RESENHAS
                           Micro-história: reconstruindo o
                                 campo de possibilidades
                                     Manoel Luiz Salgado Guimarães

Jacques Revel (org.). Jogos de Escala: a    desse conhecimento, com suas regras
     experiência da microanálise. Tra-      próprias de consagração. Pode tam-
     dução Dora Rocha. Rio de Janei-        bém responder às exigências contí-
     ro: Editora Fundação Getúlio           nuas de uma reflexão sistemática sobre
     Vargas, 1998, 262 páginas.             os métodos e o lugar da teoria na
                                            produção do conhecimento históri-

A     produção historiográfica fran-
      cesa é particularmente rica de
balanços e avaliações sobre a produ-
                                            co como forma de responder satis-
                                            fatoriamente aos desafios, tanto da
                                            pesquisa histórica em sentido restri-
ção em nossa disciplina como parte          to, quanto das demandas sociais pos-
de um esforço sistemático para rever        tas pela contemporaneidade das so-
e discutir os parâmetros da pesquisa        ciedades altamente industrializadas.
histórica. Basta que nos lembremos          O trabalho organizado por Jacques
da coletânea “Faire l’Histoire” da dé-      Revel “Jogos de Escala” parece com-
cada de 70 e da obra “Passés Recom-         partilhar desta tradição, assim como
posés” duas décadas mais tarde, para        contribui para legitimar um viés da
termos dois significativos exemplos         pesquisa histórica, hoje com largos
deste esforço de reflexão a respeito        espaços de reconhecimento nos se-
do próprio campo de trabalho do             minários da École des Hautes Études
historiador. Pensar sua própria his-        en Sciences Sociales, onde alguns
tória pode assim significar um exer-        dos participantes da obra coletiva
cício de legitimação para uma comu-         dirigem seminários de pesquisa, ain-
nidade de profissionais, cuja identi-       da que seus começos estejam associa-
dade encontra-se fortemente assen-          dos à historiografia italiana e a no-
tada e construída a partir de lugares       mes como o do historiador Carlo
socialmente definidos de produção           Guinzburg e Giovanni Levi.


Topoi, Rio de Janeiro, nº 1, pp. 217-223.
218 • TOPOI



     Resultado das discussões leva-     mente uma terra estrangeira, numa
das a cabo na própria École como        formulação que sugere o título da
resposta a uma demanda ministerial      obra de David Lowenthal, “The Past
propondo uma reflexão em torno da       is a foreign country”.
relação Antropologia e História, o            A coletânea de dez artigos é
livro traça um rico painel dos pro-     encabeçada pelo trabalho de Jacques
blemas envolvendo a micro-história,     Revel intitulado “Microanálise e
permitindo ao seu leitor um primei-     construção do social”, que realiza
ro contato com o universo de ques-      igualmente a apresentação da obra
tões subjacentes a esta modalidade      coletiva. Seu texto procura mapear
da pesquisa histórica, situando seu     a recepção da micro-história pela
desenvolvimento num quadro his-         historiografia francesa a partir da tra-
toriográfico propriamente dito, as-     dução em 1989 do livro de Giovanni
sim como sublinhando tradições fi-      Levi, “Le pouvoir au village”, cujo
losóficas a que este tipo de procedi-   prefácio ficara a cargo do próprio
mento, implícito na micro-história,     Revel. Curiosamente, um ano sim-
se reporta. Na verdade, assistimos à    bolicamente marcado por eventos de
reedição de um velho debate entre       profundas significações para a pes-
a Antropologia e a História, inaugu-    quisa histórica, quando a tradição
