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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
o doce de buriti
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
Ao vô Quincas, à vó Nila, ao vô Faustino e à vó Margarida.
Pelo amor e carinho a todos.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
Caminho em direção ao carro, já tomei meu banho, fiz minha barba e
escovei meus dentes, pois, agora, tomo meu café antes de ir caminhar.
A cidade é calma pela manhã e não existe muito movimento, nem de
carros e nem de pessoas.
Na realidade, encontro algumas pessoas que já caminham para o seu
trabalho bem cedo. São pessoas bem diferentes umas das outras, mas
que levantam cedo para buscar o sustento de suas famílias ou, delas
próprias.
Sinto que todos são indiferentes ao tempo pois, independente da
temperatura fria ou quente, é impressionante com que pontualidade nos
encontramos e dizemos bom dia.
Ligo o motor do carro, coloco o cinto de segurança, ligo o rádio e
começo a ouvir as notícias. Não gosto do que ouço e percorro as
estações do rádio até encontrar uma música que me inspire e me
prepare para o trabalho.
Sim, existe um trabalho de engenhar, construir, formar e educar, com
erros e acertos, que todos nós fazemos todos os dias. Aprendemos
todos os dias que este trabalho deve ser incessante. Isto não podemos
deixar de fazer, mesmo que o nosso dia-a-dia e o cansaço cheguem e
nos deixem imobilizados.
Sigo ouvindo meu rádio e sinto que as músicas conseguiram preparar
minha mente para o trabalho e que a energia está adequada para ir em
frente.
Olho ao redor e vejo um movimento maior de carros e de pessoas, indo
e vindo, com seus sonhos, expectativas, realidades e esperanças.
Este mesmo ir e vir que trouxe para São Paulo uma família piauiense
que, com certeza, tinha em sua bagagem o doce de buriti.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
O vaqueiro
Me levanto, já sinto o calor forte.
Até parece que minha cabeça vai derreter.
Nesta terra, o sol queima como fogo.
Ainda está escuro, as crianças estão dormindo, mas já sinto o cheiro de lenha
queimando. Deve ser a mulher fazendo a comida pra eu levar comigo.
Hoje não vai ser fácil, tenho que buscar uma criação que se perdeu na fazenda
do Pé do Morro e, lá, a caatinga tá queimando, tá furando como prego na pele.
Ainda bem que minha roupa ainda tá boa pra eu buscar este bicho.
Ah, disto eu tenho orgulho : o meu chapéu de couro é um dos mais bonitos
entre os vaqueiros. È que cuido dele todo dia, como se fosse um filho.
Na realidade, não é só um filho, são sete.
Miranda, o primeiro, hoje com 20 anos.
Arnaldo, o segundo, tá perto do primeiro, tem 19 anos.
Depois vem Romilda, com 18, Raimunda, com 17, Nonato, com 16 anos, Maria
Antônia, com 15 e José com 13 anos.
O Antônio não agüentou a quentura desta terra, ele teria 14 anos.
Me olho no espelho, já tô pronto para subir no Teimoso e fazer o serviço como
sempre.
Hoje tenho que levar comigo o Fera, sem ele acho que não vou conseguir
trazer a criação de volta pra fazenda.
Este cachorro é pequeno mas é ágil, inteligente e valente, assim como
Teimoso, um cavalo bom que tá comigo desde que cheguei na fazenda do
Poço Fundo.
Quando chego na cozinha, todos já estão em pé esperando a mãe servir o café
pra irem à lavoura.
A Maria José, minha esposa, é uma mulher boa e trabalhadeira. Ela cuida bem
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
de todos os nossos filhos e quando um deles fica doente, ela não sabe o que
fazer pra que ele fique bom rápido. Sinto que o Antônio faz falta.
Todos os nossos filhos são fortes, inclusive as mulheres. Tem hora até que eu
acho que elas são mais fortes que os homens. É a seca que fez isto com elas.
Mas, com a terra fervendo do jeito que tá, será mais um ano muito difícil.
Sem água, o gado morre, a lavoura morre, o rio morre, a caatinga seca, a vida
morre.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
A fazenda
Chego na fazenda bem cedo.
Sou sempre o primeiro vaqueiro a chegar.
Hoje, o Teimoso não foi muito ligeiro não.
Até parece que ele tava adivinhando os acontecimentos.
Ao entrar na fazenda, vejo que o seu José Antônio já tá nervoso.
O Teimoso teima em não chegar perto dele.
Seu José Antônio se vira pra mim e diz:
- Por que a demora? Tô precisando de vocês. Onde está o Quincas?
Eu respondo:
- Bom dia seu José Antônio, o que acontece?
Ele responde:
- Minha filha Maria Antônia sumiu, e acho que foi com aquele negro. Eu mato
aquele desgraçado.
Ele tava uma fera, feito uma onça encurralada. Nunca tinha visto seu José
Antônio assim. Ele continuou :
- Quando Quincas chegar, vocês que são meus melhores vaqueiros, vão
buscar os dois onde estiverem, até no final do mundo. Entendido ? Não voltem
sem eles.
Eu respondo :
- O sinhô é quem sabe.
Não perguntei nem quem ia buscar a criação perdida na fazenda do Pé do
Morro.
Com certeza a filha é mais importante que a criação.
Na verdade, sempre achei a Maria Antônia, esta filha do seu José Antônio, bem
diferente, meio esquisita.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
Ela sempre deu muito trabalho pro pai.
Desde pequena, ela ficava junto dos vaqueiros, querendo saber como era subir
no cavalo, arrochar um nó, laçar o boi e derrubar. Como era campear.
Eu e o Quincas sempre fomos pacientes e ensinamos pra ela tudo certinho.
E não é que ela aprendeu tudo direitinho.
Mas, ela sumiu com o negro Firmínio.
Nem eu e nem o Quincas tava esperando isto.
Agora, nós dois tamos neste final de mundo procurando a dona Maria Antônia
e o negro Firmínio.
