MARX, Karl. O Capital. Critica da Economia Política. Livros 1 a 3. Vol. I a VI. São Paulo: DIFEL,
1985, 1987.
Resumo por: Carlos Jorge Burke – www.cburke.com.br
OBS: Se desejar, solicitar arquivo pelo blog.


                               O CAPITAL – LIVRO 1 – Volume I

                        O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CAPITAL

Parte Primeira – MERCADORIA E DINHEIRO

Capítulo I - A Mercadoria

   1. Os dois fatores da mercadoria: Valor-de-uso e Valor (Substância e Quantidade do valor)

“A riqueza das sociedades onde rege a produção capitalista configura-se em “imensa acumulação de
mercadorias”, e a mercadoria isoladamente considerada, é a forma elementar dessa riqueza. Por isso,
nossa investigação começa com a análise da mercadoria.
A mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades,
satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou
da fantasia. Não importa a maneira como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente,
como meio de subsistência, objeto de consumo, ou indiretamente, como meio de produção.” – p. 41s

“Cada coisa útil, como ferro, papel, etc., pode ser considerada sob duplo aspecto, segundo qualidade
e quantidade. Cada um desses objetos é um conjunto de muitas propriedades e pode ser útil de
diferentes modos. Constituem fatos históricos a descoberta de diferentes modos, das diversas
maneiras de usar as coisas. (...) A utilidade de uma coisa faz dela um valor-de-uso. Mas essa
utilidade não é algo aéreo. Determinada pelas propriedades materialmente inerentes à mercadoria, só
existe através dela. (...) Esse caráter da mercadoria não depende da quantidade de trabalho
empregado para obter suas qualidades úteis. Ao se considerarem valores-de-uso, sempre se
pressupõem quantidades definidas, como uma dúzia de relógios, um metro de linho (...). O valor-de-
uso só se realiza com a utilização ou o consumo. (...) Os valores-de-uso constituem o conteúdo
material da riqueza, qualquer que seja a forma social dela. Na forma da sociedade que vamos
estudar, os valores-de-uso são, ao mesmo tempo, os veículos materiais do valor-de-troca.” – p. 42s

“ O valor-de-troca revela-se, de início, na relação quantitativa entre valores-de-uso de espécies
diferentes, na proporção em que se trocam, relação que muda constantemente no tempo e no espaço.
Por isso, o valor-de-troca parece algo casual e puramente relativo, e portanto, uma contradição em
termos, um valor-de-troca inerente, imanente à mercadoria.” – p. 43

“ Qualquer mercadoria se troca por outras, nas mais diversas proporções, por exemplo, um quarter
de trigo por x de graxa, ou por y de seda ou z de ouro etc.. Ao invés de um só, o trigo tem, portanto,
muitos valores-de troca. Mas, uma vez que cada um desses itens, separadamente (...) é o valor-de-
troca de um quarter de trigo, devem x de graxa, y de seda e z de ouro, como valores-de-troca, ser
permutáveis e iguais entre si. (...) Tomemos duas mercadorias, por exemplo, trigo e ferro. Qualquer
que seja a proporção em que se troquem, é possível sempre expressá-la com uma igualdade em que
dada quantidade de trigo se iguala a alguma quantidade de ferro, por exemplo, 1 quarter de trigo = x
quintais de ferro. Que significa essa igualdade? Que algo comum, com a mesma grandeza, existe em


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duas coisas diferentes (...). As duas coisas portanto são iguais a uma terceira que por sua vez difere
delas. Cada uma das duas, como valor-de-troca, é reduzível, necessariamente, a essa terceira.” P. 43

“ As propriedades materiais só interessam pela utilidade que dão às mercadorias, por fazerem destas
valores-de-uso. Põem-se de lado os valores-de-uso das mercadorias, quando se trata da relação de
troca entre elas. (...) Se prescindirmos do valor-de-uso da mercadoria, só lhe resta ainda uma
propriedade, a de ser produto do trabalho. Mas, então, o produto do trabalho já terá passado por uma
transmutação. Pondo de lado seu valor-de-uso, abstraímos, também, das formas e elementos
materiais que fazem dele um valor-de-uso. Ele não é mais mesa, casa, fio ou qualquer outra coisa
útil. Sumiram todas as suas qualidades materiais. Também não é mais produto do trabalho do
marceneiro, do pedreiro, (...) ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho, também
desaparece o caráter útil dos trabalhos neles corporificados, desvanecem-se, portanto, as diferentes
formas de trabalho concreto, elas não mais se distinguem uma das outras, mas reduzem-se, todas, a
uma única espécie de trabalho, o trabalho humano abstrato.” P. 44
“ Um valor-de-uso ou um bem só possui, portanto, valor, porque nele está corporificado,
materializado, trabalho humano abstrato. Como medir a grandeza do seu valor? Por meio da
quantidade da “substância criadora de valor” nele contida, o trabalho. A quantidade de trabalho, por
sua vez, mede-se pelo tempo de sua duração, e o tempo de trabalho, por frações do tempo, como
hora, dia, etc..” p. 45

“ Se o valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho gasto durante sua
produção, poderia parecer que quanto mais preguiçoso ou inábil um ser humano, tanto maior o valor
de sua mercadoria, pois ele precisa de mais tempo para acabá-la. Todavia, o trabalho que constitui a
substância dos valores é o trabalho humano homogêneo, dispêndio de idêntica força de trabalho.” P.
45

“ Tempo de trabalho socialmente necessário é o tempo de trabalho requerido para produzir-se um
valor-de-uso qualquer, nas condições de produção socialmente normais, existentes, e com o grau
social médio de destreza e intensidade do trabalho. Na Inglaterra, após a introdução do tear a vapor,
o tempo empregado para transformar determinada quantidade de fio em tecido diminuiu
aproximadamente de metade. O tecelão inglês que então utilizasse o tear manual, continuaria
gastando, nessa transformação, o mesmo tempo que despendia antes, mas o produto de sua hora
individual de trabalho só representaria meia hora de trabalho social, ficando o valor anterior de seu
produto reduzido à metade.” P. 46

“ O que determina a grandeza do valor, portanto, é a quantidade de trabalho socialmente necessário
ou tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor-de-uso. Cada mercadoria
individual é considerada aqui exemplar médio de sua espécie. Mercadorias que contém iguais
quantidades de trabalho, possuem, consequentemente, valor da mesma magnitude. (...) A grandeza
do valor de uma mercadoria permaneceria, portanto, invariável, se fosse constante o tempo de
trabalho requerido para a sua produção. Mas este muda com qualquer variação na produtividade
(força produtiva) do trabalho. A produtividade do trabalho é determinada pelas mais diversas
circunstâncias, entre elas a destreza média dos trabalhadores, o grau de desenvolvimento da ciência
e sua aplicação tecnológica, a organização social do processo de produção, o volume e a eficácia dos
meios de produção, e as condições naturais.” P. 46s

“ Generalizando: quanto maior a produtividade do trabalho, tanto menor o tempo de trabalho
requerido para produzir uma mercadoria, e quanto menor a quantidade de trabalho que nela se
cristaliza, tanto menor seu valor. Inversamente, quanto menor a produtividade do trabalho, tanto
maior o tempo de trabalho necessário para produzir um artigo e tanto maior seu valor. A grandeza

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do valor de uma mercadoria varia na razão direta da quantidade, e na inversa da produtividade do
trabalho que nela se aplica.” P. 47

“ Uma coisa pode ser valor-de-uso, sem ser valor. É o que sucede quando sua utilidade para o ser
humano não decorre do trabalho. Exemplos: o ar, a terra virgem, seus pastos naturais, a madeira que
cresce espontânea na selva etc.. Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano, sem ser
mercadoria. Quem, com seu produto, satisfaz a própria necessidade gera valor-de-uso, mas não
mercadoria. Para criar mercadoria, é mister não só produzir valor-de-uso, mas produzi-lo para
outros, dar origem a valor-de-uso social. (E mais: o camponês medieval produzia o trigo do tributo
para o senhor feudal, o trigo do dízimo para o cura. Mas embora fôssem produzidos para terceiros,
nem o trigo do tributo nem o dízimo eram mercadoria, tem de ser transferido a quem vai servir como
valor-de-uso por meio de troca)-Friedrich Engels (F.E.) – Finalmente, nenhuma coisa pode ser valor
se não é objeto útil. Se não é útil, tampouco o será o trabalho nela contido, o qual não conta como
trabalho e, por isso, não cria nenhum valor.” P. 47s

   2. O duplo caráter do Trabalho Materializado na Mercadoria

“ A mercadoria apareceu-nos, inicialmente, como duas coisas: valor-de-uso e valor-de-troca. Mais
tarde, verificou-se que o trabalho também possui duplo caráter: quando se expressa como valor, não
possui mais as mesmas características que lhe pertencem como gerador de valores-de-uso.” P. 48

“ No conjunto formado por valores-de-uso diferentes ou pelas mercadorias materialmente distintas,
manifesta-se um conjunto correspondente dos trabalhos úteis diversos., - classificáveis por ordem,
gênero, espécie, subespécie e variedade, - a divisão social do trabalho. Ela é condição para que
exista a produção de mercadorias, embora, reciprocamente, a produção de mercadoria não seja
condição necessária para a existência da divisão social do trabalho. (...) o valor-de-uso de cada
mercadoria representa determinada atividade produtiva subordinada a um fim, isto é, um trabalho
útil particular. (...) O trabalho, como criador de valores-de-uso, como trabalho útil, é indispensável à
existência do homem, - quaisquer que sejam as formas de sociedade, - é necessidade natural e eterna
de efetuar o intercâmbio material entre o homem e a natureza, e, portanto, de manter a vida
humana.” P. 49s

“ Pondo-se de lado o desígnio da atividade produtiva e, em conseqüência, o caráter útil do trabalho,
resta-lhe apenas ser um dispêndio de força humana de trabalho. O trabalho do alfaiate e do tecelão,
embora atividades produtivas qualitativamente diferentes, são ambos dispêndio humano produtivo
de cérebro, músculos, nervos, mãos etc.., e, desse modo, são ambos trabalho humano. São apenas
duas formas diversas de despender força humana de trabalho. Sem dúvida, a própria força de
trabalho humana tem de atingir certo desenvolvimento, para ser empregada em múltiplas formas. O
valor da mercadoria, porém, representa trabalho humano simplesmente, dispêndio de trabalho
humano em geral.” P. 51

“ Trabalho humano mede-se pelo dispêndio da força de trabalho simples, a qual, em média, todo
homem comum, sem educação especial, possui em seu organismo. O trabalho simples médio muda
de caráter com os países e estágios de civilização, mas é dado numa determinada sociedade.
Trabalho complexo ou qualificado vale como trabalho simples potenciado ou, antes, multiplicado,
de modo que uma quantidade dada de trabalho qualificado é igual a uma quantidade maior de
trabalho simples. (...) Por mais qualificado que seja o trabalho que gera a mercadoria, seu valor a
equipara ao produto de trabalho simples e representa, por isso, uma determinada quantidade de
trabalho simples.” P. 51s – nota p. 52-“ Repare o leitor que não se trata aqui de salário ou do valor


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que o trabalhador recebe por seu tempo de trabalho, mas do valor da mercadoria na qual se reduz
seu tempo de trabalho (...).”

“ Se o trabalho contido na mercadoria, do ponto de vista do valor-de-uso, só interessa
qualitativamente, do ponto de vista da grandeza do valor, só interessa quantitativamente e depois de
ser convertido em trabalho humano, puro e simples. No primeiro caso, importa saber como é e o que
é o trabalho; no segundo, sua quantidade, a duração de seu tempo. Uma vez que a grandeza do valor
de uma mercadoria representa apenas a quantidade de trabalho nela contido, devem as mercadorias,
em determinadas proporções, possuir valores iguais.” P. 52s

“ Uma quantidade maior de valor-de-uso cria, de per si, maior riqueza material. (...) Não obstante,
ao acréscimo da massa de riqueza material pode corresponder uma queda simultânea no seu valor.
Esse movimento em sentidos opostos se origina do duplo caráter do trabalho. Produtividade é
sempre produtividade de trabalho concreto, útil, e apenas define o grau de eficácia da atividade
produtiva, adequada a certo fim, em dado espaço de tempo (...). Por outro lado, nenhuma mudança
na produtividade atinge intrinsecamente o trabalho configurado no valor. (...) Qualquer que seja a
mudança na produtividade, o mesmo trabalho, no mesmo espaço de tempo, fornece, sempre, a
mesma magnitude de valor. Mas, no mesmo espaço de tempo, para quantidades diferentes de
valores-de-uso.” P. 53

“ Todo trabalho é, de um lado, dispêndio de força humana de trabalho, no sentido fisiológico, e,
nessa qualidade de trabalho humano igual ou abstrato, cria o valor das mercadorias. Todo trabalho,
por outro lado, é dispêndio de força humana de trabalho, sob forma especial, para um determinado
fim, e, nessa qualidade de trabalho útil e concreto, produz valores-de-uso.” P. 54

   3. A Forma do Valor ou o Valor-de-Troca

“ As mercadorias vêm ao mundo sob a forma de valores-de-uso, de objetos materiais. (...) Todavia,
só são mercadorias por sua duplicidade, por serem ao mesmo tempo objetos úteis e veículos de
valor. (...) As mercadorias, recordemos, só encarnam valor na medida em que são expressões de uma
mesma substância social, o trabalho humano; seu valor é, portanto, uma realidade apenas social, só
podendo manifestar-se, evidentemente na relação social em que uma mercadoria se troca por outra.
(...) Todo mundo sabe (...) que as mercadorias possuem forma comum de valor, que contrasta com a
flagrante heterogeneidade das formas corpóreas de seus valores-de-uso. Esta forma comum é a
forma dinheiro do valor. (...) é mister acompanhar o desenvolvimento da expressão do valor contida
na relação de valor existente entre as mercadorias, partindo da manifestação mais simples e mais
apagada até chegar a esplendente forma dinheiro. (...) A mais simples relação de valor é,
evidentemente, a que se estabelece entre uma mercadoria e qualquer outra mercadoria de espécie
diferente. (...) x da mercadoria A = y da mercadoria B, ou x da mercadoria A vale y da mercadoria
B.” p. 54s

   1. Os dois pólos da expressão do valor: a forma relativa do valor e a forma de equivalente.

“ A forma relativa do valor e a forma de equivalente se pertencem, uma à outra, se determinam,
reciprocamente, inseparáveis, mas, ao mesmo tempo, são extremos que mutuamente se excluem e se
opõem, pólos da mesma expressão de valor. (...) Na mesma expressão do valor, a mesma mercadoria
não pode aparecer, ao mesmo tempo, sob duas formas. Elas se repelem polarmente. Para saber se
uma mercadoria se encontra sob a forma relativa do valor ou sob forma oposta, a equivalente, basta
reparar a posição que ocasionalmente ocupa na expressão do valor, se é a mercadoria cujo valor é
expresso ou é a mercadoria através da qual se expressa o valor.” P. 56s

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2. A forma relativa do valor a) O que significa.

“ Ao dizermos que, como valores, as mercadorias são trabalho humano cristalizado, nossa análise as
reduz a uma abstração, a valor, mas não lhes dá forma para esse valor, distinta de sua forma física. A
questão muda quando se trata da relação de valor entre duas mercadorias. Aí a condição de valor de
uma se revela na própria relação que estabelece com a outra. (...) Quando o casaco, como figura do
valor, é equiparado ao linho, iguala-se o trabalho inserido naquele com o contido neste (...)
equiparado ao do tecelão, reduz o trabalho do alfaiate àquilo que é realmente igual em ambos os
trabalhos, sua condição comum de trabalho humano. (...) Só a expressão da equivalência de
mercadorias distintas põe à mostra a condição específica do trabalho criador de valor, porque ela
realmente reduz à substância comum, a trabalho humano simplesmente, os trabalhos diferentes
incorporados em mercadorias diferentes.” P. 58

“ Ao relacionar-se com a mercadoria B como figura do valor, materialização de trabalho humano, a
mercadoria A faz do valor-de-uso B o material de sua própria expressão de valor. O valor da
mercadoria A ao ser expresso pelo valor-de-uso da mercadoria B, assume a forma relativa.” P. 60s

b) Determinação quantitativa da forma relativa de valor

“ Para expressar o valor de qualquer mercadoria, aludimos sempre a dada quantidade do objeto útil,
15 toneladas de trigo, 100 quilos de café etc.. Essa quantidade dada de mercadoria contém uma
quantidade determinada de trabalho humano. A forma do valor tem de exprimir não só valor em
geral, mas valor quantitativamente determinado ou magnitude de valor. (...) O tempo de trabalho
necessário para a produção de 20 metros de linho ou de 1 casaco se altera com qualquer variação na
produtividade dos respectivos trabalhos especializados – o do tecelão e o do alfaiate. (...)I-varia o
valor do linho, ficando constante o do casaco. (...) II-constante o valor do linho; variável, o do
casaco. (...) III- as quantidades de trabalho necessárias para a produção do linho e do casaco variam
simultaneamente no mesmo sentido e na mesma proporção. (...) Para descobrir a influência de todas
as combinações possíveis dessas variações sobre o valor relativo de uma mercadoria, basta utilizar
as hipóteses compreendidas nos itens I, II e III. A verdadeira variação da magnitude do valor não se
reflete, portanto, clara e completa em sua expressão, isto é, na equação que expressa a magnitude do
valor relativo. E o valor relativo de uma mercadoria pode variar, embora seu valor permaneça
constante. Seu valor relativo pode permanecer constante, embora seu valor varie e, finalmente, não
é mister que sejam coincidentes as variações simultâneas ocorrentes na magnitude do valor e na
expressão da magnitude do valor relativo.” P. 61ss

   3. A forma de equivalente

“ Já vimos que a mercadoria A (o linho), ao exprimir seu valor por meio do valor-de-uso de
mercadoria diferente, a mercadoria B (o casaco), imprime a esta última forma de valor peculiar, a
forma de equivalente. O linho revela sua condição de valor, ao igualar-se ao casaco, sem que este
adote uma forma de valor diferente de sua forma corpórea. (...) A primeira peculiaridade que salta
aos olhos, ao observar-se a forma de equivalente, é que o valor-de-uso se torna a forma de
manifestação de seu contrário, isto é, do valor. (...) A forma relativa do valor de uma mercadoria (o
linho) expressa seu valor por meio de algo totalmente diverso do seu corpo e de suas propriedades (o
casaco); essa expressão está assim indicando que oculta uma relação social. O oposto sucede com a
forma de equivalente em face da mercadoria linho. Ora, as propriedades de uma coisa não se
originam de suas relações com outras, mas antes se patenteiam nessas relações. (...) Daí o caráter


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enigmático da forma do equivalente, o qual só desperta a atenção do economista político, deformado
pela visão burguesa, depois que essa forma surge, acabada, como dinheiro.” P. 63ss

“ O corpo da mercadoria que serve de equivalente passa sempre por encarnação de trabalho humano
abstrato e é sempre o produto de um determinado trabalho útil, concreto. Esse trabalho concreto
torna-se, portanto, expressão de trabalho humano abstrato. Considera-se o casaco, por exemplo,
simples corporificação de trabalho humano abstrato, e o trabalho do alfaiate, nele realmente
aplicado, apenas a forma em que se realizou o trabalho humano abstrato. Na expressão de valor do
linho, a utilidade do trabalho do alfaiate não consiste em que ele faça um casaco, hábitos ou até
monges, mas em que produza um corpo que denota valor, massa de trabalho, portanto, que
absolutamente não se distingue do trabalho objetivado no valor do linho. Para ser esse espelho de
valor, o trabalho do alfaiate tem que refletir, apenas, a propriedade abstrata de ser trabalho humano.”
P. 66

   4. A forma simples do valor, em seu conjunto.

“ A forma simples do valor em uma mercadoria se contém em sua relação de valor ou de troca com
outra mercadoria diferente. (...) Percebe-se a primeira vista, a insuficiência da forma simples do
valor, forma embrionária que atravessa uma série de metamorfoses para chegar à forma preço. (...) a
forma simples do valor converte-se, por si mesma, numa forma mais completa. Na verdade, ela
expressa o valor de uma mercadoria A apenas numa mercadoria de outra espécie. (...) A medida que
estabelece relação de valor com esta ou aquela espécie de mercadoria, A adquire diversas expressões
simples de valor.” P. 68ss

b) forma total ou extensiva do valor
    z da merc. A = U da merc. B, ou = v da merc. C, 0u = w da merc. D, etc.

   1. Forma extensiva do valor relativo.

“ O valor de uma mercadoria, do linho, por ex., está agora expresso em inúmeros outros elementos
do mundo das mercadorias. O corpo de qualquer outra mercadoria torna-se o espelho onde se reflete
o valor do linho. Desse modo, esse valor, pela primeira vez, se revela efetivamente massa de
trabalho humano homogêneo. (...) continua o mesmo o valor do linho, seja ele expresso em casaco,
em café ou ferro etc., não importando o número das diferentes mercadorias nem o de seus donos.
(...) Evidencia-se que não é a troca que regula a magnitude do valor da mercadoria, mas, ao
contrário, é a magnitude do valor da mercadoria que regula as relações de troca.” P. 71s

   2. A forma de equivalente particular

“ Cada mercadoria, casaco, café, trigo, ferro etc., é considerada equivalente na expressão do valor do
linho e, portanto, encarnação de valor. A forma natural de cada uma dessas mercadorias é uma
forma de equivalente particular junto a muitas outras.” p. 72

c) Forma geral do valor

“ A forma extensiva do valor só ocorre realmente quando um produto de trabalho, gado por
exemplo, é trocado por outras mercadorias diferentes, não excepcionalmente, mas já em caráter
habitual. (...) O valor de uma mercadoria só adquire expressão geral, porque todas as outras
mercadorias exprimem seu valor através do mesmo equivalente, e toda nova espécie de mercadoria
tem de fazer o mesmo. Evidencia-se, desse modo, que a realidade do valor das mercadorias só pode

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ser expressa pela totalidade de suas relações sociais, pois essa realidade nada mais é que a
“existência social” delas, tendo a forma do valor, portanto, de possuir validade social reconhecida.”
P. 74s

“ A forma de equivalente desenvolve-se em correspondência com o grau de progresso da forma
relativa do valor. Mas, note-se, o desenvolvimento da primeira é apenas expressão e resultado do
desenvolvimento da segunda.” P. 76

   3. Transição da forma geral do valor para a forma dinheiro.

“ A forma equivalente geral é, em suma, forma de valor. Pode, portanto, ocorrer a qualquer
mercadoria. Por outro lado, uma mercadoria só assume forma equivalente geral (forma C) por estar
e enquanto estiver destacada como equivalente por todas as outras mercadorias. É só a partir do
momento em que esse destaque se limita, terminantemente, a uma determinada mercadoria, adquire
a forma unitária do valor relativo do mundo das mercadorias consistência objetiva e validade social
universal. Então, mercadoria determinada, com cuja forma natural se identifica socialmente a forma
equivalente, torna-se mercadoria-dinheiro, funciona como dinheiro.” P. 77s

“ A expressão simples e relativa do valor de uma mercadoria, por ex. o linho, através de uma
mercadoria que já esteja exercendo a função de mercadoria-dinheiro, por exemplo, o ouro, é a forma
preço. Daí a forma preço do linho: 20 metros de linho = 2 onças de ouro ou, se em linguagem
monetária, 2 libras esterlinas for o nome de 2 onças de ouro, 20 m linho = 2 libras esterlinas.” P. 79

   4. O fetichismo da mercadoria: seu segredo

“ O caráter misterioso que o produto do trabalho apresenta ao assumir a forma de mercadoria, donde
provém? Dessa própria forma, claro. A igualdade dos trabalhos humanos fica disfarçada sob a forma
de igualdade dos produtos do trabalho como valores; a medida, por meio da duração, do dispêndio
da força humana de trabalho toma a forma de quantidade de valor dos produtos do trabalho;
finalmente, as relações entre os produtores, nas quais se afirma o caráter social dos seus trabalhos,
assumem a forma de relação social entre os produtos do trabalho. A mercadoria é misteriosa
simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando-
as como características materiais e propriedades sociais inerentes ao produto do trabalho.” P. 80s

“ Esse fetichismo do mundo das mercadorias decorre conforme demonstra a análise precedente, do
caráter social próprio do trabalho que produz mercadorias (...). Os trabalhos privados atuam como
partes componentes do conjunto do trabalho social, apenas através das relações que a troca
estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio destes, entre os produtores. Por isso, para os
últimos, as relações sociais entre seus trabalhos privados aparecem de acordo com o que realmente
são, como relações materiais entre pessoas e relações sociais entre coisas, e não como relações
sociais diretas entre indivíduos em seus trabalhos.” P. 81s

“ As formas que convertem os produtos do trabalho em mercadorias, constituindo pressupostos da
circulação das mercadorias, já possuem a consistência de formas naturais da vida social, antes de os
homens se empenharem em apreender não o caráter histórico dessas formas, que eles, ao contrário,
consideram imutáveis, mas seu significado. Assim, só a análise dos preços das mercadorias levava à
determinação da magnitude do valor, só a expressão comum, em dinheiro, das mercadorias induzia a
estabelecer-se sua condição de valor. É porém essa forma acabada do mundo das mercadorias, a
forma dinheiro, que realmente dissimula o caráter social dos trabalhos privados e, em conseqüência,
as relações sociais entre os produtores particulares, ao invés de pô-las em evidência. (...) Todo o

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mistério do mundo das mercadorias, todo sortilégio e magia que enevoam os produtos do trabalho,
ao assumirem estes a forma de mercadorias, desaparecem assim que examinamos outras formas de
produção. (...) Para estudar o trabalho em comum, isto é, a associação direta de trabalho, não é
mister recuar à forma comunitária que aparece naturalmente no limiar da história de todos os povos
civilizados. Constitui um exemplo próximo a indústria patriarcal rural de uma família camponesa,
que produz, para as próprias necessidades, trigo, gado, fio, tela de linho, peças de roupa etc.. Essas
coisas diversas são, para a família, produtos diversos do seu trabalho, mas não se confrontam entre
si como mercadorias. As diferentes espécies de trabalho que dão origem a esses produtos, lavoura,
pecuária, fiação, tecelagem, costura, etc., são, na sua forma concreta, funções sociais, por serem
funções da família que tem, como a produção de mercadorias, sua própria e espontânea divisão do
trabalho. (...) as forças individuais de trabalho operam, naturalmente, como órgãos da força comum
de trabalho da família e, por isso, o dispêndio das forças individuais de trabalho, medido pelo tempo
de sua duração, manifesta-se, aqui, simplesmente, em trabalho socialmente determinados.” P. 84ss

Capítulo II – O Processo de Troca

“ Não é com seus pés que as mercadorias vão ao mercado, nem se trocam por decisão própria.
Temos, portanto, de procurar seus responsáveis, seus donos. (...) Para relacionar essas coisas, umas
com as outras, como mercadorias, tem seus responsáveis de comportar-se, reciprocamente, como
pessoas cuja vontade reside nessas coisas, de modo que um só se aposse da mercadoria do outro,
alienando a sua, mediante o consentimento do outro, através, portanto, de um ato voluntário comum.
É mister, por isso, que reconheçam um no outro, a qualidade de proprietário privado. Essa relação
de direito, que tem o contrato por forma, legalmente desenvolvida ou não, é uma relação de vontade,
em que se reflete a relação econômica. O conteúdo da relação jurídica ou de vontade é dado pela
própria relação econômica.” P. 94s

“ O que distingue particularmente a mercadoria de seu possuidor é a circunstância de ela ver em
qualquer outra apenas a forma de manifestar-se o próprio valor. (...) O proprietário, com os cinco ou
mais sentidos, supre a percepção que a mercadoria não tem do conteúdo material da outra. Para ele,
a mercadoria que possui não tem nenhum valor-de-uso direto. Do contrário, não a levaria ao
mercado. Ela tem valor-de-uso para outros. Para ele só tem diretamente um valor-de-uso, o de ser
depositária de valor e, assim, meio de troca. (...) As mercadorias tem de realizar-se como valores,
antes de poderem realizar-se como valores-de-uso. Por outro lado, tem elas de evidenciar que são
valores-de-uso antes de poderem realizar-se como valores, pois o trabalho nelas despendido só conta
se foi empregado em forma útil para outros. Só através da troca se pode provar que o trabalho é útil
aos outros, que seu produto satisfaz necessidades alheias.” P. 95s

“ O desenvolvimento histórico da troca desdobra a oposição latente na natureza das mercadorias,
entre valor-de-uso e valor. A necessidade, para o intercâmbio, de exteriorizar essa oposição exige
forma independente para o valor da mercadoria e persiste até que, finalmente, é satisfeita com a
duplicação da mercadoria em mercadoria e dinheiro.” P. 57

“ Um objeto útil só pode se tornar valor-de-troca, depois de existir como não-valor-de-uso e isto
ocorre quando a quantidade do objeto útil ultrapassa as necessidades diretas do seu possuidor. (...) A
troca de mercadorias começa nas fronteiras da comunidade produtiva, nos seus pontos de contato
com outras comunidades ou com outros membros de outras comunidades. (...) A repetição constante
da troca torna-a um processo social regular, por isso, com o tempo, passa-se a fazer, para a troca,
intencionalmente, pelo menos uma parte dos produtos do trabalho. A partir desse momento,
consolida-se a dissociação entre a utilidade das coisas destinadas à satisfação das necessidades e a
das coisas destinadas à troca. Seu valor-de-uso dissocia-se do seu valor-de-troca.” P. 98

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“ A medida que a troca de mercadorias rompe os laços locais, e que se cristaliza cada vez mais
trabalho humano em geral no valor das mercadorias, passa a forma dinheiro a localizar-se nas
mercadorias que, por natureza, se prestam à função social de equivalente universal, os metais
preciosos. (...) uma vez que é puramente quantitativa a diferença das magnitudes de valor, tem a
mercadoria dinheiro de ser suscetível de variações meramente quantitativas, divisível, portanto, à
vontade, podendo, ao mesmo tempo recompor-se. Ouro e prata, possuem, por natureza, essas
propriedades.” P. 100

“ A dificuldade não reside em demonstrar que dinheiro é mercadoria, mas como, porque, através de
que meios dinheiro é mercadoria. Conforme já vimos, na expressão mais simples do valor, x da
merc. A = y da merc. B, a coisa(B), que representa a magnitude de valor da outra(A), parece possuir
a forma de equivalente independentemente dessa relação, como propriedade social de sua natureza.
(...) Ela se impôs, quando a forma de equivalente geral se fundiu com a forma corpórea de
determinada espécie de mercadoria ou se cristalizou na forma dinheiro. Segundo essa aparência
ilusória, uma mercadoria não se torna dinheiro somente porque todas as outras nela representam seu
valor, mas, ao contrário, todas as demais nela expressam seus valores, porque ela é dinheiro. (...) As
mercadorias, então, sem nada fazerem, encontram a figura do seu valor, pronta e acabada, no corpo
de uma mercadoria existente fora delas e ao lado delas. Ouro e prata já saem das entranhas da terra
como encarnação direta de todo trabalho humano. Daí a magia do dinheiro. (...) Esses fenômenos se
manifestam na transformação geral dos produtos do trabalho em mercadorias, transformação que
gera a mercadoria equivalente universal, o dinheiro. O enigma do fetiche dinheiro é, assim, nada
mais do que o enigma do fetiche mercadoria em forma patente e deslumbrante.” P. 102ss

Capítulo III – O Dinheiro ou a Circulação das Mercadorias

   1. Medida dos valores

“ Não é através do dinheiro que as mercadorias se tornam comensuráveis. Ao contrário. Sendo as
mercadorias, como valores, encarnação de trabalho humano e, por isso, entre si comensuráveis,
podem elas, em comum, medir seus valores, por intermédio da mesma mercadoria específica,
transformando esta em sua medida universal do valor, ou seja, em dinheiro. O dinheiro, como
medida do valor, é a forma necessária de manifestar-se a medida imanente do valor das mercadorias,
o tempo de trabalho.” P. 106

“ Como forma do valor, o preço ou a forma do dinheiro das mercadorias se distingue da sua forma
corpórea, real e tangível. O preço é uma forma puramente ideal ou mental. (...) Todo dono de
mercadoria sabe que não transformou sua mercadoria em ouro, quando dá a seu valor a forma de
preço ou a forma idealizada de ouro, e que não precisa de nenhuma quantidade de ouro real para
estimar em ouro milhões de valores de mercadorias. (...) Embora apenas o dinheiro idealizado sirva
para medir o valor, depende o preço, inteiramente da substância real do dinheiro. O valor, ou seja, a
quantidade de trabalho humano, contida, por exemplo, numa tonelada de ferro, é expresso numa
quantidade imaginária da mercadoria ouro, que encerra quantidade igual de trabalho. Conforme seja
a medida do valor o ouro, a prata ou o cobre, o valor da tonelada de ferro é expresso por preços
totalmente diversos, ou é representado por quantidades inteiramente diversas de ouro, prata ou
cobre.” P. 107s

“ O preço é a designação monetária do trabalho corporificado na mercadoria. (...) Mas, se o preço,
ao revelar a magnitude do valor da mercadoria, revela a relação de troca da mercadoria com o
dinheiro, não decorre daí necessariamente a reciproca de que o preço, ao revelar a relação de troca

                                                  9
da mercadoria com o dinheiro, revele a magnitude do valor da mercadoria. (...) Com a
transformação da magnitude do valor em preço, manifesta-se essa relação necessária através da
relação de troca de uma mercadoria com a mercadoria dinheiro, de existência extrínseca à
mercadoria com que se permuta. Nessa relação pode o preço expressar tanto a magnitude do valor
da mercadoria quanto essa magnitude deformada para mais ou para menos, de acordo com as
circunstâncias. A possibilidade de divergência quantitativa entre preço e magnitude de valor, é,
assim inerente à própria forma preço. Isto não constitui um defeito dela, mas torna-a a forma
adequada a um modo de produção, em que a regra só se pode impor através da média que se realiza,
irresistivelmente, através de irregularidade aparente.” P. 114s

   2. Meio de circulação

“ Observando a metamorfose total de uma mercadoria, vemos, de início, que consiste em dois
movimentos que se opõem e se completam, M-D, D-M. Ao transformar-se qualquer mercadoria,
ambas as suas formas, a forma mercadoria e a forma dinheiro, aparecem simultâneas em pólos
opostos, e seu possuidor, na função de vendedor e na de comprador, se confronta, respectivamente,
com outro comprador e outro vendedor.” P. 124

“ Uma vez que a primeira fase da mercadoria é, ao mesmo tempo, venda e compra, esse processo,
embora parcial, é autônomo. O comprador passa a ter a mercadoria, o vendedor, o dinheiro, isto é,
uma mercadoria capaz de entrar em circulação a qualquer tempo. Ninguém pode vender, sem que
alguém compre. Mas ninguém é obrigado a comprar imediatamente, apenas por ter vendido. (...) Em
suas funções de intermediário da circulação das mercadorias, assume, o dinheiro o papel de meio de
circulação.” P. 126s

“ O resultado da circulação das mercadorias, a reposição de uma mercadoria por outra, toma a
aparência de ter sido conseqüência não da mudança da forma das mercadorias, mas da função,
desempenhada pelo dinheiro, de meio de circulação, que põe a circular as mercadorias inertes por
natureza. (...) Embora o movimento do dinheiro não seja mais do que uma expressão da circulação
das mercadorias, esta aparenta, ao contrário, ser apenas o resultado do movimento do dinheiro. Por
outro lado, cabe ao dinheiro a função de meio de circulação apenas porque é o valor das
mercadorias, como realidade independente. Por isso, seu movimento, ao desempenhar o papel de
meio de circulação, é apenas o movimento das próprias mercadorias, ao mudarem suas formas.” P.
129

“ A forma de moeda assumida pelo dinheiro decorre de suas funções de meio de circulação. O peso
do ouro idealizado no preço ou nome em dinheiro das mercadorias, tem de confrontá-las na
circulação, objetivado em peças de ouro do mesmo nome, em moedas. (...) A moeda de ouro e o
ouro em barras só se distinguem pela aparência, e o ouro pode apresentar-se sob uma ou outra
dessas formas. Ao deixar de ser moeda, o destino do ouro é o cadinho. As moedas se desgastam no
curso, umas mais, outras menos. Começa o processo de dissociação entre o título e a substância do
ouro, entre o peso nominal e o peso real. Moedas de igual nome se tornam de valor diverso, por
divergirem os respectivos pesos. O peso do ouro na serventia de meio de circulação difere do ouro
considerado estalão de preços, cessando assim de ser o verdadeiro equivalente das mercadorias,
cujos preços realiza. (...) O próprio curso do dinheiro, ao separar o peso real do peso nominal da
moeda, a existência metálica desta de sua existência funcional, traz latente a possibilidade de o
dinheiro metálico ser substituído, em sua função de moeda, por senhas feitas de outro material, por
meros símbolos. O papel do dinheiro simbólico desempenhado pelas peças de prata e cobre,
substituindo moedas de ouro, encontra sua explicação histórica nos obstáculos técnicos e cunhagem
de frações ínfimas de ouro e de prata, e na circunstância de servirem primitivamente de medida do

                                                10
valor de metais menos nobres (a prata sucede ao cobre; o ouro à prata), os quais circulavam como
dinheiro no momento em que foram destronados pelo metal mais nobre. Substituem o ouro nas
faixas de circulação das mercadorias onde as moedas mudam de mãos mais rapidamente e, em
conseqüência, se desgastam mais rapidamente, isto é, nas faixas onde compras e vendas em pequena
escala se renovam sem cessar. (...) O peso das peças de prata e cobre é determinado arbitrariamente
pela lei. No curso desgastam-se mais rapidamente que a moeda de ouro. A função monetária delas
torna-se de fato totalmente independente do seu peso e, em conseqüência, de todo valor. A função
de numerário do ouro se dissocia inteiramente de seu valor metálico. Coisas relativamente sem
valor, pedaços de papel, podem substituí-lo no exercício da função de moeda. O caráter puramente
simbólico está de algum modo dissimulado nas peças de dinheiro metálicas. Revela-se plenamente
no dinheiro papel. (...) Aqui aludimos apenas ao papel-moeda, o dinheiro papel do Estado, com
curso compulsório. Origina-se diretamente do curso metálico. O dinheiro de crédito pressupõe, ao
contrário, condições que ainda nos são desconhecidas do ponto de vista da circulação simples das
mercadorias. Mas observemos de passagem, se o verdadeiro dinheiro papel, o papel-moeda, nasce
da função, exercida pelo dinheiro de meio de circulação, o dinheiro de crédito tem sua raiz natural
na função do dinheiro, de meio de pagamento.” P. 138ss

“ O papel-moeda é um símbolo que representa ouro ou dinheiro. O papel-moeda representa
simbolicamente as mesmas quantidades de ouro em que se expressam idealmente os valores das
mercadorias, e esta é a única relação existente entre ele e esses valores. O papel-moeda só é símbolo
de valor por representar quantidade de ouro, a qual é quantidade de valor como todas as quantidades
das outras mercadorias. Finalmente pergunta-se por que o ouro pode ser substituído por meros
símbolos destituídos de valor. Conforme já vimos, só pode operar-se essa substituição enquanto
exerce exclusivamente a função de moeda ou de meio de circulação. (...) É necessário unicamente
que o símbolo do dinheiro tenha a validade social própria do dinheiro, e esta adquire-a o papel que o
simboliza, através do curso forçado. A coerção do Estado vigora apenas na esfera interna da
circulação, contida dentro das fronteiras de uma comunidade, e só nela desempenha o dinheiro
plenamente sua função de meio de circulação e assim pode ter no papel-moeda pura existência
funcional, exteriormente distinta de sua existência metálica.” P. 142s

   3. O Dinheiro

a) entesouramento

“ Já nos primórdios do desenvolvimento da circulação das mercadorias desenvolvem-se a
necessidade e a paixão de reter o produto da primeira metamorfose, a forma transfigurada da
mercadoria (...). Vende-se a mercadoria não para comprar mercadoria, mas para substituir a forma
mercadoria pela forma dinheiro. (...) O dinheiro petrifica-se em tesouro, o vendedor de mercadoria
em entesourador.” P. 144

“ Para reter o ouro como dinheiro ou fator de entesouramento, é mister impedi-lo de circular ou de
servir de meio de compra, quando se transforma em artigo de consumo. O entesourador sacrifica à
idolatria do ouro os prazeres da carne. Esposa o evangelho da abstenção. Mas só pode tirar dinheiro
da circulação o que lhe dá em mercadoria. Quanto mais produz mais pode vender. (...) Ao lado da
forma direta, assume o entesouramento a forma estética de objetos de ouro e prata. Cresce com o
enriquecimento da sociedade burguesa. (...) Forma-se um mercado cada vez mais amplo de ouro e
prata, independente das funções de dinheiro desses metais, e, a seu lado, se constitui uma fonte
latente de suprimento de dinheiro, a que se recorre notadamente em períodos de crise social.” P. 148

b) meio de pagamento

                                                 11
“ Com o desenvolvimento da circulação das mercadorias vão aparecendo as condições em que a
alienação da mercadoria se separa, por um intervalo de tempo, da realização de seu preço. Basta
indicar as mais simples dessas condições. Uma espécie de mercadoria exige para ser produzida um
tempo mais longo que outra. (...)Um possuidor de mercadoria pode assim estar pronto para vender,
antes que outro esteja pronto para comprar. Com a constante repetição das mesmas transações entre
as mesmas pessoas, as condições de venda das mercadorias regulam-se pelas condições de
produção. Outras vezes, o que se vende é o uso, por determinado espaço de tempo, de certas
espécies de mercadorias, uma casa, por ex.. (...) Um vende mercadoria existente, outra compra como
mero representante de dinheiro, ou de dinheiro futuro. O vendedor torna-se credor; o comprador,
devedor. A metamorfose da mercadoria, ou o desenvolvimento da forma do valor, assume então
novo aspecto, e em conseqüência o dinheiro adquire nova função. Ele se torna meio de pagamento.”
P. 149s

“ Os papéis de credor e devedor podem vir à cena independentes da circulação das mercadorias. A
luta de classes do mundo antigo desenrola-se principalmente sob a forma de uma luta entre credor e
devedor, e em Roma leva à ruína o devedor plebeu, convertido em escravo. Na Idade Média, a luta
termina arruinando o devedor feudal, que perde o poder político com a base econômica.” P. 150

“ A função do dinheiro como meio de pagamento envolve uma contradição direta. Enquanto os
pagamentos se compensam, serve apenas idealmente de dinheiro de conta ou de medida de valores.
Quando tem de ser efetuados pagamentos reais, a função do dinheiro deixa de ser a de meio de
circulação, de forma transitória e intermediária de intercâmbio das coisas materiais, para ser a de
encarnar o trabalho social, (...)esta contradição manifesta-se na fase especial das crises industriais e
comerciais, chamada de crise do dinheiro. Ela só ocorre onde se desenvolveram plenamente uma
cadeia de pagamentos simultâneos e um sistema de liquidá-los por compensação. Havendo
perturbações gerais no funcionamento desse mecanismo, seja qual for a origem delas, deixa o
dinheiro súbita e diretamente a forma ideal, de conta, para virar dinheiro em espécie.” P.152

“ O dinheiro de crédito decorre diretamente da função do dinheiro como meio de pagamento,
circulando certificados das dívidas relativas às mercadorias vendidas, com o fim de transferir a
outros o direito de exigir o pagamento delas, à medida que se amplia o sistema de crédito,
desenvolve-se a função de meio de pagamento exercida pelo dinheiro. Através dessa função, adquire
formas próprias de existência no domínio das grandes transações, ficando as moedas de ouro e prata
geralmente relegadas para o comércio a retalho.” P. 154

“ O desenvolvimento do dinheiro como meio de pagamento acarreta a necessidade de acumular
dinheiro, para atender aos débitos nas datas de vencimento. O entesouramento, como forma
autônoma de enriquecimento, desapareceu com o progresso da sociedade burguesa, mas, sob a
forma de fundo de reserva de meios de pagamento, se expande com a sociedade.” P. 157

c) o dinheiro universal

“ Para circular fora da esfera nacional, despe-se o dinheiro das formas locais nela desenvolvidas de
estalão de preços, moeda, moeda divisionária e símbolo de valor, e volta a sua forma original de
barra de metais preciosos. No comércio mundial, as mercadorias expressam seu valor
universalmente. (...)O dinheiro mundial exerce a função de meio universal de pagamento, de meio
universal de compra e encarnação social absoluta da riqueza (universal wealth). A função de meio
de pagamento, para liquidar débitos internacionais, é a que predomina. Daí surgiu a teoria da
balança comercial dos mercantilistas (“os mercantilistas viam no saldo favorável em ouro ou prata

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da balança comercial a finalidade do comércio exterior”-nota 109). O ouro e a prata servem de meio
internacional de compra principalmente quando é perturbado, de maneira brusca, o equilíbrio
habitual do intercâmbio entre as diferentes nações. Finalmente, serve de encarnação social absoluta
da riqueza, quando não se trata nem de comprar nem de pagar, mas de transferir a riqueza de um
país para outro, não sendo possível transferi-la sob a forma de mercadoria por força da conjuntura
do mercado ou em virtude do objetivo que se pretende atingir (“a forma dinheiro do valor pode ser
absolutamente necessária nos casos, por exemplo, de subsídios, de empréstimos para a guerra ou
para os bancos continuarem os pagamentos de seus bilhetes”-nota 110).” P. 157ss

“ Os países onde a produção burguesa está bastante desenvolvida limitam as grandes reservas
entesouradas e concentradas nos bancos ao mínimo exigido para o desempenho das funções
específicas delas. Quase sempre a abundância exagerada das reservas entesouradas além do nível
médio indica estancamento da circulação das mercadorias, interrupção do fluxo das suas
metamorfoses.” P. 160s

Parte Segunda – A TRANSFORMAÇÃO DO DINHEIRO EM CAPITAL

Capítulo IV – Como o Dinheiro se Transforma em Capital

   1. A Fórmula Geral do Capital

“ A circulação das mercadorias é o ponto de partida do capital. A produção de mercadorias e o
comércio, forma desenvolvida da circulação de mercadorias constituem as condições históricas que
dão origem ao capital. O comércio e o mercado mundiais inauguram no século XVI a moderna
história do capital. Se pomos de lado o conteúdo material da circulação das mercadorias, a troca dos
diferentes valores-de-uso, para considerar apenas as formas econômicas engendradas por esse
processo de circulação, encontraremos o dinheiro como produto final. Esse produto final da
circulação das mercadorias é a primeira forma em que aparece o capital.” P. 165s

“ Historicamente, em suas origens, é sob a forma de dinheiro que o capital se confronta com a
propriedade imobiliária; como fortuna em dinheiro, capital do comerciante ou do usurário.” P. 166

“ O dinheiro que é apenas dinheiro se distingue do dinheiro que é capital, através da diferença na
forma da circulação. A forma simples da circulação das mercadorias é M-D-M, conversão de
mercadoria em dinheiro e reconversão de dinheiro em mercadorias, vender para comprar. Ao lado
dela, encontramos uma segunda especificamente diversa, D-M-D, conversão de dinheiro em
mercadoria e reconversão de mercadoria em dinheiro, comprar para vender. O dinheiro que se
movimenta de acordo com esta última circulação transforma-se em capital, vira capital e, por sua
destinação, é capital.” P. 166

“ O regresso do dinheiro a seu ponto de partida não depende de se vender a mercadoria mais cara do
que foi comprada. Esta circunstância só influi na magnitude da soma de dinheiro que retorna. A
volta propriamente se dá logo que se vende a mercadoria comprada, concluindo-se inteiramente o
circuito D-M-D. Por aí transparece a diferença entre a circulação do dinheiro na função de capital e
sua circulação como dinheiro apenas. O circuito M-D-M está plenamente percorrido, logo que o
dinheiro obtido com a venda de uma mercadoria é absorvido pela compra de outra mercadoria. Só
pode ocorrer o retorno do dinheiro ao ponto de partida, com a renovação ou repetição do processo
por inteiro.” P. 168



                                                13
“ O circuito M-D-M tem por ponto de partida uma mercadoria e por ponto final outra mercadoria
que sai da circulação e entra na esfera do consumo. Seu objetivo final, portanto, é consumo,
satisfação de necessidades, em uma palavra, valor-de-uso. O circuito D-M-D, ao contrário, tem por
ponto de partida o dinheiro e retorna ao mesmo ponto. Por isso, é o próprio valor-de-troca o motivo
que o impulsiona, o objetivo que o determina.” P. 169

“ Na simples circulação de mercadorias tem ambos os extremos do circuito a mesma forma
econômica. Ambos são mercadorias. Mas são valores-de-uso qualitativamente diversos(...). Ocorre
de maneira diferente com a circulação D-M-D. À primeira vista parece vazia de conteúdo, por ser
tautológica. Ambos os extremos tem a mesma forma econômica. Ambos são dinheiro, sem as
diferenças qualitativas dos valores-de-uso(...)trocar 100 libras esterlinas por algodão e depois o
mesmo algodão por 100 libras esterlinas, fazendo um rodeio para permutar dinheiro por dinheiro,
uma coisa por si mesma, afigura-se uma operação sem finalidade e sem sentido. Uma soma de
dinheiro só pode distinguir-se de outra soma de dinheiro por sua quantidade. (...)No final, se retira
mais dinheiro da circulação, do que se lançou nela, no início. O algodão comprado a 100 libras
esterlinas será vendido, por ex. a 100+10 libras(...). A forma completa desse processo é por isso D-
M-D”, em que D”=D+deltaD(...). Esse acréscimo ou excedente sobre o valor primitivo chamo de
mais valia (valor excedente). O valor originalmente antecipado não só se mantém na circulação, mas
nela altera a própria magnitude, acrescenta uma mais valia, valoriza-se. E este movimento
transforma-o em capital. (...)A circulação simples da mercadoria – vender para comprar – serve de
meio a um fim situado fora da circulação, a apropriação de valores-de-uso, a satisfação de
necessidades. A circulação de dinheiro como capital, ao contrário, tem sua finalidade em si mesma,
pois a expansão do valor só existe nesse movimento continuamente renovado. Por isso, o
movimento do capital não tem limites.” P. 169ss

“ Como representante consciente desse movimento, o possuidor de dinheiro torna-se capitalista. Sua
pessoa, ou melhor seu bolso é donde sai e para onde volta o dinheiro. O conteúdo objetivo da
circulação em causa – a expansão do valor – é sua finalidade subjetiva. Enquanto a apropriação
crescente da riqueza abstrata for o único motivo que determina suas operações, funcionará ele como
capitalista, ou como capital personificado, dotado de vontade e consciência. Nunca se deve
considerar o valor-de-uso objetivo imediato do capitalista. Tampouco o lucro isolado, mas o
interminável processo de obter lucros. Esse impulso de enriquecimento absoluto, essa caça
apaixonada ao valor é comum ao capitalista e ao entesourador, mas enquanto este é o capitalista
enlouquecido, aquele é o entesourador racional. A expansão incessante de valor, por que luta o
entesourador, procurando salvar, tirar dinheiro da circulação obtém na maneira mais sagaz o
capitalista, lançando-o continuamente na circulação.” P. 172s

“ Na realidade, portanto, D-M-D” é a fórmula geral do capital conforme ele aparece diretamente na
circulação.” P. 175

   2. Contradições da Fórmula Geral

“ Consideremos o processo de circulação sob a forma de simples troca de mercadorias. É o que
sucede quando ambos os possuidores de mercadorias compram um do outro e suas dívidas
recíprocas em dinheiro se igualam e se cancelam no dia do pagamento. O dinheiro serve então de
dinheiro de conta, (...)tratando-se de valores-de-uso, é claro que ambos os participantes podem
ganhar. Ambos alienam mercadorias que lhes são inúteis, e recebem mercadorias de que precisam
para seu uso. E pode haver ainda outro proveito. (A) que vende vinho e compra trigo produz talvez
mais vinho do que poderia produzir o triticultor (B) no mesmo tempo de trabalho, e este mais trigo
do que (A) poderia produzir no mesmo tempo de trabalho. (A) recebe, portanto, pelo mesmo valor-

                                                 14
de-troca mais trigo e (B) mais vinho, do que se cada um deles efetuasse a troca e tivesse de produzir,
ao mesmo tempo, vinho e trigo.” P. 176

“ Se se trocam mercadorias ou mercadorias e dinheiro de igual valor-de-troca, se se permutam
portanto equivalentes, não se tira da circulação mais do que nela se lança. Não ocorre nenhuma
formação de valor excedente (mais valia). E, em sua forma pura, a circulação de mercadorias exige
troca de equivalentes. Mas, na realidade as coisas não se passam com essa pureza. Suponhamos,
portanto, a troca de não-equivalentes. (...)Admita-se que por força de algum privilégio inexplicável
possa todo vendedor vender suas mercadorias acima do valor, a 110, quando vale 100, com um
acréscimo no preço de 10%. O vendedor apossa-se assim de um valor excedente (mais valia) de 10.
Mas depois de ser vendedor, torna-se comprador. (...) No fim tudo se resume a que todos os
vendedores vendem reciprocamente um aos outros suas mercadorias com o valor aumentado de
10%, o que representa o mesmo que terem vendido suas mercadorias pelos seus valores.
(...)Suponhamos, ao contrário, que seja privilégio de todo comprador, comprar a mercadoria abaixo
do valor. Não é mister lembrar que o comprador se torna vendedor. Ele era vendedor, antes de virar
comprador. Como vendedor já perdeu 10%, antes de ganhar 10% como comprador. Tudo fica como
dantes.

A formação da mais valia e, portanto, a transformação do dinheiro em capital, não pode, portanto,
ser explicada, por vender o vendedor as mercadorias acima do valor, nem por comprá-las o
comprador abaixo do valor.” P. 180s

“ Os representantes conseqüentes da ilusão de que o valor excedente (mais valia) decorre de um
acréscimo nominal de preço, ou do privilégio do vendedor, de vender caro a mercadoria, pressupõe,
por isso, a existência de uma classe que apenas compra sem vender, e por conseguinte só consome
sem produzir. Até o ponto em que chegamos em nossos estudos, o da circulação simples, a
existência dessa classe ainda é inexplicável. Mas, antecipemo-nos. O dinheiro com que essa classe
compra continuamente, deve chegar às suas mãos continuamente, sem troca, de graça, saindo dos
bolsos dos possuidores de mercadorias, em virtude de um privilégio ou do direito de força. Vender
mercadorias a essa classe acima do valor, significa apenas recuperar em parte, por meios
fraudulentos, o dinheiro dado a ela gratuitamente. As cidades da Ásia Menor pagavam um tributo
em dinheiro à antiga Roma. Com esse dinheiro Roma comprava delas mercadorias e comprava caro.
Os asiáticos enganavam os romanos surrupiando-lhes uma parte dos tributos por meio do comércio.
Mas, apesar disso, os logrados eram os asiáticos. Suas mercadorias eram pagas de qualquer modo
com seu próprio dinheiro. Isto não é meio de enriquecimento ou de formação de um valor excedente
(mais valia).” P. 182

“ Seja o que for que façamos, o resultado permanece o mesmo. Se se trocam equivalentes, não se
produz valor excedente, (mais valia), e se se trocam não-equivalentes, também não surge nenhum
valor excedente. A circulação ou a troca de mercadorias não cria nenhum valor.” P. 183

“ Mostrou-se que o valor excedente (mais valia) não pode originar-se na circulação e que, ao
formar-se, algo tem de ocorrer fora dela e nela imperceptível. Mas pode o valor excedente ter sua
origem fora da circulação? (...)Fora dela, o possuidor de mercadorias só mantém relações com sua
própria mercadoria. (...)O possuidor de mercadoria pode com seu trabalho gerar valores, mas não
valores que se dilatam. Pode aumentar o valor de uma mercadoria, acrescentando com novo trabalho
novo valor existente, ao fazer, por exemplo, sapatos, utilizando couro. O mesmo material tem agora
mais valor, por conter maior quantidade de trabalho. O sapato tem mais valor do que o couro, mas o
valor do couro permanece o que era, não aumentou, não adquiriu valor excedente (mais valia) no
período de fabricação do sapato. É portanto impossível que o produtor de mercadorias, fora da

                                                 15
esfera da circulação, sem entrar em contato com outros possuidores de mercadorias, consiga
expandir um valor, transforme portanto dinheiro ou mercadoria em capital. Capital, portanto, nem
pode originar-se na circulação nem fora da circulação. Deve, ao mesmo tempo, ter ou não ter nela
sua origem.
Chegamos assim a um duplo resultado. A transformação de dinheiro em capital tem de ser explicada
à base das leis imanentes da troca de mercadorias, e desse modo a troca de equivalentes serve de
ponto de partida. Nosso possuidor de dinheiro que, no momento prefigura o capitalista tem de
comprar a mercadoria pelo seu valor, vendê-la pelo seu valor, e, apesar disso, colher no fim do
processo mais valor do que nele lançou. Sua metamorfose em capitalista deve ocorrer dentro da
esfera da circulação e, ao mesmo tempo, fora dela. Tais são as condições do problema. E é aí que
está o busílis.” P. 185s

   3. Compra e Venda de Força de Trabalho

“ A mudança do valor do dinheiro que se pretende transformar em capital não pode ocorrer no
próprio dinheiro. (...)Tampouco a mudança do valor decorre do segundo ato da circulação, da
revenda da mercadoria, pois esse ato apenas reconverte a mercadoria da forma natural em forma
dinheiro. A mudança tem portanto de ocorrer com a mercadoria comprada no primeiro ato D-M,
mas não em seu valor, pois se se trocam equivalentes, as mercadorias são pagas pelo seu valor. A
mudança só pode portanto originar-se de seu valor-de-uso como tal, de seu consumo. Para extrair
valor do consumo de uma mercadoria nosso possuidor de dinheiro deve ter a felicidade de descobrir,
dentro da esfera da circulação, no mercado, uma mercadoria cujo valor-de-uso possua a propriedade
peculiar, de ser fonte de valor, de modo que consumi-la seja realmente encarnar trabalho, criar valor,
portanto. E o possuidor de dinheiro encontra no mercado essa mercadoria especial: é a capacidade
de trabalho ou a força de trabalho. Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos
o conjunto das faculdades físicas e mentais, existentes no corpo e na personalidade viva de um ser
humano, as quais ele põe em ação toda a vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie.” P.
187

“ A fim de o possuidor de dinheiro encontrar no mercado a força de trabalho como mercadoria, é
mister que se preencham certas condições. Por si mesma, a troca de mercadorias não implica outras
relações de dependência além daquelas que decorrem de sua própria natureza. Assim, a força de
trabalho só pode aparecer como mercadoria no mercado, enquanto for e por ser oferecida ou vendida
como mercadoria pelo seu próprio possuidor, pela pessoa da qual ela é a força de trabalho. A fim de
que seu possuidor a venda como mercadoria, é mister que ela possa dispor dela, que seja
proprietário livre de sua capacidade de trabalho, de sua pessoa. Ele e o possuidor do dinheiro
encontram-se no mercado e entram em relação um com o outro como possuidores de mercadorias,
(...). A continuidade dessa relação exige que o possuidor de força de trabalho venda-a sempre por
tempo determinado, pois se a vende de uma vez por todas, vender-se-á a si mesmo, transforma-se-á
de homem livre em escravo, de um vendedor de mercadoria em mercadoria. (...)Segunda condição
essencial para o possuidor do dinheiro encontrar no mercado força de trabalho como mercadoria: o
dono dessa força não pode vender mercadorias em que encarne seu trabalho, e é forçado a vender
sua força de trabalho que só existe nele mesmo.” P. 187s

“ Quem quiser vender mercadoria que não seja sua força de trabalho, tem de possuir meios de
produção, como matérias-primas, instrumentos de produção etc.(...)Para transformar dinheiro em
capital tem o possuidor do dinheiro de encontrar o trabalhador livre no mercado de mercadorias,
(...). Não interessa ao possuidor do dinheiro saber porque o trabalhador livre se defronta com ele no
mercado de trabalho, não passando o mercado de trabalho, para ele, de uma divisão especial do
mercado de mercadorias. (...)Uma coisa entretanto está clara. A natureza não produz, de um lado,

                                                 16
possuidores de dinheiro ou de mercadorias, e, de outro, meros possuidores das próprias forças de
trabalho. Essa relação não tem sua origem na natureza, nem é mesmo uma relação social que fosse
comum a todos os períodos históricos. Ela é evidentemente o resultado de um desenvolvimento
histórico anterior, o produto de muitas revoluções econômicas, do desaparecimento de toda uma
série de antigas formações da produção social.” P. 189

“ Só aparece o capital quando o possuidor de meios de produção e de subsistência encontra o
trabalhador livre no mercado vendendo sua força de trabalho, e esta única condição histórica
determina um período da história da humanidade. O capital anuncia, desde o início, uma nova época
no processo de produção social.” P. 190

“ O valor da força de trabalho é determinado como o de qualquer outra mercadoria, pelo tempo de
trabalho necessário a sua produção e, por conseqüência, a sua reprodução. Enquanto valor, a força
de trabalho representa apenas determinada quantidade de trabalho social médio nela corporificado.
Não é mais do que a aptidão do indivíduo vivo. A produção dela supõe a existência deste. Dada a
existência do indivíduo, a produção da força de trabalho consiste em sua manutenção ou reprodução.
Para manter-se precisa o indivíduo de certa soma de meios de subsistência. (...)o valor da força de
trabalho é o valor dos meios de subsistência necessários à manutenção de seu possuidor. A força de
trabalho só se torna realidade com seu exercício, só se põe em ação no trabalho. Através de sua
ação, o trabalho, despende-se determinada quantidade de músculos, de nervos, de cérebro, etc., que
se tem de renovar. Ao aumentar este dispêndio tornar-se-á necessário aumentar a remuneração.
(...)A soma dos meios de subsistência deve ser, portanto, suficiente para mantê-lo no nível de vida
normal do trabalhador. (...)a extensão das chamadas necessidades imprescindíveis e o modo de
satisfazê-las são produtos históricos e dependem, por isso, de diversos fatores, em grande parte do
grau de civilização de um país e, particularmente, das condições em que se formou a classe dos
trabalhadores livres, com seus hábitos e exigências peculiares. Um elemento histórico e moral entra
na determinação do valor da força de trabalho, o que a distingue das outras mercadorias. Mas, para
um país determinado, num período determinado, é dada a quantidade média dos meios de
subsistência necessários.” P. 191

“ O proprietário da força de trabalho é mortal. Se tem de aparecer continuamente no mercado,
conforme pressupõe a contínua transformação de dinheiro em capital, o vendedor da força de
trabalho tem de perpetuar-se(...). As forças de trabalho retiradas do mercado por desgaste ou por
morte tem de ser incessantemente substituídas pelo menos por um número igual de novas forças de
trabalho. A soma dos meios de subsistência necessários à produção da força de trabalho inclui
também os meios de subsistência dos substitutos dos trabalhadores, os seus filhos, de modo que se
perpetue no mercado essa raça peculiar de possuidores de mercadorias.” P. 192

“ O valor da força de trabalho reduz-se ao valor de uma soma determinada de meios de subsistência.
Varia portanto com o valor desses meios de subsistência, ou seja, com a magnitude do tempo de
trabalho exigido para sua produção.
Uma parte dos meios de subsistência, como alimentos e combustível, são consumidos diariamente e
tem de ser substituídos diariamente. Outros, como roupas e móveis, duram mais tempo e só tem de
ser substituídos em intervalos mais longos. Segundo a espécie, compram-se ou pagam-se
mercadorias diariamente, por semana, por trimestre, etc. Como quer que se distribua durante um
ano, por ex., a soma dessas despesas, deve ela ser coberta pela receita média diária. (...)O limite
último ou mínimo do valor da força de trabalho é determinado pelo valor da quantidade diária de
mercadorias indispensável para que o portador da força de trabalho, o ser humano, possa continuar
vivendo, ou seja, pelos meios de subsistência fisicamente imprescindíveis. Se o preço da força de
trabalho baixa a esse mínimo, baixa também seu valor, e ela só pode vegetar e atrofiar-se. Mas o

                                                17
valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho requerido para que esta seja
fornecida de acordo com sua qualidade normal.” P. 192s

Parte Terceira – A PRODUÇÃO DA MAIS VALIA ABSOLUTA

Capítulo V – Processo de Trabalho e Processo de Produzir Mais Valia

   1. O processo de trabalho ou processo de produzir valores-de-uso

“ (...)temos inicialmente de considerar o processo de trabalho à parte de qualquer estrutura social
determinada. Antes de tudo o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza,
processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio
material com a natureza. (...)atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo
tempo modifica sua própria natureza. (...)Não se trata aqui de formas instintivas, animais, de
trabalho. Quando o trabalhador chega ao mercado para vender sua força de trabalho, é imensa a
distância histórica que medeia entre sua condição e a do homem primitivo com sua forma ainda
instintiva de trabalho. Pressupomos o trabalho sob a forma exclusivamente humana. (...)Os
elementos componentes do processo de trabalho são:
1) a atividade adequada a um fim, isto é, o próprio trabalho;
2) a matéria a que se aplica o trabalho, o objeto de trabalho;
3) os meios de trabalho, o instrumental de trabalho.
(...)Todas as coisas que o trabalho apenas separa de sua conexão imediata com seu meio natural
constituem objeto de trabalho, fornecidos pela natureza. Assim, os peixes que se pescam, que são
tirados de seu elemento, a água, a madeira derrubada da floresta virgem, o minério arrancado dos
filões. Se o objeto de trabalho é, por assim dizer, filtrado através do trabalho anterior, chamamo-lo
de matéria-prima. Por ex., o minério extraído depois de ser lavado. Toda matéria-prima é objeto de
trabalho, mas nem todo objeto de trabalho é matéria-prima. O objeto de trabalho só é matéria-prima
depois de ter experimentado modificação efetuada pelo trabalho.
O meio de trabalho é uma coisa ou um complexo de coisas, que o trabalhador insere entre si mesmo
e o objeto de trabalho e lhe serve para dirigir sua atividade sobre esse objeto. Ele utiliza as
propriedades mecânicas, físicas, químicas das coisas, para fazê-las atuarem como forças sobre outras
coisas.” P. 202s

“ O processo de trabalho, ao atingir certo nível de desenvolvimento, exige meios de trabalho já
elaborados. (...)O que distingue as diferentes épocas econômicas não é o que se faz, mas como, com
que meios de trabalho se faz. Os meios de trabalho servem para medir o desenvolvimento da força
de trabalho humana e além disso, indicam as condições sociais em que se realiza o trabalho.
(...)além das coisas que permitem ao trabalho aplicar-se a seu objeto e servem de qualquer modo
para conduzir a atividade, consideramos meios de trabalho em sentido lato todas as condições
materiais seja como for necessárias à realização do processo de trabalho. Elas não participam
diretamente do processo, mas este fica sem elas total ou parcialmente impossibilitado de
concretizar-se. Nesse sentido, a terra é ainda um meio universal de trabalho, pois fornece o local ao
trabalhador e proporciona ao processo que ela desenvolve o campo de operação. Pertencem a essa
classe meios resultantes de trabalho anterior, tais como edifícios de fábricas, canais, estradas, etc.”
p. 204s

“Observando-se todo o processo do ponto de vista do resultado, do produto, evidencia-se que meio e
objeto de trabalho são meios de produção e o trabalho é trabalho produtivo.” P. 205



                                                  18
“ Quando um valor-de-uso sai do processo de trabalho como produto, participaram de sua feitura,
como meios de produção, outros valores-de-uso, produtos de anteriores processos de trabalho,.
Valor-de-uso que é produto de um trabalho, torna-se assim meio de produção de outro. Os produtos
destinados a servir de meio de produção não são apenas resultado, mas também condição do
processo de trabalho.” P. 205s

“ A matéria-prima pode ser a substância principal de um produto, ou contribuir para sua constituição
como material acessório. O meio de trabalho consome o material acessório: assim a máquina a
vapor, o carvão; a roda, o óleo; o cavalo de tração, o feno. Ou o material acessório é adicionado à
matéria-prima, para modificá-la materialmente: o cloro ao pano crú, o carvão ao ferro, a anilina à lã;
ou facilita a execução do próprio trabalho: os materiais, por ex., utilizados para iluminar e aquecer o
local de trabalho. A diferença entre substância principal e acessória desaparece na fabricação em que
se processe uma transformação química, pois nesse caso nenhuma das matérias-primas empregadas
reaparece como a substância do produto.” P. 206

“ O mesmo produto pode no processo de trabalho servir de meio de trabalho e de matéria-prima. Na
engorda do gado, por ex., o boi é matéria-prima a ser elaborada e ao mesmo tempo instrumento de
produção de adubo. Um produto que existe em forma final para consumo pode tornar-se matéria-
prima. A uva, por ex., serve de matéria-prima para o vinho. Ou o trabalho dá ao produto formas que
só permitem sua utilização como matéria-prima. Nesse caso, chama-se a matéria-prima de semi-
produto, ou, melhor, de produto intermediário, como algodão, fios, linhas, etc. Embora já seja
produto, a matéria-prima original tem de percorrer toda uma série de diferentes processos,
funcionando em cada um deles com nova forma, como matéria-prima, até atingir o último processo,
que faz dela produto acabado, pronto para consumo ou para ser utilizado como meio de trabalho.” P.
206s

“ O trabalho gasta seus elementos materiais, seu objeto e seus meios, consome-os, é um processo de
consumo. Trata-se de um consumo produtivo que se distingue do consumo individual: este gasta os
produtos como meios de vida do indivíduo, enquanto aquele os consome como meios através dos
quais funciona a força de trabalho posta em ação pelo indivíduo. O produto do consumidor
individual é, portanto, o próprio consumidor, e o resultado do consumo produtivo um produto
distinto do consumidor.” P. 208

“ O processo de trabalho, quando ocorre como processo de consumo da força de trabalho pelo
capitalista, apresenta dois fenômenos característicos. O trabalhador trabalha sob o controle do
capitalista, a quem pertence seu trabalho. O capitalista cuida em que o trabalho se realize de maneira
apropriada e em que se apliquem adequadamente os meios de produção, não se desperdiçando
matéria-prima e poupando-se o instrumental de trabalho, de modo que só se gaste deles o que for
imprescindível à execução do trabalho. Além disso, o produto é propriedade do capitalista, não do
produtor imediato, o trabalhador. O capitalista paga, por exemplo, o valor diário da força de
trabalho. Sua utilização, como a de qualquer outra mercadoria, por ex., a de um cavalo que alugou
por um dia, pertence-lhe durante o dia.” P. 209s

   2. O processo de produzir mais valia

“ Ao converter dinheiro em mercadorias que servem de elementos materiais de novo produto ou de
fatores do processo de trabalho e ao incorporar a força de trabalho viva à materialidade morta desses
elementos, transforma valor, trabalho pretérito, materializado, morto, em capital, em valor que se
amplia, um monstro animado que começa a “trabalhar”, como se tivesse o diabo no corpo.
Comparando o processo de produzir valor com o de produzir mais valia, veremos que o segundo só

                                                  19
difere do primeiro por se prolongar além de certo ponto. O processo de produzir valor simplesmente
dura até o ponto em que o valor da força de trabalho pago pelo capital é substituído por um
eqüivalente. Ultrapassando esse ponto, o processo de produzir valor torna-se processo de produzir
mais valia (valor excedente).” P. 219s

“ Se comparamos o processo de produzir valor com o processo de trabalho, verificaremos que este
consiste no trabalho útil que produz valores-de-uso. A atividade neste processo é considerada
qualitativamente, em sua espécie particular, segundo seu objetivo e conteúdo. Mas, quando se cogita
da produção de valor, o mesmo processo de trabalho é considerado apenas sob o aspecto
quantitativo.” P. 220

“ Mas, quando se mede o tempo de trabalho aplicado na produção de um valor-de-uso, só se
considera o tempo de trabalho socialmente necessário. Isto envolve muitas coisas. A força de
trabalho deve funcionar em condições normais. Se o instrumento de trabalho socialmente dominante
na fiação é a máquina de fiar, não se deve por nas mãos do trabalhador uma roda de fiar. O
trabalhador deve receber algodão de qualidade normal e não refugo que se parte a todo instante. Em
ambos os casos gastaria ele mais do que o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção
de um quilo de fio, e esse tempo excedente não geraria valor nem dinheiro. A normalidade dos
fatores materiais do trabalho não depende do trabalhador, mas do capitalista. Outra condição é a
normalidade da própria força de trabalho. Deve possuir o grau médio de habilidade, destreza e
rapidez reinantes na especialidade em que se aplica. Mas, nosso capitalista comprou no mercado
força de trabalho de qualidade normal. Essa força tem de ser gasta conforme a quantidade média de
esforço estabelecida pelo costume, de acordo com o grau de intensidade socialmente usual.
(...)Finalmente, e para isso tem ele seu código penal particular, não deve ocorrer nenhum consumo
impróprio de matéria-prima e de instrumental, pois material ou instrumental desperdiçados
significam quantidades superfluamente despendidas de trabalho materializado, não sendo portanto
consideradas nem incluídas na produção de valor (citação pé-de-página: Esta é uma das
circunstâncias que encarecem a produção baseada na escravatura. O trabalhador aí, segundo a
expressão acertada dos antigos, se distingue do animal, instrumento capaz de articular sono, e do
instrumento inanimado de trabalho, instrumento mudo, por ser instrumento dotado de linguagem.
Mas, o trabalhador faz o animal e os instrumentos sentirem que ele não é seu semelhante, mas um
ser humano. Cria para si mesmo a consciência dessa diferença, maltratando-os e destruindo-os
passionalmente. Constitui por isso princípio econômico só empregar, na produção escravista, os
instrumentos de trabalho mais rudes, mais grosseiros, difíceis de serem estragados em virtude de sua
rusticidade primária.).” p. 220s

“ Vemos que a diferença estabelecida, através da análise da mercadoria, entre o trabalho que produz
valor-de-uso e o trabalho que produz valor se manifesta agora sob a forma de dois aspectos distintos
do processo de produção. O processo de produção, quando unidade do processo de trabalho e do
processo de produzir valor, é processo de produção de mercadorias; quando unidade do processo de
trabalho e do processo de produzir mais valia, é processo capitalista de produção, forma capitalista
da produção de mercadorias.” P. 222

“ Confrontando com o trabalho social médio, o trabalho que se considera superior, mais complexo, é
dispêndio de força de trabalho formada com custos mais altos, que requer mais tempo para ser
produzida, tendo, por isso, valor mais elevado que a força de trabalho simples. Quando o valor da
F.T. (Força de Trabalho) é mais elevado, emprega-se ela em trabalho superior e materializa-se, no
mesmo espaço de tempo, em valores proporcionalmente mais elevado.” P. 222

Capítulo VI – Capital Constante e Capital Variável

                                                20
“ Os diversos elementos do processo de trabalho desempenham papéis diferentes na formação do
valor dos produtos. Pondo-se de lado o conteúdo, a finalidade e a natureza técnica do trabalho, o
trabalhador acrescenta ao material, ao objeto de trabalho novo valor por meio de acréscimo de
determinada quantidade de trabalho. Além disso, os valores e os meios de produção consumidos
reaparecem como partes componentes do valor do produto; (...)o valor dos meios de produção se
conserva através de sua transferência ao produto. Ocorre essa transferência durante a transformação
dos meios de produção em produto, no processo de trabalho.” P. 224

“ Valor, excetuando-se sua representação simbólica, só existe num valor-de-uso, numa coisa. (O
próprio homem, visto como personificação da força de trabalho, é um objeto natural, uma coisa,
embora uma coisa viva e consciente, e o próprio trabalho é a manifestação externa, objetiva dessa
força). A perda do valor-de-uso implica na perda de valor. Os meios de produção não perdem valor
simultaneamente com o valor-de-uso, porque, no processo de trabalho, só perdem realmente a figura
original de seu valor-de-uso para adquirirem a figura de outro valor-de-uso no produto.” P. 228

“Os meios de produção só transferem valor à nova figura do produto na medida em que perdem
valor na figura de seus valores-de-uso originais durante o processo de trabalho. O máximo de perda
de valor que podem experimentar no processo de trabalho está evidentemente limitado pela
magnitude do valor original com que entram no processo de trabalho, ou seja, pelo tempo de
trabalho exigido para sua própria produção. (...)Seu valor não é determinado pelo processo de
trabalho do qual sai como produto. No processo de trabalho em que entra serve apenas de valor-de-
uso, de coisa com propriedades úteis e não transferirá nenhum valor ao produto se já não o possuir
antes de entrar no processo.” P. 231

“Os meios de produção de um lado, e a força de trabalho, do outro, são apenas diferentes formas de
existência, assumidas pelo valor original do capital ao despir-se da forma dinheiro e transformar-se
nos fatores do processo de trabalho. A parte do capital, portanto, que se converte em meios de
produção, isto é, em matérias-primas, materiais acessórios e meios de trabalho, não muda a
magnitude do seu valor no processo de produção. Chamo-a por isso, parte constante do capital, ou
simplesmente capital constante. A parte do capital convertida em força de trabalho, ao contrário,
muda de valor no processo de produção. Reproduz o próprio equivalente e, além disso, proporciona
um excedente, a mais valia, que pode variar, ser maior ou menor. Esta parte do capital transforma-se
continuamente de magnitude constante em magnitude variável. Por isso, chamo-a de parte variável
do capital, ou simplesmente capital variável. As mesmas partes do capital, que do ponto de vista do
processo de trabalho, se distinguem em elementos objetivos e subjetivos, em meios de produção e
força de trabalho, do ponto de vista do processo de produzir mais valia, se distinguem em capital
constante e capital variável.” P. 235

“O conceito de capital constante não exclui nenhuma alteração de valor em suas partes
componentes. (...)O valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho que
contém, mas essa quantidade é socialmente determinada. Se muda o tempo de trabalho socialmente
exigido para sua produção, verifica-se uma reação sobre a mercadoria antiga, que não passa de
exemplar isolado de sua espécie, cujo valor sempre se mede pelo trabalho socialmente necessário,
isto é, pelo trabalho necessário nas condições sociais presentes.
Como o da matéria-prima, o valor dos meios de trabalho, da maquinaria, dos empregados no
processo de produção, pode variar também e, em consequência, a porção de valor que transferem ao
produto. Se, em virtude de uma invenção, se produz uma máquina da mesma espécie com menos
dispêndio de trabalho, sofre a máquina antiga uma desvalorização e passa a transferir ao produto
proporcionalmente menos valor. Mas também aqui a variação de valor se origina fora do processo

                                                21
de produção em que a máquina serve de meio de produção. Nesse processo não transfere a máquina
mais valor do que o que possui independentemente dele.” P. 235s

Capítulo VII – A Taxa da Mais Valia

   1. O grau de exploração da Força de Trabalho

“O capital C decompõe-se em duas partes, uma soma em dinheiro c gasta com os meios de
produção, e outra v despendida com a força de trabalho; c representa a parte do valor que se
transforma em capital constante e a v a que se transforma em capital variável. Originalmente
portanto C = c+v.” p. 237

“No fim do processo de produção surge a mercadoria, com o valor = (c+v)+m, representando m a
mais valia.” P. 238

“A quantia 90 libras = m expressa aqui a magnitude absoluta da mais valia criada. Sua magnitude
relativa, isto é, a proporção em que aumenta o valor do capital variável, é evidentemente
determinada pela relação entre a mais valia e o capital variável, expressando-se pela fórmula m/v.
No ex. acima ela é 90/90 = 100%. A esse aumento relativo do valor do capital variável ou a essa
magnitude relativa da mais valia, chamo taxa da mais valia.” P. 241

“Na parte do dia de trabalho na qual gera o valor diário da força de trabalho, o trabalhador só cria o
equivalente ao valor dela já pago pelo capitalista (nota – o autor usa aí a linguagem econômica
corrente. Lembramos que à página 137 ficou demonstrado que, na realidade, não é o capitalista que
faz adiantamento ao trabalhador, mas este ao capitalista. - F.E.) apenas substitui o valor
desembolsado do capital variável pelo novo valor criado, e essa criação de valor é mera reprodução.
Chamo de tempo de trabalho necessário essa parte do dia de trabalho na qual sucede essa
reprodução; e de trabalho necessário o trabalho despendido durante esse tempo. Ambos são
necessários ao trabalhador pois não dependem da forma social de seu trabalho, e necessários ao
capital e ao seu mundo baseado na existência permanente do trabalhador. O segundo período do
processo de trabalho, quando o trabalhador opera além dos limites do trabalho necessário, embora
constitua trabalho, dispêndio da força de trabalho, não representa para ele nenhum valor. (...)A essa
parte do dia de trabalho chamo tempo de trabalho excedente e ao trabalho nela despendido, trabalho
excedente. Conceber o valor como simples solidificação do tempo de trabalho, apenas como
trabalho objetivado, é tão essencial para seu conhecimento geral, quanto, para o da mais valia, ver
nela simples solidificação do tempo de trabalho excedente, trabalho excedente objetivado. Só a
forma em que se extrai do produtor imediato, do trabalhador, esse trabalho excedente distingue as
diversas formações econômico-sociais, a sociedade da escravidão, por ex., da sociedade do trabalho
assalariado.” P. 242s

“(...)a taxa da mais valia m/v = trabalho excedente/trabalho necessário, ambas as proporções
expressam a mesma relação de forma diferente, na forma de trabalho materializado, de um lado, e na
forma de trabalho operante de outro. A taxa da mais valia é, por isso, a expressão precisa do grau de
exploração da força de trabalho pelo capitalista. (nota da 2ª ed. A taxa da mais valia embora seja a
expressão exata do grau de exploração da força de trabalho, não exprime, entretanto, a magnitude
absoluta dessa exploração. Se o trabalho necessário = 5 horas e a mais valia = 5 horas, o grau de
exploração será = 100%. Mediu-se com 5 horas a magnitude da exploração. Mas se o trabalho
necessário = 6 horas e a mais valia = 6 horas, o grau de exploração continua a ser de 100%,
enquanto a magnitude da exploração aumenta de 20%, de 5 para 6 horas.)” p. 243


                                                 22
“Chamamos produto excedente a parte do produto que representa a mais valia. Determina-se a taxa
da mais valia não através da relação que existe entre ela e o capital variável; do mesmo modo a
dimensão do produto excedente se determina não pela relação entre o produto excedente e o restante
do produto total, mas pela que existe entre ele e a parte do produto que representa o trabalho
necessário. De acordo com o objetivo dominante da produção capitalista de produzir mais valia,
mede-se a riqueza não pela magnitude absoluta do produto, mas pela magnitude relativa do produto
excedente.
A magnitude absoluta do tempo de trabalho, o dia de trabalho, a jornada de trabalho, é constituída
pela soma do trabalho necessário e do trabalho excedente, ou seja, do tempo em que o trabalhador
reproduz o valor de sua força de trabalho e do tempo que produz a mais valia.” p. 259

Capítulo VIII – A Jornada de Trabalho

“A jornada de trabalho não é uma grandeza constante, mas variável. Uma das suas partes é
determinada pelo tempo de trabalho necessário à reprodução da força de trabalho do próprio
trabalhador, mas sua magnitude total varia com a duração do trabalho excedente. A jornada de
trabalho é portanto determinável, mas, considerada em si mesma é indeterminada.” P. 261s

“Embora a jornada de trabalho não seja uma grandeza fixa, mas flutuante, só pode variar dentro de
certos limites. É indeterminável, todavia, seu limite mínimo. (...)isto é, a parte da jornada em que o
trabalhador tem necessariamente de trabalhar para viver. Mas, no modo de produção capitalista, o
trabalho necessário só pode constituir uma parte da jornada de trabalho, e a jornada de trabalho,
portanto, nunca pode reduzir-se a esse mínimo. Em compensação, possui a jornada de trabalho um
limite máximo. Não pode ser prolongada além de certo ponto. Esse limite máximo é determinado
duplamente. Há, primeiro, o limite físico da força de trabalho. (...)Durante uma parte do dia, o
trabalhador deve descansar, dormir, durante outra tem de satisfazer necessidades físicas, alimentar-
se, lavar-se, vestir-se, etc.. Além de encontrar esse limite físico, o prolongamento da jornada de
trabalho esbarra em fronteiras morais. O trabalhador precisa de tempo para satisfazer necessidades
espirituais e sociais cujo número e extensão são determinados pelo nível geral de civilização.” P.
262

“ Vemos que, abstraindo de limites extremamente elásticos, não resulta da natureza da troca de
mercadorias nenhum limite à jornada de trabalho ou trabalho excedente. O capitalista afirma seu
direito como comprador, quando procura prolongar o mais possível a jornada de trabalho e
transformar, sempre que possível, um dia de trabalho em dois. Por outro lado, a natureza específica
da mercadoria vendida impõe um limite ao consumo pelo comprador, e o trabalhador afirma seu
direito, como vendedor, quando quer limitar a jornada de trabalho a determinada magnitude normal.
Ocorre assim uma antinomia, direito contra direito, ambos baseados na lei da troca de mercadorias.
Entre direitos iguais e opostos decide a força. Assim, a regulamentação da jornada de trabalho se
apresenta, na história da produção capitalista, como luta pela limitação da jornada de trabalho. Um
embate que se trava entre a classe capitalista e a classe trabalhadora.” P. 265

“Não foi o capital quem inventou o trabalho excedente. Toda vez que uma parte da sociedade possui
o monopólio dos meios de produção, tem o trabalhador, livre ou não, de acrescentar ao tempo de
trabalho necessário à sua própria manutenção um tempo de trabalho excedente destinados a produzir
os meios de subsistência para o proprietário dos meios de produção.” P. 265

“Os meios de produção, o capital constante, só existem, do ponto de vista da criação da mais valia,
para absorver trabalho e com cada gota de trabalho uma porção proporcional de trabalho excedente.
Se não realizam isto, sua mera existência constitui pura perda para o capitalista, pois durante o

                                                 23
tempo em que estão parados representam adiantamento inútil de capital. Essa perda se traduz
também em despesas quando, em virtude dessa parada, se tornam necessários gastos adicionais para
a retomada de atividade. O prolongamento do trabalho além dos limites diurnos naturais, pela noite
adentro, serve apenas de paliativo para apaziguar a sede vampiresca do capital pelo sangue
vivificante do trabalho. O impulso imanente da produção capitalista é apropriar-se do trabalho
durante todas as 24 horas do dia. Sendo fisicamente impossível, entretanto, explorar dia e noite sem
parar, a mesma força de trabalho, é necessário, para superar esse obstáculo físico, revezar as forças
de trabalho a serem empregadas nos períodos diurno e noturno.” P. 290s

“A produção capitalista, que essencialmente é produção de mais valia, absorção de trabalho
excedente, ao prolongar o dia de trabalho, não causa apenas a atrofia da força humana de trabalho, à
qual rouba suas condições normais, morais e físicas de atividade e desenvolvimento. Ela ocasiona o
esgotamento prematuro e a morte da própria força de trabalho. Aumenta o tempo de produção do
trabalhador num período determinado, encurtando a duração da sua vida.” P. 301

“O valor da força de trabalho compreende o valor das mercadorias necessárias para reproduzir o
trabalhador ou seja para perpetuar a classe trabalhadora. Se o prolongamento da jornada contra as
leis naturais (o qual o capital necessariamente quer conseguir em seu impulso desmedido para
expandir seu valor) encurta a vida do trabalhador e com isso a duração da força de trabalho, torna-se
então necessária a mais rápida substituição dos elementos desgastados. Aumentam os custos de
desgaste na reprodução da força de trabalho. O mesmo ocorre com uma máquina: quanto mais
rápida ela se desgasta, tanto maior a proporção de valor a ser reproduzida diariamente. O interesse
do próprio capital parece indicar a conveniência da jornada normal de trabalho.” P. 301s

“A experiência mostra geralmente ao capitalista que existe uma população excedente, excedente em
relação às necessidades momentâneas do capital em expandir valor. Essa superpopulação,
entretanto, se compõe de gerações humanas atrofiadas, de vida curta, revezando-se rapidamente, por
assim dizer prematuramente colhidas. (...)O capital que tem tão “boas razões” para negar os
sofrimentos da geração de trabalhadores que o circundam, não se deixa influenciar, em sua ação
prática, pela perspectiva de degenerescência futura da humanidade e do irresistível despovoamento
final. (...)A queixa sobre a degradação física e mental, morte prematura, suplício do trabalhador
levado até a completa exaustão responde: Por que nos atormentarmos com esses sofrimentos, se
aumentam nosso lucro? De modo geral isto não depende, entretanto, de boa ou má vontade de cada
capitalista. A livre competição torna as leis imanentes da produção capitalista leis externas,
compulsórias para cada capitalista individualmente considerado.” P. 305ss

Capítulo IX – Taxa e Massa de Mais Valia

“Neste capítulo continuaremos supondo que o valor da força de trabalho e consequentemente a parte
do dia de trabalho necessária para reproduzir ou manter a força de trabalho são magnitudes
determinadas, constantes. Desse modo, basta conhecer a taxa da mais valia para se saber a
quantidade dela que o trabalhador individual fornece ao capitalista em determinado período. Se por
exemplo, o trabalho necessário é de 6 horas por dia, expressando-se em uma quantidade de ouro de
3 xelins = 1 taler, constitui o táler o valor diário de uma força de trabalho ou o valor do capital
adiantado para a compra de uma força de trabalho. E se a taxa de mais valia for de 100%, esse
capital variável de 1 táler produz uma massa de mais valia de 1 táler, ou o trabalhador fornece
diariamente uma quantidade de trabalho excedente de 6 horas. Mas, o capital variável é a expressão
monetária do valor global de todas as forças de trabalho simultaneamente empregadas pelo
capitalista. Seu valor é, portanto, igual ao valor médio de uma força de trabalho, multiplicado pelo
número das forças de trabalho empregadas. (...)Se o valor diário de uma força de trabalho = 1 táler,

                                                 24
para se explorar 100 forças de trabalho é necessário adiantar 100 táleres, e n forças de trabalho n
táleres.” p. 346s

“A massa de mais valia produzida é portanto igual à mais valia fornecida pelo dia de trabalho do
trabalhador individual, multiplicada pelo número dos trabalhadores empregados. Mas, uma vez que
a taxa da mais valia determina a quantidade de mais valia fornecida pelo trabalhador individual, se
for dado o valor da força de trabalho, segue-se daí a primeira lei: a massa de mais valia produzida é
igual à magnitude do capital variável antecipado, multiplicada pela taxa da mais valia, ou é igual ao
valor de uma força de trabalho, multiplicado pelo grau de sua exploração e pelo número das forças
de trabalho simultaneamente exploradas.” p. 347

“Do exame feito até agora sobre a produção da mais valia infere-se que não é qualquer quantidade
arbitrária de dinheiro ou de valor que se pode transformar em capital. Para essa transformação
pressupõe-se necessariamente certo mínimo de dinheiro ou de mercadorias. A quantidade mínima de
capital variável é o preço de custo de uma força individual de trabalho empregada durante o ano
inteiro, dia a dia, para produzir mais valia. (...)Certo estágio de desenvolvimento da produção
capitalista exige que o capitalista possa consagrar à apropriação, ao controle do trabalho alheio e à
venda dos produtos desse trabalho todo o tempo durante o qual funciona como capital personificado.
As corporações da Idade Média procuraram impedir coercivamente a transformação do mestre
artesão em capitalista, limitando a um mínimo o número máximo de trabalhadores que cada mestre
podia empregar. O possuidor de dinheiro ou de mercadorias só se transforma realmente em
capitalista quando a soma mínima adiantada para a produção ultrapassa de muito esse limite
medieval. (...)O montante mínimo de valor de que tem de dispor um possuidor de dinheiro ou de
mercadorias, para virar capitalista muda de acordo com os diferentes estágios da produção
capitalista e, em determinado estágio de desenvolvimento, difere nos diferentes ramos de produção,
segundo as condições técnicas de cada um. Certos ramos já exigem nas primeiras fases de produção
capitalista um mínimo de capital que não se encontra em mãos de indivíduos isolados. Isto faz
surgirem os subsídios oficiais a particulares, (...), e as sociedades com monopólio legal para explorar
determinados ramos industriais e comerciais, as precursoras das modernas sociedades por ações.” p.
352s

“Dentro do processo de produção conquistou o capital o comando sobre o trabalho, sobre a força de
trabalho em funcionamento ou seja, sobre o próprio trabalhador. O capital personificado, o
capitalista, cuida de que o trabalhador realize sua tarefa com esmero e com o grau adequado de
intensidade. O capital transforma-se, além disso, numa relação coercitiva, que força a classe
trabalhadora a trabalhar mais do que exige o círculo limitado das próprias necessidades. E como
produtor da laboriosidade alheia, sugador de trabalho excedente e explorador da força de trabalho, o
capital ultrapassa em energia, em descomedimento e eficácia todos os sistemas de produção
anteriores fundamentados sobre o trabalho compulsório direto. De início, o capital submete o
trabalho ao domínio nas condições técnicas em que o encontra históricamente. Não modifica
imediatamente o modo de produção. A produção da mais valia, na forma estudada até agora, por
meio de simples prolongamento do dia de trabalho, ocorreu, por isso, independente de qualquer
modificação no processo de produção” p. 354

“Se observarmos o processo de produção do ponto de vista do processo de trabalho, veremos que,
para o trabalhador, os meios de produção não são capital mas simples meios e materiais de sua
atividade adequada a um fim. (...)A situação muda de aspecto, quando observamos o processo de
produção do ponto de vista do processo de criar valor. Os meios de produção se transformam
imediatamente em meios de absorção de trabalho alheio. Não é mais o trabalhador que emprega os
meios de produção, mas os meios de produção que empregam o trabalhador.” p. 354s

                                                  25
Parte Quarta – A PRODUÇÃO DA MAIS VALIA RELATIVA

Capítulo X – Conceito de Mais Valia Relativa

“A parte do dia de trabalho que apenas produz um equivalente do valor que o capital paga pela força
de trabalho foi considerada, até agora, magnitude constante, o que ela realmente é em condições de
produção dadas, num determinado estágio de desenvolvimento econômico da sociedade. O
trabalhador podia continuar trabalhando 2, 3, 4, 6 e mais horas além desse tempo de trabalho
necessário. Nessas condições, a taxa da mais valia e a extensão da jornada de trabalho dependem da
duração desse prolongamento. Se o tempo de trabalho necessário era constante, o dia total de
trabalho era variável. Suponhamos agora uma jornada de trabalho cuja extensão e cuja repartição em
trabalho necessário e trabalho excedente sejam dadas. A linha a c, ou seja, a-b-c, representa, por
exemplo, um dia de trabalho de 12 horas, o segmento ab 10 horas de trabalho necessário e o
segmento bc 2 horas de trabalho excedente. Como aumentar a produção da mais valia, isto é, como
prolongar o trabalho excedente, sem prolongar ac ou independentemente de qualquer prolongamento
de ac?. (...)À prolongação do trabalho excedente corresponderá a redução do trabalho necessário, ou
parte do tempo de trabalho que o trabalhador até agora utilizava realmente em seu benefício
transforma-se em tempo de trabalho para o capitalista. O que muda não é a duração da jornada de
trabalho, mas seu modo de repartir-se em trabalho necessário e trabalho excedente.” p. 359s

“O valor da força de trabalho, isto é, o tempo de trabalho necessário para a produção dessa força,
determina o tempo de trabalho necessário para reproduzir o valor dela. Se uma hora de trabalho está
representada numa quantidade de ouro de meio xelim ou de 6 pence e se o valor diário da força de
trabalho é de 5 xelins, terá o trabalhador de trabalhar 10 horas por dia para repor o valor diário pago
pelo capital à sua F.T. ou para reproduzir um equivalente dos meios de subsistência necessários a
sua manutenção quotidiana. Como valor desses meios de subsistência necessários a sua manutenção
quotidiana. Como valor desses meios de subsistência se tem o valor de sua F.T. e dado o valor de
sua F.T. se tem a duração média diária do trabalho necessário. (...)Na verdade, o capitalista pode
pagar 4 xelins e 6 pence em lugar de 5 xelins ou mesmo menos. Para reproduzir esse valor de 4
xelins e 6 pence bastariam 9 horas de trabalho, aumentando o trabalho excedente(...). Mas esse
resultado só seria obtido rebaixando o salário do trabalhador aquém do valor de sua F.T.. (...)e assim
reproduzir-se-á de forma atrofiada sua F.T.. O trabalho excedente estaria aí prolongado com a
violação de seus limites normais, usurpando parte do tempo de trabalho necessário. Apesar do
importante papel que esse método desempenha no movimento real dos salários, ele não é aqui objeto
de consideração em virtude do pressuposto de as mercadorias serem vendidas e compradas pelo seu
valor integral, inclusive, portanto, a F.T.. Pressupondo-se isto, o tempo de trabalho necessário para
produzir a F.T. ou reproduzir seu valor não pode decrescer por cair o salário abaixo do valor da
F.T., mas por cair esse valor.” p. 360s

“Em nosso exemplo, o valor da F.T. deve diminuir realmente de 1/10, a fim de que o tempo de
trabalho necessário se reduza de 1/10, de 10 para 9 horas, prolongando-se assim o trabalho
excedente de 2 para 3 horas. Essa diminuição de 1/10 no valor da F.T. determina que se produza em
9 horas a mesma quantidade de meios de subsistência que antes se produzia em 10. Isto porém é
impossível sem aumentar a produtividade do trabalho. (...)Entendemos aqui por elevação da
produtividade do trabalho em geral uma modificação no processo de trabalho por meio da qual se
encurta o tempo de trabalho socialmente necessário para produção de uma mercadoria, conseguindo-
se produzir com a mesma quantidade de trabalho quantidade maior de valor-de-uso. Supôs-se o
modo de produção invariável no estudo da forma até agora considerada de mais valia. Mas quando
se trata de produzir mais valia tornando-se excedente trabalho necessário, não basta que o capital se

                                                  26
aposse do processo de trabalho na situação em que se encontra ou que lhe foi históricamente
transmitida, limitando-se a prolongar sua duração. É mister que se transformem as condições
técnicas e sociais do processo de trabalho, que muda o próprio modo de produção, a fim de
aumentar a força produtiva do trabalho. Só assim pode cair o valor da F.T. e reduzir-se a parte do
dia de trabalho necessária para reproduzir esse valor.” p. 361s

“Chamo de mais valia absoluta a produzida pelo prolongamento do dia de trabalho, e de mais valia
relativa a decorrente da contração do tempo de trabalho necessário e da correspondente alteração na
relação quantitativa entre ambas as partes componentes da jornada de trabalho. Para diminuir o valor
da F.T., tem o aumento da produtividade de atingir ramos industriais cujos produtos determinam o
valor da F.T., pertencendo ao conjunto dos meios de subsistência costumeiros ou podendo substituir
esses meios.” p. 363

“O valor de uma mercadoria não é determinado apenas pela quantidade de trabalho que lhe dá a
última forma, mas também pela quantidade de trabalho contida em seus meios de produção. O valor
de uma bota, por ex., não é determinado apenas pelo trabalho do sapateiro mas também pelo valor
do couro, da cêra, dos fios, etc.. Fazem cair também o valor da F.T. a elevação da produtividade e o
correspondente barateamento dos produtos nas indústrias que fornecem os elementos materiais do
capital constante, o instrumental e o material de trabalho, para produzir as mercadorias necessárias
ao trabalhador. Mas, em nada altera o valor da F.T. o aumento da produtividade nos ramos de
atividade que não fornecem nem esses meios de subsistência nem os meios de produção para
produzi-los.” p... 363


“A mercadoria que barateia diminui naturalmente o valor da F.T. apenas na proporção em que
participa na reprodução da F.T.. Camisas, por ex., constituem apenas uma entre muitas coisas
necessárias. A queda de seu preço só diminui a despesa do trabalhador em camisas. A totalidade das
coisas necessárias à vida compõe-se de diferentes mercadorias, oriundas de indústrias diferentes e o
valor de cada uma dessas mercadorias é uma parte alíquota de valor da F.T. (...)Se um capitalista,
individualmente barateia camisas, elevando a força produtiva do trabalho, não tem ele
necessariamente em mira reduzir em determinada percentagem o valor da F.T. e consequentemente
o tempo de trabalho necessário, mas na medida em que, por fim, contribui para esse resultado,
concorre para elevar a taxa geral da mais valia. As tendências gerais e necessárias do capital devem
ser distinguidas de suas formas de manifestação.” p. 363s

“Não examinaremos agora o modo como as leis imanentes da produção capitalista se manifestam no
movimento dos capitais particulares, como se impõem coercivamente na concorrência e surgem na
consciência de cada capitalista sob a forma de motivos que o impelem à ação. Mas, desde já, está
claro: a análise científica da concorrência é possível depois de se compreender a natureza íntima do
capital. (...)Não obstante, para tornar compreensível a produção da mais valia relativa passaremos a
fazer algumas considerações tomando por base os resultados a que chegamos até agora. Se uma hora
de trabalho está representada numa quantidade de ouro de 6 pence ou ½ xelim, numa jornada de
trabalho de 12 horas se produzirá um valor de 6 xelins. Admita-se que se produzam, com
determinada força produtiva de trabalho, doze artigos nessas 12 horas de trabalho; (...)suponha que o
capitalista consiga duplicar a força produtiva do trabalho produzindo 24 artigos da mesma espécie,
em vez de 12, na jornada de trabalho de 12 horas. (...)Apesar da força produtiva duplicada, um dia
de trabalho cria agora como antes um valor novo de 6 xelins, que todavia se reparte sobre o dobro
do número anterior de artigos. (...)O valor individual de cada uma dessas mercadorias fica então
abaixo de seu valor social, isto é, custa menos tempo de trabalho do que o imenso volume dos
mesmos artigos produzidos nas condições sociais médias. (...)O verdadeiro valor de uma

                                                 27
mercadoria, porém, não é o valor individual e sim social; (...)Se o capitalista que emprega o novo
método vende a mercadoria pelo valor social de 1 xelim, venda-la-á 3 pence acima de seu valor
individual e realizará assim uma mais valia extra de 3 pences. Além disso o dia de trabalho de 12
horas significa agora para ele 24 artigos e não 12. Para vender, portanto, o produto de um dia de
trabalho, precisa ele de duplicar as vendas ou de um mercado duas vezes maior. Não se alterando as
circunstâncias, suas mercadorias só conquistarão maior área do mercado, através da contração dos
preços. Por isso vendê-las-á acima do seu valor individual, mas abaixo do seu valor social,
(...)obtém ele ainda em cada artigo uma mais valia extra(...). Essa elevação da mais valia se verifica
para ele, pertença ou não sua mercadoria ao conjunto dos meios de subsistência necessários ao
trabalhador, seja ou não elemento determinante do valor da F.T.. Independentemente dessas
circunstâncias, existe, portanto, para cada capitalista motivo para baratear a mercadoria aumentando
a produtividade do trabalho. (...)O capitalista que emprega o modo de produção aperfeiçoado,
apropria-se assim de parte do dia de trabalho, constituída de trabalho excedente, maior do que
aquela de que se apropriam os demais capitalistas do mesmo ramo. Ele faz individualmente o que o
conjunto dos capitalistas fazem coletivamente, ao produzirem a mais valia relativa. Mas essa mais
valia extra se desvanece quando se generaliza o novo modo de produção, desaparecendo assim a
diferença entre o valor individual das mercadorias que eram produzidas mais baratas e seu valor
social. A mesma lei que determina o valor pelo tempo de trabalho e que leva o capitalista que aplica
o novo método a vender sua mercadoria abaixo do valor social impele seus competidores, coagidos
pela concorrência, a adotar o novo modo de produção. A taxa geral de mais valia só experimenta
alteração relacionada com o processo por inteiro quando a elevação da produtividade do trabalho
atinge ramos de produção, baixando preços de mercadorias que fazem parte do conjunto dos meios
de subsistência que constituem elementos do valor da F.T.” p. 364ss

“O valor das mercadorias varia na razão inversa da produtividade do trabalho. Comporta-se do
mesmo modo o valor da força de trabalho, por ser determinado pelos valores das mercadorias. Em
contraposição, a mais valia relativa varia na razão direta da produtividade do trabalho. (...)Por isso, é
impulso imanente e tendência constante do capital elevar a força produtiva do trabalho para baratear
a mercadoria e, como conseqüência , o
próprio trabalhador.”p.367

“O valor absoluto da mercadoria não interessa, por si mesmo, ao capitalista que a produz. Só lhe
interessa a mais valia nela inserida e realizável através da venda. A realização da mais valia já
pressupõe a reposição do capital adiantado. Uma vez que a mais valia relativa cresce na razão direta
do desenvolvimento da produtividade do trabalho e que o valor das mercadorias varia na razão
inversa desse desenvolvimento, uma vez que o mesmíssimo processo barateia as mercadorias e
eleva a mais valia nela contida, fica solucionado o mistério de o capitalista, preocupado apenas em
produzir valor-de-troca, esforça-se continuamente para baixar o valor-de-troca das mercadorias .”
p.368

“Poupança do trabalho por meio do desenvolvimento da produtividade do trabalho não tem como
fim atingir, na produção capitalista, a redução da jornada de trabalho. Seu objetivo é apenas reduzir
o tempo de trabalho requerido para produzir determinada quantidade de mercadoria. (...)O
desenvolvimento da produtividade do trabalho na produção capitalista tem por objetivo reduzir a
parte do dia de trabalho durante a qual o trabalhador tem de trabalhar para si mesmo, justamente
para ampliar a outra parte durante a qual pode trabalhar gratuitamente para o capitalista.” P.368s

Capítulo XI - Cooperação



                                                   28
“ (...) , a produção capitalista só começa realmente quando um mesmo capital particular ocupa , de
uma só vez , número considerável de trabalhadores , quando o processo de trabalho amplia sua
escala e fornece produtos em maior quantidade. A atuação simultânea de grande número de
trabalhadores, no mesmo local, ou, se se quiser, no mesmo campo de atividade, para produzir a
mesma espécie de mercadoria sob o comando do mesmo capitalista constitui, histórica e
logicamente, o ponto de partida da produção capitalista. Nos seus começos, a manufatura quase não
se distingue, do ponto de vista do modo de produção, do artesanato das corporações, a não ser
através do número maior de trabalhadores simultaneamente ocupados pelo mesmo capital. Amplia-
se apenas a oficina do mestre artesão. De início a diferença é puramente quantitativa. (...) Contudo,
dentro de certos limites, ocorre uma modificação. O trabalho que se objetiva em valor é trabalho de
qualidade social média, exteriorização de F.T. média. (...)A lei da produção do valor só se realiza
plenamente para o produtor individual quando produz como capitalista, empregando, ao mesmo
tempo, muitos trabalhadores, pondo em movimento, desde o começo, trabalho social médio. Mesmo
não se alterando o método de trabalho, o emprego simultâneo de grande número de trabalhadores
opera uma revolução nas condições materiais do processo de trabalho. Construções onde muitos
trabalham, depósitos para matéria-prima etc., recipientes, instrumentos, aparelhos etc. que servem a
muitos simultânea ou alternadamente, em suma, uma parte dos meios de produção é agora utilizada
em comum no processo de trabalho. O valor-de-troca das mercadorias e portanto dos meios de
produção não aumenta em virtude de maior exploração de seu valor-de-uso. Aumenta a escala dos
meios de produção utilizados em comum. Um local onde trabalham 20 tecelões com 20 teares deve
ser bem maior do que o local ocupado por um tecelão independente com 2 companheiros. Mas custa
menos trabalho construir uma oficina para 20 pessoas do que 10 oficinas, cada uma com capacidade
para 2 pessoas, e assim o valor dos meios de produção concentrados para uso em comum e em larga
escala não cresce na proporção em que aumenta seu tamanho e seu efeito útil. Meios de produção
utilizados em comum cedem porção menor de valor a cada produto isolado; (...). Essa economia no
emprego dos meios de produção esparsos e relativamente custosos de trabalhadores autônomos
isolados ou de pequenos patrões, mesmo quando os numerosos trabalhadores reunidos não se
ajudam reciprocamente, mas apenas trabalham no mesmo local. Uma parte do instrumental ou dos
meios de trabalho adquire esse caráter social antes que o processo de trabalho o conquiste.” P.370ss

“A economia dos meios de produção tem de ser considerada sob dois aspectos. Primeiro, barateia as
mercadorias, reduzindo desse modo o valor da F.T.. Segundo, altera a relação entre mais valia e
capital total adiantado, isto é, a soma de suas partes constante e variável. Esse último ponto será
examinado na parte primeira do livro terceiro desta obra , onde trataremos de vários outros assuntos
conexos. A marcha da análise exige essa dissociação da matéria , que corresponde ao espírito da
produção capitalista . Nesta, as condições de trabalho aparecem como se fossem independentes do
trabalhador; por isso, sua economia se apresenta como uma operação particular que em nada
interessa ao trabalhador e portanto distinta dos métodos que elevam sua produtividade pessoal.” P.
374

“Chama-se cooperação a forma de trabalho em que muitos trabalham juntos, de acordo com um
plano, no mesmo processo de produção ou em processos de produção diferentes mas conexos. O
poder de ataque de um esquadrão de cavalaria ou o poder de resistência de um regimento de
infantaria difere essencialmente da soma das forças individuais de cada cavalarino ou de cada
infante. Do mesmo modo, a soma das forças mecânicas dos trabalhadores isolados difere da força
social que se desenvolve quando muitas mãos agem simultaneamente na mesma operação indivisa ,
por ex. , quando é mister levantar uma carga, fazer girar uma pesada manivela ou remover um
obstáculo. O efeito do trabalho combinado não poderia ser produzido pelo trabalho individual, e só o
seria num espaço de tempo muito mais longo ou numa escala muito reduzida. Não se trata aqui da
elevação da força produtiva individual através da cooperação, mas da criação de uma forma

                                                 29
produtiva nova, a força coletiva. Pondo de lado a nova potência que surge da fusão de muitas forças
numa força comum, o simples contato social, na maioria dos trabalhos produtivos, provoca
emulação entre os participantes, animando-os e estimulando-os, o que aumenta a capacidade de
realização de cada um (...) .” p.374s

“Se pedreiros, por ex., formam uma fila para levar tijolos do pé do alto do andaime, cada um deles
faz a mesma coisa, mas seus atos individuais constituem partes integrantes de uma operação
conjunta, fases especiais que cada tijolo tem de percorrer no processo de trabalho (...). Também
ocorre a combinação de trabalho quando uma construção, por ex., é atacada ao mesmo tempo de
vários lados, embora os trabalhadores que cooperam realizem a mesma tarefa ou tarefas da mesma
espécie. (...) Concluem-se ao mesmo tempo diversas partes do produto que estão separados no
espaço. Quando os trabalhadores se completam mutuamente fazendo a mesma tarefa ou tarefas da
mesma espécie, temos a cooperação simples. Acentuamo-la porque ela desempenha importante
papel mesmo no estágio mais desenvolvido da cooperação. Se o processo de trabalho é complicado,
a simples existência de um número de cooperadores permite repartir as diferentes operações entre os
diferentes trabalhadores, de modo a serem executados simultaneamente, encurtando-se assim o
tempo de trabalho necessário para a conclusão de todas as tarefas. Em muitos ramos de produção há
momentos críticos, períodos fixados pela própria natureza do processo de trabalho e durante os quais
determinados resultados tem de ser atingidos. Se se trata de (...) ceifar e colher um campo de trigo a
quantidade e a qualidade do produto dependem de se iniciarem e se concluírem em tempos fixados
essas operações.” P. 375ss

“A cooperação permite ampliar o espaço no qual se realiza o trabalho, sendo exigida por certos
processos de trabalho em virtude da extensão do espaço em que se executa. È o que ocorre com a
drenagem, com a construção de diques, com obras de irrigação, canais, estradas, ferrovias, etc. Além
disso, ela possibilita que a produção, relativamente à sua escala, seja levada a cabo num espaço de
tempo menor. Essa redução do espaço de trabalho simultaneamente com a ampliação de sua
eficácia, com que se eliminam uma série de custos dispensáveis, torna-se possível com a
aglomeração dos trabalhadores, a conjunção de vários processos e a concentração dos meios de
produção.” P. 377s

“Ao cooperar com outros de acordo com um plano, desfaz-se o trabalhador dos limites de sua
individualidade e desenvolve a capacidade de sua espécie.” P. 378

“Se os trabalhadores não podem cooperar diretamente sem estar juntos, se sua aglomeração em
determinado local é condição da sua cooperação, não podem os assalariados cooperar sem que o
mesmo capital, o mesmo capitalista empregue-os simultaneamente, compre ao mesmo tempo suas
forças de trabalho. O valor total dessas forças de trabalho ou a soma dos salários dos trabalhadores
por dia, por semana etc., tem de estar no bolso do capitalista antes de as forças de trabalho se
reunirem no processo de produção. O pagamento, de uma vez, de 300 trabalhadores, mesmo por um
dia, representa maior dispêndio de capital que o pagamento de um número reduzido de
trabalhadores, semanalmente, durante o ano inteiro. Por isso, o número de trabalhadores que
cooperam ou a escala da cooperação depende, de início, da magnitude do capital que cada capitalista
pode empregar na compra de força de trabalho, isto é, na proporção em cada capitalista dispõe dos
meios de subsistência de numerosos trabalhadores. O que ocorre com o capital variável sucede com
a constante. As despesas de matérias-primas, para o capitalista que emprega 300 trabalhadores, são
trinta vezes maiores do que para cada um dos 30 capitalistas que emprega 10 trabalhadores. O valor
e a quantidade do instrumental de trabalho utilizado em comum não aumentam na mesma proporção
do número de trabalhadores empregados, mas aumentam consideravelmente. A concentração de
grandes quantidades de meios de produção em mãos de cada capitalista é portanto condição material

                                                 30
para a cooperação dos assalariados, e a extensão da cooperação ou a escala da produção depende da
amplitude dessa concentração.” P. 378s

“ (...) Com a cooperação de muitos assalariados, o domínio do capital torna-se uma exigência para a
execução do próprio processo de trabalho, uma condição necessária da produção. O comando do
capitalista no campo da produção torna-se então tão necessário quanto o comando de um general no
campo de batalha. Todo trabalho diretamente social ou coletivo, executado em grande escala, exige
com maior ou menor intensidade uma direção que harmonize as atividades individuais e preencha as
funções gerais ligadas ao movimento de todo o organismo produtivo, que difere do movimento de
seus órgãos isoladamente considerados. Um violinista isolado comanda a si mesmo, uma orquestra
exige um maestro. Essa função de dirigir, superintender e mediar assume-a o capital logo que o
trabalho a ele subordinado se torna cooperativo. Enquanto função específica do capital , adquire a
função de dirigir caracteres especiais.” P. 379s

“Antes de tudo, o motivo que impele e o objetivo que determina o processo de produção capitalista é
a maior expansão possível do próprio capital, isto é, a maior produção possível de mais valia,
portanto, a maior exploração possível da força de trabalho. Com a quantidade dos trabalhadores
simultaneamente empregados cresce sua resistência e com ela, necessariamente, a pressão do capital
para dominar essa resistência. (...)Se a direção capitalista é dúplice em seu conteúdo, em virtude da
dupla natureza do processo de produção a dirigir que, ao mesmo tempo, é processo de trabalho
social para produzir um produto e processo de produzir mais valia – ela é, quanto à forma,
despótica. À medida que a cooperação amplia sua escala, esse despotismo assume formas
peculiares. De início, o capitalista em germe liberta-se do trabalho manual quando seu capital atinge
aquela magnitude mínima em que começa a produção capitalista propriamente dita. Com o
desenvolvimento, o capitalista se desfaz da função de supervisão direta e contínua dos trabalhadores
isolados e dos grupos de trabalhadores, entregando-a a um tipo especial de assalariados. Do mesmo
modo que um exército, a massa de trabalhadores que trabalha em conjunto sob o comando do
mesmo capital precisa de oficiais superiores (dirigentes, gerentes) e suboficiais (contramestres,
inspetores, capatazes, feitores) , que, durante o processo de trabalho, comandam em nome do
capital. O trabalho de supervisão torna-se sua função exclusiva. (...) O capitalista não é capitalista
por ser dirigente industrial , mas ele tem o comando industrial porque é capitalista. O comando
supremo na indústria é atributo do capital, como no tempo feudal a direção da guerra e a
administração da justiça eram atributos da propriedade da terra.” P. 380ss

“O trabalhador é proprietário de sua força de trabalho quando a mercadeja; e só pode vender o que
possui, sua F.T. individual , isolada. Essa condição não se altera por comprar o capitalista 100 F.T.
em vez de uma (...). Ele pode utilizar os 100 trabalhadores sem submetê-los a um regime de
cooperação. (...)Sendo pessoas independentes, os trabalhadores são indivíduos isolados que entram
em relação com o capital, mas não entre si. Sua cooperação só começa no processo de trabalho, mas
depois de entrar neste deixam de pertencer a si mesmos. Incorporam-se então ao capital. Por isso, a
força produtiva que o trabalhador desenvolve como trabalhador social é a produtividade do capital.
(...) Nada custando ao capital a força produtiva do trabalho coletivo, não sendo ela por outro lado
desenvolvida pelo trabalhador antes de seu trabalho pertencer ao capital , fica parecendo que ela é
força produtiva natural e imanente do capital.” P. 382

“A poderosa força da cooperação simples se revela nas obras gigantescas realizadas pelos antigos
povos asiáticos, pelos egípcios, pelos etruscos, etc. (...)Esse poder dos reis asiáticos e egípcios ou
dos teocratas etruscos etc., transferiu-se na sociedade moderna para o capitalista, atue ele isolado ou
como capitalista coletivo em associações como a sociedade anônima .” p. 382s


                                                  31
“Se a força produtiva social desenvolvida pela cooperação aparece como força produtiva do capital,
a cooperação aparece como forma específica do processo de produção capitalista, em contraste com
o processo de produção dos trabalhadores isolados independentes ou mesmo de pequenos patrões. A
transformação que torna cooperativo o processo de trabalho é a primeira que esse processo
experimenta realmente ao subordinar-se ao capital. Seu pressuposto, emprego simultâneo de
numerosos assalariados no mesmo processo de trabalho, constitui o ponto de partida da produção
capitalista. (...) Em sua feição simples até agora observada, a cooperação coincide com a produção
em larga escala mas não constitui nenhuma forma fixa, característica de uma época especial de
desenvolvimento do modo capitalista de produção. Ostenta de leve essa aparência, no máximo,
quando ocorre o início artesanal da manufatura e naquela agricultura em grande escala que
corresponde ao período manufatureiro e se distingue, substancialmente, da economia camponesa
apenas pelo número dos trabalhadores empregados ao mesmo tempo e pela quantidade de meios de
produção concentrados num só empreendimento. A cooperação simples continua sendo sempre a
forma predominante nos ramos de produção em que o capital opera em grande escala, sem que a
divisão do trabalho ou a maquinaria desempenhe papel importante. A cooperação é a forma
fundamental do modo de produção capitalista. Na sua feição simples constitui o germe de espécies
mais desenvolvidas de cooperação, e continua a existir ao lado delas.” P. 384s

Capítulo XII – Divisão do Trabalho e Manufatura

1. Dupla Origem da Manufatura

“A cooperação fundada na divisão do trabalho adquire sua forma clássica na manufatura. Predomina
como forma característica do processo de produção capitalista durante o período manufatureiro
propriamente dito, que, a grosso modo, vai de meados do século XVI ao último terço do séc. XVIII .
A manufatura se origina de dois modos. Nasce quando são concentrados numa oficina, sob o
comando do mesmo capitalista, trabalhadores de ofícios diversos e independentes, por cujas mãos
tem de passar um produto até seu acabamento final. (...) Mas, a manufatura pode ter origem oposta.
O mesmo capital reúne ao mesmo tempo na mesma oficina muitos trabalhadores que fazem a
mesma coisa ou a mesma espécie de trabalho.” P. 386ss

“A manufatura portanto, se origina e se forma , a partir do artesanato, de duas maneiras. De um lado,
surge da combinação de ofícios independentes diversos que perdem sua independência e se tornam
tão especializados que passam a constituir apenas operações parciais do processo de produção de
uma única mercadoria. De outro, tem sua origem na cooperação de artífices de determinado ofício,
decompondo o ofício e suas diferentes operações particulares, isolando-as e individualizando-as
para tornar cada uma delas função exclusiva de um trabalhador especial. A manufatura, portanto, ora
introduz a divisão do trabalho num processo de produção ou a aperfeiçoa, ora combina ofícios
anteriormente distintos. Qualquer que seja, entretanto, seu ponto de partida, seu resultado final é o
mesmo: um mecanismo de produção cujos órgãos são seres humanos.” P. 388s

“Finalmente, a divisão manufatureira do trabalho é uma espécie particular de cooperação, e muitas
de suas vantagens decorrem não dessa forma particular, mas na natureza geral da cooperação.” P.
389

2. O trabalho parcial e sua ferramenta

“Descendo ao pormenor, vê-se, de início, que um trabalhador que, sua vida inteira, executa uma
única operação transforma todo o seu corpo em órgão automático especializado dessa operação. Por
isso, levará menos tempo em realizá-la que o artesão que executa toda uma série de diferentes

                                                 32
operações. (...) Também aperfeiçoa-se o método do trabalho parcial, depois que este se torna função
exclusiva de uma pessoa. (...) Havendo sempre diversas gerações de trabalhadores que vivem
simultaneamente e cooperam nas mesmas manufaturas, os artifícios técnicos assim adquiridos
firmam-se, acumulam-se e se transmitem.” P. 389s

“Um artífice que executa, uma após outra, as diversas operações parciais da produção de uma
mercadoria, é obrigado ora a mudar de lugar, ora a mudar de ferramenta. A passagem de uma
operação para outra interrompe o fluxo de seu trabalho e forma por assim dizer lacunas em seu dia
de trabalho. Essas lacunas somem quando executa o dia inteiro continuamente uma única operação,
ou desaparecem na medida em que diminuem as mudanças de operação.” P. 391

“A produtividade do trabalho depende não só da virtuosidade do trabalhador, mas também da
perfeição de suas ferramentas. Ferramentas da mesma espécie, como facas, perfuradores, ferrumas,
martelos etc., são utilizadas em diferentes processos de trabalho, e a mesma ferramenta se presta
para realizar operações diferentes no mesmo processo de trabalho. Mas, logo que as diversas
operações de um processo de trabalho se dissociam e cada operação parcial assume nas mãos do
trabalhador parcial a forma mais adequada possível e portanto exclusiva, tornam-se necessários
modificações nos instrumentos anteriormente utilizados para múltiplos fins. (...) O período
manufatureiro simplifica, aperfeiçoa e diversifica as ferramentas, adaptando-as às funções
exclusivas especiais do trabalhador parciais. Com isso cria uma das condições materiais para a
existência da maquinaria, que consiste numa combinação de instrumentos simples.” P. 391s

3. As duas formas fundamentais da manufatura – manufatura heterogênea e manufatura orgânica.

“ A manufatura se apresenta sob duas formas fundamentais. Embora se combinem eventualmente,
constituem duas espécies essencialmente diversas e desempenham papéis inteiramente distintos na
transformação posterior da manufatura na grande indústria baseada na maquinaria. Esse duplo
caráter decorre na natureza do artigo produzido. Ou o artigo se constitui pelo simples ajustamento
mecânico de produtos parciais independentes ou deve sua forma acabada a uma seqüência de
operações e manipulações conexas.” P. 392s

“O mecanismo específico do período manufatureiro é o trabalhador coletivo, constituído de muitos
trabalhadores parciais. As diferentes operações executadas sucessivamente pelo produtor de uma
mercadoria e que se entrelaçam no conjunto de seu produto de trabalho, apresentam-lhe exigências
diversas. Numa tem ele de desenvolver mais força, noutra mais destreza, numa terceira atenção mais
concentrada etc., e o mesmo indivíduo não possui no mesmo grau essas qualidades. (...) Se suas
peculiaridades naturais constituem a base em que se implanta a divisão do trabalho, desenvolve a
manufatura, uma vez introduzida, F.T. que por natureza só são aptas para funções especiais,
limitadas. (...) A estreiteza e as deficiências do trabalhador parcial tornam-se perfeições quando ele é
parte integrante do trabalhador coletivo. O hábito de exercer uma função única limitada transforma-
o naturalmente em órgão infalível dessa função, compelindo-o à conexão com o mecanismo global a
operar com a regularidade de uma peça de máquina.” P. 400s

“Em todo ofício de que se apossa, a manufatura cria uma classe de trabalhadores sem qualquer
destreza especial, os quais o artesanato punha totalmente de lado. Depois de desenvolver, até atingir
a virtuosidade, uma única especialidade limitada, sacrificando a capacidade total de trabalho do ser
humano, põe-se a manufatura a transformar numa especialidade a ausência de qualquer formação.
Ao lado da graduação hierárquica, surge a classificação dos trabalhadores em hábeis e inábeis. Para
os últimos não há custas de aprendizagem, e, para os primeiros, esses custos se reduzem em relação
às despesas necessárias para formar um artesão, pois a função deles foi simplificada. Em ambos os

                                                  33
casos, cai o valor da F.T.. A exceção é constituída pelas novas funções gerais resultantes da
decomposição do processo de trabalho, as quais não existiam no artesanato ou, quando existiam
desempenhavam papel inferior. A desvalorização relativa da força de trabalho, decorrente da
eliminação ou da redução dos custos de aprendizagem, redunda para o capital em acréscimo
imediato de mais valia, pois tudo o que reduz o tempo de trabalho necessário para reproduzir a F.T.
aumenta o domínio do trabalho excedente.” P. 401s

4. Divisão do trabalho na manufatura e divisão do trabalho na sociedade

“Considerando apenas o trabalho, podemos chamar a separação da produção social em grandes
ramos, agricultura , indústria etc., de divisão do trabalho em geral; a diferenciação desses grandes
ramos em espécies e variedades, de divisão do trabalho em particular e a divisão do trabalho numa
oficina, de divisão do trabalho individualizada, singularizada.” P. 402

“Constitui condição material para a divisão do trabalho na manufatura o emprego ao mesmo tempo
de certo número de trabalhadores. De maneira análoga, a divisão do trabalho na sociedade depende
da magnitude e densidade da população, que correspondem á aglomeração dos operários numa
oficina. Mas essa densidade é algo relativo. Um país relativamente pouco povoado com meios de
transporte desenvolvidos possui uma população mais densa do que um país mais povoado com
escassos meios de transporte, e a esse respeito os estados setentrionais da União americana são mais
densamente povoados do que a India.” P. 404

“Sendo a produção e a circulação de mercadorias condições fundamentais do modo capitalista de
produção, a divisão manufatureira do trabalho pressupõe que a divisão do trabalho na sociedade
tenha atingido certo grau de desenvolvimento. Reciprocamente, a divisão manufatureira do trabalho,
reagindo, desenvolve e multiplica a divisão social do trabalho. Com a diferenciação das ferramentas
diferenciam-se cada vez mais os ofícios que fazem essas ferramentas. (...)Se a manufatura se
apodera de um estágio particular de produção de uma mercadoria, os demais estágios de produção se
transformam em diversas indústrias independentes. (...)quando o artigo representa um ajustamento
puramente mecânico de produtos parciais, os trabalhos parciais podem desagregar-se e transformar-
se de novo em ofícios independentes. Para aperfeiçoar a divisão do trabalho na manufatura, o
mesmo ramo de produção é subdividido em manufaturas diversas, em grande parte inteiramente
novas, de acordo com as variedades de sua matéria-prima ou das formas que a mesma matéria-prima
pode assumir.” P. 404s

“Apesar das numerosas analogias e das conexões entre a divisão do trabalho na sociedade e a
divisão do trabalho na manufatura, há entre elas uma diferença não só de grau mas de substância.
(...) A divisão do trabalho na sociedade se processa através da compra e venda de produtos dos
diferentes ramos de trabalho, a conexão, dentro da manufatura, dos trabalhos parciais se realiza
através da venda de diferentes F.T. ao mesmo capitalista que as emprega como F.T. coletiva. A
divisão manufatureira do trabalho pressupõe concentração dos meios de produção nas mãos de um
capitalista, a divisão social do trabalho, dispersão dos meios de produção entre produtores de
mercadorias, independentes entre si.” P. 406s

“(...)O mesmo espírito burguês que louva, como fator de aumento da força produtiva, a divisão
manufatureira do trabalho, a condenação do trabalhador a executar perpetuamente uma operação
parcial e sua subordinação completa ao capitalista, com a mesma ênfase denuncia todo controle e
regulamentação sociais conscientes do processo de produção como um ataque aos invioláveis
direitos de propriedade, de liberdade e de iniciativa do gênio capitalista. É curioso que o argumento
mais forte até agora encontrado pelos apologistas entusiastas do sistema de fábrica, contra qualquer

                                                 34
organização geral do trabalho social, seja o de que esta transformaria toda a sociedade numa
fábrica.” P. 408

“Na sociedade em que rege o modo capitalista de produção, condicionam-se reciprocamente a
anarquia da divisão social do trabalho e o despotismo da divisão manufatureira do trabalho. Mas, em
antigas formas de sociedade em que a diferenciação dos ofícios se desenvolvem naturalmente,
cristalizando-se depois e fixando-se por fim legalmente, encontramos, de um lado, uma organização
social do trabalho, subordinada a um plano e a uma autoridade, e, do outro, a ausência total da
divisão do trabalho na oficina, ou sua existência numa escala mínima , ou seu desenvolvimento
apenas esporádico e acidental.” P. 408s

“As leis das corporações da Idade Média impediam metodicamente (...) a transformação de um
mestre artesão em capitalista, limitando severamente o número de companheiros que ele tinha o
direito de empregar. Também só lhe era permitido empregar companheiros no ofício que era mestre.
A corporação se defendia zelosamente contra qualquer intrusão no capital mercantil, a única forma
livre de capital com que se confrontava. O comerciante podia comprar todas as mercadorias, mas
não o trabalho como mercadoria. Só era tolerado como distribuidor dos produtos dos artesãos. Se
circunstâncias externas provocam progressiva divisão do trabalho, as corporações existentes se
subdividiam em subespécies ou se fundavam novas corporações junto às antigas, sem que diferentes
ofícios se reunissem numa única oficina. A organização corporativa excluía portanto a divisão
manufatureira do trabalho, embora muito contribuísse para as condições de existência desta ,
especializando, separando e aperfeiçoando os ofícios.” P. 411