rado de forma exemplar com Lévi-        hegemônica herdada da Escola dos
Strauss e Braudel ainda nos finais      Annales, a história social, sofre pro-
dos anos 50, mas que evidentemente      fundas críticas por parte mesmo da-
se reveste agora de características     queles que se colocavam como seus
totalmente diversas, consagrando        herdeiros. É neste quadro de crítica
definitivamente a vitória de um cer-    da tradição herdada que a micro-his-
to olhar antropológico na pesquisa      tória emerge, apontando novas pos-
histórica. Nas palavras de Edoardo      sibilidades para o trabalho do histo-
Grendi, em seu artigo para o livro,     riador, que ainda reafirmando a his-
a abordagem micro-histórica estaria     tória como social, procura sofisticar
indelevelmente marcada pelo signo       e redimensionar a pesquisa a partir
da antropologia na medida em que        de procedimentos que questionam
educou seu olhar para ver o passado     as antigas concepções da história so-
a partir de uma perspectiva de estra-   cial. Acossada pelo “linguistic turn”,
nhamento, vendo-o como efetiva-         a historiografia francesa responde
MICRO-HISTÓRIA • 219



com o “tournant critique” e o reco-       cias de refinamento teórico. Mas
nhecimento e legitimação propor-          onde teriam os historiadores italia-
cionados à micro-história integram        nos buscado suas sugestões para o
este movimento mais amplo de re-          projeto de uma reescritura da histó-
pensar os caminhos da pesquisa his-       ria liberta das hierarquias e defini-
tórica. Nas palavras de Jacques Revel,    ções de uma história feita à maneira
a micro-história pode então ter o va-     tradicional? A resposta pode ser en-
lor de “sintoma historiográfico”.         contrada no artigo de Paul-André
      Com preocupação semelhante,         Rosental, “Construir o macro pelo
ou seja, a de compreender a emer-         micro: Frederik Barth e a microstoria”,
gência da micro-história a partir de      onde o autor sublinha as possíveis
um recorte que poderíamos definir         sugestões contidas no trabalho do
como historiográfico, o último tex-       antropólogo norueguês e que esti-
to da coletânea, de autoria de Edoar-     mularam as reflexões dos historiado-
do Grendi, avança uma sugestão            res italianos. A partir da pesquisa an-
interessante no sentido de com-           tropológica de Barth, preocupada
preender a prática da micro-história      em considerar especialmente as va-
como particular ao quadro intelec-        riantes comportamentais dos atores
tual da historiografia italiana, repre-   envolvidos em determinados pro-
sentando, segundo ele, uma via ita-       cessos sociais, o pressuposto funcio-
liana de uma história social mais ela-    nalista de um mundo social perfei-
borada e que procurava fugir aos          tamente integrado por suas partes é
aprisionamentos definidos pela tra-       seriamente abalado. Ao valorizar o
dição italiana de escrita da história,    conjunto de variantes comporta-
pautada por definições rígidas dos        mentais, Barth aponta para a impor-
objetos a serem considerados pela         tância dos contextos decisórios que
análise do historiador. Como parte        põem em relação atores sociais num
de um alargamento de horizontes           jogo relacional complexo, definin-
para o trabalho do historiador, a         do configurações múltiplas e variá-
micro-história italiana estaria tam-      veis segundo o caráter das decisões a
bém preocupada com uma narrati-           serem tomadas por atores históricos
va visando um público mais alarga-        reais, agindo no mundo social. Esta
do, combinando assim novas de-            sensibilidade parece marcar profun-
mandas externas ao campo a exigên-        damente os micro-historiadores,
220 • TOPOI



preocupados em captar estes atores       mera diferença de escala tomada
