Vova, Livraria Almedina,
of Time in Portuguesa»,
Jniversidade de Lisboa.
itive Science, l, pp. 216-
rsity Press, Ithaca, Nova
'. Tedeschi e A. Zaenen
, Academic Press, Nova
O MELHOR DO MUNDO
NÃO SÃO ASCRIANÇAS
Luís PRJSTA
[O autor] já morto, uma caligrafia quase ilegível, e eis-nos
perante um problema permanente: será que não houve engano na
decifração desta ou daquela palavra? E se o autor propôs várias for-
mas, qual devemos escolher? Quando há referências a pessoas, lo-
cais, acontecimentos — como interpretar com segurança? Serão sig-
nificativos os erros, as evidentes trocas de um termo? Devemos
mante-los ou corrigi-los? Torna-se assim necessário conhecer, «estar
por dentro» do estilo do autor, mas também do contexto cultural e
político da época, da ortografia utilizada, quase diríamos, do modo
de produzir literatura.
MARIA HELENA MIIW MATEUS
Na epígrafe a forma entre parênteses rectos é generalização minha, que
o parágrafo explicitava o caso de Eça de Queirós, quando — era 1981 —
todos tinham presente a polémica em torno da edição da Tragédia da Rua
das Flores2. O exemplo de Eça abria o artigo, introduzindo as dificuldades
1 «Problemas linguísticos do texto literário», Palavras. Revista da Associação dos Profes-
sores de Português, 2/3, 1981, pp. 49-53, p. 49.
2 Quem quiser lembrá-la pode guiar-se pela revisão em Ernesto Rodrigues, «A Tragé-
dia da Rua das Flores: confrontos», Cultura literária oitocentista,Porto, Lello, 1999, pp. 267-
-276.
218 RAZÕES E EMOÇÃO
da fixação nas situações típicas da crítica textual moderna, para logo se real-
çarem os problemas postos à edição de textos antigos. Após este enqua-
dramento, apresentava-se um trecho da Vida e Feitos de Júlio César, com que
depois se ilustrariam os «problemas linguísticos do texto literário». Nessa lei-
tura de passo da tradução portuguesa quatrocentista 3, Maria Helena Mira
Mateus não só explicava as decisões tomadas quanto à actualização da orto-
grafia, salientando o que deveria escapar à modernização gráfica por repre-
sentar a pronúncia à época, como desenhava um claro retrato dos traços
principais do português do século xv.
Assumida a troca do romancista por termo genérico, tentarei eu escrutinar
a citação. Segui-la-ei pergunta a pergunta, até confirmar o período final
assertivo, e para isso recorrerei a um poema dos mais conhecidos de Pessoa,
«Liberdade».
Por ele começo, apresentando-o como o fixei em edição crítica recente
(Poemas de Fernando Pessoa. 1934-1935, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da
Moeda, 2000) e pondo em rodapé as diferenças notadas na tradição impres-
sa essencial (SN = «Um inédito de Fernando Pessoa», Seara Nova, n.° 526,
11 de Setembro de 1937, p. 427; At. = Fernando Pessoa, Poesias, nota expli-
cativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa, Ática, 1942, pp.
246-247 [em expoente fica a menção da 2.a edição, de 1943, pp. 246-247,
quando a lição discorde, nessa e nas seguintes, do primeiro texto da Ática];
Ag. = Fernando Pessoa, Obra Poética, organização, introdução e notas de Maria
Aliete Dores Galhoz, Rio de Janeiro, José Aguilar, 1960 4), sem marcar as
divergências por normalização da grafia.
3 Como se sabe, a tradução portuguesa do texto francês com a biografia de Júlio
César foi objecto de edição crítica por Maria Helena Mira Mateus (Vida e Feitos de Júlio
César. Edição crítica da tradução portuguesa quatrocentista de «Li fet dês romains», Lisboa,
Fundação Calouste Gulbenkian, 1970, 2 vols.). O trecho que na revista Palavras exemplificava
os constrangimentos linguísticos da edição de textos antigos, do capítulo xv da terceira
parte, foi retirado de antologia organizada para a colecção «Textos literários» (Vida e feitos
de Júlio César. Tradução anónima quatrocentistada obra francesa do séc. xin, Li fet dês romains,
apresentação crítica, selecção, glossário e notas de Maria Helena Mira Mateus, Lisboa, Sea-
ra Nova/Comunicação, 1980), com ortografia modernizada, «de modo a tornar a sua leitu-
ra fácil a não especialistas, sem no entanto introduzir alterações que pudessem modificar o
que se considera que deveria ser a pronúncia da época» («Apresentação crítica», pp. 15-48,
P. 42).
4 Outras edições da (José) Aguilar ou Nova Aguilar que verifiquei foram a 2.a (1965)
e a 8.a (Nova Aguilar, 1981), as que Maria Aliete Galhoz considera também reais edições
(«A fortuna editorial pessoana e seus problemas: o caso da poesia», Fernando Pessoa, Men-
logo se real-
este enqua-
ar, com que
». Nessa lei-
ielena Mira
jão da orto-
i por repre-
) dos traços
eu escrutinar
eríodo final
is de Pessoa,
ítica recente
>nal-Casa da
ição impres-
va, n.° 526,
;, nota expli-
a, 1942, pp.
>p. 246-247,
co da Ática];
itas de Maria
m marcar as
igrafia de Júlio
• Feitos de Júlio
mains», Lisboa,
as exemplificava
xv da terceira
;» (Vida e feitos
:et dês romains,
js, Lisboa, Sea-
nar a sua leitu-
;m modificar o
ca», pp. 15-48,
im a 2.* (1965)
:m reais edições
Io Pessoa, Men-
10
15
20
25
O MELHOR DOMUNDO 219
LIBERDADE
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doura
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tam naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.
Livros são papeis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando ha bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são crianças,
Flores, musica, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
epígrafe: om.] (falta uma citação de Séneca) SN, At.2 (Falta urna citação de Sêneca)
7: doura] doira At., Ag.
13: pressa.] pressa... At., Ag.
21: são crianças,] são as crianças, At., Ag.
sagem. Poemas esotéricos, edição crítica coordenada por José Augusto Seabra, Madrid, Archivos/
CSIC, 1993, pp. 216-225, p. 220). No que diz respeito ao poema «Liberdade», as 2.a e
8.a edições em tudo coincidem com a primeira.
220 RAZÕES E EMOÇÃO
E eis-nos perante um problema permanente: será que não houve enga-
no na decifração desta ou daquela palavra?
Apesar do aparato crítico sob o poema, é útil agora percorrer uma a
uma essas variantes da tradição, poucas mas importantes.
As edições anteriores trazem uma epígrafe —falta uma citação de Séne-
ca —, entre parênteses e em itálico (na Aguilar, em redondo e com maiús-
cula). Neste caso idêntica à nossa foi a l.a edição da Ática, que também não
fixou a epígrafe, ao contrário do que depois ficaria nas edições da mesma
casa a partir de 1943. Quando nos detivermos na génese do poema, voltare-
mos ao assunto, mas adivinha-se que a frase constituía nota para posterior
substituição pela verdadeira epígrafe, alguma frase de Séneca que o poeta viesse
a lançar ainda, afigurando-se despropositado manter essa indicação no texto
crítico. Outro ponto que interessa reter, a variação entre primeira e posterio-
res edições da Ática.
No corpo do poema há três divergências, ou duas divergências e meia,
todas opondo lições da Ática e da Aguilar às nossa e da revista. Temos a
pontuação final do v. 13 (reticências contra o nosso ponto final) e, sobretu-
do, o memorável verso 21 — «Mas o melhor do mundo são as crianças»
(assim o fixam as anteriores edições em volume; e assim todos o recitam ou
lembram avulsamente) —, que na nossa edição sai sem o determinante
— Mas o melhor do mundo são crianças —, como ficou na Seara Nova e, ver-
-se-á, como sempre Pessoa o escreveu.
(Chamo a atenção para a sintaxe do verso seguinte, 22, um verso sem
a mesma fortuna de citações e que se porventura acompanhasse o outro
sempre invocado o tornaria menos liminar e, arrisco, menos popular. Trata-
-se da continuação do sujeito composto começado em «crianças», série que
mitigaria o superlativo que todos temos atribuído às crianças. Esse esba-
timento da prevalência das crianças é ainda potenciado por não haver afi-
nal artigo: crianças,  musica, o luar, e o sol, que peca l Só quando, em
vez de criar, seca. Não é forçar a interpretação considerar que as crianças
ficam niveladas por flores, música, e perdem até para, esses com artigo, o
luar e o sol.)
Falta a terceira divergência, que anunciei como meia divergência porque
haverá quem a considere abrangida pela normalização gráfica: doirar em vez
do dourar primitivo. Não é porém a minha opinião, pois que a moderniza-
ção da grafia não implicaria tal troca. O original dactiloscrito já usava orto-
grafia das menos antiquadas, ou arcaizantes, que há em Pessoa: «biblioteca»,
«Cristo», «indistinta», «literatura», «crianças» — não bibliotheca, Christo, in-
ião houve enga-
>ercorrer uma a
citação de Séne-
3 e com maiús-
ue também não
içóes da mesma
poema, voltare-
i para posterior
ae o poeta viesse
licação no texto
íeira e posterio-
rgências e meia,
avista. Temos a
inal) e, sobretu-
do as crianças»
35 o recitam ou
3 determinante
-ira Nova e, ver-
, um verso sem
nhasse o outro
popular. Trata-
nças», série que
iças. Esse esba-
• não haver afi-
Só quando, em
que as crianças
; com artigo, o
ergência porque
.: doirar em vez
le a moderniza-
3 já usava orto-
oa: «biblioteca»,
eca, Christo, in~
O MELHOR DO MUNDO 221
distincta, litteratura, creanças— e, sobretudo, «coisa», contra o costumado
cousa 5. E, como se sabe, dourar é forma pelo menos não menos convencionada
do que doirar6.
Desta tradição impressa mínima, a que alega ou admite leitura de origi-
nais — entenda-se, decisões de fixação que não relevem, secundariamente
portanto, de outras edições —, podíamos ainda retirar a edição Aguilar, que
parece ter-se limitado à leitura de Ática. Pela Ática se guiaram também todas
as publicações do poema, quando não já pelo derivado da Aguilar ou por
fonte terciária. De resto, o texto é dos mais convocados para manuais esco-
lares ou antologias de divulgação 7. Relanceando amostra destas publicações
escolares e para-escolares, vê-se que incluem a epígrafe, e por isso concluo
que seguem uma das edições pós-1943, por certo às vezes em segunda mão.
Cumpre analisar à parte uma publicação que tem particularidades da
rama de derivados da Ática, via Aguilar ou não, porém conjugadas com va-
riantes que não se vêem na restante tradição impressa. O livro em causa, que
adopta como título precisamente o verso famoso, apresenta ambiguidades de
ordem paratextual que o insinuam como fundado em fonte privilegiada, even-
tualmente em testemunhos do próprio poeta. Reporto-me a O melhor do
mundo são as crianças. Antologia de poemas e textos (Lisboa, Assírio & Alvim,
1998), de Manuela Nogueira, onde o poema «Liberdade» ocupa uma página
preliminar e tem funções de epígrafe. Na sua primeira parte o volume reúne
catorze textos do poeta considerados de temática infantil 8. Segue-se uma
5 Ver-se-á que há diferenças de ortografia entre os dois testemunhos no espólio, sen-
do mais moderna a do testemunho seguido na fixação. De qualquer modo, é doura que
está em ambos os testemunhos.
6 Cingimo-nos à ortografia, não estando em causa a questão da alternância ouloi na
pronúncia.
7 Na sua tese de mestrado, A antologia escolar no ensino do Português (Braga, Univer-
sidade do Minho, 1987), Maria Sousa Tavares elenca os textos frequentes em antologias do
7.° ano de escolaridade e do antigo 3.° ano liceal, de 1905 a 1979, e com relance depois
até 1985. Num dos cânones que colige, relativo aos períodos posteriores ao 25 de Abril de
74, «Liberdade» é o poema de Fernando Pessoa que os manuais mais seleccionam, e o 21.°
entre os textos de todos os autores (em publicação parcial: «A transmissão escolar dos valo-
res literários. Os textos consagrados», Fátima Sequeira, Rui Vieira de Castro, Maria de
Lourdes Sousa (orgs.), O ensino-aprendizagem doportuguês. Teorias epráticas, Braga, Univer-
sidade do Minho, 1989, pp. 91-124, a p. 118). Tenha-se em conta que os programas do
7° ano de escolaridade, ao contrário do que acontece em outros níveis de ensino, nem
obrigam à leitura de textos de Pessoa.
8 Esta secção, pp. 9-29, sem nunca a citar usa bastante uma colectânea brasileira de
dez poemas «que Fernando Pessoa escreveu pensando nas crianças»: João Alves das Neves
222 RAZÕES E EMOÇÃO
secção intitulada «O melhor do mundo...», explicitamente subscrita por
Manuela Nogueira, sobrinha do poeta, com memórias que a autora conserva
do tio, incluindo-se nos limites desta parte reproduções de alguns dos autó-
grafos dos textos na antologia e mais iconografia. «Liberdade» está no rosto
da folha a seguir ao frontispício, a p. 7, e todo em itálico. Há pouco não
incluí no rodapé do poema as variantes desta edição Assírio & Alvim:
5: maçada,] maçada.
7: doura] doira
8-9: faz espaço interestrófico
9: corre, bem ou mal,] corre bem ou mal,
13: pressa.] pressa...
21: são crianças,] são as crianças,
22: o luar, e o sol,] o luar e o sol,
Ou seja, não publica a falsa epígrafe e incorre nas restantes lições variantes
de Ática (w. 7, 13, 21), o que faria supor derivar da edição de 1942. Tenha-se
porém em conta as outras quatro variantes (w. 5, 8-9, 9, 22).
As três variantes de pontuação são lições que correspondem às do
dactiloscrito BN E3/118-54, testemunho A, que à frente descreveremos mas
que antecipo já ser anterior ao testemunho por que fixámos nós o texto, o
testemunho B. Indiciariam essas divergências que Manuela Nogueira consul-
tou autógrafo no mesmo estado desse testemunho A; também a ausência da
nota-epígrafe concorda com isso. Mas entretanto nem em todos os lugares
(org.), Comboio, saudades, caracóis, desenhos de Cláudia Scatamacchia, São Paulo, FTD,
1988. (As informações a Alves das Neves as terá dado em grande parte Manuela Nogueira,
como a própria alega — «O Melhor do Mundo são as Crianças. Entrevista com Manuela
Nogueira», Extra Persona, 3, Nov/Dez de 1999, pp. 22-23, p. 22 — e, em matéria locali-
zada, podemos nós perceber nas notas em Comboio. Ao aproveitarem-se as notas de Neves
em O melhor do mundo, a edição da Assírio usou de escrúpulo escolar ao fazer corresponder
ao discurso reportado do original brasileiro afirmações na l.a pessoa. Houve portanto auto-
-plágio, se assumirmos que os dados eram carreados pela sobrinha do poeta, acrescido de
um hetero-plágio, o da própria estruturação a que o entrevistador obrigara a entrevistada.)
Dez poemas transitam do livrinho de Alves das Neves: «À minha querida mamã» (Neves,
p. 5; Nogueira, p. 16); «Havia um menino» (p. 7; p. 17); «A íbis» (p. 9; p. 18); «O carro
de pau» (p. 11; p. 19); «Levava eu um jarrinho» (p. 13; p. 11); «Pia, pia, pia» (p. 15;
p. 12); «No comboio descendente» (p. 17; p. 13); «O soba de Bica» (p. 19; p. 20); «Poema
Piai» (p. 20; p. 21); «Saudades» (p. 23; p. 28). A esta dezena juntaram-se «Eros e Psique»
(p. 14), «Os Ratos» (p. 23), «A Fada das Crianças» (p. 25) e o único texto de prosa, «Era
uma vez um elfo» (p. 26; «texto inédito e inacabado que estava na posse da família»).
O MELHOR DO MUNDO 223
te subscrita por
autora conserva
alguns dos autó-
le» está no rosto
. Há pouco não
i & Alvim:
; lições variantes
: 1942. Tenha-se
>2).
spondem às do
screveremos mas
s nós o texto, o
fogueira consul-
m a ausência da
todos os lugares
, São Paulo, FTD,
Manuela Nogueira,
vista com Manuela
em matéria locali-
: as notas de Neves
> fazer corresponder
juve portanto auto-
poeta, acrescido de
*ara a entrevistada.)
ida mamã» (Neves,
9; p. 18); «O carro
i, pia, pia» (p. 15;
19; p. 20); «Poema
i-se «Eros e Psique»
:exto de prosa, «Era
5 da família»).
de variação entre os testemunhos A e B o texto da Assírio & Alvim segue A
— prefere lições de B nos w. 2, 3, 19 (para não referir a assinatura, inexistente
em A) —, situação a que se ajustaria o uso de um autógrafo que incorporas-
se algumas das modificações sofridas por A mas ainda anterior a B. (Parece
artificioso considerar que as três divergências de pontuação Ática-Assírio
independem da genealogia, explicando-se como erros introduzidos ou inter-
venções de editor: no verso 22 estaríamos perante uma lectío facilior — ter-
-se-ia estranhado a vírgula após a copulativa — e as diferenças nos w. 5 e 9
seriam lapsos de cópia que nem destoavam da má revisão de que padece
todo o livro.) Quanto ao espaço interestrófico discrepante inserido entre w.
8 e 9, não é possível justificá-lo com algum autógrafo. Tomo-o antes como
indício de que se leu por exemplar da Aguilar, já que nesta edição o v. 8
coincide com o final da página, o que a leitores menos avisados se afiguraria
fecho da estrofe.
