ademais, porque todo indivíduo é virtualmente inimigo da civilização, embora se suponha que esta constitui um objeto de interesse humano universal. É digno de nota que, por pouco que os homens sejam capazes de existir isoladamente, sintam, não obstante, como um pesado fardo os sacrifícios que a civilização deles espera, a fim de tornar possível a vida comunitária. A civilização, portanto, tem de ser defendida contra o indivíduo, e seus regulamentos, instituições e ordens dirigem-se a essa tarefa. Visam não apenas a efetuar uma certa distribuição da riqueza, mas também a manter essa distribuição; na verdade, têm de proteger contra os impulsos hostis dos homens tudo o que contribui para a conquista da natureza e a produção de riqueza. As criações humanas são facilmente destruídas, e a ciência e a tecnologia, que as construíram, também podem ser utilizadas para sua aniquilação.” “Pensar-se-ia ser possível um reordenamento das relações humanas, que removeria as fontes de insatisfação para com a civilização pela renúncia à coerção e à repressão dos instintos, de sorte que, imperturbados pela discórdia interna, os homens pudessem dedicar-se à aquisição da riqueza e à sua fruição. Essa seria a idade de ouro, mas é discutível se tal estado de coisas pode ser tornado realidade. Parece, antes, que toda civilização tem de se erigir sobre a coerção e a renúncia ao instinto; sequer parece certo se, caso cessasse a coerção, a maioria dos seres humanos estaria preparada para empreender o trabalho necessário à aquisição de novas riquezas. Acho que se tem de levar em conta o fato de estarem presentes em todos os homens tendências destrutivas e, portanto, anti-sociais e anticulturais, e que, num grande número de pessoas, essas tendências são suficientemente fortes para determinar o comportamento delas na sociedade humana.
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    Esse fato psicológicotem importância decisiva para nosso julgamento da civilização humana. Onde, a princípio, poderíamos pensar que sua essência reside no controle da natureza para o fim de adquirir riqueza, e que os perigos que a ameaçam poderiam ser eliminados por meio de uma distribuição apropriada dessa riqueza entre os homens, parece agora que a ênfase se deslocou do material para o mental. A questão decisiva consiste em saber se, e até que ponto, é possível diminuir o ônus dos sacrifícios instintuais impostos aos homens, reconciliá-los com aqueles que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes uma compensação.” “II Deslizamos, sem nos darmos conta, do campo econômico para o da psicologia. A princípio, ficamos tentados a procurar as vantagens da civilização na riqueza disponível e nos regulamentos para sua distribuição. Entretanto, com o reconhecimento de que toda civilização repousa numa compulsão a trabalhar e numa renúncia ao instinto, provocando, portanto, inevitavelmente, a oposição dos atingidos por essas exigências, tornou-se claro que a civilização não pode consistir, principal ou unicamente na própria riqueza, nos meios de adquiri-la e nas disposições para sua distribuição, de uma vez que essas coisas são ameaçadas pela rebeldia e pela mania destrutiva dos participantes da civilização. Junto com a riqueza deparamo-nos agora com os meios pelos quais a civilização pode ser defendida: medidas de coerção e outras, que se destinam a reconciliar os homens com ela e a recompensá-los por seus sacrifícios. Estas últimas podem ser descritas como as vantagens mentais da civilização. Em benefício de uma terminologia uniforme, descreveremos como ‘frustração’ o fato de um instinto não poder ser satisfeito, como ‘proibição’ o regulamento pelo qual essa frustração é estabelecida, e como ‘privação’ a condição produzida pela proibição. O primeiro passo consiste em distinguir entre privações que afetam a todos e privações que não afetam a todos, mas apenas a grupos, classes ou mesmo indivíduos isolados. As primeiras são as mais antigas; com as proibições que as estabeleceram, a civilização — quem sabe há quantos milhares de anos? — começou a separar o homem de sua condição animal primordial. Para nossa surpresa, descobrimos que essas privações ainda são operantes e ainda constituem o âmago da hostilidade para com a civilização. Os desejos instintuais que sob elas padecem, nascem de novo com cada criança; há uma classe de pessoas, os neuróticos, que reagem a essas frustrações através de um comportamento associal. Entre esses desejos instintuais encontram-se os do canibalismo, do incesto e da ânsia de matar. Soa estranho colocar lado a lado desejos que todos parecem unânimes em repudiar e desejos sobre os quais existe tão vívida disputa em nossa civilização quanto a sua permissão ou frustração; psicologicamente, porém, é justificável proceder assim. Tampouco, de modo algum é uniforme a atitude da civilização para com esses antigos desejos instintuais. Apenas o canibalismo parece ser universalmente proscrito e — para a opinião não psicanalítica — ter sido completamente dominado. A intensidade dos desejos incestuosos ainda pode ser detectada por detrás da proibição contra eles, e, sob certas condições, o matar ainda é praticado, e, na verdade, ordenado, por nossa civilização. É possível que ainda tenhamos pela frente desenvolvimentos culturais em que a satisfação de outros desejos, inteiramente permissíveis hoje, parecerá tão inaceitável quanto, atualmente, o canibalismo.” “Não é verdade que a mente humana não tenha passado por qualquer desenvolvimento desde os tempos primitivos e que, em contraste com os avanços da ciência e da tecnologia, seja hoje a mesma que era nos primórdios da história. Podemos assinalar de
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    imediato um dessesprogressos mentais. Acha-se em consonância com o curso do desenvolvimento humano que a coerção externa se torne gradativamente internalizada, pois um agente mental especial, o superego do homem, a assume e a inclui entre seus mandamentos. Toda criança nos apresenta esse processo de transformação; é só por esse meio que ela se torna um ser moral e social. Esse fortalecimento do superego constitui uma vantagem cultural muito preciosa no campo psicológico. Aqueles em que se realizou são transformados de opositores em veículos da civilização. Quanto maior é o seu número numa unidade cultural, mais segura é a sua altura e mais ela pode passar sem medidas externas de coerção. Ora, o grau dessa internalização difere grandemente entre as diversas proibições instintuais. Com referência às primeiras exigências culturais, que já mencionei, a internalização parece ter sido amplamente conseguida, se não levarmos em conta a exceção desagradável dos neuróticos. Contudo, o caso se altera quando nos voltamos para as outras reivindicações instintuais. Aqui observamos com surpresa e preocupação que a maioria das pessoas obedece às proibições culturais nesses pontos apenas sob pressão da coerção externa, isto é, somente onde essa coerção pode fazer-se efetiva e enquanto deve ser temida. Isso também é verdade quanto ao que é conhecido como sendo as exigências morais da civilização, que, do mesmo modo, se aplicam a todos. A maioria das experiências que se tem da infidedignidade moral do homem ocorre nessa categoria. Há incontáveis pessoas civilizadas que se recusam a cometer assassinato ou a praticar incesto, mas que não se negam a satisfazer sua avareza, seus impulsos agressivos ou seus desejos sexuais, e que não hesitam em prejudicar outras pessoas por meio da mentira, da fraude e da calúnia, desde que possam permanecer impunes; isso, indubitavelmente, foi sempre assim através de muitas épocas da civilização.” “III Em que reside o valor peculiar das idéias religiosas? Já falamos da hostilidade para com a civilização, produzida pela pressão que esta exerce, pelas renúncias do instinto que exige. Se se imaginarem suspensas as suas proibições — se, então, se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objeto sexual; se fosse possível matar sem hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se colocasse no caminho, e se, também, se pudesse levar consigo qualquer dos pertences de outro homem sem pedir licença—, quão esplêndida, que sucessão de satisfações seria a vida! É verdade que logo nos deparamos com a primeira dificuldade: todos os outros têm exatamente os mesmos desejos que eu, e não me tratarão com mais consideração do que eu os trato. Assim, na realidade, só uma única pessoa se poderia tornar irrestritamente feliz através de uma tal remoção das restrições da civilização, e essa pessoa seria um tirano, um ditador, que se tivesse apoderado de todos os meios de poder. E mesmo ele teria todos os motivos para desejar que os outros observassem pelo menos um mandamento cultural: ‘não matarás’. Mas quão ingrato, quão insensato, no fim das contas, é esforçar-se pela abolição da civilização! O que então restaria seria um estado de natureza, muito mais difícil de suportar. É verdade que a natureza não exigiria de nós quaisquer restrições dos instintos, deixar-nos-ia proceder como bem quiséssemos; contudo, ela possui seu próprio método, particularmente eficiente, de nos coibir. Ela nos destrói, fria, cruel e incansavelmente, segundo nos parece, e, possivelmente, através das próprias coisas que ocasionaram nossa satisfação. Foi precisamente por causa dos perigos com que a natureza nos ameaça que nos reunimos e criamos a civilização, a qual também, entre outras coisas, se destina a tornar possível nossa vida comunal, pois a principal missão da civilização, sua raison d’être real, é nos defender contra a natureza.”
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    “Tal como paraa humanidade em geral, também para o indivíduo a vida é difícil de suportar. A civilização de que participa impõe-lhe uma certa quantidade de privação, e outros homens lhe trazem outro tanto de sofrimento, seja apesar dos preceitos de sua civilização, seja por causa das imperfeições dela. A isso se acrescentam os danos que a natureza indomada — o que ele chama de Destino — lhe inflige. Poder-se-ia supor que essa condição das coisas resultaria num permanente estado de ansiosa expectativa presente nele e em grave prejuízo a seu narcisismo natural. Já sabemos como o indivíduo reage aos danos que a civilização e os outros homens lhe infligem: desenvolve um grau correspondente de resistência aos regulamentos da civilização e de hostilidade para com ela. Mas, como se defende ele contra os poderes superiores da natureza, do Destino, que o ameaçam da mesma forma que a tudo mais? (...).Porque essa situação não é nova. Possui um protótipo infantil, de que, na realidade, é somente a continuação. Já uma vez antes, nos encontramos em semelhante estado de desamparo: como crianças de tenra idade, em relação a nossos pais. Tínhamos razões para temê-los, especialmente nosso pai; contudo, estávamos certos de sua proteção contra os perigos que conhecíamos. Assim, foi natural assemelhar as duas situações. Aqui, também, o desejar desempenhou seu papel, tal como faz na vida onírica. Aquele que dorme pode ser tomado por um pressentimento da morte, que ameaça colocá-lo no túmulo. A elaboração onírica, porém, sabe como selecionar uma condição que transformará mesmo esse temível evento uma realização de desejo: aquele que sonha vê-se a si mesmo numa antiga sepultura etrusca a que desceu, feliz por satisfazer seus interesses arqueológicos. Do mesmo modo, um homem transforma as forças da natureza não simplesmente em pessoas com quem pode associar-se como com seus iguais — pois isso não faria justiça à impressão esmagadora que essas forças causam nele —, mas lhes concede o caráter de um pai. Transforma-as em deuses, seguindo nisso, como já tentei demonstrar, não apenas um protótipo infantil, mas um protótipo filogenético. No decorrer do tempo, fizeram-se as primeiras observações de regularidade e conformidade à lei nos fenômenos naturais, e, com isso, as forças da natureza perderam seus traços humanos. O desamparo do homem, porém, permanece e, junto com ele, seu anseio pelo pai e pelos deuses. Estes mantêm sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é demonstrada na morte,e compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs.” “Foi assim que se criou um cabedal de idéias, nascido da necessidade que tem o homem de tornar tolerável seu desamparo, e construído com o material das lembranças do desamparo de sua própria infância e da infância da raça humana. Pode-se perceber claramente que a posse dessas idéias o protege em dois sentidos: contra os perigos da natureza e do Destino, e contra os danos que o ameaçam por parte da própria sociedade humana. Reside aqui a essência da questão. A vida neste mundo serve a um propósito mais elevado; indubitavelmente, não é fácil adivinhar qual ele seja, mas decerto significa um aperfeiçoamento da natureza do homem. É provavelmente a parte espiritual deste, a alma, que, no decurso do tempo, tão lenta e relutantemente, se desprendeu do corpo, que constitui o objeto desta elevação e exaltação. Tudo o que acontece neste mundo constitui expressão das intenções de uma inteligência superior para conosco, inteligência que, ao final, embora seus caminhos e desvios sejam difíceis de acompanhar, ordena tudo para o melhor — isto é, torna-o desfrutável por nós. Sobre cada um de nós vela uma Providência benevolente que só aparentemente é severa e que não permitirá que nos tornemos um joguete das forças poderosas e impiedosas da
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    natureza. A própriamorte não é uma extinção, não constitui um retorno ao inanimado inorgânico, mas o começo de um novo tipo de existência que se acha no caminho da evolução para algo mais elevado. E, olhando na outra direção, essa visão anuncia que as mesmas leis morais que nossas civilizações estabeleceram, governam também o universo inteiro, com a única diferença de serem mantidas por uma corte suprema de justiça incomparavelmente mais poderosa e harmoniosa. Ao final, todo o bem é recompensado e todo o mal, punido, se não na realidade, sob esta forma de vida, pelo menos em existências posteriores que se iniciam após a morte. Assim, todos os terrores, sofrimentos e asperezas da vida estão destinados a se desfazer. A vida após a morte, que continua a vida sobre a terra exatamente como a parte invisível do espectro se une à parte visível, nos conduz à perfeição que talvez tenhamos deixado de atingir aqui. E a sabedoria superior que dirige esse curso das coisas, a bondade infinita que nela se expressa, a justiça que nela atinge seu objetivo, são os atributos dos seres divinos que também nos criaram, e ao mundo como um todo, ou melhor, de um ser divino no qual, em nossa civilização, todos os deuses da Antiguidade foram condensados. O povo que pela primeira vez alcançou êxito em concentrar assim os atributos divinos não ficou pouco orgulhoso de seu progresso. Descerrara à vista o pai que sempre se achara oculto por detrás de toda figura divina, como seu núcleo. Fundamentalmente, isso constituía um retorno aos primórdios históricos da idéia de Deus. Agora que este era uma figura isolada, as relações do homem com ele podiam recuperar a intimidade e a intensidade do relacionamento do filho com o pai. Mas, já que se fizera tanto pelo próprio pai, desejava-se obter uma recompensa, ou, pelo menos, ser o seu filho bem amado, o seu Povo Escolhido. Muito mais tarde, a piedosa América reivindicou ser o ‘Próprio País de Deus’, e, com referência a uma das formas pelas quais os homens adoram a divindade, essa reivindicação é indubitavelmente válida. As idéias religiosas acima resumidas naturalmente passaram por um longo processo de desenvolvimento, e diversas civilizações a elas aderiram em diversas fases. Isolei uma dessas fases que corresponde aproximadamente à forma final assumida por nossa atual civilização branca e cristã.” IV “Em Totem e Tabu, não era meu propósito explicar a origem da religião, mas apenas do totemismo. Poderá você (Freud havia criado um opositor fictício – grifo meu), segundo qualquer dos pontos de vista que lhe são conhecidos, explicar o fato de que a primeira forma pela qual a divindade protetora se revelou aos homens teve de ser a de um animal, que tenha havido uma proibição contra matar e comer esse animal, e que, não obstante, o costume solene tenha sido matá-lo e comê-lo comunalmente uma vez por ano? É exatamente isso que acontece no totemismo. E dificilmente tem propósito argumentar se o totemismo deve ser chamado de religião. Ele possui vinculações estreitas com as posteriores religiões de deuses. Os animais totêmicos tornam-se os animais sagrados dos deuses, e as mais antigas, mas fundamentais restrições morais — as proibições contra o assassinato e o incesto — originam-se do totemismo. Aceite você ou não as conclusões de Totem e Tabu, espero que admita que uma série de fatos notáveis e desvinculados são nele reunidos num todo coerente. A questão de saber por que, a longo prazo, o deus animal não bastou, e foi substituído por um deus humano, mal foi abordada em Totem e Tabu, e outros problemas concernentes à formação da religião não foram, de modo algum, mencionados no livro. Considera você uma limitação desse tipo a mesma coisa que uma negação? Meu trabalho constitui um bom exemplo do isolamento estrito da contribuição específica que
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    o exame psicanalíticopode efetuar quanto à solução do problema da religião. Se agora estou tentando acrescentar a outra parte, menos profundamente oculta, acho que você não deveria me acusar de estar me contradizendo, tal como antes me acusou de ser unilateral. Naturalmente, é meu dever apontar os vínculos de união entre o que disse antes e o que apresento agora, entre os motivos manifestos, entre o complexo paterno e o desamparo e a necessidade de proteção do homem.” “Você se recorda da escolha de objeto de acordo com o tipo anaclítico [ligação], de que fala a psicanálise? A libido segue aí os caminhos das necessidades narcísicas e liga-se aos objetos que asseguram a satisfação dessas necessidades. Desta maneira, a mãe, que satisfaz a fome da criança, torna-se seu primeiro objeto amoroso e, certamente, também sua primeira proteção contra todos os perigos indefinidos que a ameaçam no mundo externo — sua primeira proteção contra a ansiedade, podemos dizer. Nessa função [de proteção] a mãe é logo substituída pelo pai mais forte, que retém essa posição pelo resto da infância. Mas a atitude da criança para com o pai é matizada por uma ambivalência peculiar. O próprio pai constitui um perigo para a criança, talvez por causa do relacionamento anterior dela com a mãe. Assim, ela o teme tanto quanto anseia por ele e o admira. As indicações dessa ambivalência na atitude para com o pai estão profundamente impressas em toda religião, tal como foi demonstrado em Totem e Tabu. Quando o indivíduo em crescimento descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre, que nunca poderá passar sem proteção contra estranhos poderes superiores, empresta a esses poderes as características pertencentes à figura do pai; cria para si próprio os deuses a quem teme, a quem procura propiciar e a quem, não obstante, confia sua própria proteção. Assim, seu anseio por um pai constitui um motivo idêntico à sua necessidade de proteção contra as conseqüências de sua debilidade humana. É a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo que ele tem de reconhecer — reação que é, exatamente, a formação da religião. Mas não é minha intenção levar mais adiante a investigação do desenvolvimento da idéia de Deus; aquilo em que aqui estamos interessados é o corpo acabado das idéias religiosas, tal como transmitido pela civilização ao indivíduo.” V “Devemos perguntar onde reside a força interior dessas doutrinas e a que devem sua eficácia, independente, como é, do reconhecimento pela razão. VI Acho que preparamos suficientemente o caminho para uma resposta a ambas as perguntas. Ela será encontrada se voltarmos nossa atenção para a origem psíquica das idéias religiosas. Estas, proclamadas como ensinamentos, não constituem precipitados de experiência ou resultados finais de pensamento: são ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos. Como já sabemos, a impressão terrificante de desamparo na infância despertou a necessidade de proteção — de proteção através do amor —, a qual foi proporcionada pelo pai; o reconhecimento de que esse desamparo perdura através da vida tornou necessário aferrar-se à existência de um pai, dessa vez, porém, um pai mais poderoso. Assim o governo benevolente de uma Providência divina mitiga nosso temor dos perigos da vida; o estabelecimento de uma ordem moral mundial assegura a realização das exigências de justiça, que com tanta freqüência permaneceram irrealizadas na civilização humana; e o prolongamento da existência terrena numa vida
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    futura fornece aestrutura local e temporal em que essas realizações de desejo se efetuarão. As respostas aos enigmas que tentam a curiosidade do homem, tais como a maneira pela qual o universo começou ou a relação entre corpo e mente, são desenvolvidas em conformidade com as suposições subjacentes a esse sistema. Constitui alívio enorme para a psique individual se os conflitos de sua infância, que surgem do complexo paterno — conflitos que nunca superou inteiramente —, são dela retirados e levados a uma solução universalmente aceita. Quando digo que todas essas coisas são ilusões, devo definir o significado da palavra. Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro; tampouco é necessariamente um erro.” “O que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos. Com respeito a isso, aproximam-se dos delírios psiquiátricos, mas deles diferem também, à parte a estrutura mais complicada dos delírios. No caso destes, enfatizamos como essencial o fato de eles se acharem em contradição com a realidade. As ilusões não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis ou em contradição com a realidade. Por exemplo, uma moça de classe média pode ter a ilusão de que um príncipe aparecerá e se casará com ela. Isso é possível, e certos casos assim já ocorreram. Que o Messias chegue e funde uma idade de ouro é muito menos provável. Classificar-se essa crença como ilusão ou como algo análogo a um delírio dependerá da própria atitude pessoal. Exemplos de ilusões que mostraram ser verdadeiras não são fáceis de encontrar, mas a ilusão dos alquimistas de que todos os metais podiam ser transformados em ouro poderia ser um deles. O desejo de possuir uma grande quantidade de ouro, tanto ouro quanto possível, foi, é verdade, em grande parte arrefecido por nosso conhecimento atual dos fatores determinantes da riqueza, mas a química não mais encara a transmutação dos metais em ouro como impossível. Podemos, portanto, chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui fator proeminente em sua motivação e, assim procedendo, desprezamos suas relações com a realidade, tal como a própria ilusão não dá valor à verificação.” “Havendo estabelecido desse modo nossas coordenadas, retornemos à questão das doutrinas religiosas. Podemos agora repetir que todas elas são ilusões e insuscetíveis de prova. Ninguém pode ser compelido a achá-las verdadeiras, a acreditar nelas. Algumas são tão improváveis, tão incompatíveis com tudo que laboriosamente descobrimos sobre a realidade do mundo, que podemos compará-las — se consideramos de forma apropriada as diferenças psicológicas — a delírios. Do valor de realidade da maioria delas não podemos ajuizar; assim como não podem ser provadas, também não podem ser refutadas. Conhecemos ainda muito pouco para efetuar sua abordagem crítica. Os enigmas do universo só lentamente se revelam à nossa investigação; existem muitas questões a que a ciência atualmente não pode dar resposta. Mas o trabalho científico constitui a única estrada que nos pode levar a um conhecimento da realidade externa a nós mesmos. É, mais uma vez, simplesmente uma ilusão esperar qualquer coisa da intuição e da introspecção; elas nada nos podem dar, a não ser detalhes sobre nossa própria vida mental, detalhes difíceis de interpretar, nunca qualquer informação sobre as perguntas que a doutrina religiosa acha tão fácil responder. Seria insolente permitir que nossa própria vontade arbitrária ingressasse na questão e, de acordo com nossa estimativa pessoal, declarasse esta ou aquela parte do sistema religioso como mais ou menos aceitável. Tais questões são momentosas demais para isso; poderiam ser chamadas de demasiadamente sagradas. Nesse ponto, é de esperar que se encontre uma objeção. ‘Bem, então, se mesmos os céticos impenitentes admitem que as asserções da religião não podem ser refutadas pela razão, por que não devo acreditar nelas, já que
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    possuem tanta coisade seu lado — a tradição, a concordância da humanidade, e todas as consolações que oferecem?’ De fato, por que não? Assim como ninguém pode ser forçado a crer, também ninguém pode ser forçado a descrer. Mas não nos permitamos ficar satisfeitos em nos enganarmos que argumentos desse tipo nos conduzirão pela estrada do pensamento correto. Se algum dia já houve um exemplo de desculpa esfarrapada, temo-lo aqui. Ignorância é ignorância; nenhum direito a acreditar em algo pode ser derivado dela. Em outros assuntos, nenhuma pessoa sensata se comportaria tão irresponsavelmente ou se contentaria com fundamentos tão débeis para suas opiniões e para a posição que assume. É apenas nas coisas mais elevadas e sagradas que se permite fazê-lo. Na realidade, trata-se apenas de tentativas de fingir para nós mesmos ou para outras pessoas que ainda nos achamos firmemente ligados à religião, quando há muito tempo já nos apartamos dela. Quanto a questões de religião, as pessoas são culpadas de toda espécie possível de desonestidade e mau procedimento intelectual. Os filósofos distendem tanto o sentido das palavras, que elas mal retêm algo de seu sentido original. Dão o nome de ‘Deus’ a alguma vaga abstração que criaram para si mesmos e, assim, podem posar perante todos como deístas, como crentes em Deus, e inclusive gabar-se de terem identificado um conceito mais elevado e puro de Deus, não obstante significar seu Deus agora nada mais que uma sombra sem substância, sem nada da vigorosa personalidade das doutrinas religiosas. Os críticos insistem em descrever como ‘profundamente religioso’ qualquer um que admita uma sensação da insignificância ou impotência do homem diante do universo, embora o que constitua a essência da atitude religiosa não seja essa sensação, mas o passo seguinte, a reação que busca um remédio para ela. O homem que não vai além, mas humildemente concorda com o pequeno papel que os seres humanos desempenham no grande mundo, esse homem é, pelo contrário, irreligioso no sentido mais verdadeiro da palavra.” “VII Tendo identificado as doutrinas religiosas como ilusões, somos imediatamente defrontados por outra questão: não poderão ser de natureza semelhante outros predicados culturais de que fazemos alta opinião e pelos quais deixamos nossas vidas serem governadas? Não devem as suposições que determinam nossas regulamentações políticas serem chamadas também de ilusões? E não acontece que, em nossa civilização, as relações entre os sexos sejam perturbadas por ilusão erótica ou um certo número dessas ilusões? E, uma vez despertada nossa suspeita, não nos esquivaremos de também perguntar se nossa convicção de que podemos aprender algo sobre a realidade externa pelo emprego da observação e do raciocínio no trabalho científico, possui um fundamento melhor. Nada deveria impedir-nos de dirigir a observação para nossos próprios eus e de aplicar o pensamento à crítica dele próprio. Nesse campo, uma série de investigações se abre a nossa frente, cujos resultados não podem deixar de ser decisivos para a construção de uma ‘Weltanschauung’. Imaginamos, ademais, que um esforço desse tipo não seria vão e que, pelo menos em parte, justificaria nossas suspeitas. O autor, porém, não dispõe dos meios para empreender tarefa tão abrangente; necessita confinar seu trabalho ao seguimento de apenas uma dessas ilusões, a saber, a da religião.” “Aqui, a alta voz de nosso opositor nos interrompe. É-nos exigido que expliquemos nossa má ação: ‘Os interesses arqueológicos são, indubitavelmente, bastante dignos de elogios, mas ninguém empreende uma escavação se, assim procedendo, solapar as moradias de pessoas vivas, de maneira que aquelas aluam e soterrem estas sob suas ruínas. As
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    doutrinas da religiãonão constituem um tema sobre o qual se possa tergiversar, como outro qualquer. Nossa civilização se ergue sobre elas e a manutenção da sociedade humana se baseia na crença da maioria dos homens na verdade dessas doutrinas. Caso se lhes ensine que não existe um Deus todo-poderoso e justo, nem ordem mundial divina, nem vida futura, se sentirão isentos de toda e qualquer obrigação de obedecer aos preceitos da civilização. Sem inibição ou temor, seguirão seus instintos associais e egoístas, e procurarão exercer seu poder; o Caos, que banimos através de muitos milhares de anos de trabalho civilizatório, mais uma vez retornará. Mesmo que soubéssemos, e pudéssemos provar, que a religião não se acha na posse da verdade, deveríamos ocultar esse fato e nos comportarmos da maneira prescrita pela filosofia do ‘como se’, e isso no interesse da preservação de todos nós. E, à parte o perigo do empreendimento, seria uma crueldade sem propósito. Não poucas pessoas encontram sua única consolação nas doutrinas religiosas, e só conseguem suportar a vida com o auxílio delas. Você as despojaria de seu apoio, sem ter nada melhor a lhes oferecer em troca. Admite-se que, até agora, a ciência ainda não conseguiu muita coisa, mas, mesmo que progredisse mais, não bastaria para o homem. Este possui necessidades imperiosas de outro tipo, que jamais poderiam ser satisfeitas pela frígida ciência, sendo muito estranho — na verdade, o auge da incoerência — que um psicólogo, que sempre insistiu em que a inteligência, quando comparada à vida dos instintos, desempenha apenas um papel de menor vulto nos assuntos humanos, tente agora despojar a humanidade de uma preciosa realização de desejos e proponha compensá-la disso com um alimento intelectual’. Quantas acusações de uma só vez! Não obstante, estou preparado para refutá-las e, mais ainda, afirmo que a civilização corre um risco muito maior se mantivermos nossa atual atitude para com a religião do que se a abandonarmos. Contudo, mal sei por onde começar minha réplica. Talvez sirva de garantia o fato de que eu mesmo encare meu empreendimento como completamente inócuo e livre de riscos. Aqui, não sou eu quem está supervalorizando o intelecto. Se as pessoas são como meus opositores as descrevem — e não gostaria de contradizê-los —, então não há perigo de que a crença de um devoto seja vencida pelos meus argumentos, e ele, privado de sua fé. Além disso, não disse nada que outros homens, melhores do que eu, já não tenham dito antes de mim, de modo muito mais completo, energético e impressivo. Seus nomes são bem conhecidos e não vou citá-los porque não quero dar a impressão de estar procurando colocar-me entre eles. Tudo o que fiz — e isso constitui a única coisa nova em minha exposição — foi acrescentar uma certa base psicológica às críticas de meus grandes predecessores. É difícil esperar que precisamente esse acréscimo produza o efeito que foi negado àqueles esforços anteriores. Não há dúvida de que aqui se me poderia perguntar qual a vantagem de escrever isso, se estou certo de que será ineficaz. Retornarei a esse ponto mais tarde. Sou a única pessoa a quem essa publicação pode prejudicar. Serei obrigado a ouvir as mais desagradáveis censuras por causa de minha superficialidade, estreiteza de espírito e falta de idealismo ou compreensão dos mais altos interesses da humanidade. Por um lado, porém, tais admoestações não são novas para mim, e, por outro, se um homem já aprendeu na juventude a se sobrepor à desaprovação de seus contemporâneos, que lhe pode ela importar na velhice, quando ele está certo de que em breve se achará além do alcance de todo favor ou desfavor? Em épocas passadas, era diferente. Então, declarações como as minhas acarretavam um seguro cerceamento da existência terrena de quem as proferisse e uma aceleração efetiva da oportunidade de conseguir uma experiência pessoal do além. Mas, repito, esses tempos já passaram e, atualmente, os escritos desse tipo não trazem para seu autor mais perigo do que para seus leitores. O
