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Breve pincelada sobre a poesia de João Ricardo Lopes
Inversamente ao que sucede com grande parte dos novos poetas, na escrita de João
Ricardo Lopes não se descortinam com facilidade os verdadeiros motivos que a fazem fluir,
sendo possível determinar na andada entre o primeiro e o último dos seus livros, para além de
diversas composições antologiadas em revistas, um conceito multifacetado do poema enquanto
realidade portadora de vida e de sentido, variando as temáticas mas também o próprio modo de
dizer.
Vem-se evidenciando uma procura da ironia na abordagem ao homem e ao teatro do
tempo, não tanto pela beleza estilística ou retórica, nem sequer pelo refinamento intelectual ou
gnosiológico dela decorrentes, como sobretudo pela intenção de travar o cunho pessimista e
hermético que em contra o esquecimento das mãos se afigura central. A ironia permite-lhe
vingar em poesia uma espécie de “mal-être” embrionário, diferente porém do “spleen”
baudelairiano. Assim, a um juízo da existência malograda opõe o homem e o poeta o sentido
estético do universo, razão por que a dado momento se compreende ser esta linguagem um
receptáculo doloroso de imagens e semas negativos, a despeito de profundamente belos: “no
rosto escuro da memória/ às vezes o riscar de um fósforo/ é um cataclismo por dentro dos
olhos// palavras adiadas voltam à ferida/ e os maxilares estremecem/ da sua violenta
repercussão” (Lopes, 2002b:69).
O leitor desta poesia vê-se frequentado pela surpresa dos limites interpretativos, aliciado
a pulverizar a barreira do não-entendimento, a vencer por si a resistência das leituras
refractadas, devendo incorporar novos significados do mundo e novas relações intrínsecas ao
homem e entre os homens. Nenhuma evocação é tão expressiva neste território como a própria
“palavra” escavada no silêncio e lançada como cura contra a hemorragia ancestral, permita-se-
me a imagem, que é a fuga do tempo através do ser existente. Este, aliás, um dos tópicos mais
reiterados, “leitmotiv” fundamental de poemas onde a perenidade e a efemeridade se
entrechocam num combate devastador para o ser que dele depende: “o que pode acontecer-nos/
quando estas palavras se tornarem demasiado ocas/ e este combate demasiado inútil?//
perguntamos:/ de que morte morre o homem?/ de que morte morre o poeta? (ib:38). Remetido
ao espaço curto do seu tempo, mas advertido sobre o colosso que em si se agiganta, isto é,
2
esmagado pela catástrofe de um tempo finito, mas surpreendido pelo poder da palavra, o sujeito
lírico pode interrogar-se “reconstruímos nós os círculos?/ fechamos nós os olhos como as
pedras?/ nascemos nós? (ib:24)
Desenha-se a pouco e pouco a proposta de uma escrita filosófica, arvorada em
princípios existencialistas, rompendo subtil e voluntariamente com o ónus das heranças culturais
recebidas. Metafísica e física não se dilaceram, antes se supõem reciprocamente: “além/ o
campanário/ e os velhos sinos de ferro// a nuvem passa sobre/ o campanário/ e os sinos
deixaram/ de tocar: a igreja nem exista/ talvez…// … deus apenas, a passar/ por sobre aquela
nuvem” (Lopes: 2002a: 17).
Como é de esperar num autor jovem, as questões fundamentais da sua invenção
literária não podem ainda considerar-se definitivas, aspecto em si estimulante pelo muito que nos
permite aguardar das suas possibilidades. No seu derradeiro livro, dias desiguais, J.R.L.
corrobora o itinerário ensimesmante que dele havíamos previsto, rebuscando o lirismo e o gosto
pela arte poética (a exemplo destes versos nuclearíssimos “por essas ruas até mais para dentro/
apenas a poesia nos diz quem somos”), esclarecendo o diálogo poético e a identificação do
homem com a palavra, demandando pela sensualidade dos seres, complexificando o jogo
contraditório elogio/ repúdio do silêncio, acentuando a emergência do amor como manifestação
salvífica (ou na sua ausência e negação, como prova inexorável da ruína e perda do homem).
Neste livro, o autor retoma os “quadros humanos”, poemas narrativas cuja matriz condutora é a
demonstração dos “elos” terríveis entre o bem e o mal, a miscigenação da virtude e do vício:
“(…) ele acreditava/ nas verdades do amor/ nas mentiras do amor/ ele acreditava”
(idem:2005:67)
De a pedra que chora como palavras em diante vem-se aligeirando a eloquência
sonora e gráfica do texto, ao mesmo tempo que o substracto intelectual se apura (ou depura),
razão também por que se nos apresentam óbvios os ganhos literários. Não só a pontuação se
reduziu ao estritamente “necessário”, como o verso se soltou, havendo o título (inexistente nos
dois primeiros livros) absorvido o papel de modificador de sentido e não somente de seu
repetidor. Aliás, de modo capcioso, J.R.L. demonstra saber tirar partido deste microtexto, para o
fazer interagir com o “corpus” do poema, resultando do alinhamento título-versos (sublinhe-se o
binómio) a complementaridade e até nalguns casos a “chave” interpretativa do “todo”. No poema
«toda a felicidade perdida», por exemplo, o último verso implica depois de si um espaço vago,
enigmático (“o tempo, só o tempo pode mostrar-te” ib:43), reclamando justamente um regresso
3
ao título para desse modo se concluir e recomeçar a compreensão, ou seja, enunciando um
círculo expressivo e sinedóquico, onde o fim e o princípio não se balizam, mas antes se reciclam.