Enfim, o texto na Assírio. & Alvim seguirá documento posterior ao
dactiloscrito A e anterior a B, mas a sua lição foi contaminada por consulta
de exemplar da Aguilar. Este cruzamento com o texto da casa fluminense
explicaria o espaço interestrófico a mais, bem como as variantes comuns a
Ática (w. 7, 13, 21). Implica isto admitir, por exemplo, um contexto de
revisão de provas em que, não se dispondo do testemunho até aí seguido, se
tomasse para guia a edição Aguilar. Não deixa de ser estranho que então só
se acolhesse parte da sugestão do novo original — o artigo antes de «crian-
ças»; as reticências no v. 13; o falso espaço w. 8-9; a nova grafia para «dou-
ra» — e não se corrigissem as outras diferenças. Sem grande confiança, arris-
co que as lições que o revisor acolhe, e as que mantém, talvez representem
em cada caso a solução mais «popular», mais comercial. Cenário que esta
estranheza ajuda a recuperar, mas que também não nos satisfaz: O melhor ao
mundo são as crianças teria seguido apenas Aguilar e as três variantes que são
comuns ao testemunho A (w. 5, 9, 22) dever-se-iam ao acaso, vindas de
simples lapsos ou lectiones faciliores da Assírio & Alvim; a ausência da
mnemónica da citação de Séneca seria também intervenção, por sorte boa
(mas imposta pelo layout conveniente a uma página-epígrafe).
O autor já morto
Por pouco «Liberdade» não foi publicado antumamente. Ainda que es-
crito já no último ano de vida de Pessoa, fora o poema entregue para publi-
cação na Seara Nova, a qual se supõe aconteceria ainda antes do 30 de No-
224 RAZÕES E EMOÇÃO
vembro de 35 se uma circunstância imponderada não tivesse sobrevindo.
A peripécia foi explicada por Pedro da Silveira, logo depois do 25 de Abril,
quando na Seara se publicaram quatro poemas de Pessoa anti-salazaristas
(«Sim, é o Estado Novo, e o povo», «António de Oliveira Salazar», «Este
senhor Salazar», «Coitadinho» 9):
Hoje, é finalmente possível revelar-se a esse respeito o que antes de
25 de Abril era de todo impossível. II Pelo menos desde 1932, um dos
jovens amigos de café de F. Pessoa era Manuel Mendes. Foi a ele que o
poeta entregou o poema «Liberdade», acabado de passar à máquina, para
que, se assim o entendesse, e na Seara o quisessem, lá saísse. Quiseram;
mas o lápis do censor, ante a última estância (O mais do que isto l É
Jesus Cristo, l Que não sabia nada de finanças l Nem consta que tivesse
biblioteca..^), embirrou com o terceiro verso dela: «... não sabia nada de
finanças». Entenderia o tropa que manejava o lápis que era uma alusão
a... Salazar. Só dois anos corridos outro censor deixou passar. II É esta a
história, sem dúvida edificante, de Fernando Pessoa ter sido um «sea-
reiro»... póstumo («Nota adicional» a Jorge de Sena, «Quatro poemas
anti-salazaristas de Fernando Pessoa», Seara Nova, n.° 1545, Julho de
1974, p. 20) 10.
Não o informa Pedro da Silveira na nota da Seara, mas sabe-se que nos
arquivos da revista viu então a prova de granel do poema cortado pela Cen-
sura n
Subscrevendo o poema, tanto a publicação em 37 na Seara Nova como
os testemunhos dactiloscritos trazem a data de «Liberdade»: 16-3-1935. No
entanto, a restante tradição impressa não informa desta data 12. Depois de
9 Nomeio-os conforme ficaram editados em Poemas de Fernando Pessoa. 1934-1935,
onde são os textos n.° 308 (p. 221), 290 (p. 195), 291 (p. 196), 292 (p. 196).
10 A «nota adicional» não vem assinada, mas sabe-se ser de Pedro da Silveira; cf., por
exemplo, José Blanco, Fernando Pessoa. Esboço de uma bibliografia, Lisboa, Imprensa Nacio-
nal-Casa da Moeda/Centro de Estudos Pessoanos, 1983, p. 434.
11 João Rui de Sousa, «Fernando Pessoa e o Estado Novo», JL, jornal de letras, artes
e ideias, n.° 310, 14-6-1988, pp. 10-13, p. 13, n. 32, depreendendo-se a informação ter
sido prestada oralmente. Neste artigo já se transcrevia a «Nota adicional».
12 Na Ática não se anota no índice — e não vem sob o texto porque de qualquer
modo essa era regra estabelecida pelos organizadores — a data do original, o que não cor-
responde exactamente ao critério anunciado na nota explicativa de João Gaspar Simões e
Luiz de Montalvor: «Quási todas as poesias inéditas são datadas. As demais, à falta de data
própria, receberam a data da publicação onde viram a luz. Apenas porque nos pareceu
i tivesse sobrevindo,
pois do 25 de Abril,
:ssoa anti-salazaristas
iveira Salazar», «Este
espeito o que antes de
s desde 1932, um dos
endes. Foi a ele que o
passar à máquina, para
n, lá saísse. Quiseram;
) mais do que isto l É
Nem consta que tivesse
«... não sabia nada de
tis que era uma alusão
ixou passar. II É esta a
>soa ter sido um «sea-
Sena, «Quatro poemas
a, n.° 1545, Julho de
mas sabe-se que nos
aã cortado pela Cen-
na Seara Nova como
ade»: 16-3-1935. No
:a data 12. Depois de
nando Pessoa. 1934-1935,
, 292 (p. 196).
Pedro da Silveira; c£, por
Lisboa, Imprensa Nacio-
, f L, jornal de letras, artes
endo-se a informação ter
dicional».
texto porque de qualquer
) original, o que não cor-
de João Gaspar Simões e
As demais, à falta de data
'enas porque nos pareceu
O MELHOR DO MUNDO 225
escrita, passaram dois anos e meio quase exactos até que a poesia saísse na
Seara de 11 de Setembro de 1937 13.
Os quatro poemas anti-salazaristas são também do último ano de Pes-
soa: de 29 de Março, a normalmente referenciada como «sequência» ou «tri-
plo poema» («António de Oliveira Salazar», «Este senhor Salazar», «Coitadi-
nho»), e de rigorosos quatro meses depois, 29-7-1935, «Sim, é o Estado Novo,
e o povo». Pelo menos um deles, «António de Oliveira Salazar», teve voga
clandestina antes de, muito mais tarde do que «Liberdade», os quatro textos
conhecerem os prelos, ou as rotativas, em 1960 e no Brasil, a «tripla sequên-
cia», em Portugal e em 1974, todos l4.
graficamente recomendável, retirámos as datas do texro do livro, reservando-as para o índi-
ce» (p. 16). Se não pudéssemos acolher certo desvio ao que era estipulado na nota, ficaria
assim estabelecido que Ática usou como original algum autógrafo em que não houvesse
data sob o poema, como está nos testemunhos dactiloscritos que conhecemos. Além de que
na própria página da Seara Nova figura sob o poema a data de redacção.
13 Não a 2 de Setembro, como regista a Aguilar, p. 709, talvez por ler como roma-
nos os números árabes da data do periódico.
14 A história da sua divulgação é contada na mesma nota: «[Quanto a 'António de
Oliveira Salazar'] ter circulado, em cópias dactilografadas, primeiro anonimamente, depois
já com a indicação de ser da autoria de Fernando Pessoa, não há a menor dúvida. Acon-
teceu do primeiro modo logo a partir de 1935, embora talvez quase só em Lisboa, e do
segundo pelo menos desde o período da campanha eleitoral de Humberto Delgado, em
1958. II A versão 'clandestina' é ligeiramente diferente da publicada agora por Jorge de
Sena: ou porque o poema teve de facto duas (ou mais) versões, ou então porque, copiado
e recopiado, foi sendo deturpado. O verso 5, nela, é assim: 'Salazar é apelido.'; o verso 6
diz: 'Até aqui está bem.'; entre este e o seguinte intercala-se outro: 'Tudo isto faz sentido.'
II Porque é a que se encontra no espólio de Pessoa, obviamente a editada por Jorge de Sena
é a que deve merecer maior fé. Contudo, não será que o verso a mais da outra não parece
realmente a mais, nem francamente apócrifo? II Acrescente-se que dois dos maiores amigos
de F. Pessoa nos últimos anos da sua vida, Gil Vaz e Rui Santos, guardaram de cor a
variante — versão clandestina — de que ora damos notícia. Passada a escrito pelo primeiro,
ela foi publicada, cerca de 1960, num semanário português de Caracas» ([Pedro da Silveira],
«Nota adicional» a Jorge de Sena, «Quatro poemas anti-salazaristas de Fernando Pessoa»,
Seara Nova, n.° 1545, Julho de 1974, p. 20). Também Alfredo Margarido testemunha a
prévia divulgação oral dos poemas «António de Oliveira Salazar», «Este senhor Salazar» e
«Coitadinho» nos círculos literários lisboeras: «Lembro-me de os ter ouvido — em anos já
distantes, mas provavelmente antes de 1954—, fosse na boca de Ruy Santos, fosse na de
Pedro da Silveira ou até na de Edmundo de Bettencourt» (introdução a: Fernando Pessoa,
Santo António, São João, São Pedro, Lisboa, A Regra do Jogo, 1986, pp. 9-90, p. 22). Em
«Fernando Pessoa e Jorge de Sena» (Persona, 5, Centro de Estudos Pessoanos, Porto, Abril
de 1981), Arnaldo Saraiva esmiuça episódios da divulgação do «triplo poema anti-salazarista»
226 RAZÕES E EMOÇÃO
Quando há referências a pessoas, locais, acontecimentos — como in-
terpretar com segurança?
Aqueles quatro poemas é que serão propriamente anti-salazaristas, no
sentido de terem como referente sem dúvida Salazar ou o Estado Novo. Em
«Liberdade», a identificação do mesmo tópico não é clara. Pedro da Silveira,
assim se deduz das reticências antes de «Salazar», não parece acreditar no
escopo anti-salazarista para o nosso texto. Mas o mesmo Pedro da Silveira
narra como Manuel Mendes recordava os ditérios de Pessoa sobre o ditador,
orais também: «Manuel Mendes, que não viveu o bastante para pensar em
escrever um livro de memórias, falava de vez em quando das suas relações
com Fernando Pessoa. Não faltará quem se lembre muito bem dos ditos do
poeta sobre o ditador, que ele fixara e repetia» (p. 20). E, quanto ao próprio
«Liberdade», João Rui de Sousa, embora comece por admitir a ausência de
«mensagem política imediata ou visivelmente expressa», julga significativos
título e «conteúdo anarquizante, de contracultura e abertamente hedonista —
sentidos demasiado revulsivos numa época em que imperava [o] preconceito
da ordem» e acaba por considerar o poema «um texto de ataque directo à
ditadura de Salazar e da União Nacional» ^.
(Para bitola de interpretações correntes do poema, sirvam os dois arti-
gos que a bibliografia de José Blanco aponta como consagrados à análise de
«Liberdade» l6. José Fernandes Fafe lê que Pessoa opõe «ao mundo da cultu-
ra, que subestima [...], o da natureza, que valoriza»; «o melhor: o 'natural'
— flores, luar, sol — e o que mais próximo está do 'natural' — as crianças,
bem como de «Sim, é o Estado Novo, e o povo». Em resumo: Jorge de Sena terá encon-
trado o manuscrito dos poemas no dia 4 de Junho de 1954. Revelou o «triplo poema»,
sem porém assinar essa edição, em O Estado de São Paulo de 20-8-1960; e já antes correria
ele clandestinamente. O triplo poema foi reproduzido em Nouvelles Etudes Luso-Brésiliennes
(10, Rennes, Université de Haute-Bretagne, 1973) e no Diário Popular de 6-6-1974 (e
depois em outros periódicos: A Província de Angola, 17-7-1974; Correio da Horta, 20-7-
-1974; Seara Nova, Julho de 1974). Entretanto, tendo sido o poema reproduzido no Co-
mércio do Porto de 28-5-1974, por Joaquim Montezuma de Carvalho mas na ignorância de
que fora Sena que estivera na origem da publicação no Estado de São Paulo, Jorge de Sena
fez sair no Comércio de 19-7-1974 uma nota, intitulada «Os poemas de Fernando Pessoa
contra Salazar». O poema «Sim, é o Estado Novo, e o povo» Sena só o publicaria pela
primeira vez no Diário Popular, de 30-5-1974, pouco antes de no mesmo jornal repetir a
divulgação dos outros três poemas.
15 «Fernando Pessoa e o Estado Novo», pp. 12-13.
16 Fernando Pessoa. Esboço de uma bibliografia, p. 351.
<itecimentos — como in-
ente anti-salazaristas, no
ou o Estado Novo. Em
clara. Pedro da Silveira,
não parece acreditar no
nesmo Pedro da Silveira
e Pessoa sobre o ditador,
bastante para pensar em
guando das suas relações
muito bem dos ditos do
:0). E, quanto ao próprio
ior admitir a ausência de
essa», julga significativos
abertamente hedonista —
: imperava [o] preconceito
:exto de ataque directo à
iema, sirvam os dois arti-
i consagrados à análise de
ipõe «ao mundo da cultu-
as; «o melhor: o 'natural'
Io 'natural' — as crianças,
mo: Jorge de Sena terá encon-
54. Revelou o «triplo poema»,
: 20-8-1960; e já antes correria
iouvdles Etudes Luso-Brésiliennes
Diário Popular de 6-6-1974 (e
1974; Correio da Horta, 20-7-
j o poema reproduzido no Co-
Carvalho mas na ignorância de
ido de São Paulo, Jorge de Sena
3s poemas de Fernando Pessoa
ovo» Sena só o publicaria pela
s de no mesmo jornal repetir a
O MELHOR DO MUNDO 227
ainda não completamente pervertidas pela cultura, e a música, talvez por ser
a menos conceptual das artes»; segundo Fafe, porém, há «o reconhecimento
da ambiguidade da natureza, que tanto cria como mata»; por fim, cita a
última estrofe e interpreta que o natural é suplantado pelo sobrenatural, «que
omnisciente não precisa de cultura (livresca ou não) para nada», concluindo
tratar-se de poema anticultura e, ao mesmo tempo, «culto rendido ao 'natu-
ral' e a Jesus» 17. José Enes começa por se deter nos w. 1-6, que, assim
isolados, «não são apenas plebeus e prosaicos; são a expressão chata da atitu-
de preguiçosa de um estudante cábula»; contudo, logo a partir do v. 7, o
texto adquire «poeticidade por meio da significação metafórica, por meio do
paradoxo e da evasão onírica, por meio da sobreposição de planos de signi-
ficação, que projectam para dimensões transcendentes o sentido do poema,
por meio da ironia metafísica que põe entre parêntesis a realidade do que
afirma, por meio da progressiva intensificação emocional que se esquiva do
interesse de interferir no andamento das relações humanas, e finalmente por
meio do arranjo musical e sintático da frase»; conclui-se que «é possível,
portanto, fazer poesia lírica com prosaísmos»; recusa-se também a intenção
de sátira: «a atitude é de expressão intimista, pesarosa na tragicidade dos li-
mites e embevecida na feitura» 18. Em nenhum dos artigos se alude ao esco-
po anti-salazarista.)
Lembro outros poemas de Pessoa com explícita menção de Salazar ou
de aparente oposição ao regime, datados ou datáveis de 1935, provavelmente
todos a partir da mesmo mês de Março de «Liberdade»: a quadra Salazar é
mealheiro — l Raparigas vinde vel-o — l Por fora barro vidrado,  dentro
coiro e cabelo, datável de Março de 1935 19; a sextilha Mata ospiolhos maio-
17 José Fernandes Fafe, «Prazer e dever», Diário de Lisboa, n.° 16875, 12-12-1969,
suplemento ('Mesa Redonda'), pp. 1-10, p. 1. [À margem, para benefício de repertórios da
bibliografia de Maria Helena Mira Mateus: ladeia o artigo sobre «Liberdade» uma mesa-
-redonda, «Problemas actuais da linguística e da Universidade em França e no Mundo», em
que intervêm, além do entrevistado Georges Mounin, José Fernandes Fafe, Urbano Tavares
Rodrigues, José António Meireles e Maria Helena Mateus; o texto ocupa as pp. 6-9, está
ilustrado com fotografias de entrevistado e entrevistadores e continua nos números seguin-
tes do suplemento, em 19-12-1969, pp. 5 e 10-11, e em 26-12-1969, pp. 9-11.]
18 José Enes, «Poetização dos prosaísmos», Rumo. Revista de problemas actuais, ano 6,
n.° 72, Fevereiro de 1963, pp. 132-134, p. 134.
19 Fernando Pessoa, Quadras, edição de Luís Prista, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa
da Moeda, 1997, texto n.° 359, p. 168. Os poemas em folhas de bloco Malhas César têm
datas sempre da segunda década de Março: 11, 17 e 18 de Março (Quadras, pp. 53 e 309;
1934-1935, p. 15).