O Quincas no Ligeiro e eu no Teimoso.
Ainda bem que o Fera veio com a gente, desde pequeno ele conhece a dona
Maria Antônia e o cheiro dela.
Não vai demorar muito pra gente encontrar os dois.
Mas, apesar de toda a raiva do seu José Antônio, ele é um bom homem e ama
sua filha.
Ele não vai matar o negro Firmínio não.
Ele nunca mandou matar ninguém.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
A cidade
Entro na cidade e sempre vejo a igreja primeiro.
È uma igreja pequena, mas é a primeira imagem que tenho ao chegar na
cidade.
A igreja fica em uma praça que também tem a escola e o mercadinho.
O mercadinho é do seu Moreira e é lá que eu preciso passar depois de deixar a
Maria Antônia, minha filha, na escola.
Hoje ela tá quieta demais.
Ela tem o mesmo nome da filha do seu José Antônio.
Foi por consideração.
A Maria Antônia, minha filha, sempre quis ir à escola.
Os outros filhos não.
Ela foi a única que não desistiu, mesmo tendo de ajudar na casa depois da
escola.
Ela tá ficando muito esperta.
Já lê mais que eu.
O problema é que ela quer ir estudar em Oeiras.
Fazer o colégio lá.
Mas, como é que eu vou fazer pra levar ela todo dia pra escola.
Um dia, seu Moreira, dono do mercadinho, disse que tem uma comadre que
pode ajudar ficando com ela em casa.
Só que a Maria Antônia vai ter que ajudar nos serviços da casa depois da
escola.
Ela dá comida e dormida.
Vou falar com a Maria José sobre isso.
Minha filha quer ser professora. E olha, acho que a danada vai conseguir.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
Lá em casa, todo mundo é trabalhador, mas a Maria Antônia quando chega à
noitinha, sempre fica lendo uns livros que a dona Conceição, a professora da
nossa cidade, dá para ela ler.
A dona Conceição diz que ela aprende muito rápido e que ela pode ser
professora sim.
O Quincas, o outro vaqueiro da fazenda do Poço Fundo, também tem uma filha
e ela já estuda em Oeiras.
Ele diz que lá é muito bom e que ela gosta muito.
A cidade é grande, mas a família da casa que ela fica é muito boa.
Toda semana ela volta pra casa e traz um monte de novidades.
Ela tem falado pro Quincas que tem muita gente indo pro sul tentar uma vida
melhor.
Tem gente que já foi pra lá e já ta empregado e comprando roupa nova e
mandando pra família aqui.
As pessoas que vão pro sul não querem mais voltar não.
E lá, as casas são maiores, bonitas e tem escola pra todo mundo.
E a água, ah, a água não falta.
Tem tempo que chove tanto lá no sul que os rios saem e enchem tudo.
As crianças adoram brincar com a água na rua.
Um dia o Quincas me falou :
- Não agüento mais esta seca. Vou pro sul. Vou pra São Paulo.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
A esperança
Até parece que foi ontem que eu ouvi o Quincas falar que ia pro sul e, quando
olhei do lado, já estava sozinho agarrando as criações na fazenda do Poço
Fundo.
Lá, a dona Maria Antônia, filha do seu José Antônio, o dono da fazenda, já se
casou com o negro Firmínio.
Foi um casamento diferente, não teve festa e o padre foi lá na fazenda dar a
benção para os dois.
A dona Maria Antônia já ta grávida, mas tá sofrendo muito.
O médico da cidade, o Dr, Arnaldo, mandou ela ficar na cama.
Descansar pra não morrer e a criança vingar.
O negro Firmínio não vê a hora da criança nascer.
Já tem até nome : José Antônio Gonzaga dos Santos.
José Antônio em homenagem ao sogro que ele salvou a vida em uma cilada,
pois neste mundo de deus quem não tem inimigo.
E Gonzaga dos Santos porque seu pai chamava Gonzaga dos Santos.
O negro Firmínio tá muito feliz. Ele é uma boa pessoa.
O Quincas, o meu amigo vaqueiro, quase que um irmão, mandou uma carta
estes dias.
Ele diz que já conseguiu um emprego lá no sul.
Eles tão morando em uma cidade perto de São Paulo, a capital do estado.
Os mais velhos também tão trabalhando e os mais novos tão na escola.
É tudo muito diferente.
Ele diz que não acostumou tomar a condução pra trabalhar.
Ele prefere ir a pé mesmo.
A caminhada é de quase uma hora, mas pra ele não é nada.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
O dinheiro que ele ganha, junto com o dinheiro dos filhos que trabalham, dá pra
pagar o aluguel da casa e a comida.
O trabalho não é duro, mas tá difícil entender tudo o que eles falam e pedem
pra ele fazer.
A filha mais velha. além de trabalhar, também estuda.
Vai se formar este ano e quer prestar concurso na prefeitura para ser
professora de crianças lá no sul.
O Quincas diz que ela vai ganhar um bom dinheiro e com isto vai dar pra
comprar um terreno em outra cidade e construir uma casa.
Aí, ele quer que eu vá visitar ele lá, pra conhecer o sul.
Lá em casa, tô eu, a Maria de Fátima, minha esposa, e a Maria Antônia, minha
filha.
Os outros, cada um tomou seu rumo.
Miranda foi pro exército, hoje tá em Teresina, e nunca mais voltou aqui.
Às vezes liga pra mãe e me manda um abraço.
Ainda não casou.
Com ele foi o Arnaldo.
A Romilda tá em Oeiras, trabalhando no comércio e dormindo lá mesmo.
Ela se agarrou ao filho do dono.
Eu não gostei, mas não tenho o que fazer. Diz que tá grávida.
Raimunda também foi pra Teresina. Está com os irmãos.
Parece que trabalha mas não quer estudar.
Nonato fugiu. Foi em um forró na cidade e brigou com um matador que jurou
matar ele.
A Maria Antônia, minha filha, é professora das crianças na nossa cidade.
