Osfundadores do
Metodismo

Por

PaulE. Buyers
Imprensa Metodista
1929
SUMÁRIO
A) OS INGLESES
I. A VIDA DE JOÃO WESLEY, o organizador do Metodismo (1703-1791)

II. A VIDA DE CARLOS WESLEY, o poeta do Metodismo (1707-1788)

III. A VIDA DE GEORGE WHITEFIELD, o orador e evangelista do movimento
Metodista (1714-1770)

IV. A VIDA DE JOÃO FLETCHER, o santo do movimento (1729-1785)

V. A VIDA DE THOMAS COKE, o missionário do movimento metodista (17471814)

VI. A VIDA DE FRANCIS ASBURY, o pioneiro e pai da Igreja Metodista na
América (1745-1816)

B) OS AMERICANOS
VII. A VIDA DE GUILHERME McKENDREE, o primeiro bispo americano da
Igreja Metodista (1757-1835)

VIII. A VIDA DE JOSUÉ SOULE, o legislador da Igreja Metodista (1781-1867)

IX.

A VIDA DE PEDRO CARTWRIGHT, o itinerante metodista nas fronteiras
(1785-1872)

X.

A VIDA DE ENOCH MARVIN, o pregador e Bispo evangelista (1823-1877)

XI.

A VIDA DE CARLOS BETTS GALLOWAY, o cavalheiro cristão (18491909)

XII. A VIDA DE WALTER RUSSEL LAMBURTH, o primeiro moderno do
cristianismo (1854-1921).

A vida de João Wesley,
o fundador do Metodismo
(1703-1791)
Escrevendo a biografia de João Wesley alguém podia fazê-lo sob diversos aspectos. Por
exemplo, podia caracterizá-lo como reformador, evangelista itinerante, apóstolo da liberdade de
pensamento religioso, fundador de uma Igreja, etc., mas o nosso estudo visa encará-lo como um
organizador. Sem dúvida elementos de outros pontos de vista hão de aparecer, porém, em
narrando os fatos principais de sua vida, daremos ênfase ao organizador.

I - O PARENTESCO E A MOCIDADE
1. Seus pais.
Quando Deus, na sua providência divina, destina alguém a realizar os seus desígnios para
com a humanidade, começa pelos p ais e avós dessa pessoa. Assim se deu na vida de João
Wesley. Sua parentela contava muitas pessoas nobres e distintas na vida nacional e da Igreja.
Entre essas pessoas havia diversos literatos cultos e profundamente religiosos. Seus próprios pais
foram desse número, sendo o pai um literato e vigário da Igreja Anglicana e sua mãe uma senhora
bem educada, prática e piedosa. Dela foi que o filho aprendeu a ser metódico e ter sistema na vida
prática. Ela determinava horas e dias marcados para seus filhos fazerem certas coisas e eles
tinham que fazê-las.
2. Sua Educação.
Como já dissemos, sua mãe tomou grande interesse em seu filho “Jack” (o apelido de
carinho) desde os seus primeiros dias de infância, ensinando -o não somente o que se encontra
nos livros, mas, também o que se encontra no coração de uma mãe piedosa e estremecida. Tinha
dia e hora marcados em cada semana, em que levava “Jack” para seu quarto e ali, sozinhos, ela
conversava aconselhando-o e orando por ele. Revelava tão boas qualidades, que não somente
conseguiu impressionar e influir poderosamente no espírito do seu filho enquanto criança, mas
também pelos seus conselhos acertados prestou relevantes serviços à sua idoneidade. Portanto,
cedo na vida, prestou a essa mulher admirável homenagem e respeito. Ele foi, sem dúvida, o
reflexo da influência da sua querida mãe.
Quando tinha dez anos de idade, os pais mandaram-no para Londres, onde passou uns
seis anos na Escola Charterhouse. Os dias passados já foram dias de proveito, mas, a princípio,
dias de lutas e grandes tentações. Não sendo um menino muito robusto, o pai aconselhou-o que
fizesse uma corrida, todas as manhãs, ao redor do quarteirão, onde estava a escola. Ele cumpriu
fielmente esta ordem; e de manhã cedo podia-se ver correndo ao redor da escola, um menino de
cabelos louros agitados pelo vento.
Terminando o seu curso nesta escola, quis estudar na Universidade de Oxford, onde seu
pai havia estudado.
Durante este período passou da meninice à mocidade. Não era mais uma criança, porém
um adulto, com a sua personalidade mais ou menos desenvolvida. Seu irmão mais velho, Samuel,
que a esse tempo morava em Londres, escrevia cartas ao pai, elogiando o Joãozinho pela sua
inteligência e coragem. Ele não deixou de seguir o conselho de seu pai e, fielmente, fazia as
corridas diariamente ao redor da escola, assistia cultos aos domingos, comungava, lia a Bíblia e
fazia oração. O Sr. Southy diz que por sua tranqüilidade, regularidade e aplicação tornou-se o
favorito de seu mestre, Dr. Wolher.
3. Um incidente impressionante na sua meninice.
João, o décimo quinto filho de Samuel e Susanna Wesley, nas ceu na pequena cidade de
Epworth, Linconshire, Inglaterra, no dia 28 de junho de 1703. Como já dissemos, ele não tinha
motivo para se envergonhar de seu parentesco. O lar na casa pastoral de Epworth era semelhante
a uma colméia de abelhas em atividade e interesse. Quando tinha passado seis anos da vida aqui
nesta casa tão cheia de encantos, aconteceu certo dia um incidente tão impressionante do qual ele
nunca se esqueceu. A altas horas da noite a casa incendiou-se e, sendo uma casa de madeira e já
velha, não levou muito tempo para ser consumida. Todos os membros desta numerosa família com
os criados tinham abandonado a casa. Muitos dos seus vizinhos tinham afluído ao redor da casa
para socorrê-los. Notaram que João não estava com os demais membros da família.
A casa já estava envolvida em chamas e Joãozinho ainda estava dormindo no segundo
andar. A escada já estava tomada pelo fogo e as labaredas estavam passando pelo forro do teto,
iluminando o quarto onde a criança se achava. A claridade acordou o menino. Assustado, ele
correu para a janela e olhou para baixo, lá enxergando os rostos dos seus pais e vizinhos
iluminados pela claridade do incêndio. Descer pela escada era impossível, pular pela janela era
perigosíssimo. O desespero apoderou-se dos pais. Que fazer? Havia no meio dos vizinhos um
homem mais calmo e refletido do que os outros, o qual se chegou à parede da casa, convidou
mais dois homens para treparem em seus ombros, fazendo deste modo uma escada até a janela
onde se encontrava o menino. João pulou nos braços do homem e desceu de um para outro até
chegar salvo ao chão.
O pai, abraçando o seu filho, convidou seus vizinhos para fazerem oração, dizendo – “
Venham, meus amigos, vamos dar graças a Deus pelo livramento do meu filho; deixai a casa
queimar; tendo meus filhos, sou rico!” Assim ajoelharam-se e renderam graças a Deus. Este
incidente de tal forma impressionou a criança que nunca mais dele se esqueceu e, mais tarde na
vida, recordando-se deste incidente, considerava-se a si mesmo como um tição arrebatado ao fogo
e comparava este mundo a uma casa incendiada cujos habitantes corriam o perigo de perder-se
no fogo eterno.

II - ESTUDANTE EM OXFORD
1. A cidade de Oxford.
A cidade de Oxford, nesta época, embora famosa como centro educativo, não era, em sua
atmosfera moral, muito favorável ao desenvolvimento de piedade ou intelectualidade. O Dr. Fitchett
diz: “Oxford, no princípio do século dezoito, talvez fosse o lugar mais prosaico que qualquer outro
em toda a obscura Inglaterra. Não havia entusiasmo nem pelos esportes! Era o lar da insinceridade
e da ociosidade e cheia de vícios gerados por tais qualidades. A sua insinceridade era de um tipo
pernicioso; porque era organizada, patrimoniada, venerada e revestida de autoridade, e, além de
tudo, era conceituada como virtuosa”.
Portanto, os seus ideais eram naturalmente baixos, a disciplina frouxa e a religião consistia
em formalismo cuja qualidade era ridicularizar os estudantes mais religiosos e sinceros.

2. A vida como estudante.
Pouco se sabe da vida de Wesley durante os quatro anos que passou como aluno em
Oxford. É muito provável que fosse a época em que descuidara mais da sua vida religiosa. Isto não
quer dizer que se tornasse um rapaz dissoluto, mas que negligenciou observar os seus costumes
religiosos de outros tempos. Julgamos, pela correspondência com seu pai, que passou apuros
financeiros durante este período de sua vida. Que ele foi um bom estudante não se pode duvidar.
Completou seu curso em quatro anos, tirando o seu diploma em Bacharel em Ar tes em 1724.
Alguns dos seus contemporâneos dão testemunho dele quanto ao seu comportamento e estudos.
O Sr. Badcoch, um dos seus colegas, assim o descreve quando tinha vinte e um anos de
idade; um rapaz de superior gosto clássico, e de sentimentos liberais e cavalheiros. O Sr. South diz
que ele era um estudante diligente e por sua habilidade em lógica, pela qual conseguiu
freqüentemente derrotar os que mais tarde seriam os seus adversários na vida.
Falando de sua própria vida nesta época, Wesley diz: “Eu continuava a fazer as minhas
orações, tanto em particular como em público e ler a Bíblia junto com outros livros religiosos,
especialmente comentários sobre o Novo Testamento. Mas não tinha a mínima idéia do que era a
santidade íntima no coração; sim, habitualmente continuava, mais ou menos, satisfeito, cometendo
alguns pecados reconhecidos”.
Realmente Wesley estava passando aquele período de transição do menino para o
homem. Como as demais pessoas, tinha de ajustar-se a esta nova fase da vida. Sem dúvida
alguma os ensinos que recebera dos pais e os hábitos formados no lar paterno vieram agora em
seu auxílio para o confirmar numa vida reta.

3. Preceptor em Lincoln College, Oxford.
Quando completou o seu curso em Oxford tinha vinte e um anos de idade e logo se
levantou em seu espírito a questão da sua profissão ou vocação.
Resolveu-se a entrar para o serviço da Igreja e seus pais concordaram nisso.
Uma vez tomada essa decisão começou logo a preparar-se para a sua ordenação.
Dedicou-se ao estudo de teologia e à leitura devocional. Sua principal preocupação era obter uma
idéia clara acerca da natureza do homem e da sua relação para com o homem e do homem para
com Deus. Sobre a sua experiência religiosa muito podia se dizer; porém não podemos aqui
estender-nos sobre o assunto além de dizer que a maior dificuldade com o Sr. Wesley à procura de
Deus, era que ele queria desenvolver uma teologia e então experimentá-la na vida prática, em vez
de ter uma experiência pessoal da graça de Deus no coração e dali desenv olver numa teologia.
Em outras palavras ele inverteu o processo e isto causou-lhe muitos desapontamentos e
perplexidades.
Quando se considerou preparado para aceitar a ordenação, foi ordenado pelo bispo Potter,
a 19 de setembro de 1725. A 17 de março de 1726 foi eleito preceptor de Lincoln College em
Oxford. Em outubro do mesmo ano foi eleito lente (professor de escola superior ou secundária) da
cadeira de grego e moderador das classes. A 14 de fevereiro foi-lhe conferido o grau de Mestre em
Artes.
Sendo um estudante e professor diligente, estabeleceu o seguinte horário de estudos que
seguia assiduamente: segundas e terças-feiras, Grego e Latim; quarta-feira, Lógica e Ética; quinta-
feira, Hebraico e Árabe; sexta-feira, Metafísica e Filosofia Natural; sábado, Oratória e Poesia;
domingo, Divindade. Nas horas vagas estudava Francês e lia uma grande variedade de livros
modernos.
No outono de 1727 ele foi ajudar seu pai na sua paróquia de Ep worth e Wroote, onde
passou quase dois anos com pouco sucesso e satisfa ção. Sendo convidado de novo a voltar para
Oxford como preceptor, aceitou o convite e entrou em serviço pelos fins do ano de 1729.
4. O Clube Santo.
Voltando de novo para Oxford, o Sr. Wesley não somente ocupava o seu tempo como
preceptor e moderador das Classes, mas também no trabalho religioso do “Clube Santo”. Nesta
ocasião o seu irmão Carlos, mais moço do que ele, estava freqüentando aulas em Oxford e tinha
reunido um grupo de rapazes sérios para estudar a Bíblia, orar juntos e diligenciar -se em visitar os
pobres e presos. Logo que João Wesley chegou a Oxford, identificou-se com este clube e pouco
tempo depois foi constituído seu presidente.
O fim deste clube era desenvolver a espiritualidade e atividades cristãs de seus membros.
Os membros tinham horas certas para ler e estudar a Bíblia e orar; assistiam os cultos e
comungavam regularmente e visitavam os pobres e presos, administrando-lhes dos seus bens de
acordo com as suas posses. Tal assiduidade e zelo não podiam passar sem atrair a atenção dos
outros alunos da Universidade. Sendo alunos remissos e indiferentes quanto aos seus deveres
cristãos, começaram a criticá-los, dando-lhes apelidos e ridicularizando-os. Entre os apelidos
usados, o de “Metodistas” era o mais aceito, porque os membros do Clube Santo faziam todas as
coisas com método e sistema. Assim, por seis anos, o Sr. Wesley continuou seu trabalho em
Oxford. Mas, durante todo este tempo, ignorava a paz e o gozo do Espírito Santo em seu coração.
Sua religião consistia em observar a forma de piedade, mas buscando o poder dela por meio de
ritos formalistas. Enfim, ele era muito egoísta, pensando mais em si e em sua própria salvação do
que na salvação daqueles aos quais queria servir como ministro de Cristo.

III - MISSIONÁRIO NA AMÉRICA
Diversas coisas concorreram para fazer o Sr. Wesley tornar-se missionário. Seu pai tinha
morrido e seu irmão completava seu curso na Universidade e ele mesmo andava perdendo o
interesse na vida escolar em Oxford. Não tinha encontrado aquela satisfação espiritual q ue
almejava. Quando seu pai faleceu deixou um manuscrito do seu comentário sobre o Livro de Jó,
obra que tinha empregado muito tempo par fazê-la. João Wesley resolveu apresentar uma cópia
desse livro à rainha, em Londres. Coincidiu que nesta mesma época o general Oglethorpe, o
fundador da colônia de Geórgia, no novo mundo, estava em Londres, procurando um capelão para
os seus colonos na América. O Sr. João Wesley, sendo recomendado para este cargo, foi aceito.
Mas antes de fechar o contrato, ele quis conversar com a sua mãe sobre o
empreendimento. A resposta dela foi bem característica de sua natureza nobre e cristã. Ela lhe
disse: “Se tivesse vinte filhos, eu me regozijaria em vê-los assim ocupados, mesmo que nunca
mais tornasse a vê-los”.
1. A viagem para a América.
A 18 de Setembro de 1735, formalmente aceitou o convite do general Oglethorpe. Foi
nessa ocasião que começou a escrever um Diário que se tem tornado um dos melhores
documentos sobre as condições sociais do século dezoito na Inglaterra. Muit os dos seus amigos
julgavam que era um passo errado o que ele estava dando. Numa carta que escreveu a um amigo
menciona o motivo principal que o levou a tomar essa decisão. Disse: “O meu motivo principal é
salvar a minha própria alma. Espero aprender o verdadeiro sentido do evangelho de Cristo
pregando-o aos pagãos”. Seu pensamento estava concentrado em si, não tendo ainda aprendido o
segredo verdadeiro de Cristo.
Junto com ele foram seu irmão Carlos, na qualidade de secretário do general Oglethorpe , e
mais dois colegas do “Clube Santo” os Srs. Ingham e Delamotte.
O característico principal de seu espírito metódico manifestou-se na organização de um
programa com horário que ocupava todo o seu tempo e os dos seus três colegas de viagem.
Entre os passageiros havia uns vinte e seis moravianos exilados de sua pátria, a
Alemanha, indo para a colônia de Geórgia em busca de liberdade, onde já se encontravam
colocados alguns de seus irmãos da Morávia. O Sr. Wesley ficou bem impressionado com a
simplicidade desses exilados e com seu bom comportamento. Para conversar com eles e conhecêlos melhor, principiou a estudar a língua alemã.
Durante a viagem levantou-se forte tempestade e por algum tempo julgaram que iriam a
pique. Depois de passar o temporal o Sr. Wesley quis saber porque eles, os moravianos, ficaram
tão calmos e cantaram hinos durante a tempestade. Quis saber se não tinham medo. Um deles
respondeu que não tinham medo de morrer. Mas o Sr. Wesley não podia compreender tal coisa,
porque ele tinha medo de morrer. Começou, pois, a refletir sobre isto.
2. Seu trabalho na Geórgia.
Chegados à Geórgia, na cidade de Sevanah, logo principiaram seu trabalho. Carlos
Wesley foi mandado para Frederica e João ficou em Savanah, trabalhando como capelão entre os
setecento s colonos.
Antes de iniciar seu trabalho procurou o Sr. Augusto Spangenberg, o chefe dos
moravianos em Savanah, para consultá-lo sobre o modo de fazer seu serviço. Este, antes de
responder ou dar o seu conselho, fez algumas perguntas ao Sr. Wesley. Perguntou:
- “Tem o irmão o testemunho do Espírito Santo?” “Dá o Espírito de Deus testemunho ao
teu espírito de que és filho de Deus?”
O Sr. Wesley teve que confessar que ignorava tal testemunho.
- “Conheces tua Jesus Cristo?”
- “Eu sei”, disse o Sr. Wesley, “que ele é o Salvador do mundo”.
- “Não há duvida, mas tens a certeza de que ele te salvou?”
O Sr. Wesley quis evitar a resposta, mas disse:
-”Tenho esperança de que ele tenha morrido para me salvar”.
-“Mas tu o conheces por ti mesmo?” insistiu o Sr. Spangenberg.
O Sr. Wesley, achando-se em apuros, respondeu afirmativamente, porém anos depois,
falando sobre isto, disse:
- “Tenho receio de que fossem palavras vãs”.
Em pouco tempo estava sistemática e metodicamente fazendo o seu trabalho, não
somente entre os colonos ingleses, mas também dirigindo cultos com os alemães, franceses,
espanhóis e italianos nas suas próprias línguas.
Mas o Sr. Wesley não foi bem sucedido no seu trabalho entre este povo. Ele era ritualista
até os ossos e muito exigente na observação de todas as rubricas da Igreja Anglicana. Recusava
aceitar o chefe dos moravianos à mesa da Comunhão, batizava de novo as crianças dos crentes
não conformistas e fazia questão em batizá-las por imersão.
Tudo isto concorria para desprestigiá-lo perante o povo.
3. Complicações.
Seu irmão Carlos não se deu bem com o novo ambiente e criou uma situação tão difícil
que o obrigou a voltar logo para a Inglaterra. E o Sr. João Wesley, tomando o encargo de
harmonizar o caso de seu irmão, atraiu sobre si ainda maiores embaraços. Porém o que concorreu
mais do que tudo para dificultar o seu serviço na Geórgia foi a questão entre ele e a jovem Sophia
Hopckey. Esta era uma moça atrativa, simpática e dotada de regular educação. Não obstante o
aspecto austero de Wesley, ele lhe despertara afeição. Ele nunca chegou a pedi-la em casamento,
mas entre ambos existia mútuo afeto. O Sr. Wesley tomou tal interesse no caso, que foi levado a
consultar os presbíteros da Igreja dos Moravianos se devia ou não casar-se com ela. Quando a
moça soube que ele havia feito tal coisa, indignou-se e, pouco tempo depois, casou-se com o Sr.
Williamson. Foi um golpe muito cruel para o Sr. Wesley e ele, referindo-se a isso, escreveu no seu
Diário o seguinte: “A Providência tirou de um só golpe o desejo dos meus olhos. Fui atravessado
como por uma espada”.
Contudo podia ter continuado na América se não tivesse criado para si mesmo maiores
dificuldades. Alguns meses depois ele teve a imprudência de repreendê -la por julgar que havia em
sua conduta algumas coisas que mereciam repreensão. Além de repreendê-la, recusou-se a darlhe a comunhão. O marido dela indignou-se e denunciou o Sr. Wesley ao Juiz articulando doze
acusações. O júri constituído de quarenta e quatro homens julgou que dez daquelas acusações
eram razoáveis. Porém o Sr. Wesley alegou que, dessas acusações, só havia uma cujo julgamento
eram questões eclesiásticas.
Quanto a acusação de ter ele “falado e escrito à senhora Sophia Williamson sem o
consentimento de seu marido”, ele estava pronto a comparecer perante o júri e defender-se quanto
antes. Mas os oficiais não se deram pressa em ouvi-lo, esperando que ele fugisse da Colônia
como criminoso. Seis vezes ele compareceu perante o tribunal para ser ouvido, mas não quiseram
ouvi-lo. Entrementes fora substituído por outro e, não podendo conseguir a terminação do
processo contra si, resolveu retirar-se da América.
Antes de se ir embora, colocou um aviso na praça publica anunciando a sua intenção de
voltar logo para a Inglaterra.
Em seu diário lê-se o seguinte: “Sexta-feira, 2 de Dezembro de 1737. Logo que terminou o
culto de oração, às oito horas da noite, favorecido pela maré, sacudi o pó dos meus pés e deixei a
Geórgia, depois de ter pregado o evangelho não como devia, mas como s ó eu podia, por um ano e
nove meses”.
4. Regresso para a Inglaterra
O desapontamento e a humilhação que ele sentia não eram insignificantes, porém
profundos. Ele escreveu em seu Diário: “Agora faz dois anos e quatro meses desde que sai da
minha terra nat al para ensinar aos índios da Geórgia a natureza do Cristianismo; mas o que tenho
aprendido durante este tempo? Deveras, o que eu menos esperava e é que eu que fui a América
para converter os outros, não era eu mesmo convertido, mas um alienado da vida de Deus, um
filho da ira e um herdeiro do inferno”. Mais tarde, refletindo sobre essa época da vida, viera a
modificar estas acusações contra si mesmo.
O benefício que ele recebeu desta experiência logo se manifestou em sua vida. Ele
aprendeu a humildade, chegou a conhecer a si mesmo revelando o que estava em seu coração.
Acima de tudo, aprendeu que não era necessário retirar-se à solidão para ser cristão e que o
ascetismo e o interesse por si próprio não é o que constitui a religião de Cristo.
Imediatamente, depois de chegar à Inglaterra foi para Londres, onde se encontrou com o
Sr. Pedro Bohler, um moraviano, em viagem da Alemanha para a Geórgia. Lembrando -se dos
moravianos da Geórgia, o Sr. Wesley associou-se a ele em Londres, assistindo aos cultos dirigidos
por ele e conversando com ele em particular. O Sr. Wesley podia compreender a explicação do Sr.
Pedro Bohler, porém a sua experiência não estava de acordo com sua teoria.
A questão da salvação pela fé o confundia, mas, ouvindo as explicações do Sr. Bohler,
chegou a confessar que se sentia culpado de incredulidade. Tinha também uma outra dificuldade
que era a conversão instantânea. Estudando estes pontos no Novo Testamento e ouvindo o
testemunho dos moravianos, concluiu que estava errado em seu modo de pensar sobre estas
coisas. A única coisa que lhe faltava agora era fazer a sua experiência pessoal corresponder a sua
concepção intelectual sobre estes pontos.
Não tardou a ter tal experiência. Foi no dia 24 de Maio de 1738 que ele teve uma
experiência que transformou completamente sua vida.
Essa experiência foi semelhante à de São Paulo no caminho de Damasco. Assim conta-a
em seu Diário: “ De tarde, fui, com pouca vontade, assistir ao culto na Sociedade de Aldersgate
Street (Londres), onde ouvi alguém ler o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos. Cerca de um
quarto de hora antes das nove, quando estava sendo descrita a mudança que Deus opera no
coração pela fé em Cristo, senti o meu coração maravilhosamente aquecer-se. Senti que eu
realmente confiava em Cristo, somente para a salvação; e uma segurança me foi dada de que ele
me havia livrado dos meus pecados – sim, os meus e que me salvou da lei do pecado e da morte.
O Sr. Lecky, comentando este fato, disse que esta reunião em Aldersgate “marca uma
época na história da Inglaterra.”
Ele tinha aprendido dois segredos profundos dos moravianos: primeiro – que
fundamentalmente a fé não é simplesmente uma crença, mas uma relação pessoal, a confiança
absoluta da alma do indivíduo num Salvador pessoal e a entrega da vida completa a ele; segundo,
que Deus não é um Ser afastado, porém uma presença viva no coração do crente, purificando-o do
pecado, repartindo-lhe uma nova vida e dando-lhe paz e vitória sobre o pecado.
Dali em diante o Sr. Wesley deixou de pensar tanto em si mesmo e mais em Cristo: o
egoísmo não era mais o centro do seu pensamento, mas Cristo. Tinha descoberto o segredo do
“mistério que esteve escondido dos séculos e das gerações; que é em vós Cristo, esperança da
glória.”
Tendo essa nova experiê ncia, queria confirmar-se mais e mais nela. Julgando que lhe
seria de grande proveito, resolveu visitar os moravianos na sua comunidade em Herrnhut, na
Alemanha. Esta visita auxiliou -o a confirmar-se na sua nova experiência, apesar da crítica por parte
de alguns dos seus parentes e amigos mais íntimos. Tinha ele, então trinta e cinco anos de idade e
estava preparado para principiar seu trabalho para o qual fora destinado.

IV – ENCETANDO O TRABALHO DE EVANGELIZAÇÃO
Alguns meses depois de voltar da Alemanha, o Sr. Wesley passou por Londres, onde,
assistindo cultos na Sociedade de Fetter Lane, se relacionou intimamente com a irmandade dos
moravianos. Sentiu-se em dívida com os moravianos, não podendo embora aceitar todas as suas
idéias e doutrinas. Por alguns dois anos manteve com eles relações cordiais, mas veio a se afastar
deles por causa de sua doutrina de antinomismo e quietismo.
O Sr. Wesley continuou sempre a pregar, não somente nas sociedades em Londres, mas
também nas igrejas, até que os párocos anglicanos se recusaram a ceder-lhe o púlpito de suas
igrejas.
Antes de seu regresso da América, seu colega, o Sr. George Whitefield, terminando seus
estudos, começou a atrair a atenção do povo por suas pregações na Inglaterra. Notícias disto
chegaram ao Sr. Wesley, na América, e ele escreveu-lhe sugerindo que visitasse as colônias
americanas. No dia em que o Sr. Wesley chegou à Inglaterra o Sr. George Whitefield embarcava
para a América. Enquanto o Sr. Wesley passava por um crítico período religioso na Inglaterra, o Sr.
Whitefield estava por sua eloqüência despertando as Colônias inglesas na América com a
mensagem de boas novas. Na mesma cidade onde o Sr. Wesley sofreu tão grande fracasso o Sr.
Whitefield foi maravilhosamente bem sucedido. Resolveu fundar um orfanato na cidade de
Savanah, e voltou logo para a Inglaterra com o fim de arrecadar dinheiro para o seu orfanato.
1. Pregando ao ar livre.
É interessante descobrir-se como as coisas acontecem, às vezes. Eis ali o Sr. Wesley com
o seu coração a arder de amor e da graça de Deus e todas as portas fechadas a ele. Não podia
aliar-se francamente aos moravianos; não lhe era permitindo pregar nas igrejas anglicanas, e nem
mesmo na igreja onde seu pai fora pastor por muitos anos e onde ele mesmo tinha pregado
ajudando seu pai. Que havia de fazer? Onde podia pregar? Tinha uma mensagem para o povo,
mas não tinha ocasião de pregá-la.
Era este o estado de coisas quando o Sr. Whitefield voltou da América. Como o Sr.
Whitefield já tinha iniciado o trabalho de cultos ao ar livre, convidou o Sr. Wesley a ajudá-lo neste
serviço. O Sr. Whitefield estava pregando em Bristol, e como as portas das igrejas lhe estavam
fechadas também, ele começou a pregar ao ar livre, aos mineiros, pois se compadecia muito deles,
porque os via abandonados pelas igrejas e vivendo na miséria, na pobreza e negligência.
Em pouco tempo havia mais de vinte mil pessoas assistindo aos cultos ao ar livre. Como
ele tinha que voltar à América, convidou o Sr. Wesley a continuar o trabalho. Mas o Sr. Wesley
hesitava, porque isso era uma novidade para ele que fora disciplinado na Igreja Anglicana e ainda
se conservava amarrado a tantos preconceitos eclesiásticos. A influência dos moravianos sobre o
Sr. Wesley tinha incutido nele uma idéia supersticiosa. Quando se sentia em dúvida acerca do
rumo que devia seguir ou da decisão que devia tomar, abria a Bíblia e a primeira passagem sobre
a qual seus olhos caiam determinava a solução. O Sr. Wesley experimentou esse método diversas
vezes e todas as vezes as passagens não eram favoráveis, ao passo que estava pensando em
tomar, isto é, pregar ao ar livre. Conseqüentemente hesitou bastante tempo antes de aceitar o
convite do Sr. Whitefield.
Finalmente resolveu ir até Bristol e ver o que o Sr. Whitefield estava fazendo. Ali ficou tão
impressionado com a obra, que deixou todos os seus preconceitos de lado, e encarando a questão
à luz dos fatos e da razão, chegou a aceitar o convite. As seguintes citações do seu diário mostram
seu modo de sentir a respeito dessa inovação em sua vida. Diz ele:
“No princípio quase não podia me reconciliar com este modo de esquisito de pregar nos
campos, conforme o Sr. Whitefield me deu um exemplo no domingo, tendo sido toda a minha vida,
até há pouco, tão unida a todos os pontos que eram considerados de acordo com a decência e a
ordem, e tais eram os meus preconceitos que considerava pecado um pecador salvar-se fora da
igreja.”
Em 2 de abril de 1739, ele escreveu no seu Diário:
“Às quatro horas da tarde eu me submeti à grande humilhação e preguei nos campos,
falando duma colina próxima à cidade a quase três mil pessoas.”
Este ato marca uma nova época na vida de Wesley; dali em diante ele foi o guia neste
trabalho por cinqüenta anos. Achara o campo das suas atividades; a Providência Divina tinha
aberto “uma porta grande e eficaz, e havia muitos adversários”.
Mais tarde, visitando a sua cidade natal, Epworth e não lhe sendo permitido pregar na
igreja, foi ao cemitério sobre o túmulo de seu pai, disse à multidão que o acompanhara:
“Eu tomo o mundo por minha paróquia”.
Uma vez iniciado este trabalho ao ar livre, não demorou a cair sobre ele uma avalanche de
críticas. Até os seus amigos o aconselhavam a desistir deste fanatismo, etc. Em resposta à carta
de um amigo o Sr. Wesley assim se exprime: “Permita-me declarar-lhe os meus princípios sobre
este negócio. Eu considero todo o mundo como minha paróquia, até este ponto – que em qualquer
parte onde eu estiver, eu julgo que é o meu direito e privilégio, para não dizer a minha obrigação,
proclamar as boas novas de salvação a todos que me queiram ouvir. Este é o meu trabalho para
que Deus tem me chamado e eu sei que ele tem me chamado e que as suas bênçãos tem me
acompanhado”.
Para narrar tudo o que o Sr. Wesley fez e sofreu pelo seu trabalho ao ar livre, seriam
necessários muitos volumes. Somente lembraremos ao leitor que a época em que o Sr. Wesley
iniciou este trabalho na Inglaterra, havia uma decadência moral que mal podemos imaginar o que
era. O rei, a rainha, a nobreza, o clero e as massas es tavam todos contaminados pelos vícios da
época. Glutonarias, embriaguez, infidelidade aos votos matrimoniais, crueldade nos esportes,
corrupção na política, indiferentismo e formalismo na religião, ignorância e superstição e muitas
outras coisas semelhantes eram característicos desta época.
Era no meio destas coisas que o Sr. Wesley ia trabalhar. Visitando as diversas cidades e
vendo a miséria e ignorância em que jazia o povo, o seu coração se enchia de compaixão pelas
multidões sem pastor e sem esperanças. Por isso não temia enfrentar os motins e a oposição
promovidos pelos vigários da Igreja Anglicana. Onde podia pregar, pregava. Poderíamos citar
muitos incidentes do povo, mas somente citaremos um ou dois:
“Cheguei a Wednesbury. Preguei na praça pública. Entrei em casa do Sr. Ward e estava
escrevendo quando o motim chegou à porta gritando: “ O pregador, o pregador, o ministro, traga-o
para fora, nós queremos o ministro.” Convidei alguém a tomar o chefe do motim pela mão e trazêlo para dentro da casa. Em pouco tempo o leão converteu -se em cordeiro. Ele e seus
companheiros queriam levar-me ao juiz. Fui, mas o juiz estava deitado, pois era noite, e os mandou
embora. Já tínhamos andado quase d ois quilômetros debaixo de chuva e não era possível falarlhe. Eles me arrastaram pelas ruas e um valentão quis bater-me com um pau que mais de uma vez
quase me atingiu. Havendo uma porta aberta, quis entrar mas o dono da casa não deixou, receoso
que a sua casa fosse destruída. Quis falar-lhes outra vez, mas não me quiseram escutar. Alguns
gritaram: “Rachai a cabeça dele, matai -o”. Eu me esforçava para falar-lhes, chegando até quase a
perder a voz para dizer-lhes: “Que mal tenho feito aos senhores, etc”. Não podendo falar mais,
começaram a me empurrar pelas ruas. Deus porém, me protegia levantando defensores entre eles
próprios, pois alguns dos chefes do motim se colocaram a meu lado e me levaram através de uma
ponte onde encontramos uma porta e finalmente cheguei à cidade antes de meia-noite.”
O que vai acima é um resumo do que se deu com o Sr. Wesley, pois o original é muito
extenso.
Em Falmonth ele foi atacado por outro motim. Quando arrombaram a porta da casa onde
se achava, ele colocou-se no meio deles e disse: “Aqui estou eu. Qual dentre vós quer falar
comigo? A quem tenho eu feito algum mal? Tenho feito algum mal ao senhor? Ao senhor? Ao
senhor?” Continuei a falar até que pude sair de casa descoberto, pois de propósito deixei o meu
chapéu para que todos me pudessem ver facilmente. Quando cheguei no meio da rua, levantei a
voz e disse: “Meus vizinhos e patrícios! Quereis que eu vos fale?” Eles responderam com
veemência: “Sim, sim. Ele falará, ele falará, ninguém o proibirá”. Não podendo, porém, ficar em
lugar elevado, só podia falar aos que me cercavam e os que podiam me ouvir ficaram quietos.
Logo dois dos principais gritaram: “Nenhum homem tocará nele”. O Sr. Thomas, um clérigo,
aproximando-se, disse: “Os senhores não tem vergonha de haver tratado uma pessoa estranha
desta maneira?” Alguns outros apoiaram o ministro e em seguida me levaram para a casa da
senhora Madern, donde mais tarde tomei um navio para Pensyn”.
O conselho que o Sr. Wesley dá para quando temos de enfrentar um motim é: “Olhar
sempre para a frente.”
2. Tornando-se um itinerante.
Por alguns três anos o Sr. Wesley concentrou as suas atividades em Londres e arredores.
Parece-nos que não tinha qualquer plano definido quanto ao seu trabalho; agia de acordo com as
circunstâncias e com a providência.
Houve um incidente que o levou a ser um itinerante. Foi um convite que recebeu em 1742
para ir a Domington Park, sede do condado da Condessa Huntingdon, para visitar uma pessoa que
estava à morte. Ele foi para atender o convite e achando-se no norte da Inglaterra resolveu visitar a
região dos mineiros de Yorkshire. O estado lastimável em que se achavam os mineiros apelou
sensivelmente ao coração de Wesley.
Ele resolveu fazer um itinerário por esta zona da Inglaterra. De Domington Park foi à
cidade de Bristol, a cidade nativa dos Sr. John Newton, um marinheiro que se converteu ouvindo o
Sr. Wesley pregar pela primeira vez ao ar livre em Londres. O Sr. Newton, tendo voltado para sua
cidade, começou a contar aos seus vizinhos o que tinha experimentado. Foi tão bem acatado pelo
povo que muitos dos seus vizinhos estavam preparados para ouvir, com o maior proveito, as
pregações do Sr. Wesley. Os cultos realizados ao ar livre atraiam grandes multidões e muitas
pessoas se convertera m e precisavam de instrução. O Sr. Wesley realizava reuniões especiais
para essas pessoas, às quais dava explicações e conselhos que julgavam mais convenientes.
Em Newcastle foi muito bem recebido. Pregou diversas vezes no domingo que passou
naquela cidade. Quando acabou o sermão, o povo ficou estupefato; então ele disse: “Se vós
quereis saber quem sou, meu nome é João Wesley. Hoje, às 5 horas da tarde, com o auxilio de
Deus, pregarei aqui outra vez”. À hora marcada todo o lugar estava tomado pelo povo. O texto foi
Isaías 43:25: “Eu, eu mesmo sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim; não me
lembrarei dos teus pecados”. O resultado da sua pregação sobre o povo foi admirável; ele diz:
“Depois da pregação o povo queria ma atropelar devido à bondade e ao amor que manifestava
para comigo”.
Nem sempre foi tão bem recebido, porém havia sempre muitas pessoas nas multidões que
lhe queriam bem e gostavam de ouvir as suas pregações.
Uma vez iniciado este trabalho de itinerância, não quis largá-lo jamais. Dedicou 50 anos da
sua vida a este serviço que começou sob a direção divina.
Estabeleceu o seu itinerário de ano em ano. Visitava os centros mais populosos e
industriais da Inglaterra, Escócia e Galles. Muitas vezes visitou a Escócia e quarenta e dois vezes
a Irlanda para não mencionar as viagens constantes em toda a parte da Inglaterra. Pr egava até
sete vezes num dia, andando até 12 e 15 léguas no mesmo dia. As estradas eram ruins e no
tempo frio, ele sofria muito. É calculado que, durante a sua vida de itinerante, andou duzentos e
cinqüenta mil milhas que equivalem a dez voltas ao redor do mundo e pregou quarenta mil vezes.
Viajou a cavalo até a idade de sessenta e nove anos, e devido a um desastre que o proibia
de andar a cavalo, viajava de carro. Não houve talvez na Inglaterra outro homem que gastasse
tanto tempo em público, lidando com o povo, como o Sr. Wesley, e também não houve outro
homem que gozasse tantas horas em particular. Ele passava dez ou doze horas por dia fechado
no seu carro (carruagem), onde podia estar só com os seus livros e os seus pensamentos em
meditação.
A política dele era não principiar trabalho em qualquer lugar que não pudesse ser visitado
e mantido. Pois, o que conquistou, ele conservou. Tinha muito a fazer, mas não encetava mais do
que podia bem fazer. Como diz um dos seus biógrafos: “Assim foi o modo de viver do Sr. Wesley
por cinqüenta longos anos. “Ele vivia”, diz o Sr. Fitchett, “como o soldado numa campanha –
levemente equipado e pronto a qualquer momento para marchar”. Deixando de lado tudo mais que
não fosse a sua carreira de evangelista itinerante, a história dos cinqüenta anos tão cheios de
trabalhos incessantes e de paciência heróica nos enchem de admiração. E contudo este trabalho
admirável de evangelização é somente uma pequena parte daquilo que o Sr. Wesley fez. Além de
tudo isso, mantinha uma correspondência volumosa, instruía os seus pregadores e ecônomos,
assistia as classes e as catequizavam, visitava e servia os doentes, arrecadava dinheiro para os
pobres, zelava pela construção das capelas e escolas, e dirigia todos os detalhes do sistema
complexo da itinerância que se desenvolveu sob a sua liderança.

V – ORGANIZAÇÃO DA IGREJA METODISTA NA INGLATERRA
O Sr. Wesley não tinha o dom de orador que o Sr. George Whitefield tinha, mas ele tinha
um dom que Whitefield não possuía, o dom de um organiza dor. É exatamente neste ponto que se
nota a superioridade (originalidade) de Wesley. Tinha habilidade tanto de um organizador como de
líder de homens. E é devido a essas suas qualidades que o Metodismo se encontra presentemente
em todo mundo. É um fato provado que o Sr. Wesley não tinha qualquer plano esboçado quando
principiou a sua carreira, porém tinha uma mente alerta e aberta para aceitar os fatos que se
apresentavam e agir de acordo com as circunstâncias; portanto, tudo o que se encontra na
organização que fez, tem sua razão de ser do lado prático.
O fim que tinha em vista em todas as medidas tomadas era: Reavivar a santidade
escriturística através do mundo, e especialmente trazer à comunhão da Igreja as classes
negligenciadas e desprezadas na socied ade de modo que gozassem os seus privilégios em Cristo
Jesus. A promoção de um avivamento cont ínuo na igreja e não a fundação de um novo corpo
eclesiástico era o desejo que queria realizar.
1. Organização de sociedades.
Já foi mencionada a existência de sociedades religiosas na cidade de Londres. Havia
muitas dessas sociedades na Inglaterra antes de Wesley principiar o seu trabalho de organizador.
Ele sempre se identificava com essas sociedades e tomava parte nas suas reuniões. Mas o
princípio do seu trabalho de organização de sociedades verificou-se em 1739 na cidade de
Londres. As pessoas que foram despertadas pelas suas pregações sentiam a necessidade de
instrução e conselho. Para satisfazer essa necessidade o Sr. Wesley resolveu dedicar um pouco
do seu tempo, dando essas explicações e conselhos. Principiou com oito ou dez pessoas, havendo
uma reunião por semana, a saber, nas quintas-feiras. Para melhor orientá-las preparou certas
regras que nós conhecemos hoje como “As Regras Gerais”. “Isto”, diz ele, “foi a origem das
sociedades metodistas, primeiro na Inglaterra e depois em outros lugares”.
Na sua visita a Bristol fundou uma sociedade e adquiriu uma propriedade – uma casa de
oração. Isto foi em Fevereiro de 1742. Havia uma dívida pesando sobre a capela e numa reunião
se discutia o modo de arrecadar o dinheiro para pagá-la. Enquanto estavam discutindo a questão,
um tal Capitão Foy sugeriu que cada membro desse um penny por semana para este fim. Porém
alguém fez objeção dizendo que havia alguns membros que eram pobres demais para pagar
mesmo esta tão pequena quantia. Então disse o Capitão Foy: “Ponham onze nomes das pessoas
mais pobres da sociedade na minha lista; se elas puderem dar alguma coisa, muito bem. Eu as
visitarei de semana em semana e se elas não puderem dar coisa alguma eu darei por elas. E cada
um de vós também visite onze pessoas de semana em semana, recebendo o que elas dão, e se
faltar alguma coisa, cada um de vós suprirá”. Este plano foi aceito. As pessoas indicadas fizeram
as visitas. Aconteceu que, fazendo essas pessoas seus relatórios ao Sr. Wesley, notou-se que
havia pessoas doentes, algumas sem emprego, e outras não bem comp ortadas. Diante desses
fatos o Sr. Wesley descobriu a necessidade de ter ajudantes para zelar pelos interesses das
sociedades. Ele, portanto nomeou certas pessoas como Guias de Classes para zelarem não
somente pelos interesses temporais das Sociedades, mas também pelos interesses espirituais.
Assim por meio dessas pessoas ele podia manter melhor direção sobre as sociedades. Visitando
uma sociedade em qualquer parte podiam os Guias de Classes orientá-lo acerca do estado
espiritual e financeiro daquela Sociedade.
Por algum tempo o Sr. Wesley recebia e distribuía os fundos entregues a ele
trimestralmente pelos Guias de Classes. Mas, como o trabalho aumentou, o Sr. Wesley não podia
atendê-lo. Foi em Londres que ele chamou alguns homens piedosos e hábeis para este serviço e
os constituiu ecônomos. Os ecônomos foram incumbidos de zelar por todos os interesses
financeiros das sociedades e também de socorrer os doentes e desamparados. Desde o princ ípio
da existência deste ofício na Igreja Metodista, foi dever dos ecônomos zelar pelos doentes e
necessitados, cuidando tanto de suas necessidades físicas como espirituais.
Não levou muito tempo para o Sr. Wesley convencer-se de que ele e seu irmão Carlos não
podiam atender a todas as exigências das multidões que os procuravam. Logo se levantou a
questão de ajudante no ministério. Como os clérigos da Igreja Anglicana (salvo raras exceções)
não se mostrassem hostis, mas indiferentes a este movimento, foi logo sugerida a idéia de
empregar no serviço da Igreja alguns leigos habilitados. Mas, a princípio, o Sr. Wesley manifestou
preconceitos contra essa idéia.
Foi em 1740 que um de seus convertidos, o Sr. Thomas Maxfield, começou a pregar no
Foundry, em Londres, na ausência do Sr. Wesley. Quando ele teve notícias disso, regressou
apressadamente a Londres com o fim de por termo a tal desordem. Chegando a casa, sua mãe,
ciente de seus intuitos, chamou-o à ordem dizendo: “João, tenha cuidado em lidar com este moço,
porque ele é chamado por Deus para pregar o evangelho tanto quanto você”. Examina os frutos
das suas pregações, e vai escutá-lo também”. Ele aceitou o conselho de sua mãe e apesar, de
todos os seus preconceitos, convenceu-se de que era realmente obra de Deus. E, ainda que as
autoridades da Igreja grandemente o criticassem, as provas da história estão, neste particular, do
lado do Sr. Wesley. Estes auxiliadores multiplicaram-se por toda parte e o Sr. Wesley finalmente se
interessou pela instrução e disciplina destes homens simples e sinceros do povo. Logo preparou
um curso de estudo para eles, marcando-lhes as horas em que deviam ler e estudar e as horas em
que deviam pregar e visitar o povo.
Quando era possível, reunia-os em grupos e passava alguns dias com eles fazendo
preleções sabre teologia, retórica e filantropia. Aconselhava-os a ler e às vezes os repreendia por
não terem aproveitado o tempo em leitura. A um deles repreendeu nestes termos: “O seu dom de
pregar não tem melhorado. É hoje o mesmo que era há sete anos. Tem vivacidade, mas não tem
profundidade. Falta-lhe variedade; os seus pensamentos são curtos. Só a leitura com meditação e
oração pode suprir isso. Negligenciando esta parte está-se prejudicando a si mesmo. Sem isso
nunca poderá ser um pregador profundo como não poderá ser um verdadeiro cristão. Oh! Comece!
Marque uma certa parte do dia para esse exercício particular. Pode adquirir gosto pela leitura se o
não tiver. O que é custoso a principio torna-se agradável mais tarde. É para salvar a sua vida. Não
há outro caminho; de outra maneira, será toda a vida um preguiçoso, e um pregador ineficiente.”
O Sr. Wesley sempre concedia liberdade de pensamento a seus pastores.
Quando o trabalho atingiu suficiente desenvolvimento, o Sr. Wesley passou a realizar
Conferências com seus pregadores. O sistema de itinerância foi adotado, e de três em três, ou de
seis em seis meses, os pregadores eram mudados. Deste modo as Sociedades e Igrejas podiam
aproveitar os dons dos diversos pregadores, e os pastores leigos também podiam ter bastante
material novo para o povo que os escutava.
Já vimos como os Guias de Classes, os ecônomos, os pregadores leigos e o sistema de
itinerância com as conferências foram aparecendo. Mais tarde vamos descobrir os motivos que
levaram o Sr. Wesley a ordenar os seus pregadores leigos.

2. Organização de escolas.
Realmente, antes de ser organizada qualquer Sociedade, foi fundada uma escola em
Bristol em benefício dos filhos dos mineiros que tinham abraçado o Evangelho. O Sr. Wesley
estudou os diversos sistemas de educação existentes na Europa, especialmente na Alemanha e
Holanda. O curriculum era bastante exigente, e consistia das seguintes matérias: Leitura,
Caligrafia, Aritmética, Inglês, Francês, Latim, Grego, Hebraico, História, Geografia, Cronologia,
Retórica, Lógica, Ética, Geometria, Álgebra, Física e Música. A Escola de Kingswook, em Bristol,
foi a primeira e logo a seguir houve escolas fundadas em Newcastle, no Foundry, e em Londres. O
trabalho educativo tem sempre acompanhado o trabalho de evangelização na Igreja Metodista.
O Sr. Wesley foi um dos primeiros a utilizar a Escola Dominical nas suas sociedades.
Em 1790 escreveu a um dos seus ajudantes: “Estou satisfeito por saber que foi aberta uma
Escola Dominical em Newcastle. É uma das mais nobres instituições que tem sido fundadas na
Europa no decurso de muitos séculos, e seu valor argumentará mais e mais, se seus professores e
diretores cumprirem seus deveres. Nada pode retardar o progresso deste trabalho bendito senão a
negligência de seu instrumento”.
3. Trabalho de publicações.
Ninguém reconhecia melhor o valor da imprensa do que o Sr. Wesley. Desde o princípio do
seu trabalho de evangelização, começou a interessar-se pela publicação de obras úteis aos
crentes. Ele e seu irmão Carlos publicaram quatrocentos e cinqüenta e três obras para uso de seu
povo nas sociedades. Estabeleceu o que chamava “A Biblioteca do Cristão”, composta de
cinqüenta volumes. Reconhecia também o valor dos tratados e não lhe era coisa estranha dar um
tratado às pessoas que encontrava nas suas viagens.
Em 1778 deu começo à publicação do jornal – “A Revista Armeniana” (Armenian
Magazine), ainda hoje publicada sob o nome de “Wesle yan Methodist Magazine”, e tem a honra de
ser a mais antiga revista religiosa na Inglaterra. O Dr. Dean Farra diz: “A vasta difusão de instrução
religiosa pelas publicações semanais e publicações baratas com todos os seus bons resultados, foi
iniciada por ele. A Sociedade Britânica e Estrangeira, a Sociedade de Tratados Religiosos, a
Sociedade Missionária de Londres e até a Sociedade Missionária da igreja, devem grande parte à
sua iniciativa. Ele deu grande impulso à educação nacional e técnica” .
Certa vez exortou seus pregadores nestes termos: “Não se pode dar que o povo cresça na
graça sem se dedicar à leitura. O povo que lê será um povo sábio; o povo que fala muito, pouco
sabe. Insista que os crentes leiam, e em pouco tempo verá o fruto do seu trabalho”.
4. Obra filantrópica.
As condições sociais no tempo de Wesley não podiam deixar de atrair sua atenção. Foi o
estado miserável em que viu o povo de Bristol, Newcastle, que o levou a ser evangelista. Era o seu
desejo melhorar as condições dos seus patrícios abandonados pelas classes mais favorecidas.
Porém tinha certeza de que o povo não podia ser materialmente beneficiado sem primeiro o ser
espiritualmente. O povo precisava de Cristo. Os mineiros de Bristol ou Kingswook eram o
desespero dos filantrópicos, antes de serem evangelizados por Whitefield e Wesley.
O Sr. Wesley que, mesmo no tempo de estudante, em Oxford, já se interessava pelos
pobres e pelos presos, quanto mais agora, depois da sua conversão. Quando estudante e
preceptor em Oxford, ele só gastava certa quantia para a própria manutenção e dava o que
sobrava em benefício dos pobres. É calculado em 4.800:000$000 o que ele contribuiu
pessoalmente em benefícios aos pobres e das obras que fez em conexão com as Sociedades. E
quando morreu deixou ”uma boa biblioteca, uma batina clerical bem gasta, uma reputação muito
criticada pelo público e a Igreja Metodista”.

5. Completando a organização ou o Documento de Declaração.
Durante cerca de quarenta anos o Sr. Wesley organizava sociedades em diversas cidades
na Inglaterra e tanto as capelas, como as escolas e casas pastorais eram adquiridas e
conservadas legalmente em seu próprio nome. Ele queria desembaraçar-se deste arranjo, mas
não podia achar para o mesmo uma solução satisfatória.
Em Fevereiro de 1774, porém, com o auxílio do Dr. Thomas Coke, conseguiu organizar um
plano por meio do qual todas as propriedades havidas e seguradas em seu próprio nome
pudessem ser transferidas a uma corporação constituída em pessoa jurídica, chamada Legal
Hundred, isto é, cem membros da Conferência, número considerado legal, foram constituídas
todas as propriedades do povo chamado Metodista (ou seja, as propriedade foram passadas para
a Conferência Metodista).
Os estatutos desta organização ficaram sendo conhecidos na história da Igreja Metodista
como o Documentação de Declaração (Deed of Declaration). Este documento foi registrado na
chancelaria do governo inglês. Os primeiros cem nomes foram indicados por Wesley mesmo e as
vagas tinham de ser preenchidas de ano em ano na ocasião da Conferência Anual. Estas cem
pessoas constituíam a pessoa jurídica da Igreja Metodista da Inglaterra. Era composta de um
presidente e secretário e tinha autoridade para admitir pessoas idôneas para o ministério, nomear
os pregadores para os diversos cargos e circuitos e exercer a supervisão sobre todas as
sociedades.

VI – ORGANIZAÇÃO DA IGREJA METODISTA NA AMÉRICA
DO NORTE
A organização da Igreja Metodista na América do Norte foi o resultado de diversos
acontecimentos.
1. Como o trabalho Metodista principiou na América.
Em 1753 o Sr. Wesley visitou a Irlanda e pregou o evangelho aos irlandeses ou antes às
colônias alemãs fundadas já há uns cinqüenta anos. Este povo se interessou na pregação de
Wesley e diversas pessoas de converteram. Em 1765 um grupo destes imigrou para Nova York, na
América. Entre eles havia um pregador leigo, o Sr. Philippi Embry, que era, por profissão, um
carpinteiro. Dali há um ano veio mais um grupo, no qual se contava uma mulher muito consagrada
e ativa, chamada Bárbara Heck. Logo depois da chegada de Bárbara os Metodistas principiaram a
trabalhar em prol da causa do Mestre. Em pouco tempo, com o auxílio do Sr. Embry, foi organizada
uma Sociedade. Havia um pregador local, um soldado inglês, o capitão Webb, que se converteu
em Bristol pela pregação do Sr. Wesley, que morava em Albaney. Sabendo ele que havia uma
sociedade em Nova York, veio para ajudar no trabalho. A causa prosperou, e em pouco tempo
construíram uma capela. Precisavam, porém, de pregadores para tomar conta do trabalho e levá-lo
adiante. Diversas cartas foram dirigidas ao Sr. Wesley, nas quais pediam que mandasse alguns
obreiros para a América. Estes apelos não foram desprezados.

2. Alguns obreiros enviados.
Tendo recebido estes apelos, o Sr. Wesley quis atendê-los. Portanto, na ocasião da
Conferência que se realizou em Leeds, em 1769, as seguintes perguntas foram feitas:
-“Temos recebido pedidos urgentes dos nossos irmãos em Nova York, onde construíram
uma casa de oração; ”passa à nós e ajuda-nos”. “Quem está pronto para ir?”
Resposta: Richard Boardman e Joseph Pilmoor”.
Pergunta: “Que mais podemos fazer para mostrar o nosso amor fraterno?”
Resposta: “Vamos levantar uma coleta entre nós”.
Isto foi feito imediatamente e desta coleta cinqüenta libras foram destinadas para pagar as
suas dívidas e vinte libras para ajudar nas despesas de viagem. Assim estavam ligados aos laços
de união entre o povo chamado Metodista nos dois continentes. Mais tarde outros obreiros foram
enviados e entre eles o apóstolo do Metodismo na América do Norte, o Sr. Francis Asbury.
O trabalho na América prosperou. O número de adeptos aumentava dia após dia. As
Sociedades tinham com a Igreja Anglicana da América as mesmas relações (esses crentes eram
anglicanos, mas abandonados pela Igreja Anglicana) que mantinham com as da Inglaterra. Mas
como o território americano era muito mais vasto do que o da Inglaterra e como o povo estava
espalhado em povoações pequenas, houve sérios embaraços na devida administração do
trabalho. O clero inglês era indiferente e alguns deles não quiserem ajudar os Metodistas em
administrar o batismo e a Santa Ceia. Em 1775 arrebatou a guerra da independência que
embaraçou ainda mais o trabalho Metodista, porque todos os pregadores que tinham sido enviados
da Inglaterra voltaram, com exceção do Sr. Francis Asbury, que teve de passar alguns anos
escondido.
O que agravou ainda mais a situação dos Metodistas na América foi um tratado que o Sr.
Wesley escreveu contra os americanos na sua luta pela independência. Por causa disso os
Metodistas eram suspeitos aos americanos e o Sr. Asbury corria maior perigo. O Sr. Asbury assim
se exprimiu sobre o caso: “Entristeceu-me deveras que este venerável (Wesley) se metesse na
política americana. O meu desejo é viver em amor e paz com todos os homens, para não lhes
fazer mal, porém, para lhes fazer bem. Contudo posso apreci ar a lealdade conscienciosa do Sr.
Wesley ao seu governo, sob o qual ele vive. Se ele tivesse sido súdito da América, sem dúvida
teria sido zeloso em advogar a causa americana. Mas algumas pessoas inconsideradas têm
aproveitado a ocasião para censurar os Metodistas na América, por caus a dos sentimentos
políticos do Sr. Wesley”.

3. A missão de Thomas Coke.
Terminada a guerra da independência os Metodistas continuaram o seu trabalho com boa
aceitação. Mas devido à independência das colônias americanas da pátria mãe, separou-se por
completo a Igreja do estado. Os anglicanos que ficaram na América tiveram de modificar a sua
política de acordo com as modificações do novo regime. Portanto esta Igreja ficou Anglicana na
Inglaterra e separada do Governo Americano. Isto veio refletir sobre o movimento Metodista,
agravando cada vez mais o problema de administração dos sacramentos do batismo e da Santa
Ceia. Como não havia pregadores ordenados entre os Metodistas, o povo estava sem este meio
de graça. Por muito tempo cartas escritas pelo Sr. Asbury e outras pessoas tinham sido enviadas
ao Sr. Wesley narrando o triste estado de coisas que existia nas Sociedades Americanas. Mas o
Sr. Wesley não quis, a princípio, atender diretamente estes apelos, esperando que a Igreja
Anglicana atendesse às necessidades das Sociedades na América. Mas já havia chegado ao
ponto em que não podia se esperar mais, pois os próprios pregadores estavam agindo por si,
elegendo e ordenando os seus para administrar os sacramentos. O Sr. Asbury, pela influência que
tinha sobre os pregadores americanos, os persuadiu a não exercerem estes ofícios de diácono e
presbítero, até que pudessem entender-se com o Sr. Wesley. Depois de quatro anos de espera o
Sr. Wesley chegou a resolver a questão, o que foi feito do modo seguinte:
“Em 1º de setembro de 1784, o Rev. João Wesley, Thomas Coke e James
Creghton, presbíteros da Igreja Anglicana, constituíram um presbítero e ordenaram Richard
Whatcoat e Thomas Vasey diáconos; e em 2 de setembro, pela imposição das mesmas mãos, etc.,
Richard Whatcoat e Thomas Vasey foram ordenados presbíteros e Thomas Coke, L.L.D., foi
ordenado superintendente para a Igreja de Deus sob o nosso cuidado na América do Norte”.
O Sr. Thomas Coke foi comissionado pelo Sr. Wesley para ordenar o Sr. Francis Asbury
como superintendente, adjunto com ele e escreveu uma carta circular às Sociedades Americanas
explicando e justificando os passos que acabava de dar. Esta carta mostra claramente que o Sr.
Wesley agiu com sabedoria em tudo isto. Eis o último parágrafo da carta:
“Como nossos irmãos americanos agora estão completamente separados tanto do Estado
como da hierarquia inglesa, não queremos outra vez embaraço nem por um nem por outro. Eles
agora em plena liberdade para seguir as Escrituras e a Igreja Primitiva e nós julgamos por bem que
eles se conservem na liberdade com que Deus os libertou”.
Mas como era de se esperar, este ato trouxe sobre o Sr. Wesley bastantes críticas. O seu
próprio irmão, o Sr. Carlos Wesley, foi um dos mais severos. Numa carta que escreveu para um
amigo assim se exprime sobre o caso: “O meu irmão tem renunciado aos princípios e hábitos de
sua vida inteira; pois agiu contrariando todas as suas declarações, suas pretensões e suas obras
escritas, tem roubado seus amigos de sua vanglória e deixado sobre o seu nome uma nódoa que
será lembrada enquanto se lembrarem dele. Portanto, a nossa cooperação está disso lvida, porém
ficamos amigos ainda. Pois o tenho recebido para a felicidade ou a desventura até que a morte nos
separe, ou antes, nos reúna com amor inseparável”.
O Sr. Wesley, porém, se justificou, alegando que a força das circunstâncias e a indicação
da providência divina tinham-no levado a fazer tudo o que tinha feito; que ele tinha tanta autoridade
para ordenar diáconos e presbíteros como qualquer outro homem na Europa. Ele teve muitos
preconceitos sobre essas coisas no princípio da sua carreira, mas pouco a pouco os foi deixando e
abraçando novas idéias e princípios. Alegou que desde o ano de 1740, lendo o livro “Igreja
Primitiva” pelo Sr. Lord King, se convenceu que as ordens de presbítero e bispo sob o ponto de
vista do Novo Testamento eram a mesma coisa; são termos sinônimos. Dez anos depois, em uma
carta que escreveu ao Rev. Sr. Clark, declarou que acreditava ter o bispo Stillingfleet, no seu livro
“Isenicon”, provado que nem Cristo nem os apóstolos prescreveram qualquer forma especial de
governo para a Igreja, e que a questão do divino direito do episcopado diocesano não foi
conhecida na Igreja Primitiva.
A seguinte carta escrita pelo Rev. Adam Tonerden, dirigida ao Rev. Stephen Donelson,
Leesbury, Va., com data de 30 de dezembro de 1784, Baltimore, Md., interpreta fielmente o espírito
e as idéias em que o Sr. Wesley organizou a Igreja Metodista na América. Eis a carta:
” Nós temos, na ocasião desta Conferência (a notável Conferência do Natal), de acordo
com o conselho e direção do Sr. Wesley, entregues a nós pelo digno Sr. Coke, nos constituído
unanimemente numa Igreja independente sob o título de Igreja Metodista Episcopal, para ser
governada pelos superintendentes, presbíteros e diáconos, com uma liturgia algo diferente da
Igreja Anglicana. O sistema da itinerância será continuado e de acordo com a política da Igreja que
adotamos, será reforçado. O Sr. Asbury foi ordenado superintendente, no domingo p.p., pelo Sr.
Coke e os dois presbíteros que vieram com ele, trazendo poderes de ordenar conferidos a eles
pelos três presbíteros da Igreja Anglicana, sendo o Sr. Wesley um deles, e nós julgamos tão válida
como qualquer ordenação, sendo bem conhecido que nos tempos primitivos o ofício de presbítero
e bispo (sendo termos sinônimos) eram a mesma coisa, com esta pequena diferença que o chefe,
ou primeiro presbítero era às vezes chamado de bispo. Para nós o “Superintendente” corresponde
ao “Bispo”, que terá supervisão geral sobre todos e nós julgamos este termo melhor porque os
bispos modernos sendo “lords” são geralmente devoradores do rebanho e uma maldição para o
povo, e o nome implica mau gosto”.
O Dr. Fitchett, referindo-se a esta fase da vida de Wesley, descreveu-a nas seguintes
palavras: ”Aquele que estuda este aspecto, o mais crítico e agudo do trabalho do Sr. Wesley,
encontrará nele o retrato de um homem com uma tendência obstinada para a High Church, sendo
compelido a essa direção pela tendência acentuada pelo nascimento, educação e temperamento;
enquanto passo a passo, guiado pela providência e obrigado pelos fatos, ele caminha num trilho
que o leva para um alvo completamente invisível ou ignorado”.

VII – CAMPEÃO DA LIBERDADE DE PENSAMENTO RELIGIOSO
Os primeiros golpes dados pela independência religiosa foram vibrados (iniciados) pelos
reformadores do século dezesseis. Mas os próprios reformadores, Luthero e Calvino, não
compreenderam o que significa estes termos nestes tempos modernos. Eles não labutaram pela
tolerância religiosa, nem perante os tribunais; queriam apenas conceder liberdade aqueles que não
concordassem com eles, com suas idéias e opiniões particulares, pois, sabemos que muitas
pessoas foram perseguidas. Os próprios protestantes não eram tolerados por eles, assim como os
Pais Peregrinos na América do Norte, nos tempos coloniais, não cederam aos quakers e
anabatistas os mesmo privilégios que reservaram para si.
1. A idéia de Wesley sobre a liberdade de pensamento .
O Sr. Wesley foi um dos primeiros a pugnar pela liberdade de pensamento religioso,
baseando-se no princípio fundamental do Protestantismo – o direito individual e a responsabilidade
de pensar e julgar por si.
Na ocasião da Conferência realizada em Londres em 1774 foi discutido esse assunto
respondendo-se a tese seguinte:
- “Até que ponto um cristão pode submeter-se à autoridade eclesiástica?”
A resposta foi: “Um cristão somente pode submeter-se à autoridade eclesiástica até ponto
em que sua consciência não se ofenda”.
- “Pode alguém ir além disto em submissão a qualquer homem ou grupo de homens?”
Resposta: “É inegavelmente certo que não pode, seja aos bispos, convenções ou concílios
gerais. E é esse o princípio liberal em torno do qual agiram todos os reformadores. Cada homem
tem de julgar por si, porque cada homem tem de dar contas de si mesmo a Deus”.
Assim o Sr. Wesley define a liberdade religiosa: “A liberdade religiosa é a liberdade que o
homem tem de escolher a sua própria religião, adorar a Deus de acordo com a sua própria
consciência. Todo homem vivo tem este direito como criatura racional. O criador tem dotado o
homem de juízo; e cada qual tem de julgar por si; porque todos têm de prestar contas a Deus.
Conseguintemente é um direito inalienável; não se pode ser separado da humanidade, e Deus
nunca deu a qualquer homem ou grupo de homens autoridade de privar qualquer filho do homem
deste direito sob qualquer pretexto, seja qual for”.
A religião para o Sr. Wesley pode ser definida em termos de relação pessoal e da vida
intima e da conduta prática, e não em termos de crença. A fé ele a define como um senso espir itual
pelo qual vemos “a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo”, e como
conseqüência temos confiança perfeita no amor de Deus”. Continuando, ele diz: “o resumo da
nossa doutrina a respeito da religião interna é composto de dois pont os: amar a Deus de todo o
nosso coração e ao nosso próximo como a nós mesmos. E a respeito da religião externa em dois
pontos: fazer tudo para a glória de Deus e fazer aos outros o que nós queremos que eles nos
façam em circunstancias semelhantes”.
Ele não concordava com aqueles que insistiam em que antes de alguém se poder salvar
tinha de ter uma idéia clara a respeito das doutrinas básicas do cristianismo, tais como a queda do
homem, a justificação pela fé e a expiação feita por Cristo na cruz. Ele diz:
“Eu creio que ele tem mais respeito à bondade do coração do que aos pensamentos claros
da cabeça, e se o coração de um homem estiver cheio da graça de Deus e do poder do Espírito
Santo, e aquele humilde e doce amor para com Deus e os homens, não posso acreditar que Deus
resolva lançar tal homem no fogo eterno preparado para o Diabo e seus anjos somente porque as
suas idéias não são claras ou porque as suas concepções são confusas”.
Ele podia apreciar os sentimentos de outros, mesmo não concordando com eles
quanto as suas idéias e opiniões religiosas. Tinha amigos entre os quakers, anabatistas e católicos
romanos. O Sr. Wesley almejava uma cooperação mais franca entre todos os cristãos protestantes.
Assim aconselhou “ao povo chamado Metodista”: “Sede fi éis aos vossos princípios acerca das
opiniões e das coisas externas da religião. Empregai todas as ordenanças que julgais que são de
Deus, porém acautelai-vos de um espírito intolerante para com aqueles que não usam as mesmas
ordenanças. Conformai-vos aqueles modos de culto que provais, mas amai aqueles que não
podeis aceitar como irmãos. Dai tanta ênfase quanto possível às opiniões que todos adotais, e
considerai conformes com a verdade e a razão; porém não tenhais raiva ou desgosto ou desprezo
por aquele que tem opiniões diferentes das vossas.”
2. A controvérsia de Wesley sobre o assunto.
Não houve em toda a Inglaterra, naquela época, outro homem tão fortemente atacado
pelos ideais que advogava como o Sr. Wesley. O Rev. Richard Green (pesquisador e historiador
metodista norte -americano) aponta trezentos e trinta e dois títulos de obras anti-metodistas escritas
por clérigos. A linguagem dessas obras tinha o cunho característico da linguagem polemística
daquela época. Diversos bispos atacaram sem misericórdia o Sr. Wesley e não acharam termos
assaz fortes para exprimir todo o desgosto e desprezo que lhe votavam.
Wesley não gostava de controvérsias e deixou muita coisa passar em sil êncio. Mas, às
vezes, pelo amor que tinha à verdade, foi obrigado a defender-se e defender as verdades que
pregava. Depois de preparar uma carta em resposta a acusações feitas pelo bispo Livington, ele
disse: “Trabalho pesado, e trabalho tal que não escolhi, porém, que às vezes tem que ser feito.
Bem disse o homem da antiguidade: “Deus fez necessária a teologia prática, porém o diabo a
controverteu. Mas isso é necessário; temos de resistir ao diabo; senão, ele não fugirá de nós”.
O seguinte incidente revela o espírito com que o Sr. Wesley suportava a perseguição.
Tinha ele prometido levar, certo dia, a sua pequena sobrinha Sarah, filha de seu irmão Carlos, a
um passeio em Canterbey. Mas, um dia antes, seu irmão Carlos o chamou com muita solicitude,
avisando-o de que sua esposa tinha em seu poder algumas cartas que ele havia escrito a terceiros
e que ela havia modificado algumas expressões, assim alterando completamente o sentido, e que
ia publicá-las no Morning Post; portanto devia ele desistir do passeio, etc., e defender sua
reputação. Mas o Sr. Wesley disse a Carlos: “Irmão, quando me consagrei a Deus e comigo meu
comodismo, meu tempo, minha vida, fiz acaso exceção da minha reputação? Não. Pode dizer a
Sarah que eu irei com ela amanhã em Canterbey”.
A controvérsia mais prolongada e mais difícil foi a controvérsia relativa à doutrina calvinista
e arminiana. Desde o tempo da Reforma Protestante o Calvinismo tinha sido a doutrina
predominante do Protestantismo, mas o Sr. Wesley não podia aceitá-lo, preferindo enfrentar a
oposição até dos seus amigos como George Whitefield, por exemplo. Em 1770, depois da morte
de Whitefield, esta questão se levantou de novo. O Sr. Wesley foi atacado por todos os lados.
Dentre os principais escritores que o atacaram salientou-se pela violência o Sr. Toplady,
um calvinista extremado. Em seu tratado sobre a “Predestinação Absoluta” defendeu as suas
opiniões sobre esta doutrina. O Sr. Wesley respondeu, fazendo uma curta análise deste tratado do
seguinte modo:
“Eis a conclusão de tudo: Um em vinte (suponhamos) da raça humana é eleito; dezenove
em vinte são reprovados. O eleito será salvo, faça o quiser. Os reprovados serão condenados,
façam o que puderem. Que o leitor creia isto, ou será condenado. Por ser isto a verdade, firmo -o
com o próprio punho. A T.”
Vendo a sua doutrina assim condensada, assim concret izada e endossada com as suas
próprias iniciais, o Sr. Toplady ficou furioso com o Sr. Wesley. Mas ele se defendeu e as doutrinas
que pregava, tendo para esse fim um grande auxiliar na pessoa do Dr. João Fletcher, que
escreveu os “Checks to Antinomianisms”.
Esta obra concorreu grandemente para criar um lugar debaixo do sol para o Arminianismo.
O novo espírito de democracia vinha se manifestando e o espírito liberal e tolerante estava em
ascendência.

VIII – O FIM DA JORNADA.
O Sr. Wesley tinha seus def eitos , suas peculiaridades e fraquezas, porém, apesar dessas
coisas, foi o vulto que, mais do que qualquer outro, maior influência tem exercido sobre o mundo
nestes dois últimos séculos (lembrar que esse livro foi escrito em 1929).
Ele trabalhou até o fim. Pregou pela última vez na Capela “City Road Chapel”, em 22 de
fevereiro de 1791, e no dia seguinte fez uma viagem de cinco léguas para visitar um magistrado e,
em casa do mesmo, pregou pela última vez na sua vida. No dia seguinte escreveu a sua última
carta exortando o Sr. Wilberforce a continuar a sua propaganda contra o tráfico de escravos.
Voltando para casa em Londres, na hora em que entrou em casa, pediu que o deixassem
sozinho por meia hora. Durante esta hora ele encarou a morte em comunhão com o seu Senhor.
Chamaram o médico e tudo foi feito para prolongar sua vida, porém a hora de sua partida tinha
chegado. Rodeado por seus amigos, ele veio a falecer no dia 2 de março de 1791 (quarta-feira), às
10 horas da manhã, e as suas últimas palavras foram: “O melhor de tudo, Deus está conosco”.
Dali a oito dias foi enterrado atrás da Capela de “City Road Chapel”.
II
A vida de Carlos Wesley,
o poeta do Metodismo
(1707-1788)
Se João Wesley foi organizador do Metodismo, Carlos Wesley, seu irmão mais moço, foi o
poeta e cantor do mesmo movimento. João elaborou os vinte e cinco Artigos de Religião, As
Regras Gerais, e o seu Comentário do Novo Testamento e escreveu os cinqüenta e dois sermões,
dando assim o padrão das doutrinas do Metodismo; porém, foi o Carlos Wesley que deu alma a
essas doutrinas, nos hinos que escreveu. Enquanto centenas de pessoas lêem o padrão de
doutrinas, milhares cantam os hinos. É difícil dizer qual dos dois tem influído mais sobre a vida
religiosa do povo. Estes dois irmãos eram toa essenciais a este movimento como os dois lados são
essenciais à mesma medalha.

I – NASCIMENTO DE CARLOS WESLEY
Quando nasce uma criança, o mundo tem uma nova oportunidade, como disse alguém.
Não podemos calcular o valor encerrado na vida de uma criancinha. A milícia celestial cantou
louvores na ocasião do nascimento do bebê de Belém. Quando o menino Carlos nasceu na casa
pastoral, em Epworth, Inglaterra, quem poderia imaginar que milhões de pessoas, através dos
séculos, viriam a cantar hinos de louvor escritos por ele?

1. Os pais
O menino Carlos Wesley não tinha motivos para se envergonhar de seus pais, pois eram
pessoas que representavam o que havia de melhor na vida social e religiosa da Inglaterra.
Seu pai, Rev. Samuel Wesley, era vigário na Igreja Anglicana e bem educado, tendo feito
seus estudos na Universidade de Oxford. Era literato e poeta. Seu comentário do Livro de Jó foi a
sua melhor obra. Mas foi preso uma vez por causa de dívidas, pois não sabia administrar suas
finanças.
Sua mãe, Suzana Wesley, descendia de família distinta. Era uma senhora excepcional. Em
pequena revelara vigor mental. Não preferia gastar mais tempo em diversões do que em devoções
religiosas. Seu pai, Sr. Samuel Annesley, era não-conformista; porém ela, depois de estudar a
questão de si mesma, resolveu, aos treze anos de idade, identificar-se com a Igreja Anglicana. Era
bonita, mas o que mais a distinguia eram a força de seu caráter, o seu bom senso, sua inteligência
e sua dedicação a seu marido, à família e aos vizinhos. O Dr. Adam Clarke, referindo-se a ela,
disse: “Conheço muitas senhoras piedosas, tenho lido a respeito de outras; mas nunca vi ou li
qualquer coisa acerca de outras que reunissem todas as qualidades que ela possuía”.
O Dr. John Telford disse também: “A sua paciência em tempo de aflição, o domínio sobre
si mesma, a educação de sua numerosa família, o seu juízo amadurecido e o seu trabalho
evangelizante, concorreram para torná-la merecedora do título de honra que em muito poucas
mulheres possuem”.
2. Seu nascimento e a influência que seus pais exerceram sobre ele.
Há alguma dúvida acerca da data do nascimento de Carlos Wesley, porque o arquivo em
que se achava registrada a data de seu nascimento foi consumido pelo fogo por ocasião do
incêndio na casa pastoral. Porém dá-se como sendo a data mais provável o dia 18 de Dezembro
de 1707. Nesse dia o lar do pastor de Epwoth foi surpreendido pelo nascimento do décimo oitavo
filho do casal, nascido fora de tempo. A criança que parecia mais morta do que viva, não chorava
nem abria os olhos. Foi necessário enfaixá-la em lã até vencer o prazo que faltava para completar
o tempo em que devia ter nascido. Então começou a chorar e abrir os olhos. Foi assim que ele
teve o seu advento ao mundo. Tinha em casa muitas irmãs e irmãos para o receberem, porém,
melhor do que tudo, contava com os braços de uma carinhosa mãe para o amparar.
Nasceu na época mais trabalhosa em toda a história do seu lar, pois logo depois de seu
nascimento a casa pastoral incendiou-se e não foi possível reconstruí-la e mobiliá-la como era
anteriormente. Ele, pois, aprendeu a passar com pouco; mas o que lhe faltara em confortos
materiais foi compensado pela instrução de uma mãe piedosa e carinhosa. Sua mãe, desde o
princípio da vida, começou a ensiná-lo, bem como a seus demais irmãos e irmãs, a terem horas
certas para comer e dormir. Impunha-lhes o dever de serem bondosos para com as criadas e uns
para com outros, e, acima de tudo o de obedecer. Muito cedo foram instruídos nas coisas
religiosas e cada um por sua vez tinha de pedir a bênção nas refeições. Mesmo antes de poderem
andar aprenderam a distinguir o domingo dos demais dias da semana.
Sua vida escolar, quando tinha cinco anos de idade, começou sob a direção de sua mãe.
Teve que aprender o alfabeto durante o primeiro dia de aulas. Estas começavam e fechavam-se
com o cântico de um salmo. Os alunos eram estimulados a confessar suas faltas sob a promessa
de que não seriam castigados. Desta maneira a mãe conseguiu remover muitas tentaçõ es de
mentir, reconhecendo ela sempre qualquer sinal da parte dos filhos para lhe agradar. Foi sob
essas condições que Carlos passou os primeiros três ou quatro anos de sua vida escolar. Nesse
período, não somente aprendeu alguma coisa dos livros, mas, o que era ainda de maior
importância, aprendeu a dominar-se, a refrear-se a si mesmo, a respeitar os outros e a obedecer a
seus superiores.

II – SUA EDUCAÇÃO
Seu irmão mais velho, Samuel Wesley, que havia casado e morava em Londres, onde
ocupava um cargo na Escola de Westminster, queria ajudar a seus pais na educação de seu irmão
mais moço, Carlos Wesley. Com este fim levou Carlos para sua casa e o colocou na Escola de
Westminster, uma das melhores escolas deste tipo na Inglaterra. Ali Samuel havia também
estudado quando pequeno. Seu pai tinha razão quando dizia haver dado aos seus três filhos a
melhor educação que se podia obter na Inglaterra, pois os mandara para as melhores escolas
existentes naquela época.
O menino Carlos, com nove anos, matriculou-se, em 1776, na Escola de Westminster e
morava com seu irmão Samuel. Cinco anos passou estudando em Londres. Foi bom aluno e
ganhou um prêmio oferecido pelo rei, isto é, o direito de continuar os seus estudos com todas as
suas despesas pagas na Universidade d e Oxford. Além disso, foi eleito capitão dos graduandos no
quarto ano de seus estudos. Mas, visto só ter treze anos de idade quando eleito, e ter direito a
cinco anos de estudos na Universidade em vez de quatro, ele aproveitou os cinco anos e no quinto
ano chegou ao lugar de chefe de sua turma, uma honra muito cobiçada pelos alunos naquela
época.
Além das honras obtidas por seus estudos, não deixou de ganhar também algum louvor
pelas lutas pugilísticas em que se empenhou com seus colegas. Era corajoso e não poucos foram
os combates que teve durante a mocidade. No segundo ano de sua estadia na Escola de
Westminster fez-se defensor de um aluno, Guilherme Murray, um escocês, que se tornou alvo dos
motejos dos demais rapazes por causa do seu modo de falar, e por sua causa, muitas brigas
Carlos Wesley teve que sustentar. Ganhou, porém, a amizade deste rapaz, amizade que se
estendeu até o fim da vida. Muitos anos depois, Guilherme Murray veio a ser Juiz do Supremo
Tribunal da Inglaterra e Conde de Mansfield e não se esqueceu do seu amigo Carlos Wesley.
Muitas vezes, às tardes, visitava a família de Carlos Wesley, então pregador metodista em
Londres.
Durante seus estudos na escola de Westminster, um homem rico, chamado Garret Wesley,
cavalheiro irlandês, escreveu ao R ev. Samuel Wesley pedindo informações a respeito de seu filho
Carlos, pois queria adotá-lo como seu herdeiro se viesse a morar com ele na Irlanda.
O Rev. Samuel Wesley deixou seu filho Carlos decidir a questão. Garret Wesley foi a
Londres para ver a Carlos e conversar com ele sobre o assunto; Carlos, porém, não quis aceitar a
proposta. O homem gostou tanto dele que não deixou de o ajudar em suas despesas na escola.
Dois anos antes de Carlos completar seus estudos, Garret morreu deixando grande fortuna, que
poderia ser de Carlos, se este houvesse aceitado a proposta. Mas, perguntamos, se o Sr. Carlos
Wesley tivesse aceitado esta proposta, teria ele feito o que fez para o bem da humanidade?
Só Deus o sabe. João Wesley, escrevendo sobre isso mais tarde, di sse que a fortuna que
Carlos perdeu foi um bom prejuízo.
Em 1726, Carlos Wesley foi promovido a aluno em “Christ Church”, na Universidade de
Oxford. Nesta mesma Universidade seu irmão João, seu pai e seu avô tinham estudado. Também,
nesse mesmo ano, seu irmão João foi eleito instrutor, no “Lincoln College”, em Oxford. Assim
tinham o privilégio de estar juntos, em Oxford, como Carlos havia desfrutado a convivência de s eu
irmão mais velho em Londres.
Carlos Wesley tinha então dezenove anos de idade; gozava saúde e era dotado de muita
vivacidade. Porém justamente nessa época se tornou mais indiferente para com as coisas
religiosas. Seu irmão João notara isso e procurava despertar a atenção de Carlos para os seus
deveres religiosos; porém, Carlos não apreciava muito o interesse manifestado por seu irmão neste
sentido. Ele apreciava sua liberdade e gostava das diversões que a vida universitária lhe
proporcionava. Realmente, perdeu os primeiros doze meses em diversões. Seu irmão João,
referindo-se a esse fato diz: “Quando eu falava com ele sobre religião, respondia contrariado:
“Qual! Quer que eu fique santo de vez?” E não queria ouvir mais.
Logo depois que Carlos chegou a Oxford, seu irmão João teve de se retirar daquela cidade
para ajudar ao seu pai em Wroote. Ficando assim, sozinho, separado de seus irmãos, descobriu
que tinha que enfrentar os problemas de sua vida e resolvê-los por si mesmo. Por essa forma
mudou seu modo de encarar a vida. Ele diz: “A situação levou-me a refletir seriamente. Comecei a
assistir (participar) a comunhão, semanalmente, e persuadi a mais dois rapazes, estudantes, a
irem estudar comigo o curso prescrito pelos estatutos da Universidade. Isso deu-me o nome de
“Metodista”.”
Agora almejava o auxilio de seu irmão que havia desprezado. Foi então que escreveu a
João, pedindo conselhos. Até aqui, desde a meninice, tinham estado separados um do outro, mas
de agora em diante, começaram aquela camaradagem que continuou até o fim da vida. Em uma
das cartas que escreveu a João nessa época, ele disse:
“Deus houve por bem privar-me de tua companhia para assim aumentar o meu fardo. Deus
que pode me fortalecer há de me conservar firme até nós nos encontrarmos outra vez. E espero
que nem antes, nem depois daquela hora, cairei de novo em estado de insensibilidade. Será pelo
teu auxílio, creio eu, que Deus completará aquilo que já começou em mim; e a nenhuma outra
pessoa preferiria para conseguir esse fim, irmão, senão a ti. Sem dúvida é devido às orações de
alguém (às de minha mãe, talvez) que tenho sido levado a pensar assim, pois eu não posso
explicar como, nem quando, eu me acordei do estado de letargia em que eu me achava: somente
sei que foi logo depois de tua retirada daqui”.
A natureza de Carlos exigia a convivência de amigos. Era dotado de disposições para
amizade e vida social. Logo depois de seu despertamento, manifestou vontade de ajudar a outros
rapazes que tinham desejo de seguir a Cristo. Um colega seu, que morava perto do seu quarto,
tinha pendor para a vida religiosa, mas tinha acanhamento dos seus colegas e lhe faltava coragem
para comungar todas as semanas, porque seus colegas o ridicularizavam. Mas pela influência e
coragem de Carlos Wesley venceu essa tentação, identificando-se com ele. Foi mais ou menos
nessa época que João Wesley voltou para Oxford, conforme os desejos de Carlos. Este estava
agora bem disposto para aproveitar qualquer auxílio que seu irmão lhe pudesse prestar.
João Wesley voltou à Universidade, em novembro de 1729, ali encontrado um grupo de
rapazes associados a seu irmão Carlos e que já haviam recebido também o apelido de
“Metodistas”. Havia, então, só três jovens nesse grupo, porém o comportamento e o bom
testemunho desses rapazes tinham atraído a atenção de todos os alunos de Oxford.
Pouco tempo depois João Wesley foi escolhido para chefe do grupo e o número aumentou.
Foi por influência de Carlos Wesley que George Whit efield chegou a identificar-se com o grupo.
Carlos Wesley completou seus estudos na Universidade, sendo nomeado instrutor da
mesma, à semelhança do seu irmão. Sua vida acadêmica terminou ao mesmo tempo que a do seu
irmão João. Seu pai faleceu em 1735, e os dois irmãos se achavam juntos de seu pai nessa
ocasião.
Depois de ter ensinado e estudado na Universidade por alguns anos, resolveram deixar a
vida acadêmica e dedicar-se a outras ocupações.

III – O TRABALHO NA AMÉRICA.
Dentro de seis meses, depois da morte de seu pai, Carlos Wesley achava -se embarcando
no navio “Simmonds” para a América. O destino do navio era Savannah, Geórgia, colônia fundada
pelo general Oglethorpe, em 1732. O fim dessa colônia era aliviar a aflição dos pobres endividados
e encarcerados na Inglaterra. O governo inglês tinha cedido uma zona na América, para fundar tal
colônia. O general Oglethorpe estava procurando meios e homens com os quais pudesse
estabelecer esse novo lar para essas pessoas infortunadas. Ele precisava de um capelão e de um
secretário. Como João, irmão de Carlos, houvesse aceitado o lugar de capelão, este resolveu
aceitar o cargo de secretário.
Mas, antes de embarcar, a questão da sua ordenação se levantou. Ele hesitava em aceitar
a ordenação, mas um professor do “Corpus Christ College”, também um dos depositários da nova
colônia, insistia que ele se ordenasse. O Dr. Potter, bispo de Oxford, o ordenou diácono; e o Dr.
Gibson, de Londres, o ordenou presbítero, no domingo seguinte.
Os irmãos Wesley aceitaram esse trabalho, não porque não tivessem o que fazer na
Inglaterra, mas porque era missão difícil e exigia abnegação. Além do seu irmão João, tinha
consigo mais dois colegas da Universidade, os Srs. Benjamin Ingham e Carlos Delamote.
Embarcaram no dia 14 de outubro de 1735, no porto que se chama Gravesend.
Organizaram um horário, que observaram rigidamente durante a viagem pelo mar. Carlos Wesley
dedicava-se a escrever sermões, enquanto o seu irmão João estudava a língua alemã. Ele ficou
bem impressionado com o comportamento dos moravianos, imigrantes alemães, que iam para a
Geórgia.
Logo que chegaram, Carlos foi para Frederica onde entrou no seu trabalho com ardor e
entusiasmo. Mas não foi tão bem sucedido como imaginava. Seu zelo e os sermões que pregava
não eram o que os colon os precisavam. Estes não se queriam submeter a regulamentos tão
severos, e, por isso, começaram por criticá-lo e levantaram calúnias contra ele, dando isso em
resultado que o general Oglethorpe chegou a desconfiar dele. Podemos imaginar os apuros pelos
quais passou este homem acostumado às comodidades de uma universidade, lançando agora
uma floresta de mata virgem, onde tinha que dormir no chão e passar fome! A desconfiança do
general Oglethorpe chegou ao ponto de levá-lo a não querer ceder coisa alguma para ele.
Enquanto permanecia este estado de coisas, Carlos Wesley caiu doente de febre e fluxo.
Se um casal pobre não o tivesse socorrido nessa ocasião, teria morrido. Diz ele: “O Sr. Davison, o
meu bom samaritano, me visitava freqüentemente ou mandava a sua esposa para me servir. A
seus cuidados, e à proteção de Deus devo a minha vida”.
Foi durante essa época que seu irmão João foi visitá-lo e conseguiu novamente reconciliar
o general Oglethorpe com ele. Tudo se modificou logo. Todas as suas necessidades físicas foram
supridas e o general mostrou mais confiança nele. Mas Carlos Wesley não era o homem para tal
trabalho. Não gostava do serviço que tinha que fazer. Diz ele: “Estava completamente exausto de
escrever cartas para Oglethorpe. Não passaria mais seis dias desta maneira nem a trôco de toda a
colônia de Geórgia”. Além das cartas que tinha que escrever, havia outros document os que tinha
de elaborar. Raras vezes conseguia terminar seu trabalho antes de meia-noite. Ele pediu sua
demissão do cargo de secretário. Foi concedida, sendo ele incumbido de levar alguns despachos
para Londres.
A viagem para a Inglaterra foi péssima. Só por milagre escapou com vida dos perigos que
correra.
Havia chegado à América no dia 6 de fevereiro de 1736, tendo embarcado para a
Inglaterra no dia 26 de outubro do mesmo ano.
Tinha que ir a Charleston para embarcar. O seu irmão foi com ele até lá, a li passando
cinco dias em sua companhia, até seu embarque. Ele ficou horrorizado com a escravidão nas
colônias americanas.
Embarcou em Charleston no dia 11 de agosto para Boston. O capitão do navio, em ébrio,
libertino e blasfemador, cedeu a “cabina” de Carlos Wesley a outrem e Carlos teve que dormir
sobre uma cômoda. Por seis semanas Carlos teve de aturar a malvadez desse homem
embrutecido pelos múltiplos vícios. Diversas vezes a vida de todos a bordo correu perigo de
naufrágio, pela estupidez desse capitão embriagado. Sem dúvida foi repreendido por Carlos
Wesley, porém a única recompensa que este tirou do seu cuidado foi ser acusado de ”ébrio, louco,
demônio, jesuíta e diabo”, pelo capitão. Porém Carlos deu-lhe como única resposta o silêncio,
aparentando ignorar o que ele dizia e conversando em latim com um outro passageiro de bordo.
Foi bem recebido e tratado em Boston, porém a moléstia que apanhou em Fredereica
voltou com muita força e quase o matou. Porém melhorou ainda a tempo de embarcar para a
Inglaterra no dia 26 de outubro. A viagem para a Inglaterra foi também péssima. O navio enchia-se
d’água constantemente e os doze marinheiros tinham que fazer funcionar constantemente uma
bomba para aliviar o navio da água que entrava. Além disso o tempo era tempestuoso e diversas
vezes o navio correu perigo de ir a pique. Foi um dia de alegria e de gratidão o de seu
desembarque em Deal, a 2 de dezembro de 1736. Em poucos dias chegou a Londres, onde
entregou os despachos às autoridades competentes.
IV – SUA CONVERSÃO.
Uma vez em Londres, encontrou muitos dos seus antigos amigos, que lhe ofereceram suas
casas e hospedagem. Também foi alvo de muitas atenções devido às relações que mantinha com
o general Oglethorpe e a colônia americana. Dois dos depositários desta colônia ofereceram-lhe
hospedagem gratuitamente em suas casa. Além dessas atenções teve a honra de fazer um
discurso perante o rei e foi convidado a participar de um banquete oferecido pelo mesmo rei.
Todos os que tinham interesse na colônia da Geórgia dispensavam-lhe cortesias. Ele tinha desejo
e intenção de voltar para a América, porém não mais para exercer o cargo de secretário do general
Oglethorpe, mas como missionário aos colonos e aos índios.
O primeiro ano depois de sua volta da América foi gast o em visitas a amigos, e parentes
em Londres, Oxford e outros lugares em redor.
O Conde Zinzendorf, chefe dos Moravianos, vindo a Londres consultar os oficiais a
respeito dos colonos moravianos de Geórgia, tendo notícia do regresso de Carlos Wesley,
convidou-o a visitá -lo. Aceito o convite, por intermédio de Carlos, o conde conseguiu tudo quanto
queria. Assim Carlos renovou o seu contato com esta gente piedosa. Aceitou um convite para
assistir a uma reunião deles em Londres. Referindo-se a essa reunião Carlos disse: “Parecia-me
estar no meio de um coro de anjos”. O Conde Zinzendorf convidou-o a acompanhá-lo à Alemanha
e Carlos desejava atendê-lo, porém as circunstâncias não lho permitiram. Sempre se referia
religiosamente aos seus amigos moravianos.
Visitando seus parentes, alguns mostraram pouco caso em referência a seu trabalho e ao
de seu irmão João na América, especialmente, seu tio Matheus, um médico que, antes da ida de
seus sobrinhos à América, havia insultado o general Oglethorpe.
Motejando-os, o Sr. Matheus disse: “Os franceses, quando têm qualquer homem notável
por sua estupidez, mandam-no converter os índios”.
A essa caçoada Carlos Wesley replicou, repetindo as seguintes linhas escritas por seu
irmão:
“To distant realms the apostles need not roam,
Darkness, alas; and heathers are at home”.
(“Aos reinos distantes os apóstolos não precisam ir,
Pois, trevas e pagãos estão em casa a rir”. )
A isso ele não respondeu e nada mais disse sobre o apostolado do irmão de Carlos.
Durante o tempo que passou em visita a seus amigos e parentes não deixou de pregar e
dedicar-se a trabalhos religiosos. Em sua visita a Oxford identificou-se com o “Clube Santo”,
ocupando-se em visitar e ministrar aos presos. Os membros do “Clube Santo ”, os “Metodistas”,
sentiram-se animados ouvindo a leitura do Diário de João Wesley.
Mas era evidente que Carlos Wesley não estava satisfeito com a sua própria experiência
cristã; faltava-lhe alguma coisa. A leitura dos livros escritos pelo Sr. Law não satisfazia o seu
coração. Um dia ele procurou o Sr. Law para conversar sobre o assunto e o resultado da conversa
se resumiu no conselho seguinte: “Renuncie-se a si mesmo, e seja paciente”. Na visita seguinte, o
Sr. Law confessou que não podia acrescentar qualquer outra coisa; já tinha feito tudo que podia
para orientá-lo. Carlos Wesley, mais tarde, em sua velhice, refletindo sobre essa época de sua
vida, disse: “O Sr. Law foi o nosso João Batista”. Se o Sr. Law tivesse continuado a ser o mestre
dos irmãos Wesley, a grande revivificação evangelística não teria sido provocada por João e
Carlos Wesley. Eles precisavam de uma experiência mais clara e positiva.
Carlos Wesley não era, nessa época, verdadeiramente convertido, porém buscava
sinceramente mais luz e orientação espiritual. George Whitefield tinha voltado da América e
eletrizava o povo com sua eloqüência e ardor. Carlos Wesley ouvia suas pregações e convidava
seus amigos para também as ouvirem.
Carlos já estava pronto a embarcar de novo para a América, porém diversas coisas
concorreram para impedi-lo. Seu irmão João tinha chegado da América trazendo notícias do triste
estado em que se achava a colônia de Geórgia. Isso, em de vez de desanimá-lo, provocou ainda
mais seu entusiasmo para ir.
Consultando a sua mãe sobre isso, ela não concordou em repetir o que tinha dito ao filho
da primeira vez: “Se tivesse vinte filhos, gostaria de vê-los assim empregados, ainda que não
pudesse eu mais vê-los”. Ela mudou sua atitude, não porque tivesse menos interesse pelo trabalho
missionário, mas porque julgava que seu filho não se adaptava a esta qualidade de trabalho e que
Deus tinha serviço para ele na Inglaterra.
Foi nessa ocasião que ele caiu muito doente, atacado pela doença que adquirira na
América. Quando melhorou e entrou em convalescença, o médico disse-lhe que a enfermidade lhe
seria fatal se voltasse outra vez para a América. Só assim foi que, finalmente, abandonou a
esperança de voltar para a América. Deus tinha outro plano para ele.
Poucos dias antes de cair doente em Oxford, foi apresentado a Pedro Bôhler, o moraviano.
Durante sua longa doença Pedro Bôhler o visitou um dia. Carlos Wesley pediu que o moraviano
orasse por ele. Bôhler fez uma oração muito tocante e em seguida, tomando Carlos pela mão,
disse: “O irmão não morrerá desta vez”. (Estas palavras foram notáveis, pois Carlos julgava que
não podia suportar mais um dia a dor que sentia). “O irmão tem esperança de ser salvo?” “Sim”,
respondeu Carlos. Quando Bôhler quis saber qual era a base de sua esperança, Carlos disse:
“Porque tenho me esforçado para servir a Deus”. Bôhler meneou a cabeça, mas não disse nada.
Carlos julgou muito cruel ser roubado de sua confiança e perguntou a si mesmo: “Não são os meus
esforços suficientes para garantir a minha esperança?” Esta pergunta revelou a grande distância
que tinha que caminhar antes de alcançar a salvação mediante a fé.
Carlos Wesley melhorou e foi para Londres, onde encontrou de novo Pedro Bôhler. Ali teve
outro ataque de seu incômodo. Estava hospedado em casa do Sr. Hutton. Durante sua doença foi
visitado outra vez pelo Sr. Bôhler. Sobre essa visita Carlos disse: “De manhã o médico, Dr.
Cockburn, me visitou; e também um outro médico, ainda melhor, Pedro Bôhler, aquele que Deus
retivera na Inglaterra para meu próprio benefício’. Na ocasião desta visita Bôhler orou para que
Carlos viesse a compreender qual era a vontade de Deus para com ele nas suas aflições. Assim
Carlos compreendeu que tudo isso estava acontecendo para levá-lo a examinar-se a si mesmo,
para que não confiasse em si, mas em Cr isto, pela fé.
Por três semanas buscou a salvação com toda a sua alma. A dificuldade para Carlos,
como aconteceu a seu irmão João, era crer que alguém se pudesse converter instantaneamente.
Na véspera de sua partida de Londres, Bôhler visitou Carlos Wesley e teve satisfação em ouvi-lo
confessar que estava convicto de incredulidade e que não tinha o espírito de perdoar, mas que
esperava, antes de morrer, alcançar a salvação na morte e paixão de Cristo. Sem dúvida foi isso
que levou João Wesley a escrever: “Foi o beneplácito de Deus para abrir os olhos dele (Carlos), de
modo que enxergasse mais claramente a natureza daquela fé verdadeira e viva, pela qual,
mediante a graça, somos salvos”.
Ele comungou e, sentindo-se um pouco confortado, concluiu que os morav ianos não
tinham razão em afirmar que um homem não pode ter a paz enquanto não tiver a segurança do
perdão; mas descobriu pela experiência que nisso estava errado. Uma vez desenganado de que
não podia ter a paz na alma enquanto faltasse a fé, começou a buscá-la de todo coração e falava
com outros sobre o assunto.
Foi neste estado de espírito que resolveu ir à casa de Hutton; porém nessa ocasião
recebeu a visita de Bray, um mecânico pobre e ignorante, mas crente fervoroso. Este homem não
conhecia a ciência, mas conhecia a Cristo. Ele orou com Carlos Wesley, e tão tocante foi o culto
que tiveram juntos, que Carlos resolveu ir passar algum tempo em casa deste irmão pobre até que
alcançasse a fé salvadora.
Estava, porém, tão fraco que teve de ser levado à casa deste irmão numa cadeira. Durante
os dez dias que passou em casa deste homem simples que lhe servia de guia espiritual foi visitado
por amigos e por seu irmão João. Todos oraram por ele. Rodeado de tantos amigos que se
interessavam por seu bem estar ficou impressionado. Seu hospedeiro, o Sr. Bray, trabalhou muito
com ele, mas às vezes chegava a ficar desanimado. Um dia, quando já havia feito tudo quanto
podia lembrar, Bray disse-lhe que, em tais ocasiões, tinha tirado muito proveito lendo a Bíblia.
Abriu então o Novo Testamento, no Capítulo nono do Evangelho de Mateus, e leu. Quando lia,
Carlos Wesley, escutando a descrição da cura do paralítico, cobrou ânimo e creu que a fé que seu
hospedeiro tinha seria poderosa também para sua própria salvação.
No dia seguinte ele se converteu. Era o dia de Pentecostes. Às nove horas da manhã o
seu irmão João e alguns amigos o visitaram e juntos oraram e cantaram um hino ao Espírito Santo.
Ali se demoraram meia hora. Carlos Wesley entregou-se à oração pedindo o c umprimento da
promessa do dom do espírito Santo. Sentindo-se fraco no corpo, desejou dormir e quando estava
se acomodando para dormir ouviu uma voz que dizia: “Em nome de Jesus de Nazareth, levanta-te
e crê, e serás curado das tuas enfermidades”. Estas palavras fizeram grande impressão sobre ele.
“Oh! Se Cristo me falasse assim...”, suspirou ele. Aquelas palavras foram preferidas por uma
senhora que havia alcançado a salvação pela fé. Ele confiou em Cristo e somente nele e logo
alcançou paz para sua alma. Poucas horas depois as boas notícias chegaram aos ouvidos do seu
irmão João que escreveu: “Eu recebi a notícia que meu irmão alcançara paz para sua alma. A força
física voltou a seu corpo desde àquela hora. Quem é semelhante a nosso Deus?”
Este dia, o dia 21 de Maio de 1738, foi um dia memorável na vida de Carlos Wesley. Foi o
começo de uma nova época em sua vida.
Em pouco tempo estava com sua saúde restaurada e trabalhando entre os seus amigos,
pregando as boas novas de salvação. Visitava muitas famílias e sempre onde quer que fosse era
uma benção para o povo. Tinha dom especial de fazer visitas.
Logo depois se uniu por algum tempo a George Whitefield e tornou -se pregador ao ar livre.
Mais tarde aceitou o cargo pastor de uma igreja em Islington.

V – SUA ATIVIDADE COMO ITINERANTE
Sua posição como pastor da Igreja de Islington tornava-se cada vez mais difícil. Os oficiais
da Igreja não estavam contentes com ele e com suas pregações. Um dia, quando ia subir ao
púlpito para pregar, dois homens, mandados pelos oficiais da Igreja, impediram-no de pregar
obstando-lhe o caminho. Carlos Wesley, não querendo provocar uma cena na igreja, cedeu o lugar
a outro pregador. Alguns dias depois, quando Whitefield ia ocupar o mesmo púlpito, ele foi
impedido ao acompanhá-lo, pois quatro homens estacionados nas escadas do púlpito lhe toleram a
subida. Whitefield, lembrando -se da escritura que diz: “O servo do Senhor não deve brigar”, retirouse da Igreja e, entrando no cemitério, ali pregou ao povo que o seguira, deixando os quatro
homens guardando o púlpito com a casa vazia. Está claro que Carlos Wesley não podia continuar
como pastor por muito mais tempo em tais condições.
Demitindo-se deste cargo entrou para o trabalho de itinerante, pregando onde podia
encontrar povo.
A princípio dedicou seu tempo ao trabalho em Londres, onde foi ricamente abençoado no
seu ministério, especialmente entre os mineiros. O povo, que havia sido negligenciado pelo clero e
pela igreja, respondia francamente a seus esforços. Um clérigo disse a Carlos Wesley que o
número de comungantes em sua paróquia havia aumentado de cem pessoas. Carlos ofereceu-se
para ajudá-lo a administrar a santa ceia, porém não foi aceito.
As perseguições não tinham começado ainda, porém havia sinais delas. Na pequena
cidade de Bengeworth, sua paciência foi posta à prova. Nesta cidade um tal de Seaward, um
professor, quis contrariar o trabalho de Carlos Wesley. Acusou Carlos Wesley de ter roubado o seu
irmão, ameaçando-o se aparecesse outra vez nos campos para pregar. Mas Carlos era de uma
têmpera tal que quanto mais era ameaçado tanto mais coragem sentia. À hora marcada para a
realização do culto ao ar livre, veio também o tal professor acompanhado de grande número de
homens embriagados. Quando Carlos Wesley se levantou para falar ao povo, o professor também
se levantou perto dele para falar. Porém Carlos podia falar melhor e, quando sua voz não podia ser
ouvida, o povo o ajudava a cantar hinos. Ele assim descreve este incidente: “Por quase uma hora
ele (o professor) falou por seu mestre, e eu pelo meu; porém a minha voz prevaleceu. Às vezes
fizemos oração, às vezes cantamos hinos e demos louvores a Deus. O Senhor Deus estava
conosco e o grito de um rei estava conosco. No meio destes tumultos, acusação e blasfêmia, eu
sentia calmo o meu espírito, mesmo quando pregava o Evangelho com grande contenda. Estas
pequenas coisas estavam me preparando para coisas maiores”.
Levantou-se uma controvérsia sobre doutrina, entre os metodistas e os Calvinistas. Carlos
Wesley exerceu o papel de pac ificador. Não gostava de controvérsia. Porém esta controvérsia
assumiu tal proporção que provocou certo arrefecimento de amizade entre ele e George Whitefield
e outros amigos. Igualmente a divergência entre os Metodistas e Moravianos causou uma
separação entre eles.
Até 1742 o trabalho dos irmãos Wesley tinha sido limitado às cidades de Londres e Bristol.
Mas depois da visita que João Wesley fez ao norte da Inglaterra até Newcastle, o trabalho
itinerante dos Metodistas estendeu-se por toda parte da Inglaterra, Galles, Escócia e Irlanda.
Durante uns dez anos Carlos Wesley viajou tanto quanto seu irmão João. Mas poucos
anos depois do seu casamento limitou-se às cidades de Bristol e Londres.
Para ser um itinerante precisava de coragem, pois não somente tinha que viajar bastante a
cavalo, debaixo de chuva, neve, calor e frio, porém tinha que enfrentar os motins e perseguições
constantes. Mais tarde, depois de conquistar a confiança do povo, em vez de pancadas recebia
boas-vindas.
Para narrar tudo quanto fez durante os dezesseis anos de itinerância seria necessário
escrever volumes historiando fatos e incidentes ocorridos durante sua vida. Porém, ao nosso
objetivo, basta citar alguns fatos que servirão como amostra das muitas outras coisas que fez.
Na viagem que fez ao norte da Inglaterra, em 1743, no mês de maio, sofreu algumas
perseguições terríveis. Em sua visita a Wednerbury foi atacado por um grupo de amotinados.
Assim descreve ele esse episódio:
“A rua estava cheia de bestas de Éfeso (o povo do lugar agiu a mandado do chefe), que
berravam e gritavam e jogavam pedras incessantemente. Muitas delas me atingiram sem me ferir.
Eu insistia com eles para que se entregassem a Cristo. Quando me retirava, uma onda desses
desordeiros me precipitou da escada. Levantei-me e, tendo despedido o povo com a benção, fui
arremessado ao chão outra vez. Da mesma forma uma terceira vez, quando rendemos graças a
Deus pela nossa salvação. Então estando na escada, exortei -os a se retirarem em paz, e passei
pelo meio deles. Eles nos xingavam, porém não tiveram o poder de tocar nem um fio do nosso
cabelo”.
Quando passou por Sherffield, foi acusado de ser um traidor do rei. O soldado que
levantou esta calúnia contra ele teve a ousadia de chegar à frente do pregador e colocar a ponta
da sua espada ao peito do ministro. Carlos Wesley descobriu seu peito e olhou sorridente para o
soldado e disse: “Eu sou temente a Deus e honro o rei”. O capitão, cabisbaixo, deu um suspiro,
guardou a espada na bainha e silenciosamente se retirou.
Ele tinha que confiar em Deus, e não na proteção dos oficiais das cidades, os quais às
vezes instigavam o povo contra ele em vez de protegê-los. Mas, apesar de tudo isso, ele sempre
aconselhava o povo a que fosse leal a Deus e à pátria. Muitas vezes, rodeado pelo povo
amotinado, exortava-o a “que atendesse a todas as ordenanças da Igreja; a que se submetesse a
todas as ordenanças dos homens por amor de Deus; que tapasse a boca de todos os gabadores,
temendo a Deus e honrando o rei; e que evitasse o juízo de Deus que paira sobre as nossas
cabeças mudando radicalmente o nosso modo de viver”.
Os frutos de sua pregação não demoraram a manifestar-se entre o povo. Muitas cidades
foram completamente transformadas. O povo tornou-se mais sério e ordeiro. Carlos Wesley assim
diz no seu diário:
“No sábado, 4 de agosto de 1744, preguei em Gwennap, onde o povo está bem
despertado. Muitos que não têm a coragem de entrar e fazer parte das Sociedades têm deixado os
seus pecados pelo arrependimento e estão esperando o perdão. Toda a comunidade está ciente
da mudança; porque a última visita do juiz não encontrou nenhum criminoso na prisão; uma coisa
que nunca se deu, tanto quanto se lembrem os viventes. Por ocasião da última festa de orgias, não
havia número suficiente para realizá-la, pois todos os homens foram riscados da lista do diabo, e
agora estão lutando contra ele e não por ele”.
Carlos Wesley diz que, passando por uma cidade, podia adivinhar as casas onde moravam
famílias metodistas, pelos estragos – janelas quebradas, portas e paredes riscadas, etc.- que
assim se apresentavam devido à violência dos ataques praticados contra elas.
Em Dublim, na Irlanda, ele sofreu bastante às mãos dos desordeiros. Naquela época os
evangélicos tinham pouca influência no país. Não havia socied ades bíblicas, de temperança e de
tratados. Um pregador metodista disse: “O pregador que não estiver pronto a morrer a qualquer
hora não deve tentar pregar em Dublim”. Não levou muito tempo para Carlos Wesley e seus
colegas sentirem a força da verdade dest a expressão. Apenas dez dias antes da sua chegada, a
casa de culto foi atacada pelos papistas. Tiraram toda a mobília, levaram-na para fora, queimaramna na praça pública e juraram que matariam todos os metodistas. Carlos Wesley foi ridicularizado e
vaiado pelo povo nas ruas, porém ele conservava-se calmo e pregava onde podia e muitos
assistiram as suas pregações. Antes de voltar para a Inglaterra conseguiu adquirir uma nova casa
de culto com um sobrado onde os pregadores podiam hospedar-se.

VI – SUA RESIDÊNCIA E TRABALHO EM BRISTOL (1757-1771)
Como já observávamos, Carlos Wesley deixou de ser itinerante em 1757, devido às
circunstâncias domésticas, mas nunca deixou de trabalhar em prol da causa de Cristo sob a
bandeira metodista.
1. Seu casamento.
Entre todos os membros de sua numerosa família, ele foi o mais feliz de todos no seu
casamento. Casou-se com miss. Sara Gwynne, da cidade de Garth, de Galles, no dia 8 de abril de
1749. O Sr. Gwynne era um homem abastado e de influência; tinha nove filhos e filhas e vinte
criadas. Carlos Wesley, sendo um homem pobre e itinerante, antes dos pais de sua noiva
consentiram em seu casamento com sua filha, teve que prometer e garantir um ordenado de cem
libras esterlinas por ano. Seu irmão João Wesley ficou sendo um dos fiadores, contanto com o
rendimento das publicações da Casa Publicadora, para suprir essa quantia.
Carlos travou conhecimento com miss. Sara, em Bristol, e teve ocasião de visitá-la uma ou
duas vezes por ocasião das viagens que fez na Irlanda. Também ela e seu pai passaram algum
tempo com os irmãos Wesley, em Londres, onde puderam verificar tudo que eles faziam, etc.
Depois desta visita Carlos pediu-a em casamento. Quando fez isto, levou o seu irmão João
consigo para passar alguns dias em casa da noiva. O contrato de casamento foi assinado pelos
dois irmãos e tudo ficou combinado para a realização do casamento no dia marcado.
O ato do casamento foi celebrado com culto, cântico e oração. Casaram-se na capela que
ficava perto da casa da noiva. Foi um dia ideal quanto ao tempo e também quanto ao
comportamento da parte de todos que participaram do ato. Carlos tinha quarenta e dois anos e ela
vinte e três. Ele ficou em casa do sogro dez dias depois do casamento, continuando depois as
suas viagens de itinerante, deixando a esposa com seus pais. Uma vez ou outra ela o
acompanhava.
Em 1º de setembro de 1743 mudaram-se para a sua própria casa. Sua vida doméstica foi
iniciada com um culto de oração. Depois de seis anos de casados, escrevendo à sua esposa,
disse: “Ao ler as passagens acerca do nosso casamento, tu não podeis imaginar quanto amor te
tenho e a todos da tua família. A tua mãe, pai, primas e criadas têm se portado de tal modo para
comigo que não posso deixar de os amar. E me recordo com prazer de todos os passos e de todas
as circunstâncias em que a providência divina nos guiou em nosso amor. Eu me regozijo ao refletir
sobre nossa união tão abençoada, e me sinto grato a todos que contribuíram para isso. Acima de
tudo, quero agradecer ao nosso Bem feitor por te haver dado ao meu coração, para satisfazer os
desígnios dele levar-lhe as “bodas de Cordeiro”.
2. Seu trabalho em geral:
Carlos Wesley limitou-se, depois de 1756, ao trabalho em Bristol e Londres. Mas seu
ministério foi ricamente abençoado. Residiu vinte e dois anos em Bristol.
Possuía grande facilidade de captar amizade. Era poeta e escreveu muitos hinos. Em suas
visitas pastorais e às vezes no púlpito cantava um hino. Numerosas vezes se encontram
referências sobre este ponto em sua biografia. Demonstrava interesse em visitar os pobres e os
presos, prestando-lhes assistência tanto ao corpo como a alma.
Quando houve uma greve de mineiros em Bristol, viu-se que ele exercia maior influência e
autoridade sobre o povo do que a própria polícia. Foi devido a ele que se conseguiu evitar maiores
desastres.
Ele pregava com entusiasmo e energia, porém, às vezes, seus discursos eram sem vida;
dependia da inspiração do momento. Raras vezes escrevia seus sermões; pregava de improviso.
Mas quando sentia o fogo divino no coração não sabia parar, pregava por mais de duas horas.
Certa vez um jovem pregador resolveu deixar o ministério, porque se julgava
incompetente. Porém um dia, assistindo à pregação de Carlos Wesley, num desses dias em que o
fogo celeste não se acendera muito, ficou assaz impressionado pela lentidão com que o famoso
pregador falava. Encostava-se no púlpito, colocava o cotovelo na Bíblia, etc. Quando viu isso,
resolveu não abandonar o ministério, pois compreendera que todos os pregadores têm seus dias
de inspiração e de des ânimo. Sem dúvida, nessa ocasião, o fracasso do pregador foi o seu maior
sucesso.
Em 1745 uma mulher converteu-se a Cristo por seu ministério. Foi Mrs. Priscilla Rich, a
esposa do Sr. Rich, dono do teatro “Convent Garden Theathre”. Era bonita, inteligente e uma atriz
notável. Seu esposo ficou muito contrariado com isso, pois ela deixou de tomar parte nos
espetáculos do teatro. Seu marido queria, por força, que continuasse. Um dia, insistindo para que
voltasse à cena, ela lhe disse que se fosse obrigada a comparecer em público no teatro, daria seu
testemunho e falaria contra o teatro; e como ele não quisesse tal coisa, deixou de aborrecê-la. Foi
por meio dela que Carlos Wesley chegou a ter contato com as pessoas mais notáveis daquela
época. Como seus filhos tinham dom para a música, teve por meio desta senhora e seu marido as
melhores oportunidades para conhecer os melhores músicos na Inglaterra.
3. O poeta do Metodismo:
Não podemos avaliar a influência de Carlos Wesley quando consideramos a sua
contribuição para a hinologia sagrada.
Ele escreveu 6.500 hinos. Estes hinos abrangem em seus sentimentos, todas as
sensações da vida humana, sob quase todas as circunstâncias da vida.
Começou a escrever seus hinos em Geórgia e os escreveu até morrer. Era-lhe muito
comum compor um hino enquanto viajava a cavalo. Chegando a alguma casa, entrava e pedia
“pena, tinta, papel”, reduzindo-o a escrito. Depois cumprimentava seus amigos e conversava com
animação.
O Dr. Stoughton, falando sobre o valor da hinologia na Revivificação Evangélica, disse:
“A psalmodia, que tinha sido negligenciada na Inglaterra muito mais do que alguns leitores
imaginam, foi tomada a sério pelos irmãos Wesley, desde o princípio com uma compreensão clara
da sua importância e com um zelo que prometia sucesso. O Metodismo nunca se teria tornado o
que é sem o seu hinário sem igual. Seu hinário talvez tenha contribuído mais para conservar a
teologia evangélica do que os “Sermões de Wesley” e as “Notas sobre o Novo Testamento ”. Para
cada pessoa que tenha lido os “Sermões” e as “Notas Sobre o Novo Testamento”, mil têm cantado
os hinos metodistas. Todas as divisões da Cristandade têm sido beneficiadas pela influência sobre
o “fervor do Metodismo não pode haver dúvida; esse fervor é devido ao caráter concreto e pessoal
de sua psalmodia. Ele não se limitou à contemplação calma e intelectual de temas abstratos, ainda
que sagrados e sublimes; porém, tirou sua inspiração da experiência dos crentes, como soldados
de Cristo, “lutando”, “vigiando”, “sofrendo”, “trabalhando”, e buscando a redenção completa.
Podem-se notar nesses hinos o som da trombeta, o gemido dos feridos, o grito dos vitoriosos e o
pranto do que acompanha o enterro do soldado”.
O hino mais apreciado e cantado no mundo é “Oh! Amante Salvador” (número 28, do livro
“Psalmos e Hinos”):
“Oh amante Salvador,
Sê tu meu Amparador!
Negras ondas de aflição,
Fortes ventos perto estão;
Deste espanto e do terror
Salva-me, meu bom Senhor:
E no porto faz entrar
Minha barca sem quebrar.
Consternado, nesta dor,
Sem refugio, sem vigor,
Meu medroso coração
Clama a ti por salvação
Mostra o teu imenso amor,
Oh benigno Salvador!
Única esperança e luz,
Não me deixes, oh Jesus!
Compassivo Redentor!
Vale a um triste pecador;
Vida eterna mora em ti,
Rica graça nasce ali;
Enche o débil coração
Com os dons da salvação;
E seguro, e sem temor,
Gozarei do teu favor”.
O Dr. Henrique Ward Beecher disse acerca deste hino: “Preferia ter escrito este hino de
Wesley – “Oh! Amante salvador” – a merecer a fama de todos os reis que em todos os tempos se
têm assentado sobre os tronos do mundo inteiro. É mais glorioso!
Possui maior poder. Este hino será cantado até o som da última trombeta que despertará a
milícia celestial; e então, creio, subirá nos lábios de alguns até a presença de Deus”.

VII – SUA RESIDÊNCIA E TRABALHO EM LONDRES (1771-1788)
Por muito tempo João Wesley quis que seu irmão morasse mais perto dele. Igualmente por
alguns anos Carlos Wesley quis mudar-se para Londres pelos mesmos motivos e outros mais.
Uma das principais dificuldades era arranjar uma casa que servisse.
Quando uma senhora, Mrs. Gumly de Bath, soube que Carlos Wesley queria mudar-se
para Londres, ofereceu-lhe uma casa mobiliada e bem colocada, salvo quanto à distância, pois
estava um pouco afastada do Foundry, o centro metodista em Londres. Ele tinha somente que
conservá-la e pagar os impostos. Esta casa agradou-lhe tanto que logo tratou de se mudar de
Bristol para Londres.
1. Sua vida doméstica e social:
Carlos Wesley teve oito filhos, porém cinco morreram pequenos e só três se criaram – dois
homens e uma mulher. O menor tinha quase quatro anos quando se mudaram para Londres.
Chamava-se Samuel e os mais velhos Carlos e Sara. Os dois rapazes tinham dom para música e
aprenderam a tocar diversos instrumentos.
Carlos Wesley dedicava muito interesse à educação de seus filhos, especialmente em
música. Quando crescidos, deram concertos musicais em casa, convidando seus amigos para
assistirem. Mrs. Rich servia de mediadora entre eles e os cultores da música. E foi por meio dela
que eles puderam arranjar os melhores professores daquela época.
Carlos Wesley gastava algumas horas, todas as tardes, lendo com seus filhos. Tinha
interesse pela vida espiritual deles. Não obrigava os filhos a assistirem os cultos nas Sociedades,
mas dava-lhes o seguinte conselho: “Podereis ganhar dos Metodistas desprezados, quando não
outra qualquer coisa, ao menos o conhecimento a respeito do que constitui a religião verdadeira, a
saber: a felicidade e santidade; a paz e amor; o favor e a imagem de Deus restaurada; o paraíso
reconquistado; um reino dentro de vós; a participação da natureza divina. Os meios ou
instrumentos principais dessa fé, que é o dom de Deus dado a todos que o pedem”.
2. Trabalho em Igreja:
Carlos Wesley, chegando a Londres, passou a dar seu tempo às Sociedades da
Metrópole. Pregava constantemente na “City Road Chapel”. De vez em quando visitava Bristol
onde tinha muitos amigos queridos. Além de zelar pelas Sociedades e pelo seu trabalho pastoral,
pregava aos presos e constantemente os visitava. Escreveu uma coleção de hinos apropriados
para eles. Diversos criminosos foram convertidos cantando e ouvindo cantar esses hinos. No
decurso de seus últimos anos seu coração continuamente ficava entristecido pela morte de alguns
dos seus amigos da mocidade.
Durante esse tempo publicou diversas edições de hinos. Quarenta e seis edições
diferentes. Até onde chegaram os Metodistas, ali foram cantados os hinos de Carlos Wesley. Isto
se dá hoje em dia. Em quase todos os hinários hoje existentes há alguns de seus hinos.
3. Alguns desgostos que sofreu:
Não há neste mundo pessoa alguma, que, vivendo muito tempo, não venha a sofrer alguns
desgostos. Carlos Wesley, dotado como era de natureza impetuosa, naturalmente sofria
horrivelmente, quando encontrava qualquer contrariedade ou desgosto. Ao menos quatro coisas
traziam tristezas a seu espírito sensível e poético.
Uma era o procedimento de seu irmão João, que tinha teimosia em ordenar diáconos e
presbíteros a alguns de seus pregadores leigos, e o fato de o Dr. Thomas Coke, superintendente
do trabalho na América, também estar revestido da autoridade de ordenar presbíteros, etc. Carlos
Wesley contrariava-se muito com isto, porque não queria de forma alguma, que as “Sociedades”
saíssem da Igreja Anglicana. Mas a história tem justificado a teimosia de seu irmão João.
Outro desgosto era o desejo que seu irmão João estava demonstrando de se casar com
Miss Grace Murray. Neste particular ele praticou uma grande injustiça para com seu irmão,
estorvando os seus planos de casamento e conseguindo que um dos pregadores de João Wesley
se casasse com ela enquanto João se achava ausente numa longa viagem.
Ainda outro desgosto teve ele, quando compreendeu a possibilidade da separação das
“Sociedades” da Igreja Anglicana que amava tanto. Viam-se sinais dessa separação e ele sempre
lamentava a voz contra tal tendência. Mas a corrente separatista era tão forte nas “Sociedades”,
que ele não podia deixar de sentir que mais cedo ou mais tarde elas viriam a se separar da
comunhão da Igreja Anglicana. Esse pensamento foi como uma sombra sobre o seu espírito nos
dias de sua velhice.
Mais um desgosto, e este mais cruel que todos, foi o fato que um dos filhos passou para a
Igreja Católica Romana. Isso deu motivo a grande regozijo por parte dos papistas, visto poderem
dizer que um dos sobrinhos de João Wesley havia aceito o Catolicismo. O motivo que levou
Samuel a passar para a Igreja Romana foi a música. Alguns de seus amigos músicos pertenciam a
Igreja Romana; e por meio deles foi influído a passar para a Igreja Romana.
Nessa ocasião o seu tio, João Wesley, escreveu a seguinte carta:
“Querido Samuel, como te tenho tido em muita consideração desde a tua menice, tenho
pensado em escrever-te com liberdade. Estou persuadido de que o que é dito em amor será
recebido com amor; portanto, se não for para teu benefício, não te fará mal algum.
“Já há muitos anos notei que tinha sido do beneplácito de Deus, dotar-se de talento para a
música, como também de capacidade para aprenderes muitas outras coisas e, o que é ainda de
mais importância, do desejo de seres um cristão. Mas muitas vezes tenho tido dó te ti, julgando
que não tens procurado devidamente o caminho certo. Não me refiro a essas ou aquelas opiniões
protestantes ou romanas. Todas essas opiniões eu as coloco debaixo dos meus pés; porém, a
respeito das coisas de maior peso, quer protestantes quer romanas, se errarem nessas coisas,
perecerão eternamente. Receio que não tenhas nascido de novo; que sejais dessa Igreja ou
daquela, não me importa. Pode-se salvar em qualquer delas. Mas tenho receio de que não sejas
nascido de novo; pois se não se nascer de novo, não se pode ver o reino de Deus”.
Porém Samuel nunca foi um romanista de coração. Certa vez teve uma discussão com um
padre na qual afirmou que tinha o direito de julgar por si mesmo, e disse: “Os estrépitos do
Vaticano não podem ser considerados como raios do céu; não me importo com a excomunhão”.
Poucos anos depois ele se retirou da comunhão da Igreja Romana declarando : “Não me importo
com a excomunhão que os seus padres possam lançar sobre mim”.
VII – O FIM DA CARREIRA:
Carlos Wesley conservou-se no trabalho até o fim da sua carreira. O que tinha
caracterizado nos outros lugares caracterizou-o na grande metrópole de Londres. Ele tinha muito
interesse pelos presos e pelos pobres. Constantemente visitava os presos, especialmente os
condenados à pena de morte. Não somente conversava com eles e pregava para eles, mas
também escrevia hinos apropriados para eles cantarem.
A última publicação que fez foi uma coleção de hinos para os presos. Muitos entre os
presos se converteram a Cristo e morreram na fé como o “bom ladrão” (o ladrão que se
arrependeu diante de Jesus) que morreu na cruz.
A velhice estava se aproximando e seu fim estava perto. Muitos dos seus amigos mais
íntimos passaram para o além; entre eles, o Rev. João Fletcher, o Sr. Carlos Perronet, o Rev.
Henrique Piers e o Sr. Blackwell. Ele não tinha medo de morrer; somente orava para que tivesse
morte suave. Os que o assistiram durante os últimos dias da sua enfermidade, testemunharam
acerca de sua paciência e resignação cristã na presença do último inimigo do homem – a morte.
Um dos pregadores, o Rev. Samuel Bradburn, que esteve com ele até o fim, diz: “Ele não
tinha outro incômodo senão a velhice. Quase não sentia dor alguma. Sua mente estava tão calma
como o cair da noite de verão. Constantemente repetia: “Eu sou somente um pecador salvo pela
graça de Deus meu Salvador”.
Poucos dias antes de falecer escreveu o seu último hino. Não podendo escrever, ditou e
sua esposa escreveu as seguintes linhas:
“In age and a feebleness extreme
Who shall a sinful worn redeem?
Jesus, my only hope Thou art,
Strength of my failing flesh and heart;
O could I catch a smile from Thee,
And drop into eternity”.
“Em idade e fraqueza a cair,
Quem pode um pecador redimir?
Jesus, só tu podes me salvar,
Vem meu corpo e alma renovar;
Quero o teu rosto calmo ver
Antes de eu entrar no porvir”.
Carlos Wesley faleceu no dia 29 de Março de 1788 e poucos minutos antes de morrer, com
sua mão na mão de sua filha, disse: “- Senhor – meu coração – meu Deus!”, e ainda com a mão
entre as de sua filha expirou tão sossegado e calmamente que não souberam quando sua alma
deixara o corpo. Caiu no sono do descanso, esperando o dia da ressurreição.
Foi enterrado no cemitério de Marylebone, que pertencia à Igreja da qual era pastor.
Hoje pode-se ver um monumento erguido sobre seu t úmulo nesse cemitério, na cidade de
Londres.



A vida de George Whitefield,
o orador e evangelista do
Movimento Metodista
(1714-1770)
Como João Batista foi percussor de Jesus Cristo, assim também o Sr. George Whitefield o
foi do Movimento Metodista. Foi ele que iniciou o trabalho evangelístico, pregando a doutrina de
renascimento ou a regeneração, e, também, foi ele que iniciou a pregação ao ar livre, convidando o
Sr. João Wesley para continuar o trabalho que tinha principiado em Bristol entre os mineiros. O Sr.
Whitefield pode ser comparado a um a tempestade que levava tudo por diante dele. Os costumes e
preconceitos antigos não puderam manter-se perante o seu entusiasmo. Quando fecharam as
portas das Igrejas contra ele, foi ao ar livre e ali pregou a mensagem divina e as multidões afluíram
para escutá-lo. Ele realmente preparou o caminho para o desenvolvimento espantoso do
Metodismo, tanto na América como na Inglaterra.

I – O NASCIMENTO E A MOCIDADE
Quando o sexto filho, George Whitefield, nasceu em 16 de dezembro de 1714, na
estalagem Bell Inn, na cidade de Glaucester, na Inglaterra, os hóspedes que se achavam
instalados ali, não sonhavam que um dos maiores oradores e evangelistas que jamais apareceu na
Inglaterra tinha chegado naquela noite feia de inverno. O seu advento no mundo era semelhante
ao do Salvador do mundo sob aspectos humildes, mas não tão humildes como os do seu Mestre.
1. Os seus pais
Pouco se sabe dos seus pais ou do seu parentesco. Sabemos que o seu bisavô era um
vigário na Igreja Anglicana, que seu pai era um hoteleiro, e que a sua mãe tinha que ajudar a
manter a família trabalhando na estalagem. Quanto à vida religiosa deles julgamos que pertenciam
à Igreja Anglicana e viviam como a maioria do povo naquela época, observando a forma de
piedade, mas realmente ignorando o poder dela. Podemos imaginar o ambiente em que o pequeno
George tinha que se desenvolver. O lar não podia ser bem dirigido devido às interrupções
constantes causadas pelo vai e vem dos hóspedes. Sem dúvida o menino tinha uma boa
oportunidade de estudar a vida humana, vendo constantemente pessoas de toda a espécie, ricas,
pobres, boas e más. Tudo isto contribuía para ajudá -lo mais tarde a compreender a natureza da
humanidade e interpretá-la com tanto acerto nas suas pregações como evangelista. Julgamos
também que os pais estavam interessados no seu adiantamento na vida, pois interessaram-se na
sua educação mandando-o para a escola naquela cidade.
2. Na escola.
Quando tinha doze anos de idade, foi mandado à escola de Sta. Maria de Crypto. Aqui o
rapaz aproveitou bem as aulas e logo revelou um dom excepcional para a oratória e para o drama.
Tomava parte saliente nas representações que foram dadas na sua escola. Tinha muito prazer
nisto e foi ali que desenvolveu os dons de orador que se manifestaram tão notadamente na sua
carreira, mais tarde, na vida.
3. Na vida prática.
Como tinha de ajudar os seus pais para ganhar o pão de cada dia, saiu da escola para
trabalhar como copeiro na estalagem de seu pai. Parece-me lastimável vê-lo abandonar os seus
estudos quando ia tão bem e estava revelando dons tão excepcionais; porém, às vezes, a sorte ou
a providência divina destinaram outra coisa.
Lá no hotel, vestido como copeiro daquela época, prestava serviço aos hóspedes, servindo
a mesa, arrumando os quartos e varrendo e lavando o assoalho, etc. Deus, porém, tinha outro
serviço para ele, embora ele julgasse que nunca poderia completar os seus estudos na
Universidade. Descrevendo esta fase da sua vida, diz ele: “Eu me cingia com meu avental azul e
pegava nos braseiros, lavava o assoalho, arrumava os quartos e, enfim, converti-me num copeiro
profissional, prestando serviço aos ricos e aos pobres durante um ano e meio”.
Era, porém, destinado para outro serviço mais digno de seus dons naturais. Como
rapaz cheio de vida, não deixava de praticar algumas travessuras de acordo com a sua idade.
Lendo as acusações que fez contra si mesmo, mais tarde, devemos lembrar que foi muito severo
para consigo. Neste ponto ele procedia como o Sr. João Bunyan. Tinha a mesma luta que todos
têm de enfrentar na vida – a luta entre a carne e o espírito. É interessante quando lembramos que
os livros que furtava eram livros devocionais e religiosos, e o dinheiro que tirava da gaveta de seu
pai era distribuído entre os pobres. Apesar de sua perversidade nesta época de impiedade, sentia,
no íntimo que Deus o tinha destinado para uma carreira digna nesta vida. Ouvimo -lo dizer, um dia,
em conversa com sua irmã: “Deus tem me destinado para alguma coisa que eu agora ignoro.
Parece-me que o meu caminho está interrompido”. Foi isso que o levou a continuar os seus
estudos – não podia contentar-se com a sua sorte de copeiro.
3. Volta para escola outra vez.
Com dezesseis anos de idade, com um desejo ardente de completar os seus estudos,
entrou de novo na escola em Glaucester, afim de preparar-se para entrar na Universidade de
Oxford. Agora a vida tem mais significação para ele. O caminho está mais aberto e as suas idéias
estão mais esclarecidas e só falta aplicação própria para realizar o seu sonho. O seu tempo tem
mais valor, as horas preciosas demais para gastá -las em praticar travessuras. Depois de dois anos
de estudos achou-se em condições de ir à Universidade. Como as coisas se modificam na vida de
um rapaz que recebe uma visão daquilo que pode ser pela graça de Deus! Os montes de
dificuldades são lançados no mar do esquecimento, o rosto é virado para a luz do dia, as sombras
do medo se dissipam e o dia começa a raiar!

II – NA UNIVERSIDADE DE OXFORD.
Já por alguns anos o Sr. Whitefield tinha alimentado o desejo de ser um estudante da
Universidade de Oxford. Agora chegou a hora de realizar o seu sonho de menino, porém a questão
capital era como podia manter-se e estudar. Ele tinha de enfrentar este problema como muitos
rapazes hoje em dia o têm.
1. Servente em Pembroke College.
Para realizar o seu ideal aceitou um lugar em Pembroke College, na cidade de Oxford,
como servente. Tinha de prestar serviço no colégio, servindo a mesa e varrendo os quartos, etc.,
para suprir o que faltava no custeio de suas despesas na escola. O que tinha aprendido na
estalagem agora vinha ajudá-lo a manter-se na Universidade. Há atualmente rapazes nos colégios
evangélicos que estão se mantendo na escola, prestando o serviço que aprenderam antes de
entrar na escola. Alguns moços têm se mantido não somente servindo como copeiros, porém
passando a roupa de seus colegas e professores, ou cortando o cabelo dos alunos nas horas
vagas e dias feriados. Por três anos, desde 1733 a 1736, ele fez esse serviço até completar o
curso na Universidade.
2. Encontra-se com os Metodistas.
O Sr. George Whitefield entrou em Pembroke College em 1732, quando tinha dezoito anos
de idade. Logo chegou a conhecer os Metodistas ou o Clube Santo, porém não se identificou com
eles. Observava-os de fora. Sempre lhes tinha muito respeito e não tomava parte com os outros
rapazes que os criticavam e os ridicularizavam. Assim passou seu primeiro ano sem tomar parte
com aqueles moços piedosos. Como era um rapaz pobre e servidor, e não da alta camada da
sociedade inglesa, não conseguiu conhecer os Srs. João e Carlos Wesley, logo no princípio. Era,
porém, um rapaz sério, que tinha sido despertado e profundamente impressionado, lendo o livrinho
sobre “A vida de Deus na alma de homem”. Foi uma verdadeira revelação quando leu que “a
religião verdadeira é uma união entre a alma e Deus, ou Cristo formado dentro de nós”. Isto foi um
raio de luz para sua alma e desde esse momento em diante sentiu a necessidade de se tornar uma
nova criatura. E realmente foi ele o primeiro que chegou a experimentar uma nova e viva
experiência que mais tarde foi gozada por milhares de pessoas.
Um dia gozou a felicidade de ser apresentado ao Sr. Carlos Wesley que o convidou para
assistir às reuniões do Clube Santo. De bom grado aceitou o convite e logo se tornou um dos
membros mais ativos e zelosos. O seu zelo o levou a praticar certas austeridades que vieram a
prejudicar a sua saúde.
Mais tarde, como os Srs. João e Carlos Wesley tinham se retirado da Universidade e ido
para a América, alguns amigos do Clube Santo, receosos que o Clube ficasse prejudicado,
queriam que o Sr. Whitefield continuasse na Universidade por mais tempo para ajudar o trabalho
do Clube Santo. E para facilitar-lhe as finanças ofereceram-lhe a sua manutenção que ficava
numas 20 ou 30 libras esterlinas. Mas, como já foi mencionado, a saúde do Sr. Whitefield ficou
bem abalada durante este tempo, e assim teve que deixar a Universidade e voltar para Glaucester
onde podia tratar-se em casa de seus pais.

III – ENTRANDO NO MINISTÉRIO
Voltando para a casa de seus pais foi tratado pelos médicos e a sua saúde gradualmente voltou.
1. Sua conversão.
Durante alguns anos ele sentiu a influência do Espírito Santo no coração. Os dias
passados na Universidade e o contato que tinha com os Metodistas, contribuíram para aumentar
as suas impressões religiosas, porém não tinha conseguido aquela paz e satisfação que o seu
coração pedia e buscava. Esse dia, porém, não tardou, pois nos meados de 1735 seu coração
entrou em paz com Deus e todas as suas dúvidas de dissiparam, deixando a sua alma cheia de
luz. Assim ele descreve a sua experiência:
“Fui libertado do fardo que pesava sobre mim, e eu cheguei a conhecer o que era
regozijar-me em Deus, meu Salvador, e por muito tempo não pude deixar de cantar hinos e salmos
onde estivesse; porém, o meu gozo gradualmente se acalmou e, graças a Deus, tem ficado comigo
e tem aumentado na minha alma desde aquele dia, quase sem interrupção”.
Ele nunca se esqueceu do lugar em Oxford onde se converteu. Falando sobre sua
conversão, mais tarde diz ele:
“Eu me lembro do lugar; pode ser um pouco de superstição, porém, quando vou a Oxford,
não posso deixar de visitar este lugar onde Jesus Cristo se manifestou a mim e me deu um novo
nascimento”.
2. Sua ordenação.
No tempo que passou na casa dos pais, em tratamento de sua saúde, não deixou de
entregar-se ao estudo da Palavra de Deus e oração. Distinguiu-se pela devoção e piedade. O
bispo de Gloucester ficou impressionado com os dons que possuía e quis ordená -lo diácono na
Igreja Anglicana. O Sr. Whitefield consentiu nisto e começou logo a preparar-se para sua
ordenação. Considerou este ato como o mais sério em sua vida.
No seu preparo para essa cerimônia entreteve o dia anterior em jejum e oração, passando
duas horas de joelhos ao ar livre num campo. Considerou este passo na sua vida como uma
consagração à vida apostólica.
Assim ele descreve os seus sentimentos nessa ocasião:
“Eu julgo que respondi às perguntas com toda a sinceridade da minha alma, e orei a Deus
para que ele dissesse Amém. Se meu coração vil não me engana, ofereci completamente meu
corpo, espírito e alma ao serviço do Santuário de Deus. Venha o que vier, a vida ou a morte, a
profundidade ou as alturas, daqui em diante eu viverei como um que, neste dia, na presença de
homens e de anjos, toma a santa comunhão, professando ser movido pelo Espírito Santo para
ministrar na Igreja”.
3. Seus dons evangélicos.
No domingo seguinte pregou pela primeira vez na igreja onde foi batizado e criado. Ele
descreve essa experiência assim:
“No domingo passado, de tarde, preguei o meu primeiro sermão na igreja onde fui batizado
e onde comunguei pela primeira vez. A curiosidade atraiu uma grande congregação. No princípio
fiquei meio espantado. Mas fui confortado, sentindo no meu coração a presença de deus; e logo
cobrei ânimo, lembrando-me da minha experiência quando era rapaz na escola onde tinha que
recitar, e, também, das exortações que fazia aos presos e às famílias pobres na Oxford. Por este
meio consegui conservar-me calmo. Quando comecei a pregar, senti que o fogo acendia até que,
embora moço, como era, e no meio daqueles que me conheceram desde pequeno, consegui
pregar com alguma autoridade evangélica”.
O resultado da sua pregação foi que alguns o criticaram, zombando dele, porém, mais ou
menos uma dúzia de pessoas ficou muito tocada e modificou o modo de viver. Alguns se
queixaram dele ao bispo, dizendo que diversas pessoas tinham enlouquecido ouvindo a pregação
dele. Mas, quando o bispo soube dos fatos, disse que esperava que a sua loucura não os deixasse
antes do primeiro domingo.
Sua saúde foi restaurada e ele voltou para Oxford onde completou o seu curso, recebendo
o grau de bacharel. De novo dedicou-se ao trabalho dirigido pelos Metodistas na Universidade,
pregando aos presos e auxiliando na direção de três escolas de caridade mantidas pelos
Metodistas.
Com este trabalho se achava contente e queria ficar em Oxford para continuar os seus
estudos na Universidade, procurando especialmente converter os estudantes que se preparavam
para o ministério, julgando que, se pudessem conseguir a conversão pelos menos de um deles, já
teria convertido uma paróquia inteira. Mas este plano não foi realizado, pois, aceitando um convite
para suprir o púlpito por alguns meses da Tower Chapel, em Londres, na ausência do pároco,
atraiu atenção na metrópole que todos os planos anteriores foram mudados. O povo no princípio
foi tentado a criticar e desprezar a mocidade dele, nas depois de ouvi-lo pregar mudaram de
atitude passando da crítica ao respeito e admiração.
Enquanto estava assim empregado em Londres, recebeu cartas de seus amigos e colegas,
os Srs. João e Carlos Wesley, e Delamotte, da Geórgia, pois eles já se achavam na América.
Todos o convidaram para tornar-se missionário e vir para a América. Em uma dessas cartas
encontra-se o seguinte: “Quem sabe, Sr. Whitefield, se o Sr. Não é o homem para isto? E o Sr.
Pergunta: o que terei eu? – Pão para comer; roupa para vestir; uma casa onde possa reclinar a
cabeça como o seu Senhor não tinha; e uma coroa de glória que jamais desvanecerá”.
Quando leu estas palavras, o seu coração ficou repleto de grande alegria. Quis ir. E
resolveu aceitar o convite. Quando falou nisto com os seus amigos e parentes, eles começaram a
persuadi-lo a não ir, porém ele firmou-se no seu propósito e começou a despedir-se dos seus
amigos e parentes. Na ocasião da despedida os seus dons evangelísticos se manifestaram mais e
mais. Quando visitou Gloucester para despedir-se dos seus pais e amigos, o povo juntou-se na
igreja nos dias de semana em maior número do que nos domingos.
Em Bristol o povo saiu da cidade a pé, e alguns em carros, para recebê-lo. Gente de todas
as camadas sociais e de todas as seitas (grupos religiosos cristãos) afluíram às igrejas para ouvilo. Multidões o seguiam da igreja para a casa onde ele se hospedara. Muitos choravam os seus
pecados, e para consolá-los e instruí-los gastava o dia inteiro, desde cinco horas da manhã até à
meia noite; e tal era o entusiasmo do povo que teve de partir da cidade à meia noite, secretamente,
para evitar a experiência de ser escoltado fora da cidade e acompanhado pela população inteira.
Antes de embarcar para a América teve de visitar Oxford e passar algum tempo em
Londres. Em Londres todo o seu tempo foi empregado em anunciar o Evangelho nas Igrejas e
capelas da grande metrópole. O bispo McTyeire, descrevendo esta visita, diz:
“Os representantes das instituições de caridade estavam ansiosos por obter os serviços
dele; para conseguir isto, procuraram o uso das igrejas nos dias da semana, e milhares tiveram de
voltar das maiores igrejas, não podendo achar lugar. As congregações prestaram a máxima
atenção, como se estivessem escutando para a eternidade. Ele pregava pelo menos nove vezes
por semana, e freqüentemente ajudava na administração da santa ceia, nos domingos; podiam-se
ver as ruas cheias de gente, levando lanternas nas mãos à noite, procurando a casa de Deus. ”

IV – TORNANDO-SE UM MISSIONÁRIO
O fato de ter decidido ir como missionário para a América, e trabalhar sob condições
difíceis, quando sua popularidade ia-se aumentando dia após dia na Inglaterra, é prova cabal de
sua sinceridade e abnegação.
1. A preparação e viagem para a América.
Já falávamos do convite que os S rs. João e Carlos Wesley fizeram para que ele fosse para
a América. Uma vez tomada a resolução de ir, começou logo a preparar -se para a viagem. Como
tinha de despedir-se de muitos amigos em diversos lugares, gastou bastante tempo em fazê-lo.
Devemos notar aqui que no meio de multidões de pessoas que dele gostavam, havia um número
de pessoas que procuravam desprestigiá-lo. Ele, porém, deixou a Inglaterra antes de irromper
contra ele uma forte oposição.
É interessante notar que no mesmo dia em que o Sr. João Wesley chegou à Inglaterra,
voltando da América, o Sr. George Whitefield embarcava para lá. O mesmo vento que trouxe o Sr.
Wesley, levou o Sr. Whitefield.
Os navios cruzaram-se, mas nenhum deles sabia que o outro estava a bordo. Sem dúvida
Deus estava dirigindo o destino dos dois, pois o trabalho que o Sr. Wesley não conseguiu fazer na
América, o Sr. Whitefield o fez com muita habilidade; e o trabalho que o Sr. Whitefield iniciou na
Inglaterra, o Sr. Wesley continuou e conservou por longos anos. O Sr. Whitefield era um pregador,
um orador, um hábil evangelista; e o Sr. Wesley, um organizador, um legislador eclesiástico.
A viagem foi muito longa. Os passageiros consistiam principalmente de soldados. O
capitão e os oficiais logo fizeram o Sr. Whitefield sentir que eles o consideravam como um
hipócrita, e assim o trataram. O jogo de baralho e a profanação do nome de Deus constituíam a
diversão principal destes homens. O Sr. Whitefield os repreendia, ganhando assim ainda mais o
escárnio deles; mas nem por isso deixou de pregar aos soldados que ele chamava de “os seus
paroquianos de paletós vermelhos”.
Rebentou uma epidemia de febre entre os soldados durante a viagem e o Sr. Whitefield
pôs em prática a divisa metodista: Fazer o bem aos corpos e às almas dos homens.
Ele, pois, não deixou de administrar sua caridade e pregar o Evangelho nas suas
conversões com os soldados. Tal foi a influência dele sobre os soldados, oficiais e capitão do
navio, que, antes de terminar a viagem, todos lhe obedeciam quanto aos seus desejos de dirigir
cultos todos os dias sob a ordem do comandante, o qual, com os oficiais do exército, tomava parte
dos cultos. O resultado foi que os oficiais deixaram de falar mal do evangelista e as mulheres
disseram: “Que modificação tem havido na vida do capitão!”
Os livros imorais e os baralhos foram jogados ao mar e hinários e bíblias tomaram os seus
lugares, pois o Sr. Whitefield tinha uma provisão deles. Um rapaz contou a sua vida ao Sr.
Whitefield, revelando o desejo que tinha de abandonar o exército e dedicar-se ao ministério para o
qual tinha sido chamado em tempos idos. Os soldados escutaram as explicações das lições
marcadas para cada dia. O que se deu com o Apóstolo Paulo na sua viagem para Roma deu-se
também com o Sr. Whitefield.
No princípio da viagem foi o homem mais desprezado e odiado, porém no fim dela foi o
homem mais estimado e respeitado.
O navio chegou à América no mês de maio de 1738. Depois de pregar um sermão de
despedida aos seus paroquianos do mar, desembarcou ele, e no dia 7 de maio chegou em
Savannah, Geórgia.
2. Sua visita à Geórgia.
Logo que chegou em Geórgia, principiou seu trabalho entre os colonos. Quando chegou a
conhecer os índios, descobriu que sua missão não era para eles. As questões que os colonos
tiveram com o Sr. Wesley foram ventiladas, porém ele não se envolveu nelas, e seu procedimento
foi tão sábio e grato que em pouco tempo conquistou o respeito e simpatia de todos, tanto dos
oficiais como dos mais humildes colonos.
Ele escreveu: “Pela misericórdia divina, ganhei o respeito dos magistrados, oficiais e do
povo. A estes eu visitava de casa em casa, pregando duas vezes por dia e quatro vezes nos
domingos; e aqueles eu visitava de vez em quando. Fui mais ou menos bem recebido por todos;
mas de tempos em tempos descobri que alguns não mudam sua natureza atravessando o mar.
Apesar disso, alguns aceitaram a Palavra e se desenvolveram. Eu me sentia satisfeito com a
minha pequena paróquia, e podia ter ficado com eles com muita satisfação se não tivesse de voltar
à Inglaterra para ser ordenado presbítero, e principiar a lançar os alicerces do Orfanato”.
Durante sua residência em Geórgia encontrou-se com muitos órfãos, crianças cujos pais
tinham falecidos, deixando-os sozinhos no meio de uma floresta sem proteção ou recursos. O
estado lastimável dessas crianças infortunadas tocaram-lhe o coração, resolvendo ele fundar um
orfanato na colônia.
Mas como não havia recursos, deliberou ele depois de treze meses de residência, voltar à
Inglaterra afim de arranjar meios para fundar o orfanato na colônia. A resolução tomada para
fundar esta instituição contribuiu para estabelecer seu itinerário durante o resto de sua vida.
Causou-lhe muitos cuidados, perplexidades e aborrecimentos, mas também serviu como
lastro para conservá-lo na atividade até o fim da vida.
Em prol desta instituição ele viajou entre a América e Inglaterra, percorrendo a Grãbretanha e todas as colônias americanas. Atravessou o Atlântico treze vezes, e visitou a Inglaterra,
a Escócia e a Irlanda, para não mencionar as longas viagens feitas entre os estados americanos
de Nova Inglaterra e Geórgia.
3. Volta à Inglaterra em busca de auxílio para o orfanato.
Em 6 de setembro de 1738, embarcou em Charleston para a Inglaterra.
Chegando na Inglaterra, foi a Londres, onde queria principiar uma campanha em prol do
orfanato, mas encontrou tudo mudado. Em vez de achar os púlpitos franqueados a ele, achou-os
fechados. Sua popularidade tinha desvanecido. O clero estava contra ele e contra o seu
entusiasmo.
Não podendo conseguir audiência em Londres, foi a Bristol, porém os vigários das Igrejas
lá estavam resolvidos a não deixá -lo pregar em seus púlpitos. Que havia de fazer? O caminho
estava embaraçado. Havia só duas, ou três igrejas em toda a Inglaterra em que podia pregar e
fazer apelos em favor do orfanato. Um dia, quando estava pregando numa igreja, e havendo mais
de mil pessoas do lado de fora, que não podiam entrar, para não mencionar um grande número
que tinha ido embora por falta de lugar, veio-lhe a idéia de que devia pregar ao ar livre, onde maior
número de pessoas podia ouvi-lo.
Agora, estando em Bristol, onde não havia uma igreja onde pudesse pregar, resolveu fazer
alguma coisa muito fora da ordem estabelecida: pregar ao ar livre. Procurou, pois, os mineiros em
Kingswood, cerca de quatro quilômetros distante da cidade, no dia 17 de fevereiro de 1739.
Duzentas pessoas assistiram à pregação: no dia seguinte pregou de novo, havendo mais de duas
mil pessoas presentes, e no correr de poucos dias o número chegou a vinte mil.
Ele não somente foi criticado pelo clero anglicano por ter procedido tão irregularmente,
pregando ao ar livre sem licença, mas também o ameaçaram de exclusão da Igreja. Mas os
resultados foram tão satisfatórios, e povo gostara tanto das pregações dele, que se sentiu animado
em continuar, crendo que estava fazendo a vontade de Deus e seguindo o exemplo do Mestre que
pregava às multidões ao ar livre. Assim se defendeu: “Graças a Deus, o gelo está se quebrando e
eu tenho ido aos campos para pregar. Alguns são capazes de me censurar , mas não tenho eu
razão? Os púlpitos me são negados e os pobres mineiros estão a perecer por falta de
esclarecimentos”.
Ele notava o efeito das suas pregações sobre os mineiros pelos riscos brancos que
apareciam em suas faces pelas lágrimas que corriam.
O bispo McTyeire, falando sobre esta fase do movimento Metodista, disse:
“Quando os Wesley e o Sr. Whitefield mostraram zelo extraordinário pela propaganda da
religião, disseram-lhes: “Se quiserdes converter os pagãos, ide a Kingswood”. O repto foi aceito
porque não havia ninguém que se importasse com esse povo, e isto foi um acontecimento de
grande significação. Foi um estímulo para pregar às piores classes. Todas as classes de homens
estavam ao alcance deles. O Senhor assim aumentou a fé desses pregadores; e também pôs um
argumento na boca dos seus amigos, e uma demonstração prática perante o mundo do poder
salvador e transformador do Evangelho, logo no princípio da revivificação metodista”.
O Sr. Whitefield passou cerca de seis semanas em Bristol, pregando diariamente às
multidões ao ar livre, levantando coletas entre o povo em prol do orfanato em Geórgia. Teve então
um campo aberto onde os prelados não puderam fechar -lhe a porta da Igreja. O povo estava a seu
lado e onde ia era acompanhado pelas multidões. Mas tinha de voltar à Geórgia depois de visitar
mais alguns lugares na Grã-bretanha. A questão com ele era: como podia cuidar das almas já
despertadas? Foi nesta ocasião que fez a melhor obra de sua vida. Lembrou-se de João Wesley
que também estava excluído das igrejas. Convidou o Sr. Wesley a vir ajudá-lo.
Por algum tempo o Sr. Wesley pensou sobre o convite e finalmente resolveu ir até Bristol
(a segunda cidade das mais importantes da Inglaterra naquela época) para ver e examinar o
trabalho do Sr. Whitefield. Foi, viu e convenceu-se de que a obra era de Deus e consentiu em
pregar ao povo ao ar livre.
O Sr. Whitefield foi embora e deixou o Sr. Wesley com o trabalho. E este continuou o
mesmo trabalho por cinqüenta anos e foi um dos mais notáveis pregadores ao ar livre que o
mundo tem conhecido desde os tempos apostólicos. Se o Sr. Whitefield não tivesse feito mais do
que isto, não teria vivido em vão. O Sr. Isaac Taylor, falando sobre a importância desses cultos,
disse: “As pregações ao ar livre, dos srs. Wesley e Whitefi eld em 1739, foram o acontecimento
donde a época religiosa, a época atual, tem de datar a sua origem. Forçosamente temos de olhar
para aqueles acontecimentos afim de descobrir a origem de tudo que caracteriza época atual”.
4. Volta para a América.
O Sr. Whitefield passou nove meses na Inglaterra e durante este tempo conseguiu duas
coisas, além de publicar algumas obras sobre os diversos assuntos. Ele iniciou a pregação ao ar
livre, levantou bastantes fundos para o orfanato na Geórgia e publicou algumas obras, sendo as
principais o seu diário, dois volumes de sermões, uma resposta a uma carta pastoral do bispo e
uma crítica ao clero.
Chegou em Filadélfia no mês de Novembro de 1739 e mandou seus comitês à Geórgia,
porém ele ficou em Filadélfia por mais algum tempo, pregando e organizando sociedades de
oração. Pregava duas vezes por dia e as igrejas não acomodavam as multidões que assistiam a
essas conferências. Durante esse tempo conseguiu organizar trinta e seis sociedades de oração
entre os crentes.
De Filadélfia passou para Nova York e Nova Jersey. Em Nova York o povo afluía às suas
pregações em grande número. Foi também muito abençoado em seu ministério em Nova Jersey.
Em Princeton visitou o “Princeton College” e assim falou acerca desta instituição que hoje
tem tanta fama: “O Sr. Teumet e seus colegas tencionam, por meio deste presbitério, desenvolver
alguns rapazes hábeis para a vinha do Senhor. A casa onde os moços estudam atualmente é uma
cabana feita de toros, e ela tem seis metros de comprimento por quase seis de largura; neste lugar
humilde já se têm formado sete ou oito dignos ministros de Jesus, e estão sendo lançados os
alicerces de largas vistas para preparar ainda um número maior. Este trabalho eu julgo que seja de
Deus, e, portanto, não será em vão”.
Na sua viagem para o sul pregou em muitos lugares. Às vezes tinha de pregar nos sítios e,
não havendo casa de oração, pregava ao ar livre. Uma vez pregou a uma congregação de dez mil
pessoas e muitas dessas pessoas tinham viajado mais de seis léguas a pé para terem o privilégio
de ouvi-lo.
Na colônia da Virgínia foi hóspede do Comissário e do Governador. Aqui em Williamsburgo
pregou às pessoas mais cultas e aristocratas em toda a América. Tinha melhor sucesso nas
colônias do norte do que na de Virgínia. O bispo McTyeire, comentando este ponto, diz: “Os
resultados do trabalho do Sr. Whitefield foram muito melhores entre os colonos de Nova Inglaterra,
Nova Jersey e Filadélfia do que entre os de Virgínia. O motivo disto é que havia certa rivalidade
entre as igrejas congregacionais e presbiterianas, que não existia nas igrejas anglicanas em
Virgínia, onde os dirigentes gastavam a maior parte do tempo combatendo os não -conformistas. O
que eles deixaram de aproveitar dos trabalhos do grande evangelista era como a semente que cai
à beira do caminho”.
Em Frederickesburgo, nesta mesma colônia, não foi bem recebido, antes, foi maltratado; e
anos depois, um dos historiadores, o Dr. Jessé Lee, visitou o lugar. E o narrador assim fala a
respeito dessa visita: “Em 24 de março, o Dr. Lee pregou neste lugar, e regozijou-se de encontrar
uma igreja florescente. Foi a primeira visita que a cidade gozara em longos anos; e fazemos
menção disto devido aos seguintes fatos: Quando o Sr. Whitefield passou aqui em certa ocasião,
quis pregar e quando estava pregando, ou quando procurava uma oportunidade para fazê -lo, foi
tão rude e grosseiramente tratado, que, em obediência às palavras de Cristo, tirou os sapatos e
sacudiu o pó deles como um testemunho contra o lugar. E desde aquele ato solene de denúncia
até a presente data, ignora-se a conversão de um pecador no lugar. Agora afirma-se que esse
lugar tem sido abençoado com um verdadeiro avivamento espiritual. “Se – disse ao autor – essa
legenda fosse verdadeira, a maldição teria sido removida. A indignação passou: Deus desviou a
sua cólera e agora manifesta a sua misericórdia ao povo. Um grande número de pessoas
converteu-se a Cristo, construindo uma casa de oração e a boa semente semeada estava
produzindo fruto para a vida eterna”.
Continuando a sua viagem para o sul, passou pela colônia de Carolina do Norte e Carolina
do Sul. Nestas colônias foi bem recebido e tratado. Chegou em Savanah, Geórgia, em 11 de
Janeiro de 1740. Mas as condições tinham piorado lamentavelmente. A colônia estava quase
deserta e os que ficaram não podiam sair por causa de doenças ou recursos. O Sr. Habersham,
durante a ausência do Sr. Whitefield, tinha adquirido, mais ou menos, cem alqueires de terreno a
cerca de três léguas distante da cidade de Savanah. Foi nesse terreno que tencionaram construir a
casa principal do “Orfanato”. Durante a construção do prédio os órfãos foram abrigados em uma
casa alugada.
Em 25 de Março de 1740, o Sr. Whitefield colocou a primeira pedra nos alicerce s da casa
nova. Havia quarenta crianças no Orfanato e, contando os empregados na obra, chegou o número
de cem pessoas que dele dependiam. Tinha pouco dinheiro no banco, mas resolveu continuar o
trabalho.
O calor em Savanah era terrível; para escapar aos seus efeitos e levantar fundos para o
orfanato decidiu visitar as colônias do norte. Visitou a cidade de Charleston e fez nesta cidade o o
primeiro apelo financeiro na América. A pedido de alguns habitantes pregou e tirou uma coleta em
prol dos órfãos. A coleta rendeu setenta libras. O resultado foi tão bom que ele se animou a pedir
auxílio para a instituição em outras cidades.
Na cidade de Filadélfia pregou ao ar livre e levantou de uma vez cento e dez libras. Havia
um poder magnético em suas pregações. Todas as classes achavam graça em suas palavras. Um
construtor de navios, sendo interrogado sobre o que pensava a respeito do evangelista, disse: “Eu
lhe digo, homem, todos os domingos em que assisto ao culto na igreja desta paróquia posso
construir um navio desde a proa à popa durante o sermão; mas para salvar a minha alma, ouvindo
o Sr. Whitefield, não posso pregar nem uma taboa”.
O Sr. Benjamin Franklin, que morava em Filadélfia nessa ocasião, assim descreve a sua
impressão acerca do evangelista:
“Eu não podia”, diz o filósofo, “aprovar a construção do prédio-orfanato em Savanah.
Geórgia não tinha recursos, nem homens, nem materiais, e assim foi proposto que os órfãos
fossem mandados para Filadélfia, mesmo com bastante despesa. Eu julgava que teria sido melhor
se tivessem construído o prédio-orfanato em Filadélfia, e se tivessem levado as crianças para lá.
Opinei por isto, porém ele foi resoluto e rejeitou o meu conselho; eu, portanto, recusei contribuir.
Logo depois que assisti a uma pregação dele, e no correr do seu discurso, percebi que ia tirar uma
coleta. Eu disse com os meus botões que ele não receberia nenhum vintém de mim. Tinha na
bolsa um bocado de moeda de cobre, três ou quatro de prata e cinco moedas de ouro. Não tinha
prosseguido muito tempo no seu discurso quando amoleceu um pouco o meu coração e resolvi dar
as moedas de cobre; mais um golpe de sua eloqüência me envergonhou e resolvi dar as moedas
de prata, e concluiu o seu discurso tão admiravelmente com uma chave de ouro que resolvi
despejar tudo que tinha na bolsa. Nesta mesma ocasião havia um homem, membro do mesmo
clube, que partilhava comigo dos mesmos sentimentos quanto à construção do orfanato em
Geórgia; suspeitando que haveria uma coleta, preveniu-se, deixando todo o seu dinheiro em casa.
Mas, antes de findar o discurso, sentiu-se disposto a dar e falou com um amigo que ficava perto
dele pedindo algum dinheiro emprestado para sua oferta. O pedido foi dirigido talvez ao único
homem em toda a multidão que tinha firmeza de não ser persuadido pelo pregador. A resposta
dele foi: ‘Em qualquer outra ocasião, amigo Hopkinson, de bom grado lhe emprestaria, mas agora
não, porque me parece que o amigo está fora de si’.”

O Sr. Whitefield, depois de percorrer diversas cidades, voltou para Savanah, levando 500
libras para o orfanato.
A família do orfanato aumentou para cento e cinqüenta pessoas, porém o povo, vendo a
necessidade de tal instituição, continuou a ajudar o Sr. Whitefield na manutenção da mesma. O
comissário em Charleston contrariou bastante o Sr. Whitefield nos seus planos referentes ao
orfanato, porém o povo estava do lado dele e não desanimou. Mas o Sr. Whitefield não foi feito
para um lugar pequeno, precisava de bastante expansão para os seus talentos; assim tornou -se
um itinerante continental. Entregou o trabalho do orfanato a certos agentes, ou diretores, e
entregou-se à evangelização.
Fez mais uma viagem para o Norte, visitando todas as colônias até Massachusetts. O povo
dos lugares por onde andava afluía às suas pregações. O governador da colônia de
Massachusetts o levava de cidade em cidade, em seu próprio carro. Quando pregou o sermão de
despedida na cidade de Boston, na praça pública, havia mais de vinte mil pessoas presentes.
Ele não deixava de condenar os vícios e maus costumes da época, como prova a seguinte
citação do diário do Dr. Samuel Hopkins:
“Ele pregou contra as danças mistas e a liberdade que existia entre os moços e as moças,
como era o costume geral nesta época na Nova Inglaterra. Alguns ficaram ofendidos,
especialmente os jovens. Porém eu me lembro que sempre dava razão a ele no meu modo de
pensar, e nas minhas conversas o defendia perante aqueles que estavam dispostos a condená-lo.
Isto foi em 1740, quando eu estava no último ano do colégio”.
O Sr. Whitefield, falando sobre o trabalho que tinha feito na América durante esta visita,
diz: “Faz agora setenta e cinco dias desde que cheguei em Reedy Island. Naquela ocasião o meu
corpo estava bastante fraco, porém o Senhor tem renovado as minhas forças. Tenho podido
pregar, parece-me, cento e setenta e cinco vezes em público, não mencionando as muitas
exortações que tenho feito em particular. Viajei mais de oitocentas milhas e levantei 700 libras em
viveres e dinheiro para os órfãos em Geórgia. Nunca fiz as viagens com tanta facilidade e sem
cansaço, e nunca testemunhei tanto a continuação da presença divina nas congregações às quais
tenho pregado. Bendize, minha alma, a Jeová”.
Depois de visitar a Bethesda (nome que deu ao orfanato) em Dezembro, embarcou para a
Inglaterra em janeiro de 1741.

V – DIVERGÊNCIA E A SEPARAÇÃO DOS WESLEY
É triste saber que às vezes os maiores e melhores servos de Deus, por falta de
compreensão das coisas têm de se separar uns dos outros. Abraão e Ló, não podendo viver e
trabalhar juntos, amigavelmente separaram-se e igualmente São Paulo e Barnabé, não podendo
combinar sobre os seus planos de trabalho, separaram-se. E agora temos chegado ao ponto em
que os Wesley e o Sr. Whitefield não podem mais trabalhar unidos.
Até aqui tinham andado juntos em harmonia, porém chegou a época em que eles tinham
de definir-se quanto às doutrinas que iam aceitar e ensinar.
1. A causa da separação.
O metodismo no princípio levava diversos elementos latentes que mais tarde viriam a
manifestar-se. Havia dois elementos que não podiam permanecer por muito tempo sem criar
choques e incompatibilidades e estes elementos eram o Arminianismo (salvação pela graça) e o
Calvinismo (eleição divina dos que serão salvos).
Os srs. João e Carlos Wesley inclinaram -se para o Arminianismo e o Sr. George Whitefield
para o Calvinismo. É claro que estes três grandes vultos não podiam continuar por muito tempo
sem manifestar as suas convicções em termos claros. Já chegava o dia para tal coisa acontecer.
Para maior clareza citaremos o bispo MacTyere sobre este ponto:
“Até aqui os dois irmãos Wesley e o Sr. Whitefield têm trabalhado juntos. O Sr. Wesley
uma vez perguntou: ‘Não temos nós nos inclinado demais para o Calvinismo?’ O Sr. Whitefield sem
dúvida sentia que tinha se inclinado demasiado para o Arminianismo. E essa tendência
forçosamente tinha que se manifestar nas mentes vigorosas e sinceras, até que uma base
consistente, para não dizer científica, se estabelecesse. Cada um destes elementos se
manifestava cada vez mais. Não havia meio termo quanto ao sistema adotado. Agora chegava a
ocasião desagradável em que os dois partidos tinham que se manifestar, sendo inevitável a
separação. A associação e os estudos que o Sr. Whitefield tinha tido com crentes na Nova
Inglaterra concorreram para confirmá-lo no Calvinismo e ele não deixou de comunicar as suas
idéias na Velha Inglaterra e com bastante sucesso. O Calvinismo latente e o Arminianismo latente
no Metodismo começaram a lutar um com outro, como os gêmeos Esaú e Jacó lutaram no ventre
de Rebeca. Depois do nascimento eram ainda irmãos, mas tinham que viver separados um do
outro”.
“O primeiro aviso deste rompimento, ainda segundo o bispo MacTyere, se deu do seguinte
modo na sociedade de Londres: Um dos líderes, o Sr. Acourt, tinha introduzido as suas idéias
calvinistas na Sociedade, o que fez o Sr. Carlos Wesley dar ordens para que fosse excluído. Mais
tarde o Sr. João Wesley estava presente quando o Sr. Acourt apresentou-se querendo saber se
era permitido excluir um membro da sociedade porque tinha opiniões diferentes dos outros. O Sr.
Wesley respondeu: “Não”. Mas perguntou quais eram as opiniões às quais ele se referia. Ele
replicou: “Sobre eleição. Eu creio que há um certo número de eleitos desde a eternidade, e este
número deve e será salvo, e o resto da humanidade deve e será condenada”. E Sr. Acourt afirmou
que muitos outros da Sociedade tinham a mesma opinião. Então o Sr. Wesley fez a observação
que não tinha perguntado se tinha tal opinião ou não; “somente que elas não incom odassem os
outros, discutindo tal assunto”. O Sr. Arcourt disse: “Não, mas hei de discuti-lo”. “Porque é então”,
disse o Sr. Wesley, “que o senhor quer entrar no nosso meio se tem opiniões diferentes?” “Porque
os senhores estão errados e eu vos quero endireitar”. “Tenho receio”, disse o Sr. Wesley, que a
sua vinda entre nós não trará proveito para o senhor e nem para nós”. Então replicou o Sr. Acourt.
“Vou publicar a todo mundo que o senhor e seu irmão são profetas falsos. E eu vos asseguro que
no prazo de quatorze dias estareis numa grande confusão”.
E estas opiniões se manifestaram entre outras sociedades e para restabelecer a sua
posição o Sr. João Wesley publicou o seu sermão sobre “A livre Graça”. Algumas copias deste
sermão chegaram até a América. O Sr. Whitefield, ajudado por alguns amigos americanos,
preparou uma resposta que foi publicada em Boston e em Charleston e, quando chegou a
Inglaterra, também em Londres. (Antes de embarcar para a Inglaterra o Sr. Whitefield, estando em
Bethesda, Geórgia, escreveu uma carta para o Sr. João Wesley queixando-se dele. Logo depois,
chegando em Londres, começou a atacar João Wesley pela imprensa e pelo púlpito. O Sr.
Whitefield fez isso com sinceridade e convicção, pois escreveu para o Sr. Wesley dizendo: “Se a
natureza falasse, eu preferiria morrer a atacá-lo, mas hei de ser fiel a Deus, e à minha alma e às
daqueles que me ouvem; não posso ficar neutro por mais tempo”.
O Sr. Wesley o procurou para conversar com ele sobre o assunto. Encontramos no Diário
de Wesley o seguinte: “Tenho ouvido bastante do tratamento cruel que o Sr. Whitefield tinha me
dispensado depois da sua chegada da América; fui ter com ele para ouvir dele mesmo de modo
que pudesse julgar o caso. Gostei da franqueza com que ele me falou. Ele me disse: “Que ele e eu
pregávamos dois evangelhos, e, portanto, não podia cooperar comigo nem dar a destra de
comunhão, porém estava resolvido a pregar publicamente contra mim e o meu irmão por toda parte
onde pregasse”. O Sr. Hall (que tinha ido comigo) lhe fez lembrar-se do compromisso que tinha
assumido havia poucos dias que – “quaisquer que fossem as suas opiniões particulares, nunca
pregaria publicamente contra nós”. Ele respondeu: “Aquele compromisso era somente da fraqueza
humana; agora tinha outra opinião”.
2. A construção do Tabernáculo de Moorfields.
Os amigos do Sr. Whitefield construíram um tabernáculo de madeira perto da Frondry,
onde o Sr. Wesley trabalhava. Os outros pregadores metodistas que eram calvinistas o ajudaram
por alguns anos. Como o Sr. Whitefield viajava muito e, portanto, não podia zelar bem pelo
trabalho em Londres, este não florescia como os seus amigos esperavam. Depois de uma longa
viagem de quatro anos na América, quando voltou em 1748, encontrou a congregação espalhada.
A história se repete e aquilo que é feito em rivalidade com o fim de desprestigiar um servo
de Deus não pode ser bem sucedido e gozar a benção de Deus. Assim terminou o tabernáculo de
Moorfields.
3 . A reconciliação entre os evangelistas.
Devemos lembrar que tudo que o Sr. Whitefield fez, fê-lo com sinceridade e não por
ostentação ou vanglória, e quando descobria que tinha errado, estava sempre pronto para
confessar os seus erros e faltas.
Como o Sr. Wesley não quis falar mal do seu amigo e não permitia que os seus amigos o
fizessem, estava o caminho sempre aberto para uma reconciliação.
Quando o Sr. Whitefield estava ainda na América, escreveu uma carta ao Sr. João Wesley,
usando de uma linguagem forte e descortês. Alguém publicou esta carta e começou a distribuí-la
entre os crentes da capela de Wesley. O Sr. Wesley, descobrindo-a, arranjou uma cópia, pouco
antes de subir ao púlpito para pregar. Terminando o seu discurso, tirou a carta impressa, e chamou
a atenção de todo o povo, explicando a infelicidade do caso, e fez com ela o que julgava que faria
o Sr. Whitefield se estivesse presente naquela hora: rasgou-a em pedaços. Num instante todos na
igreja que tinham uma cópia fizeram o mesmo.
Não levou muito tempo para o Sr. Whitefield procurar uma reconciliação com o seu antigo
amigo. Antes de terminar o ano de 1741 o Sr. Whitefield escreveu ao Sr. Wesley nos seguintes
termos: “Queira Deus remover todos os obstáculos que obstam a nossa união, que desapareçam
todas as discussões, que cada um de nós não fale mais nada senão em Jesus e este crucificado...
Esta é a minha resolução. Estou sem dissimulação. Eu reconheço que te amo tanto agora como
sempre, e oro a Deus para que, se for de sua vontade, sejamos todos unidos em um”.
Alguns anos depois Whitefield, falando sobre isto, disse: “Tantos quantos têm sido os
meus erros, ou que podem ser no futuro, estou sempre pronto a confessá -los e corrigi-los, visto
que é o intuito do meu coração servir e glorificar a Deus”.
Fizeram as pazes, mas nunca mais trabalharam juntos , porém sua amizade continuou até
o fim. Uma prova disto vê-se no seguinte fato: Antes da morte de Whitefield, na América, deixou
ele o seguinte no testamento: “N. B. Eu, também, deixo um anel para os meus honrados e
abnegados colaboradores, os Srs. João e Carlos Wesley, em lembrança da minha inquebrantável
união com eles no coração e amor cristão, apesar de nossa diferença em juízo acerca de alguns
pontos doutrinais e especiais”.
E também foi o desejo expresso do Sr. Whitefield que João Wesley lhe pregasse o sermão
memorial. E lemos no diário de Wesley sobre este ponto o seguinte: “Sábado: 1º de novembro de
1770. Voltei para Londres e recebi a triste notícia da parte dos testamenteiros, confirmando a
morte do Sr. Whitefield, e eles me pediram para pregar o sermão memorial no próximo domingo,
dia 18. Para escrever o meu discurso fui segunda -feira a Lewisham, e no domingo seguinte fui a
Chapel in Tottenham Court Road. Havia uma imensa multidão reunida de toda parte da cidade.
Tinha receio que uma grande parte da congregação não pudesse ouvir; mas foi do agrado de Deus
fortalecer a minha voz de maneira que até aqueles que se achavam às portas me podiam ouvir. Foi
uma ocasião solene; todos ficaram silenciosos como a noite; todos ficaram profundamente
comovidos; e muitos ficaram impressionados e espero que a impressão não seja facilmente
removida”.
Assim estes dois servos de Deus conservaram a sua amizade através dos anos, mesmo
não podendo concordar sobre alguns pontos teológicos. Como Pedro foi o Apóstolo aos da
circuncisão (judeus) e São Paulo o Apóstolo aos da incircuncisão (gentios), assim também o Sr.
Whitefield foi o campeão do Calvinismo e o Sr. João Wesley o do Arminianismo. Como partido da
circuncisão desapareceu da Igreja Cristã, assim o ramo calvinist a desapareceu do Movimento
Metodista.
4. Sua atividade na Grã -bretanha e seu casamento.
Quando o Sr. Whitefield voltou da América, não encontrou o povo tão entusiasmado pelas
suas pregações. Tinha perdido a sua popularidade. A divergência com os Srs. Wesley concorreu
em parte para produzir tal reação, e além disso tinha uma dívida de 1000 libras pesando sobre ele,
dívida esta proveniente do orfanato, e mais ainda, tinha cem pessoas no orfanato dependendo
dele. Foi um período muito triste em sua vida. Um dos seus amigos mais abastados tinha falecido,
deixando um compromisso com o orfanato que também caiu sobre ele. Foi ameaçado de prisão. E
ele chamou a esta época em sua vida de “época de provas”. Ele diz: “Muitos e muitos dos meus
filhos espirituais, quando embarquei para a América na última vez, teriam arrancado os seus
próprios olhos para mim, mas agora estão tão cheios de preconceitos para comigo, devido aos Srs.
Wesley terem pintado a doutrina da eleição com cores tão horríveis, que não querem nem me ver,
ouvir ou ajudar em coisa alguma”.
Mas a sua sinceridade e eloqüência não puderam ser resistidas e logo a sua popularidade
antiga voltou, e as multidões o ouviram com proveito e prazer.
Em 1741 foi convidado por Ralph e Ebenezer Erskine para visitar a Escócia. Na Escócia foi
muito bem sucedido. Talvez tivesse mais influ ência sobre os escoceses do que sobre os próprios
ingleses. Ele não quis submeter-se a qualquer seita (grupo doutrinário), mas queria pregar a todos
sem reconhecer as barreiras levantadas pelo sectarismo. Ele assim descreve o seu trabalho:
“Glória a Deus, ele está fazendo maravilhas aqui. Ando na luz da presença de Deus. As
congregações consistem em milhares de pessoas. Nunca vi tantas bíblias nem tanto interesse da
parte do povo em examiná-la durante as minhas pregações. Muitas lágrimas foram vertidas. Prego
duas vezes por dia, e exponho a Palavra em casas particulares à noite e estou ocupado em
conversas com as pessoas interessadas durante grande parte do sai”.
Da Escócia passou a visitar Galles onde tinha pregado três ou quatro anos antes. Durante
esta visita casou-se com uma viúva que se chamava Janes. Mas não foi muito feliz no casamento.
Voltando de Galles para Londres, passou ali algum tempo, pregando no tabernáculo, e em
Moorfields, onde atraiu grandes multidões. Os diretores dos teatros queixaram -se porque o povo
deixava os teatros para assistir às pregações de Whitefield.
Tornando a visitar a Escócia outra vez, foi bem sucedido nesta visita. Ele atraia não
somente o povo humilde e pobre, mas também os ricos e aristocratas. Quando ele voltou para
Londres, trouxe consigo 500 libras para o orfanato e achou cartas dos seus amigos na América em
que prometiam ajudá-lo na manutenção daquela instituição. Tudo isto alegrou o seu coração. E
depois de fazer mais algumas viagens na Inglaterra e em Galles, embarcou para a América em
agosto de 1744.

VI – AS SUAS VIAGENS DE EVANGELIZAÇÃO NA GRÃBRETANHA E NA AMÉRICA.
Temos de abreviar a narração acerca das suas atividades na América e na Grãbretanha, pois o espaço não permitirá estendermo-nos sobre os trabalhos dele durante os últimos
vinte e cinco anos.
1. Trabalhando na América.
Voltando à América em 1744, visitou diversas colônias, pregando onde passava, com
muita aceitação do povo. Demorou quatro anos na América e durante este tempo teve que manter
o orfanato, porém sempre encontrou boa vontade entre seus amigos para ajudá-lo nesta tarefa.
O povo de Charleston na Carolina do Sul, sempre o serviu como seu braço direito na
manutenção desta instituição. Durante esses quatro anos percorreu todas as colônias americanas
e sempre foi bem recebido na Nova Inglaterra.
2. Trabalhando na Grã-Bretanha.
Em 1748 voltou à Inglaterra, mas quando foi a Londres encontrou o tabernáculo quase
abandonado e o povo em desânimo e espalhado. Este empreendimento que foi inspirado em parte
para contrariar o Sr. Wesley fracassou e desapareceu.
Achava-se ele endividado e não tinha com que pagar as dívidas. Foi obrigado a vender
todos os bens que tinha e isto não chegou para satisfazer os seus compromissos para com o
orfanato. Felizmente foi exatamente nesta época que chegou a conhecer a condessa Lady
Huntingdon, que se tinha identificado com os Metodistas, e ela o convidou para ser o seu capelão
particular, pois ela aceitava o calvinismo. Ela o ajudou, e por seu intermédio tinha contato com
pessoas importantes. Whitefield tinha dons tais que podia identificar-se com os pobres escravos e
também com as mais altas pessoas da sociedade.
Por alguns anos ele fez viagens de evangelização na Inglaterra, Escócia e Irlanda, e
durante este período a Condessa Huntingdon construiu um grande tabernáculo em TuttenhamRoad – Londres, onde o Sr. Whitefield pregou por alguns anos às multidões. Em 1753 publicou o
seu hinário e em 1754 assumiu a direção do trabalho no tabernáculo de Tottenham-Road, que é
conhecido até hoje como o Tabernáculo de Whitefield.
A última vez que esteve na Inglaterra, o Sr. João Wesley o encontrou e ficou
impressionado com o seu estado físico. Ele assim fala no seu diário: “Parecia um homem velho,
completamente gasto no serviço do seu Mestre, apesar de não ter mais que cinqüenta anos de
idade. Quando a saúde lhe ia faltando, limitava-se a pregar só uma vez por dia durante a semana e
três vezes aos domingos. Tinha pregado de quarenta a sessenta horas por semana ou de sete
para dez horas por dia. Não é de se admirar que o seu físico sofresse alguma alteração. ”
3. Sua última visita à América e sua morte.
O Sr. Whitefield tinha atravessado o Atlântico treze vezes e tinha andado pelos três reinos
da Grã-bretanha e percorrido as treze colônias americanas desde Boston e Savanah, em Geórgia;
tinha pregado mais de 18 .000 vezes falando de uma até três horas de cada vez; já estava
chegando ao fim da jornada, não tendo mais que cinqüenta e seis anos de idade.
Chegou à América em 1769, um homem cansado e doente, sob o cuidado do médico.
Quando alguém dizia qualquer coisa sobre o excesso que fazia em continuar o seu trabalho,
respondia: “Prefiro ser gasto a ser comido pela ferrugem”.
Visitou a Bethesda, em Geórgia, e ali passou o inverno com muita satisfação. Tudo ia bem
e em paz. Na primavera encetou o seu itinerário para visitar as colônias do Norte. Em Nova York
teve a felicidade de se encontrar com os primeiros miss ionários metodistas mandados pelo Sr.
Wesley, os Srs. Joseph Pilmoore e Richard Boardman.
Ele os abençoou e continuou a sua viagem para Boston. O precursor do Metodismo estava
na véspera de sua partida e os seus sucessores já tinham chegado para continuar o trabalho.
Pregou algumas vezes pelo caminho, mas não chegou à cidade de Boston antes de ser
arrebatado para o céu.
Vamos terminar citando o bispo McTyeire:
“Na manhã do dia de sábado, 29 de setembro de 1770, ele começou a viagem para
Boston, mas antes de chegar em Newburyport, onde tinha prometido pregar no dia seguinte,
insistiram com ele para pregar pelo caminho em Exeter. Um amigo, notando que se mostrava um
pouco nervoso e inquieto, disse: “O senhor está precisando da cama mais do que do púlpito”. A
isto o Sr. Whitefield respondeu: “É verdade, senhor; mas virando-se para um lado, unindo as mãos
e erguendo-as para o céu, disse: “Senhor Jesus, estou cansado no teu trabalho, porém não do teu
serviço. Se não ESTÁ AINDA COMPLETA a minha missão, deixa-me ir e falar em teu nome mais
uma vez ao ar livre, se for a tua vontade, e voltar para casa e morrer”. Ele pregou ao ar livre para
acomodar a multidão que veio para ouvi-lo, não havendo uma casa que pudesse acomodá-la.
Prolongou o seu discurso por duas horas, e sentiu-se depois muito fatigado. Aquela tarde
continuou a viagem para Newburyport, aonde chegou tarde e logo deitou para descansar,
esperando pregar ali no dia seguinte. Acordou-se muitas vezes durante a noite, sentindo um peso
nos pulmões e respirando com dificuldade. Oprimido pela asma, assentado na cama, cedo de
manhã, orava a Deus, pedindo que abençoasse as pregações daquele dia para que mais almas
fossem levadas a Cristo; e orou para que Deus o dirigisse sobre os seus planos se devia ficar
durante o inverno em Boston ou voltar para o sul; pediu uma benção sobre o seu trabalho e amigos
tanto na América como na Europa e, especialmente sobre o Orfanato e o Tabernáculo. Às seis
horas levantou-se e correu à janela para aspirar o ar fresco, e disse ao empregado: “ Estou
morrendo”, e, assentando-se na cadeira, expirou. Foi enterrado embaixo do púlpito da Igreja
Presbiteriana, Federal Street, Church Newberyport, e ali jazem os seus restos mortais até os dias
de hoje”.
IV
A vida de John de La Fletcher,
o santo do Movimento Metodista
(1729-1785)
Entre os nomes, na lista dos sete diáconos escolhidos pela Igreja Primitiva, o primeiro que
encontramos é o de Estevão. O nome dele não é somente o primeiro da lista, mas é o único sobre
o qual o escritor faz observação, e esta é a observação: “Estev ão, homem cheio de fé e do Espírito
Santo”.
A mesma coisa se pode dizer acerca de John Fletcher, homem cheio de fé e do Espírito
Santo. Se houvesse qualquer homem entre os fundadores do Metodismo que pudesse ser
chamado santo, seria John Fletcher.