228 RAZÕES E EMOÇÃO
rés  droga que tu dizes.  inda ha bichos peores.  lá se arranjas
veneno u grande ou médio e pequeno) l Para matar directrizes — em que
«directrizes» alude ao discurso que Salazar proferira a 21 de Fevereiro, na
ocasião da cerimónia dos prémios literários do Secretariado da Propaganda
Nacional—, datada de 4-4-1935 20; as três quintilhas «Á Emissora Nacio-
nal» — cujo assunto é a «'Salazar disse' Emissora», a que se recrimina estar
ao serviço do «chatazar» —, poema não datado mas se presume seja de
1935 21; um poema contra a aprovação da lei das associações secretas
— Solemnemente   approvado  toda a gente 
é, um a um, animal,  assembleia nacional  projecto do José Cabral é a
primeira estrofe; na estrofe seguinte há referência ao pulha austero e raro  em virtude de muito
dente do conselho, terminando-se com o dístico Olhem, vão p'ra o Salazar e é a puta que os p
Dizem que o Jardim Zoológico  sido mais concorrido  prolongada
assistência  a cada animal.  isso que é senão lógico  acabou l
A concorrência  fechou  Assembleia Nacional?, de 18-8-1935 23; o
também curto «Eu fallei no 'mar salgado'», sete versos cujo dístico final, na
rima, sugere o ditador — Faz-me sempre mal o sal  ando sobretudo com
azar—, datável de 1935, e provavelmente do segundo semestre24; os cinco
quartetos de «Meu pobre Portugal» — de que a terceira estrofe talvez seja a
mais crítica: Meu pobre e magro povo  quem deram, ás peças, m fato em
estado novo  que o não pareças!—, de 8-11-1935 25; o longo «Poema de
20 Poemas de Fernando Pessoa. 1934-1935, texto n.° 293, p. 197.
21 1934-1935, n.° 296, p. 198. A Emissora Nacional, criada em 29 de Julho de
1933 e com emissões experimentais em 34, teve os seus estúdios oficialmente inaugurados
em 4 de Agosto de 1935; data de finais de 34 o primeiro discurso de Salazar transmitido.
22 1934-1935, n.° 297, p. 199. Foi a 5 de Abril de 1935 que a Assembleia Nacional
aprovou o projecto de lei das associações secretas, o que justifica a datação que se propõe.
23 1934-1935, n.° 315, p. 228.
24 1934-1935, n.° 329, p. 244. O poema é datável de 1935 por serem deste ano, do
segundo semestre, todos os textos datados na agenda em que se encontra. Por outro lado,
o epigrama parece determinado por acusação de que na conhecida passagem do mar salga-
do em Mar Português Pessoa teria plagiado António Correia de Oliveira — este episódio
alegado não o consigo situar mas seria posterior à saída de Mensagem — embora as duas
estrofes de Mar Portuguez tivessem já saído, e junto de outros poemas depois também in-
tegrados em Mensagem, logo em 1922, na Contemporânea, 2 (4), de Outubro, e em 1933,
na Revolução, 2 (386), 16 de Junho.
25 1934-1935, n.° 333, p. 246.
O MELHOR DO MUNDO 229
rés.  U se arranjas
• directrizes — em que
i 21 de Fevereiro, na
ariado da Propaganda
s «Á Emissora Nacio-
que se recrimina estar
s se presume seja de
s associações secretas
Por toda a gente 
jecto do José Cabral é a
pulha austero e raro l
sãs mais, l E hoje presi-
n, vão p'ra o Salazar ; os nove versos de
trrido  prolongada
não lógico  acabou  de 18-8-1935 23; o
s cujo dístico final, na
E ando sobretudo com
o semestre 24; os cinco
ira estrofe talvez seja a
ás peças,  fato em
25; o longo «Poema de
p. 197.
criada em 29 de Julho de
os oficialmente inaugurados
urso de Salazar transmitido.
que a Assembleia Nacional
ca a datação que se propõe.
'35 por serem deste ano, do
ie encontra. Por outro lado,
:ida passagem do mar salga-
ie Oliveira — este episódio
íensagem — embora as duas
poemas depois também in-
í), de Outubro, e em 1933,
amor em estado novo» — doze quintilhas com investidas sobre várias insti-
tuições e emblemas do Estado Novo, terminando com a confissão irónica
Estou seguindo as directrizes o Professor Salazar—, de 8/9-11-1935 2é.
Como se sabe e este relance a poemas também inculca, a revolta de Pes-
soa contra o Estado Novo radica em pelo menos um motivo — não se diz que
não houvesse outros —, o Projecto de Lei das associações secretas, que ilegalizava
a Maçonaria, apresentado pelo deputado José Cabral a 15 de Janeiro de 1935
e aprovado na Assembleia Nacional, por unanimidade, a 5 de Abril 27. A dis-
cussão nos jornais começou a 4 de Fevereiro com artigo de Pessoa no Diário
de Lisboa, «Associações Secretas», que teve logo réplicas nos dias seguintes, che-
gando a polémica até 14 de Março, sem que Pessoa nela voltasse a intervir 28.
A 21 de Fevereiro fora a sessão de entrega dos prémios literários no Secretari-
ado da Propaganda Nacional e o discurso de Salazar com as «directrizes» con-
tra que o poeta motejaria em alguns dos poemas 29. Lembre-se que um dos
26 1934-1935, n.° 334, p. 246.
27 Para cronologia e bibliografia das peças da polémica em torno da lei das associações
secretas: José Blanco, «Fernando Pessoa e as 'Associações Secretas' (o Artigo, a Polémica e os
Folhetos)», Gilda Santos, Jorge Fernandes da Silveira, Teresa Cristina Cerdeira da Silva (orgs.),
Cleonice, clara em sua geração, Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 1995,pp. 305-317.
28 Pessoa descreve assim o seu papel na polémica (em passo já citado por José Blanco,
«Fernando Pessoa e as 'Associações Secretas' (o Artigo, a Polémica e os Folhetos)», p. 306):
«Pela primeira vez na minha vida fabriquei uma bomba. Cerquei o seu dinamite de verda-
de com um envólucro de raciocínio; pus-lhe um rastilho de humorismo. Feita, atirei-a aos
opositores da Maçonaria. E o efeito foi não só retumbante mas milagroso. Perderam a
cabeça sem a ter» (fragmento do manuscrito 129-83-92, Da República (1910-1935), recolha
de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução e organização de Joel
Serrão, Lisboa, Ática, 1979, p. 419).
29 Como assinalou João Rui de Sousa, Fernando Pessoa, empregado de escritório, Lis-
boa, SITESE, 1985,n. 3, pp. 10-11, também a assinatura do críptico constituído por «An-
tónio de Oliveira Salazar», «Este senhor Salazar», «Coitadinho» — Um sonhador nostálgico
do abatimento e da decadência — retoma ironicamente um trecho do discurso de Salazar: «é
impossível valer socialmente tanto o que edifica como o que destrói, o que educa como o
que desmoraliza, os criadores de energias cívicas ou morais e os sonhadores nostálgicos do
abatimento e da decadência». Além das alusões implícitas, ao discurso se reportará Pessoa a
30 de Outubro, em carta incompleta e não enviada a Adolfo Casais Monteiro: «Desde o
discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste anno, na distribuição de prémios no
Secretariado de Propaganda Nacional, ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que es-
tava substituída a regra restrictiva da Censura, 'não se pôde dizer isto ou aquillo', pela regra
soviética do Poder, 'tem que se dizer aquillo ou isto'. Em palavras mais claras, tudo quanto
escrevermos, não só não tem que contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Estado
Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado às directrizes traçadas pelos
230 RAZÕES E EMOÇÃO
concursos, o Prémio Antero de Quental, distinguira Mensagem, ao lado, ou
depois, de Romaria de Vasco Reis, mas Pessoa faltou à cerimónia. (Interessa-
ria ponderar o contraste entre a fase, talvez de adesão ao regime, que vai até
inícios de 1935, e as posições contra o Estado Novo a partir de Fevereiro 30.)
Resumo a cronologia 31, que vai mostrando que não eram disparatadas
as intuições do censor, «Liberdade» surgindo como primeiro poema, dois dias
orientadores do citado Estado Novo. Isto quere dizer, supponho, que não poderá haver
legitimamente manifestação literária em Portugal que não inclua qualquer referencia ao
equilibrio orçamental, à composição corporativa (também não sei o que seja) da sociedade
portugueza e a outras engrenagens na mesma espécie» (E3/ll4í-36; transcrição de Enrico
Martines, Cartas entre Fernando Pessoa e os directores da presença, Lisboa, INCM, 1998,
p. 282). E em outra carta não enviada, para Carmona: «Com efeito, na citada segunda
parte do citado Prefácio, parte essa de que o principal e essencial político foi dito ou tido
numa reunião pública, da entrega dos Prémios, no S. de P. N., diz-se aos escritores que
têm eles que obedecer a certas directrizes. Até aqui a Ditadura não tinha tido o impudor
de, renegando toda a verdadeira política do espírito — isto é, o de pôr o espirito acima da
política — vir intimar quem pensa a que pense pela cabeça do Estado, que a não tem, ou
de vir intimar quem trabalha a que trabalhe livremente como lhe mandam [variante: a que
trabalhe com a douta animalidade da Câmara Corporativa]» (E3/92M-28-33; transcrição
de Teresa Sobral Cunha, «Fernando Pessoa em 1935. Da ditadura e do ditador em dois
documentos inéditos», Colóquio-Letras, n.° 100, Novembro-Dezembro de 1987, pp. 123-
-131, p. 126); mais trechos no mesmo envelope 92M (ff. 43, 82, 81, 41, 42, 80), aparen-
temente para a carta a Carmona, foram publicados por Laurinda Bom e Margarida Duarte
em Pessoa Inédito (orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Hori-
zonte, 1993), pp. 374-376.
30 Alfredo Margarido («Introdução», Santo António, São João, São Pedro) defende que
«possivelmente até aos primeiros meses de 1935, Fernando Pessoa foi um adepto convicto
da excelência do regime ditatorial, sobretudo após a irrupção do prof. Oliveira Salazar,
como Ministro das Finanças primeiro, como Presidente do Conselho de Ministros a partir
de 1932» (p. 11); 1934 teria sido «um ano de adesão não só ao salazarismo, mas também
às suas propostas estéticas», «a ruptura parece só começar a organizar-se em Fevereiro de
1935, a partir da apresentação na Assembleia Nacional do projecto de decreto-lei destinado
a proibir as associações secretas» (14).
31 O enquadramento cronológico do último ano de Pessoa foi traçado antes nos ar-
tigos de João Rui de Sousa, Teresa Sobral Cunha, Alfredo Margarido, aqui citados; no
catálogo Fernando Pessoa: o último ano, organização e coordenação de Teresa Sobral Cunha
e João Rui de Sousa, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1985; no livro de José Fernandes Tavares,
Fernando Pessoa e as estratégias da razão política, Lisboa, Instituto Piaget, 1998, pp. 128-
-147; por João Medina, «Fernando Pessoa e o 'Tiraninho'. O poeta da Mensagem e o dita-
dor António de Oliveira Salazar (1928-1935). Estudo e Antologia», Boca do Inferno. Revista
de Cultura e Pensamento, n.° 5, Maio de 2000, pp. 31-76; e por certo em mais trabalhos.
Na tábua que se segue a novidade estará apenas na inclusão de textos que só foram publi-
cados, ou datados, na edição crítica de 2000.
O MELHOR DO MUNDO 231
sagem, ao lado, ou
rimónia. (Interessa-
regime, que vai até
tir de Fevereiro 30.)
i eram disparatadas
:o poema, dois dias
que não poderá haver
qualquer referencia ao
que seja) da sociedade
; transcrição de Enrico
Lisboa, INCM, 1998,
ito, na citada segunda
olítico foi dito ou tido
iz-se aos escritores que
tinha tido o impudor
pôr o espirito acima da
.do, que a não tem, ou
andam [variante: a que
)2M-28-33; transcrição
i e do ditador em dois
bro de 1987, pp. 123-
,1, 41, 42, 80), aparen-
jm e Margarida Duarte
ta Lopes, Lisboa, Hori-
São Pedro) defende que
foi um adepto convicto
prof. Oliveira Salazar,
10 de Ministros a partir
lazarismo, mas também
izar-se em Fevereiro de
de decreto-lei destinado
bi traçado antes nos ar-
jarido, aqui citados; no
ie Teresa Sobral Cunha
José FernandesTavares,
Piaget, 1998, pp. 128-
a da Mensagem e o dita-
, Boca do Inferno. Revista
;erto em mais trabalhos.
[tos que só foram publi-
depois de encerrada a polémica. Seguem-se textos de feição epigramática,
aparecendo no fim do calendário os poemas mais generalizadores e disfóricos.
(Não incluí os dois quartetos de Vae pra o seminário 32, que creio relaciona-
rem-se com a polémica da lei mas a ela se confinam, nem o extenso Elegia
na sombra 33, de 2 de Junho, de clara desilusão com Portugal mas sem que
se possa indicar nexos com a situação política.)
19 de Janeiro
4 de Fevereiro
21 de Fevereiro
14 de Março
16 de Março
segunda década de Março
29 de Março
29 de Março
29 de Março
4 de Abril
5 de Abril
depois de 5 de Abril
[1935]
29 de Julho
18 de Agosto
[segundo semestre]
8 de Novembro
8-9 de Novembro
30 de Novembro
É apresentado o projecto de lei das associações secretas
Fernando Pessoa publica o artigo «Associações Secretas»
Salazar discursa na sessão dos prémios do SNP
Artigo de Rolão Preto fecha a polémica na imprensa
Liberdade
Salazar é mealheiro
António de Oliveira Salazar
Este senhor Salazar
Coitadinho
Mata os piolhos maiores
Discussão e aprovação do projecto de lei
Solemnemente
A Emissora Nacional
Sim, é o Estado Novo, e o povo
Dizem que o jardim Zoológico
Eu fallei no «mar salgado»
Meu pobre Portugal
Poema de amor em estado novo
Morre Fernando Pessoa
32 1934-1935, n.° 294, p. 197. Sem data, mas no verso de folha com ensaio de texto
integrável no «dossier» da polémica que Pessoa suscitara com o artigo de 4 de Fevereiro; o
epigrama é posterior ao rosto porque foi lançado quando a folha já estava dobrada.
33 1934-1935, n.° 300, p. 201. Sobre «Elegia na sombra» diz João Rui de Sousa que
«a sua principal característica é o dar-nos da realidade portuguesa de então uma imagem
extraordinariamente recessiva em relação a todos os aspectos do nosso ser colectivo» («Fer-
nando Pessoa e o Estado Novo», p. 13). Em outro artigo («Sobre o significado de Elegia na
Sombra— o último longo poema de Fernando Pessoa», Colóquio-Letras, n.° 106, Novembro-
-Dezembro de 1988, pp. 17-25), explicita que «não deixando de continuar a ser um texto
de implacável indignação e protesto, pode também legitimamente entender-se como cântico
melancólico [...]» (24), «um dos textos mais acidulados e virulentos emergentes de uma
conjuntura pessoal de humilhação e de derrota, a que terão de juntar-se, naturalmente,
outras razões incluindo as de saúde, já de si bastante favoráveis ao avolumar do desalento,
ao adensar de uma visão mais e mais soturna do real» (22-23).
232 RAZÕES E EMOÇÃO
E se o autor propôs várias formas, qual devemos escolher?
Temos aludido a testemunhos autógrafos de «Liberdade» sem que os
descrevêssemos. São duas as peças que no espólio de Fernando Pessoa na
Biblioteca Nacional (BN E3) contêm o poema: as folhas 118-54 (doravante
testemunho A) e 118-55 (testemunho B). Em ambas o poema está dactilos-
crito, no rosto, e com a data a subscrevê-lo.
O testemunho A está dactiloscrito a preto e tem ao canto superior di-
reito, a lápis, nota da inventariadora, p. 246-247, que remete para a edição
Ática. O grupo que a partir de finais de 1969 procedeu à inventariação do
espólio 34 sempre que possível indicava nas folhas a correspondência aos vo-
lumes editados. Sendo 118-54 a primeira das duas peças cotada, foi ela que
recebeu a referência das páginas de Poesias, o que não envolve nenhuma iden-
tificação do original da Ática e portanto não tem interesse particular para os
nossos trabalhos.
O testemunho B está a azul, tendo sido obtido por dactilografia sob
papel de carbono. Ao contrário de A, tem alguns dizeres manuscritos pelo
punho de Pessoa, a lápis, todos no verso da folha, lançados quando esta já
estava dobrada em quatro partes: There is no reason l to suppose that I 
<w> worse e Quando essa typa t xarope a a cambalear p 'rã casa, frases ingle-
sa e portuguesa em quartos diferentes. Também ao contrário do testemunho
A, a folha 118-55 traz assinatura, sob o poema, igualmente dactiloscrita.
Vale a pena destacar os modos diferentes como as duas folhas foram
dactilografadas. A folha A recebeu a tinta directamente da fita da máquina, e
não sabemos se quando foi dactilografada tinha sotopostas folhas para dupli-
cado (talvez não, pois foi emendada após reajustamento na própria máquina
de escrever, operação que resultaria mal em eventuais duplicados). O teste-
munho B é uma cópia de carbono, o que implica a existência de mais um
exemplar — se calhar, dois — do mesmo tiposcrito. Essa folha dactiloscrita
a preto, a cor que se presume teria a fita, pode bem ter sido a entregue à
Seara 35. Como a tanto obriga o que se tem dito das versões A e B, não se
trata obviamente de textos dactilografados na mesma ocasião.
34 Sobre os trabalhos do grupo inicial e reformulações que este sofreu: Maria Laura
Nobre dos Santos, Alexandrina Cruz, Rosa Maria Montenegro Matos, Lídia Pimentel,
«A inventariação do espólio de Fernando Pessoa: tentativa de reconstituição», Revista da
Biblioteca Nacional, série 2, 3 (3), Setembro-Dezembro de 1988, pp. 199-213.
35 «Os poucos exemplos [de originais entregues para publicação] que estão no Espó-
lio, e que referem à sua colaboração na presença, indicam que Fernando Pessoa mandava o
O MELHOR DO MUNDO 233
tolher?
lade» sem que os
rnando Pessoa na
[18-54 (doravante
ema está dactilos-
canto superior di-
icte para a edição
i inventariação do
pendência aos vo-
ltada, foi ela que
vê nenhuma iden-
particular para os
r dactilografia sob
manuscritos pelo
[os quando esta já
uppose that I l am
z casa, frases ingle-
rio do testemunho
ite dactiloscrita.
duas folhas foram
fita da máquina, e
folhas para dupli-
a própria máquina
plicados). O teste-
:ência de mais um
folha dactiloscrita
sido a entregue à
;ões A e B, não se
iião.
te sofreu: Maria Laura
latos, Lídia Pimentel,
nstituiçáo», Revista da
i. 199-213.
