DO MEU VELHO
BAÚ
METODISTA

EULA KENNEDY LONG

1968
Junta Geral de Educação Cristã
Igreja Metodista do Brasil
DEDICADO

- À memória de todos os pioneiros que desde 1835 desbravaram o
terreno do Brasil pra nele içarem o estandarte do Evangelho,
e
- a todos aqueles que recebendo o estandarte continuaram a
levantá-lo com orgulho, gratidão e dedicação ao Senhor.

Eula Kennedy Long

São Paulo, Brasil.
Novembro de 1967
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
PRIMEIRA PARTE
Albores do Protestantismo no Brasil
Primeiras Sementeiras Metodistas no Brasil
Viagens Exploradoras de Kidder
Trágico Desfecho
SEGUNDA PARTE
O Metodismo Volta e se Afirma
A Missão Ransom
Valiosos Reforços
Ansiedade e Progresso
A Primeira Década da “Missão Ranson” - 1876-1886
Dias Memoráveis de 1886
TERCEIRA PARTE
Outra sementeira Metodista
Trabalho na Zona Colonial
Terrel, o Intrépido
Outros Campeões da Fé
Transferência de Trabalhos
Progresso Metodista nos Pampas
QUARTA PARTE
O Metodismo no Nordeste e Norte
QUINTA PARTE
Uma só Igreja a Perseverar
Governo Próprio
A Obra no Amazonas - Revelações e Perguntas
Publicações e Casas Publicadoras
Institutos Educacionais das Conferências Anual e Central
Escolas que desapareceram pela Estrada
No Campo da Ação Social
A Mulher no Cenário Metodista
Memórias da Igreja do Catete
A Igreja Metodista e Bebidas Alcoólicas
A Voz do Evangelho em Brasília
Umuarama - O Quê do Sonho Dourado
Retalhos, Recortes e Retratos
Qual deveria Ser a data da Origem do Metodismo no Brasil?
APRESENTAÇÃO
Participando das comemorações do primeiro centenário do
metodismo permanente no Brasil, solicitamos, em nome da Junta Geral de
Educação Cristã, à Srª Eula Kennedy Long, filha do autor do livro “Cincoenta
Annos de Methodismo no Brasil”, que brindasse a Igreja Metodista do Brasil
com mais uma obra de sua fluente pena de escritora, desta vez no campo da
história.
Assim, sob o sugestivo título: “Do meu velho Baú Metodista” surge
uma obra que recorda de maneira viva e interessante muitas das lutas e
realizações de mais de um século de metodismo no Brasil.

Á Ilustre autora os agradecimentos da Junta Geral de Educação
Cristã e da Igreja Metodista por mais esta preciosa colaboração.
São Paulo, março de 1968.
João Nelson Betts
Secretário Geral de Educação Cristã
INTRODUÇÃO

" Um povo que não conhece a sua origem

e nem o que fizeram seus maiores,
ignora tudo,
não tem passado, vive do presente ".
Bem fortes são estas palavras de Alexandre de Mello Moraes, historiador e
sociólogo do século 19. Contudo, vou parafraseá-las dizendo: "A Igreja que não conhece
a sua origem e nem o que praticaram seus pioneiros, não tem raízes profundas para
alimentar o seu presente ou dirigir o seu futuro".
Eis porque, neste ano do CENTENÁRIO DO METODISMO PERMANENTE NO
BRASIL, a nossa Igreja tem achado justo relembrar e comemorar o seu passado, tão
cheio de eventos e personalidades inspiradoras, de estímulo para hoje e desafio para
amanhã. As próprias palavras do Mestre justificam tal pesquisa, pois não disse Jesus:
"Todo escriba VERSADO NO REINO DOS CÉUS é semelhante a um pai de família que
tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas?”.
Todavia, fiquei desapontada e um tanto perplexa, quando soube que um
professor de Escola Dominical havia se queixado, dizendo: "Por que gastar tantos
domingos em estudos desses pioneiros antigos e da história do passado? Deixemos o
passado; cuidemos do presente; pensemos só no futuro!" Seria mesmo que, ao estudar
para apresentar estes fatos, eu estivesse preocupada demais com o passado, gastando
horas preciosas em fazer minhas pesquisas, em tirar as COISAS VELHAS DO MEU
DEPÓSITO?

Como que em resposta à minha perplexidade, chegaram-me às mãos - como
por coincidência, ou guiada por Deus - um sem número de respostas. Primeiro, um livro
recente de Franklin de Oliveira, A MORTE DA MEMÓRIA NACIONAL, no qual o autor
lamenta o "descaso geral pelo patrimônio nacional", declarando que o "Brasil está
correndo o perigo de tornar-se nação historicamente desmoralizada"; advertindo-nos que
"a morte nacional se realiza pelo abandono de nossas fontes culturais".
Será possível, perguntei-me a mim mesma, acontecer isto com a nossa Igreja
Metodista, se não cuidarmos geração após geração, de relembrar as nossas fontes
religiosas, os feitos, sacrifícios e vitórias dos pioneiros de antanho?
Mais preciosas e encorajadoras, porém, foram as palavras eloqüentes de
Sante Uberto Barbieri, filho do nosso Brasil, agora bispo da Região Platina (Argentina),
consagrado líder continental e mundial do metodismo, no seu livro Estranha Estirpe de
Audazes, onde escreve:

"A História é o único elemento em nossa vida social que nos liga ao passado.
CORTARÍAMOS DE NÓS MESMOS UMA IMPORTANTE PARTE SE OMITÍSSEMOS a
História... Podemos existir sem a história, MAS NÃO VIVER... Na História se refugia a
vida que já foi para não morrer... para continuar vivendo, PARA OBRIGAR-NOS A
VIVER". E reforçando suas observações, cita Miguel Unamuno, o grande filósofo da
Espanha: “É A VISÃO DO PASSADO QUE NOS EMPURRA À CONQUISTA DO
PORVIR", ao qual posso acrescentar “e com ela lançamos bases seguras para o futuro”.
***
Sinto-me, pois, justificada em trazer aos meus leitores essas recordações do
passado, essas histórias sobre os corajosos pioneiros do metodismo brasileiro. Portanto,
desse meu depósito, meu velho baú dentro do qual tenho entesourado retratos velhos e
desbotados, recortes de jornais, revistas, livros antigos de “orelhas de burro”, desse meu
velho baú vou retirando aquilo que peço a Deus nos levem nessa e em futuras gerações a
emular aqueles que tanto sacrificaram pela causa do Senhor Jesus Cristo.
Contudo, mister é que olhemos mais longe ainda, além destes pioneiros, além
do fundador - João Wesley. Mister é que fixemos os olhos e os corações Naquele que e o
nosso real fundamento, Jesus Cristo, o autor e consumador de nossa fé, a Rocha de que
fomos cortados (Is 51:1), a rocha da nossa fortaleza.

Bem sei que muito a contragosto, por falta de tempo e de informações que não
consegui colher, não tenho incluído nessa "Linha de Esplendor Sem Fim" muitos e
muitos que aqui mereciam constar. E por estas falhas, peço perdão. Outros historiadores
em profundidade suprirão esta falta.
***
Outrossim, agradeço ao Rev. João Nelson Betts, que, em nome da Junta Geral
de Educação Crista, pediu-me escrever este livro, o grande privilégio e honra de contribuir
assim para a comemoração do CENTENÁRIO DO METODISMO PERMANENTE NO
BRASIL.

Eula Kennedy Long

São Paulo, Brasil
Novembro de 1967
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO 1
ALBORES DO PROTESTANTISMO NO BRASIL
Pascal, eminente cientista e filósofo francês do século XVII, fez certa vez o
intrigante comentário: "Fosse o nariz de Cleópatra mais comprido, a história do mundo
seria outra". Parece frívola tal observação, ainda mais quando falasse sobre o
protestantismo; contudo, por meio destas palavras Pascal desejava mostrar que a
influência de detalhes insignificantes em si e aparentemente sem conexão pode
influenciar e até determinar o destino de pessoas e nações!
Foi uma série de eventos sem conexão nenhuma com o protestantismo, e
conseqüentemente com o metodismo, que lhes ofereceu a oportunidade de penetrar no
Brasil, tanto que podemos parafrasear Pascal, dizendo: "Não fora a ambição de
Napoleão, a história do Evangelho no Brasil teria sido outra". O primeiro evento liga-se a
fuga de D. João VI, rei de Portugal para a nossa terra, em 1808, e ao subseqüente abrir
dos portos, ato que rompeu a "cortina de ferro" que até então isolara o Brasil,
conservando-o na ignorância e no atraso material, intelectual e espiritual.

Tão cerrada fora esta cortina que um historiador brasileiro comentou que seria
mais fácil desembarcar no Rio um passageiro com varíola, do que um judeu ou herege.
Alexandre Von Humbolt, grande cientista alemão que explorava os países da América do
Sul, e que foi proibido de entrar aqui, chamou o Brasil de "um jardim amuralhado". Tal era
a dominância total pela Igreja Católica Romana que o padre Luiz Gonçalves dos Santos,
que escreveu um livro em 1838 ("O Católico e o Metodista"), para combater os
metodistas, declarou com a maior franqueza "até o presente nenhum herege se atreveu a
levantar a voz para perverter os católicos, pois a Igreja Católica do Brasil era um jardim
fechado onde não podia entrar nenhum animal daninho - um redil por todos os lados
cerrado, ao qual nenhum lobo se atrevia a aproximar-se" (Introdução, págs. 25 e 26).
Abertura dos portos
Abertos os portos, especialmente do Rio de Janeiro, começaram logo a afluir
ao Brasil muitos navios que traziam comerciantes de outros países, principalmente dos
Estados Unidos e da Inglaterra, então a "rainha dos mares".
Aqui entra em operação o segundo daqueles pequenos itens que influenciaram
o destino do protestantismo. Pois se não fosse o gênio inglês que sempre requer a
confraternização com seus patrícios, o protestantismo teria demorado ainda mais a
chegar às nossas plagas (estou ignorando o protestantismo dos huguenotes no Rio e dos
holandeses em Pernambuco, que nos séculos XVI e XVII aqui vieram por motivos de
colonização).
Os ingleses e seu templo
Dia chegou em que os ingleses, ao firmarem com D. João VI um tratado de
comércio e amizade, pediram o direito de construírem as suas próprias igrejas
anglicanas. O rei encontrou-se então "nos chifres de um dilema". Como recusar um favor
aos aliados que o haviam protegido em sua fuga de Napoleão? Por outro lado, como
arriscar a fúria da Igreja Católica Romana, que era oficial e não permitia a entrada de
religiões acatólicas?

D. João mostrou-se astuto em resolver o problema, ainda que não ao contento
da igreja oficial. Concedeu aos ingleses o direito de construírem seus templos, contanto
que não tivessem a aparência exterior de um templo - particularmente nada de torre e
sinos e, bem entendido, o culto seria somente para eles, os anglicanos.
Quando o rei viu o primeiro projeto do templo não o aprovou, porque as janelas
pareciam com as de uma igreja. Todavia, como naquela época janelas até de residências
particulares eram freqüentemente de estilo ogival ou gótico (como ainda vemos em casas
antigas do Brasil), elas ficaram sem modificações. Assim foi que os ingleses, em 1819,
terminaram o seu templo, a primeira igreja protestante, não somente no Brasil, mas em
toda a América do Sul.
É interessante notar que já em 1938 o Padre Luiz G. dos Santos se queixava de "Um
brasileiro católico que escandalizou toda a cidade (do Rio) indo comer pão e beber vinho
na Rua dos Barbonos", como então se chamava a rua onde foi construído o templo inglês
(O Católico e o Metodista, pág. 134)).

Esse mesmo tratado histórico também deu aos ingleses cemitérios próprios, pois até
então era proibido o enterro de chamados "hereges" em cemitérios católicos. O mais
conhecido era o da Gamboa no Rio de Janeiro, cujo local fora anteriormente uma chácara
do rei, e que por coincidência, hoje adjacente ao nosso Instituto Central do Povo.

Assim, pois, pavimentava-se a estrada para os cultos protestantes - e para nós os
metodistas.
Outras conseqüências do franqueamento dos portos
Este franqueamento também contribuiu para a divulgação de informações mais
precisas sobre o Brasil, tão desconhecidas então pelo resto do mundo. Negociantes,
capitães e tripulantes das naves, voltando à Inglaterra e aos Estados Unidos, descreviam
a ignorância e o atraso e escuridão espiritual do Brasil.
Já em 1805, Henry Martyn, um capelão anglicano em viagem à Índia num vapor que
aportara em Salvador, após várias experiências de conversas com padres, escreveu no
seu diário palavras que se tornaram clássicas quanto à situação religiosa no Brasil:
"Cruzes, cruzes, por todos os lados - mas quando se pregará a verdadeira doutrina da
cruz?"
Todas estas observações não eram mentira e calúnias, como asseveraram os
padres, pois são confirmadas por competentes historiadores brasileiros, como Gilberto
Freyre e Vianna Moog. Já em 1843 o Ministro da Justiça e dos Negócios Eclesiásticos no
Brasil relatara à Legislatura Imperial: "É notório o estado de decadência em que se
encontra o nosso clero. E evidente a necessidade de se tomarem medidas capazes de
remediar o mal".
Divulgação das Escrituras Sagradas
Capitães, marinheiros e negociantes ingleses e americanos, profundamente
impressionados, começaram a trazer e a distribuir Bíblias, Novos Testamentos e folhetos
religiosos que lhes eram fornecidos pelas Sociedades Bíblicas. Confirma isto Daniel
Kidder (de quem digo algo adiante), relatando casos que provam que desde 1823, isso se
fazia aqui e ali. Conta de um inglês que, recebendo uma consignação de Bíblias em 1833,
para poupar-se o trabalho de distribuí-las pessoalmente, deixou-as num caixote na
Alfândega, para serem levadas por quem as quisesse.
Outro caso era o de um pastor anglicano que dava ou vendia as Escrituras em
1836, porque se sentia "profundamente preocupado com o bem estar do povo em cujo
seio residia; dizendo com verdadeira perspicácia que aquilo de que o Brasil mais
necessitava era de bons pregadores brasileiros". Certo é que mesmo antes de as igrejas
evangélicas se encarregarem de enviar missionários, já cristãos leigos de outras terras
reconheciam a necessidade espiritual da nação e faziam empenho por satisfazê-la.
CAPÍTULO 2
PRIMEIRAS SEMENTEIRAS METODISTAS NO BRASIL

"Assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará
para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará
naquilo para que a designasse". (Isaías 55.11).
Pitts pesquisa e também organiza
Talvez influenciada pelas informações que vinha recebendo, a Igreja Metodista
nos Estados Unidos, em sua Conferência Geral de maio de 1835, resolveu enviar à
América do Sul, para verificar a possibilidade de estabelecer trabalho missionário ali, um
missionário. Foi escolhido para esse propósito, o pastor da Igreja McKendree de
Nashville, Estado de Tennessee — um jovem ministro de 27 anos, Rev. FOUNTAIN E.
PITTS (interessante coincidência: essa igreja tornou-se responsável depois pelo sustento
do Rev. James L. Kennedy, outro missionário pioneiro ao Brasil).
A primeira Sociedade Metodista no Brasil
Pitts, ele próprio tendo que conseguir os recursos para tão dispendiosa viagem,
partiu de Nashville, pregando e angariando donativos em caminho para custear o
empreendimento. Embarcou em fins de junho e chegou ao Rio de Janeiro no dia 19 de
agosto de 1835, passando ali uns seis meses. Organizou uma "Sociedade Metodista",
como então eram chamadas as nossas congregações, prosseguindo depois a Buenos
Aires e Montevidéu onde também organizou Sociedades (todas, como só podia ser, com
elementos que falavam inglês). Por isso, é ele designado o MISSIONÁRIO PIONEIRO DA
AMÉRICA DO SUL, pelos mais competentes historiadores metodistas; entre esses, o
antigo Dr. D. B. McFerrin, que o intitulou o "primeiro missionário nomeado para trabalho
permanente na América do Sul"; e o recente W. C. Barclay que escreveu: "(Pitts) lançou
os fundamentos do trabalho metodista no Brasil, Uruguai e Argentina". (Vol. I, pág. 347).
Também missionários de outras denominações evangélicas, assim o
reconhecem, como o veterano presbiteriano Alexander Blackford, que disse: "À Igreja
Metodista cabe a honra do primeiro esforço em tempos modernos de implantar o
Evangelho no Brasil". (Kennedy, pág. 13).
Antes de deixar o Rio de Janeiro, chegou a fazer planos preliminares para a
construção duma igreja. Voltando à sua terra, o Rev. Pitts apresentou um relatório tão
entusiástico sobre as oportunidades aqui existentes, que a Conferência Geral nomeou um
pastor para estabelecer trabalho missionário no Brasil.
Rev. Justin R. Spaulding
Este missionário foi o Rev. Justin R. Spaulding, ministro ordenado e já homem
maduro, pois contava 34 anos. Embarcou em março de 1836, em Nova Iorque, trazendo
consigo a sua esposa, um filhinho e uma "doméstica". Hospedou-se no Rio em casa de
uma família luterana; e naquela mesma noite, demonstrou a sua dedicação e energia,
pregando para umas trinta a quarenta pessoas — uma "pequena sociedade de pessoas
piedosas", assim ele as descreveu, que fora organizada pelo Rev. Pitts e que
ansiosamente o esperava.

Sem perder tempo, começou em junho, com trinta alunos, "uma Escola
Dominical da qual faziam parte crianças brasileiras a quem ensinava a Bíblia em sua
própria língua". (Kennedy, pág. 4). Quem as ensinava, não consta; mas talvez foi um
leigo anônimo, já residente no país, pois Spaulding ainda não conhecia bem o português.
Cremos ter sido essa a primeira Escola Dominical no Brasil, apesar de duas
outras denominações disputarem a honra. Num histórico sobre Petrópolis, o Rev. Nadir
Pedro dos Santos escreveu que a primeira Escola Dominical oficial no Brasil foi
estabelecida em 1855 pelo Dr. Robert Kalley, missionário escocês da Igreja
Congregacional (cf. Expositor Cristão, 10-12-1957). E o Rev. William R. Read, em recente
obra, escreve que a primeira Escola Dominical foi fundada em 12 de abril de 1860, pelo
missionário presbiteriano, Rev. Ashbel G. Simonton. Pode ser que as Escolas Dominicais
congregacional e presbiteriana levem os louros em termos continuidade, mas não em
termos de primazia de organização.
Falando sobre o trabalho do Rev. Spaulding, comenta Kennedy (Expositor
Cristão, 21-7-1894) que a “Escola Dominical floresceu a tal ponto, que o Rev. Spaulding
alugou uma sala mais espaçosa para nela celebrar os cultos. Houve, também, reuniões
de oração regularmente; e todos os domingos, com seus ajudantes, ele pregava em
algum navio aos milhares de marinheiros que constantemente entravam na baía do Rio
de Janeiro". Tanto o Rev. Kidder como o Rev. Kennedy, muito após, também iam a bordo
dos navios pregar aos seus tripulantes.
A primeira escola diária evangélica no Brasil
O espírito do metodismo foi sempre zeloso pela educação, procurando elevar
as massas com escolas num tempo quando a instrução escolar ainda era privilégio de
poucos. De sorte que, já em julho de 1836, o Rev. Spaulding abria uma escola diária na
rua do Catete, à qual assistiam não só os filhos de estrangeiros ali residentes, mas
também crianças de brasileiros católicos. Confirmam esse fato as censuras dirigidas a
estes pais pelo padre Luiz Gonçalves dos Santos, chamando-os de "simples e
ignorantes", e admoestando: "Apartai delas os vossos filhos... Ah, permita Deus que
semelhantes pais que entregam os seus filhos a hereges para serem instruídos por eles,
não chorem algum dia lágrimas de sangue!" ("O Católico e o Metodista", págs. 118, 119,
177).
Chegam reforços
O Rev. Spaulding, convencido das necessidades espirituais do Brasil, e
sentindo que precisava de auxiliares, pediu insistentemente que a Igreja Mãe lhe
enviasse recursos.
"VENHA À MACEDÔNIA, E AJUDE-ME!" era o seu constante apelo. A
resposta veio, e depressa; pois em novembro de 1837, chegaram ao Rio de Janeiro,
o Rev. Daniel Parrish Kidder com sua esposa Cynthia, o professor M'Murdy (às vezes
escrito Murdy), e a Srta. Maraella Russel, também professora e talvez irmã de
Cynthia, pois ambas tinham o mesmo sobrenome. Entre os dois que vinham ensinar,
surgiu logo um romance, e brevemente se uniram em matrimônio. Continuaram eles
dirigindo a pequena escola diária organizada pelo Rev. Spaulding. Desses, porém,
pouco sabemos, pois regressaram dentro em pouco aos Estados Unidos desanimados ou doentes.
O Brasil de então
Talvez seja de valor relembrar aqui alguns fatos que naqueles tempos, traziam
desânimo aos pioneiros. Primeiro - a longa viagem marítima, em vapores de pouco
conforto, arriscando-se e passando por sérios perigos, pois não existiam meios de
comunicação com a terra, como hoje. Depois de chegados, tinha que enfrentar as
dificuldades inerentes ao aprendizado de outra língua, e acostumar-se a uma cultura de
valores e costumes estranhos. Qualquer comunicação com a Igreja Mãe e com os
queridos e a Pátria distante, era dificílima. Ademais, chegavam a uma terra onde ainda
grassavam febres malignas como a palustre e a amarela, e doenças contagiosas como a
varíola e a peste bubônica. Uma terra onde, conforme o historiador Gilberto Freyre, a
limpeza das ruas e dos quintais era feita pelos urubus, e a da praia pelas marés; onde até
meados do século 19, residentes das cidades tinham que ser proibidos de atirar água suja
das janelas às calçadas sem primeiro avisar três vezes, "Cuidem da água!" (Freyre, pág.
151).
Tudo isso demandava, pois, muita saúde, muita coragem, e muita confiança
em Deus, para que esses pioneiros deixassem sua família e sua Pátria para dedicaremse ao trabalho em terra estranha - trabalho que no Brasil era muitas vezes caluniado e
hostilizado. Apesar desses pioneiros metodistas não terem sofrido perseguição física,
eram mal-interpretados em seus motivos e escarnecidos, e advinha disto um sentido de
insegurança.
Conta o Rev. William Read que duas esposas de missionários presbiterianos
enlouqueceram devido à tensão que sofreram quando os seus maridos viajavam. Bastava
a menção da palavra protestante para apavorar homens e mulheres em certas
comunidades do interior. O povo acreditava que o demônio se apossava dos corpos dos
protestantes e que seus pés se transformavam em cascos fendidos. O Rev. Perce
Chamberlain, presbiteriano que fundou a Escola Americana e depois o Mackenzie,
surpreendeu certa vez, um grupo de residentes duma zona rural a tirarem os sapatos a
fim de mostrar a toda a gente, que não eram "bodes protestantes" (Read, pág. 52).
Todavia, a obra intensifica-se
Agora com o Rev. Kidder para lhe ajudar, o trabalho metodista na Corte (Rio
de Janeiro) progredia a ponto de os padres "resistirem-no freneticamente". Primeiro
mandaram imprimir um pequeno jornal "O Católico Fluminense"; depois, o Padre Luiz
Gonçalves dos Santos publicou um livro, “O Católico e o Metodista”, ambos mais úteis
para divulgar o metodismo do que para contê-lo!
Intensificaram os missionários a divulgação das Escrituras e folhetos religiosos,
nisso aderindo aos conselhos de João Wesley, que frisara sempre a importância da
literatura religiosa. Escrevera Wesley que a "propagação de informações por meio do
prelo segue em importância a pregação do Evangelho" (Early American Methodism, Vol.
II, pg. 482). O Rev. Kidder, logo ao chegar ao Rio, ficou admirado com a venda e
distribuição das Escrituras, como já estava sendo feita pelo Rev. Spaulding. Escreveu
num dos seus livros que apesar de a Bíblia não constar da relação dos "livros que
podiam ser admitidos nas colônias (de Portugal)" elas logo encontraram compradores.
“Na sede de nossa missão, dizia o Rev. Kidder, deu-se o que poderia chamar
de verdadeira ‘corrida’ de pretendentes ao Livro Sagrado”. Muitos enviaram bilhetes por
escravos ou crianças. Um dos bilhetes era assinado por um Ministro do Império que pediu
exemplares para toda uma escola fora da cidade. Entre os que nos foram procurar
encontravam-se diversos sacerdotes... Na sexta e no sábado, apinharam-se na casa
suplicantes de todas as condições, desde o ancião encanecido ate a criança palreira;
desde o senhor da alta hierarquia até o pobre escravo. Tem vindo pessoas de todas as
zonas da cidade...
“SÓ À ETERNIDADE CABERÁ REVELAR TODO O ALCANCE DE SEUS
BENEFÍCIOS" (referindo-se a disseminação das Escrituras).
Spaulding e o problema da escravidão
Além dos seus outros trabalhos, o Rev. Spaulding desejava fazer algo para
beneficiar os pobres escravos. Conhecendo já de primeira mão, na sua própria terra, os
males dessa instituição, ele se compadeceu da sua sorte e aceitou na escola diária
algumas crianças de cor. “Foi esse, comenta um historiador, talvez o primeiro esforço na
América do Sul, de reconhecer a igualdade de direitos dos negros.”

Relatando o que fizera, o Rev. Spaulding escreveu à Junta de Missões
nos Estados Unidos: "O que será o resultado final da escravidão, ou quando
terminará nesse país, e impossível dizer. Tudo quanto podemos fazer é sermos
diligentes, extremamente discretos e entrarmos por qualquer porta que a Providência
abrir, para fazer-lhes bem". Porém o Padre Luiz, interpretando injustificável ou
maliciosamente as intenções do missionário - que decerto não tinha a menor idéia de
promover qualquer movimento político ou violento a favor dos pretos, escreveu:
“Aqui temos a missão metodista em duas partes ou dois fins: o primeiro,
descatolicizar o Brasil, no que trabalham com todo o vigor; e, segundo, emancipar os
nossos escravos. Se os metodistas pretendem ensinar os pretinhos somente a sua
doutrina, por que razões se mostram tão acautelados, tão prudentes? Aqui há
mistério oculto - os Metodistas têm planos escondidos sobre os nossos escravos, que
não lhes convém ainda descobrir” (revelar). (O Católico e o Metodista, pág. 176).
Forte reação da hierarquia católica
Não é de se admirar que os líderes da igreja dominante começassem a
sentir tamanha preocupação com os sucessos dos protestantes, que chegassem a
concitar o governo imperial, em 8 de maio de 1839: "Se o Brasil quer ser feliz,
oponha-se pelo órgão do seu governo a toda inovação, tanto política como religiosa,
que além de imprudente, desnecessária e lesiva dos direitos dos povos, muito dano
causara ao Estado, principalmente em tempos tão melindrosos como os atuais"
(Dissertação sobre a Sepultura dos Cathólicos, pág. 30).

Para esse padre, não havia palavras suficientemente duras com que
estigmatizar os metodistas, "Como é possível", perguntou, "que na corte do Império da
Terra de Santa Cruz, à face do Imperador e de todas as autoridades Eclesiásticas e
Seculares se apresentem homens leigos, casados, com filhos, denominados missionários
do Rio de Janeiro? Incrível, mas desgraçadamente certíssimo! Estes intitulados
missionários estão a perto de dois anos entre nós, procurando perverter os católicos,
abalando a sua fé com pregações públicas em suas casas, com Escolas Semanárias e
Dominicais, espalhando Bíblias truncadas e sem notas — enfim, convidando a uns e
outros para o Protestantismo; e muito especialmente, para abraçar a seita dos Metodistas,
de todos os protestantes, os mais modernos, mais turbulentos, os mais relaxados,
fanáticos, hipócritas e ignorantes". (Introdução de "O Católico e o Metodista", pág 24).
CAPÍTULO 3
VIAGENS EXPLORADORAS DE KIDDER

Os missionários não se intimidaram. Desejosos de conhecerem bem o país, o
ambiente em que iriam trabalhar, e as oportunidades existentes, viajaram extensivamente
pelo Brasil, principalmente o Rev. Kidder. Enquanto o Rev. Spaulding dirigia os trabalhos
na Corte, Kidder, como representante também da Sociedade Bíblica Americana, sentia-se
obrigado a fazer tais viagens para distribuir mais largamente as Escrituras. Percorreu de
início as zonas mais próximas do Rio; depois, embarcando em navio até Santos, de lá fez
a difícil Jornada em lombo de mula, serra acima, até São Paulo. Foi isso em Janeiro de
1839.
Em São Paulo
Do ponto de vista da missão metodista, foram realmente extraordinárias estas
expedições missionárias. Em muitas localidades, o Rev. Kidder recebeu hospedagem até
de sacerdotes; em algumas, teve a colaboração de vigários mais liberais e esclarecidos
para a distribuição das Escrituras - como em Iguaçu, Estado do Rio. "Durante todo o
tempo em que residimos no Brasil", observou, "jamais encontramos o menor obstáculo ou
recebemos a mais leve desconsideração por parte do povo". Que contraste com o
tratamento recebido do Padre Luiz!
Chegado a São Paulo, Kidder teve a feliz idéia de distribuir Testamentos pelas
diversas escolas da cidade para serem usados como livro de leitura; mas para conseguir
isso, precisaria receber ordem da Assembléia Legislativa. Entusiasmado, Kidder visitou a
Assembléia, sendo bem recebido e avistando-se com muitos parlamentares e pessoas de
destaque. A sua proposta foi recebida com respeito; e até o Bispo do Rio, ali presente,
aprovou a idéia. Kidder, chegou a falar com o Padre Diogo Feijó e com Martim Francisco,
o presidente da Assembléia, que disse "sentir-se feliz que sua Província seria a primeira a
dar o exemplo de introduzir a Palavra de Deus nas escolas públicas".

Interrogado sobre a sua oferta, Kidder garantiu em nome da Sociedade Bíblica
"o oferecimento gratuito de Novos Testamentos na edição do Padre Figueiredo, em
quantidade suficiente para oferecer dois exemplares a cada uma das escolas primárias da
Província". Pedia uma só condição - que tais volumes "fossem desembaraçados na
Alfândega do Rio de Janeiro - que fossem distribuídos, conservados e usados pelas
escolas como livros de leitura geral e instrução para os alunos".
A oferta foi aceita; mas devido às "intrigas” comuns à maioria das organizações
políticas - a decisão da Assembléia foi procrastinada e - tais eram as animosidades entre
os dois partidos e tal a pressão de parte do clero mais atrasado - que finalmente a
Comissão a qual fora entregue a proposta, deu um parecer desfavorável, "só mesmo
Deus poderá dizer o que teria sido o efeito dessa medida para o nosso Brasil, se além de
aceita tivesse sido posta em prática!“
Viagens para o norte e nordeste
Em meados do ano de 1839, enquanto o Rev. Spaulding cuidava do trabalho
no Rio, Kidder resolveu viajar a outras regiões do Brasil. Naqueles dias, não havia
nenhuma comunicação rápida entre o Rio de Janeiro e o norte do país; dizia-se ser mais
fácil saber o que se passava ali por noticias procedentes da Europa, do que diretamente.
Foi por isto que o governo Imperial criou uma companhia de navegação; e no
dia 1º de julho, Kidder embarcou no vapor "São Sebastião", deixando, escreveu mais
tarde, "a nossa boa companheira que deveria permanecer no Rio cuidando de um casal
de filhos".

Ah! CYNTHIA! Esposa e companheira de missionário, mãezinha que ficavas só
nesta terra estranha enquanto o teu marido viajava longe, meses a fio, distribuindo a
Palavra de Deus e anunciando as boas novas! Quantos receios e quantas saudades não
terás sentido! Contudo, fervorosamente cristã, como teu marido descreveu-te, não
hesitaste em aceitar o peso da solidão, do medo e da incompreensão de tua missão!

O Rev. Kidder levou consigo uma grande remessa de Bíblias, Testamentos,
folhetos e Saltérios nessa viagem que o levou ate o Maranhão e Pará - jornadas que
somente exploradores audazes teriam empreendido; e onde quer que fosse, distribuía e
pregava a Palavra. "O missionário", escreveu ele, "aprende a se valer de todas as
ocasiões, por menores que sejam, de praticar o bem em nome do Mestre". Como bom
wesleyano, Kidder também se interessava muito em combater o vício da bebida, pois
Wesley fulminara todos que faziam e vendiam bebidas espirituosas, declarando que eram
"envenenadores que assassinavam por atacado, que conduziam os homens qual
cordeiros ao inferno!" (Barclay, pág. 23). Duras palavras! Kidder, portanto, procurava
sempre conseguir votos de abstinência e promover a organização de SOCIEDADES DE
TEMPERANCA, visando especialmente os marinheiros, que tinham fama de beberrões.

Na primeira viagem a bordo do "São Sebastião", conseguiu diversos
compromissos de abstinência. Desembarcou para trabalhar no Recife; e quando o vapor
retornou da sua viagem mais ao norte, Kidder foi a bordo para verificar os resultados da
sua campanha antialcoólica. "Com grande e admirável surpresa", relatou, "soubemos que
treze entre marinheiros e foguistas, que haviam assinado o compromisso, continuavam a
observá-lo estritamente, a despeito das tentações que enfrentavam".

Noutra ocasião, quando prosseguia em outro barco, o comandante, capitão da
marinha imperial brasileira, assegurou-lhe que apoiaria tudo que fizesse em prol do bemestar da sua tripulação, manifestando "a esperança de que conseguíssemos através dos
nossos esforços, o milagre da temperança, como lhe constava que havíamos feito a
bordo do "São Sebastião".
Dando mais pormenores sobre essa viagem, Kidder escreveu: "Os nossos
trabalhos não se cingiam somente aos domingos. Éramos às vezes convidados para
pregar a bordo dos navios de guerra americanos; de vez em quando passávamos por
entre navios aglomerados nos portos, visitando-os, conversando com os marinheiros, e
distribuindo publicações. Fazíamos esse trabalho como se atirássemos pães ao mar, que
dias mais tarde, certamente encontraríamos de novo. Deixamos exemplares do livro
sagrado à venda em diversos lugares, e panfletos para distribuição. Assim,
estabelecemos depósitos nas cidades costeiras, onde as Escrituras pudessem ser
procuradas pelas pessoas do interior, desde São Paulo até o Pará, deu-se um grande
passo no sentido de divulgar a Palavra de Deus em todo o país. Passamos então, a
providenciar ativamente a realização do culto em português no Rio de Janeiro. Para
tanto, pusemo-nos a preparar uma série de prédicas, que esperávamos logo poder
começar a ler em público".

Tais eram os sonhos, os ideais, as atividades desse corajoso e dinâmico servo
do Senhor que tinha uma visão dum Brasil, do Sul ao Norte, dedicado ao Senhor Jesus
Cristo! Visão, entretanto, que não poderia realizar — uma terra prometida que não
chegaria a entrar. Das profundezas dos nossos corações, perguntamos perplexos: "POR
QUE, Ó DEUS, POR QUE NÃO PUDERAM ESSES CORAJOSOS SERVOS VER SEM
INTERRUPÇÃO A TUA MISSÃO NO BRASIL?.
CAPÍTULO 4

TRÁGICO DESFECHO
" Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no
Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas
fadigas, pois as suas obras os acompanham."
(Apocalipse 14:13).
Falecimento de Cynthia Kidder
Voltou Daniel Kidder de sua longa viagem, entusiasmado, satisfeitíssimo com a
sementeira que lançara radiante em antecipação de reunir-se com a querida esposa e
filhinhos, disposto a começar logo a pregar em português.
Mas grande desilusão! A sua alegria tornou-se brevemente em consternação.
Cynthia passava mal; dia a dia piorava com o que ele chamou de "cruel moléstia",
presumivelmente febre amarela. Finalmente, a despeito de todos os cuidados médicos,
deu o seu último suspiro, vindo a falecer em 16 de abril de 1840. No mesmo dia, foi
enterrada no cemitério inglês da Gamboa - cemitério que era generosamente cedido a
qualquer protestante. Pois naqueles dias, os chamados "hereges" não podiam ser
enterrados nos demais cemitérios que, quase sem exceção, pertenciam à Igreja Romana.

Uma simples lápide leva os seguintes dizeres em inglês:
SACRED TO THE MEMORY OF MRS CYNTHIA HARRIET,
WIFE OF REV. DANIEL P. KIDDER
DIED APRIL 16th, 1840
AGED 22 YEARS AND 6 MONTHS.

Isso é:
CONSAGRADO À MEMÓRIA DA SRA. CYNTHIA HARRIET,
ESPOSA DO REV. DANIEL P. KIDDER,
MORTA EM 16 DE ABRIL DE 1840
COM A IDADE DE 22 ANOS E 6 MESES.

***
Com profunda emoção, mas grande reserva, o Rev. Kidder escreveu sobre
o triste desenlace em palavras prenhes de significação, palavras que revelam o que
foi o caráter cristão e o preparo intelectual de Cynthia: "Vítima de cruel moléstia,
nossa amada esposa em poucos dias baixou prematuramente à sepultura. Fora
roubada ao exercício duma atividade na qual se especializara cuidadosamente. Sua
dedicação e devotamento ao serviço que lhe fora destinado, foram repentinamente
cercados pela mão da morte. Morreu, porém da mesma forma que vivera,
humildemente, fervorosamente cristã; e em seu último alento, triunfou sobre o inimigo
adormecendo mansamente em Jesus, o Salvador".
Ainda mais reveladoras palavras sobre a breve, mas preciosa vida dessa
serva do Senhor se encontra numa carta íntima na qual o Rev. Kidder participou o
falecimento da Cynthia aos seus pais:
“Prezados pais,
Pela misteriosa, mas sempre sabia providência de nosso Pai
Celestial, tenho agora de cumprir um dever melancólico e doloroso - o de
participar-lhes que não mais vive a nossa querida Cynthia!
Na quinta-feira, 16 de abril, deu ela o seu suspiro final. Poucos dias
antes, gozava de saúde; e conforme o saber humano podia antecipar uma vida
tão longa como a de qualquer outro ser. Depois sobreveio como que uma febre
gástrica... Seus médicos foram os melhores que podíamos ter, tanto ingleses
como brasileiros, mas tudo foi em vão. Faleceu sem luta ou sofrimento, e suas
últimas palavras foram, "meu querido marido".
Apesar de preparada (para a morte) ela não a antecipava, ao
contrário, entretinha a distinta impressão que Deus a conservaria. Durante esse
tempo, ela tinha adquirido o uso correto e fluente da língua portuguesa, ficando
assim duplamente preparada para o seu trabalho no Brasil.
Os amigos estenderam toda a ajuda e simpatia possível até os
últimos momentos da sua vida, e o enterro foi na Gamboa, o único lugar na
cidade para o enterro de protestantes. Não é costume aqui comparecerem
senhoras a enterros; e como o lugar do cemitério é bem afastado, é raro muitas
pessoas assistirem-no.
Nós, porém, ficamos surpresos e gratos com a assistência de 60 a
70 pessoas de ao menos quatro nações e línguas diferentes.
O enterro foi na sexta-feira santa que os católicos aqui observam
com procissão, não permitindo nem sino nem musica pública. O Rev.
Spaulding fez o culto fúnebre no qual foi acompanhado por dois ministros
ingleses, um alemão, e por mim.
Partiu assim a minha amada esposa, com a idade de 22 anos, 6
meses e dez dias, no quarto ano do nosso matrimônio. É ela a PRIMEIRA
MISSIONÁRIA NA AMÉRICA DO SUL, chamada à sua recompensa eterna.
Seus restos mortais descansam no solo do Brasil num recanto à cabeça duma
avenida de árvores que sobe o declive da praia em direção a uma pequena
elevação. Dali, por onde o viajante erguer os olhos, verá uma paisagem que
combina a beleza natural à expansão grandiosa de um panorama
deslumbrante.
Descansa ali a minha amada; e de lá se erguera na manhã da
ressurreição. Que nós também, ao soar da última trombeta, nos acordemos
para encontrarmos-nos com ela no ar! Para esse fim, sempre oraremos.
Seu filho enlutado, com afeto,
D. P. Kidder
(Carta publicada no CHRISTIAN ADVOCATE, 26 de junho de 1840).
***
Ah, Cynthia, Cynthia! Foste de fato, a primeira mártir do metodismo brasileiro!

Voluntariamente deixaste os teus pais queridos e a pátria amada para
acompanhar o teu marido em sua sagrada missão de arauto do Evangelho! Ao seu lado
labutaste com devoção; a língua estudou para melhor servir a nosso povo. Não duvidaste
ficar só, cuidando dos filhinhos, enquanto ele arriscava a vida em expedições pelo Brasil,
procurando espalhar a Palavra de Deus!
BENDITA SEJA A TUA MEMÓRIA! Bendito para nós hoje e o teu exemplo de
esposa dedicada e colaboradora do teu marido em sua obra evangelizadora; de serva
pronta a dar-se ao serviço do Mestre onde quer que Ele te chamasse!

***
Regresso do Rev. Kidder aos Estados Unidos
Viúvo aos 25 anos, com dois filhinhos, sendo um de colo e doente, Daniel
Kidder viu-se forçado a retornar à sua Pátria - "na esperança, ele escreveu, de poupar a
vida de um menino ainda pequeno". É lógico presumir que ele teria voltado para o Brasil,
uma vez que se recuperasse do grande choque sofrido, pois vivia fazendo planos para um
grande futuro no Brasil. Mas isso não sucedeu. Ainda que não tivesse falecido Cynthia,
ele teria sido obrigado a abandonar o trabalho.
É que a "Sociedade Missionária" ( a “Junta”, como agora a chamamos), tendo
gastado mais de 16 mil dólares no trabalho no Brasil, sentia ter alcançado os limites dos
seus recursos e do seu crédito financeiro (Barclay, Vol. II, pág. 252). Depois de muito
debater, resolveu fechar todo o seu trabalho na América do Sul, não acreditando que
correspondiam às expectativas da Igreja. Foi o seguinte o breve comunicado dessa
medida tão grave para o Brasil:
"A Sociedade Missionária sente muito dizer que a Missão no Rio de Janeiro ter
sido abandonada - porém não há qualquer evidência que o dinheiro e o labor ali
expendido na missão tenham sido em vão. Não tem havido falta nenhuma de zelo,
fidelidade, ou devoção por parte dos obreiros - eles têm feito tudo que podiam sob as
circunstâncias que tiveram que enfrentar" (Barclay, Vol. II, pág. 356 — Grifos meus).
Desviemos-nos um pouco da história, para agora citar um incidente sem
conexão direta com a Missão Spaulding, mas que, todavia, nos oferece um retrato
adicional de como eles viviam e trabalhavam.

Foi por essa época que os Estados Unidos estavam estendendo as suas
fronteiras até o longínquo e desconhecido território de Oregon, na costa do Pacifico.
Lá existiam muitos índios, que também necessitavam da mensagem cristã. Quando a
Sociedade

Missionária

resolveu

enviar

missionários

muitos

responderam

voluntariamente ao apelo.
Mas a travessia por terra de Nova Iorque até o Oregon através de território
virgem

e

escabroso,

enfrentando

emboscadas

de

indígenas,

tornavam-na

perigosíssima e difícil. Tornou então a Sociedade uma resolução surpreendente:
enviar o grupo de 51 missionários de navio de Nova Iorque, pelo Oceano Atlântico,
costeando o Brasil até o estreito de Magalhães, para depois pelo Oceano Pacífico,
após 35 mil quilômetros de viagem, desembarcarem no seu lugar de destino. Dessa
viagem escreveu Barclay: "O vapor Lausanne saiu de Nova Iorque no dia 1º de
outubro de 1839, contratado pela Sociedade Missionária. E de primeira classe - 400
toneladas - com boas cabines. É um navio "temperante", pois nenhuma bebida
espirituosa será nele admitida, nem como frete, nem para uso pessoal".

Essa viagem levou ao todo sete meses e vinte e um dias, e os missionários
eram não somente pregadores, mas carpinteiros, fazendeiros, professores, um médico
e um ferreiro". Agora, a história dessa caravana se entrosa com a da Missão Spaulding.
Um membro dessa caravana escreveu no órgão oficial da Igreja (Christian Advocate)
dizendo que ao chegar ao Rio em 16 de dezembro, resolveram fazer uma visita à
cidade.
"Desembarcamos perto dos jardins públicos, dos quais não dista muito a
residência do irmão Spaulding, onde fomos cordialmente recebidos. Moram cerca de
um quilômetro do centro da cidade, perto de um matadouro, o que é desagradável.
Também fomos muito incomodados pelos mosquitos. A irmã Kidder (que faleceu apos
essa visita), mora com a família do irmão Spaulding, pois o marido está ausente em seu
trabalho.”
“Nossos amigos tudo fizeram para nos acomodar. Éramos 21 pessoas, sem
contar que as crianças foram à terra no Rio; mas nossos amigos pareciam deleitar-se
com a visita, apesar de lhes ter obrigado a muito trabalho e despesa. Iam ter um culto
àquela noite. O irmão Spaulding, depois do jantar, falou-nos sobre o seu trabalho, para
animar-nos quanto ao nosso. Orou conosco, depois cantamos diversos hinos e partimos
- mas com lágrimas".
O que teria sido o futuro do nosso trabalho aqui se tivessem enviado ao Brasil
aqueles cinqüenta e um, missionários, em vez de desistir da Missão Spaulding!
Todavia, não foi só a Missão Oregon e as dificuldades financeiras que
provocaram o fechamento da Missão no Brasil. Os conflitos de opinião, as desarmonias
resultantes do problema da escravidão nos Estados Unidos, afetavam também a Igreja,
culminando em 1844 com a triste divisão do metodismo americano em dois ramos,
motivada pela secessão dos estados sulinos que queriam manter a escravidão. E em
1861, surgia a guerra civil.
Terminou assim a Missão Spaulding
E o que se tem dito e escrito; e de fato, do ponto de vista humano, parece
ter terminado. MAS TERMINOU MESMO?

De uma coisa estamos certos - que não foram distribuídas ou vendidas
pela Igreja Católica Romana, pois ela só começou a se interessar por isto em nossos
dias. Naquele tempo, proibia a sua leitura e queimava ou destrocava as que
encontrava. Como escreveu Kidder, nem os sacerdotes possuíam ou conheciam a
Bíblia!
Nada feito em nome de Deus, como foi à consagrada obra desses
missionários, é feito em vão, ainda que por motivos desconhecidos a obra não
conseguiu radicar-se permanentemente. A própria Junta nos Estados Unidos
testemunhou que o seu labor não foi em vão. Quais sementes que levam longo
tempo para germinar e crescer, a semente lançada por eles certamente facilitou a
obra daqueles que os seguiram anos após.
Notas suplementares sobre os Revs. Pitts, Spaulding, e Kidder
Tenho-me demorado muito com o trabalho desses três pioneiros, porque
foram de fato os PRIMEIROS MISSIONÁRIOS METODISTAS AO BRASIL - eram os
PRIMEIROS EVANGÉLICOS QUE AQUI PREGARAM A PALAVRA DE DEUS.
Demorei-me também, porque é tão pouco conhecida à extensão, a variedade e os
sacrifícios da sua obra. Isto é lamentável, porque há realmente abundância de fontes
históricas.
Kidder foi um escritor habilidoso e prolífico. Depois de sua volta aos Estados
Unidos, escreveu dois volumes, "REMINISCÊNCIA DE VIAGENS E PERMANÊNCIA NO
BRASIL", tratando de suas viagens no Rio e São Paulo, e um outro livro acerca das suas
viagens ao Nordeste e Norte, durante as suas expedições evangelísticas e de distribuição
da Bíblia. Um terceiro volume, "BRAZIL AND THE BRAZILIANS", escreveu em
colaboração com o missionário presbiteriano, J.G. Fletcher. A Livraria Martins Editora, de
São Paulo, publicou as traduções dos dois primeiros que são considerados como um
retrato dos mais autênticos do Brasil daquela época.
Revs. Fountain E. Pitts
Depois de voltar aos Estados Unidos, serviu como pastor de diversas igrejas no
seu estado natal de Tennessee. Sempre conservou o mais profundo interesse pelo Brasil;
sendo autor na Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal do Sul, em 1870, duma
resolução a favor de se recomeçar a missão nesse país. Infelizmente, essa resolução
malogrou; mas ele não desanimou, e em 1874, colaborou em trazer novamente a
Conferência Geral, a resolução que levou a criação de nova Missão Ransom no Brasil.
Rev. Justin R. Spaulding
Nascido em 1802, era pastor em Augusta, no Estado de Maine, quando a
Sociedade Missionária, em resposta aos apelos do Rev. Pitts, decidiu enviá-lo ao Rio de
Janeiro. Depois de voltar à Pátria, apos quase seis anos de trabalho dedicado no Brasil,
continuou sua obra pastoral no seu estado natal.
Rev. Daniel Parrish Kidder
Nasceu em 1815 no Estado de Nova Iorque, mas passou a maior parte da sua
juventude em Vermont, com seus tios. Os pais não eram metodistas e não queriam que
ele o fosse, mas Daniel – convertido - tornou-se membro leal da Igreja e, com o passar
dos anos, um dos seus significativos líderes. Seu primeiro desejo fora ser missionário na
China, país pelo qual a Igreja se interessava muitíssimo; mas como isso não foi possível,
veio ao Brasil, onde também representou a Sociedade Bíblica Americana. Depois de
regressar à Pátria, viúvo com dois filhinhos, casou-se novamente com Harriet Smith.

Homem de excepcional brilhantismo e de profunda cultura, já aos 29 anos,
exercia cargos de importância na Igreja - entre esses, o de professor em dois Seminários,
de membro da Junta de Educação da Igreja e de Secretário Executivo Nacional das
Escolas Dominicais. Nesse período editou mais de 800 volumes. Escreveu diversos livros:
um sobre os Mórmons, outro sobre a Homilética (a arte de pregar), e mais três volumes
sobre o Brasil, que são considerados obras de incomparável valor histórico e descritivo
sobre a nossa terra e seus costumes naquela época. Aposentou-se em 1889, e faleceu
aos 76 anos, em 29 de junho de 1891.
SEGUNDA PARTE
CAPÍTULO 5
O METODISMO VOLTA E SE AFIRMA

"Para o semeador cristão, o intervalo entre o tempo de
semear e o tempo da colheita pode ser mais do que uma
geração; e os ceifadores nem sempre são os que
semearam".
(T. T. Faichney)
Período de silêncio
Surgia agora no horizonte mais um daqueles pequenos eventos que nada
tendo a ver com o nosso metodismo no Brasil, todavia, foi nas mãos de Deus um
instrumento para novamente tentar implantar o Evangelho em nosso país.

Lembramos que a fuga do Rei Dom João VI resultou na abertura dos portos
brasileiros ao mundo; como o espírito comunitário inglês abriu a porta à entrada do culto
protestante; e agora, com a trágica guerra civil nos Estados Unidos, também serviria a
causa do metodismo no Brasil. Para melhor entender o abandono da missão no ano
1841, é preciso também saber o que se passava na Igreja Metodista do Sul nos Estados
Unidos. Empobrecida pela guerra, com centenas de seus templos e estabelecimentos
educacionais destruídos ou transformados em hospitais e quartéis militares, com sua
Casa Publicadora encampada, ela não tinha recursos nem fervor para dar atenção à obra
missionária.

Os obreiros na China, campo que era a "menina dos seus olhos", foram
obrigados a sustentar-se a si próprios. Não é de admirar que o Brasil ficasse esquecido, e
que se seguisse o que tem sido designado o "Período de Silêncio" - uns vinte e cinco
anos quando nenhuma voz metodista pregou o Evangelho no Brasil.
7
Deus usa os imigrantes americanos
Todavia, Deus - que do mal sabe tirar o bem e do amargo, o doce providenciou para que dessa profunda calamidade, tão longe de nós, se erguesse um
instrumento para trazer-nos a Sua Palavra. Entra aqui a história dos americanos que
imigraram no Brasil após o término dessa guerra. Uns, que haviam perdido tudo,
desejavam recomeçar a vida noutro lugar; outros, revoltados com sua derrota pelas forças
nortistas, procuraram escapar à dura mão do vencedor ou, rebeldes, recusaram dar seu
juramento de lealdade ao novo regime.

Chegaram, entre 1865 e 1867, uns milhares de americanos às nossas plagas;
indo alguns à região amazônica e outros ao Vale do Rio Doce; mas esses grupos em
breve soçobraram devido às dificuldades do clima, às doenças tropicais, ao desânimo
geral e à isolação produzida pelas grandes distâncias entre os seus patrícios. A maioria
se estabeleceu em fazendas na província de São Paulo, numa região compreendida por
Saltinho, Limeira, Santa Bárbara do Oeste, e o que ficou sendo chamado Vila Americana hoje a cidade industrial de Americana.
Ali desenvolveram excelentes programas agrícolas, introduzindo entre outras
coisas, o uso do arado. Tal foi sua habilidade agrícola que o governo imperial pediu que
alguns moços da colônia fossem designados para viajar em outras zonas do país, a fim
de ensinarem seus métodos aos agricultores nacionais. Dois desses jovens contraíram a
lepra neste serviço. Os colonos também introduziram no Brasil o veículo de quatro rodas
e dois assentos, chamado de trole. E propagou-se a fama de terem introduzido a
melancia. A melancia, porém, não era novidade no país, pois Daniel Kidder escreveu que
em 1835, na sua viagem ao norte, vira no Piauí, "melancias em quantidade prodigiosa;
são de fato tão abundante que chegam a ser vendidas à razão de uma pataca o cento"
(Reminiscências, pág. 145). Contudo, é verdade que introduziram a melancia listrada,
nativa dos EUA, cujas sementes trouxeram em vidros bem tampados para preservaremnas do "ar do mar". Um tio da querida missionária, Daisy Pyles Kennedy, foi um dos que
trouxe as sementes. Mais precioso do que elas foi a vida dessa sua sobrinha, Daisy! E
ainda mais precioso foi o fato destes imigrantes novamente terem introduzido no Brasil o
metodismo.
Chegada do Rev. Junius E. Newman
Entre os imigrantes, havia um pregador leigo metodista, o Rev. Junius E.
Newman, que durante a guerra civil, servira de capelão nas forças sulinas. Explica o Rev.
Kennedy, que chegou a conhecê-lo, "antes da guerra, era homem de certa fortuna, mas
tendo perdido tudo o que possuía, precisava de alguma forma restabelecer os seus
haveres. Vendo muitos dos seus amigos e patrícios partirem para terras longínquas,
resolveu acompanhá-los, especialmente animado pela esperança de poder auxiliar na
propagação do Evangelho... através da Igreja Metodista". Veio credenciado e nomeado
pelo Bispo W. M. Wightman para "ministrar aos imigrantes na Pátria que viessem a
adotar". Não era certo se iriam imigrar para a América Central ou para o Brasil. Muitos
foram ao México, por convite do Imperador Maximiliano; mas não permaneceram ali
devido à sua queda e às revoluções que a seguiram. No dia 5 de agosto de 1867 aqui
chegou o Rev. Newman, sem a família. Comprou uma fazenda perto de Niterói, mas
percebendo que a maioria dos seus patrícios se havia estabelecido na província de São
Paulo, mudou-se para lá depois de dois anos. Tendo prosperado, e gostando do Brasil,
voltou aos Estados Unidos e de lá retornou com sua mulher, Mary Philips, as duas filhas
moças, Annie e Mary, um filho, William Walter, e mais dois filhos adotivos, William e John
Harris (Jair Veiga, "Diário de Piracicaba", 1-8-59).
Organizarão da Primeira Igreja Metodista na Província
Chegando à Limeira em agosto de 1866, começou logo a pregar em inglês aos
patrícios espalhados pela região. Não tentou organizar uma igreja de imediato devido ao
fato de eles estarem tão espalhados. Contudo, no terceiro domingo de agosto de 1871
organizou em Santa Bárbara ou perto de Saltinho (historiadores dão ambos os nomes),
uma congregação com nove membros, todos americanos. Foi designada (claramente!) de
Igreja Metodista Episcopal do Sul, pois era uma continuação da Igreja americana a que
todos haviam pertencido. Esse nome foi adotado no Brasil e assim continuou até o dia da
nossa autonomia (1930).
Esse culto histórico se realizou numa casinha coberta de sapé, e de chão
batido, que anteriormente fora usada para a venda de bebidas alcoólicas. Entre esses
primeiros membros, constava o nome de Leonora Smith, que se tornou missionária, da
qual diremos algo adiante. Aos poucos, o Rev. Newman organizou outros núcleos, até
que, com cerca de cinqüenta membros, formou-se o primeiro "circuito" metodista na
história da nossa Igreja no Brasil!
Podemos também desconfiar que estava procurando antecipar-se a outras
denominações que estavam começando trabalho regular entre os colonos; pois em
menos de um mês, no dia 10 de setembro, os batistas organizaram ali também a sua
primeira igreja em solo brasileiro; e pouco depois, os presbiterianos. Usaram a capelinha
construída junto ao cemitério comunitário, alternadamente. Os batistas, porém, tiveram de
cavar para o seu uso, um amplo poço na nascente dum córrego próximo ao cemitério
(Jornal Batista, 11 de outubro de 1964).
Em 1877, faleceu a esposa de Newman. Ele, dois anos depois, mudou-se para
Piracicaba, onde em 1880, contraiu segundas núpcias com a Sra. Lydia E. Barr. Foi no
ano 1879, no mês de junho, que se marcou outro dia importante no calendário metodista Annie e Mary, suas filhas, abriram um colégio com internato e externato, em Piracicaba,
que é chamado o "precursor do Piracicabano", hoje Instituto Educacional.
Contribuições do Rev. Newman
O Rev. Newman não fez e não legou grande quadro de empreendimentos. Mas
como Jesus, "ele viu a multidão e se compadeceu dela". A sua verdadeira grandeza
consistiu em ter tido compaixão da tremenda escuridão espiritual dos habitantes do Brasil,
porque "andavam desgarradas e errantes, como ovelhas que não tem pastor" (Mt 9. 36 ).
Nunca cessou de clamar à Igreja Mãe no sul dos Estados Unidos, para que enviasse
obreiros: "Jovens de bons talentos e grande piedade", para a obra evangelizadora.
Quanto a si mesmo, confessou que a sua "tarefa principal era servir à colônia
americana. Nunca se sentira apto para a obra estritamente missionária, mas sentia desejo
de trabalhar à beira de tal campo". Todavia, expressou desejo de aprender o português
suficientemente bem para poder ministrar aos brasileiros. Ao que se saiba, porém,
Newman nunca a eles pregou, e nunca foi hostilizado pelo clero ou por romanos fanáticos
- como foram Spaulding, Kidder e depois o seu próprio genro, o Rev. Ransom.

O bispo americano, Holland Mc Tyeire, em seu histórico do metodismo,
declara: "A investigação feita no Brasil em 1835 pelo Rev. Pitts, foi sucedida pela
ocupação permanente em 1876, com a chegada do Rev. Ransom...” Muitas mudanças
grandes haviam ocorrido durante os 40 anos, desde 1835. A disposição intolerante da
Igreja Romana, tanto no Brasil como no México, acabara em conflito com o governo civil.
O imperador D. Pedro II era um homem muito culto e de espírito iluminado; as classes
mais altas e os corpos legislativos haviam se desfeito do jugo do clero, abrindo o império
a novos empreendimentos educacionais e religiosos. "A tendência popular era em direção
à descrença e infidelidade, e o tom geral do povo era o de indiferença à religião"
(McTyeire, pg. 675). Também o positivismo de Auguste Comte estava tendo grande
aceitação no país - tudo contribuindo para que a missão de Newman não fosse tão difícil
como as anteriores.
Afinal os clamores de Newman e de outros (incluindo o agora ancião Pitts que
ainda anelava pelo Brasil), resultaram numa resolução da Conferência Geral de 1874 da
Igreja Metodista Episcopal do Sul, e enviando para aqui o Rev. J. J. Ransom, que depois
como já o relatamos, se casou com Annie Newman, filha do Rev. Newman. Outra valiosa
contribuição da família Newman foi granjear a estima dos irmãos Prudente e Manuel de
Moraes Barros, o primeiro mais tarde, presidente da República. Mary Newman, que por
certo tempo regeu cadeira numa escola fundada em São Paulo pelo Dr. Rangel Pestana,
ficou ali conhecendo a Srta. Anna Maria de Moraes Barros, filha do então Senador,
tornando-se amigas, laços que uniram as duas famílias.
Volta o peregrino à Pátria
Finalmente - velho, cansado, cheio de saudades, tendo-se sublimado o rancor
que guardara contra o governo da Pátria - o Rev. Newman regressou em 1890 à terra que
abandonara, indo residir no Estado de West Virginia; ali faleceu em maio de 1895.
Nunca sequer sonhou que um dia, em 1967, o reconheceriam como o fundador
do metodismo permanente no Brasil!
CAPÍTULO 6
A MISSÃO RANSOM
Chega ao Brasil o Rev. Ransom
"Mande obreiros jovens, de bons talentos e grande piedade!" - foi esse o brado
do pioneiro Newman à sua Igreja Mãe.
Veio a resposta afinal, na pessoa do ReV. John James Ransom, natural do
Estado de Tennesse, solteiro, ministro ordenado dessa Conferência - sem dúvida, homem
de bons talentos e grande piedade, corajoso e dinâmico. Declara o relatório do ano de
1883 da Junta de Missões: "A Igreja Metodista Episcopal do Sul começou o seu trabalho
no Brasil no ano de 1875, reconhecendo o Rev. Newman como seu missionário em maio
daquele ano, e enviando o Rev. J. J. Ransom em dezembro". Apesar de ser assim
nomeado, ele teve que fazer apelos aqui e ali, para custear a sua viagem.

Desembarcou no Rio de Janeiro em 2 de fevereiro de 1876; e foi logo a São
Paulo para consultar o Rev. Newman sobre planos e métodos para melhor estabelecer o
trabalho. Como Kidder, olhava sempre para o futuro, procurando lançar bases sólidas
para o trabalho.
Planejando o trabalho
Durante o primeiro ano, dedicou-se com assiduidade ao estudo da língua
portuguesa, que soube dominar bem. Estudou com os presbiterianos em Campinas, onde
também lecionava inglês e grego no Colégio Intencional daquela denominação.

No segundo ano, fez a difícil viagem ao Rio Grande do Sul "à procura dos
melhores pontos para o estabelecimento do trabalho". Creio que influiu nessa decisão o
fato de ele não querer depender da obra de Newman, toda entre americanos; e decerto
estava ciente de que a igreja do norte (a Igreja Metodista do Norte dos EUA) já trabalhava
na província do Rio Grande do Sul, e desejava estabelecer contatos com a mesma quem sabe? - para assegurar que o metodismo brasileiro tivesse suas raízes no Brasil e
não no Uruguai.
No Rio Grande do Sul ficou conhecendo o Dr. João Correa, pregador em Porto
Alegre e arredores, e colportor da Sociedade Bíblica. Tão impressionado ficou Ransom
com o trabalho do mesmo, que após contato, viajou com ele ate Montevidéu para dialogar
com o Dr. Thomas Wood, superintendente da Missão Platina da Igreja Metodista do
Norte. Essa Igreja, depois de descontinuada como missão em 1841, continuara com
sustento local ate 1870, quando o Dr. Wood foi enviado como missionário da Junta,
restabelecendo o contato missionário. Ransom terminou a sua estadia sulina, viajando
com o Dr. Correa ate a cidade do Rio Grande, onde embarcou para o Rio.
Volta ao Rio de Janeiro
Chegado à capital da Corte (Rio de Janeiro), fixou residência numa boa casa, a
de n° 17 5, na Rua do Catete que, desde os tempos de Spaulding, parecia ser o bairro
preferido pelos missionários metodistas. Foi nessa casa agora derrubada, que começou a
pregar em português em 27 de Janeiro de 1879. É justo dar crédito a um comerciante
britânico, Sr. W. R. Cassels pelo auxílio financeiro que deu a Ransom para alugar a casa,
e em mostrar-se amigo sincero em muitas ocasiões.

Mas o clero católico-romano, como fizera trinta anos atrás com a Missão
Spauldingr começou logo a persegui-lo, taxando-o de "ateu e incrédulo" em seu órgão
oficial, "O Apóstolo". Ransom, homem decidido, de fortes convicções e muita coragem
não deixou passar despercebido o ataque. Com cortesia, convidou os redatores a
ouvirem-no pregar, para verificarem que "os metodistas não eram nem ateus, nem
incrédulos, nem desprezavam as leis do Brasil, como eles pensavam" (Kennedy, pág. 21).
Primeiros brasileiros convertidos
Em breve, o Rev. Ransom organizou com elementos estrangeiros, a primeira
igreja metodista no Rio e, em março de 1879, recebia nela por profissão de fé, os
primeiros brasileiros convertidos do catolicismo romano ao metodismo. Foram esses, o
ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque, e a Sta . Francisca de Albuquerque (poderia ela
ter sido irmã do padre?); e o Sr. Ransom recebeu-os sem re-batismo, aceitando como
válido o batismo da Igreja Católica. Depois, o ex-padre foi novamente "convertido" à
doutrina da imersão; e rebatizado pelo pastor batista, Rev. Robert-Thomas, da colônia
americana, no poço anexo à igrejinha do Cemitério do Campo. Convém relembrar aqui
que esse cemitério fora doado pela família Oliver. Quando faleceu a esposa do Coronel
Oliver, negaram-lhe o direito de enterrá-la no Cemitério de Santa Bárbara, dizendo o
padre: "Não. É corpo de protestante!". O féretro teve que voltar uns doze quilômetros para
onde foi sepultado nas terras da fazenda dos Oliver. Mais duas mortes na família levaram
o coronel, indignado com a posição da Igreja Católica Romana, a doar uma área bem
grande de suas terras, para se construir um Cemitério protestante. O Cemitério do Campo
ainda existe hoje, sendo um local histórico por motivo de suas sepulturas, capela, onde,
de quando em vez se realizam cultos. Os descendentes da colônia original, entre os quais
muitos católicos, organizaram uma Associação para preservar o lugar - e em 1965
ergueram ali um obelisco comemorando o centenário da chegada ao Brasil da colônia.
Nesse monumento, consta o nome do Rev. Newman, e é, portanto, local que merece ser
visitado por metodistas brasileiros.

De maior significado, porém, para o metodismo brasileiro, foi o fato que entre
os membros recebidos pelo Rev. Ransom, durante o início do seu ministério, constava à
idosa Sra. Mary Walker, que fora há uns quarenta anos antes, membro da "Sociedade
Metodista" organizada pela Missão Spaulding! Nas palavras do Rev. Kennedy, constituía
ela, por esse motivo, "Um Elo vivo e Pessoal" entre a Missão Spaulding e a Igreja
Metodista Episcopal do Sul no Brasil.
Feliz Natal - triste julho
Como já relatamos o jovem Ransom enamorou-se de Annie Newman, com
quem se casou no dia de Natal de 1879, e levou-a para o Rio onde tinha seu trabalho.
Mas a sua felicidade durou pouco; pois em 17 de julho, Annie o deixou para o lar celeste.
O marido enlutado voltou à Pátria (EUA) para recuperar-se do choque e descansar,
aproveitando a oportunidade para apelar urgentemente por reforços. Vira quão grande era
o campo; quão famintas as almas pela mensagem da vida; e sabia que sozinho não podia
fazer muito. Ao retornar ao Brasil veio alegre, pois trazia reforços.
CAPÍTULO 7
VALIOSOS REFORÇOS

O Rev. Ransom com seus companheiros e auxiliares embarcaram de Nova
Yorque em 26 de março de 1881, viajando ao Brasil via Ilha da Madeira e Inglaterra. Eram
os seus com companheiros os missionários: Rev. James L. Kennedy, com 23 anos, o
Rev. James W. Koger, que trazia esposa e um filhinho, e a educadora Martha Watts.
Após quase dois meses de viagem, aportaram na bela baía de Guanabara em
16 de maio de 1881. Sobre a sua chegada escreve o Rev. Kennedy:
"Imagine o leitor com que entusiasmo e curiosidade pisamos o solo do Brasil!
Terra que viemos especialmente para evangelizar. A beleza e a natureza eram para nós
encantadoras - tudo fornecia um verdadeiro banquete para os olhos".
Mas o Rev. Ransom, não os deixou perder tempo contemplando as belezas do
Rio. "Mãos à obra!" foi sempre o seu lema. Dentro de dois dias, o grupinho desembarcava
do trem em Piracicaba, o centro do esforço metodista iniciado pelo Rev. Newman.
Anoitecia quando ali chegaram; e conta Kennedy que ao tropeçar pelas ruas
mal calçadas, estranhou que havia lampiões de querosene para iluminar as ruas, mas que
não estavam acesos. "Como é?", perguntou Kennedy a Ransom, "Não acentem os
lampiões?"

E Ransom, já "antigo" conhecedor do país sorriu ao explicar: "Bem, o
querosene, tendo que ser importado, é caríssimo. Por isso em noites de luar não se
acendem os lampiões, é mais barata a luz do luar". Era esse um costume generalizado no
Brasil de então, conforme registraram o sociólogo Gilberto Freyre, e o missionário Kidder.
Ransom hospedou-se no Hotel Piracicabano, sem muitas comodidades, mas o melhor do
lugar.
Já no dia 21, prosseguiam para Bom Retiro, onde agora residia o Rev.
Newman. Ali, na manhã de domingo, 21 de maio de 1881, o Rev. Kennedy pregou aos
americanos ali reunidos o seu primeiro sermão no Brasil. Nunca esqueceu dessa
memorável ocasião, relembrando o seu texto tirado de I Co 3.9: "Somos cooperadores
com Deus".
E nesse espírito, ajudado por Deus, daquele momento em diante, o Rev.
Kennedy consagrou a sua vida ao Brasil. Visitava de casa em casa para pessoalmente
distribuir convites para os cultos, sendo freqüentemente insultado ou rechaçado. Pregava
nas ruas, sendo às vezes atingido por batatas e tomates podres; outras vezes, só pela
graça de Deus, escapou à fúria de assaltantes fanáticos, como em Bangu, perto do Rio.
Organizou igrejas em cidades grandes e em vilas remotas do interior. Viajava a
cavalo ou no lombo de mula, suas longas pernas quase se arrastando no chão, debaixo
de sol ardente ou de frios aguaceiros, subindo montanhas escabrosas por "trilhos-debicho", como se chamavam os estreitos caminhos socados pelas patas dos animais. Às
vezes andava em carros-de-boi, em penosas viagens que lhe deixavam o corpo doído, de
solavanco em solavanco pelas estradas esburacadas. Ainda outras vezes quando não
conseguiam condução, caminhava a pé. Caminhou vinte quilômetros com seu colega de
trabalhos, e filho espiritual, o consagrado Rev. Antônio Cardoso da Fonseca. Alcançando
o seu destino: uma choupana humilde, um vilarejo, entrava então em luta terrível com
mosquitos e pulgas famintas por sangue novo, que pareciam devorar-lhes as carnes. De
dia lutava contra os micuins, carrapatos e borrachudos. Tal foi à vida de Kennedy durante
quase sessenta anos, se incluirmos aqueles em que, aposentado e perto dos seus oitenta
anos, contribuiu para a extensão da obra metodista nos bairros de São Paulo.
Mas a luta árdua não era sua tão somente - era de todos aqueles valentes
pioneiros brasileiros e missionários americanos, que desprezando o comodismo e o
conforto, saíram e lutaram para desfraldar no solo da nossa terra, então atrasada e
dominada pelo clero, a bandeira do Evangelho bendito!

Volvamos as vistas novamente ao pequeno grupo em Piracicaba. O Rev.
Ransom, antes de voltar ao Rio de Janeiro, deixou-os todos em Piracicaba, com "ordens"
para estudar o português - mas também para dedicar-se à evangelização. O Rev.
Kennedy pregaria aos americanos; o Rev. Koger ficava como pastor na cidade - o que fêz
organizando dentro de poucos meses, no dia 2 de setembro, a terceira igreja metodista no
Brasil, a de Piracicaba. Miss Watts entregou o trabalho educacional.
Colégio Piracicabano
Desde o seu início, a Igreja Metodista considerara de máxima importância à
instrução do povo, fato natural considerando a sua herança intelectual, pois nascera na
grande Universidade Oxford, na qual Wesley fora estudante. E fato lógico, pois enviou
uma educadora com as suas primeiras forças missionárias.
Miss Watts já exercera o magistério alguns anos na sua terra, quando se sentiu
chamada para a obra missionária. Filha de um lar culto e materialmente abençoado, ela
era de inteligência e preparo fora do comum, mas também de uma consagração
extraordinária. O seu alvo, repetia ela, "não era somente instruir meninas, mas ganhar
almas para Cristo".
Não perdeu tempo em começar um educandário - o Colégio Piracicabano como
foi denominado ainda que no fim do ano escolar. Para o evento que se deu no dia 13 de
setembro, somente uma aluna compareceu para matricular-se, a pequena Maria Escobar,
cujo nome lembra como o da primeira aluna do primeiro colégio metodista no Brasil. Mas
a diretoria não desanimou nem recuou. Conforme o Rev. Kennedy, "com tenacidade
dirigiu o colégio como se houvesse cem alunas em vez de uma só; e para essa aluna
conservou o estabelecimento aberto com três professoras!”.
A sua cultura profunda e a eficiência da sua administração, conquistaram duma
vez a simpatia da família Moraes e Barros (já admiradores da família Newman). As moças
da família passavam horas no Colégio sentadas nas bancas examinadoras, observando o
seu trabalho educacional que era o que de mais progressista havia na educação do sexo
feminino, então atrasadíssima no Brasil. A "Gazeta de Notícias", de Piracicaba, noticiando
os exames do Colégio, escreveu: "Numa das salas do edifício e com grande concorrência
de famílias e cavalheiros dos mais distintos da nossa sociedade, foram examinadas as
alunas em diversas matérias, como sejam: português, francês, inglês, aritmética, álgebra,
história e retórica. O adiantamento que todas mostraram naquelas disciplinas, chegou a
surpreender as muitas pessoas que estavam presentes. Não trepidamos em afirmar que é
um dos melhores estabelecimentos de ensino do Estado de São Paulo." (27-12-1890).
Diz-se que quando o Senador Prudente foi eleito presidente da Província
estava tão convicto dos princípios e ideais de Miss Watts, que a convidou para vir a São
Paulo para ajudá-lo a estabelecer na Província um sistema de escolas públicas. Foi tal a
influência do Colégio que outro editorial em Piracicaba declarou: "A transformação radical,
a adoção de métodos americanos no ensino, a orientação inteiramente nova na
pedagogia e na formação do magistério que o Senador João Sampaio afirmou ter saído
do Colégio Piracicabano, através de Prudente de Moraes, foi obra de madura reflexão e
longa experiência que só no tempo de Miss Watts se tornaram possível".

Combate ao Piracicabano
Este incidente já foi contado muitas vezes, pois é caso significativo nos anais
da Pátria. Mas como muitos dessa geração não o conhecem, deve ser repetido.

“O Colégio fazia um progresso admirável, mas quanto maior o seu sucesso,
tanto mais a Igreja Católica Romana a denunciava”. Miss Watts, com o apoio dos irmãos
Moraes Barros, já havia adquirido um terreno - que fora antiga praça de touros localizado na esquina da Rua da Boa Morte com a da Esperança. Em breve, graças às
dádivas da Igreja Mãe, se construía um belo e moderno edifício de aulas.
O número de alunos aumentava de ano a ano, e eram das melhores famílias
da cidade. Miss Watts escreveu à Junta de Missões de Senhoras Metodistas informando
que não só o Colégio progredia financeiramente, mas que sua arrecadação pagava todas
as despesas, menos as dos salários das missionárias. Acrescentou que estava trazendo
almas a Cristo: “Há entre as alunas verdadeiro interesse em coisas espirituais; e três
alunas e uma empregada já se uniram à Igreja”. Como sempre, o sucesso conduz à
perseguição, mas a perseguição tornou-se contra-producente para quem a iniciou.
O incidente com o inspetor Vienna
Depois de cinco anos, Miss Watts voltou à Pátria (AUA) em gozo de férias e para
substituí-la interinamente, ficou como diretora

uma missionária mais nova, Mary

Washington Bruce. Aproveitando a ausência de Miss Watts, o clero tornou-se mais forte
ainda e sutil na campanha contra o Piracicabano, que culminou em janeiro de 1887, com
uma intimação do Inspetor Literário, Dr. Abílio Vienna, a Miss Bruce, declarando que ela
estava obrigada a excluir meninos com mais de dez anos da escola; a ensinar no Colégio
a religião do Estado (que era a católica romana) e a enviar-lhe uma lista do corpo
docente.
Apesar de nova no Brasil, Miss Bruce tinha coragem. Não cedeu às intimações.
Consultou diversos advogados e depois enviou ao Dr. Vienna uma carta na qual dizia:
“Agradeço a vossa intimação oficial, mas pelo licença de dizer que não deixarei,
simplesmente por causa da vossa opinião, de receber crianças católicas, pois enquanto
as autoridades não me proíbem, e enquanto temos vagas, tenciono receber todos os
alunos católicos que queiram ingressar em nosso Colégio".

Por coincidência, viajava por ali o Rev. J. L. Kennedy, a quem Miss Bruce
contou tudo que se passara. Depois de encorajá-la a permanecer firme, ele prosseguiu
para o Rio, levando consigo cópia da carta do Inspetor. No dia seguinte mostrou-a ao
diário "O País", recapitulando o que havia acontecido. O jornal publicou a carta
condenando a atitude do Inspetor com artigos e editoriais. O Dr. Rangel Pestana, então
líder da Assembléia da província, ao saber da celeuma repreendeu violentamente o
Inspetor. Resultado: O "caso" deu mais propaganda ao Colégio' do que grandes anúncios
colocados em toda a imprensa nacional. O inspetor, tão criticado, pediu demissão, a qual
foi aceita pelo governo da província. Comentando o caso, escreveu Kennedy: "Nesse
caso-teste o princípio da liberdade religiosa e intelectual estabeleceu o direito dos pais de
darem aos seus filhos instrução religiosa conforme os seus desejos e sem ter-se em
conta a sua religião" (Kennedy, págs. 323-325).

Certo é que o Piracicabano estabeleceu três princípios básicos para a
educação no Brasil: primeiro, introduziu a educação mista; segundo, a dignidade da
instrução superior para o sexo feminino; e terceiro, o princípio da liberdade de religião no
campo educacional, acrescido ao direito dos pais e à liberdade de orientação própria das
escolas.
CAPÍTULO 8

ANSIEDADES E PROGRESSO
Período de ansiedades
O metodismo no Brasil progredia tão bem quanto se podia esperar dum
trabalho ainda infante - progresso lento, mas, contudo a passo firme, seguro e prenhe de
esperança. Uma crise adveio, porém, em 1882 e 1883 quando parecia que a Junta de
Missões nos Estados Unidos iria repetir o grave erro que fez, abandonando a Missão
Spaulding-Kidder em 1841.

Fato pouco conhecido, que não foi registrado no histórico de Kennedy,
encontra-se no livro de atas da Junta de Missões da Igreja Metodista do Sul nos Estados
Unidos em seu relatório datado de 1° de junho de 1883:
"A China e o México recebiam toda a atenção da Igreja, porque a China, após
33 anos de trabalho, começava agora a produzir fruto; o México porque mostrara
resultados que ultrapassavam todos os triunfos do Evangelho desde os dias apostólicos...
Apesar do Secretário da Junta ter fé na missão brasileira, parecia ser tudo em vão parecia mesmo que a missão seria abandonada... Foi então que a Providência Divina
atuou, como muitas vezes foi acontecer, fazendo do sangue dos mártires a semente da
Igreja. O coração da Igreja foi mais movido pela história daquela que morrera pelo Brasil
do que pelo propósito daquele que morrera por todos". (grifos meus).

(Será que o relator nessa frase se referia à morte de Cynthia Kidder em 1840?
Não há outro esclarecimento) .
Foi este um período de grande ansiedade espiritual para o Rev. Ransom e
seus ajudantes. Em março de 1882, viajou novamente aos Estados Unidos, e só voltou
em julho. Deixou à testa do trabalho no Rio o jovem ministro Kennedy, que ainda não
completara seus dez meses de permanência no Brasil. Relatou esse depois que “ficou
profundamente impressionado com o peso das suas novas responsabilidades, mas não
houve remédio senão meter mãos à obra e confiar em Deus". Era ainda maior a sua
responsabilidade, pois estava em construção a capela do Catete (que foi inaugurada em
setembro, logo após o retorno de Ransom). Deus, porém, tinha planos grandiosos para o
metodismo brasileiro. O trabalho desta vez não foi abandonado, e os pioneiros
continuaram ainda mais ativos no trabalho.
Passos positivos à frente
O enérgico Ransom já estabelecera o trabalho metodista seguindo três linhas
de ação:
1) A evangelização, a pregação da Palavra com cultos regulares em diversos
lugares, isto é, em diversos pontos da cidade e na província de São Paulo;
2) A obra educacional. Não só se fundara o Colégio Piracicabano, mas planos
estavam sendo feitos para um colégio no Rio. Já se haviam encaminhado
discussões visando a compra ou transferência à Igreja Metodista do Colégio
Progresso, uma instituição inglesa situada em Santa Teresa. Quando o Rev.
Tarboux chegou ao Brasil em 1883, foi logo ensinar inglês e matemática nesse
colégio. Essa transferência não se efetuou; contudo, a Igreja comprou uma bonita
propriedade na Rua Alice, nas Laranjeiras, onde instalou uma escola em 1888. Foi
diretora Miss Mary Bruce, que depois teria aquele encontro histórico com o Inspetor
Vienna;
3) Uma literatura metodista para uso das igrejas. Ransom começou a publicar a
revista Escola Dominical, e uma folha "Nossa Gente Pequena", ambas com lições
bíblicas, respectivamente para adultos e crianças. Diz Kennedy que durante o ano
de 1884, ou antes, Ransom já publicava essas revistas em português.
Obstáculos à construção de templos
Chegado o ano de 1886, nosso metodismo já tinha congregações organizadas
e florescentes em Santa Bárbara (1870); no Catete, Rio (1879); em Piracicaba (setembro
de 1884); em São Paulo (fevereiro de 1884); em Juiz de Fora (1884); e ainda mais
trabalhos iniciados em bairros dessas cidades, como os de Santa Teresa e da Rua São
Clemente, no Rio; e o de Mariano Procópio, entre alemães, perto de Juiz de Fora.
Possuía também dois lindos templos, os do Catete e de Piracicaba. A construção de
ambos chocou-se com as leis então vigentes.
Templo do Catete - Já se construíra a linda capelinha aos fundos do terreno,
mas um templo maior se fazia necessário. Ainda regiam essas construções as leis
imperiais que proibiam aos acatólicos edifícios com aparência de templos. O conceituado
construtor-arquiteto, Sr. Antônio Januzzi, fizera uma planta para a Igreja do Catete que
fora aprovada pelas autoridades competentes. Nessa planta, constava uma parede frontal
que se erguia qual platibanda alta, terminada em ornatos pontiagudos, com janelas de
estilo gótico, comum até em residências particulares.
Contudo, elementos contrários ao protestantismo tudo fizeram para impedir a
construção. "Se há um jeito de complicar e obstruir o prosseguimento da obra" escreveu
Kennedy, o pastor ajudante, "as autoridades o descobrem". E como Ransom já se mudara
para Juiz de Fora para continuar o trabalho ali, Kennedy vivia agonizado com todos os
problemas que se apresentavam. Apesar dos pesares, a obra estava para ser terminada
quando, certo dia, passou por lá uns padres fanáticos que, vendo erguer-se a platibanda
que dava de fato ao edifício uma aparência eclesiástica, foram logo queixar-se ao
Conselho Municipal.
O Rev. Kennedy chamou o seu colega Ransom, e com ele e o Sr. Januzzi se
dirigiram ao Conselho. Depois de um longo debate sobre a definição de torre e sinos, e do
que seria a forma exterior de uma igreja, o arquiteto explicou que a tal "torre" era uma
simples extensão da parede, "arrematada por ornatos arquitetônicos"! A explicação foi
aceita. O Sr. Januzzi sem demora, pôs os operários a trabalhar dia e noite, para
concluírem o templo antes que o Conselho revogasse a sua decisão. Creio ser justíssimo
aqui citar o que o Rev. Kennedy depois escreveu sobre Januzzi: "O historiador não pode
deixar de falar sobre a dívida de gratidão que jamais pagaremos ao amigo arquiteto que
tanto se esmerou para que a nossa igreja fosse construída solidamente e com beleza,
sem cobrar coisa alguma pela sua fiscalização. Deus o pagou, segundo diz ele mesmo,
porque o nosso templo tem servido de grande anúncio de suas habilidades arquitetônicas,
que todos dizem serem inquestionáveis" (Expositor Cristão, 14 - 4 - 84).
Templo de Piracicaba - Ao mesmo tempo em que se lutava para terminar o
templo do Catete, os metodistas de Piracicaba começavam a enfrentar dificuldades com o
clero. Essa planta incluía uma torre pequena, mas fora vista e aprovada pelo Conselho
Municipal da qual faziam parte os irmãos Moraes de Barros, que consideravam a lei
"morta".
Quando estava quase terminado o templo, o Padre Galvão correu depressa ao
Conselho para queixar-se da torre, invocando a lei antiga dos tempos de Dom João VI.
"Mas nós já aprovamos a planta", responderam os conselheiros. "Como agora,
com ele quase terminado, vamos obrigar os metodistas a desmanchá-lo?!"
Assim foi que em Piracicaba ergueu-se o primeiro templo metodista com uma
"torre de verdade", ainda que não muito alta ou imponente!
Em contraste com a intransigência do clero romano, é bom citar a declaração
do próprio Imperador, Dom Pedro II, uns trinta anos antes, em sua fala do trono, de maio
de 1855:
“A nossa constituição católica proíbe a outras seitas cristãs a construção de
edifícios destinados ao culto, tendo a forma exterior de templo”. Seguramente, o zelo que
inspirou tal medida não atentou para as necessidades da colonização protestante. Acaso
tememos nós que o protestantismo venha a fazer prosélitos entre os nacionais e
despovoar as nossas igrejas?”
“Se, por outro lado, queremos evitar que os protestantes ergam o colo e se
tornem exigentes, o alvitre mais adequado para remover o mal não é fornecer-lhes
direitos para reclamarem concessões, mas antes outorgar-lhes, independentes de
exigências que nos façam" (Retrospecto Político do ano de 1855, publicado no O Jornal
do Commércio).