históricos agindo como sujeitos a        para a análise dos fenômenos histó-
partir da leitura que empreenderão       ricos, mas um redimensionamento
de suas fontes. Ainda a partir das su-   de objetos e questões que põem em
gestões do antropólogo norueguês,        dúvida as certezas estabelecidas pela
segundo o artigo de Rosental, os his-    história social de corte marcada-
toriadores italianos da micro-histó-     mente macro-estrutural. Como afir-
ria incorporaram uma certa dimen-        ma Giovanni Levi em seu artigo
são de incerteza e imprevisibilidade     para o livro, intitulado “Comporta-
presentes nas ações humanas e ne-        mentos, recursos, processos: antes da
cessariamente consideradas como          revolução do consumo”, a escala resul-
parte da análise histórica.              ta de uma escolha e como tal mar-
      Um dos pontos centrais que         cará profundamente a pesquisa,
atravessa o conjunto dos textos reu-     uma vez que condicionará aquilo
nidos no livro em questão é a afir-      que será visto pelo historiador. Seu
mação de que a micro-história se         interlocutor no artigo é um dos
coloca em frontal oposição à pers-       monstros sagrados da história social
pectiva das análises macro-históri-      francesa concebida a partir de uma
cas, que situavam a possibilidade de     perspectiva macro-estrutural: Fer-
explicação dos fenômenos históricos      nand Braudel. O que está em jogo:
a partir da localização de causas si-    a capacidade do historiador traba-
tuadas num plano macro-estrutural,       lhar com categorias altamente gene-
responsável pela modulação dos fe-       ralizantes extraindo delas conheci-
nômenos em escala micro. Trata-se        mento. Ainda com relação ao con-
de fato de um ataque frontal a um        ceito de escala, fulcral para o traba-
dos pressupostos mais caros da his-      lho da micro-história, Bernard Lepetit
tória social francesa à maneira dos      em seu texto “Sobre a escala na his-
Annales: a preeminência da dimen-        tória”, no livro organizado por
são macro-estrutural para a explica-     Revel, afirma a necessidade imperio-
ção dos fenômenos históricos. Na         sa da escolha da escala como condi-
verdade, o que está em jogo pelo par     ção mesma para o conhecimento
de oposições macro e micro, segun-       que se pretende, constituindo-se
do as perspectivas esposadas pelos       portanto “num ponto de vista de co-
autores do livro, não é apenas uma       nhecimento.” Da mesma forma que
MICRO-HISTÓRIA • 221



através do seu trabalho o historiador    debate em torno da micro-história
formula problemas ao passado a           obriga-nos a repensar os rígidos câ-
partir de questões de seu presente —     nones de uma interpretação cartesia-
a velha lição aprendida com os pais      na da racionalidade e dos procedi-
fundadores dos Annales —, a esco-        mentos decorrentes desta forma
lha de uma escala engendra objetos       particular de racionalidade. A sim-
que não existem como entes subs-         plificação do debate em torno de
tantivados no mundo. Desta manei-        posturas ditas “racionalistas” contra
ra, Lepetit formula uma das críticas     aquelas tidas como “relativistas” não
mais contundentes a um realismo          podem mais satisfazer a complexifi-
simplista do trabalho do historiador,    cação exigida para as análises dos
assegurado pelo registro deste real      fenômenos sociais. Desta forma, as
em fontes consultáveis.                  análises propostas pelos micro-his-
      E aí delineiam-se com clareza      toriadores tenderiam a desnaturali-
as heranças filosóficas acionadas        zar os objetos, o que para o caso da
pelos defensores da micro-história e     pesquisa histórica implica necessa-
que significarão uma crítica radical     riamente numa revisão do papel das
a um positivismo subjacente na tra-      fontes.