.o] que estão no Espó-
ndo Pessoa mandava o
Folha
92U-30
92U-31
118-54
118-55
Textos anti-salazaristas que contém
«Sim, é o Estado Novo, e o povo» (testemunho B)
«António de Oliveira Salazar» (testemunho B);
«Este senhor Salazat» (testemunho B)
«Liberdade» (testemunho A)
«Liberdade» (testemunhoB)
Nem aliás na mesma máquina. Como se vê no quadro a seguir, a forma
dos caracteres mostra que A e B são de diferentes máquinas de escrever.
Importava também cotejar os caracteres de outros documentos no espólio,
verificando as máquinas das restantes folhas com poemas anti-salazaristas.
Tendo analisado além dos testemunhos de «Liberdade» mais dois dactiloscritos
com poemas contra Salazar, constatei que a variedade de máquinas de escre-
ver é grande, máxima mesmo na curta amostra 36.
São quatro máquinas diferentes para quatro folhas: 92U-31 distingue-se
das outras três folhas logo pelo <u>; 92U-30 tem <ç> que não é o mesmo
de 118-54 nem o de 118-55; quanto a 118-54 e 118-55, as folhas de «Li-
berdade», podemos contrastá-las pelo <g> ou pelo <t>. Se não soubéssemos
que Pessoa utilizava habitualmente várias máquinas de escrever 37, dir-se-ia
que o poeta acautelava perseguições policiais e procurava baralhar identifica-
ções por reconhecimento da dactilografia (como se fosse verosímil semelhan-
te sofisticação das diligências da PVDE).
original dactilografado escrevendo no fundo, também à máquina, o nome do Autor a cuja
paternidade atribuía o poema (Fernando Pessoa na poesia ortónima), e guardava para si
cópia de carbono» (José Augusto Seabra, Maria Aliete Galhoz, «Nota filológica preliminar»,
Mensagem. Poemas esotéricos, pp. XI.I-LHI, p. XLIX).
36 Na verdade, a amostra não podia ser muito mais completa. Além dos quatro
dactiloscritos analisados, só faltou pôr no quadro 92U-32 (onde estão o testemunho B de
«Coitadinho» e os testemunhos C de «António de Oliveira Salazar» e «Este senhor Salazar»),
de que não dispúnhamos de imagem com caracteres em condições (os que colhêramos quando
ainda não prevíramos este estudo ficaram quase ilegíveis por o dactiloscrito estar ele mesmo
pouco nítido). Os restantes anti-salazaristas são manuscritos.
37 O que ficou demonstrado a propósito da polémica à volta das memórias naturo-
-vegetarianistas de Eliezer Kamenezky. Cf. Ivo Castro, João Dionísio, José Nobre da Silveira,
Luís Prista, «Eliezer. Ascensão e queda de um romance pessoano», Revista da Biblioteca
Nacional, série 2, 7 (1), 1992, pp. 75-136, pp. 78, 79, 89.
234 RAZÕES E EMOÇÃO
Para concluir a avaliação comparada de A e B, falta dizer que não ofe-
rece dúvidas ter A precedido B, porque, sendo em A conspícuo o trabalho
de elaboração ou revisão, o testemunho B adopta como ponto de partida o
último estado a que se chegara em A. Considerado esse in-put, B apenas
introduz variação em sinais de pontuação e na ortografia, o que plausivel-
mente corresponde a substituições no próprio momento da cópia.
A seguir transcrevem-se os versos de A e B onde em algum momento
houve variação relativamente ao texto fixado (isto é, a lição reproduzida no
início do artigo). Para abreviar o cotejo, dá-se a transcrição genética de A e
nela se marcam os acrescentos pontuais e as variantes ortográficas em B. Se
nada pusermos relativo a B, deve entender-se que a lição é idêntica à do últi-
mo estado de A (mas limpa, como é óbvio, que o testemunho não iria repetir
as etapas de revisão ultrapassadas em A). Entre parênteses esquinados ficam os
segmentos riscados (cuja canceladura, também dactilografada, é conseguida por
sequência de xx); entre parênteses rectos, os acrescentos e substituições; entre as
barras /  letras que se sobreponham a outras, e entre angulares estas últimas.
ante l A omite B (falta uma citação de Seneca)
2 A Não cumprir um dever! [B dever,]
4 A <E esquecer.> E não o fazer. [B fazer!]
5 A <Porque> <l>/Ler é maçada[B ,]
6 A <E> <e>/Estudar <não> é nada.
9 A O rio corre[B ,] bem ou mal[B ,]
12 A De tam naturalmente matinal[,]
13 A <Tem tam pouca pressa!> Como tem tempo não tem pressa.
14 A Livros são papeis pintados com <letras,> tinta.
15 A Estudar é uma coisa em que está indistincta<,> [B indistinta]
16 A Ã distincção [B distinção] entre nada e cousa nenhuma.
19 A Quer venha ou não. [B não!]
21 A <O melhor do mundo são crianças> Mas o melhor do mundo
são crianças,
22 A Flores, musica, o luar[B ,] e o sol, que pecca [B peca]
23 A Só quando, em vez de criar, secca [B seca].
25 A É Jesus Christo [B Cristo],
26 A Que não sab<o>/i nada de finanças
27 A Nem consta que tivesse bibliotheca. [B bibli<l>/oteca...]
Continuando a proceder ao contrário da cronologia, comentemos pri-
meiro o testemunho B. Já se foi dizendo que B é um testemunho quase sem
izer que não ofe-
spícuo o trabalho
mto de partida o
in-put, B apenas
o que plausivel-
i cópia.
algum momento
o reproduzida no
> genética de A e
gráficas em B. Se
idêntica à do últi-
10 não iria repetir
quinados ficam os
é conseguida por
stituições; entre as
lares estas últimas.
ao tem pressa.
• [B indistinta]
lenhuma.
tielhor do mundo
B peca]
>/oteca...]
comentemos pri-
munho quase sem
O MELHOR DO MUNDO 235
trabalho genético. Deve ser a simples passagem a limpo de A acrescida da
marca autoral que são os retoques da pontuação. Como se disse, estas poucas
mudanças de pontuação, bem como a troca de ortografia, decorreram sem
emendas na folha, e só as evidencia o confronto do estado final de A com B.
Terão sido pensadas, quase espontaneamente lançadas, à medida que o poeta
ia dactilografando B a partir de A. (Não perderemos tempo com a hipótese
de um autógrafo intermédio, uma cópia de carbono de A com emendas
manuscritas, por considerarmos que tal campanha seria sempre insignificante.)
Neste contexto, em que se percebe não ter sido o dactiloscrito B sede
de demorada elaboração, mais se inculca o teor meramente funcional e pro-
visório daquela «epígrafe» (a qual, repitamo-nos, não aparecia em A). Quan-
to ao resto, o testemunho não perde o grau de maturação que lhe confere
ser o autógrafo mais recente, integrando lições já trabalhadas em outra folha.
O termo «autógrafo» tomei-o na acepção arquivística de 'produzido pelo autor'
ainda que à máquina, mas vale lembrar que B tem igualmente o atestado da
autografia em sentido comum, devido aos dizeres manuscritos por Pessoa no
verso da folha. O testemunho B sai também valorado, se admitirmos que as
mudanças de grafia visavam conformar o poema ao estilo ortográfico corren-
te, assim preparando a sua publicação na Seara Nova.
Antes de vermos o outro testemunho, lembre-se que foi por este teste-
munho B que fixámos o texto, excepto no caso da linha ante l, em que
preferimos a lição, não-lição, de A, ou, o que dá no mesmo mas não é o
mesmo, preterimos uma lição de B por a julgarmos provisória e instrumental.
Para comentarmos agora a elaboração havida sobre o dactiloscrito A,
dividiremos os lugares de variação interna segundo correspondem a emendas
em «curso de escrita» (as introduzidas sem que o papel tenha sido retirado
do rolo da máquina, o que se vê de coincidirem os espaços de caracteres
«riscados» ou sobrepostos) e as que ocorreram por certo já depois de lançado
todo o poema (tendo sido o papel recolocado, como se conclui de os espaços
de letras substituintes apenas se aproximarem da matriz inicial). Desde já se
diga que não sabemos quanto tempo mediou entre uma e outra campanha —
mas a máquina, desta vez sim, é a mesma e a tinta não parece nem mais
forte nem mais fraca.
Ocorreram já na revisão depois de se ter retirado a folha da máquina a
desinteressante correcção do saboa para sabia (v. 26); a troca de Tem tam
pouca pressa! por Como tem tempo não tem pressa, (v. 13) e, requerido por esta
alteração, o acrescento da vírgula no v. 12; a supressão da vírgula que che-
gou a terminar o v. 15; a substituição de E estudar não é nada por Estudar é
nada (v. 6), tendo porém ficado esquecida a rectificação da pontuação no
236 RAZÕES E EMOÇÃO
verso anterior como implicava a nova sintaxe (a vírgula será acrescentada mas
já no testemunho B); o cancelamento de Porque (v. 5); a troca de E esquecer
por E não o fazer (v. 4).
Decorreu em curso de escrita o cancelamento de letras (v. 14), aparen-
temente preterido por tinta, a que se segue ponto e não a vírgula que se
previra antes da troca. No verso que mais nos importa, v. 21, também sem
que a folha saísse do rolo se passou de O melhor do mundo são crianças para
Mas o melhor do mundo são crianças. Quanto a «crianças», esteve sempre sem
artigo, como se vê sob os xx que cancelam toda a primeira versão — e note-
-se que, embora houvesse apenas a conjunção a acrescentar, todo o verso foi
de novo repetido, e sempre sem artigo. Só no segundo estado se vê a vírgula
após «crianças», o que significa que a reformulação do verso foi decidida não
só antes de tirada a folha como logo que acabava de ser escrito (ainda antes
da pontuação que o terminaria).
Serão significativos os erros, as evidentes trocas de um termo? Deve-
mos mante-los ou corrigi-los?
O caso aqui é de novo a epígrafe ou, assim a temos julgado, a nota
erradamente tomada como epígrafe. Atrás vimos como «Liberdade» se inscre-
ve na cronologia do Pessoa agastado com Salazar, deputados da Assembleia
Nacional, Estado Novo. Hesitou-se então quanto ao teor anti-salazarista de
«Liberdade», o texto avaliado como menos a contracorrente do que poemas
que se lhe seguem. A epígrafe que nos falta esclarecerá a índole de texto
empenhado. E por sua vez um episódio político esclarece a epígrafe.
Lembre-se o discurso de Salazar na entrega dos prémios literários do
Secretariado da Propaganda Nacional. Na verdade, quase todo o discurso
recuperava «algumas passagens do Prefácio agora escrito para a colecção dos
meus discursos. De entre todas, escrevi aquelas que pudessem exactamente
convencer de que, neste momento, não devia falar nem ficar calado» 38. Logo
no primeiro parágrafo se defende a imposição de «certas limitações» «à acti-
vidade mental e às produções da inteligência e sensibilidade dos portugueses»
38 Oliveira Salazar, «Palavras pronunciadas pelo sr. Doutor..., em 21 de Fevereiro de
1935 na sede do Secretariado da Propaganda Nacional, na primeira festa da distribuição
dos Prémios Literários criados por este organismo», António Ferro, Prémios literários (1934-
-1947), Lisboa, Edições SNI, 1950, pp. 9-13, p. 10.
acrescentada mas
xá de E esquecer
(v. 14), aparen-
a vírgula que se
21, também sem
são crianças para
iteve sempre sem
versão — e note-
todo o verso foi
Io se vê a vírgula
foi decidida não
:rito (ainda antes
mi termo? Deve-
; julgado, a nota
srdade» se insere-
os da Assembleia
inti-salazarista de
; do que poemas
. índole de texto
i epígrafe.
nios literários do
todo o discurso
rã a colecção dos
;sem exactamente
r calado» 38. Logo
mitações» «à acti-
dos portugueses»
n 21 de Fevereiro de
festa da distribuição
mios literários (1934-
O MELHOR DO MUNDO 237
e se diz conveniente traçar-lhes «algumas directrizes»39, passo a que Pessoa
alude em poemas que citámos e em passagens de outros autógrafos mencio-
nados. Creio que se tem reparado menos no parágrafo que fecha o discurso
de Salazar: «E, se por se generalizar este estado de consciência, se vier a es-
crever menos... Mas virá algum mal ao Mundo de se escrever menos, se se
escrever e, sobretudo, se se ler melhor? Relembro a frase de Séneca: 'em es-
tantes altas até ao tecto, adornam o aposento do preguiçoso todos os arra-
zoados e crónicas'» 40.
Adivinha-se que em estantes altas até ao tecto, adornam o aposento do pre-
guiçoso todos os arrazoados e crónicas, com o nome de Séneca a subscrevê-la,
seria a epígrafe em que pensava Pessoa, e «Liberdade» percebe-se agora como
glosa desse mote, desenvolvido de forma irónica. Por que motivo não che-
gou o poeta a dactilografar a citação? Talvez porque buscasse a exacta frase
em latim. Ou, porque quisesse Pessoa brincar com a erudição de Salazar,
«falta uma citação de Séneca» assumia a incapacidade de citar clássicos e era
portanto remoque a constar na publicação?
39 Oliveira Salazar, p. 10. Esse primeiro parágrafo do discurso está também copiado
por Pessoa no manuscrito 113P'-62: «'Os princípios morais e patrióticos que estão na base
deste movimento reformador impõem à actividade mental e às produções da <sensi> inte-
ligência e sensibilidade dos portugueses certas limitações, e suponho deverem mesmo traçar-
-Ihes algumas directrizes.' II Oliveira Salazar, Discursos, pp. xx-xxi (trecho lido [pelo próprio
ao presidir] em 21 de Fevereiro de 1935 <na>[à] sessão de distribuição de Prémios Literá-
rios no Secretariado de Propaganda Nacional)»; a seguir, sempre a tinta preta, Pessoa co-
piou um dos períodos do penúltimo parágrafo do discurso: «'Neste momento histórico, em
que determinados objectivos foram propostos à vontade nacional, não há remédio senão
levar às últimas consequências as bases ideológicas sobre as quais se constró<e>/i novo
Portugal' (ibid, p. xxiv)». (O autógrafo fora já referido por Teresa Puta Lopes, «Sobre o
alcance da obra inédita e deste volume», Pessoa Inédito, pp. 17-71, p. 59.)
40 Oliveira Salazar, pp. 12-13. «Palavras pronunciadas pelo sr. Doutor..., em 21 de
Fevereiro de 1935 na sede do Secretariado da Propaganda Nacional, na primeira festa da
distribuição dos Prémios Literários criados por este organismo», António Ferro, Prémios
literários (1934-1947), Lisboa, Edições SNI, 1950, pp. 9-13, pp. 12-13. O texto publicado
como prefácio nos Discursos tem ligeiras divergências na apresentação da frase de Séneca: «E
se, por se generalizar tal estado de consciência, se vier a escrever menos... ^Mas virá algum
mal ao mundo de se escrever menos, se se escrever e sobretudo se se ler melhor? Hoje,
como na crítica de Séneca, 'em estantes altas até ao tecto, adornam o aposento do pregui-
çoso todos os arrazoados e crónicas'» (Oliveira Salazar, «Para servir de prefácio», Discursos.
1928-1934, Coimbra, Coimbra editora, 1935, pp. vii-xxxn, p. xxiv). O texto saído a 22 de
Fevereiro no Diário de Notícias — que vejo conforme é dado por Enrico Martines, p. 283 —
também apresenta algumas variantes igualmente irrelevantes.
238 RAZÕES E EMOÇÃO
Chegaria Pessoa a procurar o trecho latino em livros da sua biblioteca
pessoal? Na estante que foi do poeta e está hoje na Casa Fernando Pessoa há
três volumes com obras de Lúcio Aneu Séneca — os dois tomos de Senecas
tragedies (with an english translation by Frank Justus Miller, London-New York,
William Heinemann-G. P. Putnam's Sons, 1917) e um livro que inclui o
opúsculo Apocolocyntosis {with an english translation by W. H. D. Rouse;
London-New York, William Heinemann-G. P. Putnam's Sons, 1916; a pri-
meira parte do volume é para Petrónio, com tradução de Michael Hesel-
tine) —, nenhum com sublinhados ou notas por Pessoa. Também não seria
aí que podia encontrar a frase que interessava, a qual pertence ao diálogo De
tranquillitate animi (cap. 9, § 7): «Apud desidiosissimos ergo uidebis quidquid
orationum historiarumque est, tecto tenus exstructa loculamenta» 41.
Acreditando que Pessoa apenas adiava a inscrição da epígrafe — porque
lhe faltasse o original latino ou até a precisa versão de Salazar, já que não se
trataria de estratégia de esconder da censura a referência mais explícita —,
supomos que ainda a iria lançar em provas. E nem sabemos se assim não
aconteceu efectivamente antes de 30 de Novembro. Bastaria que, quando da
publicação dois anos depois, a revista tivesse retomado o original dactiloscrito,
ou a composição tipográfica preliminar, sem o acrescento em provas.
Quanto aos outros erros, não causados pelo poeta mas instalados na
transmissão impressa (e, no caso do v. 21, na voz popular), não parece haver
a mesma dúvida de que se deve corrigi-los. Como, sejam ou não o melhor
do mundo, se faz às crianças. A crianças.
41 Agradeço ao Professor Doutor José António Segurado e Campos, a quem devo a
localização do original latino da frase traduzida por Salazar, aparentemente ad hoc traduzida,
não mera transcrição de algum impresso. Para o trecho de Séneca o Professor Segurado e
Campos propõe a seguinte tradução, o mais literal possível: 'em casa dos (sujeitos) mais
preguiçosos poderás ver (encontrar) tudo quanto há de discursos e de histórias (obras his-
tóricas) em prateleiras que se erguem até ao tecto'.