I – SEUS PRIMEIROS ANOS
1. Seus pais.
Pouco se sabe a respeito dos seus pais. Sabemos que ele era oficial no exército francês.
Mais tarde deixou o exército e se casou e depois de algum tempo entrou no exército do seu próprio
país, a Suíça, chegando a ocupar o posto de coronel. Sua família era mui respeitável no condado
onde residia. De sua mãe, quase nada se sabe; contudo, podemos dizer que era boa e piedosa.
2. O nascimento e alguns incidentes em sua mocidade.
John Guilherme De La Fletcher nasceu em Nyon, na Suíça, em 12 de setembro de 1729. A
cidade de Nyon fica a quatro léguas para o norte de Genebra.
Dizem que quando alguém especial pe destinado por Deus para fazer um serviço especial
no mundo, logo na vida do tal se manifestam certos sinais de superioridade. Uma coisa que mui
cedo se manifestou na vida deste menino foi a impressão profunda que ele tinha da majestade de
Deus e o receio de ofendê-lo. E, também, tinha uma consciência muito sensível. É oportuno um
exemplo: Um dia, tendo ofendido a seu pai, fugiu dele; mas quando estava correndo veio-lhe esta
idéia: “O que? Estou fugindo de meu pai? Talvez terei algum dia um filho que fugirá de mim”. E ele
não podia se esquecer dessa impressão.
Também, já aos sete anos de idade, um dia foi repreendido pela ama que lhe disse: “Você
é um menino mau. Não sabe que o diabo leva consigo os meninos malvados?” À noite, quando se
deitou, lembrou-se da repreensão da empregada e começou a refletir nas palavras dela,
imaginando o que seria dele se o diabo viesse aquela mesma noite. Para acalmar-lhe a
consciência levantou-se e fez oração até que sentiu o amor de Deus em sua alma e então,
sentindo-se seguro, deitou-se para dormir.
Como filho era obediente, e para com os irmão s e irmãs era de exemplaríssimo proceder.
Constantemente verberava ele o pecado praticado pelos seus amigos. Um dia sua mãe, que ele
tanto amava, falou asperamente a um dos membros da família. Olhou-a ele então, dando a
entender assim o seu desagrado. Também disso não gostou ela e o repreendeu energicamente.
Ele se submeteu humildemente, dizendo: “Quando alguém me dá na face direita, voltou-lhe
também a outra”. Estas palavras não foram ditas com arrogância, mas com humildade e mansidão.
E a sua mãe, imediatamente, mudou de atitude para com ele. Realmente essa disposição o
caracterizou durante toda a sua vida; não podia ver alguém praticar uma injustiça sem lavrar o seu
protesto, mas sempre o fez no espírito de amor.
Durante a mocidade, por várias vezes, quase perdeu a vida. Certa vez ele e seu irmão
brincavam de esgrima, mas, em vez de usarem espadas de pau, usavam espadas de fato com
botão na ponta. Ao brincarem deu-lhe o irmão um golpe; aconteceu, porém, que o botão da espada
rachou e a ponta feriu João, no lado, e quase o matou, deixando cicatriz que levou até o tumulo.
Doutra vez foi um rio. Como sabiam nadar bem, arriscaram-se demais, especialmente
John que avançou para o meio do rio, cuja correnteza forte não podia vencer, sendo levado água
abaixo. John fez um esforço supremo para voltar à terra, mas não pode, pois, a correnteza era
mais forte do que ele. Vendo-se assim em tão grande perigo e com as forças exaustas, entregouse à mercê das águas. Um homem que o viu de longe e reconhecendo o grande perigo em que se
achava o rapaz, fitou-lhe os olhos, pois não havia nada que pudesse fazer para livrar. Já se estava
aproximando de um dique onde a água tinha que passar num rego e sair debaixo do moinho que
ficava à margem do rio. Quando o moço entrou no rego, a correnteza o levou com tanta força que
o jogou contra uma pedra em que bateu de cheio com o peito. O choque foi tão forte que ele
perdeu os sentidos. Vinte minutos depois seu corpo apareceu água abaixo de onde foi tirado e
levado para casa. Anos depois Fletcher, falando sobre isso, disse: “Quando recuperei os sentidos
estava calmo num lugar seguro e inteiramente bom, sem qualquer dor ou cansaço. Não tinha falta
de coisa alguma, senão a minha roupa, que ficara a mais de uma légua distante onde a tinha
deixado”.
3. Seus estudos.
John Fletcher, cedo, na vida manifestará muito interesse nos seus estudos; sendo um
menino inteligente, adiantava-se rapidamente na escola. No princípio estudou em sua própria
cidade de Nyon; mais tarde ele e dois irmãos foram levados para Genebra para continuarem os
estudos. Ali, não tardou em revelar sua superioridade intelectual, ganhando até dois prêmios.
Havia diversos alunos em sua classe e alguns, filhos dos próprios professores, mas, mesmo assim,
ele ganhou os prêmios com louvores dos próprios mestres.
Muito aplicado, aferrava-se aos livros com assiduidade recreiando -se pouco. Depois dos
estudos do dia, gastava algumas horas à noite para notar os pontos de mais importância que
estudara durante o dia. Foi desta maneira que lançou os alicerces de uma erudição que o
distinguiu, tanto em filosofia como em teologia. Depois de completar o curso na universidade em
Genebra seu pai o mandou passar algum tempo no condado de Lentzburgo onde podia estudar e
aprender a língua alemã e ao mesmo tempo ele continuaria a estudar outras matérias pelas quais
tivesse inclinação.
Terminando o curso em Lentzburgo voltou para casa em Nyon onde se dedicou por algum
tempo ao estudo da língua hebraica e aperfeiçoando-se em matemática.
4. O desejo de ser um soldado.
Quando terminou os estudos, era a vontade dos seus pais que ele entrasse no ministério,
porém Fletcher julgava que não era digno de ser um ministro de Cristo e revelou o seu desejo de
ser um soldado como seu pai o era. Portanto, apesar do protesto dos pais e amigos mais íntimos,
que julgavam, se houvesse alguém que estivesse habilitado pelos dons naturais e preparo que
tinha e respeito à religião e a Deus, para entrar no santo ministério, seria ele, estava ele resolvido a
seguir a carreira militar. Alguns anos depois, pela carta que escreveu a João Wesley, descobrimos
os seus motivos íntimos sobre este ponto.
Ele disse: “Desde que senti o amor de Deus no meu coração, quando tinha sete anos de
idade, resolvi entregar-me a Ele e ao serviço da Igreja, se me sentisse em condições de fazê-lo,
mas a corrupção que se encontra no mundo e também no meu próprio coração, concorreram para
enfraquecer essa convicção que tinha no princípio. Contudo, fiz os meus estudos com o intuito de
entrar em ordenanças da Igreja; no entanto, mais tarde, sentindo que não era digno, nem bastante
forte no meu espírito para assumir tanta responsabilidade e, também, desgosto pela necessidade
que tinha de aceitar a doutrina da predestinação (calvinismo), cedi à vontade de alguns dos meus
amigos que insistiram que entrasse no exército. Antes, porém, de o conseguir, devido a tantos
empecilhos e desapontamentos, resolvi ir à Inglaterra”.
O Sr. José Benson alega que três foram os motivos que levaram Fletcher a não querer o
ministério, que são: “1º - Porque ele julgava que não tinha as qualidades necessárias para tão
santo trabalho; 2º - Porque tinha escrúpulos em aceitar a doutrina da predestinação que o
ministério na Suíça tinha que aceitar; 3º - Porque não quis ocupar um ofício tão sagrado como
meio de ganhar a vida, ou deixar qualquer idéia profana o vencer”.
Não podendo conseguir a aprovação dos pais nos seus planos para o serviço militar,
resolveu deixar o seu país e ir para Portugal. Chegando em Lisboa ajuntou-se com alguns dos
seus patrícios e se ofereceram ao rei para serviço num navio de guerra que estava prestes a partir
para o Brasil. Escreveu ele então uma carta a seus pais pedindo grande quantia para ser
empregada em negócios no Brasil, no que foi grandemente desapontado, pois seus pais não o
atenderam no pedido.
Firme no propósito, assentou de ir, mesmo sem dinheiro, naquele navio. Mas enquanto se
demorava, o navio partiu; a demora teve seu motivo: num dia, pela manhã, enquanto a empregada
lhe servia o chá, virou-se a chaleira que lhe escaldou a perna. Ficou tão mal que por alguns dias
esteve de cama. Foi num desses dias que partira o navio e o deixara. É curioso notar que esse
navio desapareceu e não se sabe qual fora o seu destino.
Não podendo arranjar uma colocação em Portugal resolveu experimentar a sua sorte na
Holanda, que estava em guerra nessa época, pois, no exército holandês tinha um tio oficial por
meio do qual esperava entrar no mesmo exército. Porém, aconteceu que antes de poder conseguir
o seu ideal, terminou a guerra na Holanda; falecendo logo depois o seu tio no continente, resolveu
ir para a Inglaterra, abandonando a idéia de militar.
5. Como preceptor em família particular.
Chegando em Londres teve que passar na alfândega. Com ele seguiram alguns viajantes
estrangeiros. Os oficiais os trataram com aspereza e crueldade, apanhando-lhes as cartas de
recomendação, alegando que as mesmas tinham de ser remetidas pelo correio.
Uma vez livres da alfândega, foram para um hotel, mas, como não falavam o inglês,
tiveram dificuldade em trocar o dinheiro. Foi quando John Fletcher viu um judeu bem vestido
conversando em francês. Contou-lhe a dificuldade em que se achavam, ao que disse o judeu: “Dême o seu dinheiro e eu lhe arranjarei o troco em cinco minutos”. Imediatamente Fletcher lhe
entregou sua carteira em que levava noventa libras e o homem desapareceu. Quando Fletcher
contou o fato a seus colegas começaram a dizer-lhe: “Então o seu dinheiro está perdido, pois há
sempre sujeitos bem vestidos esperando aqui, prontos para lograr pessoas estranhas”. Vendo
agora que o único recurso para o caso era entregar o negócio a Deus, assentou -se à mesa para
comer, porém antes de terminar a refeição entrou o judeu trazendo o troco certo.
Querendo estudar a língua inglesa procurou alguém que lhe pudesse ensinar. O Sr.
Burchell, que tinha uma escola em South Mimms, no condado de Hestfordshire, foi lhe
recomendado, tornando-se Fletcher seu aluno por dezoito meses. Passado esse tempo Burchell
mudou para Haftfield e Fletcher o acompanhou, dedicando-se ao estudo de inglês e literatura. Ele
por natureza era um homem cortez e pelos seus estudos tornou-se um homem erudito. Dai o
conceito que gozava do povo sendo sempre bem-vindo entre as famílias cultas, na cidade de
Hatfield. Deus estava com ele e ele tinha o temor de Deus em seu coração, porém não havia
alguém que pudesse guiá-lo nos caminhos do Senhor.
Decamps, o ministro francês a quem tinha sido recomendado, procurou -lhe uma colocação
na casa de Thomaz Hill como tutor dos seus dois filhos. O Sr. Hill morava em Turnhall, no condado
de Shropshire.
Fletcher então fixou residência com a família do Sr. Hill, em 1752, e logo principiou a sua
tarefa de ensinar estes dois jovens, o que fez até o ano de 1760. Quando a família assistia em
Londres às sessões do Parlamento, ele a acompanhava e o resto do tempo ficava em Turnhall.

II – SUA CONVERSÃO
1. Sua sinceridade antes da sua conversão.
Até aqui temos testemunhado a sinceridade de Fletcher, mas ele ainda não era convertido.
Um domingo de tarde estava ele trabalhando em escrever música e uma das empregadas de Hill o
repreendeu, dizendo: “Oh, meu senhor, estou triste por ver o Sr. trabalhando assim no dia do
Senhor”. Quando ouviu estas palavras, ficou contrariado; no entanto, depois de refletir bem, julgou
que ela tinha razão, que fez aquilo para o seu próprio bem. Largou o serviço e entregou-se a
outras coisas mais de acordo com o dia, e dali em diante tornou-se um observador escrupuloso do
dia do Senhor.
Embora houvesse manifestação de piedade muito cedo na vida de Fletcher, ele ignorava a
verdadeira natureza do Cristianismo. Tinha muita confiança na retidão natural do homem, e
excedia a muitos no viver uma vida mais ou menos exemplar. Assim alguém o descreve: “Era
severamente justo nos seus negócios e inflexivelmente correto quanto à sua palavra; cumpria
escrupulosamente seus deveres para com os outros, em suas relações na vida; tinha sentimentos
liberais e uma caridade profusa. Sempre revelou prudência no seu proceder e cortesia em suas
relações com o próximo. Era diligente em buscar a verdade e extremado defensor da virtude;
meditava freqüentemente nas coisas sagradas, e assistia assiduamente ao culto divino”.
Era de esperar, pois, que um homem ornado de todas essas qualidades, fosse tentado a
crer que era superior aos demais homens em geral. Tendo todas essas boas qualidades, ignorava,
todavia, a natureza do verdadeiro arrependimento do pecado. Ele passou algum tempo na
Inglaterra antes de chegar a conhecer experimentalmente a natureza verdadeira do
arrependimento.
2. Sua conversão.
Por muito tempo, depois de chegar à Inglaterra, desconheceu a existência do povo
chamado Metodista. João Wesley nos conta como Fletcher chegou a descobrir os Metodistas.
Essa informação, recebendo-a Wesley do próprio Fletcher.
Diz Wesley: “Quando o Sr. Hill ia às sessões do Parlamento sempre levava a sua família e
o Sr. Fletcher consigo. Uma vez, quando eles pararam em Santo Albans, o Sr. Fletcher saiu para
passear na cidade, e não voltou em tempo para continuar a viagem com a família do Sr. Hill.
Deixaram-lhe, porém, um cavalo para ele seguir atrás. Assim fez, e antes de anoitecer ele os
alcançou. Quis então o Sr. Hill saber porque ficou atrasado e Fletcher respondeu: “Enquanto
estava passeando, encontrei uma senhora idosa e pobre que me falou tão suavemente acerca de
Cristo que não me lembrei do tempo”. A senhora Hill replicou: “Não me admirarei se o nosso tutor
passar a ser um Metodista qualquer dia”. “Um Metodista, senhora?”, respondeu Fletcher, “tenha a
bondade de me dizer o que é um Metodista”. Ela replicou: “O que? Os Metodistas são um povo
que não faz outra coisa senão orar. Eles oram de dia e de noite”. “Deverás?” disse Fletcher, “então
com o auxilio de Deus, vou procurá-los, se se acham sob re a terra”. E não tardou depois disto a
encontrá-los, ficando como um membro da S ociedade.
Daqui em diante quando estava na cidade assistia regularmente à classe de Richard
Edwards, recebendo tanto proveito espiritual que não perdia nenhuma oportunidade para assistir a
classe. Ele sempre se lembrava de Edwards com saudades, até ao dia da sua morte.
Logo depois de começar a assistir aos cultos dos Metodistas ele descobriu que não tinha
uma idéia clara acerca da natureza verdadeira da fé salvadora. Julgava que podia se salvar e
agradar a Deus fazendo muitas coisas. Mas um dia ouviu um sermão pregado pelo Rev. Green e
descobriu que não é pelas obras que o homem se salva, porém, pela fé. Era difícil para ele
compreender essa verdade, visto como tinha estudado teologia na universidade e escrito diversos
tratados sobre assuntos religiosos, recebendo até os parabéns dos mestres. Foi-lhe uma luta para
se dominar, pois, quanto mais se esforçava tanto menos animado se sentia com o resultado.
Chegou finalmente a descobrir que “enganoso é o coração acima de todas as coisas, e
gravemente enfermo; quem o poderá conhecer?” Ele assim descreve o seu estado nesta época:
“De minha parte, quando comecei a me conhecer a mim mesmo, então vi e senti que o homem é
um animal composto de uma natureza bestial e infernal. Tal descobrimento me deu um choque
terrível; abalou meu amor próprio e me encheu de horror. Procurou encobrir por algum tempo esse
estado lastimável. A impressão que tinha recebido de mim mesmo era tão profunda que dela me
não podia esquecer. Não valia de nada lembrar-me da moralidade que tinha praticado. Também
debalde os elogios que tinha recebido, dos meus superiores quanto à minha piedade e virtude. E,
igualmente em vão foi o esforço de lançar um véu sobre a minha consciência argumentando da
seguinte maneira: Se a conversão significa uma mudança completa, quem porventura se tem
convertido nestes dias? Por que estás imaginando que és pior do que realmente és? Tu crês em
Cristo; tu és um cristão; tu não tens feito mal a ninguém; tu não és um ébrio nem adúltero; tu tens
cumprido os teus deveres, não somente de um modo geral, mas, com exatidão toda especial; tu
assistes aos cultos assiduamente; tu oras mais do que outros e também com fervor. Não te
incomodes. Além de tudo Jesus Cristo sofreu pelos teus pecados, e os méritos dele suprirão tudo
que te falta”.
“Foi com esta maneira de raciocinar que procurei enganar -me a mim mesmo e esconder o
estado deplorável do meu coração. E agora, meus irmãos, tenho vergonha de ter procedido assim
comigo mesmo, sendo iludido pelas invenções de satanás e do meu próprio coração. Deus me tem
convidado; apóstolos, profetas e mártires me têm exortado, e a minha própria consciência,
iluminada pela graça divina que se manifesta no meu peito, tem me constrangido a entrar pela
porta estreita. No entanto, apesar de tudo isso, um gênio sutil, um mundo enganador e um coração
enganado têm concorrido, durante estes vinte anos da minha vida, para me conservar no caminho
largo. Já agora vejo que a época mais atraente da minha vida, passei-a no serviço desses tiranos,
e agora estou pronto a proclamar a toda a gente que o único galardão que tenho recebido consiste
em remorso e inquietação. Feliz teria sido eu se tivesse escutado os primeiros convites da graça
de Deus e assim quebrado o jugo de aço desses tiranos sobre o meu pescoço”.
Com essa revelação do seu estado moral ele procurou o perdão dos seus pecados,
lançando-se inteiramente sobre Cristo, confiando nele para a salvação. Agora, em vez de se
colocar numa categoria acima dos outros, ele se classifica com os principais pecadores. Sua
tristeza pelo pecado foi substituída pela satisfação de o Deus todo poderoso lhe ter perdoado os
pecados. Agora sente paz e alegria no coração. Sua conversão não era uma coisa imaginária,
porém uma realidade.
Uma vez acertado o caminho estreito que conduz à vida eterna ele se esforçou para nele
andar com toda a inteligência. Era muito inclinado ao asceticismo. Por exemplo, ele passava duas
noites em claro por semana a fim de ter mais tempo para orar, estudar e meditar, e o seu regime
era, agora, pão, leite e legumes. Tal foi o rigor das suas abnegações que veio, mais tarde, a
prejudicar a sua saúde.
Anos depois, refletindo nesta fase da sua vida, fez a seguinte confissão: “Tenho observado
que quando o corpo está fraco, é nessa ocasião que satanás ganha vantagem sobre a alma. É
sem dúvida o nosso dever cuidar bem da nossa saúde. Mas naquela época não sentia a
necessidade de sono de que eu mesmo me privava”.

III – SUA CHAMADA PARA O MINSTÉRIO
Tendo experimentado a conversão, logo se lhe levantou na mente a mesma pergunta que
fizera o apóstolo na ocasião de sua conversão: “Que farei, Senhor?” Não tardou a resposta, pois
começou a pensar em entrar no santo ministério.
1. Algumas circunstâncias que lhe influenciaram a entrada no ministério.
Uma das coisas que lhe influenciaram a entrada do jovem John Fletcher no ministério foi a
mesma que despertara o profeta Isaías, isto é, o estado moral dos seus patrícios. Ele sentia o
amor de Deus no seu coração e queria contá-lo aos outros. Mas, quando começou a falar no amor
de Deus, descobriu que a humanidade estava muito corrompida, que “o mundo inteiro está no
Maligno”.
Essa triste condição da humanidade provocou nele um desejo ardente de pregar o
Evangelho que podia melhorá-la e salvá-la. Muito tempo antes de aceitar a ordenação de ministro
ele pregou o Evangelho e foi bem sucedido, pois multidões lhe assistiam às conferências.
Tinha, também, muito jeito para escrever cartas aos seus amigos e conhecidos, sobre a
religião e nisto foi muito bem sucedido. Era seu costume, quando estava no sítio, assistir ao culto
divino na capela. Mas em vez de voltar com o Sr. Hill e sua família, preferia voltar a pé. Na volta
para casa, andando pelo rio Severn se entregava à meditação e oração.
Num domingo um dos servos piedosos do Sr. Hill quis ir com ele nesse passeio. E a
seguinte descrição dada pelo servo nos dá uma idéia do fervor espiritual que tinha Fletcher: “Era
nosso costume, quando terminava o culto, retirarmo-nos aos campos ou prados, onde geralmente
nos ajoelhávamos no chão. Era nessas ocasiões felizes que testemunhava os rogos e as lutas com
Deus, e tão grandes manifestações de fé e amor como não tenho observado em nenhum outro. A s
consolações que recebíamos de Deus nessas ocasiões, nos levaram a marcar duas ou três noites
por semana, depois de terminado o seu trabalho de ensino aos moços, para nos entregarmos à
oração. Também, nos domingos, fazíamos reuniões semelhantes entre quatro e cinco horas da
manhã.”
“Às vezes quando entrava no escritório dele durante os dias da semana, raras vezes o
encontrava lendo um livro senão a “Bíblia” e “O Padrão Cristão”. Raras vezes aparecia na
companhia de outras pessoas, senão para tratar dos negócios necessários, com exceção do
escritor destas linhas.”
O testemunho de um oficial do exército que foi seu professor de música é o seguinte:
“Creio firmemente que ele não deixou qualquer outra pessoa neste ou em outro país, que lhe fosse
igual: um luminar. Oxalá eu e todos que amam ao Senhor Jesus Cristo sejamos participantes
daquela santidade que lhe era tão conspícua”.
Sua consideração aos pobres levou-o a lhes praticar a caridade. Vê-se, pois, que tudo que
se manifestou em sua vida indicava que o seu coração estava propenso ao serviço do Senhor. E
além disso, também, os seus amigos e alguns ministros lhe falaram do ministério. Finalmente
atentou ele ser a vontade de Deus que ele fosse um ministro do Evangelho.
No caso de John Fletcher os três sinais, mencionados da Disciplina pelos quais se julga
que alguém é chamado para pregar, foram inteiramente satisfeitos. Pois, ele conhecia a Deus
como um Deus que perdoa o pecado, tinha dons tanto como graça para o trabalho e mostrava
frutos na conversão de pecadores, numerando seu próprio pai, como uma das pessoas que se
converteram, por via de seu trabalho.
2. Sua resolução de entrar no ministério.
Desde a hora de sua conversão sentia um desejo de servir a Deus e prestar o melhor
serviço em prol do Evangelho. Portanto, o ministério parecia o meio eficaz pelo qual podia dedicar
toda a força do seu ser e, assim fazendo, oferecer a mais rica oblação possível ao bom Pai de
misericórdias.
Por muito tempo sentiu na alma o desejo de pregar o Evangelho, porém, tinha receio de
falar nisso enquanto o seu desejo intimo não fosse satisfeito pela aprovação dos seus
semelhantes.
Foi neste estado de coisas que ele dirigiu ao Sr. João Wesley a seguinte carta:
“Tern, 24 de Novembro de 1756. Reverendo Senhor, como considero o Sr. o meu guia
espiritual, e não podendo duvidar de sua paciência em me ouvir e me responder acerca de uma
questão que um de sua Sociedade me sugeriu, desejo espontaneamente citá-la. Desde que
cheguei à Inglaterra, recebi três convites para aceitar ordenação. Tenho sempre orado a Deus para
que, se esses convites não tivessem a aprovação divina, que fossem embaraçados, e sempre
alguma coisa tem estorvado os desígnios dos meus amigos neste sentido. Nisso tudo admiro a
bondade de Deus, pois Ele me tem protegido evitando precipitações nessas coisas. Dou graças a
Deus pela sua bondade em tudo isso, especialmente desde que cheguei a conhecer o Evangelho
em sua pureza. Antes tinha medo, porém, agora tremo em mexer com essas coisas sagradas.
Resolvi, pois, revelar a minha salvação em particular, em vez de me entregar a tal serviço que
requer mais dons e graça do que supunha eu precisasse ter. Contudo, de quando em quando,
sentia desejo ardente de me entregar de corpo e alma a Deus, se fosse chamado outra vez,
crendo que o Senhor poderia me ajudar e manifestar o seu poder em minha fraqueza. Já agora
reconheço que esse desejo se me aumenta desde que reparei que algum êxito tem acompanhado
os meus esforços em exortar e escrever cartas aos meus amigos”.
“Julgo necessário dizer-lhe que meu patrão me aconselhou diversas vezes que entrasse
no ministério, aceitando a ordenação e até prometeu me arranjar colocação. A tudo isso sempre
respondi friamente, que não era digno e além disso que não podia adquirir um título. As coisas
estavam nesse pé há seis meses, quando um cavalheiro, um homem que eu quase não conhecia,
me ofereceu uma colocação que, provavelmente, mui logo estaria disponível. Também um clérigo
com quem nunca tinha conversado me ofereceu um título de vigário em um a de suas igrejas.
Agora, Sr. Wesley, a questão sobre que desejo o seu auxílio: Devo eu não aceitar o título e entrar
em ordens? Quanto à colocação e ao ordenado, não me importa; porque julgo que poderia pregar
com melhor resultado em minha própria língua.”
“Estou em dúvida: porque de um lado meu coração me diz que experimente, e assim fala
quando eu sinto o amor de Deus; de outro lado, quando me examino para ver se sou digno para
isso, reconheço a minha falta de dons, e especialmente aquele dom da alma-amor que deve
caracterizar o trabalho ministerial, AMOR, continuo, universal e inflamado, que em minha confiança
e coragem me falta. Chego mesmo a me acusar de vaidade quando penso na grande
responsabilidade de levar ainda apenas por um dia a arca do Senhor, concluindo que sem dúvida
um castigo extraordinário há de cair sobre mim, mais cedo ou mais tarde, pela minha ousadia.”
“Agora, como me acho nestas duas alternativas, tenho que confessar ao senhor que não
posso decidir qual desses dois caminhos devo tomar com segurança. Guiar-me-ei, pois, pelo seu
conselho; julgando que Deus o guiará, muito mais porque em tudo isso nada mais quero senão a
glória de Deus. Reconheço quão precioso é seu tempo, portanto ficarei satisfeito com uma
resposta nestes termos: “Persiste ou abstém -te, pois só isto me há de valer. Rev. senhor, sou seu
servo indigno, J. F. “
Não sabemos a resposta que lhe deu Wesley, porém julgamos que o aconselharia a
persistir no propósito de entrar no ministério.
Logo que ele assim externou o seu desejo de entrar no ministério não faltou alguém entre
os seus amigos que apoiasse este passo importante em sua vida. Dois lhe eram os objetivos
principais na vida: possuir sabedoria sagrada e pureza cristã.
Recebeu diversos convites de igrejas, porém a nenhuma quis aceitar sem refletir bem
sobre o assunto. Dois anos se passaram e ainda não tinha resolvido tomar conta de uma igreja.
Quanto mais seus amigos insistiam que tomasse conta de uma igreja, tanto mais desanimado
ficava em assumir essa responsabilid ade. Havia uma coisa esquisita em seu modo de encarar este
problema, porém revela o seu espírito abnegado e desinteressado. Alguns dos seus amigos o
instigaram para aceitar a paróquia que oferecesse o maior ordenado, mas, em vez de aceitar,
rejeitou. Sempre julgou que tinha um sacrifício a fazer e não uma riqueza para ganhar.
Os dois motivos que mais o animaram levando-o a aceitar ordenação para o ministério
foram: gratidão e benevolência. A gratidão a Deus o impelia a proclamar o nome do seu grande
benfeitor e dar seu testemunho da graça de Deus, enquanto que a benevolência para com os seus
semelhantes o impelia a consagrar-se à promoção dos seus interesses.
Constrangido por estes motivos ele publicamente se consagrou ao santo ministério,
aceitando a ordenação em 6 de Março de 1757, sendo ordenado diácono num domingo, e
presbítero no domingo seguinte, pelo bispo de Bangor, na capela de S. Tiago.

IV – SEU TRABALHO COMO PASTOR EM MADELEY
Durante dois anos, mais ou menos, depois da sua ordenação Fletcher pregava quando
havia oportunidade e aplicava-se aos estudos e à meditação.
De quando em quando ajudava a João Wesley a ministrar a santa ceia e pregava nas
capelas, tanto nos sítios como em Londres, nas igrejas.
Durante este tempo foi convidado a ir com o missionário para as ilhas da Índia Ocidental.
Mas julgou que não tinha os dons necessários para tal trabalho. Igualmente os seus parentes na
Suíça queriam que voltasse para lá e pregasse aos seus patrícios, porém julgava que Deus tinha
serviço para si na Inglaterra. Foi convidado pela Condessa Lady Huntingdon para servir como seu
capelão particular, mas ele recusou, julgando-se indigno de tal colocação, e receoso que tal
posição lhe fosse um perigo para seu desenvolvimento espiritual, preferiu servir aos pobres a servir
aos ricos.
Sempre pregou em diversos lugares. Suas reuniões, porém, eram tais que muitos dos
ouvintes se escandalizavam com a franqueza que usava no pregar às verdades evangélicas,
resultando dali que em tais lugares não recebia um segundo convite para pregar.
1. Sua nomeação para Madeley.
A cidade de Madeley fica à beira do rio Severn, no condado de Shorpshire, distante de
Ternhall cerca de três léguas. Ali ajudava ele o vigário da Igreja de Madeley, de cujo povo ele
muito gostou.
Aconteceu que o vigário desta igreja morreu e o bispo a ofereceu a John Fletcher que
aceitou a nomeação. Merece notar que lhe foi oferecida também outra paróquia ao mesmo tempo,
e que lhe pagaria o dobro da de Madeley, porém não quis aceitá-la, estando convicto que Deus o
queria em Madeley e para Madeley ele foi, e lá ficou como pastor o resto de sua vida.
2. As dificuldades que teve de enfrentar em Madeley.
A maioria do povo de Madeley naquela época era muito atrasada, pobre e ignorante. E não
somente isso, mas também viciada e indiferente à religião. O Sr. Benson assim descreve a cidade:
“Madeley era notável pela ignorância e impiedade dos seus habitantes, entre os quais havia pouco
respeito para com Deus e os homens. Neste lugar obscuro, o domingo era abertamente profanado,
as coisas sagradas eram pisadas, as restrições da decência eram violentamente destruídas e as
cerimônias religiosas ridicularizadas”. Esta descrição nos revela as condições em que Fletcher ia
trabalhar. Havia, contudo, algumas pessoas retas na cidade, mas em número muito pequenino.
Logo que chegou nesta cidade em 1760, Fletcher começou o seu trabalho de pastor,
ciente das grandes dificuldades que teria de enfrentar. Mas tinha o desejo de servir o povo e
resolveu resistir a qualquer pessoa que se levantasse contra a vontade de Deus.
Uma das dificuldades que muito logo teve de enfrentar, já no princípio, era o indiferentismo
do povo. Atrair o povo para os cultos nos domingos era já de começo, talvez seu máximo
problema. No entanto ele pregava com alegria às poucas pessoas que podia juntar na igreja cujo
culto era geralmente de tarde. Dedicava -se ao trabalho do pastorado, visitando o povo e estudando
as suas condições, circunstâncias e dificuldades, “considerando a todos, mesmo os maus,
ignorantes, vis e os profanos, dignos do seu amor e consideração”. Foi por meio das suas visitas
pastorais que chegou a conquistar famílias inteiras para Cristo. Às vezes encontrava famílias que
não queriam receber suas visitas nem por isso deixou de orar por elas quando ia passando por
suas casas.
Para aumentar a assistência nos cultos, levanta-se cedo nos domingos e passava pelas
ruas com uma campainha na mão e assim chamava a atenção do povo para os cultos no dia do
Senhor.
Outra dificuldade também muito séria era corrigir os costumes dos jovens, os moços e as
moças. Era-lhes costumes reunirem-se certos dias na semana para se divertirem. Passavam toda
a noite dançando, bebendo, brincando e entregando -se à orgia e obscenidades. Não era novidade
estar ele no meio deles em tais ocasiões e os exortar e repreender.
Sua influência sobre a mocidade era tal que conseguiu a conversão de muitos. Restava-lhe
ainda enfrentar a oposição dos valentões, ébrios, alguns clérigos e magistrados. Um incidente
servirá de exemplo como se livrou das mãos dos malvados.
Foi num domingo de tarde que tinha de ir fora da cidade para pregar num lugar chamado
Bosque (Wood). Mas aconteceu que, na hora de partir, veio um aviso de que uma criança tinha
morrido e que era necessário fazer o enterro. Portanto, não podia realizar o culto que ia fazer no
Bosque. Foi nesta mesma tarde que os mineiros, homens que não temiam a Deus, nem
respeitavam os homens, arranjaram um touro bravo e o amarraram perto do lugar onde Fletcher ia
pregar. Mas aconteceu que alguns cachorros o atormentaram tanto que ele arrebentou as cordas e
virou-se sobre os mineiros, derrubando os assentos onde se achavam os cavalheiros que bebiam
e que iam servir de juizes nos esportes. Assim ceifar am o que tinham semeado para os outros.
Os clérigos que não gostavam dele por causa da sua sinceridade, pregaram contra as
doutrinas metodistas que ele ensinando divulgava.
Seus próprios paroquianos se viraram contra ele por causa das suas pregações contra
seus vícios. A um amigo escreveu ele o seguinte: “O amigo não pode imaginar quão grande é a
animosidade e aversão que os meus paroquianos têm contra mim, porque eu prego contra a
embriagues, cavalinhos e touradas. Os publicanos e os bêbados não perdoam; pensam que
aquele que prega contra a embriagues é tão ruim como se tivesse roubado as suas carteiras”.
Tendo defendido um jovem pregador que era severamente perseguido por ter pregado
contra os vícios daquela época, atraiu sobre ele a ira dos magistrados, porém ele escapou do mal
que lhe queriam fazer.
Mas essas dificuldades se iam diminuindo e no correr do tempo ele conquistou o respeito
de todos, ainda que os não pudesse reformar ou convertê-los.
2. Seus esforços para servir o povo.
Seus paroquianos logo descobriram que o seu pastor lhe tinha interesse. Interessava-se
muito pelos pobres, cuidando-lhes tanto do corpo como da alma. A maior parte de seu ordenado ia
para os fundos dos pobres. Visitava-os nas suas aflições e doenças.
Assim alguém descreve a sua caridade: “A abundância da sua caridade para com os
pobres e necessitados é quase incrível; a sua liberalidade freqüentemente esvaziava a sua
carteira, roubava-lhe as comidas da sua casa e, às ve zes, o deixava mesmo sem as coisas mais
necessárias. Era-lhe costume trocar o seu estado confortável com o de seus paroquianos
indigentes, deixando o seu comodismo para participar das dores deles e a sua abundância para a
pobreza deles. Para poder alimentar os famintos ele a si mesmo negava o alimento necessário;
para poder vestir os nus, ele mesmo se vestia modestamente, e para socorrer os que estavam
perecendo em necessidades extremas, ele suportava duras e contínuas privações”.
Não somente contribuía para aliviar os pobres, porém apelava também para outros para
que o ajudassem nesses socorros.
Os doentes sempre tinham um amigo na pessoa de Fletcher que de dia e de noite não se
cansava de os atender. A propósito diz João Wesley: “Visitar os doentes era um trabalho que ele
estava sempre pronto a fazer. Se ouvia alguém bater à sua porta numa noite fria de inverno, logo
abria a janela. E quando era informado que alguém estava ferido ou machucado nas minas, ou que
um vizinho estava prestes a morrer não hesitava em pensar se devia ir ou não, porém a sua
resposta sempre era esta: “Vou já”.
As crianças tinham na sua pessoa um verdadeiro amigo. Ensinava-as de casa em casa,
atraindo-as a Cristo em sua mocidade.
Igualmente tinha muita simpatia para com as pessoas que estavam tristes e
desconsoladas na vida. Nunca procurou aumentar a tristeza de ninguém, antes provocava o
espírito de alegria e de ações de graças.
Sabia acomodar -se aos seus ouvintes. Aos ignorantes usava palavras e ilustrações
compreensíveis e aos eruditos sabia elevar-se à altura deles.
Não somente ministrava ao povo na cidade de Mad eley, mas também procurava os
negligenciados que moravam na circunvizinhança.
Muitas coisas havia para o desanimar, e às vezes ele sentia o espírito de desânimo; duas
coisas então, contribuíram fortemente para lhe produzir esse estado de alma: a pequena
assistência no princípio dos cultos e a oposição de diversas pessoas dentro e fora da sua
paróquia. Mas a primeira logo desapareceu, pois lemos numa carta que escreveu a Carlos Wesley:
“Quando cheguei em Madeley, fiquei bem impressionado e desanimado com a assistência tão
pequena aos cultos. Pensei que se alguns dos nossos amigos em Londres tivessem visto a minha
congregação, teriam ficado consolados em sua própria sabedoria; mas agora, graças a Deus, as
coisas se têm modificado neste sentido, pois, no domingo passado tive o prazer de ver algumas
pessoas no pátio da Igreja que não podiam entrar por falta de lugar”.
As suas visitas pastorais, o seu costume de despertar o povo com a sua campainha, cedo
de manhã, nos domingos e, acima de tudo, o seu espírito cristão concorreram para despertar o
povo. O espírito que John Fletcher manifestou durante o seu ministério em Madeley descobre-se
na observação os Sr. Gilpin:
“A situação do Sr. Fletcher a respeito de alguns dos seus paroquianos era semelhante a de
Daniel a respeito dos cortesãos de Babilônia. Seu procedimento era tão exemplar e correto,
caracterizado pela prudência e circunspeção (capacidade de olhar à volta de si), que até a malícia
mesma não podia achar motivos de o criticar a não ser que lhe quisesse de scobrir alguma falha
com respeito a lei de seu Deus”. Eles voluptuosamente detestaram a sua temperança e
abnegação; os licenciosos se ofendiam com sua gravidade e severidade, e os formalistas se
indignavam com seu zelo e devoção manifestados em toda a sua conversa e proceder. Todos
estes, apesar de suas opiniões divergentes, ligaram-se contra o seu pastor como inimigos
inveterados. Torceram as suas palavras, falavam mal dos seus atos, e “rejeitaram o seu nome
como indigno”. Mas qualquer que fosse a acusação ou a oposição dos seus inimigos, ele a
suportou com magnanimidade e com calma, “não retribuindo o mal com o mal, ou injúria com
injúria” mas, ao contrário, abençoando”.
Enquanto alguns professores indignados estão prontos, como Tiago e João, a “mandar
fogo no céu” para consumir seus adversários; e enquanto outros estão consultando, como Pedro,
quantas vezes devem perdoar as ofensas, Fletcher se entregava a manifestar aquela caridade que
“é longânima e benigna; que não se porta inconvenientemente e não suspeita mal”. “Sendo
injuriado, não injuriava; padecendo, não ameaçava, mas entregava-se aquele que julga
justamente”. Se fosse insultado pessoalmente, ou prejudicado na sua propriedade; se fosse
atacado abertamente com insultos, ou perseguido secretamente c om calúnia, por meio de uma boa
consciência, ele andava no meio dos ataques violentos dos seus inimigos, como um homem
invulnerável; e enquanto a sua firmeza revelava que não fora ferido, a sua indulgência mostrava
que não fora ofendido. Seu amor não podia ser vencido: as águas frias da desconsideração não
podiam apagá-lo, nem o dilúvio da censura poderia afogá-lo. “Sendo vilipendiado, bem dizia;
perseguido, sofria; difamado, rogava, provocando os seus inimigos por todos os meios suasórios
(persuasivos) a praticarem o amor e as boas obras. Quando encontrava um inimigo em
necessidades, apressava-se em socorrê-lo, mostrando-se generoso e bondoso: “Se o seu inimigo
tinha fome, ele dava de comer; se tinha sede, dava de beber; se estava oprimido, procurava ajudálo, aproveitando todas as oportunidades possíveis para “amontoar brasas vivas sobre a sua
cabeça”.
4. Suas enfermidades.
Por causa de sua austeridade, prejudicou sua saúde. Para ajudar e socorrer os pobres,
negava a si próprio até o necessário para a conservação de sua própria saúde. Também dedicava
tanto tempo ao serviço da Igreja e ao estudo e oração, negando-se ao sono necessário, e isso tudo
concorria para minar os alicerces de suas forças físicas. Por alguns anos sofreu de tuberculose e
de hemorragia pulmonar. Ficava tão fraco às vezes, que não podia dirigir os cultos; tinha de deixar
o trabalho pastoral para descansar e recuperar as forças. Durante este tempo, quando não podia
visitar seu rebanho, dedicava -se a escrever cartas aos amigos e às pessoas interessadas em sua
salvação. Também, escrevia alguns tratados sobre a controvérsia que manteve por alguns anos. O
estado de sua saúde ficou tão precário que os médicos lhe recomendaram uma visita à Suíça, que
era sua terra natal.
Tratou de ir à Suíça visitar os seus parentes e amigos e cuidar de sua saúde. Melhorando,
voltou à Inglaterra e continuou o seu trabalho em Madeley; porém não ficou curado. O excesso de
trabalho e a polêmica que mantinha causaram-lhe profundo abalo na saúde. Teve que procurar os
ares da sua terra outra vez. Mas antes de voltar à Suíça, esteve em diversas cidades da Inglaterra,
todavia, sem muito proveito. Resolveu por isso ir novamente à Suíça.
Deixar o rebanho em Madeley foi-lhe verdadeiro sacrifício.
Arranjou outro pastor para tomar conta da sua igreja por algum tempo e as cartas que ele
escrevia ao seu povo em Madeley são muito parecidas com as de São Paulo às igrejas que ele
fundou.
Em dezembro de 1777, deixou a Inglaterra e passou mais ou menos três anos na Suíça,
melhorando consideravelmente. Mas não descansou porque quando não podia pregar por causa
da sua saúde, ou porque os oficiais do governo não permitiam, ou pela oposição do clero, ele se
dedicava a ensinar as crianças em casas particulares e, quando o tempo permitia, no bosque.
Voltando à Inglaterra na primavera de 1781, continuou o seu trabalho em Madeley até
morrer.

V – SUA ATIVIDADE NOUTROS LUGARES
Seu trabalho de pastor da Igreja em Madeley não o proibia de atuar noutras localidades
onde se lhe apresentavam oportunidades. Ele não somente visitava os lugares circunvizinhos, mas
também lugares mais distantes, tais como Breedon, no condado de Leicestershire, em Galles,
Yporkshire, Bristol e Bath.
1. As duas visitas à Suíça.
Já foram mencionadas as visitas que fez à Suíça para tratar de sua saúde. A primeira foi
feita em 1170 e a intenção dele era visitar seus pais, irmãos, irmãs e amigos e tratar de sua saúde.
É também provável que fosse necessário fazer esta visita para ajustar os negócios sobre a
herança dos seus pais, etc.
Para descrever tudo o que ele fez durante esta visita levaria muito tempo. Somente
daremos uma ou duas citações que servirão para mostrar o zelo religioso que possuía.
Foi uma parte do seu programa nesta viagem visitar os Huguenotes (nome pelo qual eram
conhecidos os protestantes na França) no sul da França. Os Huguenotes eram pobres e moravam
em lugares montanhosos. Para demonstrar a consideração que nutria por este povo basta citar
que em certa ocasião dissera aos seus amigos o seguinte : “Deverei eu visitar esta gente humilde,
cujos pais foram caçados por cavaleiros nas montanhas como se fazem às perdizes? Não; para
conseguir entrada mais franca entre eles, vou me trajar humildemente levando um cajado na mão”.
Assim encetou jornada a pé. Viajou todo o dia e lá ao cair da noite pediu pousada a um dos
habitantes da região, que hesitou em ceder-lhe pousada, mas logo que Fletcher entrou no casebre
todos ficaram impressionadas com seu espírito humilde e religioso. Terminada a ceia, ele
continuou a dar-lhes instrução religiosa e antes de se deitar pediu licença para fazer oração, que
foi dada.
Todos ficaram impressionados com a oração e gratos pela sua visita; no entanto, esta
família era católica romana.
Noutra casa onde passou pouco tempo, o dono da casa era um blasfemador. Não podia
conversar sem tomar em vão o nome de Deus. Fletcher o repreendeu e o exortou a que
abandonasse esse costume e que se entregasse a Deus. Tal foi o resultado de sua repreensão
que o homem se corrigiu, agradecendo a Fletcher pelo interesse que tinha manifestado em sua
salvação. Durante longos anos este homem se conservou na fé e quando era tentado a empregar
qualquer palavra imprópria lembrava-se daquele homem santo e resistia à tentação.
Quando visitava a Itália chegando à “Via Ápia” onde o apóstolo Paulo passou e onde a
tradição diz que foi degolado, tirou o chapéu e saiu do carro e andou assim pelo caminho, porque
ele disse aos seus companheiros de viagem que o seu coração não podia consentir em andar no
carro onde o apóstolo tinha andado acorrentado a um soldado para dar a sua vida em prol da
causa de Cristo. Enquanto não terminou este trecho, ele não cessou de dar graças a Deus pela
luz, pelas verdades e pela influência do Espírito Santo que continuava até o dia de hoje.
Quando chegou à Suíça, à casa dos seus parentes, na cidade de Nyon, os pastores
franquearam -lhe os seus púlpitos e ele pregou com muita aceitação. Um moço ficou tão
impressionado com as suas pregações que resolveu de dedicar -se ao santo ministério de Cristo.
Entre os que assistiam às suas pregações havia um pregador idoso e jubilado que disse a
Fletcher na hora de se despedir: “Oh, senhor, quão desventurado é este país! Pois, durante os
meus dias só tem produzido um homem angélico, e a nossa má sorte é sermos privados dele”.
Ele voltou à Inglaterra nos fins do verão de 1770.
A segunda visita foi em 1777 e durou cerca de três anos. Com a saúde muito abalada
havia pouca esperança que melhorasse. Mas ele resistiu bem à viagem e começou a melhorar
logo que chegou no sul da França. Depois de se tratar por algum tempo, visitou a Itália, passando
uns poucos dias em Roma.
Um dia, passeando na cidade com um amigo, Sr. Ireland, iam encontrar-se com uma
procissão dirigida pelo Papa; o cocheiro disse que seria necessário saltar, tirar o chapéu e ajoelhar
enquanto passava a procissão. Mas Fletcher não quis fazer tal coisa, julgando que seria um ato de
idolatria prestar tal homenagem a um homem. O cocheiro estava com receio que fossem
maltratados e procurou desviar o carro para uma rua estreita. O Papa estava de pé no carro, com
as mãos levantadas abençoando o povo. Fletcher foi tentado a denunciar essas coisas, porém não
sabia a língua italiana e só os padres compreendiam o latim; porquanto, ficou calado. Alguém
falando com ele depois, disse que se ele tivesse falado teria sido espancado e maltratado, mas ele
respondeu: “Creio que o Papa mesmo não o teria permitido, pois ele é um homem de bom senso e
humanitário”.
Na sua segunda viagem à Suíça ele passou a maior parte do tempo em Nyon em casa do
seu pai onde o clima lhe era excelente. Todos os dias saía para passear a cavalo, o que o fez
melhorar consideravelmente. Causou-lhe grande impressão a incredulidade ou ateísmo dos
literatos, especialmente na Europa, nessa época. Ele assim descreve a situação moral do povo: “O
jogo e a vaidade no modo de vestir, os divertimentos ilícitos e o amor ao dinheiro, descrença e
falsa filosofia, leviandade de espírito e o temor dos homens e o amor ao mundo são os pecados
princi pais com que Satanás tem cativado o povo neste lugar. O materialismo é comum: o deismo e
socinianismo são comuns; e um grupo de livres pensadores, os que cultivam Voltaire e Rousseau,
Boyle e Mirabeau estão resolvidos a destruir o cristianismo e o governo. Com uma das mãos
sacodem o trono e com a outra derrubam os altares”.
Ele se esforçou para levar todos os seus parentes a Cristo e não deixou de aproveitar
todas as oportunidades para fazer bem aos seus patrícios.
Muitas coisas mais há que ele fez durant e a sua permanência na Suíça, mas a falta de
tempo não no-lo permite narrar.
1. Sua relação com o colégio em Travecha.
A Condessa de Huntingdon, uma mulher de muitas posses, era do movimento metodista e
uma grande amiga dos metodistas, especialmente do Rev. George Whitefield, que era calvinista
como ela. Ela fundou um seminário oferecendo oportunidade para a educação dos moços que se
sentiam chamados ao santo ministério. As únicas condições exigidas dos aspirantes ao ministério,
eram que estivessem verdad eiramente convertidos e inteiramente resolvidos a se dedicarem ao
ministério.
Não havia distinção de seita (grupo doutrinário); qualquer moço de qualquer igreja
evangélica podia se matricular e depois de completar o curso podia identificar -se (servir) com
qualquer igreja.
A Condessa precisava de alguém que pudesse administrar o seminário. E tendo Fletcher
todas as qualidades necessárias , ela o convidou para assumir o cargo.
Como o alvo da instituição era tão digno e de acordo com os seus ideais, ele aceitou o
convite, sem qualquer remuneração.
O seminário prosperou e as visitas feitas ocasionalmente por Fletcher foram muito
abençoadas por Deus. A vida espiritual dos alunos desenvolvia-se em harmonia com o seu
progresso nos estudos. Estavam nestas circunstâncias quando se levantou uma divergência entre
alguns professores e Fletcher. A Condessa e certos professores queriam que todos os dirigentes
do seminário fossem calvinistas em teologia. Esta foi a origem da divergência entre eles. Um dos
professores foi despedido e assim alega o motivo de sua demissão: “Eu fui despedido da minha
colocação, não por deficiência intelectual ou moral, mas exclusivamente porque não acredito na
doutrina da predestinação absoluta” (que, diferentemente da fé na salvação pela graça, defende a
doutrina de que as pessoas são escolhidas por Deus antes de seu nascimento para serem salvas
ou não).
Se perguntarmos porque é que Fletcher deixou o seminário onde tinha feito bom trabalho e
para o qual tinha aptidões, a resposta é: que os princípios básicos do seminário foram violentados,
e, por isso, não podendo conscienciosamente aceitá-lo, resolveu pedir a sua demissão. Ele
escreveu uma carta à Condessa queixando-se das mudanças radicais que tinham se efetuado no
seminário; mais tarde visitou o seminário para conhecer mais exatamente as condições. Depois
desta visita ficou convencido que não era possível aceitar as novas condições e, por isso, pediu a
sua demissão, dizendo: “Não podia mais, como um homem honesto e sincero, ficar no Seminário.
Retirei-me fazendo votos para que a Condessa pudesse achar um homem competente para dirigir
a instituição sob o espírito partidário (devido a opção pela doutrina calvinista), coisa que eu não
podia fazer”.

VI – SUA ATITUDE COMO POLEMISTA
Quando pensamos em John Fletcher, lembrando-nos do seu espírito, estranhamos que ele
se tornasse um polemista. Ele mesmo disse:
“Parece-me que estou sonhando, quando me lembro que tenho escrito sobre assuntos de
controvérsia! Nunca imaginei escrever sobre tal assunto”.
O motivo que o levara a entrar neste terreno era o seu amor à verdade. O espírito de
Antinomianismo que se tinha manifestado no meio evangélico e o ataque feito a João Wesley por
ter ele publicado uma Carta Circular em que defendia a doutrina Arminiana (salvação pela graça
de Deus e não por predestinação) e a resolução que o Seminário da Condessa tinha assumido
para com aqueles que não eram Calvinistas, tudo isto concorreu para fazê -lo entrar na arena da
controvérsia para defender o que ele julgava ser verdade.
Este período de controvérsia durou alguns anos. A obra principal que ele escreveu contra o
Antinomianismo é o que se chama Fletcher’s Checks. Esta obra abrange dois grossos volumes e
além disto escreveu mais dois sobre pontos de controvérsia, ou em forma de cartas ou panfletos.
Durante todo esse tempo em suas discussões, sabia distinguir entre uma pessoa e suas
idéias. Nunca entrou em terreno pessoal em discussões e, por isso, sempre mantinha o respeito de
todos os seus adversários, mesmo que não pudesse conservar a amizade deles. Ele nunca atacou
um indivíduo, porém os seus erros.
João Wesley dando o seu parecer sobre as obras de Fletcher diz:
“Quanto bem tem resultado da publicação daquela Carta Circular! Foi ela que, felizmente,
provocou Fletcher a escrever os seus “Checks to Antinomianism” sobre os quais fica-se numa
dúvida, não sabendo o que se admirar mais, se a clareza da linguagem, tal como nenhum
estrangeiros jamais escreveu, se a força e clareza dos seus argumentos; ou a mansidão e doçura
de espírito que se revelam através das suas páginas. E tal é a força dessa verdade, que não me
admiro que um pregador idoso, resolvido a viver e morrer em suas opiniões, quando alguém
insistia que ele lesse esta obra, respondeu: “Não, eu nunca hei de ler os “Checks” do Sr. Fletcher,
pois se o fizesse, ficaria com a mesma opinião dele”.
A seguinte citação de Joseph Benson nos revela o espírito de Fletcher:
“Quando alguém dizia algo desagradável acerca dele ou dos seus livros, se o nome da
pessoa que tivesse dito, fosse referido, ele fazia parar imediatamente o narrador, e fazia uma
oração em seu favor. Não consentia que alguém falasse mal dos seus adversários. Estava sempre
pronto a lhe oferecer as mesmas desculpas que ele gostava de que com ele fizessem nas mesmas
circunstâncias”.

VII – SEU CASAMENTO
Fletcher casou-se com Miss Bousanquet, no dia 12 de Novembro de 1781. Devemos-nos
lembrar que a saúde de Fletcher melhorou bastante durante a sua segunda visita à Suíça. Eles
eram amigos por mais de vinte anos antes de se casarem, mas devido ao trabalho de cada um não
foi possível pensar em casamento mais cedo. Miss Bousanquet cuidava dos pobres e órfãos e era
uma senhora muito piedosa. Desde o primeiro dia nem que se encontraram começou um
sentimento mútuo entre eles, porém Fletcher deixou de se comunicar com ela por vinte anos.
Depois do casamento foram para Madeley onde viveram quase quatro anos juntos antes
da morte de Fletcher. Era um casal feliz. Ela cuidava dele com muito carinho. O estado de sua
saúde melhorou sob o tratamento e cuidado de sua esposa. Os últimos dias foram cheios de
atividades, de bênçãos e de paz. O seguinte trecho escrito pela sua esposa revela o cuidado que
tinha dele:
“Para comigo ele sempre se mostrou carinhoso e bondoso. Minha alma, meu corpo, minha
saúde e meu conforto eram a sua preocupação diariamente. Não tivemos nenhum pensamento do
passado ou presente que ocultássemos de propósito um do outro. O meu adiantamento
(crescimento) espiritual era o seu maior interesse; e constantemente ele me lembrava disso,
convidando-me a andar mais perto de Deus, e dizia: ‘Oh! Minha querida, peçamos a graça de Deus
para nos ajudar na hora da morte; pois estamos aqui por muito pouco tempo’.”
VIII – SEU CARÁTER E SUA MORTE
O caráter do homem consiste nos seus pensamentos, palavras e obras.
1. Um resumo de características.
A vida de John Fletcher se caracterizou pelo amor, caridade, fé, humildade, paciência,
abnegação, generosidade, honestidade, gratidão, sensibilidade, bondade e corte sia. Realmente
esta categoria de palavras serviria de esboço para sua biografia. Se procurássemos incidentes em
sua vida para ilustrarmos estes característicos, encheríamos muitas páginas.
2. Alguns dizeres dele.
“A dor é o esforço da nossa natureza decaída, preparando-nos para o mundo da
felicidade”.
“A coisa principal é estarmos empregando o nosso tempo com proveito”.
“Vamos amar este bom Deus que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê,
não pereça, mas tenha a vida eterna”.
“Eu e o leitor não temos mais nada a fazer senão morrer para tudo o que é pecaminoso em
nossa natureza e orar pedindo o poder de uma vida sem fim”.
“Em Jesus o tempo e a distância são perdidos. Ele é a vida eterna e universal, da justiça,
da paz e da alegria”.
“A simplicidade de intenção e a pureza de afeição atravessarão o inferno”.
“Eu não peço nada a não ser mais graça”.
“Graças a Deus encaro com calma o nosso último inimigo”.
“Resignação completa à vontade de Deus derrota mil tentações, e confiança em nosso
Salvador nos leva suavemente através de mil cuidados”.
“Deus nos livra de nós mesmos e de Satanás: o demônio interno e externo”.
“Temos de ser salvos pela fé e esperança, até que sejamos salvos pelo amor perfeito e até
que sejamos participantes da glória celestial”.
“As verdades que eu prego aos outros são as mesmas das quais me alimento”.
“Nós somos criaturas pobres, porém temos um bom Deus sobre quem podemos lançar
todos os nossos cuidados, e que constantemente nos sobrecarrega de modo que poderemos
descobrir a bondade, poder e constância dele”.
“A morte se manifesta no corpo, a ressurreição na alma; a nossa alma é o nosso
verdadeiro ser”.
3. Sua morte.
Alguns meses antes da sua última doença, tinha a impressão de que o fim não distava.
Sentia a presença de Deus consigo de um modo especial. Um dia disse à sua esposa: “É uma
coisa maravilhosa sentir a presença de Deus pela fé num sentido tão real que não há inclinação de
fugir dele nem qualquer desejo de excluí-lo do coração. Porém isso não me satisfaz. E às vezes
sinto tantos raios de luz e amor, tais rajadas, como se fosse, do ar celestial que quase me levam a
alma para a glória! Mas não me acho satisfeito. Quero estar cheio da plenitude de Deus”.
E poucos dias antes de sua morte ele testemunhou dizendo: “Estou cheio do amor de
Deus, gloriosamente cheio”.
Depois de adoecer ele quis dirigir o culto no domingo, mas a esposa achou imprudente
atendê-lo. Ele não quis se conformar, dizendo que era a vontade de Deus. Então ela não o quis
contrariar mais. Ele pregou e administrou a santa ceia, porém quase desmaiou duas vezes. Pregou
sobre a misericórdia de Deus.
Foi acometido de uma forte febre e por alguns dias, quase não pôde falar e combinou com
a sua esposa para usar um sinal: batendo o dedo – era o sinal que “Deus era Amor”. E entre as
últimas palavras que pôde enunciar foram: “Deus é amor”.
Caiu num sono e dormiu dezoito horas e suavemente a sua alma se retirou do corpo, em
14 de Agosto de 1785. No dia 17 do mesmo mês foi enterrado no cemitério da Igreja de Madeley
no meio das lamentações de milhares de pessoas.
Entre muitas que deram o seu testemunho das suas muitas boas qualidades e virtudes, só
acrescentaremos o de João Wesley que diz: “Eu o conheci intimamente por espaço de trinta anos.
Conversei com ele cedo de manhã, ao meio dia e à noite, sem qualquer reserva durante uma
viagem de muitos quilômetros. E durante esse tempo não o ouvi empregar nenhuma palavra
imprópria, ou cometer qualquer ato impróprio. Para concluir: No lapso de oitenta anos tenho
conhecido muitos homens distintos, santos na vida e no coração. Mas não conheci um homem que
lhe seja igual: um homem uniforme e profundamente devotado a Deus. Não tenho encontrado um
homem quer na Europa, quer na América que fosse tão exemplar em su a vida como ele foi. E não
tenho a esperança de encontrar um outro igual a ele antes de chegar ao céu”.
V
A vida de Thomas Coke,
o Missionário do Movimento
Metodista
(1747-1814)
O metodismo é um dos maiores fatos na história da Igreja Moderna. Diz Isaak Taylor: - “O
movimento metodista é o começo da política religiosa moderna”, e o Deão Stanley diz: - “O
movimento metodista tem moldado o espírito religioso do Protestantismo dos povos que falam o
idioma inglês”.
Entre os agentes humanos, pelos quais esse movimento foi promovido, Thomas Coke tem
o seu lugar ao lado de João Wesley.
Logo no princípio do seu trabalho de evangelização, em 1742, Wesley almejava um
ajudante dentre os clérigos da Igreja Anglicana, mas teve de esperar mais de trinta e cinco anos
até o conseguir. Mas, pela providência de Deus, Thomas Coke apareceu, um jovem bem
preparado, espiritual e talentoso. E apareceu numa época em que Wesley, já velho, precisava de
um homem de seu tipo para aliviar-se, repartindo com ele a tarefa de estender o trabalho em todos
os recantos da terra.

I – NASCIMENTO, PAIS E EDUCAÇÃO
A 9 de outubro de 1747, na cidade de Brecom, ao sul do país de Galles, nasceu Thomas
Coke. Seu pai, Bartholomeu Coke, era médico. Sua mãe, Anna Philips, era uma senhora piedosa e
de família distinta. Este casal havia perdido todos os seus primeiros filhos e receava chegar à
velhice sem herdeiros. Mas veio o filho Thomas, o qual dedicaram cedo ao serviço do Senhor. O
menino crescia e se desenvolvia num ambiente cristão. Tinha olhos escuros, cabelos pretos,
estatura baixa, corpo robusto e formoso, modos agradáveis e atraentes. Não foi rapaz de
extraordinária inteligência ou talento, mas, pela dedicação aos estudos, alcançou grande
desenvolvimento.
Completou o curso de preparatórios no Colégio da Igreja de Cristo, em sua cidade de
Brecom. Logo depois matriculou-se no Jesus College, Universidade de Oxford, a 11 de abril de
1764, com dezesseis anos de idade. Durante os quatro anos que passou neste colégio, f oi muito
tentado pelas coisas mundanas, pois nesta época os colégio da Inglaterra estavam infestados pelo
ateísmo, pela incredulidade e pela imoralidade. Mas, embora cercado destes perigos morais, ele
saiu com fé em Deus, não obstante contaminado pelos víc ios de jogar baralho, beber vinho e
dançar. As suas habilidades sociais contribuíram para causar -lhe essas infrações morais.
Tendo aceitado o deísmo, não achou, neste sistema, satisfação para sua alma. Dois livros
que lhe caíram às mãos foram-lhe uma grande benção.
Lendo “A prova das testemunhas”, pelo bispo Sherlock, a sua mente ficou purificada do
ceticismo, e, lendo, o tratado do Dr. Witherspoon, sobre a “Regeneração”, a sua alma se
despertou. Assim sentia-se chamado para o ministério, recordando as impressões que tivera,
quando pequeno.
Voltando para casa, depois de receber a colação do grau de bacharel, tornou-se apreciado
por seus conterrâneos, que o elegeram vereador da cidade de Brecom, mister que fora o ofício de
seu pai por muitos anos. Os serviços prestados por ele contribuíram para o desenvolvimento da
cidade e deram satisfação aos seus concidadãos.
Assim, no limiar da vida, aquele moço de vinte e cinco anos, hábil, culto e de uma família
distinta e abastada, estava ocupando uma posição elevada na sociedade. Que devia fazer? Ficaria
ocupando o mesmo lugar de seu pai, seguindo uma carreira secular?
Não, o seu coração pedia outra coisa. Queria seguir o ministério de Jesus Cristo.

II – SUA PIEDADE E CONVERSÃO
Naqueles dias os clérigos consideravam a sua vocação como qualquer profissão secular.
Thomas Coke, portanto, entrou no ministério conformando-se com tudo que era de praxe naquela
época.
A 10 de junho de 1770 foi ordenado diácono e a 23 de agosto de 1772, ordenado
presbítero na Igreja Anglicana. Logo após a sua ordenação de diácono foi nomeado para uma
paróquia humilde no condado de Somersetshire. Permaneceu em Road pouco tempo, sendo
removido para South Petherson, no mesmo condado.
Visto haver entrado no ministério como se este fosse uma profissão secular, não recebeu o
necessário despertamento espiritual. Mas, quando foi ordenado presbítero, em repetindo as
palavras do ritual: - “Santo Espírito, vem nossas almas inspirar, e com o fogo divinal nossa mente
iluminar”, ele sentiu profundamente que ainda não conhecia o “fogo divinal”. Não experimentara
ainda o que se chama – conversão.
Mas, resolveu buscá-la e Deus o ajudou, fazendo-o seguir um caminho que até então
ignorava. Chegou a experimentar a bem aventurada vida do amor em Cristo. O que o ajudou a
conseguir tal experiência, foi a sua sinceridade nas suas pregações. Pregava sempre sobre temas
evangélicos, lia sermões e livros sobre o mesmo assunto. Seu espírito estava bem preparado
quando um dos pregadores leigos, Thomas Maxfield, visitou o povo no mesmo local.
Sabendo que o clérigo da paróquia era um homem sincero e zeloso, visitou-o e conversou
com ele muito tempo. O resultado desta visita foi sentir cada vez mais estimulado o seu desejo de
alcançar a santidade de vida, o que se manifestou mais e mais em suas pregações, de sorte que
logo a sua igreja não comportava o povo que vinha ouvi-lo.
Um dia um amigo deu-lhe o Diário e alguns Sermões de Wesley e o “Appel” e “Checks to
Antinomianism” por Fletcher. Estes livros contribuíram grandemente para levá-lo às fileiras dos
metodistas. A maior dificuldade que teve para se reconciliar com os metodistas encontrou-a ele em
os seus preconceitos religiosos, contra qualquer não-conformista. Amava a Igreja Anglicana e
queria defendê-la. Mas, pouco a pouco, os seus preconceitos foram-se dissipando até o dia em
que visitou um amigo, em Devaushire, e encontrou-se com um certo obreiro metodista. Esse
obreiro metodista era um homem de pouca instrução, mas de alguma experiência religiosa, que lhe
deu bom conhecimento das coisas espirituais, conhecimento que serviu para encaminhar a
Thomas a uma experiência vital na sua vida religiosa.
Mais tarde Coke, referindo-se a este humilde servo do Senhor, dizia que devia mais a ele,
do que a qualquer outra pessoa, a sua conversão.
Voltando para sua paróquia, depois desta visita, pregava agora não tanto teoricamente
sobre a vida da fé, mas praticamente. Um despertamento logo se manifestou na comunidade, com
o qual, porém, veio uma contrariedade por parte dos que n ão queriam tão seriamente seguir a
Cristo.
A obra da graça não somente se estendia entre o povo, mas também no seu próprio
coração. Ele começou a pregar sem manuscrito e a orar sem o livro de orações; também introduziu
nos cultos o canto de hinos pela congregação. Alguns dos seus paroquianos, porém, não gostaram
disto e começaram a oferecer oposição a este movimento. O resultado foi vir ele a ser
violentamente expulso da sua paróquia, ficando então contrariado pelo mundo, pela carne e pelo
diabo, pelos homens, e, enfim, por todos os membros da Igreja.
Despedindo-se de sua paróquia, sentiu-se tentado a vingar-se da injustiça que lhe fora
feita, mas depois de pregar ao ar livre em frente à Igreja, à hora da saída do culto, despediu-se do
povo, pois tinha muitos amigos entre os seus paroquianos.
Agora erguia-se a questão: “Que Deveria fazer?”
Tendo ouvido falar, havia mais de um ano, que Wesley costumava pregar o Evangelho em
Taunton, certo dia resolveu ir até lá ouvi-lo, fazendo a cavalo os trinta quilômetros a percorrer.

II – TORNANDO-SE METODISTA
1. Encontro com João Wesley
Em Taunton encontrou-se com João Wesley que lhe disse: - “Meu irmão, levante-se e
pregue o Evangelho a toda a gente”.
Dai a um ano encontrou-se novamente com Wesley que acerca desse encontro dissera:
“Fui caminhando até Taunton, com Coke, que, sendo despedido de sua paróquia, disse adeus à
sua fama e está resolvido a lançar conosco a sua sorte”.
Então Wesley, depois de trinta e tantos anos de procura, achou um ajudante na pessoa do
Rev. Coke e, por assim, chegou a realizar aquilo que almejara por mais de trinta e cinco anos: um
clérigo da Igreja Anglicana, para o ajudar.
Trinta e cinco anos antes, ele dissera: - “Não conheço nenhum homem que esteja pronto a
conosco lançar a sua so rte. E duvido que haja algum, porque sei quão apegados são ao serviço do
mundo e do diabo antes de deixarem a Universidade”.
Mas Deus havia libertado a Coke, que estava pronto para o trabalho do Senhor.
2. Identificando-se com os Metodistas.
Já por sua experiência cristã, já pelas provas e perseguições, era metodista; só faltava
unir-se formalmente a esta Igreja o que fez a 5 de agosto de 1777, por ocasião da Conferência
Anual que se realizou em Bristol.
Sendo ele já formado e ordenado, foi recebido em plena comunhão sem fazer um curso de
teologia ou passar por qualquer outra formalidade.
Wesley escreve o seguinte no seu Diário, com data de 19 de agosto de 1777, a respeito de
Coke: “Tendo abandonado o seu honrado nome, resolveu lançar com os metodistas a sua sorte”.
Desde esta data até a sua morte, nunca deixou os metodistas. Wesley tinha então setenta
e cinco anos e Coke o auxiliava bastante, atendendo à sua correspondência e demais trabalhos
entre as Sociedades. O preparo que possuía o capacitava a prestar valiosos serviços em questões
legais e seculares que exigiam solução.
De ano em ano recebia a sua nomeação como pregador de certo circuito, trabalhando em
toda parte onde os seus serviços mui valiosos fossem requeridos.
João Wesley o investiu dos trabalhos especiais, como seu representante. Embora sua
pouca idade – trinta e cinco anos, foram-lhe confiados problemas que seriam difíceis para um
homem de mais idade. Mas ele era um homem de extraordinária magnanimidade e conseguiu
coisas que o próprio Wesley talvez não teria conseguido.
Em uma das viagens especiais a que foi enviado por Wesley, ele foi visitar o povo de
South Petherson. O ânimo dos seus antigos paroquianos havia-se mudado completamente.
Mesmo as pessoas que mais contribuíram para o expulsar, agora se esforçavam para manifestar
sua satisfação por sua visita. Quando foi expulso da paróquia, ao deixar seu povo, foram tocados
os sinos, em desagrado, mas agora, ao voltar, o clangor dos sinos do templo bem traduzia o
entusiasmo e a satisfação de todo o povo, que lhe dava as mais calorosas e significativas boas
vindas. Por ai se vê quanto muda o sentimento dos homens, de um tempo para outro.
Nesta cidade ele pregou a uma multidão de mais de duas mil pessoas. Mas não foi tão
bem recebido na cidade de Ransbury, onde o povo fez um motim, quando ele quis pregar junto a
uma árvore, ao ar livre, pois perseguiram-no, despedaçando-lhe a batina.
Mas ele não desanimou. Continuou seu discurso sob uma chuva de pedras e de paus. Não
podendo eles, por essa forma, fazê-lo desistir, tomaram uma bomba do corpo de bombeiros e,
fazendo jorrar abundante água sobre sua cabeça, obrigaram-no a deixar de pregar, embora um
número notável de cidadãos desejasse ouvi-lo. Retirando-se da praça pública, virou-se para os
amotinados e disse que havia outros empregos para as mangas de água, e que a Providência
poderia suscitá-lo para lhes ensinar o uso próprio destes instrumentos.
E não tardou. Coisa esquisita deu-se no prazo de quatorze dias. Manifestou-se um grande
incêndio naquela cidade, que destruiu quase todas as casas ao redor da praça. Desta novamente
não souberam utilizar-se convenientemente da bomba que possuíam.
Um dos mais relevantes serviços que prestou à Igreja Metodista na Inglaterra, foi o que fez
formulando um plano pelo qual a Igreja Metodista se constituiu em corporação jurídica. Essa
questão já por muito tempo vinha incomodando a João Wesley, e o plano que tinha redigido, até
então, não havia produzido efeito devido a imperfeições diversas.
O problema era o seguinte: - Como podiam as sociedades adquirir bens imóveis
com todos os seus direitos e interesses garantidos?
Para criar uma junta de depositários, para conservar e zelar de uma propriedade
local, dificuldades surgiam por causa do sistema de itinerância.
Ainda mais. João Wesley, criando estas juntas de depositários, temia perder o seu direito
de intervir nas emergências de disciplinas e na organização do trabalho, que, por ser novo e de
sua iniciativa pessoal, necessitava fosse organizado conforme os planos por ele mesmo
elaborados.
O problema das propriedades, portanto, era muito sério. O plano que Wesley tinha
praticado até então, com algumas exceções, era ter todas as propriedades em seu próprio nome.
Mas tal plano, naturalmente, não podia ser perpetuado, pelo que se tornava urgente que alguma
medida fosse tomada para sanar este mal nascente na nova Igreja. Já existiam alguns casos em
que os depositários recusavam aceitar os pregadores mandados por Wesley, o que concorreria
para a destruição da Igreja nascente, devido ao sistema de itinerância por ele estabelecido.
É justamente ligado a essa situação que aparece Coke no meio metodista.
Agora vamos ver a parte que teve em providenciar uma saída da situação embaraçosa em
que se achava a Igreja.
Ele estabeleceu as normas da Magna Carta do Metodismo Britânico, que foi vazada sobre
o princípio segundo o qual todas as propriedades da Igreja deveriam ser registradas em nome da
Conferência Legal, constituída de cem homens, de cem membros, nomeados por Wesley, sendo
que as vagas do futuro seriam preenchidas pela Conferência. Assim foi a Igreja Metodista
constituída em pessoa jurídica perpétua.
Coke e Wesley foram pela Conferência incumbidos de legalizar o plano perante as
autoridades competentes.
Organizado o plano e tornado legal, foi publicado, incluindo-se os nomes dos cem
pregadores itinerantes, nomeados membros da Conferência. Houve uns cinco pastores, cujos
nomes não foram incluídos na lista dos cem e que ficaram amargurados com Coke, alegando que
ele influíra para não fazer seus nomes constar na lista. Mas Wesley respondeu a esta crítica,
dizendo: - “Ele não queria, e não podia”, assumindo toda a responsabilidade no caso.
É difícil dizer ou calcular o grande valor que esta medida teve na fundação do Metodismo
na Inglaterra. Agora estava garantida a organização da Igreja Metodista. A morte de Wesley não
mais causaria qualquer perturbação na administração da Igreja.
Há, portanto, ocasiões em que um homem de grande capacidade tem mais valor para um
movimento do que milhares.
Durante sete anos de serviço entre os metodistas, Coke havia desempenhado bem o seu
ministério, pois já havia conquistado a confiança de seus colegas e a de João Wesley. Como já
tivesse contribuído bastante para dar permanência ao metodismo na Grã-Bretanha foi então
chamado para organizar o metodismo americano sob uma forma de governo episcopal. Wesley o
convidou e o ordenou como Superintendente Geral do trabalho metodista na América. Não havia
então outro homem entre os metodistas que estivesse em condições de prestar mais relevantes
serviços à causa do que o Rev. Thomas Coke. O próprio Wesley não poderia fazer o que fez Coke.

III – TRABALHO NA AMÉRICA.
O trabalho metodista na América já havia progredido bastante, antes de Coke haver sido
mandado para trabalhar ali, pois Francis Asbury fora enviado antes disto, em 1777, por Wesley
para fazer a propaganda da Causa.
Havia muitos crentes nas sociedades organizadas por ele e por seus ajudantes. Mas, por
falta de pregadores ordenados, o sacramento da Santa Ceia não podia ser administrado na Igreja.
E os clérigos das Igrejas Episcopais (Anglicanas), aliás, não davam muita importância ao
movimento conduzido por Wesley, e os Metodistas, não tendo, por essa razão, muita paciência
para com eles, passaram assim alguns anos sem participarem da Santa Comunhão. A falta de
pastores ordenados, finalmente, agravou-se por tal forma que os crentes começaram a exigir que
os pregadores e evangelistas ministrassem os sacramentos mesmo sem ordenação, pelo que a
Igreja-mãe (Wesley e os metodistas na Inglaterra) com urgência teve de providenciar medidas em
prol da Igreja nascente na América.
Wesley, depois de refletir bem sobre este problema, convidou a Coke para uma
conferência particular, em fevereiro de 1784. Assim Wesley introduziu o assunto: “Visto que a
revolução separou para sempre os Estados Unidos da mãe pátria e o Estabelecimento Episcopal
(a Igreja Episcopal Anglicana deixou de ser a Igreja oficial do novo país, os EUA) foi
completamente abolido, as Igrejas têm -se apresentado com aspecto de deplorável decadência. Um
apelo nos foi dirigido por parte dos irmãos metodistas da América, pela pessoa de Francis Asbury,
insistindo para que qualquer forma de governo fosse adotada para satisfazer as exigências da
atualidade. Tenho pensado e refletido seriamente sobre o plano que lhe desejo revelar. Tenho -me
esforçado, em cada passo que tenho dado, por conservar-me tão fiel à Bíblia quanto possível, e
espero agora estar agindo de acordo, ainda com a Palavra de Deus. Notando o procedimento da
Igreja Primitiva, nas épocas sem precedente histórico de qualquer espécie, tenho apreciado o
modo pelo qual a Igreja não permitia a qualquer bispo estranho intervir na ordenação dos seus
bispos. E, morrendo um dos seus bispos, aquela igreja ordenava o seu sucessor tirando-o do
número de seus presbíteros, pela imposição das mãos. Esta foi a praxe da Igreja antiga por mais
de duzentos anos, até os dias de Dionysio. Como presbítero desejo que o irmão aceite ordenação
e vá para a América nesta qualidade para superintender as sociedades ali”.
Para mostrar que Wesley não tinha chegado irrefletidamente a esta conclusão, basta
reproduzir o seguinte trecho da Ata da Conferência de 1786: “Julgando ser isto (a saber, as
condições excepcionais das Sociedades Metodistas na América, depois da guerra) um caso de
grande urgência, resolvi dar este passo. Para evitar contendas recusei, por muitos anos, tomar
esta medida. Exercitei, segundo a graça de Deus, o poder que julgo ter recebido do Grande Pastor
e Bispo da Igreja. Nomeei três dos nossos obreiros para ajudarem nesta tarefa, não somente
pregando a Palavra de Deus, mas também administrando a Santa Ceia e batizando os seus
pequeninos”.
Isto basta para provar que Wesley não foi arrojado nas medidas que tomou em
providenciar os dons da graça de Deus para os irmãos do continente americano.
Quando Wesley assim se externou acerca do trabalho e convidou o Rev. Coke para
executar o plano, este hesitou em aceitar a incumbência, pedindo algum tempo para refletir sobre o
caso. Dois meses depois comunicou que, considerando que a obra era do Senhor, estava por isso
pronto a aceitar o cargo.
Em agosto do mesmo ano, Wesley chamou a Coke para estar com ele em Bristol. Com ele
chamara mais dois pregadores, a saber, Richard Whatcoat e Thomas Vasey, que foram ordenados
presbíteros na mesma ocasião para irem com Coke para a América.
No mesmo dia, a 1º de setembro de 1784, Wesley ordenou a Coke como superintendente
das Sociedades Metodistas da América e lhe deu o seguinte certificado de ordenação:
“A todos que este virem, João Wesley Recente Fellow of Lincoln College in Oxford,
presbítero da Igreja da Inglaterra, saúde.
- Considerando que a grande maioria do povo das províncias do sul da América
deseja continuar sob os meus cuidados e também adere à doutrina;
- Considerando que a disciplina da Igreja Anglicana está muito perturbada por falta
de ministros que administrem os sacramentos do batismo e da Santa Ceia, segundo o ritual
da dita Igreja;
- Considerando não existir qualquer outro meio para suprir a falta de ministros;
Saibam todos que eu, João Wesley, julgo que eu mesmo me sinto providencialmente
chamado, nesta época, por parte de alguns irmãos, para o trabalho do ministério na
América. E, sob a proteção de Deus, o Todo Poderoso, e visando a glória de Deus, apoiado e
auxiliado pelos outros ministros já ordenados, acabo de ordenar como Superintendente,
pela imposição das mãos e pela oração, a Thomas Coke, doutor em Direito e presbítero da
Igreja Anglicana, homem que julgo bastante idôneo para este serviço.
E por meio deste recomendo a todos como uma pessoa habilitada para gover nar o
rebanho do Senhor.
E, para garantia da autenticidade deste documento, eu, João Wesley, o assino a 2 de
setembro de 1784 (mil setecentos e oitenta e quatro), era de N. S. J. C.”
Wesley também fez uma abreviação da liturgia e dos “Trinta e Nove Artigos de Religião” da
Igreja Anglicana e os enviou à Igreja Metodista Americana por intermédio de Coke. As
modificações que Wesley fez revelam a sua idéia acerca da forma de governo que a nova Igreja
devia adotar.
Levando esses documentos, Thomas Coke, em companhia de mais dois colegas,
Whatcoat e Vasey, embarcou em Bristol para a América, a 18 de setembro de 1784. A viagem foi
péssima, levando quarenta e seis dias para chegar a Nova York, onde foi bem recebido pelos
irmãos metodistas, hospedando-se em casa de Sands, um dos depositários da Igreja denominada
“John Street Church”.
Em seguida, o plano de Wesley foi apresentado a John Dickens, pastor da “John Street
Church”, o qual o achou ótimo e exeqüível na América.
Passando alguns dias encetaram viagem a cavalo, pregando e administrando a Santa Ceia
nos centros maiores, para animação do povo.
Para apreciarmos melhor os pensamentos e sentimentos dos dois homens destinados a
organizar uma igreja nova no Novo Mundo, vamos citar alguns trechos tirados dos diários do Sr.
Coke e de Asbury. Coke, havendo pregado na capela nova, em Dôres, Nova Jersey, ia administrar
a Santa Ceia quando Asbury entrou.
“Depois do sermão, escreve Coke, um homem simples robusto, aproximando -se de mim,
no púlpito, deu-me um ósculo. Julguei que não podia ser outra pessoa senão Asbury, e não me
enganei. Depois de pregar, administrei a comunhão a quinhentos ou seiscentos comungantes, e
depois tivemos uma reunião social, que foi a melhor que tenho assistido, exceção feita à de
Charlemont, na Irlanda. Depois de jantar em companhia de onze dos nossos pregadores, em casa
da nossa irmã Barratt, não muito distante da c apela, Asbury e eu tivemos uma conferência em
particular acerca das nossas futuras ocupações na América. Ele me disse que tinha recebido
algumas informações quanto à minha chegada na América, e, julgando que, provavelmente, me
encontrasse neste dia, esperando receber alguma comunicação de Wesley, resolvera convocar
todos os pregadores para um concílio, o qual, ad libitum da congregação, passou a ser
denominado Conferência.”
“Nesta Conferência autorizaram a Freeborn Garrettson, a convocar todos os pregadores do
país para a Conferência Geral, a se realizar em Baltimore, por ocasião do Natal. Asbury organizara
um itinerário que abrangia algumas duzentas léguas, para ser percorrido até o Natal.”
“Ele também me deu emprestado um excelente cavalo e cedeu-me também seu
empregado Harry, para realizar esta viagem. Tenho muito respeito a Asbury por demonstrar muita
sabedoria e consideração, por ser muito humilde e, além disso, mesmo, quase imperceptivelmente,
por ter grande força de comando e autoridade. Eu e ele com binamos usar a nossa influência para
fundar um colégio ou uma escola, sob os mesmos princípios do Kingswood School.”
“Batizei aqui cerca de trinta ou quarenta crianças e, com maior satisfação ainda, batizei os
adultos desta Igreja”.
Essa foi a impressão que Coke teve de Asbury, e agora vamos ver qual foi a impressão
que Asbury teve de Coke. Diz ele:
“Não tive oportunidade de conversar com eles (Coke, Whatcoat e Vasey) antes do culto.
Grande foi a minha surpresa ao ver o irmão Whatcoat (pois Asbury o conheceu na Inglaterra)
ajudando na administração da Santa Ceia. Ainda não posso compreender o motivo da visita
desses irmãos aqui na América, mas espero que seja pela vontade de Deus. O plano de organizar
os Metodistas numa Igreja Episcopal Independente foi discutido pelos pregadores, sendo
combinado que fosse realizada uma Conferência Geral, na Natal próximo”.
Deste dois pareceres não é difícil distinguir o ponto de vista destes guias do Movimento
Metodista na América. Coke queria agir segundo as instruções de Wesley, sem consultar os
pregadores americanos, enquanto Asbury, sendo também inglês, queria agir de acordo com o
parecer dos seus colegas de ministério na América. Asbury não desejava tomar qualquer
deliberação, quanto à fundação da Nova Igreja, sem o apoio de todos os pregadores, mesmo que
Wesley houvesse ordenado o contrário, ao passo que Coke desejava agir seguindo o mandato de
Wesley.
Devido a essa precaução de Asbury o Metodismo Episcopal Americano incutiu em seu seio
o espírito democrático e liberal. Por isso o espírito republicano, desde o princípio tem caracterizado
a Igreja Metodista Episcopal da América. O espírito que levou os norte -americanos a lutar pela
independência, isto é, para obter um governo representativo, também influiu poderosamente no
ânimo dos fundadores dessa Igreja.
Assim W. A . Candler descreve os acontecimentos dessa época em que foi organizada a
Igreja:
“Na sexta-feira, a 17 de dezembro de 1784, Asbury e Coke, bem como Guilherme Black,
Vasey e outros, foram a Peny Hall, à casa de Gough, a mais elegante no Estado de Maryland.
Naquela confortável habitação, a umas quatro léguas de Baltimore, realizou-se um Concílio,
composto das pessoas acima mencionadas e de Whatcoat que ali chegou no dia 19 de dezembro,
e continuou até ao dia 24 a preparar tudo para a Conferência. Que semana de trabalhos!”
Quão profundamente tem influído aquele trabalho sobre o metodismo americano,
promovendo o cristianismo nos Estados Unidos e adiantando a causa de Cristo através do mundo
todo!
A 24 de dezembro, manhã de intenso frio, os hóspedes de Peny Hall foram a cavalo a
Baltimore e abriram a primeira sessão da notável Conferência de Natal, às 10 horas, na capela de
“Lovely Lane”.
A missão de Freeborn Garrettson em reunir os pastores, tivera o melhor êxito, estando
presentes sessenta, dos oitenta e três pregadores. Para maior conforto dos irmãos da Conferência
os ecônomos da capela de “Lovely Lane”, colocaram boas estufas no salão, onde se realizou a
Conferência, proporcionando, assim, mais conforto aos delegados.
Coke fez a seguinte observação a respeito dos membros da Conferência:
“Constituem, deveras, um corpo de homens devotos, diligentes e fervorosos, sendo muitos
deles ainda jovens”.
Igualmente jovens eram os doze apóstolos quando foram comissionados pelo Senhor
Jesus Cristo. A maioria deles era constituída de jovens pescadores, e somente um deles alcançou
a velhice. Ainda há João Batista que foi decapitado antes de contar trinta e cinco anos.
Ambos os Superintendentes (“bispos”) desta Conferência tinham menos de quarenta anos
de idade, sendo mais moços ainda os que presidiram a reunião. Nossos pais metodistas foram
jovens, mas “cheios de fé e do espírito Santo”.
Quanto não devemos nós a este grupo de jovens obreiros!
Por ocasião desta notável Conferência organizou-se a Igreja Metodista da América.
Não foi realmente este o intuito de Wesley. Ele queria providenciar meios pelos quais os
metodistas americanos pudessem receber os sacramentos do Batismo e da Santa Ceia.
Mas, quando o Superintendente Geral Thomas Coke ordenou Francis Asbury,
respectivamente como diácono, presbítero e depois Superintendente das Igrejas Metodistas na
América, também ipso facto (por isso mesmo), organizou a Igreja, pois foi constituído um ministério
ordenado.
E, além da ordenação, Asbury não queria exercer o ofício de Superintendente sem a
aprovação dos pregadores, os seus colegas. Tanto foi a sua insistência a esse respeito, que Coke
foi incluído na mesma categoria, sendo aprovado pela Conferência para exercer o ofício de
Superintendente.
A atitude que Asbury tomou em aceitar a ordenação pela imposição das mãos por parte de
Coke, comissionado por Wesley para este fim, determinou o tipo do episcopado no metodismo
americano. Asbury recusou aceitar ordenação pelas ordens de Wesley enquanto esse ato não
fosse aprovado por seus colegas americanos.
A categoria de bispo, na Igreja Metodista Episcopal, foi, pois, criada pela Conferência
Geral, à qual são responsáveis.
O papel de Coke não era fácil. Sendo um súdito da Inglaterra, vindo para trabalhar na
América, tinha de acomodar -se ao novo ambiente em que se achava. Mas, sendo um homem
hábil, jeitoso, verdadeiramente cristão, conseguiu fazer uma obra de alta importância na
implantação do Metodismo na América. Quando quest ões difíceis e complicadas se levantavam,
havia sempre para ele uma saída, uma solução mais ou menos satisfatória.
A sua atitude para com a escravidão dos africanos no solo americano trouxe-lhe alguns
embaraços, porém, com facilidade, conhecendo mais de p erto o povo e o meio, conformou-se em
não atacar diretamente este mal. O seus sentimentos sobre esta questão eram inteiramente
cristão, porém o método de exprimi-los provocou atritos desastrosos.
Depois da Conferência do Natal os pregadores foram para seus campos, animados e
contentes, porque se sentiam mais unidos agora, havendo resolvido alguns dos seus problemas
que ameaçavam separá-los em grupos diferentes. O fato de Asbury e outros pregadores terem
sido ordenados diáconos e presbíteros contribuiu largamente para unir a nova Igreja. Os
sacramentos agora podiam ser administrados em seu meio.
Asbury foi para as colônias do sul e Coke para as do norte, com o intuito de publicar a ata
da Conferência. Pretendia também visitar as ilhas de Barbados, Trindade , etc, e voltar depois para
a Virginia antes da Conferência anual de Maio. Mas por qualquer motivo ele mudou os seus
planos, ficando nas colônias, pregando por onde passava. Quase perdeu a vida em uma noite
quando atravessava um rio, depois de uma enchente . O cavalo foi arrastado pela corrente e ele
lançou a mão a uma árvore que havia sido arrancada pela correnteza e seguia na onda.
Apegando-se a ela, foi flutuando até que a mesma bateu numa ilhota, donde fugiu para a barranca
do rio. Isto sucedeu em tempo de frio. A roupa estava bem molhada. Procurou a casa de um
fazendeiro, mas a família se achava ausente, encontrando somente alguns escravos. Um destes
deu-lhe um terno de roupa, cheio de remendos. Vestindo-o pôs para enxugar a sua própria roupa
junto a uma lareira. Teve de passar a noite, assim vestido, deitado no chão. Mas, não obstante ser
graduado de uma universidade de grande fama na Inglaterra, não se desanimou em vista das
dificuldades que se lhe apresentavam pelo caminho.
Devido à posição que ele assumiu para com a escravidão, falando do púlpito contra este
mal, foi muito perseguido em alguns lugares. Levantaram motins contra ele. Sua vida foi ameaçada
em alguns lugares por onde passava. Lendo o seu diário encontra -se maior número de referências
à escravidão nesta época da sua vida do que em qualquer outra. De fato o seu espírito estava
saturado do assunto. Como na primeira Conferência Geral se houvesse resolvido não aceitar
membros na Sociedade sem que fizessem a promessa de libertar os seus escravos e abster-se de
adquiri-los, as Conferências Anuais ofereciam maiores oportunidades para agitar mais a questão,
levando-a para o terreno da prática. Foi resolvido na Conferência realizada no Condado de
Brunswick, em Virgínia, mandar um abaixo-assinado à Assembléia Geral da Virginia, pedindo que
a escravidão fosse abolida ou que os escravos fossem emancipados gradualmente. Foi marcado
um dia para Coke, em companhia de Asbury, visitar o general George Washington e pedir que ele
assinasse a petição. Coke cegando em 25 de maio de 1785 a Alexandria, onde o general morava,
encontrou-se com Asbury no dia seguinte, conforme prévia combinação. Os dois Bispos metodistas
visitaram o General Washington , com quem jantaram.
Acerca desta visita Coke assim fala: “Ele nos recebeu mui cortesmente e deu sobejas
provas de sua democracia. Ele é, verdadeiramente, um cavalheiro. Logo após o jantar pedimos
uma conferência em particular com ele e externámos o motivo da nossa visita, rogando-lhe que se
dignasse assinar nosso ofício, caso sua posição lho permitisse. Ele nos afirmou que estava de
pleno acordo com os dizeres da nossa petição e que já havia externado os seus sentimentos sobre
o assunto aos seus colegas de Estado; mas que não achava bom assiná -la; contudo, se a
Assembléia a tomasse em consideração, teria muito prazer em exprimir por carta, perante a
Assembléia os seus sentimentos sobre o assunto. Convidou-nos a passar a tarde com ele e a
pernoitar em sua casa, porém, os nossos compromissos em Anápolis, no dia seguinte, não no-lo
permitiram”.
Os sete ou oito meses que Coke havia estado na América, foram suficientes para que
conquistasse a confiança e o amor dos pregadores americanos. Depois embarcou para a
Inglaterra, no dia 2 de junho, tendo estado em conferência com seus colegas até meia noite do dia
anterior.
Sua despedida aos irmãos americanos foi tão tocante como a de São Paulo em Efésios.
Ele, que estava tão acostumado a viajar e a separar -se dos seus amigos, não deixou de sentir-se
contristado com esta despedida. O historiador Jerse Lee, diz: “Ao terminar a Conferência de
Baltimore, o Dr. Coke embarcou logo para a Inglaterra. Ele desfrutava de muita admiração nos
Estados Unidos, porém sofreu alguma oposição no sul de Virginia, por causa da maneira
imprudente com que pregava contra a escravidão”.
Realmente, Coke foi mais do que respeitado, pois foi um homem amado por seus colegas
americanos, amizade esta de que muito era merecedor.
Seria por demais extenso este artigo se fosse relatar tudo o que Coke fez em conexão com
o trabalho metodista na América, nos anos de 1784 e 1804. Durante este período percorreu nove
grandes circuitos, o ultimo em 1803 e 1804. Mas ele não se despediu do trabalho, senão em 1808.
Resolveu-se nesta época que ele ficasse trabalhando somente na América, porém, devido às
circunstâncias e necessidades do trabalho na Inglaterra e, especialmente, na Irlanda, teve de ficar
na Bretanha. Seu trabalho na América foi bem recompensado. Depois da morte de Wesley, os
serviços de Coke foram exigidos tanto na Inglaterra como na América, pois ele era o homem que
exercia mais influência entre os metodistas após a morte de Wesley.
A sua posição social, a sua cultura intelectual e espiritual, seus dons de administrador e
seu zelo pela causa de Cristo em todo mundo, habilitavam-no para o serviço que, no momento,
dele era exigido. De bom grado se entregava à causa do Mestre e se esforçava mais e mais para
levar o Evangelho a todo o mundo. À medida que ia envelhecendo, o seu zelo missionário
aumentava. A maior paixão que tinha era pregar o Evangelho a toda a criatura.
Deixando de lado o serviço que prestou à Igreja na Inglaterra e na Irlanda, trataremos de
seu trabalho missionário entre os pobres, tanto na Inglaterra como no estrangeiro.

IV – SEU TRABALHO MISSIONÁRIO
Mais do que outro qualquer sentimento era o espírito missionário que caracterizava a
Thomas Coke. Uma vez identificado com os Metodistas, este espírito se apoderou dele de vez e
não o deixou mais até ao fim da sua jornada.
Tinha alguns recursos que herdou dos seus pais e adquiriu outros pelos dois casamentos
que contraiu na última fase da sua vida. Morrendo sua primeira esposa poucos anos depois do
casamento, deixou seus bens ao dispor de Coke. Também sua segunda esposa morreu pouco
tempo depois do seu casamento, deixando o que possuía ao cuidado de seu marido. Suas duas
esposas eram senhoras distintas e possuidoras também de algumas propriedades. E ambas
concordaram com Coke em empregar os seus haveres na propaganda do cristianismo. E ele não
só gastou o dinheiro que herdou, como ainda levantou muito dinheiro por meio de apelos pessoais,
para o que tinha um dom especial.
Consta a esse respeito que um dia, solicitando uma oferta para as missões a um capitão
de navio em que viajava, este foi constrangido a fazer a oferta e não pequena. Logo depois,
falando o mesmo com alguns amigos acerca disto, disse: “O Dr. Coke é um ‘diabinho’ celestial.”
O entusiasmo de Coke pelas missões contribuiu para que o metodismo realizasse de fato o
ditado de Wesley: “O mundo é a minha paróquia”.
1. Trabalho na América.
Como já falamos do seu trabalho nos Estados Unidos, não será necessário desenvolver de
novo esta parte de sua atividade como missionário, senão lembrarmos ao leitor que o seu trabalho
na América teve grande alcance na evangelização daquele país. Ele muito se interessava em
evangelizar a Nova Escócia, sendo que conseguiu mandar alguns missionários para aquela região,
não podendo em pessoa ir lá.
2. Trabalho nas Ilhas de Guadalupe, Martinica, S. Thomaz, Barbados, Trindade, S.
Vicente e outras.
Durante o tempo que trabalhou nos Estados Unidos, visitou por diversas vezes os povos
das ilhas acima mencionadas. Conseguiu alistar homens na Inglaterra para fazer o trabalho nestas
ilhas, providenciando os fundos para sua manutenção. E quando não podia levantar este dinheiro
entre os seus amigos, tirava da sua própria bolsa o que fosse necessário para manter os obreiros
no campo. Não podemos imaginar o trabalho e o cuidado que tudo isto lhe trouxe.
Ao introduzir o Metodismo na ilha de Barbados foi muito feliz. Alguns metodistas ingleses e
irlandeses, e soldados crentes cooperavam com Coke e os missionários que havia arranjado para
este trabalho.
Para dar uma idéia mais clara sobre o seu trabalho nestas ilhas devemos extrair do seu
diário o trecho que reproduzimos: “Foi uma surpresa para mim encontrar-me com Button, que me
reconheceu, mesmo que eu não o conhecesse pessoalmente, pois ele muitas vezes me havia
ouvido pregar em Baltimore e em Maryland. Quatro dos seus escr avos foram batizados por mim
naquele lugar e um deles, uma mulher, tornou-se uma verdadeira crente em Jesus. A esposa dele
é natural da ilha. A sua casa e o seu coração e tudo o mais pareciam ter nova disposição.
Pagamos a nossa conta na estalagem, onde nos havíamos hospedado e fomos à casa do nosso
benévolo amigo, onde encontramos verdadeiro abrigo e descanso”.
Continua: “Depois do almoço Pearce e eu visitamos o governador da ilha, levando-lhe
nossos cumprimentos. Ele nos recebeu com muito respeito. À tarde preguei em casa de Button a
uma congregação de mais de 300 pessoas, sendo que outras tantas tiveram que voltar por falta de
lugar. No dia seguinte houve outra assistência igual à anterior. Muitos ouviram com reverente
atenção, enquanto eu procurava mostra-lhes como o Consolador convence o homem do pecado,
da justiça de Deus e do juízo final. ”
Havia outros que bondosamente cooperavam com ele para se estabelecer o trabalho na
ilha. Ele diz no seu diário: “Assim, por uma série de providências notáveis, uma porta parece-nos
ter-se aberto para nós em Barbados”.
Mas ele não foi tão bem sucedido em algumas das ilhas, especialmente nas que não
estavam sob o domínio da Grã-bretanha. Em Santo Eust áquio o governador o tratou com desprezo
e se opôs ao trabalho evangélico. Por isso teve de abandonar o plano de iniciar trabalho naquela
ilha. Também nas outras ilhas dominadas pelos países europeus católicos romanos sucedeu o
mesmo. A lista de nomeações feitas na Conferência, realizada a 9 de fevereiro de 1793, em
Antigua, na Igreja de São João, revela o progresso e a extensão que o trabalho havia tomado
nestes lugares. Ei-la:
1. Antigua -John Baxter, Guilherme Warrener.
2. Barbados - Daniel Graham, Benjamin Pearce.
3. Granada - Abrahão Bishop
4. S. Cristóvão - W. Black, John Harper, Roberto Pattison, José Telford
5. Nevis - John Kingston
6. Tortola - Thomas Oivens, John Mc. Veau
7. Jamaica - Guilherme Fick
2. A missão na África
Em 1778 a questão de mandar missionários para a África foi discutida, porém, nada mais
se fez para estabelecer a Missão Africana até 1795.
Por muito tempo este assunto pesava sobre o espírito de Coke e finalmente, foi resolvido
que se estabelecesse uma missão naquele continente. Coke, pelas informações colhidas a
respeito da tribo dos Foulahs, que habitava a região de Serra Leoa, soubera que esta era superior
às demais do continente africano, pelo que ele desejou fosse ali estabelecida uma colônia de
ingleses leigos, que procurassem introduzir o ensino dos trabalhos manuais, meio que considerava
eficaz para civilizar os indígenas, e facilitar mais tarde a pregação do Evangelho nesses lugares.
A idéia foi apoiada pelos ingleses e não foi difícil arranjar recursos para este
empreendimento. Mas, desta vez, Coke se enganara na escolha da pessoa que encarregara de
fundar a missão. Os mecânicos, os carpinteiros e pedreiros, e outros que foram escolhidos,
portaram-se indignamente, mesmo a bordo do navio em que foram levados para a África, de modo
que o projeto fracassou por completo. Coke ficou humilhado e desapontado com o resultado deste
primeiro esforço.
Mais duas tentativas foram feitas antes de conseguir fundar uma missão permanente na
África, e que muito influiu no espírito da nação inglesa para acabar com o tráfico de escravos.
Em 1812 Coke escreveu sobre a missão dizendo: “O valor moral e espiritual do Evangelho
para a África, e a grandeza deste empreendimento são reconhecidos sem discussão. Não é uma
ilha solitária, nem um arquipélago, que estamos a visitar, porém um continente mui habitado por
gente de nações cujos nomes ignoramos. Temos a promessa de que “a Etiópia estenderá as suas
mãos para Deus”. Cremos que, mandando o Evangelho para estes habitantes antigamente
favorecidos, mas agora oprimidos, cumprir-se-á essa promessa. Durante longos anos temos feito a
África derramar lágrimas de sangue. Mas agora vamos iluminar o seu rosto com a luz da alegria,
compensando as injurias que lhe temos feito. Já o Parlamento nos tem mostrado o caminho, com a
abolição do tráfico de escravos, recusando ocasionar qualquer sofrimento mais a seus filhos.
Vamos, pois, seguir este bom exemplo, levando o bálsamo de Gilead para curar as suas chagas”.
4. Trabalho Missionário entre os Franceses.
Quando a Revolução Francesa arrebentou, Coke julgou que a França apresentava uma
ótima oportunidade para aceitar o Evangelho, à semelhança dos alemães no tempo de Luthero,
mas nisto foi enganado. A Condessa de Huntington havia recebido cartas da França pedindo que
alguns pregadores fossem mandados para aquele país. Depois de sua morte essas cartas caíram
nas mãos de Coke, e julgando que isso seria da vontade de Deus, logo atendeu ao pedido e levou
dois pregadores para a França.
Mas o resultado não correspondeu à sua expectativa. Escrevendo sobre isto, disse:
“Passei cinco semanas na França, com dois dos nossos pregadores franceses, um de Jersey e
outro de Guernsey. Na Normandia tivemos alguns triunfos: cerca de 800 dos protestantes
franceses, na vizinhança de Caen, aceitaram os nossos ofícios e instruções. Trinta deles
mostraram muito interesse pela salvação e foram organizados em classe: seis destes foram
convertidos. Deixei os dois pastores na Normandia. Levei um deles comigo para visitar Paris,
porém a vitória que lá tivemos naquela cidade dissoluta, não correspondeu à nossa expectativa”.
Não conseguindo levar diretamente o Evangelho para a França, principiou o trabalho entre
os soldados franceses presos na Inglaterra. Havia alguns 11.000 presos e uma grande parte
destes estava nos navios ancorados nos portos. Alguns dos pregadores metodistas que falavam
bem o francês principiaram o trabalho da evangelização entre os soldados, e seus esforços não
foram em vão. Muitos se converteram e, quando voltaram à França, levaram consigo a sua nova
religião e assim Coke conseguiu levar a mensagem de Deus para o povo francês.
5. Missão Doméstica
Coke não se esquecia do trabalho entre seu próprio povo. Por muitos anos se interessou
em providenciar pastores. Fez muitas visitas pastorais aos pontos mais negligenciados da
Inglaterra, do País de Galles, da Escócia e da Irlanda. Aqui ele arranjou pregadores irlandeses que
falavam o dialeto da região, e que percorriam a cavalo lugares diversos, pregando o Evangelho de
Jesus. Entrando nas praças públicas e nas feiras, ao ar livre, pregavam o Evangelho ao povo na
sua língua vulgar (popular), e assim, muitas pessoas foram evangelizadas. No país de Galles, seu
próprio país, igualmente mantinha pastores ou evangelistas, que pregavam segundo o dialeto
gaulês que conheciam.
6. A missão da Índia.
O Dr. Coke ardia com o espírito missionário. Durante uma viagem de evangelização na
Irlanda caiu doente com febre, devido ao excessivo esforço que fazia. Durante as duas semanas
que passara acamado a sua mente esteve preocupada com as missões que estavam sob o seu
cuidado, especialmente a missão nas ilhas do mar. No delírio da febre falava nas missões.
Isto causou tão grande impressão sobre as pessoas que dele cuidavam que uma disse:
“Se o Dr. Coke morresse e se alguém próximo dele falasse em missões, tornaria a viver”.
As missões foram a paixão consumidora da sua vida.
Por longos anos ele meditou na fundação de uma missão na Índia. Em 1784, se não fosse
mandado para a América, teria promovido um projeto para abrir trabalho na Índia. Portanto, ele
estava com esta idéia dez anos mais cedo do que Guilherme Carey. Mas passaram-se vinte nove
anos até poder realizar o seu desejo de fundar um trabalho na Índia. Não havia outro homem na
Inglaterra que exercesse tanta influência pela causa das missões em todo o mundo como o Dr.
Coke. Seu exemplo despertou interesse nas Igrejas evangélicas da Inglaterra que ainda se
manifesta no grande movimento missionário em todo o mundo. Deste exemplo nasceram as
múltiplas Sociedades Missionárias na Inglaterra e em outros países.
Por longos anos o Dr. Coke havia estudado as condições na Índia e na ilha de Ceilão.
Quando se ofereceu para fundar a missão na Índia muito s dos seus amigos procuraram dissuadi-lo
deste projeto alegando que ele estava velho demais para aprender uma nova língua ou para
agüentar o novo clima tropical, etc. Mas não conseguiram dissuadi-lo.
Em 2 de junho de 1813 escreveu uma carta a um seu amigo, Sr. Drew, em que disse:
“Peço perdão por não ter respondido antes a sua carta. Tenho trabalhado pedindo dinheiro desde
a última Conferência mais do que nunca, senão por algumas seis semanas quando nadava nas
ondas de lamentação devido ao falecimento da minha querida esposa. Agora estou morto para a
Europa e vivo para a índia. Deus mesmo tem-me dito: “Vai para Ceilão”. Estou tão convencido que
seja a vontade de Deus que preferia ser colocado nu nas costas de Ceilão, sem roupa, e sem
amigos, do que recusar ir para lá. A língua portuguesa é falada em toda parte de Ce ilão, e,
também, pelas costas da Índia. Segundo o que o Dr. Buchanan declara, há 500.000 cristãos
nominais em Ceilão e há só dois ministros para zelar por eles. Estou estudando a língua
portuguesa constantemente e tenho certeza que posso aprendê-la antes de chegar ao Ceilão. Os
navios zarpam em outubro e janeiro. Se a Conferência me empregar para levantar o dinheiro para
custear as despesas de equipagem, não poderei embarcar antes de janeiro. Pagarei as minhas
próprias despesas de certo”.
Quando seu plano foi apresentado à Conferência em julho de 1813, havia muitos contra o
projeto. Mas havia outros de peso que o favoreciam. O assunto foi continuado para a próxima
sessão no dia seguinte. Quando o Dr. Coke se retirou da Conferência, indo para casa, chorou pelo
caminho. O Sr. Benjamim Clough, um dos homens que tinham consentido em ir com ele para a
Índia, acompanhou-o ao quarto. No dia seguinte ele não compareceu na abertura da Conferência e
o Sr. Clough foi procurá-lo. Quando o viu, reconheceu que tinha passado a noite em claro. Foram
juntos para a Conferência e quando se reiniciou a d iscussão sobre a missão na Índia, ele pediu a
palavra e contou à Conferência o que ia na sua alma. Historiou os fatos que o haviam levado para
encetar este serviço, concluindo:
“Se a igreja não puder fornecer o dinheiro para custear as despesas iniciais, eu posso
fornecer seis mil libras esterlinas”.
Quando a Conferência ouviu isto, toda a oposição ao plano cedeu e foi combinado que ele
fosse comissionado para fazer este trabalho. Sete missionários foram nomeados para acompanhálo nesta tarefa, porém ele já tinha conseguido doze. Dos doze escolheu os seguintes: William Ault,
James Lynch, George Erskine, William Martin Harvard, Thomas Hall Squance, Benjamin Clough e
John MacKenney.
Outros seriam mandados de acordo com o progresso e aceitação do trabalho.
O Dr. Coke principiou logo a organizar sociedades missionárias nas diversas igrejas para
ajudar na conservação do trabalho. Também ajuntou os sete homens em Londres e lhes arranjou
professores de holandês e de português.
Todo o seu tempo era ocupado antes de embarcar no dia 30 de dezembro de 1813, no
navio “Cabalva”.
Houve algumas tempestades durante a viagem. A esposa de um dos missionários ficou
doente e veio a falecer em 9 de fevereiro daquele 1814 e no dia seguinte foi sepultada no mar.
Também um dos marinheiros morreu, conforme o Dr. Coke escreveu no seu diário: “Um dos
nossos marinheiros morreu, e depois da cerimônia de sepultamento seu corpo foi enrolado na sua
rede e junto com o corpo puseram areia para dar peso, e foi lançado nas ondas do mar”.
Durante a viagem ele se mostrou alegre e consolador de todos. Ocupava quase todo o seu
tempo estudando o português e lendo a Bíblia na língua portuguesa. Mas quando chegou às águas
tropicais a sua saúde começou a perigar. Um homem de sessenta e sete anos de idade corria
muito perigo em viver em tal clima. Em 2 de maio mostrou-se um pouco fraco. No dia seguinte
piorou, mas, mesmo assim fraco, mostrou-se alegre, e, antes de deitar-se, visitou o Sr. Harvard e
sua esposa em seu camarote. Quando se levantou para ir, tomou a cada um pela mão, para os
abençoar. O Sr. Clough queria zelar dele durante a noite, mas o dr. Coke achou desnecessário.
Às cinco horas da manhã do dia seguinte, quando o empregado do navio em que viajavam,
segundo o seu costume, bateu à porta do seu camarote, não foi atendido. Finalmente abriu a porta,
entrou e achou o corpo do venerável bispo morto no chão. Morrera durante a noite.
Os missionários entristecidos, queriam que o corpo fosse levado à Inglaterra para ser
enterrado ao lado dos seus queridos na cidade de Brecom. Mas descobriram que isto era
impossível, e consentiram que fosse sepultado no mar.
No dia seguinte, 4 de maio de 1814,, às cinco horas da tarde, depois do serviço religioso,
dirigido pelo Sr. Harvard, o corpo deste servo de Deus e missionário zeloso, foi consignado às
águas do Oceano Índico até “a terra e o mar entregarem os seus mortos”.
Como Moisés, ele morreu à vista da terra da promissão, sem ter o privilégio de entrar nela.
E ninguém sabe, até hoje, o lugar da sua sepultura”.
VI
A vida de Francis Asbury,
o dianteiro do Metodismo na
América
(1745-1816)
O romance do movimento metodista é muito parecido com o dos primeiros dias do
cristianismo. Foi uma revivificação das lições de Jesus Cristo com que seus adeptos tomaram nova
resolução, atitude pessoal para com a religião, a sociedade e o espírito geral do Evangelho.
Já ardia em muitos corações o fogo deste movimento, quando nasceu um menino, f ilho de
pais pobres, que iria ser um dos dianteiros deste novo movimento no novo mundo. Seu papel seria
igual ao de João Wesley. O que fora Wesley na Inglaterra, Francis Asbury iria ser na América do
Norte.
“O deserto e os lugares secos se alegrarão nisto, e o ermo exultará e florescerá como a
rosa”. Ao redor destes dois vultos é que nos dois mundos (Europa e EUA) se estabeleceu o
metodismo.

I – SEUS PAIS E SUA MOCIDADE
1. Seus Pais
Pouco se sabe dos pais de Francis Asbury, além daquilo que ele próprio menciona no seu
diário. O pai era jardineiro e tr abalhava nos jardins e hortas dos seus vizinhos mais abastados.
Sem dúvida foi um homem trabalhador e honesto, no entanto, aprendeu a economizar os lucros do
seu trabalho vencendo os dias todos da vida, na pobreza.
A mãe era uma senhora piedosa que amava estremecidamente aos filhos. Tinha só dois,
um menino e uma menina que se chamava Sara e que faleceu ainda pequena, ficando a mãe a
lamentar muito a sua morte.
Quando o filho se ofereceu para o trabalho na América, foi-lhe sobremodo difícil consentir
que ele fosse. E como seu ilustre filho nunca mais voltou para a Inglaterra, teve que se consolar
sabendo que ele cumpria a vontade de Deus, estabelecendo o Reino de Cristo na América.
O filho, Asbury, da América, mandava alguma coisa aos velhos pais para ajudar naquilo
que podia.
2. Sua mocidade.
O que sabemos do seu nascimento e sua mocidade é aquilo mesmo que ele nos conta em
seu diário; portanto citemos longo trecho do que ele escreveu a respeito de sua mocidade, depois
de vinte e um anos passados na América. Foi no ano subseqüente à morte de João Wesley.
Sem dúvida a leitura da biografia de João Wesley lhe fora estímulo para narrar alguns fatos
da sua mocidade que não contavam do seu diário.
“É muito provável”, disse ele “que tudo que escreverem de mim seja encontrado no meu
diário; não será impróprio, portanto, relatar alguma coisa a respeito dos meus primeiros dias e dar
algumas informações acerca dos primeiros anos do meu ministério”.
“Nasci na velha Inglaterra, ao pé da Ponte de Hamstead, na paróquia de Handsworth, a
quase uma légua distante de Birmingham, em Stafford-shire, e, segundo a mais segura informação
que tenho, foi no dia 20 de agosto de 1745”.
Meu pai se chamava José e minha mãe Elizabeth. Eram de humilde posição, mas notáveis
pela honestidade e pelo amor ao trabalho, e tinham tudo o que lhes era necessário para o conforto.
Se meu pai tivesse sido tão econômico quanto laborioso, teria sido um homem abastado.
“Mas como se deu, foi-lhe a sorte ser jardineiro dos dois homens mais ricos da paróquia.
Meus pais tinham dois filhos, uma filha de nome Sara, e eu. Minha querida irmã faleceu na
infância. Era filha predileta de minha mãe que a amava estremecidamente. Dali por alguns anos
andara profundamente triste chorando a falta de sua filha. Foi nesse lance que agradou a Deus
abrir os olhos de sua mente para o fato de que ela viria num dia e lugar de muitas trevas. Agora ela
começou a ler, ocupando todo o tempo que as oportunidades lhe apresentavam. Quando eu era
pequeno achava muito esquisito vê-la à janela lendo um livro horas inteiras.”
“Posso dizer que desde a minha mocidade não tenho proferido uma blasfêmia, nem dito
uma mentira. O amor à verdade não é natural, porém o hábito de falar a verdade eu o adquiri
desde pequenino: e fui tão bem instruído que nunca pude violar minha consciência, a qual me não
permitia blasfemar. De meus pais aprendi uma certa forma de oração, e me lembro bem como
minha mãe insistia com papai para fazer o culto doméstico quando o costume de cantar salmos o
caracterizava no lar. Minhas fraquezas eram as de criança: o gosto de brincar. Todavia abominava
judiarias e iniqüidades, não obstante serem os meus colegas os piores e mais corrompidos da
comunidade, a mentir, blasfemar e brigar, praticando tudo o que rapazes da sua idade ousariam
fazer. Muitas vezes, apesar dos meus escrúpulos e princípios de moral, ainda continuava
procurando nele prazeres que não pude encontrar. Não raras vezes fui criticado e ridicularizado
com chamarem-me de pastor, tão somente porque minha mãe sempre convidava pessoas
religiosas para nos visitar em casa. Mui cedo na vida, mandaram-me à escola e entre seis e sete
anos comecei lendo a Bíblia cuja parte histórica era muito do meu prazer. Meu professor era um
homem brutal que me castigava severamente. Isto me levou a orar e sentir comigo a presença de
Deus.”
“Meu pai só tinha um filho, era eu. Dai querer me conservar na escola por muito tempo;
porém, nisto foi desapontado, pois criei tanto desgosto pela escola e tanta antipatia para com meu
professor que estava ansioso para sair e fazer qualquer serviço, fosse o que fosse. Por algum
tempo morei com uma família, a mais rica e ímpia da paróquia, ficando por isso vaidoso, mas não
ímpio. Depois de alguns meses, quando tinha treze para quatorze anos de idade, voltei para casa
dos meus pais e resolvi escolher uma profissão. Escolhi a de ferreiro seguindo -a por seis anos e
meio, gozando muita liberdade e sendo tratado pela família com que trabalhava, como se fosse um
filho e não um aprendiz. Logo depois que comecei neste serviço Deus nos mandou à comunidade,
um homem piedoso, não um metodista, que minha mãe convidava para vir à nossa casa. ”
“Pela conversação e oração deste homem eu me despertei antes mesmo de completar
quatorze anos de idade. Já não me era então difícil deixar meus colegas e comecei a fazer oração
de manhã e à noite, sendo atraído por laços de amor, como se fossem cordas de homem. ”
“Em pouco tempo deixei o nosso vigário cego, e procurei os cultos feitos na Igreja de Werb
Bromwich, onde tinha o privilégio de ouvir os reverendos Ryland, Slittmgfleeb, Talbob, Bagnall,
Mansfield, Hawes e Venn, grandes nomes e estimados ministros do evangelho. Isto me interessou
e comecei a ler e reler os sermões de Whitefield e Cenninch e todos os bons livros que podia
encontrar. Não passou muito tempo e comecei a indagar de minha mãe quem eram e onde
estavam os metodistas. Ela me respondeu com boas informações deles e me indicou uma pessoa
que me levaria a Wednesbury para os ouvir. Descobri logo que esta Sociedade metodista não era
a Igreja, mas era melhor que a Igreja. O povo era tão devoto; homens e mulheres se ajoelhavam e
diziam “amém”, ou cantavam hinos, suaves, melodiosos! Coisa esquisita: o pregador não tinha livro
de oração, mas orava maravilhosamente! E ainda mais admirável e interessante de tudo era o
homem tomar um texto sem nenhum livro de sermões. E eu pensava: é deveras maravilhoso ! De
fato é um pouco esquisito, mas é o melhor método. Ele falou sobre confiança, segurança, etc,
ponto em que me falhavam todas as esperanças e aspirações. Eu não tinha convicções profundas,
nem tinha cometido qualquer pecado grande de que eu me lembrasse.”
“De outra feita, numa pregação, um colega meu ficou profundamente abalado. Eu, no
entanto, me afligia porque o mesmo não se dera comigo, estava num estado de incredulidade.”
“Certa ocasião, quando estávamos orando no paiol de meu pai, creio eu que me converti,
sentindo que o Senhor me perdoava os pecados e me justificava o coração. Meus colegas, porém,
me furtaram esta convicção, dizendo que o Dr. Matha dissera que um crente devia estar tão alegre
como se estivesse no Céu. Julguei então que não estava tão feliz aqui como estaria no Céu, e
assim abandonei a minha confiança e neste estado fiquei por alguns meses”.
“Mas, ainda assim estava alegre, não sentindo qualquer culpa ou medo, resistindo ao
pecado e sentindo continuo gozo no coração. Depois disto nós nos reunimos para ler e orar e os
cultos eram bons e bem freqüentados, mas muito perseguidos. O próprio dono da casa em que se
realizavam os cultos ficou com medo e os cultos não mais se realizaram ali.”
‘Comecei então a fazê-los na casa de meu pai, exortando o povo ali como também em
Sutton Colfeld, e algumas almas confessaram que tinham achado a paz por meio das minhas
exortações.”
“Assistia à classe em Bromwich Heath e a Sociedade em Wednesbury. Diversas vezes eu
pregara antes de me apresentar em qualquer casa de oração dos metodistas. Quando os meus
trabalhos se tornaram mais publicamente conhecidos, o povo se admirava, não sabendo que me
havia exercitado em qualquer outro lugar. Eis-me agora um pregador local! Um servo humilde e
pronto para ajudar a qualquer pregador que me convidasse ou de dia ou de noite. Estava pronto
para ir a qualquer lugar perto ou longe com intuito de fazer o bem, visitando Derlyshire, Staffordshire, Wowichshire, Wocerteshil, e afinal a qualquer lugar ao meu alcance, pelo amor às almas
preciosas, pregando geralmente três, quatro e cinco vezes por semana e ao mesmo tempo
seguindo o meu of ício de ferreiro. Se não me engano, tinha vinte e um ou vinte e dois anos, tendo
servido cinco anos como pregador local, quando me consagrei a Deus e a seu trabalho. ”
“Hoje é dia 19 de julho de 1792, e para Deus e pelas almas tenho trabalho há mais ou
menos trinta anos.”
“Algum tempo depois da minha conversão a Deus, no calor de meu sangue e coração de
jovem, o Senhor me mostrou o mal no meu íntimo. Por algum tempo gozei o que julgava o amor
puro e perfeito de Deus. Mas este estado de coisas não continuou por mu ito tempo, apesar de
certas épocas de grande alegria. Quando era itinerante na Inglaterra, fui muito tentado descobrindo
ignorar ainda muito coisa do Evangelho e que um ministro deve conhecer.”
“Como fui levado a vir para a América e os sucessos que se desenrolaram desde aquela
ocasião, meu diário os revelará”.

II – SEU PREPARO PARA O MINISTÉRIO
Quando lembramos a grande diferença entre João Wesley e Asbury, quanto ao preparo
para o ministério, admiramos a sabedoria de Deus em os chamar para sua seara. Asbury
terminando seus estudos na escola com quatorze anos de idade, e João Wesley continuando seus
estudos na universidade até a idade de trinta e três anos. Mas devemos também lembrar o campo
em que cada um tinha de trabalhar. O campo de Wesley exigia preparo espiritual e intelectual, por
todos os motivos mui especializados para lidar com os problemas religiosos e sociais de um povo
preso aos seus costumes e preconceitos formados no correr dos séculos, enquanto Asbury tinha
de trabalhar num campo novo, entre um povo livre de preconceitos que caracterizavam o povo do
mundo velho.
O trabalho na América exigia não somente abnegação, mas também habilidade no
adaptar-se ao meio e obrar com sabedoria decorrente da vida prática. Os cincos anos de trabalho
como ferreiro e sua experiência na evangelização do povo de sua cidade antes de conhecer os
metodistas e, além disto, os cinco anos de pregador local, e ainda mais cinco como itinerante como
pregador metodista na Inglaterra, deram-lhe preparo para seu trabalho na América. Preparo que a
Universidade não teria dado. Basta ver que Wesley com todo o seu preparo universitário foi um
fracasso na América. Asbury, no entanto, que conhecia a vida prática foi um dos maiores triunfos
como se fora um missionário nestes tempos modernos. Deus sabe escolher e preparar os seus
obreiros.
1. Seus estudos
Julgando pelo que ficou dito sobre o preparo de Asbury, parece desnecessário qualquer
outra palavra sobre o assunto. Mas devemos lembrar que Asbury, apesar dos poucos anos de
assistência às aulas na escola, foi um leitor de livros durante toda a sua vida.
Lendo o seu diário descobrimos este fato, pois ele menciona os títulos de vários livros que
lia. Está fora do assunto mencionar algumas das obras que estudou na América; todavi a, para não
desprezar o fato sobremodo eloqüente, citemos alguma coisa sobre os estudos que lá fazia, ao
mesmo tempo que trabalhava.
Asbury não conhecia a atmosfera de uma universidade e nem mantivera contato com
homens eruditos como tivera Wesley, nem por isso deixou de assentar-se aos pés dos melhores
professores de todos os séculos.
Sempre estava ocupado. Sabia, como bom estudante, valorizar o seu tempo observando
rigorosamente um plano fixo de estudos. Ele escreve: “Passei esta tarde lendo o Evangelho
segundo São Marcos, marcando e tomando nota e esboçando os meus planos futuros.
Presentemente meu programa, é: ler cem páginas por dia, orar mais ou menos cinco vezes por dia
em público, pregar ao ar livre de dois em dois dias, falar nos cultos de oração todas as tardes e se
fosse possível gostaria de fazer mil coisas mais para meu bondoso e bendito Mestre”.
E continua: “Tenho passado o meu tempo recordando os tons e pontos no hebraico; isto é
o que estudo quando ando a cavalo. Que lugar para o estudo do hebraico!” Nesta ocasião diz ele:
“Gastei muito do meu tempo lendo o Novo Testamento em Grego . Procuro aprender um pouco de
tudo, buscando enriquecer a minha mente estudando línguas, divindade, gramática, história,
literatura; meu maior desejo é me desenvolver nas coisas úteis.
Com que avidez aproveitava ele as oportunidades para aperfeiçoar-se nos seus estudos. É
ele ainda quem diz: “Passei a noite com o Sr. Henrique, um judeu. Lemos o hebraico, uma parte da
noite, e seria prazer ter gasto toda a noite assim com um professor tão bom”. nós temos um pouco
de tudo e procuramos enriquecer a nossa mente estudando línguas, divindade, gramática, história,
literatura; meu maior desejo é me desenvolver nas coisas úteis.
Citemos o depoimento do Dr. Fipple que nos dará idéia mais clara sobre a rotina de estudo
de Asbury: “Este homem era um sedento por aprender, tão ansioso que era para adquirir
conhecimentos. Sempre levava livros consigo, quase sempre no alforje, mas quando não cabiam
no alforje levava-os numa grande caixa. Assim Francis Asbury se tornou um homem erudito”.
Sentimos que o espaço não nos permite dar uma lista das obras lidas por ele, e no seu
diário mencionadas.
2. A aprendizagem para ferreiro
Como já dito, a escola tornou-se-lhe intolerável por causa da brutalidade do professor.
Saindo da escola procurou um serviço qualquer e arranjou emprego com um ferreiro onde
trabalhou uns cinco anos. Durante este tempo, podemos dizer, Deus já o estava preparando para o
seu trabalho missionário mais tarde na América. Asburby estava acostumando-se às provações
que teria de enfrentar. Estudava também a natureza humana na sua fraqueza. Sem dúvida
aprendeu a arte de julgar e pesar os homens, o que revelou habilmente durante a sua longa
administração da Igreja na América.
O rapaz que aprende a malhar o ferro e lidar com os fregueses de uma ferraria tem em
parte, um bom preparo para o trabalho do ministério. Foi nesta época que se converteu e começou
o seu trabalho de evangelização na sua própria cidade.

III – TRABALHO COMO PREGADOR NA INGLATERRA
Antes de se oferecer como missionário para a América, Asbury tinha dado provas do seu
ministério “como obreiro que não tinha de que se envergonhar, manejando bem a Palavra da
verdade”.
1. Como pregador local
Pouco se sabe sobre o trabalho de Asbury durante os cinco anos em que trabalhou como
pregador local, além daquilo que ele próprio nos conta no trabalho citado. Mas, julgando pelos
mencionados lugares onde pregava, vê -se que o seu tempo estava bem empregado. O fato de ter
ele seguido seu ofício de ferreiro e ter pregado em Derbyshire, Staffordshire, o aprovaram. Assim
entrou Asbury no campo que lhe parecia destinado para o resto da vida.
2. A viagem para a América
Logo depois da Conferência foi para casa e contou aos pais o que tinha resolvido fazer.
Seus pais ficaram tristes sabendo que agora o único filho os ia deixar, talvez, para jamais os ver,
mas, consentiram na sua ida, rogando as bênçãos do céu sobre ele.
Asbury embarcou com Richard Wrigth, no dia 4 de setembro de 1771, para Filadélfia. A
viagem foi tolerável. O tratamento que recebera do capitão e dos demais membros da tripulação foi
de respeito. Ele pregou quase todos os domingos aos marinheiros, mas como ele registra no seu
diário, foi de quase nenhum efeito. A coisa mais desagradável e difícil de suportar foi a cama que
tinha de ocupar, pois não tinha colchão nem cobertor. Felizmente ele possuía dois cobertores que
muito lhe serviram na longa viagem pelo mar.
Para apreciarmos os seus motivos quanto à sua missão na América citamos novo lance do
seu diário: “Quinta-feira, 12 de setembro de 1771. Quero notar aqui algumas coisas que me pesam
na mente. Para onde vou eu? Vou para o Novo Mundo. Para que fim? Para ganhar homens? Não.
Conheço bem meu próprio coração. Para ganhar dinheiro? Também não. Vou viver para Deus, e
para levar outros a fazer a mesma coisa. Na América tem havido manifestações de Deus. Primeiro
entre os amigos (Quakers), depois entre os presbiterianos. Entre uns e outros, no entanto, logo se
arrefeceu.”
E continuou: “O povo que Deus tem destinado na Inglaterra são os Metodistas. As
doutrinas que eles pregam e a disciplina que aplicam são as mais puras que hoje se podem achar
no mundo. Deus tem abençoado ricamente essas doutrinas e essa disciplina nos três reinos:
infere-se dali que lhe estão sendo aceitáveis. Se Deus não me reconhecer na América, voltarei
logo para a Inglaterra. Eu sei que os meus pensamentos são retos agora; e, permita Deus sempre
o sejam. Se notarmos bem os sentimentos manifestados nestas poucas linhas, teremos a chave ou
o segredo do procedimento deste servo de Deus durante a sua longa e abençoada vida.”
Finalmente chegaram em Filadélfia no dia 27 de outubro de 1771 e foram recolhidos à
casa do irmão Francis Hanis.
2. O primeiro ano na América
Na primeira noite na América, Asbury assistiu culto numa Igreja, pregando o Rev.
Pelmoore a uma grande congregação. O povo o recebeu com muita satisfação e ele assim
descreve no seu diário os seus sentimentos: “Senti que para este povo minha língua se
desembaraçava para falar-lhe. Sinto a presença de Deus aqui, e encontro tudo que preciso. Seja
do agrado de Deus conservar-me sob seu preciosíssimo cuidado até que me passem as
tempestades da vida. Em tudo que eu fizer, onde quer que eu vá, permita Deus que não peque
contra Ele, mas que faça somente aquilo que O possa agradar.”
Poucos dias ficou ele em Filadélfia onde assistia cultos e pregava algumas vezes. Em 6 de
novembro começou a sua vida de itinerante na América, itinerância que nunca abandonou até o
dia em que fora chamado para as felizes moradas nos céus. Pelo caminho, na viagem para Nova
York, pregou em diversos lugares e no dia 12 de novembro chegou em Nova York encontrando o
Sr. Richard Boardman em paz, porém, mui fraco no corpo. Não sabemos o que se deu entre eles
nas suas conversações, mas é muito provável que não concordaram sobre o modo de fazer a
propaganda entre o povo.
A tentação para os missionários que tinham chegado à América era ficar nas cidades onde
tinham os seus amigos e onde não teriam de passar tantas privações como teriam de passar
viajando pelas aldeias e sítios. Agora chegando no meio deles, Asbury, um homem acostumado a
malhar o ferro e suportar privações, quis que os seus colegas fizessem o mesmo.
Encontramos o seguinte no diário dele, em conexão com a sua chegada em Nova York:
“Na segunda-feira parti para Nova York e lá encontrei Richard Broadman em paz, mas muito fraco
ao corpo. Agora tenho de me aplicar ao trabalho de costume: viajar, lutar e orar. A juda-me, ó
Deus”.
Em Nova York, Asbury passou alguns dias pregando e visitando. Ficou bem impressionado
com o povo americano, notando-lhe franqueza e simplicidade, porém não podia ficar parado. No
seu diário ouvimo-lo dizendo: “Terça-feira, 20 de novembro de 1771. Aqui fico em Nova York, no
entanto não estou satisfeito em ver os dois (pregadores metodistas) juntos aqui na cidade. Ainda
não alcancei o que busco, a circulação (itinerância por um circuito de cidades e vilas) dos
pregadores para evitar parcia lidade e popularidade; contudo, eu me aferro ao plano metodista, e
faço o que posso para Deus. Cismo que há dificuldades para enfrentar, o que não é de se
estranhar, pois eu já sabia disso antes mesmo de deixar a Inglaterra; no entanto estou pronto a
enfrentá-las, a sofrer sim, e morrer se preciso for antes de trair a causa bendita de Cristo. Será
difícil resistir a todas as oposições como uma pilastra de ferro forte ou muralha de bronze firme,
mas tudo por aquele que nos fortalece”.
Continuando a citar-lhe o diário sobre essa questão lemos: “Quinta-feira, 22 de novembro.
Atualmente não estou satisfeito. Julgo que durante este inverno seremos limitados às cidades.
Meus irmãos não querem deixar as cidades, mas eu lhes vou mostrar o caminho. Estou rodeado
de dificuldades e ameaçado ainda mais, porque vou resistir a toda espécie de parcialidade. Não
tenho outra coisa a buscar senão a glória de Deus, e nada a recear, senão o desfavor de Deus.”
Lendo estes trechos de seu diário é fácil julgar o metal de que Asbury era feito, os seus
desejos, planos e idéias. A resolução que tomou, assim logo no princípio da sua missão na
América, o caracterizou durante toda a sua vida. Quando ele disse que ia mostrar aos seus
colegas o caminho da itinerância, não era uma express ão insignificante, porém uma convicção da
sua alma cuja manifestação durante a sua vida foi altamente sugestiva. Lendo-lhe o diário ficamos
impressionados com seus movimentos (suas viagens, sua itinerância) durante o primeiro ano de
sua residência na América. Visitou Nova York duas vezes e Filadélfia três vezes, e pregando em
muitos lugares entre estas duas cidades e nos seus arrabaldes.
Os pregadores Boardman e Plimore conservam-se nas cidades de Nova York e Filadélfia,
trocando campos de trabalho, uma vez ou outra durante o ano. Asbury era de opinião que eles
deviam viajar mais entre o povo nos sítios e vilas.
Asbury correspondia com Wesley, dando notícias do seu trabalho e dando o seu parecer
sobre o modo como julgava que devia ser feita a propaganda (o anúncio). Seja como for, o fato é
que Wesley achou proveitoso nomear Asbury o superintendente do trabalho na América, em lugar
de Boardman.
Asbury no seu diário diz: “Segunda-feira, 10 de outubro de 1772. Recebi uma carta do Sr.
Wesley, em que ele insiste na prática de uma disciplina rigorosa; e me nomeou como seu
ajudante”. Assim passou o primeiro ano na América.
4. Nomeado superintendente e seu trabalho de itinerante
Sendo nomeado superintendente do trabalho na América começou a por em prática a sua
idéia sobre a “circulação do pregador”, pondo-se de exemplo em tudo. Continuou a viajar entre as
duas cidades, Filadélfia e Nova York e também ia estendendo o seu circuito para os lugares onde
não haviam chegado os metodistas.
Asbury era um grande gener al e queria que os soldados da Cruz andassem por toda parte
pregando o Evangelho. Durante este ano ele formou dois circuitos novos: um ao redor da cidade
de Filadélfia e outro ao redor de Nova York. No ano anterior tinha aberto novos pontos de
pregação pelas suas visitas de pregador itinerante enquanto seus dois colegas se conservavam
nas cidades. Boardman sem dúvida não concordava em tudo com ele, mas não podia deixar de
admirá-lo e respeitá-lo.
Também tinha estabelecido ordem e disciplina nas Sociedades Metodistas em Nova York e
Filadélfia, organizando os membros em classes, dando assim oportunidade aos mesmos de serem
ajudados na correção e edificação da fé. Agora, sendo nomeado superintendente ou ajudante de
Wesley, ele formou dois circuitos em conexão com o trabalho já estabelecido nas cidades e mudou
a sede de seu campo de ação de Nova York para Baltimore, formando novo circuito naquela zona.
Dali os pregadores se ativaram mais. Novo espírito se apodera deles e o trabalho se estende para
o Norte e para o sul do país.
Uma coisa houve que abriu os olhos de Asbury logo que chegou na América. Estava ele
assistindo o culto em Filadélfia e assim descreve no seu diário o que testemunhou nessa reunião:
“4 de novembro de 1771. Tivemos um culto de vigília. Quase no fim do culto, fala um homem do
sítio, mui simples, cujas palavras calaram fundo no espírito do povo, portanto podemos dizer: quem
desprezou o dia das coisas pequenas? Deus não o desprezou. Por que, então, tanto orgulho no
homem? Asbury descobriu o valor do povo simples dos sítios e queria evangelizá-lo. Este foi o
ponto, bem o sabemos, que o caracterizou durante toda a sua vida e até o dia de hoje tem
caracterizado o metodismo. Em 1773 Wesley manda um novo obreiro, Rankin. Igualmente
experimentado e disciplinado, foi nomeado superintendente no lugar de Asbury, passando este
novamente às fileiras de pregador itinerante.
Como itinerante recebeu logo nomeação para o circuito one já estava trabalhando, o de
Baltimore. Aquele campo era difícil, mas o trabalho de Asbury, nesta zona, foi tão ricamente
abençoado que os frutos do seu serviço se manifestam até hoje nas cidades de Baltimore e
Norfolk, na Virgínia. É interessante notar-se seu comportamento sobre a Conferência realizada em
Filadélfia em 1773. Ele diz: “Houve alguns debates entre os pregadores nesta Conferência acerca
da conduta de alguns que tinham manifestado desejo de ficar na cidade e viver como fidalgos. Três
anos passados nas cidades revelaram que se havia gasto muito dinheiro inutilmente, e que se
havia nomeado alguns guias incompetentes e ainda mais: algumas das nossas regras tinham sido
violadas.”
5. Refugiado dois anos durante a guerra da revolução
Não será possível neste opúsculo dizer tudo o que ele fez nos primeiros anos na América.
O que já foi dito revela bem o espírito e o ideal que tinha para o trabalho, cuja orientação desde o
princípio por ele dada foi seguida até o fim.
Mas as coisas, politicamente falando, não iam bem, pois havia uma inquietação entre o
povo das colônias contra os ingleses. O povo queria sua independência da pátria mãe, e
naturalmente aos pregadores vindos da Inglaterra tocaram certas manifestações de antipatia.
Asbury passou a maior prova ou crise na sua vida quanto à sua relação com o trabalho na
América. Ele era inglês e nunca se naturalizara americano, mas nem por isso, deixou de ter
simpatia para com a causa dos americanos.
Tão fortes e hostis se tornaram a situação e ameaças contra os ingleses depois de
declarada a independência, em 4 de julho de 1776, que os pregadores ingleses se retiraram do
país. Francis Asbury pensou em fazer o mesmo, mas por causa do amor que tinha ao trabalho da
evangelização, hesitou algum tempo, antes de tomar decisão definitiva sobre o assunto. Sem
dúvida os seus sentimentos estavam ao lado dos seus patrícios ingleses nesta ocasião, porém o
seu amor à causa de Cristo o constrangia a ficar na América.
Um lance do seu diário nô-lo revela: “22 de abril de 1777”. “Ouvi o Sr. Rankin pregar seu
último sermão. Fiquei desconsolado e abatido e senti forte desejo de voltar para a Inglaterra,
porém entrego tudo isto a Deus”
Logo depois de receber uma carta do Superintendente Rankin, Asbury escreve em seu
diário: “Recebi uma carta do Sr. Rankin, em que me informou que ele e o Srs. Rodda e Dempter
tinham tomado conselho juntos e chegaram à conclusão que deviam voltar para a Inglaterra. Mas
eu de modo algum posso consentir em deixar um campo como este na América. Tão prometedor
para arrebanhar almas a Cristo. Seria uma desonra eterna para o m etodismo se todos nós
deixássemos as três mil almas que querem se submeter ao nosso cuidado. Nem seria o papel do
Bom Pastor deixar o rebanho na hora do perigo. Portanto, resolvo com a graça de Deus, não os
deixar, sejam quais forem as conseqüências”.
Este fato fez lembrar o “Diga ao povo que fico” de D Pedro I, ao ser exigido seu retorno
para o Reino de Portugal. Se Asbury, abandonando o campo, tivesse voltado para a Inglaterra, o
metodismo teria uma história muito diferente da que tem hoje em dia.
Mas um fato, agrada-nos lembrar, ocorrido na vida de Asbury durante esta época. Alguns
dos seus colegas se tinham queixado dele para Wesley e Wesley escreveu uma carta chamando
Asbury para a Inglaterra, mas, felizmente quando a carta chegou, Asbury estava lá para o sul da
colônia e não a recebeu antes da independência das colônias e, portanto, como já visto, não era
conveniente voltar à Inglaterra e foi o único entre os pregadores ingleses que teve inclinação para
ficar. Assim a ordem apressada de Wesley não foi atendida.
E além da hostilidade dos americanos contra os ingleses, o panfleto escrito por Wesley
intitulado: “Um discurso calmo aos nossos Colonos Americanos”, causou forte reação contra os
metodistas na América. Asbury tinha de enfrentar este ódio junto com os americanos metodistas.
Sobre o ponto, diz ele no diário: “19 de março de 1776. Recebi uma carta afetuosa do Sr.
Wesley, e estou muito triste por se ter este venerável homem metido na política americana. O meu
desejo é viver em paz e amor com todos os homens, fazer-lhes todo o bem possível. Contudo
revela a lealdade que o Sr. Wesley tem para com o governo de seu país onde ele mora. Se fosse
um súdito americano, sem dúvida seria igualmente zeloso pela causa americana. Mas alguns
homens, ponderando mal, tem aproveitado a ocasião para censurar os metodistas americanos por
causa dos sentimentos políticos do Sr. Wesley”.
Asbury teve de se esconder, por isso se conservara em retiro por dois anos, durante a
guerra. Foi hóspede na casa do Juiz Thomas White, no Estado de Delewore. Fácil nos é imaginar a
difícil situação de Asbury. Não mais podia pregar em público nem viajar sem correr mil perigos.
Os pregadores americanos continuaram o seu trabalho, realizando as Conferências
anuais, porém, Asbury não as podia assistir. Nem por isso deixou ele de influir na administração do
trabalho. Os pregadores visitaram -no para Conferênciar com ele. E também foi uma época em que
tinha mais tempo para estudar e se preparar melhor para o trabalho.
Mas houve uma coisa que muito concorreu para modificar a resolução dos oficiais do
governo para com ele e demais metodistas. Foi uma carta que tinha escrito para Rankim na
véspera de sua retirada da América, e que caiu nas mãos dos americanos. Nesta carta Asbury
revela os seus sentimentos e opiniões acerca da guerra, dizendo que era de opinião que os
americanos iam ganhar a sua independência, e que tinha muitos amigos americanos a quem
amava demais para os abandonar e julgava que os pregadores metodistas americanos tinham uma
grande obra para fazer na América sob a direção de Deus.
Sua simpatia e fidelidade para com a causa americana concorre para engrandecê-lo
perante os americanos. Sua influência no meio deles crescia constantemente, pois o
reconheceram como um homem desinteressado.

V – UM BISPO ITINERANTE
Devemos lembrar que a situação do movimento metodista depois da revolução tomou
aspecto diferente. Foi espantoso o crescimento em número durante os oito anos de perturbação,
pois, só neste período o número de membros passou a ser cinco vezes mais do que era no
princípio da revolução. Mas com este crescimento em número e com a separação da Igreja
Anglicana do Estado quando se fundou a Republica terminou o regime episcopal e o povo
metodista estava com um ministério sem ordenação e grande número de gente sem a
administração dos sacramentos e do batismo e Santa Ceia.
Até aqui os metodistas (que eram parte da Igreja Anglicana) podiam em grande parte
batizar os seus filhos e comungar nas Igrejas Anglicanas, porém, tudo isto já desaparecera. Que
se havia de fazer? Já por algum tempo antes disto muitos pregadores tinham pensado em
administrar os sacramentos, mesmo sem ordenação, porém Asbury sempre se opôs. Alguns
ameaçaram de uma separação se tal coisa não fosse feita, mas ele resistiu. Vê-se, portanto, que
não era uma questão inteiramente nova que surgia de um dia para outro, mas sim uma questão já
antiga que se agradava com as modificações radicais do país.
João Wesley estava a par de tudo e sobre o caso já havia refletido maduramente. Acabou
resolvendo não abandonar seus filhos metodistas na América, muito mais agora em situação
embaraçosa. Ordenou então alguns presbíteros e um superintendente (bispo) para irem a América
para, por sua vez, ordenarem outros presbíteros e outro superintendente na América e assim
fundar e organizar a Igreja metodista. Os dois presbíteros ordenados por Wesley, foram Richard
Whaticoal e Thomas Vasey, e o superintendente foi Thomas Coke.
Em vista de estes fatos serem narrados mais minuciosamente na história de Thomas Coke
(capítulo V desse livro), deixamos de os repetir aqui.
Wesley enviou estes homens no fim do ano de 1784. Lá chegaram aportando em Nova
York nos fins de novembro do mesmo ano. Encontrou -os Asbury em Nova Jersey e os
acompanhou até a cidade de Baltimore, onde se realizou a notável Conferência denominada “A
Conferência do Natal”, pois principiou no dia 24 de dezembro de 1784, na Capela “Lovoly Lane”,
em Baltimore. O Dr. Coke tinha instruções de Wesley para ordenar a alguns presbíteros (ministério
pastoral ordenado, clerical) e ordenar a Asbury, Superintendente Geral (bispo) do trabalho
Metodista na América. Mas Asbury recusou a ordenação antes de o ato ser aprovado pelos
pregadores americanos. É o espírito democrático dos americanos refletindo por via de Asbury,
democrática e liberalmente no sistema metodista na América. Ele foi gradativamente ordenado
diácono, presbítero, e superintendente (bispo). Quando ele e mais doze pregadores americanos
foram ordenados, Wesley realmente organizou a Igreja Metodista Episcopal na América. Assim
Asbury orçava pelos quarenta anos de idade quando foi ordenado bispo.
1. Estabelecendo a Igreja Metodista e as suas viagens constantes
O Dr. Coke não ficou na América muito tempo. Apenas a visitava quando havia
necessidade de o fazer. Dai o peso todo da responsabilidade do trabalho estava sobre os ombros
de Asbury.
Não mencionamos até então o fato de Asbury não gozar de boa saúde. Constantemente
sofria, e as suas múltiplas viagens ainda mais lhe agravavam os padecimentos. Agora então,
colocado oficialmente à testa do movimento, em vez de lhe diminuírem as viagens, tinha de viajar
mais do que nunca.
Nós hoje em dia nesta época de tantas facilidades de viajar, não podemos apreciar o
grande sacrifício que ele e seus colegas na itinerância tinham de fazer para evangelizar o
continente norte americano.
Lendo os diários dele, três volumes de mais de quinhentas páginas cada um, ficamos
impressionados com a repetição destas rxpessões: “viajei hoje”, “preguei hoje”, “fui hóspede hoje
de fulano de tal”, “fazia muito frio”, “dia chuvoso”, “não tinha lugar para ler ou escrever, nem para
meditar”, “estava doente hoje e com febre”, “tinha dor de garganta”, “escrevi cartas”, etc., etc.
Alguma coisa se pode aprender desse exemplo de trabalho. Ele fazia quase anualmente
um itinerário que estendia do estado de Maine, Nova Inglaterra, no extremo norte dos Estados
Unidos, até ao Estado de Geórgia para o sul do país, e de Baltimore, do Estado de Maryland até
aos Estados dos ponteiros de Kentucky, Ohio, Tenesse e Alabama. Asbury não tinha lugar fixo, o
caminho era o seu lar.
Era realmente um homem sem lar. Não quis casar, porque não julgava justo casar e
depois ter que deixar a esposa sozinha. Lembrava bem um caso de “quem se fazia eunuco por
causa do reino dos céus”. E embora não tenha se casado ou tenha tido filhos, era um homem e um
Bispo que amava muito as crianças. Entre as muitas famílias que visitava de ano, era notório como
era amigo e querido pelas crianças. Tomava-as no colo; contava-lhes histórias e ensinava-as a
cantar hinos.
Um dia quando estava nas planícies de Ohio um homem lhe perguntou de onde vinha e ele
lhe respondeu: “De Boston, Nova York, Filadélfia, Baltimore, ou de qualquer parte”. Ele foi um dos
maiores itinerantes na história do Cristianismo. Chegou na América, meteu-se a caminho e foi até o
fim; nunca deixou de viajar. Nunca alugou uma casa para si; viveu na estrada por quarenta e cinco
anos. Ele diz: “Tenho viajado tanto que quando tenho de parar um d ia, parece-me que estou na
prisão. Viajar é a minha saúde, a minha vida e tudo, corpo e alma”.
Viajou mais do que Wesley. Os seguintes extratos do seu diário nos darão idéia de sua
vida de itinerância:
“Temos viajado cem milhas por estradas ruins e o calor tem sido severo desde que
deixamos Nova York.”
“Viajamos 130 léguas em vinte dias e só descansamos um dia.”
“Meu cavalo tem agora um trote duro, nada há que admirar, porque tenho viajado nele
1610 léguas por ano, e isto por cinco anos seguidos.”
“Andei dezesseis léguas para pregar um sermão, mas acho que não foi tempo perdido”.
“Temos andado quase trinta léguas esta semana neste tempo de inverno quando os dias
são curtos e frios. Por que um homem vivo deve se queixar? Mas para estar três meses em
seguida nas fronteiras, onde geralmente, só há um quarto, uma lareira, e meia dúzia de pessoas
desconhecidas ao redor, e além disso só a família (e as famílias, são geralmente grandes nesta
terra nova) fazendo assim uma multidão, e isso não é tudo: pois aqui se tem de meditar, aqui se
tem de pregar, ler, escrever, orar, cantar, falar, comer, beber e dormir ou fugir para o mato.”
“Bem! sinto dores no corpo especialmente no quadril, dores que me incomodam bastante,
quando ando. Mas eu me consolo cantando os hinos de Carlos Wesley, Watts, Stennett.”
Quando tinha cinqüenta e oito anos de idade, descrevendo uma viagem para Tennesse,
ele diz: “Seis meses por ano tenho tido a obrigação de me submeter de quando em quando a
certas coisas que nunca serão agradáveis para mim; porém, o povo sempre me mostra muita
bondade e consideração. No entanto, bondade não pode fazer um casebre de três metros por
quatro, cheio e apertado de gente, ser agradável; lá fora está frio e chovendo, e aqui dentro estão
seis adultos e outro tanto de crianças, e uma delas não pode ficar quieta. Até os cachorros por
vezes também têm que ser admitidos.”
“Num sábado descobri que tinha apanhado uma doença de pele que me incomodou
bastante. Mas considerando as casas e as camas sujas que tenho encontrado, é até curioso que
não tenha apanhado este incômodo vinte vezes mais. Não vejo remédio para tudo isto, todavia
durmo com uma camisola que tem bastante enxofre.Coitado do Bispo! No entanto temos que
suportar por amor dos escolhidos”.
A experiência de Asbury era muito parecida com a do apóstolo Paulo (II Cor. 11:23-33). Ele
podia dizer com o apóstolo: “Em trabalhos e fadigas, em vigílias muitas vezes, com fome, e sede,
em jejum muitas vezes, com frio e nudez; além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim
diariamente, os cuidados de todas as igrejas”.
Além das viagens constantes tinha o cuidado de todas as igrejas e seus pastores. O peso
era bastante para um homem, mas ele estava acostumado às responsabilidades.
O cuidado de todas as igrejas ocupara sempre o seu espírito. Fazia mil e uma coisas para
atender a todos os interesses e bom andamento da causa de Cristo. Uma coisa ocupava bastante
o seu espírito era a boa disciplina na igreja. Não podia tolerar irregularidades na igreja.
Quanto a isto vimos como ele principiou o trabalho na América. As Sociedades que
existiam quando ele chegou na América não tinham sido bem disciplinadas e ele logo que chegou,
especialmente, apertara bastante os crentes na sua administração com visitas à disciplina. Ac erca
da Sociedade em Nova York diz ele: Quando voltei, alguns dos membros se mostraram refratários
à disciplina, porém sem disciplina não seremos mais do que uma corda frágil.
A disciplina tem de ser administrada aconteça o que acontecer. Mui cedo notou ele o fraco
no trabalho de Whitefield: a falta de disciplina e organização. Dai a resolução que tomou quanto a
disciplina e ordem no trabalho na América, e que seguiu fielmente modelando-se nesse ponto no
exemplo de Wesley. Lembrou-se também do ditado da Ig reja antiga: “A alma e o corpo fazem um
homem, e o espírito e a disciplina fazem um cristão”.
Por isso ele fiscalizou as Sociedades e assim escreve no seu diário: “Muitos ficaram
ofendidos porque os excluía da Sociedade, mas, importa-me dizer que ficaram viciados muito
antes disso. Não me importo , pois com isto. Enquanto eu estiver aqui no cargo, as regras serão
observadas. Não posso me conformar com membros que são meio metodistas. Um amigo
avançado em idade me disse com muita sinceridade que a opinião do povo tinha se mudado
bastante acerca dos “metodistas” e que os Quakers e outras seitas (grupos religiosos) tinham se
afrouxado na disciplina e que só os católicos romanos observavam a disciplina com rigidez, porém
nada dessas coisas me modificou o modo de pensar sobre isso”.
Havia mais uma luta em que tínhamos de conservar a disciplina na sociedade, e isto foi a
questão dos “Sacramentos”. Antes de organizar a igreja em 1784, as sociedades recebiam o
batismo e a Santa Ceia das mãos dos párocos anglicanos , mas havia uma corrente forte contra
isto; essa corrente composta de diversos pregadores queria agir sem mais nem menos a
administrar eles mesmos os sacramentos aos membros.
Mas Asbury se opôs, com toda a sua força e conseguiu evitar a divisão entre as
sociedades até que passos seguros pudessem ser dados para estabelecerem um ministério
devidamente ordenado, e isto com boa ordem.
Se ele não tivesse evitado essa divisão, a história do Metodismo nos Estados Unidos teria
sido diferente do que é hoje em dia. Como se iam aumentar os circuitos e conseguintemente o
número de conferências anuais, a questão de concentração de trabalho tornou -se de manifesta
importância. Para solucionar o problema, o Bispo Asbury, com apoio de grande número de
pregadores, formou o que é conhecido na história da igreja como o “Concílio”. Mas o Concílio só
tinha duas reuniões, havendo-lhe ainda oposições. Um dos primeiros membros deste Concílio,
James O. Kelly, o presbítero presidente de um distrito do sul do Estado de Virginia, revoltou-se não
somente contra o Concílio, mas, também, contra o Bispo Asbury, acusando-o de ambicioso. Isto foi
em 1690. Em 1792 o Bispo Asbury convocou uma Conferência Geral, composta de todos os
pregadores. Esta Conferência se realizou na cidade de Baltimore.
James O . Kelly tinha formado uma panelinha contra o Bispo Asbury para lhe diminuir o
poder eclesiástico. Nesta Conferência Geral James O. Kelly apresentou uma proposta sobre um
dos princípios fundamentais do episcopado, dando direito ao pregador de a pelar para uma nova
nomeação se não ficasse satisfeito com a nomeação feita pelo Bispo. O Bispo Asbury retirou-se da
Conferência visto estar presente o Bispo Coke e que podia presidi-la, dando assim toda a liberdade
aos irmãos para deliberarem sobre o assunto. Ao mesmo tempo mandou a seguinte comunicação
à Conferência: “Alguns indivíduos entre os pregadores têm inveja da minha influência e prestigio
na Conferência. Entreguei-lhes inteiramente o negócio sobre que deliberariam presididos pelo Dr.
Coke.
Escreve ele no diário: “Ao mesmo tempo mandei-lhe a seguinte carta: Meus prezados
irmãos: Não deixeis a minha ausência vos incomodar; o Dr. Coke presidirá. Felizmente estou
dispensado de assistir e fazer as leis com as quais tenho eu de governar. Toca-me somente
obedecê-las. Posso afirmar com satisfação quando considero que nunca nomeei qualquer
pregador por inimizade ou por vingança. Até aqui tenho agido para a glória de Deus, pelo bem do
povo e para a promoção de utilidades aos pregadores. Estais vós certos que se vos agradardes
ficará o povo igualmente satisfeito?”
“O povo freqüentemente diz: “manda-nos tal e tal pregador”, e às vezes diz: “não queremos
tal e tal pregador, preferimos pagar para ele ficar em casa”.
“Talvez tenhais que dizer que o apelo do povo vos obrigou a mandar este ou aquele. Eu
sou um, vós sois muitos. Estou pronto para vos servir agora como no passado. Não quero ficar
como pedra de tropeço a alguém. Desprezo solícitos votos. Sou uma pobre criatura para ouvir
louvores ou censuras. Revelai vossos pensamentos com toda a liberdade; mas lembrai-vos que
não estais fazendo leis somente para o tempo presente. Pode ser que, como em algumas outras
coisas, assim também nisto o futuro vos possa dar mais luz.”
Assim este homem faz a sua apologia com bastante sabedoria. A proposta de James O.
Kelly não foi aprovada e, desgostoso, retirou-se da Conferência (a saber, da Igreja Metodista), e
com ele alguns dos seus colegas que sobre o ponto estavam de acordo. Não podendo derrotar o
Bispo Asbury pela legislação, separou-se da Igreja e levou junto consigo alguns pregadores do seu
distrito e fez uma campanha cerrada para arrastar todos os membros da localidade para o seu
lado. Mas o Bispo Asbury seguia seu caminho e tinha de atravessar a zona em que James O. Kelly
tinha tanta influência, mas não proibia os seus pregadores de pregar e ativar-se. No correr do
tempo, na velhice, James O. Kelly ficou desamparado e foi o Bispo Asbury que recomendou que
ele recebesse o auxílio de quarenta libras por ano para o seu sustento, como fazia para os outros
pregadores.
Julgando pelo modo por que ele agiu no caso de James O. Kelly temos o melhor
desmentido às acusações de ambicioso que lhe fizeram os críticos e invejosos de suas vitórias.
Que o Bispo Asbury foi firme em administrar a disciplina não podemos negar, porém, acusá-lo de
ter ambições pessoais para se engrandecer a si mesmo não o podemos conceber. O que fazia era
para a glória de Deus e para o bem estar da Igreja.
Foi na ocasião desta Conferência Geral realizada em 1792, que a autoridade do Bispo
para fazer as nomeações foi bem discutida. O resultado da discussão foi que a sua autoridade foi
confirmada com votação de uma grande maioria dos pregadores.
O Bispo Asbury nunca se queixou dos pregadores, experimentados, pois sempre
aceitaram as suas nomeações sem se queixarem, mas os jovens, às vezes o incomodavam. Ele
disse: “Os jovens, os rapazes, me enfadam quando tenho de lidar com eles. Hugo Porter escreveu
para esta cidade pedindo uma estação, e assim acrescenta este mal aquele que já tem feito. Terei
cuidado com estes rapagões”.
O Bispo Asbury muito cedo no seu trabalho na América se interessou pela educação do
povo por meio de escolas. Fundou diversas escolas durante os anos de sua atividade e assim deu
ênfase a este ramo de trabalho que tem caracterizado o metodismo em toda parte.
Igualmente não deixou de se interessar pela publicação de livros. Fundou-se até uma casa
publicadora em 1789 dirigida por John Dickins. Uma das coisas mais importantes que se
encontram no metodismo, é o espírito de conexionalismo.
Ao fim do primeiro ano de administração, Asbury como superintendente geral, na ocasião
da primeira conferência que se realizou na América, conseguiu a nomeação dos pregadores para
os diversos circuitos que foram criados. Assim os cargos nas cidades foram ligados com os
circuitos nos sítios, havendo para todos uma só direção.
Alguns historiadores são de opinião que a Igreja Metodista Episcopal na América teve a
sua fundação, portanto, em 1773 e não em 1784, na ocasião da Conferência do Natal. Ao menos
podemos afirmar que um dos princípios fundamentais foi reconhecido, sendo lançados os alicerces
da nova Igreja nessa ocasião.
Quando estudamos a vida do Bispo Asbury não devemos esquecer do seu espírito
missionário que mui cedo se manifestou na sua administração. Celebramos o primeiro centenário
da obra missionária em 1919, porém, o espírito missionário, a obra de mandar missionários aos
índios, e aos canadenses, se manifestou antes da organização da Junta de Missões de 1819.
Leiamos um lance do seu diário: “Preguei três vezes domingo e tirei uma coleta para
custear as despesas de missionários mandados para as fronteiras do oeste. Duas vezes falei
sobre o mesmo assunto durante a semana”.
E ao mesmo tempo dois missionários foram mandados para Nova Escócia. Era costume
dele levar uma lista para receber ofertas pequenas para aliviar os pregadores necessitados e
sustentar os missionários. A maior contribuição que se permitia fazer era um dólar, e seu nome
consta como o primeiro contribuinte na última lista que usara antes de falecer.
O Bispo Asbury sabia julgar e valorizar os homens. Ele estudava os pregadores como
alguém estuda um livro e raras vezes se enganava a respeito de alguém.
Henrique Boehm, um companheiro de viagem do Bispo assim o descreve acerca deste
ponto: “Ele assentado na Conferência olhava através das sobrancelhas grossas e escuras,
estudava o rosto e o caráter dos pregadores, não somente por causa da Igreja, mas também para
seu próprio benefício. Às vezes me dizia: ‘O pregador tal tem ficado trabalhando tempo demais nas
fazendas de arroz ou da Península. Ele está pálido; a saúde dele está sendo ameaçada; ele deve
ser mandado para um lugar montanhoso’. Ou ainda: ‘O tal pregador seria mudado sem saber o
motivo de sua mudança, e na próxima Conferência aparecia com o semblante mudado e estado de
saúde muito mudado’.”
Ele tinha muita simpatia para com os pregadores. Uma vez em 1806 alguns dos
pregadores estavam sem roupa e o Bispo Asbury vendeu o seu relógio, paletó e camisa, para os
ajudar nas suas necessidades. Vê-se ali como ele tinha simpatia para com os pregadores. Era
costume dele quando um pregador morria na sua ausência, voltando para aquele lugar sempre
procurava o túmulo do colega de ministério e visitava.

VI – O FIM DA JORNADA
Era costume do Bispo Asbury viajar sem parar, porque não tinha uma casa de moradia
alugada, pois não demorava mais de quinze dias num lugar, senão quando a sua saúde não
permitia viajar. Nos últimos anos as viagens lhe foram muito penosas, especialmente as que fazia
ao oeste das montanhas visitando as fronteiras nos Estados de Tennesse, Kentucky e Ohio.
A última visita que fez às fronteiras foi em 1815. A última Conferência que assistiu foi a
Conferência de Tennesse que se realizou em outubro de 1815, em Bethel, perto de Salmon, no
Estado de Tennesse, quando teve longa entrevista com o Bispo Guilherme McKendree (que havia
sido eleito Bispo da Igreja em 12 de maio de 1808 na Conferência de Baltimore, sendo o primeiro
bispo da Igreja com nacionalidade norte-americana), e se despediu da Conferência entregando a
responsabilidade de nomear os pastores ao Bispo McKendree.
Assim o Bispo Asbury se exprime: “Domingo ordenei os diáconos e preguei, no que me
lembrei do Dr. Coke. Minha vista me falha. Entrego a nomeação dos pregadores ao Bispo
McKendree: vou agora retirar os meus pés”.
Asbury tinha visitado o sul dos Estados Unidos trinta vezes no correr de trinta e um anos e
queria visitar as regiões novas de Mississipi, porém, o dia estava declinando e a noite se
aproximava: estava chegando a hora para descansar.
Foi com muito sacrifício que ele conseguiu voltar para o leste, acompanhado pelo rev.
Bonde. Chegaram em Richmond, Virgínia, em março de 1815 , e, no dia 24 desse mês, ele pregou
o último sermão na cidade de Richmond. Estava tão fraco que não podia andar e tinha de ser
carregado do carro para o púlpito onde lhe arranjaram uma mesa, na qual colocaram uma cadeira
em que se assentou para falar ao povo. Falou quase uma hora, tendo de parar de quando em
quando, por falta de ar, pois os seus pulmões estavam quase destruídos pela tuberculose. O texto
usado foi Romanos, 9:28.
Ele queria chegar a tempo para assistir a Conferência Geral que se realizava em Baltimore
em maio, porém as suas forças não lhe foram suficientes para conseguir.
Continuando a sua viagem queria chegar em Fredesicksbury, porém o tempo não era bom
e as suas forças iam diminuindo até que teve de ficar em casa de um amigo, George Arnold, umas
oito léguas de Fredesicksbury.
Ele estava ciente de que tinha chegado ao fim de sua jornada. Aquela noi te não podia
deitar para dormir. A tosse aumentou causando-lhe muito sofrer. Queriam chamar o médico, porém
não quis, dizendo que o médico não chagava antes do seu fim e nada mais faria senão anunciar a
sua morte.
Queriam saber se tinha qualquer mensagem para a Igreja, respondendo ele que tinha dito
tudo o que tinha a dizer ao Bispo McKendree e à Conferência.
Às onze horas neste domingo ele perguntou se não era hora de assistir ao culto, e
lembrou-se de chamar toda a família ao redor da cama, e o Rev. Bonde cantou um hino fez
oração, leu e explicou o capítulo 21 do Apocalipse e durante o culto o Bispo Asbury ficou calmo e
sossegado. Terminando o culto pediu que fosse lida a lista de ofertas para os pregadores, assim
mostrando o interesse que tinha nos seus pregadores até ao último ato da sua vida.
Ofereceram-lhe um pouco de caldo, mas não pode tomá-lo e, vendo a ansiedade no rosto
do Rev. Bonde, levantou a sua mão amortecida mostrando-se alegre, querendo assim consolá-lo.
Um pouco depois o Rev. Bonde perguntou se sentia a presença de Cristo, mas o santo valente,
não podendo falar, levantou ambas as mãos em sinal do triunfo completo.
Pouco minutos depois, assentando-se à cadeira e inclinando a cabeça sobre as mãos do
Rev. Bonde, deu o último suspiro às cinco horas da tarde, no domingo 31 de março de 1816.
Enterraram-no no cemitério da família Arnold, mas, por decisão da Conferência Geral que
se reuniu e, maio daquele 1816, resolveu que o corpo do Bispo Asbury fosse enterrado sob o
púlpito da Eutaw Street Church, em Baltimore. Ali então repousaram os restos mortais de Asbury
por quarenta anos, quando então foram removidos ao “Montr Olivert Cemitery”.
Assim terminou a carreira do dianteiro do metodismo na América.
VII
A vidade GuilhermeMcKendree,
o Primeiro Bispo Americano da
Igreja Metodista Episcopal
(1757-1835)
Francis Asbury foi o elo que ligou o movimento Metodista na Inglaterra com o Metodismo
na América e Guilherme McKendree servira como segundo elo na corrente para continuar a
estender o mesmo movimento na América.
É interessante notar que estes dois homens que fizeram tanto para conservar e
desenvolver o que foi conquistado pelo movimento, foram homens humildes, do povo, em uma
palavra: self mad men. Nem um nem outro completou um curso de universidade, mas nem por isso
deixaram de ser homens jeitosos e preparados para o trabalho.
Thomas Cooke foi o primeiro Bispo metodista em todo mundo e f oi para os EUA para
ordenar Asbury Bispo daquela Igreja. Asbury foi o primeiro Bispo residente na América e Guilherme
McKendree foi o primeiro bispo de nacionalidade americana.
Depois da morte do Bispo Asbury, os destinos do Metodismo na América ficaram
inteiramente entregues às mãos dos americanos.

I – OS PAIS
Guilherme McKendree não tinha de que se envergonhar quanto a seus pais, pois eram
dignos e honrados. Eram membros da Igreja Anglicana.
John McKendree, o pai, era natural do Estado de Virgin ia e sua ocupação era de
fazendeiro. Foi um homem sério, honesto e trabalhador. Sua maior preocupação era providenciar
meios para sustentar uma numerosa família de oito filhos. Amava a sua família e zelava pelos
interesses dela, providenciando não somente sobre as coisas materiais, mas também, sobre as
morais e espirituais, vivendo uma vida de cristão, exemplar. Em 1810 mudou-se de Virginia para o
condado de Summeer, no Estado de Tennesse, onde veio a falecer no ano de 1815.
Sua mãe chamava-se Maria, e por vinte longos anos não sabia o que era gozar saúde.
Mas, era uma boa crente e uma mãe que sabia educar seus filhos apesar de suas enfermidades
físicas. Sua bondade, carinho, e paciência influíram poderosamente sobre seus filhos, que se
tornaram frutos evidentes de sua fé cristã. Em 1789 morreu ela triunfante na fé.

II – SEU NASCIMENTO E EDUCAÇÃO
A época em que McKendree nasceu, não era, em nada, favorável para educar filhos e
protegê-los das influências perniciosas. Havia perigo, pois o padrão moral daquela quadra era
muito baixo; até os vigários da Igreja Anglicana eram preguiçosos, gostavam de beber vinho, de
jogar, concorrendo em bailes, e corridas de cavalos.
Se os guias religiosos participavam destas coisas, que poderiam esperar do povo em
geral?
1. O seu nascimento.
Guilherme McKendree nasceu no dia 6 de julho de 1757, em o condado de King William,
no Estado de Virginia, umas dez léguas para o nordeste de Richmond. Era o primogênito de oito
filhos. Ele, o primeiro dos irmãos, e Nancy, a caçula, não se casaram. Nancy estimava muito a seu
irmão e cuidou carinhosamente dele, nos seus últimos dias.
2. Sua educação
Já se disse em linhas atrás, que as oportunidades para se adquirir uma educação nesta
época não eram fáceis, especialmente aos que eram da classe média e com poucos recursos.
Mas, apesar dessas dificuldades, os pais fizeram o que estava ao seu alcance para dar -lhe tudo o
que as circunstâncias e os seus recursos permitiam.
O menino assistia à escola que se podia encontrar, assistia -a com bastante proveito. Não
era considerado um menino excepcionalmente inteligente, mas um daqueles que tem
desenvolvimento mental lento, mas prolongado. Por isso, quando os outros começavam a mostrar
madureza intelectual, ele ia aumentando o seu desenvolvimento mental.
Era notável pelo bom senso comum e juízo; procurava exprimir os seus pensamentos
pelos termos e palavras mais exatos. Foi um rapaz tímido e modesto com um gosto que excedia à
sua capacidade de exprimir. Por isso sempre sentia algo dentro de si que o estimulava à perfeição.
Não conseguiu assistir aulas na universidade, porém adquiriu uma educação elementar
igual a qualquer outra daquela época. Sempre foi um rapaz honesto e moral; ele mesmo o
confessa, ajuntando que unicamente uma vez na sua vida proferiu uma palavra de blasfêmia.

III – COMO SOLDADO NA GUERRA PELA INDEPENDÊNCIA
Quando irrompeu a guerra pela independência McKendree tinha mais ou menos
vinte anos de idade. Muito pouco sabemos do serviço prestado por ele durante estes sete anos,
porque sempre se mostrou reservado no que dizia respeito a este período de sua vida. Que
prestou bom serviço à pátria, no entanto, não há que duvidar. Sabemos que foi um dos primeiros a
se apresentar entre os voluntários para defender a pátria e pelejar pela liberdade. Também
sabemos que foi um oficial do exército e que esteve presente na batalha de Yorktown, onde o
general inglês, Cornwalls, se rendeu aos americanos e franceses.
Quando Bispo, viajando pelos lugares onde se desenrolaram algumas batalhas,
reconstituiu alguns fatos que testemunhara e que de algum modo lhe diziam respeito.
O Rev. Henrique Smith, que era o companheiro do Bispo, nos conta o seguinte: “Ele, o
Bispo, esteve na revolução e estivera na batalha de Yorktown quando o general inglês Cornwalls
foi preso. Em 1820, fiz um passeio com ele no campo onde se deu a batalha, e ele me mostrou o
lugar onde ficava a sua tenda. Explicou-me como os soldados tinham que exercitar os cavalos
antes de entrarem na batalha”.
Também o Bispo Roberto Payne, comentando esta fase da vida de McKendree, diz: “Viajei
com ele meses inteiros e em diversas ocasiões relembramos as cenas da luta pela independência
sob o comando do general Washington, porém nunca o ouvi referir-se ao seu serviço prestado à
pátria. Talvez tivesse receio de se mostrar vaidoso na parte que tomara na luta pela
independência, e quisesse dar um exemplo de modéstia e honestidade. Em sua pessoa o soldado
da liberdade civil estava transformado num soldado valente da cruz. Tendo cumprindo o seu dever
como soldado patriota estava satisfeito, e nunca se gloriava de suas façanhas, nem pediu ao
governo uma pensão pelos serviços prestados. As honras do mundo e as riquezas ficaram muito
aquém das usas aspirações”.

IV – CONVERSÃO, CHAMADA PARA O MINSTÉRIO E OS
PRIMEIROS ANOS NA ITINERÂNCIA
Em vista de o Bispo Asbury pedir que McKendree narrasse os fatos sobre a sua própria
conversão, chamada para o ministério e a sua experiência na itinerância durante os primeiros
anos, julgamos por bem apresentar aqui o documento que ele deu ao Bispo Asbury.
Devemos lembrar que o Bispo McKendree foi muito influenciado pelo seu presbítero
presidente, James O Kelly. O Rev. James O. Kelly não gostava do Bispo Asbury e fez uma
campanha entre os pregadores do seu distrito contra ele e os planos que pleiteara para a política
da Igreja. O resultado foi que o jovem se deixou arrastar pelo seu superior em ofício; mas a
sinceridade e honestidade do moço eram tais que quando a verdade foi revelada deixou o Rev.
James O. Kelly e aliou-se ao Bispo Asbury e à Igreja. O fim do Rev. James O. Kelly foi bastante
triste, morrendo na velhice e tendo perdido todo o prestigio que gozava na igreja.
Vamos dividir este documento em três partes, a saber:
1) Conversão e experiência religiosa.
2) A chamada para o Ministério.
3) Na itinerância.

“Respeitável amigo e irmão , Francis Asbury, repetidas vezes me tem pedido o senhor para
lhe dar por escrito uma narração circunstanciada da obra de Deus na minha alma, a minha
chamada para o ministério e alguns dos fatos mais importantes na minha vida.”
“Até há pouco tempo alimentava tanta aversão em escrever algo acerca de mim mesmo,
que não quis atender ao seu pedido; porém, a sua solicitude tem sido apoiada por outras, isto na
esperança de que minha própria alma pudesse ser despertada, primeiro, pela meditação sobre as
misericórdias e as bênçãos do passado enquanto me lembrava dos serviços e das ternas
misericórdias de Deus manifestadas na minha alma; e segundo, se for da vontade do irmão,
imprimir o que escrevo, seria de meu proveito ler aquilo de que quase me tenho esquecido, pelo
lapso do tempo decorrido: estas considerações triunfaram sobre a minha aversão natural a essa
tarefa. Procurarei, portanto, em termos claros e simples, narrar os fatos e assim deitar o meu:
“quadrante no gazofilácio”.
“Faz agora quinze anos que entrei na itinerância, desde o ano de 1788 até a presente data,
1803; durante este tempo tenho viajado extensivamente nos Estados de Virgínia, Tennesse,
Kentucky e no território oeste de Ohio, agora Estado de Ohio; também em certas zonas nos
Estados de Carolina do Norte e Carolina do Sul.”