Sábio Dom Pedro II! Apesar de exemplos como o Catete e Piracicaba, o
irônico de tudo isto é que o protestantismo brasileiro "aceitou” muitas das restrições que
lhe foram impostas e os seus templos hodiernos ainda o refletem - sendo na maioria sem
elegância ou beleza arquitetônica, sem Tôrres, sem cruzes nem sinos.
Começo do trabalho Metodista em Juiz de Fora
Foi essa uma igreja que nasceu sob uma chuva de pragas, pedras e paus. O
Rev. Ransom há muito planejara começar o trabalho na cidade de Juiz de Fora, província
de Minas Gerais: mandou adiante três obreiros para distribuírem Bíblias, Novos
Testamentos, e livros religiosos e para começarem a fazer propaganda da série de
conferências que ele iria realizar para dar início ao trabalho. Eram esses três obreiros,
símbolos do espírito ecumênico da nossa igreja - Herman Gartner, alemão luterano, um
pregador local; Samuel Elliot, escocês, carpinteiro por profissão; e Ludgero de Miranda,
brasileiro, que depois com seu irmão Bernardo, foi um dos primeiros pregadores nacionais
- belo exemplo da união em serviço a Cristo Jesus!
Quando Ransom estava para ir, eis que sua esposa adoeceu. A meia-noite, ele
corre à casa do Rev. Kennedy e pede-lhe ir de imediato a Juiz de Fora, substituindo-o nos
cultos já anunciados. Portanto, lá se foi o casal Kennedy, levando consigo a empregada
Rosária (antiga escrava) e seu netinho.

Chegados a Juiz de Fora, alugaram na Rua Santo Antônio, bem perto do
centro, uma boa casa com grande sala que seria usada para os cultos. Depois Kennedy e
Samuel Elliot compraram tábuas de pinho, pregos, martelo e serrote, e confeccionaram
bancos para acomodar cerca de sessenta pessoas. Desde a primeira noite a assistência
foi boa e atenciosa - tão boa que de certo atiçou a fúria de um padre. Certa noite, quando
pregava, o Rev. Kennedy ficou surpreso vendo entrar na sala, e ir diretamente à frente,
um padre que pelo seu andar e aspecto, mostrava estar embriagado.
De repente o padre interrompeu-o com a pergunta: "Você é católico ou
acatólico?" Kennedy respondeu: "Sou acatólico-evangélico", e prosseguiu sem mais
comentários. As interrupções foram se repetindo, até que uns senhores presentes,
chegaram ao padre e pediram-lhe cortesmente que ou calasse ou se retirasse.
"Então eu vou!" respondeu bruscamente, e saiu da sala cambaleando. Quando
tudo se acalmou o Rev. Kennedy continuou o culto; mas, dentro em pouco, ouviu-se lá
fora na calçada, pisadas barulhentas, e uma algazarra geral em que se ouviam os gritos
de "morram os protestantes!" Lá na rua se estacava um bando de desordeiros, na maioria
moleques que, chefiados pelo padre, começaram a atirar pedras e paus pelas portas e
janelas da casa.
Os ouvintes assustados correram para a rua, deixando na sala somente o
pastor (que procurava consolar a jovem esposa, que chorava de susto), o Sr. Samuel
Elliot, e a velha Rosária com o netinho a chorar também. Dentro de poucos minutos
tiveram um novo susto: ouviram passos no corredor da casa que dava para a rua. Mas em
vez de fanáticos e moleques, ali estavam meia dúzia de senhores bem trajados a lhes
declarar:
"Não se assuste, Reverendo", disseram, "sentimo-nos envergonhados pelo que
ocorreu, e vimos assegurar-lhe que o senhor não só pode, mas deve continuar com os
cultos, pois a nossa constituição brasileira garante a liberdade religiosa".
O incidente serviu de estímulo em vez de obstáculo - as reuniões foram bem
assistidas, e houve diversas conversões, entre as quais a de Felipe de Carvalho que
depois se ofereceu para o ministério, e chegou a ser um dos primeiros pregadores
brasileiros, um que muito trabalho e muita perseguição sofreu pela causa do Mestre
(Arauto de Deus, pág.259).
"Foi começando assim", declara o "Luzeiro da Fé" (boletim da Igreja Central de
Juiz de Fora) "que o Rev. J. L. Kennedy fincou a bandeira do evangelho em nossa cidade,
e fê-Ia tremular no céu de Minas".
Nem toda a oposição, porém, era insensata e cruel. O casal ria às vezes das
situações cômicas que surgiam, quando como no Rio ao sair pelas ruas, Kennedy, Bíblia
na mão, e a esposa Jennie ao seu lado, eram seguidos por pequenos moleques que
faziam troça, apontando: "Olha só! Lá vai o padre protestante com sua mulher! Ou talvez:
"Lá vai o Bíblia, lá vai o Cristo! “
Com seu bom senso de humor, Kennedy inclinava-lhes a cabeça, sorrindo e
cumprimentando-os com cortesia. "Não sabem" comentava Kennedy, "mas estão me
honrando!"
CAPÍTULO 9
A PRIMEIRA DÉCADA DA “MISSÃO RANSOM”
- 1876-1886-

"Então veio o Senhor, e ali esteve, e chamou: Samuel,
Samuel Este respondeu: Fala, Senhor, porque o Teu
servo ouve". (I SamueI 3.9).
Alguns dos que ouviram e obedeceram à chamada divina
O metodismo havia alcançado sucesso durante esta primeira década de
existência como Igreja Metodista Episcopal do Sul. O seu sucesso mais significativo foi o
número e calibre dos jovens que deram as suas vidas ao ministério, a sua completa
dedicação e lealdade ao Senhor, a sua coragem em enfrentar perseguições, calúnias e
sacrifícios.
.
Por serem as primícias da linha de esplendor sem fim do ministério brasileiro,
comecemos contando algo sobre os irmãos Bernardo e Ludgero de Miranda. Naturais da
Província de São Paulo, foram criados (como escreveu Ludgero no Expositor de 1° de
setembro de 1890), "na religião de crendices, rosário e água benta; meu lar parecendo
mais uma igreja no tempo da Semana Santa do que uma morada - tudo celebrado com
uma pompa sem igual!.. Contudo, a Providência Divina, dum modo misterioso mandou me
a um lugar longínquo onde mais tarde haveria de conhecer a religião santa de Jesus".

Esse "longínquo lugar" foi São Paulo. Ali, Bernardo foi o primeiro a ouvir o
Evangelho. Qual Filipe a chamar a seu irmão Natanael, Bernardo convidou a Ludgero
para assistir ao culto metodista. Ambos se converteram sob a pregação daquele
abençoado servo do Senhor, Rev.J.W. Tarboux, então pastor da Igreja em São Paulo; e
resolveram dar as suas vidas ao pastorado, tendo sido dedicadíssimos na obra.
Bernardo, o mais velho, entre outros trabalhos, ajudou o Rev. E. A. Tilly a
organizar a Igreja em Taubaté em dezembro de 1899. Enfraquecido, porém, por mal
ignorado, faleceu antes de julho de 1891. Ludgero trabalhou ativamente mais alguns
anos. Mas tragicamente, ambos faleceram ainda moços - sendo que Ludgero e toda a sua
família vitimados pela febre amarela, morreram em janeiro de 1892, no curto período de
duas semanas - ele, sua esposa, D. Hyrminia Chaves, e dois filhinhos.
Felipe Revalo de Carvalho, outro pioneiro, veio ainda moço da Bahia para
morar e trabalhar em Juiz de Fora, onde se converteu sob a pregação do Rev. Kennedy,
que sempre o estimou como filho espiritual. Disse Felipe que fora "tão ignorante do
Evangelho e dos costumes protestantes que levou consigo o dinheiro para comprar
entrada na sala dos cultos". Profundamente convencido, abraçou a fé e, passado pouco
tempo, sentiu a convicção de que devia pregar o Evangelho. Isso fez com sinceridade e
arrojo, sofrendo muita perseguição. Uma vez, juntamente com a esposa grávida, Dona
Emília, foram ambos arrastados pelas ruas de Cataguases, esbofeteados sem dó.
Quando a polícia finalmente interveio e perguntaram-lhe o que desejava que se fizesse
com os assaltantes, Felipe respondeu como verdadeiro cristão: "Nada. Só veja que se
mantenha a ordem, e então solte-os". E ali mesmo, na rua poeirenta, ajoelhou-se e orou
pelos seus perseguidores. Foi esse espírito de perdão que tanto impressionou o dono da
casa onde pregara o grande leigo Sr. José Fernandes Sucasas, que levou-o naquela
mesma hora a se converter. E no lar do Sr. Sucasas saíram dois dos nossos líderes: o
amado Bispo Isaías Fernandes Sucasas e o pastor José Sucasas Júnior.

O Rev. lustiniano de Carvalho - Foi também denodado soldado do Evangelho!
Natural de Portugal, nascido em 1852, viveu até os 15 anos sob a "bandeira romana".
Convidado por um companheiro a assistir um culto evangélico, ali se converteu - pelo qual
foi perseguido pelos parentes. Em 1871, embarcou para o Brasil. Estabeleceu-se no Pará,
onde não havia ainda igreja evangélica; e longe de bons companheiros, cedeu com o
tempo às tentações do mundo, ficando "corrompido" como ele mesmo confessa.

Chegou, porém, a Belém um missionário metodista (Rev. Justus H. Nelson, de
quem falaremos mais adiante). Justiniano ouviu-o pregar; arrependeu-se e voltou ao
rebanho evangélico, tornando-se membro fundador da Igreja Metodista em Belém. "A
minha casa" escreveu no Expositor Cristão em setembro 1890, "tornou-se em Casa de
Oração. Eu era o zelador e assim continuaria se, por força maior, não me obrigasse a sair
para o Rio de Janeiro. Chegando ali, hospedei-me na casa dos Revs. Kennedy e
Ransom, os quais indagaram sobre o meu propósito de vocação; eu lhes respondi que
desejava trabalhar na vinha do Senhor". E assim, entrou no ministério. Trabalhou com
devoção e muitos sacrifícios como se deduz duma carta no Expositor (setembro 1890),
referente à sua nomeação para Juiz de Fora. Naquele tempo não havia casas pastorais e
nem sempre os pastores podiam encontrar proprietários que alugassem casas ou salas
para residência e cultos. "Por enquanto estamos vivendo como imigrantes - a casa
despida; não há cadeira, uma mesa. Esta carta que lhe mando é escrita em cima dum
banco que eu fiz; e a minha cadeira é o colchão ainda no chão de maneira que estou
escrevendo esta de joelhos".
O Rev. Antônio Cardoso da Fonseca - foi mais um dos fiéis entre os fiéis pioneiro que muito contribuiu e muito sofreu. Extratos breves de suas cartas ao Expositor
Cristão relatam alguns incidentes na sua vida pastoral. Em 15 de novembro de 1890,
celebrava culto à noite numa casa na estação de Palmeiras, quando trabalhadores
atiraram contra a casa uma bomba de dinamite. A bomba não causou conseqüências
funestas, como podia ter acontecido, porque felizmente arrebentou um pouco além da
casa. Continuamente ameaçado por pregar ali, o Rev. Cardoso afinal anunciou: "Virei aqui
todas as sextas-feiras, de quinze em quinze dias. Se nessas ocasiões quiserdes ouvir a
pregação do Evangelho, vinde; porque ninguém vos forçará a assistir".
Noutra ocasião, já em abril de 1891, escreveu que passara uma cena horrorosa
no arraial de Guarani. "Tendo sido convidados para uma conferência em Guarani, ali
fomos às sete da noite. Quando se começava o culto, fomos agredidos por um grupo de
sequazes com uma algazarra infernal a toque de latas e foguetes, gritando: "Morram! Fora
com os protestantes“. O grupo compunha-se de mais de 300 pessoas. Tão ameaçados
fomos que a dona da casa pediu-nos que fugíssemos pelos fundos, o que fizemos. Noite
escura, embrenhamo-nos pela mata - e depois de muitas quedas, chegamos ao leito da
estrada de ferro Leopoldina, a uma hora da madrugada".

E como freqüentemente acontecia, em contraste com as brutalidades dos
perseguidores fanáticos, apareciam homens cultos, inteligentes e liberais, para mostrar a
sua indignação e simpatia. Pois quando chegaram à estação de Piraúba para pegar o
trem, o subdelegado de Polícia, o chefe da estação, e os passageiros à espera do trem
foram corteses em defendê-los.
O Rev. Antônio faleceu em 29 de novembro de 1915 - "insigne servo do
Senhor" - e sua morte abriu lacuna nas fileiras do metodismo. Mas como que para
substituí-lo no plano divino, naquele mesmo ano, surgiram no meio dos obreiros mais dois
grandes servos: Guaracy Silveira e João França.
.
Quantos outros nomes podiam ser citados para mostrar a fibra moral e a
devoção cristã desses pioneiros que tanto fizeram para que nós tivéssemos hoje a
mensagem do Evangelho! Eis apenas alguns: Antônio José de MeIo, herói da guerra do
Paraguai que, apesar das honrarias, se tornara um beberrão. Conduzido a Cristo pelo
exemplo e as palavras de Ludgero de Miranda, tornou-se destemido soldado da Cruz.
Jorge L. Bekcer, que em Ubá, com outro dedicado pastor, Antônio J. de Araújo,
foram em 1893 surrados com paus e chicotes, e Becker esfaqueado (Kennedy, pág. 75).
Bento Braga de Araújo, jovem que estudou nos Estados Unidos, licenciado a
pregar na Conferência de 1898 e ordenado diácono e presbítero. Brilhante, benquisto
entre as seus colegas, estava em seu posto em Ribeirão Preto quando a cidade foi
assolada por uma terrível epidemia de febre amarela. Contando a história, escreve a Rev.
Kennedy: "O postar recusando-se a sair e deixar o seu povo, dedicou-se também a
campanha contra o flagelo. Passaram-se dias cheios de trabalho e cansaço, mas sempre
com animação e esperança, até que um dia o Rev. Bento Braga foi vitimado pela
insaciável mensageira da morte". Veio a falecer na dia 29 de março de 1903, o herói
espiritual que não deixou abandonado o seu posto de fiel pastor.
Guilherme da Costa, outra valioso ministro a quem em 1904, a morte roubou a
vida. Morreu cedo vitimado pela varíola.
Osório Caire, que quando pastor em Vila Isabel, muito fez para conquistar a
simpatia da Sra. Anna Gonzaga e contribuísse para que ela doasse ao metodismo da
Guanabara a propriedade valiosíssima que hoje abriga, instrui e guia os destinos de
centenas de crianças desamparadas daquela região.

E... Inúmeros outros cujos nomes estão escritos no livro dos santos e mártires
nos Céus.
Um par de chinelos
E quem poderá esquecer-se da história da conversão do ex-Padre Hypólito de
Campos? Era ele um dos mais honrados e inteligentes eclesiásticos da Igreja Romana no
Estado de Minas, sendo zeloso pelos interesses da sua fé. Quando soube que os
metodistas estavam despertando atenção demais em Juiz de Fora, qual Saulo de Tarso,
resolveu ir até lá para combatê-los. Essa viagem foi o seu caminho a Damasco.
Contra os metodistas, o padre Hypólito pregava fervorosamente, apelando aos
paroquianos para não assistir às pregações do Rev. J. W. Tarboux. Alguns crentes,
sabedores de sua hostilidade, resolveram oferecer-lhe um Novo Testamento e para isso,
compraram e levaram-lhe a mais linda edição que então havia - de papel fino e capa do
melhor marroquim. Cortês demais para recusar o presente, aceitou, dizendo, porém, no
coração: "Aqui vai mais um Novo Testamento falso para a fogueira!"
É mais fácil queimar um livro folha por folha do que inteiro, e ao passo que o
padre rasgava as folhas, de vez em quanto surgiam-lhe aos olhos algumas palavras ou
frases tocantes. Todavia, queimou-as todas no fogão. Mas, e a capa? Era de um couro
macio belo demais para queimar. Teve então uma "inspiração": "Vou mandar fazer-me um
par de chinelos desse belo marroquim!" Escondeu-a esperando o momento oportuno para
levá-la ao sapateiro.
Todavia, o Espírito Santo agia no seu espírito e coração. Resolveu ouvir ele
mesmo algumas dessas heresias que o Rev. Tarboux pregava. Conseguiu permissão de
vizinhos para assentar-se a uma janela que abria para o salão provisório dos metodistas!
Dali podia escutar os sermões e tomar anotações. O que se iniciara como tentativa de
combate acabou com um encontro com Cristo. Depois de 26 anos na Igreja Romana,
converteu-se ao Evangelho, renunciou publicamente aos erros do passado e na
Conferência Anual de 1900 foi aceito como ministro da Igreja Metodista no Brasil.

Orador

eloqüente

de

personalidade

cativante,

tornou-se

evangelista

procuradíssimo pelas igrejas. Talvez foi zeloso demais em combater os erros da Igreja
reinante; mas a sua sinceridade convencia e atraía, e as campanhas que dirigiu
trouxeram milhares ao confronto com o Evangelho - inclusive em Portugal.
Sim... Havia vitórias e alento tanto como perseguição naqueles dias. Todavia,
se as perseguições são aqui relatadas é justo comentar também as muitas cortesias
recebidas do povo mais esclarecido.
Por exemplo, em Ouro Preto, fortaleza do romanismo, quando ainda era capital
do Estado de Minas, quando ali chegavam pastores à procura dum local em que pregar,
"muitos dos prefeitos cediam as suas salas gratuitamente".
Em Angra dos Reis, Estado do Rio de Janeiro, quando o Rev. H. C. Tucker ali
foi para fazer duas conferências, o Barão de Jugeiro, dono do teatro, gentilmente ofereceu
o mesmo para este fim.
E para a Conferência Anual de 1904, que se reuniu em Petrópolis, foram
cedidos os salões do Palácio do Congresso Estadual, pelo então presidente do Estado,
Dr. Nilo Peçanha, devendo-se notar, porém, que o Congresso nesses dias, não se reunia
mais em Petrópolis, mas na cidade de Niterói, a nova Capital.
E mais de uma vez as estradas de ferro gentilmente ofereceram carros
especiais para a ida e vinda dos membros das Conferências - a E. F. Mogyana o fez
gratuitamente. A Conferência de 1910 manifestou a sua gratidão a essa, às estradas de
Ferro Central e às Cias. Inglesa e Paulista por "honras dispensadas".
***
Durante o período antecedente a 1886 - data inesquecível, como logo veremos
- o trabalho ia se expandindo. Os pregadores se reuniam em Conferências distritais e
anuais para melhor discutirem e encaminharem os seus trabalhos. O Rev. Koger, que se
revelara homem de grande habilidade e consagração, fora nomeado pela Junta da Igreja
Mãe para substituir o Rev. Ransom como superintendente da Missão. Como ainda não
havia Bispo para administrar a obra, era absolutamente necessário que ALGUÉM servisse
de superintendente.
Durante esse tempo, a febre amarela novamente dizimou a população do Rio
de Janeiro em particular. Em março de 1883, ficou gravemente enfermo com essa
moléstia o Rev. J. L. Kennedy. Graças a Deus, foi salvo; mas o médico recomendou que
para a mais rápida e completa recuperação, fizesse uma viagem ao mar voltando para
alguns meses de descanso em sua terra (EUA). Não podia haver remédio mais excelente
para o jovem missionário. Aproveitou a oportunidade para encontrar-se novamente com a
moça que amava: Jennie Wallace. E pediu-a em casamento. No dia 16 de maio de 1883
foram unidos em santo matrimônio e embarcaram pouco depois para o Brasil.

Nessa viagem trouxe não só o reforço de uma esposa dedicada a ele e ao
trabalho do Mestre, mas um reforço missionário na pessoa do casal Tarboux . Rev. John
W. Tarboux e Frances Tarboux e sua filhinha Marie. O Rev. Ransom também voltara aos
Estados Unidos, trazendo de volta sua esposa em segundas núpcias, Ella Crowe. Foi
assim reforçado o número de trabalhadores.

***
Primeira sociedade de senhoras
O Rev. Kennedy, sempre muito crente no trabalho que o elemento feminino
podia fazer, pois a sua mãe e sua tia foram pioneiras nesse trabalho nos EUA, ficou ainda
mais animado em incentivá-lo tendo agora o auxílio de sua senhora. Em julho de 1885
organizou na Igreja do Catete, da qual era pastor, e com o auxílio de Jennie, a primeira
Sociedade de Senhoras metodistas no Brasil. Deixemos que a jovem esposa conte em
suas palavras como transcorreu o evento, numa carta que endereçou à Revista
Missionária de Senhoras na sua terra (Woman's Missionary Advocate):
"Começamos com oito sócias somente, mas não devemos nos desanimar com
tão pequeno início, nem desprezar o dia dos pequenos começos (como disse Zacarias).
Continuaremos a trabalhar, pois sentimos ter realmente começado uma grande obra".
(Quão grande e valiosa, Jennie nem podia saber ou adivinhar!)
"Unidas, as senhoras brasileiras, americanas e inglesas, se reúnem
mensalmente com um programa especial bem preparado; e duas vezes por mês, vêm à
nossa casa para costurar para que os pobres possam se trajar decentemente para assistir
à Escola Dominical. Às vezes, têm vindo com suas mãos umas meninas pequenas que
fazem paninhos de crochê para vender em benefício do trabalho. Como não seria bom se
tivéssemos muitas sócias como elas!"
Se havia alegrias e vitórias, também havia tristezas para a nova igreja,
especialmente a perda de entre suas fileiras, de vidas preciosas.
Vítima da febre amarela, veio a falecer o Rev. J. S. Koger, que fundara as
igrejas de Piracicaba e São Paulo, e que como superintendente viajara constantemente
para encorajar a obra. Apesar de ter sido avisado do perigo da febre amarela no Rio de
Janeiro, em princípios de janeiro de 1886, ele insistiu em viajar até lá, sendo hóspede do
Rev. Kennedy e senhora. Duas vezes pregou na igreja do Catete e o seu último sermão,
"As limitações do conhecimento humano", foi baseado sobre o texto: “Pois agora vemos
como por um espelho em enigma, mas então veremos face a face” .
Comentando sobre o caso, escreveu o Rev. Kennedy no seu "histórico": "Não
sabíamos ao ouvir as suas palavras, quão perto ele então estava de ver-se face a face
com Jesus".

Terminada a série de cultos, o Rev. Koger voltou a São Paulo, onde logo
adoeceu. Faleceu no dia 28 de janeiro vítima da febre amarela e foi enterrado no
Cemitério dos Protestantes, em São Paulo, na Rua da Consolação. Deixou viúva e duas
filhinhas.
***

Apesar das suas perdas, o trabalho metodista se expandia passo a passo.
Sentiu-se logo a necessidade de uma administração central mais ativa e eficiente, e dum
contato mais íntimo com a Igreja Mãe.
Reconhecendo as dificuldades, a Junta de Missões resolveu enviar ao Brasil o
Revmo. Bispo John C. Granbery para aconselhar, administrar, e organizar a Missão como então se chamava - em CONFERÊNCIA ANUAL BRASILEIRA.
CAPÍTULO 10
DIAS MEMORÁVEIS DE 1886
Chegada do Bispo Granbery
A chegada do Bispo Granbery, em 4 de julho de 1886, foi evento notável não
só para o metodismo brasileiro, mas para o próprio Brasil, pois foi ele o primeiro bispo
protestante a pisar o solo do Brasil.
O vapor "Advance" em que viajara chegou tarde demais para seus passageiros
desembarcarem, mas o Rev. Kennedy conseguira do governo uma cortesia especial licença para que descessem sem todas as formalidades costumeiras. O Bispo trouxe
consigo sua filha Ella (ou Elvira como a chamavam aqui, que se tornou uma das mais
queridas missionárias no Brasil) e o jovem pregador, Rev. Hugh C. Tucker com quem
mais tarde a filha do Bispo se casaria. Um dos mais felizes em dar sua boa vinda ao Rev.
Tucker foi o Rev. Kennedy. Com suas múltiplas obrigações, viu que não podia mais
devotar-se ao trabalho no Catete entre os americanos. Por isso preparara um abaixoassinado que incluía o nome do Cônsul Americano, que pedia à Junta de Missões nos
Estados Unidos, insistentemente, que enviasse um pastor para essa congregação - mas
um SOLTEIRO, porque não podiam ainda sustentar pastor com família!

O Rev. Tucker veio assim ao Brasil - solteiro e com a única preocupação de
servir à congregação de fala inglesa; mas veio como missionário da Junta, da qual
recebia por ano a munificente soma de duzentos dólares!

Foi convidado depois, e aceitou, a assumir a posição de representante no
Brasil da Sociedade Bíblica Americana. Nesse trabalho, e na sua obra toda na Igreja e na
comunidade, o Rev. Tucker tornou-se um dos mais valiosos missionários que jamais
trabalharam nessa terra. Dele escreveu o seu colega Kennedy, no Expositor Cristão:
"Oxalá tivéssemos uma dúzia de campeões como esse valente servo do Senhor!"
Quanto ao nome da igreja, foi recomendado que a Missão fosse doravante
conhecida com o título legal de "EGREJA METHODISTA EPISCOPAL DO SUL" e que
toda a sua propriedade fosse inscrita com tal título. Terminou assim a Missão designada
até então de MISSÃO RANSOM.

Terminou também o trabalho ativo desse missionário pioneiro no Brasil. Sejam
quais foram os motivos, resolveu ele regressar aos Estados Unidos, desligando-se
completamente do trabalho aqui. Ninguém registrou e hoje ninguém sabe os motivos
íntimos que o levaram a essa decisão; mas sabemos que Ransom era homem de
convicções e opiniões fortes; que se sentia como "comandante" dos seus colegas; que
houve atritos com esses e discórdia com as resoluções do Bispo. O certo é que o caso
não foi discutido abertamente. Mas também é certo que, com a volta do Rev. Ransom, o
Brasil perdeu um obreiro brilhante, dinâmico e consagrado. Escreveu Kennedy no seu
histórico: "O Dr. Ransom nunca perdeu o seu amor para com o trabalho do Senhor no
Brasil; e os que ficaram para trás, nunca deixaram de lastimar a combinação de
circunstâncias que o impeliram para lá (Estados Unidos). Honra àquele denodado servo
do Senhor!"
O Bispo testemunha algumas perseguições
Terminada a Conferência dos missionários em Piracicaba, o Bispo Granbery
resolveu visitar um pouco o campo de trabalho, e foi acompanhado pelo Rev. Kennedy no
dia 27 de agosto a Rio Novo, onde era pastor o Sr. Felipe de Carvalho, ajudado pelo Sr.
Ludgero. Logo ao desembarcarem na estação, receberam a notícia que há duas horas tão
somente o delegado de polícia tinha mandado dois praças e um cabo à casa pastoral,
prendendo o pastor e seu ajudante e escoltando-os até a delegacia policial, como se
fossem criminosos comuns - somente por terem pregado a Palavra de Deus! E acima de
tudo, o delegado mandou que saíssem de Rio Novo dentro de quarenta e oito horas!

O Sr. Kennedy não demorou em ir às autoridades, citando-Ihes o direito da
liberdade religiosa garantida pela constituição. Os pregadores foram soltos e lhes foi dada
licença para continuarem seu trabalho. Contudo, relata Kennedy, quando o Bispo pregava
a uma congregação bem grande aquela noite, muitos motivados pela curiosidade de ouvir
um Bispo protestante, o culto foi interrompido por moleques que batiam em latas vazias
para atrapalhar o sermão. Já se vê que bem cedo o Bispo testemunhou algo que os
pastores protestantes tinham que enfrentar.
Um setembro de alegria
Duas datas radiantes seguiram-se a esses acontecimentos. Estava
finalmente terminado o templo do Catete, que tanta angústia havia causado, e no dia 5 de
setembro, foi inaugurado com a bênção do Bispo. E após isso sucedeu, no dia 16, o mais
significativo de tudo - a organização da Conferência Anual Brasileira da Igreja Metodista
Episcopal do Sul.

Até o dia de hoje tem essa Conferência a distinção de ser única em todo o
metodismo mundial organizada com três membros tão somente: o Rev. James L.
Kennedy, o Rev. John W. Tarboux e o Rev. Hugh C. Tucker, designados depois como
"TRIO DE OURO" - líderes metodistas nos campos de evangelização (Kennedy organizou
mais igrejas e recebeu mais membros do que qualquer outro pregador); Tarboux, no
campo da educação (especialmente em conexão com Granbery); e Tucker, como pioneiro
dinâmico no campo da ação social, tendo ao seu crédito uma longa lista de "Primeiros".
Infelizmente, dessa primeira Conferência não fizeram parte outros pioneiros - o
Rev. Koger que falecera poucos meses antes; o Rev. Ransom que por vontade própria
deixara o trabalho do qual fora realmente o fundador.
Todavia, podemos dizer que com este significativo e glorioso evento fechamos
com chave de ouro a primeira década da Igreja Metodista Episcopal do Sul no Brasil.
Surgia agora uma nova etapa no trabalho.

E enquanto deixamos nossos pioneiros da Conferência Anual Brasileira
vigiando os seus postos em Rio, São Paulo, e Minas Gerais, vejamos duas outras
correntes metodistas que estavam contribuindo para a cristianização da Pátria com a
mesma coragem e devoção cristã.
TERCEIRA PARTE
CAPÍTULO 11

OUTRA SEMENTEIRA METODISTA

“Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me
convém conduzi-Ias; elas ouvirão a minha voz; então
haverá um rebanho e um pastor." (João 10:16)

Penetra o Metodismo no Rio Grande do Sul
Desde os primórdios da sua obra missionária na América do Sul, a Sociedade
Missionária (a Junta) nos Estados Unidos se interessara na região platina tanto quanto
pelo Brasil. Na sua viagem de exploração e organização, o Rev. Fountain E. Pitts
prosseguira do Rio de Janeiro a Buenos Aires e Montevidéu. Nas duas capitais platinas
organizou "Sociedades" ou congregações; deixando em Buenos Aires "uma igreja muito
respeitável - tomando medidas preliminares para se levantar uma casa de oração, que
depois se tornou em realidade" (Kennedy, págs 13-14).
Porém essa Missão, como a do Rio, pelas causas já mencionadas
anteriormente, também foi abandonada pela Igreja Mãe. Mas diferentemente da do Rio de
Janeiro manteve sua continuidade com sustento local, e em 1870 reativou-se a ligação
com a Missão, e em seguida, em 1879, temos a chegada do Dr. Thomas B. Wood. A
partir daí expandiu-se o trabalho entre os que falam a língua espanhola na América do Sul
até firmar-se em dez países do continente. Mas como a Igreja Metodista nos EUA fora
vítima de cisão neste período intermediário, a obra nos países de fala espanhola estava
ligada à Igreja do Norte, enquanto que a estabelecida no Rio e em São Paulo estava
ligada à Igreja do Sul.
Comentam os historiadores do metodismo americano que "durante esses anos
a Igreja estava aprendendo a sua primeira lição em fé e estratégia missionária - no futuro
não abandonaria tão depressa os seus empreendimentos por falta de frutos imediatos no
campo ou por dificuldades financeiras na Junta. A igreja aprendeu a ter paciência." (Early
American Methodism, pág. 315).

Dr. Thomas Wood
Dr. Wood era homem de brilhantismo e cultura profunda; conforme diz o Rev.
Mena Barreto Jaime, "varão ilustre, cérebro poderoso, mestre de teologia, orador e
escritor - todavia, com coração de criança" (Jaime, pág. 21). Tinha deixado a reitoria
duma universidade na sua terra, para servir como humilde missionário na região do Rio
da Prata (1 ). Dali lançando as vistas para longe, viu o vasto e desocupado campo do Rio
Grande do Sul, e resolveu duma feita encetar o trabalho ali também. Para seu
"embaixador", aproveitou-se, dum jovem cristão brasileiro, convertido sob sua pregação:
João Correa.

1

Foi extraordinário o trabalho desse homem. Em Rosário, Argentina, onde se localizou entre os

anos 1870 a 1874, dirigiu a única escola argentina na qual não se ensinava o catecismo católico-romano.
Nos anos 1874 a 1878, ensinou Economia Política, Governo Constitucional, Astronomia e Física no Colégio
Nacional de Buenos Aires. Fundou "El Evangelico", o primeiro jornal evangélico no país, e em 1889, fundou
o Seminário Teológico em Buenos Aires, no qual serviu de Reitor até 1891.

.

.

Seguiu depois à costa oeste do continente, pregando e lecionando no Peru (Lima), Equador e
Bolívia. Nesse último, em 1900 fundou escolas normais a pedido do governo que o enviou aos EUA para
conseguir professoras competentes, e foi servir, ao mesmo tempo, de reitor do Seminário Teológico
Metodista naquela cidade, e superintendente de suas escolas públicas. Um verdadeiro gigante intelectual e
espiritual! Faleceu em dezembro de 1922, no dia depois do natal, "cheio de boas obras".
Dr. João Corrêa
Natural de Jaguarão, na província do Rio Grande do Sul, era médico
homeopata que durante a guerra do Paraguai prestara serviço nos hospitais de sangue.
Finda a luta, por motivos que ignoramos mas que certamente faziam parte do plano divino
para a evangelização do Brasil, resolveu fixar residência em Montevidéu. Ali Deus
continuou a sua preparação espiritual: ali ele se converteu, casou-se com a Srta. Maria
Lejos, que foi sempre uma dedicada esposa, e obteve posição de colportor com a
Sociedade Bíblica Americana.

Enviado pelo Dr. Wood, tornou-se ele o João Batista que preparou o caminho
para a penetração metodista na terra gaúcha. Fez a sua primeira viagem ali em 1875,
data preciosa nos anais metodistas do Sul.
Viajou extensivamente pela então província, desde a fronteira uruguaia até à
cidade de Rio Grande. Além das dificuldades inerentes com transportes, comunicações e
hostilidade do clero, o Dr. Corrêa teve que enfrentar obstáculos criados pelos conflitos
militares que ensangüentavam o Rio Grande. O Expositor Cristão de 14 de abril de 1894
comenta sobre um relatório que o Dr. Corrêa enviara, dizendo: "Ele continua a trabalhar
com bons resultados, apesar dos abalos da revolução que se alastra no sul deste infeliz
país, assombrado pelo militarismo".
A despeito de tudo, os resultados do seu trabalho e as promessas para o futuro
tanto agradaram ao Dr. Wood que ele pediu que o Dr. Corrêa mudasse definitivamente
para Porto Alegre.

O Dr. Corrêa voltou com alegria e satisfação ao seu torrão natal, fixando
residência em Porto Alegre, que desde então tornou-se o coração do metodismo gaúcho.
Trouxe consigo a sua esposa Da Maria, sua filha Ponciana, e a Srta. Carmen Chacon,
filha duma viúva de Montevidéu, que o casal Corrêa tinha criado como filha.
Primeira Igreja Metodista no Rio Grande do Sul
Desde então, a obra metodista - evangelística e educacional - se radicou pelo
sul. Em 27 de setembro de 1887, o Dr. Corrêa organizou a primeira igreja metodista em
Porto Alegre, numa sala de sua residência à Rua Dr. Flores, nº 91. Dela faziam parte seis
membros: ele próprio, Da Maria, Ponciana, Carmen Chacon, e - interessante coincidência
- Samuel Elliot, o escocês que colaborara com o Rev. Kennedy quando ele começou o
trabalho em Juiz de Fora! Samuel Elliot transferindo-se em 1885 para o Sul, ali continuou
como obreiro incansável na distribuição das Escrituras.
Carmen Chacon - - Flor primaveril do Metodismo gaúcho
Um mês após a organização da igreja, o Dr. Corrêa fundava em Porto Alegre
uma pequena Escola Mista Evangélica, sob a direção de Carmen Chacon, que era
professora formada no Uruguai. Cristã consagrada, ela se houve com a máxima devoção,
conquistando o respeito e a estima das famílias importantes da cidade. No fim do ano
letivo a Escola alcançara um total de 187 alunos. Bastava esse sucesso para que
começassem hostilidades e calúnias contra a "escola protestante". Dr. Jaime Couto
nomeou uma comissão para fazer um inquérito, a qual após debates deu parecer
favorável à escola.

Diga-se ao crédito das autoridades brasileiras que em casos dessa natureza,
como no do Piracicabano e depois no Colégio de Taubaté, apoiavam eles sincera e
lealmente o nosso trabalho educacional, confundindo e derrotando os nossos inimigos e
críticos.
Tudo ia a contento - menos Carmen! Sendo de físico fraco, ficou com a saúde
abalada, gastou as suas forças no trabalho escolar e, dentro de dois anos, viu-se atacada
pela tuberculose. Voltou então a Montevidéu; mas não houve carinho nem tratamento
médico que a salvasse. Faleceu no dia 15 de novembro de 1889, sendo o dia de nossa
independência política o de sua independência espiritual. De Dr. Wood, a beleza do seu
caráter mereceu essas palavras de apreço:
"Ao designá-la para Porto Alegre, ela preencheu todas as minhas esperanças,
e principalmente tenho que admirar a paciência e abnegação com que trabalhou dia e
noite, sem olhar para qualquer recompensa a não ser a do galardão espiritual".
De novo - como com Cynthia Kidder - perguntamos à Providência Divina: "Por
que, ó Deus, por que a morte prematura na primavera da vida, dessas Tuas servas
dedicadas, preparadas, e tão necessárias ao trabalho da seara?"
Contudo, a obra de Carmen não terminou com o seu falecimento. Sua escola
floresceu tanto que, em breve, o Dr. Corrêa e seus auxiliares abriram mais três unidades,
sendo uma noturna que chegou a matricular 84 alunos!
Novos obreiros
Após a morte de Carmen, veio do Uruguai para dirigir a Escola Mista, Dona
Raquel Foladori, que depois de trabalhar cinco anos, casou-se e voltou à sua terra natal.
Finalmente, em 1996, já cansado e sobrecarregado, o Dr. Corrêa, pastor da
Igreja Central de Porto Alegre, pediu a sua exoneração do cargo. Para substituí-lo, veio
dos Estados Unidos, o Rev. William (Guilherme) Robinson, trazendo consigo a Srta. H. M.
Hegemam para encarregar-se do trabalho educacional. Já antes dessa data, o nome da
escola fora mudado para COLÉGIO AMERICANO, nome que conserva até hoje. A Srta.
Hegeman trabalhou ativamente na Escola Dominical, e em 1898 organizou a Primeira
Sociedade de Senhoras no Rio Grande do Sul, sendo presidente da mesma a Sra
Herminia Wingaertner. A Srta. Hegemam regressou aos Estados Unidos em 1900, e em
vez de voltar ao Brasil, foi trabalhar no metodismo porto-riquenho, por que motivos não
sabemos.

O Rev. Robinson foi obreiro dedicado, mas devido à precária saúde de sua
senhora e de outros da família, também regressou em breve aos Estados Unidos.
Contudo, deixou num Cemitério de Porto Alegre um pedaço de seu coração - uma filhinha
querida.
Era agora superintendente na Missão Platina, o Rev. Charles Drees, que
resolveu visitar Porto Alegre em 1899. Trouxe consigo o casal missionário John Elizabeth
Price, com sua filhinha Margarida, para servir na Igreja Central de Porto Alegre. A vida
desse casal tornou-se uma epopéia.

Moravam no Estado de Ohio, onde eram membros da Igreja Metodista (do
norte). Desde jovens, ambos haviam entregue suas vidas a serviço cristão em prol dos
pobres e desprivilegiados duma grande cidade industrial; e nessa tarefa ficaram se
conhecendo. Quando afinal John pediu Elizabeth em casamento, avisando-a que
tencionava ser missionário nalguma terra longínqua, ela respondeu: "Se o trabalho é para
Jesus Cristo, estou pronta a ir contigo".
Em 1900, foram nomeados para abrir trabalho metodista em Santa Maria, onde
alugaram na rua do Comércio uma casinha com sala e janela que davam para a calçada.
Com seus próprios recursos, compraram algumas cadeiras com assentos de palhinha.
Arranjaram uns caixotes - aqueles em que se vendiam querosene em duas latas grandes
- pregaram-nos juntos, deram-lhe pernas, cobriram-nos com pano vermelho, e assim
fabricaram o seu "púlpito"! Também de papel vermelho cortaram umas letras grandes e
bem vistosas, que colocadas na parede atrás do púlpito com o texto: "DEUS É AMOR."
Assim começou o trabalho metodista em Santa Maria.

Certo domingo de manhã, veio à Escola Dominical entre outros um
meninozinho aparentando uns nove anos, de olhar vivo e inteligente, olhos bem grandes e
escuros. Da Eliza fez a chamada: "E tu, como te chamas?" O menino olhou-a sorridente:
"Chamo-me César - César Dacorso".
Nunca poderia Da Eliza sonhar que esse seu pequeno aluno chegasse a ser o
primeiro bispo brasileiro da nossa Igreja! Porém, como era o seu costume, tratou-o com
carinho, cativou-lhe e aos seus irmãos com hinos e histórias bíblicas, sua bondade e
interesse, bem como as festinhas que fazia para o Natal. Conta o Rev. Nelson de Godoy
Costa, na sua esplêndida biografia desse “Príncipe” da Igreja Metodista no Brasil: "Foi
naquela Escola Dominical, dirigida carinhosamente por Dona Eliza Price, que aos olhos
do menino surgiram os primeiros horizontes do metodismo. César, já com a idade de
treze anos, era firme na igreja, sempre entusiasta, revelando-se já o extraordinário obreiro
do Mestre que seria mais tarde. E foi anos depois, sob a mesma influência benéfica do
pastor Price, que ele foi levado à resolução final de tornar-se membro da Igreja
Metodista".
CAPÍTULO 12
TRABALHO NA ZONA COLONIAL

"Não te mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas nem
te espantes; porque o Senhor teu Deus é contigo, por
onde quer que andares." (Josué 1.9)

Não só em Porto Alegre e seus arredores, a zona agrícola mais rica do Estado,
se espalhava o trabalho metodista. A região colonial, tornou-se um dos grandes campos
de evangelização - a escabrosa região onde moravam agricultores italianos, que se
especializavam na cultura da uva. O trabalho ali era verdadeiramente árduo, não só
devido às dificuldades topográficas, mas à hostilidade reinante por parte de aferrados
católicos. Todavia, os nossos pregadores locais, exortadores e colportores trabalhavam
assiduamente com "alegria e o desejo de ganhar almas para Cristo", conforme diz o Rev.
E. M. B. Jaime.
Valdenses - quem eram?
Mas se ali residiam católico-romanos fanáticos e ignorantes, também havia um
pequeno grupo de evangélicos leais, filhos daqueles que durante séculos não haviam
curvado o joelho a Baal.
Eram eles os valdenses, de um movimento pré-Reforma, oriundos das regiões
alpinas do sul da França e norte da Itália - seguidores de Peter Valdo, rico comerciante de
Lyon, França, que despojou-se de todos os seus bens, dando-os aos pobres e entregou-se a uma vida de simplicidade bíblica. Sua sinceridade não demorou em atrair outros altos
ideais, que tomaram voto de pobreza, castidade e obediência.

Alarmado com esse espírito independente e antagônico à Igreja reinante, o
Papa Alexandre lII proibiu-o de pregar, mas Valdo continuou, refugiando-se nas cavernas
e montanhas dos Alpes; e tal foi a sua influência que em oito anos apenas - isso em 1184
- o Papa Lúcio II excomungou os Valdenses, tornando-os alvos de “legítima” perseguição.
Espalharam-se então por outros países da Europa, e mais tarde, alguns embarcaram para
a América do Sul, Argentina e Uruguai, e de lá finalmente chegaram à região serrana do
Rio Grande do Sul.
O espírito simples e evangélico que possuíam casou-se com a penetração
metodista. E assim começou o trabalho metodista na zona colonial. Colportores e
exortadores valdenses vieram da região platina, enviados pela Missão Metodista.
Destacam-se entre esses, Carlos Lazzare, Mateus Donatti - que já eram meio avançados
em idade, entre os 60 e 70 anos – e Victor Pingret, francês e geólogo.

Lazzare veio do Rio da Prata em 1888, trabalhou ativamente nas redondezas
de Bento Gonçalves, onde conseguiu construir uma igreja com a capacidade de 200
pessoas!
O colportor Victor Pingret, foi ativo em Forqueta do Caí, onde havia um grupo
de valdenses. Para o culto, conseguiu o uso duma capelinha católica que fora no passado
um conservatório ou depósito de imagens. Lembrando-nos da salinha onde se vendera
bebidas alcoólicas que se transformou no berço da Igreja Metodista de Santa Bárbara,
podemos bem exclamar: Como Deus pode de coisas imundas e mundanas, fazer templos
preciosos para a sua adoração.
Apesar de algum sucesso foi e ainda é uma região dificílima de evangelizar ou será que os seus rebanhos não foram bem pastoreados? Até em 1911 se debatia na
Conferência Anual daquela região eclesiástica: “Qual a melhor solução do problema da
evangelização na zona colonial?”
Donatti, o indomável
Um dos mais dedicados obreiros na zona colonial foi Mateus Donatti, nascido
em 8 de março de 1874 na pequena vila de Gavenola, província Porto Mauricio, Itália.
Seus pais valdenses eram crentes fervorosos que sempre levavam consigo aos cultos, o
menino Mateus, desde a idade de quatro anos. Mocinho, em busca de novas
oportunidades e liberdade, foi para a Argentina. Chegado em Buenos Aires procurou logo
os evangélicos, encontrando a Missão Metodista. Conseguiu empregar-se como colportor
da Sociedade Bíblica Americana, e tão excelente foi o seu trabalho que o Superintendente
da Missão declarou que "nunca colportor vendera tantas Bíblias em um ano como
Mateus".
Da Argentina, foi enviado a trabalhar no Rio Grande do Sul entre os seus
patrícios nas colônias. Seu zelo e entusiasmo em breve despertaram hostilidade, mas
nunca perseguição; nem o desânimo espiritual, nem a canseira dos seus sessenta anos,
o desviaram da sua missão evangelizadora.
Aventura na floresta
Uma das suas experiências maravilhosas deu-se certa vez quando montado a
cavalo seguia um estreito caminho de curvas nas florestas da região. De repente, por
detrás dumas árvores, surgiram três homens com facas, gritando: "Pare, pare!" Donatti
obedeceu. "Prepara-te para morrer, pois vamos matar-te!" - gritou o líder. Donatti, homem
de fé e coragem, olhou-os sem medo, lembrando as mil promessas que Deus fizera aos
seus fiéis seguidores. "Muito bem, senhores, respondeu-Ihes, "porém peço um único
favor: que me deixem orar antes de morrer".
Os homens que não eram bandidos, mas criaturas ignorantes que haviam sido
levados a crer que faziam o seu dever em remover da comunidade um herege,
encolheram os ombros e consentiram. Nisso, Donatti, ajoelhando-se no caminho ao lado
do seu animal, fechou os olhos, apertou as mãos e começou a orar em voz alta e
fervorosa. Orou pela sua família, pela obra que tentava fazer contando a história do amor
de Deus por aqueles que o ameaçavam e suas famílias, para que se arrependessem e
entregassem os corações a Jesus Cristo. Ao passo que orava, esperava a cada instante o
golpe mortal.
Surpresa divina! Terminada a oração, que tanto se prolongara, abriu os olhos
e, ao erguer-se, viu ajoelhados no caminho os três homens, seus rostos banhados em
lágrimas, pedindo perdão a ele e a Deus.
CAPÍTULO 13
TERREL, O INTRÉPIDO

Ligado também ao trabalho pioneiro no Rio Grande do Sul, está o nome do
incansável e intrépido missionário, James M. Terrel.
O Rev. Terrell era natural do Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.
Seu pai era militar presbiteriano de fibra, mas a mãe era metodista convicta. Todavia, o
seu lar era cristão e servia de hospedaria para os itinerantes que viajavam de ponto a
ponto pregando as boas novas. Entre esses estava o Rev. James L. Kennedy, que fora a
influência mais forte em sua decisão de ser missionário.
Desde mocinho demonstrara a sua determinação em vencer os obstáculos. Ele
e sua mãe queriam que ele estudasse no colégio metodista Emory and Henry. Mas o pai
se opunha obstinadamente, dizendo que de modo algum o sustentaria se para ali fosse.
Inflexível, e com a aprovação da mãe, o jovem foi ao colégio preferido; e com o trabalho
das suas mãos e o pouco auxílio que a mãe podia providenciar, conseguiu formar-se,
completando seus estudos teológicos na Universidade de Vanderbilt. Veio ao Brasil
solteiro, em junho de 1900, e foi nomeado para Petrópolis. Ali ficou conhecendo May
Umberger, a missionária que dirigia o Colégio Americano (metodista). Amaram-se e
casaram-se no ano seguinte; Dona May foi sua dedica da e incansável companheira na
obra cristã. Terrel foi depois transferido para o Rio Grande do Sul.

Poucos missionários viveram mais ativa e sacrificialmente do que o casal
Terrell, que aqui serviu 43 anos ao todo. Na sua casa, por mais apertada que fosse,
hospedavam estudantes menos privilegiados; e entre os vários que receberam essa
hospitalidade, esteve César Dacorso, quando estudava no Colégio União. Pelos seus
sacrifícios, conseguiu construir diversas casas pastorais, contraindo dívidas pessoais
enormes, pelo qual foi reprovado por um dos bispos americanos que ameaçou mandá-lo
de volta à sua pátria!
Foi uma vez quase morto a facadas por um ingrato a quem ajudara na sua
necessidade. Mas para dar um só exemplo de sua coragem em pregar o Evangelho,
lembramos a história de uma experiência que teve em Santo Ângelo. Vários metodistas ali
tinham sido presos pelo "crime" de pregarem a Palavra de Deus, sendo encerrados no
porão de um hotel. Quando Terrell soube disso, lá se foi com pressa, e tomou posição
enérgica com o intendente (prefeito) local, citando os direitos da liberdade religiosa
garantidos pela Constituição do Brasil.

Cedida a sala do hotel pelo seu dono, o Rev. Terrell não hesitou em pregar ali
naquela mesma noite, ainda que o seu rosto fosse pipocado por grãos de, milho por
alguns mal-educados ali presentes que assim escarneceram dele . Ignorando os insultos,
Terrell cantava e pregava, cada vez mais alto, para que os crentes presos pudessem
ouvi-lo e se encorajassem a permanecer firmes na fé. Conseguiu depois que fossem
soltos.
Assim tal como o Rev. Price, Rev. Kennedy e outros, ele mesmo mais de uma
vez construiu bancos e "púlpitos" para as salas de culto; e quando chegava o domingo à
noite, começava a cantar sozinho ou em dueto com May, para atrair transeuntes e
convidá-los a entrar para o culto! Foi membro fundador da Conferência Anual do Rio
Grande do Sul, sendo essa organizada em seu lar. Quando em 1905 era pastor da Igreja
Central de Porto Alegre, e o superintendente distrital era o Rev. E. E. Joiner, Terrell
adquiriu o valioso, terreno na Praça do Portão, onde está localizada a nossa principal
igreja na Capital.

Foi outro ativíssimo e amado missionário o Rev. Claude L. Smith, que serviu de
engenheiro-arquiteto desse templo.

O Rev. Terrell ensinou no Seminário adjunto ao Instituto Porto Alegre,
educandário masculino fundado em Porto Alegre, no qual um dos seus primeiros
estudantes foi Sante Uberto Barbieri, hoje (final da década de 60) honrado bispo da
Região Platina. Depois o Rev. Terrel foi nomeado para ensinar na Faculdade de Teologia
quando ela foi formada em São Paulo, unindo os seminários do Granbery e Instituto Porto
Alegre; e não é de se admirar que uma vida tão dinâmica, terminasse, não no conforto de
um leito mas no cumprimento ativo de um dever.
Ao mesmo tempo que ensinava na Faculdade, pastoreava a igreja do Ipiranga.
Um domingo de manhã, em 1942, corria para pegar o ônibus que o levaria à igreja que
pastoreava. Acenou ao motorista para parar. Quando a porta se abriu, o Rev. Terrell pôs
o pé no estribo; sorriu um obrigado ao cobrador - e caiu no estrado, entregando a alma ao
Senhor que tão fielmente servira durante 49 anos.
Álvaro Tôrres, o Tomás do metodismo gaúcho
Ao escrever a história do Rev. Terrell, é impossível não lembrar da história da
influência que teve o seu lar sobre um dos consagrados pregadores daquela região.
Um dia compareceu à porta um jovem com sua mãe. "Sou Álvaro Tôrres,
estudante de engenharia", explicou ao apresentar-se. "Vim do interior e desejo morar
perto da Escola. Alguém nos indicou que o senhor tinha quartos para alugar". Perguntas respostas - afinal, com tudo combinado, o moço virou-se e disse ao casal Terrell: "Somos
católicos praticantes; e para não haver qualquer mal entendido, desde já quero avisar-lhe
que não queremos saber nada de religião enquanto aqui estivermos". O casal Terrell
concordou.

De tão inauspicioso começo resultou a conversão do moço e da sua mãe! É
que o casal Terrell tinha o costume todas as manhãs de realizar o seu culto em família. É
claro que assim continuaram. Mas as paredes da casa não eram grossas bastante para
abafarem por completo o que faziam. Dos seus cômodos, Dona Lisbale e o estudante
Álvaro ouviam a leitura bíblica, o Pai Nosso, o cantar de um hino. Impressionados, mas
resistentes, D. Lisbale acautelava o filho: "Álvaro, não te impressiones - é uma cilada que
armam para nos pegar".
Cilada foi! Mas do Espírito Santo. Com o passar do tempo, os dois não
puderam resistir à mensagem que lhes tocava os corações. A história continua com o
Álvaro convertido, casando-se com distinta professora do Colégio Americano, Amália
Delacoste, e dedicando-se não à engenharia do material, mas à engenharia espiritual - a
construção de caráteres dedicados a Cristo, assim como foi ele.

Ele trabalhou uns tempos na Associação Cristã de Moços, sendo secretário o
Sr. Frank M. Long, que muito influiu na sua vida. Depois consagrou-se inteiramente ao
ministério.
Casal J. W. e Maggie Lee Daniel
O casal Daniel, tão querido no sul, também tinha por costume hospedar no lar
estudantes e ensinar o inglês - um bom meio de contato com descrentes: Quando
moravam em Cruz Alta, vinha ao seu lar um jovem estudante, por nome Érico Veríssimo.
Ele costumava pedir suas velhas revistas americanas, que às vezes D. Maggie chegava a
tirar do caixote na cozinha onde ela as guardava para acender fogo nas frígidas manhãs
de inverno gaúcho.

Quem sabe se não acenderam também no coração desse moço a chama da
ambição de escrever, que o levou a ser um dos nossos grandes literatos? Em dois dos
livros de Veríssimo há retratos autênticos de missionários metodistas.
Foi ali em Cruz Alta que o casal tristemente deixou no solo do Brasil, um
filhinho querido - assim como o fizeram os casais Robinson, Smith e Betts.
CAPÍTULO 14
OUTROS CAMPEOES DA FÉ

Dentro de tão pequeno volume é absolutamente impossível continuar com a
galeria de santos e heróis da terra gaúcha. Todavia, não posso fechar o livro sem
mencionar, ainda que brevemente, alguns nomes que nunca deverão ser olvidados.
Lembramo-nos:
Do Rev. José Leonel Lopes e sua infatigável esposa, D. Jovita e do Rev.
Antônio Patrício Fraga que tanta influência exerceram na vida espiritual de César
Dacorso, então jovem.
Cassiano Monteiro, que apesar de péssima saúde e parcos recursos (quão
pouco os nossos pastores então recebiam!), trabalhou muito.
Do Major Joaquim Faria, herói da retirada de Laguna na guerra do Paraguai,
veterano leigo, sempre pronto a trabalhar, cristão cujas filhas ilustres no campo da
educação continuam ainda fazendo admirável trabalho pelo Senhor.
Rev. Eduardo E. Joiner, que além de ser consagrado pastor d'almas fizera um
curso de medicina que foi o meio de salvar muitas vidas. Contudo em agosto de 1914, ele
que tanto fizera para ajudar a outros, não pôde ser salvo quando a mão da morte acenou.

Rev. Eduardo Menna Barreto Jaime, verdadeiro apóstolo do Evangelho,
herdeiro de uma longa e honrada tradição militar, que facilmente poderia ter seguido a
carreira de seus país, mas preferiu renunciá-la para servir como bravo soldado nas fileiras
de Cristo. Era filho espiritual do Rev. E. J. Joiner, e amigo íntimo de César Dacorso
quando este ainda era funcionário da Viação Férrea em Santa Maria. Dele escreveu o
Rev. Nelson de Godoy Costa: "Hoje, após tudo, mais do que ninguém, representa ele a
velha guarda da Igreja Metodista do Sul, com dedicação incontrastável, já que com as
energias quebrantadas pelos anos de enfermidade, visita, estimula, fornece padrão para a
mocidade que ingressa no ministério. A ele pela influência que exerceu, pela bondade que
o caracteriza, pelo cristianismo que encarna, César Dacorso deve muitíssimo". E sempre
a seu lado, sua dedicada esposa, D. Alcina, que para viver dentro do parco salário, até
solas punha nos sapatos das filhas - segunda geração também de crentes no metodismo
gaúcho.
Do bondoso Rev. João Ignácio Cerilhanes e sua esposa, D. Etelvina.
Do Rev. Derly Chaves e sua magnífica esposa, Ottília de Oliveira Chaves.
Que direi deles sem escrever outro livro?! Tão conhecidos são; tão queridos,
tão influentes no metodismo total do Brasil, a sua influência se espalhando além da igreja.
Ele, autor dos "Bilhetes do Céu", na revista Voz Missionária, deputado durante anos, e,
aposentado, servindo como Diretor do Museu Estadual de Porto Alegre; ela, uma das
fundadoras da revista Voz Missionária; Presidente das SS.MM.SS. da 2ª Região; durante
um termo, presidente da Federação Mundial de Senhoras Metodistas, e eminente
legisladora nos concílios da Igreja.

Rev. Daniel Betts, grande espírito de educador e evangelizador, que, depois de
sua aposentadoria, curvando-se ante o peso dos anos;" dedicou-se a trabalhos que
culminaram no orgulho dos gaúchos - o templo da Igreja Wesley - descansa hoje em solo
gaúcho.
Rev. Adolfo Ungaretti e sua senhora, D. Luíza Vurlod, filha de um educador
francês no Rio Grande do Sul, que se sacrificaram pessoalmente para fundar em Santa
Maria o Lar Metodista.
- Do Professor William R. Schisler - sob cuja administração habilíssima o
Instituto Educacional de Passo Fundo tornou-se uma grande força moral na cidade e no
Estado, e cuja esposa, D. Frances, foi verdadeira mãe a centenas de jovens que ali
passaram os seus anos de estudo.

- De Uberto Barbieri - mocinho que ao matricular-se nesse Instituto,
considerava-se incrédulo, ateu; mas que, ali convertido, tornou-se um dos gigantes
protestantes do continente sul-americano, e um dos vice-presidentes do Concílio Mundial
de Igrejas.

- De José Pedra, o "Pinheirinho" que cresceu para ser o altivo PINHEIRO, da
floresta metodista, o Bispo da Segunda Região.

- De Claude L. Smith - o pastor bem amado que era também engenheiroarquiteto, idealizador de muitos templos pelo Brasil.

- De Norberto Schütz e sua Arabela, pequena de corpo, mas grande de
coração, que deram ao ministério seu filho Paulo.
- De Romano Reif - leigo cristão, distinto escultor, cujo monumento a João
Wesley embeleza o Parque Farroupilha em Porto Alegre.
- De José Kokot, os irmãos Wagner; Oscar Koeche, Howard Lehman, Miguel
Dickie, James Ellis... Que mais direi dessa linha de esplendor formada pelos pioneiros da
Segunda Região?

DEUS OS TEM NO SEU LIVRO DE LEMBRANÇA!
CAPÍTULO 15
TRANSFERÊNCIA DE TRABALHOS

Desde os primeiros dias da sua penetração no Brasil, existia no coração
metodista a idéia da evangelização total do Brasil. Sabemos que Kidder viajou desde São
Paulo até o Pará lançando as sementes do Evangelho; que Ransom em dois anos apenas
depois da sua chegada ao Rio, já empreendera a difícil viagem ao Rio Grande do Sul. Ali
ficou tão impressionado com o trabalho feito pelo Dr. João Correa que viajou com ele
durante uns meses, e foi depois até Montevidéu para conversar com o Dr. Thomas Wood,
então superintendente da Missão Platina da Igreja Metodista .(do Norte) que enviara o Dr.
Correa à Província gaúcha. O teor da conversa não foi relatado, mas bem podemos supor
que era relacionado ao trabalho deles no Rio Grande do Sul. O certo é que o ideal foi
sempre de que o trabalho no Brasil deve ser feito e mantido pelos brasileiros e não pelos
platinos.
Consultas e transferência definitiva
A própria Missão Platina percebeu, com os anos, os inconvenientes de
expandir-se pelo Brasil (quando já havia metodistas em outras partes do país),
particularmente levando em conta a diferença de línguas, a falta de boas comunicações
entre os dois países, e a premente necessidade de obreiros para o seu próprio território.
Começaram em 1899, tanto aqui como nos Estados Unidos, consultas e visitas
fraternais, visando preparar bases para a transferência, a qual se fez definitiva em fins de
1899, sendo o fato anunciado com grande prazer à Conferência Anual Brasileira em 1900.
A Igreja do Norte generosamente cedeu à Metodista do Sul, todas as suas propriedades
com seu mobiliário: capelas, residências pastorais e escolas. Aqui entra o nome de mais
um valioso missionário pioneiro, o Rev. J. W. Wolling, que viajou ao Sul para exercer o
cargo de procurador de nossa Igreja.
Entra também a história da viagem que o Rev. Tucker fez em 1900, como
representante da Igreja Metodista do Sul, à Conferência Anual da região platina.
Embarcou todo contente, no dia 2 de fevereiro, para saudar a conferência em Buenos
Aires. Mas em pleno mar, declarou-se a bordo, um caso de febre amarela - e o vapor com
todos seus passageiros, foi posto de quarentena. Quando, afinal, o Rev. Tucker
conseguiu desembarcar, já terminara a Conferência! Todavia, o gesto valeu e foi aceito
em vez do fait accompli!
Dez anos mais tarde, foi decidido nos Estados Unidos pela Conferência Geral
da Igreja Metodista Episcopal do Sul, que autorizava a Conferência Brasileira a incluir em
seu trabalho toda a República Brasileira ao norte do Estado do Paraná; e que declarava
“ser território da Conferência Sul Brasileira, os estados do Rio Grande do Sul, Santa
Catarina, Paraná" (Kennedy, pág. 222).
E no mesmo ano, em 26 de agosto de 1910, a Missão Sul Brasileira foi
"elevada à categoria de Conferência Anual, sendo presidida a formalidade pelo Bispo
Walter R. Lambuth" (Jaime, pág. 67).
A transferência deu aos obreiros da Igreja do Norte a livre escolha de onde
desejavam trabalhar no futuro. Carlos Lazzare resolveu regressar ao seu próprio torrão
natal; o casal Price - bendita escolha para o Brasil - optou pela nossa pátria.
Entrou assim em 1910, a Igreja Metodista do Rio Grande do Sul, na segunda
etapa do seu trabalho pelo Mestre.
CAPÍTULO 16
PROGRESSO METODISTA NOS PAMPAS

Tornou-se em transfiguração espiritual esse ato de transferência; a obra no
Estado de ano a ano crescia, desenvolvendo-se em todos os aspectos. Primeiro de tudo e
acima de tudo, a pregação e a evangelização. Em Santa Maria, Cachoeira, Uruguaiana,
Santa Cruz, Cruz Alta, Passo Fundo, Rio Pardo - por todos os lados se abriam pontos de
pregação e se construíam templos.
Concomitantemente abriam-se instituições educacionais, pois nunca o
metodismo deixa reinar a ignorância e o analfabetismo entre os seus adeptos. Vieram
depois as instituições sociais visando o bem dos desamparados e desprivilegiados. Claro
que houve recuos, malogros, desapontamentos - mas sempre o progresso.
NO CAMPO EDUCACIONAL
Colégio Americano de Porto Alegre
Apesar da morte de Carmen Chacon, a sua vida e obra se perpetuaram,
começando com a pequena Escola Mista Evangélica, por ela dirigida sob a liderança do
Dr. Correa e as congêneres abertas por ele.
Durante a gestão de Dona Raquel.Foladori que veio substituí-Ia, foi mudado
seu nome para Colégio Americano. Quando ela se casou e retirou-se foi longa a relação
de reitoras. A benquista Mary Sue Brown, que planejou e construiu os seus
moderníssimos edifícios, e a presente (final da década de 60!) reitora Mary Helen Clark,
que tem dado ao Colégio uma posição invejável na comunidade e no Estado.
Colégio União
Hoje Instituto União de Uruguaiana, fundado pelo Rev. John W. Price quando
era pastor em Uruguaiana, é estabelecimento de grande influência na fronteira gaúcha.
De suas portas, influenciados pelos seus diretores e professores dedicados, têm saído
alguns dos nossos mais eminentes ministro metodistas. O Bispo César Dacorso, Derly
Chaves, Sady Machado da Silva e leigos eminentes como Ruy Ramos, deputado federal.
Instituto Ginasial de Passo Fundo
Foi esse fundado em 1919 pelo Rev. J. W. Daniel, suas aulas então
funcionavam num humilde "chalét" junto à igreja. Foi devido à influência do Rev. Daniel
que se despertou o interesse de Miss Mary Deckerd, da Universidade de Texas. A tal
ponto entusiasmou ela os estudantes metodistas daquela Universidade estadual que
contribuíram com a dádiva generosa para edificações do seu edifício principal: o "Texas".
A esse Instituto, cujo nome foi mudado para Educacional de Passo Fundo,
foram também intimamente ligados os nomes dos Revs. Daniel Betts e Prof. William R.
Schisler, que o tornaram em estabelecimento de maior; projeção naquela zona do Estado,
e exerceram uma enorme influência moral na cidade. Ali, sob a influência do Rev. Betts, o
moço Barbieri foi convertido de incrédulo em cristão e candidato ao ministério.
Instituto Porto Alegre
Antigamente o "Porto Alegre College", foi a realização do sonho do Bispo John
M. Moore, que tanto fez pelo Brasil. Seu primeiro reitor, foi o Rev. John R. Saunders, que
teve como sua mão direita na administração, e depois sucessor, o educador leigo, J. Earl
Moreland. Começando em salas alugadas no centro da cidade, ocupa agora um vasto
terreno num morro, com muitos edifícios modernos. No seminário anexo ao IPA, o Rev.
Terrell, primeiro reitor, tinha como um dos seus alunos a Sante Uberto Barbieri, hoje (final
da década de 60!) Bispo da Região Platina.
Colégio Centenário
Foi fundado em Santa Maria, no coração do Estado gaúcho, em 1922, e assim
designado em homenagem ao centenário da independência brasileira e o 150 o aniversário
do metodismo norte-americano, que contribuiu para o seu estabelecimento. A fundadora
foi Miss Eunice Andrew - a experimentada e distinta missionária que já dirigira o
Americano - auxiliada pela mais jovem missionária, Louise Best. Quando Miss Andrew se
aposentou, foi sucedida por Miss Best, que deu ao Colégio mais de vinte anos de
consagração e eficiência em sua administração. Ao aposentar-se, foi ela alvo de grandes
homenagens prestadas pelo público e pelas autoridades civis e militares de Santa Maria,
recebendo inclusive a "Chave da Cidade" de Santa Maria.
Instituições sociais
Existem nessa região diversas instituições sociais de grande alcance. Entre
essas, destaca-se o Lar Metodista para Crianças.
Lar Metodista para Crianças
Adotado como projeto das Sociedades de Senhoras da Segunda Região,
tornou-se o LAR em "menina dos seus olhos". Foi em Congresso reunido em 1925, sob a
presidência de D. Ottília Chaves, que as Sociedades o aceitaram como alvo de trabalho.
O Lar, propriamente dito, foi fruto do labor duro e sacrificial do Rev. Adolfo Ungaretti e sua
senhora, D. Luíza, ambos "jóias" preciosas na coroa do metodismo gaúcho. Em anos
posteriores, destacou-se pela sua dedicação a esse trabalho, a missionária de saudosa
memória, Joy Betts, filha do casal Betts, casal este que se deu integralmente ao trabalho
do Senhor no Brasil, em cuja obra se integraram três filhos: João Nelson Betts, Joy e
Anita, casada com o missionário, Rev. Marion Way.
Joy, que deixou prematuramente o seu lar terrestre, deve ser incluída na lista
daqueles de quem perguntamos a Deus: "Mas por quê, Senhor, por quê?"
Lar Ottilia Chaves - Lar das Meninas
Casa da Criança
Também inspirado por D. Ottília Chaves, quando era presidente da Sociedade
de Senhoras da Igreja Central, estabelecido para o abrigo da velhice, na cidade de Porto
Alegre.
Existem também em Porto Alegre, o Lar das Meninas, que ampara pequenas
desprotegidas (cerca de trinta), e a grandiosa CASA DA CRIANÇA e AMBULATÓRIO,
com clínicas médica e dentária, para construção do qual a Igreja recebeu extraordinária
ajuda do LIONS CLUBE de Porto Alegre.

Centro de Assistência Vila Noal em Santa Maria
Presentemente dirigido pela diaconisa Maria Onofre Gonçalves Dias, tem
transformado os destinos da chamada "Vila da Lata" daquela cidade, educando, curando,
orientando.

"CLUBES DO LAR" é como se chama em Uruguaiana o trabalho social dirigido
pela missionária Bethany Routh.
Instituto Rural Metodista
Funcionando em Alegrete, difere da maneira tradicional de ajudar crianças
necessitadas. O vasto terreno com seus nove edifícios foi doação do saudoso casal Ruy
Ramos; esse Instituto mantém cursos primários e de carpintaria, estofaria, tipografia, corte
costura e arte culinária. Essas indústrias não só ensinam as crianças, mas mantêm a
instituição. O seu alvo é "tornar o menor abandonado um elemento de valor à sociedade,
um vaso de bênçãos nas mãos de Deus", diz o Sr. Antônio Salomão, diretor em 1967.
Contribuição valiosa à agricultura do Rio Grande do Sul
Iria muito longe esse pequeno livro se contássemos tudo que se passou no
metodismo gaúcho. Todavia, do meu velho baú desejo tirar uma história a mais que deve
ser lembrada nos seus anais - e essa é sobre a ORIGEM DA NOGUEIRA PECÃ NO
ESTADO - ainda mais que não é conhecida ou divulgada pelo público.

O Rev. Saunders foi um dos mais humildes e serviçais missionários que os
EUA mandou ao Brasil. Saudoso das nozes pecãs de que tanto gostava, lembrou-se de
trazer alguns pés desta árvore ao Rio Grande do Sul. Estando nos EUA creio que na
primeira parte da década dos trinta, trouxe consigo uns seis ou mais pés que comprou por
sua conta duma Escola Agrícola nos Estados Unidos. Chegando em Porto Alegre, dirigiuse ao seu amigo, Frank M. Long, da Associação Cristã de Moços. "Desejo dar-lhe dois
pés para plantar no terreno da A.C.M.; vou dar uns ao Porto Alegre College (hoje IPA), e
gostaria de doar os outros a algum estabelecimento onde pudessem ser cuidados e
espalhados pelo Estado".

- "Devem ser doados à Escola de Agricultura!", disse o Sr. Long.
- "Então tu os levas para mim, pois decerto conheces alguém lá".

Sucedeu assim que Frank Long, Secretário Geral da A.C.M., levou os pés de
nogueira à Escola Agrícola. Decerto alguém lá que o conhecia bem tomou nota de quem
os trouxe - mas não de quem os dera. Seja como for, nada mais soubemos das árvores
até que em 1966 saiu no Suplemento Agrícola do "CORREIO DO POVO" de Porto Alegre,
o retrato de uns galhos carregados de nozes pecãs, e abaixo da fotografia a declaração
"que essa "fonte de riqueza" fora trazida ao Estado pelo Sr. Frank M. Long". Conhecendo
os fatos, relatei ao jornal a verdade, pedindo que dessem crédito ao Rev. JOHN R.
SAUNDERS, mas se o fizeram não sei. Todavia, pessoa amiga, sabendo do meu
interesse no assunto, enviou-me um recorte do CORREIO DO POVO, que diz, entre
outras coisas:
"Esta maravilhosa planta muito bem poderia ser denominada 'Árvore da
Riqueza'. Em Passo Fundo, muitos são os que estão plantando a nogueira pecã, em
pequena e larga escala. Recentemente, foram despachadas para Caxias do Sul, 3 mil
mudas, onde experiências anteriores provaram o desenvolvimento rápido dessas árvores.
“Além da abundância de frutos, procurados e aceitos em qualquer mercado,
teremos também uma grande reserva de madeira de lei. Felizmente, as elites de Passo
Fundo estão grandemente interessadas no cultivo dessa planta, e o Banco do Brasil está
procedendo a estudos para o seu financiamento. Não há motivos para aventuras em
outras terras quando temos aqui mesmo uma verdadeira mina de ouro, ao alcance da
mão".
(Por Eugênio Flôr Zibetti - Passo Fundo, Correio do Povo, 29-4-1966)
Pena que o saudoso Rev. Saunders não pudesse conhecer o alcance de todas
as riquezas materiais além de espirituais que trouxe ao solo brasileiro! É justo que
venham todos a reconhecê-lo como o seu benfeitor!
Mais uma doação fizeram ele e a sua digna esposa, Dona Sara, ao espírito de
fraternidade continental, pois seu filho Dr. John Vandyke Saunders, é uma das mais
competentes autoridades sobre a América do Sul nos Estados Unidos. Catedrático em
Universidades norte-americanas sobre a América Latina, e procurado pelos governos de
vários países para estudar problemas e ajudar a solucioná-los. Ainda mais preciosos têm
sido os dons de outros missionários, seus próprios filhos, ao trabalho de evangelização;
destacando-se entre esses, os da segunda geração das famílias: Betts (três), Smith (três,
sendo um Bispo da VI Região); Buyers (um), Schisler (dois), Long (um) e Bowden (2),
Kennedy (2), Clay (1).
QUARTA PARTE
CAPÍTULO 17
O METODISMO NO NORDESTE E NORTE

Talvez surpreenda até os metodistas mais antigos no Brasil, que dia houve em
que tínhamos uma

missão trabalhando ativamente na região amazônica, em

Pernambuco, e na Bahia. Como foi? Por que não continuou até hoje? Ou melhor, por que
estamos tendo que reencetar esse trabalho em nossos dias? A resposta vai longe, e
começa com a vida e a obra do Bispo William Taylor.
Mas quem foi William Taylor?
William Taylor nasceu na primeira parte do século 19, numa região
montanhosa e atrasada do Estado de Virgínia, nos Estados Unidos. O seu pai, fazendeiro
e curtidor de peles, era presbiteriano, mas converteu-se ao metodismo numa série de
reuniões de avivamento. Entusiasmado, tornou-se pregador local. Com tal origem, não é
de admirar que William tenha se tornado, como ele mesmo diz, "um filho dos cultos de
avivamento e um adolescente penitente que podia dizer o dia e a hora exata em que se
converteu: às dez horas do dia 21 de agosto de 1841!”
A sua conversão não foi coisa impulsiva e temporária. Foi permanente, um
rendimento total ao Senhor, tornando-se ele o exemplo duma vida que, sem
oportunidades materiais, ou preparo formal para o ministério, levou-o a tornar-se em
destacado servo do Senhor, o maior Bispo missionário da nossa Igreja. O seu zelo
consumidor levou-o, por viagens dificílimas, a todos os continentes do mundo: África,
Ásia, América do Sul, Austrália. Deixemos que ele mesmo conte como se sentiu chamado
pelo Senhor para cumprir tarefas que pareciam impossíveis.
Quando ainda era um jovem "exortador", um dia chegou-lhe o superintendente
distrital: "Irmão Taylor", disse-lhe, "quero nomeá-lo ajudante do pastor Rev. Francis
Harding". "Fiquei estupefato!" - disse William Taylor, "Eu? Eu? Mas não sei nem pregar
direito?!" O velho presbítero sacudiu a cabeça. "É DEUS quem chama, filho, não eu. Você
sabe pregar a Palavra. Deus lhe abençoará na tarefa".

Depois de uma longa pausa, atreveu-se a perguntar: "Mas que livros levarei
comigo para me ajudar a pregar?"

O presbítero sorriu, "Filho, você precisa de dois livros tão somente: a Bíblia e o
Hinário Metodista".

***
Assim começou Taylor a pregar; e o seu zelo, entusiasmo, e sinceridade
levaram muitos a Cristo. Quando chegou o dia de pedir admissão à Conferência Anual, o
seu presbítero presidente levantou-se e disse: "Esse jovem ministro é um a quem o sol
nunca encontrará na cama". Nisso, levantou-se Bispo Soule, também um dos grandes da
época e foi uma profecia certa: "Notem bem, irmãos, o que digo: ouvireis novamente falar
desse jovem pregador".
Taylor começa a carreira missionária
Foi por um acaso que Taylor se deu à obra missionária, pois não cogitaria de
trabalhar no estrangeiro. Era pastor ajudante numa igreja em Baltimore, e andava um dia
ligeiramente pelas ruas, rumo a uma reunião de pregadores. Ouviu chamar o seu nome,
virou-se e foi até um homem que lhe acenava. Chegando a uma livraria, foi levado ao
escritório onde viu sentado o Bispo Beverley Waugh - e já o destino de Taylor estava para
mudar!

- "Sente-se, irmão." - Convidou o Bispo. O jovem Taylor começou a cismar. O
que teria feito para que Bispo Waugh chamasse desse modo especial?! Mas o Bispo
estava a sorrir.

- "Irmão Taylor, acabo de receber uma notícia muito importante e alegre: a
nossa Igreja vai enviar dois missionários à Califórnia."

Houve uma pequena pausa em que o Taylor começava a pensar, "Mas o que
tenho eu com isso?" Nisso, o Bispo estendeu-lhe a mão: "Filho e Irmão, quero que tu
sejas um dos dois!"
Outra vez, Taylor, atônito, não sabia o que dizer.
- "Eu-eu? Para a Califórnia, tão longe, e sem bons meios de condução?
Ademais, Senhor Bispo, estou casado agora, tenho um filhinho e outro para chegar".

O Bispo hesitou, continuou explicando o que seria sua missão. Taylor, julgando
a nomeação como o chamado de Deus, aceitou-a como soldado cristão que era. Dentro
de poucos meses, estava de viagem num vapor que descia a costa do Atlântico do Sul, e
passava pelo estreito de Magalhães - a mesma rota empreendida pelos cinqüenta
missionários que pararam no Rio de Janeiro indo ao Estado de Oregon, quando visitaram
o Rev. Spaulding em 1839.

O que teriam sido os pensamentos, dúvidas ou receios de Taylor e sua jovem
esposa?

Foi só ao terminarem 145 dias de uma viagem que parecia sem fim, que
chegaram a São Francisco na Califórnia. Ó sublime coragem cristã! Quem de nós hoje,
sob muito melhores condições, teria a mesma coragem, a mesma consagração em levar
a Palavra de Deus aos que não a podiam ouvir?

Viagens pelo mundo
Não foi fácil a sua tarefa entre as multidões poliglotas que se reuniam em São
Francisco para ali fazer os últimos preparativos antes de prosseguirem ao Alaska em
busca de ouro. Mas Taylor não perdia nenhuma oportunidade de pregar: nas ruas, nas
salas e nos bares onde todos se congregavam. Dirigia os seus apelos e convites a
espanhóis, franceses, italianos, havaianos...

Durante sete anos, Taylor trabalhou na Califórnia, nunca recebendo salário da
Igreja, mas ganhando a vida como podia, geralmente pelo magistério, tornando-se isto em
princípio para os que aceitaram subordinar-se à sua orientação missionária.

Os anos a seguir foram consumidos em viagens de avivamento missionário na
Inglaterra, na Austrália (onde não só os pródigos, os perdidos e os pobres das favelas o
escutavam, mas os profissionais e cidadãos acatados da comunidade), na África do Sul,
levando a mensagem do Evangelho aos ingleses e bôeres, aos Zulus e Kaffirs, sempre
com a mesma mensagem, independente de estação, raça, ou categoria social. E ouviamno com prazer, muitos se arrependendo. Importantíssima, também foi a sua obra na Índia.
Lá se convenceu ainda mais de que era prático o missionário trabalhar pelo seu sustento
em vez de receber salário da igreja mãe. Todavia, no final de sua vida, viu esse sistema
malograr - não se provando permanente ou eficiente em nenhum lugar, inclusive no
Brasil.
Mas o que da América do Sul - e do Brasil?
Regressando aos Estados Unidos depois de duas longas viagens pelos
continentes do mundo, Taylor ouviu a voz macedônica da América do Sul que fora
abafada antes pelo clamor dos outros continentes.
Chamou por voluntários - "homens bem fortes", disse, que ali fossem pregar,
baseando as suas vidas sobre a regra do sustento próprio. Aqui se entrosa a história do
Bispo Taylor - da Igreja Metodista (do norte) com a nossa Igreja Metodista do Sul. Aqui
entra mais uma corrente na vida do metodismo brasileiro - um pequeno tributário que,
infelizmente, não chegou a desenvolver-se como ele sonhava.
Justus H. Nelson
Eis o nome de um dos "homens bem fortes" que respondeu ao chamado do
Bispo Taylor.
Nelson nasceu em 1851, no nordeste dos Estados Unidos, sendo, portanto,
filho da Igreja Metodista do Norte. Formou-se em 1879, na Faculdade de Teologia da
conceituada Universidade de Boston, e foi admitido no ano seguinte à Conferência de
New England. Ouviu os apelos feitos pelo Bispo Taylor, e ofereceu-se como voluntário;
mas como não pôde arranjar passagem por algum tempo, fez durante um ano, um curso
de medicina na mesma Universidade.
Afinal, conseguiu vir ao Brasil, desembarcando em 19 de junho de 1880 em
Belém. Veio acompanhado pela esposa e pelo Bispo Taylor; mas o Bispo ficou somente o
tempo necessário para ajudá-lo a fundar uma escola, depois do qual regressou à Pátria
(EUA), à procura de obreiros. Conseguiu dois recrutas, sendo um o próprio irmão de
Justus Nelson. Mas em pouco, foram ambos as vítimas da febre amarela e depois, um
incêndio arrasou o edifício escolar.

Nelson viu-se forçado a fechar a escola, mas não se desanimou. Ficou em
Belém sustentando-se com o ensino de inglês, francês, alemão, e até português (tão
grande era a falta de professores naqueles dias). E ainda adicionou um curso de
enfermagem calcado no seu conhecimento da medicina, que foi de enorme proveito
nessa região tão esquecida pelas autoridades médicas.

Em 1° de julho de 1883, organizou a PRIMEIRA IGREJA METODISTA DE
BELÉM. Fundou também um jornal evangélico, "O APOLOGISTA CRISTÃO", do qual foi
redator e escritor. Nele publicava artigos seus e traduções dos sermões de Wesley.
Homem de coragem, convicção e determinação, Nelson não hesitava em reprovar
francamente os erros e as superstições da igreja reinante, o que naturalmente resultou
em grande perseguição e hostilidade.

Em dezembro de 1892, escreveu no “O Apologista" um artigo no qual se referiu
à "idolatria prevalecente no Brasil", de que resultou ficar encarcerado durante "quatro
meses, dois dias, e doze horas" (Relatório da Junta de Missões, E.V.A., 1893, pág. 252).

Sobre as perseguições sofridas, Nelson escreveu com bom humor. A história
dum desses incidentes, ele relatou ao Expositor Cristão, com alguns detalhes
humorísticos.
Passeava pela rua certo dia, quando por ali passou uma procissão. Nelson não
tirou o chapéu quando passou a imagem, e um policial se aproximou dele, dizendo com
certa cortesia: "Recomendo ao senhor que tire o chapéu". Nelson lhe encarou, também
com cortesia: "Muito obrigado, mas tenho uma tosse muito forte e sou quase careca!
Podia fazer-me mal": O policial encolheu os ombros e seguiu caminho.