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    máximo que podeacontecer é que a tradução ou distribuição de seu livro sejam proibidas num país ou noutro, e, precisamente, é natural, num país que esteja convencido do alto padrão de sua cultura. Mas se alguém faz um apelo em favor da renúncia aos desejos e da aquiescência ao Destino, tem que ser capaz de tolerar também esse tipo de prejuízo.” “É duvidoso que os homens tenham sido em geral mais felizes na época em que as doutrinas religiosas dispunham de uma influência irrestrita; mais morais certamente não foram. Sempre souberam como externalizar os preceitos da religião e anular assim suas intenções. Os sacerdotes, cujo dever era assegurar a obediência à religião, foram a seu encontro nesse aspecto. A bondade de Deus deve apor uma mão refreadora à Sua justiça. Alguém peca; faz depois um sacrifício ou se penitencia e fica livre para pecar de novo. A introspectividade russa atingiu o máximo ao concluir que o pecado é indispensável à fruição de todas as bênçãos da graça divina, de maneira que, no fundo, o pecado é agradável a Deus. Não é segredo que os sacerdotes só puderam manter as massas submissas à religião pela efetivação de concessões tão grandes quanto essas à natureza instintual do homem. Assim, concluíram: só Deus é forte e bom; o homem é fraco e pecador. Em todas as épocas, a imoralidade encontrou na religião um apoio não menor que a moralidade. Se as realizações da religião com respeito à felicidade do homem, susceptibilidade à cultura e controle moral não são melhores que isso, não pode deixar de surgir a questão de saber se não estamos superestimando sua necessidade para a humanidade e se fazemos bem em basearmos nela nossas exigências culturais.Consideremos a situação inequívoca do presente. Escutamos a admissão de que a religião não mais possui sobre o povo a mesma influência que costumava ter.(Estamos aqui interessados na civilização européia cristã.) E isso não aconteceu por que suas promessas tenham diminuído, mas porque as pessoas as acham menos críveis. Admitamos que o motivo — embora talvez não o único — para essa mudança seja o aumento do espírito científico nos estratos mais elevados da sociedade humana. A crítica desbastou o valor probatório dos documentos religiosos, a ciência natural demonstrou os erros neles existentes, e a pesquisa comparativa ficou impressionada pela semelhança fatal existente entre as idéias religiosas que reverenciamos e os produtos mentais de povos e épocas primitivos. O espírito científico provoca uma atitude específica para com os assuntos do mundo; perante os assuntos religiosos, ele se detém um instante, hesita, e, finalmente, cruza-lhes também o limiar. Nesse processo, não há interrupção; quanto maior é o número de homens a quem os tesouros do conhecimento se tornam acessíveis, mais difundido é o afastamento da crença religiosa, a princípio somente de seus ornamentos obsoletos e objetáveis, mas, depois, também de seus postulados fundamentais.” “A civilização pouco tem a temer das pessoas instruídas e dos que trabalham com o cérebro. Neles, a substituição dos motivos religiosos para o comportamento civilizado por outros motivos, seculares, se daria discretamente; ademais, essas pessoas são em grande parte, elas próprias, veículos de civilização. Mas a coisa já é outra com a grande massa dos não instruídos e oprimidos, que possuem todos os motivos para serem inimigos da civilização. Enquanto não descobrirem que as pessoas não acreditam mais em Deus, tudo correrá bem. Mas eles o descobrirão, infalivelmente, mesmo que este meu trabalho não seja publicado. E estarão prontos a aceitar os resultados do pensamento científico, mas sem que neles se tenha dado a modificação que o pensamento científico provoca nas pessoas. Não existe aqui perigo de que a hostilidade dessas massas à civilização se arremesse contra o ponto fraco que encontraram naquela
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    que lhe impõetarefas? Se a única razão pela qual não se deve matar nosso próximo é porque Deus proibiu e nos punirá severamente por isso nesta vida ou na vida futura, então, quando descobrirmos que não existe Deus e que não precisamos temer Seu castigo, certamente mataremos o próximo sem hesitação e só poderemos ser impedidos de fazê-lo pela força terrena. Desse modo, ou essas massas perigosas terão de ser muito severamente submetidas e com todo cuidado mantidas afastadas de qualquer possibilidade de despertar intelectual, ou então o relacionamento entre civilização e religião terá de sofrer uma revisão fundamental.” VIII “Visto ser tarefa difícil isolar aquilo que o próprio Deus exigiu, daquilo que pode ter sua origem remontada à autoridade de um parlamento todo-poderoso ou de um alto judiciário, constituiria vantagem indubitável que abandonássemos Deus inteiramente e admitíssemos com honestidade a origem puramente humana de todas as regulamentações e preceitos da civilização. Junto com sua pretensa santidade, esses mandamentos e leis perderiam também sua rigidez e imutabilidade. As pessoas compreenderiam que são elaborados, não tanto para dominá-las, mas, pelo contrário, para servir a seus interesses, e adotariam uma atitude mais amistosa para com eles e, em vez de visarem à sua abolição, visariam unicamente à sua melhoria. Isso constituiria um importante avanço no caminho que leva à reconciliação com o fardo da civilização. Aqui, porém, nosso apelo em favor da atribuição de motivos puramente racionais aos preceitos da civilização — isto é, derivá-los da necessidade social — é interrompido por uma dúvida repentina. Escolhemos como exemplo a origem da proibição do homicídio. Mas nossa descrição dela concorda com a verdade histórica? Tememos que não; parece não ser mais do que uma elaboração racionalista. Com o auxílio da psicanálise, efetuamos um estudo precisamente dessa parte da história cultural da humanidade, e, baseando-nos nele, somos obrigados a dizer que, na realidade, as coisas aconteceram de outro modo. Mesmo no homem atual os motivos puramente racionais pouco podem fazer contra impulsões apaixonadas. Quão mais fracos, então, eles devem ter sido no animal humano das eras primevas! Talvez seus descendentes ainda hoje se matassem uns aos outros sem inibição, não fosse o fato de entre aqueles atos homicidas ter ocorrido um — a morte do pai primitivo — que evocou uma reação emocional irresistível, com conseqüências momentosas. Foi dele que surgiu o mandamento. Não matarás. Sob o totemismo, esse mandamento estava restrito ao substituto paterno, mas posteriormente foi estendido às outras pessoas, embora ainda hoje não seja universalmente obedecido. Contudo, e tal como foi demonstrado por argumentos que não preciso repetir aqui, o pai primevo constituiu a imagem original de Deus, o modelo a partir do qual as gerações posteriores deram forma à figura de Deus. Daí a explicação religiosa ser correta. Deus realmente desempenhou um papel na gênese daquela proibição; foi Sua influência, e não uma compreensão interna (insight) de necessidade social, que a criou. E o deslocamento da vontade do homem para Deus é plenamente justificado, pois os homens sabiam que se tinham livrado do pai através da violência, e, em sua reação a esse ato ímpio, resolveram respeitar doravante sua vontade. Dessa maneira, a doutrina religiosa nos conta a verdade histórica — submetida embora, é verdade, a certa modificação e disfarce —, ao passo que nossa descrição racional não a reconhece.” “Observamos agora que o cabedal de idéias religiosas inclui não apenas realizações de desejos, mas também importantes reminiscências históricas. Essa influência concorrente
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    de passado epresente tem de conceder à religião uma riqueza de poder verdadeiramente incomparável. Entretanto, talvez, com o auxílio de uma analogia, outra descoberta ainda possa começar a alvorecer em nós. Embora não seja boa política transplantar idéias para longe do solo em que se desenvolveram, há aqui, contudo, uma consonância que não podemos deixar de apontar. Sabemos que a criança humana não pode completar com sucesso seu desenvolvimento para o estágio civilizado sem passar por uma fase de neurose, às vezes mais distinta, outras, menos. Isso se dá porque muitas exigências instintuais que posteriormente serão inaproveitáveis não podem ser reprimidas pelo funcionamento racional do intelecto da criança, mas têm de ser domadas através de atos de repressão, por trás dos quais, via de regra, se acha o motivo da ansiedade. A maioria dessas neuroses infantis é superespontaneamente no decurso do crescimento, sendo isso especialmente verdadeiro quanto às neuroses obsessivas da infância. O remanescente pode ser eliminado mais tarde ainda, através do tratamento psicanalítico. Exatamente do mesmo modo, pode-se supor, a humanidade como um todo, em seu desenvolvimento através das eras, tombou em estados análogos às neuroses, e isso pelos mesmos motivos — principalmente porque nas épocas de sua ignorância e debilidade intelectual, as renúncias instintuais indispensáveis à existência comunal do homem só haviam sido conseguidas pela humanidade através de forças puramente emocionais. Os precipitados desses processos semelhantes à repressão que se efetuou nos tempos pré-históricos, ainda permaneceram ligados à civilização por longos períodos. Assim, a religião seria a neurose obsessiva universal da humanidade; tal como a neurose obsessiva das crianças, ela surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai. A ser correta essa conceituação, o afastamento da religião está fadado a ocorrer com a fatal inevitabilidade de um processo de crescimento, e nos encontramos exatamente nessa junção, no meio dessa fase de desenvolvimento. Nosso comportamento, portanto, deveria modelar-se no de um professor sensato que não se opõe a um novo desenvolvimento iminente, mas que procura facilitar-lhe o caminho e mitigar a violência de sua irrupção. Decerto nossa analogia não esgota a natureza essencial da religião. Se, por um lado, a religião traz consigo restrições obsessivas, exatamente como, num indivíduo, faz a neurose obsessiva, por outro, ela abrange um sistema de ilusões plenas de desejo juntamente com um repúdio da realidade, tal como não encontramos, em forma isolada, em parte alguma senão na amência, num estado de confusão alucinatória beatífica. Mas tudo isso não passa de analogias, com a ajuda das quais nos esforçamos por compreender um fenômeno social; a patologia do indivíduo não nos provê de um correspondente plenamente válido.” “Já foram repetidamente indicados (por mim próprio e, particularmente, por Theodor Reik) os múltiplos pormenores em que a analogia entre religião e neurose obsessiva pode ser acompanhada, e quantas das peculiaridades e vicissitudes da formação da religião podem ser entendidas a essa luz. E harmoniza-se bem com isso o fato de os crentes devotos serem em alto grau salvaguardados do risco de certas enfermidades neuróticas; sua aceitação da neurose universal poupa-lhes o trabalho de elaborar uma neurose pessoal. Nosso conhecimento do valor histórico de certas doutrinas religiosas aumenta nosso respeito por elas, mas não invalida nossa posição, segundo a qual devem deixar de ser apresentadas como os motivos para os preceitos da civilização. Pelo contrário! Esses resíduos históricos nos auxiliaram a encarar os ensinamentos religiosos como relíquias neuróticas, por assim dizer, e agora podemos argüir que provavelmente chegou a hora, tal como acontece num tratamento analítico, de substituir os efeitos da repressão pelos resultados da operação racional do intelecto. Podemos prever, mas dificilmente
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    lamentar, que talprocesso de remodelamento não se deterá na renúncia a transfiguração solene dos preceitos culturais, mas que sua revisão geral resultará em que muitos deles sejam eliminados. Desse modo, nossa tarefa de reconciliar os homens com a civilização estará, até um grande ponto, realizada. Não precisamos deplorar a renúncia à verdade histórica quando apresentamos fundamentos racionais para os preceitos da civilização. As verdades contidas nas doutrinas religiosas são, afinal de contas, tão deformadas e sistematicamente disfarçadas, que a massa da humanidade não pode identificá-las como verdade. O caso é semelhante ao que acontece quando dizemos a uma criança que os recém-nascidos são trazidos pela cegonha. Aqui, também estamos contando a verdade sob uma roupagem simbólica, pois sabemos o que essa ave significa. A criança, porém, não sabe. Escuta apenas a parte deformada do que dizemos e sente que foi enganada; sabemos com que freqüência sua desconfiança dos adultos e sua rebeldia têm realmente começo nessa impressão. Tornamo-nos convencidos de que é melhor evitar esses disfarces simbólicos da verdade no que contamos às crianças, e não afastar delas um conhecimento do verdadeiro estado de coisas, comensurado a seu nível intelectual.” “IX ‘Você se permite contradições difíceis de reconciliar. Começa dizendo que um trabalho como o seu é inteiramente inócuo: ninguém se permitirá ser despojado de sua fé por considerações do tipo das que apresenta. Não obstante, desde que, e tal como fica depois evidente, é sua intenção perturbar essa fé, podemos perguntar-lhe por que, na realidade, está publicando sua obra? Ademais, em outra passagem, admite que pode ser perigoso, e de fato muito perigoso, que alguém descubra que as pessoas não acreditam mais em Deus. Até então se mostrara dócil, mas agora parece desprezar sua obediência aos preceitos da civilização. Entretanto, sua asserção de que basear os mandamentos da civilização em fundamentos religiosos constitui um perigo para aquela, repousa na presunção de que o crente pode ser transformado num incréu. Sem dúvida isso é uma contradição completa. ‘E eis aqui uma outra. Por um lado, você admite que os homens não podem ser dirigidos por sua inteligência, que são governados por suas paixões e suas exigências instintuais. Por outro, porém, propõe substituir a base afetiva de sua obediência à civilização por uma base racional. Quem puder, que compreenda. A mim, parece que não deve ser uma coisa nem outra. ‘Além disso, não aprendeu nada da história? Já uma vez antes, uma tentativa desse tipo, a de substituir a religião pela razão, foi feita oficialmente e em grande estilo. Decerto se lembra da Revolução Francesa e de Robespierre? E deve também lembrar-se de quão efêmera e deploravelmente ineficaz a experiência foi? A mesma experiência está sendo repetida atualmente na Rússia e não precisamos ficar curiosos sobre o seu resultado. Não acha que podemos aceitar como algo evidente o fato de que os homens não podem passar sem religião? ‘Você mesmo disse que a religião é mais que uma neurose obsessiva. Mas não tratou desse outro lado dela. Contentou-se em elaborar a analogia com uma neurose. Os homens, diz você, devem ser libertados da neurose. O que se possa perder no processo não lhe interessa.’ A aparência de contradição provavelmente surgiu porque lidei com assuntos complicados de modo muito apressado. Até certo ponto, porém, podemos remediar isso. Continuo a sustentar que o que escrevi é, sob determinado aspecto, inteiramente inócuo. Nenhum crente se permitirá ser desviado de sua fé por esses argumentos ou outros semelhantes. O crente está ligado aos ensinamentos da religião por certos vínculos afetivos. Contudo, indubitavelmente existem inumeráveis outras pessoas que não são
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    crentes, no mesmosentido. Obedecem aos preceitos da civilização porque se deixam intimidar pelas ameaças da religião e têm medo dela enquanto se vêem obrigados a considerá-la como parte da realidade que as cerca. São as pessoas que desertam tão logo lhes é permitido abandonar sua crença no valor de realidade da religião. No entanto, elas também não são afetadas por argumentos. Deixam de temer a religião quando observam que os outros não a temem, e foi a respeito delas que afirmei que acabariam por saber do declínio da influência religiosa mesmo que eu não publicasse meu trabalho. Mas acho que você mesmo concede maior peso à outra contradição de que me acusa. Visto os homens serem tão pouco acessíveis aos argumentos razoáveis e tão completamente governados por seus desejos instintuais, por que tentar privá-los de uma satisfação instintual e substituí-la por argumentos racionais? É verdade que os homens são assim, mas você já se perguntou se eles têm de ser assim, se sua natureza mais íntima tem necessidade disso? Pode um antropólogo fornecer o índice craniano de um povo cujo costume é deformar a cabeça das crianças enrolando-as com ataduras desde os primeiros anos? Pense no deprimente contraste entre a inteligência radiante de uma criança sadia e os débeis poderes intelectuais do adulto médio. Não podemos estar inteiramente certos de que é exatamente a educação religiosa que tem grande parte da culpa por essa relativa atrofia? Penso que seria necessário muito tempo para que uma criança, que não fosse influenciada, começasse a se preocupar com Deus e com as coisas do outro mundo. Talvez seus pensamentos sobre esses assuntos tomassem então os mesmos caminhos que os de seus antepassados. Mas não esperamos por um desenvolvimento desse tipo; introduzimo-la às doutrinas da religião numa idade em que nem está interessada nelas nem é capaz de apreender sua significação. Não é verdade que os dois principais pontos do programa de educação infantil atualmente consistem no retardamento do desenvolvimento sexual e na influência religiosa prematura? Dessa maneira, à época em que o intelecto da criança desperta, as doutrinas da religião já se tornaram inexpugnáveis. Mas acha você que é algo conducente ao fortalecimento da função intelectual o fato de um campo tão importante lhe ser fechado pela ameaça do fogo do Inferno? Quando outrora um homem se permitia aceitar sem crítica todos os absurdos que as doutrinas religiosas punham à sua frente, e até mesmo desprezar as contradições existentes entre elas, não precisamos ficar muito surpresos com a debilidade de seu intelecto. Não dispomos, porém, de outros meios de controlar nossa natureza instintual, exceto nossa inteligência. Como podemos esperar que pessoas que estão sob domínio de proibições de pensamento atinjam o ideal psicológico, o primado da inteligência? Você sabe também que se diz que em geral as mulheres padecem de ‘debilidade mental fisiológica’, isto é, de uma inteligência inferior à dos homens. O fato em si é discutível, e sua interpretação, duvidosa; contudo, um argumento em favor de essa atrofia intelectual ser de natureza secundária é o de que as mulheres vivem penando sob o rigor de uma proibição precoce que as impede de voltarem seus pensamentos para o que mais lhes interessaria, isto é, os problemas da vida sexual. Enquanto os primeiros anos da vida de uma pessoa forem influenciados não só por uma inibição sexual mental, mas também por uma inibição religiosa, e por uma inibição leal derivada desta última, não podemos realmente dizer a que ela se assemelha. Mas moderarei meu zelo e admitirei a possibilidade de que também eu esteja perseguindo uma ilusão. Talvez o efeito da proibição religiosa do pensamento não seja tão negativo quanto suponho; talvez acontecesse que a natureza humana permanecesse a mesma, ainda que não se abusasse da educação para submeter as pessoas à religião. Não sei, e tampouco você pode saber. Não são apenas os grandes problemas da vida que atualmente parecem insolúveis; muitas questões menores também são difíceis de responder. Mas você tem de admitir que, aqui, estamos justificados em ter esperanças
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    no futuro —a de que talvez exista, ainda a ser desenterrado, um tesouro capaz de enriquecer a civilização, e de que vale a pena fazer a experiência de uma educação não religiosa. Se ela se mostrar insatisfatória, estou pronto a abandonar a reforma e voltar a meu juízo anterior, puramente descritivo, de que o homem é uma criatura de inteligência débil, governada por seus desejos instintuais. Sobre outro ponto concordo irrestritamente com você. Sem dúvida é insensato começar a tentar eliminar a religião pela força, e de um só golpe. Acima de tudo, porque isso seria irrealizável. O crente não permitirá que sua crença lhe seja arrancada, quer por argumentos, quer por proibições. E mesmo que isso acontecesse com alguns, seria crueldade. Um homem que passou dezenas de anos tomando pílulas soporíferas, evidentemente fica incapaz de dormir se lhe tiram sua pílula. Que o efeito das consolações religiosas pode ser assemelhado ao de um narcótico é fato bem ilustrado pelo que está acontecendo nos Estados Unidos. Lá estão tentando agora — claro que sob a influência de um domínio feminista — privar o povo de todos os estimulantes, intoxicantes e outras substâncias produtoras de prazer, e, em vez delas, a título de compensação, empanturram-no de devoção. Trata-se de outro experimento sobre cujo resultado não precisamos sentir-nos curiosos. Assim, tenho de contradizê-lo quando prossegue argumentando que os homens são completamente incapazes de passar sem a consolação da ilusão religiosa, que, sem ela, não poderiam suportar as dificuldades da vida e as crueldades da realidade. Isso é certamente verdade quanto aos homens em que se instilou o doce (ou agridoce) veneno desde a infância. Mas, e os outros, os que foram mais sensatamente criados? Os que não padecem da neurose talvez não precisem de intoxicante para amortecê-la. Encontrar-se- ão, é verdade, numa situação difícil. Terão de admitir para si mesmos toda a extensão de seu desamparo e insignificância na maquinaria do universo; não podem mais ser o centro da criação, o objeto de terno cuidado por parte de uma Providência beneficente. Estarão na mesma posição de uma criança que abandonou a casa paterna, onde se achava tão bem instalada e tão confortável. Mas não há dúvida de que o infantilismo está destinado a ser superado.Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a ‘vida hostil’. Podemos chamar isso de ‘educação para a realidade‘. Precisarei confessar-lhe que o único propósito de meu livro é indicar a necessidade desse passo à frente?” X “ ‘Isso soa esplêndido! Uma raça de homens que renunciou a todas as ilusões e assim se tornou capaz de fazer tolerável sua existência na Terra! Entretanto, não posso partilhar de suas expectativas. E isso não por ser o obstinado reacionário por quem talvez me tome. Não, mas por ser sensato. Parece que agora trocamos de papéis: você surge como um entusiasta que permite ser arrebatado por ilusões, e eu represento as reivindicações da razão, os direitos do ceticismo. O que você expôs me parece ser construído sobre erros que, seguindo seu exemplo, eu poderia chamar de ilusões, por traírem de modo bastante claro a influência de seus desejos. Você prende sua esperança à possibilidade de que gerações, que não experimentaram a influência das doutrinas religiosas na primeira infância, alcançarão facilmente a desejada primazia da inteligência sobre a vida dos instintos. Isso é decerto uma ilusão; nesse aspecto decisivo, a natureza humana dificilmente tem probabilidade de mudar. Se não estou equivocado — conhece-se tão pouco sobre as outras civilizações — ainda hoje existem povos que não se desenvolveram sob a pressão de um sistema religioso e que, contudo, não se aproximam mais do seu ideal do que do resto. Se você quiser expulsar a religião de nossa civilização européia, só poderá fazê-lo através de outro sistema de doutrinas, e esse
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    sistema, desde oinício, assumiria todas as características psicológicas da religião — a mesma santidade, rigidez e intolerância, a mesma proibição do pensamento — para sua própria defesa. Há que possuir algo desse tipo, a fim de atender aos requisitos da educação. E é impossível passar sem educação. O caminho que vai da criança de peito ao homem civilizado é longo; não poucos jovens se desviariam dele e fracassariam no cumprimento de suas missões na vida, na época correta, se fossem deixados sem orientação quanto a seu próprio desenvolvimento. As doutrinas que tivessem sido aplicadas à sua criação, sempre estabeleceriam limites ao pensar de seus anos de maturidade — que é exatamente o que você censura à religião fazer hoje. Não observa que se trata de um defeito inato e inestimável de nossa e de qualquer outra civilização, o fato de impor às crianças, que são movidas pelo instinto e fracas do intelecto, a tomada de decisões que só a inteligência madura dos adultos pode reivindicar? A civilização, porém, não pode operar de outro modo, de uma vez que o desenvolvimento, tão longo quanto as eras, do gênero humano, está comprimido em uns poucos anos de infância; e é só através de forças emocionais que a criança pode ser induzida a se assenhorear da tarefa que lhe apresentam. Tais são, portanto, as perspectivas para sua “primazia do intelecto”. ‘E você não deve ficar surpreso agora que eu perore em favor da retenção do sistema doutrinal religioso como base da educação e da vida comunal do homem. Trata- se de um problema prático, e não de uma questão de valor de realidade. Já que, para preservar nossa civilização, não podemos adiar a influência sobre o indivíduo até que ele esteja maduro para a civilização (e, ainda assim, muitos nunca estarão), já que somos obrigados a impor à criança em crescimento um sistema doutrinário que nela funcione como um axioma que não admita crítica, parece-me que o sistema religioso é, de longe, o mais apropriado para esse fim. E o é, naturalmente, exatamente por causa de sua realização de desejo e seu poder consolatório, devido aos quais você reivindica identificá-lo como sendo ‘ilusão’. Diante da dificuldade de se descobrir qualquer coisa sobre a realidade — na verdade, da dúvida de saber se nos será possível realmente descobri-la —, não devemos desprezar o fato de que também as necessidades humanas são uma realidade e, na verdade, uma realidade importante, uma realidade que nos interessa especialmente de perto. ‘Outra vantagem da doutrina religiosa, em minha opinião, reside numa de suas características a que você parece particularmente opor-se, pois permite um refinamento e sublimação das idéias que tornam possível para ela livrar-se da maioria dos resíduos oriundos do pensamento primitivo e infantil. O que então sobra é um corpo de idéias que a ciência não mais contradiz e que é incapaz de refutar. Essas modificações da doutrina religiosa, que você condenou como meias-medidas e transigências, tornam-lhe possível evitar a cisão entre as massas não instruídas e o pensador filosófico, e preservar o vínculo comum entre eles, tão importante para a salvaguarda da civilização. Com isso, não haveria necessidade de temer que os homens do povo descobrissem que as camadas superiores da sociedade “não mais acreditam em Deus”. Acho que agora lhe demonstrei que seus esforços se reduzem a uma tentativa de substituir uma ilusão já provada e emocionalmente valiosa, por outra, que não foi provada e não possui valor emocional.’ Não sou inacessível à sua crítica. Sei como é difícil evitar ilusões; talvez as esperanças que confessei também sejam de natureza ilusória. Aferro-me, porém, a uma distinção. À parte o fato de castigo algum ser imposto a quem não as partilha, minhas ilusões não são, como as religiosas, incapazes de correção. Não possuem o caráter de um delírio. Se a experiência demonstrar — não a mim, mas a outros depois de mim, que pensem como eu — que estávamos enganados, abandonaremos nossas expectativas. Tome minha tentativa pelo que ela é. Um psicólogo que não se ilude sobre a dificuldade de descobrir a própria orientação neste mundo, efetua um esforço para avaliar o desenvolvimento do
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    homem, à luzda pequena porção de conhecimento que obteve através de um estudo dos processos mentais de indivíduos, durante seu desenvolvimento de crianças a adultos. Ao agir assim, impõe-se a ele a idéia de que a religião é comparável a uma neurose da infância, e é otimista bastante para imaginar que a humanidade superará essa fase neurótica, tal como muitas crianças evolvem de suas neuroses semelhantes. Essas descobertas derivadas da psicologia individual podem ser insuficientes, injustificada sua aplicação à raça humana, e infundado otimismo o dele. Concedo-lhes todas essas incertezas. Mas freqüentemente não podemos impedir-nos de dizer o que pensamos, e nos desculpamos disso com o fundamento de que só o dizemos pelo que vale. Aqui temos dois pontos sobre os quais devo demorar-me um pouco mais. Em primeiro lugar, a fraqueza de minha posição não acarreta fortalecimento algum da sua. Acho que você está defendendo uma causa perdida. Podemos insistir, tão freqüentemente quanto quisermos, em que o intelecto do homem não tem poder, em comparação com sua vida instintual, e podemos estar certos quanto a isso. Não obstante, há algo de peculiar nessa fraqueza. A voz do intelecto é suave, mas não descansa enquanto não consegue uma audiência. Finalmente, após uma incontável sucessão de reveses, obtém êxito. Esse é um dos poucos pontos sobre o qual se pode ser otimista a respeito do futuro da humanidade, e, em si mesmo, é de não pequena importância. E dele se podem derivar outras esperanças ainda. A primazia do intelecto jaz, é verdade, num futuro infinitamente distante. Presumivelmente, ela estabelecerá para si os mesmos objetivos que aqueles cuja realização você espera de seu Deus (naturalmente dentro de limites humanos, na medida em que a realidade externa, ‘ , permita), a saber, o amor do homem e a diminuição do sofrimento. Assim sendo, podemos dizer-nos que nosso antagonismo é apenas temporário e não irreconciliável. Desejamos as mesmas coisas, mas você é mais impaciente, mais exigente e — por que não dizer? — mais egoísta do que eu e os que se encontram do meu lado. Você faria o estado de bem-aventurança começar diretamente após a morte; espera dele o impossível e não desiste das reivindicações do indivíduo. Nosso Deus, , atenderá todos esses desejos que a natureza a nós externa permita, mas fa-lo-á de modo muito gradativo, somente num futuro imprevisível e para uma nova geração de homens. Não promete compensação para nós, que sofremos penosamente com a vida. No caminho para esse objetivo distante, suas doutrinas religiosas terão de ser postas de lado, por mais que as primeiras tentativas falhem ou os primeiros substitutos se mostrem insustentáveis. Você sabe por que: a longo prazo, nada pode resistir à razão e à experiência, e a contradição que a religião oferece a ambas é palpável demais. Mesmo as idéias religiosas purificadas não podem escapar a esse destino, enquanto tentarem preservar algo da consolação da religião. Indubitavelmente, se se confinarem à crença num ser espiritual superior, cujas qualidades sejam indefiníveis e cujos intuitos não possam ser discernidos, não só estarão à prova do desafio da ciência, como também perderão sua influência sobre o interesse humano. Em segundo lugar, observe a diferença entre a sua atitude para com as ilusões e a minha. Você tem de defender a ilusão religiosa com todas as suas forças. Se ela se tornar desacreditada — e, na verdade, a ameaça disso é bastante grande — então seu mundo desmoronará. Nada lhe resta a não ser desesperar de tudo, da civilização e do futuro da humanidade. Dessa servidão, estou, estamos livres. Visto estarmos preparados para renunciar a uma boa parte de nossos desejos infantis, podemos suportar que algumas de nossas expectativas mostrem que não passam de ilusões.” “Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar, podemos conseguir em outro lugar.”