1. A conversão e experiência religiosa
“A primeira impressão da presença divina, de que tenho lembrança, foi quando era menino,
na escola. Lendo acerca dos exercícios e prática dos homens santos, como são narrados na
Bíblia; da sua vida santa prostrando-se perante Deus, orando e conversando com Jeová, e o Deus
todo poderoso falando com eles para os consolar, a minha alma se enchia de tal maneira da
majestade divina, a tal ponto, que os meus sentimentos se extasiavam de reverência. E eu tinha
tais idéias da condição daqueles homens santos, que a minha própria alma ardia com desejo de
ser semelhante a eles. Constantemente buscava lugares solitários em florestas, e lá prostrado com
o rosto em terra, chorava pensando que estava falando com Jeová. Tomava a sério este costume
e, por isso, outros me reprovavam.”
“Meu professor e mestre (que era um homem incrédulo e era pensionista de meu pai) e
outros, faziam pouco caso de mim e me criticavam tanto que eu deixei de pensar nestas coisas
sérias. Então comecei a seguir o mundo com seus prazeres, e não me lembro que tivesse mais
daquelas impressões sérias, por alguns anos.”
“Minha experiência me tem levado à maior interesse na experiência das pessoas durante
os anos ternos da mocidade. Muitos são os perigos da mocidade, sendo mui grande a benção de
instrutores competentes; e a falta destes, com toda a probabilidade, é a causa do ateísmo.”
“A segunda impressão religiosa que me lembro de ter, foi na ocasião em que ouvi o
seguinte hino sendo cantado:
“Ye sons of Adam, vain and young
Indulge yor hearts, indulge yom tongne
Enjoy the day of mirth, but know
There is a day of judgemnt too.”
“Oh! filhos de Adão, jovens vaidosos,
Prodigai o coração, prodigai a língua;
Gozai o dia do gozo, porém,
Sabei que há também um dia de juízo.”
“O dia do juízo deixou impressão na minha mente. Calou mesmo nos meus pensamentos e
perturbou a minha paz por muitos dias; porém, esta impressão gradualmente foi desaparecendo, e
mais uma vez pude gozar os prazeres da mocidade.”
“Mais tarde os pregadores metodistas entraram na minha comunidade e um
despertamento religioso se deu em nossa vizinhança. Meu pai e minha mãe com muitos outros
fizeram a sua profissão de fé e se uniram com a Igreja. Fiquei profundamente convencido do
pecado e resolvi servir ao Senhor. Por algum tempo andava muito sério, mas depois foi-se-me
esfriando o zelo e aos poucos voltei para o mundo e participei mais profundamente do espírito dele
do que em qualquer tempo antes.”
“A grande misericórdia do Senhor estendia-se sobre mim e me retirou da minha carreira
desastrosa, lançando-me na cama com um ataque terrível de febre. Cheguei a ver a morte à porta;
todo auxílio humano parecia falhar. Então me via a um passo da eternidade, e ái de mim, não
estava preparado, estava sem Deus! Não tinha esperança de um porvir feliz! Estava convencido de
que se morresse naquele estado seria eternamente miserável, e para compl etar o meu espanto e
misericórdia, não podia obter a clemência de Deus naquela situação. Considerava-me como um
que tinha preferido o serviço do diabo ao prazer da religião, até ao fim; e agora para pedir a Deus o
perdão dos meus pecados e me levar para si, quando não podia servir mais a mim mesmo, parecia
a coisa mais sem razão do mundo. Eu, portanto, me desesperava por obter a misericórdia de
Deus. Ah! Se Ele não tivesse misericórdia de mim, dando-me a saúde outra vez e assim me desse
mais uma oportunidad e para buscar o seu rosto. Por isso orei fervorosamente.”
“Enquanto me sentia sobrecarregado de dor, o mundo parecia uma coisa insignificante;
deveras, se pudesse, teria dado o mundo inteiro para obter a paz para minha alma, e o preço teria
sido uma bagatela. Mas enquanto a mim me parecia que estava pronto a dar tudo pela paz, eu me
lembro bem de um pensamento que me causou bastante confusão, mostrando -me o erro em que
tinha caído. A seguinte idéia foi sugerida: ‘Se o Senhor lhe desse saúde e convertesse a sua alma,
estaria pronto a ir pregar o Evangelho?’ Perante esta idéia a minha natureza se esquivava, a
vontade recusava, e eu tremia quando descobri que não estava tão pronto para obedecer.”
“Mas continuei a pedir e o Senhor me tirou da boca da morte, “cobrindo os ossos com
carne tenra”. Mas, oh!, quão fracas são as resoluções provocadas pelo medo. Enquanto as minhas
forças iam voltando eu perdia de vista o meu perigo e a resolução que julgava tão forte se
enfraquecia à medida que minhas forças aumentavam. Em fim perdi o desejo e voltei para os meus
colegas antigos e aos negócios do mundo. Continuei nessa situação até o grande avivamento de
religião que se deu no circuito de Brunswick, sob o pastorado de John Easter, em 1787. ”
“Um domingo visitei um senhor que morava na vizinhança; ele e sua senhora iam assistir
culto na igreja para ouvir o Sr. Gibson, um pregador local metodista, pregar. Isto foi logo depois da
revolução da independência; então a igreja estava aberta a qualquer pregador. Pois os clérigos
(que eram todos ingleses) tinham fugido para a Inglaterra deixando os seus rebanhos e o país.
Minha visita contribuiu para fazer o cavalheiro ficar em casa; sua esposa foi acompanhada de uma
escrava, e nós ficamos em casa passando o tempo a ler uma comédia e bebendo vinho.”
“A senhora demorou bastante tempo na igreja, mas finalmente quando nós estávamos
impacientes pelo jantar, ela chegou e nos contou coisas esquisitas aos ouvidos. Com espanto no
rosto ela nos começou a contar quem tinha deixado “banhado em lágrimas”, “quem tinha caído no
chão”, quem foi “convertido”, que barulho que se fazia entre o povo no meio de gritos pela
misericórdia e de alegria, etc. Ela nos informou que John Easter ia pregar na igreja na próxima
terça-feira. Meu coração ficou tocado pela apresentação. Resolvi procurar a religião e comecei
aquela tarde mesmo.”
“Na terça-feira fui à igreja em jejum e oração. O Sr. Easter pregou sobre João 3:19-22. “O
juízo é este, que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz”. A
Palavra me penetrou na alma.”
“Desde este dia em diante não tive sossego de espírito; sentia-me completamente
miserável. Meu coração estava quebrantado e vi quão “enganoso é coração acima de todas as
coisas, e gravemente enfermo”. Vi a longanimidade de Deus e a baixeza do pecado da ingratidão
de que eu era culpado por ter assim entristecido o Espírito Santo; tudo isto me inundou de
confusão. Agora minha consciência rugia como um leão. “As dores do inferno apoderaram -se de
mim”. Conclui que tinha cometido o pecado contra o Espírito Santo e estava pensando que não era
possível me salvar.”
“Durante três dias poderia dizer: ‘Consolar-me-á o meu leito. A minha cama aliviará a
minha queixa; então me assustas com sonhos, e com visões me atemorizas; de sorte que a minha
alma escolhe a sufocação’ (Jó, 7:7-15). Mas na tarde do terceiro dia veio o livramento. Enquanto
Easter pregava, eu estava orando do melhor modo possível, porque quase me desesperava por
alcançar a misericórdia. De repente as dúvidas e os temores fugiram de mim, a esperança nasceu
na minha alma, e o fardo de sobre mim foi removido.”
“Sabia que Deus era amor, que havia misericórdia para mim e me regozija em silêncio. Os
Sr. Easter me assegurava que Deus tinha convertido a minha alma; mas eu não o acreditava
porque já tinha formulado a minha idéia de conversão como se daria e o que devia segui -la; e o
que sentia naquele momento não correspondia com a minha idéia. Portanto não acreditava que
estava convertido, porém, sabia que havia misericórdia para mim, e eu me regozijava neste fato. ”
“De qualquer modo eu me achei numa condição não pouco confortável, pois comecei a
buscar o fardo do pecado, porque esperava senti-lo para estar de acordo com a minha idéia se
fosse convertido. Mas o fardo tinha ido embora, e eu não o podia achar. Às vezes vibrações de
alegria, sim, sentia a vida e o poder de uma fé viva; porém, o instante me advertia a minha
conversão, a fé me falhava, e a esperança enfraquecia, e o conforto morria, porque eu duvidava da
minha própria conversão.”
“Desejava descanso, porém julgava que tinha que passar maiores aflições que as que
tinha sentido antes de poder-me converter, e por isso recusei confortar-me. E assim, meu senhor
Asbury, por semanas inteiras experimentei todas as angústias, a procura daquilo que me iludia,
aquilo que julgava de máxima importância à vida e à salvação, e errando o alvo tinha que voltar ao
turbilhão do desapontamento, podendo até dizer que era como um pardal sozinho no teto; “a noite
os ossos se me traspass am e caem, e as dores que me devoram não descansam” (Jó, 30:17). Mas
o livramento estava perto. O Sr. Easter nos incitou e o Mestre veio com ele e foi nesta ocasião que
me encontrei com o Senhor, que é sempre bondoso e misericordioso, e que me abençoou, dand ome o testemunho do Espírito; então, oh!, meu senhor, eu podia deveras, sim deveras, regozijar-me
com regozijo inexprimível e cheio de glória!”
“Dentro de vinte e quatro horas depois disto, fui tentado a duvidar de minha conversão,
porque não recebi o testemunho de Cristo na mesma ocasião. Mas recorri ao Trono da graça, e, ao
cumprir o dever de oração, o Senhor me livrou do inimigo e desde aquele dia até o dia de hoje não
tenho duvidado mais de minha conversão.”
“Tenho pena daqueles, que sob certas idéias doutrinais, são levados a crer nas suas
dúvidas quanto às suas experiências e, portanto, somente podem dizer: “se eu fosse convertido”,
“espero que já esteja convertido”, “tenho receio que nunca fosse convertido”, etc. , mas não podem
afirmar: “sabemos que temos passado da morte para a vida”. É neste sentido que “as trevas, em
parte, têm acontecido a Sião”, porém, espero que não diste o dia em que a verdade e a religião
triunfarão sobre o erro e a formalidade. Logo depois de minha aceitação por Deus, ouvi um sermão
pregado pelo Sr. Gibson, sobre a santificação, e eu senti o peso desta verdade.”
“Quando o Sr. Easter voltou de novo, pregou sobre o mesmo assunto, reforçando a mesma
doutrina. Tudo isto me levou a examinar mais de perto as comoções de meu coração. E descobri
corrupção, abracei a doutrina da santificação e diligentemente busquei a sua benção, e quanto
mais sentia necessidade dela tanto mais importante ela me parecia. Em buscá-la minha alma
crescia na graça e na fé que vence o mundo. Mas havia uma falta em mim que me doía e fez-me
suspirar: “Is worse than death my God love, and not um God alone” (É pior do que a morte amar a
meu Deus e não somente a ele). Num dia, cedo de manhã andando no caminho, meditando, veio
sobre mim uma tal manifestação da presença do Ser Supremo como nunca tinha sentido antes.
Não podendo ficar em pé caí transbordando de alegria. O cálice transbordava e eu gritei de alegria.
2. Chamada para o Ministério
“Se não fossem as novas experiências, poderia ter regozijado “para todo sempre”, mas
meu coração foi aumentado e só então tive visão mais clara do que nunca, do estado perigoso
daqueles que se acham na incredulidade e sem conversão.”
“Por essas pessoas orei com toda a diligência. Às vezes, quando fazendo oração pública,
minha alma se agonizava e o Senhor, na sua grande compaixão, derramava o seu Espírito, almas
foram convertidas, e Sião regozijava naqueles dias.”
“Sem a mínima idéia de pregar, comecei a contar aos meus amigos o que o Senhor tinha
feito por mim e o que poderia fazer também por eles. Isto teve o seu efeito e muitos foram bem
intencionados. Assim fui guiado sem perceber, a ponto de os pregadores e o povo começarem a
insistir que eu falasse em público, o que me causou grande aflição. Quando meditava sobre um
assunto com disposição de me submeter; se fosse a vontade de Deus me chamar para pregar, as
Escrituras se abriram à minha mente, revelando-me um retrato da virtude e do vicio e das suas
conseqüências que me enchiam de doce alegria; e eu sentia o desejo de dizer: ‘Eis-me aqui,
manda-me a mim’.”
“Mas quando, refletindo sobre o fato que teria de me apresentar em publico com as
qualificações que possuía, eu me sentia abatido e desanimado. A importância da causa e o que
poderia acontecer por um advogado incompetente e indiscreto faziam-me recear que o Senhor
tinha me chamado, em fim que Ele nunca chamaria uma criatura como eu para pregar seu
Evangelho! Isto me contrariava e me afligia de tal maneira que pus os meus joelhos em terra,
pedindo que Deus me tirasse do mundo e me levasse para o Céu para, assim, por fim ao meu caso
duvidoso.”
“Não podia concentrar o pensamento nos meus negócios temporais, que estavam
inteiramente devotados ao assunto de religião. Um certo dia, quando estava assentado à mesa,
meu pai entrou e me falou assim: “Guilherme, não tem o Senhor te chamado para pregar o
Evangelho?” Eu respondi: “Eu não posso dizer; não sei o que significa um chamado para pregar”.
Ele acrescentou: ”Eu creio que Ele te chama e eu te exorto a que não entristeças o Espírito?” Por
momentos senti como se fosse atingindo por um raio. Nós dois estavam banhados em lágrimas.
Perguntei-lhe porque ele pensava assim. Respondeu-me: “Quando você estava doente com febre”
(meu pai referia-se à doença que já mencionei), “quando o médico e todos nós estávamos
desenganados, eu sentia uma grande aflição em pensar que ias morrer em teus pecados. Recorri
ao trono da graça e orei incessantemente. Enquanto eu estava de joelhos o Senhor se me
manifestou de maneira toda especial, e me deu a segurança de que você ficaria bom e viveria para
pregar o Evangelho. Até hoje não perdi minha confiança, embora tu tenhas sido muito negligente
nisto”.”
“Continuei nesta condição indecisa até que foi do agrado do Senhor me colocar no leito de
aflição. O Sr. Easter me visitou. No dia seguinte, era hora de partir para a igreja, ele orou por mim,
não como os homens geralmente oram, porém, de modo e com um zelo que lhe era todo peculiar.
Pela oração dele me senti abençoado; minha alma se encheu de gozo. Ele procedeu em contas ao
Senhor que a “Seara é grande mas os obreiros são poucos”, que tinha sido impressionado pelo
Espírito mas que tinha recusado obedecer. Pediu que o Senhor me desse a saúde e me mandasse
para a sua seara. Sarei e dali em diante comecei a fal ar mais freqüentemente em publico e o
Senhor se dignou de me abençoar a mim e aqueles que me ouviam.”
3. Na Itinerância
“Nove meses depois que recebi o testemunho do Espírito, realizou-se a Conferência
Distrital, na cidade de Petersburgo, na Virgínia. O Sr. Earter pediu que eu me aprontasse para
assisti-la. Aceitei o convite e fui hospedar-me em casa dele. Quando chegamos à Conferência, ele
me convidou para uma reunião dos pregadores. Fui e logo depois da oração foi lida a nomeação
dos pastores; anunciando o Sr. Asbury que eu estava nomeado para o circuito de Mecklenburgo,
com o Sr. Philippe Cox. Isto me foi um choque inesperado; porém a maneira com que o senhor
tratou os pregadores jovens me acalmou.”
“Terminada a sessão eu estava andando sozinho em uma outra sala e o meu Presbítero
Presidente entrou e, notando a minha perturbação de espírito, me abraçou e disse: “Quando você
estava em pé perante a Conferência o Senhor me mostrou que ele tem uma obra para você”, e
disse comovido, não sejas um desapontamen to para mim”. Posso afirmar-lhe que este ato me foi
de um efeito salutar. Contribuiu para acalmar e fixar a minha mente. Eu somente queria saber o
que era justo para eu fazer, então faria do melhor modo possível.”
“Tinha confiança absoluta nos pregadores, e refletindo sobre o caráter e juízo daqueles
que me tinham recomendado, e a Conferência que me tinha aceitado e fortalecido pelo gesto do
meu Presbítero Presidente, resolvi rejeitar as minhas d úvidas, submeter-me a juízo deles, aceitar a
minha nomeação e cumprir o meu dever de acordo com os meus dons. Assim depois de uma luta
em que por mais de oito meses eu estive suspenso em dúvidas, o coração estava “fixo” e fui logo
para meu circuito. Sim, aquele 1788 fui nomeado para o circuito de Mecklenburgo e este me foi um
feliz arranjo. O Sr. Cox, com quem fui nomeado para viajar, foi um grande intercessor e pai para
mim. Os crentes mais antigos sabiam simpatizar com os jovens pregadores. A mim me pareceu
que eles queriam realmente carregar a minha cruz. Neste circuito havia muitos crentes que tinham
experiências profundas das coisas divinas, e cujo exemplo e conversa eu muito aproveitei. Espero
que nunca me esqueça das palestras tão piedosas que tive com eles sobre o poder da graça
triunfante em Cristo.”
“Depois de uma prova, tinha a esperança de que os pregadores ficariam convencidos que
eu não tinha dons para o ministério; e por este meio eu poderia voltar para a minha vida sossegada
que deixei. Mas o ano passou e fui continuando em experiência. O povo amado não queria que eu
fosse removido do meio dele, porque tínhamos passado juntos alguns meses muito felizes. Em
1789, fui nomeado para o circuito de Cumberland, Virgínia, onde passei uma parte do ano, e então
fui transferido para o meu antigo circuito de Mecklenburgo.”
“Durante estes anos as dúvidas acerca de minha vocação para pregador quase
desapareceram por completo. Comecei a ter gosto na minha vocação. Os membros das igrejas
foram muito bondosos para comigo, e nós todos vimos algum fruto do nosso trabalho. Os membros
mais antigos foram estimulados a mais atividade e novas pessoas foram atraídas para a Igreja.”
“Mas, então levantou-se uma outra aflição dolorosa, de outra natureza. Um espírito de
cisma começou a nos atormentar (o movimento promovido pelo Sr. James O. Kelly).”
“O Metodismo tinha feito progresso além de toda a expectativa. Os regulamentos que
foram feitos não eram suficientes para abranger todas as exigências que a jovem e crescente
Igreja requeria, com o aumento de pregadores e membros.”
“No ano anterior, um número de delegados tinha sido indicado para formular regulamentos
para satisfazer a todas as nossas dificuldades (o Concílio). Eles tiveram uma reunião. Nosso
Presbítero Presidente, James O. Kelly, foi um deste grupo. E eles unanimemente tinham aprovado
um plano para ser apresentado às Conferências Anuais durante o ano para ser aceito ou
rejeitado.”
“Mas antes de se realizarem as Conferências, o Sr. James O. Kelly mudou de pensar, e
começou, em nossas conversas particulares, a informar-me do grande perigo que ameaçava a
nossa Igreja florescente; ameaça, cuja causa, segundo indicações claras dele, era a falta de
religião da parte de certos guias no ministério. E que o sr. Superintendente (bispo) era o chefe
deles, tinha ambição sequiosa pelo poder e dinheiro, como eu o compreendia, traria a destruição
sobre a Igreja de Deus.”
“Tive naquela época, e ainda tenho, muito zelo pelo progresso de Sião, e notava aquilo
que faria mal à Igreja. Examinei o que os nossos delegados tinham feito e formulei o meu juízo
sobre o caso, do melhor modo possível, e, de acordo com a minha informação, não podia aprovar
o plano. Isto deu ainda mais peso às representações particulares do meu Presbítero Presidente.
Indo assistir à Conferência em Petersburgo, com o meu Presbítero Presidente e mais alguns dos
pregadores, trocamos idéias antes de chegarmos à Conferência e mais uma vez nos consultamos,
ainda antes, de chegarmos à cidade, de sorte que mais ou menos havíamos chegado a um acordo
sobre o assunto antes de ser discutido no plenário da Conferência. Contudo, quando o Sr. Chegou
e apresentou o assunto à Conferência, como o sr. sabe, foi rejeitado em peso, e recusamos adotar
outro qualquer plano. Mas eu fiquei surpreso com o sr., pois em vez de se mostrar contrariado e
um tirano, o senhor propôs que fossemos eleitos diáconos.”
“Nós nos elegemos um ao outro, e o maior número de pregadores daquele Distrito, de
James O. Kelly, foram ordenados diáconos e nomeados aos diversos circuitos tendo o nosso
Presbítero Presidente antigo, como nosso chefe no território que fica para o sul do rio “James”. Em
1790, fui nomeado para viajar com Jessé Nicholson, no circuito de Portsmouth; mas fui removido e
passei o resto do ano com Guilherme Spencer, no circuito de Sury. Este foi um ano cheio de
conforto para minha alma.”
“Encontrei-me com um povo afeiçoado. Muitos eram realmente santos com profunda
experiência a respeito das coisas de Deus, e foram uma verdadeira benção para mim. “O ferro com
o ferro se aguça”; assim a conversação c om esses irmãos me estimulou ao amor e à prática de
boas obras. Encontrei pais, mães, irmãos e irmãs, que realmente o eram. Meus momentos de
sobra gastava-os nos estudos. A oração e o jejum eram para mim uma alegria. Experimentei um
céu na terra quase sem interrupção. O trabalho do Senhor prosperou nas minhas mãos,
especialmente lá para o fim do ano. Um número considerável foi acrescentado às Sociedades. ”
“Quando os presbíteros dirigem bem merecem honras duplicadas e devem ser estimados
pelo seu trabalho. Mas, ai de mim, o meu maior tormento naqueles dias vinha do homem que me
devia ter dado conforto. Quando o meu velho amigo, James O. Kelly nos visitou quase todo o
tempo disponível foi consumido em conversas particulares comunicando e consultando sobre “de
que maneira o partido que mais e mais manifestara o seu mau negócio da sua política e princípios
e, forçosamente”, como ele dizia “mais cedo ou mais tarde traria a destruição completa à Igreja”. O
resultado foi que ele chamou todos os pregadores do seu Distrito para uma reunião, num dia
marcado, na cidade de Mechlenburgo. Isto foi uma novidade termos uma Conferência especial no
intervalo da Conferência Anual; mas o motivo desta era considerado justificável.”
“Reunimo-nos segundo a ordem do Presbítero Presidente e formamo-nos num concílio. O
nosso Presbítero Presidente nos contou uma coisa. Ele tinha alguma oposição e isto causou
bastante dor. Tomamos resolução contra “o partido oposicionista”, e o nosso amigo P astor
Presidente pensava que os pastores estavam mais ou menos de acordo, com uma ou duas
exceções, que eram julgados do “partido oposicionista”. Exigimos uma Conferência Geral.”
“Eu amava a Deus e queria bem a Igreja dele e portanto estava disposto a ouvir as suas
queixas. O velho cavalheiro James O. Kelly era considerado por mim como amigo da Igreja
também – a boca da Igreja; e tal foi a minha confiança nele que a sua palavra era considerada por
mim como se fora quase um Evangelho. Ouvi-a e acreditava no que ouvia. Tomando um lado só
da questão, de acordo com a minha informação, tinha que desconfiar dos pregadores do “partido
oposicionista”, ou o “Bispo e as suas criaturas”, como eram chamados.
“Talvez o senhor se lembre que foi, mais ou menos nesta época, que lhe disse que não
tinha mais confiança no senhor. Ao menos nunca me hei de esquecer de sua resposta: “Não me
admira, meu irmão; às vezes somente podemos ver com os nossos olhos; às vezes somente
podemos ouvir com os nossos ouvidos.”
“Mas, infelizmente, com a perda da minha confiança, comecei a perder o amor para com “o
Bispo e as suas criaturas” na verdade, os meus melhores amigos. Tais coisas mal representadas,
somente preparavam o caminho e indicavam a direção para a pior das misérias. E, é isto, meu
senhor, que eu considero uma das mais notáveis e tristes manchas que o espírito sismático pode
produzir. Pois “Deus é amor, e quem permanecer em amor permanece em Deus, e Deus nele”. E
“por isso todos os homens vos conhecerão como os meus discípulos se amardes uns aos outros”.
Mas o amor começou a falhar.”
“Fui nomeado para o Circuito de Amélia. Nessa ocasião, se bem me lembro, a Conferência
foi mudada da primavera para se reunir na ocasião do Natal. Nada houve, no entanto, de
importância neste circuito que merecesse menção. Eu gozava paz e sossego de espírito e tinha
plena comunhão com todo o povo com quem trabalhava. Tivemos alguma esperança que ainda
haveria uma Conferência Geral e os nossos receios se iam dissipando. ”
“Na Conferência de dezembro de 1791 que se reuniu na Capela Lane, a paz alegrava os
nossos corações. Tivemos as boas notícias que íamos ter uma Conferência Geral no próximo
novembro. Nossas diferenças foram ajustadas, e os nossos amigos antigos ficaram satisfeitos.
Sem dúvida o senhor já se esqueceu da alegria que se manifestou entre os jovens pregadores
nessa ocasião que fui ordenado presbítero e nomeado para o Circuito de Greenville que abrangia a
minha vizinhança.”
“Esta foi a primeira nomeação contra a qual se me rebelou o espírito. Tinha de viver no
meio de meus parentes e conhecidos, e muitos deles eram membros das nossas Sociedades muito
antes de mim e se consideravam os meus superiores. Foi uma época em que os membros tinham
de ser peneirados (disciplinados) e alguns tinham mesmo de ser excluídos da Igreja. De minha
parte tive muito receio que eles não se submeteriam; esse o motivo que me levou a rebelar contra
a minha nomeação. Mas nisso fui desapontado.Creio que nunca passei um ano em que tivesse
sido mais feliz nos serviços eclesiásticos.”
“Contudo diversos foram excluídos da Igreja e não havia desgostos ou preconceitos contra
mim, que eu soubesse. Na verdade tivemos poucas profissões de fé durante o ano; mas, não raras
foram as reuniões preciosíssimas que tivemos. O trabalho ou a obra da santificação reviveu.
Quando estava pregando sobre o texto: “Santifica-os na verdade; a tua Palavra é a verdade”, um
pregador local gritou, rogando esta benção. Quando voltei para a mesma congregação ele
professou a santificação e zelosamente pregava a mesma doutrina. Hospedei-me com ele. Era
curioso ouvi-lo falar da morte como se fosse uma coisa familiar e à porta. Ele só almejava uma
coisa: que a morte lhe fosse coisa rápida. Era um ferreiro de ofício. Quando me despedi dele foi
pela última vez, pois, antes de voltar foi morto por um raio quando trabalhava na forja, rodeado de
outras pessoas. Assim o Senhor o ouviu e lhe deu morte rápida.”
“Tive um feliz desapontamento porque as dificuldades que esperava não apareceram. Fui
ricamente abençoado com abundantes graças e estava satisfeito, julgando que havia paz entre
nós. Quando o nosso velho amigo James O. Kelly me visitou, meu coração se encheu de alegria
por vê-lo. Mas, em vez de conservar a paz que nos inspirou a última Conferência e me encaminhou
de modo próprio e seguro, ele, de novo, introduziu o velho assunto e me afirmava que o senhor
não andava com sinceridade no plano adotado; que era somente um alvitre político – que o intuito
verdadeiro era ganhar tempo e satisfazer a sua ambição pessoal e que isso destruiria a Igreja. Fui
tão infeliz que acreditei e desde aquela hora tomaram-se medidas contraditórias.”
“Em novembro de 1792, realizou-se a Conferência Geral; indo eu, do meu circuito, para
assisti-la encontrei-me com o meu Presbítero Presidente acompanhado de mais dois ou três
pregadores. Na casa do coronel Clayton encontramos mais alguns delegados. Os senhores
Guilherme Spencer e S. Cowler foram mandados adiante . O Presbítero Presidente manteve
consigo dois pregadores para irem juntos com ele, sendo eu um deles. Chegamos à sede da
Conferência e eu fui indicado para hospedar-me com ele. A Conferência começou. Divisão de
sentimentos, deveras! O nosso quarto foi uma câmara de Concílios. O mal estava resolvido contra
a Conexão (Igreja), justificado pela suposição de que “o Bispo e as suas criaturas” estavam
procurando destruir a Igreja para lhe gratificarem a piedade e ambição.”
“O velho cavalheiro James O. Kelly retirou-se da Conferência. Eu e mais alguns pedimos
licença para nos retirar também e voltamos para casa, e logo nos dirigimos para a Virgínia. Muitas
consultas nos foram feitas, ficando nós bastante confusos em nossas deliberações, e quando os
outros nos tinham deixados a sós, eu e velho cavalheiro, continuamos a nossa viagem juntos por
algum tempo. Ele me revelou o seu plano. Ia ser uma Igreja gloriosa – “sem escravidão”, etc. , etc.
Essa Igreja, porém, ia ser organizada sob a suposição de que um mau governo lhe estava sendo
introduzido, pela Conferência revolucionária que acabamos de assistir. O desígnio suposto do
Bispo correspondia a prender os membros mais engenhosos do gabinete, ao tronco e galhos da
árvore. “Era abjeto” – “era papismo!” Foi uma coisa horrível!”
“Mas havia conclusões também diferentes. Um S.D. resolveu assistir à Conferência
Distrital e aceitou a sua nomeação. Três separaram-se da Igreja e tornaram-se contra ela. Nenhum
destes métodos me satisfazia, portanto, rejeitei nomeação da Conferência, porque estava com
idéia de rejeitar “o sistema monstruoso” quando ele se manifestasse. Encontrei-me, no entanto,
com o senhor e os demais Presbíteros Presidentes, alguns dias antes da Conferência aceitando
uma estação. Fui nomeado para a cidade de Norfolk; e oh! como fui surpreendido no correr deste
ano em achar a disciplina inteiramente diferente da qual esperava, e também de achar motivos
justos em me afastar do meu antigo e amado amigo James O. Kelly. Comecei a me sentir como se
fora alguém sem bússola em alto mar. Alguns dos meus amigos insistiram comigo que
abandonasse a minha estação e não comparecesse à Conferência e, além disso, alguns dos meus
amigos fiéis, porém não discretos, me criticavam. Minha posição, pois, era bem delicada e não
muito agradável, porém o Sr. Ira Ellis, meu novo Presbítero Presidente, foi um conforto para mim.
Dele recebi informação e conselho que me foram de valor incalculável no dilema em que me
achava. Enfim em minha opinião a Igreja deve muito à Infinita Bondade em ter no seu seio um
homem que teve a sabedoria e a prudência que ele revelou naquele dia.”
“Durante o tempo que passei nesta estação o Senhor Deus foi muito bondoso para comigo.
Em meio a minha confusão recorria ao trono da graça, e me sentia habilitado para pregar. A
misericórdia e poder acompanhavam a Palavra, e o povo era abençoado; assim tinha “tempo de
refrigério” no meio de muitas amarguras”.
“Assinado: Wm. McKendree.”
O trecho acima é bastante extenso, mas abrange os fatos mais importantes na vida do Sr.
McKendree. Coitado deste jovem nas mãos de um demagogo! Acautelai -vos, jovens, de tais
homens.

V – SEU TRABALHO COMO PRESBÍTERO PRESIDENTE
Fazia oito anos que McKendree servira como pregador itinerante e durante este tempo
mostrou-se competente e dedicado à Causa do Senhor. Em todos os cargos em que servira seus
esforços e consagração eram apreciados, e não somente isto, mas conquistara o coração do povo.
Todos os cargos que servira ficariam satisfeitos se fosse mandado para eles novamente.
1. Trabalho a leste do país.
Na ocasião da Conferência que se realizou na Capela Salem, no Condado de
Mecklenburgo, na Virginia, em 24 de maio de 1795, McKendree foi nomeado como pastor de um
circuito e seu Presbítero Presidente. Sendo nomeado Presbítero Presidente naquela época (é
como sucede atualmente no Brasil), significa mais trabalho e maiores responsabilidades.
Passou três anos neste distrito, viajando, pregando e dirigindo o trabalho nos limites do
seu distrito. Dando um resumo do seu trabalho neste distrito, ele diz: “Fui ricamente abençoado
neste distrito com bons amigos e alguns conselheiros sábios. Também o trabalho foi abençoado
por um avivamento religioso; muitos fizeram sua profissão de fé, testemunhando o poder
regenerador da graça de Deus, e se identificaram com a Igreja. Os membros concitaram uns aos
outros ao amor e às boas obras, e seu progresso na vida divina foi notável. Mas, tais eram os
trabalhos e as responsabilidades tantas que concorreram para abalar a minha saúde. Meus
estudos também foram grandemente prejudicados devido aos cuidados diversos que me cabiam.
Porém tinha em recompensa a comunhão íntima com o meu adorável Salvador e o aumento de
número de membros junto com a prosperidade da Igreja em geral. Tudo isso concorreu para
aumentar o meu zelo e alegria no Senhor”.
Em 1798 o Sr. McKendree foi nomeado Presbítero Presidente de um Distrito em de
Baltimore. Aqui ele trabalhou dois anos mostrando a mesma dedicação e aplicação à causa do
Mestre. O Distrito era quase do mesmo tamanho do de Virginia e tinha muitas viagens a fazer.
Chegou, porém, a hora em que tinha de deixar o leste do país e ir para o oeste onde
maiores oportunidades o esperavam. Devemos lembrar que durante estes treze anos como
pregador e Presbítero Presidente viajou pelos Estados de Maryland, Virginia, e Carolina do Sul.
2. Seu trabalho a oeste do país.
Na primavera de 1800 os Bispos Asbury e Whatpcot passaram pelo Distrito do Sr.
McKendree na visita ao oeste, além das montanhas de Alleghany, e convidaram-no para ir com
eles assistir à Conferência do Oeste, que se reunia em Bethel, no Estado de Kentucky.
Foi nessa ocasião que o nomearam como Presbítero Presidente do Distrito cujo território
abrangia os Estados de Tennesse, Kentucky, Virginia do Oeste, Ilinois e a Missão de Natchez.
Tinha de viajar 2.500 quilômetros para percorrer o seu distrito.
Durante oito anos foi ele o dianteiro nesta vasta zona que é hoje o centro do Metodismo
nos Estados Unidos do Norte. O Sr. Asbury que conhecia os homens escolheu o Sr. McKendree
para abrir e conquistar esta vasta zona para Cristo.
Tais dias não existem mais nos Estados Unidos, porém, existem atualmente no Brasil. Os
sertões estão convidando e desafiando os jovens pregadores brasileiros para conquistá-los para
Cristo. Toda a história a respeito dos heróis de Cristo não foi escrita ainda; no correr dos anos,
porém, alguém há de escrever acerca das façanhas dos pregadores itinerantes brasileiros. Feliz
será o rapaz que venha a ter tal visão!
Estes oito anos foram anos de privações e de grande abnegação, porém cheios de
satisfação e alegria. Poderíamos escrever bastante sobre a origem dos Cultos de Acampamento
(Camp. Meetings) e da fundação da Igreja Presbiteriana de Cumberland que se deram durante
este período e diversos outros incidentes cedendo o esboço ao Sr. McKendree, deixando-o dar
uma idéia do seu trabalho durante esta época. Ei-la: “Durante a nossa viagem através das
fronteiras, se nos encontrássemos com um rio era nosso privilégio atravessá-lo, nadando; e uma
vez chegados ao outro lado teríamos a satisfação de saber que aquele perigo ficara para trás de
nós, e que um outro nos estava enfrentando. Se a noite nos alcançava longe de uma casa onde
pudéssemos pousar, teríamos o privilégio de juntar lenha, fazer um fogo, cozinhar e comer um
bocado e suplicar ao trono da graça sob o céu estrelado como se estivéssemos na Igreja. Estando
cansados o sono era doce para nós e a proteção divina estava sobre nós; e quando chegávamos
ao nosso destino, se as comodidades fossem humildes, teríamos a grande satisfação de ser
recebidos com os mais sinceros bem-vindos e servidos com o melhor que os hospedeiros podiam
nos proporcionar; e, ainda muito inferior, na estimação dos que estavam acostumados a iguarias
reais, tinham o suficiente para suprir as necessidades naturais. Comíamos com gosto, dormíamos
bem e regozijávamos-nos com o povo piedoso e afeiçoado que nos recebia e nos tratava como se
fossemos anjos de Deus; e acima de tudo, quando nos chegava a hora de pregar, o povo se reunia
ansioso para ouvir a Palavra do Senhor.”
“As orações subiram os montes do Senhor; o poder divino acompanhava a Palavra
pregada; pecadores eram convencidos e muitos convertidos a Deus, e a Igreja aumentava e se
fortalecia “na fé uma vez para sempre confiada aos Santos”.”
“Meu campo exigia muitas viagens a cavalo. Pregava freqüentemente e arcava com muita
responsabilidade; contudo considero esses dias os mais felizes da minha vida. Parece coisa
esquisita que ali, no meio de todas as privações e perigos, minha saúde enfraquecida, melhorasse
sensivelmente. Gozei paz e consolação pela fé e fui privilegiado em andar com Deus”.
Durante este período havia demonstrações do poder do Espírito Santo no meio do povo.
Também havia manifestações de irregularidades e fanatismo, porém o bom senso e observação da
disciplina pelo Sr. McKendree conseguiram guiar o povo nas veredas da justiça e retidão. O
desenvolvimento do trabalho durante estes oito anos foi maravilhoso. Em 1800, quando ele foi
nomeado para este campo, havia 11 pregadores e 1.741 membros; em 1808, havia, 66 pregadores
e 16.887 membros.

VI – SEU TRABALHO COMO BISPO
Quando se reuniu a Conferência Geral em maio de 1808, Asbury estava adoentado e
avançado em idade; o Bispo Coke estava comprometido com o trabalho na Europa, e o Bispo
Whatcoat tinha falecido, portanto, havia urgência em eleger ao menos um novo bispo. Quem seria
o novo bispo? O homem eleito tinha que ser um americano e a questão era quem seria esse
americano.
1. Eleito Bispo.
A Conferência Geral se realizou na cidade de Baltimore na Light Street Church.
McKendree tinha passado oito anos nas fronteiras e muitos dos jovens pregadores não o
conheciam e os mais velhos não sabiam o progresso que ele fizera durante este tempo; por isso,
quase ninguém se lembrou dele como um candidato ao episcopado.
Na véspera da Conferência McKendree foi nomeado para pregar na Light Street Church no
domingo, véspera da Conferência. A igreja estava cheia de gente, havendo não somente
delegados à Conferência Geral, como também, muitas pessoas estranhas a McKendree. Todos
estavam ansiosos por ouvir o pregador do Oeste. Este subiu ao púlpito trajando roupa ordinária
que usava nas florestas no oeste. Depois de cantar um hino fez oração de joelhos, porém não
podia orar com a liberdade de costume, havia hesitação na voz e a pronúncia de certas palavras
não era perfeita; enfim, a impressão que produzira no auditório num primeiro momento não fora
agradável.
Tomou para o sermão o texto Jeremias 8:21 e 22. A princípio estava embaraçado, porém,
em breve esqueceu-se de tudo, menos do assunto sobre o que falava e o povo também esqueceuse do pregador sendo arrebatado pela eloqüência e a verdade anunciada. O auditório foi sacudido
como as árvores na floresta pelo vento. Quando o povo se retirou da Igreja, levou uma impressão
de admiração do pregador do Oeste. E o Bispo Asbury observou que aquele discurso contribuiria
para elegê-lo ao episcopado.
Poucos dias depois, quando chegou a hora para votar na eleição de um bispo, McKendree
foi eleito, na primeira votação, e isto se deu no dia 12 de maio de 1808.
Ele ficou satisfeito com este acontecimento; para ele foi como uma réstia do céu azul; não
esperava tal coisa. Não encontramos nada escrito em seu Diário sobre este ponto. Ele não quis
externar as emoções de sua alma. Só depois de muito tempo encontramos a seguinte observação
sobre este assunto: “Foi na ocasião dessa Conferência (1808) que os meus irmãos acharam por
bem aumentar a espera de minha atividade, e isto foi na época de minha vida, segundo o meu
modo de ver, em que deviam ter sido diminuídas as atividades. Isto, forçosamente, aumentou os
meus trabalhos, multiplicou os meus cuidados e me colocou numa posição em que teria mais
tristezas. Às vezes ficava impulsionado a não me submeter, porém, quando chegou ao término,
tinha receio de não aceitar; não estava em mim recusá -lo. E enquanto sentia profundamente não
possuir as qualificações adequadas a este ofício, confiante no apoio dos meus irmãos, e confiado
no auxílio divino, me submeti hesitante mas resolutamente”. Lá quase no fim de sua vida assim dá
sua opinião sobre o ofício de bispo. “O ofício de bispo en tre nós não é uma coisa para se
ambicionar; a verdade é que aumenta o nosso labor, fadiga e provocações, com o acréscimo do
cuidado de todas as Igrejas”; e aquele que almejar o ofício de bispo” como uma coisa boa” por
qualquer outro motivo que não seja aumentar a felicidade do homem e glorificar a Deus, não tem
pesado o seu valor”.
Aceitou ele esta incumbência e a honrou por vinte e sete anos. Não procurou ele ofício,
porém o ofício o procurou.
2. Trabalhando com o Bispo Asbury
Logo depois de terminada a Conferência os Bispos combinaram os seus itinerários e
entraram na realização deles.
O Bispo McKendree encetou a sua viagem para o oeste, passando pelos Estados de
Virginia do Oeste, Tennesse, Ilinois e, atravessando o rio Mississipi perto da embocadura do rio
Missouri, passou alguns cento e cinqüenta quilômetros no interior do estado de Missouri. Pelo
caminho pregava e realizava as conferências. Em Missouri ajudava os pastores a realizar
conferências de avivamentos. Muitas almas se converteram. Muita gente, apenas por curiosidade,
assistia aos cultos para ver um Bispo Metodista, mas qual não era a sua surpresa ao ver um
homem comum, trajados com simplicidade. Em vez de austeridade de costumes e sinais de
autoridade eclesiástica, encontrou nele gravidade, porém uma pessoa afável, familiar e persuasiva,
gentil para com todos os homens, pronto a participar com suavidade em todas as circunstâncias ,
quer entre os pobres, quer entre os da alta sociedade”.
O Bispo McKendree não podia fazer o seu trabalho como o Bispo Asbury o fazia. O Bispo
Asbury no presidir uma Conferência não seguiria estritamente as regras parlamentares; antes
usava o seu prestigio entre os pregadores como um pai; porém McKendree, não se achando
habilitado para assim proceder, adotou certas regras que eram rigidamente observadas quando ele
presidia a Conferência. Era tão justo e imparcial que logo ganhou a confiança dos seus colegas no
Ministério, sendo reconhecido como mestre na cadeira da Conferência. O seu bi ógrafo disse: “Um
presidente melhor do que o Sr. McKendree até hoje não ocupou a cadeira de uma Conferência
Anual ou Geral”.
Havia outras coisas que não podia fazer do mesmo modo que o Bispo Asbury, considerado
o Pai do Metodismo na América, e entre elas a da nomeação dos pregadores. O Bispo Asbury
fazia a nomeação dos pastores sem consultar os Presbíteros Presidentes, porém o Bispo
McKendree não quis assumir tanta responsabilidade antes de consultar os Presbíteros
Presidentes, alegando que não conhecia tão bem os pregadores e os campos de trabalho como o
Bispo Asbury os conhecia. O Bispo Asbury estranhou isto nele.
O Bispo McKendree escreveu uma carta ao Bispo Asbury sobre o assunto, mostrando o
seu ponto de vista. Eis a carta: “Cincinatti, 8 de outubro de 1811. Irmão Asbury, estou convencido
da utilidade e necessidade do Concílio dos Presbíteros Presidentes fazer as nomeações dos
pregadores. O senhor porém, tem receios que certos indivíduos dificultem, ou melhor, tornem
impraticável o plano delineado, impossibilitando -o de nele prosseguir. Estou pronto a ajudá-lo do
melhor modo possível, e como me acho ligado a uma obrigação, prontifico-me a prestar o serviço
que for mais eficiente à Igreja. Conseguintemente estou ainda disposto a aceder à proposta que o
senhor me fez por ocasião da Conferência, em Tennesse, se for julgada conveniente. Sendo assim
de sua vontade aceitar o plano de visitação, depois que for apresentado pelo senhor, chamarei os
Presbíteros Presidentes para me ajudar e depois de deliberado um concílio relatarei a favor do
mesmos ou indicarei tais alterações que se considerem necessárias. Recuso-me, porém, a assumir
toda a responsabilidade, não porque tenha receio de assumi-la eu mesmo, porém julgo a proposta
inclusa muito importante. Assina, W. McKendree”.
Na ocasião da Conferência Geral que se realizou na cidade de Nova York, em maio de
1812, houve algumas alterações no modo de dirigir os negócios da Conferência. Esta foi a primeira
Conferência Geral composta só de delegados, representantes das diversas Conferências Anuais.
Os Bispos presidiram alternadamente tal Conferência: o Bispo Asbury num dia e o Bispo
McKendree no outro dia. Foi nessa ocasião que o Bispo McKendree introduziu algumas novidades
na Conferência Geral, a saber: - Regras de Ordem e o Discurso Episcopal à Conferência Geral. E
desde aquela data até hoje estas duas coisas têm sido conservadas na Igreja.
O Bispo Asbury, sendo inglês, seguia mais ou menos os costumes dos ingleses na
realização das Conferências, fazendo um discurso verbal à Conferência, porém o Bispo
McKendree queria estabelecer Regras de Ordem e submeter-se a elas para o bem, tanto da
minoria como da maioria e também, queria comunicar formalmente, por um discurso escrito, à
Conferência Geral, as condições da Igreja e indicar algumas medidas que a Conferência deveria
tomar, etc.
O Bispo Asbury estranhou tal inovação e quis argüir o novo Bispo. Levantou-se e disse:
“Tenho alguma coisa a dizer-lhe perante a Conferência”. O Bispo McKendree, também, se levantou
e os dois ficaram face a face. O Bispo Asbury disse: “Esta é uma coisa nova para nós. Até aqui não
tenho feito isto, e por que se há de introduzir agora?” O Bispo McKendree respondeu prontamente:
O senhor é o nosso pai, nós somos os seus filhos; o senhor não precisou disto. Eu, porém, sendo
um irmão, estou precisando disto. O Bispo Asbury não disse mais nada e assentou-se sorridente.
Terminada a Conferência e não havendo bispos novos eleitos, e a saúde do Bispo Asbury
piorando, o Bispo McKendree sentia mais que nunca a responsabilidade do seu cargo. No entanto,
iniciou o novo quatriênio com fé e esperança, mas apesar disso foi um dos mais difíceis, talvez, da
sua carreira no episcopado. Logo no principio irrompeu uma guerra entre os Estados Unidos e a
Inglaterra, houve desastrosos terremotos e, finalmente, quase no fim do quatriênio, o Bispo Asbury
faleceu, deixando-o com toda a responsabilidade e a sua saúde muito abalada. Mesmo assim ele
agüentou o peso e “desempenhou bem o seu ministério”.
3. Trabalhando com os seus colegas de ofício.
Na ocasião da Conferência Geral que se realizou em 1816 foram eleitos bispos os Srs R.
R. Roberts e Enoch George. Combinaram o plano de visitação às Conferências Anuais. É digno de
notar o espírito de abnegação que o Bispo McKendree manifestou no arranjo do itinerário dos
bispos. Sendo ele o bispo sênior era seu dever iniciar os dois novos no trabalho do episcopado e
isto lhe exigia serviços especiais e, além disso , o Bispo George era casado possuindo família, e
como tocava a ele visitar o trabalho novo em Mississipi durante o segundo ano do quatriênio, o
Bispo McKendree se ofereceu para fazer este trabalho e, assim, evitar uma ausência tão longa do
colega ao seu lar.
A Conferência Geral que se realizou em Baltimore em 1820, foi a mais agitada que houve
desde o ano de 1792. O mesmo assunto que foi levantado pelo Sr. James O. Kelly – a eleição dos
Presbíteros Presidentes pela Conferência Anual – motivou uma discussão que durou dias. Para
conseguir a paz e harmonia alguns irmãos consentiram em votar a favor desta modificação, porém
em vez de conseguir a paz esperada complicou-se ainda mais a situação, pois o Sr. Josué Soule
eleito ao episcopado antes de passar esta lei, recusou aceitar a ordenação, julgando violada a
Constituição da Igreja com tal legislação. Também o Bispo McKendree fez o seu protesto contra a
nova lei, baseando-se no mesmo princípio. Isto provocou nova ação pela Conferência cuja
resolução ficou suspensa até a próxima Conferência Geral.
O Bispo McKendree levou esta nova resolução perante todas as Conferências Anuais
durante o quatriênio, para ver se queriam confirmá-la e o resultado foi que as Conferências Anuais
se recusaram a aprová-la.
Na ocasião da Conferência Geral, realizada em maio de 1824, na cidade de Baltimore,
foram eleitos bispos os senhores Soule e Hedding.
O Bispo McKendree sentia-se adoentado e a Conferência nada exigiu dele durante o novo
quatriênio, deixando isso a seu próprio critério. Ele, porém, não ficou inativo, pois não deixou de
fazer tudo quanto as suas forças permitiam, assistindo Conferências Distritais, pregando com
grande aceitação por parte do povo e realizando algumas Conferências Anuais.
Devemos lembrar que o Bispo McKendree se interessava pelas missões entre os escravos
e índios.
Cuidava e estimava o seu cavalo, não gostando de negócios ou barganhas de cavalos.
Quando ganhava um que lhe servia, com ele ficava até ao fim da vida. Tinha um cavalo gateado do
qual gostava tanto que deixou no seu testamento algum dinheiro para seu gasto em conservá-lo
num bom pasto, e na ocasião da morte, enterrá-lo.
Certa vez, estando muito doente e sofrendo dores torturantes, um médico ateu foi
chamado para cuidar dele. Depois de o examinar ficou alarmado com o estado do Bispo e bem
impressionado ao ver a calma com que suportava a dor, perguntou-lhe: “Sr. Bispo, como é que o
senhor pode suportar tanta dor assim tão calmo?“ O velho Bispo, abrindo os olhos e fitando-os no
médico, respondeu: “Doutor, pela sua filosofia pode explicar como um cristão no meio de
sofrimentos sente-se perfeitamente feliz? Não deve existir nele uma alma?” O médico ficou mudo
por um instante, e então disse: “O Sr. Bispo, deve ser assim mesmo”.

VII – O FIM DO DIA
Durante os últimos dez anos de vida o Bispo McKendree não gozava boa saúde. Tudo que
fazia era com sacrifício e dor. Mas não deixou de se ativar até o fim.
Fez uma viagem para Nova Orleans, em 1833, de navio, no rio Mississipi. Esta foi a sua
última viagem longa. Presidiu a su a última Conferência em Lebanon, no Tennesse, em 5 de
novembro de 1834. E pregou o seu último sermão na Igreja de seu nome na cidade de Nashville,
Tennesse, em 23 de novembro de 1834. Assim terminou o seu trabalho – o seu trabalho fielmente
feito.
Em 22 de dezembro de 1834 deixou a cidade de Nashville e foi para casa de seu irmão,
que morava no condado de Summer, não muito distante de Nashville. Foi nesta época que ao
cortar as unhas rasgou a pele no cantinho de um dos dedos que inflamando causou-lhe bastante
sofrimento físico. Ele sentia alívio da sua dor na oração.
Agora estava tão fraco que era forçado a ficar no leito. Sua boa irmã que cuidou dele por
tantos anos estava agora a seu lado para acudir às suas necessidades nos últimos dias. Sabia que
os seus dias estavam contados e que o fim estava se aproximando. Tinha terminando o seu
trabalho e se despedido dos irmãos e amigos e agora esperava enfrentar o último inimigo – a
morte.
Poucos dias antes do desenlace pediu que a cama de seu pai fosse trazida para o seu
quarto e que fosse posto nela, pois queria morrer no mesmo lei to em que ele falecera.
Suas últimas palavras foram: “Tudo está bem para o tempo e eternidade. Vivo pela fé no
Filho de Deus”. E com toda a energia que tinha repetiu: “Quero que isto seja bem compreendido,
que está tudo bem, seja o viver ou o morrer. Há dois meses não tenho nenhuma nuvem do céu.
Tenho tido confiança ilimitada no amor de meu Salvador”.
Depois disto não sofreu mais dor; ficando sufocado por falta de ar, a sua irmã o ergueu um
pouco e lhe perguntou: “Tudo está bem agora?” Ele com um último suspiro disse: “Sim” e dormiu
no Senhor Jesus Cristo. A luta já passou; o carro celestial o arrebatou para os montes celestiais.
Foi sepultado a uns cem metros da casa de seu pai. Na terra por quarenta e um anos os
seus restos mortais repousaram, quando foi resolvido removê-los para a Universidade de
Vanderbilt, na cidade de Nashville.
Lá, no dia 3 de outubro de 1876, junto com os restos mortais do Bispo Soule, foi enterrado
a segunda vez, num canto quieto e retirado, no terreno da Universidade, estando o lugar marcado
com um monumento de granito que veio do Estado de Carolina do Sul.
VIII
A vida de Josué Soule,
o Legislador do Metodismo
(1781-1867)
Quando Deus tem uma obra importante para fazer entre os homens, um deles é o
instrumento em suas mãos. Os Israelitas precisavam de um libertador para livrá-los da escravidão
do Egito e Moises foi enviado para libertá-los e formular leis para sua direção. Mais tarde quando o
mesmo povo precisava de um rei para governar, apareceu um Davi; e, finalmente, “quando veio o
cumprimento do tempo, enviou Deus o seu filho, nascido de uma mulher” para redimir o homem da
escravidão do pecado e levá-lo “para o Reino do seu Filho muito amado”.
Assim julgamos que o grande legislador eclesiástico da Igreja Metodista, Josué Soule, foi
enviado por Deus para o meio do “povo chamado Metodista” para orientar e guiar na sua vida
legislativa e eclesiástica. Até então não tinha aparecido entre este povo um homem mais habilitado
para este papel do que o venerável Bispo Josué Soule que ocupou o episcopado por quarenta e
três anos.
Antes de entramos na delineação dos fatos principais, convém dizer que o Bispo Soule não
queria que alguém escrevesse a sua biografia. Disse até na ocasião da Conferência Geral em
1844: “Não quero que homem algum escreva o meu epitáfio; eu mesmo o escreverei. Não quero
que homem algum escreva e publique a minha biografia: eu mesmo o farei até ao ponto em que
julgue ser para o interesse da posteridade e para o benefício da Igreja de Deus”.
Mais tarde, porém, a pedido da Conferência Geral consentiu que sua biografia fosse
escrita e publicada ao mesmo tempo que a do Bispo McKendree, o seu estimado colega. Portanto,
o D r. H. M. Du Bose publicou a sua primeira biografia em 1911.

I – SEU PARENTESCO
É um característico universal entre os homens, o desejo de uma alta descendência; e, ao
se escrever uma biografia, o autor sempre procura descobrir as melhores informações neste
sentido. No caso atual podemos afirmar que os antepassados de Soule eram dignos e notáveis,
sendo descendentes dos Pilgrim Fathers of the Mayflower – os Puritanos. Entre os imigrantes do
Mayflower se encontra o nome de George Soule na lista dos passageiros. Os descendentes deste
homem se encontram em diversas partes da grande república do Norte.
1. O pai.
O capitão Josué Soule, pai do futuro Bispo Josué Soule, foi um marinheiro como muitos
dos seus antepassados tinham sido. Possuía um navio e fazia viagens pelas costas das colônias
Americanas e das ilhas de Bahamas. Sua família residia em Bristol, nas costas do estado de
Maine. Durante a guerra da revolução, os ingleses capturaram e destruíram o seu navio e
dominaram o mar. Forçosamente o capitão Soule era obrigado a procurar outros meios pa ra
manter a família que crescia. Durante o tempo em que foi marinheiro comprou um sítio no interior
do estado de Maine. E por último se lembrou de levar a sua família para Avon, no vale de Sandy
Riverside, tornando-se um lavrador.
Era um homem religioso e bom. Pertencia à Igreja Presbiteriana e foi um dos Calvinistas
Azuis, sendo sua casa o lugar de cultos e hospedagem dos pastores presbiterianos. Era ele um
homem lido em teologia e conhecia bem as doutrinas e dogmas de sua igreja. Fazia culto
doméstico e observava o dia do Senhor com o rigor que caracterizava os Puritanos daquela época.
Sua maior ambição foi a de criar os filhos na disciplina da igreja.
2. Sua mãe
Sua mãe, Maria, foi uma senhora bem educada e polida. Apoiava o marido na educação
dos filhos. Esforçava-se para lhes incutir no espírito os bons costumes e hábitos. Como não havia
escolas naquela época na zona onde residiam, ela se esforçava em ensiná-los do melhor modo
possível. As idéias religiosas que ela e seu marido tinham, ensinaram aos filhos. O ensinamento
das suas idéias acerca da soberania divina concorreu para implantar o temor do Senhor nos seus
corações, mas ao mesmo tempo lhes vedou o rosto de Deus como Pai bondoso. Os filhos e,
especialmente, Josué Soule, tinham medo de transgredir os mandamentos de Deus, porém
ignoravam a alegria e o gozo da graça divina. Sua mãe lhe ensinava o temor de Deus e ele
correspondeu aos seus esforços.

II – SEU NASCIMENTO E EDUCAÇÃO
1. Seu nascimento
Josué Soule, o filho de Josué e Maria, nasceu no dia 1º de agosto de 1781, na cidade de
Bristol, Estado de Maine. Era o quinto filho, e lá nasceu quase no fim da revolução e, como seu pai
não podia continuar na vida marítima, resolveu retirar-se para o sítio que possuía no interior.
Portanto, o pequeno Josué não se lembrava nada do mar e tinha de crescer no interior enfrentando
as duras provas da vida roceira de então. Se o pai tivesse continuado na vida de marinheiro o
destino do seu distinto filho teria sido muito diferente do que foi. Observamos como as coisas
pequenas e insignificantes em si, contribuem para determinar a nossa carreira e o nosso destina
na vida.
2. Sua educação
Aqui no vale de Sandy River, no sítio de Avon, era onde este rapaz e seus irmãos
precisavam receber educação. Como já foi dito, não havia escolas naquela zona nesta época e os
pais tinham de lhes providenciar instrução. Seus pais, porém, eram instruídos e tinham idéias de
longo descortino. O catecismo e a Bíblia eram os livros principais e ele não somente ouvia seus
pais lerem a Bíblia como também a lia.
Havia outros livros pertencentes à família que também eram lidos. Mas a Bíblia, porém,
tinha o primeiro lugar. Além disto seu pai sabia contar histórias, e podemos imaginar como o
pequeno Josué ficava encantado, ouvindo ali próximo da lareira durante as longas horas das noites
de inverno o pai contar histórias das suas viagens no mar. São coisas como essas que calam
fundo no espírito das crianças. Tinha pouco tempo para escutar e estudar, mas o que tinha, ele
dava grande valor. Não somente aprendia estas coisas dos seus pais no lar, como também
aprendera a trabalhar na roça, fazendo o serviço de um fazendeiro. Foi ali que ele aprendeu a ser
constante e perseverante no trabalho; foi ali que aprendeu as virtudes de robustez e coragem.
Tinha contato íntimo com a natureza e com os problemas práticos da vida.
É coisa admirável que um homem que nunca passou um dia no colégio, pudesse escrever
a Constituição da Igreja com a idade de vinte e sete anos, e doze anos depois, sendo Bispo,
escrever o discurso dos Bispos à Conferência Geral. Ele não deixou de ler e estudar por si. Os
livros que lia durante a sua mocidade era de real valor. Estudava os clássicos e diversas línguas e
história. Tinha grande capacidade intelectual e memória excelente. O fato de se converter cedo e
entrar logo depois na itinerância, concorreu para estimulá-lo e dar-lhe oportunidade para se
desenvolver, que de outra maneira não teria. É admirável ver como Deus foi às florestas do Estado
de Maine, lá nas fronteiras, para escolher um homem que era destinado a influenciar e tomar o
primeiro lugar no desenvolvimento e conservação de sua Igreja.
Sem dúvida ele falou da sua própria experiência quando, na ocasião de passar à classe
em plena conexão na Conferência de Tennesse em 1859, assim se exprimiu: “Podereis ensinar
moços, se tiverem capacidade para adquirir conhecimentos, e se tiverem sede de sabedoria, eles a
ganharão onde estiverem colocados. Mas se não possuírem essa capacidade e sede de
sabedoria, podereis mandá-los a todos os colégios e escolas e nunca sairão instruídos”.

III – SUA CONVERSÃO E CHAMADA PARA O MINSTÉRIO
Se nos lembrarmos do fato que o meio em que Josué Soule foi criado era completamente
saturado de idéias calvinistas, a sua conversão por via da pregação dos Metodistas terá mais
interesse e importância para nós. O único Metodista que havia penetrado naquela zona antes da
revolução foi George Whitefield e ele era Calvinista em teologia. Portanto, o povo quase ignorava
haver Metodista no mundo até que Jessé Lee foi mandado para a Nova Inglaterra em 1789, não
penetrando, porém, na província de Maine até o ano de 1793, quando abriu trabalho no Circuito
Readfield que abrangia o Avon onde residia a família Soule.
1. Sua conversão
O evangelista não demorou em penetrar no vale de Sandy River e estabelecer um ponto
de pregação em casa de uma família que morava perto do capitão Soule. Foi ali que o rapaz Josué
Soule ouviu o primeiro sermão metodista. Jessé Lee, natural de Virgínia, era homem culto e bom
pregador. Em 1795 Enoch Mudge foi nomeado para o Circuito de Readfiled. Durante o seu
pastorado uma amizade íntima se desenvolveu entre ele e o jovem Josué Soule. Mudge assim
descreve o seu jovem paroquiano: “Tinha mente precoce, boa memória e aspecto de um
cavalheiro, porém a sua aparência era rúistica”.
O jovem Soule não chegou a fazer a sua profissão de fé com o Sr. Mudge. Achou alguma
coisa nas doutrinas pregadas pelos Metodistas que agradou bastante o seu espírito. Logo deu as
costas ao Calvinismo de uma vez para sempre; não tinha ficado satisfeito com a doutrina de
Calvino; encontrou, no entanto, alguma coisa nas doutrinas metodistas que calou na sua alma e
correspondeu à sua experiência. “Ele viu logo haver uma concordância entre a teologia Wesleyana
e as Escrituras, e reconheceu que havia também nela uma semelhança entre os pensamentos
mais elevados encontrados nos livros que lera. Era a primeira vez que ouvindo o Evangelho o
sentimento do medo cedera ao sentimento de amor; e tal foi essa influência que todo o sentimento
de medo foi lançado fora pelo amor perfeito. Fácil lhe foi crer em tais princípios estabelecidos”.
Ele não podia identificar o dia, a hora e o lugar onde experimentara sua conversão com a
mesma precisão que João Wesley e Francis Asbury, porém podia marcar a época em que isto se
deu. Alguém lhe perguntou certa vez, na sua velhice, se ele podia lembrar o dia da sua justificação
dentro de três dias. Ele respondeu que não podia, porém no prazo de oito dias pode afirmar. A
mudança foi definitiva e completa. Quanto à hora e lugar em que recebeu o testemunho do Espírito
Santo podia afirmar com certeza.
É assim que o Dr. H. M. Du Bose descreve esta experiência: “Num certo dia de manhã,
antes de nascer o sol, como era o seu costume desde que encontrara os Metodistas, retirava-se
para a floresta a orar. Enquanto orava foi abundantemente abençoado por Deus com o testemunho
do Espírito Santo. Antes disto algumas dúvidas o perturbavam; agora não divulgava mais. O céu
sorria dentro e ao redor dele. Uma nova terra estava perante ele. O testemunho da sua adoção foi
completo”.
Converteu-se pela pregação de Jessé Lee em 1793 e recebeu o testemunho do Espírito
Santo em 1795 ou 1796.
Se perguntarmos porque ele hesitou tanto tempo antes de fazer a sua pro fissão de fé,
devemos nos lembrar que o passo a dar era bastante sério, os Metodistas não eram bem quistos
naquele tempo em meio ao povo. Além disso seus pais andavam muito contrariados por causa da
sua atitude para com eles. Ele mostrou a sua fidelidade aos pais procurando o consentimento
deles ou pelo menos prevenindo-os da sua intenção. Sem dúvida precisava de bastante coragem
para discutir esse assunto com eles. Quando lhes falou sobre isto, seu pai ficou muito contrariado
e procurou dissuadi-lo do seu intento e a mãe, não podendo oferecer outro argumento, derramou
muitas lágrimas pelo seu filho. Passando-se algum tempo com as coisas nesta contingência, teve
bastante tempo para refletir demoradamente sobre o passo que ia dar.
Resolveu um dia tratar novamente do assunto com seus pais e assim ele nos conta o que
se deu nesta palestra: “Com grande respeito e com muitas lágrimas contei-lhes as minhas
convicções e, além disso, pedi que eles citassem qualquer ocasião em que eu os tinha
desobedecido. Mas agora senti que era minha obrigação solene unir-me à Igreja Metodista, e
ganhar o consentimento e aprovação deles seria para mim a maior felicidade no mundo”.
A oposição do pai transformou-se em indignação e a mãe continuou rogando-lhe para que
desistisse do seu propósito. Mas não podia ceder e estava pronto a ser tocado pra fora do lar pelo
amor que tinha a Cristo e à Igreja Metodista. Muitos anos depois ele disse: “Custou -me alguma
coisa para ser um Metodista. Eu me tornei um Metodista com o receio de ser um exilado da casa
de meus pais”.
Mas o amor paternal neste caso foi mais forte que os preconceitos religiosos e o filho ficou
em casa, cumprindo os seus deveres como um filho fiel e atencioso. Raras vezes alguém tocava
nisto e o jovem Soule assistia os cultos regularmente e sozinho. O poder do Calvinismo foi
quebrado neste lar.
Depois de algum tempo, um dia, enquanto estava arando junto com seu pai, teve a
coragem de convidá-lo para assistir uma pregação naquela tarde. Quando estavam virando os
animais o filho disse ao pai: “Papai, um homem notável nos vai pregar hoje à tarde; o senhor não
gostaria de ouvi-lo?” “Não!”, disse o capitão do mar, “Tenho ouvido já um ou dois destes
Metodistas. Todos são iguais; entusiastas, mas não sabem pregar”. A conversa estava cortada,
porém o filho aventurou mais uma pergunta: “Porventura a sua lei julga a alguém sem primeiro
ouvi-lo?” A forma e o espírito em que esta pergunta foi feita, calaram profundamente no espírito do
pai. Trabalharam sem mais conversa até ao meio dia – hora para o almoço. Almoçaram e
descansaram um pouco até a hora em que deviam voltar ao trabalho quando o pai lhe disse que
arreasse dois animais.
O rapaz aprontou -os e o pai estava se preparando também para acompanhá-lo a assistir a
pregação do “pregad or notável”. Podemos imaginar a surpresa que o filho sentiu em ver essa
atitude do pai. O jovem estava ansioso em seu espírito pelo resultado do culto, pois bem sabia que
seu pai seria favorável ou desfavoravelmente impressionado com o pregador e esperava ser
favorável a sua impressão.
O culto foi bem assistido e o pregador falou sobre a visão de Ezequiel, do vale de ossos
secos. O ministro era homem eloqüente e conseguira liberdade para falar naquele dia. A
impressão fora boa, todos ficaram contentes com a mensagem e até o capitão Soule não deixou
de se influenciar pelo discurso. Seu filho, no entanto, não sabia se ele o apreciara ou não, porém,
qual não foi a sua surpresa quando o viu o pai esperar à porta afim de cumprimentar o pastor e
convidá-lo para passar a noite em casa dele.
O pregador aceitou o convite sem conhecer as circunstâncias do seu lar. O jovem estava
muito contente, mas bem sabia que seu pai iria fazer com o pregador aquela noite; portanto,
procurou oportunidade para preveni-lo dizendo-lhe que sem dúvida seu pai iria puxar uma
discussão sobre as doutrinas calvinistas e arminianistas. O Sr. Stebbins, o pregador, estava bem
enfronhado neste assunto e não tinha receio. Acabando o jantar, e estando tudo arrumado para a
noite, o capitão Soule introduziu o assunto já mencionado.
“Os cinco pontos” foram discutidos pró e contra e a discussão durou até a uma hora da
madrugada quando o capitão pediu tréguas. O Bispo Soule, anos depois, falando sobre este
assunto, disse: “Foi com grande satisfação que vi meu pai cercado onde não podia sair. Não podia
ir mais adiante; foi um homem franco em confessar que estava derrotado”.
Admirou-se de não se ter zangado o capitão Soule, antes cumprimentou o seu antagonista,
e no dia seguinte, quando o itinerante partiu, convidou-o a hospedar-se sempre em sua casa, e
não somente isto, mas também, a que pregasse em sua casa. O pastor aceitou o convite e quando
regressou à nossa casa, pregou numa casa cheia de gente.
Seis meses depois que Josué Soule se reuniu aos Metodistas seus pais e quase todos os
membros da família se uniram também à Igreja Metodista. “Assim muito cedo na sua vida começou
a revelar as qualidades de um guia entre os homens, um capitão do exército do Senhor”.
2. A chamada para pregar.
Pelo que já temos visto da vida do jovem Josué Soule, estamos convencidos que a
Providência Divina o tinha destinado para uma carreira invulgar.
Quando tinha dezessete anos sentiu-se chamado para pregar o Evangelho. Naquela época
os Metodistas deram muita ênfase a uma chamada positiva e clara para pregar e aquele que não
podia dar provas cabais disto não seria licenciado. E o resultado prático disso é bem patente a nós
hoje em dia quando contrastamos a influência destes homens sobre a vida moral, social e religiosa
daquela época.
O ministério da Igreja Anglicana da mesma época, bem educado, com bons homens
ordenados ao ministério, não podia ou não fazia quase nada para modificar os costumes e
sentimentos sociais. Foram Wesley, Whitefield e os demais itinerantes depois deles que nos
legaram o movimento evangélico e missionário. Esses itinerantes que tinham experiência de Deus
em sua vida sentiam a obrigação sagrada de repartir esta experiência com os seus semelhantes e
foram estes que deram um novo impulso à causa bendita de Jesus Cristo no mundo moderno.
Entre os itinerantes havia representantes de todas as camadas sociais, mas especialmente da
classe média.
O jovem Josué Soule, dando provas da usa chamada para pregar, foi licenciado e entrou
logo na itinerância. Como ele não guardasse um diário como fizeram Asbury e McKendree, é
pouco o que podemos apurar da sua vida íntima; contudo, temos esta expressão dele acerca da
sua chamada para pregar: “O Senhor me chamou para pregar e eu o atendi”.
Sendo tão jovem quando entrou no ministério não tinha quase preparo, porém, durante
longa vida não deixou de se preparar mais e mais para ser útil à Igreja de Cristo pela qual dedicou
a sua vida toda.

IV – OS PRIMEIROS ANOS NA ITINERÂNCIA
O trabalho no Estado de Maine era novo e só foi separado em um distrito em 1797-98.
Josué Taylor foi o primeiro Presbítero Presidente e também o pastor do Circuito de Readfield. Esse
ano marcou uma nova época na história do Metodismo no Estado de Maine, pois realizou-se a
primeira Conferência Metodista no circuito de Readfield.
Nesse mesmo ano Josué Soule fez a sua profissão de fé e foi recebido em plena
comunhão com a igreja. É muito provável que ele assistisse a esta Conferência e tivesse o
privilégio de ouvir o Bispo Asbury pregar sobre a chamada para o ministério. Tal conferência foi
novidade para o povo do Maine. Mais de mil e quinhentas pessoas assistiram e ouviram as
pregações. O Metodismo estava implantado nessa zona e alguns rapazes se apresentaram para o
ministério e entre eles Josué Soule.
Depois da Conferência Josué Taylor continuou no mesmo cargo e durante este ano o
jovem Josué Soule se ofereceu para o ministério. Logo foi licenciado e entrou na itinerância. O
resto do ano acompanhava o seu Presbítero Presidente como o seu companheiro de viagem e
convidado quase sempre para exortar o povo depois do sermão pregado pelo Presbítero
Presidente, fazia apreciável trabalho. O povo gostava de ouvi-lo, pela razão de ser ele tão moço e
falava com tanto acerto. Antes de findar o ano o povo gostava tanto da exortação do jovem
pregador como do sermão do Presbítero Presidente.
A Conferência se realizou na cidade de Nova York em 1799 e Josué Soule não assistiu. O
seu Presbítero Presidente sem dúvida deu bom relatório sobre o trabalho do jovem pregador e este
foi admitido à itinerância sem comparecer perante a Conferência. Naquela época as distâncias
eram tão grandes e as viagens tão demoradas que não era coisa estranha para um Presbítero
Presidente representar os seus pregadores perante a Conferência. Não exigiam tanto preparo
intelectual dos jovens pregadores como nós hoje em dia, porém sempre deram bastante
importância à boa reputação que gozavam do povo e do zelo pela causa de Cristo. Nestes pontos
Josué Soule podia ser aceito sem reservas.
Josué foi nomeado como pastor ajudante do pastor Timóteo Merritt, no Circuito de
Portland. Agora o rapaz sincero, rústico e zeloso começa realmente a sua vida de itinerante. Merritt
tornou-se-lhe um pai e deram-se bem um com outro no trabalho. Às vezes viajavam juntos, mas
geralmente um precedia o outro num espaço de quinze dias. A cidade de Portland tinha dois mil
habitantes e era composta de gente de cultura e bons costumes. O povo que se encontrava no
vasto circuito se componha de negociantes, fazendeiros, serradores de madeiras, pescadores e
construtores de navios.
O contato que o jovem pregador manteve com o povo durante este ano foi para ele uma
das melhores oportunidades para seu próprio desenvolvimento e disciplina. Foi nesta época que
viu o mar pela primeira vez. Sem dúvida tal vista e, a lembrança dos seus antepassados que
tinham sido dominadores das ondas do vasto mar, despertou nele mais do que nunca o desejo de
ser um conquistador do mundo para Cristo. Começou, também, nesta época os seus estudos de
obras que contribuíram para fazê-lo um mestre entre os pensadores do seu tempo e o guia na sua
Igreja.
Tendo completado quase dois anos na itinerância foi-lhe confiado um trabalho. Seu circuito
foi o “Union River Circuit”, um dos circuitos no Estado de Maine. Havia pouca gente nesta vasta
zona. Tinha que viajar sozinho atravessando rios sem pontes, florestas sem caminhos e dormir às
vezes debaixo do céu estrelado sem teto. Na solidão destas florestas e na vastidão do seu circuito
é que o seu coração foi experimentado. Mas ele encerrou o ano com o rosto alegre, um coração
que almejava somente a santidade e a mente ansiosa de conhecimentos e sabedoria.
Na véspera da Conferência, nos princípios de julho de 1801, ele embarcou na Bahia de
Portland para Boston de donde ia para Lynn, sede da Conferência, porém, ventos contrários
atrasaram o navio e quando chegou em Boston a Conferência já tinha sido encerrada. Seu
Presbítero Presidente, porém, fez um relatório por ele, e o recomendou às ordens de diácono e à
admissão na Conferência. Foi nomeado para o circuito de Sandwich, no Estado de Massachusetts,
contíguo ao Cabo de Cód. Neste circuito foi submetido a novas provas e sacrifícios, porém tinha
boas relações com seu Presbítero Presidente, o seu estimado amigo, Josué Taylor, e além dele
tinha contato com outros colegas mais velhos e experimentados, tais como os Srs. George
Pickering, Thomas F. Sargent, Pedro Vannest, Phinehas Peck e Elias R. Rabin. Também teve
oportunidade de conhecer os centros mais velhos, populosos e adiantados da Nova Inglaterra;
tudo isso contribuiu para despertar as energias latentes de sua natureza. Seu caráter estava se
firmando e a experiência o estava amadurecendo.
No fim deste ano foi ordenado diácono e nomeado para o circuito de Needham, perto da
cidade de Boston. Ele, tal como o Bispo Asbury, era rigoroso na administração da disciplina, porém
nunca expulsou um membro da igreja enquanto todo o esforço possível para consegui-lo não
tivesse sido aplicado. Em sua velhice, sobre es te ponto, disse ele: “Raras vezes é necessário
expulsar um desviado quando todos os meios lícitos são empregados para corrigi -lo”.
Terminando o ano no circuito de Needham foi nomeado para o circuito de Nantucket
Island. Aqui quase todos os seus paroquianos eram pescadores. Sem dúvida muitas pessoas
lembravam-se de seu pai, o Capitão Josué Soule.
Foi este ano de benção e paz. Durante este ano de 1803 foi que se encontrou com uma
moça santa. Sarah Allen, órfã, mas bem educada e piedosa, que consentiu em partilhar com ele a
vida de um itinerante. Foi um casal feliz e por cinqüenta e quatro anos peregrinaram juntos,
quando a esposa foi arrebatada para as moradas felizes e eternas no céu.

V – SEU TRABALHO COMO PRESBITERO PRESIDENTE NO
ESTADO DE MAINE
O trabalho do Presbítero Presidente foi o braço direito do Metodismo nesta época. Sem ele
a eficiência do episcopado teria falhado. Na ausência do Bispo o seu representante estava no lugar
para zelar e dirigir o trabalho do distrito. Mas não há cargo algum que possa dar bons resultados
se não houver homens competentes para ocupá-lo.
Agora vem um campeão desse ofício na Igreja Metodista, com vinte e três anos, para
ocupá-lo. A Conferência de Nova Inglaterra que se realizou na cidade de Boston, Estado de Maine,
em 1804, marca uma nova época na vida de Josué Soule. Lemos no diário do Bispo Asbury: “O
Distrito de Maine, Josué Soule, Presbítero Presidente”. Este distrito abrangia toda a província de
Maine. Tinha doze circuitos e para percorrê -lo precisava viajar a cavalo quatrocentas léguas.
Coitado do novo Presbítero Presidente! Durante dois anos que serviu este distrito, contando os
dias todos, só passou três semanas com a sua esposa! Ela precisava ficar com os pais dele ou
com os seus parentes em Portland. Mas é justo dizer que Sarah Allen não se queixava, antes
encorajava o seu marido no trabalho para que fosse um bom soldado de Jesus Cristo.
Ocupando o cargo de Presbítero Presidente não diminuiu o seu trabalho e
responsabilidade, antes os aumento u, ao mesmo tempo proporcionando-lhe maiores
oportunidades para fazer o bem à causa de Cristo. É de supor que os sentimentos manifestados
num discurso que fez perante uma Conferência Anual, depois de vinte anos no bispado, fossem
adquiridos durante estes anos de tanta abnegação. Ele disse: “Tenho ocupado as cabanas mais
humildes, quase sem as coisas mais necessárias para conservar a vida. Tenho dormido no chão
com o pelo de um urso por minha cama e a ab óbada celeste por minha proteção. Tenho dormido
sobre a neve de um palmo de grossura, exposto ao tempo, sem coisa alguma em cima de mim
senão o céu, e destes lugares humildes passando para os palácios dos ricos onde se encontrava
tudo que é necessário ao conforto humano. E qual foi a grande diferença para mim? Que importa
ao homem que tem entrado num pacto com os homens e com Deus, e com a Igreja de Deus, para
devotar todo o seu tempo e toda a sai vida na salvação de almas, se ocupar uma cabana ou um
palácio, de modo que possa cumprir com os seus votos e terminar a sua carreira alegremente no
ministério? Para tal homem todas as coisas exteriores devem ter o mesmo valor. A sua felicidade
não depende de tais coisas. A alma do homem deve ser um império sobre si mesma, e devia
desapegar-se de tais coisas, em vez de depender delas. Eu vos declaro, irmãos, que me não
importa morrer no seio da minha família ou longe de casa entre pessoas estranhas, contanto que
seja achado cumprindo o meu dever”.
No fim do segundo ano de sua investidura no cargo de Presbítero Presidente, o trabalho
no Estado de Maine foi dividido em dois distritos. Quando o Bispo Asbury fez as nomeações
mandou Josué Soule para o Distrito de Kennebec e Oliver Beale para o Distrito de Portland. Soule
foi nomeado para tomar conta do Distrito de Kennebec, porque era o distrito mais difícil e o Bispo
receava que Beale não pudesse satisfazê-lo. Soule entrou no serviço de seu distrito com
entusiasmo. Deixou a esposa em casa de seus pais em Avon que ficava nos limites do seu distrito.
Foi mais ou menos neste tempo que surgiu o costume de realizar os “Camp-Meetings”
(cultos de acampamento). Ele, como Presbítero Presidente, tomava a dianteira nestes cultos, em
que, não raro, havia mais de dois mil assistentes. Seu dom de falar desenvolveu -se nesta época.
Já era ele um homem experimentado, tendo a verdadeira experiência de Deus em sua alma. Lera
também as melhores obras clássicas, por isso as multidões que vinham para ouvi-lo jamais
voltaram vazias para suas casas. Muitas pessoas foram convertidas e o trabalho prosperava sob a
sua orientação, graças aos seus esforços. Seus colegas começaram a reconhecer que tinham nele
um verdadeiro guia.
A Conferência Geral de 1808 se aproximava e todos os presbíteros eram considerados
membros. Foi esta a última conferência composta de todos os pregadores que haviam completado
quatro anos na itinerância; dali em diante as Conferências Anuais teriam que eleger os delegados
de acordo com a sua quota.
Josué Soule juntamente com os colegas era membro da Conferência Geral que se realizou
na cidade de Baltimore, em 1808. Foi nesta ocasião que Josué se tornou conhecido pela Igreja em
geral e dali em diante por cinqüenta anos foi um dos seus maiores guias, no trabalho.

VI – ESCREVENDO A CONSTITUIÇÃO DO METODISMO NA
AMÉRICA
Reuniu-se a Conferência Geral a 6 de maio de 1808, na cidade de Baltimore, estando
presentes cento e vinte e nove membros. Até aqui a Conferência Geral estendia às suas atividades
sem qualquer restrições de participação. Mas percebeu-se que os membros das Conferências
Anuais pequenas corriam o risco de ser dominados pelas três conferências maiores, e assim sendo
fizeram um memorial pedindo que as Conferências fossem limitadas quanto ao número de
delegados. Quatro das sete Conferências Anuais (Conferências ou Concílios regionais) aprovaram
este memorial, porém, as três mais importantes não o fizeram. Havia, portanto, pelo menos, duas
coisas de grande interesse desta Conferência Geral de 1808, a saber: limitar o número de
delegados de cada Conferência Anual para a Conferência Geral (Conferência ou Concílio Geral ou
Nacional) e adotar uma Constituição.
Para legislar sobre estes dois pontos a Conferência tinha que aventurar em terreno novo e
precisava de alguém que pudesse abrir o caminho para conquistá-lo. Felizmente havia entre os
membros um homem, com menos de vinte e sete anos de idade, que não tinha estado numa
escola, nem sequer um dia, e que fora destinado a fazer o papel de Mois és legislando para o seu
povo; este homem era Josué Soule. A Conferência Geral nomeou uma comissão para formular
uma Constituição e apresentá-la em plenário. Esta comissão reuniu-se e discutiu o assunto por
algum tempo, e para que o assunto fosse mais bem tratado, resolveu nomear uma sub-comissão
para elaborar a Constituição e mais tarde relatar à Comissão. Escolheram três homens entre si
para fazer este serviço, a saber: Ezekiel Cooper, Josué Soule e Philipe Bruce.
Depois de trocar idéias resolveram eles que cada um escrevesse um documento julgado
conveniente e depois se reuniriam de novo afim de aprovar aquele que julgassem melhor. Quando
se reuniram, somente Cooper e Soule tinham feito um plano cuidadosamente escrito. Os dois
foram discutidos e o de Soule logrou aprovação, reservando -se Cooper o direito de ler o seu plano
à Comissão maior. Quando a sub-comissão apresentou seu relatório à Comissão maior, com
poucas alterações, aprovou-se olano de Soule, que é o que hoje temos na nossa Disciplina (1918)
– Parágrafo 42: “A Conferência Geral terá plenos poderes para fazer regras e regulamentos para
nossa Igreja, sob as seguintes restrições:
1º - A Conferência Geral não pode revogar, alterar ou mudar os nossos Artigos de
Religião, nem estabelecer novos padrões qualquer ou regras de doutrinas contrárias aos nossos
padrões de doutrina atualmente existentes e estabelecidas;
2º - Não pode admitir mais de um representante para cada dezoito membros da
Conferência Anual, nem menos de um para cada sessenta; contanto que, se houver em alguma
Conferência Anual uma fração de dois terços do número marcado como base para represent ação,
tal Conferência Anual terá o direito a mais um representante por esta fração; e contanto que,
também, a nenhuma Conferência se negue o privilégio de dois representantes, um clérigo e outro
leigo;
3º - Não pode mudar nem alterar parte alguma a regra do nosso governo, de modo a
acabar com o episcopado ou a destruir o plano da nossa superintendência itinerante e geral;
4º - Não pode revogar nem mudar as Regras Gerais das Sociedades Unidas;
5º - Não pode acabar com o privilégio de julgamento de nossos ministros e pregadores
perante uma comissão nem de apelação; nem tão pouco acabará com os privilégios dos membros
de julgamento perante à Igreja, ou uma comissão, e de apelação;
6º - Não pode aplicar a renda da Casa Publicadora a nenhum outro fim que não seja em
benefício dos pregadores itinerantes, supranumerários, jubilados, suas mulheres, viúvas e órfãos.”
A Constituição ainda definia: “Contanto que, todavia, se houver uma recomendação
concorrente de todas as Conferências Anuais, então a maioria de dois terços da Conferência Geral
seguinte bastará para alterar qualquer das restrições acima”.
Este último parágrafo está de acordo com a Disciplina de 1808. Nossa Disciplina hoje
acrescentou alguma coisa que com ligeira leitura se pode verificar. Também se alteraram algumas
frases para satisfazer as novas legislações, contudo não violaram o sentido original destas seis
restrições. Por exemplo, a segunda restrição fala em leigos, porém, na ocasião em que foi
aprovada esta constituição não havia representantes leigos na Conferência Geral em nossa Igreja.
Eis ai a Constituição da Igreja Metodista Episcopal! É basicamente a mesma Constituição
que temos hoje (1929) na Igreja Metodista Episcopal do Sul, que surgiu após a divisão da Igreja
em duas, a do Sul e a do Norte dos EUA, durante os anos em que todo o país ficou dividido em
dois através da guerra civil da Secessão.
E o jovem autor, Josué Soule, depois de escrever a nossa Constituição, viveu cinqüenta e
nove anos. E no correr deste tempo houve duas épocas de crise na Igreja quando foi ameaçada a
Constituição: em 1820 e 1844. Ele, porém, se mostrou firme e conseguiu mantê-la de pé. As seis
restrições paralisaram a tendência para desint egração na Igreja Metodista. O Dr. H. M. Du Bose,
biógrafo de Josué Soule, falando sobre o valor desta medida, disse: “Pode-se afirmar sem receio
de errar que não houve jamais outro ramo do metodismo que erguesse tal monumento em honra a
um dos seus filhos que sobrepuje a honra que a Constituição tem conferido à memória de Josué
Soule”.
O Bispo McTyire disse: “Um dos benefícios óbvios da teoria de Soule que será aceito, é
que desviará muitas desvantagens, pois promove a mais íntima conexão. Ela liga e une as Igrejas
e as Conferências. Soule conseguiu estabelecer o costume e a regra que ainda prevalecem na
Igreja – de ter poucos bispos, criando poucos e dando-lhes bastante o que fazer e um território
geral em que operar, tendo eles interesses em todas as Conferências e as Conferências tendo
interesse neles”.
E ainda o Bispo Collins Denny diz: “O metodismo Americano não teve jamais um pregador
maior, um administrador maior, mente mais delicada em resolver e ajustar os problemas
constitucionais do que Josué Soule”.

VII – AGENTE DA CASA PUBLICADORA
Logo depois da Conferência Geral que se realizou em 1808, Soule voltou para o seu
Estado de Maine e tomou conta do Distrito de Portland, dirigindo ali o trabalho por quatro anos. Em
1813 foi pastor da Igreja em Lynn e constituiu um novo templo durante este ano. Então foi
nomeado Presbítero Presidente do distrito de Kennebec por três anos.
Um incidente que se deu com ele em 1813 revela o seu espírito patriótico. A guerra entre
os Estados Unidos e a Inglaterra, que se chama na história “A Guerra de 1812”, estava se
desenrolando durante este ano e Soule teve a oportunidade de testemunhar uma batalha naval
que se travou entre a frota inglesa e a dos Estados Unidos. Estava ele num morro de onde podia
ver o conflito entre um navio americano e um navio inglês. Enquanto o comandante do navio
americano, ferido e prostrado do convés, dizia aos seus homens: “Não entreguem o navio;
combatam o inimigo até que o navio afunde”; Josué Soule vendo o resultado da batalha disse:
“Daria o meu braço direito para conservar aquela bandeira que flutua”.
O seu patrício que morria naquele instante era da mesma idade dele e, quem sabe se o
seu pai, o capitão Soule, não tivesse mudado de Bristol teria sido ele e não o Sr. Lawrence que
perdia a sua vida naquela batalha?
1. Dificuldades múltiplas
Na ocasião da Conferência Geral que se realizou em 1816 Josué Soule foi eleito agente da
Casa Publicadora e o redator do “The Metodist Magazine”. Ele não quis aceitar este cargo,
julgando que deveria ser ocupado por um leigo. De fato poucos dias antes de ser eleito ele fez uma
proposta neste sentido, alegando ao mesmo tempo que ele (Soule) não tinha preparo para tal
serviço, pois durante toda a sua vida tinha cuidado do trabalho de evangelização e considerava
muito arriscado colocar um homem, em um lugar de tanta responsabili dade, sem a prática em tais
negócios. Porém a Conferência resolveu de outra forma, e o escolheu confiante que ele daria
conta do trabalho. Foi assim que Soule, apesar do receio e desconfiança, uma vez eleito não
recusou aceitar esta incumbência e tomou conta da Imprensa Metodista naquela época. Os únicos
atributos que possuía eram a capacidade natural e amor à Igreja. Boas qualidades são estas!
Entre as dificuldades que tinha de enfrentar, a maior de todas, era a falta de dinheiro. A
Casa Publicadora esta va seriamente endividada e sem crédito. E além disso havia uma crise
financeira no país. O fardo, portanto, era bem pesado. Também os aparelhos e máquinas não
estavam em boas condições. A tarefa era suficiente para desanimar qualquer homem menos
competente. Tomou ele dinheiro emprestado de um banco em Baltimore, ficando dois amigos
como seus fiadores. Com este dinheiro pode movimentar o negócio da Casa. Ele e seu ajudante, o
Sr. Thomas Mason, trabalhando com as suas próprias mãos, encaixotando e despachando livros e
fazendo todo o serviço eclesiástico, além do serviço de redatores. Conseguiram dar novo impulso à
casa. O povo, reconhecendo o esforço dele e os bons resultados obtidos, deu -lhe apoio franco,
pois ele não somente gozava o apoio do povo como também a camaradagem dos seus colegas.
O serviço de redator do “The Metodist Magazine” tinha de ser feito à noite, depois do
trabalho do dia e ele, assim, intitulou este trabalho “A obra das trevas” (“A obra Noturna”). Quando
terminou o quatriênio a Casa Publicadora estava quase livre de dívidas, com boa freguesia e as
publicações feitas deram prazer à Igreja. Ele correspondera à expectativa, porém não quis
continuar passados os quatro anos. Muitos anos depois ouviram -no dizer: “Não suportaria outra
vez o cansaço, a fadiga, a azáfama (o estresse e correria), e os aborrecimentos, o cuidado e a
responsabilidade daqueles quatro anos na Casa Publicadora, mesmo que ganhasse toda a rua de
Mulbery”.
Sem dúvida, ele sabia e podia condoer -se do agente da Casa Publicadora.
2. Outras atividades
Josué Soule, ao assumir a redação do “Magazine Metodist”, fez a seguinte observação ao
público: “Em publicado este periódico miscelâneo, os redatores sentem todas as comoções que
nascem da convicção que os seus méritos serão submetidos a um exame rigoroso do público
inteligente. O maior escopo desta publicação é difundir conhecimentos religiosos, ideal que
abrange os mais altos interesses de uma existência racional”. O serviço que ele prestara na
redação deste jornal foi feito depois de nove horas da noite. A publicação da nossa literatura
religiosa e periódica teve com ele, realmente, o seu começo.
Soule estava identificado com um outro empreendimento religioso que tem beneficiado o
mundo inteiro – fundação da Sociedade Bíblica Americana que foi organizada em 1816. Sendo ele
o agente da Casa Publicadora Metodista foi o representante da nossa Igreja neste projeto. Seus
conselhos e auxílio foram de grande valor durante o período da sua organização. Uma das coisas
que lhe dava mais satisfação na velhice era o haver tomado parte na fundação da Sociedade
Bíblica Americana – uma das grandes instituições modernas.
Em 1819 tinha ele a honra de participar da organização da Sociedade Missionária da Igreja
Metodista Episcopal. Foi ele quem tomou interesse na organização desta sociedade na cidade de
Nova York e também quem tomou parte ativa em conseguir a adoção e aprovação da Sociedade
Missionária pela Conferência Geral em 1820. Foi ele o primeiro tesoureiro da Sociedade e durante
a sua longa vida interessou-se sempre no bem estar financeiro dessa sociedade.

VIII – UM PROTESTO EFETIVO
A Conferência Geral, que se reuniu em Baltimore no mês de maio de 1820, foi destinada a
ser uma das Conferências mais memoráveis na história da Igreja porque foi nesta ocasião que a
Constituição foi posta a provas severas e saiu triunfante, devendo-se este triunfo à firmeza de um
homem – Josué Soule, aquele que a escreveu.
A questão da função do ofício do Presbítero Presidente, foi discutida por uns doze dias
durante os vinte e oito dias que durou essa Conferência Geral. O que complicou a questão foi a
eleição de Josué Soule ao episcopado logo no princípio da Conferência na primeira votação. Mais
tarde a questão do ofício do Presbítero Presidente, foi discutida e decidiram que em vez de serem
nomeados os Presbíteros Presidentes pelo Bispo, deviam ser eleitos pela Conferência Anual.
Tal ação colocou Soule numa posição difícil, pois ele não tinha sido ordenado bispo ainda
e não quis aceitar ordenação porque julgava que a Constituição fora violada pela legislação que se
fizera acerca do ofício do Presbítero Presidente; portanto, recusou aceitar ordenação porque, na
ocasião em que foi eleito ao episcopado, não tinha feito qualquer legislação que violasse a
Constituição da Igreja. Também o bispo Mckendree não concordava com a nova lei, julgando
contraria a Constituição.
Tudo isto provocou muitas discussões e finalmente resolveram suspender tais resoluções
até a próxima Conferência Geral. E na Conferência Geral seguinte Soule foi reeleito ao bispado e
como as novas resoluções suspensas não foram aprovadas, aceitou a ordenação de bispo e por
quarenta e três anos honrou este cargo. Para mostrar a idéia de Soule sobre a função dos
Presbíteros Presidentes no episcopado, vamos considerar um documento que ele nos deixou
sobre esta importante questão.
O Bispo McTyire, na ocasião do enterro do Bispo Soule, disse: “A teoria do Sr. Soule
acerca do ofício de Presbítero Presidente era que os Presbíteros Presidentes no seu carát er
executivo são oficiais e vice-regentes do bispo, e que o bispo deve ter o pleno direito de escolher
os seus representantes. Como pregadores itinerantes nosso sistema não mais poderia permitir que
a Conferência Anual fizesse as nomeações dos Presbíteros Presidentes para seus campos de
serviço, como não podia nomear os pregadores para seus campos de trabalho. Sob tal
administração ele julgava que o episcopado e a itinerância infalivelmente se enfraqueceriam”.
O Bispo McTyire, falando sobre a atitude de Josué Soule acerca dessa questão, diz: “A
inexorável posição de Soule sobre o nosso sistema executivo em 1820, e a firmeza com que ele o
defendeu salvaram o sistema e, em salvá-lo, com clareza e sem compromissos, a função, a
energia e o evangelismo da nossa Igreja foram conservados”.
O espírito com que Josué Soule fez o protesto na Conferência Geral de 1820 mostra-nos
que tinha profunda convicção e inteira razão. Alguém descreve Soule assim: “A coragem dele era
calma e grande, a percepção era clara, a convicção firme, o conhecimento da situação perfeito.
Não foi impaciente. Tinha fé na verdade e no que é justo e acreditava que no fim das contas tudo
seria reivindicado. Tendo se firmado sobre as suas convicções não podia ser demovido”.

IX – NO PASTORADO OUTRA VEZ
O ano de 1820 foi um ano de provas para Soule. Não quis ele continuar como agente da
Casa Publicadora; também não quis aceitar o episcopado, porque não podia conscienciosamente
assumir as obrigações deste ofício, quando julgava que a Constituição estava violada.
Voltou ele, portanto, ao pastorado, sendo nomeado pastor da igreja na cidade de Nova
York. Houve, no entanto, desacordo entre os membros das Igrejas nesta cidade durante os dois
anos que lá ficou. Não porque tivesse ele culpa pelas dimensões, visto que elas vieram de longe,
do passado. Logo depois de tomar conta da Casa Publicadora nesta cidade em 1816 ele disse ao
Bispo McKendree que “coisas sérias e desagradáveis nos esperam nesta cidade”.
Havia então queixas entre os pastores e sinais de deslealdade e agora depois de quatro
anos, especialmente depois das discussões que se deram na ocasião da Conferência Geral,
concorreram para prevenir o espírito dos leigos na cidade de Nova York. Havia um movimento
entre os pastores para formar uma igreja independente e composta só de pessoas negras. O
resultado deste movimento foi a organização da Igreja Sião Africana Metodista Episcopal.
Havia, também, pessoas descontente s entre os brancos, tantos pastores como leigos. Eles
também queriam formar uma nova igreja, mas Soule os aconselhava a que não fizessem isso;
porém não podia persuadi-los por muito tempo, pois encontramos numa carta que escreveu ao
Bispo McKendree o seguinte: “O senhor se encontrará com o Bispo George em Baltimore, e ele lhe
contará os resultados desastrosos que se têm dado nesta estação. Basta dizer-lhe que centenas
de crentes se têm separado da Igreja e formado uma congregação independente, sob um sistema
de governo que dá igualdade e poder a todos os membros – tanto mulheres como homens – em
linguagem popular – um eclesiasticismo democrático no mais lato sentido da palavra”.
Em 1822 o Bispo George queria que ele fosse removido de Nova York para a Igreja em
Baltimore. Não procurou ele esta transferência, visto ser a nomeação uma ordem episcopal. Mas
Soule escreveu ao Bispo McKendree sobre os planos do Bispo George nestes termos: “O senhor
está ciente de que tenho recebido instruções do Bispo George, para ser transferido à Conferência
de Baltimore na próxima sessão. Não há uma nomeação que mais me agrade, e tal mudança
contemplo com satisfação. Mas se tenho me comunicado com o senhor sobre isto, de antemão
desejo que seja perfeitamente compreendido pelo senhor e pelo Bispo George que não faço
qualquer parte do nosso trabalho que se julgar conveniente e para o bem geral da causa. Digo isto
de modo que o sr. e o Bispo George tenham perfeita liberdade comigo quanto ao lugar do meu
futuro serviço, apesar de qualquer instrução em contrário”.
Um homem que podia excusar o Episcopado podia, também, submeter-se, “como um filho
no Evangelho”, à autoridade estabelecida da Igreja.
Soule foi transferido para a Conferência (“Região Eclesiástica” ) de Baltimore. Durante o
primeiro ano procedia com muita cautela, sendo novo nesta Conferência. Durante o segundo ano
de seu pastorado em Baltimore, o Sr. John Emory, o autor das “Resoluções Suspensas”, escreveu
um folheto queixando-se de diversas irregularidades e entre elas o nome de Soule estava
envolvido, devido a atitude que assumira em face desta medida em 1820. Quando a Conferência
Anual (Conferência ou Concílio Regional) de Baltimore se reuniu e o nome de Soule foi chamado,
não quis ele que seu caráter fosse aprovado antes de serem explicadas as queixas contra ele,
contidas no mencionado panfleto.
O Bispo Collins Denny explica o incidente da seguinte maneira: “A Conferência de
Baltimore se reuniu na cidade de Winchester, Virginia, em 8 de abril de 1824, sendo presidente o
bispo George. Havia oitenta e dois pregadores presentes, um número considerável para aquela
época. No primeiro dia, sob a pergunta doze: “Todos os pregadores estão irrepreensíveis na sua
vida e administração oficial?” o nome de Soule foi chamado. Alguém respondeu: “Não há nada
contra ele”. Imediatamente Soule se levantou, e, erguendo o panfleto assinado pelos senhores
Griffith, Morgan, Waugh e Embory, disse: “Sim, há!”. Não consentia que o seu caráter fosse
aprovado enquanto as queixas levantadas no tal panfleto não fossem resolvidas. Ele mesmo
suspendeu a aprovação de seu caráter. Recusou que o aprovassem enquanto o autor do panfleto
não estivesse presente. Consta da Ata que “Quando o nome de Josué Soule foi chamado, a seu
próprio pedido foi adiado, sendo suspensa a aprovação de seu caráter até a chegada do Sr. John
Embory, seu acusador”.
Na quinta-feira seguinte chegou à Conferência o John Embory e na sexta-feira o nome de
Josué Soule foi chamado outra vez para a aprovação do seu caráter. Soule declarou que
“considerava o seu caráter implicado nas várias publicações, especialmente na publicação
assinada por vários membros da Conferência”. Falou à Conferência por algum tempo, e depois foi
respondido pelo Sr. Embory. Nada sendo provado e não restando dúvidas sobre o caráter de
Josué Soule, finalmente foi submetido à votação da Conferência Anual que o aprovou.
De outras fontes sabe-se que o discurso de Soule nesta ocasião foi muito eloqüente, e
“que foi um triunfo a que os culpados retiraram às suas acusações e pediram perdão pela injustiça
feita a ele”.
Havia um partido na Conferência Anual contra a eleição de Soule como delegado à
Conferência Geral, mas o nome dele estava em quarto lugar na lista e nenhum dos três que
fizeram queixas contra ele foi eleito como delegado.
Na ocasião da Conferência Geral (Conferência ou Concílio Geral) que se realizou na
cidade de Baltimore, em maio de 1824, a antiga questão da função dos Presbíteros Presidentes se
levantou novamente e a seguinte resolução foi tomada: “Visto que a maioria das Conferências
Anuais não aprovou as “resoluções suspensas” acerca da eleição dos Presbíteros Presidentes na
última Conferência Geral e depois as suspendeu: resolve que as ditas resoluções não têm
autoridade, e não serão executadas”.
Agora, depois de uma grande vitória constitucional, o caminho estava aberto para Josué
Soule aceitar o bispado. Foi ele eleito Bispo pela segunda vez e, desta vez, aceitou a ordenação,
pois todos os empecilhos estavam removidos.

X – SEU TRABALHO COMO BISPO
Geralmente, quando alguém é honrado com uma posição mais alta, entre os seus
conhecidos e amigos levantam-se adversários; não porque esse alguém tenha feito mal a tais
adversários, porém são induzidos a isto por inveja, ciúme e ambição. Isto se deu com o Bispo
Soule. Ele tinha contrariado diversas pessoas na sua defesa da Constituição e como ganhasse a
vitória na luta e o honrassem com o bispado, tudo isso concorreu para despertar tais sentimentos
no espírito de alguns dos seus colegas de outrora.
1. Seus adversários
Durante o primeiro quatriênio da sua administração como Bispo alguns dos seus
adversários o acusaram de heresia. O Bispo tinha pregado em Carolina do Sul um sermão sobre o
assunto: “A lei perfeita da Liberdade”.
Quando se reuniu a Conferência Geral em 1828 esta questão de heresia foi levantada. O
Bispo Soule ficou quieto, mas mandou distribuir exemplares de seu discurso entre os delegados da
Conferência. Uma Comissão foi nomeada para estudar o assunto e trazer o seu parecer perante a
Conferência. Depois de estudar bem o sermão, a Comissão relatou que não julgava o discurso
heterodoxo. Assim caiu a acusação de heresia.
Ele tinha uma alma grande demais para ser dominada com coisas pequenas, mesquinhas
e partidárias. Mantinha domínio sobre si mesmo, e pelas vistas largas e um viver santo, chegou a
conquistar no correr de dezesseis anos, a confiança e o respeito de todos.
Foi respeitado pela sua sabedoria, piedade e fidelidade no cumprimento dos seus deveres.
“Como Bispo foi popular; viveu e morreu honrado por todos”.
2. Alguns incidentes na sua administração
Aconteceu que ao presidir à Conferência Anual de Ohio, em 1834, havia um membro
desta, desejando que certo homem fosse nomeado professor na Universidade de Ohio, onde seus
filhos eram alunos. O Sr. Jacob Young, sabendo que o Bispo não favorecia tal projeto, fez todo o
possível para obrigar o Bispo a fazer tal nomeação, conseguiu até que a Conferência votasse a
aprovação da nomeação do homem que ele queria, porém havia outros contra essa proposta.
Quando chegou a hora de o Bispo por em votação a proposta, disse: “Não me importa saber como
os senhores votarão, pois eu não farei a nomeação”. Assim caiu a proposta.
O Sr. Young disse: “Eu tenho que me retirar da Conferência por um pouco, afim de andar e
desabafar o meu espírito, pois estava muito alterado”. Quando estava andando vagarosamente e
pensando. Sobre sua conclusão ele fala:”Papa! Papa! Reconheci naquele dia que os Bispos
Metodistas tinham bastante poder. Parecia a mim que este poder era semelhante ao veto colocado
nas mãos do presidente dos Estados Unidos”.
É sempre difícil escrever as coisas claramente quando estamos contrariados em nossos
próprios planos e desejos.
Houve um outro caso que se deu em Virginia, quando um itinerante que possuía mais
gênio que bom senso, acusou o Bispo de ter mostrado um espírito partidário e o ameaçou “com um
artigo contra ele no jornal”. A isto o Bispo respondeu: “E eu não farei nem um risco de pena em
resposta”. O Bispo Soule decidia todos os problemas da sua vida como se estivesse de esperar
uma eternidade para sua reivindicação.
Foi muito criticado pela posição que tomou na questão da abolição dos escravos.
Conservou-se a Disciplina sobre esta questão e assim fazendo ganhou a crítica do partido
extremista sobre esta questão. Em 1816 a Igreja tomou a seguinte posição nesta importante
questão: “A escravidão é um mal, é um mal gigantesco; mas é uma instituição política, encerrada
nas Constituições de diversos Estados; e está, portanto, fora do poder da Igreja alterar essas
condições. É de nosso dever levar o Evangelho tanto aos mestres como aos seus escravos, e dar
tal direção e fazer tais regras que indiquem os limites do nosso poder para extinguir o mal”.
Foi justamente esta a posição do Bispo Soule quando o assunto era discutido calmamente;
e, quando vieram dias de fortes discussões sobre esta questão, ele não se deixou vacilar, antes
firmou-se mais na posição que a Igreja tinha tomado até o ano de 1844, quando a separação se
deu. O que ele era em 1808 o foi em 1844, baseando-se na Constituição e nas deliberações
tomadas pela Igreja. Como ele era do Norte e tinha passado muitos anos no Sul, conquistou a
confiança e respeito de todos, estava em condições de prestar valiosos serviços em reconciliar os
diversos partidos das duas seções (do Norte e do Sul) do país.
Uma vez o Bispo Soule ia embarcar em Baltimore para Nova York. Seu
companheiro de viagem, um Quaker, chegou ao navio primeiro e entrou, mas ficou escandalizado
com as blasfêmias dos tripulantes. Ia saindo quando se encontrou com o Bispo que entrava.
Contou-lhe o que testemunhara e sugeriu que tomassem outro navio. O Bispo disse a seu
companheiro: “Venha comigo e o senhor não ouvirá mais nenhuma blasfêmia”. Com o seu
companheiro o Bispo andava pelo convés do navio no meio dos tripulantes e os cumprimentava e,
quando se encontrou com o capitão do navio o saudou e mais alguns dos oficiais; e continuaram a
passear pelo convés e usar a sua cabine e não se ouviam mais palavras torpes dos marinheiros.
Quando iam desembarcando, o Quaker cochichou no ouvido de Soule: “Josué, eu percebo que os
espíritos te estão sujeitos”.
Foi desta maneira que Francisco de Assis pregava ao povo de sua cidade.
3. Delegado fraternal às Conferências Britânicas
Foi a idéia de João Wesley que o metodismo tivesse uma unidade contínua através do
mundo. Havia muitos outros que partilhavam desta mesma idéia entre os quais os Bispos Asbury e
Coke. Mas esta idéia não podia prevalecer; as circunstâncias eram fortes demais para conservar
uma unidade orgânica. Mas sempre tem havido uma unidade de espírito e o de fraternidade.
Antes de 1840 o Bispo Soule foi nomeado delegado fraternal às Conferências Metodistas
da Grã-Bretanha. Em 1842 ele com o Sr. Thomas B. Sargent, o seu companheiro de viagem,
embarcou para a Inglaterra em junho. Eles visitaram a Conferênci a Geral da Irlanda e a
Conferência Geral da Inglaterra que se realizou em “Wesley’s Chapel”, City Roads, Londres.
Não é necessário dizer que a sua visita causou profunda impressão sobre os britânicos. O
sermão que pregou em “Wesley’s Chapel”, foi muito apreciado e a Conferência pediu formalmente
que ele fornecesse uma cópia para ser publicada no “Magazine”. Foi convidado a tomar parte na
ordenação dos diáconos e presbíteros da classe daquele ano. Também, um dos melhores pintores
ingleses daquela época foi ajustado pela Conferência Wesleyana para lhe pintar um retrato.
Certamente nunca tivéramos um delegado fraternal que fosse mais honrado do que ele.
Em 1848 foi a vez de haver um delegado do metodismo inglês na Conferência Geral do
metodismo nos EUA. O delegado foi o Sr. Dixon, que era o presidente da Conferência Wesleyana
inglesa por ocasião da visita do Bispo Soule. Dixon não podia esquecer-se jamais do venerável
Bispo Soule e, estando na América como delegado fraternal não pode deixar de visitar o Bispo
Soule. Quando o dr. Dixon embarcou para a Inglaterra o Bispo Soule em companhia de muitos
outros o acompanharam a bordo.
Quando o Sr. Dixon chegou em seu país escreveu às seguintes linhas descrevendo a sua
impressão do Bispo Soule: “Muitos irmãos nos ac ompanharam ao navio para despedir-nos. Entre
eles estava o Bispo Soule. Eu o vi pela última vez com um coração dolorido em meio aos demais
irmãos. É triste lembrar-me que nunca mais hei de vê-lo. Senti isso profundamente quando tirei os
meus olhos dele com o último adeus. Um homem nobre! Um dos primeiros espíritos da América!
No porte um cavalheiro perfeito, viril, cortez e digno; nos princípios, sentimento e comportamento,
um verdadeiro cristão; em caráter e capacidade mental, claro e masculino; na enverga dura moral,
firme, inabalável e inflexível; em sua capacidade oficial, judicioso, prudente e decidido em aderir a
regra constitucional, mas prático e sábio; nos trabalhos evangélicos tão ativo como qualquer outro
homem na Igreja; e no espírito, calmo, corajoso e ativo. Durante quatorze dias tive o privilégio e a
felicidade da companhia do Bispo Soule, e minha alma no mais íntimo o reverenciava e rendia
homenagem quando via o seu aspecto venerável pela última vez”.

4. A separação da Igreja
Quando o Bispo Soule voltou da Europa, tendo viajado um pouco pelo continente, depois
de deixar a Inglaterra, achava grande mudança no espírito da Igreja Metodista na América. Havia
um espírito revolucionário mais pronunciado do que nunca contra a escravidão. Portanto, quando a
Conferência Geral se reuniu em nova York, em maio de 1844, esta questão foi longamente
discutida. Não havia possibilidade de conservar a união da Igreja , entre os grupos que eram contra
e a favor da escravidão, e foi então adotado “Um plano de Separação”. E quando a Igreja
Metodista Episcopal do Sul foi organizada em 1846 o Bispo Soule e o Bispo Andrews, foram
convidados a participar nos destinos dela. Eles aceitaram o convite e prestaram os seus serviços
até o fim da vida.
É admirável como o Bispo Soule que nasceu e foi criado e passou os seus primeiros anos
na itinerância em Nova Inglaterra, o lugar onde os sentimentos mais fortes contra a escravidão
foram manifestados, consentiu em aliar-se com a Igreja do Sul, o grupo que era a favor da
escravidão. Ele fez isso porque julgava que os passos dados foram mais de acordo com a sua
consciência.
Para entrar em pormenores sobre essa fase da história da nossa Igreja, precisaríamos de
mais espaço do que esta obra nos permite.
Aquele que quiser saber mais sobre esta época da nossa história deve ler o livrinho, “A
History of the Metodist Church South in the United States”, escrito por Gross Alexander.
IX – O FIM DA CARREIRA
1. Alguns incidentes nos últimos anos.
Depois do fatídico ano de 1844 até o ano de 1867 o Bispo Soule foi identificado com a
Igreja Metodista Episcopal do Sul. Sua experiência e compreensão dos problemas daquela época
o habilitaram para ser o guia e chefe da Igreja dura nte os anos mais tristes da história da Igreja
Metodista e igualmente da nação. Foi o período da agitação religiosa, social e civil que terminou
numa guerra civil que durou quatro anos. Depois de se identificar com a Igreja do Sul, mudou a sua
residência de Lebenon, no Ohio, para Nashville, noTennesse. A Igreja de McKendree ofereceu-lhe
residência no centro da cidade, onde ficou uns oito anos, até ser jubilado e mudar-se para o sítio,
umas duas léguas da cidade de Nashville. Ali comprou um sí tio pequeno e passou o seu tempo
cuidando das flores, das plantas e do prado ao redor da casa, e lendo. Ele agora era jubilado e
fazia o que podia pela Igreja que amava tanto como amava a sua própria vida.
Não quis fazer coisa alguma fora do ordinário sem autorização da Igreja. Por exemplo, não
quis aceitar um título acadêmico, oferecido por uma universidade européia sem consultar a
Conferência Geral em 1844. Também, mais tarde, antes de visitar o lar da sua mocidade e os
parentes no estado de Maine, pediu licença. Ele observava a regra: Aquele que quer governar
deve saber obedecer. Sem dúvida a vista à cena de sua mocidade foi-lhe experiência tocante,
recordando as experiências e lutas da sua mocidade.
Além desta visita, ele fez uma ou duas viagens pelo isthmo de Panamá à Califórnia onde
pregou e se interessou na propaganda do Evangelho neste novo território.
Durante a Guerra Civil, ainda Bispo ativo, foi separado do movimento da Igreja por dois
anos, pois o exército dos unionistas (os soldados ianques dos estados do Norte) capturou a cidade
da Nashville onde ele residia e cortou toda a comunicação com o seu povo. Mas aqueles dias
finalmente passaram e Soule conseguiu reunir alguns dos pastores na capela que ficava perto da
sua casa e ordenou os pregadores que precisavam de ordenação.
Passou uma experiência dolorosa em 1857, quando a sua querida esposa faleceu. O Dr.
H. M. Du Bose assim descreve esta cena: “No dia 27 de maio de 1857, sua esposa, uma senhora
que durante cinqüenta e quatro anos deu provas da sua dignidade em ser esposa de um tão digno
marido, entrou no descanso eterno e foi sepultada ao lado de sua filha que tinha falecido dez anos
antes. Embora um homem forte, corajoso e cheio de confiança, não deixou de sentir o terrível
golpe da morte. Ficou profundamente comovido pela separação da sua companheira da sua vida e
do seu coração. Leal e afeiçoadamente tinham andado juntos. Nunca houve qualquer dúvida entre
eles para perturbar seus pensamentos. Foi com pesar sufocante e dor de um amante que entregou
o corpo dela à terra – “terra à terra, pó ao pó”.
2. O triunfo final.
O Bispo Soule estava doente e enfraquecido demais para assistir à Conferência Geral da
Igreja Metodista Episcopal do Sul que se realizou em 1866. A guerra Civil tinha terminado e a
Igreja e o povo foram abençoados pela paz civil e eclesiástica. O Bispo mandou a sua última
mensagem à Igreja dizendo: “Levai avante a grande obra”. Ele viu o futuro cheio de prosperidade e
bênçãos.
Em 2 de março de 1867 caiu doente com um ataque de desinteria e no dia 5 começou a
enfraquecer-se sobremodo. Ele estava cônscio que o fim da jornada se aproximava, e de quando
em quando perguntava que horas eram.
O Bispo McTyire que o assistiu nas últimas horas assim descreve o desenlace: “Cerca de
uma hora da tarde parecia que entrava debaixo de uma nuvem e que o fim estava perto. Eu
perguntei: “Tudo está bom ainda?” Então pela última vez ele respondeu dando ênfase sobre as
suas palavras que o caracterizava: “Sim, senhor, tudo está bom!”. De tempo em tempo lhe
dávamos água que tomava como se tivesse muita sede. Depois de tomar a água, por volta das
duas horas, quando a sua voz enfraquecia mais, mas ainda distinta, vendo-lhe cruzar as mãos em
cima do peito, eu perguntei: “Estas orando?” Ele só respondeu: “Agora não.” E não falou mais.”
O Bispo McTyire continua: “Fiquei surpreendido com essas palavras; não foram o que
esperava ouvir, pois sabia que me compreendia e falou o que sentia. Mas enquanto eu o olhava
deitado ali, meditando sobre as palavras – “Agora não” – elas tomaram uma nova significação e
achava-as muito justas. O trabalho dele estava acabado; à noite tinha chegado quando o homem
não pode mais trabalhar. Estava em repouso o servo que não tinha perdido o seu tempo durante o
dia, e quando as sombras se estendiam não precisava de ativar-se mais. É possível não ter outra
coisa a fazer senão morrer. Ái do homem que tem de orar e morrer ao mesmo tempo! Aquele que
crê não se apressará: ‘Eu não estou orando agora.”. Ele já tinha feito aquilo, e o tempo para render
louvores estava perto. Como a um navio que tem enfrentado tempestades e ondas turbulentas e
que chegando ao porto cessa de labutar e o mecanismo deixa de se movimentar, só um momento
basta para levá-lo ao cais.”
E conclui o Bispo McTyire: “O desenlace se deu. A família foi chamada e ficou em pé ao
redor da cama enquanto “se rompeu o cordão de Prata” sem qualquer esforço ou gemido ou sinal
de dor. Ele tinha se despido do tabernáculo de barro! Ausente do corpo, presente com o Senhor! O
corpo foi enterrado no cemitério da cidade de Nashville onde ficou por dez anos; dali foi levado
para o terreno da Universidade de Vanderbilt, em Vanderbilt, e enterrado ao lado do seu colega, o
Bispo Guilherme McKendree, onde jazem juntos na sombra dos prédios majestosos da
Universidade”.
IX
A vida de Pedro Cartwright,
o Itinerante Metodista nas
Fronteiras
(1785-1872)
Escrevendo sobre a vida de Pedro Cartwright, o fim em vista é mostrar como Deus pode
usar um homem que se dedica a seu serviço para vencer mil di ficuldades e estabelecer o seu
Reino na terra. Quando lembramos das condições que prevaleceram na época em que o pai de
Cartwright emigrou para as fronteiras de Kentuc ky e então, depois de setenta anos, notamos o
progresso que houve durante esse período, ficamos pasmados com as modificações. Lendo a
autobiografia de Cartwright ficamos conhecendo perfeitamente as condições sociais, políticas e
religiosas daquele tempo primitivo.
Não havia caminhos, nem pontes através dos rios, nem roças nem árvores frutíferas, nem
casas, igrejas, escolas ou colégios.
O que havia eram florestas e planícies, feras e selvagens. Além dos índios e feras havia
ainda homens piores do que estes, homens desordeiros e criminosos refugiados da Justiça, nas
florestas. Aumentando o número de emigrantes, as condições sociais trouxeram maiores
complicações, pois era difícil executar as leis violadas e o mais astuto e o mais forte era o que
prevalecia em pé.
Cartwright conta como seu pai e os que vieram com ele, tinham de se defender dos índios
logo que chegaram em Kentucky. Poucos dias antes de ali chegarem diversas famílias foram
chacinadas pelos índios. Seu pai e os demais se acamparam no mesmo lugar onde as famílias
foram mortas. Tinham de se proteger dos selvagens. Colocaram as mulheres, crianças e animais,
etc. no centro e destacaram vigias ao redor para combater os índios que se apresentassem.
Aquela noite seu pai serviu de vigia. Quando tudo estava silencioso, do lado onde estava seu pai,
apareceu uma coisa andando e grunhindo como porco. Estava escuro, porém se podia ver um
vulto caminhando em sua direção. Pensava que fosse um índio disfarçado e levantou a
espingarda, mirou-o e deu o tiro. Quando deu o tiro, o vulto deu um pulo e caiu. O pai correu ao
acampamento para contar o que tinha feito, mas o tiro já tinha acordado a todos e as mulheres e
as crianças estavam chorando e gritando, julgando que já iam ser assassinados. Arranjaram uma
luz e foram ver o que era aquilo que fora atingido e verificaram que era um índio que tomou a bala
na cabeça e que estava morto. Houve muitas outras coisas semelhantes que se deram com eles
naqueles tempos.
O pior de tudo foi um grupo de criminosos que se concentrou numa certa zona e, para um
estranho, era perigosíssimo lá entrar. Para acabar com eles era necessário atacá -los. Mas eles
também se defendiam e matariam muitos outros antes de se darem por vencidos.
O domingo entre os imigrantes era considerado um dia reservado para diversões, tais
como: caças, pescas, corridas de cavalo, jogo de cartas, bailes e danças. Foi neste meio que o
jovem Pedro Cartwright foi criado. Tinha seis anos quando seu pai se mudou de Virginia para as
fronteiras de Kentucky.

I – OS PAIS E A SUA MOCIDADE
1. Os seus pais
Os pais eram do Estado de Virginia, um dos mais antigos de todos os Estados do país. O
pai foi um soldado na guerra da revolução e lutou pela independência. Não era homem religioso,
porém não se opunha à religião, consentindo até no culto de pregação em sua casa. Sua mãe era
uma senhora piedosa e membro da Igreja Metodista Episcopal. Ela, logo que se mudou para
Kentucky, procurou os itinerantes Metodistas e os convidou para dirigir culto em sua casa.
Os dois primeiros anos que passaram em Kentucky foi no condado de Logan. O Sr.
Cartwright assim descreve um culto que se realizou na casa do pai: “Pouco depois de mudarmos
do condado de Lincoln para o condado de Logan fomos visitados pelo Rev. Jacob Lurton, um
itinerante da Igreja Metodista Episcopal. Ainda que meu pai não fosse um crente professo, não era
todavia contra a religião, e quando o Rev. Lurton pediu o privilégio de pregar em sua casa logo
consentiu. Tinha eu então nove anos de idade, e me mandaram convidar os nossos vizinhos para
assistirem à pregação. De bom grado aceitaram o convite e a casa ficou repleta. O Rev. Jacob
Lurton era verdadeiro filho de trovão. Pregou com muito poder e a congregação banhou-se em
lágrimas; alguns choraram, pedindo misericórdia, e minha mãe gritava de alegria”.
Sendo criado neste meio tão corrompido, não é de estranhar que o rapaz adquirisse
hábitos ruins, especialmente quando lembramos a atitude de seu pai para com as coisas
religiosas. Vamos deixá-lo narrar essa fase de sua vida. “Eu por natureza era um rapaz malvado, e
gostava de corridas de cavalos, jogo de baralho e de bailes. Meu pai pouco se importava em me
corrigir, porém minha mãe me falava, chorava e orava por mim. Constantemente seus olhos
estavam banhados de lágrimas por minha causa.”
“Apesar de chorar quando ouvia pregações e resolver corrigir-me, contudo quebrava os
meus votos e me associava com outros rapazes, participando das danças, corridas de cavalo e
jogos de baralho. Finalmente meu pai me deu um novo cavalo de corridas que quase me perdeu
para sempre. Ele, também, me deu um baralho e tornei-me um hábil jogador e não obstante não
ter sido instruído na arte de lograr, tive minhas vitórias e ganhei dinheiro.”
“Este jogo era muito atraente e tornou-se um vício muito maior porque era um moço cujas
rodas o praticavam. Minha mãe se opunha a isso e quase todo dia me falava sobre o v ício e eu
tinha que esconder o baralho para ela não o queimar ou destruir, de qualquer maneira. Oh! Os
tristes enganos do jogador! Não há nada que possa livrar um homem deste miserável pecado
senão a graça de Deus”.
2. Sua educação
As oportunidades para assistir aulas eram poucas. Feli zmente os pais tinham desejo de
educá-lo do melhor modo possível, apesar de tantas dificuldades. Havia um homem, o Dr. Beverly
Allen, que tinha uma escola particular, mas não tinha muito jeito para ensinar e pouco proveito
tinham os seus alunos. Pedro Cartwright morava com ele e assistia às aulas, porém não ficou na
escola muito tempo.
Passou algum tempo sem ter o privilégio de assistir aulas. Só depois de se converter é que
procurou de novo uma escola; mas não foi muito feliz na sua vida escolar. Ouçamo -lo como narra
esse episódio de sua vida: “Logo depois que meu pai se mudou para esta nova comunidade,
procurei um bom professor e escola. Achei uma, não mui distante de casa. O professor era um
homem bem preparado, um ministro da seita de “Secedeus”, que se tinha educado em Sexington,
Kentucky, com um tal Sr. Rankim. Fui e matriculei -me, arranjando pensão com um velho Metodista
que morava perto da escola. O nome da escola era “Academia Brown”. O professor Brown
ensinava todas as matérias de um curso secundário em inglês, e também línguas mortas. Julgava
que a Providência me tinha proporcionado um meio pelo qual podia me educar e assim realizar o
meu desejo de que por tanto tempo fora privado. Entrei na escola e me adiantei rapidamente.”
“O irmão com quem tinha pensão, sendo um homem de Deus e zeloso, insistia que
realizássemos culto nos domingos à noite. Concordei. Realizávamos cultos de noite, e nos
domingos, eu exortava às congregações que assistiam os cultos. Em pouco tempo organizamos
uma classe composta dos Metodistas que moravam naquela zona. Tivemos algumas conversões e
comecei a crer que Deus me tinha aberto uma porta eficaz. Mas logo se levantou uma tempestade
de perseguições.”
“Meu professor era um fanático da seita dos “Secedeus” e eu creio firmemente que odiava
mais aos Metodistas que o próprio diabo. Sei que os odiava mais do que a cachaça, pois
freqüentemente ele se embriagava.”
Havia uma classe numerosa de rapazes da minha idade, e eles eram maus e profanos.
Reconhecia minha situação perigosa, e me conservava sob disciplina rigorosa para não lhes dar
motivo a que me ofendessem. Meu professor procurava me envolver em discussões, mas eu as
evitava sempre. Os rapazes caçoavam de mim, chamando-me um pregador Metodista. Respondialhes, no entanto, e também ao professor, que não me considerava um pregador Metodista, mas
que desejava muito ser. Enfim dois moços resolveram mergulhar-me no ribeirão que passava perto
da escola e cujas terras adjacentes, cobertas de relva, era um lugar de retiro. Este lugar, à margem
do rio, tinha dois metros de altura, e a água três metros de profundidade. Foi aqui que os referidos
rapazes me trouxeram sob pretexto de conversarem comigo sobre religião, porque fingiam estar
muito ansiosos e impressionados por causa dos seus pecados. Acompanhei-os um pouco
desconfiado, não lhes sabendo os intuitos. Quando ch egamos à margem do rio, agarraram-me
com intenção de me lançar na água funda. Num abrir e fechar de olhos arranquei -me das mãos de
um e dei um empurrão no outro, atirando-o na água. Então o outro e eu lutamos, e a luta foi
terrível, porque éramos mais ou menos iguais em força. Finalmente caímos no chão e eu comecei
a empurrar o meu adversário, rolando com ele na direção do precipício, até que nós dois caímos
juntos no rio; então tivemos que nadar até a terra. Apesar disso não ser coisa muito agradável para
mim, ao menos os meus colegas não tinham nada do que se gabar; se eu me molhei, também os
dois foram mergulhados. Suportei tudo isso algum tempo com paciência, porém as minhas
dificuldades aumentaram e queixei-me ao Sr. Brown, o professor. Ele, todavia, não se importava
com isso. Daí eu deixar a escola, mui pesaroso, sabendo que estava me negando o privilégio de
completar a minha educação”.
Mas não devemos concluir que, saindo ele da escola, estava acabada a sua educação,
pois a itinerância é uma escola em si, se o itinerante souber aproveitar o seu tempo e suas
oportunidades.
Ele entrou na itinerância (pregadores itinerantes) logo e sob a direção do Presbítero
Presidente continuou os seus estudos. Sobre este ponto diz ele: “Naqueles primitivos dias não
tínhamos um curso conferencial como temos atualmente; mas Guilherme McKendree, que foi eleito
Bispo mais tarde, sendo meu Presbítero Presidente, me guiava nos meus estudos, citando o curso
de leitura e estudos que devia fazer. Ele me escolheu os livros tanto literários como teológicos e
todos os trimestres em que visitou o meu circuito me examinava, notando o progresso que tinha
feito, corrigindo os meus erros se os houvesse. Era seu prazer instruir-me na Gramática Inglesa.”
Cartwright é testemunha da grande vantagem que o itinerante tem em se educar; pois está
sempre encontrando novas instruções e pessoas com idéias diversas; e para defender a verdade e
combater os erros tem de se informar. Ele foi colocado num meio onde se encontravam ateus,
infiéis, deistas, unitarianos e universalistas. Tinha, pois, forçosamente de se preparar para lhes
combater os erros. Assim, desta maneira foi que se educou.

II – SUA CONVERSÃO E CHAMADO PARA O MINSTÉRIO
1. Os cultos de acampamento
Os cultos de acampamento, tiveram origem em 1800, num lugar chamado Cane Ridge, no
estado de Kentucky. Alguns pregadores presbiterianos estavam realizando uma série de
Conferências religiosas e houve uma grande manifestação do poder de Deus entre o povo e a
série foi se prolongando por quatro semanas. O povo afluía de todos os lados e mais de mil
pessoas gritavam de alegria, dando louvores a Deus, todos ao mesmo tempo.
Notícias destas Conferências espalharam-se por toda a redondeza, despertando o
interesse do povo em geral. Para atender ao povo, a idéia de acampamentos foi sugerida, pois
assim o povo que queria assistir uma série de Conferências levava toda a família com camas,
comida, etc, e, armando uma tenda, passava dias e semanas, não fazendo coisa alguma, a não
ser assistir cultos, três ou quatro vezes por dia. Até vinte mil pessoas assistiam de uma vez. Foi
durante uma dessas séries de Conferências que Cartwright se converteu.
2. Sua conversão
Talvez seja mais interessante deixar Cartwright mesmo contar a sua conversão.
“Em 1801, quando tinha dezesseis anos de idade, meu irmão mais velho, eu e meu pai
assistimos um casamento, cerca de duas léguas distante da nossa casa. Os convidados bebiam e
dançavam bastante, pois este era o costume naquela época. Eu bebia muito pouco, quase nada,
mas dançava muito. Alta noite, montamos em nossos animais e voltamos para casa. Eu andava no
meu cavalo de corridas.”
“Logo depois de soltarmos os cavalos, e enquanto estava sentado em frente do lume
(lampião, lamparina), comecei a refletir na maneira como tinha passado aquela tarde. Sentia-me
condenado. Levantei-me e andei pelo quarto. Minha mãe estava dormindo na cama. Pareceu-me
que de repente todo o sangue me passou para a cabeça, e meu coração palpitava
excessivamente. Dentro de poucos minutos estava cego, julgando que a morte se tinha apoderado
de mim sem que me achasse preparado. Ajoelhei-me a comecei a pedir a Deus que se
compadecesse de mim.”
“Minha mãe se levantou depressa e ajoelhou-se ao meu lado e começou a orar em meu
favor, exortando-me a que buscasse a misericórdia de Cristo. Foi nesta ocasião que prometi ao
Senhor que, se Ele poupasse a minha vida, eu O serviria, se não tenho revogado aquele voto.
Minha mãe orou por mim muito tempo, e finalmente, deitamo-nos; no entanto, quase nada dormi.
No dia seguinte levantei -me, sentindo-me mal. Queria ler o Novo Testamento, retirando-me para
orar em secreto, diversas vezes durante o dia, mas não achei alívio. Dei meu c avalo de corridas
para meu pai, e pedi que mo vendesse. Trouxe o baralho para minha mãe e ela o jogou no fogo.
Jejuava, vigiava, orava e lia o Novo Testamento. Estava tão incomodado e miserável que não
podia cuidar direito dos meus negócios. Meu pai ficou aflito por minha causa, julgando que ia
morrer, e assim perderia o seu filho único. Ele me proibiu de fazer qualquer serviço, aconselhandome que cuidasse de mim mesmo.”
“Logo se espalhou a notícia de que eu estava louco, e muitos dos meus colegas em
pecado, vieram me visitar para ver se poderiam distrair -me a mente dos pensamentos lúgubres,
mas foi debalde.”
“Eu os exortava que abandonassem os seus pecados e vícios que tínhamos praticado
juntos. O guia de classe e o pastor foram convidados para me visitar. Eles me procuraram apontar
o Cordeiro e oraram comigo, e por mim. Mas ainda não achei conforto para minha alma, e apesar
de nunca ter acreditado na doutrina da predestinação e retribuição absoluta, estava tentado a crer
que fosse réprobo, condenado, e perdido sem a esperança de salvação. Ao cabo de algum tempo,
um dia fui ao rancho, orando e torcendo as mãos no abismo do desespero e pareceu-me que ouvi
uma voz do céu, dizendo: “Pedro, olha para mim”. Fui aliviado num instante como se me tivesse
passado uma corrente elétrica. Cobrei ânimo e esperança na misericórdia de Deus, porém ainda
sentia um fardo de culpa sobre mim. Voltei para casa e contei isto à minha mãe. Ela compreendeu
a minha situação logo, e me disse que Deus tinha feito aquilo para me dar co ragem para
prosseguir em busca de sua misericórdia, e me exortou a que continuasse a buscar a Deus e Ele
me perdoaria todos os pecados.”
“Alguns dias depois fui a uma cova que existia na fazenda de meu pai, para orar em
secreto. Minha alma estava em agonia: chorei, orei e disse: “Agora, oh meu Senhor, se há
misericórdia para mim, faze que eu a encontre”, e pareceu-me que quase podia apoderar-me do
Salvador e realizar a reconciliação com Deus. De repente caiu sobre mim tal temor do diabo que
me parecia que ele estava ali em sua própria pessoa pronto para me agarrar e arrastar, corpo e
alma, para o inferno; e tal foi o horror que me acometeu que corri para casa, a fim de estar com
minha mãe. Ela me disse que aquilo não era outra coisa senão o alvitre de satanás para me privar
da benção que Deus queria me dar naquela hora. Passaram mais três meses e não recebi o
perdão dos meus pecados”.
Durante estes três meses deram-se mudanças no circuito onde morava o Sr. Cartwright. O
novo pastor nomeado era o Rev. John Page, um pregador excepcional. O avivamento que
principiou em Cane Ridge se estava alastrando por toda parte. Um culto de acampamento se
realizou nesta época perto da casa do pai dele e toda a família assistiu. Diz ainda ele mesmo: “Fui
para assistir aos cultos deste acampamento, sentindo o peso dos meus pecados como um pecador
miserável. No domingo de tarde, durante esta série de Conferências, junto com outros, fui ao altar
e ajoelhei-me e orei sinceramente pela misericórdia divina. Durante o tempo em que minha alma
estava em lutas, veio-me à mente, uma impressão como se fosse uma voz que me dizia: “Os teus
pecados te são perdoados”. A luz divina raiou ao redor de mim, um gozo inexprimível se me
manifestou n’alma. Levantei -me, abri os olhos e pareceu-me estar no céu: as árvores, as folhas,
tudo me parecia estar em constantes louvores a Deus. Minha mãe gritou de alegria e os meus
amigos me cercaram, e juntos louvaram a Deus. Desde aquela hora, ainda mesmo não tendo eu
sido fiel em tudo, não tive mais dúvida de que naquela ocasião Deus, me perdoou e me deu a
religião”.

3. A chamada para o ministério
Cartwright converteu-se em maio; e em junho, quando seu pastor, o Rev. John Page,
visitou a Igreja Ebenezer, fez a sua profissão de fé. Sobre o fato ele mesmo diz: “Fiz minha
profissão na Igreja Metodista Episcopal, e não me tenho arrependido. Não tenho sido, nem por um
minuto, tentado a deixá-la, e se dela fosse expulso voltaria a bater-lhe à porta, pedindo que fosse
readmitido”.
Por algum tempo depois de fazer a sua profissão de fé Cartwright tomava parte nos cultos
de acampamentos dirigidos pelos Metodistas e Presbiterianos. Na ocasião de um destes cultos
deu-se um incidente que revelava bem o espírito e os característicos de Cartwright durante a sua
longa vida. É o seguinte:
“Era grande o interesse pela religião entre o grande número do povo que assistia
essa série de Conferências. Diversas pessoas mostraram-se contra esse trabalho e no meio delas
havia um sr. que dizia ser judeu. Era um homem inteligente e parecia que o seu maior prazer era
contrariar a religião cristã. Durante as horas vagas, quando não havia culto público no
acampamento, os moços piedosos iam à floresta para realizarem cultos de oração. Se havia outros
rapazes interessados, eram convidados para assistir. Muitos deles se converteram e juntos
conosco davam os seus louvores a Deus.”
“Numa tarde um grande número de moços realizaram um culto de oração. No meio deste
grupo de rapazes estava o tal judeu desejando saber o que íamos fazer. Explicamo-nos: Ele disse
que estávamos errados, que era idolatria adorar a Jesus Cristo e que Deus não queria e não podia
ouvir tais orações. Percebi logo o intuito dele: queria provocar uma discussão e assim estorvar a
nossa reunião. Perguntei-lhe:
- “Acredita firmemente o Sr. que Deus existe?
- “Sim, creio” disse ele.
- “Crê que Deus ouve as suas orações?”
Ele respondeu, “Sim”.
- “Muito bem, meu querido senhor” disse eu, “vamos, por a prova isso. Se o senhor
é sincero, ajoelhe-se agora mesmo e ore, pois se nós estamos errados queremos saber que
estamos errados”. Hesitava um pouco, mostrando sinais que não queria; animei-o de novo.
Ajoelhou-se devagarzinho, cuspiu e tossiu. E eu voltando -me aos rapazes, disse-lhes:
“Agora, rapazes, orai a Deus com toda a força de vossa alma para que Ele nos
responda pelo fogo”. O nosso judeu começou e disse numa voz trêmula: “Ó Senhor Deus
Onipotente”... Parou sua ração, tossiu e começou a repetir as mesmas palavras por várias vezes.
Vimos que estava confundido, e nós todos juntos oramos em voz bem alta. O judeu levantou-se e
foi embora, e nós gritamos de alegria e tivemos uma hora mui agradável. Alguns dos interessados
se converteram e começaram a louvar a Deus junto conosco, voltando nós para o acampamento
crentes que tinham ganho uma vitória sobre o diabo e o judeu”.
Em 1802 o jovem Pedro Cartwright assistiu à Conferência que se realizou no estado de
Tennesse e nessa ocasião viu pela primeira vez o Bispo Asbury. O Rev. Jessé Walber foi nomeado
como pastor do circuito de Red River, onde morava Cartwright.
Na ocasião da Conferência Trimestral que se realizou neste circuito, no princípio de 1802,
o Rev. Jessé Welber entregou a Cartwright o seguinte documento: “O portador deste, Pedro
Cartwright, está devidamente licenciado para exercer o ofício de exortador na Igreja Metodista
Episcopal enquanto o seu procedimento estiver de acordo com o Evangelho. Assinado em favor da
sociedade em Ebenezer. Maio, 1802 – Jessé Walber, A. P.”.
Cartwright ficou surpreendido com isto e não quis aceitar, porém o pastor insistiu e ele
aceitou a incumbência de exortador, e realmente, foi o único documento que recebeu antes de ser
ordenado diácono. Isto nos mostra como se fazia naquela época, nas fronteiras da civilização.
No fim do ano o pai de Cartwright resolveu mudar-se para uma nova zona perto da
embocadura do rio Cumberland. Nessa zona não havia um circuito Metodista, mas havia alguns
metodistas espalhados. Quando mudaram, pediram certificado do pastor. O Pr. Jessé lhes deu o
certificado de que eram metodistas e ao mesmo tempo autorizou o jovem Pedro Cartwright para
organizar ali um circuito. Hesitou em aceitar tanta responsabilidade, mas ao cabo, aceitou e
durante o ano, trabalhou realizando cultos, organizando classes, e na ocasião da Conferência
relatou que tinha recebido setenta pessoas à comunhão da Igreja. Um novo circuito foi organizado
e Jessé Walber foi nomeado como seu pastor.
No fim do ano de 1803 o Presbítero Presidente, Sr. Garrett, insistiu para que o jovem
Pedro Cartwright aceitasse uma nomeação como ajudante num circuito com o Sr. Gotspeich. O pai
não queria que ele aceitasse, mas a mãe concordava e finalmente a vontade dela prevaleceu, e o
filho entrou na itinerância. Logo que aceitou o convite de viajar com o Sr. Gotspeich, ele o convidou
para pregar na comunidade onde morava antes de se ir embora. Era-lhe uma grande tarefa. Orou
e pediu que Deus o ajudasse dando-lhe ao menos uma alma, uma conversão naquela noite. Deus
o ouviu e um infiel foi convertido. Isto lhe deu a certeza de que Deus o tinha chamado para o
ministério.
III – OS PRIMEIROS ANOS NA ITINERÂNCIA
1. O primeiro circuito como pregador a cargo.
Como Cartwright mesmo disse: “Finalmente dei as costas ao mundo e despedindo-me dos
meus pais e irmãos e irmãs, fui com Gotspeich para trabalhar no condado de Logan”. Ali por três
meses ficou trabalhando com o seu colega. Durante este s três meses recebeu para sustento
pastoral seis dólares (que equivalia a uns cinqüenta mil rés em moeda brasileira de 1929). Depois
disso foi nomeado para tomar conta de um circuito enorme, cujo pregador adoecera e tivera que
suspender as viagens. Junto com ele foi mandado um outro jovem, Thomas Gasley.
Eles levavam quatro semanas para percorrer o circuito, tendo só dois dias no mês para
descansar. Pregava todos os dias e andava algumas léguas a cavalo. Havia alguns Metodistas
espalhados naquela vasta zona e também alguns Batistas. Ele tinha só dezenove anos de idade e
por isso o povo o chamava “pregador menino” (boy-preacher) e muitas pessoas vinham ouvi-lo por
curiosidade.”

IV – INCIDENTES INTERESSANTES
1. Os Batistas
Havia um ponto de pregação neste circuito chamado Sochton Valley, existindo ali diversas
famílias Metodistas. Havia um prédio velho estragado e abandonado naquela localidade que, em
tempos idos, fora usado pelos Batistas. Quando Cartwright passava por esta zona, dirigia o culto
em casa particular. Uma vez foi convidado para dirigir um culto memorável em homenagem a um
crente falecido, e o lugar deste culto ia ser no mencionado prédio. Ele consentiu em dirigi-lo na sua
volta dentro de um mês. Quando voltou, encontrou uma casa cheia de ouvintes. Pregou e o poder
do Espírito se manifestou entre os assistentes. O povo estava tão interessado que pediu para ficar
mais alguns dias para realizar uma série de Conferências. Como tinha alguns dias de descanso
por causa de uma ligeira modificação do seu itinerário, resolveu ficar. Realizou dois cultos por dia,
um de dia e outro à noite. Muitas pessoas se converteram e queriam que ele organizasse uma
sociedade e as recebesse na Igreja. Prometeu fazê-lo na volta dentro de um mês e deixando
algumas disciplinas para serem estudadas, partiu a percorrer o seu circuito.
Aí é que acontece uma coisa interessante. Ouçamos Cartwright contar o resto:
“Depois de fazer isto ali naquele lugarejo que os pregadores batistas tinham abandonado
por alguns anos sem dirigir um culto sequer, parti para percorrer o meu circuito; entretanto, dentro
de poucos dias depois que parti, três pregadores batistas mandaram avisar ao povo que haveria
culto ali no domingo próximo. Vieram e todos os três começaram a gritar: “água, água; deveis
seguir o vosso Senhor indo para a água”. Então principiaram o que eles chamavam uma reunião
remida, que começaria na próxima sexta-feira. Os poucos Metodistas que moravam naquela
localidade ficaram alarmados, receosos que os novos convertidos fossem levados às águas
(batismo por imersão) antes de eu poder voltar, e mandaram um dos seus exortadores atrás de
mim para insistir que eu voltasse logo, senão os meus convertidos seriam imergidos na água.
Tendo eu um itinerário já definido e anunciado e como o povo em diversos lugares estava me
esperando, eu disse ao irmão exortador que se ele aceitasse o meu itinerário, substituindo-me nas
visitas e pregações, que eu voltaria. Ele aceitou a minha sugestão. Portanto voltei e cheguei sextafeira, dia marcado para começar a tal reunião remida.”
“Dois dos pregadores Batistas pregaram, mas não fizeram caso de mim. Como eles não
tinham serviços à noite, eu anunciei culto em casa de um senhor metodista. Ele e sua esposa eram
os meus convertidos e considerados guias na vizinhança. O povo veio em massa e tivemos um
bom culto na casa de oração e ouvimos mais duas conversões. No dia seguinte assistimos culto na
asa de oração e ouvimos mais dois sermões sobre a água. Quando terminaram a pregação
convidaram candidatos para se unirem com a Igreja; uma senhora velha se levantou e contou a
sua experiência que se deu há alguns anos atrás. Então um velho levantou -se e contou um sonho
maravilhoso que tinha tido já há mais de vinte anos quando morava no estado de Carolina do
Norte. Ambos foram recebidos, sendo-lhes estendida a destra da comunhão, reinando silêncio
sobre a congregação. Os pregadores exortaram o povo a que v iesse para a frente e desse a sua
experiência. Oh! Como eu me sentia! Tinha receio que alguém dos meus convertidos aceitasse o
convite e então os outros também iriam e assim perderia todos. Finalmente um dos moços
convertidos levantou-se e deu a sua experiência, dizendo que sob a direção de Deus eu fui o
instrumento pelo qual ele se converteu; então um após outro fez a mesma coisa até que todos os
vinte e três deram a sua experiência, alegando que eu fui a causa da sua conversão.”
“Todos foram aceitos, e o sinal de comunhão foi dado como se deu, aos dois primeiros
mencionados, e havia muito regozijo entre os Batistas, mas era “a morte na panela” para mim. Era
mais do que podia suportar. Estava pensando eu no que devia fazer. “Estou despojado dos meus
filhos, agora o que resta para mim?” Atrás de mim estava assentada uma senhora inteligente e que
tinha sido membro da Igreja Metodista Episcopal por muitos anos. No momento em que
terminaram a cerimônia de dar a destra de comunhão e o regozijo sobre os “meus filhos furtados”,
veio uma idéia que eu devia dar também a minha experiência e proceder como se também eu
quisesse identificar-me com a Igreja Batista. Podia ser que pudesse ainda segurar os meus filhos.
Levantei-me e relatei também minha experiência; eles me deram também a destra de comunhão;
então houve um grande regozijo sobre o “pregador menino” Metodista.
Quando eu me assentei, senti que alguém me tocava nos ombros. Virei-me, e quando olhei
vi a irmã Metodista inteligente com os olhos banhados de lágrimas. “Oh, irmão”, disse-me ela em
vós baixa; “Vai nos deixar?” Eu lhe respondi: “Prezada irmã, não tenha receio; eu sei o que estou
fazendo. Ore bastante! Espero reconquistar os meus filhos”. Ela não compreendeu o meu plano,
mas a minha resposta serviu para acalmar o seu espírito.”
“Havia um ribeirão perto da Igreja. Os pastores nos explicaram como nos devíamos
apresentar no dia seguinte às nove horas, com uma muda de roupa, para sermos batizados. ”
“Dirigi culto aquela noite no lugar de costume. Tivemos uma boa reunião. Minha situação
era crítica. Não tinha ninguém para me aconselhar. Não queria contar a ninguém o meu plano, com
receio que falhasse. Levantei-me cedo de manhã, fui para a floresta e me entreguei à oração, e
orei como jamais havia orado pelo auxílio de Deus.”
“Na hora marcada estávamos todos presentes no dito lugar, porém eu não levei roupa
própria. Já tinha sido batizado e não queria abjurá-lo, e isso guardava eu no meu coração. Havia
muita gente presente para testemunhar o ato da imersão. Todos os meus vinte e três convertidos e
dois velhos sonhadores, que foram os primeiros a dar sua experiência, estavam vestidos, prontos
para serem batizados, prontos para cumprirem o que consideravam um dever cristão. Chegaram
os pregadores. Um deles cantou um hino e fez oração, e nos exortou convidando-nos a que
chegássemos à frente. Sabia que para ser bem sucedido no meu plano era absolutamente
necessário que me apresentasse em primeiro lugar. Portanto, passei para a frente, e disse:
- “Irmão M...”, que era o pregador e administrador – “quero unir-me à Igreja Batista se for
permitido entrar com uma boa consciência. Já fui batizado, e minha consciência está inteiramente
satisfeita com o meu batismo e não me quero submeter ao batismo de novo. Posso eu ser
recebido nestas condições?” A posição que tomei perturbou bastante o pregador.
- “Quando foi batizado o senhor?” Perguntou-me ele.
- “Há um ano atrás”, respondi-lhe.
- “Mas como foi feito?” “Quem batizou o senhor?” foi-lhe a segunda inquirição.
- “Um dos melhores pregadores que o Senhor levantou”.
- “Foi batizado por aspersão?”
- “Sim, senhor”.
- “Aquilo não é batismo de modo algum!”
- “As Escrituras (1ªPedro, 3:21), eu respondi, dizem que o batismo não é a purificação da
imundícia da carne, mas a questão a respeito de uma boa consciência para com Deus, e a minha
consciência está completamente satisfeita com o meu batismo, e a sua consciência nada tem com
isso”.
- “Bem”, disse ele, “isto não está de acordo com a nossa fé e prática e não podemos
admiti-lo desta maneira na Igreja Batista. Não podemos fazê -lo”.
- “Irmão M...”, - disse eu, a sua fé e prática devem estar erradas. A Igreja ouviu minha
experiência e julgou que era aceitável; e o irmão acreditou que sou um cristão e que não posso,
portanto, me apartar da graça de Deus. Que posso eu fazer agora? O irmão vai recusar aceitar-me
na Igreja e me conservar aqui ao lado de fora como um cordeirinho perdido a balir sem aprisco?
Irmão M... tem de me aceitar e me receber na Igreja. Já estou resolvido a unir-me com os irmãos
batistas se eles me aceitam nessas condições; agora, deixe-me entrar em sua Igreja?”
“O pastor já tinha perdido a paciência comigo, e asperamente me mandou ficar do lado
para não retardar os outros. Foi um momento excitante comigo. Olhei ao redor para a multidão, e vi
que estava comigo. Olhei para os meus convertidos com saudades e também me olharam com
muita simpatia e afeição. Involuntariamente moveram -se para meu lado e os olhares deles
revelaram-se para meu lado e os olhares deles revelaram a sua aliança comigo. Foi um momento
terrível. Oh, como eu me sentia! Quem poderá descrever os meus sentimentos? Fiquei de lado.”
“O irmão S... estava próximo ao pregador, vestido para ser batizado; e a sua esposa ao
lado dele igualmente preparada para ser batizada. O irmão S... disse:
- “Sr. M..., vai rejeitar o irmão Cartwright e não vai recebê-lo na Igreja?”
- “Eu não posso recebê -lo”, disse o Sr. M...
- “Bem, se o irmão Cartwright não pode ser aceito, ele que tem sido o instrumento nas
mãos de Deus para me converter e também tantos outros, se ele não pode ser admitido na Igreja,
eu não posso nem quero entrar nela”.
- “Nem eu”, disse a sua esposa.
- “Nem eu”, disse outro. “Nem eu”, disse um outro, e assim por diante até que todos os
vinte e três novos convertidos passaram para meu lado.
- “Muito bem, meus irmãos”, disse eu, ficai ao meu lado e o Senhor há de endireitar tudo”.
“Bem, os dois sonhadores velhos foram batizados, então os pregadores insistiram que os
outros viessem, porém não quiseram.”
“Do rio fomos à Igreja. Os três ministros pregaram; e podeis estar certos que eles me
ofenderam bastante. Compararam-me aos fariseus, pois eu não quis entrar no Reino de Deus e
proibia os que queriam entrar; mas eu suportei isso do melhor modo poss ível. Disseram que com
toda a probabilidade as almas que tinha estorvado seriam perdidas e a sua condenação recairia
sobre mim. Nada disso me alarmou, porque tinha dito que todos nós éramos bons cristãos, e
freqüentemente tinham afirmado nos seus sermões que uma pessoa verdadeiramente convertida
não poderia perder a sua religião. Como então poderiam perder-se? E que nos havia para nos
assustar? A congregação percebeu o disparate e ficou ainda mais do nosso lado.”
“Em seguida veio a comunhão. Arranjaram alguns bancos separados dos outros e
convidaram os que tinham sido batizados por imersão para neles tomarem seus lugares. Estava
resolvido incomodá-los ainda mais uma vez e por isso tomei um lugar entre os comungantes, no
que me seguiram alguns dos novos conv ertidos. Mas quando os diáconos vieram com o pão e o
vinho, nos deixaram de lado. Quando terminaram de servir os outros, eu me levantei e pedi que me
dessem o pão e o vinho e para os meus convertidos. Isso causou grande embaraço para os
diáconos; contudo, consultaram os pastores se era permitido fazer isso. Os pastores prontamente
lho proibiram.”
“Disse eu então: “Meus prezados irmãos, vós depois de ouvir as nossas experiências nos
declarastes cristãos, nos dissestes que um cristão não pode se perder para sempre, e o nosso
Salvador pronunciou uma maldição sobre aqueles que ofendessem um dos pequenos que
acreditasse nele; agora, portanto, dá-nos o pão e o vinho”.”
“Um dos pregadores me repreendeu asperamente e me disse que eu me calasse. O modo
como fui tratado granjeou-me a simpatia de quase todos da assembléia que disseram: “- Que
vergonha! Que vergonha!” .
“Na hora em que iam despedir o povo pedi licença para falar-lhe por uns quinze minutos
para explicar a minha posição. Mas isso não me foi permitido. Então disse eu:
- “Está bem: estou num país livre e conheço os meus direitos”.
“Depois que despediram o povo, eu subi num banco e disse ao povo que, se quisesse
reunir-se a alguns passos distantes da igreja e me ouvir, eu faria a minha defesa. O povo logo se
reuniu para me escutar. Subi num tronco e logo fiz a minha defesa. Falando dentro da minha
capacidade, mostrei a inconsistência dos pregadores Batistas e terminei dizendo que como eu e os
meus filhos no Evangelho não podíamos de um modo digno, ser admitidos à Igreja Batista, que eu
estava resolvido a organizar ali uma Igreja Metodista. Expliquei as regras gerais e convidei os que
queriam unir-se conosco para se apresentarem. Todos os vinte e três convertidos vieram com mais
quatro. Antes de findar o ano tinha recebido setenta pessoas na Igreja, porém os meus amigos
batistas quase desapareceram daquela localidade. Fui reanimado a prosseguir no ministério e
fazer o que podia”.
Parece mui tosca uma narração como esta na época atual; no entanto, serve para revelar
o espírito e o costume daquele tempo quando isso se deu; e também revela o espírito e método de
Cartwright no trabalho.
2. O Sr. Teel e o culto doméstico
Cartwright serviu em diversos circuitos e não será conveniente declinar os nomes de todos
eles; somente poderemos citar alguns dos nomes dos circuitos e narrar alguns dos incidentes que
neles se deram.
Em 1805-06 ele foi nomeado como pregador ajudante no circuito de Scioto, no Estado de
Ohio. Levava seis semanas para percorrer este circuito. Seu coleg a, o Rev. Axley, viajava no
mesmo circuito. Um seguia atrás do outro, num espaço de duas ou três semanas. Neste circuito
morava um bom Metodista, o Sr. Teel, mas ele tinha um costume um pouco esquisito em dirigir o
culto doméstico.
Deixemos Cartwright contar o incidente: “A primeira vez que visitei este ponto de pregação,
passei a tarde em casa do irmão Quinn, que me pediu desculpas por não poder me hospedar em
sua casa por falta de lugar, pois tinha casa pequena e família numerosa, mas disse que eu podia
dormir em casa do irmão Teel que morava perto. “Mas”, disse ele: “vou lhe dizer como deverá
proceder na casa dele. O irmão vai dormir em casa do Sr. Teel; a casa dele é dividida em duas
partes, o irmão ocupará uma parte e o Sr. Teel e a sua família ocuparão a outra. É costume do
irmão Teel levantar cedo. Logo que se levanta começa a cantar um hino e faz oração; não espera
a ninguém. Não somente não espera a família aprontar-se, mas do mesmo modo trata os
pregadores. Nunca esperou, nem por um minuto, qualquer pregador, senão o Bispo Asbury. O
irmão tem de levantar bem cedo, aprontar -se ligeiramente e entrar logo no quarto dele se quiser
assistir o culto doméstico. Achei de bom aviso preveni-lo para evitar qualquer surpresa”.
“Agradeci e lhe disse: “Porque é que os pregadores não o corrigem dessa irregularidade?”
– “Oh, ele é velho e não é possível corrigi-lo agora”, disse-me o irmão Quinn. “Pode ficar
descansado, vou curá-lo”, disse eu. “- Oh, não. Isso é impossível”.
“Fui para a casa do irmão Teel para passar a noite. Fizemos culto de oração e deitamos
para dormir. Não tinha dúvida acerca do caso, pois estava acostumado a levantar-me cedo, e
sempre tinha pensado que era injusto para os pregadores dormirem até tarde e assim atrasar os
trabalhos dos hospedeiros.”
Ao romper do dia eu me acordei, levantei e aprontei-me; mas não tinha acabado de vestir
quando ouvi o irmão Teel anunciar um hino e começar a cantá-lo e quando terminei de me vestir,
ouvi-o começar a orar. Agradeceu a Deus por lhe ter poupado a vida durante a noite e pela luz do
novo dia, mas naquela hora todos os membros da família estavam dormindo. Deliberadamente abri
a porta e fui ao poço, lavei-me e então voltei para casa. Na hora em que cheguei à porta o irmão
Teel abriu a sua porta, e vendo-me, disse:
- “Bom dia, senhor. Eu não sabia que o senhor tinha se levantado”.
- “Sim”, disse eu, “estou de pé já por algum tempo”.
- “Bem, irmão”, disse ele, “porque não assistiu o culto doméstico?”
- “Porque acho muito feio fazer culto doméstico cedo de manhã antes de me lavar”.
“Com isto ele se foi saindo e nada mais disse. Naquela tarde, porém, pouco antes de nos
deitarmos, o irmão trouxe a Bíblia e me convidou para dirigir o culto, dizendo:
- “Irmão, dirija-nos o culto.
- “Não, senhor”, respo ndi.
- “Venha”, continuou ele, “tome o livro e dirija -nos o culto”.
- “De modo algum! O senhor gosta tanto de orar sozinho, pode dirigi-lo!”
“Ele hesitava, mas eu recusei, dizendo: “O senhor tem tanto gosto em orar; ainda hoje de
manhã deu graças a Deus por nos ter guardado durante a noite e nos ter permitido ver a luz do
novo dia quando a família não a tinha visto ainda, pois estava dormindo. E além disso, o senhor
tem um costume tão absurdo em dirigir o culto doméstico que eu não quero participar dele”.”
“Ele pegou o livro, leu e fez a oração; mas na manhã seguinte, pode-se crer, as coisas se
mudaram. Esperou-me, e toda a família estava presente antes de principiar o culto. Confessou o
erro e me disse que era uma das melhores reprovações que jamais tinha tido. Então eu fiz oração
e dali em diante tudo correu bem”.
3. Orando em voz alta.
No fim do ano de 1806, Cartwright assistiu a Conferência no leste de Tennesse e a
distância entre o seu circuito e a Conferência era de cento e setenta léguas. Tinha recebido para o
seu sustento durante o ano trezentos e vinte mil réis (em valores do dinheiro brasileiro de 1929).
Foi nesta Conferência que foi ordenado diácono, pelo Bispo Asbury. Foi nomeado para o circuito
de Marietta que era um dos mais difíceis e pobres que existiam naquela época. Não quis aceitá-lo,
pois soube que os Yankees, os imigrantes na Nova Inglaterra, residiam naquele circuito e ele não
os queria servir, porque sendo gente bem educada, eram calvinistas e fanáticos.
Quando as nomeações foram lidas, ele foi falar com o Bispo dizendo: “Fui falar com o
Bispo Asbury e roguei-lhe que fosse nomeado um outro em meu lugar e que me deixasse voltar
para casa. Meu velho pai me tomou nos seus braços e disse: ‘Oh não, meu filho; vá em nome do
Senhor, que assim você se tornará homem”. Ah! Pensei eu, se assim é que se fazem os homens,
não quero ser homem. Chorei e orei, mas fui, sendo animado pelo meu Presbítero Presidente. Foi
um dos anos mais duros que passei, mas o povo me tratou bem”.
Completando este ano. Já tinha passado três anos fora do lar e estando com sua roupa, o
cavalo e arreios quase acabados, resolveu voltar para casa e arranjar roupa, etc. Mas o cavalo
dele estava cego e muito fraco e ele não tinha dinheiro para custear as despesas de viagem para
casa, pois levava muitos dias.
Mas alguns amigos lhe deram dinheiro e, como não tinha nada onde estava, partiu na
direção da casa do pai. Ele conta muitas peripécias desta viagem, mas só daremos uma delas.
Acabara-lhe todo o dinheiro que tinha e precisava arranjar um lugar para passar a noite.
Assim ele conta a sua experiência: “Acabou o dinheiro, e não sabia o que devia fazer. Cheguei a
uma estalagem e pedi pousada, explicando que não tinha dinheiro, que tinha passado três anos
fora da casa de meu pa i e estava voltando para o lar. Também disse que tinha um relógio velho,
alguns bons livros nos alforjes e que a pagaria pela pousada de qualquer maneira. Convidaram-me
a apear e estar a vontade.”
“Descobri que esta família tinha passado muitos anos neste lugar e que não tinha tido
nenhum privilégio religioso. Havia na casa três quartos na parte de baixo, mais a sala de jantar, a
cozinha e um quarto de dormir – a cozinha estava separada dos outros quartos por uma parede de
taboas e havia frestas entre as taboas.”
“Quando chegou a hora de nos deitarmos, perguntei ao dono da estalagem se fazia
objeção em orarmos antes de dormir. Ele respondeu: “Não, não senhor”, e passou para a cozinha,
como eu esperava, para trazer os outros membros da família. Logo voltou trazendo uma vela na
mão e disse: “venha comigo”. Segui-o para o quarto de dormir. Então colocou a vela na mesa e me
disse: “Boa noite, aqui o senhor pode orar a vontade”. Fiquei em pé e parecia bobo; pois ele me
tinha logrado completamente. Mas logo me veio esta idéia que devia ajoelhar e orar em voz alta;
assim fiz. Descobri logo, pela comoção que havia na cozinha, que os membros da família ficaram
tão surpreendidos comigo como eu pelo procedimento deles. Ouvi a senhora dizer: “Aquele
homem está louco e nos matará esta noite. Vai, meu marido e vê o que há”. Mas ele não teve
pressa em chegar; e quando cessei de orar, entrou e quis saber porque tinha eu procedido desta
maneira. Respondi: “O senhor me deu licença de orar à vontade?” “Sim”, disse ele, “mas não
imaginava que ia orar em voz alta”. Disse desejar que a família ouvisse a oração e como ele me
tinha negado este privilégio, não sabia outro meio para consegui -lo senão procedendo assim,
esperando que se não ofendesse comigo. ”
“Descobri que julgara que eu fosse um louco, mas começamos a falar sobre a religião e
logo descobriu que eu não era louco, mas falava palavras de verdade e sabedoria.”
“Na manhã seguinte levantei-me cedo, aprontei o cavalo e ia partir com idéia de almoçar
em casa de um amigo distante dali, mas o proprietário saiu e insistiu que almoçasse com ele antes
de partir. Fiquei, mas ele não quis aceitar coisa alguma pela hospedagem, antes me convidou para
que, sempre que passasse por lá, hospedar -me com ele. Seis meses depois quando passei de
volta encontrei-os já convertidos, dizendo-me que fora por causa da minha visita anterior.”

4. Casamento e ordenação de presbítero.
Cartwright tinha servido quatro anos na itinerância e tinha vinte e três anos de idade.
Queria casar, mas era difícil manter uma família naquela época e continuar na itinerância. Depois
de refletir bem resolveu casar-se com D. Francis Games, no dia 18 de agosto de 1808, no dia do
seu décimo nono aniversário.
Poucos meses depois do seu casamento foi ordenado presbítero. A gora estava bem
iniciada a sua carreira de itinerante. Logo depois o seu pai faleceu e, como estava principiando
uma família, foi tentado a arranjar meios mais garantidores para o seu sustento. Um pregador que
tinha passado de uma outra igreja para a Igreja Metodista, que tinha alguns dons, procurou
Cartwright para convidá-lo a deixar a Igreja Metodista e passar para a Igreja Batista, pois havia
uma Igreja Batista naquela zona que oferecia um bom ordenado para este tal pregador ou para
Cartwright.
Ele procurou Cartwright e disse: “Irmão Cartwright, eu e o senhor temos família crescente;
se nos unirmos com estes Batistas, eles nos darão um bom ordenado, e como eles não tem um
pregador com talentos em toda esta vasta zona, nós poderíamos exercer uma influência tal sobre
eles, atraindo muitos membros para as igrejas, e assim assegura ndo um bom sustento para
nossas famílias por longos anos. O irmão não acha bom que façamos isso?”
Mas Cartwright respondeu: “Irmão D... sai de diante de mim, Satanás! Tu és para mim uma
pedra de tropeço. Fica tu sabendo, que se o dinheiro ou riqueza tivessem sido o motivo principal
que me levou a unir-me a qualquer igreja, nunca teria escolhido a Igreja Metodista; mas quando eu
me uni com os Metodistas, eu o fiz com uma convicção firme que eram os melhores de todos; e
quanto mais tempo fico com eles e quanto mais estudo suas doutrinas e sistema de governo, tanto
mais firme eu me torno na minha escolha, e não há tesouro suficiente neste mundo para me tirar
da Igreja Metodista”.
Ele venceu a tentação, porém o seu colega cedeu, e não foi feliz; pois logo abandonou os
Batistas e passou para outras seitas, e no fim não era nada.

IV – SEU TRABALHO COMO PRESBITERO PRESIDENTE E
ITINERANTE NO ESTADO DE KENTUCKY
Em 1812 foi nomeado Pres bítero Presidente pelo Bispo Asbury. Cartwright não quis aceitar
esta incumbência, alegando que não tinha qualificações para o ofício, porém o Bispo confirmou o
que tinha delineado. Depois de seis meses Cartwright escreveu ao Bispo pedindo a sua
exoneração do cargo de Presbítero Presidente, mas quando o Bispo veio não o atendeu, antes
reconfirmou a sua decisão.
Cartwright diz: “Nunca passei, talvez, um ano tão triste em toda a minha vida de itinerante
como este ano; e desde aquele dia até ao dia de hoje posso afirmar que o ofício de Presbítero
Presidente não tem atração para mim; e direi que tenho admirado a aspiração que alguns
pregadores metodistas tem para o ofício de Presbítero Presidente; e freqüentemente tenho dito
que se eu fosse Bispo, nomearia tais pregadores para este ofício. Considero tal disposição uma
grande decaída do homem, e quando este espírito se manifesta em grande escala na vida de um
pregador, deixa-o quase inutilizado para novos trabalhos depois”.
As viagens pelo seu distrito eram lon gas e contínuas. Não havia estradas em muitos
lugares e tinha que seguir trilhos através das florestas ou planícies, mas ele foi criado neste meio e
podia agüentá-lo bem, como o tratamento que recebia nas cabanas dos habitantes.
Era costume nesta época para os presbíteros presidentes, dirigir no seu distrito, cultos de
acampamento. Mas como havia muitos valentões naquela região era custoso, às vezes, manter
ordem nos cultos, pois estes valentões procuravam perturbar os pregadores na ocasião dos
trabalhos públicos. Há muitos incidentes interessantes que se deram com o Sr. Cartwright nessas
ocasiões, cuja narração seria de proveito, mas só poderemos mencionar um ou dois incidentes.
Ouçamos o próprio Cartwright narrá-los.

1. O moço com cabelos de cavalheiro.
“Na ocasião do nosso culto de acampamento, que se realizou na divisa do Estado de
Tennesse, no circuito de Christian, havia na comunidade uma quadrilha de valentões cujos chefes
eram conhecidos pelos nomes de J. P. e William P., dois irmãos, cujos pais eram bons membros
da Igreja Metodista Episcopal. Sabia que seria difícil manter a ordem. Fui então a J. P. e pedi-lhe
que me ajudasse a manter a ordem durante a série de conferências e lhe disse: “Esses valentões
têm medo do senhor; se o senhor me ajudar, será o nosso capitão e poderá escolher os seus
ajudantes” Ele não quis se comprometer desse modo, mas pediu que lhe desse certa liberdade
com o privilégio de divertir -se um pouco, não perto dos cultos, mas bastante afastado, que me
ajudaria para manter boa ordem durante os cultos. Eu disse “muito bem: conserve boa ordem na
congregação de modo que não perturbe o culto de adoração a Deus”.
“Apareceu na congregação um moço muito ignorante e mal criado, que estava
transgredindo as nossas regras em assentar ao lado da congregação reservado exclusivamente
para as senhoras. Era moda naquele tempo para os cavalheiros usar cabelos um pouco compridos
e bem penteados; este moço tinha muito cabelo e queria seguir a moda dos cavalheiros. Levei-o
diversas vezes do lado das senhoras para o lado dos homens, mas ele voltava logo para o lado
das senhoras. Comuniquei este fato a J. P. , e pedi que tomasse conta dele. “Pois não”, disse ele .
J.P. mandou imediatamente procurar uma tesoura, reuniu seus colegas num lugar cerca de um
quilômetro distante e mandou chamar o tal moço, convidando-o para matar um bicho com ele.
Quando o rapaz chegou no lugar indicado, foi cercado de dois homens com facões levantados na
mão, mas disseram que nada lhe iriam fazer se ficasse calado e não lhes resistisse; porém se
gritasse ou fizesse qualquer violência estaria morto. Disseram que queriam somente pentear o
cabelo dele na última moda de Nashville. O sujeito estava com medo, mas não fez qualquer
resistência. Então um deles tomou a tesoura e cortou o cabelo dele a torto e a direito, deixando a
cabeça quase pelada. Quando acabaram de lhe raspar a cabeça, foi solto; e veio diretamente para
o acampamento. Quando chegou, eu o encontrei; ele estava pálido como cera. Tirou o seu chapéu
e disse: “Veja só, Sr. Cartwright, o que os valentões me fizeram”. Eu quase não podia deixar de rir.
Mas, ainda lhe disse que não dissesse coisa alguma a respeito, pois eram capazes de fazer
alguma coisa pior. Logo desapareceu e não nos incomodou mais”.
2. O colar de sapos.
“O acampamento estava na margem de um rio. Atrás da tenda dos pregadores havia
espaço suficiente para guardar dois ou três carros; e então havia o rio cuja margem de três metros
de altura era quase perpendicular. ”
“Neste ponto o rio era fundo. William P., o irmão de meu capitão de ordem, era um rapaz
rude, a quem fui obrigado a repreender fortemente. Soube que tinha jurado jogar o meu carro ao
rio, pois tinha guardado meu carro atrás da tenda dos pregadores, na margem do rio. Havia um só
lugar onde alguém podia passar para chegar ao meu carro, com um pau comprido na mão, e logo
vi William P. pegar no meu carro e começar a virá-lo de modo que pudesse puxá -lo até ao rio.
Levantei-me escondidamente e sai atrás dele com uma vara. Eu ocupava a única saída, de sorte
que ele querendo escapar a uma pancada, pulou no rio e nadou para o outro lado e fugiu. Sendo
derrotado assim ficou zangado comigo. Jurou que se vingaria antes de terminar o culto. ”
“Ao mesmo tempo o poder de Deus se manifestou entre o povo. Muitos pecadores
endurecidos foram convertidos; durante o culto no domingo, o poder de Deus foi sentido pela
congregação toda. No culto à noite muitos vieram e ajoelharam-se ao redor do altar chorando e
lamentando os seus pecados. Quando eu estava exortando os pen itentes no altar, vi William P.
chegar perto e encostar-se no gradil do altar. Conservei os meus olhos nele; e de repente ele pulou
o gradil e prostrou-se no chão e começou a rugir como um touro preso na rede, pedindo
misericórdia de Deus. Quando estava orando por ele e outros falando, pisei numa coisa macia
onde ele tinha parado, abaixei-me a ver; que seria? Um saco cheio de sapos. Apanhei-os e leveios para a minha tenda, não sabendo o que significava aquilo”.
William P. converteu-se; e depois explicou o que ia fazer com os sapos. A intenção dele
era colocar o colar de sapos ao redor do pescoço de Cartwright quando estivesse fazendo oração;
mas faltou-lhe a coragem e veio sobre ele o poder de Deus de forma tal que não pode levar a cabo
o que tinha planejado. Estava lá para vingar-se e a misericórdia de Deus o salvou.
3. Batismo de crianças
Em 1816 Pedro Cartwright foi delegado à Conferência Geral que se realizou em Baltimore.
Como ele morava em Kentucky levou bastante tempo para ir a cavalo assistir esta Conferência. Na
volta passou pelo Estado de Tennesse e quase no fim de sua viagem para casa encontrou -se com
um pregador Batista. Pelo caminho discutiram diversos pontos sobre a doutrina. Aconteceu que
Cartwright conhecia o pregador Batista, porém o pegador Batista não o conhecia. Tinham discutido
o batismo, a comunhão, etc., e a discussão tornou-se bastante veemente quando o Batista
começou a gabar-se de ter recebido muitos Presbiterianos e Metodistas na sua Igreja e terminou
dizendo: “Vou agora para Hopkinswille onde espero imergir muitos Metodistas, os convertidos do
Sr. Cartwright, um pregador metodista que mora naquele lugar, o senhor sabe que a Bíblia não diz
nada acerca do batismo de crianças”.
Cartwright narra: “Eu então fiz as seguintes perguntas:
- “Crê o senhor que todas as criancinhas são salvas, e que vão para o céu, e que não há
uma criancinha no inferno?”
- “De certo”, disse ele.
- “Bem, se não há crianças no inferno e todas as crianças que morrem vão para o céu, o
senhor não acha que uma igreja que não recebe as crianças é mais parecida com o inferno do que
com o céu?” Esta pergunta terminou a nossa discussão, porque não me respondeu.”
“Neste momento chegamos à encruzilhada; ele passou para o lado direito que ia para
Persellville, e eu para o outro em direção de Hopkinswille. Quando nos despedimos um do outro
com um aperto de mão, eu lhe disse: “Sr. V... , eu conheço o senhor e tenho tido uma vantagem
sobre o senhor em nossa discussão. Eu sou Pedro Cartwright! Moro a meia légua de Hopkinswille,
aonde o senhor vem na semana que vem, para molhar os meus membros metodistas; vá e passe a
noite comigo, e eu o ajudarei a formular os seus sermões antes de levar os membros da minha
Igreja para a água. Ele prometeu visitar-me, mas nunca apareceu”.
4. Sustento pastoral.
O seguinte incidente, ainda narrado por Cartwright,se deu no circuito de Christian em
1817.
“Aconteceu este ano o seguinte incidente: muitos Metodistas, neste período primitivo,
tinham a idéia de que o sustento pastoral (quaterage) significava um quarto de dólar; ainda que
muitos eram ricos, não poderiam ser convencidos de que vinte e cinco centavos não era o que se
deve pagar por trimestre pelo sustento pastoral, e que cada membro devia pagar segundo as suas
posses. Isto foi uma das coisas por que muitos pregadores tinham de deixar a itinerância.”
“Havia duas famílias ricas que vieram do leste para o meu distrito, num lugar onde havia
desordem. Elas me procuraram, insistindo para que as recebesse no meu circuito e pregasse para
elas. Aceitei-as, e organizei uma classe de seis pessoas, incluindo uma pessoa de cor. Na última
visita, antes da Conferência trimestral, se tivessem alguma coisa para sustento pastoral e
quisessem, eu poderia levar e relatar, dando crédito no livro da sua cla sse. O velho negro veio
para frente e me deu um quarto de dólar. Depois veio senhora da casa, patroa do homem negro, e
me deu dois dólares; então vieram o marido dela e um outro homem e deram-me vinte e cinco
centavos. Eu perguntei:
- “Coronel, para que fim são estes vinte e cinco centavos?”
- “É para sustento pastoral”, ele disse.
- “Sem dúvida, Coronel”, disse eu, “o senhor vai dar mais do que isto”.
- “Não senhor”, disse ele, “quero que o senhor saiba que os mendigos não têm direito de
escolher”.
- “Muito bem, senhor”, disse eu, “quero que o senhor saiba que não sou um mendigo. Meu
pedido ao senhor é justo, e o senhor me deve; e senão me der mais do que isto, não quero recebêlo.”
- “Está bem”, disse ele. Deixei o dinheiro na mesa.
- “E agora, meu senhor”, disse eu, “se o senhor não quer sustentar o Evangelho, não
voltarei mais para pregar aqui; antes irei pregar aos que estão prontos a sustentar o Evangelho”.
O velho irmão estava bastante contrariado. A sua boa esposa procurou convencê -lo do seu
erro, mas ele ficou inflexível. Esta irmã contou-me depois que o marido passara muito mal a noite,
não podendo dormir; retorceu-se, virou e gemeu durante toda a noite. Ela falou com ele diversas
vezes durante a noite, dizendo que se fosse mais liberal, o seu mal estar passaria e poderia dormir
melhor. O velho irmão levantou-se de manhã e, depois do culto doméstico, me perguntou:
- “Irmão, quanto devo eu contribuir para o sustento pastoral?”
- “Oh, irmão”, disse eu, “não posso responder a sua pergunta; isto é uma coisa entre Deus
e a sua consciência. Mas irmão, resolva o seguinte problema e ficará sabendo a quantia que
deveria dar: Se o seu velho escravo, que vale alguns dez dólares, contribui com vinte e cinco
centavos por trimestre, quanto deve o Coronel T... contribuir se tem setenta escravos, trezentos e
cinqüenta alqueires de terreno bom, alguns milhares de dólares a juros, e tudo junto vale alguns
cinqüenta mil dólares?”
“A solução deste problema modificou bastante as contribuições deste irmão; dali por diante
sempre dava, não mais centavos, mas dólares. E a última vez que o vi, quando estava se
mudando para o estado de Ilinois, ele me encontrou na estrada, e disse: “Irmão, eu lhe devo mil
dólares, e aqui está uma parte deles”, e deu-me cinqüenta dólares. E a sua exma Esposa, que
estava com ele disse: “Também lhe devo tanto como meu marido; aqui está uma parte deles”, e
deu-me vinte e cinco dólares. Assim, um dos meus paroquianos foi curado do vício de dar só dois
mil réis por trimestre; e, meu querido leitor, se o senhor é destes que sofrem da mesma moléstia,
procure uma cura perfeita dessa lepra de parcimônia”.

5. Pregando em Nashville tendo o General Jackson como ouvinte.
Na ocasião da Conferência Anual de Tennesse, que se realizou em Nashville, em outubro
de 1818, Cartwright foi convidado para pregar numa das igrejas mais ricas. O pastor tinha receio
dele pregar contra o Calvinismo e assim ofender alguns dos ouvintes. Estava por isso nervoso
quando Cartwright subiu ao púlpito para pregar. Na hora marcada para o culto a igreja estava
repleta de ouvintes, pois queriam ouvir o pregador das fronteiras. Logo que tomou o texto e
começou a pregar, o General Jackson entrou, mas, como não havia lugar, encostou-se numa
coluna do templo. O pastor puxou o paletó de Cartwright e cochichou: “O General Jackson entrou,
o General entrou”. Ele fez isto duas vezes, e o Cartwright virou-se para ele e disse: “Quem é o
General Jackson? Se ele não se converter, Deus o condenará como se fosse um negro da Guiné!”
Tanto o General Jackson como a congregação riram-se. Depois do culto o pastor procurou o
general para pedir desculpas.
No dia seguinte o general Jackson encontrou -se na rua com Cartwright, estendeu-lhe a
mão, e lhe disse:
“Sr. Cartwright, o senhor é um homem que me agrada. Estou desapontado com o Rev.
Mac, por pensar que eu fiquei ofendido com o senhor. Não senhor, eu disse-lhe que apreciava o
seu espírito independente; e que um ministro deve amar a todos os homens e não ter medo de
qualquer homem mortal. Eu disse ao Sr. Mac que, se tivesse alguns milhares de homens com tal
independência, oficiais sem medo como o Sr. e todos bem disciplinados, poderia vencer a velha
Inglaterra”.

V – O SEU TRABALHO COMO PRESBíTERO PRESIDENTE E
ITINERANTE NO ESTADO DE ILINOIS.
1. A sua transferência para a Conferência de Ilinois.
Em 1823 Cartwright pediu a sua transferência da Conferência de Kentucky para a
Conferência de Ilinois. Houve diversos motivos que concorreram para levá-lo a fazer esta
mudança. Ele tinha um sítio onde os seus dois filhos e quatro filhas podiam trabalhar e ajudá-lo a
manter a família, e as condições tinham-se modificado durante os vinte anos em que tinha servido
como itinerante nas fronteiras. O instinto que tinha de trabalhar nas fronteiras o levou a dar este
passo; também queria escapar à influência da escravidão, que se estava tornando uma questão
mais difícil e complicada, especialmente nos Estados do Sul; e ainda mais, ele poderia vender o
sítio e com o dinheiro comprar muito mais terras nas fronteiras de Ilinois.
Tudo isso contribuiu para levá-lo a mudar-se. Ele visitou o lugar onde queria morar,
comprou a casa com o respectivo terreno, preparou tudo o que era necessário e, então, levou a
sua família. A viagem era longa e difícil. Pelo caminho perdeu uma das suas filhas; uma árvore
caiu em cima dela e matou-a; teve de enterrá-la pelo caminho como o patriarca, Jacob, fez quando
faleceu a sua esposa Rachel, enterrando-a debaixo de uma árvore.
Entrando nas florestas onde morava pouca gente, o seu trabalho era bastante difícil, porém
as oportunidades para implantar o reino de Cristo compensavam todos os sacrifícios feitos.
Ele morou na mesma localidade durante o resto da sua vida. A sua família ficava em casa
cuidando do serviço no sítio e ele passava a maior parte de seu tempo percorrendo os seus
circuitos e distritos. Por longos anos foi delegado de sua Conferência Anual à Conferência Geral.
Quando escreveu a sua autobiografia em 1856, tinha representado a sua Conferência onze
vezes na Conferência Geral.
2. Viajando pelo novo distrito.
Quando já tinha viajado vinte e oito anos no seu trabalho de pregação do Evangelho,
sentiu-se cansado e abatido no corpo e por isso, queria jubilar-se (aposentar-se). A Conferência
atendeu o seu pedido, mas no dia seguinte o Bispo ficou muito embaraçado em achar um homem
para tomar conta de um novo distrito que fora criado; era o distrito de Quincy. O Bispo disse que,
se não pudesse descobrir um homem para tomar conta do novo distrito, seria obrigado a reportá -lo
entre outros distritos. Para evitar isso, Cartwright se ofereceu para tomar conta dele. Mas, como já
fosse jubilado, não era possível tomar o trabalho regular. Combinaram então pedir à Conferência
reconsiderar a sua resolução e acatá-lo de novo na itinerância. E assim mostrou o seu espírito de
vanguardeiro, aceitando um distrito nas fronteiras.
O serviço neste distrito exigia a sua ausência de casa pelo espaço de quatro a cinco
semanas seguidas. Muitas vezes tinha de atravessar rios, nadando a cavalo, e durante as
enchentes corria o perigo de perder a vida. Podíamos mencionar muitos incidentes sobre os
perigos que corria nas suas viagens, porém o espaço não o permitirá.
3. Incidentes interessantes.
Depois de uma viagem longa e perigosa, Cartwright chegou a missão de Henderson River,
onde encontrou uma congregação de seis membros e umas oito pessoas que não eram membros.
Seria bom deixá-lo narrar o incidente.
a) O presbiterianismo e a predestinação
“Cheguei ao lugar onde se realizava a Conferência Trimestral, e achei seis membros na
localidade e cerca de oito pessoas que não eram membros; estas constituíram a população da
comunidade. Havia mais uma família que morava perto e cujo chefe era um perseguidor dos
Metodistas. Ele disse que se tinha mudado para este lugar, lugar novo e muito afastado,
especialmente para ficar livre do povo chamado Metodista, porém que não chegou a arrumar-se
bem na sua cabana antes de aparecer um pregador Metodista, pregando o fogo do inferno e
destruição, como sempre.”
“Na segunda-feira fui visitá-lo. Ele era um extremado adepto da predestinação; acreditava,
ou professava, crer que Deus tinha decretado tudo o que acontece. Depois de me apresentar, logo
aduziu um argumento. Eu disse que não vinha para debater, mas para convidá-lo e aceitar o
Salvador. Ele disse que não podia aceitar coisa alguma de mim, porque de bom grado desprezava
os Metodistas. Respondi que, se Deus de fato decretou todas as coisas, decretou então que
existissem os Metodistas, e que eles deviam crer exatamente como crêem, e que foram criados
pelo decreto de Deus para o atormentar antes do tempo, e que ele devia considerar-se um bobo se
procurasse crer qualquer outra coisa senão o que atualmente crêem. Então eu lhe disse: “Agora,
meu caro, o senhor é um desgraçado por querer transgredir os decretos eternos de Deus,
desejando exterminar os Metodistas . Se a sua doutrina fosse verdadeira, os Metodistas estariam
cumprindo os gloriosos decretos de Deus, que foram fundados na verdade e justiça, como os anjos
ao redor do trono branco?” Fiz-lhe algumas admoestações, e, pouco a pouco, ele chegou a sentir
interesse pelo assunto. Conversei amigavelmente com ele e orei antes de ir-me embora.”
“Depois de me retirar, começou a pensar sobre a nossa conversação, e quanto mais
pensava tanto mais confuso ficava acerca dos decretos eternos. Quando ele se assentava para
comer, ou andava a cavalo, ou andava pela estrada, falava co nsigo mesmo sobre o assunto.
Depois de cortar um bocado de carne e segurá-lo no garfo, pronto para por na boca, dizia: “Deus
decretou desde a eternidade que eu comesse este pedaço de carne, mas eu transgredirei este
decreto”, e jogava a carne para o cachorro. Quando pelos caminhos na vizinhança, encontrando
uma encruzilhada, dizia: “Deus desde toda a eternidade decretou que tomasse o lado direito, mas
eu transgredirei esse decreto”, e passava para o lado esquerdo. Quando, andando a cavalo e dizia:
“Deus desde toda a eternidade decretou que eu fosse para o lado direito daquele toco ou árvore,
mas eu transgredirei esse decreto”, e passava para o lado esquerdo.”
“Assim continuou a proceder por algum tempo, tendo a família receio de que ele ficasse
louco. Os seus vizinhos, também, tinham receio de que ele estivesse enlouquecendo. Finalmente,
uma convicção profunda de pecado se apoderou dele; reconheceu que era um pecador perdido,
sem fé em Jesus Cristo. Convidou seus vizinhos que orassem a favor dele, e, depois de uma longa
luta com o diabo e os seus decretos, aprouve a Deus dar-lhe a religião, e quase todos os membros
de sua família se converteram e se uniram com a Igreja Metodista, passando a viver dignamente
em sua alta e santa vocação.”
b) Uma esposa insuportável
Conta Cartwright um fato que se deu com ele e a esposa de um pregador local. O pregador
local era um homem muito bom e agradável, mas tinha uma mulher insuportável. Ela era virtuosa,
mas tinha um gênio indomável. Não quis que o marido fizesse culto ou mesmo orasse em casa, e
quando os pregadores o visitavam, ela fazia barulho e os insultava. Coitado do marido, vivia
miseravelmente com ela.
Como Cartwright era seu Presbítero Presidente e visitava o seu campo de trabalho
regularmente, o pregador convidou-o para visitá-lo e exortar a sua esposa a ver se ela melhoraria;
mas Cartwright, sabendo da situação não quis aceitar o convite.
No correr do ano, porém, sendo repetidas vezes convidado para fazer esta visita e assim
prestar os seus bons ofícios a um colega desconsolado, resolveu aceitar o convite.
“Finalmente”, diz ele, “cedi às importunações do meu colega e fui à sua casa com o intuito
de lá passar a noite. Logo que cheguei, vi que a sua esposa não estava de bom humor e que o
diabo nela era do tamanho de um jacaré. Firmei-me no meu propósito e planejei o meu alvitre.
Depois do jantar o marido dela, com brandura, disse-lhe: “Venha, minha esposa, largue os seus
afazeres por um pouco, e vamos fazer oração”. Foi neste instante que ela se alterou e disse: “Não
quero ter nada com as suas orações”. Então eu falei brandamente com ela, insistindo e mostrando
a razão de tudo isto; mas, quanto mais eu falava, tanto mais zangada ela ficava e me amaldiçoava.
Então, mostrei-me mais enérgico: eu lhe corrigiria esses modos tão feios ou então lhe torceria o
pescoço”. “O diabo que o faria”, disse ela. “Sim, você é uma cristã bonita, não é?” – fui irônico
sobre seu mau testemunho. E então ela me despejou um sem número de blasfêmias que a
natureza humana quase não podia suportar.” “Fique quieta!”, disse eu, “nós devemos fazer e
faremos oração”. Ela, porém, afirmou que não faríamos. “Agora”, disse-lhe eu, “se não ficar quieta,
e não se portar direito, eu a porei fora da casa. Quando disse isto, ela fechou os punhos, e jurou
que ela era meio jacaré e meio tartaruga, e precisava de um homem mais forte do que eu para pôla fora de casa.”
“A cabana em que nos achávamos era pequena, e estávamos perto da porta, que estava
aberta. Peguei no braço dela, dei um giro com ela, levei-a à porta e a empurrei para fora da casa.
Ela, em gritos, pulava, blasfemava e espumava; as blasfêmias dela raramente são igualadas, mas
nunca sobrepujadas. A porta era forte, feita para resistir aos índios hostis; fechei -a e tranquei-a, e
então fizemos oração.”
“Eu orei do melhor modo possível, mas não na linguagem que pudesse descrever os meus
sentimentos naquela hora; mas, ao mesmo tempo, estava resolvido a vencer ou morrer. Enquanto
ela rodeava a cabana gritando, eu comecei a cantar um hino, cantei em voz bem alta para sufocar
a gritaria dela. As cinco ou seis crianças tinham se escondido nos cantos e debaixo das camas.
Coitadas! Estavam quase mortas de susto.”
“Continuei a cantar e ela rugia e trovejava lá fora, até que afinal se acalmou, exausta e
sem fôlego, pois já não tinha mais força. Veio e bateu à porta, dizendo: “Sr. Cartwright, faça o favor
de me deixar entrar”. “Promete comportar -se bem, se eu a deixar entrar?” “Sim, senhor!”, disse ela,
“Eu prometo”. Conservando-me em expectativa, e com sangue frio, abri a porta e deixei-a entrar.
Ela sentou-se perto da lareira. Tinha gritado e pulado tanto que estava exausta, coberta de suor e
pálida como um defunto. Depois de sentar-se, ela disse: “Oh! Que boba sou eu.” “Sim”, disse eu,
“uma das maiores bobas que jamais vi em toda a minha vida. E agora tem que arrepender -se de
tudo isso, ou ficará pertencendo ao diabo fi nalmente”. Ela ficou quieta.”
“Então chamei as crianças dizendo que agora podiam sair de onde estavam escondidas
pois sua mãe não lhes faria mal, e, virando para o marido dela, disse: “Irmão, vamos fazer oração
outra vez. Nós dois nos ajoelhamos e fizemos oração, e ela ficou quieta como um cordeirinho”.
Cartwright diz que no espaço de seis meses ela se converteu e no decorrer do tempo
todos os filhos entraram para a Igreja, tornando-se uma família exemplar. Há muitos outros
incidentes interessantes que poderíamos citar, porém o espaço não o permite.