GIÃO DE LISBOA
Razões e Emoção
Miscelânea de estudos em homenagem
a Maria Helena Mira Mateus
Vol. II
organização de
Ivo Castro
e
Inês Duarte
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Lisboa
2003
Título:
Organizadores:
Edição:
Concepção gráfica:
Capa:
Tiragem:
Data de impressão:
ISBN:
Depósito legal:
Razões e Emoção
Miscelânea de Estudos em Homenagem
a Maria Helena Mira Mateus
Vol. II
Ivo Castro e Inês Duarte
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Departamento Editorial da INCM
Luís Moreira
800 exemplares
Setembro de 2003
972-27-1268-3
200 654/03
Miscelânea de estudos em homenagem
a Maria Heieiia Mira Maleus
Voíuiíie 11

O melhor do mundo não são as crianças (luís prista)

  • 1.
    Vova, Livraria Almedina, ofTime in Portuguesa», Jniversidade de Lisboa. itive Science, l, pp. 216- rsity Press, Ithaca, Nova '. Tedeschi e A. Zaenen , Academic Press, Nova O MELHOR DO MUNDO NÃO SÃO ASCRIANÇAS Luís PRJSTA [O autor] já morto, uma caligrafia quase ilegível, e eis-nos perante um problema permanente: será que não houve engano na decifração desta ou daquela palavra? E se o autor propôs várias for- mas, qual devemos escolher? Quando há referências a pessoas, lo- cais, acontecimentos — como interpretar com segurança? Serão sig- nificativos os erros, as evidentes trocas de um termo? Devemos mante-los ou corrigi-los? Torna-se assim necessário conhecer, «estar por dentro» do estilo do autor, mas também do contexto cultural e político da época, da ortografia utilizada, quase diríamos, do modo de produzir literatura. MARIA HELENA MIIW MATEUS Na epígrafe a forma entre parênteses rectos é generalização minha, que o parágrafo explicitava o caso de Eça de Queirós, quando — era 1981 — todos tinham presente a polémica em torno da edição da Tragédia da Rua das Flores2. O exemplo de Eça abria o artigo, introduzindo as dificuldades 1 «Problemas linguísticos do texto literário», Palavras. Revista da Associação dos Profes- sores de Português, 2/3, 1981, pp. 49-53, p. 49. 2 Quem quiser lembrá-la pode guiar-se pela revisão em Ernesto Rodrigues, «A Tragé- dia da Rua das Flores: confrontos», Cultura literária oitocentista,Porto, Lello, 1999, pp. 267- -276.
  • 2.
    218 RAZÕES EEMOÇÃO da fixação nas situações típicas da crítica textual moderna, para logo se real- çarem os problemas postos à edição de textos antigos. Após este enqua- dramento, apresentava-se um trecho da Vida e Feitos de Júlio César, com que depois se ilustrariam os «problemas linguísticos do texto literário». Nessa lei- tura de passo da tradução portuguesa quatrocentista 3, Maria Helena Mira Mateus não só explicava as decisões tomadas quanto à actualização da orto- grafia, salientando o que deveria escapar à modernização gráfica por repre- sentar a pronúncia à época, como desenhava um claro retrato dos traços principais do português do século xv. Assumida a troca do romancista por termo genérico, tentarei eu escrutinar a citação. Segui-la-ei pergunta a pergunta, até confirmar o período final assertivo, e para isso recorrerei a um poema dos mais conhecidos de Pessoa, «Liberdade». Por ele começo, apresentando-o como o fixei em edição crítica recente (Poemas de Fernando Pessoa. 1934-1935, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2000) e pondo em rodapé as diferenças notadas na tradição impres- sa essencial (SN = «Um inédito de Fernando Pessoa», Seara Nova, n.° 526, 11 de Setembro de 1937, p. 427; At. = Fernando Pessoa, Poesias, nota expli- cativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa, Ática, 1942, pp. 246-247 [em expoente fica a menção da 2.a edição, de 1943, pp. 246-247, quando a lição discorde, nessa e nas seguintes, do primeiro texto da Ática]; Ag. = Fernando Pessoa, Obra Poética, organização, introdução e notas de Maria Aliete Dores Galhoz, Rio de Janeiro, José Aguilar, 1960 4), sem marcar as divergências por normalização da grafia. 3 Como se sabe, a tradução portuguesa do texto francês com a biografia de Júlio César foi objecto de edição crítica por Maria Helena Mira Mateus (Vida e Feitos de Júlio César. Edição crítica da tradução portuguesa quatrocentista de «Li fet dês romains», Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1970, 2 vols.). O trecho que na revista Palavras exemplificava os constrangimentos linguísticos da edição de textos antigos, do capítulo xv da terceira parte, foi retirado de antologia organizada para a colecção «Textos literários» (Vida e feitos de Júlio César. Tradução anónima quatrocentistada obra francesa do séc. xin, Li fet dês romains, apresentação crítica, selecção, glossário e notas de Maria Helena Mira Mateus, Lisboa, Sea- ra Nova/Comunicação, 1980), com ortografia modernizada, «de modo a tornar a sua leitu- ra fácil a não especialistas, sem no entanto introduzir alterações que pudessem modificar o que se considera que deveria ser a pronúncia da época» («Apresentação crítica», pp. 15-48, P. 42). 4 Outras edições da (José) Aguilar ou Nova Aguilar que verifiquei foram a 2.a (1965) e a 8.a (Nova Aguilar, 1981), as que Maria Aliete Galhoz considera também reais edições («A fortuna editorial pessoana e seus problemas: o caso da poesia», Fernando Pessoa, Men-
  • 3.
    logo se real- esteenqua- ar, com que ». Nessa lei- ielena Mira jão da orto- i por repre- ) dos traços eu escrutinar eríodo final is de Pessoa, ítica recente >nal-Casa da ição impres- va, n.° 526, ;, nota expli- a, 1942, pp. >p. 246-247, co da Ática]; itas de Maria m marcar as igrafia de Júlio • Feitos de Júlio mains», Lisboa, as exemplificava xv da terceira ;» (Vida e feitos :et dês romains, js, Lisboa, Sea- nar a sua leitu- ;m modificar o ca», pp. 15-48, im a 2.* (1965) :m reais edições Io Pessoa, Men- 10 15 20 25 O MELHOR DOMUNDO 219 LIBERDADE Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doura Sem literatura. O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tam naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa. Livros são papeis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma. Quanto é melhor, quando ha bruma, Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não! Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são crianças, Flores, musica, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca. O mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca... epígrafe: om.] (falta uma citação de Séneca) SN, At.2 (Falta urna citação de Sêneca) 7: doura] doira At., Ag. 13: pressa.] pressa... At., Ag. 21: são crianças,] são as crianças, At., Ag. sagem. Poemas esotéricos, edição crítica coordenada por José Augusto Seabra, Madrid, Archivos/ CSIC, 1993, pp. 216-225, p. 220). No que diz respeito ao poema «Liberdade», as 2.a e 8.a edições em tudo coincidem com a primeira.
  • 4.
    220 RAZÕES EEMOÇÃO E eis-nos perante um problema permanente: será que não houve enga- no na decifração desta ou daquela palavra? Apesar do aparato crítico sob o poema, é útil agora percorrer uma a uma essas variantes da tradição, poucas mas importantes. As edições anteriores trazem uma epígrafe —falta uma citação de Séne- ca —, entre parênteses e em itálico (na Aguilar, em redondo e com maiús- cula). Neste caso idêntica à nossa foi a l.a edição da Ática, que também não fixou a epígrafe, ao contrário do que depois ficaria nas edições da mesma casa a partir de 1943. Quando nos detivermos na génese do poema, voltare- mos ao assunto, mas adivinha-se que a frase constituía nota para posterior substituição pela verdadeira epígrafe, alguma frase de Séneca que o poeta viesse a lançar ainda, afigurando-se despropositado manter essa indicação no texto crítico. Outro ponto que interessa reter, a variação entre primeira e posterio- res edições da Ática. No corpo do poema há três divergências, ou duas divergências e meia, todas opondo lições da Ática e da Aguilar às nossa e da revista. Temos a pontuação final do v. 13 (reticências contra o nosso ponto final) e, sobretu- do, o memorável verso 21 — «Mas o melhor do mundo são as crianças» (assim o fixam as anteriores edições em volume; e assim todos o recitam ou lembram avulsamente) —, que na nossa edição sai sem o determinante — Mas o melhor do mundo são crianças —, como ficou na Seara Nova e, ver- -se-á, como sempre Pessoa o escreveu. (Chamo a atenção para a sintaxe do verso seguinte, 22, um verso sem a mesma fortuna de citações e que se porventura acompanhasse o outro sempre invocado o tornaria menos liminar e, arrisco, menos popular. Trata- -se da continuação do sujeito composto começado em «crianças», série que mitigaria o superlativo que todos temos atribuído às crianças. Esse esba- timento da prevalência das crianças é ainda potenciado por não haver afi- nal artigo: crianças, musica, o luar, e o sol, que peca l Só quando, em vez de criar, seca. Não é forçar a interpretação considerar que as crianças ficam niveladas por flores, música, e perdem até para, esses com artigo, o luar e o sol.) Falta a terceira divergência, que anunciei como meia divergência porque haverá quem a considere abrangida pela normalização gráfica: doirar em vez do dourar primitivo. Não é porém a minha opinião, pois que a moderniza- ção da grafia não implicaria tal troca. O original dactiloscrito já usava orto- grafia das menos antiquadas, ou arcaizantes, que há em Pessoa: «biblioteca», «Cristo», «indistinta», «literatura», «crianças» — não bibliotheca, Christo, in-
  • 5.
    ião houve enga- >ercorreruma a citação de Séne- 3 e com maiús- ue também não içóes da mesma poema, voltare- i para posterior ae o poeta viesse licação no texto íeira e posterio- rgências e meia, avista. Temos a inal) e, sobretu- do as crianças» 35 o recitam ou 3 determinante -ira Nova e, ver- , um verso sem nhasse o outro popular. Trata- nças», série que iças. Esse esba- • não haver afi- Só quando, em que as crianças ; com artigo, o ergência porque .: doirar em vez le a moderniza- 3 já usava orto- oa: «biblioteca», eca, Christo, in~ O MELHOR DO MUNDO 221 distincta, litteratura, creanças— e, sobretudo, «coisa», contra o costumado cousa 5. E, como se sabe, dourar é forma pelo menos não menos convencionada do que doirar6. Desta tradição impressa mínima, a que alega ou admite leitura de origi- nais — entenda-se, decisões de fixação que não relevem, secundariamente portanto, de outras edições —, podíamos ainda retirar a edição Aguilar, que parece ter-se limitado à leitura de Ática. Pela Ática se guiaram também todas as publicações do poema, quando não já pelo derivado da Aguilar ou por fonte terciária. De resto, o texto é dos mais convocados para manuais esco- lares ou antologias de divulgação 7. Relanceando amostra destas publicações escolares e para-escolares, vê-se que incluem a epígrafe, e por isso concluo que seguem uma das edições pós-1943, por certo às vezes em segunda mão. Cumpre analisar à parte uma publicação que tem particularidades da rama de derivados da Ática, via Aguilar ou não, porém conjugadas com va- riantes que não se vêem na restante tradição impressa. O livro em causa, que adopta como título precisamente o verso famoso, apresenta ambiguidades de ordem paratextual que o insinuam como fundado em fonte privilegiada, even- tualmente em testemunhos do próprio poeta. Reporto-me a O melhor do mundo são as crianças. Antologia de poemas e textos (Lisboa, Assírio & Alvim, 1998), de Manuela Nogueira, onde o poema «Liberdade» ocupa uma página preliminar e tem funções de epígrafe. Na sua primeira parte o volume reúne catorze textos do poeta considerados de temática infantil 8. Segue-se uma 5 Ver-se-á que há diferenças de ortografia entre os dois testemunhos no espólio, sen- do mais moderna a do testemunho seguido na fixação. De qualquer modo, é doura que está em ambos os testemunhos. 6 Cingimo-nos à ortografia, não estando em causa a questão da alternância ouloi na pronúncia. 7 Na sua tese de mestrado, A antologia escolar no ensino do Português (Braga, Univer- sidade do Minho, 1987), Maria Sousa Tavares elenca os textos frequentes em antologias do 7.° ano de escolaridade e do antigo 3.° ano liceal, de 1905 a 1979, e com relance depois até 1985. Num dos cânones que colige, relativo aos períodos posteriores ao 25 de Abril de 74, «Liberdade» é o poema de Fernando Pessoa que os manuais mais seleccionam, e o 21.° entre os textos de todos os autores (em publicação parcial: «A transmissão escolar dos valo- res literários. Os textos consagrados», Fátima Sequeira, Rui Vieira de Castro, Maria de Lourdes Sousa (orgs.), O ensino-aprendizagem doportuguês. Teorias epráticas, Braga, Univer- sidade do Minho, 1989, pp. 91-124, a p. 118). Tenha-se em conta que os programas do 7° ano de escolaridade, ao contrário do que acontece em outros níveis de ensino, nem obrigam à leitura de textos de Pessoa. 8 Esta secção, pp. 9-29, sem nunca a citar usa bastante uma colectânea brasileira de dez poemas «que Fernando Pessoa escreveu pensando nas crianças»: João Alves das Neves
  • 6.
    222 RAZÕES EEMOÇÃO secção intitulada «O melhor do mundo...», explicitamente subscrita por Manuela Nogueira, sobrinha do poeta, com memórias que a autora conserva do tio, incluindo-se nos limites desta parte reproduções de alguns dos autó- grafos dos textos na antologia e mais iconografia. «Liberdade» está no rosto da folha a seguir ao frontispício, a p. 7, e todo em itálico. Há pouco não incluí no rodapé do poema as variantes desta edição Assírio & Alvim: 5: maçada,] maçada. 7: doura] doira 8-9: faz espaço interestrófico 9: corre, bem ou mal,] corre bem ou mal, 13: pressa.] pressa... 21: são crianças,] são as crianças, 22: o luar, e o sol,] o luar e o sol, Ou seja, não publica a falsa epígrafe e incorre nas restantes lições variantes de Ática (w. 7, 13, 21), o que faria supor derivar da edição de 1942. Tenha-se porém em conta as outras quatro variantes (w. 5, 8-9, 9, 22). As três variantes de pontuação são lições que correspondem às do dactiloscrito BN E3/118-54, testemunho A, que à frente descreveremos mas que antecipo já ser anterior ao testemunho por que fixámos nós o texto, o testemunho B. Indiciariam essas divergências que Manuela Nogueira consul- tou autógrafo no mesmo estado desse testemunho A; também a ausência da nota-epígrafe concorda com isso. Mas entretanto nem em todos os lugares (org.), Comboio, saudades, caracóis, desenhos de Cláudia Scatamacchia, São Paulo, FTD, 1988. (As informações a Alves das Neves as terá dado em grande parte Manuela Nogueira, como a própria alega — «O Melhor do Mundo são as Crianças. Entrevista com Manuela Nogueira», Extra Persona, 3, Nov/Dez de 1999, pp. 22-23, p. 22 — e, em matéria locali- zada, podemos nós perceber nas notas em Comboio. Ao aproveitarem-se as notas de Neves em O melhor do mundo, a edição da Assírio usou de escrúpulo escolar ao fazer corresponder ao discurso reportado do original brasileiro afirmações na l.a pessoa. Houve portanto auto- -plágio, se assumirmos que os dados eram carreados pela sobrinha do poeta, acrescido de um hetero-plágio, o da própria estruturação a que o entrevistador obrigara a entrevistada.) Dez poemas transitam do livrinho de Alves das Neves: «À minha querida mamã» (Neves, p. 5; Nogueira, p. 16); «Havia um menino» (p. 7; p. 17); «A íbis» (p. 9; p. 18); «O carro de pau» (p. 11; p. 19); «Levava eu um jarrinho» (p. 13; p. 11); «Pia, pia, pia» (p. 15; p. 12); «No comboio descendente» (p. 17; p. 13); «O soba de Bica» (p. 19; p. 20); «Poema Piai» (p. 20; p. 21); «Saudades» (p. 23; p. 28). A esta dezena juntaram-se «Eros e Psique» (p. 14), «Os Ratos» (p. 23), «A Fada das Crianças» (p. 25) e o único texto de prosa, «Era uma vez um elfo» (p. 26; «texto inédito e inacabado que estava na posse da família»).
  • 7.