Noutra ocasião que ele também descreveu para o Expositor Cristão, relando
um incidente semelhante a esse e ao que se deu em Taubaté com o Rev. Bruce em 1891.
Nelson, por ocasião de uma romaria, o "Círio de N. S. do Nazaré", aproveitou a ocasião
para distribuir uns 1.500 folhetos com os Dez Mandamentos da Bíblia conforme texto
aprovado pelo arcebispo da Bahia. O povo de tão bom grado os recebeu que não houve
bastante para todos os que pediam. Mas o cura da Sé em Belém emitiu seu parecer
publicando no DIARIO DO GRAN PARA, entre outras coisas: "A polícia deve ter de olho o
reverendo da Rua Santo Antônio, que andou espalhando pasquinadas em detrimento da
moralidade pública. Se o deixarem impune, mais dia menos dia, ele será capaz de
provocar a população com a imundície dos seus partos laboriosos".

Era o sonho de Nelson permanecer no Brasil cinqüenta anos, sempre em
Belém, Manaus e a zona amazônica, que considerava um vasto e necessitado campo
para o Evangelho. Mas em 1896, devido à grande depressão econômica nos Estados
Unidos, foi obrigado a voltar à Pátria. Ali faleceu por volta de 1937.
Tragicamente, não houve quem ficasse, ou viesse para continuar a sua obra;
como as ovelhas abandonadas, sem pastor, da Missão Spaulding, a igreja metodista não
se radicou naquela zona do nosso país. Contudo, o nosso metodismo brasileiro deve ao
Rev. Nelson uma dívida de gratidão pelos preciosos hinos que nos legou, alguns dos
quais pela sua nota nostálgica, refletem decerto, os seus sentimentos de solidão, e a
imensa saudade da sua terra pátria. Entre esses hinos, constam "Da linda pátria estou
bem longe, cansado estou... "

Também deixou-nos: "Que segurança, Jesus é meu!"
Jubiloso: "Saudai ao nome de Jesus, arcanjos, vos prostrai"

Confiante: “Mas eu sei em quem tenho crido, e estou certo que é poderoso".
Quem sabe se algum desses hinos não cantou durante os seus meses de
encarceramento - ou se não os compôs atrás das paredes que o cerceavam?
George B. N ind
George B. Nind foi outro missionário que o Bispo Taylor recrutou para o Brasil,
esse porém, para o Nordeste-Recife. Nasceu em novembro de 1860, no Estado de
Missouri, e era membro da Igreja Metodista do Norte. Seus pais, crentes devotos,
enviaram-no para Northwestem, uma famosa universidade metodista no Estado de Illinois,
onde ele se formou.
Respondendo ao apelo do Bispo Taylor, chegou a Recife em 1880, com uns
companheiros, também missionários, cujos nomes não pudemos averiguar. O Bispo os
descreveu como "uma companhia de homens espiritualmente fortes para tal obra".
Todavia, as informações que temos sobre aquela missão são poucas e confusas; e o que
sabemos é que dentro em breve, todos, menos George Nind, haviam voltado para sua
pátria (EUA), devido principalmente às dificuldades de se sustentarem e ao mesmo
tempo, cumprirem sua missão evangelística.
Comentando sobre esse aspecto da obra do zeloso Bispo Taylor, escreveram
dois historiadores metodistas: "Heroísmo e sacrifícios pessoais implementaram esses
trabalhos. MAS A NECESSIDADE DE SUSTENTO PRÓPRIO PARA SI E SUAS
FAMÍLIAS, FORAM OBSTÁCULOS AO TRABALHO EVANGELÍSTICO, TANTO QUE EM
1903 O PRINCÍPIO DE SUSTENTO PRÓPRIO FOI ABANDONADO" (Story Of
Methodism, Luccock & Hutchinson, pág. 429).
Nind, que era leigo, conseguiu sustento próprio ensinando música e inglês, e
felizmente não foi vítima das febres malignas. Fazia cultos em sua casa; às vezes
pregava na rua; e chegou mesmo a organizar uma congregação. Constantemente
reiterava o seu apelo que um ministro ordenado fosse enviado a Recife; mas com o
passar do tempo, o Bispo Taylor se aposentou e o seu sucessor, Bispo Vincent, negoulhe auxílio, declarando que "eram tão necessários pregadores nos Estados Unidos como
no Brasil".

Nind esteve em Recife doze anos ao todo, até setembro de 1892, quando a
saúde abalada de sua senhora obrigou-os a regressar aos Estados Unidos.

Nunca mais voltou ao Brasil que amava, mas dedicou o resto da vida calcado
na experiência aqui adquirida trabalhando entre portugueses na América do Norte, e
ensinando a língua portuguesa. Foi também à Ilha da Madeira, onde compilou um
pequeno hinário no qual constavam alguns hinos da sua pena e outros da pena do Rev.
Nelson, que em certa ocasião o substituíra no Belém, quando o Rev. Nelson esteve em
gozo de férias.

Faleceu em 1932 nos Estados Unidos. Entre os seus hinos que ainda hoje
cantamos com gosto, estão:
"A semana já passou, o Senhor guiou-nos bem" e "Que segurança tenho em
Jesus!"
***

Nenhum desses esforços deixou um trabalho metodista permanente naquelas
regiões do Brasil. Todavia, a maioria dos metodistas, apesar de abandonados pela sua
Igreja Mãe, continuaram fiéis ao Senhor, tornando-se membros de outras denominações
que ali chegaram. Creio, contudo, que devemos contar entre os nossos pioneiros, esses
que tanto labutaram, alguns dando a vida (como os companheiros de Nelson) e outros
dando tudo que tinham para estabelecer o reino de Deus naquela região brasileira - qual a
viúva de quem Jesus falou: "ela fez o que pode".
QUINTA PARTE
CAPÍTULO 18
UMA SÓ IGREJA A PERSEVERAR

"E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na
comunhão, no partir do pão e nas orações."
(Atos 2:42)

Com a unificação da obra metodista do centro e do sul do Brasil, a igreja sentiu
novo impulso em sua expansão.

Novos pontos de pregação se abriram; novas instituições educacionais se
fundaram; novos centros e meios de ação social se estabeleceram não só no nível local
(como ambulatórios anexos à Igreja), como também no Regional (como o Instituto Ana
Gonzaga, em Inhoaíba, perto do Rio). Passo a passo, ano a ano, a Igreja crescia da
infância à adolescência e da adolescência alcançava a maturidade.
Mas o crescimento trazia novos problemas que requeriam soluções muitas
vezes urgentes. Uma década somente após a organização da Conferência Anual
Brasileira (1896), o Rev. Kennedy escrevia em carta à sua irmã: "O principal problema a
nos absorver a atenção é antes o de criarmos uma Igreja que se sustente a si mesma,
propague-se a si mesma e governe-se a si mesma".
SUSTENTO PRÓPRIO - Já em 1885, "agitou-se muito a questão de sustento
próprio" - começando com a congregação americana e inglesa que se reunia na igreja do
Catete. Pediu ela à Junta de Missões nos Estados Unidos que lhes enviasse um pastor
"solteiro, porque ainda não podiam sustentar um casal".

Em 1907, na Conferência Anual, verificou-se que "a obra do Senhor frutificava
em toda a linha e o progresso era acentuado na vitalidade das igrejas, já pelo incremento
de novas conversões, já pela sistematização do sustento próprio" (Kennedy, pág. 130). A
adolescente igreja como depois escrevia o Rev. José d'Azevedo Guerra, um dos grandes
"batalhadores da velha guarda metodista", sentia ser coisa desairosa continuar recebendo
auxílio financeiro dos Estados Unidos para os seus ministros. Mas não era fácil fazer
compreender a muitos dos membros que haviam saído das igrejas católicas, o valor e o
dever de contribuir generosamente" (Kennedy, pág. 400).
Em setembro de 1919, a Conferência Anual Brasileira, reunida em Petrópolis
aprovou com demonstrações de alegria, a proposta que "no prazo de cinco anos, a Igreja,
dentro dos limites dessa Conferência, dispensasse todo o auxílio financeiro da Igreja Mãe,
devendo este mesmo ser aplicado para a manutenção de novos campos de trabalho no
país".

Finalmente, em 1924, expondo um plano prático para sustento próprio; foi
resolvido que, para alcançar o objetivo, a Igreja Mãe suprimiria cada ano a décima parte
do auxílio recebido, aplicando-o em abrir obra em "campos ainda não explorados
evangelicamente".
Havia também o problema chegado a congregações servidas por missionários
e que, portanto, não eram obrigadas a contribuir para o sustento do pastor, e as
congregações servidas por pregadores brasileiros que eram. Em 1913, quando o Rev.
Kennedy era pastor da Igreja Central de São Paulo, apresentou um plano para ajudar na
solução do problema. O plano foi pedir à congregação que estipulasse uma certa quantia
para sustento pastoral, quantia essa que seria encaminhado para o sustento pastoral de
outro pastor no distrito.

Foi recompensada a sua idéia. Escreveu Kennedy:
"A Junta de Ecônomos da Igreja Central em sessão extraordinária,
definitivamente estipulou 250$000 mensais para o meu sustento a começar no
dia 1º de agosto. Eu recebo deles a quantia designada e a entrego ao
presbítero presidente, Rev. Jorge Becker, para o sustento pastoral no distrito".
Esse plano, porém, foi somente de êxito local; não se tornou prático por várias
razões. Mas teve alguma repercussão e produziu a criação de várias outras igrejas.
Afinal, anos mais tarde, a Conferência Geral fixou uma tabela de subsídios
para ministros e aposentados que resultou num assumir de maior responsabilidade por
parte das congregações, do sustento adequado de seus pastores.
Propagação
Um dos métodos mais bíblicos e de maior êxito na evangelização do mundo
tem sido o testemunho pessoal do leigo, pela palavra e por ceder alegremente uma sala
da sua residência para uma escola dominical e cultos. Quantas das nossas igrejas - qual
a de Corinto, pelo testemunho de Áquila e Priscila - não têm tido o seu berço nos lares de
crentes rendidos ao Senhor! Muitos exemplos poderia citar, mas não há espaço nesse
volume. Todavia um, não podemos olvidar - foi o testemunho do crente fervoroso como
José Benedito Nunes.
José Benedito Nunes
Já fora proposto pelo veterano missionário, Rev. J. W. Wolling, que o Oeste do
Estado de São Paulo fosse oficialmente ocupado pela nossa Igreja, pois desde julho de
1895 se iniciava a obra em Ribeirão Preto, com Manoel de Camargo, seu primeiro pastor.
E agora, nas palavras do Rev. Kennedy:
"Neste meio-tempo, um dentista ambulante em Santo Amaro, que se
convertera sob os ministros J. L. Kennedy e Bernardo de Miranda - a saber, José
Benedito Nunes, estava exercendo a sua profissão em Serra Azul. Tanto esse irmão
como a sua dedicada esposa, Dona Adelina, foram tão dedicados que conseguiram a
conversão de numerosas pessoas, algumas das quais seguiam até São Paulo para ali
fazerem a sua pública profissão de fé. Em 4 de julho de 1894 foi organizada a igreja de
Serra Azul com 23 membros. Nesse mesmo dia, foram arroladas mais 18 pessoas que já
tinham sido recebidas e entre os seus nomes estavam os de José Benedito Nunes e sua
esposa, D. Adelina".
Testemunhando a obra evangelizadora do Sr. Benedito, escreveu o pastor da novel
congregação: "A igreja, por seus representantes autorizados, apenas teve que organizar
oficialmente o grande número de pessoas que a palavra suave e convincente do Sr.
Nunes conseguira arrebanhar para Jesus Cristo".

Oxalá tivessem os milhares de Beneditos Nunes!
CAPÍTULO 19
GOVÊRNO PRÓPRIO

Havia outro grande problema para a igreja. Conforme a disciplina metodista,
era mister haver um Bispo ordenado para administrar o trabalho de todas as
Conferências, presidir às suas sessões e ordenar pela imposição das mãos, os jovens
que se davam ao ministério. Como não tínhamos ainda pessoas experimentadas ou
qualificadas, era necessário que cada ano viesse um bispo dos Estados Unidos para
cumprir esses afazeres. A viagem era muito comprida - só de vapor levava uns 36 ou
mais dias para cada viagem de ida e volta; as despesas eram grandes para tão curta
estadia, e acima de tudo, estava a enorme dificuldade de um indivíduo estrangeiro
entender bem os problemas, devido à falta de conhecimento da língua, da cultura, e das
idéias e atitudes de um outro povo. E como, para ser eleito bispo, era preciso ter certa
idade, ainda mais difícil era o problema de acomodação e costumes de outras terras.
Ao

passo

que

os

ministros

nacionais

cresciam

em

número,

em

responsabilidade e sabedoria, muito mais premente tornou-se a questão do metodismo no
Brasil ter um bispo permanente que aqui ficasse, isto é, residisse ou então um bispo
BRASILEIRO.

Às vezes, também, os bispos não podiam estar presentes por causa de
doença, idade avançada, ou circunstâncias totalmente estranhas à Igreja. Por exemplo,
durante a primeira guerra mundial, devido ao afundamento de navios por submarinos
alemães, a viagem por mar era arriscada demais. Como naqueles dias, não havia
transporte por avião, nosso metodismo ficava sem o seu bispo dirigente. Isso se deu em
julho de 1917, quando o Bispo Mouzon não pôde assistir ao Concílio. Pela primeira vez foi
eleito um ministro brasileiro para presidir às sessões conferenciais no Catete. Provou-se
hábil nesse cargo, o Rev. João Evangelista Tavares, pastor e evangelista, nome
destacado nos anais do metodismo pioneiro.
Nessa Conferência, foi dirigido um pedido às autoridades competentes nos
Estados Unidos para que os bispos encarregados da obra no Brasil passassem ao menos
seis meses entre "nós, para melhor conhecerem os problemas e as condições no campo.
Feliz resposta veio em 1918, quando chegou o Bispo John M. Moore, que "expôs seus
planos, fazendo sentir que ficaria no Brasil seis meses no ano". Provou-se ele um dos
mais competentes, simpáticos e grandes amigos do nosso metodismo brasileiro,
conseguindo generosas contribuições para o trabalho. Por exemplo, a compra e
construção do "Porto Alegre College", hoje Instituto Porto Alegre.

Por vários motivos, porém, o bispo Moore não pôde vir ao Brasil mais do que
três anos consecutivos. Sucederam-lhe outros bispos, alguns menos cativantes e
compreensíveis, com menos tempo para a obra. Entrementes, o ministério brasileiro
desenvolvia-se em preparo, tino administrativo, compreensão e visão. Sentia-se
preparado para tomar conta do trabalho. Chegou, finalmente, o dia em que se cumpriram
os sonhos da Igreja: governo próprio.
Chegou o "DIA DA AUTONOMIA", o glorioso 2 de setembro de 1930, em que a
Igreja-Mãe reconhecendo a maturidade da Igreja-filha, concedeu-lhe o direito e a honra de
governar-se a si própria. O direito de proclamar-se Igreja BRASILEIRA, não mais
perpetuando com o uso do termo "do SUL"; a lembrança da trágica cisão que se dera nos
Estados Unidos. Surgiu assim uma igreja digna agora de traçar a sua origem, de chamarse herdeira do Metodismo aqui trazido em 1835 pelo Rev. Fountain E. Pitts, quase cem
anos atrás!
A despeito de alguns erros e falhas, como seria naturalmente lógico, cremos e
sabemos que essa decisão foi guiada pelo Espírito Santo.
Deus permita que assim se continue a trabalhar e servir ao Brasil!

César Dacorso Filho
Tinha a Igreja agora o direito de eleger o seu primeiro Bispo. Quem seria?.
Num nobre gesto de homenagem aos pioneiros missionários americanos, que
haviam trazido o Evangelho ao Brasil, a Conferência Geral em 1930, elegeu para ser seu
Bispo o amado veterano, Rev. John W. Tarboux, que sete anos atrás, se aposentara na
sua terra (EUA). Comovido, o Bispo obedeceu o chamado, assim como obedecera
quando jovem ao primeiro. Veio ao Brasil e aqui assumiu o posto. Não pôde trabalhar
muitos anos, pois a idade e a enfermidade provaram ser obstáculos às atividades exigidas
de um bispo. Veio então a Conferência Geral de 1934, e outra vez se perguntava: QUEM
SERÁ DIGNO DE SER ELEITO NOSSO BISPO?
Não precisou olhar longe. Ali, sentado entre os seus colegas de ministério,
estava um pastor de 42 anos tão somente, tão humilde que nem sonhara em receber tal
honra, tão despreocupado com a questão que nem trouxera um temo escuro no qual ser
consagrado - e quando a hora de ser consagrado chegou, teve que tomar emprestado de
alguém tal terno!
César Dacorso Filho foi a escolha - O PRIMEIRO BISPO BRASILEIRO da
Igreja Metodista do Brasil!
O que ele foi e o que fez durante os anos para a nossa Igreja, não há nem
espaço nem necessidade de relatar aqui. Já foi feito de modo brilhante no livro de Nelson
Godoy Costa, "César Dacordo Filho, O Príncipe da Igreja Metodista". Pois príncipe foi,
não nos moldes humanos, mas no molde oferecido por Jesus Cristo: um príncipe que
procurava servir e não ser servido. Um verdadeiro pastor que procurava as ovelhas do
rebanho, gastando-se física e espiritualmente na tarefa. Príncipe que cheio de compaixão
pelas massas exploradas pela miséria e pela guerra, envolveu-se em movimentos pelos
quais foi muitas vezes duramente criticado mas pelos quais seria hoje louvado. E tudo
fazia sem alarde, sem cobiçar lisonjas, sem procurar os aplausos das multidões, crentes
ou descrentes!
Na sua fé e coragem, reside um dos exemplos mais nobres da Igreja no Brasil.
CAPÍTULO 20
A OBRA NO AMAZONAS REVELAÇOES E PERGUNTAS

Curioso é como daqui e dali, quase por acaso, aparecem pequenos mosaicos
históricos que tinham desaparecido da tela original - pedacinhos que servem para
completá-la.
***
No "O Jornal Batista" de 10 de novembro de 1967 apareceu um artigo da
professora Betty Antunes de Oliveira, que nos revela o primeiro impacto metodista no
Amazonas - fatos ignorados ou aparentemente desconhecidos não só nos círculos
metodistas históricos, mas no evangelismo nacional. Ao menos em nenhum outro livro
temos encontrado qualquer referência ao que ela relata.

Diz a autora, que em recente pesquisa que fez em Manaus visando colecionar
documentos e dados históricos, descobriu o número 1, ano 1, datado de 21 de março de
1898 de um jornalzinho mensal, "A Paz", “órgão oficial da Missão Bethesda de Manaus".
Tinha por redator o Rev. Marcus Ellswoth Carver, e por secretário o evangelista Juvêncio
de Mello. No seu editorial declara "A Paz" que não vem lançar discórdias nos corações
dos homens, porém tem por seu lema as sublimes palavras que Cristo disse aos seus
discípulos: "A paz seja convosco".
Menciona o redator, Dr. Carver, as muitas dificuldades que teve para vencer,
mas que ajudado por Deus conseguiu montar uma pequena tipografia, e que "o fim do
jornal será traçar alvos para a Missão e especialmente a propaganda das virtudes do
Evangelho no vasto campo do Amazonas". Betty de Oliveira continua o artigo escrevendo:
"Tudo faz crer ser ele o primeiro jornal que circulou na cidade de Manaus, pois que o
"Jornal do Comércio, considerado o mais antigo do Amazonas, surgiu nos albores do
presente século".
O leitor por certo já está perguntando: “Quem era o Rev. Carver”? Que era a
Missão Bethesda? Que tem esta Missão e o jornal "A Paz" com a história do nosso
metodismo? Esclarecendo, a autora escreve: "Em meados de 1887 chegava a Belém o
Rev. Marcus Ellsworth Carver, um missionário metodista, que viera dos Estados Unidos
para trabalhar naquela cidade em companhia do Rev. Justus H. Nelson, pastor da Igreja
Metodista ali. Em 10 de janeiro de 1888, porém, o Rev. Carver instalava em Manaus (para
onde se transferira) um trabalho evangélico de caráter livre, a que deu o nome de Missão
Bethesda. À primeira Escola Dominical compareceram apenas duas pessoas e ao culto
da noite, doze. "O Dr. Carver tirava o seu sustento de aulas particulares de inglês,
alemão, latim e grego e de ofertas que recebia de crentes e amigos, uma vez que não era
sustentado por nenhuma missão".

Não será ele um dos enviados do bispo William. Taylor que advogava o
sustento próprio dos missionários? Pois o histórico metodista, sem dar os nomes, relata
que depois do Rev. J. H. Nelson, o bispo enviara dois missionários àquela região.
Desaparece “A Paz" e entra “O Monitor"
Quando desapareceu "A Paz", por que motivo não consta deste relato,
apareceu um outro jornalzinho, "O Monitor", chamado de órgão da Igreja Evangélica
Amazonense", do qual era diretor o Rev. Juvêncio Paulo de Mello, e colaborador o Rev.
Carver.

No número 1, datado de 7 de setembro de 1922, e numerado ano XXII,
aparece um artigo de fundo histórico com os seguintes dados comprovantes: "Em meados
do ano de 1887 chegava à antiga província do Gran Pará o Rev. Marcus Ellsworth Carver,
missionário metodista que vinha de sua terra natal trabalhar na cidade de Belém em
companhia do Rev. Justus H. Nelson. Cinco meses após, já falava regularmente o
português. Por motivo de força maior, o missionário Carver não pôde continuar em Belém.
Escolheu então a província do Amazonas para nela instalar o trabalho evangélico, o que
fez em 1888. A 10 de janeiro desse ano, instalava na Rua Henrique Antony um trabalho
evangélico inicial, de caráter livre, ao qual deu o nome de Missão Bethesda. A sua
constância e dedicação, e as dificuldades que vencia airosamente, em breve chamaramlhe a simpatia e o devotamento de uma multidão de crentes que ainda hoje o veneram
com máxima admiração e respeito".
"Naquele local, por algumas vezes, funcionou a referida Missão, sempre com
progresso evidente até que o Dr. Carver adquiriu um terreno na rua Apurinam (hoje
Leonardo Malcher) onde edificou uma casa apropriada para cultos, com uma dependência
para sua moradia. Desde então passaram a ser feitos ali os trabalhos religiosos da
Missão".
"O seu grande zelo pelo Evangelho levou-o a estabelecer uma escola primária,
na sede da igreja, para crianças pobres, sem encarar credos religiosos... Vários pontos de
pregação em breve se espalharam pela cidade de Manaus, como pelo interior do
Amazonas, sob a influência da novel Missão. O Rio Autaz, onde fez vários batizados entre
os índios, e bem assim Itacoatiara, Parintins, Borba, no rio Madeira, e Barcellos no alto rio
Negro, receberam por intermédio do missionário Carver as primeiras sementes do
Evangelho".
Perseguição e vitórias
"Em 1897, na colônia Oliveira Machado, quase é vitima de um grupo de crentes
que se diziam católicos e que o agrediram por estar pregando o Evangelho, não
consentindo, porém, que se instaurasse processo contra eles, seus ofensores. Naquela
ocasião, como em tantas outras, o Dr. Carver mostrava-se sempre como um verdadeiro
missionário de Cristo, e sem ambições e vaidades, resoluto e liberal, e sabia cumprir
fielmente todos os deveres do missionário, por mais difíceis que fossem. As
contrariedades não o abatiam, antes o exaltavam pela resignação voluntária ".
"A Missão Bethesda prosseguiu a sua marcha vitoriosa até o ano de 1899,
quando a 18 de setembro desse mesmo ano, resolveu constituir-se em uma congregação
local que passou a denominar-se Egreja Evangélica Amazonense, de caráter
independente e funcionando na Rua Leonardo Malcher. Adotou nos cultos públicos o
ritual e a liturgia da Egreja Protestante Episcopal, permanecendo o Dr. Carver no
pastorado da Egreja".
Divergências e divisões
"Depois do ano 1900 até o presente (1922) por motivo de várias divergências
originadas no modo de dirigir os trabalhos da igreja, surgiram então outras denominações
do ramo evangélico, que começaram a ter surtos de progresso mercê a presença de
outros pastores que divisaram no Amazonas, até então desconhecido e isolado, um belo
campo para a sua atividade. Esses pastores encontraram facilidade no propagar o
Evangelho em um meio que já o conhecia, graças aos esforços incontestes do
missionário Carver. Foram as seguintes então as Egrejas surgidas em Manaus, algumas
das quais ainda prosseguem, gloriosas, a sua marcha evangélica de triunfos: Egreja
Metodista Episcopal, Egreja Evangélica de Manaus, 1a Egreja Baptista, Missão Christã,
Egreja Presbiteriana, 2 a Egreja Batista, Egreja Batista Independente, Egreja Pentecostal,
e 3 a Egreja Batista".
"O Dr. Carver, lutando com as maiores dificuldades, conseguiu construir um
modesto templo no alto da Avenida Major Gabriel, tendo acomodação para 150 pessoas.
Segundo o ritual episcopal, o referido templo tomou o nome de Capella de São Salvador,
onde atualmente está funcionando a Egreja Evangélica Amazonense".
"Desde o início do trabalho evangélico feito pela Missão Bethesda e a Egreja
Evangélica Amazonense, foram efetuados 2781 batizados, 1850 bênçãos matrimoniais,
1224 serviços fúnebres, inclusive de crentes de outras denominações, a que o Dr. Carver
nunca se negou. A 4 de julho de 1897 fez o Dr. Carver na Missão Bethesda, pelas 7 horas
da noite, a primeira ordenação ao cargo de um evangelista nativo que daquela data em
diante ficou a ser seu ajudante na obra missionária... Por falta de tempo e ser difícil fazerse uma estatística geral, pode-se calcular aproximadamente a totalidade de crentes
evangélicos no Amazonas em uns 5000".

Conclui a autora do artigo no "Jornal Batista" com esses "fatos essenciais":
1) que o Evangelho chegou ao Amazonas em 1888 por via do Dr. Carver, metodista;
2) que o primeiro jornal evangélico no Amazonas foi "A Paz", editado pela Missão
Bethesda, e saído à luz em 21 de março de 1898, redigido por esse missionário
metodista;
3) que em 1897, com a chegada do primeiro casal batista - Eurico Nelson e senhora
- houve o primeiro culto batista no templo da Igreja Bethesda;
4) que em outubro de 1900 foi organizada a primeira Igreja Batista de Manaus.
Em outras palavras, a Igreja Metodista ali organizada pelo Rev. Carver, usando o
ritual episcopal, apadrinhou a primeira Igreja Batista naquela zona!
Termina a escritora: "Aquela primeira Igreja da Missão Bethesda não funciona
mais. Há membros que a ela pertenceram ainda vivos, como a viúva do evangelista, Rev.
Juvêncio de Mello. Alguns elementos ficaram, posteriormente, na Igreja Presbiteriana, e
outros, com os batistas. O pequeno templo construído pelo missionário metodista ainda
está de pé, mas abandonado e quase em ruínas".

Doutra fonte soubemos que os presbiterianos durante certo tempo também
usaram a igrejinha da Missão Bethesda.

As perguntas são muitas e é do interesse da Igreja Metodista procurar saber as
respostas. Teria havido alguma diferença básica entre o Rev. Carver e o Rev. Nelson,
alguma coisa que levou o primeiro a deixar o culto metodista pelo episcopal? Será que o
Rev. Carver já sonhava com uma igreja evangélica do futuro, verdadeiramente
ecumênica, sem as divisões denominacionais e artificiais que hoje afligem o espírito
profundamente cristão? E ainda mais naquela zona tão vasta, tão carente da mensagem
de Cristo! Perguntas e perguntas! O certo é que Deus abençoou os esforços do
missionário Carver, e que a Missão por ele fundada deu um nobre exemplo do espírito
cristão.

Incluo aqui mais alguns dados referentes ao trabalho metodista na Amazônia!
No livro "Música Sacra Evangélica no Brasil", de Henriqueta Rosa Fernandes Braga, lê-se
após suas declarações sobre o início do trabalho naquela zona do país: “... a Missão a
que este inicialmente pertencia manteve três centros de atividades no Brasil: Belém,
Manaus, Recife... o de Belém esteve sempre sob os cuidados do Rev. Nelson; o de
Manaus, por ele fundado juntamente com o Rev. Marcus Carver em 1887, foi confiado à
responsabilidade deste último, que o atendeu até 1903, embora desde 1890 se tivesse
desligado da Missão, passando a trabalhar por conta própria...”.
***
Nem o trabalho em Belém nem a Missão Bethesda em Manaus deixaram um
marco metodista permanente naquelas regiões. Todavia, a maioria dos metodistas,
apesar de abandonados pela Igreja-Mãe, continuaram fiéis ao Senhor, tornando-se
membros de outras denominações evangélicas que ali chegaram.

Creio, contudo, que não podemos deixar de considerar o Dr. Marcus Carvér
entre os desbravadores e pioneiros do metodismo no Brasil, assim como o foram
Spaulding e Kidder.
CAPÍTULO 21
PUBLICAÇÕES E CASAS PUBLICADORAS

O primeiro jornal metodista no Brasil foi o "Methodista Catholico", cujo número
de estréia saiu no dia 1º de janeiro de 1886. Foi seu fundador e redator o Rev. J. J.
Ransom, descrito pelo Rev. Kennedy como um homem "cuja pena hábil e às vezes
cortante, era temida pelos seus adversários" (isto é, a hierarquia católico-romana!). Com o
regresso aos Estados Unidos em agosto de 1886 do Rev. Ransom, foi nomeado como
seu sucessor o Rev. J. L. Kennedy. O jornal continuou com esse nome até o número de
20 de julho de 1887, quando, "pelo conselho dos colegas e alguns leigos", foi mudado
para Expositor Cristão, nome que conserva até hoje.
O seu formato era grande, como de um jornal secular, porém de menos
páginas. Com o passar dos anos, o EXPOSITOR tem mudado as suas "vestes" mais de
uma vez, conforme a moda jornalística, e o gosto de seus redatores.
O Rev. Ransom também publicou literatura para a Escola Dominical (lições
para adultos) e a folha "Nossa Gente Pequena", ambas as quais eram impressas nas
oficinas do EXPOSITOR. Quanto tempo esses duraram, não posso constatar; mas em
seu histórico, o Rev. Kennedy relata que "continuou a redação da literatura da Escola
Dominical, começada por ele em outubro de 1899, e com o "Juvenil", em janeiro de 1900.
Casa Publicadora
Devido às despesas e dificuldades de publicação em casas comerciais, a Igreja
Metodista desde cedo procurou ter a sua própria instalação publicadora. Na Conferência
Anual, realizada em Piracicaba em 1893, foi nomeada uma comissão de três, constando
de J. W. Wolling, E. A. Tilly, e João E. Tavares, com plenos poderes para estabelecer
uma Casa Publicadora.
Em 1894 o redator do "EXPOSITOR", o Rev. Wolling, chamava à atenção da
Conferência à necessidade de se organizar um plano pelo qual seria possível montar uma
tipografia para a impressão do EXPOSITOR e outra literatura. Recomendou que fosse
nomeado um irmão brasileiro para ser seu redator ajudante (foi eleito o Rev. Manuel A. de
Camargo) e que todas as igrejas fizessem esforços especiais durante o ano para
aumentar o número de assinantes, tendo como alvo 2.500 assinaturas.
Determinou então a Conferência que o Rev. Wolling ficasse encarregado de
todos os negócios referentes à organização definitiva de uma Casa Publicadora. Para
atingir o alvo, ele pediu que cada congregação metodista levantasse uma coleta especial
para a mesma. Também para ajudar a financiar o negócio, emitiu 300 apólices de 50$000
(cinqüenta mil réis) cada.

Homem enérgico e dedicado, Wolling relatou já em 4 de agosto de 1894:
"Conseguimos comprar no dia 18 de abril um bom prelo; e poucos dias mais tarde, todo o
material necessário para a montagem da tipografia. Com o Sr. José Palma, o encarregado
de frente, começou-se a publicação do nosso jornal, o EXPOSITOR, com o número de 1º
de maio, em NOSSA PRÓPRIA CASA PUBLICADORA - fato esse que deve ser
assinalado para sempre em nossa história e pelo qual devemos dar graças a Deus".

Sob sua contínua responsabilidade, alugou-se uma excelente sala na Rua
Esperança, nº 25-b, no coração de São Paulo, lugar que foi usado não só para
publicação, mas para cultos. Diz o Histórico que "essa sala tornou-se um centro de
evangelização".
O custo?!
Relatou Wolling à Conferência Anual que custara para montar a tipografia a
soma de 10:099$940 - tudo comprado a dinheiro, sem deixar dívida alguma "para nos
incomodar pelo mundo afora!" Toda honra a esse veterano missionário!

Todavia, por motivos não dados, a tipografia foi mudada em 1896 para o Rio.
Com o passar do tempo, e o crescimento da Igreja, viu-se a premente necessidade de
montagem e equipamento mais moderno. Por isso, em julho de 1913, a Igreja Mãe enviou
ao Brasil um missionário leigo, o dedicado servo do Senhor, John W. Clay, pai de nosso
também dedicado irmão Charles W. Clay.
A Conferência determinou que a Casa Publicadora fosse estabelecida em Juiz
de Fora; mas ali durou somente até 1917, quando a Conferência novamente transferiu-a
para São Paulo. Aí a casa foi montada em um terreno baldio nos fundos da Igreja
Metodista Central, em um feio edifício de tijolo vermelho. Contudo, foi um grande passo
avante, e prosperou sob a direção do Sr. Clay. Retirou-se ele para os Estados Unidos
mais ou menos em 1924.
Foi dessa sementeira que se ergueu o moderno conjunto industrial da
Imprensa Metodista, situado em São Bernardo do Campo. O velho edifício se tornara
acanhado demais. A Igreja Central tinha outros planos para o terreno. Comprou-se um
vasto terreno em São Bernardo do Campo, e a planta que ali se levanta hoje foi fruto do
trabalho pessoal a seu favor, do Rev. James E. Ellis, quando daqui regressou aos
Estados Unidos para assumir a direção da obra na América Latina, da Junta de Missões.
O Rev. Lewistine M. McCoy, também da Junta de Missões nos Estados Unidos, faz outra
grande doação à Imprensa Metodista em 1967. Em homenagem aos dois, foram
colocadas placas de bronze nos respectivos edifícios.
No antigo lugar da Imprensa Metodista levanta-se hoje um grandioso edifício
de cinco andares fruto do trabalho e dedicação da Igreja Central - com Escolas Elementar
e Ginasial, salas para aula da Escola Dominical, e as Juntas Gerais da Igreja Metodista, e
a maior escola de Alfabetização de Adultos no Estado de São Paulo, quiçá do Brasil, pois
conta em 1967, com mais de 800 alunos.
CAPÍTULO 22
INSTITUTOS EDUCACIONAIS
DAS CONFERÊNCIAS ANUAL E CENTRAL

"Vamos por estes caminhos, cor da saudade".
(O Convite - Guilherme de Almeida)

Não é coisa seca e somente estatística a história dos nossos estabelecimentos
educacionais. Dentro e atrás de cada história, há estórias de sacrifício, dedicação, de
alegria e tristeza - há um testemunho intimamente pessoal e humano. Vamos começar
com o GRANBERY COLLEGE, conhecido hoje como o INSTITUTO GRANBERY.
Desde a sua primeira visita ao Brasil, em 1886, o Bispo Granbery sonhava com
a possibilidade de fundar um colégio metodista para rapazes. Regressando aos Estados
Unidos, empenhou-se por encontrar um educador habilitado e com zelo missionário; e foi
muito feliz em encontrar para tal posto, o Rev. John M. Lander. Combinava este
missionário o ministério com o magistério, e ainda mais, estudara medicina por algum
tempo, na Universidade de VanderbiIt. Era seu sonho ser missionário na China, ao que o
seu pai, Dr. Samuel Lander, muito se opôs, convencendo enfim ao filho que ensinasse
numa "Academia Feminina" da qual ele era reitor. Foi ali que o Bispo Granbery o
descobriu. Fez o convite e o jovem professor o aceitou.
Viagem ao Brasil
O Rev. Lander, com sua esposa e filhinha Laura, chegaram ao Rio de Janeiro
pouco antes da Conferência Anual de julho de 1889, mas não sem terem tido algumas
experiências duras em caminho. Viajavam no mesmo vapor Miss Mary Kennedy, que a
pedido de seu irmão, vinha ajudá-lo no trabalho educacional. Também deveria ter se
encontrado com eles em Nova Yorque, Miss Clara Chrisman, que vinha como missionária
da Junta de Senhoras.
Desde o embarque a viagem parecia malfadada. No porto, esperaram debalde
a chegada de Miss Chrisman, ficando sabedores quase na última hora que ela fora
vitimada em caminho de uma grande tragédia o trem em que viajava, foi carregado rio
abaixo e submerso com todos os passageiros, numa imprevista e terrível inundação perto
de Johnstown, no Estado da Pensilvânia.
Apesar desse começo sombrio, tudo ia normalmente até que chegaram ao
litoral do Brasil. O vapor carregara sacos de algodão em Recife, e estava em pleno mar
rumo ao Rio quando de repente, durante a noite, os passageiros foram acordados pelo
grito: "O algodão está queimando! Levantem-se depressa, vistam-se e tomem seus
lugares nos botes salva-vidas para descerem ao mar!" A fumaça e o cheiro desagradável
de algodão fumegante foi o bastante para que obedecessem; e à medida que cada
passageiro procurava alguma coisinha de mais valiosa que pudesse trazer consigo,
aumentava a confusão e o terror.
Chegou afinal a vez da família Lander e Miss Mary descerem pelas cordas ao
pequeno bote salva vidas. A Sra. Lander agarrava ao peito a sua jóia mais querida, a
filhinha Laura, que chorava diante do sono interrompido.
Mas como sói (é comum) muitas vezes acontecer, mesmo nas tragédias há um
lado cômico! Por último, acomodadas no bote as senhoras e as crianças, veio
escorregando pelas cordas o Rev. Lander e de tudo que correra para salvar do naufrágio,
vinha com uma cartola na cabeça! Os seus colegas nunca deixaram de atormentá-lo por
essa vaidade - ou tolice! Contudo, o Rev. Lander mostrou-se um dos mais hábeis e
consagrados obreiros no campo.
O resto da história? As chamas foram dominadas e após uma noite de frio e
terror nas águas do Atlântico, os passageiros puderam voltar ao vapor. Apesar de todos
os vexames, o Rev. Lander chegou em tempo de ser admitido à experiência na
Conferência que então se reunia no Rio de Janeiro, e ali recebeu a sua nomeação para
um "futuro" colégio - sem nome, sem edifício, sem qualquer equipamento! Mas tinha um
reitor e uma diretoria - fazendo parte dessa o Rev. J. W. Wolling, o Rev. J. L. Kennedy, e
o Rev. James Mattison - um recém-chegado que apenas doze meses depois de sua
chegada, foi vítima da febre amarela, deixando viúva e um filhinho.
Fundado "O Granbery"
Quais os motivos que levaram a Conferência a escolher Juiz de Fora como
sede do colégio, o histórico não nos conta. O Rev. Wolling foi nomeado para ajudar ao
Rev. Lander, que não conhecia a língua portuguesa, e foram para lá juntos, alugando uma
casa na Rua Santo Antônio. Ali, sem perder tempo, começaram as aulas. O equipamento
consistia de mesa, umas poucas cadeiras, quadro-negro e uma caixa de giz! O primeiro
aluno matriculado foi Alfredo Green Ferguson, o segundo, Eduardo Braga Junior. Todavia,
como admoestou o profeta Zacarias, "não devemos desprezar os pequenos começos".
Em fevereiro de 1890, o anônimo foi batizado com o nome de Colégio
Granbery, homenageando o primeiro bispo metodista que veio ao Brasil. Tornou-se, em
poucos anos, uma instituição de grande projeção não só em Minas Gerais mas em outros
Estados do Brasil, tanto pelo seu ambiente de alta moralidade como pelos cursos que
oferecia - primário, ginasial, de Comércio, Farmácia, e Odontologia - todos equiparados
às escolas oficiais do governo. O jornalista brasileiro David Nasser, em uma crônica,
chamou o Granbery de o colégio mais bem disciplinado do Brasil. Isto no tempo do Dr. W.
H. Moore.
Como constituía plano da Igreja ter uma escola de Teologia adjunto ao
Granbery, isso se fez, sendo os seus três primeiros seminaristas - Justiniano de Carvalho,
Felipe Revalo de Carvalho, e Ludgero de Miranda, grandes pioneiros da nossa obra. E
entre os seus formandos posteriores, estão algumas das figuras mais luminosas do
ministério brasileiro, como César Dacorso, Guaracy Silveira, Derly Chaves, José de
Azevedo Guerra, Epaminondas Moura e outros.
Foi no Granbery, em 1895, que se organizou no Brasil a primeira Liga Epworth,
atual Sociedade Metodista de Jovens, confirmada a nomenclatura inglesa nos dias de
Wesley. O ambiente profundamente cristão do Granbery desenvolveu a espiritualidade
dos alunos que faziam entre si reuniões de oração.

É comovente o testemunho de um dos seus alunos, e depois professor, Sr. C.
A. Ribeiro, que escreveu no EXPOSITOR CRISTÃO: "Desde o primeiro até o último dia
em que pisei nos degraus da escola, nunca me senti triste por faltar-me alguma coisa -
gozava da amizade de todos os professores e alunos, ainda que desde o princípio, fosse
oposto a muitas das suas idéias. Em 1892 dei o primeiro passo depois de um tocante
sermão pelo Rev. Tarboux e, apesar da oposição veemente de meus país e parentes,
abracei a Cristo e professei o Evangelho. Graças dou hoje ao meu Deus e Pai por ter-me
conduzido àquele doce seio onde encontro tudo de que preciso. Muitos outros alunos
seguiram-me nesse passo solene... ".
Entre outros, destacam-se também as preciosas vidas femininas levadas a
Cristo quando estudavam no Granbery: Ottília de Oliveira Chaves que no Granbery
encontrou o seu marido, e sua irmã Odette, casada com o bispo Sante Uberto Barbieri, da
Argentina.
Esportes no Granbery
Começando com esse primeiro estabelecimento educacional para rapazes,
todos os demais da nossa Igreja têm procurado desenvolver a "mens sana in corpore
sano". Lander e seus sucessores muito se interessaram por esportes ao ar livre, tais
como o tênis e o futebol, e isto numa época quando estudantes de bengalinha, piteira e
chapéu de palhinha raramente se condescendiam à prática de esportes.

Tem-se dito que o Granbery introduziu o futebol no Brasil. O certo seria dizer
que foi no Granbery que estudantes brasileiros primeiro jogaram futebol. O Rev. Lander,
numa viagem para o Brasil depois de suas férias em 1895, voltou pela Inglaterra onde
pela primeira vez viu o jogo de "soccer". Entusiasmado, comprou uma bola e trouxe-a ao
Granbery, ensinando o jogo aos alunos. Ainda outra versão é dada pela revista
Guanabara, n o 2, 1966, que declara "ter o futebol ingressado no Brasil entre 1897 e 1899,
trazido pelo jovem MüIler, filho de alemães, que vinha de concluir seus estudos na
Europa; teria sido conhecido primeiramente em Santos... Nosso Gilberto Freyre, é de
opinião que "o futebol é uma contribuição positiva do menino ameríndio aos desportos
europeus".
O Sr. Charles Dunlop, autoridade sobre coisas antigas do Brasil, escreve no
VoI. I do seu livro "Rio Antigo", que talvez, desde 1886 os membros da colônia inglesa
jogavam futebol, "mas exclusivamente entre si". Dá crédito ao Sr. Oscar Cox de ter
tomado a iniciativa em 1897 de formar um time de brasileiros. Devido à falta de um campo
apropriado e de entusiasmo entre os adeptos, a bola que mandara vir da Europa, pouca
aplicação teve. Todavia, como esse não é um artigo sobre futebol, mas um caso de dar
justiça a quem merece justiça, voltemos ao Granbery.
Seja como for, o interesse do Granbery nos esportes e na educação física
prosperou. Em julho de 1913, a Junta de Missões nos Estados Unidos enviou-lhe um
missionário leigo, grande atleta na sua terra, Frank M. Long, cujo dever, além de ensinar
inglês e Bíblia e organizar uma Associação Cristã de Moços, foi encorajar a prática
esportiva. Numa antiga fotografia por ele tirada, vê-se o juiz ou árbitro de um jogo de
futebol, aparecendo no campo de fraque e cartola!
O "Granbery", que tanto prestígio alcançou, contou entre os seus reitores com
J .M. Lander, 12 anos; J.W. Tarboux, 12 anos; W.B. Lee, 3 anos; J.L. Bruce, 3 anos; C.A.
Long, 5 anos; W.H. Moore, 5 anos. Seu presente reitor é o Rev. Arthur Peterson.
Colégio Isabela Hendrix
Do meu baú velho retiro uma fotografia desbotada pelos anos e embaixo vejo a
legenda, Igreja Metodista de Belo Horizonte. O retrato traz saudades não só da igreja, tão
elegante para os primeiros anos do século 20, mas das circunstâncias relacionadas à
fundação do Colégio Isabela Hendrix - o "Isabela", como é comumente chamado - do qual
fui a primeira aluna.
É bem diferente a história do movimento metodista em Belo Horizonte da de
outros lugares. Alguns ministros pioneiros, em especial o denodado pregador, Rev.
Antônio Cardoso da Fonseca, já tinham pregado o Evangelho em Ouro Preto, então
capital de Minas Gerais. Apesar de ser um centro ultramontano, foram melhor recebidos
do que numa pequena aldeia dali afastada, chamada Curral del Rey. Lá o Rev. Cardoso e
o novato missionário, Rev. J. L. Bruce foram tão mal recebidos pelos ignorantes fanáticos
do lugar, que nada conseguiram fazer.

Mas o Rev. Cardoso não se deu por vencido. Em outubro de 1892 viajou para
lá novamente, essa vez com o Rev. H. C. Tucker e sua esposa, Dona Elvira. Apesar de
certa oposição e frieza, conseguiram lançar ali uma pequenina semente do Evangelho.
Quando o governo estadual transferiu a capital de Ouro Preto para Belo
Horizonte, o Conselho Municipal, visando a apressar o desenvolvimento da nova capital,
ofereceu sob certas condições, a qualquer sociedade benemérita, propostas muito
vantajosas. Nossa Igreja aceitou a oferta e foi-lhe doado um belo terreno, uma quadra
inteira na principal avenida da cidade, sob a condição de construir dentro de certos
prazos, uma residência, uma igreja e um colégio.

Como se aproximava o fim do prazo estabelecido e só fora construída a
residência pastoral (que servia de salas para cultos), a Conferência nomeou o Rev.
Kennedy para o lugar. Ele foi em setembro de 1904 e com o Sr. Jayme Salse como
construtor dentro de um ano conseguiu erguer um elegante templo, bem na esquina da
Avenida principal, em frente à Igreja Católica. Mas faltava erguer o Colégio!
Felizmente, a Junta Missionária nos Estados Unidos tinha ao seu dispor quinze
mil dólares - boa soma naqueles dias - que fora originariamente destinada ao Colégio
Mineiro, mas não aproveitada. Para fundar o Colégio designaram Miss Martha Watts, já
conhecida pelo seu sucesso em Piracicaba e Petrópolis. Ela chegou a Belo Horizonte em
setembro e já no dia 5 de outubro, num casarão antigo, perto da estação ferroviária deu
início à instituição - com apenas cinco alunas, das quais três eram filhas do pastor
Kennedy! Mas isto não dava para desanimar. Não fundara ela o Piracicabano com uma só
aluna, para quem conservou abertas as portas do mesmo durante três meses?!
Ao Colégio foi dado o nome de Isabela Hendrix, homenageando a mãe do
Bispo Eugene Hendrix que, mais do que qualquer outra pessoa, angariara os quinze mil
dólares que haviam tornado em realidade o sonho do Colégio.
Miss Watts, como sempre fazia, foi granjeando a simpatia e confiança das mais
cultas famílias em Belo Horizonte. Depois de dois anos e meio em propriedades alugadas
e inadequadas, estava pronto o primeiro edifício escolar na Rua do Espírito Santo, perto
da residência pastoral.

O Colégio Isabela começou a florescer. Ano a ano, progredia, crescia em
matrícula e prestígio. Chegou o dia quando a Conferência resolveu vender a valiosíssima
propriedade no centro, para investir o dinheiro num templo maior e mais moderno e um
colégio dentro da zona residencial. Adquiriu-se um grande terreno perto do Palácio do
Governo; e ali, sob a hábil administração de Miss Mary Sue Brown, a missionária e
arquiteta, foi construída uma planta moderna. Outras reitoras destacadas foram Miss
Emma Christine, Miss Mamie Fenley e Miss Verda Farrar. Durante a administração dessa
última foram acrescentados ainda outros edifícios modernos, particularmente a linda
capela que recebeu o nome de "Capela Verda Farrar" em sua honra.
As alunas do Isabela, vêm não só do estado de Minas Gerais, mas do Espírito
Santo, Bahia e lugares distantes. Goza de excelente fama e prestígio na comunidade.
Após a aposentadoria de Miss Farrar, foi eleita reitora Dona Jurema d'Ávila Tavares, a
primeira reitora brasileira. Substituiu-a posteriormente o Professor Ulysses Panisset em
1967.
Colégio Metodista de Ribeirão Prêto
Quando os Revs. E. E. Joiner e James Hamilton eram responsáveis pelo
trabalho metodista em Ribeirão Preto, perceberam como era necessária ali uma escola e
as oportunidades que ela daria ao Evangelho. Apelaram então para a Junta de Senhoras
nos Estados Unidos para auxílio financeiro em fundá-la, mas esta não estava então em
condições de atender ao apelo.
Tendo em vista o sucesso do Piracicabano em granjear a simpatia do povo,
sentiam que um Colégio em Ribeirão Preto também facilmente pagaria suas próprias
despesas. Por época da Conferência Anual de 1899, persuadiram o Bispo Hendrix a darlhes a devida licença de prosseguir com planos. O Bispo então nomeou Dona Leonora
Smith - filha de colonos americanos em Santa Bárbara, que havia estudado nos Estados
Unidos - para fundar o Colégio ali. No entanto, avisou-lhe o Bispo: "A senhora fica
nomeada para fundar o Colégio - mas não temos verba nenhuma para lhe oferecer. Terá
somente seu salário pessoal de missionária".
Confiante em Deus, e ansiosa por empreender tal trabalho Leonora foi sem
hesitação. A Igreja cedeu-lhe uma sala para as aulas e, dentro de dois meses, ela abriu
as portas do Colégio. Como a sala tornou-se em breve pequena demais, o pastor cedeulhe um pouco mais de espaço na sua residência, e ali ficou durante um ano ou mais.
Em janeiro de 1900, alugou uma casa e convidou para ajudá-la Miss Mamie
Fenley, missionária também oriunda da colônia. De seu pequeno salário, tirou o suficiente
para comprar algumas peças de mobília. Mas a visão de centenas de alunas correndo
para matricular-se no Colégio desvaneceu devido principalmente à hostilidade do clero
romano. Somente dez alunos, alguns dos quais recebiam ensino gratuito se matricularam
- e não dava para pagar o aluguel e a alimentação. As bolsas das missionárias foram se
esvaziando, dia a dia, chegando afinal ao ponto de elas não terem nem para comer. Mas
na igreja de Ribeirão Preto tinham uma amiga fiel e perceptiva, e entra aqui a história do
Corvo de Deus.
Corvo de Deus
Residia em Ribeirão Preto, uma senhora norueguesa, luterana, que viera ao
Brasil alguns anos antes. Ganhara fama no Rio de Janeiro como boa enfermeira. Era tão
competente, que quando apareceu na família imperial uma grave enfermidade, ela foi a
enfermeira chamada. Encontrou-se ali com um português - homem bom, mas católico com quem se casou. Com o passar do tempo o casal veio a residir em Ribeirão Preto.
Quando soube que os metodistas faziam cultos evangélicos começou a assistilos, tornando-se amiga e admiradora das duas missionárias. Deus deu-lhe o dom de
adivinhar as misérias pelas quais passavam e de ajudá-las sem ostentação, trazendo-Ihes
seguidamente cestos de frutas e de pães e bolos feitos por suas mãos. Tinha por costume
usar roupas pretas. Assim sucedeu que quando as missionárias viam-na chegar ao portão
com um cesto no braço, lembravam-se da história bíblica de Elias e os corvos que lhe
traziam alimento no deserto.
Os olhos rasos de lágrimas, e com profunda gratidão, diziam uma à outra: "Ali
vem o corvo de Deus"! Hoje, no Instituto Educacional em Ribeirão Preto, deu-se o nome
de Emília Fonseca ao curso normal, homenageando àquela que foi nas mãos de Deus
uma bênção para as fundadoras daquele Colégio.
Missionárias enfermeiras
Passadas as primeiras crises, o Colégio tornou-se uma instituição muito
apreciada na cidade. Mas, no ano de 1903, passou outra vez por duras provas. A terrível
febre amarela assolava o povo, matando a muitos e fazendo fugir todos que podiam, a
lugares mais saudáveis. As autoridades estabeleceram um cordão sanitário ao redor da
cidade; e pais ansiosos retiraram os seus filhos do Colégio, ao passo que as professoras
também pediam licença para juntar-se ao êxodo geral.
Nesse período estavam à testa do Colégio as missionárias Ada Stewart (que
depois se casou com o Rev. G. D. Parker), e Willie Bowman. Sabendo que o hospital
improvisado pelas autoridades municipais não conseguia as enfermeiras que precisava
com urgência, ofereceram-se para ali ajudar. Dia e noite trabalharam até que o pior da
epidemia terminou. Ficaram no posto do dever, confiantes em Deus e servindo aos
doentes com verdadeira abnegação. Não sucumbiam à doença. Mas Bento Braga de
Araújo, o jovem querido pastor da Igreja, que também recusara deixar a cidade e se dera
integralmente ao esforço de erradicar a febre, foi uma das vítimas, enlutando a igreja
toda.

O esforço desses cristãos não deixou de impressionar profundamente o povo e
as autoridades da cidade. Como relata o Rev. Kennedy, "contribuiu grandemente para pôr
termo à perseguição de trabalho Evangélico. A população em peso declarou-se grata e
daí em diante nunca lhes faltaram amigos”.
.
Depois de uma mudança, o Colégio adquiriu uma propriedade, construindo um
imponente edifício próprio.
É uma das suas ex-alunas mais brilhantes a Prof. a Dina Rizzi, grande líder do
trabalho metodista feminino, cujo nome está intimamente ligado ao Instituto Metodista em
São Paulo, do qual foi reitora por muitos anos. Também já foi delegada a conferências
evangélicas latino-americanas, e é agora uma das vice-presidentes da Federação Mundial
de Senhoras Metodistas.
Colégio Bennett
As duas líderes do metodismo feminino nos Estados Unidos Miss Belle Bennett
e Miss Maria Gibson, depois dos seis meses que aqui passaram, voltaram ainda mais
determinadas a obterem o necessário para adquirir uma boa propriedade no Rio. Mas só
o conseguiram uns tempos depois, como resultado do entusiasmo por missões gerado
pela comemoração do Centenário da Igreja Metodista Episcopal do Sul nos EUA
Receberam a generosa quantia de 300.000 dólares-ouro, com o qual compraram,
remodelaram e equiparam a bela mansão que fora originalmente do Barão de São
Clemente, situada a Rua Marquês de Abrantes, nº 55.
Realizou-se assim o sonho dourado do Rev. Ransom e o sonho dourado de
Miss Layona Glenn, mas que nenhum viu realizar-se. Ele deixara o Brasil em 1886, e Miss
Glenn que fora chamada à pátria (EUA) para cuidar dos velhos pais, lá teve que se
demorar muitos anos. As aulas Iniciaram-se em 1º de março de 1921, com 50 alunos,
depois de Miss Perkinson ter preparado o edifício para funcionamento. Em breve voltou
de férias nos Estados Unidos, Miss Eva Louise Hyde, sob cuja sábia, eficiente e dinâmica
administração o Colégio progrediu em todos os sentidos. Edifícios novos foram
construídos, incluindo uma linda capela. Novos cursos foram introduzidos. Após sua
aposentadoria foi reitora durante muitos anos Miss Sarah Dawsey, filha de Revmo. Bispo
Cyrus Dawsey, a quem se devem importantes avanços educacionais, um dos quais a
"Escola Matemal" - Curso Pré-Primário. Foi o Bennett pioneiro na introdução de educação
física para o sexo feminino, bem como de uma Escola de Economia Doméstica, de um
"Kindergarten" ou Jardim de Infância e de uma Escola de Música Sacra sob a direção do
distinto missionário músico Rev. Alberto Ream.
Sua reitora hoje é a Dra. Pérside Leal Vianna Soares com preparo
especializado no Brasil e nos Estados Unidos.
Do Colégio Bennett - filho dos colégios Fluminense e Americano, neto da
Escola do Alto - o metodismo se orgulha com razão, esperando que seja nas mãos de
Deus, um digno instrumento para elevar e desenvolver em moldes cristãos, a mocidade
feminina do Brasil.

Instituto Americano de Lins
Este Instituto no noroeste do estado de São Paulo foi criado pelo casal
Patience e Clemente Hubbard, missionários, numa sala da sua própria casa. Foi
crescendo e é hoje o maior educandário da Igreja Metodista do Brasil, com 1.500 alunos
de ambos os sexos; possui cursos que levam desde o primário até à Faculdade de
Odontologia. Tem se tornado estabelecimento de prestígio e influência cristã naquela
zona de São Paulo. Ao casal Hubbard a Igreja deve um preito de gratidão.
CAPÍTULO 23

ESCOLAS QUE DESAPARECERAM PELA ESTRADA

“Vamos por estes caminhos cor de saudade. Por estes
caminhos roxos de nossa terra; cada um dos nossos
passos há de ficar marcado na argila violeta."
(O CONVITE - Guilherme de Almeida)

- ESCOLA DO ALTO
- COLÉGIO MINEIRO
- COLÉGIO FLUMINENSE
- COLÉGIO AMERICANO DE COLÉGIO AMERICANO DE PETRÓPOLIS TAUBATÉ !!
Quantos de nossa geração nem sequer ouviram falar os seus nomes! Quantos
não sabem por que foram fundados, por que foram fechados, por que desapareceram em
vez de continuar como até hoje continuam os nossos educandários em Piracicaba e Belo
Horizonte. Todavia merecem todos ser lembrados, porque deixaram suas marcas na
argila do tempo e cada um representou labores e sacrifícios imensos. Cada um teve uma
finalidade que cumpriu ao seu tempo.
Com o poeta Guilherme de Almeida, tracemos, pois, novamente, “estes
caminhos cor de saudade", para conhecermos um pouco do que fizeram, para revivermos
as angústias do seu desaparecimento da cena metodista! Comecemos com a primeira, a Escola do Alto.
Escola do Alto
Desde os dias do pioneiro Ransom, cogitava-se de um colégio para as meninas
da Corte - Rio de Janeiro e suas adjacências. Deveria ser um Colégio que honrasse o
nome do metodismo e proporcionasse ao sexo feminino do Brasil uma educação
esmerada, progressista e profundamente cristã.

Já existia na cidade um colégio particular, dirigido por uma senhora americana,
não missionária, chamado o Colégio do Progresso, de Miss Leslie. Gozava de muita fama
e era até "protegido" pelas mais distintas famílias do Rio. O Rev. Ransom, gostando do
local e conhecendo o prestígio do Colégio, entabulou conversações para ver se conseguia
comprá-lo para o metodismo. As negociações tinham ido a tal ponto, e tão certo parecia a
compra que quando o Rev. Tarboux apenas pisou o solo brasileiro, em 1883, já foi
nomeado para ali lecionar inglês enquanto aprendia o português. Mas por motivos que
não foram registrados, a compra não se efetivou.
Todavia, a Junta Missionária de Senhoras, a cujo cargo estavam as escolas
para o sexo feminino no Brasil, encorajada pelo sucesso do Piracicabano, em breve
providenciou a compra de uma outra propriedade no Rio. O Rev. Ransom adquiriu-a na
Rua das Laranjeiras nº 96, esquina da Rua Alice, local que o Rev. Kennedy descreveu
como um local que "devido a sua altura no cimo de um morro, era considerado quase
imune à febre amarela". Essa doença já roubara à Igreja a vida preciosa do missionário
James Koger; e tornando-se epidêmica causava consternação no país. Não se sabia
ainda que o causador da febre amarela era um mosquito - o aedes egyptis - mas todo
mundo sabia que morar no alto era menos perigoso do que nas baixadas e perto de áreas
pantanosas. Atribuíam o mal ao miasma - uma emanação prejudicial - palavra que incutia
medo! Era de grande importância, pois, escolher um local alto onde não houvesse águas
estagnadas.
Quando as aulas começaram em fevereiro de 1888, o colégio foi batizado com
o nome de "Escola do Alto". Antes de findar o primeiro ano, a matrícula já atingira 50
alunos e, desse número, as missionárias relataram que duas haviam feito profissão de fé
e quatro haviam dado o primeiro passo.
Mas o velho e feroz inimigo, o aedes egyptis não demorou em subir o morro,
pondo à prova a Escola. No primeiro ano, apareceu a febre entre alguns alunos; no
segundo, a febre tornou-se verdadeiro flagelo, vitimando um pequeno aluno interno, cujos
pais estavam viajando na ocasião. Casos surgiram por todos os lados, até que a Escola
teve que fechar as portas provisoriamente. Algumas das professoras também adoeceram;
Miss Mattie Jones, frágil como uma boneca de porcelana, por milagre escapou. Qual boa
samaritana, fazia canja de galinha para levá-la em tigelinhas às vizinhas que não tinham
quem socorrê-las nesse transe.
Enfim, foi tão grande o êxodo de alunos, e tão impossível parecia a conquista
da febre, que a Junta mandou fechar o internato e transferi-lo para Juiz de Fora onde dada a fama do Granbery - havia tempo, se pedia insistentemente um internato feminino.
Isso se deu em setembro de 1891. Começa aqui a história do Colégio Mineiro.

Colégio Mineiro
Com a decisão de mudar o internato para Juiz de Fora, a Junta nomeou para
dirigi-lo, Miss Mary Bruce, anterior diretora da Escola do Alto e do Piracicabano, onde tão
habilmente lidara com o Inspetor Vienna em 1887. Com oito alunas e mais quinze de Juiz
de Fora, começou em 20 de setembro, um colégio que batizaram com o nome de "Colégio
Mineiro".
Em 1905, depois de alguns anos em prédios alugados, a Junta comprou uma
esplêndida propriedade num dos melhores pontos da cidade. Ali, durante 23 anos, o
"Colégio Mineiro” operou e foi reconhecido como um dos melhores educandários
femininos - senão o melhor da região. Entre suas reitoras destacadas, devemos lembrar
os nomes de Ida Shaffer, Eliza Perkinson, Sarah Warne, e Eva L. Hyde, que foi depois
reitora do Bennett.
Dois dos importantes motivos que levaram ao seu fechamento em 1914 foram:
o "Granbery" havia aberto as suas portas, primeiro a mocinhas nos cursos superiores e,
logo depois, a todas as idades e ambos os sexos. A educação mista estava se tornando
comum no Brasil. Em segundo lugar a reforma e renovação. A velha casa baronial exigiria
um tremendo custo. Assim a Junta resolveu fechar o Colégio, vendê-lo e investir o
dinheiro no seu sonho dourado - um grande estabelecimento no Rio de Janeiro.
Colégio Americano Fluminense
Mas com o fechamento da Escola do Alto, e a transferência do seu internato
para Juiz de Fora - o que fazer com seus alunos externos, aqueles que residiam no Rio e
cujos pais reclamavam a continuação do colégio ou de outro em moldes semelhantes?
A necessidade sendo premente, e as missionárias estando prontas a arriscarse na cidade, a Junta resolveu continuar com um externato no Rio. A esse deram o nome
de "Colégio Americano Fluminense". Vez após vez, a febre, a varíola e até a peste
bubônica, atacavam a Capital, dizimando a população. Decrescia o número de
estudantes. Quando em junho de 1902, duas professoras quase faleceram com a febre
amarela, o Colégio teve que fechar por uns tempos. Todavia, sob a corajosa e dedicada
direção das missionárias, nunca se deu por vencido, e logo após as epidemias, reiniciava
as suas atividades.

Sua dificuldade era imensa. Não tendo propriedade própria em que funcionar o
Colégio viu-se forçado a mudar-se várias vezes - da Praia do Botafogo à Rua Marquês de
Abrantes, - ao Catete e novamente à Praia - doze vezes ao todo no seu quarto século de
existência!
Afinal, em 1913, vieram ao Brasil Miss Belle Bennett, presidente da
Confederação de Senhoras Metodistas nos Estados Unidos, e Miss Maria Gibson, reitora
do Scarritt College, onde as missionárias se preparavam. Permaneceram no Brasil uns
seis meses, inteirando-se bem das necessidades e oportunidades do país. Resolveram
definitivamente não fechar o "Fluminense", mas procurar reerguê-lo, constituindo-o "num
grande estabelecimento de instrução". O plano visava fundi-lo com o "Americano“ de
Petrópolis, mas o plano fracassou naquela hora.

Não podiam encontrar a preço razoável nenhuma propriedade adequada no
Rio, fechando-se assim em 1915, as portas do querido "Fluminense", alma-mater de
muitos que depois se distinguiram no Brasil e se gabavam de terem sido seus alunos.
Colégio Americano de Petrópolis
Quanto transtorno não pôde causar um mero mosquito! Quantos planos alterou
em nossas escolas missionárias!
Mais um colégio deve a sua origem às epidemias causadas por este pequeno
inseto - "O Colégio Americano de Petrópolis", que podemos chamar a terceira filha da
Escola do Alto. A Junta Missionária nos Estados Unidos, investindo o dinheiro resultante
da venda do prédio da "Escola do Alto", não só abriu o internato em Juiz de Fora, mas
decidiu estabelecer um colégio em Petrópolis, então Capital do Estado do Rio, e local
preferido por diplomatas e abastados, pois era livre das febres que assolavam o Rio. Para
tal fim, comprou o chamado "Palacete Januzzi", belo edifício situado num morro, com
vasto terreno, pela então elevada quantia de vinte e sete mil dólares ouro. Miss Watts,
que tão bem administrara o Piracicabano, foi nomeada diretora. O colégio começou suas
aulas em maio de 1895, com apenas três alunas - duas a mais do que o "Piracicabano"
em seu início.
Visitante distinta
Deu-se um pequeno incidente nos dias do seu começo, que serve para provar
a sua aceitação pelas altas camadas da sociedade: certo dia, Miss Watts foi ao Rio de
Janeiro para fazer umas compras necessárias para o colégio. Deixou ali "de plantão",
Miss Layona Glenn, que estivera no Brasil apenas por um ano, e Mrs. Fannie Kennedy
Brown, que Miss Watts trouxera do "Piracicabano" para ajudá-la a dirigir um
Departamento de Música. Nenhuma sabia falar bem o Português.

De repente, a Sra. Brown ouviu o som inesperado do trote de cavalos. Olhando
pela janela, para ver quem podia ser, viu subir o íngreme morro, um bonito carro que em
segundos parou em frente ao colégio.

Desceram uma senhora e duas mocinhas bem trajadas. Qual não foi a sua
surpresa em reconhecê-las como Dona Adelina, esposa do presidente da República e as
filhas, que ela havia conhecido em Piracicaba. Chamando Miss Glenn, correu depressa à
porta para cumprimentá-las. Quando Dona Adelina perguntou por Miss Watts, respondeu
que ela fora passar o dia no Rio e só voltaria à tarde. "Não faz mal", sorriu Dona Adelina,
"visito com as senhoras até ela chegar!"
Sem cozinheira, sem alimentos variados na dispensa, sem sobremesa, as duas
"noviças" atrapalhadas fizeram o que puderam para apresentar às suas visitas um bom
almoço. Tão graciosa foi Dona Adelina que o apreciou como se fosse um banquete! Este
incidente ficou na memória de ambas como um ponto alto de suas vidas.
O Colégio em Petrópolis continuou até 1920 quando foi fechado para tornar-se
parte do sonhado Colégio Bennett.
Colégio Americano de Taubaté
Mais outro que desvaneceu da cena metodista foi o "Colégio Americano de
Taubaté", o qual devemos relembrar porque foi prova de como a influência do nosso
primeiro educandário, o "Piracicabano", se estendeu rapidamente pelo Estado de São
Paulo; e porque a sua vida, apesar de muito mais curta do que as outras já mencionadas,
foi, contudo, muito rica, conforme testificou o Rev. Kennedy.
Em fins de 1889, oito anos após a abertura do "Piracicabano", algumas das
mais destacadas e influentes famílias de Taubaté, cidade que então parecia ter um futuro
brilhante, convidaram Miss Watts a fundar ali um colégio nos moldes do "Piracicabano".
As missionárias todas, reunidas em janeiro de 1890, apoiaram a idéia e enviaram à Junta
Missionária nos Estados Unidos, um abaixo-assinado, pedindo que fossem tomadas
imediatamente algumas medidas financeiras para dar início a este colégio.
Mas a Junta não estava então em condições de atender ao pedido. Achando
que essa era uma oportunidade boa demais para se perder, que o colégio poderia ser
porta aberta ao Evangelho em Taubaté, o Rev. Kennedy, que era presbítero presidente do
distrito de São Paulo, ofereceu fixar residência ali, abrir um colégio e, ao mesmo tempo
pastorear a igreja, assistido pelo Rev. J. R. de Carvalho. Com sua senhora, Jennie
Wallace, para auxiliar na direção de um internato para meninas, iniciou em março de
1890, com uma matrícula de 17 alunos, o "Colégio Americano de Taubaté".

Tão bem andava o colégio que a matrícula dobrou e triplicou em pouco tempo.
As finanças iam admiravelmente bem, sendo preciso muito pouco auxílio da Igreja.
Quando começou em 1890, o colégio pagava 600$000 de aluguel anual; quando teve que
fechar as portas, em 1894, estava pagando quatorze vezes mais! O Rev. Kennedy
conseguira reunir um corpo docente excelente, entre os quais, o Prof. Joaquim Camargo;
Dona Laura Duarte (depois esposa do Sr. Eduardo Shalders), e sua irmã, Mary Kennedy,
proficiente em música e pintura.
A Bíblia era ensinada diariamente pelo diretor, e diversos alunos se
converteram e fizeram sua profissão de fé. Entre os alunos, constava um rapazinho de
seus dez anos, por nome Monteiro Lobato; mas o Rev. Kennedy nunca poderia adivinhar
que no futuro esse aluno seria um brilhante escritor brasileiro! Contudo, anos depois
declarou um senhor taubateano, amigo íntimo de Monteiro Lobato, que o escritor certa
vez lhe dissera que recebera grande inspiração como criador de literatura para a infância
brasileira, por ouvir as estórias bíblicas e lendas mitológicas que o Rev. Kennedy contava
seguidamente aos seus alunos.
Com exceção do fanático clero romano, a aceitação do colégio foi total. O
Jornal de Taubaté assim escreveu em editorial:
"Para um colégio que há poucos meses iniciou os seus trabalhos pedagógicos,
foram muito além da expectativa popular os resultados finais dos exames e a festa
escolar. Os alunos ali adquirem um certo movimento social o que é bem raro ver-se nos
nossos colégios de ensino primário e secundário. Para se avaliar bem a importância de
que atualmente goza o "Colégio Americano de Taubaté", basta dizer-se que a maior parte
dos seus alunos, quer desta cidade, quer doutra, são filhos de pessoas muito conhecidas
pelo seu critério, que não correriam pressurosos a trazer seus filhos se não vissem
naquele estabelecimento a garantia de aproveitamento moral e intelectual para os seus
filhos". (Citado do EXPOSITOR CRISTÃO, de 5 de março de 1891).
Quanto mais o colégio crescia na estima do povo culto da cidade, tanto mais a
Igreja Romana o perseguia, assim como ao seu diretor e pastor, Rev. Kennedy. Contou
ele que certa vez, ao pregar ao ar livre em uma rua perto do Mercado, foi atingido no rosto
por tomates podres e cascas de melancia. Um dos piores casos de perseguição por
pretextos fúteis também se deu contra o colégio de Taubaté. O Rev. Kennedy estava
ausente, em São José dos Campos, onde também pregava. No colégio, estavam entre
outros, um missionário recém-chegado, Rev. J. L. Bruce, que ainda não falava o
Português, e o professor Joaquim de Camargo com sua senhora. Mas deixemos que o
Rev. J. R. de Carvalho conte a história, conforme a escreveu para o EXPOSITOR
CRISTÃO de 4 de abril de 1891:
Por causa de um chapéu!
"De tarde, saindo da Matriz uma procissão chamada do Encontro, passou em
frente ao colégio, onde reside o Sr. Bruce. Este, por ocasião de passar a mesma, por
casualidade, se achava de chapéu na cabeça, e chegou à janela. Nisto, os padres, já de
prevenção, pararam com a procissão e um deles pediu a alguém que obrigasse aquele
homem (Bruce) a tirar o chapéu. Imediatamente, algumas vozes se levantaram - porém
ele que não tinha a menor malícia no caso e nem tampouco os compreendia, só quando
principiaram a atirar-lhe pedras, percebeu que era o assunto de tanta algazarra. Saiu e foi
para outro lado da sacada onde a procissão também passava. Aí também o apedrejaram,
sem ele saber que era por causa do chapéu. Foi o Sr. Camargo que lhe disse a causa.”
“Como resultado foram estilhaçados todos os vidros das janelas do colégio.
Mas não foi esse o fim do incidente. Aquela noite, na ausência do Rev. Kennedy, o Rev.
Justiniano de Carvalho ia dirigir o culto. Quando os desordeiros viram o salão de culto
aberto, queriam entrar de assalto para destruírem tudo. O que impediu o ato foi a energia
da polícia e das pessoas grandes da cidade. O motim era composto de mais de 500
pessoas. Uma força policial estacionou defronte à casa, armada de espingarda, para
evitar a desordem.”
“Para dar termo ao motim, alguns amigos se lembraram de pedir ao bispo
católico que se esforçasse por sua autoridade ou conselho a dar termo àquela desordem.
Acompanhado de outros, o bispo dirigiu-se ao grupo e fazendo um discurso a favor da
religião da qual era ministro, finalizou dizendo: "Como ministro de Cristo, vos peço abandonai essa casa!”
“Eis aqui a estória de quanto barulho causou um chapéu!” (Assinado: J. R.
Carvalho).
No dia seguinte, editoriais nos jornais condenavam o que se havia passado,
declarando-se francamente a favor do colégio. Apesar de todo o progresso e aceitação do
educandário, a Conferência Anual, em julho de 1894, determinou que o colégio fosse
mudado para São Paulo. Nenhum motivo se dá no histórico de Kennedy para esta
decisão, mas creio que fundamentalmente influiu profundamente a impressão que a
cidade de São Paulo seria no futuro, o coração do progresso paulistano e por isso devia
ser o centro das atividades da Igreja.
O Rev. Kennedy alugou "três bons edifícios sitos no fim da Rua da Liberdade,
no começo da São Joaquim, não longe da Igreja e da Casa Publicadora". (Kennedy, pág.
375); e quando o colégio para lá mudou-se em agosto de 1894, quarenta e uma internas o
acompanharam. Ao novo educandário se deu o nome de Instituto Wesleyano, creio que
decerto para diferenciá-lo da Escola Americana dos presbiterianos, que fora fundada em
1870 pelo casal Chamberlain, e que depois tornou-se na grande Universidade Mackenzie.
Contudo, por motivos outra vez desconhecidos, ah, quanto não daríamos para
hoje conhecer alguns dos segredos de então! - dentro de dois anos, a Conferência Anual
ordenou o fechamento do Instituto e com isso, a Igreja Metodista em São Paulo retirou-se
por uns oitenta anos do campo educacional. Só em 1965, a Igreja Central de São Paulo
construiu com seu próprio trabalho e recursos, no vasto terreno sito nos seus fundos, um
grandioso edifício de cinco andares, no qual fundou o "Instituto Educacional Metodista". Aí
oferece cursos do primário até o ginasial, atendendo a cerca de 1.200 estudantes daquela
área da cidade e dos subúrbios.
Com o fechamento, porém, o Rev. Kennedy entregou-se novamente à obra de
evangelização, declarando no histórico: “Esse evento ocasionou a sua imediata ida para o
Oeste de São Paulo e não há dúvida, foi o fato culminante que determinou o
estabelecimento do trabalho metodista naquela zona e também no noroeste e sudoeste
do Estado de São Paulo".
CAPÍTULO 24
NO CAMPO DA AÇÃO SOCIAL

Entre as instituições de ação social mais tradicionais da Igreja estão os
conhecidos Instituto Central do Povo e o Instituto Ana Gonzaga.

Instituto Central do Povo
Foi essa uma das respostas mais diretas à oração intercessória que
conhecemos.
Deu-se nos primeiros anos do século vinte, na época da renovação do Rio de
Janeiro, sob a presidência de Rodrigues Alves e a administração do Prefeito Pereira
Passos. Processava-se em um ritmo rápido e brilhante o arrasamento de ruas
antiqüíssimas com seus prédios escuros e apertados, seguido pela abertura de largas e
belas avenidas; a construção de docas modernas, a higienização dos focos anteriores da
febre amarela, varíola e peste bubônica. Milhares de trabalhadores, vindos do interior e do
norte à procura de emprego, congestionavam-se nos lindos morros da cidade, cobrindoos de favelas abjetas sem luz, sem água, sem higiene. Milhares de criancinhas, sem falar
em adultos, cresciam ali sem instrução, sem alimentação adequada, sem oportunidade de
ter um lugar para brincar.
O Rev. H. C. Tucker, homem de grande coração, viu tudo isso e comoveu-se
profundamente. Tinha vontade de servir de alguma forma essas massas humildes e
desfavorecidas pela sorte. Mas como? Dia a dia ficava mais triste ao ver o problema
aumentar.

Mas não sabia onde conseguir os recursos necessários, pois a nossa Igreja
não tinha nem dinheiro nem pessoal para tão difícil obra. Viu, afinal, que a resposta tinha
que vir de Deus.
Convidou os missionários residentes no Rio para se reunirem todas as
semanas em sua casa, com o fim de pedir a Deus que lhes desse os meios de levar
avante sua intenção. Passaram-se semanas, meses, nenhum "corvo de Elias" aparecia
no horizonte trazendo-Ihes os recursos! Estava começando a se convencer que Deus não
queria vê-Io envolvido em tal obra. Um dia, chegou-lhe uma carta de Londres. Quem lhe
estaria escrevendo de Londres?

Abriu a carta cuidadosamente para não rasgar o endereço, e começou a ler:
“Rev. H. C. Tucker - Prezado Sr:
Fiquei recentemente ciente que o Sr. desejava muito fazer uma obra a favor
dos trabalhadores nas docas do Rio de Janeiro e de suas famílias, um objetivo que
considero da máxima importância.
Como presidente da Companhia que está construindo as docas, estou lhe
enviando um cheque para iniciar tal obra. Receba os meus votos pelo sucesso do seu
empreendimento. Etc. etc.”

O Rev. Tucker saiu do seu escritório correndo: "Elvira, Elvira!" chamou pela
esposa "as nossas orações, as nossas orações"; quase balbuciava.
"Mas o que tem elas?" perguntou Dona Elvira meio assustada com a emoção
do marido.
"Foram atendidas! Ah, como Deus opera os seus milagres! Veja só esse
cheque!" Assim foi que Tucker obteve os recursos com que iniciou a magnífica obra que
durante anos tem sido feita pelo Instituto Central do Povo, no bairro da Saúde, no Rio de
Janeiro estabelecimento social, educacional, recreativo, e religioso, com aulas diurnas e
noturnas, Jardim de Infância, cursos de alfabetização, costura e cerâmica, clínicas
dentária e médica, centro de puericultura, trabalho em prol dos surdos-mudos e sua
própria igreja para levar àquele bairro a Palavra de Deus!
Seria absolutamente impossível enumerar todos aqueles que têm tido parte
nessa obra grandiosa de salvar o homem integral, de dar valor aos mais humildes e
desprotegidos. Lá trabalharam - no campo educacional - Miss Layona Glenn, missionária
intrépida; Miss Nancy Rolt, que conseguiu da Prefeitura montar ali um centro de
puericultura que sob os auspícios do Dr. Felinto Coimbra, foi durante anos, o maior do Rio
de Janeiro.
Outros servidores fiéis foram
O Rev. Charles A. Long - pioneiro quando o trabalho começou em um velho
sobrado da Rua Acre e que muito ajudou depois no serviço de transferência legal da
propriedade do Lar Anna Gonzaga, e foi pastor da igreja em Inhoaíba.

O Dr. Antenor de Araújo Dias, cristão dedicado, que já completou cinqüenta
anos de serviço às crianças no Instituto, como dentista;
O Dr. Silvado Júnior, que com classes especiais e dominicais, tanto fez para
melhorar a sorte dos infelizes surdos-mudos jovens e adultos do Rio de Janeiro;
A missionária Allie Cobb Buyers, que se esgotou completamente dando à obra
toda a sua energia e tempo.
O Sr. Edgar Kuhlmann, atual diretor, que tem sido um grande e fiel
administrador da obra.
Muitos outros trabalhadores fiéis e os anônimos que durante dezenas de anos
têm lecionado e servido no Instituto.
Tão dinâmico e eficiente foi o trabalho do Instituto em "renovar" o bairro da
Saúde, que anos atrás, um delegado da polícia no Rio de Janeiro, disse em uma festa à
qual assistia: "Os nossos policiais antigamente tinham até medo de subir esse morro por
causa dos ladrões, assaltantes e assassinos. Agora, depois de vossa ação moralizadora,
sobem-no até com prazer".
Anna Gonzaga e o Lar das Crianças
Nascida em 22 de novembro de 1861, Anna Gonzaga era filha do Major Luís
Gonzaga e Dona Anna Joaquina da Soledade Gonzaga. Seu pai era um abastado
fazendeiro, proprietário de uma grande gleba de Campo Grande, que fazia parte do
Distrito Federal de então. A esse casal, nasceram três filhos - José, Luís e Anna que em
casa chamavam de Anita. A mãe faleceu quando a menina tinha dezoito meses tão-
somente, deixando a pequena entregue aos cuidados de escravas dedicadas. Pouco
depois, faleceu o menino José.
Anita fez-se companhia constante de seu pai seguindo-o pelos campos e
laranjais; e quando mais velha, andando com ele a cavalo pela extensão da fazenda.
Interessava-se em tudo - plantação, animais, os trabalhadores na terra. Mas o Major, que
andava sempre preocupado com a instrução da filha, resolveu colocá-la em um pequeno
colégio de freiras no Rio de Janeiro - freiras que sabia não serem fanáticas. Pois ele,
apesar de nunca aceitar nenhuma religião formal, era homem tolerante, hospitaleiro, que
abria as portas da sua casa a quem o procurasse, padre católico ou pregador protestante.
Entre aqueles que visitavam o Major com certa regularidade, estava o Sr. José
de Araújo, irmão de um pregador metodista. O Sr. José, apesar de não ser crente
declarado, sempre levava consigo uma cópia do Novo Testamento e Salmos que talvez
lhe fora presenteada pelo irmão. Quando Anita viu o livro, ficou encantada e pediu ao Sr.
Araújo que lhe desse, o que ele fez com prazer. Anita nada sabia sobre o livro, nada do
seu valor espiritual - era simplesmente um livro de capa bonita e com páginas de beiradas
douradas. Ela o colocou entre os seus tesouros de criança, mas não o leu.