Ela diz que a maior esperança, além da água, é a educação.
O José ainda é um menino.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
A realidade
A Maria José, minha esposa, morreu faz três anos.
Ela não agüentou a morte do meu menino, o José.
Ele virou caminhoneiro mas a estrada não perdoou.
Tava trabalhando muito, dormiu no volante e o caminhão caiu em uma
ribanceira na estrada entre a Bahia e Pernambuco.
Morreu na hora, a carga toda foi em cima dele.
Não reconheci meu próprio filho.
Acho que a Maria José morreu de tristeza.
O Dr. Arnaldo, médico da cidade, diz que foi câncer.
Os meus filhos Miranda e Arnaldo estão casados e morando em Teresina.
Eles me deram quatro netos.
O Miranda um casal e o Arnaldo duas meninas.
Eles vem em casa de vez em quando.
Agora, a Romilda teve 7 filhos com o filho do seu Moreira, do mercadinho.
Estes eu vejo sempre. Tem dois que querem ser vaqueiros que nem o vô.
Não sei se vou conseguir ensinar, precisa nascer vaqueiro.
A Raimunda, que tava em Teresina, foi embora pra São Paulo.
Recebi uma carta dela dizendo que tá trabalhando e no final de ano vem em
casa.
Mas, ela nunca mais voltou. Ela não veio nem pro enterro do irmão e nem da
mãe.
Acho que ela não suporta esta vida, esta terra.
A seca maltratou muito a sua alma.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
A minha menina, a Maria Antônia, agora é professora em Oeiras.
Todas as crianças da nossa cidade também estudam lá.
Tem uma condução pra todo mundo ir pra escola.
A estrada tá boa e eles vão e voltam todo dia.
A Maria Antônia não precisa mais dar aula naquele barracão da cidade.
Mas, ele tá lá.
Se a condução não vem, ela pega todas as crianças e dá a aula lá mesmo.
Acho que ela se casou com a educação.
Ela não vai me dar netos.
Bem.. o Nonato.. simplesmente sumiu ... dizem que ele foi pra Serra Pelada.
Estes dias recebi uma visita.
O neto do Quincas, o vaqueiro quase meu irmão, passou em casa.
Veio conhecer a terra onde o vaqueiro Quincas, seu vô, tinha nascido.
O Quincas até me escreveu uma carta dizendo que tinha um neto engenheiro
que queria conhecer nossa cidade, nossa terra.
Mostrei tudo pra ele.
A terra que era do vaqueiro Quincas, a praça, a igreja, o mercadinho do seu
Moreira.
Ele conheceu toda a gente.
Tinha parente que ele nem conhecia.
Mas, parecia que ele não tinha encontrado o que ele queria.
Senti que ele queria conhecer a Fazenda do Poço Fundo.
Ele também era neto do negro Firmínio.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
Uma receita de doce de buriti
Pegue a coragem,
a luta,
a resistência,
a presteza,
a ligeireza,
a destreza,
a persistência
e junte ao afeto,
à consideração,
ao aconchego,
à receptividade,
à alegria de viver.
Deixe tudo em descanso,
em uma terra quente,
seca,
ardendo como fogo
e depois pode tirar.
Você vai ver como sai um cabra bom de fibra.
Um pouco rude,
Mas uma alma danada de boa.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
O vô vaqueiro e o neto
O vô vaqueiro,
já em São Paulo,
diz para o neto :
"filho, meu neto,
o prego não era na roupa , mas sim na pele ...
o sofrer é maior na pele que na roupa ...
não há proteção para o sentimento de ver a vida morrendo e não
poder fazer nada ....
é prego na pele mesmo ...
a água é a única esperança de vida neste mundo onde a seca
castiga a alma ...
a única saída era a migração ...
a migração para a cidade grande ...
era o que diziam para o seu Vô, o vaqueiro...
mas uma coisa é certa :
não existiam vaqueiros mulheres ...
a vida delas já era muito dura para cuidar dos filhos e da casa ...."
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
A origem
Venho do sertão ...
da seca ...
da caatinga que fere como prego ,,,
mas sei sentir...
chorar ...
lutar ...
persistir ...
e, principalmente assobiar ..
ah...
como é bom assobiar a alegria da vida.
A origem mostra a nossa alma,
um pouco rude às vezes,
mas uma boa alma.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
Agradecimentos
Aos que souberam, apesar das dificuldades, trilhar seus caminhos com amor,
esperança, luta, dignidade, generosidade, afeto e muita alegria.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
O meu Piauí
Desde pequeno ouço falar do Piauí. E não é por menos.
Meu pai, um mulato, nasceu no Piauí. Era alto e muito forte. Tinha cabelo
crespo, mas pela mistura, também tinha as linhas da raça branca. Nasceu da
relação da minha vó Margarida, branca de olhos azuis, com o meu vô Faustino,
negro de cabelo crespo.
Minha mãe também nasceu no Piauí. Ela nasceu perto da Tomada, no Pé do
Morro e foi lá que ela cresceu até se mudar para São Paulo, ou melhor, São
Caetano do Sul.
Meu vô Quincas era vaqueiro e teve 9 filhos com minha vó Nila. A origem
branca e indígena se mostra forte em todos os filhos.
As duas famílias moravam muito próximas. As cidades eram São Francisco do
Piauí, perto de Oeiras, e Nazaré do Piauí.
A família do vô Quincas trabalhava na roça para o próprio sustento.
A família do vô Faustino morava na fazenda do meu bisavô seu Moreira.
Sou engenheiro, formado em São Caetano do Sul, minha cidade natal.
Trabalho em projetos para implantação de sistemas da informação para gestão
integrada dos processos de uma empresa. Devido a este trabalho, eu já
conheci várias cidades neste país. E, em um desses projetos, eu tive a
oportunidade de ir ao Piauí.