4. Opiniões de Cartwright sobre diversos assuntos.
a) A escravidão.
Cartwright não podia tolerar a escravidão, mas não foi um fanático contra ela como eram
alguns pregadores naquela época. Ele queria fugir das complicações que esta instituição
provocava. Por isso emigrou de Kentucky para as fronteiras de Ilinois, onde podia criar a sua
família livre das influências perniciosas da escravidão. Em poucos anos, porém, depois da sua
chegada em Ilinois, a questão da escravidão levantou-se neste novo Estado e ele do mesmo jeito
combateu a introdução da escravidão. Sem perceber, envolvera-se na política.
Os seus amigos insistiram para que ele aceitasse o cargo de deputado estadual. Para
combater esse mal aceitou o convite e foi eleito duas vezes. Mas não gostou da política, porque
descobriu que a maioria dos homens políticos tem mais amor ao partido do que aos princípios da
justiça.
b) Os fanáticos.
Na época em que Cartwright vivia, havia movimento de grande entusiasmo e fanatismo.
Ele tinha que combater alguns dos fanáticos que apareceram no meio do povo, e, se tivéssemos
espaço, poderíamos citar diversos incidentes sobre este ponto. Em todo o caso vamos dar a
opinião dele sobre os fanáticos.
Ele diz: “Há diversas classes de fanáticos, segundo a minha observação mais criteriosa, e
tenho tido bastantes oportunidades no decorrer dos meus cinqüenta anos no ministério para fazêla. Em primeiro lugar, há muitos que não somente são despertados, mas convertidos a Deus e são
piedosos; mas em vez de aceitarem a Palavra de Deus como o seu guia infalível e experimentando
os espíritos e as suas impressões ou sentimentos, julgando-os pelo padrão das Escrituras, aceitam
antes os seus impulsos e impressões como se fossem inspir ações de Deus e agem de acordo. Se
alguém fizer qualquer protesto contra o seu procedimento, crêem que tal pessoa está lutando
contra Deus. Se alguém procurar convencê-lo dos seus erros e procurar estabelecer tudo sobre os
alicerces firmes da Palavra de Deus, interpretam isso como falta de religião e uma perseguição.”
“Em segundo lugar, há outra classe de fanáticos, que não somente parece mas realmente
está tão contente consigo mesmo que tudo que faz é para ser visto pelos homens, e a maior
satisfação que tem é atrair a multidão para si. Esta classe está completamente absorvida em si
mesma. Não tem o temor de Deus perante os olhos e a sua responsabilidade é ignorada
completamente. Ai dela! Esta classe está caminhando para o inferno, levando consigo uma
multidão de ignorantes. É impossível calcular o prejuízo causado por esta classe de fanáticos e
muitas almas têm sido perdidas por ela.”
“Em terceiro lugar, há uma classe escura e suja, de feiticeiros e feiticeiras, espíritas que
fazem dançar mesas e objetos, que tem aparecido em todos os países, e pertencem ao diabo.
Estes têm que receber dinheiro pelas suas adivinhações e assim ganham a vida com sua arte, e
até alguns desses pretendem ser os ministros de Cristo e seguidores do Cordeiro”.
c) Distribuição de bons livros.
Cartwright acreditava firmemente no grande valor que há na distribuição de bons livros
entre o povo. Ele, neste ponto, estava de perfeito acordo com João Wesley, que sempre levava
livros ou tratados (estudos) para oferecer ao povo.
Cartwright assevera que muitas pessoas foram convertidas lendo livros que ele tinha
distribuído. Sobre este assunto disse ele: “Tem havido uma dúvida em meu espírito e talvez não
possa decidir com acerto, antes de chegar ao céu, se eu tenho feito mais bem pregando, ou
distribuindo livros por estas zonas florestais; seria impossível calcularmos o benefício decorrente
de tal procedimento”. Durante seu ministério distribuiu livros no valor de oitenta contos de réis, e
teve lucros de uns oito conto de réis, não falando no benefício prestado ao povo.

IV – OS SEUS ÚLTIMOS DIAS
Pedro Cartwright foi um homem criado na floresta e passou a sua vida nas fronteiras do
país. Tinha um corpo forte e uma alma que amava a verdade e a justiça e abominava a hipocrisia.
Tinha uma coragem que não conhecia medo. O credo dele era “amar todos os homens, mas não
ter medo de ninguém”.
Quando escreveu a sua autobiografia, tinha setenta e um anos de idade e morava em
Pleasant Plains, no Estado de Ilinois. Isto foi em 1856. Depois disto viveu mais quatorze anos,
falecendo em 1872, cheio de dias e de paz, tendo trabalhado pela causa do Mestre quase setenta
anos.
Julgamos que o fim foi cheio de paz e de amor. Ele terminou a sua autobiografia com estas
palavras: “E agora, peço ao meu caro leito r deste esboço tão imperfeito da minha vida, que
enquanto eu habito nas tendas mortais, ore por mim de modo que o meu por de sol seja sem
nuvens, e que venha finalmente a participar da primeira ressurreição; e praza a Deus que nos
encontremos a nós todos no céu! Adeus, até nos encontrarmos no dia do juízo”.
X
A vida de Enoch Mathes Marvin,
o Pregador e Bispo Evangelista
(1823-1877)
É de notar e admirar como Deus chama os seus servos para os seus respectivos campos
de trabalho. Chamou Moises quando cuidava do seu rebanho no deserto; chamou Eliseu quando
guiava o arado e Isaias quando vivia na corte do rei. Também Jesus chamou alguns dos discípulos
quando cuidavam das suas redes de pescadores; chamou o apóstolo Paulo quando ia a caminho
de Damasco; chamou o jovem Timóteo por meio do seu servo Paulo, chamou-o para o trabalho de
Evangelista. Assim pelos séculos afora Deus tem chamado homens para o seu serviço.
Nestes últimos tempos chamou um rapaz que foi criado nas florestas, nas fronteiras de um
país novo que precisava de obreiros comissionados por Deus. Será nossa tarefa narrar alguns
fatos acerca do jovem Enoch Mathes Marvin, que foi destinado por Deus a ser um dos pregadores
mais eficientes na Igreja Metodista durante aquela época.

I – OS SEUS ANTEPASSADOS
Segundo os documentos encontrados nos arquivos, em Londres, em 1634, consta na lista
de passageiros, emigrantes para nova Inglaterra, o nome de Marvin. O Bispo Marvin é
descendente desta família. Pois seus pais emigraram para as fronteiras do Estado de Misouri, no
condado de Wanen, em 1817, onde a sua primeira casa foi feita de achas (pedaços de madeiras
toscas) de lenha, chamada em inglês “log-cobin”.
As famílias que vieram da nova Inglaterra eram as mais cultas e bem educadas que
habitavam a zona em que fundaram a sua colônia.
O pai de Enoch Marvin era um homem sério e de poucas palavras. Não era crente
professo. Aspirava uma carreira para seus filhos. A mãe era boa crente e de cultura, e
considerava-se membro da Igreja Batista. As circunstâncias sob as quais tinham que criar os filhos
eram prementes. A mãe adoecera e passava os seus últimos dias como uma inválida. Também um
dos dois primeiros filhos morreu em sua mocidade, e a única filha não atingiu a muitos anos de
idade. Só o primeiro filho Natanael, e o terceiro, Enoch, alcançaram cerca de cinqüenta anos de
idade.
Oh! quão curtos são os dias dos homens neste mundo! “Toda carne é erva, e toda a sua
glória como a flor do campo; seca-se a erva, cai a flor, porque o hálito de Jeová nela assopra: na
verdade o povo é erva”
II – SEU NASCIMENTO E SUA MOCIDADE
1. Seu nascimento
Enoch Mathes Marvin nasceu em 12 de junho de 1823, na colônia dos seus pais, situada
no condado de Warren, perto da cidade de Wright City. A casa onde nasceu não existe mais, mas
a casa onde foi criado, em 1890 ainda existe. Depois de ser eleito bispo visitou a antiga morada e
viu o lugar onde seus pais lutaram para criar a família. Ali seu espírito se encheu de saudade dos
dias de sua mocidade quando fazia a sua parte no trabalho da casa e no campo. Quantas vezes
não prestou ele auxílio à sua querida mãe na sua invalidez?!
Lembrava-se dos dias de chuva quando, não podendo trabalhar no sítio, ia para o sobrado
e estudava os poucos livros que tinha guardados na estante. Tudo lhe causava muitas saudades
do lugar onde fora criado. As árvores e os regatos, os morros e os vales, os horizontes e os céus
eram-lhe de um encanto cheio de saudades.
2. O ambiente em que foi criado.
Como já foi dito, as circunstâncias sob as quais o jovem Enoch (ou Mathes, como lhe
chamavam seus pais e amigos) foi criado eram bastantes rústicas e mui cedo o rodearam, pondo-o
desde criança na luta pela vida. Ainda assim ele tinha a vantagem que muitos rapazes não
gozavam naquela época: tinha pais bem educados e os seus vizinhos também, em geral, eram
considerados pessoas de boa educação. Mas todos tinham que lutar com a natureza no seu
estado primitivo. Derrubar florestas, semear e cultivar as roças, e ainda enfrentar os índios.
Também a Enoch, além do serviço em casa, tocava fazer uma parte na roça. E foi esse
contato direto com a natureza que produziu impressões relativas no espírito do jovem. Ele gostava
de caçar, e havia bastante caça nas florestas. Também gostava de ajudar seus vizinhos a
construírem as suas casas e limpar as suas roças. Era costume entre os vizinhos, quando alguém
queria construir uma casa, convidar os seus vizinhos para dar um dia de serviço. Reunindo-se
trinta e tantas pessoas, podia-se num dia levantar uma cabana ou limpar uma roça.
3. Seus estudos
Como naquela época não havia escolas públicas, Enoch tinha que depender inteiramente
de seus pais para receber algumas instruções. Nisto foi feliz, pois seus pais eram pessoas cultas e
bem educadas para aquele tempo. A mãe ensinava a seus filhos durante o verão e o pai os
ensinava durante o inverno. Isto continuou até aos 10 anos do jovem quando sua mãe ficou
doente, vindo a falecer alguns anos depois, passados em grande aflição. Agora a grande
responsabilidade de instruir as crianças pesava exclusivamente sobre o pai. Mas o menino tinha
gosto pelos estudos e não era difícil ensiná-lo.
Tendo que se esforçar, criou o hábito de estudar sozinho e, uma vez iniciado no caminho
do saber, continuou a estudar até o fim da sua jornada. Nas horas vagas, na fazenda, aplicava-se
aos estudos. Era com saudade que se lembrava dos dias da mocidade, dos dias chuvosos que
passava no sobradinho de sua casa rústica.
Tinha poucos livros para ler, porém os que tinha eram bem aproveitados. Às vezes, lendose demais, fica -se confuso, e um rapaz que não sabe aproveitar os livros que tem seria melhor,
talvez, que os não possuísse.
Quando se tornou moço, arranjou uma escola na comunidade que ensinava as crianças
dos seus vizinhos dois ou três meses durante o tempo de frio quando não podiam trabalhar na roça
com proveito.
Não podemos avaliar a influência dos seus pais na educação deste filho. Quase tudo de
sua educação e instrução devia-lhes a eles, seus bondosos pais. Mui felizes são os pais que têm
filhos tão ávidos pelos estudos como este jovem da floresta.
4. Alguns incidentes em sua mocidade.
a) Os cinco cedros
Quando visitou o seu antigo lar pela última vez, encontrou cinco cedros grandes crescendo
ao redor da cabana, cedros que ele mesmo plantara quando menino em casa dos progenitores. Foi
um ato muito simples que nos revela o desejo que o jovem tinha de fazer alguma coisa útil. Foi
uma coisa que Márcia, sua querida irmã, sempre lembrava da sua mocidade quando brincava nas
sombras dessas árvores. Amava a seu irmão com afeição pouco comum, e na hora da sua morte,
deixou cair-lhe nos ouvidos estas palavras: “Dá-me um beijo de despedida. Adeus, irmão” (Kiss
me, brother. Good bye).
b) A sociedade de debates
Havia na comunidade uma sociedade de debates a que pertencia o jovem Enoch Marvin.
Uma ou outra vez, havia debates públicos. Aconteceu uma vez que os dois oradores para a
ocasião eram R. J. Kennedy e Mathes Marvin. O assunto era: - Qual dos dois podia fazer o melhor
discurso, pedindo ao povo que votasse nele como candidato para chefe de polícia. O Sr. Kennedy
tinha seis anos de idade a mais do que o Sr. Marvin, e por isso fora escolhido para fazer o primeiro
discurso. De fato, fez um bom discurso, comprometendo -se a cumprir os seus deveres se fosse
eleito, etc. Ao terminar, assentou-se em meio de calorosas palmas.
Chegou a hora para o jovem Mathes, de dezessete anos de idade, fazer o seu discurso. O
outro tinha produzido boa impressão sobre o povo e o jovem Marvin tinha de fazer uma impressão
ainda maior para poder ganhar a decisão dos juízes. Ele principiou com calma e ia reafirmando
tudo que o seu antagonista tinha prometido, e concluiu dizendo que não somente faria as
cobranças de impostos, etc., mas, caso não fosse possível cobrá-los, tiraria do seu próprio bolso,
entrando com o dinheiro. No mesmo instante, enfiou a mão no bolso que não tinha dinheiro: mas o
jeito, o tom da voz e a expressão do rosto e dos olhos foram tão sugestivos que cativaram a
multidão e os juízes lhe deram os seus aplausos. Assim foi vitorioso no debate.
c) A semente de milho
Marvin conta num dos seus sermões o que se deu com os seus pais quando ele era
menino. Foi num dia de primavera, época de se plantar milho. O pai foi ao paiol para escolher a
semente de milho e ele o acompanho u para ajudá-lo; auxilio de criança, já se vê. O pai estava
ansioso por encontrar milho bom que prestasse para semente, pois no ano anterior a colheita fora
muito prejudicada com a geada e muita chuva, e o milho estava podre. Enquanto estava
descansando e debulhando o milho, a mãe apareceu à porta e perguntou se tinha achado milho
que prestasse para semente. O tom da sua voz e a ansiedade com que proferiu as palavras fez
impressão profunda sobre o seu espírito. Descobriu o cuidado que os pais tinham em pro videnciar
o pão para os seus filhos. Mais tarde chegou a compreender o que tudo isto significava.
d) O seu primeiro sermão
Perto da casa de Marvin morava uma família de crentes Metodistas. Quando os itinerantes
passavam pela comunidade, pregavam em casa do Sr. McConnell. Aconteceu num domingo que o
Jovem Mathes foi assistir ao culto de pregação em casa deste irmão. Seria melhor deixar o Sr.
Sandy Pratt contar o incidente: “O Bispo Marvin pregou um sermão quando era ainda menino. Ele
assistiu ao culto em casa do irmão Uncle Bille, McConnell, e quando voltou para casa, a sua mãe
pediu que repetisse o que se lembrava do sermão. Sendo costume dos pregadores tomarem o
lugar atrás de uma cadeira quando pregavam, ele tomou a sua posição atrás de uma cadeira, e
citou o texto, e começou a repetir o sermão de cor, o que foi grande surpresa para a família toda.
Quando terminou o sermão, disse: “Oremos”, mas a mãe o interrompeu, dizendo “Chega,
Mathes”.

III – SUA CONVERSÃO E CHAMADA PARA PREGAR O
EVANGELHO
1. Sua conversão:
Segundo a definição que o Bispo Marvin deu da conversão, esta é uma nova vida. Diz ele:
“Todo o nascimento é o começar de uma nova vida. A restauração da lama a Deus é uma
confirmação deste fato. Há uma vida nova. É a vida divina, a vida de Deus na alma”.
A conversão de Marvin não foi instantânea, mas prolongada. Por mais de dois anos foi
candidato, isto é, foi penitente por trinta e dois meses antes de experimentar a conversão. As
influências religiosas começaram cedo na vida dele; quando ainda pequenino, brincava no colo da
mãe. Ele gostava de ouvir a sua mãe cantar os hinos e ficava impressionado com as lágrimas que
lhe deslizavam pelas faces quando cantava o seu hino predileto, que era:
“Alas, and did my sanior bleed?
And did my Sovereign die?
Would he devote that sacred head
For such a worm as I?
“Ah! meu Salvador, ficou ensangüentado?
E o meu soberano morreu?
Ele devotaria aquela cabeça sagrada,
Para um verme como eu?”
Quando, aos seis anos de idade, ouviu-a cantar este hino, foi levado a perguntar: “Morreu
Jesus por mim? Verei eu Jesus? Quando virá Ele para mim?” Assim notamos o despertamento
dos sentimentos religiosos no coração do pequeno que mais tarde chegaram a lhe dominar por
completo a vida. Não há outra influência mais poderosa sobre uma criança do que a influência da
mãe.
Marvin, quando rapaz, continuava a assistir aos cultos religiosos em casa do Sr.
McConnell. Finalmente quis fazer a sua profissão de fé, mas não desejava fazer isto sem consultar
a sua mãe. Como a sua mãe não era Metodista, tinha receio de falar-lhe sobre o assunto até que
ele a ouviu dizer que “os Metodistas não eram tão ruins como alguns julgavam”. Essas palavras lhe
foram de grande alívio, e cobrou ânimo para tocar no assunto. Entrou na sociedade como
presidente no mês de agosto de 1839. Mais tarde converteu-se.
Sobre isto ele diz: “Logo depois que me uni com a Igreja, tive uma experiência que jamais
hei de esquecer. Foi num domingo quando ia a cavalo para assistir a uma reunião social na
comunidade. Até hoje me lembro da beleza da natureza, ostentada nas folhas, naquele dia
outonal. Havia uma calma sagrada pairando sobre as folhagens banhadas pelo sol. ”
“De repente veio-me este pensamento: “Eu sou membro da Igreja, e está no meu poder
agora, pelo meu modo de viver, não trazer mancha sobre ela ou desonra a meu Salvador”. Por
algum tempo esta reflexão me pareceu insuportável; era quase mais do que podia agüentar. “O
nome de Deus”, disse o profeta, “é blasfemado entre os gentios por meio de vós”.
Em um sermão ele descreve como alguém se pode converter, o que é considerado a
maneira pela qual ele se converteu: “Pelos meus pecados ele sofreu no seu próprio corpo na cruz.
É isto mesmo. Na simplicidade infantil, Cristo é aceito como o sacrifí cio expiatório providenciado
por Deus para a salvação das almas. Mediante essa fé o Espírito Santo entra na alma como Cristo
o prometeu”.
Marvin tinha algumas dúvidas sobre o batismo. Amava os Metodistas, mas não queria
violar a sua consciência em aceitar doutrinas que julgava erradas. Um pastor Metodista deu-lhe um
livrinho escrito por Pedro Doub, com o título: “O Batismo e a Comunhão”. Depois de o ler e estudar,
disse: “Não sabia quem era o Sr. Pedro Doub. Não tinha ouvido falar nele, mas aquele livrinho de
uma vez para sempre removeu as minhas dúvidas sobre a questão e não tenho mais dúvidas
sobre o assunto”.
Mais tarde na vida, refletindo sobre o passado, disse: “Abaixo de Deus é ao povo
metodista que devo a minha esperança para a eternidade. Por meio deles o Evangelho foi eficaz
em despertar-me e converter-me em minha mocidade e os sacramentos da Igreja, tão úteis e tão
necessários para o meu crescimento na vida religiosa. Tudo isso devo aos Metodistas do estado
de Missouri, Estado da minha natividade”.
2. Sua chamada para pregar.
Marvin foi um homem escolhido por Deus para pregar o Evangelho. Entrou no ministério,
não porque os seus amigos e irmãos na Igreja o convidassem, mas porque sentiu na alma uma
convicção que era o seu dever. Parece-nos que desde pequenino Deus estava influindo sobre o
espírito dele para esta carreira. As influências do lar e especialmente de sua mãe, e os cultos que
assistia em casa do bom irmão McConnell, e ainda as influências dos seus pastores que sempre
tinham boas impressões dele, foram decisivas no seu caráter cristão. Hesitou em fazer a sua
profissão; por isso, mesmo depois de entrar na Igreja, continuou a buscar a Deus até ter certeza da
sua conversão. Tudo isso mostra que ele mesmo não quis enganar a ninguém e muito menos a si
mesmo.
Se ele assim procedeu para tornar-se cristão professo, quanto mais escrúpulo não teria
para entrar no santo ministério. Os passos que deu para entrar no ministério foram os que se
costumavam dar naquela época, a saber, primeiro, guia de classe, depois exortador e, finalmente,
licença para pregar.
Era natural a maneira pela qual ele se empenhava para cumprir os seus deveres no
exercício destes cargos. Aproveitava as oportunidades não somente em dirigir cultos de oração em
casas particulares, mas aplicava-se constantemente à leitura da Bíblia e de outros livros religiosos.
Queria ser um “obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da
verdade”. Talvez no princípio ele ignorasse que a voz de Deus assim o chamava para pregar, mas,
como ia cumprindo dia após dia os seus deveres, Deus também pela sua parte lhe ia dando mais
luzes e abrindo-lhe mais portas até chegar a compreender que Deus mesmo o chamava para
pregar. Uma vez convencido disto, nunca mais duvidou que era vocacionado para o ministério,
apesar de conselhos da parte de presbíteros presidentes em contrário.
Quando lhe chegou a época para ser licenciado como pregador local, os irmãos que o
conheciam estavam convencidos de que ele podia satisfazer as exigências disciplinares, tais
como: “Conhecer a Deus como um Deus perdoador”; “ter dons, como graça, para o trabalho e
mostrar frutos”.
O Sr. Pratt que era um membro da classe e da Conferência que o recomendaram para ser
pregador local nos dá a seguinte informação: “O Sr. Daniel T. Shermon pediu que a classe o
recomendasse à Conferência Trimestral para ser licenciado para pregador, o que foi feito. Eu era
membro da Conferência, que foi presidida pelo Rev. W. Patton, num lugar chamado Pinhny, no
condado de Warren. A Conferência Trimestral nomeou-me domingo à noite para pregar um sermão
inicial. O presbítero presidente, o Sr. Patton, não ficou muito bem impressionado com ele, porque
não esteve presente para ouvi-lo, mas perguntou à Conferência se o jovem tinha originalidade.”
Anos depois, Marvin dando conselhos aos aspirantes ao ministério, lhes fez a seguinte
exortação que sem dúvida era a mesma que ele mesmo seguiu antes de entrar para o ministério:
“Primeiro que tudo andou em comunhão com Deus. Por meio de oração, oração sincera e
constante, colocai-vos nas mãos de Deus para serdes guiados para onde Deus mandar. Lançai
fora a vossa vaidade e vontade própria. Quando estiverdes, de fato, prontos para fazer a vontade
de Deus, sereis guiados pelo caminho que não conhecei s. Se fordes escolhidos e entregues para
alguma coisa ou mesmo nada, segundo o beneplácito daquele que vos chamou, Deus há de dirigir
os vossos passos no caminho em que deveis andar”.

IV – A VIDA DE ITINERANTE
A itinerância naquela época significava uma vida de pobreza e oposição por parte dos
incrédulos e críticas da parte de sectários. A entrada, pois, na itinerância não fazia apelo aos
covardes e preguiçosos.
Marvin refletiu bem antes de se apresentar à Conferência para admissão. Em fazendo isto,
tinha que contrariar a vontade de seu pai, pois o pai mesmo queria entrar na política e pleitear um
cargo no condado de Warren. A idéia dele era, depois de ser eleito ao ofício, chamar o seu filho
para ocupar um cargo abaixo dele, mas, quando o filho optou pelo ministério, todos os planos do
pai falharam. Mesmo assim, porém, não ficou magoado com o filho, porque sentia que o seu filho
não fazia aquilo por capricho, mas em obediência à sua própria consciência. Sem dúvida o filho
não tinha prazer em frustrar os planos de seu progenitor, porém sentia que havia alguém que tinha
maior autoridade sobre ele do que seu pai.
1. A missão de Grundy.
Marvin foi admitido em experiência na Conferência de Missouri em 1841, na cidade de
Palmira, mesmo estando ausente, pois não lhe foi possível comparecer. Seu Presbítero Presidente
o recomendou, mas sem elogios. O rapaz não tinha ninguém para protegê -lo na Conferência. Foi
admitido pro-forma e foi assim mesmo que ele queria, pois entregara sua aprovação a Deus.
Foi admitido e nomeado para a Missão de Grundy, um dos mais pobres cargos na
Conferência e bastante vasto. Tinha que viajar constantemente a cavalo para visitar os diversos
pontos de pregação. O ordenado, aquele ano, importou em quinze dólares, ou, em moeda
brasileira (moeda brasileira de 1929), 126$000. Como teve que comprar um cavalo e arreios,
principiou a sua carreira com dívidas.
O povo era muito, mas não havia muito dinheiro naquelas fronteiras. Os imigrantes
constantemente estavam entrando e saindo. Não era possível organizar uma igreja forte e firme,
em tais condições, mas o povo lhe era bondoso e pronto para repartir com ele aquilo que tinha.
Como não tinha família e tinha que viajar constantemente, não pagava pensão; comia com o povo.
O povo não ficou muito bem impressionado com os seus primeiros sermões. Ele mesmo – quem
sabe? – não estava bem satisfeito com eles. Mas os homens observadores notaram neles alguma
coisa que os levou a predizer que algum dia ele viria a ser um bispo da igreja.
Além de ser um rapaz piedoso e estudioso, era muito pontual e não faltava em cumprir
com o seu itinerário, uma vez que estivesse organizado. Às vezes quase perdia a sua vida ao
atravessar rios no tempo de enchentes e de frio. Não havia pontes e tinha que atravessá-los a
nado. Uma vez quase perdeu a vida, congelado. Tinha combinado com um irmão para pregar em
sua casa em tal dia. Mas, antes do dia marcado para essa visita, caía neve abundante, que cobria
o chão, e, como não havia uma estrada, mas apenas um trilho, perdeu-se na floresta. A neve era
tão espessa que era difícil ao cavalo andar. Teve que apear-se e ir a pé, puxando o cavalo e
acertando o rumo do melhor modo possível.
O dia ia declinando, a noite estava a cair, e ele estava num deserto de neve sem abrigo;
que iria fazer? Tomou um rumo que julgara certo e foi prosseguindo na direção da casa do irmão
mencionado. Ao cair da noite, parou em frente da casa do amigo, e quando bateu, todos ficaram
admirados de sua coragem em vir em tais condições, pois julgavam que não viesse mais.
Realizaram o culto. Passou ele ainda alguns dois dias naquele lugar pregando o Evangelho ao
povo. Depois de ser eleito Bispo, disse que somente quatro vezes tinha faltado em cumprir o seu
itinerário, duas vezes por causa de doença e as outras duas por força maior, devido ao atraso de
trens, etc.
O povo nunca se queixou dele por não ter cumprido com a sua palavra; quanto às visitas
pastorais, podia contar com ele. O ano anterior, na Missão de Grundy, foi um ano de provas e ricas
experiências. Apesar das suas energias em disciplinar alguns casos crônicos no circuito, o povo
ficou gostando dele, porque revelava as qualidades de um homem bom e competente. Havendo
recebido só cento e vinte e seis mil réis durante o ano para o seu sustento, podemos imaginar em
que condições ele se achava quando chegou a hora de assistir à Conferência; a roupa remendada,
o cavalo magro, sem dinheiro, e não tinha muitos amigos pessoais na Conferência. Não é de
admirar que ficasse triste e desanimado.
Mas alguns dos irmãos que tinham ouvido os seus sermões e testemunhado o seu zelo
pelo trabalho, lembraram-se de lhe fazer presente de um terno de roupa nova. Anos depois ficou
alegre em receber uma comunicação de uma senhora que na hora da morte testemunhou que fora
convertida por meio dele. As circunstâncias eram as seguintes: O ano em que viajou pela missão
de Grundy pregou num dia, em dezembro, um dia de frio, a uma congregação de três pessoas e
uma delas era aquela que mandou a seguinte mensagem: “Estou moribunda; vou para o céu. Fui
convertida pela pregação que o irmão fez naquele dia frio em dezembro. Espero que tenha muitos
anos de vida; mas, quando chegar no céu, estarei eu lá para o encontrar”. O bispo contou isto à
Conferência que presidia quando recebeu a comunicação e fez o seguinte comentário sobre ela:
“Quando eu chegar no céu, a primeira coisa que farei será procurar este meu primeiro convertido
do meu ministério na Missão de Grundy”.

1. A primeira Conferência que assistiu
A Conferência Anual realizou -se na cidade de Jefferson City, em 31 de agosto de 1842. O
Bispo Roberts presidiu-a.
Foi a primeira Conferência que assistiu e quase todos os pregadores lhe eram estranhos,
tendo se encontrado somente com três durante o ano. Mas como uma Conferência Anual é uma
coisa toda excepcional entre as reuniões de qualquer coletividade, pelo menos o foi para este
jovem itinerante.
Ele fez um estudo de cada pregador, observando-os cuidadosamente. Gostava
imensamente do cantar dos hinos pela Conferência; era um banquete para a sua alma. Prestou os
exames do primeiro ano e foi aprovado, passando para o segundo ano. Continuou em experiência
e foi nomeado para a Missão de Oregon. Voltando para casa a fim de visitar os seus pais antes de
ir para o seu novo campo de trabalho, na saída da cidade três pregadores o alcançaram no
caminho. Depois de cumprimentá-lo aconselharam-no a que desistisse da itinerância, voltasse para
casa e se dedicasse ao trabalho na sociedade local. O moço estava bastante triste, e quando ouviu
o conselho dos seus superiores no ministério, levou um golpe formidável em seu espírito. A única
resposta que lhes deu foi: “Os senhores pensam assim”. Então os três prosseguiram, deixando o
jovem pregador com seus pensamentos perturbados. Mas os melhores homens, às ve zes, se
enganam, pois antes deles morrerem alguns receberam sua nomeação para o seu campo de
trabalho pelas mãos daquele a quem tinham aconselhado a desistir do ministério.
Ainda desconsolado com o conselho dos três pregadores, visitou os pais, e depois de
descansar um pouco em casa, resolveu aceitar a sua nomeação e continuar na itinerância. Tinha
lançado a mão no arado e não podia olhar para trás. Quando entrou na itinerância, foi para
consagrar a sua vida à pregação do Evangelho e nunca durante a sua vida se deixou enredar nas
coisas seculares.
2. A missão de Oregon.
Esta missão era semelhante à de Grundy. Foi um ano de sacrifícios e de lutas com
algumas vitórias. O ordenado para o sustento pastoral foi o dobro esse ano: eram 252$000.
Passou nos exames do segundo ano e foi admitido em plena conexão com a Conferência. Isto
prova que a Conferência o julgou um homem apto para o trabalho.
A escola pela qual passou era cheia de provas difíceis, porém soube vencê -las. Fez
bastante progresso. O povo gostava dele e queria que fosse continuado.
3. O Circuito da Liberdade
O ano de 1843 foi de menos privações para Marvin, mas sua casa era ainda a cabana dos
habitantes nas fronteiras. Havia mais gente nesta zona do que nos outros dois circuitos. O cavalo
que teve esse ano tinha o hábito de pular todos os buracos que encontrava no caminho. O jovem
itinerante não sabia disso e a primeira vez que ele montou, quando chegou num vale, deu um pulo
e o cavalheiro foi cuspido por cima da cabeça do cavalo, Marvin era Metodista em doutrina e
política; pregava as doutrinas e observava as regras metodistas. Tinha paixão em converter almas
a Cristo e para conseguir isto não poupava seu tempo, nem suas energias.

4. Aperfeiçoando a sua educação
Em 1844, na ocasião da Conferência, foi nomeado como pregador ajudante de Wesley
Brawning. O Rev. Brawning era o pastor da Froth Steel Church, na cidade de São Luiz.
Foi durante este ano que Marvin teve mais tempo para estudar e aperfeiçoar a sua
educação. Nos três anos nos circuitos de Grundy, Oregon e Liberdade, constantemente em
viagem, não teve muito tempo para estudar, mas agora o tempo que gastava em viagens nos
outros cargos, passava estudando. Também o contato com o Rev. Brawning e com a sociedade
mais culta concorreu para o seu desenvolvimento intelectual e social.
Há alguma coisa no sistema metodista que desperta os dons que o pregador tem, e se
tiver capacidade de desenvolver no correr de poucos anos, o itinerante se torna um homem culto e
hábil. Durante este ano de 1844 completou o seu quarto ano no curso da Conferência. Prestou
exames e foi ordenado presbítero como já tinha sido ordenado diácono.
Enquanto estamos falando a respeito dos seus estudos seria bom afirmar que Marvin,
embora nunca tivesse assistido aulas num Seminário, foi um homem bem instruindo em teologia,
história e literatura. Sabia bem o latim e o grego. Podia usar um comentário e apreciar as
Escrituras na língua original.
Seu estilo era claro e lógico. Os próprios sermões no-lo revelam. Mais tarde falaremos dele
e de sua capacidade de pregador. Tinha ele passado agora quatro anos numa escola pouco
inferior a qualquer outra para se desenvolver um verdadeiro pregador do Evangelho. Já tinha sido
experimentado quanto à sua sinceridade e consagração na causa do Mestre; já tinha passado
privações, penúria nas solidões, necessidades mil, e não desanimara; já tinha conhecimento dos
homens e dos seus problemas; já tinha completado o curso de estudos; já tinha tido contato com o
povo mais humilde e com o povo mais culto que habitavam seu Estado; enfim, tinha dons para ser
um grande pregador.
6. Seu casamento e voto a itinerância.
A Conferência que se realizou em 1º de outubro de 1845, na cidade de Columbia,
presidida pelo Bispo Soule, marcou uma nova época na história do metodismo no Estado de
Missouri. Nessa ocasião a Conferência tinha de decidir sobre a resolução tomada pela Conferência
Geral em 1844 a respeito da divisão da Igreja metodista Episcopal. Esta Conferência resolveu
identificar-se com a Igreja Metodista Episcopal do Sul e assim permanecer ligada a ela. Também
resolveu dividir a Conferência em duas: a nova Conferência a ser criada seria conhecida como
Conferência de São Luis.
Marvin tinha então vinte e um anos de idade. Tendo curso completo e sendo ordena do
presbítero, estava habilitado a julgar por si a sua atitude para com a separação da Igreja, aliandose com a Igreja Metodista Episcopal do Sul.
Foi neste ano de 1845 que se casou. Não deu este importante passo na sua vida sem
refletir bem sobre o assunto. Passou quatro anos na itinerância como solteiro e nesse tempo
nenhuma preocupação deu ao seu presbítero presidente, na sua relação com a sociedade. Sabia
proceder dignamente. Quando tornou-se bispo da igreja, contou a um amigo como procedera na
época de namorado: “Quando me chegou o tempo em que julguei meu dever casar-me”, diz ele,
“aluguei um cavalo e um carrinho para visitar a moça com quem finalmente casei, a qual morava
em um sítio; pelo caminho senti que tinha muito amor para com ela, e quando cheguei à casa dela,
achei-a mil vezes mais bonita do que tinha imaginado”.
Depois de muitos anos de casado, faz ele a seguinte observação: “Quando vejo os
sacrifícios que ela tem feito pela causa de Cristo, considero-a mais e mais como um ser santo”.
Quando ficaram noivos, ele se ofereceu como pregador itinerante e ela o aceitou como tal,
“Pronta a ir para onde fossem mandados”. Casaram-se na casa do tio dela, perto de Bridgton,
condado de São Luiz, em 23 de setembro de 1845, tendo sido Rev. John Hogan o celebrante.
7. Nomeado como pastor da Estação de Honibal.
Depois de passar um ano no circuito de Weston, foi nomeado para a Estação de Honibal, o
que lhe foi uma distinção, porque até aqui tinha ficado um ano em cada circuito que tinha servido.
Esse cargo era considerado um dos mais difíceis na Conferência, devido a certos problemas que
existiam na igreja. Quando chegou em Honibal, estava endividado, pois tinha comprado um sítio
onde residia. Foi necessário vendê-lo e gastar o que sobrou para manter a famí lia.
Marvin, no princípio de sua vida de campo, não era um bom financista. A esposa então
tomou conta das despesas do lar. Não fosse ela uma mulher que sabia economizar, a experiência
de Marvin teria sido triste no ministério. Mais tarde criou mais juízo quanto a dinheiro e dívidas. O
conselho que dava depois aos jovens ministros era que fugissem das dívidas, porque pela
experiência própria podia falar com autoridade.
O seu pastorado em Honibal marcou época em sua vida. Até aqui crescido na estima do
povo e no desenvolvimento de seus dons e capacidades mentais e sociais.
8. Pastor de diversos circuitos.
O espaço não permite narrar todos os fatos que se deram com ele nos diversos circuitos
que serviu durante cinco anos, entre 1848 e 1853. Passou dois anos no circuito de Moticello e mais
três em outros cargos.
É digno de notar que não se queixou quando foi removido de uma estação para um
circuito; aceitava sempre a nomeação e onde quer que servisse prestava ótimo trabalho. Gostava
da polêmica, mesmo quando moço. Todavia não polemizava sem fortes razões, visando sempre a
defesa da verdade; e isso mesmo quando não havia outros para o fazer. Aconteceu que no último
ano que passou no seu circuito de Moticello um incidente nos mostra a sua coragem e tática.
Foi o seguinte: Havia um pregador da seita chamada Campbellitas que perturbava o
espírito de muitos crentes com as doutrinas que pregava. Para combatê -lo Marvin se apresentou
na arena. O Rev. W. W. McMurray assim descreve a luta: “Em 1848 e 1849, o Sr. Enoch. M.
Marvin foi nomeado para o circuito de Moticello, Conferência de Missouri. Entre muitas
reminiscências daqueles dois anos, tenho colecionado dos paroquianos mais antigos que ainda
estão vivos e de alguns que há pouco faleceram, o seguinte que se deu, talvez em 1840, na cidade
de Moticello.
O presbítero D. P. H., homem eminente e bem sucedido na “reforma corrente” de então,
visitou a Moticello e dirigiu uma série de conferências por alguns dias. Ele era um homem no vigor
da vida e não havia ninguém que pudesse apresentar com tanta destreza e bom êxito as idéias
que advogava. Muitas pessoas se aliaram a ele e à sua causa; alguns crentes de outras igrejas
passaram para a sua igreja, e havia mesmo certa mania, entre os membros das igrejas, de se
transferirem de igreja. O orador fazia um esforço especial para conseguir isso, dando bastante
ênfase ao apelo: “Venham unir-se conosco sobre a Bíblia; lançai fora os vossos credos humanos;
vamos ser um etc., etc.”.
Tudo isto deu resultado. O povo estava excitado, o jovem Marvin, agora no oitavo ano de
seu ministério, tinha observado tudo isso e concluiu que faria um esforço para acabar com isso,
pois viu que algumas pessoas estavam sendo iludidas, enganadas. As conferências estavam
sendo realizadas no palácio de justiça.
Era uma noite, a casa estava repleta de gente, e o texto era o mais apropriado possível. –
Ef. 4:5 – “Um senhor, uma fé e um batismo”. O orador terminou o seu discurso com bom êxito e a
idéia que “devíamos nos unir sobre a Bíblia e não sobre qualquer credo” e “Todos podiam ficar
nesta plataforma; todos não podiam ficar num credo”. O povo foi convidado a unir -se sobre este
princípio, dando um aperto de mão ao pregador. Logo que a congregação ficou de pé e começou a
cantar, Marvin veio para a frente e deu a sua mão ao pastor. Havia uma irmã entusiasta que bateu
palmas e gritou: “Ganhamos o pregador, ganhamos o pregador”. Cessando o cântico, o orador
perguntou:
- “É sincero o senhor?”
- “Nunca fui mais sincero em toda a minha vida” - Marvin respondeu.
- “Acredita o senhor que Jesus é filho de Deus?” – continuou o orador.
- “Se acredito ou não acredito? Respondeu Marvin.
- “Bem”, disse o orador, “nós exigimos uma resposta positiva a esta pergunta antes de
batizarmos alguém”.
- “Não vim aqui para ser batizado nem para engolir um credo”, disse Marvin; “vim para unirme com o senhor sobre a Bíblia, e a primeira coisa que encontro é um credo; e agora o senhor
está fazendo questão de batismo, quando este no meu caso já foi administrado”.
Só pela imaginação se pode descrever o efeito que estas palavras causaram sobre a
congregação. A série ia terminar naquela noite, como de fato se deu; mas não antes de que Marvin
anunciasse ao povo e ao orador que ia analisar e responder ao seu discurso e convidá-lo a assistir
a discussão. O orador disse que o faria se fosse com ele a Palmira onde “seu irmão Lannis e irmã
Creoth moram, e onde podemos ter acesso à Biblioteca”.
- “Não”, disse Marvin, “estou para defender o Metodismo neste lugar; o irmão Lannis pode
defendê-lo lá. Foi ele aqui atacado e aqui deverá ser defendido”.
Depois de mais algumas palavras, encerrou-se a discussão e o Sr. D.P.H. deu por
terminada a série de conferências, indo-se embora no dia seguinte. Em seguida, por algumas
tardes, Marvin ventilou essas doutrinas da tal “reforma corrente”.
A posição de Marvin a respeito de seitas era o seguinte: “Nenhuma Igreja tem o direito de
existir, se não for a portadora de alguma coisa de valor. Tem de incorporar e conservar alguma
verdade, algum princípio, alguma coisa de grande interesse pelo qual nenhuma outra igreja
incorpora; do contrário, não tem razão de ser. Tem de ser comissionada com uma parte do
trabalho do Senhor que qualquer outra Igreja não está fazendo, e que qualquer outra não pode
fazer; de outra forma, a existência de tal Igreja é uma intrusão no meio dos outros”.
Seria bom mencionar aqui que desde 1845 Enoch Marvin sempre foi nomeado para pregar
por ocasião das Conferências. Ele foi eleito delegado diversas vezes à Conferência geral, mas
quase nunca tomou parte nas discussões nas sessões da Conferência, dando o seu tempo ao
trabalho das comissões.
9. Como agente do Colégio de São Carlos.
Tinha Marvin muito interesse no trabalho educativo da Igreja. Foi nomeado agente do
Colégio de São Carlos por dois anos em conexão com o seu trabalho de presbítero presidente.
Nesse trabalho foi tão bem sucedido que foi nomeado para fazê-lo exclusivamente. Finalmente o
elegeram presidente do Colégio, mas, depois de passar uma noite em claro e oração, chegou à
conclusão de que não devia aceitar tal incumbência.
A sua resposta foi: “Pode dizer aos irmãos que não posso deixar o meu trabalho pastoral,
ainda mesmo para tomar a presidência do país”.
Era pregador e não professor; não queria frustrar os planos de Deus para consigo. Quando
recusou a presidência do Colégio, já tinha sido e ainda era o agente do mesmo Colégio, e por seis
anos continuou a ser até que a guerra civil o obrigou a ir para o Sul.
10. Como pastor na cidade de São Luis.
Em 1855, Marvin foi transferido da Conferência de Missouri para a Conferência de São
Luiz e nomeado pastor da “Igreja do Centenário” (Centenary Church). Sentiu muito deixar a sua
Conferência e seus irmãos, porém encontrou novos irmãos e alguns amigos antigos no seu novo
campo de trabalho.
A Igreja do Centenário o recebeu de braços abertos e o primeiro culto realizado pelo novo
pastor foi bem concorrido. O povo gostou tanto do sermão que teve o desejo de ouvi-lo outra vez.
Não passou muito tempo e os advogados, doutores, etc., ouviram que havia um pregador na Igreja
do Centenário e começaram a freqüentar os cultos. Assim, no correr de pouco tempo, aumentou a
assistência à Igreja e o Metodismo tomou um novo impulso na nova cidade de São Luiz. Aliás, é o
que se esperava, pois Marvin pugnou sempre pelo Metodismo unido, na grande e florescente
cidade de São Luiz. Seu presbítero presidente, Wesley Browning, e outros pastores na cidade
cooperavam uns com os outros no trabalho na cidade. Para melhor coordenar as suas forças
resolveram organizar uma União dos Pastores Metodistas, efetuando reuniões todas as segundasfeiras. Nessas ocasiões apresentavam-se relatórios sobre diversos ramos das atividades
promovidas pelas igrejas. As igrejas mais fortes ajudavam as mais fracas, ficando assim
estabelecido o conexionalismo do sistema metodista, cujo progresso foi intensificado.
Marvin tinha muito interesse nos jovens pastores, e sempre lhes teve uma palavra de
animação e conforto. Um deles, o Sr. G.W. Hom, nesse sentido, dá o seguinte tes temunho: “Nunca
me esquecerei de como, no encerramento da Conferência em 1860, na cidade de São Luiz,
quando recebemos as nomeações, ele me deu um abraço apertado e me animou para prosseguir
no meu trabalho; nem me hei de esquecer de como, durante muito tempo depois, ele me
encorajava com palavras de carinho”.
Não somente havia um espírito de cooperação entre os pastores, mas havia um
despertamento espiritual entre o povo. Marvin, sendo um bom pregador e evangelista, sempre
ajudava, nas diversas igrejas, a promover séries de conferências. O povo afluía às igrejas em tão
grande número que freqüentes vezes não havia lugar para acomodá-lo, e muitas almas se
convertiam.
Martin sempre deu muita importância às escolas dominicais. Visitava o seu rebanho,
especialmente os doentes e pobres. Sabia trabalhar com a sua junta de ecônomos e outros oficiais
da igreja.
Quando residia na cidade de São Luiz, teve uma polêmica com um ministro católico
romano sobre as doutrinas romanistas. Os católicos romanos eram numerosos na cidade de São
Luiz e o padre era um homem culto. A polêmica se efetuou pelos jornais e despertou interesse não
somente na cidade de São Luiz, mas também em diversos estados do país. Ele soube manter a
polêmica num plano elevado e digno, resultando dali que o poder de Roma ficou prejudicado e
grandemente aumentado o prestígio dos evangélicos. Com a grande vitória na polêmica Marvin
ficou engrandecido perante o povo, tanto católicos romanos como de outras seitas. Foi por meio
dessa polêmica que descobriu que poderia escrever e tornou-se autor de várias obras.
A aparência de Marvin no púlpito não era nada fingida, porém natural; não tinha no púlpito
modos diferentes de qualquer outro lugar. O que atraía o povo era o poder espiritual que possuía e
a habilidade com que se dirigia ao povo por meio das suas palavras e fisionomia.
A narração de um incidente servirá para dar uma idéia acerca do seu modo no púlpito. Um
Metodista de Filadélfia, estranho na cidade de São Lui z, querendo assistir ao culto numa Igreja
Metodista, num domingo que passou na cidade, foi assisti-lo na Igreja do Centenário. Assim um
amigo descreve o que se passou: “Ele (o Metodista de Filadélfia) saiu no domingo de manhã para
encontrar uma Igreja Metodista, e mais tarde se achou assentado no fundo da Igreja do
Centenário. Logo Marvin entrou e foi andando pela ala da Igreja no seu modo peculiar desde os
dias da sua mocidade, e que conservou, mais ou menos, até o fim da vida. Trajava terno de roupa
ordinária e levava o seu chapéu pequeno na mão. O Metodista de Filadélfia julgava que se tinha
enganado, e teve vontade de ir embora; mas, logo que Marvin principiou a oração, sentiu-se sob a
inspiração do céu; e depois de ouvir o sermão sentiu-se de tal modo atraído que desejou
identificar-se com este povo para sempre”.
11. Seu trabalho como capelão durante a guerra civil
A guerra civil norte-americana rebentou em 1861 e em 1862 a nação toda estava
inflamada pela mesma que durou quatro anos. Não há luta pior do que uma guerra civil. Como o
Estado de Missouri se tivesse aliado com os Estados do Sul, o governo federal queria subjugá-lo,
Marvin já se tinha aliado com a Igreja Metodista Episcopal do Sul, aliou-se agora com o seu Estado
e lançou a sua sorte com o seu povo.
A Conferência que se realizou em outubro de 1861, na cidade de Asson Rock, não foi bem
assistida devido à confusão que a guerra tinha provocado. Marvin estava eleito delegado à
Conferência Geral e também não queria ficar preso e submeter-se ao juramento que os nortistas
exigiram dele. Ir para a prisão não era nada, mas julgou que era vontade de Deus ir e participar.
Havia bastante perigo para ele em fazer a viagem, atravessando as linhas do inimigo; mas, estava
pronto a enfrentá-la.
Depois de muitas peripécias chegou no território dominado pelos sulistas onde principiou o
seu ministério no exército como capelão. Devido à guerra a Conferência Geral não se realizou em
1862 e Marvin, não podendo voltar para o seio da família, ofereceu seu serviço ao general Price
como capelão dos soldados. Foi bem recebido e ele não somente fazia o serviço de capelão entre
os soldados, mas interessava-se em providenciar a obtenção de pregadores para o serviço de
capelães no exército.
Seria uma história bem longa se falássemos minuciosamente sobre suas atividades
durante essa prisão de quase quatro anos. Basta dizer que ministrava pessoalmente aos soldados
e promovia séries de conferências de avivamento entre eles, havendo muitas conversões.
Em março de 1865 uma petição foi mandada ao presidente Lincoln solicitando permissão
para a esposa de Marvin passar às linhas do ex ército de modo que ela e seus filhinhos pudessem
se reunir com ele. O pedido foi atendido. Assim, depois de três anos de separação, juntaram-se de
novo. Foi um dia feliz para todos.
12. Seu ministério no Estado de Texas.
Em 1865, havendo uma vaga em uma das Igrejas em Morchal, Texas, pelo falecimento do
seu pastor, Marvin foi convidado para tomar conta da igreja até à Conferência Anual. Ele continuou
aqui até ao fim da guerra.
Quando terminou o conflito, o povo do sul se achava em apuros, os escravos libertados, as
propriedades estragadas, sem dinheiro e sem crédito, e sem escolas. Foi nesta época que Marvin
foi bastante tentado a abandonar o ministério. Não tinha senão a mulher e os filhos. A guerra tinha
levado tudo o que possuía e o povo em geral não tinha recursos; o ordenado do pastor não podia
ser grande coisa. Foi exatamente nessa ocasião que lhe veio grande tentação.
Havia um grupo de homens que queria organizar um jornal e pediu a Marvin para ser o
redator, oferecendo-lhe um ordenado bom. Ele considerou cuidadosamente a proposta. Sua família
estaria garantida com sustento digno, mas tal empreendimento o desviava do rumo que tinha
escolhido e em que estava entretido o seu coração. Um ou dois domingos depois, quando estava
pregando, sua fé reviveu, e um relâmpago de triunfo passou pelo seu rosto e ele exclamou:
“Irmãos, está resolvido o que vou fazer. Enquanto Deus me der roupa simples e polenta para mim
e os meus, pregarei o Evangelho”. Assim venceu a tentação.

V – SEU TRABALHO COMO BISPO
A Conferência Geral não podendo ser realizada em 1862 devido a guerra, realizou-se na
cidade de Nova Orleans em maio de 1866. Como a Conferência de São Luiz houvesse perdido
diversos membros durante o conflito, ou por terem morrido, ou por terem fugido ou saído do Estado
como o próprio Marvin, os nomes de alguns desapareceram do rol da Conferência irregularmente,
e entre estes nomes o de Marvin; por isso, ele não foi eleito delegado à Conferência Geral.
A Conferência Geral inaugurou-se no lugar e hora determinados. Tinha passado oito anos
sem haver uma sessão e havia, portanto, muitas questões e problemas a serem resolvidos. Um
deles era a eleição de Bispos. A Comissão Episcopal recomendou que seis fossem eleitos, porém
a Conferência aprovou a eleição de quatro somente.
1. Eleito o Bispo em 1866
A eleição dos bispos deu -se no vigésimo dia da Conferência. Na primeira votação Marvin
foi eleito. Como não era membro da Conferência nem se achava presente mandaram diversos
telegramas para diversos lugares afim de que ele viesse para ser ordenado. Aconteceu que Marvin
resolveu visitar a Conferência a fim de encontrar alguns dos seus amigos e apreciar o trabalho da
Conferência. É notável que alguns deleg ados, antes de chegarem a Nova Orleans, sonharam com
Marvin, como um homem em quem deviam votar para Bispo.
No dia em que foi eleito, ele chegou à noite em Nova Orleans sem saber que tinha sido
eleito. Quando soube, levou um susto, e, entrando na casa onde estava hospedado, deitou -se na
cama, porque o choque foi grande. Não sabia se devia aceitar a incumbência ou não, mas, depois
de conversas com alguns dos seus amigos mais íntimos e refletir e orar, anuiu. Foi ordenado logo
depois. Mas a roupa que tinha era muito velha e gasta e a barba e cabelos estavam crescidos. A
sua aparência não era muito simpática. Os irmãos e amigos arranjaram fundos para comprar-lhe
um novo terno de roupa, porém Marvin não consentiu em fazer a barba e cortar o cabelo, porque,
disse ele: “Os irmãos me elegeram com a minha barba e cabelo compridos, agora têm de me
agüentar com eles”.
O Bispo Wrightman lhe perguntou: “Onde se graduou o senhor?” A resposta foi lacônica:
“Em lugar nenhum”.
2. Suas idéias acerca do episcopado
A posição do Bispo Marvin sobre o episcopado era a mesma que o Bispo Soule tomou
quando se identificou com a Igreja Metodista Episcopal do Sul. Depois de narrar os fatos históricos
no desenvolvimento do episcopado ele dá a sua interpretação da função do Episcopado na política
da Igreja. É o seguinte:
“Assim a história deste ofício mostra que não é uma criatura da Conferência Geral de
modo nenhum, mas que tem a sua origem de outra fonte. A lei escrita indica que seja uma parte
integral do organismo da Igreja. Sua origem e função são guardados zelosamente pelas Regras de
Restrições. Tanto pela lei escrita como pela prática é fundamental e organicamente uma parte da
Igreja. Os Bispos, portanto, não são meramente oficiais da Conferência Geral, mas um ramo
coordenado com o governo da Conferência. Eles são a cabeça do departamento executivo da
Igreja. As funções do seu ofício, como são definidos pela lei, o mostram claramente.”
“O fato de sua ordenação solene, junto com o caráter de votos que deles, se exigem
inconsistente com a hipótese que são meramente oficiais que podem ser removidos à vontade.
Não se pode pensar que o agente de Publicações ou o secretário de Missões sejam ordenados e
que assumam votos de ordenação, como condição de assumir as obrigações do seu ofí cio.”
“Que o mandato de seu ofício não está exclusivamente no poder da Conferência Geral,
prova-se pelo fato de que a forma de julgamento dos Bispos faz parte da lei integral da Igreja. Eles
só podem ser depostos por processo formal, sendo culpados de um ato que seja julgado indigno
daquele que ocupa este importante ofício.”
“Os Bispos estão à testa da admiração executiva da Igreja; mas não são meramente
oficiais executivos. Tem a função de pastores, o cuidado de todas as Igrejas. Eles têm que
promover por meios lícitos a paz, a pureza e o crescimento da Igreja. Nas Conferências Anuais não
são meramente oficiais que presidem, com o poder de nomear todos os pastores; mas são
realmente pastores, cujo dever é promover todos os interesses da religião segundo a sabedoria
que possuam. Sua autoridade executiva é grande. Neles estão depositadas as forças tremendas
que concorrem para conservar todo o mecanismo do sistema itinerante. O órgão de tais forças
deve ser bem colocado. Não pode ser eficiente ocupando um lugar secundário. Tem que estar no
coração da organização, e fixado numa base estável. Sem dúvida os poderes do órgão têm que
ser limitados e regulados também, como são pelas leis da Igreja. ”
“Os corpos legislativos precisam, também, de restrições. É perigoso para qualquer corpo
ter plenos poderes sem quaisquer restrições. Não há nada mais comum do que legislação
apressada e mal considerada sob excitamento. A distribuição dos poderes entre os órgãos
legislativo e executivo é sempre uma sábia medida. Nenhum deve ser sujeito ao outro. Cada qual
tem que ocupar uma posição orgânica na sociedade.”
“O Episcopado é integral na estrutura do Metodismo; não meramente um incidente. É um
dos órgãos da Igreja mesma, e não meramente da Conferência Geral.”
Examinando a idéia do Bispo Marvin sobre o Episcopado notamos que estava de acordo
com o Bispo Josué Soule. Esta posição tomada pelo Bispo Soule, quando a Igreja Metodista
Episcopal se dividiu, tem concorrido poderosamente para conservar as duas Igrejas separadas,
como se acham hoje em dia (este livro é publicado em 1929, anterior, portanto, à reunificação das
Igrejas Metodistas do Sul e do Norte). Há uma diferença fundamental sobre a interpretação da
função do Episcopado nas duas Igrejas.
2. Sua residência e como presidente da Conferência
Logo depois da sua eleição ao Episcopado levantou-se a questão de residência para o
Bispo e sua família. Tinha convites de seus amigos do Texas para fixar sua residência naquele
Estado, mas depois de refletir bem e ouvir o conselho dos seus colegas, resolveu fixá-la em São
Luiz, Estado de Missouri.
Como presidente da Conferência foi muito apreciado. Os irmãos apreciavam a sua
imparcialidade, firmeza e bondade como oficial executivo. Sua aparência, na ocasião em que foi
eleito Bispo, nota-se na fotografia que acompanha esta obra.
4. Seu trabalho entre os índios e no Estado de Texas
A primeira Conferência que presidiu depois de ser eleito Bispo foi a Missão aos índios. Por
falta de recursos a Missão estava ameaçada de desaparecer, mas o Bispo, não tendo fundos
apropriados pela Junta de Missões, resolveu assumir pessoalmente a responsabilidade de fornecer
cinco mil dólares durante o ano para conservar o trabalho da Missão. Custou-lhe algum sacrifício,
mas sustentou a sua palavra, e conserv ou o trabalho entre os índios.
Lodo depois da sua eleição ao Episcopado, passou alguns meses em Morchal, no Texas,
pregando na sua igreja e realizando séries de conferências. Muitas pessoas se converteram
durante este tempo.
Realizou as Conferências Anuais do Texas, viajando muito, pois as distâncias eram
grandes e as viagens se efetuavam em carros ou a cavalo. Ele era muito estimado no Texas.
5. Seu trabalho nas costas do Oceano Pacífico
O trabalho nas fronteiras norte-americanas, nas costas do Oceano Pacífico, por anos tinha
sofrido por falta de visitas episcopais. O Bispo Marvin, sendo um homem do oeste, foi nomeado
para zelar deste trabalho. Fez a viagem pelo mar atravessando o istmo do Panamá. Passou
dezoito meses fora do lar para fazer este serviço tão árduo, mas grandemente necessário nos
Estados da Califórnia e Oregon.
O espaço não nos permite dar os pormenores das suas visitas a cada distrito e quase a
todos os cargos pastorais. Muitas almas foram convertidas nas conferências que realizou. Fez o
trabalho apostólico. Não tem havido outro Bispo que como ele fizesse o serviço tão bem e com
tanto sacrifício pessoal, depois dos Bispos Asbury, McKendree e Soule.
Para dar uma idéia da maneira pela qual a Conferência foi realizada citamos o seguinte:
“Esta sessão (Vocaville, 6 a 12 de outubro de 1869) foi a mais agradável que jamais tivemos.
Harmonia perfeita reinou desde o princípio até o fim. Não houve nenhuma palavra áspera
proferida. O amor fraternal reinou triunfante”.
Eu me lembro do que disse meu professor no Seminário, o Dr. John Kem, acerca do Bispo
Marvin quando este lia as nomeações dos pregadores. Ele disse: “Os pastores não podiam se
queixar do Bispo, pois sentiam que, se fosse possível, ele mesmo teria aceito com satisfação
qualquer cargo da Conferência. Era o espírito em que fazia as nomeações e, também, o exemplo
que tinha dado na sua própria vida que alijava qualquer espírito de queixas”.
6. Seu trabalho nas costas do Oceano Atlântico
Em 1870, na primavera, ele assistiu a reunião da Junta de Missões realizada na cidade de
Baltimore, “o berço do Metodismo na América”, e a convite do Bispo McTyeire assistiu a
Conferência de Baltimore.
Esta foi a sua primeira visita pelo leste do país. Ficou encantado com o progresso da Igreja
e a bondade do povo. Visitou muitas igrejas pregando sempre com bom resultado em conversões
de almas. Visitou o general Roberts E. Lee, e fez um discurso literário perante um grêmio literário
da escola do general Lee.
Passou um mês de férias, mas não gostou de estar parado e passou a maior parte das
suas férias pregando ao povo. Foi o Rev. J.S. Gardner, pastor da Igreja de Harrisanbury, que o
convidou para passar um mês com ele para gozar as belezas dos panoramas nas montanhas de
Virgínia. Falando sobre esta visita, Marvin diz: “Desde domingo tenho pregado três vezes e fiz um
discurso ao ar livre. Estou me demorando neste vale e entre estas montanhas para descansar um
pouco preparando-me para a campanha que terá começo em Warrembury no último dia deste mês
e continuará durante o inverno. Esta foi a segunda vez que tinha sido tentado a descansar. Meu
descanso em Virgínia terá os mesmos resultados das férias do inverno do ano passado. Bem,
afinal, não acho que o serviço de pregar me prejudique, e tenho quase a mesma opinião do Dr.
Pierce, que o serviço de pregar constantemente concorre para conservar a saúde e a
longevidade”.
7. Seu trabalho nas montanhas do Oeste e no vale do rio Missouri.
Não será possível mencionar tudo que fez nas zonas das montanhas do Oeste e no vale
do Mississipi. Somente mencionarei o fato que o itinerário do Bispo Marvin foi muito extenso e que
os seus trabalhos foram múltiplos. Ele não deixou de pregar em toda parte por onde andava. Tinha
mensagem para os crentes e para os incrédulos.
O fato de ter sido eleito bispo, não prejudicou o seu ministério como evangelista. Ajudava
nas séries de conferências especiais, exortando e pregando como se fosse um pastor. Ele
começou a pregar com dezoito anos de idade e continuou durante toda a sua vida; nes te sentido
ele podia dizer como o apóstolo Paulo – “uma coisa faço, eu prego”.

VI – SUA VIAGEM AO REDOR DO MUNDO
Na ocasião da Conferência Geral que se realizou, na cidade de Lousville, no Estado de
Kentucky, em maio de 1874, a Conferência resolveu o seguinte: “Recomendamos: Que o Bispo
visite a Conferência do Pacífico durante o quatriênio; se for julgado oportuno pelo Colégio dos
Bispos, que também visite a nossa missão na China e ordene quaisquer pregadores nacionais que
forem recomendados pelas nossas várias missões naquele campo”.
Na reunião anual dos Bispos em 1876 o Bispo Marvin foi nomeado para cuidar do trabalho
nas Costas do Pacífico, e, portanto, nomeado para visitar a missão na China. Também foi
combinado que, depois de visitar a Missão da China, continuasse a sua viagem ao redor do
mundo, visitando outros campos missionários para fazer um estudo das condições das outras
partes do mundo. Ele considerou providencial esta viagem e não uma realização de um desejo
pessoal.
Terminando a sua visita e trabalho na Conferência do Pacífico, prosseguiu sua viagem
para a China. O Dr. E. R. Hendrix, então presidente de um colégio, e que mais tarde foi eleito
Bispo, foi convidado a ir com ele como seu secretário e companheiro de viagens.
O Bispo Marvin não procurou fazer essa viagem, mas uma vez que foi convidado e as
forças das circunstâncias concorreram para este fim, aceitou a incumbência. Esta visita às Missões
no estrangeiro despertou mais interesse no trabalho missionário em nossa Igreja.
O Bispo Marvin, antes de encetar essa viagem, apressou-se em publicar um livro, uma
série de sermões, pois não tinha muita esperança de poder fazer isto se não o fizesse então.
Também preparou um livro sobre a sua viagem com o título “Ao Oriente por meio do Ocidente”. (To
the East by the way fo West”). Dentro de seis meses depois de publicado, vinte mil exemplares
foram vendidos. A Igreja despertou-se tomando pelas Missões mais interesse que em qualquer
tempo atrás.
Na véspera de partir o Bispo Marvin assim descreve o seu sentimento acerca desta
viagem: “Esta viagem é uma pequena expedição de exploração e contempla um avanço da nossa
Igreja na obra missionária. Esperamos pela graça de Deus tomar uma posição avançada nesta
guerra de conquista, e fazer a nossa parte em coroar o nosso Redentor ressurgido e o Senhor de
todos.”
“Visto que não procurei este empreendimento, antes quis evitá-lo, contudo não resisti,
como não tenho recusado fazer qualquer serviço exigido de mim por minha Igreja. E tenho de
confessar que, depois de ser comissionado para fazê-lo, apesar de todos os incômodos de viagem
e uma ausência longa de casa, tenho grande satisfação em fazer este trabalho pelo meu Mestre. E
peço a Deus que seja o começo de uma nova época missionária na Igreja Metodista Episcopal do
Sul. Em fazê-lo, entrego-me ao cuidado de Deus e as orações do seu povo”.
Embarcaram no navio “Alaska”, em 1º de novembro de 1876, na cidade de São Francisco.
Fizeram boa viagem e chegaram no Japão mais renovados nas suas forças físicas pelo repouso
que tiveram na viagem pelo mar. O Bispo visitou o trabalho da Igreja Metodista Episcopal no
Japão. Nossa Igreja não tinha ainda principiado trabalho ali. O Bispo Marvin concordava com a
idéia de que o Dr. J. W. Lambuth fosse mandado para o Japão afim de fundar uma Missão naquele
país. Pregou diversas vezes em inglês no Japão e foi bem recebido pelos missionários Metodistas
que residiam naquela ilha.
Também ficou muito impressionado com o nosso trabalho na China, procurando conhecer
de perto os problemas da evangelização em todos os países, especialmente na China, onde nossa
Igreja tinha trabalho. Compreendeu muito bem as dificuldades que os missionários tinham que
enfrentar no Japão, na China ou na Índia. E a respeito da China disse: “A China há de voltar-se
para Deus”. Eu creio; quase o vejo”.
Deixando a China, passou pelos seguintes países: Ceilão, Índia, Egito, Palestina, Turquia,
Grécia; Itália, Suíça, França, Inglaterra, etc. Quando chegaram à Palestina, o Bispo Marvin sentiuse mais em casa, pois conhecia muito bem a geografia e a história da Palestina. Passou algum
tempo viajando pela terra santa.
Quando visitou o mar da Galiléia ficou impressionado, porque foi ali que o Mestre passara
a maior parte do seu ministério e chamou o maior número de apóstolos. Quando se ia retirando da
Galiléia, olhando para traz, disse: “Enquanto, montado no animal, olhei para o mar de Galiléia pela
última vez, a cena toda penetrou profundamente demais no meu coração, para jamais ser
esquecida. Estou certo que não desvanecerá. Virei a cabeça do meu cavalo e o deixei, ou, num
sentido mais acertado, eu o levei comigo, como uma possessão rica e eterna da alma”.
Também gostou muito de Atenas, na Grécia, e outras partes da Europa. Tomou muito
interesse na visita que fez à capela de Wesley em City Road, Londres, visitando os túmulos de
João Wesley, Adão Clarke, Benson e Buntiny, e, atravessando a rua, visitou o túmulo de Suzana
Wesley e de John Bunyan, o autor do livro “O Peregrino”, no cemitério de “Bunsfield Burrying
Gromwel”.
O Bispo Marvin foi o segundo Bispo Metodista que fez uma viagem ao redor do mundo.
Quando voltou para os Estados Unidos, todos queriam ter notícias da viagem que empreendera.
Um entusiasmo pelas missões passou pela Igreja, e o seu livro foi lido por milhares. Mas a alegria
da Igreja ficou obscurecida com a triste notícia que correu meses depois da sua volta: seu
falecimento.

VII – O FIM
A viagem que fez ao redor do mundo levou exatamente um ano; saiu de casa no dia 21 de
agosto de 1876, e chegou em casa no dia 21 de agosto de 1877. Quando a sua esposa o abraçou,
exclamou: “tinha receio que você chegasse ontem, e se tivesse chegado, teria prejudicado o ano”.
O Bispo Marvin, logo que chegou em casa, teve que preparar-se para realizar as suas
conferências. Encetou este trabalho no tempo marcado, mas adoeceu e faleceu no dia 26 de
novembro de 1877, cercado de sua família na cidade de São Luiz. O Bispo Marvin não gozava
saúde perfeita, sofria dos pulmões. Apanhou forte resfriado que passou à pneumonia e em poucos
dias faleceu.
Sua morte foi lamentada pela Igreja toda. Se tivesse vivido mais anos, sem dúvida teria
sido o apóstolo das Missões naquela época como o Bispo Lambuth o foi no seu tempo.
Ele era um homem santo e inteiramente consagrado a Deus. Como ele mesmo testificou,
se houvesse qualquer coisa na sua vida que não fosse consagrada a Deus, ele pedia a Deus que
lhe revelasse de modo que pudesse consagrá -lo também ao Senhor.
Parece-nos que não há homem algum que tenha grandes dons e capacidades que chegue
a completar a sua vida, pois sempre tem alguma coisa projetada para fazer. Assim se deu com o
Bispo Marvin, tem-se dado com outros, e assim com quase todos se há de dar no futuro.
Seu filho, escrevendo em carta particular, recordando o primeiro aniversário da morte do
pai, diz: “Tenho pensado nele por duas semanas. Recordo-me cada dia da sua doença. Os
gemidos involuntários que ouvia. Os olhos tristes e pacientes estão voltados para mim. Vejo o seu
rosto agonizante enquanto se esforça para respirar. Enfim as respirações tornam-se mais curtas e
a dor vai diminuindo, mas é porque sua vitalidade também está diminuindo. Não pode falar mais.
Não pode mover as mãos. Não pode mexer os lábios. Não pode revolver os olhos. Os intervalos
entre as respirações são mais prolongadas. As respirações são mais brandas... brandas... cessam.
E a morte, não esperada tão cedo, lança as sombras sobre o nosso lar”.
Em conclusão vamos citar algumas palavras de apreciação do Bispo McTyeire: “Ele
morreu no vigor dos seus dias, bem útil, muito conhecido e muito amado; e foi nessa ocasião que
foi removido. Vós exclamais: “A Providência Misteriosa! É alguma coisa para a Igreja ter uma
empresa tão clara das excelências cristãs e ministeriais, em que o ideal e a realidade se
aproximam um do outro – um retrato para ser pendurado no coração do povo. A velhice tem as
suas enfermidades, e às vezes os erros da última parte da vida prejudicam o que foi feito antes.
Pelos movimentos ligeiros e acertados o caminho é levantado, deixando-o impresso em linhas
claras sem borrões.”
Gostamos dos retratos dos nossos amigos tirados no tempo de saúde e vigor. Assim a
Igreja pensará do Bispo Marvin, e olhará para o padrão que ele levantou, muitos dias depois dos
dias do seu luto.
XI
A vida de Carlos Betts Galloway,
o Cavalheiro Cristão e Patriota
(1849-1909)
Há homens cuja influência é semelhante a uma tempestade ou a um terremoto, porque por
onde andam levam consigo a perturbação; mas também há pessoas cuja influência é semelhante à
chuva branda, ou ao orvalho que refresca, ou ainda como os raios de luz, numa atmosfera
balsâmica, que trazem alegria e saúde. Assim pode ser comparada a influência de Carlos B.
Galloway, pois, onde quer que andasse deixava a atmosfera impregnada de abnegação e
modéstia. Tão silenciosa era a sua influência para o bem que os seus próprios amigos mais
íntimos não apreciaram o seu valor senão quando foi arrebatado do meio deles. Não sabemos
apreciar o doce gorjear do passarinho senão quando nos abandona. Não podemos ler a vida deste
homem sem sentir o valor do cavalheirismo cristão e do patriotismo verdadeiro.

I – SEU NASCIMENTO E OS PRIMEIROS ANOS
1. Seus pais.
Seu pai, o Dr. Carlos Betts Galloway, era médico e bom cristão. Era descendente de
ingleses, escoceses e irlandeses; corria-lhe, portanto, nas veias o sangue representativo do Reino
Unido da Grã-bretanha. Era um descendente legítimo dos verdadeiros e primeiros imigrantes da
Inglaterra. Sua mãe, D. Adelaide Dickins, era também dessa massa, uma senhora piedosa e bem
educada.
2. Seu nascimento.
Carlos Betts Galloway nasceu a 1º de setembro de 1849, na pequena cidade de
Koscinskc, Estado de Mississipi. Era o segundo filho.
O lar em que nasceu constituía um ambiente cristão; assim, sob as influências benéficas
de pais piedosos, foi que passou a sua mocidade. A casa de seus pais era o lugar onde eram
hospedados não somente os pregadores Metodistas, mas também os pastores Batistas, visto que
sua mãe era da Igreja Batista. Além dos batistas e metodistas havia visitas de pessoas distintas na
política.
Devemos lembrar que durante a sua mocidade o país estava muito preocupado com
questões de magna importância, como a luta pelo fim da escravidão, que levou o país a uma
guerra civil que durou quatro anos. Estas questões eram discutidas no lar junto com as questões
religiosas. Foi neste meio que se lhe desenvolveram o espírito patriótico e o religioso. Igualmente
tudo isto concorreu para desenvolver nele um espírito liberal e justiceiro; pois havia correntes fortes
e divergentes que preocupavam o pensamento do povo naquela época. Havia no lar jogos
inocentes de que ele participava durante as noites de inverno ao redor da lareira. A religião ali era
ensinada com os exemplos que acompanhavam os preceitos, muito especialmente por parte dos
pais.
3. Seus primeiros estudos.
O menino Carlos não era considerado extraordinariamente inteligente. Forte, robusto,
inteligente e bom, mas não era de assombrar. Um dos seus colegas diz dele o seguinte: “era um
favorito tanto para com os seus colegas como para com os seus professores. Era um atleta; não
havia entre os seus amigos qualquer que pudesse vencê -lo em corrida, pulos, lutas e natação.”
Carlos sempre foi um bom menino, de moral excelente, consciencioso. Cumpria fielmente
os seus deveres. Aprendia com facilidade, especialmente o latim e o grego. Na escola, nunca
tivera um ponto contra o seu procedimento. Gostava de brincar, porém todas as suas brincadeiras
eram inocentes. Amava extremosamente os membros de sua família, e era igualmente amado. Foi
alvo de muita consideração pelos seus avós.
Ele mesmo, por ocasião do seu qüinquagésimo aniversário, disse acerca da sua vida
escolar: “A primeira escola que freqüentei, quando tinha seis anos de idade, era dirigida pelo Dr.
Mitchell em sua residência. Também a “Academia” dirigida pelos professores Eads, Hoffman,
Groves, Boyd, Lindsey e Farrish que foram meus mestres, e que às vezes poupavam a vara, são
lembrados com muita estima. Foi nesta época que desenvolvi o meu físico e recebi as prime iras
inspirações para ser alguma coisa na minha vida.”
“Quão vivas me são as cenas da guerra civil. Como um rapaz de onze anos, amolei um
facão na forma de uma baioneta com firme propósito de destruir qualquer Yankee que penetrasse
no seio do meu Estado de Mississipi”.
Por estes trechos temos uma idéia de como passou os seus primeiros anos. Estamos
vendo como as preocupações de seu tempo mexeram com suas qualidades intelectuais e morais,
que eram marcas do seu caráter.
Apesar da sua declaração de partir em pedaços o primeiro Yankee que entrasse nos
limites do seu Estado, o Estado de Mississipi foi cenário de muitas batalhas durante a revolução. A
vida doméstica de seu pai foi muito perturbada. Por causa da desordem provocada pela guerra a
família teve de mudar-se de Koscinskc para Canton. Esta mudança interrompeu os estudos de
Carlos com o seu querido professor, o Rev. Dr. J. R. Farrish, missionário da Igreja Batista. Mas na
cidade de Canton encontrou uma escola boa para meninos, e logo se matriculou nela, continuando
assim os seus estudos.

II – SEUS ESTUDOS NA UNIVERSIDADE
Devemos lembrar que após a guerra civil a situação dos Estados do Sul que perderam na
luta, era péssima. Tudo estava desorganizado e não havia recursos disponíveis para reabilitar as
instituições prejudicadas e destruídas. As instituições educacionais estavam, portanto, quase
aniquiladas. Mas os ministros religiosos e educadores, reconhecendo o valor da educação das
gerações futuras, uniram as suas forças e com grandes sacrifícios e a bnegação entraram logo no
campo educativo. A Universidade de Mississipi, situada na cidade de Jackson, foi o centro
educativo dos moços daquela época, e os professores cristãos, como o Rev. Dr. W. Jones,
compunham a faculdade desta Universidade.
1. Como estudante na Universidade.
Na Universidade de Mississipi, o jovem Carlos B. Galloway, que tinha perto de dezesseis
anos de idade, matriculou-se numa classe de vinte e quatro rapazes, dezesseis dos quais tinham
sido soldados na guerra civil. Carlos era o mais moço de todos. Mas, nem por isso, deixou de ser
um dos melhores alunos e estudantes da sua classe.
O Rev. Dr. C. W. Crafton, D. D., um dos membros distintos da sua classe, falando sobre as
suas impressões acerca dos seus colegas, disse: “Paciência e perseverança eram as qualidades
desenvolvidas no caráter daqueles jovens que estavam em treinamento para o futuro. Distinção se
via na aplicação constante, longa e silenciosa, prolongada através dos meses e anos escolares.
Havia poucas possibilidades de um rapaz exceder a outro, pois estavam bem preparados com os
seus dons naturais. Mas Galloway era o primeiro de sua classe e não deixou de acompanhar os
seus colegas em álgebra, geometria, clássicos: Tito Lívio, Juvenal, Homero, Ésquilo; em química,
filosofia e astronomia. Nós o reconhecemos como um dos mais fiéis de todos os membros de
nossa classe. Quando chamavam o rol, sempre respondia: “Presente”, e quando recitava, nunca
se ouvia dizer: “Não estou preparado”. Não me recordo de tê-lo visto fazer um fiasco sequer nas
aulas.”
“Na Sociedade Literária Phi Sigma sempre tomava parte saliente, e nunca recusava
cumprir seus deveres e responsabilidades. Foi neste meio que formou as qualidades que o
caracterizavam em sua vida posterior. Era constante no cumprimento de seus vários deveres,
consciencioso em cumprir suas obrigações, consistente, Cortez e correto em sua conversação
durante toda sua vida escolar.”
“Ele era atrativo, revelando bom senso, e sabia aproveitar as suas oportunidades. Mais do
que qualquer outro sabia ser útil em todas as manifestações do seu conhecimento”.
2. Sua conversão e chamada para o ministério.
Um outro membro da sua classe, Eduardo Mayes, que posteriormente foi um juiz de direito
e reitor da Universidade de Mississipi, escreve acerca da vida de Carlos B. Galloway como
estudante: “No outono de 1866 ele se matriculou no 2º ano da Universidade de Mississipi, e tirou o
seu diploma de Bacharel em Artes em junho de 1868, com a idade de dezoito anos, com distinção,
ocupando o quinto lugar de uma classe grande e de capacidade excepcional. Havia na
Universidade nesta época séries de conferências religiosas que concorreram para influir
poderosamente sobre a vida religiosa de Carlos Galloway. O chanceler era o Dr. John N. Waddel,
um distinto pregador presbiteriano. Os colégios denominacionais e religiosos naquele tempo não
tinham sido organizados e diversos dos estudantes eram candidatos ao ministério, e foi entre tais
alunos que Galloway formara a sua amizade. Em 1867 houve uma série de conferências religiosas
promovida pelas denominações na cidade de Oxford, em que os professores e os alunos tomaram
parte. Diversos alunos se converteram, entre os quais Carlos Galloway, que mais tarde fez sua
profissão de fé na Igreja Metodista em Canton, sendo o Rev. C. G. Andrews, o pastor do cargo, e
assim começou a sua longa e incansável vida piedosa, que foi o seu destino feliz.”
“Ensinava na Escola Dominical; tomava parte ativa nos cultos de oração entre os alunos,
que se realizavam nos domingos de tarde, e completou o seu curso com o firme propósito de
seguir o ministério”.
Sua esposa Haniett E. Willis, anos depois, assim narra esses mesmos fatos quando era
noiva: “Meu marido se converteu num culto de oração promovido pelos estudantes, no quarto de
Calvino Wells, que era um deles na Universidade de Mississipi. Logo depois foi a Canton e fez a
sua profissão de fé na Igreja Metodista, de que seu amigo, o Dr. C. G. Andrews, era o pastor.”
“Logo depois de se decidir a entrar para o ministério, ele escreveu pa mim comunicando a
sua decisão. Fomos noivos desde a idade de treze e quatorze anos, porém não tinha sonhado em
me casar com um pregador. Depois de passar uma noite chorando, cheguei à decisão de que não
tenho arrependido de tê-lo tomado. Resolvi fazer tudo que fosse do meu alcance para garantir a
sua vitória no ministério, para ser uma ajudadora e não um empecilho”.
Assim quando Carlos completou os seus estudos tinha chegado a uma decisão quanto à
sua vocação e estava pronto para entrar na sua carreira ministerial bem aparelhado para enfrentar
as múltiplas dificuldades que tal carreira apresenta.
Quando apareceu perante o grande auditório no dia da formatura da sua classe, era um
homem esbelto, inteligente e disciplinado com preparo que garantia triunfo nos seus
empreendimentos.
Seus colegas e professores estavam convictos de que um futuro brilhante o aguardava. No
dia da sua formatura um dos seus professores, o Sr. L. Q. C. Lamar, disse: “Carlos, outros como
eu, estão contentes em saber que vai entrar no ministério, porque alguns entre nós gostariam de
ser os representantes no Congresso deste distrito”. Queria dizer com estas palavras que tinha um
disputante de menos para o lugar.
Ele era um patriota fervoroso, porém, primeiro e acima de tudo, era um cristão e queria
consagrar os seus dons ao santo ministério. Uma vez entrando no ministério não cogitaria de outra
coisa senão cumprir fielmente a sua missão, consagrando todo o seu tempo, talento e dons ao seu
Senhor e Salvador, Jesus Cristo.

III – SEU TRABALHO NA ITINERÂNCIA
Depois de completar o seu curso na Universidade, Carlos B. Galloway voltou em 1868,
para sua casa, em Canton, onde foi licenciado como pregador local. Como tencionava entrar na
itinerância, foi recomendado para admissão em experiência na Conferência Anual de Mississipi.
Como faltava alguns meses para a reunião da Conferência Anual, aceitou um convite feito pelo
Rev. L. C. Hunnicutt para ensinar no Colégio de Sharon. Seu primeiro sermão que pregou depois
de ser licenciado foi pronunciado na cidade de Sharon.
1. Seu trabalho pastoral em Sharon.
Quando a Conferência Anual se realizou em Vicksburg, em novembro de 1868, Carlos B.
Galloway foi nomeado pastor ajudante do Sr. L. C. Hunnicutt, no cargo de Sharon e Colored
Charge. O Dr. Hunnicutt era ainda o presidente do Sharon College. Competia ao jovem Galloway
fazer quase todo o serviço pastoral.
Aconteceu, porém, que um dos professores do Sharon College faleceu logo no princípio do
ano, tendo assim que arcar com dois cargos : ensinava no colégio e pregava tanto aos negros e
aos brancos nos dois cargos pastorais que ocupava, ou seja, em Sharon e Colored Charge.
O ordenado durante o ano era de 2:400$000. Mas não se queixava, pois queria fazer a sua
parte para enfrentar as dificuldades criadas pela terrível guerra civil. Em 1º de setembro de 1869
casou-se com Miss Haniett E. Willis, na cidade de Vixhburg. Seu casamento se deu no seu
vigésimo aniversário de nascimento, voltando logo depois com a esposa para o seu campo de
trabalho. É interessante ouvir o que um amigo escreve da primeira viagem que Haniett fez
acompanhando o marido pelo campo de trabalho.
“A jovem esposa”, diz ele, “não conhecendo a vida de um itinerante, tornou-se motivo de
muito divertimento para o seu marido na primeira viag em que fizeram pelo circuito depois de seu
casamento. Visitaram uma igreja na roça, num dia frio, e a igreja não estava bem aquecida, pois só
havia um fogão (lareira) muito pequeno. O dia, um domingo de outubro, era um dia de ventos, e ela
tremia de frio durante a hora do culto. Aceitaram um convite para jantar em casa de um crente
novo, e indo para casa deste irmão, o hospedeiro, referindo-se ao estado espiritual da igreja, disse:
“Irmão Galloway, a frieza em nossa igreja é uma coisa terrível”, a cuja obse rvação a noiva
respondeu antes mesmo do seu marido, dizendo: “Sim, notei que a igreja estava bastante fria hoje.
Não julga o senhor que se tivesse mais um fogão ficaria mais quente?”
2. Seu trabalho pastoral no circuito de Black Hawk.
A sessão da Conferência Anual de Mississipi realizou-se em Jackson, aos 8 de dezembro
de 1860. Nessa ocasião Galloway foi ordenado diácono pelo Bispo H. M. McTyeire, e nomeado
para o circuito de Black Hawk. Nos princípios de janeiro de 1870 ele e sua esposa foram para o
seu novo campo de trabalho.
Fazia frio quando chegaram e a viagem na carroça foi muito penosa. Mas foram bem
recebidos pelo povo e foi durante este ano que a esposa se mostrou fiel ao trabalho do marido
suportando todos os incômodos com paciência e resignação .
Encontraram neste circuito amigos bons e fiéis, cujas amizades duraram toda a vida. O
jovem pastor dedicou-se ao trabalho e tornou-se um pastor modelo. Sempre preparava bem os
seus sermões e visitava de casa em casa, mostrando-se social e amigo do povo. Durante o ano
um professor de uma escola florescente pediu a sua demissão e Galloway foi convidado a
substituí-lo até o fim do ano escolar.
No seu pastorado neste circuito se manifestaram três coisas que o caracterizaram dali em
diante em todos os cargos pastorais que serviu, a saber: encanto social, fidelidade pastoral, e
poder no púlpito.
3. Seu trabalho pastoral em outros cargos.
Na ocasião da Conferência Anual que se realizou em Cristal Springs, em dezembro de
1870, Galloway foi nomeado para Port G ibson Station. Era uma grande promoção ser nomeado
para uma grande estação antes de ser ordenado presbítero. Isto significava a capacidade que
tinha e o dom pastoral que o qualificava.
No ano seguinte foi nomeado para o cargo de South Warren, porém não ficou ali muito
tempo, pois havia necessidade de suprir uma vaga e ele foi mandado para tomar conta do cargo
de Yazoo City Station, onde tinha sido pastor o Dr. L. C. Hunnicutt, um homem de grande talento e
muito querido pelo povo. O lugar era bastante difícil para um jovem pregador de vinte e dois anos
de idade. Quando chegou para tomar conta da igreja, encontrou o povo bastante contrariado com a
mudança e no primeiro domingo que passou com a nova igreja, um irmão idoso o cumprimentou e
disse: “Meu caro jovem, não tenho nada pessoalmente contra o senhor; mas, se pudesse fazer a
minha própria vontade neste negócio, trancaria a porta da igreja e o senhor não pregaria nela”.
Carlos ficou muito humilhado ao ouvir estas palavras duras, porém respondeu sem
mostrar-se ofendido, dizendo: “Bem, eu não quis vir para cá mais do que o senhor queria que eu
viesse; mas julgo que teremos de suportar um ao outro do melhor modo possível”.
Assim o Bispo Candler descreve o jovem pregador nesta situação: “Nestas circunstâncias
veio o jovem pregador com vinte e dois anos de idade à Igreja de Yazoo City, do circuito de South
Warren. Ele era quase um espécime perfeito de beleza varonil: alto, delgado, rosto liso, gracioso
na forma e com olhos cintilantes como os de águia. Pela sua natureza genial, hábitos estudiosos,
diligência conscienciosa e espírito devoto, em pouco tempo ganhou a confiança e o respeito, não
somente do povo da igreja, mas também da comunidade toda, incluindo os membros de outras
igrejas”.
Quando findou o ano e estava na véspera de assistir à Conferência, o mesmo irmão idoso
que lhe queria fechar as portas da igreja, veio falar-lhe dizendo: “Meu jovem irmão, vai agora
assistir à Conferência. Mas o irmão voltará para cá. Nós queremos o irmão e vamos tê -lo. De fato,
foi mandado para o mesmo cargo, e ficou ali até 1873.
Quando partiu, era considerado um dos pregadores mais queridos que tinha servido
àquela igreja. Pela humildade e bondade converteu a sua derrota em uma grande vitória. E que
teria sido a sua experiência neste cargo se não tivesse agido como agiu?
Em fins de 1873, foi mandado para Jackson, capital do Estado. Imagine um jovem com
vinte e cinco anos de idade, ser mandado para um cargo de tanta responsabilidade! Mas ele ficou
quatro anos ali e poderia ter ficado muito mais se a lei da igreja o tivesse permitido. Em 1877 foi
nomeado para a cidade de Vichsburg. Não somente o povo e a sua igreja, mas também os crentes
de outras igrejas, lamentaram a sua retirada.
4. Seu trabalho pastoral em Vichsburg.
Carlos B. Galloway tomou posse da igreja em Vichsburg, oito dias depois da Conferência
Anual. O nome da igreja era “the Cranford Street Metodist Church”. Era uma das melhores igrejas
em toda a Conferência de Mississipi. A recepção de que foi alvo diferenciou-se muito daquela que
lhe fora feita quando foi tomar conta da igreja em Yazoo City.
Galloway já tinha dado provas de sua capacidade e habilidade de pastor e era conhecido
em toda a Conferência como um homem de grande capacidade. Tomava parte nas diversas
comissões na Conferência e as suas observações nas sessões da Conferência eram bem
acolhidas. Isso tinha contribuído para aumentar sua popularidade, não somente nos limites da sua
própria Conferência, mas também na igreja em geral. Quando, pois, chegou em Vichsburg,
receberam-no de braços abertos. O povo não ficou desapontado com o seu novo pastor, pois as
mesmas qualidades que tinha revelado em outros lugares também as manifestou na administração
como pastor nesta igreja histórica.
O seguinte incidente revela o espírito bondoso e cristão de Galloway. Um certo moço tinha
participado de algumas diversões mundanas, e alguns membros zelosos do Crawford Church
queriam que ele fosse processado. O pastor suavemente perguntou se alguém tinha procurado
desviar o rapaz do caminho errado. Quando responderam que não, o irmão Galloway pediu que
deixassem o caso nas suas mãos. No dia seguinte, logo depois do café, saiu a procurar o moço
desviado. Indo à cidade e encontrando o referido moço, falou com ele diversas coisas, menos as
coisas que desejava tratar.
Antes de se separarem, o pastor casualmente disse: “L. não tenho visto o senhor na igreja
desde que voltou”. O moço replicou secamente: “Não, Sr. Galloway, eu não tenho mais prazer em
tais coisas”. O Sr. Galloway reconheceu que um argumento naquela hora não sortiria efeito; por
isso, apertando-lhe a mão, despediu-se. No dia seguinte Galloway encontrou-se com o mesmo
moço e andou com ele, e assim se deu no dia seguinte, que era quarta-feira. Desta vez, quando o
pastor bondoso se despediu do rapaz, disse: “L. não temos tido bom cântico de hinos em nossa
reunião de oração, e a razão é que o povo não tem hinários. Gostaria que o senhor nos ajudasse
um pouco. O senhor poderia ir hoje, à noite, tomar os livros, e quando o povo vier entrando à
igreja, irá dando um hinário a cada pessoa para que todos tenham livros?”. A resposta foi cordial:
“Sim, senhor, se for um auxílio ao senhor, terei prazer em fazê-lo”. O jovem esteve presente
naquela noite ao culto de oração e esforçou-se para que todos tivessem hinário. Depois do culto,
na saída, pondo seu braço no pastor e, descendo a escada, exclamou: “Não estava o canto bom
hoje à noite?” “Sim, deverás”, replicou o nosso futuro bispo, “e era porque os assistentes tinham
hinário”.
“Gostaria de vir na próxima quarta-feira e ajudar-me outra vez?” E L voltou novamente e
desde daquela ocasião, não deixou de assistir aos cultos de oração, de pregação e da escola
dominical até a sua morte, que se deu dois anos depois. Morreu como crist ão fervoroso e sincero.
As pregações de Galloway eram apostólicas e os seus paroquianos recordavam anos
depois os sermões dele, especialmente dois. Um sobre “A condenação dos iníquos” e um outro
sobre o “Galardão dos justos”. Não é de admirar que pelo seu modo de tratar o povo e de pregar
as verdades eternas do Evangelho houvesse um despertamento espiritual na igreja. Muitos
homens de maior destaque na sociedade foram convertidos durante o seu pastorado. Ele fez em
Vichsburg o que tinha feito em Jackson em prol da temperança, pois foi um dos maiores
propagandistas do movimento de temperança no seu Estado.
O seu modo de propagar as suas idéias sobre este assunto era tão nobre e digno que
conquistou o apoio dos homens de maior influência na política.
Durante o primeiro ano em Vichsburg houve uma epidemia de febre amarela. O modo de
combatê-la não era conhecido naquela época. O povo estava em pânico e muitos dos seus amigos
o aconselharam a que deixasse a cidade, porém ele se recusou a fugir, preferindo ficar
interessando-se pelos doentes. Mandou os seus filhos mais velhos para fora da cidade, mas ele e
a esposa e o filhinho ficaram. Pouco depois ele e a esposa tiveram a febre amarela. Ficaram muito
mal, a ponto de julgarem que Carlos estava moribundo, mas logo melhorou e ele e a esposa
ficaram bons. A sua fidelidade ao seu rebanho e ao seu povo num momento de grande angústia e
medo concorreu para aumentar a sua popularidade em Vichsburg, e ele ficou ali até completar os
quatro anos.
Amava as pessoas e em especial os pobres. Foi durante esta época que travou relações
com alguns homens cuja amizade sempre firme durou até ao fim de sua vida.
Passados os quatro anos de pastorado em Vichsburg, foi nomeado outra vez para
Jackson.
5. Seu trabalho em Jackson.
Dizem que é bastante arriscado para um pastor servir o mesmo cargo duas vezes e dar a
mesma satisfação. Quando deixou a cidade de Jackson depois do seu primeiro pastorado o povo
lamentou a sua saída. Quando foi nomeado de novo para o mesmo cargo, o povo mostrou-se
contentíssimo. Seria ele tão bem sucedido desta vez como na primeira? Alguns pastores não têm
sido felizes em tais circunstâncias. Ele, porém soube conservar o seu prestígio entre o povo, não
pelos subterfúgios, mas pela sinceridade, simplicidade e capacidade. Ele podia corresponder à
expectativa do povo.
O Bispo Candler, comentando este fato, diz: “A sua coragem e consagração, manifestadas
pelo seu serviço de mártir em Vichsburg, levaram o povo de Jackson a amá-lo ainda mais
devotamente e estimá-lo mais altamente do que nunca. E pela experiência heróica que passou
com a epidemia e pobreza, foi enriquecido em sabedoria e poder varonil.”
“Durante os quatro anos em Vichsburg não gastou o seu tempo fazendo plano de como
poderia voltar para Jackson. Par a tais métodos ele tinha o maior desdém e freqüentemente
exprimia sua condenação. Não era um daqueles que, depois de um longo pastorado, voltam ao
cargo antigo para embaraçar o seu sucessor. Nem foi nomeado para Jackson a segunda vez
devido à influência que tivesse conquistado pelas concessões ao seu mundanismo e
compromissos aos seus pecados. Nunca houve um pastor mais fiel e corajoso nas suas pregações
e nos seus trabalhos pastorais.”
”Por exemplo, desde o mês de maio de 1874, durante o seu primeiro pastorado em
Jackson, capital do Estado, pregou um sermão sobre a temperança que era caracterizado pela
advocacia de abstenção completa da parte de todos os argumentos fortes pela proibição de álcool
pela lei. Isto foi feito com tanta convicção e poder que os cidadãos mais eminentes da cidade
permitiram que repetisse o mesmo discurso, e ele consentiu nisto; assim ganhou muitos adeptos à
causa da temperança numa época em que não era popular falar em tal assunto, especialmente
nas cidades e capitais”.
Galloway foi nomeado para Jackson porque o cargo era importante e a Igreja precisava ali
de um homem competente para o lugar. Quando voltou para Jackson encontrou no rol da igreja
dezoito nomes menos do que havia quatro anos antes. Custou para retardar esta corrente
desfavorável ao aumento de número na igreja.
Em 1877 Carlos B. Galloway foi eleito delegado suplente à Conferência Geral para
representar a Conferência Anual do Mississipi, e em 1881 foi eleito delegado titular.
6. Redator do “New Orleans Cristian Advocate”;
Além do seu trabalho pastoral foi nomeado redator do “The New Orleans Cristian
Advocate”, órgão oficial de três Conferências Anuais, a saber: North Mississipi, Mississipi e
Louisiana.
Seu tempo estava repartido entre o seu trabalho pastoral e a r edação do jornal. Para ter
mais tempo para o trabalho no jornal, foi nomeado para o cargo de Brochven, que era uma igreja
menor e mais perto da cidade de Nova Orleans, onde era publicado o “New Orleans Cristian
Advocate”.
O professor R. F. Richet descreve o trabalho de Galloway nesta época. É uma narração
dos quatro anos desta dupla vida como pastor e redator, nos trabalhos e viagens durante a
semana, parece uma história romântica.
“Começava com dois sermões no domingo, e, além disso, assistia à escola dominical de
manhã, e, de quando em quando, pregava de tarde numa missão. Na segunda-feira de manhã,
cedo, achava-se no escritório do “Cristian Advocate” em Nova Orleans, onde trabalhava dois dias
preparando os manuscritos para a publicação do jornal; na qu arta-feira de tarde achava-se em
Broobharen para dirigir o culto de oração. De quarta-feira até domingo ocupava-se em visitas
pastorais e ir a cerca de dez léguas distantes fazer um discurso em prol de qualquer
empreendimento da igreja. Além de tudo isso, arcava com a responsabilidade da supervisão do
movimento de temperança no seu Estado que lhe pesava sobre os ombros. Ali temos uma idéia de
sua vida trabalhosa.”
“Manual da Proibição” e a “Vida do Bispo Linns Parker” foram escritos nos intervalos de
tempo que se poderiam achar nesse período de tantas e tão grandes atividades, ratificando mais
uma vez o ditado: “Aquele que anda muito ocupado acha tempo para fazer uma importante obra
enquanto aquele que tem bastantes horas vagas, nada faz”.
Galloway fazia a sua tarefa sem negligenciar o seu lar ou a sua vida social. Tinha prazer
em seu trabalho e fazia-o com tanta satisfação que ninguém o julgava sobrecarregado de serviço.
Correspondia ao ideal descrito pelo Sr. Lavater: “Somente é grande aquele que tem o h ábito da
grandeza, que depois de ter feito o que dez mil não poderiam fazer, continua no seu caminho como
Sansão, e não conta o que tem feito nem a seus pais”.
Como redator do “Cristian Advocate” era considerado competente. Seus próprios colegas
de ministério o elogiavam e seus artigos eram comentados nos jornais em toda a parte do país.
Tinha um estilo claro, e cativante. Escrevia sobre diversos assuntos – sobre religião, viagens,
política, a igreja e os assuntos patrióticos.
Ele era tão apreciado pelos seus candidatos concidadãos que alguns o convidavam para
se candidatar ao Senado Federal. Ele, porém, tinha lançado a mão no arado e não queria olhar
para trás.
Continuou na redação do “New Orleans Cristian Advocate” até ser eleito Bispo em maio de
1886, aos 36 anos de idade. É notável que nunca houvesse ocupado o cargo de presbítero
presidente antes de ser eleito bispo.
IV – SEU TRABALHO COMO BISPO
Carlos B. Galloway era um homem modesto e nunca procurava ostentar-se. Na ocasião da
Conferência Geral, quando foi eleito ao bispado, deu-se um incidente que revelou a sua modéstia e
abnegação. A delegação da sua própria Conferência tinha o direito de um representante na
Comissão de Episcopado, uma das comissões mais importantes, e Galloway tinha o direito de
fazer parte desta comissão; porém, ele cedeu o seu lugar ao Sr. Jackson, escolhendo então a
Comissão de Missões.
1. Eleito Bispo.
Na ocasião da Conferência Geral, que se realizou na cidade de Richmond, na Virgínia, em
maio de 1886, foram eleitos quatro bispos. Na primeira votação ninguém foi eleito, porém Galloway
recebeu o maior número de votos; na segunda votação, três foram eleitos e, entre esses, Galloway
ficou em segundo lugar quanto ao número de votos. E é de notar-se que Galloway não tinha ainda
trinta e sete anos de idade, era o bispo mais moço que jamais fora eleito entre os americanos.
Sua eleição ao bispado trouxe satisfação no seio da igreja. Ele chegou a ocupar este lugar
pelos méritos e dons pessoais e naturais que possuía e não pela proteção e política.
2. Seu trabalho durante o primeiro quatriênio.
Logo depois de a Conferência Geral encerrar sua obra, o Bispo Galloway voltou para sua
casa em Broobhavem, no Mississipi, e começou imediatamente a por os seus negócios em ordem
para tomar conta do seu distrito episcopal que abrangia as seguintes Conferências: a missão aos
índios, North Texas, Litlle Roch, Arpansos e White River.
Iniciou o seu trabalho episcopal entre os índios. Realizou a Conferência da Missão aos
índios em Outubro de 1866, sendo sempre muito bem sucedido na direção deste trabalho.
Mostrou, desde o princípio, a sua competência em presidir, e nesse sentido um dos seus principais
membros dá a sua impressão: “O Bispo Galloway, pensamos, é um dos maiores homens do
Metodismo do Sul. Nossos pregadores ficaram encantados com ele. Presidiu com dignidade e
habilidade. Seus sermões eram fortes e cheios das verdades evangélicas”. Depois de realizar a
Conferência da missão aos índios foi para presidir a Conferência do North Texas.
Galloway era um bispo novo, dali todos estarem na expectativa, a ver se de fato tinha ou
não dons para o ofício de bispo. O redator do “The Texas Cristian Advocate” assim descreve o que
se passou nesta ocasião: “Todos estavam em ansiosa expectativa, mas logo se acomodaram,
convencidos de que o bispo sabia o que queria fazer. Tinha uma aparência agradável, um
procedimento digno, uma paciência atrativa e um sorriso que conquistava imediatamente.
Como oficial presidente, era quieto, senhor de si, alerta, e, pronto, e, quando necessário,
firme. Levantava-se quando punha as propostas em votação. Não gritava à Conferência, nunca o
fez. Conservava a ordem sem se esforçar e evitava o excesso de ordem que às vezes mais
atrapalhava do que facilitava os negócios (as reuniões). Durante uma das sessões um irmão
observador curvou-se e cochichou ao escritor: “Ele não descobriu ainda que é Bispo, e é de
esperar que ele nunca o descubra!” O sermão dele, pregado no domingo, tocou o coração de todos
e produziu frutos pelos tempos adiante.
Seu discurso dirigido à classe admitida em plena conexão foi curto, mas sincero, judicioso
e poderoso; suas admoestações acerca da consagração pessoal, trabalho pessoal em ganhar
almas, o valor do dinheiro e a relação dos pastores para com sua Co nferência e a atitude dos
pregadores aos seus predecessores, não serão esquecidos jamais. O seu uso do ritual na
ordenação foi muito reverente e expressivo. As poucas palavras proferidas antes de ler as
nomeações, fez que se enchessem de lágrimas todos os olhos e calasse no coração que “este
homem era providencialmente chamado para o ofício e a obra de bispo na igreja de Deus”.
A impressão que fazia sobre todas as Conferências no seu distrito era ótima, e os pastores
o amavam e respeitavam como um homem chamado e talhado por Deus para a obra de Bispo.
Assim, durante os vinte e três anos que serviu como bispo, manteve o mesmo prestígio dos seus
irmãos. No correr deste período ele presidiu cento e doze sessões de Conferências Anuais, não
mencionando as sessõ es que presidia, na ausência ou por causa de doença dos seus colegas em
ofício.
3. Trabalho entre os índios.
O Bispo Galloway tinha muito interesse pelos índios e era com prazer que os visitava. Para
conhecer melhor os seus problemas assistiu-lhes um concílio (reunião, assembléia, encontro)
composto de diversas tribos. O discurso que fez aos índios, nessa ocasião, foi bem, interessante e
cristão.
Tinha o espírito missionário. Antes de falecer, conseguiu visitar todos os campos
missionários da Igreja Metodista Episcopal do Sul dos EUA, a saber, China, Japão, Coréia, México
e Brasil. As missões na Europa e na África ainda não tinham sido organizadas.
4. Visitas aos campos missionários e estrangeiros.
a) México:
De 21 a 26 de Novembro de 1888 ele presidiu a Conferência Central do México, na cidade
de San Luis Potosi. Alguns dias antes da Conferência visitou a bela cidade do México e presidiu a
uma Conferência Distrital. Ficou muito impressionado com a beleza da catedral católica da cidade
do México, passando mais de duas horas naquela igreja apreciando a sua arquitetura. Mas não
gostou da maneira por que o povo prestava culto a Deus. Para ele parecia mais idolatria e
supertição do que verdadeiro culto a Deus, que deve ser em espírito e em verdade.
A respeito da sua presidência e administração nessa Conferência Central, o Dr. G. B.
Winton escreveu ao “Christian Advocate” a seguinte nota: “A sessão da Conferência se
caracterizou por duas ou três coisas importantes:
Primeiro, a inauguração definitiva de um Seminário é uma coisa de máxima importância.
Foi decidido que este seminário fosse estabelecido na cidade de San Luis Potosi, ponto central
para as duas Conferências, procurando a cooperação da Border Conferência em fazer que esta
escola fosse uma honra e glória para a Igreja e para o México.
Segundo, foi um acontecimento especial nesta Conferência, de interesse tanto pessoal
como histórico, foi a apresentação ao Bispo Keener, por meio do Bispo Galloway, do pacto pelo
qual a primeira associação evangélica ficou organizada na Republica do México em novembro de
1885. A apresentação foi feita pelo Rev. Sóstenes Juarez, o veterano da Conferência, que dirigiu o
culto da sociedade.
E por fim, o terceiro fato de importância foi o batismo do Espírito Santo que se deu na
ocasião dos cultos realizados no domingo. Isto sobrepujou a qualquer outra coisa que a
Conferência tinha experimentado antes, e foi motivo de uma satisfação profunda para todos nós.
Na ocasião do ágape manifestou-se o antigo poder da santa unção, o Bispo pregou com
demonstração do mesmo poder, e isto passou igualmente ao intérprete que traduzia do inglês para
o espanhol, que, com olhos em lágrimas e a voz trêmula e magnética, com as mesmas verdades a
transferiu à língua do povo.
Algumas das experiências que se deram no culto de manhã podem ser classificadas como
especiais e maravilhosas e seriam de grande interesse se as pudéssemos transmitir aos leitores do
“Christian Advocate”. Os pregadores se consagraram de novo a Deus e resolveram buscar o pod er
do Espírito Santo para o serviço da evangelização e salvação de almas.
A Conferência para manifestar a sua gratidão para com a bondade de Deus no
derramamento do Espírito Santo, lançou na ata um voto de louvor a Deus.
Os negócios da Conferência foram realizados em paz e com satisfação. O Bispo Galloway
era paciente e cuidadoso, e, melhor ainda, profundamente interessado. Ganhou os corações de
todos. Assim, durante os quatro anos de sua supervisão e administração episcopal no México,
manteve a confiança, o respeito e a cooperação de todos.
b) O Brasil:
O Bispo Galloway foi nomeado para visitar o Brasil e realizar a Conferência de 1897, no
Rio de Janeiro, em 29 de junho. Logo depois da guerra civil nos Estados Unidos, que terminou em
1865, alguns americanos dos estados do Sul, não querendo submeter-se às condições
estabelecidas pelo governo americano, resolveram emigrar para o Brasil e fundar aqui uma
colônia.
Diversas famílias vieram e a maioria delas se estabeleceu no Estado de São Paulo, na
zona conhecida hoje pelo nome de “Vila Americana”. No meio destes imigrantes havia algumas
famílias metodistas e um pregador metodista, o R ev. J. E. Newman. Ele se interessava pelo bem
estar espiritual dos seus patrícios norte-americanos e pregava-lhes o Evangelho. Foi por meio dele
e a pedido dele que a Junta de Missões resolveu mandar missionários para o Brasil, não somente
para cuidar dos americanos, mas também para evangelizar os brasileiros.
O primeiro mission ário mandado nesta época foi o Rev. J. J. Ransom, que ficou cinco anos
estudando a língua portuguesa e as condições sociais e religiosas, e pregando o Evangelho.
Depois de cinco anos voltou aos Estados Unidos em gozo de férias e lá visitou as igrejas e
Conferências, falando sobre o trabalho no Brasil. Quando voltou em 1881, trouxe alguns novos
missionários, a saber: J. W. Koger, J. L. Kennedy e Miss Martha Watts. Assim o trabalho Metodista
se firmou no Brasil.
Na viagem do Bispo Galloway para aqui, depois de passar o Equador e achar-se na terra
do Cruzeiro do Sul, assim externa os seus pensamentos numa carta que escreveu: “Há poucos
dias, enquanto estava assentado no convés e admirando o esplendor do mar prateado, sobre o
qual a lua, num céu límpido, derramava um dilúvio de glória, fui guiado a refletir sobre a primeira
viagem missionária dos metodistas, feita por estas águas tropicais, em caminho para o “continente
negligenciado” do Sul. Faz agora sessenta e dois anos, e o aventureiro viajante era o Rev. Fontain
E. Pitts, de Tennesse, um doce cantor e um grande pregador. Ele foi para observar a terra e trazer
o seu relatório. Quanta mudança desde que aquele apóstolo, sozinho, andava pelo convés de seu
pequeno navio pensando se seria permitido por o seu pé em terra do país que ia visitar. Esperava
protestos e perseguições. Nós estávamos esperando saudações e boas vindas de irmãos.
Desembarcando em 1835, o Rev. Pitts passou um ano a explorar o campo e organizar algumas
pequenas sociedades compostas de pessoas religiosas no Rio de Janeiro, e voltou para os
Estados Unidos em 1836. Da resposta fraca que a Igreja deu para atender ao seu apelo, e, em
seguida, da longa negligência, não falarei. Acaso não estão escritas nas crônicas do indiferentismo
e pouca fé?”
Depois de acontecida a Conferência o Dr. J. M. Lander escreveu ao “Christian Advocate”,
as seguintes informações: “O Bispo Galloway apareceu entre nós pela primeira vez e dirigiu os
negócios (reuniões) da Conferência como se soubesse o português. Ganhou a nossa mais alta
consideração e respeito pela sua cortesia e paciência, sua sabedoria e eloqüência. Houve só uma
queixa contra ele; não falava tanto como nós os brasileiros. No domingo de manhã ordenou dois
nacionais como diáconos e pregou um magnífico sermão sobre o profeta Jeremias. No culto da
noite pregou com interprete à Congregação portuguesa, e ordenou cinco presbíteros”.
No relatório que o Bispo mandou para a Junta de Missões, disse ele: “Nossa Conferência
encerrou-se, e eu vou esta manhã para o interior. Tivemos uma sessão muito agradável no sentido
do sustento próprio e aumento de espiritualidade da Igreja”.
O Bispo Galloway tomou tempo para visitar os diversos centros do trabalho no Brasil.
Visitou os seguintes lugares: São Paulo, Ribeirão Preto, Piracicaba, Santa Bárbara, Barra Mansa,
Petrópolis, Juiz de Fora e Barbacena.
Em todos estes lugares ele pregou e mostrou o seu interesse pelo desenvolvimento do
trabalho. A sua visita à Barra Mansa era considerada mais significativa, pois foi a ocasião em que
se lançou a pedra fundamental de uma nova igreja naquela localidade. Numa carta descreve a sua
experiência nesta visita.
Ele foi em companhia dos senhores J. W. Wolling, J. L. Kennedy, E. A. Tilly e Cardoso
Fonseca, num trem especial do Rio de Janeiro para Barra Mansa e dali até ao “Sertão” em carros
de bois. Havia trezentas pessoas presentes naquele lindo dia, de céu límpido e azul. Uma das
coisas que impressionaram o Bispo foram dois discursos proferidos nesta ocasião por pessoas que
não eram crentes, porém homens liberais e generosos nos seus sentimentos. Sobre este ponto
são estas as suas expressões: “Quando as cerimoniais formais foram realizadas, tivemos dois
discursos de saudações por amigos visitantes, um era um fazendeiro de café que morava perto, e
o outro era um jovem advogado que morava em Barra Mansa. Ainda que não fossem membros
professos da Igreja Cristã, eles se congratularam como brasileiros por um dia, em frases vigorosas,
o presente dia de liberdade pessoal e religiosa com os tempos passados de escravidão social e
espiritual. Deram graças a Deus porque o dia de tirania sacerdotal já tinha passado, e agora
podiam saudar o esplendor de uma nova e grande esperança para o Brasil. Confesso que aqueles
discursos me comoveram profundamente. O mero fato de tais discursos serem proferidos tinha
grande significação para mim. Estes discursos eram a voz de um Brasil emancipado, pedindo
auxílio imediato nesta hora de transição e perigo. Oh como eu gostaria que o tom daquelas vozes
caísse com ênfase divina nos ouvidos dos nossos 6.000 pregadores itinerantes em minha terra”.
Terminando o programa do dia no lugar chamado Sertão, voltaram para Barra Mansa e no
dia seguinte o Bispo escreveu a sua impressão desta visita com as seguintes palavras: “Assim
terminou um dia notável na história do nosso Israel na América do Sul, e em certo sentido foi um
dos dias mais notáveis que tenho experimentado na minha vida. Esta noite tive visões e sonhos de
maiores triunfos para os anos vindouros. Ganhar o Brasil para Cristo significa a conquista da
América do Sul. Em nome de Jeová, erguemos nosso estandarte e conquistemos para nosso
Senhor um continente por muito tempo negligenciado”.
Depois de visitar muitos centros de trabalho no país, voltou para os Estados Unidos, onde
logo em seguida realizou cinco Conferências Anuais. Sua viagem ao Brasil foi a última no campo
missionário da América Latina.
c) Japão:
Em 1894 o Bispo Galloway foi nomeado para visitar os campos missionários orientais e
fazer uma volta pelo mundo a fim de estudar os problemas religiosos.
Nas cartas publicadas no “Christian Advocate”, contou as suas impressões e experiências
desta viagem, publicando-as depois num livro. Estas cartas foram muito apreciadas pelas igrejas.
Lendo estas epístolas podemos apreciar o espírito, a capacidade e a obra do autor. Seu ditado:
“Como alguém é, assim se vê”, verifica-se nesta sua obra.
O primeiro campo visitado no Oriente foi o Japão. Chegando em Yokhama em 29 de junho,
passou alguns dias visitando diversos pontos de propaganda (pontos de pregação) antes da
sessão da Conferência que se realizou em 9 de agosto de 1894, na cidade de Kobe, na capela do
nosso colégio Kwansei-Gahuin. Ele descreve a sessão da Conferência como de paz, amor e
satisfação. Terminada a Conferência, ficou ainda no Japão quase dois meses, interessando-se
entusiasticamente pelo trabalho.
O espaço não permite citar as suas observações acerca da causa do Mestre no Japão
além de afirmar que ficou, mais convencido do que nunca, de que o único remédio para os males
da humanidade é o Evangelho de Jesus Cristo.
Em 12 de setembro ele escreve: “Hoje vou embarcar no navio “Empress of Japon” para a
China, levando comigo muitas lembranças agradáveis das semanas deliciosas que passei na
“Terra do Sol Nascente”. Minha fé na redenção deste país tem aumentado de modo admirável e
diariamente. As forças contrárias são fortes, resolutas, porém Nosso Senhor está marchando
firmemente na conquista dele. Apressemos essa hora gloriosa”.
d) China:
O Bispo Galloway chegou na China depois de dois dias de viagem e foi recebido
cordialmente pelos missionários. Passou seis semanas na China visitando as igrejas e colégios,
não somente os nossos, mas também os centros de propaganda das outras igrejas evangélicas. O
dia em que ele chegou foi um domingo durante o qual pregou no salão da Maçonaria. Os outros
dias da semana foram tomados em visitas aos centros de interesses, tais como escolas, colégios,
igrejas, hospitais e circuitos.
Procurou conhecer bem os trabalhos feitos pelas forças evangélicas na China. O Dr.
Young J. Allen, um dos missionários que tinha mais influência na China que qualquer outro da
nossa igreja, o acompanhou nalgumas viagens que fez no país. Uma das coisas que ele muito
lamentou foi o uso de ópio na China, coisa que esse país não inventou nem procurou, mas lhe foi
imposta, e isto, por uma nação considerada cristã.
Também a densidade da população o impressionou, especialmente sabendo que havia
milhares e milhares de pessoas que não tinham ainda sentido a influência do cristianismo.
Visitando uma cidade, ele exclamou: “Eis aqui uma cidade de trezentos mil habitantes que ainda
não ouviu o Evangelho”.
A questão que os crentes devem considerar, quando meditarem sobre tais condições, não
é o que Deus vai fazer com esta gente que não sabe nada do cristianismo, mas antes o que Deus
vai fazer conosco que temos o Evangelho e que não o temos levado aos nossos semelhantes que
não o têm. Não devemos lançar a responsabilidade dessa gente sobre Deus, mas sobre nós
mesmos que não temos levado a cabo a comissão de Cristo. “Ide pois e fazei discípulos de todas
as nações”, é a ordem de Jesus para nós, a sua Igreja.
O Bispo Galloway tinha fé no poder transformador do Evangelho e depois de visitar os
diversos grupos de crentes das diversas denominações, fez a seguint e observação: “Quando a
China tomar o seu lugar entre as nações cristãs, do mundo, os anjos se prontificarão a cantar o
coro de aleluia. E aquele dia glorioso está se aproximando, aproximando-se não com a rapidez do
anjo de seis asas que o profeta Isaias viu na sua visão, mas com os passos firmes e irresistíveis do
amor infinito e os propósitos de um Deus poderoso em salvar”.
e) Completando a volta pelo mundo:
Tendo completado as suas visitas episcopais aos campos missionários de nossa igreja no
Oriente, o Bispo Galloway queria completar a volta pelo mundo, regressando para os Estados
Unidos após visitar alguns lugares na Ásia, África e Europa. O motivo principal que o levou a fazer
isto foi “inspecionar a obra das missões cristãs em outras partes do mundo”.
Levou quatro meses para completar a sua viagem, começando em 27 de outubro de 1894
e chegando em Nova York em 28 de fevereiro de 1895. Durante este período visitou os seguintes
lugares:
- Hong-kong, Saigon e Cholon, Singapura, na China;
- Colombo e Candy, em Ceilão;
- Tuticurim, Madusa, Trichinopoly, Tanjore, Madras, Calcutá, Beanares, Lucknow,
Cawpore, Agra, Deli, Jaipus, Bombay, Hurachee, na Índia;
- Suez, Cairo e Alexandria, no Egito;
- Jope, Jerusalém, Betania, Hebron, Bethlem, Jericó, Shechem, El Birch, Ramallah, Bethel,
Shilon, Nalibus, Samaria, Dothan, Nazareth, Tiberias, Cana e Haifa, na Palestina;
- Beirute, na Síria;
- Messina e Esmirna, na Ásia Menor;
- Atenas, na Grécia;
- Nápoles e Roma, na Itália.
De Roma seguiu para Londres, passando por diversas cidades européias. Ficou muito
impressionado com a sua visita à Palestina. A sua fé tornou -se mais confirmada nos fatos
históricos do cristianismo. O que ele viu concorreu para confirmá-lo mais e mais no poder
transformador do Evangelho de Cristo.
O Bispo Galloway dava muita importância à educação, mas nem por um minuto queria ele
substituir o Evangelho pela educação. Em Calcutá viu milhares de jovens bem educados, mas não
eram cristãos, e sobre o fato fez a seguinte observação: “Moços instruídos, mas não cristãos; não
são mais idólatras, pois foram educados e estão livres da superstição dos seus pais, mas ainda
estão longe da verdade que liberta a alma do erro. Que este problema não caia sobre a
consciência do missionário”.
É realmente esta classe de gente que o D r. E. Stanley Jones e outros missionários da Índia
estão procurando evangelizar, hoje em dia.
Numa carta que escreveu na cidade de Deli, na Índia, o Bispo Galloway disse: “Não
devemos confundir a civilização chamada cristã com o verdadeiro cristianismo”. Há realmente um
verdadeiro cristianismo que é revelado na pessoa histórica de Cristo.
Depois de passar oito meses fora do seu país, terminou a série das suas cartas com o
seguinte parágrafo: “Sou muito grato pelo cuidado de uma providência divina que me tem protegido
de perigos e da morte durante uma longa viagem por mais de trinta mil milhas por terra e por mar.
Volto do meu circuito pelo globo com a fé mais forte no sempre vitorioso Evangelho, com maiores
esperanças pela ext ensão do Reino do Senhor em todo mundo, com uma apreciação mais alta dos
missionários que têm consagrado a sua vida pela evolução das nações, e com um amor maior
pelos crentes de todas as seitas (denominações) e credos. Aprouve a Deus apressar o dia glorioso
em que nós seremos um como Ele e o Pai são um”.
f) A segunda e terceira visitas ao Oriente:
Em 1902 o Bispo Galloway foi mais uma vez nomeado para visitar as missões no Oriente.
E pouco tempo antes de embarcar para o Oriente, faleceu-lhe o filho inválido que tinha passado
alguns anos de cama, o que causou grande tristeza a ele e à sua esposa Miss Haniett, pois os
anos passados em cuidá-lo aumentaram-lhes o amor.
Em 28 de junho, na cidade de Vancouver, poucas horas antes de embarcar no navio
“Empress of Índia”, ele escreveu: “Desta vez não vou sozinho. Vai comigo minha esposa, Miss
Haniett. A mulher corajosa que tem ficado “com a bagagem” durante estes trinta e três anos,
enquanto eu tenho dado batalha contra o mal, será a minha companheira de viagem. Nossa
partida de casa, conquanto cheia de antecipações agradáveis, não deixou de ser cheia de tristeza.
Numa cova nova colocamos um amor que aumentou em doçura durante os anos de dependência e
de sofrimentos sob a nossa vigilância constante, e já nos causa dor e saudades o separarmo-nos,
numa distância de oito mil milhas, de nosso tesouro tão sagrado. Em pensamento, quando não
com as nossas mãos, levaremos todos os dias flores frescas e as colocaremos no lugar de
descanso do dócil anjinho, e contemplaremos a luz daqueles olhos castanhos e bonitos que se
fecharam para sempre neste mundo”. Nestas palavras descobrimos as aflições ternas de um pai
amoroso.
O espaço não permite dar um resumo do seu trabalho nesta visita. Mas é certo que o
Bispo Galloway ficou muito impressionado com as mudanças que se deram durante os oito anos
passados desde que fizera esse circuito e visitara nossas Missões e nossos missionários. Notou
que o povo oriental estava acordando da letargia dos sonhos e estava adotando os costumes dos
povos ocidentais, especialmente os métodos comerciais e arquitetônicos.
Em 1904, dois anos depois da sua segunda viagem ao Oriente e dez anos após a sua
primeira viagem, o Bispo Galloway foi indicado para visitar os campos missionários no Oriente pela
terceira vez.
Essa visita foi muito breve, pois a guerra entre o Japão e a Rússia perturbava tanto o povo
que não era possível fazer muita coisa. Ele voltou para sua pátria e fez entre as igrejas, uma
campanha em prol do trabalho no Oriente. Esta foi a última vez que foi nomeado para visitar os
campos missionários.
5. Seu espírito liberal e os seus serviços ecumênicos.
O Bispo Carlos B. Galloway amava imensamente o seu Estado natal, mas nem por isso
deixava de apreciar os outros Estados do seu país e outras nações e povos. Tinha um espírito
humanitário e liberal. O fato de ter trabalhado com tanto interesse em prol dos índios e dos campos
missionários é prova de que era generoso para com os outros. A época que logo se seguiu à
guerra civil, foi um períod o de reconstrução e reconciliação, e para ambas as coisas sempre se
mostrou propenso. A manifestação de sua magnanimidade de espírito se manifestou em diversas
visitas fraternais e ecumênicas, para que foi nomeado pelas autoridades de sua igreja.
Somente mencionaremos algumas das visitas dessa natureza que fez durante alguns anos
de sua atividade pública.
Além de visitar todos os campos missionários da nossa Igreja, que existiam na sua época,
foi nomeado pela Conferência Geral em 1886 (a Conferência que o elegeu Bispo) como delegado
fraternal à Conferência Geral da Igreja Metodista do Canadá. Em 1891 foi como delegado à
Segunda Conferência Ecumênica do Metodismo, que se realizou na cidade de Washington D. C.
em outubro. Nessa ocasião fez um discurso sobre “o estado atual do Metodismo na sua segunda
seção” (leia-se, nos Estados do Sul dos EUA), em que historiou os fatos concernentes ao
Metodismo no sul dos Estados Unidos. Em 1892, o ano seguinte, foi nomeado delegado fraternal à
Conferência Britânica Wesley ana que se realizou na cidade de Bradford, Inglaterra. Em 1894, na
volta que fez pelo mundo, visitou muitos centros, não somente da Igreja Metodista Episcopal,
porém de outras denominações. De 4 a 17 de setembro de 1910 esteve como delegado na terceira
Conferência Ecumênica do Metodismo, que se realizou na capela de Wesley City Road, em
Londres, fazendo o sermão de abertura. O assunto sobre que falou foi: “A nova afirmação das
coisas fundamentais do Metodismo” (A. Timely Restallment of the Metodist Fundamentals),
baseando-se em I João 1:3 e Atos 4:20. Em 26 de fevereiro de 1894 foi convidado para fazer um
discurso sobre “A ética ministerial” perante a escola de Teologia da Universidade de Boston.
Seria por demais fastidioso citar todos os lugares onde foi convidado a fazer discursos em
ocasiões especiais, pois constantemente recebia convites para falar sobre diversos assuntos em
ocasiões especiais. Foram numerosas as vezes que ele falou sobre a temperança, causa pela qual
pugnava com toda a energia de sua alma.
V – SEU TRABALHO COMO CIDADÃO E PATRIOTA
O fato de o Bispo Galloway possuir alma cosmopolita não significava que não tivesse
interesse pelo seu próprio Estado e povo. Em questões civis, literárias, educacionais, ele se
mostrou interessado e usava a sua voz e pena em promovê-las entre o povo do seu querido
Mississipi. Com os homens de maior influência no seu Estado ele tinha intimidade e influência.
Sempre pugnava pelas leis que garantiam a observância do Dia do Senhor, a educação da
mocidade, a proibição e fabricação e venda de bebidas alcoólicas.
Tinha prazer em ajudar ao povo negro que vivia segregado e confinado como se fossem
cidadãos e cristãos de segunda classe, sem seus direitos civis. Pregava-lhes muitas vezes nas
suas próprias igrejas e os aconselhava sobre coisas que lhes eram de grande interesse. Não
devemos pensar que pudesse ter feito isso sem provocar oposição.
Tinha que defender os princípios que advogava, porém merece notar-se que em todas as
suas discussões e polêmicas com os seus concidadãos e opositores nunca se esqueceu de que,
primeiro em tudo, ele era um homem cristão.
A discussão sobre a temperança que teve, por exemplo, com o Sr. Jefferson Davis, expresidente dos Estados Confederados (homem muito honrado e prestigiado não somente pelo
povo de Mississipi, mas também pelo povo de todos os Estados do sul do país ) é um modelo para
todos os homens que têm a franqueza de pugnar pelas suas convicções. A linguagem delicada e
franca, o espírito de sinceridade substanciado sobre fatos comprovados, o respeito e consideração
pelo adversário e, acima de tudo, o amor pela verdade e não amor próprio que às vezes ignora os
fatos para fazer prevalecer a vaidade pessoal, tudo isso se manifestou na longa discussão que
teve com este dignitário do Estado. Tão bem foram apresentados os seus argumentos que no
correr do tempo, o povo o teve como vencedor na discussão.
A regra áurea era o padrão que usava em todas as discussões e polêmicas.

VI – SEUS ÚLTIMOS DIAS E A MORTE
Na ocasião da Conferência Geral que se realizou na cidade Irminghan, no Alabama, em
maio de 1906, o Bispo Galloway foi designado para escrever e apresentar o discurso dos Bispos
àquela Conferência. Este serviço foi feito com esmero, que revela a sua capacidade e vigor usuais .
Mas antes de findar a Conferência caiu doente. Uma melhora de sua saúde permitiu que aceitasse
a sua parte no serviço junto com os outros bispos. Mas o seu estado de saúde era bem precário.
Era ele o presidente da Junta de Educação da Igreja e queria assistir à reunião anual
dessa junta que se realizou em abril de 1909, mas, a conselho médico desistiu de participar.
No primeiros dias de maio desse 1909 teimou em ouvir o sermão da Junta de Missões que
se realizara na cidade de Nashville. Mas no dia 5 de maio caiu doente e teve que voltar para o seu
lar, em Jackson, no Mississipi, onde chegou no dia 7 de maio, indo para a cama. No dia 10 foi
acometido de pneumonia e no dia 12 faleceu, às 5 horas da tarde, no seio da sua família, rodeado
da sua esposa, Miss Haniett, dos filhos e de amigos. O enterro realizou-se no dia 13 de maio.
Nunca houve na cidade de Jackson um enterro tão bem acompanhado como este. Todos os
departamentos públicos se fecharam, como as casas comerciais.
O Sr. Frederick Sullus, redator de um jornal em Jackson, publicou no dia seguinte este
memorial: “Observar que o Bispo Galloway foi um dos maiores homens que o Estado de Mississipi
jamais produziu não é exagerar. Não há extravagância nesta linguagem. As páginas da nossa
história estão repletas de atos de homens ilustres, e não queremos tirar as honras merecidas dos
outros guias dos dias idos nem obscurecer os lauréis que adornam as suas cabeças. É uma
opinião franca, e cremos que é justa, dizer que o Bispo Galloway foi o cidadão mais ilust re, cujo
nome tem adornado e enriquecido os anuais do nosso Estado. Temos tido, talvez, cidadãos que
nos seus empreendimentos especiais foram superiores ao Bispo Galloway, porém nunca tivemos
nos limites do nosso Estado um homem que fosse maior em tantas coisas e relações ou que
pudesse ser comparado com ele em sua multiforme capacidade”.
O Bispo Carlos Betts Galloway terminou a sua carreira, tendo servido aos seus dias e
geração pela vontade de Deus e agora chegou ao Monte Sião e à cidade do Deus vivo, à
Jerusalém celestial, às hostes inumeráveis de anjos, à assembléia geral da Igreja dos primogênitos
que estão registrados nos céus, e a Deus, juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, e
a Jesus, Mediador de uma nova aliança.
XII
A vida de Walter Russel Lambuth,
o Dianteiro Moderno do
Cristianismo
(1854-1921)
No seio da Igreja Primitiva apareceu um homem que tinha como divisa: “Pregar o
Evangelho nas regiões além”. Sabemos a história deste homem e estamos convencidos de que o
seu espírito missionário correspondia exatamente à sua divisa. O apostolo Paulo se gloriava em
prisões, em açoites e necessidades se, por meio dessas coisas, pudesse pregar e divulgar o
Evangelho. A sua maior alegria era pregar o Evangelho àqueles que não o tinham ouvido. Entre a
vida dele e a de Walter Russel Lambuth levanta-se quase um perfeito paralelo. Nasceram no
estrangeiro; foram criados entre o povo estrangeiro, e no meio do seu próprio povo; estudaram
tanto entre o seu próprio povo como entre os estrangeiros; converteram -se a Cristo e lhe
dedicaram inteiramente a vida. Por longos anos toda a energia do corpo, da alma e do espírito
consagraram ao Mestre dos mestres, Senhor dos senhores e Rei dos reis, até os recantos da terra
sentiram a sua influência, e, finalmente, também no campo da luta no meio do povo pelo qual tinha
dedicado tempo a sua atividade.
Vamos estudar a vida de um guia moderno, não somente do Metodismo, mas também do
Cristianismo.

I – OS SEUS ANTECEDENTES
Quando estudamos a vida de um homem que exerceu grande influência para o bem no
mundo, devemos fazer um estudo dos pais e avós dele para descobrirmos o segredo da sua
grandeza, pois geralmente tais homens têm tido antecedentes dignos e bons. Isso se deu no caso
do bispo Lambuth.
Seu bisavô Guilherme Lambuth foi nomeado pelo Bispo Asbury para pregar o Evangelho
entre os índios no Estado norte-americano do Tenesse. Ele era do estado de Virgínia, uma das
treze colônias originais fundadas pelos ingleses. À época em que Guilherme Lambuth, o bisavô,
principiou o seu trabalho nessas florestas habitadas pelos índios, era tempo de grandes perigos e
privações. Mas o espírito missionário quase aventureiro estava se manifestando no parentesco do
Bispo Lambuth, e quando ele se tornou homem, queria entrar numa aventura pelo mundo todo,
levando o estandarte bendito de Jesus.
John Russel, o filho do Sr. Guilherme Lambuth e avô de Walter Lamburth, entrou no
ministério com a idade de dezesseis anos, na Conferência de Kentucky. Mais tarde ofereceu-se
para pregar o Evangelho entre os índios no estado da Louisiana. Em 1830, estava ele realizando
uma série de conferências no condado de Green, no estado do Alabama, quando de repente
deixou a série de conferências onde pegava, sem avisar o povo. Logo, porém, apareceu de novo,
explicando-se: “Fui chamado em minha casa, pois meu lar conta com mais um cidadão. Em
gratidão a Deus dedico este filho que acaba de nascer ao Senhor para ser um missionário no
estrangeiro, e agora ofereço um fardo de algodão para ajudar nas suas despesas”. Este filho era
James William, o pai do Bispo Walter R. Lambuth.
James William Lambuth foi criado entre os fazendeiros do Mississipi, onde havia muitos
escravos. Quando tinha certa idade, começou a preg ar aos escravos, e quando foi feito um apelo
para missionários irem a China, o Sr. James W. Lambuth se ofereceu dizendo simplesmente: “Eu
irei”.
Trabalhou muitos anos na China e, mais tarde, foi mandado para fundar uma Missão no
Japão, onde, anos depois, descansou dos seus trabalhos, sendo sepultado na terra do “Sol
nascente”.
Da parte do pai, o Bispo Lambuth levava nas suas veias o sangue inglês, porém da parte
de sua mãe o sangue escocês, pois sua mãe era descendente de escoceses. Ela descendia das
famílias Gordon e McClellam, da Escócia. Houve uma divergência entre um Duque e as suas
filhas. O pai deserdou duas das suas filhas e elas emigraram para América junto com outros
escoceses. A mãe do Bispo Lambuth era descendente de uma dessas moças que vieram para a
América, e cujo nome era Maria McClellam. Bem educada, morando no Estado de Nova York, foi
convidada para ser professora em casa particular. Ela aceitou o convite e foi para o Sul e ali
identificou-se com o povo. Na ocasião de uma reunião missionária ela fez uma oferta de cinco
dólares para missões e junto com o dinheiro lançou no cesto um cartão com as seguintes palavras:
Eu dou cinco dólares e a mim mesmo”.
Aconteceu que o jovem ministro James W. Lambuth, que queria ser missionário, chegou a
conhecer Miss Mary McClellam e, o que acontece às vezes, aconteceu com eles: ficaram gostando
um do outro. Mais tarde casaram-se e foram para a China. Aí vemos como, às vezes, são
necessárias gerações para desenvolver um homem como o Bispo Lambuth. Deus sabe o que faz.

II – SEU NASCIMENTO E OS SEUS PRIMEIROS ANOS
Logo depois do casamento de James e Maria, os pais do bispo Lambuth, eles partiram de
Nova York para a China. Embarcaram no navio de velas cujo nome era “Ariel” em 6 de maio de
1854 e depois de cento e trinta e cinco dias chegaram à China!
1. Seu nascimento na China
É certo que ninguém pode escolher os seus pais nem o lugar do seu nascimento, porém
tudo isso tem muita importância na vida do homem.
Dois meses depois de chegarem à China, D. Maria Lambuth deu à luz o seu primogênito,
no dia 10 de novembro de 1854, na cidade de Shanghai, China. A mãe, olhando para os olhos
azuis do seu filhinho, escreveu: “Às nove horas de hoje pela manhã um querido filhinho foi
colocado nos meus braços para nos ser uma benção”, e lhe pôs o nome de Walter Russel.
Quem pode descrever o sentimento de uma verdadeira mãe quando recebe em seus
braços, pela primeira vez, um filhinho! Algum tempo depois, D. Maria Lambuth escrevendo aos
seus amigos nos EUA, disse: “Faz um mês agora desde que Walterzinho veio aos nossos
corações e braços. Ele é um bom bebezinho e estamos contentes em tê-lo conosco. Que Deus nos
ajude a criá-lo para Jesus”.
Pelos sentimentos manifestados nestas poucas palavras descobrimos que a mãe de
Walter era digna e que encerrava na sua pessoa uma verdadeira mãe.
2. Os primeiros seis anos.
O pequeno Walter principiou a sua vida entre o povo chinês. Os seus primeiros camaradas
de brinquedos eram chineses, cuja língua ele aprendeu. Sua mãe se ocupava em cuidar dele e de
outras crianças chinesas, ensinando-as a costurar, ler, decorar passagens da Bíblia, e a cantar
hinos.
O Bispo Walter Lambuth disse que as primeiras coisas de que se lembra da sua vida
foram: pegar caranguejos que apareciam debaixo do assoalho de sua casa; um eclipse da lua,
porque os chineses julgavam que uma lua brava ia engolir a lua mansa e para evitar isto fizeram
muito barulho em toda a parte da cidade; e a separação dos seus queridos , pois quando tinha
quase quatro anos de idade a mãe escreveu: “Walterzinho está muito triste sem o seu papai, pois
ele está fazendo uma viagem no interior para pregar o Evangelho ao povo”.
Assim muito cedo na sua vida começou a aprender a triste lição de estar separado dos
seus queridos, pois sabemos que muitos anos de sua vida passou-os separado dos seus e do seu
lar, e finalmente morreu longe da sua querida esposa e filhos.
Quando tinha mais ou menos seis anos de idade, seu pai o levava consigo nalgumas das
suas viagens de evangelização na China. O pai conta um incidente engraçado que se deu com
Walter na ocasião de um culto. O pai levou um livrinho ilustrado para entreter o menino durante a
pregação. A criança foi colocada no antigo púlpito que tinha portas e junto consigo levou seu
livrinho. O pai fechou a porta e Walter assentado num banquinho entretinha-se por algum tempo
com o livro, enquanto o seu pai pregava ao povo. Mas como o pai prolongava o sermão o menino
queria ver o povo. Trepou no banco, porém mal podia enxergar o povo por cima do púlpito .
Quando a cabeça dele apareceu dentro do púlpito, todo o povo olhou e logo a criança começou a
cantar o hino: “No celeste porvir”, e toda a congregação deu uma gargalhada que quase acabou
com o culto.
O pai descobriu que era vantajoso levar consigo o filhinho nas suas viagens de
propaganda, pois o povo tinha mais interesse em comprar livros ou ouvir a pregação quando o
menino o acompanhava. Muitas vezes o Walter foi levado pelo pai em suas viagens pelas barcas
no rio. O menino gostava de ver o povo trabalhando à margem do rio quando passavam pelas
cidades e vilas. Também sempre se alegrava quando tinham de passar debaixo de uma ponte. O
pai escrevia cartas à sua esposa contando as coisas que seu filhinho apreciava e gostava de fazer.
Uma noite, depois de fazer a sua oração, lembrando-se de sua mamãe, disse ao pai: “Amanhã
quero ir para casa”. Estes dias eram dias de profecia daquilo que ia caracterizar a sua longa vida
cheia de viagens por terra e por mar. Ele podia dizer mais tarde na sua vida o que o apóstolo Paulo
disse: “Muitas vezes estive em jornadas”.
Quando Walter tinha quase seis anos de idade os seus pais julgaram necessário levar os
seus filhos para América, onde lhes pudessem tratar da saúde, dando-lhe um ambiente mais
favorável para a educação e desenvolvimento. Por isso, a mãe levou Walter e a sua irmãzinha
Nettie para a casa do avô deles, o Sr. McClellam, que morava na cidade de Cambridge, no Estado
de Nova York, onde ficaram dois anos. A mãe demorou pouco tempo com eles antes de voltar para
estar com o seu marido na China.
Em 27 de fevereiro de 1860 o avô escreveu aos pais, dizendo: “Quero vos dizer que a
minha expectativa e esperança acerca destes dois vossos queridos filhos estão plenamente
satisfeitas. Espero que seja feita a vontade de Deus poupar-lhes a vida e que cedo possam sentir a
necessidade de dar os seus corações a Deus, e que nos anos vindouros sejam instrumentos para
converter muitos dos pobres pagãos dos seus ídolos a fim de servirem o Deus vivo. Espero
sinceramente que não seja poupado esforço de nossa parte em lhes dar instrução moral”.
Durante o tempo passado em casa de seu avô, Walter aprendeu muitas coisas boas e
úteis. Escrevendo em outra ocasião, o avô disse: ”O Walter e Nettie estão sempre prontos para
repetir os seus versículos na ocasião do culto doméstico. O Walter é um menino excelente e a
mente dele está em condições de ser cultivada”.
A avó castigava as crianças mais do que o avô, porém ambos eram bastante severos. A
filha do Bispo Lambuth nos conta o que lhe dissera seu pai acerca daquela sua estada com os
seus avós: “O avô era severo na disciplina. Não usava a vara tão freqüentemente, porém os
meninos estavam sempre ocupados e foram incutidos no espírito deles os princípios de atividade e
honestidade, que são os fatores principais numa boa educação. O Walter aprendeu do seu avô
uma boa lição no modo de lustrar os seus sapatos, de que nunca se esqueceu. O avô sempre
insistia em que devia lustrar os saltos dos sapatos tão bem como o bico do calçado, pois dizia ele:
“Você olha para o bico dos seus sapatos, porém o povo olha para os calcanhares, e julgava
desonesto fazer bem um serviço em uma parte e mal feito em outra”.
3. Com os seus pais na China.
A guerra civil norte-americana estourou em 1861 e foi durante este conflito que Walter
passou os dois anos com o seu avô em Nova York. Sem dúvida o menino não tinha idade
suficiente para compreender o motivo desta luta, mas sua mente devia ter ficado perplexa quando
ouvia o seu avô falar acerca do povo do sul do país, ao qual seu pai pertencia. Quem sabe se as
impressões que recebeu durante esta época o levaram mais tarde a ter maior interesse pelos
negros do sul dos EUA e da África?
Em 1863 seus pais apareceram em Mississipi e os seus filhos Walter e Nettie foram
chamados para estar com eles. James e Maria Lambuth ficaram pouco tempo em Mississipi, mas
durante a sua demora ali, a pequena Nettie caiu doente com escarlatina e faleceu. A morte da sua
querida irmã fez uma grande impressão do mistério da morte sobre Walter , e sentiu bastante a falta
dela. Como diz o Sr. Pinson: “Ele tinha pouco mais de oito anos quando sentia as tragédias da vida
– o terror do mar, a separação dos seus queridos, saudades do lar, as crueldades da guerra, os
horrores de moléstias e o luto pelos mortos”.
O pai resolveu partir de novo para a China deixando atrás o túmulo da sua filha querida e
levando consigo a sua esposa , o filho Walter e dois rapazes chineses. A viagem para Nova York
tinha que ser feita num carro e num carro de bois. Esta viagem foi feita no inverno e as estradas
eram ruins e os soldados os incomodavam bastante, até que finalmente venderam o carro com os
cavalos, pois os bois não tinham muito valor para os soldados. Finalmente chegaram em casa dos
pais de D. Maria Lambuth em Nova York, onde ficaram algum tempo descasando e esperando um
navio para embarcar para a China. Dentro de cinco meses se achavam de novo na China.
Walter estava contente com seus pais na China e começou os seus estudos com maior
interesse. Freqüentemente acompanhava o seu pai nas suas viagens pela China. Ele estava nesta
época passando aquele período crítico na vida dos jovens, o período em que os mais velhos não
compreendem os jovens como eles mesmos não se compreendem, porém os pais eram os seus
guias e professores durante este período de formação do seu caráter. Ele aproveitou bastante nas
suas viagens pelas cidades e vilas, acompanhando aquela idade em que precisava da instrução
das escolas superiores, e, além disso, os olhos dele precisavam de tratamento de especialista, não
sendo muito boa a sua saúde.
Tudo isto concorreu para que seus pais decidissem manda-lo novamente para a América
onde podia tratar-se e estudar. Repete-se então a triste história da separação na vida dele e de
seus pais.
III – SEUS ESTUDOS NA AMÉRICA
Os poucos anos de felicidade passados junto com os seus queridos pais na China
terminaram. Quão curtos são os dias de sossego e paz reservados para a vida humana neste
mundo de mudanças e incertezas! Aqui não temos um lugar permanente, mas buscamos “a cidade
eterna cujo arquiteto e fundador é Deus”.
O filho Walter ia tão bem e cheio de satisfação, porém faltavam-lhe certos recursos que
não se encontravam na China; precisava de escolas onde pudesse preparar -se para a sua carreira
na vida e a única esperança para conseguir tudo isto era separar-se dos seus pais e aventurar-se
na sua terra natal.
1. A sua volta para a América e a sua conversão.
O dia da sua partida chegou. Os pais o acompanharam a bordo do vapor “Costa Rica”, às
cinco horas do dia 19 de maio de 1869. O rapaz tinha então quinze anos de idade, e vai encetar
sozinho a sua jornada não somente para a América, mas a sua carreira para toda a sua vida.
Como irá ele enfrentar a vida? Há sempre um ponto de interrogação acerca de todos os rapazes
que chegam a esta idade, e feliz é aquele que se firma na fé em Cristo e que escolhe a carreira
que vai seguir.
A viagem foi longa, mas não tão longa como as demais viagens que tinha feito pelo mar,
pois esta foi a primeira vez que viajou em navio a vapor. Em Yokohama, Japão, teve que mudar de
vapor embarcando no “Great Republic”.
Não era bom marinheiro, pois sempre ficava enjoado nos primeiros dias de uma viagem
pelo mar, e isto aconteceu com ele durante toda a sua vida.
Nesta viagem teve bastante tempo para refletir sobre o seu plano para o futuro. Os pais
tinham escrito cartas e posto na mala dele para que pudesse ler alguma coisa deles durante a
viagem. Foram muito apreciadas por ele, pois escrevendo aos pais mais tarde disse: “Sou grato
pelas cartas tão bondosas que achei na minha mala, nas quais se encontram muitos bons
conselhos. Não podeis imaginar como eu as apreciei. Leio-as e releio-as muitas vezes e é o meu
propósito seguir as suas instruções fielmente. Orai por mim sempre para que não me desvie do
caminho de retidão em que devo andar”.
Foi durante esta viagem que se converteu, pois chegou a consagrar-se definitivamente a
Deus. O Dr. Pinson assim descreve este passo na sua vida: “Foi durante esta viagem que o jovem
Walter se ajoelhou na sua cabine e se rendeu a Deus. A experiência deste ato estampou
indelevelmente o sinete de cristão na sua vida. Principiou uma nova época na sua vida desde esta
hora do seu nascimento espiritual. Constantemente ele se lembrava desta hora nos dias difíceis de
sua experiência. A fé firme de seu pai e de sua mãe tornou-se a sua própria fé e o Deus deles o
seu próprio Deus. As coisas espirituais foram transladadas do reino dos credos para o reino da
experiência.”
Foi aqui que descobriu e conheceu a Deus, o descobrimento mais deslumbrante e
essencial na vida de alguém. Esta experiência nova veio numa época oportuna para suprir a falta
dos seus pais, a qual pairava sobre ele como uma nuvem. Não nos admiramos, pois, ao saber que ,
mais tarde, no dia em que completou os seus quinze anos escrevesse à sua mãe de Lebonon, no
Tenesse, dizendo: “Quero contar-lhe antes de terminar esta carta que ontem fiz a minha profissão
de fé na Igreja Metodista Episcopal do Sul, e fiz os votos de um cristão, para viver com o auxílio de
Deus uma vida pura e santa. Ore por mim para que possa eu cumprir fielmente os meus votos”.
Finalmente chegou à casa de seus avós onde passou algum tempo, porém não ficou
desocupado durante os dias que passou com eles, pois numa carta que escreveu aos seus pais
lemos o seguinte: “Ajudei a concertar o telhado da casa onde havia goteiras, há poucos dias.
Fiquei no telhado e o Sr. McClellam enfiava uma vara pelos buracos para me mostrar o lugar das
goteiras. Eu e o Sr. McClellam colhemos hoje de manhã nove quilos de morangos. Ontem trabalhei
na roça, colhendo aveia. Onde iria eu passar as minhas férias? Não seria bom que eu trabalhasse
na fazenda ou na loja, fazendo qualquer coisa para não estar desocupado?”
Estas poucas linhas nos mostram que ele n ão queria ficar à toa, pensando sobre outros
com seu sustento; queria fazer qualquer coisa que fosse lícito para ocupar o seu tempo com
proveito.
Depois de passar alguns meses com os seus parentes em Cambridge foi para Lebonon,
Tenesse, onde ia ficar com a família Kelley, estudar e trabalhar.
2. Seus estudos de preparatórios
a)Seus estudos na Academia de Lebonon, Tenesse:
Durante os dois anos que passou em Lebonon, no Tennesse, assistiu aulas na academia e
morava com a família de Mrs. Kelley, cujo filho, o Sr. D. C. Kelley, tinha acompanhado aos pais do
Bispo Lambuth como missionário na China.
“A mãe Kelley”, como lhe chamavam, foi de fato uma verdadeira mãe para o jovem Walter,
rapaz de quinze anos. Ele ficou em casa dela e ela tomou interesse pelo seu bem estar; porque
seus pais eram íntimos amigos da casa. É digno de notar-se como fato histórico o ter sido “a mãe
Kelly” quem organizou a primeira Sociedade Missionária de Senhoras na igreja local – McKendree
Church, Nashville, Tennesse. Ela não somente f oi a mãe do jovem Walter Lambuth, mas também
“a mãe” da Sociedade Missionária de Senhoras da nossa Igreja.
Como Walter não era muito forte, ele procurou desenvolver o seu físico, trabalhando ao ar
livre. Por isso e outros motivos trabalhava na roça durant e as férias. O resultado foi que melhorou a
sua saúde em todo o sentido; a voz, os olhos e o físico em geral sentiram a influência dessas
atividades ao ar livre debaixo do céu azul, iluminado de espl êndido sol. Acerca desta fase na sua
vida diz a sua própria filha anos mais tarde: “Meu pai freqüentemente falava do seu primeiro
emprego, que foi roçar um meio alqueire de terreno e arrancar todos os tocos e cepos, em Seeville,
casa de meu avô Kelley. Meu avô ofereceu a meu pai e a mais dois rapazes cinco dólares para
roçar quase um alqueire de terreno. Os outros dois rapazes se cansaram do contrato, porém meu
pai continuou o seu trabalho durante todas as férias, trabalhando desde cedo até à tarde; e
finalmente acabou de limpar a parte do terreno que lhe tocara. Creio que meu pai tinha mais
orgulho em narrar este incidente do que qualquer outro que se deu na sua mocidade. Mais tarde
na vida, quando tinha uma tarefa difícil, dizia logo, sorrindo: “É difícil, mas não é tão difícil como
limpar um meio alqueire de te rreno de cipós, tocos e cepos”.”
Aqui temos o segredo da sua capacidade em executar e fazer tantas coisas mais tarde na
vida. Posso afirmar que não tenho visto um homem que soubesse utilizar o seu tempo com mais
acerto do que o Bispo Lambuth; e parece-me que não andava às pressas, mas tinha tempo para
tudo.
O jovem Walter não somente se interessava nos seus estudos e no trabalho durante as
férias, mas também tomava parte nas reuniões religiosas. No primeiro ano que ele passou suas
férias em Lebonon realizou-se lá uma série de conferências religiosas em que ele tomou parte
ativa. E sobre o assunto, nessa mesma época, ele escreveu a seus pais: “Deus tem feito tanto
para mim, eu preciso fazer algumas coisas para Ele, embora seja pouco”.
Foi também nesta ocasião que tomou parte no seu primeiro ágape (celebração da festa do
amor, da koinonia), descrevendo assim a sua experiência: “Ás 3 horas da tarde participei do
ágape. A princípio fiquei um pouco embaraçado, mas, logo depois, desapareceu o embaraço e
falei com mais liberdade. Contei como eu me converti a Deus; que minha mãe tinha
freqüentemente conversado comigo sobre o assunto, mas, quando me vi, sozinho, viajando no
mar, ali é que senti a minha grande necessidade, pensando então no que devia fazer para me
salvar, entregando-me de corpo e alma a Jesus. Disse também que embora muito longe da minha
casa, aqui na terra, tinha esperança de um lar feliz no Céu”.
Antes de terminar os seus estudos na academia pôs-se a pensar onde devia trabalhar; se
na China, se no Japão, pois queria ser um missionário. Foi durante estes dois anos que chegou a
firmar-se na sua fé e decidiu a questão da sua carreira na vida como um missionário. Assim, com
dezessete anos de idade, estava se firmando mais e mais no seu caráter e no pr opósito de seguir
a Cristo.
b) Seus estudos no Emory and Henry College, em Abringdon, na Virginia.
Deixando Lebonon em 1871, foi para o “Emory and Henry College”, em Abringdon, na
Virgínia, onde tirou o seu diploma em 1875. Ali principiou os seus estudos com entusiasmo. “Estou
me esforçando, diz ele, “para aprender tanto quanto possível e ao mesmo tempo economizar tanto
quanto possível o meu tempo e dinheiro; porque sei que se alguém se aplicar à sua tarefa
enquanto está entretido com ela conseguirá mais em menos tempo e poupará mais as suas
energias que se a tivesse encetado com má vontade”.
O curso era bem pesado e as suas forças físicas não correspondiam à sua força de
vontade. Assim, no fim do primeiro ano, a sua vista estava tão prejudicada que teve de deixar as
aulas em “Emory and Henry College” e voltar para o Estado de Tennesse, onde passou algum
tempo trabalhando e estudando um pouco na Universidade de Nashville. Em 1874 voltou para o
“Emory and Henry College” e lá completou o seu curso em 1875.
Durante o tempo de estudante em “Emory and Henry College” organizou uma “Associação
Cristã de Moços” (ACM). Os membros desta associação estendiam as suas atividades na
comunidade na forma de escolas dominicais. No correr do tempo esta associação organizou e
dirigiu cinco escolas dominicais, sendo uma delas para as pessoas de cor negra (que haviam sido
libertadas oficialmente da escravidão, mas segregadas pelo racismo e sem os direitos civis que
garantem cidadania, de modo que não podiam participar das associações das pessoas brancas,
inclusive de igrejas e escolas dominicais).
No ano em que se organizou a ACM., ele e mais um colega foram nomeados como
delegados a uma Convenção da Associação de Moços na cidade de Lawell, Massachusetts. Como
não tinham verba para pagar as passagens de trem, pensaram em ir a pé; mas, resolveram depois
vender alguns dos seus livros e até algumas peças da mobília, conseguindo assim o necessário
para a viagem.
O Bispo Lambuth sempre gostou de gracejos inocentes, mas abominava gracejos que
ofendiam alguém ou que ofendiam a moral, ou que porventura servissem de algum embaraço.
Quando estava na escola, freqüentemente os seus colegas que recebiam alguma coisa de casa
para comer o convidavam para ajudar a comê-la. Uma vez ele recebeu um presente dos seus avós
e além do tapete havia um bolo pequeno. Agora ele julgava oportuno retribuir a bondade dos seus
amigos. Ele e seu colega de quarto combinaram convidar uns vinte e cinco rapazes logo após o
culto de oração, às quatro horas da tarde, para comerem bolo. Antes da hora marcada para
chegarem arranjou dois baldes de água e uma mesa com uma toalha limpa. Logo depois do culto
os moços começaram a chegar, ficando o quarto repleto. Ele e o colega foram para o quarto ao
lado e começaram a gemer como se estivessem suspendendo um peso enorme. Em poucos
minutos apareceram no meio dos rapazes carregando juntos uma caixinha de papelão em que se
achava o tal bolo picado em pedaços do tamanho do dedo mínimo. Quando a colocaram na mesa,
os seus colegas descobriram o gracejo e explodiram em gargalhadas estrepitosas. Convidaramnos a se servirem e logo em seguida ele e seu colega pegaram baldes de água e ofereceram
água, dizendo que depois de comer tanto bolo precisavam de água para não engasgar. Todos
acharam muita graça nisto e ficaram contentes com a sua bondade.
Dizem que ele gostava de explorar o terreno ao redor do colégio, já não havendo um morro
ou vale, que não tivesse visitado. Um dia de férias seu colega de quarto entrou no quarto deles e o
achou com uma dúzia de relógios de parede, querendo fazê-los tocar juntos com o mesmo tic-tac.
Antes de completar o seu curso nesta escola, já tinha decidido o que queria estudar nas
escolas superiores; queria estudar medicina. Numa carta que escreveu para o Dr. Kelley em 19 de
meio de 1874, diz: “Não tenho vacilado em meu propósito de ser um missionário. Ao contrário,
cada vez mais firme se torna o meu propósito, e agora sinto que é meu dever ir para a China, tanto
como sinto o dever de pregar. Tenho pensado por muito tempo que um curso de medicina seria
necessário para garantir o meu êxito na China, mas quase cheguei a conclusão de que seria
impossível adquiri-lo. Estou no fim do penúltimo ano do meu curso e até aqui tenho passado em
todos os exames; seria, pois, um desgosto para mim sair desta escola sem tirar o meu diploma,
fosse ou não fosse de medicina. Gostaria de estudar medicina e estou resolvido a fazê-lo; porém o
meu desejo, como já lhe disse (e creio que o senhor não me pode censurar) é completar o cu rso
aqui, e especialmente completar as matérias relacionadas com a medicina”.
Ele completou o seu curso e foi imenso o seu prazer de ter presente, no dia da sua
formatura, a sua querida mãe, D. Maria. Como disse o Dr. Pinson: “Ele completou o seu curso em
“Emory and Henry College” e o deixou com honras e prêmios e o amor e apreciação da faculdade
e dos estudantes”.
3. Seus estudos superiores.
Uma vez terminado o curso de preparatórios, resolveu estudar medicina e teologia na
Universidade de Valderbilt, na cidade de Nashville, Tennesse.
Matriculou-se nos dois cursos em 1875, e completou o seu curso de teologia em 1877.
Durante estes dois anos entrou em experiência na Conferência de Tennesse e foi ordenado
diácono e presbítero pelo Bispo Keener.
Em conexão com os seus estudos pregava nas pequenas igrejas dos subúrbios da cidade
de Nashville e foi pastor por algum tempo da Igreja de Woodbine, perto da cidade. Nos sábados ia
a cavalo para visitar o povo e dirigir os cultos no domingo e voltava na segunda-feira para
continuar os seus estudos. Sem dúvida não tinha muito tempo para outras coisas, mesmo que
pudesse dar conta de tudo que tal programa exigia dele.
4. O seu casamento.
É interessante notar que Walter se casou com uma neta de Miss Daisy Kelly, a “mãe Kelly”
que o abrigara quando veio da China para tratar-se e estudar na Academia de Lenonon. Ele e a
noiva foram amigos por muitos anos e tinham passado muito tempo juntos quando pequenos, mas
agora a amizade se converteu em amor (aquilo que se não pode definir) e os laços deste amor
uniram os seus corações para nunca mais se separarem.
Em 2 de agosto de 1877 realizou-se o seu casamento na Igreja de McKendree, na cidade
de Nashville. Foi um casal feliz e todas as peripécias da vida missionária não conseguiram abalar o
seu amor de quarenta e três anos de casados. Agora eles se acham “no celeste porvir, desfrutando
o labor que passou”.

IV – SEU TRABALHO NO ORIENTE
1. Na China.
Um ano depois do seu casamento o Dr. Walter Lambuth, com sua esposa, embarcou em
São Francisco para a China. Logo depois de chegar àquele país principiou o seu trabalho.
Escolheu a cidade de Nanziang, que fica perto de Xangai, para iniciar o seu trabalho como médico
e pastor de almas.
a) A primeira fase do seu trabalho na China.
Era-lhe costume fazer viagens de evangelização pelas vilas e cidades. Tratava os doentes
e ao mesmo tempo pregava -lhes o Evangelho. Um dia uma mulher o procurou queixando-se de um
incômodo do coração, e dizendo: “Quero um remédio para o coração, porque fico nervosa às
vezes, e meu coração fica zangado, pois os meus parentes me tratam com crueldade. Quero dar
na cara deles e xingá-los. Não me pode dar o senhor alguma coisa para o meu coração?” Neste
caso o médico tinha um remédio tanto para o coração como tinha para o corpo. Era o seu plano
evangelizar a todos os doentes, que tratava, pregando-lhes o Evangelho.
Em maio de 1880 abriu um asilo para os viciados do ópio. O tratamento que dava era
eficaz, pois no prazo de quinze dias ficavam curados. O tratamento consistia em abandonar a
droga imediatamente, três dias num quarto fechado à chave, um compromisso da parte do
paciente de não reclamar qualquer prejuízo que adviesse e que orasse de manhã e de noite. Um
outro resultado do seu trabalho em prol das vítimas do ópio foi a organização de uma Sociedade
Contra o Ópio. Também publicou e divulgou um panfleto combatendo o uso do ópio. No correr de
dois ou três anos, sua esposa adoeceu e foi necessário que ela voltasse para a América em busca
de um clima para trat amento que se não podia encontrar na China. Não tardou e também ele teve
que voltar para os EUA para estar com ela.
Durante a sua demora na América aproveitou a oportunidade para estudar mais. Passou
algum tempo no Hospital Bellevue, em Nova York, onde tirou um diploma e na volta para a China
demorou alguns meses estudando medicina em Edimburgo e também em Londres. Assim a sua
estada na América deu-lhe oportunidade para preparar-se melhor.
Um dos missionários conta a experiência do Dr. Walter Lambuth em fazer a sua primeira
operação na China. Um homem quebrou o braço e tinha passado algum tempo sem o devido
tratamento; encontrava-se num estado tal que o único remédio era amput á-lo. Mas como o Dr.
Lambuth não tinha os instrumentos próprios para tal serviço viu-se em apuros para atend ê-lo.
Levou o homem para a sua casa e tratou dele do melhor modo possível. Resolveu cortar o braço
do homem; para isso amolou um facão, tomou emprestado um serrote de um carpinteiro, tomou
uma agulha grande da sua esposa e mandou procurar um pouco de anestésico numa cidade
próxima, e entrou a operar. Foi feliz na operação, o homem sarou, e assim a sua reputação foi
firmada entre o povo.
O Dr. Lambuth escreveu um livro sobre missões de medicina. O título do livro é: “Medical
Missions”. Neste livro ele revela as condições de grandes zonas no mundo onde não se encontram
médicos e hospitais; é triste saber -se o estado lastimável de milhões de pessoas que não têm
conhecimento científico de doenças. Segue-se uma página tirada do seu livro sob o título “O
Desafio”:
“O escritor não realizou a verdadeira significação do motivo missionário até chegar ao
campo de trabalho. Chegou um dia em nosso Hospital de Soochow uma mulher chinesa. “Pode o
doutor fazer alguma coisa por mim?” - perguntou ela. “Espero que sim”, foi a resposta. “O que tem
a senhora?”. Então ela nos contou a sua história. “Sou a mulher de um sitiante pobre. Somos
pobres deveras. Minha vida de setenta anos tem sido muito dura, tendo sofrido muita amargura.
Dia após dia tenho engatinhado com o meu marido no tijuco para cultivar o arroz. Não temos nem
um arado e nem um boi. Meu corpo está torturado até a morte com o reumatismo e queimando
com a febre”.
Uma cama foi providenciada para ela, remédios foram administrados e tudo foi feito para
aliviá-la durante a noite. No dia seguinte, depois de visitar as pessoas operadas, visitei o
departamento das senhoras, e parei ao lado da cama dela, tomei -lhe a mão, e perguntei: “Já
comeu o seu arroz? Está melhor hoje?”. “Oh! Sinto-me muito melhor”, disse-me ela. “Então porque
está chorando?” As lágrimas rolavam-lhe pelas faces queimadas do sol”. “Oh! Sr. Médico, o senhor
tem sido tão bondoso para comigo”. E ela acrescentou: “Sou uma mulher velha. Minha vida tem
sido cheia de angústias...amarga até a morte. Tenho dado à luz filhos. Eles cresceram, casaram-se
e foram embora; mas nenhum deles tem tomado a minha mão e dito palavras de amor como filhos.
Oh! Sr, médico, quando eu ficar boa, não me mande ir embora. Aqui é o céu. Deixe -me ficar...aqui
é o único céu para uma velha como eu”.
Quando apertei a mão dura desta mulher, as lágrimas enchiam-me os meus olhos e não
podia enxergar-lhe o rosto, pois tudo ficou escuro. Parecia-me que havia um outro rosto em que eu
reconhecia o Grande Médico, que disse: “Em verdade vos digo que quantas vezes o fizerdes a um
destes meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes”. Então descobri o verdadeiro motivo
missionário. Não é a necessidade do indivíduo, profunda e insistente como ela é; nem os chineses,
fortes como é o apelo das multidões inumeráveis que sejam; nem o comando imperativo como são
os seus termos; mas o Mestre... o Mestre. Ele mesmo e seu amor. Aqui se acha o apelo.
Negligenciando os mais fracos, negligenciamos a Ele. Ministrando às suas necessidades,
ministramos a Ele. O verdadeiro motivo missionário está encerrado na vida dele e concentrado no
seu amor”.
b) A segunda fase do seu trabalho na China.
Dissemos que o Dr. Walter e esposa tinham retornado à América para tratamento médico e
recuperação da saúde. Voltando para a China em 1882 junto com o Dr. W. H. Park, principiou de
novo o seu trabalho, na cidade de Soochow, onde fundaram um hospital evangélico. O plano para
este hospital foi formulado durante o tempo que passou na América e Inglaterra, estudando
medicina nos diversos hospitais. O trabalho que tinha feito em Nanziang e Xangai servia como
uma base para o Dr. Lambuth fundar um hospital em Soochow, que tem existido até ao dia de hoje
(1929) e é mais famoso agora do que nunca. Não poderemos narrar os incidentes interessantes
que se deram com o Dr. Lambuth durante esta fase do seu trabalho por falta de espaço; basta
dizer que, pela sua paciência, habilidade, abnegação e amor cristão conquistou a confiança do
povo, e o trabalho do hospital foi um triunfo patente.
Ele trabalhou aqui em Soochow dois anos, mas a saúde de sua senhora estava sendo
ameaçada pelo clima ali. Por este motivo e por outros o Dr. Lambuth pediu a sua demissão do
cargo que ocupava e foi para Pequin, onde iniciou o seu trabalho com a Igreja Metodista Episcopal
(a igreja Metodista do Norte dos EUA). Lá foi o fundador de um hospital, que foi o começo do
grande hospital que existe hoje com o nome de “Rockefeller Hospital”, o qual custou cerca de
595.000 contos de réis.
Este passo dado por ele não pode ser justificado exclusivamente por motivos de saúde da
sua esposa, mas, sobretudo devido a alguma divergência existente entre ele e outros quanto ao
modo de administração. É muito provável que seu pai tivesse influído muito sobre ele neste
negócio. Mas o Bispo McTyeire não considerou este passo autorizado pelas formalidades das
autoridades da Igreja. A relação que ele mantinha com a Igreja Metodista Episcopal, dali em diante
sempre foi cordial.
É muito provável que o Dr. Lambuth pretendesse passar para a Igreja Metodista Episcopal
(transferindo-se, portanto da Igreja Metodista Episcopal do Sul para a Igreja Metodista Episcopal) e
dedicar-se ao trabalho no norte da China, mas ele e seu pai foram convidados para abrir trabalho
da Igreja Metodista Episcopal do Sul no Japão. A Junta de Missões na sua reunião anual, em 6 de
maio de 1885, tomou a seguinte resolução: “Recomendamos que seja estabelecida uma missão no
Japão, e que seja destinada a quantia de três mil dólares para este fim”. Agora o caminho está
aberto para iniciar o trabalho no Japão.
2. No Japão.
É muito provável que nossa Igreja não tivesse principiado o seu trabalho no Japão tão
cedo se não fosse a divergência que houve entre Lambuth e os demais missionários quanto à
maneira de se fazer a propaganda. Seja como for, o tempo tinha chegado para a nossa Igreja
entrar neste campo difícil e prometedor.
a) Iniciando o trabalho no Japão.
Como o pai do Dr. Lambuth já era homem avançado em idade e como tinha que aprender
uma nova língua, a maior responsabilidade caiu sobre o filho, que tinha nessa ocasião trinta e dois
anos. Não podemos calcular quanto lhe custou abando nar o seu plano de trabalho na China. Era
seu desejo ser médico e trabalhador na China, mas agora foi chamado para abandonar a sua
carreira e profissão na China para trabalhar entre um povo cuja língua tinha que aprender. Mas ele
respondeu e iniciou o seu trabalho no Japão, um país moderno, isto é, que tinha o desejo de
abandonar as idéias da antiguidade e abraçar as idéias modernas do ocidente. Foi nesta época de
transição que o dr. Lambuth foi incumbido de abrir a missão da nossa Igreja no Japão. Junto com
ele foram os seus pais James e Maria Lambuth e o Dr. O. A. Duke, também transferido da missão
na China.
Estudaram bem antes de iniciar o trabalho. A primeira coisa que Dr. Walter fez foi abrir
uma escola noturna na cidade de Kobe. O povo japonês já estava provido de escolas primárias e,
portanto, era necessário atingir a classe mais necessitada, e não somente isso, mas também
oferecer instrução superior. Deram, pois, ênfase à instrução, ao mesmo tempo não se esqueceram
do trabalho de evangelização. Fundaram duas escolas: uma de meninas, em Hiroshima, e outra
(Kwansei Gahuin) para meninos em Kobe. Estas três instituições têm progredido até agora e
exercem grande influência sobre a nação japonesa. Não entraremos nos pormenores da fundação
destas escolas, porém devemos lembrar que representam muita oração, força e sacrifício da parte
dos seus fundadores.
b) A experiência religiosa que o D r. Lambuth teve no Japão.
O Dr. Lambuth reconhecia o valor do trabalho educativo no Japão, mas ao mesmo tempo
não deixou de interessar-se pelo trabalho de evangelização. Viajava constantemente na região
que escolheu para o seu trabalho. A I greja Metodista Episcopal e do Canadá estavam trabalhando
no Japão e ele tinha a esperança de que o trabalho metodista no Japão (da Igreja Metodista
Episcopal e da Igreja Metodista Episcopal do Sul) se unificasse qualquer dia. E isto de deu em
1907, sendo o Dr. Lambuth um dos representantes principais da nossa Igreja a tomar parte na
unificação do Metodismo no Japão.
Bem, as provas que tinha o espírito apostólico de evangelização temo -las no seguinte
horário que basta para prová-lo. “Dentro do território marcado no princípio o Dr. Lambuth viajava
quase incessantemente. Nós o encontramos em Hiroshima, agora em Kobe numa série de
conferências de avivamento, em Tadotsu, em Oita, cinco vezes durante o ano, e uma vez dirigindo
uma série de conferências, agora em Uwajima, Matsuyama, Takushimi e Osaka. O modo de viajar
não era o mesmo que nos Estados Unidos”.
Houve um avivamento religioso todo especial na cidade de Oita em maio de 1890. O
trabalho evangélico estava sendo perseguido fortemente e corria o mesmo perigo que a Igreja
Católica Romana correu anos atrás quando foi exterminada. A perseguição humilhou o s crentes e
os obreiros. Entregaram-se à oração, buscando o poder lá do alto sobre eles e sua obra. Deus foi
propício e derramou o seu Espírito Santo abundantemente sobre os seus serviços; mas não foi a
primeira vez. Antes mesmo da chegada do Dr. Lambuth e dois dos seus colegas de trabalho, os
Drs. Yoshioko e H. Nakamura, já o Espírito Santo se havia manifestado no meio da Igreja na
cidade de Oita.
O Dr. Wainright era o pregador a cargo e sentia a força da perseguição, e o Dr. Walter
Lambuth como superintendente da Missão sentia uma grande responsabilidade em dirigir o
trabalho. Nessas condições ambos se entregaram à oração constantemente. Vamos deixar o Dr.
Wainright contar o que se deu numa reunião de oração: “Não estamos bem certos se teria sido o
último dia do ano ou dois ou três dias mais cedo. Na véspera de um culto que tinha sido anunciado
à noite para a congregação, quatro de nós ajoelhamos em oração no meu quarto, às 4 horas da
tarde, a saber: W. R. Lambuth, Y. Yoshioka, H. Nakamura e eu. Depois de passar algum tempo
ajoelhados e enquanto o D r. Lambuth estava orando, uma coisa estranha se deu. Enquanto orava
deliberadamente, de repente a sua voz começou a enfraquecer gradualmente até que não se pode
mais ouvir. Entendemos pela sua linguagem que sentia a presença de Deus de maneira
excepcional. Ele rogava a Deus que fosse livre da opressão que as suas forças não mais podiam
agüentar. O que o perturbou e o amedrontou foi a percepção de que Deus lhe estava perto e
misteriosamente visível. A falta de suas forças, que nos poderia ter alarmado, não nos causou
qualquer perturbação e ao mesmo tempo parecia que a sua vida estava desaparecendo. Quando a
sua voz ficou fraca até ao ponto de desaparecer, ele começou a invocar o nome de Jesus,
pedindo-lhe que ficasse entre ele e a presença real de Deus. Este apelo foi atendido, pois logo em
seguida começou a voltar a si tendo uma visão clara da aproximação de Cristo. Fo i nesse ponto
que principiou a recuperar as forças e que uma onda espiritual passou pela sala. Os fardos que
tinham pesado sobre nós por meses desapareceram. Os nossos espíritos ficaram libertos e a
nossa alegria era tanta que não sabíamos se estávamos no corpo ou fora do corpo. O tempo ia
passando e antes de levantar os nossos joelhos a empregada veio nos chamar para jantar. Se não
me engano ninguém atendeu a chamada para o jantar. Essa nossa experiência foi tão viva e tão
cheia de gozo que não nos lembrávamos de qualquer outra coisa. Todos os cenáculos não se
acham somente em Jerusalém, mas lá naquele lugar distante de Deus tinha derramado o seu
Espírito sobre nós como fez sobre os apóstolos, no principio”.
A reunião que logo em seguida se realizou no sal ão de cultos foi caracterizada pela
manifestação do poder do Espírito Santo sobre o povo. Muitas pessoas se converteram nessa
ocasião. Desse dia em diante a causa de Cristo prosperou na cidade de Oita. Foi uma grande
vitória para a causa do Mestre.
A seguinte história revela a influência que o Dr. Lambuth tinha sobre a mocidade japonesa.
Nesta época o Japão estava aceitando as idéias do ocidente e os jovens estavam ansiosos por
aprender inglês. O Sr. Adachi Kinnosuke tinha quinze anos de idade e estava louco por aprender
inglês. Ele pertencia à família Samurai que tinha muito capricho e orgulho e desprezava os outros
povos com as suas religiões. Mas um colega de Adachi Kinnosuke o convidou para ouvir o Dr.
Lambuth pregar um domingo e como a pregação ia ser em inglês consentiu em assistir ao culto.
Entrando na sala de culto e tomando um assento viu perante si um homem branco falando o
idioma que queria conhecer e assim o Sr. Kinnosuke descreve a sua impressão do Dr. Lambuth: “O
homem pregou meia hora, tudo em inglês. Foi um milagre apanhar eu algumas palavras que podia
entender daquele missionário. Aquele homem esquisito, com olhos azuis e nariz fino espontado,
que tinha vindo de milhares de léguas d’além mar, era tão humano como nós. Ainda mais, havia
uma ponte entre nós, e eu sentia o meu mundo expandir para abranger mais dois continentes e
cinco oceanos. Foi assim que vim a conhecer o Dr. Lambuth, que mais tarde foi eleito Bispo na
Igreja Metodista Episcopal do Sul, e que foi um dos grandes homens deste século e um dos
missionários americanos mais competentes que têm chegado ao Japão. ”
“Mais tarde fui convidado para fazer parte da família dos Lambuth. Minha alegria não tinha
limites, pois agora podia aprender o inglês deveras. O que me impressionou mais que tudo neste
lar foi o Dr. Lambuth e a sua filhinha. Quando minha avó faleceu, contei tudo ao Dr. Lambuth e
então ele me disse: “Então o seu pai não ficou triste pela morte de sua mãe? Ele ficou contente em
vê-la passar deste mundo para o mundo além? Bem, eu me alegro em saber disso. O seu pai
evidentemente é mais cristão do que alguns de nós”.
Isto me fez impressão de modo tal que não me lembrei mais do Dr. Lambuth como
meramente missionário, mas como um homem tão grande que podia abranger os credos
antagônicos com o seu. Uma noite após a reunião de oração falei com o Dr. Lambuth e disse
abertamente: “Dr. Lambuth, quero ser um cristão. O Dr. Lambuth, sem qualquer surpresa e
sorridente, perguntou: “Verdade? Pode me dizer porque o senhor quer ser cristão?”. “Eu quero ser
um cristão, doutor, porque a minha vida não significa coisa alguma; a sua vida, sim, significa
alguma coisa. Se o senhor vive como Jesus, talvez também eu possa viver como Ele. Devo dizerlhe que gosto do senhor, do seu caráter e do seu trabalho”. O Dr. Lambuth não me respondeu.
Logo senti o braço dele me apertar e me trazer mais perto de si. “Deus o ajude”, disse ele, depois
de um longo silêncio e a voz um pouco tr êmula. “Que ele nos ajude a nós dois!”. Anos depois ele
me disse que isso foi o maior elogio que jamais tinha recebido. E assim tornei-me cristão”.

V- SEU TRABALHO COMO SECRETÁRIO DA JUNTA DE
MISSÕES
Em 1891 o Dr. Lambuth, por causa da saúde da sua família, teve que voltar para os
Estados Unidos. Quando deixou o Japão, tinha a esperança de voltar para lá no prazo de poucos
meses ou, no mais tardar, no correr de um ano. Mas a providência tinha para ele outros planos,
pois nunca mais voltou para o Japão como missionário. Se recordarmos um pouco os fatos na vida
dele, descobriremos qu e as mudanças têm sido muitas e são uma profecia de que haverá ainda
muito mais antes de findar a jornada da vida. Ele principiou o seu trabalho perto da cidade de
Xangai, passou mais tarde para Soochow, dali para Pequin, depois para o Japão e agora voltou
para a América e pela força das circunst âncias ficou lá, trabalhando em prol da causa de Cristo
como secretário da Junta de Missões.
1. Como principiou o seu trabalho na Junta de Missões.
Quando o Dr. Lambuth voltou para a América, encontrou a Junta de Missões endividada e
as apropriações reduzidas de vinte por cento. Logo começou a falar à Igreja por meio da revista
missionária, o “Missionary Repórter”. Ficou responsável por uma seção no jornal e por meio dela
fez a Igreja sentir a sua obrigação de evangelizar os povos, especialmente os japoneses.
Em conexão com os seus artigos publicados neste jornal, visitava as diversas
Conferências Anuais e falava sobre o assunto de Missões. Foi muito bem recebido e o povo
começou a responder-lhe aos apelos. Em Saint Luiz conseguiu fundos suficientes para mandar um
missionário para o Japão e no Mississipi foi tão bem sucedido que diversos moços se ofereceram
como candidatos ao trabalho missionário e diversos pais consagraram os seus filhos a Deus para o
trabalho de missões. Assim ele passou algum tempo trabalhando.
2. Eleito secretário da Junta de Missões.
Houve duas coisas que lhe causaram muito pesar durante o primeiro ano que passou nos
Estados Unidos após regressar do Japão, a saber: a morte do seu querido e velho pai, Dr. James,
que morreu no Japão em 1892, e a morte de um dos secretários da Junta de Missões , o Dr. W. H.
Potter, que faleceu pouco tempo depois de ter sido eleito para esse cargo.
Dr. Lambuth foi convidado a preencher o lugar do dr. W. H. Potter. Ele exerceu o cargo de
secretário tão bem que quando a Conferência Geral se reuniu em 1894, foi eleito Secretário
Correspondente da Junta de Missões, cargo que ele ocupou por dezesseis anos, sendo reeleito de
quatro em quatro anos até que foi eleito Bispo em 1910.
3. A sua administração de dezesseis anos.
Durante a administração do Dr. Lambuth a causa de Missões prosperou continuamente.
Durante esta época diversas sociedades da mocidade da Igreja foram organizadas, tais como a
Liga Epworth, que foi organizada em 1890, a Sociedade Missionária de Jovens e o Movimento
Voluntário de Estudantes. Por meio destas sociedades o Dr. Lambuth podia apelar à juventude da
Igreja no sentido de interessar-se pelo trabalho missionário. Foi o promotor de diversas
convenções compostas dos jovens das escolas e das igrejas, e foi nas ocasiões dessas
convenções populares que muitos moços e moças se consagraram ao trabalho missionário em
toda parte do mundo. Ele tomou parte saliente na cooperação das diversas Juntas de Missões nos
Estados Unidos e no Canadá. Foi um dos primeiros membros da “Conferência das Missões
Estrangeiras na América do Norte”.
Em 1894, como secretário da Junta de Missões, o Dr. Lambuth, pela primeira vez, visitou o
Brasil. Foi na ocasião da sua visita ao Brasil que, dois anos após a morte do pai, recebeu a triste
notícia do falecimento da sua querida mãe, D. Maria, na cidade de Soochow, na China, no dia 26
de junho de 1894. O Dr. Lambuth estava no Rio de Janeiro nesse dia e escreveu uma carta à sua
irmã que estava com a sua mãe na hora da morte.
Segue um trecho da sua carta: “A vida dela foi uma vida heróica. Eu e você sabemos disto
muito bem. Que devoção durante muitos anos! Que fadiga! Que abnegação, até uma
extravagância das suas forças em serviço dos outros, e pelo amor de Cristo. Oh! Minha mãe,
minha mãe, se eu pudesse ter tomado a tua mão mais uma vez, sim, mais uma vez! Mas está bem,
minha irmã Nora. Nem por nada desejaria eu que você e Roberto estivessem separados dela nesta
última hora. Deus lhe deu o doce privilégio de estarem com ela e prestarem algum serviço para
suavizar um pouco a sua vida, e eu estou contente por causa de vocês e por causa dela”.
A exigüidade de espaço e de tempo não permite que falemos mais sobre a sua
administração como Secretário da Junta de Missões.