A preferência por composições breves e epigramáticas, dir-se-ia nalguns casos
lapidares, torna esta poesia incontestavelmente poderosa, ocupando de modo incisivo o espaço
de cada palavra com o assomo de uma provocação mental. Poesia imagética, progressivamente
mais bem conseguida e portanto mais inequívoca, mais ambiciosa e atomizada no panorama
geral. A escrita de J.R.L. continua, na nossa opinião, ao alcance de poucos e desatenta do olhar
de muitos, genial no aspecto em que circunda com profunda exactidão e verdade elementos
particulares e gerais do homem e do resto, circundando-os porém na sua dimensão viva e
dinâmica, na convicção de que saberá ser compreendida por aquele que pôde ascender ao nível
de leitura exigido, digamos por aquele que não se deixou iludir no fácil que às vezes parece e
que não é! Atentemos neste período: “(…) quando as unhas estão cortadas e redondas/ quando
ficou saldada a dívida/ quando arrancas de alguém o sorriso difícil/ quando tudo é mais do que
tudo/ sim, podes pensar que o mundo/ nem precisa de ser perfeito/ talvez tu, talvez tu é que
precises” (ib:58).
Não se esgota nem se estafa em si mesma esta eloquência rara e sagaz, mormente
porque nela se podem aferir ainda os dois pólos em que Horácio media a têmpera e o conteúdo
da arte literária, “prodesse ac delectare”. De facto, neste jovem autor (e felizmente para todos os
que veneram a verdadeira e límpida palavra poética, “jovem” e não “juvenil”), o prisma gnómico
não é fútil, como insosso não é o agrado que nas suas composições se pronuncia.»
Bibliografia:
Lopes, João Ricardo (2002a), além do dia hoje, Fânzeres, Edição da Junta da
Freguesia da Vila de Fânzeres).
---------- (2002b), contra o esquecimento das mãos, Fafe, Labirinto.
---------- (2005), dias desiguais, Fafe, Labirinto.
Maria de Fátima Saldanha (Porto, 2005)

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Crítica ao livro «Além do Dia Hoje» de João Ricardo Lopes

  • 1. 1 Breve pincelada sobre a poesia de João Ricardo Lopes Inversamente ao que sucede com grande parte dos novos poetas, na escrita de João Ricardo Lopes não se descortinam com facilidade os verdadeiros motivos que a fazem fluir, sendo possível determinar na andada entre o primeiro e o último dos seus livros, para além de diversas composições antologiadas em revistas, um conceito multifacetado do poema enquanto realidade portadora de vida e de sentido, variando as temáticas mas também o próprio modo de dizer. Vem-se evidenciando uma procura da ironia na abordagem ao homem e ao teatro do tempo, não tanto pela beleza estilística ou retórica, nem sequer pelo refinamento intelectual ou gnosiológico dela decorrentes, como sobretudo pela intenção de travar o cunho pessimista e hermético que em contra o esquecimento das mãos se afigura central. A ironia permite-lhe vingar em poesia uma espécie de “mal-être” embrionário, diferente porém do “spleen” baudelairiano. Assim, a um juízo da existência malograda opõe o homem e o poeta o sentido estético do universo, razão por que a dado momento se compreende ser esta linguagem um receptáculo doloroso de imagens e semas negativos, a despeito de profundamente belos: “no rosto escuro da memória/ às vezes o riscar de um fósforo/ é um cataclismo por dentro dos olhos// palavras adiadas voltam à ferida/ e os maxilares estremecem/ da sua violenta repercussão” (Lopes, 2002b:69). O leitor desta poesia vê-se frequentado pela surpresa dos limites interpretativos, aliciado a pulverizar a barreira do não-entendimento, a vencer por si a resistência das leituras refractadas, devendo incorporar novos significados do mundo e novas relações intrínsecas ao homem e entre os homens. Nenhuma evocação é tão expressiva neste território como a própria “palavra” escavada no silêncio e lançada como cura contra a hemorragia ancestral, permita-se- me a imagem, que é a fuga do tempo através do ser existente. Este, aliás, um dos tópicos mais reiterados, “leitmotiv” fundamental de poemas onde a perenidade e a efemeridade se entrechocam num combate devastador para o ser que dele depende: “o que pode acontecer-nos/ quando estas palavras se tornarem demasiado ocas/ e este combate demasiado inútil?// perguntamos:/ de que morte morre o homem?/ de que morte morre o poeta? (ib:38). Remetido ao espaço curto do seu tempo, mas advertido sobre o colosso que em si se agiganta, isto é,