Esta viagem foi em julho de 2002. Foi em um final de semana. Na realidade,
cheguei em uma sexta-feira à noite . Lá já estava o tio Zé Alberto, irmão do
meu pai, me esperando para apresentar a terra onde meus pais tinham nascido.
Uma terra que para mim parecia muito distante, desconhecida, sem nenhuma
ligação afetiva.
Mas, ao ser recebido pelo tio Zé Alberto com um abraço tão afetuoso, me senti
imediatamente em casa.
Revi com carinho minha prima Cláudia e minha tia Gislene.
Na manhã seguinte, eu e o tio Zé Alberto saímos pela estrada em direção às
cidades onde haviam vivido minha mãe Rosa e meu pai Luiz Gonzaga.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
De Teresina até Floriano, a estrada estava com a paisagem verde. Em Floriano,
conheci os primos do meu pai. Encontrei o Miguel, um primo querido e que
tenho certeza com forte ligação com meu pai e meu tio Zé Alberto. Senti uma
forte emoção ao entrar na casa de cada primo que me foi sendo apresentado.
Em cada casa, era recebido com muito carinho. A certeza de estar em casa foi
crescendo.
Conheci o Zé Mendes, um amigo de infância do meu pai.
Ao retornar para o almoço, todos os irmãos do Miguel, primo do meu pai,
estavam me esperando. Almoçamos todos juntos e, realmente, eu me senti em
casa. Tirei até uma dormida em uma rede na varanda da casa.
Mas o calor estava forte e tínhamos que seguir a viagem até Nazaré do Piauí
para conhecer a Fazenda Progresso, onde o tio Virgínio, meu tio avô paterno,
ajudou a criar o meu pai.
Chegamos à Nazaré do Piauí já à noite, e fomos à casa do meu tio Antônio
José, já falecido.
Conheci meu primo Té Filho, minha tia, e mais dois primos e seus filhos. A
recepção foi muito afetuosa.
Depois do jantar, um carneiro delicioso, fomos visitar a Fazenda Progresso,
onde morava o tio Virgínio. Eram dez horas da noite e normalmente, neste
horário, ele já estaria dormindo, mas pela minha visita ele ainda estava
acordado.
A casa da fazenda era um lugar grande, iluminada à lampião, mas muito
acolhedora, assim como foi acolhedor o tio Virgínio ao cuidar do meu pai em
sua infância, após a morte de minha vó Margarida e do meu vô Faustino. Foi
neste momento que senti que cuidar é essencial e acolher uma pessoa é um
ato de generosidade e não de compaixão.
Após esta visita, voltei à Nazaré do Piauí e dormi na casa do tio Antônio José.
Ainda tínhamos que conhecer São Francisco do Piauí e voltar para Teresina,
tudo isto ainda no domingo.
Ao amanhecer no domingo, tomamos o café da manhã e saímos para São
Francisco do Piauí. Não é muito longe mas, neste caminho, comecei a
conhecer a seca, a caatinga, o sertão.
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Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
A estrada de terra seca não permitia andar rápido de carro.
Vi muita ponte que não tinha mais o rio que havia secado. A vegetação quase
não existia. A que existia não tinha nenhuma folha verde. Tudo estava muito
seco. O ar muito árido.
Ao nos aproximarmos da cidade de São Francisco do Piauí, começamos a ver
algumas placas e uma delas indicava o Pé do Morro, o lugar onde a minha mãe
viveu na infância.
Logo depois, à direita, vimos uma movimentação de pessoas com cavalos. Era
a festa dos vaqueiros da cidade. A vaquejada já estava acontecendo.
Finalmente, entramos na cidade e senti o quanto é bom conhecer nossa origem.
A primeira casa que fomos foi a da tia Helena. Conheci meu tio Antônio Moreira.
Revi meu primo Zé. Logo depois, fomos conhecer a casa da professora da
minha mãe em sua infância. Na realidade, conheci a professora em pessoa.
Uma mulher muito simples, carinhosa e generosa.
Neste momento, entendi o que é ser professora, educadora em um lugar onde
a única forma de esperança, além da água, é a educação que liberta.
Conheci a casa de vários primos da minha mãe. Todos me receberam com
muito afeto e atenção.
Enfim, São Francisco do Piauí é uma cidade pequena mas que me passou o
sentimento que todos são muito próximos, formando uma comunidade onde a
solidariedade entre todos é essencial.
Tínhamos que voltar ainda no domingo para Teresina e a viagem era longa, de
4 horas pelo menos.
Ainda passamos em Nazaré do Piauí para a festa dos vaqueiros.
Ao chegarmos à cidade de Nazaré do Piauí, eu não a reconheci.
Aquela cidade pacata, sem movimento algum, havia se tornado o local de
encontro dos vaqueiros mais conhecidos da região.
Todos estavam nas ruas com seus cavalos e fazendo galopes.
Era impressionante a velocidade com que faziam os movimentos e mudavam
de direção.
A missa dos vaqueiros já tinha sido realizada e eles estavam muito alegres.
Todos se dirigiam para o parque onde a festa aconteceria.
21
Eng, Eduardo Ferreira dos Santos
Fui até lá e não me vi como um vaqueiro, mas senti como a coragem, a fibra, a
força e a destreza são essenciais nesta profissão, um pouco rude às vezes,
mas de pessoas boas.
Conheci a casa do meu primo Té Filho e toda a sua família, que me tratou com
muito afeto.
Mas, foi chegada a hora de partir de volta à Teresina.
Mais abraços afetuosos e a certeza de que o Piauí era também minha casa,
especialmente, as cidades de Floriano, Nazaré do Piauí e São Francisco do
Piauí.
Ah, ia esquecendo, ainda tivemos um churrasco no domingo à noite em
Teresina e um almoço delicioso em um restaurante próximo ao encontro das
águas do Rio Parnaíba com Rio Poti.
Recomendo. Faz bem pra alma.

O doce de buriti

  • 1.
    1 Eng, Eduardo Ferreirados Santos o doce de buriti
  • 2.