Passaram-se os anos. Um dia, quando já moça, Anita ouviu de uma casa em
frente o cantar de hinos evangélicos. Parecia-lhe o cantar de anjos. Interessou-se;
indagou, comprou um hinário, e começou a cantar e tocar os hinos ao piano. O Major
nunca se casara em segundas núpcias; agora, idoso, viu que seria necessário
providenciar a distribuição de seus bens. Reconhecendo o grande amor que a sua filha
tinha pela fazenda, e a capacidade dela em administra-Ia, declarou-a testamentária e
administradora de tudo. Contava ela então quarenta anos. Tendo falecido o seu irmão
Luís, Anna, antes de mais nada, entregou a sua parte da herança ao filho de Luís. Com a
morte do pai, Anna arrendou a fazenda e foi morar em uma casinha sem luxo, na cidade.
Conversão de Anna
Mas por motivos que não entendia, Anna nunca sentia paz de espírito. Talvez
relembrando os hinos que ouvira e cantara na sua solidão, procurou uma igreja
evangélica, e começou a assistir aos cultos da Igreja Episcopal ali perto. Aos 51 anos,
"nasceu de novo"; converteu-se sob o Rev. William Brown (depois bispo daquela igreja) e
foi confirmada. Tanta paz, tanta alegria espiritual lhe trouxe a sua fé, que determinou
compartilhá-la, evangelizando a comunidade em que vivia. A sua própria custa, alugou e
mobiliou uma casa onde se podiam realizar cultos e Escola Dominical, e ela mesma
ensinava na Escola, ou, na ausência do pastor, até dirigia os cultos.
Devido, porém, a um desentendimento com o pastor que sucedeu ao Rev.
Brown, e que ela julgou não mostrar interesse pela pequena congregação, Anna deixou
de assistir aos cultos, satisfazendo-se com suas próprias devoções. Passaram mais 14
anos; começou a assistir à Igreja Metodista em Vila Isabel, e dela tornou-se membro fiel
até à morte. Teve grande influência na sua vida, durante esse tempo, o Rev. Oswaldo
Couto Caire; e podemos dizer que muito deve o orfanato a esse ministro.
Anna, que foi sempre de coração bondoso, ajudava os necessitados, contribuía
regularmente para a Sociedade Bíblica, Missão aos índios Caiuás, e para associações
benevolentes. Mas com toda a sua fortuna - nada de luxo! Conservou-se sempre humilde
de espírito e democrata em seus atos e atitudes. Estudava assiduamente a Bíblia,
meditava nela; convencendo-se de que Deus tinha para sua vida um desígnio, um
propósito muito especial na vida. Tomou sobre si a responsabilidade pela sua
comunidade em Inhoaíba, adjacente à fazenda; e com seus próprios recursos, mandou
construir uma casa que serviria de capela e residência pastoral. Essa foi inaugurada em
31 de julho de 1927, sendo nomeado seu pastor o pregador local, o Sr. Manuel Batista
Leite, que também exerceu influência positiva na vida espiritual de Anna.
Duas vidas se entrosam
Apesar de todas as suas boas obras e suas atividades em promover o
conhecimento do Evangelho, Anna ainda sentia uma dúvida quanto à melhor maneira de
deixar em testamento seus recursos. É agora que se entrosam as vidas de Anna
Gonzaga e Layona Glenn; é agora que a missionária ajuda a nobre brasileira a descobrir
o que Deus queria com sua vida e fortuna.

Layona Glenn tinha pedido insistentemente à Conferência Anual que fundasse
um lar para cuidar das crianças abandonadas e desprezadas que se viam por todos os
lados. Duas vezes a Conferência recusou-se dizendo: "Não sabemos onde encontrar os
fundos; e não temos obreiros para tal obra". Mas Miss Glenn não desanimou - já
combatera a oposição do clero romano contra as escolas que dirigira; já enfrentara sem
medo, as ondas epidêmicas da febre amarela e varíola. Venceria agora a indiferença, o
temor, a falta de fé dos líderes da Igreja. Quando, pela terceira vez apresentou-se à
Conferência Anual, pedindo seu auxílio, esta, ante a teimosia da mulher respondeu: "Bem,
não podemos dar-lhe recursos nem obreiros, mas damos-lhe licença de fazer o que puder
para fundar o orfanato".

Deus começou a mostrar-lhe o caminho. O Rev. Osório do Couto Caire,
sabendo do interesse de Miss Glenn, foi visitá-la e informou-lhe que tinha na sua igreja
em Vila Isabel, uma senhora, de certa idade, solteira, sem herdeiros e proprietária de uma
grande fazenda perto de Campo Grande. Seria bom conhece-Ia, mas advertiu-a: “Cuidado
em apresentar-lhe o assunto de um orfanato! Ela desconfia logo dos que vêm solicitando
auxílio para isso ou aquilo”.

Um dia ele levou Miss Glenn para fazer-lhe uma visita; e de uma vez, Deus
entrelaçou os dois corações, criou entre as duas uma profunda simpatia. A missionária
que nunca se deu por vencida, parecia ouvir a voz de Deus a murmurar-lhe: “Eis a tua
oportunidade - eis a resposta às tuas orações".
Anna abriu-lhe o coração, falando sobre os seus ideais e sonhos. Miss Glenn,
com delicadeza, procurou interpretar esses sonhos e anelos espirituais como sendo a voz
divina a lhe falar. E em breve, estava apresentando-lhe o projeto de um lar para crianças,
a concretização de um sonho que se prolongaria por anos após a sua morte.
O sonho realizado
Os olhos de Anna brilhavam “É isso mesmo, isso mesmo!", exclamou, "sei que
estou afinal descobrindo o que Deus quer com os meus bens". Sua vida diária tornou-se
radiante; um hino de louvor a Deus. Com imensa alegria, viu o lar começar a tomar forma;
e aguardou ansiosa a inauguração, que seria no dia 1º de maio de 1932. Mas só pôde
assisti-Ia do céu.

No dia 14 de março caiu, fraturando a perna; e após muitos sofrimentos,
faleceu no dia 1º de abril, com a idade de 71 anos. Com exceção de uma dádiva generosa
a um afilhado, e o custo da manutenção dos túmulos da família, Anna deixou tudo o que
possuía à Igreja Metodista do Brasil.
Obreiros no Lar
As primeiras a trabalharem no Lar, quando pouco havia lá a não ser um velho
casarão descuidado e sem comodidades, e alguns estábulos para animais, foram Layona
Glenn, a própria idealizadora do Lar, já na quadra dos sessenta anos e a dedicada Dona
Amália Coelho, que fora sua auxiliar no Colégio em Petrópolis. Enquanto essa cuidava da
casa e da alimentação para as duas e as poucas crianças que tinham sido internadas,
Miss Glenn subia e descia os morros do pasto, caminhando pelos laranjais e entre os
coqueiros numa faina extraordinária sonhando e planejando o que faria de melhor com a
fazenda.
As igrejas do Rio começaram a demonstrar o interesse que Miss Glenn sabia
estar nelas latente; os melhoramentos foram sendo feitos e vieram colocar-se ao lado dos
pioneiros outros elementos de valor. A Legião Brasileira de Assistência ajudou a construir
os prédios permanentes que são dominados por uma linda capela construída pelo casal
Tims. O Rev. James Edwin Tims, com o auxílio de sua dedicada esposa, Dona Nancy
Schisler Tims, fez um trabalho monumental para o Lar. O Rev. Tims, filho de fazendeiro
nos Estados Unidos, de tal modo expandiu e desenvolveu a fazenda do Lar, melhorando
sua criação agrícola e suína, que recebeu do governo diversos prêmios.

Hoje (fins da década de 60!) é seu dirigente, o Rev. Luís Machado de Morais.
Muitas vezes, durante a sua vida, as amigas de Anna Gonzaga lhe pediam que
tirasse uma fotografia para colocar no orfanato. Mas ela sempre se negou dizendo: "O
orfanato será o meu retrato". Quantas que não tivemos o privilégio de conhecê-la em vida,
não gostaríamos de olhá-la com admiração! Contudo, o verdadeiro retrato dessa
admirável mulher podemos ver nos rostinhos radiantes, nos corpos bem alimentados, nas
mentes e nos espíritos enriquecidos de centenas de criancinhas que sem o Anna
Gonzaga estariam dormindo nas calçadas do Rio, procurando, senão roubando, o seu
alimento nas latas de lixo; crianças sem instrução escolar e sem conhecimento da Palavra
de Deus, sem a mão compassiva para lhes mostrar e guiar nos caminhos do Senhor.
Honra ao nome de Anna Gonzaga!
Instituto Rural de Itapina
Em princípios do século 20, já haviam viajado e pregado no Estado do
Espírito Santo, os Revs. Kennedy e Alfredo Duarte. Em fevereiro de 1903, por ocasião de
uma visita a Vitória, naquele Estado, os Revs. Parker e J. M. de Camargo receberam os
primeiros membros da Igreja na Capital capixaba.
O trabalho, porém, não frutificou devido à falta de um obreiro residente.
Foi depois nomeado para lá o Rev. Charles W. Clay, que fez grande trabalho.
Um dos frutos foi o "Instituto Rural" em Itapina, uma resposta metodista à imensa
necessidade de oferecer à juventude daquela região não só instrução escolar como
melhores métodos de agricultura. Os alunos, rapazes e mocinhas aprendiam como
melhorar sua vida no campo - no cuidado da casa, na higiene, em novos métodos
agrícolas e agro-pecuários.
Em lugar afastado e de difícil acesso, os seus diretores e professores têm-se
sacrificado para executar a obra. Foram sucessores de Charles Clay os Revs. Peterson,
Goodwin, Féo e Coelho.
Centro Rural Bispo Dawsey
Foi fundado em Maringá em 1961 em homenagem ao bispo da VI Região.
Diferentemente do Instituto Rural que é um colégio, aqui existe um centro de orientação
para toda uma vasta região. Ao centro está ligado o nome da consagrada obreira
metodista Anita Cordeiro, enfermeira diplomada, trabalhadora social, que, sem descanso,
lida com as famílias ignorantes e necessitadas daquela zona; e que já trouxe à luz do
mundo, cerca de cinco mil criancinhas. A primeira família de missionários da Igreja Unida
do Canadá, os Strachan dirigem presentemente esta obra.
CAPÍTULO 25

A MULHER NO CENÁRIO METODISTA

“Deus tem usado as mulheres na conversão dos
pecadores. Quem sou eu para resistir a Deus?”
João Wesley
As mulheres nos primórdios do movimento metodista
Quem conhece a história do metodismo desde a sua origem forçosamente
reconhece que a mulher nele desempenhou sempre um papel valioso. Lembramo-nos de
imediato de Susana Wesley, a "Mãe do Metodismo", cuja influência sobre a educação e o
crescimento espiritual dos seus filhos foi de profunda significação no movimento fundado
pelo seu filho João, e, portanto, no mundo.
Contra as tradições do dia e os protestos do seu próprio sexo, Wesley teve a
coragem de declarar abertamente: “Deus tem usado mulheres na conversão de
pecadores. Quem sou eu para resistir a Deus?"
Todavia, não só na Inglaterra, mas na América do Norte, foi muito forte o
sentimento contra a participação da mulher nas atividades da Igreja - o que não é de se
admirar porque também em outros campos de atividade, ela não era reconhecida como
tendo direitos. Nota positiva está no fato do metodismo nos Estados Unidos dar o voto à
mulher nas igrejas locais, antes do governo dar-lhe nas eleições políticas.
Passaram-se muitos anos antes que as mulheres fossem admitidas aos
concílios da Igreja - o que era lógico, dada a relutância clerical em admitir até homens
leigos. Foi só em 1904 que a Conferência Geral nos Estados Unidos, abriu as suas portas
às mulheres, dando-Ihes assento nos concílios.
A mulher brasileira no metodismo
Estes fatos tornam ainda mais notável a influência da mulher brasileira nas
atividades da Igreja. Para a brasileira que hoje trabalha e estuda à noite, que ocupa seu
lugar no comércio, nas profissões e na política do país, não é mais novidade, assumir
posições igualmente relevantes nas atividades de sua Igreja. Mas naqueles primeiros
anos do metodismo no Brasil era realmente de se admirar que tão cedo a mulher
começasse a se interessar e entrosar-se nesta obra, ou aceitando cargos de
responsabilidade e liderança, ou humildemente e sem alarde fazendo o que podia
conforme sua capacidade. Converter-se ao protestantismo já era um rompimento com a
tradição; começar a ativar-se individual e coletivamente na igreja, era romper um tabu
ainda maior.
A primeira Sociedade de Senhoras
Os primeiros missionários que vieram dos Estados Unidos perceberam logo a
urgência de empregar nas igrejas os talentos e a dedicação da mulher brasileira crente.
Foi assim que o Rev. J. L. Kennedy organizou, em 1885, na igreja do Catete, no Rio de
Janeiro, a PRIMEIRA SOCIEDADE DE SENHORAS, batizando-a com o nome de
Sociedade Missionária.

Consistia ela, em grande parte, de americanas e inglesas, pois ainda não
constavam do rol da igreja muitas senhoras brasileiras. Todavia, algumas brasileiras
havia, destacando-se entre elas, Dona Clementina Rosa Gomes de Souza Shalders,
maranhense, casada com um senhor inglês, a quem seu pastor descreveu depois como
"uma senhora verdadeiramente eleita que, com .toda a lealdade, içava o estandarte da
Cruz de Cristo. Senhora há alguns anos falecida, a sua vida santa ficou gravada entre
americanas e brasileiras, nas fileiras da igreja do Catete; e ainda pelos bons filhos crentes
por ela influenciados". Poderíamos chamá-la “a primeira Eunice” do nosso metodismo
pátrio.
Metodistas no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, quando o trabalho ali era ainda dirigido pelos metodistas
do Norte dos Estados Unidos, a missionária Miss H.M. Hegeman organizou a primeira
Sociedade de Senhoras, chamada Auxiliadora, em 1898, na Igreja Central de Porto
Alegre. Tinha por alvo levantar fundos para a construção de um templo. A segunda
Sociedade no Sul foi organizada na Igreja Institucional na mesma cidade no mesmo ano.
Foi presidente da primeira, Dona Hermínia Weingaertner.

A essas Sociedades pioneiras, seguiram-se outras, designadas sempre de
Auxiliadoras, porque o seu principal propósito era ajudar o trabalho da igreja local da qual
faziam parte. E nisso, todas brilharam, como podemos ler nos relatórios das Conferências
Anuais. Em julho de 1896, relatou-se que elas foram louvadas pelo auxílio real que
prestaram na aquisição e construção dos templos e casas pastorais, e a elas foi
recomendado "que continuassem nessa boa obra". E das Sociedades do Rio Grande do
Sul, foi dito: "O trabalho por elas realizado é gigantesco - uma gloriosa manifestação do
poder de Deus na fraqueza de suas servas".
Alarga-se a visão
Depressa as senhoras começaram a perceber que de sua Jerusalém deviam ir
até Samaria - e da Samaria aos confins do mundo. Perceberam, também, que tanto os
corpos e as mentes como as almas, precisavam ser redimidas para Jesus Cristo.
Começaram a pensar em termos sociais, e como Jesus, compadeceram-se das multidões
ao seu redor. Relembraram-se do lema de Wesley - "O mundo é a minha paróquia", e
começaram a sair dos restritos limites das suas próprias paróquias no serviço do mundo
ao seu redor.
Viram criancinhas órfãs, abandonadas, mal-tratadas, sem instrução, e uniram
os seus esforços para fundar lares onde pudessem ser abrigadas, instruídas, e orientadas
na vida cristã, assim preparadas para ganhar a vida como cidadãs respeitáveis e úteis.
Entre estes, o primeiro e maior, foi o Instituto Ana Gonzaga, em Inhoaíba, na Guanabara;
o segundo, o Lar Metodista em Santa Maria, Rio Grande do Sul, fundado pelo Rev. Adolfo
Ungaretti e esposa, Dona Luísa. Tornou-se ele a "menina dos olhos" das Sociedades no
Rio Grande do Sul. Quanto ao primeiro, apesar de não ter sido fundado pelas Sociedades
propriamente ditas, foi o fruto de duas eleitas do Senhor - Anna Gonzaga, brasileira, e
Layona Glenn, - missionária americana e grande inspiradora e colaboradora das
Sociedades de Senhoras.
Ouviram o desespero dos índios Caiuás, vítimas de uma civilização que tudo
lhes tirou e nada lhes deu. E inspiradas pela missionária Leila Epps, que, arriscando-se
nas selvas, foi visitá-los em pessoa, muitas sociedades contribuíram para o sustento de
um médico, o nobre jovem metodista Dr. Nelson de Araújo. Este, deixando as grandes
metrópoles onde podia se ter enriquecido, embrenhou-se na vida primitiva da mata para
dedicar-se ao trabalho cristão entre estes, também nossos irmãos.
Viram, também, criancinhas mal-nutridas, em farrapos, crescendo na
ignorância e superstição, sem instrução que os preparasse para a vida - e ajudaram a
criar o Instituto Central do Povo no Rio de Janeiro. Junto às suas igrejas, organizaram
clínicas ou ambulatórios, fundaram classes de alfabetização e escolas paroquiais.
Sustentaram lares para velhinhas desabrigadas ou sem família que as pudessem receber,
como o Lar Ottília Chaves em Porto Alegre, que perpetua o nome dessa grande líder
metodista. E fundaram estabelecimentos como a Casa de Assistência à Criança também
em Porto Alegre, onde tratamento médico e dentário é oferecido num belíssimo edifício
construído em terreno "metodista" pelo Lions Club (Centro) de Porto Alegre. Ajudaram a
fundar colégios, como o Noroeste em Birigui, onde ensinaram as dedicadas professoras
Áurea Gonçalves e Maria Orminda França - ambas de famílias metodistas pioneiras.

Nalguns lugares, cientes de que moços dedicados aspiravam ao ministério,
mas não podiam custear nem as despesas mínimas de estudo em Seminários,
estabeleceram fundos para ajudá-los - tais como o Cofre Adelaide Vurlod, cujo nome
honra a mulher gaúcha que primeiro o promoveu.
Na pessoa de Eunice G. Weaver, a dinâmica mulher metodista brasileira de
quem nossa igreja se orgulha com razão, ouviram o lamento dos leprosos do país, e em
apelos ao público e aos governantes, conseguiu ela estabelecer pela nação mais de trinta
lares ou Educandários que assistem aos filhos dos hansenianos, instruindo-os e
preparando-os para o sustento próprio e a integração na sociedade.
Alargando sua visão, conseguiu ganhar o interesse de todas as religiões, todas
as classes, nessa magnífica obra que atinge até aos nossos territórios. E Eunice Weaver
tem sido condecorada não só pelo governo do Brasil, mas por nove outros governos da
América Latina e foi a única protestante a receber a célebre medalha católico-romana
Damien. Além de tudo isso, representa esse ano o Brasil como conselheira na ONU.
(1966-1967).
Eunice Weaver foi o fruto dos nossos colégios metodistas, especialmente do
Instituto União de Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Casou-se com um nobre missionário
metodista, Charles Anderson Weaver, que foi seu grande ajudante e inspirador.
A voz da mulher metodista
Desejosas de trabalharem ainda mais eficientemente, as metodistas bem cedo
sentiram a necessidade de uma publicação que expressasse seus ideais para guiar,
inspirar e uni-Ias em sentimento e trabalho cristão. Deixando os seus lares e afazeres,
viajaram de longe - eram seis dias a vapor do Rio Grande do Sul a São Paulo - e, sob a
inspiração de Leila Epps, aqui fundaram em 1930 a "Voz Missionária", que se tem tornado
a revista evangélica de maior circulação no Brasil.
Não descansaram comodistas, para deixar nas mãos da Imprensa ou alguma
pessoa menos interessada, o crescimento da revista. Nomearam agentes que lideradas e
incentivadas por Leila Epps e a entusiástica trabalhadora Zaida Guerra, saíram por todos
os lados angariando assinantes, não só entre metodistas, mas entre amigas fora da
igreja, e para os escritórios dos seus dentistas e médicos. Enviaram-na até às praias de
Portugal, Madeira e Angola, onde quer que se fale a língua de Camões.
Creio que nunca, em todo mundo, um grupo pequeno de senhoras trabalhou
tão dedicadamente para colocar uma revista cristã nas mãos do seu povo. Toda a honra a
agentes como Fafá Castagnino do Rio Grande do Sul, que vem mantendo há muitos anos
mais de mil assinaturas, angariando-as de porta em porta; Helena Koeche, da mesma
região segue seus passos com 630 assinaturas; Jenny Di Giácomo na terceira Região
relata 830 assinantes; Amália Vettore da primeira, Judith de Oliveira da quarta e Davina
de Sá na quinta, todas angariaram mais de 400 assinaturas cada! Nem podemos deixar
de mencionar Neusa Canfield, que na Sexta Região, a caçula do metodismo, já angariou
350 assinantes em Curitiba!
***

Que diremos de todos os outros trabalhos que as senhoras metodistas têm
feito evangelizando, visitando os doentes em casa e nos hospitais, alegrando os
alienados em suas instituições com doces, roupas, e cultos de hinos e oração; levando a
mensagem de salvação aos encarcerados, procurando reabilitá-los para se tornarem
cidadãos respeitáveis da sociedade?
O que diremos da sua dedicação em estudar a Bíblia e livros inspiradores nas
suas reuniões, para se tornarem mais preparados no serviço cristão? Em ensinar nas
escolas dominicais, em dirigir escolas bíblicas de férias? Quão difícil não seria a tarefa de
qualquer pastor que não encontrasse nas senhoras da igreja, centenas de mãos direitas a
lhe levantar os braços - qual Arão a levantar durante a batalha, os braços fraquejantes de
Moisés!
E como terminar este rol de obras santas, sem mencionar especialmente as
esposas dos pastores que se têm esforçado, sacrificado e sofrido também, com suas
longas ausências quando em viagens distritais ou missionárias, e com as difíceis
mudanças de cidade a cidade?

Datas a lembrar
"O fim para que os homens inventaram os livros foi para conservar a memória
das coisas passadas contra a tirania do tempo, e contra o esquecimento dos homens que é ainda a maior tirania".

Assim escreveu Antônio Vieira no século 17, mas o que disse aplica-se bem
aos nossos dias. Gostaria de relembrar a razão de algumas datas importantes para a
mulher metodista.

.

23 de abril de 1926
As Sociedades de Mulheres tinham se multiplicado, mas sem os conselhos e
auxílios de que precisavam para realmente se tornarem forças dinâmicas no metodismo
nacional. Sentia-se a falta de liderança de uma organização comum e unificadora. Foi
então que a missionária Layona Glenn, já experimentada com tal trabalho nos Estados
Unidos, começou a sugerir a criação de uma "Interconferencial". Três senhoras foram
nomeadas para estudar o assunto; e depois de um ano de preparo, convocaram uma
reunião de delegadas das três Conferências Anuais, para virem à Igreja Central de São
Paulo em abril de 1926. Ali, sob a liderança de Miss Glenn, organizaram a primeira
Sociedade Missionária Metodista. O então pastor da Igreja Central, o Rev. J. L. Kennedy,
que sempre dava valor ao elemento feminino, foi o auxiliar e encorajador das senhoras,
sendo por esse motivo batizado por elas com o título de "Patrono das Sociedades de
Senhoras". Em 23 de abril de 1926, ele deu posse à primeira Diretoria da novel
organização que ficou assim constituída, e a quem devemos honrar.
Presidente - Francisca de Carvalho, então uma jovem e dedicada professora de 29
anos, que serviu onze anos consecutivos como presidente;
Vice Presidente - Lainha Fernandes;
2a Vice Presidente - Esther Faria;
Secretária Correspondente - Evelina Perier;
Secretária Registradora - Hilda de Araújo;
Tesoureira - Irene de Souza.
As Secretárias Distritais foram:
Etelvina Becker - Juiz de Fora;
Cândida Faria - Ribeirão Preto;
Áurea de Campos Gonçalves - São Paulo;
Sinhàzinha Duarte - Cataguases;
Anna Kopal - Rio de Janeiro.
Foi Anna Kopal convertida quando aluna no Colégio Fluminense, sob a influência de
Layona Glenn. Consagrou-se ao magistério nas nossas escolas metodistas. Vítima depois
do mal hanseniano, e recolhida a um hospital, tornou-se o exemplo amado e a inspiração
de suas "colegas" e das freiras que ali serviam.
3 de setembro de 1930
Foi essa a data da fundação da revista "Voz Missionária", e as seis mulheres
metodistas que participaram da reunião, foram:
Pela 1ª região - Lydia W. Martins e Gláucia W. Duarte (eram irmãs e filhas do
veterano Rev. Franck Wiedreheker e de sua esposa Dona Emília, verdadeiramente os
baluartes do metodismo pioneiro).
Pela 2a região - Eula Kennedy Long e Mercedes Seabra, ambas das quais
serviram diversas vezes como presidentes e secretárias correspondentes das Sociedades
no Rio Grande do Sul.
Pela 3a região - Ottília de Oliveira Chaves (que durante os seus muitos anos de
serviço, tem sido presidente da Sociedade Conferencial, presidente do Congresso
Mundial de Senhoras Metodistas, delegada ao Concílio Internacional de Missões em
Madras, índia; delegada e conselheira legislativa no Concílio Geral de 1965; membro da
Comissão Histórica da Igreja Metodista) e Odete de Oliveira Barbieri, irmã de Dona Ottília,
sempre líder esforçada nas igrejas onde trabalhava com seu marido - o pastor, hoje bispo
da Região Platina, Rev. Sante Uberto Barbieri.
Trabalho de Ação Social e visitadoras
Nem toda a obra das metodistas foi feita por intermédio de suas
Sociedades.
As primeiras missionárias vindas dos Estados Unidos, impressionadas com a
situação dos desprivilegiados, perceberam logo a urgência de fazer mais do que instruir e
lecionar em colégios. Segundo Miss Glenn, o primeiro passo definitivo neste sentido se
deu quando ainda existia a Escola do Alto - isso é, antes de 1895. Miss Mattie Jones, uma
das professoras nessa Escola, essa que durante uma epidemia da febre amarela visitava
de casa em casa levando tigelinhas de canja aos doentes, pediu licença à Junta
Missionária de Senhoras para organizar um trabalho nas "estalagens" do Rio de Janeiro,
termo que ela usava referindo-se aos becos e às favelas superlotadas da cidade.
Concedida à licença, Miss Jones arranjou um harmônio portátil - não se diz
como ou onde! - e com outras missionárias e o Rev. H.C. Tucker, começou a realizar
cultos ao ar livre nas "estalagens". Escreveu Miss Glenn que "quase todos os moradores
do lugar saíam das casas para escutar, e não poucos foram atraídos e convertidos".

Em 1890, a Junta enviou ao Brasil, Miss Amélia Elerding para fazer esse
trabalho no Rio; e seis anos mais tarde, Miss Willie Bowman. Reconheceram essas de
imediato que seria necessária a colaboração de senhoras brasileiras se quisessem entrar
nos lares; mas como então as brasileiras não costumavam sair muito de casa, a não ser
acompanhadas do marido ou de empregadas, não foi fácil conseguir o objetivo.
Todavia, aos poucos foram encontradas tais senhoras, destacando-se por ser a
primeira da igreja Metodista a oferecer-se para essa obra, Dona Maria Gomes, do Rio de
Janeiro. Com o passar do tempo, outras começaram a servir dessa maneira, D

a

Antônia

Blanco no bairro junto ao Instituto Central do Povo, Rio; e Da Olympia Andrews, viúva do
pregador local, Rev. Lancey Andrews, pela Igreja Central de São Paulo. Foi inestimável o
valor do que elas faziam, visitando nas casas, lendo e explicando a Bíblia, orando e
mostrando concretamente a simpatia de corações verdadeiramente cristãos. Devido à
premente necessidade de professoras nos colégios, Miss Bowman foi depois transferida
para Ribeirão Preto, e Miss Elerding foi para São Paulo, onde fez uma boa obra no bairro
dos italianos.
Veio depois a missionária May Dye, que começou trabalhando no Instituto
Central do Povo, no Rio, mas que abandonou esta obra por outra ainda mais abençoada
e feliz para o Brasil. Casou-se com o missionário Claude L. Smith, de quem foi esposa e
colaboradora dedicada, e o casal deu ao metodismo do Brasil três outros missionários:
Rev. Wilbur K. Smith, ora, bispo da VI Região; Dorita, obreira no campo de alfabetização
de Adultos; Gladys, casada com o Rev. João Nelson Betts.
Também contribuíram generosamente para o trabalho de ação social de nossa
igreja no Instituto Central do Povo as missionárias Leila Epps, Nancy Holt, Mary Bowden e
Allie Cobb. Esta, mais tarde se casou com o Rev. Paul E. Buyers. Lamentavelmente esta
forma de trabalho foi diminuindo com o tempo. A Junta nunca mais enviou missionárias
destinadas especificamente para este fim.
Diaconisas em cena
Em recentes anos este trabalho social foi-se tornando mais intenso, tanto no
governo como na igreja. O Instituto Metodista, em São. Paulo, foi criado para preparar
moças cristãs em serviço social para ajudar a igreja nos seus centros rurais, para
servirem como diretoras de educação religiosa e orientadoras de música sacra. No Centro
Rural Bispo Dawsey, em Maringá, em Brasília e suas cidades satélites, e na Vila Noal, em
Santa Maria (RS), as diaconisas têm feito um excelente trabalho. Entre essas, brilham os
nomes de Anita Cordeiro, Ruth Prates, Anaildes Perreira e Maria Onofre.
Autonomia, setembro de 1930
Com a autonomia da Igreja Metodista em 1930, a nomenclatura da igreja foi
mudada e as Sociedades Missionárias tornaram-se SOCIEDADES METODISTAS DE
SENHORAS, como hoje são chamadas. Até então as Sociedades haviam realizado uns
trinta Congressos nas três Federações, ano a ano ampliando a esfera de suas atividades.
Tinham o seu próprio distintivo que ostentavam com justificável orgulho; e no distintivo,
planejado pela incansável Leila Epps, ficava gravado o lema sob qual dirigiam as suas
atividades, VIVER PARA SERVIR. Esse lema foi usado pela primeira vez numa palestra
feita num congresso no Rio Grande do Sul, pela então presidente Eula K. Long.
Hoje, nas seis regiões eclesiásticas há quase 500 sociedades com cerca de
15.000 sócias, que levantam mais de cem mil cruzeiros novos por ano, empregados no
glorioso serviço do Senhor.

"FALA SENHOR, QUE OUVIMOS. Desejamos servir-te sempre com alegria,
dedicação, e sabedoria. Que tua graça seja sobre nós, e que brilhe nas nossas
atividades. Em nome de Jesus, nosso Mestre e Salvador". AMÉM.
CAPÍTULO 26
MEMÓRIAS DA IGREJA DO CATETE
O Rev. Tilly e a pedra
Poucos talvez se lembram do dia quando o nosso primeiro templo no Brasil
tinha que proteger suas lindas vidraças coloridas com pesadas tiras de arame. Isso
porque, desde sua construção, um dos prazeres dos moleques e fanáticos era atirar
pedras contra as janelas, destroçando os seus vidros.
Certa vez, quando ali pregava o Rev. E. A. Tilly, um moleque dos mais
atrevidos atirou para dentro do templo uma pedra, que quase deu na cabeça do pregador.
Acontece que o Rev. Tilly, na sua mocidade nos Estados Unidos, fora um bom jogador de
beisebol. Sem uma palavra, o pastor ao ver a pedra chegar, pegou-a como se fosse uma
bola de beisebol e atirou-a novamente à rua, continuando o sermão como se nada tivesse
acontecido!
O Catete e a Ilha da Madeira
A veterana Miss Glenn gosta de contar outra história daqueles dias pioneiros. À
entrada do portão do templo, a igreja tinha colocado um banco no qual quem quisesse,
podia descansar. Certa tarde, ao chegar para uma reunião das senhoras, viu ali sentadas
duas

senhoras

estranhas,

vestidas

de

luto.

Cumprimentou-as

amigavelmente,

entabulando conversa. Ficou sabendo, então, que elas haviam vindo da Ilha da Madeira
para visitar um irmão muito doente, que veio a falecer.

Com toda a cortesia e simpatia, convidou-as para assistirem à reunião, o que
elas aceitaram. Naquela ocasião, Miss Glenn estava fazendo um estudo bíblico, usando
por tema a história da mulher samaritana no poço. As visitantes gostaram tanto que
começaram a assistir aos cultos e, em pouco tempo, entregaram-se a Jesus e fizeram sua
profissão de fé.
Voltando, porém, à Ilha da Madeira, não encontraram perto nenhuma Igreja
Evangélica. À tardinha, conforme o uso da Ilha, as famílias se assentavam nos portais
para conversar. As irmãs começaram a cantar os hinos que tanto lhes deliciava as almas.
Em breve as vizinhas se aproximavam para escutar e as irmãs tinham a seu redor uma
pequena congregação, a quem contavam as histórias da Bíblia.
Muito depois, as irmãs souberam que um bispo metodista, o Bispo Hartzell,
cujo campo incluía também a África, permaneceria ali alguns dias para pregar. Elas foram
encontrar-se com ele a bordo; contaram-lhe que tinham um grupo de senhoras já
conhecedoras do Evangelho e prontas a fazer a sua profissão de fé. Pediram-lhe que as
recebesse e organizasse uma congregação. Isso ele fez com alegria.

Foi assim que uma conversa amigável, feita por acaso, mas sempre com a
preocupação de testemunhar a fé, levou o Evangelho desde as portas do Catete às praias
da Ilha da Madeira!

.

O Divórcio e a Igreja do Catete, Rio.
Um dos casos "célebres" da nossa Igreja deu-se em 1904, com o pastor do
Catete, Rev. Jovelino M. de Camargo. Fora ele convidado para fazer o segundo
casamento de um senhor divorciado, aliás, por motivos justos, da sua mulher ainda viva.
As autoridades da Igreja, incluindo o Bispo, sendo consultados, foram de opinião que
esse casamento não poderia ser feito, em vista das leis do país.
Outro pastor de uma igreja que se chamava evangélica, mas que não era
reconhecida pela Aliança Evangélica aceitou fazer a cerimônia religiosa sem a civil. Para
o evento, o Rev. Jovelino emprestou a Igreja do Catete, o que levantou naturalmente,
severas críticas à Igreja Metodista.

Resultou o ato no julgamento e suspensão do ministro pelos seus pares na
Conferência Anual.
CAPÍTULO 27

A IGREJA METODISTA E BEBIDAS ALCOÓLICAS
Do meu velho baú tiro um cartãozinho desbotado e ali leio: "Eu, Eula Lee
Kennedy, comprometo-me com o auxílio de Deus, a nunca tomar bebidas alcoólicas,
incluindo vinho, cerveja e licor de maçãs... ". Surge-me repentinamente, o rosto meigo de
Martha Watts, a primeira missionária metodista no Brasil, fundadora do antigo Colégio
Piracicabano, que me conduziu através dos seus conselhos a assinar o compromisso de
abstinência total; e agradeço a Deus pelas convicções que bem cedo ela me implantou na
mente e no coração.
Todavia não foi ela a primeira a ensinar-me os males das bebidas alcoólicas,
pois já dos meus pais recebia tais ensinamentos e deles o exemplo de uma vida
abstinente. Como podia ser de outra maneira?
Pois desde os seus primórdios na Inglaterra, o metodismo combateu o uso e a
venda de bebidas alcoólicas. Dizem os historiadores Luccock e Hutchinson, que "o
movimento em prol da temperança foi durante o século 19, a batalha que mais atraiu o
interesse e entusiasmo das igrejas, a batalha na qual o metodismo prestou à pátria um
dos seus melhores serviços. Numa época em que a sociedade estava praticamente
imersa num banho de álcool; o testemunho metodista contra este mal colocou-o na
vanguarda de seus dias".

As regras gerais compiladas por João Wesley tinham um parágrafo muito forte
contra a "embriaguez, a compra e venda de bebidas espirituosas, ou delas beber, exceto
em casos de extrema necessidade". Apesar dessa regra, o sentimento nas igrejas vacila
pró e contra, e foi somente na disciplina de 1848, que a Igreja Metodista resolveu
enfrentar a batalha que até hoje tem travado.
Ao que sabemos, nunca Miss Watts organizou uma associação como a União
Feminina de Temperança Cristã, da qual fazia parte nos Estados Unidos; mas, como o
pioneiro Daniel Kidder, onde quer que fosse, falava contra o uso das bebidas alcoólicas, e
se empenhava em conseguir compromissos de abstinência total.

Outro grande batalhador e conferencista sobre o assunto foi o Rev. Walter G.
Borchers, que demonstrava cientificamente em palestras, com experiências e a "lanterna
mágica" daqueles tempos, os efeitos do álcool sobre o organismo humano.
Atitudes da Igreja Metodista no Brasil
Em agosto de 1925, a quinta sessão da Conferência Anual Brasileira assumiu
uma atitude muito forte contra o fabrico e a venda de bebidas alcoólicas, recomendando
aos pastores que não tolerassem como membros da Igreja os que fabricassem e
vendessem tais bebidas. E aos crentes recomendou que "não se julgassem com direito de
convidar os pastores a casamentos quando pretendessem usar bebidas alcoólicas na
solenidade".
Ainda hoje, nos Cânones adotados no Concílio Geral de 1965, a Igreja
Metodista toma uma posição bem definida; contra as bebidas alcoólicas, declarando o
seguinte:
“Visando o bem estar individual e social, propugnamos, pois, pelo seguinte:
1. Combate tenaz e decidido aos vícios causados por tóxicos e narcóticos que
envenenam o homem, e males que corrompem a sociedade; (a) ao alcoolismo que tira
completamente o homem do raciocínio normal e avilta a sua personalidade... (e
acrescenta) “ao tabagismo que se torna dia a dia um vício grandemente danificador... ao
uso indevido de entorpecentes e narcóticos", etc.
Não permita Deus que a nossa amada Igreja se relaxe em combater sem
tréguas esses e outros vícios que tantas desgraças trazem à família e à comunidade ainda mais que o Brasil agora entrou na época da industrialização, de grande movimento
em suas ruas e estradas de rodagem, e precisa exigir mentes e corpos livres dos efeitos
danosos da intoxicação.
CAPÍTULO 28
A VOZ DO EVANGELHO EM BRASÍLIA

Estarão sempre ligados à história do nosso trabalho metodista em Brasília, os
nomes do Bispo Isaías Sucasas e sua esposa, Jacira Correa Sucasas.
O Bispo, dinâmico e de profundo espírito missionário, para ali já seguira
conseguindo do governo terrenos para o nosso trabalho, tanto na própria Capital, como
nas cidades satélites. Ajudado por um outro trabalhador, com suas próprias mãos,
debaixo de um sol ardente, construiu ele a modesta casinha de madeira que usou para
cultos e escola dominical e escola diária. Foi verdadeiramente um trabalho árduo e
ingrato, igual àqueles dos pioneiros norte-americanos em suas florestas virgens.
Historiadores competentes, nomeados pela Igreja, nos darão os pormenores sobre a
origem e o presente trabalho que temos em Brasília.
Julgo, porém, inspiradora, digna de inclusão e dívida para com as gerações de
hoje e amanhã, contar também a história da visita ali feita pela sua dedicada esposa,
Jacira, por ocasião da primeira missa em Brasília, no dia 4 de maio de 1957. Com vênia
da Voz Missionária, no terceiro trimestre de 1957, deixo que ela mesma conte algo do que
foi aquele dia histórico para o Brasil!
“Parti do aeroporto de Congonhas, São Paulo, às 5h30m da manhã e depois de
um vôo direto de cinco horas, descíamos em Brasília. Logo que aterrissamos pudemos
ver também descer o avião que conduzia o Sr Cardeal D. Carmelo, tendo em suas mãos
a imagem da Senhora Aparecida, imagem que foi proclamada pelo Sr Presidente da
República, de madrinha de Brasília.”
“Depois de longa espera, conseguimos um ônibus que nos levou ao local da
concentração, distante do aeroporto 15 quilômetros. Todo este trajeto estava atravancado
de jipes, automóveis, caminhões e pedestres. Umas cinco mil pessoas estavam no local
em plena campina, despido completamente, sob um sol causticante. Houve apenas uma
pequena coberta, onde se abrigavam as altas autoridades.”
A Missa Campal
“Um altar tôsco, tendo à frente um grande cruzeiro de madeira preta,
certamente braúna, estava armado para a celebração da missa. Ornamentando o altar
viam-se flores silvestres colhidas nos campos e brejos de Brasília. Aliás, flores de rara
beleza!”
“De pé, perto do palanque, estava um côro de moças de um colégio de Belo
Horizonte. Mais abaixo, um grupo de índios Carajás, convidados do Presidente, os quais,
com suas indumentárias típicas, davam um aspecto alegre e pitoresco à cerimônia. Uma
banda de música toca à destra do altar e um batalhão de soldados, em posição, de
sentido, postava-se paralelo ao palanque. À frente do altar, uma multidão enorme assistia
à cerimônia. Notamos que uns 50% dos ouvintes não davam atenção à missa, mas
divertiam-se com o espetáculo. Terminada a missa, seguiu-se a comunhão geral. Um
veemente apelo foi feito pelo Cardeal para que todos os fiéis recebessem a hóstia. A
indiferença continuou e poucos foram os que subiram ao tablado para terem este
privilégio.”
“Logo em seguida, o Cardeal proferiu um lindo sermão, todo ele vasado na
Palavra de Deus. Terminado este, falou o Presidente Juscelino Kubitschek. Declarou que
colocava Brasília, sob patrocínio de Nossa Senhora Aparecida. Em virtude do que vi e
observei, cheguei à conclusão de que é mister, hoje mais do que nunca, que todos os
cristãos, de todas as denominações evangélicas, se unam no mesmo espírito cívico e
cristão, para um testemunho de fé e de trabalho que conduza o nosso povo ao
conhecimento da verdade que pode libertá-lo da idolatria e do erro e levar o Brasil aos
pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, esperança do mundo.”
Distribuição da Voz Missionária
“COM O CORAÇÃO opresso e entristecido resolvi que era hora de cumprir o
meu dever de mensageira. Orei ao Senhor; pedi-lhe que me desse coragem, pois estava
absolutamente sozinha. Um rapaz, companheiro de viagem, aceitou o meu pedido para
ajudar-me. Assim, enquanto ele ficou em baixo, com o material que levei, eu subi até às
autoridades presentes e lhes ofereci a nossa mensagem. Não sei como foi aceita, mas sei
que lá ficaram, inclusive um exemplar nas mãos do Sr. Cardeal. Qual não foi minha
surpresa, quando desci e fui rodeada de centenas de pessoas que queriam a Voz
Missionária e a nossa mensagem! Comecei a ouvir comentários. Recebi muitos abraços,
mas não sei de quem foram. Homens que se diziam diretores de colégios queriam mais
cópias para levar a seus educandários. O fato é que em poucos segundos havia se
esgotado o meu estoque. Se eu tivesse naquele momento um milhar de cópias eu as teria
distribuído com facilidade, tal foi a aceitação que houve.”
“ALEGRE E AGRADECIDA a nosso Pai Celeste, por este privilégio, cumpriame satisfazer agora o meu segundo desejo: encontrar o meu esposo.”
A procura do marido!
“Parti em demanda do Hotel Brasília, primeiro hotel no núcleo bandeirante, a 60
quilômetros além do local da missa. Para meu desapontamento, lá chegando, soube que
fazia três dias ele havia se mudado. Sem ter orientação segura, indagando daqui e dali,
pedindo carona a uns e outros, sob um sol abrasador, depois de mais de duas horas pude
afinal localizar o terreno da Igreja Metodista. Amassando mato, passando por diversas
cercas de arame, consegui entrar no terreno, onde se ergue um barraco de madeira, de
três metros de frente por dois e oitenta de fundo.”
Bati, mas ninguém respondeu. Forcei a porta e pude reconhecer a roupa de
meu esposo certificando-me ser ali sua residência.
Meu coração batia de temor, pois sozinha ali naquele deserto, achei que teria
de voltar a São Paulo sem falar com meu esposo. Fui até o fundo do barraco, com os
olhos marejados de lágrimas, orando mentalmente o Salmo 91. Ali, sem ninguém, isolada,
só mesmo o Senhor poderia me orientar. Assim mesmo bati duas fotografias do local,
deixei umas linhas debaixo da porta e saí para o aeroporto.
Ainda não havia dado trinta passos, quando vejo surgir à minha frente o meu
esposo. Ele vinha chegando com uma valise sob o braço, de volta de um trabalho
evangelizante. Ao me ver quase caiu de susto, pois nunca poderia imaginar-me em
Brasília. Abraçamo-nos e juntos choramos num misto de alegria e saudade.
Voltei com ele ao barraco e foi nesta hora que tive a oportunidade de ver como
ele está instalando o nosso trabalho em Brasília. Achei meu esposo queimadíssimo do
sol, dormindo em uma tarimba feita por ele mesmo, com uma lamparina de querosene no
chão, um baldezinho para água e uma caneca de alumínio. Sobre a tarimba um duríssimo
colchão de capim e um paupérrimo cobertor. Tudo do mais rude aspecto, porém vi que
meu esposo estava alegre e sentia-se feliz. Senti-me bem naquele ambiente rústico,
despido de qualquer conforto, mas atapetado da graça de Jesus.”
“Aos pés da tôsca tarimba, nós dois nos ajoelhamos e juntos agradecemos a
Deus pelo privilégio que nos dera; ali também oramos por todos os irmãos de nossa
amada Igreja.”
“Saímos logo em seguida, para ver a área do terreno, que é de cinco mil
metros quadrados, já toda cercada com arame farpado. Sobre ela a Igreja assumiu
compromisso de colocar uma escola. Esta casa já poderia estar pronta e a nossa escola
funcionando, não fosse a burocracia do nosso regime. Ali exigem que a planta seja feita
no escritório da Novacap, que, por estar superlotado de compromissos, amarra o
progresso do lugar.”
“A visita foi agradável, mas aproximava-se a hora de minha partida... Rumamos
para o Aeroporto!"
CAPÍTULO 29
UMUARAMA - O QUÊ DO SONHO DOURADO?

“Lugar onde os amigos se encontram" - é esse o significado da palavra,
emprestada dos nossos índios. Foi o sonho dourado daqueles que tinham nos corações o
ideal de um lugar de beleza, paz e serenidade, em que pudessem realizar retiros
espirituais e congressos, e construir uma colônia de férias num ambiente sadio e cristão.
A história começa em princípios do século XX quando o Rev. Kennedy chegou
a conhecer e fazer amizade com um engenheiro escocês, Dr. Robert Reid, que se
estabelecera perto de Pindamonhangaba, na zona de Campos do Jordão. A amizade se
firmou, encontrando-se eles freqüentemente, quando o Rev. Kennedy passava por ali em
viagens evangelísticas. Depois, Kennedy saiu daqueles arredores para pastorear outros
campos. Quando, porém, foi nomeado pastor em Pindamonhangaba, cerca de 1924, os
dois renovaram seus encontros.
O missionário sempre desejara encontrar um vasto terreno no qual as igrejas
evangélicas pudessem, unidas, estabelecer seus retiros e acampamentos. Falando certa
vez sobre isso ao Dr. Reid, este prometeu ajudá-lo a realizar o sonho - doaria 50 alqueires
para tal fim se os evangélicos comprassem outros 50 alqueires adjacentes a preço
reduzido.
O Rev. Kennedy

convidou ao Rev. Benjamim

Hunnicutt, da Igreja

Presbiteriana, e ao Sr. Henry H. Lichwardt, da Associação Cristã de Moços (sempre
interessada em tais acampamentos), para virem à propriedade. Foi em 31 de dezembro
de 1925, que, acompanhados pelo Dr. Reid, os três subiram no bondezinho que os levava
de Pindamonhangaba até Campos do Jordão; e de lá a cavalo, foram inspecionar as
terras. Entusiasmados com o local, os três se reuniram na noite seguinte, e à luz de uma
vela (pois a força elétrica falhara) fizeram os planos e assinou os papéis necessários à
formação da "Associação Umuarama". Dela fizeram parte diversas igrejas evangélicas, o
Instituto Mackenzie, a Associação Cristã de Moços, a Junta Missionária de Senhoras, e
outros grupos.
A cada grupo foi doada uma área para a construção de seus acampamentos ou
colônias; e ao redor do belo lago, foram vendidos lotes que visavam à sua transformação
em local verdadeiramente vistoso e bonito. Infelizmente, porém, o Hotel foi à única
concretização do sonho dourado. Esse, depois de uma excelente administração, foi
fechado pelo descuido da administração seguinte. O primeiro entusiasmo dos grupos da
Associação esmoreceu. A falta de propaganda suficiente para dar ao público crente uma
melhor idéia do que seria Umuarama, a falta de recursos para seu desenvolvimento e
expansão - tudo isto evitou a sua concretização.

E tudo isto apesar dos ingentes esforços do seu primeiro e dinâmico
superintendente, Dr. Benjamim Hunnicutt, que auxiliado pelos Revs. W. B. Lee, A. Wadell,
S. R. Gammon, e J. L. Kennedy, trabalhou com o maior entusiasmo e devoção para
promover Umuarama. Outro que deve ser mencionado, pois teve grande parte no
desenvolvimento de Umuarama, foi o Dr. Alexandre Orecchia, engenheiro que planejou as
ruas e picadas, e o abastecimento de água.

O Hotel encontra-se atualmente arrendado a terceiros.
Oxalá surja o dia em que os evangélicos, num sublime esforço de cooperação,
novamente assumam a responsabilidade de fazer ressurgir o sonho de Umuarama,
transformando-o em lugar onde os amigos se encontrem, um "verdadeiro pedacinho do
céu", como um entusiasta o descreveu há anos!
CAPÍTULO 30
RETALHOS, RECORTES, E RETRATOS

Chegando agora ao fundo do meu velho baú, com suas estórias dentro da
história, encontro nesse e naquele canto, uns retalhinhos preciosos - retratos desbotados
pejos anos, cartas íntimas, recortes de jornais velhos da nossa Igreja.

Com estes retalhinhos quero fazer um quadro como o faz a arte moderna, que
numa só tela coloca de tudo um pouco.

Apesar de não fazerem parte da história principal, e de não terem grande
significação, todavia, há prazer em recordar estes detalhes soltos que talvez ainda sirvam
para preencher alguma vaga num futuro histórico mais completo. Quanta falta não tenho
eu sentido de alguns detalhes assim que, na hora, os relatores das conferências e dos
eventos, não julgaram dignos de registrar!
Vamos ver... Pego logo um retrato já desbotado de um lindo grupo de crianças
ao ar livre. Na frente, sentadas, estão as meninas Frances e Louise Tarboux, Eula e Ruth
Kennedy, Mary e Lucy Lee duas ou três das Landers, mais outras cujos nomes não
recordo. Quem foi? Ah...!
Jóias de Cristo!
Lembro-me ainda do dia quando se organizou essa sociedade para crianças
com menos de treze anos. Foi no dia 9 de junho de 1900, numa tarde bonita que Dona
Mamie Fonville Lee, esposa do Rev. W. B. Lee ajuntou umas 23 crianças e com elas
organizou a primeira Sociedade Metodista de Crianças no Brasil. Deu-se o evento no
Colégio Mineiro em Juiz de Fora, sob os auspícios da Sociedade de Senhoras da Igreja
naquele local. Na Conferência Anual que se reuniu em julho do mesmo ano, Dona Mamie
foi nomeada Superintendente das Sociedades de Crianças, e fez um bom trabalho
organizando-as em diversos pontos. A segunda Sociedade Jóias de Cristo foi a de
Petrópolis, também em 1900.

A Conferência Anual de 1902, todavia, adotou a seguinte resolução:
"Atendendo a que na nossa Igreja não existe uma previsão para a Sociedade Jóias de
Cristo, recomendamos que essa Sociedade seja conhecida como a "Liga Epworth
Infantil... etc...etc.

"e que o dinheiro levantado por esta Sociedade seja aplicado às

Missões Domésticas"... Segue o comentário: "É digno de nota que durante este ano as
Sociedades "Jóias de Cristo" contribuíram para Missões Domésticas com 1:600$000", boa
soma naqueles dias de vinténs e tostões!
Em 1930, após a autonomia das igrejas, as sociedades foram reestruturadas
sob o nome de Sociedades Metodistas de Crianças.
Revistas Juvenis
Conforme registrou o historiador Kennedy, em janeiro de 1900, ele fundou "O
Juvenil", pequena revista para crianças metodistas. O Rev. Ransom, já publicara em
1886, "Nossa Gente Pequena", uma só folha que trazia as lições da Escola Dominical e
era inserida no "Metodista Católico", precursor do “Expositor Cristão". O Juvenil
desapareceu quando a missionária Leila Epps foi designada pela Junta Missionária dos
Estados Unidos para ajudar com a literatura para senhoras e crianças metodistas,
substituiu-o pelo "Bem-Te-Vi". Essa revista, com suas histórias, jogos e artigos adaptados
às crianças, teve grande aceitação. Hoje, sob o mesmo nome, foi adaptado ao novo
currículo das Escolas Dominicais metodistas.
Liga Epworth
Já desde os dias pioneiros, existiam na Igreja Metodista Americana algumas
sociedades para jovens, mas faItavam-Ihes uma organização capaz de dirigir seu
programa e unificar a sua ação. Em maio de 1889, fundaram-se com esse fim, as
sociedades "Ligas Epworth", as quais contavam com departamentos literário, missionário,
devocional, e social; e serviram elas de modelo a tais grupos em outros países. O nome
"Epworth", foi em honra à pequena cidade da Inglaterra que foi o berço do movimento
metodista, escrevem os historiadores Luccock e Hutchinson. A primeira “Liga Epworth”
no Brasil foi organizada em Juiz de Fora pelo Rev. J. M. Lander.
Noroeste de São Paulo
A primeira viagem metodista a essa zona foi empreendida pelo Rev. Kennedy,
em 1915, quando ainda era uma zona agreste, com o fim de colher informações sobre a
abertura de trabalho metodista.

Voltou entusiasmado, achando-o cheio de promessa para o futuro. A essa
visita, seguiu-se a implantação do nosso trabalho metodista naquela grande região do
Estado de São Paulo.
Surdos-mudos
Os dois primeiros surdos-mudos convertidos ao Evangelho foram convertidos
sob a pregação do Rev. Charles A. Long e a liderança do Dr. Silvado Júnior, no Instituto
Central do Povo, Rio de Janeiro.
Cobrança de tributos para cultos metodistas
No EXPOSITOR CRISTÃO de 3 de novembro de 1894, escreveu o Rev.
Manuel Camargo, então pastor das igrejas de Taubaté e São José dos Campos, que a
Câmara Municipal deste último lugar, estava exigindo que os ministros metodistas
pagassem impostos por pregarem a Palavra de Deus! O Rev. Camargo enviou ao Dr.
Bernardino de Campos, m.d. presidente do Estado de São Paulo, um ofício no qual
declarou:
"Venho pedir-vos que, usando das atribuições que vos confere a nossa
Constituição, anuleis a dita postura... A tal ponto chega a arbitrariedade e a exação dos
agentes do executivo municipal de São José dos Campos, que perseguem o encarregado
da congregação daquela cidade, não lhes permitindo celebrar o culto nem mesmo em
casa particular...”
“Da vossa parte, aguardo a providência que está na alçada das vossas
atribuições e do Congresso Estadual, a decisão final que ou me obrigará a pagar, ou me
eximirá do imposto sobre o culto religioso, taxado pela Câmara Municipal de São José
dos Campos". Taubaté, 24 de outubro de 1894 (grifos meus).
Dobres a defunto em Itu
Era antigamente costume em Itu badalar os sinos de todas as igrejas quando
alguém lá morresse - o preço a combinar, conforme a cara do freguês. Em 1894, porém, a
Câmara Municipal de Itu proibiu que os sinos assim chorassem os mortos, considerando
que o barulho ecoando das 18 Tôrres de suas igrejas, tornava-se coisa incômoda, capaz
de produzir ruptura nos tímpanos dos ouvintes, especialmente dos doentes. Foi imposta a
multa de 30$000 (uns dez dólares naqueles tempos) sobre quem infringisse a lei.

Todavia, os padres não quiseram se conformar, pois com essa lei perderiam
"uma cobiçada parcela de dinheiro". O vigário então autorizou o seu sacristão ajudante a
ribombar os sinos, responsabilizando-se pelo que viesse a acontecer. A Câmara, leal à
sua palavra, multou o vigário em 30$000; e pelo advogado, Dr. Ozório de Souza, moveu
ação contra os dois. O Juiz condenou-os não só a pagar a multa, mas a curtir oito dias na
cadeia pagando, outrossim, as custas do processo. (Noticiário do EXPOSITOR CRISTÃO,
em 8-12-94).
Primeiro legado à Igreja Metodista
A Conferência Anual, reunida em Piracicaba em julho de 1893, relatou que a
irmã Dona Antônia Bueno de Camargo, tinha legado à Igreja Metodista, a vultosa
importância de vinte contos em apólices da dívida pública. Foi esse o primeiro legado feito
à nossa Igreja.

O dinheiro foi empregado na compra da primeira propriedade imobiliária que a
Igreja possuiu em São Paulo. . Eram dois prédios geminados, números 12 e 14, no Largo
do Arouche. O prédio nº 12 foi adaptado para cultos, e no nº 14 servia para residência
pastoral e hospedagem de ministros em trânsito.
Primeiro trabalho metodista em São Paulo
A primeira pregação metodista nessa metrópole foi em outubro de 1883,
quando o Rev. Ransom falou num prédio no então Largo do Mercadinho (hoje do
Tesouro), atravessado pela Rua Imperatriz (hoje 15 de Novembro). A pregação foi feita
"na antiga Casa Bamberg, um dos pontos mais centrais e acessíveis em toda a cidade".
Todavia, a primeira Igreja foi ali organizada pelo Rev. J. W. Koger em 1º de
fevereiro de 1884, com quatro membros: Bernardo de Miranda, que depois de sua
conversão sob a pregação do Rev. Tarboux foi o primeiro brasileiro a dar sua vida ao
ministério; Frank Bellinger, inglês; Giovanni Bernini e sua esposa, Dona Clementina,
italianos.
Já desde os seus primórdios, o metodismo era ecumênico e internacional!
Lampadário na Central
Diz-se que o magnífico lampadário da Igreja Central em São Paulo - cuja
construção se fez durante o pastorado do Rev. Dickie - foi o segundo existente na cidade.
Foi doado pelo grande benemérito dessa igreja, Dr. Henrique Lindemberg.
.
Saúde de aspirantes
Pela Conferência Anual de Julho de 1908, foi adotada a seguinte resolução:
"Resolvido – Ninguém será admitido em experiência à Conferência Anual, sem atestado
de uma constituição sã".

Ignoramos o que ocasionou tal resolução. Mas quanto se tinham mudado as
opiniões dos nossos líderes daqueles dias em 1825, quando a Junta Missionária nos
Estados Unidos, enviara à Libéria, na África, o seu primeiro missionário - Melville Cox,
consagradíssimo servo, mas que lá indo, já tuberculoso, morreu dentro de quatro meses;
deixando como sua última mensagem: "Que morram mil antes de abandonarmos a
África!"
Campanha na terra gaúcha
No ano de 1921, foi levada a efeito uma grande campanha de avivamento,
liderada pelo saudoso Bispo John M. Moore. Essa campanha se realizou pelo trabalho
"competitivo" de dois "times", tendo cada um à testa um evangelista, um instrutor bíblico,
um colportor, e um diretor de música. Trouxe grandes resultados - pois no ano seguinte,
foi relatado um aumento total de 500 novos membros e um número de candidatos
superior a mil.
Mena Barreto, grande batalhador evangélico
Em 1923, em Itaqui, no Rio Grande do Sul, o Rev. Eduardo Mena Barreto
Jaime procurava levantar um templo, ao passo que elementos católicos fanáticos, tudo
faziam para obstar a entrada do metodismo naquela cidade. Ele começou as pregações
num teatro alugado, no qual a última reunião de cultos tornou-se em sessão agitada, até
tumultuosa!"
Música nos nossos colégios
Desde a fundação do "Piracicabano", o Rev. Ransom insistia com a Junta
Missionária de Senhoras que enviasse uma professora de piano e canto, pois a música
era um sine qua non no curso das mocinhas brasileiras. Mas as líderes nos Estados
Unidos não reconheciam a importância de tal curso, julgando-o um luxo. Responderam:
"Apesar dos pedidos urgentes dos Revs. Ransom e Kennedy, nós não concordamos em
que seja necessário enviar professoras de música ao Brasil.” Reconhecendo essa
necessidade, a irmã viúva do Rev. Kennedy, Fannie K. Brown, ofereceu-se para vir. A
resposta da Junta foi: "Se quiserdes formar-te em medicina, nós te enviaremos à China
como missionária". Isso lhe era impossível, dada a sua idade e o custo proibitivo de fazer
esse curso.

Assim foi que quando o Rev. Kennedy foi nomeado para abrir um colégio em
Taubaté, escreveu à irmã, oferecendo-se para pagar-lhe a viagem, se ela viesse para
ensinar música ali. Ela acedeu ao convite; e outra irmã, Mary, também veio para lecionar
pintura. Foram esses cursos grandes atrativos na matrícula do Colégio em Taubaté.
Depois, porém, da Conferência mandar fechar o Colégio, Miss Watts convidou a Sra.
Brown que viesse para "O Piracicabano", prometendo compartilhar o seu salário, porque
nada mais tinha com que lhe pagar. Fannie Brown aceitou o convite; dirigiu com sucesso
extraordinário um departamento de música; regeu um côro para a Igreja no qual, atraídos
pela música, cantavam alguns dos seus alunos católicos. Um dos seus alunos foi o Prof.
Fábio Lozano, que se tornou Diretor de Música nas escolas públicas de São Paulo.
Com o tempo, a Junta mudou sua atitude quanto ao lugar da música nos
nossos colégios, e convidou a senhora Brown para ser umas das suas missionárias
efetivas!
Nascem outras Conferências
Na sessão da Conferência Anual Brasileira – a primeira organizada no nosso
país - realizada em agosto de 1918, em Juiz de Fora, ficou determinada a sua divisão
doravante em duas - a original Conferência Anual e a Conferência Central. A primeira era
composta dos antigos distritos do Rio, Carangola e Belo Horizonte; a segunda, dos
antigos distritos de São Paulo, Ribeirão Preto e Piracicaba.
Já em agosto de 1910, o Rio Grande do Sul, que fora primeiro um Distrito da
Conferência Anual e depois uma Missão, foi organizado em Conferência Anual SulBrasileira, pelo Revmo. Bispo Walter J. Lambuth. É hoje a Segunda Região.
Hoje temos mais três Concílios num total de seis regiões e desde 1965, seis
bispos que as administram. Contando em ordem os nossos Bispos, desde a autonomia,
são eles:
John W. Tarboux - eleito em. 4 de setembro de 1930.
César Dacorso Filho - 13 de janeiro de 1934.
Isaías Sucasas - em 9 de fevereiro de 1946.
Cyrus B. Dawsey - em 9 de fevereiro de 1946.
José Pedro Pinheiro e João Augusto do Amaral - ambos eleitos em 19 de junho
de 1955.
Almir dos Santos, Nathanael do Nascimento, Oswaldo Dias da Silva e Wilbur K.
Smith - esses quatro eleitos em 18 de julho de 1965.
Direitos das mulheres
Foi em 1918, na Conferência Anual presidida pelo Revmo. Bispo John M.
Moore que foi aprovada a nova lei dando às mulheres o direito de exercerem na Igreja, os
mesmos direitos de leigos, que até então somente os homens gozavam.
***
Sobre o Bispo Moore, escreveu Kennedy no seu histórico, que ele era "tipo do
homem eloqüente, erudito e observador, e bem podia ser chamado o Bispo do
Centenário". Referia-se ele ao movimento comemorativo do centenário nos Estados
Unidos, que foi um "movimento que representou um esforço supremo e heróico, senão o
maior da Igreja Metodista, feito a favor da evangelização dos povos da terra. Com ele
esse grande movimento veio ao Brasil - um movimento gigantesco eminentemente
evangélico e liberal. Não é possível precisar a soma que nesse ano foi despendida
especialmente no Rio Grande do Sul".
Hinos “para os metodistas"
Não há historiador sobre o metodismo que não frise a grande importância e
influência da música no seu espírito, tendo essa característica começado com Charles
Wesley, irmão do fundador do metodismo.
Os primeiros missionários a chegarem ao Brasil, já sentiam a falta em
português de hinos e cantos evangélicos fervorosos - os "gospel hymns" com que foram
criados. Em carta íntima à sua família, o Rev. Kennedy escreveu certa vez: "O que muito
precisamos aqui são uns hinos metodistas. Oxalá tivéssemos um Charles Wesley para
escrever em português!"
Em 1894, a Conferência Anual nomeou uma comissão para organizar um livro
de cantos para uso das nossas igrejas, devendo esse ser publicado com as músicas
apropriadas. A comissão era composta do Dr. Carlos G. S. Shalders (que durante anos foi
organista nas igrejas Central e Anglicana em São Paulo) e os Revs. Manuel de Camargo,
J. W. Tarboux, e Miguel Dickie. Essa Comissão pediu no EXPOSITOR CRISTÃO de 3 de
novembro de 1894, a "coadjuvação de todos os crentes evangélicos em enviar
composições originais ou traduções dos muitos hinos sublimes que temos em inglês, bem
como donativos de dinheiro para auxiliar nas despesas de publicação".
Os anos passaram. . . Nada saiu. . .

Em 1916, foram nomeados os Revs Miguel Dickie (quem não se lembra da
sua voz sublime?) e Hipólito de Campos, para representar a Conferência Anual Brasileira
numa comissão interdenominacional cujo fim era organizar um hinário comum aos
evangélicos. Esse trabalho prosseguiu muito lentamente durante os anos.
Afinal, Dona Júlia Dickie, esposa do Rev. Dickie, regente do côro na Igreja
Central, alma sempre interessada em música, desanimada em esperar um novo hinário,
publicou o "Aleluias", investindo nele muito dos seus próprios recursos. Muitas igrejas
aceitaram-no.

Todavia,

com

o

aparecimento

de

um

hinário

evangélico

interdenominacional, esse substituiu-o. Muitos crentes, porém, ainda hoje sentem
saudades do velho hinário "Aleluias".
Batatas metodistas
Francisca Betts, dedicada esposa do Rev. Betts, saudosa das doces e
suculentas batatas-amarelas de sua terra natal, quando voltava de suas primeiras férias
em setembro de 1925, trouxe três dessas batatas para servir de sementes. Mas chegando
ao Brasil o casal foi nomeado para o Instituto Central do Povo no Rio de Janeiro, em vez
de Passo Fundo, onde havia bastante terreno em que plantá-las. Guardou então as
batatas no seu quarto.
Num belo dia, o filhinho Billy, então com seus dois anos, descobriu as batatas,
e brincando, atirou-as da janela do segundo andar da residência pastoral. Uma só
escapou. Dona Francisca, quando as achou, cozinhou as duas machucadas e plantou a
terceira no íngreme morro atrás do Instituto. Mas ao passo que as batatas nasciam, as
ramas se espalhavam, e os bodes do morro se deliciavam comendo-as.

Em dezembro, quando foram novamente nomeados para Passo Fundo, Dona
Francisca subiu o morro, cavou até encontrar umas três ou quatro batatinhas que na
última hora, meteu na bolsa. Chegados a Passo Fundo, ela plantou-as num vaso de
flores. Duas morreram e da única resultante, foi criando mudas, dando-as a pessoas
interessadas, pois todos que as comiam achavam-nas deliciosas. Hoje a Dona Francisca
as encontra à venda nos mercados do Rio Grande do Sul.
Quando as primeiras apareceram, foram logo batizadas com o nome de
"batatas metodistas".
Rev. Guaracy Silveira
Seria preciso um capítulo inteiro para falar detalhadamente sobre esse
veterano do metodismo batalhador pela autonomia. Todavia, aqui o registramos como o
primeiro delegado metodista à Constituinte Federal de 1946 e autor de vários volumes
importantes para a Igreja.
Antônio de Campos Gonçalves
Também trabalhador pela autonomia da Igreja, é conhecido como uma das
melhores autoridades sobre a língua portuguesa. Escreveu diversos hinos, serviu na
Comissão Interdenominacional para revisar o Hinário e colaborou na solução de todos os
problemas filológicos que surgiram na Comissão de Revisão da Bíblia.
Frederico Hoehne
Não seria completa uma história do metodismo sem mencionar um dos seus
grandes e ativos pioneiros - Frederico Hoehne, filho dos primeiros membros da Igreja
Metodista em Juiz de Fora. Criado assim, num lar cristão e operoso, ele estudou
assiduamente, tornando-se um dos maiores botânicos do Brasil, sua maior autoridade em
orquídeas, e autor de vários livros sobre a flora do país. Nunca, porém, abandonou o seu
zelo pela Palavra de Deus. Lia e estudava as Escrituras, estudava o grego e hebraico
para melhor entendê-las e durante uns 20 anos, foi professor da maior classe bíblica de
homens na Igreja Central de São Paulo.
Nossos primeiros missionários brasileiros
- quem foram?
No "Expositor Cristão" de 3 de novembro de 1894, lê-se, sob o título "Missões
Domésticas", um editorial chamando a atenção das congregações para "não
negligenciarem de levantar as ofertas em favor de Felipe de Carvalho, nosso missionário,
para ele não sentir-se embaraçado nos seus movimentos e desanimado no seu trabalho".
O Rev. Felipe acabara de organizar em Cataguases numa das tais viagens missionárias,
uma igreja com 8 membros, e mais 20 pessoas pedindo admissão à Igreja.

Na Conferência em 1902, em Juiz de Fora, foi "resolvido que o irmão, Rev.
Hipólito de Campos seja o nosso missionário, e que as Ligas Epworth se interessassem
especialmente no seu sustento". Visitou igrejas espalhadas pelo Brasil, as suas
pregações sempre despertando enorme interesse, pois um ex-padre era sempre
curiosidade!
Foi só depois de sua aposentadoria em 1926, que a Igreja o enviou a Portugal,
a terra-mãe, para ali dirigir uma campanha evangelística. Na sua viagem, pregou em Paris
e na Ilha da Madeira.

Para essa Ilha, tinham ido como missionários nossos o casal Rev. Antônio
Rolim e esposa Suzelita, que ali permaneceram alguns anos. Esse foi sempre um campo
muito duro.

Outros que certamente podemos incluir na lista de missionários foram - Dr.
Nelson de Araújo, que trabalhou e sofreu com seu trabalho médico entre os índios
Caiuás; Rev. Benedito Natal Quintanilha e Dorival Rodrigues Beulke, respectivamente em
Salvador e Recife; Geraldo Esteves, que trabalhou entre os índios Caingangues; e o mais
novo de todos, Vicente Aparecido Borges, que evangeliza agora em Aracaju, Sergipe.
Romances felizes
Por que não incluir alguns dos romances felizes nos quais duas almas
dedicadas ao Senhor, entrosaram seus interesses e corações?! Deveras, o campo
missionário tem sido fértil em arranjar casamentos felizes! Antigamente, muitos dos
missionários que para aqui vinham eram solteiros - assim como as missionárias - e era a
coisa mais natural que procurassem e encontrassem companheiros entre os que tinham
os mesmos interesses espirituais.

O primeiro romance foi em 1879, o do Rev. J.J. Ransom, o primeiro missionário
enviado pela Junta de Missões para trabalhar entre os brasileiros. Aqui encontrou-se com
Annie, a jovem e culta filha do Rev. J. E. Newman, que dirigia com sua irmã Mary, um
colégio em Piracicaba. "Roubou-a"! Infelizmente Annie faleceu dentro de seis meses.
Seguiram-se outros que não posso dar em ordem cronológica:
H.C. Tucker, casou-se com Ella (Elvira) Granbery, filha do Bispo que organizou
a primeira Conferência Metodista no Brasil.
Rev. J. W. Wolling, casou-se com uma senhorinha da colônia americana.

Edmund A. Tilly, casou-se com Ella Porter, filha de um negociante americano
que representava importante firma de café em Santos, que "sempre recebia cordialmente
os pastores em sua casa, proporcionando-Ihes uma boa sala para os cultos públicos no
centro da cidade" (Kennedy, pág. 55).
James M. Terrell casou-se com Miss May Umberger, quando ela era diretora
do Colégio Americano em Petrópolis.
Waller G. Borcher casou-se com Elizabeth Davis.
Claude L. Smith casou-se com May Dye
J.W. Daniel encontrou-se com Maggie Lee Kennedy que trabalhava na Igreja
Institucional de Porto Alegre e casou-se com ela.
Daniel Betts, em viagem para o Brasil conheceu a bordo a missionária Frances
Scott. Foi caso de amor à primeira vista; casaram-se uns dois anos depois, após lutar
com a Junta de Senhoras que quis obrigá-la a pagar a sua passagem ao Brasil.
Miguel Diekie em segundas núpcias com Julia Coaehman, descendente de
americanos vindos ao Brasil após a guerra civil nos Estados Unidos - mas não da colônia
em Santa Bárbara.
Frank M. Long, que viera para trabalhar no Granbery, com Eula Kennedy, filha
do veterano missionário, a quem ficara conhecendo a bordo do vapor quando ele viajava
ao Brasil pela primeira vez.

J. Earl Moreland, dinâmico diretor do IPA em Porto Alegre com Helen Hardy
professora no Colégio Americano, numa daquelas frias noites gaúchas, após uma visita à
noiva, não apagou completamente as brasas na lareira (que não era muito bem feita), do
que quase resultou um incêndio no Colégio.
John R. Saunders, o fundador do "Porto Alegre College", hoje IPA, casou-se
com Sara Stoukm outra missionária do Colégio Americano.
J. L. Kennedy, em segundas núpcias, com Daisy Pyles, oriunda da colônia
americana antes de se casar, missionária em Colégios Metodistas.

C. Anderson Weaver, em segundas núpcias, com Eunice Gabbi, com quem na
sua aposentadoria muito colaborou no trabalho pelas crianças filhas de hansenianos.

Surge agora a segunda geração de missionários, filhos dos pioneiros; e dentre
esses, lembramo-nos de: Rev. João Nelson Betts, que se casou com Gladys Smith;
Wilbur Smith, hoje Bispo, casou-se com Grace Buyers; William Richard Schisler Filho
casou-se com Edith Hume Long, neta do Rev. J. L. Kennedy e filha do Sr. Frank M. Long,
tornando-se assim a primeira missionária da terceira geração metodista no Brasil.
Casal Jalmar e Eula Bowden
Modestamente, sem alarde ou ostentação, esse casal muito fez pelo Brasil.
Ele, pela magnífica obra que realizou atualizando a Biblioteca da Faculdade de Teologia
em Rudge Ramos, São Paulo. Ela, pela sua dedicação ao trabalho das senhoras, mas
especialmente por ter sido uma verdadeira mãe para os seminaristas longe do lar. Em
sinal de apreço, o seu nome foi dado a uma Rua de São Bernardo do Campo, São Paulo,
e à capela da Faculdade de Teologia. Ainda mais o casal contribuiu com uma filha,
Frances, que hoje consagra a sua vida ao trabalho metodista.
Mais de 40 estrelas nas suas coroas
Os doze ministros - missionários e nacionais - que deram à causa do
metodismo mais de quarenta anos de serviço ativo, foram:

Nome

Nascimento

Falecimento

Anos de Pastorado

H.C. Tucker

1857

1956

59

J.L. Kennedy

1857

1942

55

J.M. Terrell

1868

1948

48

M.A. Dickie

1863

1939

46

J.W. Tarboux

1857

1940

44

D.L. Betts.

1887

1965

43

J.L. Becker

1873

1942

42

W.G. Borchers

1871

1957

41

V.H. Moore.

1886

1961

41

W.B. Lee

1864

1956

41

J.L. Tavares.

1869

1940

40

C.L. Smith

1872

1946

40

César Dacorso Filho

1891

1966

40

***
E porque não incluir o Rev. Justus H. Nelson, da região da Amazônia, que
trabalhou 45 anos no Brasil?

Dos missionários aqui incluídos, faleceram e estão enterrados no Brasil, os
seguintes: Kennedy, Borchers, Terrell, Lee, Dickie e Betts.
Voltando, agora, aos albores do Metodismo
A Conferência Anual Brasileira de 1901, realizada na Igreja do Catete no Rio
de Janeiro, comemorou o 25º aniversário do restabelecimento do trabalho da nossa Igreja
no Brasil, fazendo os membros dessa Conferência uma visita ao túmulo de Cynthia
Harriet Kidder, esposa de um dos primeiros missionários evangélicos no Brasil, no
Cemitério inglês da Gamboa. Cynthia foi a primeira mártir do metodismo brasileiro.
Fique esse túmulo para sempre como um dos lugares sagrados aos metodistas
de ontem, pelos metodistas de hoje e amanhã.
***
Escreve Franklin de Oliveira no seu livro “Morte da Memória Nacional" que "A
morte nacional se realiza pelo abandono de nossas fontes culturais"; que o nosso
"descaso por lugares e instituições históricas, está fazendo o Brasil correr o perigo de
transformar-se em nação historicamente desmemorizada".

Que este ano de recordações e comemoração do passado, sirva para que nós
metodistas

não

corramos

o

perigo

de

nos

transformarmos em

denominação

historicamente desmemorizada, sem conhecimento, sem orgulho, sem prazer nos feitos
daqueles que, através de grandes dificuldades e perseguições, nos legaram a mensagem
do Evangelho.
CAPÍTULO 31
QUAL DEVIA SER A DATA DA ORIGEM DO METODISMO NO BRASIL?
Com vistas ao passado
Já cheguei ao fundo do meu baú velho, e seguro nas mãos três retratos
desbotados.

O primeiro é de Daniel Kidder, um dos pioneiros da dinâmica Missão de 18351841 que concretizou a viagem exploratória do Rev. Fountain Elliot Pitts, ao fundar no Rio
de Janeiro a Primeira "Sociedade" (congregação) metodista no Brasil. A sua chegada,
conforme diz o Rev. Isnard Rocha, "representa em nossa história, o marco inicial da obra
metodista no Brasil - 19 de agosto de 1835" (grifos meus).

O segundo retrato é do Rev. Junius E. Newman, o consagrado imigrante norteamericano que em 1871 fundou entre seus patrícios a primeira igreja metodista no Brasil
a continuar sem interrupção.

O terceiro é do Rev. J. J. Ransom, o primeiro missionário ao Brasil enviado
pela Igreja Metodista Episcopal do Sul, especifica e definidamente para evangelizar os
brasileiros.
Todos já estão velhinhos nestes retratos. Quem me dera ver como teriam sido
quando aqui chegaram, na flor da idade, cheios de vigor, esperança, determinação e
visão cristã! Minh'alma transborda de admiração, e penso em mil perguntas que lhes
desejaria fazer. Começo a pensar... a cismar... a perguntar a mim mesma:
Mas qual foi o verdadeiro fundador do nosso metodismo?
Qual a data que devíamos honrar como a do Centenário?
Quais as realidades que designam a origem de um movimento? Suas vitórias,
suas tentativas, seus fracassos? Tentativa inicial? Marco inicial? Trabalho radicado ou
permanente? Missão específica aos brasileiros?
Senti-me um tanto perplexa, como aquele zelador do qual lemos (Em Marcha,
pág. 24, terceiro trimestre de 1967) a quem o pastor procurava ensinar algo sobre o
centenário.
- "Pois meu irmão, disse o pastor, o metodismo tem a honra de ter sido, em
tempos modernos, o primeiro a implantar o Evangelho em solo brasileiro. Isto foi em 1835
quando chegou ao Rio o Evangelista de nome Fountain Pitts”.
- "Como é reverendo? perguntou o zelador. O senhor não se enganou na data?
Se foi em 1835, porque é que o centenário é agora em 1967?"

Parece que o zelador estava com razão! Pois de fato, até a poucos anos, a
Igreja Metodista do Brasil aceitava como data de sua fundação o dia 2 de fevereiro de
1876, comemorando a chegada ao Rio do Rev. J.J. Ransom. Pois não havia escrito o
Bispo Holland Mc Tyeire em seu HISTÓRICO DO METODISMO, que "a investigação feita
no Brasil em 1835 pelo Rev. Pitts foi sucedida pela ocupação permanente em 1876 com a
chegada do Rev. Ransom"? Esta data fora seguidamente lembrada nas Conferências
Anuais. Diz o Rev. Kennedy no Histórico livro “Cincoenta Annos” que,
1. vez após vez se levantavam vozes nas Conferências conclamando a Igreja a
celebrar a fundação da sua obra no Brasil. Em 1900 o Rev. H.C. Tucker declarou: "sendo
1901 o primeiro ano do novo século, o vigésimo quinto do trabalho da Igreja Metodista
Episcopal do Sul no Brasil, ... resolvemos..."
2. em agosto de 1924, quando o metodismo brasileiro era ainda missão da
Igreja Metodista Episcopal do Sul, visando comemorar dignamente o jubileu da Igreja
Metodista em 1926, as três Conferências então existentes nomearam o Rev. J. L.
Kennedy para escrever o histórico" CINCOENTA ANNOS DO METHODISMO NO
BRASIL".
Mudança da data
Em 1960, porém, a Comissão Histórica da nossa Igreja Metodista do Brasil (já
não era mais Metodista Episcopal do Sul) rejeitou essa data em favor de 5 de agosto de
1867, quando aportou no Rio de Janeiro o imigrante norte-americano Rev. J. E. Newman
(ver Expositor Cristão de 24/4/60). Esta data nunca fora comemorada pelas Conferências
Anuais; nunca fora reconhecida por Newman; e nunca fora comemorada pelos pioneiros
que eram seus colegas no trabalho e, que o estimavam ao ponto de chamarem-no de
Superintendente e de "instrumento para que a nossa Igreja reencetasse a propaganda do
bendito Evangelho no Brasil" (Kennedy, pág. 19).
Essas últimas palavras do Rev. Ransom, genro do Rev. Newman, parecem
indicar que eles consideravam que o trabalho metodista tinha sido iniciado antes de
Newman; e que Newman era simplesmente um continuador, e não um fundador. E com
essas palavras, o Rev. Ransom retrai-se também de qualquer glória pessoal para
considerar-se mero continuador da obra começada por outros, ou fundador duma obra
nova.

Não demonstram também que mesmo então persistia nas mentes dos
pioneiros, de Ransom em diante, a tendência de reconhecer a MISSÃO fundada pelo
Rev. Pitts e seus sucessores, Spaulding e Kidder como de fato, a PRIMEIRA MISSÃO
METODISTA NO BRASIL? Confirma-se tal suposição com dois eventos relatados no
Histórico de Kennedy:
Na Conferência Anual de 1900, no dia 15 de julho, fez-se uma "romaria" ao
cemitério de Gamboa, para visitar o túmulo de Cynthia Kidder, falecida em 1840,
honrando a esposa de um dos primeiros missionários metodistas no Brasil". Isso fizeram
como parte da comemoração do vigésimo quinto ano do trabalho da Igreja Metodista
Episcopal do Sul no Brasil"; acrescentando as palavras; "e o 25o aniversário do
RESTABELECIMENTO do trabalho de NOSSA IGREJA no BRASIL" (Kennedy, pág 111).
Num artigo pelo Rev. Kennedy (Expositor Cristão de 21-7-1894) intitulado
"História resumida da Igreja Metodista no Rio de Janeiro" cita ele fatos incontestáveis que
lhe foram oferecidos pelo Dr. John, da Junta de Missões em Nova Iorque, e pelos quais o
Dr. John reconhecia a primazia do trabalho de Pitts, Spaulding e Kidder. Citando:
"Segundo os dados que temos à mão, a obra evangélica tanto no Brasil como na cidade
do Rio de Janeiro, foi INICIADA pela Igreja Metodista sendo ela a PRIMEIRA IGREJA
CRISTÃ, dissidente de Roma, a anunciar as boas novas de salvação, quer nas águas
torrenciais do Amazonas (pensara em J.H. Nelson), quer na linda e plácida baía de
Guanabara, quer nas alturas da florescente cidade de São Paulo" (pensando em Kidder).
Continua com uma longa lista de realizações dessa primeira Missão, dizendo:
"Uma das provas de que a sua obra produziu resultados consideráveis, é que nesse
tempo os padres romanos resistiram freneticamente ao seu trabalho. Depois da retirada
forçada do Rev. Spaulding a Igreja Metodista RE-ENCETOU o seu trabalho na capital do
Império em janeiro de 1877, tendo chegado ao Império no dia 2 de fevereiro de 1876, o
Rev. J.J. Ransom, AUTORIZADO PELA IGREJA, ENCETOU ELE DE NOVO trabalhos na
cidade".
No mesmo artigo, a única referência que faz ao Rev. Newman é como
"missionário da nossa igreja americana (na província) de São Paulo", enquanto refere-se
ao Rev. Ransom, como "fundador da obra missionária da nossa igreja no Brasil EM SUA
SEGUNDA ÉPOCA".

Continuamente esses líderes do passado usavam as expressões "re-encetar",
"re-iniciar", "segunda época", a respeito do trabalho, assim demonstrando que
consideravam como PRIMEIRO, o trabalho da Missão de 1835.
Mas, se assim o consideravam, porque então escolheram a data da chegada
do Rev. Ransom como a do inicio do trabalho?
Creio que foi devido aos fatos históricos ligados ao trabalho da Igreja. Em
1844, o metodismo americano se dividia em dois ramos - o do NORTE e o do SUL devido a uma luta intensiva, causada por problemas relacionados à escravatura. As duas
denominações tornaram-se tão distintas e separadas como se não tivessem uma raiz
comum, tanto no sentido geográfico como administrativo.

Foi a Igreja Metodista Episcopal do Sul que primeiro ocupou o Centro do Brasil,
enviando o missionário Ransom; e a essa Igreja, pertenciam os obreiros antes de aqui
chegar; perante ela eram responsáveis pelos seus atos e atividades, e dela recebiam
seus ordenados. Não podiam reconhecer oficialmente a Igreja do Norte, com a qual por
mais de trinta anos, não tinham tido mais ligação, e que consideravam uma outra
denominação.