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    O MAL-ESTAR NACIVILIZAÇÃO (...) VI “De todas as partes lentamente desenvolvidas da teoria analítica, a teoria dos instintos foi a que mais penosa e cautelosamente progrediu. Contudo, essa teoria era tão indispensável a toda a estrutura, que algo tinha de ser colocado em seu lugar. No que constituía, a princípio, minha completa perplexidade, tomei como ponto de partida uma expressão do poeta-filósofo Schiller: ‘são a fome e o amor que movem o mundo’. A fome podia ser vista como representando os instintos que visam a preservar o indivíduo, ao passo que o amor se esforça na busca de objetos, e sua principal função, favorecida de todos os modos pela natureza, é a preservação da espécie. Assim, de início, os instintos do ego e os instintos objetais se confrontavam mutuamente. Foi para denotar a energia destes últimos, e somente deles, que introduzi o termo ‘libido’. Assim, a antítese se verificou entre os instintos do ego e os instintos ‘libidinais’ do amor (em seu sentido mais amplo) que eram dirigidos a um objeto. Um desses instintos objetais, o instinto sádico, destacou-se do restante, é verdade, pelo fato de o seu objetivo estar muito longe de ser o amar. Ademais, ele se encontrava obviamente ligado, sob certos aspectos, aos instintos do ego, pois não podia ocultar sua estreita afinidade com os instintos de domínio que não possuem propósito libidinal. Mas essas discrepâncias foram superadas; afinal de contas, o sadismo fazia claramente parte da vida sexual, em cujas atividades a afeição podia ser substituída pela crueldade. A neurose foi encarada como o resultado de uma luta entre o interesse de autopreservação e as exigências da libido, luta da qual o ego saiu vitorioso, ainda que ao preço de graves sofrimentos e renúncias. Todo analista admitirá que, ainda hoje, essa opinião não soa como um erro há muito tempo abandonado. Não obstante, alterações nela se tornaram essenciais, à medida que nossas investigações progrediam das forças reprimidas para as repressoras, dos instintos objetais para o ego. O decisivo passo à frente consistiu na introdução do conceito de narcisismo, isto é, a descoberta de que o próprio ego se acha catexizado pela libido, de que o ego, na verdade, constitui o reduto original dela e continua a ser, até certo ponto, seu quartel-general. Essa libido narcísica se volta para os objetos, tornando-se assim libido objetal, e podendo transformar-se novamente em libido narcísica. O conceito do narcisismo possibilitou a obtenção de uma compreensão analítica das neuroses traumáticas, de várias das afecções fronteiriças às psicoses, bem como destas últimas. Não foi necessário abandonar nossa interpretação das neuroses de transferência como se fossem tentativas feitas pelo ego para se defender contra a sexualidade, mas o conceito de libido ficou ameaçado. Como os instintos do ego também são libidinais, pareceu, por certo tempo, inevitável que tivéssemos de fazer a libido coincidir com a energia instintiva em geral, como C. G. Jung já advogara anteriormente. Não obstante, ainda permanecia em mim uma espécie de convicção, para a qual ainda não me considerava capaz de encontrar razões, de que os instintos não podiam ser todos da mesma espécie. Meu passo seguinte foi dado em Mais Além do Princípio do Prazer (1920g), quando, pela primeira vez, a compulsão para repetir e o caráter conservador da vida instintiva atraíram minha atenção. Partindo de especulações sobre o começo da vida e de paralelos biológicos, concluí que, ao lado do instinto para preservar a substância viva e para reuni-la em unidades cada vez maiores, deveria haver outro instinto, contrário àquele,
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    buscando dissolver essasunidades e conduzi-las de volta a seu estado primevo e inorgânico. Isso equivalia a dizer que, assim como Eros, existia também um instinto de morte. Os fenômemos da vida podiam ser explicados pela ação concorrente, ou mutuamente oposta, desses dois instintos. Não era fácil, contudo, demonstrar as atividades desse suposto instinto de morte. As manifestações de Eros eram visíveis e bastante ruidosas. Poder-se-ia presumir que o instinto de morte operava silenciosamente dentro do organismo, no sentido de sua destruição, mas isso, naturalmente, não constituía uma prova. Uma idéia mais fecunda era a de que uma parte do instinto é desviada no sentido do mundo externo e vem à luz como um instinto de agressividade e destrutividade. Dessa maneira, o próprio instinto podia ser compelido para o serviço de Eros, no caso de o organismo destruir alguma outra coisa, inanimada ou animada, em vez de destruir o seu próprio eu (self). Inversamente, qualquer restrição dessa agressividade dirigida para fora estaria fadada a aumentar a autodestruição, a qual, em todo e qualquer caso, prossegue. Ao mesmo tempo, pode-se suspeitar, a partir desse exemplo, que os dois tipos de instinto raramente — talvez nunca — aparecem isolados um do outro, mas que estão mutuamente mesclados em proporções variadas e muito diferentes, tornando-se assim irreconhecíveis para nosso julgamento.” “A afirmação da existência de um instinto de morte ou de destruição deparou-se com resistências, inclusive em círculos analíticos; estou ciente de que existe, antes, uma inclinação freqüente a atribuir o que é perigoso e hostil no amor a uma bipolaridade original de sua própria natureza. A princípio, foi apenas experimentalmente que apresentei as opiniões aqui desenvolvidas, mas, com o decorrer do tempo, elas conseguiram tal poder sobre mim, que não posso mais pensar de outra maneira. Para mim, elas são muito mais úteis, de um ponto de vista teórico do que quaisquer outras possíveis; fornecem aquela simplificação, sem ignorar ou violentar os fatos, pela qual nos esforçamos no trabalho científico. Sei que no sadismo e no masoquismo sempre vimos diante de nós manifestações do instinto destrutivo (dirigidas para fora e para dentro), fortemente mescladas ao erotismo, mas não posso mais entender como foi que pudemos ter desprezado a ubiqüidade da agressividade e da destrutividade não eróticas e falhado em conceder-lhe o devido lugar em nossa interpretação da vida. (O desejo de destruição, quando dirigido para dentro, de fato foge, grandemente à nossa percepção, a menos que esteja revestido de erotismo.) Recordo minha própria atitude defensiva quando a idéia de um instinto de destruição surgiu pela primeira vez na literatura psicanalítica, e quanto tempo levou até que eu me tornasse receptivo a ela. Que outros tenham demonstrado, e ainda demonstrem, a mesma atitude de rejeição, surpreende-me menos, pois ‘as criancinhas não gostam’ quando se fala na inata inclinação humana para a ‘ruindade’, a agressividade e a destrutividade, e também para a crueldade.” “O Demônio seria a melhor saída como desculpa para Deus; dessa maneira, ele estaria desempenhando o mesmo papel, como agente de descarga econômica, que o judeu desempenha no mundo do ideal ariano. Mas, ainda assim, pode-se responsabilizar Deus pela existência do Demônio, bem como pela existência da malignidade que este corporifica. Em vista dessas dificuldades, ser-nos-á mais aconselhável, nas ocasiões apropriadas, fazer uma profunda reverência à natureza profundamente moral da humanidade; isso nos ajudará a sermos populares e, por causa disso, muita coisa nos será perdoada.” “O instinto de destruição, moderado e domado, e, por assim dizer, inibido em sua finalidade, deve, quando dirigido para objetos, proporcionar ao ego a satisfação de suas
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    necessidades vitais eo controle sobre a natureza. Como a afirmação da existência do instinto se baseia principalmente em fundamentos teóricos, temos também de admitir que ela não se acha inteiramente imune a objeções teóricas. Mas é assim que as coisas se nos apresentam atualmente, no presente estado de nosso conhecimento; a pesquisa e a reflexão futuras indubitavelmente trarão novas luzes decisivas para esse tema. Em tudo o que se segue, adoto, portanto, o ponto de vista de que a inclinação para a agressão constitui, no homem, uma disposição instintiva original e auto-subsistente, e retorno à minha opinião, de que ela é o maior impedimento à civilização. Em determinado ponto do decorrer dessa investigação, fui conduzido à idéia de que a civilização constituía um processo especial que a humanidade experimenta, e ainda me acho sob a influência dela. Posso agora acrescentar que a civilização constitui um processo a serviço de Eros, cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e, depois ainda, raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade. Porque isso tem de acontecer, não sabemos; o trabalho de Eros é precisamente este. Essas reuniões de homens devem estar libidinalmente ligadas umas às outras. A necessidade, as vantagens do trabalho em comum, por si sós, não as manterão unidas. Mas o natural instinto agressivo do homem, a hostilidade de cada um contra todos e a de todos contra cada um, se opõe a esse programa da civilização. Esse instinto agressivo é o derivado e o principal representante do instinto de morte, que descobrimos lado a lado de Eros e que com este divide o domínio do mundo. Agora, penso eu, o significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro. Ele deve representar a luta entre Eros e a Morte, entre o instinto de vida e o instinto de destruição, tal como ela se elabora na espécie humana. Nessa luta consiste essencialmente toda a vida, e, portanto, a evolução da civilização pode ser simplesmente descrita como a luta da espécie humana pela vida. E é essa batalha de gigantes que nossas babás tentam apaziguar com sua cantiga de ninar sobre o Céu.” “VII Por que nossos parentes, os animais, não apresentam uma luta cultural desse tipo? Não sabemos. Provavelmente alguns deles — as abelhas, as formigas, as térmitas — batalharam durante milhares de anos antes de chegarem às instituições estatais, à distribuição de funções e às restrições ao indivíduo pelas quais hoje os admiramos. Constitui um sinal de nossa condição atual o fato de sabermos, por nossos próprios sentimentos, que não nos sentiríamos felizes em quaisquer desses Estados animais ou em qualquer dos papéis neles atribuídos ao indivíduo. No caso das outras espécies animais, pode ser que um equilíbrio temporário tenha sido alcançado entre as influências de seu meio ambiente e os instintos mutuamente conflitantes dentro delas, havendo ocorrido assim uma cessação de desenvolvimento. Pode ser que no homem primitivo um novo acréscimo de libido tenha provocado um surto renovado de atividade por parte do instinto destrutivo. Temos aqui muitas questões para as quais ainda não existe resposta. Outra questão nos interessa mais de perto. Quais os meios que a civilização utiliza para inibir a agressividade que se lhe opõe, torná-la inócua ou, talvez, livrar-se dela? Já nos familiarizamos com alguns desses métodos, mas ainda não com aquele que parece ser o mais importante. Podemos estudá-lo na história do desenvolvimento do indivíduo. O que acontece neste para tornar inofensivo seu desejo de agressão? Algo notável, que jamais teríamos adivinhado e que, não obstante, é bastante óbvio. Sua agressividade é introjetada, internalizada; ela é, na realidade, enviada de volta para o lugar de onde proveio, isto é, dirigida no sentido de seu próprio ego. Aí, é assumida por uma parte do ego, que se coloca contra o resto do ego, como superego, e que então, sob a forma de
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    ‘consciência’, está prontapara pôr em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros indivíduos, a ele estranhos. A tensão entre o severo superego e o ego, que a ele se acha sujeito, é por nós chamada de sentimento de culpa; expressa-se como uma necessidade de punição. A civilização, portanto, consegue dominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo, enfraquecendo- o, desarmando-o e estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele, como uma guarnição numa cidade conquistada.” “Quanto à origem do sentimento de culpa, as opiniões do analista diferem das dos outros psicólogos, embora também ele não ache fácil descrevê-lo. Inicialmente, se perguntarmos como uma pessoa vem a ter sentimento de culpa, chegaremos a uma resposta indiscutível: uma pessoa sente-se culpada (os devotos diriam ‘pecadora’) quando fez algo que sabe ser ‘mau’. Reparamos, porém, em quão pouco essa resposta nos diz. Talvez, após certa hesitação, acrescentemos que, mesmo quando a pessoa não fez realmente uma coisa má, mas apenas identificou em si uma intenção de fazê-la, ela pode encarar-se como culpada. Surge então a questão de saber por que a intenção é considerada equivalente ao ato. Ambos os casos, contudo, pressupõem que já se tenha reconhecido que o que é mau é repreensível, é algo que não deve ser feito. Como se chega a esse julgamento? Podemos rejeitar a existência de uma capacidade original, por assim dizer, natural de distinguir o bom do mau. O que é mau, freqüentemente, não é de modo algum o que é prejudicial ou perigoso ao ego; pelo contrário, pode ser algo desejável pelo ego e prazeroso para ele. Aqui, portanto, está em ação uma influência estranha, que decide o que deve ser chamado de bom ou mau. De uma vez que os próprios sentimentos de uma pessoa não a conduziriam ao longo desse caminho, ela deve ter um motivo para submeter-se a essa influência estranha. Esse motivo é facilmente descoberto no desamparo e na dependência dela em relação a outras pessoas, e pode ser mais bem designado como medo da perda de amor. Se ela perde o amor de outra pessoa de quem é dependente, deixa também de ser protegida de uma série de perigos. Acima de tudo, fica exposta ao perigo de que essa pessoa mais forte mostre a sua superioridade sob forma de punição. De início, portanto, mau é tudo aquilo que, com a perda do amor, nos faz sentir ameaçados. Por medo dessa perda, deve-se evitá-lo. Esta também é a razão por que faz tão pouca diferença que já se tenha feito a coisa má ou apenas se pretenda fazê-la. Em qualquer um dos casos, o perigo só se instaura, se e quando a autoridade descobri-lo, e, em ambos, a autoridade se comporta da mesma maneira.” “(...), quando os santos se chamam a si próprios de pecadores, não estão errados — considerando-se as tentações à satisfação instintiva a que se encontram expostos em grau especialmente alto —, já que, como todos sabem, as tentações são simplesmente aumentadas pela frustração constante, ao passo que a sua satisfação ocasional as faz diminuir, ao menos por algum tempo.” “Se um homem é desafortunado, isso significa que não é mais amado por esse poder supremo, e, ameaçado por essa falta de amor, mais uma vez se curva ao representante paterno em seu superego, representante que, em seus dias de boa sorte estava pronto a desprezar. Esse fato se torna especialmente claro quando o Destino é encarado segundo o sentido estritamente religioso de nada mais ser do que uma expressão da Vontade Divina. O povo de Israel acreditava ser o filho favorito de Deus e, quando o grande Pai fez com que infortúnios cada vez maiores desabassem sobre seu povo, jamais a crença em Seu relacionamento com eles se abalou, nem o Seu poder ou justiça foi posto em
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    dúvida. Pelo contrário,foi então que surgiram os profetas, que apontaram a pecaminosidade desse povo, e, de seu sentimento de culpa, criaram-se os mandamentos superestritos de sua religião sacerdotal. É digno de nota o comportamento tão diferente do homem primitivo. Se ele se defronta com um infortúnio, não atribui a culpa a si mesmo, mas a seu fetiche, que evidentemente não cumpriu o dever, e dá-lhe uma surra, em vez de se punir a si mesmo.” “Conhecemos, assim, duas origens do sentimento de culpa: uma que surge do medo de uma autoridade, e outra, posterior, que surge do medo do superego. A primeira insiste numa renúncia às satisfações instintivas; a segunda, ao mesmo tempo em que faz isso exige punição, de uma vez que a continuação dos desejos proibidos não pode ser escondida do superego. Aprendemos também o modo como a severidade do superego — as exigências da consciência — deve ser entendida. Trata-se simplesmente de uma continuação da severidade da autoridade externa, à qual sucedeu e que, em parte, substituiu. Percebemos agora em que relação a renúncia ao instinto se acha com o sentimento de culpa. Originalmente, renúncia ao instinto constituía o resultado do medo de uma autoridade externa: renunciava-se às próprias satisfação para não se perder o amor da autoridade. Se se efetuava essa renúncia, ficava-se, por assim dizer, quite com a autoridade e nenhum sentimento de culpa permaneceria. Quanto ao medo do superego, porém, o caso é diferente. Aqui, a renúncia instintiva não basta, pois o desejo persiste e não pode ser escondido do superego. Assim, a despeito da renúncia efetuada, ocorre um sentimento de culpa. Isso representa uma grande desvantagem econômica na construção de um superego ou, como podemos dizer, na formação de uma consciência. Aqui, a renúncia instintiva não possui mais um efeito completamente liberador; a continência virtuosa não é mais recompensada com a certeza do amor. Uma ameaça de infelicidade externa — perda de amor e castigo por parte da autoridade externa — foi permutada por uma permanente infelicidade interna, pela tensão do sentimento de culpa.” “Em primeiro lugar, vem a renúncia ao instinto, devido ao medo de agressão por parte da autoridade externa. (É a isso, naturalmente, que o medo da perda de amor equivale, pois o amor constitui proteção contra essa agressão punitiva.) Depois, vem a organização de uma autoridade interna e a renúncia ao instinto devido ao medo dela, ou seja, devido ao medo da consciência. Nessa segunda situação, as más intenções são igualadas às más ações e daí surgem sentimento de culpa e necessidade de punição. A agressividade da consciência continua a agressividade da autoridade. Até aqui, sem dúvida, as coisas são claras; mas onde é que isso deixa lugar para a influência reforçadora do infortúnio (da renúncia imposta de fora),ver [[1]] e para a extraordinária severidade da consciência nas pessoas melhores e mais dóceis ver [[1]]?Já explicamos essas particularidades da consciência, mas provavelmente ainda temos a impressão de que essas explicações não atingem o fundo da questão e deixam ainda inexplicado um resíduo. Aqui, por fim, surge uma idéia que pertence inteiramente à psicanálise, sendo estranha ao modo comum de pensar das pessoas. Essa idéia é de um tipo que nos capacita a compreender por que o tema geral estava fadado a nos parecer confuso e obscuro, pois nos diz que, de início, a consciência (ou, de modo mais correto, a ansiedade que depois se torna consciência) é, na verdade, a causa da renúncia instintiva, mas que, posteriormente, o relacionamento se inverte. Toda renúncia ao instinto torna- se agora uma fonte dinâmica de consciência, e cada nova renúncia aumenta a severidade e a intolerância desta última. Se pudéssemos colocar isso mais em harmonia com o que já sabemos sobre a história da origem da consciência, ficaríamos tentados a defender a afirmativa paradoxal de que a consciência é o resultado da renúncia instintiva, ou que a
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    renúncia instintiva (impostaa nós de fora) cria a consciência, a qual, então, exige mais renúncias instintivas. A contradição entre essa afirmativa e o que anteriormente dissemos sobre a gênese da consciência não é, na realidade, tão grande, e vemos uma maneira de reduzi-la ainda mais. A fim de facilitar nossa exposição, tomemos como exemplo o instinto agressivo e suponhamos que a renúncia em estudo seja sempre uma renúncia à agressão. (Isso, naturalmente, só deve ser tomado como uma suposição temporária.) O efeito da renúncia instintiva sobre a consciência, então, é que cada agressão de cuja satisfação o indivíduo desiste é assumida pelo superego e aumenta a agressividade deste (contra o ego). Isso não se harmoniza bem com o ponto de vista segundo o qual a agressividade original da consciência é uma continuação da severidade da autoridade externa, não tendo, portanto, nada a ver com a renúncia. Mas a discrepância se anulará se postularmos uma derivação diferente para essa primeira instalação da agressividade do superego. É provável que, na criança, se tenha desenvolvido uma quantidade considerável de agressividade contra a autoridade, que a impede de ter suas primeiras — e, também, mais importantes — satisfações, não importando o tipo de privação instintiva que dela possa ser exigida. Ela, porém, é obrigada a renunciar à satisfação dessa agressividade vingativa e encontra saída para essa situação economicamente difícil com o auxílio de mecanismos familiares. Através da identificação, incorpora a si a autoridade inatacável. Esta transforma-se então em seu superego, entrando na posse de toda a agressividade que a criança gostaria de exercer contra ele. O ego da criança tem de contentar-se com o papel infeliz da autoridade — o pai — que foi assim degradada. Aqui, como tão freqüentemente acontece, a situação [real] é invertida: ‘Se eu fosse o pai e você fosse a criança, eu otrataria muito mal’. O relacionamento entre o superego e o ego constitui um retorno, deformado por um desejo, dos relacionamentos reais existentes entre o ego, ainda individido, e um objeto externo.” “Ora, penso eu, finalmente podemos apreender duas coisas de modo perfeitamente claro: o papel desempenhado pelo amor na origem da consciência e a fatal inevitabilidade do sentimento de culpa. Matar o próprio pai ou abster-se de matá-lo não é, realmente, a coisa decisiva. Em ambos os casos, todos estão fadados a sentir culpa, porque o sentimento de culpa é expressão tanto do conflito devido à ambivalência, quanto da eterna luta entre Eros e o instinto de destruição ou morte. Esse conflito é posto em ação tão logo os homens se defrontem com a tarefa de viverem juntos. Enquanto a comunidade não assume outra forma que não seja a da família, o conflito está fadado a se expressar no complexo edipiano, a estabelecer a consciência e a criar o primeiro sentimento de culpa. Quando se faz uma tentativa para ampliar a comunidade, o mesmo conflito continua sob formas que dependem do passado; é fortalecido e resulta numa intensificação adicional do sentimento de culpa. Visto que a civilização obedece a um impulso erótico interno que leva os seres humanos a se unirem num grupo estreitamente ligado, ela só pode alcançar seu objetivo através de um crescente fortalecimento do sentimento de culpa. O que começou em relação ao pai é completado em relação ao grupo. Se a civilização constitui o caminho necessário de desenvolvimento, da família à humanidade como um todo, então, em resultado do conflito inato surgido da ambivalência, da eterna luta entre as tendências de amor e de morte, acha-se a ele inextricavelmente ligado um aumento do sentimento de culpa, que talvez atinja alturas que o indivíduo considere difíceis de tolerar.” “Por conseguinte, é bastante concebível que tampouco o sentimento de culpa produzido pela civilização seja percebido como tal, e em grande parte permaneça inconsciente, ou
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    apareça como umaespécie de mal-estar, uma insatisfação, para a qual as pessoas buscam outras motivações. As religiões, pelo menos, nunca desprezaram o papel desempenhado na civilização pelo sentimento de culpa. Ademais — ponto que deixei de apreciar em outro trabalho —, elas alegam redimir a humanidade desse sentimento de culpa, a que chamam de pecado. Da maneira pela qual, no cristianismo, essa redenção é conseguida — pela morte sacrificial de uma pessoa isolada, que, desse modo, toma sobre si mesma a culpa comum a todos —, conseguimos inferir qual pode ter sido a primeira ocasião em que essa culpa primária, que constitui também o primórdio da civilização, foi adquirida.” “Conforme aprendemos, os sintomas neuróticos são, em sua essência, satisfações substitutivas para desejos sexuais não realizados. No decorrer de nosso trabalho analítico, descobrimos, para nossa surpresa, que talvez toda neurose oculte uma quota de sentimento inconsciente de culpa, o qual, por sua vez, fortifica os sintomas, fazendo uso deles como punição. Agora parece plausível formular a seguinte proposição: quando uma tendência instintiva experimenta a repressão, seus elementos libidinais são transformados em sintomas e seus componentes agressivos em sentimento de culpa. Mesmo que essa proposição não passe de uma aproximação mediana à verdade, é digna de nosso interesse. Alguns leitores deste trabalho podem ainda ter a impressão de que já ouviram, de modo demasiado freqüente, a fórmula sobre a luta entre Eros e o instinto de morte. Ela foi não só empregada para caracterizar o processo de civilização que a humanidade sofre,ver [[1]],mas também vinculada ao desenvolvimento do indivíduo ver [[1]] e, além disso, dela se disse que revelou o segredo da vida orgânica em geral,ver [[1]]. Acho que não podemos deixar de penetrar nas relações existentes entre esses três processos. A repetição da mesma fórmula se justifica pela consideração de que tanto o processo da civilização humana quanto o do desenvolvimento do indivíduo são também processos vitais — o que equivale a dizer que devem partilhar a mesma característica mais geral da vida. Por outro lado, as provas da presença dessa característica geral, pela razão mesma de sua natureza geral, fracassam em nos ajudar a estabelecer qualquer diferenciação [entre os processos], enquanto não for reduzida por limitações especiais. Só podemos ficar satisfeitos, portanto, afirmando que o processo civilizatório constitui uma modificação, que o processo vital experimenta sob a influência de uma tarefa que lhe é atribuída por Eros e incentivada por Ananké — pelas exigências da realidade —, e que essa tarefa é a de unir indivíduos isolados numa comunidade ligada por vínculos libidinais. Quando, porém, examinamos a relação existente entre o processo desenvolvimental ou educativo dos seres humanos individuais, devemos concluir, sem muita hesitação, que os dois apresentam uma natureza muito semelhante, caso não sejam o mesmo processo aplicado a tipos diferentes de objeto. O processo da civilização da espécie humana é, naturalmente, uma abstração de ordem mais elevada do que a do desenvolvimento do indivíduo, sendo, portanto, de mais difícil apreensão em termos concretos; tampouco devemos perseguir as analogias a um extremo obsessivo. Contudo, diante da semelhança entre os objetivos dos dois processos — num dos casos, a integração de um indivíduo isolado num grupo humano; no outro, a criação de um grupo unificado a partir de muitos indivíduos —, não podemos surpreender-nos com a similaridade entre os meios empregados e os fenômenos resultantes.” “Assim como um planeta gira em torno de um corpo central enquanto roda em torno de seu próprio eixo, assim também o indivíduo humano participa do curso do desenvolvimento da humanidade, ao mesmo tempo que persegue o seu próprio caminho
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    na vida. Paranossos olhos enevoados, porém, o jogo de forças nos céus parece fixado numa ordem que jamais muda; no campo da vida orgânica, ainda podemos perceber como as forças lutam umas com as outras e como os efeitos desse conflito estão em permanente mudança. Assim também as duas premências, a que se volta para a felicidade pessoal e a que se dirige para a união com os outros seres humanos, devem lutar entre si em todo indivíduo, e assim também os dois processos de desenvolvimento, o individual e o cultural, têm de colocar-se numa oposição hostil um para com o outro e disputar-se mutuamente a posse do terreno. Contudo, essa luta entre o indivíduo e a sociedade não constitui um derivado da contradição — provavelmente irreconciliável — entre os instintos primevos de Eros e da morte. Trata-se de uma luta dentro da economia da libido, comparável àquela referente à distribuição da libido entre o ego e os objetos, admitindo uma acomodação final no indivíduo, tal como, pode-se esperar, também o fará no futuro da civilização, por mais que atualmente essa civilização possa oprimir a vida do indivíduo.” “Por conseguinte, somos freqüentemente obrigados, por propósitos terapêuticos, a nos opormos ao superego e a nos esforçarmos por diminuir suas exigências. Exatamente as mesmas objeções podem ser feitas contra as exigências éticas do superego cultural. Ele também não se preocupa de modo suficiente com os fatos da constituição mental dos seres humanos. Emite uma ordem e não pergunta se é possível às pessoas obedecê-la. Pelo contrário, presume que o ego de um homem é psicologicamente capaz de tudo que lhe é exigido, que o ego desse homem dispõe de um domínio ilimitado sobre seu id. Trata-se de um equívoco e, mesmo naquelas que são conhecidas como pessoas normais, o id não pode ser controlado além de certos limites. Caso se exija mais de um homem, produzir-se-á nele uma revolta ou uma neurose, ou ele se tornará infeliz. O mandamento ‘Ama a teu próximo como a ti mesmo’ constitui a defesa mais forte contra a agressividade humana e um excelente exemplo dos procedimentos não psicológicos do superego cultural. É impossível cumprir esse mandamento; uma inflação tão enorme de amor só pode rebaixar seu valor, sem se livrar da dificuldade. A civilização não presta atenção a tudo isso; ela meramente nos adverte que quanto mais difícil é obedecer ao preceito, mais meritório é proceder assim. Contudo, todo aquele que, na civilização atual, siga tal preceito, só se coloca em desvantagem frente à pessoa que despreza esse mesmo preceito. Que poderoso obstáculo à civilização a agressividade deve ser, se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto a própria agressividade! A ética ‘natural’, tal como é chamada, nada tem a oferecer aqui, exceto a satisfação narcísica de se poder pensar que se é melhor do que os outros. Nesse ponto, a ética baseada na religião introduz suas promessas de uma vida melhor depois da morte. Enquanto, porém, a virtude não for recompensada aqui na Terra, a ética, imagino eu, pregará em vão. Acho também bastante certo que, nesse sentido, uma mudança real nas relações dos seres humanos com a propriedade seria de muito mais ajuda do que quaisquer ordens éticas; mas o reconhecimento desse fato entre os socialistas foi obscurecido, e tornado inútil para fins práticos, por uma nova e idealista concepção equivocada da natureza humana.Ver [[1].] Creio que a linha de pensamento que procura descobrir nos fenômenos de desenvolvimento cultural o papel desempenhado por um superego promete ainda outras descobertas. Apresso-me a chegar ao fim, mas há uma questão a que dificilmente posso fugir. Se o desenvolvimento da civilização possui uma semelhança de tão grande alcance com o desenvolvimento do indivíduo, e se emprega os mesmos métodos, não temos nós justificativa em diagnosticar que, sob a influência de premências culturais, algumas civilizações, ou algumas épocas da civilização — possivelmente a totalidade da