VI – SEU TRABALHO COMO BISPO
Como a Conferência Geral se reuniu em 1910, era opinião de muitos que o Dr. Lambuth
seria eleito Bispo, e isso foi o que se deu.
1. Seu trabalho no Brasil.
Além de ser nomeado para tomar conta do trabalho em algumas Conferências lá para
oeste dos Estados Unidos e fundar uma Missão na África Central , foi designado também para ser o
Bispo supervisor do trabalho missionário no Brasil.
Logo depois da Conferência Geral, o agora Bispo Lambuth, pondo tudo em ordem, nos
Estados Unidos, partiu para o Brasil, via Inglaterra, onde assistiria o Concílio Mundial de Missões
em Edimburgo no mês de junho, chagando ao Brasil nos fins de julho de 1910.
Aqui realizou a Conferência Brasileira em Ribeirão Preto, em 28 de julho, e foi a primeira
Conferência Anual presidida pelo Bispo Lambuth. Durante quatro anos não deixou de visitar o
Brasil, de ano em ano. Os irmãos não podiam deixar de ser impressionados com o espírito fraternal
e abnegado que o caracterizava. Era tolerante e clemente, mas firme nas suas convicções. No
gabinete os mesmos característicos se manifestavam. Aqui temos o testemunho de um membro do
gabinete, a respeito do Dr. Lambuth. “Em muitos sentidos era o Bispo mais quieto que tenho
conhecido, porém quando alguém procurava conseguir alguma coisa por subterfúgios, ele
respondia com uma linguagem que queimava até os ossos. Duas vezes o testemunhei no
gabinete. Feito isto, estava tudo acabado. Quando tinha refletido sobre um assunto e chegado a
uma conclusão, ele a executava, mesmo quando isso gerava protestos”.
O Bispo Lambuth era muito atencioso para com todos, ricos e pobres, humildes e
graúdos. Uma vez na cidade de Belo Horizonte visitando a Igreja dos Militares, o pastor contou-lhe
que havia um pobre homem, membro da Igreja, que era trabalhava como foguista no trem e que
num desastre queimou-se e não havia esperança de escapar. O Bispo foi com o pastor visitar este
irmão. O homem ficou muito impressionado em receber uma visita do Bispo. Mas o Bispo foi tão
simples e natural em suas maneiras e conversas, que o doente percebeu que estava em sua
presença, não o Bispo, mas um irmão amado. Depois de conversar com o moço sobre a sua fé em
Cristo, fez oração. Embora a oração fosse em língua estranha, o doente ficou tão impressionado
que não sentiu mais dores até chegar a falecer dali a poucos dias. Os pais do homem assim
testemunharam mais tarde.
Na ocasião da sua primeira visita ao Brasil o Bispo Lambuth interessou-se pela
cooperação do Brasil na fundação e manutenção da Missão na África Central, pedindo que as
nossas Conferências Anuais tomassem parte neste trabalho, levantando a quantia de seiscentos
dólares por ano para este fim. A Conferência Anual Brasileira tomou o compromisso em 1910, e o
tem cumprido até a presente data. Também foi durante esta visita episcopal que foi organizada a
Conferência Anual Sul Brasileira.
Na ocasião da sua última visita ao Brasil, em 1913, na véspera de partir convocou uma
reunião especial de pregadores no Rio de Janeiro.
2. Seu trabalho na África.
Por muitos anos o Bispo Lambuth interessou-se pelas missões na África. Mesmo quando
ainda trabalhava no oriente, lendo as notícias do trabalho de David Livingstone e Stanley, tinha o
desejo de abrir trabalho missionário no cont inente negro. Este desejo perpetuou durante anos e na
véspera da Conferência Geral, em 1910, quando ele era ainda secretário da Junta de Missões,
tomou a Junta a seguinte resolução: “Que a Junta de Missões tome medidas o quanto antes de
estabelecer uma missão na África”.
Quando foi eleito Bispo, nomearam-no para visitar a África a fim de estudar a questão. Em
1911, em companhia do Prof. John Wesley Gilbert, um homem negro (afro-descendente), e do
Prof. do Panis College em Augusta, na Geórgia, fez a primeira visita à África. Escolheram o Congo
Belga, que fica quase no centro da África, como a região onde julgaram conveniente fundar a
Missão. Nos princípios de 1912, depois de uma viagem perigosa e penosa, chegaram ao lugar que
chama Wembo Niama, em meio da tribo mais forte que existia naquela área, que se chama
Batelela. Conquistaram a confiança e amizade do chefe da tribo, Wembo Niama.
A segunda visita foi em 1913, quando o Bispo levou consigo uma companhia de
missionários. O chefe Wembo Niama os esperava e os recebeu com alegria.
Quando o Bispo Lambuth se despediu do chefe Wembo Niama, prometeu -lhe voltar no
correr de dezoito luas (dezoito meses), porém tornou-se impossível ao Bispo cumprir a sua
promessa devido à sua demora no Brasil. Resolveu ele avisar o chefe, da sua demora, pedindo
que o prazo fosse prolongado para vinte e quatro luas. Para conseguir isto, era necessário mandar
quatro homens a uma distância de mil milhas. Estes homens levaram um presente para o chefe, da
parte do Bispo. O chefe, em sinal de proteção contra os inimigos, mandou, por meio destes
mensageiros, a sua espada, com que tinha matado diversos homens, comendo-os em seguida.
Faltava um dia para completar o prazo quando o Bispo, com as três famílias missionárias,
chegaram ao lado do chefe. Isto não somente revela a fidelidade do Bispo em cumprir a sua
palavra, como também sua prudência em conservar a amizade do chefe desta tribo. Quando o
Bispo se despediu dele, em 13 de fevereiro de 1914, o chefe Wembo Niama quis acompanhar até
aos limites da vila, e, chegando lá, disse ao seu povo: “O chefe branco diz que tem de voltar para
casa. Que assim seja. Pode deixar o seu povo comigo. Eles (os missionários) serão meu povo,
porque eu confio neles. Ele não deve ter receio. Quando completaram a igreja, os meus operários
ajudaram na construção das casas do seu povo; e quando tudo acabaram, levantaram uma cerca
alta e forte ao redor da Missão para protegê-la dos leopardos”.
O Bispo, agradecendo-lhe essas palavras, disse: “Wembo Niama, o senhor é um grande
chefe e as suas palavras são fortes. O senhor não me enganou nem tem deixado de cuidar dos
meus filhos que tenho deixado aqui. O coração de um grande e verdadeiro chefe devia ser um bom
coração, e isto só pode ser uma dádiva de Deus. Dê o seu coração a Jesus e Ele o fará bom e
forte”.
O objetivo que o Bispo Lambuth tinha em vista era fundar esta missão na África,
levantando assim uma barreira através do continente contra o progresso do maometismo
(islamismo) que estava propagando do norte para o sul da África.
3. Seu trabalho nos Estados Unidos.
O Bispo Lambuth trabalhou muito nos Estados Unidos durante o tempo que não estava em
viagens missionárias no estrangeiro. Uma das coisas que fez logo depois de fundar a Missão na
África foi preparar a série de preleções conhecida como “The Cole Lectures of the Valderbilt
University”, em Nashville, no Tennesse. Ele foi escolhido para preparar e ler esta série perante a
Universidade. Gastou algum tempo escrevendo essas preleções que têm como título: “Ganhando o
mundo para Cristo” (Winning the World for Christ). Morava em Oakdale, na Califórnia, quando
escreveu esta obra. Foi talvez, a época de mais repouso que tivera em toda a sua longa vida de
atividades. Estas preleções foram lidas perante os seminaristas da Universidade em junho de
1915.
4. Seu trabalho na guerra mundial na Europa.
Quando rebentou a grande guerra mundial em 1914, o Bispo Lambuth tinha completado a
fundação da missão na África e, devido aos favores que o governo da Bélgica lhe tinha feito,
natural era que tivesse simpatia pelo povo Belga nesta ocasião de aflições. Logo, pois, ele
começou a apelar para o auxílio em prol dos que sofriam na guerra e por causa da guerra. E
quando aos Estados Unidos entraram na guerra, ele se ofereceu como capel ão e fez o que pode
para aumentar o número de capelas para servir os soldados nos acampamentos, tanto na América,
como na Europa. Quando a guerra terminou, foi, em grande parte, devido à influência dele que a
nossa Igreja abriu trabalho na Bélgica e Tcheco-Eslováquia.
Era o desejo dele entrar na Rússia, porém devido às relações que o governo americano
mantinha para com a Rússia não foi possível consegui-lo.
5. Seu trabalho nestes últimos anos no Oriente.
Terminada a grande guerra o Bispo Lambuth foi nomeado para trabalhar no Japão, na
China, na Coréia e na Manchúria. Como não podia entrar diretamente na Rússia, procurou entrar
pelo oriente, abrindo uma missão na Sibéria. Na última viagem que fez ao Oriente, conseguiu
fundar uma missão na Sibéria, vasta zona do mundo. Tinha sido ele o instrumento principal em
abrir trabalho no Japão, Coréia, Cuba, África, a Conferência Texas -Mexicana e a Conferência
Pacífica-Mexicana e por último a missão na Sibéria.

VII – O FIM DO CAMINHO
O Bispo Lambuth fez ainda duas visitas ao Oriente entre 1919 e 1921. A primeira visita foi
feita em condições penosas, pois a sua esposa estava doente e passou quase todo tempo que ele
esteve ausente num hospital, tendo a seu lado a dedicada filha, Miss Mary, para atendê-la.
Quando o Bispo hesitou em ir, sua esposa lhe disse: “Vai quando e aonde o dever te chama.
Deves ir. Tenho orado pelos coreanos e eles precisam de ti mais do que eu”.
Quando o Bispo chegou à Coréia e contou isto à Conferência, os coreanos choraram como
se fossem crianças. Mas a segunda visita foi ainda mais penosa, porque a sua esposa tinha um
incômodo incurável e ele estava doente, precisando de uma operação.
Apesar de tudo isto, resolveu tentar a viagem, pois queria muito fundar a missão na
Sibéria, além de ministrar aos japoneses, coreanos e chineses por essa vez . Ele fez aquela longa
viagem à Sibéria fundou a Missão em 31 de julho de 1921, na cidade de Nikolsk. Logo em seguida
voltou para o Japão, onde tinha que se submeter a uma operação.
Na véspera da operação, numa carta que escreveu para o Dr. W. W. Pinson, diz ele: “É
com bastante pesar que eu faço esta declaração, porém a necessidade está sobre mim. Não me
arrependo de ter feito esta viagem, apesar da ausência de minha esposa e filha nesta ocasião, e
tenha saudades da presença e auxílio delas. Mas eu e Mrs. Lambuth nos entregamos a Deus há
anos atrás, quando entramos no trabalho missionário em 1877, e nós dois e todos os nossos
interesses, têm estado absolutamente nas mãos de Deus desde aquele dia até o dia de hoje”.
Poucos minutos antes de sofrer a operação, em 12 de setembro de 1921, o Bispo Lambuth
pediu ao Dr. W. E. Towson que escrevesse uma carta à Junta de Missões para saber se tinha
ainda algum recurso disponível em caixa para os chineses flagelados e famintos. Isto revela os
sentimentos daquele grande coração.
Ouçamos o Dr. Towson: “Ele encarou a operação com muita calma, pensando no trabalho,
nos obreiros e nos queridos do lar”. Agüentou a operação e melhorou, e por alguns dias ditou
muitas cartas, talvez duzentas; porém houve uma reação, ele piorou, e no dia 26 de setembro
faleceu no hospital no Japão.
Foi enterrado na China ao lado de sua mãe, D. Maria. O enterro foi acompanhado pelos
amigos e representantes da Coréia, Japão e China. Diversas nacionalidades foram representadas
nessa ocasião.
O Bispo Lambuth era um cidadão do mundo e um cristão verdadeiro.