Ademais, naquela época, ainda existiam as mágoas e os ressentimentos
profundos resultantes da Guerra Civil Americana e do procedimento pouco fraternal da
Igreja do Norte, que se recusara em 1846, a aceitar um gesto conciliatório da parte do
Sul. Foi em 1872 - somente quatro anos antes da chegada de Ransom - que a Igreja. do
Norte recebera em seu Concílio máximo, um delegado sulino, e a reconciliação final só se
consumou em 1939 com a reunião dos dois ramos divididos há quase 100 anos.
Pergunto, pois, por que a Comissão Histórica em 1960, ignorou tudo isso - os
julgamentos de historiadores americanos de confiança; dos pioneiros no Brasil; de
historiadores como o Dr. José Carlos Rodrigues; de profundos conhecedores do trabalho,
como o Rev. José de Azevedo Guerra e Dona Ottília Chaves - para escolher uma data a
favor do Rev. Newman?
Dizem que foi porque a Missão de Pitts não se radicou. Por que então, se
considera o Rev. Justus H. Nelson, que durante 46 anos trabalhou na Amazônia (trabalho
ao qual Kennedy se refere), mas que não conseguiu radicar o trabalho ali, como o
fundador do metodismo naquela região? Creio que se hoje um itinerante metodista fosse
ali para organizar o trabalho de nossa Igreja, não o chamariam de "Fundador", mas sim
de "Continuador" da obra de Nelson.
FRACASSOU COMPLETAMENTE A MISSÃO PITTS?
Que pai cujo primeiro filho tenha falecido na infância ou juventude sem deixar
uma grande obra pela qual possa ser lembrado, deixa de reconhecê-lo como seu
primogênito ou risca-o do livro da família como seu filho?

Que lástima, pois, que grande pena, que a Comissão Histórica abrisse mão da
grande honra que cabe ao metodismo de ser mais do que centenário, para cedê-la a
outras denominações que aqui vieram um quarto de século depois!
Que desonra ignorar os sacrifícios e perseguições, os ingentes esforços feitos
por esses desbravadores, em favor de um outro pastor que, apesar de RE-ENCETAR o
metodismo em solo brasileiro - nunca pregou uma só vez aos brasileiros e nem foi
perseguido por amor do Evangelho!

Por que a Comissão, ao invés de basear a sua decisão sobre a palavra
permanente, não a baseou sobre as palavras, primeira a pregar o Evangelho no Brasil,
assim conservando para os metodistas a honra que lhes é justa e merecida?

Cremos que agiram com toda a sinceridade; todavia, entre alguns dos mais
profundos estudantes da nossa história, conhecedores do passado, estão muitos que não
concordam com a decisão. Um deles é a distinta líder e legisladora, Dona Ottília Chaves,
membro fundador da Sociedade Histórica do Metodismo no Brasil, que diz francamente:
"Eu não concordo", repetindo os feitos da Missão Pitts e apresentando documentos
históricos que se referem à primazia dos metodistas na evangelização do Brasil.
Outro que discorda é o Rev. José de Azevedo Guerra, um da "velha guarda
metodista" que escreve no Expositor Cristão, (agosto de 1967) um artigo de
“Reminiscências”", no qual declara: "Eu prefiro contar o século desde o início do trabalho
pioneiro dos desbravadores Fountain E. Pitts, Justin Spaulding e Daniel P. Kidder. Prefiro
contar assim porque julgo o trabalho pioneiro, o do desbravador, como o mais difícil, o
que exige maior desprendimento". Em outras palavras, foram esses os que "prepararam o
caminho do Senhor, que endireitaram as Suas veredas" como disse o profeta Isaías
(Isaías 40:3) .
Creio que dia virá quando nova Comissão Histórica traçará a origem da nossa
Igreja Metodista do Brasil - com todos os erres e esses - à Missão Pitts-Spaulding-Kidder,
e não à Igreja Metodista Episcopal do Sul perpetuando assim a memória da trágica cisão
de 1844.

Afinal de contas, todos recebemos a herança da nossa fé diretamente de João
Wesley - e por meio de Wesley, das verdades bíblicas expressas na Palavra Sagrada.
BIBLIOGRAFIA

KENNEDY - refere-se ao volume "CINQUENTA ANNOS DE METHODISMO NO BRASIL",
publicado em 1926.
BARCLAY - refere-se a "EARLY AMERICAN ME THODISM", Vol. lI, de Crawford Barclay.
HUTCHINSON & LUCCOCK - refere-se a "THE STORY OF METHODISM", por Paul
Hutchinson e Ernst Luccock.
LUIZ G. DOS SANTOS - refere-se a "O CATHOLICO E O METHODISTA", do Padre Luiz
Gonçalves dos Santos, 1839.
JAIME - refere-se a "HISTÓRIA DO METODISMO NO RIO GRANDE DO SUL", pelo Rev.
Eduardo Mena Barreto Jaime, 1963.
ARAUTO - refere-se a "O ARAUTO DE DEUS", a vida de J. L. Kennedy, 1960, por Eula
Kennedy Long.
KIDDER - refere-se a "REMINISCÊNCIAS DE PERMANÊNCIA E VIAGENS NO BRASIL",
volumes I e lI.
BUYERS - refere-se a "HISTÓRIA DO METODISMO NO BRASIL" de Paul E. Buyers.