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    humanidade — setornaram ‘neuróticas’? Uma dissecação analítica de tais neuroses poderia levar a recomendações terapêuticas passíveis de reivindicarem um grande interesse prático. Eu não diria que uma tentativa desse tipo, de transportar a psicanálise para a comunidade cultural, seja absurda ou que esteja fadada a ser infrutífera. Mas teríamos de ser muito cautelosos e não esquecer que, em suma, estamos lidando apenas com analogias e que é perigoso, não somente para os homens mas também para os conceitos, arrancá-los da esfera em que se originaram e se desenvolveram. Além disso, a diagnose das neuroses comunais se defronta com uma dificuldade especial. Numa neurose individual, tomamos como nosso ponto de partida o contraste que distingue o paciente do seu meio ambiente, o qual se presume ser ‘normal’. Para um grupo de que todos os membros estejam afetados pelo mesmo distúrbio, não poderia existir esse pano de fundo; ele teria de ser buscado em outro lugar. E, quanto à aplicação terapêutica de nosso conhecimento, qual seria a utilidade da mais corretaanálise das neuroses sociais, se não se possui autoridade para impor essa terapia ao grupo? No entanto, e a despeito de todas essas dificuldades, podemos esperar que, um dia, alguém se aventure a se empenhar na elaboração de uma patologia das comunidades culturais. Por uma ampla gama de razões, está muito longe de minha intenção exprimir uma opinião sobre o valor da civilização humana. Esforcei-me por resguardar-me contra o preconceito entusiástico que sustenta ser a nossa civilização a coisa mais preciosa que possuímos ou poderíamos adquirir, e que seu caminho necessariamente conduzirá a ápices de perfeição inimaginada. Posso, pelo menos, ouvir sem indignação o crítico cuja opinião diz que, quando alguém faz o levantamento dos objetivos do esforço cultural e dos meios que este emprega, está fadado a concluir que não vale a pena todo esse esforço e que seu resultado só pode ser um estado de coisas que o indivíduo será incapaz de tolerar. Minha imparcialidade se torna mais fácil para mim na medida em que conheço muito pouco a respeito dessas coisas. Sei que apenas uma delas é certa: é que os juízos de valor do homem acompanham diretamente os seus desejos de felicidade, e que, por conseguinte, constituem uma tentativa de apoiar com argumentos as suas ilusões. Acharia muito compreensível que alguém assinalasse a natureza obrigatória do curso da civilização humana e que dissesse, por exemplo, que as tendências para uma restrição da vida sexual ou para a instituição de um ideal humanitário à custa da seleção natural foram tendências de desenvolvimento impossíveis de serem desviadas ou postas de lado, e às quais é melhor para nós nos submetermos, como se constituíssem necessidades da natureza. Também estou a par da objeção que pode ser levantada contra isso, objeção segundo a qual, na história da humanidade, tendências como estas, consideradas insuperáveis, freqüentemente foram relegadas e substituídas por outras. Assim, não tenho coragem de me erguer diante de meus semelhantes como um profeta; curvo-me à sua censura de que não lhes posso oferecer consolo algum, pois, no fundo, é isso que todos estão exigindo, e os mais arrebatados revolucionários não menos apaixonadamente do que os mais virtuosos crentes.” “A questão fatídica para a espécie humana parece-me ser saber se, e até que ponto, seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição. Talvez, precisamente com relação a isso, a época atual mereça um interesse especial. Os homens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle, que, com sua ajuda, não teriam dificuldades em se exterminarem uns aos outros, até o último homem. Sabem disso, e é daí que provém grande parte de sua atual inquietação, de sua infelicidade e de sua ansiedade. Agora só nos resta esperar que o outro dos dois ‘Poderes Celestes’ , o eterno Eros, desdobre suas
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    forças para seafirmar na luta com seu não menos imortal adversário. Mas quem pode prever com que sucesso e com que resultado?” Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos VOLUME XXII (1932-1936) CARTA DE FREUD À EINSTEIN “O senhor começou com a relação entre o direito e o poder. Não se pode duvidar de que seja este o ponto de partida correto de nossa investigação. Mas, permita-me substituir a palavra ‘poder’ pela palavra mais nua e crua violência’? Atualmente, direito e violência se nos afiguram como antíteses. No entanto, é fácil mostrar que uma se desenvolveu da outra e, se nos reportarmos às origens primeiras e examinarmos como essas coisas se passaram, resolve-se o problema facilmente. Perdoe-me se, nessas considerações que se seguem, eu trilhar chão familiar e comumente aceito, como se isto fosse novidade; o fio de minhas argumentações o exige. É, pois, um princípio geral que os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto o que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo por que se excluir. No caso do homem, sem dúvida ocorrem também conflitos de opinião que podem chegar a atingir a mais raras nuanças da abstração e que parecem exigir alguma outra técnica para sua solução. Esta é, contudo, uma complicação a mais. No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta; mas o objetivo final da luta permanecia o mesmo — uma ou outra facção tinha de ser compelida a abandonar suas pretensões ou suas objeções, por causa do dano que lhe havia sido infligido e pelo desmantelamento de sua força. Conseguia-se esse objetivo de modo mais completo se a violência do vencedor eliminasse para sempre o adversário, ou seja, se o matasse. Isto tinha duas vantagens: o vencido não podia restabelecer sua oposição, e o seu destino dissuadiria outros de seguirem seu exemplo. Ademais disso, matar um inimigo satisfazia uma inclinação instintual, que mencionarei posteriormente. À intenção de matar opor-se-ia a reflexão de que o inimigo podia ser utilizado na
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    realização de serviçosúteis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidação. Nesse caso, a violência do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o vencido. Ademais, até hoje as unificações criadas pela conquista, embora de extensão considerável, foram apenas parciais, e os conflitos entre elas ensejaram, mais do que nunca, soluções violentas. O resultado de todos esses esforços bélicos consistiu, assim, apenas em a raça humana haver trocado as numerosas e realmente infindáveis guerras menores por guerras em grande escala, que são raras, contudo muito mais destrutivas. Se nos voltamos para os nossos próprios tempos, chegamos a mesma conclusão a que o senhor chegou por um caminho mais curto. As guerras somente serão evitadas com certeza, se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central a que será conferido o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses. Nisto estão envolvidos claramente dois requisitos distintos: criar uma instância suprema e dotá-la do necessário poder. Uma sem a outra seria inútil. A Liga das Nações é destinada a ser uma instância dessa espécie, mas a segunda condição não foi preenchida: a Liga das Nações não possui poder próprio, e só pode adquiri-lo se os membros da nova união, os diferentes estados, se dispuserem a cedê-lo. E, no momento, parecem escassas as perspectivas nesse sentido. A instituição da Liga das Nações seria totalmente ininteligível se se ignorasse o fato de que houve uma tentativa corajosa, como raramente (talvez jamais em tal escala) se fez antes. Ela é uma tentativa de fundamentar a autoridade sobre um apelo a determinadas atitudes idealistas da mente (isto é, a influência coercitiva), que de outro modo se baseia na posse da força. Já vimos que uma comunidade se mantém unida por duas coisas: a força coercitiva da violência e os vínculos emocionais (identificações é o nome técnico) entre seus membros. Se estiver ausente um dos fatores, é possível que a comunidade se mantenha ainda pelo outro fator. As idéias a que se faz o apelo só podem, naturalmente, ter importância se exprimirem afinidades importantes entre os membros, e pode-se perguntar quanta força essas idéias podem exercer. A história nos ensina que, em certa medida, elas foram eficazes. Por exemplo, a idéia do pan- helenismo, o sentido de ser superior aos bárbaros de além-fronteiras — idéia que foi expressa com tanto vigor no conselho anfictiônico, nos oráculos e nos jogos —, foi forte a ponto de mitigar os costumes guerreiros entre os gregos, embora, é claro, não suficientemente forte para evitar dissensões bélicas entre as diferentes partes da nação grega, ou mesmo para impedir uma cidade ou confederação de cidades de se aliar com o inimigo persa, a fim de obter vantagem contra algum rival. A identidade de sentimentos entre os cristãos, embora fosse poderosa, não conseguiu, à época do Renascimento, impedir os Estados Cristãos, tanto os grandes como os pequenos, de buscar o auxílio do sultão em suas guerras de uns contra os outros. E atualmente não existe idéia alguma que, espera-se, venha a exercer uma autoridade unificadora dessa espécie. Na realidade, é por demais evidente que os ideais nacionais, pelos quais as nações se regem nos dias de hoje, atuam em sentido oposto.” “Assim sendo, presentemente, parece estar condenada ao fracasso a tentativa de substituir a força real pela força das idéias. Estaremos fazendo um cálculo errado se desprezarmos o fato de que a lei, originalmente, era força bruta e que, mesmo hoje, não pode prescindir do apoio da violência.” ”O senhor expressa surpresa ante o fato de ser tão fácil inflamar nos homens o entusiasmo pela guerra, e insere a suspeita, de que neles exige em atividade alguma coisa — um instinto de ódio e de destruição — que coopera com os esforços dos mercadores da guerra. Também nisto apenas posso exprimir meu inteiro acordo.
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    Acreditamos na existênciade um instinto dessa natureza, e durante os últimos anos temo-nos ocupado realmente em estudar suas manifestações. Permita-me que me sirva dessa oportunidade para apresentar-lhe uma parte da teoria dos instintos que, depois de muitas tentativas hesitantes e muitas vacilações de opinião, foi formulada pelos que trabalham na área da psicanálise? De acordo com nossa hipótese, os instintos humanos são de apenas dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir — que denominamos ‘eróticos’, exatamente no mesmo sentido em que Platão usa a palavra ‘Eros’ em seu Symposium, ou ‘sexuais’, com uma deliberada ampliação da concepção popular de ‘sexualidade’ —; e aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo. Como o senhor vê, isto não é senão uma formulação teórica da universalmente conhecida oposição entre amor e ódio, que talvez possa ter alguma relação básica com a polaridade entre atração e repulsão, que desempenha um papel na sua área de conhecimentos. Entretanto, não devemos ser demasiado apressados em introduzir juízos éticos de bem e de mal. Nenhum desses dois instintos é menos essencial do que o outro; os fenômenos da vida surgem da ação confluente ou mutuamente contrária de ambos. Ora, é como se um instinto de um tipo dificilmente pudesse operar isolado; está sempre acompanhado — ou, como dizemos, amalgamado — por determinada quantidade do outro lado, que modifica o seu objetivo, ou, em determinados casos, possibilita a consecução desse objetivo. Assim, por exemplo, o instinto de autopreservação certamente é de natureza erótica; não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir seu propósito. Dessa forma, também o instinto de amor, quando dirigido a um objeto, necessita de alguma contribuição do instinto de domínio, para que obtenha a posse desse objeto. A dificuldade de isolar as duas espécies de instinto em suas manifestações reais, é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-los.” “Receio que eu possa estar abusando do seu interesse, que, afinal, se volta para a prevenção da guerra e não para nossas teorias. Gostaria, não obstante, de deter-me um pouco mais em nosso instinto destrutivo, cuja popularidade não é de modo algum igual à sua importância. Como conseqüência de um pouco de especulação, pudemos supor que esse instinto está em atividade em toda criatura viva e procura levá-la ao aniquilamento, reduzir a vida à condição original de matéria inanimada. Portanto, merece, com toda seriedade, ser denominado instinto de morte, ao passo que os instintos eróticos representam o esforço de viver. O instinto de morte torna-se instinto destrutivo quando, com o auxílio de órgãos especiais, é dirigido para fora, para objetos. O organismo preserva sua própria vida, por assim dizer, destruindo uma vida alheia. Uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruição. Foi-nos até mesmo imputada a culpa pela heresia de atribuir a origem da consciência a esse desvio da agressividade para dentro. O senhor perceberá que não é absolutamente irrelevante se esse processo vai longe demais: é positivamente insano. Por outro lado, se essas forças se voltam para a destruição no mundo externo, o organismo se aliviará e o efeito deve ser benéfico. Isto serviria de justificação biológica para todos os impulsos condenáveis e perigosos contra os quais lutamos. Deve-se admitir que eles se situam mais perto da Natureza do que a nossa resistência, para a qual também é necessário encontrar uma explicação. Talvez ao senhor possa parecer serem nossas teorias uma espécie de mitologia e, no presente caso, mitologia nada agradável. Todas as ciências, porém, não chegam, afinal, a uma espécie de mitologia como esta? Não se pode dizer o mesmo, atualmente, a respeito da sua física?
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    Para nosso propósitoimediato, portanto, isto é tudo o que resulta daquilo que ficou dito: de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas dos homens. Segundo se nos conta, em determinadas regiões privilegiadas da Terra, onde a natureza provê em abundância tudo o que é necessário ao homem, existem povos cuja vida transcorre em meio à tranqüilidade, povosque não conhecem nem a coerção nem a agressão. Dificilmente posso acreditar nisso, e me agradaria saber mais a respeito de coisas tão afortunadas. Também os bolchevistas esperam ser capazes de fazer a agressividade humana desaparecer mediante a garantia de satisfação de todas as necessidades materiais e o estabelecimento da igualdade, em outros aspectos, entre todos os membros da comunidade. Isto, na minha opinião, é uma ilusão. Eles próprios, hoje em dia, estão armados da maneira mais cautelosa, e o método não menos importante que empregam para manter juntos os seus adeptos é o ódio contra qualquer pessoa além das suas fronteiras. Em todo caso, como o senhor mesmo observou, não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem; pode-se tentar desviá-los num grau tal que não necessitem encontrar expressão na guerra. Nossa teoria mitológica dos instintos facilita-nos encontrar a fórmula para métodos indiretos de combater a guerra. Se o desejo de aderir à guerra é um efeito do instinto destrutivo, a recomendação mais evidente será contrapor-lhe o seu antagonista, Eros. Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos. Em primeiro lugar, podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado, embora não tenham uma finalidade sexual. A psicanálise não tem motivo porque se envergonhar se nesse ponto fala de amor, pois a própria religião emprega as mesmas palavras: ‘Ama a teu próximo como a ti mesmo.’ Isto, todavia, é mais facilmente dito do que praticado. O segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana se baseia nelas, em grande escala.” “Uma queixa que o senhor formulou acerca do abuso de autoridade, leva-me a uma outra sugestão para o combate indireto à propensão à guerra. Um exemplo da desigualdade inata e irremovível dos homens é sua tendência a se classificarem em dois tipos, o dos líderes e o dos seguidores. Esses últimos constituem a vasta maioria; têm necessidade de uma autoridade que tome decisões por eles e à qual, na sua maioria devotam uma submissão ilimitada. Isto sugere que se deva dar mais atenção, do que até hoje se tem dado, à educação da camada superior dos homens dotados de mentalidade independente, não passível de intimidação e desejosa de manter-se fiel à verdade, cuja preocupação seja a de dirigir as massas dependentes. É desnecessário dizer que as usurpações cometidas pelo poder executivo do Estado e a proibição estabelecida pela Igreja contra a liberdade de pensamento não são nada favoráveis à formação de uma classe desse tipo. A situação ideal, naturalmente, seria a comunidade humana que tivesse subordinado sua vida instintual ao domínio da razão. Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos emocionais. No entanto, com toda a probabilidade isto é uma expectativa utópica. Não há dúvida de que os outros métodos indiretos de evitar a guerra são mais exeqüíveis, embora não prometam êxito imediato. Vale lembrar aquela imagem inquietante do moinho que mói tão devagar, que as pessoas podem morrer de fome antes de ele poder fornecer sua farinha. O resultado, como o senhor vê, não é muito frutífero quando um teórico desinteressado é chamado a opinar sobre um problema prático urgente. É melhor a pessoa, em qualquer caso especial, dedicar-se a enfrentar o perigo com todos os meios à mão.”
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    “Penso que aprincipal razão por que nos rebelamos contra a guerra é que não podemos fazer outra coisa. Somos pacifistas porque somos obrigados a sê-lo, por motivos orgânicos, básicos. E sendo assim, temos dificuldade em encontrar argumentos que justifiquem nossa atitude. Sem dúvida, isto exige alguma explicação. Creio que se trata do seguinte. Durante períodos de tempo incalculáveis, a humanidade tem passado por um processo de evolução cultural. (Sei que alguns preferem empregar o termo ‘civilização’). É a esse processo que devemos o melhor daquilo em que nos tornamos, bem como uma boa parte daquilo de que padecemos. Embora suas causas e seus começos sejam obscuros e, incerto o seu resultado, algumas de suas características são de fácil percepção. Talvez esse processo esteja levando à extinção a raça humana, pois em mais de um sentido ele prejudica a função sexual; povos incultos e camadas atrasadas da população já se multiplicam mais rapidamente do que as camadas superiormente instruídas. Talvez se possa comparar o processo à domesticação de determinadas espécies animais, e ele se acompanha, indubitavelmente, de modificações físicas; mas ainda não nos familiarizamos com a idéia de que a evolução da civilização é um processo orgânico dessa ordem. As modificações psíquicas que acompanham o processo de civilização são notórias e inequívocas. Consistem num progressivo deslocamento dos fins instintuais e numa limitação imposta aos impulsos instintuais. Sensações que para os nossos ancestrais eram agradáveis, tornaram-se indiferentes ou até mesmo intoleráveis para nós; há motivos orgânicos para as modificações em nossos ideais éticos e estéticos. Dentre as características psicológicas da civilização, duas aparecem como as mais importantes: o fortalecimento do intelecto, que está começando a governar a vida instintual, e a internalização dos impulsos agressivos com todas as suas conseqüentes vantagens e perigos. Ora, a guerra se constitui na mais óbvia oposição à atitude psíquica que nos foi incutida pelo processo de civilização, e por esse motivo não podemos evitar de nos rebelar contra ela; simplesmente não podemos mais nos conformar com ela. Isto não é apenas um repúdio intelectual e emocional; nós, os pacifistas, temos uma intolerância constitucional à guerra, digamos, uma idiossincrasia exacerbada no mais alto grau. Realmente, parece que o rebaixamento dos padrões estéticos na guerra desempenha um papel dificilmente menor em nossa revolta do que as suas crueldades. E quanto tempo teremos de esperar até que o restante da humanidade também se torne pacifista? Não há como dizê-lo. Mas pode não ser utópico esperar que esses dois fatores, a atitude cultural e o justificado medo das conseqüências de uma guerra futura, venham a resultar, dentro de um tempo previsível, em que se ponha um término à ameaça de guerra. Por quais caminhos ou por que atalhos isto se realizará, não podemos adivinhar. Mas uma coisa podemos dizer: tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra. Espero que o senhor me perdoe se o que eu disse o desapontou, e com a expressão de toda estima, subscrevo-me, cordialmente, SIGM. FREUD.” CONFERÊNCIA XXXI A DISSECÇÃO DA PERSONALIDADE PSÍQUICA “(...) O superego aplica o mais rígido padrão de moral ao ego indefeso que lhe fica à mercê; representa, em geral, as exigências da moralidade, e compreendemos imediatamente que nosso sentimento moral de culpa é expressão da tensão entre o ego e o superego. Constitui experiência muitíssimo marcante ver a moralidade, que se supõe ter-nos sido dada por Deus e, portanto,profundamente implantada em nós, funcionando
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    nesses pacientes comofenômeno periódico. Pois, após determinado número de meses, todo o exagero moral passou, a crítica do superego silencia, o ego é reabilitado e novamente goza de todos os direitos do homem, até o surto seguinte. Em determinadas formas da doença, na verdade, passa-se algo de tipo contrário, nos intervalos; o ego encontra-se em um estado beatífico de exaltação, celebra um triunfo, como se o superego tivesse perdido toda a sua força ou estivesse fundido no ego; e esse ego liberado, maníaco, permite-se uma satisfação verdadeiramente desinibida de todos os seus apetites. Aqui estão acontecimentos ricos em enigmas não solucionados!” “Longe de nós desprezarmos a parcela de verdade psicológica da afirmação segundo a qual a consciência é de origem divina; contudo a tese requer interpretação. Conquanto a consciência seja algo ‘dentro de nós’, ela, mesmo assim, não o é desde o início. Nesse ponto, ela é um contraste real com a vida sexual, que existe de fato desde o início da vida e não é apenas um acréscimo posterior. Pois bem, como todos sabem, as crianças de tenra idade são amorais e não possuem inibições internas contra seus impulsos que buscam o prazer. O papel que mais tarde é assumido pelo superego é desempenhado, no início, por um poder externo, pela autoridade dos pais. A influência dos pais governa a criança, concedendo-lhe provas de amor e ameaçando com castigos, os quais, para a criança, são sinais de perda do amor e se farão temer por essa mesma causa. Essa ansiedade realística é o precursor da ansiedade moral subseqüente. Na medida em que ela é dominante, não há necessidade de falar em superego e consciência. Apenas posteriormente é que se desenvolve a situação secundária (que todos nós com demasiada rapidez havemos de considerar como sendo a situação normal), quando a coerção externa é internalizada, e o superego assume o lugar da instância parental e observa, dirige e ameaça o ego, exatamente da mesma forma como anteriormente os pais faziam com a criança. O superego, que assim assume o poder, a função e até mesmo os métodos da instância parental, é, porém, não simplesmente seu sucessor, mas também, realmente, seu legítimo herdeiro. Procede diretamente dele, e verificaremos agora por que processo. (...). A base do processo é o que se chama ‘identificação’ — isto é, a ação de assemelhar um ego a outro ego, em conseqüência do que o primeiro ego se comporta como o segundo em determinados aspectos, imita-o e, em certo sentido, assimila-o dentro de si. A identificação tem sido comparada, não inadequadamente, com a incorporação oral, canibalística, da outra pessoa. É uma forma muito importante de vinculação a uma outra pessoa, provavelmente a primeira forma, e não é o mesmo que escolha objetal. A diferença entre ambas pode ser expressa mais ou menos da seguinte maneira. Se um menino se identifica com seu pai, ele quer ser igual a seu pai; se fizer dele o objeto de sua escolha, o menino quer tê-lo, possuí-lo. No primeiro caso, seu ego modifica-se conforme o modelo de seu pai; no segundo caso, isso não é necessário. Identificação e escolha objetal são, em grande parte, independentes uma da outra; no entanto, é possível identificar-se com alguém que, por exemplo, foi tomado como objeto sexual, e modificar o ego segundo esse modelo. Diz-se que a influência sobre o ego, motivada pelo objeto sexual, ocorre com particular freqüência em mulheres e é característica da feminilidade. Devo ter-lhes falado, já, em minhas conferências anteriores, daquilo que é, sem dúvida, a relação mais esclarecedora entre identificação e escolha objetal. Pode ser observado com igual facilidade em crianças e em adultos, tanto em pessoas normais como em pessoas doentes. Se alguém perdeu um objeto, ou foi obrigado a se desfazer dele, muitas vezes se compensa disto identificando-se com ele e restabelecendo-o
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    novamente no ego,de modo que, aqui, a escolha objetal regride, por assim dizer à identificação. Eu próprio não estou, de modo algum, satisfeito com esses comentários sobre identificação; mas isto será suficiente se os senhores puderem assegurar-me de que a instalação do superego pode ser classificada como exemplo bem-sucedido de identificação com a instância parental.” “Uma investigação atenta mostrou-nos, também, que o superego é tolhido em sua força e crescimento se a superação do complexo de Édipo tem êxito apenas parcial. No decurso do desenvolvimento, o superego também assimila as influências que tomaram o lugar dos pais — educadores, professores, pessoas escolhidas como modelos ideais. Normalmente, o superego se afasta mais e mais das figuras parentais originais; torna-se, digamos assim, mais impessoal. E não se deve esquecer que uma criança tem conceitos diferentes sobre seus pais, em diferentes períodos de sua vida. À época em que o complexo de Édipo dá lugar ao superego, eles são algo de muito extraordinário; depois, porém, perdem muito desse atributo. Realizam-se, pois, identificações também com esses pais dessa fase ulterior, e, na verdade, regularmente fazem importantes contribuições à formação do caráter; nesse caso, porém, apenas atingem o ego, já não mais influenciam o superego que foi determinado pelas imagens parentais mais primitivas.” “Daquilo que dissemos sobre sua origem, segue-se que ele pressupõe um fato biológico extremamente importante e um fato psicológico decisivo; ou seja, a prolongada dependência da criança em relação a seus pais e o complexo de Édipo, ambos intimamente inter-relacionados. O superego é para nós o representante de todas as restrições morais, o advogado de um esforço tendente à perfeição — é, em resumo, tudo o que pudemos captar psicologicamente daquilo que é catalogado como o aspecto mais elevado da vida do homem. Como remonta à influência dos pais, educadores, etc., aprendemos mais sobre seu significado se nos voltamos para aqueles que são sua origem. Via de regra, os pais, e as autoridades análogas a eles, seguem os preceitos de seus próprios superegos ao educar as crianças. Seja qual for o entendimento a que possam ter chegado entre si o seu ego e o seu superego, são severos e exigentes ao educar os filhos. Esqueceram as dificuldades de sua própria infância e agora se sentem contentes com identificar-se eles próprios, inteiramente, com seus pais, que no passado impuseram sobre eles restrições tão severas. Assim, o superego de uma criança é, com efeito, construído segundo o modelo não de seus pais, mas do superego de seus pais; os conteúdos que ele encerra são os mesmos, e torna-se veículo da tradição e de todos os duradouros julgamentos de valores que dessa forma se transmitiram de geração em geração. Facilmente podem adivinhar que, quando levamos em conta o superego, estamos dando um passo importante para a nossa compreensão do comportamento social da humanidade — do problema da delinqüência, por exemplo — e, talvez, até mesmo estejamos dando indicações práticas referentes à educação. Parece provável que aquilo que se conhece como visão materialista da história peque por subestimar esse fator. Eles o põem de lado, com o comentário de que as ‘ideologias’ do homem nada mais são do que produto e superestrutura de suas condições econômicas contemporâneas. Isto é verdade, mas muito provavelmente não a verdade inteira. A humanidade nunca vive inteiramente no presente. O passado, a tradição da raça e do povo, vive nas ideologias do superego e só lentamente cede às influências do presente,no sentido de mudanças novas; e, enquanto opera através do superego,
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    desempenha um poderosopapel na vida do homem, independentemente de condições econômicas.” “Em face da dúvida quanto a saber se o ego e o superego são inconscientes, ou se simplesmente produzem efeitos inconscientes, decidimo-nos, por boas razões, a favor da primeira possibilidade. E é realmente este o caso: grande parte do ego e do superego pode permanecer inconsciente e é normalmente inconsciente. Isto é, a pessoa nada sabe dos conteúdos dos mesmos, e é necessário dispender esforços para torná-los conscientes. É um fato que o ego e o consciente, o reprimido e o inconsciente não coincidem.” “Uma reflexão sobre essa relação dinâmica permite-nos, agora, distinguir duas espécies de inconsciente — uma que é facilmente transformada, em circunstâncias de ocorrência freqüente, em algo consciente; e uma outra, na qual essa transformação é difícil e apenas se realiza quando sujeita a considerável dispêndio de esforços, ou, possivelmente, jamais se efetue, absolutamente. Com a finalidade de evitar a ambigüidade no sentido de estarmo-nos referindo, a um ou a outro inconsciente, de estarmos usando a palavra no sentido descritivo ou no sentido dinâmico, utilizamo-nos de um expediente permissível e simples. O inconsciente que está apenas latente, e portanto facilmente se torna consciente, denominamo-lo ‘pré-consciente’, e reservamos o termo ‘inconsciente’ para o outro. Temos, agora, três termos, ‘consciente’, ‘pré- consciente’ e ‘inconsciente’, com os quais podemos ser bem-sucedidos em nossa descrição dos fenômenos mentais.” “A descoberta, realmente inconveniente, de que partes do ego e também do superego são inconscientes, no sentido dinâmico, atua, nesse ponto, como um alívio — possibilita a remoção de uma complicação. Percebemos não termos o direito de denominar ‘sistema Inc.’ a região mental alheia ao ego, de vez que a característica de ser inconsciente não lhe é exclusiva. Assim sendo, não usaremos mais o termo ‘inconsciente’ no sentido sistemático e daremos àquilo que até agora temos assim descrito um nome melhor, um nome que não seja mais passível de equívocos. Aceitando uma palavra empregada por Nietzsche e acolhendo uma sugestão de George Groddeck [1923], de ora em diante chama-lo-emos de ‘id’. Esse pronome impessoal parece especialmente bem talhado para expressar a principal característica dessa região da mente — o fato de ser alheia ao ego. O superego, o ego e o id — estes são, pois, os três reinos, regiões, províncias em que dividimos o aparelho mental de um indivíduo, (...).” “Os senhores não haverão de esperar que eu tenha muita coisa nova a dizer-lhes acerca do id, exceto o seu nome novo. É a parte obscura, a parte inacessível de nossa personalidade; o pouco que sabemos a seu respeito, aprendemo-lo de nosso estudo da elaboração onírica e da formação dos sintomas neuróticos, e a maior parte disso é de caráter negativo e pode ser descrita somente como um contraste com o ego. Abordamos o id com analogias; denominamo-lo caos, caldeirão cheio de agitação fervilhante. Descrevemo-lo como estando aberto, no seu extremo, a influências somáticas e como contendo dentro de si necessidades instintuais que nele encontram expressão psíquica; não sabemos dizer, contudo, em que substrato. Está repleto de energias que a ele chegam dos instintos, porém não possui organização, não expressa uma vontade coletiva, mas somente uma luta pela consecução da satisfação das necessidades instintuais, sujeita à observância do princípio de prazer. As leis lógicas do pensamento não se aplicam ao id, e isto é verdadeiro, acima de tudo, quanto à lei da contradição.