“Enquanto a divisão social do trabalho, quer se processe ou não através da troca de mercadorias, é
inerente as mais diversas formações econômicas da sociedade, a divisão do trabalho na manufatura é
uma criação específica do modo de produção capitalista.” P. 411


5. Caráter capitalista da manufatura

“Um grande número de trabalhadores sob o comando de um mesmo capital é o ponto de partida
natural tanto da cooperação em geral quanto da manufatura. E a divisão manufatureira do trabalho
torna o incremento do número de trabalhadores empregados uma necessidade técnica. O mínimo de
trabalhadores que cada capitalista tem de empregar, é-lhe então prescrito pela divisão do trabalho
estabelecida. Por outro lado, as vantagens de uma divisão de maior porte depende de um acréscimo
do número de trabalhadores, que só se pode fazer por múltiplos. Crescendo o capital variável
aumenta necessariamente o capital constante, ampliando-se as condições comuns de produção, como
construções, fornos, etc., tem de aumentar principalmente a quantidade de matérias-primas e mais
rapidamente que o número de trabalhadores empregados.” P. 411s

“O organismo coletivo que trabalha , na cooperação simples ou na manufatura , é uma forma de
existência do capital. Esse mecanismo coletivo de produção compostos de numerosos indivíduos, os
trabalhadores parciais, pertence ao capitalista. A produtividade que decorre da combinação dos
trabalhos aparece, por isso, como produtividade do capital.” P. 412

“Originariamente , o trabalhador vendia sua F.T. ao capital por lhe faltarem os meios materiais para
produzir uma mercadoria. Agora , sua força individual de trabalho não funciona se não estiver
vendida ao capital. Ela só opera dentro de uma conexão que só existe depois da venda , no interior
da oficina do capitalista.” P. 413


                                                35
“O camponês e o artesão independentes desenvolvem, embora modestamente, os conhecimentos, a
sagacidade e a vontade, como o selvagem que exerce as artes de guerra apurando sua astúcia
pessoal. No período manufatureiro, essas faculdades passam a ser exigidas apenas pela oficina em
seu conjunto. (...) A divisão manufatureira do trabalho opôe-lhes as forças intelectuais do processo
material de produção como propriedade de outrem e como poder que os domina. Esse processo de
dissociação começa com a cooperação simples em que o capitalista representa diante do trabalhador
isolado a unidade e a vontade do trabalhador coletivo. Esse processo desenvolve-se na manufatura,
que mutila o trabalhador, reduzindo-o a uma fração de si mesmo, e completa-se na indústria
moderna, que faz da ciência uma força produtiva independente do trabalho, recrutando-a para servir
ao capital.” P. 413s

“A cooperação baseada na divisão do trabalho, ou seja, a manufatura, é nos seus começos uma
criação natural , espontânea. Ao adquirir certa consistência e base suficientemente ampla, torna-se a
forma consciente, metódica e sistemática do modo de produção capitalista.” P. 417

“Decompondo o ofício manual, especializando as ferramentas, formando os trabalhadores parciais,
grupando-os e combinando-os num mecanismo único, a divisão manufatureira do trabalho cria a
subdivisão qualitativa e a proporcionalidade quantitativa dos processos sociais de produção e, com
isso, desenvolve ao mesmo tempo nova força produtiva social do trabalho. A divisão manufatureira
do trabalho, nas bases históricas dadas, só poderia surgir sob forma especificamente capitalista.
Como forma capitalista do processo social de produção, é apenas um método especial de produzir
mais valia relativa ou de expandir o valor do capital, o que se chama de riqueza social, “ Wealth of
Nations” etc., às custas do trabalhador. Ela desenvolve a força produtiva do trabalho coletivo para o
capitalismo e não para o trabalhador e, além disso, deforma o trabalhador individual. Produz novas
condições de domínio do capital sobre o trabalho. Revela-se, de um lado, progresso histórico e fator
necessário do desenvolvimento econômico da sociedade, e, do outro, meio civilizado e refinado de
exploração.” P. 417s

“Durante o período manufatureiro propriamente dito, isto é, o período em que a manufatura era a
forma dominante do modo de produção capitalista , opunham-se a plena realização de suas
tendências obstáculos de diversa natureza. Embora, como vimos, ela criasse junto a estruturação
hierárquica dos trabalhadores uma divisão simples entre trabalhadores hábeis e inábeis, o número
dos inábeis ficou muito reduzido em virtude da influência predominantes dos hábeis. Embora
ajustasse as operações parciais aos diversos graus de maturidade, força e desenvolvimento dos seus
órgãos vivos de trabalho, o que levava a exploração de mulheres e crianças, chocava-se essa
tendência geralmente com os hábitos e a resistência do trabalhador adulto masculino. Embora a
decomposição do ofício manual reduzisse os custos de formação do trabalhador e em conseqüência
seu valor, continuava necessário um longo tempo de aprendizagem para o trabalho especializado
mais difícil , (...).” p. 420s

Capítulo XIII – A Maquinaria e a Industria Moderna

1. Desenvolvimento da maquinaria

“Na manufatura, o ponto de partida para revolucionar o modo de produção é a força de trabalho, na
indústria moderna, o instrumental de trabalho. É mister portanto investigar como o instrumental de
trabalho se transforma de ferramenta manual em máquina e assim fixar a diferença que existe entre a
máquina e a ferramenta. Interessam os grandes traços, as características gerais, pois, como ocorre
com as eras geológicas, não existem linhas de demarcação rigorosas separando as diversas épocas da
história da sociedade.” P. 424

                                                 36
“Toda maquinaria desenvolvida consiste de três partes essencialmente distintas: o motor, a
transmissão e a máquina ferramenta ou máquina de trabalho. O motor é a força motriz de todo o
mecanismo. Produz sua própria força motriz, como a máquina à vapor, a máquina a ar quente, a
máquina eletromagnética etc., ou recebe um impulso de uma força natural externa adrede preparada,
como a roda hidráulica, o impulso da água; as asas do moinho, a força do vento, etc. A transmissão é
constituída de volantes, eixos, rodas dentadas, turbinas, barras, cabos, cordas, dispositivos e
engrenagens de transmissão da mais variada espécie. (...)O motor e a transmissão existem apenas
para transmitir movimento à máquina-ferramenta que se apodera do objeto de trabalho e o
transforma de acordo com o fim desejado. É desta parte da maquinaria, a máquina-ferramenta, que
parte a revolução industrial no séc. XVIII.” P. 425s

“A máquina-ferramenta é portanto um mecanismo que, ao lhe ser transmitido o movimento
apropriado, realiza com suas ferramentas as mesmas operações que eram antes realizadas pelo
trabalhador com ferramentas semelhantes. Provenha a força motriz do homem ou de outra máquina,
a coisa não muda em sua essência. Quando a ferramenta propriamente dita se transfere do homem
para um mecanismo, a máquina toma o lugar da simples ferramenta. A diferença salta aos olhos,
mesmo quando o homem continua sendo o primeiro motor. O número de ferramentas com que o
homem pode operar ao mesmo tempo é limitada pelo números de seus instrumentos naturais de
produção, seus órgãos físicos.” P. 426s

“(...) ferramentas em que o homem desde o início agia como simples força motriz, ao fazer girar a
manivela de um moinho, ao tocar bomba para puxar água, ao mover o braço de um fole, ao bater
com um pilão etc., cedo deram origem à aplicação de animais, da água e do vento como forças
motrizes. As ferramentas dessa espécie, em parte no período manufatureiro e esporadicamente antes
dele, transformaram-se em máquinas, mas, apesar disso, não revolucionaram o modo de produção.
No período da indústria moderna torna-se claro que mesmo na sua forma manual já são máquinas.
(...) A própria máquina à vapor na forma em que foi inventada no fim do séc. XVII , durante o
período manufatureiro, e em que subsistiu até o começo da década dos 80 do séc. XVIII, não
provocou nenhuma revolução industrial. Foi, ao contrário, a criação das máquinas-ferramenta que
tornou necessário uma revolução na máquina a vapor. Quando o homem passa a atuar apenas como
força motriz numa máquina-ferramenta, em vez de atuar com a ferramenta sobre o objeto de
trabalho, podem tomar seu lugar o vento, a água, o vapor etc., e torna-se acidental o emprego da
força muscular humana como força motriz.” P. 427s

“A máquina da qual parte a revolução industrial substitui o trabalhador que maneja uma única
ferramenta por um mecanismo que ao mesmo tempo opera com certo número de ferramentas
idênticas ou semelhantes àquela, e é acionado por uma única força motriz, qualquer que seja sua
forma. Temos então a máquina mas ainda como elemento simples da produção mecanizada.” P.
428s

“O aumento do tamanho da máquina-ferramenta e do número de instrumentos com que opera ao
mesmo tempo exige um motor possante, que, para vencer a própria resistência, precisa de uma força
motriz superior à força humana. Além disso, a força humana é um instrumento muito imperfeito
para produzir um movimento uniforme e contínuo.” P. 429

“Só com a segunda máquina a vapor de Watt, a máquina rotativa de ação dupla, se encontrou um
motor que produzia sua própria força motriz, consumindo para isso carvão e água, com potência que
podia ser inteiramente controlada; um motor que podia ser transferido de um lugar para outro e
servir de meio de locomoção, utilizável na cidade e não exclusivamente no campo como a roda

                                                37
hidráulica, permitindo concentrar a produção nas cidades, em vez de dispersá-las pelo interior;
universal em sua aplicação tecnológica, pouco dependendo sua instalação das circunstâncias locais.”
P. 430s

“Depois que os instrumentos se transformam de ferramentas manuais em ferramentas incorporadas a
um aparelho mecânico, a máquina motriz, o motor, adquire uma forma independente, inteiramente
livre dos limites da força humana. Com isso, a máquina-ferramenta isolada que observamos até
agora, se reduz a um simples elemento da produção mecanizada. Uma máquina motriz, um motor,
pode agora impulsionar ao mesmo tempo muitas máquinas-ferramentas. Com o número das
máquinas-ferramenta impulsionadas ao mesmo tempo, aumenta o tamanho do motor e o mecanismo
de transmissão assume grandes proporções.” P. 431

“Temos então de distinguir duas coisas: a cooperação de muitas máquinas da mesma espécie e o
sistema de máquinas. No primeiro caso, o produto por inteiro é feito por uma máquina. Ela executa
as diversas operações que eram realizadas por um artesão com uma ferramenta por ex., um tecelão
com seu tear, ou que eram executadas em série por artesãos com diferentes ferramentas,
independentes uns dos outros ou como membros de uma manufatura. (citação pé de pag. –Não é o
trabalho, mas o instrumento de trabalho que serve de ponto de partida para a máquina.) (...) O
processo global , dividido e realizando na manufatura através das operações sucessivas passa a ser
executado por uma máquina-ferramenta, que opera através da combinação de diferentes ferramentas.
Essa máquina-ferramenta pode ser mera reprodução mecânica de um instrumento manual mais
complicado, ou uma combinação de instrumentos simples, diferentes, que tinham cada um uma
aplicação especial na manufatura. Nas duas modalidades teremos na fábrica e na oficina que
funciona com o emprego dessas máquinas, a cooperação simples. Pondo-se de lado o trabalhador,
ela se patenteia, antes de tudo, na aglomeração num mesmo local de máquinas-ferramenta da mesma
espécie, operando ao mesmo tempo. (...) Essas máquinas-ferramentas entre si independentes,
possuem, entretanto, uma unidade técnica: recebem impulso de um motor comum e esse impulso
lhes é transmitido por um mecanismo de transmissão que lhes é até certo ponto comum, uma vez
que dele parte uma ramificação particular para cada máquina-ferramenta. (...) Um verdadeiro
sistema de máquinas só toma o lugar das máquinas independentes quando o objeto de trabalho
percorre diversos processos parciais conexos, levados a cabo por um conjunto de máquinas-
ferramenta de diferentes espécies, mas que se completam reciprocamente. Reaparece então a
cooperação peculiar à manufatura baseada na divisão do trabalho, mas agora sob a forma de
combinação de máquinas-ferramenta parciais, complementares.” P.431ss

“Quando a máquina-ferramenta, ao transformar a matéria-prima, executa sem ajuda humana todos
os movimentos necessários, precisando apenas da vigilância do homem para uma intervenção
eventual, temos um sistema automático, suscetível , entretanto, de contínuos aperfeiçoamentos.” P.
434s

“A produção mecanizada encontra sua forma mais desenvolvida no sistema orgânico de máquinas-
ferramenta combinadas que recebem todos os seus movimentos de um autômato central e que lhes
são transmitidos por meio do mecanismo de transmissão. Surge, então, em lugar de máquina isolada,
um monstro mecânico que enche edifícios inteiros e cuja força demoníaca se disfarça nos
movimentos ritmados quase solenes de seus membros gigantescos e irrompe no turbilhão febril de
seus inumeráveis órgãos de trabalho.” P. 435

“Na manufatura, cada operação parcial tem de ser executável manualmente pelos operários,
trabalhando isolados ou em grupos, com suas ferramentas. Se o trabalhador é incorporado a
determinado processo foi este antes ajustado ao trabalhador. Na produção mecanizada desaparece

                                                38
esse princípio subjetivo da divisão do trabalho. Nela o processo por inteiro é examinado
objetivamente em si mesmo, em suas fases componentes e o problema de levar a cabo cada um dos
processos parciais e de entrelaçá-los é resolvido com a aplicação técnica da mecânica, da química
etc., embora a teoria tenha sempre de ser aperfeiçoada pela experiência acumulada em grande
escala. Cada máquina parcial fornece matéria-prima à máquina seguinte. Funcionando todas elas no
mesmo tempo, o produto encontra-se continuamente em todas as suas fases de transição, em todos
os estágios de sua fabricação. (...) Na manufatura, o isolamento dos processos parciais é um
princípio fixado pela própria divisão do trabalho; na fábrica mecanizada, ao contrário é imperativa a
continuidade dos processos parciais.” P. 435s


“Havia máquinas de fiar, máquinas a vapor, etc., antes de existirem trabalhadores cuja ocupação
exclusiva fosse a de fazer máquinas a vapor, máquinas de fiar etc., do mesmo modo que o homem já
se vestia antes de haver alfaiates. As invenções de Vancanson, Arkwright, Watt e outros só puderam
concretizar-se, porque eles encontraram à mão um número apreciável de hábeis trabalhadores
mecânicos, que vieram do período manufatureiro. (...) Com a influência das invenções e a procura
crescente das novas máquinas inventadas, cada vez mais se diferenciava em ramos autônomos
diversos a produção de máquinas e se desenvolvia a divisão do trabalho nas manufaturas que
construíam máquinas. A manufatura se constitui assim em base técnica imediata da indústria
moderna. A primeira produzia a maquinaria com que a segunda eliminava o artesanato e a
manufatura nos ramos de produção de que se apoderava.” P. 435s

“A revolução no modo de produção de um ramo industrial acaba se propagando a outros. É o que se
verifica principalmente nos ramos industriais que constituem fases de um processo global, embora
estejam isolados entre si pela divisão social do trabalho, de modo que cada um produz uma
mercadoria independente. (...) A revolução no modo de produção da indústria e da agricultura
tornou sobretudo necessária uma revolução nas condições gerais do processo social de produção,
isto é, nos meios de comunicação e de transporte. (...) Do mesmo modo, os meios de transporte e de
comunicação, legados pelo período manufatureiro, logo se tornaram obstáculos insuportáveis para a
indústria moderna com sua velocidade febril de produção em grande escala, seu contínuo
deslocamento de massas de capital e de trabalhadores de um ramo de produção para outro e com as
novas conexões que criou no mercado mundial. (...) Mas as massas gigantescas de ferro que tinham
então de ser forjadas, soldadas, cortadas, brocadas e moldadas, exigiam máquinas ciclópicas cuja
produção não se poderia conseguir através dos métodos da manufatura. A indústria moderna teve
então de apoderar-se de seu instrumento característico de produção, a própria máquina, e de
produzir máquinas com máquinas. Só assim criou ela sua base técnica adequada e ergueu-se sobre
seus próprios pés. Com a produção mecanizada crescente das primeiras décadas do séc. XIX,
apoderou-se a maquinaria progressivamente da fabricação das máquinas-ferramentas. Mas só
durante as últimas décadas (que precedem 1866), a enorme construção de ferrovias e a navegação
transatlântica fizeram surgir as máquinas ciclópicas empregadas na construção de motores.” P. 437s

“A condição de produto mais essencial para a fabricação de máquinas com máquinas era um motor
capaz de desenvolver qualquer potência e perfeitamente controlável. Ele já existia na máquina a
vapor. Mas ao mesmo tempo, era necessário produzir mecânicamente as formas rigorosamente
geométricas necessárias às diversas partes componentes da máquina: linha, plano, círculo, cilindro,
cone e esfera. Henry Mandslay resolvera esse problema, na primeira década do séc. XIX,
inventando a esfera de tôrno (slide rest), que logo se tornou um dispositivo automático, e, em forma
modificada, se adaptou a outras máquinas construtoras além do tôrno para a qual fôra
primitivamente destinada. Esse dispositivo mecânico não substitui uma ferramenta qualquer, mas a


                                                 39
própria mão humana, que cria uma forma determinada no material de trabalho;(...)Conseguiu-se
assim, produzir as formas geométricas das partes componentes da máquina.” P. 438

“Se atentamos, na construção de máquinas, para a parte da maquinaria que constitui a máquina-
ferramenta propriamente dita, vemos que nesta reaparece o instrumento do artesão, mas em tamanho
ciclópico.” P.439

“ O instrumental de trabalho, ao converter-se em maquinaria, exige a substituição da força humana
por forças naturais e da rotina empírica pela aplicação consciente da ciência. Na manufatura, a
organização do processo de trabalho é puramente subjetiva, uma combinação de trabalhadores
parciais. No sistemas de máquinas, tem a indústria moderna o organismo de produção inteiramente
objetiva que o trabalhador encontra pronto e acabado como condição material da produção. Na
cooperação simples e mesmo na cooperação fundada na divisão do trabalhador, a supressão do
trabalhador individualizado pelo trabalhador coletivizado parece ainda algo mais ou menos
contingente. A maquinaria, com exceções a mencionar mais tarde, só funciona por meio de trabalho
diretamente coletivizado ou comum. O caráter cooperativo do processo de trabalho torna-se uma
necessidade técnica imposta pela natureza do próprio instrumental de trabalho.” P. 439s


   2. Valor que a maquinaria transfere ao produto

“Vimos que nada custam ao capital as forças produtivas que derivam da cooperação e da divisão do
trabalho. São as forças naturais do trabalho social. Também nada custam as forças naturais, como
vapor e água, incorporados aos processos produtivos. Assim como o homem para respirar precisa de
um pulmão, para consumir produtivamente as forças naturais precisa de algo criado pelo seu
esforço. Para explorar a força motriz da água, é necessário uma roda hidráulica e para explorar a
elasticidade do vapor, uma máquina a vapor.” P. 440

“Conforme vimos, a ferramenta não é suprimida pela máquina: de um instrumento diminuto do
organismo humano ela se amplia e se multiplica no instrumental de um mecanismo criado pelo
homem. O capital faz o operário trabalhar agora não com a ferramenta manual, mas com a máquina
que maneja os próprios instrumentos. (...)Como qualquer outro elemento do capital constante, as
maquinas não criam valor, mas transferem seu próprio valor ao produto para cuja feitura
contribuem. Enquanto a máquina possui valor e consequentemente transfere valor ao produto, ela
constitui um componente do valor do produto. (...)De início, é mister observar que as máquinas
entram por inteiro no processo de trabalho e apenas por partes no processo de formação do valor.
Nunca acrescentam mais valor do que o que perdem com seu desgaste médio. Há portanto grande
diferença entre o valor da máquina e a parte do valor que ela transfere periódicamente ao produto.
Há uma grande diferença entre o papel que a máquina desempenha na formação do valor do produto
e o que desempenha na formação do produto.” P. 440s

“Quanto maior a força produtiva das máquinas em relação à dos instrumentos manuais, tanto maior
o serviço gratuito que prestam em comparação com o que se obtém desses instrumentos. Só com a
indústria moderna aprende o homem a fazer o produto do seu trabalho passado, o trabalho já
materializado, operar em grande escala, gratuitamente, como se fosse uma força natural.” P. 442

“Na cooperação e na manufatura, as condições gerais de produção, como edifícios, utilizados em
comum, se tornam menos onerosas, em comparação com as condições dispersas dos trabalhadores
isolados, ocorrendo por isso redução do preço do produto. Na maquinaria não só o corpo da


                                               40
máquina-ferramenta é utilizado por muitas ferramentas, mas também o mesmo motor, com uma
parte do mecanismo de transmissão, é consumido por muitas máquinas-ferramenta.” P. 442

“Enquanto o custo de trabalho da máquina e consequentemente o valor por ela transferido ao
produto for menor que o valor que o trabalhador adiciona ao objeto de trabalho, com sua ferramenta,
haverá sempre uma diferença de trabalho economizado em favor da máquina. A produtividade da
máquina mede-se, por isso, pela proporção em que ela substitui força de trabalho do homem.” P.
445

“Do ponto de vista exclusivo de baratear o produto, a aplicação da máquina deve conter-se dentro do
limite em que sua própria produção exija menos trabalho que o que ela substitui com sua aplicação.
Para o capital, entretanto, o limite é mais apertado. Uma vez que não paga o trabalho empregado,
mas o valor da força de trabalho utilizada, a aplicação da maquinaria, para o capital, fica limitada
pela diferença entre o valor da máquina e o valor da F.T. que ela substitui. (...)Em velhos países
civilizados, a aplicação da máquina em alguns ramos provoca tal excesso de oferta de trabalho em
outros ramos, que nestes a queda do salário abaixo do valor da F.T. impede a aplicação das
máquinas, tornando-a muitas vezes impossível, supérflua, do ponto de vista do capital cujo lucro
deriva não da diminuição do trabalho empregado mas da diminuição do trabalho pago.” P. 447s

   3. Conseqüências imediatas da produção mecanizada sobre o trabalhador

   a) Apropriação pelo capital das forças de trabalho suplementares. O trabalho das mulheres e das
   crianças.

“Tornando supérflua a força muscular, a maquinaria permite o emprego de trabalhadores sem força
muscular ou com o desenvolvimento físico incompleto mas com membros mais flexíveis. Por isso, a
primeira preocupação do capitalista ao empregar a maquinaria, foi a de utilizar o trabalho das
mulheres e das crianças. Assim, de poderoso meio de substituir trabalho e trabalhadores, a
maquinaria transformou-se imediatamente em meio de aumentar o número de assalariados,
colocando todos os membros da família do trabalhador, sem distinção de sexo e idade, sob o
domínio direto do capital. O trabalho obrigatório para o capital tomou o lugar dos folguedos infantis
e do trabalho livre realizado, em casa, para a própria família, dentro de limites estabelecidos pelos
costumes. O valor da força de trabalho era determinado não pelo tempo de trabalho necessário para
manter individualmente o trabalhador adulto, mas pelo necessário a sua manutenção e à de sua
família. Lançando a máquina todos os membros da família do trabalhador no mercado de trabalho,
reparte ela o valor da força de trabalho do homem adulto pela família inteira. Assim desvaloriza a
F.T. do adulto. A compra, por ex., de 4 horas de trabalho componentes de uma família talvez custe
mais que a aquisição, anteriormente, da F.T. do chefe da família, mas em compensação se obtém 4
jornadas de trabalho em lugar de 1, e o preço da F.T. cai na proporção em que o trabalho excedente
dos quatro ultrapassa o trabalho excedente de um. (...) Desse modo, a máquina ao aumentar o campo
específico de exploração do capital, o material humano, amplia, ao mesmo tempo, o grau de
exploração.” P. 450s

   b) Prolongamento da jornada de trabalho

“ Se a maquinaria é o meio mais poderoso para aumentar a produtividade do trabalho, isto é, para
diminuir o tempo de trabalho necessário à produção de uma mercadoria, em mãos do capital torna-
se ela, de início nos ramos industriais de que diretamente se apodera, o meio mais potente para
prolongar a jornada de trabalho além de todos os limites estabelecidos pela natureza humana. A
maquinaria gera novas condições que capacitam o capital a dar plena vazão a essa tendência

                                                 41
constante que o caracteriza, e cria novos motivos para aguçar-lhe a cobiça por trabalho alheio. Antes
de tudo, o movimento e a atividade do instrumental de trabalho se tornam, com a maquinaria,
independentes do trabalhador. O instrumental passa a ser animado por um movimento perpétuo e
produziria ininterruptamente se não fosse tolhido por certas limitações naturais dos auxiliares
humanos, a debilidade física e os caprichos.” P. 459s

“A produtividade da maquinaria, conforme vimos, está na razão inversa do valor que ela transfere ao
produto. Quanto maior o período em que funciona, tanto maior a quantidade de produtos em que se
reparte o valor transferido pela máquina, e tanto menor a porção de valor que acrescenta a cada
mercadoria em particular. O período de vida ativa da máquina é evidentemente determinado pela
duração do dia de trabalho ou do processo diário de trabalho, multiplicada pelo número de dias em
que esse processo se repete.” P. 460s

“A máquina experimenta duas espécies de desgaste. Um decorre de seu uso, como moedas que se
gastam na circulação; outro provém da inação, como a espada inativa que enferruja na bainha. Esta é
a deterioração causada pelos elementos. O desgaste da primeira espécie está em relação mais ou
menos direta, e o segundo, até certo ponto, na razão inversa do uso da maquinaria. Mas a máquina
experimenta ainda, além do material, o desgaste moral. Perde valor-de-troca na medida em que se
podem reproduzir mais barato máquinas da mesma construção ou fazer melhores máquinas que com
ela concorram. Em ambos os casos, por mais nova e forte que seja a máquina, seu valor não é mais
determinado pelo tempo de trabalho que nela realmente se materializou, mas pelo tempo de trabalho
necessário para produzir ela mesma ou uma máquina melhor. Quanto mais curto o período em que
se reproduz seu valor global, tanto menor o perigo de desgaste moral, e quanto maior a duração da
jornada de trabalho, tanto mais curto aquele período. Quando se introduz a maquinaria, pela
primeira vez, em qualquer ramo industrial, aparecem, sucessivamente, novos métodos para
reproduzi-la mais barato e aperfeiçoamentos que atingem não só partes e dispositivos determinados,
mas sua construção inteira. É por isso na primeira fase de sua existência, que esse motivo especial
influi de maneira mais poderosa no sentido de prolongar a jornada de trabalho.” P. 461s

“Fixando-se a duração diária do trabalho e permanecendo invariáveis as demais circunstâncias, a
exploração do dobro do número de trabalhadores exige duplicação da parte do capital constante
empregada na maquinaria e construções e também da parte empregada em matérias-primas,
materiais auxiliares, etc. . Prolongada a duração diária do trabalho, amplia-se a escala da produção,
permanecendo invariável a parte do capital despendida em maquinaria e construções. Aumenta
então a mais valia, ao mesmo tempo que diminuem os gastos necessários para obtê-la. É verdade
que isso ocorre em maior ou menor grau, com qualquer prolongamento do dia de trabalho, mas essa
ocorrência é mais decisiva na industria moderna, porque a parte do capital que se transforma em
instrumental de trabalho é nela mais preponderante. O desenvolvimento da produção mecanizada dá
a uma parte cada vez maior do capital uma forma em que ele pode continuamente expandir seu valor
e, ao mesmo tempo, perde valor-de-troca e valor-de-uso, logo que se interrompe seu contato com o
trabalho vivo.” P. 462s

“A máquina produz mais valia relativa diretamente, ao depreciar a força de trabalho, indiretamente,
ao baratear as mercadorias que entram na produção dessa força, e, ainda, em suas primeiras
aplicações esporádicas, transformando em trabalho potenciado, de maior eficácia, o trabalho
empregado, ficando o valor individual de seu produto inferior ao social e capacitando o capitalista a
cobrir o valor diário da F.T. com menor porção de valor do produto diário. Nesse período de
transição em que a produção mecanizada assume o aspecto de monopólio, os lucros são
extraordinariamente altos e o capitalista procura explorar ao máximo essa lua-de-mel, prolongando
ao máximo possível o dia de trabalho.” P. 463s

                                                 42
“A aplicação capitalista da maquinaria cria motivos novos e poderosos para efetivar a tendência de
prolongar sem medida o dia de trabalho e revoluciona os métodos de trabalho e o caráter do
organismo de trabalho coletivo de tal forma que quebra a oposição contra aquela tendência. Demais,
ao recrutar para o capital camadas da classe trabalhadora que antes lhe eram inacessíveis e ao
dispensar trabalhadores substituídos pelas máquinas, produz uma população trabalhadora excedente,
compelida a submeter-se à lei do capital. Daí esse estranho fenômeno da indústria moderna: a
máquina põe abaixo todos os limites morais e naturais da jornada de trabalho. Daí o paradoxo
econômico que torna o mais poderoso meio de encurtar o tempo de trabalho no meio mais infalível
de transformar todo o tempo de vida do trabalhador e de sua família em tempo de trabalho de que
pode lançar mão o capital para expandir seu valor.” P. 465

“ E Antípatros, um poeta grego do tempo de Cícero, saúda a invenção do moinho de água para moer
o trigo, forma elementar de toda maquinaria produtiva, como a aurora libertadora das escravas e
restauradora da idade do ouro. Ah! Esses pagãos! Nada entendiam de economia política nem de
cristianismo, de acordo com a descoberta do avisado Bastiat e, antes dele, do mais sagaz ainda
MacCulloch. Entre outras coisas, eles não entendiam que a máquina fosse o meio mais eficiente de
prolongar a jornada de trabalho. Desculpavam, talvez, a escravatura de uns para assegurar o pleno
desenvolvimento humano de outros. Mas, pregar a escravatura das massas, para transformar alguns
parvenus grosseiros e semicultos em “eminentes industriais de fiação”, “grandes fabricantes de
salchichas” e “prestigiosos comerciantes de graxa”, era uma tarefa para a qual não possuíam a
necessária bossa cristã.” P. 465s

   c) Intensificação do trabalho

“O prolongamento desmedido da jornada de trabalho, produzido pela maquinaria nas mãos do
capital, ao fim de certo tempo provoca, conforme já vimos, uma reação da sociedade que, ameaçada
em suas raízes vitais, estabelece uma jornada normal de trabalho, legalmente limitado. Em
conseqüência dessa limitação, assume decisiva importância um fenômeno que já examinamos, a
intensificação do trabalho. (...)É claro que, ao expandir-se a aplicação da maquinaria e ao acumular-
se a experiência de uma classe especial de trabalhadores a ela ajustados, aumenta naturalmente a
velocidade do trabalho e em conseqüência sua intensidade. (...)Compreende-se, entretanto, que, num
trabalho que não se caracteriza por auges espasmódicos mas pela uniformidade cada dia
invariavelmente repetida, há de se chegar a um ponto em que se excluem a extensão e a intensidade
do trabalho, de modo que o prolongamento da jornada só se possa combinar com trabalho de
intensidade mais fraca, e um grau maior de intensidade apenas com uma jornada de trabalho
menor.(...) Essa redução, com o poderoso impulso que dá ao desenvolvimento da força produtiva e à
poupança das condições de produção, impõe ao trabalhador maior dispêndio de trabalho no mesmo
espaço de tempo, mais elevada tensão da F.T., preenchimento mais denso dos poros da jornada, em
suma, um tal grau de condensação do trabalho que só pode ser alcançado reduzindo-se o dia de
trabalho. Essa compressão de massa maior de trabalho num período dado significa, então, o que
realmente é: maior quantidade de trabalho. O tempo de trabalho é medido agora de duas maneiras,
segundo sua extensão, sua duração e segundo seu grau de condensação, sua intensidade.” P. 466s

“O primeiro efeito da jornada de trabalho diminuída decorre dessa lei evidente: a capacidade de
operar a F.T. está na razão inversa do tempo em que opera. Por isso, dentro de certos limites, o que
se perde em duração, ganha-se em eficácia. Através do método de retribuição (citação rodapé: Por
meio do salário por peça ou tarefa, forma que será examinada na parte VI deste livro), o capital
induz o trabalhador a empregar realmente maior F.T. .” p. 468


                                                 43
“A redução da jornada cria de início a condição subjetiva para intensificar o trabalho, capacitando o
trabalhador a empregar mais força num tempo dado. Quando essa redução se torna legalmente
obrigatória, transforma-se a máquina nas mãos do capital em instrumento objetivo e
sistematicamente empregado para extrair mais trabalho no mesmo espaço de tempo. É o que se
obtém de duas maneiras: aumentando a velocidade da máquina e ampliando a maquinaria a ser
vigiada por cada trabalhador, ou seja, seu campo de trabalho. É necessário aperfeiçoar a construção
das máquinas para exercer maior pressão sobre o trabalhador. Aliás esse aperfeiçoamento corre
paralelo com a intensificação do trabalho, pois a redução da jornada de trabalho força o capitalista a
administrar de maneira mais severa os custos de produção.” P. 470

“Não existe a menor dúvida que a tendência do capital, com a proibição legal definitiva de prolongar
a jornada de trabalho, é de compensar-se com a elevação sistemática do grau de intensidade do
trabalho e converter todo aperfeiçoamento da maquinaria em meio para absorver maior quantidade
de F.T.. Essa tendência logo atingirá um ponto crítico em que será inevitável nova redução das horas
de trabalho.” P.476

   4. A Fábrica

“ No começo deste capítulo, estudamos o corpo da fábrica, a estrutura do sistema de máquinas.
Vimos então como a maquinaria aumenta o material humano explorável pelo capital, ao apropriar-se
do trabalho das mulheres e das crianças, como confisca a vida inteira do trabalhador, ao estender
sem medida a jornada de trabalho, e como o seu progresso, que possibilita enorme crescimento da
produção em tempo cada vez mais curto, serve de meio para extrair sistematicamente mais trabalho
em cada fração de tempo, ou seja, de explorar cada vez mais intensivamente a F.T. .” p. 477

“Com a ferramenta que se transfere à máquina segue a virtuosidade desenvolvida pelo trabalhador
em seu manejo. A eficácia da ferramenta emancipa-se dos limites pessoais da força humana. Desse
modo, desaparece a base técnica em que se fundamentava a divisão manufatureira do trabalho. A
hierarquia dos trabalhadores especializados que a caracteriza é substituída, na fábrica automática,
pela tendência de igualar ou nivelar os trabalhadores que os auxiliares das máquinas tem de
executar; as diferenças artificiais entre os trabalhadores parciais são predominantemente substituídas
pelas diferenças naturais de idade e sexo.” P. 480

“Quando a divisão do trabalho reaparece na fábrica automática, ela é, antes de tudo, distribuição dos
trabalhadores pelas diferentes máquinas especializadas, e das massas de trabalhadores, que não
formam grupos específicos, pelas seções da fábrica, em cada uma das quais trabalham em máquinas
da mesma espécie, juntas umas das outras, em regime portanto de cooperação simples. O grupo
organizado da manufatura é substituído pela conexão entre o trabalhador principal e seus poucos
auxiliares. A distinção essencial ocorre entre os trabalhadores que estão realmente ocupados com as
máquinas-ferramentas (inclusive alguns trabalhadores que tomam conta da máquina motriz e a
alimentam) e seus auxiliares (que são quase exclusivamente crianças). Entre os auxiliares podem ser
incluídos os que alimentam a máquina com o material a ser trabalhado. Ao lado dessas duas classes
principais, há um pessoal pouco numeroso, que se ocupa com o controle de toda a maquinaria e a
repara continuamente, como os engenheiros, mecânicos, marceneiros, etc. É uma classe de
trabalhadores de nível superior, uns possuindo formação científica, outros dominando um ofício;
distinguem-se dos trabalhadores de fábrica, estando apenas agregados a eles. Sua divisão de trabalho
é puramente técnica.” P. 480s

“Para trabalhar com máquinas, o trabalhador tem de começar sua aprendizagem muito cedo, a fim
de adaptar seu próprio movimento ao movimento uniforme e contínuo de um autômato. Quando a

                                                 44
maquinaria, como um todo, forma um sistema de máquinas diferentes, operando simultâneas e
combinadas, exige a cooperação nela baseada uma distribuição das diferentes espécies de máquinas.
Mas a produção mecanizada elimina a necessidade que havia na manufatura, de cristalizar essa
distribuição anexado permanentemente o mesmo trabalhador à mesma função. Não partindo do
trabalhador o movimento global da fábrica, mas da máquina, pode-se mudar o pessoal a qualquer
hora sem interromper o processo de trabalho. (...)Finalmente, a velocidade com que os menores
aprendem a trabalhar à máquina elimina a necessidade de se preparar uma classe especial de
trabalhadores para operar exclusivamente com as máquinas. Os serviços de simples auxiliares
podem, até certo ponto, ser substituídos por máquinas, e, em virtude de sua extrema simplicidade,
permitem que se mude a qualquer momento o pessoal atribulado com sua execução.” P. 481s

“Embora a maquinaria, técnicamente, lance por terra o velho sistema da divisão do trabalho,
continua ele a sobreviver na fábrica como costume tradicional herdado na manufatura, até que o
capital o remodela e consolida de forma mais repugnante como meio sistemático de explorar a F.T..
A especialidade de manejar uma ferramenta parcial, uma vida inteira, se transforma na
especialização de servir sempre a uma máquina parcial. Utiliza-se a maquinaria, para transformar o
trabalhador, desde a infância, em parte de uma máquina parcial. Assim, não só se reduzem os custos
necessários para reproduzi-lo, mas também se torna completa sua desamparada dependência da
fábrica como um todo, e, portanto, do capitalista.” P. 481s

“Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, serve à máquina.
Naqueles, procede dele o movimento do instrumental. Na manufatura, os trabalhadores são
membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, eles se tornam complementos vivos de um mecanismo
morto que existe independentes deles. (...)Sendo, ao mesmo tempo, processo de trabalho e processo
de criar mais valia, toda produção capitalista se caracteriza por o instrumental de trabalho empregar
o trabalhador e não o trabalhador empregar o instrumental. Mas essa inversão só se torna uma
realidade técnica e palpável com a maquinaria. Ao se transformar em autômato, o instrumental se
confronta com o trabalhador durante o processo de trabalho como capital, trabalho morto que
domina a força de trabalho viva, a suga e exaure. A separação entre as forças intelectuais do
processo de produção e o trabalho manual e a transformação delas em poderes de domínio do capital
sobre o trabalho se tornam uma realidade consumada, conforme já vimos, na grande indústria
fundamentada na maquinaria. A habilidade especializada e restrita do trabalhador individual,
despojado, que lida com a máquina, desaparece como uma quantidade infinitesimal diante da
ciência, das imensas forças naturais e da massa de trabalho social, incorporadas ao sistemas de
máquinas e formando com ele o poder do patrão.” P. 482ss

“A subordinação técnica do trabalhador ao ritmo uniforme do instrumental e a composição peculiar
do organismo de trabalho, formado de indivíduos de ambos os sexos e das mais diversas idades,
criam uma disciplina de caserna, que vai ao extremo no regime integral de fábrica. Por isso,
desenvolve-se plenamente o trabalho de supervisão anteriormente mencionado, dividindo-se os
trabalhadores em trabalhadores manuais e supervisores de trabalho, em soldados rasos e em
suboficiais do exército da indústria. (...)Através do código da fábrica o capital formula, legislando
particular e arbitrariamente, sua autocracia sobre os trabalhadores, pondo de lado a divisão dos
poderes tão proclamada pela burguesia e o mais proclamado ainda regime representativo. O código é
apenas a deformação capitalista da regulamentação social do processo de trabalho, que se torna
necessária com a cooperação em grande escala e com a aplicação de instrumental comum de
trabalho, notadamente a maquinaria. O látego do feitor de escravos se transforma no regulamento
penal do supervisor. Todas as penalidades se reduzem naturalmente a multas e descontos salariais, e
a sagacidade legislativa desses Licurgos de fábricas torna a transgressão de suas leis sempre que
possível mais rendosa que a observância delas.” P. 485

                                                 45
5. Luta entre o trabalhador e a máquina

“A luta entre o capitalista e o trabalhador remonta a própria origem do capital. Ressoa durante todo
o período manufatureiro. Mas, só a partir da introdução da máquina, passa o trabalhador a combater
o próprio instrumental de trabalho, a configuração material do capital. Revolta-se contra essa forma
determinada dos meios de produção, vendo nela o fundamento material do modo de produção
capitalista. Durante o século XVII quase toda a Europa presenciou revoltas dos trabalhadores contra
a máquina de tecer fitas e galeões(...). Nos fins do primeiro terço do séc. XVII, um motim popular
destruiu uma serraria movida a vento construída por um holandês nas proximidades de Londres.
Ainda no começo do séc. XVIII só dificilmente venceram as máquinas de serrar movidas a água a
resistência popular protegida pelo parlamento. (...)Era mister tempo e experiência para o trabalhador
aprender a distinguir a maquinaria de sua aplicação capitalista e atacar não os meios materiais de
produção, mas a forma social em que são explorados.” P. 489ss

“As lutas por salário dentro da manufatura pressupunham a manufatura e não se dirigiam contra sua
existência. Os que combatem a criação de manufaturas não são assalariados, mas os mestres das
corporações e as cidades privilegiadas. Por isso, os escritores do período manufatureiro consideram
a divisão do trabalho sobretudo o meio de suprir virtualmente a carência de trabalhadores, mas não
de dispensar realmente trabalhadores. Quando se diz, por ex., que seriam necessários, na Inglaterra,
100 milhões de homens para fiar com a velha roda de fiar a quantidade de algodão fiada hoje por
500.000 com a máquina, não se quer dizer que a máquina tomou o lugar daqueles milhões de
homens que nunca existiram. Quer se dizer apenas que muitos milhões de trabalhadores seriam
necessários para substituir a maquinaria de fiação. Quando se diz porém que o tear a vapor na
Inglaterra lançou a rua 800.000 tecelões, não se fala de maquinaria existente que teria de ser
substituída por certo número de trabalhadores, mas de um número existente de trabalhadores
realmente substituídos ou suprimidos pela maquinaria. Durante o período manufatureiro, os ofícios
manuais, embora decompostos pela divisão do trabalho, continuaram sendo a base da produção.
(...)Destacavam-se então, o lado positivo da divisão do trabalho e da cooperação nas oficinas,
tornando os trabalhadores empregados mais produtivos. Aplicadas à agricultura, a cooperação e a
concentração em poucas mãos dos instrumentos de trabalho provocaram transformações grandes,
súbitas e violentas no modo de produção e consequentemente nas condições de vida e nas
possibilidades de trabalho da produção rural, em muitos países e bem antes do período da indústria
moderna.” P. 491s

“O instrumento de trabalho, ao tomar a forma de máquina, logo se torna concorrente do próprio
trabalhador. A auto-expansão do capital através da máquina está na razão direta do número de
trabalhadores cujas condições de existência ela destrói. Todo o sistema de produção capitalista
baseia-se na venda da força de trabalho como mercadoria pelo trabalhador. A divisão manufatureira
do trabalho particulariza essa força de trabalho, reduzindo-a à habilidade muito limitada de manejar
uma ferramenta de aplicação estritamente especializada. Quando a máquina passa a manejar a
ferramenta, o valor-de-troca da força de trabalho desaparece ao desvanecer seu valor-de-uso. O
trabalhador é posto fora do mercado como o papel-moeda retirado da circulação. A parte da classe
trabalhadora que a maquinaria transforma em população supérflua, não mais imediatamente
necessária à auto-expansão do capital, segue uma das pontas de um dilema inarredável: ou sucumbe
na luta desigual dos velhos ofícios e das antigas manufaturas contra a produção mecanizada, ou
inunda todos os ramos industriais mais acessíveis, abarrotando o mercado de trabalho e fazendo o
preço da força de trabalho cair abaixo de seu valor. Para os trabalhadores lançados à miséria é um
grande consolo, dizem, serem apenas temporários seus sofrimentos; outro consolo decorreria de a
máquina apropriar-se, apenas pouco a pouco, de um ramo inteiro de produção, com o que se reduz a

                                                 46
extensão e a intensidade dos seus efeitos destruidores. Os dois consolos se anulam. Quando a
máquina se apodera, pouco a pouco, de um ramo de produção, produz ela miséria crônica na camada
de trabalhadores com que concorre. Quando a transição é rápida, seus efeitos são enormes e agudos.
A história não oferece nenhum espetáculo mais horrendo que a extinção progressiva dos tecelões
manuais ingleses, arrastando-se durante decênios e consumando-se finalmente em 1838. (...)Por
outro lado, foram agudos os efeitos da maquinaria da indústria têxtil algodoeira na Índia.” P. 492s

“A máquina, sem dúvida, ao criar para esses tecelões “sofrimentos passageiros”, tirava-os dessa vida
passageira. Demais, apoderando-se a máquina continuamente de novos ramos de produção, seus
efeitos temporários são na realidade permanentes. A feição independente e estranha que o modo
capitalista de produção imprime às condições e ao produto do trabalho em relação ao trabalhador se
converte com a maquinaria em oposição completa. Daí a revolta brutal do trabalhador contra esse
instrumental de trabalho, a maquinaria. O instrumental de trabalho liquida, então, o trabalhador.
Esse antagonismo direto se patenteia de maneira mais evidente, quando a nova maquinaria
introduzida concorre com os ofícios e as manufaturas tradicionais. Mas dentro da própria indústria
moderna, produzem efeitos análogos o aperfeiçoamento contínuo da maquinaria e o
desenvolvimento do sistema automático.” P. 494

   6. A teoria da compensação para os trabalhadores desempregados pela máquina

“James Mill, MacCulloch, Torrens, Senior, John Stuart Mill e toda uma série de economistas
burgueses afirmam que toda maquinaria, ao desempregar trabalhadores, sempre libera, simultânea e
necessariamente, capital adequado para empregar esses trabalhadores desempregados.” P. 502

“Os verdadeiros fatos, dissimulados pelo otimismo econômico, são esses: os trabalhadores
despedidos pela máquina são transferidos da fábrica para o mercado de trabalho e lá aumentam o
número das forças de trabalho que estão à disposição da exploração capitalista.(...) os trabalhadores
despedidos de um ramo industrial podem sem dúvida procurar emprego a qualquer outra ocupação.
Se o acham, recompondo-se assim o laço que existia entre eles e o meios de subsistência de que
foram dissociados, isto acontece através de novo capital adicional que procura aplicação, e de modo
nenhum através do capital que já operava antes e se transformou em máquina. Mesmo nesse caso,
sua possibilidades são ínfimas. Atrofiados pela divisão do trabalho, esses pobres diabos valem tão
pouco fora de seu âmbito de atividade, que só encontram acesso em ramos de trabalho inferiores e,
por isso, superlotados e mal pagos.” P. 505

“É incontestável que a maquinaria em si mesma não é responsável de serem os trabalhadores
despojados de seus meios de subsistência. Ela barateia e aumenta o produto no ramo de que se
apodera e, de início, não modifica a quantidade de meios de subsistência produzidos em outros
ramos. Depois de sua introdução, possui, portanto, a sociedade a mesma ou maior quantidade de
meios de subsistência para os trabalhadores despedidos, não se levando em conta a enorme porção
do produto anual, dilapidada pelos que não são trabalhadores. E este é o ponto nevrálgico da
apologética econômica. Para ela, as contradições e antagonismos inseparáveis da aplicação
capitalista da maquinaria não existem, simplesmente porque não decorrem da maquinaria, mas da
sua aplicação capitalista. A maquinaria, como instrumental que é, encurta o tempo de trabalho,
facilita o trabalho, é uma vitória do homem sobre as forças naturais, aumenta a riqueza dos que
realmente produzem, mas, com sua aplicação capitalista, gera resultados opostos: prolonga o tempo
de trabalho, aumenta sua intensidade, escraviza o homem por meio das forças naturais, pauperiza os
verdadeiros produtores. (...)O economista burguês não nega que sucedam aborrecimentos
temporários com esse emprego; mas qual é a medalha que não tem reverso? Para ele é impossível
qualquer outra utilização da maquinaria que não seja a capitalista. Exploração do trabalhador pela

                                                 47
máquina é para ele idêntica à exploração da máquina pelo trabalhador. (...)Seu raciocínio é o mesmo
do célebre degolador Bill Sikes: “senhores jurados, esse caixeiro-viajante foi sem dúvida degolado.
Mas a culpa não é minha, e sim da faca. Devemos, em virtude desses aborrecimentos passageiros,
proibir o emprego da faca? Refleti! Que seria da agricultura e dos ofícios sem a faca? Não é ela um
meio de cura na cirurgia e um instrumento de pesquisa na anatomia? Não nos ajuda prestimosa nos
alegres festins? Suprimi a faca e lançar-nos-ei na mais profunda barbárie.” P. 506s

“Com a expansão do sistema fabril num ramo industrial, aumenta a produção em outros ramos que
lhe fornecem meios de produção. (...)Uma nova espécie de trabalhador aparece com a maquinaria, o
encarregado de produzi-la. Já sabemos que a maquinaria se apossou desse ramo de produção que
tem a função de fabrica-la, em escala cada vez maior. (...) Com a massa crescente de matérias-
primas, de produtos semi-elaborados, de instrumentos de trabalho etc. , fornecidos pela máquina
com número relativamente pequeno de trabalhadores, especializaram-se as atividades que trabalham
com essas matérias-primas e produtos em numerosas variedades, aumentando a diversificação dos
ramos sociais de produção. O sistema fabril impulsiona a divisão social do trabalho muito mais do
que a manufatura, porque aumenta, em grau desproporcionalmente maior, a força produtiva dos
ramos de que se apodera.” P. 508ss

“A maquinaria tem por resultado imediato ampliar a mais valia e simultaneamente a quantidade de
produtos em que ela se incorpora. Assim ela aumenta a substância de que vive a classe capitalista e
seu cortejo, fazendo crescer essas camadas sociais. Sua riqueza em expansão e a diminuição
relativamente constante do número de trabalhadores necessários para a produção dos gêneros de
primeira necessidade geram, juntamente com novas necessidades de luxo, novos meios de satisfazê-
las. (...) Em outras palavras, a produção de luxo aumenta.” P. 510

   7. Repulsão e atração dos trabalhadores pela fábrica. Crises da indústria têxtil algodoeira.

“Quando a produção mecanizada se estende num ramo às custas do artesanato tradicional e da
manufatura, sua vitória é tão certa quanto a de um exército equipado com armas de fogo em lutas
contra índios armados com arco e flecha. Esse primeiro período em que a máquina conquista seu
campo de ação é decisivamente importante em virtude dos lucros extraordinários que ajuda a
produzir. Estes constituem fonte de acumulação acelerada, e, além disso, atraem grande parte do
capital social adicional que está se formando constantemente e procura aplicação nos setores
favorecidos da produção. As vantagens especiais desse período febril e agitado se repetem sempre
nos ramos de produção que a maquinaria invade. Mas, quando o sistema fabril adquire base mais
ampla e certo grau de maturidade; quando principalmente sua base técnica, a maquinaria, é
produzida por máquinas; quando a mineração de carvão e ferro, a elaboração dos metais e o sistema
de transportes são revolucionados; quando, em suma, se estabelecem as condições gerais de
produção correspondentes à indústria moderna, adquire esse sistema de exploração elasticidade,
capacidade de expandir-se bruscamente e aos saltos, que só se detém diante dos limites impostos
pela matéria-prima e pelo mercado. A maquinaria, de um lado, amplia diretamente a produção de
matéria-prima como, por ex., a máquina descaroçadora que aumentou a produção de algodão. Por
outro lado, o barateamento dos produtos feitos a máquina e a revolução nos meios de transporte e
comunicação servem de armas para a conquista de mercados estrangeiros. Arruinando com seus
produtos o artesanato de países estrangeiros, a produção mecanizada transforma necessariamente
esses países em campos de produção de suas matérias-primas. Assim, a Índia foi compelida a
produzir algodão, lã, cânhamo, juta, anil, etc. para a Grã-Bretanha. Tornando constantemente
supérflua uma parte dos trabalhadores, a indústria moderna nos países em que está radicada,
estimula e incita a imigração para países estrangeiros e sua colonização, que se convertem assim em
colônias fornecedoras de matérias-primas para a mãe-pátria. (...)Cria-se nova divisão internacional

                                                 48
do trabalho, adequada aos principais centros da indústria moderna, transformando uma parte do
planeta em áreas de produção predominantemente agrícola, destinada à outra parte primordialmente
industrial. Esta transformação está ligada a mudanças radicais na agricultura (...) (citação pé de pag.
O desenvolvimento econômico nos Estados Unidos é um produto da Moderna Indústria européia,
especialmente da inglêsa . Em seu estágio atual (1866), devem ser considerados ainda um país
colonial em relação à Europa. –(adendo à 4ª ed. A partir de então, os E.U.A. se desenvolveram,
tornando-se o segundo país industrial do mundo, sem com isso perder inteiramente seu caráter
colonial. – F.E.))” p. 516ss

“O enorme poder de expansão, aos saltos, do sistema fabril e sua dependência do mercado mundial
geram necessariamente uma produção em ritmo febril, seguida de abarrotamento dos mercados que,
ao se contraírem, ocasionam um estado de paralisação. A vida da indústria se converte numa
seqüência de períodos de atividade moderada, prosperidade, superprodução, crise e estagnação. A
incerteza e a instabilidade a que a produção mecanizada submete a ocupação e consequentemente as
condições de vida do trabalhador tornam-se normais como aspectos das variações periódicas do
ciclo industrial. Executados os períodos de prosperidade, travam-se entre capitalistas os mais
furiosos combates, procurando cada um deles obter uma participação no mercado. Essa participação
está na razão direta do barateamento do produto. Por isso, rivalizam-se no emprego da maquinaria
aperfeiçoada que substitui força de trabalho e na aplicação de novos métodos de produção. Mas, em
todo ciclo industrial, chega o momento em que se procura baratear as mercadorias, diminuindo-se à
força o salário, abaixo do valor da F.T.. O acréscimo do número de trabalhadores tem, portanto, por
condição o incremento proporcionalmente muito mais rápido do capital global empregado nas
fábricas. Mas, esse incremento está condicionado pelo fluxo e refluxo do ciclo industrial. Além
disso, é continuamente interrompido pelo processo técnico, que ora substitui virtualmente
trabalhadores, ora os suprime de fato. Essa mudança qualitativa na produção mecanizada afasta
constantemente trabalhadores da fábrica ou fecha suas portas a novos candidatos a emprego,
enquanto a simples expansão quantitativas das fábricas absorve, com os despedidos, novos
contingentes. Os trabalhadores são assim ininterruptamente repelidos e atraídos, jogados de um lado
para outro variando constantemente o recrutamento deles em relação ao sexo, à idade e à
habilidade.” P. 518ss

   8. Revolução que a indústria moderna realiza na manufatura, no artesanato e no trabalho a
   domicilio

“Vimos que a maquinaria elimina a cooperação baseada no ofício e a manufatura fundamentada na
divisão do trabalho manual. Um exemplo do primeiro fenômeno é a máquina de segar que substitui
a cooperação dos ceifeiros. Um exemplo bem ilustrativo do segundo fenômeno é a máquina para
fabricar agulhas. Segundo Adam Smith, no seu tempo, por meio da divisão do trabalho, 10 homens
faziam por dia mais de 48.000 agulhas. Uma única máquina fornece hoje 145.000 num dia de
trabalho de 11 horas. Uma mulher ou uma menina supervisiona em média 4 dessas máquinas
produzindo com a maquinaria 600.000 agulhas por dia; (...)Quando uma máquina-ferramenta isolada
toma o lugar da cooperação ou da manufatura pode ela servir de base a um novo artesanato. Mas,
essa reprodução do artesanato baseada na maquinaria é apenas uma transição para o sistema fabril,
que em regra se estabelece quando a força motriz mecânica, o vapor ou a água, substitui a força
muscular humana na movimentação da máquina.” P. 527

“Com o desenvolvimento do sistema fabril e com a transformação da agricultura que o acompanha
não só se estende a escala da produção nos demais ramos de atividade, mas também muda seu
caráter. Torna-se por toda parte uma diretiva dominante o princípio da indústria mecanizada, de
decompor o processo de produção em suas faces constitutivas e de resolver problemas daí

                                                  49
resultantes com o emprego da mecânica, da química etc. , em suma, das ciências naturais. A
maquinaria vai penetrando progressivamente nos processos parciais das manufaturas. A organização
rígida e cristalizadas destas, baseada na velha divisão do trabalho, dissolve-se, dando lugar a
transformações constantes. Além disso, transformam-se radicalmente a composição do trabalhador
coletivo, das pessoas que trabalham em combinação. Em contraste com o período manufatureiro, o
plano da divisão do trabalho baseia-se no emprego de mulheres, de crianças de todas as idades, de
trabalhadores sem habilitação, sempre que possível (...). Isto se aplica não só a produção organizada
em grande escala, com ou sem emprego de maquinaria, mas também à indústria a domicílio,
exercida nas residências dos trabalhadores ou em pequenas oficinas. Essa indústria à domicílio
moderna só tem o nome em comum com a antiga, que pressupunha o artesanato urbano
independente, a economia camponesa independente e a casa da família do trabalhador. A indústria a
domicílio se converteu hoje na seção externa da fábrica, da manufatura ou do estabelecimento
comercial. Além dos trabalhadores fabris, de manufaturas e dos artesãos, que concentra em grande
número num mesmo local e comanda diretamente, o capital põe em movimento, por meio de fios
invisíveis, um grande exército de trabalhadores a domicílio, espalhados nas grandes cidades e pelo
interior do país.” P. 528s

“Na manufatura moderna, a exploração da F.T. barata e imatura é mais vergonhosa da que na fábrica
propriamente, pois o fundamento teórico que existe nesta, substituição da força muscular pela
máquina e a decorrente facilidade do trabalho, falta em grande parte naquela, onde o organismo
feminino ou ainda imaturo fica exposto, da maneira mais inescrupulosa, às influências de
substâncias tóxicas, etc. . Essa exploração se reveste, no trabalho à domicílio, de maior cinismo
ainda que na manufatura, pois a capacidade de resistência dos trabalhadores diminui com sua
disseminação; uma série de parasitas rapaces se insere entre o empregador propriamente dito e os
trabalhadores; (...)” p. 529s

“A exploração abusiva do trabalho de mulheres e crianças, o esbulho de todas as condições normais
requeridas pelo trabalho e pela vida e a brutalidade do trabalho excessivo ou noturno constituem
métodos de baratear a F.T. que acabam por encontrar certas barreiras naturais, intransponíveis.
Chocam-se contra as mesmas barreiras o barateamento das mercadorias e toda exploração capitalista
baseados nesse métodos. Leva-se muitos anos até atingir esse ponto. Ao ser ele atingido, soa a hora
de ser introduzida a máquina e de se transformar rapidamente em produção mecanizada o trabalho a
domicílio ou a manufatura, dispersos pelo país.” P. 539

“Foi o baixo preço do sangue e do suor humanos transformados em mercadorias que atuou
continuamente no sentido de ampliar o mercado e continua a ampliá-lo todos os dias. (...)Chegou-se
por fim um ponto crítico. O fundamento do velho método, a simplista exploração brutal do material
humano, mais ou menos acompanhado por uma divisão do trabalho sistematicamente desenvolvida,
não era suficiente para atender os mercados crescentes e para fazer face à competição dos
capitalistas, cada vez maior. Soou a hora da maquinaria. A máquina decisivamente revolucionária
que se apodera de todas as numerosas especialidades desse ramo de produção entre as quais figuram
modas, alfaiataria, sapataria, costura e chapelaria – é a máquina de costura.” P. 540

   9. Legislação fabril inglesa, etc.

“Já vimos que a indústria moderna elimina técnicamente a divisão manufatureira do trabalho, na
qual um ser humano com todas as suas faculdades e por toda a vida fica prisioneiro de uma tarefa
parcial. Mas, ao mesmo tempo, a forma capitalista da indústria moderna reproduz aquela divisão do
trabalho de maneira ainda mais monstruosa, na fábrica propriamente dita, transformando o
trabalhador no acessório consciente de uma máquina parcial; e, fora da fábrica, por toda parte, com

                                                 50
o emprego esporádico das máquinas e dos trabalhadores de máquinas, e com a introdução do
trabalho das mulheres, das crianças e dos trabalhadores sem habilitação, que servem de nova base à
divisão do trabalho. A contradição entre a divisão manufatureira do trabalho e a natureza da
indústria moderna se impõe de maneira poderosa. Ela se patenteia, por exemplo, no terrível fato de
grande parte dos meninos empregados nas fábricas e manufaturas modernas, condenados desde a
mais tenra idade a repetir sempre as operações mais simples, serem explorados anos seguidos, sem
aprender qualquer trabalho que os torne úteis mais tarde, mesmo que fosse na mesma manufatura ou
fábrica.” P. 555

“O que é válido para divisão manufatureira do trabalho dentro da oficina, pode-se dizer da divisão
do trabalho no interior da sociedade. Enquanto o artesanato e a manufatura constituem o fundamento
geral da produção social, a subordinação do produtor a um ramo de produção exclusivo, a
decomposição da multiplicidade primitiva de suas ocupações representam uma fase necessária do
desenvolvimento histórico. Sobre aquele fundamento, cada ramo especial de produção encontra, por
meios empíricos, a forma técnica conveniente, aperfeiçoa-la lentamente e cristaliza-a logo que
atinge certo grau de maturidade. As únicas modificações que se produzem, excetuadas as novas
matérias-primas fornecidas pelo comércio, são as que ocorrem progressivamente com os
instrumentos de trabalho. Uma vez alcançada pela experiência, a forma adequada, esta se petrifica,
conforme se verifica muitas vezes através de sua transferência de uma geração para outra, durante
milênios. (...)A indústria moderna rasgou o véu que ocultava ao homem seu próprio processo social
de produção e que transformava os ramos de produção naturalmente diversos em enigmas, mesmo
para aquele que fosse iniciado num deles. (...)As formas multifárias, aparentemente desconexas e
petrificadas do processo social de produção se decompõem em aplicações da ciência
conscientemente planejadas e sistematicamente especializadas segundo o efeito útil requerido. A
tecnologia descobriu as poucas formas fundamentais do movimento, em que se resolve
necessariamente toda a ação produtiva do corpo humano, apesar da variedade dos instrumentos
empregados, do mesmo modo que a mecânica nos faz ver, através da complicação da maquinaria, a
contínua repetição das potências mecânicas simples. A indústria moderna nunca considera nem trata
como definitiva a forma existente de um processo de produção. Sua base técnica é revolucionária,
enquanto todos os modos anteriores de produção eram essencialmente conservadores. Por meios da
maquinaria, dos processos químicos e de outros modos, a indústria moderna transforma
continuamente, com a base técnica da produção, as funções dos trabalhadores e as combinações
sociais do processo de trabalho. Com isso, revoluciona constantemente a divisão do trabalho dentro
da sociedade e lança ininterruptamente massas de capital e massas de trabalhadores de um ramo de
produção para outro. Exige, por sua natureza, variação de trabalho, isto é, fluidez das funções,
mobilidade do trabalhador em todos os sentidos. Entretanto, reproduz em sua forma capitalista a
velha divisão do trabalho com suas peculiaridades rígidas. Já vimos como essa contradição absoluta
elimina toda tranqüilidade, solidez e segurança de vida do trabalhador, mantendo-o sob a ameaça
constante de perder os meios de subsistência ao ser-lhe tirado das mãos o instrumental de trabalho
(...). Este é o aspecto negativo. Mas se a variação do trabalho só se impõe agora como uma lei
natural sobrepujante e com o efeito cego e destruidor de uma lei natural que encontra obstáculos por
toda parte, a indústria moderna, com suas próprias catástrofes, torna questão de vida ou morte
reconhecer como lei geral e social da produção a variação dos trabalhos e em conseqüência a maior
versatilidade possível do trabalhador, e adaptar as condições à efetivação normal dessa lei. Torna
questão de vida ou de morte substituir a monstruosidade de uma população operária miserável,
disponível, mantida em reserva para as necessidades flutuantes da exploração capitalista, pela
disponibilidade absoluta do ser humano para as necessidades variáveis do trabalho; substituir o
indivíduo parcial, mero fragmento humano que repete sempre uma operação parcial, pelo indivíduo
integralmente desenvolvido para o qual as diferentes funções sociais não passariam de formas
diferentes e sucessivas de sua atividade. As escolas politécnicas e agronômicas são fatores desse

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processo de transformação, que se desenvolvem espontaneamente na base da indústria moderna;
constituem também fatores dessa metamorfose as escolas de ensino profissional onde os filhos dos
operários recebem algum ensino tecnológico e são iniciados no manejo prático dos diferentes
instrumentos de produção. A legislação fabril arrancou ao capital a primeira e insuficiente concessão
de conjugar a instrução primária com o trabalho na fábrica. Mas, não há dúvida de que a conquista
inevitável do poder político pela classe trabalhadora trará a adoção do ensino tecnológico, teórico e
prático, nas escolas dos trabalhadores. Também não há duvida de que a forma capitalista de
produção e as correspondentes condições econômicas dos trabalhadores se opõem diametralmente a
esses fermentos de transformação e ao seu objetivo, a eliminação da velha divisão do trabalho. Mas
o desenvolvimento das contradições de uma forma histórica de produção é o único caminho de sua
dissolução e do estabelecimento de uma nova forma.” P. 556ss
“Quando regula o trabalho nas fábricas, nas manufaturas etc., a legislação fabril é considerada
apenas intervenção nos diretos de exploração exercidos pelo capital. Toda regulamentação do
trabalho a domicílio, entretanto, se apresenta como ataque direto ao pátrio poder, um passo diante do
qual o Parlamento inglês vacilava, por ferir sua pretensa delicadeza de sentimentos. A força dos
fatos, entretanto, compeliu a que se reconhecesse finalmente que a indústria moderna, ao dissolver a
base econômica da família antiga e o correspondente trabalho familiar, desintegrou também as
velhas relações familiares. O direito das crianças tinha de ser proclamado (...). Mas não foram os
abusos do poder paterno que criaram a exploração direta ou indireta das forças imaturas do trabalho
pelo capital; ao contrário, foi o modo capitalista de exploração que, ao suprimir a base econômica
correspondente à autoridade paterna, fez o exercício dela degenerar em abusos nefastos. Por mais
terrível e repugnante que pareça ser a decomposição da velha estrutura familiar dentro do sistema
capitalista, a indústria moderna cria, apesar disso, com o papel decisivo que reserva às mulheres, aos
adolescentes e aos meninos de ambos os sexos nos processos de produção socialmente organizados
e fora da esfera familiar, o novo fundamento econômico para uma forma superior da família e das
relações entre os sexos. Seria naturalmente uma tolice considerar absoluta a forma germano-cristã
da família, do mesmo modo que não se justifica esse ponto de vista em relação à forma romana
antiga, ou à grega antiga, ou à oriental, as quais se interligam numa progressão histórica. Além
disso, é óbvio que a composição do pessoal de trabalho constituído de indivíduos de ambos os sexos
e das mais diversas idades, fonte de degradação e escravatura em sua forma espontânea, brutal,
capitalista (em que o trabalhador existe para o processo de produção e não o processo de produção
para o trabalhador), tem de transformar-se em fonte de desenvolvimento humano, quando surjam as
condições adequadas.” P. 559ss

“O desenvolvimento histórico da indústria moderna criou a necessidade de generalizar a lei fabril a
toda produção social, no início uma lei de exceção restrita à fiação e à tecelagem, primeiras
manifestações da produção mecanizada. Na retaguarda desta, revolucionam-se completamente as
estruturas tradicionais da manufatura, do artesanato e do trabalho a domicílio: a manufatura se
transforma constantemente em fábrica, o artesanato em manufatura, e, por fim, as esferas do
artesanato remanescente e do trabalho a domicílio se convertem, com relativa rapidez, em antros de
miséria onde campeiam livremente as monstruosidades extremas da produção capitalista. Duas
circunstâncias tem sido decisivas para a generalização da lei fabril: primeiro, a experiência sempre
repetida de que o capital quando fica sujeito ao controle do estado em alguns pontos da esfera social,
procura compensar-se nos demais, da maneira mais desmesurada; segundo, o clamor dos próprios
capitalistas pela igualdade das condições da concorrência, isto é, o estabelecimento de barreiras
iguais para todos que exploram o trabalho.” P.561s

   10. Indústria moderna e agricultura



                                                 52
“Na agricultura, o emprego da maquinaria está em grande parte livre dos prejuízos físicos que
acarreta ao trabalhador na fábrica, mas atua de maneira mais intensa e sem oposição, no sentido de
tornar supérfluos os trabalhadores (...). A indústria moderna atua na agricultura mais
revolucionariamente que em qualquer outro setor, ao destruir o baluarte da velha sociedade, o
camponês, substituindo-o pelo trabalhador assalariado. As necessidades de transformação social e a
oposição de classes no campo são assim equiparadas às da cidade. Os métodos rotineiros e
irracionais da agricultura são substituídos pela aplicação consciente, tecnológica da ciência. O modo
de produção capitalista completa a ruptura dos laços primitivos que, no começo, uniam a agricultura
e a manufatura. Mas, ao mesmo tempo, cria as condições materiais para uma síntese nova, superior,
para a união da agricultura e da indústria, na base das estruturas que se desenvolveram em mútua
oposição. Com a preponderância cada vez maior da população urbana que se amontoa nos grandes
centros, a produção capitalista, de um lado, concentra a força motriz histórica da sociedade, e, de
outro, perturba o intercâmbio material entre o homem e a terra, isto é, a volta à terra os elementos do
solo consumidos pelo ser humano sob a forma de alimentos e de vestuário, violando assim a eterna
condição natural da fertilidade permanente do solo. Com isto destrói a saúde física do trabalhador
urbano e a vida mental do trabalhador do campo. Mas, ao destruir as condições naturais que mantêm
aquele intercâmbio, cria a necessidade de restaurá-lo sistematicamente, como lei reguladora da
produção em forma adequada ao desenvolvimento integral do homem. Na agricultura, como na
manufatura, a transformação capitalista do processo de produção significa, ao mesmo tempo, o
martirológio dos produtores; o instrumento de trabalho converte-se em meio de subjugar, explorar e
lançar à miséria o trabalhador e a combinação social dos processos de trabalho torna-se a opressão
organizada contra a vitalidade, a liberdade e a independência do trabalhador individual. A dispersão
dos trabalhadores rurais em áreas extensas quebra sua força de resistência, enquanto a concentração
aumenta a dos trabalhadores urbanos. Na agricultura moderna, como na indústria urbana, o aumento
da força produtiva e a maior mobilização do trabalho obtêm-se com a devastação e a ruína física da
força de trabalho. E todo progresso da agricultura capitalista significa progresso na arte de despojar
não só o trabalhador mas também o solo; e todo aumento da fertilidade da terra num tempo dado
significa esgotamento mais rápido das fontes duradouras dessa fertilidade. Quanto mais se apoia na
indústria moderna o desenvolvimento de um país, como é o caso dos Estados Unidos, mais rápido é
esse processo de destruição. A produção capitalista, portanto, só desenvolve a técnica e a
combinação do processo social de produção, exaurindo as fontes originais de toda riqueza: a terra e
o trabalhador.” P.577ss

                               O CAPITAL – LIVRO 1 - Volume II

                         O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CAPITAL

Parte Quinta -       PRODUÇÃO DA MAIS VALIA ABSOLUTA E DA MAIS VALIA
RELATIVA

Capítulo XIV – Mais Valia Absoluta e Mais Valia Relativa

“No capítulo V, estudamos o processo de trabalho em absoluto, independentemente de suas formas
históricas, como um processo entre o homem e a natureza. Dissemos: “Observando-se todo o
processo do ponto de vista do resultado, do produto, evidencia-se que meio e objeto de trabalho são
meios de produção, e o trabalho é trabalho produtivo.” Na nota 7, acrescentamos: “Essa
conceituação de trabalho produtivo, deriva apenas do processo de trabalho, não é de modo nenhum
adequada ao processo de produção capitalista.”. Mais algumas observações sobre o assunto.
Enquanto o processo de trabalho é puramente individual, um único trabalhador exerce todas as
funções que mais tarde se dissociam. Ao apropriar-se individualmente de objetos naturais para

                                                  53
prover sua vida, é ele quem controla a si mesmo; mais tarde, ficará sob controle de outrem. O
homem isolado não pode atuar sobre a natureza, sem por em ação seus músculos sob o controle de
seu cérebro. Fisiológicamente, cabeça e mãos são partes de um sistema, do mesmo modo, o processo
de trabalho conjuga o trabalho do cérebro e das mãos. Mais tarde se separam e acabam por se tornar
hostilmente contrários. O produto deixa de ser o resultado imediato da atividade do produtor
individual para tornar-se produto social, comum, de um trabalhador coletivo, isto é, de uma
combinação de trabalhadores, podendo ser direta ou indireta a participação de cada um deles na
manipulação do objeto sobre que incide o trabalho. A conceituação do trabalho produtivo e de seu
executor, o trabalhador produtivo, amplia-se em virtude desse caráter cooperativo do processo de
trabalho. Para trabalhar produtivamente não é mais necessário executar uma tarefa de manipulação
do objeto de trabalho; basta ser órgão do trabalhador coletivo, exercendo qualquer uma das funções
fracionárias. A conceituação anterior de trabalho produtivo, derivada da natureza da produção
material, continua válida para o trabalhador coletivo, considerado em conjunto. Mas não se aplica a
cada um de seus membros, individualmente considerados.” P. 583s

“A produção capitalista não é apenas produção de mercadorias, ela é essencialmente produção de
mais valia. O trabalhador não produz para si, mas para o capital. Por isso não é mais suficiente que
ele apenas produza. Ele tem de produzir mais valia. Só é produtivo o trabalhador que produz mais
valia para o capitalista servindo assim à auto-expansão do capital. Utilizando um exemplo fora da
esfera da produção material: um mestre-escola é um trabalhador produtivo quando trabalha não só
para desenvolver a mente das crianças, mas também para enriquecer o dono da escola. Que este
inverta seu capital numa fábrica de ensinar, em vez de numa de fazer salsicha, em nada modifica a
situação. O conceito de trabalho produtivo não compreende apenas uma relação entre atividade e
efeito útil, entre trabalhador e produto do trabalho, mas também uma relação de produção
especificamente social, de origem histórica, que faz do trabalhador o instrumento direto de criar
mais valia. Ser trabalhador produtivo não é nenhuma felicidade, mas azar.” P.584

“A produção da mais valia absoluta se realiza com o prolongamento da jornada de trabalho além do
ponto em que o trabalhador produz apenas um equivalente ao valor de sua força de trabalho e com a
apropriação pelo capital desse trabalho excedente. Ela constitui o fundamento do sistema capitalista
e o ponto de partida da produção da mais valia relativa. Esta pressupõe que a jornada de trabalho já
esteve dividida em duas partes: trabalho necessário e trabalho excedente. Para prolongar o trabalho
excedente, encurta-se o trabalho necessário com métodos que permitem produzir-se em menos
tempo o equivalente ao salário. A produção da mais valia absoluta gira exclusivamente em torno da
duração da jornada de trabalho; a produção da mais valia relativa revoluciona totalmente os
processos técnicos de trabalho e as combinações sociais. A produção da mais valia relativa
pressupõe, portanto, um modo de produção especificamente capitalista, que, com seus métodos,
meios e condições, surge e se desenvolve, de início, na base da subordinação formal do trabalho ao
capital. No curso desse desenvolvimento, essa subordinação formal é substituída pela sujeição real
do trabalho ao capital.” P. 585

“Sob certo ponto de vista, parece ilusória a diferença entre mais valia absoluta e mais valia relativa.
A mais valia relativa é absoluta por exigir a prolongação absoluta da jornada de trabalho além do
tempo necessário à existência do trabalhador. A mais valia absoluta é relativa por exigir um
desenvolvimento da produtividade do trabalho que permita reduzir o tempo de trabalho necessário a
uma parte da jornada de trabalho. Mas, quando focalizamos o movimento da mais valia, desvanece
essa aparência de identidade. Assim que se estabelece o modo capitalista de produção e se torna o
modo geral de produção, sente-se a diferença entre a mais valia absoluta e a mais valia relativa,
quando o problema é elevar a taxa da mais valia. Admitindo que a força de trabalho seja paga pelo
seu valor, ficamos com a alternativa: dados a produtividade do trabalho e seu grau normal de

                                                  54
intensidade, só é possível elevar a taxa da mais valia com o prolongamento absoluto da jornada de
trabalho; dada a duração da jornada de trabalho, só é possível elevar a taxa da mais valia variando
relativamente as magnitudes das suas partes componentes, o trabalho necessário e o trabalho
excedente, o que pressupõe (admita a hipótese de que o salário não deve cair abaixo do valor da
F.T.) variação da produtividade ou da intensidade do trabalho.” P. 586

“Se o trabalhador precisa de todo o seu tempo, a fim de produzir os meios de subsistência necessária
para sua manutenção e de seus dependentes, não lhe restará tempo nenhum a fim de trabalhar
gratuitamente para outra pessoa. Se não se atinge certo grau de produtividade do trabalho não sobra
tempo ao trabalhador para produzir além da subsistência; sem esse tempo de sobra, não haverá
capitalistas, nem donos de escravos, nem barões feudais, em suma, nenhuma classe de grandes
proprietários.” P. 587

“Só se pode falar de uma base natural da mais valia no sentido muito geral de que não há nenhum
obstáculo natural absoluto que impeça uma pessoa de transferir o trabalho necessário à própria
existência para outra pessoa, do mesmo modo que não existe um obstáculo natural absoluto que
impeça um ser humano de repastar-se com a carne de seu semelhante. Não há nenhuma razão, como
se faz as vezes para relacionar com idéias místicas essa produtividade do trabalho que se desenvolve
naturalmente. Só depois que os homens ultrapassam sua primitiva condição animal, e socializam até
certo ponto seu próprio trabalho, é que surgem condições em que o trabalho excedente de um se
torna condição de existência do outro. Nos primórdios da civilização são pequenas as forças
produtivas do trabalho adquiridas, mas também são reduzidas as necessidades que se desenvolvem
com os meios de satisfazê-las e através deles. Além disso, naqueles primórdios, é ínfima a
proporção dos indivíduos do setor social que vive do trabalho alheio, comparada com a massa dos
produtores diretos. Com o progresso da força produtiva social do trabalho, essa proporção cresce
absoluta e relativamente. O sistema capitalista surge sobre um terreno econômico que é o resultado
de um longo processo de desenvolvimento. A produtividade do trabalho que encontra e que lhe
serve de ponto de partida é uma dádiva não da natureza mas de uma história que abrange milhares
de séculos.” P. 587s

“Pondo de lado a estrutura mais ou menos desenvolvida da produção social, a produtividade do
trabalho depende de condições naturais. Essas condições podem se referir à própria natureza do
homem, como raça etc. , ou à natureza que o cerca. As condições naturais externas se distinguem
economicamente em duas grandes classes: riquezas naturais de meios de subsistência, isto é, solo
fértil, águas piscosas etc. e riquezas naturais de meio de trabalho, a saber, quedas d água, rios
navegáveis, madeira, metais, carvão etc. . Nos primórdios da civilização, o papel decisivo cabe à
primeira espécie de riquezas naturais; nos estágios de desenvolvimento superiores, à segunda
espécie.” P. 588

“As condições naturais favoráveis criam apenas a possibilidade mas nunca a realidade do trabalho
excedente e, consequentemente, da mais valia ou do produto excedente. Em virtude da diversidade
das condições naturais do trabalho, a mesma quantidade de trabalho satisfaz em diferentes países
quantidade diversa de necessidade, e, portanto, em circunstâncias análogas sob outros aspectos,
difere o tempo de trabalho necessário.
As condições naturais não tem outro efeito sobre o trabalho excedente que o de estabelecer um
limite natural, de determinar o ponto em que pode começar o trabalho para outrem. Na mesma
proporção em que a indústria avança, retrocede esse limite natural.” P . 590s




                                                55
“As forças produtivas naturais do trabalho, do mesmo modo que suas forças produtivas sociais,
históricamente desenvolvidas, parecem ser as forças produtivas do capital ao qual o trabalho se
incorpora.” P. 591

Capítulo XV – Variações Quantitativas no Preço da Força de Trabalho e na Mais Valia

“O valor da F.T. é determinado pelo valor dos meios de subsistência habitualmente necessários ao
trabalhador médio. Embora a forma desses meios possa variar, é determinada sua quantidade num
tempo dado de uma dada sociedade, justificando-se, nessas condições, considerá-la magnitude
constante. O que muda é o valor dessa quantidade.” P. 595

“O dia de trabalho de duração dada produz sempre o mesmo valor, embora a produtividade do
trabalho varie e com ela a quantidade dos produtos e, em conseqüência, o preço de cada mercadoria
produzida. (...) O valor da F.T. e a mais valia variam em direções opostas. A mais valia varia no
mesmo sentido da produtividade do trabalho, e o valor da F.T. em sentido oposto. (...)Acréscimo ou
decréscimo da mais valia é sempre conseqüência e não causa do correspondente decréscimo ou
acréscimo do valor da F.T..” p.596ss

“O valor da F.T. é determinado pelo valor de dada quantidade de meios de subsistência. O que muda
com a produtividade do trabalho é o valor desses meios de subsistência e não sua quantidade.” P.
599

“O aumento da produtividade e o da intensidade do trabalho atuam na mesma direção. Ambos
aumentam a quantidade produzida num dado espaço de tempo. Ambos reduzem, portanto a parte da
jornada que o trabalhador precisa para produzir seus meios de subsistência ou o equivalente deles. O
limite mínimo absoluto da jornada é constituído por essa parte necessária, mas compressível. Se
toda jornada de trabalho se reduzisse a essa parte, desapareceria o trabalho excedente, o que é
impossível no regime do capital. A eliminação da forma capitalista de produção o permite limitar a
jornada de trabalho ao trabalho necessário. Todavia, não se alterando as demais circunstâncias, seria
ampliado o trabalho necessário, por dois motivos: as condições de vida do trabalhador seriam mais
ricas e maiores suas exigências, uma parte do atual trabalho excedente seria considerada trabalho
necessário, para constituir um fundo social de reserva e de acumulação. Quanto mais cresce a
produtividade do trabalho, tanto mais pode reduzir-se a jornada de trabalho, e quanto mais se reduz
a jornada, tanto mais pode aumentar a intensidade do trabalho. Do ponto de vista social, a
produtividade do trabalho aumenta com sua economia. Esta implica em economizar meios de
produção e em evitar todo trabalho inútil. O modo capitalista de produção, ao mesmo tempo que
impõe economia em cada negócio particular, produz, com seu sistema anárquico de concorrência, o
desperdício mais desmedido dos meios de produção e das forças de trabalho da sociedade, além de
criar inúmeras funções para ele indispensável, mas em si mesmas supérfluas.” P. 606s

“Dadas a intensidade e a produtividade do trabalho, o tempo que a sociedade tem de empregar na
produção material será tanto menor, e, em conseqüência, tanto maior o tempo conquistado para a
atividade livre, espiritual e social dos indivíduos, quanto mais equitativamente se distribua o
trabalho entre todos os membros aptos da sociedade, e quanto menos uma camada social possa
furtar-se à necessidade natural do trabalho, transferindo-a para outra classe. Então, a redução da
jornada de trabalho encontra seu último limite na generalização do trabalho. Na sociedade
capitalista, consegue-se tempo livre para uma classe, transformando a vida inteira das massas em
tempo de trabalho.” P. 607

Capítulo XVI – Diversas Fórmulas da Taxa de Mais Valia

                                                 56
“Vimos que a taxa de mais valia se expressa nas seguintes fórmulas:

I. mais valia , ou seja m/v = mais valia = trabalho excedente
capital variável             valor da F.T. trabalho necessário

   • As duas primeiras fórmulas exprimem como relação entre valores o que a terceira expressa
   como relação entre espaços de tempo nos quais esses valores são produzidos. Estas fórmulas que
   se substituem entre si obedecem a uma conceituação rigorosa. Encontramo-las implícitas na
   economia política clássica que, entretanto, não chegou a elaborá-las conscientemente. Em
   compensação, nela encontramos as fórmulas seguintes:

II. trabalho excedente = mais valia     = produto excedente
    jornada de trabalho valor do produto produto total

A mesma proporção é expressa aqui alternativamente sob a forma de uma relação entre quantidades
de trabalho, entre valores nos quais elas se realizam, ou entre produtos nos quais existem esses
valores. (...)Nestas fórmulas (II) expressa-se erroneamente o grau de exploração de trabalho ou a
taxa de mais valia.” P. 608s

“O capitalista paga o valor da F.T., ou seja, preço que coincide ou não com o valor, e recebe em
troca o direito de dispor diretamente da força viva de trabalho. Usufrui a F.T. em dois períodos.
Num período, o trabalho produz apenas um valor que é igual ao valor de sua F.T., um equivalente
portanto. O capitalista recebe assim um produto de preço igual ao que ele pagou pela força de
trabalho. É como se tivesse comprado o produto pronto no mercado. Mas, no período de trabalho
excedente, a F.T. que o capitalista utiliza produz para ele um valor que não lhe custa nenhuma
contrapartida. Explora gratuitamente a F.T.. Nesse sentido, pode-se chamar trabalho excedente de
trabalho não pago. Capital, por isso, não é apenas comando sobre trabalho, como diz Adam Smith. É
essencialmente comando sobre trabalho não pago. Toda mais valia, qualquer que seja a forma na
qual se cristalize, a de lucro, juro, renda etc., é, por sua substância, materialização de trabalho não
pago. O segredo da auto-expansão ou valorização do capital se reduz ao seu poder de dispor de uma
quantidade determinada de trabalho alheio não pago.” P. 612s

Parte Sexta – O SALÁRIO

Capítulo XVII – Transformação do Valor ou do Preço da F.T. em Salário

“Para ser vendido no mercado como mercadoria, o trabalho tem de existir antes da venda. Mas, se o
trabalhador pudesse dar-lhe uma existência independente dele, objetiva, venderia mercadoria e não
trabalho. (...)O que o possuidor de dinheiro encontra no mercado não é trabalho, mas o trabalhador.
O que este vende é sua F.T.. Ao começar realmente seu trabalho, já deixa este de pertencer-lhe, não
sendo mais possível vendê-lo. O trabalho é a substância e a medida imanente dos valores, mas ele
próprio não tem nenhum valor. Na expressão “valor do trabalho”, a idéia de valor não só se
desvanece inteiramente, mas também se converte no oposto dela. É uma expressão imaginária,
como, por exemplo, valor da terra. Essas expressões imaginárias, entretanto, tem sua origem nas
próprias relações de produção. São categorias que correspondem a formas aparentes de relações
essenciais. Todas as ciências, exceto a economia política, reconhecem que as coisas apresentam
frequentemente uma aparência oposta à sua essência.” P. 619s



                                                  57
“A forma salário apaga, (...), todo vestígio da divisão da jornada de trabalho em trabalho necessário
e trabalho excedente, em trabalho pago e trabalho não pago. Todo o trabalho aparece como trabalho
pago. Na corvéia distinguem-se, no tempo e no espaço, sensível e palpavelmente, o trabalho do
servo para si mesmo e seu trabalho compulsório para o senhor da terra. Na escravatura, a parte da
jornada de trabalho em que o escravo apenas compensa o valor de seus próprios meios de
subsistência, trabalhando na realidade para si mesmo, aparece como trabalho destinado a seu dono.
Todo o seu trabalho tem a aparência de trabalho não pago. No trabalho assalariado, ao contrário,
mesmo trabalho excedente ou não remunerado parece pago. No primeiro caso, a relação de
propriedade oculta o trabalho do escravo para si mesmo; no segundo, a relação monetária dissimula
o trabalho gratuito do assalariado. Compreende-se, assim, a importância decisiva da metamorfose do
valor e do preço da F.T. em salário ou em valor e preço do próprio trabalho. Nessa forma aparente
que torna invisível a verdadeira relação e ostenta o oposto dela, repousam todas as noções jurídicas
do assalariado e do capitalista, todas as mistificações do modo capitalista de produção, todas as suas
ilusões de liberdade, todos os embustes apologéticos da economia vulgar.” P. 622s

Capítulo XVIII – O Salário por Tempo

“O salário assume as mais variadas formas sobre as quais os compêndios de economia
exclusivamente interessados no aspecto mais imediato da questão, não oferecem nenhum
esclarecimento. Uma exposição sobre todas essas formas é matéria para um tratado especial sobre
trabalho assalariado e transcende ao domínio desta obra. Entretanto, ocupar-no-emos sucintamente
das duas formas principais” ( salário por peça e salário por tempo). “Já vimos que a F.T. é vendida
por determinado espaço de tempo. A forma aparente em que se apresenta o valor diário, semanal etc.
da F.T. , é portanto a de salário por tempo, isto é, salário diário, semanal etc.. De início cabe
observar que as leis expostas no capítulo XV, relativas à variação de magnitude do preço da F.T. e
da mais valia se transformam em leis do salário por meio de simples mudança de forma. Do mesmo
modo, a diferença entre valor-de-troca da F.T. e a soma dos meios de subsistência em que se
transforma esse valor se patenteia agora como diferença entre salário nominal e salário real. Seria
inútil repetir agora em relação a forma fenomênica o que já se expôs com relação à forma
essencial.” P. 626s

“A soma em dinheiro (citação: aqui estamos supondo sempre constantes o valor do dinheiro) que o
trabalhador recebe por seu trabalho diário, semanal etc. constitui o montante de seu salário nominal
ou estimado em valor. Mas, é claro que, conforme for a duração da jornada de trabalho, isto é, a
quantidade de trabalho por ele diariamente fornecida, o mesmo salário por dia, por semana etc. pode
representar preços bem diferentes do trabalho, soma de dinheiro bem diferentes para a mesma
quantidade de trabalho. Ao considerar o salário por tempo, devemos distinguir entre o montante do
salário diário, semanal etc. e o preço do trabalho.” P. 627

“Pode-se formular a seguinte lei geral: dada a quantidade de trabalho por dia, por semana etc., o
salário por dia ou por semana depende do preço do trabalho, o qual varia por sua vez, seja com o
valor da F.T. , seja com os desvios do preço dela em relação ao valor. Mas, dado o preço do
trabalho, o salário por dia ou por semana depende da quantidade do trabalho diário ou semanal. A
unidade de medida do salário por tempo, o preço da hora de trabalho, é o quociente da divisão do
valor diário da F.T. pelo número de horas da jornada normal de trabalho.” P. 629

“Se o salário por hora for fixado de modo que o capitalista não se obrigue a pagar o salário de um
dia ou de uma semana, mas apenas as horas de trabalho em que lhe apraz ocupar o trabalhador,
poderá ele empregá-lo por espaço de tempo inferior ao que surgiu originariamente de base para
calcular o salário por hora ou a unidade de medida do preço do trabalho.” P. 630

                                                 58
Capítulo XIX – Salário por Peça

“ O salário por peça não passa de uma forma a que se converte o salário por tempo, do mesmo modo
que o salário por tempo é a forma a que se converte o valor ou o preço da F.T.. O salário por peça dá
à primeira vista a impressão de que o valor-de-uso vendido pelo trabalhador não é a função de sua
força de trabalho, o trabalho vivo, mas o trabalho já materializado no produto, e que o preço desse
trabalho não é determinado, como no salário por tempo, pela fração valor diário da F.T. / jornada de
trabalho de determinado número de horas, mas pela capacidade de produção do trabalhador.” P.
636s

“A forma de salário por peça é tão irracional quanto a de salário por tempo. (...)O salário por peça,
na realidade, não expressa diretamente nenhuma relação de valor. Não se trata de medir o valor da
peça pelo tempo de trabalho nela corporificado, mas, ao contrário, o tempo despedido pelo
trabalhador pelo número de peças que produziu. No salário por tempo, o trabalho se mede
diretamente por sua duração; no salário por peça, pela quantidade de produtos em que o trabalho se
materializa num dado espaço de tempo.” P. 638s

“Vejamos mais de perto as peculiaridades do salário por peça. A qualidade do trabalho é controlada
aqui pelo próprio resultado, que tem de possuir a qualidade média, a fim de que seja pago
integralmente o salário por peça. Desse modo, o salário por peça se torna terrível instrumento de
descontos salariais e de trapaça capitalista. Proporciona ao capitalista uma medida precisa da
intensidade do trabalho. Só se considera, então, tempo de trabalho socialmente necessário, sendo
como tal pago, o tempo de trabalho que se corporifica numa quantidade de mercadorias préviamente
determinada e fixada pela experiência. (...)Se o trabalhador não possui a capacidade média de
produção, não pode ele realizar certo mínimo de trabalho durante a jornada, e é despedido. Sendo a
qualidade e a intensidade do trabalho controlados pela forma de salário, torna esta em grande parte
desnecessário o trabalho de inspeção. O salário por peça constitui a base não só do trabalho
doméstico moderno do qual já falamos anteriormente, mas também de um sistema hierarquicamente
organizado de exploração e opressão. Esse sistema possui duas formas fundamentais. Numa, o
salário por peça facilita que, entre o capitalista e o trabalhador assalariado, se insiram parasitas que
subalugam o trabalho. O ganho dos intermediários decorre da diferença entre o preço do trabalho
que o capitalista paga e a parte desse preço que eles realmente entregam ao trabalhador. (...)Noutra
forma, o salário por peça permite ao capitalista contratar o trabalhador principal (...) estabelecendo
um tanto por peça, um preço pelo qual o trabalhador principal se obriga a recrutar e a pagar seus
auxiliares. A exploração dos trabalhadores pelo capital se realiza então por meio da exploração do
trabalhador pelo trabalhador.” P. 639s

“Dado o salário por peça, é interesse naturalmente do trabalhador empregar sua F.T. o mais
intensamente possível, o que facilita ao capitalista elevar o grau normal de intensidade do trabalho.
É também interesse pessoal do trabalhador prolongar a jornada de trabalho, a fim de aumentar seu
salário diário ou semanal.” P. 640s

“(...) a maior margem de ação proporcionada pelo salário por peça influi no sentido de desenvolver,
de um lado, a individualidade dos trabalhadores e com ela o sentimento de liberdade, a
independência e o autocontrole, e, do outro, a concorrência e a emulação entre eles. Por isso, o
salário por peça tende a baixar o nível médio dos salários, elevando salários individuais. Mas, nos
casos em que determinado salário por peça vigora habitualmente há muito tempo, sendo difícil
baixá-lo, recorrem os patrões, excepcionalmente, à transformação compulsória em salário por
tempo. (...) Do exposto evidencia-se que o salário por peça é a forma de salário mais adequada ao

                                                  59
modo capitalista de produção. Embora não seja uma forma nova, pois figurava oficialmente, ao lado
do salário por tempo, nos estatutos do trabalho ingleses e franceses do séc. XIV, sua aplicação só
adquire maior amplitude no período manufatureiro propriamente dito.” P. 641s

Capítulo XX – Diversidade entre os Salários das Nações

“No capítulo XV estudamos as combinações que podem ocasionar uma variação tanto na magnitude
absoluta do valor da F.T. , quanto na magnitude relativa, na comparada com a mais valia.
Simultâneamente com a variação do preço da F.T., a quantidade dos meios de subsistência em que
ele se realiza pode experimentar flutuações independentes e diversas desse preço. (...) Quando se
comparam os salários das diferentes nações devem, portanto, ser levados em conta todos os fatores
que determinam a variação da magnitude do valor da F.T. como o preço e a extensão das
necessidades elementares da existência humana, naturais e históricamente desenvolvidas, custos de
formação do trabalhador, o papel desempenhado pelo trabalho das mulheres e das crianças, a
produtividade do trabalho, sua duração e sua intensidade. Mesmo a comparação mais superficial
exige, de início, que se reduza o salário diário médio dos mesmos ramos nos diversos países a
jornada de trabalho de igual duração. Após essa redução dos salários diários a termos homogêneos, é
mister transformar o salário por tempo em salário por peça, uma vez que só o último serve para
medir os graus de produtividade e de intensidade do trabalho.” P. 647s

“Num país, a intensidade e a produtividade do trabalho nacional se elevam acima do nível
internacional na medida em que nele está desenvolvida a produção capitalista. Por isso, as diferentes
quantidades de mercadorias da mesma espécie produzidas em diferentes países, no mesmo espaço
de tempo, tem valores internacionais desiguais, que, através dos preços, se exprimem em diferentes
somas de dinheiro. Em conseqüência, o valor relativo do dinheiro será menor no país onde a
produção capitalista é mais desenvolvida (e o trabalho portanto mais intenso) do que naquele em que
é menos desenvolvida. Infere-se daí que o salário nominal, o equivalente da F.T. expresso em
dinheiro, será mais alto no primeiro país que no segundo; o que não significa que isto seja
verdadeiro para o salário real, isto é, para os meios de subsistência postos à disposição do
trabalhador.” P. 648s




Parte Sétima – ACUMULAÇÃO DE CAPITAL


“A conversão de uma soma de dinheiro em meios de produção e F.T. é o primeiro passo dado por
uma quantidade de valor que vai exercer a função de capital. Essa conversão ocorre no mercado, na
esfera da circulação. No segundo passo, o processo de produção, consiste em transformar os meios
de produção em mercadoria cujo valor ultrapassa o dos seus elementos componentes, contendo,
portanto, o capital que foi desembolsado acrescido de uma mais valia. A seguir essas mercadorias
tem, por sua vez, de ser lançadas na esfera da circulação. Importa vendê-las, realizar seu valor em
dinheiro, e converter de novo esse dinheiro em capital, repetindo continuamente as mesmas
operações. Esse movimento circular que se realiza sempre através das mesmas fases sucessivas
constitui a circulação do capital. A primeira condição da acumulação é o capitalista conseguir
vender suas mercadorias e reconverter a maior parte do dinheiro por elas recebido em capital.
Doravante, pressupomos que o capital realiza normalmente seu processo de circulação. A análise
pormenorizada desse processo ficará para o livro segundo.” P. 657s


                                                 60
“O capitalista que produz a mais valia, isto é, que extrai diretamente dos trabalhadores trabalho não
pago, materializando-o em mercadorias, é quem primeiro se apropria dessa mais valia, mas não é o
último proprietário dela. Tem de dividi-la com capitalistas, que exercem outras funções no conjunto
da produção social, com proprietários da terra, etc.. A mais valia se fragmenta assim em diversas
partes. Suas frações cabem a diferentes categorias de pessoas e recebem por isso formas diversas,
independentes entre si, como lucro, juros, ganho comercial, renda da terra, etc.. Essas formas a que
se converte a mais valia serão estudadas no livro terceiro. Por ora, pressupomos que o capitalista que
produz a mercadoria, vende-a pelo seu valor, sem nos preocuparmos em analisar sua volta ao
mercado, ou as novas formas que o capital assume na esfera da circulação, ou as condições
concretas da reprodução ocultas nessas formas. Pressupomos ainda que o produtor capitalista é o
proprietário de toda mais valia ou o representante de todos os que participam com ele do butim.
Encaramos a acumulação, de início, de um ponto de vista abstrato, como simples fase do processo
imediato de produção.” P. 658

“(...)Qualquer que seja a proporção da mais valia que o produtor capitalista conserve para si mesmo
ou ceda a outrem, é sempre ele quem dela primeiro se apropria. Nossos pressupostos para o estudo
da acumulação consistem, portanto, pressupostos do processo real da acumulação. Por outro lado, o
fracionamento da mais valia e a circulação que serve de veículo à acumulação obscurecem a forma
fundamental do processo de acumulação. A análise do processo em sua pureza exige, por isso, que
se ponham de lado todos os fenômenos que dissimulam o funcionamento interno de um
mecanismo.” P. 658

Capítulo XXI – Reprodução Simples

“Qualquer que seja a forma social do processo de produção, tem este de ser contínuo ou de
percorrer, periódica e ininterruptamente, as mesmas fases. Uma sociedade não pode parar de
consumir nem de produzir. Por isso, todo processo social de produção encarado em suas conexões
constantes e no fluxo contínuo de sua renovação, é ao mesmo tempo processo de reprodução. As
condições da produção são simultaneamente as de reprodução. Nenhuma sociedade pode produzir
continuamente, isto é, reproduzir, sem reconverter, de maneira constante, parte de seus produtos em
meios de produção ou elementos da produção nova. Permanecendo invariáveis as demais condições,
só pode reproduzir ou manter sua riqueza no mesmo nível, substituindo durante o ano, por exemplo,
os meios de produção consumidos, isto é, instrumental de trabalho, matérias-primas e substâncias
acessórias, por quantidade igual de artigos da mesma espécie, separados da produção anual e
incorporados ao processo de produção que continua. Determinada parte do produto anual pertence
portanto à produção. Destinados, desde a origem, ao consumo produtivo, essa parte possui formas
que, em regra, tornam-na inteiramente inadequada ao consumo individual.” P. 659s

“Se a produção tem a forma capitalista, também a terá a reprodução. No modo capitalista de
produção, o processo de trabalho é apenas um meio de criar valor; análogamente, a reprodução é
apenas um meio de reproduzir o valor antecipado como capital, isto é, como valor que se expande.
Uma pessoa só assume a feição econômica de capitalista quando seu dinheiro funciona
continuamente como capital.(...) Como acréscimo periódico ao valor do capital, ou fruto periódico
do capital em movimento, a mais valia toma a forma de um rendimento que tem sua origem no
capital. Se o capitalista só utiliza esse rendimento para consumo, gastando-o no mesmo período em
que o ganha, ocorrerá então, não se alterando as demais circunstâncias, reprodução simples.” P. 660

“O processo de produção se inicia com a compra da F.T. por determinado tempo e esse começo se
renova sempre que se extingue o prazo estipulado, tendo decorrido assim determinado período de
produção, semana, mês etc.. Mas, o trabalhador só é pago depois de ter empregado sua F.T. e depois

                                                 61
de se terem materializado nas mercadorias o valor dessa força e a mais valia. Assim, produziu ele a
mais valia, provisóriamente considerada o fundo de consumo do capitalista, além de produzir o
fundo para seu próprio pagamento, o capital variável, antes de este chegar às suas mãos sob a forma
de salário. E só terá emprego enquanto reproduzir continuamente esse capital variável. (...)O capital
variável, portanto, é uma forma histórica particular em que aparece o fundo dos meios de
subsistência ou o fundo do trabalho, do qual precisa o trabalhador para manter-se e reproduzir-se e
que ele mesmo tem de produzir e reproduzir em todos os sistemas de produção social. Esse fundo
flui continuamente para ele sob a forma de meios de pagamento de seu trabalho, pois seu próprio
produto se afasta sempre dele sob a forma de capital. Mas, a forma sob que aparece o fundo em nada
altera a circunstância de o capitalista antecipar ao trabalhador o que já é na realidade trabalho
materializado por este.” P. 660s

“Pondo de lado a acumulação propriamente dita, a mera continuidade do processo de produção, isto
é, a reprodução simples, transforma necessariamente qualquer capital, após um período mais ou
menos longo, em capital acumulado ou mais valia capitalizada. Se o capital, ao ser empregado no
processo de produção, era produto do trabalho de seu investidor, torna-se ele mais cedo ou mais
tarde valor adquirido sem equivalente, ou materialização, em dinheiro ou em outra forma, de
trabalho alheio não pago.” P. 663

“(...)para transformar dinheiro em capital, não basta a existência da produção e da circulação de
mercadorias. É necessário haver, antes, de um lado, possuidor de valor ou de dinheiro, e, do outro,
possuidor da substância criadora de valor; de um lado, possuidor dos meios de produção e dos meios
de subsistência, e, do outro, possuidor apenas da F.T. , tendo ambos de se encontrarem como
comprador e vendedor. A separação entre o produto do trabalho e o próprio trabalho, entre as
condições objetivas do trabalho e a força subjetiva do trabalho, é portanto o fundamento efetivo, o
ponto de partida do processo de produção capitalista.” P. 663s

“Sendo o processo de produção ao mesmo tempo processo de consumo da F.T. pelo capitalista, o
produto do trabalhador transforma-se continuamente não só em mercadoria, mas em capital, em
valor que suga a força criadora de valor, em meios de subsistência que compram pessoas, em meios
de produção que utilizam os produtores. O próprio trabalhador produz, por isso, constantemente,
riqueza objetiva, mas sob a forma de capital, uma força que lhe é estranha, o domina e explora, e o
capitalista produz também constantemente a F.T., mas sob a forma de uma fonte subjetiva de valor,
separada dos objetos sem os quais não se pode realizar, abstrata, existente apenas na individualidade
do trabalhador; em suma, o capitalista produz o trabalhador sob a forma de trabalhador assalariado.
Essa reprodução constante, essa perpetuação do trabalhador é a condição necessária da produção
capitalista.” P. 664s

“Quando o capitalista transforma parte de seu capital em F.T. , aumenta ele o valor de seu capital
global. Com uma cajadada mata dois coelhos. Lucra não só com o que recebe do trabalhador, mas
também com o que lhe dá. (...) Dentro dos limites do absolutamente necessário o consumo
individual da classe trabalhadora, portanto, transforma os meios de subsistência, proporcionados
pelo capital em troca de F.T. , em nova F.T. explorável pelo capital. (...)Pouco importa que o
trabalhador realize seu consumo individual tendo em vista sua própria satisfação e não a do
capitalista. As bestas de carga saboreiam o que comem, mas seu consumo não deixa, por isso, de ser
um elemento necessário do processo de produção. A conservação, a reprodução da classe
trabalhadora constitui condição necessária e permanente da reprodução do capital. O capitalista pode
deixar tranqüilamente o preenchimento dessa condição por conta dos instintos de conservação e de
perpetuação dos trabalhadores. Sua verdadeira preocupação é restringir ao estritamente necessário o
consumo individual dos trabalhadores (...). Por isso o capitalista e seu ideólogo, o economista

                                                 62
político, só consideram produtiva a parte do consumo individual do trabalhador, necessária para
perpetuar a classe trabalhadora, tendo portanto de ser realizada, a fim de que o capital possa
consumir F.T. ; o que o trabalhador vier a consumir, além disso para seu próprio prazer, é consumo
improdutivo. (...)Na realidade, o consumo individual do trabalhador é para ele mesmo improdutivo,
pois só reproduz o indivíduo necessitado; é produtivo para o capitalista e para o estado, pois
constitui a produção da força que cria a riqueza alheia.” P. 665ss

“Do ponto de vista social, portanto, a classe trabalhadora, mesmo quando não está diretamente
empenhada no processo de trabalho, é um acessório do capital do mesmo modo que o instrumental
inanimado de trabalho. Dentro de certos limites, mesmo seu consumo individual não passa de um
elemento do processo de reprodução do capital. Mas, o processo procura evitar que lhe escapem
esses instrumentos conscientes da produção, carreando continuamente o que produzem para o pólo
oposto do capital. O consumo individual assegura a conservação e reprodução dos trabalhadores e,
destruindo os meios de subsistência, o contínuo reaparecimento dos trabalhadores no mercado de
trabalho. O escravo romano era preso por grilhões; o trabalhador assalariado está preso a seu
proprietário por fios invisíveis. A ilusão de sua independência se mantém pela mudança contínua
dos seus patrões e com a ficção jurídica do contrato.” P. 667

“A produção capitalista, encarada em seu conjunto, ou como processo de reprodução, produz não só
mercadoria, não só mais valia; produz e reproduz a relação capitalista: de um lado, o capitalista e do
outro, o assalariado.” P. 673

Capítulo XXII – Transformação da Mais Valia em Capital

“(...)Ampliação de mais valia como capital ou conversão de mais valia em capital é o que se chama
de acumulação de capital.” P. 674

“Para acumular, é necessário transformar parte do produto excedente em capital. Mas, sem fazer
milagres, só se pode transformar em capital coisas que são aplicáveis no processo de trabalho, isto é,
meios de produção, e coisas das quais o trabalhador precisa para manter-se, isto é, meios de
subsistência. Em conseqüência, parte do trabalho anual excedente tem de ser transformado para
produzir meios adicionais de produção e de subsistência acima da quantidade necessária para
substituir o capital adiantado. Em suma, a mais valia só pode ser transformada em capital porque o
produto excedente, do qual ela é o valor, já contém os elementos materiais de um novo capital. Para
fazer esses elementos materiais funcionarem realmente como capital, a classe capitalista precisa
apenas de um acréscimo de trabalho. Não sendo possível aumentar extensiva ou intensivamente a
exploração dos trabalhadores já empregados, tem de ser utilizadas forças de trabalho adicionais. O
mecanismo da produção capitalista já resolveu esse problema, reproduzindo a classe trabalhadora
como classe que depende de salário e à qual este ordináriamente assegurada não só a conservação
mas a multiplicação. O capital precisa apenas incorporar essas F.T. adicionais anualmente
fornecidas, em diversas idades, pela classe trabalhadora, aos meios de produção adicionais já
contidos na produção anual. Com isso, completa-se a transformação da mais valia em capital. De um
ponto de vista concreto, a acumulação não passa de reprodução do capital em escala que cresce
progressivamente.” P. 676s

“Desde a origem, não contém ela “(capital adicional, mais valia capitalizada)” nenhuma partícula de
valor que não derive de trabalho alheio não pago. Os meios de produção aos quais se incorpora a
F.T. adicional e os meios de subsistência, com os quais se mantém essa força, não são mais do que
elementos integrantes do produto excedente, do tributo que a classe capitalista anualmente extrai da
classe trabalhadora. Quando aquela com uma parte do tributo compra a F.T. adicional desta, mesmo

                                                 63
pelo seu preço total, de modo que se troque equivalente por equivalente, volta a repetir-se o velho
procedimento do conquistador que paga as mercadorias fornecidas pelo vencido com o dinheiro que
arrancou dele.” P. 677s

“Cada transação particular corresponde sempre à lei de troca de mercadorias, comprando o
capitalista a F.T. e vendendo-a sempre o trabalhador, e admitiremos que pelo valor real. Nessas
condições, é evidente que o direito de propriedade privada, baseado sobre a produção e circulação
das mercadorias se transmuta em seu oposto em virtude de sua própria dialética interna, inexorável.
No início, havia uma troca de equivalentes, depois, a troca é apenas aparente: a troca do capital que
se troca por F.T. é uma parte do produto do trabalho alheio do qual o capitalista se apropriou sem
compensar com um equivalente; além disso, o trabalhador que produziu essa parte do capital tem de
reproduzi-la, acrescentando um excedente. A relação de troca entre capitalista e trabalhador não
passa de uma simples aparência que faz parte do processo de circulação, mera forma, alheia ao
verdadeiro conteúdo e que apenas o mistifica. A forma é a contínua compra e venda da F.T.. O
conteúdo é o capitalista trocar sempre por quantidade maior de trabalho vivo uma parte do trabalho
alheio já materializado, do qual se apropria ininterruptamente, sem dar a contrapartida de um
equivalente. Originalmente, o direito de propriedade aparecia fundamentado sobre o próprio
trabalho. Essa suposição era pelo menos necessária, uma vez que se confrontavam possuidores de
mercadorias com iguais direitos e o único meio de que uma pessoa dispõe para apropriar-se de
mercadoria alheia é alienar a própria, e essas só podem ser produzidas com trabalho. Agora, do lado
capitalista, propriedade revela-se o direito de apropriar-se de trabalho alheio não pago ou do seu
produto, e, do lado do trabalhador, a impossibilidade de apropriar-se do produto de seu trabalho. A
dissociação entre propriedade e trabalho se torna conseqüência necessária de uma lei que claramente
derivava da identidade existente entre ambos.” P. 679

“No capítulo anterior, focalizamos a mais valia ou o produto excedente como fundo de consumo
individual do capitalista e, neste, consideramo-la, até agora, como fundo de acumulação. Na
verdade, ela é ambas as coisas ao mesmo tempo. Uma parte da mais valia é consumida como renda,
outra parte é empregada como capital ou acumulada. Dada a quantidade de mais valia, uma dessas
partes é tanto maior quanto menor for a outra. Permanecendo iguais as demais circunstâncias, a
proporção que existe entre essas partes determina a magnitude da acumulação. Mas, quem realiza
essa divisão é o proprietário da mais valia, o capitalista, que pratica, assim, um ato de vontade. Com
referência à parte desse tributo por ele acumulada, diz-se que a economiza porque não a consome,
isto é, porque exerce sua função de capitalista, a função de enriquecer-se.” P. 687

“O capitalista só possui um valor perante a história e o direito histórico à existência, enquanto
funciona personificando o capital. Sua própria necessidade transitória, nessas condições, está ligada
à necessidade transitória do modo capitalista de produção. Mas, ao personificar o capital, o que o
impele não são os valores-de-uso de sua fruição e sim o valor-de-troca e sua ampliação. (...)O
capitalista é respeitável apenas quando personifica o capital. Nessa função, partilha com o
entesourador a paixão da riqueza pela riqueza. Mas, o que neste é mania individual, é naquele uma
resultante social. O capitalista é apenas uma das rodas motoras desse mecanismo. Além disso, o
desenvolvimento da produção capitalista torna necessária elevação contínua do capital empregado
num empreendimento industrial, e a concorrência impõe a cada capitalista as leis imanentes do
modo capitalista de produção como leis coercitivas externas. Compele-o a expandir continuamente
seu capital, para conservá-lo, e só pode expandi-lo por meio da acumulação progressiva. Enquanto
for consciência e vontade do capital em suas ações e omissões, verá no seu próprio consumo privado
o equivalente a um roubo contra a acumulação. Aliás, no sistema de escrituração de partidas
dobradas, as despesas particulares são lançadas contra o capital, no lado devedor da conta do
capitalista. Acumular é empreender a conquista do modo da riqueza social. Juntamente com a

                                                 64
quantidade do material humano explorado, a acumulação amplia o domínio direto e indireto do
capitalista. Mas, o pecado original se manifesta por toda parte. Com o desenvolvimento do modo
capitalista de produção, da acumulação e da riqueza, deixa o capitalista de ser mera encarnação do
capital. Sente compaixão por si mesmo e atinge um nível de educação que o leva a sorrir do apêgo à
ascese, considerando-o preconceito do entesourador arcaico. Enquanto o capitalista clássico condena
o consumo individual como pecado contra sua função e atentado contra a acumulação, o capitalista
moderno é capaz de considerar a acumulação uma renúncia ao impulso de fruir a vida. “em seu
peito, coitadinho, moram duas almas que lutam por separar-se” (citação: paródia a palavra de
Fausto, em “Fausto” de Goethe). Nos primórdios históricos do modo capitalista de produção, todo
capitalista novo-rico percorre este estágio – dominam o impulso para enriquecer-se e a avareza
como paixões absolutas. Mas, o progresso da produção capitalista não cria apenas um modo de
fruições. Com a especulação e com o crédito, abre milhares de fontes de enriquecimento rápido. A
certo nível de desenvolvimento, certa dose convencional de prodigalidade se torna necessária para o
negócio do “infeliz” capitalista, a qual serve para exibir riqueza, sendo por isso meio de obter
crédito. O luxo entra nos custos de representação do capital. Além disso, o capitalista se enriquece
não como o entesourador, na proporção do seu trabalho pessoal e do que deixa de gastar consigo
mesmo, mas na medida em que suga F.T. alheia e impõe ao trabalhador a renúncia à fruição da vida.
Embora a prodigalidade do capital não tenha, por isso, o caráter de boa fé que se encontra no senhor
feudal esbanjador, embora oculte atrás dela a mais sórdida avareza e os cálculos mais mesquinhos,
ela cresce com a acumulação, sem que uma restrinja a outra. Assim desenvolve-se no coração do
capitalista um conflito fáustico entre o impulso de acumular e o de gozar a vida.” P. 688ss

“(...)Ao tratar da produção da mais valia, temos pressuposto sempre que o salário tem um valor pelo
menos igual ao da F.T.. A redução compulsória do salário abaixo desse valor, entretanto,
desempenha na prática papel demasiadamente importante para não nos determos por um momento
em sua análise. Dentro de certos limites, essa redução transforma efetivamente o fundo de consumo
necessário à manutenção do trabalhador em fundo de acumulação do capital.” P. 697

“ Embora, em todos os ramos industriais, a parte do capital constante constituída por instrumental de
trabalho tenha de ser suficiente para certo número de trabalhadores, determinado pela magnitude do
empreendimento, não é necessário que essa parte aumente sempre na proporção da quantidade do
trabalho empregado. (...)o trabalho adicional obtido com maior tensão da F.T. pode aumentar o
produto excedente e a mais valia, a substância da acumulação, sem o correspondente aumento
prévio do capital constante. Na indústria extrativa, na mineração, por ex., as matérias-primas não
constituem parte componente do capital adiantado. O objeto de trabalho, nesse caso, não é produto
de trabalho anterior, mas um presente gratuito da natureza (...). Aí o capital constante se constitui
quase exclusivamente de instrumental de trabalho, capaz de suportar uma quantidade muito
ampliada de trabalho, com turmas noturnas e diurnas de trabalhadores, por ex..(...)Na agricultura,
não se pode aumentar a terra lavrada, sem o fornecimento prévio de mais sementes e adubos. Mas,
feita essa antecipação, o cultivo puramente mecânico do solo exerce efeito maravilhoso sobre a
quantidade produzida. (...) Por fim, na indústria propriamente dita, cada dispêndio adicional de
trabalho pressupõe um dispêndio correspondente em matérias-primas, mas não necessariamente em
instrumental de trabalho. E uma vez que a indústria extrativa e a agricultura fornecem à indústria
propriamente dita as matérias-primas desta e as matérias-primas de seu instrumental de trabalho,
beneficia-se também o acréscimo de produção que aquelas conseguem sem capital adicional.
Resultado geral: ao incorporar as fontes originais da riqueza, a F.T. e a terra, adquire o capital uma
força de expansão, que lhe possibilita ampliar os elementos de sua acumulação além dos limites
aparentemente estabelecidos por sua própria magnitude, fixados pelo valor e pela quantidade dos
meios de produção já produzidos, através dos quais existe o capital.” P. 701s


                                                 65
“(...)É propriamente natural do trabalho vivo conservar o valor antigo, acrescentando-lhe ao mesmo
tempo valor novo. Por isso, com o aumento da eficácia, do volume e do valor dos seus meios de
produção, com a acumulação, portanto, que acompanha o desenvolvimento de sua força produtiva,
conserva e eterniza o trabalho um valor constantemente crescente do capital em forma sempre nova.
Essa força natural do trabalho assume a aparência de propriedade do capital a que se incorpora, de
força do capital para conservar-se, do mesmo modo que as forças produtivas do trabalho social
parecem ser propriedades do capital e o exercício contínuo da função capitalista de apropriar-se do
trabalho excedente aparenta ser constante auto-expansão do capital. Todas as forças do trabalho
aparecem como forças do capital, do mesmo modo que todas as formas de valor da mercadoria se
mascaram em formas de dinheiro.” P. 705s

“(...)a importância sempre crescente do trabalho passado que coopera no processo de trabalho vivo
sob a forma de meios de produção, é atribuída à figura do capital, essa forma estranha ao trabalhador
e que não é mais do que o trabalho deste, anteriormente realizado e não pago. Os agentes práticos da
produção capitalista e seus ideólogos palradores são incapazes de imaginar separados, os meios de
produção e sua mascara social antagônica. São como o dono de escravos que não separa o
trabalhador de sua condição de escravo.” P. 707

“Dado o grau de exploração da F.T. , a quantidade de mais valia é determinada pelo número de
trabalhadores simultaneamente explorados, e esse número corresponde, embora em proporção
variável, à magnitude do capital. Por isso, quanto mais cresce o capital, em virtude de acumulações
sucessivas, tanto mais aumenta o valor global que se reparte em fundo de consumo e fundo de
acumulação. O capitalista pode viver então mais alegremente e, ao mesmo tempo, “renunciar” mais.
E, por fim, todas as molas da produção funcionam com mais energia quanto mais aumenta sua
escala com o montante de capital adiantado.” P. 707

Capítulo XXIII – A Lei Geral da Acumulação Capitalista

“Neste capítulo examinamos a influência que o aumento do capital tem sobre a sorte da classe
trabalhadora. Os fatores mais importantes para este estudo são a composição do capital e as
modificações que experimenta no curso do processo de acumulação. A composição do capital tem
de ser apreciada sob dois aspectos. Do ponto de vista do valor, é determinada pela proporção em que
o capital se divide em constante, o valor dos meios de produção, e variável, o valor da F.T. , a soma
global dos salários. Do ponto de vista da matéria que funciona no processo de produção, todo capital
se decompõe em meios de produção e F.T. viva; essa composição é determinada pela relação entre a
massa dos meios de produção empregados e a quantidade de trabalho necessária para eles serem
empregados. Chamo a primeira composição de composição segundo o valor, e a segunda de
composição técnica. Há estreita correlação entre ambas. Para expressá-la, chamo a composição do
capital segundo o valor na medida em que é determinada pela composição técnica e reflete as
modificações desta, de composição orgânica do capital. Ao falar simplesmente de composição do
capital, estaremos sempre nos referindo à sua composição orgânica.” P. 712s

“Os numerosos capitais empregados num determinado ramo industrial diferem mais ou menos entre
si pela sua composição. A média de suas composições individuais dá-nos a composição do capital
global desse ramo de produção. Por fim, a média geral das composições médias de todos os ramos
de produção nos dá a composição do capital social de um país, a que fundamentalmente nos
interessa no estudo que segue.” P. 713

“(...) A reprodução simples reproduz constantemente a mesma relação capitalista, capitalista de um
lado e assalariado do outro; do mesmo modo, a reprodução ampliada ou a acumulação reproduz a

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mesma relação em escala ampliada: mais capitalistas ou capitalistas mais poderosos, num pólo, e
mais assalariados, no outro. A F.T. tem de incorporar-se continuamente ao capital como meio de
expandi-lo, não pode livrar-se dele. Sua escravização ao capital se dissimula apenas com a mudança
dos capitalistas a que se vende, e sua reprodução constitui, na realidade, um fator de reprodução do
próprio capital. Acumular capital é portanto aumentar o proletariado.” P. 714

“(...)O capital produz anualmente mais valia, parte da qual se agrega todo o ano ao capital original;
esse acréscimo aumenta todo o ano com o crescimento do capital que já está em funcionamento;
além disso, a escala da acumulação pode ser ampliada, alterando-se apenas a repartição da mais
valia ou do produto excedente do capital e renda, se houver um incentivo especial ao impulso de
enriquecimento, como, por ex., quando surgem novos mercados, novas esferas de aplicação do
capital em virtude de desenvolvimento de novas necessidades sociais etc.. Esses fatores podem fazer
as necessidades de acumulação do capital ultrapassar o crescimento da F.T. ou do número de
trabalhadores, a procura de trabalhadores ser maior que a oferta, ocasionando assim a elevação dos
salários.” P. 713s

“Nas condições de acumulação até agora admitidas, as mais favoráveis aos trabalhadores, sua
relação de dependência para com o capital se reveste de formas suportáveis (...). Essa submissão, em
vez de mais intensa, se torna mais extensa, ao crescer o capital, que amplia seu campo de exploração
e de domínio com as próprias dimensões e com o número de seus vassalos. Estes recebem, sob a
forma de meios de pagamentos, uma porção importante do seu próprio produto excedente que se
expande e se transforma em quantidade cada vez maior de capital adicional. Desse modo, podem
ampliar seus gastos, provendo-se melhor de roupas, móveis etc. e formar um pequeno fundo de
reserva em dinheiro. Roupa, alimentação e tratamento melhores e maior pecúlio não eliminam a
dependência e a exploração do escravo, nem as do assalariado. Elevação do preço do trabalho, em
virtude da acumulação do capital, significa que a extensão e o peso dos grilhões de ouro que o
assalariado forjou para si mesmo apenas permitem que fique menos rigidamente acorrentado. Nas
controvérsias sobre o assunto, omite-se, em regra, o principal, o caráter específico da produção
capitalista. (...)Produzir mais valia é a lei absoluta desse modo de produção.(...)As condições de sua
venda, mais favoráveis ao trabalhador, implicam portanto a necessidade de sua revenda contínua e a
reprodução constantemente ampliada da riqueza como capital.” P. 717ss

“A lei da produção capitalista, que serve de base à pretensa lei natural da produção, reduz-se
simplesmente ao seguinte: a relação entre capital, acumulação e salários é apenas a relação entre o
trabalho gratuito que se transforma em capital e o trabalho adicional necessário para por em
movimento esse capital suplementar. Não é de modo nenhum uma relação entre duas grandezas
independentes entre si, de um lado a magnitude do capital, do outro o número dos trabalhadores; em
última análise, é apenas a relação entre trabalho não pago e trabalho pago da mesma população
trabalhadora. Se cresce a quantidade do trabalho gratuito fornecida pela classe trabalhadora e
acumulado pela classe capitalista, com velocidade bastante que só possa transformar-se em capital
com um acréscimo extraordinário de trabalho pago, haverá então uma elevação de salário e, não se
alterando as demais condições, decrescerá proporcionalmente o trabalho não pago. Mas, quando
esse decréscimo atinge o ponto em que o capital não obtém mais em proporção normal o trabalho
excedente que o alimenta, opera-se uma reação: capitaliza-se parte menor da renda, a acumulação
enfraquece e surge uma pressão contra o movimento ascensional dos salários. A elevação do preço
do trabalho fica, portanto, confinada em limites que mantém intactas os fundamentos do sistema
capitalista e asseguram sua produção em escala crescente. A lei da acumulação capitalista,
mistificada em lei natural, na realidade só significa que sua natureza exclui todo decréscimo do grau
de exploração do trabalho ou toda elevação do preço do trabalho que possam comprometer
sériamente a reprodução contínua da relação capitalista e sua reprodução em escala ampliada. E tem

                                                 67
de ser assim num modo de produção em que o trabalhador existe para as necessidades de expansão
dos valores existentes, ao invés de a riqueza material existir para as necessidades de
desenvolvimento do trabalhador. Na religião, o ser humano é dominado por criações de seu próprio
cérebro; análogamente, na produção capitalista, ele é subjugado pelos produtos de suas próprias
mãos.” P. 721s

“De acordo com os próprios economistas, não é a magnitude da riqueza social existente nem a
grandeza do capital já adquirido que levam a uma elevação dos salários, mas, apenas o crescimento
continuado da acumulação e a velocidade desse crescimento. Observamos até agora uma
determinada fase desse processo, aquela em que se dá acréscimo do capital sem se alterar a
composição técnica do capital. Mas, o processo ultrapassa essa fase. Dados os fundamentos gerais
do sistema capitalista, chega-se sempre, no curso da acumulação, a um ponto em que o
desenvolvimento da produtividade do trabalho social se torna a mais poderosa alavanca da
acumulação.” P. 722s

“Pondo-se de lado as condições naturais, como fertilidade do solo, e a habilidade dos produtores que
trabalham independentes e isolados, a qual se patenteia mais na qualidade do que na quantidade do
que produzem, o grau de produtividade do trabalho, numa determinada sociedade, se expressa pelo
volume relativo dos meios de produção que um trabalhador, num tempo dado, transforma em
produto, com o mesmo dispêndio de F.T.. A massa dos meios de produção que transforma aumenta
com a produtividade de seu trabalho. Esses meios de produção desempenham duplo papel. O
incremento de um é consequência, o de outros, condição da produtividade crescente do trabalho.
(...)Mas, condição ou conseqüência, a grandeza crescente dos meios de produção, em relação à F.T.
neles incorporada, expressa a produtividade crescente do trabalho. O aumento desta se patenteia,
portanto, no decréscimo da quantidade de trabalho em relação à massa dos meios de produção que
põe em movimento, ou na diminuição do fator subjetivo do processo de trabalho em relação aos seus
fatores objetivos. Essa mudança na composição técnica do capital, o aumento da massa nos meios de
produção, comparada com a massa da F.T. que os vivifica, reflete-se na composição do valor do
capital, com o aumento da parte constante às custas da parte variável.” P. 723s

“O decréscimo da parte variável do capital em comparação com a parte constante, essa mudança na
composição do valor do capital, só revela de maneira aproximada a alteração ocorrida na
composição técnica. (...)A razão é simplesmente essa: com a produtividade crescente do trabalho
não só aumenta o volume dos meios de produção que ele consome, mas cai o valor desses meios de
produção em comparação com seu volume. Seu valor aumenta em termos absolutos, mas não cai em
proporção com seu volume. O aumento da diferença entre capital constante e variável é, por isso,
muito menor que o aumento da diferença entre a massa dos meios de produção em que se converte o
capital constante e a massa da F.T. em que se transforma o capital variável. A primeira diferença
cresce com a segunda, porém, em grau menor. Mas, se o progresso da acumulação reduz a
magnitude relativa da parte variável do capital, não exclui, com isso, o aumento de sua magnitude
absoluta.” P. 724s

“Todo capital individual é uma concentração maior ou menor dos meios de produção com o
comando correspondente sobre um exército maior ou menor de trabalhadores. Cada acumulação se
torna meio de nova acumulação.” P. 726

(A)“dispersão do capital social em muitos capitais individuais ou a repulsão entre seus fragmentos é
contrariada pela força de atração existente entre eles. Não se trata mais da concentração simples dos
meios de produção e de comando sobre o trabalho, a qual significa acumulação. O que temos agora
é a concentração dos capitais já formados, a supressão de sua autonomia individual, a expropriação

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do capitalista pelo capitalista, a transformação de muitos capitais pequenos em poucos capitais
grandes. (...)O capital se acumula aqui nas mãos de um só, porque escapou das mãos de muitos
noutra parte. Esta é a centralização propriamente dita, que não se confunde com a acumulação e a
concentração. (...)A concorrência e o crédito, as duas mais poderosas alavancas da centralização,
desenvolvem-se na proporção em que se amplia a produção capitalista e a acumulação. (...)A
centralização completa a tarefa da acumulação, capacitando o capitalista industrial a ampliar a
escala de suas operações. (...)O aumento do tamanho dos estabelecimentos individuais constitui por
toda parte o ponto de partida para uma organização mais vasta do trabalho cooperativo que utilizam,
para mais amplo desenvolvimento de suas forças materiais, isto é, para a transformação progressiva
de processos de produção isolados e rotineiros em processos de produção socialmente combinados e
cientificamente organizados. É evidente que a acumulação, o aumento progressivo do capital pela
reprodução que passa da forma circular para a de espiral, é processo bastante lento, comparado com
a centralização que precisa apenas alterar o agrupamento quantitativo das partes integrantes do
capital social. O mundo ainda estaria sem estradas de ferro, se tivesse de esperar que a acumulação
capacitasse alguns capitais isolados para a construção de uma ferrovia. (...)Aumentando e
acelerando os efeitos da acumulação, a centralização amplia e acelera ao mesmo tempo as
transformações na composição técnica do capital, as quais aumentam a parte constante às custas da
parte variável, reduzindo assim a procura relativa de trabalho.” P. 727ss