Do meu velho_bau_metodista

  • 2.
    DO MEU VELHO BAÚ METODISTA EULAKENNEDY LONG 1968 Junta Geral de Educação Cristã Igreja Metodista do Brasil
  • 3.
    DEDICADO - À memóriade todos os pioneiros que desde 1835 desbravaram o terreno do Brasil pra nele içarem o estandarte do Evangelho, e - a todos aqueles que recebendo o estandarte continuaram a levantá-lo com orgulho, gratidão e dedicação ao Senhor. Eula Kennedy Long São Paulo, Brasil. Novembro de 1967
  • 4.
    ÍNDICE INTRODUÇÃO PRIMEIRA PARTE Albores doProtestantismo no Brasil Primeiras Sementeiras Metodistas no Brasil Viagens Exploradoras de Kidder Trágico Desfecho SEGUNDA PARTE O Metodismo Volta e se Afirma A Missão Ransom Valiosos Reforços Ansiedade e Progresso A Primeira Década da “Missão Ranson” - 1876-1886 Dias Memoráveis de 1886 TERCEIRA PARTE Outra sementeira Metodista Trabalho na Zona Colonial Terrel, o Intrépido Outros Campeões da Fé Transferência de Trabalhos Progresso Metodista nos Pampas QUARTA PARTE O Metodismo no Nordeste e Norte QUINTA PARTE Uma só Igreja a Perseverar Governo Próprio A Obra no Amazonas - Revelações e Perguntas Publicações e Casas Publicadoras Institutos Educacionais das Conferências Anual e Central Escolas que desapareceram pela Estrada No Campo da Ação Social A Mulher no Cenário Metodista Memórias da Igreja do Catete A Igreja Metodista e Bebidas Alcoólicas A Voz do Evangelho em Brasília Umuarama - O Quê do Sonho Dourado Retalhos, Recortes e Retratos Qual deveria Ser a data da Origem do Metodismo no Brasil?
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    APRESENTAÇÃO Participando das comemoraçõesdo primeiro centenário do metodismo permanente no Brasil, solicitamos, em nome da Junta Geral de Educação Cristã, à Srª Eula Kennedy Long, filha do autor do livro “Cincoenta Annos de Methodismo no Brasil”, que brindasse a Igreja Metodista do Brasil com mais uma obra de sua fluente pena de escritora, desta vez no campo da história. Assim, sob o sugestivo título: “Do meu velho Baú Metodista” surge uma obra que recorda de maneira viva e interessante muitas das lutas e realizações de mais de um século de metodismo no Brasil. Á Ilustre autora os agradecimentos da Junta Geral de Educação Cristã e da Igreja Metodista por mais esta preciosa colaboração. São Paulo, março de 1968. João Nelson Betts Secretário Geral de Educação Cristã
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    INTRODUÇÃO " Um povoque não conhece a sua origem e nem o que fizeram seus maiores, ignora tudo, não tem passado, vive do presente ". Bem fortes são estas palavras de Alexandre de Mello Moraes, historiador e sociólogo do século 19. Contudo, vou parafraseá-las dizendo: "A Igreja que não conhece a sua origem e nem o que praticaram seus pioneiros, não tem raízes profundas para alimentar o seu presente ou dirigir o seu futuro". Eis porque, neste ano do CENTENÁRIO DO METODISMO PERMANENTE NO BRASIL, a nossa Igreja tem achado justo relembrar e comemorar o seu passado, tão cheio de eventos e personalidades inspiradoras, de estímulo para hoje e desafio para amanhã. As próprias palavras do Mestre justificam tal pesquisa, pois não disse Jesus: "Todo escriba VERSADO NO REINO DOS CÉUS é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas?”. Todavia, fiquei desapontada e um tanto perplexa, quando soube que um professor de Escola Dominical havia se queixado, dizendo: "Por que gastar tantos domingos em estudos desses pioneiros antigos e da história do passado? Deixemos o passado; cuidemos do presente; pensemos só no futuro!" Seria mesmo que, ao estudar para apresentar estes fatos, eu estivesse preocupada demais com o passado, gastando horas preciosas em fazer minhas pesquisas, em tirar as COISAS VELHAS DO MEU DEPÓSITO? Como que em resposta à minha perplexidade, chegaram-me às mãos - como por coincidência, ou guiada por Deus - um sem número de respostas. Primeiro, um livro recente de Franklin de Oliveira, A MORTE DA MEMÓRIA NACIONAL, no qual o autor lamenta o "descaso geral pelo patrimônio nacional", declarando que o "Brasil está
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    correndo o perigode tornar-se nação historicamente desmoralizada"; advertindo-nos que "a morte nacional se realiza pelo abandono de nossas fontes culturais". Será possível, perguntei-me a mim mesma, acontecer isto com a nossa Igreja Metodista, se não cuidarmos geração após geração, de relembrar as nossas fontes religiosas, os feitos, sacrifícios e vitórias dos pioneiros de antanho? Mais preciosas e encorajadoras, porém, foram as palavras eloqüentes de Sante Uberto Barbieri, filho do nosso Brasil, agora bispo da Região Platina (Argentina), consagrado líder continental e mundial do metodismo, no seu livro Estranha Estirpe de Audazes, onde escreve: "A História é o único elemento em nossa vida social que nos liga ao passado. CORTARÍAMOS DE NÓS MESMOS UMA IMPORTANTE PARTE SE OMITÍSSEMOS a História... Podemos existir sem a história, MAS NÃO VIVER... Na História se refugia a vida que já foi para não morrer... para continuar vivendo, PARA OBRIGAR-NOS A VIVER". E reforçando suas observações, cita Miguel Unamuno, o grande filósofo da Espanha: “É A VISÃO DO PASSADO QUE NOS EMPURRA À CONQUISTA DO PORVIR", ao qual posso acrescentar “e com ela lançamos bases seguras para o futuro”. *** Sinto-me, pois, justificada em trazer aos meus leitores essas recordações do passado, essas histórias sobre os corajosos pioneiros do metodismo brasileiro. Portanto, desse meu depósito, meu velho baú dentro do qual tenho entesourado retratos velhos e desbotados, recortes de jornais, revistas, livros antigos de “orelhas de burro”, desse meu velho baú vou retirando aquilo que peço a Deus nos levem nessa e em futuras gerações a emular aqueles que tanto sacrificaram pela causa do Senhor Jesus Cristo. Contudo, mister é que olhemos mais longe ainda, além destes pioneiros, além do fundador - João Wesley. Mister é que fixemos os olhos e os corações Naquele que e o nosso real fundamento, Jesus Cristo, o autor e consumador de nossa fé, a Rocha de que fomos cortados (Is 51:1), a rocha da nossa fortaleza. Bem sei que muito a contragosto, por falta de tempo e de informações que não consegui colher, não tenho incluído nessa "Linha de Esplendor Sem Fim" muitos e
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    muitos que aquimereciam constar. E por estas falhas, peço perdão. Outros historiadores em profundidade suprirão esta falta. *** Outrossim, agradeço ao Rev. João Nelson Betts, que, em nome da Junta Geral de Educação Crista, pediu-me escrever este livro, o grande privilégio e honra de contribuir assim para a comemoração do CENTENÁRIO DO METODISMO PERMANENTE NO BRASIL. Eula Kennedy Long São Paulo, Brasil Novembro de 1967
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    CAPÍTULO 1 ALBORES DOPROTESTANTISMO NO BRASIL Pascal, eminente cientista e filósofo francês do século XVII, fez certa vez o intrigante comentário: "Fosse o nariz de Cleópatra mais comprido, a história do mundo seria outra". Parece frívola tal observação, ainda mais quando falasse sobre o protestantismo; contudo, por meio destas palavras Pascal desejava mostrar que a influência de detalhes insignificantes em si e aparentemente sem conexão pode influenciar e até determinar o destino de pessoas e nações! Foi uma série de eventos sem conexão nenhuma com o protestantismo, e conseqüentemente com o metodismo, que lhes ofereceu a oportunidade de penetrar no Brasil, tanto que podemos parafrasear Pascal, dizendo: "Não fora a ambição de Napoleão, a história do Evangelho no Brasil teria sido outra". O primeiro evento liga-se a fuga de D. João VI, rei de Portugal para a nossa terra, em 1808, e ao subseqüente abrir dos portos, ato que rompeu a "cortina de ferro" que até então isolara o Brasil, conservando-o na ignorância e no atraso material, intelectual e espiritual. Tão cerrada fora esta cortina que um historiador brasileiro comentou que seria mais fácil desembarcar no Rio um passageiro com varíola, do que um judeu ou herege. Alexandre Von Humbolt, grande cientista alemão que explorava os países da América do Sul, e que foi proibido de entrar aqui, chamou o Brasil de "um jardim amuralhado". Tal era a dominância total pela Igreja Católica Romana que o padre Luiz Gonçalves dos Santos, que escreveu um livro em 1838 ("O Católico e o Metodista"), para combater os metodistas, declarou com a maior franqueza "até o presente nenhum herege se atreveu a levantar a voz para perverter os católicos, pois a Igreja Católica do Brasil era um jardim fechado onde não podia entrar nenhum animal daninho - um redil por todos os lados cerrado, ao qual nenhum lobo se atrevia a aproximar-se" (Introdução, págs. 25 e 26). Abertura dos portos Abertos os portos, especialmente do Rio de Janeiro, começaram logo a afluir ao Brasil muitos navios que traziam comerciantes de outros países, principalmente dos Estados Unidos e da Inglaterra, então a "rainha dos mares".
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    Aqui entra emoperação o segundo daqueles pequenos itens que influenciaram o destino do protestantismo. Pois se não fosse o gênio inglês que sempre requer a confraternização com seus patrícios, o protestantismo teria demorado ainda mais a chegar às nossas plagas (estou ignorando o protestantismo dos huguenotes no Rio e dos holandeses em Pernambuco, que nos séculos XVI e XVII aqui vieram por motivos de colonização). Os ingleses e seu templo Dia chegou em que os ingleses, ao firmarem com D. João VI um tratado de comércio e amizade, pediram o direito de construírem as suas próprias igrejas anglicanas. O rei encontrou-se então "nos chifres de um dilema". Como recusar um favor aos aliados que o haviam protegido em sua fuga de Napoleão? Por outro lado, como arriscar a fúria da Igreja Católica Romana, que era oficial e não permitia a entrada de religiões acatólicas? D. João mostrou-se astuto em resolver o problema, ainda que não ao contento da igreja oficial. Concedeu aos ingleses o direito de construírem seus templos, contanto que não tivessem a aparência exterior de um templo - particularmente nada de torre e sinos e, bem entendido, o culto seria somente para eles, os anglicanos. Quando o rei viu o primeiro projeto do templo não o aprovou, porque as janelas pareciam com as de uma igreja. Todavia, como naquela época janelas até de residências particulares eram freqüentemente de estilo ogival ou gótico (como ainda vemos em casas antigas do Brasil), elas ficaram sem modificações. Assim foi que os ingleses, em 1819, terminaram o seu templo, a primeira igreja protestante, não somente no Brasil, mas em toda a América do Sul. É interessante notar que já em 1938 o Padre Luiz G. dos Santos se queixava de "Um brasileiro católico que escandalizou toda a cidade (do Rio) indo comer pão e beber vinho na Rua dos Barbonos", como então se chamava a rua onde foi construído o templo inglês (O Católico e o Metodista, pág. 134)). Esse mesmo tratado histórico também deu aos ingleses cemitérios próprios, pois até então era proibido o enterro de chamados "hereges" em cemitérios católicos. O mais conhecido era o da Gamboa no Rio de Janeiro, cujo local fora anteriormente uma chácara
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    do rei, eque por coincidência, hoje adjacente ao nosso Instituto Central do Povo. Assim, pois, pavimentava-se a estrada para os cultos protestantes - e para nós os metodistas. Outras conseqüências do franqueamento dos portos Este franqueamento também contribuiu para a divulgação de informações mais precisas sobre o Brasil, tão desconhecidas então pelo resto do mundo. Negociantes, capitães e tripulantes das naves, voltando à Inglaterra e aos Estados Unidos, descreviam a ignorância e o atraso e escuridão espiritual do Brasil. Já em 1805, Henry Martyn, um capelão anglicano em viagem à Índia num vapor que aportara em Salvador, após várias experiências de conversas com padres, escreveu no seu diário palavras que se tornaram clássicas quanto à situação religiosa no Brasil: "Cruzes, cruzes, por todos os lados - mas quando se pregará a verdadeira doutrina da cruz?" Todas estas observações não eram mentira e calúnias, como asseveraram os padres, pois são confirmadas por competentes historiadores brasileiros, como Gilberto Freyre e Vianna Moog. Já em 1843 o Ministro da Justiça e dos Negócios Eclesiásticos no Brasil relatara à Legislatura Imperial: "É notório o estado de decadência em que se encontra o nosso clero. E evidente a necessidade de se tomarem medidas capazes de remediar o mal". Divulgação das Escrituras Sagradas Capitães, marinheiros e negociantes ingleses e americanos, profundamente impressionados, começaram a trazer e a distribuir Bíblias, Novos Testamentos e folhetos religiosos que lhes eram fornecidos pelas Sociedades Bíblicas. Confirma isto Daniel Kidder (de quem digo algo adiante), relatando casos que provam que desde 1823, isso se fazia aqui e ali. Conta de um inglês que, recebendo uma consignação de Bíblias em 1833, para poupar-se o trabalho de distribuí-las pessoalmente, deixou-as num caixote na Alfândega, para serem levadas por quem as quisesse. Outro caso era o de um pastor anglicano que dava ou vendia as Escrituras em 1836, porque se sentia "profundamente preocupado com o bem estar do povo em cujo
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    seio residia; dizendocom verdadeira perspicácia que aquilo de que o Brasil mais necessitava era de bons pregadores brasileiros". Certo é que mesmo antes de as igrejas evangélicas se encarregarem de enviar missionários, já cristãos leigos de outras terras reconheciam a necessidade espiritual da nação e faziam empenho por satisfazê-la.
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    CAPÍTULO 2 PRIMEIRAS SEMENTEIRASMETODISTAS NO BRASIL "Assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designasse". (Isaías 55.11). Pitts pesquisa e também organiza Talvez influenciada pelas informações que vinha recebendo, a Igreja Metodista nos Estados Unidos, em sua Conferência Geral de maio de 1835, resolveu enviar à América do Sul, para verificar a possibilidade de estabelecer trabalho missionário ali, um missionário. Foi escolhido para esse propósito, o pastor da Igreja McKendree de Nashville, Estado de Tennessee — um jovem ministro de 27 anos, Rev. FOUNTAIN E. PITTS (interessante coincidência: essa igreja tornou-se responsável depois pelo sustento do Rev. James L. Kennedy, outro missionário pioneiro ao Brasil). A primeira Sociedade Metodista no Brasil Pitts, ele próprio tendo que conseguir os recursos para tão dispendiosa viagem, partiu de Nashville, pregando e angariando donativos em caminho para custear o empreendimento. Embarcou em fins de junho e chegou ao Rio de Janeiro no dia 19 de agosto de 1835, passando ali uns seis meses. Organizou uma "Sociedade Metodista", como então eram chamadas as nossas congregações, prosseguindo depois a Buenos Aires e Montevidéu onde também organizou Sociedades (todas, como só podia ser, com elementos que falavam inglês). Por isso, é ele designado o MISSIONÁRIO PIONEIRO DA AMÉRICA DO SUL, pelos mais competentes historiadores metodistas; entre esses, o antigo Dr. D. B. McFerrin, que o intitulou o "primeiro missionário nomeado para trabalho permanente na América do Sul"; e o recente W. C. Barclay que escreveu: "(Pitts) lançou os fundamentos do trabalho metodista no Brasil, Uruguai e Argentina". (Vol. I, pág. 347). Também missionários de outras denominações evangélicas, assim o
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    reconhecem, como oveterano presbiteriano Alexander Blackford, que disse: "À Igreja Metodista cabe a honra do primeiro esforço em tempos modernos de implantar o Evangelho no Brasil". (Kennedy, pág. 13). Antes de deixar o Rio de Janeiro, chegou a fazer planos preliminares para a construção duma igreja. Voltando à sua terra, o Rev. Pitts apresentou um relatório tão entusiástico sobre as oportunidades aqui existentes, que a Conferência Geral nomeou um pastor para estabelecer trabalho missionário no Brasil. Rev. Justin R. Spaulding Este missionário foi o Rev. Justin R. Spaulding, ministro ordenado e já homem maduro, pois contava 34 anos. Embarcou em março de 1836, em Nova Iorque, trazendo consigo a sua esposa, um filhinho e uma "doméstica". Hospedou-se no Rio em casa de uma família luterana; e naquela mesma noite, demonstrou a sua dedicação e energia, pregando para umas trinta a quarenta pessoas — uma "pequena sociedade de pessoas piedosas", assim ele as descreveu, que fora organizada pelo Rev. Pitts e que ansiosamente o esperava. Sem perder tempo, começou em junho, com trinta alunos, "uma Escola Dominical da qual faziam parte crianças brasileiras a quem ensinava a Bíblia em sua própria língua". (Kennedy, pág. 4). Quem as ensinava, não consta; mas talvez foi um leigo anônimo, já residente no país, pois Spaulding ainda não conhecia bem o português. Cremos ter sido essa a primeira Escola Dominical no Brasil, apesar de duas outras denominações disputarem a honra. Num histórico sobre Petrópolis, o Rev. Nadir Pedro dos Santos escreveu que a primeira Escola Dominical oficial no Brasil foi estabelecida em 1855 pelo Dr. Robert Kalley, missionário escocês da Igreja Congregacional (cf. Expositor Cristão, 10-12-1957). E o Rev. William R. Read, em recente obra, escreve que a primeira Escola Dominical foi fundada em 12 de abril de 1860, pelo missionário presbiteriano, Rev. Ashbel G. Simonton. Pode ser que as Escolas Dominicais congregacional e presbiteriana levem os louros em termos continuidade, mas não em termos de primazia de organização. Falando sobre o trabalho do Rev. Spaulding, comenta Kennedy (Expositor Cristão, 21-7-1894) que a “Escola Dominical floresceu a tal ponto, que o Rev. Spaulding
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    alugou uma salamais espaçosa para nela celebrar os cultos. Houve, também, reuniões de oração regularmente; e todos os domingos, com seus ajudantes, ele pregava em algum navio aos milhares de marinheiros que constantemente entravam na baía do Rio de Janeiro". Tanto o Rev. Kidder como o Rev. Kennedy, muito após, também iam a bordo dos navios pregar aos seus tripulantes. A primeira escola diária evangélica no Brasil O espírito do metodismo foi sempre zeloso pela educação, procurando elevar as massas com escolas num tempo quando a instrução escolar ainda era privilégio de poucos. De sorte que, já em julho de 1836, o Rev. Spaulding abria uma escola diária na rua do Catete, à qual assistiam não só os filhos de estrangeiros ali residentes, mas também crianças de brasileiros católicos. Confirmam esse fato as censuras dirigidas a estes pais pelo padre Luiz Gonçalves dos Santos, chamando-os de "simples e ignorantes", e admoestando: "Apartai delas os vossos filhos... Ah, permita Deus que semelhantes pais que entregam os seus filhos a hereges para serem instruídos por eles, não chorem algum dia lágrimas de sangue!" ("O Católico e o Metodista", págs. 118, 119, 177). Chegam reforços O Rev. Spaulding, convencido das necessidades espirituais do Brasil, e sentindo que precisava de auxiliares, pediu insistentemente que a Igreja Mãe lhe enviasse recursos. "VENHA À MACEDÔNIA, E AJUDE-ME!" era o seu constante apelo. A resposta veio, e depressa; pois em novembro de 1837, chegaram ao Rio de Janeiro, o Rev. Daniel Parrish Kidder com sua esposa Cynthia, o professor M'Murdy (às vezes escrito Murdy), e a Srta. Maraella Russel, também professora e talvez irmã de Cynthia, pois ambas tinham o mesmo sobrenome. Entre os dois que vinham ensinar, surgiu logo um romance, e brevemente se uniram em matrimônio. Continuaram eles dirigindo a pequena escola diária organizada pelo Rev. Spaulding. Desses, porém, pouco sabemos, pois regressaram dentro em pouco aos Estados Unidos desanimados ou doentes. O Brasil de então Talvez seja de valor relembrar aqui alguns fatos que naqueles tempos, traziam
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    desânimo aos pioneiros.Primeiro - a longa viagem marítima, em vapores de pouco conforto, arriscando-se e passando por sérios perigos, pois não existiam meios de comunicação com a terra, como hoje. Depois de chegados, tinha que enfrentar as dificuldades inerentes ao aprendizado de outra língua, e acostumar-se a uma cultura de valores e costumes estranhos. Qualquer comunicação com a Igreja Mãe e com os queridos e a Pátria distante, era dificílima. Ademais, chegavam a uma terra onde ainda grassavam febres malignas como a palustre e a amarela, e doenças contagiosas como a varíola e a peste bubônica. Uma terra onde, conforme o historiador Gilberto Freyre, a limpeza das ruas e dos quintais era feita pelos urubus, e a da praia pelas marés; onde até meados do século 19, residentes das cidades tinham que ser proibidos de atirar água suja das janelas às calçadas sem primeiro avisar três vezes, "Cuidem da água!" (Freyre, pág. 151). Tudo isso demandava, pois, muita saúde, muita coragem, e muita confiança em Deus, para que esses pioneiros deixassem sua família e sua Pátria para dedicaremse ao trabalho em terra estranha - trabalho que no Brasil era muitas vezes caluniado e hostilizado. Apesar desses pioneiros metodistas não terem sofrido perseguição física, eram mal-interpretados em seus motivos e escarnecidos, e advinha disto um sentido de insegurança. Conta o Rev. William Read que duas esposas de missionários presbiterianos enlouqueceram devido à tensão que sofreram quando os seus maridos viajavam. Bastava a menção da palavra protestante para apavorar homens e mulheres em certas comunidades do interior. O povo acreditava que o demônio se apossava dos corpos dos protestantes e que seus pés se transformavam em cascos fendidos. O Rev. Perce Chamberlain, presbiteriano que fundou a Escola Americana e depois o Mackenzie, surpreendeu certa vez, um grupo de residentes duma zona rural a tirarem os sapatos a fim de mostrar a toda a gente, que não eram "bodes protestantes" (Read, pág. 52). Todavia, a obra intensifica-se Agora com o Rev. Kidder para lhe ajudar, o trabalho metodista na Corte (Rio de Janeiro) progredia a ponto de os padres "resistirem-no freneticamente". Primeiro mandaram imprimir um pequeno jornal "O Católico Fluminense"; depois, o Padre Luiz Gonçalves dos Santos publicou um livro, “O Católico e o Metodista”, ambos mais úteis para divulgar o metodismo do que para contê-lo!
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    Intensificaram os missionáriosa divulgação das Escrituras e folhetos religiosos, nisso aderindo aos conselhos de João Wesley, que frisara sempre a importância da literatura religiosa. Escrevera Wesley que a "propagação de informações por meio do prelo segue em importância a pregação do Evangelho" (Early American Methodism, Vol. II, pg. 482). O Rev. Kidder, logo ao chegar ao Rio, ficou admirado com a venda e distribuição das Escrituras, como já estava sendo feita pelo Rev. Spaulding. Escreveu num dos seus livros que apesar de a Bíblia não constar da relação dos "livros que podiam ser admitidos nas colônias (de Portugal)" elas logo encontraram compradores. “Na sede de nossa missão, dizia o Rev. Kidder, deu-se o que poderia chamar de verdadeira ‘corrida’ de pretendentes ao Livro Sagrado”. Muitos enviaram bilhetes por escravos ou crianças. Um dos bilhetes era assinado por um Ministro do Império que pediu exemplares para toda uma escola fora da cidade. Entre os que nos foram procurar encontravam-se diversos sacerdotes... Na sexta e no sábado, apinharam-se na casa suplicantes de todas as condições, desde o ancião encanecido ate a criança palreira; desde o senhor da alta hierarquia até o pobre escravo. Tem vindo pessoas de todas as zonas da cidade... “SÓ À ETERNIDADE CABERÁ REVELAR TODO O ALCANCE DE SEUS BENEFÍCIOS" (referindo-se a disseminação das Escrituras). Spaulding e o problema da escravidão Além dos seus outros trabalhos, o Rev. Spaulding desejava fazer algo para beneficiar os pobres escravos. Conhecendo já de primeira mão, na sua própria terra, os males dessa instituição, ele se compadeceu da sua sorte e aceitou na escola diária algumas crianças de cor. “Foi esse, comenta um historiador, talvez o primeiro esforço na América do Sul, de reconhecer a igualdade de direitos dos negros.” Relatando o que fizera, o Rev. Spaulding escreveu à Junta de Missões nos Estados Unidos: "O que será o resultado final da escravidão, ou quando terminará nesse país, e impossível dizer. Tudo quanto podemos fazer é sermos diligentes, extremamente discretos e entrarmos por qualquer porta que a Providência abrir, para fazer-lhes bem". Porém o Padre Luiz, interpretando injustificável ou maliciosamente as intenções do missionário - que decerto não tinha a menor idéia de
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    promover qualquer movimentopolítico ou violento a favor dos pretos, escreveu: “Aqui temos a missão metodista em duas partes ou dois fins: o primeiro, descatolicizar o Brasil, no que trabalham com todo o vigor; e, segundo, emancipar os nossos escravos. Se os metodistas pretendem ensinar os pretinhos somente a sua doutrina, por que razões se mostram tão acautelados, tão prudentes? Aqui há mistério oculto - os Metodistas têm planos escondidos sobre os nossos escravos, que não lhes convém ainda descobrir” (revelar). (O Católico e o Metodista, pág. 176). Forte reação da hierarquia católica Não é de se admirar que os líderes da igreja dominante começassem a sentir tamanha preocupação com os sucessos dos protestantes, que chegassem a concitar o governo imperial, em 8 de maio de 1839: "Se o Brasil quer ser feliz, oponha-se pelo órgão do seu governo a toda inovação, tanto política como religiosa, que além de imprudente, desnecessária e lesiva dos direitos dos povos, muito dano causara ao Estado, principalmente em tempos tão melindrosos como os atuais" (Dissertação sobre a Sepultura dos Cathólicos, pág. 30). Para esse padre, não havia palavras suficientemente duras com que estigmatizar os metodistas, "Como é possível", perguntou, "que na corte do Império da Terra de Santa Cruz, à face do Imperador e de todas as autoridades Eclesiásticas e Seculares se apresentem homens leigos, casados, com filhos, denominados missionários do Rio de Janeiro? Incrível, mas desgraçadamente certíssimo! Estes intitulados missionários estão a perto de dois anos entre nós, procurando perverter os católicos, abalando a sua fé com pregações públicas em suas casas, com Escolas Semanárias e Dominicais, espalhando Bíblias truncadas e sem notas — enfim, convidando a uns e outros para o Protestantismo; e muito especialmente, para abraçar a seita dos Metodistas, de todos os protestantes, os mais modernos, mais turbulentos, os mais relaxados, fanáticos, hipócritas e ignorantes". (Introdução de "O Católico e o Metodista", pág 24).
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    CAPÍTULO 3 VIAGENS EXPLORADORASDE KIDDER Os missionários não se intimidaram. Desejosos de conhecerem bem o país, o ambiente em que iriam trabalhar, e as oportunidades existentes, viajaram extensivamente pelo Brasil, principalmente o Rev. Kidder. Enquanto o Rev. Spaulding dirigia os trabalhos na Corte, Kidder, como representante também da Sociedade Bíblica Americana, sentia-se obrigado a fazer tais viagens para distribuir mais largamente as Escrituras. Percorreu de início as zonas mais próximas do Rio; depois, embarcando em navio até Santos, de lá fez a difícil Jornada em lombo de mula, serra acima, até São Paulo. Foi isso em Janeiro de 1839. Em São Paulo Do ponto de vista da missão metodista, foram realmente extraordinárias estas expedições missionárias. Em muitas localidades, o Rev. Kidder recebeu hospedagem até de sacerdotes; em algumas, teve a colaboração de vigários mais liberais e esclarecidos para a distribuição das Escrituras - como em Iguaçu, Estado do Rio. "Durante todo o tempo em que residimos no Brasil", observou, "jamais encontramos o menor obstáculo ou recebemos a mais leve desconsideração por parte do povo". Que contraste com o tratamento recebido do Padre Luiz! Chegado a São Paulo, Kidder teve a feliz idéia de distribuir Testamentos pelas diversas escolas da cidade para serem usados como livro de leitura; mas para conseguir isso, precisaria receber ordem da Assembléia Legislativa. Entusiasmado, Kidder visitou a Assembléia, sendo bem recebido e avistando-se com muitos parlamentares e pessoas de destaque. A sua proposta foi recebida com respeito; e até o Bispo do Rio, ali presente, aprovou a idéia. Kidder, chegou a falar com o Padre Diogo Feijó e com Martim Francisco, o presidente da Assembléia, que disse "sentir-se feliz que sua Província seria a primeira a dar o exemplo de introduzir a Palavra de Deus nas escolas públicas". Interrogado sobre a sua oferta, Kidder garantiu em nome da Sociedade Bíblica "o oferecimento gratuito de Novos Testamentos na edição do Padre Figueiredo, em quantidade suficiente para oferecer dois exemplares a cada uma das escolas primárias da
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    Província". Pedia umasó condição - que tais volumes "fossem desembaraçados na Alfândega do Rio de Janeiro - que fossem distribuídos, conservados e usados pelas escolas como livros de leitura geral e instrução para os alunos". A oferta foi aceita; mas devido às "intrigas” comuns à maioria das organizações políticas - a decisão da Assembléia foi procrastinada e - tais eram as animosidades entre os dois partidos e tal a pressão de parte do clero mais atrasado - que finalmente a Comissão a qual fora entregue a proposta, deu um parecer desfavorável, "só mesmo Deus poderá dizer o que teria sido o efeito dessa medida para o nosso Brasil, se além de aceita tivesse sido posta em prática!“ Viagens para o norte e nordeste Em meados do ano de 1839, enquanto o Rev. Spaulding cuidava do trabalho no Rio, Kidder resolveu viajar a outras regiões do Brasil. Naqueles dias, não havia nenhuma comunicação rápida entre o Rio de Janeiro e o norte do país; dizia-se ser mais fácil saber o que se passava ali por noticias procedentes da Europa, do que diretamente. Foi por isto que o governo Imperial criou uma companhia de navegação; e no dia 1º de julho, Kidder embarcou no vapor "São Sebastião", deixando, escreveu mais tarde, "a nossa boa companheira que deveria permanecer no Rio cuidando de um casal de filhos". Ah! CYNTHIA! Esposa e companheira de missionário, mãezinha que ficavas só nesta terra estranha enquanto o teu marido viajava longe, meses a fio, distribuindo a Palavra de Deus e anunciando as boas novas! Quantos receios e quantas saudades não terás sentido! Contudo, fervorosamente cristã, como teu marido descreveu-te, não hesitaste em aceitar o peso da solidão, do medo e da incompreensão de tua missão! O Rev. Kidder levou consigo uma grande remessa de Bíblias, Testamentos, folhetos e Saltérios nessa viagem que o levou ate o Maranhão e Pará - jornadas que somente exploradores audazes teriam empreendido; e onde quer que fosse, distribuía e pregava a Palavra. "O missionário", escreveu ele, "aprende a se valer de todas as ocasiões, por menores que sejam, de praticar o bem em nome do Mestre". Como bom wesleyano, Kidder também se interessava muito em combater o vício da bebida, pois Wesley fulminara todos que faziam e vendiam bebidas espirituosas, declarando que eram
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    "envenenadores que assassinavampor atacado, que conduziam os homens qual cordeiros ao inferno!" (Barclay, pág. 23). Duras palavras! Kidder, portanto, procurava sempre conseguir votos de abstinência e promover a organização de SOCIEDADES DE TEMPERANCA, visando especialmente os marinheiros, que tinham fama de beberrões. Na primeira viagem a bordo do "São Sebastião", conseguiu diversos compromissos de abstinência. Desembarcou para trabalhar no Recife; e quando o vapor retornou da sua viagem mais ao norte, Kidder foi a bordo para verificar os resultados da sua campanha antialcoólica. "Com grande e admirável surpresa", relatou, "soubemos que treze entre marinheiros e foguistas, que haviam assinado o compromisso, continuavam a observá-lo estritamente, a despeito das tentações que enfrentavam". Noutra ocasião, quando prosseguia em outro barco, o comandante, capitão da marinha imperial brasileira, assegurou-lhe que apoiaria tudo que fizesse em prol do bemestar da sua tripulação, manifestando "a esperança de que conseguíssemos através dos nossos esforços, o milagre da temperança, como lhe constava que havíamos feito a bordo do "São Sebastião". Dando mais pormenores sobre essa viagem, Kidder escreveu: "Os nossos trabalhos não se cingiam somente aos domingos. Éramos às vezes convidados para pregar a bordo dos navios de guerra americanos; de vez em quando passávamos por entre navios aglomerados nos portos, visitando-os, conversando com os marinheiros, e distribuindo publicações. Fazíamos esse trabalho como se atirássemos pães ao mar, que dias mais tarde, certamente encontraríamos de novo. Deixamos exemplares do livro sagrado à venda em diversos lugares, e panfletos para distribuição. Assim, estabelecemos depósitos nas cidades costeiras, onde as Escrituras pudessem ser procuradas pelas pessoas do interior, desde São Paulo até o Pará, deu-se um grande passo no sentido de divulgar a Palavra de Deus em todo o país. Passamos então, a providenciar ativamente a realização do culto em português no Rio de Janeiro. Para tanto, pusemo-nos a preparar uma série de prédicas, que esperávamos logo poder começar a ler em público". Tais eram os sonhos, os ideais, as atividades desse corajoso e dinâmico servo do Senhor que tinha uma visão dum Brasil, do Sul ao Norte, dedicado ao Senhor Jesus Cristo! Visão, entretanto, que não poderia realizar — uma terra prometida que não
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    chegaria a entrar.Das profundezas dos nossos corações, perguntamos perplexos: "POR QUE, Ó DEUS, POR QUE NÃO PUDERAM ESSES CORAJOSOS SERVOS VER SEM INTERRUPÇÃO A TUA MISSÃO NO BRASIL?.
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    CAPÍTULO 4 TRÁGICO DESFECHO "Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham." (Apocalipse 14:13). Falecimento de Cynthia Kidder Voltou Daniel Kidder de sua longa viagem, entusiasmado, satisfeitíssimo com a sementeira que lançara radiante em antecipação de reunir-se com a querida esposa e filhinhos, disposto a começar logo a pregar em português. Mas grande desilusão! A sua alegria tornou-se brevemente em consternação. Cynthia passava mal; dia a dia piorava com o que ele chamou de "cruel moléstia", presumivelmente febre amarela. Finalmente, a despeito de todos os cuidados médicos, deu o seu último suspiro, vindo a falecer em 16 de abril de 1840. No mesmo dia, foi enterrada no cemitério inglês da Gamboa - cemitério que era generosamente cedido a qualquer protestante. Pois naqueles dias, os chamados "hereges" não podiam ser enterrados nos demais cemitérios que, quase sem exceção, pertenciam à Igreja Romana. Uma simples lápide leva os seguintes dizeres em inglês: SACRED TO THE MEMORY OF MRS CYNTHIA HARRIET, WIFE OF REV. DANIEL P. KIDDER DIED APRIL 16th, 1840 AGED 22 YEARS AND 6 MONTHS. Isso é:
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    CONSAGRADO À MEMÓRIADA SRA. CYNTHIA HARRIET, ESPOSA DO REV. DANIEL P. KIDDER, MORTA EM 16 DE ABRIL DE 1840 COM A IDADE DE 22 ANOS E 6 MESES. *** Com profunda emoção, mas grande reserva, o Rev. Kidder escreveu sobre o triste desenlace em palavras prenhes de significação, palavras que revelam o que foi o caráter cristão e o preparo intelectual de Cynthia: "Vítima de cruel moléstia, nossa amada esposa em poucos dias baixou prematuramente à sepultura. Fora roubada ao exercício duma atividade na qual se especializara cuidadosamente. Sua dedicação e devotamento ao serviço que lhe fora destinado, foram repentinamente cercados pela mão da morte. Morreu, porém da mesma forma que vivera, humildemente, fervorosamente cristã; e em seu último alento, triunfou sobre o inimigo adormecendo mansamente em Jesus, o Salvador". Ainda mais reveladoras palavras sobre a breve, mas preciosa vida dessa serva do Senhor se encontra numa carta íntima na qual o Rev. Kidder participou o falecimento da Cynthia aos seus pais: “Prezados pais, Pela misteriosa, mas sempre sabia providência de nosso Pai Celestial, tenho agora de cumprir um dever melancólico e doloroso - o de participar-lhes que não mais vive a nossa querida Cynthia! Na quinta-feira, 16 de abril, deu ela o seu suspiro final. Poucos dias antes, gozava de saúde; e conforme o saber humano podia antecipar uma vida tão longa como a de qualquer outro ser. Depois sobreveio como que uma febre gástrica... Seus médicos foram os melhores que podíamos ter, tanto ingleses como brasileiros, mas tudo foi em vão. Faleceu sem luta ou sofrimento, e suas últimas palavras foram, "meu querido marido". Apesar de preparada (para a morte) ela não a antecipava, ao
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    contrário, entretinha adistinta impressão que Deus a conservaria. Durante esse tempo, ela tinha adquirido o uso correto e fluente da língua portuguesa, ficando assim duplamente preparada para o seu trabalho no Brasil. Os amigos estenderam toda a ajuda e simpatia possível até os últimos momentos da sua vida, e o enterro foi na Gamboa, o único lugar na cidade para o enterro de protestantes. Não é costume aqui comparecerem senhoras a enterros; e como o lugar do cemitério é bem afastado, é raro muitas pessoas assistirem-no. Nós, porém, ficamos surpresos e gratos com a assistência de 60 a 70 pessoas de ao menos quatro nações e línguas diferentes. O enterro foi na sexta-feira santa que os católicos aqui observam com procissão, não permitindo nem sino nem musica pública. O Rev. Spaulding fez o culto fúnebre no qual foi acompanhado por dois ministros ingleses, um alemão, e por mim. Partiu assim a minha amada esposa, com a idade de 22 anos, 6 meses e dez dias, no quarto ano do nosso matrimônio. É ela a PRIMEIRA MISSIONÁRIA NA AMÉRICA DO SUL, chamada à sua recompensa eterna. Seus restos mortais descansam no solo do Brasil num recanto à cabeça duma avenida de árvores que sobe o declive da praia em direção a uma pequena elevação. Dali, por onde o viajante erguer os olhos, verá uma paisagem que combina a beleza natural à expansão grandiosa de um panorama deslumbrante. Descansa ali a minha amada; e de lá se erguera na manhã da ressurreição. Que nós também, ao soar da última trombeta, nos acordemos para encontrarmos-nos com ela no ar! Para esse fim, sempre oraremos. Seu filho enlutado, com afeto, D. P. Kidder (Carta publicada no CHRISTIAN ADVOCATE, 26 de junho de 1840).
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    *** Ah, Cynthia, Cynthia!Foste de fato, a primeira mártir do metodismo brasileiro! Voluntariamente deixaste os teus pais queridos e a pátria amada para acompanhar o teu marido em sua sagrada missão de arauto do Evangelho! Ao seu lado labutaste com devoção; a língua estudou para melhor servir a nosso povo. Não duvidaste ficar só, cuidando dos filhinhos, enquanto ele arriscava a vida em expedições pelo Brasil, procurando espalhar a Palavra de Deus! BENDITA SEJA A TUA MEMÓRIA! Bendito para nós hoje e o teu exemplo de esposa dedicada e colaboradora do teu marido em sua obra evangelizadora; de serva pronta a dar-se ao serviço do Mestre onde quer que Ele te chamasse! *** Regresso do Rev. Kidder aos Estados Unidos Viúvo aos 25 anos, com dois filhinhos, sendo um de colo e doente, Daniel Kidder viu-se forçado a retornar à sua Pátria - "na esperança, ele escreveu, de poupar a vida de um menino ainda pequeno". É lógico presumir que ele teria voltado para o Brasil, uma vez que se recuperasse do grande choque sofrido, pois vivia fazendo planos para um grande futuro no Brasil. Mas isso não sucedeu. Ainda que não tivesse falecido Cynthia, ele teria sido obrigado a abandonar o trabalho. É que a "Sociedade Missionária" ( a “Junta”, como agora a chamamos), tendo gastado mais de 16 mil dólares no trabalho no Brasil, sentia ter alcançado os limites dos seus recursos e do seu crédito financeiro (Barclay, Vol. II, pág. 252). Depois de muito debater, resolveu fechar todo o seu trabalho na América do Sul, não acreditando que correspondiam às expectativas da Igreja. Foi o seguinte o breve comunicado dessa medida tão grave para o Brasil: "A Sociedade Missionária sente muito dizer que a Missão no Rio de Janeiro ter sido abandonada - porém não há qualquer evidência que o dinheiro e o labor ali
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    expendido na missãotenham sido em vão. Não tem havido falta nenhuma de zelo, fidelidade, ou devoção por parte dos obreiros - eles têm feito tudo que podiam sob as circunstâncias que tiveram que enfrentar" (Barclay, Vol. II, pág. 356 — Grifos meus). Desviemos-nos um pouco da história, para agora citar um incidente sem conexão direta com a Missão Spaulding, mas que, todavia, nos oferece um retrato adicional de como eles viviam e trabalhavam. Foi por essa época que os Estados Unidos estavam estendendo as suas fronteiras até o longínquo e desconhecido território de Oregon, na costa do Pacifico. Lá existiam muitos índios, que também necessitavam da mensagem cristã. Quando a Sociedade Missionária resolveu enviar missionários muitos responderam voluntariamente ao apelo. Mas a travessia por terra de Nova Iorque até o Oregon através de território virgem e escabroso, enfrentando emboscadas de indígenas, tornavam-na perigosíssima e difícil. Tornou então a Sociedade uma resolução surpreendente: enviar o grupo de 51 missionários de navio de Nova Iorque, pelo Oceano Atlântico, costeando o Brasil até o estreito de Magalhães, para depois pelo Oceano Pacífico, após 35 mil quilômetros de viagem, desembarcarem no seu lugar de destino. Dessa viagem escreveu Barclay: "O vapor Lausanne saiu de Nova Iorque no dia 1º de outubro de 1839, contratado pela Sociedade Missionária. E de primeira classe - 400 toneladas - com boas cabines. É um navio "temperante", pois nenhuma bebida espirituosa será nele admitida, nem como frete, nem para uso pessoal". Essa viagem levou ao todo sete meses e vinte e um dias, e os missionários eram não somente pregadores, mas carpinteiros, fazendeiros, professores, um médico e um ferreiro". Agora, a história dessa caravana se entrosa com a da Missão Spaulding. Um membro dessa caravana escreveu no órgão oficial da Igreja (Christian Advocate) dizendo que ao chegar ao Rio em 16 de dezembro, resolveram fazer uma visita à cidade. "Desembarcamos perto dos jardins públicos, dos quais não dista muito a residência do irmão Spaulding, onde fomos cordialmente recebidos. Moram cerca de um quilômetro do centro da cidade, perto de um matadouro, o que é desagradável.
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    Também fomos muitoincomodados pelos mosquitos. A irmã Kidder (que faleceu apos essa visita), mora com a família do irmão Spaulding, pois o marido está ausente em seu trabalho.” “Nossos amigos tudo fizeram para nos acomodar. Éramos 21 pessoas, sem contar que as crianças foram à terra no Rio; mas nossos amigos pareciam deleitar-se com a visita, apesar de lhes ter obrigado a muito trabalho e despesa. Iam ter um culto àquela noite. O irmão Spaulding, depois do jantar, falou-nos sobre o seu trabalho, para animar-nos quanto ao nosso. Orou conosco, depois cantamos diversos hinos e partimos - mas com lágrimas". O que teria sido o futuro do nosso trabalho aqui se tivessem enviado ao Brasil aqueles cinqüenta e um, missionários, em vez de desistir da Missão Spaulding! Todavia, não foi só a Missão Oregon e as dificuldades financeiras que provocaram o fechamento da Missão no Brasil. Os conflitos de opinião, as desarmonias resultantes do problema da escravidão nos Estados Unidos, afetavam também a Igreja, culminando em 1844 com a triste divisão do metodismo americano em dois ramos, motivada pela secessão dos estados sulinos que queriam manter a escravidão. E em 1861, surgia a guerra civil. Terminou assim a Missão Spaulding E o que se tem dito e escrito; e de fato, do ponto de vista humano, parece ter terminado. MAS TERMINOU MESMO? De uma coisa estamos certos - que não foram distribuídas ou vendidas pela Igreja Católica Romana, pois ela só começou a se interessar por isto em nossos dias. Naquele tempo, proibia a sua leitura e queimava ou destrocava as que encontrava. Como escreveu Kidder, nem os sacerdotes possuíam ou conheciam a Bíblia! Nada feito em nome de Deus, como foi à consagrada obra desses missionários, é feito em vão, ainda que por motivos desconhecidos a obra não conseguiu radicar-se permanentemente. A própria Junta nos Estados Unidos testemunhou que o seu labor não foi em vão. Quais sementes que levam longo
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    tempo para germinare crescer, a semente lançada por eles certamente facilitou a obra daqueles que os seguiram anos após. Notas suplementares sobre os Revs. Pitts, Spaulding, e Kidder Tenho-me demorado muito com o trabalho desses três pioneiros, porque foram de fato os PRIMEIROS MISSIONÁRIOS METODISTAS AO BRASIL - eram os PRIMEIROS EVANGÉLICOS QUE AQUI PREGARAM A PALAVRA DE DEUS. Demorei-me também, porque é tão pouco conhecida à extensão, a variedade e os sacrifícios da sua obra. Isto é lamentável, porque há realmente abundância de fontes históricas. Kidder foi um escritor habilidoso e prolífico. Depois de sua volta aos Estados Unidos, escreveu dois volumes, "REMINISCÊNCIA DE VIAGENS E PERMANÊNCIA NO BRASIL", tratando de suas viagens no Rio e São Paulo, e um outro livro acerca das suas viagens ao Nordeste e Norte, durante as suas expedições evangelísticas e de distribuição da Bíblia. Um terceiro volume, "BRAZIL AND THE BRAZILIANS", escreveu em colaboração com o missionário presbiteriano, J.G. Fletcher. A Livraria Martins Editora, de São Paulo, publicou as traduções dos dois primeiros que são considerados como um retrato dos mais autênticos do Brasil daquela época. Revs. Fountain E. Pitts Depois de voltar aos Estados Unidos, serviu como pastor de diversas igrejas no seu estado natal de Tennessee. Sempre conservou o mais profundo interesse pelo Brasil; sendo autor na Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal do Sul, em 1870, duma resolução a favor de se recomeçar a missão nesse país. Infelizmente, essa resolução malogrou; mas ele não desanimou, e em 1874, colaborou em trazer novamente a Conferência Geral, a resolução que levou a criação de nova Missão Ransom no Brasil. Rev. Justin R. Spaulding Nascido em 1802, era pastor em Augusta, no Estado de Maine, quando a Sociedade Missionária, em resposta aos apelos do Rev. Pitts, decidiu enviá-lo ao Rio de Janeiro. Depois de voltar à Pátria, apos quase seis anos de trabalho dedicado no Brasil, continuou sua obra pastoral no seu estado natal.
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    Rev. Daniel ParrishKidder Nasceu em 1815 no Estado de Nova Iorque, mas passou a maior parte da sua juventude em Vermont, com seus tios. Os pais não eram metodistas e não queriam que ele o fosse, mas Daniel – convertido - tornou-se membro leal da Igreja e, com o passar dos anos, um dos seus significativos líderes. Seu primeiro desejo fora ser missionário na China, país pelo qual a Igreja se interessava muitíssimo; mas como isso não foi possível, veio ao Brasil, onde também representou a Sociedade Bíblica Americana. Depois de regressar à Pátria, viúvo com dois filhinhos, casou-se novamente com Harriet Smith. Homem de excepcional brilhantismo e de profunda cultura, já aos 29 anos, exercia cargos de importância na Igreja - entre esses, o de professor em dois Seminários, de membro da Junta de Educação da Igreja e de Secretário Executivo Nacional das Escolas Dominicais. Nesse período editou mais de 800 volumes. Escreveu diversos livros: um sobre os Mórmons, outro sobre a Homilética (a arte de pregar), e mais três volumes sobre o Brasil, que são considerados obras de incomparável valor histórico e descritivo sobre a nossa terra e seus costumes naquela época. Aposentou-se em 1889, e faleceu aos 76 anos, em 29 de junho de 1891.
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    CAPÍTULO 5 O METODISMOVOLTA E SE AFIRMA "Para o semeador cristão, o intervalo entre o tempo de semear e o tempo da colheita pode ser mais do que uma geração; e os ceifadores nem sempre são os que semearam". (T. T. Faichney) Período de silêncio Surgia agora no horizonte mais um daqueles pequenos eventos que nada tendo a ver com o nosso metodismo no Brasil, todavia, foi nas mãos de Deus um instrumento para novamente tentar implantar o Evangelho em nosso país. Lembramos que a fuga do Rei Dom João VI resultou na abertura dos portos brasileiros ao mundo; como o espírito comunitário inglês abriu a porta à entrada do culto protestante; e agora, com a trágica guerra civil nos Estados Unidos, também serviria a causa do metodismo no Brasil. Para melhor entender o abandono da missão no ano 1841, é preciso também saber o que se passava na Igreja Metodista do Sul nos Estados Unidos. Empobrecida pela guerra, com centenas de seus templos e estabelecimentos educacionais destruídos ou transformados em hospitais e quartéis militares, com sua Casa Publicadora encampada, ela não tinha recursos nem fervor para dar atenção à obra missionária. Os obreiros na China, campo que era a "menina dos seus olhos", foram obrigados a sustentar-se a si próprios. Não é de admirar que o Brasil ficasse esquecido, e que se seguisse o que tem sido designado o "Período de Silêncio" - uns vinte e cinco anos quando nenhuma voz metodista pregou o Evangelho no Brasil. 7
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    Deus usa osimigrantes americanos Todavia, Deus - que do mal sabe tirar o bem e do amargo, o doce providenciou para que dessa profunda calamidade, tão longe de nós, se erguesse um instrumento para trazer-nos a Sua Palavra. Entra aqui a história dos americanos que imigraram no Brasil após o término dessa guerra. Uns, que haviam perdido tudo, desejavam recomeçar a vida noutro lugar; outros, revoltados com sua derrota pelas forças nortistas, procuraram escapar à dura mão do vencedor ou, rebeldes, recusaram dar seu juramento de lealdade ao novo regime. Chegaram, entre 1865 e 1867, uns milhares de americanos às nossas plagas; indo alguns à região amazônica e outros ao Vale do Rio Doce; mas esses grupos em breve soçobraram devido às dificuldades do clima, às doenças tropicais, ao desânimo geral e à isolação produzida pelas grandes distâncias entre os seus patrícios. A maioria se estabeleceu em fazendas na província de São Paulo, numa região compreendida por Saltinho, Limeira, Santa Bárbara do Oeste, e o que ficou sendo chamado Vila Americana hoje a cidade industrial de Americana. Ali desenvolveram excelentes programas agrícolas, introduzindo entre outras coisas, o uso do arado. Tal foi sua habilidade agrícola que o governo imperial pediu que alguns moços da colônia fossem designados para viajar em outras zonas do país, a fim de ensinarem seus métodos aos agricultores nacionais. Dois desses jovens contraíram a lepra neste serviço. Os colonos também introduziram no Brasil o veículo de quatro rodas e dois assentos, chamado de trole. E propagou-se a fama de terem introduzido a melancia. A melancia, porém, não era novidade no país, pois Daniel Kidder escreveu que em 1835, na sua viagem ao norte, vira no Piauí, "melancias em quantidade prodigiosa; são de fato tão abundante que chegam a ser vendidas à razão de uma pataca o cento" (Reminiscências, pág. 145). Contudo, é verdade que introduziram a melancia listrada, nativa dos EUA, cujas sementes trouxeram em vidros bem tampados para preservaremnas do "ar do mar". Um tio da querida missionária, Daisy Pyles Kennedy, foi um dos que trouxe as sementes. Mais precioso do que elas foi a vida dessa sua sobrinha, Daisy! E ainda mais precioso foi o fato destes imigrantes novamente terem introduzido no Brasil o metodismo. Chegada do Rev. Junius E. Newman Entre os imigrantes, havia um pregador leigo metodista, o Rev. Junius E.
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    Newman, que durantea guerra civil, servira de capelão nas forças sulinas. Explica o Rev. Kennedy, que chegou a conhecê-lo, "antes da guerra, era homem de certa fortuna, mas tendo perdido tudo o que possuía, precisava de alguma forma restabelecer os seus haveres. Vendo muitos dos seus amigos e patrícios partirem para terras longínquas, resolveu acompanhá-los, especialmente animado pela esperança de poder auxiliar na propagação do Evangelho... através da Igreja Metodista". Veio credenciado e nomeado pelo Bispo W. M. Wightman para "ministrar aos imigrantes na Pátria que viessem a adotar". Não era certo se iriam imigrar para a América Central ou para o Brasil. Muitos foram ao México, por convite do Imperador Maximiliano; mas não permaneceram ali devido à sua queda e às revoluções que a seguiram. No dia 5 de agosto de 1867 aqui chegou o Rev. Newman, sem a família. Comprou uma fazenda perto de Niterói, mas percebendo que a maioria dos seus patrícios se havia estabelecido na província de São Paulo, mudou-se para lá depois de dois anos. Tendo prosperado, e gostando do Brasil, voltou aos Estados Unidos e de lá retornou com sua mulher, Mary Philips, as duas filhas moças, Annie e Mary, um filho, William Walter, e mais dois filhos adotivos, William e John Harris (Jair Veiga, "Diário de Piracicaba", 1-8-59). Organizarão da Primeira Igreja Metodista na Província Chegando à Limeira em agosto de 1866, começou logo a pregar em inglês aos patrícios espalhados pela região. Não tentou organizar uma igreja de imediato devido ao fato de eles estarem tão espalhados. Contudo, no terceiro domingo de agosto de 1871 organizou em Santa Bárbara ou perto de Saltinho (historiadores dão ambos os nomes), uma congregação com nove membros, todos americanos. Foi designada (claramente!) de Igreja Metodista Episcopal do Sul, pois era uma continuação da Igreja americana a que todos haviam pertencido. Esse nome foi adotado no Brasil e assim continuou até o dia da nossa autonomia (1930). Esse culto histórico se realizou numa casinha coberta de sapé, e de chão batido, que anteriormente fora usada para a venda de bebidas alcoólicas. Entre esses primeiros membros, constava o nome de Leonora Smith, que se tornou missionária, da qual diremos algo adiante. Aos poucos, o Rev. Newman organizou outros núcleos, até que, com cerca de cinqüenta membros, formou-se o primeiro "circuito" metodista na história da nossa Igreja no Brasil! Podemos também desconfiar que estava procurando antecipar-se a outras
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    denominações que estavamcomeçando trabalho regular entre os colonos; pois em menos de um mês, no dia 10 de setembro, os batistas organizaram ali também a sua primeira igreja em solo brasileiro; e pouco depois, os presbiterianos. Usaram a capelinha construída junto ao cemitério comunitário, alternadamente. Os batistas, porém, tiveram de cavar para o seu uso, um amplo poço na nascente dum córrego próximo ao cemitério (Jornal Batista, 11 de outubro de 1964). Em 1877, faleceu a esposa de Newman. Ele, dois anos depois, mudou-se para Piracicaba, onde em 1880, contraiu segundas núpcias com a Sra. Lydia E. Barr. Foi no ano 1879, no mês de junho, que se marcou outro dia importante no calendário metodista Annie e Mary, suas filhas, abriram um colégio com internato e externato, em Piracicaba, que é chamado o "precursor do Piracicabano", hoje Instituto Educacional. Contribuições do Rev. Newman O Rev. Newman não fez e não legou grande quadro de empreendimentos. Mas como Jesus, "ele viu a multidão e se compadeceu dela". A sua verdadeira grandeza consistiu em ter tido compaixão da tremenda escuridão espiritual dos habitantes do Brasil, porque "andavam desgarradas e errantes, como ovelhas que não tem pastor" (Mt 9. 36 ). Nunca cessou de clamar à Igreja Mãe no sul dos Estados Unidos, para que enviasse obreiros: "Jovens de bons talentos e grande piedade", para a obra evangelizadora. Quanto a si mesmo, confessou que a sua "tarefa principal era servir à colônia americana. Nunca se sentira apto para a obra estritamente missionária, mas sentia desejo de trabalhar à beira de tal campo". Todavia, expressou desejo de aprender o português suficientemente bem para poder ministrar aos brasileiros. Ao que se saiba, porém, Newman nunca a eles pregou, e nunca foi hostilizado pelo clero ou por romanos fanáticos - como foram Spaulding, Kidder e depois o seu próprio genro, o Rev. Ransom. O bispo americano, Holland Mc Tyeire, em seu histórico do metodismo, declara: "A investigação feita no Brasil em 1835 pelo Rev. Pitts, foi sucedida pela ocupação permanente em 1876, com a chegada do Rev. Ransom...” Muitas mudanças grandes haviam ocorrido durante os 40 anos, desde 1835. A disposição intolerante da Igreja Romana, tanto no Brasil como no México, acabara em conflito com o governo civil. O imperador D. Pedro II era um homem muito culto e de espírito iluminado; as classes mais altas e os corpos legislativos haviam se desfeito do jugo do clero, abrindo o império
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    a novos empreendimentoseducacionais e religiosos. "A tendência popular era em direção à descrença e infidelidade, e o tom geral do povo era o de indiferença à religião" (McTyeire, pg. 675). Também o positivismo de Auguste Comte estava tendo grande aceitação no país - tudo contribuindo para que a missão de Newman não fosse tão difícil como as anteriores. Afinal os clamores de Newman e de outros (incluindo o agora ancião Pitts que ainda anelava pelo Brasil), resultaram numa resolução da Conferência Geral de 1874 da Igreja Metodista Episcopal do Sul, e enviando para aqui o Rev. J. J. Ransom, que depois como já o relatamos, se casou com Annie Newman, filha do Rev. Newman. Outra valiosa contribuição da família Newman foi granjear a estima dos irmãos Prudente e Manuel de Moraes Barros, o primeiro mais tarde, presidente da República. Mary Newman, que por certo tempo regeu cadeira numa escola fundada em São Paulo pelo Dr. Rangel Pestana, ficou ali conhecendo a Srta. Anna Maria de Moraes Barros, filha do então Senador, tornando-se amigas, laços que uniram as duas famílias. Volta o peregrino à Pátria Finalmente - velho, cansado, cheio de saudades, tendo-se sublimado o rancor que guardara contra o governo da Pátria - o Rev. Newman regressou em 1890 à terra que abandonara, indo residir no Estado de West Virginia; ali faleceu em maio de 1895. Nunca sequer sonhou que um dia, em 1967, o reconheceriam como o fundador do metodismo permanente no Brasil!
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    CAPÍTULO 6 A MISSÃORANSOM Chega ao Brasil o Rev. Ransom "Mande obreiros jovens, de bons talentos e grande piedade!" - foi esse o brado do pioneiro Newman à sua Igreja Mãe. Veio a resposta afinal, na pessoa do ReV. John James Ransom, natural do Estado de Tennesse, solteiro, ministro ordenado dessa Conferência - sem dúvida, homem de bons talentos e grande piedade, corajoso e dinâmico. Declara o relatório do ano de 1883 da Junta de Missões: "A Igreja Metodista Episcopal do Sul começou o seu trabalho no Brasil no ano de 1875, reconhecendo o Rev. Newman como seu missionário em maio daquele ano, e enviando o Rev. J. J. Ransom em dezembro". Apesar de ser assim nomeado, ele teve que fazer apelos aqui e ali, para custear a sua viagem. Desembarcou no Rio de Janeiro em 2 de fevereiro de 1876; e foi logo a São Paulo para consultar o Rev. Newman sobre planos e métodos para melhor estabelecer o trabalho. Como Kidder, olhava sempre para o futuro, procurando lançar bases sólidas para o trabalho. Planejando o trabalho Durante o primeiro ano, dedicou-se com assiduidade ao estudo da língua portuguesa, que soube dominar bem. Estudou com os presbiterianos em Campinas, onde também lecionava inglês e grego no Colégio Intencional daquela denominação. No segundo ano, fez a difícil viagem ao Rio Grande do Sul "à procura dos melhores pontos para o estabelecimento do trabalho". Creio que influiu nessa decisão o fato de ele não querer depender da obra de Newman, toda entre americanos; e decerto estava ciente de que a igreja do norte (a Igreja Metodista do Norte dos EUA) já trabalhava na província do Rio Grande do Sul, e desejava estabelecer contatos com a mesma quem sabe? - para assegurar que o metodismo brasileiro tivesse suas raízes no Brasil e não no Uruguai.
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    No Rio Grandedo Sul ficou conhecendo o Dr. João Correa, pregador em Porto Alegre e arredores, e colportor da Sociedade Bíblica. Tão impressionado ficou Ransom com o trabalho do mesmo, que após contato, viajou com ele ate Montevidéu para dialogar com o Dr. Thomas Wood, superintendente da Missão Platina da Igreja Metodista do Norte. Essa Igreja, depois de descontinuada como missão em 1841, continuara com sustento local ate 1870, quando o Dr. Wood foi enviado como missionário da Junta, restabelecendo o contato missionário. Ransom terminou a sua estadia sulina, viajando com o Dr. Correa ate a cidade do Rio Grande, onde embarcou para o Rio. Volta ao Rio de Janeiro Chegado à capital da Corte (Rio de Janeiro), fixou residência numa boa casa, a de n° 17 5, na Rua do Catete que, desde os tempos de Spaulding, parecia ser o bairro preferido pelos missionários metodistas. Foi nessa casa agora derrubada, que começou a pregar em português em 27 de Janeiro de 1879. É justo dar crédito a um comerciante britânico, Sr. W. R. Cassels pelo auxílio financeiro que deu a Ransom para alugar a casa, e em mostrar-se amigo sincero em muitas ocasiões. Mas o clero católico-romano, como fizera trinta anos atrás com a Missão Spauldingr começou logo a persegui-lo, taxando-o de "ateu e incrédulo" em seu órgão oficial, "O Apóstolo". Ransom, homem decidido, de fortes convicções e muita coragem não deixou passar despercebido o ataque. Com cortesia, convidou os redatores a ouvirem-no pregar, para verificarem que "os metodistas não eram nem ateus, nem incrédulos, nem desprezavam as leis do Brasil, como eles pensavam" (Kennedy, pág. 21). Primeiros brasileiros convertidos Em breve, o Rev. Ransom organizou com elementos estrangeiros, a primeira igreja metodista no Rio e, em março de 1879, recebia nela por profissão de fé, os primeiros brasileiros convertidos do catolicismo romano ao metodismo. Foram esses, o ex-padre Antônio Teixeira de Albuquerque, e a Sta . Francisca de Albuquerque (poderia ela ter sido irmã do padre?); e o Sr. Ransom recebeu-os sem re-batismo, aceitando como válido o batismo da Igreja Católica. Depois, o ex-padre foi novamente "convertido" à doutrina da imersão; e rebatizado pelo pastor batista, Rev. Robert-Thomas, da colônia americana, no poço anexo à igrejinha do Cemitério do Campo. Convém relembrar aqui que esse cemitério fora doado pela família Oliver. Quando faleceu a esposa do Coronel
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    Oliver, negaram-lhe odireito de enterrá-la no Cemitério de Santa Bárbara, dizendo o padre: "Não. É corpo de protestante!". O féretro teve que voltar uns doze quilômetros para onde foi sepultado nas terras da fazenda dos Oliver. Mais duas mortes na família levaram o coronel, indignado com a posição da Igreja Católica Romana, a doar uma área bem grande de suas terras, para se construir um Cemitério protestante. O Cemitério do Campo ainda existe hoje, sendo um local histórico por motivo de suas sepulturas, capela, onde, de quando em vez se realizam cultos. Os descendentes da colônia original, entre os quais muitos católicos, organizaram uma Associação para preservar o lugar - e em 1965 ergueram ali um obelisco comemorando o centenário da chegada ao Brasil da colônia. Nesse monumento, consta o nome do Rev. Newman, e é, portanto, local que merece ser visitado por metodistas brasileiros. De maior significado, porém, para o metodismo brasileiro, foi o fato que entre os membros recebidos pelo Rev. Ransom, durante o início do seu ministério, constava à idosa Sra. Mary Walker, que fora há uns quarenta anos antes, membro da "Sociedade Metodista" organizada pela Missão Spaulding! Nas palavras do Rev. Kennedy, constituía ela, por esse motivo, "Um Elo vivo e Pessoal" entre a Missão Spaulding e a Igreja Metodista Episcopal do Sul no Brasil. Feliz Natal - triste julho Como já relatamos o jovem Ransom enamorou-se de Annie Newman, com quem se casou no dia de Natal de 1879, e levou-a para o Rio onde tinha seu trabalho. Mas a sua felicidade durou pouco; pois em 17 de julho, Annie o deixou para o lar celeste. O marido enlutado voltou à Pátria (EUA) para recuperar-se do choque e descansar, aproveitando a oportunidade para apelar urgentemente por reforços. Vira quão grande era o campo; quão famintas as almas pela mensagem da vida; e sabia que sozinho não podia fazer muito. Ao retornar ao Brasil veio alegre, pois trazia reforços.
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    CAPÍTULO 7 VALIOSOS REFORÇOS ORev. Ransom com seus companheiros e auxiliares embarcaram de Nova Yorque em 26 de março de 1881, viajando ao Brasil via Ilha da Madeira e Inglaterra. Eram os seus com companheiros os missionários: Rev. James L. Kennedy, com 23 anos, o Rev. James W. Koger, que trazia esposa e um filhinho, e a educadora Martha Watts. Após quase dois meses de viagem, aportaram na bela baía de Guanabara em 16 de maio de 1881. Sobre a sua chegada escreve o Rev. Kennedy: "Imagine o leitor com que entusiasmo e curiosidade pisamos o solo do Brasil! Terra que viemos especialmente para evangelizar. A beleza e a natureza eram para nós encantadoras - tudo fornecia um verdadeiro banquete para os olhos". Mas o Rev. Ransom, não os deixou perder tempo contemplando as belezas do Rio. "Mãos à obra!" foi sempre o seu lema. Dentro de dois dias, o grupinho desembarcava do trem em Piracicaba, o centro do esforço metodista iniciado pelo Rev. Newman. Anoitecia quando ali chegaram; e conta Kennedy que ao tropeçar pelas ruas mal calçadas, estranhou que havia lampiões de querosene para iluminar as ruas, mas que não estavam acesos. "Como é?", perguntou Kennedy a Ransom, "Não acentem os lampiões?" E Ransom, já "antigo" conhecedor do país sorriu ao explicar: "Bem, o querosene, tendo que ser importado, é caríssimo. Por isso em noites de luar não se acendem os lampiões, é mais barata a luz do luar". Era esse um costume generalizado no Brasil de então, conforme registraram o sociólogo Gilberto Freyre, e o missionário Kidder. Ransom hospedou-se no Hotel Piracicabano, sem muitas comodidades, mas o melhor do lugar.
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    Já no dia21, prosseguiam para Bom Retiro, onde agora residia o Rev. Newman. Ali, na manhã de domingo, 21 de maio de 1881, o Rev. Kennedy pregou aos americanos ali reunidos o seu primeiro sermão no Brasil. Nunca esqueceu dessa memorável ocasião, relembrando o seu texto tirado de I Co 3.9: "Somos cooperadores com Deus". E nesse espírito, ajudado por Deus, daquele momento em diante, o Rev. Kennedy consagrou a sua vida ao Brasil. Visitava de casa em casa para pessoalmente distribuir convites para os cultos, sendo freqüentemente insultado ou rechaçado. Pregava nas ruas, sendo às vezes atingido por batatas e tomates podres; outras vezes, só pela graça de Deus, escapou à fúria de assaltantes fanáticos, como em Bangu, perto do Rio. Organizou igrejas em cidades grandes e em vilas remotas do interior. Viajava a cavalo ou no lombo de mula, suas longas pernas quase se arrastando no chão, debaixo de sol ardente ou de frios aguaceiros, subindo montanhas escabrosas por "trilhos-debicho", como se chamavam os estreitos caminhos socados pelas patas dos animais. Às vezes andava em carros-de-boi, em penosas viagens que lhe deixavam o corpo doído, de solavanco em solavanco pelas estradas esburacadas. Ainda outras vezes quando não conseguiam condução, caminhava a pé. Caminhou vinte quilômetros com seu colega de trabalhos, e filho espiritual, o consagrado Rev. Antônio Cardoso da Fonseca. Alcançando o seu destino: uma choupana humilde, um vilarejo, entrava então em luta terrível com mosquitos e pulgas famintas por sangue novo, que pareciam devorar-lhes as carnes. De dia lutava contra os micuins, carrapatos e borrachudos. Tal foi à vida de Kennedy durante quase sessenta anos, se incluirmos aqueles em que, aposentado e perto dos seus oitenta anos, contribuiu para a extensão da obra metodista nos bairros de São Paulo. Mas a luta árdua não era sua tão somente - era de todos aqueles valentes pioneiros brasileiros e missionários americanos, que desprezando o comodismo e o conforto, saíram e lutaram para desfraldar no solo da nossa terra, então atrasada e dominada pelo clero, a bandeira do Evangelho bendito! Volvamos as vistas novamente ao pequeno grupo em Piracicaba. O Rev. Ransom, antes de voltar ao Rio de Janeiro, deixou-os todos em Piracicaba, com "ordens" para estudar o português - mas também para dedicar-se à evangelização. O Rev.
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    Kennedy pregaria aosamericanos; o Rev. Koger ficava como pastor na cidade - o que fêz organizando dentro de poucos meses, no dia 2 de setembro, a terceira igreja metodista no Brasil, a de Piracicaba. Miss Watts entregou o trabalho educacional. Colégio Piracicabano Desde o seu início, a Igreja Metodista considerara de máxima importância à instrução do povo, fato natural considerando a sua herança intelectual, pois nascera na grande Universidade Oxford, na qual Wesley fora estudante. E fato lógico, pois enviou uma educadora com as suas primeiras forças missionárias. Miss Watts já exercera o magistério alguns anos na sua terra, quando se sentiu chamada para a obra missionária. Filha de um lar culto e materialmente abençoado, ela era de inteligência e preparo fora do comum, mas também de uma consagração extraordinária. O seu alvo, repetia ela, "não era somente instruir meninas, mas ganhar almas para Cristo". Não perdeu tempo em começar um educandário - o Colégio Piracicabano como foi denominado ainda que no fim do ano escolar. Para o evento que se deu no dia 13 de setembro, somente uma aluna compareceu para matricular-se, a pequena Maria Escobar, cujo nome lembra como o da primeira aluna do primeiro colégio metodista no Brasil. Mas a diretoria não desanimou nem recuou. Conforme o Rev. Kennedy, "com tenacidade dirigiu o colégio como se houvesse cem alunas em vez de uma só; e para essa aluna conservou o estabelecimento aberto com três professoras!”. A sua cultura profunda e a eficiência da sua administração, conquistaram duma vez a simpatia da família Moraes e Barros (já admiradores da família Newman). As moças da família passavam horas no Colégio sentadas nas bancas examinadoras, observando o seu trabalho educacional que era o que de mais progressista havia na educação do sexo feminino, então atrasadíssima no Brasil. A "Gazeta de Notícias", de Piracicaba, noticiando os exames do Colégio, escreveu: "Numa das salas do edifício e com grande concorrência de famílias e cavalheiros dos mais distintos da nossa sociedade, foram examinadas as alunas em diversas matérias, como sejam: português, francês, inglês, aritmética, álgebra, história e retórica. O adiantamento que todas mostraram naquelas disciplinas, chegou a surpreender as muitas pessoas que estavam presentes. Não trepidamos em afirmar que é um dos melhores estabelecimentos de ensino do Estado de São Paulo." (27-12-1890).
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    Diz-se que quandoo Senador Prudente foi eleito presidente da Província estava tão convicto dos princípios e ideais de Miss Watts, que a convidou para vir a São Paulo para ajudá-lo a estabelecer na Província um sistema de escolas públicas. Foi tal a influência do Colégio que outro editorial em Piracicaba declarou: "A transformação radical, a adoção de métodos americanos no ensino, a orientação inteiramente nova na pedagogia e na formação do magistério que o Senador João Sampaio afirmou ter saído do Colégio Piracicabano, através de Prudente de Moraes, foi obra de madura reflexão e longa experiência que só no tempo de Miss Watts se tornaram possível". Combate ao Piracicabano Este incidente já foi contado muitas vezes, pois é caso significativo nos anais da Pátria. Mas como muitos dessa geração não o conhecem, deve ser repetido. “O Colégio fazia um progresso admirável, mas quanto maior o seu sucesso, tanto mais a Igreja Católica Romana a denunciava”. Miss Watts, com o apoio dos irmãos Moraes Barros, já havia adquirido um terreno - que fora antiga praça de touros localizado na esquina da Rua da Boa Morte com a da Esperança. Em breve, graças às dádivas da Igreja Mãe, se construía um belo e moderno edifício de aulas. O número de alunos aumentava de ano a ano, e eram das melhores famílias da cidade. Miss Watts escreveu à Junta de Missões de Senhoras Metodistas informando que não só o Colégio progredia financeiramente, mas que sua arrecadação pagava todas as despesas, menos as dos salários das missionárias. Acrescentou que estava trazendo almas a Cristo: “Há entre as alunas verdadeiro interesse em coisas espirituais; e três alunas e uma empregada já se uniram à Igreja”. Como sempre, o sucesso conduz à perseguição, mas a perseguição tornou-se contra-producente para quem a iniciou. O incidente com o inspetor Vienna Depois de cinco anos, Miss Watts voltou à Pátria (AUA) em gozo de férias e para substituí-la interinamente, ficou como diretora uma missionária mais nova, Mary Washington Bruce. Aproveitando a ausência de Miss Watts, o clero tornou-se mais forte ainda e sutil na campanha contra o Piracicabano, que culminou em janeiro de 1887, com uma intimação do Inspetor Literário, Dr. Abílio Vienna, a Miss Bruce, declarando que ela
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    estava obrigada aexcluir meninos com mais de dez anos da escola; a ensinar no Colégio a religião do Estado (que era a católica romana) e a enviar-lhe uma lista do corpo docente. Apesar de nova no Brasil, Miss Bruce tinha coragem. Não cedeu às intimações. Consultou diversos advogados e depois enviou ao Dr. Vienna uma carta na qual dizia: “Agradeço a vossa intimação oficial, mas pelo licença de dizer que não deixarei, simplesmente por causa da vossa opinião, de receber crianças católicas, pois enquanto as autoridades não me proíbem, e enquanto temos vagas, tenciono receber todos os alunos católicos que queiram ingressar em nosso Colégio". Por coincidência, viajava por ali o Rev. J. L. Kennedy, a quem Miss Bruce contou tudo que se passara. Depois de encorajá-la a permanecer firme, ele prosseguiu para o Rio, levando consigo cópia da carta do Inspetor. No dia seguinte mostrou-a ao diário "O País", recapitulando o que havia acontecido. O jornal publicou a carta condenando a atitude do Inspetor com artigos e editoriais. O Dr. Rangel Pestana, então líder da Assembléia da província, ao saber da celeuma repreendeu violentamente o Inspetor. Resultado: O "caso" deu mais propaganda ao Colégio' do que grandes anúncios colocados em toda a imprensa nacional. O inspetor, tão criticado, pediu demissão, a qual foi aceita pelo governo da província. Comentando o caso, escreveu Kennedy: "Nesse caso-teste o princípio da liberdade religiosa e intelectual estabeleceu o direito dos pais de darem aos seus filhos instrução religiosa conforme os seus desejos e sem ter-se em conta a sua religião" (Kennedy, págs. 323-325). Certo é que o Piracicabano estabeleceu três princípios básicos para a educação no Brasil: primeiro, introduziu a educação mista; segundo, a dignidade da instrução superior para o sexo feminino; e terceiro, o princípio da liberdade de religião no campo educacional, acrescido ao direito dos pais e à liberdade de orientação própria das escolas.
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    CAPÍTULO 8 ANSIEDADES EPROGRESSO Período de ansiedades O metodismo no Brasil progredia tão bem quanto se podia esperar dum trabalho ainda infante - progresso lento, mas, contudo a passo firme, seguro e prenhe de esperança. Uma crise adveio, porém, em 1882 e 1883 quando parecia que a Junta de Missões nos Estados Unidos iria repetir o grave erro que fez, abandonando a Missão Spaulding-Kidder em 1841. Fato pouco conhecido, que não foi registrado no histórico de Kennedy, encontra-se no livro de atas da Junta de Missões da Igreja Metodista do Sul nos Estados Unidos em seu relatório datado de 1° de junho de 1883: "A China e o México recebiam toda a atenção da Igreja, porque a China, após 33 anos de trabalho, começava agora a produzir fruto; o México porque mostrara resultados que ultrapassavam todos os triunfos do Evangelho desde os dias apostólicos... Apesar do Secretário da Junta ter fé na missão brasileira, parecia ser tudo em vão parecia mesmo que a missão seria abandonada... Foi então que a Providência Divina atuou, como muitas vezes foi acontecer, fazendo do sangue dos mártires a semente da Igreja. O coração da Igreja foi mais movido pela história daquela que morrera pelo Brasil do que pelo propósito daquele que morrera por todos". (grifos meus). (Será que o relator nessa frase se referia à morte de Cynthia Kidder em 1840? Não há outro esclarecimento) .
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    Foi este umperíodo de grande ansiedade espiritual para o Rev. Ransom e seus ajudantes. Em março de 1882, viajou novamente aos Estados Unidos, e só voltou em julho. Deixou à testa do trabalho no Rio o jovem ministro Kennedy, que ainda não completara seus dez meses de permanência no Brasil. Relatou esse depois que “ficou profundamente impressionado com o peso das suas novas responsabilidades, mas não houve remédio senão meter mãos à obra e confiar em Deus". Era ainda maior a sua responsabilidade, pois estava em construção a capela do Catete (que foi inaugurada em setembro, logo após o retorno de Ransom). Deus, porém, tinha planos grandiosos para o metodismo brasileiro. O trabalho desta vez não foi abandonado, e os pioneiros continuaram ainda mais ativos no trabalho. Passos positivos à frente O enérgico Ransom já estabelecera o trabalho metodista seguindo três linhas de ação: 1) A evangelização, a pregação da Palavra com cultos regulares em diversos lugares, isto é, em diversos pontos da cidade e na província de São Paulo; 2) A obra educacional. Não só se fundara o Colégio Piracicabano, mas planos estavam sendo feitos para um colégio no Rio. Já se haviam encaminhado discussões visando a compra ou transferência à Igreja Metodista do Colégio Progresso, uma instituição inglesa situada em Santa Teresa. Quando o Rev. Tarboux chegou ao Brasil em 1883, foi logo ensinar inglês e matemática nesse colégio. Essa transferência não se efetuou; contudo, a Igreja comprou uma bonita propriedade na Rua Alice, nas Laranjeiras, onde instalou uma escola em 1888. Foi diretora Miss Mary Bruce, que depois teria aquele encontro histórico com o Inspetor Vienna; 3) Uma literatura metodista para uso das igrejas. Ransom começou a publicar a revista Escola Dominical, e uma folha "Nossa Gente Pequena", ambas com lições bíblicas, respectivamente para adultos e crianças. Diz Kennedy que durante o ano de 1884, ou antes, Ransom já publicava essas revistas em português. Obstáculos à construção de templos Chegado o ano de 1886, nosso metodismo já tinha congregações organizadas e florescentes em Santa Bárbara (1870); no Catete, Rio (1879); em Piracicaba (setembro
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    de 1884); emSão Paulo (fevereiro de 1884); em Juiz de Fora (1884); e ainda mais trabalhos iniciados em bairros dessas cidades, como os de Santa Teresa e da Rua São Clemente, no Rio; e o de Mariano Procópio, entre alemães, perto de Juiz de Fora. Possuía também dois lindos templos, os do Catete e de Piracicaba. A construção de ambos chocou-se com as leis então vigentes. Templo do Catete - Já se construíra a linda capelinha aos fundos do terreno, mas um templo maior se fazia necessário. Ainda regiam essas construções as leis imperiais que proibiam aos acatólicos edifícios com aparência de templos. O conceituado construtor-arquiteto, Sr. Antônio Januzzi, fizera uma planta para a Igreja do Catete que fora aprovada pelas autoridades competentes. Nessa planta, constava uma parede frontal que se erguia qual platibanda alta, terminada em ornatos pontiagudos, com janelas de estilo gótico, comum até em residências particulares. Contudo, elementos contrários ao protestantismo tudo fizeram para impedir a construção. "Se há um jeito de complicar e obstruir o prosseguimento da obra" escreveu Kennedy, o pastor ajudante, "as autoridades o descobrem". E como Ransom já se mudara para Juiz de Fora para continuar o trabalho ali, Kennedy vivia agonizado com todos os problemas que se apresentavam. Apesar dos pesares, a obra estava para ser terminada quando, certo dia, passou por lá uns padres fanáticos que, vendo erguer-se a platibanda que dava de fato ao edifício uma aparência eclesiástica, foram logo queixar-se ao Conselho Municipal. O Rev. Kennedy chamou o seu colega Ransom, e com ele e o Sr. Januzzi se dirigiram ao Conselho. Depois de um longo debate sobre a definição de torre e sinos, e do que seria a forma exterior de uma igreja, o arquiteto explicou que a tal "torre" era uma simples extensão da parede, "arrematada por ornatos arquitetônicos"! A explicação foi aceita. O Sr. Januzzi sem demora, pôs os operários a trabalhar dia e noite, para concluírem o templo antes que o Conselho revogasse a sua decisão. Creio ser justíssimo aqui citar o que o Rev. Kennedy depois escreveu sobre Januzzi: "O historiador não pode deixar de falar sobre a dívida de gratidão que jamais pagaremos ao amigo arquiteto que tanto se esmerou para que a nossa igreja fosse construída solidamente e com beleza, sem cobrar coisa alguma pela sua fiscalização. Deus o pagou, segundo diz ele mesmo, porque o nosso templo tem servido de grande anúncio de suas habilidades arquitetônicas, que todos dizem serem inquestionáveis" (Expositor Cristão, 14 - 4 - 84).
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    Templo de Piracicaba- Ao mesmo tempo em que se lutava para terminar o templo do Catete, os metodistas de Piracicaba começavam a enfrentar dificuldades com o clero. Essa planta incluía uma torre pequena, mas fora vista e aprovada pelo Conselho Municipal da qual faziam parte os irmãos Moraes de Barros, que consideravam a lei "morta". Quando estava quase terminado o templo, o Padre Galvão correu depressa ao Conselho para queixar-se da torre, invocando a lei antiga dos tempos de Dom João VI. "Mas nós já aprovamos a planta", responderam os conselheiros. "Como agora, com ele quase terminado, vamos obrigar os metodistas a desmanchá-lo?!" Assim foi que em Piracicaba ergueu-se o primeiro templo metodista com uma "torre de verdade", ainda que não muito alta ou imponente! Em contraste com a intransigência do clero romano, é bom citar a declaração do próprio Imperador, Dom Pedro II, uns trinta anos antes, em sua fala do trono, de maio de 1855: “A nossa constituição católica proíbe a outras seitas cristãs a construção de edifícios destinados ao culto, tendo a forma exterior de templo”. Seguramente, o zelo que inspirou tal medida não atentou para as necessidades da colonização protestante. Acaso tememos nós que o protestantismo venha a fazer prosélitos entre os nacionais e despovoar as nossas igrejas?” “Se, por outro lado, queremos evitar que os protestantes ergam o colo e se tornem exigentes, o alvitre mais adequado para remover o mal não é fornecer-lhes direitos para reclamarem concessões, mas antes outorgar-lhes, independentes de exigências que nos façam" (Retrospecto Político do ano de 1855, publicado no O Jornal do Commércio). Sábio Dom Pedro II! Apesar de exemplos como o Catete e Piracicaba, o irônico de tudo isto é que o protestantismo brasileiro "aceitou” muitas das restrições que lhe foram impostas e os seus templos hodiernos ainda o refletem - sendo na maioria sem
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    elegância ou belezaarquitetônica, sem Tôrres, sem cruzes nem sinos. Começo do trabalho Metodista em Juiz de Fora Foi essa uma igreja que nasceu sob uma chuva de pragas, pedras e paus. O Rev. Ransom há muito planejara começar o trabalho na cidade de Juiz de Fora, província de Minas Gerais: mandou adiante três obreiros para distribuírem Bíblias, Novos Testamentos, e livros religiosos e para começarem a fazer propaganda da série de conferências que ele iria realizar para dar início ao trabalho. Eram esses três obreiros, símbolos do espírito ecumênico da nossa igreja - Herman Gartner, alemão luterano, um pregador local; Samuel Elliot, escocês, carpinteiro por profissão; e Ludgero de Miranda, brasileiro, que depois com seu irmão Bernardo, foi um dos primeiros pregadores nacionais - belo exemplo da união em serviço a Cristo Jesus! Quando Ransom estava para ir, eis que sua esposa adoeceu. A meia-noite, ele corre à casa do Rev. Kennedy e pede-lhe ir de imediato a Juiz de Fora, substituindo-o nos cultos já anunciados. Portanto, lá se foi o casal Kennedy, levando consigo a empregada Rosária (antiga escrava) e seu netinho. Chegados a Juiz de Fora, alugaram na Rua Santo Antônio, bem perto do centro, uma boa casa com grande sala que seria usada para os cultos. Depois Kennedy e Samuel Elliot compraram tábuas de pinho, pregos, martelo e serrote, e confeccionaram bancos para acomodar cerca de sessenta pessoas. Desde a primeira noite a assistência foi boa e atenciosa - tão boa que de certo atiçou a fúria de um padre. Certa noite, quando pregava, o Rev. Kennedy ficou surpreso vendo entrar na sala, e ir diretamente à frente, um padre que pelo seu andar e aspecto, mostrava estar embriagado. De repente o padre interrompeu-o com a pergunta: "Você é católico ou acatólico?" Kennedy respondeu: "Sou acatólico-evangélico", e prosseguiu sem mais comentários. As interrupções foram se repetindo, até que uns senhores presentes, chegaram ao padre e pediram-lhe cortesmente que ou calasse ou se retirasse. "Então eu vou!" respondeu bruscamente, e saiu da sala cambaleando. Quando tudo se acalmou o Rev. Kennedy continuou o culto; mas, dentro em pouco, ouviu-se lá fora na calçada, pisadas barulhentas, e uma algazarra geral em que se ouviam os gritos de "morram os protestantes!" Lá na rua se estacava um bando de desordeiros, na maioria
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    moleques que, chefiadospelo padre, começaram a atirar pedras e paus pelas portas e janelas da casa. Os ouvintes assustados correram para a rua, deixando na sala somente o pastor (que procurava consolar a jovem esposa, que chorava de susto), o Sr. Samuel Elliot, e a velha Rosária com o netinho a chorar também. Dentro de poucos minutos tiveram um novo susto: ouviram passos no corredor da casa que dava para a rua. Mas em vez de fanáticos e moleques, ali estavam meia dúzia de senhores bem trajados a lhes declarar: "Não se assuste, Reverendo", disseram, "sentimo-nos envergonhados pelo que ocorreu, e vimos assegurar-lhe que o senhor não só pode, mas deve continuar com os cultos, pois a nossa constituição brasileira garante a liberdade religiosa". O incidente serviu de estímulo em vez de obstáculo - as reuniões foram bem assistidas, e houve diversas conversões, entre as quais a de Felipe de Carvalho que depois se ofereceu para o ministério, e chegou a ser um dos primeiros pregadores brasileiros, um que muito trabalho e muita perseguição sofreu pela causa do Mestre (Arauto de Deus, pág.259). "Foi começando assim", declara o "Luzeiro da Fé" (boletim da Igreja Central de Juiz de Fora) "que o Rev. J. L. Kennedy fincou a bandeira do evangelho em nossa cidade, e fê-Ia tremular no céu de Minas". Nem toda a oposição, porém, era insensata e cruel. O casal ria às vezes das situações cômicas que surgiam, quando como no Rio ao sair pelas ruas, Kennedy, Bíblia na mão, e a esposa Jennie ao seu lado, eram seguidos por pequenos moleques que faziam troça, apontando: "Olha só! Lá vai o padre protestante com sua mulher! Ou talvez: "Lá vai o Bíblia, lá vai o Cristo! “ Com seu bom senso de humor, Kennedy inclinava-lhes a cabeça, sorrindo e cumprimentando-os com cortesia. "Não sabem" comentava Kennedy, "mas estão me honrando!"
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    CAPÍTULO 9 A PRIMEIRADÉCADA DA “MISSÃO RANSOM” - 1876-1886- "Então veio o Senhor, e ali esteve, e chamou: Samuel, Samuel Este respondeu: Fala, Senhor, porque o Teu servo ouve". (I SamueI 3.9). Alguns dos que ouviram e obedeceram à chamada divina O metodismo havia alcançado sucesso durante esta primeira década de existência como Igreja Metodista Episcopal do Sul. O seu sucesso mais significativo foi o número e calibre dos jovens que deram as suas vidas ao ministério, a sua completa dedicação e lealdade ao Senhor, a sua coragem em enfrentar perseguições, calúnias e sacrifícios. . Por serem as primícias da linha de esplendor sem fim do ministério brasileiro, comecemos contando algo sobre os irmãos Bernardo e Ludgero de Miranda. Naturais da Província de São Paulo, foram criados (como escreveu Ludgero no Expositor de 1° de setembro de 1890), "na religião de crendices, rosário e água benta; meu lar parecendo mais uma igreja no tempo da Semana Santa do que uma morada - tudo celebrado com uma pompa sem igual!.. Contudo, a Providência Divina, dum modo misterioso mandou me a um lugar longínquo onde mais tarde haveria de conhecer a religião santa de Jesus". Esse "longínquo lugar" foi São Paulo. Ali, Bernardo foi o primeiro a ouvir o Evangelho. Qual Filipe a chamar a seu irmão Natanael, Bernardo convidou a Ludgero para assistir ao culto metodista. Ambos se converteram sob a pregação daquele abençoado servo do Senhor, Rev.J.W. Tarboux, então pastor da Igreja em São Paulo; e resolveram dar as suas vidas ao pastorado, tendo sido dedicadíssimos na obra. Bernardo, o mais velho, entre outros trabalhos, ajudou o Rev. E. A. Tilly a
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    organizar a Igrejaem Taubaté em dezembro de 1899. Enfraquecido, porém, por mal ignorado, faleceu antes de julho de 1891. Ludgero trabalhou ativamente mais alguns anos. Mas tragicamente, ambos faleceram ainda moços - sendo que Ludgero e toda a sua família vitimados pela febre amarela, morreram em janeiro de 1892, no curto período de duas semanas - ele, sua esposa, D. Hyrminia Chaves, e dois filhinhos. Felipe Revalo de Carvalho, outro pioneiro, veio ainda moço da Bahia para morar e trabalhar em Juiz de Fora, onde se converteu sob a pregação do Rev. Kennedy, que sempre o estimou como filho espiritual. Disse Felipe que fora "tão ignorante do Evangelho e dos costumes protestantes que levou consigo o dinheiro para comprar entrada na sala dos cultos". Profundamente convencido, abraçou a fé e, passado pouco tempo, sentiu a convicção de que devia pregar o Evangelho. Isso fez com sinceridade e arrojo, sofrendo muita perseguição. Uma vez, juntamente com a esposa grávida, Dona Emília, foram ambos arrastados pelas ruas de Cataguases, esbofeteados sem dó. Quando a polícia finalmente interveio e perguntaram-lhe o que desejava que se fizesse com os assaltantes, Felipe respondeu como verdadeiro cristão: "Nada. Só veja que se mantenha a ordem, e então solte-os". E ali mesmo, na rua poeirenta, ajoelhou-se e orou pelos seus perseguidores. Foi esse espírito de perdão que tanto impressionou o dono da casa onde pregara o grande leigo Sr. José Fernandes Sucasas, que levou-o naquela mesma hora a se converter. E no lar do Sr. Sucasas saíram dois dos nossos líderes: o amado Bispo Isaías Fernandes Sucasas e o pastor José Sucasas Júnior. O Rev. lustiniano de Carvalho - Foi também denodado soldado do Evangelho! Natural de Portugal, nascido em 1852, viveu até os 15 anos sob a "bandeira romana". Convidado por um companheiro a assistir um culto evangélico, ali se converteu - pelo qual foi perseguido pelos parentes. Em 1871, embarcou para o Brasil. Estabeleceu-se no Pará, onde não havia ainda igreja evangélica; e longe de bons companheiros, cedeu com o tempo às tentações do mundo, ficando "corrompido" como ele mesmo confessa. Chegou, porém, a Belém um missionário metodista (Rev. Justus H. Nelson, de quem falaremos mais adiante). Justiniano ouviu-o pregar; arrependeu-se e voltou ao rebanho evangélico, tornando-se membro fundador da Igreja Metodista em Belém. "A minha casa" escreveu no Expositor Cristão em setembro 1890, "tornou-se em Casa de Oração. Eu era o zelador e assim continuaria se, por força maior, não me obrigasse a sair para o Rio de Janeiro. Chegando ali, hospedei-me na casa dos Revs. Kennedy e
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    Ransom, os quaisindagaram sobre o meu propósito de vocação; eu lhes respondi que desejava trabalhar na vinha do Senhor". E assim, entrou no ministério. Trabalhou com devoção e muitos sacrifícios como se deduz duma carta no Expositor (setembro 1890), referente à sua nomeação para Juiz de Fora. Naquele tempo não havia casas pastorais e nem sempre os pastores podiam encontrar proprietários que alugassem casas ou salas para residência e cultos. "Por enquanto estamos vivendo como imigrantes - a casa despida; não há cadeira, uma mesa. Esta carta que lhe mando é escrita em cima dum banco que eu fiz; e a minha cadeira é o colchão ainda no chão de maneira que estou escrevendo esta de joelhos". O Rev. Antônio Cardoso da Fonseca - foi mais um dos fiéis entre os fiéis pioneiro que muito contribuiu e muito sofreu. Extratos breves de suas cartas ao Expositor Cristão relatam alguns incidentes na sua vida pastoral. Em 15 de novembro de 1890, celebrava culto à noite numa casa na estação de Palmeiras, quando trabalhadores atiraram contra a casa uma bomba de dinamite. A bomba não causou conseqüências funestas, como podia ter acontecido, porque felizmente arrebentou um pouco além da casa. Continuamente ameaçado por pregar ali, o Rev. Cardoso afinal anunciou: "Virei aqui todas as sextas-feiras, de quinze em quinze dias. Se nessas ocasiões quiserdes ouvir a pregação do Evangelho, vinde; porque ninguém vos forçará a assistir". Noutra ocasião, já em abril de 1891, escreveu que passara uma cena horrorosa no arraial de Guarani. "Tendo sido convidados para uma conferência em Guarani, ali fomos às sete da noite. Quando se começava o culto, fomos agredidos por um grupo de sequazes com uma algazarra infernal a toque de latas e foguetes, gritando: "Morram! Fora com os protestantes“. O grupo compunha-se de mais de 300 pessoas. Tão ameaçados fomos que a dona da casa pediu-nos que fugíssemos pelos fundos, o que fizemos. Noite escura, embrenhamo-nos pela mata - e depois de muitas quedas, chegamos ao leito da estrada de ferro Leopoldina, a uma hora da madrugada". E como freqüentemente acontecia, em contraste com as brutalidades dos perseguidores fanáticos, apareciam homens cultos, inteligentes e liberais, para mostrar a sua indignação e simpatia. Pois quando chegaram à estação de Piraúba para pegar o trem, o subdelegado de Polícia, o chefe da estação, e os passageiros à espera do trem foram corteses em defendê-los.
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    O Rev. Antôniofaleceu em 29 de novembro de 1915 - "insigne servo do Senhor" - e sua morte abriu lacuna nas fileiras do metodismo. Mas como que para substituí-lo no plano divino, naquele mesmo ano, surgiram no meio dos obreiros mais dois grandes servos: Guaracy Silveira e João França. . Quantos outros nomes podiam ser citados para mostrar a fibra moral e a devoção cristã desses pioneiros que tanto fizeram para que nós tivéssemos hoje a mensagem do Evangelho! Eis apenas alguns: Antônio José de MeIo, herói da guerra do Paraguai que, apesar das honrarias, se tornara um beberrão. Conduzido a Cristo pelo exemplo e as palavras de Ludgero de Miranda, tornou-se destemido soldado da Cruz. Jorge L. Bekcer, que em Ubá, com outro dedicado pastor, Antônio J. de Araújo, foram em 1893 surrados com paus e chicotes, e Becker esfaqueado (Kennedy, pág. 75). Bento Braga de Araújo, jovem que estudou nos Estados Unidos, licenciado a pregar na Conferência de 1898 e ordenado diácono e presbítero. Brilhante, benquisto entre as seus colegas, estava em seu posto em Ribeirão Preto quando a cidade foi assolada por uma terrível epidemia de febre amarela. Contando a história, escreve a Rev. Kennedy: "O postar recusando-se a sair e deixar o seu povo, dedicou-se também a campanha contra o flagelo. Passaram-se dias cheios de trabalho e cansaço, mas sempre com animação e esperança, até que um dia o Rev. Bento Braga foi vitimado pela insaciável mensageira da morte". Veio a falecer na dia 29 de março de 1903, o herói espiritual que não deixou abandonado o seu posto de fiel pastor. Guilherme da Costa, outra valioso ministro a quem em 1904, a morte roubou a vida. Morreu cedo vitimado pela varíola. Osório Caire, que quando pastor em Vila Isabel, muito fez para conquistar a simpatia da Sra. Anna Gonzaga e contribuísse para que ela doasse ao metodismo da Guanabara a propriedade valiosíssima que hoje abriga, instrui e guia os destinos de centenas de crianças desamparadas daquela região. E... Inúmeros outros cujos nomes estão escritos no livro dos santos e mártires nos Céus.
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    Um par dechinelos E quem poderá esquecer-se da história da conversão do ex-Padre Hypólito de Campos? Era ele um dos mais honrados e inteligentes eclesiásticos da Igreja Romana no Estado de Minas, sendo zeloso pelos interesses da sua fé. Quando soube que os metodistas estavam despertando atenção demais em Juiz de Fora, qual Saulo de Tarso, resolveu ir até lá para combatê-los. Essa viagem foi o seu caminho a Damasco. Contra os metodistas, o padre Hypólito pregava fervorosamente, apelando aos paroquianos para não assistir às pregações do Rev. J. W. Tarboux. Alguns crentes, sabedores de sua hostilidade, resolveram oferecer-lhe um Novo Testamento e para isso, compraram e levaram-lhe a mais linda edição que então havia - de papel fino e capa do melhor marroquim. Cortês demais para recusar o presente, aceitou, dizendo, porém, no coração: "Aqui vai mais um Novo Testamento falso para a fogueira!" É mais fácil queimar um livro folha por folha do que inteiro, e ao passo que o padre rasgava as folhas, de vez em quanto surgiam-lhe aos olhos algumas palavras ou frases tocantes. Todavia, queimou-as todas no fogão. Mas, e a capa? Era de um couro macio belo demais para queimar. Teve então uma "inspiração": "Vou mandar fazer-me um par de chinelos desse belo marroquim!" Escondeu-a esperando o momento oportuno para levá-la ao sapateiro. Todavia, o Espírito Santo agia no seu espírito e coração. Resolveu ouvir ele mesmo algumas dessas heresias que o Rev. Tarboux pregava. Conseguiu permissão de vizinhos para assentar-se a uma janela que abria para o salão provisório dos metodistas! Dali podia escutar os sermões e tomar anotações. O que se iniciara como tentativa de combate acabou com um encontro com Cristo. Depois de 26 anos na Igreja Romana, converteu-se ao Evangelho, renunciou publicamente aos erros do passado e na Conferência Anual de 1900 foi aceito como ministro da Igreja Metodista no Brasil. Orador eloqüente de personalidade cativante, tornou-se evangelista procuradíssimo pelas igrejas. Talvez foi zeloso demais em combater os erros da Igreja reinante; mas a sua sinceridade convencia e atraía, e as campanhas que dirigiu trouxeram milhares ao confronto com o Evangelho - inclusive em Portugal. Sim... Havia vitórias e alento tanto como perseguição naqueles dias. Todavia,
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    se as perseguiçõessão aqui relatadas é justo comentar também as muitas cortesias recebidas do povo mais esclarecido. Por exemplo, em Ouro Preto, fortaleza do romanismo, quando ainda era capital do Estado de Minas, quando ali chegavam pastores à procura dum local em que pregar, "muitos dos prefeitos cediam as suas salas gratuitamente". Em Angra dos Reis, Estado do Rio de Janeiro, quando o Rev. H. C. Tucker ali foi para fazer duas conferências, o Barão de Jugeiro, dono do teatro, gentilmente ofereceu o mesmo para este fim. E para a Conferência Anual de 1904, que se reuniu em Petrópolis, foram cedidos os salões do Palácio do Congresso Estadual, pelo então presidente do Estado, Dr. Nilo Peçanha, devendo-se notar, porém, que o Congresso nesses dias, não se reunia mais em Petrópolis, mas na cidade de Niterói, a nova Capital. E mais de uma vez as estradas de ferro gentilmente ofereceram carros especiais para a ida e vinda dos membros das Conferências - a E. F. Mogyana o fez gratuitamente. A Conferência de 1910 manifestou a sua gratidão a essa, às estradas de Ferro Central e às Cias. Inglesa e Paulista por "honras dispensadas". *** Durante o período antecedente a 1886 - data inesquecível, como logo veremos - o trabalho ia se expandindo. Os pregadores se reuniam em Conferências distritais e anuais para melhor discutirem e encaminharem os seus trabalhos. O Rev. Koger, que se revelara homem de grande habilidade e consagração, fora nomeado pela Junta da Igreja Mãe para substituir o Rev. Ransom como superintendente da Missão. Como ainda não havia Bispo para administrar a obra, era absolutamente necessário que ALGUÉM servisse de superintendente. Durante esse tempo, a febre amarela novamente dizimou a população do Rio de Janeiro em particular. Em março de 1883, ficou gravemente enfermo com essa moléstia o Rev. J. L. Kennedy. Graças a Deus, foi salvo; mas o médico recomendou que para a mais rápida e completa recuperação, fizesse uma viagem ao mar voltando para
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    alguns meses dedescanso em sua terra (EUA). Não podia haver remédio mais excelente para o jovem missionário. Aproveitou a oportunidade para encontrar-se novamente com a moça que amava: Jennie Wallace. E pediu-a em casamento. No dia 16 de maio de 1883 foram unidos em santo matrimônio e embarcaram pouco depois para o Brasil. Nessa viagem trouxe não só o reforço de uma esposa dedicada a ele e ao trabalho do Mestre, mas um reforço missionário na pessoa do casal Tarboux . Rev. John W. Tarboux e Frances Tarboux e sua filhinha Marie. O Rev. Ransom também voltara aos Estados Unidos, trazendo de volta sua esposa em segundas núpcias, Ella Crowe. Foi assim reforçado o número de trabalhadores. *** Primeira sociedade de senhoras O Rev. Kennedy, sempre muito crente no trabalho que o elemento feminino podia fazer, pois a sua mãe e sua tia foram pioneiras nesse trabalho nos EUA, ficou ainda mais animado em incentivá-lo tendo agora o auxílio de sua senhora. Em julho de 1885 organizou na Igreja do Catete, da qual era pastor, e com o auxílio de Jennie, a primeira Sociedade de Senhoras metodistas no Brasil. Deixemos que a jovem esposa conte em suas palavras como transcorreu o evento, numa carta que endereçou à Revista Missionária de Senhoras na sua terra (Woman's Missionary Advocate): "Começamos com oito sócias somente, mas não devemos nos desanimar com tão pequeno início, nem desprezar o dia dos pequenos começos (como disse Zacarias). Continuaremos a trabalhar, pois sentimos ter realmente começado uma grande obra". (Quão grande e valiosa, Jennie nem podia saber ou adivinhar!) "Unidas, as senhoras brasileiras, americanas e inglesas, se reúnem mensalmente com um programa especial bem preparado; e duas vezes por mês, vêm à nossa casa para costurar para que os pobres possam se trajar decentemente para assistir à Escola Dominical. Às vezes, têm vindo com suas mãos umas meninas pequenas que fazem paninhos de crochê para vender em benefício do trabalho. Como não seria bom se tivéssemos muitas sócias como elas!"
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    Se havia alegriase vitórias, também havia tristezas para a nova igreja, especialmente a perda de entre suas fileiras, de vidas preciosas. Vítima da febre amarela, veio a falecer o Rev. J. S. Koger, que fundara as igrejas de Piracicaba e São Paulo, e que como superintendente viajara constantemente para encorajar a obra. Apesar de ter sido avisado do perigo da febre amarela no Rio de Janeiro, em princípios de janeiro de 1886, ele insistiu em viajar até lá, sendo hóspede do Rev. Kennedy e senhora. Duas vezes pregou na igreja do Catete e o seu último sermão, "As limitações do conhecimento humano", foi baseado sobre o texto: “Pois agora vemos como por um espelho em enigma, mas então veremos face a face” . Comentando sobre o caso, escreveu o Rev. Kennedy no seu "histórico": "Não sabíamos ao ouvir as suas palavras, quão perto ele então estava de ver-se face a face com Jesus". Terminada a série de cultos, o Rev. Koger voltou a São Paulo, onde logo adoeceu. Faleceu no dia 28 de janeiro vítima da febre amarela e foi enterrado no Cemitério dos Protestantes, em São Paulo, na Rua da Consolação. Deixou viúva e duas filhinhas. *** Apesar das suas perdas, o trabalho metodista se expandia passo a passo. Sentiu-se logo a necessidade de uma administração central mais ativa e eficiente, e dum contato mais íntimo com a Igreja Mãe. Reconhecendo as dificuldades, a Junta de Missões resolveu enviar ao Brasil o Revmo. Bispo John C. Granbery para aconselhar, administrar, e organizar a Missão como então se chamava - em CONFERÊNCIA ANUAL BRASILEIRA.
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    CAPÍTULO 10 DIAS MEMORÁVEISDE 1886 Chegada do Bispo Granbery A chegada do Bispo Granbery, em 4 de julho de 1886, foi evento notável não só para o metodismo brasileiro, mas para o próprio Brasil, pois foi ele o primeiro bispo protestante a pisar o solo do Brasil. O vapor "Advance" em que viajara chegou tarde demais para seus passageiros desembarcarem, mas o Rev. Kennedy conseguira do governo uma cortesia especial licença para que descessem sem todas as formalidades costumeiras. O Bispo trouxe consigo sua filha Ella (ou Elvira como a chamavam aqui, que se tornou uma das mais queridas missionárias no Brasil) e o jovem pregador, Rev. Hugh C. Tucker com quem mais tarde a filha do Bispo se casaria. Um dos mais felizes em dar sua boa vinda ao Rev. Tucker foi o Rev. Kennedy. Com suas múltiplas obrigações, viu que não podia mais devotar-se ao trabalho no Catete entre os americanos. Por isso preparara um abaixoassinado que incluía o nome do Cônsul Americano, que pedia à Junta de Missões nos Estados Unidos, insistentemente, que enviasse um pastor para essa congregação - mas um SOLTEIRO, porque não podiam ainda sustentar pastor com família! O Rev. Tucker veio assim ao Brasil - solteiro e com a única preocupação de servir à congregação de fala inglesa; mas veio como missionário da Junta, da qual recebia por ano a munificente soma de duzentos dólares! Foi convidado depois, e aceitou, a assumir a posição de representante no Brasil da Sociedade Bíblica Americana. Nesse trabalho, e na sua obra toda na Igreja e na comunidade, o Rev. Tucker tornou-se um dos mais valiosos missionários que jamais trabalharam nessa terra. Dele escreveu o seu colega Kennedy, no Expositor Cristão: "Oxalá tivéssemos uma dúzia de campeões como esse valente servo do Senhor!"
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    Quanto ao nomeda igreja, foi recomendado que a Missão fosse doravante conhecida com o título legal de "EGREJA METHODISTA EPISCOPAL DO SUL" e que toda a sua propriedade fosse inscrita com tal título. Terminou assim a Missão designada até então de MISSÃO RANSOM. Terminou também o trabalho ativo desse missionário pioneiro no Brasil. Sejam quais foram os motivos, resolveu ele regressar aos Estados Unidos, desligando-se completamente do trabalho aqui. Ninguém registrou e hoje ninguém sabe os motivos íntimos que o levaram a essa decisão; mas sabemos que Ransom era homem de convicções e opiniões fortes; que se sentia como "comandante" dos seus colegas; que houve atritos com esses e discórdia com as resoluções do Bispo. O certo é que o caso não foi discutido abertamente. Mas também é certo que, com a volta do Rev. Ransom, o Brasil perdeu um obreiro brilhante, dinâmico e consagrado. Escreveu Kennedy no seu histórico: "O Dr. Ransom nunca perdeu o seu amor para com o trabalho do Senhor no Brasil; e os que ficaram para trás, nunca deixaram de lastimar a combinação de circunstâncias que o impeliram para lá (Estados Unidos). Honra àquele denodado servo do Senhor!" O Bispo testemunha algumas perseguições Terminada a Conferência dos missionários em Piracicaba, o Bispo Granbery resolveu visitar um pouco o campo de trabalho, e foi acompanhado pelo Rev. Kennedy no dia 27 de agosto a Rio Novo, onde era pastor o Sr. Felipe de Carvalho, ajudado pelo Sr. Ludgero. Logo ao desembarcarem na estação, receberam a notícia que há duas horas tão somente o delegado de polícia tinha mandado dois praças e um cabo à casa pastoral, prendendo o pastor e seu ajudante e escoltando-os até a delegacia policial, como se fossem criminosos comuns - somente por terem pregado a Palavra de Deus! E acima de tudo, o delegado mandou que saíssem de Rio Novo dentro de quarenta e oito horas! O Sr. Kennedy não demorou em ir às autoridades, citando-Ihes o direito da liberdade religiosa garantida pela constituição. Os pregadores foram soltos e lhes foi dada licença para continuarem seu trabalho. Contudo, relata Kennedy, quando o Bispo pregava a uma congregação bem grande aquela noite, muitos motivados pela curiosidade de ouvir um Bispo protestante, o culto foi interrompido por moleques que batiam em latas vazias para atrapalhar o sermão. Já se vê que bem cedo o Bispo testemunhou algo que os pastores protestantes tinham que enfrentar.