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    Impulsos contrários existemlado a lado, sem que um anule o outro, ou sem que um diminua o outro: quando muito, podem convergir para formar conciliações, sob a pressão econômica dominante, com vistas à descarga da energia. No id não há nada que se possa comparar à negativa e é com surpresa que percebemos uma exceção ao teorema filosófico segundo o qual espaço e tempo são formas necessárias de nossos atos mentais. No id, não existe nada que corresponda à idéia de tempo; não há reconhecimento da passagem do tempo, e — coisa muito notável e merecedora de estudo no pensamento filosófico nenhuma alteração em seus processos mentais é produzida pela passagem do tempo. Impulsos plenos de desejos, que jamais passaram além do id, e também impressões, que foram mergulhadas no id pelas repressões, são virtualmente imortais; depois de se passarem décadas, comportam-se como se tivessem ocorrido há pouco. Só podem ser reconhecidos como pertencentes ao passado, só podem perder sua importância e ser destituídos de sua catexia de energia, quando tornados conscientes pelo trabalho da análise, e é nisto que, em grande parte, se baseia o efeito terapêutico do tratamento analítico.” “Naturalmente, o id não conhece nenhum julgamento de valores: não conhece o bem, nem o mal, nem moralidade. Domina todos os seus processos o fator econômico ou, se preferirem, o fator quantitativo, que está intimamente vinculado ao princípio de prazer. Catexias instintuais que procuram a descarga — isto, em nossa opinião, é tudo o que existe no id. Parece mesmo que a energia desses impulsos instintuais se acha num estado diferente daquele encontrado em outras regiões da mente, muito mais móvel e capaz de descarga; de outro modo, não ocorreriam os deslocamentos e as condensações, que são tão característicos do id e que tão radicalmente desprezam a qualidade daquilo que é catexizado — aquilo que no ego chamaríamos de uma idéia. Daríamos muito para entender mais acerca dessas coisas! Aliás, os senhores podem verificar que estamos em condições de atribuir ao id características outras além dessa de ser inconsciente, e podem reconhecer a possibilidade de partes do ego e do superego serem inconscientes, sem possuírem as mesmas características primitivas e irracionais.—Podemos esclarecer melhor as características do ego real, na medida em que este pode ser diferenciado do id e do superego, examinando sua relação com a parte mais superficial do aparelho mental, que descrevemos como o sistema Pcpt.-Cs. Esse sistema está voltado para o mundo externo, é o meio de percepção daquilo que surge de fora, e durante o seu funcionamento surge nele o fenômeno da consciência. É o órgão sensorial de todo o aparelho; ademais, é receptivo não só às excitações provenientes de fora, mas também àquelas que emergem do interior da mente. Quase não necessitamos procurar uma justificativa para a opinião segundo a qual o ego é aquela parte do id que se modificou pela proximidade e influência do mundo externo, que está adaptada para a recepção de estímulos, e adaptada como escudo protetor contra os estímulos, comparável à camada cortical que circunda uma pequena massa de substância viva. A relação com o mundo externo tornou-se o fator decisivo para o ego; este assumiu a tarefa de representar o mundo externo perante o id — o que é uma sorte para o id, que não poderia escapar à destruição se, em seus cegos intentos que visam à satisfação de seus instintos, não atentasse para esse poder externo supremo. Ao cumprir com essa função, o ego deve observar o mundo externo, deve estabelecer um quadro preciso do mesmo nos traços de memória de suas percepções, e, pelo seu exercício da função de ‘teste de realidade’, deve excluir tudo o que nesse quadro do mundo externo é um acréscimo decorrente de fontes internas de excitação. O ego controla os acessos à motilidade, sob as ordens do id; mas, entre uma necessidade e uma ação, interpôs uma protelação sob forma de atividade do pensamento, durante a qual se utiliza dos resíduos mnêmicos da
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    experiência. Dessa maneira,o ego destronou o princípio de prazer, que domina o curso dos eventos no id sem qualquer restrição, e o substituiu pelo princípio de realidade, que promete maior certeza e maior êxito.” “Até aqui, temo-nos deixado impressionar pelos méritos e capacidades do ego; é tempo, agora, de considerar também o outro lado. O ego, afinal, é apenas uma parte do id, uma parte que foi adequadamente modificada pela proximidade com o mundo externo, com sua ameaça de perigo. Do ponto de vista dinâmico, ele é fraco, tomou emprestadas ao id as suas forças, e em parte entendemos os métodos — poderíamos chamá-los subterfúgios — pelos quais extrai do id quantidades adicionais de energia.” “Adverte-nos um provérbio de que não sirvamos a dois senhores ao mesmo tempo. O pobre do ego passa por coisas ainda piores: ele serve a três severos senhores e faz o que pode para harmonizar entre si seus reclamos e exigências. Esses reclamos são sempre divergentes e freqüentemente parecem incompatíveis. Não é para admirar se o ego tantas vezes falha em sua tarefa. Seus três tirânicos senhores são o mundo externo, o superego e o id. Quando acompanhamos os esforços do ego para satisfazê-los simultaneamente — ou antes, para obedecer-lhes simultaneamente —, não podemos nos arrepender por termo-lo personificado ou por termo-lo erigido em um organismo separado. Ele se sente cercado por três lados, ameaçado por três tipos de perigo, aos quais reage, quando duramente pressionado, gerando ansiedade.” “Assim, o ego, pressionado pelo id, confinado pelo superego, repelido pela realidade, luta por exercer eficientemente sua incumbência econômica de instituir a harmonia entre as forças e as influências que atuam nele e sobre ele; e podemos compreender como é que com tanta freqüência não podemos reprimir uma exclamação: ‘A vida não é fácil!’ Se o ego é obrigado a admitir sua fraqueza, ele irrompe em ansiedade — ansiedade realística referente ao mundo externo, ansiedade moral referente ao superego e ansiedade neurótica referente à força das paixões do id.” “Ao pensar nessa divisão da personalidade em um ego, um superego e um id, naturalmente, os senhores não terão imaginado fronteiras nítidas como as fronteiras artificiais delineadas na geografia política. Não podemos fazer justiça às características da mente por esquemas lineares como os de um desenho ou de uma pintura primitiva, mas de preferência por meio de áreas coloridas fundindo-se umas com as outras, segundo as apresentam artistas modernos. Depois de termos feito a separação, devemos permitir que novamente se misture, conjuntamente, o que havíamos separado. Os senhores não devem julgar com demasiado rigor uma primeira tentativa de proporcionar uma representação gráfica de algo tão intangível como os processos psíquicos. É altamente provável que o desenvolvimento dessas divisões esteja sujeito a grandes variações em diferentes indivíduos; é possível que, no decurso do funcionamento real, elas possam mudar e passar por uma fase temporária de involução. Particularmente no caso da que é filogeneticamente a última e a mais delicada dessas divisões — a diferenciação entre o ego e o superego — algo desse teor parece verdadeiro. Está fora de dúvida que a mesma coisa se produz através da doença psíquica. Também é fácil imaginar que determinadas práticas místicas possam conseguir perturbar as relações normais entre as diferentes regiões da mente, de modo que, por exemplo, a percepção pode ser capaz de captar acontecimentos, nas profundezas do ego e no id, os quais de outro modo lhe seriam inacessíveis. Pode-se, porém, com segurança, duvidar se a esse caminho nos levará às últimas verdades das quais é de se esperar a salvação. Não
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    obstante, pode-se admitirque os intentos terapêuticos da psicanálise têm escolhido uma linha de abordagem semelhante. Seu propósito é, na verdade, fortalecer o ego, fazê-lo mais independente do superego, ampliar seu campo de percepção e expandir sua organização, de maneira a poder assenhorear-se de novas partes do id. Onde estava o id, ali estará o ego. É uma obra de cultura — não diferente da drenagem do Zuider Zee.” CONFERÊNCIA XXXII ANSIEDADE E VIDA INSTINTUAL “O temor de castração não é, naturalmente, o único motivo para repressão: na verdade, não sucede nas mulheres, pois, embora tenham elas um complexo de castração, não podem ter medo de serem castradas. Em seu sexo, o que sucede é o temor à perda do amor, o que é, evidentemente, um prolongamento posterior de ansiedade da criança quando constata a ausência da mãe. Os senhores perceberão quão real é a situação de perigo indicada por essa ansiedade. Se uma mãe está ausente ou retirou seu amor de seu filho, este não tem mais certeza de que suas necessidades serão satisfeitas e talvez seja exposto aos mais angustiantes sentimentos de tensão. Não rejeitem a idéia de que esses fatores determinantes de ansiedade possam, no fundo, repetir a situação de ansiedade original, ocorrida no nascimento, que, de fato, também representou uma separação da mãe. Realmente, se os senhores acompanharem uma seqüência de idéias sugeridas por Ferenczi [1925], podem acrescentar a essa série o temor de castração, pois a perda do órgão masculino resulta na incapacidade de unir-se novamente à mãe (ou a uma substituta dela) no ato sexual. Posso dizer-lhes, aliás, que a tão freqüente fantasia de retornar ao útero materno é um sucedâneo desse desejo de copular. Haveria, nesse ponto, muitas coisas interessantes e correlações surpreendentes para referir aos senhores; porém, não posso afastar-me do esquema de uma introdução à psicanálise. Apenas chamarei a atenção dos senhores para o fato de que, aqui, as pesquisas psicológicas invadem os fatos da biologia.” “O perigo de desamparo psíquico ajusta-se ao estádio da imaturidade inicial do ego; o perigo de perda de um objeto (ou perda do amor) ajusta-se à falta de auto-suficiência dos primeiros anos da infância; o perigo de ser castrado ajusta-se à fase fálica; e, finalmente, o temor ao superego, que assume uma posição especial, ajusta-se ao período de latência. No decorrer do desenvolvimento, os antigos fatores determinantes de ansiedade deveriam sumir, pois as situações de perigo correspondentes a eles perderam sua importância devido ao fortalecimento do ego. Isto, contudo, só ocorre de forma muito incompleta. Muitas pessoas são incapazes de superar o temor da perda do amor; nunca se tornam suficientemente independentes do amor de outras pessoas e, nesse aspecto, comportam-se como crianças. O temor ao superego normalmente jamais deve cessar, pois, sob a forma de ansiedade moral, é indispensável nas relações sociais, e somente em casos muito raros pode um indivíduo tornar-se independente da sociedade humana. Algumas das antigas situações de perigo também conseguem sobreviver em períodos posteriores, fazendo modificações concomitantes nos fatores determinantes de ansiedade. Assim, por exemplo, o perigo de castração persiste sob a marca da fobia à sífilis. É verdade que, como adulto, se sabe que a castração não mais faz parte do costume de punir excessos de desejos sexuais, mas, por outro lado, verifica-se que a liberdade instintual desse tipo é ameaçada por graves doenças. Não há dúvida de que as
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    pessoas que qualificamoscomo neuróticas, permanecem infantis em sua atitude relativa ao perigo e não venceram as obsoletas causas determinantes de ansiedade.” “Deixemos, pois, que Abraham nos lembre que, embriologicamente, o ânus corresponde à boca primitiva que migrou para baixo, para a parte terminal do intestino. Temos constatado, ainda, que, depois que as fezes, os excrementos de uma pessoa, perderam seu valor para essa pessoa, esse interesse intestinal, derivado da origem anal, transfere- se para objetos que podem ser dados como dádivas. E isto é exatamente assim, pois as fezes foram a primeira dádiva que uma criança pôde dar, algo que ela pôde entregar por amor a quem estivesse cuidando dela. Depois disso, correspondendo exatamente a mudanças análogas de significado que ocorrem na evolução lingüística, esse antigo interesse pelas fezes transforma-se no grande valor concedido ao ouro e ao dinheiro, mas também contribui para a catexia afetiva de bebê e de pênis. Entre as crianças, as quais por longo tempo conservam a teoria da cloaca, constitui convicção universal que os bebês nascem do intestino como o excremento: a defecação é o modelo do ato do nascimento. No entanto, também o pênis tem o seu precursor na coluna fecal que enche e estimula a membrana mucosa do intestino. Quando uma criança, muito a contragosto, vem a perceber que há criaturas humanas que não possuem pênis, este aparece-lhe como algo destacável do corpo e se torna inequivocamente análogo ao excremento, que foi a primeira peça de material corporal a que teve de renunciar. Assim, uma grande parte do erotismo anal é transportada para a catexia do pênis. O interesse por essa parte do corpo tem, contudo, além de sua origem anal-erótica, uma origem oral, que talvez seja ainda mais poderosa: pois quando a sucção chega ao fim, o pênis também se torna herdeiro do mamilo do seio materno. Se não se está cônscio dessas conexões profundas, é impossível orientar-se nas fantasias dos seres humanos, nas suas associações, que são tão influenciadas pelo inconsciente, e na sua linguagem sintomática. Fezes — dinheiro — dádiva — bebê — pênis são aí tratados como se significassem a mesma coisa, e representados, também, pelos mesmos símbolos. E não devem esquecer que apenas pude dar-lhes informações muito incompletas. Rapidamente posso acrescentar, talvez, que o interesse pela vagina, que desperta mais tarde, também é essencialmente de origem anal-erótica.” “Não mantivemos muito tempo essa posição. Nossa intuição de haver um antagonismo na vida instintual encontrou, em pouco tempo, uma outra expressão mais nítida. Não é meu desejo, todavia, expor aos senhores a origem dessa inovação na teoria dos instintos; também ela se baseia essencialmente em razões biológicas. Mostrá-la-ei aos senhores, como um produto acabado. Nossa hipótese reside em que existem essencialmente duas classes diferentes de instintos: os instintos sexuais, compreendidos no mais amplo sentido — Eros, se preferem esse nome —, e os instintos agressivos, cuja finalidade é a destruição. Quando isto é, assim, posto diante dos senhores, dificilmente o considerarão novidade. Parece uma tentativa de transfiguração teórica da comum oposição entre amar e odiar, que coincide, quem sabe, com a outra polaridade, atração e repulsão, que a física supõe existir no mundo inorgânico. Contudo, deve-se observar que essa hipótese, não obstante, é sentida por muitas pessoas como inovação e, na verdade, como inovação das mais indesejáveis, que deveria ser eliminada tão depressa quanto possível. Suponho que nessa rejeição está em jogo um poderoso fator afetivo. Por que necessitamos de tempo tão longo para nos decidirmos a reconhecer uminstinto agressivo? Por que hesitamos em utilizarmos, em benefício de nossa teoria, de fatos que eram óbvios e familiares a todos? Teríamos, provavelmente, encontrado pouco resistência, se quiséssemos atribuir a animais um instinto com uma tal finalidade. Todavia, parece
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    sacrílego incluí-lo naconstituição humana; contradiz muitíssimas suposições religiosas e convenções sociais. Não; naturalmente, o homem deve ser bom, ou, ao menos, de boa índole. Se, ocasionalmente, se mostra brutal, violento ou cruel, isto são apenas perturbações transitórias de sua vida emocional, na sua maior parte provocadas, ou, talvez, apenas conseqüências das regras sociais inadequadas que ele, até então, impôs a si mesmo. Infelizmente, o que a História nos conta e o que nós mesmos temos experimentado, não fala nesse sentido, mas, antes, justifica a conclusão de que a crença na ‘bondade’ da natureza humana é uma dessas perniciosas ilusões com as quais a humanidade espera seja sua vida embelezada e facilitada, enquanto, na realidade, só causam prejuízo.” “Os instintos regem não só a vida mental, mas também a vida vegetativa, e esses instintos essenciais exibem uma característica que merece o nosso mais profundo interesse. (Não poderemos julgar, senão mais tarde, se se trata de uma característica geral dos instintos.) O fato é que eles revelam uma propensão a restaurar uma situação anterior. Podemos supor que, desde o momento em que uma situação, tendo sido uma vez alcançada, é desfeita, surge um instinto para criá-la novamente e ocasiona fenômenos que podemos descrever como uma ‘compulsão à repetição’. Assim, toda a embriologia é um exemplo da compulsão à repetição. Uma capacidade de regenerar órgãos perdidos estende-se amplamente ao reino animal, e o instinto de recuperação, ao qual, ao lado da ajuda terapêutica, devemos nossas curas, deve ser o remanescente dessa capacidade tão extraordinariamente desenvolvida em animais inferiores. Peixes que migram para a desova, pássaros que voam em migração, e possivelmente tudo o que qualificamos como manifestação de instinto em animais, realizam-se sob as ordens da compulsão à repetição, que exprime a natureza conservadora dos instintos. E não temos de procurar muito por suas manifestações na área mental. Chamou-nos a atenção o fato de que experiências reprimidas e esquecidas da infância são reproduzidas, durante o trabalho da análise, nos sonhos e nas reações, particularmente naquelas ocorrentes na transferência, embora seu revivescimento vá de encontro ao interesse do princípio de prazer. [Cf. [1]]; explicamos esse fato com a suposição de que, nesses casos, uma compulsão à repetição vence até mesmo o princípio de prazer. Fora da análise, também, pode-se observar algo semelhante. Há pessoas em cujas vidas se repetem indefinidamente as mesmas reações não-corrigidas, em prejuízo delas próprias, assim como há outras pessoas que parecem perseguidas por um destino implacável, embora uma investigação mais atenta nos mostre que tais pessoas, sem se aperceberem, causam a si mesmas esse destino. Em tais casos, atribuímos um caráter ‘demoníaco’ à compulsão à repetição. Como essa característica conservadora dos instintos pode, contudo, auxiliar-nos a entender nossa autodestrutividade? Que situação anterior um instinto desses quer restaurar? Bem, a resposta, não é tão difícil encontrá-la, e ela abre amplas perspectivas. Se é verdade que — em alguma época incomensuravelmente remota e numa forma que não podemos imaginar — a vida se originou da matéria inorgânica, então, de acordo com nossa suposição, deve ter surgido um instinto que procurou eliminar a vida novamente e restabelecer o estado inorgânico. Se reconhecemos nesse instinto a autodestrutividade de nossa hipótese, podemos considerar a autodestrutividade expressão de um ‘instinto de morte’ que não pode deixar de estar presente em todo processo vital. Ora, os instintos, nos quais acreditamos, dividem-se em dois grupos — os instintos eróticos, que buscam combinar cada vez mais substância viva em unidades cada vez maiores, e os instintos de morte, que se opõem a essa tendência e levam o que
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    está vivo devolta a um estado inorgânico. Da ação concorrente e antagônica desses dois procedem os fenômenos da vida que chegam ao seu fim com a morte. Talvez os senhores venham a sacudir os ombros e dizer: ‘Isto não é ciência natural, é filosofia de Schopenhauer!’ Mas, senhoras e senhores, por que um pensador ousado não poderia ter entrevisto algo que depois se confirma por intermédio de uma pesquisa séria e laboriosa? Ademais, não há nada que já não tenha sido dito, e coisas parecidas tinham sido ditas por muitas pessoas, antes de Schopenhauer. E mais, o que estamos dizendo não é nem mesmo Schopenhauer autêntico. Não estamos afirmando que a morte é o único objetivo da vida; não estamos desprezando o fato de que existe vida, assim como existe morte. Reconhecemos dois instintos básicos, e atribuímos a cada um deles a sua própria finalidade. Como os dois se mesclam no processo de viver, como o instinto de morte é posto a serviço dos propósitos de Eros, especialmente sendo voltado para fora na forma de agressividade — estas são tarefas reservadas à investigação futura.” “Tornou-se hábito nosso dizer que nossa civilização foi construída à custa das tendências sexuais que, sendo inibidas pela sociedade, são, com efeito, em parte reprimidas, mas, em parte, tornaram-se utilizáveis em outros fins. Também temos admitido que, a despeito de todo o nosso orgulho por nossas conquistas culturais, não nos é fácil satisfazer os requisitos dessa civilização e sentir-nos à vontade nela, porque as restrições instintuais impostas a nós constituem uma pesada carga psíquica. Pois bem, o que vimos acerca dos instintos sexuais aplica-se igualmente, e talvez ainda mais, a outros instintos, os instintos agressivos. São estes, acima de tudo, que tornam difícil a vida do homem em comunidade e ameaçam sua sobrevivência. A restrição à agressividade do indivíduo é o primeiro e talvez o mais severo sacrifício que dele exige a sociedade. Temos verificado de que maneira simplista se conseguiu domar essa coisa indomável. A instituição do superego, que toma conta dos impulsos agressivos perigosos, introduz um destacamento armado, por assim dizer, nas regiões inclinadas à rebelião. Mas, por outro lado, se a encaramos exclusivamente do ponto de vista psicológico, devemos reconhecer que o ego não se sente feliz ao ser assim sacrificado às necessidades da sociedade, ao ter que se submeter às tendências destrutivas da agressividade, que ele teria tido a satisfação de empregar contra os outros. É como que um prolongamento, na esfera mental, do dilema ‘comer ou ser comido’ que domina o mundo orgânico animado. Felizmente, os instintos agressivos nunca estão sozinhos, mas sempre amalgamados aos eróticos. Estes, os instintos eróticos, têm muita coisa a atenuar e muita coisa a obviar sob as condições da civilização que a humanidade criou.” Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos VOLUME XXII (1932-1936) CONFERÊNCIA XXXIII FEMINILIDADE “Ambos os sexos parecem atravessar da mesma maneira as fases iniciais do desenvolvimento libidinal. Poder-se-ia esperar que, nas meninas, já teria havido algum
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    abrandamento da agressividadena fase sádico-anal, mas não é este o caso. A análise do brinquedo de crianças mostrou às nossas analistas de crianças que os impulsos agressivos de menininhas não deixam nada a desejar em matéria de quantidade e de violência. Com seu ingresso na fase fálica, as diferenças entre os sexos são completamente eclipsadas pelas suas semelhanças. Nisto somos obrigados a reconhecer que a menininha é um homenzinho. Nos meninos, conforme sabemos, essa fase é marcada pelo fato de que aprenderam a obter sensações prazerosas do seu pequeno pênis, e relacionam seu estado de excitação às suas idéias de relação sexual. As menininhas fazem o mesmo com seu diminuto clitóris. Parece que em todas elas a atividade masturbatória é executada nesse equivalente do pênis e que a vagina verdadeiramente feminina, a essa época, ainda não foi descoberta por ambos os sexos. É verdade que há também alguns relatos isolados de sensações vaginais precoces, mas não poderia ser fácil distingui-las de sensações no ânus ou no vestíbulo; de qualquer maneira, não podem ter muita importância. Estamos autorizados a manter nossa opinião segundo a qual, na fase fálica das meninas, o clitóris é a principal zona erógena. Mas, naturalmente, não vai permanecer assim. Com a mudança para a feminilidade, o clitóris deve, total ou parcialmente, transferir sua sensibilidade, e ao mesmo tempo sua importância, para a vagina. Esta seria uma das duas tarefas que uma mulher tem de realizar no decorrer do seu desenvolvimento, ao passo que o homem, mais afortunado, só precisa continuar, na época de sua maturidade, a atividade que executara anteriormente, no período inicial do surgimento de sua sexualidade.” “Para um menino, sua mãe é o primeiro objeto de seu amor, e ela assim permanece também durante a formação do complexo de Édipo e, em essência, por toda a vida dele. Para a menina, também, o seu primeiro objeto deve ser sua mãe (e as figuras da babá e da nutriz, que nela se fundem). As primeiras catexias objetais ocorrem em conexão com a satisfação de necessidades vitais importantes e simples, e as circunstâncias relativas à criação dos filhos são as mesmas para ambos os sexos. Na situação edipiana, porém, a menina tem seu pai como objeto amoroso, e espera-se que no curso normal do desenvolvimento ela haverá de passar desse objeto paterno para sua escolha objetal definitiva. Com o passar do tempo, portanto, uma menina tem de mudar de zona erógena e de objeto — e um menino mantém ambos. Surge então a questão de saber como isto ocorre: particularmente, como é que a menina passa da vinculação com sua mãe para a vinculação com seu pai? ou, em outros termos, como passa ela da fase masculina para a feminina, à qual biologicamente está destinada? Seria uma solução idealmente simples, se pudéssemos supor que, a partir de determinada idade em diante, a influência fundamental da atração recíproca entre os sexos se faz sentir e impele a mulherzinha para o homem, enquanto a mesma lei permite ao menino continuar com sua mãe. Poderíamos supor, de resto, que nesse ponto os filhos estão seguindo a indicação que lhes foi dada pela preferência sexual de seus pais. Não haveremos de encontrar as coisas tão fáceis assim, contudo; mal sabemos se podemos acreditar com seriedade no poder do qual os poetas falam tanto e com tanto entusiasmo, o qual, porém, analiticamente não pode ser investigado em maior profundidade. Encontramos uma resposta de tipo bem diverso à custa de laboriosas investigações, e pelo menos foi fácil chegar ao material respectivo. Pois ossenhores devem saber que é muito grande o número de mulheres que continuam, ainda em idade madura, dependentes de um objeto paterno, ou, na verdade, de seu pai real. A respeito dessas mulheres com uma intensa vinculação de longa duração para com o pai, temos constatado alguns fatos surpreendentes. Sabíamos, naturalmente, que houvera um estádio preliminar de vinculação com a mãe, mas não sabíamos que pudesse ser tão rico
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    e tão duradouro,e pudesse deixar atrás de si tantas oportunidades para fixações e disposições. Durante essa fase, o pai da menina é apenas um rival incômodo; em alguns casos, a vinculação à mãe perdura além do quarto ano de vida. Quase tudo o que posteriormente encontramos em sua relação com o pai, já estava presente em sua vinculação inicial e foi transferido, subseqüentemente, para seu pai, Em suma, fica-nos a impressão de que não conseguimos entender as mulheres, a menos que valorizemos essa fase de sua vinculação pré-edipiana à mãe. Será então de nosso agrado conhecermos a natureza das relações libidinais da menina para com sua mãe. A resposta é que tais relações se apresentam sob muitas formas diferentes. De vez que persistem através de todas as três fases da sexualidade infantil, também assumem as características das diversas fases e se expressam por desejos orais, sádico-anais e fálicos. Esses desejos representam impulsos ativos e também passivos; se os relacionamos à diferenciação dos sexos que vai surgir depois — embora devamos evitar de fazê-lo, até onde for possível —, podemos chamá-los de masculino e feminino. A par disto, são completamente ambivalentes, possuindo tanto uma natureza carinhosa, como hostil e agressiva. Esta última muitas vezes só vem à luz depois de haver-se transformado em idéias angustiantes. Nem sempre é fácil precisar uma formulação desses desejos sexuais iniciais; o que mais claramente se expressa é um desejo da menina, de ter da mãe um filho, e o desejo correspondente de ela mesma ter um filho — ambos desejos pertencentes ao período fálico e certamente surpreendentes, porém estabelecidos, acima de qualquer dúvida, pela observação analítica. O aspecto atraente dessas investigações está nas detalhadas e surpreendentes descobertas que nos trazem. Assim, por exemplo, descobrimos o medo de ser assassinada ou envenenada, o qual posteriormente poderá formar o núcleo de uma doença paranóide, presente já nesse período pré-edipiano, em relação à mãe.” “No período em que o principal interesse voltava-se para a descoberta de traumas sexuais infantis, quase todas as minhas pacientes contavam-me haverem sido seduzidas pelo pai. Fui forçado a reconhecer, por fim, que tais relatos eram inverídicos, e assim cheguei a compreender que os sintomas histéricos derivam de fantasias, e não de ocorrências reais. Apenas mais tarde pude reconhecer nessa fantasia de ser seduzida pelo pai a expressão do típico complexo de Édipo nas mulheres. E agora encontramos mais uma vez a fantasia de sedução na pré-história pré-edipiana das meninas; contudo, o sedutor é regularmente a mãe. Aqui, a fantasia toca o chão da realidade, pois foi realmente a mãe quem, por suas atividades concernentes à higiene corporal da criança, inevitavelmente estimulou e, talvez, até mesmo despertou, pela primeira vez, sensações prazerosas nos genitais da menina. Não tenho dúvidas de que os senhores estão dispostos a manifestar a suspeita de que esse quadro da quantidade e da intensidade do relacionamento sexual da menininha com sua mãe estaria exagerado. Afinal, tem-se ocasião de ver menininhas, e não se observa nada dessa espécie. A objeção não procede, entretanto. São muitas as coisas que se pode ver nas crianças, basta saber olhar. Ademais, deveriam considerar quão pouco dos seus desejos sexuais uma criança pode admitir em plano pré-consciente, ou, muito menos, pode comunicar. Por conseguinte, estamos simplesmente dentro dos nossos direitos quando estudamos, em retrospecto, os remanescentes e as conseqüências do mundo emocional de pessoas nas quais esses processos de desenvolvimento atingiram um grau de expansão especialmente evidente, e até mesmo excessivo. A patologia sempre nos serviu para tornar perceptíveis,ao isolar e exagerar, aquelas situações que permaneceriam ocultas em um estado normal. (...).