“Os capitais adicionais que se formam no curso da acumulação normal servem preferentemente de
veículo para explorar novos inventos e descobertas, para introduzir aperfeiçoamentos industrial em
geral. Mas, também o capital velho chega, com o tempo, ao momento de renovar-se, de mudar de
pele e de renascer com feição técnica aperfeiçoada, que reduz a quantidade de trabalho e põe em
movimento maior quantidade de maquinaria e matérias-primas. A redução absoluta da procura de
trabalho que necessariamente daí decorre será evidentemente tanto maior, quanto mais tenha o
movimento de centralização combinado os capitais que percorrem esse processo de renovação. O
capital adicional formado no curso da acumulação atrai, relativamente à sua grandeza, cada vez
menos trabalhadores. E o velho capital periodicamente reproduzido com nova composição repele,
cada vez mais, trabalhadores que antes empregava.” P. 729s

“(...)Sendo a procura de trabalho determinada não pela magnitude do capital global, mas pela
magnitude de sua parte variável, ela cai progressivamente com o aumento do capital global, ao invés
de crescer proporcionalmente com ele, (...)a verdade é que a acumulação capitalista sempre produz,
e na proporção de sua energia e de sua extensão, uma população trabalhadora supérflua
relativamente, isto é, que ultrapassa as necessidades médias de expansão do capital, tornando-se
desse modo, excedente.” P. 731

“Observando o capital social global, verificamos que ora o movimento de sua acumulação provoca
mudanças periódicas, que influem em sua totalidade, ora causa mudanças simultâneas e diferentes
nos diversos ramos de produção. Em alguns ramos, ocorre mudança na composição do capital, sem
aumentar sua magnitude absoluta, em virtude de mera centralização; em outros, o crescimento
absoluto do capital corre paralelo com a redução absoluta de sua parte variável ou da F.T. por ele
absorvida; em outros, ora o capital prossegue aumentando em dada base técnica e atrai F.T.
adicional à proporção que cresce, ora ocorre mudança orgânica, contraindo-se sua parte variável.
(...)Com a magnitude do capital social já em funcionamento e seu grau de crescimento, com a
ampliação da escala de produção e da massa de trabalhadores mobilizados, com o desenvolvimento
da produtividade do trabalho, com o fluxo mais vasto e mais completo dos mananciais da riqueza,
amplia-se a escala em que a atração maior dos trabalhadores pelo capital está ligada à maior
repulsão deles. Além disso, aumenta a velocidade das mudanças na composição orgânica do capital
e na sua forma técnica, e número crescente de ramos de produção é atingido, simultânea ou

                                                69
alternativamente, por essas mudanças. Por isso, a população trabalhadora, ao produzir a acumulação
do capital, produz, em proporções crescentes, os meios que fazem dela, relativamente, uma
população supérflua. Esta é uma lei da população peculiar ao modo capitalista de produção. Na
realidade todo modo histórico de produção tem suas leis próprias de população válidas dentro de
limites históricos. Uma lei abstrata da população só existe para plantas e animais, e apenas na
medida em que esteja excluída da ação humana.” P. 731ss

“Mas, se uma população trabalhadora excedente é produto necessário da acumulação ou do
desenvolvimento da riqueza no sistema capitalista, ela se torna por sua vez a alavanca da
acumulação capitalista, e mesmo condição de existência do modo de produção capitalista. Ela
constitui um exército industrial de reserva disponível, que pertence ao capital de maneira tão
absoluta como se fosse criado e mantido por ele. Ela proporciona o material humano a serviço das
necessidades variáveis de expansão do capital e sempre pronto para ser explorado,
independentemente dos limites do verdadeiro incremento da população.” P. 733s

“Não basta à produção capitalista a quantidade de F.T. disponível, fornecida pelo incremento natural
da população. Para funcionar a sua vontade, precisa ela de um exército industrial de reserva que não
depende desse limite natural.” P. 737

“Vimos que o desenvolvimento do modo capitalista de produção e da força produtiva do trabalho,
causa e efeito ao mesmo tempo da acumulação, capacita o capitalista a por em ação maior
quantidade de trabalho com o mesmo dispêndio de capital variável, explorando mais, extensiva ou
intensivamente, as forças de trabalho individuais. Vimos também que ele compra mais forças de
trabalho com o mesmo capital, ao substituir progressivamente trabalhadores qualificados por
trabalhadores menos hábeis, mão-de-obra amadurecida por mão-de-obra incipiente, a F.T. masculina
pela feminina, a adulta pela de jovens ou crianças. (...)Por isso, a produção de uma superpolução
relativa ou liberação de trabalhadores avança mais rapidamente do que a transformação técnica do
processo de produção, acelerada com o progresso da acumulação, e do que o correspondente
decréscimo proporcional do capital variável em relação ao constante. Se os meios de produção, ao
aumentarem sua extensão e sua eficácia, se tornam em menor grau meios de emprego dos
trabalhadores, temos de considerar ainda que essa relação é modificada pelo fato de o capital, à
medida que cresce a produtividade do trabalho, aumentar sua obtenção de trabalho mais
rapidamente que sua procura de trabalhadores. O trabalho excessivo da parte empregada da classe
trabalhadora engrossa as fileiras de seu exército de reserva, enquanto inversamente a forte pressão
que este exerce sobre aquela, através da concorrência, compele-a ao trabalho excessivo e a sujeitar-
se às exigências do capital. A condenação de uma parte da classe trabalhadora à ociosidade forçada,
em virtude do trabalho excessivo da outra parte, torna-se fonte de enriquecimento individual dos
capitalistas e acelera ao mesmo tempo a produção do exército industrial de reserva numa escala
correspondente ao progresso da acumulação social. (...)Em seu conjunto, os movimentos gerais dos
salários se regulam exclusivamente pela expansão e contração do exército industrial de reserva,
correspondentes às mudanças periódicas do ciclo industrial. Não são, portanto, determinadas pelas
variações do número absoluto da população trabalhadora, mas, pela proporção variável em que a
classe trabalhadora se divide em exército da ativa e exército da reserva, pelo acréscimo e decréscimo
da magnitude relativa da superpopulação, pela extensão em que ora é absorvida, ora é liberada.” P.
738s

“(...)A procura de trabalho não se identifica com o crescimento do capital, nem a oferta de trabalho
com o crescimento da classe trabalhadora. Não há aí duas forças independentes, uma influindo sobre
a outra. É um jogo com dados viciados. O capital age ao mesmo tempo dos dois lados. Se sua
acumulação aumenta também a oferta de trabalhadores, “liberando-os”, ao mesmo tempo que a

                                                 70
pressão dos desempregados compele os empregados a fornecerem mais trabalho, tornando até certo
ponto independente a obtenção a oferta de trabalho da oferta de trabalhadores. Nessas condições, o
movimento da lei da oferta e da procura de trabalho torna completo o despotismo do capital. Quando
os trabalhadores descobrem que, quanto mais trabalham, mais produzem riquezas para os outros,
quanto mais cresce a força produtiva de seu trabalho, mais precária se torna sua função de meio de
expandir o capital; quando vêem que a intensidade da concorrência entre eles mesmos depende
totalmente da pressão da superpopulação relativa; quando, por isso, procuram organizar uma ação
conjunta dos empregados e desempregados através dos sindicatos etc. , para destruir ou enfraquecer
as conseqüências ruinosas daquela lei natural da produção capitalista sobre sua classe, então
protestam em altos brados o capital e seu defensor, o economista político, contra a violação da
“eterna” e, por assim dizer , “sacrossanta” lei da oferta e da procura. Todo entendimento entre
empregados e desempregados perturba o funcionamento puro dessa lei. Mas quando circunstâncias
adversas, (...)impelem a formação do exército industrial de reserva e, por isso, a subordinação
absoluta da classe trabalhadora à classe capitalista, o capital, de mãos dadas com seu escudeiro
apregoador de lugares-comuns, rebela-se contra a lei “sacrossanta” da oferta e da procura e busca
corrigi-la através de providências coercitivas.” P. 742s

“A superpopulação relativa existe sob os mais variados matizes. Todo trabalhador dela faz parte
durante o tempo em que está desempregado ou parcialmente empregado. As fases alternadas do
ciclo industrial fazem-na aparecer ora em forma aguda nas crises, ora em forma crônica, nos
períodos de paralisação. Mas, além dessas formas principais que se reduzem periodicamente assume
ela, continuamente, as três formas seguintes: flutuante, latente e estagnada.” P. 743

“Nos centros da indústria moderna, fábricas, manufaturas, usinas siderúrgicas e minas etc. , os
trabalhadores são ora repelidos, ora atraídos em quantidade maior, de modo que, no seu conjunto,
aumenta o número dos empregados, embora em proporção que decresce com o aumento da escala da
produção. Aí a superpopulação assume a forma flutuante.” P. 743s

“Quando a produção capitalista se apodera da agricultura ou nela vai penetrando, diminui, à medida
que se acumula o capital que nela funciona, a procura absoluta da população trabalhadora rural. Dá-
se uma repulsão de trabalhadores que não é contrabalançada por maior atração, como ocorre na
indústria não-agrícola. Por isso, parte da população rural encontra-se sempre na iminência de
transferir-se para as fileiras do proletariado urbano ou da manufatura e na espreita de circunstâncias
favoráveis a essa transferência (manufatura aqui significa todas as indústrias não-agrícolas). Está
fluindo sempre esse manancial da superpopulação relativa. Mas, seu fluxo constante para as cidades
pressupõe no próprio campo como uma população supérflua sempre latente, cuja dimensão só se
torna visível quando, em situações excepcionais, se abrem todas as comportas dos canais de
drenagem. Por isso, o trabalhador rural é rebaixado ao nível mínimo de salário e está sempre com
um pé no pântano do pauperismo.” P. 745s

“A terceira categoria de superpopulação relativa, a estagnada, constitui parte do exército de
trabalhadores em ações, mas com ocupação totalmente irregular. Ela proporciona ao capital
reservatório inesgotável da F.T. disponível. Sua condição de vida se atua abaixo do nível médio
normal da classe trabalhadora e justamente isso torna-se base ampla de ramos especiais de
exploração do capital. Duração máxima de trabalho e mínimo de salário caracterizam sua existência.
(...)A superpopulação estagnada se amplia à medida que o incremento e a energia da acumulação
aumentam o número dos trabalhadores supérfluos. Ela se reproduz e se perpetua, e é o componente
da classe trabalhadora que tem no crescimento global dela, uma participação relativamente maior
que a dos demais componentes. Na realidade, a quantidade de nascimentos e óbitos e o tamanho
absoluto das famílias está na razão inversa do nível de salários e, portanto, da quantidade de meios

                                                 71
de subsistência de que dispõem as diversas categorias de trabalhadores. Esta lei da sociedade
capitalista não se encontra entre selvagens, nem entre colonos civilizados. Lembra a reprodução em
massa de espécies animais cujos indivíduos são débeis e constantemente perseguidos.” P. 746

“Finalmente, o mais profundo sedimento da superpopulação relativa vegeta no inferno da
indigência, do pauperismo. Pondo de lado os vagabundos, os criminosos, as prostitutas, o rebotalho
do proletariado em suma, essa camada consiste de três categorias. Primeiro, os aptos para o trabalho.
(...)Segundo, os orfãos e filhos de indigentes. (...)Terceiro, os degradados, desmoralizados,
incapazes de trabalhar. São notadamente os indivíduos que sucumbem em virtude de sua
incapacidade de adaptação, decorrente da divisão do trabalho; os que ultrapassam a idade normal de
um trabalhador, e as vítimas da indústria, os mutilados, enfermos, viúvas, etc. , cujo número
aumenta com as máquinas perigosas, as minas, as fábricas de produtos químicos etc. O pauperismo
constitui o asilio dos inválidos do exército ativo dos trabalhadores e o peso morto do exército
industrial de reserva. Sua produção e sua necessidade se compreendem na produção e na
necessidade da superpopulação relativa, e ambos constituem condição de existência da produção
capitalista e do desenvolvimento da riqueza. O pauperismo faz parte das despesas extras da
produção capitalista, mas o capital arranja sempre um meio de transferi-las para a classe
trabalhadora e para a classe média inferior.” P. 746s

“Patenteia-se a insanidade da sabedoria do economista que prega aos trabalhadores adaptarem seu
número às necessidades de expansão do capital. O mecanismo da produção capitalista e da
acumulação adapta continuamente esse número a essas necessidades. O começo desse ajustamento é
a criação de uma superpopulação relativa ou de um exército industrial de reserva, e o fim a miséria
de camadas cada vez maiores do exército ativo e o peso-morto do pauperismo.” P. 748

“Só conhecendo as leis econômicas conseguimos descobrir a conexão íntima entre os tormentos da
fome das camadas trabalhadoras mais laboriosas e a dilapidação dos ricos, grosseira ou refinada,
baseada na acumulação capitalista. Já a situação habitacional é fácil de entender. Qualquer
observador desprevenido percebe que, quanto maior a centralização dos meios de produção, tanto
maior o amontoamento correspondente de trabalhadores no mesmo espaço e, portanto, quanto mais
rápida a acumulação capitalista, tanto mais miseráveis as habitações dos trabalhadores. Os
“melhoramentos” urbanos que acompanham o progresso da riqueza, a demolição de quarteirões mal
construídos, a construção de palácios para bancos, lojas etc. , o alargamento das ruas para o tráfego
comercial (...)desalojam evidentemente os pobres, expulsado-os para refúgios cada vez piores e mais
abarrotados de gente. Além disso, todo mundo sabe que a carestia do espaço para morar está na
razão inversa da qualidade da habitação (...)” p. 764

Capítulo XXIV – A Chamada Acumulação Primitiva

   1. O segredo da acumulação primitiva

“Vimos como o dinheiro se transforma em capital, como se produz mais valia com capital, e mais
capital com mais valia. Mas, a acumulação do capital pressupõe a mais valia, a mais valia a
produção capitalista, e esta a existência de grandes quantidades de capital e de F.T. nas mãos de
produtores de mercadorias. Todo esse movimento tem assim a aparência de um círculo vicioso do
qual só podemos escapar admitindo uma acumulação primitiva, anterior a acumulação capitalista
(“previons accumulation”, segundo Adam Smith), uma acumulação que não decorre do modo
capitalista de produção, mas é seu ponto de partida. Essa acumulação primitiva desempenha na
economia política um papel análogo ao do pecado original na teologia. Adão mordeu a maçã e, por
isso o pecado contaminou a humanidade inteira. Pretende-se explicar a origem da acumulação por

                                                 72
meio de uma estória ocorrida em passado distante. Havia outrora, em tempos muito remotos, duas
espécies de gente: uma elite laboriosa, inteligente e sobretudo econômica, e uma população
constituídas de vadios, trapalhões que gastavam mais do que tinham. A lenda teológica conta-nos
que o homem foi condenado a comer o pão com o suor do seu rosto. Mas, a lenda econômica
explica-nos o motivo por que existem pessoas que escapam e esse mandamento divino. Aconteceu
que a elite foi acumulando riquezas e a população vadia ficou finalmente sem ter outra coisa para
vender além da própria pele. Temos aí o pecado original da economia. Por causa dele, a grande
massa é pobre e, apesar de se esfalfar, só tem para vender a própria F.T., enquanto cresce
continuamente a riqueza de poucos, embora tenham esses poucos parado de trabalhar a muito
tempo. (...)É sabido o grande papel desempenhado na verdade histórica pela conquista, pela
escravização, pela rapina e pelo assassinato, em suma, pela violência. Na suave economia política o
idílio reina desde os primórdios. Desde o início da humanidade, o direito e o trabalho são os únicos
meios de enriquecimento, excetuando-se naturalmente o ano corrente. Na realidade, os métodos da
acumulação primitiva nada tem de idílicos.” P. 828s

“Como os meios de produção e os de subsistência, dinheiro e mercadoria em si mesmos não são
capital. Tem de haver antes uma transformação que só pode ocorrer em determinadas circunstâncias.
Vejamos (...) a que se reduzem, em suma, essas circunstâncias. Duas espécies bem diferentes de
possuidores de mercadorias tem de confrontar-se e entrar em contato: de um lado o proprietário de
dinheiro, de meios de produção e de meios de subsistência, empenhado em aumentar a soma de
valores que possui, comprando a F.T. alheia, e, do outro, os trabalhadores livres, vendedores da
própria F.T. e, portanto, de trabalho. Trabalhadores livres em dois sentidos, porque não são parte
direta dos meios de produção, como escravos e servos, e porque não são donos dos meios de
produção, como o camponês autônomo, estando assim livres e desembaraçados deles. Estabelecidos
esses dois pólos do mercado, ficam dadas as condições básicas da produção capitalista. O sistema
capitalista pressupõe a dissociação entre os trabalhadores e a propriedade dos meios de trabalho, um
processo que transforma em capital os meios sociais de subsistência e os de produção e converte em
assalariados os produtores diretos. A chamada acumulação primitiva é apenas o processo histórico
que dissocia o trabalhador dos meios de produção. É considerada primitiva porque constitui a pré-
história do capital e o modo de produção capitalista.” P. 829s

“A estrutura econômica da sociedade capitalista nasceu da estrutura econômica da sociedade feudal.
A decomposição desta liberou elementos para formação daquela.” P. 830

“O produtor direto, o trabalhador, só pode dispor de sua pessoa depois que deixou de estar vinculado
à gleba e de ser escravo ou servo de outra pessoa. Para vender livremente sua F.T. , levando sua
mercadoria a qualquer mercado, tinha ainda de livrar-se do domínio das corporações, dos
regulamentos a que elas subordinavam os aprendizes e oficiais e das prescrições com que
entravavam o trabalho. Desse modo, um dos aspectos desse movimento histórico que transformou os
produtores em assalariados é a libertação da servidão e da coerção corporativa; esse aspecto é o
único que existe para nossos historiadores burgueses. Mas, os que se emanciparam só se tornaram
vendedores de si mesmos depois que lhes roubaram todos os seus meios de produção e os privaram
de todas as garantias que as velhas instituições feudais asseguravam à sua existência. E a história da
expropriação que sofreram foi inscrita a sangue e fogo nos anais da humanidade.” P. 830

“Os capitais industriais, esses novos potentados, tiveram de remover os mestres das corporações e os
senhores feudais, que possuíam o domínio dos mananciais das riquezas. Sob esse aspecto,
representa-se sua ascensão como uma luta vitoriosa contra o poder feudal e seus privilégios
revoltantes, contra as corporações e os embaraços que elas criavam ao livre desenvolvimento da
produção e a livre exploração do homem pelo homem.” P.830

                                                 73
“O processo que produz o assalariado e o capitalista tem suas raízes na sujeição do trabalhador. O
progresso consistiu numa metarmofose dessa sujeição, na transformação de exploração feudal em
exploração capitalista. Para compreender sua marcha, não precisamos ir muito longe na história.
Embora os prenúncios da produção capitalista já apareçam, nos séculos XIV e XV, em algumas
cidades mediterrâneas, a era capitalista data do século XVI. Onde ela surge, a servidão já está
abolida há muito tempo, e já estão em plena decadência as cidades soberanas que representam o
apogeu da Idade Média. Marcam época, na história da acumulação primitiva, todas as
transformações que servem de alavanca à classe capitalista em formação, sobretudo aqueles
deslocamentos de grandes massas humanas, súbita e violentamente privadas de seus meios de
subsistência e lançadas no mercado de trabalho como levas de proletários destituídos de direitos. A
expropriação do produtor rural, do camponês, que fica assim privado de suas terras, constitui a base
de todo processo. A história dessa expropriação assume coloridos diversos nos diferentes países,
percorre várias fases em seqüência diversa e em épocas históricas diferentes. Encontramos sua
formação clássica na Inglaterra, que, por isso, nos servirá de exemplo.” P.831

   2. Expropriação do camponeses

“O prelúdio da revolução que criou a base do modo capitalista de produção ocorreu no último terço
do século XV e nas primeiras décadas do século XVI. Com a dissociação das vassalagens feudais, é
lançada ao mercado de trabalho uma massa de proletários, de indivíduos sem direitos (...). Embora o
poder real, produto do desenvolvimento burguês, em seu esforço pela soberania absoluta, acelerasse
pela força a dissociação das vassalagens, não foi de modo algum a causa única dela. Opondo-se
arrogantemente ao Rei e ao Parlamento, o grande senhor feudal criou um proletariado
incomparavelmente maior, usurpando as terras comuns e expulsando os camponeses das terras, os
quais possuiam direitos sobre elas, baseados, como os do próprio senhor, nos mesmos institutos
feudais. O florescimento da manufatura de lã, com a elevação conseqüente dos preços da lã,
impulsionou diretamente essas violências na Inglaterra. A velha nobreza fôra devorada pelas guerras
feudais. A nova, era um produto do seu tempo, e, para ela, o dinheiro era o poder dos poderes. Sua
preocupação, por isso, era transformar as terras de lavouras em pastagens.” P. 833

“O processo violento de expropriação do povo recebeu um terrível impulso, no século XVI, com a
Reforma e o imenso saque dos bens da Igreja que a acompanhou. À época da reforma, a Igreja
Católica era proprietária feudal de grande parte do solo inglês. A supressão dos conventos etc.
enxotou os habitantes de suas terras, os quais passaram a engrossar o proletariado. Os bens
eclesiásticos foram amplamente doados a vorazes favoritos da Corte ou vendidos a preço ridículo a
especuladores, agricultores ou burgueses, que expulsaram em massa os velhos moradores
hereditários e fundiram seus sítios. O direito legalmente explícito dos lavradores empobrecidos a
uma parte dos dízimos da Igreja foi confiscado tacitamente.” P.836s

“O roubo dos bens da Igreja, a alienação fraudulenta dos domínios do estado, a ladroeira das terras
comuns e a transformação da propriedade feudal e do clã em propriedade privada moderna, levada a
cabo com terrorismo implacável, figuram entre os métodos idílicos da acumulação primitiva.
Conquistaram o campo para a agricultura capitalista, incorporavam as terras ao capital e
proporcionavam à indústria das cidades a oferta necessária de proletários sem direitos.” P. 850

3. Legislação sanguinária contra os expropriados, a partir do sec. XV. Leis para rebaixar os salários

“Os que foram expulsos de suas terras com a dissociação das vassalagens feudais e com a
expropriação intermitente e violência, esse proletariado sem direitos, não podiam ser absorvidos

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pela manufatura nascente com a mesma rapidez com que se tornavam disponíveis. Bruscamente
arrancados das suas condições habituais de existência, não podiam enquadrar-se, da noite para o dia,
na disciplina exigida pela nova situação. Muitos se transformaram em mendigos, ladrões,
vagabundos, em parte por inclinação, mas na maioria dos casos por força das circunstâncias. Daí ter
surgido em toda Europa Ocidental, no fim do século XV e no decurso do séc. XVI uma legislação
sanguinária contra a vadiagem. Os ancestrais da classe trabalhadora atual foram punidos
inicialmente por se transformarem em vagabundos e indigentes, transformação que lhes era imposta.
A legislação os tratava como pessoas que escolhem propositalmente o caminho do crime, como se
dependesse da vontade deles prosseguirem trabalhando nas velhas condições que não mais existiam.
(...)Assim, a população rural, expropriada e expulsa de suas terras, compelida à vagabundagem, foi
enquadrada na disciplina exigidas pelo sistema de trabalho assalariado, por meio de um grotesco
terrorismo legalizado que empregava o açoite, o ferro em brasa e a tortura.” P. 851ss

“Não basta que haja, de um lado, condições de trabalho sob a forma de capital, e, do outro, seres
humanos que nada tem para vender além de sua força de trabalho. Tampouco basta força-los a se
venderem livremente. Ao progredir a produção capitalista, desenvolve-se uma classe trabalhadora
que por educação, tradição e costume aceita as exigências daquele modo de produção como leis
naturais evidentes. A organização do processo de produção capitalista, em seu pleno
desenvolvimento, quebra toda resistência, a produção contínua de uma superpopulação relativa
mantém a lei da oferta e da procura de trabalho e, portanto, o salário em harmonia com as
necessidades de expansão do capital, e a coação surda das relações econômicas consolida o domínio
do capitalista sobre o trabalhador. Ainda se empregará a violência direta, à margem das leis
econômicas, mas doravante apenas em caráter excepcional. Para a marcha ordinária das coisas basta
deixar o trabalhador entregue às “leis naturais da produção”, isto é, à sua dependência do capital, a
qual decorre das próprias condições de produção, e é assegurada e perpetuada por essas condições.
Mas, as coisas corriam de modo inverso durante a gênese histórica da produção capitalista. A
burguesia nascente precisava e empregava a força do estado, para “regular” o salário, isto é,
comprimi-lo dentro dos limites convenientes à produção de mais valia, para prolongar a jornada de
trabalho e para manter o próprio trabalhador num grau adequado de dependência. Temos aí um fator
fundamental da chamada acumulação primitiva.” P. 854s

4. Gênese do arrendatário capitalista

“Vimos como se processou a criação violenta dos proletários sem direitos, a disciplina sanguinária
que os transformou em assalariados, a ação grotesca e sórdida que aumenta o grau de exploração do
trabalho por métodos policiais a fim de acelerar a acumulação do capital, mas precisamos agora
saber como se originaram os capitalistas. A expropriação da população rural cria imediatamente
apenas grandes proprietários de terras. Quanto à origem do arrendatário, podemos por assim dizer
senti-la com o tato, pois evolveu lentamente através de muitos séculos. Os próprios servos, do
mesmo modo que os pequenos proprietários livres, tinham a posse da terra a títulos os mais diversos
e por isso emanciparam-se sob as condições econômicas as mais diversas. Na Inglaterra, o ponto de
partida das transformações que culminam com o aparecimento da figura do arrendatário capitalista,
seu germe mais primitivo, é o bailiff, ainda servo. (...)Durante a segunda metade do século XIV, é
substituído por um colono a quem o landlord fornece sementes, gado e instrumentos agrícolas. Sua
situação não é muito diferente da do camponês. Apenas explora mais trabalho assalariado. Logo se
torna parceiro, um tipo que se parece mais com o verdadeiro arrendatário. O parceiro fornece uma
parte do capital, o landlord a outra. Ambos dividem o produto total em proporção contratualmente
estabelecida. Essa forma desaparece rapidamente na Inglaterra, para dar lugar ao arrendatário
propriamente dito, que procura expandir seu próprio capital empregando trabalhadores assalariados
e entrega ao landlord uma parte do produto excedente, em dinheiro ou em produtos, como renda da

                                                 75
terra. No séc. XV, enquanto o camponês independente e, ao seu lado, o trabalhador do campo
trabalhando para si mesmo e por salário se enriquecem com seu labor, a situação do arrendatário e
sua escala de produção permanecem num nível monotonamente modesto. Mas a revolução agrícola
do último terço daquele século, que prossegue por todo o século XVI com exceção de suas últimas
décadas, enriqueceu o arrendatário com a mesma rapidez com que empobreceu a população rural.
(...)No século XVI, intervém ainda outro fator de decisiva importância. Os contratos de
arrendamento da época tinham prazo muito longo, muitas vezes de 99 anos. A depreciação contínua
dos metais preciosos e em conseqüência do dinheiro trouxe ao arrendatário pomos dourados.
Rebaixou salários (...). O montante de redução real dos salários serviu então para acrescer os lucros
dos arrendatários. A elevação contínua dos preços do trigo, da lã, da carne, enfim de todos os
produtos agrícolas, dilatou o capital monetário do arrendatário sem qualquer intervenção de sua
parte, enquanto a renda que tinha de pagar ao dono da terra estava fixada pelo valor monetário
antigo. Assim, enriqueceu-se às custas dos assalariados e do landlord. Não admira portanto que a
Inglaterra possuisse nos fins do séculos XVI uma classe de capitalistas arrendatários, ricos em face
das condições da época.” P. 859ss

5. Repercussões da revolução agrícola na indústria. Formação do mercado interno para o capital
industrial

“A expropriação e a expulsão de uma parte da população rural libera trabalhadores, seus meios de
subsistência e seus meios de trabalho, em benefício do capitalista industrial; além disso, cria o
mercado interno. Na realidade, os acontecimentos que transformaram os pequenos lavradores em
assalariados e seus meios de subsistência e meios de trabalho em elementos materiais do capital,
criam ao mesmo tempo para este o mercado interno. Antes, a família camponesa produzia e
elaborava os meios de subsistência e matérias-primas, que eram, na sua maior parte, consumidos por
ela mesma. (...)A numerosa clientela antes extremamente fragmentada, dependente de uma
quantidade imensa de pequenos produtores que trabalhavam por sua própria conta, concentra-se
agora um vasto mercado, abastecido pelo capital industrial. (...)E só a destruição da indústria
doméstica rural pode proporcionar ao mercado interno de um país extensão e a solidez exigidas pelo
modo capitalista de produção. Todavia, o período manufatureiro propriamente dito não chega a
realizar uma transformação radical. (...)Só se apodera da produção nacional de maneira muito
fragmentária, encontrando sua base principal nos ofícios urbanos e na indústria doméstica rural.
Quando destrói uma forma dessa indústria doméstica num ramo específico, em determinados
lugares, a manufatura provoca seu nascimento em outros, pois precisa dela dentro de certos limites,
para a preparação de matérias-primas. A manufatura produz, por isso, uma nova classe de pequenos
lavradores, para os quais o cultivo do solo é a atividade acessória, tendo a principal o trabalho
industrial, cujos produtos a ela são vendidos diretamente ou por meio de um negociante.” P. 865s

6. Gênese do capitalista industrial

“A gênese do capitalista industrial não se processou de maneira gradativa como a do arrendatário.
Sem dúvida, certo número de mestres de corporações, número maior de artesãos independentes e,
ainda, assalariados se transformaram em capitalistas rudimentares e, através da exploração
progressivamente mais ampliada do trabalho assalariado e da correspondente acumulação, chegam a
assumir realmente a figura do capitalista. (...)A marcha lenta do período infantil do capitalismo não
se coadunava com as necessidades do novo mercado mundial criado pelas descobertas dos fins do
séc. XV. A Idade Média fornecera duas formas de capital que amadurecem nas mais diferentes
formações econômico-sociais e foram as que emergiam como capital antes de despontar a era
capitalista, a saber, o capital usurário e o capital mercantil. (nota:- industrial aqui se opõe a agrícola.


                                                    76
Mas, o arrendatário agrícola se inclui na categoria de capitalista industrial, do mesmo modo que o
fabricante.)” p. 867

“As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das populações
indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o início da conquista e pilhagem das Índias
Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada lucrativa são os acontecimentos
que marcam os albores da era da produção capitalista. Esses processos idílicos são fatores
fundamentais da acumulação primitiva. Logo segue a guerra comercial entre as nações européias,
tendo o mundo por palco. Inicia-se com a revolução dos Países Baixos contra a Espanha, assume
enormes dimensões com a guerra antijacobina da Inglaterra, prossegue com a guerra do ópio contra
a China etc. Os diferentes meios propulsores da acumulação primitiva se repartem numa ordem mais
ou menos cronológica por diferentes países, principalmente Espanha, Portugal, Holanda, França e
Inglaterra. Na Inglaterra, por fim do séc. XVII, são coordenados através de vários sistemas: o
colonial, o das dívidas públicas, o moderno regime tributário e o protecionismo. Esses métodos se
baseiam em parte na violência mais brutal, como é o caso do sistema colonial. Mas, todos eles
utilizavam o poder do estado, a força concentrada e organizada da sociedade para ativar
artificialmente o processo de transformação do modo feudal de produção no modo capitalista,
abreviando assim as etapas de transição. A força é o parteiro de toda sociedade velha que traz uma
nova em suas entranhas. Ela mesma é uma potência econômica.” P. 868s

“O sistema colonial fez prosperar o comércio e a navegação. As sociedades dotadas de monopólio,
(...)eram poderosas alavancas de concentração do capital. As colônias asseguravam mercado às
manufaturas em expansão e, graças ao monopólio, uma acumulação acelerada. As riquezas
apresadas fora da Europa pela pilhagem, escravização e massacre refluiam para a metrópole onde se
transformam em capital. A Holanda que, pela primeira vez, desenvolveu plenamente o sistema
colonial atingira, em 1648, o apogeu de sua grandeza comercial. (...)Hoje em dia, a supremacia
industrial traz a supremacia comercial. No período manufatureiro, ao contrário, é a supremacia
comercial que proporciona o predomínio industrial. Então, o sistema colonial desempenhava o papel
preponderante.” P. 871s

“O sistema de crédito público, isto é, da dívida pública, cujas origens já vamos encontrar na Idade
Média, em Gênova e Veneza, apoderando-se de toda a Europa durante o período manufatureiro.
Impulsionava-o o sistema colonial com seu comércio marítimo e suas guerras comerciais. O regime
da dívida pública implantou-se primeiro na Holanda. A dívida do estado, a venda deste, seja ele
despótico, constitucional ou Republicano, imprime sua marca à era capitalista. A única parte da
chamada riqueza nacional que é realmente objeto da posse coletiva dos povos modernos é... a dívida
pública. (...)A dívida pública converte-se numa das alavancas mais poderosas da acumulação
primitiva. Como uma varinha de condão, ela dota o dinheiro de capacidade criadora, transformando-
o assim em capital, (...). Os credores do estado nada dão na realidade, pois a soma emprestada
converte-se em títulos da dívida pública facilmente transferíveis, que continuam a funcionar em suas
mãos como se fossem dinheiro. A dívida pública criou uma classe de capitalistas ociosos,
enriqueceu, de improviso os agentes financeiros que servem de intermediários entre o governo e a
nação. As parcelas de sua emissão adquiridas pelos arrematantes de impostos, comerciantes e
fabricantes particulares lhe proporcionam o serviço de um capital caído do céu. Mas, além de tudo
isso, a dívida pública fez prosperar as sociedades anônimas, o comércio com os títulos negociáveis
de toda espécie, a agiotagem, em suma, o jogo de bolsa e a moderna bancocracia.” P. 872s

“Com a dívida pública nasceu um sistema internacional de crédito, que freqüentemente dissimulava
uma das fontes da acumulação primitiva neste ou naquele país. Assim, as vilezas do sistema
veneziano de rapina constituíram uma das bases ocultas dos abundantes capitais da Holanda, a quem

                                                77
Veneza decadente emprestou grandes somas de dinheiro. O mesmo aconteceu entre a Holanda e a
Inglaterra. Já no começo do séc. XVIII, as manufaturas da Holanda tinham sido bastante
ultrapassadas, e a Holanda cessara de ser a Nação dominante no comércio e na indústria. De 1701 a
1776, um de seus negócios principais é, por isso, emprestar enormes capitais, especialmente a seu
concorrente mais poderoso, a Inglaterra. Fenômeno análogo sucede hoje entre Inglaterra e Estados
Unidos. Muito capital que aparece hoje nos Estados Unidos, sem certidão de nascimento, era ontem,
na Inglaterra, sangue infantil capitalizado.” P. 874

“Apoiando-se a dívida pública na receita pública, que tem de cobrir os juros e demais pagamentos
anuais, tornou-se o moderno sistema tributário o complemento indispensável do sistema de
empréstimos nacionais. Os empréstimos capacitam o governo a enfrentar despesas extraordinárias,
sem recorrer imediatamente ao contribuinte, mas acabam levando o governo a aumentar
posteriormente os impostos. Por outro lado, o aumento de impostos, causado pela acumulação de
dívidas sucessivamente contraídas, força o governo a tomar novos empréstimos sempre que
aparecem novas despesas extraordinárias. O regime fiscal moderno encontra seu eixo nos impostos
que recaem sobre os meios de subsistência mais necessários, encarecendo-se portanto, e traz em si
mesmo o germe da progressão automática. (...)Mas não é a influência destruidora que exerce sobre a
situação dos trabalhadores o que mais importa ao estudo do tema que estamos considerando, e sim a
violência com que expropria o camponês, o artesão, enfim todos os componentes da classe média
inferior. (...)Sua eficácia expropriante é ainda fortalecida pelo sistema protecionista, que constitui
uma de suas partes integrantes. O grande papel que a dívida pública e o correspondente regime fiscal
desempenham na capitalização da riqueza e na expropriação das massas levou muitos escritores,
(...), a procurarem erradamente neles a causa fundamental da miséria dos povos modernos.” P. 874s

“O sistema protecionista era um meio artificial de fabricar fabricantes, de expropriar trabalhadores
independentes, de capitalizar meios de produção e meios de subsistência, de encurtar a transição do
velho modo de produção para o moderno. Esse invento criou uma grande disputa entre os estados
europeus, que, uma vez colocados a serviço dos fabricantes de mais valia, não se limitaram a
espoliar seu próprio povo, indiretamente através de impostos aduaneiros e diretamente através de
prêmios à exportação, etc. Nos países secundários deles dependentes, extirparam violentamente toda
indústria, (...).” p. 875

7. Tendência histórica da acumulação capitalista.

“A que se reduz, em última análise, a acumulação primitiva, a origem histórica do capital? Quando
não é a transformação direta de escravos e servos em assalariados, mera mudança de forma,
significa apenas a expropriação dos produtores diretos, isto é, a dissociação da propriedade privada
baseada no trabalho pessoal, próprio. A propriedade privada, antítese da propriedade coletiva, social,
só existe quando o instrumental e as outras condições externas do trabalho pertencem a particulares.
Assume caráter diferente conforme esses particulares sejam trabalhadores ou não. Os matizes
inumeráveis que a propriedade privada oferece à primeira vista refletem apenas os estados
intermediários que existem entre esses dois extremos, a propriedade privada de trabalhadores e não-
trabalhadores. A propriedade privada do trabalhador sobre os meios de produção serve de base à
pequena indústria, e esta é uma condição necessária para desenvolver-se a produção social e a livre
individualidade do trabalhador. Sem dúvida, encontramos essa pequena indústria nos sistemas de
escravatura, servidão e em outras relações de dependência. Mas, ela só floresce, só desenvolve todas
as suas energias só conquista a adequada forma clássica quando o trabalhador é o proprietário livre
das condições de trabalho (meio e objeto de trabalho) com as quais opera, a saber, o camponês é
dono da terra que cultiva, o artesão, dos instrumentos que maneja com perícia. Esse modo de
produção supõe parcelamento da terra e dispersão dos demais meios de produção. Exclui, além da

                                                 78
concentração desse meios, a cooperação, a divisão do trabalho dentro do mesmo processo de
produção, o domínio social e o controle da natureza, o livre desenvolvimento das forças produtivas
da sociedade. Só é compatível com limitações estreitas e ingênuas à produção e à sociedade.
Pretender eternizá-lo significaria, conforme a acertada expressão de Pecquer, “decretar a
mediocridade universal”. Chegado a certo grau de desenvolvimento, esse modo de produção gera os
meios materiais de seu próprio aniquilamento. A partir desse momento agitam-se no seio da
sociedade forças e paixões que se sentem acorrentadas por ele. Tem de ser destruídos e é destruído.
Sua destruição, a transformação dos meios de produção individualmente dispersos em meios
socialmente concentrados, da propriedade minúscula de muitos na propriedade gigantesca de
poucos; a expropriação da grande massa da população, despojadas de suas terras, de seus meios de
subsistência e de seus instrumentos de trabalho, essa terrível e difícil expropriação, constitui a pré-
história do capital. (...)A propriedade privada, obtida com o esforço pessoal, baseada por assim dizer
na identificação do trabalhador individual isolado e independente com suas condições de trabalho, é
suplantada pela propriedade capitalista, fundamentada na exploração do trabalho alheio, livre apenas
formalmente.” P. 879s

“O modo capitalista de apropriar-se dos bens, decorrente do modo capitalista de produção, ou seja a
propriedade privada capitalista, é a primeira negação da propriedade privada individual baseada no
trabalho próprio. Mas, a produção capitalista gera sua própria negação, com a fatalidade de um
processo natural. É a negação da negação. Esta segunda negação não restabelece a propriedade
privada, mas a propriedade individual tendo por fundamento a conquista da era capitalista: a
cooperação e a posse comum do solo e dos meios de produção gerados pelo próprio trabalho. A
transformação da propriedade particular esparsa, baseada no trabalho próprio dos indivíduos, em
propriedade privada capitalista, constitui naturalmente um processo muito mais longo, mais duro e
mais difícil que a transformação em propriedade social da propriedade capitalista que efetivamente
já se baseia sobre um modo coletivo de produção. Antes, houve a expropriação da massa do povo
por poucos usurpadores, hoje, trata-se da expropriação de poucos usurpadores pela massa do povo.”
P. 881s

Capítulo XXV – Teoria Moderna da Colonização*

*nota de pé-de-pag. – “Tratamos aqui das verdadeiras colônias, terras virgens, colonizadas por
imigrantes livres. Do ponto de vista econômico, os Estados Unidos ainda são uma única colônia da
Europa. Incluímos também nessa categoria as velhas plantações onde as condições foram
inteiramente modificados com a abolição da escravatura.” P. 883

“Por princípio, a economia política confunde duas espécies muito diferentes de propriedade: a que
se baseia sobre o trabalho do próprio produtor e, a sua antítese direta, a que se fundamenta na
exploração do trabalho alheio. Esquece que esta só cresce sobre o túmulo daquela. Na Europa
ocidental, o berço da economia política, o processo da acumulação primitiva está mais ou menos
concluído. Aí o regime capitalista ou apoderou–se diretamente de toda a produção nacional, ou,
onde as condições econômicas estão menos desenvolvidas, controla pelo menos indiretamente
aquelas camadas da sociedade que, embora submetidas ao antigo modo de produção, continuam a
existir ao lado dele, em decadência contínua. Nesse mundo do capital, pronto e acabado, o
economista político aplica as concepções de direito e de propriedade do mundo pré-capitalista, com
tanto mais zêlo e unção tanto maior, quanto mais alto ululam os fatos contra sua ideologia. A
contradição entre esses dois sistemas econômicos diametralmente opostos se patenteia, na prática,
na luta que se trava entre eles. Quando o capitalista se apóia no poder da mãe-pátria, procura afastar
do caminho, pela força, o modo de produzir os bens e de apropriar-se deles, baseado no próprio
trabalho. O mesmo interesse que, na mãe-pátria, induz o sicofanta do capital, o economista político,

                                                  79
a identificar teoricamente o modo capitalista de produção com o oposto, leva-o, nas Colônias, a
confessar tudo e a proclamar bem alto o antagonismo entre os dois modos de produção. (…) Mas,
não estamos tratando aqui de examinar a situação das colônias. Interessa-nos apenas o segredo que a
economia política do Velho Mundo descobriu no Novo e proclamou bem alto: o modo capitalista de
produção e de acumulação e, portanto, a propriedade privada capitalista exigem, como condição
existencial, o aniquilamento da propriedade privada baseada no trabalho próprio, isto é, a
expropriação do trabalho. “ p. 883 ss



                             O CAPITAL - LIVRO 2 – Volume III

                      O PROCESSO DE CIRCULAÇÃO DO CAPITAL.

Parte Primeira – AS METAMORFOSES DO CAPITAL E O CICLO DELAS

Capítulo I – O Ciclo do Capital Dinheiro

“O processo cíclico do capital realiza-se em três estádios (...): 1) o capitalista aparece como
comprador no mercado de mercadorias e no mercado de trabalho; seu dinheiro converte-se em
mercadoria ou efetua o ato de circulação D-M. 2) Consumo produtivo das mercadorias compradas
pelo capitalista que funciona como produtor capitalista de mercadorias. Seu capital percorre o
processo de produção. Resultado: mercadoria cujo valor supera o dos elementos que concorreram
para sua produção. 3) o capitalista volta ao mercado como vendedor; sua mercadoria converte-se em
dinheiro, isto é, efetua o ato de circulação M-D” p. 27

“A fórmula do ciclo do capital-dinheiro é, portanto, D-M... D... M’-D’. Os pontos significam que se
interrompeu o processo de circulação; M’ e D’ indicam que M e D estão acrescidos de mais valia.”
P. 28

“Não importa ao dinheiro a espécie de mercadoria em que se converte. Ele é a forma equivalente
geral de todas as mercadorias que com os preços indicam que representam idealmente determinada
soma de dinheiro e esperam sua transformação em dinheiro. Ao serem trocadas por dinheiro,
recebem a forma em que são transformáveis em valores-de-uso para seus possuidores.” P. 33

“As mesmas circunstâncias que produzem a condição fundamental da produção capitalista, a
existência de uma classe assalariada, exigem a transição de toda a produção de mercadorias para a
produção capitalista de mercadorias. Esta, na medida em que se desenvolve, decompõe e dissolve as
velhas formas de produção, voltadas de preferência para a subsistência imediata e que só transforma
em mercadoria o excedente da produção. Ela faz com que a venda do produto se torne o interesse
principal, aparentemente sem atacar, de início, o modo de produção existente, conforme procedeu o
comércio mundial capitalista com povos como os chineses, hindus, árabes, etc. Mas depois, quando
cria raízes, destrói todas as formas de produção de mercadorias que se baseiam no trabalho próprio
dos produtores ou apenas na venda do excedente da produção como mercadoria. Começa
generalizando a produção de mercadorias e em seguida transforma progressivamente em capitalista
toda a produção de mercadorias.” P. 39

“Quaisquer que sejam as formas sociais de produção, os trabalhadores e os meios de produção são
sempre os seus fatores. Entretanto, quando separados um dos outros, só o são potencialmente. Para


                                                80
haver produção é mister que eles se combinem. O modo em que se efetua essa combinação distingue
as diversas épocas econômicas da estrutura social.” P. 39

“Todo empreendimento de produção de mercadorias se torna ao mesmo tempo empreendimento de
exploração de F.T.. Entretanto, só a produção capitalista de mercadorias se torna um modo de
exploração que marca uma nova era e que em seu desenvolvimento histórico, através da organização
do processo de trabalho e dos gigantescos progressos da técnica, revoluciona toda a estrutura
econômica da sociedade e ultrapassa incomparavelmente todos os períodos anteriores.” P. 40

“O capital industrial é o único modo de existência do capital em que este tem por função não só
apropriar-se da mais valia ou do produto excedente mas também criá-la. Por isso, determina o
caráter capitalista de produção; sua existência implica a oposição entre a classe capitalista e a
trabalhadora. Na medida em que se apodera da produção social, são revolucionadas a técnica e a
organização social do processo de trabalho e com elas o tipo econômico-histórico da sociedade. As
outras espécies de capital que surgiram antes dele em meio a condições sociais desaparecidas ou em
decadência, a ele se subordinam, modificando o mecanismo de suas funções e, além disso, movem-
se nele fundamentadas, com ele vivem ou morrem, firmam-se ou caem.” P. 56s

Capítulo II – O Ciclo do Capital Produtivo

“O dinheiro que se adianta então ao trabalhador é apenas forma equivalente transmutada de uma
parte do valor-mercadoria por ele produzido.” P. 71

“O consumo das mercadorias não está incluído no ciclo do capital do qual sai. Depois de vendido o
fio, pode recomeçar o ciclo do valor-capital figurado no fio, não importando o que ocorra com o fio
vendido. Do ponto de vista do produtor capitalista, tudo segue seu curso normal desde que se venda
o produto. (...)Assim, pode aumentar a produção da mais valia e com ela o consumo individual do
capitalista, encontrar-se em pleno progresso todo o processo de reprodução, e, apesar disso, grande
parte das mercadorias ter entrado na esfera da circulação apenas na aparência, continuando na
realidade armazenada nas mãos dos revendedores sem ser vendida, retirada portanto no mercado.
(...)Quem detém as mercadorias invendáveis tem de declarar-se insolvente ou vendê-las a qualquer
preço, para pagá-las. Essa venda nada tem a ver com a verdadeira situação da procura. Está
relacionada apenas com a procura de meios de pagamentos, com a necessidade absoluta de converter
mercadoria em dinheiro. Estala então a crise. Torna-se visível não na queda imediata da procura de
mercadorias de consumo, da procura relacionada com o consumo individual, e sim na diminuição da
troca entre os capitais, do processo de reprodução do capital.” P. 77

Capítulo IV – As Três Figuras do Processo Cíclico

“Se fizermos uma síntese das três formas, todas as condições prévias do processo se mostram
resultado dele, por ele mesmo produzidas. Cada elemento aparece como ponto donde se parte, por
onde se passa e para onde se volta. O processo total se apresenta como unidade do processo de
produção e do processo de circulação; o processo de produção serve de meio para o processo de
circulação e vice-e-versa.” P. 102

“Globalmente, o capital se encontra, ao mesmo tempo, em suas diferentes fases que se justapõem.
Mas cada parte passa ininterrupta e sucessivamente de uma fase, de uma forma funcional para outra,
funcionando sucessivamente em todas. (...)Cada forma sucede e precede a outra, de modo que o
retorno de uma parte do capital a uma forma tem por condição o regresso de outra parte a outra
forma.” P. 107

                                                81
“O capital industrial, em seu processo de circulação, funciona como dinheiro ou como mercadoria, e
seu ciclo entrecruza-se, seja como capital-dinheiro seja como capital-mercadoria, com a circulação
de mercadorias dos mais diversos modos sociais de produção, desde que sejam ao mesmo tempo
produção de mercadorias. (...)A tendência da produção capitalista, entretanto, é transformar sempre
que possa, toda produção em produção de mercadorias, e seu principal instrumento para isto é trazê-
la para seu processo de circulação. (...)A intervenção do capital industrial promove por toda parte
essa transformação e com ela a transformação de todos os produtores diretos em trabalhadores
assalariados. (...)O modo capitalista de produção supõe produção em grande escala e
necessariamente venda em grande escala, venda portanto ao comerciante e não ao consumidor
isolado.” p. 112s

“O capitalista tem realmente “de vender mais caro do que comprou”, mas, só consegue isso porque
através do processo de produção capitalista transforma a mercadoria mais barata, de menor valor
que adquiriu em mercadoria de mais valor, mais cara. Vende mais caro não por vender sua
mercadoria acima do valor, mas por estar o valor de sua mercadoria acima do valor global dos
elementos de sua produção.” p.119

Capítulo V – O Tempo de Circulação

“(...)a produtividade e o acréscimo de valor de dado capital produtivo em dado espaço de tempo
serão tanto maiores quantos mais coincidam o tempo de produção e o de trabalho. Daí a tendência
da produção capitalista de reduzir ao máximo possível o excesso do tempo de produção sobre o
tempo de trabalho.” p. 127

“O capital aparece na esfera da circulação como capital-mercadoria e capital-dinheiro. Seus dois
processos de circulação consistem em passar ele de forma mercadoria para a forma dinheiro e da
forma dinheiro para a forma mercadoria. A transformação da mercadoria em dinheiro é, ao mesmo
tempo, realização da mais-valia incorporada à mercadoria, e a transformação do dinheiro em
mercadoria é, ao mesmo tempo, conversão ou reversão do valor-capital à figura de seus elementos
de produção.” p. 127

“A forma de existência das mercadorias, sua vida como valores-de-uso, traça determinados limites à
circulação do capital-mercadoria M’-D’. Por natureza, elas são perecíveis. Se, de acordo com sua
destinação, não forem objetos de consumo individual ou produtivo, em outras palavras se não forem
vendidas a tempo, estragar-se-ão e perderão com seu valor-de-uso a propriedade de serem
portadoras de valor-de-troca. Perde-se o valor-capital. Os valores-de-uso só continuam a ser
veículos do valor-capital que se eterniza e acresce, enquanto continuamente se renovam, se
reproduzem e são repostos por novos valores-de-uso da mesma espécie ou de espécie diferente.
(...)A deterioração do corpo da mercadoria estabelece o limite do tempo de circulação do capital-
mercadoria: é o limite absoluto a essa parte do tempo da circulação, ou ao tempo durante o qual o
capital-mercadoria funciona como capital-mercadoria. Quanto mais perecível uma mercadoria, tanto
mais rapidamente tem de ser vendida e consumida após a produção, tanto menos pode afastar-se do
local de produção, tanto menor será a área em que circula, tanto mais local o caráter do mercado de
venda. Quanto mais perecível uma mercadoria, tanto mais estreito o limite que antepõe ao tempo de
sua circulação, tanto menos se presta a ser objeto da produção capitalista. Só se adapta a esta em
lugares populosos ou na medida em que o desenvolvimento dos meios de transporte encurta as
distâncias. A produção de um artigo, concentrada em poucas mãos e em área populosa, pode
proporcionar mercado relativamente grande mesmo para mercadorias desse gênero, como acontece,
por ex., com as grandes cervejarias, leiterias, etc.” p.130s

                                                82
Capítulo VI – Os Custos de Circulação

“Para o capitalista, que faz outros trabalhar para ele, compra e venda constituem função
fundamental. Apropriando-se do produto de muitos em ampla escala social, tem de vender na
mesma escala e em seguida reconverter o dinheiro nos elementos da produção. Como sempre, o
tempo empregado na compra e venda não cria valor. O funcionamento do capital mercantil dá
origem a uma ilusão. Mas (...)fica evidente desde já: se uma função, em si mesma improdutiva,
embora necessária à reprodução, se transforma, com a divisão do trabalho, de uma tarefa acessória
de muitos em tarefa exclusiva, especializada de poucos, não muda ela, com isso, de caráter. Um
comerciante apenas (considerando aqui mero agente de conversão formal das mercadorias, somente
comprador e vendedor) pode, com suas operações, encurtar o tempo de compra e o de venda de
muitos produtores.” p. 134

Parte Segunda – A ROTAÇÃO DO CAPITAL

Capítulo VII – O Tempo de Rotações e Números de Rotações

“Excetuados eventos singulares que podem apressar ou diminuir o tempo de rotação de um capital
isolado, o tempo de rotação dos capitais varia segundo os diversos ramos de produção. Se o dia de
trabalho constituía a unidade natural de medida do funcionamento da força de trabalho, o ano
representa a unidade natural de medidas das rotações do capital em movimento. Essa unidade de
medida tem seu funcionamento natural na circunstância de serem anuais os produtos agrícolas mais
importantes na zona temperada, o berço da produção capitalista.” p. 162

“Para o capitalista, o tempo de rotação de seu capital é o período durante o qual tem de adiantar o
capital para valorizá-lo e recuperá-lo na sua forma primitiva.” p. 163

Capítulo VIII – Capital Fixo e Capital Circulante

“Um elemento do valor do capital produtivo só adquire a forma de capital fixo, se o meio de
produção em que existe não é inteiramente consumido no espaço de tempo em que o produto é
fabricado e expelido do processo de produção como mercadoria. É necessário que parte de seu valor
perdure em sua antiga forma de uso, enquanto a outra circula através do produto acabado cuja
circulação movimenta ao mesmo tempo o valor global dos elementos circulantes do capital.” p. 175

“Com o desenvolvimento do sistema de crédito que segue necessária e paralelamente o
desenvolvimento da indústria moderna e da produção capitalista, esse dinheiro deixa de ser tesouro e
passa a ser capital, não nas mãos de seu proprietário, mas nas de outros capitalistas, que o
administravam.” p. 190

Capítulo IX – Rotação Global do Capital Adiantado

“Se o desenvolvimento do capital fixo, por um lado, prolonga essa vida, por outro, a encurta, por
meio da revolução constante dos meios de produção, sempre intensificada com o desenvolvimento
do modo capitalista de produção. Daí a mutação dos meios de produção e a necessidade de sua
constante substituição em virtude do desgaste moral, antes de se esgotarem fisicamente. (...)Desde já
está claro que, em virtude desse ciclo de rotações conexas, que abarca uma série de anos e no qual o
capital está preso por sua parte fixa, forma-se uma base material das crises periódicas em que os
negócios passam por fases sucessivas de depressão, animação média, auge, crise. São bem diversos

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e díspares os períodos em que se aplica capital. Entretanto, a crise constitui sempre o ponto de
partida de grandes investimentos novos e forma assim, do ponto de vista de toda a sociedade, com
maior ou menor amplitude, nova base material para o próximo ciclo de rotações..” p. 194

Capítulo X – Teorias Sobre o Capital Fixo e Capital Circulante. Os Fisiocratas e Adam Smith

“As mesmas coisas constituem elementos do capital circulante ou do capital fixo, de acordo com a
função que desempenham no processo de trabalho. Um boi, por ex. , se é um boi de carga ou tração
(instrumento de trabalho) constitui modo material de existência do capital fixo, se é boi de engorda
(matéria-prima) constitui elemento do capital circulante do arrendatário. Além disso, a mesma coisa
por ora funciona como elemento do capital produtivo ora pertence diretamente ao fundo de
consumo. Uma casa por exemplo que funciona como local de trabalho é elemento fixo do capital
produtivo, mas se é moradia, não é em virtude apenas dessa condição, forma de capital. Em muitos
casos, os mesmos meios de trabalho podem ora funcionar como meios de produção ora como meios
de consumo.” p. 213s

“Quando o produtor vende seu produto ao comerciante, deixa o produto de constituir forma de seu
capital. Do ponto de vista social, continua sendo ainda capital-mercadoria, embora em outras mãos
que não as de produtor; mas, justamente porque é capital-mercadoria, não é capital-fixo nem
circulante. Em toda produção que não se destina a satisfazer diretamente as próprias necessidades, o
produto tem de circular como mercadoria, isto é, de ser vendido, não por estar em jogo a obtenção
de um lucro mas a fim de que o produtor simplesmente possa viver. Acresce que, na produção
capitalista, com a venda da mercadoria, realiza-se ao mesmo tempo a mais valia nela encerrada. O
produto sai do processo de produção como mercadoria, não sendo portanto elemento fixo nem
circulante desse processo.” p. 216

“Um navio e uma locomotiva tem por função mover-se; entretanto funcionam, não para seu
produtor, mas para quem os emprega, como capital fixo. Por outro lado, coisas que funcionam no
processo de produção localmente fixadas, nele vivem e morrem, nunca mais o abandonam depois de
nele entrarem, são elementos circulantes do capital produtivo. É o caso do carvão consumido para
impulsionar a máquina no processo de produção, do gás empregado na iluminação da fábrica etc.
São elementos circulantes não porque o produto tenha deixado materialmente o processo de
produção e circulem como mercadoria, mas porque seu valor entrou por inteiro no valor da
mercadoria, o qual ajudaram a produzir, tendo portanto de ser reposto por inteiro com a venda da
mercadoria.” p. 222

Capítulo XI – Teorias Sobre Capital Fixo e Capital Circulante. Ricardo

“A diferença tal como se apresenta do ponto de vista da oposição entre capital fixo e capital
circulante consiste exclusivamente no seguinte: o valor dos meios de trabalho empregados para
produzir uma mercadoria só em parte entra no valor dela e por isso só em parte é reposto pela venda
da mercadoria, isto é, pouco a pouco, gradualmente, e o valor da força de trabalho e dos objetos de
trabalho (matérias-primas etc.) empregados para produzir uma mercadoria entra por inteiro nela e
por isso é totalmente reposto com sua venda. Nesse sentido e com relação ao processo de circulação,
uma parte do capital funciona como capital fixo, e a outra como capital circulante. Nos dois casos
transferem-se ao produto valores determinados, adiantados, que são repostos com a venda do
produto. A única diferença consiste em que a transferência e por conseguinte a reposição do valor se
realizam, num caso, por partes, gradualmente, e, no outro, de uma vez. Assim apaga-se a diferença
fundamental entre capital variável e capital constante, todo o segredo portanto da criação da mais
valia e da produção capitalista (...). Compreende-se porque a economia política burguesa

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instintivamente aferrou-se à confusão estabelecida por A. Smith entre as categorias “capital fixo e
capital variável” e as categorias “capital fixo e capital circulante”, repetindo-a como um realejo, por
um século inteiro, uma geração após outra. Ela não discerne mais o capital empregado em salários
do emprego em matérias-primas e só formalmente distingue entre aquele e o capital constante,
conforme seja total ou parcial a maneira de circular através do produto. Com isto sepulta-se de uma
vez a base indispensável para se ver o movimento real da produção capitalista e, por conseqüência,
da exploração capitalista. Tudo se resume ao reaparecimento de valores adiantados.” p. 230s

“Na realidade, a produção capitalista desenvolvida tem por condição fundamental que o trabalhador
seja pago em dinheiro, do mesmo modo que supõe o funcionamento do processo de produção por
intermédio do processo de circulação, a economia monetária portanto. Mas, a criação da mais valia
– e portanto a capitalização da soma de valor adiantado – não decorre da forma monetária nem da
forma natural do salário, nem do capital empregado na compra da força de trabalho. Provem da
troca de valor por força criadora de valor, da conversão de uma grandeza constante numa grandeza
variável.” p. 231

“Não obstante, o metal que serve de matéria-prima constitui parte do capital circulante, e o meio de
trabalho, provavelmente feito do mesmo metal, parte do capital fixo. Não é portanto pela natureza
física, material, nem por sua maior ou menor resistência que o mesmo metal ora é classificado como
capital fixo, ora como capital circulante. Essa diferença decorre antes do papel que desempenha no
processo de produção, o de objeto de trabalho ou o meio de trabalho.” p. 232

Capítulo XII – O Período de Trabalho

“Quando falamos da jornada de trabalho, referimo-nos ao tempo durante o qual o trabalhador tem
diariamente de despender sua F.T., de trabalhar. Quando falamos de período de trabalho,
entendemos o número das jornadas de trabalho conexas, necessárias em determinado ramo
industrial, para fornecer um produto acabado. Neste caso, o produto de cada jornada é apenas
produto parcial que vai sendo elaborado dia a dia e que só no final do período mais ou menos longo
adquire sua figura conclusa, a de um valor-de-uso pronto e acabado.” p. 243

“Segundo a duração maior ou menor do período de trabalho, exigida pela natureza específica do
produto ou do efeito útil a atingir, é mister um desembolso contínuo, adicional de capital circulante
(salários, matérias-primas e materiais auxiliares) do qual nem um átomo, nesse ínterim, se encontra
em forma capaz de circular e de servir para renovar a mesma operação.” p. 245

“Nos estádios menos desenvolvidos da produção capitalista, não se realizam por métodos
capitalistas os empreendimentos que exigem longo período de trabalho, portanto grande dispêndio
de capital por longo prazo, (...). É o que se dava por exemplo com as estradas, canais, etc. feitos às
custas da comunidade ou do estado (nos tempos antigos empregava-se em regra a F.T. por meio de
trabalhos forçados). Naqueles estádios, também era ínfima a contribuição dos haveres do capitalista
para fazer produtos cuja elaboração exige longo período de trabalho. Por ex. , na construção de
casas, o particular para quem se constrói casa faz pagamentos parcelados ao construtor. Na
realidade, vai pagando a casa pouco a pouco, na medida em que avança seu processo de produção.
Mas na era capitalista desenvolvida – quando capitais imensos se concentram nas mãos de alguns e
surge o capitalista associado (sociedades anônimas) ao lado do capitalista singular, expandindo-se
ao mesmo tempo o sistema de crédito – só excepcionalmente constrói um empresário capitalista por
encomenda individual de particulares. Seu negócio é construir para vender filas de casas, quarteirões
inteiros, como o de outros capitalistas é construir vias férreas mediante contrato. (...)A execução de
obras de grande escala e de período de trabalho bastante longo só passa a ser atribuição integral da

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produção capitalista, quando já é bem considerável a concentração do capital, quando o
desenvolvimento do sistema de crédito proporciona ao capitalista o cômodo expediente de adiantar e
portanto de arriscar, em vez de seu, o capital alheio.” p. 247s

Capítulo XIII – O Tempo de Produção

“O tempo de trabalho é sempre tempo de produção, tempo durante o qual o capital está preso à
esfera de produção. Mas a recíproca não é verdadeira. O tempo durante o qual o capital fica no
processo de produção não é necessariamente tempo de trabalho. (...)o tempo de produção do capital
adiantado consiste em dois períodos: um período em que o capital está no processo de trabalho e um
segundo período em que sua forma de existência, a de produto inacabado, está exposto à ação de
processos naturais, fora do processo de trabalho.” p.252s

Capítulo XIV – O Tempo de Circulação

“O tempo de rotação do capital é igual à soma do tempo de produção e o do tempo de circulação.
(...)Um segmento do tempo de circulação, e o relativamente mais decisivo, consiste no tempo que
demora a venda, a época em que o capital está na condição de capital-mercadoria. Em função da
magnitude relativa dessa demora, aumenta ou diminui o tempo de circulação e por conseguinte o
período de rotação.” p. 263s

       Capítulo XV – Efeito do Tempo de Rotação Sobre a Magnitude do Capital Adiantado

“Os economistas que nada oferecem de claro sobre o mecanismo da rotação, deixam sempre de lado
esse ponto fundamental, a saber, que só pode comprometer-se contínua e efetivamente no processo
de produção parte do capital industrial, para que a produção prossiga ininterrupta. Enquanto uma
parte se encontra no período de produção, a outra tem necessariamente de estar no período de
circulação. Em outras palavras: uma parte só pode funcionar como capital produtivo, se outra parte
ficar fora da produção propriamente dita sob a forma de capital-mercadoria ou de capital-dinheiro.
Esquecer isto é omitir a importância e o papel do capital-dinheiro.” p.282

“O capital circulante empregado num período de trabalho não pode ser empregado em novo período
de trabalho antes de concluída sua rotação, de transformar-se em capital-mercadoria, daí em capital-
dinheiro e deste novamente em capital produtivo. Por isso, a fim de continuar imediatamente com
um segundo, o primeiro período de trabalho, é mister adiantar novo capital, convertê-lo nos
elementos circulantes do capital produtivo e em quantidade suficiente para preencher a lacuna
surgida com o período de circulação do capital circulante adiantado para o primeiro período de
trabalho.” p. 295

Capítulo XVI – A Rotação do Capital Variável

“O capital circulante variável despendido durante a produção só pode funcionar novamente no
processo de circulação, quando o produto que reproduz seu valor se vende e se transforma de
capital-mercadoria em capital-dinheiro, a fim de ser utilizado outra vez para pagar F.T.. (...)O que
essas duas partes do capital circulante, a variável (F.T.) e constante (as matérias de produção), tem
de comum e as distingue do capital-fixo não é a circunstância de seu valor transferido ao produto
circular por meio do capital-mercadoria. (...)A diferença consiste em que o capital fixo continua a
funcionar no processo de produção com a feição antiga durante um ciclo mais ou menos longo de
períodos de rotação do capital circulante (=capital circulante constante + capital circulante variável),


                                                  86
enquanto cada uma das rotações supõe a reposição de todo o capital circulante que, sob a figura de
capital-mercadoria, passa da esfera da produção para a da circulação.” p. 312

“Quanto mais curto o período de rotação do capital, quanto mais reduzidos os prazos de sua
reprodução dentro do ano, tanto mais rapidamente se transforma a parte variável do capital
adiantado originalmente sob a forma dinheiro na forma dinheiro do produto-valor (que inclui mais-
valia) criado pelo trabalhador para substituir esse capital variável; (...)pois pode com mais
freqüência e continuamente readquirir os trabalhadores e pôr seu trabalho em movimento, com a
forma dinheiro do valor que eles mesmos produziram.” p. 334

[Rotação A=período curto de rotação – B=longo (um ano)]

“Tanto em A quanto em B, o trabalhador paga os meios de subsistência que compra com o capital
variável que em suas mãos se transformou em meios de circulação. Substituiu, por exemplo, o trigo
que retira do mercado por um equivalente em dinheiro. No caso de B, o dinheiro com que esses
meios de subsistência são pagos e retirados do mercado, não é, como no caso de A, a forma dinheiro
de produto-valor que o trabalhador fornece ao mercado durante o ano; em B, o trabalhador entrega
dinheiro ao vendedor dos meios de subsistência, mas nenhuma mercadoria, sejam meios de
produção ou meios de subsistência, a qual esse vendedor possa comprar com o dinheiro obtido,
conforme sucede no caso de A. No caso de B portanto retiram-se do mercado força de trabalho,
meios de subsistência para essa força de trabalho, capital fixo sob a forma de meios de trabalho
empregados em matérias de produção, lançando-se ao mercado, para substituí-los, um equivalente
em dinheiro; mas, durante o ano, não se lança produto algum no mercado, para repor os elementos
materiais do capital produtivo dele retirados. Imaginemos que a sociedade, em vez de capitalista,
fosse comunista: antes de mais nada, desapareceu o capital-dinheiro e; por conseguinte, os véus com
que ele disfarça as operações. E tudo fica resumido ao seguinte: a sociedade tem de calcular
préviamente a quantidade de trabalho, meios de produção e meios de subsistência que, sem prejuízo,
pode aplicar em empreendimentos que, como construção de ferrovias, etc. , por longo tempo, um
ano ou mais, não fornecem meios de produção, meios de subsistência, nem qualquer efeito útil, mas
retiram da produção global do ano trabalho, meios de produção e de subsistência. Mas, na sociedade
capitalista onde o senso social só se impõe depois do fato consumado, podem ocorrer e ocorrem
necessária e constantemente grandes perturbações. Há a pressão sobre o mercado financeiro e, em
sentido contrário, as facilidades desse mercado que fazem aparecer em massa os empreendimentos
mencionados, as circunstâncias portanto que mais tarde pressionam o mercado financeiro. Gera-se a
pressão porque é necessário, continuamente e durante longo prazo, adiantamento de capital-dinheiro
em grande escala. E acresce que há industriais e comerciantes que lançam em especulações
ferroviárias etc. , capital-dinheiro necessário para movimentar seus negócios, substituindo-o por
empréstimos tomados ao mercado financeiro. – Além disso, há pressão sobre o capital produtivo
disponível da sociedade. Retirando-se constantemente do mercado elementos do capital produtivo e
lançando-se em troca no mercado apenas um equivalente em dinheiro, aumenta a procura solvente
que por sua vez não acresce a oferta de qualquer elemento. Daí elevarem-se os preços tanto dos
meios de subsistência quanto das matérias de produção. E nessas ocasiões especula-se bastante,
ocorrendo grandes transferências de capital. É quando se enriquesse um bando de especuladores,
contratantes, engenheiros, advogados, etc. Aumenta a procura de bens de consumo, ao mesmo
tempo que sobem os salários. As repercuções sobre os produtos de alimentação servem realmente
para incentivar a agricultura. Não sendo possível aumentar a quantidade desses produtos
subitamente, no correr do ano, cresce a sua importação, notadamente a de alimentos exóticos (café,
açúcar, vinho, etc.) e a de objetos de luxo. Daí compras excessivas e especulação nesse ramo da
importação. Nos ramos industriais em que a produção pode aumentar rapidamente (a manufatura
propriamente dita, a mineração, etc.), a elevação dos preços causa expansão imediata, pouco depois

                                                87
seguida de descalabro. O mesmo efeito se observa no mercado de trabalho, quando está em jogo
atrair para os novos ramos industriais grandes massas da superpopulação relativa latente e mesmo
dos trabalhadores ocupados. De modo geral, esses empreendimentos em grande escala, como
ferrovias, retiram do mercado de trabalho determinada quantidade de forças que só podem provir de
certos ramos, como agricultura, etc. , onde se empregam braços robustos. Isto ainda ocorre, mesmo
depois de os novos empreendimentos se tornarem estáveis e de já se ter constituido portanto a classe
trabalhadora flutuante de que necessitam. É o que se dá, por exemplo, quando se constrói
momentâneamente ferrovias em escala superior à média. O aumento dessas atividades absorve o
exército industrial de reserva cuja pressão avilta os salários. Estes geralmente sobem, mesmo
naquelas partes do mercado do trabalho que estavam bem colocadas. Isto dura até que o inevitável
craque libera o exército industrial de reserva e os salários caem de novo ao mínimo e mesmo
abaixo.” p. 334ss

Capítulo XVII – A Circulação da Mais Valia

“Ao lado da acumulação real ou transformação da mais valia em capital-produtivo (e ao lado da
correspondente reprodução em escala ampliada) ocorre portanto acumulação de dinheiro,
amontoamento de parte da mais-valia como capital-dinheiro latente que só mais tarde, depois de
atingir certo montante, deverá funcionar como capital ativo complementar.
Assim se comportam as coisas do ponto de vista do capitalista isolado. Mas, o desenvolvimento da
produção capitalista traz consigo o do sistema de crédito. O capital-dinheiro que o capitalista ainda
não pode aplicar no próprio negócio, aplicam-no outros que por isso lhe pagam juros. Para ele tem a
função de capital-dinheiro no sentido específico do termo, de uma espécie de capital desligado do
capital produtivo. Mas, opera como capital em outras mãos. É claro que com a realização mais
freqüente da mais valia e com a escala crescente em que é produzida, aumenta a proporção em que
se lança no mercado financeiro novo capital-dinheiro ou dinheiro como capital, sendo aí pelo menos
em grande parte reabsolvido em produção ampliada.” p. 342

“O modo de produção capitalista, tendo por base o trabalho assalariado, a remuneração do
trabalhador em dinheiro, e em geral a transformação dos pagamentos com produtos ou serviços em
pagamentos em dinheiro, só pode desenvolver-se com maior amplitude e profundidade no país em
que exista massa de dinheiro suficiente para a circulação e para o entesouramento que esta
determina (fundos de reserva, etc.). É uma condição estabelecida pela história, mas daí não se deve
concluir que a produção capitalista só começa depois de se constituir massa suficiente de dinheiro
entesourado. Ela se desenvolve simultaneamente com o desenvolvimento de suas condições, e uma
delas é o suprimento de metais preciosos a partir do século XVI constitui fator essencial da história
do desenvolvimento da produção capitalista. Quanto ao necessário suprimento posterior do material
monetário no regime capitalista de produção, verificamos que, de um lado, lança-se mais-valia em
circulação sob a forma de produtos sem o dinheiro necessário para realizá-la, e, de outro, mais-valia
em ouro sem transformar previamente o produto em ouro.” p. 365

“A parte do produto anual que representa a mais-valia sob a forma de mercadoria está subordinada
às mesmas regras válidas para a outra parte do produto anual. Para sua circulação é necessário certa
soma de dinheiro. Essa soma pertence à classe capitalista do mesmo modo que o volume de
mercadorias anualmente produzido que representa a mais-valia. A própria classe capitalista lança-a
originalmente na circulação. Através da própria circulação, sua distribuição se renova
constantemente entre os capitalistas. Conforme geralmente se dá com a circulação da moeda, parte
dessa massa encalha em pontos que variam sem essas, enquanto outra parte circula constantemente.
Não importa que parte dessa acumulação seja internacional, destinando-se a constituir capital-
dinheiro.

                                                 88
Abstraímos dos azares da circulação pelos quais um capitalista se apodera de uma porção da mais-
valia e mesmo do capital de outro, havendo assim acumulação e centralização unilaterais de capital-
dinheiro e de capital-produtivo. Por ex. , parte da mais-valia usurpada por A e acumulada como
capital-dinheiro pode ser uma porção da mais-valia de B que não conseguiu tê-la de volta.” p. 371




Parte Terceira – A REPRODUÇÃO E A CIRCULAÇÃO DE TODO O CAPITAL SOCIAL

Capítulo XVIII – Introdução

“O processo imediato de reprodução do capital é seu processo de trabalho e de valorização. Tem por
resultado o produto-mercadoria e por motivo determinante a produção de mais valia.
O processo de reprodução do capital abrange esse processo imediato de produção e ainda as duas
fases do processo de circulação propriamente dita, ou seja todo o ciclo, que, como processo
periódico – a renovar-se constantemente em determinados períodos – constitui a rotação do capital.”
p. 375

“(...)Cada capital separadamente não é mais do que fração autônoma, dotada por assim dizer de vida
individual, mas componente do conjunto do capital social, do mesmo modo que cada capitalista
isolado é apenas elemento individual da classe capitalista. O movimento do capital social consiste na
totalidade dos movimentos de suas frações dotadas de autonomia, na totalidade das rotações dos
capitais individuais. A metamorfose de cada mercadoria é elemento de série de metarmofoses do
mundo das mercadorias, da circulação das mercadorias, e do mesmo modo a metarmofose do capital
individual, sua rotação, constitui elemento do ciclo do capital social.” p. 376

“Na base da produção socializada cabe determinar a escala em que essas operações, que retiram por
longo tempo força de trabalho e meios de produção sem fornecer durante esse tempo produto como
resultado útil – podem ser executadas sem prejudicar os ramos de produção que, continuamente ou
várias vezes por ano, além de retirar força de trabalho e meios de produção, fornecem meios de
subsistência e meios de produção. Seja a produção socializada ou capitalista, os trabalhadores, nos
ramos de produção de períodos de trabalho curtos, retiram por pouco tempo produtos, sem fornecer
em compensação seu produto; nos ramos de períodos de trabalho longos, fazem continuamente
retiradas por longo tempo, até que comecem suas restituições. Essa circunstância decorre das
condições materiais do processo de trabalho em causa e não de sua forma social. Não entra em
cogitação na produção socializada o capital-dinheiro. A sociedade reparte a força de trabalho e os
meios de produção nos diferentes ramos de atividade. Os produtores poderão, digamos, receber um
vale que o habilita a retirar estoques sociais de consumo uma quantidade correspondente a seu
tempo de trabalho. Esses vales não são dinheiro. Não circulam.” p. 382s

Capítulo XIX – Estudos Anteriores da Matéria.

“(...)na realidade o sistema fisiocrático é a primeira concepção sistemática da produção capitalista.
São os representantes do capital industrial – a classe dos arrendatários agrícolas – que dirigem todo
o movimento econômico. A agricultura é explorada segundo o modo capitalista, isto é, como
empreendimento em grande escala do arrendatário capitalista; quem cultiva diretamente o solo é o
trabalhador assalariado. A produção gera não só artigos úteis, mas também o valor deles; entretanto,
tem por motivo determinante a obtenção da mais-valia que nasce na esfera da produção e não na da

                                                 89
circulação. Entre as três classes que figuram como agentes do processo social de reprodução
propulsado pela circulação, o arrendatário capitalista, o explorador imediato do trabalho
“produtivo”, o produtor da mais-valia, se distingue dos que apenas dela se apropriam.” p. 385

“O trabalhador, o vendedor da força de trabalho, recebe o valor dela na forma de salário. Em suas
mãos, a força de trabalho não passa de mercadoria vendável, mercadoria de cuja venda vive, e que
constitui por isso sua única fonte de renda; a força de trabalho só funciona como capital variável nas
mãos de seu comprador, o capitalista, e o preço de compra adianta-o o capitalista apenas na
aparência, uma vez que seu valor lhe é fornecido antes pelo trabalhador.” p. 397

“O primeiro erro de A. Smith consiste em igualar o valor dos produtores do ano ao produto-valor
anual. Este último é apenas produto do trabalho do ano decorrido; o primeiro inclui, além disso,
todas as parcelas de valor consumidas na elaboração do produto anual, mas produzidas no ano
anterior e parcialmente em anos bem mais afastados: os meios de produção cujo valor apenas
reaparece, os quais, no tocante ao valor, não foram produzidos nem reproduzidos pelo trabalho
despendido no último ano. A confissão de A.S. leva-o a escamotear do produto anual a parte
constante do valor. Essa confissão, por sua vez, decorre de outro erro em sua concepção
fundamental. Ele não percebe o duplo caráter do trabalho: o que, como dispêndio de força de
trabalho, cria valor, e o que, como trabalho concreto, útil, gera objetos úteis (valor-de-uso). (...)O
produto anual global é portanto resultado do trabalho útil despendido durante o ano; mas durante o
ano só se criou parte do valor dos produtos; essa parte é o produto-valor anual em que se representa
a soma do trabalho mobilizado durante o ano. (...)Ele não viu que o produto-valor é menos que o
valor dos produtos.” p. 403s

“O dinheiro com que o capitalista paga a força de trabalho adquirida “lhe serve na fração de
capital”, na medida em que por esse meio incorpora a força de trabalho aos elementos materiais de
seu capital e só assim coloca seu capital em condições de funcionar como capital produtivo.
Distingamos: para o trabalhador, a força de trabalho é mercadoria e não capital, e constitui renda na
medida em que pode repetir sua venda de maneira ininterrupta; funciona como capital, depois da
venda, em poder do capitalista, durante o processo de produção. (...)Mas, o dinheiro que o
trabalhador recebe do capitalista, só o recebe depois de ter fornecido o uso de sua força de trabalho,
depois que esta já está realizada no valor do produto do seu trabalho. O capitalista dispõe desse
valor antes de pagá-lo. Não é portanto o dinheiro que funciona duas vezes, primeiro como a forma
dinheiro do capital variável, depois como salário, e sim a força de trabalho: primeiro, como
mercadoria na venda da força de trabalho (o dinheiro, ao estipular-se o salário a pagar exerce apenas
o papel de medida ideal do valor, ocasião em que o capitalista ainda não precisa dispor dele), e
segundo, no processo de produção, como capital, isto é, como elemento que nas mãos do capitalista
cria valor-de-uso e valor. (...)a compra e venda ininterrupta da força de trabalho eterniza portanto a
força de trabalho como elemento do capital.” p. 407

“O ato de apropriar-se de mais-valia, o valor que sobra depois de tirado o equivalente ao capital
adiantado pelo capitalista, embora se inicie com a compra e venda da força de trabalho, só se
concretiza dentro do próprio processo de produção, constituindo dele um fator essencial.
A operação que o inicia, ato que faz parte da circulação, a compra e venda da força de trabalho,
fundamenta-se por sua vez numa distribuição dos elementos de produção, a saber, a dissociação
entre a força de trabalho como mercadoria do trabalhador e os meios de produção como propriedade
de não-trabalhadores. (...)A substância do valor é e continua sendo nada mais que força de trabalho
despendida – trabalho - e a produção de valor é simplesmente o processo desse dispêndio. Assim o
servo despende durante 6 dias força de trabalho, trabalha durante 6 dias e esse dispêndio continua a
existir da mesma maneira, realize ele, por exemplo, três dessas jornadas na própria lavoura e as três

                                                 90
outras na lavoura do senhor. O trabalho voluntário para si e o trabalho forçado para o senhor
constituem trabalho da mesma natureza. (...)A diferença refere-se apenas as condições diversas que
levam ao dispêndio de sua força de trabalho durante as duas metades desse período. O mesmo se
pode dizer do trabalho necessário e do trabalho excedente do assalariado. (...) Sob o aspecto
considerado, a mercadoria produzida pelo capitalista em nada se distingue da elaborada por
trabalhador independente ou por comunidades de trabalhadores ou por escravos. Entretanto, no caso
do capitalista, todo o produto do trabalho e todo o seu valor lhe pertencem. Como qualquer outro
produtor tem de transformar com a venda, mercadoria em dinheiro, a fim de prosseguir em seu
negócio; tem de convertê-la à forma de equivalente geral.” p. 412s

Capítulo XX – Reprodução Simples.

“Quando examinamos, do ponto de vista individual, a produção do valor e o valor dos produtos do
capital, não importava, para a análise, a forma específica do produto-mercadoria, consistisse ela em
máquinas, trigo ou espelhos. (...)Como se tratava da reprodução do capital, bastava supor que dentro
da esfera da circulação, a parte do produto-mercadoria, que representa valor-capital, encontrava
oportunidade de reconverter-se em seus elementos de produção e retornar assim a sua figura de
capital produtivo, do mesmo modo que era suficiente supor que trabalhador e capitalista
encontravam no mercado as mercadorias em que despendem salário e mais-valia. Essa maneira
puramente formal de apresentar as coisas não serve mais para estudo da totalidade do capital social e
do valor de seu produto.” p. 421s

“O produto global, ou seja toda a produção da sociedade, se divide em duas grandes secções: I.
Meios de produção, mercadorias que por sua forma, devem ou pelo menos podem entrar no
consumo produtivo.
II. Meios de consumo, mercadorias que, por sua forma, entram no consumo individual da classe
capitalista e da classe trabalhadora.
Os diferentes ramos de produção se agregam numa ou na outra dessas secções, formando em cada
uma das duas um grande ramo, o dos meios de produção e o dos meios de consumo. Todo o capital
aplicado em cada um desses dois ramos constitui uma grande secção particular do capital social.
Em cada secção, o capital se divide em dois componentes:
    1- Capital Variável - em valor, é igual ao valor da força de trabalho social empregada nesse
    ramo de produção, por conseguinte, à soma dos salários pagos. Materialmente consiste na
    própria força de trabalho em ação, isto é, no trabalho vivo, posto em movimento por esse valor-
    capital.
    2- Capital Constante - isto é, o valor de todos os meios de produção empregados na produção
    do ramo. Estes meios se dividem por sua vez em capital fixo: máquinas, instrumento de trabalho,
    construções, animais de trabalho, etc. ; e em capital constante circulante: materiais de produção,
    como matérias-primas e materiais auxiliares, produtos semi-acabados etc.
    3- (...)o valor da totalidade do produto anual de cada secção, como o de cada mercadoria
    isolada, se reduz a c+v+m.” p. 422ss

“O dinheiro que os capitalistas industriais lançam na circulação para possibilitar a circulação de suas
mercadorias, façam-no por conta da parte constante do valor da mercadoria ou por conta da mais
valia existente nas mercadorias, desde que esta seja consumida como renda, retorna a suas mãos em
quantidade igual a que lançaram na circulação monetária.” p. 429

do item 3. Trocas entre as duas secções
“Vejamos como o capital variável da Secção I reverte à forma dinheiro. Começa a existir para os
capitalistas de I, depois de eles o terem despendido em salários, sob a forma de mercadoria, e é sob

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essa forma que os trabalhadores lhes fornecem esse capital. Daqueles fôra para as mãos destes em
dinheiro como o preço da força de trabalho. Então, os capitalistas de I não fazem mais do que pagar
a parte do valor de seu produto-mercadoria a qual iguala esse capital variável despendido em
dinheiro. Mas, encontram sua compensação em serem possuidores também dessa parte do produto-
mercadoria. Contudo, a parte da classe trabalhadora que empregam não compra os meios de
produção que ela mesma produz, e sim adquire os meios de consumo produzidos em II. O capital
variável adiantado em dinheiro para pagar força de trabalho não volta portanto diretamente para os
capitalistas de I. Com as compras dos trabalhadores, passa às mãos dos capitalistas produtores das
mercadorias necessárias e acessíveis aos trabalhadores, indo portanto para os capitalistas de II, e só
quando estes aplicam o dinheiro assim recebido para comprar meios de produção, retorna o capital
variável, por esse rodeio, às mãos do capitalista de I. (...)na Reprodução simples (...)I (v+m)= IIc –
p. 429s

4.As trocas dentro da seção II – Meios de subsistência e artigos de luxo
(...)fica logo à primeira vista evidente que os trabalhadores de II com o salário recebidos dos
capitalistas de II, o que fazem é recuperar parte de seu próprio produto, de acordo com o montante
do valor em dinheiro recebido como salário.” p. 430s (em reprodução simples m despendida como
renda).

“A secção II da produção anual de mercadorias constitui-se dos mais variados ramos industriais,
que, porém, podem ser reduzidos, com referência aos produtos, a duas grandes subsecções:
a)Meios de consumo que entram no consumo da classe trabalhadora e, sendo meios necessários de
subsistência, constituem parte do consumo da classe capitalista, embora muitas vezes diferentes em
qualidade e valor dos consumidos pelos trabalhadores. (...)podemos colocar toda a subsecção sob o
título: meios de consumo necessários, não importando no caso que o produto, o fumo por exemplo,
seja ou não necessário do ponto de vista fisiológico; basta que o seja convencionalmente.
b)Meios de consumo de luxo, que só entram no consumo da classe capitalista e assim podendo
apenas ser trocados por mais-valia, que nunca chega ao bolso do trabalhador.
(...)Por mais numerosas que sejam as transações entre os capitalistas dos mais diversos ramos
industriais dela participantes, e através dessas transações esse capital variável que retorna se
distribui pro rata. São processos de circulação cujos meios são fornecidos diretamente pelo dinheiro
despendido pelos trabalhadores.” p. 431s

“Toda crise restringe passageiramente o consumo de artigos de luxo; atrasa, retarda a operação em
que (IIb)v se reconverte em capital-dinheiro, permitindo-a apenas parcialmente, e assim lança à rua
parte dos trabalhadores das industrias de luxo, ao mesmo tempo que, por isso mesmo, enfraquece e
restringe as vendas dos meios de consumo necessários. (...)O contrário se dá no período de
prosperidade, sobretudo quando floresce a especulação: então já por outras razões, cai o valor
relativo do dinheiro expresso em mercadorias (sem ser precedida de verdadeira revolução de valor),
elevando-se portanto o preço das mercadorias independentemente do próprio valor. Não aumenta
apenas o consumo dos meios de subsistência necessários; a classe trabalhadora (estando em
atividade todo o seu exército de reserva) passa momentaneamente a participar no consumo de
artigos de luxo que de ordinário lhe são inacessíveis e ainda no daqueles artigos de consumo
necessários que, noutras condições, são na maior parte “necessários” apenas para os capitalistas, o
que, por sua vez, faz subir os preços.
É mera tautalogia dizer que as crises decorrem da carência de consumo solvente ou de consumidores
capazes de pagar. O sistema capitalista não conhece outra espécie de consumo além do solvente,
excetuados os casos do indigente e do gatuno. (...)mas para se dar a esta tautologia aparência de
justificação mais profunda, se diz que a classe trabalhadora recebe parte demasiadamente pequena
do próprio produto, e que o mal estar seria remediado logo que recebesse parte maior com aumento

                                                 92
dos salários - bastará então observar que as crises são sempre preparadas justamente por um período
em que os salários geralmente sobem e a classe trabalhadora tem de maneira efetiva participação
maior na fração do produto anual destinada a consumo. (...)A produção capitalista patenteia-se
portanto independente da boa ou má vontade dos homens, implicando condições que permitem
aquela relativa prosperidade da classe trabalhadora apenas momentaneamente e como sinal
prenunciados de uma crise.” p. 438s

“A reprodução simples, por definição, tem como finalidade o consumo, embora a obtenção de mais-
valia se patenteie o motivo propulsor dos capitalistas individuais; a mais-valia, porém, qualquer que
seja sua magnitude proporcional, deve ter aqui por função única e definitiva servir ao consumo
individual dos capitalistas.” p. 439

5.A circulação monetária como Veículo das Trocas
“De acordo com o exposto, a circulação entre as diferentes classes de produtores se realiza segundo
o esquema seguinte:
1.Entre a classe I e a classe II:

      I.      4.000c + 1.000v + 1.000m
      II.     .............. 2.000c ................ + 500v + 500m
Temos aí a circulação de IIc= 2.000, trocado por I (1.000v + 1.000m)

Resta ainda (por ora pomos de lado 4.000 Ic) a circulação de v + m dentro da classe II. II (v +m)
repartem-se entre as subsecções IIa e IIb como segue:

2. II. 500v + 500m= a (400v + 400m) + b (100v + 100m)

Os 400v (a) circulam dentro da própria subsecção; (...)[dentro do suposto anteriormente, a mais-
valia é consumida 3/5 em IIa e 2/5 em IIb] – do mesmo modo de IIb em relação a IIa]

3. IIa (400v)+(240m)+160m
     b. ..........................100v+60m+(40m);
as magnitudes entre parênteses são as que só circulam e são consumidos dentro da própria
subsecção.” p. 441

“Duas coisas são necessárias à circulação das mercadorias: mercadorias lançadas em circulação, e
dinheiro lançado em circulação. O processo de circulação não se extingue, como se dá com a troca
direta de produtos, ao mudarem de lugar ou de mãos os valores-de-uso. O dinheiro não desaparece,
quando sai definitivamente do circulo das metarmofoses de dada mercadoria. Ele se deposita em
qualquer ponto da circulação que as mercadorias desocupam, etc. (livro primeiro, cap. III, p. 125)”
p. 441s

“Considerando-se toda a classe capitalista, a tese de ela mesma ter de lançar na circulação o dinheiro
para realizar sua mais-valia (e também para fazer circular seu capital, constante e variável) não
parece paradoxal e, ademais, constitui condição necessária do mecanismo inteiro, pois só temos aqui
duas classes: a classe trabalhadora que só dispõe da força de trabalho, e a classe capitalista que tem
o monopólio dos meios de produção sociais e do dinheiro. Seria paradoxal, se a classe trabalhadora,
em primeira instância, adiantasse de seus próprios recursos, o dinheiro necessário para realizar a
mais-valia encerrada nas mercadorias. O capitalista individual faz esse adiantamento, mas sempre
agindo como comprador: despende dinheiro na aquisição de meios de consumo e adianta dinheiro na


                                                 93
aquisição de elementos de seu capital produtivo, sejam eles força de trabalho ou meios de produção.
(...)Duas circunstâncias obscurecem o que realmente se passa:
1.No processo de circulação do capital industrial aparecem o capital mercantil (cuja primeira forma
é sempre o dinheiro, pois o comerciante como tal não cria “produto” nem “mercadoria”) e o capital-
dinheiro, manipulados por uma espécie particular de capitalistas.
2.Repartição da mais-valia, que necessariamente vai em primeiro lugar para as mãos do capitalista
industrial, por diversas categorias cujos representantes aparecem ao lado do capitalista individual: o
proprietário das terras (renda fundiária), o usurário (juros), o governo e seus funcionários, os
“rentiers” etc. Para o capitalista industrial, esses cavalheiros são compradores e nessa qualidade
convertem as mercadorias por ele produzidas em dinheiro. Figuram também entre os que lançam
“dinheiro” na circulação, e o capitalista industrial o recebe deles. Com isso ninguém se lembra
donde lhes vem originalmente o dinheiro e donde lhes continua sempre vindo.” p. 450s

6.O capital constante da Secção I.
“Resta ainda investigar o capital constante da secção I=4.000Ic. Este é o valor dos meios de
produção consumidos na produção do produto-mercadoria I, neste reaparecimento. Esse valor que
reaparece, que não foi produzido neste processo de produção I, mas nele entrou no ano anterior
como valor constante (...)existe agora em toda a porção do produto-mercadoria I, que não é
absorvida pela categoria II (...). A classe capitalista I abrange a totalidade dos capitalistas que
produzem meios de produção. (...)A dificuldade resolve-se facilmente se ponderarmos que todo o
produto-mercadoria I em sua forma natural constitue-se de meios de produção, dos elementos
materiais do próprio capital constante. (...)Em I todo o produto-mercadoria consiste em meios de
produção - construções, maquinaria, recipientes, matérias-primas, e materiais auxiliares, etc.
(...)todo o produto da secção I consiste em valores-de-uso que por sua forma natural, no modo de
produção capitalista, só podem servir de elementos do capital constante. Assim, desse produto no
valor de 6000, 1/3 (2.000) repõe o capital constante da secção II, e os 2/3 restantes, o capital
constante da secção I.” p. 451s

“A fração do capital social investida em cada ramo particular de produção consiste por sua vez na
soma dos capitais individuais nele investidos e que funcionam de maneira autônoma. Isto é,
naturalmente válido para as secções I e II. (...)É o que se dá, por exemplo, com o trigo na triticultura,
com o carvão na indústria carbonífera, com o ferro na forma de máquinas na produção de ferro, etc.
Os produtos parciais, em que consiste o valor-capital constante I, quando não entram na própria
esfera particular ou individual de produção, apenas mudam de lugar.” p. 453

7.O capital variável e a mais-valia nas duas secções
“Desde que se supõe reprodução simples, o valor global dos meios de consumo anualmente
produzidos é igual ao produto-valor anual, isto é, igual a todo o valor produzido durante o ano pelo
trabalho da sociedade, e assim tem de ser, pois na reprodução simples esse valor é consumido por
inteiro.” p. 454

“(...)embora para os capitalistas de II o valor de seu produto se decomponha em c+v+m. Isto só
acontece porque aqui IIc= I(v+m), e esses dois componentes do produto social, ao se tocarem, toma
um a forma do outro; após essa operação, IIc volta a existir sob a forma de meios de produção e I
(v+m) passa a existir em meios de consumo.
É esta a circunstância que levou A.Smith a afirmar que o valor do produto anual se reduz a v+m.
Essa afirmação é válida (1) apenas para a parte do produto anual a qual consiste em meios de
consumo, mas (2) não no sentido de que esse valor total seja produzido em II e que seja o valor de
seus produtos = valor-capital variável adiantado em II + mais-valia produzida em II. A proposição


                                                   94
tem validade apenas no sentido de que II(c+v+m) = II(v+m) + I(v+m), ou porque IIc = I(v+m)” p.
455

“2/3 do valor dos produtos de II (2.000), nos quais capitalistas e trabalhadores de I realizam o valor-
capital variável e a mais-valia que produziram (e os quais constituem 2/9 de todo o valor dos
produtos do ano), são, do ponto de vista do valor, o produto de 2/3 de uma jornada-de-trabalho
social anteriormente efetuada.
A totalidade do produto social de I e II, dos meios de produção e dos meios de consumo, vistos
como valor-de-uso, concretamente, em sua forma natural, obtidos no curso de determinado ano, é o
produto do trabalho desse ano, apenas quando se considera esse trabalho como trabalho útil,
concreto, o que não é válido para o trabalhador visto como dispêndio de força de trabalho, como
trabalho que cria valor. E a primeira afirmação só é verdadeira no sentido de que os meios de
produção só se transformam em produto novo, no produto desse ano, em virtude do trabalho vivo
que lhes foi acrescentado e que os manipulou. E reciprocamente, o trabalho desse ano não poderia se
ter transformado em produto sem meios de produção independentes dele, sem meios de trabalho e
matérias de produção.” p. 457s

8.O capital constante nas duas secções

“(...)meios de produção e meios de consumo são totalmente diferentes entre si, como mercadorias,
pela forma natural ou de uso e pelos tipos de trabalho concretos exigidos para sua produção. (...)A
totalidade da jornada-de-trabalho anual, que produz valor = 3.000, aparece gasta na produção de
meios de consumo = 3.000, nos quais não reaparece parte constante do valor, pois esses 3.000 =
1.500v + 1.500m, reduzindo-se a valor-capital variável + mais-valia.
Além disso, o valor-capital constante (=6000) reaparece num gênero de produtos, os meios de
produção, inteiramente diversos dos meios de consumo, e nenhuma parte da jornada-de-trabalho
social aparece despendida na produção desses novos produtos; essa jornada-de-trabalho parece
consistir por inteiro apenas em gêneros de trabalho que não resultam em meios de produção e sim
em meios de consumo. (...)No produto anual da sociedade, portanto, a dificuldade decorre de a parte
constante do valor representar-se numa espécie de produto, os meios de produção, completamente
diversa da espécie, os meios de consumo, em que se representa o novo valor v + m acrescentado a
essa parte constante do valor.” p. 459s

“O produto do capital individual, isto é, de cada fração do capital social dotada de vida própria,
funcionando de maneira autônoma, pode ter qualquer forma natural. A condição única limitante é
que tenha realmente forma-de-uso, valor-de-uso, que dele faça elemento capaz de circular no mundo
das mercadorias. (...).
É diferente o que se dá com o produto global da sociedade. Todos os elementos materiais da
reprodução tem de consistir em sua forma natural partes desse mesmo produto. Só é possível repor,
com a produção global, a parte constante do capital consumida, se toda a parte constante do capital,
a qual reaparece no produto, se apresentar na forma natural de novos meios de produção que possam
efetivamente exercer a função do capital constante. Pressuposta a reprodução simples, o valor da
parte do produto constituída de meios de produção tem de ser portanto igual ao valor da parte
constante do capital social. Do ponto de vista individual, o capitalista produz, do valor de seu
produto, apenas o capital variável e a mais-valia, acrescentados por novo trabalho, enquanto o valor
da parte constante do capital é transferido ao produto pela natureza concreta desse novo trabalho.
Do ponto de vista social, a fração da jornada-de-trabalho social que produz meios de produção,
acrescentando-lhes valor novo e transferindo-lhes o valor dos meios de produção consumidos em
sua produção, nada mais faz que produzir novo capital constante, destinado a repor o capital
constante consumido sob a forma dos antigos meios de produção, tanto na secção I quanto na II.

                                                  95
(...)Por outro lado, a parte da jornada-de-trabalho social que produz meios de consumo nada produz
do capital social de reposição. Só gera produtos que por sua forma natural se destinam a realizar o
valor capital variável e a mais-valia de I e de II.
Se nos colocamos do ponto de vista social, se examinamos portanto o produto global da sociedade, o
qual abrange a reprodução do capital social e o consumo individual, não nos devemos iludir com a
idéia de Proudhon, copiada da economia burguesa, achando que uma sociedade de modo de
produção capitalista perderia esse seu caráter específico, econômico-histórico, se fosse observada
em bloco, como um todo. Ao contrário, temos de nos avir com o capitalista global. É como se o
capital global fosse o capital por ações de todos os capitalistas individuais tomados em conjunto.
Essa sociedade por ações tem isso em comum com muitas outras sociedades por ações: cada um
sabe o que nela põe, mas não o que dela vai retirar.” p. 461ss

9.Exame retrospectivo das idéias de A. Smith, Storch e Ramsay.

“O valor global do produto social atinge 9.000 = 6.000c + 1.500v + 1.500m; em outras palavras:
6.000 reproduzem o valor dos meios de produção e 3.000 o valor dos meios de consumo. O valor da
renda social (v + m) só é portanto 1/3 do valor do produto global, e só até ao montante do valor
desse terço pode a totalidade dos consumidores, trabalhadores e capitalistas, retirar mercadorias,
produtos, do produto global da sociedade e incorporá-los a seu fundo de consumo. Por outro lado,
6.000 = 2/3 do valor do produto representam o valor do capital constante que é mister repor
materialmente. Assim, meios de produção nesse montante tem de incorporar-se de novo ao fundo de
produção.” p. 463

“A. Smith, (...)estabeleceu o fabuloso dogma, até hoje objeto de fé, de que todo o valor do produto
da sociedade se reduz a renda, isto é, a salário + mais-valia ou, conforme diz, a salário + lucro
(juros)+ renda da terra. Esse dogma continua a sobreviver também na forma mais vulgar que
sustenta serem os consumidores quem tem de pagar, em última análise, aos produtores o valor total
do produto. É um dos lugares comuns defendidos pela crença mais inabalável, ou melhor, constitui
uma das verdades eternas da chamada ciência da economia política.” p. 463s

10.Capital e Renda: Capital Variável e Salários

“Toda a reprodução anual, todo o produto de um determinado ano é produto de trabalho útil desse
ano. Mas, o valor desse produto global é maior do que a parte do valor na qual se corporifica o
trabalho anual, a força de trabalho despendida durante esse ano. O produto-valor (valor produzido)
do ano, o novo valor criado sob a forma de mercadoria, é menor do que o valor do produto, o valor
global da massa de mercadorias produzida durante o ano. (...)conforme vimos, os 2.000 I(v + m)
repõem os 2.000 IIc da classe II, na forma natural de meios de produção. Os dois terços do trabalho
anual, despendidos na secção I, produziram novamente o capital constante de II, em todo o seu valor
e em sua forma natural. Assim, do ponto de vista social, dois terços do trabalho dependido durante o
ano criaram novo valor-capital constante, na forma material adequada a secção II. Gastou-se
portanto a maior parte do trabalho anual da sociedade na produção de novo capital constante (valor-
capital existente em meios de produção), a fim de repor o valor-capital constante despendido na
produção de meios de consumo.” p. 468

“(...)a sociedade capitalista empregava a maior parte do trabalho anual disponível na produção de
meios de produção (logo de capital constante), que não são redutíveis a renda na forma de salário
nem na de mais-valia, mas só podem exercer a função de capital.” p. 468



                                                  96
“Durante o processo de trabalho, o capitalista tem em suas mãos o capital variável como força de
trabalho em ação, criadora de valor, e não como valor de grandeza fixa, uma vez que sempre paga
ao trabalhador depois de a força de trabalho já ter operado durante certo tempo, já tem em suas
mãos, antes de efetuar esse pagamento, o valor de reposição dessa força por ela mesma criado,
acrescido de mais-valia.” p. 477

11.Reposição do Capital Fixo

“Quando o elemento fixo está gasto, edificações, maquinaria, etc. , não podendo mais funcionar no
processo de produção, seu valor existe a seu lado, inteiramente reposto por dinheiro, pela soma dos
depósitos em dinheiro, dos valores que o capital fixo transferiu pouco a pouco às mercadorias para
cuja produção concorreu, e que se converteram na forma dinheiro com a venda das mercadorias.
Esse dinheiro serve para repor materialmente o capital fixo (ou seus elementos, pois os elementos
diferentes tem diversa duração de vida). (...)Esse entesouramento portanto é elemento do processo
capitalista de reprodução, ao reproduzir e juntar em dinheiro o valor do capital fixo ou de seus
diversos elementos até a ocasião em que está gasto o capital fixo e por conseqüência todo o seu
valor já se transferiu para as mercadorias produzidas, devendo ser reposto materialmente. Mas, esse
dinheiro só perde a forma de tesouro e participa no processo de reprodução do capital, que se efetua
por intermediário da circulação, quando se reconverte em novos elementos do capital fixo, que
repõem os extintos.” p. 480s

“Quando observamos a reprodução anual, mesmo na escala simples, abstraindo de toda acumulação,
não começamos na origem; é um ano na fluência do tempo, não é o ano de nascimento da produção
capitalista. (...)Assim, o desgaste a repor-se em dinheiro e componente do valor de 2.000 IIc
absolutamente não corresponde ao montante do capital fixo em funcionamento, pois todo ano parte
deste tem de repor-se materialmente. Mas, isto supõe que em anos anteriores se tenha juntado nas
mãos dos capitalistas II o dinheiro necessário para essa conversão. Esse pressuposto admitido para
os anos anteriores, é também válido para o ano corrente.” p. 483

“Supondo-se produção capitalista desenvolvida e portanto regime de trabalho assalariado,
desempenha o capital-dinheiro evidentemente papel fundamental, enquanto forma em que se adianta
o capital variável. Na medida em que se desenvolve o sistema de trabalho assalariado, todo produto
se transforma em mercadoria e, por isso, com algumas exceções importantes, tem de converter-se
totalmente em dinheiro, conversão que é uma fase de seu movimento. A massa de dinheiro
circulante tem de bastar para converter em dinheiro as mercadorias, e a maior parte dessa massa é
fornecida na forma de salários, de dinheiro que os capitalistas industriais adiantam como forma-
dinheiro do capital variável para pagar a força de trabalho. E o mais desse dinheiro nas mãos dos
trabalhadores funciona como meio de circulação (meio de compra). Isto se opõe totalmente à
economia natural, que predomina na base de qualquer sistema de dependência (inclusive servidão) e
ainda mais nas comunas primitivas, nestas haja ou não relações de dependência ou de escravatura.
Na escravidão, o capital-dinheiro despendido na compra da força de trabalho desempenha o papel de
forma dinheiro do capital fixo que vai tendo sua reposição feita progressivamente até o fim do
período ativo de vida do escravo. Por isso, os atenienses consideravam o ganho que o senhor de
escravos retirava diretamente, com o emprego industrial de seu escravo ou, indiretamente, alugando-
o a quem o empregasse ou exploração industrial (no trabalho das minas, por exemplo) - como juros
(mais amortização) do capital-dinheiro adiantado. É como acontece na produção capitalista: o
capitalista industrial põe na conta como juros e reposição de seu capital fixo uma fração da mais-
valia e o desgaste do capital fixo. (...)Mas, enquanto a escravidão é a forma dominante do trabalho
produtivo na agricultura, manufatura, navegação etc., como acontecia nos estados desenvolvidos da
Grécia e em Roma, conserva ela aspectos da economia natural. O próprio mercado de escravos é

                                                97
continuamente abastecido da mercadoria força de trabalho, através de guerras, pirataria etc., e essa
rapinagem não se efetua por intermediários de um processo de circulação mas por meio do ato de
apropriar-se naturalmente da força de trabalho alheia, com o emprego de coação física direta.” p.
509s

Capítulo XXI – Acumulação e Reprodução em Escala Ampliada.

“Vimos (...)como se efetua a acumulação do ponto de vista do capitalista isoladamente considerado.
Ao converter-se o capital mercadoria em dinheiro transformar-se também em dinheiro o produto
excedente em que se corporifica a mais-valia. Essa mais-valia transformada em dinheiro reconverte-
a o capitalista em elementos naturais adicionais de seu capital produtivo. No próximo ciclo da
produção, o capital acrescentado fornece um produto acrescido. O que sucede com o capital
individual aparece necessariamente na reprodução anual global, conforme verificamos, ao observar
a reprodução simples: o depósito sucessivo em dinheiro que se entesoura, corresponde aos
elementos fixos consumidos do capital individual, manifesta-se também na reprodução anual da
sociedade.
Se um capital individual = 400c + 100v, e a mais-valia anual = 100 será o produto anual = 400c +
100v + 100m. Esses 600 convertem-se em dinheiro. Desse dinheiro, 400c se reconvertem na forma
natural de capital constante, 100v em força de trabalho, e, além disso, se se acumular toda a mais-
valia, 100m se transformam em capital constante suplementar, convertendo-se em elementos
naturais do capital produtivo.” p. 521s

“O dinheiro que está de um lado faz surgir, do outro, a reprodução ampliada, quando esta existe em
potencial, independentemente do dinheiro, pois o dinheiro em si mesmo não é elemento da
reprodução real.” p. 522

1.Acumulação na secção I

a)Entesouramento

(...)há sempre uma parte dos capitalistas que por ter seu capital-dinheiro potencial atingido montante
adequado, esta transformando-o em capital-produtivo, isto é, está comprado, com o dinheiro
entesourado por meio da conversão da mais-valia em ouro, meios de produção, elementos adicionais
do capital constante, enquanto outra parte está ocupada em entesourar seu capital-dinheiro potencial.
Os capitalistas dessas duas categorias se confrontam, uns como compradores, outros como
vendedores, e cada um exclusivamente limitado a seu papel.” p. 524

“Admitimos, por exemplo, que A venda a B (que pode representar mais de um comprador) 600 (=
400c + 100v + 100m). Vendeu 600 em mercadorias por 600 em dinheiro, e destes representam a
mais valia 100 que retirou da circulação, entesourando como dinheiro;
(...)Essa ação não é praticada apenas por A, aparecendo em numerosos pontos da periferia da
circulação realizada por outros capitalistas A’, A”, A”’. (...)Mas A só efetua esse entesouramento, se
exerce apenas a função de vendedor com referência a seu produto excedente, sem desempenhar
depois papel de comprador. (...)No caso atual em que se considera exclusivamente a circulação
ocorrente dentro da secção I, a forma física do produto excedente, assim como a do produto total de
que faz parte é a de um elemento do capital constante I, isto é, pertence à categoria dos meios de
produção de meios de produção. Logo veremos o que se faz do produto excedente, para que função
serve nas mãos dos compradores B, B’, B” etc.” p. 525

b) O capital constante adicional.

                                                 98
“No caso que estamos examinando, o produto excedente consiste em meios de produção de meios
de produção. Esse produto excedente (mais-valia – valor excedente) só funciona como capital
constante adicional quando está nas mãos de B, B’, B” etc. (secção I); mas já o é virtualmente, antes
de ser vendido, quando ainda está nas mãos dos entesouradores A, A’, A”.” p. 528

“O produto excedente, diretamente produzido pelos capitalistas A, A’, A” (I) que dele se apoderam,
é a base real da acumulação do capital, isto é, da reprodução ampliada, embora só entre efetivamente
em função depois de chegar as mãos de B, B’, B” etc. (I). Mas, quando crisálida dinheiro, tesouro,
apenas capital-dinheiro em formação progressiva, é absolutamente improdutivo, corre paralelo ao
processo de produção nessa forma, mas fora dele. É um peso morto da produção capitalista. A
cobiça de obter juro ou renda, aproveitando essa mais-valia que se entesoura como capital-dinheiro
virtual, encontra a concretização de seu objetivo no sistema e nos títulos de crédito. Assim, sob outra
forma adquire o capital-dinheiro a mais prodigiosa influência sobre o curso e o vigoroso
desenvolvimento do sistema de produção capitalista.” p. 530

2. Acumulação na Secção II

“Na análise da reprodução simples supusemos que toda a mais-valia de I e II é gasta como renda.
Mas, na realidade, uma parte da mais valia e despendida como renda e outra e transformada em
capital. Só ocorrendo esta condição, existe acumulação real. Afirmar, de modo genérico, que a
acumulação se efetua às custas do consumo, é sustentar um princípio ilusório que contradiz a
essência da produção capitalista, pois se estará supondo que o fim e a causa propulsora dessa
produção é o consumo, e não a conquista da mais-valia e sua capitalização, isto é, a acumulação.” p.
535

“O fundo de consumo ainda nas mãos dos vendedores [por causa da transformação em I de 500m p/
capital-dinheiro adicional, impedindo que I compre 500c de II] aqui ao mesmo tempo produtores,
não pode cair a zero neste ano para partir de zero no seguinte, o que também não é possível na
transição de um dia para outro. Sendo necessário reconstituir sempre esses estoques, embora em
volume variável, nossos produtores capitalistas II precisam dispor de reservas de capital em dinheiro
que os capacite a prosseguir no processo de produção, apesar de parte de seu capital produtivo
imobilizar-se transitoriamente na forma de mercadoria. De acordo com o pressuposto estabelecido,
aliam eles com as da produção todas as atividades do comércio; por isso, necessitam dispor do
capital-dinheiro adicional que passa a ficar nas mãos dos comerciantes, quando as diversas funções
do processo de reprodução se tornam autônomas, repartindo-se por diferentes espécies de
capitalistas.” p. 537

Obs- Reprodução simples – mais-valia despendida como renda
     Reprodução ampliada = mais valia despendida como capital adicional (acumulação)

                              O CAPITAL – LIVRO 3 - Volume IV

                  O PROCESSO GLOBAL DE PRODUÇÃO CAPITALISTA

Parte primeira – TRANSFORMAÇÃO DA MAIS-VALIA EM LUCRO E DA TAXA DE MAIS-
VALIA EM TAXA DE LUCRO

Capitulo I – Preço de Custo e Lucro


                                                  99
“No Livro Primeiro investigamos os fenômenos do processo de produção capitalista considerado
apenas como processo imediato de produção, quando abstraímos de todos os efeitos induzidos por
circunstâncias a ele estranhas. Mas o processo imediato de produção não abrange a vida toda do
capital. Completa-o o processo de circulação, que constitui o objeto de estudo do livro segundo. Aí –
sobretudo na parte terceira, onde estudamos o processo de circulação como o agente mediador do
processo social de reprodução – evidenciam-se que o processo de produção capitalista, observado na
totalidade, é unidade constituída por processo de produção e processo de circulação. O que nos cabe
neste livro terceiro não é desenvolver considerações gerais sobre essa unidade, mas descobrir e
descrever as formas concretas oriundas do processo de movimento do capital, considerando-se esse
processo como um todo.
Em seu movimento real, os capitais se enfrentam nessas formas concretas; em relação a elas, as
figuras do capital no processo imediato de produção e no processo de circulação não passam de
fases ou estados particulares. Assim, as configurações do capital desenvolvidas neste livro abeiram-
se gradualmente da forma em que aparecem na superfície da sociedade, na interação dos diversos
capitais, na concorrência e ainda na consciência normal dos próprios agentes da produção.” p. 29s

“Esta parte do valor [c + v], a qual ressarce o preço dos meios de produção consumidos e o da força
de trabalho aplicada, repõe apenas o que a mercadoria custa ao próprio capitalista, constituindo para
ele o preço de custo da mercadoria.” p. 30

“O custo capitalista da mercadoria mede-se pelo dispêndio do capital e o custo real pelo dispêndio
de trabalho. (...)Mas, o preço de custo da mercadoria é muito mais do que um título existente na
contabilidade capitalista. Impõe-se contínua e praticamente individualizar essa parte do valor na
produção efetiva de mercadorias, pois ela, através do processo de circulação, tem de deixar a forma
mercadoria para reverter à de capital produtivo; o preço de custo da mercadoria deve portanto
readquirir sempre os elementos de produção consumidos para produzi-la.” p. 31

“O capital todo – os meios de trabalho, as matérias de produção e o trabalho – serve materialmente
para formar o produto. O capital todo entra materialmente no processo efetivo do trabalho, embora,
apenas parte dele, no processo de valorização. Seria precisamente esta a razão por que só
parcialmente contribui para formar o preço de custo e totalmente para formar a mais-valia. (...)como
fruto imaginário de todo o capital adiantado, a mais-valia toma a forma transfigurada de lucro. Por
isso, um montante de valor é capital por ser desembolsado para produzir lucro, e o lucro aparece
porque se emprega um montante de valor como capital. (...)O lucro tal como o vemos agora, é
portanto o mesmo que a mais-valia, em forma dissimulada, que deriva necessariamente do modo
capitalista de produção. Não se distinguindo, na formação aparente do preço de custo, entre capital
constante e capital variável, é mister transferir da parte variável do capital para o capital todo a
origem da mutação de valor, ocorrida durante o processo de produção. Por aparecer, num pólo, o
preço da força de trabalho na forma transmutada de salário, aparece a mais-valia, no pólo oposto,
sob a forma transmutada de lucro.” p. 39

taxa mais valia = m/v
taxa de lucro = m/ C (c + v)

Capítulo II – A Taxa de Lucro.

“(...)na conta de lucros, que inclui salários, preço de matérias-primas, desgaste de maquinaria, etc., a
extensão de trabalho não-pago toma o aspecto de economia no pagamento de um dos artigos que
entram nos custos, de pagamento menor por determinada quantidade de trabalho, como se fosse
poupança que se faz comprando matéria-prima mais barato ou reduzindo o desgaste da maquinaria.

                                                  100
Assim, a extração de trabalho excedente perde o caráter que a diferencia; encobre-se a relação
específica dela com a mais-valia; estimula e facilita esse resultado, (...)a apresentação do valor da
força de trabalho sob a forma de salário. A mistificação das relações do capital decorre de todas as
partes dele aparecem igualmente como fonte do valor excedente (lucro).” p. 48

Capítulo III – Relação entre a Taxa de Lucro e a de Mais-Valia

“(...)o salário tem sobre a magnitude da mais-valia e sobre o nível da taxa de mais-valia, efeito
inverso ao da duração do trabalho e ao da intensidade do trabalho: enquanto a elevação do salário
reduz a mais-valia, aumentam-na o prolongamento da jornada e o acréscimo da intensidade do
trabalho.” p. 55s

Capítulo IV – A Rotação e a Taxa de Lucro

“(...)o efeito direto que a redução do tempo de rotação tem sobre a produção de mais-valia e
portanto sobre o lucro consiste na maior eficácia que ela dá à parte variável do capital.” p. 80

Capítulo V – Economia no Emprego de Capital Constante

“O acréscimo da mais-valia absoluta ou o prolongamento do trabalho excedente e, por conseguinte,
da jornada, sem que se altere o capital variável, empregando-se portanto o mesmo número de
trabalhadores com o mesmo salário nominal – e no caso não importa que se pague ou não o tempo
extraordinário – faz cair o valor do capital constante em relação ao capital todo e ao capital variável,
e assim subir a taxa de lucro, (...)o volume da parte fixa do capital constante, edifícios de fábrica,
maquinaria, etc., permanece o mesmo, sejam 16 ou 12 horas de trabalho. O prolongamento não
exige desembolso adicional nesta parte mais cara do capital constante. Acresce que o valor do
capital fixo se reproduz assim em série menor de períodos de rotação, reduzindo-se o tempo durante
o qual tem de ser adiantado para obter-se determinado lucro. O prolongamento da jornada aumenta o
lucro; mesmo quando pago o tempo extraordinário, e, até certo ponto, mesmo quando pago mais
caro que as horas normais de trabalho. Por isso, no sistema industrial moderno, a necessidade cada
vez maior de aumentar o capital fixo era poderoso incentivo no sistema de levar os capitalistas
ávidos de lucro a prolongar a jornada.
A coisa muda quando a jornada de trabalho é constante. Neste caso surgem necessariamente dois
caminhos. Um deles é aumentar o número de trabalhadores e em certa proporção a quantidade de
capital fixo – os edifícios, a maquinaria, etc. – a fim de explorar quantidade maior de trabalho
(estamos abstraindo de descontos de salário ou de pressões para colocá-lo abaixo do nível normal).
Quando se eleva a intensidade ou a produtividade do trabalho com o objetivo de produzir quantidade
maior de mais-valia relativa, aparece o outro caminho: acresce nos ramos industriais que empregam
matérias-primas a massa da parte circulante do capital constante, transformando-se quantidade
maior de matérias-primas em cada espaço de tempo, e, além disso, aumenta a maquinaria posta em
movimento pelo mesmo número de trabalhadores, isto é, a parte fixa do capital constante. Assim, o
aumento da mais-valia está ligado a aumento do capital constante, a exploração crescente do
trabalho, a condições de produção mais caras com que se explora o trabalho, isto é, a maior
desembolso de capital. Em conseqüência, a taxa de lucro diminui de um lado e aumenta do outro.”
p. 86s

“O lucro maior que o capitalista obtém por terem o algodão e a maquinaria de fiar, por exemplo,
ficado mais baratos, decorre da maior produtividade do trabalho, não na fiação, mas na construção
de máquinas e na cultura de algodão. Para determinada quantidade de trabalho, para dada
quantidade de trabalho excedente de que se apropria, é menor o desembolso a fazer nas condições de

                                                  101
trabalho. Caem os custos necessários para a apreensão dessa quantidade determinada de trabalho
excedente.” p. 90

“Essa espécie de economia de capital constante, oriunda do progresso contínuo da indústria, tem por
característica o seguinte: a elevação da taxa de lucro num ramo industrial deve-se ao
desenvolvimento da produtividade industrial noutro ramo. O capitalista aí se beneficia novamente de
um ganho que é produto do trabalho social, embora não o seja dos trabalhadores por ele diretamente
explorados. Aquele desenvolvimento da produtividade se reduz, em última análise, ao caráter social
do trabalho posto em movimento; à divisão do trabalho dentro da sociedade; ao desenvolvimento do
trabalho intelectual, notadamente das ciências naturais. (...)É o desenvolvimento da produtividade
do trabalho no setor externo – o setor que lhe fornece meios de produção – que faz diminuir
relativamente o valor do capital constante por ele empregado e, em conseqüência, subir a taxa de
lucro.” p. 92

“Da qualidade das matérias-primas depende em parte a taxa de lucro. Com bom material há menos
perdas; exige-se quantidade menor de matérias-primas para sugar a mesma quantidade de trabalho.
Demais, é menor a resistência que a máquina operatriz encontra. Em parte, tem isto influência
também na mais-valia e na respectiva taxa. O trabalhador precisa de mais tempo para transformar a
mesma quantidade de matérias-primas , quando esta é ruim; não variando o salário, daí resulta
redução do trabalho excedente. Isto influi, ademais, vigorosamente na reprodução e na acumulação
do capital, as quais, (...)dependem mais da produtividade que da quantidade do produto empregado.
É compreensível portanto o fanatismo com que o capitalista procura economizar meios de produção.
(...)depende do adestramento e da formação dos trabalhadores e ainda da disciplina que o capitalista
exerce sobre os trabalhadores combinados, (...)Esse fanatismo se exterioriza, de maneira inversa,
quando o capitalista, para aumentar a taxa de lucro, utiliza um dos principais meios de reduzir o
valor do capital constante em relação ao variável: a falsificação dos elementos da produção. (...)na
venda do produto, o valor desses elementos está acima do que nele reaparece. Esse fator
desempenha importante papel sobretudo na industria alemã, que tem por lema: só pode ser agradável
para as pessoas receber boas amostras e depois mercadorias ruins.” p. 93s

“O modo capitalista de produção impulsiona, de um lado, o desenvolvimento das forças produtivas
do trabalho social, e, do outro, a economia no emprego do capital constante. (...)De acordo com suas
contradições e antagonismos, prossegue o sistema capitalista considerando o desperdício da vida e
da saúde dos trabalhadores, o aviltamento de suas condições de existência, como economias no
emprego do capital constante e, portanto, meio de elevar a taxa de lucro. (...)Fazem parte dessas
economias: superlotar de trabalhadores locais estreitos e insalubres, o que em linguagem capitalista
significa poupar em construção; concentrar num mesmo local máquinas perigosas.” p. 96s

“As economias na utilização do capital fixo são, (...)conseqüência do emprego em grande escala das
condições de trabalho, de servirem estas de condições para o trabalho diretamente coletivo,
socializado, para a cooperação imediata dentro do processo de produção. Primeiro, é isto que
permite o emprego das invenções e mecânicas, sem aumentar o preço da mercadoria, constituindo
“conditio sine qua non.” Segundo, só na produção em grande escala são possíveis as economias
oriundas do consumo produtivo coletivo. Finalmente, é a experiência do trabalhador coletivo que
descobre e mostra onde e como economizar, como por em prática, da maneira mais simples, as
descobertas já feitas, quais as dificuldades práticas a vencer, etc. na aplicação, no emprego da teoria
ao processo de produção. Importa distinguir, observemos incidentalmente, entre trabalho universal e
trabalho coletivo. Ambos tem função no processo de produção, ambos se entrelaçam, mas, ao
mesmo tempo, se distinguem. Trabalho universal é todo trabalho científico, toda descoberta, toda
invenção. É condição dele, além da cooperação com os vivos, a utilização dos trabalhos dos

                                                 102
antecessores. O trabalho coletivo supõe a cooperação imediata dos indivíduos. O que dissemos
comprova-se também com o que freqüentemente se observa:
1)A enorme diferença entre o custo de fabricação do protótipo de uma máquina e o de sua
reprodução.
2)Os custos muito maiores com que funciona um estabelecimento industrial baseado em invenções
novas, comparados com as dos estabelecimentos posteriores surgidos sobre a ruína, sobre a caveira
dele. Isto vai ao ponto de os primeiros empresários, em regra, falirem e só prosperarem os
posteriores, a cujas mãos chegam mais baratos, os edifícios, maquinaria, etc. Por isso, em regra, são
os mais inertes e os mais abomináveis capitalistas financeiros, quem tira o lucro maior do trabalho
universal do espírito humano e de sua aplicação social através do trabalho coletivo.” p. 115s

Capítulo VI – Efeitos da Variação dos Preços

“Sendo a taxa de lucro m/C = m/c+v, é claro que tudo o que causa modificação na magnitude de c e
por conseguinte na de C faz variar também a taxa de lucro, (...)não se alterando as demais
circunstâncias, a taxa de lucro varia em sentido contrário à modificação do preço das matérias-
primas. Infere-se daí a importância para os países industriais de matérias-primas com preços baixos,
(...)Infere-se ainda que o comércio exterior influi na taxa de lucro, mesmo pondo-se de lado toda a
sua influência sobre os salários, ao baratear os meios de subsistência necessários.” p. 119

“O valor das matérias-primas e matérias auxiliares entra por inteiro e de uma vez no valor do
produto em que foram consumidas, enquanto o valor dos elementos do capital fixo só entra aí na
medida do desgaste, pouco a pouco, portanto. Segue-se daí que o preço do produto é influenciado
pelo preço da matéria-prima em grau bem maior que pelo do capital fixo, embora a taxa de lucro se
determine pelo valor global do capital aplicado, não importando quanto dele foi ou não consumido.”
p. 121

“Os aperfeiçoamentos constantes despojam do valor-de-uso relativo e por conseguinte do valor, a
maquinaria existente, as instalações das fábricas, etc. A atuação desse processo é violenta sobretudo
ao começar a introdução de novos tipos de máquina, que ainda não atingiram determinado grau de
maturidade, ficando por isso antiquados antes de terem tempo de reproduzir o próprio valor. Esta é
uma das razões do prolongamento desmesurado da jornada de trabalho, usual nessas fases, do
revezamento de turmas, dia e noite, a fim de reproduzir-se o valor deles em menor espaço de tempo,
não se considerando demasiado o desgaste da maquinaria. (...)Se maquinaria, instalações dos
edifícios, capital fixo em geral, atingiram certa maturidade, de modo que permanecem invariáveis
por bastante tempo, pelo menos em sua estrutura fundamental, haverá desvalorização análoga,
decorrente de aperfeiçoamentos dos métodos de produzir esse capital fixo. Então, cai o valor da
máquina, etc. não por ser rapidamente suplantada ou até certo ponto desvalorizada por máquina
mais nova, mais produtiva, etc. , mas por ser possível reproduzi-la mais barato. Esta é uma das
razões por que grandes investimentos industriais muitas vezes só florescem em segunda mão, depois
de ter falido o primeiro proprietário, de modo que o segundo que os comprou barato começa a
explorar a produção com menor desembolso de capital.” p. 127s

“(...)nas épocas de alta das matérias-primas unem-se os capitalistas industriais, formam associações
para regular a produção.” p. 134

“Os trabalhadores da indústria têxtil algodoeira [na crise de 1861 – 1865] prontificaram-se a aceitar
os trabalhos públicos, o de drenar, de construir estradas, britar pedras, calçar ruas, a que foram
condenados para obter socorro (...) das autoridades locais. Toda a burguesia mantinha vigilância
sobre os trabalhadores. Bastava que o trabalhador recusasse o pior salário de cão que lhe

                                                103
oferecessem para que o comitê de ajuda o eliminasse da lista de socorro. Era a época áurea dos
senhores fabricantes: seus cérebros, os comitês de ajuda, vigiavam os trabalhadores colocados diante
do dilema de morrer de fome ou de trabalhar para os burgueses ao preço mais baixo possível. Ao
mesmo tempo, em entendimento secreto com o governo, os fabricantes procuravam impedir a
emigração, a fim de ter sempre disponível seu capital configurado na carne e no sangue dos
trabalhadores e não perder o aluguel destes extorquido.” p. 149

“Flutuações na taxa de lucro, que não dependam de variarem os componentes orgânicos do capital
ou a magnitude absoluta deles, são possíveis, se o valor do capital adiantado, na forma de capital
fixo ou circulante, sobe ou desce em virtude de acréscimo ou decréscimo, independente do capital já
existente, no tempo de trabalho necessário para reproduzi-lo. O valor de toda mercadoria – portanto
das mercadorias de que se constitui o capital – é determinado não pelo tempo de trabalho necessário
nela contido, mas pelo trabalho socialmente necessário, exigido para reproduzi-la.” p. 157

Parte Segunda – CONVERSÃO DO LUCRO EM LUCRO MÉDIO

Capítulo VIII – Diferentes Composições do Capital nos Diversos Ramos e Conseqüentes Diferenças
na Taxa de Lucro.