Os fundadores-do-metodismo

  • 1.
  • 2.
    SUMÁRIO A) OS INGLESES I.A VIDA DE JOÃO WESLEY, o organizador do Metodismo (1703-1791) II. A VIDA DE CARLOS WESLEY, o poeta do Metodismo (1707-1788) III. A VIDA DE GEORGE WHITEFIELD, o orador e evangelista do movimento Metodista (1714-1770) IV. A VIDA DE JOÃO FLETCHER, o santo do movimento (1729-1785) V. A VIDA DE THOMAS COKE, o missionário do movimento metodista (17471814) VI. A VIDA DE FRANCIS ASBURY, o pioneiro e pai da Igreja Metodista na América (1745-1816) B) OS AMERICANOS VII. A VIDA DE GUILHERME McKENDREE, o primeiro bispo americano da Igreja Metodista (1757-1835) VIII. A VIDA DE JOSUÉ SOULE, o legislador da Igreja Metodista (1781-1867) IX. A VIDA DE PEDRO CARTWRIGHT, o itinerante metodista nas fronteiras (1785-1872) X. A VIDA DE ENOCH MARVIN, o pregador e Bispo evangelista (1823-1877) XI. A VIDA DE CARLOS BETTS GALLOWAY, o cavalheiro cristão (18491909) XII. A VIDA DE WALTER RUSSEL LAMBURTH, o primeiro moderno do cristianismo (1854-1921).
  • 3.
     A vida deJoão Wesley, o fundador do Metodismo (1703-1791) Escrevendo a biografia de João Wesley alguém podia fazê-lo sob diversos aspectos. Por exemplo, podia caracterizá-lo como reformador, evangelista itinerante, apóstolo da liberdade de pensamento religioso, fundador de uma Igreja, etc., mas o nosso estudo visa encará-lo como um organizador. Sem dúvida elementos de outros pontos de vista hão de aparecer, porém, em narrando os fatos principais de sua vida, daremos ênfase ao organizador. I - O PARENTESCO E A MOCIDADE 1. Seus pais. Quando Deus, na sua providência divina, destina alguém a realizar os seus desígnios para com a humanidade, começa pelos p ais e avós dessa pessoa. Assim se deu na vida de João Wesley. Sua parentela contava muitas pessoas nobres e distintas na vida nacional e da Igreja. Entre essas pessoas havia diversos literatos cultos e profundamente religiosos. Seus próprios pais foram desse número, sendo o pai um literato e vigário da Igreja Anglicana e sua mãe uma senhora bem educada, prática e piedosa. Dela foi que o filho aprendeu a ser metódico e ter sistema na vida prática. Ela determinava horas e dias marcados para seus filhos fazerem certas coisas e eles tinham que fazê-las. 2. Sua Educação. Como já dissemos, sua mãe tomou grande interesse em seu filho “Jack” (o apelido de carinho) desde os seus primeiros dias de infância, ensinando -o não somente o que se encontra nos livros, mas, também o que se encontra no coração de uma mãe piedosa e estremecida. Tinha dia e hora marcados em cada semana, em que levava “Jack” para seu quarto e ali, sozinhos, ela conversava aconselhando-o e orando por ele. Revelava tão boas qualidades, que não somente conseguiu impressionar e influir poderosamente no espírito do seu filho enquanto criança, mas também pelos seus conselhos acertados prestou relevantes serviços à sua idoneidade. Portanto, cedo na vida, prestou a essa mulher admirável homenagem e respeito. Ele foi, sem dúvida, o reflexo da influência da sua querida mãe. Quando tinha dez anos de idade, os pais mandaram-no para Londres, onde passou uns seis anos na Escola Charterhouse. Os dias passados já foram dias de proveito, mas, a princípio, dias de lutas e grandes tentações. Não sendo um menino muito robusto, o pai aconselhou-o que fizesse uma corrida, todas as manhãs, ao redor do quarteirão, onde estava a escola. Ele cumpriu fielmente esta ordem; e de manhã cedo podia-se ver correndo ao redor da escola, um menino de cabelos louros agitados pelo vento.
  • 4.
    Terminando o seucurso nesta escola, quis estudar na Universidade de Oxford, onde seu pai havia estudado. Durante este período passou da meninice à mocidade. Não era mais uma criança, porém um adulto, com a sua personalidade mais ou menos desenvolvida. Seu irmão mais velho, Samuel, que a esse tempo morava em Londres, escrevia cartas ao pai, elogiando o Joãozinho pela sua inteligência e coragem. Ele não deixou de seguir o conselho de seu pai e, fielmente, fazia as corridas diariamente ao redor da escola, assistia cultos aos domingos, comungava, lia a Bíblia e fazia oração. O Sr. Southy diz que por sua tranqüilidade, regularidade e aplicação tornou-se o favorito de seu mestre, Dr. Wolher. 3. Um incidente impressionante na sua meninice. João, o décimo quinto filho de Samuel e Susanna Wesley, nas ceu na pequena cidade de Epworth, Linconshire, Inglaterra, no dia 28 de junho de 1703. Como já dissemos, ele não tinha motivo para se envergonhar de seu parentesco. O lar na casa pastoral de Epworth era semelhante a uma colméia de abelhas em atividade e interesse. Quando tinha passado seis anos da vida aqui nesta casa tão cheia de encantos, aconteceu certo dia um incidente tão impressionante do qual ele nunca se esqueceu. A altas horas da noite a casa incendiou-se e, sendo uma casa de madeira e já velha, não levou muito tempo para ser consumida. Todos os membros desta numerosa família com os criados tinham abandonado a casa. Muitos dos seus vizinhos tinham afluído ao redor da casa para socorrê-los. Notaram que João não estava com os demais membros da família. A casa já estava envolvida em chamas e Joãozinho ainda estava dormindo no segundo andar. A escada já estava tomada pelo fogo e as labaredas estavam passando pelo forro do teto, iluminando o quarto onde a criança se achava. A claridade acordou o menino. Assustado, ele correu para a janela e olhou para baixo, lá enxergando os rostos dos seus pais e vizinhos iluminados pela claridade do incêndio. Descer pela escada era impossível, pular pela janela era perigosíssimo. O desespero apoderou-se dos pais. Que fazer? Havia no meio dos vizinhos um homem mais calmo e refletido do que os outros, o qual se chegou à parede da casa, convidou mais dois homens para treparem em seus ombros, fazendo deste modo uma escada até a janela onde se encontrava o menino. João pulou nos braços do homem e desceu de um para outro até chegar salvo ao chão. O pai, abraçando o seu filho, convidou seus vizinhos para fazerem oração, dizendo – “ Venham, meus amigos, vamos dar graças a Deus pelo livramento do meu filho; deixai a casa queimar; tendo meus filhos, sou rico!” Assim ajoelharam-se e renderam graças a Deus. Este incidente de tal forma impressionou a criança que nunca mais dele se esqueceu e, mais tarde na vida, recordando-se deste incidente, considerava-se a si mesmo como um tição arrebatado ao fogo e comparava este mundo a uma casa incendiada cujos habitantes corriam o perigo de perder-se no fogo eterno. II - ESTUDANTE EM OXFORD 1. A cidade de Oxford. A cidade de Oxford, nesta época, embora famosa como centro educativo, não era, em sua atmosfera moral, muito favorável ao desenvolvimento de piedade ou intelectualidade. O Dr. Fitchett diz: “Oxford, no princípio do século dezoito, talvez fosse o lugar mais prosaico que qualquer outro em toda a obscura Inglaterra. Não havia entusiasmo nem pelos esportes! Era o lar da insinceridade e da ociosidade e cheia de vícios gerados por tais qualidades. A sua insinceridade era de um tipo pernicioso; porque era organizada, patrimoniada, venerada e revestida de autoridade, e, além de tudo, era conceituada como virtuosa”.
  • 5.
    Portanto, os seusideais eram naturalmente baixos, a disciplina frouxa e a religião consistia em formalismo cuja qualidade era ridicularizar os estudantes mais religiosos e sinceros. 2. A vida como estudante. Pouco se sabe da vida de Wesley durante os quatro anos que passou como aluno em Oxford. É muito provável que fosse a época em que descuidara mais da sua vida religiosa. Isto não quer dizer que se tornasse um rapaz dissoluto, mas que negligenciou observar os seus costumes religiosos de outros tempos. Julgamos, pela correspondência com seu pai, que passou apuros financeiros durante este período de sua vida. Que ele foi um bom estudante não se pode duvidar. Completou seu curso em quatro anos, tirando o seu diploma em Bacharel em Ar tes em 1724. Alguns dos seus contemporâneos dão testemunho dele quanto ao seu comportamento e estudos. O Sr. Badcoch, um dos seus colegas, assim o descreve quando tinha vinte e um anos de idade; um rapaz de superior gosto clássico, e de sentimentos liberais e cavalheiros. O Sr. South diz que ele era um estudante diligente e por sua habilidade em lógica, pela qual conseguiu freqüentemente derrotar os que mais tarde seriam os seus adversários na vida. Falando de sua própria vida nesta época, Wesley diz: “Eu continuava a fazer as minhas orações, tanto em particular como em público e ler a Bíblia junto com outros livros religiosos, especialmente comentários sobre o Novo Testamento. Mas não tinha a mínima idéia do que era a santidade íntima no coração; sim, habitualmente continuava, mais ou menos, satisfeito, cometendo alguns pecados reconhecidos”. Realmente Wesley estava passando aquele período de transição do menino para o homem. Como as demais pessoas, tinha de ajustar-se a esta nova fase da vida. Sem dúvida alguma os ensinos que recebera dos pais e os hábitos formados no lar paterno vieram agora em seu auxílio para o confirmar numa vida reta. 3. Preceptor em Lincoln College, Oxford. Quando completou o seu curso em Oxford tinha vinte e um anos de idade e logo se levantou em seu espírito a questão da sua profissão ou vocação. Resolveu-se a entrar para o serviço da Igreja e seus pais concordaram nisso. Uma vez tomada essa decisão começou logo a preparar-se para a sua ordenação. Dedicou-se ao estudo de teologia e à leitura devocional. Sua principal preocupação era obter uma idéia clara acerca da natureza do homem e da sua relação para com o homem e do homem para com Deus. Sobre a sua experiência religiosa muito podia se dizer; porém não podemos aqui estender-nos sobre o assunto além de dizer que a maior dificuldade com o Sr. Wesley à procura de Deus, era que ele queria desenvolver uma teologia e então experimentá-la na vida prática, em vez de ter uma experiência pessoal da graça de Deus no coração e dali desenv olver numa teologia. Em outras palavras ele inverteu o processo e isto causou-lhe muitos desapontamentos e perplexidades. Quando se considerou preparado para aceitar a ordenação, foi ordenado pelo bispo Potter, a 19 de setembro de 1725. A 17 de março de 1726 foi eleito preceptor de Lincoln College em Oxford. Em outubro do mesmo ano foi eleito lente (professor de escola superior ou secundária) da cadeira de grego e moderador das classes. A 14 de fevereiro foi-lhe conferido o grau de Mestre em Artes. Sendo um estudante e professor diligente, estabeleceu o seguinte horário de estudos que seguia assiduamente: segundas e terças-feiras, Grego e Latim; quarta-feira, Lógica e Ética; quinta-
  • 6.
    feira, Hebraico eÁrabe; sexta-feira, Metafísica e Filosofia Natural; sábado, Oratória e Poesia; domingo, Divindade. Nas horas vagas estudava Francês e lia uma grande variedade de livros modernos. No outono de 1727 ele foi ajudar seu pai na sua paróquia de Ep worth e Wroote, onde passou quase dois anos com pouco sucesso e satisfa ção. Sendo convidado de novo a voltar para Oxford como preceptor, aceitou o convite e entrou em serviço pelos fins do ano de 1729. 4. O Clube Santo. Voltando de novo para Oxford, o Sr. Wesley não somente ocupava o seu tempo como preceptor e moderador das Classes, mas também no trabalho religioso do “Clube Santo”. Nesta ocasião o seu irmão Carlos, mais moço do que ele, estava freqüentando aulas em Oxford e tinha reunido um grupo de rapazes sérios para estudar a Bíblia, orar juntos e diligenciar -se em visitar os pobres e presos. Logo que João Wesley chegou a Oxford, identificou-se com este clube e pouco tempo depois foi constituído seu presidente. O fim deste clube era desenvolver a espiritualidade e atividades cristãs de seus membros. Os membros tinham horas certas para ler e estudar a Bíblia e orar; assistiam os cultos e comungavam regularmente e visitavam os pobres e presos, administrando-lhes dos seus bens de acordo com as suas posses. Tal assiduidade e zelo não podiam passar sem atrair a atenção dos outros alunos da Universidade. Sendo alunos remissos e indiferentes quanto aos seus deveres cristãos, começaram a criticá-los, dando-lhes apelidos e ridicularizando-os. Entre os apelidos usados, o de “Metodistas” era o mais aceito, porque os membros do Clube Santo faziam todas as coisas com método e sistema. Assim, por seis anos, o Sr. Wesley continuou seu trabalho em Oxford. Mas, durante todo este tempo, ignorava a paz e o gozo do Espírito Santo em seu coração. Sua religião consistia em observar a forma de piedade, mas buscando o poder dela por meio de ritos formalistas. Enfim, ele era muito egoísta, pensando mais em si e em sua própria salvação do que na salvação daqueles aos quais queria servir como ministro de Cristo. III - MISSIONÁRIO NA AMÉRICA Diversas coisas concorreram para fazer o Sr. Wesley tornar-se missionário. Seu pai tinha morrido e seu irmão completava seu curso na Universidade e ele mesmo andava perdendo o interesse na vida escolar em Oxford. Não tinha encontrado aquela satisfação espiritual q ue almejava. Quando seu pai faleceu deixou um manuscrito do seu comentário sobre o Livro de Jó, obra que tinha empregado muito tempo par fazê-la. João Wesley resolveu apresentar uma cópia desse livro à rainha, em Londres. Coincidiu que nesta mesma época o general Oglethorpe, o fundador da colônia de Geórgia, no novo mundo, estava em Londres, procurando um capelão para os seus colonos na América. O Sr. João Wesley, sendo recomendado para este cargo, foi aceito. Mas antes de fechar o contrato, ele quis conversar com a sua mãe sobre o empreendimento. A resposta dela foi bem característica de sua natureza nobre e cristã. Ela lhe disse: “Se tivesse vinte filhos, eu me regozijaria em vê-los assim ocupados, mesmo que nunca mais tornasse a vê-los”. 1. A viagem para a América. A 18 de Setembro de 1735, formalmente aceitou o convite do general Oglethorpe. Foi nessa ocasião que começou a escrever um Diário que se tem tornado um dos melhores documentos sobre as condições sociais do século dezoito na Inglaterra. Muit os dos seus amigos julgavam que era um passo errado o que ele estava dando. Numa carta que escreveu a um amigo menciona o motivo principal que o levou a tomar essa decisão. Disse: “O meu motivo principal é
  • 7.
    salvar a minhaprópria alma. Espero aprender o verdadeiro sentido do evangelho de Cristo pregando-o aos pagãos”. Seu pensamento estava concentrado em si, não tendo ainda aprendido o segredo verdadeiro de Cristo. Junto com ele foram seu irmão Carlos, na qualidade de secretário do general Oglethorpe , e mais dois colegas do “Clube Santo” os Srs. Ingham e Delamotte. O característico principal de seu espírito metódico manifestou-se na organização de um programa com horário que ocupava todo o seu tempo e os dos seus três colegas de viagem. Entre os passageiros havia uns vinte e seis moravianos exilados de sua pátria, a Alemanha, indo para a colônia de Geórgia em busca de liberdade, onde já se encontravam colocados alguns de seus irmãos da Morávia. O Sr. Wesley ficou bem impressionado com a simplicidade desses exilados e com seu bom comportamento. Para conversar com eles e conhecêlos melhor, principiou a estudar a língua alemã. Durante a viagem levantou-se forte tempestade e por algum tempo julgaram que iriam a pique. Depois de passar o temporal o Sr. Wesley quis saber porque eles, os moravianos, ficaram tão calmos e cantaram hinos durante a tempestade. Quis saber se não tinham medo. Um deles respondeu que não tinham medo de morrer. Mas o Sr. Wesley não podia compreender tal coisa, porque ele tinha medo de morrer. Começou, pois, a refletir sobre isto. 2. Seu trabalho na Geórgia. Chegados à Geórgia, na cidade de Sevanah, logo principiaram seu trabalho. Carlos Wesley foi mandado para Frederica e João ficou em Savanah, trabalhando como capelão entre os setecento s colonos. Antes de iniciar seu trabalho procurou o Sr. Augusto Spangenberg, o chefe dos moravianos em Savanah, para consultá-lo sobre o modo de fazer seu serviço. Este, antes de responder ou dar o seu conselho, fez algumas perguntas ao Sr. Wesley. Perguntou: - “Tem o irmão o testemunho do Espírito Santo?” “Dá o Espírito de Deus testemunho ao teu espírito de que és filho de Deus?” O Sr. Wesley teve que confessar que ignorava tal testemunho. - “Conheces tua Jesus Cristo?” - “Eu sei”, disse o Sr. Wesley, “que ele é o Salvador do mundo”. - “Não há duvida, mas tens a certeza de que ele te salvou?” O Sr. Wesley quis evitar a resposta, mas disse: -”Tenho esperança de que ele tenha morrido para me salvar”. -“Mas tu o conheces por ti mesmo?” insistiu o Sr. Spangenberg. O Sr. Wesley, achando-se em apuros, respondeu afirmativamente, porém anos depois, falando sobre isto, disse: - “Tenho receio de que fossem palavras vãs”. Em pouco tempo estava sistemática e metodicamente fazendo o seu trabalho, não somente entre os colonos ingleses, mas também dirigindo cultos com os alemães, franceses, espanhóis e italianos nas suas próprias línguas. Mas o Sr. Wesley não foi bem sucedido no seu trabalho entre este povo. Ele era ritualista até os ossos e muito exigente na observação de todas as rubricas da Igreja Anglicana. Recusava
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    aceitar o chefedos moravianos à mesa da Comunhão, batizava de novo as crianças dos crentes não conformistas e fazia questão em batizá-las por imersão. Tudo isto concorria para desprestigiá-lo perante o povo. 3. Complicações. Seu irmão Carlos não se deu bem com o novo ambiente e criou uma situação tão difícil que o obrigou a voltar logo para a Inglaterra. E o Sr. João Wesley, tomando o encargo de harmonizar o caso de seu irmão, atraiu sobre si ainda maiores embaraços. Porém o que concorreu mais do que tudo para dificultar o seu serviço na Geórgia foi a questão entre ele e a jovem Sophia Hopckey. Esta era uma moça atrativa, simpática e dotada de regular educação. Não obstante o aspecto austero de Wesley, ele lhe despertara afeição. Ele nunca chegou a pedi-la em casamento, mas entre ambos existia mútuo afeto. O Sr. Wesley tomou tal interesse no caso, que foi levado a consultar os presbíteros da Igreja dos Moravianos se devia ou não casar-se com ela. Quando a moça soube que ele havia feito tal coisa, indignou-se e, pouco tempo depois, casou-se com o Sr. Williamson. Foi um golpe muito cruel para o Sr. Wesley e ele, referindo-se a isso, escreveu no seu Diário o seguinte: “A Providência tirou de um só golpe o desejo dos meus olhos. Fui atravessado como por uma espada”. Contudo podia ter continuado na América se não tivesse criado para si mesmo maiores dificuldades. Alguns meses depois ele teve a imprudência de repreendê -la por julgar que havia em sua conduta algumas coisas que mereciam repreensão. Além de repreendê-la, recusou-se a darlhe a comunhão. O marido dela indignou-se e denunciou o Sr. Wesley ao Juiz articulando doze acusações. O júri constituído de quarenta e quatro homens julgou que dez daquelas acusações eram razoáveis. Porém o Sr. Wesley alegou que, dessas acusações, só havia uma cujo julgamento eram questões eclesiásticas. Quanto a acusação de ter ele “falado e escrito à senhora Sophia Williamson sem o consentimento de seu marido”, ele estava pronto a comparecer perante o júri e defender-se quanto antes. Mas os oficiais não se deram pressa em ouvi-lo, esperando que ele fugisse da Colônia como criminoso. Seis vezes ele compareceu perante o tribunal para ser ouvido, mas não quiseram ouvi-lo. Entrementes fora substituído por outro e, não podendo conseguir a terminação do processo contra si, resolveu retirar-se da América. Antes de se ir embora, colocou um aviso na praça publica anunciando a sua intenção de voltar logo para a Inglaterra. Em seu diário lê-se o seguinte: “Sexta-feira, 2 de Dezembro de 1737. Logo que terminou o culto de oração, às oito horas da noite, favorecido pela maré, sacudi o pó dos meus pés e deixei a Geórgia, depois de ter pregado o evangelho não como devia, mas como s ó eu podia, por um ano e nove meses”. 4. Regresso para a Inglaterra O desapontamento e a humilhação que ele sentia não eram insignificantes, porém profundos. Ele escreveu em seu Diário: “Agora faz dois anos e quatro meses desde que sai da minha terra nat al para ensinar aos índios da Geórgia a natureza do Cristianismo; mas o que tenho aprendido durante este tempo? Deveras, o que eu menos esperava e é que eu que fui a América para converter os outros, não era eu mesmo convertido, mas um alienado da vida de Deus, um filho da ira e um herdeiro do inferno”. Mais tarde, refletindo sobre essa época da vida, viera a modificar estas acusações contra si mesmo. O benefício que ele recebeu desta experiência logo se manifestou em sua vida. Ele aprendeu a humildade, chegou a conhecer a si mesmo revelando o que estava em seu coração.
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    Acima de tudo,aprendeu que não era necessário retirar-se à solidão para ser cristão e que o ascetismo e o interesse por si próprio não é o que constitui a religião de Cristo. Imediatamente, depois de chegar à Inglaterra foi para Londres, onde se encontrou com o Sr. Pedro Bohler, um moraviano, em viagem da Alemanha para a Geórgia. Lembrando -se dos moravianos da Geórgia, o Sr. Wesley associou-se a ele em Londres, assistindo aos cultos dirigidos por ele e conversando com ele em particular. O Sr. Wesley podia compreender a explicação do Sr. Pedro Bohler, porém a sua experiência não estava de acordo com sua teoria. A questão da salvação pela fé o confundia, mas, ouvindo as explicações do Sr. Bohler, chegou a confessar que se sentia culpado de incredulidade. Tinha também uma outra dificuldade que era a conversão instantânea. Estudando estes pontos no Novo Testamento e ouvindo o testemunho dos moravianos, concluiu que estava errado em seu modo de pensar sobre estas coisas. A única coisa que lhe faltava agora era fazer a sua experiência pessoal corresponder a sua concepção intelectual sobre estes pontos. Não tardou a ter tal experiência. Foi no dia 24 de Maio de 1738 que ele teve uma experiência que transformou completamente sua vida. Essa experiência foi semelhante à de São Paulo no caminho de Damasco. Assim conta-a em seu Diário: “ De tarde, fui, com pouca vontade, assistir ao culto na Sociedade de Aldersgate Street (Londres), onde ouvi alguém ler o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos. Cerca de um quarto de hora antes das nove, quando estava sendo descrita a mudança que Deus opera no coração pela fé em Cristo, senti o meu coração maravilhosamente aquecer-se. Senti que eu realmente confiava em Cristo, somente para a salvação; e uma segurança me foi dada de que ele me havia livrado dos meus pecados – sim, os meus e que me salvou da lei do pecado e da morte. O Sr. Lecky, comentando este fato, disse que esta reunião em Aldersgate “marca uma época na história da Inglaterra.” Ele tinha aprendido dois segredos profundos dos moravianos: primeiro – que fundamentalmente a fé não é simplesmente uma crença, mas uma relação pessoal, a confiança absoluta da alma do indivíduo num Salvador pessoal e a entrega da vida completa a ele; segundo, que Deus não é um Ser afastado, porém uma presença viva no coração do crente, purificando-o do pecado, repartindo-lhe uma nova vida e dando-lhe paz e vitória sobre o pecado. Dali em diante o Sr. Wesley deixou de pensar tanto em si mesmo e mais em Cristo: o egoísmo não era mais o centro do seu pensamento, mas Cristo. Tinha descoberto o segredo do “mistério que esteve escondido dos séculos e das gerações; que é em vós Cristo, esperança da glória.” Tendo essa nova experiê ncia, queria confirmar-se mais e mais nela. Julgando que lhe seria de grande proveito, resolveu visitar os moravianos na sua comunidade em Herrnhut, na Alemanha. Esta visita auxiliou -o a confirmar-se na sua nova experiência, apesar da crítica por parte de alguns dos seus parentes e amigos mais íntimos. Tinha ele, então trinta e cinco anos de idade e estava preparado para principiar seu trabalho para o qual fora destinado. IV – ENCETANDO O TRABALHO DE EVANGELIZAÇÃO Alguns meses depois de voltar da Alemanha, o Sr. Wesley passou por Londres, onde, assistindo cultos na Sociedade de Fetter Lane, se relacionou intimamente com a irmandade dos moravianos. Sentiu-se em dívida com os moravianos, não podendo embora aceitar todas as suas idéias e doutrinas. Por alguns dois anos manteve com eles relações cordiais, mas veio a se afastar deles por causa de sua doutrina de antinomismo e quietismo.
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    O Sr. Wesleycontinuou sempre a pregar, não somente nas sociedades em Londres, mas também nas igrejas, até que os párocos anglicanos se recusaram a ceder-lhe o púlpito de suas igrejas. Antes de seu regresso da América, seu colega, o Sr. George Whitefield, terminando seus estudos, começou a atrair a atenção do povo por suas pregações na Inglaterra. Notícias disto chegaram ao Sr. Wesley, na América, e ele escreveu-lhe sugerindo que visitasse as colônias americanas. No dia em que o Sr. Wesley chegou à Inglaterra o Sr. George Whitefield embarcava para a América. Enquanto o Sr. Wesley passava por um crítico período religioso na Inglaterra, o Sr. Whitefield estava por sua eloqüência despertando as Colônias inglesas na América com a mensagem de boas novas. Na mesma cidade onde o Sr. Wesley sofreu tão grande fracasso o Sr. Whitefield foi maravilhosamente bem sucedido. Resolveu fundar um orfanato na cidade de Savanah, e voltou logo para a Inglaterra com o fim de arrecadar dinheiro para o seu orfanato. 1. Pregando ao ar livre. É interessante descobrir-se como as coisas acontecem, às vezes. Eis ali o Sr. Wesley com o seu coração a arder de amor e da graça de Deus e todas as portas fechadas a ele. Não podia aliar-se francamente aos moravianos; não lhe era permitindo pregar nas igrejas anglicanas, e nem mesmo na igreja onde seu pai fora pastor por muitos anos e onde ele mesmo tinha pregado ajudando seu pai. Que havia de fazer? Onde podia pregar? Tinha uma mensagem para o povo, mas não tinha ocasião de pregá-la. Era este o estado de coisas quando o Sr. Whitefield voltou da América. Como o Sr. Whitefield já tinha iniciado o trabalho de cultos ao ar livre, convidou o Sr. Wesley a ajudá-lo neste serviço. O Sr. Whitefield estava pregando em Bristol, e como as portas das igrejas lhe estavam fechadas também, ele começou a pregar ao ar livre, aos mineiros, pois se compadecia muito deles, porque os via abandonados pelas igrejas e vivendo na miséria, na pobreza e negligência. Em pouco tempo havia mais de vinte mil pessoas assistindo aos cultos ao ar livre. Como ele tinha que voltar à América, convidou o Sr. Wesley a continuar o trabalho. Mas o Sr. Wesley hesitava, porque isso era uma novidade para ele que fora disciplinado na Igreja Anglicana e ainda se conservava amarrado a tantos preconceitos eclesiásticos. A influência dos moravianos sobre o Sr. Wesley tinha incutido nele uma idéia supersticiosa. Quando se sentia em dúvida acerca do rumo que devia seguir ou da decisão que devia tomar, abria a Bíblia e a primeira passagem sobre a qual seus olhos caiam determinava a solução. O Sr. Wesley experimentou esse método diversas vezes e todas as vezes as passagens não eram favoráveis, ao passo que estava pensando em tomar, isto é, pregar ao ar livre. Conseqüentemente hesitou bastante tempo antes de aceitar o convite do Sr. Whitefield. Finalmente resolveu ir até Bristol e ver o que o Sr. Whitefield estava fazendo. Ali ficou tão impressionado com a obra, que deixou todos os seus preconceitos de lado, e encarando a questão à luz dos fatos e da razão, chegou a aceitar o convite. As seguintes citações do seu diário mostram seu modo de sentir a respeito dessa inovação em sua vida. Diz ele: “No princípio quase não podia me reconciliar com este modo de esquisito de pregar nos campos, conforme o Sr. Whitefield me deu um exemplo no domingo, tendo sido toda a minha vida, até há pouco, tão unida a todos os pontos que eram considerados de acordo com a decência e a ordem, e tais eram os meus preconceitos que considerava pecado um pecador salvar-se fora da igreja.” Em 2 de abril de 1739, ele escreveu no seu Diário: “Às quatro horas da tarde eu me submeti à grande humilhação e preguei nos campos, falando duma colina próxima à cidade a quase três mil pessoas.”
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    Este ato marcauma nova época na vida de Wesley; dali em diante ele foi o guia neste trabalho por cinqüenta anos. Achara o campo das suas atividades; a Providência Divina tinha aberto “uma porta grande e eficaz, e havia muitos adversários”. Mais tarde, visitando a sua cidade natal, Epworth e não lhe sendo permitido pregar na igreja, foi ao cemitério sobre o túmulo de seu pai, disse à multidão que o acompanhara: “Eu tomo o mundo por minha paróquia”. Uma vez iniciado este trabalho ao ar livre, não demorou a cair sobre ele uma avalanche de críticas. Até os seus amigos o aconselhavam a desistir deste fanatismo, etc. Em resposta à carta de um amigo o Sr. Wesley assim se exprime: “Permita-me declarar-lhe os meus princípios sobre este negócio. Eu considero todo o mundo como minha paróquia, até este ponto – que em qualquer parte onde eu estiver, eu julgo que é o meu direito e privilégio, para não dizer a minha obrigação, proclamar as boas novas de salvação a todos que me queiram ouvir. Este é o meu trabalho para que Deus tem me chamado e eu sei que ele tem me chamado e que as suas bênçãos tem me acompanhado”. Para narrar tudo o que o Sr. Wesley fez e sofreu pelo seu trabalho ao ar livre, seriam necessários muitos volumes. Somente lembraremos ao leitor que a época em que o Sr. Wesley iniciou este trabalho na Inglaterra, havia uma decadência moral que mal podemos imaginar o que era. O rei, a rainha, a nobreza, o clero e as massas es tavam todos contaminados pelos vícios da época. Glutonarias, embriaguez, infidelidade aos votos matrimoniais, crueldade nos esportes, corrupção na política, indiferentismo e formalismo na religião, ignorância e superstição e muitas outras coisas semelhantes eram característicos desta época. Era no meio destas coisas que o Sr. Wesley ia trabalhar. Visitando as diversas cidades e vendo a miséria e ignorância em que jazia o povo, o seu coração se enchia de compaixão pelas multidões sem pastor e sem esperanças. Por isso não temia enfrentar os motins e a oposição promovidos pelos vigários da Igreja Anglicana. Onde podia pregar, pregava. Poderíamos citar muitos incidentes do povo, mas somente citaremos um ou dois: “Cheguei a Wednesbury. Preguei na praça pública. Entrei em casa do Sr. Ward e estava escrevendo quando o motim chegou à porta gritando: “ O pregador, o pregador, o ministro, traga-o para fora, nós queremos o ministro.” Convidei alguém a tomar o chefe do motim pela mão e trazêlo para dentro da casa. Em pouco tempo o leão converteu -se em cordeiro. Ele e seus companheiros queriam levar-me ao juiz. Fui, mas o juiz estava deitado, pois era noite, e os mandou embora. Já tínhamos andado quase d ois quilômetros debaixo de chuva e não era possível falarlhe. Eles me arrastaram pelas ruas e um valentão quis bater-me com um pau que mais de uma vez quase me atingiu. Havendo uma porta aberta, quis entrar mas o dono da casa não deixou, receoso que a sua casa fosse destruída. Quis falar-lhes outra vez, mas não me quiseram escutar. Alguns gritaram: “Rachai a cabeça dele, matai -o”. Eu me esforçava para falar-lhes, chegando até quase a perder a voz para dizer-lhes: “Que mal tenho feito aos senhores, etc”. Não podendo falar mais, começaram a me empurrar pelas ruas. Deus porém, me protegia levantando defensores entre eles próprios, pois alguns dos chefes do motim se colocaram a meu lado e me levaram através de uma ponte onde encontramos uma porta e finalmente cheguei à cidade antes de meia-noite.” O que vai acima é um resumo do que se deu com o Sr. Wesley, pois o original é muito extenso. Em Falmonth ele foi atacado por outro motim. Quando arrombaram a porta da casa onde se achava, ele colocou-se no meio deles e disse: “Aqui estou eu. Qual dentre vós quer falar comigo? A quem tenho eu feito algum mal? Tenho feito algum mal ao senhor? Ao senhor? Ao senhor?” Continuei a falar até que pude sair de casa descoberto, pois de propósito deixei o meu chapéu para que todos me pudessem ver facilmente. Quando cheguei no meio da rua, levantei a voz e disse: “Meus vizinhos e patrícios! Quereis que eu vos fale?” Eles responderam com
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    veemência: “Sim, sim.Ele falará, ele falará, ninguém o proibirá”. Não podendo, porém, ficar em lugar elevado, só podia falar aos que me cercavam e os que podiam me ouvir ficaram quietos. Logo dois dos principais gritaram: “Nenhum homem tocará nele”. O Sr. Thomas, um clérigo, aproximando-se, disse: “Os senhores não tem vergonha de haver tratado uma pessoa estranha desta maneira?” Alguns outros apoiaram o ministro e em seguida me levaram para a casa da senhora Madern, donde mais tarde tomei um navio para Pensyn”. O conselho que o Sr. Wesley dá para quando temos de enfrentar um motim é: “Olhar sempre para a frente.” 2. Tornando-se um itinerante. Por alguns três anos o Sr. Wesley concentrou as suas atividades em Londres e arredores. Parece-nos que não tinha qualquer plano definido quanto ao seu trabalho; agia de acordo com as circunstâncias e com a providência. Houve um incidente que o levou a ser um itinerante. Foi um convite que recebeu em 1742 para ir a Domington Park, sede do condado da Condessa Huntingdon, para visitar uma pessoa que estava à morte. Ele foi para atender o convite e achando-se no norte da Inglaterra resolveu visitar a região dos mineiros de Yorkshire. O estado lastimável em que se achavam os mineiros apelou sensivelmente ao coração de Wesley. Ele resolveu fazer um itinerário por esta zona da Inglaterra. De Domington Park foi à cidade de Bristol, a cidade nativa dos Sr. John Newton, um marinheiro que se converteu ouvindo o Sr. Wesley pregar pela primeira vez ao ar livre em Londres. O Sr. Newton, tendo voltado para sua cidade, começou a contar aos seus vizinhos o que tinha experimentado. Foi tão bem acatado pelo povo que muitos dos seus vizinhos estavam preparados para ouvir, com o maior proveito, as pregações do Sr. Wesley. Os cultos realizados ao ar livre atraiam grandes multidões e muitas pessoas se convertera m e precisavam de instrução. O Sr. Wesley realizava reuniões especiais para essas pessoas, às quais dava explicações e conselhos que julgavam mais convenientes. Em Newcastle foi muito bem recebido. Pregou diversas vezes no domingo que passou naquela cidade. Quando acabou o sermão, o povo ficou estupefato; então ele disse: “Se vós quereis saber quem sou, meu nome é João Wesley. Hoje, às 5 horas da tarde, com o auxilio de Deus, pregarei aqui outra vez”. À hora marcada todo o lugar estava tomado pelo povo. O texto foi Isaías 43:25: “Eu, eu mesmo sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim; não me lembrarei dos teus pecados”. O resultado da sua pregação sobre o povo foi admirável; ele diz: “Depois da pregação o povo queria ma atropelar devido à bondade e ao amor que manifestava para comigo”. Nem sempre foi tão bem recebido, porém havia sempre muitas pessoas nas multidões que lhe queriam bem e gostavam de ouvir as suas pregações. Uma vez iniciado este trabalho de itinerância, não quis largá-lo jamais. Dedicou 50 anos da sua vida a este serviço que começou sob a direção divina. Estabeleceu o seu itinerário de ano em ano. Visitava os centros mais populosos e industriais da Inglaterra, Escócia e Galles. Muitas vezes visitou a Escócia e quarenta e dois vezes a Irlanda para não mencionar as viagens constantes em toda a parte da Inglaterra. Pr egava até sete vezes num dia, andando até 12 e 15 léguas no mesmo dia. As estradas eram ruins e no tempo frio, ele sofria muito. É calculado que, durante a sua vida de itinerante, andou duzentos e cinqüenta mil milhas que equivalem a dez voltas ao redor do mundo e pregou quarenta mil vezes. Viajou a cavalo até a idade de sessenta e nove anos, e devido a um desastre que o proibia de andar a cavalo, viajava de carro. Não houve talvez na Inglaterra outro homem que gastasse tanto tempo em público, lidando com o povo, como o Sr. Wesley, e também não houve outro
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    homem que gozassetantas horas em particular. Ele passava dez ou doze horas por dia fechado no seu carro (carruagem), onde podia estar só com os seus livros e os seus pensamentos em meditação. A política dele era não principiar trabalho em qualquer lugar que não pudesse ser visitado e mantido. Pois, o que conquistou, ele conservou. Tinha muito a fazer, mas não encetava mais do que podia bem fazer. Como diz um dos seus biógrafos: “Assim foi o modo de viver do Sr. Wesley por cinqüenta longos anos. “Ele vivia”, diz o Sr. Fitchett, “como o soldado numa campanha – levemente equipado e pronto a qualquer momento para marchar”. Deixando de lado tudo mais que não fosse a sua carreira de evangelista itinerante, a história dos cinqüenta anos tão cheios de trabalhos incessantes e de paciência heróica nos enchem de admiração. E contudo este trabalho admirável de evangelização é somente uma pequena parte daquilo que o Sr. Wesley fez. Além de tudo isso, mantinha uma correspondência volumosa, instruía os seus pregadores e ecônomos, assistia as classes e as catequizavam, visitava e servia os doentes, arrecadava dinheiro para os pobres, zelava pela construção das capelas e escolas, e dirigia todos os detalhes do sistema complexo da itinerância que se desenvolveu sob a sua liderança. V – ORGANIZAÇÃO DA IGREJA METODISTA NA INGLATERRA O Sr. Wesley não tinha o dom de orador que o Sr. George Whitefield tinha, mas ele tinha um dom que Whitefield não possuía, o dom de um organiza dor. É exatamente neste ponto que se nota a superioridade (originalidade) de Wesley. Tinha habilidade tanto de um organizador como de líder de homens. E é devido a essas suas qualidades que o Metodismo se encontra presentemente em todo mundo. É um fato provado que o Sr. Wesley não tinha qualquer plano esboçado quando principiou a sua carreira, porém tinha uma mente alerta e aberta para aceitar os fatos que se apresentavam e agir de acordo com as circunstâncias; portanto, tudo o que se encontra na organização que fez, tem sua razão de ser do lado prático. O fim que tinha em vista em todas as medidas tomadas era: Reavivar a santidade escriturística através do mundo, e especialmente trazer à comunhão da Igreja as classes negligenciadas e desprezadas na socied ade de modo que gozassem os seus privilégios em Cristo Jesus. A promoção de um avivamento cont ínuo na igreja e não a fundação de um novo corpo eclesiástico era o desejo que queria realizar. 1. Organização de sociedades. Já foi mencionada a existência de sociedades religiosas na cidade de Londres. Havia muitas dessas sociedades na Inglaterra antes de Wesley principiar o seu trabalho de organizador. Ele sempre se identificava com essas sociedades e tomava parte nas suas reuniões. Mas o princípio do seu trabalho de organização de sociedades verificou-se em 1739 na cidade de Londres. As pessoas que foram despertadas pelas suas pregações sentiam a necessidade de instrução e conselho. Para satisfazer essa necessidade o Sr. Wesley resolveu dedicar um pouco do seu tempo, dando essas explicações e conselhos. Principiou com oito ou dez pessoas, havendo uma reunião por semana, a saber, nas quintas-feiras. Para melhor orientá-las preparou certas regras que nós conhecemos hoje como “As Regras Gerais”. “Isto”, diz ele, “foi a origem das sociedades metodistas, primeiro na Inglaterra e depois em outros lugares”. Na sua visita a Bristol fundou uma sociedade e adquiriu uma propriedade – uma casa de oração. Isto foi em Fevereiro de 1742. Havia uma dívida pesando sobre a capela e numa reunião se discutia o modo de arrecadar o dinheiro para pagá-la. Enquanto estavam discutindo a questão, um tal Capitão Foy sugeriu que cada membro desse um penny por semana para este fim. Porém alguém fez objeção dizendo que havia alguns membros que eram pobres demais para pagar mesmo esta tão pequena quantia. Então disse o Capitão Foy: “Ponham onze nomes das pessoas mais pobres da sociedade na minha lista; se elas puderem dar alguma coisa, muito bem. Eu as
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    visitarei de semanaem semana e se elas não puderem dar coisa alguma eu darei por elas. E cada um de vós também visite onze pessoas de semana em semana, recebendo o que elas dão, e se faltar alguma coisa, cada um de vós suprirá”. Este plano foi aceito. As pessoas indicadas fizeram as visitas. Aconteceu que, fazendo essas pessoas seus relatórios ao Sr. Wesley, notou-se que havia pessoas doentes, algumas sem emprego, e outras não bem comp ortadas. Diante desses fatos o Sr. Wesley descobriu a necessidade de ter ajudantes para zelar pelos interesses das sociedades. Ele, portanto nomeou certas pessoas como Guias de Classes para zelarem não somente pelos interesses temporais das Sociedades, mas também pelos interesses espirituais. Assim por meio dessas pessoas ele podia manter melhor direção sobre as sociedades. Visitando uma sociedade em qualquer parte podiam os Guias de Classes orientá-lo acerca do estado espiritual e financeiro daquela Sociedade. Por algum tempo o Sr. Wesley recebia e distribuía os fundos entregues a ele trimestralmente pelos Guias de Classes. Mas, como o trabalho aumentou, o Sr. Wesley não podia atendê-lo. Foi em Londres que ele chamou alguns homens piedosos e hábeis para este serviço e os constituiu ecônomos. Os ecônomos foram incumbidos de zelar por todos os interesses financeiros das sociedades e também de socorrer os doentes e desamparados. Desde o princ ípio da existência deste ofício na Igreja Metodista, foi dever dos ecônomos zelar pelos doentes e necessitados, cuidando tanto de suas necessidades físicas como espirituais. Não levou muito tempo para o Sr. Wesley convencer-se de que ele e seu irmão Carlos não podiam atender a todas as exigências das multidões que os procuravam. Logo se levantou a questão de ajudante no ministério. Como os clérigos da Igreja Anglicana (salvo raras exceções) não se mostrassem hostis, mas indiferentes a este movimento, foi logo sugerida a idéia de empregar no serviço da Igreja alguns leigos habilitados. Mas, a princípio, o Sr. Wesley manifestou preconceitos contra essa idéia. Foi em 1740 que um de seus convertidos, o Sr. Thomas Maxfield, começou a pregar no Foundry, em Londres, na ausência do Sr. Wesley. Quando ele teve notícias disso, regressou apressadamente a Londres com o fim de por termo a tal desordem. Chegando a casa, sua mãe, ciente de seus intuitos, chamou-o à ordem dizendo: “João, tenha cuidado em lidar com este moço, porque ele é chamado por Deus para pregar o evangelho tanto quanto você”. Examina os frutos das suas pregações, e vai escutá-lo também”. Ele aceitou o conselho de sua mãe e apesar, de todos os seus preconceitos, convenceu-se de que era realmente obra de Deus. E, ainda que as autoridades da Igreja grandemente o criticassem, as provas da história estão, neste particular, do lado do Sr. Wesley. Estes auxiliadores multiplicaram-se por toda parte e o Sr. Wesley finalmente se interessou pela instrução e disciplina destes homens simples e sinceros do povo. Logo preparou um curso de estudo para eles, marcando-lhes as horas em que deviam ler e estudar e as horas em que deviam pregar e visitar o povo. Quando era possível, reunia-os em grupos e passava alguns dias com eles fazendo preleções sabre teologia, retórica e filantropia. Aconselhava-os a ler e às vezes os repreendia por não terem aproveitado o tempo em leitura. A um deles repreendeu nestes termos: “O seu dom de pregar não tem melhorado. É hoje o mesmo que era há sete anos. Tem vivacidade, mas não tem profundidade. Falta-lhe variedade; os seus pensamentos são curtos. Só a leitura com meditação e oração pode suprir isso. Negligenciando esta parte está-se prejudicando a si mesmo. Sem isso nunca poderá ser um pregador profundo como não poderá ser um verdadeiro cristão. Oh! Comece! Marque uma certa parte do dia para esse exercício particular. Pode adquirir gosto pela leitura se o não tiver. O que é custoso a principio torna-se agradável mais tarde. É para salvar a sua vida. Não há outro caminho; de outra maneira, será toda a vida um preguiçoso, e um pregador ineficiente.” O Sr. Wesley sempre concedia liberdade de pensamento a seus pastores. Quando o trabalho atingiu suficiente desenvolvimento, o Sr. Wesley passou a realizar Conferências com seus pregadores. O sistema de itinerância foi adotado, e de três em três, ou de seis em seis meses, os pregadores eram mudados. Deste modo as Sociedades e Igrejas podiam
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    aproveitar os donsdos diversos pregadores, e os pastores leigos também podiam ter bastante material novo para o povo que os escutava. Já vimos como os Guias de Classes, os ecônomos, os pregadores leigos e o sistema de itinerância com as conferências foram aparecendo. Mais tarde vamos descobrir os motivos que levaram o Sr. Wesley a ordenar os seus pregadores leigos. 2. Organização de escolas. Realmente, antes de ser organizada qualquer Sociedade, foi fundada uma escola em Bristol em benefício dos filhos dos mineiros que tinham abraçado o Evangelho. O Sr. Wesley estudou os diversos sistemas de educação existentes na Europa, especialmente na Alemanha e Holanda. O curriculum era bastante exigente, e consistia das seguintes matérias: Leitura, Caligrafia, Aritmética, Inglês, Francês, Latim, Grego, Hebraico, História, Geografia, Cronologia, Retórica, Lógica, Ética, Geometria, Álgebra, Física e Música. A Escola de Kingswook, em Bristol, foi a primeira e logo a seguir houve escolas fundadas em Newcastle, no Foundry, e em Londres. O trabalho educativo tem sempre acompanhado o trabalho de evangelização na Igreja Metodista. O Sr. Wesley foi um dos primeiros a utilizar a Escola Dominical nas suas sociedades. Em 1790 escreveu a um dos seus ajudantes: “Estou satisfeito por saber que foi aberta uma Escola Dominical em Newcastle. É uma das mais nobres instituições que tem sido fundadas na Europa no decurso de muitos séculos, e seu valor argumentará mais e mais, se seus professores e diretores cumprirem seus deveres. Nada pode retardar o progresso deste trabalho bendito senão a negligência de seu instrumento”. 3. Trabalho de publicações. Ninguém reconhecia melhor o valor da imprensa do que o Sr. Wesley. Desde o princípio do seu trabalho de evangelização, começou a interessar-se pela publicação de obras úteis aos crentes. Ele e seu irmão Carlos publicaram quatrocentos e cinqüenta e três obras para uso de seu povo nas sociedades. Estabeleceu o que chamava “A Biblioteca do Cristão”, composta de cinqüenta volumes. Reconhecia também o valor dos tratados e não lhe era coisa estranha dar um tratado às pessoas que encontrava nas suas viagens. Em 1778 deu começo à publicação do jornal – “A Revista Armeniana” (Armenian Magazine), ainda hoje publicada sob o nome de “Wesle yan Methodist Magazine”, e tem a honra de ser a mais antiga revista religiosa na Inglaterra. O Dr. Dean Farra diz: “A vasta difusão de instrução religiosa pelas publicações semanais e publicações baratas com todos os seus bons resultados, foi iniciada por ele. A Sociedade Britânica e Estrangeira, a Sociedade de Tratados Religiosos, a Sociedade Missionária de Londres e até a Sociedade Missionária da igreja, devem grande parte à sua iniciativa. Ele deu grande impulso à educação nacional e técnica” . Certa vez exortou seus pregadores nestes termos: “Não se pode dar que o povo cresça na graça sem se dedicar à leitura. O povo que lê será um povo sábio; o povo que fala muito, pouco sabe. Insista que os crentes leiam, e em pouco tempo verá o fruto do seu trabalho”. 4. Obra filantrópica. As condições sociais no tempo de Wesley não podiam deixar de atrair sua atenção. Foi o estado miserável em que viu o povo de Bristol, Newcastle, que o levou a ser evangelista. Era o seu desejo melhorar as condições dos seus patrícios abandonados pelas classes mais favorecidas. Porém tinha certeza de que o povo não podia ser materialmente beneficiado sem primeiro o ser espiritualmente. O povo precisava de Cristo. Os mineiros de Bristol ou Kingswook eram o desespero dos filantrópicos, antes de serem evangelizados por Whitefield e Wesley.
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    O Sr. Wesleyque, mesmo no tempo de estudante, em Oxford, já se interessava pelos pobres e pelos presos, quanto mais agora, depois da sua conversão. Quando estudante e preceptor em Oxford, ele só gastava certa quantia para a própria manutenção e dava o que sobrava em benefício dos pobres. É calculado em 4.800:000$000 o que ele contribuiu pessoalmente em benefícios aos pobres e das obras que fez em conexão com as Sociedades. E quando morreu deixou ”uma boa biblioteca, uma batina clerical bem gasta, uma reputação muito criticada pelo público e a Igreja Metodista”. 5. Completando a organização ou o Documento de Declaração. Durante cerca de quarenta anos o Sr. Wesley organizava sociedades em diversas cidades na Inglaterra e tanto as capelas, como as escolas e casas pastorais eram adquiridas e conservadas legalmente em seu próprio nome. Ele queria desembaraçar-se deste arranjo, mas não podia achar para o mesmo uma solução satisfatória. Em Fevereiro de 1774, porém, com o auxílio do Dr. Thomas Coke, conseguiu organizar um plano por meio do qual todas as propriedades havidas e seguradas em seu próprio nome pudessem ser transferidas a uma corporação constituída em pessoa jurídica, chamada Legal Hundred, isto é, cem membros da Conferência, número considerado legal, foram constituídas todas as propriedades do povo chamado Metodista (ou seja, as propriedade foram passadas para a Conferência Metodista). Os estatutos desta organização ficaram sendo conhecidos na história da Igreja Metodista como o Documentação de Declaração (Deed of Declaration). Este documento foi registrado na chancelaria do governo inglês. Os primeiros cem nomes foram indicados por Wesley mesmo e as vagas tinham de ser preenchidas de ano em ano na ocasião da Conferência Anual. Estas cem pessoas constituíam a pessoa jurídica da Igreja Metodista da Inglaterra. Era composta de um presidente e secretário e tinha autoridade para admitir pessoas idôneas para o ministério, nomear os pregadores para os diversos cargos e circuitos e exercer a supervisão sobre todas as sociedades. VI – ORGANIZAÇÃO DA IGREJA METODISTA NA AMÉRICA DO NORTE A organização da Igreja Metodista na América do Norte foi o resultado de diversos acontecimentos. 1. Como o trabalho Metodista principiou na América. Em 1753 o Sr. Wesley visitou a Irlanda e pregou o evangelho aos irlandeses ou antes às colônias alemãs fundadas já há uns cinqüenta anos. Este povo se interessou na pregação de Wesley e diversas pessoas de converteram. Em 1765 um grupo destes imigrou para Nova York, na América. Entre eles havia um pregador leigo, o Sr. Philippi Embry, que era, por profissão, um carpinteiro. Dali há um ano veio mais um grupo, no qual se contava uma mulher muito consagrada e ativa, chamada Bárbara Heck. Logo depois da chegada de Bárbara os Metodistas principiaram a trabalhar em prol da causa do Mestre. Em pouco tempo, com o auxílio do Sr. Embry, foi organizada uma Sociedade. Havia um pregador local, um soldado inglês, o capitão Webb, que se converteu em Bristol pela pregação do Sr. Wesley, que morava em Albaney. Sabendo ele que havia uma sociedade em Nova York, veio para ajudar no trabalho. A causa prosperou, e em pouco tempo construíram uma capela. Precisavam, porém, de pregadores para tomar conta do trabalho e levá-lo
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    adiante. Diversas cartasforam dirigidas ao Sr. Wesley, nas quais pediam que mandasse alguns obreiros para a América. Estes apelos não foram desprezados. 2. Alguns obreiros enviados. Tendo recebido estes apelos, o Sr. Wesley quis atendê-los. Portanto, na ocasião da Conferência que se realizou em Leeds, em 1769, as seguintes perguntas foram feitas: -“Temos recebido pedidos urgentes dos nossos irmãos em Nova York, onde construíram uma casa de oração; ”passa à nós e ajuda-nos”. “Quem está pronto para ir?” Resposta: Richard Boardman e Joseph Pilmoor”. Pergunta: “Que mais podemos fazer para mostrar o nosso amor fraterno?” Resposta: “Vamos levantar uma coleta entre nós”. Isto foi feito imediatamente e desta coleta cinqüenta libras foram destinadas para pagar as suas dívidas e vinte libras para ajudar nas despesas de viagem. Assim estavam ligados aos laços de união entre o povo chamado Metodista nos dois continentes. Mais tarde outros obreiros foram enviados e entre eles o apóstolo do Metodismo na América do Norte, o Sr. Francis Asbury. O trabalho na América prosperou. O número de adeptos aumentava dia após dia. As Sociedades tinham com a Igreja Anglicana da América as mesmas relações (esses crentes eram anglicanos, mas abandonados pela Igreja Anglicana) que mantinham com as da Inglaterra. Mas como o território americano era muito mais vasto do que o da Inglaterra e como o povo estava espalhado em povoações pequenas, houve sérios embaraços na devida administração do trabalho. O clero inglês era indiferente e alguns deles não quiserem ajudar os Metodistas em administrar o batismo e a Santa Ceia. Em 1775 arrebatou a guerra da independência que embaraçou ainda mais o trabalho Metodista, porque todos os pregadores que tinham sido enviados da Inglaterra voltaram, com exceção do Sr. Francis Asbury, que teve de passar alguns anos escondido. O que agravou ainda mais a situação dos Metodistas na América foi um tratado que o Sr. Wesley escreveu contra os americanos na sua luta pela independência. Por causa disso os Metodistas eram suspeitos aos americanos e o Sr. Asbury corria maior perigo. O Sr. Asbury assim se exprimiu sobre o caso: “Entristeceu-me deveras que este venerável (Wesley) se metesse na política americana. O meu desejo é viver em amor e paz com todos os homens, para não lhes fazer mal, porém, para lhes fazer bem. Contudo posso apreci ar a lealdade conscienciosa do Sr. Wesley ao seu governo, sob o qual ele vive. Se ele tivesse sido súdito da América, sem dúvida teria sido zeloso em advogar a causa americana. Mas algumas pessoas inconsideradas têm aproveitado a ocasião para censurar os Metodistas na América, por caus a dos sentimentos políticos do Sr. Wesley”. 3. A missão de Thomas Coke. Terminada a guerra da independência os Metodistas continuaram o seu trabalho com boa aceitação. Mas devido à independência das colônias americanas da pátria mãe, separou-se por completo a Igreja do estado. Os anglicanos que ficaram na América tiveram de modificar a sua política de acordo com as modificações do novo regime. Portanto esta Igreja ficou Anglicana na Inglaterra e separada do Governo Americano. Isto veio refletir sobre o movimento Metodista, agravando cada vez mais o problema de administração dos sacramentos do batismo e da Santa Ceia. Como não havia pregadores ordenados entre os Metodistas, o povo estava sem este meio de graça. Por muito tempo cartas escritas pelo Sr. Asbury e outras pessoas tinham sido enviadas ao Sr. Wesley narrando o triste estado de coisas que existia nas Sociedades Americanas. Mas o
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    Sr. Wesley nãoquis, a princípio, atender diretamente estes apelos, esperando que a Igreja Anglicana atendesse às necessidades das Sociedades na América. Mas já havia chegado ao ponto em que não podia se esperar mais, pois os próprios pregadores estavam agindo por si, elegendo e ordenando os seus para administrar os sacramentos. O Sr. Asbury, pela influência que tinha sobre os pregadores americanos, os persuadiu a não exercerem estes ofícios de diácono e presbítero, até que pudessem entender-se com o Sr. Wesley. Depois de quatro anos de espera o Sr. Wesley chegou a resolver a questão, o que foi feito do modo seguinte: “Em 1º de setembro de 1784, o Rev. João Wesley, Thomas Coke e James Creghton, presbíteros da Igreja Anglicana, constituíram um presbítero e ordenaram Richard Whatcoat e Thomas Vasey diáconos; e em 2 de setembro, pela imposição das mesmas mãos, etc., Richard Whatcoat e Thomas Vasey foram ordenados presbíteros e Thomas Coke, L.L.D., foi ordenado superintendente para a Igreja de Deus sob o nosso cuidado na América do Norte”. O Sr. Thomas Coke foi comissionado pelo Sr. Wesley para ordenar o Sr. Francis Asbury como superintendente, adjunto com ele e escreveu uma carta circular às Sociedades Americanas explicando e justificando os passos que acabava de dar. Esta carta mostra claramente que o Sr. Wesley agiu com sabedoria em tudo isto. Eis o último parágrafo da carta: “Como nossos irmãos americanos agora estão completamente separados tanto do Estado como da hierarquia inglesa, não queremos outra vez embaraço nem por um nem por outro. Eles agora em plena liberdade para seguir as Escrituras e a Igreja Primitiva e nós julgamos por bem que eles se conservem na liberdade com que Deus os libertou”. Mas como era de se esperar, este ato trouxe sobre o Sr. Wesley bastantes críticas. O seu próprio irmão, o Sr. Carlos Wesley, foi um dos mais severos. Numa carta que escreveu para um amigo assim se exprime sobre o caso: “O meu irmão tem renunciado aos princípios e hábitos de sua vida inteira; pois agiu contrariando todas as suas declarações, suas pretensões e suas obras escritas, tem roubado seus amigos de sua vanglória e deixado sobre o seu nome uma nódoa que será lembrada enquanto se lembrarem dele. Portanto, a nossa cooperação está disso lvida, porém ficamos amigos ainda. Pois o tenho recebido para a felicidade ou a desventura até que a morte nos separe, ou antes, nos reúna com amor inseparável”. O Sr. Wesley, porém, se justificou, alegando que a força das circunstâncias e a indicação da providência divina tinham-no levado a fazer tudo o que tinha feito; que ele tinha tanta autoridade para ordenar diáconos e presbíteros como qualquer outro homem na Europa. Ele teve muitos preconceitos sobre essas coisas no princípio da sua carreira, mas pouco a pouco os foi deixando e abraçando novas idéias e princípios. Alegou que desde o ano de 1740, lendo o livro “Igreja Primitiva” pelo Sr. Lord King, se convenceu que as ordens de presbítero e bispo sob o ponto de vista do Novo Testamento eram a mesma coisa; são termos sinônimos. Dez anos depois, em uma carta que escreveu ao Rev. Sr. Clark, declarou que acreditava ter o bispo Stillingfleet, no seu livro “Isenicon”, provado que nem Cristo nem os apóstolos prescreveram qualquer forma especial de governo para a Igreja, e que a questão do divino direito do episcopado diocesano não foi conhecida na Igreja Primitiva. A seguinte carta escrita pelo Rev. Adam Tonerden, dirigida ao Rev. Stephen Donelson, Leesbury, Va., com data de 30 de dezembro de 1784, Baltimore, Md., interpreta fielmente o espírito e as idéias em que o Sr. Wesley organizou a Igreja Metodista na América. Eis a carta: ” Nós temos, na ocasião desta Conferência (a notável Conferência do Natal), de acordo com o conselho e direção do Sr. Wesley, entregues a nós pelo digno Sr. Coke, nos constituído unanimemente numa Igreja independente sob o título de Igreja Metodista Episcopal, para ser governada pelos superintendentes, presbíteros e diáconos, com uma liturgia algo diferente da Igreja Anglicana. O sistema da itinerância será continuado e de acordo com a política da Igreja que adotamos, será reforçado. O Sr. Asbury foi ordenado superintendente, no domingo p.p., pelo Sr. Coke e os dois presbíteros que vieram com ele, trazendo poderes de ordenar conferidos a eles
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    pelos três presbíterosda Igreja Anglicana, sendo o Sr. Wesley um deles, e nós julgamos tão válida como qualquer ordenação, sendo bem conhecido que nos tempos primitivos o ofício de presbítero e bispo (sendo termos sinônimos) eram a mesma coisa, com esta pequena diferença que o chefe, ou primeiro presbítero era às vezes chamado de bispo. Para nós o “Superintendente” corresponde ao “Bispo”, que terá supervisão geral sobre todos e nós julgamos este termo melhor porque os bispos modernos sendo “lords” são geralmente devoradores do rebanho e uma maldição para o povo, e o nome implica mau gosto”. O Dr. Fitchett, referindo-se a esta fase da vida de Wesley, descreveu-a nas seguintes palavras: ”Aquele que estuda este aspecto, o mais crítico e agudo do trabalho do Sr. Wesley, encontrará nele o retrato de um homem com uma tendência obstinada para a High Church, sendo compelido a essa direção pela tendência acentuada pelo nascimento, educação e temperamento; enquanto passo a passo, guiado pela providência e obrigado pelos fatos, ele caminha num trilho que o leva para um alvo completamente invisível ou ignorado”. VII – CAMPEÃO DA LIBERDADE DE PENSAMENTO RELIGIOSO Os primeiros golpes dados pela independência religiosa foram vibrados (iniciados) pelos reformadores do século dezesseis. Mas os próprios reformadores, Luthero e Calvino, não compreenderam o que significa estes termos nestes tempos modernos. Eles não labutaram pela tolerância religiosa, nem perante os tribunais; queriam apenas conceder liberdade aqueles que não concordassem com eles, com suas idéias e opiniões particulares, pois, sabemos que muitas pessoas foram perseguidas. Os próprios protestantes não eram tolerados por eles, assim como os Pais Peregrinos na América do Norte, nos tempos coloniais, não cederam aos quakers e anabatistas os mesmo privilégios que reservaram para si. 1. A idéia de Wesley sobre a liberdade de pensamento . O Sr. Wesley foi um dos primeiros a pugnar pela liberdade de pensamento religioso, baseando-se no princípio fundamental do Protestantismo – o direito individual e a responsabilidade de pensar e julgar por si. Na ocasião da Conferência realizada em Londres em 1774 foi discutido esse assunto respondendo-se a tese seguinte: - “Até que ponto um cristão pode submeter-se à autoridade eclesiástica?” A resposta foi: “Um cristão somente pode submeter-se à autoridade eclesiástica até ponto em que sua consciência não se ofenda”. - “Pode alguém ir além disto em submissão a qualquer homem ou grupo de homens?” Resposta: “É inegavelmente certo que não pode, seja aos bispos, convenções ou concílios gerais. E é esse o princípio liberal em torno do qual agiram todos os reformadores. Cada homem tem de julgar por si, porque cada homem tem de dar contas de si mesmo a Deus”. Assim o Sr. Wesley define a liberdade religiosa: “A liberdade religiosa é a liberdade que o homem tem de escolher a sua própria religião, adorar a Deus de acordo com a sua própria consciência. Todo homem vivo tem este direito como criatura racional. O criador tem dotado o homem de juízo; e cada qual tem de julgar por si; porque todos têm de prestar contas a Deus. Conseguintemente é um direito inalienável; não se pode ser separado da humanidade, e Deus nunca deu a qualquer homem ou grupo de homens autoridade de privar qualquer filho do homem deste direito sob qualquer pretexto, seja qual for”. A religião para o Sr. Wesley pode ser definida em termos de relação pessoal e da vida intima e da conduta prática, e não em termos de crença. A fé ele a define como um senso espir itual
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    pelo qual vemos“a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo”, e como conseqüência temos confiança perfeita no amor de Deus”. Continuando, ele diz: “o resumo da nossa doutrina a respeito da religião interna é composto de dois pont os: amar a Deus de todo o nosso coração e ao nosso próximo como a nós mesmos. E a respeito da religião externa em dois pontos: fazer tudo para a glória de Deus e fazer aos outros o que nós queremos que eles nos façam em circunstancias semelhantes”. Ele não concordava com aqueles que insistiam em que antes de alguém se poder salvar tinha de ter uma idéia clara a respeito das doutrinas básicas do cristianismo, tais como a queda do homem, a justificação pela fé e a expiação feita por Cristo na cruz. Ele diz: “Eu creio que ele tem mais respeito à bondade do coração do que aos pensamentos claros da cabeça, e se o coração de um homem estiver cheio da graça de Deus e do poder do Espírito Santo, e aquele humilde e doce amor para com Deus e os homens, não posso acreditar que Deus resolva lançar tal homem no fogo eterno preparado para o Diabo e seus anjos somente porque as suas idéias não são claras ou porque as suas concepções são confusas”. Ele podia apreciar os sentimentos de outros, mesmo não concordando com eles quanto as suas idéias e opiniões religiosas. Tinha amigos entre os quakers, anabatistas e católicos romanos. O Sr. Wesley almejava uma cooperação mais franca entre todos os cristãos protestantes. Assim aconselhou “ao povo chamado Metodista”: “Sede fi éis aos vossos princípios acerca das opiniões e das coisas externas da religião. Empregai todas as ordenanças que julgais que são de Deus, porém acautelai-vos de um espírito intolerante para com aqueles que não usam as mesmas ordenanças. Conformai-vos aqueles modos de culto que provais, mas amai aqueles que não podeis aceitar como irmãos. Dai tanta ênfase quanto possível às opiniões que todos adotais, e considerai conformes com a verdade e a razão; porém não tenhais raiva ou desgosto ou desprezo por aquele que tem opiniões diferentes das vossas.” 2. A controvérsia de Wesley sobre o assunto. Não houve em toda a Inglaterra, naquela época, outro homem tão fortemente atacado pelos ideais que advogava como o Sr. Wesley. O Rev. Richard Green (pesquisador e historiador metodista norte -americano) aponta trezentos e trinta e dois títulos de obras anti-metodistas escritas por clérigos. A linguagem dessas obras tinha o cunho característico da linguagem polemística daquela época. Diversos bispos atacaram sem misericórdia o Sr. Wesley e não acharam termos assaz fortes para exprimir todo o desgosto e desprezo que lhe votavam. Wesley não gostava de controvérsias e deixou muita coisa passar em sil êncio. Mas, às vezes, pelo amor que tinha à verdade, foi obrigado a defender-se e defender as verdades que pregava. Depois de preparar uma carta em resposta a acusações feitas pelo bispo Livington, ele disse: “Trabalho pesado, e trabalho tal que não escolhi, porém, que às vezes tem que ser feito. Bem disse o homem da antiguidade: “Deus fez necessária a teologia prática, porém o diabo a controverteu. Mas isso é necessário; temos de resistir ao diabo; senão, ele não fugirá de nós”. O seguinte incidente revela o espírito com que o Sr. Wesley suportava a perseguição. Tinha ele prometido levar, certo dia, a sua pequena sobrinha Sarah, filha de seu irmão Carlos, a um passeio em Canterbey. Mas, um dia antes, seu irmão Carlos o chamou com muita solicitude, avisando-o de que sua esposa tinha em seu poder algumas cartas que ele havia escrito a terceiros e que ela havia modificado algumas expressões, assim alterando completamente o sentido, e que ia publicá-las no Morning Post; portanto devia ele desistir do passeio, etc., e defender sua reputação. Mas o Sr. Wesley disse a Carlos: “Irmão, quando me consagrei a Deus e comigo meu comodismo, meu tempo, minha vida, fiz acaso exceção da minha reputação? Não. Pode dizer a Sarah que eu irei com ela amanhã em Canterbey”. A controvérsia mais prolongada e mais difícil foi a controvérsia relativa à doutrina calvinista e arminiana. Desde o tempo da Reforma Protestante o Calvinismo tinha sido a doutrina predominante do Protestantismo, mas o Sr. Wesley não podia aceitá-lo, preferindo enfrentar a
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    oposição até dosseus amigos como George Whitefield, por exemplo. Em 1770, depois da morte de Whitefield, esta questão se levantou de novo. O Sr. Wesley foi atacado por todos os lados. Dentre os principais escritores que o atacaram salientou-se pela violência o Sr. Toplady, um calvinista extremado. Em seu tratado sobre a “Predestinação Absoluta” defendeu as suas opiniões sobre esta doutrina. O Sr. Wesley respondeu, fazendo uma curta análise deste tratado do seguinte modo: “Eis a conclusão de tudo: Um em vinte (suponhamos) da raça humana é eleito; dezenove em vinte são reprovados. O eleito será salvo, faça o quiser. Os reprovados serão condenados, façam o que puderem. Que o leitor creia isto, ou será condenado. Por ser isto a verdade, firmo -o com o próprio punho. A T.” Vendo a sua doutrina assim condensada, assim concret izada e endossada com as suas próprias iniciais, o Sr. Toplady ficou furioso com o Sr. Wesley. Mas ele se defendeu e as doutrinas que pregava, tendo para esse fim um grande auxiliar na pessoa do Dr. João Fletcher, que escreveu os “Checks to Antinomianisms”. Esta obra concorreu grandemente para criar um lugar debaixo do sol para o Arminianismo. O novo espírito de democracia vinha se manifestando e o espírito liberal e tolerante estava em ascendência. VIII – O FIM DA JORNADA. O Sr. Wesley tinha seus def eitos , suas peculiaridades e fraquezas, porém, apesar dessas coisas, foi o vulto que, mais do que qualquer outro, maior influência tem exercido sobre o mundo nestes dois últimos séculos (lembrar que esse livro foi escrito em 1929). Ele trabalhou até o fim. Pregou pela última vez na Capela “City Road Chapel”, em 22 de fevereiro de 1791, e no dia seguinte fez uma viagem de cinco léguas para visitar um magistrado e, em casa do mesmo, pregou pela última vez na sua vida. No dia seguinte escreveu a sua última carta exortando o Sr. Wilberforce a continuar a sua propaganda contra o tráfico de escravos. Voltando para casa em Londres, na hora em que entrou em casa, pediu que o deixassem sozinho por meia hora. Durante esta hora ele encarou a morte em comunhão com o seu Senhor. Chamaram o médico e tudo foi feito para prolongar sua vida, porém a hora de sua partida tinha chegado. Rodeado por seus amigos, ele veio a falecer no dia 2 de março de 1791 (quarta-feira), às 10 horas da manhã, e as suas últimas palavras foram: “O melhor de tudo, Deus está conosco”. Dali a oito dias foi enterrado atrás da Capela de “City Road Chapel”.
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    II A vida deCarlos Wesley, o poeta do Metodismo (1707-1788) Se João Wesley foi organizador do Metodismo, Carlos Wesley, seu irmão mais moço, foi o poeta e cantor do mesmo movimento. João elaborou os vinte e cinco Artigos de Religião, As Regras Gerais, e o seu Comentário do Novo Testamento e escreveu os cinqüenta e dois sermões, dando assim o padrão das doutrinas do Metodismo; porém, foi o Carlos Wesley que deu alma a essas doutrinas, nos hinos que escreveu. Enquanto centenas de pessoas lêem o padrão de doutrinas, milhares cantam os hinos. É difícil dizer qual dos dois tem influído mais sobre a vida religiosa do povo. Estes dois irmãos eram toa essenciais a este movimento como os dois lados são essenciais à mesma medalha. I – NASCIMENTO DE CARLOS WESLEY Quando nasce uma criança, o mundo tem uma nova oportunidade, como disse alguém. Não podemos calcular o valor encerrado na vida de uma criancinha. A milícia celestial cantou louvores na ocasião do nascimento do bebê de Belém. Quando o menino Carlos nasceu na casa pastoral, em Epworth, Inglaterra, quem poderia imaginar que milhões de pessoas, através dos séculos, viriam a cantar hinos de louvor escritos por ele? 1. Os pais O menino Carlos Wesley não tinha motivos para se envergonhar de seus pais, pois eram pessoas que representavam o que havia de melhor na vida social e religiosa da Inglaterra. Seu pai, Rev. Samuel Wesley, era vigário na Igreja Anglicana e bem educado, tendo feito seus estudos na Universidade de Oxford. Era literato e poeta. Seu comentário do Livro de Jó foi a sua melhor obra. Mas foi preso uma vez por causa de dívidas, pois não sabia administrar suas finanças. Sua mãe, Suzana Wesley, descendia de família distinta. Era uma senhora excepcional. Em pequena revelara vigor mental. Não preferia gastar mais tempo em diversões do que em devoções religiosas. Seu pai, Sr. Samuel Annesley, era não-conformista; porém ela, depois de estudar a questão de si mesma, resolveu, aos treze anos de idade, identificar-se com a Igreja Anglicana. Era bonita, mas o que mais a distinguia eram a força de seu caráter, o seu bom senso, sua inteligência e sua dedicação a seu marido, à família e aos vizinhos. O Dr. Adam Clarke, referindo-se a ela, disse: “Conheço muitas senhoras piedosas, tenho lido a respeito de outras; mas nunca vi ou li qualquer coisa acerca de outras que reunissem todas as qualidades que ela possuía”. O Dr. John Telford disse também: “A sua paciência em tempo de aflição, o domínio sobre si mesma, a educação de sua numerosa família, o seu juízo amadurecido e o seu trabalho
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    evangelizante, concorreram paratorná-la merecedora do título de honra que em muito poucas mulheres possuem”. 2. Seu nascimento e a influência que seus pais exerceram sobre ele. Há alguma dúvida acerca da data do nascimento de Carlos Wesley, porque o arquivo em que se achava registrada a data de seu nascimento foi consumido pelo fogo por ocasião do incêndio na casa pastoral. Porém dá-se como sendo a data mais provável o dia 18 de Dezembro de 1707. Nesse dia o lar do pastor de Epwoth foi surpreendido pelo nascimento do décimo oitavo filho do casal, nascido fora de tempo. A criança que parecia mais morta do que viva, não chorava nem abria os olhos. Foi necessário enfaixá-la em lã até vencer o prazo que faltava para completar o tempo em que devia ter nascido. Então começou a chorar e abrir os olhos. Foi assim que ele teve o seu advento ao mundo. Tinha em casa muitas irmãs e irmãos para o receberem, porém, melhor do que tudo, contava com os braços de uma carinhosa mãe para o amparar. Nasceu na época mais trabalhosa em toda a história do seu lar, pois logo depois de seu nascimento a casa pastoral incendiou-se e não foi possível reconstruí-la e mobiliá-la como era anteriormente. Ele, pois, aprendeu a passar com pouco; mas o que lhe faltara em confortos materiais foi compensado pela instrução de uma mãe piedosa e carinhosa. Sua mãe, desde o princípio da vida, começou a ensiná-lo, bem como a seus demais irmãos e irmãs, a terem horas certas para comer e dormir. Impunha-lhes o dever de serem bondosos para com as criadas e uns para com outros, e, acima de tudo o de obedecer. Muito cedo foram instruídos nas coisas religiosas e cada um por sua vez tinha de pedir a bênção nas refeições. Mesmo antes de poderem andar aprenderam a distinguir o domingo dos demais dias da semana. Sua vida escolar, quando tinha cinco anos de idade, começou sob a direção de sua mãe. Teve que aprender o alfabeto durante o primeiro dia de aulas. Estas começavam e fechavam-se com o cântico de um salmo. Os alunos eram estimulados a confessar suas faltas sob a promessa de que não seriam castigados. Desta maneira a mãe conseguiu remover muitas tentaçõ es de mentir, reconhecendo ela sempre qualquer sinal da parte dos filhos para lhe agradar. Foi sob essas condições que Carlos passou os primeiros três ou quatro anos de sua vida escolar. Nesse período, não somente aprendeu alguma coisa dos livros, mas, o que era ainda de maior importância, aprendeu a dominar-se, a refrear-se a si mesmo, a respeitar os outros e a obedecer a seus superiores. II – SUA EDUCAÇÃO Seu irmão mais velho, Samuel Wesley, que havia casado e morava em Londres, onde ocupava um cargo na Escola de Westminster, queria ajudar a seus pais na educação de seu irmão mais moço, Carlos Wesley. Com este fim levou Carlos para sua casa e o colocou na Escola de Westminster, uma das melhores escolas deste tipo na Inglaterra. Ali Samuel havia também estudado quando pequeno. Seu pai tinha razão quando dizia haver dado aos seus três filhos a melhor educação que se podia obter na Inglaterra, pois os mandara para as melhores escolas existentes naquela época. O menino Carlos, com nove anos, matriculou-se, em 1776, na Escola de Westminster e morava com seu irmão Samuel. Cinco anos passou estudando em Londres. Foi bom aluno e ganhou um prêmio oferecido pelo rei, isto é, o direito de continuar os seus estudos com todas as suas despesas pagas na Universidade d e Oxford. Além disso, foi eleito capitão dos graduandos no quarto ano de seus estudos. Mas, visto só ter treze anos de idade quando eleito, e ter direito a cinco anos de estudos na Universidade em vez de quatro, ele aproveitou os cinco anos e no quinto ano chegou ao lugar de chefe de sua turma, uma honra muito cobiçada pelos alunos naquela época.
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    Além das honrasobtidas por seus estudos, não deixou de ganhar também algum louvor pelas lutas pugilísticas em que se empenhou com seus colegas. Era corajoso e não poucos foram os combates que teve durante a mocidade. No segundo ano de sua estadia na Escola de Westminster fez-se defensor de um aluno, Guilherme Murray, um escocês, que se tornou alvo dos motejos dos demais rapazes por causa do seu modo de falar, e por sua causa, muitas brigas Carlos Wesley teve que sustentar. Ganhou, porém, a amizade deste rapaz, amizade que se estendeu até o fim da vida. Muitos anos depois, Guilherme Murray veio a ser Juiz do Supremo Tribunal da Inglaterra e Conde de Mansfield e não se esqueceu do seu amigo Carlos Wesley. Muitas vezes, às tardes, visitava a família de Carlos Wesley, então pregador metodista em Londres. Durante seus estudos na escola de Westminster, um homem rico, chamado Garret Wesley, cavalheiro irlandês, escreveu ao R ev. Samuel Wesley pedindo informações a respeito de seu filho Carlos, pois queria adotá-lo como seu herdeiro se viesse a morar com ele na Irlanda. O Rev. Samuel Wesley deixou seu filho Carlos decidir a questão. Garret Wesley foi a Londres para ver a Carlos e conversar com ele sobre o assunto; Carlos, porém, não quis aceitar a proposta. O homem gostou tanto dele que não deixou de o ajudar em suas despesas na escola. Dois anos antes de Carlos completar seus estudos, Garret morreu deixando grande fortuna, que poderia ser de Carlos, se este houvesse aceitado a proposta. Mas, perguntamos, se o Sr. Carlos Wesley tivesse aceitado esta proposta, teria ele feito o que fez para o bem da humanidade? Só Deus o sabe. João Wesley, escrevendo sobre isso mais tarde, di sse que a fortuna que Carlos perdeu foi um bom prejuízo. Em 1726, Carlos Wesley foi promovido a aluno em “Christ Church”, na Universidade de Oxford. Nesta mesma Universidade seu irmão João, seu pai e seu avô tinham estudado. Também, nesse mesmo ano, seu irmão João foi eleito instrutor, no “Lincoln College”, em Oxford. Assim tinham o privilégio de estar juntos, em Oxford, como Carlos havia desfrutado a convivência de s eu irmão mais velho em Londres. Carlos Wesley tinha então dezenove anos de idade; gozava saúde e era dotado de muita vivacidade. Porém justamente nessa época se tornou mais indiferente para com as coisas religiosas. Seu irmão João notara isso e procurava despertar a atenção de Carlos para os seus deveres religiosos; porém, Carlos não apreciava muito o interesse manifestado por seu irmão neste sentido. Ele apreciava sua liberdade e gostava das diversões que a vida universitária lhe proporcionava. Realmente, perdeu os primeiros doze meses em diversões. Seu irmão João, referindo-se a esse fato diz: “Quando eu falava com ele sobre religião, respondia contrariado: “Qual! Quer que eu fique santo de vez?” E não queria ouvir mais. Logo depois que Carlos chegou a Oxford, seu irmão João teve de se retirar daquela cidade para ajudar ao seu pai em Wroote. Ficando assim, sozinho, separado de seus irmãos, descobriu que tinha que enfrentar os problemas de sua vida e resolvê-los por si mesmo. Por essa forma mudou seu modo de encarar a vida. Ele diz: “A situação levou-me a refletir seriamente. Comecei a assistir (participar) a comunhão, semanalmente, e persuadi a mais dois rapazes, estudantes, a irem estudar comigo o curso prescrito pelos estatutos da Universidade. Isso deu-me o nome de “Metodista”.” Agora almejava o auxilio de seu irmão que havia desprezado. Foi então que escreveu a João, pedindo conselhos. Até aqui, desde a meninice, tinham estado separados um do outro, mas de agora em diante, começaram aquela camaradagem que continuou até o fim da vida. Em uma das cartas que escreveu a João nessa época, ele disse: “Deus houve por bem privar-me de tua companhia para assim aumentar o meu fardo. Deus que pode me fortalecer há de me conservar firme até nós nos encontrarmos outra vez. E espero que nem antes, nem depois daquela hora, cairei de novo em estado de insensibilidade. Será pelo teu auxílio, creio eu, que Deus completará aquilo que já começou em mim; e a nenhuma outra
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    pessoa preferiria paraconseguir esse fim, irmão, senão a ti. Sem dúvida é devido às orações de alguém (às de minha mãe, talvez) que tenho sido levado a pensar assim, pois eu não posso explicar como, nem quando, eu me acordei do estado de letargia em que eu me achava: somente sei que foi logo depois de tua retirada daqui”. A natureza de Carlos exigia a convivência de amigos. Era dotado de disposições para amizade e vida social. Logo depois de seu despertamento, manifestou vontade de ajudar a outros rapazes que tinham desejo de seguir a Cristo. Um colega seu, que morava perto do seu quarto, tinha pendor para a vida religiosa, mas tinha acanhamento dos seus colegas e lhe faltava coragem para comungar todas as semanas, porque seus colegas o ridicularizavam. Mas pela influência e coragem de Carlos Wesley venceu essa tentação, identificando-se com ele. Foi mais ou menos nessa época que João Wesley voltou para Oxford, conforme os desejos de Carlos. Este estava agora bem disposto para aproveitar qualquer auxílio que seu irmão lhe pudesse prestar. João Wesley voltou à Universidade, em novembro de 1729, ali encontrado um grupo de rapazes associados a seu irmão Carlos e que já haviam recebido também o apelido de “Metodistas”. Havia, então, só três jovens nesse grupo, porém o comportamento e o bom testemunho desses rapazes tinham atraído a atenção de todos os alunos de Oxford. Pouco tempo depois João Wesley foi escolhido para chefe do grupo e o número aumentou. Foi por influência de Carlos Wesley que George Whit efield chegou a identificar-se com o grupo. Carlos Wesley completou seus estudos na Universidade, sendo nomeado instrutor da mesma, à semelhança do seu irmão. Sua vida acadêmica terminou ao mesmo tempo que a do seu irmão João. Seu pai faleceu em 1735, e os dois irmãos se achavam juntos de seu pai nessa ocasião. Depois de ter ensinado e estudado na Universidade por alguns anos, resolveram deixar a vida acadêmica e dedicar-se a outras ocupações. III – O TRABALHO NA AMÉRICA. Dentro de seis meses, depois da morte de seu pai, Carlos Wesley achava -se embarcando no navio “Simmonds” para a América. O destino do navio era Savannah, Geórgia, colônia fundada pelo general Oglethorpe, em 1732. O fim dessa colônia era aliviar a aflição dos pobres endividados e encarcerados na Inglaterra. O governo inglês tinha cedido uma zona na América, para fundar tal colônia. O general Oglethorpe estava procurando meios e homens com os quais pudesse estabelecer esse novo lar para essas pessoas infortunadas. Ele precisava de um capelão e de um secretário. Como João, irmão de Carlos, houvesse aceitado o lugar de capelão, este resolveu aceitar o cargo de secretário. Mas, antes de embarcar, a questão da sua ordenação se levantou. Ele hesitava em aceitar a ordenação, mas um professor do “Corpus Christ College”, também um dos depositários da nova colônia, insistia que ele se ordenasse. O Dr. Potter, bispo de Oxford, o ordenou diácono; e o Dr. Gibson, de Londres, o ordenou presbítero, no domingo seguinte. Os irmãos Wesley aceitaram esse trabalho, não porque não tivessem o que fazer na Inglaterra, mas porque era missão difícil e exigia abnegação. Além do seu irmão João, tinha consigo mais dois colegas da Universidade, os Srs. Benjamin Ingham e Carlos Delamote. Embarcaram no dia 14 de outubro de 1735, no porto que se chama Gravesend. Organizaram um horário, que observaram rigidamente durante a viagem pelo mar. Carlos Wesley dedicava-se a escrever sermões, enquanto o seu irmão João estudava a língua alemã. Ele ficou
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    bem impressionado como comportamento dos moravianos, imigrantes alemães, que iam para a Geórgia. Logo que chegaram, Carlos foi para Frederica onde entrou no seu trabalho com ardor e entusiasmo. Mas não foi tão bem sucedido como imaginava. Seu zelo e os sermões que pregava não eram o que os colon os precisavam. Estes não se queriam submeter a regulamentos tão severos, e, por isso, começaram por criticá-lo e levantaram calúnias contra ele, dando isso em resultado que o general Oglethorpe chegou a desconfiar dele. Podemos imaginar os apuros pelos quais passou este homem acostumado às comodidades de uma universidade, lançando agora uma floresta de mata virgem, onde tinha que dormir no chão e passar fome! A desconfiança do general Oglethorpe chegou ao ponto de levá-lo a não querer ceder coisa alguma para ele. Enquanto permanecia este estado de coisas, Carlos Wesley caiu doente de febre e fluxo. Se um casal pobre não o tivesse socorrido nessa ocasião, teria morrido. Diz ele: “O Sr. Davison, o meu bom samaritano, me visitava freqüentemente ou mandava a sua esposa para me servir. A seus cuidados, e à proteção de Deus devo a minha vida”. Foi durante essa época que seu irmão João foi visitá-lo e conseguiu novamente reconciliar o general Oglethorpe com ele. Tudo se modificou logo. Todas as suas necessidades físicas foram supridas e o general mostrou mais confiança nele. Mas Carlos Wesley não era o homem para tal trabalho. Não gostava do serviço que tinha que fazer. Diz ele: “Estava completamente exausto de escrever cartas para Oglethorpe. Não passaria mais seis dias desta maneira nem a trôco de toda a colônia de Geórgia”. Além das cartas que tinha que escrever, havia outros document os que tinha de elaborar. Raras vezes conseguia terminar seu trabalho antes de meia-noite. Ele pediu sua demissão do cargo de secretário. Foi concedida, sendo ele incumbido de levar alguns despachos para Londres. A viagem para a Inglaterra foi péssima. Só por milagre escapou com vida dos perigos que correra. Havia chegado à América no dia 6 de fevereiro de 1736, tendo embarcado para a Inglaterra no dia 26 de outubro do mesmo ano. Tinha que ir a Charleston para embarcar. O seu irmão foi com ele até lá, a li passando cinco dias em sua companhia, até seu embarque. Ele ficou horrorizado com a escravidão nas colônias americanas. Embarcou em Charleston no dia 11 de agosto para Boston. O capitão do navio, em ébrio, libertino e blasfemador, cedeu a “cabina” de Carlos Wesley a outrem e Carlos teve que dormir sobre uma cômoda. Por seis semanas Carlos teve de aturar a malvadez desse homem embrutecido pelos múltiplos vícios. Diversas vezes a vida de todos a bordo correu perigo de naufrágio, pela estupidez desse capitão embriagado. Sem dúvida foi repreendido por Carlos Wesley, porém a única recompensa que este tirou do seu cuidado foi ser acusado de ”ébrio, louco, demônio, jesuíta e diabo”, pelo capitão. Porém Carlos deu-lhe como única resposta o silêncio, aparentando ignorar o que ele dizia e conversando em latim com um outro passageiro de bordo. Foi bem recebido e tratado em Boston, porém a moléstia que apanhou em Fredereica voltou com muita força e quase o matou. Porém melhorou ainda a tempo de embarcar para a Inglaterra no dia 26 de outubro. A viagem para a Inglaterra foi também péssima. O navio enchia-se d’água constantemente e os doze marinheiros tinham que fazer funcionar constantemente uma bomba para aliviar o navio da água que entrava. Além disso o tempo era tempestuoso e diversas vezes o navio correu perigo de ir a pique. Foi um dia de alegria e de gratidão o de seu desembarque em Deal, a 2 de dezembro de 1736. Em poucos dias chegou a Londres, onde entregou os despachos às autoridades competentes.
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    IV – SUACONVERSÃO. Uma vez em Londres, encontrou muitos dos seus antigos amigos, que lhe ofereceram suas casas e hospedagem. Também foi alvo de muitas atenções devido às relações que mantinha com o general Oglethorpe e a colônia americana. Dois dos depositários desta colônia ofereceram-lhe hospedagem gratuitamente em suas casa. Além dessas atenções teve a honra de fazer um discurso perante o rei e foi convidado a participar de um banquete oferecido pelo mesmo rei. Todos os que tinham interesse na colônia da Geórgia dispensavam-lhe cortesias. Ele tinha desejo e intenção de voltar para a América, porém não mais para exercer o cargo de secretário do general Oglethorpe, mas como missionário aos colonos e aos índios. O primeiro ano depois de sua volta da América foi gast o em visitas a amigos, e parentes em Londres, Oxford e outros lugares em redor. O Conde Zinzendorf, chefe dos Moravianos, vindo a Londres consultar os oficiais a respeito dos colonos moravianos de Geórgia, tendo notícia do regresso de Carlos Wesley, convidou-o a visitá -lo. Aceito o convite, por intermédio de Carlos, o conde conseguiu tudo quanto queria. Assim Carlos renovou o seu contato com esta gente piedosa. Aceitou um convite para assistir a uma reunião deles em Londres. Referindo-se a essa reunião Carlos disse: “Parecia-me estar no meio de um coro de anjos”. O Conde Zinzendorf convidou-o a acompanhá-lo à Alemanha e Carlos desejava atendê-lo, porém as circunstâncias não lho permitiram. Sempre se referia religiosamente aos seus amigos moravianos. Visitando seus parentes, alguns mostraram pouco caso em referência a seu trabalho e ao de seu irmão João na América, especialmente, seu tio Matheus, um médico que, antes da ida de seus sobrinhos à América, havia insultado o general Oglethorpe. Motejando-os, o Sr. Matheus disse: “Os franceses, quando têm qualquer homem notável por sua estupidez, mandam-no converter os índios”. A essa caçoada Carlos Wesley replicou, repetindo as seguintes linhas escritas por seu irmão: “To distant realms the apostles need not roam, Darkness, alas; and heathers are at home”. (“Aos reinos distantes os apóstolos não precisam ir, Pois, trevas e pagãos estão em casa a rir”. ) A isso ele não respondeu e nada mais disse sobre o apostolado do irmão de Carlos. Durante o tempo que passou em visita a seus amigos e parentes não deixou de pregar e dedicar-se a trabalhos religiosos. Em sua visita a Oxford identificou-se com o “Clube Santo”, ocupando-se em visitar e ministrar aos presos. Os membros do “Clube Santo ”, os “Metodistas”, sentiram-se animados ouvindo a leitura do Diário de João Wesley. Mas era evidente que Carlos Wesley não estava satisfeito com a sua própria experiência cristã; faltava-lhe alguma coisa. A leitura dos livros escritos pelo Sr. Law não satisfazia o seu coração. Um dia ele procurou o Sr. Law para conversar sobre o assunto e o resultado da conversa se resumiu no conselho seguinte: “Renuncie-se a si mesmo, e seja paciente”. Na visita seguinte, o Sr. Law confessou que não podia acrescentar qualquer outra coisa; já tinha feito tudo que podia para orientá-lo. Carlos Wesley, mais tarde, em sua velhice, refletindo sobre essa época de sua vida, disse: “O Sr. Law foi o nosso João Batista”. Se o Sr. Law tivesse continuado a ser o mestre dos irmãos Wesley, a grande revivificação evangelística não teria sido provocada por João e Carlos Wesley. Eles precisavam de uma experiência mais clara e positiva.
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    Carlos Wesley nãoera, nessa época, verdadeiramente convertido, porém buscava sinceramente mais luz e orientação espiritual. George Whitefield tinha voltado da América e eletrizava o povo com sua eloqüência e ardor. Carlos Wesley ouvia suas pregações e convidava seus amigos para também as ouvirem. Carlos já estava pronto a embarcar de novo para a América, porém diversas coisas concorreram para impedi-lo. Seu irmão João tinha chegado da América trazendo notícias do triste estado em que se achava a colônia de Geórgia. Isso, em de vez de desanimá-lo, provocou ainda mais seu entusiasmo para ir. Consultando a sua mãe sobre isso, ela não concordou em repetir o que tinha dito ao filho da primeira vez: “Se tivesse vinte filhos, gostaria de vê-los assim empregados, ainda que não pudesse eu mais vê-los”. Ela mudou sua atitude, não porque tivesse menos interesse pelo trabalho missionário, mas porque julgava que seu filho não se adaptava a esta qualidade de trabalho e que Deus tinha serviço para ele na Inglaterra. Foi nessa ocasião que ele caiu muito doente, atacado pela doença que adquirira na América. Quando melhorou e entrou em convalescença, o médico disse-lhe que a enfermidade lhe seria fatal se voltasse outra vez para a América. Só assim foi que, finalmente, abandonou a esperança de voltar para a América. Deus tinha outro plano para ele. Poucos dias antes de cair doente em Oxford, foi apresentado a Pedro Bôhler, o moraviano. Durante sua longa doença Pedro Bôhler o visitou um dia. Carlos Wesley pediu que o moraviano orasse por ele. Bôhler fez uma oração muito tocante e em seguida, tomando Carlos pela mão, disse: “O irmão não morrerá desta vez”. (Estas palavras foram notáveis, pois Carlos julgava que não podia suportar mais um dia a dor que sentia). “O irmão tem esperança de ser salvo?” “Sim”, respondeu Carlos. Quando Bôhler quis saber qual era a base de sua esperança, Carlos disse: “Porque tenho me esforçado para servir a Deus”. Bôhler meneou a cabeça, mas não disse nada. Carlos julgou muito cruel ser roubado de sua confiança e perguntou a si mesmo: “Não são os meus esforços suficientes para garantir a minha esperança?” Esta pergunta revelou a grande distância que tinha que caminhar antes de alcançar a salvação mediante a fé. Carlos Wesley melhorou e foi para Londres, onde encontrou de novo Pedro Bôhler. Ali teve outro ataque de seu incômodo. Estava hospedado em casa do Sr. Hutton. Durante sua doença foi visitado outra vez pelo Sr. Bôhler. Sobre essa visita Carlos disse: “De manhã o médico, Dr. Cockburn, me visitou; e também um outro médico, ainda melhor, Pedro Bôhler, aquele que Deus retivera na Inglaterra para meu próprio benefício’. Na ocasião desta visita Bôhler orou para que Carlos viesse a compreender qual era a vontade de Deus para com ele nas suas aflições. Assim Carlos compreendeu que tudo isso estava acontecendo para levá-lo a examinar-se a si mesmo, para que não confiasse em si, mas em Cr isto, pela fé. Por três semanas buscou a salvação com toda a sua alma. A dificuldade para Carlos, como aconteceu a seu irmão João, era crer que alguém se pudesse converter instantaneamente. Na véspera de sua partida de Londres, Bôhler visitou Carlos Wesley e teve satisfação em ouvi-lo confessar que estava convicto de incredulidade e que não tinha o espírito de perdoar, mas que esperava, antes de morrer, alcançar a salvação na morte e paixão de Cristo. Sem dúvida foi isso que levou João Wesley a escrever: “Foi o beneplácito de Deus para abrir os olhos dele (Carlos), de modo que enxergasse mais claramente a natureza daquela fé verdadeira e viva, pela qual, mediante a graça, somos salvos”. Ele comungou e, sentindo-se um pouco confortado, concluiu que os morav ianos não tinham razão em afirmar que um homem não pode ter a paz enquanto não tiver a segurança do perdão; mas descobriu pela experiência que nisso estava errado. Uma vez desenganado de que não podia ter a paz na alma enquanto faltasse a fé, começou a buscá-la de todo coração e falava com outros sobre o assunto.
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    Foi neste estadode espírito que resolveu ir à casa de Hutton; porém nessa ocasião recebeu a visita de Bray, um mecânico pobre e ignorante, mas crente fervoroso. Este homem não conhecia a ciência, mas conhecia a Cristo. Ele orou com Carlos Wesley, e tão tocante foi o culto que tiveram juntos, que Carlos resolveu ir passar algum tempo em casa deste irmão pobre até que alcançasse a fé salvadora. Estava, porém, tão fraco que teve de ser levado à casa deste irmão numa cadeira. Durante os dez dias que passou em casa deste homem simples que lhe servia de guia espiritual foi visitado por amigos e por seu irmão João. Todos oraram por ele. Rodeado de tantos amigos que se interessavam por seu bem estar ficou impressionado. Seu hospedeiro, o Sr. Bray, trabalhou muito com ele, mas às vezes chegava a ficar desanimado. Um dia, quando já havia feito tudo quanto podia lembrar, Bray disse-lhe que, em tais ocasiões, tinha tirado muito proveito lendo a Bíblia. Abriu então o Novo Testamento, no Capítulo nono do Evangelho de Mateus, e leu. Quando lia, Carlos Wesley, escutando a descrição da cura do paralítico, cobrou ânimo e creu que a fé que seu hospedeiro tinha seria poderosa também para sua própria salvação. No dia seguinte ele se converteu. Era o dia de Pentecostes. Às nove horas da manhã o seu irmão João e alguns amigos o visitaram e juntos oraram e cantaram um hino ao Espírito Santo. Ali se demoraram meia hora. Carlos Wesley entregou-se à oração pedindo o c umprimento da promessa do dom do espírito Santo. Sentindo-se fraco no corpo, desejou dormir e quando estava se acomodando para dormir ouviu uma voz que dizia: “Em nome de Jesus de Nazareth, levanta-te e crê, e serás curado das tuas enfermidades”. Estas palavras fizeram grande impressão sobre ele. “Oh! Se Cristo me falasse assim...”, suspirou ele. Aquelas palavras foram preferidas por uma senhora que havia alcançado a salvação pela fé. Ele confiou em Cristo e somente nele e logo alcançou paz para sua alma. Poucas horas depois as boas notícias chegaram aos ouvidos do seu irmão João que escreveu: “Eu recebi a notícia que meu irmão alcançara paz para sua alma. A força física voltou a seu corpo desde àquela hora. Quem é semelhante a nosso Deus?” Este dia, o dia 21 de Maio de 1738, foi um dia memorável na vida de Carlos Wesley. Foi o começo de uma nova época em sua vida. Em pouco tempo estava com sua saúde restaurada e trabalhando entre os seus amigos, pregando as boas novas de salvação. Visitava muitas famílias e sempre onde quer que fosse era uma benção para o povo. Tinha dom especial de fazer visitas. Logo depois se uniu por algum tempo a George Whitefield e tornou -se pregador ao ar livre. Mais tarde aceitou o cargo pastor de uma igreja em Islington. V – SUA ATIVIDADE COMO ITINERANTE Sua posição como pastor da Igreja de Islington tornava-se cada vez mais difícil. Os oficiais da Igreja não estavam contentes com ele e com suas pregações. Um dia, quando ia subir ao púlpito para pregar, dois homens, mandados pelos oficiais da Igreja, impediram-no de pregar obstando-lhe o caminho. Carlos Wesley, não querendo provocar uma cena na igreja, cedeu o lugar a outro pregador. Alguns dias depois, quando Whitefield ia ocupar o mesmo púlpito, ele foi impedido ao acompanhá-lo, pois quatro homens estacionados nas escadas do púlpito lhe toleram a subida. Whitefield, lembrando -se da escritura que diz: “O servo do Senhor não deve brigar”, retirouse da Igreja e, entrando no cemitério, ali pregou ao povo que o seguira, deixando os quatro homens guardando o púlpito com a casa vazia. Está claro que Carlos Wesley não podia continuar como pastor por muito mais tempo em tais condições. Demitindo-se deste cargo entrou para o trabalho de itinerante, pregando onde podia encontrar povo.
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    A princípio dedicouseu tempo ao trabalho em Londres, onde foi ricamente abençoado no seu ministério, especialmente entre os mineiros. O povo, que havia sido negligenciado pelo clero e pela igreja, respondia francamente a seus esforços. Um clérigo disse a Carlos Wesley que o número de comungantes em sua paróquia havia aumentado de cem pessoas. Carlos ofereceu-se para ajudá-lo a administrar a santa ceia, porém não foi aceito. As perseguições não tinham começado ainda, porém havia sinais delas. Na pequena cidade de Bengeworth, sua paciência foi posta à prova. Nesta cidade um tal de Seaward, um professor, quis contrariar o trabalho de Carlos Wesley. Acusou Carlos Wesley de ter roubado o seu irmão, ameaçando-o se aparecesse outra vez nos campos para pregar. Mas Carlos era de uma têmpera tal que quanto mais era ameaçado tanto mais coragem sentia. À hora marcada para a realização do culto ao ar livre, veio também o tal professor acompanhado de grande número de homens embriagados. Quando Carlos Wesley se levantou para falar ao povo, o professor também se levantou perto dele para falar. Porém Carlos podia falar melhor e, quando sua voz não podia ser ouvida, o povo o ajudava a cantar hinos. Ele assim descreve este incidente: “Por quase uma hora ele (o professor) falou por seu mestre, e eu pelo meu; porém a minha voz prevaleceu. Às vezes fizemos oração, às vezes cantamos hinos e demos louvores a Deus. O Senhor Deus estava conosco e o grito de um rei estava conosco. No meio destes tumultos, acusação e blasfêmia, eu sentia calmo o meu espírito, mesmo quando pregava o Evangelho com grande contenda. Estas pequenas coisas estavam me preparando para coisas maiores”. Levantou-se uma controvérsia sobre doutrina, entre os metodistas e os Calvinistas. Carlos Wesley exerceu o papel de pac ificador. Não gostava de controvérsia. Porém esta controvérsia assumiu tal proporção que provocou certo arrefecimento de amizade entre ele e George Whitefield e outros amigos. Igualmente a divergência entre os Metodistas e Moravianos causou uma separação entre eles. Até 1742 o trabalho dos irmãos Wesley tinha sido limitado às cidades de Londres e Bristol. Mas depois da visita que João Wesley fez ao norte da Inglaterra até Newcastle, o trabalho itinerante dos Metodistas estendeu-se por toda parte da Inglaterra, Galles, Escócia e Irlanda. Durante uns dez anos Carlos Wesley viajou tanto quanto seu irmão João. Mas poucos anos depois do seu casamento limitou-se às cidades de Bristol e Londres. Para ser um itinerante precisava de coragem, pois não somente tinha que viajar bastante a cavalo, debaixo de chuva, neve, calor e frio, porém tinha que enfrentar os motins e perseguições constantes. Mais tarde, depois de conquistar a confiança do povo, em vez de pancadas recebia boas-vindas. Para narrar tudo quanto fez durante os dezesseis anos de itinerância seria necessário escrever volumes historiando fatos e incidentes ocorridos durante sua vida. Porém, ao nosso objetivo, basta citar alguns fatos que servirão como amostra das muitas outras coisas que fez. Na viagem que fez ao norte da Inglaterra, em 1743, no mês de maio, sofreu algumas perseguições terríveis. Em sua visita a Wednerbury foi atacado por um grupo de amotinados. Assim descreve ele esse episódio: “A rua estava cheia de bestas de Éfeso (o povo do lugar agiu a mandado do chefe), que berravam e gritavam e jogavam pedras incessantemente. Muitas delas me atingiram sem me ferir. Eu insistia com eles para que se entregassem a Cristo. Quando me retirava, uma onda desses desordeiros me precipitou da escada. Levantei-me e, tendo despedido o povo com a benção, fui arremessado ao chão outra vez. Da mesma forma uma terceira vez, quando rendemos graças a Deus pela nossa salvação. Então estando na escada, exortei -os a se retirarem em paz, e passei pelo meio deles. Eles nos xingavam, porém não tiveram o poder de tocar nem um fio do nosso cabelo”.
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    Quando passou porSherffield, foi acusado de ser um traidor do rei. O soldado que levantou esta calúnia contra ele teve a ousadia de chegar à frente do pregador e colocar a ponta da sua espada ao peito do ministro. Carlos Wesley descobriu seu peito e olhou sorridente para o soldado e disse: “Eu sou temente a Deus e honro o rei”. O capitão, cabisbaixo, deu um suspiro, guardou a espada na bainha e silenciosamente se retirou. Ele tinha que confiar em Deus, e não na proteção dos oficiais das cidades, os quais às vezes instigavam o povo contra ele em vez de protegê-los. Mas, apesar de tudo isso, ele sempre aconselhava o povo a que fosse leal a Deus e à pátria. Muitas vezes, rodeado pelo povo amotinado, exortava-o a “que atendesse a todas as ordenanças da Igreja; a que se submetesse a todas as ordenanças dos homens por amor de Deus; que tapasse a boca de todos os gabadores, temendo a Deus e honrando o rei; e que evitasse o juízo de Deus que paira sobre as nossas cabeças mudando radicalmente o nosso modo de viver”. Os frutos de sua pregação não demoraram a manifestar-se entre o povo. Muitas cidades foram completamente transformadas. O povo tornou-se mais sério e ordeiro. Carlos Wesley assim diz no seu diário: “No sábado, 4 de agosto de 1744, preguei em Gwennap, onde o povo está bem despertado. Muitos que não têm a coragem de entrar e fazer parte das Sociedades têm deixado os seus pecados pelo arrependimento e estão esperando o perdão. Toda a comunidade está ciente da mudança; porque a última visita do juiz não encontrou nenhum criminoso na prisão; uma coisa que nunca se deu, tanto quanto se lembrem os viventes. Por ocasião da última festa de orgias, não havia número suficiente para realizá-la, pois todos os homens foram riscados da lista do diabo, e agora estão lutando contra ele e não por ele”. Carlos Wesley diz que, passando por uma cidade, podia adivinhar as casas onde moravam famílias metodistas, pelos estragos – janelas quebradas, portas e paredes riscadas, etc.- que assim se apresentavam devido à violência dos ataques praticados contra elas. Em Dublim, na Irlanda, ele sofreu bastante às mãos dos desordeiros. Naquela época os evangélicos tinham pouca influência no país. Não havia socied ades bíblicas, de temperança e de tratados. Um pregador metodista disse: “O pregador que não estiver pronto a morrer a qualquer hora não deve tentar pregar em Dublim”. Não levou muito tempo para Carlos Wesley e seus colegas sentirem a força da verdade dest a expressão. Apenas dez dias antes da sua chegada, a casa de culto foi atacada pelos papistas. Tiraram toda a mobília, levaram-na para fora, queimaramna na praça pública e juraram que matariam todos os metodistas. Carlos Wesley foi ridicularizado e vaiado pelo povo nas ruas, porém ele conservava-se calmo e pregava onde podia e muitos assistiram as suas pregações. Antes de voltar para a Inglaterra conseguiu adquirir uma nova casa de culto com um sobrado onde os pregadores podiam hospedar-se. VI – SUA RESIDÊNCIA E TRABALHO EM BRISTOL (1757-1771) Como já observávamos, Carlos Wesley deixou de ser itinerante em 1757, devido às circunstâncias domésticas, mas nunca deixou de trabalhar em prol da causa de Cristo sob a bandeira metodista. 1. Seu casamento. Entre todos os membros de sua numerosa família, ele foi o mais feliz de todos no seu casamento. Casou-se com miss. Sara Gwynne, da cidade de Garth, de Galles, no dia 8 de abril de 1749. O Sr. Gwynne era um homem abastado e de influência; tinha nove filhos e filhas e vinte criadas. Carlos Wesley, sendo um homem pobre e itinerante, antes dos pais de sua noiva consentiram em seu casamento com sua filha, teve que prometer e garantir um ordenado de cem libras esterlinas por ano. Seu irmão João Wesley ficou sendo um dos fiadores, contanto com o rendimento das publicações da Casa Publicadora, para suprir essa quantia.
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    Carlos travou conhecimentocom miss. Sara, em Bristol, e teve ocasião de visitá-la uma ou duas vezes por ocasião das viagens que fez na Irlanda. Também ela e seu pai passaram algum tempo com os irmãos Wesley, em Londres, onde puderam verificar tudo que eles faziam, etc. Depois desta visita Carlos pediu-a em casamento. Quando fez isto, levou o seu irmão João consigo para passar alguns dias em casa da noiva. O contrato de casamento foi assinado pelos dois irmãos e tudo ficou combinado para a realização do casamento no dia marcado. O ato do casamento foi celebrado com culto, cântico e oração. Casaram-se na capela que ficava perto da casa da noiva. Foi um dia ideal quanto ao tempo e também quanto ao comportamento da parte de todos que participaram do ato. Carlos tinha quarenta e dois anos e ela vinte e três. Ele ficou em casa do sogro dez dias depois do casamento, continuando depois as suas viagens de itinerante, deixando a esposa com seus pais. Uma vez ou outra ela o acompanhava. Em 1º de setembro de 1743 mudaram-se para a sua própria casa. Sua vida doméstica foi iniciada com um culto de oração. Depois de seis anos de casados, escrevendo à sua esposa, disse: “Ao ler as passagens acerca do nosso casamento, tu não podeis imaginar quanto amor te tenho e a todos da tua família. A tua mãe, pai, primas e criadas têm se portado de tal modo para comigo que não posso deixar de os amar. E me recordo com prazer de todos os passos e de todas as circunstâncias em que a providência divina nos guiou em nosso amor. Eu me regozijo ao refletir sobre nossa união tão abençoada, e me sinto grato a todos que contribuíram para isso. Acima de tudo, quero agradecer ao nosso Bem feitor por te haver dado ao meu coração, para satisfazer os desígnios dele levar-lhe as “bodas de Cordeiro”. 2. Seu trabalho em geral: Carlos Wesley limitou-se, depois de 1756, ao trabalho em Bristol e Londres. Mas seu ministério foi ricamente abençoado. Residiu vinte e dois anos em Bristol. Possuía grande facilidade de captar amizade. Era poeta e escreveu muitos hinos. Em suas visitas pastorais e às vezes no púlpito cantava um hino. Numerosas vezes se encontram referências sobre este ponto em sua biografia. Demonstrava interesse em visitar os pobres e os presos, prestando-lhes assistência tanto ao corpo como a alma. Quando houve uma greve de mineiros em Bristol, viu-se que ele exercia maior influência e autoridade sobre o povo do que a própria polícia. Foi devido a ele que se conseguiu evitar maiores desastres. Ele pregava com entusiasmo e energia, porém, às vezes, seus discursos eram sem vida; dependia da inspiração do momento. Raras vezes escrevia seus sermões; pregava de improviso. Mas quando sentia o fogo divino no coração não sabia parar, pregava por mais de duas horas. Certa vez um jovem pregador resolveu deixar o ministério, porque se julgava incompetente. Porém um dia, assistindo à pregação de Carlos Wesley, num desses dias em que o fogo celeste não se acendera muito, ficou assaz impressionado pela lentidão com que o famoso pregador falava. Encostava-se no púlpito, colocava o cotovelo na Bíblia, etc. Quando viu isso, resolveu não abandonar o ministério, pois compreendera que todos os pregadores têm seus dias de inspiração e de des ânimo. Sem dúvida, nessa ocasião, o fracasso do pregador foi o seu maior sucesso. Em 1745 uma mulher converteu-se a Cristo por seu ministério. Foi Mrs. Priscilla Rich, a esposa do Sr. Rich, dono do teatro “Convent Garden Theathre”. Era bonita, inteligente e uma atriz notável. Seu esposo ficou muito contrariado com isso, pois ela deixou de tomar parte nos espetáculos do teatro. Seu marido queria, por força, que continuasse. Um dia, insistindo para que voltasse à cena, ela lhe disse que se fosse obrigada a comparecer em público no teatro, daria seu
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    testemunho e falariacontra o teatro; e como ele não quisesse tal coisa, deixou de aborrecê-la. Foi por meio dela que Carlos Wesley chegou a ter contato com as pessoas mais notáveis daquela época. Como seus filhos tinham dom para a música, teve por meio desta senhora e seu marido as melhores oportunidades para conhecer os melhores músicos na Inglaterra. 3. O poeta do Metodismo: Não podemos avaliar a influência de Carlos Wesley quando consideramos a sua contribuição para a hinologia sagrada. Ele escreveu 6.500 hinos. Estes hinos abrangem em seus sentimentos, todas as sensações da vida humana, sob quase todas as circunstâncias da vida. Começou a escrever seus hinos em Geórgia e os escreveu até morrer. Era-lhe muito comum compor um hino enquanto viajava a cavalo. Chegando a alguma casa, entrava e pedia “pena, tinta, papel”, reduzindo-o a escrito. Depois cumprimentava seus amigos e conversava com animação. O Dr. Stoughton, falando sobre o valor da hinologia na Revivificação Evangélica, disse: “A psalmodia, que tinha sido negligenciada na Inglaterra muito mais do que alguns leitores imaginam, foi tomada a sério pelos irmãos Wesley, desde o princípio com uma compreensão clara da sua importância e com um zelo que prometia sucesso. O Metodismo nunca se teria tornado o que é sem o seu hinário sem igual. Seu hinário talvez tenha contribuído mais para conservar a teologia evangélica do que os “Sermões de Wesley” e as “Notas sobre o Novo Testamento ”. Para cada pessoa que tenha lido os “Sermões” e as “Notas Sobre o Novo Testamento”, mil têm cantado os hinos metodistas. Todas as divisões da Cristandade têm sido beneficiadas pela influência sobre o “fervor do Metodismo não pode haver dúvida; esse fervor é devido ao caráter concreto e pessoal de sua psalmodia. Ele não se limitou à contemplação calma e intelectual de temas abstratos, ainda que sagrados e sublimes; porém, tirou sua inspiração da experiência dos crentes, como soldados de Cristo, “lutando”, “vigiando”, “sofrendo”, “trabalhando”, e buscando a redenção completa. Podem-se notar nesses hinos o som da trombeta, o gemido dos feridos, o grito dos vitoriosos e o pranto do que acompanha o enterro do soldado”. O hino mais apreciado e cantado no mundo é “Oh! Amante Salvador” (número 28, do livro “Psalmos e Hinos”): “Oh amante Salvador, Sê tu meu Amparador! Negras ondas de aflição, Fortes ventos perto estão; Deste espanto e do terror Salva-me, meu bom Senhor: E no porto faz entrar Minha barca sem quebrar. Consternado, nesta dor, Sem refugio, sem vigor, Meu medroso coração Clama a ti por salvação Mostra o teu imenso amor, Oh benigno Salvador! Única esperança e luz, Não me deixes, oh Jesus! Compassivo Redentor! Vale a um triste pecador;
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    Vida eterna moraem ti, Rica graça nasce ali; Enche o débil coração Com os dons da salvação; E seguro, e sem temor, Gozarei do teu favor”. O Dr. Henrique Ward Beecher disse acerca deste hino: “Preferia ter escrito este hino de Wesley – “Oh! Amante salvador” – a merecer a fama de todos os reis que em todos os tempos se têm assentado sobre os tronos do mundo inteiro. É mais glorioso! Possui maior poder. Este hino será cantado até o som da última trombeta que despertará a milícia celestial; e então, creio, subirá nos lábios de alguns até a presença de Deus”. VII – SUA RESIDÊNCIA E TRABALHO EM LONDRES (1771-1788) Por muito tempo João Wesley quis que seu irmão morasse mais perto dele. Igualmente por alguns anos Carlos Wesley quis mudar-se para Londres pelos mesmos motivos e outros mais. Uma das principais dificuldades era arranjar uma casa que servisse. Quando uma senhora, Mrs. Gumly de Bath, soube que Carlos Wesley queria mudar-se para Londres, ofereceu-lhe uma casa mobiliada e bem colocada, salvo quanto à distância, pois estava um pouco afastada do Foundry, o centro metodista em Londres. Ele tinha somente que conservá-la e pagar os impostos. Esta casa agradou-lhe tanto que logo tratou de se mudar de Bristol para Londres. 1. Sua vida doméstica e social: Carlos Wesley teve oito filhos, porém cinco morreram pequenos e só três se criaram – dois homens e uma mulher. O menor tinha quase quatro anos quando se mudaram para Londres. Chamava-se Samuel e os mais velhos Carlos e Sara. Os dois rapazes tinham dom para música e aprenderam a tocar diversos instrumentos. Carlos Wesley dedicava muito interesse à educação de seus filhos, especialmente em música. Quando crescidos, deram concertos musicais em casa, convidando seus amigos para assistirem. Mrs. Rich servia de mediadora entre eles e os cultores da música. E foi por meio dela que eles puderam arranjar os melhores professores daquela época. Carlos Wesley gastava algumas horas, todas as tardes, lendo com seus filhos. Tinha interesse pela vida espiritual deles. Não obrigava os filhos a assistirem os cultos nas Sociedades, mas dava-lhes o seguinte conselho: “Podereis ganhar dos Metodistas desprezados, quando não outra qualquer coisa, ao menos o conhecimento a respeito do que constitui a religião verdadeira, a saber: a felicidade e santidade; a paz e amor; o favor e a imagem de Deus restaurada; o paraíso reconquistado; um reino dentro de vós; a participação da natureza divina. Os meios ou instrumentos principais dessa fé, que é o dom de Deus dado a todos que o pedem”. 2. Trabalho em Igreja: Carlos Wesley, chegando a Londres, passou a dar seu tempo às Sociedades da Metrópole. Pregava constantemente na “City Road Chapel”. De vez em quando visitava Bristol onde tinha muitos amigos queridos. Além de zelar pelas Sociedades e pelo seu trabalho pastoral, pregava aos presos e constantemente os visitava. Escreveu uma coleção de hinos apropriados para eles. Diversos criminosos foram convertidos cantando e ouvindo cantar esses hinos. No decurso de seus últimos anos seu coração continuamente ficava entristecido pela morte de alguns dos seus amigos da mocidade.
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    Durante esse tempopublicou diversas edições de hinos. Quarenta e seis edições diferentes. Até onde chegaram os Metodistas, ali foram cantados os hinos de Carlos Wesley. Isto se dá hoje em dia. Em quase todos os hinários hoje existentes há alguns de seus hinos. 3. Alguns desgostos que sofreu: Não há neste mundo pessoa alguma, que, vivendo muito tempo, não venha a sofrer alguns desgostos. Carlos Wesley, dotado como era de natureza impetuosa, naturalmente sofria horrivelmente, quando encontrava qualquer contrariedade ou desgosto. Ao menos quatro coisas traziam tristezas a seu espírito sensível e poético. Uma era o procedimento de seu irmão João, que tinha teimosia em ordenar diáconos e presbíteros a alguns de seus pregadores leigos, e o fato de o Dr. Thomas Coke, superintendente do trabalho na América, também estar revestido da autoridade de ordenar presbíteros, etc. Carlos Wesley contrariava-se muito com isto, porque não queria de forma alguma, que as “Sociedades” saíssem da Igreja Anglicana. Mas a história tem justificado a teimosia de seu irmão João. Outro desgosto era o desejo que seu irmão João estava demonstrando de se casar com Miss Grace Murray. Neste particular ele praticou uma grande injustiça para com seu irmão, estorvando os seus planos de casamento e conseguindo que um dos pregadores de João Wesley se casasse com ela enquanto João se achava ausente numa longa viagem. Ainda outro desgosto teve ele, quando compreendeu a possibilidade da separação das “Sociedades” da Igreja Anglicana que amava tanto. Viam-se sinais dessa separação e ele sempre lamentava a voz contra tal tendência. Mas a corrente separatista era tão forte nas “Sociedades”, que ele não podia deixar de sentir que mais cedo ou mais tarde elas viriam a se separar da comunhão da Igreja Anglicana. Esse pensamento foi como uma sombra sobre o seu espírito nos dias de sua velhice. Mais um desgosto, e este mais cruel que todos, foi o fato que um dos filhos passou para a Igreja Católica Romana. Isso deu motivo a grande regozijo por parte dos papistas, visto poderem dizer que um dos sobrinhos de João Wesley havia aceito o Catolicismo. O motivo que levou Samuel a passar para a Igreja Romana foi a música. Alguns de seus amigos músicos pertenciam a Igreja Romana; e por meio deles foi influído a passar para a Igreja Romana. Nessa ocasião o seu tio, João Wesley, escreveu a seguinte carta: “Querido Samuel, como te tenho tido em muita consideração desde a tua menice, tenho pensado em escrever-te com liberdade. Estou persuadido de que o que é dito em amor será recebido com amor; portanto, se não for para teu benefício, não te fará mal algum. “Já há muitos anos notei que tinha sido do beneplácito de Deus, dotar-se de talento para a música, como também de capacidade para aprenderes muitas outras coisas e, o que é ainda de mais importância, do desejo de seres um cristão. Mas muitas vezes tenho tido dó te ti, julgando que não tens procurado devidamente o caminho certo. Não me refiro a essas ou aquelas opiniões protestantes ou romanas. Todas essas opiniões eu as coloco debaixo dos meus pés; porém, a respeito das coisas de maior peso, quer protestantes quer romanas, se errarem nessas coisas, perecerão eternamente. Receio que não tenhas nascido de novo; que sejais dessa Igreja ou daquela, não me importa. Pode-se salvar em qualquer delas. Mas tenho receio de que não sejas nascido de novo; pois se não se nascer de novo, não se pode ver o reino de Deus”. Porém Samuel nunca foi um romanista de coração. Certa vez teve uma discussão com um padre na qual afirmou que tinha o direito de julgar por si mesmo, e disse: “Os estrépitos do Vaticano não podem ser considerados como raios do céu; não me importo com a excomunhão”. Poucos anos depois ele se retirou da comunhão da Igreja Romana declarando : “Não me importo com a excomunhão que os seus padres possam lançar sobre mim”.
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    VII – OFIM DA CARREIRA: Carlos Wesley conservou-se no trabalho até o fim da sua carreira. O que tinha caracterizado nos outros lugares caracterizou-o na grande metrópole de Londres. Ele tinha muito interesse pelos presos e pelos pobres. Constantemente visitava os presos, especialmente os condenados à pena de morte. Não somente conversava com eles e pregava para eles, mas também escrevia hinos apropriados para eles cantarem. A última publicação que fez foi uma coleção de hinos para os presos. Muitos entre os presos se converteram a Cristo e morreram na fé como o “bom ladrão” (o ladrão que se arrependeu diante de Jesus) que morreu na cruz. A velhice estava se aproximando e seu fim estava perto. Muitos dos seus amigos mais íntimos passaram para o além; entre eles, o Rev. João Fletcher, o Sr. Carlos Perronet, o Rev. Henrique Piers e o Sr. Blackwell. Ele não tinha medo de morrer; somente orava para que tivesse morte suave. Os que o assistiram durante os últimos dias da sua enfermidade, testemunharam acerca de sua paciência e resignação cristã na presença do último inimigo do homem – a morte. Um dos pregadores, o Rev. Samuel Bradburn, que esteve com ele até o fim, diz: “Ele não tinha outro incômodo senão a velhice. Quase não sentia dor alguma. Sua mente estava tão calma como o cair da noite de verão. Constantemente repetia: “Eu sou somente um pecador salvo pela graça de Deus meu Salvador”. Poucos dias antes de falecer escreveu o seu último hino. Não podendo escrever, ditou e sua esposa escreveu as seguintes linhas: “In age and a feebleness extreme Who shall a sinful worn redeem? Jesus, my only hope Thou art, Strength of my failing flesh and heart; O could I catch a smile from Thee, And drop into eternity”. “Em idade e fraqueza a cair, Quem pode um pecador redimir? Jesus, só tu podes me salvar, Vem meu corpo e alma renovar; Quero o teu rosto calmo ver Antes de eu entrar no porvir”. Carlos Wesley faleceu no dia 29 de Março de 1788 e poucos minutos antes de morrer, com sua mão na mão de sua filha, disse: “- Senhor – meu coração – meu Deus!”, e ainda com a mão entre as de sua filha expirou tão sossegado e calmamente que não souberam quando sua alma deixara o corpo. Caiu no sono do descanso, esperando o dia da ressurreição. Foi enterrado no cemitério de Marylebone, que pertencia à Igreja da qual era pastor. Hoje pode-se ver um monumento erguido sobre seu t úmulo nesse cemitério, na cidade de Londres.
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       A vida deGeorge Whitefield, o orador e evangelista do Movimento Metodista (1714-1770) Como João Batista foi percussor de Jesus Cristo, assim também o Sr. George Whitefield o foi do Movimento Metodista. Foi ele que iniciou o trabalho evangelístico, pregando a doutrina de renascimento ou a regeneração, e, também, foi ele que iniciou a pregação ao ar livre, convidando o Sr. João Wesley para continuar o trabalho que tinha principiado em Bristol entre os mineiros. O Sr. Whitefield pode ser comparado a um a tempestade que levava tudo por diante dele. Os costumes e preconceitos antigos não puderam manter-se perante o seu entusiasmo. Quando fecharam as portas das Igrejas contra ele, foi ao ar livre e ali pregou a mensagem divina e as multidões afluíram para escutá-lo. Ele realmente preparou o caminho para o desenvolvimento espantoso do Metodismo, tanto na América como na Inglaterra. I – O NASCIMENTO E A MOCIDADE Quando o sexto filho, George Whitefield, nasceu em 16 de dezembro de 1714, na estalagem Bell Inn, na cidade de Glaucester, na Inglaterra, os hóspedes que se achavam instalados ali, não sonhavam que um dos maiores oradores e evangelistas que jamais apareceu na Inglaterra tinha chegado naquela noite feia de inverno. O seu advento no mundo era semelhante ao do Salvador do mundo sob aspectos humildes, mas não tão humildes como os do seu Mestre. 1. Os seus pais Pouco se sabe dos seus pais ou do seu parentesco. Sabemos que o seu bisavô era um vigário na Igreja Anglicana, que seu pai era um hoteleiro, e que a sua mãe tinha que ajudar a manter a família trabalhando na estalagem. Quanto à vida religiosa deles julgamos que pertenciam à Igreja Anglicana e viviam como a maioria do povo naquela época, observando a forma de piedade, mas realmente ignorando o poder dela. Podemos imaginar o ambiente em que o pequeno George tinha que se desenvolver. O lar não podia ser bem dirigido devido às interrupções constantes causadas pelo vai e vem dos hóspedes. Sem dúvida o menino tinha uma boa oportunidade de estudar a vida humana, vendo constantemente pessoas de toda a espécie, ricas, pobres, boas e más. Tudo isto contribuía para ajudá -lo mais tarde a compreender a natureza da humanidade e interpretá-la com tanto acerto nas suas pregações como evangelista. Julgamos também que os pais estavam interessados no seu adiantamento na vida, pois interessaram-se na sua educação mandando-o para a escola naquela cidade.
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    2. Na escola. Quandotinha doze anos de idade, foi mandado à escola de Sta. Maria de Crypto. Aqui o rapaz aproveitou bem as aulas e logo revelou um dom excepcional para a oratória e para o drama. Tomava parte saliente nas representações que foram dadas na sua escola. Tinha muito prazer nisto e foi ali que desenvolveu os dons de orador que se manifestaram tão notadamente na sua carreira, mais tarde, na vida. 3. Na vida prática. Como tinha de ajudar os seus pais para ganhar o pão de cada dia, saiu da escola para trabalhar como copeiro na estalagem de seu pai. Parece-me lastimável vê-lo abandonar os seus estudos quando ia tão bem e estava revelando dons tão excepcionais; porém, às vezes, a sorte ou a providência divina destinaram outra coisa. Lá no hotel, vestido como copeiro daquela época, prestava serviço aos hóspedes, servindo a mesa, arrumando os quartos e varrendo e lavando o assoalho, etc. Deus, porém, tinha outro serviço para ele, embora ele julgasse que nunca poderia completar os seus estudos na Universidade. Descrevendo esta fase da sua vida, diz ele: “Eu me cingia com meu avental azul e pegava nos braseiros, lavava o assoalho, arrumava os quartos e, enfim, converti-me num copeiro profissional, prestando serviço aos ricos e aos pobres durante um ano e meio”. Era, porém, destinado para outro serviço mais digno de seus dons naturais. Como rapaz cheio de vida, não deixava de praticar algumas travessuras de acordo com a sua idade. Lendo as acusações que fez contra si mesmo, mais tarde, devemos lembrar que foi muito severo para consigo. Neste ponto ele procedia como o Sr. João Bunyan. Tinha a mesma luta que todos têm de enfrentar na vida – a luta entre a carne e o espírito. É interessante quando lembramos que os livros que furtava eram livros devocionais e religiosos, e o dinheiro que tirava da gaveta de seu pai era distribuído entre os pobres. Apesar de sua perversidade nesta época de impiedade, sentia, no íntimo que Deus o tinha destinado para uma carreira digna nesta vida. Ouvimo -lo dizer, um dia, em conversa com sua irmã: “Deus tem me destinado para alguma coisa que eu agora ignoro. Parece-me que o meu caminho está interrompido”. Foi isso que o levou a continuar os seus estudos – não podia contentar-se com a sua sorte de copeiro. 3. Volta para escola outra vez. Com dezesseis anos de idade, com um desejo ardente de completar os seus estudos, entrou de novo na escola em Glaucester, afim de preparar-se para entrar na Universidade de Oxford. Agora a vida tem mais significação para ele. O caminho está mais aberto e as suas idéias estão mais esclarecidas e só falta aplicação própria para realizar o seu sonho. O seu tempo tem mais valor, as horas preciosas demais para gastá -las em praticar travessuras. Depois de dois anos de estudos achou-se em condições de ir à Universidade. Como as coisas se modificam na vida de um rapaz que recebe uma visão daquilo que pode ser pela graça de Deus! Os montes de dificuldades são lançados no mar do esquecimento, o rosto é virado para a luz do dia, as sombras do medo se dissipam e o dia começa a raiar! II – NA UNIVERSIDADE DE OXFORD. Já por alguns anos o Sr. Whitefield tinha alimentado o desejo de ser um estudante da Universidade de Oxford. Agora chegou a hora de realizar o seu sonho de menino, porém a questão capital era como podia manter-se e estudar. Ele tinha de enfrentar este problema como muitos rapazes hoje em dia o têm. 1. Servente em Pembroke College. Para realizar o seu ideal aceitou um lugar em Pembroke College, na cidade de Oxford, como servente. Tinha de prestar serviço no colégio, servindo a mesa e varrendo os quartos, etc., para suprir o que faltava no custeio de suas despesas na escola. O que tinha aprendido na
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    estalagem agora vinhaajudá-lo a manter-se na Universidade. Há atualmente rapazes nos colégios evangélicos que estão se mantendo na escola, prestando o serviço que aprenderam antes de entrar na escola. Alguns moços têm se mantido não somente servindo como copeiros, porém passando a roupa de seus colegas e professores, ou cortando o cabelo dos alunos nas horas vagas e dias feriados. Por três anos, desde 1733 a 1736, ele fez esse serviço até completar o curso na Universidade. 2. Encontra-se com os Metodistas. O Sr. George Whitefield entrou em Pembroke College em 1732, quando tinha dezoito anos de idade. Logo chegou a conhecer os Metodistas ou o Clube Santo, porém não se identificou com eles. Observava-os de fora. Sempre lhes tinha muito respeito e não tomava parte com os outros rapazes que os criticavam e os ridicularizavam. Assim passou seu primeiro ano sem tomar parte com aqueles moços piedosos. Como era um rapaz pobre e servidor, e não da alta camada da sociedade inglesa, não conseguiu conhecer os Srs. João e Carlos Wesley, logo no princípio. Era, porém, um rapaz sério, que tinha sido despertado e profundamente impressionado, lendo o livrinho sobre “A vida de Deus na alma de homem”. Foi uma verdadeira revelação quando leu que “a religião verdadeira é uma união entre a alma e Deus, ou Cristo formado dentro de nós”. Isto foi um raio de luz para sua alma e desde esse momento em diante sentiu a necessidade de se tornar uma nova criatura. E realmente foi ele o primeiro que chegou a experimentar uma nova e viva experiência que mais tarde foi gozada por milhares de pessoas. Um dia gozou a felicidade de ser apresentado ao Sr. Carlos Wesley que o convidou para assistir às reuniões do Clube Santo. De bom grado aceitou o convite e logo se tornou um dos membros mais ativos e zelosos. O seu zelo o levou a praticar certas austeridades que vieram a prejudicar a sua saúde. Mais tarde, como os Srs. João e Carlos Wesley tinham se retirado da Universidade e ido para a América, alguns amigos do Clube Santo, receosos que o Clube ficasse prejudicado, queriam que o Sr. Whitefield continuasse na Universidade por mais tempo para ajudar o trabalho do Clube Santo. E para facilitar-lhe as finanças ofereceram-lhe a sua manutenção que ficava numas 20 ou 30 libras esterlinas. Mas, como já foi mencionado, a saúde do Sr. Whitefield ficou bem abalada durante este tempo, e assim teve que deixar a Universidade e voltar para Glaucester onde podia tratar-se em casa de seus pais. III – ENTRANDO NO MINISTÉRIO Voltando para a casa de seus pais foi tratado pelos médicos e a sua saúde gradualmente voltou. 1. Sua conversão. Durante alguns anos ele sentiu a influência do Espírito Santo no coração. Os dias passados na Universidade e o contato que tinha com os Metodistas, contribuíram para aumentar as suas impressões religiosas, porém não tinha conseguido aquela paz e satisfação que o seu coração pedia e buscava. Esse dia, porém, não tardou, pois nos meados de 1735 seu coração entrou em paz com Deus e todas as suas dúvidas de dissiparam, deixando a sua alma cheia de luz. Assim ele descreve a sua experiência: “Fui libertado do fardo que pesava sobre mim, e eu cheguei a conhecer o que era regozijar-me em Deus, meu Salvador, e por muito tempo não pude deixar de cantar hinos e salmos onde estivesse; porém, o meu gozo gradualmente se acalmou e, graças a Deus, tem ficado comigo e tem aumentado na minha alma desde aquele dia, quase sem interrupção”. Ele nunca se esqueceu do lugar em Oxford onde se converteu. Falando sobre sua conversão, mais tarde diz ele:
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    “Eu me lembrodo lugar; pode ser um pouco de superstição, porém, quando vou a Oxford, não posso deixar de visitar este lugar onde Jesus Cristo se manifestou a mim e me deu um novo nascimento”. 2. Sua ordenação. No tempo que passou na casa dos pais, em tratamento de sua saúde, não deixou de entregar-se ao estudo da Palavra de Deus e oração. Distinguiu-se pela devoção e piedade. O bispo de Gloucester ficou impressionado com os dons que possuía e quis ordená -lo diácono na Igreja Anglicana. O Sr. Whitefield consentiu nisto e começou logo a preparar-se para sua ordenação. Considerou este ato como o mais sério em sua vida. No seu preparo para essa cerimônia entreteve o dia anterior em jejum e oração, passando duas horas de joelhos ao ar livre num campo. Considerou este passo na sua vida como uma consagração à vida apostólica. Assim ele descreve os seus sentimentos nessa ocasião: “Eu julgo que respondi às perguntas com toda a sinceridade da minha alma, e orei a Deus para que ele dissesse Amém. Se meu coração vil não me engana, ofereci completamente meu corpo, espírito e alma ao serviço do Santuário de Deus. Venha o que vier, a vida ou a morte, a profundidade ou as alturas, daqui em diante eu viverei como um que, neste dia, na presença de homens e de anjos, toma a santa comunhão, professando ser movido pelo Espírito Santo para ministrar na Igreja”. 3. Seus dons evangélicos. No domingo seguinte pregou pela primeira vez na igreja onde foi batizado e criado. Ele descreve essa experiência assim: “No domingo passado, de tarde, preguei o meu primeiro sermão na igreja onde fui batizado e onde comunguei pela primeira vez. A curiosidade atraiu uma grande congregação. No princípio fiquei meio espantado. Mas fui confortado, sentindo no meu coração a presença de deus; e logo cobrei ânimo, lembrando-me da minha experiência quando era rapaz na escola onde tinha que recitar, e, também, das exortações que fazia aos presos e às famílias pobres na Oxford. Por este meio consegui conservar-me calmo. Quando comecei a pregar, senti que o fogo acendia até que, embora moço, como era, e no meio daqueles que me conheceram desde pequeno, consegui pregar com alguma autoridade evangélica”. O resultado da sua pregação foi que alguns o criticaram, zombando dele, porém, mais ou menos uma dúzia de pessoas ficou muito tocada e modificou o modo de viver. Alguns se queixaram dele ao bispo, dizendo que diversas pessoas tinham enlouquecido ouvindo a pregação dele. Mas, quando o bispo soube dos fatos, disse que esperava que a sua loucura não os deixasse antes do primeiro domingo. Sua saúde foi restaurada e ele voltou para Oxford onde completou o seu curso, recebendo o grau de bacharel. De novo dedicou-se ao trabalho dirigido pelos Metodistas na Universidade, pregando aos presos e auxiliando na direção de três escolas de caridade mantidas pelos Metodistas. Com este trabalho se achava contente e queria ficar em Oxford para continuar os seus estudos na Universidade, procurando especialmente converter os estudantes que se preparavam para o ministério, julgando que, se pudessem conseguir a conversão pelos menos de um deles, já teria convertido uma paróquia inteira. Mas este plano não foi realizado, pois, aceitando um convite para suprir o púlpito por alguns meses da Tower Chapel, em Londres, na ausência do pároco, atraiu atenção na metrópole que todos os planos anteriores foram mudados. O povo no princípio foi tentado a criticar e desprezar a mocidade dele, nas depois de ouvi-lo pregar mudaram de atitude passando da crítica ao respeito e admiração.
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    Enquanto estava assimempregado em Londres, recebeu cartas de seus amigos e colegas, os Srs. João e Carlos Wesley, e Delamotte, da Geórgia, pois eles já se achavam na América. Todos o convidaram para tornar-se missionário e vir para a América. Em uma dessas cartas encontra-se o seguinte: “Quem sabe, Sr. Whitefield, se o Sr. Não é o homem para isto? E o Sr. Pergunta: o que terei eu? – Pão para comer; roupa para vestir; uma casa onde possa reclinar a cabeça como o seu Senhor não tinha; e uma coroa de glória que jamais desvanecerá”. Quando leu estas palavras, o seu coração ficou repleto de grande alegria. Quis ir. E resolveu aceitar o convite. Quando falou nisto com os seus amigos e parentes, eles começaram a persuadi-lo a não ir, porém ele firmou-se no seu propósito e começou a despedir-se dos seus amigos e parentes. Na ocasião da despedida os seus dons evangelísticos se manifestaram mais e mais. Quando visitou Gloucester para despedir-se dos seus pais e amigos, o povo juntou-se na igreja nos dias de semana em maior número do que nos domingos. Em Bristol o povo saiu da cidade a pé, e alguns em carros, para recebê-lo. Gente de todas as camadas sociais e de todas as seitas (grupos religiosos cristãos) afluíram às igrejas para ouvilo. Multidões o seguiam da igreja para a casa onde ele se hospedara. Muitos choravam os seus pecados, e para consolá-los e instruí-los gastava o dia inteiro, desde cinco horas da manhã até à meia noite; e tal era o entusiasmo do povo que teve de partir da cidade à meia noite, secretamente, para evitar a experiência de ser escoltado fora da cidade e acompanhado pela população inteira. Antes de embarcar para a América teve de visitar Oxford e passar algum tempo em Londres. Em Londres todo o seu tempo foi empregado em anunciar o Evangelho nas Igrejas e capelas da grande metrópole. O bispo McTyeire, descrevendo esta visita, diz: “Os representantes das instituições de caridade estavam ansiosos por obter os serviços dele; para conseguir isto, procuraram o uso das igrejas nos dias da semana, e milhares tiveram de voltar das maiores igrejas, não podendo achar lugar. As congregações prestaram a máxima atenção, como se estivessem escutando para a eternidade. Ele pregava pelo menos nove vezes por semana, e freqüentemente ajudava na administração da santa ceia, nos domingos; podiam-se ver as ruas cheias de gente, levando lanternas nas mãos à noite, procurando a casa de Deus. ” IV – TORNANDO-SE UM MISSIONÁRIO O fato de ter decidido ir como missionário para a América, e trabalhar sob condições difíceis, quando sua popularidade ia-se aumentando dia após dia na Inglaterra, é prova cabal de sua sinceridade e abnegação. 1. A preparação e viagem para a América. Já falávamos do convite que os S rs. João e Carlos Wesley fizeram para que ele fosse para a América. Uma vez tomada a resolução de ir, começou logo a preparar -se para a viagem. Como tinha de despedir-se de muitos amigos em diversos lugares, gastou bastante tempo em fazê-lo. Devemos notar aqui que no meio de multidões de pessoas que dele gostavam, havia um número de pessoas que procuravam desprestigiá-lo. Ele, porém, deixou a Inglaterra antes de irromper contra ele uma forte oposição. É interessante notar que no mesmo dia em que o Sr. João Wesley chegou à Inglaterra, voltando da América, o Sr. George Whitefield embarcava para lá. O mesmo vento que trouxe o Sr. Wesley, levou o Sr. Whitefield. Os navios cruzaram-se, mas nenhum deles sabia que o outro estava a bordo. Sem dúvida Deus estava dirigindo o destino dos dois, pois o trabalho que o Sr. Wesley não conseguiu fazer na América, o Sr. Whitefield o fez com muita habilidade; e o trabalho que o Sr. Whitefield iniciou na
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    Inglaterra, o Sr.Wesley continuou e conservou por longos anos. O Sr. Whitefield era um pregador, um orador, um hábil evangelista; e o Sr. Wesley, um organizador, um legislador eclesiástico. A viagem foi muito longa. Os passageiros consistiam principalmente de soldados. O capitão e os oficiais logo fizeram o Sr. Whitefield sentir que eles o consideravam como um hipócrita, e assim o trataram. O jogo de baralho e a profanação do nome de Deus constituíam a diversão principal destes homens. O Sr. Whitefield os repreendia, ganhando assim ainda mais o escárnio deles; mas nem por isso deixou de pregar aos soldados que ele chamava de “os seus paroquianos de paletós vermelhos”. Rebentou uma epidemia de febre entre os soldados durante a viagem e o Sr. Whitefield pôs em prática a divisa metodista: Fazer o bem aos corpos e às almas dos homens. Ele, pois, não deixou de administrar sua caridade e pregar o Evangelho nas suas conversões com os soldados. Tal foi a influência dele sobre os soldados, oficiais e capitão do navio, que, antes de terminar a viagem, todos lhe obedeciam quanto aos seus desejos de dirigir cultos todos os dias sob a ordem do comandante, o qual, com os oficiais do exército, tomava parte dos cultos. O resultado foi que os oficiais deixaram de falar mal do evangelista e as mulheres disseram: “Que modificação tem havido na vida do capitão!” Os livros imorais e os baralhos foram jogados ao mar e hinários e bíblias tomaram os seus lugares, pois o Sr. Whitefield tinha uma provisão deles. Um rapaz contou a sua vida ao Sr. Whitefield, revelando o desejo que tinha de abandonar o exército e dedicar-se ao ministério para o qual tinha sido chamado em tempos idos. Os soldados escutaram as explicações das lições marcadas para cada dia. O que se deu com o Apóstolo Paulo na sua viagem para Roma deu-se também com o Sr. Whitefield. No princípio da viagem foi o homem mais desprezado e odiado, porém no fim dela foi o homem mais estimado e respeitado. O navio chegou à América no mês de maio de 1738. Depois de pregar um sermão de despedida aos seus paroquianos do mar, desembarcou ele, e no dia 7 de maio chegou em Savannah, Geórgia. 2. Sua visita à Geórgia. Logo que chegou em Geórgia, principiou seu trabalho entre os colonos. Quando chegou a conhecer os índios, descobriu que sua missão não era para eles. As questões que os colonos tiveram com o Sr. Wesley foram ventiladas, porém ele não se envolveu nelas, e seu procedimento foi tão sábio e grato que em pouco tempo conquistou o respeito e simpatia de todos, tanto dos oficiais como dos mais humildes colonos. Ele escreveu: “Pela misericórdia divina, ganhei o respeito dos magistrados, oficiais e do povo. A estes eu visitava de casa em casa, pregando duas vezes por dia e quatro vezes nos domingos; e aqueles eu visitava de vez em quando. Fui mais ou menos bem recebido por todos; mas de tempos em tempos descobri que alguns não mudam sua natureza atravessando o mar. Apesar disso, alguns aceitaram a Palavra e se desenvolveram. Eu me sentia satisfeito com a minha pequena paróquia, e podia ter ficado com eles com muita satisfação se não tivesse de voltar à Inglaterra para ser ordenado presbítero, e principiar a lançar os alicerces do Orfanato”. Durante sua residência em Geórgia encontrou-se com muitos órfãos, crianças cujos pais tinham falecidos, deixando-os sozinhos no meio de uma floresta sem proteção ou recursos. O estado lastimável dessas crianças infortunadas tocaram-lhe o coração, resolvendo ele fundar um orfanato na colônia.
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    Mas como nãohavia recursos, deliberou ele depois de treze meses de residência, voltar à Inglaterra afim de arranjar meios para fundar o orfanato na colônia. A resolução tomada para fundar esta instituição contribuiu para estabelecer seu itinerário durante o resto de sua vida. Causou-lhe muitos cuidados, perplexidades e aborrecimentos, mas também serviu como lastro para conservá-lo na atividade até o fim da vida. Em prol desta instituição ele viajou entre a América e Inglaterra, percorrendo a Grãbretanha e todas as colônias americanas. Atravessou o Atlântico treze vezes, e visitou a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda, para não mencionar as longas viagens feitas entre os estados americanos de Nova Inglaterra e Geórgia. 3. Volta à Inglaterra em busca de auxílio para o orfanato. Em 6 de setembro de 1738, embarcou em Charleston para a Inglaterra. Chegando na Inglaterra, foi a Londres, onde queria principiar uma campanha em prol do orfanato, mas encontrou tudo mudado. Em vez de achar os púlpitos franqueados a ele, achou-os fechados. Sua popularidade tinha desvanecido. O clero estava contra ele e contra o seu entusiasmo. Não podendo conseguir audiência em Londres, foi a Bristol, porém os vigários das Igrejas lá estavam resolvidos a não deixá -lo pregar em seus púlpitos. Que havia de fazer? O caminho estava embaraçado. Havia só duas, ou três igrejas em toda a Inglaterra em que podia pregar e fazer apelos em favor do orfanato. Um dia, quando estava pregando numa igreja, e havendo mais de mil pessoas do lado de fora, que não podiam entrar, para não mencionar um grande número que tinha ido embora por falta de lugar, veio-lhe a idéia de que devia pregar ao ar livre, onde maior número de pessoas podia ouvi-lo. Agora, estando em Bristol, onde não havia uma igreja onde pudesse pregar, resolveu fazer alguma coisa muito fora da ordem estabelecida: pregar ao ar livre. Procurou, pois, os mineiros em Kingswood, cerca de quatro quilômetros distante da cidade, no dia 17 de fevereiro de 1739. Duzentas pessoas assistiram à pregação: no dia seguinte pregou de novo, havendo mais de duas mil pessoas presentes, e no correr de poucos dias o número chegou a vinte mil. Ele não somente foi criticado pelo clero anglicano por ter procedido tão irregularmente, pregando ao ar livre sem licença, mas também o ameaçaram de exclusão da Igreja. Mas os resultados foram tão satisfatórios, e povo gostara tanto das pregações dele, que se sentiu animado em continuar, crendo que estava fazendo a vontade de Deus e seguindo o exemplo do Mestre que pregava às multidões ao ar livre. Assim se defendeu: “Graças a Deus, o gelo está se quebrando e eu tenho ido aos campos para pregar. Alguns são capazes de me censurar , mas não tenho eu razão? Os púlpitos me são negados e os pobres mineiros estão a perecer por falta de esclarecimentos”. Ele notava o efeito das suas pregações sobre os mineiros pelos riscos brancos que apareciam em suas faces pelas lágrimas que corriam. O bispo McTyeire, falando sobre esta fase do movimento Metodista, disse: “Quando os Wesley e o Sr. Whitefield mostraram zelo extraordinário pela propaganda da religião, disseram-lhes: “Se quiserdes converter os pagãos, ide a Kingswood”. O repto foi aceito porque não havia ninguém que se importasse com esse povo, e isto foi um acontecimento de grande significação. Foi um estímulo para pregar às piores classes. Todas as classes de homens estavam ao alcance deles. O Senhor assim aumentou a fé desses pregadores; e também pôs um argumento na boca dos seus amigos, e uma demonstração prática perante o mundo do poder salvador e transformador do Evangelho, logo no princípio da revivificação metodista”.
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    O Sr. Whitefieldpassou cerca de seis semanas em Bristol, pregando diariamente às multidões ao ar livre, levantando coletas entre o povo em prol do orfanato em Geórgia. Teve então um campo aberto onde os prelados não puderam fechar -lhe a porta da Igreja. O povo estava a seu lado e onde ia era acompanhado pelas multidões. Mas tinha de voltar à Geórgia depois de visitar mais alguns lugares na Grã-bretanha. A questão com ele era: como podia cuidar das almas já despertadas? Foi nesta ocasião que fez a melhor obra de sua vida. Lembrou-se de João Wesley que também estava excluído das igrejas. Convidou o Sr. Wesley a vir ajudá-lo. Por algum tempo o Sr. Wesley pensou sobre o convite e finalmente resolveu ir até Bristol (a segunda cidade das mais importantes da Inglaterra naquela época) para ver e examinar o trabalho do Sr. Whitefield. Foi, viu e convenceu-se de que a obra era de Deus e consentiu em pregar ao povo ao ar livre. O Sr. Whitefield foi embora e deixou o Sr. Wesley com o trabalho. E este continuou o mesmo trabalho por cinqüenta anos e foi um dos mais notáveis pregadores ao ar livre que o mundo tem conhecido desde os tempos apostólicos. Se o Sr. Whitefield não tivesse feito mais do que isto, não teria vivido em vão. O Sr. Isaac Taylor, falando sobre a importância desses cultos, disse: “As pregações ao ar livre, dos srs. Wesley e Whitefi eld em 1739, foram o acontecimento donde a época religiosa, a época atual, tem de datar a sua origem. Forçosamente temos de olhar para aqueles acontecimentos afim de descobrir a origem de tudo que caracteriza época atual”. 4. Volta para a América. O Sr. Whitefield passou nove meses na Inglaterra e durante este tempo conseguiu duas coisas, além de publicar algumas obras sobre os diversos assuntos. Ele iniciou a pregação ao ar livre, levantou bastantes fundos para o orfanato na Geórgia e publicou algumas obras, sendo as principais o seu diário, dois volumes de sermões, uma resposta a uma carta pastoral do bispo e uma crítica ao clero. Chegou em Filadélfia no mês de Novembro de 1739 e mandou seus comitês à Geórgia, porém ele ficou em Filadélfia por mais algum tempo, pregando e organizando sociedades de oração. Pregava duas vezes por dia e as igrejas não acomodavam as multidões que assistiam a essas conferências. Durante esse tempo conseguiu organizar trinta e seis sociedades de oração entre os crentes. De Filadélfia passou para Nova York e Nova Jersey. Em Nova York o povo afluía às suas pregações em grande número. Foi também muito abençoado em seu ministério em Nova Jersey. Em Princeton visitou o “Princeton College” e assim falou acerca desta instituição que hoje tem tanta fama: “O Sr. Teumet e seus colegas tencionam, por meio deste presbitério, desenvolver alguns rapazes hábeis para a vinha do Senhor. A casa onde os moços estudam atualmente é uma cabana feita de toros, e ela tem seis metros de comprimento por quase seis de largura; neste lugar humilde já se têm formado sete ou oito dignos ministros de Jesus, e estão sendo lançados os alicerces de largas vistas para preparar ainda um número maior. Este trabalho eu julgo que seja de Deus, e, portanto, não será em vão”. Na sua viagem para o sul pregou em muitos lugares. Às vezes tinha de pregar nos sítios e, não havendo casa de oração, pregava ao ar livre. Uma vez pregou a uma congregação de dez mil pessoas e muitas dessas pessoas tinham viajado mais de seis léguas a pé para terem o privilégio de ouvi-lo. Na colônia da Virgínia foi hóspede do Comissário e do Governador. Aqui em Williamsburgo pregou às pessoas mais cultas e aristocratas em toda a América. Tinha melhor sucesso nas colônias do norte do que na de Virgínia. O bispo McTyeire, comentando este ponto, diz: “Os resultados do trabalho do Sr. Whitefield foram muito melhores entre os colonos de Nova Inglaterra, Nova Jersey e Filadélfia do que entre os de Virgínia. O motivo disto é que havia certa rivalidade
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    entre as igrejascongregacionais e presbiterianas, que não existia nas igrejas anglicanas em Virgínia, onde os dirigentes gastavam a maior parte do tempo combatendo os não -conformistas. O que eles deixaram de aproveitar dos trabalhos do grande evangelista era como a semente que cai à beira do caminho”. Em Frederickesburgo, nesta mesma colônia, não foi bem recebido, antes, foi maltratado; e anos depois, um dos historiadores, o Dr. Jessé Lee, visitou o lugar. E o narrador assim fala a respeito dessa visita: “Em 24 de março, o Dr. Lee pregou neste lugar, e regozijou-se de encontrar uma igreja florescente. Foi a primeira visita que a cidade gozara em longos anos; e fazemos menção disto devido aos seguintes fatos: Quando o Sr. Whitefield passou aqui em certa ocasião, quis pregar e quando estava pregando, ou quando procurava uma oportunidade para fazê -lo, foi tão rude e grosseiramente tratado, que, em obediência às palavras de Cristo, tirou os sapatos e sacudiu o pó deles como um testemunho contra o lugar. E desde aquele ato solene de denúncia até a presente data, ignora-se a conversão de um pecador no lugar. Agora afirma-se que esse lugar tem sido abençoado com um verdadeiro avivamento espiritual. “Se – disse ao autor – essa legenda fosse verdadeira, a maldição teria sido removida. A indignação passou: Deus desviou a sua cólera e agora manifesta a sua misericórdia ao povo. Um grande número de pessoas converteu-se a Cristo, construindo uma casa de oração e a boa semente semeada estava produzindo fruto para a vida eterna”. Continuando a sua viagem para o sul, passou pela colônia de Carolina do Norte e Carolina do Sul. Nestas colônias foi bem recebido e tratado. Chegou em Savanah, Geórgia, em 11 de Janeiro de 1740. Mas as condições tinham piorado lamentavelmente. A colônia estava quase deserta e os que ficaram não podiam sair por causa de doenças ou recursos. O Sr. Habersham, durante a ausência do Sr. Whitefield, tinha adquirido, mais ou menos, cem alqueires de terreno a cerca de três léguas distante da cidade de Savanah. Foi nesse terreno que tencionaram construir a casa principal do “Orfanato”. Durante a construção do prédio os órfãos foram abrigados em uma casa alugada. Em 25 de Março de 1740, o Sr. Whitefield colocou a primeira pedra nos alicerce s da casa nova. Havia quarenta crianças no Orfanato e, contando os empregados na obra, chegou o número de cem pessoas que dele dependiam. Tinha pouco dinheiro no banco, mas resolveu continuar o trabalho. O calor em Savanah era terrível; para escapar aos seus efeitos e levantar fundos para o orfanato decidiu visitar as colônias do norte. Visitou a cidade de Charleston e fez nesta cidade o o primeiro apelo financeiro na América. A pedido de alguns habitantes pregou e tirou uma coleta em prol dos órfãos. A coleta rendeu setenta libras. O resultado foi tão bom que ele se animou a pedir auxílio para a instituição em outras cidades. Na cidade de Filadélfia pregou ao ar livre e levantou de uma vez cento e dez libras. Havia um poder magnético em suas pregações. Todas as classes achavam graça em suas palavras. Um construtor de navios, sendo interrogado sobre o que pensava a respeito do evangelista, disse: “Eu lhe digo, homem, todos os domingos em que assisto ao culto na igreja desta paróquia posso construir um navio desde a proa à popa durante o sermão; mas para salvar a minha alma, ouvindo o Sr. Whitefield, não posso pregar nem uma taboa”. O Sr. Benjamin Franklin, que morava em Filadélfia nessa ocasião, assim descreve a sua impressão acerca do evangelista: “Eu não podia”, diz o filósofo, “aprovar a construção do prédio-orfanato em Savanah. Geórgia não tinha recursos, nem homens, nem materiais, e assim foi proposto que os órfãos fossem mandados para Filadélfia, mesmo com bastante despesa. Eu julgava que teria sido melhor se tivessem construído o prédio-orfanato em Filadélfia, e se tivessem levado as crianças para lá. Opinei por isto, porém ele foi resoluto e rejeitou o meu conselho; eu, portanto, recusei contribuir. Logo depois que assisti a uma pregação dele, e no correr do seu discurso, percebi que ia tirar uma coleta. Eu disse com os meus botões que ele não receberia nenhum vintém de mim. Tinha na
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    bolsa um bocadode moeda de cobre, três ou quatro de prata e cinco moedas de ouro. Não tinha prosseguido muito tempo no seu discurso quando amoleceu um pouco o meu coração e resolvi dar as moedas de cobre; mais um golpe de sua eloqüência me envergonhou e resolvi dar as moedas de prata, e concluiu o seu discurso tão admiravelmente com uma chave de ouro que resolvi despejar tudo que tinha na bolsa. Nesta mesma ocasião havia um homem, membro do mesmo clube, que partilhava comigo dos mesmos sentimentos quanto à construção do orfanato em Geórgia; suspeitando que haveria uma coleta, preveniu-se, deixando todo o seu dinheiro em casa. Mas, antes de findar o discurso, sentiu-se disposto a dar e falou com um amigo que ficava perto dele pedindo algum dinheiro emprestado para sua oferta. O pedido foi dirigido talvez ao único homem em toda a multidão que tinha firmeza de não ser persuadido pelo pregador. A resposta dele foi: ‘Em qualquer outra ocasião, amigo Hopkinson, de bom grado lhe emprestaria, mas agora não, porque me parece que o amigo está fora de si’.” O Sr. Whitefield, depois de percorrer diversas cidades, voltou para Savanah, levando 500 libras para o orfanato. A família do orfanato aumentou para cento e cinqüenta pessoas, porém o povo, vendo a necessidade de tal instituição, continuou a ajudar o Sr. Whitefield na manutenção da mesma. O comissário em Charleston contrariou bastante o Sr. Whitefield nos seus planos referentes ao orfanato, porém o povo estava do lado dele e não desanimou. Mas o Sr. Whitefield não foi feito para um lugar pequeno, precisava de bastante expansão para os seus talentos; assim tornou -se um itinerante continental. Entregou o trabalho do orfanato a certos agentes, ou diretores, e entregou-se à evangelização. Fez mais uma viagem para o Norte, visitando todas as colônias até Massachusetts. O povo dos lugares por onde andava afluía às suas pregações. O governador da colônia de Massachusetts o levava de cidade em cidade, em seu próprio carro. Quando pregou o sermão de despedida na cidade de Boston, na praça pública, havia mais de vinte mil pessoas presentes. Ele não deixava de condenar os vícios e maus costumes da época, como prova a seguinte citação do diário do Dr. Samuel Hopkins: “Ele pregou contra as danças mistas e a liberdade que existia entre os moços e as moças, como era o costume geral nesta época na Nova Inglaterra. Alguns ficaram ofendidos, especialmente os jovens. Porém eu me lembro que sempre dava razão a ele no meu modo de pensar, e nas minhas conversas o defendia perante aqueles que estavam dispostos a condená-lo. Isto foi em 1740, quando eu estava no último ano do colégio”. O Sr. Whitefield, falando sobre o trabalho que tinha feito na América durante esta visita, diz: “Faz agora setenta e cinco dias desde que cheguei em Reedy Island. Naquela ocasião o meu corpo estava bastante fraco, porém o Senhor tem renovado as minhas forças. Tenho podido pregar, parece-me, cento e setenta e cinco vezes em público, não mencionando as muitas exortações que tenho feito em particular. Viajei mais de oitocentas milhas e levantei 700 libras em viveres e dinheiro para os órfãos em Geórgia. Nunca fiz as viagens com tanta facilidade e sem cansaço, e nunca testemunhei tanto a continuação da presença divina nas congregações às quais tenho pregado. Bendize, minha alma, a Jeová”. Depois de visitar a Bethesda (nome que deu ao orfanato) em Dezembro, embarcou para a Inglaterra em janeiro de 1741. V – DIVERGÊNCIA E A SEPARAÇÃO DOS WESLEY É triste saber que às vezes os maiores e melhores servos de Deus, por falta de compreensão das coisas têm de se separar uns dos outros. Abraão e Ló, não podendo viver e
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    trabalhar juntos, amigavelmentesepararam-se e igualmente São Paulo e Barnabé, não podendo combinar sobre os seus planos de trabalho, separaram-se. E agora temos chegado ao ponto em que os Wesley e o Sr. Whitefield não podem mais trabalhar unidos. Até aqui tinham andado juntos em harmonia, porém chegou a época em que eles tinham de definir-se quanto às doutrinas que iam aceitar e ensinar. 1. A causa da separação. O metodismo no princípio levava diversos elementos latentes que mais tarde viriam a manifestar-se. Havia dois elementos que não podiam permanecer por muito tempo sem criar choques e incompatibilidades e estes elementos eram o Arminianismo (salvação pela graça) e o Calvinismo (eleição divina dos que serão salvos). Os srs. João e Carlos Wesley inclinaram -se para o Arminianismo e o Sr. George Whitefield para o Calvinismo. É claro que estes três grandes vultos não podiam continuar por muito tempo sem manifestar as suas convicções em termos claros. Já chegava o dia para tal coisa acontecer. Para maior clareza citaremos o bispo MacTyere sobre este ponto: “Até aqui os dois irmãos Wesley e o Sr. Whitefield têm trabalhado juntos. O Sr. Wesley uma vez perguntou: ‘Não temos nós nos inclinado demais para o Calvinismo?’ O Sr. Whitefield sem dúvida sentia que tinha se inclinado demasiado para o Arminianismo. E essa tendência forçosamente tinha que se manifestar nas mentes vigorosas e sinceras, até que uma base consistente, para não dizer científica, se estabelecesse. Cada um destes elementos se manifestava cada vez mais. Não havia meio termo quanto ao sistema adotado. Agora chegava a ocasião desagradável em que os dois partidos tinham que se manifestar, sendo inevitável a separação. A associação e os estudos que o Sr. Whitefield tinha tido com crentes na Nova Inglaterra concorreram para confirmá-lo no Calvinismo e ele não deixou de comunicar as suas idéias na Velha Inglaterra e com bastante sucesso. O Calvinismo latente e o Arminianismo latente no Metodismo começaram a lutar um com outro, como os gêmeos Esaú e Jacó lutaram no ventre de Rebeca. Depois do nascimento eram ainda irmãos, mas tinham que viver separados um do outro”. “O primeiro aviso deste rompimento, ainda segundo o bispo MacTyere, se deu do seguinte modo na sociedade de Londres: Um dos líderes, o Sr. Acourt, tinha introduzido as suas idéias calvinistas na Sociedade, o que fez o Sr. Carlos Wesley dar ordens para que fosse excluído. Mais tarde o Sr. João Wesley estava presente quando o Sr. Acourt apresentou-se querendo saber se era permitido excluir um membro da sociedade porque tinha opiniões diferentes dos outros. O Sr. Wesley respondeu: “Não”. Mas perguntou quais eram as opiniões às quais ele se referia. Ele replicou: “Sobre eleição. Eu creio que há um certo número de eleitos desde a eternidade, e este número deve e será salvo, e o resto da humanidade deve e será condenada”. E Sr. Acourt afirmou que muitos outros da Sociedade tinham a mesma opinião. Então o Sr. Wesley fez a observação que não tinha perguntado se tinha tal opinião ou não; “somente que elas não incom odassem os outros, discutindo tal assunto”. O Sr. Arcourt disse: “Não, mas hei de discuti-lo”. “Porque é então”, disse o Sr. Wesley, “que o senhor quer entrar no nosso meio se tem opiniões diferentes?” “Porque os senhores estão errados e eu vos quero endireitar”. “Tenho receio”, disse o Sr. Wesley, que a sua vinda entre nós não trará proveito para o senhor e nem para nós”. Então replicou o Sr. Acourt. “Vou publicar a todo mundo que o senhor e seu irmão são profetas falsos. E eu vos asseguro que no prazo de quatorze dias estareis numa grande confusão”. E estas opiniões se manifestaram entre outras sociedades e para restabelecer a sua posição o Sr. João Wesley publicou o seu sermão sobre “A livre Graça”. Algumas copias deste sermão chegaram até a América. O Sr. Whitefield, ajudado por alguns amigos americanos, preparou uma resposta que foi publicada em Boston e em Charleston e, quando chegou a Inglaterra, também em Londres. (Antes de embarcar para a Inglaterra o Sr. Whitefield, estando em Bethesda, Geórgia, escreveu uma carta para o Sr. João Wesley queixando-se dele. Logo depois,
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    chegando em Londres,começou a atacar João Wesley pela imprensa e pelo púlpito. O Sr. Whitefield fez isso com sinceridade e convicção, pois escreveu para o Sr. Wesley dizendo: “Se a natureza falasse, eu preferiria morrer a atacá-lo, mas hei de ser fiel a Deus, e à minha alma e às daqueles que me ouvem; não posso ficar neutro por mais tempo”. O Sr. Wesley o procurou para conversar com ele sobre o assunto. Encontramos no Diário de Wesley o seguinte: “Tenho ouvido bastante do tratamento cruel que o Sr. Whitefield tinha me dispensado depois da sua chegada da América; fui ter com ele para ouvir dele mesmo de modo que pudesse julgar o caso. Gostei da franqueza com que ele me falou. Ele me disse: “Que ele e eu pregávamos dois evangelhos, e, portanto, não podia cooperar comigo nem dar a destra de comunhão, porém estava resolvido a pregar publicamente contra mim e o meu irmão por toda parte onde pregasse”. O Sr. Hall (que tinha ido comigo) lhe fez lembrar-se do compromisso que tinha assumido havia poucos dias que – “quaisquer que fossem as suas opiniões particulares, nunca pregaria publicamente contra nós”. Ele respondeu: “Aquele compromisso era somente da fraqueza humana; agora tinha outra opinião”. 2. A construção do Tabernáculo de Moorfields. Os amigos do Sr. Whitefield construíram um tabernáculo de madeira perto da Frondry, onde o Sr. Wesley trabalhava. Os outros pregadores metodistas que eram calvinistas o ajudaram por alguns anos. Como o Sr. Whitefield viajava muito e, portanto, não podia zelar bem pelo trabalho em Londres, este não florescia como os seus amigos esperavam. Depois de uma longa viagem de quatro anos na América, quando voltou em 1748, encontrou a congregação espalhada. A história se repete e aquilo que é feito em rivalidade com o fim de desprestigiar um servo de Deus não pode ser bem sucedido e gozar a benção de Deus. Assim terminou o tabernáculo de Moorfields. 3 . A reconciliação entre os evangelistas. Devemos lembrar que tudo que o Sr. Whitefield fez, fê-lo com sinceridade e não por ostentação ou vanglória, e quando descobria que tinha errado, estava sempre pronto para confessar os seus erros e faltas. Como o Sr. Wesley não quis falar mal do seu amigo e não permitia que os seus amigos o fizessem, estava o caminho sempre aberto para uma reconciliação. Quando o Sr. Whitefield estava ainda na América, escreveu uma carta ao Sr. João Wesley, usando de uma linguagem forte e descortês. Alguém publicou esta carta e começou a distribuí-la entre os crentes da capela de Wesley. O Sr. Wesley, descobrindo-a, arranjou uma cópia, pouco antes de subir ao púlpito para pregar. Terminando o seu discurso, tirou a carta impressa, e chamou a atenção de todo o povo, explicando a infelicidade do caso, e fez com ela o que julgava que faria o Sr. Whitefield se estivesse presente naquela hora: rasgou-a em pedaços. Num instante todos na igreja que tinham uma cópia fizeram o mesmo. Não levou muito tempo para o Sr. Whitefield procurar uma reconciliação com o seu antigo amigo. Antes de terminar o ano de 1741 o Sr. Whitefield escreveu ao Sr. Wesley nos seguintes termos: “Queira Deus remover todos os obstáculos que obstam a nossa união, que desapareçam todas as discussões, que cada um de nós não fale mais nada senão em Jesus e este crucificado... Esta é a minha resolução. Estou sem dissimulação. Eu reconheço que te amo tanto agora como sempre, e oro a Deus para que, se for de sua vontade, sejamos todos unidos em um”. Alguns anos depois Whitefield, falando sobre isto, disse: “Tantos quantos têm sido os meus erros, ou que podem ser no futuro, estou sempre pronto a confessá -los e corrigi-los, visto que é o intuito do meu coração servir e glorificar a Deus”.
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    Fizeram as pazes,mas nunca mais trabalharam juntos , porém sua amizade continuou até o fim. Uma prova disto vê-se no seguinte fato: Antes da morte de Whitefield, na América, deixou ele o seguinte no testamento: “N. B. Eu, também, deixo um anel para os meus honrados e abnegados colaboradores, os Srs. João e Carlos Wesley, em lembrança da minha inquebrantável união com eles no coração e amor cristão, apesar de nossa diferença em juízo acerca de alguns pontos doutrinais e especiais”. E também foi o desejo expresso do Sr. Whitefield que João Wesley lhe pregasse o sermão memorial. E lemos no diário de Wesley sobre este ponto o seguinte: “Sábado: 1º de novembro de 1770. Voltei para Londres e recebi a triste notícia da parte dos testamenteiros, confirmando a morte do Sr. Whitefield, e eles me pediram para pregar o sermão memorial no próximo domingo, dia 18. Para escrever o meu discurso fui segunda -feira a Lewisham, e no domingo seguinte fui a Chapel in Tottenham Court Road. Havia uma imensa multidão reunida de toda parte da cidade. Tinha receio que uma grande parte da congregação não pudesse ouvir; mas foi do agrado de Deus fortalecer a minha voz de maneira que até aqueles que se achavam às portas me podiam ouvir. Foi uma ocasião solene; todos ficaram silenciosos como a noite; todos ficaram profundamente comovidos; e muitos ficaram impressionados e espero que a impressão não seja facilmente removida”. Assim estes dois servos de Deus conservaram a sua amizade através dos anos, mesmo não podendo concordar sobre alguns pontos teológicos. Como Pedro foi o Apóstolo aos da circuncisão (judeus) e São Paulo o Apóstolo aos da incircuncisão (gentios), assim também o Sr. Whitefield foi o campeão do Calvinismo e o Sr. João Wesley o do Arminianismo. Como partido da circuncisão desapareceu da Igreja Cristã, assim o ramo calvinist a desapareceu do Movimento Metodista. 4. Sua atividade na Grã -bretanha e seu casamento. Quando o Sr. Whitefield voltou da América, não encontrou o povo tão entusiasmado pelas suas pregações. Tinha perdido a sua popularidade. A divergência com os Srs. Wesley concorreu em parte para produzir tal reação, e além disso tinha uma dívida de 1000 libras pesando sobre ele, dívida esta proveniente do orfanato, e mais ainda, tinha cem pessoas no orfanato dependendo dele. Foi um período muito triste em sua vida. Um dos seus amigos mais abastados tinha falecido, deixando um compromisso com o orfanato que também caiu sobre ele. Foi ameaçado de prisão. E ele chamou a esta época em sua vida de “época de provas”. Ele diz: “Muitos e muitos dos meus filhos espirituais, quando embarquei para a América na última vez, teriam arrancado os seus próprios olhos para mim, mas agora estão tão cheios de preconceitos para comigo, devido aos Srs. Wesley terem pintado a doutrina da eleição com cores tão horríveis, que não querem nem me ver, ouvir ou ajudar em coisa alguma”. Mas a sua sinceridade e eloqüência não puderam ser resistidas e logo a sua popularidade antiga voltou, e as multidões o ouviram com proveito e prazer. Em 1741 foi convidado por Ralph e Ebenezer Erskine para visitar a Escócia. Na Escócia foi muito bem sucedido. Talvez tivesse mais influ ência sobre os escoceses do que sobre os próprios ingleses. Ele não quis submeter-se a qualquer seita (grupo doutrinário), mas queria pregar a todos sem reconhecer as barreiras levantadas pelo sectarismo. Ele assim descreve o seu trabalho: “Glória a Deus, ele está fazendo maravilhas aqui. Ando na luz da presença de Deus. As congregações consistem em milhares de pessoas. Nunca vi tantas bíblias nem tanto interesse da parte do povo em examiná-la durante as minhas pregações. Muitas lágrimas foram vertidas. Prego duas vezes por dia, e exponho a Palavra em casas particulares à noite e estou ocupado em conversas com as pessoas interessadas durante grande parte do sai”. Da Escócia passou a visitar Galles onde tinha pregado três ou quatro anos antes. Durante esta visita casou-se com uma viúva que se chamava Janes. Mas não foi muito feliz no casamento.
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    Voltando de Gallespara Londres, passou ali algum tempo, pregando no tabernáculo, e em Moorfields, onde atraiu grandes multidões. Os diretores dos teatros queixaram -se porque o povo deixava os teatros para assistir às pregações de Whitefield. Tornando a visitar a Escócia outra vez, foi bem sucedido nesta visita. Ele atraia não somente o povo humilde e pobre, mas também os ricos e aristocratas. Quando ele voltou para Londres, trouxe consigo 500 libras para o orfanato e achou cartas dos seus amigos na América em que prometiam ajudá-lo na manutenção daquela instituição. Tudo isto alegrou o seu coração. E depois de fazer mais algumas viagens na Inglaterra e em Galles, embarcou para a América em agosto de 1744. VI – AS SUAS VIAGENS DE EVANGELIZAÇÃO NA GRÃBRETANHA E NA AMÉRICA. Temos de abreviar a narração acerca das suas atividades na América e na Grãbretanha, pois o espaço não permitirá estendermo-nos sobre os trabalhos dele durante os últimos vinte e cinco anos. 1. Trabalhando na América. Voltando à América em 1744, visitou diversas colônias, pregando onde passava, com muita aceitação do povo. Demorou quatro anos na América e durante este tempo teve que manter o orfanato, porém sempre encontrou boa vontade entre seus amigos para ajudá-lo nesta tarefa. O povo de Charleston na Carolina do Sul, sempre o serviu como seu braço direito na manutenção desta instituição. Durante esses quatro anos percorreu todas as colônias americanas e sempre foi bem recebido na Nova Inglaterra. 2. Trabalhando na Grã-Bretanha. Em 1748 voltou à Inglaterra, mas quando foi a Londres encontrou o tabernáculo quase abandonado e o povo em desânimo e espalhado. Este empreendimento que foi inspirado em parte para contrariar o Sr. Wesley fracassou e desapareceu. Achava-se ele endividado e não tinha com que pagar as dívidas. Foi obrigado a vender todos os bens que tinha e isto não chegou para satisfazer os seus compromissos para com o orfanato. Felizmente foi exatamente nesta época que chegou a conhecer a condessa Lady Huntingdon, que se tinha identificado com os Metodistas, e ela o convidou para ser o seu capelão particular, pois ela aceitava o calvinismo. Ela o ajudou, e por seu intermédio tinha contato com pessoas importantes. Whitefield tinha dons tais que podia identificar-se com os pobres escravos e também com as mais altas pessoas da sociedade. Por alguns anos ele fez viagens de evangelização na Inglaterra, Escócia e Irlanda, e durante este período a Condessa Huntingdon construiu um grande tabernáculo em TuttenhamRoad – Londres, onde o Sr. Whitefield pregou por alguns anos às multidões. Em 1753 publicou o seu hinário e em 1754 assumiu a direção do trabalho no tabernáculo de Tottenham-Road, que é conhecido até hoje como o Tabernáculo de Whitefield. A última vez que esteve na Inglaterra, o Sr. João Wesley o encontrou e ficou impressionado com o seu estado físico. Ele assim fala no seu diário: “Parecia um homem velho, completamente gasto no serviço do seu Mestre, apesar de não ter mais que cinqüenta anos de idade. Quando a saúde lhe ia faltando, limitava-se a pregar só uma vez por dia durante a semana e
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    três vezes aosdomingos. Tinha pregado de quarenta a sessenta horas por semana ou de sete para dez horas por dia. Não é de se admirar que o seu físico sofresse alguma alteração. ” 3. Sua última visita à América e sua morte. O Sr. Whitefield tinha atravessado o Atlântico treze vezes e tinha andado pelos três reinos da Grã-bretanha e percorrido as treze colônias americanas desde Boston e Savanah, em Geórgia; tinha pregado mais de 18 .000 vezes falando de uma até três horas de cada vez; já estava chegando ao fim da jornada, não tendo mais que cinqüenta e seis anos de idade. Chegou à América em 1769, um homem cansado e doente, sob o cuidado do médico. Quando alguém dizia qualquer coisa sobre o excesso que fazia em continuar o seu trabalho, respondia: “Prefiro ser gasto a ser comido pela ferrugem”. Visitou a Bethesda, em Geórgia, e ali passou o inverno com muita satisfação. Tudo ia bem e em paz. Na primavera encetou o seu itinerário para visitar as colônias do Norte. Em Nova York teve a felicidade de se encontrar com os primeiros miss ionários metodistas mandados pelo Sr. Wesley, os Srs. Joseph Pilmoore e Richard Boardman. Ele os abençoou e continuou a sua viagem para Boston. O precursor do Metodismo estava na véspera de sua partida e os seus sucessores já tinham chegado para continuar o trabalho. Pregou algumas vezes pelo caminho, mas não chegou à cidade de Boston antes de ser arrebatado para o céu. Vamos terminar citando o bispo McTyeire: “Na manhã do dia de sábado, 29 de setembro de 1770, ele começou a viagem para Boston, mas antes de chegar em Newburyport, onde tinha prometido pregar no dia seguinte, insistiram com ele para pregar pelo caminho em Exeter. Um amigo, notando que se mostrava um pouco nervoso e inquieto, disse: “O senhor está precisando da cama mais do que do púlpito”. A isto o Sr. Whitefield respondeu: “É verdade, senhor; mas virando-se para um lado, unindo as mãos e erguendo-as para o céu, disse: “Senhor Jesus, estou cansado no teu trabalho, porém não do teu serviço. Se não ESTÁ AINDA COMPLETA a minha missão, deixa-me ir e falar em teu nome mais uma vez ao ar livre, se for a tua vontade, e voltar para casa e morrer”. Ele pregou ao ar livre para acomodar a multidão que veio para ouvi-lo, não havendo uma casa que pudesse acomodá-la. Prolongou o seu discurso por duas horas, e sentiu-se depois muito fatigado. Aquela tarde continuou a viagem para Newburyport, aonde chegou tarde e logo deitou para descansar, esperando pregar ali no dia seguinte. Acordou-se muitas vezes durante a noite, sentindo um peso nos pulmões e respirando com dificuldade. Oprimido pela asma, assentado na cama, cedo de manhã, orava a Deus, pedindo que abençoasse as pregações daquele dia para que mais almas fossem levadas a Cristo; e orou para que Deus o dirigisse sobre os seus planos se devia ficar durante o inverno em Boston ou voltar para o sul; pediu uma benção sobre o seu trabalho e amigos tanto na América como na Europa e, especialmente sobre o Orfanato e o Tabernáculo. Às seis horas levantou-se e correu à janela para aspirar o ar fresco, e disse ao empregado: “ Estou morrendo”, e, assentando-se na cadeira, expirou. Foi enterrado embaixo do púlpito da Igreja Presbiteriana, Federal Street, Church Newberyport, e ali jazem os seus restos mortais até os dias de hoje”.
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    IV A vida deJohn de La Fletcher, o santo do Movimento Metodista (1729-1785) Entre os nomes, na lista dos sete diáconos escolhidos pela Igreja Primitiva, o primeiro que encontramos é o de Estevão. O nome dele não é somente o primeiro da lista, mas é o único sobre o qual o escritor faz observação, e esta é a observação: “Estev ão, homem cheio de fé e do Espírito Santo”. A mesma coisa se pode dizer acerca de John Fletcher, homem cheio de fé e do Espírito Santo. Se houvesse qualquer homem entre os fundadores do Metodismo que pudesse ser chamado santo, seria John Fletcher. I – SEUS PRIMEIROS ANOS 1. Seus pais. Pouco se sabe a respeito dos seus pais. Sabemos que ele era oficial no exército francês. Mais tarde deixou o exército e se casou e depois de algum tempo entrou no exército do seu próprio país, a Suíça, chegando a ocupar o posto de coronel. Sua família era mui respeitável no condado onde residia. De sua mãe, quase nada se sabe; contudo, podemos dizer que era boa e piedosa. 2. O nascimento e alguns incidentes em sua mocidade. John Guilherme De La Fletcher nasceu em Nyon, na Suíça, em 12 de setembro de 1729. A cidade de Nyon fica a quatro léguas para o norte de Genebra. Dizem que quando alguém especial pe destinado por Deus para fazer um serviço especial no mundo, logo na vida do tal se manifestam certos sinais de superioridade. Uma coisa que mui cedo se manifestou na vida deste menino foi a impressão profunda que ele tinha da majestade de Deus e o receio de ofendê-lo. E, também, tinha uma consciência muito sensível. É oportuno um exemplo: Um dia, tendo ofendido a seu pai, fugiu dele; mas quando estava correndo veio-lhe esta idéia: “O que? Estou fugindo de meu pai? Talvez terei algum dia um filho que fugirá de mim”. E ele não podia se esquecer dessa impressão. Também, já aos sete anos de idade, um dia foi repreendido pela ama que lhe disse: “Você é um menino mau. Não sabe que o diabo leva consigo os meninos malvados?” À noite, quando se deitou, lembrou-se da repreensão da empregada e começou a refletir nas palavras dela, imaginando o que seria dele se o diabo viesse aquela mesma noite. Para acalmar-lhe a consciência levantou-se e fez oração até que sentiu o amor de Deus em sua alma e então, sentindo-se seguro, deitou-se para dormir.
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    Como filho eraobediente, e para com os irmão s e irmãs era de exemplaríssimo proceder. Constantemente verberava ele o pecado praticado pelos seus amigos. Um dia sua mãe, que ele tanto amava, falou asperamente a um dos membros da família. Olhou-a ele então, dando a entender assim o seu desagrado. Também disso não gostou ela e o repreendeu energicamente. Ele se submeteu humildemente, dizendo: “Quando alguém me dá na face direita, voltou-lhe também a outra”. Estas palavras não foram ditas com arrogância, mas com humildade e mansidão. E a sua mãe, imediatamente, mudou de atitude para com ele. Realmente essa disposição o caracterizou durante toda a sua vida; não podia ver alguém praticar uma injustiça sem lavrar o seu protesto, mas sempre o fez no espírito de amor. Durante a mocidade, por várias vezes, quase perdeu a vida. Certa vez ele e seu irmão brincavam de esgrima, mas, em vez de usarem espadas de pau, usavam espadas de fato com botão na ponta. Ao brincarem deu-lhe o irmão um golpe; aconteceu, porém, que o botão da espada rachou e a ponta feriu João, no lado, e quase o matou, deixando cicatriz que levou até o tumulo. Doutra vez foi um rio. Como sabiam nadar bem, arriscaram-se demais, especialmente John que avançou para o meio do rio, cuja correnteza forte não podia vencer, sendo levado água abaixo. John fez um esforço supremo para voltar à terra, mas não pode, pois, a correnteza era mais forte do que ele. Vendo-se assim em tão grande perigo e com as forças exaustas, entregouse à mercê das águas. Um homem que o viu de longe e reconhecendo o grande perigo em que se achava o rapaz, fitou-lhe os olhos, pois não havia nada que pudesse fazer para livrar. Já se estava aproximando de um dique onde a água tinha que passar num rego e sair debaixo do moinho que ficava à margem do rio. Quando o moço entrou no rego, a correnteza o levou com tanta força que o jogou contra uma pedra em que bateu de cheio com o peito. O choque foi tão forte que ele perdeu os sentidos. Vinte minutos depois seu corpo apareceu água abaixo de onde foi tirado e levado para casa. Anos depois Fletcher, falando sobre isso, disse: “Quando recuperei os sentidos estava calmo num lugar seguro e inteiramente bom, sem qualquer dor ou cansaço. Não tinha falta de coisa alguma, senão a minha roupa, que ficara a mais de uma légua distante onde a tinha deixado”. 3. Seus estudos. John Fletcher, cedo, na vida manifestará muito interesse nos seus estudos; sendo um menino inteligente, adiantava-se rapidamente na escola. No princípio estudou em sua própria cidade de Nyon; mais tarde ele e dois irmãos foram levados para Genebra para continuarem os estudos. Ali, não tardou em revelar sua superioridade intelectual, ganhando até dois prêmios. Havia diversos alunos em sua classe e alguns, filhos dos próprios professores, mas, mesmo assim, ele ganhou os prêmios com louvores dos próprios mestres. Muito aplicado, aferrava-se aos livros com assiduidade recreiando -se pouco. Depois dos estudos do dia, gastava algumas horas à noite para notar os pontos de mais importância que estudara durante o dia. Foi desta maneira que lançou os alicerces de uma erudição que o distinguiu, tanto em filosofia como em teologia. Depois de completar o curso na universidade em Genebra seu pai o mandou passar algum tempo no condado de Lentzburgo onde podia estudar e aprender a língua alemã e ao mesmo tempo ele continuaria a estudar outras matérias pelas quais tivesse inclinação. Terminando o curso em Lentzburgo voltou para casa em Nyon onde se dedicou por algum tempo ao estudo da língua hebraica e aperfeiçoando-se em matemática. 4. O desejo de ser um soldado. Quando terminou os estudos, era a vontade dos seus pais que ele entrasse no ministério, porém Fletcher julgava que não era digno de ser um ministro de Cristo e revelou o seu desejo de ser um soldado como seu pai o era. Portanto, apesar do protesto dos pais e amigos mais íntimos, que julgavam, se houvesse alguém que estivesse habilitado pelos dons naturais e preparo que
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    tinha e respeitoà religião e a Deus, para entrar no santo ministério, seria ele, estava ele resolvido a seguir a carreira militar. Alguns anos depois, pela carta que escreveu a João Wesley, descobrimos os seus motivos íntimos sobre este ponto. Ele disse: “Desde que senti o amor de Deus no meu coração, quando tinha sete anos de idade, resolvi entregar-me a Ele e ao serviço da Igreja, se me sentisse em condições de fazê-lo, mas a corrupção que se encontra no mundo e também no meu próprio coração, concorreram para enfraquecer essa convicção que tinha no princípio. Contudo, fiz os meus estudos com o intuito de entrar em ordenanças da Igreja; no entanto, mais tarde, sentindo que não era digno, nem bastante forte no meu espírito para assumir tanta responsabilidade e, também, desgosto pela necessidade que tinha de aceitar a doutrina da predestinação (calvinismo), cedi à vontade de alguns dos meus amigos que insistiram que entrasse no exército. Antes, porém, de o conseguir, devido a tantos empecilhos e desapontamentos, resolvi ir à Inglaterra”. O Sr. José Benson alega que três foram os motivos que levaram Fletcher a não querer o ministério, que são: “1º - Porque ele julgava que não tinha as qualidades necessárias para tão santo trabalho; 2º - Porque tinha escrúpulos em aceitar a doutrina da predestinação que o ministério na Suíça tinha que aceitar; 3º - Porque não quis ocupar um ofício tão sagrado como meio de ganhar a vida, ou deixar qualquer idéia profana o vencer”. Não podendo conseguir a aprovação dos pais nos seus planos para o serviço militar, resolveu deixar o seu país e ir para Portugal. Chegando em Lisboa ajuntou-se com alguns dos seus patrícios e se ofereceram ao rei para serviço num navio de guerra que estava prestes a partir para o Brasil. Escreveu ele então uma carta a seus pais pedindo grande quantia para ser empregada em negócios no Brasil, no que foi grandemente desapontado, pois seus pais não o atenderam no pedido. Firme no propósito, assentou de ir, mesmo sem dinheiro, naquele navio. Mas enquanto se demorava, o navio partiu; a demora teve seu motivo: num dia, pela manhã, enquanto a empregada lhe servia o chá, virou-se a chaleira que lhe escaldou a perna. Ficou tão mal que por alguns dias esteve de cama. Foi num desses dias que partira o navio e o deixara. É curioso notar que esse navio desapareceu e não se sabe qual fora o seu destino. Não podendo arranjar uma colocação em Portugal resolveu experimentar a sua sorte na Holanda, que estava em guerra nessa época, pois, no exército holandês tinha um tio oficial por meio do qual esperava entrar no mesmo exército. Porém, aconteceu que antes de poder conseguir o seu ideal, terminou a guerra na Holanda; falecendo logo depois o seu tio no continente, resolveu ir para a Inglaterra, abandonando a idéia de militar. 5. Como preceptor em família particular. Chegando em Londres teve que passar na alfândega. Com ele seguiram alguns viajantes estrangeiros. Os oficiais os trataram com aspereza e crueldade, apanhando-lhes as cartas de recomendação, alegando que as mesmas tinham de ser remetidas pelo correio. Uma vez livres da alfândega, foram para um hotel, mas, como não falavam o inglês, tiveram dificuldade em trocar o dinheiro. Foi quando John Fletcher viu um judeu bem vestido conversando em francês. Contou-lhe a dificuldade em que se achavam, ao que disse o judeu: “Dême o seu dinheiro e eu lhe arranjarei o troco em cinco minutos”. Imediatamente Fletcher lhe entregou sua carteira em que levava noventa libras e o homem desapareceu. Quando Fletcher contou o fato a seus colegas começaram a dizer-lhe: “Então o seu dinheiro está perdido, pois há sempre sujeitos bem vestidos esperando aqui, prontos para lograr pessoas estranhas”. Vendo agora que o único recurso para o caso era entregar o negócio a Deus, assentou -se à mesa para comer, porém antes de terminar a refeição entrou o judeu trazendo o troco certo.
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    Querendo estudar alíngua inglesa procurou alguém que lhe pudesse ensinar. O Sr. Burchell, que tinha uma escola em South Mimms, no condado de Hestfordshire, foi lhe recomendado, tornando-se Fletcher seu aluno por dezoito meses. Passado esse tempo Burchell mudou para Haftfield e Fletcher o acompanhou, dedicando-se ao estudo de inglês e literatura. Ele por natureza era um homem cortez e pelos seus estudos tornou-se um homem erudito. Dai o conceito que gozava do povo sendo sempre bem-vindo entre as famílias cultas, na cidade de Hatfield. Deus estava com ele e ele tinha o temor de Deus em seu coração, porém não havia alguém que pudesse guiá-lo nos caminhos do Senhor. Decamps, o ministro francês a quem tinha sido recomendado, procurou -lhe uma colocação na casa de Thomaz Hill como tutor dos seus dois filhos. O Sr. Hill morava em Turnhall, no condado de Shropshire. Fletcher então fixou residência com a família do Sr. Hill, em 1752, e logo principiou a sua tarefa de ensinar estes dois jovens, o que fez até o ano de 1760. Quando a família assistia em Londres às sessões do Parlamento, ele a acompanhava e o resto do tempo ficava em Turnhall. II – SUA CONVERSÃO 1. Sua sinceridade antes da sua conversão. Até aqui temos testemunhado a sinceridade de Fletcher, mas ele ainda não era convertido. Um domingo de tarde estava ele trabalhando em escrever música e uma das empregadas de Hill o repreendeu, dizendo: “Oh, meu senhor, estou triste por ver o Sr. trabalhando assim no dia do Senhor”. Quando ouviu estas palavras, ficou contrariado; no entanto, depois de refletir bem, julgou que ela tinha razão, que fez aquilo para o seu próprio bem. Largou o serviço e entregou-se a outras coisas mais de acordo com o dia, e dali em diante tornou-se um observador escrupuloso do dia do Senhor. Embora houvesse manifestação de piedade muito cedo na vida de Fletcher, ele ignorava a verdadeira natureza do Cristianismo. Tinha muita confiança na retidão natural do homem, e excedia a muitos no viver uma vida mais ou menos exemplar. Assim alguém o descreve: “Era severamente justo nos seus negócios e inflexivelmente correto quanto à sua palavra; cumpria escrupulosamente seus deveres para com os outros, em suas relações na vida; tinha sentimentos liberais e uma caridade profusa. Sempre revelou prudência no seu proceder e cortesia em suas relações com o próximo. Era diligente em buscar a verdade e extremado defensor da virtude; meditava freqüentemente nas coisas sagradas, e assistia assiduamente ao culto divino”. Era de esperar, pois, que um homem ornado de todas essas qualidades, fosse tentado a crer que era superior aos demais homens em geral. Tendo todas essas boas qualidades, ignorava, todavia, a natureza do verdadeiro arrependimento do pecado. Ele passou algum tempo na Inglaterra antes de chegar a conhecer experimentalmente a natureza verdadeira do arrependimento. 2. Sua conversão. Por muito tempo, depois de chegar à Inglaterra, desconheceu a existência do povo chamado Metodista. João Wesley nos conta como Fletcher chegou a descobrir os Metodistas. Essa informação, recebendo-a Wesley do próprio Fletcher. Diz Wesley: “Quando o Sr. Hill ia às sessões do Parlamento sempre levava a sua família e o Sr. Fletcher consigo. Uma vez, quando eles pararam em Santo Albans, o Sr. Fletcher saiu para passear na cidade, e não voltou em tempo para continuar a viagem com a família do Sr. Hill.
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    Deixaram-lhe, porém, umcavalo para ele seguir atrás. Assim fez, e antes de anoitecer ele os alcançou. Quis então o Sr. Hill saber porque ficou atrasado e Fletcher respondeu: “Enquanto estava passeando, encontrei uma senhora idosa e pobre que me falou tão suavemente acerca de Cristo que não me lembrei do tempo”. A senhora Hill replicou: “Não me admirarei se o nosso tutor passar a ser um Metodista qualquer dia”. “Um Metodista, senhora?”, respondeu Fletcher, “tenha a bondade de me dizer o que é um Metodista”. Ela replicou: “O que? Os Metodistas são um povo que não faz outra coisa senão orar. Eles oram de dia e de noite”. “Deverás?” disse Fletcher, “então com o auxilio de Deus, vou procurá-los, se se acham sob re a terra”. E não tardou depois disto a encontrá-los, ficando como um membro da S ociedade. Daqui em diante quando estava na cidade assistia regularmente à classe de Richard Edwards, recebendo tanto proveito espiritual que não perdia nenhuma oportunidade para assistir a classe. Ele sempre se lembrava de Edwards com saudades, até ao dia da sua morte. Logo depois de começar a assistir aos cultos dos Metodistas ele descobriu que não tinha uma idéia clara acerca da natureza verdadeira da fé salvadora. Julgava que podia se salvar e agradar a Deus fazendo muitas coisas. Mas um dia ouviu um sermão pregado pelo Rev. Green e descobriu que não é pelas obras que o homem se salva, porém, pela fé. Era difícil para ele compreender essa verdade, visto como tinha estudado teologia na universidade e escrito diversos tratados sobre assuntos religiosos, recebendo até os parabéns dos mestres. Foi-lhe uma luta para se dominar, pois, quanto mais se esforçava tanto menos animado se sentia com o resultado. Chegou finalmente a descobrir que “enganoso é o coração acima de todas as coisas, e gravemente enfermo; quem o poderá conhecer?” Ele assim descreve o seu estado nesta época: “De minha parte, quando comecei a me conhecer a mim mesmo, então vi e senti que o homem é um animal composto de uma natureza bestial e infernal. Tal descobrimento me deu um choque terrível; abalou meu amor próprio e me encheu de horror. Procurou encobrir por algum tempo esse estado lastimável. A impressão que tinha recebido de mim mesmo era tão profunda que dela me não podia esquecer. Não valia de nada lembrar-me da moralidade que tinha praticado. Também debalde os elogios que tinha recebido, dos meus superiores quanto à minha piedade e virtude. E, igualmente em vão foi o esforço de lançar um véu sobre a minha consciência argumentando da seguinte maneira: Se a conversão significa uma mudança completa, quem porventura se tem convertido nestes dias? Por que estás imaginando que és pior do que realmente és? Tu crês em Cristo; tu és um cristão; tu não tens feito mal a ninguém; tu não és um ébrio nem adúltero; tu tens cumprido os teus deveres, não somente de um modo geral, mas, com exatidão toda especial; tu assistes aos cultos assiduamente; tu oras mais do que outros e também com fervor. Não te incomodes. Além de tudo Jesus Cristo sofreu pelos teus pecados, e os méritos dele suprirão tudo que te falta”. “Foi com esta maneira de raciocinar que procurei enganar -me a mim mesmo e esconder o estado deplorável do meu coração. E agora, meus irmãos, tenho vergonha de ter procedido assim comigo mesmo, sendo iludido pelas invenções de satanás e do meu próprio coração. Deus me tem convidado; apóstolos, profetas e mártires me têm exortado, e a minha própria consciência, iluminada pela graça divina que se manifesta no meu peito, tem me constrangido a entrar pela porta estreita. No entanto, apesar de tudo isso, um gênio sutil, um mundo enganador e um coração enganado têm concorrido, durante estes vinte anos da minha vida, para me conservar no caminho largo. Já agora vejo que a época mais atraente da minha vida, passei-a no serviço desses tiranos, e agora estou pronto a proclamar a toda a gente que o único galardão que tenho recebido consiste em remorso e inquietação. Feliz teria sido eu se tivesse escutado os primeiros convites da graça de Deus e assim quebrado o jugo de aço desses tiranos sobre o meu pescoço”. Com essa revelação do seu estado moral ele procurou o perdão dos seus pecados, lançando-se inteiramente sobre Cristo, confiando nele para a salvação. Agora, em vez de se colocar numa categoria acima dos outros, ele se classifica com os principais pecadores. Sua tristeza pelo pecado foi substituída pela satisfação de o Deus todo poderoso lhe ter perdoado os
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    pecados. Agora sentepaz e alegria no coração. Sua conversão não era uma coisa imaginária, porém uma realidade. Uma vez acertado o caminho estreito que conduz à vida eterna ele se esforçou para nele andar com toda a inteligência. Era muito inclinado ao asceticismo. Por exemplo, ele passava duas noites em claro por semana a fim de ter mais tempo para orar, estudar e meditar, e o seu regime era, agora, pão, leite e legumes. Tal foi o rigor das suas abnegações que veio, mais tarde, a prejudicar a sua saúde. Anos depois, refletindo nesta fase da sua vida, fez a seguinte confissão: “Tenho observado que quando o corpo está fraco, é nessa ocasião que satanás ganha vantagem sobre a alma. É sem dúvida o nosso dever cuidar bem da nossa saúde. Mas naquela época não sentia a necessidade de sono de que eu mesmo me privava”. III – SUA CHAMADA PARA O MINSTÉRIO Tendo experimentado a conversão, logo se lhe levantou na mente a mesma pergunta que fizera o apóstolo na ocasião de sua conversão: “Que farei, Senhor?” Não tardou a resposta, pois começou a pensar em entrar no santo ministério. 1. Algumas circunstâncias que lhe influenciaram a entrada no ministério. Uma das coisas que lhe influenciaram a entrada do jovem John Fletcher no ministério foi a mesma que despertara o profeta Isaías, isto é, o estado moral dos seus patrícios. Ele sentia o amor de Deus no seu coração e queria contá-lo aos outros. Mas, quando começou a falar no amor de Deus, descobriu que a humanidade estava muito corrompida, que “o mundo inteiro está no Maligno”. Essa triste condição da humanidade provocou nele um desejo ardente de pregar o Evangelho que podia melhorá-la e salvá-la. Muito tempo antes de aceitar a ordenação de ministro ele pregou o Evangelho e foi bem sucedido, pois multidões lhe assistiam às conferências. Tinha, também, muito jeito para escrever cartas aos seus amigos e conhecidos, sobre a religião e nisto foi muito bem sucedido. Era seu costume, quando estava no sítio, assistir ao culto divino na capela. Mas em vez de voltar com o Sr. Hill e sua família, preferia voltar a pé. Na volta para casa, andando pelo rio Severn se entregava à meditação e oração. Num domingo um dos servos piedosos do Sr. Hill quis ir com ele nesse passeio. E a seguinte descrição dada pelo servo nos dá uma idéia do fervor espiritual que tinha Fletcher: “Era nosso costume, quando terminava o culto, retirarmo-nos aos campos ou prados, onde geralmente nos ajoelhávamos no chão. Era nessas ocasiões felizes que testemunhava os rogos e as lutas com Deus, e tão grandes manifestações de fé e amor como não tenho observado em nenhum outro. A s consolações que recebíamos de Deus nessas ocasiões, nos levaram a marcar duas ou três noites por semana, depois de terminado o seu trabalho de ensino aos moços, para nos entregarmos à oração. Também, nos domingos, fazíamos reuniões semelhantes entre quatro e cinco horas da manhã.” “Às vezes quando entrava no escritório dele durante os dias da semana, raras vezes o encontrava lendo um livro senão a “Bíblia” e “O Padrão Cristão”. Raras vezes aparecia na companhia de outras pessoas, senão para tratar dos negócios necessários, com exceção do escritor destas linhas.”
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    O testemunho deum oficial do exército que foi seu professor de música é o seguinte: “Creio firmemente que ele não deixou qualquer outra pessoa neste ou em outro país, que lhe fosse igual: um luminar. Oxalá eu e todos que amam ao Senhor Jesus Cristo sejamos participantes daquela santidade que lhe era tão conspícua”. Sua consideração aos pobres levou-o a lhes praticar a caridade. Vê-se, pois, que tudo que se manifestou em sua vida indicava que o seu coração estava propenso ao serviço do Senhor. E além disso, também, os seus amigos e alguns ministros lhe falaram do ministério. Finalmente atentou ele ser a vontade de Deus que ele fosse um ministro do Evangelho. No caso de John Fletcher os três sinais, mencionados da Disciplina pelos quais se julga que alguém é chamado para pregar, foram inteiramente satisfeitos. Pois, ele conhecia a Deus como um Deus que perdoa o pecado, tinha dons tanto como graça para o trabalho e mostrava frutos na conversão de pecadores, numerando seu próprio pai, como uma das pessoas que se converteram, por via de seu trabalho. 2. Sua resolução de entrar no ministério. Desde a hora de sua conversão sentia um desejo de servir a Deus e prestar o melhor serviço em prol do Evangelho. Portanto, o ministério parecia o meio eficaz pelo qual podia dedicar toda a força do seu ser e, assim fazendo, oferecer a mais rica oblação possível ao bom Pai de misericórdias. Por muito tempo sentiu na alma o desejo de pregar o Evangelho, porém, tinha receio de falar nisso enquanto o seu desejo intimo não fosse satisfeito pela aprovação dos seus semelhantes. Foi neste estado de coisas que ele dirigiu ao Sr. João Wesley a seguinte carta: “Tern, 24 de Novembro de 1756. Reverendo Senhor, como considero o Sr. o meu guia espiritual, e não podendo duvidar de sua paciência em me ouvir e me responder acerca de uma questão que um de sua Sociedade me sugeriu, desejo espontaneamente citá-la. Desde que cheguei à Inglaterra, recebi três convites para aceitar ordenação. Tenho sempre orado a Deus para que, se esses convites não tivessem a aprovação divina, que fossem embaraçados, e sempre alguma coisa tem estorvado os desígnios dos meus amigos neste sentido. Nisso tudo admiro a bondade de Deus, pois Ele me tem protegido evitando precipitações nessas coisas. Dou graças a Deus pela sua bondade em tudo isso, especialmente desde que cheguei a conhecer o Evangelho em sua pureza. Antes tinha medo, porém, agora tremo em mexer com essas coisas sagradas. Resolvi, pois, revelar a minha salvação em particular, em vez de me entregar a tal serviço que requer mais dons e graça do que supunha eu precisasse ter. Contudo, de quando em quando, sentia desejo ardente de me entregar de corpo e alma a Deus, se fosse chamado outra vez, crendo que o Senhor poderia me ajudar e manifestar o seu poder em minha fraqueza. Já agora reconheço que esse desejo se me aumenta desde que reparei que algum êxito tem acompanhado os meus esforços em exortar e escrever cartas aos meus amigos”. “Julgo necessário dizer-lhe que meu patrão me aconselhou diversas vezes que entrasse no ministério, aceitando a ordenação e até prometeu me arranjar colocação. A tudo isso sempre respondi friamente, que não era digno e além disso que não podia adquirir um título. As coisas estavam nesse pé há seis meses, quando um cavalheiro, um homem que eu quase não conhecia, me ofereceu uma colocação que, provavelmente, mui logo estaria disponível. Também um clérigo com quem nunca tinha conversado me ofereceu um título de vigário em um a de suas igrejas. Agora, Sr. Wesley, a questão sobre que desejo o seu auxílio: Devo eu não aceitar o título e entrar em ordens? Quanto à colocação e ao ordenado, não me importa; porque julgo que poderia pregar com melhor resultado em minha própria língua.” “Estou em dúvida: porque de um lado meu coração me diz que experimente, e assim fala quando eu sinto o amor de Deus; de outro lado, quando me examino para ver se sou digno para
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    isso, reconheço aminha falta de dons, e especialmente aquele dom da alma-amor que deve caracterizar o trabalho ministerial, AMOR, continuo, universal e inflamado, que em minha confiança e coragem me falta. Chego mesmo a me acusar de vaidade quando penso na grande responsabilidade de levar ainda apenas por um dia a arca do Senhor, concluindo que sem dúvida um castigo extraordinário há de cair sobre mim, mais cedo ou mais tarde, pela minha ousadia.” “Agora, como me acho nestas duas alternativas, tenho que confessar ao senhor que não posso decidir qual desses dois caminhos devo tomar com segurança. Guiar-me-ei, pois, pelo seu conselho; julgando que Deus o guiará, muito mais porque em tudo isso nada mais quero senão a glória de Deus. Reconheço quão precioso é seu tempo, portanto ficarei satisfeito com uma resposta nestes termos: “Persiste ou abstém -te, pois só isto me há de valer. Rev. senhor, sou seu servo indigno, J. F. “ Não sabemos a resposta que lhe deu Wesley, porém julgamos que o aconselharia a persistir no propósito de entrar no ministério. Logo que ele assim externou o seu desejo de entrar no ministério não faltou alguém entre os seus amigos que apoiasse este passo importante em sua vida. Dois lhe eram os objetivos principais na vida: possuir sabedoria sagrada e pureza cristã. Recebeu diversos convites de igrejas, porém a nenhuma quis aceitar sem refletir bem sobre o assunto. Dois anos se passaram e ainda não tinha resolvido tomar conta de uma igreja. Quanto mais seus amigos insistiam que tomasse conta de uma igreja, tanto mais desanimado ficava em assumir essa responsabilid ade. Havia uma coisa esquisita em seu modo de encarar este problema, porém revela o seu espírito abnegado e desinteressado. Alguns dos seus amigos o instigaram para aceitar a paróquia que oferecesse o maior ordenado, mas, em vez de aceitar, rejeitou. Sempre julgou que tinha um sacrifício a fazer e não uma riqueza para ganhar. Os dois motivos que mais o animaram levando-o a aceitar ordenação para o ministério foram: gratidão e benevolência. A gratidão a Deus o impelia a proclamar o nome do seu grande benfeitor e dar seu testemunho da graça de Deus, enquanto que a benevolência para com os seus semelhantes o impelia a consagrar-se à promoção dos seus interesses. Constrangido por estes motivos ele publicamente se consagrou ao santo ministério, aceitando a ordenação em 6 de Março de 1757, sendo ordenado diácono num domingo, e presbítero no domingo seguinte, pelo bispo de Bangor, na capela de S. Tiago. IV – SEU TRABALHO COMO PASTOR EM MADELEY Durante dois anos, mais ou menos, depois da sua ordenação Fletcher pregava quando havia oportunidade e aplicava-se aos estudos e à meditação. De quando em quando ajudava a João Wesley a ministrar a santa ceia e pregava nas capelas, tanto nos sítios como em Londres, nas igrejas. Durante este tempo foi convidado a ir com o missionário para as ilhas da Índia Ocidental. Mas julgou que não tinha os dons necessários para tal trabalho. Igualmente os seus parentes na Suíça queriam que voltasse para lá e pregasse aos seus patrícios, porém julgava que Deus tinha serviço para si na Inglaterra. Foi convidado pela Condessa Lady Huntingdon para servir como seu capelão particular, mas ele recusou, julgando-se indigno de tal colocação, e receoso que tal posição lhe fosse um perigo para seu desenvolvimento espiritual, preferiu servir aos pobres a servir aos ricos.
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    Sempre pregou emdiversos lugares. Suas reuniões, porém, eram tais que muitos dos ouvintes se escandalizavam com a franqueza que usava no pregar às verdades evangélicas, resultando dali que em tais lugares não recebia um segundo convite para pregar. 1. Sua nomeação para Madeley. A cidade de Madeley fica à beira do rio Severn, no condado de Shorpshire, distante de Ternhall cerca de três léguas. Ali ajudava ele o vigário da Igreja de Madeley, de cujo povo ele muito gostou. Aconteceu que o vigário desta igreja morreu e o bispo a ofereceu a John Fletcher que aceitou a nomeação. Merece notar que lhe foi oferecida também outra paróquia ao mesmo tempo, e que lhe pagaria o dobro da de Madeley, porém não quis aceitá-la, estando convicto que Deus o queria em Madeley e para Madeley ele foi, e lá ficou como pastor o resto de sua vida. 2. As dificuldades que teve de enfrentar em Madeley. A maioria do povo de Madeley naquela época era muito atrasada, pobre e ignorante. E não somente isso, mas também viciada e indiferente à religião. O Sr. Benson assim descreve a cidade: “Madeley era notável pela ignorância e impiedade dos seus habitantes, entre os quais havia pouco respeito para com Deus e os homens. Neste lugar obscuro, o domingo era abertamente profanado, as coisas sagradas eram pisadas, as restrições da decência eram violentamente destruídas e as cerimônias religiosas ridicularizadas”. Esta descrição nos revela as condições em que Fletcher ia trabalhar. Havia, contudo, algumas pessoas retas na cidade, mas em número muito pequenino. Logo que chegou nesta cidade em 1760, Fletcher começou o seu trabalho de pastor, ciente das grandes dificuldades que teria de enfrentar. Mas tinha o desejo de servir o povo e resolveu resistir a qualquer pessoa que se levantasse contra a vontade de Deus. Uma das dificuldades que muito logo teve de enfrentar, já no princípio, era o indiferentismo do povo. Atrair o povo para os cultos nos domingos era já de começo, talvez seu máximo problema. No entanto ele pregava com alegria às poucas pessoas que podia juntar na igreja cujo culto era geralmente de tarde. Dedicava -se ao trabalho do pastorado, visitando o povo e estudando as suas condições, circunstâncias e dificuldades, “considerando a todos, mesmo os maus, ignorantes, vis e os profanos, dignos do seu amor e consideração”. Foi por meio das suas visitas pastorais que chegou a conquistar famílias inteiras para Cristo. Às vezes encontrava famílias que não queriam receber suas visitas nem por isso deixou de orar por elas quando ia passando por suas casas. Para aumentar a assistência nos cultos, levanta-se cedo nos domingos e passava pelas ruas com uma campainha na mão e assim chamava a atenção do povo para os cultos no dia do Senhor. Outra dificuldade também muito séria era corrigir os costumes dos jovens, os moços e as moças. Era-lhes costumes reunirem-se certos dias na semana para se divertirem. Passavam toda a noite dançando, bebendo, brincando e entregando -se à orgia e obscenidades. Não era novidade estar ele no meio deles em tais ocasiões e os exortar e repreender. Sua influência sobre a mocidade era tal que conseguiu a conversão de muitos. Restava-lhe ainda enfrentar a oposição dos valentões, ébrios, alguns clérigos e magistrados. Um incidente servirá de exemplo como se livrou das mãos dos malvados. Foi num domingo de tarde que tinha de ir fora da cidade para pregar num lugar chamado Bosque (Wood). Mas aconteceu que, na hora de partir, veio um aviso de que uma criança tinha morrido e que era necessário fazer o enterro. Portanto, não podia realizar o culto que ia fazer no Bosque. Foi nesta mesma tarde que os mineiros, homens que não temiam a Deus, nem
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    respeitavam os homens,arranjaram um touro bravo e o amarraram perto do lugar onde Fletcher ia pregar. Mas aconteceu que alguns cachorros o atormentaram tanto que ele arrebentou as cordas e virou-se sobre os mineiros, derrubando os assentos onde se achavam os cavalheiros que bebiam e que iam servir de juizes nos esportes. Assim ceifar am o que tinham semeado para os outros. Os clérigos que não gostavam dele por causa da sua sinceridade, pregaram contra as doutrinas metodistas que ele ensinando divulgava. Seus próprios paroquianos se viraram contra ele por causa das suas pregações contra seus vícios. A um amigo escreveu ele o seguinte: “O amigo não pode imaginar quão grande é a animosidade e aversão que os meus paroquianos têm contra mim, porque eu prego contra a embriagues, cavalinhos e touradas. Os publicanos e os bêbados não perdoam; pensam que aquele que prega contra a embriagues é tão ruim como se tivesse roubado as suas carteiras”. Tendo defendido um jovem pregador que era severamente perseguido por ter pregado contra os vícios daquela época, atraiu sobre ele a ira dos magistrados, porém ele escapou do mal que lhe queriam fazer. Mas essas dificuldades se iam diminuindo e no correr do tempo ele conquistou o respeito de todos, ainda que os não pudesse reformar ou convertê-los. 2. Seus esforços para servir o povo. Seus paroquianos logo descobriram que o seu pastor lhe tinha interesse. Interessava-se muito pelos pobres, cuidando-lhes tanto do corpo como da alma. A maior parte de seu ordenado ia para os fundos dos pobres. Visitava-os nas suas aflições e doenças. Assim alguém descreve a sua caridade: “A abundância da sua caridade para com os pobres e necessitados é quase incrível; a sua liberalidade freqüentemente esvaziava a sua carteira, roubava-lhe as comidas da sua casa e, às ve zes, o deixava mesmo sem as coisas mais necessárias. Era-lhe costume trocar o seu estado confortável com o de seus paroquianos indigentes, deixando o seu comodismo para participar das dores deles e a sua abundância para a pobreza deles. Para poder alimentar os famintos ele a si mesmo negava o alimento necessário; para poder vestir os nus, ele mesmo se vestia modestamente, e para socorrer os que estavam perecendo em necessidades extremas, ele suportava duras e contínuas privações”. Não somente contribuía para aliviar os pobres, porém apelava também para outros para que o ajudassem nesses socorros. Os doentes sempre tinham um amigo na pessoa de Fletcher que de dia e de noite não se cansava de os atender. A propósito diz João Wesley: “Visitar os doentes era um trabalho que ele estava sempre pronto a fazer. Se ouvia alguém bater à sua porta numa noite fria de inverno, logo abria a janela. E quando era informado que alguém estava ferido ou machucado nas minas, ou que um vizinho estava prestes a morrer não hesitava em pensar se devia ir ou não, porém a sua resposta sempre era esta: “Vou já”. As crianças tinham na sua pessoa um verdadeiro amigo. Ensinava-as de casa em casa, atraindo-as a Cristo em sua mocidade. Igualmente tinha muita simpatia para com as pessoas que estavam tristes e desconsoladas na vida. Nunca procurou aumentar a tristeza de ninguém, antes provocava o espírito de alegria e de ações de graças. Sabia acomodar -se aos seus ouvintes. Aos ignorantes usava palavras e ilustrações compreensíveis e aos eruditos sabia elevar-se à altura deles.
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    Não somente ministravaao povo na cidade de Mad eley, mas também procurava os negligenciados que moravam na circunvizinhança. Muitas coisas havia para o desanimar, e às vezes ele sentia o espírito de desânimo; duas coisas então, contribuíram fortemente para lhe produzir esse estado de alma: a pequena assistência no princípio dos cultos e a oposição de diversas pessoas dentro e fora da sua paróquia. Mas a primeira logo desapareceu, pois lemos numa carta que escreveu a Carlos Wesley: “Quando cheguei em Madeley, fiquei bem impressionado e desanimado com a assistência tão pequena aos cultos. Pensei que se alguns dos nossos amigos em Londres tivessem visto a minha congregação, teriam ficado consolados em sua própria sabedoria; mas agora, graças a Deus, as coisas se têm modificado neste sentido, pois, no domingo passado tive o prazer de ver algumas pessoas no pátio da Igreja que não podiam entrar por falta de lugar”. As suas visitas pastorais, o seu costume de despertar o povo com a sua campainha, cedo de manhã, nos domingos e, acima de tudo, o seu espírito cristão concorreram para despertar o povo. O espírito que John Fletcher manifestou durante o seu ministério em Madeley descobre-se na observação os Sr. Gilpin: “A situação do Sr. Fletcher a respeito de alguns dos seus paroquianos era semelhante a de Daniel a respeito dos cortesãos de Babilônia. Seu procedimento era tão exemplar e correto, caracterizado pela prudência e circunspeção (capacidade de olhar à volta de si), que até a malícia mesma não podia achar motivos de o criticar a não ser que lhe quisesse de scobrir alguma falha com respeito a lei de seu Deus”. Eles voluptuosamente detestaram a sua temperança e abnegação; os licenciosos se ofendiam com sua gravidade e severidade, e os formalistas se indignavam com seu zelo e devoção manifestados em toda a sua conversa e proceder. Todos estes, apesar de suas opiniões divergentes, ligaram-se contra o seu pastor como inimigos inveterados. Torceram as suas palavras, falavam mal dos seus atos, e “rejeitaram o seu nome como indigno”. Mas qualquer que fosse a acusação ou a oposição dos seus inimigos, ele a suportou com magnanimidade e com calma, “não retribuindo o mal com o mal, ou injúria com injúria” mas, ao contrário, abençoando”. Enquanto alguns professores indignados estão prontos, como Tiago e João, a “mandar fogo no céu” para consumir seus adversários; e enquanto outros estão consultando, como Pedro, quantas vezes devem perdoar as ofensas, Fletcher se entregava a manifestar aquela caridade que “é longânima e benigna; que não se porta inconvenientemente e não suspeita mal”. “Sendo injuriado, não injuriava; padecendo, não ameaçava, mas entregava-se aquele que julga justamente”. Se fosse insultado pessoalmente, ou prejudicado na sua propriedade; se fosse atacado abertamente com insultos, ou perseguido secretamente c om calúnia, por meio de uma boa consciência, ele andava no meio dos ataques violentos dos seus inimigos, como um homem invulnerável; e enquanto a sua firmeza revelava que não fora ferido, a sua indulgência mostrava que não fora ofendido. Seu amor não podia ser vencido: as águas frias da desconsideração não podiam apagá-lo, nem o dilúvio da censura poderia afogá-lo. “Sendo vilipendiado, bem dizia; perseguido, sofria; difamado, rogava, provocando os seus inimigos por todos os meios suasórios (persuasivos) a praticarem o amor e as boas obras. Quando encontrava um inimigo em necessidades, apressava-se em socorrê-lo, mostrando-se generoso e bondoso: “Se o seu inimigo tinha fome, ele dava de comer; se tinha sede, dava de beber; se estava oprimido, procurava ajudálo, aproveitando todas as oportunidades possíveis para “amontoar brasas vivas sobre a sua cabeça”. 4. Suas enfermidades. Por causa de sua austeridade, prejudicou sua saúde. Para ajudar e socorrer os pobres, negava a si próprio até o necessário para a conservação de sua própria saúde. Também dedicava tanto tempo ao serviço da Igreja e ao estudo e oração, negando-se ao sono necessário, e isso tudo concorria para minar os alicerces de suas forças físicas. Por alguns anos sofreu de tuberculose e de hemorragia pulmonar. Ficava tão fraco às vezes, que não podia dirigir os cultos; tinha de deixar o trabalho pastoral para descansar e recuperar as forças. Durante este tempo, quando não podia
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    visitar seu rebanho,dedicava -se a escrever cartas aos amigos e às pessoas interessadas em sua salvação. Também, escrevia alguns tratados sobre a controvérsia que manteve por alguns anos. O estado de sua saúde ficou tão precário que os médicos lhe recomendaram uma visita à Suíça, que era sua terra natal. Tratou de ir à Suíça visitar os seus parentes e amigos e cuidar de sua saúde. Melhorando, voltou à Inglaterra e continuou o seu trabalho em Madeley; porém não ficou curado. O excesso de trabalho e a polêmica que mantinha causaram-lhe profundo abalo na saúde. Teve que procurar os ares da sua terra outra vez. Mas antes de voltar à Suíça, esteve em diversas cidades da Inglaterra, todavia, sem muito proveito. Resolveu por isso ir novamente à Suíça. Deixar o rebanho em Madeley foi-lhe verdadeiro sacrifício. Arranjou outro pastor para tomar conta da sua igreja por algum tempo e as cartas que ele escrevia ao seu povo em Madeley são muito parecidas com as de São Paulo às igrejas que ele fundou. Em dezembro de 1777, deixou a Inglaterra e passou mais ou menos três anos na Suíça, melhorando consideravelmente. Mas não descansou porque quando não podia pregar por causa da sua saúde, ou porque os oficiais do governo não permitiam, ou pela oposição do clero, ele se dedicava a ensinar as crianças em casas particulares e, quando o tempo permitia, no bosque. Voltando à Inglaterra na primavera de 1781, continuou o seu trabalho em Madeley até morrer. V – SUA ATIVIDADE NOUTROS LUGARES Seu trabalho de pastor da Igreja em Madeley não o proibia de atuar noutras localidades onde se lhe apresentavam oportunidades. Ele não somente visitava os lugares circunvizinhos, mas também lugares mais distantes, tais como Breedon, no condado de Leicestershire, em Galles, Yporkshire, Bristol e Bath. 1. As duas visitas à Suíça. Já foram mencionadas as visitas que fez à Suíça para tratar de sua saúde. A primeira foi feita em 1170 e a intenção dele era visitar seus pais, irmãos, irmãs e amigos e tratar de sua saúde. É também provável que fosse necessário fazer esta visita para ajustar os negócios sobre a herança dos seus pais, etc. Para descrever tudo o que ele fez durante esta visita levaria muito tempo. Somente daremos uma ou duas citações que servirão para mostrar o zelo religioso que possuía. Foi uma parte do seu programa nesta viagem visitar os Huguenotes (nome pelo qual eram conhecidos os protestantes na França) no sul da França. Os Huguenotes eram pobres e moravam em lugares montanhosos. Para demonstrar a consideração que nutria por este povo basta citar que em certa ocasião dissera aos seus amigos o seguinte : “Deverei eu visitar esta gente humilde, cujos pais foram caçados por cavaleiros nas montanhas como se fazem às perdizes? Não; para conseguir entrada mais franca entre eles, vou me trajar humildemente levando um cajado na mão”. Assim encetou jornada a pé. Viajou todo o dia e lá ao cair da noite pediu pousada a um dos habitantes da região, que hesitou em ceder-lhe pousada, mas logo que Fletcher entrou no casebre todos ficaram impressionadas com seu espírito humilde e religioso. Terminada a ceia, ele continuou a dar-lhes instrução religiosa e antes de se deitar pediu licença para fazer oração, que foi dada.
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    Todos ficaram impressionadoscom a oração e gratos pela sua visita; no entanto, esta família era católica romana. Noutra casa onde passou pouco tempo, o dono da casa era um blasfemador. Não podia conversar sem tomar em vão o nome de Deus. Fletcher o repreendeu e o exortou a que abandonasse esse costume e que se entregasse a Deus. Tal foi o resultado de sua repreensão que o homem se corrigiu, agradecendo a Fletcher pelo interesse que tinha manifestado em sua salvação. Durante longos anos este homem se conservou na fé e quando era tentado a empregar qualquer palavra imprópria lembrava-se daquele homem santo e resistia à tentação. Quando visitava a Itália chegando à “Via Ápia” onde o apóstolo Paulo passou e onde a tradição diz que foi degolado, tirou o chapéu e saiu do carro e andou assim pelo caminho, porque ele disse aos seus companheiros de viagem que o seu coração não podia consentir em andar no carro onde o apóstolo tinha andado acorrentado a um soldado para dar a sua vida em prol da causa de Cristo. Enquanto não terminou este trecho, ele não cessou de dar graças a Deus pela luz, pelas verdades e pela influência do Espírito Santo que continuava até o dia de hoje. Quando chegou à Suíça, à casa dos seus parentes, na cidade de Nyon, os pastores franquearam -lhe os seus púlpitos e ele pregou com muita aceitação. Um moço ficou tão impressionado com as suas pregações que resolveu de dedicar -se ao santo ministério de Cristo. Entre os que assistiam às suas pregações havia um pregador idoso e jubilado que disse a Fletcher na hora de se despedir: “Oh, senhor, quão desventurado é este país! Pois, durante os meus dias só tem produzido um homem angélico, e a nossa má sorte é sermos privados dele”. Ele voltou à Inglaterra nos fins do verão de 1770. A segunda visita foi em 1777 e durou cerca de três anos. Com a saúde muito abalada havia pouca esperança que melhorasse. Mas ele resistiu bem à viagem e começou a melhorar logo que chegou no sul da França. Depois de se tratar por algum tempo, visitou a Itália, passando uns poucos dias em Roma. Um dia, passeando na cidade com um amigo, Sr. Ireland, iam encontrar-se com uma procissão dirigida pelo Papa; o cocheiro disse que seria necessário saltar, tirar o chapéu e ajoelhar enquanto passava a procissão. Mas Fletcher não quis fazer tal coisa, julgando que seria um ato de idolatria prestar tal homenagem a um homem. O cocheiro estava com receio que fossem maltratados e procurou desviar o carro para uma rua estreita. O Papa estava de pé no carro, com as mãos levantadas abençoando o povo. Fletcher foi tentado a denunciar essas coisas, porém não sabia a língua italiana e só os padres compreendiam o latim; porquanto, ficou calado. Alguém falando com ele depois, disse que se ele tivesse falado teria sido espancado e maltratado, mas ele respondeu: “Creio que o Papa mesmo não o teria permitido, pois ele é um homem de bom senso e humanitário”. Na sua segunda viagem à Suíça ele passou a maior parte do tempo em Nyon em casa do seu pai onde o clima lhe era excelente. Todos os dias saía para passear a cavalo, o que o fez melhorar consideravelmente. Causou-lhe grande impressão a incredulidade ou ateísmo dos literatos, especialmente na Europa, nessa época. Ele assim descreve a situação moral do povo: “O jogo e a vaidade no modo de vestir, os divertimentos ilícitos e o amor ao dinheiro, descrença e falsa filosofia, leviandade de espírito e o temor dos homens e o amor ao mundo são os pecados princi pais com que Satanás tem cativado o povo neste lugar. O materialismo é comum: o deismo e socinianismo são comuns; e um grupo de livres pensadores, os que cultivam Voltaire e Rousseau, Boyle e Mirabeau estão resolvidos a destruir o cristianismo e o governo. Com uma das mãos sacodem o trono e com a outra derrubam os altares”. Ele se esforçou para levar todos os seus parentes a Cristo e não deixou de aproveitar todas as oportunidades para fazer bem aos seus patrícios.
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    Muitas coisas maishá que ele fez durant e a sua permanência na Suíça, mas a falta de tempo não no-lo permite narrar. 1. Sua relação com o colégio em Travecha. A Condessa de Huntingdon, uma mulher de muitas posses, era do movimento metodista e uma grande amiga dos metodistas, especialmente do Rev. George Whitefield, que era calvinista como ela. Ela fundou um seminário oferecendo oportunidade para a educação dos moços que se sentiam chamados ao santo ministério. As únicas condições exigidas dos aspirantes ao ministério, eram que estivessem verdad eiramente convertidos e inteiramente resolvidos a se dedicarem ao ministério. Não havia distinção de seita (grupo doutrinário); qualquer moço de qualquer igreja evangélica podia se matricular e depois de completar o curso podia identificar -se (servir) com qualquer igreja. A Condessa precisava de alguém que pudesse administrar o seminário. E tendo Fletcher todas as qualidades necessárias , ela o convidou para assumir o cargo. Como o alvo da instituição era tão digno e de acordo com os seus ideais, ele aceitou o convite, sem qualquer remuneração. O seminário prosperou e as visitas feitas ocasionalmente por Fletcher foram muito abençoadas por Deus. A vida espiritual dos alunos desenvolvia-se em harmonia com o seu progresso nos estudos. Estavam nestas circunstâncias quando se levantou uma divergência entre alguns professores e Fletcher. A Condessa e certos professores queriam que todos os dirigentes do seminário fossem calvinistas em teologia. Esta foi a origem da divergência entre eles. Um dos professores foi despedido e assim alega o motivo de sua demissão: “Eu fui despedido da minha colocação, não por deficiência intelectual ou moral, mas exclusivamente porque não acredito na doutrina da predestinação absoluta” (que, diferentemente da fé na salvação pela graça, defende a doutrina de que as pessoas são escolhidas por Deus antes de seu nascimento para serem salvas ou não). Se perguntarmos porque é que Fletcher deixou o seminário onde tinha feito bom trabalho e para o qual tinha aptidões, a resposta é: que os princípios básicos do seminário foram violentados, e, por isso, não podendo conscienciosamente aceitá-lo, resolveu pedir a sua demissão. Ele escreveu uma carta à Condessa queixando-se das mudanças radicais que tinham se efetuado no seminário; mais tarde visitou o seminário para conhecer mais exatamente as condições. Depois desta visita ficou convencido que não era possível aceitar as novas condições e, por isso, pediu a sua demissão, dizendo: “Não podia mais, como um homem honesto e sincero, ficar no Seminário. Retirei-me fazendo votos para que a Condessa pudesse achar um homem competente para dirigir a instituição sob o espírito partidário (devido a opção pela doutrina calvinista), coisa que eu não podia fazer”. VI – SUA ATITUDE COMO POLEMISTA Quando pensamos em John Fletcher, lembrando-nos do seu espírito, estranhamos que ele se tornasse um polemista. Ele mesmo disse: “Parece-me que estou sonhando, quando me lembro que tenho escrito sobre assuntos de controvérsia! Nunca imaginei escrever sobre tal assunto”. O motivo que o levara a entrar neste terreno era o seu amor à verdade. O espírito de Antinomianismo que se tinha manifestado no meio evangélico e o ataque feito a João Wesley por
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    ter ele publicadouma Carta Circular em que defendia a doutrina Arminiana (salvação pela graça de Deus e não por predestinação) e a resolução que o Seminário da Condessa tinha assumido para com aqueles que não eram Calvinistas, tudo isto concorreu para fazê -lo entrar na arena da controvérsia para defender o que ele julgava ser verdade. Este período de controvérsia durou alguns anos. A obra principal que ele escreveu contra o Antinomianismo é o que se chama Fletcher’s Checks. Esta obra abrange dois grossos volumes e além disto escreveu mais dois sobre pontos de controvérsia, ou em forma de cartas ou panfletos. Durante todo esse tempo em suas discussões, sabia distinguir entre uma pessoa e suas idéias. Nunca entrou em terreno pessoal em discussões e, por isso, sempre mantinha o respeito de todos os seus adversários, mesmo que não pudesse conservar a amizade deles. Ele nunca atacou um indivíduo, porém os seus erros. João Wesley dando o seu parecer sobre as obras de Fletcher diz: “Quanto bem tem resultado da publicação daquela Carta Circular! Foi ela que, felizmente, provocou Fletcher a escrever os seus “Checks to Antinomianism” sobre os quais fica-se numa dúvida, não sabendo o que se admirar mais, se a clareza da linguagem, tal como nenhum estrangeiros jamais escreveu, se a força e clareza dos seus argumentos; ou a mansidão e doçura de espírito que se revelam através das suas páginas. E tal é a força dessa verdade, que não me admiro que um pregador idoso, resolvido a viver e morrer em suas opiniões, quando alguém insistia que ele lesse esta obra, respondeu: “Não, eu nunca hei de ler os “Checks” do Sr. Fletcher, pois se o fizesse, ficaria com a mesma opinião dele”. A seguinte citação de Joseph Benson nos revela o espírito de Fletcher: “Quando alguém dizia algo desagradável acerca dele ou dos seus livros, se o nome da pessoa que tivesse dito, fosse referido, ele fazia parar imediatamente o narrador, e fazia uma oração em seu favor. Não consentia que alguém falasse mal dos seus adversários. Estava sempre pronto a lhe oferecer as mesmas desculpas que ele gostava de que com ele fizessem nas mesmas circunstâncias”. VII – SEU CASAMENTO Fletcher casou-se com Miss Bousanquet, no dia 12 de Novembro de 1781. Devemos-nos lembrar que a saúde de Fletcher melhorou bastante durante a sua segunda visita à Suíça. Eles eram amigos por mais de vinte anos antes de se casarem, mas devido ao trabalho de cada um não foi possível pensar em casamento mais cedo. Miss Bousanquet cuidava dos pobres e órfãos e era uma senhora muito piedosa. Desde o primeiro dia nem que se encontraram começou um sentimento mútuo entre eles, porém Fletcher deixou de se comunicar com ela por vinte anos. Depois do casamento foram para Madeley onde viveram quase quatro anos juntos antes da morte de Fletcher. Era um casal feliz. Ela cuidava dele com muito carinho. O estado de sua saúde melhorou sob o tratamento e cuidado de sua esposa. Os últimos dias foram cheios de atividades, de bênçãos e de paz. O seguinte trecho escrito pela sua esposa revela o cuidado que tinha dele: “Para comigo ele sempre se mostrou carinhoso e bondoso. Minha alma, meu corpo, minha saúde e meu conforto eram a sua preocupação diariamente. Não tivemos nenhum pensamento do passado ou presente que ocultássemos de propósito um do outro. O meu adiantamento (crescimento) espiritual era o seu maior interesse; e constantemente ele me lembrava disso, convidando-me a andar mais perto de Deus, e dizia: ‘Oh! Minha querida, peçamos a graça de Deus para nos ajudar na hora da morte; pois estamos aqui por muito pouco tempo’.”
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    VIII – SEUCARÁTER E SUA MORTE O caráter do homem consiste nos seus pensamentos, palavras e obras. 1. Um resumo de características. A vida de John Fletcher se caracterizou pelo amor, caridade, fé, humildade, paciência, abnegação, generosidade, honestidade, gratidão, sensibilidade, bondade e corte sia. Realmente esta categoria de palavras serviria de esboço para sua biografia. Se procurássemos incidentes em sua vida para ilustrarmos estes característicos, encheríamos muitas páginas. 2. Alguns dizeres dele. “A dor é o esforço da nossa natureza decaída, preparando-nos para o mundo da felicidade”. “A coisa principal é estarmos empregando o nosso tempo com proveito”. “Vamos amar este bom Deus que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna”. “Eu e o leitor não temos mais nada a fazer senão morrer para tudo o que é pecaminoso em nossa natureza e orar pedindo o poder de uma vida sem fim”. “Em Jesus o tempo e a distância são perdidos. Ele é a vida eterna e universal, da justiça, da paz e da alegria”. “A simplicidade de intenção e a pureza de afeição atravessarão o inferno”. “Eu não peço nada a não ser mais graça”. “Graças a Deus encaro com calma o nosso último inimigo”. “Resignação completa à vontade de Deus derrota mil tentações, e confiança em nosso Salvador nos leva suavemente através de mil cuidados”. “Deus nos livra de nós mesmos e de Satanás: o demônio interno e externo”. “Temos de ser salvos pela fé e esperança, até que sejamos salvos pelo amor perfeito e até que sejamos participantes da glória celestial”. “As verdades que eu prego aos outros são as mesmas das quais me alimento”. “Nós somos criaturas pobres, porém temos um bom Deus sobre quem podemos lançar todos os nossos cuidados, e que constantemente nos sobrecarrega de modo que poderemos descobrir a bondade, poder e constância dele”. “A morte se manifesta no corpo, a ressurreição na alma; a nossa alma é o nosso verdadeiro ser”. 3. Sua morte. Alguns meses antes da sua última doença, tinha a impressão de que o fim não distava. Sentia a presença de Deus consigo de um modo especial. Um dia disse à sua esposa: “É uma coisa maravilhosa sentir a presença de Deus pela fé num sentido tão real que não há inclinação de
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    fugir dele nemqualquer desejo de excluí-lo do coração. Porém isso não me satisfaz. E às vezes sinto tantos raios de luz e amor, tais rajadas, como se fosse, do ar celestial que quase me levam a alma para a glória! Mas não me acho satisfeito. Quero estar cheio da plenitude de Deus”. E poucos dias antes de sua morte ele testemunhou dizendo: “Estou cheio do amor de Deus, gloriosamente cheio”. Depois de adoecer ele quis dirigir o culto no domingo, mas a esposa achou imprudente atendê-lo. Ele não quis se conformar, dizendo que era a vontade de Deus. Então ela não o quis contrariar mais. Ele pregou e administrou a santa ceia, porém quase desmaiou duas vezes. Pregou sobre a misericórdia de Deus. Foi acometido de uma forte febre e por alguns dias, quase não pôde falar e combinou com a sua esposa para usar um sinal: batendo o dedo – era o sinal que “Deus era Amor”. E entre as últimas palavras que pôde enunciar foram: “Deus é amor”. Caiu num sono e dormiu dezoito horas e suavemente a sua alma se retirou do corpo, em 14 de Agosto de 1785. No dia 17 do mesmo mês foi enterrado no cemitério da Igreja de Madeley no meio das lamentações de milhares de pessoas. Entre muitas que deram o seu testemunho das suas muitas boas qualidades e virtudes, só acrescentaremos o de João Wesley que diz: “Eu o conheci intimamente por espaço de trinta anos. Conversei com ele cedo de manhã, ao meio dia e à noite, sem qualquer reserva durante uma viagem de muitos quilômetros. E durante esse tempo não o ouvi empregar nenhuma palavra imprópria, ou cometer qualquer ato impróprio. Para concluir: No lapso de oitenta anos tenho conhecido muitos homens distintos, santos na vida e no coração. Mas não conheci um homem que lhe seja igual: um homem uniforme e profundamente devotado a Deus. Não tenho encontrado um homem quer na Europa, quer na América que fosse tão exemplar em su a vida como ele foi. E não tenho a esperança de encontrar um outro igual a ele antes de chegar ao céu”.
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    V A vida deThomas Coke, o Missionário do Movimento Metodista (1747-1814) O metodismo é um dos maiores fatos na história da Igreja Moderna. Diz Isaak Taylor: - “O movimento metodista é o começo da política religiosa moderna”, e o Deão Stanley diz: - “O movimento metodista tem moldado o espírito religioso do Protestantismo dos povos que falam o idioma inglês”. Entre os agentes humanos, pelos quais esse movimento foi promovido, Thomas Coke tem o seu lugar ao lado de João Wesley. Logo no princípio do seu trabalho de evangelização, em 1742, Wesley almejava um ajudante dentre os clérigos da Igreja Anglicana, mas teve de esperar mais de trinta e cinco anos até o conseguir. Mas, pela providência de Deus, Thomas Coke apareceu, um jovem bem preparado, espiritual e talentoso. E apareceu numa época em que Wesley, já velho, precisava de um homem de seu tipo para aliviar-se, repartindo com ele a tarefa de estender o trabalho em todos os recantos da terra. I – NASCIMENTO, PAIS E EDUCAÇÃO A 9 de outubro de 1747, na cidade de Brecom, ao sul do país de Galles, nasceu Thomas Coke. Seu pai, Bartholomeu Coke, era médico. Sua mãe, Anna Philips, era uma senhora piedosa e de família distinta. Este casal havia perdido todos os seus primeiros filhos e receava chegar à velhice sem herdeiros. Mas veio o filho Thomas, o qual dedicaram cedo ao serviço do Senhor. O menino crescia e se desenvolvia num ambiente cristão. Tinha olhos escuros, cabelos pretos, estatura baixa, corpo robusto e formoso, modos agradáveis e atraentes. Não foi rapaz de extraordinária inteligência ou talento, mas, pela dedicação aos estudos, alcançou grande desenvolvimento. Completou o curso de preparatórios no Colégio da Igreja de Cristo, em sua cidade de Brecom. Logo depois matriculou-se no Jesus College, Universidade de Oxford, a 11 de abril de 1764, com dezesseis anos de idade. Durante os quatro anos que passou neste colégio, f oi muito tentado pelas coisas mundanas, pois nesta época os colégio da Inglaterra estavam infestados pelo ateísmo, pela incredulidade e pela imoralidade. Mas, embora cercado destes perigos morais, ele
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    saiu com féem Deus, não obstante contaminado pelos víc ios de jogar baralho, beber vinho e dançar. As suas habilidades sociais contribuíram para causar -lhe essas infrações morais. Tendo aceitado o deísmo, não achou, neste sistema, satisfação para sua alma. Dois livros que lhe caíram às mãos foram-lhe uma grande benção. Lendo “A prova das testemunhas”, pelo bispo Sherlock, a sua mente ficou purificada do ceticismo, e, lendo, o tratado do Dr. Witherspoon, sobre a “Regeneração”, a sua alma se despertou. Assim sentia-se chamado para o ministério, recordando as impressões que tivera, quando pequeno. Voltando para casa, depois de receber a colação do grau de bacharel, tornou-se apreciado por seus conterrâneos, que o elegeram vereador da cidade de Brecom, mister que fora o ofício de seu pai por muitos anos. Os serviços prestados por ele contribuíram para o desenvolvimento da cidade e deram satisfação aos seus concidadãos. Assim, no limiar da vida, aquele moço de vinte e cinco anos, hábil, culto e de uma família distinta e abastada, estava ocupando uma posição elevada na sociedade. Que devia fazer? Ficaria ocupando o mesmo lugar de seu pai, seguindo uma carreira secular? Não, o seu coração pedia outra coisa. Queria seguir o ministério de Jesus Cristo. II – SUA PIEDADE E CONVERSÃO Naqueles dias os clérigos consideravam a sua vocação como qualquer profissão secular. Thomas Coke, portanto, entrou no ministério conformando-se com tudo que era de praxe naquela época. A 10 de junho de 1770 foi ordenado diácono e a 23 de agosto de 1772, ordenado presbítero na Igreja Anglicana. Logo após a sua ordenação de diácono foi nomeado para uma paróquia humilde no condado de Somersetshire. Permaneceu em Road pouco tempo, sendo removido para South Petherson, no mesmo condado. Visto haver entrado no ministério como se este fosse uma profissão secular, não recebeu o necessário despertamento espiritual. Mas, quando foi ordenado presbítero, em repetindo as palavras do ritual: - “Santo Espírito, vem nossas almas inspirar, e com o fogo divinal nossa mente iluminar”, ele sentiu profundamente que ainda não conhecia o “fogo divinal”. Não experimentara ainda o que se chama – conversão. Mas, resolveu buscá-la e Deus o ajudou, fazendo-o seguir um caminho que até então ignorava. Chegou a experimentar a bem aventurada vida do amor em Cristo. O que o ajudou a conseguir tal experiência, foi a sua sinceridade nas suas pregações. Pregava sempre sobre temas evangélicos, lia sermões e livros sobre o mesmo assunto. Seu espírito estava bem preparado quando um dos pregadores leigos, Thomas Maxfield, visitou o povo no mesmo local. Sabendo que o clérigo da paróquia era um homem sincero e zeloso, visitou-o e conversou com ele muito tempo. O resultado desta visita foi sentir cada vez mais estimulado o seu desejo de alcançar a santidade de vida, o que se manifestou mais e mais em suas pregações, de sorte que logo a sua igreja não comportava o povo que vinha ouvi-lo. Um dia um amigo deu-lhe o Diário e alguns Sermões de Wesley e o “Appel” e “Checks to Antinomianism” por Fletcher. Estes livros contribuíram grandemente para levá-lo às fileiras dos metodistas. A maior dificuldade que teve para se reconciliar com os metodistas encontrou-a ele em os seus preconceitos religiosos, contra qualquer não-conformista. Amava a Igreja Anglicana e