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    Orientaremos, agora, nossointeresse no sentido de saber unicamente que coisa põe fim a essa poderosa vinculação da menina à sua mãe. Conforme sabemos, este é o seu destino habitual: está determinado a dar lugar a uma vinculação a seu pai. Aqui, deparamos com um fato que constitui uma indicação para nosso esclarecimento subseqüente. Esse passo no desenvolvimento não envolve apenas uma simples troca de objeto. O afastar-se da mãe, na menina, é um passo que se acompanha de hostilidade; a vinculação à mãe termina em ódio. Um ódio dessa espécie pode tornar-se muito influente e durar toda a vida; pode ser muito cuidadosamente supercompensado, posteriormente; geralmente, uma parte dele é superada, ao passo que a parte restante persiste.” “Uma fonte abundante de hostilidade de uma criança para com sua mãe é o que proporcionam os desejos sexuais multiformes, que se modificam de acordo com a fase da libido e que, em sua maior parte, não podem ser satisfeitos. As mais intensas frustrações ocorrem no período fálico, se a mãe proíbe a atividade prazerosa com os genitais — muitas vezes com ameaças severas e todos os sinais de desagrado —, atividade em que, afinal de contas, ela mesma iniciara a criança. Daria para pensar que estas são razões bastantes para fazer com que a menina se afaste de sua mãe. Se assim for, seria de julgar que a desavença decorra inevitavelmente da natureza da sexualidade infantil, do caráter ilimitado de suas exigências de amor e da impossibilidade de realizar seus desejos sexuais. Na verdade, poder-se-ia pensar que essa primeira relação amorosa da criança está destinada à dissolução pelo próprio motivo de ser a primeira, pois essas primeiras catexias objetais são, habitualmente, em grau elevado ambivalentes. Uma poderosa tendência à agressividade está sempre presente ao lado de um amor intenso, e quanto mais profundamente uma criança ama seu objeto, mais sensível se torna aos desapontamentos e frustrações provenientes desse objeto; e, no final, o amor deve sucumbir à hostilidade acumulada. Ou então deve ser rejeitada a idéia de que haja uma ambivalência inicial básica como esta nas catexias objetais, podendo ser assinalado que é a natureza especial da relação mãe-filho que leva, com igual inevitabilidade, à destruição do amor da criança; a própria educação mais branda não pode evitar o uso da coerção e a introdução de restrições, e toda intervenção desse tipo na liberdade da criança deve provocar como reação uma inclinação à rebeldia e à agressividade. Penso que seria muito interessante uma discussão dessas possibilidades; no entanto, logo surge uma objeção que força o nosso interesse noutra direção. Todos esses fatores — as desfeitas, os desapontamentos no amor, o ciúme, a sedução seguida da proibição — afinal também estão atuantes na relação do menino com sua mãe e, ainda assim, não são capazes de afastá-lo do objeto materno. A menos que possamos encontrar algo que seja específico das meninas e não esteja presente, ou não esteja presente da mesma maneira, nos meninos, não teremos explicado o término da vinculação das meninas à sua mãe. Acredito havermos encontrado esse fator específico, e, na verdade, no lugar onde esperávamos encontrá-lo, embora numa forma surpreendente. Eu disse onde esperávamos encontrá-lo, pois se situa no complexo de castração. Afinal, a distinção anatômica [entre os sexos] deve expressar-se em conseqüências psíquicas. Foi uma surpresa, no entanto, constatar, na análise, que as meninas responsabilizam sua mãe pela falta de pênis nelas e não perdoam por terem sido, desse modo, colocadas em desvantagem. Como vêem, pois, atribuímos às mulheres um complexo de castração. E por boas razões o fazemos, embora seu conteúdo não possa ser o mesmo que o dos meninos. Nestes, o complexo de castração surge depois de haverem constatado, à vista dos genitais femininos, que o órgão, que tanto valorizam,não acompanha necessariamente o corpo.
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    Nisto, acodem àlembrança do menino as ameaças que provocou contra si, ao brincar com esse órgão; começa a dar crédito a elas, e cai sob a influência do temor de castração, que será a mais poderosa força motriz do seu desenvolvimento subseqüente. O complexo de castração nas meninas também inicia ao verem elas os genitais do outro sexo. De imediato percebem a diferença e, deve-se admiti-lo, também a sua importância. Sentem-se injustiçadas, muitas vezes declaram que querem ‘ter uma coisa assim, também’, e se tornam vítimas da ‘inveja do pênis’; esta deixará marcas indeléveis em seu desenvolvimento e na formação de seu caráter, não sendo superada, sequer nos casos mais favoráveis, sem um extremo dispêndio de energia psíquica. O fato de a menina reconhecer que lhe falta o pênis, não implica, absolutamente, que ela se submeta a tal fato com facilidade. Pelo contrário, continua a alimentar, por longo tempo, o desejo de possuir algo semelhante e acredita nessa possibilidade durante muitos anos; e a análise pode mostrar que, num período em que o conhecimento da realidade há muito rejeitou a realização do desejo, por sabê-lo inatingível, ele persiste no inconsciente e conserva uma considerável catexia de energia. O desejo de ter o pênis tão almejado pode, apesar de tudo finalmente contribuir para os motivos que levam uma mulher à análise, e o que ela racionalmente pode esperar da análise — capacidade de exercer uma profissão intelectual, por exemplo — amiúde pode ser identificado como uma modificação sublimada desse desejo reprimido. É difícil duvidar da importância da inveja do pênis. Os senhores podem imaginar como sendo um exemplo de injustiça masculina eu afirmar que a inveja e o ciúme desempenham, mesmo, um papel de relevo maior na vida mental das mulheres, do que na dos homens. Não é que eu pense estarem essas características ausentes nos homens, ou julgue que elas não tenham nas mulheres outras raízes além da inveja do pênis; estou inclinado, no entanto, a atribuir sua quantidade maior nas mulheres a essa influência.” “A descoberta de que é castrada representa um marco decisivo no crescimento da menina. Daí partem três linhas de desenvolvimento possíveis: uma conduz à inibição sexual ou à neurose, outra, à modificação do caráter no sentido de um complexo de masculinidade, a terceira, finalmente, à feminilidade normal. (...). Por muito tempo, o complexo de Édipo da menina ocultou à nossa observação a sua vinculação pré-edipiana com sua mãe, embora seja tão importante e deixe atrás de si fixações tão duradouras. Para as meninas, a situação edipiana é o resultado de uma evolução longa e difícil; é uma espécie de solução preliminar, uma posição de repouso que não é logo abandonada, especialmente porque o início do período de latência não está muito distante. E então nos surpreende uma diferença entre os dois sexos, provavelmente transitória, no que diz respeito à relação do complexo de Édipo com o complexo de castração. Num menino, o complexo de Édipo, no qual ele deseja a mãe e gostaria de eliminar seu pai, por ser este um rival, evolui naturalmente da fase de sexualidade fálica. A ameaça de castração, porém, impele-o a abandonar essa atitude. Sob a impressão do perigo de perder o pênis, o complexo deÉdipo é abandonado, reprimido e, na maioria dos casos, inteiramente destruído [ver [1]],e um severo superego instala-se como seu herdeiro. O que acontece à menina é quase o oposto. O complexo de castração prepara para o complexo de Édipo, em vez de destruí-lo; a menina é forçada a abandonar a ligação com sua mãe através da influência de sua inveja do pênis, e entra na situação edipiana como se esta fora um refúgio. Na ausência do temor de castração, falta o motivo principal que leva o menino a superar o complexo de Édipo. As meninas permanecem nele por um tempo indeterminado; destroem-no tardiamente e, ainda assim, de modo incompleto. Nessas circunstâncias, a formação do superego deve sofrer um prejuízo; não consegue atingir a intensidade e a independência,
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    as quais lheconferem sua importância cultural, e as feministas não gostam quando lhes assinalamos os efeitos desse fator sobre o caráter feminino em geral.” “Se a menina permaneceu vinculada a seu pai — isto é, no complexo de Édipo —, sua escolha se faz segundo o tipo paterno. De vez que, quando se afastou da mãe e se voltou para o pai, permaneceu a hostilidade de sua relação ambivalente com a mãe, uma escolha desse tipo asseguraria um casamento feliz. Muito freqüentemente, porém, o resultado é de molde a representar uma ameaça geral à solução do conflito devido à ambivalência. A hostilidade que ficou para trás segue na trilha da vinculação positiva e se alastra ao novo objeto. O marido da mulher, inicialmente herdado, por ela, do pai, após algum tempo se torna também o herdeiro da mãe. Assim, facilmente pode acontecer que a segunda metade da vida da mulher venha a ser preenchida pela luta contra seu marido, do mesmo modo como a primeira metade, mais breve, fora preenchida pela rebelião contra a mãe. Quando essa reação foi esgotada no decurso da vida, um segundo casamento pode facilmente vir a ser muito mais satisfatório. Uma outra modificação na natureza da mulher, para a qual o casal não está preparado, pode, num casamento, ocorrer após o nascimento do primeiro filho. Sob a influência da transformação da mulher em mãe, pode ser revivida uma identificação com sua própria mãe, contra a qual ela vinha batalhando até a época do casamento, e isto é capaz de atrair para si toda a libido disponível, de modo que a compulsão à repetição reproduz um casamento infeliz dos pais. A diferença na reação da mãe ao nascimento de um filho ou de uma filha mostra que o velho fator representado pela falta de pênis não perdeu, até agora, a sua força. A mãe somente obtém satisfação sem limites na sua relação com seu filho menino; este é, sem exceção, o mais perfeito, o mais livre de ambivalência de todos os relacionamentos humanos. Uma mãe pode transferir para o seu filho aquela ambição que teve de suprimir em si mesma, e dele esperar a satisfação de tudo aquilo que nela restou do seu complexo de masculinidade. Um casamento não se torna seguro enquantoa esposa não conseguir tornar seu marido também seu filho, e agir com relação a ele como mãe.” “A identificação de uma mulher com sua mãe permite-nos distinguir duas camadas: a pré-edipiana, sobre a qual se apóia a vinculação afetuosa com a mãe e esta é tomada como modelo, e a camada subseqüente, advinda do complexo de Édipo, que procura eliminar a mãe e tomar-lhe o lugar junto ao pai. Sem dúvida justifica-se dizermos que muita coisa de ambas subsiste no futuro e que nenhuma das duas é adequadamente superada no curso do desenvolvimento. A fase da ligação afetuosa pré-edipiana, contudo, é decisiva para o futuro de uma mulher: durante essa fase são feitos os preparativos para a aquisição das características com que mais tarde exercerá seu papel na função sexual e realizará suas inestimáveis tarefas sociais. É também nessa identificação que ela adquire aquilo que constitui motivo de atração para um homem; a ligação edipiana deste à sua mãe transfigura a atração da mulher em paixão. No entanto, com quanta freqüência sucede que apenas o filho obtém aquilo a que o homem aspirava! Tem-se a impressão de que o amor do homem e o amor da mulher psicologicamente sofrem de uma diferença de fase.” “Um homem, nos seus trinta anos, parece-nos um adolescente, um indivíduo não formado, que esperamos faça pleno uso das possibilidades de desenvolvimento que se lhe abrem com a análise. Uma mulher da mesma idade, porém, muitas vezes nos atemoriza com sua rigidez psíquica e imutabilidade. Sua libido assumiu posições definitivas e parece incapaz de trocá-las por outras. Não há vias abertas para um novo
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    desenvolvimento; é comose todo o processo já tivesse efetuado seu percurso e permanecesse, daí em diante, insuscetível de ser influenciado — como se, na verdade, o difícil desenvolvimento na direção da feminilidade tivesse exaurido as possibilidades da pessoa em questão. Como terapeutas, lamentamos tal estado de coisas, ainda quando conseguimos pôr um fim à doença da paciente eliminando o conflito neurótico. Isto é tudo o que tinha a dizer-lhes a respeito da feminilidade. Certamente está incompleto e fragmentário, e nem sempre parece agradável. Mas não se esqueçam de que estive apenas descrevendo as mulheres na medida em que sua natureza é determinada por sua função sexual. É verdade que essa influência se estende muito longe; não desprezamos, todavia, o fato de que uma mulher possa ser uma criatura humana também em outros aspectos. Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou consultem os poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e mais coerentes.” A QUESTÃO DE UMA WELTANSCHAUUNG CONFERÊNCIA XXXV “Suponho que Weltanschauung seja um conceito especificamente alemão, cuja tradução para línguas estrangeiras certamente apresenta dificuldades. Se eu tentar uma definição sua, minha definição estará fadada a ser incompleta. Em minha opinião, a Weltanschauung é uma construção intelectual que soluciona todos os problemas de nossa existência, uniformemente, com base em uma hipótese superior dominante, a qual, por conseguinte, não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo o que nos interessa encontra seu lugar fixo. Facilmente se compreenderá que a posse de uma Weltanschauung desse tipo situa-se entre os desejos ideais dos seres humanos. Acreditando-se nela, pode-se sentir segurança na vida, pode-se saber o que se procura alcançar e como se pode lidar com as emoções e interesses próprios da maneira mais apropriada. Sendo esta a natureza da Weltanschauung, torna-se fácil a resposta, no que respeita à psicanálise. Na qualidade de ciência especializada, ramo da psicologia — psicologia profunda, ou psicologia do inconsciente —, ela é praticamente incapaz de construir por si mesma uma Weltanschauung: tem de aceitar uma Weltanschauung científica.” “Dos três poderes que podem disputar a posição básica da ciência, apenas a religião deve ser considerada seriamente como adversária. A arte quase sempre é inócua e benéfica; não procura ser nada mais do que uma ilusão. Excetuando algumas pessoas que se diz serem ‘possessas’ pela arte, esta não tenta invadir o reino da realidade. A filosofia não se opõe à ciência, comporta-se como uma ciência e, em parte, trabalha com os mesmos métodos; (...). Por outro lado, a religião é um poder imenso que tem a seu serviço as mais fortes emoções dos seres humanos. Sabe-se muito bem que, em períodos anteriores, abrangia tudo o que desempenhava um papel intelectual na vida do homem, que ela assumia o lugar da ciência ali onde mal havia algo que se assemelhasse à ciência, e que ela construía uma Weltanschauung coerente e auto-suficiente num grau sem paralelo e que, embora profundamente abalada, persiste na atualidade. Se quisermos dar uma noção da natureza grandiosa da religião, devemos ter em mente o que ela se propõe fazer pelos seres humanos. Dá-lhes informações a respeito da origem e da existência do universo, assegura-lhes proteção e felicidade definitiva nos altos e baixos da vida e dirige seus pensamentos e ações mediante preceitos, os quais
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    estabelece com todaa sua autoridade. Com isto ela preenche três funções. Com a primeira delas satisfaz a sede de conhecimento do homem; faz a mesma coisa que a ciência tenta fazer, com os seus próprios meios, e nesse ponto entra em choque com ela. É à segunda das suas funções que a religião deve certamente a maior parte de sua influência. A ciência não pode competir com a religião quando esta acalma o medo que o homem sente em relação aos perigos e vicissitudes da vida, quando lhe garante um fim feliz e lhe oferece conforto na desventura. É verdade que a ciência nos pode ensinar como evitar determinados perigos e mostrar-nos existirem determinados sofrimentos que ela é capaz de combater com êxito; seria muito injusto negar que ela ela é um poderoso auxiliar do homem; há, contudo, muitas situações em que se vê obrigada a deixar o homem entregue ao sofrimento e apenas pode aconselhá-lo a resignar-se. Em sua terceira função, mediante a qual estabelece preceitos, proibições e restrições, a religião vai muito além da ciência.” “O mesmo pai (ou instância parental) que deu a vida à criança e a protegeu contra os perigos, ensinou-lhe também o que podia fazer e o que devia deixar de fazer, instruiu-a no sentido de adaptar-se a determinadas restrições em seus desejos instintuais e fê-la compreender o respeito que devia ter para com os pais e os irmãos, se quisesse tornar-se um membro tolerado e benquisto do círculo familiar e, posteriormente, de associações mais amplas. A criança é educada no sentido de conhecer os seus deveres sociais mediante um sistema de recompensas carinhosas e de punições; é-lhe ensinado que sua segurança na vida depende de que seus pais (e, depois, de que outras pessoas) a amem e de que eles possam acreditar que a criança os ama. Todas essas relações são posteriormente introduzidas, inalteradas, pelo homem, na religião. A quantidade de proteção e de satisfação destinada a uma pessoa depende do seu cumprimento das exigências éticas; seu amor a Deus e sua consciência de ser amado por Deus são os fundamentos da segurança que adquire contra os perigos do mundo externo e do seu ambiente humano.” “Enquanto as diferentes religiões altercam entre si pela posse da verdade, nossa opinião reside em que a questão da verdade das crenças religiosas pode ser totalmente colocada à parte. A religião é uma tentativa de obter domínio do mundo perceptível no qual nos situamos, através do mundo dos desejos que desenvolvemos dentro de nós em conseqüência de necessidades biológicas e psicológicas. Mas a religião não pode conseguir isso. Suas doutrinas conservam a marca dos tempos em que surgiram, dos tempos de ignorância da infância da humanidade. Seu consolo não merece fé. A experiência nos ensina que o mundo não é um aposento de crianças. As exigências éticas, sobre as quais a religião procura apoiar-se, acentuam, antes, a necessidade de lhe serem dadas outras bases; pois são elas indispensáveis à sociedade humana, e é perigoso vincular à fé religiosa a obediência aos princípios éticos. Se tentarmos situar o lugar da religião na evolução da humanidade, ela aparece não como uma aquisição permanente, mas sim como um equivalente da neurose pela qual o homem civilizado, individualmente, teve de passar, em sua transição da infância à maturidade.” “A proibição do pensamento, estabelecida pela religião para assegurar sua autopreservação, também está longe de ser isenta de perigos, seja para o indivíduo, seja para a sociedade humana. A experiência analítica nos ensinou que uma proibição como esta, embora originalmente limitada a apenas uma determinada área, tende a alastrar-se e, daí, a se tornar causa de graves inibições na conduta de vida da pessoa. Pode-se observar esse resultado também no sexo feminino, conseqüente à proibição que lhe é
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    feita de relacionar-secom qualquer coisa concernente à sua sexualidade, ainda que em pensamento. As biografias podem mostrar os danos causados pela inibição religiosa do pensamento, na história da vida de quase todas as pessoas célebres do passado. Por outro lado, o intelecto — ou chamemo-lo pelo nome que nos é familiar, a razão — está entre os poderes que mais esperamos vir a exercer uma influência unificadora sobre os homens — sobre os homens que são tão difíceis de manter unidos e tão difíceis de governar. Pode-se imaginar como seria impossível existir a sociedade humana, se cada pessoa simplesmente tivesse a sua tabuada particular para multiplicar e suas próprias medidas para aferir comprimento e peso. Nossa maior esperança para o futuro é que o intelecto — o espírito científico, a razão — possa, com o decorrer do tempo, estabelecer seu domínio sobre a vida mental do homem. A natureza da razão é uma garantia de que, depois, ela não deixará de dar aos impulsos emocionais do homem, e àquilo que estes determinam, a posição que merecem. A compulsão comum exercida por um tal domínio da razão, contudo, provará ser o mais forte elo de união entre os homens e mostrará o caminho para uniões subseqüentes. Tudo aquilo que, à semelhança das proibições da religião contra o pensamento, se opõe a uma evolução nesse sentido, é um perigo para o futuro da humanidade.” “Apesar de ser atualmente incompleta (a ciência – grifo meu), apesar das dificuldades que isto representa, ela continua indispensável para nós, e nada pode tomar o seu lugar. É capaz de melhoramentos jamais sonhados, ao passo que a Weltanschauung religiosa não o é. Esta está completa em todas as suas partes essenciais; se ela foi um erro, assim deve ser, para sempre. Nenhum menosprezo à ciência pode de algum modo alterar o fato de que ela está procurando levar em conta nossa dependência do mundo externo real, ao passo que a religião é uma ilusão e deriva sua força da sua presteza em ajustar- se aos nossos impulsos instintuais plenos de desejos.” “O marxismo teórico, tal como foi concebido no bolchevismo russo, adquiriu a energia e o caráter auto-suficiente de uma Weltanschauung; contudo, adquiriu, ao mesmo tempo, uma sinistra semelhança com aquilo contra o que está lutando. Embora sendo originalmente uma parcela da ciência, e construído, em sua implementação, sobre a ciência e a tecnologia, criou uma proibição para o pensamento que é exatamente tão intolerante como o era a religião, no passado. Qualquer exame crítico do marxismo está proibido, dúvidas referentes à sua correção são punidas, do mesmo modo que uma heresia, em outras épocas, era punida pela Igreja Católica. Os escritos de Marx assumiram o lugar da Bíblia e do Alcorão, como fonte de revelação, embora não parecessem estar mais isentos de contradições e obscuridades do que esses antigos livros sagrados. Embora o marxismo prático tenha varrido impiedosamente todos os sistemas idealísticos e as ilusões, ele próprio desenvolveu ilusões que não são menos questionáveis e merecedoras de desaprovação do que as anteriores. Ele espera, no curso de algumas gerações, de tal modo alterar a natureza humana, que as pessoas viverão juntas quase sem atrito na nova ordem da sociedade e que elas assumirão as tarefas do trabalho sem qualquer coerção. Nesse meio-tempo, ele muda para algum outro setor as restrições instintuais que são essenciais na sociedade; desvia para o exterior as tendências agressivas que ameaçam todas as comunidades humanas e apóia-se na hostilidade do pobre contra o rico e na hostilidade daquele que até então esteve impotente contra os governantes anteriores. Mas uma transformação da natureza humana, como esta que pretende, é altamente improvável. O entusiasmo com que a massa do povo segue a instigação bolchevista, atualmente, enquanto a nova ordem está
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    incompleta e ameaçadade fora, não oferece nenhuma certeza para um futuro no qual estaria completamente construída e isenta de perigos. Exatamente da mesma forma como a religião, o bolchevismo deve também oferecer aos seus crentes determinadas compensações pelos sofrimentos e privações de sua vida atual, mediante promessas de um futuro melhor, em que não haverá mais qualquer necessidade insatisfeita. Esse paraíso, no entanto, tem de ser nesta vida, ser instituído sobre a terra e ser descerrado num tempo previsível.” “Numa época em que as grandes nações anunciam que esperam a salvação apenas da manutenção da fé cristã, a revolução na Rússia — apesar de todos os seus detalhes desagradáveis — assemelha-se, não obstante, com uma mensagem de futuro melhor. Infelizmente nem o nosso ceticismo, nem a fé fanática do outro lado fornecem uma indicação de como será o desfecho desse experimento. O futuro no-lo dirá; talvez venha a mostrar-nos que o experimento foi empreendido prematuramente, que uma modificação radical da ordem social tem escassas perspectivas de êxito até o momento em que novas descobertas tiverem aumentado nosso controle sobre as forças da natureza e, dessa forma, tiverem tornado mais fácil a satisfação de nossas necessidades. Talvez somente então se tornaria possível que uma nova ordem social não só dê um fim às necessidades materiais das massas, como também se disponha a ouvir as exigências culturais do indivíduo. Mesmo então, na realidade ainda teremos de lutar, durante um tempo incalculável, com as dificuldades que o caráter indomável da natureza humana apresenta a qualquer espécie de comunidade social.” “Senhoras e senhores: permitam-me que, para concluir, eu resuma o que tinha a dizer sobre a relação da psicanálise com a questão de uma Weltanschauung. Em minha opinião, a psicanálise é incapaz de criar uma Weltanschauung por si mesma. A psicanálise não precisa de uma Weltanschauung; faz parte da ciência e pode aderir à Weltanschauung científica. Esta, porém, dificilmente merece um nome tão grandiloqüente, pois não é capaz de abranger tudo, é muito incompleta e não pretende ser auto-suficiente e construir sistemas. O pensamento científico ainda é muito novo entre os seres humanos; ainda são muitos os grandes problemas que até agora não conseguiu solucionar. Uma Weltanschauung erigida sobre a ciência possui, excetuada a sua ênfase no mundo externo real, principalmente traços negativos, tais como a submissão à verdade e a rejeição às ilusões. Todo semelhante nosso que está insatisfeito com essa situação, que exige mais do que isso para seu consolo momentâneo, haverá de procurá-lo onde o possa encontrar. Não o levaremos a mal, não podemos ajudá-lo, mas nem podemos, por causa disso, pensar de modo diferente.” Moisés e o monoteísmo Esboço de psicanálise e outros trabalhos VOLUME XXIII (1937-1939) ESBOÇO DE PSICANÁLISE