“Da parte primeira deste livro infere-se que os preços de custo são os mesmos para produtos de
diferentes ramos, quando se adiantam para produzi-los porções iguais de capital, por mais diversa
que seja a composição orgânica desses capitais. No preço de custo desaparece para o capitalista a
diferença entre capital variável e capital constante. Se tem de adiantar 100 libras esterlinas para
produzir uma mercadoria, o custo dela é o mesmo, invista ele 90c + 10v ou 10c + 90v. Custa-lhe
sempre 100 libras esterlinas, nem mais nem menos. Os preços de custo são os mesmos para
investimentos iguais de capital em diferentes ramos de produção, por mais que difiram os valores e
as mais-valias produzidos. Essa igualdade dos custos constitui a base da concorrência entre os
capitais invertidos, e a partir daí se forma o lucro médio.” p. 174

Capítulo IX – Formação de Taxa Geral de Lucro (Taxa média de lucro) e Conversão dos Valores em
Preços de Produção.

“Tomemos por exemplo um capital de 500, sendo a porção fixa de 100, com 10% de desgaste
durante um período de rotação de porção circulante de 400. Seja de 10% o lucro médio para esse
período de rotação. Então, o preço de custo do produto obtido durante essa rotação será: 10c para
desgaste + 400(c + v) de capital circulante = 410; e o preço de produção: 410 de preço de custo +
(10% de lucro sobre 500) 50 = 460.
Os capitalistas de diferentes ramos, ao venderem as mercadorias, recobram os valores de capital
consumidos para produzi-las, mas, a mais-valia (ou lucro) que colhem não é a gerada no próprio
ramo com a respectiva produção de mercadorias e sim a que cabe a cada parte alíquota do capital
global, numa repartição uniforme da mais-valia (ou lucro) global produzida, em dado espaço de
tempo, pelo capital global da sociedade em todos os ramos. (...)Um capitalista, vendendo mercadoria
ao preço de produção, recebe dinheiro no valor do capital consumido para produzi-la e obtém lucro
na proporção do capital adiantado, qualificado como simples parte alíquota de todo o capital da
sociedade. Os preços de custo são específicos. O acréscimo do lucro ao preço de custo não depende
de seu ramo particular de produção; é simples média percentual do capital adiantado.” p. 180s

“A diferença qualitativa real entre lucro e mais-valia – e não apenas entre as respectivas taxas – nos
ramos particulares de produção oculta então inteiramente a verdadeira natureza e a origem do lucro,
não apenas para o capitalista que tem aí especial interesse em enganar-se, mas também para o

                                                 104
trabalhador. Com a transformação dos valores em preços de produção encobre-se a própria base da
determinação do valor.” p. 191

“O capitalista individual, ou o conjunto dos capitalistas em cada ramo particular, com horizonte
limitado, tem razão em acreditar que seu lucro não deriva do trabalho empregado por ele ou em todo
o ramo. Isto é absolutamente exato com referência a seu lucro médio. Até que ponto esse lucro se
deve à exploração global do trabalho por todo o capital, isto é, por todos os confrades capitalistas, é
uma conexão para ele submergida em total mistério, tanto mais quanto os teóricos da burguesia, os
economistas políticos, até hoje não a desvendaram. Poupança de trabalho – não só do trabalhador
necessário para fabricar determinado produto, mas também do número dos trabalhadores ocupados –
e aplicação maior de trabalho morto (capital constante) revela-se operação absolutamente certa do
ponto de vista econômico e parece a priori não influenciar de maneira nenhuma a taxa geral de lucro
e o lucro médio. Como poderia então o trabalho vivo ser fonte exclusiva do lucro, se o decréscimo
da quantidade de trabalho necessário para a produção parece não prejudicar o lucro, revelando-se
antes, em certas circunstâncias, fonte direta de aumento do lucro, pelo menos para o capitalista
individual?” p. 193

Capítulo X – Nivelamento, pela Concorrência, da Taxa Geral de Lucro: Preços e Valores de
Mercado. Superlucro.

“A troca das mercadorias exata ou aproximadamente por seus valores supõe condições bem mais
atrasadas que a troca aos preços de produção, a qual exige determinado nível de desenvolvimento
capitalista.
Qualquer que seja o modo como, de início, os preços das diferentes mercadorias reciprocamente se
fixem ou regulem, a lei do valor governa o movimento deles. Quando diminuiu o tempo de trabalho
exigido para produzi-las, caem os preços, quando aumenta, aumentam os preços, desde que não se
alterem as demais condições.
Mesmo não se levando em conta que os preços e o movimento dos preços se regem pela lei do valor,
enquadra-se inteiramente na realidade considerar que os valores das mercadorias precedem os
preços de produção não só teórica mas historicamente. Isto é válido em condições em que os meios
de produção pertencem ao trabalhador, e esse é o caso, tanto no mundo antigo quanto no moderno,
do camponês que cultiva a própria terra e do artesão. Isto concorda com nossa idéia anterior de que a
transformação dos produtos em mercadorias tem sua origem na troca entre diferentes comunidades e
não entre membros da mesma comunidade. O que vale para essa fase social primitiva estende-se às
fases ulteriores baseadas na escravatura e na servidão, e às corporações de ofícios. Isto vigora
enquanto os meios de produção fixados num ramo só com dificuldade se podem transferir para
outro, e por isso os diferentes ramos de produção até certo ponto se comportam reciprocamente
como se fossem países estrangeiros ou comunidades coletivas.
A fim de que os preços por que se trocam as mercadorias correspondam aproximadamente aos
valores, basta que 1)a troca das diferentes mercadorias deixe de ser meramente fortuita ou ocasional,
2)que, se consideramos a troca direta de mercadorias, produzam-se elas aproximadamente nas
proporções adequadas às necessidades recíprocas dos dois lados, o que vem com a experiência
mútua de venda e resulta da própria troca continuada, e 3)que, no tocante à venda, nenhum
monopólio natural ou artificial capacite uma das partes contratantes a vender acima do valor, ou a
force a vender abaixo dele. Entendemos por monopólio fortuito o que surge, para o comprador ou
vendedor, em virtude de situação ocasional da oferta e da procura.” p. 200s

“A hipótese de que as mercadorias dos diferentes ramos se vendem pelos valores significa apenas
que o valor é o centro em torno do qual gravitam os preços e para o qual tendem, compensando-se,
as altas e baixas. (...)Para certas mercadorias, o valor individual está abaixo do valor do mercado

                                                 105
(para produzi-las é mister menos tempo de trabalho que o indicado pelo valor de mercado) para
outras, está acima. Revela considerar como valor de mercado o valor médio das mercadorias
produzidas num ramo, ou o valor individual das mercadorias produzidas nas condições médias do
ramo e que constituem a grande massa de seus produtos. (...)Quando a oferta das mercadorias ao
valor médio, isto é, ao valor da massa situada entre aqueles dois extremos, satisfaz a procura
corrente, realizam as mercadorias, de valor individual abaixo do valor de mercado, mais-valia extra
ou superlucro, enquanto as de valor individual acima do valor de mercado não podem realizar parte
da mais-valia nelas contida.” p. 202

“O que dissemos do valor de mercado estende-se ao preço de produção quando o substitui. O preço
de produção é regulado em cada ramo, e também segundo as condições particulares. E ele mesmo é
o centro em torno do qual giram os preços quotidianos de mercado, que nele tendem a nivelar-se
dentro de determinados períodos.” p. 203

“(...)se a oferta e a procura regulam o preço do mercado, ou antes os desvios que os preços de
mercado tem do valor de mercado, por outro lado, o valor do mercado rege a relação entre a oferta e
a procura ou constitui o centro em torno do qual as flutuações da oferta e da procura fazem girar os
preços do mercado.
Observamos mais de perto, verificamos que as condições relativas ao valor da mercadoria isolada
estendem-se ao valor da totalidade das mercadorias de uma espécie; não fosse a produção capitalista
por natureza produção em massa. Demais, outros modos de produção menos desenvolvidos – pelo
menos com relação as mercadorias principais – concentram nas mãos de relativamente poucos
comerciantes, acumulam e põem a venda no mercado grandes quantidades, produzidas em pequenas
quantidades, mas que aparecem como produto comum de todo um ramo ou de um setor maior ou
menor dele, embora provenham de grande número de produtores minúsculos.
Observemos de passagem que a “necessidade social”, isto é, o que rege o princípio da procura,
depende essencialmente da relação existente entre as diversas classes e da posição delas na
economia, notadamente, portanto, da relação da mais-valia global com o salário e da relação entre as
diferentes porções em que a mais-valia se reparte (lucro, juros, renda fundiária, tributos, etc.). E
assim evidencia-se mais uma vez que nada absolutamente se pode explicar com a relação entre a
oferta e a procura, antes de se conhecer a base sobre que opera essa relação.” p. 205

“A troca ou venda das mercadorias pelo valor é o racional, a lei natural do equilíbrio delas; devemos
partir daí para explicar os desvios e não o contrário, partir dos desvios para explicar a própria lei.” p.
212

“As mercadorias são comparadas como meios de produção ou meios de subsistência, destinando-se
ao consumo produtivo ou ao consumo individual, havendo as que servem aos dois fins. Existe
portanto a procura dos produtores (aqui os capitalistas, pois supõe-se que os meios de produção se
transformam em capital) e a dos consumidores. Ambos os fatos parecem antes de mais nada supor,
do lado da procura, dada quantidade de necessidades sociais, à qual correspondem, do outro lado,
determinadas quantidades de produção social nos diferentes ramos. Para realizar nova reprodução
anual na escala vigente, a indústria têxtil algodoeira, por ex. , precisa de quantidade habitual de
algodão; mas, precisa ainda de quantidade adicional, se consideramos o acréscimo anual da
reprodução, em virtude de acumular-se capital, desde que não variem as demais condições. Isto se
estende aos meios de subsistência. A classe trabalhadora, para prosseguir no mesmo nível de vida,
tem de encontrar pelo menos a mesma quantidade de meios de subsistência necessários, embora
talvez sortidos de maneira diferente, e de uma quantidade suplementar, se consideramos o acréscimo
anual da população. Com maiores ou menores modificações, isto se aplica as demais classes.” p.
212s

                                                   106
“Os limites em que a necessidade de mercadorias configurada no mercado, a procura, difere
quantitativamente da necessidade social efetiva, naturalmente variam muito para as diversas
mercadorias; trata-se da discrepância entre a quantidade procurada de mercadorias e a que seria
procurada se fossem outros os preços ou as condições monetárias ou de vida dos compradores.
Nada mais fácil de compreender que as disparidades entre a oferta e a procura e a divergência daí
oriunda entre preços de mercado e valores de mercado. A verdadeira dificuldade reside na
conceituação do que devemos entender por coincidência da procura com oferta.
Procura e oferta coincidem quando estão em relação tal que a massa de mercadorias de determinado
ramo pode ser vendida ao valor de mercado, nem por mais nem por menos. É a primeira coisa que
ouvimos. A segunda: quando as mercadorias são vendáveis ao valor de mercado, a procura e a oferta
coincidem.
Quando procura e oferta coincidem, cessam de atuar, e justamente por isso vende-se a mercadoria
pelo valor de mercado. Duas forças iguais em direções opostas se anulam e não se manifestam
exteriormente. Os fenômenos ocorrentes, nessa hipótese, terão de explicar-se por outros causas e
não pela interferência dessas duas forças.” p. 213s

“Se procura e oferta determinam o preço de mercado, este e, levando a análise mais longe, o valor
de mercado determinam a procura e a oferta. Isto é patente para a procura, uma vez que ela se mova
em sentido oposto ao preço, aumenta quando ele diminui, e vice-e-versa. Mas, isto se estende à
oferta: os preços dos meios de produção que entram nas mercadorias ofertadas determinam a
procura desses meios de produção e por conseguinte a oferta dessas mercadorias, a qual implica a
procura desses meios de produção. Os preços de algodão tem importância decisiva para a oferta de
tecidos de algodão.
A oferta e a procura determinam os preços, e os preços determinam a oferta e a procura: a essa
confusão acresce que a procura determina a oferta, e inversamente a oferta a procura; a produção
determina o mercado, e o mercado a produção.” p. 215s

“Na produção capitalista, o objetivo é retirar da circulação, em troca da massa de valor nela lançada
sob a forma de mercadoria, igual massa de valor sob outra forma – dinheiro ou outra mercadoria,
(...)trata-se de vender as mercadorias que, pelo menos, proporcionem o lucro médio, ou seja, a
preços de produção. Assim, o capital é uma força social que se torna consciente e de que participa
cada capitalista na proporção de sua cota no capital global da sociedade. (...)o interesse precípuo da
produção capitalista não é o valor-de-uso concreto, nem o caráter específico da mercadoria que
produz. Em cada ramo de produção importa-lhe apenas produzir mais-valia, apossar-se de
determinada quantidade de trabalho não-pago, encerrada no produto de trabalho. Também está na
natureza do trabalho assalariado subordinado ao capital não importar-se com o caráter específico do
trabalho (...)na realidade tanto faz um como outro ramo de produção; cada um deles rende o mesmo
lucro e deixaria de ter finalidade se a mercadoria que produz não satisfizesse uma necessidade social
qualquer.” p. 220

“O capital, porém, deixa o ramo com baixa taxa de lucro e lança-se no que tem taxa mais alta. (...)O
capital consegue essa equiparação [lucro médio] na medida em que se desenvolve o capitalismo em
dada sociedade nacional, em que as condições do país considerado se adaptam ao modo capitalista
de produção.” p. 221

“O nivelamento contínuo das disparidades incessantes é tanto mais rápida 1) quanto mais móvel for
o capital, quanto mais fácil se transferir de um ramo ou de um local para outro, e 2) quanto mais
rápida se puder fazer, de um ramo ou de um local para outro, a transferência da força de trabalho. O
item 1 pressupõe liberdade de comércio no interior da sociedade (...)supõe o desenvolvimento do

                                                 107
sistema de crédito, que concentra, perante os capitalistas isolados, a massa inorgânica do capital
disponível da sociedade, e ainda a subordinação dos diversos ramos aos capitalistas. (...)esse
nivelamento encontra obstáculos maiores, quando ramos de produção numerosos e importantes,
explorados por métodos não capitalistas (por ex. a lavoura dos pequenos agricultores) se interpõem
entre as empresas capitalistas e com elas se entrelaçam. O item 1 supõe finalmente grande densidade
demográfica. – o item 2 supõe: revogação de todas as leis que impeçam os trabalhadores de se
deslocarem de um ramo ou de um local de produção para outro qualquer; indiferença do trabalhador
quanto ao conteúdo do trabalho; redução máxima possível do trabalho a trabalho simples, em todos
os ramos de produção; não possuirem os trabalhadores preconceitos profissionais; finalmente e
sobretudo subordinação do trabalho ao modo capitalista de produção.” p. 221s

“Do exposto infere-se que todo capitalista individual, como o conjunto dos capitalistas de todo ramo
particular de produção, participa da exploração da totalidade da classe trabalhadora pela totalidade
do capital, e do grau dessa exploração, não só por solidariedade geral de classe, mas também por
interesse econômico direto, pois, supondo-se dadas todas as demais condições, inclusive o valor da
totalidade do capital constante adiantado, a taxa média de lucro depende do grau de exploração da
totalidade do trabalho pela totalidade do capital.” p. 222

“Temos aí matematicamente demostrada a razão por que os capitalistas, embora simulem
fraternidade no seu logro recíproco, constituem verdadeira irmandade maçonica ao se defrontarem
com o conjunto da classe trabalhadora.” p. 223

Capítulo XI – Efeitos das Flutuações Gerais dos Salários Sobre os Preços de Produção.

Capítulo XII – Observações Complementares –

1.Causas de Modificações no Preço de Produção

“O preço de produção de uma mercadoria pode variar por duas causas apenas: Primeiro: Muda a
taxa geral de lucro. Para haver essa mudança é mister que se modifique a taxa média de mais-valia
ou, não variando essa taxa, a relação entre a soma de mais-valia obtida e a soma de todo o capital
adiantado da sociedade.
Se a modificação na taxa de mais-valia não decorre de decréscimo ou acréscimo no salário em
relação ao nível normal (...)só pode ela se dar por ter baixado ou por ter subido o valor da força de
trabalho; estas duas hipóteses são impossíveis se não se modificar a produtividade do trabalho que
produz meios de subsistência, sem que varie portanto o valor das mercadorias que entram no
consumo do trabalhador. (...)Se trabalho igual modifica mais capital constante, é que o trabalho se
tornou mais produtivo, e vice-e-versa. Logo se houver mudança na produtividade do trabalho,
haverá necessariamente mudança no valor de certas mercadorias.
Rege ambos os casos esta lei: se varia o preço de produção de uma mercadoria em virtude de
mudança na taxa geral de lucro, poderá o valor dela ter ficado invariável, mas terá ocorrido
necessariamente mudança no valor de outras mercadorias.
Segundo. Não se altera a taxa geral de lucro. Então o preço de produção de uma mercadoria só pode
variar, por ter mudado o valor dela.
(...)Pode cair o preço de produção do algodão porque se produz mais barato a matéria-prima algodão
ou porque o trabalho do fiandeiro, com melhores máquinas, se tornar mais produtivo. (...)Todas as
variações do preço de produção das mercadorias reduzem-se, em última análise, a variação de valor,
mas nem todas as variações de valor das mercadorias se expressam necessariamente em mudança no
preço de produção, pois este é determinado não só pelo valor da mercadoria particular considerada,
mas também pelo valor global de todas as mercadorias.” p. 231ss

                                                108
[preço de produção = k + k1’ , k = preço de custo = kc + kv; 1’ taxa percentual média de lucro
– ex: k =200 e 1’ = 20% - 200 + 200(200/100)= 200+40=240]

2.Preço de Produção das Mercadorias de Composição Média.

“(...)vimos que os preços de produção se desviam dos valores pelas seguintes causas;
1)acrescenta-se ao preço de custo da mercadoria não a mais-valia nela contida, mas o lucro médio;
2)o preço de produção de uma mercadoria, desviado do valor, é componente do preço de custo de
outras mercadorias, e assim o preço de custo de uma mercadoria já pode diferir do valor dos meios
de produção consumidos para fabricá-la, além do desvio que ela mesma pode apresentar em virtude
da diferença entre lucro médio e mais-valia.” p. 233

“Logo que a produção capitalista atinge certo nível de desenvolvimento, a igualação numa taxa
média geral das diversas taxas de lucro dos diferentes ramos não se processa mais em virtude apenas
de os preços de mercado atraírem ou repelirem capital. Depois que os preços médios e os
correspondentes preços de mercado se estabilizam por algum tempo, tomam os diversos capitalistas
“consciência” de que nessa uniformização se compensam determinadas diferenças, e assim logo as
incluem em sua contabilidade recíproca. (...)na prática tudo se resume a que toda circunstância que
forma um investimento – e todas se consideram igualmente necessárias dentro de certos limites –
menos lucrativo e outro mais lucrativo, é levada em conta de uma vez por todas como motivo de
compensação, prescindindo da atuação incessante da concorrência para legitimar esse motivo ou os
elementos de cálculo. Apenas esquece o capitalista – ou melhor não vê, pois a concorrência não lho
revela - , que todas essas razões de compensação que os capitalistas fazem valer na contabilidade
recíproca dos preços das mercadorias dos diferentes ramos nada mais significam que todos eles, na
proporção do respectivo capital, tem o mesmo direito à presa comum, a mais-valia global.
Divergindo o lucro embolsado da mais-valia que extraíram, parece-lhes antes que os motivos de
compensação não servem para igualar a participação na mais-valia global, mas criam o próprio
lucro, derivando este simplesmente do acréscimo, por qualquer que seja o motivo, ao preço de custo
das mercadorias.” p. 236s

Parte Terceira – LEI: TENDÊNCIA A CAIR DA TAXA DE LUCRO

Capítulo XIII – Natureza da Lei.

“O processo capitalista de produção, na essência, é ao mesmo tempo processo de acumulação.
Vimos como, ao progredir a produção capitalista, a massa de valores que tem de ser simplesmente
reproduzida, conservada, aumenta e cresce ao elevar-se a produtividade do trabalho, mesmo quando
não varia a força de trabalho aplicada. Mas, ao desenvolver-se a produtividade social do trabalho,
aumenta ainda mais a massa dos valores-de-uso produzidos, parte dos quais é constituída pelos
meios de produção. E o trabalho adicional de que o capitalista se apropria para poder reconverter
esse acréscimo de riqueza em capital, não depende do valor, mas da massa desses meios de
produção (inclusive meios de subsistência), pois o trabalhador no processo de trabalho não lida com
o valor, mas com o valor-de-uso dos meios de produção.” p. 249

“Uma vez que o desenvolvimento da produtividade e a correspondente composição superior do
capital mobiliza quantidade cada vez maior de meios de produção com quantidade cada vez menor
de trabalho, então, cada mercadoria isolada ou cada porção determinada da massa total produzida
absorve menos trabalho vivo e, além disso, contém menos trabalho materializado, oriundo do
desgaste do capital fixo aplicado ou das matérias-primas e auxiliares consumidos. É menor portanto

                                               109
a soma, encerrada em cada mercadoria, de trabalho materializado em meios de produção e de
trabalho novo, adicionado durante a produção.
Por isso, cai o preço de cada mercadoria. A massa de lucro contida em cada uma das mercadorias
pode, entretanto, aumentar, se crescer a taxa da mais-valia absoluta ou relativa. Cada um contém
menos trabalho novo adicionado, mas a parte deles não-paga aumenta em relação à paga.” p. 258

Capítulo XIV – Fatores Contrários à Lei

“(...)a taxa de lucro cai não por tornar-se o trabalho mais improdutivo, mas por tornar-se mais
produtivo. Ambas, a elevação da taxa de mais-valia e a queda da taxa de lucro são apenas formas
particulares em que se expressa, em termos capitalistas, a produtividade crescente do trabalho.” p.
275

Capítulo XV – As Contradições Internas da Lei.

“Queda da taxa de lucro e acumulação acelerada são apenas aspectos diferentes do mesmo processo,
no sentido do que ambas expressam o desenvolvimento da produtividade. A acumulação acelera a
queda da taxa de lucro, na medida em que acarreta a concentração dos trabalhos em grande escala e
com isso composição mais alta do capital. A queda da taxa por sua vez acelera a concentração do
capital e sua centralização, expropriando-se os capitalistas menores, tomando-se dos produtores
diretos remanescentes o que ainda exista para expropriar. Assim, acelera-se a acumulação, em seu
volume, embora sua taxa diminua com a queda da taxa de lucro.
Demais, se o motor da produção capitalista (cuja finalidade única é a valorização do capital) é a taxa
de valorização do capital todo, a taxa de lucro, a diminuição dela retarda a formação de novos
capitais independentes e se patenteia ameaçadora ao desenvolvimento do processo capitalista de
produção, pois contribui para superpopulação, especulação, crises, capital supérfluo ao lado de
produção supérflua. Os economistas que, como Ricardo, consideram o modo capitalista de produção
sistema absoluto, sentem que ele cria aí limite a si mesmo e por isso atribuem esse limite não ao
sistema, mas à natureza (na teoria da renda). O que mais pesa porém no humor que os acomete
diante da taxa cadente de lucro é o sentimento de que o modo capitalista de produção encontra no
desenvolvimento das forças produtivas uma barreira que nada tem com a produção de riqueza em si.
E essa barreira peculiar evidencia que o modo capitalista de produção, com suas limitações, possui
caráter simplesmente histórico, transitório, que não é modo absoluto de produção da riqueza,
entrando antes em conflito com o desenvolvimento ulterior dela, ao atingir certo estádio de
evolução.” p. 278

“Existindo os meios de produção necessários, isto é, acumulação bastante de capital – e dada a taxa
de mais-valia, portanto o grau de exploração do trabalho -, a criação de mais-valia só tem por limite
a população trabalhadora e, se esta for dada, o grau de exploração do trabalho. O processo capitalista
de produção consiste essencialmente na produção de mais-valia, configurada no produto excedente
ou na parte alíquota das mercadorias produzidas na qual está materializado trabalho não-pago.
Nunca devemos esquecer que a produção dessa mais-valia – e faz parte dessa produção reconverter
fração da mais-valia em capital, ou seja, acumular – é o objetivo imediato e o motivo determinante
da produção capitalista. Nunca deve portanto ser apresentada como algo diverso do que é, digamos,
como produção que tem por objetivo imediato o gozo do capitalista ou produzir para ele meios de
fruição. Isto seria omitir o caráter específico que se infunde no âmago de sua estrutura interna.
A obtenção dessa mais-valia constitui o processo imediato de produção, que não tem outros limites
além dos indicados acima. Produz-se mais-valia quando se materializa em mercadorias a quantidade
de trabalho excedente que se pode extorquir. Mas, com essa produção de mais-valia encerra-se
apenas o primeiro ato do processo capitalista de produção, o processo imediato de produção. A

                                                 110
medida que o processo se desenvolve (...) começa então o segundo ato do processo. Tem de ser
vendida toda a massa de mercadorias, todo o produto, tanto a parte que representa o capital
constante e o variável, quanto a que representa a mais-valia. (...)não são idênticas as condições da
exploração imediata e as da realização dessa exploração. Diferem no tempo e no espaço e ainda em
sua natureza. As primeiras tem por limite apenas a força produtiva da sociedade, e as últimas, a
proporcionalidade entre os diferentes ramos e o poder de consumo da sociedade. (...)o mercado tem
por isso de ser constantemente ampliado, e desse modo suas conexões e as condições que as regulam
assumem cada vez mais a configuração de lei natural independente dos produtores e se tornam cada
vez mais incontroláveis. Essa contradição interna busca um equilíbrio, aumentando o campo externo
da produção.” p. 280ss

“A taxa de lucro cai não por explorar-se menos o trabalhador e sim por empregar-se menos trabalho
em relação ao capital aplicado.” p. 283

“(...)mesmo com baixa taxa de lucro, aumenta o montante de lucro com a magnitude do capital
empregado. E isto implica ao mesmo tempo na concentração de capital, exigindo as condições atuais
de produção o emprego de capital em massa.
Implica também a concentração do capital: os grandes capitalistas engolem os pequenos e lhes tiram
o capital. Ocorre mais uma vez, porém em outro nível, a dissociação entre as condições de trabalho
e os produtores dos quais fazem parte esses capitalistas menores, pois entre eles o próprio trabalho
ainda importa; em regra, o trabalho do capitalista está na razão inversa da magnitude de seu capital,
isto é, do grau em que é capitalista. Essa dissociação entre condições de trabalho e produtores, que
constitui o conceito de capital, inaugura-se com a acumulação primitiva (livro primeiro capítulo
XXIV), depois aparece como processo ininterrupto na acumulação e concentração do capital e agora
finalmente se expressa pela centralização em poucas mãos de capitais já existentes e pela
descapitalização (a nova forma de expropriação) de grande número de capitalistas. Esse processo
não tardaria em levar à catástrofe a produção capitalista, se, além dessa força centrípeta, não
estivessem sempre atuando tendências contrárias, de efeito descentralizador.” p. 283

“Em termos bem genéricos, a antinomia consiste no seguinte: o modo capitalista de produção tende
a desenvolver de maneira absoluta as forças produtivas, indenpendentemente do valor, da mais-valia
nela incluída, e das condições sociais nas quais se efetua a produção capitalista, ao mesmo tempo
que tem finalidade manter o valor capital existente e expandi-lo ao máximo (isto é, acelerar sempre
o acréscimo desse valor). (...)a depreciação periódica do capital existente, meio imanente ao modo
capitalista de produção, de deter a queda da taxa de lucro e de acelerar acumulação do valor capital
pela formação de capital novo, perturba as condições dadas em que se efetua o processo de
circulação e reprodução do capital, e assim é acompanhada de paradas súbitas e crises do processo
de produção. (...)A produção capitalista procura sempre ultrapassar esses limites imanentes, mas
ultrapassa-os apenas com meios que de novo lhe opõem esses mesmos limites, em escala mais
potente.
A barreira efetiva da produção capitalista é o próprio capital: o capital e sua auto-expansão se
patenteiam ponto de partida e meta, móvel e fim da produção; a produção existe para o capital, ao
invés de os meios de produção serem apenas meios de acelerar continuamente o desenvolvimento do
produto vital para a sociedade dos produtores. Os limites intransponíveis em que se podem mover a
manutenção e a expansão do valor-capital, a qual se baseia na expropriação e no empobrecimento da
grande massa dos produtores, colidem constantemente com os métodos de produção que o capital
tem de empregar para atingir seu objetivo e que visam ao aumento ilimitado da produção, à
produção como fim em si mesma, ao desenvolvimento incondicionado das forças produtivas sociais
do trabalho. O meio – desenvolvimento ilimitado das forças produtivas sociais – em caráter
permanente conflita com o objetivo limitado, a valorização do capital existente. Por conseguinte, se

                                                111
o modo capitalista de produção é um meio histórico para desenvolver a força produtiva social e criar
o mercado mundial apropriado, é ele ao mesmo tempo a contradição permanente entre essa tarefa
histórica e as relações sociais de produção que lhe correspondem.” p. 287s

“Não se produzem meios de subsistência demais em relação à população existente. Pelo contrário, o
que se reproduz é muito pouco para satisfazer, de maneira adequada e humana, a massa da
população.
Não se produzem meios de produção em excesso para empregar a parte da população, apta para o
trabalho. Ao contrário. Primeiro, porção demasiada da população é produzida em condições de
invalidez prática, e depende, pelas circunstâncias que a cercam, da exploração do trabalho alheio, ou
de trabalhos que só podem passar por tais, num modo miserável de produção. Segundo, não se
produzem meios de produção suficientes, para toda a população apta ao trabalho funcionar nas
condições mais produtivas, para reduzir-se portanto o tempo absoluto de trabalho com o volume e a
eficácia do capital constante empregado durante a jornada.
Entretanto, os meios de trabalho e os meios de subsistência periódicamente produzidos são
demasiados para funcionarem, com determinada taxa de lucro, como meios de exploração dos
trabalhadores. As mercadorias produzidas são demais para poderem realizar e reconverter em novo
capital o valor nelas contido e a mais-valia aí incluída, nas condições de repartição e de consumo
estabelecidas pela produção capitalista, vale dizer, para efetuarem esse processo sem as explorações
que constantemente se repelem.
Não se produz riqueza demais. Mas a riqueza que se produz periódicamente é demais nas formas
antagônicas do capitalismo. O limite da produção capitalista patenteia-se nos seguintes fatos:
1)O desenvolvimento da produtividade do trabalho gera, com a queda da taxa de lucro, uma lei que
certo ponto se opõe frontalmente a esse desenvolvimento e por isso tem de ser constantemente
superada por meios de crises.
2)A obtenção de trabalho não-pago, a relação entre esse trabalho não-pago e o trabalho
materializado em geral, ou, em termos capitalistas, o lucro e a relação entre esse lucro e o capital
aplicado, por conseguinte, certo nível da taxa de lucro é o que determina a decisão de expandir ou
restringir a produção, e não a relação entre a produção e as necessidades sociais, as necessidades de
seres humanos socialmente desenvolvidos. Por isso, a produção já encontra limites em certo grau de
expansão, embora se patenteie muito insuficiente, se considerarmos o segundo desígnio. Ela estagna
no ponto exigido pela produção e realização de lucro e não pela satisfação de necessidades.” p. 296s

“Apesar do decréscimo relativo do capital variável, empregado em salários, há o aumento do
número absoluto de trabalhadores, o que não se dá em todos os ramos industriais, nem de maneira
uniforme. Na agricultura, o decréscimo do trabalho vivo pode ser absoluto.” p. 302

“Tudo o que leva o emprego da maquinaria a baratear o preço das mercadorias produzidas reduz-se
sempre a decréscimo da quantidade de trabalho absorvida por cada unidade de mercadoria e a
decréscimo de fração de desgaste da maquinaria, ou seja, do correspondente valor que entra em cada
unidade. Quanto menos rápido esse desgaste, tanto maior a quantidade de mercadorias porque se
reparte, tanto maior a quantidade de trabalho vivo que repõe até que chegue o momento da
reprodução. Nos dois casos aumenta a quantidade de valor do capital constante fixo em relação ao
variável. (...)apesar da taxa cadente de lucro, aumentam as oportunidades e as possibilidades de
acumular, em virtude das seguintes razões: 1)Superpopulação relativa crescente; 2)com a
produtividade ascendente do trabalho aumenta a massa de valor-de-uso configurada no mesmo
valor-de-troca, ou seja, a massa dos elementos materiais do capital; 3)é cada vez maior a
diversificação dos ramos industriais; 4)desenvolvem-se o sistema de crédito, as sociedades por
ações, etc. e em conseqüência fica fácil para o investidor transformar seu dinheiro em capital, sem


                                                112
precisar ser capitalista industrial; 5)aumento das necessidades e da avidez de enriquecer;
6)investimento de capital fixo em escala crescente, etc.
Três fatos fundamentais marcam a produção capitalista:
1)Concentração dos meios de produção em poucas mãos e por isso não aparecem mais eles como
propriedades dos trabalhadores imediatos, transformando-se ao contrário, em potências sociais da
produção, embora se apresentem como propriedade particular dos capitalistas. Estes são os síndicos
da sociedade burguesa, mas embolsam todos os frutos da administração que exercem.
2)Organização do trabalho como trabalho social, por meio da cooperação, da divisão do trabalho e
da união do trabalho com as ciências naturais.
3)Constituição do mercado mundial.” p. 305

                              O CAPITAL – LIVRO 3 – Volume V

                  O PROCESSO GLOBAL DE PRODUÇÃO CAPITALISTA

Parte Quarta – CONVERSÃO DO CAPITAL-MERCADORIA E DO CAPITAL-DINHEIRO EM
CAPITAL COMERCIAL E CAPITAL FINANCEIRO COMO FORMAS DO CAPITAL
MERCANTIL

Capítulo XVI – Capital Comercial

“Considerando todo o capital da sociedade, vemos parte dele – embora variem sempre seus
componentes e mesmo sua magnitude – constituída de mercadorias lançadas ao mercado para
converter-se em dinheiro, e parte que está no mercado, configurada em dinheiro, para converter-se
em mercadoria. Está ele sempre em via de transformar-se, de efetuar essa mera mudança de forma.
Quando essa função do capital que está no processo de circulação adquire autonomia como função
particular de um capital particular, tornando-se, em virtude da divisão do trabalho, função própria de
determinada categoria de capitalistas, converte-se o capital-mercadoria em capital-comercial.” p.
310

“O capital comercial portanto nada mais é do que o capital-mercadoria que o produtor fornece e tem
de passar por processo de transformação em dinheiro, de efetuar a função de capital-mercadoria no
mercado, com a diferença apenas de que essa função, em vez de ser operação acessória do produtor,
surge como operação exclusiva de variedade especial de capitalistas, os comerciantes, e adquire
autonomia como negócio correspondente e um investimento específico.” p. 313

“O valor-de-uso de uma mercadoria é maior nas mãos do consumidor que nas do produtor, por só
realizar-se em poder daquele. Só quando a mercadoria penetra na esfera de consumo é que o valor-
de-uso se realiza, entra em função. Nas mãos do produtor existe apenas em forma potencial. Mas
não se paga mercadoria duas vezes, primeiro o valor-de-troca e depois, ainda por cima, o valor-de-
uso. Por ter pago o valor-de-troca, aproprio-me do valor-de-uso. E o valor-de-troca não tem o menor
acréscimo, por transferir-se a mercadoria das mãos do produtor ou do comerciante intermediário
para as do consumidor.” – citação p. 322s

“O capital mercantil é capital que só funciona na esfera da circulação. O processo de circulação é
uma fase do processo global de reprodução. Mas no processo de circulação não se produz valor,
nem mais-valia portanto. A mesma quantidade de valor experimenta apenas mudança de forma.
(...)Diretamente, o capital mercantil não cria valor nem mais-valia. Ao concorrer para abreviar o
tempo de circulação, pode indiretamente contribuir para aumentar a mais-valia produzida pelo
capitalista industrial.” p. 323

                                                 113
Capítulo XVII – O Lucro Comercial

“O capital que funciona de maneira autônoma no processo de circulação tem de proporcionar, como
o que opera nos diversos ramos de produção, o lucro médio anual. Se o capital mercantil fornecesse
lucro médio percentual mais que o capital industrial, parte deste se converteria em capital mercantil.
Se esse lucro médio fosse menor, haveria o processo oposto. Parte do capital mercantil transformar-
se-ia em industrial. Nenhuma classe de capital tem mais facilidade que o capital mercantil, para
mudar de destino, de função.
Uma vez que o próprio capital mercantil não produz mais-valia, é claro que a mais-valia que lhe
cabe, na forma de lucro médio, constitui parte da mais-valia produzida pela totalidade do capital
produtivo. (...)Só na aparência, o lucro mercantil é mero acréscimo, elevação nominal do preço
acima do valor das mercadorias.
É claro que o comerciante só pode extrair seu lucro do preço das mercadorias que vende, e ainda
mais que esse lucro, que faz ao vender as mercadorias, tem de ser igual à diferença entre o preço de
compra e o de venda, ao excedente deste sobre aquele.” p. 325s

“Por conseguinte, o capital mercantil concorre para formar a taxa geral de lucro, determinando-a na
proporção da parte que representa do capital total. (...)Daí resulta determinação mais precisa,
restritiva do preço de produção. Continuamos a entender por preço de produção o preço da
mercadoria = custo (o valor nela contido do capital constante e do capital variável)+ lucro médio.
Mas, agora se determina o lucro médio de maneira diferente. É determinado pelo lucro global
gerado pela totalidade do capital produtivo; (...)O valor real ou o preço de produção da totalidade do
capital-mercadoria é portanto k+1+g (g representa o lucro comercial). O preço de produção ou preço
a que o capitalista industrial vende, sem ultrapassar sua função específica, é portanto menor que o
preço real de produção das mercadorias; ou, se consideramos a totalidade das mercadorias, os preços
por que as vende a classe capitalista industrial são menores que os respectivos valores.” p. 329

“Assim, o capital mercantil, embora não contribua para produzir a mais-valia, concorre para nivelá-
la de acordo com o lucro médio. Por isso, na taxa geral de lucro já se considera a parte que cabe ao
capital mercantil (descontada da mais-valia), ou seja, uma dedução do lucro do capital industrial.” p.
330

Obs. O capital mercantil concorre para a reprodução global com os custos decorrentes da circulação
das mercadorias.

“Os custos que estamos estudando são os de compra e venda. Já observamos anteriormente que se
reduzem a cálculos, contabilidade, mercância, correspondência, etc. O capital constante requerido
para isso consiste em escritório, papel, correio, etc. Os outros custos se reduzem a capital variável,
desembolsado para empregar assalariados que exercerão atividades comerciais (...). Nenhum desses
custos se faz para produzir o valor-de-uso das mercadorias, mas para realizar o valor delas; são
custos estritos de circulação. Não entram no processo imediato de produção, mas no de circulação e,
portanto, no processo global de reprodução.” p. 333

“De resto, é de supor-se que a dissociação entre capital mercantil e capital industrial está ligada à
centralização dos custos comerciais e por conseguinte à diminuição deles.” p. 336


                                                 114
“Sob certo aspecto o trabalhador comercial é um assalariado como qualquer outro. Primeiro, o
comerciante compra o trabalho utilizando capital variável e não dinheiro que despende como renda;
assim, não o adquire para serviço pessoal e sim para valorizar o capital adiantado nessa compra.
(...)A dificuldade, com relação aos empregados comerciais, não está em explicar como produzem
diretamente lucro para o empregador, embora não produzam diretamente mais-valia (e o lucro não
passe de outra forma dela). (...)o capital industrial obtém lucro vendendo trabalho inserido e
materializado nas mercadorias, obtido gratuitamente, e o capital mercantil, não pagando por inteiro
ao capital produtivo o trabalho não-pago encerrado na mercadoria (...)A relação que o capital
mercantil estabelece com a mais-valia difere de que o capital industrial mantém com ela. (...)Se o
trabalho não-pago do trabalhador cria diretamente mais-valia para o capital produtivo, o trabalho
não-pago dos trabalhadores comerciais proporciona ao capital mercantil participação nessa mais-
valia.” p. 337s

“O trabalho comercial é o trabalho necessário para que um capital funcione como capital mercantil,
de modo a propiciar a conversão de mercadoria em dinheiro e a de dinheiro em mercadoria. É
trabalho que realiza, mas não cria valores. É só na medida em que um capital leva a cabo essas
funções – um capitalista com seu capital faz executar essas operações, esse trabalho -, funciona esse
capital como capital mercantil e concorre para regular a taxa geral de lucro, isto é, retira seus
dividendos do lucro global.” p. 342

“O trabalhador comercial não produz mais-valia diretamente. Mas, o preço de seu trabalho é
determinado pelo valor da força de trabalho, pelo que custa produzi-la portanto (...). É produtivo,
para o capitalista, não por criar mais-valia diretamente, mas por concorrer para diminuir os custos de
realização da mais-valia, efetuando trabalho em parte não-pago. O trabalhador comercial em sentido
estrito figura entre os trabalhadores melhor pagos, entre os que efetuam trabalho qualificado, acima
do trabalho médio. Uma das causas é a divisão do trabalho no escritório: daí resulta um
desenvolvimento apenas unilateral das aptidões de trabalho, em parte gratuito para o capitalista, pois
o trabalhador torna-se competente exercendo a própria função, e tanto mais rapidamente quanto
mais unilateral for a divisão do trabalho. Outra causa é a circunstância de a preparação, os
conhecimentos de comércio e de línguas, etc. se difundirem, com o progresso da ciência e da
vulgarização científica, mais rápida, mais facilmente, de maneira geral e mais barato, quanto mais o
modo capitalista de produção imprime aos métodos de ensino, um sentido prático. A generalização
da instrução pública permite recrutar esses assalariados de camadas sociais, antes à margem dessa
possibilidade, e que estavam habituadas a nível de vida mais baixo. Aumenta o afluxo desses
trabalhadores e em conseqüência a competição entre eles. Por isso, ressalvadas algumas exceções, a
força de trabalho dessa gente deprecia-se com o progresso da produção capitalista; o salário cai,
enquanto aumenta a capacidade de trabalho. O capitalista aumenta o número desses trabalhadores,
quando se trata de realizar quantidade maior de valor e de lucro. O acréscimo desse trabalho é
sempre conseqüência e jamais causa do aumento da mais-valia.” p. 345s

Capítulo XVIII – A Rotação do Capital Mercantil. Os Preços

“Apesar do caráter autônomo que possui, o movimento do capital mercantil nada mais é que o
movimento do capital industrial na esfera da circulação. Mas, em virtude desse autonomia, o capital
mercantil move-se até certo ponto sem depender dos limites do processo de reprodução e por isso
leva este a transpor os próprios limites. A dependência interna e a autonomia externa fazem o capital
mercantil chegar a um ponto em que surge uma crise para restaurar a coesão interior.
Daí o fenômeno de as crises não começarem pela venda a retalho, ligada ao consumo direto, mas no
comércio por atacado e nos bancos que põem à disposição desse comércio o capital-dinheiro da
sociedade.

                                                 115
(...)A crise aparece quando os reembolsos dos comerciantes que vendem em mercados distantes (ou
tem estoques acumulados no mercado interno) se tornam tão lentos e escassos que os bancos
reclamam pagamento ou as letras correspondentes às mercadorias compradas vencem antes de estas
serem revendidas. Começam então as vendas forçadas, destinadas a obter dinheiro para pagar. E aí
sobrevem o craque que de súbito encerra a prosperidade aparente.” p. 350s

“Excetuado o caso do comerciante monopolista e que ainda monopoliza a produção, como por
exemplo em seu tempo a Companhia Holandesa da Índias Orientais, nada mais tolo que a noção
corrente de que o comerciante pode a seu bel-prazer vender muita mercadoria com pequeno lucro ou
pouca mercadoria com grande lucro, por unidade. Determinam o preço de venda dois fatores sobre
os quais não exerce domínio: o preço de produção da mercadoria, e a taxa média de lucro. A única
coisa a qual tem de decidir é se comercia com mercadorias caras ou baratas, mas, para essa decisão
importa a magnitude do capital disponível, além de outras circunstâncias. Nessas condições, os
procedimentos do comerciante depende por completo do grau de desenvolvimento do modo
capitalista de produção, e não de seu arbítrio.” p. 353

Capítulo XIX – O Capital Financeiro

“Essa tarefa permanente técnica de pagar e de receber dinheiro constitui de per si trabalho que, ao
servir o dinheiro de meio de pagamento, exige balanços de contas, operações de compensação. Esse
trabalho representa custo de circulação e não cria valor. Reduz-se, quando é executado por categoria
especial de agentes ou capitalistas que o efetuam para toda a classe capitalista. (...)Há aí divisão do
trabalho em duplo sentido, como acontece com o capital mercantil. Aquelas funções se tornam
negócio especializado, e porque se efetuam como negócio especializado concernente ao mecanismo
financeiro de toda classe, concentram-se, são exercidas em grande escala; (...)Pagamentos,
recebimentos de dinheiro, operações de compensação, escrituração de contas-correntes, guarda do
dinheiro, etc. , todas essas operações técnicas, separadas dos atos que as tornam necessárias,
transformam em capital financeiro o capital nelas adiantado.” p. 364s

“É evidente que a massa de capital-dinheiro, que os comerciantes de dinheiro (banqueiros)
manipulam, é o capital-dinheiro que está na circulação, dos capitalistas comerciantes e industriais, e
que as operações que realizam são apenas as operações desses capitalistas a que servem de
intermediários.
Também é claro que seu lucro é apenas dedução da mais-valia, pois só lidam com valores já
realizados, mesmo quando realizados apenas na forma de créditos.” p. 371

Capítulo XX – Observações Históricas sobre o Capital Mercantil

“(...)ressalta absurdo considerar o capital mercantil, seja na forma de capital comercial ou na de
capital financeiro, espécie particular de capital industrial, como, por exemplo, a mineração, a
agricultura, a pecuária, a manufatura, a industria de transporte, etc., que, em virtude da divisão
social do trabalho, constituem ramificações determinadas e por conseguinte esferas especiais de
aplicação do capital industrial.
(...)No caso comercial e financeiro há autonomia da fase de circulação do capital industrial,
dissociada da produtiva, pois as formas e funções determinadas que este capital assume
transitoriamente nessa fase passam a ser formas e funções autônomas e exclusivas de parte separada
do capital.” p. 372s

“Até agora examinamos o capital mercantil do ângulo e dentro dos limites do modo capitalista de
produção. Mas, o capital mercantil – e o comércio – é mais antigo que o modo capitalista de

                                                 116
produção; é, na realidade, do ponto de vista histórico, o modo independente de existência mais
antigo do capital.” P. 374

“(...)quanto menor desenvolvida a produção, tanto mais os haveres em dinheiro se concentram nas
mãos dos comerciantes, tanto mais se patenteiam forma específica da fortuna mercantil. No mercado
capitalista de produção – isto é, depois que o capital se apoderam da própria produção e lhe
imprimiu forma específica inteiramente nova – o capital mercantil aparece apenas como capital
destinado a uma função particular. Em todos os modos anteriores de produção, o capital mercantil se
apresenta como função por excelência do capital, e é tanto mais assim quanto mais a produção tem
por objetivo o consumo imediato dos próprios produtores.” p. 376

“Na produção capitalista, o capital mercantil deixa a antiga existência soberana para ser um
elemento particular do investimento de capital, e o nivelamento dos lucros reduz sua taxa de lucro à
média geral. Passa a funcionar como agente do capital produtivo. As condições sociais particulares
que se formaram com o desenvolvimento do capital mercantil deixam de ser determinantes; ao
invés, onde ele ainda prevalece, reinam condições arcaicas. É o que se verifica até no mesmo país,
onde por exemplo as cidades puramente mercantis estão próximas e as industriais se distanciam do
passado.” p. 377

“O capital mercantil, quando domina, estabelece por toda parte um sistema de pilhagem, e seu
desenvolvimento entre os povos comerciais, dos tempos antigos e dos modernos, está diretamente
ligado à rapina, à pirataria, ao rapto de escravos, à subjugação de colônias; assim foi em Cartago,
Roma e, mais tarde, com os venezianos, portugueses, holandeses, etc.” p. 381s

“As descobertas geográficas, por certo, provocaram grandes revoluções no comércio e maior
velocidade no desenvolvimento do capital mercantil, e essas transformações constituíram fator
fundamental de aceleração da passagem do modo feudal de produção para o capitalista. Mas,
justamente esse fator levou a concepções de todo errôneas. A expansão súbita do mercado mundial,
a multiplicação das mercadorias em circulação, a luta entre as nações européias para se apoderarem
dos produtos asiáticos e dos tesouros americanos, o sistema colonial contribuíram substancialmente
para derrubar as barreiras feudais da produção. Entretanto, o moderno modo de produção, em seu
primeiro período, o manufatureiro, só se desenvolveu onde se tinham gerado as condições
apropriadas no curso da Idade Média.
Comparemos por exemplo Holanda e Portugal.” p. 383

“A transição que se opera a partir do modo feudal de produção apresenta dois aspectos. O produtor
se torna comerciante e capitalista, em oposição à economia natural agrícola e ao artesanato
corporativo da industria urbana medieval. Este é o caminho realmente revolucionário. Ou então o
comerciante se apodera diretamente da produção. Este último caminho, embora constitua uma fase
de transição histórica, de per si não consegue revolucionar o velho modo de produção, que conserva
e mantém como condição fundamental. É o que sucedeu por exemplo com o comerciante inglês de
panos do séc. XVII: colocou sob seu controle os tecelões, embora estes fossem independentes,
vendendo-lhes lã e comprando-lhes pano.” p. 385

“O capitalista industrial tem de estar sempre atento ao mercado mundial, compara e tem
continuamente de comparar os próprios preços de custo com os preços de mercado de seu país e do
mercado mundial. Antes, essa comparação cabia quase exclusivamente aos comerciantes, o que
assegurava ao capital mercantil o domínio sobre o industrial.” p. 387s



                                                117
Parte Quinta – DIVISÃO DO LUCRO EM JURO E LUCRO DE EMPRESÁRIO. O CAPITAL
PRODUTOR DE JUROS

Capítulo XXI – O Capital Produtor de Juros

“Dinheiro – considerado aqui expressão autônoma de certa soma de valor, exista ela em dinheiro ou
em mercadorias – pode na produção capitalista transformar-se em capital, quando esse valor
determinado se transforma em valor que acresce, que se expande. É dinheiro produzindo lucro, isto
é, capacitando o capitalista a extrair dos trabalhadores determinada quantidade de trabalho não-pago
– produto excedente e mais-valia – e dela apropriar-se. Por isso, além do valor-de-uso, que possui
como dinheiro, passa a ter outro valor-de-uso, isto é, o de funcionar como capital. Seu valor-de-uso
consiste agora justamente no lucro que produz, uma vez transformado em capital. Nessa qualidade
de capital potencial, de meio de produzir lucro, torna-se mercadoria, mas mercadoria de gênero
peculiar. Vale dizer – o capital como capital se torna mercadoria.” p. 392

“A parte do lucro paga ao cedente chama-se de juro, que nada mais é que nome, designação especial
da parte do lucro, a qual o capitalista em ação, em vez de embolsar, entrega ao dono do capital.” p.
392

“Em seu processo de circulação, o capital nunca é capital e sim mercadoria ou dinheiro e apenas
assim existe então para os outros. Mercadoria e dinheiro são aí capital, não quando a mercadoria se
converte em dinheiro e o dinheiro em mercadoria, não em suas relações reais com o comprador ou
vendedor, e sim em suas relações ideais com o próprio capitalista (aspecto subjetivo) ou como fases
do processo de reprodução (aspecto objetivo). No movimento real, o capital é capital não no
processo de circulação, mas no processo de produção, o da exploração da força de trabalho.
A coisa é diferente com o capital produtor de juros, o que justamente marca seu caráter específico. O
dono do dinheiro, para valorizar seu dinheiro como capital, cede-o a terceiro, lança-o na circulação,
faz dele a mercadoria capital; capital não só para si, mas também para os outros; é capital para quem
o cede e a priori para a cessionário, é o valor que possui o valor-de-uso de obter mais-valia, lucro,
valor que se conserva no processo e volta, concluído seu papel, para quem o desembolsou primeiro,
no caso, o proprietário do dinheiro.” p. 397

“Quanto as demais mercadorias, o valor-de-uso é consumido após a última aquisição, quando
desaparece a substância da mercadoria simultaneamente com o valor. A mercadoria capital, ao
contrário, tem a peculiaridade de, pelo consumo do valor-de-uso, não só conservar o valor e o valor-
de-uso, mas também acrescê-los.
É esse valor-de-uso do dinheiro como capital – a propriedade de produzir o lucro médio – que o
capitalista financeiro aliena ao capitalista industrial pelo prazo em que põe à disposição dele o
capital emprestado.” p. 406

“Emprestar e tomar emprestado em vez de comprar e vender: essa diferença surge da natureza
específica da mercadoria, o capital. O que se paga então é o juro e não o preço da mercadoria. Se
chamarmos o juro de preço do capital-dinheiro, teremos forma irracional do preço, em contradição
completa com o conceito de preço da mercadoria. (...)o preço, de acordo com o conceito, é igual ao
valor expresso em dinheiro desse valor-de-uso.” p. 409

“Dinheiro ou mercadoria são em si capital potencial – como a força de trabalho – pelas seguintes
razões: 1)o dinheiro pode transformar-se em elementos de produção e é, como dinheiro, mera
expressão abstrata deles, a existência deles em valor; 2)os elementos materiais da riqueza possuem a


                                                118
propriedade de já ser capital potencial, pois o contrário que os complementa, o que deles faz capital
– o trabalho assalariado – existe no regime de produção capitalista.” p. 410

Capítulo XXII – Repartição do Lucro. Taxa de Juro. Taxa “Natural” de Juro

“Do exposto resulta que não existe taxa “natural” de juro. Mas, ao contrário da taxa geral de lucro, a
taxa média de juro – diferindo das taxas de mercado que estão sempre oscilando – não tem limites
que possam ser fixados por lei geral, por tratar-se apenas da divisão do lucro bruto entre dois donos
do capital, a títulos diferentes; ao revés, a taxa de juro, seja a média, seja a eventual do mercado, se
apresente como grandeza estável, definida e tangível, de maneira totalmente diversa do que sucede
com a taxa geral de lucro. (...)A taxa de juro, na medida em que é determinada pela taxa de lucro, é
sempre determinada pela taxa geral de lucro, e não por taxas específicas predominantes em certos
ramos particulares, e menos ainda por lucro extraordinário que o capitalista isolado obtenha numa
atividade especial.” p. 420s

“A taxa média de juro se patenteia magnitude constante em cada país e em períodos longos, porque
a taxa geral de lucro só varia em períodos longos – as taxas particulares de lucro se alteram
constantemente, mas as variações num ramo são compensadas por variações opostas noutro. E essa
constância relativa da taxa geral de lucro reaparece justamente nesse caráter mais ou menos
constante da taxa média de lucro.” p. 422

Capítulo XXIII – Juro e Lucro de Empresário

“O juro se impõe, não se limitando a surgir eventualmente na produção, quando o industrial que
trabalha com capital alheio reparte o lucro bruto. Mesmo quando trabalha com capital próprio, seu
lucro se reparte em juro e lucro de empresário. Assim, a divisão meramente quantitativa se torna
qualitativa; (...)Inferem-se facilmente as razões porque essa divisão do lucro bruto em juro e lucro
de empresário, ao tornar-se qualitativa, estende à totalidade do capital esse caráter, impondo-o à
classe capitalista toda.” p. 433

“Sob o aspecto qualitativo, o juro é mais-valia, proporcionada pela nua propriedade do capital, pelo
capital em si, embora o proprietário esteja fora do processo de reprodução; é mais-valia que o capital
rende, dissociado de seu processo. Sob o aspecto quantitativo, a parte do lucro constituída pelo juro
não aparece referida ao capital industrial e comercial como tal, mas ao capital-dinheiro, e a taxa
dessa parte da mais-valia, a taxa de juro, confirma essa relação. É que a taxa de juro – embora
dependa da taxa geral de lucro – é determinada de maneira autônoma, e, além disso, se revela –
como o preço de mercado das mercadorias – relação fixa, uniforme e sempre dada, apesar de todas
as oscilações, contrastando com a taxa fluida do lucro. Se o capital todo estivesse nas mãos dos
capitalistas industriais, não existiria juro nem taxa de juro. (...)a parte do lucro bruto destacada do
juro constitui para o capitalista industrial lucro de empresário, e o próprio juro, mais-valia que o
capital por si mesmo rende e que renderá portanto sem aplicação produtiva. Isso está praticamente
certo para o capitalista isolado. (...)É disparate evidente supor a transformação do capital todo em
capital-dinheiro, sem haver pessoas que comprem os meios de produção e acrescentem valor a esses
meios nos quais todo o capital se configura. (...)Está implícito aí o absurdo ainda maior de imaginar
que o capital renderia juro no sistema capitalista de produção, sem operar como capital produtivo,
isto é, sem criar mais-valia da qual o juro é somente uma parte. (...) Se número demasiado de
capitalistas quisesse transformar o respectivo capital em capital-dinheiro, a conseqüência seria
desvalorização enorme do capital-dinheiro e queda imensa da taxa de juro.” p. 434s



                                                  119
“As duas formas, juro e lucro de empresário, só existem em sua antinomia. São da mais-valia partes
designadas por categorias, classificações ou nomes diversos, sem se referirem a ela, mas uma se
referindo à outra: em virtude de uma parte do lucro transformar-se em juro, aparece a outra como
lucro de empresário.” p. 436

“Custa esforço a exploração do trabalho produtivo, execute-a o próprio capitalista ou outros por
delegação dele. Contrapondo-se ao juro, o lucro de empresário assume perante o capitalista ativo
feição independente da propriedade do capital, ou melhor, parece-lhe resultado de sua função de
não-proprietário, de ... trabalhador.
Forma-se então necessariamente em sua cachola a idéia de que o lucro de empresário – longe de
constituir oposição ao trabalho assalariado e de ser apenas trabalho alheio não-pago – é salário
mesmo, salário de direção, de superintendência de trabalho, maior que o do assalariado comum 1)
por tratar-se de trabalho mais complicado e 2)porque ele retribui a si mesmo.” p. 438

“Na realidade, não expressa relação alguma para com o trabalho a forma que ambas as partes do
lucro, o juro e o lucro do empresário, assumem, pois o que existe é a relação entre o trabalho e o
lucro, ou seja, a mais-valia, a soma, o todo, a unidade dessas duas partes.” p. 438

“A idéia de o lucro de empresário ser salário por direção do trabalho, idéia derivada de opor-se ao
juro, mais se robustece porque parte do lucro pode separar-se como salário – o que efetivamente
acontece – ou, antes, parte do salário, no sistema capitalista, pode aparecer integrando o lucro.” p.
441

“O trabalho de supervisão e direção surge necessariamente todas as vezes que o processo imediato
de produção se apresenta em processo socialmente combinado e não no trabalho isolado de
produtores independentes. (...)omitindo-se o setor mercantil, esse trabalho de direção é necessário
em todos os modos de produção baseados sobre a oposição entre o trabalhador – o produtor
imediato – e o proprietário dos meios de produção. Quanto maior essa oposição, tanto mais
importante o papel que esse trabalho de supervisão desempenha. Atinge por isso o máximo na
escravidão. Mas é também indispensável no modo capitalista de produção, pois o processo de
produção é nele ao mesmo tempo processo de consumo da força-de-trabalho pelo capitalista. (...)
Nos escritores da Antiguidade, que tinham diante de si a escravidão, esses dois aspectos do trabalho
de superintendência eram teoricamente inseparáveis conforme ocorria na prática e como os vêem
hoje os economistas modernos que consideram absolutamente válido o modo capitalista de
produção.” p. 441s

“O trabalho de supervisionar e dirigir, na medida em que decorre do caráter antinômico do domínio
do capital sobre o trabalho é comum a todos os modos de produção baseados na oposição entre as
classes. Também no sistema capitalista está direta e inseparavelmente entrosado com as funções
produtivas que todo trabalho social combinado impõe a certos indivíduos, como trabalho
específico.” p. 444

“O salário de direção, tanto para o gerente mercantil quanto para o industrial, aparece totalmente
dissociado do lucro de empresário nas fábricas cooperativas e nas empresas capitalistas por ações. A
separação entre o salário de direção e o lucro de empresário, fortuita nos demais casos, é aí
constante. (...)O Capitalista ativo contrapõe-se ao mero proprietário do capital, o capitalista
financeiro, e com o desenvolvimento do crédito o próprio capital-dinheiro assume caráter social,
concentra-se em bancos que o emprestam, substituindo os proprietários imediatos dele, além disso o
simples dirigente que não possui o capital a título algum, nem por empréstimo nem por qualquer
outro motivo, exerce todas as funções reais que cabem ao capitalista ativo como tal. Nessas

                                                120
condições, fica existindo apenas o funcionário e o capitalista desaparece do processo de produção
como figura supérflua.” p. 446

Capítulo XXIV – A Relação Reificada na Forma do Capital Produtor de Juros

“No capital produtor de juros, a relação capitalista atinge a forma mais reificada, mais fetichista.
Temos nessa forma D-D’, dinheiro que gera mais dinheiro, valor que se valoriza a si mesmo sem o
processo intermediário que liga os dois extremos. No capital mercantil, D-M-D’, temos pelo menos
a forma geral do movimento capitalista, embora se mantenha apenas na esfera da circulação e o
lucro pareça por isso ser mera decorrência da venda; todavia, configura-se em produto de uma
relação social e não em produto de uma simples coisa.” p. 450

“Embora o juro seja apenas parte do lucro, da mais-valia que o capitalista ativo extorque do
trabalhador, o juro se revela agora, ao contrário, o fruto genuíno do capital, o elemento original, e o
lucro, reduzido à forma de lucro de empresário, mero acessório, aditivo que se acrescenta ao
processo de reprodução. Consumam-se então a figura de fetiche e a concepção fetichista do capital.
Em D-D’ temos a forma vazia do capital, a perversão, no mais alto grau, das relações de produção,
reduzidos a coisa: a figura que acende juros, a figura simples do capital, na qual ele se constitui
condição prévia de seu próprio processo de reprodução; capacidade do dinheiro, ou da mercadoria,
de aumentar o próprio valor, sem depender da produção – a mistificação do capital na forma mais
contundente.” p. 452

Capítulo XXV – Crédito e Capital Fictício

“(...)surge, da circulação simples das mercadorias, o dinheiro na função de meio de pagamento,
estabelecendo-se entre produtores e comerciantes de mercadorias relação de credor e devedor. Com
o desenvolvimento do comércio e do modo capitalista de produção que só produz tendo em mira a
circulação, amplia-se, generaliza-se e aperfeiçoa-se esse fundamento natural do sistema de crédito.
Em regra, o dinheiro aí serve apenas de meio de pagamento, isto é, vende-se a mercadoria trocando-
a não por dinheiro, mas por promessa escrita de pagamento em determinado prazo. Esses
adiantamentos recíprocos entre produtores e comerciantes constituem a verdadeira base do crédito
(...).” p. 460s

“O outro aspecto do sistema de crédito liga-se à ampliação do comércio de dinheiro, a qual, na
produção capitalista, segue naturalmente o ritmo de desenvolvimento do comércio de mercadorias.
(...)vimos que se concentram nas mãos dos banqueiros a guarda dos fundos de reserva dos homens
de negócios, as operações técnicas de receber dinheiro e pagar, as de efetuar pagamentos
internacionais e em conseqüência o comércio de barras de ouro ou prata. Ligado a esse comércio de
dinheiro desenvolve-se o outro aspecto do sistema de crédito, a administração do capital produtor de
juros ou do capital-dinheiro, como função particular dos banqueiros. Tomar dinheiro emprestado e
emprestá-lo torna-se negócio especial deles. (...)Além disso, concentram todos os prestatários
perante todos os prestamistas, ao tomarem emprestado para todo o mundo comercial. Um banco
representa, de um lado, a centralização do capital-dinheiro, dos emprestadores, e, do outro, a dos
proprietários. Em geral, seu lucro consiste em tomar emprestado a juro mais baixo que aquele a que
empresta.” P. 463

“O crédito que o banqueiro dá pode ter diversas formas, por exemplo, letras e cheques contra outro
banco ou aberturas de créditos a outro banco, e por fim bilhetes de banco, no caso de bancos
emissores. O bilhete de banco nada mais é que uma letra contra o banqueiro, pagável ao portador a
qualquer momento, e que para o banqueiro faz as vezes de letra de câmbio particular. (...)o

                                                 121
banqueiro comercia com o crédito em todas as outras formas, mesmo quando adianta dinheiro
efetivamente depositado em seu estabelecimento. De fato, o bilhete de banco apenas constitui a
moeda do comércio atacadista, e o principal para os bancos é sempre o depósito.” P. 464s

Capítulo XXVI – Acumulação de Capital-Dinheiro: Sua Influência na Taxa de Juro.
citações – Comissões Parlamentares na Inglaterra.

Capítulo XXVII – Papel do Crédito na Produção Capitalista

“O sistema de Crédito motivou até agora as seguintes observações gerais:
         I-      Necessidade de seu desenvolvimento para produzir-se o nivelamento da taxa de lucro
         ou a tendência a esse nivelamento sobre a qual repousa toda a produção capitalista.
         II-     Decréscimo dos custos de circulação.
1) Um dos custos principais da circulação é o próprio dinheiro enquanto valor de per si. O crédito
poupa-o de três maneiras:
     a) suprimindo-o em grande parte das transações;
     b) acelerando o movimento dos meios de circulação.
(...)c)substituindo o dinheiro-ouro por papel.
2) O crédito acelera as diversas fases da circulação ou da metamorfose das mercadorias e ainda da
metamorfose do capital; em conseqüência acelera o processo de reprodução em geral (além disso, o
crédito possibilita prolongar os intervalos entre dois atos, o de comprar e o de vender, servindo por
isso de base para a especulação). (...)
         III.    Desenvolvimento das sociedades por ações. Daí:
     1) Expansão imersa da escala de produção e das empresas, impossível de ser atingidas por
     capitais isolados.
(...) 2) O capital que, por natureza, assenta sobre modo social de produção e supõe concentração
social de meios de produção e de forças de trabalho, assume então diretamente a forma de capital
social (capital de indivíduos diretamente associados) (...)É a abolição do capital como propriedade
privada dentro dos limites do próprio modo capitalista de produção.
3) Transformação do capitalista realmente ativo em mero dirigente, administrador do capital alheio.
(...)Nas sociedades por ações dissociam-se a função e a propriedade do capital, e em conseqüência o
trabalho aparece por completo separado da propriedade quer dos meios de produção quer do
trabalho excedente. Este resultado do desenvolvimento máximo da produção capitalista é uma fase
transitória que levará o capital necessariamente a reverter à propriedade dos produtores não mais,
porém, como propriedade privada de produtores individuais e sim como propriedade dos produtores
na qualidade de associados, propriedade diretamente social. (...)É a negação do modo capitalista de
produção dentro dele mesmo, por conseguinte uma contradição que se elimina a si mesma, e logo se
evidencia que é fase de transição para nova forma de produção. Esta fase assume assim aspecto
contraditório. Estabelece o monopólio em certos ramos, provocando a intervenção do Estado. (...)um
sistema completo de especulação e embuste no tocante à incorporação de sociedades, lançamento e
comércio de ações. Há produção privada, sem o controle da propriedade privada.
         IV-     Além do sistema de ações (...)o crédito oferece ao capitalista particular, ou ao que
         passa por tal, disposição livre, dentro de certos limites, de capital alheio e de propriedade
         alheia e, em conseqüência, de trabalho alheio.” P. 503ss

“Ao especular, o que arrisca o comerciante em grande escala é a propriedade social e não a sua. A
tese que estabelece a origem do capital na poupança perde também qualquer sentido, pois o
especulador exige justamente que outros poupem para ele.” P. 508



                                                 122
“No sistema de ações existe já oposição à antiga forma em que o meio social de produção se
apresenta como propriedade individual; mas a mudança para a forma de ações ainda não se liberta
das barreiras capitalistas, e em vez de superar a contradição entre o caráter social e o caráter privado
da riqueza, limita-se a desenvolve-la em nova configuração.” P. 509

“As fábricas das cooperativas de trabalhadores, no interior do regime capitalista, são a primeira
ruptura da velha forma, embora naturalmente, em sua organização efetiva, por toda parte
reproduzam e tenham de reproduzir todos os defeitos do sistema capitalista. Mas, dentro delas
suprimiu-se a oposição entre capital e trabalho, embora ainda na forma apenas em que são os
trabalhadores como associação os capitalistas deles mesmos, isto é, aplicam os meios de produção
para explorar o próprio trabalho. (...)Sem o sistema fabril oriundo do modo capitalista de produção,
não poderia desenvolver-se a cooperativa industrial dos trabalhadores, e tampouco o poderia sem o
sistema de crédito derivado desse modo de produção. Esse sistema, que constitui a base principal
para a transformação progressiva das empresas capitalistas privadas em sociedades capitalistas por
ações, também proporciona os meios para a expansão progressiva das empresas cooperativas em
escala mais ou menos nacional. Tanto as empresas capitalistas pôr ações quanto as cooperativas
industriais dos trabalhadores devem ser consideradas formas de transição entre o modo capitalista de
produção e o modo associado, com a diferença que, num caso, a contradição é superada
negativamente e, no outro, de maneira positiva.” P. 509

“O sistema de crédito, pela natureza dúplice que lhe é inerente, de um lado, desenvolve a força
motriz da produção capitalista, o enriquecimento pela exploração do trabalho alheio, levando a um
sistema puro e gigantesco de especulação e jogo, e limita cada vez mais o número dos poucos que
exploram a riqueza social; de outro, constitui a forma de passagem para novo modo de produção.” P.
510

Capítulo XXVIII – Meios de Circulação e Capital. As Idéias de Tooke e Fullarton

“Exerça uma ou outra função, realize renda ou transfira capital, o dinheiro serve para compra e
venda ou para pagamento, de meio de compra ou de meio de pagamento, e, no sentido mais amplo
da palavra, de meio da circulação. (...)É por completo errôneo converter a diferença existente na
circulação entre a circulação de renda e a de capital numa diferença entre circulação e capital. Em
Tooke, essa maneira de falar decorre da circunstância de colocar-se ele simplesmente na posição do
banqueiro que emite os próprios bilhetes de banco.” P. 513s

“A destinação diversa – forma dinheiro da renda ou do capital – em nada altera o caráter do dinheiro
como meio de circulação; o dinheiro conserva-o, desempenhe uma ou a outra função. Sem dúvida, o
dinheiro, quando é a forma dinheiro da renda, funciona mais como meio de circulação propriamente
dito (moeda, meio de compra), em virtude serem dispersas as compras e as vendas, e porque a
maioria dos que despendem renda, os trabalhadores, relativamente pouco podem comprar a crédito;
enquanto no intercâmbio comercial onde o meio de circulação é a forma dinheiro do capital, o
dinheiro serve principalmente de meio de pagamento, tanto por causa da concentração quanto por
causa do sistema reinante no crédito. Mas, a diferença entre o dinheiro que é meio de pagamento e o
dinheiro meio de compra (meio de circulação) é uma distinção inerente ao próprio dinheiro, e não
uma diferença entre dinheiro e capital.” P. 514s

“Ao todo, a circulação de dinheiro nesses períodos de prosperidade está em sua plenitude, embora a
parte II (transferência de capital) se contraia pelo menos relativamente, enquanto a parte I (dispêndio
de renda) se expande em termos absolutos. (...)No período de crise temos o inverso. A circulação I
contrai-se, os preços caem e também os salários; restringe-se o número de trabalhadores ocupados,

                                                  123
reduz-se a quantidade das transações. Na circulação II, ao contrário, com a diminuição do crédito
aumenta a necessidade de empréstimos.” P. 517s

“Não é verdade a oposição estabelecida por Fullarton. O que distingue o período de estagnação do
de prosperidade não é, como ele diz, a forte procura de empréstimos, e sim a satisfação fácil dessa
procura na época de prosperidade, e difícil, quando sobrevem a estagnação. O que suscita a apertura
de crédito no período de estagnação é justamente o enorme desenvolvimento do sistema de crédito
na fase de prosperidade, portanto o acréscimo imenso da procura de capital de empréstimo e a
solicitude com que a oferta se põe a disposição dela nessa fase.” P. 519s

Capítulo XXIX – Componentes do Capital Bancário

“O capital bancário abrange 1) dinheiro de contado – ouro ou bilhetes, e 2) títulos. Estes podem ser
classificados em dois grupos: papéis comerciais, letras que se vencem a prazo diversos, constituindo
o desconto delas o negócio propriamente dito dos banqueiros; e papéis lançado ao público, como
apólices, obrigações do tesouro, ações de toda espécie, enfim, papéis que rendem juros e se
distinguem essencialmente das letras comerciais.” P. 534

“Constituir capital fictício chama-se capitalizar. Capitaliza-se toda receita periódica, considerando-a,
na base da taxa média de juro, rendimento que proporcionaria um capital emprestado a essa taxa.” P.
536

“O movimento autônomo do valor desses títulos de propriedade, sejam títulos da dívida pública ou
ações, reforça a aparência de constituirem capital efetivo ao lado do capital ou do direito que possam
configurar. Convertem-se em mercadorias, com preço que varia e se fixa segundo leis peculiares.
(...)o valor de mercado flutua com o nível e a segurança dos rendimentos a que os títulos dão direito.
(...)o valor de mercado desses títulos é em parte especulativo, pois não é determinado apenas pelo
rendimento efetivo, mas pelo esperado, pelo que previamente se calcula. Admitido que seja
constante a mais-valia produzida pelo capital efetivo ou, não existindo capital como no caso da
dívida pública, que o rendimento anual seja legalmente fixado, e que além disso haja segurança
bastante, o preço desses títulos varia na razão inversa da taxa de juro. Se a taxa de juro sobe de 5
para 10, um papel que assegura um rendimento de 5 libras representará um capital de apenas 50
libras. (...)Seu valor é sempre o rendimento capitalizado, isto é, o rendimento calculado sobre um
capital ilusório de acordo com a taxa de juro vigente. Em tempos de crise no mercado de dinheiro,
esses títulos experimentam dupla baixa: primeiro, porque o juro sobe e, segundo, porque se lançam
em massa no mercado, para serem convertidos em dinheiro. (...) Passada a tempestade, os títulos
retornam ao nível anterior, desde que não representem negócios malogrados ou fraudulentos. A
depreciação deles na crise atua poderosamente no sentido de centralizar a riqueza financeira.” P.
537s

“Quando a baixa ou a alta desses títulos não depende do movimento do valor do capital efetivo que
representam, a riqueza de uma nação é tão grande antes quanto depois da baixa ou da alta. (...)Na
realidade todos esses papéis constituem apenas direitos acumulados, títulos jurídicos sobre produção
futura, e o valor-dinheiro ou o valor-capital ora não representa capital algum, (...).” p. 539

“A maior parte do capital bancário portanto é puramente fictícia e consiste em créditos (letras),
títulos governamentais (que representam capital dispêndio) e ações (que dão direito a rendimento
futuro). (...)Acresce ainda que esse capital fictício do banqueiro em grande parte não é próprio, mas
do público, que o deposita no banco, com ou sem juros.” P. 540


                                                  124
Capítulo XXX – Capital – Dinheiro e Capital Real – I

“Pelo que observamos até agora a respeito da forma peculiar da acumulação do capital-dinheiro e da
riqueza monetária em geral, reduz-se ela a acumulação de direitos de propriedade sobre o trabalho.
A acumulação do capital da dívida pública, nada mais significa, conforme se viu, que aumento de
uma classe de credores do Estado, a qual tem direito a tomar para si certas quantias tiradas do
montante dos tributos.” P. 548

“Na véspera da crise e dentro dela, o capital-mercadoria na condição de capital-dinheiro potencial se
contrai. Representa para o possuidor e para o credor deste (e como garantia de letras e empréstimos)
menos capital-dinheiro que ao tempo em que foi adquirido e em que, por ele garantidos, se
efetuaram descontos e empréstimos. Se tem esse sentido a afirmação de que se reduz o capital-
dinheiro de um país em épocas de crise, significa ela que os preços das mercadorias caíram. Aliás,
esse desmoronamento dos preços apenas compensa a inflação anterior.” P. 564

“Do exposto infere-se que o capital-mercadoria, na crise e nas estagnações dos negócios em geral,
perde em grande parte a capacidade de representar capital-dinheiro potencial. O mesmo se aplica ao
capital fictício, aos papéis que rendem juros, na medida em que circulam na bolsa como capital-
dinheiro. Com o juro ascendente cai o preço deles. O que também provoca essa queda é a escassez
geral de crédito, que força os detentores a lançarem em massa no mercado para obter dinheiro.
Finalmente, quanto as ações, há baixa em virtude da redução dos rendimentos a que dão direito ou
em virtude do caráter fraudulento das empresas que com tanta freqüência representam. Esse capital
fictício reduz-se enormemente nas crises, e em conseqüência o poder dos respectivos proprietários
de obter com ele dinheiro no mercado. A baixa nominal desses valores mobiliares no boletim de
bolsa não tem relação com o capital real que representam, mas tem muito que ver com a solvência
do proprietário desse capital.” P. 566s

Capítulo XXXI – Capital-Dinheiro e Capital Real – II (continuação)

“O desenvolvimento do sistema de crédito e a concentração enorme do negócio de emprestar
dinheiro nas mãos dos grandes bancos necessariamente já aceleram de per si a acumulação do
capital de empréstimo como forma diversa da acumulação real.” P. 577

“Com o desenvolvimento e a organização do sistema de crédito, portanto, o aumento da renda, isto
é, do consumo dos capitalistas industriais e comerciais redunda em acumulação de capital de
empréstimo. E isto se aplica a todas as rendas, desde que se consumam pouco a pouco: renda
fundiária, salário nas formas superiores, receita das classes improdutivas, etc. Todas assumem por
certo tempo a forma de renda em dinheiro, sendo por isso transformáveis em depósitos e por
conseguinte em capital de empréstimo. Desde que exista numa forma monetária qualquer, toda
renda, destine-se a consumo ou a acumulação, é parte do valor capital-mercadoria convertida em
dinheiro e, por isso, expressão e resultado da acumulação real, embora não seja o próprio capital
produtivo.” P. 579

Capítulo XXXII – Capital – Dinheiro e Capital Real – III – (conclusão)

“(...)a divisão do trabalho originária da produção capitalista faz que o encargo da poupança efetiva e
da abstinência (praticadas pelos entesouradores), que proporcionam elementos à acumulação, fique
para aqueles que percebem o mínimo desses elementos e freqüentes vezes perdem suas economias,
como os trabalhadores, quando quebram os bancos. O capital do capitalista industrial não resulta de
“economias” feitas por ele mesmo, mas ele dispõe de economias alheias na proporção da magnitude

                                                 125
do capital próprio; já o capitalista financeiro transforma em fonte privada de enriquecimento o
crédito que os capitalistas reprodutivos se concedem entre si e que lhes dá o público. Assim
pulveriza-se a última ilusão do sistema capitalista, a de ser o capital o fruto do trabalho e da
poupança pessoais. O lucro consiste no ato de apropriar-se de trabalho alheio, e o capital com que se
mobiliza e se explora esse trabalho alheio consiste em propriedade alheia, que o capitalista
financeiro põe à disposição do capitalista industrial a fim de explorá-lo por sua vez.” P. 583s

“No crédito comercial, o juro, a diferença entre o preço a crédito e o preço à vista, só entra no preço
da mercadoria, quando as letras tem prazo superior ao costumeiro. Se não tem, isso não acontece. E
a explicação está em que cada um tome esse critério com uma mão e o dá com a outra.
(...)Entretanto, quando o desconto surge aí nessa forma, regula-o não o crédito comercial e sim o
mercado financeiro.” P. 594

Capítulo XXXIII – O Meio de Circulação de Crédito

“Na medida em que emite bilhetes, sem cobertura do encaixe metálico guardados nos subterrâneos,
o Banco cria símbolos de valor, que para ele constituem meio de circulação e, além disso, capital
adicional, embora fictício, no valor nominal desses bilhetes sem cobertura. E esse capital adicional
lhe rende lucro adicional.” P. 622

Capítulo XXXIV – O “Currency Principle” (nota do Trad. – Teoria sobre o meio circulante) e a
legislação Bancária Inglesa de 1844.

Capítulo XXXV – Metais Preciosos e Taxa de Câmbio

“(...)a mera quantidade do metal precioso importado ou exportado não atua por si mesma, mas por
ter o metal precioso o caráter específico de capital na forma dinheiro e, além disso, agindo como a
pena que, posta num dos pratos oscilantes da balança, inclina-a a seu favor, o que se explica em
circunstâncias em que qualquer excesso numa ou noutra direção é decisivo. Sem esses motivos seria
totalmente incompreensível que uma evasão de ouro de 5 a 8 milhões de libras esterlinas, e esse é o
máximo até hoje verificado pela experiência, pudesse ter algum efeito importante; essa ínfima
quantidade de capital, acrescentada ou subtraída, que se patenteia insignificante mesmo em fase dos
70 milhões de libras esterlinas em ouro que em média circulam na Inglaterra.” P. 655s

“Nos efeitos da evasão de ouro ressalta portanto contundente a circunstância de a produção como
produção social não se submeter efetivamente ao controle da sociedade: a forma social da riqueza
existe como coisa separada da riqueza. Esse aspecto do sistema capitalista é comum aos sistemas
anteriores de produção na medida em que se baseiam no comércio de mercadorias e na troca entre
particulares. Mas, só nele toma a forma mais determinante e mais grotesca da contradição absurda e
do contra-senso, pois 1) no sistema capitalista aboliu-se por completo a produção que gera valores-
de-uso diretos, destinados ao consumo imediato dos produtores, existindo a riqueza como processo
social expresso no entrosamento entre produção e circulação; 2) com o desenvolvimento do sistema
de crédito, a produção capitalista sem cessar empenha-se em suprimir essa barreira metálica, esse
limite, sincronicamente material e fantástico, à riqueza e ao movimento dela, mas acaba sempre
quebrando a cabeça contra esse obstáculo.
Na crise pretende-se que todas as letras, todos os títulos e mercadorias sejam conversíveis em
dinheiro bancário, e todo esse dinheiro bancário, por sua vez, em ouro.” P. 658s

Capítulo XXXVI – Aspectos Pré-Capitalistas


                                                 126
“O capital produtor de juros, ou, como podemos chamá-lo em sua forma antiga, o capital usurário,
pertence, como o irmão gêmeo, o capital mercantil, às formas antediluvianas de capital que por
longo tempo precedem o modo capitalista de produção e se encontram nas mais diversas formações
econômicas da sociedade.” P. 680

“Em todas as estruturas sociais em que a escravatura serve de meio de enriquecimento (não a
patriarcal, mas como a do outono das eras helênica e romana), o dinheiro, sendo então meio de
apropriar-se de trabalho alheio, com a compra de escravos, terras, etc. , pode, justamente por ter essa
possibilidade de emprego, ser investido como capital, para render juros.
Todavia, são duas as formas características em que o capital usurário existe nas épocas que
precedem o modo capitalista de produção. Formas características, repito. Essas formas reaparecem
no sistema de produção capitalista, mas como formas puramente secundárias. Deixam de ser então
as formas que determinam o caráter do capital que rende juros. Essas duas formas são: primeiro, a
usura, em empréstimos aos fidalgos pródigos, sobretudo os proprietários de terras; segundo, usura
em empréstimos de dinheiro aos pequenos produtores, proprietários dos meios de trabalho. Além
dos artesãos, essa categoria compreende particularmente o camponês, pois nas condições pré-
capitalistas, na medida em que admitem a existência de pequenos produtores autônomos, a maioria
deles é constituída necessariamente pela classe camponesa.
A usura, que arruina os ricos proprietários das terras e esgota os pequenos produtores, faz que se
formem e se concentrem grandes capitais em dinheiro. Depende por inteiro do desenvolvimento
histórico e das circunstâncias dele decorrentes, a extensão em que esse processo extingue o antigo
modo de produção, como aconteceu na Europa Moderna, e a possibilidade que ele tem de substituir
o modo de produção antigo pelo capitalista.” P. 681s

“O capital usurário como forma característica do capital produtor de juros corresponde ao
predomínio da pequena produção dos camponeses que trabalham para si mesmos e dos pequenos
mestres artesãos. (...)a usura que suga os pequenos produtores pobres anda de mãos dadas com a
usura que suga os latifundiários. Quando a usura dos patrícios romanos arruinou os plebeus, os
pequenos agricultores, findou essa forma de exploração, surgindo no lugar da economia desses
pequenos produtores a economia escravista pura.” P. 682

“Sob a forma de juro pode aí o usurário devorar dos produtores tudo o que excede os mais estritos
meios de subsistência (o que mais tarde constituirão o salário, reaparecendo o excedente como lucro
e renda fundiária), e por isso é puro disparate comparar a magnitude desse juro que abrange a mais-
valia toda, excetuado o que vai para o Estado, com a magnitude da taxa de juro moderna, em que o
juro, pelo menos o normal, só representa parte dessa mais-valia. (...)o assalariado produz e cede ao
capitalista que o emprega, lucro, juro e renda fundiária.” P. 682s

“A usura, na Antigüidade e na Feudal, solapa e destrói a riqueza e a propriedade. Além disso, corrói
e arruina a pequena produção camponesa e pequena-burguesa, em suma, todas as formas em que o
produtor aparece como proprietário dos meios de produção. Na produção capitalista evoluída, o
trabalhador não é proprietário das condições de trabalho, do campo que cultiva, da matéria-prima
com que trabalha, etc. A circunstância de o trabalhador alienar-se dos meios de produção
corresponde aí a uma transformação real no próprio modo de produção. Os trabalhadores
desvinculados são reunidos em grandes oficinas onde as atividades se repartem e se entrosam; a
ferramenta se converte em máquina. O modo de produção não permite mais aquela dispersão dos
instrumentos de produção, ligada à pequena propriedade, nem o isolamento entre os trabalhadores.
Na produção capitalista, a usura não pode mais dissociar do produtor as condições de produção,
porque essa dissociação já existe.” P. 689s


                                                 127
“A usura atua revolucionária em todos os modos pré-capitalistas de produção somente quando
destrói e dissolve as formas de propriedade que, pela solidez e pela constante produção uniforme,
servem de base à organização política. Em formas asiáticas, a usura pode perdurar ao longo do
tempo, sem nada causar além da decadência econômica e da corrupção política. Só onde e quando
existem as demais condições do modo capitalista de produção, a usura se revela um dos meios de
constituir o novo modo de produção, arruinando o senhor feudal e os pequenos produtores, e
centralizando as condições de trabalho convertidas em capital.” P. 684

“A usura, em relação à riqueza subordinada ao consumo, é historicamente importante, por ser ela
mesma um processo de aparecimento do capital. O capital usurário e a fortuna mercantil propiciam a
formação de uma riqueza monetária, independente da propriedade da terra. (...)O que a riqueza
pródiga e corruptora quer é dinheiro como dinheiro, como meio de comprar tudo (e para pagar as
dívidas). O pequeno produtor precisa de dinheiro sobretudo para pagar (desempenha aí importante
papel a circunstância de os pagamentos em produtos ou serviços aos senhores da terra e ao Estado se
transformarem em renda e tributos em dinheiro). Em ambos os casos, o dinheiro serve de dinheiro.”
P. 686

“Basta que morra uma vaca para o pequeno camponês ficar incapacitado de recomeçar a produção
na escala antiga. Cai sob o guante da usura, e a partir daí nunca mais se libertará dela.
Mas, o terreno adequado, amplo e peculiar da usura é a função que tem o dinheiro de meio de
pagamento. Toda prestação de dinheiro que vence em determinado prazo – foro, tributo, imposto,
etc. – acarreta a necessidade de um pagamento em dinheiro. Por isso, desde Roma antiga à Idade
Moderna, a usura em grande escala se tem ligado aos coletores e cobradores de tributos (...).
O crédito se desenvolve como reação contra a usura. Mas, é mister evitar aí uma interpretação
errada, sobretudo a dada pelos antigos, pelos patriarcas da Igreja, por Lutero e pelos primeiros
socialistas. Essa reação significa nem mais nem menos que a subordinação do capital que rende
juros as condições e necessidades do modo capitalista de produção.” P. 687s

“O que distingue o capital produtor de juros, (...)do capital usurário (...), é o fato de serem outras as
condições em que opera e, por conseguinte, de mudar por inteiro a figura do prestatário que se
confronta com o emprestador do dinheiro. (...)Um homem sem fortuna, mas com energia, firmeza,
capacidade e conhecimento do negócio pode assim transformar-se em capitalista (o crédito lhe é
dado como capitalista potencial – aliás no modo capitalista de produção avalia-se de maneira mais
ou menos exata o valor comercial de cada um), e essa circunstância (...)robustece o domínio do
capital, amplia-lhe a base e permite-lhe recrutar sempre novas forças das camadas inferiores da
sociedade. O mesmo ocorria na Idade Média: a Igreja Católica formava sua hierarquia com as
melhores cabeças do povo, pondo de lado, posição, nascimento e fortuna, o que era um dos
principais meios de fortalecer o domínio do clero e de subjugar os leigos. Quanto mais uma classe
dominante é capaz de acolher em seus quadros os homens mais valiosos das classes dominadas,
tanto mais sólido e perigoso é seu domínio.” P. 688s

“As associações de crédito, que se formaram em Veneza e Gênova nos séculos XII e XIV,
provieram da necessidade que tinham o comércio marítimo e o comércio em grosso nele baseado de
se libertar do domínio da usura anacrônica e dos monopolizadores do comércio do dinheiro. Se os
bancos propriamente ditos, fundados nessas cidades-repúblicas, constituem ao mesmo tempo
instituições de crédito público dos quais o Estado recebia adiantamentos por conta de impostos a
arrecadar, não se deve esquecer que os comerciantes que formavam aquelas associações eram as
pessoas mais importantes dessas repúblicas, tendo interesse de libertar da usura tanto o governo
quanto a si mesmos, e ao mesmo tempo de reforçar, por esse meio, mais seguro domínio sobre o
Estado.” P. 690

                                                  128
“Vimos que o lucro médio do capitalista individual, ou de todo capital particular, é determinado não
pelo trabalho excedente de que esse capital se apropria em primeira mão, mas pela quantidade
global de trabalho excedente de que se apropria o capital total, e da qual cada capital particular
extrai seus dividendos (...)só o desenvolvimento completo do sistema de crédito e do sistema
bancário promove e efetiva por inteiro esse caráter social do capital. (...)Finalmente, não há dúvida
de que o sistema de crédito servirá de poderosa alavanca diante a transição do modo capitalista de
produção para o modo de produção do trabalho associado. (...)Por outro lado, as quimeras a cerca do
poder miraculoso que teriam o crédito e os bancos de marchar no sentido do socialismo supõem que
se desconheçam por completo o modo capitalista de produção e a circunstância de o sistema de
crédito ser uma de suas formas. (...)Enquanto perdurar o modo capitalista de produção, haverá como
uma de suas formas o capital produtor de juros, que constitui de fato a base de seu sistema de
crédito.” P. 695s

“A usura e o comércio exploram dado meio de produção; não o criam; atuam como fatores que estão
fora dele. A usura procura diretamente mantê-lo, a fim de poder renovar sempre a exploração; é
conservadora, apenas o torna mais miserável. Quanto menos os elementos de produção, como
mercadorias, entram no processo de produção e dele saem, tanto mais sua existência parece derivar
do dinheiro, (...)Esse capital se desenvolve tanto mais num país, quanto mais a massa da produção se
restringe a pagamentos em produtos, isto é, ao valor-de-uso. A usura contribui poderosamente para
criar as condições prévias do capital industrial, quando efetua duas coisas: constitui riqueza
pecuniária autônoma, ao lado do setor comercial, e se apropria dos meios de trabalho, isto é, arruína
os que eram proprietários desses meios.” P. 699

                              O CAPITAL – LIVRO 3 – Volume VI

Parte Sexta – CONVERSÃO DO LUCRO SUPLEMENTAR EM RENDA FUNDIÁRIA

Capítulo XXXVII – Introdução

“A análise da propriedade fundiária em suas diversas formas históricas ultrapassa os limites desta
obra. Só trataremos dela enquanto parte da mais-valia produzida pelo capital cabe ao proprietário da
terra. Supomos assim que o modo capitalista de produção domina, além da atividade fabril, a
agricultura, isto é, que esta é explorada por capitalistas que de saída só se distinguem dos demais
capitalistas pelo setor em que aplicam o capital e o trabalho assalariado mobilizado por esse capital.
(...)o modo capitalista de produção desapropria o trabalhador das condições de produção, e do
mesmo modo na agricultura subtrai a propriedade ao trabalhador agrícola e subordina-o a um
capitalista que explora a agricultura para conseguir lucro.” P. 705s

“Para nós é mister estudar a moderna forma da propriedade fundiária, por ser nosso propósito
sobretudo examinar as relações específicas de produção e de circulação, oriundas da aplicação do
capital na agricultura. (...)Assim, limitamo-nos apenas ao emprego de capital na agricultura
propriamente dita, isto é, na lavoura do produto vegetal básico de que vive uma população. Podemos
dizer trigo, pois este é o alimento principal dos povos modernos, desenvolvidos no sistema
capitalista. (Em vez de trigo poderíamos ter escolhido mineração, submetida as mesmas leis).
(...)Para ser precisos, observamos que nesse conceito de terra abrange também águas, etc. , que,
como acessórios dela, tenham proprietário.” P. 706s

“(...)a forma de propriedade fundiária que o sistema capitalista no início encontra não lhe
corresponde. Só ele mesmo cria essa forma (...)o modo capitalista de produção gera, entre outros, os

                                                 129
seguintes resultados importantes: transforma a agricultura, que deixa os processos da fração menos
evoluída da sociedade, puramente empíricos e prisioneiros da tradição e passa a aplicar, de maneira
consciente e científica, a agronomia, desde que essa transformação seja possível nas condições da
propriedade privada; dissocia por completo a propriedade fundiária das relações senhoriais e de
sujeição, e ainda separa de todo a terra, como condição de trabalho, da propriedade fundiária e do
proprietário, para quem a terra nada mais representa que um tributo em dinheiro que o monopólio
lhe permite arrecadar do capitalista industrial, o arrendatário.” P. 708s

“A condição prévia do modo capitalista de produção, portanto, é esta: os agricultores efetivos são
trabalhadores agrícolas, empregados por um capitalista, o arrendatário. (...)Esse capitalista
arrendatário paga ao proprietário das letras (...)em prazos fixados (...)quantia contratual estipulada
(como o prestatário de capital-dinheiro paga determinado lucro) (...) chama-se essa quantia de renda
fundiária, e tanto faz que seja paga por terra lavradia, ou por terreno de construção, mina, pesca,
florestas, etc. (...)Assim, a renda fundiária é a forma em que se realiza economicamente, se valoriza
a propriedade fundiária. Demais, temos aí reunidas e em confronto as três classes que constituem o
quadro da sociedade moderna – o trabalhador assalariado, o capitalista industrial e o proprietário da
terra.” P. 710

“Está na natureza da produção capitalista o decréscimo contínuo da população agrícola em relação à
não-agrícola, pois na indústria (no sentido estrito) o acréscimo do capital constante em relação ao
variável está ligado ao acréscimo absoluto, embora decréscimo relativo, do capital variável,
enquanto na agricultura o capital variável exigido para a exploração de determinado pedaço de terra
decresce em termos absolutos, só podendo portanto aumentar, se novas terras forem cultivadas, o
que porém supõe crescimento ainda maior da população não-agrícola.” P. 730s

“Não constitui característica peculiar da renda fundiária a circunstância de os produtos agrícolas se
tornarem valores e se desenvolverem como tais, e a de os produtos não-agrícolas os confrontarem
como mercadorias, ou a de eles se desenvolverem como expressões particulares do trabalho social.
A característica peculiar consiste em que, com as condições em que os produtos agrícolas se
desenvolvem como valores (mercadorias) e com as condições em que se realizam esses valores,
desenvolve-se o poder do proprietário fundiário de apropriar-se de porção crescente desses valores
criados sem interferência dele, e porção crescente da mais-valia se transforma em renda fundiária .”
p. 733

Capítulo XXXVIII – Renda Diferencial. Generalidades
(exemplo da queda – d’água no processo produtivo, produzindo lucro transformando-se em renda
Fundiária)

Capítulo XXXIX – Primeira Forma de Renda Diferencial (Renda Diferencial I)

“Observaremos de início os resultados desiguais de iguais quantidades de capital, aplicadas em
terras diferentes mas com áreas iguais; ou, se as áreas forem desiguais, os resultados em relação a
superfícies iguais.
Há duas causas gerais, independentes do capital, desses resultados desiguais:
1)a fertilidade (...) 2)a localização das terras. Este ponto é decisivo para as colônias e, de modo
geral, para a seqüência em que as terras podem ser exploradas. Demais, é evidente que essas duas
causas da renda diferencial, fertilidade e localização, podem atuar em sentidos opostos. Um terreno
pode estar bem situado e ser pouco fértil, e vice-e-versa. Essa circunstância é importante,
esclarecendo porque, ao se desbravarem as terras de um país, tanto se pode ir de solos melhores para
os piores, quanto inversamente. Por fim, é claro que o progresso da produção social atua no sentido

                                                 130
de anular a localização como causa da renda diferencial, criando mercados locais ou facilitando a
localização com meios de comunicação e de transportes; mas, por outro lado, acentua as diferenças
na localização das terras, ao separar a agricultura da manufatura, ao formar grandes centros de
produção, ao mesmo tempo abandonando relativamente o campo.” P. 746

“(...)supondo-se para dois terrenos igual teor químico e sob esse aspecto a mesma fertilidade natural,
a fertilidade real, efetiva, dependerá de os elementos nutritivos serem mais ou menos assimiláveis,
diretamente utilizáveis pela alimentação das plantas. Para terras com a mesma fertilidade natural, a
proporção em que se pode obter acesso a essa fertilidade igual é função do desenvolvimento
químico e mecânico. Assim, a fertilidade, embora propriedade objetiva do solo, sempre implica
relação econômica (...)” p. 746

“É errôneo supor que, por terem colônias e países jovens em geral a possibilidade de exportar trigo a
preço mais baratos, suas terras possuam necessariamente fertilidade natural maior. Os cereais aí são
vendidos abaixo do valor, abaixo do preço de produção, isto é, abaixo do preço de produção
determinado nos velhos países pela taxa média de lucro. (...)tal abundância é devida antes de mais
nada a condições econômicas. A população toda de um país desse tipo, (...)de início só se dedica
quase à agricultura, sobretudo a que fornece produtos em massa, os únicos que podem trocar por
artigos manufaturados e por produtos tropicais. (...)É o que de antemão distingue os estados
coloniais baseados no mercado mundial moderno, dos que existiram antes, especialmente os da
Antigüidade.” P. 768

Capítulo XI – Segunda Forma da Renda Diferencial (Renda Diferencial II)

“É sempre a terra que apresenta fertilidade diversa para aplicação igual de capital, só que agora cabe
ao mesmo terreno onde se investe um capital em distintas porções sucessivas o mesmo papel que, na
renda diferencial I, desempenham diferentes tipos de solo onde se empregam distintas frações iguais
do capital social.” P. 776

“(...)ao desenvolver-se a cultura intensiva, ao se efetuarem aplicações sucessivas de capital no
mesmo solo, serão elas de preferência ou em maior grau feitas nos melhores solos (não estamos
falando dos melhoramentos permanentes que transformam terras até então inúteis em terras
cultiváveis). (...)Escolhe-se o melhor solo por oferecer as maiores probabilidades para a
rentabilidade do capital aplicado, pois contém o maior número dos elementos naturais da fertilidade,
e trata-se apenas de aproveitá-los.” P. 779
Obs: cultura intensiva – “capital concentrado sobre a mesma área de terra, ao invés de espalhar-se
por áreas seguidas.” P. 773




Capítulo XLI – Renda Diferencial II – Primeiro Caso: Constante o Preço de Produção

“Quanto mais se desenvolve o modo capitalista de produção, tanto mais acresce a concentração de
capital na mesma área, tanto mais se eleva portanto a renda calculada por acre. Assim, em dois
países em que fossem idênticos os preços de produção e as diferenças entre os tipos de solos, e igual
a massa de capital aplicado, num porém mais na forma de aplicações sucessivas em área limitada,
no outro mais na forma de aplicações paralelas em superfície mais vasta, a renda por acre e portanto
o preço da terra seriam maiores no primeiro que no segundo, ainda que fosse igual nos dois países a
massa da renda. A diferença na magnitude da renda não se explicará aí pela divergência na

                                                 131
fertilidade natural dos tipos de solo, segundo a quantidade do trabalho aplicado, mas unicamente
pela maneira diversa de empregar o capital.” P. 792s

Capítulo XLII – Renda Diferencial II – Segundo Caso: Decrescente o Preço de Produção

Capítulo XLIII – Renda Diferencial II – Terceiro Caso – Crescente o Preço de Produção .
Resultados

“A renda diferencial é apenas conversão formal de lucro suplementar em renda, e a propriedade
fundiária capacita unicamente o proprietário a transferir para si o lucro suplementar do arrendatário.
Todavia, vê-se que o emprego sucessivo de capital na mesma área de terra, ou, o que é o mesmo, o
acréscimo do capital empregado na mesma área, com taxa decrescente de produtividade do capital e
preço regulador constante, chega muito mais rápido ao limite, na realidade mais ou menos artificial,
em virtude da conversão puramente formal de lucro suplementar em renda fundiária, decorrência da
propriedade fundiária. A alta do preço geral de produção, necessária então em limites mais estreitos
que os comuns, causa aí o aumento da renda diferencial; além disso, a existência da renda
diferencial como renda fundiária gera, ao mesmo tempo, a elevação antecipada e mais rápida do
preço geral de produção, a fim de ficar assegurada a oferta acrescida do produto, que se tornou
necessária.” P. 848

Capítulo XLIV – Renda Diferencial Também no Pior Solo Cultivado

“Do ponto de vista da produção capitalista, os produtos se encarecem sempre, quando, para produzir
a mesma quantidade, se tem de desembolsar, para algo que não se pagava antes. Quando se fala em
reposição do capital consumido na produção, deve-se entender apenas a reposição de valores que se
configuravam em determinados meios de produção. Elementos da natureza que atuam de graça na
produção, qualquer que seja a função que nela desempenhem, não operam como componentes de
capital, mas como força natural gratuita do capital, isto é, como produtividade natural gratuita do
trabalho que, no sistema capitalista, como toda força produtiva assume o aspecto de produtividade
do capital. Força natural dessa espécie, de origem gratuita, se entra na produção, não é levada em
conta ao determinar-se o preço, desde que baste à procura do trabalho que ajuda a produzir. Mas, se
no curso do desenvolvimento for necessário produto maior que o possível de obter-se com a
cooperação dessa força natural, se portanto esse produto suplementar tiver de ser gerado não com
ajuda dessa força natural, mas com a da ação humana, a do trabalho, incorporar-se-á ao capital novo
elemento complementar. Haverá portanto emprego de capital relativamente maior para obter-se o
mesmo produto, e, não se alterando as demais circunstâncias, a produção encarecerá.” P. 857

“O mesmo trabalho gera o mesmo valor para o produto criado num dado lapso de tempo; mas, a
grandeza ou a quantidade desse produto, e portanto a fração de valor configurada em parte alíquota
desse produto, depende, para dada quantidade de trabalho, unicamente do volume da produção, e,
este, por sua vez, da produtividade de dada quantidade de trabalho e não da magnitude dessa
quantidade. Tanto faz que essa produtividade derive da natureza ou da sociedade. A produtividade
só acresce o custo de produção com novo componente quando custa trabalho, capital portanto, o que
não se dá quando se trata apenas de natureza.” P. 859

Capítulo XLV – A Renda Fundiária Absoluta

“Se o que o arrendatário paga pelo arrendamento constitui desconto do salário normal dos
trabalhadores, ou do próprio lucro médio, não estará ele pagando renda que é fração independente
do preço das mercadorias, diversa do salário e do lucro.” P. 868

                                                 132
“O que caracteriza a colônia – só estamos falando das colônias agrícolas propriamente ditas – não é
apenas a quantidade das terras férteis existentes em estado natural. É antes a circunstância de não
constituírem elas propriedade, de não estarem submetidas ao regime de propriedade fundiária. E, no
tocante à terra, a grande diferença entre os velhos países e as colônias é esta: não existir nelas, de
fato ou de direito, a propriedade fundiária. (...)Aí, na realidade, a propriedade fundiária não limita o
emprego de capital ou até de trabalho sem capital; a circunstância de os colonos já instalados se
terem apoderado de parte das terras não exclui os que chegam depois da possibilidade de
empregarem o capital ou o trabalho em novas terras. (...)Para o proprietário da terra, a mera
propriedade jurídica não gera renda. Confere-lhe entretanto o poder de impedir a exploração de sua
terra até que as condições econômicas propiciem valorização donde retirem o excedente, seja a terra
aplicada propriamente na agricultura, seja em outros ramos de produção, como construção, etc.
(...)Se a procura exige o desbravamento de novas terras, digamos de terras menos férteis que as até
então cultivadas, arrendá-las-á de graça o proprietário, porque o preço de mercado do produto
agrícola elevou-se o suficiente para que o capital nelas empregado pague o preço de produção e por
conseguinte proporcione o lucro normal? De maneira nenhuma. É mister que o capital empregado
lhe dê renda. Só as arrendará quando um arrendamento lhe possa ser pago.” P. 869s

“A relação entre o preço de produção e o valor de uma mercadoria é determinada exclusivamente
pela relação entre a parte variável e a constante do capital com que é produzida, ou seja, pela
composição orgânica desse capital. Se num ramo de produção a composição de capital é inferior à
do capital social médio, isto é, se a parte variável, empregada em salários, comparada com a
constante, empregada nas condições materiais do trabalho, constitui proporção maior que a
encontrada no capital social médio, então o valor do produto desse ramo estará necessariamente
acima do preço de produção. Vale dizer, por empregar mais trabalho vivo, esse capital, para igual
exploração do trabalho, produz quantidade maior da mais-valia, portanto mais lucro que parte
alíquota da mesma grandeza do capital social médio. (...)A composição do capital na agricultura
propriamente dita, se é inferior à do capital social médio, expressa imediatamente nos países
industrializados que a agricultura não progrediu no mesmo ritmo da indústria de transformação.
(...)Para nosso propósito não é mister entrar em pormenores de uma questão que só a estatística pode
decidir, a saber, se em determinado país de produção capitalista, (...)a composição do capital
agrícola é inferior à do capital social médio. Seja como for, o certo teoricamente é que, só nessa
hipótese, o valor dos produtos agrícolas pode ultrapassar o preço de produção deles; em outras
palavras, tomando-se por medida capital de composição social média, de igual magnitude, é maior a
mais-valia que um capital produz na agricultura, o trabalho excedente (e por conseguinte o trabalho
vivo em geral) que mobiliza e comanda.
Só admitida esta condição pode existir a forma de renda fundiária que estamos considerando e por
isso basta, para analisá-la, estabelecer essa suposição.” P. 872s

“Vejamos em que consiste a essência da renda absoluta. Para igual taxa de mais-valia ou para
exploração igual do trabalho, capitais de igual magnitude produzem em diversos ramos, de acordo
com as diferenças na composição média, quantidades diferentes de mais-valia. Na indústria, essas
quantidades diversas de mais-valia se igualam no nível do lucro médio e se repartem uniformemente
pelos capitais industriais como se fossem partes alíquotas do capital social. A propriedade fundiária
impede que assim se nivelem os capitais empregados na terra e se apodera de parte da mais-valia
que de outro modo entraria nesse nivelamento que dá a taxa geral de lucro; é o que se dá quando a
produção precisa de terra, seja para a agricultura, seja para a indústria extrativa. A renda representa
então parte do valor, mais particularmente da mais-valia das mercadorias, a qual em vez de caber à
classe capitalista que a tirou dos trabalhadores, pertence aos proprietários que as extraíram dos
capitalistas. Aqui estamos supondo que o capital agrícola mobiliza mais trabalho que o capital não-

                                                  133
agrícola, desde que sejam iguais as respectivas magnitudes. O grau ou a existência mesmo dessa
discrepância depende do desenvolvimento relativo da agricultura em confronto com a indústria. Pela
natureza das coisas, essa discrepância decresce necessariamente com o progresso da agricultura, a
não ser que a proporção em que a parte variável diminui, comparada com a constante, seja ainda
maior para o capital industrial que para o agrícola.
Essa renda absoluta desempenha papel ainda mais importante na indústria extrativa propriamente
dita, onde falta por completo um dos elementos do capital constante, a matéria-prima, e onde
necessariamente reina a mais baixa composição do capital, excetuados os ramos em que é avultada a
parte consistente em máquinas e noutros elementos do capital fixo. Justamente aí, onde a renda
parece decorrer apenas de preço de monopólio, são necessárias condições de mercado extremamente
favoráveis para as mercadorias se venderem pelo valor ou para a renda ser igual ao que sobra da
mais-valia da mercadoria depois de deduzido o preço de produção. É o que se observa com a renda
das zonas de pesca, das pedreiras, das florestas naturais, etc.” p. 886

Capítulo XLVI – Renda dos Terrenos para Construção. Renda das Minas. Preço do Solo

“Em toda parte onde há renda (rent), a renda diferencial aparece e segue as mesmas leis da renda
diferencial agrícola. Onde quer que os recursos naturais possam ser objeto de monopólio e assegurar
ao industrial que os explora um lucro suplementar – trate-se de quedas d’água, minas de ricos veios,
águas piscosas ou terrenos para construir bem situados – apodera-se desse lucro suplementar, na
forma de renda, subtraindo-o do capital ativo, aquele que detém o privilégio de dono desses recursos
em virtude de título de propriedade sobre uma parcela do globo terrestre. No tocante aos terrenos
para construção, A.Smith já mostrou que a respectiva renda, como a de todos os terrenos não-
agrícolas, se baseia na renda agrícola propriamente dita (...). Caracteríza-se , 1)pela influência
decisiva da localização sobre a renda diferencial (muito importante por exemplo para a vinhataria e
para os terrenos de construção nas grandes cidades); 2)por evidenciar a passividade total do
proprietário, que se limita (especialmente na mineração) a explorar o progresso do desenvolvimento
social para o qual em nada contribui e no qual nada arrisca, ao contrário do que faz o capitalista
industrial; 3)pelo predomínio do preço de monopólio em muitos casos, sobretudo na exploração
mais imprudente da miséria (para os proprietários de imóveis, a miséria é mais rentável do que
jamais o foram, para a Espanha, as minas de Potosi). (...)Concorrem para elevar necessariamente a
renda fundiária relativa a construções o aumento da população, a necessidade crescente de
habitações daí resultantes e o desenvolvimento do capital fixo, que se incorpora à terra ou nela lança
raízes ou sobre ela repousa, como todos os edifícios industriais, ferrovias, armazéns,
estabelecimentos fabris, docas, etc. Aí não é possível reduzir o aluguel, que representa juro e
amortização do capital empregado na construção, à renda correspondente apenas ao terreno (...).
Cabe aí considerar dois aspectos: a exploração da terra com o fim de reprodução ou de extração, e o
espaço, elemento necessário a toda produção e a toda atividade humana. E a propriedade fundiária
cobra seu tributo nos dois domínios. A procura de terreno para construir aumenta o valor do solo na
função de espaço e de base, e ao mesmo tempo faz acrescer a procura de elementos da terra que
servem de material de construção.” P. 887s

“São duas coisas a distinguir: 1)ou a renda deriva de preço de monopólio por haver dela
independente preço de monopólio dos produtos ou do próprio solo, ou 2)os produtos se vendem a
preço de monopólio por existir renda. Entendemos por preço de monopólio o determinado apenas
pelo desejo e pela capacidade de pagamento dos compradores, sem depender do preço geral de
produção ou do valor dos produtos. (...)Apenas os direitos de propriedade sobre o globo terrestre,
detidos por certo número de pessoas, capacitam-nas a se apropriarem, tributando, de parte do
trabalho social excedente, a qual se torna cada vez maior com o desenvolvimento da produção. Essa
realidade é dissimulada pela circunstância de a renda capitalista, isto é, esse tributo capitalizado,

                                                 134
aparecer na forma de preço da terra e esta poder ser vendida como qualquer outro artigo de
comércio.” P. 890



Capítulo XLVII – Gênese da Renda Fundiária Capitalista

   1. Observações Preliminares.

“Para os antigos economistas que fazem os primeiros estudos do modo capitalista de produção,
nascente em sua época (...)consideram a renda fundiária a forma normal da mais-valia, e confundem
com o salário o lucro para eles ainda indefinido ou, no máximo, parecendo-lhes ser, dessa mais-
valia, a parte que o capitalista extorque do proprietário da terra. Partem de uma era social em que a
população agrícola representa a grande maioria da nação e o proprietário da terra é o protagonista
que, em virtude do monopólio da propriedade fundiária, em primeira mão se apropria do trabalho
excedente dos produtores imediatos, constituindo a propriedade fundiária a condição principal da
produção. (...)Já os fisiocratas encontram dificuldade de outra natureza. Sendo na realidade os
primeiros intérpretes sistemáticos do capital, procuram analisar a natureza em si da mais-valia. Essa
análise coincide com a da renda, a única forma da mais-valia para eles existente. Por isso, veêm no
capital que proporciona renda, ou seja, no agrícola, o único que produz mais-valia e no trabalho
agrícola que ele mobiliza o único gerador de mais-valia. (...)Tiveram antes de mais nada o grande
mérito (...)de considerar como a fonte original, o capital produtivo e não o capital mercantil,
opondo-se ao mercantilismo que em seu realismo grosseiro constituía a economia vulgar daquele
tempo (...).” p. 899s

“Nesta crítica ao sistema mercantilista estamos referindo-nos apenas as suas concepções de capital e
mais-valia. No mercantilismo, continuação do sistema monetário, o decisivo não é mais a conversão
do valor-mercadoria em dinheiro e sim a produção de mais-valia, considerada de maneira
conceitualmente vazia na esfera da circulação, e assim essa mais-valia se configura em dinheiro
excedente, em superavit da balança comercial. Mas o mercantilismo reflete exatamente os interesses
dos comerciantes e fabricantes da época e se ajusta ao estádio de desenvolvimento capitalista que
eles representam. (...)Sob pretexto de se ocuparem apenas com a riqueza da nação e com as fontes
de recursos do Estado, na realidade declaram os interesses da classe capitalista e o enriquecimento
em geral por fim último do Estado, e contra o velho Estado de direito divino proclamam a sociedade
burguesa. Mas, ao mesmo tempo tem a consciência de que o desenvolvimento dos interesses do
capital e da classe capitalista, da produção capitalista, tornou-se a base do poder nacional e da
supremacia nacional na sociedade moderna.” P. 900s

“Os fisiocratas estão ainda certos ao afirmarem que na realidade toda produção de mais-valia e por
conseguinte todo desenvolvimento do capital tem por base natural a produtividade do trabalho
agrícola. (...)Produtividade do trabalho agrícola excedendo as necessidades individuais do
trabalhador é a base de toda sociedade e sobretudo da produção capitalista, que libera da produção
dos meios imediatos de subsistência parte cada vez maior da sociedade, convertendo-a, conforme
diz Stuart, em “braços livres”, tornando-a disponível para ser explorada noutros ramos.” P. 901

“Há uma concepção errada a respeito da renda, baseada na circunstância de a renda na forma natural
ter sobrevivido à economia natural da Idade Média e se arrastado até os tempos modernos, seja nos
dízimos da igreja, seja como relíquia preservada por velhos contratos. Daí nasce a ilusão de que a
renda não provém do preço, mas da massa do produto agrícola, portanto não das relações sociais e
sim da terra. (...)embora a mais-valia represente produto excedente, não é verdadeira a afirmação

                                                135
inversa de que um produto excedente no sentido de mero acréscimo da massa do produto representa
mais-valia. Pode representar decréscimo de valor. (...)no tocante à renda em produtos cabe observar
que é sobrevivência de um modo de produção arcaico, tradição que se vai esvaindo no desuso. Por
estar em contradição com o modo capitalista de produção, desapareceu por si mesma dos contratos
particulares e foi violentamente rejeitada como incongruência onde a legislação pôde intervir, como
na Inglaterra, com respeito aos dízimos da Igreja. Mas, segundo, onde continuava a existir no
sistema de produção capitalista, nada mais era e nada mais podia ser que a renda em dinheiro com
disfarce medieval.” P. 903

   2. A Renda em Trabalho

“A forma mais simples da renda fundiária é a renda em trabalho: durante parte da semana, o
produtor direto, com os instrumentos (arado, animais, etc.) que lhe pertencem de fato ou de direito,
lavra o terreno de que dispõe de fato e, nos outros dias da semana, trabalha nas terras do solar
senhorial, para o proprietário das terras, gratuitamente. Aí, a coisa ainda está meridianamente clara –
renda e mais-valia se identificam. (...)O produto do servo deve, além de bastar para a subsistência
própria, repor os meios de trabalho. Esse fato é comum a todos os modos de produção, pois não
resulta da forma específica deles, sendo condição natural de todo trabalho contínuo e reprodutivo em
geral, de toda produção continuada, que ao mesmo tempo sempre é reprodução, abrangendo as
condições da própria atividade.” P. 905s

“A forma econômica específica na qual trabalho não-pago se extorque dos produtores imediatos
exige a relação de domínio e sujeição tal como nasce diretamente da própria produção e, em retorno,
age sobre ela de maneira determinante. Aí se fundamenta toda a estrutura da comunidade econômica
– oriunda das próprias relações de produção – e, por conseguinte, a estrutura política que lhe é
própria. É sempre na relação direta entre os proprietários dos meios de produção e os produtores
imediatos (a forma dessa relação sempre corresponde naturalmente a dado nível de desenvolvimento
dos métodos de trabalho e da produtividade social do trabalho) que encontramos o recôndito
segredo, a base oculta da construção social toda e, por isso, da forma política das relações de
soberania e dependência, em suma, da forma específica do Estado numa época dada. Isto não
impede que a mesma base econômica, a mesma quanto as condições fundamentais, possa apresentar
- em virtude de inumeráveis circunstâncias empíricas diferentes, de condições naturais, de fatores
étnicos, de influências históricas de origem externa, etc. – infinitas variações e gradações que só
analise dessas condições empíricamente dadas permitirá entender.” P. 907

“Quanto a renda em trabalho, a forma mais simples e mais antiga da renda, é claro que a renda então
é a forma original da mais-valia e com ela coincide. Além disso, a coincidência da mais-valia com
trabalho alheio não-pago dispensa aí análise, pois existe em forma visível, palpável, pois o trabalho
que o produtor direto efetua para si mesmo se distingue, no tempo e no espaço, do que executa para
o senhor das terras e que aparece diretamente na forma brutal de trabalho sob coação para terceiro.”
P. 907s

“O produtor imediato não é proprietário, mas apenas possuidor, e de direito todo o trabalho
excedente dele pertence ao proprietário da terra. (...)Se essa reprodução perdura, consolidam-na o
uso e a tradição, e a lei por fim a consagra expressamente. A forma desse trabalho excedente, a
corvéia (...)deve naturalmente extrair do trabalho global dos produtores imediatos parte alíquota bem
menor que a sugada nos modos de produção desenvolvidos, sobretudo no modo de produção
capitalista. Admitimos que originalmente a corvéia devido ao proprietário da terra era de dois dias
por semana. Essa jeira semanal fixada em dois dias constitui magnitude constante, regulada pelo
direito consuetudinário ou escrito. Mas, a produtividade dos dias restantes da semana, à disposição

                                                 136
do produtor imediato, é magnitude variável, que se desenvolve com a experiência, ao mesmo tempo
que as novas necessidades que passa a conhecer, a expansão do mercado para os produtores dele, a
segurança crescente com que usa essa parte da força de trabalho incitam-no a distendê-la mais. Não
se deve esquecer aí que o emprego dessa força de trabalho não se limita à agricultura, mas abrange
também a indústria doméstica natural. Existe aí a possibilidade de certo desenvolvimento
econômico, dependendo naturalmente de circunstâncias favoráveis, de carácteres étnicos congênitos,
etc.” p. 909s

   3. A Renda em Produtos.

“Quando a renda em produtos é a forma dominante e mais difundida da renda fundiária,
acompanham-na sempre, em maior ou menor grau, sobrevivências da forma anterior – a renda a
pagar diretamente em trabalho, a corvéia -, e tanto faz que o senhor das terras seja um particular ou
o Estado. A renda em produtos supõe estádio cultural superior do produtor imediato, nível mais alto
do desenvolvimento de seu trabalho e da sociedade em geral, distinguindo-se da forma anterior
porque o trabalho excedente não deve mais prestar-se de maneira natural, sob a vigilância e a coação
diretas do senhor da terra ou de seu representante; ao contrário, por força das circunstâncias e não
por coação direta, compelindo-o a lei, em vez de o açoite (...)” p. 910s

“(...)a produção excedente, no sentido de produção acima das necessidades indispensáveis do
produtor imediato, efetua-se em área que lhe pertence de fato, no solo que ele mesmo explora, e não
mais, como antes, nas terras do solar senhorial, separadas e ao lado da sua. (...)O trabalho do
produtor para si mesmo e o que fornece ao proprietário da terra não se separam mais, de maneira
palpável, no tempo e no espaço.” P. 911

“Embora possam persistir sobrevivências da renda pura em produtos, em modos e em relações de
produção mais desenvolvidos, ela sempre supõe economia natural, isto é, que os meios de produção
na totalidade ou na maior parte sejam criados pela própria exploração que os emprega e que sejam
repostos e reproduzidos diretamente, partindo-se do próprio produto bruto. Demais, implica a união
da indústria doméstica rural com a agricultura; (...)e, como ocorria na Idade Média, tanto faz que a
renda em produtos abranja mais ou menos produtos industriais ou que se forneça apenas na forma de
produtos agrícolas. (...)Esta renda, comparada com a renda em trabalho, deixa ao produtor maior
sobra de tempo para trabalhar em seu produto além do tempo em que se trabalha para as
necessidades imediatas. Com ela aparecem diferenças maiores de situação econômica entre os
produtores diretos. Existe pelo menos essa possibilidade e a demais a de esse produtor imediato
obter os meios para diretamente explorar por sua vez o trabalho alheio.” P. 911s

   4. A Renda em Dinheiro.

“Aqui, a renda em dinheiro significa a renda fundiária resultante de simples metamorfose da renda
em produtos, por sua vez ainda de transformação da renda em trabalho. Com este significado
distingue-se da renda fundiária comercial ou industrial baseada no modo capitalista de produção e
que constitui apenas um excesso sobre o lucro médio.” P. 913

“O produtor imediato em vez de entregar o produto ao proprietário da terra, que pode ser o Estado
ou um particular, paga-lhe o correspondente preço. (...)embora produza como dantes pelo menos a
maior parte dos próprios meios de subsistência, tem agora de converter parte do produto em
mercadoria. (...)Entretanto, o fundamento dessa espécie de renda, embora ela tenda a dissolver-se,
continua sendo o mesmo da renda em produtos, que constitui o ponto de partida. Como dantes, o
produtor direto está na posse da terra, por herança ou tradição, e coercitivamente tem de fornecer ao

                                                137
senhor dela, o proprietário do meio de produção mais essencial, trabalho excedente, não-pago, (...)
na forma de produto excedente convertido em dinheiro.” P. 913s

“A transformação da renda produto em renda-dinheiro, primeiro esporádica, depois em escala mais
ou menos nacional, supõe desenvolvimento já considerável do comércio, da indústria urbana, da
produção mercantil em geral e por conseguinte da circulação monetária.” P. 914

“Com a renda dinheiro, a relação tradicional e consuetudinária entre o subordinado que possui e
explora parte do solo e o proprietário da terra se converte em relação contratual puramente
monetária, determinadas pelas regras sólidas do direito positivo. Por isso, o que possui e lavra a terra
se transforma naturalmente em mero arrendatário. (...)no estádio embrionário dessa nova classe,
quando ela aparece apenas de maneira esporádica, desenvolveu-se necessariamente entre os
camponeses melhor situados, sujeitos a renda, o hábito de explorar por conta própria jornaleiros
rurais, do mesmo modo que na época feudal os servos camponeses melhor aquinhoados dispunham
de outros servos. (...)Entre os antigos possuidores de terra, que a cultivam diretamente, surge um
viveiro de arrendatários capitalistas. Seu desenvolvimento está condicionado pelo desenvolvimento
geral da produção capitalista fora do campo e se acelera particularmente quando circunstâncias
especiais o favorecem, como ocorreu no séc. XVI na Inglaterra. Então, a moeda se deprecia
progressivamente, enriquecendo os arrendatários às custas dos donos das terras, em virtude dos
tradicionais contratos de arrendamento a longo prazo.” P. 915s

“Quando a renda assume a forma de renda-dinheiro, e a relação entre camponês que paga renda e
proprietário da terra, a forma contratual (transformação que só é possível em certo nível elevado de
desenvolvimento do mercado mundial, do comércio e da manufatura), a terra passa necessariamente
a ser arrendada a capitalistas, que até então estavam fora do domínio rural. Eles trazem para o
campo e para a agricultura o capital obtido nas cidades e o modo capitalista de produção já
desenvolvido na economia urbana: o produto que se gera é mercadoria apenas e simples meio de
extorquir mais-valia. (...)o arrendatário se torna o comandante efetivo desses trabalhadores agrícolas
e o verdadeiro explorador do trabalho excedente que efetuam. (...)Então muda de fato a natureza da
renda. (...)A renda deixa de ser a forma normal da mais-valia e do trabalho excedente para reduzir-se
a sobra desse trabalho excedente, a qual aparece depois de deduzida a parte de que se apropria o
explorador capitalista sob a forma de lucro (...)o lucro, e não mais a renda, é a forma normal da
mais-valia. (...)Não é mais a terra, e sim o capital que diretamente submete a si e à sua produtividade
até mesmo o trabalho agrícola.” P. 916s

   5. A parceria e a Pequena Propriedade Camponesa.

“Em todas essas formas – renda-trabalho, renda-produto e renda-dinheiro como forma apenas em
que se converte a renda-produto – supusemos que a renda é sempre fornecida por quem na realidade
cultiva e possui a terra, indo o trabalho excedente não-pago diretamente para as mãos do
proprietário dela. (...)Pode ser considerado forma transitória entre a primitiva forma de renda e a
capitalista, o sistema de parceria ou de repartição dos frutos da exploração no qual o agricultor
(arrendatário) emprega, além de trabalho próprio ou alheio, parte do capital aparente, e o
proprietário fornece, além da terra, a outra parte desse capital (gado, por exemplo), sendo o produto
divididos entre ambos em determinadas proporções que variam segundo os países (...)o essencial,
porém, é que a renda então não se apresenta mais como a forma normal da mais-valia. O agricultor,
empregue apenas trabalho próprio ou também trabalho alheio, presumivelmente exigirá – além do
que lhe cabe na qualidade de trabalhador – uma fração de produto, por possuir parte do instrumental
de trabalho e por ser capitalista de si mesmo. O proprietário da terra, por sua vez, reivindica
participação por ter a propriedade da terra e ainda por ter emprestado capital.” P. 919s

                                                  138
“Vejamos agora a pequena propriedade, a propriedade parcelária. O camponês aí é proprietário livre
da terra, que se patenteia instrumento principal de produção, o indispensável campo de ação de seu
trabalho e de seu capital. Nessa forma não se paga arrendamento; a renda não aparece como forma
particular da mais-valia, embora, em países onde se tenha desenvolvido o modo capitalista de
produção, se apresente como lucro suplementar, tomando-se por termo de comparação os outros
ramos de produção, mas lucro suplementar que pertence ao camponês, a quem cabe o rendimento
todo do trabalho. Essa forma de propriedade fundiária, como as formas mais antigas, supõe que a
população rural seja muito maior que a urbana, portanto que o modo capitalista de produção embora
reine no resto da economia, é relativamente pouco desenvolvido. (...)Então, é natural que parte
preponderante do produto rural entre no consumo do produtor (...)e que apenas o excedente na
forma de mercadoria se comercie com as cidades.” P. 921s

“O lucro médio do capital não limita a exploração da pequena propriedade, enquanto o camponês é
pequeno capitalista; tampouco a limita necessidade de uma renda, enquanto ele é proprietário da
terra. Embora pequeno capitalista, o único limite absoluto para ele é o salário que paga a si mesmo,
após deduzir os custos propriamente ditos. Enquanto o preço do produto o cobrir, cultivará a terra, e
freqüentes vezes submetendo-se a salário reduzido, ao mínimo vital. Como proprietário da terra,
desaparece para ele o limite da propriedade (...)em regra há, do preço da terra, o juro a pagar a
terceira pessoa, ao credor hipotecário, o que é um limite. Mas, esse juro pode ser pago, recorrendo-
se à parte do trabalho excedente a qual nas condições capitalistas constituiria o lucro.” P. 923

“A propriedade da terra é tão necessária para o pleno desenvolvimento desse modo de exploração
quanto a propriedade do instrumental, para o livre desenvolvimento do artesanato. Serve aí de base
para o desenvolvimento da independência pessoal. Constitui estádio necessário do desenvolvimento
da agricultura. Vemos os limites dela nas causas que a arruínam. Essas causas são: extermínio da
indústria camponesa doméstica, complemento normal dela, em virtude do desenvolvimento da
grande indústria; empobrecimento progressivo e esgotamento do solo submetido a esse tipo de
agricultura; usurpação pelos grandes proprietários de terra da propriedade comum que por toda parte
constitui o segundo complemento da economia parcelaria, sem o qual não lhe é possível a criação de
gado; concorrência da agricultura em grande escala da empresa capitalista ou das plantações
coloniais.” P. 924