  • 2. 2 esmagado pela catástrofe de um tempo finito, mas surpreendido pelo poder da palavra, o sujeito lírico pode interrogar-se “reconstruímos nós os círculos?/ fechamos nós os olhos como as pedras?/ nascemos nós? (ib:24) Desenha-se a pouco e pouco a proposta de uma escrita filosófica, arvorada em princípios existencialistas, rompendo subtil e voluntariamente com o ónus das heranças culturais recebidas. Metafísica e física não se dilaceram, antes se supõem reciprocamente: “além/ o campanário/ e os velhos sinos de ferro// a nuvem passa sobre/ o campanário/ e os sinos deixaram/ de tocar: a igreja nem exista/ talvez…// … deus apenas, a passar/ por sobre aquela nuvem” (Lopes: 2002a: 17). Como é de esperar num autor jovem, as questões fundamentais da sua invenção literária não podem ainda considerar-se definitivas, aspecto em si estimulante pelo muito que nos permite aguardar das suas possibilidades. No seu derradeiro livro, dias desiguais, J.R.L. corrobora o itinerário ensimesmante que dele havíamos previsto, rebuscando o lirismo e o gosto pela arte poética (a exemplo destes versos nuclearíssimos “por essas ruas até mais para dentro/ apenas a poesia nos diz quem somos”), esclarecendo o diálogo poético e a identificação do homem com a palavra, demandando pela sensualidade dos seres, complexificando o jogo contraditório elogio/ repúdio do silêncio, acentuando a emergência do amor como manifestação salvífica (ou na sua ausência e negação, como prova inexorável da ruína e perda do homem). Neste livro, o autor retoma os “quadros humanos”, poemas narrativas cuja matriz condutora é a demonstração dos “elos” terríveis entre o bem e o mal, a miscigenação da virtude e do vício: “(…) ele acreditava/ nas verdades do amor/ nas mentiras do amor/ ele acreditava” (idem:2005:67) De a pedra que chora como palavras em diante vem-se aligeirando a eloquência sonora e gráfica do texto, ao mesmo tempo que o substracto intelectual se apura (ou depura), razão também por que se nos apresentam óbvios os ganhos literários. Não só a pontuação se reduziu ao estritamente “necessário”, como o verso se soltou, havendo o título (inexistente nos dois primeiros livros) absorvido o papel de modificador de sentido e não somente de seu repetidor. Aliás, de modo capcioso, J.R.L. demonstra saber tirar partido deste microtexto, para o fazer interagir com o “corpus” do poema, resultando do alinhamento título-versos (sublinhe-se o binómio) a complementaridade e até nalguns casos a “chave” interpretativa do “todo”. No poema «toda a felicidade perdida», por exemplo, o último verso implica depois de si um espaço vago, enigmático (“o tempo, só o tempo pode mostrar-te” ib:43), reclamando justamente um regresso
  • 3. 3 ao título para desse modo se concluir e recomeçar a compreensão, ou seja, enunciando um círculo expressivo e sinedóquico, onde o fim e o princípio não se balizam, mas antes se reciclam. A preferência por composições breves e epigramáticas, dir-se-ia nalguns casos lapidares, torna esta poesia incontestavelmente poderosa, ocupando de modo incisivo o espaço de cada palavra com o assomo de uma provocação mental. Poesia imagética, progressivamente mais bem conseguida e portanto mais inequívoca, mais ambiciosa e atomizada no panorama geral. A escrita de J.R.L. continua, na nossa opinião, ao alcance de poucos e desatenta do olhar de muitos, genial no aspecto em que circunda com profunda exactidão e verdade elementos particulares e gerais do homem e do resto, circundando-os porém na sua dimensão viva e dinâmica, na convicção de que saberá ser compreendida por aquele que pôde ascender ao nível de leitura exigido, digamos por aquele que não se deixou iludir no fácil que às vezes parece e que não é! Atentemos neste período: “(…) quando as unhas estão cortadas e redondas/ quando ficou saldada a dívida/ quando arrancas de alguém o sorriso difícil/ quando tudo é mais do que tudo/ sim, podes pensar que o mundo/ nem precisa de ser perfeito/ talvez tu, talvez tu é que precises” (ib:58). Não se esgota nem se estafa em si mesma esta eloquência rara e sagaz, mormente porque nela se podem aferir ainda os dois pólos em que Horácio media a têmpera e o conteúdo da arte literária, “prodesse ac delectare”. De facto, neste jovem autor (e felizmente para todos os que veneram a verdadeira e límpida palavra poética, “jovem” e não “juvenil”), o prisma gnómico não é fútil, como insosso não é o agrado que nas suas composições se pronuncia.» Bibliografia: Lopes, João Ricardo (2002a), além do dia hoje, Fânzeres, Edição da Junta da Freguesia da Vila de Fânzeres). ---------- (2002b), contra o esquecimento das mãos, Fafe, Labirinto. ---------- (2005), dias desiguais, Fafe, Labirinto. Maria de Fátima Saldanha (Porto, 2005)