    O MELHOR DOMUNDO 223 te subscrita por autora conserva alguns dos autó- le» está no rosto . Há pouco não i & Alvim: ; lições variantes : 1942. Tenha-se >2). spondem às do screveremos mas s nós o texto, o fogueira consul- m a ausência da todos os lugares , São Paulo, FTD, Manuela Nogueira, vista com Manuela em matéria locali- : as notas de Neves > fazer corresponder juve portanto auto- poeta, acrescido de *ara a entrevistada.) ida mamã» (Neves, 9; p. 18); «O carro i, pia, pia» (p. 15; 19; p. 20); «Poema i-se «Eros e Psique» :exto de prosa, «Era 5 da família»). de variação entre os testemunhos A e B o texto da Assírio & Alvim segue A — prefere lições de B nos w. 2, 3, 19 (para não referir a assinatura, inexistente em A) —, situação a que se ajustaria o uso de um autógrafo que incorporas- se algumas das modificações sofridas por A mas ainda anterior a B. (Parece artificioso considerar que as três divergências de pontuação Ática-Assírio independem da genealogia, explicando-se como erros introduzidos ou inter- venções de editor: no verso 22 estaríamos perante uma lectío facilior — ter- -se-ia estranhado a vírgula após a copulativa — e as diferenças nos w. 5 e 9 seriam lapsos de cópia que nem destoavam da má revisão de que padece todo o livro.) Quanto ao espaço interestrófico discrepante inserido entre w. 8 e 9, não é possível justificá-lo com algum autógrafo. Tomo-o antes como indício de que se leu por exemplar da Aguilar, já que nesta edição o v. 8 coincide com o final da página, o que a leitores menos avisados se afiguraria fecho da estrofe. Enfim, o texto na Assírio. & Alvim seguirá documento posterior ao dactiloscrito A e anterior a B, mas a sua lição foi contaminada por consulta de exemplar da Aguilar. Este cruzamento com o texto da casa fluminense explicaria o espaço interestrófico a mais, bem como as variantes comuns a Ática (w. 7, 13, 21). Implica isto admitir, por exemplo, um contexto de revisão de provas em que, não se dispondo do testemunho até aí seguido, se tomasse para guia a edição Aguilar. Não deixa de ser estranho que então só se acolhesse parte da sugestão do novo original — o artigo antes de «crian- ças»; as reticências no v. 13; o falso espaço w. 8-9; a nova grafia para «dou- ra» — e não se corrigissem as outras diferenças. Sem grande confiança, arris- co que as lições que o revisor acolhe, e as que mantém, talvez representem em cada caso a solução mais «popular», mais comercial. Cenário que esta estranheza ajuda a recuperar, mas que também não nos satisfaz: O melhor ao mundo são as crianças teria seguido apenas Aguilar e as três variantes que são comuns ao testemunho A (w. 5, 9, 22) dever-se-iam ao acaso, vindas de simples lapsos ou lectiones faciliores da Assírio & Alvim; a ausência da mnemónica da citação de Séneca seria também intervenção, por sorte boa (mas imposta pelo layout conveniente a uma página-epígrafe). O autor já morto Por pouco «Liberdade» não foi publicado antumamente. Ainda que es- crito já no último ano de vida de Pessoa, fora o poema entregue para publi- cação na Seara Nova, a qual se supõe aconteceria ainda antes do 30 de No-
  • 8.
    224 RAZÕES EEMOÇÃO vembro de 35 se uma circunstância imponderada não tivesse sobrevindo. A peripécia foi explicada por Pedro da Silveira, logo depois do 25 de Abril, quando na Seara se publicaram quatro poemas de Pessoa anti-salazaristas («Sim, é o Estado Novo, e o povo», «António de Oliveira Salazar», «Este senhor Salazar», «Coitadinho» 9): Hoje, é finalmente possível revelar-se a esse respeito o que antes de 25 de Abril era de todo impossível. II Pelo menos desde 1932, um dos jovens amigos de café de F. Pessoa era Manuel Mendes. Foi a ele que o poeta entregou o poema «Liberdade», acabado de passar à máquina, para que, se assim o entendesse, e na Seara o quisessem, lá saísse. Quiseram; mas o lápis do censor, ante a última estância (O mais do que isto l É Jesus Cristo, l Que não sabia nada de finanças l Nem consta que tivesse biblioteca..^), embirrou com o terceiro verso dela: «... não sabia nada de finanças». Entenderia o tropa que manejava o lápis que era uma alusão a... Salazar. Só dois anos corridos outro censor deixou passar. II É esta a história, sem dúvida edificante, de Fernando Pessoa ter sido um «sea- reiro»... póstumo («Nota adicional» a Jorge de Sena, «Quatro poemas anti-salazaristas de Fernando Pessoa», Seara Nova, n.° 1545, Julho de 1974, p. 20) 10. Não o informa Pedro da Silveira na nota da Seara, mas sabe-se que nos arquivos da revista viu então a prova de granel do poema cortado pela Cen- sura n Subscrevendo o poema, tanto a publicação em 37 na Seara Nova como os testemunhos dactiloscritos trazem a data de «Liberdade»: 16-3-1935. No entanto, a restante tradição impressa não informa desta data 12. Depois de 9 Nomeio-os conforme ficaram editados em Poemas de Fernando Pessoa. 1934-1935, onde são os textos n.° 308 (p. 221), 290 (p. 195), 291 (p. 196), 292 (p. 196). 10 A «nota adicional» não vem assinada, mas sabe-se ser de Pedro da Silveira; cf., por exemplo, José Blanco, Fernando Pessoa. Esboço de uma bibliografia, Lisboa, Imprensa Nacio- nal-Casa da Moeda/Centro de Estudos Pessoanos, 1983, p. 434. 11 João Rui de Sousa, «Fernando Pessoa e o Estado Novo», JL, jornal de letras, artes e ideias, n.° 310, 14-6-1988, pp. 10-13, p. 13, n. 32, depreendendo-se a informação ter sido prestada oralmente. Neste artigo já se transcrevia a «Nota adicional». 12 Na Ática não se anota no índice — e não vem sob o texto porque de qualquer modo essa era regra estabelecida pelos organizadores — a data do original, o que não cor- responde exactamente ao critério anunciado na nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor: «Quási todas as poesias inéditas são datadas. As demais, à falta de data própria, receberam a data da publicação onde viram a luz. Apenas porque nos pareceu
  • 9.
    i tivesse sobrevindo, poisdo 25 de Abril, :ssoa anti-salazaristas iveira Salazar», «Este espeito o que antes de s desde 1932, um dos endes. Foi a ele que o passar à máquina, para n, lá saísse. Quiseram; ) mais do que isto l É Nem consta que tivesse «... não sabia nada de tis que era uma alusão ixou passar. II É esta a >soa ter sido um «sea- Sena, «Quatro poemas a, n.° 1545, Julho de mas sabe-se que nos aã cortado pela Cen- na Seara Nova como ade»: 16-3-1935. No :a data 12. Depois de nando Pessoa. 1934-1935, , 292 (p. 196). Pedro da Silveira; c£, por Lisboa, Imprensa Nacio- , f L, jornal de letras, artes endo-se a informação ter dicional». texto porque de qualquer ) original, o que não cor- de João Gaspar Simões e As demais, à falta de data 'enas porque nos pareceu O MELHOR DO MUNDO 225 escrita, passaram dois anos e meio quase exactos até que a poesia saísse na Seara de 11 de Setembro de 1937 13. Os quatro poemas anti-salazaristas são também do último ano de Pes- soa: de 29 de Março, a normalmente referenciada como «sequência» ou «tri- plo poema» («António de Oliveira Salazar», «Este senhor Salazar», «Coitadi- nho»), e de rigorosos quatro meses depois, 29-7-1935, «Sim, é o Estado Novo, e o povo». Pelo menos um deles, «António de Oliveira Salazar», teve voga clandestina antes de, muito mais tarde do que «Liberdade», os quatro textos conhecerem os prelos, ou as rotativas, em 1960 e no Brasil, a «tripla sequên- cia», em Portugal e em 1974, todos l4. graficamente recomendável, retirámos as datas do texro do livro, reservando-as para o índi- ce» (p. 16). Se não pudéssemos acolher certo desvio ao que era estipulado na nota, ficaria assim estabelecido que Ática usou como original algum autógrafo em que não houvesse data sob o poema, como está nos testemunhos dactiloscritos que conhecemos. Além de que na própria página da Seara Nova figura sob o poema a data de redacção. 13 Não a 2 de Setembro, como regista a Aguilar, p. 709, talvez por ler como roma- nos os números árabes da data do periódico. 14 A história da sua divulgação é contada na mesma nota: «[Quanto a 'António de Oliveira Salazar'] ter circulado, em cópias dactilografadas, primeiro anonimamente, depois já com a indicação de ser da autoria de Fernando Pessoa, não há a menor dúvida. Acon- teceu do primeiro modo logo a partir de 1935, embora talvez quase só em Lisboa, e do segundo pelo menos desde o período da campanha eleitoral de Humberto Delgado, em 1958. II A versão 'clandestina' é ligeiramente diferente da publicada agora por Jorge de Sena: ou porque o poema teve de facto duas (ou mais) versões, ou então porque, copiado e recopiado, foi sendo deturpado. O verso 5, nela, é assim: 'Salazar é apelido.'; o verso 6 diz: 'Até aqui está bem.'; entre este e o seguinte intercala-se outro: 'Tudo isto faz sentido.' II Porque é a que se encontra no espólio de Pessoa, obviamente a editada por Jorge de Sena é a que deve merecer maior fé. Contudo, não será que o verso a mais da outra não parece realmente a mais, nem francamente apócrifo? II Acrescente-se que dois dos maiores amigos de F. Pessoa nos últimos anos da sua vida, Gil Vaz e Rui Santos, guardaram de cor a variante — versão clandestina — de que ora damos notícia. Passada a escrito pelo primeiro, ela foi publicada, cerca de 1960, num semanário português de Caracas» ([Pedro da Silveira], «Nota adicional» a Jorge de Sena, «Quatro poemas anti-salazaristas de Fernando Pessoa», Seara Nova, n.° 1545, Julho de 1974, p. 20). Também Alfredo Margarido testemunha a prévia divulgação oral dos poemas «António de Oliveira Salazar», «Este senhor Salazar» e «Coitadinho» nos círculos literários lisboeras: «Lembro-me de os ter ouvido — em anos já distantes, mas provavelmente antes de 1954—, fosse na boca de Ruy Santos, fosse na de Pedro da Silveira ou até na de Edmundo de Bettencourt» (introdução a: Fernando Pessoa, Santo António, São João, São Pedro, Lisboa, A Regra do Jogo, 1986, pp. 9-90, p. 22). Em «Fernando Pessoa e Jorge de Sena» (Persona, 5, Centro de Estudos Pessoanos, Porto, Abril de 1981), Arnaldo Saraiva esmiuça episódios da divulgação do «triplo poema anti-salazarista»
  • 10.
    226 RAZÕES EEMOÇÃO Quando há referências a pessoas, locais, acontecimentos — como in- terpretar com segurança? Aqueles quatro poemas é que serão propriamente anti-salazaristas, no sentido de terem como referente sem dúvida Salazar ou o Estado Novo. Em «Liberdade», a identificação do mesmo tópico não é clara. Pedro da Silveira, assim se deduz das reticências antes de «Salazar», não parece acreditar no escopo anti-salazarista para o nosso texto. Mas o mesmo Pedro da Silveira narra como Manuel Mendes recordava os ditérios de Pessoa sobre o ditador, orais também: «Manuel Mendes, que não viveu o bastante para pensar em escrever um livro de memórias, falava de vez em quando das suas relações com Fernando Pessoa. Não faltará quem se lembre muito bem dos ditos do poeta sobre o ditador, que ele fixara e repetia» (p. 20). E, quanto ao próprio «Liberdade», João Rui de Sousa, embora comece por admitir a ausência de «mensagem política imediata ou visivelmente expressa», julga significativos título e «conteúdo anarquizante, de contracultura e abertamente hedonista — sentidos demasiado revulsivos numa época em que imperava [o] preconceito da ordem» e acaba por considerar o poema «um texto de ataque directo à ditadura de Salazar e da União Nacional» ^. (Para bitola de interpretações correntes do poema, sirvam os dois arti- gos que a bibliografia de José Blanco aponta como consagrados à análise de «Liberdade» l6. José Fernandes Fafe lê que Pessoa opõe «ao mundo da cultu- ra, que subestima [...], o da natureza, que valoriza»; «o melhor: o 'natural' — flores, luar, sol — e o que mais próximo está do 'natural' — as crianças, bem como de «Sim, é o Estado Novo, e o povo». Em resumo: Jorge de Sena terá encon- trado o manuscrito dos poemas no dia 4 de Junho de 1954. Revelou o «triplo poema», sem porém assinar essa edição, em O Estado de São Paulo de 20-8-1960; e já antes correria ele clandestinamente. O triplo poema foi reproduzido em Nouvelles Etudes Luso-Brésiliennes (10, Rennes, Université de Haute-Bretagne, 1973) e no Diário Popular de 6-6-1974 (e depois em outros periódicos: A Província de Angola, 17-7-1974; Correio da Horta, 20-7- -1974; Seara Nova, Julho de 1974). Entretanto, tendo sido o poema reproduzido no Co- mércio do Porto de 28-5-1974, por Joaquim Montezuma de Carvalho mas na ignorância de que fora Sena que estivera na origem da publicação no Estado de São Paulo, Jorge de Sena fez sair no Comércio de 19-7-1974 uma nota, intitulada «Os poemas de Fernando Pessoa contra Salazar». O poema «Sim, é o Estado Novo, e o povo» Sena só o publicaria pela primeira vez no Diário Popular, de 30-5-1974, pouco antes de no mesmo jornal repetir a divulgação dos outros três poemas. 15 «Fernando Pessoa e o Estado Novo», pp. 12-13. 16 Fernando Pessoa. Esboço de uma bibliografia, p. 351.
  • 11.
    <itecimentos — comoin- ente anti-salazaristas, no ou o Estado Novo. Em clara. Pedro da Silveira, não parece acreditar no nesmo Pedro da Silveira e Pessoa sobre o ditador, bastante para pensar em guando das suas relações muito bem dos ditos do :0). E, quanto ao próprio ior admitir a ausência de essa», julga significativos abertamente hedonista — : imperava [o] preconceito :exto de ataque directo à iema, sirvam os dois arti- i consagrados à análise de ipõe «ao mundo da cultu- as; «o melhor: o 'natural' Io 'natural' — as crianças, mo: Jorge de Sena terá encon- 54. Revelou o «triplo poema», : 20-8-1960; e já antes correria iouvdles Etudes Luso-Brésiliennes Diário Popular de 6-6-1974 (e 1974; Correio da Horta, 20-7- j o poema reproduzido no Co- Carvalho mas na ignorância de ido de São Paulo, Jorge de Sena 3s poemas de Fernando Pessoa ovo» Sena só o publicaria pela s de no mesmo jornal repetir a O MELHOR DO MUNDO 227 ainda não completamente pervertidas pela cultura, e a música, talvez por ser a menos conceptual das artes»; segundo Fafe, porém, há «o reconhecimento da ambiguidade da natureza, que tanto cria como mata»; por fim, cita a última estrofe e interpreta que o natural é suplantado pelo sobrenatural, «que omnisciente não precisa de cultura (livresca ou não) para nada», concluindo tratar-se de poema anticultura e, ao mesmo tempo, «culto rendido ao 'natu- ral' e a Jesus» 17. José Enes começa por se deter nos w. 1-6, que, assim isolados, «não são apenas plebeus e prosaicos; são a expressão chata da atitu- de preguiçosa de um estudante cábula»; contudo, logo a partir do v. 7, o texto adquire «poeticidade por meio da significação metafórica, por meio do paradoxo e da evasão onírica, por meio da sobreposição de planos de signi- ficação, que projectam para dimensões transcendentes o sentido do poema, por meio da ironia metafísica que põe entre parêntesis a realidade do que afirma, por meio da progressiva intensificação emocional que se esquiva do interesse de interferir no andamento das relações humanas, e finalmente por meio do arranjo musical e sintático da frase»; conclui-se que «é possível, portanto, fazer poesia lírica com prosaísmos»; recusa-se também a intenção de sátira: «a atitude é de expressão intimista, pesarosa na tragicidade dos li- mites e embevecida na feitura» 18. Em nenhum dos artigos se alude ao esco- po anti-salazarista.) Lembro outros poemas de Pessoa com explícita menção de Salazar ou de aparente oposição ao regime, datados ou datáveis de 1935, provavelmente todos a partir da mesmo mês de Março de «Liberdade»: a quadra Salazar é mealheiro — l Raparigas vinde vel-o — l Por fora barro vidrado, dentro coiro e cabelo, datável de Março de 1935 19; a sextilha Mata ospiolhos maio- 17 José Fernandes Fafe, «Prazer e dever», Diário de Lisboa, n.° 16875, 12-12-1969, suplemento ('Mesa Redonda'), pp. 1-10, p. 1. [À margem, para benefício de repertórios da bibliografia de Maria Helena Mira Mateus: ladeia o artigo sobre «Liberdade» uma mesa- -redonda, «Problemas actuais da linguística e da Universidade em França e no Mundo», em que intervêm, além do entrevistado Georges Mounin, José Fernandes Fafe, Urbano Tavares Rodrigues, José António Meireles e Maria Helena Mateus; o texto ocupa as pp. 6-9, está ilustrado com fotografias de entrevistado e entrevistadores e continua nos números seguin- tes do suplemento, em 19-12-1969, pp. 5 e 10-11, e em 26-12-1969, pp. 9-11.] 18 José Enes, «Poetização dos prosaísmos», Rumo. Revista de problemas actuais, ano 6, n.° 72, Fevereiro de 1963, pp. 132-134, p. 134. 19 Fernando Pessoa, Quadras, edição de Luís Prista, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1997, texto n.° 359, p. 168. Os poemas em folhas de bloco Malhas César têm datas sempre da segunda década de Março: 11, 17 e 18 de Março (Quadras, pp. 53 e 309; 1934-1935, p. 15).
  • 12.