    2 Eng, Eduardo Ferreirados Santos Ao vô Quincas, à vó Nila, ao vô Faustino e à vó Margarida. Pelo amor e carinho a todos.
  • 3.
    3 Eng, Eduardo Ferreirados Santos Caminho em direção ao carro, já tomei meu banho, fiz minha barba e escovei meus dentes, pois, agora, tomo meu café antes de ir caminhar. A cidade é calma pela manhã e não existe muito movimento, nem de carros e nem de pessoas. Na realidade, encontro algumas pessoas que já caminham para o seu trabalho bem cedo. São pessoas bem diferentes umas das outras, mas que levantam cedo para buscar o sustento de suas famílias ou, delas próprias. Sinto que todos são indiferentes ao tempo pois, independente da temperatura fria ou quente, é impressionante com que pontualidade nos encontramos e dizemos bom dia. Ligo o motor do carro, coloco o cinto de segurança, ligo o rádio e começo a ouvir as notícias. Não gosto do que ouço e percorro as estações do rádio até encontrar uma música que me inspire e me prepare para o trabalho. Sim, existe um trabalho de engenhar, construir, formar e educar, com erros e acertos, que todos nós fazemos todos os dias. Aprendemos todos os dias que este trabalho deve ser incessante. Isto não podemos deixar de fazer, mesmo que o nosso dia-a-dia e o cansaço cheguem e nos deixem imobilizados. Sigo ouvindo meu rádio e sinto que as músicas conseguiram preparar minha mente para o trabalho e que a energia está adequada para ir em frente. Olho ao redor e vejo um movimento maior de carros e de pessoas, indo e vindo, com seus sonhos, expectativas, realidades e esperanças. Este mesmo ir e vir que trouxe para São Paulo uma família piauiense que, com certeza, tinha em sua bagagem o doce de buriti.
  • 4.
    4 Eng, Eduardo Ferreirados Santos O vaqueiro Me levanto, já sinto o calor forte. Até parece que minha cabeça vai derreter. Nesta terra, o sol queima como fogo. Ainda está escuro, as crianças estão dormindo, mas já sinto o cheiro de lenha queimando. Deve ser a mulher fazendo a comida pra eu levar comigo. Hoje não vai ser fácil, tenho que buscar uma criação que se perdeu na fazenda do Pé do Morro e, lá, a caatinga tá queimando, tá furando como prego na pele. Ainda bem que minha roupa ainda tá boa pra eu buscar este bicho. Ah, disto eu tenho orgulho : o meu chapéu de couro é um dos mais bonitos entre os vaqueiros. È que cuido dele todo dia, como se fosse um filho. Na realidade, não é só um filho, são sete. Miranda, o primeiro, hoje com 20 anos. Arnaldo, o segundo, tá perto do primeiro, tem 19 anos. Depois vem Romilda, com 18, Raimunda, com 17, Nonato, com 16 anos, Maria Antônia, com 15 e José com 13 anos. O Antônio não agüentou a quentura desta terra, ele teria 14 anos. Me olho no espelho, já tô pronto para subir no Teimoso e fazer o serviço como sempre. Hoje tenho que levar comigo o Fera, sem ele acho que não vou conseguir trazer a criação de volta pra fazenda. Este cachorro é pequeno mas é ágil, inteligente e valente, assim como Teimoso, um cavalo bom que tá comigo desde que cheguei na fazenda do Poço Fundo. Quando chego na cozinha, todos já estão em pé esperando a mãe servir o café pra irem à lavoura. A Maria José, minha esposa, é uma mulher boa e trabalhadeira. Ela cuida bem
  • 5.
    5 Eng, Eduardo Ferreirados Santos de todos os nossos filhos e quando um deles fica doente, ela não sabe o que fazer pra que ele fique bom rápido. Sinto que o Antônio faz falta. Todos os nossos filhos são fortes, inclusive as mulheres. Tem hora até que eu acho que elas são mais fortes que os homens. É a seca que fez isto com elas. Mas, com a terra fervendo do jeito que tá, será mais um ano muito difícil. Sem água, o gado morre, a lavoura morre, o rio morre, a caatinga seca, a vida morre.
  • 6.
    6 Eng, Eduardo Ferreirados Santos A fazenda Chego na fazenda bem cedo. Sou sempre o primeiro vaqueiro a chegar. Hoje, o Teimoso não foi muito ligeiro não. Até parece que ele tava adivinhando os acontecimentos. Ao entrar na fazenda, vejo que o seu José Antônio já tá nervoso. O Teimoso teima em não chegar perto dele. Seu José Antônio se vira pra mim e diz: - Por que a demora? Tô precisando de vocês. Onde está o Quincas? Eu respondo: - Bom dia seu José Antônio, o que acontece? Ele responde: - Minha filha Maria Antônia sumiu, e acho que foi com aquele negro. Eu mato aquele desgraçado. Ele tava uma fera, feito uma onça encurralada. Nunca tinha visto seu José Antônio assim. Ele continuou : - Quando Quincas chegar, vocês que são meus melhores vaqueiros, vão buscar os dois onde estiverem, até no final do mundo. Entendido ? Não voltem sem eles. Eu respondo : - O sinhô é quem sabe. Não perguntei nem quem ia buscar a criação perdida na fazenda do Pé do Morro. Com certeza a filha é mais importante que a criação. Na verdade, sempre achei a Maria Antônia, esta filha do seu José Antônio, bem diferente, meio esquisita.
  • 7.
    7 Eng, Eduardo Ferreirados Santos Ela sempre deu muito trabalho pro pai. Desde pequena, ela ficava junto dos vaqueiros, querendo saber como era subir no cavalo, arrochar um nó, laçar o boi e derrubar. Como era campear. Eu e o Quincas sempre fomos pacientes e ensinamos pra ela tudo certinho. E não é que ela aprendeu tudo direitinho. Mas, ela sumiu com o negro Firmínio. Nem eu e nem o Quincas tava esperando isto. Agora, nós dois tamos neste final de mundo procurando a dona Maria Antônia e o negro Firmínio. O Quincas no Ligeiro e eu no Teimoso. Ainda bem que o Fera veio com a gente, desde pequeno ele conhece a dona Maria Antônia e o cheiro dela. Não vai demorar muito pra gente encontrar os dois. Mas, apesar de toda a raiva do seu José Antônio, ele é um bom homem e ama sua filha. Ele não vai matar o negro Firmínio não. Ele nunca mandou matar ninguém.