dição da história social francesa e            Neste aspecto, o texto de
detectado por estes historiadores.       Maurizio Gribaudi, “Escala, perti-
Neste sentido, e sublinhando sobre-      nência, configuração”, que se cons-
tudo os aspectos filosóficos do de-      trói a partir de uma crítica à perspec-
bate em torno da micro-história, o       tiva de história social segundo os
texto de Marc Abélès, “O racionalis-     contornos presentes no clássico tra-
mo posto à prova da análise”, é parti-   balho de Adeline Daumard, aponta
cularmente interessante e estimu-        para os riscos de se tomar os docu-
lante. Partindo de rápidas conside-      mentos com o sentido de uma evi-
rações a respeito do lugar das análi-    dência imediata, vendo neles a ins-
ses microscópicas entre os antropó-      crição de um real dado à observação
logos, que por vezes chegam mesmo        e análise dos historiadores. Desta
a fetichizar o micro como sendo o        forma, e sem perceber, o historiador
lugar do desvendamento pleno dos         acabaria por ficar prisioneiro das
fenômenos sociais, o autor nos cha-      formas passadas de inscrição dos fe-
ma atenção para o fato de que o          nômenos que estuda. E como tal,
222 • TOPOI



não seria capaz de repensar estas ins-   plicativas para os fenômenos sociais
crições historicamente a partir de       capaz de unificar a diversidade das
uma multiplicidade e da não linea-       experiências históricas, enquanto
ridade dos fenômenos que estuda.         para a pesquisa micro-histórica o
Eis aqui outro dos elementos cen-        contexto é sempre e necessariamen-
trais sublinhados como uma das           te diverso e o lugar de um jogo rela-
marcas da micro-história praticada       cional onde a ação dos sujeitos his-
pelos autores do livro: a impossibi-     tóricos efetivos, agindo, é capaz de
lidade da formulação de leis gerais      definir soluções e propor encami-
para o desenvolvimento histórico a       nhamentos que a priori não estariam
partir da observação de um fenôme-       dados. Neste sentido a narrativa his-
no através da História. O exemplo        tórica não é apenas o relato do efe-
retomado por Gribaudi, a partir das      tivamente acontecido porque neces-
sugestões de Giovanni Levi, procu-       sário à razão histórica, mas também
ra mostrar como o advento do Es-         o relato das alternativas possíveis
tado Moderno, quando tratado a           postas num jogo a ser decidido pe-
partir de uma perspectiva micro,         los atores históricos em questão.
mostra uma pluralidade de possibi-       Como não deixar de sentir aqui as
lidades e realizações históricas, di-    marcas do clássico trabalho e démarche
versas entre si, cuja explicação de-     E.P.Thompson sugeridos em seu li-
manda uma análise refinada e minu-       vro de 1963 e que Simona Cerutti
ciosa dos contextos de emergência        em seu texto “Processo e experiência:
destes Estados em diferentes situa-      indivíduos, grupos e identidades em
ções e lugares. Por este procedimen-     Turim no século XVII” faz questão de
to, uma revisão de certas afirmações     marcar? À maneira sugerida por
e generalizações acerca do Estado        Thompson, a análise do historiador
Moderno tornaram-se possíveis e          deveria cruzar elementos processu-
necessárias. O conceito de contex-       ais de análise com trajetórias indivi-
to adquire então uma centralidade        duais, o que a autora procurou em-
importante, ainda que evidente-          preender em sua análise dos grupos
mente não seja percebido da mesma        profissionais na cidade de Turim. Se-
forma que a história social de recor-    gundo o caminho escolhido, Cerutti
te macro o trata. Para esta, no con-     descolou a análise social de uma
texto localiza-se a rede de causas ex-   homologia entre as esferas técnicas
MICRO-HISTÓRIA • 223



e produtivas e os comportamentos          las frente à comunidade de profissio-
e relações sociais. Partindo das su-      nais como um problema para a prá-
gestões do historiador social inglês,     tica de pesquisa. Com o desloca-
que sublinhavam especificamente o         mento do foco de análise das estru-
papel processual na construção dos        turas macro-sociais para as experiên-
objetos que serão interrogados pe-        cias vividas pelos atores históricos,
los historiadores, a autora radicaliza    a trajetória biográfica pode assim en-
sua análise no sentido de perceber,       contrar um lugar legítimo na refle-
através do estudo das trajetórias in-     xão dos historiadores e o olhar de
dividuais, as respostas históricas for-   Sabina Loriga busca recuperar na
muladas pelos protagonistas em            pesquisa biográfica sua dimensão
ação, procedimento este que, segun-       heurística para o conhecimento da
do a autora, implicou numa reinter-       história.
pretação do próprio processo geral.              “Jogos de escalas. A experiência
      Esta parece ser também a pers-      da microanálise” é leitura importante
pectiva adotada por Sabina Loriga         para compreendermos os caminhos
no artigo intitulado “A biografia         da produção em nosso campo de co-
como problema”, onde a aposta bio-        nhecimento e, combinando uma re-
gráfica pode se constituir em impor-      flexão teórica sofisticada à pesquisa
tante viés para a interpretação dos       documental, sublinha a importân-
fenômenos macro, a partir de uma          cia desta dupla dimensão do traba-
perspectiva que obriga a uma rein-        lho do historiador, podendo tam-
terpretação das tradições herdadas        bém contribuir para uma crítica
de análise. Para o caso das biografias,   contundente dos diferentes matizes
durante longo tempo expulsas do           positivistas a que nossa disciplina
campo da pesquisa histórica, torna-       esteve sujeita.
va-se imprescindível ainda legitimá-

Micro História

  • 1.