    228 RAZÕES EEMOÇÃO rés droga que tu dizes. inda ha bichos peores. lá se arranjas veneno u grande ou médio e pequeno) l Para matar directrizes — em que «directrizes» alude ao discurso que Salazar proferira a 21 de Fevereiro, na ocasião da cerimónia dos prémios literários do Secretariado da Propaganda Nacional—, datada de 4-4-1935 20; as três quintilhas «Á Emissora Nacio- nal» — cujo assunto é a «'Salazar disse' Emissora», a que se recrimina estar ao serviço do «chatazar» —, poema não datado mas se presume seja de 1935 21; um poema contra a aprovação da lei das associações secretas — Solemnemente approvado toda a gente é, um a um, animal, assembleia nacional projecto do José Cabral é a primeira estrofe; na estrofe seguinte há referência ao pulha austero e raro em virtude de muito dente do conselho, terminando-se com o dístico Olhem, vão p'ra o Salazar e é a puta que os p Dizem que o Jardim Zoológico sido mais concorrido prolongada assistência a cada animal. isso que é senão lógico acabou l A concorrência fechou Assembleia Nacional?, de 18-8-1935 23; o também curto «Eu fallei no 'mar salgado'», sete versos cujo dístico final, na rima, sugere o ditador — Faz-me sempre mal o sal ando sobretudo com azar—, datável de 1935, e provavelmente do segundo semestre24; os cinco quartetos de «Meu pobre Portugal» — de que a terceira estrofe talvez seja a mais crítica: Meu pobre e magro povo quem deram, ás peças, m fato em estado novo que o não pareças!—, de 8-11-1935 25; o longo «Poema de 20 Poemas de Fernando Pessoa. 1934-1935, texto n.° 293, p. 197. 21 1934-1935, n.° 296, p. 198. A Emissora Nacional, criada em 29 de Julho de 1933 e com emissões experimentais em 34, teve os seus estúdios oficialmente inaugurados em 4 de Agosto de 1935; data de finais de 34 o primeiro discurso de Salazar transmitido. 22 1934-1935, n.° 297, p. 199. Foi a 5 de Abril de 1935 que a Assembleia Nacional aprovou o projecto de lei das associações secretas, o que justifica a datação que se propõe. 23 1934-1935, n.° 315, p. 228. 24 1934-1935, n.° 329, p. 244. O poema é datável de 1935 por serem deste ano, do segundo semestre, todos os textos datados na agenda em que se encontra. Por outro lado, o epigrama parece determinado por acusação de que na conhecida passagem do mar salga- do em Mar Português Pessoa teria plagiado António Correia de Oliveira — este episódio alegado não o consigo situar mas seria posterior à saída de Mensagem — embora as duas estrofes de Mar Portuguez tivessem já saído, e junto de outros poemas depois também in- tegrados em Mensagem, logo em 1922, na Contemporânea, 2 (4), de Outubro, e em 1933, na Revolução, 2 (386), 16 de Junho. 25 1934-1935, n.° 333, p. 246.
  • 13.
    O MELHOR DOMUNDO 229 rés. U se arranjas • directrizes — em que i 21 de Fevereiro, na ariado da Propaganda s «Á Emissora Nacio- que se recrimina estar s se presume seja de s associações secretas Por toda a gente jecto do José Cabral é a pulha austero e raro l sãs mais, l E hoje presi- n, vão p'ra o Salazar ; os nove versos de trrido prolongada não lógico acabou de 18-8-1935 23; o s cujo dístico final, na E ando sobretudo com o semestre 24; os cinco ira estrofe talvez seja a ás peças, fato em 25; o longo «Poema de p. 197. criada em 29 de Julho de os oficialmente inaugurados urso de Salazar transmitido. que a Assembleia Nacional ca a datação que se propõe. '35 por serem deste ano, do ie encontra. Por outro lado, :ida passagem do mar salga- ie Oliveira — este episódio íensagem — embora as duas poemas depois também in- í), de Outubro, e em 1933, amor em estado novo» — doze quintilhas com investidas sobre várias insti- tuições e emblemas do Estado Novo, terminando com a confissão irónica Estou seguindo as directrizes o Professor Salazar—, de 8/9-11-1935 2é. Como se sabe e este relance a poemas também inculca, a revolta de Pes- soa contra o Estado Novo radica em pelo menos um motivo — não se diz que não houvesse outros —, o Projecto de Lei das associações secretas, que ilegalizava a Maçonaria, apresentado pelo deputado José Cabral a 15 de Janeiro de 1935 e aprovado na Assembleia Nacional, por unanimidade, a 5 de Abril 27. A dis- cussão nos jornais começou a 4 de Fevereiro com artigo de Pessoa no Diário de Lisboa, «Associações Secretas», que teve logo réplicas nos dias seguintes, che- gando a polémica até 14 de Março, sem que Pessoa nela voltasse a intervir 28. A 21 de Fevereiro fora a sessão de entrega dos prémios literários no Secretari- ado da Propaganda Nacional e o discurso de Salazar com as «directrizes» con- tra que o poeta motejaria em alguns dos poemas 29. Lembre-se que um dos 26 1934-1935, n.° 334, p. 246. 27 Para cronologia e bibliografia das peças da polémica em torno da lei das associações secretas: José Blanco, «Fernando Pessoa e as 'Associações Secretas' (o Artigo, a Polémica e os Folhetos)», Gilda Santos, Jorge Fernandes da Silveira, Teresa Cristina Cerdeira da Silva (orgs.), Cleonice, clara em sua geração, Rio de Janeiro, Editora UFRJ, 1995,pp. 305-317. 28 Pessoa descreve assim o seu papel na polémica (em passo já citado por José Blanco, «Fernando Pessoa e as 'Associações Secretas' (o Artigo, a Polémica e os Folhetos)», p. 306): «Pela primeira vez na minha vida fabriquei uma bomba. Cerquei o seu dinamite de verda- de com um envólucro de raciocínio; pus-lhe um rastilho de humorismo. Feita, atirei-a aos opositores da Maçonaria. E o efeito foi não só retumbante mas milagroso. Perderam a cabeça sem a ter» (fragmento do manuscrito 129-83-92, Da República (1910-1935), recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução e organização de Joel Serrão, Lisboa, Ática, 1979, p. 419). 29 Como assinalou João Rui de Sousa, Fernando Pessoa, empregado de escritório, Lis- boa, SITESE, 1985,n. 3, pp. 10-11, também a assinatura do críptico constituído por «An- tónio de Oliveira Salazar», «Este senhor Salazar», «Coitadinho» — Um sonhador nostálgico do abatimento e da decadência — retoma ironicamente um trecho do discurso de Salazar: «é impossível valer socialmente tanto o que edifica como o que destrói, o que educa como o que desmoraliza, os criadores de energias cívicas ou morais e os sonhadores nostálgicos do abatimento e da decadência». Além das alusões implícitas, ao discurso se reportará Pessoa a 30 de Outubro, em carta incompleta e não enviada a Adolfo Casais Monteiro: «Desde o discurso que o Salazar fez em 21 de Fevereiro deste anno, na distribuição de prémios no Secretariado de Propaganda Nacional, ficámos sabendo, todos nós que escrevemos, que es- tava substituída a regra restrictiva da Censura, 'não se pôde dizer isto ou aquillo', pela regra soviética do Poder, 'tem que se dizer aquillo ou isto'. Em palavras mais claras, tudo quanto escrevermos, não só não tem que contrariar os princípios (cuja natureza ignoro) do Estado Novo (cuja definição desconheço), mas tem que ser subordinado às directrizes traçadas pelos
  • 14.
    230 RAZÕES EEMOÇÃO concursos, o Prémio Antero de Quental, distinguira Mensagem, ao lado, ou depois, de Romaria de Vasco Reis, mas Pessoa faltou à cerimónia. (Interessa- ria ponderar o contraste entre a fase, talvez de adesão ao regime, que vai até inícios de 1935, e as posições contra o Estado Novo a partir de Fevereiro 30.) Resumo a cronologia 31, que vai mostrando que não eram disparatadas as intuições do censor, «Liberdade» surgindo como primeiro poema, dois dias orientadores do citado Estado Novo. Isto quere dizer, supponho, que não poderá haver legitimamente manifestação literária em Portugal que não inclua qualquer referencia ao equilibrio orçamental, à composição corporativa (também não sei o que seja) da sociedade portugueza e a outras engrenagens na mesma espécie» (E3/ll4í-36; transcrição de Enrico Martines, Cartas entre Fernando Pessoa e os directores da presença, Lisboa, INCM, 1998, p. 282). E em outra carta não enviada, para Carmona: «Com efeito, na citada segunda parte do citado Prefácio, parte essa de que o principal e essencial político foi dito ou tido numa reunião pública, da entrega dos Prémios, no S. de P. N., diz-se aos escritores que têm eles que obedecer a certas directrizes. Até aqui a Ditadura não tinha tido o impudor de, renegando toda a verdadeira política do espírito — isto é, o de pôr o espirito acima da política — vir intimar quem pensa a que pense pela cabeça do Estado, que a não tem, ou de vir intimar quem trabalha a que trabalhe livremente como lhe mandam [variante: a que trabalhe com a douta animalidade da Câmara Corporativa]» (E3/92M-28-33; transcrição de Teresa Sobral Cunha, «Fernando Pessoa em 1935. Da ditadura e do ditador em dois documentos inéditos», Colóquio-Letras, n.° 100, Novembro-Dezembro de 1987, pp. 123- -131, p. 126); mais trechos no mesmo envelope 92M (ff. 43, 82, 81, 41, 42, 80), aparen- temente para a carta a Carmona, foram publicados por Laurinda Bom e Margarida Duarte em Pessoa Inédito (orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Hori- zonte, 1993), pp. 374-376. 30 Alfredo Margarido («Introdução», Santo António, São João, São Pedro) defende que «possivelmente até aos primeiros meses de 1935, Fernando Pessoa foi um adepto convicto da excelência do regime ditatorial, sobretudo após a irrupção do prof. Oliveira Salazar, como Ministro das Finanças primeiro, como Presidente do Conselho de Ministros a partir de 1932» (p. 11); 1934 teria sido «um ano de adesão não só ao salazarismo, mas também às suas propostas estéticas», «a ruptura parece só começar a organizar-se em Fevereiro de 1935, a partir da apresentação na Assembleia Nacional do projecto de decreto-lei destinado a proibir as associações secretas» (14). 31 O enquadramento cronológico do último ano de Pessoa foi traçado antes nos ar- tigos de João Rui de Sousa, Teresa Sobral Cunha, Alfredo Margarido, aqui citados; no catálogo Fernando Pessoa: o último ano, organização e coordenação de Teresa Sobral Cunha e João Rui de Sousa, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1985; no livro de José Fernandes Tavares, Fernando Pessoa e as estratégias da razão política, Lisboa, Instituto Piaget, 1998, pp. 128- -147; por João Medina, «Fernando Pessoa e o 'Tiraninho'. O poeta da Mensagem e o dita- dor António de Oliveira Salazar (1928-1935). Estudo e Antologia», Boca do Inferno. Revista de Cultura e Pensamento, n.° 5, Maio de 2000, pp. 31-76; e por certo em mais trabalhos. Na tábua que se segue a novidade estará apenas na inclusão de textos que só foram publi- cados, ou datados, na edição crítica de 2000.
  • 15.
    O MELHOR DOMUNDO 231 sagem, ao lado, ou rimónia. (Interessa- regime, que vai até tir de Fevereiro 30.) i eram disparatadas :o poema, dois dias que não poderá haver qualquer referencia ao que seja) da sociedade ; transcrição de Enrico Lisboa, INCM, 1998, ito, na citada segunda olítico foi dito ou tido iz-se aos escritores que tinha tido o impudor pôr o espirito acima da .do, que a não tem, ou andam [variante: a que )2M-28-33; transcrição i e do ditador em dois bro de 1987, pp. 123- ,1, 41, 42, 80), aparen- jm e Margarida Duarte ta Lopes, Lisboa, Hori- São Pedro) defende que foi um adepto convicto prof. Oliveira Salazar, 10 de Ministros a partir lazarismo, mas também izar-se em Fevereiro de de decreto-lei destinado bi traçado antes nos ar- jarido, aqui citados; no ie Teresa Sobral Cunha José FernandesTavares, Piaget, 1998, pp. 128- a da Mensagem e o dita- , Boca do Inferno. Revista ;erto em mais trabalhos. [tos que só foram publi- depois de encerrada a polémica. Seguem-se textos de feição epigramática, aparecendo no fim do calendário os poemas mais generalizadores e disfóricos. (Não incluí os dois quartetos de Vae pra o seminário 32, que creio relaciona- rem-se com a polémica da lei mas a ela se confinam, nem o extenso Elegia na sombra 33, de 2 de Junho, de clara desilusão com Portugal mas sem que se possa indicar nexos com a situação política.) 19 de Janeiro 4 de Fevereiro 21 de Fevereiro 14 de Março 16 de Março segunda década de Março 29 de Março 29 de Março 29 de Março 4 de Abril 5 de Abril depois de 5 de Abril [1935] 29 de Julho 18 de Agosto [segundo semestre] 8 de Novembro 8-9 de Novembro 30 de Novembro É apresentado o projecto de lei das associações secretas Fernando Pessoa publica o artigo «Associações Secretas» Salazar discursa na sessão dos prémios do SNP Artigo de Rolão Preto fecha a polémica na imprensa Liberdade Salazar é mealheiro António de Oliveira Salazar Este senhor Salazar Coitadinho Mata os piolhos maiores Discussão e aprovação do projecto de lei Solemnemente A Emissora Nacional Sim, é o Estado Novo, e o povo Dizem que o jardim Zoológico Eu fallei no «mar salgado» Meu pobre Portugal Poema de amor em estado novo Morre Fernando Pessoa 32 1934-1935, n.° 294, p. 197. Sem data, mas no verso de folha com ensaio de texto integrável no «dossier» da polémica que Pessoa suscitara com o artigo de 4 de Fevereiro; o epigrama é posterior ao rosto porque foi lançado quando a folha já estava dobrada. 33 1934-1935, n.° 300, p. 201. Sobre «Elegia na sombra» diz João Rui de Sousa que «a sua principal característica é o dar-nos da realidade portuguesa de então uma imagem extraordinariamente recessiva em relação a todos os aspectos do nosso ser colectivo» («Fer- nando Pessoa e o Estado Novo», p. 13). Em outro artigo («Sobre o significado de Elegia na Sombra— o último longo poema de Fernando Pessoa», Colóquio-Letras, n.° 106, Novembro- -Dezembro de 1988, pp. 17-25), explicita que «não deixando de continuar a ser um texto de implacável indignação e protesto, pode também legitimamente entender-se como cântico melancólico [...]» (24), «um dos textos mais acidulados e virulentos emergentes de uma conjuntura pessoal de humilhação e de derrota, a que terão de juntar-se, naturalmente, outras razões incluindo as de saúde, já de si bastante favoráveis ao avolumar do desalento, ao adensar de uma visão mais e mais soturna do real» (22-23).
  • 16.
    232 RAZÕES EEMOÇÃO E se o autor propôs várias formas, qual devemos escolher? Temos aludido a testemunhos autógrafos de «Liberdade» sem que os descrevêssemos. São duas as peças que no espólio de Fernando Pessoa na Biblioteca Nacional (BN E3) contêm o poema: as folhas 118-54 (doravante testemunho A) e 118-55 (testemunho B). Em ambas o poema está dactilos- crito, no rosto, e com a data a subscrevê-lo. O testemunho A está dactiloscrito a preto e tem ao canto superior di- reito, a lápis, nota da inventariadora, p. 246-247, que remete para a edição Ática. O grupo que a partir de finais de 1969 procedeu à inventariação do espólio 34 sempre que possível indicava nas folhas a correspondência aos vo- lumes editados. Sendo 118-54 a primeira das duas peças cotada, foi ela que recebeu a referência das páginas de Poesias, o que não envolve nenhuma iden- tificação do original da Ática e portanto não tem interesse particular para os nossos trabalhos. O testemunho B está a azul, tendo sido obtido por dactilografia sob papel de carbono. Ao contrário de A, tem alguns dizeres manuscritos pelo punho de Pessoa, a lápis, todos no verso da folha, lançados quando esta já estava dobrada em quatro partes: There is no reason l to suppose that I <w> worse e Quando essa typa t xarope a a cambalear p 'rã casa, frases ingle- sa e portuguesa em quartos diferentes. Também ao contrário do testemunho A, a folha 118-55 traz assinatura, sob o poema, igualmente dactiloscrita. Vale a pena destacar os modos diferentes como as duas folhas foram dactilografadas. A folha A recebeu a tinta directamente da fita da máquina, e não sabemos se quando foi dactilografada tinha sotopostas folhas para dupli- cado (talvez não, pois foi emendada após reajustamento na própria máquina de escrever, operação que resultaria mal em eventuais duplicados). O teste- munho B é uma cópia de carbono, o que implica a existência de mais um exemplar — se calhar, dois — do mesmo tiposcrito. Essa folha dactiloscrita a preto, a cor que se presume teria a fita, pode bem ter sido a entregue à Seara 35. Como a tanto obriga o que se tem dito das versões A e B, não se trata obviamente de textos dactilografados na mesma ocasião. 34 Sobre os trabalhos do grupo inicial e reformulações que este sofreu: Maria Laura Nobre dos Santos, Alexandrina Cruz, Rosa Maria Montenegro Matos, Lídia Pimentel, «A inventariação do espólio de Fernando Pessoa: tentativa de reconstituição», Revista da Biblioteca Nacional, série 2, 3 (3), Setembro-Dezembro de 1988, pp. 199-213. 35 «Os poucos exemplos [de originais entregues para publicação] que estão no Espó- lio, e que referem à sua colaboração na presença, indicam que Fernando Pessoa mandava o
  • 17.