  • 8.
    8 Eng, Eduardo Ferreirados Santos A cidade Entro na cidade e sempre vejo a igreja primeiro. È uma igreja pequena, mas é a primeira imagem que tenho ao chegar na cidade. A igreja fica em uma praça que também tem a escola e o mercadinho. O mercadinho é do seu Moreira e é lá que eu preciso passar depois de deixar a Maria Antônia, minha filha, na escola. Hoje ela tá quieta demais. Ela tem o mesmo nome da filha do seu José Antônio. Foi por consideração. A Maria Antônia, minha filha, sempre quis ir à escola. Os outros filhos não. Ela foi a única que não desistiu, mesmo tendo de ajudar na casa depois da escola. Ela tá ficando muito esperta. Já lê mais que eu. O problema é que ela quer ir estudar em Oeiras. Fazer o colégio lá. Mas, como é que eu vou fazer pra levar ela todo dia pra escola. Um dia, seu Moreira, dono do mercadinho, disse que tem uma comadre que pode ajudar ficando com ela em casa. Só que a Maria Antônia vai ter que ajudar nos serviços da casa depois da escola. Ela dá comida e dormida. Vou falar com a Maria José sobre isso. Minha filha quer ser professora. E olha, acho que a danada vai conseguir.
  • 9.
    9 Eng, Eduardo Ferreirados Santos Lá em casa, todo mundo é trabalhador, mas a Maria Antônia quando chega à noitinha, sempre fica lendo uns livros que a dona Conceição, a professora da nossa cidade, dá para ela ler. A dona Conceição diz que ela aprende muito rápido e que ela pode ser professora sim. O Quincas, o outro vaqueiro da fazenda do Poço Fundo, também tem uma filha e ela já estuda em Oeiras. Ele diz que lá é muito bom e que ela gosta muito. A cidade é grande, mas a família da casa que ela fica é muito boa. Toda semana ela volta pra casa e traz um monte de novidades. Ela tem falado pro Quincas que tem muita gente indo pro sul tentar uma vida melhor. Tem gente que já foi pra lá e já ta empregado e comprando roupa nova e mandando pra família aqui. As pessoas que vão pro sul não querem mais voltar não. E lá, as casas são maiores, bonitas e tem escola pra todo mundo. E a água, ah, a água não falta. Tem tempo que chove tanto lá no sul que os rios saem e enchem tudo. As crianças adoram brincar com a água na rua. Um dia o Quincas me falou : - Não agüento mais esta seca. Vou pro sul. Vou pra São Paulo.
  • 10.
    10 Eng, Eduardo Ferreirados Santos A esperança Até parece que foi ontem que eu ouvi o Quincas falar que ia pro sul e, quando olhei do lado, já estava sozinho agarrando as criações na fazenda do Poço Fundo. Lá, a dona Maria Antônia, filha do seu José Antônio, o dono da fazenda, já se casou com o negro Firmínio. Foi um casamento diferente, não teve festa e o padre foi lá na fazenda dar a benção para os dois. A dona Maria Antônia já ta grávida, mas tá sofrendo muito. O médico da cidade, o Dr, Arnaldo, mandou ela ficar na cama. Descansar pra não morrer e a criança vingar. O negro Firmínio não vê a hora da criança nascer. Já tem até nome : José Antônio Gonzaga dos Santos. José Antônio em homenagem ao sogro que ele salvou a vida em uma cilada, pois neste mundo de deus quem não tem inimigo. E Gonzaga dos Santos porque seu pai chamava Gonzaga dos Santos. O negro Firmínio tá muito feliz. Ele é uma boa pessoa. O Quincas, o meu amigo vaqueiro, quase que um irmão, mandou uma carta estes dias. Ele diz que já conseguiu um emprego lá no sul. Eles tão morando em uma cidade perto de São Paulo, a capital do estado. Os mais velhos também tão trabalhando e os mais novos tão na escola. É tudo muito diferente. Ele diz que não acostumou tomar a condução pra trabalhar. Ele prefere ir a pé mesmo. A caminhada é de quase uma hora, mas pra ele não é nada.
  • 11.
    11 Eng, Eduardo Ferreirados Santos O dinheiro que ele ganha, junto com o dinheiro dos filhos que trabalham, dá pra pagar o aluguel da casa e a comida. O trabalho não é duro, mas tá difícil entender tudo o que eles falam e pedem pra ele fazer. A filha mais velha. além de trabalhar, também estuda. Vai se formar este ano e quer prestar concurso na prefeitura para ser professora de crianças lá no sul. O Quincas diz que ela vai ganhar um bom dinheiro e com isto vai dar pra comprar um terreno em outra cidade e construir uma casa. Aí, ele quer que eu vá visitar ele lá, pra conhecer o sul. Lá em casa, tô eu, a Maria de Fátima, minha esposa, e a Maria Antônia, minha filha. Os outros, cada um tomou seu rumo. Miranda foi pro exército, hoje tá em Teresina, e nunca mais voltou aqui. Às vezes liga pra mãe e me manda um abraço. Ainda não casou. Com ele foi o Arnaldo. A Romilda tá em Oeiras, trabalhando no comércio e dormindo lá mesmo. Ela se agarrou ao filho do dono. Eu não gostei, mas não tenho o que fazer. Diz que tá grávida. Raimunda também foi pra Teresina. Está com os irmãos. Parece que trabalha mas não quer estudar. Nonato fugiu. Foi em um forró na cidade e brigou com um matador que jurou matar ele. A Maria Antônia, minha filha, é professora das crianças na nossa cidade. Ela diz que a maior esperança, além da água, é a educação. O José ainda é um menino.