    RESENHAS Micro-história: reconstruindo o campo de possibilidades Manoel Luiz Salgado Guimarães Jacques Revel (org.). Jogos de Escala: a desse conhecimento, com suas regras experiência da microanálise. Tra- próprias de consagração. Pode tam- dução Dora Rocha. Rio de Janei- bém responder às exigências contí- ro: Editora Fundação Getúlio nuas de uma reflexão sistemática sobre Vargas, 1998, 262 páginas. os métodos e o lugar da teoria na produção do conhecimento históri- A produção historiográfica fran- cesa é particularmente rica de balanços e avaliações sobre a produ- co como forma de responder satis- fatoriamente aos desafios, tanto da pesquisa histórica em sentido restri- ção em nossa disciplina como parte to, quanto das demandas sociais pos- de um esforço sistemático para rever tas pela contemporaneidade das so- e discutir os parâmetros da pesquisa ciedades altamente industrializadas. histórica. Basta que nos lembremos O trabalho organizado por Jacques da coletânea “Faire l’Histoire” da dé- Revel “Jogos de Escala” parece com- cada de 70 e da obra “Passés Recom- partilhar desta tradição, assim como posés” duas décadas mais tarde, para contribui para legitimar um viés da termos dois significativos exemplos pesquisa histórica, hoje com largos deste esforço de reflexão a respeito espaços de reconhecimento nos se- do próprio campo de trabalho do minários da École des Hautes Études historiador. Pensar sua própria his- en Sciences Sociales, onde alguns tória pode assim significar um exer- dos participantes da obra coletiva cício de legitimação para uma comu- dirigem seminários de pesquisa, ain- nidade de profissionais, cuja identi- da que seus começos estejam associa- dade encontra-se fortemente assen- dos à historiografia italiana e a no- tada e construída a partir de lugares mes como o do historiador Carlo socialmente definidos de produção Guinzburg e Giovanni Levi. Topoi, Rio de Janeiro, nº 1, pp. 217-223.
  • 2.
    218 • TOPOI Resultado das discussões leva- mente uma terra estrangeira, numa das a cabo na própria École como formulação que sugere o título da resposta a uma demanda ministerial obra de David Lowenthal, “The Past propondo uma reflexão em torno da is a foreign country”. relação Antropologia e História, o A coletânea de dez artigos é livro traça um rico painel dos pro- encabeçada pelo trabalho de Jacques blemas envolvendo a micro-história, Revel intitulado “Microanálise e permitindo ao seu leitor um primei- construção do social”, que realiza ro contato com o universo de ques- igualmente a apresentação da obra tões subjacentes a esta modalidade coletiva. Seu texto procura mapear da pesquisa histórica, situando seu a recepção da micro-história pela desenvolvimento num quadro his- historiografia francesa a partir da tra- toriográfico propriamente dito, as- dução em 1989 do livro de Giovanni sim como sublinhando tradições fi- Levi, “Le pouvoir au village”, cujo losóficas a que este tipo de procedi- prefácio ficara a cargo do próprio mento, implícito na micro-história, Revel. Curiosamente, um ano sim- se reporta. Na verdade, assistimos à bolicamente marcado por eventos de reedição de um velho debate entre profundas significações para a pes- a Antropologia e a História, inaugu- quisa histórica, quando a tradição rado de forma exemplar com Lévi- hegemônica herdada da Escola dos Strauss e Braudel ainda nos finais Annales, a história social, sofre pro- dos anos 50, mas que evidentemente fundas críticas por parte mesmo da- se reveste agora de características queles que se colocavam como seus totalmente diversas, consagrando herdeiros. É neste quadro de crítica definitivamente a vitória de um cer- da tradição herdada que a micro-his- to olhar antropológico na pesquisa tória emerge, apontando novas pos- histórica. Nas palavras de Edoardo sibilidades para o trabalho do histo- Grendi, em seu artigo para o livro, riador, que ainda reafirmando a his- a abordagem micro-histórica estaria tória como social, procura sofisticar indelevelmente marcada pelo signo e redimensionar a pesquisa a partir da antropologia na medida em que de procedimentos que questionam educou seu olhar para ver o passado as antigas concepções da história so- a partir de uma perspectiva de estra- cial. Acossada pelo “linguistic turn”, nhamento, vendo-o como efetiva- a historiografia francesa responde
  • 3.