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    Um setembro dealegria Duas datas radiantes seguiram-se a esses acontecimentos. Estava finalmente terminado o templo do Catete, que tanta angústia havia causado, e no dia 5 de setembro, foi inaugurado com a bênção do Bispo. E após isso sucedeu, no dia 16, o mais significativo de tudo - a organização da Conferência Anual Brasileira da Igreja Metodista Episcopal do Sul. Até o dia de hoje tem essa Conferência a distinção de ser única em todo o metodismo mundial organizada com três membros tão somente: o Rev. James L. Kennedy, o Rev. John W. Tarboux e o Rev. Hugh C. Tucker, designados depois como "TRIO DE OURO" - líderes metodistas nos campos de evangelização (Kennedy organizou mais igrejas e recebeu mais membros do que qualquer outro pregador); Tarboux, no campo da educação (especialmente em conexão com Granbery); e Tucker, como pioneiro dinâmico no campo da ação social, tendo ao seu crédito uma longa lista de "Primeiros". Infelizmente, dessa primeira Conferência não fizeram parte outros pioneiros - o Rev. Koger que falecera poucos meses antes; o Rev. Ransom que por vontade própria deixara o trabalho do qual fora realmente o fundador. Todavia, podemos dizer que com este significativo e glorioso evento fechamos com chave de ouro a primeira década da Igreja Metodista Episcopal do Sul no Brasil. Surgia agora uma nova etapa no trabalho. E enquanto deixamos nossos pioneiros da Conferência Anual Brasileira vigiando os seus postos em Rio, São Paulo, e Minas Gerais, vejamos duas outras correntes metodistas que estavam contribuindo para a cristianização da Pátria com a mesma coragem e devoção cristã.
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    CAPÍTULO 11 OUTRA SEMENTEIRAMETODISTA “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-Ias; elas ouvirão a minha voz; então haverá um rebanho e um pastor." (João 10:16) Penetra o Metodismo no Rio Grande do Sul Desde os primórdios da sua obra missionária na América do Sul, a Sociedade Missionária (a Junta) nos Estados Unidos se interessara na região platina tanto quanto pelo Brasil. Na sua viagem de exploração e organização, o Rev. Fountain E. Pitts prosseguira do Rio de Janeiro a Buenos Aires e Montevidéu. Nas duas capitais platinas organizou "Sociedades" ou congregações; deixando em Buenos Aires "uma igreja muito respeitável - tomando medidas preliminares para se levantar uma casa de oração, que depois se tornou em realidade" (Kennedy, págs 13-14). Porém essa Missão, como a do Rio, pelas causas já mencionadas anteriormente, também foi abandonada pela Igreja Mãe. Mas diferentemente da do Rio de Janeiro manteve sua continuidade com sustento local, e em 1870 reativou-se a ligação com a Missão, e em seguida, em 1879, temos a chegada do Dr. Thomas B. Wood. A partir daí expandiu-se o trabalho entre os que falam a língua espanhola na América do Sul
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    até firmar-se emdez países do continente. Mas como a Igreja Metodista nos EUA fora vítima de cisão neste período intermediário, a obra nos países de fala espanhola estava ligada à Igreja do Norte, enquanto que a estabelecida no Rio e em São Paulo estava ligada à Igreja do Sul. Comentam os historiadores do metodismo americano que "durante esses anos a Igreja estava aprendendo a sua primeira lição em fé e estratégia missionária - no futuro não abandonaria tão depressa os seus empreendimentos por falta de frutos imediatos no campo ou por dificuldades financeiras na Junta. A igreja aprendeu a ter paciência." (Early American Methodism, pág. 315). Dr. Thomas Wood Dr. Wood era homem de brilhantismo e cultura profunda; conforme diz o Rev. Mena Barreto Jaime, "varão ilustre, cérebro poderoso, mestre de teologia, orador e escritor - todavia, com coração de criança" (Jaime, pág. 21). Tinha deixado a reitoria duma universidade na sua terra, para servir como humilde missionário na região do Rio da Prata (1 ). Dali lançando as vistas para longe, viu o vasto e desocupado campo do Rio Grande do Sul, e resolveu duma feita encetar o trabalho ali também. Para seu "embaixador", aproveitou-se, dum jovem cristão brasileiro, convertido sob sua pregação: João Correa. 1 Foi extraordinário o trabalho desse homem. Em Rosário, Argentina, onde se localizou entre os anos 1870 a 1874, dirigiu a única escola argentina na qual não se ensinava o catecismo católico-romano. Nos anos 1874 a 1878, ensinou Economia Política, Governo Constitucional, Astronomia e Física no Colégio Nacional de Buenos Aires. Fundou "El Evangelico", o primeiro jornal evangélico no país, e em 1889, fundou o Seminário Teológico em Buenos Aires, no qual serviu de Reitor até 1891. . . Seguiu depois à costa oeste do continente, pregando e lecionando no Peru (Lima), Equador e Bolívia. Nesse último, em 1900 fundou escolas normais a pedido do governo que o enviou aos EUA para conseguir professoras competentes, e foi servir, ao mesmo tempo, de reitor do Seminário Teológico Metodista naquela cidade, e superintendente de suas escolas públicas. Um verdadeiro gigante intelectual e espiritual! Faleceu em dezembro de 1922, no dia depois do natal, "cheio de boas obras".
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    Dr. João Corrêa Naturalde Jaguarão, na província do Rio Grande do Sul, era médico homeopata que durante a guerra do Paraguai prestara serviço nos hospitais de sangue. Finda a luta, por motivos que ignoramos mas que certamente faziam parte do plano divino para a evangelização do Brasil, resolveu fixar residência em Montevidéu. Ali Deus continuou a sua preparação espiritual: ali ele se converteu, casou-se com a Srta. Maria Lejos, que foi sempre uma dedicada esposa, e obteve posição de colportor com a Sociedade Bíblica Americana. Enviado pelo Dr. Wood, tornou-se ele o João Batista que preparou o caminho para a penetração metodista na terra gaúcha. Fez a sua primeira viagem ali em 1875, data preciosa nos anais metodistas do Sul. Viajou extensivamente pela então província, desde a fronteira uruguaia até à cidade de Rio Grande. Além das dificuldades inerentes com transportes, comunicações e hostilidade do clero, o Dr. Corrêa teve que enfrentar obstáculos criados pelos conflitos militares que ensangüentavam o Rio Grande. O Expositor Cristão de 14 de abril de 1894 comenta sobre um relatório que o Dr. Corrêa enviara, dizendo: "Ele continua a trabalhar com bons resultados, apesar dos abalos da revolução que se alastra no sul deste infeliz país, assombrado pelo militarismo". A despeito de tudo, os resultados do seu trabalho e as promessas para o futuro tanto agradaram ao Dr. Wood que ele pediu que o Dr. Corrêa mudasse definitivamente para Porto Alegre. O Dr. Corrêa voltou com alegria e satisfação ao seu torrão natal, fixando residência em Porto Alegre, que desde então tornou-se o coração do metodismo gaúcho. Trouxe consigo a sua esposa Da Maria, sua filha Ponciana, e a Srta. Carmen Chacon, filha duma viúva de Montevidéu, que o casal Corrêa tinha criado como filha. Primeira Igreja Metodista no Rio Grande do Sul Desde então, a obra metodista - evangelística e educacional - se radicou pelo sul. Em 27 de setembro de 1887, o Dr. Corrêa organizou a primeira igreja metodista em Porto Alegre, numa sala de sua residência à Rua Dr. Flores, nº 91. Dela faziam parte seis
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    membros: ele próprio,Da Maria, Ponciana, Carmen Chacon, e - interessante coincidência - Samuel Elliot, o escocês que colaborara com o Rev. Kennedy quando ele começou o trabalho em Juiz de Fora! Samuel Elliot transferindo-se em 1885 para o Sul, ali continuou como obreiro incansável na distribuição das Escrituras. Carmen Chacon - - Flor primaveril do Metodismo gaúcho Um mês após a organização da igreja, o Dr. Corrêa fundava em Porto Alegre uma pequena Escola Mista Evangélica, sob a direção de Carmen Chacon, que era professora formada no Uruguai. Cristã consagrada, ela se houve com a máxima devoção, conquistando o respeito e a estima das famílias importantes da cidade. No fim do ano letivo a Escola alcançara um total de 187 alunos. Bastava esse sucesso para que começassem hostilidades e calúnias contra a "escola protestante". Dr. Jaime Couto nomeou uma comissão para fazer um inquérito, a qual após debates deu parecer favorável à escola. Diga-se ao crédito das autoridades brasileiras que em casos dessa natureza, como no do Piracicabano e depois no Colégio de Taubaté, apoiavam eles sincera e lealmente o nosso trabalho educacional, confundindo e derrotando os nossos inimigos e críticos. Tudo ia a contento - menos Carmen! Sendo de físico fraco, ficou com a saúde abalada, gastou as suas forças no trabalho escolar e, dentro de dois anos, viu-se atacada pela tuberculose. Voltou então a Montevidéu; mas não houve carinho nem tratamento médico que a salvasse. Faleceu no dia 15 de novembro de 1889, sendo o dia de nossa independência política o de sua independência espiritual. De Dr. Wood, a beleza do seu caráter mereceu essas palavras de apreço: "Ao designá-la para Porto Alegre, ela preencheu todas as minhas esperanças, e principalmente tenho que admirar a paciência e abnegação com que trabalhou dia e noite, sem olhar para qualquer recompensa a não ser a do galardão espiritual". De novo - como com Cynthia Kidder - perguntamos à Providência Divina: "Por que, ó Deus, por que a morte prematura na primavera da vida, dessas Tuas servas dedicadas, preparadas, e tão necessárias ao trabalho da seara?" Contudo, a obra de Carmen não terminou com o seu falecimento. Sua escola
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    floresceu tanto que,em breve, o Dr. Corrêa e seus auxiliares abriram mais três unidades, sendo uma noturna que chegou a matricular 84 alunos! Novos obreiros Após a morte de Carmen, veio do Uruguai para dirigir a Escola Mista, Dona Raquel Foladori, que depois de trabalhar cinco anos, casou-se e voltou à sua terra natal. Finalmente, em 1996, já cansado e sobrecarregado, o Dr. Corrêa, pastor da Igreja Central de Porto Alegre, pediu a sua exoneração do cargo. Para substituí-lo, veio dos Estados Unidos, o Rev. William (Guilherme) Robinson, trazendo consigo a Srta. H. M. Hegemam para encarregar-se do trabalho educacional. Já antes dessa data, o nome da escola fora mudado para COLÉGIO AMERICANO, nome que conserva até hoje. A Srta. Hegeman trabalhou ativamente na Escola Dominical, e em 1898 organizou a Primeira Sociedade de Senhoras no Rio Grande do Sul, sendo presidente da mesma a Sra Herminia Wingaertner. A Srta. Hegemam regressou aos Estados Unidos em 1900, e em vez de voltar ao Brasil, foi trabalhar no metodismo porto-riquenho, por que motivos não sabemos. O Rev. Robinson foi obreiro dedicado, mas devido à precária saúde de sua senhora e de outros da família, também regressou em breve aos Estados Unidos. Contudo, deixou num Cemitério de Porto Alegre um pedaço de seu coração - uma filhinha querida. Era agora superintendente na Missão Platina, o Rev. Charles Drees, que resolveu visitar Porto Alegre em 1899. Trouxe consigo o casal missionário John Elizabeth Price, com sua filhinha Margarida, para servir na Igreja Central de Porto Alegre. A vida desse casal tornou-se uma epopéia. Moravam no Estado de Ohio, onde eram membros da Igreja Metodista (do norte). Desde jovens, ambos haviam entregue suas vidas a serviço cristão em prol dos pobres e desprivilegiados duma grande cidade industrial; e nessa tarefa ficaram se conhecendo. Quando afinal John pediu Elizabeth em casamento, avisando-a que tencionava ser missionário nalguma terra longínqua, ela respondeu: "Se o trabalho é para Jesus Cristo, estou pronta a ir contigo".
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    Em 1900, foramnomeados para abrir trabalho metodista em Santa Maria, onde alugaram na rua do Comércio uma casinha com sala e janela que davam para a calçada. Com seus próprios recursos, compraram algumas cadeiras com assentos de palhinha. Arranjaram uns caixotes - aqueles em que se vendiam querosene em duas latas grandes - pregaram-nos juntos, deram-lhe pernas, cobriram-nos com pano vermelho, e assim fabricaram o seu "púlpito"! Também de papel vermelho cortaram umas letras grandes e bem vistosas, que colocadas na parede atrás do púlpito com o texto: "DEUS É AMOR." Assim começou o trabalho metodista em Santa Maria. Certo domingo de manhã, veio à Escola Dominical entre outros um meninozinho aparentando uns nove anos, de olhar vivo e inteligente, olhos bem grandes e escuros. Da Eliza fez a chamada: "E tu, como te chamas?" O menino olhou-a sorridente: "Chamo-me César - César Dacorso". Nunca poderia Da Eliza sonhar que esse seu pequeno aluno chegasse a ser o primeiro bispo brasileiro da nossa Igreja! Porém, como era o seu costume, tratou-o com carinho, cativou-lhe e aos seus irmãos com hinos e histórias bíblicas, sua bondade e interesse, bem como as festinhas que fazia para o Natal. Conta o Rev. Nelson de Godoy Costa, na sua esplêndida biografia desse “Príncipe” da Igreja Metodista no Brasil: "Foi naquela Escola Dominical, dirigida carinhosamente por Dona Eliza Price, que aos olhos do menino surgiram os primeiros horizontes do metodismo. César, já com a idade de treze anos, era firme na igreja, sempre entusiasta, revelando-se já o extraordinário obreiro do Mestre que seria mais tarde. E foi anos depois, sob a mesma influência benéfica do pastor Price, que ele foi levado à resolução final de tornar-se membro da Igreja Metodista".
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    CAPÍTULO 12 TRABALHO NAZONA COLONIAL "Não te mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas nem te espantes; porque o Senhor teu Deus é contigo, por onde quer que andares." (Josué 1.9) Não só em Porto Alegre e seus arredores, a zona agrícola mais rica do Estado, se espalhava o trabalho metodista. A região colonial, tornou-se um dos grandes campos de evangelização - a escabrosa região onde moravam agricultores italianos, que se especializavam na cultura da uva. O trabalho ali era verdadeiramente árduo, não só devido às dificuldades topográficas, mas à hostilidade reinante por parte de aferrados católicos. Todavia, os nossos pregadores locais, exortadores e colportores trabalhavam assiduamente com "alegria e o desejo de ganhar almas para Cristo", conforme diz o Rev. E. M. B. Jaime. Valdenses - quem eram? Mas se ali residiam católico-romanos fanáticos e ignorantes, também havia um pequeno grupo de evangélicos leais, filhos daqueles que durante séculos não haviam curvado o joelho a Baal. Eram eles os valdenses, de um movimento pré-Reforma, oriundos das regiões alpinas do sul da França e norte da Itália - seguidores de Peter Valdo, rico comerciante de Lyon, França, que despojou-se de todos os seus bens, dando-os aos pobres e entregou-se a uma vida de simplicidade bíblica. Sua sinceridade não demorou em atrair outros altos ideais, que tomaram voto de pobreza, castidade e obediência. Alarmado com esse espírito independente e antagônico à Igreja reinante, o Papa Alexandre lII proibiu-o de pregar, mas Valdo continuou, refugiando-se nas cavernas e montanhas dos Alpes; e tal foi a sua influência que em oito anos apenas - isso em 1184
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    - o PapaLúcio II excomungou os Valdenses, tornando-os alvos de “legítima” perseguição. Espalharam-se então por outros países da Europa, e mais tarde, alguns embarcaram para a América do Sul, Argentina e Uruguai, e de lá finalmente chegaram à região serrana do Rio Grande do Sul. O espírito simples e evangélico que possuíam casou-se com a penetração metodista. E assim começou o trabalho metodista na zona colonial. Colportores e exortadores valdenses vieram da região platina, enviados pela Missão Metodista. Destacam-se entre esses, Carlos Lazzare, Mateus Donatti - que já eram meio avançados em idade, entre os 60 e 70 anos – e Victor Pingret, francês e geólogo. Lazzare veio do Rio da Prata em 1888, trabalhou ativamente nas redondezas de Bento Gonçalves, onde conseguiu construir uma igreja com a capacidade de 200 pessoas! O colportor Victor Pingret, foi ativo em Forqueta do Caí, onde havia um grupo de valdenses. Para o culto, conseguiu o uso duma capelinha católica que fora no passado um conservatório ou depósito de imagens. Lembrando-nos da salinha onde se vendera bebidas alcoólicas que se transformou no berço da Igreja Metodista de Santa Bárbara, podemos bem exclamar: Como Deus pode de coisas imundas e mundanas, fazer templos preciosos para a sua adoração. Apesar de algum sucesso foi e ainda é uma região dificílima de evangelizar ou será que os seus rebanhos não foram bem pastoreados? Até em 1911 se debatia na Conferência Anual daquela região eclesiástica: “Qual a melhor solução do problema da evangelização na zona colonial?” Donatti, o indomável Um dos mais dedicados obreiros na zona colonial foi Mateus Donatti, nascido em 8 de março de 1874 na pequena vila de Gavenola, província Porto Mauricio, Itália. Seus pais valdenses eram crentes fervorosos que sempre levavam consigo aos cultos, o menino Mateus, desde a idade de quatro anos. Mocinho, em busca de novas oportunidades e liberdade, foi para a Argentina. Chegado em Buenos Aires procurou logo os evangélicos, encontrando a Missão Metodista. Conseguiu empregar-se como colportor da Sociedade Bíblica Americana, e tão excelente foi o seu trabalho que o Superintendente
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    da Missão declarouque "nunca colportor vendera tantas Bíblias em um ano como Mateus". Da Argentina, foi enviado a trabalhar no Rio Grande do Sul entre os seus patrícios nas colônias. Seu zelo e entusiasmo em breve despertaram hostilidade, mas nunca perseguição; nem o desânimo espiritual, nem a canseira dos seus sessenta anos, o desviaram da sua missão evangelizadora. Aventura na floresta Uma das suas experiências maravilhosas deu-se certa vez quando montado a cavalo seguia um estreito caminho de curvas nas florestas da região. De repente, por detrás dumas árvores, surgiram três homens com facas, gritando: "Pare, pare!" Donatti obedeceu. "Prepara-te para morrer, pois vamos matar-te!" - gritou o líder. Donatti, homem de fé e coragem, olhou-os sem medo, lembrando as mil promessas que Deus fizera aos seus fiéis seguidores. "Muito bem, senhores, respondeu-Ihes, "porém peço um único favor: que me deixem orar antes de morrer". Os homens que não eram bandidos, mas criaturas ignorantes que haviam sido levados a crer que faziam o seu dever em remover da comunidade um herege, encolheram os ombros e consentiram. Nisso, Donatti, ajoelhando-se no caminho ao lado do seu animal, fechou os olhos, apertou as mãos e começou a orar em voz alta e fervorosa. Orou pela sua família, pela obra que tentava fazer contando a história do amor de Deus por aqueles que o ameaçavam e suas famílias, para que se arrependessem e entregassem os corações a Jesus Cristo. Ao passo que orava, esperava a cada instante o golpe mortal. Surpresa divina! Terminada a oração, que tanto se prolongara, abriu os olhos e, ao erguer-se, viu ajoelhados no caminho os três homens, seus rostos banhados em lágrimas, pedindo perdão a ele e a Deus.
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    CAPÍTULO 13 TERREL, OINTRÉPIDO Ligado também ao trabalho pioneiro no Rio Grande do Sul, está o nome do incansável e intrépido missionário, James M. Terrel. O Rev. Terrell era natural do Estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Seu pai era militar presbiteriano de fibra, mas a mãe era metodista convicta. Todavia, o seu lar era cristão e servia de hospedaria para os itinerantes que viajavam de ponto a ponto pregando as boas novas. Entre esses estava o Rev. James L. Kennedy, que fora a influência mais forte em sua decisão de ser missionário. Desde mocinho demonstrara a sua determinação em vencer os obstáculos. Ele e sua mãe queriam que ele estudasse no colégio metodista Emory and Henry. Mas o pai se opunha obstinadamente, dizendo que de modo algum o sustentaria se para ali fosse. Inflexível, e com a aprovação da mãe, o jovem foi ao colégio preferido; e com o trabalho das suas mãos e o pouco auxílio que a mãe podia providenciar, conseguiu formar-se, completando seus estudos teológicos na Universidade de Vanderbilt. Veio ao Brasil solteiro, em junho de 1900, e foi nomeado para Petrópolis. Ali ficou conhecendo May Umberger, a missionária que dirigia o Colégio Americano (metodista). Amaram-se e casaram-se no ano seguinte; Dona May foi sua dedica da e incansável companheira na obra cristã. Terrel foi depois transferido para o Rio Grande do Sul. Poucos missionários viveram mais ativa e sacrificialmente do que o casal Terrell, que aqui serviu 43 anos ao todo. Na sua casa, por mais apertada que fosse, hospedavam estudantes menos privilegiados; e entre os vários que receberam essa hospitalidade, esteve César Dacorso, quando estudava no Colégio União. Pelos seus sacrifícios, conseguiu construir diversas casas pastorais, contraindo dívidas pessoais enormes, pelo qual foi reprovado por um dos bispos americanos que ameaçou mandá-lo de volta à sua pátria!
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    Foi uma vezquase morto a facadas por um ingrato a quem ajudara na sua necessidade. Mas para dar um só exemplo de sua coragem em pregar o Evangelho, lembramos a história de uma experiência que teve em Santo Ângelo. Vários metodistas ali tinham sido presos pelo "crime" de pregarem a Palavra de Deus, sendo encerrados no porão de um hotel. Quando Terrell soube disso, lá se foi com pressa, e tomou posição enérgica com o intendente (prefeito) local, citando os direitos da liberdade religiosa garantidos pela Constituição do Brasil. Cedida a sala do hotel pelo seu dono, o Rev. Terrell não hesitou em pregar ali naquela mesma noite, ainda que o seu rosto fosse pipocado por grãos de, milho por alguns mal-educados ali presentes que assim escarneceram dele . Ignorando os insultos, Terrell cantava e pregava, cada vez mais alto, para que os crentes presos pudessem ouvi-lo e se encorajassem a permanecer firmes na fé. Conseguiu depois que fossem soltos. Assim tal como o Rev. Price, Rev. Kennedy e outros, ele mesmo mais de uma vez construiu bancos e "púlpitos" para as salas de culto; e quando chegava o domingo à noite, começava a cantar sozinho ou em dueto com May, para atrair transeuntes e convidá-los a entrar para o culto! Foi membro fundador da Conferência Anual do Rio Grande do Sul, sendo essa organizada em seu lar. Quando em 1905 era pastor da Igreja Central de Porto Alegre, e o superintendente distrital era o Rev. E. E. Joiner, Terrell adquiriu o valioso, terreno na Praça do Portão, onde está localizada a nossa principal igreja na Capital. Foi outro ativíssimo e amado missionário o Rev. Claude L. Smith, que serviu de engenheiro-arquiteto desse templo. O Rev. Terrell ensinou no Seminário adjunto ao Instituto Porto Alegre, educandário masculino fundado em Porto Alegre, no qual um dos seus primeiros estudantes foi Sante Uberto Barbieri, hoje (final da década de 60) honrado bispo da Região Platina. Depois o Rev. Terrel foi nomeado para ensinar na Faculdade de Teologia quando ela foi formada em São Paulo, unindo os seminários do Granbery e Instituto Porto Alegre; e não é de se admirar que uma vida tão dinâmica, terminasse, não no conforto de um leito mas no cumprimento ativo de um dever.
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    Ao mesmo tempoque ensinava na Faculdade, pastoreava a igreja do Ipiranga. Um domingo de manhã, em 1942, corria para pegar o ônibus que o levaria à igreja que pastoreava. Acenou ao motorista para parar. Quando a porta se abriu, o Rev. Terrell pôs o pé no estribo; sorriu um obrigado ao cobrador - e caiu no estrado, entregando a alma ao Senhor que tão fielmente servira durante 49 anos. Álvaro Tôrres, o Tomás do metodismo gaúcho Ao escrever a história do Rev. Terrell, é impossível não lembrar da história da influência que teve o seu lar sobre um dos consagrados pregadores daquela região. Um dia compareceu à porta um jovem com sua mãe. "Sou Álvaro Tôrres, estudante de engenharia", explicou ao apresentar-se. "Vim do interior e desejo morar perto da Escola. Alguém nos indicou que o senhor tinha quartos para alugar". Perguntas respostas - afinal, com tudo combinado, o moço virou-se e disse ao casal Terrell: "Somos católicos praticantes; e para não haver qualquer mal entendido, desde já quero avisar-lhe que não queremos saber nada de religião enquanto aqui estivermos". O casal Terrell concordou. De tão inauspicioso começo resultou a conversão do moço e da sua mãe! É que o casal Terrell tinha o costume todas as manhãs de realizar o seu culto em família. É claro que assim continuaram. Mas as paredes da casa não eram grossas bastante para abafarem por completo o que faziam. Dos seus cômodos, Dona Lisbale e o estudante Álvaro ouviam a leitura bíblica, o Pai Nosso, o cantar de um hino. Impressionados, mas resistentes, D. Lisbale acautelava o filho: "Álvaro, não te impressiones - é uma cilada que armam para nos pegar". Cilada foi! Mas do Espírito Santo. Com o passar do tempo, os dois não puderam resistir à mensagem que lhes tocava os corações. A história continua com o Álvaro convertido, casando-se com distinta professora do Colégio Americano, Amália Delacoste, e dedicando-se não à engenharia do material, mas à engenharia espiritual - a construção de caráteres dedicados a Cristo, assim como foi ele. Ele trabalhou uns tempos na Associação Cristã de Moços, sendo secretário o Sr. Frank M. Long, que muito influiu na sua vida. Depois consagrou-se inteiramente ao ministério.
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    Casal J. W.e Maggie Lee Daniel O casal Daniel, tão querido no sul, também tinha por costume hospedar no lar estudantes e ensinar o inglês - um bom meio de contato com descrentes: Quando moravam em Cruz Alta, vinha ao seu lar um jovem estudante, por nome Érico Veríssimo. Ele costumava pedir suas velhas revistas americanas, que às vezes D. Maggie chegava a tirar do caixote na cozinha onde ela as guardava para acender fogo nas frígidas manhãs de inverno gaúcho. Quem sabe se não acenderam também no coração desse moço a chama da ambição de escrever, que o levou a ser um dos nossos grandes literatos? Em dois dos livros de Veríssimo há retratos autênticos de missionários metodistas. Foi ali em Cruz Alta que o casal tristemente deixou no solo do Brasil, um filhinho querido - assim como o fizeram os casais Robinson, Smith e Betts.
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    CAPÍTULO 14 OUTROS CAMPEOESDA FÉ Dentro de tão pequeno volume é absolutamente impossível continuar com a galeria de santos e heróis da terra gaúcha. Todavia, não posso fechar o livro sem mencionar, ainda que brevemente, alguns nomes que nunca deverão ser olvidados. Lembramo-nos: Do Rev. José Leonel Lopes e sua infatigável esposa, D. Jovita e do Rev. Antônio Patrício Fraga que tanta influência exerceram na vida espiritual de César Dacorso, então jovem. Cassiano Monteiro, que apesar de péssima saúde e parcos recursos (quão pouco os nossos pastores então recebiam!), trabalhou muito. Do Major Joaquim Faria, herói da retirada de Laguna na guerra do Paraguai, veterano leigo, sempre pronto a trabalhar, cristão cujas filhas ilustres no campo da educação continuam ainda fazendo admirável trabalho pelo Senhor. Rev. Eduardo E. Joiner, que além de ser consagrado pastor d'almas fizera um curso de medicina que foi o meio de salvar muitas vidas. Contudo em agosto de 1914, ele que tanto fizera para ajudar a outros, não pôde ser salvo quando a mão da morte acenou. Rev. Eduardo Menna Barreto Jaime, verdadeiro apóstolo do Evangelho, herdeiro de uma longa e honrada tradição militar, que facilmente poderia ter seguido a carreira de seus país, mas preferiu renunciá-la para servir como bravo soldado nas fileiras de Cristo. Era filho espiritual do Rev. E. J. Joiner, e amigo íntimo de César Dacorso quando este ainda era funcionário da Viação Férrea em Santa Maria. Dele escreveu o Rev. Nelson de Godoy Costa: "Hoje, após tudo, mais do que ninguém, representa ele a velha guarda da Igreja Metodista do Sul, com dedicação incontrastável, já que com as
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    energias quebrantadas pelosanos de enfermidade, visita, estimula, fornece padrão para a mocidade que ingressa no ministério. A ele pela influência que exerceu, pela bondade que o caracteriza, pelo cristianismo que encarna, César Dacorso deve muitíssimo". E sempre a seu lado, sua dedicada esposa, D. Alcina, que para viver dentro do parco salário, até solas punha nos sapatos das filhas - segunda geração também de crentes no metodismo gaúcho. Do bondoso Rev. João Ignácio Cerilhanes e sua esposa, D. Etelvina. Do Rev. Derly Chaves e sua magnífica esposa, Ottília de Oliveira Chaves. Que direi deles sem escrever outro livro?! Tão conhecidos são; tão queridos, tão influentes no metodismo total do Brasil, a sua influência se espalhando além da igreja. Ele, autor dos "Bilhetes do Céu", na revista Voz Missionária, deputado durante anos, e, aposentado, servindo como Diretor do Museu Estadual de Porto Alegre; ela, uma das fundadoras da revista Voz Missionária; Presidente das SS.MM.SS. da 2ª Região; durante um termo, presidente da Federação Mundial de Senhoras Metodistas, e eminente legisladora nos concílios da Igreja. Rev. Daniel Betts, grande espírito de educador e evangelizador, que, depois de sua aposentadoria, curvando-se ante o peso dos anos;" dedicou-se a trabalhos que culminaram no orgulho dos gaúchos - o templo da Igreja Wesley - descansa hoje em solo gaúcho. Rev. Adolfo Ungaretti e sua senhora, D. Luíza Vurlod, filha de um educador francês no Rio Grande do Sul, que se sacrificaram pessoalmente para fundar em Santa Maria o Lar Metodista. - Do Professor William R. Schisler - sob cuja administração habilíssima o Instituto Educacional de Passo Fundo tornou-se uma grande força moral na cidade e no Estado, e cuja esposa, D. Frances, foi verdadeira mãe a centenas de jovens que ali passaram os seus anos de estudo. - De Uberto Barbieri - mocinho que ao matricular-se nesse Instituto, considerava-se incrédulo, ateu; mas que, ali convertido, tornou-se um dos gigantes protestantes do continente sul-americano, e um dos vice-presidentes do Concílio Mundial
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    de Igrejas. - DeJosé Pedra, o "Pinheirinho" que cresceu para ser o altivo PINHEIRO, da floresta metodista, o Bispo da Segunda Região. - De Claude L. Smith - o pastor bem amado que era também engenheiroarquiteto, idealizador de muitos templos pelo Brasil. - De Norberto Schütz e sua Arabela, pequena de corpo, mas grande de coração, que deram ao ministério seu filho Paulo. - De Romano Reif - leigo cristão, distinto escultor, cujo monumento a João Wesley embeleza o Parque Farroupilha em Porto Alegre. - De José Kokot, os irmãos Wagner; Oscar Koeche, Howard Lehman, Miguel Dickie, James Ellis... Que mais direi dessa linha de esplendor formada pelos pioneiros da Segunda Região? DEUS OS TEM NO SEU LIVRO DE LEMBRANÇA!
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    CAPÍTULO 15 TRANSFERÊNCIA DETRABALHOS Desde os primeiros dias da sua penetração no Brasil, existia no coração metodista a idéia da evangelização total do Brasil. Sabemos que Kidder viajou desde São Paulo até o Pará lançando as sementes do Evangelho; que Ransom em dois anos apenas depois da sua chegada ao Rio, já empreendera a difícil viagem ao Rio Grande do Sul. Ali ficou tão impressionado com o trabalho feito pelo Dr. João Correa que viajou com ele durante uns meses, e foi depois até Montevidéu para conversar com o Dr. Thomas Wood, então superintendente da Missão Platina da Igreja Metodista .(do Norte) que enviara o Dr. Correa à Província gaúcha. O teor da conversa não foi relatado, mas bem podemos supor que era relacionado ao trabalho deles no Rio Grande do Sul. O certo é que o ideal foi sempre de que o trabalho no Brasil deve ser feito e mantido pelos brasileiros e não pelos platinos. Consultas e transferência definitiva A própria Missão Platina percebeu, com os anos, os inconvenientes de expandir-se pelo Brasil (quando já havia metodistas em outras partes do país), particularmente levando em conta a diferença de línguas, a falta de boas comunicações entre os dois países, e a premente necessidade de obreiros para o seu próprio território. Começaram em 1899, tanto aqui como nos Estados Unidos, consultas e visitas fraternais, visando preparar bases para a transferência, a qual se fez definitiva em fins de 1899, sendo o fato anunciado com grande prazer à Conferência Anual Brasileira em 1900. A Igreja do Norte generosamente cedeu à Metodista do Sul, todas as suas propriedades com seu mobiliário: capelas, residências pastorais e escolas. Aqui entra o nome de mais um valioso missionário pioneiro, o Rev. J. W. Wolling, que viajou ao Sul para exercer o cargo de procurador de nossa Igreja. Entra também a história da viagem que o Rev. Tucker fez em 1900, como
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    representante da IgrejaMetodista do Sul, à Conferência Anual da região platina. Embarcou todo contente, no dia 2 de fevereiro, para saudar a conferência em Buenos Aires. Mas em pleno mar, declarou-se a bordo, um caso de febre amarela - e o vapor com todos seus passageiros, foi posto de quarentena. Quando, afinal, o Rev. Tucker conseguiu desembarcar, já terminara a Conferência! Todavia, o gesto valeu e foi aceito em vez do fait accompli! Dez anos mais tarde, foi decidido nos Estados Unidos pela Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal do Sul, que autorizava a Conferência Brasileira a incluir em seu trabalho toda a República Brasileira ao norte do Estado do Paraná; e que declarava “ser território da Conferência Sul Brasileira, os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná" (Kennedy, pág. 222). E no mesmo ano, em 26 de agosto de 1910, a Missão Sul Brasileira foi "elevada à categoria de Conferência Anual, sendo presidida a formalidade pelo Bispo Walter R. Lambuth" (Jaime, pág. 67). A transferência deu aos obreiros da Igreja do Norte a livre escolha de onde desejavam trabalhar no futuro. Carlos Lazzare resolveu regressar ao seu próprio torrão natal; o casal Price - bendita escolha para o Brasil - optou pela nossa pátria. Entrou assim em 1910, a Igreja Metodista do Rio Grande do Sul, na segunda etapa do seu trabalho pelo Mestre.
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    CAPÍTULO 16 PROGRESSO METODISTANOS PAMPAS Tornou-se em transfiguração espiritual esse ato de transferência; a obra no Estado de ano a ano crescia, desenvolvendo-se em todos os aspectos. Primeiro de tudo e acima de tudo, a pregação e a evangelização. Em Santa Maria, Cachoeira, Uruguaiana, Santa Cruz, Cruz Alta, Passo Fundo, Rio Pardo - por todos os lados se abriam pontos de pregação e se construíam templos. Concomitantemente abriam-se instituições educacionais, pois nunca o metodismo deixa reinar a ignorância e o analfabetismo entre os seus adeptos. Vieram depois as instituições sociais visando o bem dos desamparados e desprivilegiados. Claro que houve recuos, malogros, desapontamentos - mas sempre o progresso. NO CAMPO EDUCACIONAL Colégio Americano de Porto Alegre Apesar da morte de Carmen Chacon, a sua vida e obra se perpetuaram, começando com a pequena Escola Mista Evangélica, por ela dirigida sob a liderança do Dr. Correa e as congêneres abertas por ele. Durante a gestão de Dona Raquel.Foladori que veio substituí-Ia, foi mudado seu nome para Colégio Americano. Quando ela se casou e retirou-se foi longa a relação de reitoras. A benquista Mary Sue Brown, que planejou e construiu os seus moderníssimos edifícios, e a presente (final da década de 60!) reitora Mary Helen Clark, que tem dado ao Colégio uma posição invejável na comunidade e no Estado. Colégio União Hoje Instituto União de Uruguaiana, fundado pelo Rev. John W. Price quando era pastor em Uruguaiana, é estabelecimento de grande influência na fronteira gaúcha.
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    De suas portas,influenciados pelos seus diretores e professores dedicados, têm saído alguns dos nossos mais eminentes ministro metodistas. O Bispo César Dacorso, Derly Chaves, Sady Machado da Silva e leigos eminentes como Ruy Ramos, deputado federal. Instituto Ginasial de Passo Fundo Foi esse fundado em 1919 pelo Rev. J. W. Daniel, suas aulas então funcionavam num humilde "chalét" junto à igreja. Foi devido à influência do Rev. Daniel que se despertou o interesse de Miss Mary Deckerd, da Universidade de Texas. A tal ponto entusiasmou ela os estudantes metodistas daquela Universidade estadual que contribuíram com a dádiva generosa para edificações do seu edifício principal: o "Texas". A esse Instituto, cujo nome foi mudado para Educacional de Passo Fundo, foram também intimamente ligados os nomes dos Revs. Daniel Betts e Prof. William R. Schisler, que o tornaram em estabelecimento de maior; projeção naquela zona do Estado, e exerceram uma enorme influência moral na cidade. Ali, sob a influência do Rev. Betts, o moço Barbieri foi convertido de incrédulo em cristão e candidato ao ministério. Instituto Porto Alegre Antigamente o "Porto Alegre College", foi a realização do sonho do Bispo John M. Moore, que tanto fez pelo Brasil. Seu primeiro reitor, foi o Rev. John R. Saunders, que teve como sua mão direita na administração, e depois sucessor, o educador leigo, J. Earl Moreland. Começando em salas alugadas no centro da cidade, ocupa agora um vasto terreno num morro, com muitos edifícios modernos. No seminário anexo ao IPA, o Rev. Terrell, primeiro reitor, tinha como um dos seus alunos a Sante Uberto Barbieri, hoje (final da década de 60!) Bispo da Região Platina. Colégio Centenário Foi fundado em Santa Maria, no coração do Estado gaúcho, em 1922, e assim designado em homenagem ao centenário da independência brasileira e o 150 o aniversário do metodismo norte-americano, que contribuiu para o seu estabelecimento. A fundadora foi Miss Eunice Andrew - a experimentada e distinta missionária que já dirigira o Americano - auxiliada pela mais jovem missionária, Louise Best. Quando Miss Andrew se aposentou, foi sucedida por Miss Best, que deu ao Colégio mais de vinte anos de consagração e eficiência em sua administração. Ao aposentar-se, foi ela alvo de grandes homenagens prestadas pelo público e pelas autoridades civis e militares de Santa Maria,
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    recebendo inclusive a"Chave da Cidade" de Santa Maria. Instituições sociais Existem nessa região diversas instituições sociais de grande alcance. Entre essas, destaca-se o Lar Metodista para Crianças. Lar Metodista para Crianças Adotado como projeto das Sociedades de Senhoras da Segunda Região, tornou-se o LAR em "menina dos seus olhos". Foi em Congresso reunido em 1925, sob a presidência de D. Ottília Chaves, que as Sociedades o aceitaram como alvo de trabalho. O Lar, propriamente dito, foi fruto do labor duro e sacrificial do Rev. Adolfo Ungaretti e sua senhora, D. Luíza, ambos "jóias" preciosas na coroa do metodismo gaúcho. Em anos posteriores, destacou-se pela sua dedicação a esse trabalho, a missionária de saudosa memória, Joy Betts, filha do casal Betts, casal este que se deu integralmente ao trabalho do Senhor no Brasil, em cuja obra se integraram três filhos: João Nelson Betts, Joy e Anita, casada com o missionário, Rev. Marion Way. Joy, que deixou prematuramente o seu lar terrestre, deve ser incluída na lista daqueles de quem perguntamos a Deus: "Mas por quê, Senhor, por quê?" Lar Ottilia Chaves - Lar das Meninas Casa da Criança Também inspirado por D. Ottília Chaves, quando era presidente da Sociedade de Senhoras da Igreja Central, estabelecido para o abrigo da velhice, na cidade de Porto Alegre. Existem também em Porto Alegre, o Lar das Meninas, que ampara pequenas desprotegidas (cerca de trinta), e a grandiosa CASA DA CRIANÇA e AMBULATÓRIO, com clínicas médica e dentária, para construção do qual a Igreja recebeu extraordinária ajuda do LIONS CLUBE de Porto Alegre. Centro de Assistência Vila Noal em Santa Maria Presentemente dirigido pela diaconisa Maria Onofre Gonçalves Dias, tem transformado os destinos da chamada "Vila da Lata" daquela cidade, educando, curando,
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    orientando. "CLUBES DO LAR"é como se chama em Uruguaiana o trabalho social dirigido pela missionária Bethany Routh. Instituto Rural Metodista Funcionando em Alegrete, difere da maneira tradicional de ajudar crianças necessitadas. O vasto terreno com seus nove edifícios foi doação do saudoso casal Ruy Ramos; esse Instituto mantém cursos primários e de carpintaria, estofaria, tipografia, corte costura e arte culinária. Essas indústrias não só ensinam as crianças, mas mantêm a instituição. O seu alvo é "tornar o menor abandonado um elemento de valor à sociedade, um vaso de bênçãos nas mãos de Deus", diz o Sr. Antônio Salomão, diretor em 1967. Contribuição valiosa à agricultura do Rio Grande do Sul Iria muito longe esse pequeno livro se contássemos tudo que se passou no metodismo gaúcho. Todavia, do meu velho baú desejo tirar uma história a mais que deve ser lembrada nos seus anais - e essa é sobre a ORIGEM DA NOGUEIRA PECÃ NO ESTADO - ainda mais que não é conhecida ou divulgada pelo público. O Rev. Saunders foi um dos mais humildes e serviçais missionários que os EUA mandou ao Brasil. Saudoso das nozes pecãs de que tanto gostava, lembrou-se de trazer alguns pés desta árvore ao Rio Grande do Sul. Estando nos EUA creio que na primeira parte da década dos trinta, trouxe consigo uns seis ou mais pés que comprou por sua conta duma Escola Agrícola nos Estados Unidos. Chegando em Porto Alegre, dirigiuse ao seu amigo, Frank M. Long, da Associação Cristã de Moços. "Desejo dar-lhe dois pés para plantar no terreno da A.C.M.; vou dar uns ao Porto Alegre College (hoje IPA), e gostaria de doar os outros a algum estabelecimento onde pudessem ser cuidados e espalhados pelo Estado". - "Devem ser doados à Escola de Agricultura!", disse o Sr. Long. - "Então tu os levas para mim, pois decerto conheces alguém lá". Sucedeu assim que Frank Long, Secretário Geral da A.C.M., levou os pés de nogueira à Escola Agrícola. Decerto alguém lá que o conhecia bem tomou nota de quem os trouxe - mas não de quem os dera. Seja como for, nada mais soubemos das árvores
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    até que em1966 saiu no Suplemento Agrícola do "CORREIO DO POVO" de Porto Alegre, o retrato de uns galhos carregados de nozes pecãs, e abaixo da fotografia a declaração "que essa "fonte de riqueza" fora trazida ao Estado pelo Sr. Frank M. Long". Conhecendo os fatos, relatei ao jornal a verdade, pedindo que dessem crédito ao Rev. JOHN R. SAUNDERS, mas se o fizeram não sei. Todavia, pessoa amiga, sabendo do meu interesse no assunto, enviou-me um recorte do CORREIO DO POVO, que diz, entre outras coisas: "Esta maravilhosa planta muito bem poderia ser denominada 'Árvore da Riqueza'. Em Passo Fundo, muitos são os que estão plantando a nogueira pecã, em pequena e larga escala. Recentemente, foram despachadas para Caxias do Sul, 3 mil mudas, onde experiências anteriores provaram o desenvolvimento rápido dessas árvores. “Além da abundância de frutos, procurados e aceitos em qualquer mercado, teremos também uma grande reserva de madeira de lei. Felizmente, as elites de Passo Fundo estão grandemente interessadas no cultivo dessa planta, e o Banco do Brasil está procedendo a estudos para o seu financiamento. Não há motivos para aventuras em outras terras quando temos aqui mesmo uma verdadeira mina de ouro, ao alcance da mão". (Por Eugênio Flôr Zibetti - Passo Fundo, Correio do Povo, 29-4-1966) Pena que o saudoso Rev. Saunders não pudesse conhecer o alcance de todas as riquezas materiais além de espirituais que trouxe ao solo brasileiro! É justo que venham todos a reconhecê-lo como o seu benfeitor! Mais uma doação fizeram ele e a sua digna esposa, Dona Sara, ao espírito de fraternidade continental, pois seu filho Dr. John Vandyke Saunders, é uma das mais competentes autoridades sobre a América do Sul nos Estados Unidos. Catedrático em Universidades norte-americanas sobre a América Latina, e procurado pelos governos de vários países para estudar problemas e ajudar a solucioná-los. Ainda mais preciosos têm sido os dons de outros missionários, seus próprios filhos, ao trabalho de evangelização; destacando-se entre esses, os da segunda geração das famílias: Betts (três), Smith (três, sendo um Bispo da VI Região); Buyers (um), Schisler (dois), Long (um) e Bowden (2), Kennedy (2), Clay (1).
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    CAPÍTULO 17 O METODISMONO NORDESTE E NORTE Talvez surpreenda até os metodistas mais antigos no Brasil, que dia houve em que tínhamos uma missão trabalhando ativamente na região amazônica, em Pernambuco, e na Bahia. Como foi? Por que não continuou até hoje? Ou melhor, por que estamos tendo que reencetar esse trabalho em nossos dias? A resposta vai longe, e começa com a vida e a obra do Bispo William Taylor. Mas quem foi William Taylor? William Taylor nasceu na primeira parte do século 19, numa região montanhosa e atrasada do Estado de Virgínia, nos Estados Unidos. O seu pai, fazendeiro e curtidor de peles, era presbiteriano, mas converteu-se ao metodismo numa série de reuniões de avivamento. Entusiasmado, tornou-se pregador local. Com tal origem, não é de admirar que William tenha se tornado, como ele mesmo diz, "um filho dos cultos de avivamento e um adolescente penitente que podia dizer o dia e a hora exata em que se converteu: às dez horas do dia 21 de agosto de 1841!” A sua conversão não foi coisa impulsiva e temporária. Foi permanente, um rendimento total ao Senhor, tornando-se ele o exemplo duma vida que, sem oportunidades materiais, ou preparo formal para o ministério, levou-o a tornar-se em destacado servo do Senhor, o maior Bispo missionário da nossa Igreja. O seu zelo consumidor levou-o, por viagens dificílimas, a todos os continentes do mundo: África, Ásia, América do Sul, Austrália. Deixemos que ele mesmo conte como se sentiu chamado pelo Senhor para cumprir tarefas que pareciam impossíveis. Quando ainda era um jovem "exortador", um dia chegou-lhe o superintendente distrital: "Irmão Taylor", disse-lhe, "quero nomeá-lo ajudante do pastor Rev. Francis Harding". "Fiquei estupefato!" - disse William Taylor, "Eu? Eu? Mas não sei nem pregar direito?!" O velho presbítero sacudiu a cabeça. "É DEUS quem chama, filho, não eu. Você
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    sabe pregar aPalavra. Deus lhe abençoará na tarefa". Depois de uma longa pausa, atreveu-se a perguntar: "Mas que livros levarei comigo para me ajudar a pregar?" O presbítero sorriu, "Filho, você precisa de dois livros tão somente: a Bíblia e o Hinário Metodista". *** Assim começou Taylor a pregar; e o seu zelo, entusiasmo, e sinceridade levaram muitos a Cristo. Quando chegou o dia de pedir admissão à Conferência Anual, o seu presbítero presidente levantou-se e disse: "Esse jovem ministro é um a quem o sol nunca encontrará na cama". Nisso, levantou-se Bispo Soule, também um dos grandes da época e foi uma profecia certa: "Notem bem, irmãos, o que digo: ouvireis novamente falar desse jovem pregador". Taylor começa a carreira missionária Foi por um acaso que Taylor se deu à obra missionária, pois não cogitaria de trabalhar no estrangeiro. Era pastor ajudante numa igreja em Baltimore, e andava um dia ligeiramente pelas ruas, rumo a uma reunião de pregadores. Ouviu chamar o seu nome, virou-se e foi até um homem que lhe acenava. Chegando a uma livraria, foi levado ao escritório onde viu sentado o Bispo Beverley Waugh - e já o destino de Taylor estava para mudar! - "Sente-se, irmão." - Convidou o Bispo. O jovem Taylor começou a cismar. O que teria feito para que Bispo Waugh chamasse desse modo especial?! Mas o Bispo estava a sorrir. - "Irmão Taylor, acabo de receber uma notícia muito importante e alegre: a nossa Igreja vai enviar dois missionários à Califórnia." Houve uma pequena pausa em que o Taylor começava a pensar, "Mas o que tenho eu com isso?" Nisso, o Bispo estendeu-lhe a mão: "Filho e Irmão, quero que tu sejas um dos dois!"
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    Outra vez, Taylor,atônito, não sabia o que dizer. - "Eu-eu? Para a Califórnia, tão longe, e sem bons meios de condução? Ademais, Senhor Bispo, estou casado agora, tenho um filhinho e outro para chegar". O Bispo hesitou, continuou explicando o que seria sua missão. Taylor, julgando a nomeação como o chamado de Deus, aceitou-a como soldado cristão que era. Dentro de poucos meses, estava de viagem num vapor que descia a costa do Atlântico do Sul, e passava pelo estreito de Magalhães - a mesma rota empreendida pelos cinqüenta missionários que pararam no Rio de Janeiro indo ao Estado de Oregon, quando visitaram o Rev. Spaulding em 1839. O que teriam sido os pensamentos, dúvidas ou receios de Taylor e sua jovem esposa? Foi só ao terminarem 145 dias de uma viagem que parecia sem fim, que chegaram a São Francisco na Califórnia. Ó sublime coragem cristã! Quem de nós hoje, sob muito melhores condições, teria a mesma coragem, a mesma consagração em levar a Palavra de Deus aos que não a podiam ouvir? Viagens pelo mundo Não foi fácil a sua tarefa entre as multidões poliglotas que se reuniam em São Francisco para ali fazer os últimos preparativos antes de prosseguirem ao Alaska em busca de ouro. Mas Taylor não perdia nenhuma oportunidade de pregar: nas ruas, nas salas e nos bares onde todos se congregavam. Dirigia os seus apelos e convites a espanhóis, franceses, italianos, havaianos... Durante sete anos, Taylor trabalhou na Califórnia, nunca recebendo salário da Igreja, mas ganhando a vida como podia, geralmente pelo magistério, tornando-se isto em princípio para os que aceitaram subordinar-se à sua orientação missionária. Os anos a seguir foram consumidos em viagens de avivamento missionário na Inglaterra, na Austrália (onde não só os pródigos, os perdidos e os pobres das favelas o escutavam, mas os profissionais e cidadãos acatados da comunidade), na África do Sul,
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    levando a mensagemdo Evangelho aos ingleses e bôeres, aos Zulus e Kaffirs, sempre com a mesma mensagem, independente de estação, raça, ou categoria social. E ouviamno com prazer, muitos se arrependendo. Importantíssima, também foi a sua obra na Índia. Lá se convenceu ainda mais de que era prático o missionário trabalhar pelo seu sustento em vez de receber salário da igreja mãe. Todavia, no final de sua vida, viu esse sistema malograr - não se provando permanente ou eficiente em nenhum lugar, inclusive no Brasil. Mas o que da América do Sul - e do Brasil? Regressando aos Estados Unidos depois de duas longas viagens pelos continentes do mundo, Taylor ouviu a voz macedônica da América do Sul que fora abafada antes pelo clamor dos outros continentes. Chamou por voluntários - "homens bem fortes", disse, que ali fossem pregar, baseando as suas vidas sobre a regra do sustento próprio. Aqui se entrosa a história do Bispo Taylor - da Igreja Metodista (do norte) com a nossa Igreja Metodista do Sul. Aqui entra mais uma corrente na vida do metodismo brasileiro - um pequeno tributário que, infelizmente, não chegou a desenvolver-se como ele sonhava. Justus H. Nelson Eis o nome de um dos "homens bem fortes" que respondeu ao chamado do Bispo Taylor. Nelson nasceu em 1851, no nordeste dos Estados Unidos, sendo, portanto, filho da Igreja Metodista do Norte. Formou-se em 1879, na Faculdade de Teologia da conceituada Universidade de Boston, e foi admitido no ano seguinte à Conferência de New England. Ouviu os apelos feitos pelo Bispo Taylor, e ofereceu-se como voluntário; mas como não pôde arranjar passagem por algum tempo, fez durante um ano, um curso de medicina na mesma Universidade. Afinal, conseguiu vir ao Brasil, desembarcando em 19 de junho de 1880 em Belém. Veio acompanhado pela esposa e pelo Bispo Taylor; mas o Bispo ficou somente o tempo necessário para ajudá-lo a fundar uma escola, depois do qual regressou à Pátria (EUA), à procura de obreiros. Conseguiu dois recrutas, sendo um o próprio irmão de Justus Nelson. Mas em pouco, foram ambos as vítimas da febre amarela e depois, um
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    incêndio arrasou oedifício escolar. Nelson viu-se forçado a fechar a escola, mas não se desanimou. Ficou em Belém sustentando-se com o ensino de inglês, francês, alemão, e até português (tão grande era a falta de professores naqueles dias). E ainda adicionou um curso de enfermagem calcado no seu conhecimento da medicina, que foi de enorme proveito nessa região tão esquecida pelas autoridades médicas. Em 1° de julho de 1883, organizou a PRIMEIRA IGREJA METODISTA DE BELÉM. Fundou também um jornal evangélico, "O APOLOGISTA CRISTÃO", do qual foi redator e escritor. Nele publicava artigos seus e traduções dos sermões de Wesley. Homem de coragem, convicção e determinação, Nelson não hesitava em reprovar francamente os erros e as superstições da igreja reinante, o que naturalmente resultou em grande perseguição e hostilidade. Em dezembro de 1892, escreveu no “O Apologista" um artigo no qual se referiu à "idolatria prevalecente no Brasil", de que resultou ficar encarcerado durante "quatro meses, dois dias, e doze horas" (Relatório da Junta de Missões, E.V.A., 1893, pág. 252). Sobre as perseguições sofridas, Nelson escreveu com bom humor. A história dum desses incidentes, ele relatou ao Expositor Cristão, com alguns detalhes humorísticos. Passeava pela rua certo dia, quando por ali passou uma procissão. Nelson não tirou o chapéu quando passou a imagem, e um policial se aproximou dele, dizendo com certa cortesia: "Recomendo ao senhor que tire o chapéu". Nelson lhe encarou, também com cortesia: "Muito obrigado, mas tenho uma tosse muito forte e sou quase careca! Podia fazer-me mal": O policial encolheu os ombros e seguiu caminho. Noutra ocasião que ele também descreveu para o Expositor Cristão, relando um incidente semelhante a esse e ao que se deu em Taubaté com o Rev. Bruce em 1891. Nelson, por ocasião de uma romaria, o "Círio de N. S. do Nazaré", aproveitou a ocasião para distribuir uns 1.500 folhetos com os Dez Mandamentos da Bíblia conforme texto aprovado pelo arcebispo da Bahia. O povo de tão bom grado os recebeu que não houve bastante para todos os que pediam. Mas o cura da Sé em Belém emitiu seu parecer
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    publicando no DIARIODO GRAN PARA, entre outras coisas: "A polícia deve ter de olho o reverendo da Rua Santo Antônio, que andou espalhando pasquinadas em detrimento da moralidade pública. Se o deixarem impune, mais dia menos dia, ele será capaz de provocar a população com a imundície dos seus partos laboriosos". Era o sonho de Nelson permanecer no Brasil cinqüenta anos, sempre em Belém, Manaus e a zona amazônica, que considerava um vasto e necessitado campo para o Evangelho. Mas em 1896, devido à grande depressão econômica nos Estados Unidos, foi obrigado a voltar à Pátria. Ali faleceu por volta de 1937. Tragicamente, não houve quem ficasse, ou viesse para continuar a sua obra; como as ovelhas abandonadas, sem pastor, da Missão Spaulding, a igreja metodista não se radicou naquela zona do nosso país. Contudo, o nosso metodismo brasileiro deve ao Rev. Nelson uma dívida de gratidão pelos preciosos hinos que nos legou, alguns dos quais pela sua nota nostálgica, refletem decerto, os seus sentimentos de solidão, e a imensa saudade da sua terra pátria. Entre esses hinos, constam "Da linda pátria estou bem longe, cansado estou... " Também deixou-nos: "Que segurança, Jesus é meu!" Jubiloso: "Saudai ao nome de Jesus, arcanjos, vos prostrai" Confiante: “Mas eu sei em quem tenho crido, e estou certo que é poderoso". Quem sabe se algum desses hinos não cantou durante os seus meses de encarceramento - ou se não os compôs atrás das paredes que o cerceavam? George B. N ind George B. Nind foi outro missionário que o Bispo Taylor recrutou para o Brasil, esse porém, para o Nordeste-Recife. Nasceu em novembro de 1860, no Estado de Missouri, e era membro da Igreja Metodista do Norte. Seus pais, crentes devotos, enviaram-no para Northwestem, uma famosa universidade metodista no Estado de Illinois, onde ele se formou. Respondendo ao apelo do Bispo Taylor, chegou a Recife em 1880, com uns
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    companheiros, também missionários,cujos nomes não pudemos averiguar. O Bispo os descreveu como "uma companhia de homens espiritualmente fortes para tal obra". Todavia, as informações que temos sobre aquela missão são poucas e confusas; e o que sabemos é que dentro em breve, todos, menos George Nind, haviam voltado para sua pátria (EUA), devido principalmente às dificuldades de se sustentarem e ao mesmo tempo, cumprirem sua missão evangelística. Comentando sobre esse aspecto da obra do zeloso Bispo Taylor, escreveram dois historiadores metodistas: "Heroísmo e sacrifícios pessoais implementaram esses trabalhos. MAS A NECESSIDADE DE SUSTENTO PRÓPRIO PARA SI E SUAS FAMÍLIAS, FORAM OBSTÁCULOS AO TRABALHO EVANGELÍSTICO, TANTO QUE EM 1903 O PRINCÍPIO DE SUSTENTO PRÓPRIO FOI ABANDONADO" (Story Of Methodism, Luccock & Hutchinson, pág. 429). Nind, que era leigo, conseguiu sustento próprio ensinando música e inglês, e felizmente não foi vítima das febres malignas. Fazia cultos em sua casa; às vezes pregava na rua; e chegou mesmo a organizar uma congregação. Constantemente reiterava o seu apelo que um ministro ordenado fosse enviado a Recife; mas com o passar do tempo, o Bispo Taylor se aposentou e o seu sucessor, Bispo Vincent, negoulhe auxílio, declarando que "eram tão necessários pregadores nos Estados Unidos como no Brasil". Nind esteve em Recife doze anos ao todo, até setembro de 1892, quando a saúde abalada de sua senhora obrigou-os a regressar aos Estados Unidos. Nunca mais voltou ao Brasil que amava, mas dedicou o resto da vida calcado na experiência aqui adquirida trabalhando entre portugueses na América do Norte, e ensinando a língua portuguesa. Foi também à Ilha da Madeira, onde compilou um pequeno hinário no qual constavam alguns hinos da sua pena e outros da pena do Rev. Nelson, que em certa ocasião o substituíra no Belém, quando o Rev. Nelson esteve em gozo de férias. Faleceu em 1932 nos Estados Unidos. Entre os seus hinos que ainda hoje cantamos com gosto, estão:
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    "A semana jápassou, o Senhor guiou-nos bem" e "Que segurança tenho em Jesus!" *** Nenhum desses esforços deixou um trabalho metodista permanente naquelas regiões do Brasil. Todavia, a maioria dos metodistas, apesar de abandonados pela sua Igreja Mãe, continuaram fiéis ao Senhor, tornando-se membros de outras denominações que ali chegaram. Creio, contudo, que devemos contar entre os nossos pioneiros, esses que tanto labutaram, alguns dando a vida (como os companheiros de Nelson) e outros dando tudo que tinham para estabelecer o reino de Deus naquela região brasileira - qual a viúva de quem Jesus falou: "ela fez o que pode".
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    CAPÍTULO 18 UMA SÓIGREJA A PERSEVERAR "E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações." (Atos 2:42) Com a unificação da obra metodista do centro e do sul do Brasil, a igreja sentiu novo impulso em sua expansão. Novos pontos de pregação se abriram; novas instituições educacionais se fundaram; novos centros e meios de ação social se estabeleceram não só no nível local (como ambulatórios anexos à Igreja), como também no Regional (como o Instituto Ana Gonzaga, em Inhoaíba, perto do Rio). Passo a passo, ano a ano, a Igreja crescia da infância à adolescência e da adolescência alcançava a maturidade. Mas o crescimento trazia novos problemas que requeriam soluções muitas vezes urgentes. Uma década somente após a organização da Conferência Anual Brasileira (1896), o Rev. Kennedy escrevia em carta à sua irmã: "O principal problema a nos absorver a atenção é antes o de criarmos uma Igreja que se sustente a si mesma, propague-se a si mesma e governe-se a si mesma". SUSTENTO PRÓPRIO - Já em 1885, "agitou-se muito a questão de sustento próprio" - começando com a congregação americana e inglesa que se reunia na igreja do Catete. Pediu ela à Junta de Missões nos Estados Unidos que lhes enviasse um pastor "solteiro, porque ainda não podiam sustentar um casal". Em 1907, na Conferência Anual, verificou-se que "a obra do Senhor frutificava em toda a linha e o progresso era acentuado na vitalidade das igrejas, já pelo incremento de novas conversões, já pela sistematização do sustento próprio" (Kennedy, pág. 130). A
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    adolescente igreja comodepois escrevia o Rev. José d'Azevedo Guerra, um dos grandes "batalhadores da velha guarda metodista", sentia ser coisa desairosa continuar recebendo auxílio financeiro dos Estados Unidos para os seus ministros. Mas não era fácil fazer compreender a muitos dos membros que haviam saído das igrejas católicas, o valor e o dever de contribuir generosamente" (Kennedy, pág. 400). Em setembro de 1919, a Conferência Anual Brasileira, reunida em Petrópolis aprovou com demonstrações de alegria, a proposta que "no prazo de cinco anos, a Igreja, dentro dos limites dessa Conferência, dispensasse todo o auxílio financeiro da Igreja Mãe, devendo este mesmo ser aplicado para a manutenção de novos campos de trabalho no país". Finalmente, em 1924, expondo um plano prático para sustento próprio; foi resolvido que, para alcançar o objetivo, a Igreja Mãe suprimiria cada ano a décima parte do auxílio recebido, aplicando-o em abrir obra em "campos ainda não explorados evangelicamente". Havia também o problema chegado a congregações servidas por missionários e que, portanto, não eram obrigadas a contribuir para o sustento do pastor, e as congregações servidas por pregadores brasileiros que eram. Em 1913, quando o Rev. Kennedy era pastor da Igreja Central de São Paulo, apresentou um plano para ajudar na solução do problema. O plano foi pedir à congregação que estipulasse uma certa quantia para sustento pastoral, quantia essa que seria encaminhado para o sustento pastoral de outro pastor no distrito. Foi recompensada a sua idéia. Escreveu Kennedy: "A Junta de Ecônomos da Igreja Central em sessão extraordinária, definitivamente estipulou 250$000 mensais para o meu sustento a começar no dia 1º de agosto. Eu recebo deles a quantia designada e a entrego ao presbítero presidente, Rev. Jorge Becker, para o sustento pastoral no distrito". Esse plano, porém, foi somente de êxito local; não se tornou prático por várias razões. Mas teve alguma repercussão e produziu a criação de várias outras igrejas. Afinal, anos mais tarde, a Conferência Geral fixou uma tabela de subsídios
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    para ministros eaposentados que resultou num assumir de maior responsabilidade por parte das congregações, do sustento adequado de seus pastores. Propagação Um dos métodos mais bíblicos e de maior êxito na evangelização do mundo tem sido o testemunho pessoal do leigo, pela palavra e por ceder alegremente uma sala da sua residência para uma escola dominical e cultos. Quantas das nossas igrejas - qual a de Corinto, pelo testemunho de Áquila e Priscila - não têm tido o seu berço nos lares de crentes rendidos ao Senhor! Muitos exemplos poderia citar, mas não há espaço nesse volume. Todavia um, não podemos olvidar - foi o testemunho do crente fervoroso como José Benedito Nunes. José Benedito Nunes Já fora proposto pelo veterano missionário, Rev. J. W. Wolling, que o Oeste do Estado de São Paulo fosse oficialmente ocupado pela nossa Igreja, pois desde julho de 1895 se iniciava a obra em Ribeirão Preto, com Manoel de Camargo, seu primeiro pastor. E agora, nas palavras do Rev. Kennedy: "Neste meio-tempo, um dentista ambulante em Santo Amaro, que se convertera sob os ministros J. L. Kennedy e Bernardo de Miranda - a saber, José Benedito Nunes, estava exercendo a sua profissão em Serra Azul. Tanto esse irmão como a sua dedicada esposa, Dona Adelina, foram tão dedicados que conseguiram a conversão de numerosas pessoas, algumas das quais seguiam até São Paulo para ali fazerem a sua pública profissão de fé. Em 4 de julho de 1894 foi organizada a igreja de Serra Azul com 23 membros. Nesse mesmo dia, foram arroladas mais 18 pessoas que já tinham sido recebidas e entre os seus nomes estavam os de José Benedito Nunes e sua esposa, D. Adelina". Testemunhando a obra evangelizadora do Sr. Benedito, escreveu o pastor da novel congregação: "A igreja, por seus representantes autorizados, apenas teve que organizar oficialmente o grande número de pessoas que a palavra suave e convincente do Sr. Nunes conseguira arrebanhar para Jesus Cristo". Oxalá tivessem os milhares de Beneditos Nunes!
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    CAPÍTULO 19 GOVÊRNO PRÓPRIO Haviaoutro grande problema para a igreja. Conforme a disciplina metodista, era mister haver um Bispo ordenado para administrar o trabalho de todas as Conferências, presidir às suas sessões e ordenar pela imposição das mãos, os jovens que se davam ao ministério. Como não tínhamos ainda pessoas experimentadas ou qualificadas, era necessário que cada ano viesse um bispo dos Estados Unidos para cumprir esses afazeres. A viagem era muito comprida - só de vapor levava uns 36 ou mais dias para cada viagem de ida e volta; as despesas eram grandes para tão curta estadia, e acima de tudo, estava a enorme dificuldade de um indivíduo estrangeiro entender bem os problemas, devido à falta de conhecimento da língua, da cultura, e das idéias e atitudes de um outro povo. E como, para ser eleito bispo, era preciso ter certa idade, ainda mais difícil era o problema de acomodação e costumes de outras terras. Ao passo que os ministros nacionais cresciam em número, em responsabilidade e sabedoria, muito mais premente tornou-se a questão do metodismo no Brasil ter um bispo permanente que aqui ficasse, isto é, residisse ou então um bispo BRASILEIRO. Às vezes, também, os bispos não podiam estar presentes por causa de doença, idade avançada, ou circunstâncias totalmente estranhas à Igreja. Por exemplo, durante a primeira guerra mundial, devido ao afundamento de navios por submarinos alemães, a viagem por mar era arriscada demais. Como naqueles dias, não havia transporte por avião, nosso metodismo ficava sem o seu bispo dirigente. Isso se deu em julho de 1917, quando o Bispo Mouzon não pôde assistir ao Concílio. Pela primeira vez foi eleito um ministro brasileiro para presidir às sessões conferenciais no Catete. Provou-se hábil nesse cargo, o Rev. João Evangelista Tavares, pastor e evangelista, nome destacado nos anais do metodismo pioneiro.
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    Nessa Conferência, foidirigido um pedido às autoridades competentes nos Estados Unidos para que os bispos encarregados da obra no Brasil passassem ao menos seis meses entre "nós, para melhor conhecerem os problemas e as condições no campo. Feliz resposta veio em 1918, quando chegou o Bispo John M. Moore, que "expôs seus planos, fazendo sentir que ficaria no Brasil seis meses no ano". Provou-se ele um dos mais competentes, simpáticos e grandes amigos do nosso metodismo brasileiro, conseguindo generosas contribuições para o trabalho. Por exemplo, a compra e construção do "Porto Alegre College", hoje Instituto Porto Alegre. Por vários motivos, porém, o bispo Moore não pôde vir ao Brasil mais do que três anos consecutivos. Sucederam-lhe outros bispos, alguns menos cativantes e compreensíveis, com menos tempo para a obra. Entrementes, o ministério brasileiro desenvolvia-se em preparo, tino administrativo, compreensão e visão. Sentia-se preparado para tomar conta do trabalho. Chegou, finalmente, o dia em que se cumpriram os sonhos da Igreja: governo próprio. Chegou o "DIA DA AUTONOMIA", o glorioso 2 de setembro de 1930, em que a Igreja-Mãe reconhecendo a maturidade da Igreja-filha, concedeu-lhe o direito e a honra de governar-se a si própria. O direito de proclamar-se Igreja BRASILEIRA, não mais perpetuando com o uso do termo "do SUL"; a lembrança da trágica cisão que se dera nos Estados Unidos. Surgiu assim uma igreja digna agora de traçar a sua origem, de chamarse herdeira do Metodismo aqui trazido em 1835 pelo Rev. Fountain E. Pitts, quase cem anos atrás! A despeito de alguns erros e falhas, como seria naturalmente lógico, cremos e sabemos que essa decisão foi guiada pelo Espírito Santo. Deus permita que assim se continue a trabalhar e servir ao Brasil! César Dacorso Filho Tinha a Igreja agora o direito de eleger o seu primeiro Bispo. Quem seria?. Num nobre gesto de homenagem aos pioneiros missionários americanos, que haviam trazido o Evangelho ao Brasil, a Conferência Geral em 1930, elegeu para ser seu
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    Bispo o amadoveterano, Rev. John W. Tarboux, que sete anos atrás, se aposentara na sua terra (EUA). Comovido, o Bispo obedeceu o chamado, assim como obedecera quando jovem ao primeiro. Veio ao Brasil e aqui assumiu o posto. Não pôde trabalhar muitos anos, pois a idade e a enfermidade provaram ser obstáculos às atividades exigidas de um bispo. Veio então a Conferência Geral de 1934, e outra vez se perguntava: QUEM SERÁ DIGNO DE SER ELEITO NOSSO BISPO? Não precisou olhar longe. Ali, sentado entre os seus colegas de ministério, estava um pastor de 42 anos tão somente, tão humilde que nem sonhara em receber tal honra, tão despreocupado com a questão que nem trouxera um temo escuro no qual ser consagrado - e quando a hora de ser consagrado chegou, teve que tomar emprestado de alguém tal terno! César Dacorso Filho foi a escolha - O PRIMEIRO BISPO BRASILEIRO da Igreja Metodista do Brasil! O que ele foi e o que fez durante os anos para a nossa Igreja, não há nem espaço nem necessidade de relatar aqui. Já foi feito de modo brilhante no livro de Nelson Godoy Costa, "César Dacordo Filho, O Príncipe da Igreja Metodista". Pois príncipe foi, não nos moldes humanos, mas no molde oferecido por Jesus Cristo: um príncipe que procurava servir e não ser servido. Um verdadeiro pastor que procurava as ovelhas do rebanho, gastando-se física e espiritualmente na tarefa. Príncipe que cheio de compaixão pelas massas exploradas pela miséria e pela guerra, envolveu-se em movimentos pelos quais foi muitas vezes duramente criticado mas pelos quais seria hoje louvado. E tudo fazia sem alarde, sem cobiçar lisonjas, sem procurar os aplausos das multidões, crentes ou descrentes! Na sua fé e coragem, reside um dos exemplos mais nobres da Igreja no Brasil.
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    CAPÍTULO 20 A OBRANO AMAZONAS REVELAÇOES E PERGUNTAS Curioso é como daqui e dali, quase por acaso, aparecem pequenos mosaicos históricos que tinham desaparecido da tela original - pedacinhos que servem para completá-la. *** No "O Jornal Batista" de 10 de novembro de 1967 apareceu um artigo da professora Betty Antunes de Oliveira, que nos revela o primeiro impacto metodista no Amazonas - fatos ignorados ou aparentemente desconhecidos não só nos círculos metodistas históricos, mas no evangelismo nacional. Ao menos em nenhum outro livro temos encontrado qualquer referência ao que ela relata. Diz a autora, que em recente pesquisa que fez em Manaus visando colecionar documentos e dados históricos, descobriu o número 1, ano 1, datado de 21 de março de 1898 de um jornalzinho mensal, "A Paz", “órgão oficial da Missão Bethesda de Manaus". Tinha por redator o Rev. Marcus Ellswoth Carver, e por secretário o evangelista Juvêncio de Mello. No seu editorial declara "A Paz" que não vem lançar discórdias nos corações dos homens, porém tem por seu lema as sublimes palavras que Cristo disse aos seus discípulos: "A paz seja convosco". Menciona o redator, Dr. Carver, as muitas dificuldades que teve para vencer, mas que ajudado por Deus conseguiu montar uma pequena tipografia, e que "o fim do jornal será traçar alvos para a Missão e especialmente a propaganda das virtudes do Evangelho no vasto campo do Amazonas". Betty de Oliveira continua o artigo escrevendo: "Tudo faz crer ser ele o primeiro jornal que circulou na cidade de Manaus, pois que o "Jornal do Comércio, considerado o mais antigo do Amazonas, surgiu nos albores do presente século".
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    O leitor porcerto já está perguntando: “Quem era o Rev. Carver”? Que era a Missão Bethesda? Que tem esta Missão e o jornal "A Paz" com a história do nosso metodismo? Esclarecendo, a autora escreve: "Em meados de 1887 chegava a Belém o Rev. Marcus Ellsworth Carver, um missionário metodista, que viera dos Estados Unidos para trabalhar naquela cidade em companhia do Rev. Justus H. Nelson, pastor da Igreja Metodista ali. Em 10 de janeiro de 1888, porém, o Rev. Carver instalava em Manaus (para onde se transferira) um trabalho evangélico de caráter livre, a que deu o nome de Missão Bethesda. À primeira Escola Dominical compareceram apenas duas pessoas e ao culto da noite, doze. "O Dr. Carver tirava o seu sustento de aulas particulares de inglês, alemão, latim e grego e de ofertas que recebia de crentes e amigos, uma vez que não era sustentado por nenhuma missão". Não será ele um dos enviados do bispo William. Taylor que advogava o sustento próprio dos missionários? Pois o histórico metodista, sem dar os nomes, relata que depois do Rev. J. H. Nelson, o bispo enviara dois missionários àquela região. Desaparece “A Paz" e entra “O Monitor" Quando desapareceu "A Paz", por que motivo não consta deste relato, apareceu um outro jornalzinho, "O Monitor", chamado de órgão da Igreja Evangélica Amazonense", do qual era diretor o Rev. Juvêncio Paulo de Mello, e colaborador o Rev. Carver. No número 1, datado de 7 de setembro de 1922, e numerado ano XXII, aparece um artigo de fundo histórico com os seguintes dados comprovantes: "Em meados do ano de 1887 chegava à antiga província do Gran Pará o Rev. Marcus Ellsworth Carver, missionário metodista que vinha de sua terra natal trabalhar na cidade de Belém em companhia do Rev. Justus H. Nelson. Cinco meses após, já falava regularmente o português. Por motivo de força maior, o missionário Carver não pôde continuar em Belém. Escolheu então a província do Amazonas para nela instalar o trabalho evangélico, o que fez em 1888. A 10 de janeiro desse ano, instalava na Rua Henrique Antony um trabalho evangélico inicial, de caráter livre, ao qual deu o nome de Missão Bethesda. A sua constância e dedicação, e as dificuldades que vencia airosamente, em breve chamaramlhe a simpatia e o devotamento de uma multidão de crentes que ainda hoje o veneram com máxima admiração e respeito".
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    "Naquele local, poralgumas vezes, funcionou a referida Missão, sempre com progresso evidente até que o Dr. Carver adquiriu um terreno na rua Apurinam (hoje Leonardo Malcher) onde edificou uma casa apropriada para cultos, com uma dependência para sua moradia. Desde então passaram a ser feitos ali os trabalhos religiosos da Missão". "O seu grande zelo pelo Evangelho levou-o a estabelecer uma escola primária, na sede da igreja, para crianças pobres, sem encarar credos religiosos... Vários pontos de pregação em breve se espalharam pela cidade de Manaus, como pelo interior do Amazonas, sob a influência da novel Missão. O Rio Autaz, onde fez vários batizados entre os índios, e bem assim Itacoatiara, Parintins, Borba, no rio Madeira, e Barcellos no alto rio Negro, receberam por intermédio do missionário Carver as primeiras sementes do Evangelho". Perseguição e vitórias "Em 1897, na colônia Oliveira Machado, quase é vitima de um grupo de crentes que se diziam católicos e que o agrediram por estar pregando o Evangelho, não consentindo, porém, que se instaurasse processo contra eles, seus ofensores. Naquela ocasião, como em tantas outras, o Dr. Carver mostrava-se sempre como um verdadeiro missionário de Cristo, e sem ambições e vaidades, resoluto e liberal, e sabia cumprir fielmente todos os deveres do missionário, por mais difíceis que fossem. As contrariedades não o abatiam, antes o exaltavam pela resignação voluntária ". "A Missão Bethesda prosseguiu a sua marcha vitoriosa até o ano de 1899, quando a 18 de setembro desse mesmo ano, resolveu constituir-se em uma congregação local que passou a denominar-se Egreja Evangélica Amazonense, de caráter independente e funcionando na Rua Leonardo Malcher. Adotou nos cultos públicos o ritual e a liturgia da Egreja Protestante Episcopal, permanecendo o Dr. Carver no pastorado da Egreja". Divergências e divisões "Depois do ano 1900 até o presente (1922) por motivo de várias divergências originadas no modo de dirigir os trabalhos da igreja, surgiram então outras denominações do ramo evangélico, que começaram a ter surtos de progresso mercê a presença de outros pastores que divisaram no Amazonas, até então desconhecido e isolado, um belo
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    campo para asua atividade. Esses pastores encontraram facilidade no propagar o Evangelho em um meio que já o conhecia, graças aos esforços incontestes do missionário Carver. Foram as seguintes então as Egrejas surgidas em Manaus, algumas das quais ainda prosseguem, gloriosas, a sua marcha evangélica de triunfos: Egreja Metodista Episcopal, Egreja Evangélica de Manaus, 1a Egreja Baptista, Missão Christã, Egreja Presbiteriana, 2 a Egreja Batista, Egreja Batista Independente, Egreja Pentecostal, e 3 a Egreja Batista". "O Dr. Carver, lutando com as maiores dificuldades, conseguiu construir um modesto templo no alto da Avenida Major Gabriel, tendo acomodação para 150 pessoas. Segundo o ritual episcopal, o referido templo tomou o nome de Capella de São Salvador, onde atualmente está funcionando a Egreja Evangélica Amazonense". "Desde o início do trabalho evangélico feito pela Missão Bethesda e a Egreja Evangélica Amazonense, foram efetuados 2781 batizados, 1850 bênçãos matrimoniais, 1224 serviços fúnebres, inclusive de crentes de outras denominações, a que o Dr. Carver nunca se negou. A 4 de julho de 1897 fez o Dr. Carver na Missão Bethesda, pelas 7 horas da noite, a primeira ordenação ao cargo de um evangelista nativo que daquela data em diante ficou a ser seu ajudante na obra missionária... Por falta de tempo e ser difícil fazerse uma estatística geral, pode-se calcular aproximadamente a totalidade de crentes evangélicos no Amazonas em uns 5000". Conclui a autora do artigo no "Jornal Batista" com esses "fatos essenciais": 1) que o Evangelho chegou ao Amazonas em 1888 por via do Dr. Carver, metodista; 2) que o primeiro jornal evangélico no Amazonas foi "A Paz", editado pela Missão Bethesda, e saído à luz em 21 de março de 1898, redigido por esse missionário metodista; 3) que em 1897, com a chegada do primeiro casal batista - Eurico Nelson e senhora - houve o primeiro culto batista no templo da Igreja Bethesda; 4) que em outubro de 1900 foi organizada a primeira Igreja Batista de Manaus. Em outras palavras, a Igreja Metodista ali organizada pelo Rev. Carver, usando o ritual episcopal, apadrinhou a primeira Igreja Batista naquela zona! Termina a escritora: "Aquela primeira Igreja da Missão Bethesda não funciona
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    mais. Há membrosque a ela pertenceram ainda vivos, como a viúva do evangelista, Rev. Juvêncio de Mello. Alguns elementos ficaram, posteriormente, na Igreja Presbiteriana, e outros, com os batistas. O pequeno templo construído pelo missionário metodista ainda está de pé, mas abandonado e quase em ruínas". Doutra fonte soubemos que os presbiterianos durante certo tempo também usaram a igrejinha da Missão Bethesda. As perguntas são muitas e é do interesse da Igreja Metodista procurar saber as respostas. Teria havido alguma diferença básica entre o Rev. Carver e o Rev. Nelson, alguma coisa que levou o primeiro a deixar o culto metodista pelo episcopal? Será que o Rev. Carver já sonhava com uma igreja evangélica do futuro, verdadeiramente ecumênica, sem as divisões denominacionais e artificiais que hoje afligem o espírito profundamente cristão? E ainda mais naquela zona tão vasta, tão carente da mensagem de Cristo! Perguntas e perguntas! O certo é que Deus abençoou os esforços do missionário Carver, e que a Missão por ele fundada deu um nobre exemplo do espírito cristão. Incluo aqui mais alguns dados referentes ao trabalho metodista na Amazônia! No livro "Música Sacra Evangélica no Brasil", de Henriqueta Rosa Fernandes Braga, lê-se após suas declarações sobre o início do trabalho naquela zona do país: “... a Missão a que este inicialmente pertencia manteve três centros de atividades no Brasil: Belém, Manaus, Recife... o de Belém esteve sempre sob os cuidados do Rev. Nelson; o de Manaus, por ele fundado juntamente com o Rev. Marcus Carver em 1887, foi confiado à responsabilidade deste último, que o atendeu até 1903, embora desde 1890 se tivesse desligado da Missão, passando a trabalhar por conta própria...”. *** Nem o trabalho em Belém nem a Missão Bethesda em Manaus deixaram um marco metodista permanente naquelas regiões. Todavia, a maioria dos metodistas, apesar de abandonados pela Igreja-Mãe, continuaram fiéis ao Senhor, tornando-se membros de outras denominações evangélicas que ali chegaram. Creio, contudo, que não podemos deixar de considerar o Dr. Marcus Carvér entre os desbravadores e pioneiros do metodismo no Brasil, assim como o foram Spaulding e Kidder.
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    CAPÍTULO 21 PUBLICAÇÕES ECASAS PUBLICADORAS O primeiro jornal metodista no Brasil foi o "Methodista Catholico", cujo número de estréia saiu no dia 1º de janeiro de 1886. Foi seu fundador e redator o Rev. J. J. Ransom, descrito pelo Rev. Kennedy como um homem "cuja pena hábil e às vezes cortante, era temida pelos seus adversários" (isto é, a hierarquia católico-romana!). Com o regresso aos Estados Unidos em agosto de 1886 do Rev. Ransom, foi nomeado como seu sucessor o Rev. J. L. Kennedy. O jornal continuou com esse nome até o número de 20 de julho de 1887, quando, "pelo conselho dos colegas e alguns leigos", foi mudado para Expositor Cristão, nome que conserva até hoje. O seu formato era grande, como de um jornal secular, porém de menos páginas. Com o passar dos anos, o EXPOSITOR tem mudado as suas "vestes" mais de uma vez, conforme a moda jornalística, e o gosto de seus redatores. O Rev. Ransom também publicou literatura para a Escola Dominical (lições para adultos) e a folha "Nossa Gente Pequena", ambas as quais eram impressas nas oficinas do EXPOSITOR. Quanto tempo esses duraram, não posso constatar; mas em seu histórico, o Rev. Kennedy relata que "continuou a redação da literatura da Escola Dominical, começada por ele em outubro de 1899, e com o "Juvenil", em janeiro de 1900. Casa Publicadora Devido às despesas e dificuldades de publicação em casas comerciais, a Igreja Metodista desde cedo procurou ter a sua própria instalação publicadora. Na Conferência Anual, realizada em Piracicaba em 1893, foi nomeada uma comissão de três, constando de J. W. Wolling, E. A. Tilly, e João E. Tavares, com plenos poderes para estabelecer uma Casa Publicadora. Em 1894 o redator do "EXPOSITOR", o Rev. Wolling, chamava à atenção da
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    Conferência à necessidadede se organizar um plano pelo qual seria possível montar uma tipografia para a impressão do EXPOSITOR e outra literatura. Recomendou que fosse nomeado um irmão brasileiro para ser seu redator ajudante (foi eleito o Rev. Manuel A. de Camargo) e que todas as igrejas fizessem esforços especiais durante o ano para aumentar o número de assinantes, tendo como alvo 2.500 assinaturas. Determinou então a Conferência que o Rev. Wolling ficasse encarregado de todos os negócios referentes à organização definitiva de uma Casa Publicadora. Para atingir o alvo, ele pediu que cada congregação metodista levantasse uma coleta especial para a mesma. Também para ajudar a financiar o negócio, emitiu 300 apólices de 50$000 (cinqüenta mil réis) cada. Homem enérgico e dedicado, Wolling relatou já em 4 de agosto de 1894: "Conseguimos comprar no dia 18 de abril um bom prelo; e poucos dias mais tarde, todo o material necessário para a montagem da tipografia. Com o Sr. José Palma, o encarregado de frente, começou-se a publicação do nosso jornal, o EXPOSITOR, com o número de 1º de maio, em NOSSA PRÓPRIA CASA PUBLICADORA - fato esse que deve ser assinalado para sempre em nossa história e pelo qual devemos dar graças a Deus". Sob sua contínua responsabilidade, alugou-se uma excelente sala na Rua Esperança, nº 25-b, no coração de São Paulo, lugar que foi usado não só para publicação, mas para cultos. Diz o Histórico que "essa sala tornou-se um centro de evangelização". O custo?! Relatou Wolling à Conferência Anual que custara para montar a tipografia a soma de 10:099$940 - tudo comprado a dinheiro, sem deixar dívida alguma "para nos incomodar pelo mundo afora!" Toda honra a esse veterano missionário! Todavia, por motivos não dados, a tipografia foi mudada em 1896 para o Rio. Com o passar do tempo, e o crescimento da Igreja, viu-se a premente necessidade de montagem e equipamento mais moderno. Por isso, em julho de 1913, a Igreja Mãe enviou ao Brasil um missionário leigo, o dedicado servo do Senhor, John W. Clay, pai de nosso também dedicado irmão Charles W. Clay.
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    A Conferência determinouque a Casa Publicadora fosse estabelecida em Juiz de Fora; mas ali durou somente até 1917, quando a Conferência novamente transferiu-a para São Paulo. Aí a casa foi montada em um terreno baldio nos fundos da Igreja Metodista Central, em um feio edifício de tijolo vermelho. Contudo, foi um grande passo avante, e prosperou sob a direção do Sr. Clay. Retirou-se ele para os Estados Unidos mais ou menos em 1924. Foi dessa sementeira que se ergueu o moderno conjunto industrial da Imprensa Metodista, situado em São Bernardo do Campo. O velho edifício se tornara acanhado demais. A Igreja Central tinha outros planos para o terreno. Comprou-se um vasto terreno em São Bernardo do Campo, e a planta que ali se levanta hoje foi fruto do trabalho pessoal a seu favor, do Rev. James E. Ellis, quando daqui regressou aos Estados Unidos para assumir a direção da obra na América Latina, da Junta de Missões. O Rev. Lewistine M. McCoy, também da Junta de Missões nos Estados Unidos, faz outra grande doação à Imprensa Metodista em 1967. Em homenagem aos dois, foram colocadas placas de bronze nos respectivos edifícios. No antigo lugar da Imprensa Metodista levanta-se hoje um grandioso edifício de cinco andares fruto do trabalho e dedicação da Igreja Central - com Escolas Elementar e Ginasial, salas para aula da Escola Dominical, e as Juntas Gerais da Igreja Metodista, e a maior escola de Alfabetização de Adultos no Estado de São Paulo, quiçá do Brasil, pois conta em 1967, com mais de 800 alunos.
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    CAPÍTULO 22 INSTITUTOS EDUCACIONAIS DASCONFERÊNCIAS ANUAL E CENTRAL "Vamos por estes caminhos, cor da saudade". (O Convite - Guilherme de Almeida) Não é coisa seca e somente estatística a história dos nossos estabelecimentos educacionais. Dentro e atrás de cada história, há estórias de sacrifício, dedicação, de alegria e tristeza - há um testemunho intimamente pessoal e humano. Vamos começar com o GRANBERY COLLEGE, conhecido hoje como o INSTITUTO GRANBERY. Desde a sua primeira visita ao Brasil, em 1886, o Bispo Granbery sonhava com a possibilidade de fundar um colégio metodista para rapazes. Regressando aos Estados Unidos, empenhou-se por encontrar um educador habilitado e com zelo missionário; e foi muito feliz em encontrar para tal posto, o Rev. John M. Lander. Combinava este missionário o ministério com o magistério, e ainda mais, estudara medicina por algum tempo, na Universidade de VanderbiIt. Era seu sonho ser missionário na China, ao que o seu pai, Dr. Samuel Lander, muito se opôs, convencendo enfim ao filho que ensinasse numa "Academia Feminina" da qual ele era reitor. Foi ali que o Bispo Granbery o descobriu. Fez o convite e o jovem professor o aceitou. Viagem ao Brasil O Rev. Lander, com sua esposa e filhinha Laura, chegaram ao Rio de Janeiro pouco antes da Conferência Anual de julho de 1889, mas não sem terem tido algumas experiências duras em caminho. Viajavam no mesmo vapor Miss Mary Kennedy, que a pedido de seu irmão, vinha ajudá-lo no trabalho educacional. Também deveria ter se encontrado com eles em Nova Yorque, Miss Clara Chrisman, que vinha como missionária da Junta de Senhoras.
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    Desde o embarquea viagem parecia malfadada. No porto, esperaram debalde a chegada de Miss Chrisman, ficando sabedores quase na última hora que ela fora vitimada em caminho de uma grande tragédia o trem em que viajava, foi carregado rio abaixo e submerso com todos os passageiros, numa imprevista e terrível inundação perto de Johnstown, no Estado da Pensilvânia. Apesar desse começo sombrio, tudo ia normalmente até que chegaram ao litoral do Brasil. O vapor carregara sacos de algodão em Recife, e estava em pleno mar rumo ao Rio quando de repente, durante a noite, os passageiros foram acordados pelo grito: "O algodão está queimando! Levantem-se depressa, vistam-se e tomem seus lugares nos botes salva-vidas para descerem ao mar!" A fumaça e o cheiro desagradável de algodão fumegante foi o bastante para que obedecessem; e à medida que cada passageiro procurava alguma coisinha de mais valiosa que pudesse trazer consigo, aumentava a confusão e o terror. Chegou afinal a vez da família Lander e Miss Mary descerem pelas cordas ao pequeno bote salva vidas. A Sra. Lander agarrava ao peito a sua jóia mais querida, a filhinha Laura, que chorava diante do sono interrompido. Mas como sói (é comum) muitas vezes acontecer, mesmo nas tragédias há um lado cômico! Por último, acomodadas no bote as senhoras e as crianças, veio escorregando pelas cordas o Rev. Lander e de tudo que correra para salvar do naufrágio, vinha com uma cartola na cabeça! Os seus colegas nunca deixaram de atormentá-lo por essa vaidade - ou tolice! Contudo, o Rev. Lander mostrou-se um dos mais hábeis e consagrados obreiros no campo. O resto da história? As chamas foram dominadas e após uma noite de frio e terror nas águas do Atlântico, os passageiros puderam voltar ao vapor. Apesar de todos os vexames, o Rev. Lander chegou em tempo de ser admitido à experiência na Conferência que então se reunia no Rio de Janeiro, e ali recebeu a sua nomeação para um "futuro" colégio - sem nome, sem edifício, sem qualquer equipamento! Mas tinha um reitor e uma diretoria - fazendo parte dessa o Rev. J. W. Wolling, o Rev. J. L. Kennedy, e o Rev. James Mattison - um recém-chegado que apenas doze meses depois de sua chegada, foi vítima da febre amarela, deixando viúva e um filhinho.
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    Fundado "O Granbery" Quaisos motivos que levaram a Conferência a escolher Juiz de Fora como sede do colégio, o histórico não nos conta. O Rev. Wolling foi nomeado para ajudar ao Rev. Lander, que não conhecia a língua portuguesa, e foram para lá juntos, alugando uma casa na Rua Santo Antônio. Ali, sem perder tempo, começaram as aulas. O equipamento consistia de mesa, umas poucas cadeiras, quadro-negro e uma caixa de giz! O primeiro aluno matriculado foi Alfredo Green Ferguson, o segundo, Eduardo Braga Junior. Todavia, como admoestou o profeta Zacarias, "não devemos desprezar os pequenos começos". Em fevereiro de 1890, o anônimo foi batizado com o nome de Colégio Granbery, homenageando o primeiro bispo metodista que veio ao Brasil. Tornou-se, em poucos anos, uma instituição de grande projeção não só em Minas Gerais mas em outros Estados do Brasil, tanto pelo seu ambiente de alta moralidade como pelos cursos que oferecia - primário, ginasial, de Comércio, Farmácia, e Odontologia - todos equiparados às escolas oficiais do governo. O jornalista brasileiro David Nasser, em uma crônica, chamou o Granbery de o colégio mais bem disciplinado do Brasil. Isto no tempo do Dr. W. H. Moore. Como constituía plano da Igreja ter uma escola de Teologia adjunto ao Granbery, isso se fez, sendo os seus três primeiros seminaristas - Justiniano de Carvalho, Felipe Revalo de Carvalho, e Ludgero de Miranda, grandes pioneiros da nossa obra. E entre os seus formandos posteriores, estão algumas das figuras mais luminosas do ministério brasileiro, como César Dacorso, Guaracy Silveira, Derly Chaves, José de Azevedo Guerra, Epaminondas Moura e outros. Foi no Granbery, em 1895, que se organizou no Brasil a primeira Liga Epworth, atual Sociedade Metodista de Jovens, confirmada a nomenclatura inglesa nos dias de Wesley. O ambiente profundamente cristão do Granbery desenvolveu a espiritualidade dos alunos que faziam entre si reuniões de oração. É comovente o testemunho de um dos seus alunos, e depois professor, Sr. C. A. Ribeiro, que escreveu no EXPOSITOR CRISTÃO: "Desde o primeiro até o último dia em que pisei nos degraus da escola, nunca me senti triste por faltar-me alguma coisa -
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    gozava da amizadede todos os professores e alunos, ainda que desde o princípio, fosse oposto a muitas das suas idéias. Em 1892 dei o primeiro passo depois de um tocante sermão pelo Rev. Tarboux e, apesar da oposição veemente de meus país e parentes, abracei a Cristo e professei o Evangelho. Graças dou hoje ao meu Deus e Pai por ter-me conduzido àquele doce seio onde encontro tudo de que preciso. Muitos outros alunos seguiram-me nesse passo solene... ". Entre outros, destacam-se também as preciosas vidas femininas levadas a Cristo quando estudavam no Granbery: Ottília de Oliveira Chaves que no Granbery encontrou o seu marido, e sua irmã Odette, casada com o bispo Sante Uberto Barbieri, da Argentina. Esportes no Granbery Começando com esse primeiro estabelecimento educacional para rapazes, todos os demais da nossa Igreja têm procurado desenvolver a "mens sana in corpore sano". Lander e seus sucessores muito se interessaram por esportes ao ar livre, tais como o tênis e o futebol, e isto numa época quando estudantes de bengalinha, piteira e chapéu de palhinha raramente se condescendiam à prática de esportes. Tem-se dito que o Granbery introduziu o futebol no Brasil. O certo seria dizer que foi no Granbery que estudantes brasileiros primeiro jogaram futebol. O Rev. Lander, numa viagem para o Brasil depois de suas férias em 1895, voltou pela Inglaterra onde pela primeira vez viu o jogo de "soccer". Entusiasmado, comprou uma bola e trouxe-a ao Granbery, ensinando o jogo aos alunos. Ainda outra versão é dada pela revista Guanabara, n o 2, 1966, que declara "ter o futebol ingressado no Brasil entre 1897 e 1899, trazido pelo jovem MüIler, filho de alemães, que vinha de concluir seus estudos na Europa; teria sido conhecido primeiramente em Santos... Nosso Gilberto Freyre, é de opinião que "o futebol é uma contribuição positiva do menino ameríndio aos desportos europeus". O Sr. Charles Dunlop, autoridade sobre coisas antigas do Brasil, escreve no VoI. I do seu livro "Rio Antigo", que talvez, desde 1886 os membros da colônia inglesa jogavam futebol, "mas exclusivamente entre si". Dá crédito ao Sr. Oscar Cox de ter tomado a iniciativa em 1897 de formar um time de brasileiros. Devido à falta de um campo apropriado e de entusiasmo entre os adeptos, a bola que mandara vir da Europa, pouca
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    aplicação teve. Todavia,como esse não é um artigo sobre futebol, mas um caso de dar justiça a quem merece justiça, voltemos ao Granbery. Seja como for, o interesse do Granbery nos esportes e na educação física prosperou. Em julho de 1913, a Junta de Missões nos Estados Unidos enviou-lhe um missionário leigo, grande atleta na sua terra, Frank M. Long, cujo dever, além de ensinar inglês e Bíblia e organizar uma Associação Cristã de Moços, foi encorajar a prática esportiva. Numa antiga fotografia por ele tirada, vê-se o juiz ou árbitro de um jogo de futebol, aparecendo no campo de fraque e cartola! O "Granbery", que tanto prestígio alcançou, contou entre os seus reitores com J .M. Lander, 12 anos; J.W. Tarboux, 12 anos; W.B. Lee, 3 anos; J.L. Bruce, 3 anos; C.A. Long, 5 anos; W.H. Moore, 5 anos. Seu presente reitor é o Rev. Arthur Peterson. Colégio Isabela Hendrix Do meu baú velho retiro uma fotografia desbotada pelos anos e embaixo vejo a legenda, Igreja Metodista de Belo Horizonte. O retrato traz saudades não só da igreja, tão elegante para os primeiros anos do século 20, mas das circunstâncias relacionadas à fundação do Colégio Isabela Hendrix - o "Isabela", como é comumente chamado - do qual fui a primeira aluna. É bem diferente a história do movimento metodista em Belo Horizonte da de outros lugares. Alguns ministros pioneiros, em especial o denodado pregador, Rev. Antônio Cardoso da Fonseca, já tinham pregado o Evangelho em Ouro Preto, então capital de Minas Gerais. Apesar de ser um centro ultramontano, foram melhor recebidos do que numa pequena aldeia dali afastada, chamada Curral del Rey. Lá o Rev. Cardoso e o novato missionário, Rev. J. L. Bruce foram tão mal recebidos pelos ignorantes fanáticos do lugar, que nada conseguiram fazer. Mas o Rev. Cardoso não se deu por vencido. Em outubro de 1892 viajou para lá novamente, essa vez com o Rev. H. C. Tucker e sua esposa, Dona Elvira. Apesar de certa oposição e frieza, conseguiram lançar ali uma pequenina semente do Evangelho. Quando o governo estadual transferiu a capital de Ouro Preto para Belo Horizonte, o Conselho Municipal, visando a apressar o desenvolvimento da nova capital,
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    ofereceu sob certascondições, a qualquer sociedade benemérita, propostas muito vantajosas. Nossa Igreja aceitou a oferta e foi-lhe doado um belo terreno, uma quadra inteira na principal avenida da cidade, sob a condição de construir dentro de certos prazos, uma residência, uma igreja e um colégio. Como se aproximava o fim do prazo estabelecido e só fora construída a residência pastoral (que servia de salas para cultos), a Conferência nomeou o Rev. Kennedy para o lugar. Ele foi em setembro de 1904 e com o Sr. Jayme Salse como construtor dentro de um ano conseguiu erguer um elegante templo, bem na esquina da Avenida principal, em frente à Igreja Católica. Mas faltava erguer o Colégio! Felizmente, a Junta Missionária nos Estados Unidos tinha ao seu dispor quinze mil dólares - boa soma naqueles dias - que fora originariamente destinada ao Colégio Mineiro, mas não aproveitada. Para fundar o Colégio designaram Miss Martha Watts, já conhecida pelo seu sucesso em Piracicaba e Petrópolis. Ela chegou a Belo Horizonte em setembro e já no dia 5 de outubro, num casarão antigo, perto da estação ferroviária deu início à instituição - com apenas cinco alunas, das quais três eram filhas do pastor Kennedy! Mas isto não dava para desanimar. Não fundara ela o Piracicabano com uma só aluna, para quem conservou abertas as portas do mesmo durante três meses?! Ao Colégio foi dado o nome de Isabela Hendrix, homenageando a mãe do Bispo Eugene Hendrix que, mais do que qualquer outra pessoa, angariara os quinze mil dólares que haviam tornado em realidade o sonho do Colégio. Miss Watts, como sempre fazia, foi granjeando a simpatia e confiança das mais cultas famílias em Belo Horizonte. Depois de dois anos e meio em propriedades alugadas e inadequadas, estava pronto o primeiro edifício escolar na Rua do Espírito Santo, perto da residência pastoral. O Colégio Isabela começou a florescer. Ano a ano, progredia, crescia em matrícula e prestígio. Chegou o dia quando a Conferência resolveu vender a valiosíssima propriedade no centro, para investir o dinheiro num templo maior e mais moderno e um colégio dentro da zona residencial. Adquiriu-se um grande terreno perto do Palácio do Governo; e ali, sob a hábil administração de Miss Mary Sue Brown, a missionária e arquiteta, foi construída uma planta moderna. Outras reitoras destacadas foram Miss
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    Emma Christine, MissMamie Fenley e Miss Verda Farrar. Durante a administração dessa última foram acrescentados ainda outros edifícios modernos, particularmente a linda capela que recebeu o nome de "Capela Verda Farrar" em sua honra. As alunas do Isabela, vêm não só do estado de Minas Gerais, mas do Espírito Santo, Bahia e lugares distantes. Goza de excelente fama e prestígio na comunidade. Após a aposentadoria de Miss Farrar, foi eleita reitora Dona Jurema d'Ávila Tavares, a primeira reitora brasileira. Substituiu-a posteriormente o Professor Ulysses Panisset em 1967. Colégio Metodista de Ribeirão Prêto Quando os Revs. E. E. Joiner e James Hamilton eram responsáveis pelo trabalho metodista em Ribeirão Preto, perceberam como era necessária ali uma escola e as oportunidades que ela daria ao Evangelho. Apelaram então para a Junta de Senhoras nos Estados Unidos para auxílio financeiro em fundá-la, mas esta não estava então em condições de atender ao apelo. Tendo em vista o sucesso do Piracicabano em granjear a simpatia do povo, sentiam que um Colégio em Ribeirão Preto também facilmente pagaria suas próprias despesas. Por época da Conferência Anual de 1899, persuadiram o Bispo Hendrix a darlhes a devida licença de prosseguir com planos. O Bispo então nomeou Dona Leonora Smith - filha de colonos americanos em Santa Bárbara, que havia estudado nos Estados Unidos - para fundar o Colégio ali. No entanto, avisou-lhe o Bispo: "A senhora fica nomeada para fundar o Colégio - mas não temos verba nenhuma para lhe oferecer. Terá somente seu salário pessoal de missionária". Confiante em Deus, e ansiosa por empreender tal trabalho Leonora foi sem hesitação. A Igreja cedeu-lhe uma sala para as aulas e, dentro de dois meses, ela abriu as portas do Colégio. Como a sala tornou-se em breve pequena demais, o pastor cedeulhe um pouco mais de espaço na sua residência, e ali ficou durante um ano ou mais. Em janeiro de 1900, alugou uma casa e convidou para ajudá-la Miss Mamie Fenley, missionária também oriunda da colônia. De seu pequeno salário, tirou o suficiente para comprar algumas peças de mobília. Mas a visão de centenas de alunas correndo para matricular-se no Colégio desvaneceu devido principalmente à hostilidade do clero
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    romano. Somente dezalunos, alguns dos quais recebiam ensino gratuito se matricularam - e não dava para pagar o aluguel e a alimentação. As bolsas das missionárias foram se esvaziando, dia a dia, chegando afinal ao ponto de elas não terem nem para comer. Mas na igreja de Ribeirão Preto tinham uma amiga fiel e perceptiva, e entra aqui a história do Corvo de Deus. Corvo de Deus Residia em Ribeirão Preto, uma senhora norueguesa, luterana, que viera ao Brasil alguns anos antes. Ganhara fama no Rio de Janeiro como boa enfermeira. Era tão competente, que quando apareceu na família imperial uma grave enfermidade, ela foi a enfermeira chamada. Encontrou-se ali com um português - homem bom, mas católico com quem se casou. Com o passar do tempo o casal veio a residir em Ribeirão Preto. Quando soube que os metodistas faziam cultos evangélicos começou a assistilos, tornando-se amiga e admiradora das duas missionárias. Deus deu-lhe o dom de adivinhar as misérias pelas quais passavam e de ajudá-las sem ostentação, trazendo-Ihes seguidamente cestos de frutas e de pães e bolos feitos por suas mãos. Tinha por costume usar roupas pretas. Assim sucedeu que quando as missionárias viam-na chegar ao portão com um cesto no braço, lembravam-se da história bíblica de Elias e os corvos que lhe traziam alimento no deserto. Os olhos rasos de lágrimas, e com profunda gratidão, diziam uma à outra: "Ali vem o corvo de Deus"! Hoje, no Instituto Educacional em Ribeirão Preto, deu-se o nome de Emília Fonseca ao curso normal, homenageando àquela que foi nas mãos de Deus uma bênção para as fundadoras daquele Colégio. Missionárias enfermeiras Passadas as primeiras crises, o Colégio tornou-se uma instituição muito apreciada na cidade. Mas, no ano de 1903, passou outra vez por duras provas. A terrível febre amarela assolava o povo, matando a muitos e fazendo fugir todos que podiam, a lugares mais saudáveis. As autoridades estabeleceram um cordão sanitário ao redor da cidade; e pais ansiosos retiraram os seus filhos do Colégio, ao passo que as professoras também pediam licença para juntar-se ao êxodo geral. Nesse período estavam à testa do Colégio as missionárias Ada Stewart (que
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    depois se casoucom o Rev. G. D. Parker), e Willie Bowman. Sabendo que o hospital improvisado pelas autoridades municipais não conseguia as enfermeiras que precisava com urgência, ofereceram-se para ali ajudar. Dia e noite trabalharam até que o pior da epidemia terminou. Ficaram no posto do dever, confiantes em Deus e servindo aos doentes com verdadeira abnegação. Não sucumbiam à doença. Mas Bento Braga de Araújo, o jovem querido pastor da Igreja, que também recusara deixar a cidade e se dera integralmente ao esforço de erradicar a febre, foi uma das vítimas, enlutando a igreja toda. O esforço desses cristãos não deixou de impressionar profundamente o povo e as autoridades da cidade. Como relata o Rev. Kennedy, "contribuiu grandemente para pôr termo à perseguição de trabalho Evangélico. A população em peso declarou-se grata e daí em diante nunca lhes faltaram amigos”. . Depois de uma mudança, o Colégio adquiriu uma propriedade, construindo um imponente edifício próprio. É uma das suas ex-alunas mais brilhantes a Prof. a Dina Rizzi, grande líder do trabalho metodista feminino, cujo nome está intimamente ligado ao Instituto Metodista em São Paulo, do qual foi reitora por muitos anos. Também já foi delegada a conferências evangélicas latino-americanas, e é agora uma das vice-presidentes da Federação Mundial de Senhoras Metodistas. Colégio Bennett As duas líderes do metodismo feminino nos Estados Unidos Miss Belle Bennett e Miss Maria Gibson, depois dos seis meses que aqui passaram, voltaram ainda mais determinadas a obterem o necessário para adquirir uma boa propriedade no Rio. Mas só o conseguiram uns tempos depois, como resultado do entusiasmo por missões gerado pela comemoração do Centenário da Igreja Metodista Episcopal do Sul nos EUA Receberam a generosa quantia de 300.000 dólares-ouro, com o qual compraram, remodelaram e equiparam a bela mansão que fora originalmente do Barão de São Clemente, situada a Rua Marquês de Abrantes, nº 55. Realizou-se assim o sonho dourado do Rev. Ransom e o sonho dourado de Miss Layona Glenn, mas que nenhum viu realizar-se. Ele deixara o Brasil em 1886, e Miss
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    Glenn que forachamada à pátria (EUA) para cuidar dos velhos pais, lá teve que se demorar muitos anos. As aulas Iniciaram-se em 1º de março de 1921, com 50 alunos, depois de Miss Perkinson ter preparado o edifício para funcionamento. Em breve voltou de férias nos Estados Unidos, Miss Eva Louise Hyde, sob cuja sábia, eficiente e dinâmica administração o Colégio progrediu em todos os sentidos. Edifícios novos foram construídos, incluindo uma linda capela. Novos cursos foram introduzidos. Após sua aposentadoria foi reitora durante muitos anos Miss Sarah Dawsey, filha de Revmo. Bispo Cyrus Dawsey, a quem se devem importantes avanços educacionais, um dos quais a "Escola Matemal" - Curso Pré-Primário. Foi o Bennett pioneiro na introdução de educação física para o sexo feminino, bem como de uma Escola de Economia Doméstica, de um "Kindergarten" ou Jardim de Infância e de uma Escola de Música Sacra sob a direção do distinto missionário músico Rev. Alberto Ream. Sua reitora hoje é a Dra. Pérside Leal Vianna Soares com preparo especializado no Brasil e nos Estados Unidos. Do Colégio Bennett - filho dos colégios Fluminense e Americano, neto da Escola do Alto - o metodismo se orgulha com razão, esperando que seja nas mãos de Deus, um digno instrumento para elevar e desenvolver em moldes cristãos, a mocidade feminina do Brasil. Instituto Americano de Lins Este Instituto no noroeste do estado de São Paulo foi criado pelo casal Patience e Clemente Hubbard, missionários, numa sala da sua própria casa. Foi crescendo e é hoje o maior educandário da Igreja Metodista do Brasil, com 1.500 alunos de ambos os sexos; possui cursos que levam desde o primário até à Faculdade de Odontologia. Tem se tornado estabelecimento de prestígio e influência cristã naquela zona de São Paulo. Ao casal Hubbard a Igreja deve um preito de gratidão.
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    CAPÍTULO 23 ESCOLAS QUEDESAPARECERAM PELA ESTRADA “Vamos por estes caminhos cor de saudade. Por estes caminhos roxos de nossa terra; cada um dos nossos passos há de ficar marcado na argila violeta." (O CONVITE - Guilherme de Almeida) - ESCOLA DO ALTO - COLÉGIO MINEIRO - COLÉGIO FLUMINENSE - COLÉGIO AMERICANO DE COLÉGIO AMERICANO DE PETRÓPOLIS TAUBATÉ !! Quantos de nossa geração nem sequer ouviram falar os seus nomes! Quantos não sabem por que foram fundados, por que foram fechados, por que desapareceram em vez de continuar como até hoje continuam os nossos educandários em Piracicaba e Belo Horizonte. Todavia merecem todos ser lembrados, porque deixaram suas marcas na argila do tempo e cada um representou labores e sacrifícios imensos. Cada um teve uma finalidade que cumpriu ao seu tempo. Com o poeta Guilherme de Almeida, tracemos, pois, novamente, “estes caminhos cor de saudade", para conhecermos um pouco do que fizeram, para revivermos as angústias do seu desaparecimento da cena metodista! Comecemos com a primeira, a Escola do Alto. Escola do Alto Desde os dias do pioneiro Ransom, cogitava-se de um colégio para as meninas da Corte - Rio de Janeiro e suas adjacências. Deveria ser um Colégio que honrasse o nome do metodismo e proporcionasse ao sexo feminino do Brasil uma educação