  • 12.
    12 Eng, Eduardo Ferreirados Santos A realidade A Maria José, minha esposa, morreu faz três anos. Ela não agüentou a morte do meu menino, o José. Ele virou caminhoneiro mas a estrada não perdoou. Tava trabalhando muito, dormiu no volante e o caminhão caiu em uma ribanceira na estrada entre a Bahia e Pernambuco. Morreu na hora, a carga toda foi em cima dele. Não reconheci meu próprio filho. Acho que a Maria José morreu de tristeza. O Dr. Arnaldo, médico da cidade, diz que foi câncer. Os meus filhos Miranda e Arnaldo estão casados e morando em Teresina. Eles me deram quatro netos. O Miranda um casal e o Arnaldo duas meninas. Eles vem em casa de vez em quando. Agora, a Romilda teve 7 filhos com o filho do seu Moreira, do mercadinho. Estes eu vejo sempre. Tem dois que querem ser vaqueiros que nem o vô. Não sei se vou conseguir ensinar, precisa nascer vaqueiro. A Raimunda, que tava em Teresina, foi embora pra São Paulo. Recebi uma carta dela dizendo que tá trabalhando e no final de ano vem em casa. Mas, ela nunca mais voltou. Ela não veio nem pro enterro do irmão e nem da mãe. Acho que ela não suporta esta vida, esta terra. A seca maltratou muito a sua alma.
  • 13.
    13 Eng, Eduardo Ferreirados Santos A minha menina, a Maria Antônia, agora é professora em Oeiras. Todas as crianças da nossa cidade também estudam lá. Tem uma condução pra todo mundo ir pra escola. A estrada tá boa e eles vão e voltam todo dia. A Maria Antônia não precisa mais dar aula naquele barracão da cidade. Mas, ele tá lá. Se a condução não vem, ela pega todas as crianças e dá a aula lá mesmo. Acho que ela se casou com a educação. Ela não vai me dar netos. Bem.. o Nonato.. simplesmente sumiu ... dizem que ele foi pra Serra Pelada. Estes dias recebi uma visita. O neto do Quincas, o vaqueiro quase meu irmão, passou em casa. Veio conhecer a terra onde o vaqueiro Quincas, seu vô, tinha nascido. O Quincas até me escreveu uma carta dizendo que tinha um neto engenheiro que queria conhecer nossa cidade, nossa terra. Mostrei tudo pra ele. A terra que era do vaqueiro Quincas, a praça, a igreja, o mercadinho do seu Moreira. Ele conheceu toda a gente. Tinha parente que ele nem conhecia. Mas, parecia que ele não tinha encontrado o que ele queria. Senti que ele queria conhecer a Fazenda do Poço Fundo. Ele também era neto do negro Firmínio.
  • 14.
    14 Eng, Eduardo Ferreirados Santos Uma receita de doce de buriti Pegue a coragem, a luta, a resistência, a presteza, a ligeireza, a destreza, a persistência e junte ao afeto, à consideração, ao aconchego, à receptividade, à alegria de viver. Deixe tudo em descanso, em uma terra quente, seca, ardendo como fogo e depois pode tirar. Você vai ver como sai um cabra bom de fibra. Um pouco rude, Mas uma alma danada de boa.
  • 15.
    15 Eng, Eduardo Ferreirados Santos O vô vaqueiro e o neto O vô vaqueiro, já em São Paulo, diz para o neto : "filho, meu neto, o prego não era na roupa , mas sim na pele ... o sofrer é maior na pele que na roupa ... não há proteção para o sentimento de ver a vida morrendo e não poder fazer nada .... é prego na pele mesmo ... a água é a única esperança de vida neste mundo onde a seca castiga a alma ... a única saída era a migração ... a migração para a cidade grande ... era o que diziam para o seu Vô, o vaqueiro... mas uma coisa é certa : não existiam vaqueiros mulheres ... a vida delas já era muito dura para cuidar dos filhos e da casa ...."
  • 16.
    16 Eng, Eduardo Ferreirados Santos A origem Venho do sertão ... da seca ... da caatinga que fere como prego ,,, mas sei sentir... chorar ... lutar ... persistir ... e, principalmente assobiar .. ah... como é bom assobiar a alegria da vida. A origem mostra a nossa alma, um pouco rude às vezes, mas uma boa alma.
  • 17.
    17 Eng, Eduardo Ferreirados Santos Agradecimentos Aos que souberam, apesar das dificuldades, trilhar seus caminhos com amor, esperança, luta, dignidade, generosidade, afeto e muita alegria.
  • 18.
    18 Eng, Eduardo Ferreirados Santos O meu Piauí Desde pequeno ouço falar do Piauí. E não é por menos. Meu pai, um mulato, nasceu no Piauí. Era alto e muito forte. Tinha cabelo crespo, mas pela mistura, também tinha as linhas da raça branca. Nasceu da relação da minha vó Margarida, branca de olhos azuis, com o meu vô Faustino, negro de cabelo crespo. Minha mãe também nasceu no Piauí. Ela nasceu perto da Tomada, no Pé do Morro e foi lá que ela cresceu até se mudar para São Paulo, ou melhor, São Caetano do Sul. Meu vô Quincas era vaqueiro e teve 9 filhos com minha vó Nila. A origem branca e indígena se mostra forte em todos os filhos. As duas famílias moravam muito próximas. As cidades eram São Francisco do Piauí, perto de Oeiras, e Nazaré do Piauí. A família do vô Quincas trabalhava na roça para o próprio sustento. A família do vô Faustino morava na fazenda do meu bisavô seu Moreira. Sou engenheiro, formado em São Caetano do Sul, minha cidade natal. Trabalho em projetos para implantação de sistemas da informação para gestão integrada dos processos de uma empresa. Devido a este trabalho, eu já conheci várias cidades neste país. E, em um desses projetos, eu tive a oportunidade de ir ao Piauí. Esta viagem foi em julho de 2002. Foi em um final de semana. Na realidade, cheguei em uma sexta-feira à noite . Lá já estava o tio Zé Alberto, irmão do meu pai, me esperando para apresentar a terra onde meus pais tinham nascido. Uma terra que para mim parecia muito distante, desconhecida, sem nenhuma ligação afetiva. Mas, ao ser recebido pelo tio Zé Alberto com um abraço tão afetuoso, me senti imediatamente em casa. Revi com carinho minha prima Cláudia e minha tia Gislene. Na manhã seguinte, eu e o tio Zé Alberto saímos pela estrada em direção às cidades onde haviam vivido minha mãe Rosa e meu pai Luiz Gonzaga.