    MICRO-HISTÓRIA • 219 como “tournant critique” e o reco- cias de refinamento teórico. Mas nhecimento e legitimação propor- onde teriam os historiadores italia- cionados à micro-história integram nos buscado suas sugestões para o este movimento mais amplo de re- projeto de uma reescritura da histó- pensar os caminhos da pesquisa his- ria liberta das hierarquias e defini- tórica. Nas palavras de Jacques Revel, ções de uma história feita à maneira a micro-história pode então ter o va- tradicional? A resposta pode ser en- lor de “sintoma historiográfico”. contrada no artigo de Paul-André Com preocupação semelhante, Rosental, “Construir o macro pelo ou seja, a de compreender a emer- micro: Frederik Barth e a microstoria”, gência da micro-história a partir de onde o autor sublinha as possíveis um recorte que poderíamos definir sugestões contidas no trabalho do como historiográfico, o último tex- antropólogo norueguês e que esti- to da coletânea, de autoria de Edoar- mularam as reflexões dos historiado- do Grendi, avança uma sugestão res italianos. A partir da pesquisa an- interessante no sentido de com- tropológica de Barth, preocupada preender a prática da micro-história em considerar especialmente as va- como particular ao quadro intelec- riantes comportamentais dos atores tual da historiografia italiana, repre- envolvidos em determinados pro- sentando, segundo ele, uma via ita- cessos sociais, o pressuposto funcio- liana de uma história social mais ela- nalista de um mundo social perfei- borada e que procurava fugir aos tamente integrado por suas partes é aprisionamentos definidos pela tra- seriamente abalado. Ao valorizar o dição italiana de escrita da história, conjunto de variantes comporta- pautada por definições rígidas dos mentais, Barth aponta para a impor- objetos a serem considerados pela tância dos contextos decisórios que análise do historiador. Como parte põem em relação atores sociais num de um alargamento de horizontes jogo relacional complexo, definin- para o trabalho do historiador, a do configurações múltiplas e variá- micro-história italiana estaria tam- veis segundo o caráter das decisões a bém preocupada com uma narrati- serem tomadas por atores históricos va visando um público mais alarga- reais, agindo no mundo social. Esta do, combinando assim novas de- sensibilidade parece marcar profun- mandas externas ao campo a exigên- damente os micro-historiadores,
  • 4.