“Por natureza, a propriedade parcelaria exclui o desenvolvimento da produtividade social do
trabalho, as formas sociais de trabalho, a concentração social dos capitais, a pecuária em grande
escala, a aplicação progressiva da ciência. (...)Um dos males específicos da pequena agricultura
ligada à propriedade livre da terra decorre de o agricultor desembolsar capital para comprar terra (o
mesmo se estende à forma intermediária em que o grande fazendeiro primeiro desembolsa capital
para comprar a terra, e depois para cultivá-la como seu próprio arrendatário). Com a mobilidade
assumida pela terra na condição de mera mercadoria, aumentam as transferências de propriedade, e
desse modo em toda geração nova, em toda partilha entre herdeiros, a terra vem a ser para o
camponês nova aplicação de capital, terra por ele comprada. O preço da terra constitui aí elemento
predominante dos falsos custos de produção individuais ou do preço de custo do produto para o
produtor individual.” P. 925

“Na economia escravista, o preço pago pelo escravo nada mais é que a mais-valia antecipada e
capitalizada, ou seja, o lucro que se pretende extrair dele. Mas, o capital desembolsado nessa compra
não faz parte do capital com que se tira lucro, trabalho excedente do escravo. Ao contrário, é capital
de que o senhor de escravos se desfez, deduzido do capital de que dispõe para a produção efetiva. Já
não existe para ele, do mesmo modo que o capital desembolsado na compra de terra cessou de

                                                 139
existir para a agricultura. E a melhor prova disso é que só pode voltar a existir para o senhor de
escravos ou para o dono das terras, se um vender o escravo, e, o outro, a terra. Mas, o comprador
ficará na mesma situação em que eles estavam antes dessa venda. A compra não o capacita
automaticamente a extrair lucro do escravo. Precisa de novo capital para aplicar na exploração
escravista.” P. 926

“A pequena agricultura, o preço da terra, forma e resultado da propriedade privada do solo, constitui
entrave à produção. Também na agricultura em larga escala e na grande propriedade fundiária
explorada pelos métodos capitalistas, a propriedade constitui entrave, pois limita o arrendatário nos
investimentos produtivos que em última instância não o beneficiem e sim ao dono da terra.” P. 930

“A pequena propriedade fundiária gera uma classe até certo ponto à margem da sociedade e que
combina toda a crueza das formas sociais primitivas com todos os sofrimentos e todas as misérias
dos países civilizados. A grande propriedade fundiária deteriora a força de trabalho no último
refúgio onde se abriga sua energia natural e onde ela se acumula como fundo de reserva para
renovar a força vital das nações: no próprio campo. A grande indústria e a grande agricultura
industrialmente empreendida atuam em conjunto. Se na origem se distinguem porque a primeira
devasta e arruína mais a força de trabalho, a força natural do homem, e a segunda, mais diretamente,
a força natural do solo, mais tarde, em seu desenvolvimento, dão-se as mãos: o sistema industrial no
campo passa a debilitar também os trabalhadores, e a indústria e o comércio, a proporcionar à
agricultura os meios de esgotar a terra.” P. 931

Parte Sétima – AS RENDAS E SUAS FONTES

Capítulo XLVIII – A Fórmula Trinitária

“Capital – Lucro (lucro do empresário + juro), terra-renda fundiária, trabalho-salário, esta é a
fórmula trinitária em que se encerram todos os mistérios do processo social de produção. Já vimos
antes que o juro aparece como o produto verdadeiro, característico do capital, e o lucro do
empresário, em oposição, como salário independente do capital. Assim, aquela forma trina se reduz
precisamente a: capital-juro, terra-renda fundiária, trabalho-salário, com a divertida eliminação do
lucro, a forma de mais-valia que específicamente caracteriza o modo capitalista de produção.” P.
935

“Capital, terra, trabalho! Mas, o capital não é coisa, mas determina relação social de produção,
pertencente a uma formação histórica particular da sociedade, e essa relação se configura numa
coisa e lhe dá caráter social específico. O capital não é a soma dos meios de produção materiais e
produzidos. O capital são os meios de produção convertidos em capital, os quais em si não são
capital como o ouro ou a prata em si, tampouco são moeda. (...)O capital são os produtos gerados
pelos trabalhadores e convertidos em potências autônomas dominando e comprando os produtores, e
mais ainda são as forças sociais e a forma do trabalho como se fossem propriedades do produto
deles. Temos aí portanto determinada forma social, envolvida numa névoa mística, de um dos
fatores de um processo social de produção fabricado pela história.
A seguir, vem a terra, a natureza inorgânica em si, essa massa bruta e caótica em sua originalidade
primitiva. Valor é trabalho. Valor excedente, mais-valia, não pode portanto ser terra. Fertilidade
absoluta da terra significa apenas que certa quantidade de trabalho dá certo produto, condicionado
pela fertilidade natural da terra. A diferença na fertilidade faz que as mesmas quantidades de
trabalho e de capital, o mesmo valor portanto, se expressem em quantidades diversas de produtos
agrícolas; que esses produtos possuam, por isso, valores individuais distintos. (...)E, por fim, o
terceiro componente da trindade, mero fantasma: “o” trabalho, simples abstração, sem existência de

                                                140
per si, ou, no sentido que se lhe dá, atividade produtiva que o homem em geral exerce e com que
efetua o intercâmbio material com a natureza; atividade despojada de toda forma social e de toda
especificação, em sua existência natural pura, sem depender da sociedade (...)” p. 936s

“Na fórmula capital-juro, terra-renda fundiária, trabalho-salário, aparecem capital, terra e trabalho
como fontes, respectivamente, do juro (posto no lugar do lucro), da renda fundiária e do salário, que
deles seriam produtos, frutos. (...)Todas as três rendas, (...), são três frações do valor do produto,
parcelas do valor portanto, ou, expressando monetariamente, porções de dinheiro, parcelas do
preço.” P. 938

“(...)o reino da liberdade começa onde o trabalho deixa de ser determinado por necessidade e por
utilidade exteriormente imposta; por natureza, situa-se além da esfera da produção material
propriamente dita. O selvagem tem de lutar com a natureza para satisfazer as necessidades, para
manter e reproduzir a vida, e o mesmo tem de fazer o civilizado, sejam quais forem a forma de
sociedade e o modo de produção. Acresce, desenvolvendo-se, o reino do imprescindível. É que
aumentam as necessidades, mas, ao mesmo tempo, ampliam-se as forças produtivas para satisfazê-
las. A liberdade nesse domínio só pode consistir nisto: o homem social, os produtores associados
regulam racionalmente o intercâmbio material com a natureza, controlam-no coletivamente, sem
deixar que ele seja a força cega que os domina; efetuam-no com o menor dispêndio de energias e
nas condições mais adequadas e mais condignas com a natureza humana. Mas, esse esforço situar-
se-á sempre no reino da necessidade. Além dele começa o desenvolvimento das forças humanas
como um fim em si mesmo, o reino genuíno da liberdade, o qual só pode florescer tendo por base o
reino da necessidade. E a condição fundamental desse desenvolvimento humano é a redução da
jornada de trabalho.” P. 942

“Quando a fórmula capital-lucro, ou melhor capital-juro, terra-renda fundiária, trabalho-salário, essa
trindade econômica, passa a configurar a conexão entre as partes componentes do valor, da riqueza
em geral e as respectivas fontes, completa-se a mistificação do modo capitalista de produção, a
reificação das relações sociais, a confusão direta das condições materiais de produção com a
determinação histórico-social dessas condições; é o mundo enfeitiçado, desumano e invertido, onde
os manipansos, o senhor Capital e a senhora Terra, protagonistas sociais e ao mesmo tempo coisas,
fazem suas assombrações. O grande mérito da economia clássica é ter dissolvido essa aparência,
esse embuste, essa emancipação e ossificação dos diversos elementos sociais da riqueza, essa
personificação das coisas e reificação das relações de produção, essa religião do cotidiano,
reduzindo o juro a parte do lucro, e a renda a excedente sobre o lucro, de modo a se identificarem
ambos com a mais-valia;(...)” P. 952s

Capítulo XLIX – Elementos para a Análise do Processo de Produção

“Para evitar dificuldades inúteis, é mister distinguir produto bruto e produto líquido, de renda bruta e
renda líquida.
O rendimento bruto ou o produto bruto é a totalidade do produto reproduzido. Excluída a parte do
capital fixo empregada, mas não consumida na produção, o valor do rendimento bruto ou do produto
bruto é igual ao valor do capital adiantado e consumido na produção, constante e variável, acrescido
da mais-valia, que se decompõe em lucro e renda fundiária. (...)a renda bruta é a fração do valor ou
da parte do produto bruto medida por essa fração, as quais restam após deduzir-se, da totalidade da
produção, a parte do valor (e a parte do produto por ela medida) destinada a repor o capital constante
adiantado e consumido na produção. Assim a renda bruta = salário (a parte do produto destinada a
vir a ser de novo renda do trabalhador) + lucro + renda fundiária. A renda líquida é a mais-valia, ou
seja, o produto excedente que fica após deduzir-se o salário; (...)” p. 963s

                                                  141
“Ao que já se expôs sobre a relação entre renda e capital cabe acrescentar agora: no que tange do
valor, o elemento constitutivo que entra, com o fio, no capital do fabricante de tecidos é o valor do
fio. A maneira como esse valor se repartiu, para o fiandeiro, em capital e renda, isto é, em trabalho
pago e não-pago, não tem a menor influência na determinação do valor da própria mercadoria
(excetuadas as modificações que o lucro médio determina). No fundo continua vigorando a crença
de que o lucro – a mais-valia em geral – é algo que ultrapassa o valor, só podendo ser obtido
mediante acréscimos, logros recíprocos, ganhos resultantes de venda. (...)Além disso, é certo que os
componentes das mercadorias que constituem o capital constante, como qualquer valor-mercadoria,
são redutíveis a partir do valor que, para os produtores e proprietários dos meios de produção, se
converteriam em salário, lucro e renda fundiária. Isto é simplesmente a maneira capitalista de dizer
que o valor de toda mercadoria é apenas a medida do trabalho socialmente necessário nela contido.
Mas, já vimos no livro primeiro que isso absolutamente não impede que o produto-mercadoria de
qualquer capital se dissocie em partes distintas, uma representando a parte constante do capital,
outra, a parte variável, e, terceira, a mais-valia. (...)é uma abstração falsa supor que uma nação com
modo de produção baseado no valor e organizada em moldes capitalistas seja um organismo que
trabalhe unicamente para satisfazer as necessidades nacionais. (...)suprimido o modo capitalista de
produção e mantida a produção social, a determinação do valor continuará predominando no sentido
de que será mais necessário que nunca regular o tempo de trabalho, repartir o trabalho social entre
os diversos grupos de produção e finalmente contabilizar tudo isso.” P. 975s

Capítulo L – As Ilusões Oriundas da Concorrência

“Se o segmento da jornada do qual precisa o trabalhador para reproduzir o valor do salário tem por
limite último um mínimo físico do salário, (seu limite mínimo é dado pelo mínimo físico de meios
de subsistência que o trabalhador precisa obter para conservar e reproduzir a força de trabalho. P.
984) o outro segmento em que se objetiva o trabalho excedente (...)tem por limite o máximo físico
da jornada, isto é, a quantidade total do tempo diário de trabalho a qual o trabalhador pode dar
enquanto conserva e reproduz a força de trabalho. (...)Está dado portanto o limite absoluto da parte
do valor a qual constitui mais-valia e se reduz a lucro e renda fundiária. (...)Se o capital é de 500
(podemos dizer milhões) e a mais-valia é de 100, o limite absoluto da taxa de lucro será 20%.” P.
985

“A conversão dos valores em preços de produção não elimina portanto os limites do lucro, mas
apenas altera a repartição dele entre os diferentes capitais particulares de que se compõe o capital
social e pelos quais os lucros se repartem de maneira uniforme, na proporção das frações do valor
que eles representam, do capital total. Os preços de mercado ora estão acima ora abaixo desses
preços de produção reguladores, mas essas oscilações se eliminam reciprocamente.” P. 986

“Essas partes em que se divide a mais-valia “(lucro de empresário, juro e renda fundiária)” parecem
ao inverso do real, gerar a mais-valia, parte do preço da mercadoria, enquanto o salário geraria a
outra, porque, para o capitalista individual, são elementos dados do preço de custo. Esses produtos
da decomposição do valor-mercadoria sempre aparecem como se fossem as condições prévias da
própria formação do valor, e o segredo dessa ilusão é simples: o modo capitalista de produção, como
qualquer outro, não só reproduz sem cessar o produto material, mas também as relações econômicas
e sociais e as formas econômicas específicas, adequadas para criar esse produto. Temos assim a
permanente ilusão: os resultados parecem condições prévias, e estas, resultados. E esta reprodução
permanente das mesmas relações é o que o capitalista individual preliba (prelibar = com
antecipações), considerando-a fato evidente, indiscutível. Enquanto persistir a produção capitalista
como tal, uma fração do trabalho adicionado se reduzirá a salário, outra a lucro (juro e lucro de

                                                 142
empresário), e terceira a renda fundiária. Nos contratos entre os donos dos diversos fatores de
produção pressupõe-se essa divisão, e esse pressuposto é acertado, por mais que oscilem as relações
quantitativas segundo os casos individuais. A configuração definida em que se confrontam as partes
do valor é suposta antecipada porque é sempre reproduzida, e é sempre reproduzida por sempre ser
pressuposta.” P. 998s

“(...)Além do valor dos meios de produção que na qualidade de magnitudes dadas de preço entram
na produção das mercadorias, o salário, o juro e a renda fundiária ingressam nessa produção como
grandezas que lhe delimitam e regulam o preço. Aparecem perante o capitalista como os elementos
que determinam o preço das mercadorias. Olhado por esse aspecto, o lucro do empresário parece
determinado pelo que sobra dos preços de mercado, dependentes das condições fortuitas da
concorrência. (...)Na concorrência reinante no mercado mundial, por exemplo, o que importa
exclusivamente é saber se, com o salário, o juro e a renda fundiária dados, a mercadoria pode
vender-se aos preços gerais de mercado dados ou abaixo deles, com proveito, isto é, realizando
adequado lucro de empresário. Se num país forem baixos o salário e o preço da terra, e alto o juro do
capital, por não estar desenvolvido nele o modo capitalista de produção, enquanto noutro país o
salário e o preço da terra são nominalmente altos, embora o juro do capital seja baixo, então o
capitalista aplicará no primeiro mais trabalho e mais terra, e no segundo proporcionalmente mais
capital. Esses fatores são determinantes para o cálculo das possibilidades que tem ambos os países
de concorrer entre si.” P. 1001s

Capítulo LI – Relações de Distribuição e Relações de Produção

“O valor adicionado pelo trabalho efetuado durante o ano – ou seja, a parte do produto anual na qual
se representa esse valor e que se pode extrair, dissociar do produto global – se divide pois em três
partes que são outras tantas formas de renda; essas formas revelam que parte desse valor pertence ou
cabe ao dono da força de trabalho, parte ao dono do capital, e terceira parte ao dono da terra. Trata-
se portanto de relações ou formas de distribuição que exprimem as proporções em que a totalidade
do valor novo produzido se reparte entre os possuidores dos diversos fatores de produção. Segundo
a percepção corrente, essas relações de distribuição se patenteiam relações naturais, relações que
decorrem da natureza de toda produção social, das leis da produção humana em geral. (...)A análise
científica, entretanto, revela o seguinte: o modo capitalista de produção tem natureza particular,
especificidade historicamente definida; como qualquer outro modo determinado de produção
pressupõe, como condição histórica, dado estádio das forças produtivas sociais e de suas formas de
desenvolvimento; essa condição é o resultado histórico e o produto de processo anterior, e dela parte
e nela se baseia o novo modo de produção; as relações de produção correspondentes a esse modo
particular de produção historicamente determinado – relações que os homens estabelecem no
processo da vida social, na formação da vida social – tem caráter específico, histórico e transitório;
as relações de produção, das quais são a outra face, de modo que estas e aquelas participam do
mesmo caráter historicamente transitório.” P. 1004s

“Quando se observam as relações de distribuição parte-se a priori do pretenso fato de repartir-se o
produto anual em salário, lucro e renda fundiária. Mas, assim expresso, o fato não é exato. O
produto se decompõe em duas partes: em capital e em rendas. (...)Se uma parte do produto não se
transformasse em capital, a outra não assumiria as formas de salário, lucro e renda fundiária.
(...)Além de gerar os produtos materiais “(o modo capitalista de produção),” reproduz
constantemente as relações de produção em que são produzidos e por conseguinte também as
correspondentes relações de distribuição.” P. 1006

“O modo capitalista de produção se distingue, antes de mais nada, por duas características:

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Primeiro: Seus produtos são mercadorias. Produzir mercadorias não o distingue de outros modos de
produção, mas a circunstância de seu produto ter, de maneira dominante e determinante, o caráter de
mercadoria. (...)
Segundo: O que distingue particularmente o modo capitalista de produção é a circunstância de a
produção da mais-valia ser objetivo direto e causa determinante da produção. (...)O impulso para
restringir ao mínimo o custo de produção torna-se a mais poderosa alavanca para acrescer a
produtividade social do trabalho; mas, esse acréscimo toma a aparência de elevação constante da
produtividade do capital.” P. 1007s

Capítulo LII – As Classes

“Os proprietários de mera força de trabalho, os de capital e os de terra, os que tem por fonte de
receita, respectivamente, salário, lucro e renda fundiária, em suma, os assalariados, os capitalistas e
os proprietários de terras, constituem as três grandes classes da sociedade moderna baseada no modo
capitalista de produção.
Sem dúvida, a estrutura econômica da sociedade moderna desenvolveu-se mais ampla e
classicamente na Inglaterra. Não obstante, mesmo nesse país não se patenteia para essa divisão em
classes. Também lá, as camadas médias e intermediárias obscurecem por toda a parte as linhas
divisórias (embora muito menos nas zonas rurais que nas urbanas). Esse fato, contudo, não tem
importância para nossa análise. Vimos ser tendência constante e lei do desenvolvimento do modo
capitalista de produção separar cada vez mais do trabalho os meios de produção e concentrar em
constelações cada vez maiores os meios de produção dispersos, ou seja, converter o trabalho em
trabalho assalariado e os meios de produção em capital. E a essa tendência corresponde, noutro
plano, o fato de a propriedade fundiária, como entidade autônoma, se dissociar do capital e do
trabalho, isto é, a conversão de toda propriedade fundiária à forma adequada ao modo capitalista de
produção.
A questão que se propõe agora é esta: que constitui uma classe? A resposta decorre automaticamente
da que for dada a pergunta: que faz dos assalariados, dos capitalistas e dos proprietários de terra
membros das três grandes classes sociais?
À primeira vista, a identidade das rendas e das fontes de renda. São três grandes grupos sociais, e
seus componentes, os indivíduos que os constituem, vivem respectivamente de salário, de lucro e de
renda fundiária, utilizando a força de trabalho, o capital e a propriedade fundiária.
Sob este aspecto, porém, os médicos e os funcionários públicos, por exemplo, constituiriam também
duas classes, pois referem a dois grupos sociais distintos, e as rendas dos membros de cada um deles
fluem da mesma fonte. O mesmo se estenderia à imensa variedade de interesses e ofícios segundo os
quais a divisão do trabalho social separa os trabalhadores, os capitalistas e os proprietários de terras;
estes, por exemplo, se dividem em proprietários de vinhedos, de áreas de lavoura, de florestas, de
minas, de pesquisas(?).
[interrompe-se aí o manuscrito] – F. Engels

Bibliografia:
Karl Marx – O Capital – Critica da Economia Política
Tradução de Reginaldo Sant anna
DIFEL – 4ª Edição - 1985