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    queria defendê-la. Mas,pouco a pouco, os seus preconceitos foram-se dissipando até o dia em que visitou um amigo, em Devaushire, e encontrou-se com um certo obreiro metodista. Esse obreiro metodista era um homem de pouca instrução, mas de alguma experiência religiosa, que lhe deu bom conhecimento das coisas espirituais, conhecimento que serviu para encaminhar a Thomas a uma experiência vital na sua vida religiosa. Mais tarde Coke, referindo-se a este humilde servo do Senhor, dizia que devia mais a ele, do que a qualquer outra pessoa, a sua conversão. Voltando para sua paróquia, depois desta visita, pregava agora não tanto teoricamente sobre a vida da fé, mas praticamente. Um despertamento logo se manifestou na comunidade, com o qual, porém, veio uma contrariedade por parte dos que n ão queriam tão seriamente seguir a Cristo. A obra da graça não somente se estendia entre o povo, mas também no seu próprio coração. Ele começou a pregar sem manuscrito e a orar sem o livro de orações; também introduziu nos cultos o canto de hinos pela congregação. Alguns dos seus paroquianos, porém, não gostaram disto e começaram a oferecer oposição a este movimento. O resultado foi vir ele a ser violentamente expulso da sua paróquia, ficando então contrariado pelo mundo, pela carne e pelo diabo, pelos homens, e, enfim, por todos os membros da Igreja. Despedindo-se de sua paróquia, sentiu-se tentado a vingar-se da injustiça que lhe fora feita, mas depois de pregar ao ar livre em frente à Igreja, à hora da saída do culto, despediu-se do povo, pois tinha muitos amigos entre os seus paroquianos. Agora erguia-se a questão: “Que Deveria fazer?” Tendo ouvido falar, havia mais de um ano, que Wesley costumava pregar o Evangelho em Taunton, certo dia resolveu ir até lá ouvi-lo, fazendo a cavalo os trinta quilômetros a percorrer. II – TORNANDO-SE METODISTA 1. Encontro com João Wesley Em Taunton encontrou-se com João Wesley que lhe disse: - “Meu irmão, levante-se e pregue o Evangelho a toda a gente”. Dai a um ano encontrou-se novamente com Wesley que acerca desse encontro dissera: “Fui caminhando até Taunton, com Coke, que, sendo despedido de sua paróquia, disse adeus à sua fama e está resolvido a lançar conosco a sua sorte”. Então Wesley, depois de trinta e tantos anos de procura, achou um ajudante na pessoa do Rev. Coke e, por assim, chegou a realizar aquilo que almejara por mais de trinta e cinco anos: um clérigo da Igreja Anglicana, para o ajudar. Trinta e cinco anos antes, ele dissera: - “Não conheço nenhum homem que esteja pronto a conosco lançar a sua so rte. E duvido que haja algum, porque sei quão apegados são ao serviço do mundo e do diabo antes de deixarem a Universidade”. Mas Deus havia libertado a Coke, que estava pronto para o trabalho do Senhor. 2. Identificando-se com os Metodistas. Já por sua experiência cristã, já pelas provas e perseguições, era metodista; só faltava unir-se formalmente a esta Igreja o que fez a 5 de agosto de 1777, por ocasião da Conferência Anual que se realizou em Bristol.
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    Sendo ele jáformado e ordenado, foi recebido em plena comunhão sem fazer um curso de teologia ou passar por qualquer outra formalidade. Wesley escreve o seguinte no seu Diário, com data de 19 de agosto de 1777, a respeito de Coke: “Tendo abandonado o seu honrado nome, resolveu lançar com os metodistas a sua sorte”. Desde esta data até a sua morte, nunca deixou os metodistas. Wesley tinha então setenta e cinco anos e Coke o auxiliava bastante, atendendo à sua correspondência e demais trabalhos entre as Sociedades. O preparo que possuía o capacitava a prestar valiosos serviços em questões legais e seculares que exigiam solução. De ano em ano recebia a sua nomeação como pregador de certo circuito, trabalhando em toda parte onde os seus serviços mui valiosos fossem requeridos. João Wesley o investiu dos trabalhos especiais, como seu representante. Embora sua pouca idade – trinta e cinco anos, foram-lhe confiados problemas que seriam difíceis para um homem de mais idade. Mas ele era um homem de extraordinária magnanimidade e conseguiu coisas que o próprio Wesley talvez não teria conseguido. Em uma das viagens especiais a que foi enviado por Wesley, ele foi visitar o povo de South Petherson. O ânimo dos seus antigos paroquianos havia-se mudado completamente. Mesmo as pessoas que mais contribuíram para o expulsar, agora se esforçavam para manifestar sua satisfação por sua visita. Quando foi expulso da paróquia, ao deixar seu povo, foram tocados os sinos, em desagrado, mas agora, ao voltar, o clangor dos sinos do templo bem traduzia o entusiasmo e a satisfação de todo o povo, que lhe dava as mais calorosas e significativas boas vindas. Por ai se vê quanto muda o sentimento dos homens, de um tempo para outro. Nesta cidade ele pregou a uma multidão de mais de duas mil pessoas. Mas não foi tão bem recebido na cidade de Ransbury, onde o povo fez um motim, quando ele quis pregar junto a uma árvore, ao ar livre, pois perseguiram-no, despedaçando-lhe a batina. Mas ele não desanimou. Continuou seu discurso sob uma chuva de pedras e de paus. Não podendo eles, por essa forma, fazê-lo desistir, tomaram uma bomba do corpo de bombeiros e, fazendo jorrar abundante água sobre sua cabeça, obrigaram-no a deixar de pregar, embora um número notável de cidadãos desejasse ouvi-lo. Retirando-se da praça pública, virou-se para os amotinados e disse que havia outros empregos para as mangas de água, e que a Providência poderia suscitá-lo para lhes ensinar o uso próprio destes instrumentos. E não tardou. Coisa esquisita deu-se no prazo de quatorze dias. Manifestou-se um grande incêndio naquela cidade, que destruiu quase todas as casas ao redor da praça. Desta novamente não souberam utilizar-se convenientemente da bomba que possuíam. Um dos mais relevantes serviços que prestou à Igreja Metodista na Inglaterra, foi o que fez formulando um plano pelo qual a Igreja Metodista se constituiu em corporação jurídica. Essa questão já por muito tempo vinha incomodando a João Wesley, e o plano que tinha redigido, até então, não havia produzido efeito devido a imperfeições diversas. O problema era o seguinte: - Como podiam as sociedades adquirir bens imóveis com todos os seus direitos e interesses garantidos? Para criar uma junta de depositários, para conservar e zelar de uma propriedade local, dificuldades surgiam por causa do sistema de itinerância. Ainda mais. João Wesley, criando estas juntas de depositários, temia perder o seu direito de intervir nas emergências de disciplinas e na organização do trabalho, que, por ser novo e de
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    sua iniciativa pessoal,necessitava fosse organizado conforme os planos por ele mesmo elaborados. O problema das propriedades, portanto, era muito sério. O plano que Wesley tinha praticado até então, com algumas exceções, era ter todas as propriedades em seu próprio nome. Mas tal plano, naturalmente, não podia ser perpetuado, pelo que se tornava urgente que alguma medida fosse tomada para sanar este mal nascente na nova Igreja. Já existiam alguns casos em que os depositários recusavam aceitar os pregadores mandados por Wesley, o que concorreria para a destruição da Igreja nascente, devido ao sistema de itinerância por ele estabelecido. É justamente ligado a essa situação que aparece Coke no meio metodista. Agora vamos ver a parte que teve em providenciar uma saída da situação embaraçosa em que se achava a Igreja. Ele estabeleceu as normas da Magna Carta do Metodismo Britânico, que foi vazada sobre o princípio segundo o qual todas as propriedades da Igreja deveriam ser registradas em nome da Conferência Legal, constituída de cem homens, de cem membros, nomeados por Wesley, sendo que as vagas do futuro seriam preenchidas pela Conferência. Assim foi a Igreja Metodista constituída em pessoa jurídica perpétua. Coke e Wesley foram pela Conferência incumbidos de legalizar o plano perante as autoridades competentes. Organizado o plano e tornado legal, foi publicado, incluindo-se os nomes dos cem pregadores itinerantes, nomeados membros da Conferência. Houve uns cinco pastores, cujos nomes não foram incluídos na lista dos cem e que ficaram amargurados com Coke, alegando que ele influíra para não fazer seus nomes constar na lista. Mas Wesley respondeu a esta crítica, dizendo: - “Ele não queria, e não podia”, assumindo toda a responsabilidade no caso. É difícil dizer ou calcular o grande valor que esta medida teve na fundação do Metodismo na Inglaterra. Agora estava garantida a organização da Igreja Metodista. A morte de Wesley não mais causaria qualquer perturbação na administração da Igreja. Há, portanto, ocasiões em que um homem de grande capacidade tem mais valor para um movimento do que milhares. Durante sete anos de serviço entre os metodistas, Coke havia desempenhado bem o seu ministério, pois já havia conquistado a confiança de seus colegas e a de João Wesley. Como já tivesse contribuído bastante para dar permanência ao metodismo na Grã-Bretanha foi então chamado para organizar o metodismo americano sob uma forma de governo episcopal. Wesley o convidou e o ordenou como Superintendente Geral do trabalho metodista na América. Não havia então outro homem entre os metodistas que estivesse em condições de prestar mais relevantes serviços à causa do que o Rev. Thomas Coke. O próprio Wesley não poderia fazer o que fez Coke. III – TRABALHO NA AMÉRICA. O trabalho metodista na América já havia progredido bastante, antes de Coke haver sido mandado para trabalhar ali, pois Francis Asbury fora enviado antes disto, em 1777, por Wesley para fazer a propaganda da Causa. Havia muitos crentes nas sociedades organizadas por ele e por seus ajudantes. Mas, por falta de pregadores ordenados, o sacramento da Santa Ceia não podia ser administrado na Igreja. E os clérigos das Igrejas Episcopais (Anglicanas), aliás, não davam muita importância ao
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    movimento conduzido porWesley, e os Metodistas, não tendo, por essa razão, muita paciência para com eles, passaram assim alguns anos sem participarem da Santa Comunhão. A falta de pastores ordenados, finalmente, agravou-se por tal forma que os crentes começaram a exigir que os pregadores e evangelistas ministrassem os sacramentos mesmo sem ordenação, pelo que a Igreja-mãe (Wesley e os metodistas na Inglaterra) com urgência teve de providenciar medidas em prol da Igreja nascente na América. Wesley, depois de refletir bem sobre este problema, convidou a Coke para uma conferência particular, em fevereiro de 1784. Assim Wesley introduziu o assunto: “Visto que a revolução separou para sempre os Estados Unidos da mãe pátria e o Estabelecimento Episcopal (a Igreja Episcopal Anglicana deixou de ser a Igreja oficial do novo país, os EUA) foi completamente abolido, as Igrejas têm -se apresentado com aspecto de deplorável decadência. Um apelo nos foi dirigido por parte dos irmãos metodistas da América, pela pessoa de Francis Asbury, insistindo para que qualquer forma de governo fosse adotada para satisfazer as exigências da atualidade. Tenho pensado e refletido seriamente sobre o plano que lhe desejo revelar. Tenho -me esforçado, em cada passo que tenho dado, por conservar-me tão fiel à Bíblia quanto possível, e espero agora estar agindo de acordo, ainda com a Palavra de Deus. Notando o procedimento da Igreja Primitiva, nas épocas sem precedente histórico de qualquer espécie, tenho apreciado o modo pelo qual a Igreja não permitia a qualquer bispo estranho intervir na ordenação dos seus bispos. E, morrendo um dos seus bispos, aquela igreja ordenava o seu sucessor tirando-o do número de seus presbíteros, pela imposição das mãos. Esta foi a praxe da Igreja antiga por mais de duzentos anos, até os dias de Dionysio. Como presbítero desejo que o irmão aceite ordenação e vá para a América nesta qualidade para superintender as sociedades ali”. Para mostrar que Wesley não tinha chegado irrefletidamente a esta conclusão, basta reproduzir o seguinte trecho da Ata da Conferência de 1786: “Julgando ser isto (a saber, as condições excepcionais das Sociedades Metodistas na América, depois da guerra) um caso de grande urgência, resolvi dar este passo. Para evitar contendas recusei, por muitos anos, tomar esta medida. Exercitei, segundo a graça de Deus, o poder que julgo ter recebido do Grande Pastor e Bispo da Igreja. Nomeei três dos nossos obreiros para ajudarem nesta tarefa, não somente pregando a Palavra de Deus, mas também administrando a Santa Ceia e batizando os seus pequeninos”. Isto basta para provar que Wesley não foi arrojado nas medidas que tomou em providenciar os dons da graça de Deus para os irmãos do continente americano. Quando Wesley assim se externou acerca do trabalho e convidou o Rev. Coke para executar o plano, este hesitou em aceitar a incumbência, pedindo algum tempo para refletir sobre o caso. Dois meses depois comunicou que, considerando que a obra era do Senhor, estava por isso pronto a aceitar o cargo. Em agosto do mesmo ano, Wesley chamou a Coke para estar com ele em Bristol. Com ele chamara mais dois pregadores, a saber, Richard Whatcoat e Thomas Vasey, que foram ordenados presbíteros na mesma ocasião para irem com Coke para a América. No mesmo dia, a 1º de setembro de 1784, Wesley ordenou a Coke como superintendente das Sociedades Metodistas da América e lhe deu o seguinte certificado de ordenação: “A todos que este virem, João Wesley Recente Fellow of Lincoln College in Oxford, presbítero da Igreja da Inglaterra, saúde. - Considerando que a grande maioria do povo das províncias do sul da América deseja continuar sob os meus cuidados e também adere à doutrina; - Considerando que a disciplina da Igreja Anglicana está muito perturbada por falta de ministros que administrem os sacramentos do batismo e da Santa Ceia, segundo o ritual da dita Igreja;
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    - Considerando nãoexistir qualquer outro meio para suprir a falta de ministros; Saibam todos que eu, João Wesley, julgo que eu mesmo me sinto providencialmente chamado, nesta época, por parte de alguns irmãos, para o trabalho do ministério na América. E, sob a proteção de Deus, o Todo Poderoso, e visando a glória de Deus, apoiado e auxiliado pelos outros ministros já ordenados, acabo de ordenar como Superintendente, pela imposição das mãos e pela oração, a Thomas Coke, doutor em Direito e presbítero da Igreja Anglicana, homem que julgo bastante idôneo para este serviço. E por meio deste recomendo a todos como uma pessoa habilitada para gover nar o rebanho do Senhor. E, para garantia da autenticidade deste documento, eu, João Wesley, o assino a 2 de setembro de 1784 (mil setecentos e oitenta e quatro), era de N. S. J. C.” Wesley também fez uma abreviação da liturgia e dos “Trinta e Nove Artigos de Religião” da Igreja Anglicana e os enviou à Igreja Metodista Americana por intermédio de Coke. As modificações que Wesley fez revelam a sua idéia acerca da forma de governo que a nova Igreja devia adotar. Levando esses documentos, Thomas Coke, em companhia de mais dois colegas, Whatcoat e Vasey, embarcou em Bristol para a América, a 18 de setembro de 1784. A viagem foi péssima, levando quarenta e seis dias para chegar a Nova York, onde foi bem recebido pelos irmãos metodistas, hospedando-se em casa de Sands, um dos depositários da Igreja denominada “John Street Church”. Em seguida, o plano de Wesley foi apresentado a John Dickens, pastor da “John Street Church”, o qual o achou ótimo e exeqüível na América. Passando alguns dias encetaram viagem a cavalo, pregando e administrando a Santa Ceia nos centros maiores, para animação do povo. Para apreciarmos melhor os pensamentos e sentimentos dos dois homens destinados a organizar uma igreja nova no Novo Mundo, vamos citar alguns trechos tirados dos diários do Sr. Coke e de Asbury. Coke, havendo pregado na capela nova, em Dôres, Nova Jersey, ia administrar a Santa Ceia quando Asbury entrou. “Depois do sermão, escreve Coke, um homem simples robusto, aproximando -se de mim, no púlpito, deu-me um ósculo. Julguei que não podia ser outra pessoa senão Asbury, e não me enganei. Depois de pregar, administrei a comunhão a quinhentos ou seiscentos comungantes, e depois tivemos uma reunião social, que foi a melhor que tenho assistido, exceção feita à de Charlemont, na Irlanda. Depois de jantar em companhia de onze dos nossos pregadores, em casa da nossa irmã Barratt, não muito distante da c apela, Asbury e eu tivemos uma conferência em particular acerca das nossas futuras ocupações na América. Ele me disse que tinha recebido algumas informações quanto à minha chegada na América, e, julgando que, provavelmente, me encontrasse neste dia, esperando receber alguma comunicação de Wesley, resolvera convocar todos os pregadores para um concílio, o qual, ad libitum da congregação, passou a ser denominado Conferência.” “Nesta Conferência autorizaram a Freeborn Garrettson, a convocar todos os pregadores do país para a Conferência Geral, a se realizar em Baltimore, por ocasião do Natal. Asbury organizara um itinerário que abrangia algumas duzentas léguas, para ser percorrido até o Natal.” “Ele também me deu emprestado um excelente cavalo e cedeu-me também seu empregado Harry, para realizar esta viagem. Tenho muito respeito a Asbury por demonstrar muita
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    sabedoria e consideração,por ser muito humilde e, além disso, mesmo, quase imperceptivelmente, por ter grande força de comando e autoridade. Eu e ele com binamos usar a nossa influência para fundar um colégio ou uma escola, sob os mesmos princípios do Kingswood School.” “Batizei aqui cerca de trinta ou quarenta crianças e, com maior satisfação ainda, batizei os adultos desta Igreja”. Essa foi a impressão que Coke teve de Asbury, e agora vamos ver qual foi a impressão que Asbury teve de Coke. Diz ele: “Não tive oportunidade de conversar com eles (Coke, Whatcoat e Vasey) antes do culto. Grande foi a minha surpresa ao ver o irmão Whatcoat (pois Asbury o conheceu na Inglaterra) ajudando na administração da Santa Ceia. Ainda não posso compreender o motivo da visita desses irmãos aqui na América, mas espero que seja pela vontade de Deus. O plano de organizar os Metodistas numa Igreja Episcopal Independente foi discutido pelos pregadores, sendo combinado que fosse realizada uma Conferência Geral, na Natal próximo”. Deste dois pareceres não é difícil distinguir o ponto de vista destes guias do Movimento Metodista na América. Coke queria agir segundo as instruções de Wesley, sem consultar os pregadores americanos, enquanto Asbury, sendo também inglês, queria agir de acordo com o parecer dos seus colegas de ministério na América. Asbury não desejava tomar qualquer deliberação, quanto à fundação da Nova Igreja, sem o apoio de todos os pregadores, mesmo que Wesley houvesse ordenado o contrário, ao passo que Coke desejava agir seguindo o mandato de Wesley. Devido a essa precaução de Asbury o Metodismo Episcopal Americano incutiu em seu seio o espírito democrático e liberal. Por isso o espírito republicano, desde o princípio tem caracterizado a Igreja Metodista Episcopal da América. O espírito que levou os norte -americanos a lutar pela independência, isto é, para obter um governo representativo, também influiu poderosamente no ânimo dos fundadores dessa Igreja. Assim W. A . Candler descreve os acontecimentos dessa época em que foi organizada a Igreja: “Na sexta-feira, a 17 de dezembro de 1784, Asbury e Coke, bem como Guilherme Black, Vasey e outros, foram a Peny Hall, à casa de Gough, a mais elegante no Estado de Maryland. Naquela confortável habitação, a umas quatro léguas de Baltimore, realizou-se um Concílio, composto das pessoas acima mencionadas e de Whatcoat que ali chegou no dia 19 de dezembro, e continuou até ao dia 24 a preparar tudo para a Conferência. Que semana de trabalhos!” Quão profundamente tem influído aquele trabalho sobre o metodismo americano, promovendo o cristianismo nos Estados Unidos e adiantando a causa de Cristo através do mundo todo! A 24 de dezembro, manhã de intenso frio, os hóspedes de Peny Hall foram a cavalo a Baltimore e abriram a primeira sessão da notável Conferência de Natal, às 10 horas, na capela de “Lovely Lane”. A missão de Freeborn Garrettson em reunir os pastores, tivera o melhor êxito, estando presentes sessenta, dos oitenta e três pregadores. Para maior conforto dos irmãos da Conferência os ecônomos da capela de “Lovely Lane”, colocaram boas estufas no salão, onde se realizou a Conferência, proporcionando, assim, mais conforto aos delegados. Coke fez a seguinte observação a respeito dos membros da Conferência: “Constituem, deveras, um corpo de homens devotos, diligentes e fervorosos, sendo muitos deles ainda jovens”.
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    Igualmente jovens eramos doze apóstolos quando foram comissionados pelo Senhor Jesus Cristo. A maioria deles era constituída de jovens pescadores, e somente um deles alcançou a velhice. Ainda há João Batista que foi decapitado antes de contar trinta e cinco anos. Ambos os Superintendentes (“bispos”) desta Conferência tinham menos de quarenta anos de idade, sendo mais moços ainda os que presidiram a reunião. Nossos pais metodistas foram jovens, mas “cheios de fé e do espírito Santo”. Quanto não devemos nós a este grupo de jovens obreiros! Por ocasião desta notável Conferência organizou-se a Igreja Metodista da América. Não foi realmente este o intuito de Wesley. Ele queria providenciar meios pelos quais os metodistas americanos pudessem receber os sacramentos do Batismo e da Santa Ceia. Mas, quando o Superintendente Geral Thomas Coke ordenou Francis Asbury, respectivamente como diácono, presbítero e depois Superintendente das Igrejas Metodistas na América, também ipso facto (por isso mesmo), organizou a Igreja, pois foi constituído um ministério ordenado. E, além da ordenação, Asbury não queria exercer o ofício de Superintendente sem a aprovação dos pregadores, os seus colegas. Tanto foi a sua insistência a esse respeito, que Coke foi incluído na mesma categoria, sendo aprovado pela Conferência para exercer o ofício de Superintendente. A atitude que Asbury tomou em aceitar a ordenação pela imposição das mãos por parte de Coke, comissionado por Wesley para este fim, determinou o tipo do episcopado no metodismo americano. Asbury recusou aceitar ordenação pelas ordens de Wesley enquanto esse ato não fosse aprovado por seus colegas americanos. A categoria de bispo, na Igreja Metodista Episcopal, foi, pois, criada pela Conferência Geral, à qual são responsáveis. O papel de Coke não era fácil. Sendo um súdito da Inglaterra, vindo para trabalhar na América, tinha de acomodar -se ao novo ambiente em que se achava. Mas, sendo um homem hábil, jeitoso, verdadeiramente cristão, conseguiu fazer uma obra de alta importância na implantação do Metodismo na América. Quando quest ões difíceis e complicadas se levantavam, havia sempre para ele uma saída, uma solução mais ou menos satisfatória. A sua atitude para com a escravidão dos africanos no solo americano trouxe-lhe alguns embaraços, porém, com facilidade, conhecendo mais de p erto o povo e o meio, conformou-se em não atacar diretamente este mal. O seus sentimentos sobre esta questão eram inteiramente cristão, porém o método de exprimi-los provocou atritos desastrosos. Depois da Conferência do Natal os pregadores foram para seus campos, animados e contentes, porque se sentiam mais unidos agora, havendo resolvido alguns dos seus problemas que ameaçavam separá-los em grupos diferentes. O fato de Asbury e outros pregadores terem sido ordenados diáconos e presbíteros contribuiu largamente para unir a nova Igreja. Os sacramentos agora podiam ser administrados em seu meio. Asbury foi para as colônias do sul e Coke para as do norte, com o intuito de publicar a ata da Conferência. Pretendia também visitar as ilhas de Barbados, Trindade , etc, e voltar depois para a Virginia antes da Conferência anual de Maio. Mas por qualquer motivo ele mudou os seus planos, ficando nas colônias, pregando por onde passava. Quase perdeu a vida em uma noite quando atravessava um rio, depois de uma enchente . O cavalo foi arrastado pela corrente e ele lançou a mão a uma árvore que havia sido arrancada pela correnteza e seguia na onda.
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    Apegando-se a ela,foi flutuando até que a mesma bateu numa ilhota, donde fugiu para a barranca do rio. Isto sucedeu em tempo de frio. A roupa estava bem molhada. Procurou a casa de um fazendeiro, mas a família se achava ausente, encontrando somente alguns escravos. Um destes deu-lhe um terno de roupa, cheio de remendos. Vestindo-o pôs para enxugar a sua própria roupa junto a uma lareira. Teve de passar a noite, assim vestido, deitado no chão. Mas, não obstante ser graduado de uma universidade de grande fama na Inglaterra, não se desanimou em vista das dificuldades que se lhe apresentavam pelo caminho. Devido à posição que ele assumiu para com a escravidão, falando do púlpito contra este mal, foi muito perseguido em alguns lugares. Levantaram motins contra ele. Sua vida foi ameaçada em alguns lugares por onde passava. Lendo o seu diário encontra -se maior número de referências à escravidão nesta época da sua vida do que em qualquer outra. De fato o seu espírito estava saturado do assunto. Como na primeira Conferência Geral se houvesse resolvido não aceitar membros na Sociedade sem que fizessem a promessa de libertar os seus escravos e abster-se de adquiri-los, as Conferências Anuais ofereciam maiores oportunidades para agitar mais a questão, levando-a para o terreno da prática. Foi resolvido na Conferência realizada no Condado de Brunswick, em Virgínia, mandar um abaixo-assinado à Assembléia Geral da Virginia, pedindo que a escravidão fosse abolida ou que os escravos fossem emancipados gradualmente. Foi marcado um dia para Coke, em companhia de Asbury, visitar o general George Washington e pedir que ele assinasse a petição. Coke cegando em 25 de maio de 1785 a Alexandria, onde o general morava, encontrou-se com Asbury no dia seguinte, conforme prévia combinação. Os dois Bispos metodistas visitaram o General Washington , com quem jantaram. Acerca desta visita Coke assim fala: “Ele nos recebeu mui cortesmente e deu sobejas provas de sua democracia. Ele é, verdadeiramente, um cavalheiro. Logo após o jantar pedimos uma conferência em particular com ele e externámos o motivo da nossa visita, rogando-lhe que se dignasse assinar nosso ofício, caso sua posição lho permitisse. Ele nos afirmou que estava de pleno acordo com os dizeres da nossa petição e que já havia externado os seus sentimentos sobre o assunto aos seus colegas de Estado; mas que não achava bom assiná -la; contudo, se a Assembléia a tomasse em consideração, teria muito prazer em exprimir por carta, perante a Assembléia os seus sentimentos sobre o assunto. Convidou-nos a passar a tarde com ele e a pernoitar em sua casa, porém, os nossos compromissos em Anápolis, no dia seguinte, não no-lo permitiram”. Os sete ou oito meses que Coke havia estado na América, foram suficientes para que conquistasse a confiança e o amor dos pregadores americanos. Depois embarcou para a Inglaterra, no dia 2 de junho, tendo estado em conferência com seus colegas até meia noite do dia anterior. Sua despedida aos irmãos americanos foi tão tocante como a de São Paulo em Efésios. Ele, que estava tão acostumado a viajar e a separar -se dos seus amigos, não deixou de sentir-se contristado com esta despedida. O historiador Jerse Lee, diz: “Ao terminar a Conferência de Baltimore, o Dr. Coke embarcou logo para a Inglaterra. Ele desfrutava de muita admiração nos Estados Unidos, porém sofreu alguma oposição no sul de Virginia, por causa da maneira imprudente com que pregava contra a escravidão”. Realmente, Coke foi mais do que respeitado, pois foi um homem amado por seus colegas americanos, amizade esta de que muito era merecedor. Seria por demais extenso este artigo se fosse relatar tudo o que Coke fez em conexão com o trabalho metodista na América, nos anos de 1784 e 1804. Durante este período percorreu nove grandes circuitos, o ultimo em 1803 e 1804. Mas ele não se despediu do trabalho, senão em 1808. Resolveu-se nesta época que ele ficasse trabalhando somente na América, porém, devido às circunstâncias e necessidades do trabalho na Inglaterra e, especialmente, na Irlanda, teve de ficar na Bretanha. Seu trabalho na América foi bem recompensado. Depois da morte de Wesley, os
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    serviços de Cokeforam exigidos tanto na Inglaterra como na América, pois ele era o homem que exercia mais influência entre os metodistas após a morte de Wesley. A sua posição social, a sua cultura intelectual e espiritual, seus dons de administrador e seu zelo pela causa de Cristo em todo mundo, habilitavam-no para o serviço que, no momento, dele era exigido. De bom grado se entregava à causa do Mestre e se esforçava mais e mais para levar o Evangelho a todo o mundo. À medida que ia envelhecendo, o seu zelo missionário aumentava. A maior paixão que tinha era pregar o Evangelho a toda a criatura. Deixando de lado o serviço que prestou à Igreja na Inglaterra e na Irlanda, trataremos de seu trabalho missionário entre os pobres, tanto na Inglaterra como no estrangeiro. IV – SEU TRABALHO MISSIONÁRIO Mais do que outro qualquer sentimento era o espírito missionário que caracterizava a Thomas Coke. Uma vez identificado com os Metodistas, este espírito se apoderou dele de vez e não o deixou mais até ao fim da sua jornada. Tinha alguns recursos que herdou dos seus pais e adquiriu outros pelos dois casamentos que contraiu na última fase da sua vida. Morrendo sua primeira esposa poucos anos depois do casamento, deixou seus bens ao dispor de Coke. Também sua segunda esposa morreu pouco tempo depois do seu casamento, deixando o que possuía ao cuidado de seu marido. Suas duas esposas eram senhoras distintas e possuidoras também de algumas propriedades. E ambas concordaram com Coke em empregar os seus haveres na propaganda do cristianismo. E ele não só gastou o dinheiro que herdou, como ainda levantou muito dinheiro por meio de apelos pessoais, para o que tinha um dom especial. Consta a esse respeito que um dia, solicitando uma oferta para as missões a um capitão de navio em que viajava, este foi constrangido a fazer a oferta e não pequena. Logo depois, falando o mesmo com alguns amigos acerca disto, disse: “O Dr. Coke é um ‘diabinho’ celestial.” O entusiasmo de Coke pelas missões contribuiu para que o metodismo realizasse de fato o ditado de Wesley: “O mundo é a minha paróquia”. 1. Trabalho na América. Como já falamos do seu trabalho nos Estados Unidos, não será necessário desenvolver de novo esta parte de sua atividade como missionário, senão lembrarmos ao leitor que o seu trabalho na América teve grande alcance na evangelização daquele país. Ele muito se interessava em evangelizar a Nova Escócia, sendo que conseguiu mandar alguns missionários para aquela região, não podendo em pessoa ir lá. 2. Trabalho nas Ilhas de Guadalupe, Martinica, S. Thomaz, Barbados, Trindade, S. Vicente e outras. Durante o tempo que trabalhou nos Estados Unidos, visitou por diversas vezes os povos das ilhas acima mencionadas. Conseguiu alistar homens na Inglaterra para fazer o trabalho nestas ilhas, providenciando os fundos para sua manutenção. E quando não podia levantar este dinheiro entre os seus amigos, tirava da sua própria bolsa o que fosse necessário para manter os obreiros no campo. Não podemos imaginar o trabalho e o cuidado que tudo isto lhe trouxe. Ao introduzir o Metodismo na ilha de Barbados foi muito feliz. Alguns metodistas ingleses e irlandeses, e soldados crentes cooperavam com Coke e os missionários que havia arranjado para este trabalho.
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    Para dar umaidéia mais clara sobre o seu trabalho nestas ilhas devemos extrair do seu diário o trecho que reproduzimos: “Foi uma surpresa para mim encontrar-me com Button, que me reconheceu, mesmo que eu não o conhecesse pessoalmente, pois ele muitas vezes me havia ouvido pregar em Baltimore e em Maryland. Quatro dos seus escr avos foram batizados por mim naquele lugar e um deles, uma mulher, tornou-se uma verdadeira crente em Jesus. A esposa dele é natural da ilha. A sua casa e o seu coração e tudo o mais pareciam ter nova disposição. Pagamos a nossa conta na estalagem, onde nos havíamos hospedado e fomos à casa do nosso benévolo amigo, onde encontramos verdadeiro abrigo e descanso”. Continua: “Depois do almoço Pearce e eu visitamos o governador da ilha, levando-lhe nossos cumprimentos. Ele nos recebeu com muito respeito. À tarde preguei em casa de Button a uma congregação de mais de 300 pessoas, sendo que outras tantas tiveram que voltar por falta de lugar. No dia seguinte houve outra assistência igual à anterior. Muitos ouviram com reverente atenção, enquanto eu procurava mostra-lhes como o Consolador convence o homem do pecado, da justiça de Deus e do juízo final. ” Havia outros que bondosamente cooperavam com ele para se estabelecer o trabalho na ilha. Ele diz no seu diário: “Assim, por uma série de providências notáveis, uma porta parece-nos ter-se aberto para nós em Barbados”. Mas ele não foi tão bem sucedido em algumas das ilhas, especialmente nas que não estavam sob o domínio da Grã-bretanha. Em Santo Eust áquio o governador o tratou com desprezo e se opôs ao trabalho evangélico. Por isso teve de abandonar o plano de iniciar trabalho naquela ilha. Também nas outras ilhas dominadas pelos países europeus católicos romanos sucedeu o mesmo. A lista de nomeações feitas na Conferência, realizada a 9 de fevereiro de 1793, em Antigua, na Igreja de São João, revela o progresso e a extensão que o trabalho havia tomado nestes lugares. Ei-la: 1. Antigua -John Baxter, Guilherme Warrener. 2. Barbados - Daniel Graham, Benjamin Pearce. 3. Granada - Abrahão Bishop 4. S. Cristóvão - W. Black, John Harper, Roberto Pattison, José Telford 5. Nevis - John Kingston 6. Tortola - Thomas Oivens, John Mc. Veau 7. Jamaica - Guilherme Fick 2. A missão na África Em 1778 a questão de mandar missionários para a África foi discutida, porém, nada mais se fez para estabelecer a Missão Africana até 1795. Por muito tempo este assunto pesava sobre o espírito de Coke e finalmente, foi resolvido que se estabelecesse uma missão naquele continente. Coke, pelas informações colhidas a respeito da tribo dos Foulahs, que habitava a região de Serra Leoa, soubera que esta era superior às demais do continente africano, pelo que ele desejou fosse ali estabelecida uma colônia de ingleses leigos, que procurassem introduzir o ensino dos trabalhos manuais, meio que considerava eficaz para civilizar os indígenas, e facilitar mais tarde a pregação do Evangelho nesses lugares. A idéia foi apoiada pelos ingleses e não foi difícil arranjar recursos para este empreendimento. Mas, desta vez, Coke se enganara na escolha da pessoa que encarregara de fundar a missão. Os mecânicos, os carpinteiros e pedreiros, e outros que foram escolhidos, portaram-se indignamente, mesmo a bordo do navio em que foram levados para a África, de modo que o projeto fracassou por completo. Coke ficou humilhado e desapontado com o resultado deste primeiro esforço.
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    Mais duas tentativasforam feitas antes de conseguir fundar uma missão permanente na África, e que muito influiu no espírito da nação inglesa para acabar com o tráfico de escravos. Em 1812 Coke escreveu sobre a missão dizendo: “O valor moral e espiritual do Evangelho para a África, e a grandeza deste empreendimento são reconhecidos sem discussão. Não é uma ilha solitária, nem um arquipélago, que estamos a visitar, porém um continente mui habitado por gente de nações cujos nomes ignoramos. Temos a promessa de que “a Etiópia estenderá as suas mãos para Deus”. Cremos que, mandando o Evangelho para estes habitantes antigamente favorecidos, mas agora oprimidos, cumprir-se-á essa promessa. Durante longos anos temos feito a África derramar lágrimas de sangue. Mas agora vamos iluminar o seu rosto com a luz da alegria, compensando as injurias que lhe temos feito. Já o Parlamento nos tem mostrado o caminho, com a abolição do tráfico de escravos, recusando ocasionar qualquer sofrimento mais a seus filhos. Vamos, pois, seguir este bom exemplo, levando o bálsamo de Gilead para curar as suas chagas”. 4. Trabalho Missionário entre os Franceses. Quando a Revolução Francesa arrebentou, Coke julgou que a França apresentava uma ótima oportunidade para aceitar o Evangelho, à semelhança dos alemães no tempo de Luthero, mas nisto foi enganado. A Condessa de Huntington havia recebido cartas da França pedindo que alguns pregadores fossem mandados para aquele país. Depois de sua morte essas cartas caíram nas mãos de Coke, e julgando que isso seria da vontade de Deus, logo atendeu ao pedido e levou dois pregadores para a França. Mas o resultado não correspondeu à sua expectativa. Escrevendo sobre isto, disse: “Passei cinco semanas na França, com dois dos nossos pregadores franceses, um de Jersey e outro de Guernsey. Na Normandia tivemos alguns triunfos: cerca de 800 dos protestantes franceses, na vizinhança de Caen, aceitaram os nossos ofícios e instruções. Trinta deles mostraram muito interesse pela salvação e foram organizados em classe: seis destes foram convertidos. Deixei os dois pastores na Normandia. Levei um deles comigo para visitar Paris, porém a vitória que lá tivemos naquela cidade dissoluta, não correspondeu à nossa expectativa”. Não conseguindo levar diretamente o Evangelho para a França, principiou o trabalho entre os soldados franceses presos na Inglaterra. Havia alguns 11.000 presos e uma grande parte destes estava nos navios ancorados nos portos. Alguns dos pregadores metodistas que falavam bem o francês principiaram o trabalho da evangelização entre os soldados, e seus esforços não foram em vão. Muitos se converteram e, quando voltaram à França, levaram consigo a sua nova religião e assim Coke conseguiu levar a mensagem de Deus para o povo francês. 5. Missão Doméstica Coke não se esquecia do trabalho entre seu próprio povo. Por muitos anos se interessou em providenciar pastores. Fez muitas visitas pastorais aos pontos mais negligenciados da Inglaterra, do País de Galles, da Escócia e da Irlanda. Aqui ele arranjou pregadores irlandeses que falavam o dialeto da região, e que percorriam a cavalo lugares diversos, pregando o Evangelho de Jesus. Entrando nas praças públicas e nas feiras, ao ar livre, pregavam o Evangelho ao povo na sua língua vulgar (popular), e assim, muitas pessoas foram evangelizadas. No país de Galles, seu próprio país, igualmente mantinha pastores ou evangelistas, que pregavam segundo o dialeto gaulês que conheciam. 6. A missão da Índia. O Dr. Coke ardia com o espírito missionário. Durante uma viagem de evangelização na Irlanda caiu doente com febre, devido ao excessivo esforço que fazia. Durante as duas semanas que passara acamado a sua mente esteve preocupada com as missões que estavam sob o seu cuidado, especialmente a missão nas ilhas do mar. No delírio da febre falava nas missões.
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    Isto causou tãogrande impressão sobre as pessoas que dele cuidavam que uma disse: “Se o Dr. Coke morresse e se alguém próximo dele falasse em missões, tornaria a viver”. As missões foram a paixão consumidora da sua vida. Por longos anos ele meditou na fundação de uma missão na Índia. Em 1784, se não fosse mandado para a América, teria promovido um projeto para abrir trabalho na Índia. Portanto, ele estava com esta idéia dez anos mais cedo do que Guilherme Carey. Mas passaram-se vinte nove anos até poder realizar o seu desejo de fundar um trabalho na Índia. Não havia outro homem na Inglaterra que exercesse tanta influência pela causa das missões em todo o mundo como o Dr. Coke. Seu exemplo despertou interesse nas Igrejas evangélicas da Inglaterra que ainda se manifesta no grande movimento missionário em todo o mundo. Deste exemplo nasceram as múltiplas Sociedades Missionárias na Inglaterra e em outros países. Por longos anos o Dr. Coke havia estudado as condições na Índia e na ilha de Ceilão. Quando se ofereceu para fundar a missão na Índia muito s dos seus amigos procuraram dissuadi-lo deste projeto alegando que ele estava velho demais para aprender uma nova língua ou para agüentar o novo clima tropical, etc. Mas não conseguiram dissuadi-lo. Em 2 de junho de 1813 escreveu uma carta a um seu amigo, Sr. Drew, em que disse: “Peço perdão por não ter respondido antes a sua carta. Tenho trabalhado pedindo dinheiro desde a última Conferência mais do que nunca, senão por algumas seis semanas quando nadava nas ondas de lamentação devido ao falecimento da minha querida esposa. Agora estou morto para a Europa e vivo para a índia. Deus mesmo tem-me dito: “Vai para Ceilão”. Estou tão convencido que seja a vontade de Deus que preferia ser colocado nu nas costas de Ceilão, sem roupa, e sem amigos, do que recusar ir para lá. A língua portuguesa é falada em toda parte de Ce ilão, e, também, pelas costas da Índia. Segundo o que o Dr. Buchanan declara, há 500.000 cristãos nominais em Ceilão e há só dois ministros para zelar por eles. Estou estudando a língua portuguesa constantemente e tenho certeza que posso aprendê-la antes de chegar ao Ceilão. Os navios zarpam em outubro e janeiro. Se a Conferência me empregar para levantar o dinheiro para custear as despesas de equipagem, não poderei embarcar antes de janeiro. Pagarei as minhas próprias despesas de certo”. Quando seu plano foi apresentado à Conferência em julho de 1813, havia muitos contra o projeto. Mas havia outros de peso que o favoreciam. O assunto foi continuado para a próxima sessão no dia seguinte. Quando o Dr. Coke se retirou da Conferência, indo para casa, chorou pelo caminho. O Sr. Benjamim Clough, um dos homens que tinham consentido em ir com ele para a Índia, acompanhou-o ao quarto. No dia seguinte ele não compareceu na abertura da Conferência e o Sr. Clough foi procurá-lo. Quando o viu, reconheceu que tinha passado a noite em claro. Foram juntos para a Conferência e quando se reiniciou a d iscussão sobre a missão na Índia, ele pediu a palavra e contou à Conferência o que ia na sua alma. Historiou os fatos que o haviam levado para encetar este serviço, concluindo: “Se a igreja não puder fornecer o dinheiro para custear as despesas iniciais, eu posso fornecer seis mil libras esterlinas”. Quando a Conferência ouviu isto, toda a oposição ao plano cedeu e foi combinado que ele fosse comissionado para fazer este trabalho. Sete missionários foram nomeados para acompanhálo nesta tarefa, porém ele já tinha conseguido doze. Dos doze escolheu os seguintes: William Ault, James Lynch, George Erskine, William Martin Harvard, Thomas Hall Squance, Benjamin Clough e John MacKenney. Outros seriam mandados de acordo com o progresso e aceitação do trabalho. O Dr. Coke principiou logo a organizar sociedades missionárias nas diversas igrejas para ajudar na conservação do trabalho. Também ajuntou os sete homens em Londres e lhes arranjou professores de holandês e de português.
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    Todo o seutempo era ocupado antes de embarcar no dia 30 de dezembro de 1813, no navio “Cabalva”. Houve algumas tempestades durante a viagem. A esposa de um dos missionários ficou doente e veio a falecer em 9 de fevereiro daquele 1814 e no dia seguinte foi sepultada no mar. Também um dos marinheiros morreu, conforme o Dr. Coke escreveu no seu diário: “Um dos nossos marinheiros morreu, e depois da cerimônia de sepultamento seu corpo foi enrolado na sua rede e junto com o corpo puseram areia para dar peso, e foi lançado nas ondas do mar”. Durante a viagem ele se mostrou alegre e consolador de todos. Ocupava quase todo o seu tempo estudando o português e lendo a Bíblia na língua portuguesa. Mas quando chegou às águas tropicais a sua saúde começou a perigar. Um homem de sessenta e sete anos de idade corria muito perigo em viver em tal clima. Em 2 de maio mostrou-se um pouco fraco. No dia seguinte piorou, mas, mesmo assim fraco, mostrou-se alegre, e, antes de deitar-se, visitou o Sr. Harvard e sua esposa em seu camarote. Quando se levantou para ir, tomou a cada um pela mão, para os abençoar. O Sr. Clough queria zelar dele durante a noite, mas o dr. Coke achou desnecessário. Às cinco horas da manhã do dia seguinte, quando o empregado do navio em que viajavam, segundo o seu costume, bateu à porta do seu camarote, não foi atendido. Finalmente abriu a porta, entrou e achou o corpo do venerável bispo morto no chão. Morrera durante a noite. Os missionários entristecidos, queriam que o corpo fosse levado à Inglaterra para ser enterrado ao lado dos seus queridos na cidade de Brecom. Mas descobriram que isto era impossível, e consentiram que fosse sepultado no mar. No dia seguinte, 4 de maio de 1814,, às cinco horas da tarde, depois do serviço religioso, dirigido pelo Sr. Harvard, o corpo deste servo de Deus e missionário zeloso, foi consignado às águas do Oceano Índico até “a terra e o mar entregarem os seus mortos”. Como Moisés, ele morreu à vista da terra da promissão, sem ter o privilégio de entrar nela. E ninguém sabe, até hoje, o lugar da sua sepultura”.
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    VI A vida deFrancis Asbury, o dianteiro do Metodismo na América (1745-1816) O romance do movimento metodista é muito parecido com o dos primeiros dias do cristianismo. Foi uma revivificação das lições de Jesus Cristo com que seus adeptos tomaram nova resolução, atitude pessoal para com a religião, a sociedade e o espírito geral do Evangelho. Já ardia em muitos corações o fogo deste movimento, quando nasceu um menino, f ilho de pais pobres, que iria ser um dos dianteiros deste novo movimento no novo mundo. Seu papel seria igual ao de João Wesley. O que fora Wesley na Inglaterra, Francis Asbury iria ser na América do Norte. “O deserto e os lugares secos se alegrarão nisto, e o ermo exultará e florescerá como a rosa”. Ao redor destes dois vultos é que nos dois mundos (Europa e EUA) se estabeleceu o metodismo. I – SEUS PAIS E SUA MOCIDADE 1. Seus Pais Pouco se sabe dos pais de Francis Asbury, além daquilo que ele próprio menciona no seu diário. O pai era jardineiro e tr abalhava nos jardins e hortas dos seus vizinhos mais abastados. Sem dúvida foi um homem trabalhador e honesto, no entanto, aprendeu a economizar os lucros do seu trabalho vencendo os dias todos da vida, na pobreza. A mãe era uma senhora piedosa que amava estremecidamente aos filhos. Tinha só dois, um menino e uma menina que se chamava Sara e que faleceu ainda pequena, ficando a mãe a lamentar muito a sua morte. Quando o filho se ofereceu para o trabalho na América, foi-lhe sobremodo difícil consentir que ele fosse. E como seu ilustre filho nunca mais voltou para a Inglaterra, teve que se consolar sabendo que ele cumpria a vontade de Deus, estabelecendo o Reino de Cristo na América. O filho, Asbury, da América, mandava alguma coisa aos velhos pais para ajudar naquilo que podia.
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    2. Sua mocidade. Oque sabemos do seu nascimento e sua mocidade é aquilo mesmo que ele nos conta em seu diário; portanto citemos longo trecho do que ele escreveu a respeito de sua mocidade, depois de vinte e um anos passados na América. Foi no ano subseqüente à morte de João Wesley. Sem dúvida a leitura da biografia de João Wesley lhe fora estímulo para narrar alguns fatos da sua mocidade que não contavam do seu diário. “É muito provável”, disse ele “que tudo que escreverem de mim seja encontrado no meu diário; não será impróprio, portanto, relatar alguma coisa a respeito dos meus primeiros dias e dar algumas informações acerca dos primeiros anos do meu ministério”. “Nasci na velha Inglaterra, ao pé da Ponte de Hamstead, na paróquia de Handsworth, a quase uma légua distante de Birmingham, em Stafford-shire, e, segundo a mais segura informação que tenho, foi no dia 20 de agosto de 1745”. Meu pai se chamava José e minha mãe Elizabeth. Eram de humilde posição, mas notáveis pela honestidade e pelo amor ao trabalho, e tinham tudo o que lhes era necessário para o conforto. Se meu pai tivesse sido tão econômico quanto laborioso, teria sido um homem abastado. “Mas como se deu, foi-lhe a sorte ser jardineiro dos dois homens mais ricos da paróquia. Meus pais tinham dois filhos, uma filha de nome Sara, e eu. Minha querida irmã faleceu na infância. Era filha predileta de minha mãe que a amava estremecidamente. Dali por alguns anos andara profundamente triste chorando a falta de sua filha. Foi nesse lance que agradou a Deus abrir os olhos de sua mente para o fato de que ela viria num dia e lugar de muitas trevas. Agora ela começou a ler, ocupando todo o tempo que as oportunidades lhe apresentavam. Quando eu era pequeno achava muito esquisito vê-la à janela lendo um livro horas inteiras.” “Posso dizer que desde a minha mocidade não tenho proferido uma blasfêmia, nem dito uma mentira. O amor à verdade não é natural, porém o hábito de falar a verdade eu o adquiri desde pequenino: e fui tão bem instruído que nunca pude violar minha consciência, a qual me não permitia blasfemar. De meus pais aprendi uma certa forma de oração, e me lembro bem como minha mãe insistia com papai para fazer o culto doméstico quando o costume de cantar salmos o caracterizava no lar. Minhas fraquezas eram as de criança: o gosto de brincar. Todavia abominava judiarias e iniqüidades, não obstante serem os meus colegas os piores e mais corrompidos da comunidade, a mentir, blasfemar e brigar, praticando tudo o que rapazes da sua idade ousariam fazer. Muitas vezes, apesar dos meus escrúpulos e princípios de moral, ainda continuava procurando nele prazeres que não pude encontrar. Não raras vezes fui criticado e ridicularizado com chamarem-me de pastor, tão somente porque minha mãe sempre convidava pessoas religiosas para nos visitar em casa. Mui cedo na vida, mandaram-me à escola e entre seis e sete anos comecei lendo a Bíblia cuja parte histórica era muito do meu prazer. Meu professor era um homem brutal que me castigava severamente. Isto me levou a orar e sentir comigo a presença de Deus.” “Meu pai só tinha um filho, era eu. Dai querer me conservar na escola por muito tempo; porém, nisto foi desapontado, pois criei tanto desgosto pela escola e tanta antipatia para com meu professor que estava ansioso para sair e fazer qualquer serviço, fosse o que fosse. Por algum tempo morei com uma família, a mais rica e ímpia da paróquia, ficando por isso vaidoso, mas não ímpio. Depois de alguns meses, quando tinha treze para quatorze anos de idade, voltei para casa dos meus pais e resolvi escolher uma profissão. Escolhi a de ferreiro seguindo -a por seis anos e meio, gozando muita liberdade e sendo tratado pela família com que trabalhava, como se fosse um filho e não um aprendiz. Logo depois que comecei neste serviço Deus nos mandou à comunidade, um homem piedoso, não um metodista, que minha mãe convidava para vir à nossa casa. ”
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    “Pela conversação eoração deste homem eu me despertei antes mesmo de completar quatorze anos de idade. Já não me era então difícil deixar meus colegas e comecei a fazer oração de manhã e à noite, sendo atraído por laços de amor, como se fossem cordas de homem. ” “Em pouco tempo deixei o nosso vigário cego, e procurei os cultos feitos na Igreja de Werb Bromwich, onde tinha o privilégio de ouvir os reverendos Ryland, Slittmgfleeb, Talbob, Bagnall, Mansfield, Hawes e Venn, grandes nomes e estimados ministros do evangelho. Isto me interessou e comecei a ler e reler os sermões de Whitefield e Cenninch e todos os bons livros que podia encontrar. Não passou muito tempo e comecei a indagar de minha mãe quem eram e onde estavam os metodistas. Ela me respondeu com boas informações deles e me indicou uma pessoa que me levaria a Wednesbury para os ouvir. Descobri logo que esta Sociedade metodista não era a Igreja, mas era melhor que a Igreja. O povo era tão devoto; homens e mulheres se ajoelhavam e diziam “amém”, ou cantavam hinos, suaves, melodiosos! Coisa esquisita: o pregador não tinha livro de oração, mas orava maravilhosamente! E ainda mais admirável e interessante de tudo era o homem tomar um texto sem nenhum livro de sermões. E eu pensava: é deveras maravilhoso ! De fato é um pouco esquisito, mas é o melhor método. Ele falou sobre confiança, segurança, etc, ponto em que me falhavam todas as esperanças e aspirações. Eu não tinha convicções profundas, nem tinha cometido qualquer pecado grande de que eu me lembrasse.” “De outra feita, numa pregação, um colega meu ficou profundamente abalado. Eu, no entanto, me afligia porque o mesmo não se dera comigo, estava num estado de incredulidade.” “Certa ocasião, quando estávamos orando no paiol de meu pai, creio eu que me converti, sentindo que o Senhor me perdoava os pecados e me justificava o coração. Meus colegas, porém, me furtaram esta convicção, dizendo que o Dr. Matha dissera que um crente devia estar tão alegre como se estivesse no Céu. Julguei então que não estava tão feliz aqui como estaria no Céu, e assim abandonei a minha confiança e neste estado fiquei por alguns meses”. “Mas, ainda assim estava alegre, não sentindo qualquer culpa ou medo, resistindo ao pecado e sentindo continuo gozo no coração. Depois disto nós nos reunimos para ler e orar e os cultos eram bons e bem freqüentados, mas muito perseguidos. O próprio dono da casa em que se realizavam os cultos ficou com medo e os cultos não mais se realizaram ali.” ‘Comecei então a fazê-los na casa de meu pai, exortando o povo ali como também em Sutton Colfeld, e algumas almas confessaram que tinham achado a paz por meio das minhas exortações.” “Assistia à classe em Bromwich Heath e a Sociedade em Wednesbury. Diversas vezes eu pregara antes de me apresentar em qualquer casa de oração dos metodistas. Quando os meus trabalhos se tornaram mais publicamente conhecidos, o povo se admirava, não sabendo que me havia exercitado em qualquer outro lugar. Eis-me agora um pregador local! Um servo humilde e pronto para ajudar a qualquer pregador que me convidasse ou de dia ou de noite. Estava pronto para ir a qualquer lugar perto ou longe com intuito de fazer o bem, visitando Derlyshire, Staffordshire, Wowichshire, Wocerteshil, e afinal a qualquer lugar ao meu alcance, pelo amor às almas preciosas, pregando geralmente três, quatro e cinco vezes por semana e ao mesmo tempo seguindo o meu of ício de ferreiro. Se não me engano, tinha vinte e um ou vinte e dois anos, tendo servido cinco anos como pregador local, quando me consagrei a Deus e a seu trabalho. ” “Hoje é dia 19 de julho de 1792, e para Deus e pelas almas tenho trabalho há mais ou menos trinta anos.” “Algum tempo depois da minha conversão a Deus, no calor de meu sangue e coração de jovem, o Senhor me mostrou o mal no meu íntimo. Por algum tempo gozei o que julgava o amor puro e perfeito de Deus. Mas este estado de coisas não continuou por mu ito tempo, apesar de certas épocas de grande alegria. Quando era itinerante na Inglaterra, fui muito tentado descobrindo ignorar ainda muito coisa do Evangelho e que um ministro deve conhecer.”
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    “Como fui levadoa vir para a América e os sucessos que se desenrolaram desde aquela ocasião, meu diário os revelará”. II – SEU PREPARO PARA O MINISTÉRIO Quando lembramos a grande diferença entre João Wesley e Asbury, quanto ao preparo para o ministério, admiramos a sabedoria de Deus em os chamar para sua seara. Asbury terminando seus estudos na escola com quatorze anos de idade, e João Wesley continuando seus estudos na universidade até a idade de trinta e três anos. Mas devemos também lembrar o campo em que cada um tinha de trabalhar. O campo de Wesley exigia preparo espiritual e intelectual, por todos os motivos mui especializados para lidar com os problemas religiosos e sociais de um povo preso aos seus costumes e preconceitos formados no correr dos séculos, enquanto Asbury tinha de trabalhar num campo novo, entre um povo livre de preconceitos que caracterizavam o povo do mundo velho. O trabalho na América exigia não somente abnegação, mas também habilidade no adaptar-se ao meio e obrar com sabedoria decorrente da vida prática. Os cincos anos de trabalho como ferreiro e sua experiência na evangelização do povo de sua cidade antes de conhecer os metodistas e, além disto, os cinco anos de pregador local, e ainda mais cinco como itinerante como pregador metodista na Inglaterra, deram-lhe preparo para seu trabalho na América. Preparo que a Universidade não teria dado. Basta ver que Wesley com todo o seu preparo universitário foi um fracasso na América. Asbury, no entanto, que conhecia a vida prática foi um dos maiores triunfos como se fora um missionário nestes tempos modernos. Deus sabe escolher e preparar os seus obreiros. 1. Seus estudos Julgando pelo que ficou dito sobre o preparo de Asbury, parece desnecessário qualquer outra palavra sobre o assunto. Mas devemos lembrar que Asbury, apesar dos poucos anos de assistência às aulas na escola, foi um leitor de livros durante toda a sua vida. Lendo o seu diário descobrimos este fato, pois ele menciona os títulos de vários livros que lia. Está fora do assunto mencionar algumas das obras que estudou na América; todavi a, para não desprezar o fato sobremodo eloqüente, citemos alguma coisa sobre os estudos que lá fazia, ao mesmo tempo que trabalhava. Asbury não conhecia a atmosfera de uma universidade e nem mantivera contato com homens eruditos como tivera Wesley, nem por isso deixou de assentar-se aos pés dos melhores professores de todos os séculos. Sempre estava ocupado. Sabia, como bom estudante, valorizar o seu tempo observando rigorosamente um plano fixo de estudos. Ele escreve: “Passei esta tarde lendo o Evangelho segundo São Marcos, marcando e tomando nota e esboçando os meus planos futuros. Presentemente meu programa, é: ler cem páginas por dia, orar mais ou menos cinco vezes por dia em público, pregar ao ar livre de dois em dois dias, falar nos cultos de oração todas as tardes e se fosse possível gostaria de fazer mil coisas mais para meu bondoso e bendito Mestre”. E continua: “Tenho passado o meu tempo recordando os tons e pontos no hebraico; isto é o que estudo quando ando a cavalo. Que lugar para o estudo do hebraico!” Nesta ocasião diz ele: “Gastei muito do meu tempo lendo o Novo Testamento em Grego . Procuro aprender um pouco de tudo, buscando enriquecer a minha mente estudando línguas, divindade, gramática, história, literatura; meu maior desejo é me desenvolver nas coisas úteis.
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    Com que avidezaproveitava ele as oportunidades para aperfeiçoar-se nos seus estudos. É ele ainda quem diz: “Passei a noite com o Sr. Henrique, um judeu. Lemos o hebraico, uma parte da noite, e seria prazer ter gasto toda a noite assim com um professor tão bom”. nós temos um pouco de tudo e procuramos enriquecer a nossa mente estudando línguas, divindade, gramática, história, literatura; meu maior desejo é me desenvolver nas coisas úteis. Citemos o depoimento do Dr. Fipple que nos dará idéia mais clara sobre a rotina de estudo de Asbury: “Este homem era um sedento por aprender, tão ansioso que era para adquirir conhecimentos. Sempre levava livros consigo, quase sempre no alforje, mas quando não cabiam no alforje levava-os numa grande caixa. Assim Francis Asbury se tornou um homem erudito”. Sentimos que o espaço não nos permite dar uma lista das obras lidas por ele, e no seu diário mencionadas. 2. A aprendizagem para ferreiro Como já dito, a escola tornou-se-lhe intolerável por causa da brutalidade do professor. Saindo da escola procurou um serviço qualquer e arranjou emprego com um ferreiro onde trabalhou uns cinco anos. Durante este tempo, podemos dizer, Deus já o estava preparando para o seu trabalho missionário mais tarde na América. Asburby estava acostumando-se às provações que teria de enfrentar. Estudava também a natureza humana na sua fraqueza. Sem dúvida aprendeu a arte de julgar e pesar os homens, o que revelou habilmente durante a sua longa administração da Igreja na América. O rapaz que aprende a malhar o ferro e lidar com os fregueses de uma ferraria tem em parte, um bom preparo para o trabalho do ministério. Foi nesta época que se converteu e começou o seu trabalho de evangelização na sua própria cidade. III – TRABALHO COMO PREGADOR NA INGLATERRA Antes de se oferecer como missionário para a América, Asbury tinha dado provas do seu ministério “como obreiro que não tinha de que se envergonhar, manejando bem a Palavra da verdade”. 1. Como pregador local Pouco se sabe sobre o trabalho de Asbury durante os cinco anos em que trabalhou como pregador local, além daquilo que ele próprio nos conta no trabalho citado. Mas, julgando pelos mencionados lugares onde pregava, vê -se que o seu tempo estava bem empregado. O fato de ter ele seguido seu ofício de ferreiro e ter pregado em Derbyshire, Staffordshire, o aprovaram. Assim entrou Asbury no campo que lhe parecia destinado para o resto da vida. 2. A viagem para a América Logo depois da Conferência foi para casa e contou aos pais o que tinha resolvido fazer. Seus pais ficaram tristes sabendo que agora o único filho os ia deixar, talvez, para jamais os ver, mas, consentiram na sua ida, rogando as bênçãos do céu sobre ele. Asbury embarcou com Richard Wrigth, no dia 4 de setembro de 1771, para Filadélfia. A viagem foi tolerável. O tratamento que recebera do capitão e dos demais membros da tripulação foi de respeito. Ele pregou quase todos os domingos aos marinheiros, mas como ele registra no seu diário, foi de quase nenhum efeito. A coisa mais desagradável e difícil de suportar foi a cama que
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    tinha de ocupar,pois não tinha colchão nem cobertor. Felizmente ele possuía dois cobertores que muito lhe serviram na longa viagem pelo mar. Para apreciarmos os seus motivos quanto à sua missão na América citamos novo lance do seu diário: “Quinta-feira, 12 de setembro de 1771. Quero notar aqui algumas coisas que me pesam na mente. Para onde vou eu? Vou para o Novo Mundo. Para que fim? Para ganhar homens? Não. Conheço bem meu próprio coração. Para ganhar dinheiro? Também não. Vou viver para Deus, e para levar outros a fazer a mesma coisa. Na América tem havido manifestações de Deus. Primeiro entre os amigos (Quakers), depois entre os presbiterianos. Entre uns e outros, no entanto, logo se arrefeceu.” E continuou: “O povo que Deus tem destinado na Inglaterra são os Metodistas. As doutrinas que eles pregam e a disciplina que aplicam são as mais puras que hoje se podem achar no mundo. Deus tem abençoado ricamente essas doutrinas e essa disciplina nos três reinos: infere-se dali que lhe estão sendo aceitáveis. Se Deus não me reconhecer na América, voltarei logo para a Inglaterra. Eu sei que os meus pensamentos são retos agora; e, permita Deus sempre o sejam. Se notarmos bem os sentimentos manifestados nestas poucas linhas, teremos a chave ou o segredo do procedimento deste servo de Deus durante a sua longa e abençoada vida.” Finalmente chegaram em Filadélfia no dia 27 de outubro de 1771 e foram recolhidos à casa do irmão Francis Hanis. 2. O primeiro ano na América Na primeira noite na América, Asbury assistiu culto numa Igreja, pregando o Rev. Pelmoore a uma grande congregação. O povo o recebeu com muita satisfação e ele assim descreve no seu diário os seus sentimentos: “Senti que para este povo minha língua se desembaraçava para falar-lhe. Sinto a presença de Deus aqui, e encontro tudo que preciso. Seja do agrado de Deus conservar-me sob seu preciosíssimo cuidado até que me passem as tempestades da vida. Em tudo que eu fizer, onde quer que eu vá, permita Deus que não peque contra Ele, mas que faça somente aquilo que O possa agradar.” Poucos dias ficou ele em Filadélfia onde assistia cultos e pregava algumas vezes. Em 6 de novembro começou a sua vida de itinerante na América, itinerância que nunca abandonou até o dia em que fora chamado para as felizes moradas nos céus. Pelo caminho, na viagem para Nova York, pregou em diversos lugares e no dia 12 de novembro chegou em Nova York encontrando o Sr. Richard Boardman em paz, porém, mui fraco no corpo. Não sabemos o que se deu entre eles nas suas conversações, mas é muito provável que não concordaram sobre o modo de fazer a propaganda entre o povo. A tentação para os missionários que tinham chegado à América era ficar nas cidades onde tinham os seus amigos e onde não teriam de passar tantas privações como teriam de passar viajando pelas aldeias e sítios. Agora chegando no meio deles, Asbury, um homem acostumado a malhar o ferro e suportar privações, quis que os seus colegas fizessem o mesmo. Encontramos o seguinte no diário dele, em conexão com a sua chegada em Nova York: “Na segunda-feira parti para Nova York e lá encontrei Richard Broadman em paz, mas muito fraco ao corpo. Agora tenho de me aplicar ao trabalho de costume: viajar, lutar e orar. A juda-me, ó Deus”. Em Nova York, Asbury passou alguns dias pregando e visitando. Ficou bem impressionado com o povo americano, notando-lhe franqueza e simplicidade, porém não podia ficar parado. No seu diário ouvimo-lo dizendo: “Terça-feira, 20 de novembro de 1771. Aqui fico em Nova York, no entanto não estou satisfeito em ver os dois (pregadores metodistas) juntos aqui na cidade. Ainda não alcancei o que busco, a circulação (itinerância por um circuito de cidades e vilas) dos pregadores para evitar parcia lidade e popularidade; contudo, eu me aferro ao plano metodista, e
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    faço o queposso para Deus. Cismo que há dificuldades para enfrentar, o que não é de se estranhar, pois eu já sabia disso antes mesmo de deixar a Inglaterra; no entanto estou pronto a enfrentá-las, a sofrer sim, e morrer se preciso for antes de trair a causa bendita de Cristo. Será difícil resistir a todas as oposições como uma pilastra de ferro forte ou muralha de bronze firme, mas tudo por aquele que nos fortalece”. Continuando a citar-lhe o diário sobre essa questão lemos: “Quinta-feira, 22 de novembro. Atualmente não estou satisfeito. Julgo que durante este inverno seremos limitados às cidades. Meus irmãos não querem deixar as cidades, mas eu lhes vou mostrar o caminho. Estou rodeado de dificuldades e ameaçado ainda mais, porque vou resistir a toda espécie de parcialidade. Não tenho outra coisa a buscar senão a glória de Deus, e nada a recear, senão o desfavor de Deus.” Lendo estes trechos de seu diário é fácil julgar o metal de que Asbury era feito, os seus desejos, planos e idéias. A resolução que tomou, assim logo no princípio da sua missão na América, o caracterizou durante toda a sua vida. Quando ele disse que ia mostrar aos seus colegas o caminho da itinerância, não era uma express ão insignificante, porém uma convicção da sua alma cuja manifestação durante a sua vida foi altamente sugestiva. Lendo-lhe o diário ficamos impressionados com seus movimentos (suas viagens, sua itinerância) durante o primeiro ano de sua residência na América. Visitou Nova York duas vezes e Filadélfia três vezes, e pregando em muitos lugares entre estas duas cidades e nos seus arrabaldes. Os pregadores Boardman e Plimore conservam-se nas cidades de Nova York e Filadélfia, trocando campos de trabalho, uma vez ou outra durante o ano. Asbury era de opinião que eles deviam viajar mais entre o povo nos sítios e vilas. Asbury correspondia com Wesley, dando notícias do seu trabalho e dando o seu parecer sobre o modo como julgava que devia ser feita a propaganda (o anúncio). Seja como for, o fato é que Wesley achou proveitoso nomear Asbury o superintendente do trabalho na América, em lugar de Boardman. Asbury no seu diário diz: “Segunda-feira, 10 de outubro de 1772. Recebi uma carta do Sr. Wesley, em que ele insiste na prática de uma disciplina rigorosa; e me nomeou como seu ajudante”. Assim passou o primeiro ano na América. 4. Nomeado superintendente e seu trabalho de itinerante Sendo nomeado superintendente do trabalho na América começou a por em prática a sua idéia sobre a “circulação do pregador”, pondo-se de exemplo em tudo. Continuou a viajar entre as duas cidades, Filadélfia e Nova York e também ia estendendo o seu circuito para os lugares onde não haviam chegado os metodistas. Asbury era um grande gener al e queria que os soldados da Cruz andassem por toda parte pregando o Evangelho. Durante este ano ele formou dois circuitos novos: um ao redor da cidade de Filadélfia e outro ao redor de Nova York. No ano anterior tinha aberto novos pontos de pregação pelas suas visitas de pregador itinerante enquanto seus dois colegas se conservavam nas cidades. Boardman sem dúvida não concordava em tudo com ele, mas não podia deixar de admirá-lo e respeitá-lo. Também tinha estabelecido ordem e disciplina nas Sociedades Metodistas em Nova York e Filadélfia, organizando os membros em classes, dando assim oportunidade aos mesmos de serem ajudados na correção e edificação da fé. Agora, sendo nomeado superintendente ou ajudante de Wesley, ele formou dois circuitos em conexão com o trabalho já estabelecido nas cidades e mudou a sede de seu campo de ação de Nova York para Baltimore, formando novo circuito naquela zona. Dali os pregadores se ativaram mais. Novo espírito se apodera deles e o trabalho se estende para o Norte e para o sul do país.
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    Uma coisa houveque abriu os olhos de Asbury logo que chegou na América. Estava ele assistindo o culto em Filadélfia e assim descreve no seu diário o que testemunhou nessa reunião: “4 de novembro de 1771. Tivemos um culto de vigília. Quase no fim do culto, fala um homem do sítio, mui simples, cujas palavras calaram fundo no espírito do povo, portanto podemos dizer: quem desprezou o dia das coisas pequenas? Deus não o desprezou. Por que, então, tanto orgulho no homem? Asbury descobriu o valor do povo simples dos sítios e queria evangelizá-lo. Este foi o ponto, bem o sabemos, que o caracterizou durante toda a sua vida e até o dia de hoje tem caracterizado o metodismo. Em 1773 Wesley manda um novo obreiro, Rankin. Igualmente experimentado e disciplinado, foi nomeado superintendente no lugar de Asbury, passando este novamente às fileiras de pregador itinerante. Como itinerante recebeu logo nomeação para o circuito one já estava trabalhando, o de Baltimore. Aquele campo era difícil, mas o trabalho de Asbury, nesta zona, foi tão ricamente abençoado que os frutos do seu serviço se manifestam até hoje nas cidades de Baltimore e Norfolk, na Virgínia. É interessante notar-se seu comportamento sobre a Conferência realizada em Filadélfia em 1773. Ele diz: “Houve alguns debates entre os pregadores nesta Conferência acerca da conduta de alguns que tinham manifestado desejo de ficar na cidade e viver como fidalgos. Três anos passados nas cidades revelaram que se havia gasto muito dinheiro inutilmente, e que se havia nomeado alguns guias incompetentes e ainda mais: algumas das nossas regras tinham sido violadas.” 5. Refugiado dois anos durante a guerra da revolução Não será possível neste opúsculo dizer tudo o que ele fez nos primeiros anos na América. O que já foi dito revela bem o espírito e o ideal que tinha para o trabalho, cuja orientação desde o princípio por ele dada foi seguida até o fim. Mas as coisas, politicamente falando, não iam bem, pois havia uma inquietação entre o povo das colônias contra os ingleses. O povo queria sua independência da pátria mãe, e naturalmente aos pregadores vindos da Inglaterra tocaram certas manifestações de antipatia. Asbury passou a maior prova ou crise na sua vida quanto à sua relação com o trabalho na América. Ele era inglês e nunca se naturalizara americano, mas nem por isso, deixou de ter simpatia para com a causa dos americanos. Tão fortes e hostis se tornaram a situação e ameaças contra os ingleses depois de declarada a independência, em 4 de julho de 1776, que os pregadores ingleses se retiraram do país. Francis Asbury pensou em fazer o mesmo, mas por causa do amor que tinha ao trabalho da evangelização, hesitou algum tempo, antes de tomar decisão definitiva sobre o assunto. Sem dúvida os seus sentimentos estavam ao lado dos seus patrícios ingleses nesta ocasião, porém o seu amor à causa de Cristo o constrangia a ficar na América. Um lance do seu diário nô-lo revela: “22 de abril de 1777”. “Ouvi o Sr. Rankin pregar seu último sermão. Fiquei desconsolado e abatido e senti forte desejo de voltar para a Inglaterra, porém entrego tudo isto a Deus” Logo depois de receber uma carta do Superintendente Rankin, Asbury escreve em seu diário: “Recebi uma carta do Sr. Rankin, em que me informou que ele e o Srs. Rodda e Dempter tinham tomado conselho juntos e chegaram à conclusão que deviam voltar para a Inglaterra. Mas eu de modo algum posso consentir em deixar um campo como este na América. Tão prometedor para arrebanhar almas a Cristo. Seria uma desonra eterna para o m etodismo se todos nós deixássemos as três mil almas que querem se submeter ao nosso cuidado. Nem seria o papel do Bom Pastor deixar o rebanho na hora do perigo. Portanto, resolvo com a graça de Deus, não os deixar, sejam quais forem as conseqüências”.
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    Este fato fezlembrar o “Diga ao povo que fico” de D Pedro I, ao ser exigido seu retorno para o Reino de Portugal. Se Asbury, abandonando o campo, tivesse voltado para a Inglaterra, o metodismo teria uma história muito diferente da que tem hoje em dia. Mas um fato, agrada-nos lembrar, ocorrido na vida de Asbury durante esta época. Alguns dos seus colegas se tinham queixado dele para Wesley e Wesley escreveu uma carta chamando Asbury para a Inglaterra, mas, felizmente quando a carta chegou, Asbury estava lá para o sul da colônia e não a recebeu antes da independência das colônias e, portanto, como já visto, não era conveniente voltar à Inglaterra e foi o único entre os pregadores ingleses que teve inclinação para ficar. Assim a ordem apressada de Wesley não foi atendida. E além da hostilidade dos americanos contra os ingleses, o panfleto escrito por Wesley intitulado: “Um discurso calmo aos nossos Colonos Americanos”, causou forte reação contra os metodistas na América. Asbury tinha de enfrentar este ódio junto com os americanos metodistas. Sobre o ponto, diz ele no diário: “19 de março de 1776. Recebi uma carta afetuosa do Sr. Wesley, e estou muito triste por se ter este venerável homem metido na política americana. O meu desejo é viver em paz e amor com todos os homens, fazer-lhes todo o bem possível. Contudo revela a lealdade que o Sr. Wesley tem para com o governo de seu país onde ele mora. Se fosse um súdito americano, sem dúvida seria igualmente zeloso pela causa americana. Mas alguns homens, ponderando mal, tem aproveitado a ocasião para censurar os metodistas americanos por causa dos sentimentos políticos do Sr. Wesley”. Asbury teve de se esconder, por isso se conservara em retiro por dois anos, durante a guerra. Foi hóspede na casa do Juiz Thomas White, no Estado de Delewore. Fácil nos é imaginar a difícil situação de Asbury. Não mais podia pregar em público nem viajar sem correr mil perigos. Os pregadores americanos continuaram o seu trabalho, realizando as Conferências anuais, porém, Asbury não as podia assistir. Nem por isso deixou ele de influir na administração do trabalho. Os pregadores visitaram -no para Conferênciar com ele. E também foi uma época em que tinha mais tempo para estudar e se preparar melhor para o trabalho. Mas houve uma coisa que muito concorreu para modificar a resolução dos oficiais do governo para com ele e demais metodistas. Foi uma carta que tinha escrito para Rankim na véspera de sua retirada da América, e que caiu nas mãos dos americanos. Nesta carta Asbury revela os seus sentimentos e opiniões acerca da guerra, dizendo que era de opinião que os americanos iam ganhar a sua independência, e que tinha muitos amigos americanos a quem amava demais para os abandonar e julgava que os pregadores metodistas americanos tinham uma grande obra para fazer na América sob a direção de Deus. Sua simpatia e fidelidade para com a causa americana concorre para engrandecê-lo perante os americanos. Sua influência no meio deles crescia constantemente, pois o reconheceram como um homem desinteressado. V – UM BISPO ITINERANTE Devemos lembrar que a situação do movimento metodista depois da revolução tomou aspecto diferente. Foi espantoso o crescimento em número durante os oito anos de perturbação, pois, só neste período o número de membros passou a ser cinco vezes mais do que era no princípio da revolução. Mas com este crescimento em número e com a separação da Igreja Anglicana do Estado quando se fundou a Republica terminou o regime episcopal e o povo metodista estava com um ministério sem ordenação e grande número de gente sem a administração dos sacramentos e do batismo e Santa Ceia.
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    Até aqui osmetodistas (que eram parte da Igreja Anglicana) podiam em grande parte batizar os seus filhos e comungar nas Igrejas Anglicanas, porém, tudo isto já desaparecera. Que se havia de fazer? Já por algum tempo antes disto muitos pregadores tinham pensado em administrar os sacramentos, mesmo sem ordenação, porém Asbury sempre se opôs. Alguns ameaçaram de uma separação se tal coisa não fosse feita, mas ele resistiu. Vê-se, portanto, que não era uma questão inteiramente nova que surgia de um dia para outro, mas sim uma questão já antiga que se agradava com as modificações radicais do país. João Wesley estava a par de tudo e sobre o caso já havia refletido maduramente. Acabou resolvendo não abandonar seus filhos metodistas na América, muito mais agora em situação embaraçosa. Ordenou então alguns presbíteros e um superintendente (bispo) para irem a América para, por sua vez, ordenarem outros presbíteros e outro superintendente na América e assim fundar e organizar a Igreja metodista. Os dois presbíteros ordenados por Wesley, foram Richard Whaticoal e Thomas Vasey, e o superintendente foi Thomas Coke. Em vista de estes fatos serem narrados mais minuciosamente na história de Thomas Coke (capítulo V desse livro), deixamos de os repetir aqui. Wesley enviou estes homens no fim do ano de 1784. Lá chegaram aportando em Nova York nos fins de novembro do mesmo ano. Encontrou -os Asbury em Nova Jersey e os acompanhou até a cidade de Baltimore, onde se realizou a notável Conferência denominada “A Conferência do Natal”, pois principiou no dia 24 de dezembro de 1784, na Capela “Lovoly Lane”, em Baltimore. O Dr. Coke tinha instruções de Wesley para ordenar a alguns presbíteros (ministério pastoral ordenado, clerical) e ordenar a Asbury, Superintendente Geral (bispo) do trabalho Metodista na América. Mas Asbury recusou a ordenação antes de o ato ser aprovado pelos pregadores americanos. É o espírito democrático dos americanos refletindo por via de Asbury, democrática e liberalmente no sistema metodista na América. Ele foi gradativamente ordenado diácono, presbítero, e superintendente (bispo). Quando ele e mais doze pregadores americanos foram ordenados, Wesley realmente organizou a Igreja Metodista Episcopal na América. Assim Asbury orçava pelos quarenta anos de idade quando foi ordenado bispo. 1. Estabelecendo a Igreja Metodista e as suas viagens constantes O Dr. Coke não ficou na América muito tempo. Apenas a visitava quando havia necessidade de o fazer. Dai o peso todo da responsabilidade do trabalho estava sobre os ombros de Asbury. Não mencionamos até então o fato de Asbury não gozar de boa saúde. Constantemente sofria, e as suas múltiplas viagens ainda mais lhe agravavam os padecimentos. Agora então, colocado oficialmente à testa do movimento, em vez de lhe diminuírem as viagens, tinha de viajar mais do que nunca. Nós hoje em dia nesta época de tantas facilidades de viajar, não podemos apreciar o grande sacrifício que ele e seus colegas na itinerância tinham de fazer para evangelizar o continente norte americano. Lendo os diários dele, três volumes de mais de quinhentas páginas cada um, ficamos impressionados com a repetição destas rxpessões: “viajei hoje”, “preguei hoje”, “fui hóspede hoje de fulano de tal”, “fazia muito frio”, “dia chuvoso”, “não tinha lugar para ler ou escrever, nem para meditar”, “estava doente hoje e com febre”, “tinha dor de garganta”, “escrevi cartas”, etc., etc. Alguma coisa se pode aprender desse exemplo de trabalho. Ele fazia quase anualmente um itinerário que estendia do estado de Maine, Nova Inglaterra, no extremo norte dos Estados Unidos, até ao Estado de Geórgia para o sul do país, e de Baltimore, do Estado de Maryland até aos Estados dos ponteiros de Kentucky, Ohio, Tenesse e Alabama. Asbury não tinha lugar fixo, o caminho era o seu lar.
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    Era realmente umhomem sem lar. Não quis casar, porque não julgava justo casar e depois ter que deixar a esposa sozinha. Lembrava bem um caso de “quem se fazia eunuco por causa do reino dos céus”. E embora não tenha se casado ou tenha tido filhos, era um homem e um Bispo que amava muito as crianças. Entre as muitas famílias que visitava de ano, era notório como era amigo e querido pelas crianças. Tomava-as no colo; contava-lhes histórias e ensinava-as a cantar hinos. Um dia quando estava nas planícies de Ohio um homem lhe perguntou de onde vinha e ele lhe respondeu: “De Boston, Nova York, Filadélfia, Baltimore, ou de qualquer parte”. Ele foi um dos maiores itinerantes na história do Cristianismo. Chegou na América, meteu-se a caminho e foi até o fim; nunca deixou de viajar. Nunca alugou uma casa para si; viveu na estrada por quarenta e cinco anos. Ele diz: “Tenho viajado tanto que quando tenho de parar um d ia, parece-me que estou na prisão. Viajar é a minha saúde, a minha vida e tudo, corpo e alma”. Viajou mais do que Wesley. Os seguintes extratos do seu diário nos darão idéia de sua vida de itinerância: “Temos viajado cem milhas por estradas ruins e o calor tem sido severo desde que deixamos Nova York.” “Viajamos 130 léguas em vinte dias e só descansamos um dia.” “Meu cavalo tem agora um trote duro, nada há que admirar, porque tenho viajado nele 1610 léguas por ano, e isto por cinco anos seguidos.” “Andei dezesseis léguas para pregar um sermão, mas acho que não foi tempo perdido”. “Temos andado quase trinta léguas esta semana neste tempo de inverno quando os dias são curtos e frios. Por que um homem vivo deve se queixar? Mas para estar três meses em seguida nas fronteiras, onde geralmente, só há um quarto, uma lareira, e meia dúzia de pessoas desconhecidas ao redor, e além disso só a família (e as famílias, são geralmente grandes nesta terra nova) fazendo assim uma multidão, e isso não é tudo: pois aqui se tem de meditar, aqui se tem de pregar, ler, escrever, orar, cantar, falar, comer, beber e dormir ou fugir para o mato.” “Bem! sinto dores no corpo especialmente no quadril, dores que me incomodam bastante, quando ando. Mas eu me consolo cantando os hinos de Carlos Wesley, Watts, Stennett.” Quando tinha cinqüenta e oito anos de idade, descrevendo uma viagem para Tennesse, ele diz: “Seis meses por ano tenho tido a obrigação de me submeter de quando em quando a certas coisas que nunca serão agradáveis para mim; porém, o povo sempre me mostra muita bondade e consideração. No entanto, bondade não pode fazer um casebre de três metros por quatro, cheio e apertado de gente, ser agradável; lá fora está frio e chovendo, e aqui dentro estão seis adultos e outro tanto de crianças, e uma delas não pode ficar quieta. Até os cachorros por vezes também têm que ser admitidos.” “Num sábado descobri que tinha apanhado uma doença de pele que me incomodou bastante. Mas considerando as casas e as camas sujas que tenho encontrado, é até curioso que não tenha apanhado este incômodo vinte vezes mais. Não vejo remédio para tudo isto, todavia durmo com uma camisola que tem bastante enxofre.Coitado do Bispo! No entanto temos que suportar por amor dos escolhidos”. A experiência de Asbury era muito parecida com a do apóstolo Paulo (II Cor. 11:23-33). Ele podia dizer com o apóstolo: “Em trabalhos e fadigas, em vigílias muitas vezes, com fome, e sede, em jejum muitas vezes, com frio e nudez; além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, os cuidados de todas as igrejas”.
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    Além das viagensconstantes tinha o cuidado de todas as igrejas e seus pastores. O peso era bastante para um homem, mas ele estava acostumado às responsabilidades. O cuidado de todas as igrejas ocupara sempre o seu espírito. Fazia mil e uma coisas para atender a todos os interesses e bom andamento da causa de Cristo. Uma coisa ocupava bastante o seu espírito era a boa disciplina na igreja. Não podia tolerar irregularidades na igreja. Quanto a isto vimos como ele principiou o trabalho na América. As Sociedades que existiam quando ele chegou na América não tinham sido bem disciplinadas e ele logo que chegou, especialmente, apertara bastante os crentes na sua administração com visitas à disciplina. Ac erca da Sociedade em Nova York diz ele: Quando voltei, alguns dos membros se mostraram refratários à disciplina, porém sem disciplina não seremos mais do que uma corda frágil. A disciplina tem de ser administrada aconteça o que acontecer. Mui cedo notou ele o fraco no trabalho de Whitefield: a falta de disciplina e organização. Dai a resolução que tomou quanto a disciplina e ordem no trabalho na América, e que seguiu fielmente modelando-se nesse ponto no exemplo de Wesley. Lembrou-se também do ditado da Ig reja antiga: “A alma e o corpo fazem um homem, e o espírito e a disciplina fazem um cristão”. Por isso ele fiscalizou as Sociedades e assim escreve no seu diário: “Muitos ficaram ofendidos porque os excluía da Sociedade, mas, importa-me dizer que ficaram viciados muito antes disso. Não me importo , pois com isto. Enquanto eu estiver aqui no cargo, as regras serão observadas. Não posso me conformar com membros que são meio metodistas. Um amigo avançado em idade me disse com muita sinceridade que a opinião do povo tinha se mudado bastante acerca dos “metodistas” e que os Quakers e outras seitas (grupos religiosos) tinham se afrouxado na disciplina e que só os católicos romanos observavam a disciplina com rigidez, porém nada dessas coisas me modificou o modo de pensar sobre isso”. Havia mais uma luta em que tínhamos de conservar a disciplina na sociedade, e isto foi a questão dos “Sacramentos”. Antes de organizar a igreja em 1784, as sociedades recebiam o batismo e a Santa Ceia das mãos dos párocos anglicanos , mas havia uma corrente forte contra isto; essa corrente composta de diversos pregadores queria agir sem mais nem menos a administrar eles mesmos os sacramentos aos membros. Mas Asbury se opôs, com toda a sua força e conseguiu evitar a divisão entre as sociedades até que passos seguros pudessem ser dados para estabelecerem um ministério devidamente ordenado, e isto com boa ordem. Se ele não tivesse evitado essa divisão, a história do Metodismo nos Estados Unidos teria sido diferente do que é hoje em dia. Como se iam aumentar os circuitos e conseguintemente o número de conferências anuais, a questão de concentração de trabalho tornou -se de manifesta importância. Para solucionar o problema, o Bispo Asbury, com apoio de grande número de pregadores, formou o que é conhecido na história da igreja como o “Concílio”. Mas o Concílio só tinha duas reuniões, havendo-lhe ainda oposições. Um dos primeiros membros deste Concílio, James O. Kelly, o presbítero presidente de um distrito do sul do Estado de Virginia, revoltou-se não somente contra o Concílio, mas, também, contra o Bispo Asbury, acusando-o de ambicioso. Isto foi em 1690. Em 1792 o Bispo Asbury convocou uma Conferência Geral, composta de todos os pregadores. Esta Conferência se realizou na cidade de Baltimore. James O . Kelly tinha formado uma panelinha contra o Bispo Asbury para lhe diminuir o poder eclesiástico. Nesta Conferência Geral James O. Kelly apresentou uma proposta sobre um dos princípios fundamentais do episcopado, dando direito ao pregador de a pelar para uma nova nomeação se não ficasse satisfeito com a nomeação feita pelo Bispo. O Bispo Asbury retirou-se da Conferência visto estar presente o Bispo Coke e que podia presidi-la, dando assim toda a liberdade aos irmãos para deliberarem sobre o assunto. Ao mesmo tempo mandou a seguinte comunicação
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    à Conferência: “Algunsindivíduos entre os pregadores têm inveja da minha influência e prestigio na Conferência. Entreguei-lhes inteiramente o negócio sobre que deliberariam presididos pelo Dr. Coke. Escreve ele no diário: “Ao mesmo tempo mandei-lhe a seguinte carta: Meus prezados irmãos: Não deixeis a minha ausência vos incomodar; o Dr. Coke presidirá. Felizmente estou dispensado de assistir e fazer as leis com as quais tenho eu de governar. Toca-me somente obedecê-las. Posso afirmar com satisfação quando considero que nunca nomeei qualquer pregador por inimizade ou por vingança. Até aqui tenho agido para a glória de Deus, pelo bem do povo e para a promoção de utilidades aos pregadores. Estais vós certos que se vos agradardes ficará o povo igualmente satisfeito?” “O povo freqüentemente diz: “manda-nos tal e tal pregador”, e às vezes diz: “não queremos tal e tal pregador, preferimos pagar para ele ficar em casa”. “Talvez tenhais que dizer que o apelo do povo vos obrigou a mandar este ou aquele. Eu sou um, vós sois muitos. Estou pronto para vos servir agora como no passado. Não quero ficar como pedra de tropeço a alguém. Desprezo solícitos votos. Sou uma pobre criatura para ouvir louvores ou censuras. Revelai vossos pensamentos com toda a liberdade; mas lembrai-vos que não estais fazendo leis somente para o tempo presente. Pode ser que, como em algumas outras coisas, assim também nisto o futuro vos possa dar mais luz.” Assim este homem faz a sua apologia com bastante sabedoria. A proposta de James O. Kelly não foi aprovada e, desgostoso, retirou-se da Conferência (a saber, da Igreja Metodista), e com ele alguns dos seus colegas que sobre o ponto estavam de acordo. Não podendo derrotar o Bispo Asbury pela legislação, separou-se da Igreja e levou junto consigo alguns pregadores do seu distrito e fez uma campanha cerrada para arrastar todos os membros da localidade para o seu lado. Mas o Bispo Asbury seguia seu caminho e tinha de atravessar a zona em que James O. Kelly tinha tanta influência, mas não proibia os seus pregadores de pregar e ativar-se. No correr do tempo, na velhice, James O. Kelly ficou desamparado e foi o Bispo Asbury que recomendou que ele recebesse o auxílio de quarenta libras por ano para o seu sustento, como fazia para os outros pregadores. Julgando pelo modo por que ele agiu no caso de James O. Kelly temos o melhor desmentido às acusações de ambicioso que lhe fizeram os críticos e invejosos de suas vitórias. Que o Bispo Asbury foi firme em administrar a disciplina não podemos negar, porém, acusá-lo de ter ambições pessoais para se engrandecer a si mesmo não o podemos conceber. O que fazia era para a glória de Deus e para o bem estar da Igreja. Foi na ocasião desta Conferência Geral realizada em 1792, que a autoridade do Bispo para fazer as nomeações foi bem discutida. O resultado da discussão foi que a sua autoridade foi confirmada com votação de uma grande maioria dos pregadores. O Bispo Asbury nunca se queixou dos pregadores, experimentados, pois sempre aceitaram as suas nomeações sem se queixarem, mas os jovens, às vezes o incomodavam. Ele disse: “Os jovens, os rapazes, me enfadam quando tenho de lidar com eles. Hugo Porter escreveu para esta cidade pedindo uma estação, e assim acrescenta este mal aquele que já tem feito. Terei cuidado com estes rapagões”. O Bispo Asbury muito cedo no seu trabalho na América se interessou pela educação do povo por meio de escolas. Fundou diversas escolas durante os anos de sua atividade e assim deu ênfase a este ramo de trabalho que tem caracterizado o metodismo em toda parte. Igualmente não deixou de se interessar pela publicação de livros. Fundou-se até uma casa publicadora em 1789 dirigida por John Dickins. Uma das coisas mais importantes que se encontram no metodismo, é o espírito de conexionalismo.
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    Ao fim doprimeiro ano de administração, Asbury como superintendente geral, na ocasião da primeira conferência que se realizou na América, conseguiu a nomeação dos pregadores para os diversos circuitos que foram criados. Assim os cargos nas cidades foram ligados com os circuitos nos sítios, havendo para todos uma só direção. Alguns historiadores são de opinião que a Igreja Metodista Episcopal na América teve a sua fundação, portanto, em 1773 e não em 1784, na ocasião da Conferência do Natal. Ao menos podemos afirmar que um dos princípios fundamentais foi reconhecido, sendo lançados os alicerces da nova Igreja nessa ocasião. Quando estudamos a vida do Bispo Asbury não devemos esquecer do seu espírito missionário que mui cedo se manifestou na sua administração. Celebramos o primeiro centenário da obra missionária em 1919, porém, o espírito missionário, a obra de mandar missionários aos índios, e aos canadenses, se manifestou antes da organização da Junta de Missões de 1819. Leiamos um lance do seu diário: “Preguei três vezes domingo e tirei uma coleta para custear as despesas de missionários mandados para as fronteiras do oeste. Duas vezes falei sobre o mesmo assunto durante a semana”. E ao mesmo tempo dois missionários foram mandados para Nova Escócia. Era costume dele levar uma lista para receber ofertas pequenas para aliviar os pregadores necessitados e sustentar os missionários. A maior contribuição que se permitia fazer era um dólar, e seu nome consta como o primeiro contribuinte na última lista que usara antes de falecer. O Bispo Asbury sabia julgar e valorizar os homens. Ele estudava os pregadores como alguém estuda um livro e raras vezes se enganava a respeito de alguém. Henrique Boehm, um companheiro de viagem do Bispo assim o descreve acerca deste ponto: “Ele assentado na Conferência olhava através das sobrancelhas grossas e escuras, estudava o rosto e o caráter dos pregadores, não somente por causa da Igreja, mas também para seu próprio benefício. Às vezes me dizia: ‘O pregador tal tem ficado trabalhando tempo demais nas fazendas de arroz ou da Península. Ele está pálido; a saúde dele está sendo ameaçada; ele deve ser mandado para um lugar montanhoso’. Ou ainda: ‘O tal pregador seria mudado sem saber o motivo de sua mudança, e na próxima Conferência aparecia com o semblante mudado e estado de saúde muito mudado’.” Ele tinha muita simpatia para com os pregadores. Uma vez em 1806 alguns dos pregadores estavam sem roupa e o Bispo Asbury vendeu o seu relógio, paletó e camisa, para os ajudar nas suas necessidades. Vê-se ali como ele tinha simpatia para com os pregadores. Era costume dele quando um pregador morria na sua ausência, voltando para aquele lugar sempre procurava o túmulo do colega de ministério e visitava. VI – O FIM DA JORNADA Era costume do Bispo Asbury viajar sem parar, porque não tinha uma casa de moradia alugada, pois não demorava mais de quinze dias num lugar, senão quando a sua saúde não permitia viajar. Nos últimos anos as viagens lhe foram muito penosas, especialmente as que fazia ao oeste das montanhas visitando as fronteiras nos Estados de Tennesse, Kentucky e Ohio. A última visita que fez às fronteiras foi em 1815. A última Conferência que assistiu foi a Conferência de Tennesse que se realizou em outubro de 1815, em Bethel, perto de Salmon, no Estado de Tennesse, quando teve longa entrevista com o Bispo Guilherme McKendree (que havia sido eleito Bispo da Igreja em 12 de maio de 1808 na Conferência de Baltimore, sendo o primeiro
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    bispo da Igrejacom nacionalidade norte-americana), e se despediu da Conferência entregando a responsabilidade de nomear os pastores ao Bispo McKendree. Assim o Bispo Asbury se exprime: “Domingo ordenei os diáconos e preguei, no que me lembrei do Dr. Coke. Minha vista me falha. Entrego a nomeação dos pregadores ao Bispo McKendree: vou agora retirar os meus pés”. Asbury tinha visitado o sul dos Estados Unidos trinta vezes no correr de trinta e um anos e queria visitar as regiões novas de Mississipi, porém, o dia estava declinando e a noite se aproximava: estava chegando a hora para descansar. Foi com muito sacrifício que ele conseguiu voltar para o leste, acompanhado pelo rev. Bonde. Chegaram em Richmond, Virgínia, em março de 1815 , e, no dia 24 desse mês, ele pregou o último sermão na cidade de Richmond. Estava tão fraco que não podia andar e tinha de ser carregado do carro para o púlpito onde lhe arranjaram uma mesa, na qual colocaram uma cadeira em que se assentou para falar ao povo. Falou quase uma hora, tendo de parar de quando em quando, por falta de ar, pois os seus pulmões estavam quase destruídos pela tuberculose. O texto usado foi Romanos, 9:28. Ele queria chegar a tempo para assistir a Conferência Geral que se realizava em Baltimore em maio, porém as suas forças não lhe foram suficientes para conseguir. Continuando a sua viagem queria chegar em Fredesicksbury, porém o tempo não era bom e as suas forças iam diminuindo até que teve de ficar em casa de um amigo, George Arnold, umas oito léguas de Fredesicksbury. Ele estava ciente de que tinha chegado ao fim de sua jornada. Aquela noi te não podia deitar para dormir. A tosse aumentou causando-lhe muito sofrer. Queriam chamar o médico, porém não quis, dizendo que o médico não chagava antes do seu fim e nada mais faria senão anunciar a sua morte. Queriam saber se tinha qualquer mensagem para a Igreja, respondendo ele que tinha dito tudo o que tinha a dizer ao Bispo McKendree e à Conferência. Às onze horas neste domingo ele perguntou se não era hora de assistir ao culto, e lembrou-se de chamar toda a família ao redor da cama, e o Rev. Bonde cantou um hino fez oração, leu e explicou o capítulo 21 do Apocalipse e durante o culto o Bispo Asbury ficou calmo e sossegado. Terminando o culto pediu que fosse lida a lista de ofertas para os pregadores, assim mostrando o interesse que tinha nos seus pregadores até ao último ato da sua vida. Ofereceram-lhe um pouco de caldo, mas não pode tomá-lo e, vendo a ansiedade no rosto do Rev. Bonde, levantou a sua mão amortecida mostrando-se alegre, querendo assim consolá-lo. Um pouco depois o Rev. Bonde perguntou se sentia a presença de Cristo, mas o santo valente, não podendo falar, levantou ambas as mãos em sinal do triunfo completo. Pouco minutos depois, assentando-se à cadeira e inclinando a cabeça sobre as mãos do Rev. Bonde, deu o último suspiro às cinco horas da tarde, no domingo 31 de março de 1816. Enterraram-no no cemitério da família Arnold, mas, por decisão da Conferência Geral que se reuniu e, maio daquele 1816, resolveu que o corpo do Bispo Asbury fosse enterrado sob o púlpito da Eutaw Street Church, em Baltimore. Ali então repousaram os restos mortais de Asbury por quarenta anos, quando então foram removidos ao “Montr Olivert Cemitery”. Assim terminou a carreira do dianteiro do metodismo na América.
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    VII A vidade GuilhermeMcKendree, oPrimeiro Bispo Americano da Igreja Metodista Episcopal (1757-1835) Francis Asbury foi o elo que ligou o movimento Metodista na Inglaterra com o Metodismo na América e Guilherme McKendree servira como segundo elo na corrente para continuar a estender o mesmo movimento na América. É interessante notar que estes dois homens que fizeram tanto para conservar e desenvolver o que foi conquistado pelo movimento, foram homens humildes, do povo, em uma palavra: self mad men. Nem um nem outro completou um curso de universidade, mas nem por isso deixaram de ser homens jeitosos e preparados para o trabalho. Thomas Cooke foi o primeiro Bispo metodista em todo mundo e f oi para os EUA para ordenar Asbury Bispo daquela Igreja. Asbury foi o primeiro Bispo residente na América e Guilherme McKendree foi o primeiro bispo de nacionalidade americana. Depois da morte do Bispo Asbury, os destinos do Metodismo na América ficaram inteiramente entregues às mãos dos americanos. I – OS PAIS Guilherme McKendree não tinha de que se envergonhar quanto a seus pais, pois eram dignos e honrados. Eram membros da Igreja Anglicana. John McKendree, o pai, era natural do Estado de Virgin ia e sua ocupação era de fazendeiro. Foi um homem sério, honesto e trabalhador. Sua maior preocupação era providenciar meios para sustentar uma numerosa família de oito filhos. Amava a sua família e zelava pelos interesses dela, providenciando não somente sobre as coisas materiais, mas também, sobre as morais e espirituais, vivendo uma vida de cristão, exemplar. Em 1810 mudou-se de Virginia para o condado de Summeer, no Estado de Tennesse, onde veio a falecer no ano de 1815. Sua mãe chamava-se Maria, e por vinte longos anos não sabia o que era gozar saúde. Mas, era uma boa crente e uma mãe que sabia educar seus filhos apesar de suas enfermidades
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    físicas. Sua bondade,carinho, e paciência influíram poderosamente sobre seus filhos, que se tornaram frutos evidentes de sua fé cristã. Em 1789 morreu ela triunfante na fé. II – SEU NASCIMENTO E EDUCAÇÃO A época em que McKendree nasceu, não era, em nada, favorável para educar filhos e protegê-los das influências perniciosas. Havia perigo, pois o padrão moral daquela quadra era muito baixo; até os vigários da Igreja Anglicana eram preguiçosos, gostavam de beber vinho, de jogar, concorrendo em bailes, e corridas de cavalos. Se os guias religiosos participavam destas coisas, que poderiam esperar do povo em geral? 1. O seu nascimento. Guilherme McKendree nasceu no dia 6 de julho de 1757, em o condado de King William, no Estado de Virginia, umas dez léguas para o nordeste de Richmond. Era o primogênito de oito filhos. Ele, o primeiro dos irmãos, e Nancy, a caçula, não se casaram. Nancy estimava muito a seu irmão e cuidou carinhosamente dele, nos seus últimos dias. 2. Sua educação Já se disse em linhas atrás, que as oportunidades para se adquirir uma educação nesta época não eram fáceis, especialmente aos que eram da classe média e com poucos recursos. Mas, apesar dessas dificuldades, os pais fizeram o que estava ao seu alcance para dar -lhe tudo o que as circunstâncias e os seus recursos permitiam. O menino assistia à escola que se podia encontrar, assistia -a com bastante proveito. Não era considerado um menino excepcionalmente inteligente, mas um daqueles que tem desenvolvimento mental lento, mas prolongado. Por isso, quando os outros começavam a mostrar madureza intelectual, ele ia aumentando o seu desenvolvimento mental. Era notável pelo bom senso comum e juízo; procurava exprimir os seus pensamentos pelos termos e palavras mais exatos. Foi um rapaz tímido e modesto com um gosto que excedia à sua capacidade de exprimir. Por isso sempre sentia algo dentro de si que o estimulava à perfeição. Não conseguiu assistir aulas na universidade, porém adquiriu uma educação elementar igual a qualquer outra daquela época. Sempre foi um rapaz honesto e moral; ele mesmo o confessa, ajuntando que unicamente uma vez na sua vida proferiu uma palavra de blasfêmia. III – COMO SOLDADO NA GUERRA PELA INDEPENDÊNCIA Quando irrompeu a guerra pela independência McKendree tinha mais ou menos vinte anos de idade. Muito pouco sabemos do serviço prestado por ele durante estes sete anos, porque sempre se mostrou reservado no que dizia respeito a este período de sua vida. Que prestou bom serviço à pátria, no entanto, não há que duvidar. Sabemos que foi um dos primeiros a se apresentar entre os voluntários para defender a pátria e pelejar pela liberdade. Também sabemos que foi um oficial do exército e que esteve presente na batalha de Yorktown, onde o general inglês, Cornwalls, se rendeu aos americanos e franceses.
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    Quando Bispo, viajandopelos lugares onde se desenrolaram algumas batalhas, reconstituiu alguns fatos que testemunhara e que de algum modo lhe diziam respeito. O Rev. Henrique Smith, que era o companheiro do Bispo, nos conta o seguinte: “Ele, o Bispo, esteve na revolução e estivera na batalha de Yorktown quando o general inglês Cornwalls foi preso. Em 1820, fiz um passeio com ele no campo onde se deu a batalha, e ele me mostrou o lugar onde ficava a sua tenda. Explicou-me como os soldados tinham que exercitar os cavalos antes de entrarem na batalha”. Também o Bispo Roberto Payne, comentando esta fase da vida de McKendree, diz: “Viajei com ele meses inteiros e em diversas ocasiões relembramos as cenas da luta pela independência sob o comando do general Washington, porém nunca o ouvi referir-se ao seu serviço prestado à pátria. Talvez tivesse receio de se mostrar vaidoso na parte que tomara na luta pela independência, e quisesse dar um exemplo de modéstia e honestidade. Em sua pessoa o soldado da liberdade civil estava transformado num soldado valente da cruz. Tendo cumprindo o seu dever como soldado patriota estava satisfeito, e nunca se gloriava de suas façanhas, nem pediu ao governo uma pensão pelos serviços prestados. As honras do mundo e as riquezas ficaram muito aquém das usas aspirações”. IV – CONVERSÃO, CHAMADA PARA O MINSTÉRIO E OS PRIMEIROS ANOS NA ITINERÂNCIA Em vista de o Bispo Asbury pedir que McKendree narrasse os fatos sobre a sua própria conversão, chamada para o ministério e a sua experiência na itinerância durante os primeiros anos, julgamos por bem apresentar aqui o documento que ele deu ao Bispo Asbury. Devemos lembrar que o Bispo McKendree foi muito influenciado pelo seu presbítero presidente, James O Kelly. O Rev. James O. Kelly não gostava do Bispo Asbury e fez uma campanha entre os pregadores do seu distrito contra ele e os planos que pleiteara para a política da Igreja. O resultado foi que o jovem se deixou arrastar pelo seu superior em ofício; mas a sinceridade e honestidade do moço eram tais que quando a verdade foi revelada deixou o Rev. James O. Kelly e aliou-se ao Bispo Asbury e à Igreja. O fim do Rev. James O. Kelly foi bastante triste, morrendo na velhice e tendo perdido todo o prestigio que gozava na igreja. Vamos dividir este documento em três partes, a saber: 1) Conversão e experiência religiosa. 2) A chamada para o Ministério. 3) Na itinerância. “Respeitável amigo e irmão , Francis Asbury, repetidas vezes me tem pedido o senhor para lhe dar por escrito uma narração circunstanciada da obra de Deus na minha alma, a minha chamada para o ministério e alguns dos fatos mais importantes na minha vida.” “Até há pouco tempo alimentava tanta aversão em escrever algo acerca de mim mesmo, que não quis atender ao seu pedido; porém, a sua solicitude tem sido apoiada por outras, isto na esperança de que minha própria alma pudesse ser despertada, primeiro, pela meditação sobre as misericórdias e as bênçãos do passado enquanto me lembrava dos serviços e das ternas misericórdias de Deus manifestadas na minha alma; e segundo, se for da vontade do irmão, imprimir o que escrevo, seria de meu proveito ler aquilo de que quase me tenho esquecido, pelo lapso do tempo decorrido: estas considerações triunfaram sobre a minha aversão natural a essa
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    tarefa. Procurarei, portanto,em termos claros e simples, narrar os fatos e assim deitar o meu: “quadrante no gazofilácio”. “Faz agora quinze anos que entrei na itinerância, desde o ano de 1788 até a presente data, 1803; durante este tempo tenho viajado extensivamente nos Estados de Virgínia, Tennesse, Kentucky e no território oeste de Ohio, agora Estado de Ohio; também em certas zonas nos Estados de Carolina do Norte e Carolina do Sul.” 1. A conversão e experiência religiosa “A primeira impressão da presença divina, de que tenho lembrança, foi quando era menino, na escola. Lendo acerca dos exercícios e prática dos homens santos, como são narrados na Bíblia; da sua vida santa prostrando-se perante Deus, orando e conversando com Jeová, e o Deus todo poderoso falando com eles para os consolar, a minha alma se enchia de tal maneira da majestade divina, a tal ponto, que os meus sentimentos se extasiavam de reverência. E eu tinha tais idéias da condição daqueles homens santos, que a minha própria alma ardia com desejo de ser semelhante a eles. Constantemente buscava lugares solitários em florestas, e lá prostrado com o rosto em terra, chorava pensando que estava falando com Jeová. Tomava a sério este costume e, por isso, outros me reprovavam.” “Meu professor e mestre (que era um homem incrédulo e era pensionista de meu pai) e outros, faziam pouco caso de mim e me criticavam tanto que eu deixei de pensar nestas coisas sérias. Então comecei a seguir o mundo com seus prazeres, e não me lembro que tivesse mais daquelas impressões sérias, por alguns anos.” “Minha experiência me tem levado à maior interesse na experiência das pessoas durante os anos ternos da mocidade. Muitos são os perigos da mocidade, sendo mui grande a benção de instrutores competentes; e a falta destes, com toda a probabilidade, é a causa do ateísmo.” “A segunda impressão religiosa que me lembro de ter, foi na ocasião em que ouvi o seguinte hino sendo cantado: “Ye sons of Adam, vain and young Indulge yor hearts, indulge yom tongne Enjoy the day of mirth, but know There is a day of judgemnt too.” “Oh! filhos de Adão, jovens vaidosos, Prodigai o coração, prodigai a língua; Gozai o dia do gozo, porém, Sabei que há também um dia de juízo.” “O dia do juízo deixou impressão na minha mente. Calou mesmo nos meus pensamentos e perturbou a minha paz por muitos dias; porém, esta impressão gradualmente foi desaparecendo, e mais uma vez pude gozar os prazeres da mocidade.” “Mais tarde os pregadores metodistas entraram na minha comunidade e um despertamento religioso se deu em nossa vizinhança. Meu pai e minha mãe com muitos outros fizeram a sua profissão de fé e se uniram com a Igreja. Fiquei profundamente convencido do pecado e resolvi servir ao Senhor. Por algum tempo andava muito sério, mas depois foi-se-me esfriando o zelo e aos poucos voltei para o mundo e participei mais profundamente do espírito dele do que em qualquer tempo antes.” “A grande misericórdia do Senhor estendia-se sobre mim e me retirou da minha carreira desastrosa, lançando-me na cama com um ataque terrível de febre. Cheguei a ver a morte à porta; todo auxílio humano parecia falhar. Então me via a um passo da eternidade, e ái de mim, não
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    estava preparado, estavasem Deus! Não tinha esperança de um porvir feliz! Estava convencido de que se morresse naquele estado seria eternamente miserável, e para compl etar o meu espanto e misericórdia, não podia obter a clemência de Deus naquela situação. Considerava-me como um que tinha preferido o serviço do diabo ao prazer da religião, até ao fim; e agora para pedir a Deus o perdão dos meus pecados e me levar para si, quando não podia servir mais a mim mesmo, parecia a coisa mais sem razão do mundo. Eu, portanto, me desesperava por obter a misericórdia de Deus. Ah! Se Ele não tivesse misericórdia de mim, dando-me a saúde outra vez e assim me desse mais uma oportunidad e para buscar o seu rosto. Por isso orei fervorosamente.” “Enquanto me sentia sobrecarregado de dor, o mundo parecia uma coisa insignificante; deveras, se pudesse, teria dado o mundo inteiro para obter a paz para minha alma, e o preço teria sido uma bagatela. Mas enquanto a mim me parecia que estava pronto a dar tudo pela paz, eu me lembro bem de um pensamento que me causou bastante confusão, mostrando -me o erro em que tinha caído. A seguinte idéia foi sugerida: ‘Se o Senhor lhe desse saúde e convertesse a sua alma, estaria pronto a ir pregar o Evangelho?’ Perante esta idéia a minha natureza se esquivava, a vontade recusava, e eu tremia quando descobri que não estava tão pronto para obedecer.” “Mas continuei a pedir e o Senhor me tirou da boca da morte, “cobrindo os ossos com carne tenra”. Mas, oh!, quão fracas são as resoluções provocadas pelo medo. Enquanto as minhas forças iam voltando eu perdia de vista o meu perigo e a resolução que julgava tão forte se enfraquecia à medida que minhas forças aumentavam. Em fim perdi o desejo e voltei para os meus colegas antigos e aos negócios do mundo. Continuei nessa situação até o grande avivamento de religião que se deu no circuito de Brunswick, sob o pastorado de John Easter, em 1787. ” “Um domingo visitei um senhor que morava na vizinhança; ele e sua senhora iam assistir culto na igreja para ouvir o Sr. Gibson, um pregador local metodista, pregar. Isto foi logo depois da revolução da independência; então a igreja estava aberta a qualquer pregador. Pois os clérigos (que eram todos ingleses) tinham fugido para a Inglaterra deixando os seus rebanhos e o país. Minha visita contribuiu para fazer o cavalheiro ficar em casa; sua esposa foi acompanhada de uma escrava, e nós ficamos em casa passando o tempo a ler uma comédia e bebendo vinho.” “A senhora demorou bastante tempo na igreja, mas finalmente quando nós estávamos impacientes pelo jantar, ela chegou e nos contou coisas esquisitas aos ouvidos. Com espanto no rosto ela nos começou a contar quem tinha deixado “banhado em lágrimas”, “quem tinha caído no chão”, quem foi “convertido”, que barulho que se fazia entre o povo no meio de gritos pela misericórdia e de alegria, etc. Ela nos informou que John Easter ia pregar na igreja na próxima terça-feira. Meu coração ficou tocado pela apresentação. Resolvi procurar a religião e comecei aquela tarde mesmo.” “Na terça-feira fui à igreja em jejum e oração. O Sr. Easter pregou sobre João 3:19-22. “O juízo é este, que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz”. A Palavra me penetrou na alma.” “Desde este dia em diante não tive sossego de espírito; sentia-me completamente miserável. Meu coração estava quebrantado e vi quão “enganoso é coração acima de todas as coisas, e gravemente enfermo”. Vi a longanimidade de Deus e a baixeza do pecado da ingratidão de que eu era culpado por ter assim entristecido o Espírito Santo; tudo isto me inundou de confusão. Agora minha consciência rugia como um leão. “As dores do inferno apoderaram -se de mim”. Conclui que tinha cometido o pecado contra o Espírito Santo e estava pensando que não era possível me salvar.” “Durante três dias poderia dizer: ‘Consolar-me-á o meu leito. A minha cama aliviará a minha queixa; então me assustas com sonhos, e com visões me atemorizas; de sorte que a minha alma escolhe a sufocação’ (Jó, 7:7-15). Mas na tarde do terceiro dia veio o livramento. Enquanto Easter pregava, eu estava orando do melhor modo possível, porque quase me desesperava por
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    alcançar a misericórdia.De repente as dúvidas e os temores fugiram de mim, a esperança nasceu na minha alma, e o fardo de sobre mim foi removido.” “Sabia que Deus era amor, que havia misericórdia para mim e me regozija em silêncio. Os Sr. Easter me assegurava que Deus tinha convertido a minha alma; mas eu não o acreditava porque já tinha formulado a minha idéia de conversão como se daria e o que devia segui -la; e o que sentia naquele momento não correspondia com a minha idéia. Portanto não acreditava que estava convertido, porém, sabia que havia misericórdia para mim, e eu me regozijava neste fato. ” “De qualquer modo eu me achei numa condição não pouco confortável, pois comecei a buscar o fardo do pecado, porque esperava senti-lo para estar de acordo com a minha idéia se fosse convertido. Mas o fardo tinha ido embora, e eu não o podia achar. Às vezes vibrações de alegria, sim, sentia a vida e o poder de uma fé viva; porém, o instante me advertia a minha conversão, a fé me falhava, e a esperança enfraquecia, e o conforto morria, porque eu duvidava da minha própria conversão.” “Desejava descanso, porém julgava que tinha que passar maiores aflições que as que tinha sentido antes de poder-me converter, e por isso recusei confortar-me. E assim, meu senhor Asbury, por semanas inteiras experimentei todas as angústias, a procura daquilo que me iludia, aquilo que julgava de máxima importância à vida e à salvação, e errando o alvo tinha que voltar ao turbilhão do desapontamento, podendo até dizer que era como um pardal sozinho no teto; “a noite os ossos se me traspass am e caem, e as dores que me devoram não descansam” (Jó, 30:17). Mas o livramento estava perto. O Sr. Easter nos incitou e o Mestre veio com ele e foi nesta ocasião que me encontrei com o Senhor, que é sempre bondoso e misericordioso, e que me abençoou, dand ome o testemunho do Espírito; então, oh!, meu senhor, eu podia deveras, sim deveras, regozijar-me com regozijo inexprimível e cheio de glória!” “Dentro de vinte e quatro horas depois disto, fui tentado a duvidar de minha conversão, porque não recebi o testemunho de Cristo na mesma ocasião. Mas recorri ao Trono da graça, e, ao cumprir o dever de oração, o Senhor me livrou do inimigo e desde aquele dia até o dia de hoje não tenho duvidado mais de minha conversão.” “Tenho pena daqueles, que sob certas idéias doutrinais, são levados a crer nas suas dúvidas quanto às suas experiências e, portanto, somente podem dizer: “se eu fosse convertido”, “espero que já esteja convertido”, “tenho receio que nunca fosse convertido”, etc. , mas não podem afirmar: “sabemos que temos passado da morte para a vida”. É neste sentido que “as trevas, em parte, têm acontecido a Sião”, porém, espero que não diste o dia em que a verdade e a religião triunfarão sobre o erro e a formalidade. Logo depois de minha aceitação por Deus, ouvi um sermão pregado pelo Sr. Gibson, sobre a santificação, e eu senti o peso desta verdade.” “Quando o Sr. Easter voltou de novo, pregou sobre o mesmo assunto, reforçando a mesma doutrina. Tudo isto me levou a examinar mais de perto as comoções de meu coração. E descobri corrupção, abracei a doutrina da santificação e diligentemente busquei a sua benção, e quanto mais sentia necessidade dela tanto mais importante ela me parecia. Em buscá-la minha alma crescia na graça e na fé que vence o mundo. Mas havia uma falta em mim que me doía e fez-me suspirar: “Is worse than death my God love, and not um God alone” (É pior do que a morte amar a meu Deus e não somente a ele). Num dia, cedo de manhã andando no caminho, meditando, veio sobre mim uma tal manifestação da presença do Ser Supremo como nunca tinha sentido antes. Não podendo ficar em pé caí transbordando de alegria. O cálice transbordava e eu gritei de alegria. 2. Chamada para o Ministério “Se não fossem as novas experiências, poderia ter regozijado “para todo sempre”, mas meu coração foi aumentado e só então tive visão mais clara do que nunca, do estado perigoso daqueles que se acham na incredulidade e sem conversão.”
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    “Por essas pessoasorei com toda a diligência. Às vezes, quando fazendo oração pública, minha alma se agonizava e o Senhor, na sua grande compaixão, derramava o seu Espírito, almas foram convertidas, e Sião regozijava naqueles dias.” “Sem a mínima idéia de pregar, comecei a contar aos meus amigos o que o Senhor tinha feito por mim e o que poderia fazer também por eles. Isto teve o seu efeito e muitos foram bem intencionados. Assim fui guiado sem perceber, a ponto de os pregadores e o povo começarem a insistir que eu falasse em público, o que me causou grande aflição. Quando meditava sobre um assunto com disposição de me submeter; se fosse a vontade de Deus me chamar para pregar, as Escrituras se abriram à minha mente, revelando-me um retrato da virtude e do vicio e das suas conseqüências que me enchiam de doce alegria; e eu sentia o desejo de dizer: ‘Eis-me aqui, manda-me a mim’.” “Mas quando, refletindo sobre o fato que teria de me apresentar em publico com as qualificações que possuía, eu me sentia abatido e desanimado. A importância da causa e o que poderia acontecer por um advogado incompetente e indiscreto faziam-me recear que o Senhor tinha me chamado, em fim que Ele nunca chamaria uma criatura como eu para pregar seu Evangelho! Isto me contrariava e me afligia de tal maneira que pus os meus joelhos em terra, pedindo que Deus me tirasse do mundo e me levasse para o Céu para, assim, por fim ao meu caso duvidoso.” “Não podia concentrar o pensamento nos meus negócios temporais, que estavam inteiramente devotados ao assunto de religião. Um certo dia, quando estava assentado à mesa, meu pai entrou e me falou assim: “Guilherme, não tem o Senhor te chamado para pregar o Evangelho?” Eu respondi: “Eu não posso dizer; não sei o que significa um chamado para pregar”. Ele acrescentou: ”Eu creio que Ele te chama e eu te exorto a que não entristeças o Espírito?” Por momentos senti como se fosse atingindo por um raio. Nós dois estavam banhados em lágrimas. Perguntei-lhe porque ele pensava assim. Respondeu-me: “Quando você estava doente com febre” (meu pai referia-se à doença que já mencionei), “quando o médico e todos nós estávamos desenganados, eu sentia uma grande aflição em pensar que ias morrer em teus pecados. Recorri ao trono da graça e orei incessantemente. Enquanto eu estava de joelhos o Senhor se me manifestou de maneira toda especial, e me deu a segurança de que você ficaria bom e viveria para pregar o Evangelho. Até hoje não perdi minha confiança, embora tu tenhas sido muito negligente nisto”.” “Continuei nesta condição indecisa até que foi do agrado do Senhor me colocar no leito de aflição. O Sr. Easter me visitou. No dia seguinte, era hora de partir para a igreja, ele orou por mim, não como os homens geralmente oram, porém, de modo e com um zelo que lhe era todo peculiar. Pela oração dele me senti abençoado; minha alma se encheu de gozo. Ele procedeu em contas ao Senhor que a “Seara é grande mas os obreiros são poucos”, que tinha sido impressionado pelo Espírito mas que tinha recusado obedecer. Pediu que o Senhor me desse a saúde e me mandasse para a sua seara. Sarei e dali em diante comecei a fal ar mais freqüentemente em publico e o Senhor se dignou de me abençoar a mim e aqueles que me ouviam.” 3. Na Itinerância “Nove meses depois que recebi o testemunho do Espírito, realizou-se a Conferência Distrital, na cidade de Petersburgo, na Virgínia. O Sr. Earter pediu que eu me aprontasse para assisti-la. Aceitei o convite e fui hospedar-me em casa dele. Quando chegamos à Conferência, ele me convidou para uma reunião dos pregadores. Fui e logo depois da oração foi lida a nomeação dos pastores; anunciando o Sr. Asbury que eu estava nomeado para o circuito de Mecklenburgo, com o Sr. Philippe Cox. Isto me foi um choque inesperado; porém a maneira com que o senhor tratou os pregadores jovens me acalmou.” “Terminada a sessão eu estava andando sozinho em uma outra sala e o meu Presbítero Presidente entrou e, notando a minha perturbação de espírito, me abraçou e disse: “Quando você
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    estava em péperante a Conferência o Senhor me mostrou que ele tem uma obra para você”, e disse comovido, não sejas um desapontamen to para mim”. Posso afirmar-lhe que este ato me foi de um efeito salutar. Contribuiu para acalmar e fixar a minha mente. Eu somente queria saber o que era justo para eu fazer, então faria do melhor modo possível.” “Tinha confiança absoluta nos pregadores, e refletindo sobre o caráter e juízo daqueles que me tinham recomendado, e a Conferência que me tinha aceitado e fortalecido pelo gesto do meu Presbítero Presidente, resolvi rejeitar as minhas d úvidas, submeter-me a juízo deles, aceitar a minha nomeação e cumprir o meu dever de acordo com os meus dons. Assim depois de uma luta em que por mais de oito meses eu estive suspenso em dúvidas, o coração estava “fixo” e fui logo para meu circuito. Sim, aquele 1788 fui nomeado para o circuito de Mecklenburgo e este me foi um feliz arranjo. O Sr. Cox, com quem fui nomeado para viajar, foi um grande intercessor e pai para mim. Os crentes mais antigos sabiam simpatizar com os jovens pregadores. A mim me pareceu que eles queriam realmente carregar a minha cruz. Neste circuito havia muitos crentes que tinham experiências profundas das coisas divinas, e cujo exemplo e conversa eu muito aproveitei. Espero que nunca me esqueça das palestras tão piedosas que tive com eles sobre o poder da graça triunfante em Cristo.” “Depois de uma prova, tinha a esperança de que os pregadores ficariam convencidos que eu não tinha dons para o ministério; e por este meio eu poderia voltar para a minha vida sossegada que deixei. Mas o ano passou e fui continuando em experiência. O povo amado não queria que eu fosse removido do meio dele, porque tínhamos passado juntos alguns meses muito felizes. Em 1789, fui nomeado para o circuito de Cumberland, Virgínia, onde passei uma parte do ano, e então fui transferido para o meu antigo circuito de Mecklenburgo.” “Durante estes anos as dúvidas acerca de minha vocação para pregador quase desapareceram por completo. Comecei a ter gosto na minha vocação. Os membros das igrejas foram muito bondosos para comigo, e nós todos vimos algum fruto do nosso trabalho. Os membros mais antigos foram estimulados a mais atividade e novas pessoas foram atraídas para a Igreja.” “Mas, então levantou-se uma outra aflição dolorosa, de outra natureza. Um espírito de cisma começou a nos atormentar (o movimento promovido pelo Sr. James O. Kelly).” “O Metodismo tinha feito progresso além de toda a expectativa. Os regulamentos que foram feitos não eram suficientes para abranger todas as exigências que a jovem e crescente Igreja requeria, com o aumento de pregadores e membros.” “No ano anterior, um número de delegados tinha sido indicado para formular regulamentos para satisfazer a todas as nossas dificuldades (o Concílio). Eles tiveram uma reunião. Nosso Presbítero Presidente, James O. Kelly, foi um deste grupo. E eles unanimemente tinham aprovado um plano para ser apresentado às Conferências Anuais durante o ano para ser aceito ou rejeitado.” “Mas antes de se realizarem as Conferências, o Sr. James O. Kelly mudou de pensar, e começou, em nossas conversas particulares, a informar-me do grande perigo que ameaçava a nossa Igreja florescente; ameaça, cuja causa, segundo indicações claras dele, era a falta de religião da parte de certos guias no ministério. E que o sr. Superintendente (bispo) era o chefe deles, tinha ambição sequiosa pelo poder e dinheiro, como eu o compreendia, traria a destruição sobre a Igreja de Deus.” “Tive naquela época, e ainda tenho, muito zelo pelo progresso de Sião, e notava aquilo que faria mal à Igreja. Examinei o que os nossos delegados tinham feito e formulei o meu juízo sobre o caso, do melhor modo possível, e, de acordo com a minha informação, não podia aprovar o plano. Isto deu ainda mais peso às representações particulares do meu Presbítero Presidente. Indo assistir à Conferência em Petersburgo, com o meu Presbítero Presidente e mais alguns dos pregadores, trocamos idéias antes de chegarmos à Conferência e mais uma vez nos consultamos,
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    ainda antes, dechegarmos à cidade, de sorte que mais ou menos havíamos chegado a um acordo sobre o assunto antes de ser discutido no plenário da Conferência. Contudo, quando o Sr. Chegou e apresentou o assunto à Conferência, como o sr. sabe, foi rejeitado em peso, e recusamos adotar outro qualquer plano. Mas eu fiquei surpreso com o sr., pois em vez de se mostrar contrariado e um tirano, o senhor propôs que fossemos eleitos diáconos.” “Nós nos elegemos um ao outro, e o maior número de pregadores daquele Distrito, de James O. Kelly, foram ordenados diáconos e nomeados aos diversos circuitos tendo o nosso Presbítero Presidente antigo, como nosso chefe no território que fica para o sul do rio “James”. Em 1790, fui nomeado para viajar com Jessé Nicholson, no circuito de Portsmouth; mas fui removido e passei o resto do ano com Guilherme Spencer, no circuito de Sury. Este foi um ano cheio de conforto para minha alma.” “Encontrei-me com um povo afeiçoado. Muitos eram realmente santos com profunda experiência a respeito das coisas de Deus, e foram uma verdadeira benção para mim. “O ferro com o ferro se aguça”; assim a conversação c om esses irmãos me estimulou ao amor e à prática de boas obras. Encontrei pais, mães, irmãos e irmãs, que realmente o eram. Meus momentos de sobra gastava-os nos estudos. A oração e o jejum eram para mim uma alegria. Experimentei um céu na terra quase sem interrupção. O trabalho do Senhor prosperou nas minhas mãos, especialmente lá para o fim do ano. Um número considerável foi acrescentado às Sociedades. ” “Quando os presbíteros dirigem bem merecem honras duplicadas e devem ser estimados pelo seu trabalho. Mas, ai de mim, o meu maior tormento naqueles dias vinha do homem que me devia ter dado conforto. Quando o meu velho amigo, James O. Kelly nos visitou quase todo o tempo disponível foi consumido em conversas particulares comunicando e consultando sobre “de que maneira o partido que mais e mais manifestara o seu mau negócio da sua política e princípios e, forçosamente”, como ele dizia “mais cedo ou mais tarde traria a destruição completa à Igreja”. O resultado foi que ele chamou todos os pregadores do seu Distrito para uma reunião, num dia marcado, na cidade de Mechlenburgo. Isto foi uma novidade termos uma Conferência especial no intervalo da Conferência Anual; mas o motivo desta era considerado justificável.” “Reunimo-nos segundo a ordem do Presbítero Presidente e formamo-nos num concílio. O nosso Presbítero Presidente nos contou uma coisa. Ele tinha alguma oposição e isto causou bastante dor. Tomamos resolução contra “o partido oposicionista”, e o nosso amigo P astor Presidente pensava que os pastores estavam mais ou menos de acordo, com uma ou duas exceções, que eram julgados do “partido oposicionista”. Exigimos uma Conferência Geral.” “Eu amava a Deus e queria bem a Igreja dele e portanto estava disposto a ouvir as suas queixas. O velho cavalheiro James O. Kelly era considerado por mim como amigo da Igreja também – a boca da Igreja; e tal foi a minha confiança nele que a sua palavra era considerada por mim como se fora quase um Evangelho. Ouvi-a e acreditava no que ouvia. Tomando um lado só da questão, de acordo com a minha informação, tinha que desconfiar dos pregadores do “partido oposicionista”, ou o “Bispo e as suas criaturas”, como eram chamados. “Talvez o senhor se lembre que foi, mais ou menos nesta época, que lhe disse que não tinha mais confiança no senhor. Ao menos nunca me hei de esquecer de sua resposta: “Não me admira, meu irmão; às vezes somente podemos ver com os nossos olhos; às vezes somente podemos ouvir com os nossos ouvidos.” “Mas, infelizmente, com a perda da minha confiança, comecei a perder o amor para com “o Bispo e as suas criaturas” na verdade, os meus melhores amigos. Tais coisas mal representadas, somente preparavam o caminho e indicavam a direção para a pior das misérias. E, é isto, meu senhor, que eu considero uma das mais notáveis e tristes manchas que o espírito sismático pode produzir. Pois “Deus é amor, e quem permanecer em amor permanece em Deus, e Deus nele”. E “por isso todos os homens vos conhecerão como os meus discípulos se amardes uns aos outros”. Mas o amor começou a falhar.”
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    “Fui nomeado parao Circuito de Amélia. Nessa ocasião, se bem me lembro, a Conferência foi mudada da primavera para se reunir na ocasião do Natal. Nada houve, no entanto, de importância neste circuito que merecesse menção. Eu gozava paz e sossego de espírito e tinha plena comunhão com todo o povo com quem trabalhava. Tivemos alguma esperança que ainda haveria uma Conferência Geral e os nossos receios se iam dissipando. ” “Na Conferência de dezembro de 1791 que se reuniu na Capela Lane, a paz alegrava os nossos corações. Tivemos as boas notícias que íamos ter uma Conferência Geral no próximo novembro. Nossas diferenças foram ajustadas, e os nossos amigos antigos ficaram satisfeitos. Sem dúvida o senhor já se esqueceu da alegria que se manifestou entre os jovens pregadores nessa ocasião que fui ordenado presbítero e nomeado para o Circuito de Greenville que abrangia a minha vizinhança.” “Esta foi a primeira nomeação contra a qual se me rebelou o espírito. Tinha de viver no meio de meus parentes e conhecidos, e muitos deles eram membros das nossas Sociedades muito antes de mim e se consideravam os meus superiores. Foi uma época em que os membros tinham de ser peneirados (disciplinados) e alguns tinham mesmo de ser excluídos da Igreja. De minha parte tive muito receio que eles não se submeteriam; esse o motivo que me levou a rebelar contra a minha nomeação. Mas nisso fui desapontado.Creio que nunca passei um ano em que tivesse sido mais feliz nos serviços eclesiásticos.” “Contudo diversos foram excluídos da Igreja e não havia desgostos ou preconceitos contra mim, que eu soubesse. Na verdade tivemos poucas profissões de fé durante o ano; mas, não raras foram as reuniões preciosíssimas que tivemos. O trabalho ou a obra da santificação reviveu. Quando estava pregando sobre o texto: “Santifica-os na verdade; a tua Palavra é a verdade”, um pregador local gritou, rogando esta benção. Quando voltei para a mesma congregação ele professou a santificação e zelosamente pregava a mesma doutrina. Hospedei-me com ele. Era curioso ouvi-lo falar da morte como se fosse uma coisa familiar e à porta. Ele só almejava uma coisa: que a morte lhe fosse coisa rápida. Era um ferreiro de ofício. Quando me despedi dele foi pela última vez, pois, antes de voltar foi morto por um raio quando trabalhava na forja, rodeado de outras pessoas. Assim o Senhor o ouviu e lhe deu morte rápida.” “Tive um feliz desapontamento porque as dificuldades que esperava não apareceram. Fui ricamente abençoado com abundantes graças e estava satisfeito, julgando que havia paz entre nós. Quando o nosso velho amigo James O. Kelly me visitou, meu coração se encheu de alegria por vê-lo. Mas, em vez de conservar a paz que nos inspirou a última Conferência e me encaminhou de modo próprio e seguro, ele, de novo, introduziu o velho assunto e me afirmava que o senhor não andava com sinceridade no plano adotado; que era somente um alvitre político – que o intuito verdadeiro era ganhar tempo e satisfazer a sua ambição pessoal e que isso destruiria a Igreja. Fui tão infeliz que acreditei e desde aquela hora tomaram-se medidas contraditórias.” “Em novembro de 1792, realizou-se a Conferência Geral; indo eu, do meu circuito, para assisti-la encontrei-me com o meu Presbítero Presidente acompanhado de mais dois ou três pregadores. Na casa do coronel Clayton encontramos mais alguns delegados. Os senhores Guilherme Spencer e S. Cowler foram mandados adiante . O Presbítero Presidente manteve consigo dois pregadores para irem juntos com ele, sendo eu um deles. Chegamos à sede da Conferência e eu fui indicado para hospedar-me com ele. A Conferência começou. Divisão de sentimentos, deveras! O nosso quarto foi uma câmara de Concílios. O mal estava resolvido contra a Conexão (Igreja), justificado pela suposição de que “o Bispo e as suas criaturas” estavam procurando destruir a Igreja para lhe gratificarem a piedade e ambição.” “O velho cavalheiro James O. Kelly retirou-se da Conferência. Eu e mais alguns pedimos licença para nos retirar também e voltamos para casa, e logo nos dirigimos para a Virgínia. Muitas consultas nos foram feitas, ficando nós bastante confusos em nossas deliberações, e quando os outros nos tinham deixados a sós, eu e velho cavalheiro, continuamos a nossa viagem juntos por
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    algum tempo. Eleme revelou o seu plano. Ia ser uma Igreja gloriosa – “sem escravidão”, etc. , etc. Essa Igreja, porém, ia ser organizada sob a suposição de que um mau governo lhe estava sendo introduzido, pela Conferência revolucionária que acabamos de assistir. O desígnio suposto do Bispo correspondia a prender os membros mais engenhosos do gabinete, ao tronco e galhos da árvore. “Era abjeto” – “era papismo!” Foi uma coisa horrível!” “Mas havia conclusões também diferentes. Um S.D. resolveu assistir à Conferência Distrital e aceitou a sua nomeação. Três separaram-se da Igreja e tornaram-se contra ela. Nenhum destes métodos me satisfazia, portanto, rejeitei nomeação da Conferência, porque estava com idéia de rejeitar “o sistema monstruoso” quando ele se manifestasse. Encontrei-me, no entanto, com o senhor e os demais Presbíteros Presidentes, alguns dias antes da Conferência aceitando uma estação. Fui nomeado para a cidade de Norfolk; e oh! como fui surpreendido no correr deste ano em achar a disciplina inteiramente diferente da qual esperava, e também de achar motivos justos em me afastar do meu antigo e amado amigo James O. Kelly. Comecei a me sentir como se fora alguém sem bússola em alto mar. Alguns dos meus amigos insistiram comigo que abandonasse a minha estação e não comparecesse à Conferência e, além disso, alguns dos meus amigos fiéis, porém não discretos, me criticavam. Minha posição, pois, era bem delicada e não muito agradável, porém o Sr. Ira Ellis, meu novo Presbítero Presidente, foi um conforto para mim. Dele recebi informação e conselho que me foram de valor incalculável no dilema em que me achava. Enfim em minha opinião a Igreja deve muito à Infinita Bondade em ter no seu seio um homem que teve a sabedoria e a prudência que ele revelou naquele dia.” “Durante o tempo que passei nesta estação o Senhor Deus foi muito bondoso para comigo. Em meio a minha confusão recorria ao trono da graça, e me sentia habilitado para pregar. A misericórdia e poder acompanhavam a Palavra, e o povo era abençoado; assim tinha “tempo de refrigério” no meio de muitas amarguras”. “Assinado: Wm. McKendree.” O trecho acima é bastante extenso, mas abrange os fatos mais importantes na vida do Sr. McKendree. Coitado deste jovem nas mãos de um demagogo! Acautelai -vos, jovens, de tais homens. V – SEU TRABALHO COMO PRESBÍTERO PRESIDENTE Fazia oito anos que McKendree servira como pregador itinerante e durante este tempo mostrou-se competente e dedicado à Causa do Senhor. Em todos os cargos em que servira seus esforços e consagração eram apreciados, e não somente isto, mas conquistara o coração do povo. Todos os cargos que servira ficariam satisfeitos se fosse mandado para eles novamente. 1. Trabalho a leste do país. Na ocasião da Conferência que se realizou na Capela Salem, no Condado de Mecklenburgo, na Virginia, em 24 de maio de 1795, McKendree foi nomeado como pastor de um circuito e seu Presbítero Presidente. Sendo nomeado Presbítero Presidente naquela época (é como sucede atualmente no Brasil), significa mais trabalho e maiores responsabilidades. Passou três anos neste distrito, viajando, pregando e dirigindo o trabalho nos limites do seu distrito. Dando um resumo do seu trabalho neste distrito, ele diz: “Fui ricamente abençoado neste distrito com bons amigos e alguns conselheiros sábios. Também o trabalho foi abençoado por um avivamento religioso; muitos fizeram sua profissão de fé, testemunhando o poder regenerador da graça de Deus, e se identificaram com a Igreja. Os membros concitaram uns aos outros ao amor e às boas obras, e seu progresso na vida divina foi notável. Mas, tais eram os trabalhos e as responsabilidades tantas que concorreram para abalar a minha saúde. Meus estudos também foram grandemente prejudicados devido aos cuidados diversos que me cabiam.
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    Porém tinha emrecompensa a comunhão íntima com o meu adorável Salvador e o aumento de número de membros junto com a prosperidade da Igreja em geral. Tudo isso concorreu para aumentar o meu zelo e alegria no Senhor”. Em 1798 o Sr. McKendree foi nomeado Presbítero Presidente de um Distrito em de Baltimore. Aqui ele trabalhou dois anos mostrando a mesma dedicação e aplicação à causa do Mestre. O Distrito era quase do mesmo tamanho do de Virginia e tinha muitas viagens a fazer. Chegou, porém, a hora em que tinha de deixar o leste do país e ir para o oeste onde maiores oportunidades o esperavam. Devemos lembrar que durante estes treze anos como pregador e Presbítero Presidente viajou pelos Estados de Maryland, Virginia, e Carolina do Sul. 2. Seu trabalho a oeste do país. Na primavera de 1800 os Bispos Asbury e Whatpcot passaram pelo Distrito do Sr. McKendree na visita ao oeste, além das montanhas de Alleghany, e convidaram-no para ir com eles assistir à Conferência do Oeste, que se reunia em Bethel, no Estado de Kentucky. Foi nessa ocasião que o nomearam como Presbítero Presidente do Distrito cujo território abrangia os Estados de Tennesse, Kentucky, Virginia do Oeste, Ilinois e a Missão de Natchez. Tinha de viajar 2.500 quilômetros para percorrer o seu distrito. Durante oito anos foi ele o dianteiro nesta vasta zona que é hoje o centro do Metodismo nos Estados Unidos do Norte. O Sr. Asbury que conhecia os homens escolheu o Sr. McKendree para abrir e conquistar esta vasta zona para Cristo. Tais dias não existem mais nos Estados Unidos, porém, existem atualmente no Brasil. Os sertões estão convidando e desafiando os jovens pregadores brasileiros para conquistá-los para Cristo. Toda a história a respeito dos heróis de Cristo não foi escrita ainda; no correr dos anos, porém, alguém há de escrever acerca das façanhas dos pregadores itinerantes brasileiros. Feliz será o rapaz que venha a ter tal visão! Estes oito anos foram anos de privações e de grande abnegação, porém cheios de satisfação e alegria. Poderíamos escrever bastante sobre a origem dos Cultos de Acampamento (Camp. Meetings) e da fundação da Igreja Presbiteriana de Cumberland que se deram durante este período e diversos outros incidentes cedendo o esboço ao Sr. McKendree, deixando-o dar uma idéia do seu trabalho durante esta época. Ei-la: “Durante a nossa viagem através das fronteiras, se nos encontrássemos com um rio era nosso privilégio atravessá-lo, nadando; e uma vez chegados ao outro lado teríamos a satisfação de saber que aquele perigo ficara para trás de nós, e que um outro nos estava enfrentando. Se a noite nos alcançava longe de uma casa onde pudéssemos pousar, teríamos o privilégio de juntar lenha, fazer um fogo, cozinhar e comer um bocado e suplicar ao trono da graça sob o céu estrelado como se estivéssemos na Igreja. Estando cansados o sono era doce para nós e a proteção divina estava sobre nós; e quando chegávamos ao nosso destino, se as comodidades fossem humildes, teríamos a grande satisfação de ser recebidos com os mais sinceros bem-vindos e servidos com o melhor que os hospedeiros podiam nos proporcionar; e, ainda muito inferior, na estimação dos que estavam acostumados a iguarias reais, tinham o suficiente para suprir as necessidades naturais. Comíamos com gosto, dormíamos bem e regozijávamos-nos com o povo piedoso e afeiçoado que nos recebia e nos tratava como se fossemos anjos de Deus; e acima de tudo, quando nos chegava a hora de pregar, o povo se reunia ansioso para ouvir a Palavra do Senhor.” “As orações subiram os montes do Senhor; o poder divino acompanhava a Palavra pregada; pecadores eram convencidos e muitos convertidos a Deus, e a Igreja aumentava e se fortalecia “na fé uma vez para sempre confiada aos Santos”.”
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    “Meu campo exigiamuitas viagens a cavalo. Pregava freqüentemente e arcava com muita responsabilidade; contudo considero esses dias os mais felizes da minha vida. Parece coisa esquisita que ali, no meio de todas as privações e perigos, minha saúde enfraquecida, melhorasse sensivelmente. Gozei paz e consolação pela fé e fui privilegiado em andar com Deus”. Durante este período havia demonstrações do poder do Espírito Santo no meio do povo. Também havia manifestações de irregularidades e fanatismo, porém o bom senso e observação da disciplina pelo Sr. McKendree conseguiram guiar o povo nas veredas da justiça e retidão. O desenvolvimento do trabalho durante estes oito anos foi maravilhoso. Em 1800, quando ele foi nomeado para este campo, havia 11 pregadores e 1.741 membros; em 1808, havia, 66 pregadores e 16.887 membros. VI – SEU TRABALHO COMO BISPO Quando se reuniu a Conferência Geral em maio de 1808, Asbury estava adoentado e avançado em idade; o Bispo Coke estava comprometido com o trabalho na Europa, e o Bispo Whatcoat tinha falecido, portanto, havia urgência em eleger ao menos um novo bispo. Quem seria o novo bispo? O homem eleito tinha que ser um americano e a questão era quem seria esse americano. 1. Eleito Bispo. A Conferência Geral se realizou na cidade de Baltimore na Light Street Church. McKendree tinha passado oito anos nas fronteiras e muitos dos jovens pregadores não o conheciam e os mais velhos não sabiam o progresso que ele fizera durante este tempo; por isso, quase ninguém se lembrou dele como um candidato ao episcopado. Na véspera da Conferência McKendree foi nomeado para pregar na Light Street Church no domingo, véspera da Conferência. A igreja estava cheia de gente, havendo não somente delegados à Conferência Geral, como também, muitas pessoas estranhas a McKendree. Todos estavam ansiosos por ouvir o pregador do Oeste. Este subiu ao púlpito trajando roupa ordinária que usava nas florestas no oeste. Depois de cantar um hino fez oração de joelhos, porém não podia orar com a liberdade de costume, havia hesitação na voz e a pronúncia de certas palavras não era perfeita; enfim, a impressão que produzira no auditório num primeiro momento não fora agradável. Tomou para o sermão o texto Jeremias 8:21 e 22. A princípio estava embaraçado, porém, em breve esqueceu-se de tudo, menos do assunto sobre o que falava e o povo também esqueceuse do pregador sendo arrebatado pela eloqüência e a verdade anunciada. O auditório foi sacudido como as árvores na floresta pelo vento. Quando o povo se retirou da Igreja, levou uma impressão de admiração do pregador do Oeste. E o Bispo Asbury observou que aquele discurso contribuiria para elegê-lo ao episcopado. Poucos dias depois, quando chegou a hora para votar na eleição de um bispo, McKendree foi eleito, na primeira votação, e isto se deu no dia 12 de maio de 1808. Ele ficou satisfeito com este acontecimento; para ele foi como uma réstia do céu azul; não esperava tal coisa. Não encontramos nada escrito em seu Diário sobre este ponto. Ele não quis externar as emoções de sua alma. Só depois de muito tempo encontramos a seguinte observação sobre este assunto: “Foi na ocasião dessa Conferência (1808) que os meus irmãos acharam por bem aumentar a espera de minha atividade, e isto foi na época de minha vida, segundo o meu modo de ver, em que deviam ter sido diminuídas as atividades. Isto, forçosamente, aumentou os meus trabalhos, multiplicou os meus cuidados e me colocou numa posição em que teria mais tristezas. Às vezes ficava impulsionado a não me submeter, porém, quando chegou ao término,
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    tinha receio denão aceitar; não estava em mim recusá -lo. E enquanto sentia profundamente não possuir as qualificações adequadas a este ofício, confiante no apoio dos meus irmãos, e confiado no auxílio divino, me submeti hesitante mas resolutamente”. Lá quase no fim de sua vida assim dá sua opinião sobre o ofício de bispo. “O ofício de bispo en tre nós não é uma coisa para se ambicionar; a verdade é que aumenta o nosso labor, fadiga e provocações, com o acréscimo do cuidado de todas as Igrejas”; e aquele que almejar o ofício de bispo” como uma coisa boa” por qualquer outro motivo que não seja aumentar a felicidade do homem e glorificar a Deus, não tem pesado o seu valor”. Aceitou ele esta incumbência e a honrou por vinte e sete anos. Não procurou ele ofício, porém o ofício o procurou. 2. Trabalhando com o Bispo Asbury Logo depois de terminada a Conferência os Bispos combinaram os seus itinerários e entraram na realização deles. O Bispo McKendree encetou a sua viagem para o oeste, passando pelos Estados de Virginia do Oeste, Tennesse, Ilinois e, atravessando o rio Mississipi perto da embocadura do rio Missouri, passou alguns cento e cinqüenta quilômetros no interior do estado de Missouri. Pelo caminho pregava e realizava as conferências. Em Missouri ajudava os pastores a realizar conferências de avivamentos. Muitas almas se converteram. Muita gente, apenas por curiosidade, assistia aos cultos para ver um Bispo Metodista, mas qual não era a sua surpresa ao ver um homem comum, trajados com simplicidade. Em vez de austeridade de costumes e sinais de autoridade eclesiástica, encontrou nele gravidade, porém uma pessoa afável, familiar e persuasiva, gentil para com todos os homens, pronto a participar com suavidade em todas as circunstâncias , quer entre os pobres, quer entre os da alta sociedade”. O Bispo McKendree não podia fazer o seu trabalho como o Bispo Asbury o fazia. O Bispo Asbury no presidir uma Conferência não seguiria estritamente as regras parlamentares; antes usava o seu prestigio entre os pregadores como um pai; porém McKendree, não se achando habilitado para assim proceder, adotou certas regras que eram rigidamente observadas quando ele presidia a Conferência. Era tão justo e imparcial que logo ganhou a confiança dos seus colegas no Ministério, sendo reconhecido como mestre na cadeira da Conferência. O seu bi ógrafo disse: “Um presidente melhor do que o Sr. McKendree até hoje não ocupou a cadeira de uma Conferência Anual ou Geral”. Havia outras coisas que não podia fazer do mesmo modo que o Bispo Asbury, considerado o Pai do Metodismo na América, e entre elas a da nomeação dos pregadores. O Bispo Asbury fazia a nomeação dos pastores sem consultar os Presbíteros Presidentes, porém o Bispo McKendree não quis assumir tanta responsabilidade antes de consultar os Presbíteros Presidentes, alegando que não conhecia tão bem os pregadores e os campos de trabalho como o Bispo Asbury os conhecia. O Bispo Asbury estranhou isto nele. O Bispo McKendree escreveu uma carta ao Bispo Asbury sobre o assunto, mostrando o seu ponto de vista. Eis a carta: “Cincinatti, 8 de outubro de 1811. Irmão Asbury, estou convencido da utilidade e necessidade do Concílio dos Presbíteros Presidentes fazer as nomeações dos pregadores. O senhor porém, tem receios que certos indivíduos dificultem, ou melhor, tornem impraticável o plano delineado, impossibilitando -o de nele prosseguir. Estou pronto a ajudá-lo do melhor modo possível, e como me acho ligado a uma obrigação, prontifico-me a prestar o serviço que for mais eficiente à Igreja. Conseguintemente estou ainda disposto a aceder à proposta que o senhor me fez por ocasião da Conferência, em Tennesse, se for julgada conveniente. Sendo assim de sua vontade aceitar o plano de visitação, depois que for apresentado pelo senhor, chamarei os Presbíteros Presidentes para me ajudar e depois de deliberado um concílio relatarei a favor do mesmos ou indicarei tais alterações que se considerem necessárias. Recuso-me, porém, a assumir
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    toda a responsabilidade,não porque tenha receio de assumi-la eu mesmo, porém julgo a proposta inclusa muito importante. Assina, W. McKendree”. Na ocasião da Conferência Geral que se realizou na cidade de Nova York, em maio de 1812, houve algumas alterações no modo de dirigir os negócios da Conferência. Esta foi a primeira Conferência Geral composta só de delegados, representantes das diversas Conferências Anuais. Os Bispos presidiram alternadamente tal Conferência: o Bispo Asbury num dia e o Bispo McKendree no outro dia. Foi nessa ocasião que o Bispo McKendree introduziu algumas novidades na Conferência Geral, a saber: - Regras de Ordem e o Discurso Episcopal à Conferência Geral. E desde aquela data até hoje estas duas coisas têm sido conservadas na Igreja. O Bispo Asbury, sendo inglês, seguia mais ou menos os costumes dos ingleses na realização das Conferências, fazendo um discurso verbal à Conferência, porém o Bispo McKendree queria estabelecer Regras de Ordem e submeter-se a elas para o bem, tanto da minoria como da maioria e também, queria comunicar formalmente, por um discurso escrito, à Conferência Geral, as condições da Igreja e indicar algumas medidas que a Conferência deveria tomar, etc. O Bispo Asbury estranhou tal inovação e quis argüir o novo Bispo. Levantou-se e disse: “Tenho alguma coisa a dizer-lhe perante a Conferência”. O Bispo McKendree, também, se levantou e os dois ficaram face a face. O Bispo Asbury disse: “Esta é uma coisa nova para nós. Até aqui não tenho feito isto, e por que se há de introduzir agora?” O Bispo McKendree respondeu prontamente: O senhor é o nosso pai, nós somos os seus filhos; o senhor não precisou disto. Eu, porém, sendo um irmão, estou precisando disto. O Bispo Asbury não disse mais nada e assentou-se sorridente. Terminada a Conferência e não havendo bispos novos eleitos, e a saúde do Bispo Asbury piorando, o Bispo McKendree sentia mais que nunca a responsabilidade do seu cargo. No entanto, iniciou o novo quatriênio com fé e esperança, mas apesar disso foi um dos mais difíceis, talvez, da sua carreira no episcopado. Logo no principio irrompeu uma guerra entre os Estados Unidos e a Inglaterra, houve desastrosos terremotos e, finalmente, quase no fim do quatriênio, o Bispo Asbury faleceu, deixando-o com toda a responsabilidade e a sua saúde muito abalada. Mesmo assim ele agüentou o peso e “desempenhou bem o seu ministério”. 3. Trabalhando com os seus colegas de ofício. Na ocasião da Conferência Geral que se realizou em 1816 foram eleitos bispos os Srs R. R. Roberts e Enoch George. Combinaram o plano de visitação às Conferências Anuais. É digno de notar o espírito de abnegação que o Bispo McKendree manifestou no arranjo do itinerário dos bispos. Sendo ele o bispo sênior era seu dever iniciar os dois novos no trabalho do episcopado e isto lhe exigia serviços especiais e, além disso , o Bispo George era casado possuindo família, e como tocava a ele visitar o trabalho novo em Mississipi durante o segundo ano do quatriênio, o Bispo McKendree se ofereceu para fazer este trabalho e, assim, evitar uma ausência tão longa do colega ao seu lar. A Conferência Geral que se realizou em Baltimore em 1820, foi a mais agitada que houve desde o ano de 1792. O mesmo assunto que foi levantado pelo Sr. James O. Kelly – a eleição dos Presbíteros Presidentes pela Conferência Anual – motivou uma discussão que durou dias. Para conseguir a paz e harmonia alguns irmãos consentiram em votar a favor desta modificação, porém em vez de conseguir a paz esperada complicou-se ainda mais a situação, pois o Sr. Josué Soule eleito ao episcopado antes de passar esta lei, recusou aceitar a ordenação, julgando violada a Constituição da Igreja com tal legislação. Também o Bispo McKendree fez o seu protesto contra a nova lei, baseando-se no mesmo princípio. Isto provocou nova ação pela Conferência cuja resolução ficou suspensa até a próxima Conferência Geral.
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    O Bispo McKendreelevou esta nova resolução perante todas as Conferências Anuais durante o quatriênio, para ver se queriam confirmá-la e o resultado foi que as Conferências Anuais se recusaram a aprová-la. Na ocasião da Conferência Geral, realizada em maio de 1824, na cidade de Baltimore, foram eleitos bispos os senhores Soule e Hedding. O Bispo McKendree sentia-se adoentado e a Conferência nada exigiu dele durante o novo quatriênio, deixando isso a seu próprio critério. Ele, porém, não ficou inativo, pois não deixou de fazer tudo quanto as suas forças permitiam, assistindo Conferências Distritais, pregando com grande aceitação por parte do povo e realizando algumas Conferências Anuais. Devemos lembrar que o Bispo McKendree se interessava pelas missões entre os escravos e índios. Cuidava e estimava o seu cavalo, não gostando de negócios ou barganhas de cavalos. Quando ganhava um que lhe servia, com ele ficava até ao fim da vida. Tinha um cavalo gateado do qual gostava tanto que deixou no seu testamento algum dinheiro para seu gasto em conservá-lo num bom pasto, e na ocasião da morte, enterrá-lo. Certa vez, estando muito doente e sofrendo dores torturantes, um médico ateu foi chamado para cuidar dele. Depois de o examinar ficou alarmado com o estado do Bispo e bem impressionado ao ver a calma com que suportava a dor, perguntou-lhe: “Sr. Bispo, como é que o senhor pode suportar tanta dor assim tão calmo?“ O velho Bispo, abrindo os olhos e fitando-os no médico, respondeu: “Doutor, pela sua filosofia pode explicar como um cristão no meio de sofrimentos sente-se perfeitamente feliz? Não deve existir nele uma alma?” O médico ficou mudo por um instante, e então disse: “O Sr. Bispo, deve ser assim mesmo”. VII – O FIM DO DIA Durante os últimos dez anos de vida o Bispo McKendree não gozava boa saúde. Tudo que fazia era com sacrifício e dor. Mas não deixou de se ativar até o fim. Fez uma viagem para Nova Orleans, em 1833, de navio, no rio Mississipi. Esta foi a sua última viagem longa. Presidiu a su a última Conferência em Lebanon, no Tennesse, em 5 de novembro de 1834. E pregou o seu último sermão na Igreja de seu nome na cidade de Nashville, Tennesse, em 23 de novembro de 1834. Assim terminou o seu trabalho – o seu trabalho fielmente feito. Em 22 de dezembro de 1834 deixou a cidade de Nashville e foi para casa de seu irmão, que morava no condado de Summer, não muito distante de Nashville. Foi nesta época que ao cortar as unhas rasgou a pele no cantinho de um dos dedos que inflamando causou-lhe bastante sofrimento físico. Ele sentia alívio da sua dor na oração. Agora estava tão fraco que era forçado a ficar no leito. Sua boa irmã que cuidou dele por tantos anos estava agora a seu lado para acudir às suas necessidades nos últimos dias. Sabia que os seus dias estavam contados e que o fim estava se aproximando. Tinha terminando o seu trabalho e se despedido dos irmãos e amigos e agora esperava enfrentar o último inimigo – a morte. Poucos dias antes do desenlace pediu que a cama de seu pai fosse trazida para o seu quarto e que fosse posto nela, pois queria morrer no mesmo lei to em que ele falecera.
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    Suas últimas palavrasforam: “Tudo está bem para o tempo e eternidade. Vivo pela fé no Filho de Deus”. E com toda a energia que tinha repetiu: “Quero que isto seja bem compreendido, que está tudo bem, seja o viver ou o morrer. Há dois meses não tenho nenhuma nuvem do céu. Tenho tido confiança ilimitada no amor de meu Salvador”. Depois disto não sofreu mais dor; ficando sufocado por falta de ar, a sua irmã o ergueu um pouco e lhe perguntou: “Tudo está bem agora?” Ele com um último suspiro disse: “Sim” e dormiu no Senhor Jesus Cristo. A luta já passou; o carro celestial o arrebatou para os montes celestiais. Foi sepultado a uns cem metros da casa de seu pai. Na terra por quarenta e um anos os seus restos mortais repousaram, quando foi resolvido removê-los para a Universidade de Vanderbilt, na cidade de Nashville. Lá, no dia 3 de outubro de 1876, junto com os restos mortais do Bispo Soule, foi enterrado a segunda vez, num canto quieto e retirado, no terreno da Universidade, estando o lugar marcado com um monumento de granito que veio do Estado de Carolina do Sul.
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    VIII A vida deJosué Soule, o Legislador do Metodismo (1781-1867) Quando Deus tem uma obra importante para fazer entre os homens, um deles é o instrumento em suas mãos. Os Israelitas precisavam de um libertador para livrá-los da escravidão do Egito e Moises foi enviado para libertá-los e formular leis para sua direção. Mais tarde quando o mesmo povo precisava de um rei para governar, apareceu um Davi; e, finalmente, “quando veio o cumprimento do tempo, enviou Deus o seu filho, nascido de uma mulher” para redimir o homem da escravidão do pecado e levá-lo “para o Reino do seu Filho muito amado”. Assim julgamos que o grande legislador eclesiástico da Igreja Metodista, Josué Soule, foi enviado por Deus para o meio do “povo chamado Metodista” para orientar e guiar na sua vida legislativa e eclesiástica. Até então não tinha aparecido entre este povo um homem mais habilitado para este papel do que o venerável Bispo Josué Soule que ocupou o episcopado por quarenta e três anos. Antes de entramos na delineação dos fatos principais, convém dizer que o Bispo Soule não queria que alguém escrevesse a sua biografia. Disse até na ocasião da Conferência Geral em 1844: “Não quero que homem algum escreva o meu epitáfio; eu mesmo o escreverei. Não quero que homem algum escreva e publique a minha biografia: eu mesmo o farei até ao ponto em que julgue ser para o interesse da posteridade e para o benefício da Igreja de Deus”. Mais tarde, porém, a pedido da Conferência Geral consentiu que sua biografia fosse escrita e publicada ao mesmo tempo que a do Bispo McKendree, o seu estimado colega. Portanto, o D r. H. M. Du Bose publicou a sua primeira biografia em 1911. I – SEU PARENTESCO É um característico universal entre os homens, o desejo de uma alta descendência; e, ao se escrever uma biografia, o autor sempre procura descobrir as melhores informações neste sentido. No caso atual podemos afirmar que os antepassados de Soule eram dignos e notáveis, sendo descendentes dos Pilgrim Fathers of the Mayflower – os Puritanos. Entre os imigrantes do
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    Mayflower se encontrao nome de George Soule na lista dos passageiros. Os descendentes deste homem se encontram em diversas partes da grande república do Norte. 1. O pai. O capitão Josué Soule, pai do futuro Bispo Josué Soule, foi um marinheiro como muitos dos seus antepassados tinham sido. Possuía um navio e fazia viagens pelas costas das colônias Americanas e das ilhas de Bahamas. Sua família residia em Bristol, nas costas do estado de Maine. Durante a guerra da revolução, os ingleses capturaram e destruíram o seu navio e dominaram o mar. Forçosamente o capitão Soule era obrigado a procurar outros meios pa ra manter a família que crescia. Durante o tempo em que foi marinheiro comprou um sítio no interior do estado de Maine. E por último se lembrou de levar a sua família para Avon, no vale de Sandy Riverside, tornando-se um lavrador. Era um homem religioso e bom. Pertencia à Igreja Presbiteriana e foi um dos Calvinistas Azuis, sendo sua casa o lugar de cultos e hospedagem dos pastores presbiterianos. Era ele um homem lido em teologia e conhecia bem as doutrinas e dogmas de sua igreja. Fazia culto doméstico e observava o dia do Senhor com o rigor que caracterizava os Puritanos daquela época. Sua maior ambição foi a de criar os filhos na disciplina da igreja. 2. Sua mãe Sua mãe, Maria, foi uma senhora bem educada e polida. Apoiava o marido na educação dos filhos. Esforçava-se para lhes incutir no espírito os bons costumes e hábitos. Como não havia escolas naquela época na zona onde residiam, ela se esforçava em ensiná-los do melhor modo possível. As idéias religiosas que ela e seu marido tinham, ensinaram aos filhos. O ensinamento das suas idéias acerca da soberania divina concorreu para implantar o temor do Senhor nos seus corações, mas ao mesmo tempo lhes vedou o rosto de Deus como Pai bondoso. Os filhos e, especialmente, Josué Soule, tinham medo de transgredir os mandamentos de Deus, porém ignoravam a alegria e o gozo da graça divina. Sua mãe lhe ensinava o temor de Deus e ele correspondeu aos seus esforços. II – SEU NASCIMENTO E EDUCAÇÃO 1. Seu nascimento Josué Soule, o filho de Josué e Maria, nasceu no dia 1º de agosto de 1781, na cidade de Bristol, Estado de Maine. Era o quinto filho, e lá nasceu quase no fim da revolução e, como seu pai não podia continuar na vida marítima, resolveu retirar-se para o sítio que possuía no interior. Portanto, o pequeno Josué não se lembrava nada do mar e tinha de crescer no interior enfrentando as duras provas da vida roceira de então. Se o pai tivesse continuado na vida de marinheiro o destino do seu distinto filho teria sido muito diferente do que foi. Observamos como as coisas pequenas e insignificantes em si, contribuem para determinar a nossa carreira e o nosso destina na vida. 2. Sua educação Aqui no vale de Sandy River, no sítio de Avon, era onde este rapaz e seus irmãos precisavam receber educação. Como já foi dito, não havia escolas naquela zona nesta época e os pais tinham de lhes providenciar instrução. Seus pais, porém, eram instruídos e tinham idéias de longo descortino. O catecismo e a Bíblia eram os livros principais e ele não somente ouvia seus pais lerem a Bíblia como também a lia.
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    Havia outros livrospertencentes à família que também eram lidos. Mas a Bíblia, porém, tinha o primeiro lugar. Além disto seu pai sabia contar histórias, e podemos imaginar como o pequeno Josué ficava encantado, ouvindo ali próximo da lareira durante as longas horas das noites de inverno o pai contar histórias das suas viagens no mar. São coisas como essas que calam fundo no espírito das crianças. Tinha pouco tempo para escutar e estudar, mas o que tinha, ele dava grande valor. Não somente aprendia estas coisas dos seus pais no lar, como também aprendera a trabalhar na roça, fazendo o serviço de um fazendeiro. Foi ali que ele aprendeu a ser constante e perseverante no trabalho; foi ali que aprendeu as virtudes de robustez e coragem. Tinha contato íntimo com a natureza e com os problemas práticos da vida. É coisa admirável que um homem que nunca passou um dia no colégio, pudesse escrever a Constituição da Igreja com a idade de vinte e sete anos, e doze anos depois, sendo Bispo, escrever o discurso dos Bispos à Conferência Geral. Ele não deixou de ler e estudar por si. Os livros que lia durante a sua mocidade era de real valor. Estudava os clássicos e diversas línguas e história. Tinha grande capacidade intelectual e memória excelente. O fato de se converter cedo e entrar logo depois na itinerância, concorreu para estimulá-lo e dar-lhe oportunidade para se desenvolver, que de outra maneira não teria. É admirável ver como Deus foi às florestas do Estado de Maine, lá nas fronteiras, para escolher um homem que era destinado a influenciar e tomar o primeiro lugar no desenvolvimento e conservação de sua Igreja. Sem dúvida ele falou da sua própria experiência quando, na ocasião de passar à classe em plena conexão na Conferência de Tennesse em 1859, assim se exprimiu: “Podereis ensinar moços, se tiverem capacidade para adquirir conhecimentos, e se tiverem sede de sabedoria, eles a ganharão onde estiverem colocados. Mas se não possuírem essa capacidade e sede de sabedoria, podereis mandá-los a todos os colégios e escolas e nunca sairão instruídos”. III – SUA CONVERSÃO E CHAMADA PARA O MINSTÉRIO Se nos lembrarmos do fato que o meio em que Josué Soule foi criado era completamente saturado de idéias calvinistas, a sua conversão por via da pregação dos Metodistas terá mais interesse e importância para nós. O único Metodista que havia penetrado naquela zona antes da revolução foi George Whitefield e ele era Calvinista em teologia. Portanto, o povo quase ignorava haver Metodista no mundo até que Jessé Lee foi mandado para a Nova Inglaterra em 1789, não penetrando, porém, na província de Maine até o ano de 1793, quando abriu trabalho no Circuito Readfield que abrangia o Avon onde residia a família Soule. 1. Sua conversão O evangelista não demorou em penetrar no vale de Sandy River e estabelecer um ponto de pregação em casa de uma família que morava perto do capitão Soule. Foi ali que o rapaz Josué Soule ouviu o primeiro sermão metodista. Jessé Lee, natural de Virgínia, era homem culto e bom pregador. Em 1795 Enoch Mudge foi nomeado para o Circuito de Readfiled. Durante o seu pastorado uma amizade íntima se desenvolveu entre ele e o jovem Josué Soule. Mudge assim descreve o seu jovem paroquiano: “Tinha mente precoce, boa memória e aspecto de um cavalheiro, porém a sua aparência era rúistica”. O jovem Soule não chegou a fazer a sua profissão de fé com o Sr. Mudge. Achou alguma coisa nas doutrinas pregadas pelos Metodistas que agradou bastante o seu espírito. Logo deu as costas ao Calvinismo de uma vez para sempre; não tinha ficado satisfeito com a doutrina de Calvino; encontrou, no entanto, alguma coisa nas doutrinas metodistas que calou na sua alma e correspondeu à sua experiência. “Ele viu logo haver uma concordância entre a teologia Wesleyana e as Escrituras, e reconheceu que havia também nela uma semelhança entre os pensamentos
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    mais elevados encontradosnos livros que lera. Era a primeira vez que ouvindo o Evangelho o sentimento do medo cedera ao sentimento de amor; e tal foi essa influência que todo o sentimento de medo foi lançado fora pelo amor perfeito. Fácil lhe foi crer em tais princípios estabelecidos”. Ele não podia identificar o dia, a hora e o lugar onde experimentara sua conversão com a mesma precisão que João Wesley e Francis Asbury, porém podia marcar a época em que isto se deu. Alguém lhe perguntou certa vez, na sua velhice, se ele podia lembrar o dia da sua justificação dentro de três dias. Ele respondeu que não podia, porém no prazo de oito dias pode afirmar. A mudança foi definitiva e completa. Quanto à hora e lugar em que recebeu o testemunho do Espírito Santo podia afirmar com certeza. É assim que o Dr. H. M. Du Bose descreve esta experiência: “Num certo dia de manhã, antes de nascer o sol, como era o seu costume desde que encontrara os Metodistas, retirava-se para a floresta a orar. Enquanto orava foi abundantemente abençoado por Deus com o testemunho do Espírito Santo. Antes disto algumas dúvidas o perturbavam; agora não divulgava mais. O céu sorria dentro e ao redor dele. Uma nova terra estava perante ele. O testemunho da sua adoção foi completo”. Converteu-se pela pregação de Jessé Lee em 1793 e recebeu o testemunho do Espírito Santo em 1795 ou 1796. Se perguntarmos porque ele hesitou tanto tempo antes de fazer a sua pro fissão de fé, devemos nos lembrar que o passo a dar era bastante sério, os Metodistas não eram bem quistos naquele tempo em meio ao povo. Além disso seus pais andavam muito contrariados por causa da sua atitude para com eles. Ele mostrou a sua fidelidade aos pais procurando o consentimento deles ou pelo menos prevenindo-os da sua intenção. Sem dúvida precisava de bastante coragem para discutir esse assunto com eles. Quando lhes falou sobre isto, seu pai ficou muito contrariado e procurou dissuadi-lo do seu intento e a mãe, não podendo oferecer outro argumento, derramou muitas lágrimas pelo seu filho. Passando-se algum tempo com as coisas nesta contingência, teve bastante tempo para refletir demoradamente sobre o passo que ia dar. Resolveu um dia tratar novamente do assunto com seus pais e assim ele nos conta o que se deu nesta palestra: “Com grande respeito e com muitas lágrimas contei-lhes as minhas convicções e, além disso, pedi que eles citassem qualquer ocasião em que eu os tinha desobedecido. Mas agora senti que era minha obrigação solene unir-me à Igreja Metodista, e ganhar o consentimento e aprovação deles seria para mim a maior felicidade no mundo”. A oposição do pai transformou-se em indignação e a mãe continuou rogando-lhe para que desistisse do seu propósito. Mas não podia ceder e estava pronto a ser tocado pra fora do lar pelo amor que tinha a Cristo e à Igreja Metodista. Muitos anos depois ele disse: “Custou -me alguma coisa para ser um Metodista. Eu me tornei um Metodista com o receio de ser um exilado da casa de meus pais”. Mas o amor paternal neste caso foi mais forte que os preconceitos religiosos e o filho ficou em casa, cumprindo os seus deveres como um filho fiel e atencioso. Raras vezes alguém tocava nisto e o jovem Soule assistia os cultos regularmente e sozinho. O poder do Calvinismo foi quebrado neste lar. Depois de algum tempo, um dia, enquanto estava arando junto com seu pai, teve a coragem de convidá-lo para assistir uma pregação naquela tarde. Quando estavam virando os animais o filho disse ao pai: “Papai, um homem notável nos vai pregar hoje à tarde; o senhor não gostaria de ouvi-lo?” “Não!”, disse o capitão do mar, “Tenho ouvido já um ou dois destes Metodistas. Todos são iguais; entusiastas, mas não sabem pregar”. A conversa estava cortada, porém o filho aventurou mais uma pergunta: “Porventura a sua lei julga a alguém sem primeiro ouvi-lo?” A forma e o espírito em que esta pergunta foi feita, calaram profundamente no espírito do pai. Trabalharam sem mais conversa até ao meio dia – hora para o almoço. Almoçaram e
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    descansaram um poucoaté a hora em que deviam voltar ao trabalho quando o pai lhe disse que arreasse dois animais. O rapaz aprontou -os e o pai estava se preparando também para acompanhá-lo a assistir a pregação do “pregad or notável”. Podemos imaginar a surpresa que o filho sentiu em ver essa atitude do pai. O jovem estava ansioso em seu espírito pelo resultado do culto, pois bem sabia que seu pai seria favorável ou desfavoravelmente impressionado com o pregador e esperava ser favorável a sua impressão. O culto foi bem assistido e o pregador falou sobre a visão de Ezequiel, do vale de ossos secos. O ministro era homem eloqüente e conseguira liberdade para falar naquele dia. A impressão fora boa, todos ficaram contentes com a mensagem e até o capitão Soule não deixou de se influenciar pelo discurso. Seu filho, no entanto, não sabia se ele o apreciara ou não, porém, qual não foi a sua surpresa quando o viu o pai esperar à porta afim de cumprimentar o pastor e convidá-lo para passar a noite em casa dele. O pregador aceitou o convite sem conhecer as circunstâncias do seu lar. O jovem estava muito contente, mas bem sabia que seu pai iria fazer com o pregador aquela noite; portanto, procurou oportunidade para preveni-lo dizendo-lhe que sem dúvida seu pai iria puxar uma discussão sobre as doutrinas calvinistas e arminianistas. O Sr. Stebbins, o pregador, estava bem enfronhado neste assunto e não tinha receio. Acabando o jantar, e estando tudo arrumado para a noite, o capitão Soule introduziu o assunto já mencionado. “Os cinco pontos” foram discutidos pró e contra e a discussão durou até a uma hora da madrugada quando o capitão pediu tréguas. O Bispo Soule, anos depois, falando sobre este assunto, disse: “Foi com grande satisfação que vi meu pai cercado onde não podia sair. Não podia ir mais adiante; foi um homem franco em confessar que estava derrotado”. Admirou-se de não se ter zangado o capitão Soule, antes cumprimentou o seu antagonista, e no dia seguinte, quando o itinerante partiu, convidou-o a hospedar-se sempre em sua casa, e não somente isto, mas também, a que pregasse em sua casa. O pastor aceitou o convite e quando regressou à nossa casa, pregou numa casa cheia de gente. Seis meses depois que Josué Soule se reuniu aos Metodistas seus pais e quase todos os membros da família se uniram também à Igreja Metodista. “Assim muito cedo na sua vida começou a revelar as qualidades de um guia entre os homens, um capitão do exército do Senhor”. 2. A chamada para pregar. Pelo que já temos visto da vida do jovem Josué Soule, estamos convencidos que a Providência Divina o tinha destinado para uma carreira invulgar. Quando tinha dezessete anos sentiu-se chamado para pregar o Evangelho. Naquela época os Metodistas deram muita ênfase a uma chamada positiva e clara para pregar e aquele que não podia dar provas cabais disto não seria licenciado. E o resultado prático disso é bem patente a nós hoje em dia quando contrastamos a influência destes homens sobre a vida moral, social e religiosa daquela época. O ministério da Igreja Anglicana da mesma época, bem educado, com bons homens ordenados ao ministério, não podia ou não fazia quase nada para modificar os costumes e sentimentos sociais. Foram Wesley, Whitefield e os demais itinerantes depois deles que nos legaram o movimento evangélico e missionário. Esses itinerantes que tinham experiência de Deus em sua vida sentiam a obrigação sagrada de repartir esta experiência com os seus semelhantes e foram estes que deram um novo impulso à causa bendita de Jesus Cristo no mundo moderno. Entre os itinerantes havia representantes de todas as camadas sociais, mas especialmente da classe média.
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    O jovem JosuéSoule, dando provas da usa chamada para pregar, foi licenciado e entrou logo na itinerância. Como ele não guardasse um diário como fizeram Asbury e McKendree, é pouco o que podemos apurar da sua vida íntima; contudo, temos esta expressão dele acerca da sua chamada para pregar: “O Senhor me chamou para pregar e eu o atendi”. Sendo tão jovem quando entrou no ministério não tinha quase preparo, porém, durante longa vida não deixou de se preparar mais e mais para ser útil à Igreja de Cristo pela qual dedicou a sua vida toda. IV – OS PRIMEIROS ANOS NA ITINERÂNCIA O trabalho no Estado de Maine era novo e só foi separado em um distrito em 1797-98. Josué Taylor foi o primeiro Presbítero Presidente e também o pastor do Circuito de Readfield. Esse ano marcou uma nova época na história do Metodismo no Estado de Maine, pois realizou-se a primeira Conferência Metodista no circuito de Readfield. Nesse mesmo ano Josué Soule fez a sua profissão de fé e foi recebido em plena comunhão com a igreja. É muito provável que ele assistisse a esta Conferência e tivesse o privilégio de ouvir o Bispo Asbury pregar sobre a chamada para o ministério. Tal conferência foi novidade para o povo do Maine. Mais de mil e quinhentas pessoas assistiram e ouviram as pregações. O Metodismo estava implantado nessa zona e alguns rapazes se apresentaram para o ministério e entre eles Josué Soule. Depois da Conferência Josué Taylor continuou no mesmo cargo e durante este ano o jovem Josué Soule se ofereceu para o ministério. Logo foi licenciado e entrou na itinerância. O resto do ano acompanhava o seu Presbítero Presidente como o seu companheiro de viagem e convidado quase sempre para exortar o povo depois do sermão pregado pelo Presbítero Presidente, fazia apreciável trabalho. O povo gostava de ouvi-lo, pela razão de ser ele tão moço e falava com tanto acerto. Antes de findar o ano o povo gostava tanto da exortação do jovem pregador como do sermão do Presbítero Presidente. A Conferência se realizou na cidade de Nova York em 1799 e Josué Soule não assistiu. O seu Presbítero Presidente sem dúvida deu bom relatório sobre o trabalho do jovem pregador e este foi admitido à itinerância sem comparecer perante a Conferência. Naquela época as distâncias eram tão grandes e as viagens tão demoradas que não era coisa estranha para um Presbítero Presidente representar os seus pregadores perante a Conferência. Não exigiam tanto preparo intelectual dos jovens pregadores como nós hoje em dia, porém sempre deram bastante importância à boa reputação que gozavam do povo e do zelo pela causa de Cristo. Nestes pontos Josué Soule podia ser aceito sem reservas. Josué foi nomeado como pastor ajudante do pastor Timóteo Merritt, no Circuito de Portland. Agora o rapaz sincero, rústico e zeloso começa realmente a sua vida de itinerante. Merritt tornou-se-lhe um pai e deram-se bem um com outro no trabalho. Às vezes viajavam juntos, mas geralmente um precedia o outro num espaço de quinze dias. A cidade de Portland tinha dois mil habitantes e era composta de gente de cultura e bons costumes. O povo que se encontrava no vasto circuito se componha de negociantes, fazendeiros, serradores de madeiras, pescadores e construtores de navios. O contato que o jovem pregador manteve com o povo durante este ano foi para ele uma das melhores oportunidades para seu próprio desenvolvimento e disciplina. Foi nesta época que viu o mar pela primeira vez. Sem dúvida tal vista e, a lembrança dos seus antepassados que tinham sido dominadores das ondas do vasto mar, despertou nele mais do que nunca o desejo de
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    ser um conquistadordo mundo para Cristo. Começou, também, nesta época os seus estudos de obras que contribuíram para fazê-lo um mestre entre os pensadores do seu tempo e o guia na sua Igreja. Tendo completado quase dois anos na itinerância foi-lhe confiado um trabalho. Seu circuito foi o “Union River Circuit”, um dos circuitos no Estado de Maine. Havia pouca gente nesta vasta zona. Tinha que viajar sozinho atravessando rios sem pontes, florestas sem caminhos e dormir às vezes debaixo do céu estrelado sem teto. Na solidão destas florestas e na vastidão do seu circuito é que o seu coração foi experimentado. Mas ele encerrou o ano com o rosto alegre, um coração que almejava somente a santidade e a mente ansiosa de conhecimentos e sabedoria. Na véspera da Conferência, nos princípios de julho de 1801, ele embarcou na Bahia de Portland para Boston de donde ia para Lynn, sede da Conferência, porém, ventos contrários atrasaram o navio e quando chegou em Boston a Conferência já tinha sido encerrada. Seu Presbítero Presidente, porém, fez um relatório por ele, e o recomendou às ordens de diácono e à admissão na Conferência. Foi nomeado para o circuito de Sandwich, no Estado de Massachusetts, contíguo ao Cabo de Cód. Neste circuito foi submetido a novas provas e sacrifícios, porém tinha boas relações com seu Presbítero Presidente, o seu estimado amigo, Josué Taylor, e além dele tinha contato com outros colegas mais velhos e experimentados, tais como os Srs. George Pickering, Thomas F. Sargent, Pedro Vannest, Phinehas Peck e Elias R. Rabin. Também teve oportunidade de conhecer os centros mais velhos, populosos e adiantados da Nova Inglaterra; tudo isso contribuiu para despertar as energias latentes de sua natureza. Seu caráter estava se firmando e a experiência o estava amadurecendo. No fim deste ano foi ordenado diácono e nomeado para o circuito de Needham, perto da cidade de Boston. Ele, tal como o Bispo Asbury, era rigoroso na administração da disciplina, porém nunca expulsou um membro da igreja enquanto todo o esforço possível para consegui-lo não tivesse sido aplicado. Em sua velhice, sobre es te ponto, disse ele: “Raras vezes é necessário expulsar um desviado quando todos os meios lícitos são empregados para corrigi -lo”. Terminando o ano no circuito de Needham foi nomeado para o circuito de Nantucket Island. Aqui quase todos os seus paroquianos eram pescadores. Sem dúvida muitas pessoas lembravam-se de seu pai, o Capitão Josué Soule. Foi este ano de benção e paz. Durante este ano de 1803 foi que se encontrou com uma moça santa. Sarah Allen, órfã, mas bem educada e piedosa, que consentiu em partilhar com ele a vida de um itinerante. Foi um casal feliz e por cinqüenta e quatro anos peregrinaram juntos, quando a esposa foi arrebatada para as moradas felizes e eternas no céu. V – SEU TRABALHO COMO PRESBITERO PRESIDENTE NO ESTADO DE MAINE O trabalho do Presbítero Presidente foi o braço direito do Metodismo nesta época. Sem ele a eficiência do episcopado teria falhado. Na ausência do Bispo o seu representante estava no lugar para zelar e dirigir o trabalho do distrito. Mas não há cargo algum que possa dar bons resultados se não houver homens competentes para ocupá-lo. Agora vem um campeão desse ofício na Igreja Metodista, com vinte e três anos, para ocupá-lo. A Conferência de Nova Inglaterra que se realizou na cidade de Boston, Estado de Maine, em 1804, marca uma nova época na vida de Josué Soule. Lemos no diário do Bispo Asbury: “O Distrito de Maine, Josué Soule, Presbítero Presidente”. Este distrito abrangia toda a província de Maine. Tinha doze circuitos e para percorrê -lo precisava viajar a cavalo quatrocentas léguas. Coitado do novo Presbítero Presidente! Durante dois anos que serviu este distrito, contando os
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    dias todos, sópassou três semanas com a sua esposa! Ela precisava ficar com os pais dele ou com os seus parentes em Portland. Mas é justo dizer que Sarah Allen não se queixava, antes encorajava o seu marido no trabalho para que fosse um bom soldado de Jesus Cristo. Ocupando o cargo de Presbítero Presidente não diminuiu o seu trabalho e responsabilidade, antes os aumento u, ao mesmo tempo proporcionando-lhe maiores oportunidades para fazer o bem à causa de Cristo. É de supor que os sentimentos manifestados num discurso que fez perante uma Conferência Anual, depois de vinte anos no bispado, fossem adquiridos durante estes anos de tanta abnegação. Ele disse: “Tenho ocupado as cabanas mais humildes, quase sem as coisas mais necessárias para conservar a vida. Tenho dormido no chão com o pelo de um urso por minha cama e a ab óbada celeste por minha proteção. Tenho dormido sobre a neve de um palmo de grossura, exposto ao tempo, sem coisa alguma em cima de mim senão o céu, e destes lugares humildes passando para os palácios dos ricos onde se encontrava tudo que é necessário ao conforto humano. E qual foi a grande diferença para mim? Que importa ao homem que tem entrado num pacto com os homens e com Deus, e com a Igreja de Deus, para devotar todo o seu tempo e toda a sai vida na salvação de almas, se ocupar uma cabana ou um palácio, de modo que possa cumprir com os seus votos e terminar a sua carreira alegremente no ministério? Para tal homem todas as coisas exteriores devem ter o mesmo valor. A sua felicidade não depende de tais coisas. A alma do homem deve ser um império sobre si mesma, e devia desapegar-se de tais coisas, em vez de depender delas. Eu vos declaro, irmãos, que me não importa morrer no seio da minha família ou longe de casa entre pessoas estranhas, contanto que seja achado cumprindo o meu dever”. No fim do segundo ano de sua investidura no cargo de Presbítero Presidente, o trabalho no Estado de Maine foi dividido em dois distritos. Quando o Bispo Asbury fez as nomeações mandou Josué Soule para o Distrito de Kennebec e Oliver Beale para o Distrito de Portland. Soule foi nomeado para tomar conta do Distrito de Kennebec, porque era o distrito mais difícil e o Bispo receava que Beale não pudesse satisfazê-lo. Soule entrou no serviço de seu distrito com entusiasmo. Deixou a esposa em casa de seus pais em Avon que ficava nos limites do seu distrito. Foi mais ou menos neste tempo que surgiu o costume de realizar os “Camp-Meetings” (cultos de acampamento). Ele, como Presbítero Presidente, tomava a dianteira nestes cultos, em que, não raro, havia mais de dois mil assistentes. Seu dom de falar desenvolveu -se nesta época. Já era ele um homem experimentado, tendo a verdadeira experiência de Deus em sua alma. Lera também as melhores obras clássicas, por isso as multidões que vinham para ouvi-lo jamais voltaram vazias para suas casas. Muitas pessoas foram convertidas e o trabalho prosperava sob a sua orientação, graças aos seus esforços. Seus colegas começaram a reconhecer que tinham nele um verdadeiro guia. A Conferência Geral de 1808 se aproximava e todos os presbíteros eram considerados membros. Foi esta a última conferência composta de todos os pregadores que haviam completado quatro anos na itinerância; dali em diante as Conferências Anuais teriam que eleger os delegados de acordo com a sua quota. Josué Soule juntamente com os colegas era membro da Conferência Geral que se realizou na cidade de Baltimore, em 1808. Foi nesta ocasião que Josué se tornou conhecido pela Igreja em geral e dali em diante por cinqüenta anos foi um dos seus maiores guias, no trabalho. VI – ESCREVENDO A CONSTITUIÇÃO DO METODISMO NA AMÉRICA Reuniu-se a Conferência Geral a 6 de maio de 1808, na cidade de Baltimore, estando presentes cento e vinte e nove membros. Até aqui a Conferência Geral estendia às suas atividades sem qualquer restrições de participação. Mas percebeu-se que os membros das Conferências
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    Anuais pequenas corriamo risco de ser dominados pelas três conferências maiores, e assim sendo fizeram um memorial pedindo que as Conferências fossem limitadas quanto ao número de delegados. Quatro das sete Conferências Anuais (Conferências ou Concílios regionais) aprovaram este memorial, porém, as três mais importantes não o fizeram. Havia, portanto, pelo menos, duas coisas de grande interesse desta Conferência Geral de 1808, a saber: limitar o número de delegados de cada Conferência Anual para a Conferência Geral (Conferência ou Concílio Geral ou Nacional) e adotar uma Constituição. Para legislar sobre estes dois pontos a Conferência tinha que aventurar em terreno novo e precisava de alguém que pudesse abrir o caminho para conquistá-lo. Felizmente havia entre os membros um homem, com menos de vinte e sete anos de idade, que não tinha estado numa escola, nem sequer um dia, e que fora destinado a fazer o papel de Mois és legislando para o seu povo; este homem era Josué Soule. A Conferência Geral nomeou uma comissão para formular uma Constituição e apresentá-la em plenário. Esta comissão reuniu-se e discutiu o assunto por algum tempo, e para que o assunto fosse mais bem tratado, resolveu nomear uma sub-comissão para elaborar a Constituição e mais tarde relatar à Comissão. Escolheram três homens entre si para fazer este serviço, a saber: Ezekiel Cooper, Josué Soule e Philipe Bruce. Depois de trocar idéias resolveram eles que cada um escrevesse um documento julgado conveniente e depois se reuniriam de novo afim de aprovar aquele que julgassem melhor. Quando se reuniram, somente Cooper e Soule tinham feito um plano cuidadosamente escrito. Os dois foram discutidos e o de Soule logrou aprovação, reservando -se Cooper o direito de ler o seu plano à Comissão maior. Quando a sub-comissão apresentou seu relatório à Comissão maior, com poucas alterações, aprovou-se olano de Soule, que é o que hoje temos na nossa Disciplina (1918) – Parágrafo 42: “A Conferência Geral terá plenos poderes para fazer regras e regulamentos para nossa Igreja, sob as seguintes restrições: 1º - A Conferência Geral não pode revogar, alterar ou mudar os nossos Artigos de Religião, nem estabelecer novos padrões qualquer ou regras de doutrinas contrárias aos nossos padrões de doutrina atualmente existentes e estabelecidas; 2º - Não pode admitir mais de um representante para cada dezoito membros da Conferência Anual, nem menos de um para cada sessenta; contanto que, se houver em alguma Conferência Anual uma fração de dois terços do número marcado como base para represent ação, tal Conferência Anual terá o direito a mais um representante por esta fração; e contanto que, também, a nenhuma Conferência se negue o privilégio de dois representantes, um clérigo e outro leigo; 3º - Não pode mudar nem alterar parte alguma a regra do nosso governo, de modo a acabar com o episcopado ou a destruir o plano da nossa superintendência itinerante e geral; 4º - Não pode revogar nem mudar as Regras Gerais das Sociedades Unidas; 5º - Não pode acabar com o privilégio de julgamento de nossos ministros e pregadores perante uma comissão nem de apelação; nem tão pouco acabará com os privilégios dos membros de julgamento perante à Igreja, ou uma comissão, e de apelação; 6º - Não pode aplicar a renda da Casa Publicadora a nenhum outro fim que não seja em benefício dos pregadores itinerantes, supranumerários, jubilados, suas mulheres, viúvas e órfãos.” A Constituição ainda definia: “Contanto que, todavia, se houver uma recomendação concorrente de todas as Conferências Anuais, então a maioria de dois terços da Conferência Geral seguinte bastará para alterar qualquer das restrições acima”. Este último parágrafo está de acordo com a Disciplina de 1808. Nossa Disciplina hoje acrescentou alguma coisa que com ligeira leitura se pode verificar. Também se alteraram algumas frases para satisfazer as novas legislações, contudo não violaram o sentido original destas seis restrições. Por exemplo, a segunda restrição fala em leigos, porém, na ocasião em que foi aprovada esta constituição não havia representantes leigos na Conferência Geral em nossa Igreja. Eis ai a Constituição da Igreja Metodista Episcopal! É basicamente a mesma Constituição que temos hoje (1929) na Igreja Metodista Episcopal do Sul, que surgiu após a divisão da Igreja
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    em duas, ado Sul e a do Norte dos EUA, durante os anos em que todo o país ficou dividido em dois através da guerra civil da Secessão. E o jovem autor, Josué Soule, depois de escrever a nossa Constituição, viveu cinqüenta e nove anos. E no correr deste tempo houve duas épocas de crise na Igreja quando foi ameaçada a Constituição: em 1820 e 1844. Ele, porém, se mostrou firme e conseguiu mantê-la de pé. As seis restrições paralisaram a tendência para desint egração na Igreja Metodista. O Dr. H. M. Du Bose, biógrafo de Josué Soule, falando sobre o valor desta medida, disse: “Pode-se afirmar sem receio de errar que não houve jamais outro ramo do metodismo que erguesse tal monumento em honra a um dos seus filhos que sobrepuje a honra que a Constituição tem conferido à memória de Josué Soule”. O Bispo McTyire disse: “Um dos benefícios óbvios da teoria de Soule que será aceito, é que desviará muitas desvantagens, pois promove a mais íntima conexão. Ela liga e une as Igrejas e as Conferências. Soule conseguiu estabelecer o costume e a regra que ainda prevalecem na Igreja – de ter poucos bispos, criando poucos e dando-lhes bastante o que fazer e um território geral em que operar, tendo eles interesses em todas as Conferências e as Conferências tendo interesse neles”. E ainda o Bispo Collins Denny diz: “O metodismo Americano não teve jamais um pregador maior, um administrador maior, mente mais delicada em resolver e ajustar os problemas constitucionais do que Josué Soule”. VII – AGENTE DA CASA PUBLICADORA Logo depois da Conferência Geral que se realizou em 1808, Soule voltou para o seu Estado de Maine e tomou conta do Distrito de Portland, dirigindo ali o trabalho por quatro anos. Em 1813 foi pastor da Igreja em Lynn e constituiu um novo templo durante este ano. Então foi nomeado Presbítero Presidente do distrito de Kennebec por três anos. Um incidente que se deu com ele em 1813 revela o seu espírito patriótico. A guerra entre os Estados Unidos e a Inglaterra, que se chama na história “A Guerra de 1812”, estava se desenrolando durante este ano e Soule teve a oportunidade de testemunhar uma batalha naval que se travou entre a frota inglesa e a dos Estados Unidos. Estava ele num morro de onde podia ver o conflito entre um navio americano e um navio inglês. Enquanto o comandante do navio americano, ferido e prostrado do convés, dizia aos seus homens: “Não entreguem o navio; combatam o inimigo até que o navio afunde”; Josué Soule vendo o resultado da batalha disse: “Daria o meu braço direito para conservar aquela bandeira que flutua”. O seu patrício que morria naquele instante era da mesma idade dele e, quem sabe se o seu pai, o capitão Soule, não tivesse mudado de Bristol teria sido ele e não o Sr. Lawrence que perdia a sua vida naquela batalha? 1. Dificuldades múltiplas Na ocasião da Conferência Geral que se realizou em 1816 Josué Soule foi eleito agente da Casa Publicadora e o redator do “The Metodist Magazine”. Ele não quis aceitar este cargo, julgando que deveria ser ocupado por um leigo. De fato poucos dias antes de ser eleito ele fez uma proposta neste sentido, alegando ao mesmo tempo que ele (Soule) não tinha preparo para tal serviço, pois durante toda a sua vida tinha cuidado do trabalho de evangelização e considerava muito arriscado colocar um homem, em um lugar de tanta responsabili dade, sem a prática em tais negócios. Porém a Conferência resolveu de outra forma, e o escolheu confiante que ele daria conta do trabalho. Foi assim que Soule, apesar do receio e desconfiança, uma vez eleito não
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    recusou aceitar estaincumbência e tomou conta da Imprensa Metodista naquela época. Os únicos atributos que possuía eram a capacidade natural e amor à Igreja. Boas qualidades são estas! Entre as dificuldades que tinha de enfrentar, a maior de todas, era a falta de dinheiro. A Casa Publicadora esta va seriamente endividada e sem crédito. E além disso havia uma crise financeira no país. O fardo, portanto, era bem pesado. Também os aparelhos e máquinas não estavam em boas condições. A tarefa era suficiente para desanimar qualquer homem menos competente. Tomou ele dinheiro emprestado de um banco em Baltimore, ficando dois amigos como seus fiadores. Com este dinheiro pode movimentar o negócio da Casa. Ele e seu ajudante, o Sr. Thomas Mason, trabalhando com as suas próprias mãos, encaixotando e despachando livros e fazendo todo o serviço eclesiástico, além do serviço de redatores. Conseguiram dar novo impulso à casa. O povo, reconhecendo o esforço dele e os bons resultados obtidos, deu -lhe apoio franco, pois ele não somente gozava o apoio do povo como também a camaradagem dos seus colegas. O serviço de redator do “The Metodist Magazine” tinha de ser feito à noite, depois do trabalho do dia e ele, assim, intitulou este trabalho “A obra das trevas” (“A obra Noturna”). Quando terminou o quatriênio a Casa Publicadora estava quase livre de dívidas, com boa freguesia e as publicações feitas deram prazer à Igreja. Ele correspondera à expectativa, porém não quis continuar passados os quatro anos. Muitos anos depois ouviram -no dizer: “Não suportaria outra vez o cansaço, a fadiga, a azáfama (o estresse e correria), e os aborrecimentos, o cuidado e a responsabilidade daqueles quatro anos na Casa Publicadora, mesmo que ganhasse toda a rua de Mulbery”. Sem dúvida, ele sabia e podia condoer -se do agente da Casa Publicadora. 2. Outras atividades Josué Soule, ao assumir a redação do “Magazine Metodist”, fez a seguinte observação ao público: “Em publicado este periódico miscelâneo, os redatores sentem todas as comoções que nascem da convicção que os seus méritos serão submetidos a um exame rigoroso do público inteligente. O maior escopo desta publicação é difundir conhecimentos religiosos, ideal que abrange os mais altos interesses de uma existência racional”. O serviço que ele prestara na redação deste jornal foi feito depois de nove horas da noite. A publicação da nossa literatura religiosa e periódica teve com ele, realmente, o seu começo. Soule estava identificado com um outro empreendimento religioso que tem beneficiado o mundo inteiro – fundação da Sociedade Bíblica Americana que foi organizada em 1816. Sendo ele o agente da Casa Publicadora Metodista foi o representante da nossa Igreja neste projeto. Seus conselhos e auxílio foram de grande valor durante o período da sua organização. Uma das coisas que lhe dava mais satisfação na velhice era o haver tomado parte na fundação da Sociedade Bíblica Americana – uma das grandes instituições modernas. Em 1819 tinha ele a honra de participar da organização da Sociedade Missionária da Igreja Metodista Episcopal. Foi ele quem tomou interesse na organização desta sociedade na cidade de Nova York e também quem tomou parte ativa em conseguir a adoção e aprovação da Sociedade Missionária pela Conferência Geral em 1820. Foi ele o primeiro tesoureiro da Sociedade e durante a sua longa vida interessou-se sempre no bem estar financeiro dessa sociedade. VIII – UM PROTESTO EFETIVO A Conferência Geral, que se reuniu em Baltimore no mês de maio de 1820, foi destinada a ser uma das Conferências mais memoráveis na história da Igreja porque foi nesta ocasião que a Constituição foi posta a provas severas e saiu triunfante, devendo-se este triunfo à firmeza de um homem – Josué Soule, aquele que a escreveu.
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    A questão dafunção do ofício do Presbítero Presidente, foi discutida por uns doze dias durante os vinte e oito dias que durou essa Conferência Geral. O que complicou a questão foi a eleição de Josué Soule ao episcopado logo no princípio da Conferência na primeira votação. Mais tarde a questão do ofício do Presbítero Presidente, foi discutida e decidiram que em vez de serem nomeados os Presbíteros Presidentes pelo Bispo, deviam ser eleitos pela Conferência Anual. Tal ação colocou Soule numa posição difícil, pois ele não tinha sido ordenado bispo ainda e não quis aceitar ordenação porque julgava que a Constituição fora violada pela legislação que se fizera acerca do ofício do Presbítero Presidente; portanto, recusou aceitar ordenação porque, na ocasião em que foi eleito ao episcopado, não tinha feito qualquer legislação que violasse a Constituição da Igreja. Também o bispo Mckendree não concordava com a nova lei, julgando contraria a Constituição. Tudo isto provocou muitas discussões e finalmente resolveram suspender tais resoluções até a próxima Conferência Geral. E na Conferência Geral seguinte Soule foi reeleito ao bispado e como as novas resoluções suspensas não foram aprovadas, aceitou a ordenação de bispo e por quarenta e três anos honrou este cargo. Para mostrar a idéia de Soule sobre a função dos Presbíteros Presidentes no episcopado, vamos considerar um documento que ele nos deixou sobre esta importante questão. O Bispo McTyire, na ocasião do enterro do Bispo Soule, disse: “A teoria do Sr. Soule acerca do ofício de Presbítero Presidente era que os Presbíteros Presidentes no seu carát er executivo são oficiais e vice-regentes do bispo, e que o bispo deve ter o pleno direito de escolher os seus representantes. Como pregadores itinerantes nosso sistema não mais poderia permitir que a Conferência Anual fizesse as nomeações dos Presbíteros Presidentes para seus campos de serviço, como não podia nomear os pregadores para seus campos de trabalho. Sob tal administração ele julgava que o episcopado e a itinerância infalivelmente se enfraqueceriam”. O Bispo McTyire, falando sobre a atitude de Josué Soule acerca dessa questão, diz: “A inexorável posição de Soule sobre o nosso sistema executivo em 1820, e a firmeza com que ele o defendeu salvaram o sistema e, em salvá-lo, com clareza e sem compromissos, a função, a energia e o evangelismo da nossa Igreja foram conservados”. O espírito com que Josué Soule fez o protesto na Conferência Geral de 1820 mostra-nos que tinha profunda convicção e inteira razão. Alguém descreve Soule assim: “A coragem dele era calma e grande, a percepção era clara, a convicção firme, o conhecimento da situação perfeito. Não foi impaciente. Tinha fé na verdade e no que é justo e acreditava que no fim das contas tudo seria reivindicado. Tendo se firmado sobre as suas convicções não podia ser demovido”. IX – NO PASTORADO OUTRA VEZ O ano de 1820 foi um ano de provas para Soule. Não quis ele continuar como agente da Casa Publicadora; também não quis aceitar o episcopado, porque não podia conscienciosamente assumir as obrigações deste ofício, quando julgava que a Constituição estava violada. Voltou ele, portanto, ao pastorado, sendo nomeado pastor da igreja na cidade de Nova York. Houve, no entanto, desacordo entre os membros das Igrejas nesta cidade durante os dois anos que lá ficou. Não porque tivesse ele culpa pelas dimensões, visto que elas vieram de longe, do passado. Logo depois de tomar conta da Casa Publicadora nesta cidade em 1816 ele disse ao Bispo McKendree que “coisas sérias e desagradáveis nos esperam nesta cidade”. Havia então queixas entre os pastores e sinais de deslealdade e agora depois de quatro anos, especialmente depois das discussões que se deram na ocasião da Conferência Geral,
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    concorreram para preveniro espírito dos leigos na cidade de Nova York. Havia um movimento entre os pastores para formar uma igreja independente e composta só de pessoas negras. O resultado deste movimento foi a organização da Igreja Sião Africana Metodista Episcopal. Havia, também, pessoas descontente s entre os brancos, tantos pastores como leigos. Eles também queriam formar uma nova igreja, mas Soule os aconselhava a que não fizessem isso; porém não podia persuadi-los por muito tempo, pois encontramos numa carta que escreveu ao Bispo McKendree o seguinte: “O senhor se encontrará com o Bispo George em Baltimore, e ele lhe contará os resultados desastrosos que se têm dado nesta estação. Basta dizer-lhe que centenas de crentes se têm separado da Igreja e formado uma congregação independente, sob um sistema de governo que dá igualdade e poder a todos os membros – tanto mulheres como homens – em linguagem popular – um eclesiasticismo democrático no mais lato sentido da palavra”. Em 1822 o Bispo George queria que ele fosse removido de Nova York para a Igreja em Baltimore. Não procurou ele esta transferência, visto ser a nomeação uma ordem episcopal. Mas Soule escreveu ao Bispo McKendree sobre os planos do Bispo George nestes termos: “O senhor está ciente de que tenho recebido instruções do Bispo George, para ser transferido à Conferência de Baltimore na próxima sessão. Não há uma nomeação que mais me agrade, e tal mudança contemplo com satisfação. Mas se tenho me comunicado com o senhor sobre isto, de antemão desejo que seja perfeitamente compreendido pelo senhor e pelo Bispo George que não faço qualquer parte do nosso trabalho que se julgar conveniente e para o bem geral da causa. Digo isto de modo que o sr. e o Bispo George tenham perfeita liberdade comigo quanto ao lugar do meu futuro serviço, apesar de qualquer instrução em contrário”. Um homem que podia excusar o Episcopado podia, também, submeter-se, “como um filho no Evangelho”, à autoridade estabelecida da Igreja. Soule foi transferido para a Conferência (“Região Eclesiástica” ) de Baltimore. Durante o primeiro ano procedia com muita cautela, sendo novo nesta Conferência. Durante o segundo ano de seu pastorado em Baltimore, o Sr. John Emory, o autor das “Resoluções Suspensas”, escreveu um folheto queixando-se de diversas irregularidades e entre elas o nome de Soule estava envolvido, devido a atitude que assumira em face desta medida em 1820. Quando a Conferência Anual (Conferência ou Concílio Regional) de Baltimore se reuniu e o nome de Soule foi chamado, não quis ele que seu caráter fosse aprovado antes de serem explicadas as queixas contra ele, contidas no mencionado panfleto. O Bispo Collins Denny explica o incidente da seguinte maneira: “A Conferência de Baltimore se reuniu na cidade de Winchester, Virginia, em 8 de abril de 1824, sendo presidente o bispo George. Havia oitenta e dois pregadores presentes, um número considerável para aquela época. No primeiro dia, sob a pergunta doze: “Todos os pregadores estão irrepreensíveis na sua vida e administração oficial?” o nome de Soule foi chamado. Alguém respondeu: “Não há nada contra ele”. Imediatamente Soule se levantou, e, erguendo o panfleto assinado pelos senhores Griffith, Morgan, Waugh e Embory, disse: “Sim, há!”. Não consentia que o seu caráter fosse aprovado enquanto as queixas levantadas no tal panfleto não fossem resolvidas. Ele mesmo suspendeu a aprovação de seu caráter. Recusou que o aprovassem enquanto o autor do panfleto não estivesse presente. Consta da Ata que “Quando o nome de Josué Soule foi chamado, a seu próprio pedido foi adiado, sendo suspensa a aprovação de seu caráter até a chegada do Sr. John Embory, seu acusador”. Na quinta-feira seguinte chegou à Conferência o John Embory e na sexta-feira o nome de Josué Soule foi chamado outra vez para a aprovação do seu caráter. Soule declarou que “considerava o seu caráter implicado nas várias publicações, especialmente na publicação assinada por vários membros da Conferência”. Falou à Conferência por algum tempo, e depois foi respondido pelo Sr. Embory. Nada sendo provado e não restando dúvidas sobre o caráter de Josué Soule, finalmente foi submetido à votação da Conferência Anual que o aprovou.
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    De outras fontessabe-se que o discurso de Soule nesta ocasião foi muito eloqüente, e “que foi um triunfo a que os culpados retiraram às suas acusações e pediram perdão pela injustiça feita a ele”. Havia um partido na Conferência Anual contra a eleição de Soule como delegado à Conferência Geral, mas o nome dele estava em quarto lugar na lista e nenhum dos três que fizeram queixas contra ele foi eleito como delegado. Na ocasião da Conferência Geral (Conferência ou Concílio Geral) que se realizou na cidade de Baltimore, em maio de 1824, a antiga questão da função dos Presbíteros Presidentes se levantou novamente e a seguinte resolução foi tomada: “Visto que a maioria das Conferências Anuais não aprovou as “resoluções suspensas” acerca da eleição dos Presbíteros Presidentes na última Conferência Geral e depois as suspendeu: resolve que as ditas resoluções não têm autoridade, e não serão executadas”. Agora, depois de uma grande vitória constitucional, o caminho estava aberto para Josué Soule aceitar o bispado. Foi ele eleito Bispo pela segunda vez e, desta vez, aceitou a ordenação, pois todos os empecilhos estavam removidos. X – SEU TRABALHO COMO BISPO Geralmente, quando alguém é honrado com uma posição mais alta, entre os seus conhecidos e amigos levantam-se adversários; não porque esse alguém tenha feito mal a tais adversários, porém são induzidos a isto por inveja, ciúme e ambição. Isto se deu com o Bispo Soule. Ele tinha contrariado diversas pessoas na sua defesa da Constituição e como ganhasse a vitória na luta e o honrassem com o bispado, tudo isso concorreu para despertar tais sentimentos no espírito de alguns dos seus colegas de outrora. 1. Seus adversários Durante o primeiro quatriênio da sua administração como Bispo alguns dos seus adversários o acusaram de heresia. O Bispo tinha pregado em Carolina do Sul um sermão sobre o assunto: “A lei perfeita da Liberdade”. Quando se reuniu a Conferência Geral em 1828 esta questão de heresia foi levantada. O Bispo Soule ficou quieto, mas mandou distribuir exemplares de seu discurso entre os delegados da Conferência. Uma Comissão foi nomeada para estudar o assunto e trazer o seu parecer perante a Conferência. Depois de estudar bem o sermão, a Comissão relatou que não julgava o discurso heterodoxo. Assim caiu a acusação de heresia. Ele tinha uma alma grande demais para ser dominada com coisas pequenas, mesquinhas e partidárias. Mantinha domínio sobre si mesmo, e pelas vistas largas e um viver santo, chegou a conquistar no correr de dezesseis anos, a confiança e o respeito de todos. Foi respeitado pela sua sabedoria, piedade e fidelidade no cumprimento dos seus deveres. “Como Bispo foi popular; viveu e morreu honrado por todos”. 2. Alguns incidentes na sua administração Aconteceu que ao presidir à Conferência Anual de Ohio, em 1834, havia um membro desta, desejando que certo homem fosse nomeado professor na Universidade de Ohio, onde seus filhos eram alunos. O Sr. Jacob Young, sabendo que o Bispo não favorecia tal projeto, fez todo o possível para obrigar o Bispo a fazer tal nomeação, conseguiu até que a Conferência votasse a aprovação da nomeação do homem que ele queria, porém havia outros contra essa proposta.
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    Quando chegou ahora de o Bispo por em votação a proposta, disse: “Não me importa saber como os senhores votarão, pois eu não farei a nomeação”. Assim caiu a proposta. O Sr. Young disse: “Eu tenho que me retirar da Conferência por um pouco, afim de andar e desabafar o meu espírito, pois estava muito alterado”. Quando estava andando vagarosamente e pensando. Sobre sua conclusão ele fala:”Papa! Papa! Reconheci naquele dia que os Bispos Metodistas tinham bastante poder. Parecia a mim que este poder era semelhante ao veto colocado nas mãos do presidente dos Estados Unidos”. É sempre difícil escrever as coisas claramente quando estamos contrariados em nossos próprios planos e desejos. Houve um outro caso que se deu em Virginia, quando um itinerante que possuía mais gênio que bom senso, acusou o Bispo de ter mostrado um espírito partidário e o ameaçou “com um artigo contra ele no jornal”. A isto o Bispo respondeu: “E eu não farei nem um risco de pena em resposta”. O Bispo Soule decidia todos os problemas da sua vida como se estivesse de esperar uma eternidade para sua reivindicação. Foi muito criticado pela posição que tomou na questão da abolição dos escravos. Conservou-se a Disciplina sobre esta questão e assim fazendo ganhou a crítica do partido extremista sobre esta questão. Em 1816 a Igreja tomou a seguinte posição nesta importante questão: “A escravidão é um mal, é um mal gigantesco; mas é uma instituição política, encerrada nas Constituições de diversos Estados; e está, portanto, fora do poder da Igreja alterar essas condições. É de nosso dever levar o Evangelho tanto aos mestres como aos seus escravos, e dar tal direção e fazer tais regras que indiquem os limites do nosso poder para extinguir o mal”. Foi justamente esta a posição do Bispo Soule quando o assunto era discutido calmamente; e, quando vieram dias de fortes discussões sobre esta questão, ele não se deixou vacilar, antes firmou-se mais na posição que a Igreja tinha tomado até o ano de 1844, quando a separação se deu. O que ele era em 1808 o foi em 1844, baseando-se na Constituição e nas deliberações tomadas pela Igreja. Como ele era do Norte e tinha passado muitos anos no Sul, conquistou a confiança e respeito de todos, estava em condições de prestar valiosos serviços em reconciliar os diversos partidos das duas seções (do Norte e do Sul) do país. Uma vez o Bispo Soule ia embarcar em Baltimore para Nova York. Seu companheiro de viagem, um Quaker, chegou ao navio primeiro e entrou, mas ficou escandalizado com as blasfêmias dos tripulantes. Ia saindo quando se encontrou com o Bispo que entrava. Contou-lhe o que testemunhara e sugeriu que tomassem outro navio. O Bispo disse a seu companheiro: “Venha comigo e o senhor não ouvirá mais nenhuma blasfêmia”. Com o seu companheiro o Bispo andava pelo convés do navio no meio dos tripulantes e os cumprimentava e, quando se encontrou com o capitão do navio o saudou e mais alguns dos oficiais; e continuaram a passear pelo convés e usar a sua cabine e não se ouviam mais palavras torpes dos marinheiros. Quando iam desembarcando, o Quaker cochichou no ouvido de Soule: “Josué, eu percebo que os espíritos te estão sujeitos”. Foi desta maneira que Francisco de Assis pregava ao povo de sua cidade. 3. Delegado fraternal às Conferências Britânicas Foi a idéia de João Wesley que o metodismo tivesse uma unidade contínua através do mundo. Havia muitos outros que partilhavam desta mesma idéia entre os quais os Bispos Asbury e Coke. Mas esta idéia não podia prevalecer; as circunstâncias eram fortes demais para conservar uma unidade orgânica. Mas sempre tem havido uma unidade de espírito e o de fraternidade. Antes de 1840 o Bispo Soule foi nomeado delegado fraternal às Conferências Metodistas da Grã-Bretanha. Em 1842 ele com o Sr. Thomas B. Sargent, o seu companheiro de viagem,
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    embarcou para aInglaterra em junho. Eles visitaram a Conferênci a Geral da Irlanda e a Conferência Geral da Inglaterra que se realizou em “Wesley’s Chapel”, City Roads, Londres. Não é necessário dizer que a sua visita causou profunda impressão sobre os britânicos. O sermão que pregou em “Wesley’s Chapel”, foi muito apreciado e a Conferência pediu formalmente que ele fornecesse uma cópia para ser publicada no “Magazine”. Foi convidado a tomar parte na ordenação dos diáconos e presbíteros da classe daquele ano. Também, um dos melhores pintores ingleses daquela época foi ajustado pela Conferência Wesleyana para lhe pintar um retrato. Certamente nunca tivéramos um delegado fraternal que fosse mais honrado do que ele. Em 1848 foi a vez de haver um delegado do metodismo inglês na Conferência Geral do metodismo nos EUA. O delegado foi o Sr. Dixon, que era o presidente da Conferência Wesleyana inglesa por ocasião da visita do Bispo Soule. Dixon não podia esquecer-se jamais do venerável Bispo Soule e, estando na América como delegado fraternal não pode deixar de visitar o Bispo Soule. Quando o dr. Dixon embarcou para a Inglaterra o Bispo Soule em companhia de muitos outros o acompanharam a bordo. Quando o Sr. Dixon chegou em seu país escreveu às seguintes linhas descrevendo a sua impressão do Bispo Soule: “Muitos irmãos nos ac ompanharam ao navio para despedir-nos. Entre eles estava o Bispo Soule. Eu o vi pela última vez com um coração dolorido em meio aos demais irmãos. É triste lembrar-me que nunca mais hei de vê-lo. Senti isso profundamente quando tirei os meus olhos dele com o último adeus. Um homem nobre! Um dos primeiros espíritos da América! No porte um cavalheiro perfeito, viril, cortez e digno; nos princípios, sentimento e comportamento, um verdadeiro cristão; em caráter e capacidade mental, claro e masculino; na enverga dura moral, firme, inabalável e inflexível; em sua capacidade oficial, judicioso, prudente e decidido em aderir a regra constitucional, mas prático e sábio; nos trabalhos evangélicos tão ativo como qualquer outro homem na Igreja; e no espírito, calmo, corajoso e ativo. Durante quatorze dias tive o privilégio e a felicidade da companhia do Bispo Soule, e minha alma no mais íntimo o reverenciava e rendia homenagem quando via o seu aspecto venerável pela última vez”. 4. A separação da Igreja Quando o Bispo Soule voltou da Europa, tendo viajado um pouco pelo continente, depois de deixar a Inglaterra, achava grande mudança no espírito da Igreja Metodista na América. Havia um espírito revolucionário mais pronunciado do que nunca contra a escravidão. Portanto, quando a Conferência Geral se reuniu em nova York, em maio de 1844, esta questão foi longamente discutida. Não havia possibilidade de conservar a união da Igreja , entre os grupos que eram contra e a favor da escravidão, e foi então adotado “Um plano de Separação”. E quando a Igreja Metodista Episcopal do Sul foi organizada em 1846 o Bispo Soule e o Bispo Andrews, foram convidados a participar nos destinos dela. Eles aceitaram o convite e prestaram os seus serviços até o fim da vida. É admirável como o Bispo Soule que nasceu e foi criado e passou os seus primeiros anos na itinerância em Nova Inglaterra, o lugar onde os sentimentos mais fortes contra a escravidão foram manifestados, consentiu em aliar-se com a Igreja do Sul, o grupo que era a favor da escravidão. Ele fez isso porque julgava que os passos dados foram mais de acordo com a sua consciência. Para entrar em pormenores sobre essa fase da história da nossa Igreja, precisaríamos de mais espaço do que esta obra nos permite. Aquele que quiser saber mais sobre esta época da nossa história deve ler o livrinho, “A History of the Metodist Church South in the United States”, escrito por Gross Alexander.
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    IX – OFIM DA CARREIRA 1. Alguns incidentes nos últimos anos. Depois do fatídico ano de 1844 até o ano de 1867 o Bispo Soule foi identificado com a Igreja Metodista Episcopal do Sul. Sua experiência e compreensão dos problemas daquela época o habilitaram para ser o guia e chefe da Igreja dura nte os anos mais tristes da história da Igreja Metodista e igualmente da nação. Foi o período da agitação religiosa, social e civil que terminou numa guerra civil que durou quatro anos. Depois de se identificar com a Igreja do Sul, mudou a sua residência de Lebenon, no Ohio, para Nashville, noTennesse. A Igreja de McKendree ofereceu-lhe residência no centro da cidade, onde ficou uns oito anos, até ser jubilado e mudar-se para o sítio, umas duas léguas da cidade de Nashville. Ali comprou um sí tio pequeno e passou o seu tempo cuidando das flores, das plantas e do prado ao redor da casa, e lendo. Ele agora era jubilado e fazia o que podia pela Igreja que amava tanto como amava a sua própria vida. Não quis fazer coisa alguma fora do ordinário sem autorização da Igreja. Por exemplo, não quis aceitar um título acadêmico, oferecido por uma universidade européia sem consultar a Conferência Geral em 1844. Também, mais tarde, antes de visitar o lar da sua mocidade e os parentes no estado de Maine, pediu licença. Ele observava a regra: Aquele que quer governar deve saber obedecer. Sem dúvida a vista à cena de sua mocidade foi-lhe experiência tocante, recordando as experiências e lutas da sua mocidade. Além desta visita, ele fez uma ou duas viagens pelo isthmo de Panamá à Califórnia onde pregou e se interessou na propaganda do Evangelho neste novo território. Durante a Guerra Civil, ainda Bispo ativo, foi separado do movimento da Igreja por dois anos, pois o exército dos unionistas (os soldados ianques dos estados do Norte) capturou a cidade da Nashville onde ele residia e cortou toda a comunicação com o seu povo. Mas aqueles dias finalmente passaram e Soule conseguiu reunir alguns dos pastores na capela que ficava perto da sua casa e ordenou os pregadores que precisavam de ordenação. Passou uma experiência dolorosa em 1857, quando a sua querida esposa faleceu. O Dr. H. M. Du Bose assim descreve esta cena: “No dia 27 de maio de 1857, sua esposa, uma senhora que durante cinqüenta e quatro anos deu provas da sua dignidade em ser esposa de um tão digno marido, entrou no descanso eterno e foi sepultada ao lado de sua filha que tinha falecido dez anos antes. Embora um homem forte, corajoso e cheio de confiança, não deixou de sentir o terrível golpe da morte. Ficou profundamente comovido pela separação da sua companheira da sua vida e do seu coração. Leal e afeiçoadamente tinham andado juntos. Nunca houve qualquer dúvida entre eles para perturbar seus pensamentos. Foi com pesar sufocante e dor de um amante que entregou o corpo dela à terra – “terra à terra, pó ao pó”. 2. O triunfo final. O Bispo Soule estava doente e enfraquecido demais para assistir à Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal do Sul que se realizou em 1866. A guerra Civil tinha terminado e a Igreja e o povo foram abençoados pela paz civil e eclesiástica. O Bispo mandou a sua última mensagem à Igreja dizendo: “Levai avante a grande obra”. Ele viu o futuro cheio de prosperidade e bênçãos. Em 2 de março de 1867 caiu doente com um ataque de desinteria e no dia 5 começou a enfraquecer-se sobremodo. Ele estava cônscio que o fim da jornada se aproximava, e de quando em quando perguntava que horas eram. O Bispo McTyire que o assistiu nas últimas horas assim descreve o desenlace: “Cerca de uma hora da tarde parecia que entrava debaixo de uma nuvem e que o fim estava perto. Eu perguntei: “Tudo está bom ainda?” Então pela última vez ele respondeu dando ênfase sobre as suas palavras que o caracterizava: “Sim, senhor, tudo está bom!”. De tempo em tempo lhe
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    dávamos água quetomava como se tivesse muita sede. Depois de tomar a água, por volta das duas horas, quando a sua voz enfraquecia mais, mas ainda distinta, vendo-lhe cruzar as mãos em cima do peito, eu perguntei: “Estas orando?” Ele só respondeu: “Agora não.” E não falou mais.” O Bispo McTyire continua: “Fiquei surpreendido com essas palavras; não foram o que esperava ouvir, pois sabia que me compreendia e falou o que sentia. Mas enquanto eu o olhava deitado ali, meditando sobre as palavras – “Agora não” – elas tomaram uma nova significação e achava-as muito justas. O trabalho dele estava acabado; à noite tinha chegado quando o homem não pode mais trabalhar. Estava em repouso o servo que não tinha perdido o seu tempo durante o dia, e quando as sombras se estendiam não precisava de ativar-se mais. É possível não ter outra coisa a fazer senão morrer. Ái do homem que tem de orar e morrer ao mesmo tempo! Aquele que crê não se apressará: ‘Eu não estou orando agora.”. Ele já tinha feito aquilo, e o tempo para render louvores estava perto. Como a um navio que tem enfrentado tempestades e ondas turbulentas e que chegando ao porto cessa de labutar e o mecanismo deixa de se movimentar, só um momento basta para levá-lo ao cais.” E conclui o Bispo McTyire: “O desenlace se deu. A família foi chamada e ficou em pé ao redor da cama enquanto “se rompeu o cordão de Prata” sem qualquer esforço ou gemido ou sinal de dor. Ele tinha se despido do tabernáculo de barro! Ausente do corpo, presente com o Senhor! O corpo foi enterrado no cemitério da cidade de Nashville onde ficou por dez anos; dali foi levado para o terreno da Universidade de Vanderbilt, em Vanderbilt, e enterrado ao lado do seu colega, o Bispo Guilherme McKendree, onde jazem juntos na sombra dos prédios majestosos da Universidade”.
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    IX A vida dePedro Cartwright, o Itinerante Metodista nas Fronteiras (1785-1872) Escrevendo sobre a vida de Pedro Cartwright, o fim em vista é mostrar como Deus pode usar um homem que se dedica a seu serviço para vencer mil di ficuldades e estabelecer o seu Reino na terra. Quando lembramos das condições que prevaleceram na época em que o pai de Cartwright emigrou para as fronteiras de Kentuc ky e então, depois de setenta anos, notamos o progresso que houve durante esse período, ficamos pasmados com as modificações. Lendo a autobiografia de Cartwright ficamos conhecendo perfeitamente as condições sociais, políticas e religiosas daquele tempo primitivo. Não havia caminhos, nem pontes através dos rios, nem roças nem árvores frutíferas, nem casas, igrejas, escolas ou colégios. O que havia eram florestas e planícies, feras e selvagens. Além dos índios e feras havia ainda homens piores do que estes, homens desordeiros e criminosos refugiados da Justiça, nas florestas. Aumentando o número de emigrantes, as condições sociais trouxeram maiores complicações, pois era difícil executar as leis violadas e o mais astuto e o mais forte era o que prevalecia em pé. Cartwright conta como seu pai e os que vieram com ele, tinham de se defender dos índios logo que chegaram em Kentucky. Poucos dias antes de ali chegarem diversas famílias foram chacinadas pelos índios. Seu pai e os demais se acamparam no mesmo lugar onde as famílias foram mortas. Tinham de se proteger dos selvagens. Colocaram as mulheres, crianças e animais, etc. no centro e destacaram vigias ao redor para combater os índios que se apresentassem. Aquela noite seu pai serviu de vigia. Quando tudo estava silencioso, do lado onde estava seu pai, apareceu uma coisa andando e grunhindo como porco. Estava escuro, porém se podia ver um vulto caminhando em sua direção. Pensava que fosse um índio disfarçado e levantou a espingarda, mirou-o e deu o tiro. Quando deu o tiro, o vulto deu um pulo e caiu. O pai correu ao acampamento para contar o que tinha feito, mas o tiro já tinha acordado a todos e as mulheres e as crianças estavam chorando e gritando, julgando que já iam ser assassinados. Arranjaram uma luz e foram ver o que era aquilo que fora atingido e verificaram que era um índio que tomou a bala na cabeça e que estava morto. Houve muitas outras coisas semelhantes que se deram com eles naqueles tempos. O pior de tudo foi um grupo de criminosos que se concentrou numa certa zona e, para um estranho, era perigosíssimo lá entrar. Para acabar com eles era necessário atacá -los. Mas eles também se defendiam e matariam muitos outros antes de se darem por vencidos.
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    O domingo entreos imigrantes era considerado um dia reservado para diversões, tais como: caças, pescas, corridas de cavalo, jogo de cartas, bailes e danças. Foi neste meio que o jovem Pedro Cartwright foi criado. Tinha seis anos quando seu pai se mudou de Virginia para as fronteiras de Kentucky. I – OS PAIS E A SUA MOCIDADE 1. Os seus pais Os pais eram do Estado de Virginia, um dos mais antigos de todos os Estados do país. O pai foi um soldado na guerra da revolução e lutou pela independência. Não era homem religioso, porém não se opunha à religião, consentindo até no culto de pregação em sua casa. Sua mãe era uma senhora piedosa e membro da Igreja Metodista Episcopal. Ela, logo que se mudou para Kentucky, procurou os itinerantes Metodistas e os convidou para dirigir culto em sua casa. Os dois primeiros anos que passaram em Kentucky foi no condado de Logan. O Sr. Cartwright assim descreve um culto que se realizou na casa do pai: “Pouco depois de mudarmos do condado de Lincoln para o condado de Logan fomos visitados pelo Rev. Jacob Lurton, um itinerante da Igreja Metodista Episcopal. Ainda que meu pai não fosse um crente professo, não era todavia contra a religião, e quando o Rev. Lurton pediu o privilégio de pregar em sua casa logo consentiu. Tinha eu então nove anos de idade, e me mandaram convidar os nossos vizinhos para assistirem à pregação. De bom grado aceitaram o convite e a casa ficou repleta. O Rev. Jacob Lurton era verdadeiro filho de trovão. Pregou com muito poder e a congregação banhou-se em lágrimas; alguns choraram, pedindo misericórdia, e minha mãe gritava de alegria”. Sendo criado neste meio tão corrompido, não é de estranhar que o rapaz adquirisse hábitos ruins, especialmente quando lembramos a atitude de seu pai para com as coisas religiosas. Vamos deixá-lo narrar essa fase de sua vida. “Eu por natureza era um rapaz malvado, e gostava de corridas de cavalos, jogo de baralho e de bailes. Meu pai pouco se importava em me corrigir, porém minha mãe me falava, chorava e orava por mim. Constantemente seus olhos estavam banhados de lágrimas por minha causa.” “Apesar de chorar quando ouvia pregações e resolver corrigir-me, contudo quebrava os meus votos e me associava com outros rapazes, participando das danças, corridas de cavalo e jogos de baralho. Finalmente meu pai me deu um novo cavalo de corridas que quase me perdeu para sempre. Ele, também, me deu um baralho e tornei-me um hábil jogador e não obstante não ter sido instruído na arte de lograr, tive minhas vitórias e ganhei dinheiro.” “Este jogo era muito atraente e tornou-se um vício muito maior porque era um moço cujas rodas o praticavam. Minha mãe se opunha a isso e quase todo dia me falava sobre o v ício e eu tinha que esconder o baralho para ela não o queimar ou destruir, de qualquer maneira. Oh! Os tristes enganos do jogador! Não há nada que possa livrar um homem deste miserável pecado senão a graça de Deus”. 2. Sua educação As oportunidades para assistir aulas eram poucas. Feli zmente os pais tinham desejo de educá-lo do melhor modo possível, apesar de tantas dificuldades. Havia um homem, o Dr. Beverly Allen, que tinha uma escola particular, mas não tinha muito jeito para ensinar e pouco proveito tinham os seus alunos. Pedro Cartwright morava com ele e assistia às aulas, porém não ficou na escola muito tempo. Passou algum tempo sem ter o privilégio de assistir aulas. Só depois de se converter é que procurou de novo uma escola; mas não foi muito feliz na sua vida escolar. Ouçamo -lo como narra esse episódio de sua vida: “Logo depois que meu pai se mudou para esta nova comunidade, procurei um bom professor e escola. Achei uma, não mui distante de casa. O professor era um
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    homem bem preparado,um ministro da seita de “Secedeus”, que se tinha educado em Sexington, Kentucky, com um tal Sr. Rankim. Fui e matriculei -me, arranjando pensão com um velho Metodista que morava perto da escola. O nome da escola era “Academia Brown”. O professor Brown ensinava todas as matérias de um curso secundário em inglês, e também línguas mortas. Julgava que a Providência me tinha proporcionado um meio pelo qual podia me educar e assim realizar o meu desejo de que por tanto tempo fora privado. Entrei na escola e me adiantei rapidamente.” “O irmão com quem tinha pensão, sendo um homem de Deus e zeloso, insistia que realizássemos culto nos domingos à noite. Concordei. Realizávamos cultos de noite, e nos domingos, eu exortava às congregações que assistiam os cultos. Em pouco tempo organizamos uma classe composta dos Metodistas que moravam naquela zona. Tivemos algumas conversões e comecei a crer que Deus me tinha aberto uma porta eficaz. Mas logo se levantou uma tempestade de perseguições.” “Meu professor era um fanático da seita dos “Secedeus” e eu creio firmemente que odiava mais aos Metodistas que o próprio diabo. Sei que os odiava mais do que a cachaça, pois freqüentemente ele se embriagava.” Havia uma classe numerosa de rapazes da minha idade, e eles eram maus e profanos. Reconhecia minha situação perigosa, e me conservava sob disciplina rigorosa para não lhes dar motivo a que me ofendessem. Meu professor procurava me envolver em discussões, mas eu as evitava sempre. Os rapazes caçoavam de mim, chamando-me um pregador Metodista. Respondialhes, no entanto, e também ao professor, que não me considerava um pregador Metodista, mas que desejava muito ser. Enfim dois moços resolveram mergulhar-me no ribeirão que passava perto da escola e cujas terras adjacentes, cobertas de relva, era um lugar de retiro. Este lugar, à margem do rio, tinha dois metros de altura, e a água três metros de profundidade. Foi aqui que os referidos rapazes me trouxeram sob pretexto de conversarem comigo sobre religião, porque fingiam estar muito ansiosos e impressionados por causa dos seus pecados. Acompanhei-os um pouco desconfiado, não lhes sabendo os intuitos. Quando ch egamos à margem do rio, agarraram-me com intenção de me lançar na água funda. Num abrir e fechar de olhos arranquei -me das mãos de um e dei um empurrão no outro, atirando-o na água. Então o outro e eu lutamos, e a luta foi terrível, porque éramos mais ou menos iguais em força. Finalmente caímos no chão e eu comecei a empurrar o meu adversário, rolando com ele na direção do precipício, até que nós dois caímos juntos no rio; então tivemos que nadar até a terra. Apesar disso não ser coisa muito agradável para mim, ao menos os meus colegas não tinham nada do que se gabar; se eu me molhei, também os dois foram mergulhados. Suportei tudo isso algum tempo com paciência, porém as minhas dificuldades aumentaram e queixei-me ao Sr. Brown, o professor. Ele, todavia, não se importava com isso. Daí eu deixar a escola, mui pesaroso, sabendo que estava me negando o privilégio de completar a minha educação”. Mas não devemos concluir que, saindo ele da escola, estava acabada a sua educação, pois a itinerância é uma escola em si, se o itinerante souber aproveitar o seu tempo e suas oportunidades. Ele entrou na itinerância (pregadores itinerantes) logo e sob a direção do Presbítero Presidente continuou os seus estudos. Sobre este ponto diz ele: “Naqueles primitivos dias não tínhamos um curso conferencial como temos atualmente; mas Guilherme McKendree, que foi eleito Bispo mais tarde, sendo meu Presbítero Presidente, me guiava nos meus estudos, citando o curso de leitura e estudos que devia fazer. Ele me escolheu os livros tanto literários como teológicos e todos os trimestres em que visitou o meu circuito me examinava, notando o progresso que tinha feito, corrigindo os meus erros se os houvesse. Era seu prazer instruir-me na Gramática Inglesa.” Cartwright é testemunha da grande vantagem que o itinerante tem em se educar; pois está sempre encontrando novas instruções e pessoas com idéias diversas; e para defender a verdade e combater os erros tem de se informar. Ele foi colocado num meio onde se encontravam ateus,
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    infiéis, deistas, unitarianose universalistas. Tinha, pois, forçosamente de se preparar para lhes combater os erros. Assim, desta maneira foi que se educou. II – SUA CONVERSÃO E CHAMADO PARA O MINSTÉRIO 1. Os cultos de acampamento Os cultos de acampamento, tiveram origem em 1800, num lugar chamado Cane Ridge, no estado de Kentucky. Alguns pregadores presbiterianos estavam realizando uma série de Conferências religiosas e houve uma grande manifestação do poder de Deus entre o povo e a série foi se prolongando por quatro semanas. O povo afluía de todos os lados e mais de mil pessoas gritavam de alegria, dando louvores a Deus, todos ao mesmo tempo. Notícias destas Conferências espalharam-se por toda a redondeza, despertando o interesse do povo em geral. Para atender ao povo, a idéia de acampamentos foi sugerida, pois assim o povo que queria assistir uma série de Conferências levava toda a família com camas, comida, etc, e, armando uma tenda, passava dias e semanas, não fazendo coisa alguma, a não ser assistir cultos, três ou quatro vezes por dia. Até vinte mil pessoas assistiam de uma vez. Foi durante uma dessas séries de Conferências que Cartwright se converteu. 2. Sua conversão Talvez seja mais interessante deixar Cartwright mesmo contar a sua conversão. “Em 1801, quando tinha dezesseis anos de idade, meu irmão mais velho, eu e meu pai assistimos um casamento, cerca de duas léguas distante da nossa casa. Os convidados bebiam e dançavam bastante, pois este era o costume naquela época. Eu bebia muito pouco, quase nada, mas dançava muito. Alta noite, montamos em nossos animais e voltamos para casa. Eu andava no meu cavalo de corridas.” “Logo depois de soltarmos os cavalos, e enquanto estava sentado em frente do lume (lampião, lamparina), comecei a refletir na maneira como tinha passado aquela tarde. Sentia-me condenado. Levantei-me e andei pelo quarto. Minha mãe estava dormindo na cama. Pareceu-me que de repente todo o sangue me passou para a cabeça, e meu coração palpitava excessivamente. Dentro de poucos minutos estava cego, julgando que a morte se tinha apoderado de mim sem que me achasse preparado. Ajoelhei-me a comecei a pedir a Deus que se compadecesse de mim.” “Minha mãe se levantou depressa e ajoelhou-se ao meu lado e começou a orar em meu favor, exortando-me a que buscasse a misericórdia de Cristo. Foi nesta ocasião que prometi ao Senhor que, se Ele poupasse a minha vida, eu O serviria, se não tenho revogado aquele voto. Minha mãe orou por mim muito tempo, e finalmente, deitamo-nos; no entanto, quase nada dormi. No dia seguinte levantei -me, sentindo-me mal. Queria ler o Novo Testamento, retirando-me para orar em secreto, diversas vezes durante o dia, mas não achei alívio. Dei meu c avalo de corridas para meu pai, e pedi que mo vendesse. Trouxe o baralho para minha mãe e ela o jogou no fogo. Jejuava, vigiava, orava e lia o Novo Testamento. Estava tão incomodado e miserável que não podia cuidar direito dos meus negócios. Meu pai ficou aflito por minha causa, julgando que ia morrer, e assim perderia o seu filho único. Ele me proibiu de fazer qualquer serviço, aconselhandome que cuidasse de mim mesmo.” “Logo se espalhou a notícia de que eu estava louco, e muitos dos meus colegas em pecado, vieram me visitar para ver se poderiam distrair -me a mente dos pensamentos lúgubres, mas foi debalde.” “Eu os exortava que abandonassem os seus pecados e vícios que tínhamos praticado juntos. O guia de classe e o pastor foram convidados para me visitar. Eles me procuraram apontar
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    o Cordeiro eoraram comigo, e por mim. Mas ainda não achei conforto para minha alma, e apesar de nunca ter acreditado na doutrina da predestinação e retribuição absoluta, estava tentado a crer que fosse réprobo, condenado, e perdido sem a esperança de salvação. Ao cabo de algum tempo, um dia fui ao rancho, orando e torcendo as mãos no abismo do desespero e pareceu-me que ouvi uma voz do céu, dizendo: “Pedro, olha para mim”. Fui aliviado num instante como se me tivesse passado uma corrente elétrica. Cobrei ânimo e esperança na misericórdia de Deus, porém ainda sentia um fardo de culpa sobre mim. Voltei para casa e contei isto à minha mãe. Ela compreendeu a minha situação logo, e me disse que Deus tinha feito aquilo para me dar co ragem para prosseguir em busca de sua misericórdia, e me exortou a que continuasse a buscar a Deus e Ele me perdoaria todos os pecados.” “Alguns dias depois fui a uma cova que existia na fazenda de meu pai, para orar em secreto. Minha alma estava em agonia: chorei, orei e disse: “Agora, oh meu Senhor, se há misericórdia para mim, faze que eu a encontre”, e pareceu-me que quase podia apoderar-me do Salvador e realizar a reconciliação com Deus. De repente caiu sobre mim tal temor do diabo que me parecia que ele estava ali em sua própria pessoa pronto para me agarrar e arrastar, corpo e alma, para o inferno; e tal foi o horror que me acometeu que corri para casa, a fim de estar com minha mãe. Ela me disse que aquilo não era outra coisa senão o alvitre de satanás para me privar da benção que Deus queria me dar naquela hora. Passaram mais três meses e não recebi o perdão dos meus pecados”. Durante estes três meses deram-se mudanças no circuito onde morava o Sr. Cartwright. O novo pastor nomeado era o Rev. John Page, um pregador excepcional. O avivamento que principiou em Cane Ridge se estava alastrando por toda parte. Um culto de acampamento se realizou nesta época perto da casa do pai dele e toda a família assistiu. Diz ainda ele mesmo: “Fui para assistir aos cultos deste acampamento, sentindo o peso dos meus pecados como um pecador miserável. No domingo de tarde, durante esta série de Conferências, junto com outros, fui ao altar e ajoelhei-me e orei sinceramente pela misericórdia divina. Durante o tempo em que minha alma estava em lutas, veio-me à mente, uma impressão como se fosse uma voz que me dizia: “Os teus pecados te são perdoados”. A luz divina raiou ao redor de mim, um gozo inexprimível se me manifestou n’alma. Levantei -me, abri os olhos e pareceu-me estar no céu: as árvores, as folhas, tudo me parecia estar em constantes louvores a Deus. Minha mãe gritou de alegria e os meus amigos me cercaram, e juntos louvaram a Deus. Desde aquela hora, ainda mesmo não tendo eu sido fiel em tudo, não tive mais dúvida de que naquela ocasião Deus, me perdoou e me deu a religião”. 3. A chamada para o ministério Cartwright converteu-se em maio; e em junho, quando seu pastor, o Rev. John Page, visitou a Igreja Ebenezer, fez a sua profissão de fé. Sobre o fato ele mesmo diz: “Fiz minha profissão na Igreja Metodista Episcopal, e não me tenho arrependido. Não tenho sido, nem por um minuto, tentado a deixá-la, e se dela fosse expulso voltaria a bater-lhe à porta, pedindo que fosse readmitido”. Por algum tempo depois de fazer a sua profissão de fé Cartwright tomava parte nos cultos de acampamentos dirigidos pelos Metodistas e Presbiterianos. Na ocasião de um destes cultos deu-se um incidente que revelava bem o espírito e os característicos de Cartwright durante a sua longa vida. É o seguinte: “Era grande o interesse pela religião entre o grande número do povo que assistia essa série de Conferências. Diversas pessoas mostraram-se contra esse trabalho e no meio delas havia um sr. que dizia ser judeu. Era um homem inteligente e parecia que o seu maior prazer era contrariar a religião cristã. Durante as horas vagas, quando não havia culto público no acampamento, os moços piedosos iam à floresta para realizarem cultos de oração. Se havia outros rapazes interessados, eram convidados para assistir. Muitos deles se converteram e juntos conosco davam os seus louvores a Deus.”