  • 19.
    19 Eng, Eduardo Ferreirados Santos De Teresina até Floriano, a estrada estava com a paisagem verde. Em Floriano, conheci os primos do meu pai. Encontrei o Miguel, um primo querido e que tenho certeza com forte ligação com meu pai e meu tio Zé Alberto. Senti uma forte emoção ao entrar na casa de cada primo que me foi sendo apresentado. Em cada casa, era recebido com muito carinho. A certeza de estar em casa foi crescendo. Conheci o Zé Mendes, um amigo de infância do meu pai. Ao retornar para o almoço, todos os irmãos do Miguel, primo do meu pai, estavam me esperando. Almoçamos todos juntos e, realmente, eu me senti em casa. Tirei até uma dormida em uma rede na varanda da casa. Mas o calor estava forte e tínhamos que seguir a viagem até Nazaré do Piauí para conhecer a Fazenda Progresso, onde o tio Virgínio, meu tio avô paterno, ajudou a criar o meu pai. Chegamos à Nazaré do Piauí já à noite, e fomos à casa do meu tio Antônio José, já falecido. Conheci meu primo Té Filho, minha tia, e mais dois primos e seus filhos. A recepção foi muito afetuosa. Depois do jantar, um carneiro delicioso, fomos visitar a Fazenda Progresso, onde morava o tio Virgínio. Eram dez horas da noite e normalmente, neste horário, ele já estaria dormindo, mas pela minha visita ele ainda estava acordado. A casa da fazenda era um lugar grande, iluminada à lampião, mas muito acolhedora, assim como foi acolhedor o tio Virgínio ao cuidar do meu pai em sua infância, após a morte de minha vó Margarida e do meu vô Faustino. Foi neste momento que senti que cuidar é essencial e acolher uma pessoa é um ato de generosidade e não de compaixão. Após esta visita, voltei à Nazaré do Piauí e dormi na casa do tio Antônio José. Ainda tínhamos que conhecer São Francisco do Piauí e voltar para Teresina, tudo isto ainda no domingo. Ao amanhecer no domingo, tomamos o café da manhã e saímos para São Francisco do Piauí. Não é muito longe mas, neste caminho, comecei a conhecer a seca, a caatinga, o sertão.
  • 20.
    20 Eng, Eduardo Ferreirados Santos A estrada de terra seca não permitia andar rápido de carro. Vi muita ponte que não tinha mais o rio que havia secado. A vegetação quase não existia. A que existia não tinha nenhuma folha verde. Tudo estava muito seco. O ar muito árido. Ao nos aproximarmos da cidade de São Francisco do Piauí, começamos a ver algumas placas e uma delas indicava o Pé do Morro, o lugar onde a minha mãe viveu na infância. Logo depois, à direita, vimos uma movimentação de pessoas com cavalos. Era a festa dos vaqueiros da cidade. A vaquejada já estava acontecendo. Finalmente, entramos na cidade e senti o quanto é bom conhecer nossa origem. A primeira casa que fomos foi a da tia Helena. Conheci meu tio Antônio Moreira. Revi meu primo Zé. Logo depois, fomos conhecer a casa da professora da minha mãe em sua infância. Na realidade, conheci a professora em pessoa. Uma mulher muito simples, carinhosa e generosa. Neste momento, entendi o que é ser professora, educadora em um lugar onde a única forma de esperança, além da água, é a educação que liberta. Conheci a casa de vários primos da minha mãe. Todos me receberam com muito afeto e atenção. Enfim, São Francisco do Piauí é uma cidade pequena mas que me passou o sentimento que todos são muito próximos, formando uma comunidade onde a solidariedade entre todos é essencial. Tínhamos que voltar ainda no domingo para Teresina e a viagem era longa, de 4 horas pelo menos. Ainda passamos em Nazaré do Piauí para a festa dos vaqueiros. Ao chegarmos à cidade de Nazaré do Piauí, eu não a reconheci. Aquela cidade pacata, sem movimento algum, havia se tornado o local de encontro dos vaqueiros mais conhecidos da região. Todos estavam nas ruas com seus cavalos e fazendo galopes. Era impressionante a velocidade com que faziam os movimentos e mudavam de direção. A missa dos vaqueiros já tinha sido realizada e eles estavam muito alegres. Todos se dirigiam para o parque onde a festa aconteceria.
  • 21.
    21 Eng, Eduardo Ferreirados Santos Fui até lá e não me vi como um vaqueiro, mas senti como a coragem, a fibra, a força e a destreza são essenciais nesta profissão, um pouco rude às vezes, mas de pessoas boas. Conheci a casa do meu primo Té Filho e toda a sua família, que me tratou com muito afeto. Mas, foi chegada a hora de partir de volta à Teresina. Mais abraços afetuosos e a certeza de que o Piauí era também minha casa, especialmente, as cidades de Floriano, Nazaré do Piauí e São Francisco do Piauí. Ah, ia esquecendo, ainda tivemos um churrasco no domingo à noite em Teresina e um almoço delicioso em um restaurante próximo ao encontro das águas do Rio Parnaíba com Rio Poti. Recomendo. Faz bem pra alma.