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MARX - O Capital

  • 1.
    MARX, Karl. OCapital. Critica da Economia Política. Livros 1 a 3. Vol. I a VI. São Paulo: DIFEL, 1985, 1987. Resumo por: Carlos Jorge Burke – www.cburke.com.br OBS: Se desejar, solicitar arquivo pelo blog. O CAPITAL – LIVRO 1 – Volume I O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CAPITAL Parte Primeira – MERCADORIA E DINHEIRO Capítulo I - A Mercadoria 1. Os dois fatores da mercadoria: Valor-de-uso e Valor (Substância e Quantidade do valor) “A riqueza das sociedades onde rege a produção capitalista configura-se em “imensa acumulação de mercadorias”, e a mercadoria isoladamente considerada, é a forma elementar dessa riqueza. Por isso, nossa investigação começa com a análise da mercadoria. A mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia. Não importa a maneira como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente, como meio de subsistência, objeto de consumo, ou indiretamente, como meio de produção.” – p. 41s “Cada coisa útil, como ferro, papel, etc., pode ser considerada sob duplo aspecto, segundo qualidade e quantidade. Cada um desses objetos é um conjunto de muitas propriedades e pode ser útil de diferentes modos. Constituem fatos históricos a descoberta de diferentes modos, das diversas maneiras de usar as coisas. (...) A utilidade de uma coisa faz dela um valor-de-uso. Mas essa utilidade não é algo aéreo. Determinada pelas propriedades materialmente inerentes à mercadoria, só existe através dela. (...) Esse caráter da mercadoria não depende da quantidade de trabalho empregado para obter suas qualidades úteis. Ao se considerarem valores-de-uso, sempre se pressupõem quantidades definidas, como uma dúzia de relógios, um metro de linho (...). O valor-de- uso só se realiza com a utilização ou o consumo. (...) Os valores-de-uso constituem o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a forma social dela. Na forma da sociedade que vamos estudar, os valores-de-uso são, ao mesmo tempo, os veículos materiais do valor-de-troca.” – p. 42s “ O valor-de-troca revela-se, de início, na relação quantitativa entre valores-de-uso de espécies diferentes, na proporção em que se trocam, relação que muda constantemente no tempo e no espaço. Por isso, o valor-de-troca parece algo casual e puramente relativo, e portanto, uma contradição em termos, um valor-de-troca inerente, imanente à mercadoria.” – p. 43 “ Qualquer mercadoria se troca por outras, nas mais diversas proporções, por exemplo, um quarter de trigo por x de graxa, ou por y de seda ou z de ouro etc.. Ao invés de um só, o trigo tem, portanto, muitos valores-de troca. Mas, uma vez que cada um desses itens, separadamente (...) é o valor-de- troca de um quarter de trigo, devem x de graxa, y de seda e z de ouro, como valores-de-troca, ser permutáveis e iguais entre si. (...) Tomemos duas mercadorias, por exemplo, trigo e ferro. Qualquer que seja a proporção em que se troquem, é possível sempre expressá-la com uma igualdade em que dada quantidade de trigo se iguala a alguma quantidade de ferro, por exemplo, 1 quarter de trigo = x quintais de ferro. Que significa essa igualdade? Que algo comum, com a mesma grandeza, existe em 1
  • 2.
    duas coisas diferentes(...). As duas coisas portanto são iguais a uma terceira que por sua vez difere delas. Cada uma das duas, como valor-de-troca, é reduzível, necessariamente, a essa terceira.” P. 43 “ As propriedades materiais só interessam pela utilidade que dão às mercadorias, por fazerem destas valores-de-uso. Põem-se de lado os valores-de-uso das mercadorias, quando se trata da relação de troca entre elas. (...) Se prescindirmos do valor-de-uso da mercadoria, só lhe resta ainda uma propriedade, a de ser produto do trabalho. Mas, então, o produto do trabalho já terá passado por uma transmutação. Pondo de lado seu valor-de-uso, abstraímos, também, das formas e elementos materiais que fazem dele um valor-de-uso. Ele não é mais mesa, casa, fio ou qualquer outra coisa útil. Sumiram todas as suas qualidades materiais. Também não é mais produto do trabalho do marceneiro, do pedreiro, (...) ao desaparecer o caráter útil dos produtos do trabalho, também desaparece o caráter útil dos trabalhos neles corporificados, desvanecem-se, portanto, as diferentes formas de trabalho concreto, elas não mais se distinguem uma das outras, mas reduzem-se, todas, a uma única espécie de trabalho, o trabalho humano abstrato.” P. 44 “ Um valor-de-uso ou um bem só possui, portanto, valor, porque nele está corporificado, materializado, trabalho humano abstrato. Como medir a grandeza do seu valor? Por meio da quantidade da “substância criadora de valor” nele contida, o trabalho. A quantidade de trabalho, por sua vez, mede-se pelo tempo de sua duração, e o tempo de trabalho, por frações do tempo, como hora, dia, etc..” p. 45 “ Se o valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho gasto durante sua produção, poderia parecer que quanto mais preguiçoso ou inábil um ser humano, tanto maior o valor de sua mercadoria, pois ele precisa de mais tempo para acabá-la. Todavia, o trabalho que constitui a substância dos valores é o trabalho humano homogêneo, dispêndio de idêntica força de trabalho.” P. 45 “ Tempo de trabalho socialmente necessário é o tempo de trabalho requerido para produzir-se um valor-de-uso qualquer, nas condições de produção socialmente normais, existentes, e com o grau social médio de destreza e intensidade do trabalho. Na Inglaterra, após a introdução do tear a vapor, o tempo empregado para transformar determinada quantidade de fio em tecido diminuiu aproximadamente de metade. O tecelão inglês que então utilizasse o tear manual, continuaria gastando, nessa transformação, o mesmo tempo que despendia antes, mas o produto de sua hora individual de trabalho só representaria meia hora de trabalho social, ficando o valor anterior de seu produto reduzido à metade.” P. 46 “ O que determina a grandeza do valor, portanto, é a quantidade de trabalho socialmente necessário ou tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor-de-uso. Cada mercadoria individual é considerada aqui exemplar médio de sua espécie. Mercadorias que contém iguais quantidades de trabalho, possuem, consequentemente, valor da mesma magnitude. (...) A grandeza do valor de uma mercadoria permaneceria, portanto, invariável, se fosse constante o tempo de trabalho requerido para a sua produção. Mas este muda com qualquer variação na produtividade (força produtiva) do trabalho. A produtividade do trabalho é determinada pelas mais diversas circunstâncias, entre elas a destreza média dos trabalhadores, o grau de desenvolvimento da ciência e sua aplicação tecnológica, a organização social do processo de produção, o volume e a eficácia dos meios de produção, e as condições naturais.” P. 46s “ Generalizando: quanto maior a produtividade do trabalho, tanto menor o tempo de trabalho requerido para produzir uma mercadoria, e quanto menor a quantidade de trabalho que nela se cristaliza, tanto menor seu valor. Inversamente, quanto menor a produtividade do trabalho, tanto maior o tempo de trabalho necessário para produzir um artigo e tanto maior seu valor. A grandeza 2
  • 3.
    do valor deuma mercadoria varia na razão direta da quantidade, e na inversa da produtividade do trabalho que nela se aplica.” P. 47 “ Uma coisa pode ser valor-de-uso, sem ser valor. É o que sucede quando sua utilidade para o ser humano não decorre do trabalho. Exemplos: o ar, a terra virgem, seus pastos naturais, a madeira que cresce espontânea na selva etc.. Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano, sem ser mercadoria. Quem, com seu produto, satisfaz a própria necessidade gera valor-de-uso, mas não mercadoria. Para criar mercadoria, é mister não só produzir valor-de-uso, mas produzi-lo para outros, dar origem a valor-de-uso social. (E mais: o camponês medieval produzia o trigo do tributo para o senhor feudal, o trigo do dízimo para o cura. Mas embora fôssem produzidos para terceiros, nem o trigo do tributo nem o dízimo eram mercadoria, tem de ser transferido a quem vai servir como valor-de-uso por meio de troca)-Friedrich Engels (F.E.) – Finalmente, nenhuma coisa pode ser valor se não é objeto útil. Se não é útil, tampouco o será o trabalho nela contido, o qual não conta como trabalho e, por isso, não cria nenhum valor.” P. 47s 2. O duplo caráter do Trabalho Materializado na Mercadoria “ A mercadoria apareceu-nos, inicialmente, como duas coisas: valor-de-uso e valor-de-troca. Mais tarde, verificou-se que o trabalho também possui duplo caráter: quando se expressa como valor, não possui mais as mesmas características que lhe pertencem como gerador de valores-de-uso.” P. 48 “ No conjunto formado por valores-de-uso diferentes ou pelas mercadorias materialmente distintas, manifesta-se um conjunto correspondente dos trabalhos úteis diversos., - classificáveis por ordem, gênero, espécie, subespécie e variedade, - a divisão social do trabalho. Ela é condição para que exista a produção de mercadorias, embora, reciprocamente, a produção de mercadoria não seja condição necessária para a existência da divisão social do trabalho. (...) o valor-de-uso de cada mercadoria representa determinada atividade produtiva subordinada a um fim, isto é, um trabalho útil particular. (...) O trabalho, como criador de valores-de-uso, como trabalho útil, é indispensável à existência do homem, - quaisquer que sejam as formas de sociedade, - é necessidade natural e eterna de efetuar o intercâmbio material entre o homem e a natureza, e, portanto, de manter a vida humana.” P. 49s “ Pondo-se de lado o desígnio da atividade produtiva e, em conseqüência, o caráter útil do trabalho, resta-lhe apenas ser um dispêndio de força humana de trabalho. O trabalho do alfaiate e do tecelão, embora atividades produtivas qualitativamente diferentes, são ambos dispêndio humano produtivo de cérebro, músculos, nervos, mãos etc.., e, desse modo, são ambos trabalho humano. São apenas duas formas diversas de despender força humana de trabalho. Sem dúvida, a própria força de trabalho humana tem de atingir certo desenvolvimento, para ser empregada em múltiplas formas. O valor da mercadoria, porém, representa trabalho humano simplesmente, dispêndio de trabalho humano em geral.” P. 51 “ Trabalho humano mede-se pelo dispêndio da força de trabalho simples, a qual, em média, todo homem comum, sem educação especial, possui em seu organismo. O trabalho simples médio muda de caráter com os países e estágios de civilização, mas é dado numa determinada sociedade. Trabalho complexo ou qualificado vale como trabalho simples potenciado ou, antes, multiplicado, de modo que uma quantidade dada de trabalho qualificado é igual a uma quantidade maior de trabalho simples. (...) Por mais qualificado que seja o trabalho que gera a mercadoria, seu valor a equipara ao produto de trabalho simples e representa, por isso, uma determinada quantidade de trabalho simples.” P. 51s – nota p. 52-“ Repare o leitor que não se trata aqui de salário ou do valor 3
  • 4.
    que o trabalhadorrecebe por seu tempo de trabalho, mas do valor da mercadoria na qual se reduz seu tempo de trabalho (...).” “ Se o trabalho contido na mercadoria, do ponto de vista do valor-de-uso, só interessa qualitativamente, do ponto de vista da grandeza do valor, só interessa quantitativamente e depois de ser convertido em trabalho humano, puro e simples. No primeiro caso, importa saber como é e o que é o trabalho; no segundo, sua quantidade, a duração de seu tempo. Uma vez que a grandeza do valor de uma mercadoria representa apenas a quantidade de trabalho nela contido, devem as mercadorias, em determinadas proporções, possuir valores iguais.” P. 52s “ Uma quantidade maior de valor-de-uso cria, de per si, maior riqueza material. (...) Não obstante, ao acréscimo da massa de riqueza material pode corresponder uma queda simultânea no seu valor. Esse movimento em sentidos opostos se origina do duplo caráter do trabalho. Produtividade é sempre produtividade de trabalho concreto, útil, e apenas define o grau de eficácia da atividade produtiva, adequada a certo fim, em dado espaço de tempo (...). Por outro lado, nenhuma mudança na produtividade atinge intrinsecamente o trabalho configurado no valor. (...) Qualquer que seja a mudança na produtividade, o mesmo trabalho, no mesmo espaço de tempo, fornece, sempre, a mesma magnitude de valor. Mas, no mesmo espaço de tempo, para quantidades diferentes de valores-de-uso.” P. 53 “ Todo trabalho é, de um lado, dispêndio de força humana de trabalho, no sentido fisiológico, e, nessa qualidade de trabalho humano igual ou abstrato, cria o valor das mercadorias. Todo trabalho, por outro lado, é dispêndio de força humana de trabalho, sob forma especial, para um determinado fim, e, nessa qualidade de trabalho útil e concreto, produz valores-de-uso.” P. 54 3. A Forma do Valor ou o Valor-de-Troca “ As mercadorias vêm ao mundo sob a forma de valores-de-uso, de objetos materiais. (...) Todavia, só são mercadorias por sua duplicidade, por serem ao mesmo tempo objetos úteis e veículos de valor. (...) As mercadorias, recordemos, só encarnam valor na medida em que são expressões de uma mesma substância social, o trabalho humano; seu valor é, portanto, uma realidade apenas social, só podendo manifestar-se, evidentemente na relação social em que uma mercadoria se troca por outra. (...) Todo mundo sabe (...) que as mercadorias possuem forma comum de valor, que contrasta com a flagrante heterogeneidade das formas corpóreas de seus valores-de-uso. Esta forma comum é a forma dinheiro do valor. (...) é mister acompanhar o desenvolvimento da expressão do valor contida na relação de valor existente entre as mercadorias, partindo da manifestação mais simples e mais apagada até chegar a esplendente forma dinheiro. (...) A mais simples relação de valor é, evidentemente, a que se estabelece entre uma mercadoria e qualquer outra mercadoria de espécie diferente. (...) x da mercadoria A = y da mercadoria B, ou x da mercadoria A vale y da mercadoria B.” p. 54s 1. Os dois pólos da expressão do valor: a forma relativa do valor e a forma de equivalente. “ A forma relativa do valor e a forma de equivalente se pertencem, uma à outra, se determinam, reciprocamente, inseparáveis, mas, ao mesmo tempo, são extremos que mutuamente se excluem e se opõem, pólos da mesma expressão de valor. (...) Na mesma expressão do valor, a mesma mercadoria não pode aparecer, ao mesmo tempo, sob duas formas. Elas se repelem polarmente. Para saber se uma mercadoria se encontra sob a forma relativa do valor ou sob forma oposta, a equivalente, basta reparar a posição que ocasionalmente ocupa na expressão do valor, se é a mercadoria cujo valor é expresso ou é a mercadoria através da qual se expressa o valor.” P. 56s 4
  • 5.
    2. A formarelativa do valor a) O que significa. “ Ao dizermos que, como valores, as mercadorias são trabalho humano cristalizado, nossa análise as reduz a uma abstração, a valor, mas não lhes dá forma para esse valor, distinta de sua forma física. A questão muda quando se trata da relação de valor entre duas mercadorias. Aí a condição de valor de uma se revela na própria relação que estabelece com a outra. (...) Quando o casaco, como figura do valor, é equiparado ao linho, iguala-se o trabalho inserido naquele com o contido neste (...) equiparado ao do tecelão, reduz o trabalho do alfaiate àquilo que é realmente igual em ambos os trabalhos, sua condição comum de trabalho humano. (...) Só a expressão da equivalência de mercadorias distintas põe à mostra a condição específica do trabalho criador de valor, porque ela realmente reduz à substância comum, a trabalho humano simplesmente, os trabalhos diferentes incorporados em mercadorias diferentes.” P. 58 “ Ao relacionar-se com a mercadoria B como figura do valor, materialização de trabalho humano, a mercadoria A faz do valor-de-uso B o material de sua própria expressão de valor. O valor da mercadoria A ao ser expresso pelo valor-de-uso da mercadoria B, assume a forma relativa.” P. 60s b) Determinação quantitativa da forma relativa de valor “ Para expressar o valor de qualquer mercadoria, aludimos sempre a dada quantidade do objeto útil, 15 toneladas de trigo, 100 quilos de café etc.. Essa quantidade dada de mercadoria contém uma quantidade determinada de trabalho humano. A forma do valor tem de exprimir não só valor em geral, mas valor quantitativamente determinado ou magnitude de valor. (...) O tempo de trabalho necessário para a produção de 20 metros de linho ou de 1 casaco se altera com qualquer variação na produtividade dos respectivos trabalhos especializados – o do tecelão e o do alfaiate. (...)I-varia o valor do linho, ficando constante o do casaco. (...) II-constante o valor do linho; variável, o do casaco. (...) III- as quantidades de trabalho necessárias para a produção do linho e do casaco variam simultaneamente no mesmo sentido e na mesma proporção. (...) Para descobrir a influência de todas as combinações possíveis dessas variações sobre o valor relativo de uma mercadoria, basta utilizar as hipóteses compreendidas nos itens I, II e III. A verdadeira variação da magnitude do valor não se reflete, portanto, clara e completa em sua expressão, isto é, na equação que expressa a magnitude do valor relativo. E o valor relativo de uma mercadoria pode variar, embora seu valor permaneça constante. Seu valor relativo pode permanecer constante, embora seu valor varie e, finalmente, não é mister que sejam coincidentes as variações simultâneas ocorrentes na magnitude do valor e na expressão da magnitude do valor relativo.” P. 61ss 3. A forma de equivalente “ Já vimos que a mercadoria A (o linho), ao exprimir seu valor por meio do valor-de-uso de mercadoria diferente, a mercadoria B (o casaco), imprime a esta última forma de valor peculiar, a forma de equivalente. O linho revela sua condição de valor, ao igualar-se ao casaco, sem que este adote uma forma de valor diferente de sua forma corpórea. (...) A primeira peculiaridade que salta aos olhos, ao observar-se a forma de equivalente, é que o valor-de-uso se torna a forma de manifestação de seu contrário, isto é, do valor. (...) A forma relativa do valor de uma mercadoria (o linho) expressa seu valor por meio de algo totalmente diverso do seu corpo e de suas propriedades (o casaco); essa expressão está assim indicando que oculta uma relação social. O oposto sucede com a forma de equivalente em face da mercadoria linho. Ora, as propriedades de uma coisa não se originam de suas relações com outras, mas antes se patenteiam nessas relações. (...) Daí o caráter 5
  • 6.
    enigmático da formado equivalente, o qual só desperta a atenção do economista político, deformado pela visão burguesa, depois que essa forma surge, acabada, como dinheiro.” P. 63ss “ O corpo da mercadoria que serve de equivalente passa sempre por encarnação de trabalho humano abstrato e é sempre o produto de um determinado trabalho útil, concreto. Esse trabalho concreto torna-se, portanto, expressão de trabalho humano abstrato. Considera-se o casaco, por exemplo, simples corporificação de trabalho humano abstrato, e o trabalho do alfaiate, nele realmente aplicado, apenas a forma em que se realizou o trabalho humano abstrato. Na expressão de valor do linho, a utilidade do trabalho do alfaiate não consiste em que ele faça um casaco, hábitos ou até monges, mas em que produza um corpo que denota valor, massa de trabalho, portanto, que absolutamente não se distingue do trabalho objetivado no valor do linho. Para ser esse espelho de valor, o trabalho do alfaiate tem que refletir, apenas, a propriedade abstrata de ser trabalho humano.” P. 66 4. A forma simples do valor, em seu conjunto. “ A forma simples do valor em uma mercadoria se contém em sua relação de valor ou de troca com outra mercadoria diferente. (...) Percebe-se a primeira vista, a insuficiência da forma simples do valor, forma embrionária que atravessa uma série de metamorfoses para chegar à forma preço. (...) a forma simples do valor converte-se, por si mesma, numa forma mais completa. Na verdade, ela expressa o valor de uma mercadoria A apenas numa mercadoria de outra espécie. (...) A medida que estabelece relação de valor com esta ou aquela espécie de mercadoria, A adquire diversas expressões simples de valor.” P. 68ss b) forma total ou extensiva do valor z da merc. A = U da merc. B, ou = v da merc. C, 0u = w da merc. D, etc. 1. Forma extensiva do valor relativo. “ O valor de uma mercadoria, do linho, por ex., está agora expresso em inúmeros outros elementos do mundo das mercadorias. O corpo de qualquer outra mercadoria torna-se o espelho onde se reflete o valor do linho. Desse modo, esse valor, pela primeira vez, se revela efetivamente massa de trabalho humano homogêneo. (...) continua o mesmo o valor do linho, seja ele expresso em casaco, em café ou ferro etc., não importando o número das diferentes mercadorias nem o de seus donos. (...) Evidencia-se que não é a troca que regula a magnitude do valor da mercadoria, mas, ao contrário, é a magnitude do valor da mercadoria que regula as relações de troca.” P. 71s 2. A forma de equivalente particular “ Cada mercadoria, casaco, café, trigo, ferro etc., é considerada equivalente na expressão do valor do linho e, portanto, encarnação de valor. A forma natural de cada uma dessas mercadorias é uma forma de equivalente particular junto a muitas outras.” p. 72 c) Forma geral do valor “ A forma extensiva do valor só ocorre realmente quando um produto de trabalho, gado por exemplo, é trocado por outras mercadorias diferentes, não excepcionalmente, mas já em caráter habitual. (...) O valor de uma mercadoria só adquire expressão geral, porque todas as outras mercadorias exprimem seu valor através do mesmo equivalente, e toda nova espécie de mercadoria tem de fazer o mesmo. Evidencia-se, desse modo, que a realidade do valor das mercadorias só pode 6
  • 7.
    ser expressa pelatotalidade de suas relações sociais, pois essa realidade nada mais é que a “existência social” delas, tendo a forma do valor, portanto, de possuir validade social reconhecida.” P. 74s “ A forma de equivalente desenvolve-se em correspondência com o grau de progresso da forma relativa do valor. Mas, note-se, o desenvolvimento da primeira é apenas expressão e resultado do desenvolvimento da segunda.” P. 76 3. Transição da forma geral do valor para a forma dinheiro. “ A forma equivalente geral é, em suma, forma de valor. Pode, portanto, ocorrer a qualquer mercadoria. Por outro lado, uma mercadoria só assume forma equivalente geral (forma C) por estar e enquanto estiver destacada como equivalente por todas as outras mercadorias. É só a partir do momento em que esse destaque se limita, terminantemente, a uma determinada mercadoria, adquire a forma unitária do valor relativo do mundo das mercadorias consistência objetiva e validade social universal. Então, mercadoria determinada, com cuja forma natural se identifica socialmente a forma equivalente, torna-se mercadoria-dinheiro, funciona como dinheiro.” P. 77s “ A expressão simples e relativa do valor de uma mercadoria, por ex. o linho, através de uma mercadoria que já esteja exercendo a função de mercadoria-dinheiro, por exemplo, o ouro, é a forma preço. Daí a forma preço do linho: 20 metros de linho = 2 onças de ouro ou, se em linguagem monetária, 2 libras esterlinas for o nome de 2 onças de ouro, 20 m linho = 2 libras esterlinas.” P. 79 4. O fetichismo da mercadoria: seu segredo “ O caráter misterioso que o produto do trabalho apresenta ao assumir a forma de mercadoria, donde provém? Dessa própria forma, claro. A igualdade dos trabalhos humanos fica disfarçada sob a forma de igualdade dos produtos do trabalho como valores; a medida, por meio da duração, do dispêndio da força humana de trabalho toma a forma de quantidade de valor dos produtos do trabalho; finalmente, as relações entre os produtores, nas quais se afirma o caráter social dos seus trabalhos, assumem a forma de relação social entre os produtos do trabalho. A mercadoria é misteriosa simplesmente por encobrir as características sociais do próprio trabalho dos homens, apresentando- as como características materiais e propriedades sociais inerentes ao produto do trabalho.” P. 80s “ Esse fetichismo do mundo das mercadorias decorre conforme demonstra a análise precedente, do caráter social próprio do trabalho que produz mercadorias (...). Os trabalhos privados atuam como partes componentes do conjunto do trabalho social, apenas através das relações que a troca estabelece entre os produtos do trabalho e, por meio destes, entre os produtores. Por isso, para os últimos, as relações sociais entre seus trabalhos privados aparecem de acordo com o que realmente são, como relações materiais entre pessoas e relações sociais entre coisas, e não como relações sociais diretas entre indivíduos em seus trabalhos.” P. 81s “ As formas que convertem os produtos do trabalho em mercadorias, constituindo pressupostos da circulação das mercadorias, já possuem a consistência de formas naturais da vida social, antes de os homens se empenharem em apreender não o caráter histórico dessas formas, que eles, ao contrário, consideram imutáveis, mas seu significado. Assim, só a análise dos preços das mercadorias levava à determinação da magnitude do valor, só a expressão comum, em dinheiro, das mercadorias induzia a estabelecer-se sua condição de valor. É porém essa forma acabada do mundo das mercadorias, a forma dinheiro, que realmente dissimula o caráter social dos trabalhos privados e, em conseqüência, as relações sociais entre os produtores particulares, ao invés de pô-las em evidência. (...) Todo o 7
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    mistério do mundodas mercadorias, todo sortilégio e magia que enevoam os produtos do trabalho, ao assumirem estes a forma de mercadorias, desaparecem assim que examinamos outras formas de produção. (...) Para estudar o trabalho em comum, isto é, a associação direta de trabalho, não é mister recuar à forma comunitária que aparece naturalmente no limiar da história de todos os povos civilizados. Constitui um exemplo próximo a indústria patriarcal rural de uma família camponesa, que produz, para as próprias necessidades, trigo, gado, fio, tela de linho, peças de roupa etc.. Essas coisas diversas são, para a família, produtos diversos do seu trabalho, mas não se confrontam entre si como mercadorias. As diferentes espécies de trabalho que dão origem a esses produtos, lavoura, pecuária, fiação, tecelagem, costura, etc., são, na sua forma concreta, funções sociais, por serem funções da família que tem, como a produção de mercadorias, sua própria e espontânea divisão do trabalho. (...) as forças individuais de trabalho operam, naturalmente, como órgãos da força comum de trabalho da família e, por isso, o dispêndio das forças individuais de trabalho, medido pelo tempo de sua duração, manifesta-se, aqui, simplesmente, em trabalho socialmente determinados.” P. 84ss Capítulo II – O Processo de Troca “ Não é com seus pés que as mercadorias vão ao mercado, nem se trocam por decisão própria. Temos, portanto, de procurar seus responsáveis, seus donos. (...) Para relacionar essas coisas, umas com as outras, como mercadorias, tem seus responsáveis de comportar-se, reciprocamente, como pessoas cuja vontade reside nessas coisas, de modo que um só se aposse da mercadoria do outro, alienando a sua, mediante o consentimento do outro, através, portanto, de um ato voluntário comum. É mister, por isso, que reconheçam um no outro, a qualidade de proprietário privado. Essa relação de direito, que tem o contrato por forma, legalmente desenvolvida ou não, é uma relação de vontade, em que se reflete a relação econômica. O conteúdo da relação jurídica ou de vontade é dado pela própria relação econômica.” P. 94s “ O que distingue particularmente a mercadoria de seu possuidor é a circunstância de ela ver em qualquer outra apenas a forma de manifestar-se o próprio valor. (...) O proprietário, com os cinco ou mais sentidos, supre a percepção que a mercadoria não tem do conteúdo material da outra. Para ele, a mercadoria que possui não tem nenhum valor-de-uso direto. Do contrário, não a levaria ao mercado. Ela tem valor-de-uso para outros. Para ele só tem diretamente um valor-de-uso, o de ser depositária de valor e, assim, meio de troca. (...) As mercadorias tem de realizar-se como valores, antes de poderem realizar-se como valores-de-uso. Por outro lado, tem elas de evidenciar que são valores-de-uso antes de poderem realizar-se como valores, pois o trabalho nelas despendido só conta se foi empregado em forma útil para outros. Só através da troca se pode provar que o trabalho é útil aos outros, que seu produto satisfaz necessidades alheias.” P. 95s “ O desenvolvimento histórico da troca desdobra a oposição latente na natureza das mercadorias, entre valor-de-uso e valor. A necessidade, para o intercâmbio, de exteriorizar essa oposição exige forma independente para o valor da mercadoria e persiste até que, finalmente, é satisfeita com a duplicação da mercadoria em mercadoria e dinheiro.” P. 57 “ Um objeto útil só pode se tornar valor-de-troca, depois de existir como não-valor-de-uso e isto ocorre quando a quantidade do objeto útil ultrapassa as necessidades diretas do seu possuidor. (...) A troca de mercadorias começa nas fronteiras da comunidade produtiva, nos seus pontos de contato com outras comunidades ou com outros membros de outras comunidades. (...) A repetição constante da troca torna-a um processo social regular, por isso, com o tempo, passa-se a fazer, para a troca, intencionalmente, pelo menos uma parte dos produtos do trabalho. A partir desse momento, consolida-se a dissociação entre a utilidade das coisas destinadas à satisfação das necessidades e a das coisas destinadas à troca. Seu valor-de-uso dissocia-se do seu valor-de-troca.” P. 98 8
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    “ A medidaque a troca de mercadorias rompe os laços locais, e que se cristaliza cada vez mais trabalho humano em geral no valor das mercadorias, passa a forma dinheiro a localizar-se nas mercadorias que, por natureza, se prestam à função social de equivalente universal, os metais preciosos. (...) uma vez que é puramente quantitativa a diferença das magnitudes de valor, tem a mercadoria dinheiro de ser suscetível de variações meramente quantitativas, divisível, portanto, à vontade, podendo, ao mesmo tempo recompor-se. Ouro e prata, possuem, por natureza, essas propriedades.” P. 100 “ A dificuldade não reside em demonstrar que dinheiro é mercadoria, mas como, porque, através de que meios dinheiro é mercadoria. Conforme já vimos, na expressão mais simples do valor, x da merc. A = y da merc. B, a coisa(B), que representa a magnitude de valor da outra(A), parece possuir a forma de equivalente independentemente dessa relação, como propriedade social de sua natureza. (...) Ela se impôs, quando a forma de equivalente geral se fundiu com a forma corpórea de determinada espécie de mercadoria ou se cristalizou na forma dinheiro. Segundo essa aparência ilusória, uma mercadoria não se torna dinheiro somente porque todas as outras nela representam seu valor, mas, ao contrário, todas as demais nela expressam seus valores, porque ela é dinheiro. (...) As mercadorias, então, sem nada fazerem, encontram a figura do seu valor, pronta e acabada, no corpo de uma mercadoria existente fora delas e ao lado delas. Ouro e prata já saem das entranhas da terra como encarnação direta de todo trabalho humano. Daí a magia do dinheiro. (...) Esses fenômenos se manifestam na transformação geral dos produtos do trabalho em mercadorias, transformação que gera a mercadoria equivalente universal, o dinheiro. O enigma do fetiche dinheiro é, assim, nada mais do que o enigma do fetiche mercadoria em forma patente e deslumbrante.” P. 102ss Capítulo III – O Dinheiro ou a Circulação das Mercadorias 1. Medida dos valores “ Não é através do dinheiro que as mercadorias se tornam comensuráveis. Ao contrário. Sendo as mercadorias, como valores, encarnação de trabalho humano e, por isso, entre si comensuráveis, podem elas, em comum, medir seus valores, por intermédio da mesma mercadoria específica, transformando esta em sua medida universal do valor, ou seja, em dinheiro. O dinheiro, como medida do valor, é a forma necessária de manifestar-se a medida imanente do valor das mercadorias, o tempo de trabalho.” P. 106 “ Como forma do valor, o preço ou a forma do dinheiro das mercadorias se distingue da sua forma corpórea, real e tangível. O preço é uma forma puramente ideal ou mental. (...) Todo dono de mercadoria sabe que não transformou sua mercadoria em ouro, quando dá a seu valor a forma de preço ou a forma idealizada de ouro, e que não precisa de nenhuma quantidade de ouro real para estimar em ouro milhões de valores de mercadorias. (...) Embora apenas o dinheiro idealizado sirva para medir o valor, depende o preço, inteiramente da substância real do dinheiro. O valor, ou seja, a quantidade de trabalho humano, contida, por exemplo, numa tonelada de ferro, é expresso numa quantidade imaginária da mercadoria ouro, que encerra quantidade igual de trabalho. Conforme seja a medida do valor o ouro, a prata ou o cobre, o valor da tonelada de ferro é expresso por preços totalmente diversos, ou é representado por quantidades inteiramente diversas de ouro, prata ou cobre.” P. 107s “ O preço é a designação monetária do trabalho corporificado na mercadoria. (...) Mas, se o preço, ao revelar a magnitude do valor da mercadoria, revela a relação de troca da mercadoria com o dinheiro, não decorre daí necessariamente a reciproca de que o preço, ao revelar a relação de troca 9
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    da mercadoria como dinheiro, revele a magnitude do valor da mercadoria. (...) Com a transformação da magnitude do valor em preço, manifesta-se essa relação necessária através da relação de troca de uma mercadoria com a mercadoria dinheiro, de existência extrínseca à mercadoria com que se permuta. Nessa relação pode o preço expressar tanto a magnitude do valor da mercadoria quanto essa magnitude deformada para mais ou para menos, de acordo com as circunstâncias. A possibilidade de divergência quantitativa entre preço e magnitude de valor, é, assim inerente à própria forma preço. Isto não constitui um defeito dela, mas torna-a a forma adequada a um modo de produção, em que a regra só se pode impor através da média que se realiza, irresistivelmente, através de irregularidade aparente.” P. 114s 2. Meio de circulação “ Observando a metamorfose total de uma mercadoria, vemos, de início, que consiste em dois movimentos que se opõem e se completam, M-D, D-M. Ao transformar-se qualquer mercadoria, ambas as suas formas, a forma mercadoria e a forma dinheiro, aparecem simultâneas em pólos opostos, e seu possuidor, na função de vendedor e na de comprador, se confronta, respectivamente, com outro comprador e outro vendedor.” P. 124 “ Uma vez que a primeira fase da mercadoria é, ao mesmo tempo, venda e compra, esse processo, embora parcial, é autônomo. O comprador passa a ter a mercadoria, o vendedor, o dinheiro, isto é, uma mercadoria capaz de entrar em circulação a qualquer tempo. Ninguém pode vender, sem que alguém compre. Mas ninguém é obrigado a comprar imediatamente, apenas por ter vendido. (...) Em suas funções de intermediário da circulação das mercadorias, assume, o dinheiro o papel de meio de circulação.” P. 126s “ O resultado da circulação das mercadorias, a reposição de uma mercadoria por outra, toma a aparência de ter sido conseqüência não da mudança da forma das mercadorias, mas da função, desempenhada pelo dinheiro, de meio de circulação, que põe a circular as mercadorias inertes por natureza. (...) Embora o movimento do dinheiro não seja mais do que uma expressão da circulação das mercadorias, esta aparenta, ao contrário, ser apenas o resultado do movimento do dinheiro. Por outro lado, cabe ao dinheiro a função de meio de circulação apenas porque é o valor das mercadorias, como realidade independente. Por isso, seu movimento, ao desempenhar o papel de meio de circulação, é apenas o movimento das próprias mercadorias, ao mudarem suas formas.” P. 129 “ A forma de moeda assumida pelo dinheiro decorre de suas funções de meio de circulação. O peso do ouro idealizado no preço ou nome em dinheiro das mercadorias, tem de confrontá-las na circulação, objetivado em peças de ouro do mesmo nome, em moedas. (...) A moeda de ouro e o ouro em barras só se distinguem pela aparência, e o ouro pode apresentar-se sob uma ou outra dessas formas. Ao deixar de ser moeda, o destino do ouro é o cadinho. As moedas se desgastam no curso, umas mais, outras menos. Começa o processo de dissociação entre o título e a substância do ouro, entre o peso nominal e o peso real. Moedas de igual nome se tornam de valor diverso, por divergirem os respectivos pesos. O peso do ouro na serventia de meio de circulação difere do ouro considerado estalão de preços, cessando assim de ser o verdadeiro equivalente das mercadorias, cujos preços realiza. (...) O próprio curso do dinheiro, ao separar o peso real do peso nominal da moeda, a existência metálica desta de sua existência funcional, traz latente a possibilidade de o dinheiro metálico ser substituído, em sua função de moeda, por senhas feitas de outro material, por meros símbolos. O papel do dinheiro simbólico desempenhado pelas peças de prata e cobre, substituindo moedas de ouro, encontra sua explicação histórica nos obstáculos técnicos e cunhagem de frações ínfimas de ouro e de prata, e na circunstância de servirem primitivamente de medida do 10
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    valor de metaismenos nobres (a prata sucede ao cobre; o ouro à prata), os quais circulavam como dinheiro no momento em que foram destronados pelo metal mais nobre. Substituem o ouro nas faixas de circulação das mercadorias onde as moedas mudam de mãos mais rapidamente e, em conseqüência, se desgastam mais rapidamente, isto é, nas faixas onde compras e vendas em pequena escala se renovam sem cessar. (...) O peso das peças de prata e cobre é determinado arbitrariamente pela lei. No curso desgastam-se mais rapidamente que a moeda de ouro. A função monetária delas torna-se de fato totalmente independente do seu peso e, em conseqüência, de todo valor. A função de numerário do ouro se dissocia inteiramente de seu valor metálico. Coisas relativamente sem valor, pedaços de papel, podem substituí-lo no exercício da função de moeda. O caráter puramente simbólico está de algum modo dissimulado nas peças de dinheiro metálicas. Revela-se plenamente no dinheiro papel. (...) Aqui aludimos apenas ao papel-moeda, o dinheiro papel do Estado, com curso compulsório. Origina-se diretamente do curso metálico. O dinheiro de crédito pressupõe, ao contrário, condições que ainda nos são desconhecidas do ponto de vista da circulação simples das mercadorias. Mas observemos de passagem, se o verdadeiro dinheiro papel, o papel-moeda, nasce da função, exercida pelo dinheiro de meio de circulação, o dinheiro de crédito tem sua raiz natural na função do dinheiro, de meio de pagamento.” P. 138ss “ O papel-moeda é um símbolo que representa ouro ou dinheiro. O papel-moeda representa simbolicamente as mesmas quantidades de ouro em que se expressam idealmente os valores das mercadorias, e esta é a única relação existente entre ele e esses valores. O papel-moeda só é símbolo de valor por representar quantidade de ouro, a qual é quantidade de valor como todas as quantidades das outras mercadorias. Finalmente pergunta-se por que o ouro pode ser substituído por meros símbolos destituídos de valor. Conforme já vimos, só pode operar-se essa substituição enquanto exerce exclusivamente a função de moeda ou de meio de circulação. (...) É necessário unicamente que o símbolo do dinheiro tenha a validade social própria do dinheiro, e esta adquire-a o papel que o simboliza, através do curso forçado. A coerção do Estado vigora apenas na esfera interna da circulação, contida dentro das fronteiras de uma comunidade, e só nela desempenha o dinheiro plenamente sua função de meio de circulação e assim pode ter no papel-moeda pura existência funcional, exteriormente distinta de sua existência metálica.” P. 142s 3. O Dinheiro a) entesouramento “ Já nos primórdios do desenvolvimento da circulação das mercadorias desenvolvem-se a necessidade e a paixão de reter o produto da primeira metamorfose, a forma transfigurada da mercadoria (...). Vende-se a mercadoria não para comprar mercadoria, mas para substituir a forma mercadoria pela forma dinheiro. (...) O dinheiro petrifica-se em tesouro, o vendedor de mercadoria em entesourador.” P. 144 “ Para reter o ouro como dinheiro ou fator de entesouramento, é mister impedi-lo de circular ou de servir de meio de compra, quando se transforma em artigo de consumo. O entesourador sacrifica à idolatria do ouro os prazeres da carne. Esposa o evangelho da abstenção. Mas só pode tirar dinheiro da circulação o que lhe dá em mercadoria. Quanto mais produz mais pode vender. (...) Ao lado da forma direta, assume o entesouramento a forma estética de objetos de ouro e prata. Cresce com o enriquecimento da sociedade burguesa. (...) Forma-se um mercado cada vez mais amplo de ouro e prata, independente das funções de dinheiro desses metais, e, a seu lado, se constitui uma fonte latente de suprimento de dinheiro, a que se recorre notadamente em períodos de crise social.” P. 148 b) meio de pagamento 11
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    “ Com odesenvolvimento da circulação das mercadorias vão aparecendo as condições em que a alienação da mercadoria se separa, por um intervalo de tempo, da realização de seu preço. Basta indicar as mais simples dessas condições. Uma espécie de mercadoria exige para ser produzida um tempo mais longo que outra. (...)Um possuidor de mercadoria pode assim estar pronto para vender, antes que outro esteja pronto para comprar. Com a constante repetição das mesmas transações entre as mesmas pessoas, as condições de venda das mercadorias regulam-se pelas condições de produção. Outras vezes, o que se vende é o uso, por determinado espaço de tempo, de certas espécies de mercadorias, uma casa, por ex.. (...) Um vende mercadoria existente, outra compra como mero representante de dinheiro, ou de dinheiro futuro. O vendedor torna-se credor; o comprador, devedor. A metamorfose da mercadoria, ou o desenvolvimento da forma do valor, assume então novo aspecto, e em conseqüência o dinheiro adquire nova função. Ele se torna meio de pagamento.” P. 149s “ Os papéis de credor e devedor podem vir à cena independentes da circulação das mercadorias. A luta de classes do mundo antigo desenrola-se principalmente sob a forma de uma luta entre credor e devedor, e em Roma leva à ruína o devedor plebeu, convertido em escravo. Na Idade Média, a luta termina arruinando o devedor feudal, que perde o poder político com a base econômica.” P. 150 “ A função do dinheiro como meio de pagamento envolve uma contradição direta. Enquanto os pagamentos se compensam, serve apenas idealmente de dinheiro de conta ou de medida de valores. Quando tem de ser efetuados pagamentos reais, a função do dinheiro deixa de ser a de meio de circulação, de forma transitória e intermediária de intercâmbio das coisas materiais, para ser a de encarnar o trabalho social, (...)esta contradição manifesta-se na fase especial das crises industriais e comerciais, chamada de crise do dinheiro. Ela só ocorre onde se desenvolveram plenamente uma cadeia de pagamentos simultâneos e um sistema de liquidá-los por compensação. Havendo perturbações gerais no funcionamento desse mecanismo, seja qual for a origem delas, deixa o dinheiro súbita e diretamente a forma ideal, de conta, para virar dinheiro em espécie.” P.152 “ O dinheiro de crédito decorre diretamente da função do dinheiro como meio de pagamento, circulando certificados das dívidas relativas às mercadorias vendidas, com o fim de transferir a outros o direito de exigir o pagamento delas, à medida que se amplia o sistema de crédito, desenvolve-se a função de meio de pagamento exercida pelo dinheiro. Através dessa função, adquire formas próprias de existência no domínio das grandes transações, ficando as moedas de ouro e prata geralmente relegadas para o comércio a retalho.” P. 154 “ O desenvolvimento do dinheiro como meio de pagamento acarreta a necessidade de acumular dinheiro, para atender aos débitos nas datas de vencimento. O entesouramento, como forma autônoma de enriquecimento, desapareceu com o progresso da sociedade burguesa, mas, sob a forma de fundo de reserva de meios de pagamento, se expande com a sociedade.” P. 157 c) o dinheiro universal “ Para circular fora da esfera nacional, despe-se o dinheiro das formas locais nela desenvolvidas de estalão de preços, moeda, moeda divisionária e símbolo de valor, e volta a sua forma original de barra de metais preciosos. No comércio mundial, as mercadorias expressam seu valor universalmente. (...)O dinheiro mundial exerce a função de meio universal de pagamento, de meio universal de compra e encarnação social absoluta da riqueza (universal wealth). A função de meio de pagamento, para liquidar débitos internacionais, é a que predomina. Daí surgiu a teoria da balança comercial dos mercantilistas (“os mercantilistas viam no saldo favorável em ouro ou prata 12
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    da balança comerciala finalidade do comércio exterior”-nota 109). O ouro e a prata servem de meio internacional de compra principalmente quando é perturbado, de maneira brusca, o equilíbrio habitual do intercâmbio entre as diferentes nações. Finalmente, serve de encarnação social absoluta da riqueza, quando não se trata nem de comprar nem de pagar, mas de transferir a riqueza de um país para outro, não sendo possível transferi-la sob a forma de mercadoria por força da conjuntura do mercado ou em virtude do objetivo que se pretende atingir (“a forma dinheiro do valor pode ser absolutamente necessária nos casos, por exemplo, de subsídios, de empréstimos para a guerra ou para os bancos continuarem os pagamentos de seus bilhetes”-nota 110).” P. 157ss “ Os países onde a produção burguesa está bastante desenvolvida limitam as grandes reservas entesouradas e concentradas nos bancos ao mínimo exigido para o desempenho das funções específicas delas. Quase sempre a abundância exagerada das reservas entesouradas além do nível médio indica estancamento da circulação das mercadorias, interrupção do fluxo das suas metamorfoses.” P. 160s Parte Segunda – A TRANSFORMAÇÃO DO DINHEIRO EM CAPITAL Capítulo IV – Como o Dinheiro se Transforma em Capital 1. A Fórmula Geral do Capital “ A circulação das mercadorias é o ponto de partida do capital. A produção de mercadorias e o comércio, forma desenvolvida da circulação de mercadorias constituem as condições históricas que dão origem ao capital. O comércio e o mercado mundiais inauguram no século XVI a moderna história do capital. Se pomos de lado o conteúdo material da circulação das mercadorias, a troca dos diferentes valores-de-uso, para considerar apenas as formas econômicas engendradas por esse processo de circulação, encontraremos o dinheiro como produto final. Esse produto final da circulação das mercadorias é a primeira forma em que aparece o capital.” P. 165s “ Historicamente, em suas origens, é sob a forma de dinheiro que o capital se confronta com a propriedade imobiliária; como fortuna em dinheiro, capital do comerciante ou do usurário.” P. 166 “ O dinheiro que é apenas dinheiro se distingue do dinheiro que é capital, através da diferença na forma da circulação. A forma simples da circulação das mercadorias é M-D-M, conversão de mercadoria em dinheiro e reconversão de dinheiro em mercadorias, vender para comprar. Ao lado dela, encontramos uma segunda especificamente diversa, D-M-D, conversão de dinheiro em mercadoria e reconversão de mercadoria em dinheiro, comprar para vender. O dinheiro que se movimenta de acordo com esta última circulação transforma-se em capital, vira capital e, por sua destinação, é capital.” P. 166 “ O regresso do dinheiro a seu ponto de partida não depende de se vender a mercadoria mais cara do que foi comprada. Esta circunstância só influi na magnitude da soma de dinheiro que retorna. A volta propriamente se dá logo que se vende a mercadoria comprada, concluindo-se inteiramente o circuito D-M-D. Por aí transparece a diferença entre a circulação do dinheiro na função de capital e sua circulação como dinheiro apenas. O circuito M-D-M está plenamente percorrido, logo que o dinheiro obtido com a venda de uma mercadoria é absorvido pela compra de outra mercadoria. Só pode ocorrer o retorno do dinheiro ao ponto de partida, com a renovação ou repetição do processo por inteiro.” P. 168 13
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    “ O circuitoM-D-M tem por ponto de partida uma mercadoria e por ponto final outra mercadoria que sai da circulação e entra na esfera do consumo. Seu objetivo final, portanto, é consumo, satisfação de necessidades, em uma palavra, valor-de-uso. O circuito D-M-D, ao contrário, tem por ponto de partida o dinheiro e retorna ao mesmo ponto. Por isso, é o próprio valor-de-troca o motivo que o impulsiona, o objetivo que o determina.” P. 169 “ Na simples circulação de mercadorias tem ambos os extremos do circuito a mesma forma econômica. Ambos são mercadorias. Mas são valores-de-uso qualitativamente diversos(...). Ocorre de maneira diferente com a circulação D-M-D. À primeira vista parece vazia de conteúdo, por ser tautológica. Ambos os extremos tem a mesma forma econômica. Ambos são dinheiro, sem as diferenças qualitativas dos valores-de-uso(...)trocar 100 libras esterlinas por algodão e depois o mesmo algodão por 100 libras esterlinas, fazendo um rodeio para permutar dinheiro por dinheiro, uma coisa por si mesma, afigura-se uma operação sem finalidade e sem sentido. Uma soma de dinheiro só pode distinguir-se de outra soma de dinheiro por sua quantidade. (...)No final, se retira mais dinheiro da circulação, do que se lançou nela, no início. O algodão comprado a 100 libras esterlinas será vendido, por ex. a 100+10 libras(...). A forma completa desse processo é por isso D- M-D”, em que D”=D+deltaD(...). Esse acréscimo ou excedente sobre o valor primitivo chamo de mais valia (valor excedente). O valor originalmente antecipado não só se mantém na circulação, mas nela altera a própria magnitude, acrescenta uma mais valia, valoriza-se. E este movimento transforma-o em capital. (...)A circulação simples da mercadoria – vender para comprar – serve de meio a um fim situado fora da circulação, a apropriação de valores-de-uso, a satisfação de necessidades. A circulação de dinheiro como capital, ao contrário, tem sua finalidade em si mesma, pois a expansão do valor só existe nesse movimento continuamente renovado. Por isso, o movimento do capital não tem limites.” P. 169ss “ Como representante consciente desse movimento, o possuidor de dinheiro torna-se capitalista. Sua pessoa, ou melhor seu bolso é donde sai e para onde volta o dinheiro. O conteúdo objetivo da circulação em causa – a expansão do valor – é sua finalidade subjetiva. Enquanto a apropriação crescente da riqueza abstrata for o único motivo que determina suas operações, funcionará ele como capitalista, ou como capital personificado, dotado de vontade e consciência. Nunca se deve considerar o valor-de-uso objetivo imediato do capitalista. Tampouco o lucro isolado, mas o interminável processo de obter lucros. Esse impulso de enriquecimento absoluto, essa caça apaixonada ao valor é comum ao capitalista e ao entesourador, mas enquanto este é o capitalista enlouquecido, aquele é o entesourador racional. A expansão incessante de valor, por que luta o entesourador, procurando salvar, tirar dinheiro da circulação obtém na maneira mais sagaz o capitalista, lançando-o continuamente na circulação.” P. 172s “ Na realidade, portanto, D-M-D” é a fórmula geral do capital conforme ele aparece diretamente na circulação.” P. 175 2. Contradições da Fórmula Geral “ Consideremos o processo de circulação sob a forma de simples troca de mercadorias. É o que sucede quando ambos os possuidores de mercadorias compram um do outro e suas dívidas recíprocas em dinheiro se igualam e se cancelam no dia do pagamento. O dinheiro serve então de dinheiro de conta, (...)tratando-se de valores-de-uso, é claro que ambos os participantes podem ganhar. Ambos alienam mercadorias que lhes são inúteis, e recebem mercadorias de que precisam para seu uso. E pode haver ainda outro proveito. (A) que vende vinho e compra trigo produz talvez mais vinho do que poderia produzir o triticultor (B) no mesmo tempo de trabalho, e este mais trigo do que (A) poderia produzir no mesmo tempo de trabalho. (A) recebe, portanto, pelo mesmo valor- 14
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    de-troca mais trigoe (B) mais vinho, do que se cada um deles efetuasse a troca e tivesse de produzir, ao mesmo tempo, vinho e trigo.” P. 176 “ Se se trocam mercadorias ou mercadorias e dinheiro de igual valor-de-troca, se se permutam portanto equivalentes, não se tira da circulação mais do que nela se lança. Não ocorre nenhuma formação de valor excedente (mais valia). E, em sua forma pura, a circulação de mercadorias exige troca de equivalentes. Mas, na realidade as coisas não se passam com essa pureza. Suponhamos, portanto, a troca de não-equivalentes. (...)Admita-se que por força de algum privilégio inexplicável possa todo vendedor vender suas mercadorias acima do valor, a 110, quando vale 100, com um acréscimo no preço de 10%. O vendedor apossa-se assim de um valor excedente (mais valia) de 10. Mas depois de ser vendedor, torna-se comprador. (...) No fim tudo se resume a que todos os vendedores vendem reciprocamente um aos outros suas mercadorias com o valor aumentado de 10%, o que representa o mesmo que terem vendido suas mercadorias pelos seus valores. (...)Suponhamos, ao contrário, que seja privilégio de todo comprador, comprar a mercadoria abaixo do valor. Não é mister lembrar que o comprador se torna vendedor. Ele era vendedor, antes de virar comprador. Como vendedor já perdeu 10%, antes de ganhar 10% como comprador. Tudo fica como dantes. A formação da mais valia e, portanto, a transformação do dinheiro em capital, não pode, portanto, ser explicada, por vender o vendedor as mercadorias acima do valor, nem por comprá-las o comprador abaixo do valor.” P. 180s “ Os representantes conseqüentes da ilusão de que o valor excedente (mais valia) decorre de um acréscimo nominal de preço, ou do privilégio do vendedor, de vender caro a mercadoria, pressupõe, por isso, a existência de uma classe que apenas compra sem vender, e por conseguinte só consome sem produzir. Até o ponto em que chegamos em nossos estudos, o da circulação simples, a existência dessa classe ainda é inexplicável. Mas, antecipemo-nos. O dinheiro com que essa classe compra continuamente, deve chegar às suas mãos continuamente, sem troca, de graça, saindo dos bolsos dos possuidores de mercadorias, em virtude de um privilégio ou do direito de força. Vender mercadorias a essa classe acima do valor, significa apenas recuperar em parte, por meios fraudulentos, o dinheiro dado a ela gratuitamente. As cidades da Ásia Menor pagavam um tributo em dinheiro à antiga Roma. Com esse dinheiro Roma comprava delas mercadorias e comprava caro. Os asiáticos enganavam os romanos surrupiando-lhes uma parte dos tributos por meio do comércio. Mas, apesar disso, os logrados eram os asiáticos. Suas mercadorias eram pagas de qualquer modo com seu próprio dinheiro. Isto não é meio de enriquecimento ou de formação de um valor excedente (mais valia).” P. 182 “ Seja o que for que façamos, o resultado permanece o mesmo. Se se trocam equivalentes, não se produz valor excedente, (mais valia), e se se trocam não-equivalentes, também não surge nenhum valor excedente. A circulação ou a troca de mercadorias não cria nenhum valor.” P. 183 “ Mostrou-se que o valor excedente (mais valia) não pode originar-se na circulação e que, ao formar-se, algo tem de ocorrer fora dela e nela imperceptível. Mas pode o valor excedente ter sua origem fora da circulação? (...)Fora dela, o possuidor de mercadorias só mantém relações com sua própria mercadoria. (...)O possuidor de mercadoria pode com seu trabalho gerar valores, mas não valores que se dilatam. Pode aumentar o valor de uma mercadoria, acrescentando com novo trabalho novo valor existente, ao fazer, por exemplo, sapatos, utilizando couro. O mesmo material tem agora mais valor, por conter maior quantidade de trabalho. O sapato tem mais valor do que o couro, mas o valor do couro permanece o que era, não aumentou, não adquiriu valor excedente (mais valia) no período de fabricação do sapato. É portanto impossível que o produtor de mercadorias, fora da 15
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    esfera da circulação,sem entrar em contato com outros possuidores de mercadorias, consiga expandir um valor, transforme portanto dinheiro ou mercadoria em capital. Capital, portanto, nem pode originar-se na circulação nem fora da circulação. Deve, ao mesmo tempo, ter ou não ter nela sua origem. Chegamos assim a um duplo resultado. A transformação de dinheiro em capital tem de ser explicada à base das leis imanentes da troca de mercadorias, e desse modo a troca de equivalentes serve de ponto de partida. Nosso possuidor de dinheiro que, no momento prefigura o capitalista tem de comprar a mercadoria pelo seu valor, vendê-la pelo seu valor, e, apesar disso, colher no fim do processo mais valor do que nele lançou. Sua metamorfose em capitalista deve ocorrer dentro da esfera da circulação e, ao mesmo tempo, fora dela. Tais são as condições do problema. E é aí que está o busílis.” P. 185s 3. Compra e Venda de Força de Trabalho “ A mudança do valor do dinheiro que se pretende transformar em capital não pode ocorrer no próprio dinheiro. (...)Tampouco a mudança do valor decorre do segundo ato da circulação, da revenda da mercadoria, pois esse ato apenas reconverte a mercadoria da forma natural em forma dinheiro. A mudança tem portanto de ocorrer com a mercadoria comprada no primeiro ato D-M, mas não em seu valor, pois se se trocam equivalentes, as mercadorias são pagas pelo seu valor. A mudança só pode portanto originar-se de seu valor-de-uso como tal, de seu consumo. Para extrair valor do consumo de uma mercadoria nosso possuidor de dinheiro deve ter a felicidade de descobrir, dentro da esfera da circulação, no mercado, uma mercadoria cujo valor-de-uso possua a propriedade peculiar, de ser fonte de valor, de modo que consumi-la seja realmente encarnar trabalho, criar valor, portanto. E o possuidor de dinheiro encontra no mercado essa mercadoria especial: é a capacidade de trabalho ou a força de trabalho. Por força de trabalho ou capacidade de trabalho compreendemos o conjunto das faculdades físicas e mentais, existentes no corpo e na personalidade viva de um ser humano, as quais ele põe em ação toda a vez que produz valores-de-uso de qualquer espécie.” P. 187 “ A fim de o possuidor de dinheiro encontrar no mercado a força de trabalho como mercadoria, é mister que se preencham certas condições. Por si mesma, a troca de mercadorias não implica outras relações de dependência além daquelas que decorrem de sua própria natureza. Assim, a força de trabalho só pode aparecer como mercadoria no mercado, enquanto for e por ser oferecida ou vendida como mercadoria pelo seu próprio possuidor, pela pessoa da qual ela é a força de trabalho. A fim de que seu possuidor a venda como mercadoria, é mister que ela possa dispor dela, que seja proprietário livre de sua capacidade de trabalho, de sua pessoa. Ele e o possuidor do dinheiro encontram-se no mercado e entram em relação um com o outro como possuidores de mercadorias, (...). A continuidade dessa relação exige que o possuidor de força de trabalho venda-a sempre por tempo determinado, pois se a vende de uma vez por todas, vender-se-á a si mesmo, transforma-se-á de homem livre em escravo, de um vendedor de mercadoria em mercadoria. (...)Segunda condição essencial para o possuidor do dinheiro encontrar no mercado força de trabalho como mercadoria: o dono dessa força não pode vender mercadorias em que encarne seu trabalho, e é forçado a vender sua força de trabalho que só existe nele mesmo.” P. 187s “ Quem quiser vender mercadoria que não seja sua força de trabalho, tem de possuir meios de produção, como matérias-primas, instrumentos de produção etc.(...)Para transformar dinheiro em capital tem o possuidor do dinheiro de encontrar o trabalhador livre no mercado de mercadorias, (...). Não interessa ao possuidor do dinheiro saber porque o trabalhador livre se defronta com ele no mercado de trabalho, não passando o mercado de trabalho, para ele, de uma divisão especial do mercado de mercadorias. (...)Uma coisa entretanto está clara. A natureza não produz, de um lado, 16
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    possuidores de dinheiroou de mercadorias, e, de outro, meros possuidores das próprias forças de trabalho. Essa relação não tem sua origem na natureza, nem é mesmo uma relação social que fosse comum a todos os períodos históricos. Ela é evidentemente o resultado de um desenvolvimento histórico anterior, o produto de muitas revoluções econômicas, do desaparecimento de toda uma série de antigas formações da produção social.” P. 189 “ Só aparece o capital quando o possuidor de meios de produção e de subsistência encontra o trabalhador livre no mercado vendendo sua força de trabalho, e esta única condição histórica determina um período da história da humanidade. O capital anuncia, desde o início, uma nova época no processo de produção social.” P. 190 “ O valor da força de trabalho é determinado como o de qualquer outra mercadoria, pelo tempo de trabalho necessário a sua produção e, por conseqüência, a sua reprodução. Enquanto valor, a força de trabalho representa apenas determinada quantidade de trabalho social médio nela corporificado. Não é mais do que a aptidão do indivíduo vivo. A produção dela supõe a existência deste. Dada a existência do indivíduo, a produção da força de trabalho consiste em sua manutenção ou reprodução. Para manter-se precisa o indivíduo de certa soma de meios de subsistência. (...)o valor da força de trabalho é o valor dos meios de subsistência necessários à manutenção de seu possuidor. A força de trabalho só se torna realidade com seu exercício, só se põe em ação no trabalho. Através de sua ação, o trabalho, despende-se determinada quantidade de músculos, de nervos, de cérebro, etc., que se tem de renovar. Ao aumentar este dispêndio tornar-se-á necessário aumentar a remuneração. (...)A soma dos meios de subsistência deve ser, portanto, suficiente para mantê-lo no nível de vida normal do trabalhador. (...)a extensão das chamadas necessidades imprescindíveis e o modo de satisfazê-las são produtos históricos e dependem, por isso, de diversos fatores, em grande parte do grau de civilização de um país e, particularmente, das condições em que se formou a classe dos trabalhadores livres, com seus hábitos e exigências peculiares. Um elemento histórico e moral entra na determinação do valor da força de trabalho, o que a distingue das outras mercadorias. Mas, para um país determinado, num período determinado, é dada a quantidade média dos meios de subsistência necessários.” P. 191 “ O proprietário da força de trabalho é mortal. Se tem de aparecer continuamente no mercado, conforme pressupõe a contínua transformação de dinheiro em capital, o vendedor da força de trabalho tem de perpetuar-se(...). As forças de trabalho retiradas do mercado por desgaste ou por morte tem de ser incessantemente substituídas pelo menos por um número igual de novas forças de trabalho. A soma dos meios de subsistência necessários à produção da força de trabalho inclui também os meios de subsistência dos substitutos dos trabalhadores, os seus filhos, de modo que se perpetue no mercado essa raça peculiar de possuidores de mercadorias.” P. 192 “ O valor da força de trabalho reduz-se ao valor de uma soma determinada de meios de subsistência. Varia portanto com o valor desses meios de subsistência, ou seja, com a magnitude do tempo de trabalho exigido para sua produção. Uma parte dos meios de subsistência, como alimentos e combustível, são consumidos diariamente e tem de ser substituídos diariamente. Outros, como roupas e móveis, duram mais tempo e só tem de ser substituídos em intervalos mais longos. Segundo a espécie, compram-se ou pagam-se mercadorias diariamente, por semana, por trimestre, etc. Como quer que se distribua durante um ano, por ex., a soma dessas despesas, deve ela ser coberta pela receita média diária. (...)O limite último ou mínimo do valor da força de trabalho é determinado pelo valor da quantidade diária de mercadorias indispensável para que o portador da força de trabalho, o ser humano, possa continuar vivendo, ou seja, pelos meios de subsistência fisicamente imprescindíveis. Se o preço da força de trabalho baixa a esse mínimo, baixa também seu valor, e ela só pode vegetar e atrofiar-se. Mas o 17
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    valor de umamercadoria é determinado pelo tempo de trabalho requerido para que esta seja fornecida de acordo com sua qualidade normal.” P. 192s Parte Terceira – A PRODUÇÃO DA MAIS VALIA ABSOLUTA Capítulo V – Processo de Trabalho e Processo de Produzir Mais Valia 1. O processo de trabalho ou processo de produzir valores-de-uso “ (...)temos inicialmente de considerar o processo de trabalho à parte de qualquer estrutura social determinada. Antes de tudo o trabalho é um processo de que participam o homem e a natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação, impulsiona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza. (...)atuando assim sobre a natureza externa e modificando-a, ao mesmo tempo modifica sua própria natureza. (...)Não se trata aqui de formas instintivas, animais, de trabalho. Quando o trabalhador chega ao mercado para vender sua força de trabalho, é imensa a distância histórica que medeia entre sua condição e a do homem primitivo com sua forma ainda instintiva de trabalho. Pressupomos o trabalho sob a forma exclusivamente humana. (...)Os elementos componentes do processo de trabalho são: 1) a atividade adequada a um fim, isto é, o próprio trabalho; 2) a matéria a que se aplica o trabalho, o objeto de trabalho; 3) os meios de trabalho, o instrumental de trabalho. (...)Todas as coisas que o trabalho apenas separa de sua conexão imediata com seu meio natural constituem objeto de trabalho, fornecidos pela natureza. Assim, os peixes que se pescam, que são tirados de seu elemento, a água, a madeira derrubada da floresta virgem, o minério arrancado dos filões. Se o objeto de trabalho é, por assim dizer, filtrado através do trabalho anterior, chamamo-lo de matéria-prima. Por ex., o minério extraído depois de ser lavado. Toda matéria-prima é objeto de trabalho, mas nem todo objeto de trabalho é matéria-prima. O objeto de trabalho só é matéria-prima depois de ter experimentado modificação efetuada pelo trabalho. O meio de trabalho é uma coisa ou um complexo de coisas, que o trabalhador insere entre si mesmo e o objeto de trabalho e lhe serve para dirigir sua atividade sobre esse objeto. Ele utiliza as propriedades mecânicas, físicas, químicas das coisas, para fazê-las atuarem como forças sobre outras coisas.” P. 202s “ O processo de trabalho, ao atingir certo nível de desenvolvimento, exige meios de trabalho já elaborados. (...)O que distingue as diferentes épocas econômicas não é o que se faz, mas como, com que meios de trabalho se faz. Os meios de trabalho servem para medir o desenvolvimento da força de trabalho humana e além disso, indicam as condições sociais em que se realiza o trabalho. (...)além das coisas que permitem ao trabalho aplicar-se a seu objeto e servem de qualquer modo para conduzir a atividade, consideramos meios de trabalho em sentido lato todas as condições materiais seja como for necessárias à realização do processo de trabalho. Elas não participam diretamente do processo, mas este fica sem elas total ou parcialmente impossibilitado de concretizar-se. Nesse sentido, a terra é ainda um meio universal de trabalho, pois fornece o local ao trabalhador e proporciona ao processo que ela desenvolve o campo de operação. Pertencem a essa classe meios resultantes de trabalho anterior, tais como edifícios de fábricas, canais, estradas, etc.” p. 204s “Observando-se todo o processo do ponto de vista do resultado, do produto, evidencia-se que meio e objeto de trabalho são meios de produção e o trabalho é trabalho produtivo.” P. 205 18
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    “ Quando umvalor-de-uso sai do processo de trabalho como produto, participaram de sua feitura, como meios de produção, outros valores-de-uso, produtos de anteriores processos de trabalho,. Valor-de-uso que é produto de um trabalho, torna-se assim meio de produção de outro. Os produtos destinados a servir de meio de produção não são apenas resultado, mas também condição do processo de trabalho.” P. 205s “ A matéria-prima pode ser a substância principal de um produto, ou contribuir para sua constituição como material acessório. O meio de trabalho consome o material acessório: assim a máquina a vapor, o carvão; a roda, o óleo; o cavalo de tração, o feno. Ou o material acessório é adicionado à matéria-prima, para modificá-la materialmente: o cloro ao pano crú, o carvão ao ferro, a anilina à lã; ou facilita a execução do próprio trabalho: os materiais, por ex., utilizados para iluminar e aquecer o local de trabalho. A diferença entre substância principal e acessória desaparece na fabricação em que se processe uma transformação química, pois nesse caso nenhuma das matérias-primas empregadas reaparece como a substância do produto.” P. 206 “ O mesmo produto pode no processo de trabalho servir de meio de trabalho e de matéria-prima. Na engorda do gado, por ex., o boi é matéria-prima a ser elaborada e ao mesmo tempo instrumento de produção de adubo. Um produto que existe em forma final para consumo pode tornar-se matéria- prima. A uva, por ex., serve de matéria-prima para o vinho. Ou o trabalho dá ao produto formas que só permitem sua utilização como matéria-prima. Nesse caso, chama-se a matéria-prima de semi- produto, ou, melhor, de produto intermediário, como algodão, fios, linhas, etc. Embora já seja produto, a matéria-prima original tem de percorrer toda uma série de diferentes processos, funcionando em cada um deles com nova forma, como matéria-prima, até atingir o último processo, que faz dela produto acabado, pronto para consumo ou para ser utilizado como meio de trabalho.” P. 206s “ O trabalho gasta seus elementos materiais, seu objeto e seus meios, consome-os, é um processo de consumo. Trata-se de um consumo produtivo que se distingue do consumo individual: este gasta os produtos como meios de vida do indivíduo, enquanto aquele os consome como meios através dos quais funciona a força de trabalho posta em ação pelo indivíduo. O produto do consumidor individual é, portanto, o próprio consumidor, e o resultado do consumo produtivo um produto distinto do consumidor.” P. 208 “ O processo de trabalho, quando ocorre como processo de consumo da força de trabalho pelo capitalista, apresenta dois fenômenos característicos. O trabalhador trabalha sob o controle do capitalista, a quem pertence seu trabalho. O capitalista cuida em que o trabalho se realize de maneira apropriada e em que se apliquem adequadamente os meios de produção, não se desperdiçando matéria-prima e poupando-se o instrumental de trabalho, de modo que só se gaste deles o que for imprescindível à execução do trabalho. Além disso, o produto é propriedade do capitalista, não do produtor imediato, o trabalhador. O capitalista paga, por exemplo, o valor diário da força de trabalho. Sua utilização, como a de qualquer outra mercadoria, por ex., a de um cavalo que alugou por um dia, pertence-lhe durante o dia.” P. 209s 2. O processo de produzir mais valia “ Ao converter dinheiro em mercadorias que servem de elementos materiais de novo produto ou de fatores do processo de trabalho e ao incorporar a força de trabalho viva à materialidade morta desses elementos, transforma valor, trabalho pretérito, materializado, morto, em capital, em valor que se amplia, um monstro animado que começa a “trabalhar”, como se tivesse o diabo no corpo. Comparando o processo de produzir valor com o de produzir mais valia, veremos que o segundo só 19
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    difere do primeiropor se prolongar além de certo ponto. O processo de produzir valor simplesmente dura até o ponto em que o valor da força de trabalho pago pelo capital é substituído por um eqüivalente. Ultrapassando esse ponto, o processo de produzir valor torna-se processo de produzir mais valia (valor excedente).” P. 219s “ Se comparamos o processo de produzir valor com o processo de trabalho, verificaremos que este consiste no trabalho útil que produz valores-de-uso. A atividade neste processo é considerada qualitativamente, em sua espécie particular, segundo seu objetivo e conteúdo. Mas, quando se cogita da produção de valor, o mesmo processo de trabalho é considerado apenas sob o aspecto quantitativo.” P. 220 “ Mas, quando se mede o tempo de trabalho aplicado na produção de um valor-de-uso, só se considera o tempo de trabalho socialmente necessário. Isto envolve muitas coisas. A força de trabalho deve funcionar em condições normais. Se o instrumento de trabalho socialmente dominante na fiação é a máquina de fiar, não se deve por nas mãos do trabalhador uma roda de fiar. O trabalhador deve receber algodão de qualidade normal e não refugo que se parte a todo instante. Em ambos os casos gastaria ele mais do que o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um quilo de fio, e esse tempo excedente não geraria valor nem dinheiro. A normalidade dos fatores materiais do trabalho não depende do trabalhador, mas do capitalista. Outra condição é a normalidade da própria força de trabalho. Deve possuir o grau médio de habilidade, destreza e rapidez reinantes na especialidade em que se aplica. Mas, nosso capitalista comprou no mercado força de trabalho de qualidade normal. Essa força tem de ser gasta conforme a quantidade média de esforço estabelecida pelo costume, de acordo com o grau de intensidade socialmente usual. (...)Finalmente, e para isso tem ele seu código penal particular, não deve ocorrer nenhum consumo impróprio de matéria-prima e de instrumental, pois material ou instrumental desperdiçados significam quantidades superfluamente despendidas de trabalho materializado, não sendo portanto consideradas nem incluídas na produção de valor (citação pé-de-página: Esta é uma das circunstâncias que encarecem a produção baseada na escravatura. O trabalhador aí, segundo a expressão acertada dos antigos, se distingue do animal, instrumento capaz de articular sono, e do instrumento inanimado de trabalho, instrumento mudo, por ser instrumento dotado de linguagem. Mas, o trabalhador faz o animal e os instrumentos sentirem que ele não é seu semelhante, mas um ser humano. Cria para si mesmo a consciência dessa diferença, maltratando-os e destruindo-os passionalmente. Constitui por isso princípio econômico só empregar, na produção escravista, os instrumentos de trabalho mais rudes, mais grosseiros, difíceis de serem estragados em virtude de sua rusticidade primária.).” p. 220s “ Vemos que a diferença estabelecida, através da análise da mercadoria, entre o trabalho que produz valor-de-uso e o trabalho que produz valor se manifesta agora sob a forma de dois aspectos distintos do processo de produção. O processo de produção, quando unidade do processo de trabalho e do processo de produzir valor, é processo de produção de mercadorias; quando unidade do processo de trabalho e do processo de produzir mais valia, é processo capitalista de produção, forma capitalista da produção de mercadorias.” P. 222 “ Confrontando com o trabalho social médio, o trabalho que se considera superior, mais complexo, é dispêndio de força de trabalho formada com custos mais altos, que requer mais tempo para ser produzida, tendo, por isso, valor mais elevado que a força de trabalho simples. Quando o valor da F.T. (Força de Trabalho) é mais elevado, emprega-se ela em trabalho superior e materializa-se, no mesmo espaço de tempo, em valores proporcionalmente mais elevado.” P. 222 Capítulo VI – Capital Constante e Capital Variável 20
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    “ Os diversoselementos do processo de trabalho desempenham papéis diferentes na formação do valor dos produtos. Pondo-se de lado o conteúdo, a finalidade e a natureza técnica do trabalho, o trabalhador acrescenta ao material, ao objeto de trabalho novo valor por meio de acréscimo de determinada quantidade de trabalho. Além disso, os valores e os meios de produção consumidos reaparecem como partes componentes do valor do produto; (...)o valor dos meios de produção se conserva através de sua transferência ao produto. Ocorre essa transferência durante a transformação dos meios de produção em produto, no processo de trabalho.” P. 224 “ Valor, excetuando-se sua representação simbólica, só existe num valor-de-uso, numa coisa. (O próprio homem, visto como personificação da força de trabalho, é um objeto natural, uma coisa, embora uma coisa viva e consciente, e o próprio trabalho é a manifestação externa, objetiva dessa força). A perda do valor-de-uso implica na perda de valor. Os meios de produção não perdem valor simultaneamente com o valor-de-uso, porque, no processo de trabalho, só perdem realmente a figura original de seu valor-de-uso para adquirirem a figura de outro valor-de-uso no produto.” P. 228 “Os meios de produção só transferem valor à nova figura do produto na medida em que perdem valor na figura de seus valores-de-uso originais durante o processo de trabalho. O máximo de perda de valor que podem experimentar no processo de trabalho está evidentemente limitado pela magnitude do valor original com que entram no processo de trabalho, ou seja, pelo tempo de trabalho exigido para sua própria produção. (...)Seu valor não é determinado pelo processo de trabalho do qual sai como produto. No processo de trabalho em que entra serve apenas de valor-de- uso, de coisa com propriedades úteis e não transferirá nenhum valor ao produto se já não o possuir antes de entrar no processo.” P. 231 “Os meios de produção de um lado, e a força de trabalho, do outro, são apenas diferentes formas de existência, assumidas pelo valor original do capital ao despir-se da forma dinheiro e transformar-se nos fatores do processo de trabalho. A parte do capital, portanto, que se converte em meios de produção, isto é, em matérias-primas, materiais acessórios e meios de trabalho, não muda a magnitude do seu valor no processo de produção. Chamo-a por isso, parte constante do capital, ou simplesmente capital constante. A parte do capital convertida em força de trabalho, ao contrário, muda de valor no processo de produção. Reproduz o próprio equivalente e, além disso, proporciona um excedente, a mais valia, que pode variar, ser maior ou menor. Esta parte do capital transforma-se continuamente de magnitude constante em magnitude variável. Por isso, chamo-a de parte variável do capital, ou simplesmente capital variável. As mesmas partes do capital, que do ponto de vista do processo de trabalho, se distinguem em elementos objetivos e subjetivos, em meios de produção e força de trabalho, do ponto de vista do processo de produzir mais valia, se distinguem em capital constante e capital variável.” P. 235 “O conceito de capital constante não exclui nenhuma alteração de valor em suas partes componentes. (...)O valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho que contém, mas essa quantidade é socialmente determinada. Se muda o tempo de trabalho socialmente exigido para sua produção, verifica-se uma reação sobre a mercadoria antiga, que não passa de exemplar isolado de sua espécie, cujo valor sempre se mede pelo trabalho socialmente necessário, isto é, pelo trabalho necessário nas condições sociais presentes. Como o da matéria-prima, o valor dos meios de trabalho, da maquinaria, dos empregados no processo de produção, pode variar também e, em consequência, a porção de valor que transferem ao produto. Se, em virtude de uma invenção, se produz uma máquina da mesma espécie com menos dispêndio de trabalho, sofre a máquina antiga uma desvalorização e passa a transferir ao produto proporcionalmente menos valor. Mas também aqui a variação de valor se origina fora do processo 21
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    de produção emque a máquina serve de meio de produção. Nesse processo não transfere a máquina mais valor do que o que possui independentemente dele.” P. 235s Capítulo VII – A Taxa da Mais Valia 1. O grau de exploração da Força de Trabalho “O capital C decompõe-se em duas partes, uma soma em dinheiro c gasta com os meios de produção, e outra v despendida com a força de trabalho; c representa a parte do valor que se transforma em capital constante e a v a que se transforma em capital variável. Originalmente portanto C = c+v.” p. 237 “No fim do processo de produção surge a mercadoria, com o valor = (c+v)+m, representando m a mais valia.” P. 238 “A quantia 90 libras = m expressa aqui a magnitude absoluta da mais valia criada. Sua magnitude relativa, isto é, a proporção em que aumenta o valor do capital variável, é evidentemente determinada pela relação entre a mais valia e o capital variável, expressando-se pela fórmula m/v. No ex. acima ela é 90/90 = 100%. A esse aumento relativo do valor do capital variável ou a essa magnitude relativa da mais valia, chamo taxa da mais valia.” P. 241 “Na parte do dia de trabalho na qual gera o valor diário da força de trabalho, o trabalhador só cria o equivalente ao valor dela já pago pelo capitalista (nota – o autor usa aí a linguagem econômica corrente. Lembramos que à página 137 ficou demonstrado que, na realidade, não é o capitalista que faz adiantamento ao trabalhador, mas este ao capitalista. - F.E.) apenas substitui o valor desembolsado do capital variável pelo novo valor criado, e essa criação de valor é mera reprodução. Chamo de tempo de trabalho necessário essa parte do dia de trabalho na qual sucede essa reprodução; e de trabalho necessário o trabalho despendido durante esse tempo. Ambos são necessários ao trabalhador pois não dependem da forma social de seu trabalho, e necessários ao capital e ao seu mundo baseado na existência permanente do trabalhador. O segundo período do processo de trabalho, quando o trabalhador opera além dos limites do trabalho necessário, embora constitua trabalho, dispêndio da força de trabalho, não representa para ele nenhum valor. (...)A essa parte do dia de trabalho chamo tempo de trabalho excedente e ao trabalho nela despendido, trabalho excedente. Conceber o valor como simples solidificação do tempo de trabalho, apenas como trabalho objetivado, é tão essencial para seu conhecimento geral, quanto, para o da mais valia, ver nela simples solidificação do tempo de trabalho excedente, trabalho excedente objetivado. Só a forma em que se extrai do produtor imediato, do trabalhador, esse trabalho excedente distingue as diversas formações econômico-sociais, a sociedade da escravidão, por ex., da sociedade do trabalho assalariado.” P. 242s “(...)a taxa da mais valia m/v = trabalho excedente/trabalho necessário, ambas as proporções expressam a mesma relação de forma diferente, na forma de trabalho materializado, de um lado, e na forma de trabalho operante de outro. A taxa da mais valia é, por isso, a expressão precisa do grau de exploração da força de trabalho pelo capitalista. (nota da 2ª ed. A taxa da mais valia embora seja a expressão exata do grau de exploração da força de trabalho, não exprime, entretanto, a magnitude absoluta dessa exploração. Se o trabalho necessário = 5 horas e a mais valia = 5 horas, o grau de exploração será = 100%. Mediu-se com 5 horas a magnitude da exploração. Mas se o trabalho necessário = 6 horas e a mais valia = 6 horas, o grau de exploração continua a ser de 100%, enquanto a magnitude da exploração aumenta de 20%, de 5 para 6 horas.)” p. 243 22
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    “Chamamos produto excedentea parte do produto que representa a mais valia. Determina-se a taxa da mais valia não através da relação que existe entre ela e o capital variável; do mesmo modo a dimensão do produto excedente se determina não pela relação entre o produto excedente e o restante do produto total, mas pela que existe entre ele e a parte do produto que representa o trabalho necessário. De acordo com o objetivo dominante da produção capitalista de produzir mais valia, mede-se a riqueza não pela magnitude absoluta do produto, mas pela magnitude relativa do produto excedente. A magnitude absoluta do tempo de trabalho, o dia de trabalho, a jornada de trabalho, é constituída pela soma do trabalho necessário e do trabalho excedente, ou seja, do tempo em que o trabalhador reproduz o valor de sua força de trabalho e do tempo que produz a mais valia.” p. 259 Capítulo VIII – A Jornada de Trabalho “A jornada de trabalho não é uma grandeza constante, mas variável. Uma das suas partes é determinada pelo tempo de trabalho necessário à reprodução da força de trabalho do próprio trabalhador, mas sua magnitude total varia com a duração do trabalho excedente. A jornada de trabalho é portanto determinável, mas, considerada em si mesma é indeterminada.” P. 261s “Embora a jornada de trabalho não seja uma grandeza fixa, mas flutuante, só pode variar dentro de certos limites. É indeterminável, todavia, seu limite mínimo. (...)isto é, a parte da jornada em que o trabalhador tem necessariamente de trabalhar para viver. Mas, no modo de produção capitalista, o trabalho necessário só pode constituir uma parte da jornada de trabalho, e a jornada de trabalho, portanto, nunca pode reduzir-se a esse mínimo. Em compensação, possui a jornada de trabalho um limite máximo. Não pode ser prolongada além de certo ponto. Esse limite máximo é determinado duplamente. Há, primeiro, o limite físico da força de trabalho. (...)Durante uma parte do dia, o trabalhador deve descansar, dormir, durante outra tem de satisfazer necessidades físicas, alimentar- se, lavar-se, vestir-se, etc.. Além de encontrar esse limite físico, o prolongamento da jornada de trabalho esbarra em fronteiras morais. O trabalhador precisa de tempo para satisfazer necessidades espirituais e sociais cujo número e extensão são determinados pelo nível geral de civilização.” P. 262 “ Vemos que, abstraindo de limites extremamente elásticos, não resulta da natureza da troca de mercadorias nenhum limite à jornada de trabalho ou trabalho excedente. O capitalista afirma seu direito como comprador, quando procura prolongar o mais possível a jornada de trabalho e transformar, sempre que possível, um dia de trabalho em dois. Por outro lado, a natureza específica da mercadoria vendida impõe um limite ao consumo pelo comprador, e o trabalhador afirma seu direito, como vendedor, quando quer limitar a jornada de trabalho a determinada magnitude normal. Ocorre assim uma antinomia, direito contra direito, ambos baseados na lei da troca de mercadorias. Entre direitos iguais e opostos decide a força. Assim, a regulamentação da jornada de trabalho se apresenta, na história da produção capitalista, como luta pela limitação da jornada de trabalho. Um embate que se trava entre a classe capitalista e a classe trabalhadora.” P. 265 “Não foi o capital quem inventou o trabalho excedente. Toda vez que uma parte da sociedade possui o monopólio dos meios de produção, tem o trabalhador, livre ou não, de acrescentar ao tempo de trabalho necessário à sua própria manutenção um tempo de trabalho excedente destinados a produzir os meios de subsistência para o proprietário dos meios de produção.” P. 265 “Os meios de produção, o capital constante, só existem, do ponto de vista da criação da mais valia, para absorver trabalho e com cada gota de trabalho uma porção proporcional de trabalho excedente. Se não realizam isto, sua mera existência constitui pura perda para o capitalista, pois durante o 23
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    tempo em queestão parados representam adiantamento inútil de capital. Essa perda se traduz também em despesas quando, em virtude dessa parada, se tornam necessários gastos adicionais para a retomada de atividade. O prolongamento do trabalho além dos limites diurnos naturais, pela noite adentro, serve apenas de paliativo para apaziguar a sede vampiresca do capital pelo sangue vivificante do trabalho. O impulso imanente da produção capitalista é apropriar-se do trabalho durante todas as 24 horas do dia. Sendo fisicamente impossível, entretanto, explorar dia e noite sem parar, a mesma força de trabalho, é necessário, para superar esse obstáculo físico, revezar as forças de trabalho a serem empregadas nos períodos diurno e noturno.” P. 290s “A produção capitalista, que essencialmente é produção de mais valia, absorção de trabalho excedente, ao prolongar o dia de trabalho, não causa apenas a atrofia da força humana de trabalho, à qual rouba suas condições normais, morais e físicas de atividade e desenvolvimento. Ela ocasiona o esgotamento prematuro e a morte da própria força de trabalho. Aumenta o tempo de produção do trabalhador num período determinado, encurtando a duração da sua vida.” P. 301 “O valor da força de trabalho compreende o valor das mercadorias necessárias para reproduzir o trabalhador ou seja para perpetuar a classe trabalhadora. Se o prolongamento da jornada contra as leis naturais (o qual o capital necessariamente quer conseguir em seu impulso desmedido para expandir seu valor) encurta a vida do trabalhador e com isso a duração da força de trabalho, torna-se então necessária a mais rápida substituição dos elementos desgastados. Aumentam os custos de desgaste na reprodução da força de trabalho. O mesmo ocorre com uma máquina: quanto mais rápida ela se desgasta, tanto maior a proporção de valor a ser reproduzida diariamente. O interesse do próprio capital parece indicar a conveniência da jornada normal de trabalho.” P. 301s “A experiência mostra geralmente ao capitalista que existe uma população excedente, excedente em relação às necessidades momentâneas do capital em expandir valor. Essa superpopulação, entretanto, se compõe de gerações humanas atrofiadas, de vida curta, revezando-se rapidamente, por assim dizer prematuramente colhidas. (...)O capital que tem tão “boas razões” para negar os sofrimentos da geração de trabalhadores que o circundam, não se deixa influenciar, em sua ação prática, pela perspectiva de degenerescência futura da humanidade e do irresistível despovoamento final. (...)A queixa sobre a degradação física e mental, morte prematura, suplício do trabalhador levado até a completa exaustão responde: Por que nos atormentarmos com esses sofrimentos, se aumentam nosso lucro? De modo geral isto não depende, entretanto, de boa ou má vontade de cada capitalista. A livre competição torna as leis imanentes da produção capitalista leis externas, compulsórias para cada capitalista individualmente considerado.” P. 305ss Capítulo IX – Taxa e Massa de Mais Valia “Neste capítulo continuaremos supondo que o valor da força de trabalho e consequentemente a parte do dia de trabalho necessária para reproduzir ou manter a força de trabalho são magnitudes determinadas, constantes. Desse modo, basta conhecer a taxa da mais valia para se saber a quantidade dela que o trabalhador individual fornece ao capitalista em determinado período. Se por exemplo, o trabalho necessário é de 6 horas por dia, expressando-se em uma quantidade de ouro de 3 xelins = 1 taler, constitui o táler o valor diário de uma força de trabalho ou o valor do capital adiantado para a compra de uma força de trabalho. E se a taxa de mais valia for de 100%, esse capital variável de 1 táler produz uma massa de mais valia de 1 táler, ou o trabalhador fornece diariamente uma quantidade de trabalho excedente de 6 horas. Mas, o capital variável é a expressão monetária do valor global de todas as forças de trabalho simultaneamente empregadas pelo capitalista. Seu valor é, portanto, igual ao valor médio de uma força de trabalho, multiplicado pelo número das forças de trabalho empregadas. (...)Se o valor diário de uma força de trabalho = 1 táler, 24
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    para se explorar100 forças de trabalho é necessário adiantar 100 táleres, e n forças de trabalho n táleres.” p. 346s “A massa de mais valia produzida é portanto igual à mais valia fornecida pelo dia de trabalho do trabalhador individual, multiplicada pelo número dos trabalhadores empregados. Mas, uma vez que a taxa da mais valia determina a quantidade de mais valia fornecida pelo trabalhador individual, se for dado o valor da força de trabalho, segue-se daí a primeira lei: a massa de mais valia produzida é igual à magnitude do capital variável antecipado, multiplicada pela taxa da mais valia, ou é igual ao valor de uma força de trabalho, multiplicado pelo grau de sua exploração e pelo número das forças de trabalho simultaneamente exploradas.” p. 347 “Do exame feito até agora sobre a produção da mais valia infere-se que não é qualquer quantidade arbitrária de dinheiro ou de valor que se pode transformar em capital. Para essa transformação pressupõe-se necessariamente certo mínimo de dinheiro ou de mercadorias. A quantidade mínima de capital variável é o preço de custo de uma força individual de trabalho empregada durante o ano inteiro, dia a dia, para produzir mais valia. (...)Certo estágio de desenvolvimento da produção capitalista exige que o capitalista possa consagrar à apropriação, ao controle do trabalho alheio e à venda dos produtos desse trabalho todo o tempo durante o qual funciona como capital personificado. As corporações da Idade Média procuraram impedir coercivamente a transformação do mestre artesão em capitalista, limitando a um mínimo o número máximo de trabalhadores que cada mestre podia empregar. O possuidor de dinheiro ou de mercadorias só se transforma realmente em capitalista quando a soma mínima adiantada para a produção ultrapassa de muito esse limite medieval. (...)O montante mínimo de valor de que tem de dispor um possuidor de dinheiro ou de mercadorias, para virar capitalista muda de acordo com os diferentes estágios da produção capitalista e, em determinado estágio de desenvolvimento, difere nos diferentes ramos de produção, segundo as condições técnicas de cada um. Certos ramos já exigem nas primeiras fases de produção capitalista um mínimo de capital que não se encontra em mãos de indivíduos isolados. Isto faz surgirem os subsídios oficiais a particulares, (...), e as sociedades com monopólio legal para explorar determinados ramos industriais e comerciais, as precursoras das modernas sociedades por ações.” p. 352s “Dentro do processo de produção conquistou o capital o comando sobre o trabalho, sobre a força de trabalho em funcionamento ou seja, sobre o próprio trabalhador. O capital personificado, o capitalista, cuida de que o trabalhador realize sua tarefa com esmero e com o grau adequado de intensidade. O capital transforma-se, além disso, numa relação coercitiva, que força a classe trabalhadora a trabalhar mais do que exige o círculo limitado das próprias necessidades. E como produtor da laboriosidade alheia, sugador de trabalho excedente e explorador da força de trabalho, o capital ultrapassa em energia, em descomedimento e eficácia todos os sistemas de produção anteriores fundamentados sobre o trabalho compulsório direto. De início, o capital submete o trabalho ao domínio nas condições técnicas em que o encontra históricamente. Não modifica imediatamente o modo de produção. A produção da mais valia, na forma estudada até agora, por meio de simples prolongamento do dia de trabalho, ocorreu, por isso, independente de qualquer modificação no processo de produção” p. 354 “Se observarmos o processo de produção do ponto de vista do processo de trabalho, veremos que, para o trabalhador, os meios de produção não são capital mas simples meios e materiais de sua atividade adequada a um fim. (...)A situação muda de aspecto, quando observamos o processo de produção do ponto de vista do processo de criar valor. Os meios de produção se transformam imediatamente em meios de absorção de trabalho alheio. Não é mais o trabalhador que emprega os meios de produção, mas os meios de produção que empregam o trabalhador.” p. 354s 25
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    Parte Quarta –A PRODUÇÃO DA MAIS VALIA RELATIVA Capítulo X – Conceito de Mais Valia Relativa “A parte do dia de trabalho que apenas produz um equivalente do valor que o capital paga pela força de trabalho foi considerada, até agora, magnitude constante, o que ela realmente é em condições de produção dadas, num determinado estágio de desenvolvimento econômico da sociedade. O trabalhador podia continuar trabalhando 2, 3, 4, 6 e mais horas além desse tempo de trabalho necessário. Nessas condições, a taxa da mais valia e a extensão da jornada de trabalho dependem da duração desse prolongamento. Se o tempo de trabalho necessário era constante, o dia total de trabalho era variável. Suponhamos agora uma jornada de trabalho cuja extensão e cuja repartição em trabalho necessário e trabalho excedente sejam dadas. A linha a c, ou seja, a-b-c, representa, por exemplo, um dia de trabalho de 12 horas, o segmento ab 10 horas de trabalho necessário e o segmento bc 2 horas de trabalho excedente. Como aumentar a produção da mais valia, isto é, como prolongar o trabalho excedente, sem prolongar ac ou independentemente de qualquer prolongamento de ac?. (...)À prolongação do trabalho excedente corresponderá a redução do trabalho necessário, ou parte do tempo de trabalho que o trabalhador até agora utilizava realmente em seu benefício transforma-se em tempo de trabalho para o capitalista. O que muda não é a duração da jornada de trabalho, mas seu modo de repartir-se em trabalho necessário e trabalho excedente.” p. 359s “O valor da força de trabalho, isto é, o tempo de trabalho necessário para a produção dessa força, determina o tempo de trabalho necessário para reproduzir o valor dela. Se uma hora de trabalho está representada numa quantidade de ouro de meio xelim ou de 6 pence e se o valor diário da força de trabalho é de 5 xelins, terá o trabalhador de trabalhar 10 horas por dia para repor o valor diário pago pelo capital à sua F.T. ou para reproduzir um equivalente dos meios de subsistência necessários a sua manutenção quotidiana. Como valor desses meios de subsistência necessários a sua manutenção quotidiana. Como valor desses meios de subsistência se tem o valor de sua F.T. e dado o valor de sua F.T. se tem a duração média diária do trabalho necessário. (...)Na verdade, o capitalista pode pagar 4 xelins e 6 pence em lugar de 5 xelins ou mesmo menos. Para reproduzir esse valor de 4 xelins e 6 pence bastariam 9 horas de trabalho, aumentando o trabalho excedente(...). Mas esse resultado só seria obtido rebaixando o salário do trabalhador aquém do valor de sua F.T.. (...)e assim reproduzir-se-á de forma atrofiada sua F.T.. O trabalho excedente estaria aí prolongado com a violação de seus limites normais, usurpando parte do tempo de trabalho necessário. Apesar do importante papel que esse método desempenha no movimento real dos salários, ele não é aqui objeto de consideração em virtude do pressuposto de as mercadorias serem vendidas e compradas pelo seu valor integral, inclusive, portanto, a F.T.. Pressupondo-se isto, o tempo de trabalho necessário para produzir a F.T. ou reproduzir seu valor não pode decrescer por cair o salário abaixo do valor da F.T., mas por cair esse valor.” p. 360s “Em nosso exemplo, o valor da F.T. deve diminuir realmente de 1/10, a fim de que o tempo de trabalho necessário se reduza de 1/10, de 10 para 9 horas, prolongando-se assim o trabalho excedente de 2 para 3 horas. Essa diminuição de 1/10 no valor da F.T. determina que se produza em 9 horas a mesma quantidade de meios de subsistência que antes se produzia em 10. Isto porém é impossível sem aumentar a produtividade do trabalho. (...)Entendemos aqui por elevação da produtividade do trabalho em geral uma modificação no processo de trabalho por meio da qual se encurta o tempo de trabalho socialmente necessário para produção de uma mercadoria, conseguindo- se produzir com a mesma quantidade de trabalho quantidade maior de valor-de-uso. Supôs-se o modo de produção invariável no estudo da forma até agora considerada de mais valia. Mas quando se trata de produzir mais valia tornando-se excedente trabalho necessário, não basta que o capital se 26
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    aposse do processode trabalho na situação em que se encontra ou que lhe foi históricamente transmitida, limitando-se a prolongar sua duração. É mister que se transformem as condições técnicas e sociais do processo de trabalho, que muda o próprio modo de produção, a fim de aumentar a força produtiva do trabalho. Só assim pode cair o valor da F.T. e reduzir-se a parte do dia de trabalho necessária para reproduzir esse valor.” p. 361s “Chamo de mais valia absoluta a produzida pelo prolongamento do dia de trabalho, e de mais valia relativa a decorrente da contração do tempo de trabalho necessário e da correspondente alteração na relação quantitativa entre ambas as partes componentes da jornada de trabalho. Para diminuir o valor da F.T., tem o aumento da produtividade de atingir ramos industriais cujos produtos determinam o valor da F.T., pertencendo ao conjunto dos meios de subsistência costumeiros ou podendo substituir esses meios.” p. 363 “O valor de uma mercadoria não é determinado apenas pela quantidade de trabalho que lhe dá a última forma, mas também pela quantidade de trabalho contida em seus meios de produção. O valor de uma bota, por ex., não é determinado apenas pelo trabalho do sapateiro mas também pelo valor do couro, da cêra, dos fios, etc.. Fazem cair também o valor da F.T. a elevação da produtividade e o correspondente barateamento dos produtos nas indústrias que fornecem os elementos materiais do capital constante, o instrumental e o material de trabalho, para produzir as mercadorias necessárias ao trabalhador. Mas, em nada altera o valor da F.T. o aumento da produtividade nos ramos de atividade que não fornecem nem esses meios de subsistência nem os meios de produção para produzi-los.” p... 363 “A mercadoria que barateia diminui naturalmente o valor da F.T. apenas na proporção em que participa na reprodução da F.T.. Camisas, por ex., constituem apenas uma entre muitas coisas necessárias. A queda de seu preço só diminui a despesa do trabalhador em camisas. A totalidade das coisas necessárias à vida compõe-se de diferentes mercadorias, oriundas de indústrias diferentes e o valor de cada uma dessas mercadorias é uma parte alíquota de valor da F.T. (...)Se um capitalista, individualmente barateia camisas, elevando a força produtiva do trabalho, não tem ele necessariamente em mira reduzir em determinada percentagem o valor da F.T. e consequentemente o tempo de trabalho necessário, mas na medida em que, por fim, contribui para esse resultado, concorre para elevar a taxa geral da mais valia. As tendências gerais e necessárias do capital devem ser distinguidas de suas formas de manifestação.” p. 363s “Não examinaremos agora o modo como as leis imanentes da produção capitalista se manifestam no movimento dos capitais particulares, como se impõem coercivamente na concorrência e surgem na consciência de cada capitalista sob a forma de motivos que o impelem à ação. Mas, desde já, está claro: a análise científica da concorrência é possível depois de se compreender a natureza íntima do capital. (...)Não obstante, para tornar compreensível a produção da mais valia relativa passaremos a fazer algumas considerações tomando por base os resultados a que chegamos até agora. Se uma hora de trabalho está representada numa quantidade de ouro de 6 pence ou ½ xelim, numa jornada de trabalho de 12 horas se produzirá um valor de 6 xelins. Admita-se que se produzam, com determinada força produtiva de trabalho, doze artigos nessas 12 horas de trabalho; (...)suponha que o capitalista consiga duplicar a força produtiva do trabalho produzindo 24 artigos da mesma espécie, em vez de 12, na jornada de trabalho de 12 horas. (...)Apesar da força produtiva duplicada, um dia de trabalho cria agora como antes um valor novo de 6 xelins, que todavia se reparte sobre o dobro do número anterior de artigos. (...)O valor individual de cada uma dessas mercadorias fica então abaixo de seu valor social, isto é, custa menos tempo de trabalho do que o imenso volume dos mesmos artigos produzidos nas condições sociais médias. (...)O verdadeiro valor de uma 27
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    mercadoria, porém, nãoé o valor individual e sim social; (...)Se o capitalista que emprega o novo método vende a mercadoria pelo valor social de 1 xelim, venda-la-á 3 pence acima de seu valor individual e realizará assim uma mais valia extra de 3 pences. Além disso o dia de trabalho de 12 horas significa agora para ele 24 artigos e não 12. Para vender, portanto, o produto de um dia de trabalho, precisa ele de duplicar as vendas ou de um mercado duas vezes maior. Não se alterando as circunstâncias, suas mercadorias só conquistarão maior área do mercado, através da contração dos preços. Por isso vendê-las-á acima do seu valor individual, mas abaixo do seu valor social, (...)obtém ele ainda em cada artigo uma mais valia extra(...). Essa elevação da mais valia se verifica para ele, pertença ou não sua mercadoria ao conjunto dos meios de subsistência necessários ao trabalhador, seja ou não elemento determinante do valor da F.T.. Independentemente dessas circunstâncias, existe, portanto, para cada capitalista motivo para baratear a mercadoria aumentando a produtividade do trabalho. (...)O capitalista que emprega o modo de produção aperfeiçoado, apropria-se assim de parte do dia de trabalho, constituída de trabalho excedente, maior do que aquela de que se apropriam os demais capitalistas do mesmo ramo. Ele faz individualmente o que o conjunto dos capitalistas fazem coletivamente, ao produzirem a mais valia relativa. Mas essa mais valia extra se desvanece quando se generaliza o novo modo de produção, desaparecendo assim a diferença entre o valor individual das mercadorias que eram produzidas mais baratas e seu valor social. A mesma lei que determina o valor pelo tempo de trabalho e que leva o capitalista que aplica o novo método a vender sua mercadoria abaixo do valor social impele seus competidores, coagidos pela concorrência, a adotar o novo modo de produção. A taxa geral de mais valia só experimenta alteração relacionada com o processo por inteiro quando a elevação da produtividade do trabalho atinge ramos de produção, baixando preços de mercadorias que fazem parte do conjunto dos meios de subsistência que constituem elementos do valor da F.T.” p. 364ss “O valor das mercadorias varia na razão inversa da produtividade do trabalho. Comporta-se do mesmo modo o valor da força de trabalho, por ser determinado pelos valores das mercadorias. Em contraposição, a mais valia relativa varia na razão direta da produtividade do trabalho. (...)Por isso, é impulso imanente e tendência constante do capital elevar a força produtiva do trabalho para baratear a mercadoria e, como conseqüência , o próprio trabalhador.”p.367 “O valor absoluto da mercadoria não interessa, por si mesmo, ao capitalista que a produz. Só lhe interessa a mais valia nela inserida e realizável através da venda. A realização da mais valia já pressupõe a reposição do capital adiantado. Uma vez que a mais valia relativa cresce na razão direta do desenvolvimento da produtividade do trabalho e que o valor das mercadorias varia na razão inversa desse desenvolvimento, uma vez que o mesmíssimo processo barateia as mercadorias e eleva a mais valia nela contida, fica solucionado o mistério de o capitalista, preocupado apenas em produzir valor-de-troca, esforça-se continuamente para baixar o valor-de-troca das mercadorias .” p.368 “Poupança do trabalho por meio do desenvolvimento da produtividade do trabalho não tem como fim atingir, na produção capitalista, a redução da jornada de trabalho. Seu objetivo é apenas reduzir o tempo de trabalho requerido para produzir determinada quantidade de mercadoria. (...)O desenvolvimento da produtividade do trabalho na produção capitalista tem por objetivo reduzir a parte do dia de trabalho durante a qual o trabalhador tem de trabalhar para si mesmo, justamente para ampliar a outra parte durante a qual pode trabalhar gratuitamente para o capitalista.” P.368s Capítulo XI - Cooperação 28
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    “ (...) ,a produção capitalista só começa realmente quando um mesmo capital particular ocupa , de uma só vez , número considerável de trabalhadores , quando o processo de trabalho amplia sua escala e fornece produtos em maior quantidade. A atuação simultânea de grande número de trabalhadores, no mesmo local, ou, se se quiser, no mesmo campo de atividade, para produzir a mesma espécie de mercadoria sob o comando do mesmo capitalista constitui, histórica e logicamente, o ponto de partida da produção capitalista. Nos seus começos, a manufatura quase não se distingue, do ponto de vista do modo de produção, do artesanato das corporações, a não ser através do número maior de trabalhadores simultaneamente ocupados pelo mesmo capital. Amplia- se apenas a oficina do mestre artesão. De início a diferença é puramente quantitativa. (...) Contudo, dentro de certos limites, ocorre uma modificação. O trabalho que se objetiva em valor é trabalho de qualidade social média, exteriorização de F.T. média. (...)A lei da produção do valor só se realiza plenamente para o produtor individual quando produz como capitalista, empregando, ao mesmo tempo, muitos trabalhadores, pondo em movimento, desde o começo, trabalho social médio. Mesmo não se alterando o método de trabalho, o emprego simultâneo de grande número de trabalhadores opera uma revolução nas condições materiais do processo de trabalho. Construções onde muitos trabalham, depósitos para matéria-prima etc., recipientes, instrumentos, aparelhos etc. que servem a muitos simultânea ou alternadamente, em suma, uma parte dos meios de produção é agora utilizada em comum no processo de trabalho. O valor-de-troca das mercadorias e portanto dos meios de produção não aumenta em virtude de maior exploração de seu valor-de-uso. Aumenta a escala dos meios de produção utilizados em comum. Um local onde trabalham 20 tecelões com 20 teares deve ser bem maior do que o local ocupado por um tecelão independente com 2 companheiros. Mas custa menos trabalho construir uma oficina para 20 pessoas do que 10 oficinas, cada uma com capacidade para 2 pessoas, e assim o valor dos meios de produção concentrados para uso em comum e em larga escala não cresce na proporção em que aumenta seu tamanho e seu efeito útil. Meios de produção utilizados em comum cedem porção menor de valor a cada produto isolado; (...). Essa economia no emprego dos meios de produção esparsos e relativamente custosos de trabalhadores autônomos isolados ou de pequenos patrões, mesmo quando os numerosos trabalhadores reunidos não se ajudam reciprocamente, mas apenas trabalham no mesmo local. Uma parte do instrumental ou dos meios de trabalho adquire esse caráter social antes que o processo de trabalho o conquiste.” P.370ss “A economia dos meios de produção tem de ser considerada sob dois aspectos. Primeiro, barateia as mercadorias, reduzindo desse modo o valor da F.T.. Segundo, altera a relação entre mais valia e capital total adiantado, isto é, a soma de suas partes constante e variável. Esse último ponto será examinado na parte primeira do livro terceiro desta obra , onde trataremos de vários outros assuntos conexos. A marcha da análise exige essa dissociação da matéria , que corresponde ao espírito da produção capitalista . Nesta, as condições de trabalho aparecem como se fossem independentes do trabalhador; por isso, sua economia se apresenta como uma operação particular que em nada interessa ao trabalhador e portanto distinta dos métodos que elevam sua produtividade pessoal.” P. 374 “Chama-se cooperação a forma de trabalho em que muitos trabalham juntos, de acordo com um plano, no mesmo processo de produção ou em processos de produção diferentes mas conexos. O poder de ataque de um esquadrão de cavalaria ou o poder de resistência de um regimento de infantaria difere essencialmente da soma das forças individuais de cada cavalarino ou de cada infante. Do mesmo modo, a soma das forças mecânicas dos trabalhadores isolados difere da força social que se desenvolve quando muitas mãos agem simultaneamente na mesma operação indivisa , por ex. , quando é mister levantar uma carga, fazer girar uma pesada manivela ou remover um obstáculo. O efeito do trabalho combinado não poderia ser produzido pelo trabalho individual, e só o seria num espaço de tempo muito mais longo ou numa escala muito reduzida. Não se trata aqui da elevação da força produtiva individual através da cooperação, mas da criação de uma forma 29
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    produtiva nova, aforça coletiva. Pondo de lado a nova potência que surge da fusão de muitas forças numa força comum, o simples contato social, na maioria dos trabalhos produtivos, provoca emulação entre os participantes, animando-os e estimulando-os, o que aumenta a capacidade de realização de cada um (...) .” p.374s “Se pedreiros, por ex., formam uma fila para levar tijolos do pé do alto do andaime, cada um deles faz a mesma coisa, mas seus atos individuais constituem partes integrantes de uma operação conjunta, fases especiais que cada tijolo tem de percorrer no processo de trabalho (...). Também ocorre a combinação de trabalho quando uma construção, por ex., é atacada ao mesmo tempo de vários lados, embora os trabalhadores que cooperam realizem a mesma tarefa ou tarefas da mesma espécie. (...) Concluem-se ao mesmo tempo diversas partes do produto que estão separados no espaço. Quando os trabalhadores se completam mutuamente fazendo a mesma tarefa ou tarefas da mesma espécie, temos a cooperação simples. Acentuamo-la porque ela desempenha importante papel mesmo no estágio mais desenvolvido da cooperação. Se o processo de trabalho é complicado, a simples existência de um número de cooperadores permite repartir as diferentes operações entre os diferentes trabalhadores, de modo a serem executados simultaneamente, encurtando-se assim o tempo de trabalho necessário para a conclusão de todas as tarefas. Em muitos ramos de produção há momentos críticos, períodos fixados pela própria natureza do processo de trabalho e durante os quais determinados resultados tem de ser atingidos. Se se trata de (...) ceifar e colher um campo de trigo a quantidade e a qualidade do produto dependem de se iniciarem e se concluírem em tempos fixados essas operações.” P. 375ss “A cooperação permite ampliar o espaço no qual se realiza o trabalho, sendo exigida por certos processos de trabalho em virtude da extensão do espaço em que se executa. È o que ocorre com a drenagem, com a construção de diques, com obras de irrigação, canais, estradas, ferrovias, etc. Além disso, ela possibilita que a produção, relativamente à sua escala, seja levada a cabo num espaço de tempo menor. Essa redução do espaço de trabalho simultaneamente com a ampliação de sua eficácia, com que se eliminam uma série de custos dispensáveis, torna-se possível com a aglomeração dos trabalhadores, a conjunção de vários processos e a concentração dos meios de produção.” P. 377s “Ao cooperar com outros de acordo com um plano, desfaz-se o trabalhador dos limites de sua individualidade e desenvolve a capacidade de sua espécie.” P. 378 “Se os trabalhadores não podem cooperar diretamente sem estar juntos, se sua aglomeração em determinado local é condição da sua cooperação, não podem os assalariados cooperar sem que o mesmo capital, o mesmo capitalista empregue-os simultaneamente, compre ao mesmo tempo suas forças de trabalho. O valor total dessas forças de trabalho ou a soma dos salários dos trabalhadores por dia, por semana etc., tem de estar no bolso do capitalista antes de as forças de trabalho se reunirem no processo de produção. O pagamento, de uma vez, de 300 trabalhadores, mesmo por um dia, representa maior dispêndio de capital que o pagamento de um número reduzido de trabalhadores, semanalmente, durante o ano inteiro. Por isso, o número de trabalhadores que cooperam ou a escala da cooperação depende, de início, da magnitude do capital que cada capitalista pode empregar na compra de força de trabalho, isto é, na proporção em cada capitalista dispõe dos meios de subsistência de numerosos trabalhadores. O que ocorre com o capital variável sucede com a constante. As despesas de matérias-primas, para o capitalista que emprega 300 trabalhadores, são trinta vezes maiores do que para cada um dos 30 capitalistas que emprega 10 trabalhadores. O valor e a quantidade do instrumental de trabalho utilizado em comum não aumentam na mesma proporção do número de trabalhadores empregados, mas aumentam consideravelmente. A concentração de grandes quantidades de meios de produção em mãos de cada capitalista é portanto condição material 30
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    para a cooperaçãodos assalariados, e a extensão da cooperação ou a escala da produção depende da amplitude dessa concentração.” P. 378s “ (...) Com a cooperação de muitos assalariados, o domínio do capital torna-se uma exigência para a execução do próprio processo de trabalho, uma condição necessária da produção. O comando do capitalista no campo da produção torna-se então tão necessário quanto o comando de um general no campo de batalha. Todo trabalho diretamente social ou coletivo, executado em grande escala, exige com maior ou menor intensidade uma direção que harmonize as atividades individuais e preencha as funções gerais ligadas ao movimento de todo o organismo produtivo, que difere do movimento de seus órgãos isoladamente considerados. Um violinista isolado comanda a si mesmo, uma orquestra exige um maestro. Essa função de dirigir, superintender e mediar assume-a o capital logo que o trabalho a ele subordinado se torna cooperativo. Enquanto função específica do capital , adquire a função de dirigir caracteres especiais.” P. 379s “Antes de tudo, o motivo que impele e o objetivo que determina o processo de produção capitalista é a maior expansão possível do próprio capital, isto é, a maior produção possível de mais valia, portanto, a maior exploração possível da força de trabalho. Com a quantidade dos trabalhadores simultaneamente empregados cresce sua resistência e com ela, necessariamente, a pressão do capital para dominar essa resistência. (...)Se a direção capitalista é dúplice em seu conteúdo, em virtude da dupla natureza do processo de produção a dirigir que, ao mesmo tempo, é processo de trabalho social para produzir um produto e processo de produzir mais valia – ela é, quanto à forma, despótica. À medida que a cooperação amplia sua escala, esse despotismo assume formas peculiares. De início, o capitalista em germe liberta-se do trabalho manual quando seu capital atinge aquela magnitude mínima em que começa a produção capitalista propriamente dita. Com o desenvolvimento, o capitalista se desfaz da função de supervisão direta e contínua dos trabalhadores isolados e dos grupos de trabalhadores, entregando-a a um tipo especial de assalariados. Do mesmo modo que um exército, a massa de trabalhadores que trabalha em conjunto sob o comando do mesmo capital precisa de oficiais superiores (dirigentes, gerentes) e suboficiais (contramestres, inspetores, capatazes, feitores) , que, durante o processo de trabalho, comandam em nome do capital. O trabalho de supervisão torna-se sua função exclusiva. (...) O capitalista não é capitalista por ser dirigente industrial , mas ele tem o comando industrial porque é capitalista. O comando supremo na indústria é atributo do capital, como no tempo feudal a direção da guerra e a administração da justiça eram atributos da propriedade da terra.” P. 380ss “O trabalhador é proprietário de sua força de trabalho quando a mercadeja; e só pode vender o que possui, sua F.T. individual , isolada. Essa condição não se altera por comprar o capitalista 100 F.T. em vez de uma (...). Ele pode utilizar os 100 trabalhadores sem submetê-los a um regime de cooperação. (...)Sendo pessoas independentes, os trabalhadores são indivíduos isolados que entram em relação com o capital, mas não entre si. Sua cooperação só começa no processo de trabalho, mas depois de entrar neste deixam de pertencer a si mesmos. Incorporam-se então ao capital. Por isso, a força produtiva que o trabalhador desenvolve como trabalhador social é a produtividade do capital. (...) Nada custando ao capital a força produtiva do trabalho coletivo, não sendo ela por outro lado desenvolvida pelo trabalhador antes de seu trabalho pertencer ao capital , fica parecendo que ela é força produtiva natural e imanente do capital.” P. 382 “A poderosa força da cooperação simples se revela nas obras gigantescas realizadas pelos antigos povos asiáticos, pelos egípcios, pelos etruscos, etc. (...)Esse poder dos reis asiáticos e egípcios ou dos teocratas etruscos etc., transferiu-se na sociedade moderna para o capitalista, atue ele isolado ou como capitalista coletivo em associações como a sociedade anônima .” p. 382s 31
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    “Se a forçaprodutiva social desenvolvida pela cooperação aparece como força produtiva do capital, a cooperação aparece como forma específica do processo de produção capitalista, em contraste com o processo de produção dos trabalhadores isolados independentes ou mesmo de pequenos patrões. A transformação que torna cooperativo o processo de trabalho é a primeira que esse processo experimenta realmente ao subordinar-se ao capital. Seu pressuposto, emprego simultâneo de numerosos assalariados no mesmo processo de trabalho, constitui o ponto de partida da produção capitalista. (...) Em sua feição simples até agora observada, a cooperação coincide com a produção em larga escala mas não constitui nenhuma forma fixa, característica de uma época especial de desenvolvimento do modo capitalista de produção. Ostenta de leve essa aparência, no máximo, quando ocorre o início artesanal da manufatura e naquela agricultura em grande escala que corresponde ao período manufatureiro e se distingue, substancialmente, da economia camponesa apenas pelo número dos trabalhadores empregados ao mesmo tempo e pela quantidade de meios de produção concentrados num só empreendimento. A cooperação simples continua sendo sempre a forma predominante nos ramos de produção em que o capital opera em grande escala, sem que a divisão do trabalho ou a maquinaria desempenhe papel importante. A cooperação é a forma fundamental do modo de produção capitalista. Na sua feição simples constitui o germe de espécies mais desenvolvidas de cooperação, e continua a existir ao lado delas.” P. 384s Capítulo XII – Divisão do Trabalho e Manufatura 1. Dupla Origem da Manufatura “A cooperação fundada na divisão do trabalho adquire sua forma clássica na manufatura. Predomina como forma característica do processo de produção capitalista durante o período manufatureiro propriamente dito, que, a grosso modo, vai de meados do século XVI ao último terço do séc. XVIII . A manufatura se origina de dois modos. Nasce quando são concentrados numa oficina, sob o comando do mesmo capitalista, trabalhadores de ofícios diversos e independentes, por cujas mãos tem de passar um produto até seu acabamento final. (...) Mas, a manufatura pode ter origem oposta. O mesmo capital reúne ao mesmo tempo na mesma oficina muitos trabalhadores que fazem a mesma coisa ou a mesma espécie de trabalho.” P. 386ss “A manufatura portanto, se origina e se forma , a partir do artesanato, de duas maneiras. De um lado, surge da combinação de ofícios independentes diversos que perdem sua independência e se tornam tão especializados que passam a constituir apenas operações parciais do processo de produção de uma única mercadoria. De outro, tem sua origem na cooperação de artífices de determinado ofício, decompondo o ofício e suas diferentes operações particulares, isolando-as e individualizando-as para tornar cada uma delas função exclusiva de um trabalhador especial. A manufatura, portanto, ora introduz a divisão do trabalho num processo de produção ou a aperfeiçoa, ora combina ofícios anteriormente distintos. Qualquer que seja, entretanto, seu ponto de partida, seu resultado final é o mesmo: um mecanismo de produção cujos órgãos são seres humanos.” P. 388s “Finalmente, a divisão manufatureira do trabalho é uma espécie particular de cooperação, e muitas de suas vantagens decorrem não dessa forma particular, mas na natureza geral da cooperação.” P. 389 2. O trabalho parcial e sua ferramenta “Descendo ao pormenor, vê-se, de início, que um trabalhador que, sua vida inteira, executa uma única operação transforma todo o seu corpo em órgão automático especializado dessa operação. Por isso, levará menos tempo em realizá-la que o artesão que executa toda uma série de diferentes 32
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    operações. (...) Tambémaperfeiçoa-se o método do trabalho parcial, depois que este se torna função exclusiva de uma pessoa. (...) Havendo sempre diversas gerações de trabalhadores que vivem simultaneamente e cooperam nas mesmas manufaturas, os artifícios técnicos assim adquiridos firmam-se, acumulam-se e se transmitem.” P. 389s “Um artífice que executa, uma após outra, as diversas operações parciais da produção de uma mercadoria, é obrigado ora a mudar de lugar, ora a mudar de ferramenta. A passagem de uma operação para outra interrompe o fluxo de seu trabalho e forma por assim dizer lacunas em seu dia de trabalho. Essas lacunas somem quando executa o dia inteiro continuamente uma única operação, ou desaparecem na medida em que diminuem as mudanças de operação.” P. 391 “A produtividade do trabalho depende não só da virtuosidade do trabalhador, mas também da perfeição de suas ferramentas. Ferramentas da mesma espécie, como facas, perfuradores, ferrumas, martelos etc., são utilizadas em diferentes processos de trabalho, e a mesma ferramenta se presta para realizar operações diferentes no mesmo processo de trabalho. Mas, logo que as diversas operações de um processo de trabalho se dissociam e cada operação parcial assume nas mãos do trabalhador parcial a forma mais adequada possível e portanto exclusiva, tornam-se necessários modificações nos instrumentos anteriormente utilizados para múltiplos fins. (...) O período manufatureiro simplifica, aperfeiçoa e diversifica as ferramentas, adaptando-as às funções exclusivas especiais do trabalhador parciais. Com isso cria uma das condições materiais para a existência da maquinaria, que consiste numa combinação de instrumentos simples.” P. 391s 3. As duas formas fundamentais da manufatura – manufatura heterogênea e manufatura orgânica. “ A manufatura se apresenta sob duas formas fundamentais. Embora se combinem eventualmente, constituem duas espécies essencialmente diversas e desempenham papéis inteiramente distintos na transformação posterior da manufatura na grande indústria baseada na maquinaria. Esse duplo caráter decorre na natureza do artigo produzido. Ou o artigo se constitui pelo simples ajustamento mecânico de produtos parciais independentes ou deve sua forma acabada a uma seqüência de operações e manipulações conexas.” P. 392s “O mecanismo específico do período manufatureiro é o trabalhador coletivo, constituído de muitos trabalhadores parciais. As diferentes operações executadas sucessivamente pelo produtor de uma mercadoria e que se entrelaçam no conjunto de seu produto de trabalho, apresentam-lhe exigências diversas. Numa tem ele de desenvolver mais força, noutra mais destreza, numa terceira atenção mais concentrada etc., e o mesmo indivíduo não possui no mesmo grau essas qualidades. (...) Se suas peculiaridades naturais constituem a base em que se implanta a divisão do trabalho, desenvolve a manufatura, uma vez introduzida, F.T. que por natureza só são aptas para funções especiais, limitadas. (...) A estreiteza e as deficiências do trabalhador parcial tornam-se perfeições quando ele é parte integrante do trabalhador coletivo. O hábito de exercer uma função única limitada transforma- o naturalmente em órgão infalível dessa função, compelindo-o à conexão com o mecanismo global a operar com a regularidade de uma peça de máquina.” P. 400s “Em todo ofício de que se apossa, a manufatura cria uma classe de trabalhadores sem qualquer destreza especial, os quais o artesanato punha totalmente de lado. Depois de desenvolver, até atingir a virtuosidade, uma única especialidade limitada, sacrificando a capacidade total de trabalho do ser humano, põe-se a manufatura a transformar numa especialidade a ausência de qualquer formação. Ao lado da graduação hierárquica, surge a classificação dos trabalhadores em hábeis e inábeis. Para os últimos não há custas de aprendizagem, e, para os primeiros, esses custos se reduzem em relação às despesas necessárias para formar um artesão, pois a função deles foi simplificada. Em ambos os 33
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    casos, cai ovalor da F.T.. A exceção é constituída pelas novas funções gerais resultantes da decomposição do processo de trabalho, as quais não existiam no artesanato ou, quando existiam desempenhavam papel inferior. A desvalorização relativa da força de trabalho, decorrente da eliminação ou da redução dos custos de aprendizagem, redunda para o capital em acréscimo imediato de mais valia, pois tudo o que reduz o tempo de trabalho necessário para reproduzir a F.T. aumenta o domínio do trabalho excedente.” P. 401s 4. Divisão do trabalho na manufatura e divisão do trabalho na sociedade “Considerando apenas o trabalho, podemos chamar a separação da produção social em grandes ramos, agricultura , indústria etc., de divisão do trabalho em geral; a diferenciação desses grandes ramos em espécies e variedades, de divisão do trabalho em particular e a divisão do trabalho numa oficina, de divisão do trabalho individualizada, singularizada.” P. 402 “Constitui condição material para a divisão do trabalho na manufatura o emprego ao mesmo tempo de certo número de trabalhadores. De maneira análoga, a divisão do trabalho na sociedade depende da magnitude e densidade da população, que correspondem á aglomeração dos operários numa oficina. Mas essa densidade é algo relativo. Um país relativamente pouco povoado com meios de transporte desenvolvidos possui uma população mais densa do que um país mais povoado com escassos meios de transporte, e a esse respeito os estados setentrionais da União americana são mais densamente povoados do que a India.” P. 404 “Sendo a produção e a circulação de mercadorias condições fundamentais do modo capitalista de produção, a divisão manufatureira do trabalho pressupõe que a divisão do trabalho na sociedade tenha atingido certo grau de desenvolvimento. Reciprocamente, a divisão manufatureira do trabalho, reagindo, desenvolve e multiplica a divisão social do trabalho. Com a diferenciação das ferramentas diferenciam-se cada vez mais os ofícios que fazem essas ferramentas. (...)Se a manufatura se apodera de um estágio particular de produção de uma mercadoria, os demais estágios de produção se transformam em diversas indústrias independentes. (...)quando o artigo representa um ajustamento puramente mecânico de produtos parciais, os trabalhos parciais podem desagregar-se e transformar- se de novo em ofícios independentes. Para aperfeiçoar a divisão do trabalho na manufatura, o mesmo ramo de produção é subdividido em manufaturas diversas, em grande parte inteiramente novas, de acordo com as variedades de sua matéria-prima ou das formas que a mesma matéria-prima pode assumir.” P. 404s “Apesar das numerosas analogias e das conexões entre a divisão do trabalho na sociedade e a divisão do trabalho na manufatura, há entre elas uma diferença não só de grau mas de substância. (...) A divisão do trabalho na sociedade se processa através da compra e venda de produtos dos diferentes ramos de trabalho, a conexão, dentro da manufatura, dos trabalhos parciais se realiza através da venda de diferentes F.T. ao mesmo capitalista que as emprega como F.T. coletiva. A divisão manufatureira do trabalho pressupõe concentração dos meios de produção nas mãos de um capitalista, a divisão social do trabalho, dispersão dos meios de produção entre produtores de mercadorias, independentes entre si.” P. 406s “(...)O mesmo espírito burguês que louva, como fator de aumento da força produtiva, a divisão manufatureira do trabalho, a condenação do trabalhador a executar perpetuamente uma operação parcial e sua subordinação completa ao capitalista, com a mesma ênfase denuncia todo controle e regulamentação sociais conscientes do processo de produção como um ataque aos invioláveis direitos de propriedade, de liberdade e de iniciativa do gênio capitalista. É curioso que o argumento mais forte até agora encontrado pelos apologistas entusiastas do sistema de fábrica, contra qualquer 34
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    organização geral dotrabalho social, seja o de que esta transformaria toda a sociedade numa fábrica.” P. 408 “Na sociedade em que rege o modo capitalista de produção, condicionam-se reciprocamente a anarquia da divisão social do trabalho e o despotismo da divisão manufatureira do trabalho. Mas, em antigas formas de sociedade em que a diferenciação dos ofícios se desenvolvem naturalmente, cristalizando-se depois e fixando-se por fim legalmente, encontramos, de um lado, uma organização social do trabalho, subordinada a um plano e a uma autoridade, e, do outro, a ausência total da divisão do trabalho na oficina, ou sua existência numa escala mínima , ou seu desenvolvimento apenas esporádico e acidental.” P. 408s “As leis das corporações da Idade Média impediam metodicamente (...) a transformação de um mestre artesão em capitalista, limitando severamente o número de companheiros que ele tinha o direito de empregar. Também só lhe era permitido empregar companheiros no ofício que era mestre. A corporação se defendia zelosamente contra qualquer intrusão no capital mercantil, a única forma livre de capital com que se confrontava. O comerciante podia comprar todas as mercadorias, mas não o trabalho como mercadoria. Só era tolerado como distribuidor dos produtos dos artesãos. Se circunstâncias externas provocam progressiva divisão do trabalho, as corporações existentes se subdividiam em subespécies ou se fundavam novas corporações junto às antigas, sem que diferentes ofícios se reunissem numa única oficina. A organização corporativa excluía portanto a divisão manufatureira do trabalho, embora muito contribuísse para as condições de existência desta , especializando, separando e aperfeiçoando os ofícios.” P. 411 “Enquanto a divisão social do trabalho, quer se processe ou não através da troca de mercadorias, é inerente as mais diversas formações econômicas da sociedade, a divisão do trabalho na manufatura é uma criação específica do modo de produção capitalista.” P. 411 5. Caráter capitalista da manufatura “Um grande número de trabalhadores sob o comando de um mesmo capital é o ponto de partida natural tanto da cooperação em geral quanto da manufatura. E a divisão manufatureira do trabalho torna o incremento do número de trabalhadores empregados uma necessidade técnica. O mínimo de trabalhadores que cada capitalista tem de empregar, é-lhe então prescrito pela divisão do trabalho estabelecida. Por outro lado, as vantagens de uma divisão de maior porte depende de um acréscimo do número de trabalhadores, que só se pode fazer por múltiplos. Crescendo o capital variável aumenta necessariamente o capital constante, ampliando-se as condições comuns de produção, como construções, fornos, etc., tem de aumentar principalmente a quantidade de matérias-primas e mais rapidamente que o número de trabalhadores empregados.” P. 411s “O organismo coletivo que trabalha , na cooperação simples ou na manufatura , é uma forma de existência do capital. Esse mecanismo coletivo de produção compostos de numerosos indivíduos, os trabalhadores parciais, pertence ao capitalista. A produtividade que decorre da combinação dos trabalhos aparece, por isso, como produtividade do capital.” P. 412 “Originariamente , o trabalhador vendia sua F.T. ao capital por lhe faltarem os meios materiais para produzir uma mercadoria. Agora , sua força individual de trabalho não funciona se não estiver vendida ao capital. Ela só opera dentro de uma conexão que só existe depois da venda , no interior da oficina do capitalista.” P. 413 35
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    “O camponês eo artesão independentes desenvolvem, embora modestamente, os conhecimentos, a sagacidade e a vontade, como o selvagem que exerce as artes de guerra apurando sua astúcia pessoal. No período manufatureiro, essas faculdades passam a ser exigidas apenas pela oficina em seu conjunto. (...) A divisão manufatureira do trabalho opôe-lhes as forças intelectuais do processo material de produção como propriedade de outrem e como poder que os domina. Esse processo de dissociação começa com a cooperação simples em que o capitalista representa diante do trabalhador isolado a unidade e a vontade do trabalhador coletivo. Esse processo desenvolve-se na manufatura, que mutila o trabalhador, reduzindo-o a uma fração de si mesmo, e completa-se na indústria moderna, que faz da ciência uma força produtiva independente do trabalho, recrutando-a para servir ao capital.” P. 413s “A cooperação baseada na divisão do trabalho, ou seja, a manufatura, é nos seus começos uma criação natural , espontânea. Ao adquirir certa consistência e base suficientemente ampla, torna-se a forma consciente, metódica e sistemática do modo de produção capitalista.” P. 417 “Decompondo o ofício manual, especializando as ferramentas, formando os trabalhadores parciais, grupando-os e combinando-os num mecanismo único, a divisão manufatureira do trabalho cria a subdivisão qualitativa e a proporcionalidade quantitativa dos processos sociais de produção e, com isso, desenvolve ao mesmo tempo nova força produtiva social do trabalho. A divisão manufatureira do trabalho, nas bases históricas dadas, só poderia surgir sob forma especificamente capitalista. Como forma capitalista do processo social de produção, é apenas um método especial de produzir mais valia relativa ou de expandir o valor do capital, o que se chama de riqueza social, “ Wealth of Nations” etc., às custas do trabalhador. Ela desenvolve a força produtiva do trabalho coletivo para o capitalismo e não para o trabalhador e, além disso, deforma o trabalhador individual. Produz novas condições de domínio do capital sobre o trabalho. Revela-se, de um lado, progresso histórico e fator necessário do desenvolvimento econômico da sociedade, e, do outro, meio civilizado e refinado de exploração.” P. 417s “Durante o período manufatureiro propriamente dito, isto é, o período em que a manufatura era a forma dominante do modo de produção capitalista , opunham-se a plena realização de suas tendências obstáculos de diversa natureza. Embora, como vimos, ela criasse junto a estruturação hierárquica dos trabalhadores uma divisão simples entre trabalhadores hábeis e inábeis, o número dos inábeis ficou muito reduzido em virtude da influência predominantes dos hábeis. Embora ajustasse as operações parciais aos diversos graus de maturidade, força e desenvolvimento dos seus órgãos vivos de trabalho, o que levava a exploração de mulheres e crianças, chocava-se essa tendência geralmente com os hábitos e a resistência do trabalhador adulto masculino. Embora a decomposição do ofício manual reduzisse os custos de formação do trabalhador e em conseqüência seu valor, continuava necessário um longo tempo de aprendizagem para o trabalho especializado mais difícil , (...).” p. 420s Capítulo XIII – A Maquinaria e a Industria Moderna 1. Desenvolvimento da maquinaria “Na manufatura, o ponto de partida para revolucionar o modo de produção é a força de trabalho, na indústria moderna, o instrumental de trabalho. É mister portanto investigar como o instrumental de trabalho se transforma de ferramenta manual em máquina e assim fixar a diferença que existe entre a máquina e a ferramenta. Interessam os grandes traços, as características gerais, pois, como ocorre com as eras geológicas, não existem linhas de demarcação rigorosas separando as diversas épocas da história da sociedade.” P. 424 36
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    “Toda maquinaria desenvolvidaconsiste de três partes essencialmente distintas: o motor, a transmissão e a máquina ferramenta ou máquina de trabalho. O motor é a força motriz de todo o mecanismo. Produz sua própria força motriz, como a máquina à vapor, a máquina a ar quente, a máquina eletromagnética etc., ou recebe um impulso de uma força natural externa adrede preparada, como a roda hidráulica, o impulso da água; as asas do moinho, a força do vento, etc. A transmissão é constituída de volantes, eixos, rodas dentadas, turbinas, barras, cabos, cordas, dispositivos e engrenagens de transmissão da mais variada espécie. (...)O motor e a transmissão existem apenas para transmitir movimento à máquina-ferramenta que se apodera do objeto de trabalho e o transforma de acordo com o fim desejado. É desta parte da maquinaria, a máquina-ferramenta, que parte a revolução industrial no séc. XVIII.” P. 425s “A máquina-ferramenta é portanto um mecanismo que, ao lhe ser transmitido o movimento apropriado, realiza com suas ferramentas as mesmas operações que eram antes realizadas pelo trabalhador com ferramentas semelhantes. Provenha a força motriz do homem ou de outra máquina, a coisa não muda em sua essência. Quando a ferramenta propriamente dita se transfere do homem para um mecanismo, a máquina toma o lugar da simples ferramenta. A diferença salta aos olhos, mesmo quando o homem continua sendo o primeiro motor. O número de ferramentas com que o homem pode operar ao mesmo tempo é limitada pelo números de seus instrumentos naturais de produção, seus órgãos físicos.” P. 426s “(...) ferramentas em que o homem desde o início agia como simples força motriz, ao fazer girar a manivela de um moinho, ao tocar bomba para puxar água, ao mover o braço de um fole, ao bater com um pilão etc., cedo deram origem à aplicação de animais, da água e do vento como forças motrizes. As ferramentas dessa espécie, em parte no período manufatureiro e esporadicamente antes dele, transformaram-se em máquinas, mas, apesar disso, não revolucionaram o modo de produção. No período da indústria moderna torna-se claro que mesmo na sua forma manual já são máquinas. (...) A própria máquina à vapor na forma em que foi inventada no fim do séc. XVII , durante o período manufatureiro, e em que subsistiu até o começo da década dos 80 do séc. XVIII, não provocou nenhuma revolução industrial. Foi, ao contrário, a criação das máquinas-ferramenta que tornou necessário uma revolução na máquina a vapor. Quando o homem passa a atuar apenas como força motriz numa máquina-ferramenta, em vez de atuar com a ferramenta sobre o objeto de trabalho, podem tomar seu lugar o vento, a água, o vapor etc., e torna-se acidental o emprego da força muscular humana como força motriz.” P. 427s “A máquina da qual parte a revolução industrial substitui o trabalhador que maneja uma única ferramenta por um mecanismo que ao mesmo tempo opera com certo número de ferramentas idênticas ou semelhantes àquela, e é acionado por uma única força motriz, qualquer que seja sua forma. Temos então a máquina mas ainda como elemento simples da produção mecanizada.” P. 428s “O aumento do tamanho da máquina-ferramenta e do número de instrumentos com que opera ao mesmo tempo exige um motor possante, que, para vencer a própria resistência, precisa de uma força motriz superior à força humana. Além disso, a força humana é um instrumento muito imperfeito para produzir um movimento uniforme e contínuo.” P. 429 “Só com a segunda máquina a vapor de Watt, a máquina rotativa de ação dupla, se encontrou um motor que produzia sua própria força motriz, consumindo para isso carvão e água, com potência que podia ser inteiramente controlada; um motor que podia ser transferido de um lugar para outro e servir de meio de locomoção, utilizável na cidade e não exclusivamente no campo como a roda 37
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    hidráulica, permitindo concentrara produção nas cidades, em vez de dispersá-las pelo interior; universal em sua aplicação tecnológica, pouco dependendo sua instalação das circunstâncias locais.” P. 430s “Depois que os instrumentos se transformam de ferramentas manuais em ferramentas incorporadas a um aparelho mecânico, a máquina motriz, o motor, adquire uma forma independente, inteiramente livre dos limites da força humana. Com isso, a máquina-ferramenta isolada que observamos até agora, se reduz a um simples elemento da produção mecanizada. Uma máquina motriz, um motor, pode agora impulsionar ao mesmo tempo muitas máquinas-ferramentas. Com o número das máquinas-ferramenta impulsionadas ao mesmo tempo, aumenta o tamanho do motor e o mecanismo de transmissão assume grandes proporções.” P. 431 “Temos então de distinguir duas coisas: a cooperação de muitas máquinas da mesma espécie e o sistema de máquinas. No primeiro caso, o produto por inteiro é feito por uma máquina. Ela executa as diversas operações que eram realizadas por um artesão com uma ferramenta por ex., um tecelão com seu tear, ou que eram executadas em série por artesãos com diferentes ferramentas, independentes uns dos outros ou como membros de uma manufatura. (citação pé de pag. –Não é o trabalho, mas o instrumento de trabalho que serve de ponto de partida para a máquina.) (...) O processo global , dividido e realizando na manufatura através das operações sucessivas passa a ser executado por uma máquina-ferramenta, que opera através da combinação de diferentes ferramentas. Essa máquina-ferramenta pode ser mera reprodução mecânica de um instrumento manual mais complicado, ou uma combinação de instrumentos simples, diferentes, que tinham cada um uma aplicação especial na manufatura. Nas duas modalidades teremos na fábrica e na oficina que funciona com o emprego dessas máquinas, a cooperação simples. Pondo-se de lado o trabalhador, ela se patenteia, antes de tudo, na aglomeração num mesmo local de máquinas-ferramenta da mesma espécie, operando ao mesmo tempo. (...) Essas máquinas-ferramentas entre si independentes, possuem, entretanto, uma unidade técnica: recebem impulso de um motor comum e esse impulso lhes é transmitido por um mecanismo de transmissão que lhes é até certo ponto comum, uma vez que dele parte uma ramificação particular para cada máquina-ferramenta. (...) Um verdadeiro sistema de máquinas só toma o lugar das máquinas independentes quando o objeto de trabalho percorre diversos processos parciais conexos, levados a cabo por um conjunto de máquinas- ferramenta de diferentes espécies, mas que se completam reciprocamente. Reaparece então a cooperação peculiar à manufatura baseada na divisão do trabalho, mas agora sob a forma de combinação de máquinas-ferramenta parciais, complementares.” P.431ss “Quando a máquina-ferramenta, ao transformar a matéria-prima, executa sem ajuda humana todos os movimentos necessários, precisando apenas da vigilância do homem para uma intervenção eventual, temos um sistema automático, suscetível , entretanto, de contínuos aperfeiçoamentos.” P. 434s “A produção mecanizada encontra sua forma mais desenvolvida no sistema orgânico de máquinas- ferramenta combinadas que recebem todos os seus movimentos de um autômato central e que lhes são transmitidos por meio do mecanismo de transmissão. Surge, então, em lugar de máquina isolada, um monstro mecânico que enche edifícios inteiros e cuja força demoníaca se disfarça nos movimentos ritmados quase solenes de seus membros gigantescos e irrompe no turbilhão febril de seus inumeráveis órgãos de trabalho.” P. 435 “Na manufatura, cada operação parcial tem de ser executável manualmente pelos operários, trabalhando isolados ou em grupos, com suas ferramentas. Se o trabalhador é incorporado a determinado processo foi este antes ajustado ao trabalhador. Na produção mecanizada desaparece 38
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    esse princípio subjetivoda divisão do trabalho. Nela o processo por inteiro é examinado objetivamente em si mesmo, em suas fases componentes e o problema de levar a cabo cada um dos processos parciais e de entrelaçá-los é resolvido com a aplicação técnica da mecânica, da química etc., embora a teoria tenha sempre de ser aperfeiçoada pela experiência acumulada em grande escala. Cada máquina parcial fornece matéria-prima à máquina seguinte. Funcionando todas elas no mesmo tempo, o produto encontra-se continuamente em todas as suas fases de transição, em todos os estágios de sua fabricação. (...) Na manufatura, o isolamento dos processos parciais é um princípio fixado pela própria divisão do trabalho; na fábrica mecanizada, ao contrário é imperativa a continuidade dos processos parciais.” P. 435s “Havia máquinas de fiar, máquinas a vapor, etc., antes de existirem trabalhadores cuja ocupação exclusiva fosse a de fazer máquinas a vapor, máquinas de fiar etc., do mesmo modo que o homem já se vestia antes de haver alfaiates. As invenções de Vancanson, Arkwright, Watt e outros só puderam concretizar-se, porque eles encontraram à mão um número apreciável de hábeis trabalhadores mecânicos, que vieram do período manufatureiro. (...) Com a influência das invenções e a procura crescente das novas máquinas inventadas, cada vez mais se diferenciava em ramos autônomos diversos a produção de máquinas e se desenvolvia a divisão do trabalho nas manufaturas que construíam máquinas. A manufatura se constitui assim em base técnica imediata da indústria moderna. A primeira produzia a maquinaria com que a segunda eliminava o artesanato e a manufatura nos ramos de produção de que se apoderava.” P. 435s “A revolução no modo de produção de um ramo industrial acaba se propagando a outros. É o que se verifica principalmente nos ramos industriais que constituem fases de um processo global, embora estejam isolados entre si pela divisão social do trabalho, de modo que cada um produz uma mercadoria independente. (...) A revolução no modo de produção da indústria e da agricultura tornou sobretudo necessária uma revolução nas condições gerais do processo social de produção, isto é, nos meios de comunicação e de transporte. (...) Do mesmo modo, os meios de transporte e de comunicação, legados pelo período manufatureiro, logo se tornaram obstáculos insuportáveis para a indústria moderna com sua velocidade febril de produção em grande escala, seu contínuo deslocamento de massas de capital e de trabalhadores de um ramo de produção para outro e com as novas conexões que criou no mercado mundial. (...) Mas as massas gigantescas de ferro que tinham então de ser forjadas, soldadas, cortadas, brocadas e moldadas, exigiam máquinas ciclópicas cuja produção não se poderia conseguir através dos métodos da manufatura. A indústria moderna teve então de apoderar-se de seu instrumento característico de produção, a própria máquina, e de produzir máquinas com máquinas. Só assim criou ela sua base técnica adequada e ergueu-se sobre seus próprios pés. Com a produção mecanizada crescente das primeiras décadas do séc. XIX, apoderou-se a maquinaria progressivamente da fabricação das máquinas-ferramentas. Mas só durante as últimas décadas (que precedem 1866), a enorme construção de ferrovias e a navegação transatlântica fizeram surgir as máquinas ciclópicas empregadas na construção de motores.” P. 437s “A condição de produto mais essencial para a fabricação de máquinas com máquinas era um motor capaz de desenvolver qualquer potência e perfeitamente controlável. Ele já existia na máquina a vapor. Mas ao mesmo tempo, era necessário produzir mecânicamente as formas rigorosamente geométricas necessárias às diversas partes componentes da máquina: linha, plano, círculo, cilindro, cone e esfera. Henry Mandslay resolvera esse problema, na primeira década do séc. XIX, inventando a esfera de tôrno (slide rest), que logo se tornou um dispositivo automático, e, em forma modificada, se adaptou a outras máquinas construtoras além do tôrno para a qual fôra primitivamente destinada. Esse dispositivo mecânico não substitui uma ferramenta qualquer, mas a 39
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    própria mão humana,que cria uma forma determinada no material de trabalho;(...)Conseguiu-se assim, produzir as formas geométricas das partes componentes da máquina.” P. 438 “Se atentamos, na construção de máquinas, para a parte da maquinaria que constitui a máquina- ferramenta propriamente dita, vemos que nesta reaparece o instrumento do artesão, mas em tamanho ciclópico.” P.439 “ O instrumental de trabalho, ao converter-se em maquinaria, exige a substituição da força humana por forças naturais e da rotina empírica pela aplicação consciente da ciência. Na manufatura, a organização do processo de trabalho é puramente subjetiva, uma combinação de trabalhadores parciais. No sistemas de máquinas, tem a indústria moderna o organismo de produção inteiramente objetiva que o trabalhador encontra pronto e acabado como condição material da produção. Na cooperação simples e mesmo na cooperação fundada na divisão do trabalhador, a supressão do trabalhador individualizado pelo trabalhador coletivizado parece ainda algo mais ou menos contingente. A maquinaria, com exceções a mencionar mais tarde, só funciona por meio de trabalho diretamente coletivizado ou comum. O caráter cooperativo do processo de trabalho torna-se uma necessidade técnica imposta pela natureza do próprio instrumental de trabalho.” P. 439s 2. Valor que a maquinaria transfere ao produto “Vimos que nada custam ao capital as forças produtivas que derivam da cooperação e da divisão do trabalho. São as forças naturais do trabalho social. Também nada custam as forças naturais, como vapor e água, incorporados aos processos produtivos. Assim como o homem para respirar precisa de um pulmão, para consumir produtivamente as forças naturais precisa de algo criado pelo seu esforço. Para explorar a força motriz da água, é necessário uma roda hidráulica e para explorar a elasticidade do vapor, uma máquina a vapor.” P. 440 “Conforme vimos, a ferramenta não é suprimida pela máquina: de um instrumento diminuto do organismo humano ela se amplia e se multiplica no instrumental de um mecanismo criado pelo homem. O capital faz o operário trabalhar agora não com a ferramenta manual, mas com a máquina que maneja os próprios instrumentos. (...)Como qualquer outro elemento do capital constante, as maquinas não criam valor, mas transferem seu próprio valor ao produto para cuja feitura contribuem. Enquanto a máquina possui valor e consequentemente transfere valor ao produto, ela constitui um componente do valor do produto. (...)De início, é mister observar que as máquinas entram por inteiro no processo de trabalho e apenas por partes no processo de formação do valor. Nunca acrescentam mais valor do que o que perdem com seu desgaste médio. Há portanto grande diferença entre o valor da máquina e a parte do valor que ela transfere periódicamente ao produto. Há uma grande diferença entre o papel que a máquina desempenha na formação do valor do produto e o que desempenha na formação do produto.” P. 440s “Quanto maior a força produtiva das máquinas em relação à dos instrumentos manuais, tanto maior o serviço gratuito que prestam em comparação com o que se obtém desses instrumentos. Só com a indústria moderna aprende o homem a fazer o produto do seu trabalho passado, o trabalho já materializado, operar em grande escala, gratuitamente, como se fosse uma força natural.” P. 442 “Na cooperação e na manufatura, as condições gerais de produção, como edifícios, utilizados em comum, se tornam menos onerosas, em comparação com as condições dispersas dos trabalhadores isolados, ocorrendo por isso redução do preço do produto. Na maquinaria não só o corpo da 40
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    máquina-ferramenta é utilizadopor muitas ferramentas, mas também o mesmo motor, com uma parte do mecanismo de transmissão, é consumido por muitas máquinas-ferramenta.” P. 442 “Enquanto o custo de trabalho da máquina e consequentemente o valor por ela transferido ao produto for menor que o valor que o trabalhador adiciona ao objeto de trabalho, com sua ferramenta, haverá sempre uma diferença de trabalho economizado em favor da máquina. A produtividade da máquina mede-se, por isso, pela proporção em que ela substitui força de trabalho do homem.” P. 445 “Do ponto de vista exclusivo de baratear o produto, a aplicação da máquina deve conter-se dentro do limite em que sua própria produção exija menos trabalho que o que ela substitui com sua aplicação. Para o capital, entretanto, o limite é mais apertado. Uma vez que não paga o trabalho empregado, mas o valor da força de trabalho utilizada, a aplicação da maquinaria, para o capital, fica limitada pela diferença entre o valor da máquina e o valor da F.T. que ela substitui. (...)Em velhos países civilizados, a aplicação da máquina em alguns ramos provoca tal excesso de oferta de trabalho em outros ramos, que nestes a queda do salário abaixo do valor da F.T. impede a aplicação das máquinas, tornando-a muitas vezes impossível, supérflua, do ponto de vista do capital cujo lucro deriva não da diminuição do trabalho empregado mas da diminuição do trabalho pago.” P. 447s 3. Conseqüências imediatas da produção mecanizada sobre o trabalhador a) Apropriação pelo capital das forças de trabalho suplementares. O trabalho das mulheres e das crianças. “Tornando supérflua a força muscular, a maquinaria permite o emprego de trabalhadores sem força muscular ou com o desenvolvimento físico incompleto mas com membros mais flexíveis. Por isso, a primeira preocupação do capitalista ao empregar a maquinaria, foi a de utilizar o trabalho das mulheres e das crianças. Assim, de poderoso meio de substituir trabalho e trabalhadores, a maquinaria transformou-se imediatamente em meio de aumentar o número de assalariados, colocando todos os membros da família do trabalhador, sem distinção de sexo e idade, sob o domínio direto do capital. O trabalho obrigatório para o capital tomou o lugar dos folguedos infantis e do trabalho livre realizado, em casa, para a própria família, dentro de limites estabelecidos pelos costumes. O valor da força de trabalho era determinado não pelo tempo de trabalho necessário para manter individualmente o trabalhador adulto, mas pelo necessário a sua manutenção e à de sua família. Lançando a máquina todos os membros da família do trabalhador no mercado de trabalho, reparte ela o valor da força de trabalho do homem adulto pela família inteira. Assim desvaloriza a F.T. do adulto. A compra, por ex., de 4 horas de trabalho componentes de uma família talvez custe mais que a aquisição, anteriormente, da F.T. do chefe da família, mas em compensação se obtém 4 jornadas de trabalho em lugar de 1, e o preço da F.T. cai na proporção em que o trabalho excedente dos quatro ultrapassa o trabalho excedente de um. (...) Desse modo, a máquina ao aumentar o campo específico de exploração do capital, o material humano, amplia, ao mesmo tempo, o grau de exploração.” P. 450s b) Prolongamento da jornada de trabalho “ Se a maquinaria é o meio mais poderoso para aumentar a produtividade do trabalho, isto é, para diminuir o tempo de trabalho necessário à produção de uma mercadoria, em mãos do capital torna- se ela, de início nos ramos industriais de que diretamente se apodera, o meio mais potente para prolongar a jornada de trabalho além de todos os limites estabelecidos pela natureza humana. A maquinaria gera novas condições que capacitam o capital a dar plena vazão a essa tendência 41
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    constante que ocaracteriza, e cria novos motivos para aguçar-lhe a cobiça por trabalho alheio. Antes de tudo, o movimento e a atividade do instrumental de trabalho se tornam, com a maquinaria, independentes do trabalhador. O instrumental passa a ser animado por um movimento perpétuo e produziria ininterruptamente se não fosse tolhido por certas limitações naturais dos auxiliares humanos, a debilidade física e os caprichos.” P. 459s “A produtividade da maquinaria, conforme vimos, está na razão inversa do valor que ela transfere ao produto. Quanto maior o período em que funciona, tanto maior a quantidade de produtos em que se reparte o valor transferido pela máquina, e tanto menor a porção de valor que acrescenta a cada mercadoria em particular. O período de vida ativa da máquina é evidentemente determinado pela duração do dia de trabalho ou do processo diário de trabalho, multiplicada pelo número de dias em que esse processo se repete.” P. 460s “A máquina experimenta duas espécies de desgaste. Um decorre de seu uso, como moedas que se gastam na circulação; outro provém da inação, como a espada inativa que enferruja na bainha. Esta é a deterioração causada pelos elementos. O desgaste da primeira espécie está em relação mais ou menos direta, e o segundo, até certo ponto, na razão inversa do uso da maquinaria. Mas a máquina experimenta ainda, além do material, o desgaste moral. Perde valor-de-troca na medida em que se podem reproduzir mais barato máquinas da mesma construção ou fazer melhores máquinas que com ela concorram. Em ambos os casos, por mais nova e forte que seja a máquina, seu valor não é mais determinado pelo tempo de trabalho que nela realmente se materializou, mas pelo tempo de trabalho necessário para produzir ela mesma ou uma máquina melhor. Quanto mais curto o período em que se reproduz seu valor global, tanto menor o perigo de desgaste moral, e quanto maior a duração da jornada de trabalho, tanto mais curto aquele período. Quando se introduz a maquinaria, pela primeira vez, em qualquer ramo industrial, aparecem, sucessivamente, novos métodos para reproduzi-la mais barato e aperfeiçoamentos que atingem não só partes e dispositivos determinados, mas sua construção inteira. É por isso na primeira fase de sua existência, que esse motivo especial influi de maneira mais poderosa no sentido de prolongar a jornada de trabalho.” P. 461s “Fixando-se a duração diária do trabalho e permanecendo invariáveis as demais circunstâncias, a exploração do dobro do número de trabalhadores exige duplicação da parte do capital constante empregada na maquinaria e construções e também da parte empregada em matérias-primas, materiais auxiliares, etc. . Prolongada a duração diária do trabalho, amplia-se a escala da produção, permanecendo invariável a parte do capital despendida em maquinaria e construções. Aumenta então a mais valia, ao mesmo tempo que diminuem os gastos necessários para obtê-la. É verdade que isso ocorre em maior ou menor grau, com qualquer prolongamento do dia de trabalho, mas essa ocorrência é mais decisiva na industria moderna, porque a parte do capital que se transforma em instrumental de trabalho é nela mais preponderante. O desenvolvimento da produção mecanizada dá a uma parte cada vez maior do capital uma forma em que ele pode continuamente expandir seu valor e, ao mesmo tempo, perde valor-de-troca e valor-de-uso, logo que se interrompe seu contato com o trabalho vivo.” P. 462s “A máquina produz mais valia relativa diretamente, ao depreciar a força de trabalho, indiretamente, ao baratear as mercadorias que entram na produção dessa força, e, ainda, em suas primeiras aplicações esporádicas, transformando em trabalho potenciado, de maior eficácia, o trabalho empregado, ficando o valor individual de seu produto inferior ao social e capacitando o capitalista a cobrir o valor diário da F.T. com menor porção de valor do produto diário. Nesse período de transição em que a produção mecanizada assume o aspecto de monopólio, os lucros são extraordinariamente altos e o capitalista procura explorar ao máximo essa lua-de-mel, prolongando ao máximo possível o dia de trabalho.” P. 463s 42
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    “A aplicação capitalistada maquinaria cria motivos novos e poderosos para efetivar a tendência de prolongar sem medida o dia de trabalho e revoluciona os métodos de trabalho e o caráter do organismo de trabalho coletivo de tal forma que quebra a oposição contra aquela tendência. Demais, ao recrutar para o capital camadas da classe trabalhadora que antes lhe eram inacessíveis e ao dispensar trabalhadores substituídos pelas máquinas, produz uma população trabalhadora excedente, compelida a submeter-se à lei do capital. Daí esse estranho fenômeno da indústria moderna: a máquina põe abaixo todos os limites morais e naturais da jornada de trabalho. Daí o paradoxo econômico que torna o mais poderoso meio de encurtar o tempo de trabalho no meio mais infalível de transformar todo o tempo de vida do trabalhador e de sua família em tempo de trabalho de que pode lançar mão o capital para expandir seu valor.” P. 465 “ E Antípatros, um poeta grego do tempo de Cícero, saúda a invenção do moinho de água para moer o trigo, forma elementar de toda maquinaria produtiva, como a aurora libertadora das escravas e restauradora da idade do ouro. Ah! Esses pagãos! Nada entendiam de economia política nem de cristianismo, de acordo com a descoberta do avisado Bastiat e, antes dele, do mais sagaz ainda MacCulloch. Entre outras coisas, eles não entendiam que a máquina fosse o meio mais eficiente de prolongar a jornada de trabalho. Desculpavam, talvez, a escravatura de uns para assegurar o pleno desenvolvimento humano de outros. Mas, pregar a escravatura das massas, para transformar alguns parvenus grosseiros e semicultos em “eminentes industriais de fiação”, “grandes fabricantes de salchichas” e “prestigiosos comerciantes de graxa”, era uma tarefa para a qual não possuíam a necessária bossa cristã.” P. 465s c) Intensificação do trabalho “O prolongamento desmedido da jornada de trabalho, produzido pela maquinaria nas mãos do capital, ao fim de certo tempo provoca, conforme já vimos, uma reação da sociedade que, ameaçada em suas raízes vitais, estabelece uma jornada normal de trabalho, legalmente limitado. Em conseqüência dessa limitação, assume decisiva importância um fenômeno que já examinamos, a intensificação do trabalho. (...)É claro que, ao expandir-se a aplicação da maquinaria e ao acumular- se a experiência de uma classe especial de trabalhadores a ela ajustados, aumenta naturalmente a velocidade do trabalho e em conseqüência sua intensidade. (...)Compreende-se, entretanto, que, num trabalho que não se caracteriza por auges espasmódicos mas pela uniformidade cada dia invariavelmente repetida, há de se chegar a um ponto em que se excluem a extensão e a intensidade do trabalho, de modo que o prolongamento da jornada só se possa combinar com trabalho de intensidade mais fraca, e um grau maior de intensidade apenas com uma jornada de trabalho menor.(...) Essa redução, com o poderoso impulso que dá ao desenvolvimento da força produtiva e à poupança das condições de produção, impõe ao trabalhador maior dispêndio de trabalho no mesmo espaço de tempo, mais elevada tensão da F.T., preenchimento mais denso dos poros da jornada, em suma, um tal grau de condensação do trabalho que só pode ser alcançado reduzindo-se o dia de trabalho. Essa compressão de massa maior de trabalho num período dado significa, então, o que realmente é: maior quantidade de trabalho. O tempo de trabalho é medido agora de duas maneiras, segundo sua extensão, sua duração e segundo seu grau de condensação, sua intensidade.” P. 466s “O primeiro efeito da jornada de trabalho diminuída decorre dessa lei evidente: a capacidade de operar a F.T. está na razão inversa do tempo em que opera. Por isso, dentro de certos limites, o que se perde em duração, ganha-se em eficácia. Através do método de retribuição (citação rodapé: Por meio do salário por peça ou tarefa, forma que será examinada na parte VI deste livro), o capital induz o trabalhador a empregar realmente maior F.T. .” p. 468 43
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    “A redução dajornada cria de início a condição subjetiva para intensificar o trabalho, capacitando o trabalhador a empregar mais força num tempo dado. Quando essa redução se torna legalmente obrigatória, transforma-se a máquina nas mãos do capital em instrumento objetivo e sistematicamente empregado para extrair mais trabalho no mesmo espaço de tempo. É o que se obtém de duas maneiras: aumentando a velocidade da máquina e ampliando a maquinaria a ser vigiada por cada trabalhador, ou seja, seu campo de trabalho. É necessário aperfeiçoar a construção das máquinas para exercer maior pressão sobre o trabalhador. Aliás esse aperfeiçoamento corre paralelo com a intensificação do trabalho, pois a redução da jornada de trabalho força o capitalista a administrar de maneira mais severa os custos de produção.” P. 470 “Não existe a menor dúvida que a tendência do capital, com a proibição legal definitiva de prolongar a jornada de trabalho, é de compensar-se com a elevação sistemática do grau de intensidade do trabalho e converter todo aperfeiçoamento da maquinaria em meio para absorver maior quantidade de F.T.. Essa tendência logo atingirá um ponto crítico em que será inevitável nova redução das horas de trabalho.” P.476 4. A Fábrica “ No começo deste capítulo, estudamos o corpo da fábrica, a estrutura do sistema de máquinas. Vimos então como a maquinaria aumenta o material humano explorável pelo capital, ao apropriar-se do trabalho das mulheres e das crianças, como confisca a vida inteira do trabalhador, ao estender sem medida a jornada de trabalho, e como o seu progresso, que possibilita enorme crescimento da produção em tempo cada vez mais curto, serve de meio para extrair sistematicamente mais trabalho em cada fração de tempo, ou seja, de explorar cada vez mais intensivamente a F.T. .” p. 477 “Com a ferramenta que se transfere à máquina segue a virtuosidade desenvolvida pelo trabalhador em seu manejo. A eficácia da ferramenta emancipa-se dos limites pessoais da força humana. Desse modo, desaparece a base técnica em que se fundamentava a divisão manufatureira do trabalho. A hierarquia dos trabalhadores especializados que a caracteriza é substituída, na fábrica automática, pela tendência de igualar ou nivelar os trabalhadores que os auxiliares das máquinas tem de executar; as diferenças artificiais entre os trabalhadores parciais são predominantemente substituídas pelas diferenças naturais de idade e sexo.” P. 480 “Quando a divisão do trabalho reaparece na fábrica automática, ela é, antes de tudo, distribuição dos trabalhadores pelas diferentes máquinas especializadas, e das massas de trabalhadores, que não formam grupos específicos, pelas seções da fábrica, em cada uma das quais trabalham em máquinas da mesma espécie, juntas umas das outras, em regime portanto de cooperação simples. O grupo organizado da manufatura é substituído pela conexão entre o trabalhador principal e seus poucos auxiliares. A distinção essencial ocorre entre os trabalhadores que estão realmente ocupados com as máquinas-ferramentas (inclusive alguns trabalhadores que tomam conta da máquina motriz e a alimentam) e seus auxiliares (que são quase exclusivamente crianças). Entre os auxiliares podem ser incluídos os que alimentam a máquina com o material a ser trabalhado. Ao lado dessas duas classes principais, há um pessoal pouco numeroso, que se ocupa com o controle de toda a maquinaria e a repara continuamente, como os engenheiros, mecânicos, marceneiros, etc. É uma classe de trabalhadores de nível superior, uns possuindo formação científica, outros dominando um ofício; distinguem-se dos trabalhadores de fábrica, estando apenas agregados a eles. Sua divisão de trabalho é puramente técnica.” P. 480s “Para trabalhar com máquinas, o trabalhador tem de começar sua aprendizagem muito cedo, a fim de adaptar seu próprio movimento ao movimento uniforme e contínuo de um autômato. Quando a 44
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    maquinaria, como umtodo, forma um sistema de máquinas diferentes, operando simultâneas e combinadas, exige a cooperação nela baseada uma distribuição das diferentes espécies de máquinas. Mas a produção mecanizada elimina a necessidade que havia na manufatura, de cristalizar essa distribuição anexado permanentemente o mesmo trabalhador à mesma função. Não partindo do trabalhador o movimento global da fábrica, mas da máquina, pode-se mudar o pessoal a qualquer hora sem interromper o processo de trabalho. (...)Finalmente, a velocidade com que os menores aprendem a trabalhar à máquina elimina a necessidade de se preparar uma classe especial de trabalhadores para operar exclusivamente com as máquinas. Os serviços de simples auxiliares podem, até certo ponto, ser substituídos por máquinas, e, em virtude de sua extrema simplicidade, permitem que se mude a qualquer momento o pessoal atribulado com sua execução.” P. 481s “Embora a maquinaria, técnicamente, lance por terra o velho sistema da divisão do trabalho, continua ele a sobreviver na fábrica como costume tradicional herdado na manufatura, até que o capital o remodela e consolida de forma mais repugnante como meio sistemático de explorar a F.T.. A especialidade de manejar uma ferramenta parcial, uma vida inteira, se transforma na especialização de servir sempre a uma máquina parcial. Utiliza-se a maquinaria, para transformar o trabalhador, desde a infância, em parte de uma máquina parcial. Assim, não só se reduzem os custos necessários para reproduzi-lo, mas também se torna completa sua desamparada dependência da fábrica como um todo, e, portanto, do capitalista.” P. 481s “Na manufatura e no artesanato, o trabalhador se serve da ferramenta; na fábrica, serve à máquina. Naqueles, procede dele o movimento do instrumental. Na manufatura, os trabalhadores são membros de um mecanismo vivo. Na fábrica, eles se tornam complementos vivos de um mecanismo morto que existe independentes deles. (...)Sendo, ao mesmo tempo, processo de trabalho e processo de criar mais valia, toda produção capitalista se caracteriza por o instrumental de trabalho empregar o trabalhador e não o trabalhador empregar o instrumental. Mas essa inversão só se torna uma realidade técnica e palpável com a maquinaria. Ao se transformar em autômato, o instrumental se confronta com o trabalhador durante o processo de trabalho como capital, trabalho morto que domina a força de trabalho viva, a suga e exaure. A separação entre as forças intelectuais do processo de produção e o trabalho manual e a transformação delas em poderes de domínio do capital sobre o trabalho se tornam uma realidade consumada, conforme já vimos, na grande indústria fundamentada na maquinaria. A habilidade especializada e restrita do trabalhador individual, despojado, que lida com a máquina, desaparece como uma quantidade infinitesimal diante da ciência, das imensas forças naturais e da massa de trabalho social, incorporadas ao sistemas de máquinas e formando com ele o poder do patrão.” P. 482ss “A subordinação técnica do trabalhador ao ritmo uniforme do instrumental e a composição peculiar do organismo de trabalho, formado de indivíduos de ambos os sexos e das mais diversas idades, criam uma disciplina de caserna, que vai ao extremo no regime integral de fábrica. Por isso, desenvolve-se plenamente o trabalho de supervisão anteriormente mencionado, dividindo-se os trabalhadores em trabalhadores manuais e supervisores de trabalho, em soldados rasos e em suboficiais do exército da indústria. (...)Através do código da fábrica o capital formula, legislando particular e arbitrariamente, sua autocracia sobre os trabalhadores, pondo de lado a divisão dos poderes tão proclamada pela burguesia e o mais proclamado ainda regime representativo. O código é apenas a deformação capitalista da regulamentação social do processo de trabalho, que se torna necessária com a cooperação em grande escala e com a aplicação de instrumental comum de trabalho, notadamente a maquinaria. O látego do feitor de escravos se transforma no regulamento penal do supervisor. Todas as penalidades se reduzem naturalmente a multas e descontos salariais, e a sagacidade legislativa desses Licurgos de fábricas torna a transgressão de suas leis sempre que possível mais rendosa que a observância delas.” P. 485 45
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    5. Luta entreo trabalhador e a máquina “A luta entre o capitalista e o trabalhador remonta a própria origem do capital. Ressoa durante todo o período manufatureiro. Mas, só a partir da introdução da máquina, passa o trabalhador a combater o próprio instrumental de trabalho, a configuração material do capital. Revolta-se contra essa forma determinada dos meios de produção, vendo nela o fundamento material do modo de produção capitalista. Durante o século XVII quase toda a Europa presenciou revoltas dos trabalhadores contra a máquina de tecer fitas e galeões(...). Nos fins do primeiro terço do séc. XVII, um motim popular destruiu uma serraria movida a vento construída por um holandês nas proximidades de Londres. Ainda no começo do séc. XVIII só dificilmente venceram as máquinas de serrar movidas a água a resistência popular protegida pelo parlamento. (...)Era mister tempo e experiência para o trabalhador aprender a distinguir a maquinaria de sua aplicação capitalista e atacar não os meios materiais de produção, mas a forma social em que são explorados.” P. 489ss “As lutas por salário dentro da manufatura pressupunham a manufatura e não se dirigiam contra sua existência. Os que combatem a criação de manufaturas não são assalariados, mas os mestres das corporações e as cidades privilegiadas. Por isso, os escritores do período manufatureiro consideram a divisão do trabalho sobretudo o meio de suprir virtualmente a carência de trabalhadores, mas não de dispensar realmente trabalhadores. Quando se diz, por ex., que seriam necessários, na Inglaterra, 100 milhões de homens para fiar com a velha roda de fiar a quantidade de algodão fiada hoje por 500.000 com a máquina, não se quer dizer que a máquina tomou o lugar daqueles milhões de homens que nunca existiram. Quer se dizer apenas que muitos milhões de trabalhadores seriam necessários para substituir a maquinaria de fiação. Quando se diz porém que o tear a vapor na Inglaterra lançou a rua 800.000 tecelões, não se fala de maquinaria existente que teria de ser substituída por certo número de trabalhadores, mas de um número existente de trabalhadores realmente substituídos ou suprimidos pela maquinaria. Durante o período manufatureiro, os ofícios manuais, embora decompostos pela divisão do trabalho, continuaram sendo a base da produção. (...)Destacavam-se então, o lado positivo da divisão do trabalho e da cooperação nas oficinas, tornando os trabalhadores empregados mais produtivos. Aplicadas à agricultura, a cooperação e a concentração em poucas mãos dos instrumentos de trabalho provocaram transformações grandes, súbitas e violentas no modo de produção e consequentemente nas condições de vida e nas possibilidades de trabalho da produção rural, em muitos países e bem antes do período da indústria moderna.” P. 491s “O instrumento de trabalho, ao tomar a forma de máquina, logo se torna concorrente do próprio trabalhador. A auto-expansão do capital através da máquina está na razão direta do número de trabalhadores cujas condições de existência ela destrói. Todo o sistema de produção capitalista baseia-se na venda da força de trabalho como mercadoria pelo trabalhador. A divisão manufatureira do trabalho particulariza essa força de trabalho, reduzindo-a à habilidade muito limitada de manejar uma ferramenta de aplicação estritamente especializada. Quando a máquina passa a manejar a ferramenta, o valor-de-troca da força de trabalho desaparece ao desvanecer seu valor-de-uso. O trabalhador é posto fora do mercado como o papel-moeda retirado da circulação. A parte da classe trabalhadora que a maquinaria transforma em população supérflua, não mais imediatamente necessária à auto-expansão do capital, segue uma das pontas de um dilema inarredável: ou sucumbe na luta desigual dos velhos ofícios e das antigas manufaturas contra a produção mecanizada, ou inunda todos os ramos industriais mais acessíveis, abarrotando o mercado de trabalho e fazendo o preço da força de trabalho cair abaixo de seu valor. Para os trabalhadores lançados à miséria é um grande consolo, dizem, serem apenas temporários seus sofrimentos; outro consolo decorreria de a máquina apropriar-se, apenas pouco a pouco, de um ramo inteiro de produção, com o que se reduz a 46