    220 • TOPOI preocupadosem captar estes atores mera diferença de escala tomada históricos agindo como sujeitos a para a análise dos fenômenos histó- partir da leitura que empreenderão ricos, mas um redimensionamento de suas fontes. Ainda a partir das su- de objetos e questões que põem em gestões do antropólogo norueguês, dúvida as certezas estabelecidas pela segundo o artigo de Rosental, os his- história social de corte marcada- toriadores italianos da micro-histó- mente macro-estrutural. Como afir- ria incorporaram uma certa dimen- ma Giovanni Levi em seu artigo são de incerteza e imprevisibilidade para o livro, intitulado “Comporta- presentes nas ações humanas e ne- mentos, recursos, processos: antes da cessariamente consideradas como revolução do consumo”, a escala resul- parte da análise histórica. ta de uma escolha e como tal mar- Um dos pontos centrais que cará profundamente a pesquisa, atravessa o conjunto dos textos reu- uma vez que condicionará aquilo nidos no livro em questão é a afir- que será visto pelo historiador. Seu mação de que a micro-história se interlocutor no artigo é um dos coloca em frontal oposição à pers- monstros sagrados da história social pectiva das análises macro-históri- francesa concebida a partir de uma cas, que situavam a possibilidade de perspectiva macro-estrutural: Fer- explicação dos fenômenos históricos nand Braudel. O que está em jogo: a partir da localização de causas si- a capacidade do historiador traba- tuadas num plano macro-estrutural, lhar com categorias altamente gene- responsável pela modulação dos fe- ralizantes extraindo delas conheci- nômenos em escala micro. Trata-se mento. Ainda com relação ao con- de fato de um ataque frontal a um ceito de escala, fulcral para o traba- dos pressupostos mais caros da his- lho da micro-história, Bernard Lepetit tória social francesa à maneira dos em seu texto “Sobre a escala na his- Annales: a preeminência da dimen- tória”, no livro organizado por são macro-estrutural para a explica- Revel, afirma a necessidade imperio- ção dos fenômenos históricos. Na sa da escolha da escala como condi- verdade, o que está em jogo pelo par ção mesma para o conhecimento de oposições macro e micro, segun- que se pretende, constituindo-se do as perspectivas esposadas pelos portanto “num ponto de vista de co- autores do livro, não é apenas uma nhecimento.” Da mesma forma que
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    MICRO-HISTÓRIA • 221 atravésdo seu trabalho o historiador debate em torno da micro-história formula problemas ao passado a obriga-nos a repensar os rígidos câ- partir de questões de seu presente — nones de uma interpretação cartesia- a velha lição aprendida com os pais na da racionalidade e dos procedi- fundadores dos Annales —, a esco- mentos decorrentes desta forma lha de uma escala engendra objetos particular de racionalidade. A sim- que não existem como entes subs- plificação do debate em torno de tantivados no mundo. Desta manei- posturas ditas “racionalistas” contra ra, Lepetit formula uma das críticas aquelas tidas como “relativistas” não mais contundentes a um realismo podem mais satisfazer a complexifi- simplista do trabalho do historiador, cação exigida para as análises dos assegurado pelo registro deste real fenômenos sociais. Desta forma, as em fontes consultáveis. análises propostas pelos micro-his- E aí delineiam-se com clareza toriadores tenderiam a desnaturali- as heranças filosóficas acionadas zar os objetos, o que para o caso da pelos defensores da micro-história e pesquisa histórica implica necessa- que significarão uma crítica radical riamente numa revisão do papel das a um positivismo subjacente na tra- fontes. dição da história social francesa e Neste aspecto, o texto de detectado por estes historiadores. Maurizio Gribaudi, “Escala, perti- Neste sentido, e sublinhando sobre- nência, configuração”, que se cons- tudo os aspectos filosóficos do de- trói a partir de uma crítica à perspec- bate em torno da micro-história, o tiva de história social segundo os texto de Marc Abélès, “O racionalis- contornos presentes no clássico tra- mo posto à prova da análise”, é parti- balho de Adeline Daumard, aponta cularmente interessante e estimu- para os riscos de se tomar os docu- lante. Partindo de rápidas conside- mentos com o sentido de uma evi- rações a respeito do lugar das análi- dência imediata, vendo neles a ins- ses microscópicas entre os antropó- crição de um real dado à observação logos, que por vezes chegam mesmo e análise dos historiadores. Desta a fetichizar o micro como sendo o forma, e sem perceber, o historiador lugar do desvendamento pleno dos acabaria por ficar prisioneiro das fenômenos sociais, o autor nos cha- formas passadas de inscrição dos fe- ma atenção para o fato de que o nômenos que estuda. E como tal,