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    PARTE I –A MENTE E O SEU FUNCIONAMENTO A TEORIA DOS INSTINTOS O poder do id expressa o verdadeiro propósito da vida do organismo do indivíduo. Isto consiste na satisfação de suas necessidades inatas. Nenhum intuito tal como o de manter-se vivo ou de proteger-se dos perigos por meio da ansiedade pode ser atribuído ao id. Essa é a tarefa do ego, cuja missão é também descobrir o método mais favorável e menos perigoso de obter a satisfação, levando em conta o mundo externo. O superego pode colocar novas necessidades em evidência, mas sua função principal permanece sendo a limitação das satisfações. As forças que presumimos existir por trás das tensões causadas pelas necessidades do id são chamadas de instintos. Representam as exigências somáticas que são feitas à mente. Embora sejam a suprema causa de toda atividade, elas são de natureza conservadora; o estado, seja qual for, que um organismo atingiu dá origem a uma tendência a restabelecer esse estado assim que ele é abandonado. É assim possível distinguir um número determinado de instintos, e, na prática comum, isto é realmente feito. Para nós, contudo, surge a importante questão de saber se não será possível fazer remontar todos esses numerosos instintos a uns poucos básicos. Descobrimos que os instintos podem mudar de objetivo (através do deslocamento) e também que podem substituir-se mutuamente, a energia de um instinto transferindo-se para outro. Este último processo é ainda insuficientemente compreendido. Depois de muito hesitar e vacilar, decidimos presumir a existência de apenas dois instintos básicos, Eros e o instinto destrutivo. (O contraste entre os instintos de autopreservação e a preservação da espécie, assim como o contraste entre o amor do ego e o amor objetal, incidem dentro de Eros.) O objetivo do primeiro desses instintos básicos é estabelecer unidades cada vez maiores e assim preservá-las — em resumo, unir; o objetivo do segundo, pelo contrário, é desfazer conexões e, assim, destruir coisas. No caso do instinto destrutivo, podemos supor que seu objetivo final é levar o que é vivo a um estado inorgânico. Por essa razão, chamâmo-lo também de instinto de morte. Se presumirmos que as coisas vivas apareceram mais tarde que as inanimadas e delas se originaram, então o instinto de morte se ajusta à fórmula que propusemos, a qual postula que os instintos tendem a retornar a um estado anterior. No caso de Eros (ou instinto do amor), não podemos aplicar esta fórmula. Fazê-lo pressuporia que a substância viva foi outrora uma unidade posteriormente desmembrada e que se esforça no sentido da reunião. Nas funções biológicas, os dois instintos básicos operam um contra o outro ou combinam-se mutuamente. Assim, o ato de comer é uma destruição do objeto como o objetivo final de incorporá-lo, e o ato sexual é um ato de regressão com o intuito da mais íntima união. Esta ação concorrente e mutuamente oposta dos dois instintos fundamentais dá origem a toda a variedade de fenômenos da vida. A analogia de nossos dois instintos básicos estende-se da esfera das coisas vivas até o par de forças opostas — atração e repulsão — que governa o mundo orgânico.” “Modificações nas proporções da fusão entre os instintos apresentam os resultados mais tangíveis. Um excesso de agressividade sexual transformará um amante num criminoso sexual, enquanto uma nítida diminuição no fator agressivo torna-lo-á acanhado ou impotente. Não se pode pensar em restringir um ou outro dos instintos básicos a uma das regiões da mente. Eles, necessariamente, têm de ser encontrados em toda parte. Podemos imaginar
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    um estado inicialcomo sendo o estado em que a energia total disponível de Eros, a qual, doravante, mencionaremos como ‘’libido”, acha-se presente no ego-id ainda indiferenciado e serve para neutralizar as tendências destrutivas que estão simultaneamente presentes. (Não dispomos de um termo análogo a “libido” para descrever a energia do instinto destrutivo.) Num estágio posterior, torna-se relativamente fácil acompanhar as vicissitudes da libido, mas isto é mais difícil com o instinto destrutivo. Enquanto esse instinto opera internamente, como instinto de morte, ele permanece silencioso; só nos chama a atenção quando é desviado para fora, como instinto de destruição. Parece ser essencial à preservação do indivíduo que esse desvio ocorra e o aparelho muscular serve a esse intuito. Quando o superego se estabelece, quantidades consideráveis do instinto agressivo fixam-se no interior do ego e lá operam autodestrutivamente. Este é um dos perigos para a saúde com que os seres humanos se defrontam em seu caminho para o desenvolvimento cultural. Conter a agressividade é, em geral, nocivo e conduz à doença (à mortificação). Uma pessoa num acesso de raiva com freqüência demonstra como a transição da agressividade, que foi impedida, para a autodestrutividade, é ocasionada pelo desvio da agressividade contra si própria: arrancar os cabelos ou esmurrar a face, embora, evidentemente, tivesse preferido aplicar esse tratamento a outrem. Uma porção de autodestrutividade permanece interna, quaisquer que sejam as circunstâncias, até que, por fim, consegue matar o indivíduo, talvez não antes de sua libido ter sido usada ou fixada de uma maneira desvantajosa. Assim, é possível suspeitar de que, de uma maneira geral, o indivíduo morre de seus conflitos internos, mas que a espécie morre de sua luta malsucedida contra o mundo externo se este mudar a ponto de as adaptações adquiridas pela espécie não serem suficientes para lidar com as dificuldades surgidas.” “Uma característica da libido que é importante na vida é a sua mobilidade, a facilidade com que passa de um objeto para outro. Isto deve ser contrastado com a fixação da libido a objetos específicos, a qual freqüentemente persiste durante toda a vida. Não se pode discutir que a libido tenha fontes somáticas, que ela flua para o ego de diversos órgãos e partes do corpo. Isto se vê mais claramente no caso daquela porção da libido que, por seu objetivo instintivo, é descrita como excitação sexual. As partes mais proeminentes do corpo de que esta libido se origina são conhecidas pelo nome de “zonas erógenas”, embora, de fato, o corpo inteiro seja uma zona erógena desse tipo. A maior parte do que conhecemos sobre Eros — isto é, sobre o seu expoente, a libido — foi obtida de um estudo da função sexual, que, na verdade, segundo a opinião dominante, ainda que não segundo a nossa teoria, coincide com Eros. Pudemos formar uma imagem da maneira como o impulso sexual, que está destinado a exercer uma influência decisiva em nossa vida, desenvolve-se gradativamente a partir de contribuições sucessivas de um certo número de instintos componentes que representam zonas erógenas específicas.” III – MOISÉS, O SEU POVO E A RELIGIÃO MONOTEÍSTA C - A ANALOGIA “Esses três pontos — o aparecimento bastante precoce dessas experiências (durante os cinco primeiros anos de vida), o fato de serem esquecidas, e seu conteúdo sexual- agressivo — estão estreitamente intervinculados. Os traumas são ou experiências sobre
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    o próprio corpodo indivíduo ou percepções sensórias, principalmente de algo visto e ouvido, isto é, experiências ou impressões. A intervinculação desses três pontos é estabelecida por uma teoria, um produto do trabalho de análise que, apenas ele, pode provocar um conhecimento das experiências esquecidas, ou, para expressá-lo do modo mais vivo, embora também mais incorretamente, trazê-las de volta à memória. A teoria é que, em contraste com a opinião popular, a vida sexual dos seres humanos (ou o que a ela corresponde mais tarde) apresenta uma eflorescência precoce que chega ao fim por volta do quinto ano, sendo seguida pelo que é conhecido como período de latência (até a puberdade), em que não há desenvolvimento ulterior da sexualidade e, na verdade, o que fora atingido experimenta uma retrogressão. Essa teoria é confirmada pela investigação anatômica do crescimento dos órgãos genitais internos; ela nos leva a supor que a raça humana descende de uma espécie animal que atingiu a maturidade sexual aos cinco anos e desperta a suspeita de que o adiamento da vida sexual e seu desencadeamento difásico [em duas ondas] estão intimamente vinculados à função de hominização. Os seres humanos parecem ser os únicos organismos animais com um período de latência e um retardamento sexual desse tipo. Investigações efetuadas em primatas (que, até onde sei, não estão disponíveis) seriam indispensáveis para a verificação dessa teoria. Não pode ser psicologicamente indiferente que o período de amnésia infantil coincida com esse período primitivo da sexualidade. Pode ser que esse estado de coisas forneça o verdadeiro determinante para a possibilidade da neurose, que é, em certo sentido, uma prerrogativa humana e, desse ponto de vista, aparece como um vestígio — um ‘survival’ — de tempos primevos, tal como certas partes de nossa anatomia corporal.” “Dois pontos devem ser acentuados quanto às características ou peculiaridades comuns dos fenômenos neuróticos: (a) Os efeitos dos traumas são de dois tipos, positivos e negativos. Os primeiros são tentativas de pôr o trauma em funcionamento mais uma vez, isto é, recordar a experiência esquecida ou, melhor ainda, torná-la real, experimentar uma repetição dela de novo, ou, mesmo que ela seja apenas um relacionamento emocional primitivo, revivê-la num relacionamento análogo com outra pessoa. Resumimos esses esforços sob o nome de ‘fixações’ no trauma e como uma ‘compulsão a repetir’. Eles podem ser percebidos no que passa por ser um ego normal e, como tendências permanentes nele, podem emprestar-lhe traços caracterológicos inalteráveis, embora, ou melhor, precisamente por causa disso, sua verdadeira base e origem históricas estejam esquecidas. Assim, um homem que passou a infância numa ligação excessiva e atualmente esquecida com a mãe pode passar toda a vida procurando uma esposa de quem possa conseguir ser nutrido e apoiado. Uma menina que foi tornada objeto de uma sedução sexual na infância pode orientar sua vida sexual posterior de maneira a constantemente provocar ataques semelhantes. Pode-se facilmente adivinhar que, a partir de tais descobertas sobre o problema da neurose, podemos penetrar numa compreensão da formação do caráter em geral. As reações negativas seguem o objetivo oposto: que nada dos traumas esquecidos seja recordado e repetido. Podemos resumi-las como ‘reações defensivas’. Sua expressão principal constitui aquilo que é chamado de ‘evitações’, que se podem intensificar em ‘inibições’ e ‘fobias’. Essas reações negativas também efetuam as contribuições mais poderosas para a cunhagem do caráter. Fundamentalmente, elas são fixações no trauma, tanto quanto seus opostos, exceto por serem fixações com intuito contrário. Os sintomas de neurose, no sentido mais estrito, são conciliações em que ambas as tendências procedentes dos traumas se reúnem, de maneira que a cota, ora de uma, ora de outra tendência, encontre nelas expressão preponderante.”
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    “Trauma primitivo —defesa — latência — desencadeamento da doença neurótica — retorno parcial reprimido: tal é a fórmula que estabelecemos para o desenvolvimento de uma neurose. O leitor é agora convidado a dar o passo de supor que ocorreu na vida da espécie humana algo semelhante ao que ocorre na vida dos indivíduos, de supor, isto é, que também aqui ocorreram eventos de natureza sexualmente agressiva, que deixaram atrás de si conseqüências permanentes, mas que foram, em sua maioria, desviados e esquecidos, e que após uma longa latência entraram em vigor e criaram fenômenos semelhantes a sintomas, em sua estrutura e propósito. Acreditamos que podemos adivinhar esses eventos e nos propomos demonstrar que suas conseqüências semelhantes a sintomas são os fenômenos da religião. Visto que o surgimento da idéia da evolução não mais deixa lugar para dúvidas de que a raça humana possui uma pré-história, e visto que esta é desconhecida — isto é, esquecida —, uma conclusão desse tipo carrega quase o peso de um postulado. Quando aprendemos que, em ambos os casos, os traumas operantes e esquecidos se referem à vida na família humana, podemos acolher isso como um prêmio altamente bem-vindo e imprevisto, que não foi invocado por nossos estudos até esse ponto. Apresentei essas asserções já um quarto de século atrás, em meu Totem e Tabu (1912- 13), e basta que eu as repita aqui. Minha construção parte de um enunciado de Darwin (1871, 2, p. 362 e seg.] e inclui uma hipótese de Atkinson [1903, p. 220 e seg.]. Afirma ela que, em épocas primevas, o homem primitivo vivia em pequenas hordas cada uma das quais sob o domínio de um macho poderoso. Nenhuma data pode ser atribuída a isso; tampouco isso se acha sincronizado às épocas geológicas que nos são conhecidas; é provável que essas criaturas humanas não tivessem progredido muito no desenvolvimento da fala. Uma parte essencial da construção é a hipótese de que os eventos que me disponho a descrever ocorreram a todos os homens primitivos, isto é, a todos os nossos antepassados. A história é contada sob forma enormemente condensada, como se tivesse acontecido numa só ocasião, ao passo que, de fato, ela abrange milhares de anos e se repetiu incontáveis vezes durante esse longo período. O macho forte era senhor e pai de toda a horda, e irrestrito em seu poder, que exercia com violência. Todas as fêmeas eram propriedade sua — esposas e filhas de sua própria horda, e algumas, talvez, roubadas de outras hordas. A sorte dos filhos era dura: se despertavam o ciúme do pai, eram mortos, castrados, ou expulsos. Seu único recurso era reunirem-se em pequenas comunidades, arranjarem esposas para si através do rapto, e, quando um ou outro deles podia ter êxito nisso, elevarem-se a uma posição semelhante à do pai, na horda primeva. Por razões naturais, os filhos mais novos ocupavam uma posição excepcional. Eram protegidos pelo amor de suas mães e podiam tirar vantagem da idade crescente do pai e sucedê-lo quando de sua morte. Podemos detectar, em lendas e contos de fadas, ecos tanto da expulsão dos filhos mais velhos quanto do favorecimento dos mais novos. O primeiro passo decisivo no sentido de uma modificação nesse tipo de organização ‘social’ parece ter sido que os irmãos expulsos, vivendo numa comunidade, uniram-se para derrotar o pai e, como era costume naqueles dias, devoraram-no cru. Não há necessidade de esquivar-se a esse canibalismo; ele continuou bem adiante, em épocas posteriores. O ponto essencial, contudo, é que atribuímos a esses homens primitivos as mesmas atitudes emocionais que pudemos estabelecer pela investigação analítica nos primitivos da época atual — em nossos filhos. Isto é, supomos que eles não apenas odiaram e temeram o pai, mas também o honraram como modelo, e que cada um deles desejou ocupar seu lugar na realidade. Podemos, se assim for, compreender o
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    canibalismo como umatentativa de assegurar uma identificação com ele, pela incorporação de um pedaço seu. Deve-se supor que, após o parricídio, um tempo considerável se passou, durante o qual os irmãos disputaram uns com os outros a herança do pai, que cada um deles queria para si sozinho. Uma compreensão dos perigos e da inutilidade dessas lutas, uma rememoração do ato de liberação que haviam realizado juntos, e os vínculos emocionais mútuos que haviam surgido durante o período de sua expulsão, conduziram por fim a um acordo entre eles, a uma espécie de contrato social. A primeira forma de organização social ocorreu com uma renúncia ao instinto, um reconhecimento das obrigações mútuas, a introdução de instituições definidas, pronunciadas invioláveis (sagradas), o que equivale a dizer, os primórdios da moralidade e da justiça.Cada indivíduo renunciou a seu ideal de adquirir a posição do pai para si e de possuir a mãe e as irmãs. Assim, surgiram o tabu do incesto e a injunção à exagomia. Boa parte do poder absoluto liberado pelo afastamento do pai passou para as mulheres; veio um período de matriarcado. A recordação do pai persistiu nesse período da ‘aliança fraterna’. Um animal poderoso — a princípio, talvez, sempre um que também era temido — foi escolhido como substituto do pai. Uma escolha desse tipo pode parecer estranha, mas o abismo que os homens estabeleceram mais tarde entre eles próprios e os animais não existia para os novos primitivos, nem tampouco existe para nossas crianças, cujas fobias animais podemos compreender como sendo medo do pai. Com relação ao animal totêmico, a dicotomia original na relação emocional com o pai (ambivalência) foi inteiramente mantida. Por um lado, o totem era encarado como ancestral de sangue e espírito protetor do clã, a ser adorado e protegido, e, por outro, marcava-se um festival em que se lhe achava preparado o mesmo destino que o pai primevo havia encontrado. Ele era morto e devorado por todos os membros da tribo, em comum. (A refeição totêmica, segundo Robertson Smith [1894].) Esse grande festival, na realidade, era uma celebração triunfante da vitória dos filhos combinados sobre o pai. Qual é o lugar da religião com relação a isso? Penso que estamos completamente justificados em encarar o totemismo, com sua adoração de um substituto paterno, com sua instituição de festivais comemorativos e de proibições cuja infração era punida pela morte, estamos justificados, dizia eu, em encarar o totemismo como a primeira forma em que a religião se manifestou na história humana, e em confirmar o fato de ele ter sido vinculado, desde o início, aos regulamentos sociais e às obrigações morais. Aqui, só podemos fornecer o levantamento mais resumido dos outros desenvolvimentos da religião. Eles, sem dúvida, progrediram paralelamente com os avanços culturais da raça humana e com as modificações na estrutura das comunidades humanas.” “O primeiro passo para longe do totemismo foi a humanização do ser que era adorado. Em lugar dos animais, aparecem deuses humanos, cuja derivação do totem não é escondida. O deus ainda é representado sob a forma de um animal ou, pelo menos, com um rosto de animal, ou o totem se torna o companheiro favorito do deus, inseparável dele, ou a lenda nos conta que o deus matou esse animal exato, que era, afinal de contas, apenas um estádio preliminar dele próprio. Em certo ponto dessa evolução, que não é facilmente determinado, aparecem grandes deusas-mães provavelmente antes mesmo dos deuses masculinos, persistindo após, por longo tempo, ao lado destes. Nesse meio tempo, uma grande revolução social ocorrera. O matriarcado fora sucedido pelo restabelecimento de uma ordem patriarcal. Os novos pais, é verdade, jamais conquistaram a onipotência do pai primevo; havia muitos deles que viviam juntos em associações maiores do que a horda. Estavam obrigados a se manter em bons termos uns com os outros, e permaneceram sob as limitações das ordenanças sociais. É provável
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    que as deusas-mãesse tenham originado na época do cerceamento do matriarcado, como compensação da desatenção às mães. As divindades masculinas aparecem a princípio com filhos, ao lado das grandes mães, e só mais tarde assumem claramente as características de figuras paternas. Esses deuses masculinos do politeísmo refletem as condições existentes durante a era patriarcal. São numerosos, mutuamente restritivos, e ocasionalmente subordinados a um deus superior. O passo seguinte, contudo, nos conduz ao tema que aqui nos interessa: ao retorno de um deus-pai único, de domínio ilimitado.” “Tem-se de admitir que esse levantamento histórico possui lacunas e é incerto em alguns pontos. Mas todo aquele que esteja inclinado a pronunciar nossa construção da história primeva como sendo puramente imaginária estaria subestimando gravemente a riqueza e o valor probatório do material nela contido. Grandes partes do passado, que aqui foram reunidas num todo, estão historicamente atestadas: totemismo e as confederações masculinas, por exemplo. Outras partes sobreviveram em réplicas excelentes. Assim, as autoridades freqüentemente se impressionaram pela maneira fiel mediante a qual o sentido e o conteúdo da antiga refeição totêmica são repetidos no rito da Comunhão Cristã, na qual o crente incorpora o sangue e a carne de seu deus, em forma simbólica. Numerosas relíquias da era primeva esquecida sobrevieram nas lendas populares e nos contos de fadas, e o estudo analítico da vida mental das crianças proporcionou inesperada abundância de material para preencher as lacunas em nosso conhecimento dos tempos primitivos. Como contribuições à nossa compreensão da relação do filho com o pai, de tão grande importância, basta-me apenas apresentar as fobias animais, o medo, que nos impressiona como tão estranho, de ser comido pelo pai, e a enorme intensidade do pavor de ser castrado. Nada existe de inteiramente fabricado em nossa construção, nada que não possa apoiar-se em fundamentos sólidos.” “Vale a pena acentuar especialmente o fato de que cada parte que retorna do olvido afirma-se com força peculiar, exerce uma influência incomparavelmente poderosa sobre as pessoas na massa, e ergue uma reivindicação irresistível à verdade, contra a qual as objeções lógicas permanecem impotentes: uma espécie de ‘credo quia absurdum‘. Essa característica fora do comum só pode ser compreendida segundo o modelo dos delírios dos psicóticos. Há muito tempo compreendemos, que uma parte de verdade esquecida jaz oculta nas idéias delirantes, que quando aquela retorna tem de se apresentar com deformações e más compreensões, e que a convicção compulsiva que se liga ao delírio surge desse cerne de verdade e se espalha para os erros que a envolvem. Temos de conceder a existência de um ingrediente como esse, do que pode ser chamado de verdade histórica, também nos dogmas da religião, os quais, é verdade, apresentam o caráter de sintomas psicóticos, mas que, como fenômenos grupais, fogem à maldição do isolamento.” “Nenhuma outra parte da história da religião se nos tornou tão clara quanto a introdução do monoteísmo no judaísmo e sua continuação no cristianismo, se deixamos de lado o desenvolvimento, que podemos traçar não menos ininterruptamente, do animal totêmico ao deus humano, com seus companheiros regulares. (Cada um dos quatro evangelistas cristãos ainda possui seu próprio animal favorito.) Se provisoriamente aceitarmos o império mundial dos faraós como causa determinante do surgimento da idéia monoteísta, veremos que essa idéia, libertada de seu solo nativo e transferida para outro povo, foi, após longo período de latência, assumida por este, por ele preservada como uma possessão preciosa, e, por sua vez, ela própria o manteve vivo, por fornecer-lhe o
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    orgulho de serum povo escolhido: foi à religião de seu pai primevo que ligou sua esperança de recompensa, de distinção e, finalmente, de domínio mundial. Essa última fantasia de desejo, há muito tempo abandonada pelo povo judeu, ainda sobrevive entre os inimigos desse povo, na crença numa conspiração por parte dos ‘Velhos de Sion’. Reservamos para exame em páginas posteriores a maneira pela qual as peculiaridades especiais da religião monoteísta, tomada de empréstimo ao Egito, afetaram o povo judeu, e como estava fadada a deixar uma marca permanente em seu caráter, através de sua rejeição da magia e do misticismo, de seu convite a avanços em intelectualidade, e de seu incentivo às sublimações; como o povo, extasiado pela posse da verdade, esmagado pela consciência de ser escolhido, veio a ter uma alta opinião do que é intelectual e a dar ênfase ao que é moral, e como seus melancólicos destinos e seus desapontamentos na realidade serviram apenas para intensificar todas essas tendências.” “O restabelecimento do pai primevo em seu direitos históricos constituiu um grande passo à frente, mas não podia ser o fim. As outras partes da tragédia pré-histórica insistiam em ser reconhecidas. Não é fácil discernir o que colocou esse processo em movimento. Parece como se um crescente sentimento de culpa se tivesse apoderado do povo judeu, ou, talvez, de todo o mundo civilizado da época, como um precursor de retorno do material reprimido, até que, por fim, um desses judeus encontrou, ao justificar um agitador político-religioso, ocasião para desligar do judaísmo uma nova religião — a cristã. Paulo, um judeu romano de Tarso, apoderou-se desse sentimento de culpa e o fez remontar corretamente à sua fonte original. Chamou essa fonte de ‘pecado original’; fora um crime contra Deus, e só podia ser expiado pela morte. Com o pecado original, a morte apareceu no mundo. Na verdade, esse crime merecedor de morte fora o assassinato do pai primevo posteriormente deificado. Mas o assassinato não era recordado; ao invés, havia uma fantasia de sua expiação, e, por essa razão, essa fantasia podia ser saudada como uma mensagem de redenção (evangelium). Um filho de Deus se permitira ser morto sem culpa e assim tomara sobre si próprio a culpa de todos os homens. Tinha de ser um filho, visto que fora o assassinato de um pai. É provável que tradições de mistérios orientais e gregos tenham exercido influência na fantasia da redenção. O essencial nela parece ter sido a própria contribuição de Paulo. No sentido mais próprio, ele foi um homem de disposição inatamente religiosa: os traços sombrios do passado espreitavam em sua mente, prontos a irromperem para suas regiões mais conscientes. Que o redentor se sacrificara sem culpa era evidentemente uma deformação tendenciosa, que oferecia dificuldades para a compreensão lógica, pois como podia alguém sem culpa do ato do assassinato tomar sobre si a culpa dos assassinos, permitindo-se ser morto? Na realidade histórica, não havia tal contradição. O ‘redentor’ não podia ser outro senão a pessoa mais culpada, o cabeça da reunião de irmãos que havia derrotado o pai. A meu juízo, temos de deixar indecidido se houve esse rebelde principal e cabeça. É possível, mas temos também de manter em mente que cada um do grupo de irmãos certamente tinha desejo de cometer o feito por si próprio, sozinho, e criar assim uma posição excepcional para si e encontrar um substituto para sua identificação com o pai, que estava tendo de ser abandonada e se estava fundindo na comunidade. Se não houve tal cabeça, então Cristo foi o herdeiro de uma fantasia de desejo que permaneceu irrealizada; se houve, então ele foi seu sucessor e sua reencarnação. Mas não importa que aquilo que temos aqui seja uma fantasia ou o retorno de uma realidade esquecida; seja como for, a origem do conceito de um herói deve ser encontrada neste ponto; o herói que sempre se rebela contra o pai e o mata sob a uma forma ou outra.”