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    extensão e aintensidade dos seus efeitos destruidores. Os dois consolos se anulam. Quando a máquina se apodera, pouco a pouco, de um ramo de produção, produz ela miséria crônica na camada de trabalhadores com que concorre. Quando a transição é rápida, seus efeitos são enormes e agudos. A história não oferece nenhum espetáculo mais horrendo que a extinção progressiva dos tecelões manuais ingleses, arrastando-se durante decênios e consumando-se finalmente em 1838. (...)Por outro lado, foram agudos os efeitos da maquinaria da indústria têxtil algodoeira na Índia.” P. 492s “A máquina, sem dúvida, ao criar para esses tecelões “sofrimentos passageiros”, tirava-os dessa vida passageira. Demais, apoderando-se a máquina continuamente de novos ramos de produção, seus efeitos temporários são na realidade permanentes. A feição independente e estranha que o modo capitalista de produção imprime às condições e ao produto do trabalho em relação ao trabalhador se converte com a maquinaria em oposição completa. Daí a revolta brutal do trabalhador contra esse instrumental de trabalho, a maquinaria. O instrumental de trabalho liquida, então, o trabalhador. Esse antagonismo direto se patenteia de maneira mais evidente, quando a nova maquinaria introduzida concorre com os ofícios e as manufaturas tradicionais. Mas dentro da própria indústria moderna, produzem efeitos análogos o aperfeiçoamento contínuo da maquinaria e o desenvolvimento do sistema automático.” P. 494 6. A teoria da compensação para os trabalhadores desempregados pela máquina “James Mill, MacCulloch, Torrens, Senior, John Stuart Mill e toda uma série de economistas burgueses afirmam que toda maquinaria, ao desempregar trabalhadores, sempre libera, simultânea e necessariamente, capital adequado para empregar esses trabalhadores desempregados.” P. 502 “Os verdadeiros fatos, dissimulados pelo otimismo econômico, são esses: os trabalhadores despedidos pela máquina são transferidos da fábrica para o mercado de trabalho e lá aumentam o número das forças de trabalho que estão à disposição da exploração capitalista.(...) os trabalhadores despedidos de um ramo industrial podem sem dúvida procurar emprego a qualquer outra ocupação. Se o acham, recompondo-se assim o laço que existia entre eles e o meios de subsistência de que foram dissociados, isto acontece através de novo capital adicional que procura aplicação, e de modo nenhum através do capital que já operava antes e se transformou em máquina. Mesmo nesse caso, sua possibilidades são ínfimas. Atrofiados pela divisão do trabalho, esses pobres diabos valem tão pouco fora de seu âmbito de atividade, que só encontram acesso em ramos de trabalho inferiores e, por isso, superlotados e mal pagos.” P. 505 “É incontestável que a maquinaria em si mesma não é responsável de serem os trabalhadores despojados de seus meios de subsistência. Ela barateia e aumenta o produto no ramo de que se apodera e, de início, não modifica a quantidade de meios de subsistência produzidos em outros ramos. Depois de sua introdução, possui, portanto, a sociedade a mesma ou maior quantidade de meios de subsistência para os trabalhadores despedidos, não se levando em conta a enorme porção do produto anual, dilapidada pelos que não são trabalhadores. E este é o ponto nevrálgico da apologética econômica. Para ela, as contradições e antagonismos inseparáveis da aplicação capitalista da maquinaria não existem, simplesmente porque não decorrem da maquinaria, mas da sua aplicação capitalista. A maquinaria, como instrumental que é, encurta o tempo de trabalho, facilita o trabalho, é uma vitória do homem sobre as forças naturais, aumenta a riqueza dos que realmente produzem, mas, com sua aplicação capitalista, gera resultados opostos: prolonga o tempo de trabalho, aumenta sua intensidade, escraviza o homem por meio das forças naturais, pauperiza os verdadeiros produtores. (...)O economista burguês não nega que sucedam aborrecimentos temporários com esse emprego; mas qual é a medalha que não tem reverso? Para ele é impossível qualquer outra utilização da maquinaria que não seja a capitalista. Exploração do trabalhador pela 47
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    máquina é paraele idêntica à exploração da máquina pelo trabalhador. (...)Seu raciocínio é o mesmo do célebre degolador Bill Sikes: “senhores jurados, esse caixeiro-viajante foi sem dúvida degolado. Mas a culpa não é minha, e sim da faca. Devemos, em virtude desses aborrecimentos passageiros, proibir o emprego da faca? Refleti! Que seria da agricultura e dos ofícios sem a faca? Não é ela um meio de cura na cirurgia e um instrumento de pesquisa na anatomia? Não nos ajuda prestimosa nos alegres festins? Suprimi a faca e lançar-nos-ei na mais profunda barbárie.” P. 506s “Com a expansão do sistema fabril num ramo industrial, aumenta a produção em outros ramos que lhe fornecem meios de produção. (...)Uma nova espécie de trabalhador aparece com a maquinaria, o encarregado de produzi-la. Já sabemos que a maquinaria se apossou desse ramo de produção que tem a função de fabrica-la, em escala cada vez maior. (...) Com a massa crescente de matérias- primas, de produtos semi-elaborados, de instrumentos de trabalho etc. , fornecidos pela máquina com número relativamente pequeno de trabalhadores, especializaram-se as atividades que trabalham com essas matérias-primas e produtos em numerosas variedades, aumentando a diversificação dos ramos sociais de produção. O sistema fabril impulsiona a divisão social do trabalho muito mais do que a manufatura, porque aumenta, em grau desproporcionalmente maior, a força produtiva dos ramos de que se apodera.” P. 508ss “A maquinaria tem por resultado imediato ampliar a mais valia e simultaneamente a quantidade de produtos em que ela se incorpora. Assim ela aumenta a substância de que vive a classe capitalista e seu cortejo, fazendo crescer essas camadas sociais. Sua riqueza em expansão e a diminuição relativamente constante do número de trabalhadores necessários para a produção dos gêneros de primeira necessidade geram, juntamente com novas necessidades de luxo, novos meios de satisfazê- las. (...) Em outras palavras, a produção de luxo aumenta.” P. 510 7. Repulsão e atração dos trabalhadores pela fábrica. Crises da indústria têxtil algodoeira. “Quando a produção mecanizada se estende num ramo às custas do artesanato tradicional e da manufatura, sua vitória é tão certa quanto a de um exército equipado com armas de fogo em lutas contra índios armados com arco e flecha. Esse primeiro período em que a máquina conquista seu campo de ação é decisivamente importante em virtude dos lucros extraordinários que ajuda a produzir. Estes constituem fonte de acumulação acelerada, e, além disso, atraem grande parte do capital social adicional que está se formando constantemente e procura aplicação nos setores favorecidos da produção. As vantagens especiais desse período febril e agitado se repetem sempre nos ramos de produção que a maquinaria invade. Mas, quando o sistema fabril adquire base mais ampla e certo grau de maturidade; quando principalmente sua base técnica, a maquinaria, é produzida por máquinas; quando a mineração de carvão e ferro, a elaboração dos metais e o sistema de transportes são revolucionados; quando, em suma, se estabelecem as condições gerais de produção correspondentes à indústria moderna, adquire esse sistema de exploração elasticidade, capacidade de expandir-se bruscamente e aos saltos, que só se detém diante dos limites impostos pela matéria-prima e pelo mercado. A maquinaria, de um lado, amplia diretamente a produção de matéria-prima como, por ex., a máquina descaroçadora que aumentou a produção de algodão. Por outro lado, o barateamento dos produtos feitos a máquina e a revolução nos meios de transporte e comunicação servem de armas para a conquista de mercados estrangeiros. Arruinando com seus produtos o artesanato de países estrangeiros, a produção mecanizada transforma necessariamente esses países em campos de produção de suas matérias-primas. Assim, a Índia foi compelida a produzir algodão, lã, cânhamo, juta, anil, etc. para a Grã-Bretanha. Tornando constantemente supérflua uma parte dos trabalhadores, a indústria moderna nos países em que está radicada, estimula e incita a imigração para países estrangeiros e sua colonização, que se convertem assim em colônias fornecedoras de matérias-primas para a mãe-pátria. (...)Cria-se nova divisão internacional 48
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    do trabalho, adequadaaos principais centros da indústria moderna, transformando uma parte do planeta em áreas de produção predominantemente agrícola, destinada à outra parte primordialmente industrial. Esta transformação está ligada a mudanças radicais na agricultura (...) (citação pé de pag. O desenvolvimento econômico nos Estados Unidos é um produto da Moderna Indústria européia, especialmente da inglêsa . Em seu estágio atual (1866), devem ser considerados ainda um país colonial em relação à Europa. –(adendo à 4ª ed. A partir de então, os E.U.A. se desenvolveram, tornando-se o segundo país industrial do mundo, sem com isso perder inteiramente seu caráter colonial. – F.E.))” p. 516ss “O enorme poder de expansão, aos saltos, do sistema fabril e sua dependência do mercado mundial geram necessariamente uma produção em ritmo febril, seguida de abarrotamento dos mercados que, ao se contraírem, ocasionam um estado de paralisação. A vida da indústria se converte numa seqüência de períodos de atividade moderada, prosperidade, superprodução, crise e estagnação. A incerteza e a instabilidade a que a produção mecanizada submete a ocupação e consequentemente as condições de vida do trabalhador tornam-se normais como aspectos das variações periódicas do ciclo industrial. Executados os períodos de prosperidade, travam-se entre capitalistas os mais furiosos combates, procurando cada um deles obter uma participação no mercado. Essa participação está na razão direta do barateamento do produto. Por isso, rivalizam-se no emprego da maquinaria aperfeiçoada que substitui força de trabalho e na aplicação de novos métodos de produção. Mas, em todo ciclo industrial, chega o momento em que se procura baratear as mercadorias, diminuindo-se à força o salário, abaixo do valor da F.T.. O acréscimo do número de trabalhadores tem, portanto, por condição o incremento proporcionalmente muito mais rápido do capital global empregado nas fábricas. Mas, esse incremento está condicionado pelo fluxo e refluxo do ciclo industrial. Além disso, é continuamente interrompido pelo processo técnico, que ora substitui virtualmente trabalhadores, ora os suprime de fato. Essa mudança qualitativa na produção mecanizada afasta constantemente trabalhadores da fábrica ou fecha suas portas a novos candidatos a emprego, enquanto a simples expansão quantitativas das fábricas absorve, com os despedidos, novos contingentes. Os trabalhadores são assim ininterruptamente repelidos e atraídos, jogados de um lado para outro variando constantemente o recrutamento deles em relação ao sexo, à idade e à habilidade.” P. 518ss 8. Revolução que a indústria moderna realiza na manufatura, no artesanato e no trabalho a domicilio “Vimos que a maquinaria elimina a cooperação baseada no ofício e a manufatura fundamentada na divisão do trabalho manual. Um exemplo do primeiro fenômeno é a máquina de segar que substitui a cooperação dos ceifeiros. Um exemplo bem ilustrativo do segundo fenômeno é a máquina para fabricar agulhas. Segundo Adam Smith, no seu tempo, por meio da divisão do trabalho, 10 homens faziam por dia mais de 48.000 agulhas. Uma única máquina fornece hoje 145.000 num dia de trabalho de 11 horas. Uma mulher ou uma menina supervisiona em média 4 dessas máquinas produzindo com a maquinaria 600.000 agulhas por dia; (...)Quando uma máquina-ferramenta isolada toma o lugar da cooperação ou da manufatura pode ela servir de base a um novo artesanato. Mas, essa reprodução do artesanato baseada na maquinaria é apenas uma transição para o sistema fabril, que em regra se estabelece quando a força motriz mecânica, o vapor ou a água, substitui a força muscular humana na movimentação da máquina.” P. 527 “Com o desenvolvimento do sistema fabril e com a transformação da agricultura que o acompanha não só se estende a escala da produção nos demais ramos de atividade, mas também muda seu caráter. Torna-se por toda parte uma diretiva dominante o princípio da indústria mecanizada, de decompor o processo de produção em suas faces constitutivas e de resolver problemas daí 49
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    resultantes com oemprego da mecânica, da química etc. , em suma, das ciências naturais. A maquinaria vai penetrando progressivamente nos processos parciais das manufaturas. A organização rígida e cristalizadas destas, baseada na velha divisão do trabalho, dissolve-se, dando lugar a transformações constantes. Além disso, transformam-se radicalmente a composição do trabalhador coletivo, das pessoas que trabalham em combinação. Em contraste com o período manufatureiro, o plano da divisão do trabalho baseia-se no emprego de mulheres, de crianças de todas as idades, de trabalhadores sem habilitação, sempre que possível (...). Isto se aplica não só a produção organizada em grande escala, com ou sem emprego de maquinaria, mas também à indústria a domicílio, exercida nas residências dos trabalhadores ou em pequenas oficinas. Essa indústria à domicílio moderna só tem o nome em comum com a antiga, que pressupunha o artesanato urbano independente, a economia camponesa independente e a casa da família do trabalhador. A indústria a domicílio se converteu hoje na seção externa da fábrica, da manufatura ou do estabelecimento comercial. Além dos trabalhadores fabris, de manufaturas e dos artesãos, que concentra em grande número num mesmo local e comanda diretamente, o capital põe em movimento, por meio de fios invisíveis, um grande exército de trabalhadores a domicílio, espalhados nas grandes cidades e pelo interior do país.” P. 528s “Na manufatura moderna, a exploração da F.T. barata e imatura é mais vergonhosa da que na fábrica propriamente, pois o fundamento teórico que existe nesta, substituição da força muscular pela máquina e a decorrente facilidade do trabalho, falta em grande parte naquela, onde o organismo feminino ou ainda imaturo fica exposto, da maneira mais inescrupulosa, às influências de substâncias tóxicas, etc. . Essa exploração se reveste, no trabalho à domicílio, de maior cinismo ainda que na manufatura, pois a capacidade de resistência dos trabalhadores diminui com sua disseminação; uma série de parasitas rapaces se insere entre o empregador propriamente dito e os trabalhadores; (...)” p. 529s “A exploração abusiva do trabalho de mulheres e crianças, o esbulho de todas as condições normais requeridas pelo trabalho e pela vida e a brutalidade do trabalho excessivo ou noturno constituem métodos de baratear a F.T. que acabam por encontrar certas barreiras naturais, intransponíveis. Chocam-se contra as mesmas barreiras o barateamento das mercadorias e toda exploração capitalista baseados nesse métodos. Leva-se muitos anos até atingir esse ponto. Ao ser ele atingido, soa a hora de ser introduzida a máquina e de se transformar rapidamente em produção mecanizada o trabalho a domicílio ou a manufatura, dispersos pelo país.” P. 539 “Foi o baixo preço do sangue e do suor humanos transformados em mercadorias que atuou continuamente no sentido de ampliar o mercado e continua a ampliá-lo todos os dias. (...)Chegou-se por fim um ponto crítico. O fundamento do velho método, a simplista exploração brutal do material humano, mais ou menos acompanhado por uma divisão do trabalho sistematicamente desenvolvida, não era suficiente para atender os mercados crescentes e para fazer face à competição dos capitalistas, cada vez maior. Soou a hora da maquinaria. A máquina decisivamente revolucionária que se apodera de todas as numerosas especialidades desse ramo de produção entre as quais figuram modas, alfaiataria, sapataria, costura e chapelaria – é a máquina de costura.” P. 540 9. Legislação fabril inglesa, etc. “Já vimos que a indústria moderna elimina técnicamente a divisão manufatureira do trabalho, na qual um ser humano com todas as suas faculdades e por toda a vida fica prisioneiro de uma tarefa parcial. Mas, ao mesmo tempo, a forma capitalista da indústria moderna reproduz aquela divisão do trabalho de maneira ainda mais monstruosa, na fábrica propriamente dita, transformando o trabalhador no acessório consciente de uma máquina parcial; e, fora da fábrica, por toda parte, com 50
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    o emprego esporádicodas máquinas e dos trabalhadores de máquinas, e com a introdução do trabalho das mulheres, das crianças e dos trabalhadores sem habilitação, que servem de nova base à divisão do trabalho. A contradição entre a divisão manufatureira do trabalho e a natureza da indústria moderna se impõe de maneira poderosa. Ela se patenteia, por exemplo, no terrível fato de grande parte dos meninos empregados nas fábricas e manufaturas modernas, condenados desde a mais tenra idade a repetir sempre as operações mais simples, serem explorados anos seguidos, sem aprender qualquer trabalho que os torne úteis mais tarde, mesmo que fosse na mesma manufatura ou fábrica.” P. 555 “O que é válido para divisão manufatureira do trabalho dentro da oficina, pode-se dizer da divisão do trabalho no interior da sociedade. Enquanto o artesanato e a manufatura constituem o fundamento geral da produção social, a subordinação do produtor a um ramo de produção exclusivo, a decomposição da multiplicidade primitiva de suas ocupações representam uma fase necessária do desenvolvimento histórico. Sobre aquele fundamento, cada ramo especial de produção encontra, por meios empíricos, a forma técnica conveniente, aperfeiçoa-la lentamente e cristaliza-a logo que atinge certo grau de maturidade. As únicas modificações que se produzem, excetuadas as novas matérias-primas fornecidas pelo comércio, são as que ocorrem progressivamente com os instrumentos de trabalho. Uma vez alcançada pela experiência, a forma adequada, esta se petrifica, conforme se verifica muitas vezes através de sua transferência de uma geração para outra, durante milênios. (...)A indústria moderna rasgou o véu que ocultava ao homem seu próprio processo social de produção e que transformava os ramos de produção naturalmente diversos em enigmas, mesmo para aquele que fosse iniciado num deles. (...)As formas multifárias, aparentemente desconexas e petrificadas do processo social de produção se decompõem em aplicações da ciência conscientemente planejadas e sistematicamente especializadas segundo o efeito útil requerido. A tecnologia descobriu as poucas formas fundamentais do movimento, em que se resolve necessariamente toda a ação produtiva do corpo humano, apesar da variedade dos instrumentos empregados, do mesmo modo que a mecânica nos faz ver, através da complicação da maquinaria, a contínua repetição das potências mecânicas simples. A indústria moderna nunca considera nem trata como definitiva a forma existente de um processo de produção. Sua base técnica é revolucionária, enquanto todos os modos anteriores de produção eram essencialmente conservadores. Por meios da maquinaria, dos processos químicos e de outros modos, a indústria moderna transforma continuamente, com a base técnica da produção, as funções dos trabalhadores e as combinações sociais do processo de trabalho. Com isso, revoluciona constantemente a divisão do trabalho dentro da sociedade e lança ininterruptamente massas de capital e massas de trabalhadores de um ramo de produção para outro. Exige, por sua natureza, variação de trabalho, isto é, fluidez das funções, mobilidade do trabalhador em todos os sentidos. Entretanto, reproduz em sua forma capitalista a velha divisão do trabalho com suas peculiaridades rígidas. Já vimos como essa contradição absoluta elimina toda tranqüilidade, solidez e segurança de vida do trabalhador, mantendo-o sob a ameaça constante de perder os meios de subsistência ao ser-lhe tirado das mãos o instrumental de trabalho (...). Este é o aspecto negativo. Mas se a variação do trabalho só se impõe agora como uma lei natural sobrepujante e com o efeito cego e destruidor de uma lei natural que encontra obstáculos por toda parte, a indústria moderna, com suas próprias catástrofes, torna questão de vida ou morte reconhecer como lei geral e social da produção a variação dos trabalhos e em conseqüência a maior versatilidade possível do trabalhador, e adaptar as condições à efetivação normal dessa lei. Torna questão de vida ou de morte substituir a monstruosidade de uma população operária miserável, disponível, mantida em reserva para as necessidades flutuantes da exploração capitalista, pela disponibilidade absoluta do ser humano para as necessidades variáveis do trabalho; substituir o indivíduo parcial, mero fragmento humano que repete sempre uma operação parcial, pelo indivíduo integralmente desenvolvido para o qual as diferentes funções sociais não passariam de formas diferentes e sucessivas de sua atividade. As escolas politécnicas e agronômicas são fatores desse 51
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    processo de transformação,que se desenvolvem espontaneamente na base da indústria moderna; constituem também fatores dessa metamorfose as escolas de ensino profissional onde os filhos dos operários recebem algum ensino tecnológico e são iniciados no manejo prático dos diferentes instrumentos de produção. A legislação fabril arrancou ao capital a primeira e insuficiente concessão de conjugar a instrução primária com o trabalho na fábrica. Mas, não há dúvida de que a conquista inevitável do poder político pela classe trabalhadora trará a adoção do ensino tecnológico, teórico e prático, nas escolas dos trabalhadores. Também não há duvida de que a forma capitalista de produção e as correspondentes condições econômicas dos trabalhadores se opõem diametralmente a esses fermentos de transformação e ao seu objetivo, a eliminação da velha divisão do trabalho. Mas o desenvolvimento das contradições de uma forma histórica de produção é o único caminho de sua dissolução e do estabelecimento de uma nova forma.” P. 556ss “Quando regula o trabalho nas fábricas, nas manufaturas etc., a legislação fabril é considerada apenas intervenção nos diretos de exploração exercidos pelo capital. Toda regulamentação do trabalho a domicílio, entretanto, se apresenta como ataque direto ao pátrio poder, um passo diante do qual o Parlamento inglês vacilava, por ferir sua pretensa delicadeza de sentimentos. A força dos fatos, entretanto, compeliu a que se reconhecesse finalmente que a indústria moderna, ao dissolver a base econômica da família antiga e o correspondente trabalho familiar, desintegrou também as velhas relações familiares. O direito das crianças tinha de ser proclamado (...). Mas não foram os abusos do poder paterno que criaram a exploração direta ou indireta das forças imaturas do trabalho pelo capital; ao contrário, foi o modo capitalista de exploração que, ao suprimir a base econômica correspondente à autoridade paterna, fez o exercício dela degenerar em abusos nefastos. Por mais terrível e repugnante que pareça ser a decomposição da velha estrutura familiar dentro do sistema capitalista, a indústria moderna cria, apesar disso, com o papel decisivo que reserva às mulheres, aos adolescentes e aos meninos de ambos os sexos nos processos de produção socialmente organizados e fora da esfera familiar, o novo fundamento econômico para uma forma superior da família e das relações entre os sexos. Seria naturalmente uma tolice considerar absoluta a forma germano-cristã da família, do mesmo modo que não se justifica esse ponto de vista em relação à forma romana antiga, ou à grega antiga, ou à oriental, as quais se interligam numa progressão histórica. Além disso, é óbvio que a composição do pessoal de trabalho constituído de indivíduos de ambos os sexos e das mais diversas idades, fonte de degradação e escravatura em sua forma espontânea, brutal, capitalista (em que o trabalhador existe para o processo de produção e não o processo de produção para o trabalhador), tem de transformar-se em fonte de desenvolvimento humano, quando surjam as condições adequadas.” P. 559ss “O desenvolvimento histórico da indústria moderna criou a necessidade de generalizar a lei fabril a toda produção social, no início uma lei de exceção restrita à fiação e à tecelagem, primeiras manifestações da produção mecanizada. Na retaguarda desta, revolucionam-se completamente as estruturas tradicionais da manufatura, do artesanato e do trabalho a domicílio: a manufatura se transforma constantemente em fábrica, o artesanato em manufatura, e, por fim, as esferas do artesanato remanescente e do trabalho a domicílio se convertem, com relativa rapidez, em antros de miséria onde campeiam livremente as monstruosidades extremas da produção capitalista. Duas circunstâncias tem sido decisivas para a generalização da lei fabril: primeiro, a experiência sempre repetida de que o capital quando fica sujeito ao controle do estado em alguns pontos da esfera social, procura compensar-se nos demais, da maneira mais desmesurada; segundo, o clamor dos próprios capitalistas pela igualdade das condições da concorrência, isto é, o estabelecimento de barreiras iguais para todos que exploram o trabalho.” P.561s 10. Indústria moderna e agricultura 52
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    “Na agricultura, oemprego da maquinaria está em grande parte livre dos prejuízos físicos que acarreta ao trabalhador na fábrica, mas atua de maneira mais intensa e sem oposição, no sentido de tornar supérfluos os trabalhadores (...). A indústria moderna atua na agricultura mais revolucionariamente que em qualquer outro setor, ao destruir o baluarte da velha sociedade, o camponês, substituindo-o pelo trabalhador assalariado. As necessidades de transformação social e a oposição de classes no campo são assim equiparadas às da cidade. Os métodos rotineiros e irracionais da agricultura são substituídos pela aplicação consciente, tecnológica da ciência. O modo de produção capitalista completa a ruptura dos laços primitivos que, no começo, uniam a agricultura e a manufatura. Mas, ao mesmo tempo, cria as condições materiais para uma síntese nova, superior, para a união da agricultura e da indústria, na base das estruturas que se desenvolveram em mútua oposição. Com a preponderância cada vez maior da população urbana que se amontoa nos grandes centros, a produção capitalista, de um lado, concentra a força motriz histórica da sociedade, e, de outro, perturba o intercâmbio material entre o homem e a terra, isto é, a volta à terra os elementos do solo consumidos pelo ser humano sob a forma de alimentos e de vestuário, violando assim a eterna condição natural da fertilidade permanente do solo. Com isto destrói a saúde física do trabalhador urbano e a vida mental do trabalhador do campo. Mas, ao destruir as condições naturais que mantêm aquele intercâmbio, cria a necessidade de restaurá-lo sistematicamente, como lei reguladora da produção em forma adequada ao desenvolvimento integral do homem. Na agricultura, como na manufatura, a transformação capitalista do processo de produção significa, ao mesmo tempo, o martirológio dos produtores; o instrumento de trabalho converte-se em meio de subjugar, explorar e lançar à miséria o trabalhador e a combinação social dos processos de trabalho torna-se a opressão organizada contra a vitalidade, a liberdade e a independência do trabalhador individual. A dispersão dos trabalhadores rurais em áreas extensas quebra sua força de resistência, enquanto a concentração aumenta a dos trabalhadores urbanos. Na agricultura moderna, como na indústria urbana, o aumento da força produtiva e a maior mobilização do trabalho obtêm-se com a devastação e a ruína física da força de trabalho. E todo progresso da agricultura capitalista significa progresso na arte de despojar não só o trabalhador mas também o solo; e todo aumento da fertilidade da terra num tempo dado significa esgotamento mais rápido das fontes duradouras dessa fertilidade. Quanto mais se apoia na indústria moderna o desenvolvimento de um país, como é o caso dos Estados Unidos, mais rápido é esse processo de destruição. A produção capitalista, portanto, só desenvolve a técnica e a combinação do processo social de produção, exaurindo as fontes originais de toda riqueza: a terra e o trabalhador.” P.577ss O CAPITAL – LIVRO 1 - Volume II O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CAPITAL Parte Quinta - PRODUÇÃO DA MAIS VALIA ABSOLUTA E DA MAIS VALIA RELATIVA Capítulo XIV – Mais Valia Absoluta e Mais Valia Relativa “No capítulo V, estudamos o processo de trabalho em absoluto, independentemente de suas formas históricas, como um processo entre o homem e a natureza. Dissemos: “Observando-se todo o processo do ponto de vista do resultado, do produto, evidencia-se que meio e objeto de trabalho são meios de produção, e o trabalho é trabalho produtivo.” Na nota 7, acrescentamos: “Essa conceituação de trabalho produtivo, deriva apenas do processo de trabalho, não é de modo nenhum adequada ao processo de produção capitalista.”. Mais algumas observações sobre o assunto. Enquanto o processo de trabalho é puramente individual, um único trabalhador exerce todas as funções que mais tarde se dissociam. Ao apropriar-se individualmente de objetos naturais para 53
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    prover sua vida,é ele quem controla a si mesmo; mais tarde, ficará sob controle de outrem. O homem isolado não pode atuar sobre a natureza, sem por em ação seus músculos sob o controle de seu cérebro. Fisiológicamente, cabeça e mãos são partes de um sistema, do mesmo modo, o processo de trabalho conjuga o trabalho do cérebro e das mãos. Mais tarde se separam e acabam por se tornar hostilmente contrários. O produto deixa de ser o resultado imediato da atividade do produtor individual para tornar-se produto social, comum, de um trabalhador coletivo, isto é, de uma combinação de trabalhadores, podendo ser direta ou indireta a participação de cada um deles na manipulação do objeto sobre que incide o trabalho. A conceituação do trabalho produtivo e de seu executor, o trabalhador produtivo, amplia-se em virtude desse caráter cooperativo do processo de trabalho. Para trabalhar produtivamente não é mais necessário executar uma tarefa de manipulação do objeto de trabalho; basta ser órgão do trabalhador coletivo, exercendo qualquer uma das funções fracionárias. A conceituação anterior de trabalho produtivo, derivada da natureza da produção material, continua válida para o trabalhador coletivo, considerado em conjunto. Mas não se aplica a cada um de seus membros, individualmente considerados.” P. 583s “A produção capitalista não é apenas produção de mercadorias, ela é essencialmente produção de mais valia. O trabalhador não produz para si, mas para o capital. Por isso não é mais suficiente que ele apenas produza. Ele tem de produzir mais valia. Só é produtivo o trabalhador que produz mais valia para o capitalista servindo assim à auto-expansão do capital. Utilizando um exemplo fora da esfera da produção material: um mestre-escola é um trabalhador produtivo quando trabalha não só para desenvolver a mente das crianças, mas também para enriquecer o dono da escola. Que este inverta seu capital numa fábrica de ensinar, em vez de numa de fazer salsicha, em nada modifica a situação. O conceito de trabalho produtivo não compreende apenas uma relação entre atividade e efeito útil, entre trabalhador e produto do trabalho, mas também uma relação de produção especificamente social, de origem histórica, que faz do trabalhador o instrumento direto de criar mais valia. Ser trabalhador produtivo não é nenhuma felicidade, mas azar.” P.584 “A produção da mais valia absoluta se realiza com o prolongamento da jornada de trabalho além do ponto em que o trabalhador produz apenas um equivalente ao valor de sua força de trabalho e com a apropriação pelo capital desse trabalho excedente. Ela constitui o fundamento do sistema capitalista e o ponto de partida da produção da mais valia relativa. Esta pressupõe que a jornada de trabalho já esteve dividida em duas partes: trabalho necessário e trabalho excedente. Para prolongar o trabalho excedente, encurta-se o trabalho necessário com métodos que permitem produzir-se em menos tempo o equivalente ao salário. A produção da mais valia absoluta gira exclusivamente em torno da duração da jornada de trabalho; a produção da mais valia relativa revoluciona totalmente os processos técnicos de trabalho e as combinações sociais. A produção da mais valia relativa pressupõe, portanto, um modo de produção especificamente capitalista, que, com seus métodos, meios e condições, surge e se desenvolve, de início, na base da subordinação formal do trabalho ao capital. No curso desse desenvolvimento, essa subordinação formal é substituída pela sujeição real do trabalho ao capital.” P. 585 “Sob certo ponto de vista, parece ilusória a diferença entre mais valia absoluta e mais valia relativa. A mais valia relativa é absoluta por exigir a prolongação absoluta da jornada de trabalho além do tempo necessário à existência do trabalhador. A mais valia absoluta é relativa por exigir um desenvolvimento da produtividade do trabalho que permita reduzir o tempo de trabalho necessário a uma parte da jornada de trabalho. Mas, quando focalizamos o movimento da mais valia, desvanece essa aparência de identidade. Assim que se estabelece o modo capitalista de produção e se torna o modo geral de produção, sente-se a diferença entre a mais valia absoluta e a mais valia relativa, quando o problema é elevar a taxa da mais valia. Admitindo que a força de trabalho seja paga pelo seu valor, ficamos com a alternativa: dados a produtividade do trabalho e seu grau normal de 54
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    intensidade, só épossível elevar a taxa da mais valia com o prolongamento absoluto da jornada de trabalho; dada a duração da jornada de trabalho, só é possível elevar a taxa da mais valia variando relativamente as magnitudes das suas partes componentes, o trabalho necessário e o trabalho excedente, o que pressupõe (admita a hipótese de que o salário não deve cair abaixo do valor da F.T.) variação da produtividade ou da intensidade do trabalho.” P. 586 “Se o trabalhador precisa de todo o seu tempo, a fim de produzir os meios de subsistência necessária para sua manutenção e de seus dependentes, não lhe restará tempo nenhum a fim de trabalhar gratuitamente para outra pessoa. Se não se atinge certo grau de produtividade do trabalho não sobra tempo ao trabalhador para produzir além da subsistência; sem esse tempo de sobra, não haverá capitalistas, nem donos de escravos, nem barões feudais, em suma, nenhuma classe de grandes proprietários.” P. 587 “Só se pode falar de uma base natural da mais valia no sentido muito geral de que não há nenhum obstáculo natural absoluto que impeça uma pessoa de transferir o trabalho necessário à própria existência para outra pessoa, do mesmo modo que não existe um obstáculo natural absoluto que impeça um ser humano de repastar-se com a carne de seu semelhante. Não há nenhuma razão, como se faz as vezes para relacionar com idéias místicas essa produtividade do trabalho que se desenvolve naturalmente. Só depois que os homens ultrapassam sua primitiva condição animal, e socializam até certo ponto seu próprio trabalho, é que surgem condições em que o trabalho excedente de um se torna condição de existência do outro. Nos primórdios da civilização são pequenas as forças produtivas do trabalho adquiridas, mas também são reduzidas as necessidades que se desenvolvem com os meios de satisfazê-las e através deles. Além disso, naqueles primórdios, é ínfima a proporção dos indivíduos do setor social que vive do trabalho alheio, comparada com a massa dos produtores diretos. Com o progresso da força produtiva social do trabalho, essa proporção cresce absoluta e relativamente. O sistema capitalista surge sobre um terreno econômico que é o resultado de um longo processo de desenvolvimento. A produtividade do trabalho que encontra e que lhe serve de ponto de partida é uma dádiva não da natureza mas de uma história que abrange milhares de séculos.” P. 587s “Pondo de lado a estrutura mais ou menos desenvolvida da produção social, a produtividade do trabalho depende de condições naturais. Essas condições podem se referir à própria natureza do homem, como raça etc. , ou à natureza que o cerca. As condições naturais externas se distinguem economicamente em duas grandes classes: riquezas naturais de meios de subsistência, isto é, solo fértil, águas piscosas etc. e riquezas naturais de meio de trabalho, a saber, quedas d água, rios navegáveis, madeira, metais, carvão etc. . Nos primórdios da civilização, o papel decisivo cabe à primeira espécie de riquezas naturais; nos estágios de desenvolvimento superiores, à segunda espécie.” P. 588 “As condições naturais favoráveis criam apenas a possibilidade mas nunca a realidade do trabalho excedente e, consequentemente, da mais valia ou do produto excedente. Em virtude da diversidade das condições naturais do trabalho, a mesma quantidade de trabalho satisfaz em diferentes países quantidade diversa de necessidade, e, portanto, em circunstâncias análogas sob outros aspectos, difere o tempo de trabalho necessário. As condições naturais não tem outro efeito sobre o trabalho excedente que o de estabelecer um limite natural, de determinar o ponto em que pode começar o trabalho para outrem. Na mesma proporção em que a indústria avança, retrocede esse limite natural.” P . 590s 55
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    “As forças produtivasnaturais do trabalho, do mesmo modo que suas forças produtivas sociais, históricamente desenvolvidas, parecem ser as forças produtivas do capital ao qual o trabalho se incorpora.” P. 591 Capítulo XV – Variações Quantitativas no Preço da Força de Trabalho e na Mais Valia “O valor da F.T. é determinado pelo valor dos meios de subsistência habitualmente necessários ao trabalhador médio. Embora a forma desses meios possa variar, é determinada sua quantidade num tempo dado de uma dada sociedade, justificando-se, nessas condições, considerá-la magnitude constante. O que muda é o valor dessa quantidade.” P. 595 “O dia de trabalho de duração dada produz sempre o mesmo valor, embora a produtividade do trabalho varie e com ela a quantidade dos produtos e, em conseqüência, o preço de cada mercadoria produzida. (...) O valor da F.T. e a mais valia variam em direções opostas. A mais valia varia no mesmo sentido da produtividade do trabalho, e o valor da F.T. em sentido oposto. (...)Acréscimo ou decréscimo da mais valia é sempre conseqüência e não causa do correspondente decréscimo ou acréscimo do valor da F.T..” p.596ss “O valor da F.T. é determinado pelo valor de dada quantidade de meios de subsistência. O que muda com a produtividade do trabalho é o valor desses meios de subsistência e não sua quantidade.” P. 599 “O aumento da produtividade e o da intensidade do trabalho atuam na mesma direção. Ambos aumentam a quantidade produzida num dado espaço de tempo. Ambos reduzem, portanto a parte da jornada que o trabalhador precisa para produzir seus meios de subsistência ou o equivalente deles. O limite mínimo absoluto da jornada é constituído por essa parte necessária, mas compressível. Se toda jornada de trabalho se reduzisse a essa parte, desapareceria o trabalho excedente, o que é impossível no regime do capital. A eliminação da forma capitalista de produção o permite limitar a jornada de trabalho ao trabalho necessário. Todavia, não se alterando as demais circunstâncias, seria ampliado o trabalho necessário, por dois motivos: as condições de vida do trabalhador seriam mais ricas e maiores suas exigências, uma parte do atual trabalho excedente seria considerada trabalho necessário, para constituir um fundo social de reserva e de acumulação. Quanto mais cresce a produtividade do trabalho, tanto mais pode reduzir-se a jornada de trabalho, e quanto mais se reduz a jornada, tanto mais pode aumentar a intensidade do trabalho. Do ponto de vista social, a produtividade do trabalho aumenta com sua economia. Esta implica em economizar meios de produção e em evitar todo trabalho inútil. O modo capitalista de produção, ao mesmo tempo que impõe economia em cada negócio particular, produz, com seu sistema anárquico de concorrência, o desperdício mais desmedido dos meios de produção e das forças de trabalho da sociedade, além de criar inúmeras funções para ele indispensável, mas em si mesmas supérfluas.” P. 606s “Dadas a intensidade e a produtividade do trabalho, o tempo que a sociedade tem de empregar na produção material será tanto menor, e, em conseqüência, tanto maior o tempo conquistado para a atividade livre, espiritual e social dos indivíduos, quanto mais equitativamente se distribua o trabalho entre todos os membros aptos da sociedade, e quanto menos uma camada social possa furtar-se à necessidade natural do trabalho, transferindo-a para outra classe. Então, a redução da jornada de trabalho encontra seu último limite na generalização do trabalho. Na sociedade capitalista, consegue-se tempo livre para uma classe, transformando a vida inteira das massas em tempo de trabalho.” P. 607 Capítulo XVI – Diversas Fórmulas da Taxa de Mais Valia 56
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    “Vimos que ataxa de mais valia se expressa nas seguintes fórmulas: I. mais valia , ou seja m/v = mais valia = trabalho excedente capital variável valor da F.T. trabalho necessário • As duas primeiras fórmulas exprimem como relação entre valores o que a terceira expressa como relação entre espaços de tempo nos quais esses valores são produzidos. Estas fórmulas que se substituem entre si obedecem a uma conceituação rigorosa. Encontramo-las implícitas na economia política clássica que, entretanto, não chegou a elaborá-las conscientemente. Em compensação, nela encontramos as fórmulas seguintes: II. trabalho excedente = mais valia = produto excedente jornada de trabalho valor do produto produto total A mesma proporção é expressa aqui alternativamente sob a forma de uma relação entre quantidades de trabalho, entre valores nos quais elas se realizam, ou entre produtos nos quais existem esses valores. (...)Nestas fórmulas (II) expressa-se erroneamente o grau de exploração de trabalho ou a taxa de mais valia.” P. 608s “O capitalista paga o valor da F.T., ou seja, preço que coincide ou não com o valor, e recebe em troca o direito de dispor diretamente da força viva de trabalho. Usufrui a F.T. em dois períodos. Num período, o trabalho produz apenas um valor que é igual ao valor de sua F.T., um equivalente portanto. O capitalista recebe assim um produto de preço igual ao que ele pagou pela força de trabalho. É como se tivesse comprado o produto pronto no mercado. Mas, no período de trabalho excedente, a F.T. que o capitalista utiliza produz para ele um valor que não lhe custa nenhuma contrapartida. Explora gratuitamente a F.T.. Nesse sentido, pode-se chamar trabalho excedente de trabalho não pago. Capital, por isso, não é apenas comando sobre trabalho, como diz Adam Smith. É essencialmente comando sobre trabalho não pago. Toda mais valia, qualquer que seja a forma na qual se cristalize, a de lucro, juro, renda etc., é, por sua substância, materialização de trabalho não pago. O segredo da auto-expansão ou valorização do capital se reduz ao seu poder de dispor de uma quantidade determinada de trabalho alheio não pago.” P. 612s Parte Sexta – O SALÁRIO Capítulo XVII – Transformação do Valor ou do Preço da F.T. em Salário “Para ser vendido no mercado como mercadoria, o trabalho tem de existir antes da venda. Mas, se o trabalhador pudesse dar-lhe uma existência independente dele, objetiva, venderia mercadoria e não trabalho. (...)O que o possuidor de dinheiro encontra no mercado não é trabalho, mas o trabalhador. O que este vende é sua F.T.. Ao começar realmente seu trabalho, já deixa este de pertencer-lhe, não sendo mais possível vendê-lo. O trabalho é a substância e a medida imanente dos valores, mas ele próprio não tem nenhum valor. Na expressão “valor do trabalho”, a idéia de valor não só se desvanece inteiramente, mas também se converte no oposto dela. É uma expressão imaginária, como, por exemplo, valor da terra. Essas expressões imaginárias, entretanto, tem sua origem nas próprias relações de produção. São categorias que correspondem a formas aparentes de relações essenciais. Todas as ciências, exceto a economia política, reconhecem que as coisas apresentam frequentemente uma aparência oposta à sua essência.” P. 619s 57
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    “A forma salárioapaga, (...), todo vestígio da divisão da jornada de trabalho em trabalho necessário e trabalho excedente, em trabalho pago e trabalho não pago. Todo o trabalho aparece como trabalho pago. Na corvéia distinguem-se, no tempo e no espaço, sensível e palpavelmente, o trabalho do servo para si mesmo e seu trabalho compulsório para o senhor da terra. Na escravatura, a parte da jornada de trabalho em que o escravo apenas compensa o valor de seus próprios meios de subsistência, trabalhando na realidade para si mesmo, aparece como trabalho destinado a seu dono. Todo o seu trabalho tem a aparência de trabalho não pago. No trabalho assalariado, ao contrário, mesmo trabalho excedente ou não remunerado parece pago. No primeiro caso, a relação de propriedade oculta o trabalho do escravo para si mesmo; no segundo, a relação monetária dissimula o trabalho gratuito do assalariado. Compreende-se, assim, a importância decisiva da metamorfose do valor e do preço da F.T. em salário ou em valor e preço do próprio trabalho. Nessa forma aparente que torna invisível a verdadeira relação e ostenta o oposto dela, repousam todas as noções jurídicas do assalariado e do capitalista, todas as mistificações do modo capitalista de produção, todas as suas ilusões de liberdade, todos os embustes apologéticos da economia vulgar.” P. 622s Capítulo XVIII – O Salário por Tempo “O salário assume as mais variadas formas sobre as quais os compêndios de economia exclusivamente interessados no aspecto mais imediato da questão, não oferecem nenhum esclarecimento. Uma exposição sobre todas essas formas é matéria para um tratado especial sobre trabalho assalariado e transcende ao domínio desta obra. Entretanto, ocupar-no-emos sucintamente das duas formas principais” ( salário por peça e salário por tempo). “Já vimos que a F.T. é vendida por determinado espaço de tempo. A forma aparente em que se apresenta o valor diário, semanal etc. da F.T. , é portanto a de salário por tempo, isto é, salário diário, semanal etc.. De início cabe observar que as leis expostas no capítulo XV, relativas à variação de magnitude do preço da F.T. e da mais valia se transformam em leis do salário por meio de simples mudança de forma. Do mesmo modo, a diferença entre valor-de-troca da F.T. e a soma dos meios de subsistência em que se transforma esse valor se patenteia agora como diferença entre salário nominal e salário real. Seria inútil repetir agora em relação a forma fenomênica o que já se expôs com relação à forma essencial.” P. 626s “A soma em dinheiro (citação: aqui estamos supondo sempre constantes o valor do dinheiro) que o trabalhador recebe por seu trabalho diário, semanal etc. constitui o montante de seu salário nominal ou estimado em valor. Mas, é claro que, conforme for a duração da jornada de trabalho, isto é, a quantidade de trabalho por ele diariamente fornecida, o mesmo salário por dia, por semana etc. pode representar preços bem diferentes do trabalho, soma de dinheiro bem diferentes para a mesma quantidade de trabalho. Ao considerar o salário por tempo, devemos distinguir entre o montante do salário diário, semanal etc. e o preço do trabalho.” P. 627 “Pode-se formular a seguinte lei geral: dada a quantidade de trabalho por dia, por semana etc., o salário por dia ou por semana depende do preço do trabalho, o qual varia por sua vez, seja com o valor da F.T. , seja com os desvios do preço dela em relação ao valor. Mas, dado o preço do trabalho, o salário por dia ou por semana depende da quantidade do trabalho diário ou semanal. A unidade de medida do salário por tempo, o preço da hora de trabalho, é o quociente da divisão do valor diário da F.T. pelo número de horas da jornada normal de trabalho.” P. 629 “Se o salário por hora for fixado de modo que o capitalista não se obrigue a pagar o salário de um dia ou de uma semana, mas apenas as horas de trabalho em que lhe apraz ocupar o trabalhador, poderá ele empregá-lo por espaço de tempo inferior ao que surgiu originariamente de base para calcular o salário por hora ou a unidade de medida do preço do trabalho.” P. 630 58
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    Capítulo XIX –Salário por Peça “ O salário por peça não passa de uma forma a que se converte o salário por tempo, do mesmo modo que o salário por tempo é a forma a que se converte o valor ou o preço da F.T.. O salário por peça dá à primeira vista a impressão de que o valor-de-uso vendido pelo trabalhador não é a função de sua força de trabalho, o trabalho vivo, mas o trabalho já materializado no produto, e que o preço desse trabalho não é determinado, como no salário por tempo, pela fração valor diário da F.T. / jornada de trabalho de determinado número de horas, mas pela capacidade de produção do trabalhador.” P. 636s “A forma de salário por peça é tão irracional quanto a de salário por tempo. (...)O salário por peça, na realidade, não expressa diretamente nenhuma relação de valor. Não se trata de medir o valor da peça pelo tempo de trabalho nela corporificado, mas, ao contrário, o tempo despedido pelo trabalhador pelo número de peças que produziu. No salário por tempo, o trabalho se mede diretamente por sua duração; no salário por peça, pela quantidade de produtos em que o trabalho se materializa num dado espaço de tempo.” P. 638s “Vejamos mais de perto as peculiaridades do salário por peça. A qualidade do trabalho é controlada aqui pelo próprio resultado, que tem de possuir a qualidade média, a fim de que seja pago integralmente o salário por peça. Desse modo, o salário por peça se torna terrível instrumento de descontos salariais e de trapaça capitalista. Proporciona ao capitalista uma medida precisa da intensidade do trabalho. Só se considera, então, tempo de trabalho socialmente necessário, sendo como tal pago, o tempo de trabalho que se corporifica numa quantidade de mercadorias préviamente determinada e fixada pela experiência. (...)Se o trabalhador não possui a capacidade média de produção, não pode ele realizar certo mínimo de trabalho durante a jornada, e é despedido. Sendo a qualidade e a intensidade do trabalho controlados pela forma de salário, torna esta em grande parte desnecessário o trabalho de inspeção. O salário por peça constitui a base não só do trabalho doméstico moderno do qual já falamos anteriormente, mas também de um sistema hierarquicamente organizado de exploração e opressão. Esse sistema possui duas formas fundamentais. Numa, o salário por peça facilita que, entre o capitalista e o trabalhador assalariado, se insiram parasitas que subalugam o trabalho. O ganho dos intermediários decorre da diferença entre o preço do trabalho que o capitalista paga e a parte desse preço que eles realmente entregam ao trabalhador. (...)Noutra forma, o salário por peça permite ao capitalista contratar o trabalhador principal (...) estabelecendo um tanto por peça, um preço pelo qual o trabalhador principal se obriga a recrutar e a pagar seus auxiliares. A exploração dos trabalhadores pelo capital se realiza então por meio da exploração do trabalhador pelo trabalhador.” P. 639s “Dado o salário por peça, é interesse naturalmente do trabalhador empregar sua F.T. o mais intensamente possível, o que facilita ao capitalista elevar o grau normal de intensidade do trabalho. É também interesse pessoal do trabalhador prolongar a jornada de trabalho, a fim de aumentar seu salário diário ou semanal.” P. 640s “(...) a maior margem de ação proporcionada pelo salário por peça influi no sentido de desenvolver, de um lado, a individualidade dos trabalhadores e com ela o sentimento de liberdade, a independência e o autocontrole, e, do outro, a concorrência e a emulação entre eles. Por isso, o salário por peça tende a baixar o nível médio dos salários, elevando salários individuais. Mas, nos casos em que determinado salário por peça vigora habitualmente há muito tempo, sendo difícil baixá-lo, recorrem os patrões, excepcionalmente, à transformação compulsória em salário por tempo. (...) Do exposto evidencia-se que o salário por peça é a forma de salário mais adequada ao 59
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    modo capitalista deprodução. Embora não seja uma forma nova, pois figurava oficialmente, ao lado do salário por tempo, nos estatutos do trabalho ingleses e franceses do séc. XIV, sua aplicação só adquire maior amplitude no período manufatureiro propriamente dito.” P. 641s Capítulo XX – Diversidade entre os Salários das Nações “No capítulo XV estudamos as combinações que podem ocasionar uma variação tanto na magnitude absoluta do valor da F.T. , quanto na magnitude relativa, na comparada com a mais valia. Simultâneamente com a variação do preço da F.T., a quantidade dos meios de subsistência em que ele se realiza pode experimentar flutuações independentes e diversas desse preço. (...) Quando se comparam os salários das diferentes nações devem, portanto, ser levados em conta todos os fatores que determinam a variação da magnitude do valor da F.T. como o preço e a extensão das necessidades elementares da existência humana, naturais e históricamente desenvolvidas, custos de formação do trabalhador, o papel desempenhado pelo trabalho das mulheres e das crianças, a produtividade do trabalho, sua duração e sua intensidade. Mesmo a comparação mais superficial exige, de início, que se reduza o salário diário médio dos mesmos ramos nos diversos países a jornada de trabalho de igual duração. Após essa redução dos salários diários a termos homogêneos, é mister transformar o salário por tempo em salário por peça, uma vez que só o último serve para medir os graus de produtividade e de intensidade do trabalho.” P. 647s “Num país, a intensidade e a produtividade do trabalho nacional se elevam acima do nível internacional na medida em que nele está desenvolvida a produção capitalista. Por isso, as diferentes quantidades de mercadorias da mesma espécie produzidas em diferentes países, no mesmo espaço de tempo, tem valores internacionais desiguais, que, através dos preços, se exprimem em diferentes somas de dinheiro. Em conseqüência, o valor relativo do dinheiro será menor no país onde a produção capitalista é mais desenvolvida (e o trabalho portanto mais intenso) do que naquele em que é menos desenvolvida. Infere-se daí que o salário nominal, o equivalente da F.T. expresso em dinheiro, será mais alto no primeiro país que no segundo; o que não significa que isto seja verdadeiro para o salário real, isto é, para os meios de subsistência postos à disposição do trabalhador.” P. 648s Parte Sétima – ACUMULAÇÃO DE CAPITAL “A conversão de uma soma de dinheiro em meios de produção e F.T. é o primeiro passo dado por uma quantidade de valor que vai exercer a função de capital. Essa conversão ocorre no mercado, na esfera da circulação. No segundo passo, o processo de produção, consiste em transformar os meios de produção em mercadoria cujo valor ultrapassa o dos seus elementos componentes, contendo, portanto, o capital que foi desembolsado acrescido de uma mais valia. A seguir essas mercadorias tem, por sua vez, de ser lançadas na esfera da circulação. Importa vendê-las, realizar seu valor em dinheiro, e converter de novo esse dinheiro em capital, repetindo continuamente as mesmas operações. Esse movimento circular que se realiza sempre através das mesmas fases sucessivas constitui a circulação do capital. A primeira condição da acumulação é o capitalista conseguir vender suas mercadorias e reconverter a maior parte do dinheiro por elas recebido em capital. Doravante, pressupomos que o capital realiza normalmente seu processo de circulação. A análise pormenorizada desse processo ficará para o livro segundo.” P. 657s 60
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    “O capitalista queproduz a mais valia, isto é, que extrai diretamente dos trabalhadores trabalho não pago, materializando-o em mercadorias, é quem primeiro se apropria dessa mais valia, mas não é o último proprietário dela. Tem de dividi-la com capitalistas, que exercem outras funções no conjunto da produção social, com proprietários da terra, etc.. A mais valia se fragmenta assim em diversas partes. Suas frações cabem a diferentes categorias de pessoas e recebem por isso formas diversas, independentes entre si, como lucro, juros, ganho comercial, renda da terra, etc.. Essas formas a que se converte a mais valia serão estudadas no livro terceiro. Por ora, pressupomos que o capitalista que produz a mercadoria, vende-a pelo seu valor, sem nos preocuparmos em analisar sua volta ao mercado, ou as novas formas que o capital assume na esfera da circulação, ou as condições concretas da reprodução ocultas nessas formas. Pressupomos ainda que o produtor capitalista é o proprietário de toda mais valia ou o representante de todos os que participam com ele do butim. Encaramos a acumulação, de início, de um ponto de vista abstrato, como simples fase do processo imediato de produção.” P. 658 “(...)Qualquer que seja a proporção da mais valia que o produtor capitalista conserve para si mesmo ou ceda a outrem, é sempre ele quem dela primeiro se apropria. Nossos pressupostos para o estudo da acumulação consistem, portanto, pressupostos do processo real da acumulação. Por outro lado, o fracionamento da mais valia e a circulação que serve de veículo à acumulação obscurecem a forma fundamental do processo de acumulação. A análise do processo em sua pureza exige, por isso, que se ponham de lado todos os fenômenos que dissimulam o funcionamento interno de um mecanismo.” P. 658 Capítulo XXI – Reprodução Simples “Qualquer que seja a forma social do processo de produção, tem este de ser contínuo ou de percorrer, periódica e ininterruptamente, as mesmas fases. Uma sociedade não pode parar de consumir nem de produzir. Por isso, todo processo social de produção encarado em suas conexões constantes e no fluxo contínuo de sua renovação, é ao mesmo tempo processo de reprodução. As condições da produção são simultaneamente as de reprodução. Nenhuma sociedade pode produzir continuamente, isto é, reproduzir, sem reconverter, de maneira constante, parte de seus produtos em meios de produção ou elementos da produção nova. Permanecendo invariáveis as demais condições, só pode reproduzir ou manter sua riqueza no mesmo nível, substituindo durante o ano, por exemplo, os meios de produção consumidos, isto é, instrumental de trabalho, matérias-primas e substâncias acessórias, por quantidade igual de artigos da mesma espécie, separados da produção anual e incorporados ao processo de produção que continua. Determinada parte do produto anual pertence portanto à produção. Destinados, desde a origem, ao consumo produtivo, essa parte possui formas que, em regra, tornam-na inteiramente inadequada ao consumo individual.” P. 659s “Se a produção tem a forma capitalista, também a terá a reprodução. No modo capitalista de produção, o processo de trabalho é apenas um meio de criar valor; análogamente, a reprodução é apenas um meio de reproduzir o valor antecipado como capital, isto é, como valor que se expande. Uma pessoa só assume a feição econômica de capitalista quando seu dinheiro funciona continuamente como capital.(...) Como acréscimo periódico ao valor do capital, ou fruto periódico do capital em movimento, a mais valia toma a forma de um rendimento que tem sua origem no capital. Se o capitalista só utiliza esse rendimento para consumo, gastando-o no mesmo período em que o ganha, ocorrerá então, não se alterando as demais circunstâncias, reprodução simples.” P. 660 “O processo de produção se inicia com a compra da F.T. por determinado tempo e esse começo se renova sempre que se extingue o prazo estipulado, tendo decorrido assim determinado período de produção, semana, mês etc.. Mas, o trabalhador só é pago depois de ter empregado sua F.T. e depois 61
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    de se teremmaterializado nas mercadorias o valor dessa força e a mais valia. Assim, produziu ele a mais valia, provisóriamente considerada o fundo de consumo do capitalista, além de produzir o fundo para seu próprio pagamento, o capital variável, antes de este chegar às suas mãos sob a forma de salário. E só terá emprego enquanto reproduzir continuamente esse capital variável. (...)O capital variável, portanto, é uma forma histórica particular em que aparece o fundo dos meios de subsistência ou o fundo do trabalho, do qual precisa o trabalhador para manter-se e reproduzir-se e que ele mesmo tem de produzir e reproduzir em todos os sistemas de produção social. Esse fundo flui continuamente para ele sob a forma de meios de pagamento de seu trabalho, pois seu próprio produto se afasta sempre dele sob a forma de capital. Mas, a forma sob que aparece o fundo em nada altera a circunstância de o capitalista antecipar ao trabalhador o que já é na realidade trabalho materializado por este.” P. 660s “Pondo de lado a acumulação propriamente dita, a mera continuidade do processo de produção, isto é, a reprodução simples, transforma necessariamente qualquer capital, após um período mais ou menos longo, em capital acumulado ou mais valia capitalizada. Se o capital, ao ser empregado no processo de produção, era produto do trabalho de seu investidor, torna-se ele mais cedo ou mais tarde valor adquirido sem equivalente, ou materialização, em dinheiro ou em outra forma, de trabalho alheio não pago.” P. 663 “(...)para transformar dinheiro em capital, não basta a existência da produção e da circulação de mercadorias. É necessário haver, antes, de um lado, possuidor de valor ou de dinheiro, e, do outro, possuidor da substância criadora de valor; de um lado, possuidor dos meios de produção e dos meios de subsistência, e, do outro, possuidor apenas da F.T. , tendo ambos de se encontrarem como comprador e vendedor. A separação entre o produto do trabalho e o próprio trabalho, entre as condições objetivas do trabalho e a força subjetiva do trabalho, é portanto o fundamento efetivo, o ponto de partida do processo de produção capitalista.” P. 663s “Sendo o processo de produção ao mesmo tempo processo de consumo da F.T. pelo capitalista, o produto do trabalhador transforma-se continuamente não só em mercadoria, mas em capital, em valor que suga a força criadora de valor, em meios de subsistência que compram pessoas, em meios de produção que utilizam os produtores. O próprio trabalhador produz, por isso, constantemente, riqueza objetiva, mas sob a forma de capital, uma força que lhe é estranha, o domina e explora, e o capitalista produz também constantemente a F.T., mas sob a forma de uma fonte subjetiva de valor, separada dos objetos sem os quais não se pode realizar, abstrata, existente apenas na individualidade do trabalhador; em suma, o capitalista produz o trabalhador sob a forma de trabalhador assalariado. Essa reprodução constante, essa perpetuação do trabalhador é a condição necessária da produção capitalista.” P. 664s “Quando o capitalista transforma parte de seu capital em F.T. , aumenta ele o valor de seu capital global. Com uma cajadada mata dois coelhos. Lucra não só com o que recebe do trabalhador, mas também com o que lhe dá. (...) Dentro dos limites do absolutamente necessário o consumo individual da classe trabalhadora, portanto, transforma os meios de subsistência, proporcionados pelo capital em troca de F.T. , em nova F.T. explorável pelo capital. (...)Pouco importa que o trabalhador realize seu consumo individual tendo em vista sua própria satisfação e não a do capitalista. As bestas de carga saboreiam o que comem, mas seu consumo não deixa, por isso, de ser um elemento necessário do processo de produção. A conservação, a reprodução da classe trabalhadora constitui condição necessária e permanente da reprodução do capital. O capitalista pode deixar tranqüilamente o preenchimento dessa condição por conta dos instintos de conservação e de perpetuação dos trabalhadores. Sua verdadeira preocupação é restringir ao estritamente necessário o consumo individual dos trabalhadores (...). Por isso o capitalista e seu ideólogo, o economista 62
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    político, só consideramprodutiva a parte do consumo individual do trabalhador, necessária para perpetuar a classe trabalhadora, tendo portanto de ser realizada, a fim de que o capital possa consumir F.T. ; o que o trabalhador vier a consumir, além disso para seu próprio prazer, é consumo improdutivo. (...)Na realidade, o consumo individual do trabalhador é para ele mesmo improdutivo, pois só reproduz o indivíduo necessitado; é produtivo para o capitalista e para o estado, pois constitui a produção da força que cria a riqueza alheia.” P. 665ss “Do ponto de vista social, portanto, a classe trabalhadora, mesmo quando não está diretamente empenhada no processo de trabalho, é um acessório do capital do mesmo modo que o instrumental inanimado de trabalho. Dentro de certos limites, mesmo seu consumo individual não passa de um elemento do processo de reprodução do capital. Mas, o processo procura evitar que lhe escapem esses instrumentos conscientes da produção, carreando continuamente o que produzem para o pólo oposto do capital. O consumo individual assegura a conservação e reprodução dos trabalhadores e, destruindo os meios de subsistência, o contínuo reaparecimento dos trabalhadores no mercado de trabalho. O escravo romano era preso por grilhões; o trabalhador assalariado está preso a seu proprietário por fios invisíveis. A ilusão de sua independência se mantém pela mudança contínua dos seus patrões e com a ficção jurídica do contrato.” P. 667 “A produção capitalista, encarada em seu conjunto, ou como processo de reprodução, produz não só mercadoria, não só mais valia; produz e reproduz a relação capitalista: de um lado, o capitalista e do outro, o assalariado.” P. 673 Capítulo XXII – Transformação da Mais Valia em Capital “(...)Ampliação de mais valia como capital ou conversão de mais valia em capital é o que se chama de acumulação de capital.” P. 674 “Para acumular, é necessário transformar parte do produto excedente em capital. Mas, sem fazer milagres, só se pode transformar em capital coisas que são aplicáveis no processo de trabalho, isto é, meios de produção, e coisas das quais o trabalhador precisa para manter-se, isto é, meios de subsistência. Em conseqüência, parte do trabalho anual excedente tem de ser transformado para produzir meios adicionais de produção e de subsistência acima da quantidade necessária para substituir o capital adiantado. Em suma, a mais valia só pode ser transformada em capital porque o produto excedente, do qual ela é o valor, já contém os elementos materiais de um novo capital. Para fazer esses elementos materiais funcionarem realmente como capital, a classe capitalista precisa apenas de um acréscimo de trabalho. Não sendo possível aumentar extensiva ou intensivamente a exploração dos trabalhadores já empregados, tem de ser utilizadas forças de trabalho adicionais. O mecanismo da produção capitalista já resolveu esse problema, reproduzindo a classe trabalhadora como classe que depende de salário e à qual este ordináriamente assegurada não só a conservação mas a multiplicação. O capital precisa apenas incorporar essas F.T. adicionais anualmente fornecidas, em diversas idades, pela classe trabalhadora, aos meios de produção adicionais já contidos na produção anual. Com isso, completa-se a transformação da mais valia em capital. De um ponto de vista concreto, a acumulação não passa de reprodução do capital em escala que cresce progressivamente.” P. 676s “Desde a origem, não contém ela “(capital adicional, mais valia capitalizada)” nenhuma partícula de valor que não derive de trabalho alheio não pago. Os meios de produção aos quais se incorpora a F.T. adicional e os meios de subsistência, com os quais se mantém essa força, não são mais do que elementos integrantes do produto excedente, do tributo que a classe capitalista anualmente extrai da classe trabalhadora. Quando aquela com uma parte do tributo compra a F.T. adicional desta, mesmo 63
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    pelo seu preçototal, de modo que se troque equivalente por equivalente, volta a repetir-se o velho procedimento do conquistador que paga as mercadorias fornecidas pelo vencido com o dinheiro que arrancou dele.” P. 677s “Cada transação particular corresponde sempre à lei de troca de mercadorias, comprando o capitalista a F.T. e vendendo-a sempre o trabalhador, e admitiremos que pelo valor real. Nessas condições, é evidente que o direito de propriedade privada, baseado sobre a produção e circulação das mercadorias se transmuta em seu oposto em virtude de sua própria dialética interna, inexorável. No início, havia uma troca de equivalentes, depois, a troca é apenas aparente: a troca do capital que se troca por F.T. é uma parte do produto do trabalho alheio do qual o capitalista se apropriou sem compensar com um equivalente; além disso, o trabalhador que produziu essa parte do capital tem de reproduzi-la, acrescentando um excedente. A relação de troca entre capitalista e trabalhador não passa de uma simples aparência que faz parte do processo de circulação, mera forma, alheia ao verdadeiro conteúdo e que apenas o mistifica. A forma é a contínua compra e venda da F.T.. O conteúdo é o capitalista trocar sempre por quantidade maior de trabalho vivo uma parte do trabalho alheio já materializado, do qual se apropria ininterruptamente, sem dar a contrapartida de um equivalente. Originalmente, o direito de propriedade aparecia fundamentado sobre o próprio trabalho. Essa suposição era pelo menos necessária, uma vez que se confrontavam possuidores de mercadorias com iguais direitos e o único meio de que uma pessoa dispõe para apropriar-se de mercadoria alheia é alienar a própria, e essas só podem ser produzidas com trabalho. Agora, do lado capitalista, propriedade revela-se o direito de apropriar-se de trabalho alheio não pago ou do seu produto, e, do lado do trabalhador, a impossibilidade de apropriar-se do produto de seu trabalho. A dissociação entre propriedade e trabalho se torna conseqüência necessária de uma lei que claramente derivava da identidade existente entre ambos.” P. 679 “No capítulo anterior, focalizamos a mais valia ou o produto excedente como fundo de consumo individual do capitalista e, neste, consideramo-la, até agora, como fundo de acumulação. Na verdade, ela é ambas as coisas ao mesmo tempo. Uma parte da mais valia é consumida como renda, outra parte é empregada como capital ou acumulada. Dada a quantidade de mais valia, uma dessas partes é tanto maior quanto menor for a outra. Permanecendo iguais as demais circunstâncias, a proporção que existe entre essas partes determina a magnitude da acumulação. Mas, quem realiza essa divisão é o proprietário da mais valia, o capitalista, que pratica, assim, um ato de vontade. Com referência à parte desse tributo por ele acumulada, diz-se que a economiza porque não a consome, isto é, porque exerce sua função de capitalista, a função de enriquecer-se.” P. 687 “O capitalista só possui um valor perante a história e o direito histórico à existência, enquanto funciona personificando o capital. Sua própria necessidade transitória, nessas condições, está ligada à necessidade transitória do modo capitalista de produção. Mas, ao personificar o capital, o que o impele não são os valores-de-uso de sua fruição e sim o valor-de-troca e sua ampliação. (...)O capitalista é respeitável apenas quando personifica o capital. Nessa função, partilha com o entesourador a paixão da riqueza pela riqueza. Mas, o que neste é mania individual, é naquele uma resultante social. O capitalista é apenas uma das rodas motoras desse mecanismo. Além disso, o desenvolvimento da produção capitalista torna necessária elevação contínua do capital empregado num empreendimento industrial, e a concorrência impõe a cada capitalista as leis imanentes do modo capitalista de produção como leis coercitivas externas. Compele-o a expandir continuamente seu capital, para conservá-lo, e só pode expandi-lo por meio da acumulação progressiva. Enquanto for consciência e vontade do capital em suas ações e omissões, verá no seu próprio consumo privado o equivalente a um roubo contra a acumulação. Aliás, no sistema de escrituração de partidas dobradas, as despesas particulares são lançadas contra o capital, no lado devedor da conta do capitalista. Acumular é empreender a conquista do modo da riqueza social. Juntamente com a 64
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    quantidade do materialhumano explorado, a acumulação amplia o domínio direto e indireto do capitalista. Mas, o pecado original se manifesta por toda parte. Com o desenvolvimento do modo capitalista de produção, da acumulação e da riqueza, deixa o capitalista de ser mera encarnação do capital. Sente compaixão por si mesmo e atinge um nível de educação que o leva a sorrir do apêgo à ascese, considerando-o preconceito do entesourador arcaico. Enquanto o capitalista clássico condena o consumo individual como pecado contra sua função e atentado contra a acumulação, o capitalista moderno é capaz de considerar a acumulação uma renúncia ao impulso de fruir a vida. “em seu peito, coitadinho, moram duas almas que lutam por separar-se” (citação: paródia a palavra de Fausto, em “Fausto” de Goethe). Nos primórdios históricos do modo capitalista de produção, todo capitalista novo-rico percorre este estágio – dominam o impulso para enriquecer-se e a avareza como paixões absolutas. Mas, o progresso da produção capitalista não cria apenas um modo de fruições. Com a especulação e com o crédito, abre milhares de fontes de enriquecimento rápido. A certo nível de desenvolvimento, certa dose convencional de prodigalidade se torna necessária para o negócio do “infeliz” capitalista, a qual serve para exibir riqueza, sendo por isso meio de obter crédito. O luxo entra nos custos de representação do capital. Além disso, o capitalista se enriquece não como o entesourador, na proporção do seu trabalho pessoal e do que deixa de gastar consigo mesmo, mas na medida em que suga F.T. alheia e impõe ao trabalhador a renúncia à fruição da vida. Embora a prodigalidade do capital não tenha, por isso, o caráter de boa fé que se encontra no senhor feudal esbanjador, embora oculte atrás dela a mais sórdida avareza e os cálculos mais mesquinhos, ela cresce com a acumulação, sem que uma restrinja a outra. Assim desenvolve-se no coração do capitalista um conflito fáustico entre o impulso de acumular e o de gozar a vida.” P. 688ss “(...)Ao tratar da produção da mais valia, temos pressuposto sempre que o salário tem um valor pelo menos igual ao da F.T.. A redução compulsória do salário abaixo desse valor, entretanto, desempenha na prática papel demasiadamente importante para não nos determos por um momento em sua análise. Dentro de certos limites, essa redução transforma efetivamente o fundo de consumo necessário à manutenção do trabalhador em fundo de acumulação do capital.” P. 697 “ Embora, em todos os ramos industriais, a parte do capital constante constituída por instrumental de trabalho tenha de ser suficiente para certo número de trabalhadores, determinado pela magnitude do empreendimento, não é necessário que essa parte aumente sempre na proporção da quantidade do trabalho empregado. (...)o trabalho adicional obtido com maior tensão da F.T. pode aumentar o produto excedente e a mais valia, a substância da acumulação, sem o correspondente aumento prévio do capital constante. Na indústria extrativa, na mineração, por ex., as matérias-primas não constituem parte componente do capital adiantado. O objeto de trabalho, nesse caso, não é produto de trabalho anterior, mas um presente gratuito da natureza (...). Aí o capital constante se constitui quase exclusivamente de instrumental de trabalho, capaz de suportar uma quantidade muito ampliada de trabalho, com turmas noturnas e diurnas de trabalhadores, por ex..(...)Na agricultura, não se pode aumentar a terra lavrada, sem o fornecimento prévio de mais sementes e adubos. Mas, feita essa antecipação, o cultivo puramente mecânico do solo exerce efeito maravilhoso sobre a quantidade produzida. (...) Por fim, na indústria propriamente dita, cada dispêndio adicional de trabalho pressupõe um dispêndio correspondente em matérias-primas, mas não necessariamente em instrumental de trabalho. E uma vez que a indústria extrativa e a agricultura fornecem à indústria propriamente dita as matérias-primas desta e as matérias-primas de seu instrumental de trabalho, beneficia-se também o acréscimo de produção que aquelas conseguem sem capital adicional. Resultado geral: ao incorporar as fontes originais da riqueza, a F.T. e a terra, adquire o capital uma força de expansão, que lhe possibilita ampliar os elementos de sua acumulação além dos limites aparentemente estabelecidos por sua própria magnitude, fixados pelo valor e pela quantidade dos meios de produção já produzidos, através dos quais existe o capital.” P. 701s 65
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    “(...)É propriamente naturaldo trabalho vivo conservar o valor antigo, acrescentando-lhe ao mesmo tempo valor novo. Por isso, com o aumento da eficácia, do volume e do valor dos seus meios de produção, com a acumulação, portanto, que acompanha o desenvolvimento de sua força produtiva, conserva e eterniza o trabalho um valor constantemente crescente do capital em forma sempre nova. Essa força natural do trabalho assume a aparência de propriedade do capital a que se incorpora, de força do capital para conservar-se, do mesmo modo que as forças produtivas do trabalho social parecem ser propriedades do capital e o exercício contínuo da função capitalista de apropriar-se do trabalho excedente aparenta ser constante auto-expansão do capital. Todas as forças do trabalho aparecem como forças do capital, do mesmo modo que todas as formas de valor da mercadoria se mascaram em formas de dinheiro.” P. 705s “(...)a importância sempre crescente do trabalho passado que coopera no processo de trabalho vivo sob a forma de meios de produção, é atribuída à figura do capital, essa forma estranha ao trabalhador e que não é mais do que o trabalho deste, anteriormente realizado e não pago. Os agentes práticos da produção capitalista e seus ideólogos palradores são incapazes de imaginar separados, os meios de produção e sua mascara social antagônica. São como o dono de escravos que não separa o trabalhador de sua condição de escravo.” P. 707 “Dado o grau de exploração da F.T. , a quantidade de mais valia é determinada pelo número de trabalhadores simultaneamente explorados, e esse número corresponde, embora em proporção variável, à magnitude do capital. Por isso, quanto mais cresce o capital, em virtude de acumulações sucessivas, tanto mais aumenta o valor global que se reparte em fundo de consumo e fundo de acumulação. O capitalista pode viver então mais alegremente e, ao mesmo tempo, “renunciar” mais. E, por fim, todas as molas da produção funcionam com mais energia quanto mais aumenta sua escala com o montante de capital adiantado.” P. 707 Capítulo XXIII – A Lei Geral da Acumulação Capitalista “Neste capítulo examinamos a influência que o aumento do capital tem sobre a sorte da classe trabalhadora. Os fatores mais importantes para este estudo são a composição do capital e as modificações que experimenta no curso do processo de acumulação. A composição do capital tem de ser apreciada sob dois aspectos. Do ponto de vista do valor, é determinada pela proporção em que o capital se divide em constante, o valor dos meios de produção, e variável, o valor da F.T. , a soma global dos salários. Do ponto de vista da matéria que funciona no processo de produção, todo capital se decompõe em meios de produção e F.T. viva; essa composição é determinada pela relação entre a massa dos meios de produção empregados e a quantidade de trabalho necessária para eles serem empregados. Chamo a primeira composição de composição segundo o valor, e a segunda de composição técnica. Há estreita correlação entre ambas. Para expressá-la, chamo a composição do capital segundo o valor na medida em que é determinada pela composição técnica e reflete as modificações desta, de composição orgânica do capital. Ao falar simplesmente de composição do capital, estaremos sempre nos referindo à sua composição orgânica.” P. 712s “Os numerosos capitais empregados num determinado ramo industrial diferem mais ou menos entre si pela sua composição. A média de suas composições individuais dá-nos a composição do capital global desse ramo de produção. Por fim, a média geral das composições médias de todos os ramos de produção nos dá a composição do capital social de um país, a que fundamentalmente nos interessa no estudo que segue.” P. 713 “(...) A reprodução simples reproduz constantemente a mesma relação capitalista, capitalista de um lado e assalariado do outro; do mesmo modo, a reprodução ampliada ou a acumulação reproduz a 66
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    mesma relação emescala ampliada: mais capitalistas ou capitalistas mais poderosos, num pólo, e mais assalariados, no outro. A F.T. tem de incorporar-se continuamente ao capital como meio de expandi-lo, não pode livrar-se dele. Sua escravização ao capital se dissimula apenas com a mudança dos capitalistas a que se vende, e sua reprodução constitui, na realidade, um fator de reprodução do próprio capital. Acumular capital é portanto aumentar o proletariado.” P. 714 “(...)O capital produz anualmente mais valia, parte da qual se agrega todo o ano ao capital original; esse acréscimo aumenta todo o ano com o crescimento do capital que já está em funcionamento; além disso, a escala da acumulação pode ser ampliada, alterando-se apenas a repartição da mais valia ou do produto excedente do capital e renda, se houver um incentivo especial ao impulso de enriquecimento, como, por ex., quando surgem novos mercados, novas esferas de aplicação do capital em virtude de desenvolvimento de novas necessidades sociais etc.. Esses fatores podem fazer as necessidades de acumulação do capital ultrapassar o crescimento da F.T. ou do número de trabalhadores, a procura de trabalhadores ser maior que a oferta, ocasionando assim a elevação dos salários.” P. 713s “Nas condições de acumulação até agora admitidas, as mais favoráveis aos trabalhadores, sua relação de dependência para com o capital se reveste de formas suportáveis (...). Essa submissão, em vez de mais intensa, se torna mais extensa, ao crescer o capital, que amplia seu campo de exploração e de domínio com as próprias dimensões e com o número de seus vassalos. Estes recebem, sob a forma de meios de pagamentos, uma porção importante do seu próprio produto excedente que se expande e se transforma em quantidade cada vez maior de capital adicional. Desse modo, podem ampliar seus gastos, provendo-se melhor de roupas, móveis etc. e formar um pequeno fundo de reserva em dinheiro. Roupa, alimentação e tratamento melhores e maior pecúlio não eliminam a dependência e a exploração do escravo, nem as do assalariado. Elevação do preço do trabalho, em virtude da acumulação do capital, significa que a extensão e o peso dos grilhões de ouro que o assalariado forjou para si mesmo apenas permitem que fique menos rigidamente acorrentado. Nas controvérsias sobre o assunto, omite-se, em regra, o principal, o caráter específico da produção capitalista. (...)Produzir mais valia é a lei absoluta desse modo de produção.(...)As condições de sua venda, mais favoráveis ao trabalhador, implicam portanto a necessidade de sua revenda contínua e a reprodução constantemente ampliada da riqueza como capital.” P. 717ss “A lei da produção capitalista, que serve de base à pretensa lei natural da produção, reduz-se simplesmente ao seguinte: a relação entre capital, acumulação e salários é apenas a relação entre o trabalho gratuito que se transforma em capital e o trabalho adicional necessário para por em movimento esse capital suplementar. Não é de modo nenhum uma relação entre duas grandezas independentes entre si, de um lado a magnitude do capital, do outro o número dos trabalhadores; em última análise, é apenas a relação entre trabalho não pago e trabalho pago da mesma população trabalhadora. Se cresce a quantidade do trabalho gratuito fornecida pela classe trabalhadora e acumulado pela classe capitalista, com velocidade bastante que só possa transformar-se em capital com um acréscimo extraordinário de trabalho pago, haverá então uma elevação de salário e, não se alterando as demais condições, decrescerá proporcionalmente o trabalho não pago. Mas, quando esse decréscimo atinge o ponto em que o capital não obtém mais em proporção normal o trabalho excedente que o alimenta, opera-se uma reação: capitaliza-se parte menor da renda, a acumulação enfraquece e surge uma pressão contra o movimento ascensional dos salários. A elevação do preço do trabalho fica, portanto, confinada em limites que mantém intactas os fundamentos do sistema capitalista e asseguram sua produção em escala crescente. A lei da acumulação capitalista, mistificada em lei natural, na realidade só significa que sua natureza exclui todo decréscimo do grau de exploração do trabalho ou toda elevação do preço do trabalho que possam comprometer sériamente a reprodução contínua da relação capitalista e sua reprodução em escala ampliada. E tem 67
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    de ser assimnum modo de produção em que o trabalhador existe para as necessidades de expansão dos valores existentes, ao invés de a riqueza material existir para as necessidades de desenvolvimento do trabalhador. Na religião, o ser humano é dominado por criações de seu próprio cérebro; análogamente, na produção capitalista, ele é subjugado pelos produtos de suas próprias mãos.” P. 721s “De acordo com os próprios economistas, não é a magnitude da riqueza social existente nem a grandeza do capital já adquirido que levam a uma elevação dos salários, mas, apenas o crescimento continuado da acumulação e a velocidade desse crescimento. Observamos até agora uma determinada fase desse processo, aquela em que se dá acréscimo do capital sem se alterar a composição técnica do capital. Mas, o processo ultrapassa essa fase. Dados os fundamentos gerais do sistema capitalista, chega-se sempre, no curso da acumulação, a um ponto em que o desenvolvimento da produtividade do trabalho social se torna a mais poderosa alavanca da acumulação.” P. 722s “Pondo-se de lado as condições naturais, como fertilidade do solo, e a habilidade dos produtores que trabalham independentes e isolados, a qual se patenteia mais na qualidade do que na quantidade do que produzem, o grau de produtividade do trabalho, numa determinada sociedade, se expressa pelo volume relativo dos meios de produção que um trabalhador, num tempo dado, transforma em produto, com o mesmo dispêndio de F.T.. A massa dos meios de produção que transforma aumenta com a produtividade de seu trabalho. Esses meios de produção desempenham duplo papel. O incremento de um é consequência, o de outros, condição da produtividade crescente do trabalho. (...)Mas, condição ou conseqüência, a grandeza crescente dos meios de produção, em relação à F.T. neles incorporada, expressa a produtividade crescente do trabalho. O aumento desta se patenteia, portanto, no decréscimo da quantidade de trabalho em relação à massa dos meios de produção que põe em movimento, ou na diminuição do fator subjetivo do processo de trabalho em relação aos seus fatores objetivos. Essa mudança na composição técnica do capital, o aumento da massa nos meios de produção, comparada com a massa da F.T. que os vivifica, reflete-se na composição do valor do capital, com o aumento da parte constante às custas da parte variável.” P. 723s “O decréscimo da parte variável do capital em comparação com a parte constante, essa mudança na composição do valor do capital, só revela de maneira aproximada a alteração ocorrida na composição técnica. (...)A razão é simplesmente essa: com a produtividade crescente do trabalho não só aumenta o volume dos meios de produção que ele consome, mas cai o valor desses meios de produção em comparação com seu volume. Seu valor aumenta em termos absolutos, mas não cai em proporção com seu volume. O aumento da diferença entre capital constante e variável é, por isso, muito menor que o aumento da diferença entre a massa dos meios de produção em que se converte o capital constante e a massa da F.T. em que se transforma o capital variável. A primeira diferença cresce com a segunda, porém, em grau menor. Mas, se o progresso da acumulação reduz a magnitude relativa da parte variável do capital, não exclui, com isso, o aumento de sua magnitude absoluta.” P. 724s “Todo capital individual é uma concentração maior ou menor dos meios de produção com o comando correspondente sobre um exército maior ou menor de trabalhadores. Cada acumulação se torna meio de nova acumulação.” P. 726 (A)“dispersão do capital social em muitos capitais individuais ou a repulsão entre seus fragmentos é contrariada pela força de atração existente entre eles. Não se trata mais da concentração simples dos meios de produção e de comando sobre o trabalho, a qual significa acumulação. O que temos agora é a concentração dos capitais já formados, a supressão de sua autonomia individual, a expropriação 68
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    do capitalista pelocapitalista, a transformação de muitos capitais pequenos em poucos capitais grandes. (...)O capital se acumula aqui nas mãos de um só, porque escapou das mãos de muitos noutra parte. Esta é a centralização propriamente dita, que não se confunde com a acumulação e a concentração. (...)A concorrência e o crédito, as duas mais poderosas alavancas da centralização, desenvolvem-se na proporção em que se amplia a produção capitalista e a acumulação. (...)A centralização completa a tarefa da acumulação, capacitando o capitalista industrial a ampliar a escala de suas operações. (...)O aumento do tamanho dos estabelecimentos individuais constitui por toda parte o ponto de partida para uma organização mais vasta do trabalho cooperativo que utilizam, para mais amplo desenvolvimento de suas forças materiais, isto é, para a transformação progressiva de processos de produção isolados e rotineiros em processos de produção socialmente combinados e cientificamente organizados. É evidente que a acumulação, o aumento progressivo do capital pela reprodução que passa da forma circular para a de espiral, é processo bastante lento, comparado com a centralização que precisa apenas alterar o agrupamento quantitativo das partes integrantes do capital social. O mundo ainda estaria sem estradas de ferro, se tivesse de esperar que a acumulação capacitasse alguns capitais isolados para a construção de uma ferrovia. (...)Aumentando e acelerando os efeitos da acumulação, a centralização amplia e acelera ao mesmo tempo as transformações na composição técnica do capital, as quais aumentam a parte constante às custas da parte variável, reduzindo assim a procura relativa de trabalho.” P. 727ss “Os capitais adicionais que se formam no curso da acumulação normal servem preferentemente de veículo para explorar novos inventos e descobertas, para introduzir aperfeiçoamentos industrial em geral. Mas, também o capital velho chega, com o tempo, ao momento de renovar-se, de mudar de pele e de renascer com feição técnica aperfeiçoada, que reduz a quantidade de trabalho e põe em movimento maior quantidade de maquinaria e matérias-primas. A redução absoluta da procura de trabalho que necessariamente daí decorre será evidentemente tanto maior, quanto mais tenha o movimento de centralização combinado os capitais que percorrem esse processo de renovação. O capital adicional formado no curso da acumulação atrai, relativamente à sua grandeza, cada vez menos trabalhadores. E o velho capital periodicamente reproduzido com nova composição repele, cada vez mais, trabalhadores que antes empregava.” P. 729s “(...)Sendo a procura de trabalho determinada não pela magnitude do capital global, mas pela magnitude de sua parte variável, ela cai progressivamente com o aumento do capital global, ao invés de crescer proporcionalmente com ele, (...)a verdade é que a acumulação capitalista sempre produz, e na proporção de sua energia e de sua extensão, uma população trabalhadora supérflua relativamente, isto é, que ultrapassa as necessidades médias de expansão do capital, tornando-se desse modo, excedente.” P. 731 “Observando o capital social global, verificamos que ora o movimento de sua acumulação provoca mudanças periódicas, que influem em sua totalidade, ora causa mudanças simultâneas e diferentes nos diversos ramos de produção. Em alguns ramos, ocorre mudança na composição do capital, sem aumentar sua magnitude absoluta, em virtude de mera centralização; em outros, o crescimento absoluto do capital corre paralelo com a redução absoluta de sua parte variável ou da F.T. por ele absorvida; em outros, ora o capital prossegue aumentando em dada base técnica e atrai F.T. adicional à proporção que cresce, ora ocorre mudança orgânica, contraindo-se sua parte variável. (...)Com a magnitude do capital social já em funcionamento e seu grau de crescimento, com a ampliação da escala de produção e da massa de trabalhadores mobilizados, com o desenvolvimento da produtividade do trabalho, com o fluxo mais vasto e mais completo dos mananciais da riqueza, amplia-se a escala em que a atração maior dos trabalhadores pelo capital está ligada à maior repulsão deles. Além disso, aumenta a velocidade das mudanças na composição orgânica do capital e na sua forma técnica, e número crescente de ramos de produção é atingido, simultânea ou 69
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    alternativamente, por essasmudanças. Por isso, a população trabalhadora, ao produzir a acumulação do capital, produz, em proporções crescentes, os meios que fazem dela, relativamente, uma população supérflua. Esta é uma lei da população peculiar ao modo capitalista de produção. Na realidade todo modo histórico de produção tem suas leis próprias de população válidas dentro de limites históricos. Uma lei abstrata da população só existe para plantas e animais, e apenas na medida em que esteja excluída da ação humana.” P. 731ss “Mas, se uma população trabalhadora excedente é produto necessário da acumulação ou do desenvolvimento da riqueza no sistema capitalista, ela se torna por sua vez a alavanca da acumulação capitalista, e mesmo condição de existência do modo de produção capitalista. Ela constitui um exército industrial de reserva disponível, que pertence ao capital de maneira tão absoluta como se fosse criado e mantido por ele. Ela proporciona o material humano a serviço das necessidades variáveis de expansão do capital e sempre pronto para ser explorado, independentemente dos limites do verdadeiro incremento da população.” P. 733s “Não basta à produção capitalista a quantidade de F.T. disponível, fornecida pelo incremento natural da população. Para funcionar a sua vontade, precisa ela de um exército industrial de reserva que não depende desse limite natural.” P. 737 “Vimos que o desenvolvimento do modo capitalista de produção e da força produtiva do trabalho, causa e efeito ao mesmo tempo da acumulação, capacita o capitalista a por em ação maior quantidade de trabalho com o mesmo dispêndio de capital variável, explorando mais, extensiva ou intensivamente, as forças de trabalho individuais. Vimos também que ele compra mais forças de trabalho com o mesmo capital, ao substituir progressivamente trabalhadores qualificados por trabalhadores menos hábeis, mão-de-obra amadurecida por mão-de-obra incipiente, a F.T. masculina pela feminina, a adulta pela de jovens ou crianças. (...)Por isso, a produção de uma superpolução relativa ou liberação de trabalhadores avança mais rapidamente do que a transformação técnica do processo de produção, acelerada com o progresso da acumulação, e do que o correspondente decréscimo proporcional do capital variável em relação ao constante. Se os meios de produção, ao aumentarem sua extensão e sua eficácia, se tornam em menor grau meios de emprego dos trabalhadores, temos de considerar ainda que essa relação é modificada pelo fato de o capital, à medida que cresce a produtividade do trabalho, aumentar sua obtenção de trabalho mais rapidamente que sua procura de trabalhadores. O trabalho excessivo da parte empregada da classe trabalhadora engrossa as fileiras de seu exército de reserva, enquanto inversamente a forte pressão que este exerce sobre aquela, através da concorrência, compele-a ao trabalho excessivo e a sujeitar- se às exigências do capital. A condenação de uma parte da classe trabalhadora à ociosidade forçada, em virtude do trabalho excessivo da outra parte, torna-se fonte de enriquecimento individual dos capitalistas e acelera ao mesmo tempo a produção do exército industrial de reserva numa escala correspondente ao progresso da acumulação social. (...)Em seu conjunto, os movimentos gerais dos salários se regulam exclusivamente pela expansão e contração do exército industrial de reserva, correspondentes às mudanças periódicas do ciclo industrial. Não são, portanto, determinadas pelas variações do número absoluto da população trabalhadora, mas, pela proporção variável em que a classe trabalhadora se divide em exército da ativa e exército da reserva, pelo acréscimo e decréscimo da magnitude relativa da superpopulação, pela extensão em que ora é absorvida, ora é liberada.” P. 738s “(...)A procura de trabalho não se identifica com o crescimento do capital, nem a oferta de trabalho com o crescimento da classe trabalhadora. Não há aí duas forças independentes, uma influindo sobre a outra. É um jogo com dados viciados. O capital age ao mesmo tempo dos dois lados. Se sua acumulação aumenta também a oferta de trabalhadores, “liberando-os”, ao mesmo tempo que a 70
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    pressão dos desempregadoscompele os empregados a fornecerem mais trabalho, tornando até certo ponto independente a obtenção a oferta de trabalho da oferta de trabalhadores. Nessas condições, o movimento da lei da oferta e da procura de trabalho torna completo o despotismo do capital. Quando os trabalhadores descobrem que, quanto mais trabalham, mais produzem riquezas para os outros, quanto mais cresce a força produtiva de seu trabalho, mais precária se torna sua função de meio de expandir o capital; quando vêem que a intensidade da concorrência entre eles mesmos depende totalmente da pressão da superpopulação relativa; quando, por isso, procuram organizar uma ação conjunta dos empregados e desempregados através dos sindicatos etc. , para destruir ou enfraquecer as conseqüências ruinosas daquela lei natural da produção capitalista sobre sua classe, então protestam em altos brados o capital e seu defensor, o economista político, contra a violação da “eterna” e, por assim dizer , “sacrossanta” lei da oferta e da procura. Todo entendimento entre empregados e desempregados perturba o funcionamento puro dessa lei. Mas quando circunstâncias adversas, (...)impelem a formação do exército industrial de reserva e, por isso, a subordinação absoluta da classe trabalhadora à classe capitalista, o capital, de mãos dadas com seu escudeiro apregoador de lugares-comuns, rebela-se contra a lei “sacrossanta” da oferta e da procura e busca corrigi-la através de providências coercitivas.” P. 742s “A superpopulação relativa existe sob os mais variados matizes. Todo trabalhador dela faz parte durante o tempo em que está desempregado ou parcialmente empregado. As fases alternadas do ciclo industrial fazem-na aparecer ora em forma aguda nas crises, ora em forma crônica, nos períodos de paralisação. Mas, além dessas formas principais que se reduzem periodicamente assume ela, continuamente, as três formas seguintes: flutuante, latente e estagnada.” P. 743 “Nos centros da indústria moderna, fábricas, manufaturas, usinas siderúrgicas e minas etc. , os trabalhadores são ora repelidos, ora atraídos em quantidade maior, de modo que, no seu conjunto, aumenta o número dos empregados, embora em proporção que decresce com o aumento da escala da produção. Aí a superpopulação assume a forma flutuante.” P. 743s “Quando a produção capitalista se apodera da agricultura ou nela vai penetrando, diminui, à medida que se acumula o capital que nela funciona, a procura absoluta da população trabalhadora rural. Dá- se uma repulsão de trabalhadores que não é contrabalançada por maior atração, como ocorre na indústria não-agrícola. Por isso, parte da população rural encontra-se sempre na iminência de transferir-se para as fileiras do proletariado urbano ou da manufatura e na espreita de circunstâncias favoráveis a essa transferência (manufatura aqui significa todas as indústrias não-agrícolas). Está fluindo sempre esse manancial da superpopulação relativa. Mas, seu fluxo constante para as cidades pressupõe no próprio campo como uma população supérflua sempre latente, cuja dimensão só se torna visível quando, em situações excepcionais, se abrem todas as comportas dos canais de drenagem. Por isso, o trabalhador rural é rebaixado ao nível mínimo de salário e está sempre com um pé no pântano do pauperismo.” P. 745s “A terceira categoria de superpopulação relativa, a estagnada, constitui parte do exército de trabalhadores em ações, mas com ocupação totalmente irregular. Ela proporciona ao capital reservatório inesgotável da F.T. disponível. Sua condição de vida se atua abaixo do nível médio normal da classe trabalhadora e justamente isso torna-se base ampla de ramos especiais de exploração do capital. Duração máxima de trabalho e mínimo de salário caracterizam sua existência. (...)A superpopulação estagnada se amplia à medida que o incremento e a energia da acumulação aumentam o número dos trabalhadores supérfluos. Ela se reproduz e se perpetua, e é o componente da classe trabalhadora que tem no crescimento global dela, uma participação relativamente maior que a dos demais componentes. Na realidade, a quantidade de nascimentos e óbitos e o tamanho absoluto das famílias está na razão inversa do nível de salários e, portanto, da quantidade de meios 71
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    de subsistência deque dispõem as diversas categorias de trabalhadores. Esta lei da sociedade capitalista não se encontra entre selvagens, nem entre colonos civilizados. Lembra a reprodução em massa de espécies animais cujos indivíduos são débeis e constantemente perseguidos.” P. 746 “Finalmente, o mais profundo sedimento da superpopulação relativa vegeta no inferno da indigência, do pauperismo. Pondo de lado os vagabundos, os criminosos, as prostitutas, o rebotalho do proletariado em suma, essa camada consiste de três categorias. Primeiro, os aptos para o trabalho. (...)Segundo, os orfãos e filhos de indigentes. (...)Terceiro, os degradados, desmoralizados, incapazes de trabalhar. São notadamente os indivíduos que sucumbem em virtude de sua incapacidade de adaptação, decorrente da divisão do trabalho; os que ultrapassam a idade normal de um trabalhador, e as vítimas da indústria, os mutilados, enfermos, viúvas, etc. , cujo número aumenta com as máquinas perigosas, as minas, as fábricas de produtos químicos etc. O pauperismo constitui o asilio dos inválidos do exército ativo dos trabalhadores e o peso morto do exército industrial de reserva. Sua produção e sua necessidade se compreendem na produção e na necessidade da superpopulação relativa, e ambos constituem condição de existência da produção capitalista e do desenvolvimento da riqueza. O pauperismo faz parte das despesas extras da produção capitalista, mas o capital arranja sempre um meio de transferi-las para a classe trabalhadora e para a classe média inferior.” P. 746s “Patenteia-se a insanidade da sabedoria do economista que prega aos trabalhadores adaptarem seu número às necessidades de expansão do capital. O mecanismo da produção capitalista e da acumulação adapta continuamente esse número a essas necessidades. O começo desse ajustamento é a criação de uma superpopulação relativa ou de um exército industrial de reserva, e o fim a miséria de camadas cada vez maiores do exército ativo e o peso-morto do pauperismo.” P. 748 “Só conhecendo as leis econômicas conseguimos descobrir a conexão íntima entre os tormentos da fome das camadas trabalhadoras mais laboriosas e a dilapidação dos ricos, grosseira ou refinada, baseada na acumulação capitalista. Já a situação habitacional é fácil de entender. Qualquer observador desprevenido percebe que, quanto maior a centralização dos meios de produção, tanto maior o amontoamento correspondente de trabalhadores no mesmo espaço e, portanto, quanto mais rápida a acumulação capitalista, tanto mais miseráveis as habitações dos trabalhadores. Os “melhoramentos” urbanos que acompanham o progresso da riqueza, a demolição de quarteirões mal construídos, a construção de palácios para bancos, lojas etc. , o alargamento das ruas para o tráfego comercial (...)desalojam evidentemente os pobres, expulsado-os para refúgios cada vez piores e mais abarrotados de gente. Além disso, todo mundo sabe que a carestia do espaço para morar está na razão inversa da qualidade da habitação (...)” p. 764 Capítulo XXIV – A Chamada Acumulação Primitiva 1. O segredo da acumulação primitiva “Vimos como o dinheiro se transforma em capital, como se produz mais valia com capital, e mais capital com mais valia. Mas, a acumulação do capital pressupõe a mais valia, a mais valia a produção capitalista, e esta a existência de grandes quantidades de capital e de F.T. nas mãos de produtores de mercadorias. Todo esse movimento tem assim a aparência de um círculo vicioso do qual só podemos escapar admitindo uma acumulação primitiva, anterior a acumulação capitalista (“previons accumulation”, segundo Adam Smith), uma acumulação que não decorre do modo capitalista de produção, mas é seu ponto de partida. Essa acumulação primitiva desempenha na economia política um papel análogo ao do pecado original na teologia. Adão mordeu a maçã e, por isso o pecado contaminou a humanidade inteira. Pretende-se explicar a origem da acumulação por 72
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    meio de umaestória ocorrida em passado distante. Havia outrora, em tempos muito remotos, duas espécies de gente: uma elite laboriosa, inteligente e sobretudo econômica, e uma população constituídas de vadios, trapalhões que gastavam mais do que tinham. A lenda teológica conta-nos que o homem foi condenado a comer o pão com o suor do seu rosto. Mas, a lenda econômica explica-nos o motivo por que existem pessoas que escapam e esse mandamento divino. Aconteceu que a elite foi acumulando riquezas e a população vadia ficou finalmente sem ter outra coisa para vender além da própria pele. Temos aí o pecado original da economia. Por causa dele, a grande massa é pobre e, apesar de se esfalfar, só tem para vender a própria F.T., enquanto cresce continuamente a riqueza de poucos, embora tenham esses poucos parado de trabalhar a muito tempo. (...)É sabido o grande papel desempenhado na verdade histórica pela conquista, pela escravização, pela rapina e pelo assassinato, em suma, pela violência. Na suave economia política o idílio reina desde os primórdios. Desde o início da humanidade, o direito e o trabalho são os únicos meios de enriquecimento, excetuando-se naturalmente o ano corrente. Na realidade, os métodos da acumulação primitiva nada tem de idílicos.” P. 828s “Como os meios de produção e os de subsistência, dinheiro e mercadoria em si mesmos não são capital. Tem de haver antes uma transformação que só pode ocorrer em determinadas circunstâncias. Vejamos (...) a que se reduzem, em suma, essas circunstâncias. Duas espécies bem diferentes de possuidores de mercadorias tem de confrontar-se e entrar em contato: de um lado o proprietário de dinheiro, de meios de produção e de meios de subsistência, empenhado em aumentar a soma de valores que possui, comprando a F.T. alheia, e, do outro, os trabalhadores livres, vendedores da própria F.T. e, portanto, de trabalho. Trabalhadores livres em dois sentidos, porque não são parte direta dos meios de produção, como escravos e servos, e porque não são donos dos meios de produção, como o camponês autônomo, estando assim livres e desembaraçados deles. Estabelecidos esses dois pólos do mercado, ficam dadas as condições básicas da produção capitalista. O sistema capitalista pressupõe a dissociação entre os trabalhadores e a propriedade dos meios de trabalho, um processo que transforma em capital os meios sociais de subsistência e os de produção e converte em assalariados os produtores diretos. A chamada acumulação primitiva é apenas o processo histórico que dissocia o trabalhador dos meios de produção. É considerada primitiva porque constitui a pré- história do capital e o modo de produção capitalista.” P. 829s “A estrutura econômica da sociedade capitalista nasceu da estrutura econômica da sociedade feudal. A decomposição desta liberou elementos para formação daquela.” P. 830 “O produtor direto, o trabalhador, só pode dispor de sua pessoa depois que deixou de estar vinculado à gleba e de ser escravo ou servo de outra pessoa. Para vender livremente sua F.T. , levando sua mercadoria a qualquer mercado, tinha ainda de livrar-se do domínio das corporações, dos regulamentos a que elas subordinavam os aprendizes e oficiais e das prescrições com que entravavam o trabalho. Desse modo, um dos aspectos desse movimento histórico que transformou os produtores em assalariados é a libertação da servidão e da coerção corporativa; esse aspecto é o único que existe para nossos historiadores burgueses. Mas, os que se emanciparam só se tornaram vendedores de si mesmos depois que lhes roubaram todos os seus meios de produção e os privaram de todas as garantias que as velhas instituições feudais asseguravam à sua existência. E a história da expropriação que sofreram foi inscrita a sangue e fogo nos anais da humanidade.” P. 830 “Os capitais industriais, esses novos potentados, tiveram de remover os mestres das corporações e os senhores feudais, que possuíam o domínio dos mananciais das riquezas. Sob esse aspecto, representa-se sua ascensão como uma luta vitoriosa contra o poder feudal e seus privilégios revoltantes, contra as corporações e os embaraços que elas criavam ao livre desenvolvimento da produção e a livre exploração do homem pelo homem.” P.830 73
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    “O processo queproduz o assalariado e o capitalista tem suas raízes na sujeição do trabalhador. O progresso consistiu numa metarmofose dessa sujeição, na transformação de exploração feudal em exploração capitalista. Para compreender sua marcha, não precisamos ir muito longe na história. Embora os prenúncios da produção capitalista já apareçam, nos séculos XIV e XV, em algumas cidades mediterrâneas, a era capitalista data do século XVI. Onde ela surge, a servidão já está abolida há muito tempo, e já estão em plena decadência as cidades soberanas que representam o apogeu da Idade Média. Marcam época, na história da acumulação primitiva, todas as transformações que servem de alavanca à classe capitalista em formação, sobretudo aqueles deslocamentos de grandes massas humanas, súbita e violentamente privadas de seus meios de subsistência e lançadas no mercado de trabalho como levas de proletários destituídos de direitos. A expropriação do produtor rural, do camponês, que fica assim privado de suas terras, constitui a base de todo processo. A história dessa expropriação assume coloridos diversos nos diferentes países, percorre várias fases em seqüência diversa e em épocas históricas diferentes. Encontramos sua formação clássica na Inglaterra, que, por isso, nos servirá de exemplo.” P.831 2. Expropriação do camponeses “O prelúdio da revolução que criou a base do modo capitalista de produção ocorreu no último terço do século XV e nas primeiras décadas do século XVI. Com a dissociação das vassalagens feudais, é lançada ao mercado de trabalho uma massa de proletários, de indivíduos sem direitos (...). Embora o poder real, produto do desenvolvimento burguês, em seu esforço pela soberania absoluta, acelerasse pela força a dissociação das vassalagens, não foi de modo algum a causa única dela. Opondo-se arrogantemente ao Rei e ao Parlamento, o grande senhor feudal criou um proletariado incomparavelmente maior, usurpando as terras comuns e expulsando os camponeses das terras, os quais possuiam direitos sobre elas, baseados, como os do próprio senhor, nos mesmos institutos feudais. O florescimento da manufatura de lã, com a elevação conseqüente dos preços da lã, impulsionou diretamente essas violências na Inglaterra. A velha nobreza fôra devorada pelas guerras feudais. A nova, era um produto do seu tempo, e, para ela, o dinheiro era o poder dos poderes. Sua preocupação, por isso, era transformar as terras de lavouras em pastagens.” P. 833 “O processo violento de expropriação do povo recebeu um terrível impulso, no século XVI, com a Reforma e o imenso saque dos bens da Igreja que a acompanhou. À época da reforma, a Igreja Católica era proprietária feudal de grande parte do solo inglês. A supressão dos conventos etc. enxotou os habitantes de suas terras, os quais passaram a engrossar o proletariado. Os bens eclesiásticos foram amplamente doados a vorazes favoritos da Corte ou vendidos a preço ridículo a especuladores, agricultores ou burgueses, que expulsaram em massa os velhos moradores hereditários e fundiram seus sítios. O direito legalmente explícito dos lavradores empobrecidos a uma parte dos dízimos da Igreja foi confiscado tacitamente.” P.836s “O roubo dos bens da Igreja, a alienação fraudulenta dos domínios do estado, a ladroeira das terras comuns e a transformação da propriedade feudal e do clã em propriedade privada moderna, levada a cabo com terrorismo implacável, figuram entre os métodos idílicos da acumulação primitiva. Conquistaram o campo para a agricultura capitalista, incorporavam as terras ao capital e proporcionavam à indústria das cidades a oferta necessária de proletários sem direitos.” P. 850 3. Legislação sanguinária contra os expropriados, a partir do sec. XV. Leis para rebaixar os salários “Os que foram expulsos de suas terras com a dissociação das vassalagens feudais e com a expropriação intermitente e violência, esse proletariado sem direitos, não podiam ser absorvidos 74
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    pela manufatura nascentecom a mesma rapidez com que se tornavam disponíveis. Bruscamente arrancados das suas condições habituais de existência, não podiam enquadrar-se, da noite para o dia, na disciplina exigida pela nova situação. Muitos se transformaram em mendigos, ladrões, vagabundos, em parte por inclinação, mas na maioria dos casos por força das circunstâncias. Daí ter surgido em toda Europa Ocidental, no fim do século XV e no decurso do séc. XVI uma legislação sanguinária contra a vadiagem. Os ancestrais da classe trabalhadora atual foram punidos inicialmente por se transformarem em vagabundos e indigentes, transformação que lhes era imposta. A legislação os tratava como pessoas que escolhem propositalmente o caminho do crime, como se dependesse da vontade deles prosseguirem trabalhando nas velhas condições que não mais existiam. (...)Assim, a população rural, expropriada e expulsa de suas terras, compelida à vagabundagem, foi enquadrada na disciplina exigidas pelo sistema de trabalho assalariado, por meio de um grotesco terrorismo legalizado que empregava o açoite, o ferro em brasa e a tortura.” P. 851ss “Não basta que haja, de um lado, condições de trabalho sob a forma de capital, e, do outro, seres humanos que nada tem para vender além de sua força de trabalho. Tampouco basta força-los a se venderem livremente. Ao progredir a produção capitalista, desenvolve-se uma classe trabalhadora que por educação, tradição e costume aceita as exigências daquele modo de produção como leis naturais evidentes. A organização do processo de produção capitalista, em seu pleno desenvolvimento, quebra toda resistência, a produção contínua de uma superpopulação relativa mantém a lei da oferta e da procura de trabalho e, portanto, o salário em harmonia com as necessidades de expansão do capital, e a coação surda das relações econômicas consolida o domínio do capitalista sobre o trabalhador. Ainda se empregará a violência direta, à margem das leis econômicas, mas doravante apenas em caráter excepcional. Para a marcha ordinária das coisas basta deixar o trabalhador entregue às “leis naturais da produção”, isto é, à sua dependência do capital, a qual decorre das próprias condições de produção, e é assegurada e perpetuada por essas condições. Mas, as coisas corriam de modo inverso durante a gênese histórica da produção capitalista. A burguesia nascente precisava e empregava a força do estado, para “regular” o salário, isto é, comprimi-lo dentro dos limites convenientes à produção de mais valia, para prolongar a jornada de trabalho e para manter o próprio trabalhador num grau adequado de dependência. Temos aí um fator fundamental da chamada acumulação primitiva.” P. 854s 4. Gênese do arrendatário capitalista “Vimos como se processou a criação violenta dos proletários sem direitos, a disciplina sanguinária que os transformou em assalariados, a ação grotesca e sórdida que aumenta o grau de exploração do trabalho por métodos policiais a fim de acelerar a acumulação do capital, mas precisamos agora saber como se originaram os capitalistas. A expropriação da população rural cria imediatamente apenas grandes proprietários de terras. Quanto à origem do arrendatário, podemos por assim dizer senti-la com o tato, pois evolveu lentamente através de muitos séculos. Os próprios servos, do mesmo modo que os pequenos proprietários livres, tinham a posse da terra a títulos os mais diversos e por isso emanciparam-se sob as condições econômicas as mais diversas. Na Inglaterra, o ponto de partida das transformações que culminam com o aparecimento da figura do arrendatário capitalista, seu germe mais primitivo, é o bailiff, ainda servo. (...)Durante a segunda metade do século XIV, é substituído por um colono a quem o landlord fornece sementes, gado e instrumentos agrícolas. Sua situação não é muito diferente da do camponês. Apenas explora mais trabalho assalariado. Logo se torna parceiro, um tipo que se parece mais com o verdadeiro arrendatário. O parceiro fornece uma parte do capital, o landlord a outra. Ambos dividem o produto total em proporção contratualmente estabelecida. Essa forma desaparece rapidamente na Inglaterra, para dar lugar ao arrendatário propriamente dito, que procura expandir seu próprio capital empregando trabalhadores assalariados e entrega ao landlord uma parte do produto excedente, em dinheiro ou em produtos, como renda da 75
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    terra. No séc.XV, enquanto o camponês independente e, ao seu lado, o trabalhador do campo trabalhando para si mesmo e por salário se enriquecem com seu labor, a situação do arrendatário e sua escala de produção permanecem num nível monotonamente modesto. Mas a revolução agrícola do último terço daquele século, que prossegue por todo o século XVI com exceção de suas últimas décadas, enriqueceu o arrendatário com a mesma rapidez com que empobreceu a população rural. (...)No século XVI, intervém ainda outro fator de decisiva importância. Os contratos de arrendamento da época tinham prazo muito longo, muitas vezes de 99 anos. A depreciação contínua dos metais preciosos e em conseqüência do dinheiro trouxe ao arrendatário pomos dourados. Rebaixou salários (...). O montante de redução real dos salários serviu então para acrescer os lucros dos arrendatários. A elevação contínua dos preços do trigo, da lã, da carne, enfim de todos os produtos agrícolas, dilatou o capital monetário do arrendatário sem qualquer intervenção de sua parte, enquanto a renda que tinha de pagar ao dono da terra estava fixada pelo valor monetário antigo. Assim, enriqueceu-se às custas dos assalariados e do landlord. Não admira portanto que a Inglaterra possuisse nos fins do séculos XVI uma classe de capitalistas arrendatários, ricos em face das condições da época.” P. 859ss 5. Repercussões da revolução agrícola na indústria. Formação do mercado interno para o capital industrial “A expropriação e a expulsão de uma parte da população rural libera trabalhadores, seus meios de subsistência e seus meios de trabalho, em benefício do capitalista industrial; além disso, cria o mercado interno. Na realidade, os acontecimentos que transformaram os pequenos lavradores em assalariados e seus meios de subsistência e meios de trabalho em elementos materiais do capital, criam ao mesmo tempo para este o mercado interno. Antes, a família camponesa produzia e elaborava os meios de subsistência e matérias-primas, que eram, na sua maior parte, consumidos por ela mesma. (...)A numerosa clientela antes extremamente fragmentada, dependente de uma quantidade imensa de pequenos produtores que trabalhavam por sua própria conta, concentra-se agora um vasto mercado, abastecido pelo capital industrial. (...)E só a destruição da indústria doméstica rural pode proporcionar ao mercado interno de um país extensão e a solidez exigidas pelo modo capitalista de produção. Todavia, o período manufatureiro propriamente dito não chega a realizar uma transformação radical. (...)Só se apodera da produção nacional de maneira muito fragmentária, encontrando sua base principal nos ofícios urbanos e na indústria doméstica rural. Quando destrói uma forma dessa indústria doméstica num ramo específico, em determinados lugares, a manufatura provoca seu nascimento em outros, pois precisa dela dentro de certos limites, para a preparação de matérias-primas. A manufatura produz, por isso, uma nova classe de pequenos lavradores, para os quais o cultivo do solo é a atividade acessória, tendo a principal o trabalho industrial, cujos produtos a ela são vendidos diretamente ou por meio de um negociante.” P. 865s 6. Gênese do capitalista industrial “A gênese do capitalista industrial não se processou de maneira gradativa como a do arrendatário. Sem dúvida, certo número de mestres de corporações, número maior de artesãos independentes e, ainda, assalariados se transformaram em capitalistas rudimentares e, através da exploração progressivamente mais ampliada do trabalho assalariado e da correspondente acumulação, chegam a assumir realmente a figura do capitalista. (...)A marcha lenta do período infantil do capitalismo não se coadunava com as necessidades do novo mercado mundial criado pelas descobertas dos fins do séc. XV. A Idade Média fornecera duas formas de capital que amadurecem nas mais diferentes formações econômico-sociais e foram as que emergiam como capital antes de despontar a era capitalista, a saber, o capital usurário e o capital mercantil. (nota:- industrial aqui se opõe a agrícola. 76
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    Mas, o arrendatárioagrícola se inclui na categoria de capitalista industrial, do mesmo modo que o fabricante.)” p. 867 “As descobertas de ouro e de prata na América, o extermínio, a escravização das populações indígenas, forçadas a trabalhar no interior das minas, o início da conquista e pilhagem das Índias Orientais e a transformação da África num vasto campo de caçada lucrativa são os acontecimentos que marcam os albores da era da produção capitalista. Esses processos idílicos são fatores fundamentais da acumulação primitiva. Logo segue a guerra comercial entre as nações européias, tendo o mundo por palco. Inicia-se com a revolução dos Países Baixos contra a Espanha, assume enormes dimensões com a guerra antijacobina da Inglaterra, prossegue com a guerra do ópio contra a China etc. Os diferentes meios propulsores da acumulação primitiva se repartem numa ordem mais ou menos cronológica por diferentes países, principalmente Espanha, Portugal, Holanda, França e Inglaterra. Na Inglaterra, por fim do séc. XVII, são coordenados através de vários sistemas: o colonial, o das dívidas públicas, o moderno regime tributário e o protecionismo. Esses métodos se baseiam em parte na violência mais brutal, como é o caso do sistema colonial. Mas, todos eles utilizavam o poder do estado, a força concentrada e organizada da sociedade para ativar artificialmente o processo de transformação do modo feudal de produção no modo capitalista, abreviando assim as etapas de transição. A força é o parteiro de toda sociedade velha que traz uma nova em suas entranhas. Ela mesma é uma potência econômica.” P. 868s “O sistema colonial fez prosperar o comércio e a navegação. As sociedades dotadas de monopólio, (...)eram poderosas alavancas de concentração do capital. As colônias asseguravam mercado às manufaturas em expansão e, graças ao monopólio, uma acumulação acelerada. As riquezas apresadas fora da Europa pela pilhagem, escravização e massacre refluiam para a metrópole onde se transformam em capital. A Holanda que, pela primeira vez, desenvolveu plenamente o sistema colonial atingira, em 1648, o apogeu de sua grandeza comercial. (...)Hoje em dia, a supremacia industrial traz a supremacia comercial. No período manufatureiro, ao contrário, é a supremacia comercial que proporciona o predomínio industrial. Então, o sistema colonial desempenhava o papel preponderante.” P. 871s “O sistema de crédito público, isto é, da dívida pública, cujas origens já vamos encontrar na Idade Média, em Gênova e Veneza, apoderando-se de toda a Europa durante o período manufatureiro. Impulsionava-o o sistema colonial com seu comércio marítimo e suas guerras comerciais. O regime da dívida pública implantou-se primeiro na Holanda. A dívida do estado, a venda deste, seja ele despótico, constitucional ou Republicano, imprime sua marca à era capitalista. A única parte da chamada riqueza nacional que é realmente objeto da posse coletiva dos povos modernos é... a dívida pública. (...)A dívida pública converte-se numa das alavancas mais poderosas da acumulação primitiva. Como uma varinha de condão, ela dota o dinheiro de capacidade criadora, transformando- o assim em capital, (...). Os credores do estado nada dão na realidade, pois a soma emprestada converte-se em títulos da dívida pública facilmente transferíveis, que continuam a funcionar em suas mãos como se fossem dinheiro. A dívida pública criou uma classe de capitalistas ociosos, enriqueceu, de improviso os agentes financeiros que servem de intermediários entre o governo e a nação. As parcelas de sua emissão adquiridas pelos arrematantes de impostos, comerciantes e fabricantes particulares lhe proporcionam o serviço de um capital caído do céu. Mas, além de tudo isso, a dívida pública fez prosperar as sociedades anônimas, o comércio com os títulos negociáveis de toda espécie, a agiotagem, em suma, o jogo de bolsa e a moderna bancocracia.” P. 872s “Com a dívida pública nasceu um sistema internacional de crédito, que freqüentemente dissimulava uma das fontes da acumulação primitiva neste ou naquele país. Assim, as vilezas do sistema veneziano de rapina constituíram uma das bases ocultas dos abundantes capitais da Holanda, a quem 77
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    Veneza decadente emprestougrandes somas de dinheiro. O mesmo aconteceu entre a Holanda e a Inglaterra. Já no começo do séc. XVIII, as manufaturas da Holanda tinham sido bastante ultrapassadas, e a Holanda cessara de ser a Nação dominante no comércio e na indústria. De 1701 a 1776, um de seus negócios principais é, por isso, emprestar enormes capitais, especialmente a seu concorrente mais poderoso, a Inglaterra. Fenômeno análogo sucede hoje entre Inglaterra e Estados Unidos. Muito capital que aparece hoje nos Estados Unidos, sem certidão de nascimento, era ontem, na Inglaterra, sangue infantil capitalizado.” P. 874 “Apoiando-se a dívida pública na receita pública, que tem de cobrir os juros e demais pagamentos anuais, tornou-se o moderno sistema tributário o complemento indispensável do sistema de empréstimos nacionais. Os empréstimos capacitam o governo a enfrentar despesas extraordinárias, sem recorrer imediatamente ao contribuinte, mas acabam levando o governo a aumentar posteriormente os impostos. Por outro lado, o aumento de impostos, causado pela acumulação de dívidas sucessivamente contraídas, força o governo a tomar novos empréstimos sempre que aparecem novas despesas extraordinárias. O regime fiscal moderno encontra seu eixo nos impostos que recaem sobre os meios de subsistência mais necessários, encarecendo-se portanto, e traz em si mesmo o germe da progressão automática. (...)Mas não é a influência destruidora que exerce sobre a situação dos trabalhadores o que mais importa ao estudo do tema que estamos considerando, e sim a violência com que expropria o camponês, o artesão, enfim todos os componentes da classe média inferior. (...)Sua eficácia expropriante é ainda fortalecida pelo sistema protecionista, que constitui uma de suas partes integrantes. O grande papel que a dívida pública e o correspondente regime fiscal desempenham na capitalização da riqueza e na expropriação das massas levou muitos escritores, (...), a procurarem erradamente neles a causa fundamental da miséria dos povos modernos.” P. 874s “O sistema protecionista era um meio artificial de fabricar fabricantes, de expropriar trabalhadores independentes, de capitalizar meios de produção e meios de subsistência, de encurtar a transição do velho modo de produção para o moderno. Esse invento criou uma grande disputa entre os estados europeus, que, uma vez colocados a serviço dos fabricantes de mais valia, não se limitaram a espoliar seu próprio povo, indiretamente através de impostos aduaneiros e diretamente através de prêmios à exportação, etc. Nos países secundários deles dependentes, extirparam violentamente toda indústria, (...).” p. 875 7. Tendência histórica da acumulação capitalista. “A que se reduz, em última análise, a acumulação primitiva, a origem histórica do capital? Quando não é a transformação direta de escravos e servos em assalariados, mera mudança de forma, significa apenas a expropriação dos produtores diretos, isto é, a dissociação da propriedade privada baseada no trabalho pessoal, próprio. A propriedade privada, antítese da propriedade coletiva, social, só existe quando o instrumental e as outras condições externas do trabalho pertencem a particulares. Assume caráter diferente conforme esses particulares sejam trabalhadores ou não. Os matizes inumeráveis que a propriedade privada oferece à primeira vista refletem apenas os estados intermediários que existem entre esses dois extremos, a propriedade privada de trabalhadores e não- trabalhadores. A propriedade privada do trabalhador sobre os meios de produção serve de base à pequena indústria, e esta é uma condição necessária para desenvolver-se a produção social e a livre individualidade do trabalhador. Sem dúvida, encontramos essa pequena indústria nos sistemas de escravatura, servidão e em outras relações de dependência. Mas, ela só floresce, só desenvolve todas as suas energias só conquista a adequada forma clássica quando o trabalhador é o proprietário livre das condições de trabalho (meio e objeto de trabalho) com as quais opera, a saber, o camponês é dono da terra que cultiva, o artesão, dos instrumentos que maneja com perícia. Esse modo de produção supõe parcelamento da terra e dispersão dos demais meios de produção. Exclui, além da 78
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    concentração desse meios,a cooperação, a divisão do trabalho dentro do mesmo processo de produção, o domínio social e o controle da natureza, o livre desenvolvimento das forças produtivas da sociedade. Só é compatível com limitações estreitas e ingênuas à produção e à sociedade. Pretender eternizá-lo significaria, conforme a acertada expressão de Pecquer, “decretar a mediocridade universal”. Chegado a certo grau de desenvolvimento, esse modo de produção gera os meios materiais de seu próprio aniquilamento. A partir desse momento agitam-se no seio da sociedade forças e paixões que se sentem acorrentadas por ele. Tem de ser destruídos e é destruído. Sua destruição, a transformação dos meios de produção individualmente dispersos em meios socialmente concentrados, da propriedade minúscula de muitos na propriedade gigantesca de poucos; a expropriação da grande massa da população, despojadas de suas terras, de seus meios de subsistência e de seus instrumentos de trabalho, essa terrível e difícil expropriação, constitui a pré- história do capital. (...)A propriedade privada, obtida com o esforço pessoal, baseada por assim dizer na identificação do trabalhador individual isolado e independente com suas condições de trabalho, é suplantada pela propriedade capitalista, fundamentada na exploração do trabalho alheio, livre apenas formalmente.” P. 879s “O modo capitalista de apropriar-se dos bens, decorrente do modo capitalista de produção, ou seja a propriedade privada capitalista, é a primeira negação da propriedade privada individual baseada no trabalho próprio. Mas, a produção capitalista gera sua própria negação, com a fatalidade de um processo natural. É a negação da negação. Esta segunda negação não restabelece a propriedade privada, mas a propriedade individual tendo por fundamento a conquista da era capitalista: a cooperação e a posse comum do solo e dos meios de produção gerados pelo próprio trabalho. A transformação da propriedade particular esparsa, baseada no trabalho próprio dos indivíduos, em propriedade privada capitalista, constitui naturalmente um processo muito mais longo, mais duro e mais difícil que a transformação em propriedade social da propriedade capitalista que efetivamente já se baseia sobre um modo coletivo de produção. Antes, houve a expropriação da massa do povo por poucos usurpadores, hoje, trata-se da expropriação de poucos usurpadores pela massa do povo.” P. 881s Capítulo XXV – Teoria Moderna da Colonização* *nota de pé-de-pag. – “Tratamos aqui das verdadeiras colônias, terras virgens, colonizadas por imigrantes livres. Do ponto de vista econômico, os Estados Unidos ainda são uma única colônia da Europa. Incluímos também nessa categoria as velhas plantações onde as condições foram inteiramente modificados com a abolição da escravatura.” P. 883 “Por princípio, a economia política confunde duas espécies muito diferentes de propriedade: a que se baseia sobre o trabalho do próprio produtor e, a sua antítese direta, a que se fundamenta na exploração do trabalho alheio. Esquece que esta só cresce sobre o túmulo daquela. Na Europa ocidental, o berço da economia política, o processo da acumulação primitiva está mais ou menos concluído. Aí o regime capitalista ou apoderou–se diretamente de toda a produção nacional, ou, onde as condições econômicas estão menos desenvolvidas, controla pelo menos indiretamente aquelas camadas da sociedade que, embora submetidas ao antigo modo de produção, continuam a existir ao lado dele, em decadência contínua. Nesse mundo do capital, pronto e acabado, o economista político aplica as concepções de direito e de propriedade do mundo pré-capitalista, com tanto mais zêlo e unção tanto maior, quanto mais alto ululam os fatos contra sua ideologia. A contradição entre esses dois sistemas econômicos diametralmente opostos se patenteia, na prática, na luta que se trava entre eles. Quando o capitalista se apóia no poder da mãe-pátria, procura afastar do caminho, pela força, o modo de produzir os bens e de apropriar-se deles, baseado no próprio trabalho. O mesmo interesse que, na mãe-pátria, induz o sicofanta do capital, o economista político, 79
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    a identificar teoricamenteo modo capitalista de produção com o oposto, leva-o, nas Colônias, a confessar tudo e a proclamar bem alto o antagonismo entre os dois modos de produção. (…) Mas, não estamos tratando aqui de examinar a situação das colônias. Interessa-nos apenas o segredo que a economia política do Velho Mundo descobriu no Novo e proclamou bem alto: o modo capitalista de produção e de acumulação e, portanto, a propriedade privada capitalista exigem, como condição existencial, o aniquilamento da propriedade privada baseada no trabalho próprio, isto é, a expropriação do trabalho. “ p. 883 ss O CAPITAL - LIVRO 2 – Volume III O PROCESSO DE CIRCULAÇÃO DO CAPITAL. Parte Primeira – AS METAMORFOSES DO CAPITAL E O CICLO DELAS Capítulo I – O Ciclo do Capital Dinheiro “O processo cíclico do capital realiza-se em três estádios (...): 1) o capitalista aparece como comprador no mercado de mercadorias e no mercado de trabalho; seu dinheiro converte-se em mercadoria ou efetua o ato de circulação D-M. 2) Consumo produtivo das mercadorias compradas pelo capitalista que funciona como produtor capitalista de mercadorias. Seu capital percorre o processo de produção. Resultado: mercadoria cujo valor supera o dos elementos que concorreram para sua produção. 3) o capitalista volta ao mercado como vendedor; sua mercadoria converte-se em dinheiro, isto é, efetua o ato de circulação M-D” p. 27 “A fórmula do ciclo do capital-dinheiro é, portanto, D-M... D... M’-D’. Os pontos significam que se interrompeu o processo de circulação; M’ e D’ indicam que M e D estão acrescidos de mais valia.” P. 28 “Não importa ao dinheiro a espécie de mercadoria em que se converte. Ele é a forma equivalente geral de todas as mercadorias que com os preços indicam que representam idealmente determinada soma de dinheiro e esperam sua transformação em dinheiro. Ao serem trocadas por dinheiro, recebem a forma em que são transformáveis em valores-de-uso para seus possuidores.” P. 33 “As mesmas circunstâncias que produzem a condição fundamental da produção capitalista, a existência de uma classe assalariada, exigem a transição de toda a produção de mercadorias para a produção capitalista de mercadorias. Esta, na medida em que se desenvolve, decompõe e dissolve as velhas formas de produção, voltadas de preferência para a subsistência imediata e que só transforma em mercadoria o excedente da produção. Ela faz com que a venda do produto se torne o interesse principal, aparentemente sem atacar, de início, o modo de produção existente, conforme procedeu o comércio mundial capitalista com povos como os chineses, hindus, árabes, etc. Mas depois, quando cria raízes, destrói todas as formas de produção de mercadorias que se baseiam no trabalho próprio dos produtores ou apenas na venda do excedente da produção como mercadoria. Começa generalizando a produção de mercadorias e em seguida transforma progressivamente em capitalista toda a produção de mercadorias.” P. 39 “Quaisquer que sejam as formas sociais de produção, os trabalhadores e os meios de produção são sempre os seus fatores. Entretanto, quando separados um dos outros, só o são potencialmente. Para 80
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    haver produção émister que eles se combinem. O modo em que se efetua essa combinação distingue as diversas épocas econômicas da estrutura social.” P. 39 “Todo empreendimento de produção de mercadorias se torna ao mesmo tempo empreendimento de exploração de F.T.. Entretanto, só a produção capitalista de mercadorias se torna um modo de exploração que marca uma nova era e que em seu desenvolvimento histórico, através da organização do processo de trabalho e dos gigantescos progressos da técnica, revoluciona toda a estrutura econômica da sociedade e ultrapassa incomparavelmente todos os períodos anteriores.” P. 40 “O capital industrial é o único modo de existência do capital em que este tem por função não só apropriar-se da mais valia ou do produto excedente mas também criá-la. Por isso, determina o caráter capitalista de produção; sua existência implica a oposição entre a classe capitalista e a trabalhadora. Na medida em que se apodera da produção social, são revolucionadas a técnica e a organização social do processo de trabalho e com elas o tipo econômico-histórico da sociedade. As outras espécies de capital que surgiram antes dele em meio a condições sociais desaparecidas ou em decadência, a ele se subordinam, modificando o mecanismo de suas funções e, além disso, movem- se nele fundamentadas, com ele vivem ou morrem, firmam-se ou caem.” P. 56s Capítulo II – O Ciclo do Capital Produtivo “O dinheiro que se adianta então ao trabalhador é apenas forma equivalente transmutada de uma parte do valor-mercadoria por ele produzido.” P. 71 “O consumo das mercadorias não está incluído no ciclo do capital do qual sai. Depois de vendido o fio, pode recomeçar o ciclo do valor-capital figurado no fio, não importando o que ocorra com o fio vendido. Do ponto de vista do produtor capitalista, tudo segue seu curso normal desde que se venda o produto. (...)Assim, pode aumentar a produção da mais valia e com ela o consumo individual do capitalista, encontrar-se em pleno progresso todo o processo de reprodução, e, apesar disso, grande parte das mercadorias ter entrado na esfera da circulação apenas na aparência, continuando na realidade armazenada nas mãos dos revendedores sem ser vendida, retirada portanto no mercado. (...)Quem detém as mercadorias invendáveis tem de declarar-se insolvente ou vendê-las a qualquer preço, para pagá-las. Essa venda nada tem a ver com a verdadeira situação da procura. Está relacionada apenas com a procura de meios de pagamentos, com a necessidade absoluta de converter mercadoria em dinheiro. Estala então a crise. Torna-se visível não na queda imediata da procura de mercadorias de consumo, da procura relacionada com o consumo individual, e sim na diminuição da troca entre os capitais, do processo de reprodução do capital.” P. 77 Capítulo IV – As Três Figuras do Processo Cíclico “Se fizermos uma síntese das três formas, todas as condições prévias do processo se mostram resultado dele, por ele mesmo produzidas. Cada elemento aparece como ponto donde se parte, por onde se passa e para onde se volta. O processo total se apresenta como unidade do processo de produção e do processo de circulação; o processo de produção serve de meio para o processo de circulação e vice-e-versa.” P. 102 “Globalmente, o capital se encontra, ao mesmo tempo, em suas diferentes fases que se justapõem. Mas cada parte passa ininterrupta e sucessivamente de uma fase, de uma forma funcional para outra, funcionando sucessivamente em todas. (...)Cada forma sucede e precede a outra, de modo que o retorno de uma parte do capital a uma forma tem por condição o regresso de outra parte a outra forma.” P. 107 81
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    “O capital industrial,em seu processo de circulação, funciona como dinheiro ou como mercadoria, e seu ciclo entrecruza-se, seja como capital-dinheiro seja como capital-mercadoria, com a circulação de mercadorias dos mais diversos modos sociais de produção, desde que sejam ao mesmo tempo produção de mercadorias. (...)A tendência da produção capitalista, entretanto, é transformar sempre que possa, toda produção em produção de mercadorias, e seu principal instrumento para isto é trazê- la para seu processo de circulação. (...)A intervenção do capital industrial promove por toda parte essa transformação e com ela a transformação de todos os produtores diretos em trabalhadores assalariados. (...)O modo capitalista de produção supõe produção em grande escala e necessariamente venda em grande escala, venda portanto ao comerciante e não ao consumidor isolado.” p. 112s “O capitalista tem realmente “de vender mais caro do que comprou”, mas, só consegue isso porque através do processo de produção capitalista transforma a mercadoria mais barata, de menor valor que adquiriu em mercadoria de mais valor, mais cara. Vende mais caro não por vender sua mercadoria acima do valor, mas por estar o valor de sua mercadoria acima do valor global dos elementos de sua produção.” p.119 Capítulo V – O Tempo de Circulação “(...)a produtividade e o acréscimo de valor de dado capital produtivo em dado espaço de tempo serão tanto maiores quantos mais coincidam o tempo de produção e o de trabalho. Daí a tendência da produção capitalista de reduzir ao máximo possível o excesso do tempo de produção sobre o tempo de trabalho.” p. 127 “O capital aparece na esfera da circulação como capital-mercadoria e capital-dinheiro. Seus dois processos de circulação consistem em passar ele de forma mercadoria para a forma dinheiro e da forma dinheiro para a forma mercadoria. A transformação da mercadoria em dinheiro é, ao mesmo tempo, realização da mais-valia incorporada à mercadoria, e a transformação do dinheiro em mercadoria é, ao mesmo tempo, conversão ou reversão do valor-capital à figura de seus elementos de produção.” p. 127 “A forma de existência das mercadorias, sua vida como valores-de-uso, traça determinados limites à circulação do capital-mercadoria M’-D’. Por natureza, elas são perecíveis. Se, de acordo com sua destinação, não forem objetos de consumo individual ou produtivo, em outras palavras se não forem vendidas a tempo, estragar-se-ão e perderão com seu valor-de-uso a propriedade de serem portadoras de valor-de-troca. Perde-se o valor-capital. Os valores-de-uso só continuam a ser veículos do valor-capital que se eterniza e acresce, enquanto continuamente se renovam, se reproduzem e são repostos por novos valores-de-uso da mesma espécie ou de espécie diferente. (...)A deterioração do corpo da mercadoria estabelece o limite do tempo de circulação do capital- mercadoria: é o limite absoluto a essa parte do tempo da circulação, ou ao tempo durante o qual o capital-mercadoria funciona como capital-mercadoria. Quanto mais perecível uma mercadoria, tanto mais rapidamente tem de ser vendida e consumida após a produção, tanto menos pode afastar-se do local de produção, tanto menor será a área em que circula, tanto mais local o caráter do mercado de venda. Quanto mais perecível uma mercadoria, tanto mais estreito o limite que antepõe ao tempo de sua circulação, tanto menos se presta a ser objeto da produção capitalista. Só se adapta a esta em lugares populosos ou na medida em que o desenvolvimento dos meios de transporte encurta as distâncias. A produção de um artigo, concentrada em poucas mãos e em área populosa, pode proporcionar mercado relativamente grande mesmo para mercadorias desse gênero, como acontece, por ex., com as grandes cervejarias, leiterias, etc.” p.130s 82
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    Capítulo VI –Os Custos de Circulação “Para o capitalista, que faz outros trabalhar para ele, compra e venda constituem função fundamental. Apropriando-se do produto de muitos em ampla escala social, tem de vender na mesma escala e em seguida reconverter o dinheiro nos elementos da produção. Como sempre, o tempo empregado na compra e venda não cria valor. O funcionamento do capital mercantil dá origem a uma ilusão. Mas (...)fica evidente desde já: se uma função, em si mesma improdutiva, embora necessária à reprodução, se transforma, com a divisão do trabalho, de uma tarefa acessória de muitos em tarefa exclusiva, especializada de poucos, não muda ela, com isso, de caráter. Um comerciante apenas (considerando aqui mero agente de conversão formal das mercadorias, somente comprador e vendedor) pode, com suas operações, encurtar o tempo de compra e o de venda de muitos produtores.” p. 134 Parte Segunda – A ROTAÇÃO DO CAPITAL Capítulo VII – O Tempo de Rotações e Números de Rotações “Excetuados eventos singulares que podem apressar ou diminuir o tempo de rotação de um capital isolado, o tempo de rotação dos capitais varia segundo os diversos ramos de produção. Se o dia de trabalho constituía a unidade natural de medida do funcionamento da força de trabalho, o ano representa a unidade natural de medidas das rotações do capital em movimento. Essa unidade de medida tem seu funcionamento natural na circunstância de serem anuais os produtos agrícolas mais importantes na zona temperada, o berço da produção capitalista.” p. 162 “Para o capitalista, o tempo de rotação de seu capital é o período durante o qual tem de adiantar o capital para valorizá-lo e recuperá-lo na sua forma primitiva.” p. 163 Capítulo VIII – Capital Fixo e Capital Circulante “Um elemento do valor do capital produtivo só adquire a forma de capital fixo, se o meio de produção em que existe não é inteiramente consumido no espaço de tempo em que o produto é fabricado e expelido do processo de produção como mercadoria. É necessário que parte de seu valor perdure em sua antiga forma de uso, enquanto a outra circula através do produto acabado cuja circulação movimenta ao mesmo tempo o valor global dos elementos circulantes do capital.” p. 175 “Com o desenvolvimento do sistema de crédito que segue necessária e paralelamente o desenvolvimento da indústria moderna e da produção capitalista, esse dinheiro deixa de ser tesouro e passa a ser capital, não nas mãos de seu proprietário, mas nas de outros capitalistas, que o administravam.” p. 190 Capítulo IX – Rotação Global do Capital Adiantado “Se o desenvolvimento do capital fixo, por um lado, prolonga essa vida, por outro, a encurta, por meio da revolução constante dos meios de produção, sempre intensificada com o desenvolvimento do modo capitalista de produção. Daí a mutação dos meios de produção e a necessidade de sua constante substituição em virtude do desgaste moral, antes de se esgotarem fisicamente. (...)Desde já está claro que, em virtude desse ciclo de rotações conexas, que abarca uma série de anos e no qual o capital está preso por sua parte fixa, forma-se uma base material das crises periódicas em que os negócios passam por fases sucessivas de depressão, animação média, auge, crise. São bem diversos 83
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    e díspares osperíodos em que se aplica capital. Entretanto, a crise constitui sempre o ponto de partida de grandes investimentos novos e forma assim, do ponto de vista de toda a sociedade, com maior ou menor amplitude, nova base material para o próximo ciclo de rotações..” p. 194 Capítulo X – Teorias Sobre o Capital Fixo e Capital Circulante. Os Fisiocratas e Adam Smith “As mesmas coisas constituem elementos do capital circulante ou do capital fixo, de acordo com a função que desempenham no processo de trabalho. Um boi, por ex. , se é um boi de carga ou tração (instrumento de trabalho) constitui modo material de existência do capital fixo, se é boi de engorda (matéria-prima) constitui elemento do capital circulante do arrendatário. Além disso, a mesma coisa por ora funciona como elemento do capital produtivo ora pertence diretamente ao fundo de consumo. Uma casa por exemplo que funciona como local de trabalho é elemento fixo do capital produtivo, mas se é moradia, não é em virtude apenas dessa condição, forma de capital. Em muitos casos, os mesmos meios de trabalho podem ora funcionar como meios de produção ora como meios de consumo.” p. 213s “Quando o produtor vende seu produto ao comerciante, deixa o produto de constituir forma de seu capital. Do ponto de vista social, continua sendo ainda capital-mercadoria, embora em outras mãos que não as de produtor; mas, justamente porque é capital-mercadoria, não é capital-fixo nem circulante. Em toda produção que não se destina a satisfazer diretamente as próprias necessidades, o produto tem de circular como mercadoria, isto é, de ser vendido, não por estar em jogo a obtenção de um lucro mas a fim de que o produtor simplesmente possa viver. Acresce que, na produção capitalista, com a venda da mercadoria, realiza-se ao mesmo tempo a mais valia nela encerrada. O produto sai do processo de produção como mercadoria, não sendo portanto elemento fixo nem circulante desse processo.” p. 216 “Um navio e uma locomotiva tem por função mover-se; entretanto funcionam, não para seu produtor, mas para quem os emprega, como capital fixo. Por outro lado, coisas que funcionam no processo de produção localmente fixadas, nele vivem e morrem, nunca mais o abandonam depois de nele entrarem, são elementos circulantes do capital produtivo. É o caso do carvão consumido para impulsionar a máquina no processo de produção, do gás empregado na iluminação da fábrica etc. São elementos circulantes não porque o produto tenha deixado materialmente o processo de produção e circulem como mercadoria, mas porque seu valor entrou por inteiro no valor da mercadoria, o qual ajudaram a produzir, tendo portanto de ser reposto por inteiro com a venda da mercadoria.” p. 222 Capítulo XI – Teorias Sobre Capital Fixo e Capital Circulante. Ricardo “A diferença tal como se apresenta do ponto de vista da oposição entre capital fixo e capital circulante consiste exclusivamente no seguinte: o valor dos meios de trabalho empregados para produzir uma mercadoria só em parte entra no valor dela e por isso só em parte é reposto pela venda da mercadoria, isto é, pouco a pouco, gradualmente, e o valor da força de trabalho e dos objetos de trabalho (matérias-primas etc.) empregados para produzir uma mercadoria entra por inteiro nela e por isso é totalmente reposto com sua venda. Nesse sentido e com relação ao processo de circulação, uma parte do capital funciona como capital fixo, e a outra como capital circulante. Nos dois casos transferem-se ao produto valores determinados, adiantados, que são repostos com a venda do produto. A única diferença consiste em que a transferência e por conseguinte a reposição do valor se realizam, num caso, por partes, gradualmente, e, no outro, de uma vez. Assim apaga-se a diferença fundamental entre capital variável e capital constante, todo o segredo portanto da criação da mais valia e da produção capitalista (...). Compreende-se porque a economia política burguesa 84
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    instintivamente aferrou-se àconfusão estabelecida por A. Smith entre as categorias “capital fixo e capital variável” e as categorias “capital fixo e capital circulante”, repetindo-a como um realejo, por um século inteiro, uma geração após outra. Ela não discerne mais o capital empregado em salários do emprego em matérias-primas e só formalmente distingue entre aquele e o capital constante, conforme seja total ou parcial a maneira de circular através do produto. Com isto sepulta-se de uma vez a base indispensável para se ver o movimento real da produção capitalista e, por conseqüência, da exploração capitalista. Tudo se resume ao reaparecimento de valores adiantados.” p. 230s “Na realidade, a produção capitalista desenvolvida tem por condição fundamental que o trabalhador seja pago em dinheiro, do mesmo modo que supõe o funcionamento do processo de produção por intermédio do processo de circulação, a economia monetária portanto. Mas, a criação da mais valia – e portanto a capitalização da soma de valor adiantado – não decorre da forma monetária nem da forma natural do salário, nem do capital empregado na compra da força de trabalho. Provem da troca de valor por força criadora de valor, da conversão de uma grandeza constante numa grandeza variável.” p. 231 “Não obstante, o metal que serve de matéria-prima constitui parte do capital circulante, e o meio de trabalho, provavelmente feito do mesmo metal, parte do capital fixo. Não é portanto pela natureza física, material, nem por sua maior ou menor resistência que o mesmo metal ora é classificado como capital fixo, ora como capital circulante. Essa diferença decorre antes do papel que desempenha no processo de produção, o de objeto de trabalho ou o meio de trabalho.” p. 232 Capítulo XII – O Período de Trabalho “Quando falamos da jornada de trabalho, referimo-nos ao tempo durante o qual o trabalhador tem diariamente de despender sua F.T., de trabalhar. Quando falamos de período de trabalho, entendemos o número das jornadas de trabalho conexas, necessárias em determinado ramo industrial, para fornecer um produto acabado. Neste caso, o produto de cada jornada é apenas produto parcial que vai sendo elaborado dia a dia e que só no final do período mais ou menos longo adquire sua figura conclusa, a de um valor-de-uso pronto e acabado.” p. 243 “Segundo a duração maior ou menor do período de trabalho, exigida pela natureza específica do produto ou do efeito útil a atingir, é mister um desembolso contínuo, adicional de capital circulante (salários, matérias-primas e materiais auxiliares) do qual nem um átomo, nesse ínterim, se encontra em forma capaz de circular e de servir para renovar a mesma operação.” p. 245 “Nos estádios menos desenvolvidos da produção capitalista, não se realizam por métodos capitalistas os empreendimentos que exigem longo período de trabalho, portanto grande dispêndio de capital por longo prazo, (...). É o que se dava por exemplo com as estradas, canais, etc. feitos às custas da comunidade ou do estado (nos tempos antigos empregava-se em regra a F.T. por meio de trabalhos forçados). Naqueles estádios, também era ínfima a contribuição dos haveres do capitalista para fazer produtos cuja elaboração exige longo período de trabalho. Por ex. , na construção de casas, o particular para quem se constrói casa faz pagamentos parcelados ao construtor. Na realidade, vai pagando a casa pouco a pouco, na medida em que avança seu processo de produção. Mas na era capitalista desenvolvida – quando capitais imensos se concentram nas mãos de alguns e surge o capitalista associado (sociedades anônimas) ao lado do capitalista singular, expandindo-se ao mesmo tempo o sistema de crédito – só excepcionalmente constrói um empresário capitalista por encomenda individual de particulares. Seu negócio é construir para vender filas de casas, quarteirões inteiros, como o de outros capitalistas é construir vias férreas mediante contrato. (...)A execução de obras de grande escala e de período de trabalho bastante longo só passa a ser atribuição integral da 85
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    produção capitalista, quandojá é bem considerável a concentração do capital, quando o desenvolvimento do sistema de crédito proporciona ao capitalista o cômodo expediente de adiantar e portanto de arriscar, em vez de seu, o capital alheio.” p. 247s Capítulo XIII – O Tempo de Produção “O tempo de trabalho é sempre tempo de produção, tempo durante o qual o capital está preso à esfera de produção. Mas a recíproca não é verdadeira. O tempo durante o qual o capital fica no processo de produção não é necessariamente tempo de trabalho. (...)o tempo de produção do capital adiantado consiste em dois períodos: um período em que o capital está no processo de trabalho e um segundo período em que sua forma de existência, a de produto inacabado, está exposto à ação de processos naturais, fora do processo de trabalho.” p.252s Capítulo XIV – O Tempo de Circulação “O tempo de rotação do capital é igual à soma do tempo de produção e o do tempo de circulação. (...)Um segmento do tempo de circulação, e o relativamente mais decisivo, consiste no tempo que demora a venda, a época em que o capital está na condição de capital-mercadoria. Em função da magnitude relativa dessa demora, aumenta ou diminui o tempo de circulação e por conseguinte o período de rotação.” p. 263s Capítulo XV – Efeito do Tempo de Rotação Sobre a Magnitude do Capital Adiantado “Os economistas que nada oferecem de claro sobre o mecanismo da rotação, deixam sempre de lado esse ponto fundamental, a saber, que só pode comprometer-se contínua e efetivamente no processo de produção parte do capital industrial, para que a produção prossiga ininterrupta. Enquanto uma parte se encontra no período de produção, a outra tem necessariamente de estar no período de circulação. Em outras palavras: uma parte só pode funcionar como capital produtivo, se outra parte ficar fora da produção propriamente dita sob a forma de capital-mercadoria ou de capital-dinheiro. Esquecer isto é omitir a importância e o papel do capital-dinheiro.” p.282 “O capital circulante empregado num período de trabalho não pode ser empregado em novo período de trabalho antes de concluída sua rotação, de transformar-se em capital-mercadoria, daí em capital- dinheiro e deste novamente em capital produtivo. Por isso, a fim de continuar imediatamente com um segundo, o primeiro período de trabalho, é mister adiantar novo capital, convertê-lo nos elementos circulantes do capital produtivo e em quantidade suficiente para preencher a lacuna surgida com o período de circulação do capital circulante adiantado para o primeiro período de trabalho.” p. 295 Capítulo XVI – A Rotação do Capital Variável “O capital circulante variável despendido durante a produção só pode funcionar novamente no processo de circulação, quando o produto que reproduz seu valor se vende e se transforma de capital-mercadoria em capital-dinheiro, a fim de ser utilizado outra vez para pagar F.T.. (...)O que essas duas partes do capital circulante, a variável (F.T.) e constante (as matérias de produção), tem de comum e as distingue do capital-fixo não é a circunstância de seu valor transferido ao produto circular por meio do capital-mercadoria. (...)A diferença consiste em que o capital fixo continua a funcionar no processo de produção com a feição antiga durante um ciclo mais ou menos longo de períodos de rotação do capital circulante (=capital circulante constante + capital circulante variável), 86
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    enquanto cada umadas rotações supõe a reposição de todo o capital circulante que, sob a figura de capital-mercadoria, passa da esfera da produção para a da circulação.” p. 312 “Quanto mais curto o período de rotação do capital, quanto mais reduzidos os prazos de sua reprodução dentro do ano, tanto mais rapidamente se transforma a parte variável do capital adiantado originalmente sob a forma dinheiro na forma dinheiro do produto-valor (que inclui mais- valia) criado pelo trabalhador para substituir esse capital variável; (...)pois pode com mais freqüência e continuamente readquirir os trabalhadores e pôr seu trabalho em movimento, com a forma dinheiro do valor que eles mesmos produziram.” p. 334 [Rotação A=período curto de rotação – B=longo (um ano)] “Tanto em A quanto em B, o trabalhador paga os meios de subsistência que compra com o capital variável que em suas mãos se transformou em meios de circulação. Substituiu, por exemplo, o trigo que retira do mercado por um equivalente em dinheiro. No caso de B, o dinheiro com que esses meios de subsistência são pagos e retirados do mercado, não é, como no caso de A, a forma dinheiro de produto-valor que o trabalhador fornece ao mercado durante o ano; em B, o trabalhador entrega dinheiro ao vendedor dos meios de subsistência, mas nenhuma mercadoria, sejam meios de produção ou meios de subsistência, a qual esse vendedor possa comprar com o dinheiro obtido, conforme sucede no caso de A. No caso de B portanto retiram-se do mercado força de trabalho, meios de subsistência para essa força de trabalho, capital fixo sob a forma de meios de trabalho empregados em matérias de produção, lançando-se ao mercado, para substituí-los, um equivalente em dinheiro; mas, durante o ano, não se lança produto algum no mercado, para repor os elementos materiais do capital produtivo dele retirados. Imaginemos que a sociedade, em vez de capitalista, fosse comunista: antes de mais nada, desapareceu o capital-dinheiro e; por conseguinte, os véus com que ele disfarça as operações. E tudo fica resumido ao seguinte: a sociedade tem de calcular préviamente a quantidade de trabalho, meios de produção e meios de subsistência que, sem prejuízo, pode aplicar em empreendimentos que, como construção de ferrovias, etc. , por longo tempo, um ano ou mais, não fornecem meios de produção, meios de subsistência, nem qualquer efeito útil, mas retiram da produção global do ano trabalho, meios de produção e de subsistência. Mas, na sociedade capitalista onde o senso social só se impõe depois do fato consumado, podem ocorrer e ocorrem necessária e constantemente grandes perturbações. Há a pressão sobre o mercado financeiro e, em sentido contrário, as facilidades desse mercado que fazem aparecer em massa os empreendimentos mencionados, as circunstâncias portanto que mais tarde pressionam o mercado financeiro. Gera-se a pressão porque é necessário, continuamente e durante longo prazo, adiantamento de capital-dinheiro em grande escala. E acresce que há industriais e comerciantes que lançam em especulações ferroviárias etc. , capital-dinheiro necessário para movimentar seus negócios, substituindo-o por empréstimos tomados ao mercado financeiro. – Além disso, há pressão sobre o capital produtivo disponível da sociedade. Retirando-se constantemente do mercado elementos do capital produtivo e lançando-se em troca no mercado apenas um equivalente em dinheiro, aumenta a procura solvente que por sua vez não acresce a oferta de qualquer elemento. Daí elevarem-se os preços tanto dos meios de subsistência quanto das matérias de produção. E nessas ocasiões especula-se bastante, ocorrendo grandes transferências de capital. É quando se enriquesse um bando de especuladores, contratantes, engenheiros, advogados, etc. Aumenta a procura de bens de consumo, ao mesmo tempo que sobem os salários. As repercuções sobre os produtos de alimentação servem realmente para incentivar a agricultura. Não sendo possível aumentar a quantidade desses produtos subitamente, no correr do ano, cresce a sua importação, notadamente a de alimentos exóticos (café, açúcar, vinho, etc.) e a de objetos de luxo. Daí compras excessivas e especulação nesse ramo da importação. Nos ramos industriais em que a produção pode aumentar rapidamente (a manufatura propriamente dita, a mineração, etc.), a elevação dos preços causa expansão imediata, pouco depois 87
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    seguida de descalabro.O mesmo efeito se observa no mercado de trabalho, quando está em jogo atrair para os novos ramos industriais grandes massas da superpopulação relativa latente e mesmo dos trabalhadores ocupados. De modo geral, esses empreendimentos em grande escala, como ferrovias, retiram do mercado de trabalho determinada quantidade de forças que só podem provir de certos ramos, como agricultura, etc. , onde se empregam braços robustos. Isto ainda ocorre, mesmo depois de os novos empreendimentos se tornarem estáveis e de já se ter constituido portanto a classe trabalhadora flutuante de que necessitam. É o que se dá, por exemplo, quando se constrói momentâneamente ferrovias em escala superior à média. O aumento dessas atividades absorve o exército industrial de reserva cuja pressão avilta os salários. Estes geralmente sobem, mesmo naquelas partes do mercado do trabalho que estavam bem colocadas. Isto dura até que o inevitável craque libera o exército industrial de reserva e os salários caem de novo ao mínimo e mesmo abaixo.” p. 334ss Capítulo XVII – A Circulação da Mais Valia “Ao lado da acumulação real ou transformação da mais valia em capital-produtivo (e ao lado da correspondente reprodução em escala ampliada) ocorre portanto acumulação de dinheiro, amontoamento de parte da mais-valia como capital-dinheiro latente que só mais tarde, depois de atingir certo montante, deverá funcionar como capital ativo complementar. Assim se comportam as coisas do ponto de vista do capitalista isolado. Mas, o desenvolvimento da produção capitalista traz consigo o do sistema de crédito. O capital-dinheiro que o capitalista ainda não pode aplicar no próprio negócio, aplicam-no outros que por isso lhe pagam juros. Para ele tem a função de capital-dinheiro no sentido específico do termo, de uma espécie de capital desligado do capital produtivo. Mas, opera como capital em outras mãos. É claro que com a realização mais freqüente da mais valia e com a escala crescente em que é produzida, aumenta a proporção em que se lança no mercado financeiro novo capital-dinheiro ou dinheiro como capital, sendo aí pelo menos em grande parte reabsolvido em produção ampliada.” p. 342 “O modo de produção capitalista, tendo por base o trabalho assalariado, a remuneração do trabalhador em dinheiro, e em geral a transformação dos pagamentos com produtos ou serviços em pagamentos em dinheiro, só pode desenvolver-se com maior amplitude e profundidade no país em que exista massa de dinheiro suficiente para a circulação e para o entesouramento que esta determina (fundos de reserva, etc.). É uma condição estabelecida pela história, mas daí não se deve concluir que a produção capitalista só começa depois de se constituir massa suficiente de dinheiro entesourado. Ela se desenvolve simultaneamente com o desenvolvimento de suas condições, e uma delas é o suprimento de metais preciosos a partir do século XVI constitui fator essencial da história do desenvolvimento da produção capitalista. Quanto ao necessário suprimento posterior do material monetário no regime capitalista de produção, verificamos que, de um lado, lança-se mais-valia em circulação sob a forma de produtos sem o dinheiro necessário para realizá-la, e, de outro, mais-valia em ouro sem transformar previamente o produto em ouro.” p. 365 “A parte do produto anual que representa a mais-valia sob a forma de mercadoria está subordinada às mesmas regras válidas para a outra parte do produto anual. Para sua circulação é necessário certa soma de dinheiro. Essa soma pertence à classe capitalista do mesmo modo que o volume de mercadorias anualmente produzido que representa a mais-valia. A própria classe capitalista lança-a originalmente na circulação. Através da própria circulação, sua distribuição se renova constantemente entre os capitalistas. Conforme geralmente se dá com a circulação da moeda, parte dessa massa encalha em pontos que variam sem essas, enquanto outra parte circula constantemente. Não importa que parte dessa acumulação seja internacional, destinando-se a constituir capital- dinheiro. 88
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    Abstraímos dos azaresda circulação pelos quais um capitalista se apodera de uma porção da mais- valia e mesmo do capital de outro, havendo assim acumulação e centralização unilaterais de capital- dinheiro e de capital-produtivo. Por ex. , parte da mais-valia usurpada por A e acumulada como capital-dinheiro pode ser uma porção da mais-valia de B que não conseguiu tê-la de volta.” p. 371 Parte Terceira – A REPRODUÇÃO E A CIRCULAÇÃO DE TODO O CAPITAL SOCIAL Capítulo XVIII – Introdução “O processo imediato de reprodução do capital é seu processo de trabalho e de valorização. Tem por resultado o produto-mercadoria e por motivo determinante a produção de mais valia. O processo de reprodução do capital abrange esse processo imediato de produção e ainda as duas fases do processo de circulação propriamente dita, ou seja todo o ciclo, que, como processo periódico – a renovar-se constantemente em determinados períodos – constitui a rotação do capital.” p. 375 “(...)Cada capital separadamente não é mais do que fração autônoma, dotada por assim dizer de vida individual, mas componente do conjunto do capital social, do mesmo modo que cada capitalista isolado é apenas elemento individual da classe capitalista. O movimento do capital social consiste na totalidade dos movimentos de suas frações dotadas de autonomia, na totalidade das rotações dos capitais individuais. A metamorfose de cada mercadoria é elemento de série de metarmofoses do mundo das mercadorias, da circulação das mercadorias, e do mesmo modo a metarmofose do capital individual, sua rotação, constitui elemento do ciclo do capital social.” p. 376 “Na base da produção socializada cabe determinar a escala em que essas operações, que retiram por longo tempo força de trabalho e meios de produção sem fornecer durante esse tempo produto como resultado útil – podem ser executadas sem prejudicar os ramos de produção que, continuamente ou várias vezes por ano, além de retirar força de trabalho e meios de produção, fornecem meios de subsistência e meios de produção. Seja a produção socializada ou capitalista, os trabalhadores, nos ramos de produção de períodos de trabalho curtos, retiram por pouco tempo produtos, sem fornecer em compensação seu produto; nos ramos de períodos de trabalho longos, fazem continuamente retiradas por longo tempo, até que comecem suas restituições. Essa circunstância decorre das condições materiais do processo de trabalho em causa e não de sua forma social. Não entra em cogitação na produção socializada o capital-dinheiro. A sociedade reparte a força de trabalho e os meios de produção nos diferentes ramos de atividade. Os produtores poderão, digamos, receber um vale que o habilita a retirar estoques sociais de consumo uma quantidade correspondente a seu tempo de trabalho. Esses vales não são dinheiro. Não circulam.” p. 382s Capítulo XIX – Estudos Anteriores da Matéria. “(...)na realidade o sistema fisiocrático é a primeira concepção sistemática da produção capitalista. São os representantes do capital industrial – a classe dos arrendatários agrícolas – que dirigem todo o movimento econômico. A agricultura é explorada segundo o modo capitalista, isto é, como empreendimento em grande escala do arrendatário capitalista; quem cultiva diretamente o solo é o trabalhador assalariado. A produção gera não só artigos úteis, mas também o valor deles; entretanto, tem por motivo determinante a obtenção da mais-valia que nasce na esfera da produção e não na da 89
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    circulação. Entre astrês classes que figuram como agentes do processo social de reprodução propulsado pela circulação, o arrendatário capitalista, o explorador imediato do trabalho “produtivo”, o produtor da mais-valia, se distingue dos que apenas dela se apropriam.” p. 385 “O trabalhador, o vendedor da força de trabalho, recebe o valor dela na forma de salário. Em suas mãos, a força de trabalho não passa de mercadoria vendável, mercadoria de cuja venda vive, e que constitui por isso sua única fonte de renda; a força de trabalho só funciona como capital variável nas mãos de seu comprador, o capitalista, e o preço de compra adianta-o o capitalista apenas na aparência, uma vez que seu valor lhe é fornecido antes pelo trabalhador.” p. 397 “O primeiro erro de A. Smith consiste em igualar o valor dos produtores do ano ao produto-valor anual. Este último é apenas produto do trabalho do ano decorrido; o primeiro inclui, além disso, todas as parcelas de valor consumidas na elaboração do produto anual, mas produzidas no ano anterior e parcialmente em anos bem mais afastados: os meios de produção cujo valor apenas reaparece, os quais, no tocante ao valor, não foram produzidos nem reproduzidos pelo trabalho despendido no último ano. A confissão de A.S. leva-o a escamotear do produto anual a parte constante do valor. Essa confissão, por sua vez, decorre de outro erro em sua concepção fundamental. Ele não percebe o duplo caráter do trabalho: o que, como dispêndio de força de trabalho, cria valor, e o que, como trabalho concreto, útil, gera objetos úteis (valor-de-uso). (...)O produto anual global é portanto resultado do trabalho útil despendido durante o ano; mas durante o ano só se criou parte do valor dos produtos; essa parte é o produto-valor anual em que se representa a soma do trabalho mobilizado durante o ano. (...)Ele não viu que o produto-valor é menos que o valor dos produtos.” p. 403s “O dinheiro com que o capitalista paga a força de trabalho adquirida “lhe serve na fração de capital”, na medida em que por esse meio incorpora a força de trabalho aos elementos materiais de seu capital e só assim coloca seu capital em condições de funcionar como capital produtivo. Distingamos: para o trabalhador, a força de trabalho é mercadoria e não capital, e constitui renda na medida em que pode repetir sua venda de maneira ininterrupta; funciona como capital, depois da venda, em poder do capitalista, durante o processo de produção. (...)Mas, o dinheiro que o trabalhador recebe do capitalista, só o recebe depois de ter fornecido o uso de sua força de trabalho, depois que esta já está realizada no valor do produto do seu trabalho. O capitalista dispõe desse valor antes de pagá-lo. Não é portanto o dinheiro que funciona duas vezes, primeiro como a forma dinheiro do capital variável, depois como salário, e sim a força de trabalho: primeiro, como mercadoria na venda da força de trabalho (o dinheiro, ao estipular-se o salário a pagar exerce apenas o papel de medida ideal do valor, ocasião em que o capitalista ainda não precisa dispor dele), e segundo, no processo de produção, como capital, isto é, como elemento que nas mãos do capitalista cria valor-de-uso e valor. (...)a compra e venda ininterrupta da força de trabalho eterniza portanto a força de trabalho como elemento do capital.” p. 407 “O ato de apropriar-se de mais-valia, o valor que sobra depois de tirado o equivalente ao capital adiantado pelo capitalista, embora se inicie com a compra e venda da força de trabalho, só se concretiza dentro do próprio processo de produção, constituindo dele um fator essencial. A operação que o inicia, ato que faz parte da circulação, a compra e venda da força de trabalho, fundamenta-se por sua vez numa distribuição dos elementos de produção, a saber, a dissociação entre a força de trabalho como mercadoria do trabalhador e os meios de produção como propriedade de não-trabalhadores. (...)A substância do valor é e continua sendo nada mais que força de trabalho despendida – trabalho - e a produção de valor é simplesmente o processo desse dispêndio. Assim o servo despende durante 6 dias força de trabalho, trabalha durante 6 dias e esse dispêndio continua a existir da mesma maneira, realize ele, por exemplo, três dessas jornadas na própria lavoura e as três 90