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    222 • TOPOI nãoseria capaz de repensar estas ins- plicativas para os fenômenos sociais crições historicamente a partir de capaz de unificar a diversidade das uma multiplicidade e da não linea- experiências históricas, enquanto ridade dos fenômenos que estuda. para a pesquisa micro-histórica o Eis aqui outro dos elementos cen- contexto é sempre e necessariamen- trais sublinhados como uma das te diverso e o lugar de um jogo rela- marcas da micro-história praticada cional onde a ação dos sujeitos his- pelos autores do livro: a impossibi- tóricos efetivos, agindo, é capaz de lidade da formulação de leis gerais definir soluções e propor encami- para o desenvolvimento histórico a nhamentos que a priori não estariam partir da observação de um fenôme- dados. Neste sentido a narrativa his- no através da História. O exemplo tórica não é apenas o relato do efe- retomado por Gribaudi, a partir das tivamente acontecido porque neces- sugestões de Giovanni Levi, procu- sário à razão histórica, mas também ra mostrar como o advento do Es- o relato das alternativas possíveis tado Moderno, quando tratado a postas num jogo a ser decidido pe- partir de uma perspectiva micro, los atores históricos em questão. mostra uma pluralidade de possibi- Como não deixar de sentir aqui as lidades e realizações históricas, di- marcas do clássico trabalho e démarche versas entre si, cuja explicação de- E.P.Thompson sugeridos em seu li- manda uma análise refinada e minu- vro de 1963 e que Simona Cerutti ciosa dos contextos de emergência em seu texto “Processo e experiência: destes Estados em diferentes situa- indivíduos, grupos e identidades em ções e lugares. Por este procedimen- Turim no século XVII” faz questão de to, uma revisão de certas afirmações marcar? À maneira sugerida por e generalizações acerca do Estado Thompson, a análise do historiador Moderno tornaram-se possíveis e deveria cruzar elementos processu- necessárias. O conceito de contex- ais de análise com trajetórias indivi- to adquire então uma centralidade duais, o que a autora procurou em- importante, ainda que evidente- preender em sua análise dos grupos mente não seja percebido da mesma profissionais na cidade de Turim. Se- forma que a história social de recor- gundo o caminho escolhido, Cerutti te macro o trata. Para esta, no con- descolou a análise social de uma texto localiza-se a rede de causas ex- homologia entre as esferas técnicas
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    MICRO-HISTÓRIA • 223 eprodutivas e os comportamentos las frente à comunidade de profissio- e relações sociais. Partindo das su- nais como um problema para a prá- gestões do historiador social inglês, tica de pesquisa. Com o desloca- que sublinhavam especificamente o mento do foco de análise das estru- papel processual na construção dos turas macro-sociais para as experiên- objetos que serão interrogados pe- cias vividas pelos atores históricos, los historiadores, a autora radicaliza a trajetória biográfica pode assim en- sua análise no sentido de perceber, contrar um lugar legítimo na refle- através do estudo das trajetórias in- xão dos historiadores e o olhar de dividuais, as respostas históricas for- Sabina Loriga busca recuperar na muladas pelos protagonistas em pesquisa biográfica sua dimensão ação, procedimento este que, segun- heurística para o conhecimento da do a autora, implicou numa reinter- história. pretação do próprio processo geral. “Jogos de escalas. A experiência Esta parece ser também a pers- da microanálise” é leitura importante pectiva adotada por Sabina Loriga para compreendermos os caminhos no artigo intitulado “A biografia da produção em nosso campo de co- como problema”, onde a aposta bio- nhecimento e, combinando uma re- gráfica pode se constituir em impor- flexão teórica sofisticada à pesquisa tante viés para a interpretação dos documental, sublinha a importân- fenômenos macro, a partir de uma cia desta dupla dimensão do traba- perspectiva que obriga a uma rein- lho do historiador, podendo tam- terpretação das tradições herdadas bém contribuir para uma crítica de análise. Para o caso das biografias, contundente dos diferentes matizes durante longo tempo expulsas do positivistas a que nossa disciplina campo da pesquisa histórica, torna- esteve sujeita. va-se imprescindível ainda legitimá-