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    “Já dissemos quea cerimônia cristã da Sagrada Comunhão, na qual o crente incorpora o sangue e a carne do Salvador, repete o conteúdo da antiga refeição totêmica, indubitavelmente apenas em seu significado agressivo. A ambivalência que domina a relação com o pai foi claramente demonstrada, contudo, no desfecho final da inovação religiosa. Ostensivamente visando a propiciar o deus paterno, termina por ele ser destronado e por livrar-se dele. O judaísmo fora uma religião do pai; o cristianismo tornou-se uma religião do filho. O antigo Deus Pai tombou para trás de Cristo; Cristo, o Filho, tomou seu lugar, tal como todo filho tivera esperanças de fazê-lo, nos tempos primevos. Paulo, que conduziu o judaísmo à frente, também o destruiu. Fora de dúvida, ele deveu seu sucesso, no primeiro caso, ao fato de, através da idéia do redentor, exorcizar o sentimento de culpa da humanidade, mas deveu-o também à circunstância de ter abandonado o caráter ‘escolhido’ de seu povo e seu sinal visível — a circuncisão —, de maneira que a nova religião podia ser uma religião universal, a abranger todos os homens. Ainda que no fato de Paulo dar esse passo um papel possa ter sido desempenhado por seu desejo pessoal de vingança pela rejeição de sua inovação nos círculos judaicos, ele, contudo, restaurou também uma característica da antiga religião de Aten; afastou uma restrição que essa religião havia adquirido quando fora transmitida a um novo veículo, o povo judeu. Sob certos aspectos, a nova religião significou uma regressão cultural, comparada com a mais antiga, a judaica, tal como regularmente acontece quando uma nova massa de povo, de um nível mais baixo, consegue ingresso à força ou recebe admissão. A religião cristã não manteve o alto nível em coisas da mente a que o judaísmo se havia alçado. Não era mais estritamente monoteísta, tomou numerosos rituais simbólicos de povos circunvizinhos, restabeleceu a grande deusa-mãe e achou lugar para introduzir muitas das figuras divinas do politeísmo, apenas ligeiramente veladas, ainda que em posições subordinadas. Acima de tudo, como a religião de Aten e a religião mosaica que a seguiu haviam feito, não excluiu o ingresso de elementos surpersticiosos, mágicos e místicos, que deveriam mostrar-se como uma inibição grave sobre o desenvolvimento intelectual dos dois mil anos seguintes. O triunfo do cristianismo foi um novo triunfo dos sacerdotes de Amun sobre o deus de Akhenaten, após um intervalo de mil e quinhentos anos e num palco mais amplo. E, contudo, na história da religião — isto é, com referência ao retorno do reprimido — o cristianismo constituía um avanço e, a partir dessa época, a religião judaica foi, até certo ponto, um fóssil.” “Valeria a pena entender como foi que a idéia monoteísta causou uma impressão tão profunda exatamente sobre o povo judeu, e como foram eles capazes de mantê-la tão tenazmente. É possível, penso, encontrar uma resposta. O destino trouxera o grande feito e o malfeito dos dias primevos, a morte do pai, para mais perto do povo judeu, fazendo-o repeti-lo na pessoa de Moisés, uma destacada figura paterna. Tratou-se de um caso de ‘atuação’ (acting out) ao invés de recordação, como sucede tão amiúde com os neuróticos durante o trabalho de análise. À sugestão de que deviam recordar, que lhes foi feita pela doutrina de Moisés, reagiram, contudo, pelo repúdio de sua ação; permaneceram detidos no reconhecimento do grande pai e bloquearam assim seu acesso ao ponto a partir do qual, mais tarde, Paulo deveria iniciar sua continuação da história primeva. Dificilmente pode ser questão indiferente ou fortuita que a morte violenta de outro grande homem se tenha tornado também o ponto de partida da nova criação religiosa de Paulo. Tratava-se de um homem a quem um pequeno número de adeptos na Judéia encarava como sendo o Filho de Deus e o Messias anunciado, e a quem,
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    igualmente, uma parteda história da infância inventada para Moisés foi posteriormente transferida ver em[[1]], mas de quem, na verdade, pouco mais conhecemos, com certeza, do que de Moisés: se ele foi realmente o grande mestre retratado pelos Evangelhos, ou se, antes, não foram o fato e as circunstâncias de sua morte que foram decisivos para a importância que sua figura adquiriu. O próprio Paulo, que se tornou apóstolo, não o conhecera. A morte de Moisés por seu povo judeu, identificada por Sellin a partir de traços dela na tradição (e também, estranho é dizê-lo, aceita pelo jovem Goethe sem qualquer prova), torna-se assim parte indispensável de nossa construção, um vínculo importante entre o evento olvidado dos tempos primevos e seu surgimento posterior sob a forma de religiões monoteístas. É plausível conjecturar que o remorso pelo assassinato de Moisés forneceu o estímulo para a fantasia de desejo do Messias, que deveria retornar e conduzir seu povo à redenção e ao prometido domínio mundial. Se Moisés foi o primeiro Messias, Cristo tornou-se seu substituto e sucessor, e Paulo poderia exclamar para os povos, com certa justificação histórica: Olhai! O Messias realmente veio: ele foi assassinado perante vossos olhos!’ Além disso, também, existe um fragmento de verdade histórica na ressurreição de Cristo, pois ele foi o Moisés ressurrecto e, por trás deste, o pai primevo retornado da horda primitiva, transfigurado e, como o filho, colocado no lugar do pai.O pobre povo judeu, que, com sua obstinação habitual, continuava a repudiar o assassinato do pai, expiou-o pesadamente no decurso do tempo. Defrontou-se constantemente com a recriminação: ‘Vocês mataram nosso Deus!’ E essa censura é verdadeira, se for corretamente traduzida. Colocada em relação com a história das religiões, ela diz: ‘Vocês não admitem que mataram Deus (a figura primeva de Deus, o pai primevo, e suas reencarnações posteriores).’ Deveria haver um acréscimo, declarando-se: ‘Fizemos a mesma coisa, é verdade, mas o admitimos, e, desde então, fomos absolvidos.’ “ “Um fenômeno de tal intensidade e permanência como o ódio do povo pelos judeus deve, naturalmente, possuir mais de um fundamento, alguns deles claramente derivados da realidade, que não exigem interpretação, e outros a jazer mais profundamente, derivados de fontes ocultas, que poderiam ser consideradas as razões específicas. Dos primeiros, a censura por serem estrangeiros é talvez a mais débil, visto que em muitos lugares hoje dominados pelo anti-semitismo, os judeus estavam entre as partes mais antigas da população, ou mesmo lá se encontravam antes dos atuais habitantes. Isso se aplica, por exemplo, à cidade de Colônia, à qual os judeus chegaram junto com os romanos, antes que fosse ocupada pelos germânicos. Outros fundamentos para odiar os judeus são mais fortes; assim, as circunstâncias de eles viverem, em sua maior parte, como minorias entre outros povos, pois o sentimento comunal dos grupos exige, a fim de completá-lo, a hostilidade para com alguma minoria externa, e a debilidade numérica dessa minoria excluída encoraja sua supressão. Há, contudo, duas outras características dos judeus que são inteiramente imperdoáveis. A primeira é o fato de, sob alguns aspectos, serem diferentes de suas nações ‘hospedeiras’. Não são fundamentalmente diferentes, pois não são asiáticos, de uma raça estrangeira, conforme seus inimigos sustentam, mas compostos, na maioria, de remanescentes dos povos mediterrâneos e herdeiros da civilização mediterrânea. São, não obstante, diferentes, com freqüência diferentes de maneira indefinível, especialmente dos povos nórdicos, e a intolerância dos grupos é quase sempre, de modo bastante estranho, exibida mais intensamente contrapequenas di ferenças do que contra diferenças fundamentais. O outro ponto possui um efeito ainda maior: a saber, que eles desafiam toda opressão, que as perseguições mais cruéis não conseguiram exterminá-los e que, na verdade, pelo contrário, exibem
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    uma capacidade demanter o que é seu na vida comercial e, onde são admitidos, de efetuar contribuições valiosas a todas as formas de atividade cultural. Os motivos mais profundos do ódio pelos judeus estão enraizados nas mais remotas eras passadas; operam desde o inconsciente dos povos, e acho-me preparado para descobrir que, a princípio, não parecerão críveis. Aventuro-me a asseverar que o ciúme para com o povo que se declarou o filho primogênito e favorito de Deus Pai ainda hoje não foi superado entre os outros povos; é como se estes tivessem pensado que havia verdade na reivindicação. Ademais, entre os costumes pelos quais os judeus se tornam separados, o da circuncisão causou impressão desagradável e sinistra, que deve ser explicada, indubitavelmente, por ela relembrar a temida castração e, juntamente com ela, uma parte do passado primevo que fora alegremente esquecida. E finalmente, como último motivo dessa série, não devemos esquecer que todos os povos que hoje sobressaem em seu ódio pelos judeus se tornaram cristãos apenas em épocas históricas tardias, amiúde impulsionados a isso por sanguinolenta coerção. Poder-se-ia dizer que todos eles são ‘mal batizados’. Sobrou-lhes, sob delgado verniz de cristianismo, aquilo que eram seus ancestrais, que adoravam um politeísmo bárbaro. Ainda não superaram um ressentimento contra a nova religião que lhes foi imposta, mas deslocaram esse ressentimento para a fonte de onde o cristianismo os foi buscar. O fato de os Evangelhos contarem uma história que se desenrola entre judeus e que, na verdade, trata apenas de judeus, tornou-lhes fácil esse deslocamento. Seu ódio pelos judeus é, no fundo, um ódio pelos cristãos, e não precisamos surpreender-nos de que, na revolução nacional-socialista alemã, essa relação íntima entre as duas religiões monoteístas encontre expressão tão clara no tratamento hostil que é dado a ambas.” Parte II D - A RENUNCIA AO INSTINTO Não é óbvio nem imediatamente compreensível por que um avanço em intelectualidade, um retrocesso da sensualidade, deva elevar a autoconsideração tanto de um indivíduo quanto de um povo. Esse avanço parece pressupor a existência de um padrão definido de valor e de alguma outra pessoa ou instância que o sustente. Para uma explicação, voltemo-nos para um caso análogo na psicologia individual, caso que chegamos a compreender. Se o id de um ser humano dá origem a uma exigência instintual de natureza agressiva ou erótica, o mais simples e natural é que o ego, que tem o aparelho de pensamento e o aparelho muscular à sua disposição, satisfaça a exigência através de uma ação. Essa satisfação do instinto é sentida pelo ego como prazer, tal como sua não satisfação indubitavelmente se tornaria fonte de desprazer. Ora, pode surgir um caso em que o ego se abstenha de satisfazer o instinto, por causa de obstáculos externos, a saber, se percebesse que a ação em apreço provocaria um sério perigo ao ego. Uma abstenção da satisfação desse tipo, a renúncia a um instinto por causa de um obstáculo externo — ou, como podemos dizer, em obediência ao princípio da realidade —, não é agradável em caso algum. A renúncia ao instinto conduziria a uma tensão duradoura, devida ao desprazer, se não fosse possível reduzir a intensidade do próprio instinto mediante deslocamentos de energia. A renúncia instintual, contudo, pode também ser imposta por outras razões, as quais corretamente descrevemos como internas. No curso do desenvolvimento de um indivíduo, uma parte das forças inibidoras do mundo externo é internalizada e constrói-se no ego uma instância que confronta o restante do ego num sentido observador, crítico e proibidor. Chamamos essa nova instância de superego.
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    Doravante o ego,antes de colocar em funcionamento as satisfações instintuais exigidas pelo id, tem de levar em conta não simplesmente os perigos do mundo externo, mas também as objeções do superego, e terá ainda mais fundamentos para abster-se de satisfazer o instinto. Mas onde a renúncia instintual, quando se dá por razões externas, é apenas desprazerosa, quando ela se deve a razões internas, em obediência ao superego, ela tem um efeito econômico diferente. Em acréscimo às inevitáveis conseqüências desprazerosas, ela também traz ao ego um rendimento de prazer — uma satisfação substitutiva, por assim dizer. O ego se sente elevado; orgulha-se da renúncia instintual, como se ela constituísse uma realização de valor. Acreditamos quepodemos entender o mecanismo desse rendimento de prazer. O superego é o sucessor e o representante dos pais (e educadores) do indivíduo, que lhe supervisionaram as ações no primeiro período de sua vida; ele continua as funções deles quase sem mudança. Mantém o ego num permanente estado de dependência e exerce pressão constante sobre ele. Tal como na infância, o ego fica apreensivo em pôr em risco o amor de seu senhor supremo; sente sua aprovação como libertação e satisfação, e suas censuras como tormentos de consciência. Quando o ego traz ao superego o sacrifício de uma renúncia instintual, ele espera ser recompensado recebendo mais amor deste último. A consciência de merecer esse amor é sentida por ele como orgulho. Na época em que a autoridade ainda não fora internalizada como superego, poderia ter havido a mesma relação entre a ameaça de perda do amor e as reivindicações do instinto; havia um sentimento de segurança e satisfação quando se conseguia uma renúncia instintual por amor ao país. Mas esse sentimento feliz só poderia assumir o peculiar caráter narcísico de orgulho depois que a própria autoridade se tivesse tornado parte do ego.” “O totemismo, a forma mais primitiva de religião que identificamos, traz consigo, como constituintes indispensáveis de seu sistema, uma série de ordens e proibições que não possuem outra significação, naturalmente, que a de renúncias instintuais: a adoração do totem, que inclui uma proibição contra danificá-lo ou matá-lo; a exogamia — isto é, a renúncia às apaixonadamente desejadas mães e irmãs da horda —, a concessão de direitos iguais a todos os membros da aliança fraterna — isto é, a restrição da inclinação para a rivalidade violenta entre eles. Nesses regulamentos, devem ser visto os primórdios de uma ordem moral e social. Não nos escapa que dois motivos diferentes estão em ação aqui. As duas primeiras proibições operam do lado do pai, que foi eliminado: dão continuidade a sua vontade, por assim dizer. A terceira ordem — a concessão de direitos iguais aos irmãos aliados — despreza essa vontade; justifica-se por um apelo à necessidade de manter permanentemente a nova ordem que sucedeu ao afastamento do pai, pois, de outra maneira, uma recaída no estado anterior se tornaria inevitável. É aqui que as ordens sociais divergem das outras, as quais, como poderíamos dizer, se derivam diretamente de vinculações religiosas. A parte essencial desse curso de acontecimentos repete-se no desenvolvimento abreviado do indivíduo humano. Também aqui é autoridade dos pais da criança — essencialmente, a de seu pai autocrático, a ameaçá-la com seu poder de punir — que lhe exige uma renúncia ao instinto e que por ela decide o que lhe deve ser concedido e proibido. Mais tarde, quando a Sociedade e o superego assumiram o lugar dos pais, o que na criança era chamado de ‘bem-comportado’ ou ‘travesso’, é descrito como ‘bom’ e ‘mau’, ou ‘virtuoso’ e ‘vicioso’. Mas ainda é sempre a mesma coisa — renúncia instintual sob a pressão da autoridade que substitui e prolonga o pai.” “A ordem em favor da exogamia, da qual o horror ao incesto é a expressão negativa, era um produto da vontade do pai e deu continuidade a essa vontade depois que ele foi
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    afastado. Daí provéma força de seu tom emocional e a impossibilidade de descobrir uma base racional para ela — isto é, sua sacralidade. Confiantemente esperamos que uma investigação de todos os outros casos de proibição sagrada conduza à mesma conclusão que à do horror ao incesto: que aquilo que é sagrado originalmente nada mais era do que o prolongamento da vontade do pai primevo. Isso também lançaria luz sobre a ambivalência até aqui incompreensível das palavras que expressam o conceito de sacralidade. Trata-se da ambivalência que em geral domina a relação com o pai. [O latim] ‘sacer‘ significa não apenas ‘sagrado’, ‘consagrado’, mas também algo que só podemos traduzir por ‘infame’, ‘detestável’, (e.g., ‘auri sacra fames’). Mas a vontade do pai não era apenas algo que não podia ser tocado, que se tinha de ter em elevado respeito, mas também algo perante o que se tremia, por exigir uma penosa renúncia instintual. Quando ouvimos que Moisés tornou santo seu povo, pela introdução do costume da circuncisão, compreendemos o significado profundo dessa asserção. A circuncisão é o substituto simbólico da castração que o pai primevo outrora infligira aos filhos na plenitude de seu poder absoluto, e todo aquele que aceitava esse símbolo demonstrava através disso que estava preparado para submeter-se à vontade do pai, mesmo que esta lhe impusesse o mais penoso sacrifício. Retornando à ética, podemos dizer, em conclusão, que uma parte de seus preceitos se justifica racionalmente pela necessidade de delimitar os direitos da sociedade contra o indivíduo, os direitos do indivíduo contra a sociedade, e os dos indivíduos uns contra os outros. Mas o que nos parece tão grandioso a respeito da ética, tão misterioso e, de modo místico, tão auto-evidente, deve essas características à sua vinculação com a religião, à sua origem na vontade do pai.” ANÁLISE TERMINÁVEL E INTERMINÁVEL (...) Parte - VI “Em outro grupo ainda de casos, as características distintivas do ego, que devem ser consideradas como fontes de resistências ao tratamento analítico e obstáculos ao êxito terapêutico, podem originar-se de raízes diferentes e mais profundas. Estamos lidando aqui com as coisas supremas que a pesquisa psicológica pode aprender: o comportamento dos dois instintos primevos, sua distribuição, mistura e defusão — coisas que não podemos imaginar como confinadas a uma única província do aparelho psíquico, ao id, ao ego ou ao superego. Impressão alguma mais forte surge das resistências durante o trabalho de análise do que a de existir uma força que se está defendendo por todos os meios possíveis contra o restabelecimento e que está absolutamente decidida a apegar-se à doença e ao sofrimento. Uma parte dessa força já foi por nós identificada, indubitavelmente com justiça, como sentimento de culpa e necessidade de punição, e foi por nós localizada na relação do ego com o superego. Mas essa é apenas a parte dela que, por assim dizer, está psiquicamente presa pelo superego e assim se torna reconhecível; outras cotas da mesma força, quer presas, quer livres, podem estar em ação em outros lugares não especificados. Se tomarmos em consideração o quadro total formado pelos fenômenos de masoquismo imanentes em tantas pessoas, a reação terapêutica negativa e o sentimento de culpa encontrados em tantos neuróticos, não mais poderemos aderir à crença de que os eventos mentais são governados exclusivamente pelo desejo de prazer. Esses fenômenos constituem
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    indicações inequívocas dapresença de um poder na vida mental que chamamos de instinto de agressividade ou de destruição, segundo seus objetivos, e que remontamos ao instinto de morte original da matéria viva. Não se trata de uma antítese entre uma teoria pessimista da vida e outra otimista. Somente pela ação concorrente ou mutuamente oposta dos dois instintos primevos — Eros e o instinto de morte —, e nunca por um ou outro sozinho, podemos explicar a rica multiplicidade dos fenômenos da vida.” “Afinal de contas, presumimos que, no decurso do desenvolvimento do homem de um estado primitivo para um civilizado, sua agressividade experimenta um grau bastante considerável de internalização ou volta para o interior; se assim for, seus conflitos internos certamente seriam o equivalente apropriado para as lutas internas que então cessaram. Estou bem cônscio de que a teoria dualista, segundo a qual um instinto de morte ou de destruição ou agressão reivindica iguais direitos como sócio de Eros, tal como este se manifesta na libido, encontrou pouca simpatia e na realidade não foi aceita, mesmo entre psicanalistas. Isso me deixou ainda mais satisfeito quando, não muito tempo atrás, me deparei com essa teoria de minha autoria nos escritos de um dos maiores pensadores da antiga Grécia. Estou prontíssimo a ceder o prestígio da originalidade em favor de tal confirmação, em especial porque nunca pode ficar certo, em vista da ampla extensão de minhas leituras nos primeiros anos, se aquilo que tomei por uma nova criação não constituía um efeito da criptoamnésia. Empédocles de Acragas (Girgenti), nascido por volta de 495 a.C., é uma das maiores e mais notáveis figuras da história da civilização grega. As atividades de sua personalidade multifacetada seguiram as mais variadas direções. Ele foi investigador e pensador, profeta e mágico, político, filantropo e médico com conhecimentos de ciências naturais. Diz-se que libertou a cidade de Selinunte da malária e seus contemporâneos o reverenciavam como a um deus. Sua mente parece ter unido os mais agudos contrastes. Era exato e sóbrio em suas pesquisas físicas e fisiológicas; contudo, não se retraiu ante as obscuridades do misticismo e construiu especulações cósmicas de audácia espantosamente imaginativa. Capelle compara-o ao Dr. Fausto, ‘a quem muitos segredos foram revelados’. Nascido, como foi, numa época em que o reino da ciência ainda não estava dividido em tantas províncias, algumas de suas teorias devem inevitavelmente impressionavas coisas pela mistura dos quatros elementos, a terra, o ar, o fogo e a água. Sustentava que toda a natureza era animada, e acreditava na transmigração das almas. Mas também incluiu no corpo teórico do conhecimento idéias modernas, como a evolução gradual das criaturas vivas, a sobrevivência dos mais aptos e o reconhecimento do papel desempenhado pelo acaso   nessa evolução. Mas a teoria de Empédocles que merece especialmente nosso interesse é uma que se aproxima tanto da teoria psicanalítica dos instintos, que ficaríamos tentados a sustentar que as duas são idênticas, não fosse pela diferença de a teoria do filósofo grego ser uma fantasia cósmica, ao passo que a nossa se contenta em reivindicar validade biológica. Ao mesmo tempo, o ato de Empédocles atribuir ao universo a mesma natureza animada que aos organismos individuais despoja essa diferença de grande parte de sua importância. O filósofo ensinou que dois princípios dirigem os eventos na vida do universo e na vida da mente, e que esses princípios estão perenemente em guerra um com o outro. Chamou-os de (amor) e (discórdia). Desses dois princípios — que ele concebeu como sendo, no fundo, ‘forças naturais a operar como instintos, e de maneira alguma inteligências com um intuito consciente’ —, um deles se esforça por aglomerar as partículas primevas dos quatro elementos numa só unidade, ao passo que o
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    outro, ao contrário,procura desfazer todas essas fusões e separar umas das outras as partículas primevas dos elementos. Empédocles imaginou o processo do universo como uma alternação contínua e incessante de períodos, nos quais uma ou outra das duas forças fundamentais leva a melhor, de maneira que em determinada ocasião o amor e noutra a discórdia realizam completamente seu intuito e dominam o universo, após o que o outro lado, vencido, se afirma e, por sua voz, derrota seu parceiro. Os dois princípios fundamentais de Empédocles —   — são, tanto em nome quanto em função, os mesmos que nossos dois instintos primevos, Eros e destrutividade, dos quais o primeiro se esforça por combinar o que existe em unidades cada vez maiores, ao passo que o segundo se esforça por dissolver essas combinações e destruir as estruturas a que elas deram origem. Não ficaremos surpresos, contudo, em descobrir que, em seu ressurgimento após dois milênios e meio, essa teoria se alterou em algumas de suas características. À parte a restrição ao campo biofísico que se nos impõe, não mais temos como substâncias básicas os quatro elementos de Empédocles: o que é vivo foi nitidamente diferenciado do que é inanimado, e não mais pensamos em mistura e separação de partículas de substância, mas na solda e na defusão dos componentes instintuais. Ademais, fornecemos um certo tipo de fundamento ao princípio de ‘discórdia’, fazendo nosso instinto de destruição remontar ao instinto de morte, ao impulso que tem o que é vivo a retornar a um estado inanimado. Isso não se destina a negar que um instinto análogo já existiu anteriormente, nem, é natural, a asseverar que um instinto desse tipo só passou a existir com o surgimento da vida. E ninguém pode prever sob que disfarce o núcleo de verdade contida na teoria de Empédocles se apresentará à compreensão posterior.” Parte - VII “Nos homens, o esforço por ser masculino é completamente egossintônico desde o início; a atitude passiva, de uma vez que pressupõe uma aceitação da castração, é energicamente reprimida e amiúde sua presença só é indicada por supercompensações excessivas. Nas mulheres, também, o esforço por ser masculino é egossintônico em determinado período — a saber, na fase fálica, antes que o desenvolvimento para a feminilidade se tenha estabelecido. Depois, porém, ele sucumbe ao momentoso processo de repressão cujo desfecho, como tão freqüentemente foi demonstrado, determina a sorte da feminilidade de uma mulher. Muita coisa depende de que uma quantidade suficiente de seu complexo de masculinidade escape à repressão e exerça influência permanente em seu caráter. Normalmente, grandes partes do complexo se transformam e contribuem para a construção de sua feminilidade; o desejo apaziguado de um pênis destina-se a ser convertido no desejo de um bebê e de um marido, que possui um pênis.É estranho, contudo, quão amiúde descobrimos que o desejo de masculinidade foi retido no inconsciente e que, a partir de seu estado de repressão, exerce uma influência perturbadora. Como se verá pelo que eu disse, em ambos os casos foi a atitude própria ao sexo oposto que sucumbiu à repressão. Já afirmei em outro lugar que foi Wilhelm Fliess que chamou minha atenção para esse ponto. Fliess inclinava-se a encarar a antítese entre os sexos como a verdadeira causa e a força motivadora primeva da repressão. Estou apenas repetindo o que disse então ao discordar de sua opinião, quando declino de sexualizar a repressão dessa maneira — isto é, explicá-la em fundamentos biológicos, em vez de puramente psicológicos.”
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    “A importância supremadesses dois temas — nas mulheres, o desejo de um pênis, e, nos homens, a luta contra a passividade — não escapou à observação de Ferenczi. No artigo lido por ele em 1927, transformou num requisito que, em toda análise bem- sucedida, esses dois complexos tivessem sido dominados. Gostaria de acrescentar que, falando por minha própria experiência, acho que quanto a isso Ferenczi estava pedindo muito. Em nenhum ponto de nosso trabalho analítico, se sofre mais da sensação opressiva de que todos os nossos repetidos esforços foram em vão, e da suspeita de que estivemos ‘pregando ao vento’, do que quando estamos tentando persuadir uma mulher a abandonar seu desejo de um pênis, com fundamento de que é irrealizável, ou quando estamos procurando convencer um homem de que uma atitude passiva para com homens nem sempre significa castração e que ela é indispensável em muitos relacionamentos na vida. A supercompensação rebelde do homem produz uma das mais fortes resistências transferenciais. Ele se recusa a submeter-se a um substituto paterno, ou a sentir-se em débito para com ele por qualquer coisa, e, conseqüentemente, se recusa a aceitar do médico seu restabelecimento. Nenhuma transferência análoga pode surgir do desejo da mulher por um pênis, mas esse desejo é fonte de irrupções de grave depressão nela, devido à convicção interna de que a análise não lhe será útil e de que nada pode ser feito para ajudá-la. E só podemos concordar que ela está com a razão, quando aprendemos que seu mais forte motivo para buscar tratamento foi a esperança de que, ao fim de tudo, ainda poderia obter um órgão masculino, cuja falta lhe era tão penosa. Mas também aprendemos com isso que não é importante sob que forma a resistência aparece, seja como transferência ou não. A coisa decisiva permanece sendo que a resistência impede a ocorrência de qualquer mudança — tudo fica como era. Freqüentemente temos a impressão de que o desejo de um pênis e o protesto masculino penetraram através de todos os estratos psicológicos e alcançaram o fundo, e que, assim, nossas atividades encontram um fim. Isso é provavelmente verdadeiro, já que, para o campo psíquico, o campo biológico desempenha realmente o papel de fundo subjacente. O repúdio da feminilidade pode ser nada mais do que um fato biológico, uma parte do grande enigma do sexo. Seria difícil dizer se e quando conseguimos êxito em dominar esse fator num tratamento analítico. Só podemos consolar-nos com a certeza de que demos à pessoa analisada todo incentivo possível para reexaminar e alterar sua atitude para com ele.”