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    esmerada, progressista eprofundamente cristã. Já existia na cidade um colégio particular, dirigido por uma senhora americana, não missionária, chamado o Colégio do Progresso, de Miss Leslie. Gozava de muita fama e era até "protegido" pelas mais distintas famílias do Rio. O Rev. Ransom, gostando do local e conhecendo o prestígio do Colégio, entabulou conversações para ver se conseguia comprá-lo para o metodismo. As negociações tinham ido a tal ponto, e tão certo parecia a compra que quando o Rev. Tarboux apenas pisou o solo brasileiro, em 1883, já foi nomeado para ali lecionar inglês enquanto aprendia o português. Mas por motivos que não foram registrados, a compra não se efetivou. Todavia, a Junta Missionária de Senhoras, a cujo cargo estavam as escolas para o sexo feminino no Brasil, encorajada pelo sucesso do Piracicabano, em breve providenciou a compra de uma outra propriedade no Rio. O Rev. Ransom adquiriu-a na Rua das Laranjeiras nº 96, esquina da Rua Alice, local que o Rev. Kennedy descreveu como um local que "devido a sua altura no cimo de um morro, era considerado quase imune à febre amarela". Essa doença já roubara à Igreja a vida preciosa do missionário James Koger; e tornando-se epidêmica causava consternação no país. Não se sabia ainda que o causador da febre amarela era um mosquito - o aedes egyptis - mas todo mundo sabia que morar no alto era menos perigoso do que nas baixadas e perto de áreas pantanosas. Atribuíam o mal ao miasma - uma emanação prejudicial - palavra que incutia medo! Era de grande importância, pois, escolher um local alto onde não houvesse águas estagnadas. Quando as aulas começaram em fevereiro de 1888, o colégio foi batizado com o nome de "Escola do Alto". Antes de findar o primeiro ano, a matrícula já atingira 50 alunos e, desse número, as missionárias relataram que duas haviam feito profissão de fé e quatro haviam dado o primeiro passo. Mas o velho e feroz inimigo, o aedes egyptis não demorou em subir o morro, pondo à prova a Escola. No primeiro ano, apareceu a febre entre alguns alunos; no segundo, a febre tornou-se verdadeiro flagelo, vitimando um pequeno aluno interno, cujos pais estavam viajando na ocasião. Casos surgiram por todos os lados, até que a Escola teve que fechar as portas provisoriamente. Algumas das professoras também adoeceram; Miss Mattie Jones, frágil como uma boneca de porcelana, por milagre escapou. Qual boa
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    samaritana, fazia canjade galinha para levá-la em tigelinhas às vizinhas que não tinham quem socorrê-las nesse transe. Enfim, foi tão grande o êxodo de alunos, e tão impossível parecia a conquista da febre, que a Junta mandou fechar o internato e transferi-lo para Juiz de Fora onde dada a fama do Granbery - havia tempo, se pedia insistentemente um internato feminino. Isso se deu em setembro de 1891. Começa aqui a história do Colégio Mineiro. Colégio Mineiro Com a decisão de mudar o internato para Juiz de Fora, a Junta nomeou para dirigi-lo, Miss Mary Bruce, anterior diretora da Escola do Alto e do Piracicabano, onde tão habilmente lidara com o Inspetor Vienna em 1887. Com oito alunas e mais quinze de Juiz de Fora, começou em 20 de setembro, um colégio que batizaram com o nome de "Colégio Mineiro". Em 1905, depois de alguns anos em prédios alugados, a Junta comprou uma esplêndida propriedade num dos melhores pontos da cidade. Ali, durante 23 anos, o "Colégio Mineiro” operou e foi reconhecido como um dos melhores educandários femininos - senão o melhor da região. Entre suas reitoras destacadas, devemos lembrar os nomes de Ida Shaffer, Eliza Perkinson, Sarah Warne, e Eva L. Hyde, que foi depois reitora do Bennett. Dois dos importantes motivos que levaram ao seu fechamento em 1914 foram: o "Granbery" havia aberto as suas portas, primeiro a mocinhas nos cursos superiores e, logo depois, a todas as idades e ambos os sexos. A educação mista estava se tornando comum no Brasil. Em segundo lugar a reforma e renovação. A velha casa baronial exigiria um tremendo custo. Assim a Junta resolveu fechar o Colégio, vendê-lo e investir o dinheiro no seu sonho dourado - um grande estabelecimento no Rio de Janeiro. Colégio Americano Fluminense Mas com o fechamento da Escola do Alto, e a transferência do seu internato para Juiz de Fora - o que fazer com seus alunos externos, aqueles que residiam no Rio e cujos pais reclamavam a continuação do colégio ou de outro em moldes semelhantes?
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    A necessidade sendopremente, e as missionárias estando prontas a arriscarse na cidade, a Junta resolveu continuar com um externato no Rio. A esse deram o nome de "Colégio Americano Fluminense". Vez após vez, a febre, a varíola e até a peste bubônica, atacavam a Capital, dizimando a população. Decrescia o número de estudantes. Quando em junho de 1902, duas professoras quase faleceram com a febre amarela, o Colégio teve que fechar por uns tempos. Todavia, sob a corajosa e dedicada direção das missionárias, nunca se deu por vencido, e logo após as epidemias, reiniciava as suas atividades. Sua dificuldade era imensa. Não tendo propriedade própria em que funcionar o Colégio viu-se forçado a mudar-se várias vezes - da Praia do Botafogo à Rua Marquês de Abrantes, - ao Catete e novamente à Praia - doze vezes ao todo no seu quarto século de existência! Afinal, em 1913, vieram ao Brasil Miss Belle Bennett, presidente da Confederação de Senhoras Metodistas nos Estados Unidos, e Miss Maria Gibson, reitora do Scarritt College, onde as missionárias se preparavam. Permaneceram no Brasil uns seis meses, inteirando-se bem das necessidades e oportunidades do país. Resolveram definitivamente não fechar o "Fluminense", mas procurar reerguê-lo, constituindo-o "num grande estabelecimento de instrução". O plano visava fundi-lo com o "Americano“ de Petrópolis, mas o plano fracassou naquela hora. Não podiam encontrar a preço razoável nenhuma propriedade adequada no Rio, fechando-se assim em 1915, as portas do querido "Fluminense", alma-mater de muitos que depois se distinguiram no Brasil e se gabavam de terem sido seus alunos. Colégio Americano de Petrópolis Quanto transtorno não pôde causar um mero mosquito! Quantos planos alterou em nossas escolas missionárias! Mais um colégio deve a sua origem às epidemias causadas por este pequeno inseto - "O Colégio Americano de Petrópolis", que podemos chamar a terceira filha da Escola do Alto. A Junta Missionária nos Estados Unidos, investindo o dinheiro resultante da venda do prédio da "Escola do Alto", não só abriu o internato em Juiz de Fora, mas decidiu estabelecer um colégio em Petrópolis, então Capital do Estado do Rio, e local
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    preferido por diplomatase abastados, pois era livre das febres que assolavam o Rio. Para tal fim, comprou o chamado "Palacete Januzzi", belo edifício situado num morro, com vasto terreno, pela então elevada quantia de vinte e sete mil dólares ouro. Miss Watts, que tão bem administrara o Piracicabano, foi nomeada diretora. O colégio começou suas aulas em maio de 1895, com apenas três alunas - duas a mais do que o "Piracicabano" em seu início. Visitante distinta Deu-se um pequeno incidente nos dias do seu começo, que serve para provar a sua aceitação pelas altas camadas da sociedade: certo dia, Miss Watts foi ao Rio de Janeiro para fazer umas compras necessárias para o colégio. Deixou ali "de plantão", Miss Layona Glenn, que estivera no Brasil apenas por um ano, e Mrs. Fannie Kennedy Brown, que Miss Watts trouxera do "Piracicabano" para ajudá-la a dirigir um Departamento de Música. Nenhuma sabia falar bem o Português. De repente, a Sra. Brown ouviu o som inesperado do trote de cavalos. Olhando pela janela, para ver quem podia ser, viu subir o íngreme morro, um bonito carro que em segundos parou em frente ao colégio. Desceram uma senhora e duas mocinhas bem trajadas. Qual não foi a sua surpresa em reconhecê-las como Dona Adelina, esposa do presidente da República e as filhas, que ela havia conhecido em Piracicaba. Chamando Miss Glenn, correu depressa à porta para cumprimentá-las. Quando Dona Adelina perguntou por Miss Watts, respondeu que ela fora passar o dia no Rio e só voltaria à tarde. "Não faz mal", sorriu Dona Adelina, "visito com as senhoras até ela chegar!" Sem cozinheira, sem alimentos variados na dispensa, sem sobremesa, as duas "noviças" atrapalhadas fizeram o que puderam para apresentar às suas visitas um bom almoço. Tão graciosa foi Dona Adelina que o apreciou como se fosse um banquete! Este incidente ficou na memória de ambas como um ponto alto de suas vidas. O Colégio em Petrópolis continuou até 1920 quando foi fechado para tornar-se parte do sonhado Colégio Bennett.
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    Colégio Americano deTaubaté Mais outro que desvaneceu da cena metodista foi o "Colégio Americano de Taubaté", o qual devemos relembrar porque foi prova de como a influência do nosso primeiro educandário, o "Piracicabano", se estendeu rapidamente pelo Estado de São Paulo; e porque a sua vida, apesar de muito mais curta do que as outras já mencionadas, foi, contudo, muito rica, conforme testificou o Rev. Kennedy. Em fins de 1889, oito anos após a abertura do "Piracicabano", algumas das mais destacadas e influentes famílias de Taubaté, cidade que então parecia ter um futuro brilhante, convidaram Miss Watts a fundar ali um colégio nos moldes do "Piracicabano". As missionárias todas, reunidas em janeiro de 1890, apoiaram a idéia e enviaram à Junta Missionária nos Estados Unidos, um abaixo-assinado, pedindo que fossem tomadas imediatamente algumas medidas financeiras para dar início a este colégio. Mas a Junta não estava então em condições de atender ao pedido. Achando que essa era uma oportunidade boa demais para se perder, que o colégio poderia ser porta aberta ao Evangelho em Taubaté, o Rev. Kennedy, que era presbítero presidente do distrito de São Paulo, ofereceu fixar residência ali, abrir um colégio e, ao mesmo tempo pastorear a igreja, assistido pelo Rev. J. R. de Carvalho. Com sua senhora, Jennie Wallace, para auxiliar na direção de um internato para meninas, iniciou em março de 1890, com uma matrícula de 17 alunos, o "Colégio Americano de Taubaté". Tão bem andava o colégio que a matrícula dobrou e triplicou em pouco tempo. As finanças iam admiravelmente bem, sendo preciso muito pouco auxílio da Igreja. Quando começou em 1890, o colégio pagava 600$000 de aluguel anual; quando teve que fechar as portas, em 1894, estava pagando quatorze vezes mais! O Rev. Kennedy conseguira reunir um corpo docente excelente, entre os quais, o Prof. Joaquim Camargo; Dona Laura Duarte (depois esposa do Sr. Eduardo Shalders), e sua irmã, Mary Kennedy, proficiente em música e pintura. A Bíblia era ensinada diariamente pelo diretor, e diversos alunos se converteram e fizeram sua profissão de fé. Entre os alunos, constava um rapazinho de seus dez anos, por nome Monteiro Lobato; mas o Rev. Kennedy nunca poderia adivinhar que no futuro esse aluno seria um brilhante escritor brasileiro! Contudo, anos depois declarou um senhor taubateano, amigo íntimo de Monteiro Lobato, que o escritor certa
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    vez lhe disseraque recebera grande inspiração como criador de literatura para a infância brasileira, por ouvir as estórias bíblicas e lendas mitológicas que o Rev. Kennedy contava seguidamente aos seus alunos. Com exceção do fanático clero romano, a aceitação do colégio foi total. O Jornal de Taubaté assim escreveu em editorial: "Para um colégio que há poucos meses iniciou os seus trabalhos pedagógicos, foram muito além da expectativa popular os resultados finais dos exames e a festa escolar. Os alunos ali adquirem um certo movimento social o que é bem raro ver-se nos nossos colégios de ensino primário e secundário. Para se avaliar bem a importância de que atualmente goza o "Colégio Americano de Taubaté", basta dizer-se que a maior parte dos seus alunos, quer desta cidade, quer doutra, são filhos de pessoas muito conhecidas pelo seu critério, que não correriam pressurosos a trazer seus filhos se não vissem naquele estabelecimento a garantia de aproveitamento moral e intelectual para os seus filhos". (Citado do EXPOSITOR CRISTÃO, de 5 de março de 1891). Quanto mais o colégio crescia na estima do povo culto da cidade, tanto mais a Igreja Romana o perseguia, assim como ao seu diretor e pastor, Rev. Kennedy. Contou ele que certa vez, ao pregar ao ar livre em uma rua perto do Mercado, foi atingido no rosto por tomates podres e cascas de melancia. Um dos piores casos de perseguição por pretextos fúteis também se deu contra o colégio de Taubaté. O Rev. Kennedy estava ausente, em São José dos Campos, onde também pregava. No colégio, estavam entre outros, um missionário recém-chegado, Rev. J. L. Bruce, que ainda não falava o Português, e o professor Joaquim de Camargo com sua senhora. Mas deixemos que o Rev. J. R. de Carvalho conte a história, conforme a escreveu para o EXPOSITOR CRISTÃO de 4 de abril de 1891: Por causa de um chapéu! "De tarde, saindo da Matriz uma procissão chamada do Encontro, passou em frente ao colégio, onde reside o Sr. Bruce. Este, por ocasião de passar a mesma, por casualidade, se achava de chapéu na cabeça, e chegou à janela. Nisto, os padres, já de prevenção, pararam com a procissão e um deles pediu a alguém que obrigasse aquele homem (Bruce) a tirar o chapéu. Imediatamente, algumas vozes se levantaram - porém ele que não tinha a menor malícia no caso e nem tampouco os compreendia, só quando
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    principiaram a atirar-lhepedras, percebeu que era o assunto de tanta algazarra. Saiu e foi para outro lado da sacada onde a procissão também passava. Aí também o apedrejaram, sem ele saber que era por causa do chapéu. Foi o Sr. Camargo que lhe disse a causa.” “Como resultado foram estilhaçados todos os vidros das janelas do colégio. Mas não foi esse o fim do incidente. Aquela noite, na ausência do Rev. Kennedy, o Rev. Justiniano de Carvalho ia dirigir o culto. Quando os desordeiros viram o salão de culto aberto, queriam entrar de assalto para destruírem tudo. O que impediu o ato foi a energia da polícia e das pessoas grandes da cidade. O motim era composto de mais de 500 pessoas. Uma força policial estacionou defronte à casa, armada de espingarda, para evitar a desordem.” “Para dar termo ao motim, alguns amigos se lembraram de pedir ao bispo católico que se esforçasse por sua autoridade ou conselho a dar termo àquela desordem. Acompanhado de outros, o bispo dirigiu-se ao grupo e fazendo um discurso a favor da religião da qual era ministro, finalizou dizendo: "Como ministro de Cristo, vos peço abandonai essa casa!” “Eis aqui a estória de quanto barulho causou um chapéu!” (Assinado: J. R. Carvalho). No dia seguinte, editoriais nos jornais condenavam o que se havia passado, declarando-se francamente a favor do colégio. Apesar de todo o progresso e aceitação do educandário, a Conferência Anual, em julho de 1894, determinou que o colégio fosse mudado para São Paulo. Nenhum motivo se dá no histórico de Kennedy para esta decisão, mas creio que fundamentalmente influiu profundamente a impressão que a cidade de São Paulo seria no futuro, o coração do progresso paulistano e por isso devia ser o centro das atividades da Igreja. O Rev. Kennedy alugou "três bons edifícios sitos no fim da Rua da Liberdade, no começo da São Joaquim, não longe da Igreja e da Casa Publicadora". (Kennedy, pág. 375); e quando o colégio para lá mudou-se em agosto de 1894, quarenta e uma internas o acompanharam. Ao novo educandário se deu o nome de Instituto Wesleyano, creio que decerto para diferenciá-lo da Escola Americana dos presbiterianos, que fora fundada em 1870 pelo casal Chamberlain, e que depois tornou-se na grande Universidade Mackenzie.
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    Contudo, por motivosoutra vez desconhecidos, ah, quanto não daríamos para hoje conhecer alguns dos segredos de então! - dentro de dois anos, a Conferência Anual ordenou o fechamento do Instituto e com isso, a Igreja Metodista em São Paulo retirou-se por uns oitenta anos do campo educacional. Só em 1965, a Igreja Central de São Paulo construiu com seu próprio trabalho e recursos, no vasto terreno sito nos seus fundos, um grandioso edifício de cinco andares, no qual fundou o "Instituto Educacional Metodista". Aí oferece cursos do primário até o ginasial, atendendo a cerca de 1.200 estudantes daquela área da cidade e dos subúrbios. Com o fechamento, porém, o Rev. Kennedy entregou-se novamente à obra de evangelização, declarando no histórico: “Esse evento ocasionou a sua imediata ida para o Oeste de São Paulo e não há dúvida, foi o fato culminante que determinou o estabelecimento do trabalho metodista naquela zona e também no noroeste e sudoeste do Estado de São Paulo".
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    CAPÍTULO 24 NO CAMPODA AÇÃO SOCIAL Entre as instituições de ação social mais tradicionais da Igreja estão os conhecidos Instituto Central do Povo e o Instituto Ana Gonzaga. Instituto Central do Povo Foi essa uma das respostas mais diretas à oração intercessória que conhecemos. Deu-se nos primeiros anos do século vinte, na época da renovação do Rio de Janeiro, sob a presidência de Rodrigues Alves e a administração do Prefeito Pereira Passos. Processava-se em um ritmo rápido e brilhante o arrasamento de ruas antiqüíssimas com seus prédios escuros e apertados, seguido pela abertura de largas e belas avenidas; a construção de docas modernas, a higienização dos focos anteriores da febre amarela, varíola e peste bubônica. Milhares de trabalhadores, vindos do interior e do norte à procura de emprego, congestionavam-se nos lindos morros da cidade, cobrindoos de favelas abjetas sem luz, sem água, sem higiene. Milhares de criancinhas, sem falar em adultos, cresciam ali sem instrução, sem alimentação adequada, sem oportunidade de ter um lugar para brincar. O Rev. H. C. Tucker, homem de grande coração, viu tudo isso e comoveu-se profundamente. Tinha vontade de servir de alguma forma essas massas humildes e desfavorecidas pela sorte. Mas como? Dia a dia ficava mais triste ao ver o problema aumentar. Mas não sabia onde conseguir os recursos necessários, pois a nossa Igreja não tinha nem dinheiro nem pessoal para tão difícil obra. Viu, afinal, que a resposta tinha que vir de Deus.
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    Convidou os missionáriosresidentes no Rio para se reunirem todas as semanas em sua casa, com o fim de pedir a Deus que lhes desse os meios de levar avante sua intenção. Passaram-se semanas, meses, nenhum "corvo de Elias" aparecia no horizonte trazendo-Ihes os recursos! Estava começando a se convencer que Deus não queria vê-Io envolvido em tal obra. Um dia, chegou-lhe uma carta de Londres. Quem lhe estaria escrevendo de Londres? Abriu a carta cuidadosamente para não rasgar o endereço, e começou a ler: “Rev. H. C. Tucker - Prezado Sr: Fiquei recentemente ciente que o Sr. desejava muito fazer uma obra a favor dos trabalhadores nas docas do Rio de Janeiro e de suas famílias, um objetivo que considero da máxima importância. Como presidente da Companhia que está construindo as docas, estou lhe enviando um cheque para iniciar tal obra. Receba os meus votos pelo sucesso do seu empreendimento. Etc. etc.” O Rev. Tucker saiu do seu escritório correndo: "Elvira, Elvira!" chamou pela esposa "as nossas orações, as nossas orações"; quase balbuciava. "Mas o que tem elas?" perguntou Dona Elvira meio assustada com a emoção do marido. "Foram atendidas! Ah, como Deus opera os seus milagres! Veja só esse cheque!" Assim foi que Tucker obteve os recursos com que iniciou a magnífica obra que durante anos tem sido feita pelo Instituto Central do Povo, no bairro da Saúde, no Rio de Janeiro estabelecimento social, educacional, recreativo, e religioso, com aulas diurnas e noturnas, Jardim de Infância, cursos de alfabetização, costura e cerâmica, clínicas dentária e médica, centro de puericultura, trabalho em prol dos surdos-mudos e sua própria igreja para levar àquele bairro a Palavra de Deus! Seria absolutamente impossível enumerar todos aqueles que têm tido parte nessa obra grandiosa de salvar o homem integral, de dar valor aos mais humildes e desprotegidos. Lá trabalharam - no campo educacional - Miss Layona Glenn, missionária intrépida; Miss Nancy Rolt, que conseguiu da Prefeitura montar ali um centro de
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    puericultura que sobos auspícios do Dr. Felinto Coimbra, foi durante anos, o maior do Rio de Janeiro. Outros servidores fiéis foram O Rev. Charles A. Long - pioneiro quando o trabalho começou em um velho sobrado da Rua Acre e que muito ajudou depois no serviço de transferência legal da propriedade do Lar Anna Gonzaga, e foi pastor da igreja em Inhoaíba. O Dr. Antenor de Araújo Dias, cristão dedicado, que já completou cinqüenta anos de serviço às crianças no Instituto, como dentista; O Dr. Silvado Júnior, que com classes especiais e dominicais, tanto fez para melhorar a sorte dos infelizes surdos-mudos jovens e adultos do Rio de Janeiro; A missionária Allie Cobb Buyers, que se esgotou completamente dando à obra toda a sua energia e tempo. O Sr. Edgar Kuhlmann, atual diretor, que tem sido um grande e fiel administrador da obra. Muitos outros trabalhadores fiéis e os anônimos que durante dezenas de anos têm lecionado e servido no Instituto. Tão dinâmico e eficiente foi o trabalho do Instituto em "renovar" o bairro da Saúde, que anos atrás, um delegado da polícia no Rio de Janeiro, disse em uma festa à qual assistia: "Os nossos policiais antigamente tinham até medo de subir esse morro por causa dos ladrões, assaltantes e assassinos. Agora, depois de vossa ação moralizadora, sobem-no até com prazer". Anna Gonzaga e o Lar das Crianças Nascida em 22 de novembro de 1861, Anna Gonzaga era filha do Major Luís Gonzaga e Dona Anna Joaquina da Soledade Gonzaga. Seu pai era um abastado fazendeiro, proprietário de uma grande gleba de Campo Grande, que fazia parte do Distrito Federal de então. A esse casal, nasceram três filhos - José, Luís e Anna que em casa chamavam de Anita. A mãe faleceu quando a menina tinha dezoito meses tão-
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    somente, deixando apequena entregue aos cuidados de escravas dedicadas. Pouco depois, faleceu o menino José. Anita fez-se companhia constante de seu pai seguindo-o pelos campos e laranjais; e quando mais velha, andando com ele a cavalo pela extensão da fazenda. Interessava-se em tudo - plantação, animais, os trabalhadores na terra. Mas o Major, que andava sempre preocupado com a instrução da filha, resolveu colocá-la em um pequeno colégio de freiras no Rio de Janeiro - freiras que sabia não serem fanáticas. Pois ele, apesar de nunca aceitar nenhuma religião formal, era homem tolerante, hospitaleiro, que abria as portas da sua casa a quem o procurasse, padre católico ou pregador protestante. Entre aqueles que visitavam o Major com certa regularidade, estava o Sr. José de Araújo, irmão de um pregador metodista. O Sr. José, apesar de não ser crente declarado, sempre levava consigo uma cópia do Novo Testamento e Salmos que talvez lhe fora presenteada pelo irmão. Quando Anita viu o livro, ficou encantada e pediu ao Sr. Araújo que lhe desse, o que ele fez com prazer. Anita nada sabia sobre o livro, nada do seu valor espiritual - era simplesmente um livro de capa bonita e com páginas de beiradas douradas. Ela o colocou entre os seus tesouros de criança, mas não o leu. Passaram-se os anos. Um dia, quando já moça, Anita ouviu de uma casa em frente o cantar de hinos evangélicos. Parecia-lhe o cantar de anjos. Interessou-se; indagou, comprou um hinário, e começou a cantar e tocar os hinos ao piano. O Major nunca se casara em segundas núpcias; agora, idoso, viu que seria necessário providenciar a distribuição de seus bens. Reconhecendo o grande amor que a sua filha tinha pela fazenda, e a capacidade dela em administra-Ia, declarou-a testamentária e administradora de tudo. Contava ela então quarenta anos. Tendo falecido o seu irmão Luís, Anna, antes de mais nada, entregou a sua parte da herança ao filho de Luís. Com a morte do pai, Anna arrendou a fazenda e foi morar em uma casinha sem luxo, na cidade. Conversão de Anna Mas por motivos que não entendia, Anna nunca sentia paz de espírito. Talvez relembrando os hinos que ouvira e cantara na sua solidão, procurou uma igreja evangélica, e começou a assistir aos cultos da Igreja Episcopal ali perto. Aos 51 anos, "nasceu de novo"; converteu-se sob o Rev. William Brown (depois bispo daquela igreja) e foi confirmada. Tanta paz, tanta alegria espiritual lhe trouxe a sua fé, que determinou
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    compartilhá-la, evangelizando acomunidade em que vivia. A sua própria custa, alugou e mobiliou uma casa onde se podiam realizar cultos e Escola Dominical, e ela mesma ensinava na Escola, ou, na ausência do pastor, até dirigia os cultos. Devido, porém, a um desentendimento com o pastor que sucedeu ao Rev. Brown, e que ela julgou não mostrar interesse pela pequena congregação, Anna deixou de assistir aos cultos, satisfazendo-se com suas próprias devoções. Passaram mais 14 anos; começou a assistir à Igreja Metodista em Vila Isabel, e dela tornou-se membro fiel até à morte. Teve grande influência na sua vida, durante esse tempo, o Rev. Oswaldo Couto Caire; e podemos dizer que muito deve o orfanato a esse ministro. Anna, que foi sempre de coração bondoso, ajudava os necessitados, contribuía regularmente para a Sociedade Bíblica, Missão aos índios Caiuás, e para associações benevolentes. Mas com toda a sua fortuna - nada de luxo! Conservou-se sempre humilde de espírito e democrata em seus atos e atitudes. Estudava assiduamente a Bíblia, meditava nela; convencendo-se de que Deus tinha para sua vida um desígnio, um propósito muito especial na vida. Tomou sobre si a responsabilidade pela sua comunidade em Inhoaíba, adjacente à fazenda; e com seus próprios recursos, mandou construir uma casa que serviria de capela e residência pastoral. Essa foi inaugurada em 31 de julho de 1927, sendo nomeado seu pastor o pregador local, o Sr. Manuel Batista Leite, que também exerceu influência positiva na vida espiritual de Anna. Duas vidas se entrosam Apesar de todas as suas boas obras e suas atividades em promover o conhecimento do Evangelho, Anna ainda sentia uma dúvida quanto à melhor maneira de deixar em testamento seus recursos. É agora que se entrosam as vidas de Anna Gonzaga e Layona Glenn; é agora que a missionária ajuda a nobre brasileira a descobrir o que Deus queria com sua vida e fortuna. Layona Glenn tinha pedido insistentemente à Conferência Anual que fundasse um lar para cuidar das crianças abandonadas e desprezadas que se viam por todos os lados. Duas vezes a Conferência recusou-se dizendo: "Não sabemos onde encontrar os fundos; e não temos obreiros para tal obra". Mas Miss Glenn não desanimou - já combatera a oposição do clero romano contra as escolas que dirigira; já enfrentara sem medo, as ondas epidêmicas da febre amarela e varíola. Venceria agora a indiferença, o
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    temor, a faltade fé dos líderes da Igreja. Quando, pela terceira vez apresentou-se à Conferência Anual, pedindo seu auxílio, esta, ante a teimosia da mulher respondeu: "Bem, não podemos dar-lhe recursos nem obreiros, mas damos-lhe licença de fazer o que puder para fundar o orfanato". Deus começou a mostrar-lhe o caminho. O Rev. Osório do Couto Caire, sabendo do interesse de Miss Glenn, foi visitá-la e informou-lhe que tinha na sua igreja em Vila Isabel, uma senhora, de certa idade, solteira, sem herdeiros e proprietária de uma grande fazenda perto de Campo Grande. Seria bom conhece-Ia, mas advertiu-a: “Cuidado em apresentar-lhe o assunto de um orfanato! Ela desconfia logo dos que vêm solicitando auxílio para isso ou aquilo”. Um dia ele levou Miss Glenn para fazer-lhe uma visita; e de uma vez, Deus entrelaçou os dois corações, criou entre as duas uma profunda simpatia. A missionária que nunca se deu por vencida, parecia ouvir a voz de Deus a murmurar-lhe: “Eis a tua oportunidade - eis a resposta às tuas orações". Anna abriu-lhe o coração, falando sobre os seus ideais e sonhos. Miss Glenn, com delicadeza, procurou interpretar esses sonhos e anelos espirituais como sendo a voz divina a lhe falar. E em breve, estava apresentando-lhe o projeto de um lar para crianças, a concretização de um sonho que se prolongaria por anos após a sua morte. O sonho realizado Os olhos de Anna brilhavam “É isso mesmo, isso mesmo!", exclamou, "sei que estou afinal descobrindo o que Deus quer com os meus bens". Sua vida diária tornou-se radiante; um hino de louvor a Deus. Com imensa alegria, viu o lar começar a tomar forma; e aguardou ansiosa a inauguração, que seria no dia 1º de maio de 1932. Mas só pôde assisti-Ia do céu. No dia 14 de março caiu, fraturando a perna; e após muitos sofrimentos, faleceu no dia 1º de abril, com a idade de 71 anos. Com exceção de uma dádiva generosa a um afilhado, e o custo da manutenção dos túmulos da família, Anna deixou tudo o que possuía à Igreja Metodista do Brasil.
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    Obreiros no Lar Asprimeiras a trabalharem no Lar, quando pouco havia lá a não ser um velho casarão descuidado e sem comodidades, e alguns estábulos para animais, foram Layona Glenn, a própria idealizadora do Lar, já na quadra dos sessenta anos e a dedicada Dona Amália Coelho, que fora sua auxiliar no Colégio em Petrópolis. Enquanto essa cuidava da casa e da alimentação para as duas e as poucas crianças que tinham sido internadas, Miss Glenn subia e descia os morros do pasto, caminhando pelos laranjais e entre os coqueiros numa faina extraordinária sonhando e planejando o que faria de melhor com a fazenda. As igrejas do Rio começaram a demonstrar o interesse que Miss Glenn sabia estar nelas latente; os melhoramentos foram sendo feitos e vieram colocar-se ao lado dos pioneiros outros elementos de valor. A Legião Brasileira de Assistência ajudou a construir os prédios permanentes que são dominados por uma linda capela construída pelo casal Tims. O Rev. James Edwin Tims, com o auxílio de sua dedicada esposa, Dona Nancy Schisler Tims, fez um trabalho monumental para o Lar. O Rev. Tims, filho de fazendeiro nos Estados Unidos, de tal modo expandiu e desenvolveu a fazenda do Lar, melhorando sua criação agrícola e suína, que recebeu do governo diversos prêmios. Hoje (fins da década de 60!) é seu dirigente, o Rev. Luís Machado de Morais. Muitas vezes, durante a sua vida, as amigas de Anna Gonzaga lhe pediam que tirasse uma fotografia para colocar no orfanato. Mas ela sempre se negou dizendo: "O orfanato será o meu retrato". Quantas que não tivemos o privilégio de conhecê-la em vida, não gostaríamos de olhá-la com admiração! Contudo, o verdadeiro retrato dessa admirável mulher podemos ver nos rostinhos radiantes, nos corpos bem alimentados, nas mentes e nos espíritos enriquecidos de centenas de criancinhas que sem o Anna Gonzaga estariam dormindo nas calçadas do Rio, procurando, senão roubando, o seu alimento nas latas de lixo; crianças sem instrução escolar e sem conhecimento da Palavra de Deus, sem a mão compassiva para lhes mostrar e guiar nos caminhos do Senhor. Honra ao nome de Anna Gonzaga! Instituto Rural de Itapina Em princípios do século 20, já haviam viajado e pregado no Estado do
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    Espírito Santo, osRevs. Kennedy e Alfredo Duarte. Em fevereiro de 1903, por ocasião de uma visita a Vitória, naquele Estado, os Revs. Parker e J. M. de Camargo receberam os primeiros membros da Igreja na Capital capixaba. O trabalho, porém, não frutificou devido à falta de um obreiro residente. Foi depois nomeado para lá o Rev. Charles W. Clay, que fez grande trabalho. Um dos frutos foi o "Instituto Rural" em Itapina, uma resposta metodista à imensa necessidade de oferecer à juventude daquela região não só instrução escolar como melhores métodos de agricultura. Os alunos, rapazes e mocinhas aprendiam como melhorar sua vida no campo - no cuidado da casa, na higiene, em novos métodos agrícolas e agro-pecuários. Em lugar afastado e de difícil acesso, os seus diretores e professores têm-se sacrificado para executar a obra. Foram sucessores de Charles Clay os Revs. Peterson, Goodwin, Féo e Coelho. Centro Rural Bispo Dawsey Foi fundado em Maringá em 1961 em homenagem ao bispo da VI Região. Diferentemente do Instituto Rural que é um colégio, aqui existe um centro de orientação para toda uma vasta região. Ao centro está ligado o nome da consagrada obreira metodista Anita Cordeiro, enfermeira diplomada, trabalhadora social, que, sem descanso, lida com as famílias ignorantes e necessitadas daquela zona; e que já trouxe à luz do mundo, cerca de cinco mil criancinhas. A primeira família de missionários da Igreja Unida do Canadá, os Strachan dirigem presentemente esta obra.
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    CAPÍTULO 25 A MULHERNO CENÁRIO METODISTA “Deus tem usado as mulheres na conversão dos pecadores. Quem sou eu para resistir a Deus?” João Wesley As mulheres nos primórdios do movimento metodista Quem conhece a história do metodismo desde a sua origem forçosamente reconhece que a mulher nele desempenhou sempre um papel valioso. Lembramo-nos de imediato de Susana Wesley, a "Mãe do Metodismo", cuja influência sobre a educação e o crescimento espiritual dos seus filhos foi de profunda significação no movimento fundado pelo seu filho João, e, portanto, no mundo. Contra as tradições do dia e os protestos do seu próprio sexo, Wesley teve a coragem de declarar abertamente: “Deus tem usado mulheres na conversão de pecadores. Quem sou eu para resistir a Deus?" Todavia, não só na Inglaterra, mas na América do Norte, foi muito forte o sentimento contra a participação da mulher nas atividades da Igreja - o que não é de se admirar porque também em outros campos de atividade, ela não era reconhecida como tendo direitos. Nota positiva está no fato do metodismo nos Estados Unidos dar o voto à mulher nas igrejas locais, antes do governo dar-lhe nas eleições políticas. Passaram-se muitos anos antes que as mulheres fossem admitidas aos concílios da Igreja - o que era lógico, dada a relutância clerical em admitir até homens leigos. Foi só em 1904 que a Conferência Geral nos Estados Unidos, abriu as suas portas às mulheres, dando-Ihes assento nos concílios.
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    A mulher brasileirano metodismo Estes fatos tornam ainda mais notável a influência da mulher brasileira nas atividades da Igreja. Para a brasileira que hoje trabalha e estuda à noite, que ocupa seu lugar no comércio, nas profissões e na política do país, não é mais novidade, assumir posições igualmente relevantes nas atividades de sua Igreja. Mas naqueles primeiros anos do metodismo no Brasil era realmente de se admirar que tão cedo a mulher começasse a se interessar e entrosar-se nesta obra, ou aceitando cargos de responsabilidade e liderança, ou humildemente e sem alarde fazendo o que podia conforme sua capacidade. Converter-se ao protestantismo já era um rompimento com a tradição; começar a ativar-se individual e coletivamente na igreja, era romper um tabu ainda maior. A primeira Sociedade de Senhoras Os primeiros missionários que vieram dos Estados Unidos perceberam logo a urgência de empregar nas igrejas os talentos e a dedicação da mulher brasileira crente. Foi assim que o Rev. J. L. Kennedy organizou, em 1885, na igreja do Catete, no Rio de Janeiro, a PRIMEIRA SOCIEDADE DE SENHORAS, batizando-a com o nome de Sociedade Missionária. Consistia ela, em grande parte, de americanas e inglesas, pois ainda não constavam do rol da igreja muitas senhoras brasileiras. Todavia, algumas brasileiras havia, destacando-se entre elas, Dona Clementina Rosa Gomes de Souza Shalders, maranhense, casada com um senhor inglês, a quem seu pastor descreveu depois como "uma senhora verdadeiramente eleita que, com .toda a lealdade, içava o estandarte da Cruz de Cristo. Senhora há alguns anos falecida, a sua vida santa ficou gravada entre americanas e brasileiras, nas fileiras da igreja do Catete; e ainda pelos bons filhos crentes por ela influenciados". Poderíamos chamá-la “a primeira Eunice” do nosso metodismo pátrio. Metodistas no Rio Grande do Sul No Rio Grande do Sul, quando o trabalho ali era ainda dirigido pelos metodistas do Norte dos Estados Unidos, a missionária Miss H.M. Hegeman organizou a primeira Sociedade de Senhoras, chamada Auxiliadora, em 1898, na Igreja Central de Porto Alegre. Tinha por alvo levantar fundos para a construção de um templo. A segunda Sociedade no Sul foi organizada na Igreja Institucional na mesma cidade no mesmo ano.
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    Foi presidente daprimeira, Dona Hermínia Weingaertner. A essas Sociedades pioneiras, seguiram-se outras, designadas sempre de Auxiliadoras, porque o seu principal propósito era ajudar o trabalho da igreja local da qual faziam parte. E nisso, todas brilharam, como podemos ler nos relatórios das Conferências Anuais. Em julho de 1896, relatou-se que elas foram louvadas pelo auxílio real que prestaram na aquisição e construção dos templos e casas pastorais, e a elas foi recomendado "que continuassem nessa boa obra". E das Sociedades do Rio Grande do Sul, foi dito: "O trabalho por elas realizado é gigantesco - uma gloriosa manifestação do poder de Deus na fraqueza de suas servas". Alarga-se a visão Depressa as senhoras começaram a perceber que de sua Jerusalém deviam ir até Samaria - e da Samaria aos confins do mundo. Perceberam, também, que tanto os corpos e as mentes como as almas, precisavam ser redimidas para Jesus Cristo. Começaram a pensar em termos sociais, e como Jesus, compadeceram-se das multidões ao seu redor. Relembraram-se do lema de Wesley - "O mundo é a minha paróquia", e começaram a sair dos restritos limites das suas próprias paróquias no serviço do mundo ao seu redor. Viram criancinhas órfãs, abandonadas, mal-tratadas, sem instrução, e uniram os seus esforços para fundar lares onde pudessem ser abrigadas, instruídas, e orientadas na vida cristã, assim preparadas para ganhar a vida como cidadãs respeitáveis e úteis. Entre estes, o primeiro e maior, foi o Instituto Ana Gonzaga, em Inhoaíba, na Guanabara; o segundo, o Lar Metodista em Santa Maria, Rio Grande do Sul, fundado pelo Rev. Adolfo Ungaretti e esposa, Dona Luísa. Tornou-se ele a "menina dos olhos" das Sociedades no Rio Grande do Sul. Quanto ao primeiro, apesar de não ter sido fundado pelas Sociedades propriamente ditas, foi o fruto de duas eleitas do Senhor - Anna Gonzaga, brasileira, e Layona Glenn, - missionária americana e grande inspiradora e colaboradora das Sociedades de Senhoras. Ouviram o desespero dos índios Caiuás, vítimas de uma civilização que tudo lhes tirou e nada lhes deu. E inspiradas pela missionária Leila Epps, que, arriscando-se nas selvas, foi visitá-los em pessoa, muitas sociedades contribuíram para o sustento de um médico, o nobre jovem metodista Dr. Nelson de Araújo. Este, deixando as grandes
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    metrópoles onde podiase ter enriquecido, embrenhou-se na vida primitiva da mata para dedicar-se ao trabalho cristão entre estes, também nossos irmãos. Viram, também, criancinhas mal-nutridas, em farrapos, crescendo na ignorância e superstição, sem instrução que os preparasse para a vida - e ajudaram a criar o Instituto Central do Povo no Rio de Janeiro. Junto às suas igrejas, organizaram clínicas ou ambulatórios, fundaram classes de alfabetização e escolas paroquiais. Sustentaram lares para velhinhas desabrigadas ou sem família que as pudessem receber, como o Lar Ottília Chaves em Porto Alegre, que perpetua o nome dessa grande líder metodista. E fundaram estabelecimentos como a Casa de Assistência à Criança também em Porto Alegre, onde tratamento médico e dentário é oferecido num belíssimo edifício construído em terreno "metodista" pelo Lions Club (Centro) de Porto Alegre. Ajudaram a fundar colégios, como o Noroeste em Birigui, onde ensinaram as dedicadas professoras Áurea Gonçalves e Maria Orminda França - ambas de famílias metodistas pioneiras. Nalguns lugares, cientes de que moços dedicados aspiravam ao ministério, mas não podiam custear nem as despesas mínimas de estudo em Seminários, estabeleceram fundos para ajudá-los - tais como o Cofre Adelaide Vurlod, cujo nome honra a mulher gaúcha que primeiro o promoveu. Na pessoa de Eunice G. Weaver, a dinâmica mulher metodista brasileira de quem nossa igreja se orgulha com razão, ouviram o lamento dos leprosos do país, e em apelos ao público e aos governantes, conseguiu ela estabelecer pela nação mais de trinta lares ou Educandários que assistem aos filhos dos hansenianos, instruindo-os e preparando-os para o sustento próprio e a integração na sociedade. Alargando sua visão, conseguiu ganhar o interesse de todas as religiões, todas as classes, nessa magnífica obra que atinge até aos nossos territórios. E Eunice Weaver tem sido condecorada não só pelo governo do Brasil, mas por nove outros governos da América Latina e foi a única protestante a receber a célebre medalha católico-romana Damien. Além de tudo isso, representa esse ano o Brasil como conselheira na ONU. (1966-1967). Eunice Weaver foi o fruto dos nossos colégios metodistas, especialmente do Instituto União de Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Casou-se com um nobre missionário
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    metodista, Charles AndersonWeaver, que foi seu grande ajudante e inspirador. A voz da mulher metodista Desejosas de trabalharem ainda mais eficientemente, as metodistas bem cedo sentiram a necessidade de uma publicação que expressasse seus ideais para guiar, inspirar e uni-Ias em sentimento e trabalho cristão. Deixando os seus lares e afazeres, viajaram de longe - eram seis dias a vapor do Rio Grande do Sul a São Paulo - e, sob a inspiração de Leila Epps, aqui fundaram em 1930 a "Voz Missionária", que se tem tornado a revista evangélica de maior circulação no Brasil. Não descansaram comodistas, para deixar nas mãos da Imprensa ou alguma pessoa menos interessada, o crescimento da revista. Nomearam agentes que lideradas e incentivadas por Leila Epps e a entusiástica trabalhadora Zaida Guerra, saíram por todos os lados angariando assinantes, não só entre metodistas, mas entre amigas fora da igreja, e para os escritórios dos seus dentistas e médicos. Enviaram-na até às praias de Portugal, Madeira e Angola, onde quer que se fale a língua de Camões. Creio que nunca, em todo mundo, um grupo pequeno de senhoras trabalhou tão dedicadamente para colocar uma revista cristã nas mãos do seu povo. Toda a honra a agentes como Fafá Castagnino do Rio Grande do Sul, que vem mantendo há muitos anos mais de mil assinaturas, angariando-as de porta em porta; Helena Koeche, da mesma região segue seus passos com 630 assinaturas; Jenny Di Giácomo na terceira Região relata 830 assinantes; Amália Vettore da primeira, Judith de Oliveira da quarta e Davina de Sá na quinta, todas angariaram mais de 400 assinaturas cada! Nem podemos deixar de mencionar Neusa Canfield, que na Sexta Região, a caçula do metodismo, já angariou 350 assinantes em Curitiba! *** Que diremos de todos os outros trabalhos que as senhoras metodistas têm feito evangelizando, visitando os doentes em casa e nos hospitais, alegrando os alienados em suas instituições com doces, roupas, e cultos de hinos e oração; levando a mensagem de salvação aos encarcerados, procurando reabilitá-los para se tornarem cidadãos respeitáveis da sociedade?
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    O que diremosda sua dedicação em estudar a Bíblia e livros inspiradores nas suas reuniões, para se tornarem mais preparados no serviço cristão? Em ensinar nas escolas dominicais, em dirigir escolas bíblicas de férias? Quão difícil não seria a tarefa de qualquer pastor que não encontrasse nas senhoras da igreja, centenas de mãos direitas a lhe levantar os braços - qual Arão a levantar durante a batalha, os braços fraquejantes de Moisés! E como terminar este rol de obras santas, sem mencionar especialmente as esposas dos pastores que se têm esforçado, sacrificado e sofrido também, com suas longas ausências quando em viagens distritais ou missionárias, e com as difíceis mudanças de cidade a cidade? Datas a lembrar "O fim para que os homens inventaram os livros foi para conservar a memória das coisas passadas contra a tirania do tempo, e contra o esquecimento dos homens que é ainda a maior tirania". Assim escreveu Antônio Vieira no século 17, mas o que disse aplica-se bem aos nossos dias. Gostaria de relembrar a razão de algumas datas importantes para a mulher metodista. . 23 de abril de 1926 As Sociedades de Mulheres tinham se multiplicado, mas sem os conselhos e auxílios de que precisavam para realmente se tornarem forças dinâmicas no metodismo nacional. Sentia-se a falta de liderança de uma organização comum e unificadora. Foi então que a missionária Layona Glenn, já experimentada com tal trabalho nos Estados Unidos, começou a sugerir a criação de uma "Interconferencial". Três senhoras foram nomeadas para estudar o assunto; e depois de um ano de preparo, convocaram uma reunião de delegadas das três Conferências Anuais, para virem à Igreja Central de São Paulo em abril de 1926. Ali, sob a liderança de Miss Glenn, organizaram a primeira Sociedade Missionária Metodista. O então pastor da Igreja Central, o Rev. J. L. Kennedy, que sempre dava valor ao elemento feminino, foi o auxiliar e encorajador das senhoras, sendo por esse motivo batizado por elas com o título de "Patrono das Sociedades de Senhoras". Em 23 de abril de 1926, ele deu posse à primeira Diretoria da novel
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    organização que ficouassim constituída, e a quem devemos honrar. Presidente - Francisca de Carvalho, então uma jovem e dedicada professora de 29 anos, que serviu onze anos consecutivos como presidente; Vice Presidente - Lainha Fernandes; 2a Vice Presidente - Esther Faria; Secretária Correspondente - Evelina Perier; Secretária Registradora - Hilda de Araújo; Tesoureira - Irene de Souza. As Secretárias Distritais foram: Etelvina Becker - Juiz de Fora; Cândida Faria - Ribeirão Preto; Áurea de Campos Gonçalves - São Paulo; Sinhàzinha Duarte - Cataguases; Anna Kopal - Rio de Janeiro. Foi Anna Kopal convertida quando aluna no Colégio Fluminense, sob a influência de Layona Glenn. Consagrou-se ao magistério nas nossas escolas metodistas. Vítima depois do mal hanseniano, e recolhida a um hospital, tornou-se o exemplo amado e a inspiração de suas "colegas" e das freiras que ali serviam. 3 de setembro de 1930 Foi essa a data da fundação da revista "Voz Missionária", e as seis mulheres metodistas que participaram da reunião, foram: Pela 1ª região - Lydia W. Martins e Gláucia W. Duarte (eram irmãs e filhas do veterano Rev. Franck Wiedreheker e de sua esposa Dona Emília, verdadeiramente os baluartes do metodismo pioneiro). Pela 2a região - Eula Kennedy Long e Mercedes Seabra, ambas das quais serviram diversas vezes como presidentes e secretárias correspondentes das Sociedades no Rio Grande do Sul. Pela 3a região - Ottília de Oliveira Chaves (que durante os seus muitos anos de
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    serviço, tem sidopresidente da Sociedade Conferencial, presidente do Congresso Mundial de Senhoras Metodistas, delegada ao Concílio Internacional de Missões em Madras, índia; delegada e conselheira legislativa no Concílio Geral de 1965; membro da Comissão Histórica da Igreja Metodista) e Odete de Oliveira Barbieri, irmã de Dona Ottília, sempre líder esforçada nas igrejas onde trabalhava com seu marido - o pastor, hoje bispo da Região Platina, Rev. Sante Uberto Barbieri. Trabalho de Ação Social e visitadoras Nem toda a obra das metodistas foi feita por intermédio de suas Sociedades. As primeiras missionárias vindas dos Estados Unidos, impressionadas com a situação dos desprivilegiados, perceberam logo a urgência de fazer mais do que instruir e lecionar em colégios. Segundo Miss Glenn, o primeiro passo definitivo neste sentido se deu quando ainda existia a Escola do Alto - isso é, antes de 1895. Miss Mattie Jones, uma das professoras nessa Escola, essa que durante uma epidemia da febre amarela visitava de casa em casa levando tigelinhas de canja aos doentes, pediu licença à Junta Missionária de Senhoras para organizar um trabalho nas "estalagens" do Rio de Janeiro, termo que ela usava referindo-se aos becos e às favelas superlotadas da cidade. Concedida à licença, Miss Jones arranjou um harmônio portátil - não se diz como ou onde! - e com outras missionárias e o Rev. H.C. Tucker, começou a realizar cultos ao ar livre nas "estalagens". Escreveu Miss Glenn que "quase todos os moradores do lugar saíam das casas para escutar, e não poucos foram atraídos e convertidos". Em 1890, a Junta enviou ao Brasil, Miss Amélia Elerding para fazer esse trabalho no Rio; e seis anos mais tarde, Miss Willie Bowman. Reconheceram essas de imediato que seria necessária a colaboração de senhoras brasileiras se quisessem entrar nos lares; mas como então as brasileiras não costumavam sair muito de casa, a não ser acompanhadas do marido ou de empregadas, não foi fácil conseguir o objetivo. Todavia, aos poucos foram encontradas tais senhoras, destacando-se por ser a primeira da igreja Metodista a oferecer-se para essa obra, Dona Maria Gomes, do Rio de Janeiro. Com o passar do tempo, outras começaram a servir dessa maneira, D a Antônia Blanco no bairro junto ao Instituto Central do Povo, Rio; e Da Olympia Andrews, viúva do
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    pregador local, Rev.Lancey Andrews, pela Igreja Central de São Paulo. Foi inestimável o valor do que elas faziam, visitando nas casas, lendo e explicando a Bíblia, orando e mostrando concretamente a simpatia de corações verdadeiramente cristãos. Devido à premente necessidade de professoras nos colégios, Miss Bowman foi depois transferida para Ribeirão Preto, e Miss Elerding foi para São Paulo, onde fez uma boa obra no bairro dos italianos. Veio depois a missionária May Dye, que começou trabalhando no Instituto Central do Povo, no Rio, mas que abandonou esta obra por outra ainda mais abençoada e feliz para o Brasil. Casou-se com o missionário Claude L. Smith, de quem foi esposa e colaboradora dedicada, e o casal deu ao metodismo do Brasil três outros missionários: Rev. Wilbur K. Smith, ora, bispo da VI Região; Dorita, obreira no campo de alfabetização de Adultos; Gladys, casada com o Rev. João Nelson Betts. Também contribuíram generosamente para o trabalho de ação social de nossa igreja no Instituto Central do Povo as missionárias Leila Epps, Nancy Holt, Mary Bowden e Allie Cobb. Esta, mais tarde se casou com o Rev. Paul E. Buyers. Lamentavelmente esta forma de trabalho foi diminuindo com o tempo. A Junta nunca mais enviou missionárias destinadas especificamente para este fim. Diaconisas em cena Em recentes anos este trabalho social foi-se tornando mais intenso, tanto no governo como na igreja. O Instituto Metodista, em São. Paulo, foi criado para preparar moças cristãs em serviço social para ajudar a igreja nos seus centros rurais, para servirem como diretoras de educação religiosa e orientadoras de música sacra. No Centro Rural Bispo Dawsey, em Maringá, em Brasília e suas cidades satélites, e na Vila Noal, em Santa Maria (RS), as diaconisas têm feito um excelente trabalho. Entre essas, brilham os nomes de Anita Cordeiro, Ruth Prates, Anaildes Perreira e Maria Onofre. Autonomia, setembro de 1930 Com a autonomia da Igreja Metodista em 1930, a nomenclatura da igreja foi mudada e as Sociedades Missionárias tornaram-se SOCIEDADES METODISTAS DE SENHORAS, como hoje são chamadas. Até então as Sociedades haviam realizado uns trinta Congressos nas três Federações, ano a ano ampliando a esfera de suas atividades. Tinham o seu próprio distintivo que ostentavam com justificável orgulho; e no distintivo,
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    planejado pela incansávelLeila Epps, ficava gravado o lema sob qual dirigiam as suas atividades, VIVER PARA SERVIR. Esse lema foi usado pela primeira vez numa palestra feita num congresso no Rio Grande do Sul, pela então presidente Eula K. Long. Hoje, nas seis regiões eclesiásticas há quase 500 sociedades com cerca de 15.000 sócias, que levantam mais de cem mil cruzeiros novos por ano, empregados no glorioso serviço do Senhor. "FALA SENHOR, QUE OUVIMOS. Desejamos servir-te sempre com alegria, dedicação, e sabedoria. Que tua graça seja sobre nós, e que brilhe nas nossas atividades. Em nome de Jesus, nosso Mestre e Salvador". AMÉM.
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    CAPÍTULO 26 MEMÓRIAS DAIGREJA DO CATETE O Rev. Tilly e a pedra Poucos talvez se lembram do dia quando o nosso primeiro templo no Brasil tinha que proteger suas lindas vidraças coloridas com pesadas tiras de arame. Isso porque, desde sua construção, um dos prazeres dos moleques e fanáticos era atirar pedras contra as janelas, destroçando os seus vidros. Certa vez, quando ali pregava o Rev. E. A. Tilly, um moleque dos mais atrevidos atirou para dentro do templo uma pedra, que quase deu na cabeça do pregador. Acontece que o Rev. Tilly, na sua mocidade nos Estados Unidos, fora um bom jogador de beisebol. Sem uma palavra, o pastor ao ver a pedra chegar, pegou-a como se fosse uma bola de beisebol e atirou-a novamente à rua, continuando o sermão como se nada tivesse acontecido! O Catete e a Ilha da Madeira A veterana Miss Glenn gosta de contar outra história daqueles dias pioneiros. À entrada do portão do templo, a igreja tinha colocado um banco no qual quem quisesse, podia descansar. Certa tarde, ao chegar para uma reunião das senhoras, viu ali sentadas duas senhoras estranhas, vestidas de luto. Cumprimentou-as amigavelmente, entabulando conversa. Ficou sabendo, então, que elas haviam vindo da Ilha da Madeira para visitar um irmão muito doente, que veio a falecer. Com toda a cortesia e simpatia, convidou-as para assistirem à reunião, o que elas aceitaram. Naquela ocasião, Miss Glenn estava fazendo um estudo bíblico, usando por tema a história da mulher samaritana no poço. As visitantes gostaram tanto que começaram a assistir aos cultos e, em pouco tempo, entregaram-se a Jesus e fizeram sua profissão de fé.
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    Voltando, porém, àIlha da Madeira, não encontraram perto nenhuma Igreja Evangélica. À tardinha, conforme o uso da Ilha, as famílias se assentavam nos portais para conversar. As irmãs começaram a cantar os hinos que tanto lhes deliciava as almas. Em breve as vizinhas se aproximavam para escutar e as irmãs tinham a seu redor uma pequena congregação, a quem contavam as histórias da Bíblia. Muito depois, as irmãs souberam que um bispo metodista, o Bispo Hartzell, cujo campo incluía também a África, permaneceria ali alguns dias para pregar. Elas foram encontrar-se com ele a bordo; contaram-lhe que tinham um grupo de senhoras já conhecedoras do Evangelho e prontas a fazer a sua profissão de fé. Pediram-lhe que as recebesse e organizasse uma congregação. Isso ele fez com alegria. Foi assim que uma conversa amigável, feita por acaso, mas sempre com a preocupação de testemunhar a fé, levou o Evangelho desde as portas do Catete às praias da Ilha da Madeira! . O Divórcio e a Igreja do Catete, Rio. Um dos casos "célebres" da nossa Igreja deu-se em 1904, com o pastor do Catete, Rev. Jovelino M. de Camargo. Fora ele convidado para fazer o segundo casamento de um senhor divorciado, aliás, por motivos justos, da sua mulher ainda viva. As autoridades da Igreja, incluindo o Bispo, sendo consultados, foram de opinião que esse casamento não poderia ser feito, em vista das leis do país. Outro pastor de uma igreja que se chamava evangélica, mas que não era reconhecida pela Aliança Evangélica aceitou fazer a cerimônia religiosa sem a civil. Para o evento, o Rev. Jovelino emprestou a Igreja do Catete, o que levantou naturalmente, severas críticas à Igreja Metodista. Resultou o ato no julgamento e suspensão do ministro pelos seus pares na Conferência Anual.
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    CAPÍTULO 27 A IGREJAMETODISTA E BEBIDAS ALCOÓLICAS Do meu velho baú tiro um cartãozinho desbotado e ali leio: "Eu, Eula Lee Kennedy, comprometo-me com o auxílio de Deus, a nunca tomar bebidas alcoólicas, incluindo vinho, cerveja e licor de maçãs... ". Surge-me repentinamente, o rosto meigo de Martha Watts, a primeira missionária metodista no Brasil, fundadora do antigo Colégio Piracicabano, que me conduziu através dos seus conselhos a assinar o compromisso de abstinência total; e agradeço a Deus pelas convicções que bem cedo ela me implantou na mente e no coração. Todavia não foi ela a primeira a ensinar-me os males das bebidas alcoólicas, pois já dos meus pais recebia tais ensinamentos e deles o exemplo de uma vida abstinente. Como podia ser de outra maneira? Pois desde os seus primórdios na Inglaterra, o metodismo combateu o uso e a venda de bebidas alcoólicas. Dizem os historiadores Luccock e Hutchinson, que "o movimento em prol da temperança foi durante o século 19, a batalha que mais atraiu o interesse e entusiasmo das igrejas, a batalha na qual o metodismo prestou à pátria um dos seus melhores serviços. Numa época em que a sociedade estava praticamente imersa num banho de álcool; o testemunho metodista contra este mal colocou-o na vanguarda de seus dias". As regras gerais compiladas por João Wesley tinham um parágrafo muito forte contra a "embriaguez, a compra e venda de bebidas espirituosas, ou delas beber, exceto em casos de extrema necessidade". Apesar dessa regra, o sentimento nas igrejas vacila pró e contra, e foi somente na disciplina de 1848, que a Igreja Metodista resolveu enfrentar a batalha que até hoje tem travado.
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    Ao que sabemos,nunca Miss Watts organizou uma associação como a União Feminina de Temperança Cristã, da qual fazia parte nos Estados Unidos; mas, como o pioneiro Daniel Kidder, onde quer que fosse, falava contra o uso das bebidas alcoólicas, e se empenhava em conseguir compromissos de abstinência total. Outro grande batalhador e conferencista sobre o assunto foi o Rev. Walter G. Borchers, que demonstrava cientificamente em palestras, com experiências e a "lanterna mágica" daqueles tempos, os efeitos do álcool sobre o organismo humano. Atitudes da Igreja Metodista no Brasil Em agosto de 1925, a quinta sessão da Conferência Anual Brasileira assumiu uma atitude muito forte contra o fabrico e a venda de bebidas alcoólicas, recomendando aos pastores que não tolerassem como membros da Igreja os que fabricassem e vendessem tais bebidas. E aos crentes recomendou que "não se julgassem com direito de convidar os pastores a casamentos quando pretendessem usar bebidas alcoólicas na solenidade". Ainda hoje, nos Cânones adotados no Concílio Geral de 1965, a Igreja Metodista toma uma posição bem definida; contra as bebidas alcoólicas, declarando o seguinte: “Visando o bem estar individual e social, propugnamos, pois, pelo seguinte: 1. Combate tenaz e decidido aos vícios causados por tóxicos e narcóticos que envenenam o homem, e males que corrompem a sociedade; (a) ao alcoolismo que tira completamente o homem do raciocínio normal e avilta a sua personalidade... (e acrescenta) “ao tabagismo que se torna dia a dia um vício grandemente danificador... ao uso indevido de entorpecentes e narcóticos", etc. Não permita Deus que a nossa amada Igreja se relaxe em combater sem tréguas esses e outros vícios que tantas desgraças trazem à família e à comunidade ainda mais que o Brasil agora entrou na época da industrialização, de grande movimento em suas ruas e estradas de rodagem, e precisa exigir mentes e corpos livres dos efeitos danosos da intoxicação.
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    CAPÍTULO 28 A VOZDO EVANGELHO EM BRASÍLIA Estarão sempre ligados à história do nosso trabalho metodista em Brasília, os nomes do Bispo Isaías Sucasas e sua esposa, Jacira Correa Sucasas. O Bispo, dinâmico e de profundo espírito missionário, para ali já seguira conseguindo do governo terrenos para o nosso trabalho, tanto na própria Capital, como nas cidades satélites. Ajudado por um outro trabalhador, com suas próprias mãos, debaixo de um sol ardente, construiu ele a modesta casinha de madeira que usou para cultos e escola dominical e escola diária. Foi verdadeiramente um trabalho árduo e ingrato, igual àqueles dos pioneiros norte-americanos em suas florestas virgens. Historiadores competentes, nomeados pela Igreja, nos darão os pormenores sobre a origem e o presente trabalho que temos em Brasília. Julgo, porém, inspiradora, digna de inclusão e dívida para com as gerações de hoje e amanhã, contar também a história da visita ali feita pela sua dedicada esposa, Jacira, por ocasião da primeira missa em Brasília, no dia 4 de maio de 1957. Com vênia da Voz Missionária, no terceiro trimestre de 1957, deixo que ela mesma conte algo do que foi aquele dia histórico para o Brasil! “Parti do aeroporto de Congonhas, São Paulo, às 5h30m da manhã e depois de um vôo direto de cinco horas, descíamos em Brasília. Logo que aterrissamos pudemos ver também descer o avião que conduzia o Sr Cardeal D. Carmelo, tendo em suas mãos a imagem da Senhora Aparecida, imagem que foi proclamada pelo Sr Presidente da República, de madrinha de Brasília.” “Depois de longa espera, conseguimos um ônibus que nos levou ao local da concentração, distante do aeroporto 15 quilômetros. Todo este trajeto estava atravancado de jipes, automóveis, caminhões e pedestres. Umas cinco mil pessoas estavam no local
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    em plena campina,despido completamente, sob um sol causticante. Houve apenas uma pequena coberta, onde se abrigavam as altas autoridades.” A Missa Campal “Um altar tôsco, tendo à frente um grande cruzeiro de madeira preta, certamente braúna, estava armado para a celebração da missa. Ornamentando o altar viam-se flores silvestres colhidas nos campos e brejos de Brasília. Aliás, flores de rara beleza!” “De pé, perto do palanque, estava um côro de moças de um colégio de Belo Horizonte. Mais abaixo, um grupo de índios Carajás, convidados do Presidente, os quais, com suas indumentárias típicas, davam um aspecto alegre e pitoresco à cerimônia. Uma banda de música toca à destra do altar e um batalhão de soldados, em posição, de sentido, postava-se paralelo ao palanque. À frente do altar, uma multidão enorme assistia à cerimônia. Notamos que uns 50% dos ouvintes não davam atenção à missa, mas divertiam-se com o espetáculo. Terminada a missa, seguiu-se a comunhão geral. Um veemente apelo foi feito pelo Cardeal para que todos os fiéis recebessem a hóstia. A indiferença continuou e poucos foram os que subiram ao tablado para terem este privilégio.” “Logo em seguida, o Cardeal proferiu um lindo sermão, todo ele vasado na Palavra de Deus. Terminado este, falou o Presidente Juscelino Kubitschek. Declarou que colocava Brasília, sob patrocínio de Nossa Senhora Aparecida. Em virtude do que vi e observei, cheguei à conclusão de que é mister, hoje mais do que nunca, que todos os cristãos, de todas as denominações evangélicas, se unam no mesmo espírito cívico e cristão, para um testemunho de fé e de trabalho que conduza o nosso povo ao conhecimento da verdade que pode libertá-lo da idolatria e do erro e levar o Brasil aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, esperança do mundo.” Distribuição da Voz Missionária “COM O CORAÇÃO opresso e entristecido resolvi que era hora de cumprir o meu dever de mensageira. Orei ao Senhor; pedi-lhe que me desse coragem, pois estava absolutamente sozinha. Um rapaz, companheiro de viagem, aceitou o meu pedido para ajudar-me. Assim, enquanto ele ficou em baixo, com o material que levei, eu subi até às autoridades presentes e lhes ofereci a nossa mensagem. Não sei como foi aceita, mas sei
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    que lá ficaram,inclusive um exemplar nas mãos do Sr. Cardeal. Qual não foi minha surpresa, quando desci e fui rodeada de centenas de pessoas que queriam a Voz Missionária e a nossa mensagem! Comecei a ouvir comentários. Recebi muitos abraços, mas não sei de quem foram. Homens que se diziam diretores de colégios queriam mais cópias para levar a seus educandários. O fato é que em poucos segundos havia se esgotado o meu estoque. Se eu tivesse naquele momento um milhar de cópias eu as teria distribuído com facilidade, tal foi a aceitação que houve.” “ALEGRE E AGRADECIDA a nosso Pai Celeste, por este privilégio, cumpriame satisfazer agora o meu segundo desejo: encontrar o meu esposo.” A procura do marido! “Parti em demanda do Hotel Brasília, primeiro hotel no núcleo bandeirante, a 60 quilômetros além do local da missa. Para meu desapontamento, lá chegando, soube que fazia três dias ele havia se mudado. Sem ter orientação segura, indagando daqui e dali, pedindo carona a uns e outros, sob um sol abrasador, depois de mais de duas horas pude afinal localizar o terreno da Igreja Metodista. Amassando mato, passando por diversas cercas de arame, consegui entrar no terreno, onde se ergue um barraco de madeira, de três metros de frente por dois e oitenta de fundo.” Bati, mas ninguém respondeu. Forcei a porta e pude reconhecer a roupa de meu esposo certificando-me ser ali sua residência. Meu coração batia de temor, pois sozinha ali naquele deserto, achei que teria de voltar a São Paulo sem falar com meu esposo. Fui até o fundo do barraco, com os olhos marejados de lágrimas, orando mentalmente o Salmo 91. Ali, sem ninguém, isolada, só mesmo o Senhor poderia me orientar. Assim mesmo bati duas fotografias do local, deixei umas linhas debaixo da porta e saí para o aeroporto. Ainda não havia dado trinta passos, quando vejo surgir à minha frente o meu esposo. Ele vinha chegando com uma valise sob o braço, de volta de um trabalho evangelizante. Ao me ver quase caiu de susto, pois nunca poderia imaginar-me em Brasília. Abraçamo-nos e juntos choramos num misto de alegria e saudade. Voltei com ele ao barraco e foi nesta hora que tive a oportunidade de ver como
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    ele está instalandoo nosso trabalho em Brasília. Achei meu esposo queimadíssimo do sol, dormindo em uma tarimba feita por ele mesmo, com uma lamparina de querosene no chão, um baldezinho para água e uma caneca de alumínio. Sobre a tarimba um duríssimo colchão de capim e um paupérrimo cobertor. Tudo do mais rude aspecto, porém vi que meu esposo estava alegre e sentia-se feliz. Senti-me bem naquele ambiente rústico, despido de qualquer conforto, mas atapetado da graça de Jesus.” “Aos pés da tôsca tarimba, nós dois nos ajoelhamos e juntos agradecemos a Deus pelo privilégio que nos dera; ali também oramos por todos os irmãos de nossa amada Igreja.” “Saímos logo em seguida, para ver a área do terreno, que é de cinco mil metros quadrados, já toda cercada com arame farpado. Sobre ela a Igreja assumiu compromisso de colocar uma escola. Esta casa já poderia estar pronta e a nossa escola funcionando, não fosse a burocracia do nosso regime. Ali exigem que a planta seja feita no escritório da Novacap, que, por estar superlotado de compromissos, amarra o progresso do lugar.” “A visita foi agradável, mas aproximava-se a hora de minha partida... Rumamos para o Aeroporto!"
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    CAPÍTULO 29 UMUARAMA -O QUÊ DO SONHO DOURADO? “Lugar onde os amigos se encontram" - é esse o significado da palavra, emprestada dos nossos índios. Foi o sonho dourado daqueles que tinham nos corações o ideal de um lugar de beleza, paz e serenidade, em que pudessem realizar retiros espirituais e congressos, e construir uma colônia de férias num ambiente sadio e cristão. A história começa em princípios do século XX quando o Rev. Kennedy chegou a conhecer e fazer amizade com um engenheiro escocês, Dr. Robert Reid, que se estabelecera perto de Pindamonhangaba, na zona de Campos do Jordão. A amizade se firmou, encontrando-se eles freqüentemente, quando o Rev. Kennedy passava por ali em viagens evangelísticas. Depois, Kennedy saiu daqueles arredores para pastorear outros campos. Quando, porém, foi nomeado pastor em Pindamonhangaba, cerca de 1924, os dois renovaram seus encontros. O missionário sempre desejara encontrar um vasto terreno no qual as igrejas evangélicas pudessem, unidas, estabelecer seus retiros e acampamentos. Falando certa vez sobre isso ao Dr. Reid, este prometeu ajudá-lo a realizar o sonho - doaria 50 alqueires para tal fim se os evangélicos comprassem outros 50 alqueires adjacentes a preço reduzido. O Rev. Kennedy convidou ao Rev. Benjamim Hunnicutt, da Igreja Presbiteriana, e ao Sr. Henry H. Lichwardt, da Associação Cristã de Moços (sempre interessada em tais acampamentos), para virem à propriedade. Foi em 31 de dezembro de 1925, que, acompanhados pelo Dr. Reid, os três subiram no bondezinho que os levava de Pindamonhangaba até Campos do Jordão; e de lá a cavalo, foram inspecionar as terras. Entusiasmados com o local, os três se reuniram na noite seguinte, e à luz de uma vela (pois a força elétrica falhara) fizeram os planos e assinou os papéis necessários à formação da "Associação Umuarama". Dela fizeram parte diversas igrejas evangélicas, o
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    Instituto Mackenzie, aAssociação Cristã de Moços, a Junta Missionária de Senhoras, e outros grupos. A cada grupo foi doada uma área para a construção de seus acampamentos ou colônias; e ao redor do belo lago, foram vendidos lotes que visavam à sua transformação em local verdadeiramente vistoso e bonito. Infelizmente, porém, o Hotel foi à única concretização do sonho dourado. Esse, depois de uma excelente administração, foi fechado pelo descuido da administração seguinte. O primeiro entusiasmo dos grupos da Associação esmoreceu. A falta de propaganda suficiente para dar ao público crente uma melhor idéia do que seria Umuarama, a falta de recursos para seu desenvolvimento e expansão - tudo isto evitou a sua concretização. E tudo isto apesar dos ingentes esforços do seu primeiro e dinâmico superintendente, Dr. Benjamim Hunnicutt, que auxiliado pelos Revs. W. B. Lee, A. Wadell, S. R. Gammon, e J. L. Kennedy, trabalhou com o maior entusiasmo e devoção para promover Umuarama. Outro que deve ser mencionado, pois teve grande parte no desenvolvimento de Umuarama, foi o Dr. Alexandre Orecchia, engenheiro que planejou as ruas e picadas, e o abastecimento de água. O Hotel encontra-se atualmente arrendado a terceiros. Oxalá surja o dia em que os evangélicos, num sublime esforço de cooperação, novamente assumam a responsabilidade de fazer ressurgir o sonho de Umuarama, transformando-o em lugar onde os amigos se encontrem, um "verdadeiro pedacinho do céu", como um entusiasta o descreveu há anos!
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    CAPÍTULO 30 RETALHOS, RECORTES,E RETRATOS Chegando agora ao fundo do meu velho baú, com suas estórias dentro da história, encontro nesse e naquele canto, uns retalhinhos preciosos - retratos desbotados pejos anos, cartas íntimas, recortes de jornais velhos da nossa Igreja. Com estes retalhinhos quero fazer um quadro como o faz a arte moderna, que numa só tela coloca de tudo um pouco. Apesar de não fazerem parte da história principal, e de não terem grande significação, todavia, há prazer em recordar estes detalhes soltos que talvez ainda sirvam para preencher alguma vaga num futuro histórico mais completo. Quanta falta não tenho eu sentido de alguns detalhes assim que, na hora, os relatores das conferências e dos eventos, não julgaram dignos de registrar! Vamos ver... Pego logo um retrato já desbotado de um lindo grupo de crianças ao ar livre. Na frente, sentadas, estão as meninas Frances e Louise Tarboux, Eula e Ruth Kennedy, Mary e Lucy Lee duas ou três das Landers, mais outras cujos nomes não recordo. Quem foi? Ah...! Jóias de Cristo! Lembro-me ainda do dia quando se organizou essa sociedade para crianças com menos de treze anos. Foi no dia 9 de junho de 1900, numa tarde bonita que Dona Mamie Fonville Lee, esposa do Rev. W. B. Lee ajuntou umas 23 crianças e com elas organizou a primeira Sociedade Metodista de Crianças no Brasil. Deu-se o evento no Colégio Mineiro em Juiz de Fora, sob os auspícios da Sociedade de Senhoras da Igreja naquele local. Na Conferência Anual que se reuniu em julho do mesmo ano, Dona Mamie foi nomeada Superintendente das Sociedades de Crianças, e fez um bom trabalho organizando-as em diversos pontos. A segunda Sociedade Jóias de Cristo foi a de
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    Petrópolis, também em1900. A Conferência Anual de 1902, todavia, adotou a seguinte resolução: "Atendendo a que na nossa Igreja não existe uma previsão para a Sociedade Jóias de Cristo, recomendamos que essa Sociedade seja conhecida como a "Liga Epworth Infantil... etc...etc. "e que o dinheiro levantado por esta Sociedade seja aplicado às Missões Domésticas"... Segue o comentário: "É digno de nota que durante este ano as Sociedades "Jóias de Cristo" contribuíram para Missões Domésticas com 1:600$000", boa soma naqueles dias de vinténs e tostões! Em 1930, após a autonomia das igrejas, as sociedades foram reestruturadas sob o nome de Sociedades Metodistas de Crianças. Revistas Juvenis Conforme registrou o historiador Kennedy, em janeiro de 1900, ele fundou "O Juvenil", pequena revista para crianças metodistas. O Rev. Ransom, já publicara em 1886, "Nossa Gente Pequena", uma só folha que trazia as lições da Escola Dominical e era inserida no "Metodista Católico", precursor do “Expositor Cristão". O Juvenil desapareceu quando a missionária Leila Epps foi designada pela Junta Missionária dos Estados Unidos para ajudar com a literatura para senhoras e crianças metodistas, substituiu-o pelo "Bem-Te-Vi". Essa revista, com suas histórias, jogos e artigos adaptados às crianças, teve grande aceitação. Hoje, sob o mesmo nome, foi adaptado ao novo currículo das Escolas Dominicais metodistas. Liga Epworth Já desde os dias pioneiros, existiam na Igreja Metodista Americana algumas sociedades para jovens, mas faItavam-Ihes uma organização capaz de dirigir seu programa e unificar a sua ação. Em maio de 1889, fundaram-se com esse fim, as sociedades "Ligas Epworth", as quais contavam com departamentos literário, missionário, devocional, e social; e serviram elas de modelo a tais grupos em outros países. O nome "Epworth", foi em honra à pequena cidade da Inglaterra que foi o berço do movimento metodista, escrevem os historiadores Luccock e Hutchinson. A primeira “Liga Epworth” no Brasil foi organizada em Juiz de Fora pelo Rev. J. M. Lander.
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    Noroeste de SãoPaulo A primeira viagem metodista a essa zona foi empreendida pelo Rev. Kennedy, em 1915, quando ainda era uma zona agreste, com o fim de colher informações sobre a abertura de trabalho metodista. Voltou entusiasmado, achando-o cheio de promessa para o futuro. A essa visita, seguiu-se a implantação do nosso trabalho metodista naquela grande região do Estado de São Paulo. Surdos-mudos Os dois primeiros surdos-mudos convertidos ao Evangelho foram convertidos sob a pregação do Rev. Charles A. Long e a liderança do Dr. Silvado Júnior, no Instituto Central do Povo, Rio de Janeiro. Cobrança de tributos para cultos metodistas No EXPOSITOR CRISTÃO de 3 de novembro de 1894, escreveu o Rev. Manuel Camargo, então pastor das igrejas de Taubaté e São José dos Campos, que a Câmara Municipal deste último lugar, estava exigindo que os ministros metodistas pagassem impostos por pregarem a Palavra de Deus! O Rev. Camargo enviou ao Dr. Bernardino de Campos, m.d. presidente do Estado de São Paulo, um ofício no qual declarou: "Venho pedir-vos que, usando das atribuições que vos confere a nossa Constituição, anuleis a dita postura... A tal ponto chega a arbitrariedade e a exação dos agentes do executivo municipal de São José dos Campos, que perseguem o encarregado da congregação daquela cidade, não lhes permitindo celebrar o culto nem mesmo em casa particular...” “Da vossa parte, aguardo a providência que está na alçada das vossas atribuições e do Congresso Estadual, a decisão final que ou me obrigará a pagar, ou me eximirá do imposto sobre o culto religioso, taxado pela Câmara Municipal de São José dos Campos". Taubaté, 24 de outubro de 1894 (grifos meus). Dobres a defunto em Itu Era antigamente costume em Itu badalar os sinos de todas as igrejas quando alguém lá morresse - o preço a combinar, conforme a cara do freguês. Em 1894, porém, a
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    Câmara Municipal deItu proibiu que os sinos assim chorassem os mortos, considerando que o barulho ecoando das 18 Tôrres de suas igrejas, tornava-se coisa incômoda, capaz de produzir ruptura nos tímpanos dos ouvintes, especialmente dos doentes. Foi imposta a multa de 30$000 (uns dez dólares naqueles tempos) sobre quem infringisse a lei. Todavia, os padres não quiseram se conformar, pois com essa lei perderiam "uma cobiçada parcela de dinheiro". O vigário então autorizou o seu sacristão ajudante a ribombar os sinos, responsabilizando-se pelo que viesse a acontecer. A Câmara, leal à sua palavra, multou o vigário em 30$000; e pelo advogado, Dr. Ozório de Souza, moveu ação contra os dois. O Juiz condenou-os não só a pagar a multa, mas a curtir oito dias na cadeia pagando, outrossim, as custas do processo. (Noticiário do EXPOSITOR CRISTÃO, em 8-12-94). Primeiro legado à Igreja Metodista A Conferência Anual, reunida em Piracicaba em julho de 1893, relatou que a irmã Dona Antônia Bueno de Camargo, tinha legado à Igreja Metodista, a vultosa importância de vinte contos em apólices da dívida pública. Foi esse o primeiro legado feito à nossa Igreja. O dinheiro foi empregado na compra da primeira propriedade imobiliária que a Igreja possuiu em São Paulo. . Eram dois prédios geminados, números 12 e 14, no Largo do Arouche. O prédio nº 12 foi adaptado para cultos, e no nº 14 servia para residência pastoral e hospedagem de ministros em trânsito. Primeiro trabalho metodista em São Paulo A primeira pregação metodista nessa metrópole foi em outubro de 1883, quando o Rev. Ransom falou num prédio no então Largo do Mercadinho (hoje do Tesouro), atravessado pela Rua Imperatriz (hoje 15 de Novembro). A pregação foi feita "na antiga Casa Bamberg, um dos pontos mais centrais e acessíveis em toda a cidade". Todavia, a primeira Igreja foi ali organizada pelo Rev. J. W. Koger em 1º de fevereiro de 1884, com quatro membros: Bernardo de Miranda, que depois de sua conversão sob a pregação do Rev. Tarboux foi o primeiro brasileiro a dar sua vida ao ministério; Frank Bellinger, inglês; Giovanni Bernini e sua esposa, Dona Clementina, italianos.
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    Já desde osseus primórdios, o metodismo era ecumênico e internacional! Lampadário na Central Diz-se que o magnífico lampadário da Igreja Central em São Paulo - cuja construção se fez durante o pastorado do Rev. Dickie - foi o segundo existente na cidade. Foi doado pelo grande benemérito dessa igreja, Dr. Henrique Lindemberg. . Saúde de aspirantes Pela Conferência Anual de Julho de 1908, foi adotada a seguinte resolução: "Resolvido – Ninguém será admitido em experiência à Conferência Anual, sem atestado de uma constituição sã". Ignoramos o que ocasionou tal resolução. Mas quanto se tinham mudado as opiniões dos nossos líderes daqueles dias em 1825, quando a Junta Missionária nos Estados Unidos, enviara à Libéria, na África, o seu primeiro missionário - Melville Cox, consagradíssimo servo, mas que lá indo, já tuberculoso, morreu dentro de quatro meses; deixando como sua última mensagem: "Que morram mil antes de abandonarmos a África!" Campanha na terra gaúcha No ano de 1921, foi levada a efeito uma grande campanha de avivamento, liderada pelo saudoso Bispo John M. Moore. Essa campanha se realizou pelo trabalho "competitivo" de dois "times", tendo cada um à testa um evangelista, um instrutor bíblico, um colportor, e um diretor de música. Trouxe grandes resultados - pois no ano seguinte, foi relatado um aumento total de 500 novos membros e um número de candidatos superior a mil. Mena Barreto, grande batalhador evangélico Em 1923, em Itaqui, no Rio Grande do Sul, o Rev. Eduardo Mena Barreto Jaime procurava levantar um templo, ao passo que elementos católicos fanáticos, tudo faziam para obstar a entrada do metodismo naquela cidade. Ele começou as pregações num teatro alugado, no qual a última reunião de cultos tornou-se em sessão agitada, até tumultuosa!"
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    Música nos nossoscolégios Desde a fundação do "Piracicabano", o Rev. Ransom insistia com a Junta Missionária de Senhoras que enviasse uma professora de piano e canto, pois a música era um sine qua non no curso das mocinhas brasileiras. Mas as líderes nos Estados Unidos não reconheciam a importância de tal curso, julgando-o um luxo. Responderam: "Apesar dos pedidos urgentes dos Revs. Ransom e Kennedy, nós não concordamos em que seja necessário enviar professoras de música ao Brasil.” Reconhecendo essa necessidade, a irmã viúva do Rev. Kennedy, Fannie K. Brown, ofereceu-se para vir. A resposta da Junta foi: "Se quiserdes formar-te em medicina, nós te enviaremos à China como missionária". Isso lhe era impossível, dada a sua idade e o custo proibitivo de fazer esse curso. Assim foi que quando o Rev. Kennedy foi nomeado para abrir um colégio em Taubaté, escreveu à irmã, oferecendo-se para pagar-lhe a viagem, se ela viesse para ensinar música ali. Ela acedeu ao convite; e outra irmã, Mary, também veio para lecionar pintura. Foram esses cursos grandes atrativos na matrícula do Colégio em Taubaté. Depois, porém, da Conferência mandar fechar o Colégio, Miss Watts convidou a Sra. Brown que viesse para "O Piracicabano", prometendo compartilhar o seu salário, porque nada mais tinha com que lhe pagar. Fannie Brown aceitou o convite; dirigiu com sucesso extraordinário um departamento de música; regeu um côro para a Igreja no qual, atraídos pela música, cantavam alguns dos seus alunos católicos. Um dos seus alunos foi o Prof. Fábio Lozano, que se tornou Diretor de Música nas escolas públicas de São Paulo. Com o tempo, a Junta mudou sua atitude quanto ao lugar da música nos nossos colégios, e convidou a senhora Brown para ser umas das suas missionárias efetivas! Nascem outras Conferências Na sessão da Conferência Anual Brasileira – a primeira organizada no nosso país - realizada em agosto de 1918, em Juiz de Fora, ficou determinada a sua divisão doravante em duas - a original Conferência Anual e a Conferência Central. A primeira era composta dos antigos distritos do Rio, Carangola e Belo Horizonte; a segunda, dos antigos distritos de São Paulo, Ribeirão Preto e Piracicaba. Já em agosto de 1910, o Rio Grande do Sul, que fora primeiro um Distrito da
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    Conferência Anual edepois uma Missão, foi organizado em Conferência Anual SulBrasileira, pelo Revmo. Bispo Walter J. Lambuth. É hoje a Segunda Região. Hoje temos mais três Concílios num total de seis regiões e desde 1965, seis bispos que as administram. Contando em ordem os nossos Bispos, desde a autonomia, são eles: John W. Tarboux - eleito em. 4 de setembro de 1930. César Dacorso Filho - 13 de janeiro de 1934. Isaías Sucasas - em 9 de fevereiro de 1946. Cyrus B. Dawsey - em 9 de fevereiro de 1946. José Pedro Pinheiro e João Augusto do Amaral - ambos eleitos em 19 de junho de 1955. Almir dos Santos, Nathanael do Nascimento, Oswaldo Dias da Silva e Wilbur K. Smith - esses quatro eleitos em 18 de julho de 1965. Direitos das mulheres Foi em 1918, na Conferência Anual presidida pelo Revmo. Bispo John M. Moore que foi aprovada a nova lei dando às mulheres o direito de exercerem na Igreja, os mesmos direitos de leigos, que até então somente os homens gozavam. *** Sobre o Bispo Moore, escreveu Kennedy no seu histórico, que ele era "tipo do homem eloqüente, erudito e observador, e bem podia ser chamado o Bispo do Centenário". Referia-se ele ao movimento comemorativo do centenário nos Estados Unidos, que foi um "movimento que representou um esforço supremo e heróico, senão o maior da Igreja Metodista, feito a favor da evangelização dos povos da terra. Com ele esse grande movimento veio ao Brasil - um movimento gigantesco eminentemente evangélico e liberal. Não é possível precisar a soma que nesse ano foi despendida especialmente no Rio Grande do Sul". Hinos “para os metodistas" Não há historiador sobre o metodismo que não frise a grande importância e influência da música no seu espírito, tendo essa característica começado com Charles Wesley, irmão do fundador do metodismo.
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    Os primeiros missionáriosa chegarem ao Brasil, já sentiam a falta em português de hinos e cantos evangélicos fervorosos - os "gospel hymns" com que foram criados. Em carta íntima à sua família, o Rev. Kennedy escreveu certa vez: "O que muito precisamos aqui são uns hinos metodistas. Oxalá tivéssemos um Charles Wesley para escrever em português!" Em 1894, a Conferência Anual nomeou uma comissão para organizar um livro de cantos para uso das nossas igrejas, devendo esse ser publicado com as músicas apropriadas. A comissão era composta do Dr. Carlos G. S. Shalders (que durante anos foi organista nas igrejas Central e Anglicana em São Paulo) e os Revs. Manuel de Camargo, J. W. Tarboux, e Miguel Dickie. Essa Comissão pediu no EXPOSITOR CRISTÃO de 3 de novembro de 1894, a "coadjuvação de todos os crentes evangélicos em enviar composições originais ou traduções dos muitos hinos sublimes que temos em inglês, bem como donativos de dinheiro para auxiliar nas despesas de publicação". Os anos passaram. . . Nada saiu. . . Em 1916, foram nomeados os Revs Miguel Dickie (quem não se lembra da sua voz sublime?) e Hipólito de Campos, para representar a Conferência Anual Brasileira numa comissão interdenominacional cujo fim era organizar um hinário comum aos evangélicos. Esse trabalho prosseguiu muito lentamente durante os anos. Afinal, Dona Júlia Dickie, esposa do Rev. Dickie, regente do côro na Igreja Central, alma sempre interessada em música, desanimada em esperar um novo hinário, publicou o "Aleluias", investindo nele muito dos seus próprios recursos. Muitas igrejas aceitaram-no. Todavia, com o aparecimento de um hinário evangélico interdenominacional, esse substituiu-o. Muitos crentes, porém, ainda hoje sentem saudades do velho hinário "Aleluias". Batatas metodistas Francisca Betts, dedicada esposa do Rev. Betts, saudosa das doces e suculentas batatas-amarelas de sua terra natal, quando voltava de suas primeiras férias em setembro de 1925, trouxe três dessas batatas para servir de sementes. Mas chegando ao Brasil o casal foi nomeado para o Instituto Central do Povo no Rio de Janeiro, em vez
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    de Passo Fundo,onde havia bastante terreno em que plantá-las. Guardou então as batatas no seu quarto. Num belo dia, o filhinho Billy, então com seus dois anos, descobriu as batatas, e brincando, atirou-as da janela do segundo andar da residência pastoral. Uma só escapou. Dona Francisca, quando as achou, cozinhou as duas machucadas e plantou a terceira no íngreme morro atrás do Instituto. Mas ao passo que as batatas nasciam, as ramas se espalhavam, e os bodes do morro se deliciavam comendo-as. Em dezembro, quando foram novamente nomeados para Passo Fundo, Dona Francisca subiu o morro, cavou até encontrar umas três ou quatro batatinhas que na última hora, meteu na bolsa. Chegados a Passo Fundo, ela plantou-as num vaso de flores. Duas morreram e da única resultante, foi criando mudas, dando-as a pessoas interessadas, pois todos que as comiam achavam-nas deliciosas. Hoje a Dona Francisca as encontra à venda nos mercados do Rio Grande do Sul. Quando as primeiras apareceram, foram logo batizadas com o nome de "batatas metodistas". Rev. Guaracy Silveira Seria preciso um capítulo inteiro para falar detalhadamente sobre esse veterano do metodismo batalhador pela autonomia. Todavia, aqui o registramos como o primeiro delegado metodista à Constituinte Federal de 1946 e autor de vários volumes importantes para a Igreja. Antônio de Campos Gonçalves Também trabalhador pela autonomia da Igreja, é conhecido como uma das melhores autoridades sobre a língua portuguesa. Escreveu diversos hinos, serviu na Comissão Interdenominacional para revisar o Hinário e colaborou na solução de todos os problemas filológicos que surgiram na Comissão de Revisão da Bíblia. Frederico Hoehne Não seria completa uma história do metodismo sem mencionar um dos seus grandes e ativos pioneiros - Frederico Hoehne, filho dos primeiros membros da Igreja Metodista em Juiz de Fora. Criado assim, num lar cristão e operoso, ele estudou
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    assiduamente, tornando-se umdos maiores botânicos do Brasil, sua maior autoridade em orquídeas, e autor de vários livros sobre a flora do país. Nunca, porém, abandonou o seu zelo pela Palavra de Deus. Lia e estudava as Escrituras, estudava o grego e hebraico para melhor entendê-las e durante uns 20 anos, foi professor da maior classe bíblica de homens na Igreja Central de São Paulo. Nossos primeiros missionários brasileiros - quem foram? No "Expositor Cristão" de 3 de novembro de 1894, lê-se, sob o título "Missões Domésticas", um editorial chamando a atenção das congregações para "não negligenciarem de levantar as ofertas em favor de Felipe de Carvalho, nosso missionário, para ele não sentir-se embaraçado nos seus movimentos e desanimado no seu trabalho". O Rev. Felipe acabara de organizar em Cataguases numa das tais viagens missionárias, uma igreja com 8 membros, e mais 20 pessoas pedindo admissão à Igreja. Na Conferência em 1902, em Juiz de Fora, foi "resolvido que o irmão, Rev. Hipólito de Campos seja o nosso missionário, e que as Ligas Epworth se interessassem especialmente no seu sustento". Visitou igrejas espalhadas pelo Brasil, as suas pregações sempre despertando enorme interesse, pois um ex-padre era sempre curiosidade! Foi só depois de sua aposentadoria em 1926, que a Igreja o enviou a Portugal, a terra-mãe, para ali dirigir uma campanha evangelística. Na sua viagem, pregou em Paris e na Ilha da Madeira. Para essa Ilha, tinham ido como missionários nossos o casal Rev. Antônio Rolim e esposa Suzelita, que ali permaneceram alguns anos. Esse foi sempre um campo muito duro. Outros que certamente podemos incluir na lista de missionários foram - Dr. Nelson de Araújo, que trabalhou e sofreu com seu trabalho médico entre os índios Caiuás; Rev. Benedito Natal Quintanilha e Dorival Rodrigues Beulke, respectivamente em Salvador e Recife; Geraldo Esteves, que trabalhou entre os índios Caingangues; e o mais novo de todos, Vicente Aparecido Borges, que evangeliza agora em Aracaju, Sergipe.
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    Romances felizes Por quenão incluir alguns dos romances felizes nos quais duas almas dedicadas ao Senhor, entrosaram seus interesses e corações?! Deveras, o campo missionário tem sido fértil em arranjar casamentos felizes! Antigamente, muitos dos missionários que para aqui vinham eram solteiros - assim como as missionárias - e era a coisa mais natural que procurassem e encontrassem companheiros entre os que tinham os mesmos interesses espirituais. O primeiro romance foi em 1879, o do Rev. J.J. Ransom, o primeiro missionário enviado pela Junta de Missões para trabalhar entre os brasileiros. Aqui encontrou-se com Annie, a jovem e culta filha do Rev. J. E. Newman, que dirigia com sua irmã Mary, um colégio em Piracicaba. "Roubou-a"! Infelizmente Annie faleceu dentro de seis meses. Seguiram-se outros que não posso dar em ordem cronológica: H.C. Tucker, casou-se com Ella (Elvira) Granbery, filha do Bispo que organizou a primeira Conferência Metodista no Brasil. Rev. J. W. Wolling, casou-se com uma senhorinha da colônia americana. Edmund A. Tilly, casou-se com Ella Porter, filha de um negociante americano que representava importante firma de café em Santos, que "sempre recebia cordialmente os pastores em sua casa, proporcionando-Ihes uma boa sala para os cultos públicos no centro da cidade" (Kennedy, pág. 55). James M. Terrell casou-se com Miss May Umberger, quando ela era diretora do Colégio Americano em Petrópolis. Waller G. Borcher casou-se com Elizabeth Davis. Claude L. Smith casou-se com May Dye J.W. Daniel encontrou-se com Maggie Lee Kennedy que trabalhava na Igreja Institucional de Porto Alegre e casou-se com ela. Daniel Betts, em viagem para o Brasil conheceu a bordo a missionária Frances Scott. Foi caso de amor à primeira vista; casaram-se uns dois anos depois, após lutar com a Junta de Senhoras que quis obrigá-la a pagar a sua passagem ao Brasil.
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    Miguel Diekie emsegundas núpcias com Julia Coaehman, descendente de americanos vindos ao Brasil após a guerra civil nos Estados Unidos - mas não da colônia em Santa Bárbara. Frank M. Long, que viera para trabalhar no Granbery, com Eula Kennedy, filha do veterano missionário, a quem ficara conhecendo a bordo do vapor quando ele viajava ao Brasil pela primeira vez. J. Earl Moreland, dinâmico diretor do IPA em Porto Alegre com Helen Hardy professora no Colégio Americano, numa daquelas frias noites gaúchas, após uma visita à noiva, não apagou completamente as brasas na lareira (que não era muito bem feita), do que quase resultou um incêndio no Colégio. John R. Saunders, o fundador do "Porto Alegre College", hoje IPA, casou-se com Sara Stoukm outra missionária do Colégio Americano. J. L. Kennedy, em segundas núpcias, com Daisy Pyles, oriunda da colônia americana antes de se casar, missionária em Colégios Metodistas. C. Anderson Weaver, em segundas núpcias, com Eunice Gabbi, com quem na sua aposentadoria muito colaborou no trabalho pelas crianças filhas de hansenianos. Surge agora a segunda geração de missionários, filhos dos pioneiros; e dentre esses, lembramo-nos de: Rev. João Nelson Betts, que se casou com Gladys Smith; Wilbur Smith, hoje Bispo, casou-se com Grace Buyers; William Richard Schisler Filho casou-se com Edith Hume Long, neta do Rev. J. L. Kennedy e filha do Sr. Frank M. Long, tornando-se assim a primeira missionária da terceira geração metodista no Brasil. Casal Jalmar e Eula Bowden Modestamente, sem alarde ou ostentação, esse casal muito fez pelo Brasil. Ele, pela magnífica obra que realizou atualizando a Biblioteca da Faculdade de Teologia em Rudge Ramos, São Paulo. Ela, pela sua dedicação ao trabalho das senhoras, mas especialmente por ter sido uma verdadeira mãe para os seminaristas longe do lar. Em sinal de apreço, o seu nome foi dado a uma Rua de São Bernardo do Campo, São Paulo, e à capela da Faculdade de Teologia. Ainda mais o casal contribuiu com uma filha,
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    Frances, que hojeconsagra a sua vida ao trabalho metodista. Mais de 40 estrelas nas suas coroas Os doze ministros - missionários e nacionais - que deram à causa do metodismo mais de quarenta anos de serviço ativo, foram: Nome Nascimento Falecimento Anos de Pastorado H.C. Tucker 1857 1956 59 J.L. Kennedy 1857 1942 55 J.M. Terrell 1868 1948 48 M.A. Dickie 1863 1939 46 J.W. Tarboux 1857 1940 44 D.L. Betts. 1887 1965 43 J.L. Becker 1873 1942 42 W.G. Borchers 1871 1957 41 V.H. Moore. 1886 1961 41 W.B. Lee 1864 1956 41 J.L. Tavares. 1869 1940 40 C.L. Smith 1872 1946 40 César Dacorso Filho 1891 1966 40 *** E porque não incluir o Rev. Justus H. Nelson, da região da Amazônia, que trabalhou 45 anos no Brasil? Dos missionários aqui incluídos, faleceram e estão enterrados no Brasil, os seguintes: Kennedy, Borchers, Terrell, Lee, Dickie e Betts. Voltando, agora, aos albores do Metodismo A Conferência Anual Brasileira de 1901, realizada na Igreja do Catete no Rio de Janeiro, comemorou o 25º aniversário do restabelecimento do trabalho da nossa Igreja no Brasil, fazendo os membros dessa Conferência uma visita ao túmulo de Cynthia Harriet Kidder, esposa de um dos primeiros missionários evangélicos no Brasil, no Cemitério inglês da Gamboa. Cynthia foi a primeira mártir do metodismo brasileiro.
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    Fique esse túmulopara sempre como um dos lugares sagrados aos metodistas de ontem, pelos metodistas de hoje e amanhã. *** Escreve Franklin de Oliveira no seu livro “Morte da Memória Nacional" que "A morte nacional se realiza pelo abandono de nossas fontes culturais"; que o nosso "descaso por lugares e instituições históricas, está fazendo o Brasil correr o perigo de transformar-se em nação historicamente desmemorizada". Que este ano de recordações e comemoração do passado, sirva para que nós metodistas não corramos o perigo de nos transformarmos em denominação historicamente desmemorizada, sem conhecimento, sem orgulho, sem prazer nos feitos daqueles que, através de grandes dificuldades e perseguições, nos legaram a mensagem do Evangelho.
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    CAPÍTULO 31 QUAL DEVIASER A DATA DA ORIGEM DO METODISMO NO BRASIL? Com vistas ao passado Já cheguei ao fundo do meu baú velho, e seguro nas mãos três retratos desbotados. O primeiro é de Daniel Kidder, um dos pioneiros da dinâmica Missão de 18351841 que concretizou a viagem exploratória do Rev. Fountain Elliot Pitts, ao fundar no Rio de Janeiro a Primeira "Sociedade" (congregação) metodista no Brasil. A sua chegada, conforme diz o Rev. Isnard Rocha, "representa em nossa história, o marco inicial da obra metodista no Brasil - 19 de agosto de 1835" (grifos meus). O segundo retrato é do Rev. Junius E. Newman, o consagrado imigrante norteamericano que em 1871 fundou entre seus patrícios a primeira igreja metodista no Brasil a continuar sem interrupção. O terceiro é do Rev. J. J. Ransom, o primeiro missionário ao Brasil enviado pela Igreja Metodista Episcopal do Sul, especifica e definidamente para evangelizar os brasileiros. Todos já estão velhinhos nestes retratos. Quem me dera ver como teriam sido quando aqui chegaram, na flor da idade, cheios de vigor, esperança, determinação e visão cristã! Minh'alma transborda de admiração, e penso em mil perguntas que lhes desejaria fazer. Começo a pensar... a cismar... a perguntar a mim mesma: Mas qual foi o verdadeiro fundador do nosso metodismo? Qual a data que devíamos honrar como a do Centenário? Quais as realidades que designam a origem de um movimento? Suas vitórias, suas tentativas, seus fracassos? Tentativa inicial? Marco inicial? Trabalho radicado ou permanente? Missão específica aos brasileiros?
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    Senti-me um tantoperplexa, como aquele zelador do qual lemos (Em Marcha, pág. 24, terceiro trimestre de 1967) a quem o pastor procurava ensinar algo sobre o centenário. - "Pois meu irmão, disse o pastor, o metodismo tem a honra de ter sido, em tempos modernos, o primeiro a implantar o Evangelho em solo brasileiro. Isto foi em 1835 quando chegou ao Rio o Evangelista de nome Fountain Pitts”. - "Como é reverendo? perguntou o zelador. O senhor não se enganou na data? Se foi em 1835, porque é que o centenário é agora em 1967?" Parece que o zelador estava com razão! Pois de fato, até a poucos anos, a Igreja Metodista do Brasil aceitava como data de sua fundação o dia 2 de fevereiro de 1876, comemorando a chegada ao Rio do Rev. J.J. Ransom. Pois não havia escrito o Bispo Holland Mc Tyeire em seu HISTÓRICO DO METODISMO, que "a investigação feita no Brasil em 1835 pelo Rev. Pitts foi sucedida pela ocupação permanente em 1876 com a chegada do Rev. Ransom"? Esta data fora seguidamente lembrada nas Conferências Anuais. Diz o Rev. Kennedy no Histórico livro “Cincoenta Annos” que, 1. vez após vez se levantavam vozes nas Conferências conclamando a Igreja a celebrar a fundação da sua obra no Brasil. Em 1900 o Rev. H.C. Tucker declarou: "sendo 1901 o primeiro ano do novo século, o vigésimo quinto do trabalho da Igreja Metodista Episcopal do Sul no Brasil, ... resolvemos..." 2. em agosto de 1924, quando o metodismo brasileiro era ainda missão da Igreja Metodista Episcopal do Sul, visando comemorar dignamente o jubileu da Igreja Metodista em 1926, as três Conferências então existentes nomearam o Rev. J. L. Kennedy para escrever o histórico" CINCOENTA ANNOS DO METHODISMO NO BRASIL". Mudança da data Em 1960, porém, a Comissão Histórica da nossa Igreja Metodista do Brasil (já não era mais Metodista Episcopal do Sul) rejeitou essa data em favor de 5 de agosto de 1867, quando aportou no Rio de Janeiro o imigrante norte-americano Rev. J. E. Newman (ver Expositor Cristão de 24/4/60). Esta data nunca fora comemorada pelas Conferências Anuais; nunca fora reconhecida por Newman; e nunca fora comemorada pelos pioneiros que eram seus colegas no trabalho e, que o estimavam ao ponto de chamarem-no de Superintendente e de "instrumento para que a nossa Igreja reencetasse a propaganda do bendito Evangelho no Brasil" (Kennedy, pág. 19).
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    Essas últimas palavrasdo Rev. Ransom, genro do Rev. Newman, parecem indicar que eles consideravam que o trabalho metodista tinha sido iniciado antes de Newman; e que Newman era simplesmente um continuador, e não um fundador. E com essas palavras, o Rev. Ransom retrai-se também de qualquer glória pessoal para considerar-se mero continuador da obra começada por outros, ou fundador duma obra nova. Não demonstram também que mesmo então persistia nas mentes dos pioneiros, de Ransom em diante, a tendência de reconhecer a MISSÃO fundada pelo Rev. Pitts e seus sucessores, Spaulding e Kidder como de fato, a PRIMEIRA MISSÃO METODISTA NO BRASIL? Confirma-se tal suposição com dois eventos relatados no Histórico de Kennedy: Na Conferência Anual de 1900, no dia 15 de julho, fez-se uma "romaria" ao cemitério de Gamboa, para visitar o túmulo de Cynthia Kidder, falecida em 1840, honrando a esposa de um dos primeiros missionários metodistas no Brasil". Isso fizeram como parte da comemoração do vigésimo quinto ano do trabalho da Igreja Metodista Episcopal do Sul no Brasil"; acrescentando as palavras; "e o 25o aniversário do RESTABELECIMENTO do trabalho de NOSSA IGREJA no BRASIL" (Kennedy, pág 111). Num artigo pelo Rev. Kennedy (Expositor Cristão de 21-7-1894) intitulado "História resumida da Igreja Metodista no Rio de Janeiro" cita ele fatos incontestáveis que lhe foram oferecidos pelo Dr. John, da Junta de Missões em Nova Iorque, e pelos quais o Dr. John reconhecia a primazia do trabalho de Pitts, Spaulding e Kidder. Citando: "Segundo os dados que temos à mão, a obra evangélica tanto no Brasil como na cidade do Rio de Janeiro, foi INICIADA pela Igreja Metodista sendo ela a PRIMEIRA IGREJA CRISTÃ, dissidente de Roma, a anunciar as boas novas de salvação, quer nas águas torrenciais do Amazonas (pensara em J.H. Nelson), quer na linda e plácida baía de Guanabara, quer nas alturas da florescente cidade de São Paulo" (pensando em Kidder). Continua com uma longa lista de realizações dessa primeira Missão, dizendo: "Uma das provas de que a sua obra produziu resultados consideráveis, é que nesse tempo os padres romanos resistiram freneticamente ao seu trabalho. Depois da retirada forçada do Rev. Spaulding a Igreja Metodista RE-ENCETOU o seu trabalho na capital do
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    Império em janeirode 1877, tendo chegado ao Império no dia 2 de fevereiro de 1876, o Rev. J.J. Ransom, AUTORIZADO PELA IGREJA, ENCETOU ELE DE NOVO trabalhos na cidade". No mesmo artigo, a única referência que faz ao Rev. Newman é como "missionário da nossa igreja americana (na província) de São Paulo", enquanto refere-se ao Rev. Ransom, como "fundador da obra missionária da nossa igreja no Brasil EM SUA SEGUNDA ÉPOCA". Continuamente esses líderes do passado usavam as expressões "re-encetar", "re-iniciar", "segunda época", a respeito do trabalho, assim demonstrando que consideravam como PRIMEIRO, o trabalho da Missão de 1835. Mas, se assim o consideravam, porque então escolheram a data da chegada do Rev. Ransom como a do inicio do trabalho? Creio que foi devido aos fatos históricos ligados ao trabalho da Igreja. Em 1844, o metodismo americano se dividia em dois ramos - o do NORTE e o do SUL devido a uma luta intensiva, causada por problemas relacionados à escravatura. As duas denominações tornaram-se tão distintas e separadas como se não tivessem uma raiz comum, tanto no sentido geográfico como administrativo. Foi a Igreja Metodista Episcopal do Sul que primeiro ocupou o Centro do Brasil, enviando o missionário Ransom; e a essa Igreja, pertenciam os obreiros antes de aqui chegar; perante ela eram responsáveis pelos seus atos e atividades, e dela recebiam seus ordenados. Não podiam reconhecer oficialmente a Igreja do Norte, com a qual por mais de trinta anos, não tinham tido mais ligação, e que consideravam uma outra denominação. Ademais, naquela época, ainda existiam as mágoas e os ressentimentos profundos resultantes da Guerra Civil Americana e do procedimento pouco fraternal da Igreja do Norte, que se recusara em 1846, a aceitar um gesto conciliatório da parte do Sul. Foi em 1872 - somente quatro anos antes da chegada de Ransom - que a Igreja. do Norte recebera em seu Concílio máximo, um delegado sulino, e a reconciliação final só se consumou em 1939 com a reunião dos dois ramos divididos há quase 100 anos.
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    Pergunto, pois, porque a Comissão Histórica em 1960, ignorou tudo isso - os julgamentos de historiadores americanos de confiança; dos pioneiros no Brasil; de historiadores como o Dr. José Carlos Rodrigues; de profundos conhecedores do trabalho, como o Rev. José de Azevedo Guerra e Dona Ottília Chaves - para escolher uma data a favor do Rev. Newman? Dizem que foi porque a Missão de Pitts não se radicou. Por que então, se considera o Rev. Justus H. Nelson, que durante 46 anos trabalhou na Amazônia (trabalho ao qual Kennedy se refere), mas que não conseguiu radicar o trabalho ali, como o fundador do metodismo naquela região? Creio que se hoje um itinerante metodista fosse ali para organizar o trabalho de nossa Igreja, não o chamariam de "Fundador", mas sim de "Continuador" da obra de Nelson. FRACASSOU COMPLETAMENTE A MISSÃO PITTS? Que pai cujo primeiro filho tenha falecido na infância ou juventude sem deixar uma grande obra pela qual possa ser lembrado, deixa de reconhecê-lo como seu primogênito ou risca-o do livro da família como seu filho? Que lástima, pois, que grande pena, que a Comissão Histórica abrisse mão da grande honra que cabe ao metodismo de ser mais do que centenário, para cedê-la a outras denominações que aqui vieram um quarto de século depois! Que desonra ignorar os sacrifícios e perseguições, os ingentes esforços feitos por esses desbravadores, em favor de um outro pastor que, apesar de RE-ENCETAR o metodismo em solo brasileiro - nunca pregou uma só vez aos brasileiros e nem foi perseguido por amor do Evangelho! Por que a Comissão, ao invés de basear a sua decisão sobre a palavra permanente, não a baseou sobre as palavras, primeira a pregar o Evangelho no Brasil, assim conservando para os metodistas a honra que lhes é justa e merecida? Cremos que agiram com toda a sinceridade; todavia, entre alguns dos mais profundos estudantes da nossa história, conhecedores do passado, estão muitos que não concordam com a decisão. Um deles é a distinta líder e legisladora, Dona Ottília Chaves,
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    membro fundador daSociedade Histórica do Metodismo no Brasil, que diz francamente: "Eu não concordo", repetindo os feitos da Missão Pitts e apresentando documentos históricos que se referem à primazia dos metodistas na evangelização do Brasil. Outro que discorda é o Rev. José de Azevedo Guerra, um da "velha guarda metodista" que escreve no Expositor Cristão, (agosto de 1967) um artigo de “Reminiscências”", no qual declara: "Eu prefiro contar o século desde o início do trabalho pioneiro dos desbravadores Fountain E. Pitts, Justin Spaulding e Daniel P. Kidder. Prefiro contar assim porque julgo o trabalho pioneiro, o do desbravador, como o mais difícil, o que exige maior desprendimento". Em outras palavras, foram esses os que "prepararam o caminho do Senhor, que endireitaram as Suas veredas" como disse o profeta Isaías (Isaías 40:3) . Creio que dia virá quando nova Comissão Histórica traçará a origem da nossa Igreja Metodista do Brasil - com todos os erres e esses - à Missão Pitts-Spaulding-Kidder, e não à Igreja Metodista Episcopal do Sul perpetuando assim a memória da trágica cisão de 1844. Afinal de contas, todos recebemos a herança da nossa fé diretamente de João Wesley - e por meio de Wesley, das verdades bíblicas expressas na Palavra Sagrada.
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    BIBLIOGRAFIA KENNEDY - refere-seao volume "CINQUENTA ANNOS DE METHODISMO NO BRASIL", publicado em 1926. BARCLAY - refere-se a "EARLY AMERICAN ME THODISM", Vol. lI, de Crawford Barclay. HUTCHINSON & LUCCOCK - refere-se a "THE STORY OF METHODISM", por Paul Hutchinson e Ernst Luccock. LUIZ G. DOS SANTOS - refere-se a "O CATHOLICO E O METHODISTA", do Padre Luiz Gonçalves dos Santos, 1839. JAIME - refere-se a "HISTÓRIA DO METODISMO NO RIO GRANDE DO SUL", pelo Rev. Eduardo Mena Barreto Jaime, 1963. ARAUTO - refere-se a "O ARAUTO DE DEUS", a vida de J. L. Kennedy, 1960, por Eula Kennedy Long. KIDDER - refere-se a "REMINISCÊNCIAS DE PERMANÊNCIA E VIAGENS NO BRASIL", volumes I e lI. BUYERS - refere-se a "HISTÓRIA DO METODISMO NO BRASIL" de Paul E. Buyers.