    O MELHOR DOMUNDO 233 tolher? lade» sem que os rnando Pessoa na [18-54 (doravante ema está dactilos- canto superior di- icte para a edição i inventariação do pendência aos vo- ltada, foi ela que vê nenhuma iden- particular para os r dactilografia sob manuscritos pelo [os quando esta já uppose that I l am z casa, frases ingle- rio do testemunho ite dactiloscrita. duas folhas foram fita da máquina, e folhas para dupli- a própria máquina plicados). O teste- :ência de mais um folha dactiloscrita sido a entregue à ;ões A e B, não se iião. te sofreu: Maria Laura latos, Lídia Pimentel, nstituiçáo», Revista da i. 199-213. .o] que estão no Espó- ndo Pessoa mandava o Folha 92U-30 92U-31 118-54 118-55 Textos anti-salazaristas que contém «Sim, é o Estado Novo, e o povo» (testemunho B) «António de Oliveira Salazar» (testemunho B); «Este senhor Salazat» (testemunho B) «Liberdade» (testemunho A) «Liberdade» (testemunhoB) Nem aliás na mesma máquina. Como se vê no quadro a seguir, a forma dos caracteres mostra que A e B são de diferentes máquinas de escrever. Importava também cotejar os caracteres de outros documentos no espólio, verificando as máquinas das restantes folhas com poemas anti-salazaristas. Tendo analisado além dos testemunhos de «Liberdade» mais dois dactiloscritos com poemas contra Salazar, constatei que a variedade de máquinas de escre- ver é grande, máxima mesmo na curta amostra 36. São quatro máquinas diferentes para quatro folhas: 92U-31 distingue-se das outras três folhas logo pelo <u>; 92U-30 tem <ç> que não é o mesmo de 118-54 nem o de 118-55; quanto a 118-54 e 118-55, as folhas de «Li- berdade», podemos contrastá-las pelo <g> ou pelo <t>. Se não soubéssemos que Pessoa utilizava habitualmente várias máquinas de escrever 37, dir-se-ia que o poeta acautelava perseguições policiais e procurava baralhar identifica- ções por reconhecimento da dactilografia (como se fosse verosímil semelhan- te sofisticação das diligências da PVDE). original dactilografado escrevendo no fundo, também à máquina, o nome do Autor a cuja paternidade atribuía o poema (Fernando Pessoa na poesia ortónima), e guardava para si cópia de carbono» (José Augusto Seabra, Maria Aliete Galhoz, «Nota filológica preliminar», Mensagem. Poemas esotéricos, pp. XI.I-LHI, p. XLIX). 36 Na verdade, a amostra não podia ser muito mais completa. Além dos quatro dactiloscritos analisados, só faltou pôr no quadro 92U-32 (onde estão o testemunho B de «Coitadinho» e os testemunhos C de «António de Oliveira Salazar» e «Este senhor Salazar»), de que não dispúnhamos de imagem com caracteres em condições (os que colhêramos quando ainda não prevíramos este estudo ficaram quase ilegíveis por o dactiloscrito estar ele mesmo pouco nítido). Os restantes anti-salazaristas são manuscritos. 37 O que ficou demonstrado a propósito da polémica à volta das memórias naturo- -vegetarianistas de Eliezer Kamenezky. Cf. Ivo Castro, João Dionísio, José Nobre da Silveira, Luís Prista, «Eliezer. Ascensão e queda de um romance pessoano», Revista da Biblioteca Nacional, série 2, 7 (1), 1992, pp. 75-136, pp. 78, 79, 89.
  • 18.
    234 RAZÕES EEMOÇÃO Para concluir a avaliação comparada de A e B, falta dizer que não ofe- rece dúvidas ter A precedido B, porque, sendo em A conspícuo o trabalho de elaboração ou revisão, o testemunho B adopta como ponto de partida o último estado a que se chegara em A. Considerado esse in-put, B apenas introduz variação em sinais de pontuação e na ortografia, o que plausivel- mente corresponde a substituições no próprio momento da cópia. A seguir transcrevem-se os versos de A e B onde em algum momento houve variação relativamente ao texto fixado (isto é, a lição reproduzida no início do artigo). Para abreviar o cotejo, dá-se a transcrição genética de A e nela se marcam os acrescentos pontuais e as variantes ortográficas em B. Se nada pusermos relativo a B, deve entender-se que a lição é idêntica à do últi- mo estado de A (mas limpa, como é óbvio, que o testemunho não iria repetir as etapas de revisão ultrapassadas em A). Entre parênteses esquinados ficam os segmentos riscados (cuja canceladura, também dactilografada, é conseguida por sequência de xx); entre parênteses rectos, os acrescentos e substituições; entre as barras / letras que se sobreponham a outras, e entre angulares estas últimas. ante l A omite B (falta uma citação de Seneca) 2 A Não cumprir um dever! [B dever,] 4 A <E esquecer.> E não o fazer. [B fazer!] 5 A <Porque> <l>/Ler é maçada[B ,] 6 A <E> <e>/Estudar <não> é nada. 9 A O rio corre[B ,] bem ou mal[B ,] 12 A De tam naturalmente matinal[,] 13 A <Tem tam pouca pressa!> Como tem tempo não tem pressa. 14 A Livros são papeis pintados com <letras,> tinta. 15 A Estudar é uma coisa em que está indistincta<,> [B indistinta] 16 A Ã distincção [B distinção] entre nada e cousa nenhuma. 19 A Quer venha ou não. [B não!] 21 A <O melhor do mundo são crianças> Mas o melhor do mundo são crianças, 22 A Flores, musica, o luar[B ,] e o sol, que pecca [B peca] 23 A Só quando, em vez de criar, secca [B seca]. 25 A É Jesus Christo [B Cristo], 26 A Que não sab<o>/i nada de finanças 27 A Nem consta que tivesse bibliotheca. [B bibli<l>/oteca...] Continuando a proceder ao contrário da cronologia, comentemos pri- meiro o testemunho B. Já se foi dizendo que B é um testemunho quase sem
  • 19.
    izer que nãoofe- spícuo o trabalho mto de partida o in-put, B apenas o que plausivel- i cópia. algum momento o reproduzida no > genética de A e gráficas em B. Se idêntica à do últi- 10 não iria repetir quinados ficam os é conseguida por stituições; entre as lares estas últimas. ao tem pressa. • [B indistinta] lenhuma. tielhor do mundo B peca] >/oteca...] comentemos pri- munho quase sem O MELHOR DO MUNDO 235 trabalho genético. Deve ser a simples passagem a limpo de A acrescida da marca autoral que são os retoques da pontuação. Como se disse, estas poucas mudanças de pontuação, bem como a troca de ortografia, decorreram sem emendas na folha, e só as evidencia o confronto do estado final de A com B. Terão sido pensadas, quase espontaneamente lançadas, à medida que o poeta ia dactilografando B a partir de A. (Não perderemos tempo com a hipótese de um autógrafo intermédio, uma cópia de carbono de A com emendas manuscritas, por considerarmos que tal campanha seria sempre insignificante.) Neste contexto, em que se percebe não ter sido o dactiloscrito B sede de demorada elaboração, mais se inculca o teor meramente funcional e pro- visório daquela «epígrafe» (a qual, repitamo-nos, não aparecia em A). Quan- to ao resto, o testemunho não perde o grau de maturação que lhe confere ser o autógrafo mais recente, integrando lições já trabalhadas em outra folha. O termo «autógrafo» tomei-o na acepção arquivística de 'produzido pelo autor' ainda que à máquina, mas vale lembrar que B tem igualmente o atestado da autografia em sentido comum, devido aos dizeres manuscritos por Pessoa no verso da folha. O testemunho B sai também valorado, se admitirmos que as mudanças de grafia visavam conformar o poema ao estilo ortográfico corren- te, assim preparando a sua publicação na Seara Nova. Antes de vermos o outro testemunho, lembre-se que foi por este teste- munho B que fixámos o texto, excepto no caso da linha ante l, em que preferimos a lição, não-lição, de A, ou, o que dá no mesmo mas não é o mesmo, preterimos uma lição de B por a julgarmos provisória e instrumental. Para comentarmos agora a elaboração havida sobre o dactiloscrito A, dividiremos os lugares de variação interna segundo correspondem a emendas em «curso de escrita» (as introduzidas sem que o papel tenha sido retirado do rolo da máquina, o que se vê de coincidirem os espaços de caracteres «riscados» ou sobrepostos) e as que ocorreram por certo já depois de lançado todo o poema (tendo sido o papel recolocado, como se conclui de os espaços de letras substituintes apenas se aproximarem da matriz inicial). Desde já se diga que não sabemos quanto tempo mediou entre uma e outra campanha — mas a máquina, desta vez sim, é a mesma e a tinta não parece nem mais forte nem mais fraca. Ocorreram já na revisão depois de se ter retirado a folha da máquina a desinteressante correcção do saboa para sabia (v. 26); a troca de Tem tam pouca pressa! por Como tem tempo não tem pressa, (v. 13) e, requerido por esta alteração, o acrescento da vírgula no v. 12; a supressão da vírgula que che- gou a terminar o v. 15; a substituição de E estudar não é nada por Estudar é nada (v. 6), tendo porém ficado esquecida a rectificação da pontuação no
  • 20.
    236 RAZÕES EEMOÇÃO verso anterior como implicava a nova sintaxe (a vírgula será acrescentada mas já no testemunho B); o cancelamento de Porque (v. 5); a troca de E esquecer por E não o fazer (v. 4). Decorreu em curso de escrita o cancelamento de letras (v. 14), aparen- temente preterido por tinta, a que se segue ponto e não a vírgula que se previra antes da troca. No verso que mais nos importa, v. 21, também sem que a folha saísse do rolo se passou de O melhor do mundo são crianças para Mas o melhor do mundo são crianças. Quanto a «crianças», esteve sempre sem artigo, como se vê sob os xx que cancelam toda a primeira versão — e note- -se que, embora houvesse apenas a conjunção a acrescentar, todo o verso foi de novo repetido, e sempre sem artigo. Só no segundo estado se vê a vírgula após «crianças», o que significa que a reformulação do verso foi decidida não só antes de tirada a folha como logo que acabava de ser escrito (ainda antes da pontuação que o terminaria). Serão significativos os erros, as evidentes trocas de um termo? Deve- mos mante-los ou corrigi-los? O caso aqui é de novo a epígrafe ou, assim a temos julgado, a nota erradamente tomada como epígrafe. Atrás vimos como «Liberdade» se inscre- ve na cronologia do Pessoa agastado com Salazar, deputados da Assembleia Nacional, Estado Novo. Hesitou-se então quanto ao teor anti-salazarista de «Liberdade», o texto avaliado como menos a contracorrente do que poemas que se lhe seguem. A epígrafe que nos falta esclarecerá a índole de texto empenhado. E por sua vez um episódio político esclarece a epígrafe. Lembre-se o discurso de Salazar na entrega dos prémios literários do Secretariado da Propaganda Nacional. Na verdade, quase todo o discurso recuperava «algumas passagens do Prefácio agora escrito para a colecção dos meus discursos. De entre todas, escrevi aquelas que pudessem exactamente convencer de que, neste momento, não devia falar nem ficar calado» 38. Logo no primeiro parágrafo se defende a imposição de «certas limitações» «à acti- vidade mental e às produções da inteligência e sensibilidade dos portugueses» 38 Oliveira Salazar, «Palavras pronunciadas pelo sr. Doutor..., em 21 de Fevereiro de 1935 na sede do Secretariado da Propaganda Nacional, na primeira festa da distribuição dos Prémios Literários criados por este organismo», António Ferro, Prémios literários (1934- -1947), Lisboa, Edições SNI, 1950, pp. 9-13, p. 10.
  • 21.
    acrescentada mas xá deE esquecer (v. 14), aparen- a vírgula que se 21, também sem são crianças para iteve sempre sem versão — e note- todo o verso foi Io se vê a vírgula foi decidida não :rito (ainda antes mi termo? Deve- ; julgado, a nota srdade» se insere- os da Assembleia inti-salazarista de ; do que poemas . índole de texto i epígrafe. nios literários do todo o discurso rã a colecção dos ;sem exactamente r calado» 38. Logo mitações» «à acti- dos portugueses» n 21 de Fevereiro de festa da distribuição mios literários (1934- O MELHOR DO MUNDO 237 e se diz conveniente traçar-lhes «algumas directrizes»39, passo a que Pessoa alude em poemas que citámos e em passagens de outros autógrafos mencio- nados. Creio que se tem reparado menos no parágrafo que fecha o discurso de Salazar: «E, se por se generalizar este estado de consciência, se vier a es- crever menos... Mas virá algum mal ao Mundo de se escrever menos, se se escrever e, sobretudo, se se ler melhor? Relembro a frase de Séneca: 'em es- tantes altas até ao tecto, adornam o aposento do preguiçoso todos os arra- zoados e crónicas'» 40. Adivinha-se que em estantes altas até ao tecto, adornam o aposento do pre- guiçoso todos os arrazoados e crónicas, com o nome de Séneca a subscrevê-la, seria a epígrafe em que pensava Pessoa, e «Liberdade» percebe-se agora como glosa desse mote, desenvolvido de forma irónica. Por que motivo não che- gou o poeta a dactilografar a citação? Talvez porque buscasse a exacta frase em latim. Ou, porque quisesse Pessoa brincar com a erudição de Salazar, «falta uma citação de Séneca» assumia a incapacidade de citar clássicos e era portanto remoque a constar na publicação? 39 Oliveira Salazar, p. 10. Esse primeiro parágrafo do discurso está também copiado por Pessoa no manuscrito 113P'-62: «'Os princípios morais e patrióticos que estão na base deste movimento reformador impõem à actividade mental e às produções da <sensi> inte- ligência e sensibilidade dos portugueses certas limitações, e suponho deverem mesmo traçar- -Ihes algumas directrizes.' II Oliveira Salazar, Discursos, pp. xx-xxi (trecho lido [pelo próprio ao presidir] em 21 de Fevereiro de 1935 <na>[à] sessão de distribuição de Prémios Literá- rios no Secretariado de Propaganda Nacional)»; a seguir, sempre a tinta preta, Pessoa co- piou um dos períodos do penúltimo parágrafo do discurso: «'Neste momento histórico, em que determinados objectivos foram propostos à vontade nacional, não há remédio senão levar às últimas consequências as bases ideológicas sobre as quais se constró<e>/i novo Portugal' (ibid, p. xxiv)». (O autógrafo fora já referido por Teresa Puta Lopes, «Sobre o alcance da obra inédita e deste volume», Pessoa Inédito, pp. 17-71, p. 59.) 40 Oliveira Salazar, pp. 12-13. «Palavras pronunciadas pelo sr. Doutor..., em 21 de Fevereiro de 1935 na sede do Secretariado da Propaganda Nacional, na primeira festa da distribuição dos Prémios Literários criados por este organismo», António Ferro, Prémios literários (1934-1947), Lisboa, Edições SNI, 1950, pp. 9-13, pp. 12-13. O texto publicado como prefácio nos Discursos tem ligeiras divergências na apresentação da frase de Séneca: «E se, por se generalizar tal estado de consciência, se vier a escrever menos... ^Mas virá algum mal ao mundo de se escrever menos, se se escrever e sobretudo se se ler melhor? Hoje, como na crítica de Séneca, 'em estantes altas até ao tecto, adornam o aposento do pregui- çoso todos os arrazoados e crónicas'» (Oliveira Salazar, «Para servir de prefácio», Discursos. 1928-1934, Coimbra, Coimbra editora, 1935, pp. vii-xxxn, p. xxiv). O texto saído a 22 de Fevereiro no Diário de Notícias — que vejo conforme é dado por Enrico Martines, p. 283 — também apresenta algumas variantes igualmente irrelevantes.
  • 22.
    238 RAZÕES EEMOÇÃO Chegaria Pessoa a procurar o trecho latino em livros da sua biblioteca pessoal? Na estante que foi do poeta e está hoje na Casa Fernando Pessoa há três volumes com obras de Lúcio Aneu Séneca — os dois tomos de Senecas tragedies (with an english translation by Frank Justus Miller, London-New York, William Heinemann-G. P. Putnam's Sons, 1917) e um livro que inclui o opúsculo Apocolocyntosis {with an english translation by W. H. D. Rouse; London-New York, William Heinemann-G. P. Putnam's Sons, 1916; a pri- meira parte do volume é para Petrónio, com tradução de Michael Hesel- tine) —, nenhum com sublinhados ou notas por Pessoa. Também não seria aí que podia encontrar a frase que interessava, a qual pertence ao diálogo De tranquillitate animi (cap. 9, § 7): «Apud desidiosissimos ergo uidebis quidquid orationum historiarumque est, tecto tenus exstructa loculamenta» 41. Acreditando que Pessoa apenas adiava a inscrição da epígrafe — porque lhe faltasse o original latino ou até a precisa versão de Salazar, já que não se trataria de estratégia de esconder da censura a referência mais explícita —, supomos que ainda a iria lançar em provas. E nem sabemos se assim não aconteceu efectivamente antes de 30 de Novembro. Bastaria que, quando da publicação dois anos depois, a revista tivesse retomado o original dactiloscrito, ou a composição tipográfica preliminar, sem o acrescento em provas. Quanto aos outros erros, não causados pelo poeta mas instalados na transmissão impressa (e, no caso do v. 21, na voz popular), não parece haver a mesma dúvida de que se deve corrigi-los. Como, sejam ou não o melhor do mundo, se faz às crianças. A crianças. 41 Agradeço ao Professor Doutor José António Segurado e Campos, a quem devo a localização do original latino da frase traduzida por Salazar, aparentemente ad hoc traduzida, não mera transcrição de algum impresso. Para o trecho de Séneca o Professor Segurado e Campos propõe a seguinte tradução, o mais literal possível: 'em casa dos (sujeitos) mais preguiçosos poderás ver (encontrar) tudo quanto há de discursos e de histórias (obras his- tóricas) em prateleiras que se erguem até ao tecto'.
  • 23.
    GIÃO DE LISBOA Razõese Emoção Miscelânea de estudos em homenagem a Maria Helena Mira Mateus Vol. II organização de Ivo Castro e Inês Duarte Imprensa Nacional-Casa da Moeda Lisboa 2003
  • 24.
    Título: Organizadores: Edição: Concepção gráfica: Capa: Tiragem: Data deimpressão: ISBN: Depósito legal: Razões e Emoção Miscelânea de Estudos em Homenagem a Maria Helena Mira Mateus Vol. II Ivo Castro e Inês Duarte Imprensa Nacional-Casa da Moeda Departamento Editorial da INCM Luís Moreira 800 exemplares Setembro de 2003 972-27-1268-3 200 654/03
  • 25.
    Miscelânea de estudosem homenagem a Maria Heieiia Mira Maleus Voíuiíie 11