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    “Numa tarde umgrande número de moços realizaram um culto de oração. No meio deste grupo de rapazes estava o tal judeu desejando saber o que íamos fazer. Explicamo-nos: Ele disse que estávamos errados, que era idolatria adorar a Jesus Cristo e que Deus não queria e não podia ouvir tais orações. Percebi logo o intuito dele: queria provocar uma discussão e assim estorvar a nossa reunião. Perguntei-lhe: - “Acredita firmemente o Sr. que Deus existe? - “Sim, creio” disse ele. - “Crê que Deus ouve as suas orações?” Ele respondeu, “Sim”. - “Muito bem, meu querido senhor” disse eu, “vamos, por a prova isso. Se o senhor é sincero, ajoelhe-se agora mesmo e ore, pois se nós estamos errados queremos saber que estamos errados”. Hesitava um pouco, mostrando sinais que não queria; animei-o de novo. Ajoelhou-se devagarzinho, cuspiu e tossiu. E eu voltando -me aos rapazes, disse-lhes: “Agora, rapazes, orai a Deus com toda a força de vossa alma para que Ele nos responda pelo fogo”. O nosso judeu começou e disse numa voz trêmula: “Ó Senhor Deus Onipotente”... Parou sua ração, tossiu e começou a repetir as mesmas palavras por várias vezes. Vimos que estava confundido, e nós todos juntos oramos em voz bem alta. O judeu levantou-se e foi embora, e nós gritamos de alegria e tivemos uma hora mui agradável. Alguns dos interessados se converteram e começaram a louvar a Deus junto conosco, voltando nós para o acampamento crentes que tinham ganho uma vitória sobre o diabo e o judeu”. Em 1802 o jovem Pedro Cartwright assistiu à Conferência que se realizou no estado de Tennesse e nessa ocasião viu pela primeira vez o Bispo Asbury. O Rev. Jessé Walber foi nomeado como pastor do circuito de Red River, onde morava Cartwright. Na ocasião da Conferência Trimestral que se realizou neste circuito, no princípio de 1802, o Rev. Jessé Welber entregou a Cartwright o seguinte documento: “O portador deste, Pedro Cartwright, está devidamente licenciado para exercer o ofício de exortador na Igreja Metodista Episcopal enquanto o seu procedimento estiver de acordo com o Evangelho. Assinado em favor da sociedade em Ebenezer. Maio, 1802 – Jessé Walber, A. P.”. Cartwright ficou surpreendido com isto e não quis aceitar, porém o pastor insistiu e ele aceitou a incumbência de exortador, e realmente, foi o único documento que recebeu antes de ser ordenado diácono. Isto nos mostra como se fazia naquela época, nas fronteiras da civilização. No fim do ano o pai de Cartwright resolveu mudar-se para uma nova zona perto da embocadura do rio Cumberland. Nessa zona não havia um circuito Metodista, mas havia alguns metodistas espalhados. Quando mudaram, pediram certificado do pastor. O Pr. Jessé lhes deu o certificado de que eram metodistas e ao mesmo tempo autorizou o jovem Pedro Cartwright para organizar ali um circuito. Hesitou em aceitar tanta responsabilidade, mas ao cabo, aceitou e durante o ano, trabalhou realizando cultos, organizando classes, e na ocasião da Conferência relatou que tinha recebido setenta pessoas à comunhão da Igreja. Um novo circuito foi organizado e Jessé Walber foi nomeado como seu pastor. No fim do ano de 1803 o Presbítero Presidente, Sr. Garrett, insistiu para que o jovem Pedro Cartwright aceitasse uma nomeação como ajudante num circuito com o Sr. Gotspeich. O pai não queria que ele aceitasse, mas a mãe concordava e finalmente a vontade dela prevaleceu, e o filho entrou na itinerância. Logo que aceitou o convite de viajar com o Sr. Gotspeich, ele o convidou para pregar na comunidade onde morava antes de se ir embora. Era-lhe uma grande tarefa. Orou e pediu que Deus o ajudasse dando-lhe ao menos uma alma, uma conversão naquela noite. Deus o ouviu e um infiel foi convertido. Isto lhe deu a certeza de que Deus o tinha chamado para o ministério.
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    III – OSPRIMEIROS ANOS NA ITINERÂNCIA 1. O primeiro circuito como pregador a cargo. Como Cartwright mesmo disse: “Finalmente dei as costas ao mundo e despedindo-me dos meus pais e irmãos e irmãs, fui com Gotspeich para trabalhar no condado de Logan”. Ali por três meses ficou trabalhando com o seu colega. Durante este s três meses recebeu para sustento pastoral seis dólares (que equivalia a uns cinqüenta mil rés em moeda brasileira de 1929). Depois disso foi nomeado para tomar conta de um circuito enorme, cujo pregador adoecera e tivera que suspender as viagens. Junto com ele foi mandado um outro jovem, Thomas Gasley. Eles levavam quatro semanas para percorrer o circuito, tendo só dois dias no mês para descansar. Pregava todos os dias e andava algumas léguas a cavalo. Havia alguns Metodistas espalhados naquela vasta zona e também alguns Batistas. Ele tinha só dezenove anos de idade e por isso o povo o chamava “pregador menino” (boy-preacher) e muitas pessoas vinham ouvi-lo por curiosidade.” IV – INCIDENTES INTERESSANTES 1. Os Batistas Havia um ponto de pregação neste circuito chamado Sochton Valley, existindo ali diversas famílias Metodistas. Havia um prédio velho estragado e abandonado naquela localidade que, em tempos idos, fora usado pelos Batistas. Quando Cartwright passava por esta zona, dirigia o culto em casa particular. Uma vez foi convidado para dirigir um culto memorável em homenagem a um crente falecido, e o lugar deste culto ia ser no mencionado prédio. Ele consentiu em dirigi-lo na sua volta dentro de um mês. Quando voltou, encontrou uma casa cheia de ouvintes. Pregou e o poder do Espírito se manifestou entre os assistentes. O povo estava tão interessado que pediu para ficar mais alguns dias para realizar uma série de Conferências. Como tinha alguns dias de descanso por causa de uma ligeira modificação do seu itinerário, resolveu ficar. Realizou dois cultos por dia, um de dia e outro à noite. Muitas pessoas se converteram e queriam que ele organizasse uma sociedade e as recebesse na Igreja. Prometeu fazê-lo na volta dentro de um mês e deixando algumas disciplinas para serem estudadas, partiu a percorrer o seu circuito. Aí é que acontece uma coisa interessante. Ouçamos Cartwright contar o resto: “Depois de fazer isto ali naquele lugarejo que os pregadores batistas tinham abandonado por alguns anos sem dirigir um culto sequer, parti para percorrer o meu circuito; entretanto, dentro de poucos dias depois que parti, três pregadores batistas mandaram avisar ao povo que haveria culto ali no domingo próximo. Vieram e todos os três começaram a gritar: “água, água; deveis seguir o vosso Senhor indo para a água”. Então principiaram o que eles chamavam uma reunião remida, que começaria na próxima sexta-feira. Os poucos Metodistas que moravam naquela localidade ficaram alarmados, receosos que os novos convertidos fossem levados às águas (batismo por imersão) antes de eu poder voltar, e mandaram um dos seus exortadores atrás de mim para insistir que eu voltasse logo, senão os meus convertidos seriam imergidos na água. Tendo eu um itinerário já definido e anunciado e como o povo em diversos lugares estava me esperando, eu disse ao irmão exortador que se ele aceitasse o meu itinerário, substituindo-me nas visitas e pregações, que eu voltaria. Ele aceitou a minha sugestão. Portanto voltei e cheguei sextafeira, dia marcado para começar a tal reunião remida.” “Dois dos pregadores Batistas pregaram, mas não fizeram caso de mim. Como eles não tinham serviços à noite, eu anunciei culto em casa de um senhor metodista. Ele e sua esposa eram os meus convertidos e considerados guias na vizinhança. O povo veio em massa e tivemos um bom culto na casa de oração e ouvimos mais duas conversões. No dia seguinte assistimos culto na asa de oração e ouvimos mais dois sermões sobre a água. Quando terminaram a pregação convidaram candidatos para se unirem com a Igreja; uma senhora velha se levantou e contou a sua experiência que se deu há alguns anos atrás. Então um velho levantou -se e contou um sonho
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    maravilhoso que tinhatido já há mais de vinte anos quando morava no estado de Carolina do Norte. Ambos foram recebidos, sendo-lhes estendida a destra da comunhão, reinando silêncio sobre a congregação. Os pregadores exortaram o povo a que v iesse para a frente e desse a sua experiência. Oh! Como eu me sentia! Tinha receio que alguém dos meus convertidos aceitasse o convite e então os outros também iriam e assim perderia todos. Finalmente um dos moços convertidos levantou-se e deu a sua experiência, dizendo que sob a direção de Deus eu fui o instrumento pelo qual ele se converteu; então um após outro fez a mesma coisa até que todos os vinte e três deram a sua experiência, alegando que eu fui a causa da sua conversão.” “Todos foram aceitos, e o sinal de comunhão foi dado como se deu, aos dois primeiros mencionados, e havia muito regozijo entre os Batistas, mas era “a morte na panela” para mim. Era mais do que podia suportar. Estava pensando eu no que devia fazer. “Estou despojado dos meus filhos, agora o que resta para mim?” Atrás de mim estava assentada uma senhora inteligente e que tinha sido membro da Igreja Metodista Episcopal por muitos anos. No momento em que terminaram a cerimônia de dar a destra de comunhão e o regozijo sobre os “meus filhos furtados”, veio uma idéia que eu devia dar também a minha experiência e proceder como se também eu quisesse identificar-me com a Igreja Batista. Podia ser que pudesse ainda segurar os meus filhos. Levantei-me e relatei também minha experiência; eles me deram também a destra de comunhão; então houve um grande regozijo sobre o “pregador menino” Metodista. Quando eu me assentei, senti que alguém me tocava nos ombros. Virei-me, e quando olhei vi a irmã Metodista inteligente com os olhos banhados de lágrimas. “Oh, irmão”, disse-me ela em vós baixa; “Vai nos deixar?” Eu lhe respondi: “Prezada irmã, não tenha receio; eu sei o que estou fazendo. Ore bastante! Espero reconquistar os meus filhos”. Ela não compreendeu o meu plano, mas a minha resposta serviu para acalmar o seu espírito.” “Havia um ribeirão perto da Igreja. Os pastores nos explicaram como nos devíamos apresentar no dia seguinte às nove horas, com uma muda de roupa, para sermos batizados. ” “Dirigi culto aquela noite no lugar de costume. Tivemos uma boa reunião. Minha situação era crítica. Não tinha ninguém para me aconselhar. Não queria contar a ninguém o meu plano, com receio que falhasse. Levantei-me cedo de manhã, fui para a floresta e me entreguei à oração, e orei como jamais havia orado pelo auxílio de Deus.” “Na hora marcada estávamos todos presentes no dito lugar, porém eu não levei roupa própria. Já tinha sido batizado e não queria abjurá-lo, e isso guardava eu no meu coração. Havia muita gente presente para testemunhar o ato da imersão. Todos os meus vinte e três convertidos e dois velhos sonhadores, que foram os primeiros a dar sua experiência, estavam vestidos, prontos para serem batizados, prontos para cumprirem o que consideravam um dever cristão. Chegaram os pregadores. Um deles cantou um hino e fez oração, e nos exortou convidando-nos a que chegássemos à frente. Sabia que para ser bem sucedido no meu plano era absolutamente necessário que me apresentasse em primeiro lugar. Portanto, passei para a frente, e disse: - “Irmão M...”, que era o pregador e administrador – “quero unir-me à Igreja Batista se for permitido entrar com uma boa consciência. Já fui batizado, e minha consciência está inteiramente satisfeita com o meu batismo e não me quero submeter ao batismo de novo. Posso eu ser recebido nestas condições?” A posição que tomei perturbou bastante o pregador. - “Quando foi batizado o senhor?” Perguntou-me ele. - “Há um ano atrás”, respondi-lhe. - “Mas como foi feito?” “Quem batizou o senhor?” foi-lhe a segunda inquirição. - “Um dos melhores pregadores que o Senhor levantou”. - “Foi batizado por aspersão?” - “Sim, senhor”. - “Aquilo não é batismo de modo algum!” - “As Escrituras (1ªPedro, 3:21), eu respondi, dizem que o batismo não é a purificação da imundícia da carne, mas a questão a respeito de uma boa consciência para com Deus, e a minha
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    consciência está completamentesatisfeita com o meu batismo, e a sua consciência nada tem com isso”. - “Bem”, disse ele, “isto não está de acordo com a nossa fé e prática e não podemos admiti-lo desta maneira na Igreja Batista. Não podemos fazê -lo”. - “Irmão M...”, - disse eu, a sua fé e prática devem estar erradas. A Igreja ouviu minha experiência e julgou que era aceitável; e o irmão acreditou que sou um cristão e que não posso, portanto, me apartar da graça de Deus. Que posso eu fazer agora? O irmão vai recusar aceitar-me na Igreja e me conservar aqui ao lado de fora como um cordeirinho perdido a balir sem aprisco? Irmão M... tem de me aceitar e me receber na Igreja. Já estou resolvido a unir-me com os irmãos batistas se eles me aceitam nessas condições; agora, deixe-me entrar em sua Igreja?” “O pastor já tinha perdido a paciência comigo, e asperamente me mandou ficar do lado para não retardar os outros. Foi um momento excitante comigo. Olhei ao redor para a multidão, e vi que estava comigo. Olhei para os meus convertidos com saudades e também me olharam com muita simpatia e afeição. Involuntariamente moveram -se para meu lado e os olhares deles revelaram-se para meu lado e os olhares deles revelaram a sua aliança comigo. Foi um momento terrível. Oh, como eu me sentia! Quem poderá descrever os meus sentimentos? Fiquei de lado.” “O irmão S... estava próximo ao pregador, vestido para ser batizado; e a sua esposa ao lado dele igualmente preparada para ser batizada. O irmão S... disse: - “Sr. M..., vai rejeitar o irmão Cartwright e não vai recebê-lo na Igreja?” - “Eu não posso recebê -lo”, disse o Sr. M... - “Bem, se o irmão Cartwright não pode ser aceito, ele que tem sido o instrumento nas mãos de Deus para me converter e também tantos outros, se ele não pode ser admitido na Igreja, eu não posso nem quero entrar nela”. - “Nem eu”, disse a sua esposa. - “Nem eu”, disse outro. “Nem eu”, disse um outro, e assim por diante até que todos os vinte e três novos convertidos passaram para meu lado. - “Muito bem, meus irmãos”, disse eu, ficai ao meu lado e o Senhor há de endireitar tudo”. “Bem, os dois sonhadores velhos foram batizados, então os pregadores insistiram que os outros viessem, porém não quiseram.” “Do rio fomos à Igreja. Os três ministros pregaram; e podeis estar certos que eles me ofenderam bastante. Compararam-me aos fariseus, pois eu não quis entrar no Reino de Deus e proibia os que queriam entrar; mas eu suportei isso do melhor modo poss ível. Disseram que com toda a probabilidade as almas que tinha estorvado seriam perdidas e a sua condenação recairia sobre mim. Nada disso me alarmou, porque tinha dito que todos nós éramos bons cristãos, e freqüentemente tinham afirmado nos seus sermões que uma pessoa verdadeiramente convertida não poderia perder a sua religião. Como então poderiam perder-se? E que nos havia para nos assustar? A congregação percebeu o disparate e ficou ainda mais do nosso lado.” “Em seguida veio a comunhão. Arranjaram alguns bancos separados dos outros e convidaram os que tinham sido batizados por imersão para neles tomarem seus lugares. Estava resolvido incomodá-los ainda mais uma vez e por isso tomei um lugar entre os comungantes, no que me seguiram alguns dos novos conv ertidos. Mas quando os diáconos vieram com o pão e o vinho, nos deixaram de lado. Quando terminaram de servir os outros, eu me levantei e pedi que me dessem o pão e o vinho e para os meus convertidos. Isso causou grande embaraço para os diáconos; contudo, consultaram os pastores se era permitido fazer isso. Os pastores prontamente lho proibiram.” “Disse eu então: “Meus prezados irmãos, vós depois de ouvir as nossas experiências nos declarastes cristãos, nos dissestes que um cristão não pode se perder para sempre, e o nosso Salvador pronunciou uma maldição sobre aqueles que ofendessem um dos pequenos que acreditasse nele; agora, portanto, dá-nos o pão e o vinho”.”
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    “Um dos pregadoresme repreendeu asperamente e me disse que eu me calasse. O modo como fui tratado granjeou-me a simpatia de quase todos da assembléia que disseram: “- Que vergonha! Que vergonha!” . “Na hora em que iam despedir o povo pedi licença para falar-lhe por uns quinze minutos para explicar a minha posição. Mas isso não me foi permitido. Então disse eu: - “Está bem: estou num país livre e conheço os meus direitos”. “Depois que despediram o povo, eu subi num banco e disse ao povo que, se quisesse reunir-se a alguns passos distantes da igreja e me ouvir, eu faria a minha defesa. O povo logo se reuniu para me escutar. Subi num tronco e logo fiz a minha defesa. Falando dentro da minha capacidade, mostrei a inconsistência dos pregadores Batistas e terminei dizendo que como eu e os meus filhos no Evangelho não podíamos de um modo digno, ser admitidos à Igreja Batista, que eu estava resolvido a organizar ali uma Igreja Metodista. Expliquei as regras gerais e convidei os que queriam unir-se conosco para se apresentarem. Todos os vinte e três convertidos vieram com mais quatro. Antes de findar o ano tinha recebido setenta pessoas na Igreja, porém os meus amigos batistas quase desapareceram daquela localidade. Fui reanimado a prosseguir no ministério e fazer o que podia”. Parece mui tosca uma narração como esta na época atual; no entanto, serve para revelar o espírito e o costume daquele tempo quando isso se deu; e também revela o espírito e método de Cartwright no trabalho. 2. O Sr. Teel e o culto doméstico Cartwright serviu em diversos circuitos e não será conveniente declinar os nomes de todos eles; somente poderemos citar alguns dos nomes dos circuitos e narrar alguns dos incidentes que neles se deram. Em 1805-06 ele foi nomeado como pregador ajudante no circuito de Scioto, no Estado de Ohio. Levava seis semanas para percorrer este circuito. Seu coleg a, o Rev. Axley, viajava no mesmo circuito. Um seguia atrás do outro, num espaço de duas ou três semanas. Neste circuito morava um bom Metodista, o Sr. Teel, mas ele tinha um costume um pouco esquisito em dirigir o culto doméstico. Deixemos Cartwright contar o incidente: “A primeira vez que visitei este ponto de pregação, passei a tarde em casa do irmão Quinn, que me pediu desculpas por não poder me hospedar em sua casa por falta de lugar, pois tinha casa pequena e família numerosa, mas disse que eu podia dormir em casa do irmão Teel que morava perto. “Mas”, disse ele: “vou lhe dizer como deverá proceder na casa dele. O irmão vai dormir em casa do Sr. Teel; a casa dele é dividida em duas partes, o irmão ocupará uma parte e o Sr. Teel e a sua família ocuparão a outra. É costume do irmão Teel levantar cedo. Logo que se levanta começa a cantar um hino e faz oração; não espera a ninguém. Não somente não espera a família aprontar-se, mas do mesmo modo trata os pregadores. Nunca esperou, nem por um minuto, qualquer pregador, senão o Bispo Asbury. O irmão tem de levantar bem cedo, aprontar -se ligeiramente e entrar logo no quarto dele se quiser assistir o culto doméstico. Achei de bom aviso preveni-lo para evitar qualquer surpresa”. “Agradeci e lhe disse: “Porque é que os pregadores não o corrigem dessa irregularidade?” – “Oh, ele é velho e não é possível corrigi-lo agora”, disse-me o irmão Quinn. “Pode ficar descansado, vou curá-lo”, disse eu. “- Oh, não. Isso é impossível”. “Fui para a casa do irmão Teel para passar a noite. Fizemos culto de oração e deitamos para dormir. Não tinha dúvida acerca do caso, pois estava acostumado a levantar-me cedo, e sempre tinha pensado que era injusto para os pregadores dormirem até tarde e assim atrasar os trabalhos dos hospedeiros.”
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    Ao romper dodia eu me acordei, levantei e aprontei-me; mas não tinha acabado de vestir quando ouvi o irmão Teel anunciar um hino e começar a cantá-lo e quando terminei de me vestir, ouvi-o começar a orar. Agradeceu a Deus por lhe ter poupado a vida durante a noite e pela luz do novo dia, mas naquela hora todos os membros da família estavam dormindo. Deliberadamente abri a porta e fui ao poço, lavei-me e então voltei para casa. Na hora em que cheguei à porta o irmão Teel abriu a sua porta, e vendo-me, disse: - “Bom dia, senhor. Eu não sabia que o senhor tinha se levantado”. - “Sim”, disse eu, “estou de pé já por algum tempo”. - “Bem, irmão”, disse ele, “porque não assistiu o culto doméstico?” - “Porque acho muito feio fazer culto doméstico cedo de manhã antes de me lavar”. “Com isto ele se foi saindo e nada mais disse. Naquela tarde, porém, pouco antes de nos deitarmos, o irmão trouxe a Bíblia e me convidou para dirigir o culto, dizendo: - “Irmão, dirija-nos o culto. - “Não, senhor”, respo ndi. - “Venha”, continuou ele, “tome o livro e dirija -nos o culto”. - “De modo algum! O senhor gosta tanto de orar sozinho, pode dirigi-lo!” “Ele hesitava, mas eu recusei, dizendo: “O senhor tem tanto gosto em orar; ainda hoje de manhã deu graças a Deus por nos ter guardado durante a noite e nos ter permitido ver a luz do novo dia quando a família não a tinha visto ainda, pois estava dormindo. E além disso, o senhor tem um costume tão absurdo em dirigir o culto doméstico que eu não quero participar dele”.” “Ele pegou o livro, leu e fez a oração; mas na manhã seguinte, pode-se crer, as coisas se mudaram. Esperou-me, e toda a família estava presente antes de principiar o culto. Confessou o erro e me disse que era uma das melhores reprovações que jamais tinha tido. Então eu fiz oração e dali em diante tudo correu bem”. 3. Orando em voz alta. No fim do ano de 1806, Cartwright assistiu a Conferência no leste de Tennesse e a distância entre o seu circuito e a Conferência era de cento e setenta léguas. Tinha recebido para o seu sustento durante o ano trezentos e vinte mil réis (em valores do dinheiro brasileiro de 1929). Foi nesta Conferência que foi ordenado diácono, pelo Bispo Asbury. Foi nomeado para o circuito de Marietta que era um dos mais difíceis e pobres que existiam naquela época. Não quis aceitá-lo, pois soube que os Yankees, os imigrantes na Nova Inglaterra, residiam naquele circuito e ele não os queria servir, porque sendo gente bem educada, eram calvinistas e fanáticos. Quando as nomeações foram lidas, ele foi falar com o Bispo dizendo: “Fui falar com o Bispo Asbury e roguei-lhe que fosse nomeado um outro em meu lugar e que me deixasse voltar para casa. Meu velho pai me tomou nos seus braços e disse: ‘Oh não, meu filho; vá em nome do Senhor, que assim você se tornará homem”. Ah! Pensei eu, se assim é que se fazem os homens, não quero ser homem. Chorei e orei, mas fui, sendo animado pelo meu Presbítero Presidente. Foi um dos anos mais duros que passei, mas o povo me tratou bem”. Completando este ano. Já tinha passado três anos fora do lar e estando com sua roupa, o cavalo e arreios quase acabados, resolveu voltar para casa e arranjar roupa, etc. Mas o cavalo dele estava cego e muito fraco e ele não tinha dinheiro para custear as despesas de viagem para casa, pois levava muitos dias. Mas alguns amigos lhe deram dinheiro e, como não tinha nada onde estava, partiu na direção da casa do pai. Ele conta muitas peripécias desta viagem, mas só daremos uma delas. Acabara-lhe todo o dinheiro que tinha e precisava arranjar um lugar para passar a noite. Assim ele conta a sua experiência: “Acabou o dinheiro, e não sabia o que devia fazer. Cheguei a uma estalagem e pedi pousada, explicando que não tinha dinheiro, que tinha passado três anos
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    fora da casade meu pa i e estava voltando para o lar. Também disse que tinha um relógio velho, alguns bons livros nos alforjes e que a pagaria pela pousada de qualquer maneira. Convidaram-me a apear e estar a vontade.” “Descobri que esta família tinha passado muitos anos neste lugar e que não tinha tido nenhum privilégio religioso. Havia na casa três quartos na parte de baixo, mais a sala de jantar, a cozinha e um quarto de dormir – a cozinha estava separada dos outros quartos por uma parede de taboas e havia frestas entre as taboas.” “Quando chegou a hora de nos deitarmos, perguntei ao dono da estalagem se fazia objeção em orarmos antes de dormir. Ele respondeu: “Não, não senhor”, e passou para a cozinha, como eu esperava, para trazer os outros membros da família. Logo voltou trazendo uma vela na mão e disse: “venha comigo”. Segui-o para o quarto de dormir. Então colocou a vela na mesa e me disse: “Boa noite, aqui o senhor pode orar a vontade”. Fiquei em pé e parecia bobo; pois ele me tinha logrado completamente. Mas logo me veio esta idéia que devia ajoelhar e orar em voz alta; assim fiz. Descobri logo, pela comoção que havia na cozinha, que os membros da família ficaram tão surpreendidos comigo como eu pelo procedimento deles. Ouvi a senhora dizer: “Aquele homem está louco e nos matará esta noite. Vai, meu marido e vê o que há”. Mas ele não teve pressa em chegar; e quando cessei de orar, entrou e quis saber porque tinha eu procedido desta maneira. Respondi: “O senhor me deu licença de orar à vontade?” “Sim”, disse ele, “mas não imaginava que ia orar em voz alta”. Disse desejar que a família ouvisse a oração e como ele me tinha negado este privilégio, não sabia outro meio para consegui -lo senão procedendo assim, esperando que se não ofendesse comigo. ” “Descobri que julgara que eu fosse um louco, mas começamos a falar sobre a religião e logo descobriu que eu não era louco, mas falava palavras de verdade e sabedoria.” “Na manhã seguinte levantei-me cedo, aprontei o cavalo e ia partir com idéia de almoçar em casa de um amigo distante dali, mas o proprietário saiu e insistiu que almoçasse com ele antes de partir. Fiquei, mas ele não quis aceitar coisa alguma pela hospedagem, antes me convidou para que, sempre que passasse por lá, hospedar -me com ele. Seis meses depois quando passei de volta encontrei-os já convertidos, dizendo-me que fora por causa da minha visita anterior.” 4. Casamento e ordenação de presbítero. Cartwright tinha servido quatro anos na itinerância e tinha vinte e três anos de idade. Queria casar, mas era difícil manter uma família naquela época e continuar na itinerância. Depois de refletir bem resolveu casar-se com D. Francis Games, no dia 18 de agosto de 1808, no dia do seu décimo nono aniversário. Poucos meses depois do seu casamento foi ordenado presbítero. A gora estava bem iniciada a sua carreira de itinerante. Logo depois o seu pai faleceu e, como estava principiando uma família, foi tentado a arranjar meios mais garantidores para o seu sustento. Um pregador que tinha passado de uma outra igreja para a Igreja Metodista, que tinha alguns dons, procurou Cartwright para convidá-lo a deixar a Igreja Metodista e passar para a Igreja Batista, pois havia uma Igreja Batista naquela zona que oferecia um bom ordenado para este tal pregador ou para Cartwright. Ele procurou Cartwright e disse: “Irmão Cartwright, eu e o senhor temos família crescente; se nos unirmos com estes Batistas, eles nos darão um bom ordenado, e como eles não tem um pregador com talentos em toda esta vasta zona, nós poderíamos exercer uma influência tal sobre eles, atraindo muitos membros para as igrejas, e assim assegura ndo um bom sustento para nossas famílias por longos anos. O irmão não acha bom que façamos isso?”
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    Mas Cartwright respondeu:“Irmão D... sai de diante de mim, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço. Fica tu sabendo, que se o dinheiro ou riqueza tivessem sido o motivo principal que me levou a unir-me a qualquer igreja, nunca teria escolhido a Igreja Metodista; mas quando eu me uni com os Metodistas, eu o fiz com uma convicção firme que eram os melhores de todos; e quanto mais tempo fico com eles e quanto mais estudo suas doutrinas e sistema de governo, tanto mais firme eu me torno na minha escolha, e não há tesouro suficiente neste mundo para me tirar da Igreja Metodista”. Ele venceu a tentação, porém o seu colega cedeu, e não foi feliz; pois logo abandonou os Batistas e passou para outras seitas, e no fim não era nada. IV – SEU TRABALHO COMO PRESBITERO PRESIDENTE E ITINERANTE NO ESTADO DE KENTUCKY Em 1812 foi nomeado Pres bítero Presidente pelo Bispo Asbury. Cartwright não quis aceitar esta incumbência, alegando que não tinha qualificações para o ofício, porém o Bispo confirmou o que tinha delineado. Depois de seis meses Cartwright escreveu ao Bispo pedindo a sua exoneração do cargo de Presbítero Presidente, mas quando o Bispo veio não o atendeu, antes reconfirmou a sua decisão. Cartwright diz: “Nunca passei, talvez, um ano tão triste em toda a minha vida de itinerante como este ano; e desde aquele dia até ao dia de hoje posso afirmar que o ofício de Presbítero Presidente não tem atração para mim; e direi que tenho admirado a aspiração que alguns pregadores metodistas tem para o ofício de Presbítero Presidente; e freqüentemente tenho dito que se eu fosse Bispo, nomearia tais pregadores para este ofício. Considero tal disposição uma grande decaída do homem, e quando este espírito se manifesta em grande escala na vida de um pregador, deixa-o quase inutilizado para novos trabalhos depois”. As viagens pelo seu distrito eram lon gas e contínuas. Não havia estradas em muitos lugares e tinha que seguir trilhos através das florestas ou planícies, mas ele foi criado neste meio e podia agüentá-lo bem, como o tratamento que recebia nas cabanas dos habitantes. Era costume nesta época para os presbíteros presidentes, dirigir no seu distrito, cultos de acampamento. Mas como havia muitos valentões naquela região era custoso, às vezes, manter ordem nos cultos, pois estes valentões procuravam perturbar os pregadores na ocasião dos trabalhos públicos. Há muitos incidentes interessantes que se deram com o Sr. Cartwright nessas ocasiões, cuja narração seria de proveito, mas só poderemos mencionar um ou dois incidentes. Ouçamos o próprio Cartwright narrá-los. 1. O moço com cabelos de cavalheiro. “Na ocasião do nosso culto de acampamento, que se realizou na divisa do Estado de Tennesse, no circuito de Christian, havia na comunidade uma quadrilha de valentões cujos chefes eram conhecidos pelos nomes de J. P. e William P., dois irmãos, cujos pais eram bons membros da Igreja Metodista Episcopal. Sabia que seria difícil manter a ordem. Fui então a J. P. e pedi-lhe que me ajudasse a manter a ordem durante a série de conferências e lhe disse: “Esses valentões têm medo do senhor; se o senhor me ajudar, será o nosso capitão e poderá escolher os seus ajudantes” Ele não quis se comprometer desse modo, mas pediu que lhe desse certa liberdade com o privilégio de divertir -se um pouco, não perto dos cultos, mas bastante afastado, que me ajudaria para manter boa ordem durante os cultos. Eu disse “muito bem: conserve boa ordem na congregação de modo que não perturbe o culto de adoração a Deus”.
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    “Apareceu na congregaçãoum moço muito ignorante e mal criado, que estava transgredindo as nossas regras em assentar ao lado da congregação reservado exclusivamente para as senhoras. Era moda naquele tempo para os cavalheiros usar cabelos um pouco compridos e bem penteados; este moço tinha muito cabelo e queria seguir a moda dos cavalheiros. Levei-o diversas vezes do lado das senhoras para o lado dos homens, mas ele voltava logo para o lado das senhoras. Comuniquei este fato a J. P. , e pedi que tomasse conta dele. “Pois não”, disse ele . J.P. mandou imediatamente procurar uma tesoura, reuniu seus colegas num lugar cerca de um quilômetro distante e mandou chamar o tal moço, convidando-o para matar um bicho com ele. Quando o rapaz chegou no lugar indicado, foi cercado de dois homens com facões levantados na mão, mas disseram que nada lhe iriam fazer se ficasse calado e não lhes resistisse; porém se gritasse ou fizesse qualquer violência estaria morto. Disseram que queriam somente pentear o cabelo dele na última moda de Nashville. O sujeito estava com medo, mas não fez qualquer resistência. Então um deles tomou a tesoura e cortou o cabelo dele a torto e a direito, deixando a cabeça quase pelada. Quando acabaram de lhe raspar a cabeça, foi solto; e veio diretamente para o acampamento. Quando chegou, eu o encontrei; ele estava pálido como cera. Tirou o seu chapéu e disse: “Veja só, Sr. Cartwright, o que os valentões me fizeram”. Eu quase não podia deixar de rir. Mas, ainda lhe disse que não dissesse coisa alguma a respeito, pois eram capazes de fazer alguma coisa pior. Logo desapareceu e não nos incomodou mais”. 2. O colar de sapos. “O acampamento estava na margem de um rio. Atrás da tenda dos pregadores havia espaço suficiente para guardar dois ou três carros; e então havia o rio cuja margem de três metros de altura era quase perpendicular. ” “Neste ponto o rio era fundo. William P., o irmão de meu capitão de ordem, era um rapaz rude, a quem fui obrigado a repreender fortemente. Soube que tinha jurado jogar o meu carro ao rio, pois tinha guardado meu carro atrás da tenda dos pregadores, na margem do rio. Havia um só lugar onde alguém podia passar para chegar ao meu carro, com um pau comprido na mão, e logo vi William P. pegar no meu carro e começar a virá-lo de modo que pudesse puxá -lo até ao rio. Levantei-me escondidamente e sai atrás dele com uma vara. Eu ocupava a única saída, de sorte que ele querendo escapar a uma pancada, pulou no rio e nadou para o outro lado e fugiu. Sendo derrotado assim ficou zangado comigo. Jurou que se vingaria antes de terminar o culto. ” “Ao mesmo tempo o poder de Deus se manifestou entre o povo. Muitos pecadores endurecidos foram convertidos; durante o culto no domingo, o poder de Deus foi sentido pela congregação toda. No culto à noite muitos vieram e ajoelharam-se ao redor do altar chorando e lamentando os seus pecados. Quando eu estava exortando os pen itentes no altar, vi William P. chegar perto e encostar-se no gradil do altar. Conservei os meus olhos nele; e de repente ele pulou o gradil e prostrou-se no chão e começou a rugir como um touro preso na rede, pedindo misericórdia de Deus. Quando estava orando por ele e outros falando, pisei numa coisa macia onde ele tinha parado, abaixei-me a ver; que seria? Um saco cheio de sapos. Apanhei-os e leveios para a minha tenda, não sabendo o que significava aquilo”. William P. converteu-se; e depois explicou o que ia fazer com os sapos. A intenção dele era colocar o colar de sapos ao redor do pescoço de Cartwright quando estivesse fazendo oração; mas faltou-lhe a coragem e veio sobre ele o poder de Deus de forma tal que não pode levar a cabo o que tinha planejado. Estava lá para vingar-se e a misericórdia de Deus o salvou. 3. Batismo de crianças Em 1816 Pedro Cartwright foi delegado à Conferência Geral que se realizou em Baltimore. Como ele morava em Kentucky levou bastante tempo para ir a cavalo assistir esta Conferência. Na volta passou pelo Estado de Tennesse e quase no fim de sua viagem para casa encontrou -se com um pregador Batista. Pelo caminho discutiram diversos pontos sobre a doutrina. Aconteceu que Cartwright conhecia o pregador Batista, porém o pegador Batista não o conhecia. Tinham discutido
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    o batismo, acomunhão, etc., e a discussão tornou-se bastante veemente quando o Batista começou a gabar-se de ter recebido muitos Presbiterianos e Metodistas na sua Igreja e terminou dizendo: “Vou agora para Hopkinswille onde espero imergir muitos Metodistas, os convertidos do Sr. Cartwright, um pregador metodista que mora naquele lugar, o senhor sabe que a Bíblia não diz nada acerca do batismo de crianças”. Cartwright narra: “Eu então fiz as seguintes perguntas: - “Crê o senhor que todas as criancinhas são salvas, e que vão para o céu, e que não há uma criancinha no inferno?” - “De certo”, disse ele. - “Bem, se não há crianças no inferno e todas as crianças que morrem vão para o céu, o senhor não acha que uma igreja que não recebe as crianças é mais parecida com o inferno do que com o céu?” Esta pergunta terminou a nossa discussão, porque não me respondeu.” “Neste momento chegamos à encruzilhada; ele passou para o lado direito que ia para Persellville, e eu para o outro em direção de Hopkinswille. Quando nos despedimos um do outro com um aperto de mão, eu lhe disse: “Sr. V... , eu conheço o senhor e tenho tido uma vantagem sobre o senhor em nossa discussão. Eu sou Pedro Cartwright! Moro a meia légua de Hopkinswille, aonde o senhor vem na semana que vem, para molhar os meus membros metodistas; vá e passe a noite comigo, e eu o ajudarei a formular os seus sermões antes de levar os membros da minha Igreja para a água. Ele prometeu visitar-me, mas nunca apareceu”. 4. Sustento pastoral. O seguinte incidente, ainda narrado por Cartwright,se deu no circuito de Christian em 1817. “Aconteceu este ano o seguinte incidente: muitos Metodistas, neste período primitivo, tinham a idéia de que o sustento pastoral (quaterage) significava um quarto de dólar; ainda que muitos eram ricos, não poderiam ser convencidos de que vinte e cinco centavos não era o que se deve pagar por trimestre pelo sustento pastoral, e que cada membro devia pagar segundo as suas posses. Isto foi uma das coisas por que muitos pregadores tinham de deixar a itinerância.” “Havia duas famílias ricas que vieram do leste para o meu distrito, num lugar onde havia desordem. Elas me procuraram, insistindo para que as recebesse no meu circuito e pregasse para elas. Aceitei-as, e organizei uma classe de seis pessoas, incluindo uma pessoa de cor. Na última visita, antes da Conferência trimestral, se tivessem alguma coisa para sustento pastoral e quisessem, eu poderia levar e relatar, dando crédito no livro da sua cla sse. O velho negro veio para frente e me deu um quarto de dólar. Depois veio senhora da casa, patroa do homem negro, e me deu dois dólares; então vieram o marido dela e um outro homem e deram-me vinte e cinco centavos. Eu perguntei: - “Coronel, para que fim são estes vinte e cinco centavos?” - “É para sustento pastoral”, ele disse. - “Sem dúvida, Coronel”, disse eu, “o senhor vai dar mais do que isto”. - “Não senhor”, disse ele, “quero que o senhor saiba que os mendigos não têm direito de escolher”. - “Muito bem, senhor”, disse eu, “quero que o senhor saiba que não sou um mendigo. Meu pedido ao senhor é justo, e o senhor me deve; e senão me der mais do que isto, não quero recebêlo.” - “Está bem”, disse ele. Deixei o dinheiro na mesa. - “E agora, meu senhor”, disse eu, “se o senhor não quer sustentar o Evangelho, não voltarei mais para pregar aqui; antes irei pregar aos que estão prontos a sustentar o Evangelho”. O velho irmão estava bastante contrariado. A sua boa esposa procurou convencê -lo do seu erro, mas ele ficou inflexível. Esta irmã contou-me depois que o marido passara muito mal a noite, não podendo dormir; retorceu-se, virou e gemeu durante toda a noite. Ela falou com ele diversas
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    vezes durante anoite, dizendo que se fosse mais liberal, o seu mal estar passaria e poderia dormir melhor. O velho irmão levantou-se de manhã e, depois do culto doméstico, me perguntou: - “Irmão, quanto devo eu contribuir para o sustento pastoral?” - “Oh, irmão”, disse eu, “não posso responder a sua pergunta; isto é uma coisa entre Deus e a sua consciência. Mas irmão, resolva o seguinte problema e ficará sabendo a quantia que deveria dar: Se o seu velho escravo, que vale alguns dez dólares, contribui com vinte e cinco centavos por trimestre, quanto deve o Coronel T... contribuir se tem setenta escravos, trezentos e cinqüenta alqueires de terreno bom, alguns milhares de dólares a juros, e tudo junto vale alguns cinqüenta mil dólares?” “A solução deste problema modificou bastante as contribuições deste irmão; dali por diante sempre dava, não mais centavos, mas dólares. E a última vez que o vi, quando estava se mudando para o estado de Ilinois, ele me encontrou na estrada, e disse: “Irmão, eu lhe devo mil dólares, e aqui está uma parte deles”, e deu-me cinqüenta dólares. E a sua exma Esposa, que estava com ele disse: “Também lhe devo tanto como meu marido; aqui está uma parte deles”, e deu-me vinte e cinco dólares. Assim, um dos meus paroquianos foi curado do vício de dar só dois mil réis por trimestre; e, meu querido leitor, se o senhor é destes que sofrem da mesma moléstia, procure uma cura perfeita dessa lepra de parcimônia”. 5. Pregando em Nashville tendo o General Jackson como ouvinte. Na ocasião da Conferência Anual de Tennesse, que se realizou em Nashville, em outubro de 1818, Cartwright foi convidado para pregar numa das igrejas mais ricas. O pastor tinha receio dele pregar contra o Calvinismo e assim ofender alguns dos ouvintes. Estava por isso nervoso quando Cartwright subiu ao púlpito para pregar. Na hora marcada para o culto a igreja estava repleta de ouvintes, pois queriam ouvir o pregador das fronteiras. Logo que tomou o texto e começou a pregar, o General Jackson entrou, mas, como não havia lugar, encostou-se numa coluna do templo. O pastor puxou o paletó de Cartwright e cochichou: “O General Jackson entrou, o General entrou”. Ele fez isto duas vezes, e o Cartwright virou-se para ele e disse: “Quem é o General Jackson? Se ele não se converter, Deus o condenará como se fosse um negro da Guiné!” Tanto o General Jackson como a congregação riram-se. Depois do culto o pastor procurou o general para pedir desculpas. No dia seguinte o general Jackson encontrou -se na rua com Cartwright, estendeu-lhe a mão, e lhe disse: “Sr. Cartwright, o senhor é um homem que me agrada. Estou desapontado com o Rev. Mac, por pensar que eu fiquei ofendido com o senhor. Não senhor, eu disse-lhe que apreciava o seu espírito independente; e que um ministro deve amar a todos os homens e não ter medo de qualquer homem mortal. Eu disse ao Sr. Mac que, se tivesse alguns milhares de homens com tal independência, oficiais sem medo como o Sr. e todos bem disciplinados, poderia vencer a velha Inglaterra”. V – O SEU TRABALHO COMO PRESBíTERO PRESIDENTE E ITINERANTE NO ESTADO DE ILINOIS. 1. A sua transferência para a Conferência de Ilinois. Em 1823 Cartwright pediu a sua transferência da Conferência de Kentucky para a Conferência de Ilinois. Houve diversos motivos que concorreram para levá-lo a fazer esta mudança. Ele tinha um sítio onde os seus dois filhos e quatro filhas podiam trabalhar e ajudá-lo a manter a família, e as condições tinham-se modificado durante os vinte anos em que tinha servido como itinerante nas fronteiras. O instinto que tinha de trabalhar nas fronteiras o levou a dar este
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    passo; também queriaescapar à influência da escravidão, que se estava tornando uma questão mais difícil e complicada, especialmente nos Estados do Sul; e ainda mais, ele poderia vender o sítio e com o dinheiro comprar muito mais terras nas fronteiras de Ilinois. Tudo isso contribuiu para levá-lo a mudar-se. Ele visitou o lugar onde queria morar, comprou a casa com o respectivo terreno, preparou tudo o que era necessário e, então, levou a sua família. A viagem era longa e difícil. Pelo caminho perdeu uma das suas filhas; uma árvore caiu em cima dela e matou-a; teve de enterrá-la pelo caminho como o patriarca, Jacob, fez quando faleceu a sua esposa Rachel, enterrando-a debaixo de uma árvore. Entrando nas florestas onde morava pouca gente, o seu trabalho era bastante difícil, porém as oportunidades para implantar o reino de Cristo compensavam todos os sacrifícios feitos. Ele morou na mesma localidade durante o resto da sua vida. A sua família ficava em casa cuidando do serviço no sítio e ele passava a maior parte de seu tempo percorrendo os seus circuitos e distritos. Por longos anos foi delegado de sua Conferência Anual à Conferência Geral. Quando escreveu a sua autobiografia em 1856, tinha representado a sua Conferência onze vezes na Conferência Geral. 2. Viajando pelo novo distrito. Quando já tinha viajado vinte e oito anos no seu trabalho de pregação do Evangelho, sentiu-se cansado e abatido no corpo e por isso, queria jubilar-se (aposentar-se). A Conferência atendeu o seu pedido, mas no dia seguinte o Bispo ficou muito embaraçado em achar um homem para tomar conta de um novo distrito que fora criado; era o distrito de Quincy. O Bispo disse que, se não pudesse descobrir um homem para tomar conta do novo distrito, seria obrigado a reportá -lo entre outros distritos. Para evitar isso, Cartwright se ofereceu para tomar conta dele. Mas, como já fosse jubilado, não era possível tomar o trabalho regular. Combinaram então pedir à Conferência reconsiderar a sua resolução e acatá-lo de novo na itinerância. E assim mostrou o seu espírito de vanguardeiro, aceitando um distrito nas fronteiras. O serviço neste distrito exigia a sua ausência de casa pelo espaço de quatro a cinco semanas seguidas. Muitas vezes tinha de atravessar rios, nadando a cavalo, e durante as enchentes corria o perigo de perder a vida. Podíamos mencionar muitos incidentes sobre os perigos que corria nas suas viagens, porém o espaço não o permitirá. 3. Incidentes interessantes. Depois de uma viagem longa e perigosa, Cartwright chegou a missão de Henderson River, onde encontrou uma congregação de seis membros e umas oito pessoas que não eram membros. Seria bom deixá-lo narrar o incidente. a) O presbiterianismo e a predestinação “Cheguei ao lugar onde se realizava a Conferência Trimestral, e achei seis membros na localidade e cerca de oito pessoas que não eram membros; estas constituíram a população da comunidade. Havia mais uma família que morava perto e cujo chefe era um perseguidor dos Metodistas. Ele disse que se tinha mudado para este lugar, lugar novo e muito afastado, especialmente para ficar livre do povo chamado Metodista, porém que não chegou a arrumar-se bem na sua cabana antes de aparecer um pregador Metodista, pregando o fogo do inferno e destruição, como sempre.” “Na segunda-feira fui visitá-lo. Ele era um extremado adepto da predestinação; acreditava, ou professava, crer que Deus tinha decretado tudo o que acontece. Depois de me apresentar, logo aduziu um argumento. Eu disse que não vinha para debater, mas para convidá-lo e aceitar o Salvador. Ele disse que não podia aceitar coisa alguma de mim, porque de bom grado desprezava
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    os Metodistas. Respondique, se Deus de fato decretou todas as coisas, decretou então que existissem os Metodistas, e que eles deviam crer exatamente como crêem, e que foram criados pelo decreto de Deus para o atormentar antes do tempo, e que ele devia considerar-se um bobo se procurasse crer qualquer outra coisa senão o que atualmente crêem. Então eu lhe disse: “Agora, meu caro, o senhor é um desgraçado por querer transgredir os decretos eternos de Deus, desejando exterminar os Metodistas . Se a sua doutrina fosse verdadeira, os Metodistas estariam cumprindo os gloriosos decretos de Deus, que foram fundados na verdade e justiça, como os anjos ao redor do trono branco?” Fiz-lhe algumas admoestações, e, pouco a pouco, ele chegou a sentir interesse pelo assunto. Conversei amigavelmente com ele e orei antes de ir-me embora.” “Depois de me retirar, começou a pensar sobre a nossa conversação, e quanto mais pensava tanto mais confuso ficava acerca dos decretos eternos. Quando ele se assentava para comer, ou andava a cavalo, ou andava pela estrada, falava co nsigo mesmo sobre o assunto. Depois de cortar um bocado de carne e segurá-lo no garfo, pronto para por na boca, dizia: “Deus decretou desde a eternidade que eu comesse este pedaço de carne, mas eu transgredirei este decreto”, e jogava a carne para o cachorro. Quando pelos caminhos na vizinhança, encontrando uma encruzilhada, dizia: “Deus desde toda a eternidade decretou que tomasse o lado direito, mas eu transgredirei esse decreto”, e passava para o lado esquerdo. Quando, andando a cavalo e dizia: “Deus desde toda a eternidade decretou que eu fosse para o lado direito daquele toco ou árvore, mas eu transgredirei esse decreto”, e passava para o lado esquerdo.” “Assim continuou a proceder por algum tempo, tendo a família receio de que ele ficasse louco. Os seus vizinhos, também, tinham receio de que ele estivesse enlouquecendo. Finalmente, uma convicção profunda de pecado se apoderou dele; reconheceu que era um pecador perdido, sem fé em Jesus Cristo. Convidou seus vizinhos que orassem a favor dele, e, depois de uma longa luta com o diabo e os seus decretos, aprouve a Deus dar-lhe a religião, e quase todos os membros de sua família se converteram e se uniram com a Igreja Metodista, passando a viver dignamente em sua alta e santa vocação.” b) Uma esposa insuportável Conta Cartwright um fato que se deu com ele e a esposa de um pregador local. O pregador local era um homem muito bom e agradável, mas tinha uma mulher insuportável. Ela era virtuosa, mas tinha um gênio indomável. Não quis que o marido fizesse culto ou mesmo orasse em casa, e quando os pregadores o visitavam, ela fazia barulho e os insultava. Coitado do marido, vivia miseravelmente com ela. Como Cartwright era seu Presbítero Presidente e visitava o seu campo de trabalho regularmente, o pregador convidou-o para visitá-lo e exortar a sua esposa a ver se ela melhoraria; mas Cartwright, sabendo da situação não quis aceitar o convite. No correr do ano, porém, sendo repetidas vezes convidado para fazer esta visita e assim prestar os seus bons ofícios a um colega desconsolado, resolveu aceitar o convite. “Finalmente”, diz ele, “cedi às importunações do meu colega e fui à sua casa com o intuito de lá passar a noite. Logo que cheguei, vi que a sua esposa não estava de bom humor e que o diabo nela era do tamanho de um jacaré. Firmei-me no meu propósito e planejei o meu alvitre. Depois do jantar o marido dela, com brandura, disse-lhe: “Venha, minha esposa, largue os seus afazeres por um pouco, e vamos fazer oração”. Foi neste instante que ela se alterou e disse: “Não quero ter nada com as suas orações”. Então eu falei brandamente com ela, insistindo e mostrando a razão de tudo isto; mas, quanto mais eu falava, tanto mais zangada ela ficava e me amaldiçoava. Então, mostrei-me mais enérgico: eu lhe corrigiria esses modos tão feios ou então lhe torceria o pescoço”. “O diabo que o faria”, disse ela. “Sim, você é uma cristã bonita, não é?” – fui irônico sobre seu mau testemunho. E então ela me despejou um sem número de blasfêmias que a natureza humana quase não podia suportar.” “Fique quieta!”, disse eu, “nós devemos fazer e faremos oração”. Ela, porém, afirmou que não faríamos. “Agora”, disse-lhe eu, “se não ficar quieta,
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    e não seportar direito, eu a porei fora da casa. Quando disse isto, ela fechou os punhos, e jurou que ela era meio jacaré e meio tartaruga, e precisava de um homem mais forte do que eu para pôla fora de casa.” “A cabana em que nos achávamos era pequena, e estávamos perto da porta, que estava aberta. Peguei no braço dela, dei um giro com ela, levei-a à porta e a empurrei para fora da casa. Ela, em gritos, pulava, blasfemava e espumava; as blasfêmias dela raramente são igualadas, mas nunca sobrepujadas. A porta era forte, feita para resistir aos índios hostis; fechei -a e tranquei-a, e então fizemos oração.” “Eu orei do melhor modo possível, mas não na linguagem que pudesse descrever os meus sentimentos naquela hora; mas, ao mesmo tempo, estava resolvido a vencer ou morrer. Enquanto ela rodeava a cabana gritando, eu comecei a cantar um hino, cantei em voz bem alta para sufocar a gritaria dela. As cinco ou seis crianças tinham se escondido nos cantos e debaixo das camas. Coitadas! Estavam quase mortas de susto.” “Continuei a cantar e ela rugia e trovejava lá fora, até que afinal se acalmou, exausta e sem fôlego, pois já não tinha mais força. Veio e bateu à porta, dizendo: “Sr. Cartwright, faça o favor de me deixar entrar”. “Promete comportar -se bem, se eu a deixar entrar?” “Sim, senhor!”, disse ela, “Eu prometo”. Conservando-me em expectativa, e com sangue frio, abri a porta e deixei-a entrar. Ela sentou-se perto da lareira. Tinha gritado e pulado tanto que estava exausta, coberta de suor e pálida como um defunto. Depois de sentar-se, ela disse: “Oh! Que boba sou eu.” “Sim”, disse eu, “uma das maiores bobas que jamais vi em toda a minha vida. E agora tem que arrepender -se de tudo isso, ou ficará pertencendo ao diabo fi nalmente”. Ela ficou quieta.” “Então chamei as crianças dizendo que agora podiam sair de onde estavam escondidas pois sua mãe não lhes faria mal, e, virando para o marido dela, disse: “Irmão, vamos fazer oração outra vez. Nós dois nos ajoelhamos e fizemos oração, e ela ficou quieta como um cordeirinho”. Cartwright diz que no espaço de seis meses ela se converteu e no decorrer do tempo todos os filhos entraram para a Igreja, tornando-se uma família exemplar. Há muitos outros incidentes interessantes que poderíamos citar, porém o espaço não o permite. 4. Opiniões de Cartwright sobre diversos assuntos. a) A escravidão. Cartwright não podia tolerar a escravidão, mas não foi um fanático contra ela como eram alguns pregadores naquela época. Ele queria fugir das complicações que esta instituição provocava. Por isso emigrou de Kentucky para as fronteiras de Ilinois, onde podia criar a sua família livre das influências perniciosas da escravidão. Em poucos anos, porém, depois da sua chegada em Ilinois, a questão da escravidão levantou-se neste novo Estado e ele do mesmo jeito combateu a introdução da escravidão. Sem perceber, envolvera-se na política. Os seus amigos insistiram para que ele aceitasse o cargo de deputado estadual. Para combater esse mal aceitou o convite e foi eleito duas vezes. Mas não gostou da política, porque descobriu que a maioria dos homens políticos tem mais amor ao partido do que aos princípios da justiça. b) Os fanáticos. Na época em que Cartwright vivia, havia movimento de grande entusiasmo e fanatismo. Ele tinha que combater alguns dos fanáticos que apareceram no meio do povo, e, se tivéssemos espaço, poderíamos citar diversos incidentes sobre este ponto. Em todo o caso vamos dar a opinião dele sobre os fanáticos.
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    Ele diz: “Hádiversas classes de fanáticos, segundo a minha observação mais criteriosa, e tenho tido bastantes oportunidades no decorrer dos meus cinqüenta anos no ministério para fazêla. Em primeiro lugar, há muitos que não somente são despertados, mas convertidos a Deus e são piedosos; mas em vez de aceitarem a Palavra de Deus como o seu guia infalível e experimentando os espíritos e as suas impressões ou sentimentos, julgando-os pelo padrão das Escrituras, aceitam antes os seus impulsos e impressões como se fossem inspir ações de Deus e agem de acordo. Se alguém fizer qualquer protesto contra o seu procedimento, crêem que tal pessoa está lutando contra Deus. Se alguém procurar convencê-lo dos seus erros e procurar estabelecer tudo sobre os alicerces firmes da Palavra de Deus, interpretam isso como falta de religião e uma perseguição.” “Em segundo lugar, há outra classe de fanáticos, que não somente parece mas realmente está tão contente consigo mesmo que tudo que faz é para ser visto pelos homens, e a maior satisfação que tem é atrair a multidão para si. Esta classe está completamente absorvida em si mesma. Não tem o temor de Deus perante os olhos e a sua responsabilidade é ignorada completamente. Ai dela! Esta classe está caminhando para o inferno, levando consigo uma multidão de ignorantes. É impossível calcular o prejuízo causado por esta classe de fanáticos e muitas almas têm sido perdidas por ela.” “Em terceiro lugar, há uma classe escura e suja, de feiticeiros e feiticeiras, espíritas que fazem dançar mesas e objetos, que tem aparecido em todos os países, e pertencem ao diabo. Estes têm que receber dinheiro pelas suas adivinhações e assim ganham a vida com sua arte, e até alguns desses pretendem ser os ministros de Cristo e seguidores do Cordeiro”. c) Distribuição de bons livros. Cartwright acreditava firmemente no grande valor que há na distribuição de bons livros entre o povo. Ele, neste ponto, estava de perfeito acordo com João Wesley, que sempre levava livros ou tratados (estudos) para oferecer ao povo. Cartwright assevera que muitas pessoas foram convertidas lendo livros que ele tinha distribuído. Sobre este assunto disse ele: “Tem havido uma dúvida em meu espírito e talvez não possa decidir com acerto, antes de chegar ao céu, se eu tenho feito mais bem pregando, ou distribuindo livros por estas zonas florestais; seria impossível calcularmos o benefício decorrente de tal procedimento”. Durante seu ministério distribuiu livros no valor de oitenta contos de réis, e teve lucros de uns oito conto de réis, não falando no benefício prestado ao povo. IV – OS SEUS ÚLTIMOS DIAS Pedro Cartwright foi um homem criado na floresta e passou a sua vida nas fronteiras do país. Tinha um corpo forte e uma alma que amava a verdade e a justiça e abominava a hipocrisia. Tinha uma coragem que não conhecia medo. O credo dele era “amar todos os homens, mas não ter medo de ninguém”. Quando escreveu a sua autobiografia, tinha setenta e um anos de idade e morava em Pleasant Plains, no Estado de Ilinois. Isto foi em 1856. Depois disto viveu mais quatorze anos, falecendo em 1872, cheio de dias e de paz, tendo trabalhado pela causa do Mestre quase setenta anos. Julgamos que o fim foi cheio de paz e de amor. Ele terminou a sua autobiografia com estas palavras: “E agora, peço ao meu caro leito r deste esboço tão imperfeito da minha vida, que enquanto eu habito nas tendas mortais, ore por mim de modo que o meu por de sol seja sem nuvens, e que venha finalmente a participar da primeira ressurreição; e praza a Deus que nos encontremos a nós todos no céu! Adeus, até nos encontrarmos no dia do juízo”.
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    X A vida deEnoch Mathes Marvin, o Pregador e Bispo Evangelista (1823-1877) É de notar e admirar como Deus chama os seus servos para os seus respectivos campos de trabalho. Chamou Moises quando cuidava do seu rebanho no deserto; chamou Eliseu quando guiava o arado e Isaias quando vivia na corte do rei. Também Jesus chamou alguns dos discípulos quando cuidavam das suas redes de pescadores; chamou o apóstolo Paulo quando ia a caminho de Damasco; chamou o jovem Timóteo por meio do seu servo Paulo, chamou-o para o trabalho de Evangelista. Assim pelos séculos afora Deus tem chamado homens para o seu serviço. Nestes últimos tempos chamou um rapaz que foi criado nas florestas, nas fronteiras de um país novo que precisava de obreiros comissionados por Deus. Será nossa tarefa narrar alguns fatos acerca do jovem Enoch Mathes Marvin, que foi destinado por Deus a ser um dos pregadores mais eficientes na Igreja Metodista durante aquela época. I – OS SEUS ANTEPASSADOS Segundo os documentos encontrados nos arquivos, em Londres, em 1634, consta na lista de passageiros, emigrantes para nova Inglaterra, o nome de Marvin. O Bispo Marvin é descendente desta família. Pois seus pais emigraram para as fronteiras do Estado de Misouri, no condado de Wanen, em 1817, onde a sua primeira casa foi feita de achas (pedaços de madeiras toscas) de lenha, chamada em inglês “log-cobin”. As famílias que vieram da nova Inglaterra eram as mais cultas e bem educadas que habitavam a zona em que fundaram a sua colônia. O pai de Enoch Marvin era um homem sério e de poucas palavras. Não era crente professo. Aspirava uma carreira para seus filhos. A mãe era boa crente e de cultura, e considerava-se membro da Igreja Batista. As circunstâncias sob as quais tinham que criar os filhos eram prementes. A mãe adoecera e passava os seus últimos dias como uma inválida. Também um dos dois primeiros filhos morreu em sua mocidade, e a única filha não atingiu a muitos anos de idade. Só o primeiro filho Natanael, e o terceiro, Enoch, alcançaram cerca de cinqüenta anos de idade. Oh! quão curtos são os dias dos homens neste mundo! “Toda carne é erva, e toda a sua glória como a flor do campo; seca-se a erva, cai a flor, porque o hálito de Jeová nela assopra: na verdade o povo é erva”
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    II – SEUNASCIMENTO E SUA MOCIDADE 1. Seu nascimento Enoch Mathes Marvin nasceu em 12 de junho de 1823, na colônia dos seus pais, situada no condado de Warren, perto da cidade de Wright City. A casa onde nasceu não existe mais, mas a casa onde foi criado, em 1890 ainda existe. Depois de ser eleito bispo visitou a antiga morada e viu o lugar onde seus pais lutaram para criar a família. Ali seu espírito se encheu de saudade dos dias de sua mocidade quando fazia a sua parte no trabalho da casa e no campo. Quantas vezes não prestou ele auxílio à sua querida mãe na sua invalidez?! Lembrava-se dos dias de chuva quando, não podendo trabalhar no sítio, ia para o sobrado e estudava os poucos livros que tinha guardados na estante. Tudo lhe causava muitas saudades do lugar onde fora criado. As árvores e os regatos, os morros e os vales, os horizontes e os céus eram-lhe de um encanto cheio de saudades. 2. O ambiente em que foi criado. Como já foi dito, as circunstâncias sob as quais o jovem Enoch (ou Mathes, como lhe chamavam seus pais e amigos) foi criado eram bastantes rústicas e mui cedo o rodearam, pondo-o desde criança na luta pela vida. Ainda assim ele tinha a vantagem que muitos rapazes não gozavam naquela época: tinha pais bem educados e os seus vizinhos também, em geral, eram considerados pessoas de boa educação. Mas todos tinham que lutar com a natureza no seu estado primitivo. Derrubar florestas, semear e cultivar as roças, e ainda enfrentar os índios. Também a Enoch, além do serviço em casa, tocava fazer uma parte na roça. E foi esse contato direto com a natureza que produziu impressões relativas no espírito do jovem. Ele gostava de caçar, e havia bastante caça nas florestas. Também gostava de ajudar seus vizinhos a construírem as suas casas e limpar as suas roças. Era costume entre os vizinhos, quando alguém queria construir uma casa, convidar os seus vizinhos para dar um dia de serviço. Reunindo-se trinta e tantas pessoas, podia-se num dia levantar uma cabana ou limpar uma roça. 3. Seus estudos Como naquela época não havia escolas públicas, Enoch tinha que depender inteiramente de seus pais para receber algumas instruções. Nisto foi feliz, pois seus pais eram pessoas cultas e bem educadas para aquele tempo. A mãe ensinava a seus filhos durante o verão e o pai os ensinava durante o inverno. Isto continuou até aos 10 anos do jovem quando sua mãe ficou doente, vindo a falecer alguns anos depois, passados em grande aflição. Agora a grande responsabilidade de instruir as crianças pesava exclusivamente sobre o pai. Mas o menino tinha gosto pelos estudos e não era difícil ensiná-lo. Tendo que se esforçar, criou o hábito de estudar sozinho e, uma vez iniciado no caminho do saber, continuou a estudar até o fim da sua jornada. Nas horas vagas, na fazenda, aplicava-se aos estudos. Era com saudade que se lembrava dos dias da mocidade, dos dias chuvosos que passava no sobradinho de sua casa rústica. Tinha poucos livros para ler, porém os que tinha eram bem aproveitados. Às vezes, lendose demais, fica -se confuso, e um rapaz que não sabe aproveitar os livros que tem seria melhor, talvez, que os não possuísse. Quando se tornou moço, arranjou uma escola na comunidade que ensinava as crianças dos seus vizinhos dois ou três meses durante o tempo de frio quando não podiam trabalhar na roça com proveito.
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    Não podemos avaliara influência dos seus pais na educação deste filho. Quase tudo de sua educação e instrução devia-lhes a eles, seus bondosos pais. Mui felizes são os pais que têm filhos tão ávidos pelos estudos como este jovem da floresta. 4. Alguns incidentes em sua mocidade. a) Os cinco cedros Quando visitou o seu antigo lar pela última vez, encontrou cinco cedros grandes crescendo ao redor da cabana, cedros que ele mesmo plantara quando menino em casa dos progenitores. Foi um ato muito simples que nos revela o desejo que o jovem tinha de fazer alguma coisa útil. Foi uma coisa que Márcia, sua querida irmã, sempre lembrava da sua mocidade quando brincava nas sombras dessas árvores. Amava a seu irmão com afeição pouco comum, e na hora da sua morte, deixou cair-lhe nos ouvidos estas palavras: “Dá-me um beijo de despedida. Adeus, irmão” (Kiss me, brother. Good bye). b) A sociedade de debates Havia na comunidade uma sociedade de debates a que pertencia o jovem Enoch Marvin. Uma ou outra vez, havia debates públicos. Aconteceu uma vez que os dois oradores para a ocasião eram R. J. Kennedy e Mathes Marvin. O assunto era: - Qual dos dois podia fazer o melhor discurso, pedindo ao povo que votasse nele como candidato para chefe de polícia. O Sr. Kennedy tinha seis anos de idade a mais do que o Sr. Marvin, e por isso fora escolhido para fazer o primeiro discurso. De fato, fez um bom discurso, comprometendo -se a cumprir os seus deveres se fosse eleito, etc. Ao terminar, assentou-se em meio de calorosas palmas. Chegou a hora para o jovem Mathes, de dezessete anos de idade, fazer o seu discurso. O outro tinha produzido boa impressão sobre o povo e o jovem Marvin tinha de fazer uma impressão ainda maior para poder ganhar a decisão dos juízes. Ele principiou com calma e ia reafirmando tudo que o seu antagonista tinha prometido, e concluiu dizendo que não somente faria as cobranças de impostos, etc., mas, caso não fosse possível cobrá-los, tiraria do seu próprio bolso, entrando com o dinheiro. No mesmo instante, enfiou a mão no bolso que não tinha dinheiro: mas o jeito, o tom da voz e a expressão do rosto e dos olhos foram tão sugestivos que cativaram a multidão e os juízes lhe deram os seus aplausos. Assim foi vitorioso no debate. c) A semente de milho Marvin conta num dos seus sermões o que se deu com os seus pais quando ele era menino. Foi num dia de primavera, época de se plantar milho. O pai foi ao paiol para escolher a semente de milho e ele o acompanho u para ajudá-lo; auxilio de criança, já se vê. O pai estava ansioso por encontrar milho bom que prestasse para semente, pois no ano anterior a colheita fora muito prejudicada com a geada e muita chuva, e o milho estava podre. Enquanto estava descansando e debulhando o milho, a mãe apareceu à porta e perguntou se tinha achado milho que prestasse para semente. O tom da sua voz e a ansiedade com que proferiu as palavras fez impressão profunda sobre o seu espírito. Descobriu o cuidado que os pais tinham em pro videnciar o pão para os seus filhos. Mais tarde chegou a compreender o que tudo isto significava. d) O seu primeiro sermão Perto da casa de Marvin morava uma família de crentes Metodistas. Quando os itinerantes passavam pela comunidade, pregavam em casa do Sr. McConnell. Aconteceu num domingo que o Jovem Mathes foi assistir ao culto de pregação em casa deste irmão. Seria melhor deixar o Sr. Sandy Pratt contar o incidente: “O Bispo Marvin pregou um sermão quando era ainda menino. Ele assistiu ao culto em casa do irmão Uncle Bille, McConnell, e quando voltou para casa, a sua mãe pediu que repetisse o que se lembrava do sermão. Sendo costume dos pregadores tomarem o lugar atrás de uma cadeira quando pregavam, ele tomou a sua posição atrás de uma cadeira, e citou o texto, e começou a repetir o sermão de cor, o que foi grande surpresa para a família toda.
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    Quando terminou osermão, disse: “Oremos”, mas a mãe o interrompeu, dizendo “Chega, Mathes”. III – SUA CONVERSÃO E CHAMADA PARA PREGAR O EVANGELHO 1. Sua conversão: Segundo a definição que o Bispo Marvin deu da conversão, esta é uma nova vida. Diz ele: “Todo o nascimento é o começar de uma nova vida. A restauração da lama a Deus é uma confirmação deste fato. Há uma vida nova. É a vida divina, a vida de Deus na alma”. A conversão de Marvin não foi instantânea, mas prolongada. Por mais de dois anos foi candidato, isto é, foi penitente por trinta e dois meses antes de experimentar a conversão. As influências religiosas começaram cedo na vida dele; quando ainda pequenino, brincava no colo da mãe. Ele gostava de ouvir a sua mãe cantar os hinos e ficava impressionado com as lágrimas que lhe deslizavam pelas faces quando cantava o seu hino predileto, que era: “Alas, and did my sanior bleed? And did my Sovereign die? Would he devote that sacred head For such a worm as I? “Ah! meu Salvador, ficou ensangüentado? E o meu soberano morreu? Ele devotaria aquela cabeça sagrada, Para um verme como eu?” Quando, aos seis anos de idade, ouviu-a cantar este hino, foi levado a perguntar: “Morreu Jesus por mim? Verei eu Jesus? Quando virá Ele para mim?” Assim notamos o despertamento dos sentimentos religiosos no coração do pequeno que mais tarde chegaram a lhe dominar por completo a vida. Não há outra influência mais poderosa sobre uma criança do que a influência da mãe. Marvin, quando rapaz, continuava a assistir aos cultos religiosos em casa do Sr. McConnell. Finalmente quis fazer a sua profissão de fé, mas não desejava fazer isto sem consultar a sua mãe. Como a sua mãe não era Metodista, tinha receio de falar-lhe sobre o assunto até que ele a ouviu dizer que “os Metodistas não eram tão ruins como alguns julgavam”. Essas palavras lhe foram de grande alívio, e cobrou ânimo para tocar no assunto. Entrou na sociedade como presidente no mês de agosto de 1839. Mais tarde converteu-se. Sobre isto ele diz: “Logo depois que me uni com a Igreja, tive uma experiência que jamais hei de esquecer. Foi num domingo quando ia a cavalo para assistir a uma reunião social na comunidade. Até hoje me lembro da beleza da natureza, ostentada nas folhas, naquele dia outonal. Havia uma calma sagrada pairando sobre as folhagens banhadas pelo sol. ” “De repente veio-me este pensamento: “Eu sou membro da Igreja, e está no meu poder agora, pelo meu modo de viver, não trazer mancha sobre ela ou desonra a meu Salvador”. Por algum tempo esta reflexão me pareceu insuportável; era quase mais do que podia agüentar. “O nome de Deus”, disse o profeta, “é blasfemado entre os gentios por meio de vós”. Em um sermão ele descreve como alguém se pode converter, o que é considerado a maneira pela qual ele se converteu: “Pelos meus pecados ele sofreu no seu próprio corpo na cruz. É isto mesmo. Na simplicidade infantil, Cristo é aceito como o sacrifí cio expiatório providenciado
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    por Deus paraa salvação das almas. Mediante essa fé o Espírito Santo entra na alma como Cristo o prometeu”. Marvin tinha algumas dúvidas sobre o batismo. Amava os Metodistas, mas não queria violar a sua consciência em aceitar doutrinas que julgava erradas. Um pastor Metodista deu-lhe um livrinho escrito por Pedro Doub, com o título: “O Batismo e a Comunhão”. Depois de o ler e estudar, disse: “Não sabia quem era o Sr. Pedro Doub. Não tinha ouvido falar nele, mas aquele livrinho de uma vez para sempre removeu as minhas dúvidas sobre a questão e não tenho mais dúvidas sobre o assunto”. Mais tarde na vida, refletindo sobre o passado, disse: “Abaixo de Deus é ao povo metodista que devo a minha esperança para a eternidade. Por meio deles o Evangelho foi eficaz em despertar-me e converter-me em minha mocidade e os sacramentos da Igreja, tão úteis e tão necessários para o meu crescimento na vida religiosa. Tudo isso devo aos Metodistas do estado de Missouri, Estado da minha natividade”. 2. Sua chamada para pregar. Marvin foi um homem escolhido por Deus para pregar o Evangelho. Entrou no ministério, não porque os seus amigos e irmãos na Igreja o convidassem, mas porque sentiu na alma uma convicção que era o seu dever. Parece-nos que desde pequenino Deus estava influindo sobre o espírito dele para esta carreira. As influências do lar e especialmente de sua mãe, e os cultos que assistia em casa do bom irmão McConnell, e ainda as influências dos seus pastores que sempre tinham boas impressões dele, foram decisivas no seu caráter cristão. Hesitou em fazer a sua profissão; por isso, mesmo depois de entrar na Igreja, continuou a buscar a Deus até ter certeza da sua conversão. Tudo isso mostra que ele mesmo não quis enganar a ninguém e muito menos a si mesmo. Se ele assim procedeu para tornar-se cristão professo, quanto mais escrúpulo não teria para entrar no santo ministério. Os passos que deu para entrar no ministério foram os que se costumavam dar naquela época, a saber, primeiro, guia de classe, depois exortador e, finalmente, licença para pregar. Era natural a maneira pela qual ele se empenhava para cumprir os seus deveres no exercício destes cargos. Aproveitava as oportunidades não somente em dirigir cultos de oração em casas particulares, mas aplicava-se constantemente à leitura da Bíblia e de outros livros religiosos. Queria ser um “obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade”. Talvez no princípio ele ignorasse que a voz de Deus assim o chamava para pregar, mas, como ia cumprindo dia após dia os seus deveres, Deus também pela sua parte lhe ia dando mais luzes e abrindo-lhe mais portas até chegar a compreender que Deus mesmo o chamava para pregar. Uma vez convencido disto, nunca mais duvidou que era vocacionado para o ministério, apesar de conselhos da parte de presbíteros presidentes em contrário. Quando lhe chegou a época para ser licenciado como pregador local, os irmãos que o conheciam estavam convencidos de que ele podia satisfazer as exigências disciplinares, tais como: “Conhecer a Deus como um Deus perdoador”; “ter dons, como graça, para o trabalho e mostrar frutos”. O Sr. Pratt que era um membro da classe e da Conferência que o recomendaram para ser pregador local nos dá a seguinte informação: “O Sr. Daniel T. Shermon pediu que a classe o recomendasse à Conferência Trimestral para ser licenciado para pregador, o que foi feito. Eu era membro da Conferência, que foi presidida pelo Rev. W. Patton, num lugar chamado Pinhny, no condado de Warren. A Conferência Trimestral nomeou-me domingo à noite para pregar um sermão inicial. O presbítero presidente, o Sr. Patton, não ficou muito bem impressionado com ele, porque não esteve presente para ouvi-lo, mas perguntou à Conferência se o jovem tinha originalidade.”
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    Anos depois, Marvindando conselhos aos aspirantes ao ministério, lhes fez a seguinte exortação que sem dúvida era a mesma que ele mesmo seguiu antes de entrar para o ministério: “Primeiro que tudo andou em comunhão com Deus. Por meio de oração, oração sincera e constante, colocai-vos nas mãos de Deus para serdes guiados para onde Deus mandar. Lançai fora a vossa vaidade e vontade própria. Quando estiverdes, de fato, prontos para fazer a vontade de Deus, sereis guiados pelo caminho que não conhecei s. Se fordes escolhidos e entregues para alguma coisa ou mesmo nada, segundo o beneplácito daquele que vos chamou, Deus há de dirigir os vossos passos no caminho em que deveis andar”. IV – A VIDA DE ITINERANTE A itinerância naquela época significava uma vida de pobreza e oposição por parte dos incrédulos e críticas da parte de sectários. A entrada, pois, na itinerância não fazia apelo aos covardes e preguiçosos. Marvin refletiu bem antes de se apresentar à Conferência para admissão. Em fazendo isto, tinha que contrariar a vontade de seu pai, pois o pai mesmo queria entrar na política e pleitear um cargo no condado de Warren. A idéia dele era, depois de ser eleito ao ofício, chamar o seu filho para ocupar um cargo abaixo dele, mas, quando o filho optou pelo ministério, todos os planos do pai falharam. Mesmo assim, porém, não ficou magoado com o filho, porque sentia que o seu filho não fazia aquilo por capricho, mas em obediência à sua própria consciência. Sem dúvida o filho não tinha prazer em frustrar os planos de seu progenitor, porém sentia que havia alguém que tinha maior autoridade sobre ele do que seu pai. 1. A missão de Grundy. Marvin foi admitido em experiência na Conferência de Missouri em 1841, na cidade de Palmira, mesmo estando ausente, pois não lhe foi possível comparecer. Seu Presbítero Presidente o recomendou, mas sem elogios. O rapaz não tinha ninguém para protegê -lo na Conferência. Foi admitido pro-forma e foi assim mesmo que ele queria, pois entregara sua aprovação a Deus. Foi admitido e nomeado para a Missão de Grundy, um dos mais pobres cargos na Conferência e bastante vasto. Tinha que viajar constantemente a cavalo para visitar os diversos pontos de pregação. O ordenado, aquele ano, importou em quinze dólares, ou, em moeda brasileira (moeda brasileira de 1929), 126$000. Como teve que comprar um cavalo e arreios, principiou a sua carreira com dívidas. O povo era muito, mas não havia muito dinheiro naquelas fronteiras. Os imigrantes constantemente estavam entrando e saindo. Não era possível organizar uma igreja forte e firme, em tais condições, mas o povo lhe era bondoso e pronto para repartir com ele aquilo que tinha. Como não tinha família e tinha que viajar constantemente, não pagava pensão; comia com o povo. O povo não ficou muito bem impressionado com os seus primeiros sermões. Ele mesmo – quem sabe? – não estava bem satisfeito com eles. Mas os homens observadores notaram neles alguma coisa que os levou a predizer que algum dia ele viria a ser um bispo da igreja. Além de ser um rapaz piedoso e estudioso, era muito pontual e não faltava em cumprir com o seu itinerário, uma vez que estivesse organizado. Às vezes quase perdia a sua vida ao atravessar rios no tempo de enchentes e de frio. Não havia pontes e tinha que atravessá-los a nado. Uma vez quase perdeu a vida, congelado. Tinha combinado com um irmão para pregar em sua casa em tal dia. Mas, antes do dia marcado para essa visita, caía neve abundante, que cobria o chão, e, como não havia uma estrada, mas apenas um trilho, perdeu-se na floresta. A neve era tão espessa que era difícil ao cavalo andar. Teve que apear-se e ir a pé, puxando o cavalo e acertando o rumo do melhor modo possível.
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    O dia iadeclinando, a noite estava a cair, e ele estava num deserto de neve sem abrigo; que iria fazer? Tomou um rumo que julgara certo e foi prosseguindo na direção da casa do irmão mencionado. Ao cair da noite, parou em frente da casa do amigo, e quando bateu, todos ficaram admirados de sua coragem em vir em tais condições, pois julgavam que não viesse mais. Realizaram o culto. Passou ele ainda alguns dois dias naquele lugar pregando o Evangelho ao povo. Depois de ser eleito Bispo, disse que somente quatro vezes tinha faltado em cumprir o seu itinerário, duas vezes por causa de doença e as outras duas por força maior, devido ao atraso de trens, etc. O povo nunca se queixou dele por não ter cumprido com a sua palavra; quanto às visitas pastorais, podia contar com ele. O ano anterior, na Missão de Grundy, foi um ano de provas e ricas experiências. Apesar das suas energias em disciplinar alguns casos crônicos no circuito, o povo ficou gostando dele, porque revelava as qualidades de um homem bom e competente. Havendo recebido só cento e vinte e seis mil réis durante o ano para o seu sustento, podemos imaginar em que condições ele se achava quando chegou a hora de assistir à Conferência; a roupa remendada, o cavalo magro, sem dinheiro, e não tinha muitos amigos pessoais na Conferência. Não é de admirar que ficasse triste e desanimado. Mas alguns dos irmãos que tinham ouvido os seus sermões e testemunhado o seu zelo pelo trabalho, lembraram-se de lhe fazer presente de um terno de roupa nova. Anos depois ficou alegre em receber uma comunicação de uma senhora que na hora da morte testemunhou que fora convertida por meio dele. As circunstâncias eram as seguintes: O ano em que viajou pela missão de Grundy pregou num dia, em dezembro, um dia de frio, a uma congregação de três pessoas e uma delas era aquela que mandou a seguinte mensagem: “Estou moribunda; vou para o céu. Fui convertida pela pregação que o irmão fez naquele dia frio em dezembro. Espero que tenha muitos anos de vida; mas, quando chegar no céu, estarei eu lá para o encontrar”. O bispo contou isto à Conferência que presidia quando recebeu a comunicação e fez o seguinte comentário sobre ela: “Quando eu chegar no céu, a primeira coisa que farei será procurar este meu primeiro convertido do meu ministério na Missão de Grundy”. 1. A primeira Conferência que assistiu A Conferência Anual realizou -se na cidade de Jefferson City, em 31 de agosto de 1842. O Bispo Roberts presidiu-a. Foi a primeira Conferência que assistiu e quase todos os pregadores lhe eram estranhos, tendo se encontrado somente com três durante o ano. Mas como uma Conferência Anual é uma coisa toda excepcional entre as reuniões de qualquer coletividade, pelo menos o foi para este jovem itinerante. Ele fez um estudo de cada pregador, observando-os cuidadosamente. Gostava imensamente do cantar dos hinos pela Conferência; era um banquete para a sua alma. Prestou os exames do primeiro ano e foi aprovado, passando para o segundo ano. Continuou em experiência e foi nomeado para a Missão de Oregon. Voltando para casa a fim de visitar os seus pais antes de ir para o seu novo campo de trabalho, na saída da cidade três pregadores o alcançaram no caminho. Depois de cumprimentá-lo aconselharam-no a que desistisse da itinerância, voltasse para casa e se dedicasse ao trabalho na sociedade local. O moço estava bastante triste, e quando ouviu o conselho dos seus superiores no ministério, levou um golpe formidável em seu espírito. A única resposta que lhes deu foi: “Os senhores pensam assim”. Então os três prosseguiram, deixando o jovem pregador com seus pensamentos perturbados. Mas os melhores homens, às ve zes, se enganam, pois antes deles morrerem alguns receberam sua nomeação para o seu campo de trabalho pelas mãos daquele a quem tinham aconselhado a desistir do ministério. Ainda desconsolado com o conselho dos três pregadores, visitou os pais, e depois de descansar um pouco em casa, resolveu aceitar a sua nomeação e continuar na itinerância. Tinha
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    lançado a mãono arado e não podia olhar para trás. Quando entrou na itinerância, foi para consagrar a sua vida à pregação do Evangelho e nunca durante a sua vida se deixou enredar nas coisas seculares. 2. A missão de Oregon. Esta missão era semelhante à de Grundy. Foi um ano de sacrifícios e de lutas com algumas vitórias. O ordenado para o sustento pastoral foi o dobro esse ano: eram 252$000. Passou nos exames do segundo ano e foi admitido em plena conexão com a Conferência. Isto prova que a Conferência o julgou um homem apto para o trabalho. A escola pela qual passou era cheia de provas difíceis, porém soube vencê -las. Fez bastante progresso. O povo gostava dele e queria que fosse continuado. 3. O Circuito da Liberdade O ano de 1843 foi de menos privações para Marvin, mas sua casa era ainda a cabana dos habitantes nas fronteiras. Havia mais gente nesta zona do que nos outros dois circuitos. O cavalo que teve esse ano tinha o hábito de pular todos os buracos que encontrava no caminho. O jovem itinerante não sabia disso e a primeira vez que ele montou, quando chegou num vale, deu um pulo e o cavalheiro foi cuspido por cima da cabeça do cavalo, Marvin era Metodista em doutrina e política; pregava as doutrinas e observava as regras metodistas. Tinha paixão em converter almas a Cristo e para conseguir isto não poupava seu tempo, nem suas energias. 4. Aperfeiçoando a sua educação Em 1844, na ocasião da Conferência, foi nomeado como pregador ajudante de Wesley Brawning. O Rev. Brawning era o pastor da Froth Steel Church, na cidade de São Luiz. Foi durante este ano que Marvin teve mais tempo para estudar e aperfeiçoar a sua educação. Nos três anos nos circuitos de Grundy, Oregon e Liberdade, constantemente em viagem, não teve muito tempo para estudar, mas agora o tempo que gastava em viagens nos outros cargos, passava estudando. Também o contato com o Rev. Brawning e com a sociedade mais culta concorreu para o seu desenvolvimento intelectual e social. Há alguma coisa no sistema metodista que desperta os dons que o pregador tem, e se tiver capacidade de desenvolver no correr de poucos anos, o itinerante se torna um homem culto e hábil. Durante este ano de 1844 completou o seu quarto ano no curso da Conferência. Prestou exames e foi ordenado presbítero como já tinha sido ordenado diácono. Enquanto estamos falando a respeito dos seus estudos seria bom afirmar que Marvin, embora nunca tivesse assistido aulas num Seminário, foi um homem bem instruindo em teologia, história e literatura. Sabia bem o latim e o grego. Podia usar um comentário e apreciar as Escrituras na língua original. Seu estilo era claro e lógico. Os próprios sermões no-lo revelam. Mais tarde falaremos dele e de sua capacidade de pregador. Tinha ele passado agora quatro anos numa escola pouco inferior a qualquer outra para se desenvolver um verdadeiro pregador do Evangelho. Já tinha sido experimentado quanto à sua sinceridade e consagração na causa do Mestre; já tinha passado privações, penúria nas solidões, necessidades mil, e não desanimara; já tinha conhecimento dos homens e dos seus problemas; já tinha completado o curso de estudos; já tinha tido contato com o povo mais humilde e com o povo mais culto que habitavam seu Estado; enfim, tinha dons para ser um grande pregador.
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    6. Seu casamentoe voto a itinerância. A Conferência que se realizou em 1º de outubro de 1845, na cidade de Columbia, presidida pelo Bispo Soule, marcou uma nova época na história do metodismo no Estado de Missouri. Nessa ocasião a Conferência tinha de decidir sobre a resolução tomada pela Conferência Geral em 1844 a respeito da divisão da Igreja metodista Episcopal. Esta Conferência resolveu identificar-se com a Igreja Metodista Episcopal do Sul e assim permanecer ligada a ela. Também resolveu dividir a Conferência em duas: a nova Conferência a ser criada seria conhecida como Conferência de São Luis. Marvin tinha então vinte e um anos de idade. Tendo curso completo e sendo ordena do presbítero, estava habilitado a julgar por si a sua atitude para com a separação da Igreja, aliandose com a Igreja Metodista Episcopal do Sul. Foi neste ano de 1845 que se casou. Não deu este importante passo na sua vida sem refletir bem sobre o assunto. Passou quatro anos na itinerância como solteiro e nesse tempo nenhuma preocupação deu ao seu presbítero presidente, na sua relação com a sociedade. Sabia proceder dignamente. Quando tornou-se bispo da igreja, contou a um amigo como procedera na época de namorado: “Quando me chegou o tempo em que julguei meu dever casar-me”, diz ele, “aluguei um cavalo e um carrinho para visitar a moça com quem finalmente casei, a qual morava em um sítio; pelo caminho senti que tinha muito amor para com ela, e quando cheguei à casa dela, achei-a mil vezes mais bonita do que tinha imaginado”. Depois de muitos anos de casado, faz ele a seguinte observação: “Quando vejo os sacrifícios que ela tem feito pela causa de Cristo, considero-a mais e mais como um ser santo”. Quando ficaram noivos, ele se ofereceu como pregador itinerante e ela o aceitou como tal, “Pronta a ir para onde fossem mandados”. Casaram-se na casa do tio dela, perto de Bridgton, condado de São Luiz, em 23 de setembro de 1845, tendo sido Rev. John Hogan o celebrante. 7. Nomeado como pastor da Estação de Honibal. Depois de passar um ano no circuito de Weston, foi nomeado para a Estação de Honibal, o que lhe foi uma distinção, porque até aqui tinha ficado um ano em cada circuito que tinha servido. Esse cargo era considerado um dos mais difíceis na Conferência, devido a certos problemas que existiam na igreja. Quando chegou em Honibal, estava endividado, pois tinha comprado um sítio onde residia. Foi necessário vendê-lo e gastar o que sobrou para manter a famí lia. Marvin, no princípio de sua vida de campo, não era um bom financista. A esposa então tomou conta das despesas do lar. Não fosse ela uma mulher que sabia economizar, a experiência de Marvin teria sido triste no ministério. Mais tarde criou mais juízo quanto a dinheiro e dívidas. O conselho que dava depois aos jovens ministros era que fugissem das dívidas, porque pela experiência própria podia falar com autoridade. O seu pastorado em Honibal marcou época em sua vida. Até aqui crescido na estima do povo e no desenvolvimento de seus dons e capacidades mentais e sociais. 8. Pastor de diversos circuitos. O espaço não permite narrar todos os fatos que se deram com ele nos diversos circuitos que serviu durante cinco anos, entre 1848 e 1853. Passou dois anos no circuito de Moticello e mais três em outros cargos. É digno de notar que não se queixou quando foi removido de uma estação para um circuito; aceitava sempre a nomeação e onde quer que servisse prestava ótimo trabalho. Gostava da polêmica, mesmo quando moço. Todavia não polemizava sem fortes razões, visando sempre a
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    defesa da verdade;e isso mesmo quando não havia outros para o fazer. Aconteceu que no último ano que passou no seu circuito de Moticello um incidente nos mostra a sua coragem e tática. Foi o seguinte: Havia um pregador da seita chamada Campbellitas que perturbava o espírito de muitos crentes com as doutrinas que pregava. Para combatê -lo Marvin se apresentou na arena. O Rev. W. W. McMurray assim descreve a luta: “Em 1848 e 1849, o Sr. Enoch. M. Marvin foi nomeado para o circuito de Moticello, Conferência de Missouri. Entre muitas reminiscências daqueles dois anos, tenho colecionado dos paroquianos mais antigos que ainda estão vivos e de alguns que há pouco faleceram, o seguinte que se deu, talvez em 1840, na cidade de Moticello. O presbítero D. P. H., homem eminente e bem sucedido na “reforma corrente” de então, visitou a Moticello e dirigiu uma série de conferências por alguns dias. Ele era um homem no vigor da vida e não havia ninguém que pudesse apresentar com tanta destreza e bom êxito as idéias que advogava. Muitas pessoas se aliaram a ele e à sua causa; alguns crentes de outras igrejas passaram para a sua igreja, e havia mesmo certa mania, entre os membros das igrejas, de se transferirem de igreja. O orador fazia um esforço especial para conseguir isso, dando bastante ênfase ao apelo: “Venham unir-se conosco sobre a Bíblia; lançai fora os vossos credos humanos; vamos ser um etc., etc.”. Tudo isto deu resultado. O povo estava excitado, o jovem Marvin, agora no oitavo ano de seu ministério, tinha observado tudo isso e concluiu que faria um esforço para acabar com isso, pois viu que algumas pessoas estavam sendo iludidas, enganadas. As conferências estavam sendo realizadas no palácio de justiça. Era uma noite, a casa estava repleta de gente, e o texto era o mais apropriado possível. – Ef. 4:5 – “Um senhor, uma fé e um batismo”. O orador terminou o seu discurso com bom êxito e a idéia que “devíamos nos unir sobre a Bíblia e não sobre qualquer credo” e “Todos podiam ficar nesta plataforma; todos não podiam ficar num credo”. O povo foi convidado a unir -se sobre este princípio, dando um aperto de mão ao pregador. Logo que a congregação ficou de pé e começou a cantar, Marvin veio para a frente e deu a sua mão ao pastor. Havia uma irmã entusiasta que bateu palmas e gritou: “Ganhamos o pregador, ganhamos o pregador”. Cessando o cântico, o orador perguntou: - “É sincero o senhor?” - “Nunca fui mais sincero em toda a minha vida” - Marvin respondeu. - “Acredita o senhor que Jesus é filho de Deus?” – continuou o orador. - “Se acredito ou não acredito? Respondeu Marvin. - “Bem”, disse o orador, “nós exigimos uma resposta positiva a esta pergunta antes de batizarmos alguém”. - “Não vim aqui para ser batizado nem para engolir um credo”, disse Marvin; “vim para unirme com o senhor sobre a Bíblia, e a primeira coisa que encontro é um credo; e agora o senhor está fazendo questão de batismo, quando este no meu caso já foi administrado”. Só pela imaginação se pode descrever o efeito que estas palavras causaram sobre a congregação. A série ia terminar naquela noite, como de fato se deu; mas não antes de que Marvin anunciasse ao povo e ao orador que ia analisar e responder ao seu discurso e convidá-lo a assistir a discussão. O orador disse que o faria se fosse com ele a Palmira onde “seu irmão Lannis e irmã Creoth moram, e onde podemos ter acesso à Biblioteca”. - “Não”, disse Marvin, “estou para defender o Metodismo neste lugar; o irmão Lannis pode defendê-lo lá. Foi ele aqui atacado e aqui deverá ser defendido”. Depois de mais algumas palavras, encerrou-se a discussão e o Sr. D.P.H. deu por terminada a série de conferências, indo-se embora no dia seguinte. Em seguida, por algumas tardes, Marvin ventilou essas doutrinas da tal “reforma corrente”.
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    A posição deMarvin a respeito de seitas era o seguinte: “Nenhuma Igreja tem o direito de existir, se não for a portadora de alguma coisa de valor. Tem de incorporar e conservar alguma verdade, algum princípio, alguma coisa de grande interesse pelo qual nenhuma outra igreja incorpora; do contrário, não tem razão de ser. Tem de ser comissionada com uma parte do trabalho do Senhor que qualquer outra Igreja não está fazendo, e que qualquer outra não pode fazer; de outra forma, a existência de tal Igreja é uma intrusão no meio dos outros”. Seria bom mencionar aqui que desde 1845 Enoch Marvin sempre foi nomeado para pregar por ocasião das Conferências. Ele foi eleito delegado diversas vezes à Conferência geral, mas quase nunca tomou parte nas discussões nas sessões da Conferência, dando o seu tempo ao trabalho das comissões. 9. Como agente do Colégio de São Carlos. Tinha Marvin muito interesse no trabalho educativo da Igreja. Foi nomeado agente do Colégio de São Carlos por dois anos em conexão com o seu trabalho de presbítero presidente. Nesse trabalho foi tão bem sucedido que foi nomeado para fazê-lo exclusivamente. Finalmente o elegeram presidente do Colégio, mas, depois de passar uma noite em claro e oração, chegou à conclusão de que não devia aceitar tal incumbência. A sua resposta foi: “Pode dizer aos irmãos que não posso deixar o meu trabalho pastoral, ainda mesmo para tomar a presidência do país”. Era pregador e não professor; não queria frustrar os planos de Deus para consigo. Quando recusou a presidência do Colégio, já tinha sido e ainda era o agente do mesmo Colégio, e por seis anos continuou a ser até que a guerra civil o obrigou a ir para o Sul. 10. Como pastor na cidade de São Luis. Em 1855, Marvin foi transferido da Conferência de Missouri para a Conferência de São Luiz e nomeado pastor da “Igreja do Centenário” (Centenary Church). Sentiu muito deixar a sua Conferência e seus irmãos, porém encontrou novos irmãos e alguns amigos antigos no seu novo campo de trabalho. A Igreja do Centenário o recebeu de braços abertos e o primeiro culto realizado pelo novo pastor foi bem concorrido. O povo gostou tanto do sermão que teve o desejo de ouvi-lo outra vez. Não passou muito tempo e os advogados, doutores, etc., ouviram que havia um pregador na Igreja do Centenário e começaram a freqüentar os cultos. Assim, no correr de pouco tempo, aumentou a assistência à Igreja e o Metodismo tomou um novo impulso na nova cidade de São Luiz. Aliás, é o que se esperava, pois Marvin pugnou sempre pelo Metodismo unido, na grande e florescente cidade de São Luiz. Seu presbítero presidente, Wesley Browning, e outros pastores na cidade cooperavam uns com os outros no trabalho na cidade. Para melhor coordenar as suas forças resolveram organizar uma União dos Pastores Metodistas, efetuando reuniões todas as segundasfeiras. Nessas ocasiões apresentavam-se relatórios sobre diversos ramos das atividades promovidas pelas igrejas. As igrejas mais fortes ajudavam as mais fracas, ficando assim estabelecido o conexionalismo do sistema metodista, cujo progresso foi intensificado. Marvin tinha muito interesse nos jovens pastores, e sempre lhes teve uma palavra de animação e conforto. Um deles, o Sr. G.W. Hom, nesse sentido, dá o seguinte tes temunho: “Nunca me esquecerei de como, no encerramento da Conferência em 1860, na cidade de São Luiz, quando recebemos as nomeações, ele me deu um abraço apertado e me animou para prosseguir no meu trabalho; nem me hei de esquecer de como, durante muito tempo depois, ele me encorajava com palavras de carinho”. Não somente havia um espírito de cooperação entre os pastores, mas havia um despertamento espiritual entre o povo. Marvin, sendo um bom pregador e evangelista, sempre
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    ajudava, nas diversasigrejas, a promover séries de conferências. O povo afluía às igrejas em tão grande número que freqüentes vezes não havia lugar para acomodá-lo, e muitas almas se convertiam. Martin sempre deu muita importância às escolas dominicais. Visitava o seu rebanho, especialmente os doentes e pobres. Sabia trabalhar com a sua junta de ecônomos e outros oficiais da igreja. Quando residia na cidade de São Luiz, teve uma polêmica com um ministro católico romano sobre as doutrinas romanistas. Os católicos romanos eram numerosos na cidade de São Luiz e o padre era um homem culto. A polêmica se efetuou pelos jornais e despertou interesse não somente na cidade de São Luiz, mas também em diversos estados do país. Ele soube manter a polêmica num plano elevado e digno, resultando dali que o poder de Roma ficou prejudicado e grandemente aumentado o prestígio dos evangélicos. Com a grande vitória na polêmica Marvin ficou engrandecido perante o povo, tanto católicos romanos como de outras seitas. Foi por meio dessa polêmica que descobriu que poderia escrever e tornou-se autor de várias obras. A aparência de Marvin no púlpito não era nada fingida, porém natural; não tinha no púlpito modos diferentes de qualquer outro lugar. O que atraía o povo era o poder espiritual que possuía e a habilidade com que se dirigia ao povo por meio das suas palavras e fisionomia. A narração de um incidente servirá para dar uma idéia acerca do seu modo no púlpito. Um Metodista de Filadélfia, estranho na cidade de São Lui z, querendo assistir ao culto numa Igreja Metodista, num domingo que passou na cidade, foi assisti-lo na Igreja do Centenário. Assim um amigo descreve o que se passou: “Ele (o Metodista de Filadélfia) saiu no domingo de manhã para encontrar uma Igreja Metodista, e mais tarde se achou assentado no fundo da Igreja do Centenário. Logo Marvin entrou e foi andando pela ala da Igreja no seu modo peculiar desde os dias da sua mocidade, e que conservou, mais ou menos, até o fim da vida. Trajava terno de roupa ordinária e levava o seu chapéu pequeno na mão. O Metodista de Filadélfia julgava que se tinha enganado, e teve vontade de ir embora; mas, logo que Marvin principiou a oração, sentiu-se sob a inspiração do céu; e depois de ouvir o sermão sentiu-se de tal modo atraído que desejou identificar-se com este povo para sempre”. 11. Seu trabalho como capelão durante a guerra civil A guerra civil norte-americana rebentou em 1861 e em 1862 a nação toda estava inflamada pela mesma que durou quatro anos. Não há luta pior do que uma guerra civil. Como o Estado de Missouri se tivesse aliado com os Estados do Sul, o governo federal queria subjugá-lo, Marvin já se tinha aliado com a Igreja Metodista Episcopal do Sul, aliou-se agora com o seu Estado e lançou a sua sorte com o seu povo. A Conferência que se realizou em outubro de 1861, na cidade de Asson Rock, não foi bem assistida devido à confusão que a guerra tinha provocado. Marvin estava eleito delegado à Conferência Geral e também não queria ficar preso e submeter-se ao juramento que os nortistas exigiram dele. Ir para a prisão não era nada, mas julgou que era vontade de Deus ir e participar. Havia bastante perigo para ele em fazer a viagem, atravessando as linhas do inimigo; mas, estava pronto a enfrentá-la. Depois de muitas peripécias chegou no território dominado pelos sulistas onde principiou o seu ministério no exército como capelão. Devido à guerra a Conferência Geral não se realizou em 1862 e Marvin, não podendo voltar para o seio da família, ofereceu seu serviço ao general Price como capelão dos soldados. Foi bem recebido e ele não somente fazia o serviço de capelão entre os soldados, mas interessava-se em providenciar a obtenção de pregadores para o serviço de capelães no exército.
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    Seria uma históriabem longa se falássemos minuciosamente sobre suas atividades durante essa prisão de quase quatro anos. Basta dizer que ministrava pessoalmente aos soldados e promovia séries de conferências de avivamento entre eles, havendo muitas conversões. Em março de 1865 uma petição foi mandada ao presidente Lincoln solicitando permissão para a esposa de Marvin passar às linhas do ex ército de modo que ela e seus filhinhos pudessem se reunir com ele. O pedido foi atendido. Assim, depois de três anos de separação, juntaram-se de novo. Foi um dia feliz para todos. 12. Seu ministério no Estado de Texas. Em 1865, havendo uma vaga em uma das Igrejas em Morchal, Texas, pelo falecimento do seu pastor, Marvin foi convidado para tomar conta da igreja até à Conferência Anual. Ele continuou aqui até ao fim da guerra. Quando terminou o conflito, o povo do sul se achava em apuros, os escravos libertados, as propriedades estragadas, sem dinheiro e sem crédito, e sem escolas. Foi nesta época que Marvin foi bastante tentado a abandonar o ministério. Não tinha senão a mulher e os filhos. A guerra tinha levado tudo o que possuía e o povo em geral não tinha recursos; o ordenado do pastor não podia ser grande coisa. Foi exatamente nessa ocasião que lhe veio grande tentação. Havia um grupo de homens que queria organizar um jornal e pediu a Marvin para ser o redator, oferecendo-lhe um ordenado bom. Ele considerou cuidadosamente a proposta. Sua família estaria garantida com sustento digno, mas tal empreendimento o desviava do rumo que tinha escolhido e em que estava entretido o seu coração. Um ou dois domingos depois, quando estava pregando, sua fé reviveu, e um relâmpago de triunfo passou pelo seu rosto e ele exclamou: “Irmãos, está resolvido o que vou fazer. Enquanto Deus me der roupa simples e polenta para mim e os meus, pregarei o Evangelho”. Assim venceu a tentação. V – SEU TRABALHO COMO BISPO A Conferência Geral não podendo ser realizada em 1862 devido a guerra, realizou-se na cidade de Nova Orleans em maio de 1866. Como a Conferência de São Luiz houvesse perdido diversos membros durante o conflito, ou por terem morrido, ou por terem fugido ou saído do Estado como o próprio Marvin, os nomes de alguns desapareceram do rol da Conferência irregularmente, e entre estes nomes o de Marvin; por isso, ele não foi eleito delegado à Conferência Geral. A Conferência Geral inaugurou-se no lugar e hora determinados. Tinha passado oito anos sem haver uma sessão e havia, portanto, muitas questões e problemas a serem resolvidos. Um deles era a eleição de Bispos. A Comissão Episcopal recomendou que seis fossem eleitos, porém a Conferência aprovou a eleição de quatro somente. 1. Eleito o Bispo em 1866 A eleição dos bispos deu -se no vigésimo dia da Conferência. Na primeira votação Marvin foi eleito. Como não era membro da Conferência nem se achava presente mandaram diversos telegramas para diversos lugares afim de que ele viesse para ser ordenado. Aconteceu que Marvin resolveu visitar a Conferência a fim de encontrar alguns dos seus amigos e apreciar o trabalho da Conferência. É notável que alguns deleg ados, antes de chegarem a Nova Orleans, sonharam com Marvin, como um homem em quem deviam votar para Bispo. No dia em que foi eleito, ele chegou à noite em Nova Orleans sem saber que tinha sido eleito. Quando soube, levou um susto, e, entrando na casa onde estava hospedado, deitou -se na cama, porque o choque foi grande. Não sabia se devia aceitar a incumbência ou não, mas, depois
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    de conversas comalguns dos seus amigos mais íntimos e refletir e orar, anuiu. Foi ordenado logo depois. Mas a roupa que tinha era muito velha e gasta e a barba e cabelos estavam crescidos. A sua aparência não era muito simpática. Os irmãos e amigos arranjaram fundos para comprar-lhe um novo terno de roupa, porém Marvin não consentiu em fazer a barba e cortar o cabelo, porque, disse ele: “Os irmãos me elegeram com a minha barba e cabelo compridos, agora têm de me agüentar com eles”. O Bispo Wrightman lhe perguntou: “Onde se graduou o senhor?” A resposta foi lacônica: “Em lugar nenhum”. 2. Suas idéias acerca do episcopado A posição do Bispo Marvin sobre o episcopado era a mesma que o Bispo Soule tomou quando se identificou com a Igreja Metodista Episcopal do Sul. Depois de narrar os fatos históricos no desenvolvimento do episcopado ele dá a sua interpretação da função do Episcopado na política da Igreja. É o seguinte: “Assim a história deste ofício mostra que não é uma criatura da Conferência Geral de modo nenhum, mas que tem a sua origem de outra fonte. A lei escrita indica que seja uma parte integral do organismo da Igreja. Sua origem e função são guardados zelosamente pelas Regras de Restrições. Tanto pela lei escrita como pela prática é fundamental e organicamente uma parte da Igreja. Os Bispos, portanto, não são meramente oficiais da Conferência Geral, mas um ramo coordenado com o governo da Conferência. Eles são a cabeça do departamento executivo da Igreja. As funções do seu ofício, como são definidos pela lei, o mostram claramente.” “O fato de sua ordenação solene, junto com o caráter de votos que deles, se exigem inconsistente com a hipótese que são meramente oficiais que podem ser removidos à vontade. Não se pode pensar que o agente de Publicações ou o secretário de Missões sejam ordenados e que assumam votos de ordenação, como condição de assumir as obrigações do seu ofí cio.” “Que o mandato de seu ofício não está exclusivamente no poder da Conferência Geral, prova-se pelo fato de que a forma de julgamento dos Bispos faz parte da lei integral da Igreja. Eles só podem ser depostos por processo formal, sendo culpados de um ato que seja julgado indigno daquele que ocupa este importante ofício.” “Os Bispos estão à testa da admiração executiva da Igreja; mas não são meramente oficiais executivos. Tem a função de pastores, o cuidado de todas as Igrejas. Eles têm que promover por meios lícitos a paz, a pureza e o crescimento da Igreja. Nas Conferências Anuais não são meramente oficiais que presidem, com o poder de nomear todos os pastores; mas são realmente pastores, cujo dever é promover todos os interesses da religião segundo a sabedoria que possuam. Sua autoridade executiva é grande. Neles estão depositadas as forças tremendas que concorrem para conservar todo o mecanismo do sistema itinerante. O órgão de tais forças deve ser bem colocado. Não pode ser eficiente ocupando um lugar secundário. Tem que estar no coração da organização, e fixado numa base estável. Sem dúvida os poderes do órgão têm que ser limitados e regulados também, como são pelas leis da Igreja. ” “Os corpos legislativos precisam, também, de restrições. É perigoso para qualquer corpo ter plenos poderes sem quaisquer restrições. Não há nada mais comum do que legislação apressada e mal considerada sob excitamento. A distribuição dos poderes entre os órgãos legislativo e executivo é sempre uma sábia medida. Nenhum deve ser sujeito ao outro. Cada qual tem que ocupar uma posição orgânica na sociedade.” “O Episcopado é integral na estrutura do Metodismo; não meramente um incidente. É um dos órgãos da Igreja mesma, e não meramente da Conferência Geral.”
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    Examinando a idéiado Bispo Marvin sobre o Episcopado notamos que estava de acordo com o Bispo Josué Soule. Esta posição tomada pelo Bispo Soule, quando a Igreja Metodista Episcopal se dividiu, tem concorrido poderosamente para conservar as duas Igrejas separadas, como se acham hoje em dia (este livro é publicado em 1929, anterior, portanto, à reunificação das Igrejas Metodistas do Sul e do Norte). Há uma diferença fundamental sobre a interpretação da função do Episcopado nas duas Igrejas. 2. Sua residência e como presidente da Conferência Logo depois da sua eleição ao Episcopado levantou-se a questão de residência para o Bispo e sua família. Tinha convites de seus amigos do Texas para fixar sua residência naquele Estado, mas depois de refletir bem e ouvir o conselho dos seus colegas, resolveu fixá-la em São Luiz, Estado de Missouri. Como presidente da Conferência foi muito apreciado. Os irmãos apreciavam a sua imparcialidade, firmeza e bondade como oficial executivo. Sua aparência, na ocasião em que foi eleito Bispo, nota-se na fotografia que acompanha esta obra. 4. Seu trabalho entre os índios e no Estado de Texas A primeira Conferência que presidiu depois de ser eleito Bispo foi a Missão aos índios. Por falta de recursos a Missão estava ameaçada de desaparecer, mas o Bispo, não tendo fundos apropriados pela Junta de Missões, resolveu assumir pessoalmente a responsabilidade de fornecer cinco mil dólares durante o ano para conservar o trabalho da Missão. Custou-lhe algum sacrifício, mas sustentou a sua palavra, e conserv ou o trabalho entre os índios. Lodo depois da sua eleição ao Episcopado, passou alguns meses em Morchal, no Texas, pregando na sua igreja e realizando séries de conferências. Muitas pessoas se converteram durante este tempo. Realizou as Conferências Anuais do Texas, viajando muito, pois as distâncias eram grandes e as viagens se efetuavam em carros ou a cavalo. Ele era muito estimado no Texas. 5. Seu trabalho nas costas do Oceano Pacífico O trabalho nas fronteiras norte-americanas, nas costas do Oceano Pacífico, por anos tinha sofrido por falta de visitas episcopais. O Bispo Marvin, sendo um homem do oeste, foi nomeado para zelar deste trabalho. Fez a viagem pelo mar atravessando o istmo do Panamá. Passou dezoito meses fora do lar para fazer este serviço tão árduo, mas grandemente necessário nos Estados da Califórnia e Oregon. O espaço não nos permite dar os pormenores das suas visitas a cada distrito e quase a todos os cargos pastorais. Muitas almas foram convertidas nas conferências que realizou. Fez o trabalho apostólico. Não tem havido outro Bispo que como ele fizesse o serviço tão bem e com tanto sacrifício pessoal, depois dos Bispos Asbury, McKendree e Soule. Para dar uma idéia da maneira pela qual a Conferência foi realizada citamos o seguinte: “Esta sessão (Vocaville, 6 a 12 de outubro de 1869) foi a mais agradável que jamais tivemos. Harmonia perfeita reinou desde o princípio até o fim. Não houve nenhuma palavra áspera proferida. O amor fraternal reinou triunfante”. Eu me lembro do que disse meu professor no Seminário, o Dr. John Kem, acerca do Bispo Marvin quando este lia as nomeações dos pregadores. Ele disse: “Os pastores não podiam se queixar do Bispo, pois sentiam que, se fosse possível, ele mesmo teria aceito com satisfação qualquer cargo da Conferência. Era o espírito em que fazia as nomeações e, também, o exemplo que tinha dado na sua própria vida que alijava qualquer espírito de queixas”.
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    6. Seu trabalhonas costas do Oceano Atlântico Em 1870, na primavera, ele assistiu a reunião da Junta de Missões realizada na cidade de Baltimore, “o berço do Metodismo na América”, e a convite do Bispo McTyeire assistiu a Conferência de Baltimore. Esta foi a sua primeira visita pelo leste do país. Ficou encantado com o progresso da Igreja e a bondade do povo. Visitou muitas igrejas pregando sempre com bom resultado em conversões de almas. Visitou o general Roberts E. Lee, e fez um discurso literário perante um grêmio literário da escola do general Lee. Passou um mês de férias, mas não gostou de estar parado e passou a maior parte das suas férias pregando ao povo. Foi o Rev. J.S. Gardner, pastor da Igreja de Harrisanbury, que o convidou para passar um mês com ele para gozar as belezas dos panoramas nas montanhas de Virgínia. Falando sobre esta visita, Marvin diz: “Desde domingo tenho pregado três vezes e fiz um discurso ao ar livre. Estou me demorando neste vale e entre estas montanhas para descansar um pouco preparando-me para a campanha que terá começo em Warrembury no último dia deste mês e continuará durante o inverno. Esta foi a segunda vez que tinha sido tentado a descansar. Meu descanso em Virgínia terá os mesmos resultados das férias do inverno do ano passado. Bem, afinal, não acho que o serviço de pregar me prejudique, e tenho quase a mesma opinião do Dr. Pierce, que o serviço de pregar constantemente concorre para conservar a saúde e a longevidade”. 7. Seu trabalho nas montanhas do Oeste e no vale do rio Missouri. Não será possível mencionar tudo que fez nas zonas das montanhas do Oeste e no vale do Mississipi. Somente mencionarei o fato que o itinerário do Bispo Marvin foi muito extenso e que os seus trabalhos foram múltiplos. Ele não deixou de pregar em toda parte por onde andava. Tinha mensagem para os crentes e para os incrédulos. O fato de ter sido eleito bispo, não prejudicou o seu ministério como evangelista. Ajudava nas séries de conferências especiais, exortando e pregando como se fosse um pastor. Ele começou a pregar com dezoito anos de idade e continuou durante toda a sua vida; nes te sentido ele podia dizer como o apóstolo Paulo – “uma coisa faço, eu prego”. VI – SUA VIAGEM AO REDOR DO MUNDO Na ocasião da Conferência Geral que se realizou, na cidade de Lousville, no Estado de Kentucky, em maio de 1874, a Conferência resolveu o seguinte: “Recomendamos: Que o Bispo visite a Conferência do Pacífico durante o quatriênio; se for julgado oportuno pelo Colégio dos Bispos, que também visite a nossa missão na China e ordene quaisquer pregadores nacionais que forem recomendados pelas nossas várias missões naquele campo”. Na reunião anual dos Bispos em 1876 o Bispo Marvin foi nomeado para cuidar do trabalho nas Costas do Pacífico, e, portanto, nomeado para visitar a missão na China. Também foi combinado que, depois de visitar a Missão da China, continuasse a sua viagem ao redor do mundo, visitando outros campos missionários para fazer um estudo das condições das outras partes do mundo. Ele considerou providencial esta viagem e não uma realização de um desejo pessoal. Terminando a sua visita e trabalho na Conferência do Pacífico, prosseguiu sua viagem para a China. O Dr. E. R. Hendrix, então presidente de um colégio, e que mais tarde foi eleito Bispo, foi convidado a ir com ele como seu secretário e companheiro de viagens.
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    O Bispo Marvinnão procurou fazer essa viagem, mas uma vez que foi convidado e as forças das circunstâncias concorreram para este fim, aceitou a incumbência. Esta visita às Missões no estrangeiro despertou mais interesse no trabalho missionário em nossa Igreja. O Bispo Marvin, antes de encetar essa viagem, apressou-se em publicar um livro, uma série de sermões, pois não tinha muita esperança de poder fazer isto se não o fizesse então. Também preparou um livro sobre a sua viagem com o título “Ao Oriente por meio do Ocidente”. (To the East by the way fo West”). Dentro de seis meses depois de publicado, vinte mil exemplares foram vendidos. A Igreja despertou-se tomando pelas Missões mais interesse que em qualquer tempo atrás. Na véspera de partir o Bispo Marvin assim descreve o seu sentimento acerca desta viagem: “Esta viagem é uma pequena expedição de exploração e contempla um avanço da nossa Igreja na obra missionária. Esperamos pela graça de Deus tomar uma posição avançada nesta guerra de conquista, e fazer a nossa parte em coroar o nosso Redentor ressurgido e o Senhor de todos.” “Visto que não procurei este empreendimento, antes quis evitá-lo, contudo não resisti, como não tenho recusado fazer qualquer serviço exigido de mim por minha Igreja. E tenho de confessar que, depois de ser comissionado para fazê-lo, apesar de todos os incômodos de viagem e uma ausência longa de casa, tenho grande satisfação em fazer este trabalho pelo meu Mestre. E peço a Deus que seja o começo de uma nova época missionária na Igreja Metodista Episcopal do Sul. Em fazê-lo, entrego-me ao cuidado de Deus e as orações do seu povo”. Embarcaram no navio “Alaska”, em 1º de novembro de 1876, na cidade de São Francisco. Fizeram boa viagem e chegaram no Japão mais renovados nas suas forças físicas pelo repouso que tiveram na viagem pelo mar. O Bispo visitou o trabalho da Igreja Metodista Episcopal no Japão. Nossa Igreja não tinha ainda principiado trabalho ali. O Bispo Marvin concordava com a idéia de que o Dr. J. W. Lambuth fosse mandado para o Japão afim de fundar uma Missão naquele país. Pregou diversas vezes em inglês no Japão e foi bem recebido pelos missionários Metodistas que residiam naquela ilha. Também ficou muito impressionado com o nosso trabalho na China, procurando conhecer de perto os problemas da evangelização em todos os países, especialmente na China, onde nossa Igreja tinha trabalho. Compreendeu muito bem as dificuldades que os missionários tinham que enfrentar no Japão, na China ou na Índia. E a respeito da China disse: “A China há de voltar-se para Deus”. Eu creio; quase o vejo”. Deixando a China, passou pelos seguintes países: Ceilão, Índia, Egito, Palestina, Turquia, Grécia; Itália, Suíça, França, Inglaterra, etc. Quando chegaram à Palestina, o Bispo Marvin sentiuse mais em casa, pois conhecia muito bem a geografia e a história da Palestina. Passou algum tempo viajando pela terra santa. Quando visitou o mar da Galiléia ficou impressionado, porque foi ali que o Mestre passara a maior parte do seu ministério e chamou o maior número de apóstolos. Quando se ia retirando da Galiléia, olhando para traz, disse: “Enquanto, montado no animal, olhei para o mar de Galiléia pela última vez, a cena toda penetrou profundamente demais no meu coração, para jamais ser esquecida. Estou certo que não desvanecerá. Virei a cabeça do meu cavalo e o deixei, ou, num sentido mais acertado, eu o levei comigo, como uma possessão rica e eterna da alma”. Também gostou muito de Atenas, na Grécia, e outras partes da Europa. Tomou muito interesse na visita que fez à capela de Wesley em City Road, Londres, visitando os túmulos de João Wesley, Adão Clarke, Benson e Buntiny, e, atravessando a rua, visitou o túmulo de Suzana Wesley e de John Bunyan, o autor do livro “O Peregrino”, no cemitério de “Bunsfield Burrying Gromwel”.
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    O Bispo Marvinfoi o segundo Bispo Metodista que fez uma viagem ao redor do mundo. Quando voltou para os Estados Unidos, todos queriam ter notícias da viagem que empreendera. Um entusiasmo pelas missões passou pela Igreja, e o seu livro foi lido por milhares. Mas a alegria da Igreja ficou obscurecida com a triste notícia que correu meses depois da sua volta: seu falecimento. VII – O FIM A viagem que fez ao redor do mundo levou exatamente um ano; saiu de casa no dia 21 de agosto de 1876, e chegou em casa no dia 21 de agosto de 1877. Quando a sua esposa o abraçou, exclamou: “tinha receio que você chegasse ontem, e se tivesse chegado, teria prejudicado o ano”. O Bispo Marvin, logo que chegou em casa, teve que preparar-se para realizar as suas conferências. Encetou este trabalho no tempo marcado, mas adoeceu e faleceu no dia 26 de novembro de 1877, cercado de sua família na cidade de São Luiz. O Bispo Marvin não gozava saúde perfeita, sofria dos pulmões. Apanhou forte resfriado que passou à pneumonia e em poucos dias faleceu. Sua morte foi lamentada pela Igreja toda. Se tivesse vivido mais anos, sem dúvida teria sido o apóstolo das Missões naquela época como o Bispo Lambuth o foi no seu tempo. Ele era um homem santo e inteiramente consagrado a Deus. Como ele mesmo testificou, se houvesse qualquer coisa na sua vida que não fosse consagrada a Deus, ele pedia a Deus que lhe revelasse de modo que pudesse consagrá -lo também ao Senhor. Parece-nos que não há homem algum que tenha grandes dons e capacidades que chegue a completar a sua vida, pois sempre tem alguma coisa projetada para fazer. Assim se deu com o Bispo Marvin, tem-se dado com outros, e assim com quase todos se há de dar no futuro. Seu filho, escrevendo em carta particular, recordando o primeiro aniversário da morte do pai, diz: “Tenho pensado nele por duas semanas. Recordo-me cada dia da sua doença. Os gemidos involuntários que ouvia. Os olhos tristes e pacientes estão voltados para mim. Vejo o seu rosto agonizante enquanto se esforça para respirar. Enfim as respirações tornam-se mais curtas e a dor vai diminuindo, mas é porque sua vitalidade também está diminuindo. Não pode falar mais. Não pode mover as mãos. Não pode mexer os lábios. Não pode revolver os olhos. Os intervalos entre as respirações são mais prolongadas. As respirações são mais brandas... brandas... cessam. E a morte, não esperada tão cedo, lança as sombras sobre o nosso lar”. Em conclusão vamos citar algumas palavras de apreciação do Bispo McTyeire: “Ele morreu no vigor dos seus dias, bem útil, muito conhecido e muito amado; e foi nessa ocasião que foi removido. Vós exclamais: “A Providência Misteriosa! É alguma coisa para a Igreja ter uma empresa tão clara das excelências cristãs e ministeriais, em que o ideal e a realidade se aproximam um do outro – um retrato para ser pendurado no coração do povo. A velhice tem as suas enfermidades, e às vezes os erros da última parte da vida prejudicam o que foi feito antes. Pelos movimentos ligeiros e acertados o caminho é levantado, deixando-o impresso em linhas claras sem borrões.” Gostamos dos retratos dos nossos amigos tirados no tempo de saúde e vigor. Assim a Igreja pensará do Bispo Marvin, e olhará para o padrão que ele levantou, muitos dias depois dos dias do seu luto.
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    XI A vida deCarlos Betts Galloway, o Cavalheiro Cristão e Patriota (1849-1909) Há homens cuja influência é semelhante a uma tempestade ou a um terremoto, porque por onde andam levam consigo a perturbação; mas também há pessoas cuja influência é semelhante à chuva branda, ou ao orvalho que refresca, ou ainda como os raios de luz, numa atmosfera balsâmica, que trazem alegria e saúde. Assim pode ser comparada a influência de Carlos B. Galloway, pois, onde quer que andasse deixava a atmosfera impregnada de abnegação e modéstia. Tão silenciosa era a sua influência para o bem que os seus próprios amigos mais íntimos não apreciaram o seu valor senão quando foi arrebatado do meio deles. Não sabemos apreciar o doce gorjear do passarinho senão quando nos abandona. Não podemos ler a vida deste homem sem sentir o valor do cavalheirismo cristão e do patriotismo verdadeiro. I – SEU NASCIMENTO E OS PRIMEIROS ANOS 1. Seus pais. Seu pai, o Dr. Carlos Betts Galloway, era médico e bom cristão. Era descendente de ingleses, escoceses e irlandeses; corria-lhe, portanto, nas veias o sangue representativo do Reino Unido da Grã-bretanha. Era um descendente legítimo dos verdadeiros e primeiros imigrantes da Inglaterra. Sua mãe, D. Adelaide Dickins, era também dessa massa, uma senhora piedosa e bem educada. 2. Seu nascimento. Carlos Betts Galloway nasceu a 1º de setembro de 1849, na pequena cidade de Koscinskc, Estado de Mississipi. Era o segundo filho. O lar em que nasceu constituía um ambiente cristão; assim, sob as influências benéficas de pais piedosos, foi que passou a sua mocidade. A casa de seus pais era o lugar onde eram hospedados não somente os pregadores Metodistas, mas também os pastores Batistas, visto que sua mãe era da Igreja Batista. Além dos batistas e metodistas havia visitas de pessoas distintas na política. Devemos lembrar que durante a sua mocidade o país estava muito preocupado com questões de magna importância, como a luta pelo fim da escravidão, que levou o país a uma guerra civil que durou quatro anos. Estas questões eram discutidas no lar junto com as questões religiosas. Foi neste meio que se lhe desenvolveram o espírito patriótico e o religioso. Igualmente tudo isto concorreu para desenvolver nele um espírito liberal e justiceiro; pois havia correntes fortes e divergentes que preocupavam o pensamento do povo naquela época. Havia no lar jogos inocentes de que ele participava durante as noites de inverno ao redor da lareira. A religião ali era
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    ensinada com osexemplos que acompanhavam os preceitos, muito especialmente por parte dos pais. 3. Seus primeiros estudos. O menino Carlos não era considerado extraordinariamente inteligente. Forte, robusto, inteligente e bom, mas não era de assombrar. Um dos seus colegas diz dele o seguinte: “era um favorito tanto para com os seus colegas como para com os seus professores. Era um atleta; não havia entre os seus amigos qualquer que pudesse vencê -lo em corrida, pulos, lutas e natação.” Carlos sempre foi um bom menino, de moral excelente, consciencioso. Cumpria fielmente os seus deveres. Aprendia com facilidade, especialmente o latim e o grego. Na escola, nunca tivera um ponto contra o seu procedimento. Gostava de brincar, porém todas as suas brincadeiras eram inocentes. Amava extremosamente os membros de sua família, e era igualmente amado. Foi alvo de muita consideração pelos seus avós. Ele mesmo, por ocasião do seu qüinquagésimo aniversário, disse acerca da sua vida escolar: “A primeira escola que freqüentei, quando tinha seis anos de idade, era dirigida pelo Dr. Mitchell em sua residência. Também a “Academia” dirigida pelos professores Eads, Hoffman, Groves, Boyd, Lindsey e Farrish que foram meus mestres, e que às vezes poupavam a vara, são lembrados com muita estima. Foi nesta época que desenvolvi o meu físico e recebi as prime iras inspirações para ser alguma coisa na minha vida.” “Quão vivas me são as cenas da guerra civil. Como um rapaz de onze anos, amolei um facão na forma de uma baioneta com firme propósito de destruir qualquer Yankee que penetrasse no seio do meu Estado de Mississipi”. Por estes trechos temos uma idéia de como passou os seus primeiros anos. Estamos vendo como as preocupações de seu tempo mexeram com suas qualidades intelectuais e morais, que eram marcas do seu caráter. Apesar da sua declaração de partir em pedaços o primeiro Yankee que entrasse nos limites do seu Estado, o Estado de Mississipi foi cenário de muitas batalhas durante a revolução. A vida doméstica de seu pai foi muito perturbada. Por causa da desordem provocada pela guerra a família teve de mudar-se de Koscinskc para Canton. Esta mudança interrompeu os estudos de Carlos com o seu querido professor, o Rev. Dr. J. R. Farrish, missionário da Igreja Batista. Mas na cidade de Canton encontrou uma escola boa para meninos, e logo se matriculou nela, continuando assim os seus estudos. II – SEUS ESTUDOS NA UNIVERSIDADE Devemos lembrar que após a guerra civil a situação dos Estados do Sul que perderam na luta, era péssima. Tudo estava desorganizado e não havia recursos disponíveis para reabilitar as instituições prejudicadas e destruídas. As instituições educacionais estavam, portanto, quase aniquiladas. Mas os ministros religiosos e educadores, reconhecendo o valor da educação das gerações futuras, uniram as suas forças e com grandes sacrifícios e a bnegação entraram logo no campo educativo. A Universidade de Mississipi, situada na cidade de Jackson, foi o centro educativo dos moços daquela época, e os professores cristãos, como o Rev. Dr. W. Jones, compunham a faculdade desta Universidade. 1. Como estudante na Universidade. Na Universidade de Mississipi, o jovem Carlos B. Galloway, que tinha perto de dezesseis anos de idade, matriculou-se numa classe de vinte e quatro rapazes, dezesseis dos quais tinham
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    sido soldados naguerra civil. Carlos era o mais moço de todos. Mas, nem por isso, deixou de ser um dos melhores alunos e estudantes da sua classe. O Rev. Dr. C. W. Crafton, D. D., um dos membros distintos da sua classe, falando sobre as suas impressões acerca dos seus colegas, disse: “Paciência e perseverança eram as qualidades desenvolvidas no caráter daqueles jovens que estavam em treinamento para o futuro. Distinção se via na aplicação constante, longa e silenciosa, prolongada através dos meses e anos escolares. Havia poucas possibilidades de um rapaz exceder a outro, pois estavam bem preparados com os seus dons naturais. Mas Galloway era o primeiro de sua classe e não deixou de acompanhar os seus colegas em álgebra, geometria, clássicos: Tito Lívio, Juvenal, Homero, Ésquilo; em química, filosofia e astronomia. Nós o reconhecemos como um dos mais fiéis de todos os membros de nossa classe. Quando chamavam o rol, sempre respondia: “Presente”, e quando recitava, nunca se ouvia dizer: “Não estou preparado”. Não me recordo de tê-lo visto fazer um fiasco sequer nas aulas.” “Na Sociedade Literária Phi Sigma sempre tomava parte saliente, e nunca recusava cumprir seus deveres e responsabilidades. Foi neste meio que formou as qualidades que o caracterizavam em sua vida posterior. Era constante no cumprimento de seus vários deveres, consciencioso em cumprir suas obrigações, consistente, Cortez e correto em sua conversação durante toda sua vida escolar.” “Ele era atrativo, revelando bom senso, e sabia aproveitar as suas oportunidades. Mais do que qualquer outro sabia ser útil em todas as manifestações do seu conhecimento”. 2. Sua conversão e chamada para o ministério. Um outro membro da sua classe, Eduardo Mayes, que posteriormente foi um juiz de direito e reitor da Universidade de Mississipi, escreve acerca da vida de Carlos B. Galloway como estudante: “No outono de 1866 ele se matriculou no 2º ano da Universidade de Mississipi, e tirou o seu diploma de Bacharel em Artes em junho de 1868, com a idade de dezoito anos, com distinção, ocupando o quinto lugar de uma classe grande e de capacidade excepcional. Havia na Universidade nesta época séries de conferências religiosas que concorreram para influir poderosamente sobre a vida religiosa de Carlos Galloway. O chanceler era o Dr. John N. Waddel, um distinto pregador presbiteriano. Os colégios denominacionais e religiosos naquele tempo não tinham sido organizados e diversos dos estudantes eram candidatos ao ministério, e foi entre tais alunos que Galloway formara a sua amizade. Em 1867 houve uma série de conferências religiosas promovida pelas denominações na cidade de Oxford, em que os professores e os alunos tomaram parte. Diversos alunos se converteram, entre os quais Carlos Galloway, que mais tarde fez sua profissão de fé na Igreja Metodista em Canton, sendo o Rev. C. G. Andrews, o pastor do cargo, e assim começou a sua longa e incansável vida piedosa, que foi o seu destino feliz.” “Ensinava na Escola Dominical; tomava parte ativa nos cultos de oração entre os alunos, que se realizavam nos domingos de tarde, e completou o seu curso com o firme propósito de seguir o ministério”. Sua esposa Haniett E. Willis, anos depois, assim narra esses mesmos fatos quando era noiva: “Meu marido se converteu num culto de oração promovido pelos estudantes, no quarto de Calvino Wells, que era um deles na Universidade de Mississipi. Logo depois foi a Canton e fez a sua profissão de fé na Igreja Metodista, de que seu amigo, o Dr. C. G. Andrews, era o pastor.” “Logo depois de se decidir a entrar para o ministério, ele escreveu pa mim comunicando a sua decisão. Fomos noivos desde a idade de treze e quatorze anos, porém não tinha sonhado em me casar com um pregador. Depois de passar uma noite chorando, cheguei à decisão de que não tenho arrependido de tê-lo tomado. Resolvi fazer tudo que fosse do meu alcance para garantir a sua vitória no ministério, para ser uma ajudadora e não um empecilho”.
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    Assim quando Carloscompletou os seus estudos tinha chegado a uma decisão quanto à sua vocação e estava pronto para entrar na sua carreira ministerial bem aparelhado para enfrentar as múltiplas dificuldades que tal carreira apresenta. Quando apareceu perante o grande auditório no dia da formatura da sua classe, era um homem esbelto, inteligente e disciplinado com preparo que garantia triunfo nos seus empreendimentos. Seus colegas e professores estavam convictos de que um futuro brilhante o aguardava. No dia da sua formatura um dos seus professores, o Sr. L. Q. C. Lamar, disse: “Carlos, outros como eu, estão contentes em saber que vai entrar no ministério, porque alguns entre nós gostariam de ser os representantes no Congresso deste distrito”. Queria dizer com estas palavras que tinha um disputante de menos para o lugar. Ele era um patriota fervoroso, porém, primeiro e acima de tudo, era um cristão e queria consagrar os seus dons ao santo ministério. Uma vez entrando no ministério não cogitaria de outra coisa senão cumprir fielmente a sua missão, consagrando todo o seu tempo, talento e dons ao seu Senhor e Salvador, Jesus Cristo. III – SEU TRABALHO NA ITINERÂNCIA Depois de completar o seu curso na Universidade, Carlos B. Galloway voltou em 1868, para sua casa, em Canton, onde foi licenciado como pregador local. Como tencionava entrar na itinerância, foi recomendado para admissão em experiência na Conferência Anual de Mississipi. Como faltava alguns meses para a reunião da Conferência Anual, aceitou um convite feito pelo Rev. L. C. Hunnicutt para ensinar no Colégio de Sharon. Seu primeiro sermão que pregou depois de ser licenciado foi pronunciado na cidade de Sharon. 1. Seu trabalho pastoral em Sharon. Quando a Conferência Anual se realizou em Vicksburg, em novembro de 1868, Carlos B. Galloway foi nomeado pastor ajudante do Sr. L. C. Hunnicutt, no cargo de Sharon e Colored Charge. O Dr. Hunnicutt era ainda o presidente do Sharon College. Competia ao jovem Galloway fazer quase todo o serviço pastoral. Aconteceu, porém, que um dos professores do Sharon College faleceu logo no princípio do ano, tendo assim que arcar com dois cargos : ensinava no colégio e pregava tanto aos negros e aos brancos nos dois cargos pastorais que ocupava, ou seja, em Sharon e Colored Charge. O ordenado durante o ano era de 2:400$000. Mas não se queixava, pois queria fazer a sua parte para enfrentar as dificuldades criadas pela terrível guerra civil. Em 1º de setembro de 1869 casou-se com Miss Haniett E. Willis, na cidade de Vixhburg. Seu casamento se deu no seu vigésimo aniversário de nascimento, voltando logo depois com a esposa para o seu campo de trabalho. É interessante ouvir o que um amigo escreve da primeira viagem que Haniett fez acompanhando o marido pelo campo de trabalho. “A jovem esposa”, diz ele, “não conhecendo a vida de um itinerante, tornou-se motivo de muito divertimento para o seu marido na primeira viag em que fizeram pelo circuito depois de seu casamento. Visitaram uma igreja na roça, num dia frio, e a igreja não estava bem aquecida, pois só havia um fogão (lareira) muito pequeno. O dia, um domingo de outubro, era um dia de ventos, e ela tremia de frio durante a hora do culto. Aceitaram um convite para jantar em casa de um crente novo, e indo para casa deste irmão, o hospedeiro, referindo-se ao estado espiritual da igreja, disse: “Irmão Galloway, a frieza em nossa igreja é uma coisa terrível”, a cuja obse rvação a noiva
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    respondeu antes mesmodo seu marido, dizendo: “Sim, notei que a igreja estava bastante fria hoje. Não julga o senhor que se tivesse mais um fogão ficaria mais quente?” 2. Seu trabalho pastoral no circuito de Black Hawk. A sessão da Conferência Anual de Mississipi realizou-se em Jackson, aos 8 de dezembro de 1860. Nessa ocasião Galloway foi ordenado diácono pelo Bispo H. M. McTyeire, e nomeado para o circuito de Black Hawk. Nos princípios de janeiro de 1870 ele e sua esposa foram para o seu novo campo de trabalho. Fazia frio quando chegaram e a viagem na carroça foi muito penosa. Mas foram bem recebidos pelo povo e foi durante este ano que a esposa se mostrou fiel ao trabalho do marido suportando todos os incômodos com paciência e resignação . Encontraram neste circuito amigos bons e fiéis, cujas amizades duraram toda a vida. O jovem pastor dedicou-se ao trabalho e tornou-se um pastor modelo. Sempre preparava bem os seus sermões e visitava de casa em casa, mostrando-se social e amigo do povo. Durante o ano um professor de uma escola florescente pediu a sua demissão e Galloway foi convidado a substituí-lo até o fim do ano escolar. No seu pastorado neste circuito se manifestaram três coisas que o caracterizaram dali em diante em todos os cargos pastorais que serviu, a saber: encanto social, fidelidade pastoral, e poder no púlpito. 3. Seu trabalho pastoral em outros cargos. Na ocasião da Conferência Anual que se realizou em Cristal Springs, em dezembro de 1870, Galloway foi nomeado para Port G ibson Station. Era uma grande promoção ser nomeado para uma grande estação antes de ser ordenado presbítero. Isto significava a capacidade que tinha e o dom pastoral que o qualificava. No ano seguinte foi nomeado para o cargo de South Warren, porém não ficou ali muito tempo, pois havia necessidade de suprir uma vaga e ele foi mandado para tomar conta do cargo de Yazoo City Station, onde tinha sido pastor o Dr. L. C. Hunnicutt, um homem de grande talento e muito querido pelo povo. O lugar era bastante difícil para um jovem pregador de vinte e dois anos de idade. Quando chegou para tomar conta da igreja, encontrou o povo bastante contrariado com a mudança e no primeiro domingo que passou com a nova igreja, um irmão idoso o cumprimentou e disse: “Meu caro jovem, não tenho nada pessoalmente contra o senhor; mas, se pudesse fazer a minha própria vontade neste negócio, trancaria a porta da igreja e o senhor não pregaria nela”. Carlos ficou muito humilhado ao ouvir estas palavras duras, porém respondeu sem mostrar-se ofendido, dizendo: “Bem, eu não quis vir para cá mais do que o senhor queria que eu viesse; mas julgo que teremos de suportar um ao outro do melhor modo possível”. Assim o Bispo Candler descreve o jovem pregador nesta situação: “Nestas circunstâncias veio o jovem pregador com vinte e dois anos de idade à Igreja de Yazoo City, do circuito de South Warren. Ele era quase um espécime perfeito de beleza varonil: alto, delgado, rosto liso, gracioso na forma e com olhos cintilantes como os de águia. Pela sua natureza genial, hábitos estudiosos, diligência conscienciosa e espírito devoto, em pouco tempo ganhou a confiança e o respeito, não somente do povo da igreja, mas também da comunidade toda, incluindo os membros de outras igrejas”. Quando findou o ano e estava na véspera de assistir à Conferência, o mesmo irmão idoso que lhe queria fechar as portas da igreja, veio falar-lhe dizendo: “Meu jovem irmão, vai agora assistir à Conferência. Mas o irmão voltará para cá. Nós queremos o irmão e vamos tê -lo. De fato, foi mandado para o mesmo cargo, e ficou ali até 1873.
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    Quando partiu, eraconsiderado um dos pregadores mais queridos que tinha servido àquela igreja. Pela humildade e bondade converteu a sua derrota em uma grande vitória. E que teria sido a sua experiência neste cargo se não tivesse agido como agiu? Em fins de 1873, foi mandado para Jackson, capital do Estado. Imagine um jovem com vinte e cinco anos de idade, ser mandado para um cargo de tanta responsabilidade! Mas ele ficou quatro anos ali e poderia ter ficado muito mais se a lei da igreja o tivesse permitido. Em 1877 foi nomeado para a cidade de Vichsburg. Não somente o povo e a sua igreja, mas também os crentes de outras igrejas, lamentaram a sua retirada. 4. Seu trabalho pastoral em Vichsburg. Carlos B. Galloway tomou posse da igreja em Vichsburg, oito dias depois da Conferência Anual. O nome da igreja era “the Cranford Street Metodist Church”. Era uma das melhores igrejas em toda a Conferência de Mississipi. A recepção de que foi alvo diferenciou-se muito daquela que lhe fora feita quando foi tomar conta da igreja em Yazoo City. Galloway já tinha dado provas de sua capacidade e habilidade de pastor e era conhecido em toda a Conferência como um homem de grande capacidade. Tomava parte nas diversas comissões na Conferência e as suas observações nas sessões da Conferência eram bem acolhidas. Isso tinha contribuído para aumentar sua popularidade, não somente nos limites da sua própria Conferência, mas também na igreja em geral. Quando, pois, chegou em Vichsburg, receberam-no de braços abertos. O povo não ficou desapontado com o seu novo pastor, pois as mesmas qualidades que tinha revelado em outros lugares também as manifestou na administração como pastor nesta igreja histórica. O seguinte incidente revela o espírito bondoso e cristão de Galloway. Um certo moço tinha participado de algumas diversões mundanas, e alguns membros zelosos do Crawford Church queriam que ele fosse processado. O pastor suavemente perguntou se alguém tinha procurado desviar o rapaz do caminho errado. Quando responderam que não, o irmão Galloway pediu que deixassem o caso nas suas mãos. No dia seguinte, logo depois do café, saiu a procurar o moço desviado. Indo à cidade e encontrando o referido moço, falou com ele diversas coisas, menos as coisas que desejava tratar. Antes de se separarem, o pastor casualmente disse: “L. não tenho visto o senhor na igreja desde que voltou”. O moço replicou secamente: “Não, Sr. Galloway, eu não tenho mais prazer em tais coisas”. O Sr. Galloway reconheceu que um argumento naquela hora não sortiria efeito; por isso, apertando-lhe a mão, despediu-se. No dia seguinte Galloway encontrou-se com o mesmo moço e andou com ele, e assim se deu no dia seguinte, que era quarta-feira. Desta vez, quando o pastor bondoso se despediu do rapaz, disse: “L. não temos tido bom cântico de hinos em nossa reunião de oração, e a razão é que o povo não tem hinários. Gostaria que o senhor nos ajudasse um pouco. O senhor poderia ir hoje, à noite, tomar os livros, e quando o povo vier entrando à igreja, irá dando um hinário a cada pessoa para que todos tenham livros?”. A resposta foi cordial: “Sim, senhor, se for um auxílio ao senhor, terei prazer em fazê-lo”. O jovem esteve presente naquela noite ao culto de oração e esforçou-se para que todos tivessem hinário. Depois do culto, na saída, pondo seu braço no pastor e, descendo a escada, exclamou: “Não estava o canto bom hoje à noite?” “Sim, deverás”, replicou o nosso futuro bispo, “e era porque os assistentes tinham hinário”. “Gostaria de vir na próxima quarta-feira e ajudar-me outra vez?” E L voltou novamente e desde daquela ocasião, não deixou de assistir aos cultos de oração, de pregação e da escola dominical até a sua morte, que se deu dois anos depois. Morreu como crist ão fervoroso e sincero. As pregações de Galloway eram apostólicas e os seus paroquianos recordavam anos depois os sermões dele, especialmente dois. Um sobre “A condenação dos iníquos” e um outro
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    sobre o “Galardãodos justos”. Não é de admirar que pelo seu modo de tratar o povo e de pregar as verdades eternas do Evangelho houvesse um despertamento espiritual na igreja. Muitos homens de maior destaque na sociedade foram convertidos durante o seu pastorado. Ele fez em Vichsburg o que tinha feito em Jackson em prol da temperança, pois foi um dos maiores propagandistas do movimento de temperança no seu Estado. O seu modo de propagar as suas idéias sobre este assunto era tão nobre e digno que conquistou o apoio dos homens de maior influência na política. Durante o primeiro ano em Vichsburg houve uma epidemia de febre amarela. O modo de combatê-la não era conhecido naquela época. O povo estava em pânico e muitos dos seus amigos o aconselharam a que deixasse a cidade, porém ele se recusou a fugir, preferindo ficar interessando-se pelos doentes. Mandou os seus filhos mais velhos para fora da cidade, mas ele e a esposa e o filhinho ficaram. Pouco depois ele e a esposa tiveram a febre amarela. Ficaram muito mal, a ponto de julgarem que Carlos estava moribundo, mas logo melhorou e ele e a esposa ficaram bons. A sua fidelidade ao seu rebanho e ao seu povo num momento de grande angústia e medo concorreu para aumentar a sua popularidade em Vichsburg, e ele ficou ali até completar os quatro anos. Amava as pessoas e em especial os pobres. Foi durante esta época que travou relações com alguns homens cuja amizade sempre firme durou até ao fim de sua vida. Passados os quatro anos de pastorado em Vichsburg, foi nomeado outra vez para Jackson. 5. Seu trabalho em Jackson. Dizem que é bastante arriscado para um pastor servir o mesmo cargo duas vezes e dar a mesma satisfação. Quando deixou a cidade de Jackson depois do seu primeiro pastorado o povo lamentou a sua saída. Quando foi nomeado de novo para o mesmo cargo, o povo mostrou-se contentíssimo. Seria ele tão bem sucedido desta vez como na primeira? Alguns pastores não têm sido felizes em tais circunstâncias. Ele, porém soube conservar o seu prestígio entre o povo, não pelos subterfúgios, mas pela sinceridade, simplicidade e capacidade. Ele podia corresponder à expectativa do povo. O Bispo Candler, comentando este fato, diz: “A sua coragem e consagração, manifestadas pelo seu serviço de mártir em Vichsburg, levaram o povo de Jackson a amá-lo ainda mais devotamente e estimá-lo mais altamente do que nunca. E pela experiência heróica que passou com a epidemia e pobreza, foi enriquecido em sabedoria e poder varonil.” “Durante os quatro anos em Vichsburg não gastou o seu tempo fazendo plano de como poderia voltar para Jackson. Par a tais métodos ele tinha o maior desdém e freqüentemente exprimia sua condenação. Não era um daqueles que, depois de um longo pastorado, voltam ao cargo antigo para embaraçar o seu sucessor. Nem foi nomeado para Jackson a segunda vez devido à influência que tivesse conquistado pelas concessões ao seu mundanismo e compromissos aos seus pecados. Nunca houve um pastor mais fiel e corajoso nas suas pregações e nos seus trabalhos pastorais.” ”Por exemplo, desde o mês de maio de 1874, durante o seu primeiro pastorado em Jackson, capital do Estado, pregou um sermão sobre a temperança que era caracterizado pela advocacia de abstenção completa da parte de todos os argumentos fortes pela proibição de álcool pela lei. Isto foi feito com tanta convicção e poder que os cidadãos mais eminentes da cidade permitiram que repetisse o mesmo discurso, e ele consentiu nisto; assim ganhou muitos adeptos à causa da temperança numa época em que não era popular falar em tal assunto, especialmente nas cidades e capitais”.
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    Galloway foi nomeadopara Jackson porque o cargo era importante e a Igreja precisava ali de um homem competente para o lugar. Quando voltou para Jackson encontrou no rol da igreja dezoito nomes menos do que havia quatro anos antes. Custou para retardar esta corrente desfavorável ao aumento de número na igreja. Em 1877 Carlos B. Galloway foi eleito delegado suplente à Conferência Geral para representar a Conferência Anual do Mississipi, e em 1881 foi eleito delegado titular. 6. Redator do “New Orleans Cristian Advocate”; Além do seu trabalho pastoral foi nomeado redator do “The New Orleans Cristian Advocate”, órgão oficial de três Conferências Anuais, a saber: North Mississipi, Mississipi e Louisiana. Seu tempo estava repartido entre o seu trabalho pastoral e a r edação do jornal. Para ter mais tempo para o trabalho no jornal, foi nomeado para o cargo de Brochven, que era uma igreja menor e mais perto da cidade de Nova Orleans, onde era publicado o “New Orleans Cristian Advocate”. O professor R. F. Richet descreve o trabalho de Galloway nesta época. É uma narração dos quatro anos desta dupla vida como pastor e redator, nos trabalhos e viagens durante a semana, parece uma história romântica. “Começava com dois sermões no domingo, e, além disso, assistia à escola dominical de manhã, e, de quando em quando, pregava de tarde numa missão. Na segunda-feira de manhã, cedo, achava-se no escritório do “Cristian Advocate” em Nova Orleans, onde trabalhava dois dias preparando os manuscritos para a publicação do jornal; na qu arta-feira de tarde achava-se em Broobharen para dirigir o culto de oração. De quarta-feira até domingo ocupava-se em visitas pastorais e ir a cerca de dez léguas distantes fazer um discurso em prol de qualquer empreendimento da igreja. Além de tudo isso, arcava com a responsabilidade da supervisão do movimento de temperança no seu Estado que lhe pesava sobre os ombros. Ali temos uma idéia de sua vida trabalhosa.” “Manual da Proibição” e a “Vida do Bispo Linns Parker” foram escritos nos intervalos de tempo que se poderiam achar nesse período de tantas e tão grandes atividades, ratificando mais uma vez o ditado: “Aquele que anda muito ocupado acha tempo para fazer uma importante obra enquanto aquele que tem bastantes horas vagas, nada faz”. Galloway fazia a sua tarefa sem negligenciar o seu lar ou a sua vida social. Tinha prazer em seu trabalho e fazia-o com tanta satisfação que ninguém o julgava sobrecarregado de serviço. Correspondia ao ideal descrito pelo Sr. Lavater: “Somente é grande aquele que tem o h ábito da grandeza, que depois de ter feito o que dez mil não poderiam fazer, continua no seu caminho como Sansão, e não conta o que tem feito nem a seus pais”. Como redator do “Cristian Advocate” era considerado competente. Seus próprios colegas de ministério o elogiavam e seus artigos eram comentados nos jornais em toda a parte do país. Tinha um estilo claro, e cativante. Escrevia sobre diversos assuntos – sobre religião, viagens, política, a igreja e os assuntos patrióticos. Ele era tão apreciado pelos seus candidatos concidadãos que alguns o convidavam para se candidatar ao Senado Federal. Ele, porém, tinha lançado a mão no arado e não queria olhar para trás. Continuou na redação do “New Orleans Cristian Advocate” até ser eleito Bispo em maio de 1886, aos 36 anos de idade. É notável que nunca houvesse ocupado o cargo de presbítero presidente antes de ser eleito bispo.
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    IV – SEUTRABALHO COMO BISPO Carlos B. Galloway era um homem modesto e nunca procurava ostentar-se. Na ocasião da Conferência Geral, quando foi eleito ao bispado, deu-se um incidente que revelou a sua modéstia e abnegação. A delegação da sua própria Conferência tinha o direito de um representante na Comissão de Episcopado, uma das comissões mais importantes, e Galloway tinha o direito de fazer parte desta comissão; porém, ele cedeu o seu lugar ao Sr. Jackson, escolhendo então a Comissão de Missões. 1. Eleito Bispo. Na ocasião da Conferência Geral, que se realizou na cidade de Richmond, na Virgínia, em maio de 1886, foram eleitos quatro bispos. Na primeira votação ninguém foi eleito, porém Galloway recebeu o maior número de votos; na segunda votação, três foram eleitos e, entre esses, Galloway ficou em segundo lugar quanto ao número de votos. E é de notar-se que Galloway não tinha ainda trinta e sete anos de idade, era o bispo mais moço que jamais fora eleito entre os americanos. Sua eleição ao bispado trouxe satisfação no seio da igreja. Ele chegou a ocupar este lugar pelos méritos e dons pessoais e naturais que possuía e não pela proteção e política. 2. Seu trabalho durante o primeiro quatriênio. Logo depois de a Conferência Geral encerrar sua obra, o Bispo Galloway voltou para sua casa em Broobhavem, no Mississipi, e começou imediatamente a por os seus negócios em ordem para tomar conta do seu distrito episcopal que abrangia as seguintes Conferências: a missão aos índios, North Texas, Litlle Roch, Arpansos e White River. Iniciou o seu trabalho episcopal entre os índios. Realizou a Conferência da Missão aos índios em Outubro de 1866, sendo sempre muito bem sucedido na direção deste trabalho. Mostrou, desde o princípio, a sua competência em presidir, e nesse sentido um dos seus principais membros dá a sua impressão: “O Bispo Galloway, pensamos, é um dos maiores homens do Metodismo do Sul. Nossos pregadores ficaram encantados com ele. Presidiu com dignidade e habilidade. Seus sermões eram fortes e cheios das verdades evangélicas”. Depois de realizar a Conferência da missão aos índios foi para presidir a Conferência do North Texas. Galloway era um bispo novo, dali todos estarem na expectativa, a ver se de fato tinha ou não dons para o ofício de bispo. O redator do “The Texas Cristian Advocate” assim descreve o que se passou nesta ocasião: “Todos estavam em ansiosa expectativa, mas logo se acomodaram, convencidos de que o bispo sabia o que queria fazer. Tinha uma aparência agradável, um procedimento digno, uma paciência atrativa e um sorriso que conquistava imediatamente. Como oficial presidente, era quieto, senhor de si, alerta, e, pronto, e, quando necessário, firme. Levantava-se quando punha as propostas em votação. Não gritava à Conferência, nunca o fez. Conservava a ordem sem se esforçar e evitava o excesso de ordem que às vezes mais atrapalhava do que facilitava os negócios (as reuniões). Durante uma das sessões um irmão observador curvou-se e cochichou ao escritor: “Ele não descobriu ainda que é Bispo, e é de esperar que ele nunca o descubra!” O sermão dele, pregado no domingo, tocou o coração de todos e produziu frutos pelos tempos adiante. Seu discurso dirigido à classe admitida em plena conexão foi curto, mas sincero, judicioso e poderoso; suas admoestações acerca da consagração pessoal, trabalho pessoal em ganhar almas, o valor do dinheiro e a relação dos pastores para com sua Co nferência e a atitude dos pregadores aos seus predecessores, não serão esquecidos jamais. O seu uso do ritual na ordenação foi muito reverente e expressivo. As poucas palavras proferidas antes de ler as
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    nomeações, fez quese enchessem de lágrimas todos os olhos e calasse no coração que “este homem era providencialmente chamado para o ofício e a obra de bispo na igreja de Deus”. A impressão que fazia sobre todas as Conferências no seu distrito era ótima, e os pastores o amavam e respeitavam como um homem chamado e talhado por Deus para a obra de Bispo. Assim, durante os vinte e três anos que serviu como bispo, manteve o mesmo prestígio dos seus irmãos. No correr deste período ele presidiu cento e doze sessões de Conferências Anuais, não mencionando as sessõ es que presidia, na ausência ou por causa de doença dos seus colegas em ofício. 3. Trabalho entre os índios. O Bispo Galloway tinha muito interesse pelos índios e era com prazer que os visitava. Para conhecer melhor os seus problemas assistiu-lhes um concílio (reunião, assembléia, encontro) composto de diversas tribos. O discurso que fez aos índios, nessa ocasião, foi bem, interessante e cristão. Tinha o espírito missionário. Antes de falecer, conseguiu visitar todos os campos missionários da Igreja Metodista Episcopal do Sul dos EUA, a saber, China, Japão, Coréia, México e Brasil. As missões na Europa e na África ainda não tinham sido organizadas. 4. Visitas aos campos missionários e estrangeiros. a) México: De 21 a 26 de Novembro de 1888 ele presidiu a Conferência Central do México, na cidade de San Luis Potosi. Alguns dias antes da Conferência visitou a bela cidade do México e presidiu a uma Conferência Distrital. Ficou muito impressionado com a beleza da catedral católica da cidade do México, passando mais de duas horas naquela igreja apreciando a sua arquitetura. Mas não gostou da maneira por que o povo prestava culto a Deus. Para ele parecia mais idolatria e supertição do que verdadeiro culto a Deus, que deve ser em espírito e em verdade. A respeito da sua presidência e administração nessa Conferência Central, o Dr. G. B. Winton escreveu ao “Christian Advocate” a seguinte nota: “A sessão da Conferência se caracterizou por duas ou três coisas importantes: Primeiro, a inauguração definitiva de um Seminário é uma coisa de máxima importância. Foi decidido que este seminário fosse estabelecido na cidade de San Luis Potosi, ponto central para as duas Conferências, procurando a cooperação da Border Conferência em fazer que esta escola fosse uma honra e glória para a Igreja e para o México. Segundo, foi um acontecimento especial nesta Conferência, de interesse tanto pessoal como histórico, foi a apresentação ao Bispo Keener, por meio do Bispo Galloway, do pacto pelo qual a primeira associação evangélica ficou organizada na Republica do México em novembro de 1885. A apresentação foi feita pelo Rev. Sóstenes Juarez, o veterano da Conferência, que dirigiu o culto da sociedade. E por fim, o terceiro fato de importância foi o batismo do Espírito Santo que se deu na ocasião dos cultos realizados no domingo. Isto sobrepujou a qualquer outra coisa que a Conferência tinha experimentado antes, e foi motivo de uma satisfação profunda para todos nós. Na ocasião do ágape manifestou-se o antigo poder da santa unção, o Bispo pregou com demonstração do mesmo poder, e isto passou igualmente ao intérprete que traduzia do inglês para o espanhol, que, com olhos em lágrimas e a voz trêmula e magnética, com as mesmas verdades a transferiu à língua do povo. Algumas das experiências que se deram no culto de manhã podem ser classificadas como especiais e maravilhosas e seriam de grande interesse se as pudéssemos transmitir aos leitores do
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    “Christian Advocate”. Ospregadores se consagraram de novo a Deus e resolveram buscar o pod er do Espírito Santo para o serviço da evangelização e salvação de almas. A Conferência para manifestar a sua gratidão para com a bondade de Deus no derramamento do Espírito Santo, lançou na ata um voto de louvor a Deus. Os negócios da Conferência foram realizados em paz e com satisfação. O Bispo Galloway era paciente e cuidadoso, e, melhor ainda, profundamente interessado. Ganhou os corações de todos. Assim, durante os quatro anos de sua supervisão e administração episcopal no México, manteve a confiança, o respeito e a cooperação de todos. b) O Brasil: O Bispo Galloway foi nomeado para visitar o Brasil e realizar a Conferência de 1897, no Rio de Janeiro, em 29 de junho. Logo depois da guerra civil nos Estados Unidos, que terminou em 1865, alguns americanos dos estados do Sul, não querendo submeter-se às condições estabelecidas pelo governo americano, resolveram emigrar para o Brasil e fundar aqui uma colônia. Diversas famílias vieram e a maioria delas se estabeleceu no Estado de São Paulo, na zona conhecida hoje pelo nome de “Vila Americana”. No meio destes imigrantes havia algumas famílias metodistas e um pregador metodista, o R ev. J. E. Newman. Ele se interessava pelo bem estar espiritual dos seus patrícios norte-americanos e pregava-lhes o Evangelho. Foi por meio dele e a pedido dele que a Junta de Missões resolveu mandar missionários para o Brasil, não somente para cuidar dos americanos, mas também para evangelizar os brasileiros. O primeiro mission ário mandado nesta época foi o Rev. J. J. Ransom, que ficou cinco anos estudando a língua portuguesa e as condições sociais e religiosas, e pregando o Evangelho. Depois de cinco anos voltou aos Estados Unidos em gozo de férias e lá visitou as igrejas e Conferências, falando sobre o trabalho no Brasil. Quando voltou em 1881, trouxe alguns novos missionários, a saber: J. W. Koger, J. L. Kennedy e Miss Martha Watts. Assim o trabalho Metodista se firmou no Brasil. Na viagem do Bispo Galloway para aqui, depois de passar o Equador e achar-se na terra do Cruzeiro do Sul, assim externa os seus pensamentos numa carta que escreveu: “Há poucos dias, enquanto estava assentado no convés e admirando o esplendor do mar prateado, sobre o qual a lua, num céu límpido, derramava um dilúvio de glória, fui guiado a refletir sobre a primeira viagem missionária dos metodistas, feita por estas águas tropicais, em caminho para o “continente negligenciado” do Sul. Faz agora sessenta e dois anos, e o aventureiro viajante era o Rev. Fontain E. Pitts, de Tennesse, um doce cantor e um grande pregador. Ele foi para observar a terra e trazer o seu relatório. Quanta mudança desde que aquele apóstolo, sozinho, andava pelo convés de seu pequeno navio pensando se seria permitido por o seu pé em terra do país que ia visitar. Esperava protestos e perseguições. Nós estávamos esperando saudações e boas vindas de irmãos. Desembarcando em 1835, o Rev. Pitts passou um ano a explorar o campo e organizar algumas pequenas sociedades compostas de pessoas religiosas no Rio de Janeiro, e voltou para os Estados Unidos em 1836. Da resposta fraca que a Igreja deu para atender ao seu apelo, e, em seguida, da longa negligência, não falarei. Acaso não estão escritas nas crônicas do indiferentismo e pouca fé?” Depois de acontecida a Conferência o Dr. J. M. Lander escreveu ao “Christian Advocate”, as seguintes informações: “O Bispo Galloway apareceu entre nós pela primeira vez e dirigiu os negócios (reuniões) da Conferência como se soubesse o português. Ganhou a nossa mais alta consideração e respeito pela sua cortesia e paciência, sua sabedoria e eloqüência. Houve só uma queixa contra ele; não falava tanto como nós os brasileiros. No domingo de manhã ordenou dois nacionais como diáconos e pregou um magnífico sermão sobre o profeta Jeremias. No culto da noite pregou com interprete à Congregação portuguesa, e ordenou cinco presbíteros”.
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    No relatório queo Bispo mandou para a Junta de Missões, disse ele: “Nossa Conferência encerrou-se, e eu vou esta manhã para o interior. Tivemos uma sessão muito agradável no sentido do sustento próprio e aumento de espiritualidade da Igreja”. O Bispo Galloway tomou tempo para visitar os diversos centros do trabalho no Brasil. Visitou os seguintes lugares: São Paulo, Ribeirão Preto, Piracicaba, Santa Bárbara, Barra Mansa, Petrópolis, Juiz de Fora e Barbacena. Em todos estes lugares ele pregou e mostrou o seu interesse pelo desenvolvimento do trabalho. A sua visita à Barra Mansa era considerada mais significativa, pois foi a ocasião em que se lançou a pedra fundamental de uma nova igreja naquela localidade. Numa carta descreve a sua experiência nesta visita. Ele foi em companhia dos senhores J. W. Wolling, J. L. Kennedy, E. A. Tilly e Cardoso Fonseca, num trem especial do Rio de Janeiro para Barra Mansa e dali até ao “Sertão” em carros de bois. Havia trezentas pessoas presentes naquele lindo dia, de céu límpido e azul. Uma das coisas que impressionaram o Bispo foram dois discursos proferidos nesta ocasião por pessoas que não eram crentes, porém homens liberais e generosos nos seus sentimentos. Sobre este ponto são estas as suas expressões: “Quando as cerimoniais formais foram realizadas, tivemos dois discursos de saudações por amigos visitantes, um era um fazendeiro de café que morava perto, e o outro era um jovem advogado que morava em Barra Mansa. Ainda que não fossem membros professos da Igreja Cristã, eles se congratularam como brasileiros por um dia, em frases vigorosas, o presente dia de liberdade pessoal e religiosa com os tempos passados de escravidão social e espiritual. Deram graças a Deus porque o dia de tirania sacerdotal já tinha passado, e agora podiam saudar o esplendor de uma nova e grande esperança para o Brasil. Confesso que aqueles discursos me comoveram profundamente. O mero fato de tais discursos serem proferidos tinha grande significação para mim. Estes discursos eram a voz de um Brasil emancipado, pedindo auxílio imediato nesta hora de transição e perigo. Oh como eu gostaria que o tom daquelas vozes caísse com ênfase divina nos ouvidos dos nossos 6.000 pregadores itinerantes em minha terra”. Terminando o programa do dia no lugar chamado Sertão, voltaram para Barra Mansa e no dia seguinte o Bispo escreveu a sua impressão desta visita com as seguintes palavras: “Assim terminou um dia notável na história do nosso Israel na América do Sul, e em certo sentido foi um dos dias mais notáveis que tenho experimentado na minha vida. Esta noite tive visões e sonhos de maiores triunfos para os anos vindouros. Ganhar o Brasil para Cristo significa a conquista da América do Sul. Em nome de Jeová, erguemos nosso estandarte e conquistemos para nosso Senhor um continente por muito tempo negligenciado”. Depois de visitar muitos centros de trabalho no país, voltou para os Estados Unidos, onde logo em seguida realizou cinco Conferências Anuais. Sua viagem ao Brasil foi a última no campo missionário da América Latina. c) Japão: Em 1894 o Bispo Galloway foi nomeado para visitar os campos missionários orientais e fazer uma volta pelo mundo a fim de estudar os problemas religiosos. Nas cartas publicadas no “Christian Advocate”, contou as suas impressões e experiências desta viagem, publicando-as depois num livro. Estas cartas foram muito apreciadas pelas igrejas. Lendo estas epístolas podemos apreciar o espírito, a capacidade e a obra do autor. Seu ditado: “Como alguém é, assim se vê”, verifica-se nesta sua obra. O primeiro campo visitado no Oriente foi o Japão. Chegando em Yokhama em 29 de junho, passou alguns dias visitando diversos pontos de propaganda (pontos de pregação) antes da sessão da Conferência que se realizou em 9 de agosto de 1894, na cidade de Kobe, na capela do
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    nosso colégio Kwansei-Gahuin.Ele descreve a sessão da Conferência como de paz, amor e satisfação. Terminada a Conferência, ficou ainda no Japão quase dois meses, interessando-se entusiasticamente pelo trabalho. O espaço não permite citar as suas observações acerca da causa do Mestre no Japão além de afirmar que ficou, mais convencido do que nunca, de que o único remédio para os males da humanidade é o Evangelho de Jesus Cristo. Em 12 de setembro ele escreve: “Hoje vou embarcar no navio “Empress of Japon” para a China, levando comigo muitas lembranças agradáveis das semanas deliciosas que passei na “Terra do Sol Nascente”. Minha fé na redenção deste país tem aumentado de modo admirável e diariamente. As forças contrárias são fortes, resolutas, porém Nosso Senhor está marchando firmemente na conquista dele. Apressemos essa hora gloriosa”. d) China: O Bispo Galloway chegou na China depois de dois dias de viagem e foi recebido cordialmente pelos missionários. Passou seis semanas na China visitando as igrejas e colégios, não somente os nossos, mas também os centros de propaganda das outras igrejas evangélicas. O dia em que ele chegou foi um domingo durante o qual pregou no salão da Maçonaria. Os outros dias da semana foram tomados em visitas aos centros de interesses, tais como escolas, colégios, igrejas, hospitais e circuitos. Procurou conhecer bem os trabalhos feitos pelas forças evangélicas na China. O Dr. Young J. Allen, um dos missionários que tinha mais influência na China que qualquer outro da nossa igreja, o acompanhou nalgumas viagens que fez no país. Uma das coisas que ele muito lamentou foi o uso de ópio na China, coisa que esse país não inventou nem procurou, mas lhe foi imposta, e isto, por uma nação considerada cristã. Também a densidade da população o impressionou, especialmente sabendo que havia milhares e milhares de pessoas que não tinham ainda sentido a influência do cristianismo. Visitando uma cidade, ele exclamou: “Eis aqui uma cidade de trezentos mil habitantes que ainda não ouviu o Evangelho”. A questão que os crentes devem considerar, quando meditarem sobre tais condições, não é o que Deus vai fazer com esta gente que não sabe nada do cristianismo, mas antes o que Deus vai fazer conosco que temos o Evangelho e que não o temos levado aos nossos semelhantes que não o têm. Não devemos lançar a responsabilidade dessa gente sobre Deus, mas sobre nós mesmos que não temos levado a cabo a comissão de Cristo. “Ide pois e fazei discípulos de todas as nações”, é a ordem de Jesus para nós, a sua Igreja. O Bispo Galloway tinha fé no poder transformador do Evangelho e depois de visitar os diversos grupos de crentes das diversas denominações, fez a seguint e observação: “Quando a China tomar o seu lugar entre as nações cristãs, do mundo, os anjos se prontificarão a cantar o coro de aleluia. E aquele dia glorioso está se aproximando, aproximando-se não com a rapidez do anjo de seis asas que o profeta Isaias viu na sua visão, mas com os passos firmes e irresistíveis do amor infinito e os propósitos de um Deus poderoso em salvar”. e) Completando a volta pelo mundo: Tendo completado as suas visitas episcopais aos campos missionários de nossa igreja no Oriente, o Bispo Galloway queria completar a volta pelo mundo, regressando para os Estados Unidos após visitar alguns lugares na Ásia, África e Europa. O motivo principal que o levou a fazer isto foi “inspecionar a obra das missões cristãs em outras partes do mundo”.
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    Levou quatro mesespara completar a sua viagem, começando em 27 de outubro de 1894 e chegando em Nova York em 28 de fevereiro de 1895. Durante este período visitou os seguintes lugares: - Hong-kong, Saigon e Cholon, Singapura, na China; - Colombo e Candy, em Ceilão; - Tuticurim, Madusa, Trichinopoly, Tanjore, Madras, Calcutá, Beanares, Lucknow, Cawpore, Agra, Deli, Jaipus, Bombay, Hurachee, na Índia; - Suez, Cairo e Alexandria, no Egito; - Jope, Jerusalém, Betania, Hebron, Bethlem, Jericó, Shechem, El Birch, Ramallah, Bethel, Shilon, Nalibus, Samaria, Dothan, Nazareth, Tiberias, Cana e Haifa, na Palestina; - Beirute, na Síria; - Messina e Esmirna, na Ásia Menor; - Atenas, na Grécia; - Nápoles e Roma, na Itália. De Roma seguiu para Londres, passando por diversas cidades européias. Ficou muito impressionado com a sua visita à Palestina. A sua fé tornou -se mais confirmada nos fatos históricos do cristianismo. O que ele viu concorreu para confirmá-lo mais e mais no poder transformador do Evangelho de Cristo. O Bispo Galloway dava muita importância à educação, mas nem por um minuto queria ele substituir o Evangelho pela educação. Em Calcutá viu milhares de jovens bem educados, mas não eram cristãos, e sobre o fato fez a seguinte observação: “Moços instruídos, mas não cristãos; não são mais idólatras, pois foram educados e estão livres da superstição dos seus pais, mas ainda estão longe da verdade que liberta a alma do erro. Que este problema não caia sobre a consciência do missionário”. É realmente esta classe de gente que o D r. E. Stanley Jones e outros missionários da Índia estão procurando evangelizar, hoje em dia. Numa carta que escreveu na cidade de Deli, na Índia, o Bispo Galloway disse: “Não devemos confundir a civilização chamada cristã com o verdadeiro cristianismo”. Há realmente um verdadeiro cristianismo que é revelado na pessoa histórica de Cristo. Depois de passar oito meses fora do seu país, terminou a série das suas cartas com o seguinte parágrafo: “Sou muito grato pelo cuidado de uma providência divina que me tem protegido de perigos e da morte durante uma longa viagem por mais de trinta mil milhas por terra e por mar. Volto do meu circuito pelo globo com a fé mais forte no sempre vitorioso Evangelho, com maiores esperanças pela ext ensão do Reino do Senhor em todo mundo, com uma apreciação mais alta dos missionários que têm consagrado a sua vida pela evolução das nações, e com um amor maior pelos crentes de todas as seitas (denominações) e credos. Aprouve a Deus apressar o dia glorioso em que nós seremos um como Ele e o Pai são um”. f) A segunda e terceira visitas ao Oriente: Em 1902 o Bispo Galloway foi mais uma vez nomeado para visitar as missões no Oriente. E pouco tempo antes de embarcar para o Oriente, faleceu-lhe o filho inválido que tinha passado alguns anos de cama, o que causou grande tristeza a ele e à sua esposa Miss Haniett, pois os anos passados em cuidá-lo aumentaram-lhes o amor. Em 28 de junho, na cidade de Vancouver, poucas horas antes de embarcar no navio “Empress of Índia”, ele escreveu: “Desta vez não vou sozinho. Vai comigo minha esposa, Miss Haniett. A mulher corajosa que tem ficado “com a bagagem” durante estes trinta e três anos, enquanto eu tenho dado batalha contra o mal, será a minha companheira de viagem. Nossa partida de casa, conquanto cheia de antecipações agradáveis, não deixou de ser cheia de tristeza. Numa cova nova colocamos um amor que aumentou em doçura durante os anos de dependência e
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    de sofrimentos soba nossa vigilância constante, e já nos causa dor e saudades o separarmo-nos, numa distância de oito mil milhas, de nosso tesouro tão sagrado. Em pensamento, quando não com as nossas mãos, levaremos todos os dias flores frescas e as colocaremos no lugar de descanso do dócil anjinho, e contemplaremos a luz daqueles olhos castanhos e bonitos que se fecharam para sempre neste mundo”. Nestas palavras descobrimos as aflições ternas de um pai amoroso. O espaço não permite dar um resumo do seu trabalho nesta visita. Mas é certo que o Bispo Galloway ficou muito impressionado com as mudanças que se deram durante os oito anos passados desde que fizera esse circuito e visitara nossas Missões e nossos missionários. Notou que o povo oriental estava acordando da letargia dos sonhos e estava adotando os costumes dos povos ocidentais, especialmente os métodos comerciais e arquitetônicos. Em 1904, dois anos depois da sua segunda viagem ao Oriente e dez anos após a sua primeira viagem, o Bispo Galloway foi indicado para visitar os campos missionários no Oriente pela terceira vez. Essa visita foi muito breve, pois a guerra entre o Japão e a Rússia perturbava tanto o povo que não era possível fazer muita coisa. Ele voltou para sua pátria e fez entre as igrejas, uma campanha em prol do trabalho no Oriente. Esta foi a última vez que foi nomeado para visitar os campos missionários. 5. Seu espírito liberal e os seus serviços ecumênicos. O Bispo Carlos B. Galloway amava imensamente o seu Estado natal, mas nem por isso deixava de apreciar os outros Estados do seu país e outras nações e povos. Tinha um espírito humanitário e liberal. O fato de ter trabalhado com tanto interesse em prol dos índios e dos campos missionários é prova de que era generoso para com os outros. A época que logo se seguiu à guerra civil, foi um períod o de reconstrução e reconciliação, e para ambas as coisas sempre se mostrou propenso. A manifestação de sua magnanimidade de espírito se manifestou em diversas visitas fraternais e ecumênicas, para que foi nomeado pelas autoridades de sua igreja. Somente mencionaremos algumas das visitas dessa natureza que fez durante alguns anos de sua atividade pública. Além de visitar todos os campos missionários da nossa Igreja, que existiam na sua época, foi nomeado pela Conferência Geral em 1886 (a Conferência que o elegeu Bispo) como delegado fraternal à Conferência Geral da Igreja Metodista do Canadá. Em 1891 foi como delegado à Segunda Conferência Ecumênica do Metodismo, que se realizou na cidade de Washington D. C. em outubro. Nessa ocasião fez um discurso sobre “o estado atual do Metodismo na sua segunda seção” (leia-se, nos Estados do Sul dos EUA), em que historiou os fatos concernentes ao Metodismo no sul dos Estados Unidos. Em 1892, o ano seguinte, foi nomeado delegado fraternal à Conferência Britânica Wesley ana que se realizou na cidade de Bradford, Inglaterra. Em 1894, na volta que fez pelo mundo, visitou muitos centros, não somente da Igreja Metodista Episcopal, porém de outras denominações. De 4 a 17 de setembro de 1910 esteve como delegado na terceira Conferência Ecumênica do Metodismo, que se realizou na capela de Wesley City Road, em Londres, fazendo o sermão de abertura. O assunto sobre que falou foi: “A nova afirmação das coisas fundamentais do Metodismo” (A. Timely Restallment of the Metodist Fundamentals), baseando-se em I João 1:3 e Atos 4:20. Em 26 de fevereiro de 1894 foi convidado para fazer um discurso sobre “A ética ministerial” perante a escola de Teologia da Universidade de Boston. Seria por demais fastidioso citar todos os lugares onde foi convidado a fazer discursos em ocasiões especiais, pois constantemente recebia convites para falar sobre diversos assuntos em ocasiões especiais. Foram numerosas as vezes que ele falou sobre a temperança, causa pela qual pugnava com toda a energia de sua alma.
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    V – SEUTRABALHO COMO CIDADÃO E PATRIOTA O fato de o Bispo Galloway possuir alma cosmopolita não significava que não tivesse interesse pelo seu próprio Estado e povo. Em questões civis, literárias, educacionais, ele se mostrou interessado e usava a sua voz e pena em promovê-las entre o povo do seu querido Mississipi. Com os homens de maior influência no seu Estado ele tinha intimidade e influência. Sempre pugnava pelas leis que garantiam a observância do Dia do Senhor, a educação da mocidade, a proibição e fabricação e venda de bebidas alcoólicas. Tinha prazer em ajudar ao povo negro que vivia segregado e confinado como se fossem cidadãos e cristãos de segunda classe, sem seus direitos civis. Pregava-lhes muitas vezes nas suas próprias igrejas e os aconselhava sobre coisas que lhes eram de grande interesse. Não devemos pensar que pudesse ter feito isso sem provocar oposição. Tinha que defender os princípios que advogava, porém merece notar-se que em todas as suas discussões e polêmicas com os seus concidadãos e opositores nunca se esqueceu de que, primeiro em tudo, ele era um homem cristão. A discussão sobre a temperança que teve, por exemplo, com o Sr. Jefferson Davis, expresidente dos Estados Confederados (homem muito honrado e prestigiado não somente pelo povo de Mississipi, mas também pelo povo de todos os Estados do sul do país ) é um modelo para todos os homens que têm a franqueza de pugnar pelas suas convicções. A linguagem delicada e franca, o espírito de sinceridade substanciado sobre fatos comprovados, o respeito e consideração pelo adversário e, acima de tudo, o amor pela verdade e não amor próprio que às vezes ignora os fatos para fazer prevalecer a vaidade pessoal, tudo isso se manifestou na longa discussão que teve com este dignitário do Estado. Tão bem foram apresentados os seus argumentos que no correr do tempo, o povo o teve como vencedor na discussão. A regra áurea era o padrão que usava em todas as discussões e polêmicas. VI – SEUS ÚLTIMOS DIAS E A MORTE Na ocasião da Conferência Geral que se realizou na cidade Irminghan, no Alabama, em maio de 1906, o Bispo Galloway foi designado para escrever e apresentar o discurso dos Bispos àquela Conferência. Este serviço foi feito com esmero, que revela a sua capacidade e vigor usuais . Mas antes de findar a Conferência caiu doente. Uma melhora de sua saúde permitiu que aceitasse a sua parte no serviço junto com os outros bispos. Mas o seu estado de saúde era bem precário. Era ele o presidente da Junta de Educação da Igreja e queria assistir à reunião anual dessa junta que se realizou em abril de 1909, mas, a conselho médico desistiu de participar. No primeiros dias de maio desse 1909 teimou em ouvir o sermão da Junta de Missões que se realizara na cidade de Nashville. Mas no dia 5 de maio caiu doente e teve que voltar para o seu lar, em Jackson, no Mississipi, onde chegou no dia 7 de maio, indo para a cama. No dia 10 foi acometido de pneumonia e no dia 12 faleceu, às 5 horas da tarde, no seio da sua família, rodeado da sua esposa, Miss Haniett, dos filhos e de amigos. O enterro realizou-se no dia 13 de maio. Nunca houve na cidade de Jackson um enterro tão bem acompanhado como este. Todos os departamentos públicos se fecharam, como as casas comerciais. O Sr. Frederick Sullus, redator de um jornal em Jackson, publicou no dia seguinte este memorial: “Observar que o Bispo Galloway foi um dos maiores homens que o Estado de Mississipi jamais produziu não é exagerar. Não há extravagância nesta linguagem. As páginas da nossa
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    história estão repletasde atos de homens ilustres, e não queremos tirar as honras merecidas dos outros guias dos dias idos nem obscurecer os lauréis que adornam as suas cabeças. É uma opinião franca, e cremos que é justa, dizer que o Bispo Galloway foi o cidadão mais ilust re, cujo nome tem adornado e enriquecido os anuais do nosso Estado. Temos tido, talvez, cidadãos que nos seus empreendimentos especiais foram superiores ao Bispo Galloway, porém nunca tivemos nos limites do nosso Estado um homem que fosse maior em tantas coisas e relações ou que pudesse ser comparado com ele em sua multiforme capacidade”. O Bispo Carlos Betts Galloway terminou a sua carreira, tendo servido aos seus dias e geração pela vontade de Deus e agora chegou ao Monte Sião e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, às hostes inumeráveis de anjos, à assembléia geral da Igreja dos primogênitos que estão registrados nos céus, e a Deus, juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, e a Jesus, Mediador de uma nova aliança.
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    XII A vida deWalter Russel Lambuth, o Dianteiro Moderno do Cristianismo (1854-1921) No seio da Igreja Primitiva apareceu um homem que tinha como divisa: “Pregar o Evangelho nas regiões além”. Sabemos a história deste homem e estamos convencidos de que o seu espírito missionário correspondia exatamente à sua divisa. O apostolo Paulo se gloriava em prisões, em açoites e necessidades se, por meio dessas coisas, pudesse pregar e divulgar o Evangelho. A sua maior alegria era pregar o Evangelho àqueles que não o tinham ouvido. Entre a vida dele e a de Walter Russel Lambuth levanta-se quase um perfeito paralelo. Nasceram no estrangeiro; foram criados entre o povo estrangeiro, e no meio do seu próprio povo; estudaram tanto entre o seu próprio povo como entre os estrangeiros; converteram -se a Cristo e lhe dedicaram inteiramente a vida. Por longos anos toda a energia do corpo, da alma e do espírito consagraram ao Mestre dos mestres, Senhor dos senhores e Rei dos reis, até os recantos da terra sentiram a sua influência, e, finalmente, também no campo da luta no meio do povo pelo qual tinha dedicado tempo a sua atividade. Vamos estudar a vida de um guia moderno, não somente do Metodismo, mas também do Cristianismo. I – OS SEUS ANTECEDENTES Quando estudamos a vida de um homem que exerceu grande influência para o bem no mundo, devemos fazer um estudo dos pais e avós dele para descobrirmos o segredo da sua grandeza, pois geralmente tais homens têm tido antecedentes dignos e bons. Isso se deu no caso do bispo Lambuth. Seu bisavô Guilherme Lambuth foi nomeado pelo Bispo Asbury para pregar o Evangelho entre os índios no Estado norte-americano do Tenesse. Ele era do estado de Virgínia, uma das treze colônias originais fundadas pelos ingleses. À época em que Guilherme Lambuth, o bisavô, principiou o seu trabalho nessas florestas habitadas pelos índios, era tempo de grandes perigos e privações. Mas o espírito missionário quase aventureiro estava se manifestando no parentesco do Bispo Lambuth, e quando ele se tornou homem, queria entrar numa aventura pelo mundo todo, levando o estandarte bendito de Jesus. John Russel, o filho do Sr. Guilherme Lambuth e avô de Walter Lamburth, entrou no ministério com a idade de dezesseis anos, na Conferência de Kentucky. Mais tarde ofereceu-se para pregar o Evangelho entre os índios no estado da Louisiana. Em 1830, estava ele realizando uma série de conferências no condado de Green, no estado do Alabama, quando de repente
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    deixou a sériede conferências onde pegava, sem avisar o povo. Logo, porém, apareceu de novo, explicando-se: “Fui chamado em minha casa, pois meu lar conta com mais um cidadão. Em gratidão a Deus dedico este filho que acaba de nascer ao Senhor para ser um missionário no estrangeiro, e agora ofereço um fardo de algodão para ajudar nas suas despesas”. Este filho era James William, o pai do Bispo Walter R. Lambuth. James William Lambuth foi criado entre os fazendeiros do Mississipi, onde havia muitos escravos. Quando tinha certa idade, começou a preg ar aos escravos, e quando foi feito um apelo para missionários irem a China, o Sr. James W. Lambuth se ofereceu dizendo simplesmente: “Eu irei”. Trabalhou muitos anos na China e, mais tarde, foi mandado para fundar uma Missão no Japão, onde, anos depois, descansou dos seus trabalhos, sendo sepultado na terra do “Sol nascente”. Da parte do pai, o Bispo Lambuth levava nas suas veias o sangue inglês, porém da parte de sua mãe o sangue escocês, pois sua mãe era descendente de escoceses. Ela descendia das famílias Gordon e McClellam, da Escócia. Houve uma divergência entre um Duque e as suas filhas. O pai deserdou duas das suas filhas e elas emigraram para América junto com outros escoceses. A mãe do Bispo Lambuth era descendente de uma dessas moças que vieram para a América, e cujo nome era Maria McClellam. Bem educada, morando no Estado de Nova York, foi convidada para ser professora em casa particular. Ela aceitou o convite e foi para o Sul e ali identificou-se com o povo. Na ocasião de uma reunião missionária ela fez uma oferta de cinco dólares para missões e junto com o dinheiro lançou no cesto um cartão com as seguintes palavras: Eu dou cinco dólares e a mim mesmo”. Aconteceu que o jovem ministro James W. Lambuth, que queria ser missionário, chegou a conhecer Miss Mary McClellam e, o que acontece às vezes, aconteceu com eles: ficaram gostando um do outro. Mais tarde casaram-se e foram para a China. Aí vemos como, às vezes, são necessárias gerações para desenvolver um homem como o Bispo Lambuth. Deus sabe o que faz. II – SEU NASCIMENTO E OS SEUS PRIMEIROS ANOS Logo depois do casamento de James e Maria, os pais do bispo Lambuth, eles partiram de Nova York para a China. Embarcaram no navio de velas cujo nome era “Ariel” em 6 de maio de 1854 e depois de cento e trinta e cinco dias chegaram à China! 1. Seu nascimento na China É certo que ninguém pode escolher os seus pais nem o lugar do seu nascimento, porém tudo isso tem muita importância na vida do homem. Dois meses depois de chegarem à China, D. Maria Lambuth deu à luz o seu primogênito, no dia 10 de novembro de 1854, na cidade de Shanghai, China. A mãe, olhando para os olhos azuis do seu filhinho, escreveu: “Às nove horas de hoje pela manhã um querido filhinho foi colocado nos meus braços para nos ser uma benção”, e lhe pôs o nome de Walter Russel. Quem pode descrever o sentimento de uma verdadeira mãe quando recebe em seus braços, pela primeira vez, um filhinho! Algum tempo depois, D. Maria Lambuth escrevendo aos seus amigos nos EUA, disse: “Faz um mês agora desde que Walterzinho veio aos nossos corações e braços. Ele é um bom bebezinho e estamos contentes em tê-lo conosco. Que Deus nos ajude a criá-lo para Jesus”.
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    Pelos sentimentos manifestadosnestas poucas palavras descobrimos que a mãe de Walter era digna e que encerrava na sua pessoa uma verdadeira mãe. 2. Os primeiros seis anos. O pequeno Walter principiou a sua vida entre o povo chinês. Os seus primeiros camaradas de brinquedos eram chineses, cuja língua ele aprendeu. Sua mãe se ocupava em cuidar dele e de outras crianças chinesas, ensinando-as a costurar, ler, decorar passagens da Bíblia, e a cantar hinos. O Bispo Walter Lambuth disse que as primeiras coisas de que se lembra da sua vida foram: pegar caranguejos que apareciam debaixo do assoalho de sua casa; um eclipse da lua, porque os chineses julgavam que uma lua brava ia engolir a lua mansa e para evitar isto fizeram muito barulho em toda a parte da cidade; e a separação dos seus queridos , pois quando tinha quase quatro anos de idade a mãe escreveu: “Walterzinho está muito triste sem o seu papai, pois ele está fazendo uma viagem no interior para pregar o Evangelho ao povo”. Assim muito cedo na sua vida começou a aprender a triste lição de estar separado dos seus queridos, pois sabemos que muitos anos de sua vida passou-os separado dos seus e do seu lar, e finalmente morreu longe da sua querida esposa e filhos. Quando tinha mais ou menos seis anos de idade, seu pai o levava consigo nalgumas das suas viagens de evangelização na China. O pai conta um incidente engraçado que se deu com Walter na ocasião de um culto. O pai levou um livrinho ilustrado para entreter o menino durante a pregação. A criança foi colocada no antigo púlpito que tinha portas e junto consigo levou seu livrinho. O pai fechou a porta e Walter assentado num banquinho entretinha-se por algum tempo com o livro, enquanto o seu pai pregava ao povo. Mas como o pai prolongava o sermão o menino queria ver o povo. Trepou no banco, porém mal podia enxergar o povo por cima do púlpito . Quando a cabeça dele apareceu dentro do púlpito, todo o povo olhou e logo a criança começou a cantar o hino: “No celeste porvir”, e toda a congregação deu uma gargalhada que quase acabou com o culto. O pai descobriu que era vantajoso levar consigo o filhinho nas suas viagens de propaganda, pois o povo tinha mais interesse em comprar livros ou ouvir a pregação quando o menino o acompanhava. Muitas vezes o Walter foi levado pelo pai em suas viagens pelas barcas no rio. O menino gostava de ver o povo trabalhando à margem do rio quando passavam pelas cidades e vilas. Também sempre se alegrava quando tinham de passar debaixo de uma ponte. O pai escrevia cartas à sua esposa contando as coisas que seu filhinho apreciava e gostava de fazer. Uma noite, depois de fazer a sua oração, lembrando-se de sua mamãe, disse ao pai: “Amanhã quero ir para casa”. Estes dias eram dias de profecia daquilo que ia caracterizar a sua longa vida cheia de viagens por terra e por mar. Ele podia dizer mais tarde na sua vida o que o apóstolo Paulo disse: “Muitas vezes estive em jornadas”. Quando Walter tinha quase seis anos de idade os seus pais julgaram necessário levar os seus filhos para América, onde lhes pudessem tratar da saúde, dando-lhe um ambiente mais favorável para a educação e desenvolvimento. Por isso, a mãe levou Walter e a sua irmãzinha Nettie para a casa do avô deles, o Sr. McClellam, que morava na cidade de Cambridge, no Estado de Nova York, onde ficaram dois anos. A mãe demorou pouco tempo com eles antes de voltar para estar com o seu marido na China. Em 27 de fevereiro de 1860 o avô escreveu aos pais, dizendo: “Quero vos dizer que a minha expectativa e esperança acerca destes dois vossos queridos filhos estão plenamente satisfeitas. Espero que seja feita a vontade de Deus poupar-lhes a vida e que cedo possam sentir a necessidade de dar os seus corações a Deus, e que nos anos vindouros sejam instrumentos para converter muitos dos pobres pagãos dos seus ídolos a fim de servirem o Deus vivo. Espero sinceramente que não seja poupado esforço de nossa parte em lhes dar instrução moral”.
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    Durante o tempopassado em casa de seu avô, Walter aprendeu muitas coisas boas e úteis. Escrevendo em outra ocasião, o avô disse: ”O Walter e Nettie estão sempre prontos para repetir os seus versículos na ocasião do culto doméstico. O Walter é um menino excelente e a mente dele está em condições de ser cultivada”. A avó castigava as crianças mais do que o avô, porém ambos eram bastante severos. A filha do Bispo Lambuth nos conta o que lhe dissera seu pai acerca daquela sua estada com os seus avós: “O avô era severo na disciplina. Não usava a vara tão freqüentemente, porém os meninos estavam sempre ocupados e foram incutidos no espírito deles os princípios de atividade e honestidade, que são os fatores principais numa boa educação. O Walter aprendeu do seu avô uma boa lição no modo de lustrar os seus sapatos, de que nunca se esqueceu. O avô sempre insistia em que devia lustrar os saltos dos sapatos tão bem como o bico do calçado, pois dizia ele: “Você olha para o bico dos seus sapatos, porém o povo olha para os calcanhares, e julgava desonesto fazer bem um serviço em uma parte e mal feito em outra”. 3. Com os seus pais na China. A guerra civil norte-americana estourou em 1861 e foi durante este conflito que Walter passou os dois anos com o seu avô em Nova York. Sem dúvida o menino não tinha idade suficiente para compreender o motivo desta luta, mas sua mente devia ter ficado perplexa quando ouvia o seu avô falar acerca do povo do sul do país, ao qual seu pai pertencia. Quem sabe se as impressões que recebeu durante esta época o levaram mais tarde a ter maior interesse pelos negros do sul dos EUA e da África? Em 1863 seus pais apareceram em Mississipi e os seus filhos Walter e Nettie foram chamados para estar com eles. James e Maria Lambuth ficaram pouco tempo em Mississipi, mas durante a sua demora ali, a pequena Nettie caiu doente com escarlatina e faleceu. A morte da sua querida irmã fez uma grande impressão do mistério da morte sobre Walter , e sentiu bastante a falta dela. Como diz o Sr. Pinson: “Ele tinha pouco mais de oito anos quando sentia as tragédias da vida – o terror do mar, a separação dos seus queridos, saudades do lar, as crueldades da guerra, os horrores de moléstias e o luto pelos mortos”. O pai resolveu partir de novo para a China deixando atrás o túmulo da sua filha querida e levando consigo a sua esposa , o filho Walter e dois rapazes chineses. A viagem para Nova York tinha que ser feita num carro e num carro de bois. Esta viagem foi feita no inverno e as estradas eram ruins e os soldados os incomodavam bastante, até que finalmente venderam o carro com os cavalos, pois os bois não tinham muito valor para os soldados. Finalmente chegaram em casa dos pais de D. Maria Lambuth em Nova York, onde ficaram algum tempo descasando e esperando um navio para embarcar para a China. Dentro de cinco meses se achavam de novo na China. Walter estava contente com seus pais na China e começou os seus estudos com maior interesse. Freqüentemente acompanhava o seu pai nas suas viagens pela China. Ele estava nesta época passando aquele período crítico na vida dos jovens, o período em que os mais velhos não compreendem os jovens como eles mesmos não se compreendem, porém os pais eram os seus guias e professores durante este período de formação do seu caráter. Ele aproveitou bastante nas suas viagens pelas cidades e vilas, acompanhando aquela idade em que precisava da instrução das escolas superiores, e, além disso, os olhos dele precisavam de tratamento de especialista, não sendo muito boa a sua saúde. Tudo isto concorreu para que seus pais decidissem manda-lo novamente para a América onde podia tratar-se e estudar. Repete-se então a triste história da separação na vida dele e de seus pais.
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    III – SEUSESTUDOS NA AMÉRICA Os poucos anos de felicidade passados junto com os seus queridos pais na China terminaram. Quão curtos são os dias de sossego e paz reservados para a vida humana neste mundo de mudanças e incertezas! Aqui não temos um lugar permanente, mas buscamos “a cidade eterna cujo arquiteto e fundador é Deus”. O filho Walter ia tão bem e cheio de satisfação, porém faltavam-lhe certos recursos que não se encontravam na China; precisava de escolas onde pudesse preparar -se para a sua carreira na vida e a única esperança para conseguir tudo isto era separar-se dos seus pais e aventurar-se na sua terra natal. 1. A sua volta para a América e a sua conversão. O dia da sua partida chegou. Os pais o acompanharam a bordo do vapor “Costa Rica”, às cinco horas do dia 19 de maio de 1869. O rapaz tinha então quinze anos de idade, e vai encetar sozinho a sua jornada não somente para a América, mas a sua carreira para toda a sua vida. Como irá ele enfrentar a vida? Há sempre um ponto de interrogação acerca de todos os rapazes que chegam a esta idade, e feliz é aquele que se firma na fé em Cristo e que escolhe a carreira que vai seguir. A viagem foi longa, mas não tão longa como as demais viagens que tinha feito pelo mar, pois esta foi a primeira vez que viajou em navio a vapor. Em Yokohama, Japão, teve que mudar de vapor embarcando no “Great Republic”. Não era bom marinheiro, pois sempre ficava enjoado nos primeiros dias de uma viagem pelo mar, e isto aconteceu com ele durante toda a sua vida. Nesta viagem teve bastante tempo para refletir sobre o seu plano para o futuro. Os pais tinham escrito cartas e posto na mala dele para que pudesse ler alguma coisa deles durante a viagem. Foram muito apreciadas por ele, pois escrevendo aos pais mais tarde disse: “Sou grato pelas cartas tão bondosas que achei na minha mala, nas quais se encontram muitos bons conselhos. Não podeis imaginar como eu as apreciei. Leio-as e releio-as muitas vezes e é o meu propósito seguir as suas instruções fielmente. Orai por mim sempre para que não me desvie do caminho de retidão em que devo andar”. Foi durante esta viagem que se converteu, pois chegou a consagrar-se definitivamente a Deus. O Dr. Pinson assim descreve este passo na sua vida: “Foi durante esta viagem que o jovem Walter se ajoelhou na sua cabine e se rendeu a Deus. A experiência deste ato estampou indelevelmente o sinete de cristão na sua vida. Principiou uma nova época na sua vida desde esta hora do seu nascimento espiritual. Constantemente ele se lembrava desta hora nos dias difíceis de sua experiência. A fé firme de seu pai e de sua mãe tornou-se a sua própria fé e o Deus deles o seu próprio Deus. As coisas espirituais foram transladadas do reino dos credos para o reino da experiência.” Foi aqui que descobriu e conheceu a Deus, o descobrimento mais deslumbrante e essencial na vida de alguém. Esta experiência nova veio numa época oportuna para suprir a falta dos seus pais, a qual pairava sobre ele como uma nuvem. Não nos admiramos, pois, ao saber que , mais tarde, no dia em que completou os seus quinze anos escrevesse à sua mãe de Lebonon, no Tenesse, dizendo: “Quero contar-lhe antes de terminar esta carta que ontem fiz a minha profissão de fé na Igreja Metodista Episcopal do Sul, e fiz os votos de um cristão, para viver com o auxílio de Deus uma vida pura e santa. Ore por mim para que possa eu cumprir fielmente os meus votos”. Finalmente chegou à casa de seus avós onde passou algum tempo, porém não ficou desocupado durante os dias que passou com eles, pois numa carta que escreveu aos seus pais lemos o seguinte: “Ajudei a concertar o telhado da casa onde havia goteiras, há poucos dias.
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    Fiquei no telhadoe o Sr. McClellam enfiava uma vara pelos buracos para me mostrar o lugar das goteiras. Eu e o Sr. McClellam colhemos hoje de manhã nove quilos de morangos. Ontem trabalhei na roça, colhendo aveia. Onde iria eu passar as minhas férias? Não seria bom que eu trabalhasse na fazenda ou na loja, fazendo qualquer coisa para não estar desocupado?” Estas poucas linhas nos mostram que ele n ão queria ficar à toa, pensando sobre outros com seu sustento; queria fazer qualquer coisa que fosse lícito para ocupar o seu tempo com proveito. Depois de passar alguns meses com os seus parentes em Cambridge foi para Lebonon, Tenesse, onde ia ficar com a família Kelley, estudar e trabalhar. 2. Seus estudos de preparatórios a)Seus estudos na Academia de Lebonon, Tenesse: Durante os dois anos que passou em Lebonon, no Tennesse, assistiu aulas na academia e morava com a família de Mrs. Kelley, cujo filho, o Sr. D. C. Kelley, tinha acompanhado aos pais do Bispo Lambuth como missionário na China. “A mãe Kelley”, como lhe chamavam, foi de fato uma verdadeira mãe para o jovem Walter, rapaz de quinze anos. Ele ficou em casa dela e ela tomou interesse pelo seu bem estar; porque seus pais eram íntimos amigos da casa. É digno de notar-se como fato histórico o ter sido “a mãe Kelly” quem organizou a primeira Sociedade Missionária de Senhoras na igreja local – McKendree Church, Nashville, Tennesse. Ela não somente f oi a mãe do jovem Walter Lambuth, mas também “a mãe” da Sociedade Missionária de Senhoras da nossa Igreja. Como Walter não era muito forte, ele procurou desenvolver o seu físico, trabalhando ao ar livre. Por isso e outros motivos trabalhava na roça durant e as férias. O resultado foi que melhorou a sua saúde em todo o sentido; a voz, os olhos e o físico em geral sentiram a influência dessas atividades ao ar livre debaixo do céu azul, iluminado de espl êndido sol. Acerca desta fase na sua vida diz a sua própria filha anos mais tarde: “Meu pai freqüentemente falava do seu primeiro emprego, que foi roçar um meio alqueire de terreno e arrancar todos os tocos e cepos, em Seeville, casa de meu avô Kelley. Meu avô ofereceu a meu pai e a mais dois rapazes cinco dólares para roçar quase um alqueire de terreno. Os outros dois rapazes se cansaram do contrato, porém meu pai continuou o seu trabalho durante todas as férias, trabalhando desde cedo até à tarde; e finalmente acabou de limpar a parte do terreno que lhe tocara. Creio que meu pai tinha mais orgulho em narrar este incidente do que qualquer outro que se deu na sua mocidade. Mais tarde na vida, quando tinha uma tarefa difícil, dizia logo, sorrindo: “É difícil, mas não é tão difícil como limpar um meio alqueire de te rreno de cipós, tocos e cepos”.” Aqui temos o segredo da sua capacidade em executar e fazer tantas coisas mais tarde na vida. Posso afirmar que não tenho visto um homem que soubesse utilizar o seu tempo com mais acerto do que o Bispo Lambuth; e parece-me que não andava às pressas, mas tinha tempo para tudo. O jovem Walter não somente se interessava nos seus estudos e no trabalho durante as férias, mas também tomava parte nas reuniões religiosas. No primeiro ano que ele passou suas férias em Lebonon realizou-se lá uma série de conferências religiosas em que ele tomou parte ativa. E sobre o assunto, nessa mesma época, ele escreveu a seus pais: “Deus tem feito tanto para mim, eu preciso fazer algumas coisas para Ele, embora seja pouco”. Foi também nesta ocasião que tomou parte no seu primeiro ágape (celebração da festa do amor, da koinonia), descrevendo assim a sua experiência: “Ás 3 horas da tarde participei do ágape. A princípio fiquei um pouco embaraçado, mas, logo depois, desapareceu o embaraço e falei com mais liberdade. Contei como eu me converti a Deus; que minha mãe tinha
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    freqüentemente conversado comigosobre o assunto, mas, quando me vi, sozinho, viajando no mar, ali é que senti a minha grande necessidade, pensando então no que devia fazer para me salvar, entregando-me de corpo e alma a Jesus. Disse também que embora muito longe da minha casa, aqui na terra, tinha esperança de um lar feliz no Céu”. Antes de terminar os seus estudos na academia pôs-se a pensar onde devia trabalhar; se na China, se no Japão, pois queria ser um missionário. Foi durante estes dois anos que chegou a firmar-se na sua fé e decidiu a questão da sua carreira na vida como um missionário. Assim, com dezessete anos de idade, estava se firmando mais e mais no seu caráter e no pr opósito de seguir a Cristo. b) Seus estudos no Emory and Henry College, em Abringdon, na Virginia. Deixando Lebonon em 1871, foi para o “Emory and Henry College”, em Abringdon, na Virgínia, onde tirou o seu diploma em 1875. Ali principiou os seus estudos com entusiasmo. “Estou me esforçando, diz ele, “para aprender tanto quanto possível e ao mesmo tempo economizar tanto quanto possível o meu tempo e dinheiro; porque sei que se alguém se aplicar à sua tarefa enquanto está entretido com ela conseguirá mais em menos tempo e poupará mais as suas energias que se a tivesse encetado com má vontade”. O curso era bem pesado e as suas forças físicas não correspondiam à sua força de vontade. Assim, no fim do primeiro ano, a sua vista estava tão prejudicada que teve de deixar as aulas em “Emory and Henry College” e voltar para o Estado de Tennesse, onde passou algum tempo trabalhando e estudando um pouco na Universidade de Nashville. Em 1874 voltou para o “Emory and Henry College” e lá completou o seu curso em 1875. Durante o tempo de estudante em “Emory and Henry College” organizou uma “Associação Cristã de Moços” (ACM). Os membros desta associação estendiam as suas atividades na comunidade na forma de escolas dominicais. No correr do tempo esta associação organizou e dirigiu cinco escolas dominicais, sendo uma delas para as pessoas de cor negra (que haviam sido libertadas oficialmente da escravidão, mas segregadas pelo racismo e sem os direitos civis que garantem cidadania, de modo que não podiam participar das associações das pessoas brancas, inclusive de igrejas e escolas dominicais). No ano em que se organizou a ACM., ele e mais um colega foram nomeados como delegados a uma Convenção da Associação de Moços na cidade de Lawell, Massachusetts. Como não tinham verba para pagar as passagens de trem, pensaram em ir a pé; mas, resolveram depois vender alguns dos seus livros e até algumas peças da mobília, conseguindo assim o necessário para a viagem. O Bispo Lambuth sempre gostou de gracejos inocentes, mas abominava gracejos que ofendiam alguém ou que ofendiam a moral, ou que porventura servissem de algum embaraço. Quando estava na escola, freqüentemente os seus colegas que recebiam alguma coisa de casa para comer o convidavam para ajudar a comê-la. Uma vez ele recebeu um presente dos seus avós e além do tapete havia um bolo pequeno. Agora ele julgava oportuno retribuir a bondade dos seus amigos. Ele e seu colega de quarto combinaram convidar uns vinte e cinco rapazes logo após o culto de oração, às quatro horas da tarde, para comerem bolo. Antes da hora marcada para chegarem arranjou dois baldes de água e uma mesa com uma toalha limpa. Logo depois do culto os moços começaram a chegar, ficando o quarto repleto. Ele e o colega foram para o quarto ao lado e começaram a gemer como se estivessem suspendendo um peso enorme. Em poucos minutos apareceram no meio dos rapazes carregando juntos uma caixinha de papelão em que se achava o tal bolo picado em pedaços do tamanho do dedo mínimo. Quando a colocaram na mesa, os seus colegas descobriram o gracejo e explodiram em gargalhadas estrepitosas. Convidaramnos a se servirem e logo em seguida ele e seu colega pegaram baldes de água e ofereceram água, dizendo que depois de comer tanto bolo precisavam de água para não engasgar. Todos acharam muita graça nisto e ficaram contentes com a sua bondade.
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    Dizem que elegostava de explorar o terreno ao redor do colégio, já não havendo um morro ou vale, que não tivesse visitado. Um dia de férias seu colega de quarto entrou no quarto deles e o achou com uma dúzia de relógios de parede, querendo fazê-los tocar juntos com o mesmo tic-tac. Antes de completar o seu curso nesta escola, já tinha decidido o que queria estudar nas escolas superiores; queria estudar medicina. Numa carta que escreveu para o Dr. Kelley em 19 de meio de 1874, diz: “Não tenho vacilado em meu propósito de ser um missionário. Ao contrário, cada vez mais firme se torna o meu propósito, e agora sinto que é meu dever ir para a China, tanto como sinto o dever de pregar. Tenho pensado por muito tempo que um curso de medicina seria necessário para garantir o meu êxito na China, mas quase cheguei a conclusão de que seria impossível adquiri-lo. Estou no fim do penúltimo ano do meu curso e até aqui tenho passado em todos os exames; seria, pois, um desgosto para mim sair desta escola sem tirar o meu diploma, fosse ou não fosse de medicina. Gostaria de estudar medicina e estou resolvido a fazê-lo; porém o meu desejo, como já lhe disse (e creio que o senhor não me pode censurar) é completar o cu rso aqui, e especialmente completar as matérias relacionadas com a medicina”. Ele completou o seu curso e foi imenso o seu prazer de ter presente, no dia da sua formatura, a sua querida mãe, D. Maria. Como disse o Dr. Pinson: “Ele completou o seu curso em “Emory and Henry College” e o deixou com honras e prêmios e o amor e apreciação da faculdade e dos estudantes”. 3. Seus estudos superiores. Uma vez terminado o curso de preparatórios, resolveu estudar medicina e teologia na Universidade de Valderbilt, na cidade de Nashville, Tennesse. Matriculou-se nos dois cursos em 1875, e completou o seu curso de teologia em 1877. Durante estes dois anos entrou em experiência na Conferência de Tennesse e foi ordenado diácono e presbítero pelo Bispo Keener. Em conexão com os seus estudos pregava nas pequenas igrejas dos subúrbios da cidade de Nashville e foi pastor por algum tempo da Igreja de Woodbine, perto da cidade. Nos sábados ia a cavalo para visitar o povo e dirigir os cultos no domingo e voltava na segunda-feira para continuar os seus estudos. Sem dúvida não tinha muito tempo para outras coisas, mesmo que pudesse dar conta de tudo que tal programa exigia dele. 4. O seu casamento. É interessante notar que Walter se casou com uma neta de Miss Daisy Kelly, a “mãe Kelly” que o abrigara quando veio da China para tratar-se e estudar na Academia de Lenonon. Ele e a noiva foram amigos por muitos anos e tinham passado muito tempo juntos quando pequenos, mas agora a amizade se converteu em amor (aquilo que se não pode definir) e os laços deste amor uniram os seus corações para nunca mais se separarem. Em 2 de agosto de 1877 realizou-se o seu casamento na Igreja de McKendree, na cidade de Nashville. Foi um casal feliz e todas as peripécias da vida missionária não conseguiram abalar o seu amor de quarenta e três anos de casados. Agora eles se acham “no celeste porvir, desfrutando o labor que passou”. IV – SEU TRABALHO NO ORIENTE 1. Na China.
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    Um ano depoisdo seu casamento o Dr. Walter Lambuth, com sua esposa, embarcou em São Francisco para a China. Logo depois de chegar àquele país principiou o seu trabalho. Escolheu a cidade de Nanziang, que fica perto de Xangai, para iniciar o seu trabalho como médico e pastor de almas. a) A primeira fase do seu trabalho na China. Era-lhe costume fazer viagens de evangelização pelas vilas e cidades. Tratava os doentes e ao mesmo tempo pregava -lhes o Evangelho. Um dia uma mulher o procurou queixando-se de um incômodo do coração, e dizendo: “Quero um remédio para o coração, porque fico nervosa às vezes, e meu coração fica zangado, pois os meus parentes me tratam com crueldade. Quero dar na cara deles e xingá-los. Não me pode dar o senhor alguma coisa para o meu coração?” Neste caso o médico tinha um remédio tanto para o coração como tinha para o corpo. Era o seu plano evangelizar a todos os doentes, que tratava, pregando-lhes o Evangelho. Em maio de 1880 abriu um asilo para os viciados do ópio. O tratamento que dava era eficaz, pois no prazo de quinze dias ficavam curados. O tratamento consistia em abandonar a droga imediatamente, três dias num quarto fechado à chave, um compromisso da parte do paciente de não reclamar qualquer prejuízo que adviesse e que orasse de manhã e de noite. Um outro resultado do seu trabalho em prol das vítimas do ópio foi a organização de uma Sociedade Contra o Ópio. Também publicou e divulgou um panfleto combatendo o uso do ópio. No correr de dois ou três anos, sua esposa adoeceu e foi necessário que ela voltasse para a América em busca de um clima para trat amento que se não podia encontrar na China. Não tardou e também ele teve que voltar para os EUA para estar com ela. Durante a sua demora na América aproveitou a oportunidade para estudar mais. Passou algum tempo no Hospital Bellevue, em Nova York, onde tirou um diploma e na volta para a China demorou alguns meses estudando medicina em Edimburgo e também em Londres. Assim a sua estada na América deu-lhe oportunidade para preparar-se melhor. Um dos missionários conta a experiência do Dr. Walter Lambuth em fazer a sua primeira operação na China. Um homem quebrou o braço e tinha passado algum tempo sem o devido tratamento; encontrava-se num estado tal que o único remédio era amput á-lo. Mas como o Dr. Lambuth não tinha os instrumentos próprios para tal serviço viu-se em apuros para atend ê-lo. Levou o homem para a sua casa e tratou dele do melhor modo possível. Resolveu cortar o braço do homem; para isso amolou um facão, tomou emprestado um serrote de um carpinteiro, tomou uma agulha grande da sua esposa e mandou procurar um pouco de anestésico numa cidade próxima, e entrou a operar. Foi feliz na operação, o homem sarou, e assim a sua reputação foi firmada entre o povo. O Dr. Lambuth escreveu um livro sobre missões de medicina. O título do livro é: “Medical Missions”. Neste livro ele revela as condições de grandes zonas no mundo onde não se encontram médicos e hospitais; é triste saber -se o estado lastimável de milhões de pessoas que não têm conhecimento científico de doenças. Segue-se uma página tirada do seu livro sob o título “O Desafio”: “O escritor não realizou a verdadeira significação do motivo missionário até chegar ao campo de trabalho. Chegou um dia em nosso Hospital de Soochow uma mulher chinesa. “Pode o doutor fazer alguma coisa por mim?” - perguntou ela. “Espero que sim”, foi a resposta. “O que tem a senhora?”. Então ela nos contou a sua história. “Sou a mulher de um sitiante pobre. Somos pobres deveras. Minha vida de setenta anos tem sido muito dura, tendo sofrido muita amargura. Dia após dia tenho engatinhado com o meu marido no tijuco para cultivar o arroz. Não temos nem um arado e nem um boi. Meu corpo está torturado até a morte com o reumatismo e queimando com a febre”.
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    Uma cama foiprovidenciada para ela, remédios foram administrados e tudo foi feito para aliviá-la durante a noite. No dia seguinte, depois de visitar as pessoas operadas, visitei o departamento das senhoras, e parei ao lado da cama dela, tomei -lhe a mão, e perguntei: “Já comeu o seu arroz? Está melhor hoje?”. “Oh! Sinto-me muito melhor”, disse-me ela. “Então porque está chorando?” As lágrimas rolavam-lhe pelas faces queimadas do sol”. “Oh! Sr. Médico, o senhor tem sido tão bondoso para comigo”. E ela acrescentou: “Sou uma mulher velha. Minha vida tem sido cheia de angústias...amarga até a morte. Tenho dado à luz filhos. Eles cresceram, casaram-se e foram embora; mas nenhum deles tem tomado a minha mão e dito palavras de amor como filhos. Oh! Sr, médico, quando eu ficar boa, não me mande ir embora. Aqui é o céu. Deixe -me ficar...aqui é o único céu para uma velha como eu”. Quando apertei a mão dura desta mulher, as lágrimas enchiam-me os meus olhos e não podia enxergar-lhe o rosto, pois tudo ficou escuro. Parecia-me que havia um outro rosto em que eu reconhecia o Grande Médico, que disse: “Em verdade vos digo que quantas vezes o fizerdes a um destes meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes”. Então descobri o verdadeiro motivo missionário. Não é a necessidade do indivíduo, profunda e insistente como ela é; nem os chineses, fortes como é o apelo das multidões inumeráveis que sejam; nem o comando imperativo como são os seus termos; mas o Mestre... o Mestre. Ele mesmo e seu amor. Aqui se acha o apelo. Negligenciando os mais fracos, negligenciamos a Ele. Ministrando às suas necessidades, ministramos a Ele. O verdadeiro motivo missionário está encerrado na vida dele e concentrado no seu amor”. b) A segunda fase do seu trabalho na China. Dissemos que o Dr. Walter e esposa tinham retornado à América para tratamento médico e recuperação da saúde. Voltando para a China em 1882 junto com o Dr. W. H. Park, principiou de novo o seu trabalho, na cidade de Soochow, onde fundaram um hospital evangélico. O plano para este hospital foi formulado durante o tempo que passou na América e Inglaterra, estudando medicina nos diversos hospitais. O trabalho que tinha feito em Nanziang e Xangai servia como uma base para o Dr. Lambuth fundar um hospital em Soochow, que tem existido até ao dia de hoje (1929) e é mais famoso agora do que nunca. Não poderemos narrar os incidentes interessantes que se deram com o Dr. Lambuth durante esta fase do seu trabalho por falta de espaço; basta dizer que, pela sua paciência, habilidade, abnegação e amor cristão conquistou a confiança do povo, e o trabalho do hospital foi um triunfo patente. Ele trabalhou aqui em Soochow dois anos, mas a saúde de sua senhora estava sendo ameaçada pelo clima ali. Por este motivo e por outros o Dr. Lambuth pediu a sua demissão do cargo que ocupava e foi para Pequin, onde iniciou o seu trabalho com a Igreja Metodista Episcopal (a igreja Metodista do Norte dos EUA). Lá foi o fundador de um hospital, que foi o começo do grande hospital que existe hoje com o nome de “Rockefeller Hospital”, o qual custou cerca de 595.000 contos de réis. Este passo dado por ele não pode ser justificado exclusivamente por motivos de saúde da sua esposa, mas, sobretudo devido a alguma divergência existente entre ele e outros quanto ao modo de administração. É muito provável que seu pai tivesse influído muito sobre ele neste negócio. Mas o Bispo McTyeire não considerou este passo autorizado pelas formalidades das autoridades da Igreja. A relação que ele mantinha com a Igreja Metodista Episcopal, dali em diante sempre foi cordial. É muito provável que o Dr. Lambuth pretendesse passar para a Igreja Metodista Episcopal (transferindo-se, portanto da Igreja Metodista Episcopal do Sul para a Igreja Metodista Episcopal) e dedicar-se ao trabalho no norte da China, mas ele e seu pai foram convidados para abrir trabalho da Igreja Metodista Episcopal do Sul no Japão. A Junta de Missões na sua reunião anual, em 6 de maio de 1885, tomou a seguinte resolução: “Recomendamos que seja estabelecida uma missão no Japão, e que seja destinada a quantia de três mil dólares para este fim”. Agora o caminho está aberto para iniciar o trabalho no Japão.
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    2. No Japão. Émuito provável que nossa Igreja não tivesse principiado o seu trabalho no Japão tão cedo se não fosse a divergência que houve entre Lambuth e os demais missionários quanto à maneira de se fazer a propaganda. Seja como for, o tempo tinha chegado para a nossa Igreja entrar neste campo difícil e prometedor. a) Iniciando o trabalho no Japão. Como o pai do Dr. Lambuth já era homem avançado em idade e como tinha que aprender uma nova língua, a maior responsabilidade caiu sobre o filho, que tinha nessa ocasião trinta e dois anos. Não podemos calcular quanto lhe custou abando nar o seu plano de trabalho na China. Era seu desejo ser médico e trabalhador na China, mas agora foi chamado para abandonar a sua carreira e profissão na China para trabalhar entre um povo cuja língua tinha que aprender. Mas ele respondeu e iniciou o seu trabalho no Japão, um país moderno, isto é, que tinha o desejo de abandonar as idéias da antiguidade e abraçar as idéias modernas do ocidente. Foi nesta época de transição que o dr. Lambuth foi incumbido de abrir a missão da nossa Igreja no Japão. Junto com ele foram os seus pais James e Maria Lambuth e o Dr. O. A. Duke, também transferido da missão na China. Estudaram bem antes de iniciar o trabalho. A primeira coisa que Dr. Walter fez foi abrir uma escola noturna na cidade de Kobe. O povo japonês já estava provido de escolas primárias e, portanto, era necessário atingir a classe mais necessitada, e não somente isso, mas também oferecer instrução superior. Deram, pois, ênfase à instrução, ao mesmo tempo não se esqueceram do trabalho de evangelização. Fundaram duas escolas: uma de meninas, em Hiroshima, e outra (Kwansei Gahuin) para meninos em Kobe. Estas três instituições têm progredido até agora e exercem grande influência sobre a nação japonesa. Não entraremos nos pormenores da fundação destas escolas, porém devemos lembrar que representam muita oração, força e sacrifício da parte dos seus fundadores. b) A experiência religiosa que o D r. Lambuth teve no Japão. O Dr. Lambuth reconhecia o valor do trabalho educativo no Japão, mas ao mesmo tempo não deixou de interessar-se pelo trabalho de evangelização. Viajava constantemente na região que escolheu para o seu trabalho. A I greja Metodista Episcopal e do Canadá estavam trabalhando no Japão e ele tinha a esperança de que o trabalho metodista no Japão (da Igreja Metodista Episcopal e da Igreja Metodista Episcopal do Sul) se unificasse qualquer dia. E isto de deu em 1907, sendo o Dr. Lambuth um dos representantes principais da nossa Igreja a tomar parte na unificação do Metodismo no Japão. Bem, as provas que tinha o espírito apostólico de evangelização temo -las no seguinte horário que basta para prová-lo. “Dentro do território marcado no princípio o Dr. Lambuth viajava quase incessantemente. Nós o encontramos em Hiroshima, agora em Kobe numa série de conferências de avivamento, em Tadotsu, em Oita, cinco vezes durante o ano, e uma vez dirigindo uma série de conferências, agora em Uwajima, Matsuyama, Takushimi e Osaka. O modo de viajar não era o mesmo que nos Estados Unidos”. Houve um avivamento religioso todo especial na cidade de Oita em maio de 1890. O trabalho evangélico estava sendo perseguido fortemente e corria o mesmo perigo que a Igreja Católica Romana correu anos atrás quando foi exterminada. A perseguição humilhou o s crentes e os obreiros. Entregaram-se à oração, buscando o poder lá do alto sobre eles e sua obra. Deus foi propício e derramou o seu Espírito Santo abundantemente sobre os seus serviços; mas não foi a primeira vez. Antes mesmo da chegada do Dr. Lambuth e dois dos seus colegas de trabalho, os Drs. Yoshioko e H. Nakamura, já o Espírito Santo se havia manifestado no meio da Igreja na cidade de Oita.
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    O Dr. Wainrightera o pregador a cargo e sentia a força da perseguição, e o Dr. Walter Lambuth como superintendente da Missão sentia uma grande responsabilidade em dirigir o trabalho. Nessas condições ambos se entregaram à oração constantemente. Vamos deixar o Dr. Wainright contar o que se deu numa reunião de oração: “Não estamos bem certos se teria sido o último dia do ano ou dois ou três dias mais cedo. Na véspera de um culto que tinha sido anunciado à noite para a congregação, quatro de nós ajoelhamos em oração no meu quarto, às 4 horas da tarde, a saber: W. R. Lambuth, Y. Yoshioka, H. Nakamura e eu. Depois de passar algum tempo ajoelhados e enquanto o D r. Lambuth estava orando, uma coisa estranha se deu. Enquanto orava deliberadamente, de repente a sua voz começou a enfraquecer gradualmente até que não se pode mais ouvir. Entendemos pela sua linguagem que sentia a presença de Deus de maneira excepcional. Ele rogava a Deus que fosse livre da opressão que as suas forças não mais podiam agüentar. O que o perturbou e o amedrontou foi a percepção de que Deus lhe estava perto e misteriosamente visível. A falta de suas forças, que nos poderia ter alarmado, não nos causou qualquer perturbação e ao mesmo tempo parecia que a sua vida estava desaparecendo. Quando a sua voz ficou fraca até ao ponto de desaparecer, ele começou a invocar o nome de Jesus, pedindo-lhe que ficasse entre ele e a presença real de Deus. Este apelo foi atendido, pois logo em seguida começou a voltar a si tendo uma visão clara da aproximação de Cristo. Fo i nesse ponto que principiou a recuperar as forças e que uma onda espiritual passou pela sala. Os fardos que tinham pesado sobre nós por meses desapareceram. Os nossos espíritos ficaram libertos e a nossa alegria era tanta que não sabíamos se estávamos no corpo ou fora do corpo. O tempo ia passando e antes de levantar os nossos joelhos a empregada veio nos chamar para jantar. Se não me engano ninguém atendeu a chamada para o jantar. Essa nossa experiência foi tão viva e tão cheia de gozo que não nos lembrávamos de qualquer outra coisa. Todos os cenáculos não se acham somente em Jerusalém, mas lá naquele lugar distante de Deus tinha derramado o seu Espírito sobre nós como fez sobre os apóstolos, no principio”. A reunião que logo em seguida se realizou no sal ão de cultos foi caracterizada pela manifestação do poder do Espírito Santo sobre o povo. Muitas pessoas se converteram nessa ocasião. Desse dia em diante a causa de Cristo prosperou na cidade de Oita. Foi uma grande vitória para a causa do Mestre. A seguinte história revela a influência que o Dr. Lambuth tinha sobre a mocidade japonesa. Nesta época o Japão estava aceitando as idéias do ocidente e os jovens estavam ansiosos por aprender inglês. O Sr. Adachi Kinnosuke tinha quinze anos de idade e estava louco por aprender inglês. Ele pertencia à família Samurai que tinha muito capricho e orgulho e desprezava os outros povos com as suas religiões. Mas um colega de Adachi Kinnosuke o convidou para ouvir o Dr. Lambuth pregar um domingo e como a pregação ia ser em inglês consentiu em assistir ao culto. Entrando na sala de culto e tomando um assento viu perante si um homem branco falando o idioma que queria conhecer e assim o Sr. Kinnosuke descreve a sua impressão do Dr. Lambuth: “O homem pregou meia hora, tudo em inglês. Foi um milagre apanhar eu algumas palavras que podia entender daquele missionário. Aquele homem esquisito, com olhos azuis e nariz fino espontado, que tinha vindo de milhares de léguas d’além mar, era tão humano como nós. Ainda mais, havia uma ponte entre nós, e eu sentia o meu mundo expandir para abranger mais dois continentes e cinco oceanos. Foi assim que vim a conhecer o Dr. Lambuth, que mais tarde foi eleito Bispo na Igreja Metodista Episcopal do Sul, e que foi um dos grandes homens deste século e um dos missionários americanos mais competentes que têm chegado ao Japão. ” “Mais tarde fui convidado para fazer parte da família dos Lambuth. Minha alegria não tinha limites, pois agora podia aprender o inglês deveras. O que me impressionou mais que tudo neste lar foi o Dr. Lambuth e a sua filhinha. Quando minha avó faleceu, contei tudo ao Dr. Lambuth e então ele me disse: “Então o seu pai não ficou triste pela morte de sua mãe? Ele ficou contente em vê-la passar deste mundo para o mundo além? Bem, eu me alegro em saber disso. O seu pai evidentemente é mais cristão do que alguns de nós”. Isto me fez impressão de modo tal que não me lembrei mais do Dr. Lambuth como meramente missionário, mas como um homem tão grande que podia abranger os credos
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    antagônicos com oseu. Uma noite após a reunião de oração falei com o Dr. Lambuth e disse abertamente: “Dr. Lambuth, quero ser um cristão. O Dr. Lambuth, sem qualquer surpresa e sorridente, perguntou: “Verdade? Pode me dizer porque o senhor quer ser cristão?”. “Eu quero ser um cristão, doutor, porque a minha vida não significa coisa alguma; a sua vida, sim, significa alguma coisa. Se o senhor vive como Jesus, talvez também eu possa viver como Ele. Devo dizerlhe que gosto do senhor, do seu caráter e do seu trabalho”. O Dr. Lambuth não me respondeu. Logo senti o braço dele me apertar e me trazer mais perto de si. “Deus o ajude”, disse ele, depois de um longo silêncio e a voz um pouco tr êmula. “Que ele nos ajude a nós dois!”. Anos depois ele me disse que isso foi o maior elogio que jamais tinha recebido. E assim tornei-me cristão”. V- SEU TRABALHO COMO SECRETÁRIO DA JUNTA DE MISSÕES Em 1891 o Dr. Lambuth, por causa da saúde da sua família, teve que voltar para os Estados Unidos. Quando deixou o Japão, tinha a esperança de voltar para lá no prazo de poucos meses ou, no mais tardar, no correr de um ano. Mas a providência tinha para ele outros planos, pois nunca mais voltou para o Japão como missionário. Se recordarmos um pouco os fatos na vida dele, descobriremos qu e as mudanças têm sido muitas e são uma profecia de que haverá ainda muito mais antes de findar a jornada da vida. Ele principiou o seu trabalho perto da cidade de Xangai, passou mais tarde para Soochow, dali para Pequin, depois para o Japão e agora voltou para a América e pela força das circunst âncias ficou lá, trabalhando em prol da causa de Cristo como secretário da Junta de Missões. 1. Como principiou o seu trabalho na Junta de Missões. Quando o Dr. Lambuth voltou para a América, encontrou a Junta de Missões endividada e as apropriações reduzidas de vinte por cento. Logo começou a falar à Igreja por meio da revista missionária, o “Missionary Repórter”. Ficou responsável por uma seção no jornal e por meio dela fez a Igreja sentir a sua obrigação de evangelizar os povos, especialmente os japoneses. Em conexão com os seus artigos publicados neste jornal, visitava as diversas Conferências Anuais e falava sobre o assunto de Missões. Foi muito bem recebido e o povo começou a responder-lhe aos apelos. Em Saint Luiz conseguiu fundos suficientes para mandar um missionário para o Japão e no Mississipi foi tão bem sucedido que diversos moços se ofereceram como candidatos ao trabalho missionário e diversos pais consagraram os seus filhos a Deus para o trabalho de missões. Assim ele passou algum tempo trabalhando. 2. Eleito secretário da Junta de Missões. Houve duas coisas que lhe causaram muito pesar durante o primeiro ano que passou nos Estados Unidos após regressar do Japão, a saber: a morte do seu querido e velho pai, Dr. James, que morreu no Japão em 1892, e a morte de um dos secretários da Junta de Missões , o Dr. W. H. Potter, que faleceu pouco tempo depois de ter sido eleito para esse cargo. Dr. Lambuth foi convidado a preencher o lugar do dr. W. H. Potter. Ele exerceu o cargo de secretário tão bem que quando a Conferência Geral se reuniu em 1894, foi eleito Secretário Correspondente da Junta de Missões, cargo que ele ocupou por dezesseis anos, sendo reeleito de quatro em quatro anos até que foi eleito Bispo em 1910. 3. A sua administração de dezesseis anos. Durante a administração do Dr. Lambuth a causa de Missões prosperou continuamente. Durante esta época diversas sociedades da mocidade da Igreja foram organizadas, tais como a Liga Epworth, que foi organizada em 1890, a Sociedade Missionária de Jovens e o Movimento
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    Voluntário de Estudantes.Por meio destas sociedades o Dr. Lambuth podia apelar à juventude da Igreja no sentido de interessar-se pelo trabalho missionário. Foi o promotor de diversas convenções compostas dos jovens das escolas e das igrejas, e foi nas ocasiões dessas convenções populares que muitos moços e moças se consagraram ao trabalho missionário em toda parte do mundo. Ele tomou parte saliente na cooperação das diversas Juntas de Missões nos Estados Unidos e no Canadá. Foi um dos primeiros membros da “Conferência das Missões Estrangeiras na América do Norte”. Em 1894, como secretário da Junta de Missões, o Dr. Lambuth, pela primeira vez, visitou o Brasil. Foi na ocasião da sua visita ao Brasil que, dois anos após a morte do pai, recebeu a triste notícia do falecimento da sua querida mãe, D. Maria, na cidade de Soochow, na China, no dia 26 de junho de 1894. O Dr. Lambuth estava no Rio de Janeiro nesse dia e escreveu uma carta à sua irmã que estava com a sua mãe na hora da morte. Segue um trecho da sua carta: “A vida dela foi uma vida heróica. Eu e você sabemos disto muito bem. Que devoção durante muitos anos! Que fadiga! Que abnegação, até uma extravagância das suas forças em serviço dos outros, e pelo amor de Cristo. Oh! Minha mãe, minha mãe, se eu pudesse ter tomado a tua mão mais uma vez, sim, mais uma vez! Mas está bem, minha irmã Nora. Nem por nada desejaria eu que você e Roberto estivessem separados dela nesta última hora. Deus lhe deu o doce privilégio de estarem com ela e prestarem algum serviço para suavizar um pouco a sua vida, e eu estou contente por causa de vocês e por causa dela”. A exigüidade de espaço e de tempo não permite que falemos mais sobre a sua administração como Secretário da Junta de Missões. VI – SEU TRABALHO COMO BISPO Como a Conferência Geral se reuniu em 1910, era opinião de muitos que o Dr. Lambuth seria eleito Bispo, e isso foi o que se deu. 1. Seu trabalho no Brasil. Além de ser nomeado para tomar conta do trabalho em algumas Conferências lá para oeste dos Estados Unidos e fundar uma Missão na África Central , foi designado também para ser o Bispo supervisor do trabalho missionário no Brasil. Logo depois da Conferência Geral, o agora Bispo Lambuth, pondo tudo em ordem, nos Estados Unidos, partiu para o Brasil, via Inglaterra, onde assistiria o Concílio Mundial de Missões em Edimburgo no mês de junho, chagando ao Brasil nos fins de julho de 1910. Aqui realizou a Conferência Brasileira em Ribeirão Preto, em 28 de julho, e foi a primeira Conferência Anual presidida pelo Bispo Lambuth. Durante quatro anos não deixou de visitar o Brasil, de ano em ano. Os irmãos não podiam deixar de ser impressionados com o espírito fraternal e abnegado que o caracterizava. Era tolerante e clemente, mas firme nas suas convicções. No gabinete os mesmos característicos se manifestavam. Aqui temos o testemunho de um membro do gabinete, a respeito do Dr. Lambuth. “Em muitos sentidos era o Bispo mais quieto que tenho conhecido, porém quando alguém procurava conseguir alguma coisa por subterfúgios, ele respondia com uma linguagem que queimava até os ossos. Duas vezes o testemunhei no gabinete. Feito isto, estava tudo acabado. Quando tinha refletido sobre um assunto e chegado a uma conclusão, ele a executava, mesmo quando isso gerava protestos”. O Bispo Lambuth era muito atencioso para com todos, ricos e pobres, humildes e graúdos. Uma vez na cidade de Belo Horizonte visitando a Igreja dos Militares, o pastor contou-lhe que havia um pobre homem, membro da Igreja, que era trabalhava como foguista no trem e que num desastre queimou-se e não havia esperança de escapar. O Bispo foi com o pastor visitar este
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    irmão. O homemficou muito impressionado em receber uma visita do Bispo. Mas o Bispo foi tão simples e natural em suas maneiras e conversas, que o doente percebeu que estava em sua presença, não o Bispo, mas um irmão amado. Depois de conversar com o moço sobre a sua fé em Cristo, fez oração. Embora a oração fosse em língua estranha, o doente ficou tão impressionado que não sentiu mais dores até chegar a falecer dali a poucos dias. Os pais do homem assim testemunharam mais tarde. Na ocasião da sua primeira visita ao Brasil o Bispo Lambuth interessou-se pela cooperação do Brasil na fundação e manutenção da Missão na África Central, pedindo que as nossas Conferências Anuais tomassem parte neste trabalho, levantando a quantia de seiscentos dólares por ano para este fim. A Conferência Anual Brasileira tomou o compromisso em 1910, e o tem cumprido até a presente data. Também foi durante esta visita episcopal que foi organizada a Conferência Anual Sul Brasileira. Na ocasião da sua última visita ao Brasil, em 1913, na véspera de partir convocou uma reunião especial de pregadores no Rio de Janeiro. 2. Seu trabalho na África. Por muitos anos o Bispo Lambuth interessou-se pelas missões na África. Mesmo quando ainda trabalhava no oriente, lendo as notícias do trabalho de David Livingstone e Stanley, tinha o desejo de abrir trabalho missionário no cont inente negro. Este desejo perpetuou durante anos e na véspera da Conferência Geral, em 1910, quando ele era ainda secretário da Junta de Missões, tomou a Junta a seguinte resolução: “Que a Junta de Missões tome medidas o quanto antes de estabelecer uma missão na África”. Quando foi eleito Bispo, nomearam-no para visitar a África a fim de estudar a questão. Em 1911, em companhia do Prof. John Wesley Gilbert, um homem negro (afro-descendente), e do Prof. do Panis College em Augusta, na Geórgia, fez a primeira visita à África. Escolheram o Congo Belga, que fica quase no centro da África, como a região onde julgaram conveniente fundar a Missão. Nos princípios de 1912, depois de uma viagem perigosa e penosa, chegaram ao lugar que chama Wembo Niama, em meio da tribo mais forte que existia naquela área, que se chama Batelela. Conquistaram a confiança e amizade do chefe da tribo, Wembo Niama. A segunda visita foi em 1913, quando o Bispo levou consigo uma companhia de missionários. O chefe Wembo Niama os esperava e os recebeu com alegria. Quando o Bispo Lambuth se despediu do chefe Wembo Niama, prometeu -lhe voltar no correr de dezoito luas (dezoito meses), porém tornou-se impossível ao Bispo cumprir a sua promessa devido à sua demora no Brasil. Resolveu ele avisar o chefe, da sua demora, pedindo que o prazo fosse prolongado para vinte e quatro luas. Para conseguir isto, era necessário mandar quatro homens a uma distância de mil milhas. Estes homens levaram um presente para o chefe, da parte do Bispo. O chefe, em sinal de proteção contra os inimigos, mandou, por meio destes mensageiros, a sua espada, com que tinha matado diversos homens, comendo-os em seguida. Faltava um dia para completar o prazo quando o Bispo, com as três famílias missionárias, chegaram ao lado do chefe. Isto não somente revela a fidelidade do Bispo em cumprir a sua palavra, como também sua prudência em conservar a amizade do chefe desta tribo. Quando o Bispo se despediu dele, em 13 de fevereiro de 1914, o chefe Wembo Niama quis acompanhar até aos limites da vila, e, chegando lá, disse ao seu povo: “O chefe branco diz que tem de voltar para casa. Que assim seja. Pode deixar o seu povo comigo. Eles (os missionários) serão meu povo, porque eu confio neles. Ele não deve ter receio. Quando completaram a igreja, os meus operários ajudaram na construção das casas do seu povo; e quando tudo acabaram, levantaram uma cerca alta e forte ao redor da Missão para protegê-la dos leopardos”. O Bispo, agradecendo-lhe essas palavras, disse: “Wembo Niama, o senhor é um grande chefe e as suas palavras são fortes. O senhor não me enganou nem tem deixado de cuidar dos
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    meus filhos quetenho deixado aqui. O coração de um grande e verdadeiro chefe devia ser um bom coração, e isto só pode ser uma dádiva de Deus. Dê o seu coração a Jesus e Ele o fará bom e forte”. O objetivo que o Bispo Lambuth tinha em vista era fundar esta missão na África, levantando assim uma barreira através do continente contra o progresso do maometismo (islamismo) que estava propagando do norte para o sul da África. 3. Seu trabalho nos Estados Unidos. O Bispo Lambuth trabalhou muito nos Estados Unidos durante o tempo que não estava em viagens missionárias no estrangeiro. Uma das coisas que fez logo depois de fundar a Missão na África foi preparar a série de preleções conhecida como “The Cole Lectures of the Valderbilt University”, em Nashville, no Tennesse. Ele foi escolhido para preparar e ler esta série perante a Universidade. Gastou algum tempo escrevendo essas preleções que têm como título: “Ganhando o mundo para Cristo” (Winning the World for Christ). Morava em Oakdale, na Califórnia, quando escreveu esta obra. Foi talvez, a época de mais repouso que tivera em toda a sua longa vida de atividades. Estas preleções foram lidas perante os seminaristas da Universidade em junho de 1915. 4. Seu trabalho na guerra mundial na Europa. Quando rebentou a grande guerra mundial em 1914, o Bispo Lambuth tinha completado a fundação da missão na África e, devido aos favores que o governo da Bélgica lhe tinha feito, natural era que tivesse simpatia pelo povo Belga nesta ocasião de aflições. Logo, pois, ele começou a apelar para o auxílio em prol dos que sofriam na guerra e por causa da guerra. E quando aos Estados Unidos entraram na guerra, ele se ofereceu como capel ão e fez o que pode para aumentar o número de capelas para servir os soldados nos acampamentos, tanto na América, como na Europa. Quando a guerra terminou, foi, em grande parte, devido à influência dele que a nossa Igreja abriu trabalho na Bélgica e Tcheco-Eslováquia. Era o desejo dele entrar na Rússia, porém devido às relações que o governo americano mantinha para com a Rússia não foi possível consegui-lo. 5. Seu trabalho nestes últimos anos no Oriente. Terminada a grande guerra o Bispo Lambuth foi nomeado para trabalhar no Japão, na China, na Coréia e na Manchúria. Como não podia entrar diretamente na Rússia, procurou entrar pelo oriente, abrindo uma missão na Sibéria. Na última viagem que fez ao Oriente, conseguiu fundar uma missão na Sibéria, vasta zona do mundo. Tinha sido ele o instrumento principal em abrir trabalho no Japão, Coréia, Cuba, África, a Conferência Texas -Mexicana e a Conferência Pacífica-Mexicana e por último a missão na Sibéria. VII – O FIM DO CAMINHO O Bispo Lambuth fez ainda duas visitas ao Oriente entre 1919 e 1921. A primeira visita foi feita em condições penosas, pois a sua esposa estava doente e passou quase todo tempo que ele esteve ausente num hospital, tendo a seu lado a dedicada filha, Miss Mary, para atendê-la. Quando o Bispo hesitou em ir, sua esposa lhe disse: “Vai quando e aonde o dever te chama. Deves ir. Tenho orado pelos coreanos e eles precisam de ti mais do que eu”. Quando o Bispo chegou à Coréia e contou isto à Conferência, os coreanos choraram como se fossem crianças. Mas a segunda visita foi ainda mais penosa, porque a sua esposa tinha um incômodo incurável e ele estava doente, precisando de uma operação.
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    Apesar de tudoisto, resolveu tentar a viagem, pois queria muito fundar a missão na Sibéria, além de ministrar aos japoneses, coreanos e chineses por essa vez . Ele fez aquela longa viagem à Sibéria fundou a Missão em 31 de julho de 1921, na cidade de Nikolsk. Logo em seguida voltou para o Japão, onde tinha que se submeter a uma operação. Na véspera da operação, numa carta que escreveu para o Dr. W. W. Pinson, diz ele: “É com bastante pesar que eu faço esta declaração, porém a necessidade está sobre mim. Não me arrependo de ter feito esta viagem, apesar da ausência de minha esposa e filha nesta ocasião, e tenha saudades da presença e auxílio delas. Mas eu e Mrs. Lambuth nos entregamos a Deus há anos atrás, quando entramos no trabalho missionário em 1877, e nós dois e todos os nossos interesses, têm estado absolutamente nas mãos de Deus desde aquele dia até o dia de hoje”. Poucos minutos antes de sofrer a operação, em 12 de setembro de 1921, o Bispo Lambuth pediu ao Dr. W. E. Towson que escrevesse uma carta à Junta de Missões para saber se tinha ainda algum recurso disponível em caixa para os chineses flagelados e famintos. Isto revela os sentimentos daquele grande coração. Ouçamos o Dr. Towson: “Ele encarou a operação com muita calma, pensando no trabalho, nos obreiros e nos queridos do lar”. Agüentou a operação e melhorou, e por alguns dias ditou muitas cartas, talvez duzentas; porém houve uma reação, ele piorou, e no dia 26 de setembro faleceu no hospital no Japão. Foi enterrado na China ao lado de sua mãe, D. Maria. O enterro foi acompanhado pelos amigos e representantes da Coréia, Japão e China. Diversas nacionalidades foram representadas nessa ocasião. O Bispo Lambuth era um cidadão do mundo e um cristão verdadeiro.