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    outras na lavourado senhor. O trabalho voluntário para si e o trabalho forçado para o senhor constituem trabalho da mesma natureza. (...)A diferença refere-se apenas as condições diversas que levam ao dispêndio de sua força de trabalho durante as duas metades desse período. O mesmo se pode dizer do trabalho necessário e do trabalho excedente do assalariado. (...) Sob o aspecto considerado, a mercadoria produzida pelo capitalista em nada se distingue da elaborada por trabalhador independente ou por comunidades de trabalhadores ou por escravos. Entretanto, no caso do capitalista, todo o produto do trabalho e todo o seu valor lhe pertencem. Como qualquer outro produtor tem de transformar com a venda, mercadoria em dinheiro, a fim de prosseguir em seu negócio; tem de convertê-la à forma de equivalente geral.” p. 412s Capítulo XX – Reprodução Simples. “Quando examinamos, do ponto de vista individual, a produção do valor e o valor dos produtos do capital, não importava, para a análise, a forma específica do produto-mercadoria, consistisse ela em máquinas, trigo ou espelhos. (...)Como se tratava da reprodução do capital, bastava supor que dentro da esfera da circulação, a parte do produto-mercadoria, que representa valor-capital, encontrava oportunidade de reconverter-se em seus elementos de produção e retornar assim a sua figura de capital produtivo, do mesmo modo que era suficiente supor que trabalhador e capitalista encontravam no mercado as mercadorias em que despendem salário e mais-valia. Essa maneira puramente formal de apresentar as coisas não serve mais para estudo da totalidade do capital social e do valor de seu produto.” p. 421s “O produto global, ou seja toda a produção da sociedade, se divide em duas grandes secções: I. Meios de produção, mercadorias que por sua forma, devem ou pelo menos podem entrar no consumo produtivo. II. Meios de consumo, mercadorias que, por sua forma, entram no consumo individual da classe capitalista e da classe trabalhadora. Os diferentes ramos de produção se agregam numa ou na outra dessas secções, formando em cada uma das duas um grande ramo, o dos meios de produção e o dos meios de consumo. Todo o capital aplicado em cada um desses dois ramos constitui uma grande secção particular do capital social. Em cada secção, o capital se divide em dois componentes: 1- Capital Variável - em valor, é igual ao valor da força de trabalho social empregada nesse ramo de produção, por conseguinte, à soma dos salários pagos. Materialmente consiste na própria força de trabalho em ação, isto é, no trabalho vivo, posto em movimento por esse valor- capital. 2- Capital Constante - isto é, o valor de todos os meios de produção empregados na produção do ramo. Estes meios se dividem por sua vez em capital fixo: máquinas, instrumento de trabalho, construções, animais de trabalho, etc. ; e em capital constante circulante: materiais de produção, como matérias-primas e materiais auxiliares, produtos semi-acabados etc. 3- (...)o valor da totalidade do produto anual de cada secção, como o de cada mercadoria isolada, se reduz a c+v+m.” p. 422ss “O dinheiro que os capitalistas industriais lançam na circulação para possibilitar a circulação de suas mercadorias, façam-no por conta da parte constante do valor da mercadoria ou por conta da mais valia existente nas mercadorias, desde que esta seja consumida como renda, retorna a suas mãos em quantidade igual a que lançaram na circulação monetária.” p. 429 do item 3. Trocas entre as duas secções “Vejamos como o capital variável da Secção I reverte à forma dinheiro. Começa a existir para os capitalistas de I, depois de eles o terem despendido em salários, sob a forma de mercadoria, e é sob 91
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    essa forma queos trabalhadores lhes fornecem esse capital. Daqueles fôra para as mãos destes em dinheiro como o preço da força de trabalho. Então, os capitalistas de I não fazem mais do que pagar a parte do valor de seu produto-mercadoria a qual iguala esse capital variável despendido em dinheiro. Mas, encontram sua compensação em serem possuidores também dessa parte do produto- mercadoria. Contudo, a parte da classe trabalhadora que empregam não compra os meios de produção que ela mesma produz, e sim adquire os meios de consumo produzidos em II. O capital variável adiantado em dinheiro para pagar força de trabalho não volta portanto diretamente para os capitalistas de I. Com as compras dos trabalhadores, passa às mãos dos capitalistas produtores das mercadorias necessárias e acessíveis aos trabalhadores, indo portanto para os capitalistas de II, e só quando estes aplicam o dinheiro assim recebido para comprar meios de produção, retorna o capital variável, por esse rodeio, às mãos do capitalista de I. (...)na Reprodução simples (...)I (v+m)= IIc – p. 429s 4.As trocas dentro da seção II – Meios de subsistência e artigos de luxo (...)fica logo à primeira vista evidente que os trabalhadores de II com o salário recebidos dos capitalistas de II, o que fazem é recuperar parte de seu próprio produto, de acordo com o montante do valor em dinheiro recebido como salário.” p. 430s (em reprodução simples m despendida como renda). “A secção II da produção anual de mercadorias constitui-se dos mais variados ramos industriais, que, porém, podem ser reduzidos, com referência aos produtos, a duas grandes subsecções: a)Meios de consumo que entram no consumo da classe trabalhadora e, sendo meios necessários de subsistência, constituem parte do consumo da classe capitalista, embora muitas vezes diferentes em qualidade e valor dos consumidos pelos trabalhadores. (...)podemos colocar toda a subsecção sob o título: meios de consumo necessários, não importando no caso que o produto, o fumo por exemplo, seja ou não necessário do ponto de vista fisiológico; basta que o seja convencionalmente. b)Meios de consumo de luxo, que só entram no consumo da classe capitalista e assim podendo apenas ser trocados por mais-valia, que nunca chega ao bolso do trabalhador. (...)Por mais numerosas que sejam as transações entre os capitalistas dos mais diversos ramos industriais dela participantes, e através dessas transações esse capital variável que retorna se distribui pro rata. São processos de circulação cujos meios são fornecidos diretamente pelo dinheiro despendido pelos trabalhadores.” p. 431s “Toda crise restringe passageiramente o consumo de artigos de luxo; atrasa, retarda a operação em que (IIb)v se reconverte em capital-dinheiro, permitindo-a apenas parcialmente, e assim lança à rua parte dos trabalhadores das industrias de luxo, ao mesmo tempo que, por isso mesmo, enfraquece e restringe as vendas dos meios de consumo necessários. (...)O contrário se dá no período de prosperidade, sobretudo quando floresce a especulação: então já por outras razões, cai o valor relativo do dinheiro expresso em mercadorias (sem ser precedida de verdadeira revolução de valor), elevando-se portanto o preço das mercadorias independentemente do próprio valor. Não aumenta apenas o consumo dos meios de subsistência necessários; a classe trabalhadora (estando em atividade todo o seu exército de reserva) passa momentaneamente a participar no consumo de artigos de luxo que de ordinário lhe são inacessíveis e ainda no daqueles artigos de consumo necessários que, noutras condições, são na maior parte “necessários” apenas para os capitalistas, o que, por sua vez, faz subir os preços. É mera tautalogia dizer que as crises decorrem da carência de consumo solvente ou de consumidores capazes de pagar. O sistema capitalista não conhece outra espécie de consumo além do solvente, excetuados os casos do indigente e do gatuno. (...)mas para se dar a esta tautologia aparência de justificação mais profunda, se diz que a classe trabalhadora recebe parte demasiadamente pequena do próprio produto, e que o mal estar seria remediado logo que recebesse parte maior com aumento 92
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    dos salários -bastará então observar que as crises são sempre preparadas justamente por um período em que os salários geralmente sobem e a classe trabalhadora tem de maneira efetiva participação maior na fração do produto anual destinada a consumo. (...)A produção capitalista patenteia-se portanto independente da boa ou má vontade dos homens, implicando condições que permitem aquela relativa prosperidade da classe trabalhadora apenas momentaneamente e como sinal prenunciados de uma crise.” p. 438s “A reprodução simples, por definição, tem como finalidade o consumo, embora a obtenção de mais- valia se patenteie o motivo propulsor dos capitalistas individuais; a mais-valia, porém, qualquer que seja sua magnitude proporcional, deve ter aqui por função única e definitiva servir ao consumo individual dos capitalistas.” p. 439 5.A circulação monetária como Veículo das Trocas “De acordo com o exposto, a circulação entre as diferentes classes de produtores se realiza segundo o esquema seguinte: 1.Entre a classe I e a classe II: I. 4.000c + 1.000v + 1.000m II. .............. 2.000c ................ + 500v + 500m Temos aí a circulação de IIc= 2.000, trocado por I (1.000v + 1.000m) Resta ainda (por ora pomos de lado 4.000 Ic) a circulação de v + m dentro da classe II. II (v +m) repartem-se entre as subsecções IIa e IIb como segue: 2. II. 500v + 500m= a (400v + 400m) + b (100v + 100m) Os 400v (a) circulam dentro da própria subsecção; (...)[dentro do suposto anteriormente, a mais- valia é consumida 3/5 em IIa e 2/5 em IIb] – do mesmo modo de IIb em relação a IIa] 3. IIa (400v)+(240m)+160m b. ..........................100v+60m+(40m); as magnitudes entre parênteses são as que só circulam e são consumidos dentro da própria subsecção.” p. 441 “Duas coisas são necessárias à circulação das mercadorias: mercadorias lançadas em circulação, e dinheiro lançado em circulação. O processo de circulação não se extingue, como se dá com a troca direta de produtos, ao mudarem de lugar ou de mãos os valores-de-uso. O dinheiro não desaparece, quando sai definitivamente do circulo das metarmofoses de dada mercadoria. Ele se deposita em qualquer ponto da circulação que as mercadorias desocupam, etc. (livro primeiro, cap. III, p. 125)” p. 441s “Considerando-se toda a classe capitalista, a tese de ela mesma ter de lançar na circulação o dinheiro para realizar sua mais-valia (e também para fazer circular seu capital, constante e variável) não parece paradoxal e, ademais, constitui condição necessária do mecanismo inteiro, pois só temos aqui duas classes: a classe trabalhadora que só dispõe da força de trabalho, e a classe capitalista que tem o monopólio dos meios de produção sociais e do dinheiro. Seria paradoxal, se a classe trabalhadora, em primeira instância, adiantasse de seus próprios recursos, o dinheiro necessário para realizar a mais-valia encerrada nas mercadorias. O capitalista individual faz esse adiantamento, mas sempre agindo como comprador: despende dinheiro na aquisição de meios de consumo e adianta dinheiro na 93
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    aquisição de elementosde seu capital produtivo, sejam eles força de trabalho ou meios de produção. (...)Duas circunstâncias obscurecem o que realmente se passa: 1.No processo de circulação do capital industrial aparecem o capital mercantil (cuja primeira forma é sempre o dinheiro, pois o comerciante como tal não cria “produto” nem “mercadoria”) e o capital- dinheiro, manipulados por uma espécie particular de capitalistas. 2.Repartição da mais-valia, que necessariamente vai em primeiro lugar para as mãos do capitalista industrial, por diversas categorias cujos representantes aparecem ao lado do capitalista individual: o proprietário das terras (renda fundiária), o usurário (juros), o governo e seus funcionários, os “rentiers” etc. Para o capitalista industrial, esses cavalheiros são compradores e nessa qualidade convertem as mercadorias por ele produzidas em dinheiro. Figuram também entre os que lançam “dinheiro” na circulação, e o capitalista industrial o recebe deles. Com isso ninguém se lembra donde lhes vem originalmente o dinheiro e donde lhes continua sempre vindo.” p. 450s 6.O capital constante da Secção I. “Resta ainda investigar o capital constante da secção I=4.000Ic. Este é o valor dos meios de produção consumidos na produção do produto-mercadoria I, neste reaparecimento. Esse valor que reaparece, que não foi produzido neste processo de produção I, mas nele entrou no ano anterior como valor constante (...)existe agora em toda a porção do produto-mercadoria I, que não é absorvida pela categoria II (...). A classe capitalista I abrange a totalidade dos capitalistas que produzem meios de produção. (...)A dificuldade resolve-se facilmente se ponderarmos que todo o produto-mercadoria I em sua forma natural constitue-se de meios de produção, dos elementos materiais do próprio capital constante. (...)Em I todo o produto-mercadoria consiste em meios de produção - construções, maquinaria, recipientes, matérias-primas, e materiais auxiliares, etc. (...)todo o produto da secção I consiste em valores-de-uso que por sua forma natural, no modo de produção capitalista, só podem servir de elementos do capital constante. Assim, desse produto no valor de 6000, 1/3 (2.000) repõe o capital constante da secção II, e os 2/3 restantes, o capital constante da secção I.” p. 451s “A fração do capital social investida em cada ramo particular de produção consiste por sua vez na soma dos capitais individuais nele investidos e que funcionam de maneira autônoma. Isto é, naturalmente válido para as secções I e II. (...)É o que se dá, por exemplo, com o trigo na triticultura, com o carvão na indústria carbonífera, com o ferro na forma de máquinas na produção de ferro, etc. Os produtos parciais, em que consiste o valor-capital constante I, quando não entram na própria esfera particular ou individual de produção, apenas mudam de lugar.” p. 453 7.O capital variável e a mais-valia nas duas secções “Desde que se supõe reprodução simples, o valor global dos meios de consumo anualmente produzidos é igual ao produto-valor anual, isto é, igual a todo o valor produzido durante o ano pelo trabalho da sociedade, e assim tem de ser, pois na reprodução simples esse valor é consumido por inteiro.” p. 454 “(...)embora para os capitalistas de II o valor de seu produto se decomponha em c+v+m. Isto só acontece porque aqui IIc= I(v+m), e esses dois componentes do produto social, ao se tocarem, toma um a forma do outro; após essa operação, IIc volta a existir sob a forma de meios de produção e I (v+m) passa a existir em meios de consumo. É esta a circunstância que levou A.Smith a afirmar que o valor do produto anual se reduz a v+m. Essa afirmação é válida (1) apenas para a parte do produto anual a qual consiste em meios de consumo, mas (2) não no sentido de que esse valor total seja produzido em II e que seja o valor de seus produtos = valor-capital variável adiantado em II + mais-valia produzida em II. A proposição 94
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    tem validade apenasno sentido de que II(c+v+m) = II(v+m) + I(v+m), ou porque IIc = I(v+m)” p. 455 “2/3 do valor dos produtos de II (2.000), nos quais capitalistas e trabalhadores de I realizam o valor- capital variável e a mais-valia que produziram (e os quais constituem 2/9 de todo o valor dos produtos do ano), são, do ponto de vista do valor, o produto de 2/3 de uma jornada-de-trabalho social anteriormente efetuada. A totalidade do produto social de I e II, dos meios de produção e dos meios de consumo, vistos como valor-de-uso, concretamente, em sua forma natural, obtidos no curso de determinado ano, é o produto do trabalho desse ano, apenas quando se considera esse trabalho como trabalho útil, concreto, o que não é válido para o trabalhador visto como dispêndio de força de trabalho, como trabalho que cria valor. E a primeira afirmação só é verdadeira no sentido de que os meios de produção só se transformam em produto novo, no produto desse ano, em virtude do trabalho vivo que lhes foi acrescentado e que os manipulou. E reciprocamente, o trabalho desse ano não poderia se ter transformado em produto sem meios de produção independentes dele, sem meios de trabalho e matérias de produção.” p. 457s 8.O capital constante nas duas secções “(...)meios de produção e meios de consumo são totalmente diferentes entre si, como mercadorias, pela forma natural ou de uso e pelos tipos de trabalho concretos exigidos para sua produção. (...)A totalidade da jornada-de-trabalho anual, que produz valor = 3.000, aparece gasta na produção de meios de consumo = 3.000, nos quais não reaparece parte constante do valor, pois esses 3.000 = 1.500v + 1.500m, reduzindo-se a valor-capital variável + mais-valia. Além disso, o valor-capital constante (=6000) reaparece num gênero de produtos, os meios de produção, inteiramente diversos dos meios de consumo, e nenhuma parte da jornada-de-trabalho social aparece despendida na produção desses novos produtos; essa jornada-de-trabalho parece consistir por inteiro apenas em gêneros de trabalho que não resultam em meios de produção e sim em meios de consumo. (...)No produto anual da sociedade, portanto, a dificuldade decorre de a parte constante do valor representar-se numa espécie de produto, os meios de produção, completamente diversa da espécie, os meios de consumo, em que se representa o novo valor v + m acrescentado a essa parte constante do valor.” p. 459s “O produto do capital individual, isto é, de cada fração do capital social dotada de vida própria, funcionando de maneira autônoma, pode ter qualquer forma natural. A condição única limitante é que tenha realmente forma-de-uso, valor-de-uso, que dele faça elemento capaz de circular no mundo das mercadorias. (...). É diferente o que se dá com o produto global da sociedade. Todos os elementos materiais da reprodução tem de consistir em sua forma natural partes desse mesmo produto. Só é possível repor, com a produção global, a parte constante do capital consumida, se toda a parte constante do capital, a qual reaparece no produto, se apresentar na forma natural de novos meios de produção que possam efetivamente exercer a função do capital constante. Pressuposta a reprodução simples, o valor da parte do produto constituída de meios de produção tem de ser portanto igual ao valor da parte constante do capital social. Do ponto de vista individual, o capitalista produz, do valor de seu produto, apenas o capital variável e a mais-valia, acrescentados por novo trabalho, enquanto o valor da parte constante do capital é transferido ao produto pela natureza concreta desse novo trabalho. Do ponto de vista social, a fração da jornada-de-trabalho social que produz meios de produção, acrescentando-lhes valor novo e transferindo-lhes o valor dos meios de produção consumidos em sua produção, nada mais faz que produzir novo capital constante, destinado a repor o capital constante consumido sob a forma dos antigos meios de produção, tanto na secção I quanto na II. 95
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    (...)Por outro lado,a parte da jornada-de-trabalho social que produz meios de consumo nada produz do capital social de reposição. Só gera produtos que por sua forma natural se destinam a realizar o valor capital variável e a mais-valia de I e de II. Se nos colocamos do ponto de vista social, se examinamos portanto o produto global da sociedade, o qual abrange a reprodução do capital social e o consumo individual, não nos devemos iludir com a idéia de Proudhon, copiada da economia burguesa, achando que uma sociedade de modo de produção capitalista perderia esse seu caráter específico, econômico-histórico, se fosse observada em bloco, como um todo. Ao contrário, temos de nos avir com o capitalista global. É como se o capital global fosse o capital por ações de todos os capitalistas individuais tomados em conjunto. Essa sociedade por ações tem isso em comum com muitas outras sociedades por ações: cada um sabe o que nela põe, mas não o que dela vai retirar.” p. 461ss 9.Exame retrospectivo das idéias de A. Smith, Storch e Ramsay. “O valor global do produto social atinge 9.000 = 6.000c + 1.500v + 1.500m; em outras palavras: 6.000 reproduzem o valor dos meios de produção e 3.000 o valor dos meios de consumo. O valor da renda social (v + m) só é portanto 1/3 do valor do produto global, e só até ao montante do valor desse terço pode a totalidade dos consumidores, trabalhadores e capitalistas, retirar mercadorias, produtos, do produto global da sociedade e incorporá-los a seu fundo de consumo. Por outro lado, 6.000 = 2/3 do valor do produto representam o valor do capital constante que é mister repor materialmente. Assim, meios de produção nesse montante tem de incorporar-se de novo ao fundo de produção.” p. 463 “A. Smith, (...)estabeleceu o fabuloso dogma, até hoje objeto de fé, de que todo o valor do produto da sociedade se reduz a renda, isto é, a salário + mais-valia ou, conforme diz, a salário + lucro (juros)+ renda da terra. Esse dogma continua a sobreviver também na forma mais vulgar que sustenta serem os consumidores quem tem de pagar, em última análise, aos produtores o valor total do produto. É um dos lugares comuns defendidos pela crença mais inabalável, ou melhor, constitui uma das verdades eternas da chamada ciência da economia política.” p. 463s 10.Capital e Renda: Capital Variável e Salários “Toda a reprodução anual, todo o produto de um determinado ano é produto de trabalho útil desse ano. Mas, o valor desse produto global é maior do que a parte do valor na qual se corporifica o trabalho anual, a força de trabalho despendida durante esse ano. O produto-valor (valor produzido) do ano, o novo valor criado sob a forma de mercadoria, é menor do que o valor do produto, o valor global da massa de mercadorias produzida durante o ano. (...)conforme vimos, os 2.000 I(v + m) repõem os 2.000 IIc da classe II, na forma natural de meios de produção. Os dois terços do trabalho anual, despendidos na secção I, produziram novamente o capital constante de II, em todo o seu valor e em sua forma natural. Assim, do ponto de vista social, dois terços do trabalho dependido durante o ano criaram novo valor-capital constante, na forma material adequada a secção II. Gastou-se portanto a maior parte do trabalho anual da sociedade na produção de novo capital constante (valor- capital existente em meios de produção), a fim de repor o valor-capital constante despendido na produção de meios de consumo.” p. 468 “(...)a sociedade capitalista empregava a maior parte do trabalho anual disponível na produção de meios de produção (logo de capital constante), que não são redutíveis a renda na forma de salário nem na de mais-valia, mas só podem exercer a função de capital.” p. 468 96
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    “Durante o processode trabalho, o capitalista tem em suas mãos o capital variável como força de trabalho em ação, criadora de valor, e não como valor de grandeza fixa, uma vez que sempre paga ao trabalhador depois de a força de trabalho já ter operado durante certo tempo, já tem em suas mãos, antes de efetuar esse pagamento, o valor de reposição dessa força por ela mesma criado, acrescido de mais-valia.” p. 477 11.Reposição do Capital Fixo “Quando o elemento fixo está gasto, edificações, maquinaria, etc. , não podendo mais funcionar no processo de produção, seu valor existe a seu lado, inteiramente reposto por dinheiro, pela soma dos depósitos em dinheiro, dos valores que o capital fixo transferiu pouco a pouco às mercadorias para cuja produção concorreu, e que se converteram na forma dinheiro com a venda das mercadorias. Esse dinheiro serve para repor materialmente o capital fixo (ou seus elementos, pois os elementos diferentes tem diversa duração de vida). (...)Esse entesouramento portanto é elemento do processo capitalista de reprodução, ao reproduzir e juntar em dinheiro o valor do capital fixo ou de seus diversos elementos até a ocasião em que está gasto o capital fixo e por conseqüência todo o seu valor já se transferiu para as mercadorias produzidas, devendo ser reposto materialmente. Mas, esse dinheiro só perde a forma de tesouro e participa no processo de reprodução do capital, que se efetua por intermediário da circulação, quando se reconverte em novos elementos do capital fixo, que repõem os extintos.” p. 480s “Quando observamos a reprodução anual, mesmo na escala simples, abstraindo de toda acumulação, não começamos na origem; é um ano na fluência do tempo, não é o ano de nascimento da produção capitalista. (...)Assim, o desgaste a repor-se em dinheiro e componente do valor de 2.000 IIc absolutamente não corresponde ao montante do capital fixo em funcionamento, pois todo ano parte deste tem de repor-se materialmente. Mas, isto supõe que em anos anteriores se tenha juntado nas mãos dos capitalistas II o dinheiro necessário para essa conversão. Esse pressuposto admitido para os anos anteriores, é também válido para o ano corrente.” p. 483 “Supondo-se produção capitalista desenvolvida e portanto regime de trabalho assalariado, desempenha o capital-dinheiro evidentemente papel fundamental, enquanto forma em que se adianta o capital variável. Na medida em que se desenvolve o sistema de trabalho assalariado, todo produto se transforma em mercadoria e, por isso, com algumas exceções importantes, tem de converter-se totalmente em dinheiro, conversão que é uma fase de seu movimento. A massa de dinheiro circulante tem de bastar para converter em dinheiro as mercadorias, e a maior parte dessa massa é fornecida na forma de salários, de dinheiro que os capitalistas industriais adiantam como forma- dinheiro do capital variável para pagar a força de trabalho. E o mais desse dinheiro nas mãos dos trabalhadores funciona como meio de circulação (meio de compra). Isto se opõe totalmente à economia natural, que predomina na base de qualquer sistema de dependência (inclusive servidão) e ainda mais nas comunas primitivas, nestas haja ou não relações de dependência ou de escravatura. Na escravidão, o capital-dinheiro despendido na compra da força de trabalho desempenha o papel de forma dinheiro do capital fixo que vai tendo sua reposição feita progressivamente até o fim do período ativo de vida do escravo. Por isso, os atenienses consideravam o ganho que o senhor de escravos retirava diretamente, com o emprego industrial de seu escravo ou, indiretamente, alugando- o a quem o empregasse ou exploração industrial (no trabalho das minas, por exemplo) - como juros (mais amortização) do capital-dinheiro adiantado. É como acontece na produção capitalista: o capitalista industrial põe na conta como juros e reposição de seu capital fixo uma fração da mais- valia e o desgaste do capital fixo. (...)Mas, enquanto a escravidão é a forma dominante do trabalho produtivo na agricultura, manufatura, navegação etc., como acontecia nos estados desenvolvidos da Grécia e em Roma, conserva ela aspectos da economia natural. O próprio mercado de escravos é 97
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    continuamente abastecido damercadoria força de trabalho, através de guerras, pirataria etc., e essa rapinagem não se efetua por intermediários de um processo de circulação mas por meio do ato de apropriar-se naturalmente da força de trabalho alheia, com o emprego de coação física direta.” p. 509s Capítulo XXI – Acumulação e Reprodução em Escala Ampliada. “Vimos (...)como se efetua a acumulação do ponto de vista do capitalista isoladamente considerado. Ao converter-se o capital mercadoria em dinheiro transformar-se também em dinheiro o produto excedente em que se corporifica a mais-valia. Essa mais-valia transformada em dinheiro reconverte- a o capitalista em elementos naturais adicionais de seu capital produtivo. No próximo ciclo da produção, o capital acrescentado fornece um produto acrescido. O que sucede com o capital individual aparece necessariamente na reprodução anual global, conforme verificamos, ao observar a reprodução simples: o depósito sucessivo em dinheiro que se entesoura, corresponde aos elementos fixos consumidos do capital individual, manifesta-se também na reprodução anual da sociedade. Se um capital individual = 400c + 100v, e a mais-valia anual = 100 será o produto anual = 400c + 100v + 100m. Esses 600 convertem-se em dinheiro. Desse dinheiro, 400c se reconvertem na forma natural de capital constante, 100v em força de trabalho, e, além disso, se se acumular toda a mais- valia, 100m se transformam em capital constante suplementar, convertendo-se em elementos naturais do capital produtivo.” p. 521s “O dinheiro que está de um lado faz surgir, do outro, a reprodução ampliada, quando esta existe em potencial, independentemente do dinheiro, pois o dinheiro em si mesmo não é elemento da reprodução real.” p. 522 1.Acumulação na secção I a)Entesouramento (...)há sempre uma parte dos capitalistas que por ter seu capital-dinheiro potencial atingido montante adequado, esta transformando-o em capital-produtivo, isto é, está comprado, com o dinheiro entesourado por meio da conversão da mais-valia em ouro, meios de produção, elementos adicionais do capital constante, enquanto outra parte está ocupada em entesourar seu capital-dinheiro potencial. Os capitalistas dessas duas categorias se confrontam, uns como compradores, outros como vendedores, e cada um exclusivamente limitado a seu papel.” p. 524 “Admitimos, por exemplo, que A venda a B (que pode representar mais de um comprador) 600 (= 400c + 100v + 100m). Vendeu 600 em mercadorias por 600 em dinheiro, e destes representam a mais valia 100 que retirou da circulação, entesourando como dinheiro; (...)Essa ação não é praticada apenas por A, aparecendo em numerosos pontos da periferia da circulação realizada por outros capitalistas A’, A”, A”’. (...)Mas A só efetua esse entesouramento, se exerce apenas a função de vendedor com referência a seu produto excedente, sem desempenhar depois papel de comprador. (...)No caso atual em que se considera exclusivamente a circulação ocorrente dentro da secção I, a forma física do produto excedente, assim como a do produto total de que faz parte é a de um elemento do capital constante I, isto é, pertence à categoria dos meios de produção de meios de produção. Logo veremos o que se faz do produto excedente, para que função serve nas mãos dos compradores B, B’, B” etc.” p. 525 b) O capital constante adicional. 98
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    “No caso queestamos examinando, o produto excedente consiste em meios de produção de meios de produção. Esse produto excedente (mais-valia – valor excedente) só funciona como capital constante adicional quando está nas mãos de B, B’, B” etc. (secção I); mas já o é virtualmente, antes de ser vendido, quando ainda está nas mãos dos entesouradores A, A’, A”.” p. 528 “O produto excedente, diretamente produzido pelos capitalistas A, A’, A” (I) que dele se apoderam, é a base real da acumulação do capital, isto é, da reprodução ampliada, embora só entre efetivamente em função depois de chegar as mãos de B, B’, B” etc. (I). Mas, quando crisálida dinheiro, tesouro, apenas capital-dinheiro em formação progressiva, é absolutamente improdutivo, corre paralelo ao processo de produção nessa forma, mas fora dele. É um peso morto da produção capitalista. A cobiça de obter juro ou renda, aproveitando essa mais-valia que se entesoura como capital-dinheiro virtual, encontra a concretização de seu objetivo no sistema e nos títulos de crédito. Assim, sob outra forma adquire o capital-dinheiro a mais prodigiosa influência sobre o curso e o vigoroso desenvolvimento do sistema de produção capitalista.” p. 530 2. Acumulação na Secção II “Na análise da reprodução simples supusemos que toda a mais-valia de I e II é gasta como renda. Mas, na realidade, uma parte da mais valia e despendida como renda e outra e transformada em capital. Só ocorrendo esta condição, existe acumulação real. Afirmar, de modo genérico, que a acumulação se efetua às custas do consumo, é sustentar um princípio ilusório que contradiz a essência da produção capitalista, pois se estará supondo que o fim e a causa propulsora dessa produção é o consumo, e não a conquista da mais-valia e sua capitalização, isto é, a acumulação.” p. 535 “O fundo de consumo ainda nas mãos dos vendedores [por causa da transformação em I de 500m p/ capital-dinheiro adicional, impedindo que I compre 500c de II] aqui ao mesmo tempo produtores, não pode cair a zero neste ano para partir de zero no seguinte, o que também não é possível na transição de um dia para outro. Sendo necessário reconstituir sempre esses estoques, embora em volume variável, nossos produtores capitalistas II precisam dispor de reservas de capital em dinheiro que os capacite a prosseguir no processo de produção, apesar de parte de seu capital produtivo imobilizar-se transitoriamente na forma de mercadoria. De acordo com o pressuposto estabelecido, aliam eles com as da produção todas as atividades do comércio; por isso, necessitam dispor do capital-dinheiro adicional que passa a ficar nas mãos dos comerciantes, quando as diversas funções do processo de reprodução se tornam autônomas, repartindo-se por diferentes espécies de capitalistas.” p. 537 Obs- Reprodução simples – mais-valia despendida como renda Reprodução ampliada = mais valia despendida como capital adicional (acumulação) O CAPITAL – LIVRO 3 - Volume IV O PROCESSO GLOBAL DE PRODUÇÃO CAPITALISTA Parte primeira – TRANSFORMAÇÃO DA MAIS-VALIA EM LUCRO E DA TAXA DE MAIS- VALIA EM TAXA DE LUCRO Capitulo I – Preço de Custo e Lucro 99
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    “No Livro Primeiroinvestigamos os fenômenos do processo de produção capitalista considerado apenas como processo imediato de produção, quando abstraímos de todos os efeitos induzidos por circunstâncias a ele estranhas. Mas o processo imediato de produção não abrange a vida toda do capital. Completa-o o processo de circulação, que constitui o objeto de estudo do livro segundo. Aí – sobretudo na parte terceira, onde estudamos o processo de circulação como o agente mediador do processo social de reprodução – evidenciam-se que o processo de produção capitalista, observado na totalidade, é unidade constituída por processo de produção e processo de circulação. O que nos cabe neste livro terceiro não é desenvolver considerações gerais sobre essa unidade, mas descobrir e descrever as formas concretas oriundas do processo de movimento do capital, considerando-se esse processo como um todo. Em seu movimento real, os capitais se enfrentam nessas formas concretas; em relação a elas, as figuras do capital no processo imediato de produção e no processo de circulação não passam de fases ou estados particulares. Assim, as configurações do capital desenvolvidas neste livro abeiram- se gradualmente da forma em que aparecem na superfície da sociedade, na interação dos diversos capitais, na concorrência e ainda na consciência normal dos próprios agentes da produção.” p. 29s “Esta parte do valor [c + v], a qual ressarce o preço dos meios de produção consumidos e o da força de trabalho aplicada, repõe apenas o que a mercadoria custa ao próprio capitalista, constituindo para ele o preço de custo da mercadoria.” p. 30 “O custo capitalista da mercadoria mede-se pelo dispêndio do capital e o custo real pelo dispêndio de trabalho. (...)Mas, o preço de custo da mercadoria é muito mais do que um título existente na contabilidade capitalista. Impõe-se contínua e praticamente individualizar essa parte do valor na produção efetiva de mercadorias, pois ela, através do processo de circulação, tem de deixar a forma mercadoria para reverter à de capital produtivo; o preço de custo da mercadoria deve portanto readquirir sempre os elementos de produção consumidos para produzi-la.” p. 31 “O capital todo – os meios de trabalho, as matérias de produção e o trabalho – serve materialmente para formar o produto. O capital todo entra materialmente no processo efetivo do trabalho, embora, apenas parte dele, no processo de valorização. Seria precisamente esta a razão por que só parcialmente contribui para formar o preço de custo e totalmente para formar a mais-valia. (...)como fruto imaginário de todo o capital adiantado, a mais-valia toma a forma transfigurada de lucro. Por isso, um montante de valor é capital por ser desembolsado para produzir lucro, e o lucro aparece porque se emprega um montante de valor como capital. (...)O lucro tal como o vemos agora, é portanto o mesmo que a mais-valia, em forma dissimulada, que deriva necessariamente do modo capitalista de produção. Não se distinguindo, na formação aparente do preço de custo, entre capital constante e capital variável, é mister transferir da parte variável do capital para o capital todo a origem da mutação de valor, ocorrida durante o processo de produção. Por aparecer, num pólo, o preço da força de trabalho na forma transmutada de salário, aparece a mais-valia, no pólo oposto, sob a forma transmutada de lucro.” p. 39 taxa mais valia = m/v taxa de lucro = m/ C (c + v) Capítulo II – A Taxa de Lucro. “(...)na conta de lucros, que inclui salários, preço de matérias-primas, desgaste de maquinaria, etc., a extensão de trabalho não-pago toma o aspecto de economia no pagamento de um dos artigos que entram nos custos, de pagamento menor por determinada quantidade de trabalho, como se fosse poupança que se faz comprando matéria-prima mais barato ou reduzindo o desgaste da maquinaria. 100
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    Assim, a extraçãode trabalho excedente perde o caráter que a diferencia; encobre-se a relação específica dela com a mais-valia; estimula e facilita esse resultado, (...)a apresentação do valor da força de trabalho sob a forma de salário. A mistificação das relações do capital decorre de todas as partes dele aparecem igualmente como fonte do valor excedente (lucro).” p. 48 Capítulo III – Relação entre a Taxa de Lucro e a de Mais-Valia “(...)o salário tem sobre a magnitude da mais-valia e sobre o nível da taxa de mais-valia, efeito inverso ao da duração do trabalho e ao da intensidade do trabalho: enquanto a elevação do salário reduz a mais-valia, aumentam-na o prolongamento da jornada e o acréscimo da intensidade do trabalho.” p. 55s Capítulo IV – A Rotação e a Taxa de Lucro “(...)o efeito direto que a redução do tempo de rotação tem sobre a produção de mais-valia e portanto sobre o lucro consiste na maior eficácia que ela dá à parte variável do capital.” p. 80 Capítulo V – Economia no Emprego de Capital Constante “O acréscimo da mais-valia absoluta ou o prolongamento do trabalho excedente e, por conseguinte, da jornada, sem que se altere o capital variável, empregando-se portanto o mesmo número de trabalhadores com o mesmo salário nominal – e no caso não importa que se pague ou não o tempo extraordinário – faz cair o valor do capital constante em relação ao capital todo e ao capital variável, e assim subir a taxa de lucro, (...)o volume da parte fixa do capital constante, edifícios de fábrica, maquinaria, etc., permanece o mesmo, sejam 16 ou 12 horas de trabalho. O prolongamento não exige desembolso adicional nesta parte mais cara do capital constante. Acresce que o valor do capital fixo se reproduz assim em série menor de períodos de rotação, reduzindo-se o tempo durante o qual tem de ser adiantado para obter-se determinado lucro. O prolongamento da jornada aumenta o lucro; mesmo quando pago o tempo extraordinário, e, até certo ponto, mesmo quando pago mais caro que as horas normais de trabalho. Por isso, no sistema industrial moderno, a necessidade cada vez maior de aumentar o capital fixo era poderoso incentivo no sistema de levar os capitalistas ávidos de lucro a prolongar a jornada. A coisa muda quando a jornada de trabalho é constante. Neste caso surgem necessariamente dois caminhos. Um deles é aumentar o número de trabalhadores e em certa proporção a quantidade de capital fixo – os edifícios, a maquinaria, etc. – a fim de explorar quantidade maior de trabalho (estamos abstraindo de descontos de salário ou de pressões para colocá-lo abaixo do nível normal). Quando se eleva a intensidade ou a produtividade do trabalho com o objetivo de produzir quantidade maior de mais-valia relativa, aparece o outro caminho: acresce nos ramos industriais que empregam matérias-primas a massa da parte circulante do capital constante, transformando-se quantidade maior de matérias-primas em cada espaço de tempo, e, além disso, aumenta a maquinaria posta em movimento pelo mesmo número de trabalhadores, isto é, a parte fixa do capital constante. Assim, o aumento da mais-valia está ligado a aumento do capital constante, a exploração crescente do trabalho, a condições de produção mais caras com que se explora o trabalho, isto é, a maior desembolso de capital. Em conseqüência, a taxa de lucro diminui de um lado e aumenta do outro.” p. 86s “O lucro maior que o capitalista obtém por terem o algodão e a maquinaria de fiar, por exemplo, ficado mais baratos, decorre da maior produtividade do trabalho, não na fiação, mas na construção de máquinas e na cultura de algodão. Para determinada quantidade de trabalho, para dada quantidade de trabalho excedente de que se apropria, é menor o desembolso a fazer nas condições de 101
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    trabalho. Caem oscustos necessários para a apreensão dessa quantidade determinada de trabalho excedente.” p. 90 “Essa espécie de economia de capital constante, oriunda do progresso contínuo da indústria, tem por característica o seguinte: a elevação da taxa de lucro num ramo industrial deve-se ao desenvolvimento da produtividade industrial noutro ramo. O capitalista aí se beneficia novamente de um ganho que é produto do trabalho social, embora não o seja dos trabalhadores por ele diretamente explorados. Aquele desenvolvimento da produtividade se reduz, em última análise, ao caráter social do trabalho posto em movimento; à divisão do trabalho dentro da sociedade; ao desenvolvimento do trabalho intelectual, notadamente das ciências naturais. (...)É o desenvolvimento da produtividade do trabalho no setor externo – o setor que lhe fornece meios de produção – que faz diminuir relativamente o valor do capital constante por ele empregado e, em conseqüência, subir a taxa de lucro.” p. 92 “Da qualidade das matérias-primas depende em parte a taxa de lucro. Com bom material há menos perdas; exige-se quantidade menor de matérias-primas para sugar a mesma quantidade de trabalho. Demais, é menor a resistência que a máquina operatriz encontra. Em parte, tem isto influência também na mais-valia e na respectiva taxa. O trabalhador precisa de mais tempo para transformar a mesma quantidade de matérias-primas , quando esta é ruim; não variando o salário, daí resulta redução do trabalho excedente. Isto influi, ademais, vigorosamente na reprodução e na acumulação do capital, as quais, (...)dependem mais da produtividade que da quantidade do produto empregado. É compreensível portanto o fanatismo com que o capitalista procura economizar meios de produção. (...)depende do adestramento e da formação dos trabalhadores e ainda da disciplina que o capitalista exerce sobre os trabalhadores combinados, (...)Esse fanatismo se exterioriza, de maneira inversa, quando o capitalista, para aumentar a taxa de lucro, utiliza um dos principais meios de reduzir o valor do capital constante em relação ao variável: a falsificação dos elementos da produção. (...)na venda do produto, o valor desses elementos está acima do que nele reaparece. Esse fator desempenha importante papel sobretudo na industria alemã, que tem por lema: só pode ser agradável para as pessoas receber boas amostras e depois mercadorias ruins.” p. 93s “O modo capitalista de produção impulsiona, de um lado, o desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social, e, do outro, a economia no emprego do capital constante. (...)De acordo com suas contradições e antagonismos, prossegue o sistema capitalista considerando o desperdício da vida e da saúde dos trabalhadores, o aviltamento de suas condições de existência, como economias no emprego do capital constante e, portanto, meio de elevar a taxa de lucro. (...)Fazem parte dessas economias: superlotar de trabalhadores locais estreitos e insalubres, o que em linguagem capitalista significa poupar em construção; concentrar num mesmo local máquinas perigosas.” p. 96s “As economias na utilização do capital fixo são, (...)conseqüência do emprego em grande escala das condições de trabalho, de servirem estas de condições para o trabalho diretamente coletivo, socializado, para a cooperação imediata dentro do processo de produção. Primeiro, é isto que permite o emprego das invenções e mecânicas, sem aumentar o preço da mercadoria, constituindo “conditio sine qua non.” Segundo, só na produção em grande escala são possíveis as economias oriundas do consumo produtivo coletivo. Finalmente, é a experiência do trabalhador coletivo que descobre e mostra onde e como economizar, como por em prática, da maneira mais simples, as descobertas já feitas, quais as dificuldades práticas a vencer, etc. na aplicação, no emprego da teoria ao processo de produção. Importa distinguir, observemos incidentalmente, entre trabalho universal e trabalho coletivo. Ambos tem função no processo de produção, ambos se entrelaçam, mas, ao mesmo tempo, se distinguem. Trabalho universal é todo trabalho científico, toda descoberta, toda invenção. É condição dele, além da cooperação com os vivos, a utilização dos trabalhos dos 102
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    antecessores. O trabalhocoletivo supõe a cooperação imediata dos indivíduos. O que dissemos comprova-se também com o que freqüentemente se observa: 1)A enorme diferença entre o custo de fabricação do protótipo de uma máquina e o de sua reprodução. 2)Os custos muito maiores com que funciona um estabelecimento industrial baseado em invenções novas, comparados com as dos estabelecimentos posteriores surgidos sobre a ruína, sobre a caveira dele. Isto vai ao ponto de os primeiros empresários, em regra, falirem e só prosperarem os posteriores, a cujas mãos chegam mais baratos, os edifícios, maquinaria, etc. Por isso, em regra, são os mais inertes e os mais abomináveis capitalistas financeiros, quem tira o lucro maior do trabalho universal do espírito humano e de sua aplicação social através do trabalho coletivo.” p. 115s Capítulo VI – Efeitos da Variação dos Preços “Sendo a taxa de lucro m/C = m/c+v, é claro que tudo o que causa modificação na magnitude de c e por conseguinte na de C faz variar também a taxa de lucro, (...)não se alterando as demais circunstâncias, a taxa de lucro varia em sentido contrário à modificação do preço das matérias- primas. Infere-se daí a importância para os países industriais de matérias-primas com preços baixos, (...)Infere-se ainda que o comércio exterior influi na taxa de lucro, mesmo pondo-se de lado toda a sua influência sobre os salários, ao baratear os meios de subsistência necessários.” p. 119 “O valor das matérias-primas e matérias auxiliares entra por inteiro e de uma vez no valor do produto em que foram consumidas, enquanto o valor dos elementos do capital fixo só entra aí na medida do desgaste, pouco a pouco, portanto. Segue-se daí que o preço do produto é influenciado pelo preço da matéria-prima em grau bem maior que pelo do capital fixo, embora a taxa de lucro se determine pelo valor global do capital aplicado, não importando quanto dele foi ou não consumido.” p. 121 “Os aperfeiçoamentos constantes despojam do valor-de-uso relativo e por conseguinte do valor, a maquinaria existente, as instalações das fábricas, etc. A atuação desse processo é violenta sobretudo ao começar a introdução de novos tipos de máquina, que ainda não atingiram determinado grau de maturidade, ficando por isso antiquados antes de terem tempo de reproduzir o próprio valor. Esta é uma das razões do prolongamento desmesurado da jornada de trabalho, usual nessas fases, do revezamento de turmas, dia e noite, a fim de reproduzir-se o valor deles em menor espaço de tempo, não se considerando demasiado o desgaste da maquinaria. (...)Se maquinaria, instalações dos edifícios, capital fixo em geral, atingiram certa maturidade, de modo que permanecem invariáveis por bastante tempo, pelo menos em sua estrutura fundamental, haverá desvalorização análoga, decorrente de aperfeiçoamentos dos métodos de produzir esse capital fixo. Então, cai o valor da máquina, etc. não por ser rapidamente suplantada ou até certo ponto desvalorizada por máquina mais nova, mais produtiva, etc. , mas por ser possível reproduzi-la mais barato. Esta é uma das razões por que grandes investimentos industriais muitas vezes só florescem em segunda mão, depois de ter falido o primeiro proprietário, de modo que o segundo que os comprou barato começa a explorar a produção com menor desembolso de capital.” p. 127s “(...)nas épocas de alta das matérias-primas unem-se os capitalistas industriais, formam associações para regular a produção.” p. 134 “Os trabalhadores da indústria têxtil algodoeira [na crise de 1861 – 1865] prontificaram-se a aceitar os trabalhos públicos, o de drenar, de construir estradas, britar pedras, calçar ruas, a que foram condenados para obter socorro (...) das autoridades locais. Toda a burguesia mantinha vigilância sobre os trabalhadores. Bastava que o trabalhador recusasse o pior salário de cão que lhe 103
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    oferecessem para queo comitê de ajuda o eliminasse da lista de socorro. Era a época áurea dos senhores fabricantes: seus cérebros, os comitês de ajuda, vigiavam os trabalhadores colocados diante do dilema de morrer de fome ou de trabalhar para os burgueses ao preço mais baixo possível. Ao mesmo tempo, em entendimento secreto com o governo, os fabricantes procuravam impedir a emigração, a fim de ter sempre disponível seu capital configurado na carne e no sangue dos trabalhadores e não perder o aluguel destes extorquido.” p. 149 “Flutuações na taxa de lucro, que não dependam de variarem os componentes orgânicos do capital ou a magnitude absoluta deles, são possíveis, se o valor do capital adiantado, na forma de capital fixo ou circulante, sobe ou desce em virtude de acréscimo ou decréscimo, independente do capital já existente, no tempo de trabalho necessário para reproduzi-lo. O valor de toda mercadoria – portanto das mercadorias de que se constitui o capital – é determinado não pelo tempo de trabalho necessário nela contido, mas pelo trabalho socialmente necessário, exigido para reproduzi-la.” p. 157 Parte Segunda – CONVERSÃO DO LUCRO EM LUCRO MÉDIO Capítulo VIII – Diferentes Composições do Capital nos Diversos Ramos e Conseqüentes Diferenças na Taxa de Lucro. “Da parte primeira deste livro infere-se que os preços de custo são os mesmos para produtos de diferentes ramos, quando se adiantam para produzi-los porções iguais de capital, por mais diversa que seja a composição orgânica desses capitais. No preço de custo desaparece para o capitalista a diferença entre capital variável e capital constante. Se tem de adiantar 100 libras esterlinas para produzir uma mercadoria, o custo dela é o mesmo, invista ele 90c + 10v ou 10c + 90v. Custa-lhe sempre 100 libras esterlinas, nem mais nem menos. Os preços de custo são os mesmos para investimentos iguais de capital em diferentes ramos de produção, por mais que difiram os valores e as mais-valias produzidos. Essa igualdade dos custos constitui a base da concorrência entre os capitais invertidos, e a partir daí se forma o lucro médio.” p. 174 Capítulo IX – Formação de Taxa Geral de Lucro (Taxa média de lucro) e Conversão dos Valores em Preços de Produção. “Tomemos por exemplo um capital de 500, sendo a porção fixa de 100, com 10% de desgaste durante um período de rotação de porção circulante de 400. Seja de 10% o lucro médio para esse período de rotação. Então, o preço de custo do produto obtido durante essa rotação será: 10c para desgaste + 400(c + v) de capital circulante = 410; e o preço de produção: 410 de preço de custo + (10% de lucro sobre 500) 50 = 460. Os capitalistas de diferentes ramos, ao venderem as mercadorias, recobram os valores de capital consumidos para produzi-las, mas, a mais-valia (ou lucro) que colhem não é a gerada no próprio ramo com a respectiva produção de mercadorias e sim a que cabe a cada parte alíquota do capital global, numa repartição uniforme da mais-valia (ou lucro) global produzida, em dado espaço de tempo, pelo capital global da sociedade em todos os ramos. (...)Um capitalista, vendendo mercadoria ao preço de produção, recebe dinheiro no valor do capital consumido para produzi-la e obtém lucro na proporção do capital adiantado, qualificado como simples parte alíquota de todo o capital da sociedade. Os preços de custo são específicos. O acréscimo do lucro ao preço de custo não depende de seu ramo particular de produção; é simples média percentual do capital adiantado.” p. 180s “A diferença qualitativa real entre lucro e mais-valia – e não apenas entre as respectivas taxas – nos ramos particulares de produção oculta então inteiramente a verdadeira natureza e a origem do lucro, não apenas para o capitalista que tem aí especial interesse em enganar-se, mas também para o 104
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    trabalhador. Com atransformação dos valores em preços de produção encobre-se a própria base da determinação do valor.” p. 191 “O capitalista individual, ou o conjunto dos capitalistas em cada ramo particular, com horizonte limitado, tem razão em acreditar que seu lucro não deriva do trabalho empregado por ele ou em todo o ramo. Isto é absolutamente exato com referência a seu lucro médio. Até que ponto esse lucro se deve à exploração global do trabalho por todo o capital, isto é, por todos os confrades capitalistas, é uma conexão para ele submergida em total mistério, tanto mais quanto os teóricos da burguesia, os economistas políticos, até hoje não a desvendaram. Poupança de trabalho – não só do trabalhador necessário para fabricar determinado produto, mas também do número dos trabalhadores ocupados – e aplicação maior de trabalho morto (capital constante) revela-se operação absolutamente certa do ponto de vista econômico e parece a priori não influenciar de maneira nenhuma a taxa geral de lucro e o lucro médio. Como poderia então o trabalho vivo ser fonte exclusiva do lucro, se o decréscimo da quantidade de trabalho necessário para a produção parece não prejudicar o lucro, revelando-se antes, em certas circunstâncias, fonte direta de aumento do lucro, pelo menos para o capitalista individual?” p. 193 Capítulo X – Nivelamento, pela Concorrência, da Taxa Geral de Lucro: Preços e Valores de Mercado. Superlucro. “A troca das mercadorias exata ou aproximadamente por seus valores supõe condições bem mais atrasadas que a troca aos preços de produção, a qual exige determinado nível de desenvolvimento capitalista. Qualquer que seja o modo como, de início, os preços das diferentes mercadorias reciprocamente se fixem ou regulem, a lei do valor governa o movimento deles. Quando diminuiu o tempo de trabalho exigido para produzi-las, caem os preços, quando aumenta, aumentam os preços, desde que não se alterem as demais condições. Mesmo não se levando em conta que os preços e o movimento dos preços se regem pela lei do valor, enquadra-se inteiramente na realidade considerar que os valores das mercadorias precedem os preços de produção não só teórica mas historicamente. Isto é válido em condições em que os meios de produção pertencem ao trabalhador, e esse é o caso, tanto no mundo antigo quanto no moderno, do camponês que cultiva a própria terra e do artesão. Isto concorda com nossa idéia anterior de que a transformação dos produtos em mercadorias tem sua origem na troca entre diferentes comunidades e não entre membros da mesma comunidade. O que vale para essa fase social primitiva estende-se às fases ulteriores baseadas na escravatura e na servidão, e às corporações de ofícios. Isto vigora enquanto os meios de produção fixados num ramo só com dificuldade se podem transferir para outro, e por isso os diferentes ramos de produção até certo ponto se comportam reciprocamente como se fossem países estrangeiros ou comunidades coletivas. A fim de que os preços por que se trocam as mercadorias correspondam aproximadamente aos valores, basta que 1)a troca das diferentes mercadorias deixe de ser meramente fortuita ou ocasional, 2)que, se consideramos a troca direta de mercadorias, produzam-se elas aproximadamente nas proporções adequadas às necessidades recíprocas dos dois lados, o que vem com a experiência mútua de venda e resulta da própria troca continuada, e 3)que, no tocante à venda, nenhum monopólio natural ou artificial capacite uma das partes contratantes a vender acima do valor, ou a force a vender abaixo dele. Entendemos por monopólio fortuito o que surge, para o comprador ou vendedor, em virtude de situação ocasional da oferta e da procura.” p. 200s “A hipótese de que as mercadorias dos diferentes ramos se vendem pelos valores significa apenas que o valor é o centro em torno do qual gravitam os preços e para o qual tendem, compensando-se, as altas e baixas. (...)Para certas mercadorias, o valor individual está abaixo do valor do mercado 105
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    (para produzi-las émister menos tempo de trabalho que o indicado pelo valor de mercado) para outras, está acima. Revela considerar como valor de mercado o valor médio das mercadorias produzidas num ramo, ou o valor individual das mercadorias produzidas nas condições médias do ramo e que constituem a grande massa de seus produtos. (...)Quando a oferta das mercadorias ao valor médio, isto é, ao valor da massa situada entre aqueles dois extremos, satisfaz a procura corrente, realizam as mercadorias, de valor individual abaixo do valor de mercado, mais-valia extra ou superlucro, enquanto as de valor individual acima do valor de mercado não podem realizar parte da mais-valia nelas contida.” p. 202 “O que dissemos do valor de mercado estende-se ao preço de produção quando o substitui. O preço de produção é regulado em cada ramo, e também segundo as condições particulares. E ele mesmo é o centro em torno do qual giram os preços quotidianos de mercado, que nele tendem a nivelar-se dentro de determinados períodos.” p. 203 “(...)se a oferta e a procura regulam o preço do mercado, ou antes os desvios que os preços de mercado tem do valor de mercado, por outro lado, o valor do mercado rege a relação entre a oferta e a procura ou constitui o centro em torno do qual as flutuações da oferta e da procura fazem girar os preços do mercado. Observamos mais de perto, verificamos que as condições relativas ao valor da mercadoria isolada estendem-se ao valor da totalidade das mercadorias de uma espécie; não fosse a produção capitalista por natureza produção em massa. Demais, outros modos de produção menos desenvolvidos – pelo menos com relação as mercadorias principais – concentram nas mãos de relativamente poucos comerciantes, acumulam e põem a venda no mercado grandes quantidades, produzidas em pequenas quantidades, mas que aparecem como produto comum de todo um ramo ou de um setor maior ou menor dele, embora provenham de grande número de produtores minúsculos. Observemos de passagem que a “necessidade social”, isto é, o que rege o princípio da procura, depende essencialmente da relação existente entre as diversas classes e da posição delas na economia, notadamente, portanto, da relação da mais-valia global com o salário e da relação entre as diferentes porções em que a mais-valia se reparte (lucro, juros, renda fundiária, tributos, etc.). E assim evidencia-se mais uma vez que nada absolutamente se pode explicar com a relação entre a oferta e a procura, antes de se conhecer a base sobre que opera essa relação.” p. 205 “A troca ou venda das mercadorias pelo valor é o racional, a lei natural do equilíbrio delas; devemos partir daí para explicar os desvios e não o contrário, partir dos desvios para explicar a própria lei.” p. 212 “As mercadorias são comparadas como meios de produção ou meios de subsistência, destinando-se ao consumo produtivo ou ao consumo individual, havendo as que servem aos dois fins. Existe portanto a procura dos produtores (aqui os capitalistas, pois supõe-se que os meios de produção se transformam em capital) e a dos consumidores. Ambos os fatos parecem antes de mais nada supor, do lado da procura, dada quantidade de necessidades sociais, à qual correspondem, do outro lado, determinadas quantidades de produção social nos diferentes ramos. Para realizar nova reprodução anual na escala vigente, a indústria têxtil algodoeira, por ex. , precisa de quantidade habitual de algodão; mas, precisa ainda de quantidade adicional, se consideramos o acréscimo anual da reprodução, em virtude de acumular-se capital, desde que não variem as demais condições. Isto se estende aos meios de subsistência. A classe trabalhadora, para prosseguir no mesmo nível de vida, tem de encontrar pelo menos a mesma quantidade de meios de subsistência necessários, embora talvez sortidos de maneira diferente, e de uma quantidade suplementar, se consideramos o acréscimo anual da população. Com maiores ou menores modificações, isto se aplica as demais classes.” p. 212s 106
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    “Os limites emque a necessidade de mercadorias configurada no mercado, a procura, difere quantitativamente da necessidade social efetiva, naturalmente variam muito para as diversas mercadorias; trata-se da discrepância entre a quantidade procurada de mercadorias e a que seria procurada se fossem outros os preços ou as condições monetárias ou de vida dos compradores. Nada mais fácil de compreender que as disparidades entre a oferta e a procura e a divergência daí oriunda entre preços de mercado e valores de mercado. A verdadeira dificuldade reside na conceituação do que devemos entender por coincidência da procura com oferta. Procura e oferta coincidem quando estão em relação tal que a massa de mercadorias de determinado ramo pode ser vendida ao valor de mercado, nem por mais nem por menos. É a primeira coisa que ouvimos. A segunda: quando as mercadorias são vendáveis ao valor de mercado, a procura e a oferta coincidem. Quando procura e oferta coincidem, cessam de atuar, e justamente por isso vende-se a mercadoria pelo valor de mercado. Duas forças iguais em direções opostas se anulam e não se manifestam exteriormente. Os fenômenos ocorrentes, nessa hipótese, terão de explicar-se por outros causas e não pela interferência dessas duas forças.” p. 213s “Se procura e oferta determinam o preço de mercado, este e, levando a análise mais longe, o valor de mercado determinam a procura e a oferta. Isto é patente para a procura, uma vez que ela se mova em sentido oposto ao preço, aumenta quando ele diminui, e vice-e-versa. Mas, isto se estende à oferta: os preços dos meios de produção que entram nas mercadorias ofertadas determinam a procura desses meios de produção e por conseguinte a oferta dessas mercadorias, a qual implica a procura desses meios de produção. Os preços de algodão tem importância decisiva para a oferta de tecidos de algodão. A oferta e a procura determinam os preços, e os preços determinam a oferta e a procura: a essa confusão acresce que a procura determina a oferta, e inversamente a oferta a procura; a produção determina o mercado, e o mercado a produção.” p. 215s “Na produção capitalista, o objetivo é retirar da circulação, em troca da massa de valor nela lançada sob a forma de mercadoria, igual massa de valor sob outra forma – dinheiro ou outra mercadoria, (...)trata-se de vender as mercadorias que, pelo menos, proporcionem o lucro médio, ou seja, a preços de produção. Assim, o capital é uma força social que se torna consciente e de que participa cada capitalista na proporção de sua cota no capital global da sociedade. (...)o interesse precípuo da produção capitalista não é o valor-de-uso concreto, nem o caráter específico da mercadoria que produz. Em cada ramo de produção importa-lhe apenas produzir mais-valia, apossar-se de determinada quantidade de trabalho não-pago, encerrada no produto de trabalho. Também está na natureza do trabalho assalariado subordinado ao capital não importar-se com o caráter específico do trabalho (...)na realidade tanto faz um como outro ramo de produção; cada um deles rende o mesmo lucro e deixaria de ter finalidade se a mercadoria que produz não satisfizesse uma necessidade social qualquer.” p. 220 “O capital, porém, deixa o ramo com baixa taxa de lucro e lança-se no que tem taxa mais alta. (...)O capital consegue essa equiparação [lucro médio] na medida em que se desenvolve o capitalismo em dada sociedade nacional, em que as condições do país considerado se adaptam ao modo capitalista de produção.” p. 221 “O nivelamento contínuo das disparidades incessantes é tanto mais rápida 1) quanto mais móvel for o capital, quanto mais fácil se transferir de um ramo ou de um local para outro, e 2) quanto mais rápida se puder fazer, de um ramo ou de um local para outro, a transferência da força de trabalho. O item 1 pressupõe liberdade de comércio no interior da sociedade (...)supõe o desenvolvimento do 107
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    sistema de crédito,que concentra, perante os capitalistas isolados, a massa inorgânica do capital disponível da sociedade, e ainda a subordinação dos diversos ramos aos capitalistas. (...)esse nivelamento encontra obstáculos maiores, quando ramos de produção numerosos e importantes, explorados por métodos não capitalistas (por ex. a lavoura dos pequenos agricultores) se interpõem entre as empresas capitalistas e com elas se entrelaçam. O item 1 supõe finalmente grande densidade demográfica. – o item 2 supõe: revogação de todas as leis que impeçam os trabalhadores de se deslocarem de um ramo ou de um local de produção para outro qualquer; indiferença do trabalhador quanto ao conteúdo do trabalho; redução máxima possível do trabalho a trabalho simples, em todos os ramos de produção; não possuirem os trabalhadores preconceitos profissionais; finalmente e sobretudo subordinação do trabalho ao modo capitalista de produção.” p. 221s “Do exposto infere-se que todo capitalista individual, como o conjunto dos capitalistas de todo ramo particular de produção, participa da exploração da totalidade da classe trabalhadora pela totalidade do capital, e do grau dessa exploração, não só por solidariedade geral de classe, mas também por interesse econômico direto, pois, supondo-se dadas todas as demais condições, inclusive o valor da totalidade do capital constante adiantado, a taxa média de lucro depende do grau de exploração da totalidade do trabalho pela totalidade do capital.” p. 222 “Temos aí matematicamente demostrada a razão por que os capitalistas, embora simulem fraternidade no seu logro recíproco, constituem verdadeira irmandade maçonica ao se defrontarem com o conjunto da classe trabalhadora.” p. 223 Capítulo XI – Efeitos das Flutuações Gerais dos Salários Sobre os Preços de Produção. Capítulo XII – Observações Complementares – 1.Causas de Modificações no Preço de Produção “O preço de produção de uma mercadoria pode variar por duas causas apenas: Primeiro: Muda a taxa geral de lucro. Para haver essa mudança é mister que se modifique a taxa média de mais-valia ou, não variando essa taxa, a relação entre a soma de mais-valia obtida e a soma de todo o capital adiantado da sociedade. Se a modificação na taxa de mais-valia não decorre de decréscimo ou acréscimo no salário em relação ao nível normal (...)só pode ela se dar por ter baixado ou por ter subido o valor da força de trabalho; estas duas hipóteses são impossíveis se não se modificar a produtividade do trabalho que produz meios de subsistência, sem que varie portanto o valor das mercadorias que entram no consumo do trabalhador. (...)Se trabalho igual modifica mais capital constante, é que o trabalho se tornou mais produtivo, e vice-e-versa. Logo se houver mudança na produtividade do trabalho, haverá necessariamente mudança no valor de certas mercadorias. Rege ambos os casos esta lei: se varia o preço de produção de uma mercadoria em virtude de mudança na taxa geral de lucro, poderá o valor dela ter ficado invariável, mas terá ocorrido necessariamente mudança no valor de outras mercadorias. Segundo. Não se altera a taxa geral de lucro. Então o preço de produção de uma mercadoria só pode variar, por ter mudado o valor dela. (...)Pode cair o preço de produção do algodão porque se produz mais barato a matéria-prima algodão ou porque o trabalho do fiandeiro, com melhores máquinas, se tornar mais produtivo. (...)Todas as variações do preço de produção das mercadorias reduzem-se, em última análise, a variação de valor, mas nem todas as variações de valor das mercadorias se expressam necessariamente em mudança no preço de produção, pois este é determinado não só pelo valor da mercadoria particular considerada, mas também pelo valor global de todas as mercadorias.” p. 231ss 108
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    [preço de produção= k + k1’ , k = preço de custo = kc + kv; 1’ taxa percentual média de lucro – ex: k =200 e 1’ = 20% - 200 + 200(200/100)= 200+40=240] 2.Preço de Produção das Mercadorias de Composição Média. “(...)vimos que os preços de produção se desviam dos valores pelas seguintes causas; 1)acrescenta-se ao preço de custo da mercadoria não a mais-valia nela contida, mas o lucro médio; 2)o preço de produção de uma mercadoria, desviado do valor, é componente do preço de custo de outras mercadorias, e assim o preço de custo de uma mercadoria já pode diferir do valor dos meios de produção consumidos para fabricá-la, além do desvio que ela mesma pode apresentar em virtude da diferença entre lucro médio e mais-valia.” p. 233 “Logo que a produção capitalista atinge certo nível de desenvolvimento, a igualação numa taxa média geral das diversas taxas de lucro dos diferentes ramos não se processa mais em virtude apenas de os preços de mercado atraírem ou repelirem capital. Depois que os preços médios e os correspondentes preços de mercado se estabilizam por algum tempo, tomam os diversos capitalistas “consciência” de que nessa uniformização se compensam determinadas diferenças, e assim logo as incluem em sua contabilidade recíproca. (...)na prática tudo se resume a que toda circunstância que forma um investimento – e todas se consideram igualmente necessárias dentro de certos limites – menos lucrativo e outro mais lucrativo, é levada em conta de uma vez por todas como motivo de compensação, prescindindo da atuação incessante da concorrência para legitimar esse motivo ou os elementos de cálculo. Apenas esquece o capitalista – ou melhor não vê, pois a concorrência não lho revela - , que todas essas razões de compensação que os capitalistas fazem valer na contabilidade recíproca dos preços das mercadorias dos diferentes ramos nada mais significam que todos eles, na proporção do respectivo capital, tem o mesmo direito à presa comum, a mais-valia global. Divergindo o lucro embolsado da mais-valia que extraíram, parece-lhes antes que os motivos de compensação não servem para igualar a participação na mais-valia global, mas criam o próprio lucro, derivando este simplesmente do acréscimo, por qualquer que seja o motivo, ao preço de custo das mercadorias.” p. 236s Parte Terceira – LEI: TENDÊNCIA A CAIR DA TAXA DE LUCRO Capítulo XIII – Natureza da Lei. “O processo capitalista de produção, na essência, é ao mesmo tempo processo de acumulação. Vimos como, ao progredir a produção capitalista, a massa de valores que tem de ser simplesmente reproduzida, conservada, aumenta e cresce ao elevar-se a produtividade do trabalho, mesmo quando não varia a força de trabalho aplicada. Mas, ao desenvolver-se a produtividade social do trabalho, aumenta ainda mais a massa dos valores-de-uso produzidos, parte dos quais é constituída pelos meios de produção. E o trabalho adicional de que o capitalista se apropria para poder reconverter esse acréscimo de riqueza em capital, não depende do valor, mas da massa desses meios de produção (inclusive meios de subsistência), pois o trabalhador no processo de trabalho não lida com o valor, mas com o valor-de-uso dos meios de produção.” p. 249 “Uma vez que o desenvolvimento da produtividade e a correspondente composição superior do capital mobiliza quantidade cada vez maior de meios de produção com quantidade cada vez menor de trabalho, então, cada mercadoria isolada ou cada porção determinada da massa total produzida absorve menos trabalho vivo e, além disso, contém menos trabalho materializado, oriundo do desgaste do capital fixo aplicado ou das matérias-primas e auxiliares consumidos. É menor portanto 109
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    a soma, encerradaem cada mercadoria, de trabalho materializado em meios de produção e de trabalho novo, adicionado durante a produção. Por isso, cai o preço de cada mercadoria. A massa de lucro contida em cada uma das mercadorias pode, entretanto, aumentar, se crescer a taxa da mais-valia absoluta ou relativa. Cada um contém menos trabalho novo adicionado, mas a parte deles não-paga aumenta em relação à paga.” p. 258 Capítulo XIV – Fatores Contrários à Lei “(...)a taxa de lucro cai não por tornar-se o trabalho mais improdutivo, mas por tornar-se mais produtivo. Ambas, a elevação da taxa de mais-valia e a queda da taxa de lucro são apenas formas particulares em que se expressa, em termos capitalistas, a produtividade crescente do trabalho.” p. 275 Capítulo XV – As Contradições Internas da Lei. “Queda da taxa de lucro e acumulação acelerada são apenas aspectos diferentes do mesmo processo, no sentido do que ambas expressam o desenvolvimento da produtividade. A acumulação acelera a queda da taxa de lucro, na medida em que acarreta a concentração dos trabalhos em grande escala e com isso composição mais alta do capital. A queda da taxa por sua vez acelera a concentração do capital e sua centralização, expropriando-se os capitalistas menores, tomando-se dos produtores diretos remanescentes o que ainda exista para expropriar. Assim, acelera-se a acumulação, em seu volume, embora sua taxa diminua com a queda da taxa de lucro. Demais, se o motor da produção capitalista (cuja finalidade única é a valorização do capital) é a taxa de valorização do capital todo, a taxa de lucro, a diminuição dela retarda a formação de novos capitais independentes e se patenteia ameaçadora ao desenvolvimento do processo capitalista de produção, pois contribui para superpopulação, especulação, crises, capital supérfluo ao lado de produção supérflua. Os economistas que, como Ricardo, consideram o modo capitalista de produção sistema absoluto, sentem que ele cria aí limite a si mesmo e por isso atribuem esse limite não ao sistema, mas à natureza (na teoria da renda). O que mais pesa porém no humor que os acomete diante da taxa cadente de lucro é o sentimento de que o modo capitalista de produção encontra no desenvolvimento das forças produtivas uma barreira que nada tem com a produção de riqueza em si. E essa barreira peculiar evidencia que o modo capitalista de produção, com suas limitações, possui caráter simplesmente histórico, transitório, que não é modo absoluto de produção da riqueza, entrando antes em conflito com o desenvolvimento ulterior dela, ao atingir certo estádio de evolução.” p. 278 “Existindo os meios de produção necessários, isto é, acumulação bastante de capital – e dada a taxa de mais-valia, portanto o grau de exploração do trabalho -, a criação de mais-valia só tem por limite a população trabalhadora e, se esta for dada, o grau de exploração do trabalho. O processo capitalista de produção consiste essencialmente na produção de mais-valia, configurada no produto excedente ou na parte alíquota das mercadorias produzidas na qual está materializado trabalho não-pago. Nunca devemos esquecer que a produção dessa mais-valia – e faz parte dessa produção reconverter fração da mais-valia em capital, ou seja, acumular – é o objetivo imediato e o motivo determinante da produção capitalista. Nunca deve portanto ser apresentada como algo diverso do que é, digamos, como produção que tem por objetivo imediato o gozo do capitalista ou produzir para ele meios de fruição. Isto seria omitir o caráter específico que se infunde no âmago de sua estrutura interna. A obtenção dessa mais-valia constitui o processo imediato de produção, que não tem outros limites além dos indicados acima. Produz-se mais-valia quando se materializa em mercadorias a quantidade de trabalho excedente que se pode extorquir. Mas, com essa produção de mais-valia encerra-se apenas o primeiro ato do processo capitalista de produção, o processo imediato de produção. A 110
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    medida que oprocesso se desenvolve (...) começa então o segundo ato do processo. Tem de ser vendida toda a massa de mercadorias, todo o produto, tanto a parte que representa o capital constante e o variável, quanto a que representa a mais-valia. (...)não são idênticas as condições da exploração imediata e as da realização dessa exploração. Diferem no tempo e no espaço e ainda em sua natureza. As primeiras tem por limite apenas a força produtiva da sociedade, e as últimas, a proporcionalidade entre os diferentes ramos e o poder de consumo da sociedade. (...)o mercado tem por isso de ser constantemente ampliado, e desse modo suas conexões e as condições que as regulam assumem cada vez mais a configuração de lei natural independente dos produtores e se tornam cada vez mais incontroláveis. Essa contradição interna busca um equilíbrio, aumentando o campo externo da produção.” p. 280ss “A taxa de lucro cai não por explorar-se menos o trabalhador e sim por empregar-se menos trabalho em relação ao capital aplicado.” p. 283 “(...)mesmo com baixa taxa de lucro, aumenta o montante de lucro com a magnitude do capital empregado. E isto implica ao mesmo tempo na concentração de capital, exigindo as condições atuais de produção o emprego de capital em massa. Implica também a concentração do capital: os grandes capitalistas engolem os pequenos e lhes tiram o capital. Ocorre mais uma vez, porém em outro nível, a dissociação entre as condições de trabalho e os produtores dos quais fazem parte esses capitalistas menores, pois entre eles o próprio trabalho ainda importa; em regra, o trabalho do capitalista está na razão inversa da magnitude de seu capital, isto é, do grau em que é capitalista. Essa dissociação entre condições de trabalho e produtores, que constitui o conceito de capital, inaugura-se com a acumulação primitiva (livro primeiro capítulo XXIV), depois aparece como processo ininterrupto na acumulação e concentração do capital e agora finalmente se expressa pela centralização em poucas mãos de capitais já existentes e pela descapitalização (a nova forma de expropriação) de grande número de capitalistas. Esse processo não tardaria em levar à catástrofe a produção capitalista, se, além dessa força centrípeta, não estivessem sempre atuando tendências contrárias, de efeito descentralizador.” p. 283 “Em termos bem genéricos, a antinomia consiste no seguinte: o modo capitalista de produção tende a desenvolver de maneira absoluta as forças produtivas, indenpendentemente do valor, da mais-valia nela incluída, e das condições sociais nas quais se efetua a produção capitalista, ao mesmo tempo que tem finalidade manter o valor capital existente e expandi-lo ao máximo (isto é, acelerar sempre o acréscimo desse valor). (...)a depreciação periódica do capital existente, meio imanente ao modo capitalista de produção, de deter a queda da taxa de lucro e de acelerar acumulação do valor capital pela formação de capital novo, perturba as condições dadas em que se efetua o processo de circulação e reprodução do capital, e assim é acompanhada de paradas súbitas e crises do processo de produção. (...)A produção capitalista procura sempre ultrapassar esses limites imanentes, mas ultrapassa-os apenas com meios que de novo lhe opõem esses mesmos limites, em escala mais potente. A barreira efetiva da produção capitalista é o próprio capital: o capital e sua auto-expansão se patenteiam ponto de partida e meta, móvel e fim da produção; a produção existe para o capital, ao invés de os meios de produção serem apenas meios de acelerar continuamente o desenvolvimento do produto vital para a sociedade dos produtores. Os limites intransponíveis em que se podem mover a manutenção e a expansão do valor-capital, a qual se baseia na expropriação e no empobrecimento da grande massa dos produtores, colidem constantemente com os métodos de produção que o capital tem de empregar para atingir seu objetivo e que visam ao aumento ilimitado da produção, à produção como fim em si mesma, ao desenvolvimento incondicionado das forças produtivas sociais do trabalho. O meio – desenvolvimento ilimitado das forças produtivas sociais – em caráter permanente conflita com o objetivo limitado, a valorização do capital existente. Por conseguinte, se 111
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    o modo capitalistade produção é um meio histórico para desenvolver a força produtiva social e criar o mercado mundial apropriado, é ele ao mesmo tempo a contradição permanente entre essa tarefa histórica e as relações sociais de produção que lhe correspondem.” p. 287s “Não se produzem meios de subsistência demais em relação à população existente. Pelo contrário, o que se reproduz é muito pouco para satisfazer, de maneira adequada e humana, a massa da população. Não se produzem meios de produção em excesso para empregar a parte da população, apta para o trabalho. Ao contrário. Primeiro, porção demasiada da população é produzida em condições de invalidez prática, e depende, pelas circunstâncias que a cercam, da exploração do trabalho alheio, ou de trabalhos que só podem passar por tais, num modo miserável de produção. Segundo, não se produzem meios de produção suficientes, para toda a população apta ao trabalho funcionar nas condições mais produtivas, para reduzir-se portanto o tempo absoluto de trabalho com o volume e a eficácia do capital constante empregado durante a jornada. Entretanto, os meios de trabalho e os meios de subsistência periódicamente produzidos são demasiados para funcionarem, com determinada taxa de lucro, como meios de exploração dos trabalhadores. As mercadorias produzidas são demais para poderem realizar e reconverter em novo capital o valor nelas contido e a mais-valia aí incluída, nas condições de repartição e de consumo estabelecidas pela produção capitalista, vale dizer, para efetuarem esse processo sem as explorações que constantemente se repelem. Não se produz riqueza demais. Mas a riqueza que se produz periódicamente é demais nas formas antagônicas do capitalismo. O limite da produção capitalista patenteia-se nos seguintes fatos: 1)O desenvolvimento da produtividade do trabalho gera, com a queda da taxa de lucro, uma lei que certo ponto se opõe frontalmente a esse desenvolvimento e por isso tem de ser constantemente superada por meios de crises. 2)A obtenção de trabalho não-pago, a relação entre esse trabalho não-pago e o trabalho materializado em geral, ou, em termos capitalistas, o lucro e a relação entre esse lucro e o capital aplicado, por conseguinte, certo nível da taxa de lucro é o que determina a decisão de expandir ou restringir a produção, e não a relação entre a produção e as necessidades sociais, as necessidades de seres humanos socialmente desenvolvidos. Por isso, a produção já encontra limites em certo grau de expansão, embora se patenteie muito insuficiente, se considerarmos o segundo desígnio. Ela estagna no ponto exigido pela produção e realização de lucro e não pela satisfação de necessidades.” p. 296s “Apesar do decréscimo relativo do capital variável, empregado em salários, há o aumento do número absoluto de trabalhadores, o que não se dá em todos os ramos industriais, nem de maneira uniforme. Na agricultura, o decréscimo do trabalho vivo pode ser absoluto.” p. 302 “Tudo o que leva o emprego da maquinaria a baratear o preço das mercadorias produzidas reduz-se sempre a decréscimo da quantidade de trabalho absorvida por cada unidade de mercadoria e a decréscimo de fração de desgaste da maquinaria, ou seja, do correspondente valor que entra em cada unidade. Quanto menos rápido esse desgaste, tanto maior a quantidade de mercadorias porque se reparte, tanto maior a quantidade de trabalho vivo que repõe até que chegue o momento da reprodução. Nos dois casos aumenta a quantidade de valor do capital constante fixo em relação ao variável. (...)apesar da taxa cadente de lucro, aumentam as oportunidades e as possibilidades de acumular, em virtude das seguintes razões: 1)Superpopulação relativa crescente; 2)com a produtividade ascendente do trabalho aumenta a massa de valor-de-uso configurada no mesmo valor-de-troca, ou seja, a massa dos elementos materiais do capital; 3)é cada vez maior a diversificação dos ramos industriais; 4)desenvolvem-se o sistema de crédito, as sociedades por ações, etc. e em conseqüência fica fácil para o investidor transformar seu dinheiro em capital, sem 112
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    precisar ser capitalistaindustrial; 5)aumento das necessidades e da avidez de enriquecer; 6)investimento de capital fixo em escala crescente, etc. Três fatos fundamentais marcam a produção capitalista: 1)Concentração dos meios de produção em poucas mãos e por isso não aparecem mais eles como propriedades dos trabalhadores imediatos, transformando-se ao contrário, em potências sociais da produção, embora se apresentem como propriedade particular dos capitalistas. Estes são os síndicos da sociedade burguesa, mas embolsam todos os frutos da administração que exercem. 2)Organização do trabalho como trabalho social, por meio da cooperação, da divisão do trabalho e da união do trabalho com as ciências naturais. 3)Constituição do mercado mundial.” p. 305 O CAPITAL – LIVRO 3 – Volume V O PROCESSO GLOBAL DE PRODUÇÃO CAPITALISTA Parte Quarta – CONVERSÃO DO CAPITAL-MERCADORIA E DO CAPITAL-DINHEIRO EM CAPITAL COMERCIAL E CAPITAL FINANCEIRO COMO FORMAS DO CAPITAL MERCANTIL Capítulo XVI – Capital Comercial “Considerando todo o capital da sociedade, vemos parte dele – embora variem sempre seus componentes e mesmo sua magnitude – constituída de mercadorias lançadas ao mercado para converter-se em dinheiro, e parte que está no mercado, configurada em dinheiro, para converter-se em mercadoria. Está ele sempre em via de transformar-se, de efetuar essa mera mudança de forma. Quando essa função do capital que está no processo de circulação adquire autonomia como função particular de um capital particular, tornando-se, em virtude da divisão do trabalho, função própria de determinada categoria de capitalistas, converte-se o capital-mercadoria em capital-comercial.” p. 310 “O capital comercial portanto nada mais é do que o capital-mercadoria que o produtor fornece e tem de passar por processo de transformação em dinheiro, de efetuar a função de capital-mercadoria no mercado, com a diferença apenas de que essa função, em vez de ser operação acessória do produtor, surge como operação exclusiva de variedade especial de capitalistas, os comerciantes, e adquire autonomia como negócio correspondente e um investimento específico.” p. 313 “O valor-de-uso de uma mercadoria é maior nas mãos do consumidor que nas do produtor, por só realizar-se em poder daquele. Só quando a mercadoria penetra na esfera de consumo é que o valor- de-uso se realiza, entra em função. Nas mãos do produtor existe apenas em forma potencial. Mas não se paga mercadoria duas vezes, primeiro o valor-de-troca e depois, ainda por cima, o valor-de- uso. Por ter pago o valor-de-troca, aproprio-me do valor-de-uso. E o valor-de-troca não tem o menor acréscimo, por transferir-se a mercadoria das mãos do produtor ou do comerciante intermediário para as do consumidor.” – citação p. 322s “O capital mercantil é capital que só funciona na esfera da circulação. O processo de circulação é uma fase do processo global de reprodução. Mas no processo de circulação não se produz valor, nem mais-valia portanto. A mesma quantidade de valor experimenta apenas mudança de forma. (...)Diretamente, o capital mercantil não cria valor nem mais-valia. Ao concorrer para abreviar o tempo de circulação, pode indiretamente contribuir para aumentar a mais-valia produzida pelo capitalista industrial.” p. 323 113
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    Capítulo XVII –O Lucro Comercial “O capital que funciona de maneira autônoma no processo de circulação tem de proporcionar, como o que opera nos diversos ramos de produção, o lucro médio anual. Se o capital mercantil fornecesse lucro médio percentual mais que o capital industrial, parte deste se converteria em capital mercantil. Se esse lucro médio fosse menor, haveria o processo oposto. Parte do capital mercantil transformar- se-ia em industrial. Nenhuma classe de capital tem mais facilidade que o capital mercantil, para mudar de destino, de função. Uma vez que o próprio capital mercantil não produz mais-valia, é claro que a mais-valia que lhe cabe, na forma de lucro médio, constitui parte da mais-valia produzida pela totalidade do capital produtivo. (...)Só na aparência, o lucro mercantil é mero acréscimo, elevação nominal do preço acima do valor das mercadorias. É claro que o comerciante só pode extrair seu lucro do preço das mercadorias que vende, e ainda mais que esse lucro, que faz ao vender as mercadorias, tem de ser igual à diferença entre o preço de compra e o de venda, ao excedente deste sobre aquele.” p. 325s “Por conseguinte, o capital mercantil concorre para formar a taxa geral de lucro, determinando-a na proporção da parte que representa do capital total. (...)Daí resulta determinação mais precisa, restritiva do preço de produção. Continuamos a entender por preço de produção o preço da mercadoria = custo (o valor nela contido do capital constante e do capital variável)+ lucro médio. Mas, agora se determina o lucro médio de maneira diferente. É determinado pelo lucro global gerado pela totalidade do capital produtivo; (...)O valor real ou o preço de produção da totalidade do capital-mercadoria é portanto k+1+g (g representa o lucro comercial). O preço de produção ou preço a que o capitalista industrial vende, sem ultrapassar sua função específica, é portanto menor que o preço real de produção das mercadorias; ou, se consideramos a totalidade das mercadorias, os preços por que as vende a classe capitalista industrial são menores que os respectivos valores.” p. 329 “Assim, o capital mercantil, embora não contribua para produzir a mais-valia, concorre para nivelá- la de acordo com o lucro médio. Por isso, na taxa geral de lucro já se considera a parte que cabe ao capital mercantil (descontada da mais-valia), ou seja, uma dedução do lucro do capital industrial.” p. 330 Obs. O capital mercantil concorre para a reprodução global com os custos decorrentes da circulação das mercadorias. “Os custos que estamos estudando são os de compra e venda. Já observamos anteriormente que se reduzem a cálculos, contabilidade, mercância, correspondência, etc. O capital constante requerido para isso consiste em escritório, papel, correio, etc. Os outros custos se reduzem a capital variável, desembolsado para empregar assalariados que exercerão atividades comerciais (...). Nenhum desses custos se faz para produzir o valor-de-uso das mercadorias, mas para realizar o valor delas; são custos estritos de circulação. Não entram no processo imediato de produção, mas no de circulação e, portanto, no processo global de reprodução.” p. 333 “De resto, é de supor-se que a dissociação entre capital mercantil e capital industrial está ligada à centralização dos custos comerciais e por conseguinte à diminuição deles.” p. 336 114
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    “Sob certo aspectoo trabalhador comercial é um assalariado como qualquer outro. Primeiro, o comerciante compra o trabalho utilizando capital variável e não dinheiro que despende como renda; assim, não o adquire para serviço pessoal e sim para valorizar o capital adiantado nessa compra. (...)A dificuldade, com relação aos empregados comerciais, não está em explicar como produzem diretamente lucro para o empregador, embora não produzam diretamente mais-valia (e o lucro não passe de outra forma dela). (...)o capital industrial obtém lucro vendendo trabalho inserido e materializado nas mercadorias, obtido gratuitamente, e o capital mercantil, não pagando por inteiro ao capital produtivo o trabalho não-pago encerrado na mercadoria (...)A relação que o capital mercantil estabelece com a mais-valia difere de que o capital industrial mantém com ela. (...)Se o trabalho não-pago do trabalhador cria diretamente mais-valia para o capital produtivo, o trabalho não-pago dos trabalhadores comerciais proporciona ao capital mercantil participação nessa mais- valia.” p. 337s “O trabalho comercial é o trabalho necessário para que um capital funcione como capital mercantil, de modo a propiciar a conversão de mercadoria em dinheiro e a de dinheiro em mercadoria. É trabalho que realiza, mas não cria valores. É só na medida em que um capital leva a cabo essas funções – um capitalista com seu capital faz executar essas operações, esse trabalho -, funciona esse capital como capital mercantil e concorre para regular a taxa geral de lucro, isto é, retira seus dividendos do lucro global.” p. 342 “O trabalhador comercial não produz mais-valia diretamente. Mas, o preço de seu trabalho é determinado pelo valor da força de trabalho, pelo que custa produzi-la portanto (...). É produtivo, para o capitalista, não por criar mais-valia diretamente, mas por concorrer para diminuir os custos de realização da mais-valia, efetuando trabalho em parte não-pago. O trabalhador comercial em sentido estrito figura entre os trabalhadores melhor pagos, entre os que efetuam trabalho qualificado, acima do trabalho médio. Uma das causas é a divisão do trabalho no escritório: daí resulta um desenvolvimento apenas unilateral das aptidões de trabalho, em parte gratuito para o capitalista, pois o trabalhador torna-se competente exercendo a própria função, e tanto mais rapidamente quanto mais unilateral for a divisão do trabalho. Outra causa é a circunstância de a preparação, os conhecimentos de comércio e de línguas, etc. se difundirem, com o progresso da ciência e da vulgarização científica, mais rápida, mais facilmente, de maneira geral e mais barato, quanto mais o modo capitalista de produção imprime aos métodos de ensino, um sentido prático. A generalização da instrução pública permite recrutar esses assalariados de camadas sociais, antes à margem dessa possibilidade, e que estavam habituadas a nível de vida mais baixo. Aumenta o afluxo desses trabalhadores e em conseqüência a competição entre eles. Por isso, ressalvadas algumas exceções, a força de trabalho dessa gente deprecia-se com o progresso da produção capitalista; o salário cai, enquanto aumenta a capacidade de trabalho. O capitalista aumenta o número desses trabalhadores, quando se trata de realizar quantidade maior de valor e de lucro. O acréscimo desse trabalho é sempre conseqüência e jamais causa do aumento da mais-valia.” p. 345s Capítulo XVIII – A Rotação do Capital Mercantil. Os Preços “Apesar do caráter autônomo que possui, o movimento do capital mercantil nada mais é que o movimento do capital industrial na esfera da circulação. Mas, em virtude desse autonomia, o capital mercantil move-se até certo ponto sem depender dos limites do processo de reprodução e por isso leva este a transpor os próprios limites. A dependência interna e a autonomia externa fazem o capital mercantil chegar a um ponto em que surge uma crise para restaurar a coesão interior. Daí o fenômeno de as crises não começarem pela venda a retalho, ligada ao consumo direto, mas no comércio por atacado e nos bancos que põem à disposição desse comércio o capital-dinheiro da sociedade. 115
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    (...)A crise aparecequando os reembolsos dos comerciantes que vendem em mercados distantes (ou tem estoques acumulados no mercado interno) se tornam tão lentos e escassos que os bancos reclamam pagamento ou as letras correspondentes às mercadorias compradas vencem antes de estas serem revendidas. Começam então as vendas forçadas, destinadas a obter dinheiro para pagar. E aí sobrevem o craque que de súbito encerra a prosperidade aparente.” p. 350s “Excetuado o caso do comerciante monopolista e que ainda monopoliza a produção, como por exemplo em seu tempo a Companhia Holandesa da Índias Orientais, nada mais tolo que a noção corrente de que o comerciante pode a seu bel-prazer vender muita mercadoria com pequeno lucro ou pouca mercadoria com grande lucro, por unidade. Determinam o preço de venda dois fatores sobre os quais não exerce domínio: o preço de produção da mercadoria, e a taxa média de lucro. A única coisa a qual tem de decidir é se comercia com mercadorias caras ou baratas, mas, para essa decisão importa a magnitude do capital disponível, além de outras circunstâncias. Nessas condições, os procedimentos do comerciante depende por completo do grau de desenvolvimento do modo capitalista de produção, e não de seu arbítrio.” p. 353 Capítulo XIX – O Capital Financeiro “Essa tarefa permanente técnica de pagar e de receber dinheiro constitui de per si trabalho que, ao servir o dinheiro de meio de pagamento, exige balanços de contas, operações de compensação. Esse trabalho representa custo de circulação e não cria valor. Reduz-se, quando é executado por categoria especial de agentes ou capitalistas que o efetuam para toda a classe capitalista. (...)Há aí divisão do trabalho em duplo sentido, como acontece com o capital mercantil. Aquelas funções se tornam negócio especializado, e porque se efetuam como negócio especializado concernente ao mecanismo financeiro de toda classe, concentram-se, são exercidas em grande escala; (...)Pagamentos, recebimentos de dinheiro, operações de compensação, escrituração de contas-correntes, guarda do dinheiro, etc. , todas essas operações técnicas, separadas dos atos que as tornam necessárias, transformam em capital financeiro o capital nelas adiantado.” p. 364s “É evidente que a massa de capital-dinheiro, que os comerciantes de dinheiro (banqueiros) manipulam, é o capital-dinheiro que está na circulação, dos capitalistas comerciantes e industriais, e que as operações que realizam são apenas as operações desses capitalistas a que servem de intermediários. Também é claro que seu lucro é apenas dedução da mais-valia, pois só lidam com valores já realizados, mesmo quando realizados apenas na forma de créditos.” p. 371 Capítulo XX – Observações Históricas sobre o Capital Mercantil “(...)ressalta absurdo considerar o capital mercantil, seja na forma de capital comercial ou na de capital financeiro, espécie particular de capital industrial, como, por exemplo, a mineração, a agricultura, a pecuária, a manufatura, a industria de transporte, etc., que, em virtude da divisão social do trabalho, constituem ramificações determinadas e por conseguinte esferas especiais de aplicação do capital industrial. (...)No caso comercial e financeiro há autonomia da fase de circulação do capital industrial, dissociada da produtiva, pois as formas e funções determinadas que este capital assume transitoriamente nessa fase passam a ser formas e funções autônomas e exclusivas de parte separada do capital.” p. 372s “Até agora examinamos o capital mercantil do ângulo e dentro dos limites do modo capitalista de produção. Mas, o capital mercantil – e o comércio – é mais antigo que o modo capitalista de 116
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    produção; é, narealidade, do ponto de vista histórico, o modo independente de existência mais antigo do capital.” P. 374 “(...)quanto menor desenvolvida a produção, tanto mais os haveres em dinheiro se concentram nas mãos dos comerciantes, tanto mais se patenteiam forma específica da fortuna mercantil. No mercado capitalista de produção – isto é, depois que o capital se apoderam da própria produção e lhe imprimiu forma específica inteiramente nova – o capital mercantil aparece apenas como capital destinado a uma função particular. Em todos os modos anteriores de produção, o capital mercantil se apresenta como função por excelência do capital, e é tanto mais assim quanto mais a produção tem por objetivo o consumo imediato dos próprios produtores.” p. 376 “Na produção capitalista, o capital mercantil deixa a antiga existência soberana para ser um elemento particular do investimento de capital, e o nivelamento dos lucros reduz sua taxa de lucro à média geral. Passa a funcionar como agente do capital produtivo. As condições sociais particulares que se formaram com o desenvolvimento do capital mercantil deixam de ser determinantes; ao invés, onde ele ainda prevalece, reinam condições arcaicas. É o que se verifica até no mesmo país, onde por exemplo as cidades puramente mercantis estão próximas e as industriais se distanciam do passado.” p. 377 “O capital mercantil, quando domina, estabelece por toda parte um sistema de pilhagem, e seu desenvolvimento entre os povos comerciais, dos tempos antigos e dos modernos, está diretamente ligado à rapina, à pirataria, ao rapto de escravos, à subjugação de colônias; assim foi em Cartago, Roma e, mais tarde, com os venezianos, portugueses, holandeses, etc.” p. 381s “As descobertas geográficas, por certo, provocaram grandes revoluções no comércio e maior velocidade no desenvolvimento do capital mercantil, e essas transformações constituíram fator fundamental de aceleração da passagem do modo feudal de produção para o capitalista. Mas, justamente esse fator levou a concepções de todo errôneas. A expansão súbita do mercado mundial, a multiplicação das mercadorias em circulação, a luta entre as nações européias para se apoderarem dos produtos asiáticos e dos tesouros americanos, o sistema colonial contribuíram substancialmente para derrubar as barreiras feudais da produção. Entretanto, o moderno modo de produção, em seu primeiro período, o manufatureiro, só se desenvolveu onde se tinham gerado as condições apropriadas no curso da Idade Média. Comparemos por exemplo Holanda e Portugal.” p. 383 “A transição que se opera a partir do modo feudal de produção apresenta dois aspectos. O produtor se torna comerciante e capitalista, em oposição à economia natural agrícola e ao artesanato corporativo da industria urbana medieval. Este é o caminho realmente revolucionário. Ou então o comerciante se apodera diretamente da produção. Este último caminho, embora constitua uma fase de transição histórica, de per si não consegue revolucionar o velho modo de produção, que conserva e mantém como condição fundamental. É o que sucedeu por exemplo com o comerciante inglês de panos do séc. XVII: colocou sob seu controle os tecelões, embora estes fossem independentes, vendendo-lhes lã e comprando-lhes pano.” p. 385 “O capitalista industrial tem de estar sempre atento ao mercado mundial, compara e tem continuamente de comparar os próprios preços de custo com os preços de mercado de seu país e do mercado mundial. Antes, essa comparação cabia quase exclusivamente aos comerciantes, o que assegurava ao capital mercantil o domínio sobre o industrial.” p. 387s 117
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    Parte Quinta –DIVISÃO DO LUCRO EM JURO E LUCRO DE EMPRESÁRIO. O CAPITAL PRODUTOR DE JUROS Capítulo XXI – O Capital Produtor de Juros “Dinheiro – considerado aqui expressão autônoma de certa soma de valor, exista ela em dinheiro ou em mercadorias – pode na produção capitalista transformar-se em capital, quando esse valor determinado se transforma em valor que acresce, que se expande. É dinheiro produzindo lucro, isto é, capacitando o capitalista a extrair dos trabalhadores determinada quantidade de trabalho não-pago – produto excedente e mais-valia – e dela apropriar-se. Por isso, além do valor-de-uso, que possui como dinheiro, passa a ter outro valor-de-uso, isto é, o de funcionar como capital. Seu valor-de-uso consiste agora justamente no lucro que produz, uma vez transformado em capital. Nessa qualidade de capital potencial, de meio de produzir lucro, torna-se mercadoria, mas mercadoria de gênero peculiar. Vale dizer – o capital como capital se torna mercadoria.” p. 392 “A parte do lucro paga ao cedente chama-se de juro, que nada mais é que nome, designação especial da parte do lucro, a qual o capitalista em ação, em vez de embolsar, entrega ao dono do capital.” p. 392 “Em seu processo de circulação, o capital nunca é capital e sim mercadoria ou dinheiro e apenas assim existe então para os outros. Mercadoria e dinheiro são aí capital, não quando a mercadoria se converte em dinheiro e o dinheiro em mercadoria, não em suas relações reais com o comprador ou vendedor, e sim em suas relações ideais com o próprio capitalista (aspecto subjetivo) ou como fases do processo de reprodução (aspecto objetivo). No movimento real, o capital é capital não no processo de circulação, mas no processo de produção, o da exploração da força de trabalho. A coisa é diferente com o capital produtor de juros, o que justamente marca seu caráter específico. O dono do dinheiro, para valorizar seu dinheiro como capital, cede-o a terceiro, lança-o na circulação, faz dele a mercadoria capital; capital não só para si, mas também para os outros; é capital para quem o cede e a priori para a cessionário, é o valor que possui o valor-de-uso de obter mais-valia, lucro, valor que se conserva no processo e volta, concluído seu papel, para quem o desembolsou primeiro, no caso, o proprietário do dinheiro.” p. 397 “Quanto as demais mercadorias, o valor-de-uso é consumido após a última aquisição, quando desaparece a substância da mercadoria simultaneamente com o valor. A mercadoria capital, ao contrário, tem a peculiaridade de, pelo consumo do valor-de-uso, não só conservar o valor e o valor- de-uso, mas também acrescê-los. É esse valor-de-uso do dinheiro como capital – a propriedade de produzir o lucro médio – que o capitalista financeiro aliena ao capitalista industrial pelo prazo em que põe à disposição dele o capital emprestado.” p. 406 “Emprestar e tomar emprestado em vez de comprar e vender: essa diferença surge da natureza específica da mercadoria, o capital. O que se paga então é o juro e não o preço da mercadoria. Se chamarmos o juro de preço do capital-dinheiro, teremos forma irracional do preço, em contradição completa com o conceito de preço da mercadoria. (...)o preço, de acordo com o conceito, é igual ao valor expresso em dinheiro desse valor-de-uso.” p. 409 “Dinheiro ou mercadoria são em si capital potencial – como a força de trabalho – pelas seguintes razões: 1)o dinheiro pode transformar-se em elementos de produção e é, como dinheiro, mera expressão abstrata deles, a existência deles em valor; 2)os elementos materiais da riqueza possuem a 118
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    propriedade de jáser capital potencial, pois o contrário que os complementa, o que deles faz capital – o trabalho assalariado – existe no regime de produção capitalista.” p. 410 Capítulo XXII – Repartição do Lucro. Taxa de Juro. Taxa “Natural” de Juro “Do exposto resulta que não existe taxa “natural” de juro. Mas, ao contrário da taxa geral de lucro, a taxa média de juro – diferindo das taxas de mercado que estão sempre oscilando – não tem limites que possam ser fixados por lei geral, por tratar-se apenas da divisão do lucro bruto entre dois donos do capital, a títulos diferentes; ao revés, a taxa de juro, seja a média, seja a eventual do mercado, se apresente como grandeza estável, definida e tangível, de maneira totalmente diversa do que sucede com a taxa geral de lucro. (...)A taxa de juro, na medida em que é determinada pela taxa de lucro, é sempre determinada pela taxa geral de lucro, e não por taxas específicas predominantes em certos ramos particulares, e menos ainda por lucro extraordinário que o capitalista isolado obtenha numa atividade especial.” p. 420s “A taxa média de juro se patenteia magnitude constante em cada país e em períodos longos, porque a taxa geral de lucro só varia em períodos longos – as taxas particulares de lucro se alteram constantemente, mas as variações num ramo são compensadas por variações opostas noutro. E essa constância relativa da taxa geral de lucro reaparece justamente nesse caráter mais ou menos constante da taxa média de lucro.” p. 422 Capítulo XXIII – Juro e Lucro de Empresário “O juro se impõe, não se limitando a surgir eventualmente na produção, quando o industrial que trabalha com capital alheio reparte o lucro bruto. Mesmo quando trabalha com capital próprio, seu lucro se reparte em juro e lucro de empresário. Assim, a divisão meramente quantitativa se torna qualitativa; (...)Inferem-se facilmente as razões porque essa divisão do lucro bruto em juro e lucro de empresário, ao tornar-se qualitativa, estende à totalidade do capital esse caráter, impondo-o à classe capitalista toda.” p. 433 “Sob o aspecto qualitativo, o juro é mais-valia, proporcionada pela nua propriedade do capital, pelo capital em si, embora o proprietário esteja fora do processo de reprodução; é mais-valia que o capital rende, dissociado de seu processo. Sob o aspecto quantitativo, a parte do lucro constituída pelo juro não aparece referida ao capital industrial e comercial como tal, mas ao capital-dinheiro, e a taxa dessa parte da mais-valia, a taxa de juro, confirma essa relação. É que a taxa de juro – embora dependa da taxa geral de lucro – é determinada de maneira autônoma, e, além disso, se revela – como o preço de mercado das mercadorias – relação fixa, uniforme e sempre dada, apesar de todas as oscilações, contrastando com a taxa fluida do lucro. Se o capital todo estivesse nas mãos dos capitalistas industriais, não existiria juro nem taxa de juro. (...)a parte do lucro bruto destacada do juro constitui para o capitalista industrial lucro de empresário, e o próprio juro, mais-valia que o capital por si mesmo rende e que renderá portanto sem aplicação produtiva. Isso está praticamente certo para o capitalista isolado. (...)É disparate evidente supor a transformação do capital todo em capital-dinheiro, sem haver pessoas que comprem os meios de produção e acrescentem valor a esses meios nos quais todo o capital se configura. (...)Está implícito aí o absurdo ainda maior de imaginar que o capital renderia juro no sistema capitalista de produção, sem operar como capital produtivo, isto é, sem criar mais-valia da qual o juro é somente uma parte. (...) Se número demasiado de capitalistas quisesse transformar o respectivo capital em capital-dinheiro, a conseqüência seria desvalorização enorme do capital-dinheiro e queda imensa da taxa de juro.” p. 434s 119
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    “As duas formas,juro e lucro de empresário, só existem em sua antinomia. São da mais-valia partes designadas por categorias, classificações ou nomes diversos, sem se referirem a ela, mas uma se referindo à outra: em virtude de uma parte do lucro transformar-se em juro, aparece a outra como lucro de empresário.” p. 436 “Custa esforço a exploração do trabalho produtivo, execute-a o próprio capitalista ou outros por delegação dele. Contrapondo-se ao juro, o lucro de empresário assume perante o capitalista ativo feição independente da propriedade do capital, ou melhor, parece-lhe resultado de sua função de não-proprietário, de ... trabalhador. Forma-se então necessariamente em sua cachola a idéia de que o lucro de empresário – longe de constituir oposição ao trabalho assalariado e de ser apenas trabalho alheio não-pago – é salário mesmo, salário de direção, de superintendência de trabalho, maior que o do assalariado comum 1) por tratar-se de trabalho mais complicado e 2)porque ele retribui a si mesmo.” p. 438 “Na realidade, não expressa relação alguma para com o trabalho a forma que ambas as partes do lucro, o juro e o lucro do empresário, assumem, pois o que existe é a relação entre o trabalho e o lucro, ou seja, a mais-valia, a soma, o todo, a unidade dessas duas partes.” p. 438 “A idéia de o lucro de empresário ser salário por direção do trabalho, idéia derivada de opor-se ao juro, mais se robustece porque parte do lucro pode separar-se como salário – o que efetivamente acontece – ou, antes, parte do salário, no sistema capitalista, pode aparecer integrando o lucro.” p. 441 “O trabalho de supervisão e direção surge necessariamente todas as vezes que o processo imediato de produção se apresenta em processo socialmente combinado e não no trabalho isolado de produtores independentes. (...)omitindo-se o setor mercantil, esse trabalho de direção é necessário em todos os modos de produção baseados sobre a oposição entre o trabalhador – o produtor imediato – e o proprietário dos meios de produção. Quanto maior essa oposição, tanto mais importante o papel que esse trabalho de supervisão desempenha. Atinge por isso o máximo na escravidão. Mas é também indispensável no modo capitalista de produção, pois o processo de produção é nele ao mesmo tempo processo de consumo da força-de-trabalho pelo capitalista. (...) Nos escritores da Antiguidade, que tinham diante de si a escravidão, esses dois aspectos do trabalho de superintendência eram teoricamente inseparáveis conforme ocorria na prática e como os vêem hoje os economistas modernos que consideram absolutamente válido o modo capitalista de produção.” p. 441s “O trabalho de supervisionar e dirigir, na medida em que decorre do caráter antinômico do domínio do capital sobre o trabalho é comum a todos os modos de produção baseados na oposição entre as classes. Também no sistema capitalista está direta e inseparavelmente entrosado com as funções produtivas que todo trabalho social combinado impõe a certos indivíduos, como trabalho específico.” p. 444 “O salário de direção, tanto para o gerente mercantil quanto para o industrial, aparece totalmente dissociado do lucro de empresário nas fábricas cooperativas e nas empresas capitalistas por ações. A separação entre o salário de direção e o lucro de empresário, fortuita nos demais casos, é aí constante. (...)O Capitalista ativo contrapõe-se ao mero proprietário do capital, o capitalista financeiro, e com o desenvolvimento do crédito o próprio capital-dinheiro assume caráter social, concentra-se em bancos que o emprestam, substituindo os proprietários imediatos dele, além disso o simples dirigente que não possui o capital a título algum, nem por empréstimo nem por qualquer outro motivo, exerce todas as funções reais que cabem ao capitalista ativo como tal. Nessas 120
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    condições, fica existindoapenas o funcionário e o capitalista desaparece do processo de produção como figura supérflua.” p. 446 Capítulo XXIV – A Relação Reificada na Forma do Capital Produtor de Juros “No capital produtor de juros, a relação capitalista atinge a forma mais reificada, mais fetichista. Temos nessa forma D-D’, dinheiro que gera mais dinheiro, valor que se valoriza a si mesmo sem o processo intermediário que liga os dois extremos. No capital mercantil, D-M-D’, temos pelo menos a forma geral do movimento capitalista, embora se mantenha apenas na esfera da circulação e o lucro pareça por isso ser mera decorrência da venda; todavia, configura-se em produto de uma relação social e não em produto de uma simples coisa.” p. 450 “Embora o juro seja apenas parte do lucro, da mais-valia que o capitalista ativo extorque do trabalhador, o juro se revela agora, ao contrário, o fruto genuíno do capital, o elemento original, e o lucro, reduzido à forma de lucro de empresário, mero acessório, aditivo que se acrescenta ao processo de reprodução. Consumam-se então a figura de fetiche e a concepção fetichista do capital. Em D-D’ temos a forma vazia do capital, a perversão, no mais alto grau, das relações de produção, reduzidos a coisa: a figura que acende juros, a figura simples do capital, na qual ele se constitui condição prévia de seu próprio processo de reprodução; capacidade do dinheiro, ou da mercadoria, de aumentar o próprio valor, sem depender da produção – a mistificação do capital na forma mais contundente.” p. 452 Capítulo XXV – Crédito e Capital Fictício “(...)surge, da circulação simples das mercadorias, o dinheiro na função de meio de pagamento, estabelecendo-se entre produtores e comerciantes de mercadorias relação de credor e devedor. Com o desenvolvimento do comércio e do modo capitalista de produção que só produz tendo em mira a circulação, amplia-se, generaliza-se e aperfeiçoa-se esse fundamento natural do sistema de crédito. Em regra, o dinheiro aí serve apenas de meio de pagamento, isto é, vende-se a mercadoria trocando- a não por dinheiro, mas por promessa escrita de pagamento em determinado prazo. Esses adiantamentos recíprocos entre produtores e comerciantes constituem a verdadeira base do crédito (...).” p. 460s “O outro aspecto do sistema de crédito liga-se à ampliação do comércio de dinheiro, a qual, na produção capitalista, segue naturalmente o ritmo de desenvolvimento do comércio de mercadorias. (...)vimos que se concentram nas mãos dos banqueiros a guarda dos fundos de reserva dos homens de negócios, as operações técnicas de receber dinheiro e pagar, as de efetuar pagamentos internacionais e em conseqüência o comércio de barras de ouro ou prata. Ligado a esse comércio de dinheiro desenvolve-se o outro aspecto do sistema de crédito, a administração do capital produtor de juros ou do capital-dinheiro, como função particular dos banqueiros. Tomar dinheiro emprestado e emprestá-lo torna-se negócio especial deles. (...)Além disso, concentram todos os prestatários perante todos os prestamistas, ao tomarem emprestado para todo o mundo comercial. Um banco representa, de um lado, a centralização do capital-dinheiro, dos emprestadores, e, do outro, a dos proprietários. Em geral, seu lucro consiste em tomar emprestado a juro mais baixo que aquele a que empresta.” P. 463 “O crédito que o banqueiro dá pode ter diversas formas, por exemplo, letras e cheques contra outro banco ou aberturas de créditos a outro banco, e por fim bilhetes de banco, no caso de bancos emissores. O bilhete de banco nada mais é que uma letra contra o banqueiro, pagável ao portador a qualquer momento, e que para o banqueiro faz as vezes de letra de câmbio particular. (...)o 121
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    banqueiro comercia como crédito em todas as outras formas, mesmo quando adianta dinheiro efetivamente depositado em seu estabelecimento. De fato, o bilhete de banco apenas constitui a moeda do comércio atacadista, e o principal para os bancos é sempre o depósito.” P. 464s Capítulo XXVI – Acumulação de Capital-Dinheiro: Sua Influência na Taxa de Juro. citações – Comissões Parlamentares na Inglaterra. Capítulo XXVII – Papel do Crédito na Produção Capitalista “O sistema de Crédito motivou até agora as seguintes observações gerais: I- Necessidade de seu desenvolvimento para produzir-se o nivelamento da taxa de lucro ou a tendência a esse nivelamento sobre a qual repousa toda a produção capitalista. II- Decréscimo dos custos de circulação. 1) Um dos custos principais da circulação é o próprio dinheiro enquanto valor de per si. O crédito poupa-o de três maneiras: a) suprimindo-o em grande parte das transações; b) acelerando o movimento dos meios de circulação. (...)c)substituindo o dinheiro-ouro por papel. 2) O crédito acelera as diversas fases da circulação ou da metamorfose das mercadorias e ainda da metamorfose do capital; em conseqüência acelera o processo de reprodução em geral (além disso, o crédito possibilita prolongar os intervalos entre dois atos, o de comprar e o de vender, servindo por isso de base para a especulação). (...) III. Desenvolvimento das sociedades por ações. Daí: 1) Expansão imersa da escala de produção e das empresas, impossível de ser atingidas por capitais isolados. (...) 2) O capital que, por natureza, assenta sobre modo social de produção e supõe concentração social de meios de produção e de forças de trabalho, assume então diretamente a forma de capital social (capital de indivíduos diretamente associados) (...)É a abolição do capital como propriedade privada dentro dos limites do próprio modo capitalista de produção. 3) Transformação do capitalista realmente ativo em mero dirigente, administrador do capital alheio. (...)Nas sociedades por ações dissociam-se a função e a propriedade do capital, e em conseqüência o trabalho aparece por completo separado da propriedade quer dos meios de produção quer do trabalho excedente. Este resultado do desenvolvimento máximo da produção capitalista é uma fase transitória que levará o capital necessariamente a reverter à propriedade dos produtores não mais, porém, como propriedade privada de produtores individuais e sim como propriedade dos produtores na qualidade de associados, propriedade diretamente social. (...)É a negação do modo capitalista de produção dentro dele mesmo, por conseguinte uma contradição que se elimina a si mesma, e logo se evidencia que é fase de transição para nova forma de produção. Esta fase assume assim aspecto contraditório. Estabelece o monopólio em certos ramos, provocando a intervenção do Estado. (...)um sistema completo de especulação e embuste no tocante à incorporação de sociedades, lançamento e comércio de ações. Há produção privada, sem o controle da propriedade privada. IV- Além do sistema de ações (...)o crédito oferece ao capitalista particular, ou ao que passa por tal, disposição livre, dentro de certos limites, de capital alheio e de propriedade alheia e, em conseqüência, de trabalho alheio.” P. 503ss “Ao especular, o que arrisca o comerciante em grande escala é a propriedade social e não a sua. A tese que estabelece a origem do capital na poupança perde também qualquer sentido, pois o especulador exige justamente que outros poupem para ele.” P. 508 122
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    “No sistema deações existe já oposição à antiga forma em que o meio social de produção se apresenta como propriedade individual; mas a mudança para a forma de ações ainda não se liberta das barreiras capitalistas, e em vez de superar a contradição entre o caráter social e o caráter privado da riqueza, limita-se a desenvolve-la em nova configuração.” P. 509 “As fábricas das cooperativas de trabalhadores, no interior do regime capitalista, são a primeira ruptura da velha forma, embora naturalmente, em sua organização efetiva, por toda parte reproduzam e tenham de reproduzir todos os defeitos do sistema capitalista. Mas, dentro delas suprimiu-se a oposição entre capital e trabalho, embora ainda na forma apenas em que são os trabalhadores como associação os capitalistas deles mesmos, isto é, aplicam os meios de produção para explorar o próprio trabalho. (...)Sem o sistema fabril oriundo do modo capitalista de produção, não poderia desenvolver-se a cooperativa industrial dos trabalhadores, e tampouco o poderia sem o sistema de crédito derivado desse modo de produção. Esse sistema, que constitui a base principal para a transformação progressiva das empresas capitalistas privadas em sociedades capitalistas por ações, também proporciona os meios para a expansão progressiva das empresas cooperativas em escala mais ou menos nacional. Tanto as empresas capitalistas pôr ações quanto as cooperativas industriais dos trabalhadores devem ser consideradas formas de transição entre o modo capitalista de produção e o modo associado, com a diferença que, num caso, a contradição é superada negativamente e, no outro, de maneira positiva.” P. 509 “O sistema de crédito, pela natureza dúplice que lhe é inerente, de um lado, desenvolve a força motriz da produção capitalista, o enriquecimento pela exploração do trabalho alheio, levando a um sistema puro e gigantesco de especulação e jogo, e limita cada vez mais o número dos poucos que exploram a riqueza social; de outro, constitui a forma de passagem para novo modo de produção.” P. 510 Capítulo XXVIII – Meios de Circulação e Capital. As Idéias de Tooke e Fullarton “Exerça uma ou outra função, realize renda ou transfira capital, o dinheiro serve para compra e venda ou para pagamento, de meio de compra ou de meio de pagamento, e, no sentido mais amplo da palavra, de meio da circulação. (...)É por completo errôneo converter a diferença existente na circulação entre a circulação de renda e a de capital numa diferença entre circulação e capital. Em Tooke, essa maneira de falar decorre da circunstância de colocar-se ele simplesmente na posição do banqueiro que emite os próprios bilhetes de banco.” P. 513s “A destinação diversa – forma dinheiro da renda ou do capital – em nada altera o caráter do dinheiro como meio de circulação; o dinheiro conserva-o, desempenhe uma ou a outra função. Sem dúvida, o dinheiro, quando é a forma dinheiro da renda, funciona mais como meio de circulação propriamente dito (moeda, meio de compra), em virtude serem dispersas as compras e as vendas, e porque a maioria dos que despendem renda, os trabalhadores, relativamente pouco podem comprar a crédito; enquanto no intercâmbio comercial onde o meio de circulação é a forma dinheiro do capital, o dinheiro serve principalmente de meio de pagamento, tanto por causa da concentração quanto por causa do sistema reinante no crédito. Mas, a diferença entre o dinheiro que é meio de pagamento e o dinheiro meio de compra (meio de circulação) é uma distinção inerente ao próprio dinheiro, e não uma diferença entre dinheiro e capital.” P. 514s “Ao todo, a circulação de dinheiro nesses períodos de prosperidade está em sua plenitude, embora a parte II (transferência de capital) se contraia pelo menos relativamente, enquanto a parte I (dispêndio de renda) se expande em termos absolutos. (...)No período de crise temos o inverso. A circulação I contrai-se, os preços caem e também os salários; restringe-se o número de trabalhadores ocupados, 123
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    reduz-se a quantidadedas transações. Na circulação II, ao contrário, com a diminuição do crédito aumenta a necessidade de empréstimos.” P. 517s “Não é verdade a oposição estabelecida por Fullarton. O que distingue o período de estagnação do de prosperidade não é, como ele diz, a forte procura de empréstimos, e sim a satisfação fácil dessa procura na época de prosperidade, e difícil, quando sobrevem a estagnação. O que suscita a apertura de crédito no período de estagnação é justamente o enorme desenvolvimento do sistema de crédito na fase de prosperidade, portanto o acréscimo imenso da procura de capital de empréstimo e a solicitude com que a oferta se põe a disposição dela nessa fase.” P. 519s Capítulo XXIX – Componentes do Capital Bancário “O capital bancário abrange 1) dinheiro de contado – ouro ou bilhetes, e 2) títulos. Estes podem ser classificados em dois grupos: papéis comerciais, letras que se vencem a prazo diversos, constituindo o desconto delas o negócio propriamente dito dos banqueiros; e papéis lançado ao público, como apólices, obrigações do tesouro, ações de toda espécie, enfim, papéis que rendem juros e se distinguem essencialmente das letras comerciais.” P. 534 “Constituir capital fictício chama-se capitalizar. Capitaliza-se toda receita periódica, considerando-a, na base da taxa média de juro, rendimento que proporcionaria um capital emprestado a essa taxa.” P. 536 “O movimento autônomo do valor desses títulos de propriedade, sejam títulos da dívida pública ou ações, reforça a aparência de constituirem capital efetivo ao lado do capital ou do direito que possam configurar. Convertem-se em mercadorias, com preço que varia e se fixa segundo leis peculiares. (...)o valor de mercado flutua com o nível e a segurança dos rendimentos a que os títulos dão direito. (...)o valor de mercado desses títulos é em parte especulativo, pois não é determinado apenas pelo rendimento efetivo, mas pelo esperado, pelo que previamente se calcula. Admitido que seja constante a mais-valia produzida pelo capital efetivo ou, não existindo capital como no caso da dívida pública, que o rendimento anual seja legalmente fixado, e que além disso haja segurança bastante, o preço desses títulos varia na razão inversa da taxa de juro. Se a taxa de juro sobe de 5 para 10, um papel que assegura um rendimento de 5 libras representará um capital de apenas 50 libras. (...)Seu valor é sempre o rendimento capitalizado, isto é, o rendimento calculado sobre um capital ilusório de acordo com a taxa de juro vigente. Em tempos de crise no mercado de dinheiro, esses títulos experimentam dupla baixa: primeiro, porque o juro sobe e, segundo, porque se lançam em massa no mercado, para serem convertidos em dinheiro. (...) Passada a tempestade, os títulos retornam ao nível anterior, desde que não representem negócios malogrados ou fraudulentos. A depreciação deles na crise atua poderosamente no sentido de centralizar a riqueza financeira.” P. 537s “Quando a baixa ou a alta desses títulos não depende do movimento do valor do capital efetivo que representam, a riqueza de uma nação é tão grande antes quanto depois da baixa ou da alta. (...)Na realidade todos esses papéis constituem apenas direitos acumulados, títulos jurídicos sobre produção futura, e o valor-dinheiro ou o valor-capital ora não representa capital algum, (...).” p. 539 “A maior parte do capital bancário portanto é puramente fictícia e consiste em créditos (letras), títulos governamentais (que representam capital dispêndio) e ações (que dão direito a rendimento futuro). (...)Acresce ainda que esse capital fictício do banqueiro em grande parte não é próprio, mas do público, que o deposita no banco, com ou sem juros.” P. 540 124
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    Capítulo XXX –Capital – Dinheiro e Capital Real – I “Pelo que observamos até agora a respeito da forma peculiar da acumulação do capital-dinheiro e da riqueza monetária em geral, reduz-se ela a acumulação de direitos de propriedade sobre o trabalho. A acumulação do capital da dívida pública, nada mais significa, conforme se viu, que aumento de uma classe de credores do Estado, a qual tem direito a tomar para si certas quantias tiradas do montante dos tributos.” P. 548 “Na véspera da crise e dentro dela, o capital-mercadoria na condição de capital-dinheiro potencial se contrai. Representa para o possuidor e para o credor deste (e como garantia de letras e empréstimos) menos capital-dinheiro que ao tempo em que foi adquirido e em que, por ele garantidos, se efetuaram descontos e empréstimos. Se tem esse sentido a afirmação de que se reduz o capital- dinheiro de um país em épocas de crise, significa ela que os preços das mercadorias caíram. Aliás, esse desmoronamento dos preços apenas compensa a inflação anterior.” P. 564 “Do exposto infere-se que o capital-mercadoria, na crise e nas estagnações dos negócios em geral, perde em grande parte a capacidade de representar capital-dinheiro potencial. O mesmo se aplica ao capital fictício, aos papéis que rendem juros, na medida em que circulam na bolsa como capital- dinheiro. Com o juro ascendente cai o preço deles. O que também provoca essa queda é a escassez geral de crédito, que força os detentores a lançarem em massa no mercado para obter dinheiro. Finalmente, quanto as ações, há baixa em virtude da redução dos rendimentos a que dão direito ou em virtude do caráter fraudulento das empresas que com tanta freqüência representam. Esse capital fictício reduz-se enormemente nas crises, e em conseqüência o poder dos respectivos proprietários de obter com ele dinheiro no mercado. A baixa nominal desses valores mobiliares no boletim de bolsa não tem relação com o capital real que representam, mas tem muito que ver com a solvência do proprietário desse capital.” P. 566s Capítulo XXXI – Capital-Dinheiro e Capital Real – II (continuação) “O desenvolvimento do sistema de crédito e a concentração enorme do negócio de emprestar dinheiro nas mãos dos grandes bancos necessariamente já aceleram de per si a acumulação do capital de empréstimo como forma diversa da acumulação real.” P. 577 “Com o desenvolvimento e a organização do sistema de crédito, portanto, o aumento da renda, isto é, do consumo dos capitalistas industriais e comerciais redunda em acumulação de capital de empréstimo. E isto se aplica a todas as rendas, desde que se consumam pouco a pouco: renda fundiária, salário nas formas superiores, receita das classes improdutivas, etc. Todas assumem por certo tempo a forma de renda em dinheiro, sendo por isso transformáveis em depósitos e por conseguinte em capital de empréstimo. Desde que exista numa forma monetária qualquer, toda renda, destine-se a consumo ou a acumulação, é parte do valor capital-mercadoria convertida em dinheiro e, por isso, expressão e resultado da acumulação real, embora não seja o próprio capital produtivo.” P. 579 Capítulo XXXII – Capital – Dinheiro e Capital Real – III – (conclusão) “(...)a divisão do trabalho originária da produção capitalista faz que o encargo da poupança efetiva e da abstinência (praticadas pelos entesouradores), que proporcionam elementos à acumulação, fique para aqueles que percebem o mínimo desses elementos e freqüentes vezes perdem suas economias, como os trabalhadores, quando quebram os bancos. O capital do capitalista industrial não resulta de “economias” feitas por ele mesmo, mas ele dispõe de economias alheias na proporção da magnitude 125
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    do capital próprio;já o capitalista financeiro transforma em fonte privada de enriquecimento o crédito que os capitalistas reprodutivos se concedem entre si e que lhes dá o público. Assim pulveriza-se a última ilusão do sistema capitalista, a de ser o capital o fruto do trabalho e da poupança pessoais. O lucro consiste no ato de apropriar-se de trabalho alheio, e o capital com que se mobiliza e se explora esse trabalho alheio consiste em propriedade alheia, que o capitalista financeiro põe à disposição do capitalista industrial a fim de explorá-lo por sua vez.” P. 583s “No crédito comercial, o juro, a diferença entre o preço a crédito e o preço à vista, só entra no preço da mercadoria, quando as letras tem prazo superior ao costumeiro. Se não tem, isso não acontece. E a explicação está em que cada um tome esse critério com uma mão e o dá com a outra. (...)Entretanto, quando o desconto surge aí nessa forma, regula-o não o crédito comercial e sim o mercado financeiro.” P. 594 Capítulo XXXIII – O Meio de Circulação de Crédito “Na medida em que emite bilhetes, sem cobertura do encaixe metálico guardados nos subterrâneos, o Banco cria símbolos de valor, que para ele constituem meio de circulação e, além disso, capital adicional, embora fictício, no valor nominal desses bilhetes sem cobertura. E esse capital adicional lhe rende lucro adicional.” P. 622 Capítulo XXXIV – O “Currency Principle” (nota do Trad. – Teoria sobre o meio circulante) e a legislação Bancária Inglesa de 1844. Capítulo XXXV – Metais Preciosos e Taxa de Câmbio “(...)a mera quantidade do metal precioso importado ou exportado não atua por si mesma, mas por ter o metal precioso o caráter específico de capital na forma dinheiro e, além disso, agindo como a pena que, posta num dos pratos oscilantes da balança, inclina-a a seu favor, o que se explica em circunstâncias em que qualquer excesso numa ou noutra direção é decisivo. Sem esses motivos seria totalmente incompreensível que uma evasão de ouro de 5 a 8 milhões de libras esterlinas, e esse é o máximo até hoje verificado pela experiência, pudesse ter algum efeito importante; essa ínfima quantidade de capital, acrescentada ou subtraída, que se patenteia insignificante mesmo em fase dos 70 milhões de libras esterlinas em ouro que em média circulam na Inglaterra.” P. 655s “Nos efeitos da evasão de ouro ressalta portanto contundente a circunstância de a produção como produção social não se submeter efetivamente ao controle da sociedade: a forma social da riqueza existe como coisa separada da riqueza. Esse aspecto do sistema capitalista é comum aos sistemas anteriores de produção na medida em que se baseiam no comércio de mercadorias e na troca entre particulares. Mas, só nele toma a forma mais determinante e mais grotesca da contradição absurda e do contra-senso, pois 1) no sistema capitalista aboliu-se por completo a produção que gera valores- de-uso diretos, destinados ao consumo imediato dos produtores, existindo a riqueza como processo social expresso no entrosamento entre produção e circulação; 2) com o desenvolvimento do sistema de crédito, a produção capitalista sem cessar empenha-se em suprimir essa barreira metálica, esse limite, sincronicamente material e fantástico, à riqueza e ao movimento dela, mas acaba sempre quebrando a cabeça contra esse obstáculo. Na crise pretende-se que todas as letras, todos os títulos e mercadorias sejam conversíveis em dinheiro bancário, e todo esse dinheiro bancário, por sua vez, em ouro.” P. 658s Capítulo XXXVI – Aspectos Pré-Capitalistas 126
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    “O capital produtorde juros, ou, como podemos chamá-lo em sua forma antiga, o capital usurário, pertence, como o irmão gêmeo, o capital mercantil, às formas antediluvianas de capital que por longo tempo precedem o modo capitalista de produção e se encontram nas mais diversas formações econômicas da sociedade.” P. 680 “Em todas as estruturas sociais em que a escravatura serve de meio de enriquecimento (não a patriarcal, mas como a do outono das eras helênica e romana), o dinheiro, sendo então meio de apropriar-se de trabalho alheio, com a compra de escravos, terras, etc. , pode, justamente por ter essa possibilidade de emprego, ser investido como capital, para render juros. Todavia, são duas as formas características em que o capital usurário existe nas épocas que precedem o modo capitalista de produção. Formas características, repito. Essas formas reaparecem no sistema de produção capitalista, mas como formas puramente secundárias. Deixam de ser então as formas que determinam o caráter do capital que rende juros. Essas duas formas são: primeiro, a usura, em empréstimos aos fidalgos pródigos, sobretudo os proprietários de terras; segundo, usura em empréstimos de dinheiro aos pequenos produtores, proprietários dos meios de trabalho. Além dos artesãos, essa categoria compreende particularmente o camponês, pois nas condições pré- capitalistas, na medida em que admitem a existência de pequenos produtores autônomos, a maioria deles é constituída necessariamente pela classe camponesa. A usura, que arruina os ricos proprietários das terras e esgota os pequenos produtores, faz que se formem e se concentrem grandes capitais em dinheiro. Depende por inteiro do desenvolvimento histórico e das circunstâncias dele decorrentes, a extensão em que esse processo extingue o antigo modo de produção, como aconteceu na Europa Moderna, e a possibilidade que ele tem de substituir o modo de produção antigo pelo capitalista.” P. 681s “O capital usurário como forma característica do capital produtor de juros corresponde ao predomínio da pequena produção dos camponeses que trabalham para si mesmos e dos pequenos mestres artesãos. (...)a usura que suga os pequenos produtores pobres anda de mãos dadas com a usura que suga os latifundiários. Quando a usura dos patrícios romanos arruinou os plebeus, os pequenos agricultores, findou essa forma de exploração, surgindo no lugar da economia desses pequenos produtores a economia escravista pura.” P. 682 “Sob a forma de juro pode aí o usurário devorar dos produtores tudo o que excede os mais estritos meios de subsistência (o que mais tarde constituirão o salário, reaparecendo o excedente como lucro e renda fundiária), e por isso é puro disparate comparar a magnitude desse juro que abrange a mais- valia toda, excetuado o que vai para o Estado, com a magnitude da taxa de juro moderna, em que o juro, pelo menos o normal, só representa parte dessa mais-valia. (...)o assalariado produz e cede ao capitalista que o emprega, lucro, juro e renda fundiária.” P. 682s “A usura, na Antigüidade e na Feudal, solapa e destrói a riqueza e a propriedade. Além disso, corrói e arruina a pequena produção camponesa e pequena-burguesa, em suma, todas as formas em que o produtor aparece como proprietário dos meios de produção. Na produção capitalista evoluída, o trabalhador não é proprietário das condições de trabalho, do campo que cultiva, da matéria-prima com que trabalha, etc. A circunstância de o trabalhador alienar-se dos meios de produção corresponde aí a uma transformação real no próprio modo de produção. Os trabalhadores desvinculados são reunidos em grandes oficinas onde as atividades se repartem e se entrosam; a ferramenta se converte em máquina. O modo de produção não permite mais aquela dispersão dos instrumentos de produção, ligada à pequena propriedade, nem o isolamento entre os trabalhadores. Na produção capitalista, a usura não pode mais dissociar do produtor as condições de produção, porque essa dissociação já existe.” P. 689s 127
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    “A usura atuarevolucionária em todos os modos pré-capitalistas de produção somente quando destrói e dissolve as formas de propriedade que, pela solidez e pela constante produção uniforme, servem de base à organização política. Em formas asiáticas, a usura pode perdurar ao longo do tempo, sem nada causar além da decadência econômica e da corrupção política. Só onde e quando existem as demais condições do modo capitalista de produção, a usura se revela um dos meios de constituir o novo modo de produção, arruinando o senhor feudal e os pequenos produtores, e centralizando as condições de trabalho convertidas em capital.” P. 684 “A usura, em relação à riqueza subordinada ao consumo, é historicamente importante, por ser ela mesma um processo de aparecimento do capital. O capital usurário e a fortuna mercantil propiciam a formação de uma riqueza monetária, independente da propriedade da terra. (...)O que a riqueza pródiga e corruptora quer é dinheiro como dinheiro, como meio de comprar tudo (e para pagar as dívidas). O pequeno produtor precisa de dinheiro sobretudo para pagar (desempenha aí importante papel a circunstância de os pagamentos em produtos ou serviços aos senhores da terra e ao Estado se transformarem em renda e tributos em dinheiro). Em ambos os casos, o dinheiro serve de dinheiro.” P. 686 “Basta que morra uma vaca para o pequeno camponês ficar incapacitado de recomeçar a produção na escala antiga. Cai sob o guante da usura, e a partir daí nunca mais se libertará dela. Mas, o terreno adequado, amplo e peculiar da usura é a função que tem o dinheiro de meio de pagamento. Toda prestação de dinheiro que vence em determinado prazo – foro, tributo, imposto, etc. – acarreta a necessidade de um pagamento em dinheiro. Por isso, desde Roma antiga à Idade Moderna, a usura em grande escala se tem ligado aos coletores e cobradores de tributos (...). O crédito se desenvolve como reação contra a usura. Mas, é mister evitar aí uma interpretação errada, sobretudo a dada pelos antigos, pelos patriarcas da Igreja, por Lutero e pelos primeiros socialistas. Essa reação significa nem mais nem menos que a subordinação do capital que rende juros as condições e necessidades do modo capitalista de produção.” P. 687s “O que distingue o capital produtor de juros, (...)do capital usurário (...), é o fato de serem outras as condições em que opera e, por conseguinte, de mudar por inteiro a figura do prestatário que se confronta com o emprestador do dinheiro. (...)Um homem sem fortuna, mas com energia, firmeza, capacidade e conhecimento do negócio pode assim transformar-se em capitalista (o crédito lhe é dado como capitalista potencial – aliás no modo capitalista de produção avalia-se de maneira mais ou menos exata o valor comercial de cada um), e essa circunstância (...)robustece o domínio do capital, amplia-lhe a base e permite-lhe recrutar sempre novas forças das camadas inferiores da sociedade. O mesmo ocorria na Idade Média: a Igreja Católica formava sua hierarquia com as melhores cabeças do povo, pondo de lado, posição, nascimento e fortuna, o que era um dos principais meios de fortalecer o domínio do clero e de subjugar os leigos. Quanto mais uma classe dominante é capaz de acolher em seus quadros os homens mais valiosos das classes dominadas, tanto mais sólido e perigoso é seu domínio.” P. 688s “As associações de crédito, que se formaram em Veneza e Gênova nos séculos XII e XIV, provieram da necessidade que tinham o comércio marítimo e o comércio em grosso nele baseado de se libertar do domínio da usura anacrônica e dos monopolizadores do comércio do dinheiro. Se os bancos propriamente ditos, fundados nessas cidades-repúblicas, constituem ao mesmo tempo instituições de crédito público dos quais o Estado recebia adiantamentos por conta de impostos a arrecadar, não se deve esquecer que os comerciantes que formavam aquelas associações eram as pessoas mais importantes dessas repúblicas, tendo interesse de libertar da usura tanto o governo quanto a si mesmos, e ao mesmo tempo de reforçar, por esse meio, mais seguro domínio sobre o Estado.” P. 690 128
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    “Vimos que olucro médio do capitalista individual, ou de todo capital particular, é determinado não pelo trabalho excedente de que esse capital se apropria em primeira mão, mas pela quantidade global de trabalho excedente de que se apropria o capital total, e da qual cada capital particular extrai seus dividendos (...)só o desenvolvimento completo do sistema de crédito e do sistema bancário promove e efetiva por inteiro esse caráter social do capital. (...)Finalmente, não há dúvida de que o sistema de crédito servirá de poderosa alavanca diante a transição do modo capitalista de produção para o modo de produção do trabalho associado. (...)Por outro lado, as quimeras a cerca do poder miraculoso que teriam o crédito e os bancos de marchar no sentido do socialismo supõem que se desconheçam por completo o modo capitalista de produção e a circunstância de o sistema de crédito ser uma de suas formas. (...)Enquanto perdurar o modo capitalista de produção, haverá como uma de suas formas o capital produtor de juros, que constitui de fato a base de seu sistema de crédito.” P. 695s “A usura e o comércio exploram dado meio de produção; não o criam; atuam como fatores que estão fora dele. A usura procura diretamente mantê-lo, a fim de poder renovar sempre a exploração; é conservadora, apenas o torna mais miserável. Quanto menos os elementos de produção, como mercadorias, entram no processo de produção e dele saem, tanto mais sua existência parece derivar do dinheiro, (...)Esse capital se desenvolve tanto mais num país, quanto mais a massa da produção se restringe a pagamentos em produtos, isto é, ao valor-de-uso. A usura contribui poderosamente para criar as condições prévias do capital industrial, quando efetua duas coisas: constitui riqueza pecuniária autônoma, ao lado do setor comercial, e se apropria dos meios de trabalho, isto é, arruína os que eram proprietários desses meios.” P. 699 O CAPITAL – LIVRO 3 – Volume VI Parte Sexta – CONVERSÃO DO LUCRO SUPLEMENTAR EM RENDA FUNDIÁRIA Capítulo XXXVII – Introdução “A análise da propriedade fundiária em suas diversas formas históricas ultrapassa os limites desta obra. Só trataremos dela enquanto parte da mais-valia produzida pelo capital cabe ao proprietário da terra. Supomos assim que o modo capitalista de produção domina, além da atividade fabril, a agricultura, isto é, que esta é explorada por capitalistas que de saída só se distinguem dos demais capitalistas pelo setor em que aplicam o capital e o trabalho assalariado mobilizado por esse capital. (...)o modo capitalista de produção desapropria o trabalhador das condições de produção, e do mesmo modo na agricultura subtrai a propriedade ao trabalhador agrícola e subordina-o a um capitalista que explora a agricultura para conseguir lucro.” P. 705s “Para nós é mister estudar a moderna forma da propriedade fundiária, por ser nosso propósito sobretudo examinar as relações específicas de produção e de circulação, oriundas da aplicação do capital na agricultura. (...)Assim, limitamo-nos apenas ao emprego de capital na agricultura propriamente dita, isto é, na lavoura do produto vegetal básico de que vive uma população. Podemos dizer trigo, pois este é o alimento principal dos povos modernos, desenvolvidos no sistema capitalista. (Em vez de trigo poderíamos ter escolhido mineração, submetida as mesmas leis). (...)Para ser precisos, observamos que nesse conceito de terra abrange também águas, etc. , que, como acessórios dela, tenham proprietário.” P. 706s “(...)a forma de propriedade fundiária que o sistema capitalista no início encontra não lhe corresponde. Só ele mesmo cria essa forma (...)o modo capitalista de produção gera, entre outros, os 129
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    seguintes resultados importantes:transforma a agricultura, que deixa os processos da fração menos evoluída da sociedade, puramente empíricos e prisioneiros da tradição e passa a aplicar, de maneira consciente e científica, a agronomia, desde que essa transformação seja possível nas condições da propriedade privada; dissocia por completo a propriedade fundiária das relações senhoriais e de sujeição, e ainda separa de todo a terra, como condição de trabalho, da propriedade fundiária e do proprietário, para quem a terra nada mais representa que um tributo em dinheiro que o monopólio lhe permite arrecadar do capitalista industrial, o arrendatário.” P. 708s “A condição prévia do modo capitalista de produção, portanto, é esta: os agricultores efetivos são trabalhadores agrícolas, empregados por um capitalista, o arrendatário. (...)Esse capitalista arrendatário paga ao proprietário das letras (...)em prazos fixados (...)quantia contratual estipulada (como o prestatário de capital-dinheiro paga determinado lucro) (...) chama-se essa quantia de renda fundiária, e tanto faz que seja paga por terra lavradia, ou por terreno de construção, mina, pesca, florestas, etc. (...)Assim, a renda fundiária é a forma em que se realiza economicamente, se valoriza a propriedade fundiária. Demais, temos aí reunidas e em confronto as três classes que constituem o quadro da sociedade moderna – o trabalhador assalariado, o capitalista industrial e o proprietário da terra.” P. 710 “Está na natureza da produção capitalista o decréscimo contínuo da população agrícola em relação à não-agrícola, pois na indústria (no sentido estrito) o acréscimo do capital constante em relação ao variável está ligado ao acréscimo absoluto, embora decréscimo relativo, do capital variável, enquanto na agricultura o capital variável exigido para a exploração de determinado pedaço de terra decresce em termos absolutos, só podendo portanto aumentar, se novas terras forem cultivadas, o que porém supõe crescimento ainda maior da população não-agrícola.” P. 730s “Não constitui característica peculiar da renda fundiária a circunstância de os produtos agrícolas se tornarem valores e se desenvolverem como tais, e a de os produtos não-agrícolas os confrontarem como mercadorias, ou a de eles se desenvolverem como expressões particulares do trabalho social. A característica peculiar consiste em que, com as condições em que os produtos agrícolas se desenvolvem como valores (mercadorias) e com as condições em que se realizam esses valores, desenvolve-se o poder do proprietário fundiário de apropriar-se de porção crescente desses valores criados sem interferência dele, e porção crescente da mais-valia se transforma em renda fundiária .” p. 733 Capítulo XXXVIII – Renda Diferencial. Generalidades (exemplo da queda – d’água no processo produtivo, produzindo lucro transformando-se em renda Fundiária) Capítulo XXXIX – Primeira Forma de Renda Diferencial (Renda Diferencial I) “Observaremos de início os resultados desiguais de iguais quantidades de capital, aplicadas em terras diferentes mas com áreas iguais; ou, se as áreas forem desiguais, os resultados em relação a superfícies iguais. Há duas causas gerais, independentes do capital, desses resultados desiguais: 1)a fertilidade (...) 2)a localização das terras. Este ponto é decisivo para as colônias e, de modo geral, para a seqüência em que as terras podem ser exploradas. Demais, é evidente que essas duas causas da renda diferencial, fertilidade e localização, podem atuar em sentidos opostos. Um terreno pode estar bem situado e ser pouco fértil, e vice-e-versa. Essa circunstância é importante, esclarecendo porque, ao se desbravarem as terras de um país, tanto se pode ir de solos melhores para os piores, quanto inversamente. Por fim, é claro que o progresso da produção social atua no sentido 130
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    de anular alocalização como causa da renda diferencial, criando mercados locais ou facilitando a localização com meios de comunicação e de transportes; mas, por outro lado, acentua as diferenças na localização das terras, ao separar a agricultura da manufatura, ao formar grandes centros de produção, ao mesmo tempo abandonando relativamente o campo.” P. 746 “(...)supondo-se para dois terrenos igual teor químico e sob esse aspecto a mesma fertilidade natural, a fertilidade real, efetiva, dependerá de os elementos nutritivos serem mais ou menos assimiláveis, diretamente utilizáveis pela alimentação das plantas. Para terras com a mesma fertilidade natural, a proporção em que se pode obter acesso a essa fertilidade igual é função do desenvolvimento químico e mecânico. Assim, a fertilidade, embora propriedade objetiva do solo, sempre implica relação econômica (...)” p. 746 “É errôneo supor que, por terem colônias e países jovens em geral a possibilidade de exportar trigo a preço mais baratos, suas terras possuam necessariamente fertilidade natural maior. Os cereais aí são vendidos abaixo do valor, abaixo do preço de produção, isto é, abaixo do preço de produção determinado nos velhos países pela taxa média de lucro. (...)tal abundância é devida antes de mais nada a condições econômicas. A população toda de um país desse tipo, (...)de início só se dedica quase à agricultura, sobretudo a que fornece produtos em massa, os únicos que podem trocar por artigos manufaturados e por produtos tropicais. (...)É o que de antemão distingue os estados coloniais baseados no mercado mundial moderno, dos que existiram antes, especialmente os da Antigüidade.” P. 768 Capítulo XI – Segunda Forma da Renda Diferencial (Renda Diferencial II) “É sempre a terra que apresenta fertilidade diversa para aplicação igual de capital, só que agora cabe ao mesmo terreno onde se investe um capital em distintas porções sucessivas o mesmo papel que, na renda diferencial I, desempenham diferentes tipos de solo onde se empregam distintas frações iguais do capital social.” P. 776 “(...)ao desenvolver-se a cultura intensiva, ao se efetuarem aplicações sucessivas de capital no mesmo solo, serão elas de preferência ou em maior grau feitas nos melhores solos (não estamos falando dos melhoramentos permanentes que transformam terras até então inúteis em terras cultiváveis). (...)Escolhe-se o melhor solo por oferecer as maiores probabilidades para a rentabilidade do capital aplicado, pois contém o maior número dos elementos naturais da fertilidade, e trata-se apenas de aproveitá-los.” P. 779 Obs: cultura intensiva – “capital concentrado sobre a mesma área de terra, ao invés de espalhar-se por áreas seguidas.” P. 773 Capítulo XLI – Renda Diferencial II – Primeiro Caso: Constante o Preço de Produção “Quanto mais se desenvolve o modo capitalista de produção, tanto mais acresce a concentração de capital na mesma área, tanto mais se eleva portanto a renda calculada por acre. Assim, em dois países em que fossem idênticos os preços de produção e as diferenças entre os tipos de solos, e igual a massa de capital aplicado, num porém mais na forma de aplicações sucessivas em área limitada, no outro mais na forma de aplicações paralelas em superfície mais vasta, a renda por acre e portanto o preço da terra seriam maiores no primeiro que no segundo, ainda que fosse igual nos dois países a massa da renda. A diferença na magnitude da renda não se explicará aí pela divergência na 131
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    fertilidade natural dostipos de solo, segundo a quantidade do trabalho aplicado, mas unicamente pela maneira diversa de empregar o capital.” P. 792s Capítulo XLII – Renda Diferencial II – Segundo Caso: Decrescente o Preço de Produção Capítulo XLIII – Renda Diferencial II – Terceiro Caso – Crescente o Preço de Produção . Resultados “A renda diferencial é apenas conversão formal de lucro suplementar em renda, e a propriedade fundiária capacita unicamente o proprietário a transferir para si o lucro suplementar do arrendatário. Todavia, vê-se que o emprego sucessivo de capital na mesma área de terra, ou, o que é o mesmo, o acréscimo do capital empregado na mesma área, com taxa decrescente de produtividade do capital e preço regulador constante, chega muito mais rápido ao limite, na realidade mais ou menos artificial, em virtude da conversão puramente formal de lucro suplementar em renda fundiária, decorrência da propriedade fundiária. A alta do preço geral de produção, necessária então em limites mais estreitos que os comuns, causa aí o aumento da renda diferencial; além disso, a existência da renda diferencial como renda fundiária gera, ao mesmo tempo, a elevação antecipada e mais rápida do preço geral de produção, a fim de ficar assegurada a oferta acrescida do produto, que se tornou necessária.” P. 848 Capítulo XLIV – Renda Diferencial Também no Pior Solo Cultivado “Do ponto de vista da produção capitalista, os produtos se encarecem sempre, quando, para produzir a mesma quantidade, se tem de desembolsar, para algo que não se pagava antes. Quando se fala em reposição do capital consumido na produção, deve-se entender apenas a reposição de valores que se configuravam em determinados meios de produção. Elementos da natureza que atuam de graça na produção, qualquer que seja a função que nela desempenhem, não operam como componentes de capital, mas como força natural gratuita do capital, isto é, como produtividade natural gratuita do trabalho que, no sistema capitalista, como toda força produtiva assume o aspecto de produtividade do capital. Força natural dessa espécie, de origem gratuita, se entra na produção, não é levada em conta ao determinar-se o preço, desde que baste à procura do trabalho que ajuda a produzir. Mas, se no curso do desenvolvimento for necessário produto maior que o possível de obter-se com a cooperação dessa força natural, se portanto esse produto suplementar tiver de ser gerado não com ajuda dessa força natural, mas com a da ação humana, a do trabalho, incorporar-se-á ao capital novo elemento complementar. Haverá portanto emprego de capital relativamente maior para obter-se o mesmo produto, e, não se alterando as demais circunstâncias, a produção encarecerá.” P. 857 “O mesmo trabalho gera o mesmo valor para o produto criado num dado lapso de tempo; mas, a grandeza ou a quantidade desse produto, e portanto a fração de valor configurada em parte alíquota desse produto, depende, para dada quantidade de trabalho, unicamente do volume da produção, e, este, por sua vez, da produtividade de dada quantidade de trabalho e não da magnitude dessa quantidade. Tanto faz que essa produtividade derive da natureza ou da sociedade. A produtividade só acresce o custo de produção com novo componente quando custa trabalho, capital portanto, o que não se dá quando se trata apenas de natureza.” P. 859 Capítulo XLV – A Renda Fundiária Absoluta “Se o que o arrendatário paga pelo arrendamento constitui desconto do salário normal dos trabalhadores, ou do próprio lucro médio, não estará ele pagando renda que é fração independente do preço das mercadorias, diversa do salário e do lucro.” P. 868 132
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    “O que caracterizaa colônia – só estamos falando das colônias agrícolas propriamente ditas – não é apenas a quantidade das terras férteis existentes em estado natural. É antes a circunstância de não constituírem elas propriedade, de não estarem submetidas ao regime de propriedade fundiária. E, no tocante à terra, a grande diferença entre os velhos países e as colônias é esta: não existir nelas, de fato ou de direito, a propriedade fundiária. (...)Aí, na realidade, a propriedade fundiária não limita o emprego de capital ou até de trabalho sem capital; a circunstância de os colonos já instalados se terem apoderado de parte das terras não exclui os que chegam depois da possibilidade de empregarem o capital ou o trabalho em novas terras. (...)Para o proprietário da terra, a mera propriedade jurídica não gera renda. Confere-lhe entretanto o poder de impedir a exploração de sua terra até que as condições econômicas propiciem valorização donde retirem o excedente, seja a terra aplicada propriamente na agricultura, seja em outros ramos de produção, como construção, etc. (...)Se a procura exige o desbravamento de novas terras, digamos de terras menos férteis que as até então cultivadas, arrendá-las-á de graça o proprietário, porque o preço de mercado do produto agrícola elevou-se o suficiente para que o capital nelas empregado pague o preço de produção e por conseguinte proporcione o lucro normal? De maneira nenhuma. É mister que o capital empregado lhe dê renda. Só as arrendará quando um arrendamento lhe possa ser pago.” P. 869s “A relação entre o preço de produção e o valor de uma mercadoria é determinada exclusivamente pela relação entre a parte variável e a constante do capital com que é produzida, ou seja, pela composição orgânica desse capital. Se num ramo de produção a composição de capital é inferior à do capital social médio, isto é, se a parte variável, empregada em salários, comparada com a constante, empregada nas condições materiais do trabalho, constitui proporção maior que a encontrada no capital social médio, então o valor do produto desse ramo estará necessariamente acima do preço de produção. Vale dizer, por empregar mais trabalho vivo, esse capital, para igual exploração do trabalho, produz quantidade maior da mais-valia, portanto mais lucro que parte alíquota da mesma grandeza do capital social médio. (...)A composição do capital na agricultura propriamente dita, se é inferior à do capital social médio, expressa imediatamente nos países industrializados que a agricultura não progrediu no mesmo ritmo da indústria de transformação. (...)Para nosso propósito não é mister entrar em pormenores de uma questão que só a estatística pode decidir, a saber, se em determinado país de produção capitalista, (...)a composição do capital agrícola é inferior à do capital social médio. Seja como for, o certo teoricamente é que, só nessa hipótese, o valor dos produtos agrícolas pode ultrapassar o preço de produção deles; em outras palavras, tomando-se por medida capital de composição social média, de igual magnitude, é maior a mais-valia que um capital produz na agricultura, o trabalho excedente (e por conseguinte o trabalho vivo em geral) que mobiliza e comanda. Só admitida esta condição pode existir a forma de renda fundiária que estamos considerando e por isso basta, para analisá-la, estabelecer essa suposição.” P. 872s “Vejamos em que consiste a essência da renda absoluta. Para igual taxa de mais-valia ou para exploração igual do trabalho, capitais de igual magnitude produzem em diversos ramos, de acordo com as diferenças na composição média, quantidades diferentes de mais-valia. Na indústria, essas quantidades diversas de mais-valia se igualam no nível do lucro médio e se repartem uniformemente pelos capitais industriais como se fossem partes alíquotas do capital social. A propriedade fundiária impede que assim se nivelem os capitais empregados na terra e se apodera de parte da mais-valia que de outro modo entraria nesse nivelamento que dá a taxa geral de lucro; é o que se dá quando a produção precisa de terra, seja para a agricultura, seja para a indústria extrativa. A renda representa então parte do valor, mais particularmente da mais-valia das mercadorias, a qual em vez de caber à classe capitalista que a tirou dos trabalhadores, pertence aos proprietários que as extraíram dos capitalistas. Aqui estamos supondo que o capital agrícola mobiliza mais trabalho que o capital não- 133
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    agrícola, desde quesejam iguais as respectivas magnitudes. O grau ou a existência mesmo dessa discrepância depende do desenvolvimento relativo da agricultura em confronto com a indústria. Pela natureza das coisas, essa discrepância decresce necessariamente com o progresso da agricultura, a não ser que a proporção em que a parte variável diminui, comparada com a constante, seja ainda maior para o capital industrial que para o agrícola. Essa renda absoluta desempenha papel ainda mais importante na indústria extrativa propriamente dita, onde falta por completo um dos elementos do capital constante, a matéria-prima, e onde necessariamente reina a mais baixa composição do capital, excetuados os ramos em que é avultada a parte consistente em máquinas e noutros elementos do capital fixo. Justamente aí, onde a renda parece decorrer apenas de preço de monopólio, são necessárias condições de mercado extremamente favoráveis para as mercadorias se venderem pelo valor ou para a renda ser igual ao que sobra da mais-valia da mercadoria depois de deduzido o preço de produção. É o que se observa com a renda das zonas de pesca, das pedreiras, das florestas naturais, etc.” p. 886 Capítulo XLVI – Renda dos Terrenos para Construção. Renda das Minas. Preço do Solo “Em toda parte onde há renda (rent), a renda diferencial aparece e segue as mesmas leis da renda diferencial agrícola. Onde quer que os recursos naturais possam ser objeto de monopólio e assegurar ao industrial que os explora um lucro suplementar – trate-se de quedas d’água, minas de ricos veios, águas piscosas ou terrenos para construir bem situados – apodera-se desse lucro suplementar, na forma de renda, subtraindo-o do capital ativo, aquele que detém o privilégio de dono desses recursos em virtude de título de propriedade sobre uma parcela do globo terrestre. No tocante aos terrenos para construção, A.Smith já mostrou que a respectiva renda, como a de todos os terrenos não- agrícolas, se baseia na renda agrícola propriamente dita (...). Caracteríza-se , 1)pela influência decisiva da localização sobre a renda diferencial (muito importante por exemplo para a vinhataria e para os terrenos de construção nas grandes cidades); 2)por evidenciar a passividade total do proprietário, que se limita (especialmente na mineração) a explorar o progresso do desenvolvimento social para o qual em nada contribui e no qual nada arrisca, ao contrário do que faz o capitalista industrial; 3)pelo predomínio do preço de monopólio em muitos casos, sobretudo na exploração mais imprudente da miséria (para os proprietários de imóveis, a miséria é mais rentável do que jamais o foram, para a Espanha, as minas de Potosi). (...)Concorrem para elevar necessariamente a renda fundiária relativa a construções o aumento da população, a necessidade crescente de habitações daí resultantes e o desenvolvimento do capital fixo, que se incorpora à terra ou nela lança raízes ou sobre ela repousa, como todos os edifícios industriais, ferrovias, armazéns, estabelecimentos fabris, docas, etc. Aí não é possível reduzir o aluguel, que representa juro e amortização do capital empregado na construção, à renda correspondente apenas ao terreno (...). Cabe aí considerar dois aspectos: a exploração da terra com o fim de reprodução ou de extração, e o espaço, elemento necessário a toda produção e a toda atividade humana. E a propriedade fundiária cobra seu tributo nos dois domínios. A procura de terreno para construir aumenta o valor do solo na função de espaço e de base, e ao mesmo tempo faz acrescer a procura de elementos da terra que servem de material de construção.” P. 887s “São duas coisas a distinguir: 1)ou a renda deriva de preço de monopólio por haver dela independente preço de monopólio dos produtos ou do próprio solo, ou 2)os produtos se vendem a preço de monopólio por existir renda. Entendemos por preço de monopólio o determinado apenas pelo desejo e pela capacidade de pagamento dos compradores, sem depender do preço geral de produção ou do valor dos produtos. (...)Apenas os direitos de propriedade sobre o globo terrestre, detidos por certo número de pessoas, capacitam-nas a se apropriarem, tributando, de parte do trabalho social excedente, a qual se torna cada vez maior com o desenvolvimento da produção. Essa realidade é dissimulada pela circunstância de a renda capitalista, isto é, esse tributo capitalizado, 134
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    aparecer na formade preço da terra e esta poder ser vendida como qualquer outro artigo de comércio.” P. 890 Capítulo XLVII – Gênese da Renda Fundiária Capitalista 1. Observações Preliminares. “Para os antigos economistas que fazem os primeiros estudos do modo capitalista de produção, nascente em sua época (...)consideram a renda fundiária a forma normal da mais-valia, e confundem com o salário o lucro para eles ainda indefinido ou, no máximo, parecendo-lhes ser, dessa mais- valia, a parte que o capitalista extorque do proprietário da terra. Partem de uma era social em que a população agrícola representa a grande maioria da nação e o proprietário da terra é o protagonista que, em virtude do monopólio da propriedade fundiária, em primeira mão se apropria do trabalho excedente dos produtores imediatos, constituindo a propriedade fundiária a condição principal da produção. (...)Já os fisiocratas encontram dificuldade de outra natureza. Sendo na realidade os primeiros intérpretes sistemáticos do capital, procuram analisar a natureza em si da mais-valia. Essa análise coincide com a da renda, a única forma da mais-valia para eles existente. Por isso, veêm no capital que proporciona renda, ou seja, no agrícola, o único que produz mais-valia e no trabalho agrícola que ele mobiliza o único gerador de mais-valia. (...)Tiveram antes de mais nada o grande mérito (...)de considerar como a fonte original, o capital produtivo e não o capital mercantil, opondo-se ao mercantilismo que em seu realismo grosseiro constituía a economia vulgar daquele tempo (...).” p. 899s “Nesta crítica ao sistema mercantilista estamos referindo-nos apenas as suas concepções de capital e mais-valia. No mercantilismo, continuação do sistema monetário, o decisivo não é mais a conversão do valor-mercadoria em dinheiro e sim a produção de mais-valia, considerada de maneira conceitualmente vazia na esfera da circulação, e assim essa mais-valia se configura em dinheiro excedente, em superavit da balança comercial. Mas o mercantilismo reflete exatamente os interesses dos comerciantes e fabricantes da época e se ajusta ao estádio de desenvolvimento capitalista que eles representam. (...)Sob pretexto de se ocuparem apenas com a riqueza da nação e com as fontes de recursos do Estado, na realidade declaram os interesses da classe capitalista e o enriquecimento em geral por fim último do Estado, e contra o velho Estado de direito divino proclamam a sociedade burguesa. Mas, ao mesmo tempo tem a consciência de que o desenvolvimento dos interesses do capital e da classe capitalista, da produção capitalista, tornou-se a base do poder nacional e da supremacia nacional na sociedade moderna.” P. 900s “Os fisiocratas estão ainda certos ao afirmarem que na realidade toda produção de mais-valia e por conseguinte todo desenvolvimento do capital tem por base natural a produtividade do trabalho agrícola. (...)Produtividade do trabalho agrícola excedendo as necessidades individuais do trabalhador é a base de toda sociedade e sobretudo da produção capitalista, que libera da produção dos meios imediatos de subsistência parte cada vez maior da sociedade, convertendo-a, conforme diz Stuart, em “braços livres”, tornando-a disponível para ser explorada noutros ramos.” P. 901 “Há uma concepção errada a respeito da renda, baseada na circunstância de a renda na forma natural ter sobrevivido à economia natural da Idade Média e se arrastado até os tempos modernos, seja nos dízimos da igreja, seja como relíquia preservada por velhos contratos. Daí nasce a ilusão de que a renda não provém do preço, mas da massa do produto agrícola, portanto não das relações sociais e sim da terra. (...)embora a mais-valia represente produto excedente, não é verdadeira a afirmação 135
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    inversa de queum produto excedente no sentido de mero acréscimo da massa do produto representa mais-valia. Pode representar decréscimo de valor. (...)no tocante à renda em produtos cabe observar que é sobrevivência de um modo de produção arcaico, tradição que se vai esvaindo no desuso. Por estar em contradição com o modo capitalista de produção, desapareceu por si mesma dos contratos particulares e foi violentamente rejeitada como incongruência onde a legislação pôde intervir, como na Inglaterra, com respeito aos dízimos da Igreja. Mas, segundo, onde continuava a existir no sistema de produção capitalista, nada mais era e nada mais podia ser que a renda em dinheiro com disfarce medieval.” P. 903 2. A Renda em Trabalho “A forma mais simples da renda fundiária é a renda em trabalho: durante parte da semana, o produtor direto, com os instrumentos (arado, animais, etc.) que lhe pertencem de fato ou de direito, lavra o terreno de que dispõe de fato e, nos outros dias da semana, trabalha nas terras do solar senhorial, para o proprietário das terras, gratuitamente. Aí, a coisa ainda está meridianamente clara – renda e mais-valia se identificam. (...)O produto do servo deve, além de bastar para a subsistência própria, repor os meios de trabalho. Esse fato é comum a todos os modos de produção, pois não resulta da forma específica deles, sendo condição natural de todo trabalho contínuo e reprodutivo em geral, de toda produção continuada, que ao mesmo tempo sempre é reprodução, abrangendo as condições da própria atividade.” P. 905s “A forma econômica específica na qual trabalho não-pago se extorque dos produtores imediatos exige a relação de domínio e sujeição tal como nasce diretamente da própria produção e, em retorno, age sobre ela de maneira determinante. Aí se fundamenta toda a estrutura da comunidade econômica – oriunda das próprias relações de produção – e, por conseguinte, a estrutura política que lhe é própria. É sempre na relação direta entre os proprietários dos meios de produção e os produtores imediatos (a forma dessa relação sempre corresponde naturalmente a dado nível de desenvolvimento dos métodos de trabalho e da produtividade social do trabalho) que encontramos o recôndito segredo, a base oculta da construção social toda e, por isso, da forma política das relações de soberania e dependência, em suma, da forma específica do Estado numa época dada. Isto não impede que a mesma base econômica, a mesma quanto as condições fundamentais, possa apresentar - em virtude de inumeráveis circunstâncias empíricas diferentes, de condições naturais, de fatores étnicos, de influências históricas de origem externa, etc. – infinitas variações e gradações que só analise dessas condições empíricamente dadas permitirá entender.” P. 907 “Quanto a renda em trabalho, a forma mais simples e mais antiga da renda, é claro que a renda então é a forma original da mais-valia e com ela coincide. Além disso, a coincidência da mais-valia com trabalho alheio não-pago dispensa aí análise, pois existe em forma visível, palpável, pois o trabalho que o produtor direto efetua para si mesmo se distingue, no tempo e no espaço, do que executa para o senhor das terras e que aparece diretamente na forma brutal de trabalho sob coação para terceiro.” P. 907s “O produtor imediato não é proprietário, mas apenas possuidor, e de direito todo o trabalho excedente dele pertence ao proprietário da terra. (...)Se essa reprodução perdura, consolidam-na o uso e a tradição, e a lei por fim a consagra expressamente. A forma desse trabalho excedente, a corvéia (...)deve naturalmente extrair do trabalho global dos produtores imediatos parte alíquota bem menor que a sugada nos modos de produção desenvolvidos, sobretudo no modo de produção capitalista. Admitimos que originalmente a corvéia devido ao proprietário da terra era de dois dias por semana. Essa jeira semanal fixada em dois dias constitui magnitude constante, regulada pelo direito consuetudinário ou escrito. Mas, a produtividade dos dias restantes da semana, à disposição 136
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    do produtor imediato,é magnitude variável, que se desenvolve com a experiência, ao mesmo tempo que as novas necessidades que passa a conhecer, a expansão do mercado para os produtores dele, a segurança crescente com que usa essa parte da força de trabalho incitam-no a distendê-la mais. Não se deve esquecer aí que o emprego dessa força de trabalho não se limita à agricultura, mas abrange também a indústria doméstica natural. Existe aí a possibilidade de certo desenvolvimento econômico, dependendo naturalmente de circunstâncias favoráveis, de carácteres étnicos congênitos, etc.” p. 909s 3. A Renda em Produtos. “Quando a renda em produtos é a forma dominante e mais difundida da renda fundiária, acompanham-na sempre, em maior ou menor grau, sobrevivências da forma anterior – a renda a pagar diretamente em trabalho, a corvéia -, e tanto faz que o senhor das terras seja um particular ou o Estado. A renda em produtos supõe estádio cultural superior do produtor imediato, nível mais alto do desenvolvimento de seu trabalho e da sociedade em geral, distinguindo-se da forma anterior porque o trabalho excedente não deve mais prestar-se de maneira natural, sob a vigilância e a coação diretas do senhor da terra ou de seu representante; ao contrário, por força das circunstâncias e não por coação direta, compelindo-o a lei, em vez de o açoite (...)” p. 910s “(...)a produção excedente, no sentido de produção acima das necessidades indispensáveis do produtor imediato, efetua-se em área que lhe pertence de fato, no solo que ele mesmo explora, e não mais, como antes, nas terras do solar senhorial, separadas e ao lado da sua. (...)O trabalho do produtor para si mesmo e o que fornece ao proprietário da terra não se separam mais, de maneira palpável, no tempo e no espaço.” P. 911 “Embora possam persistir sobrevivências da renda pura em produtos, em modos e em relações de produção mais desenvolvidos, ela sempre supõe economia natural, isto é, que os meios de produção na totalidade ou na maior parte sejam criados pela própria exploração que os emprega e que sejam repostos e reproduzidos diretamente, partindo-se do próprio produto bruto. Demais, implica a união da indústria doméstica rural com a agricultura; (...)e, como ocorria na Idade Média, tanto faz que a renda em produtos abranja mais ou menos produtos industriais ou que se forneça apenas na forma de produtos agrícolas. (...)Esta renda, comparada com a renda em trabalho, deixa ao produtor maior sobra de tempo para trabalhar em seu produto além do tempo em que se trabalha para as necessidades imediatas. Com ela aparecem diferenças maiores de situação econômica entre os produtores diretos. Existe pelo menos essa possibilidade e a demais a de esse produtor imediato obter os meios para diretamente explorar por sua vez o trabalho alheio.” P. 911s 4. A Renda em Dinheiro. “Aqui, a renda em dinheiro significa a renda fundiária resultante de simples metamorfose da renda em produtos, por sua vez ainda de transformação da renda em trabalho. Com este significado distingue-se da renda fundiária comercial ou industrial baseada no modo capitalista de produção e que constitui apenas um excesso sobre o lucro médio.” P. 913 “O produtor imediato em vez de entregar o produto ao proprietário da terra, que pode ser o Estado ou um particular, paga-lhe o correspondente preço. (...)embora produza como dantes pelo menos a maior parte dos próprios meios de subsistência, tem agora de converter parte do produto em mercadoria. (...)Entretanto, o fundamento dessa espécie de renda, embora ela tenda a dissolver-se, continua sendo o mesmo da renda em produtos, que constitui o ponto de partida. Como dantes, o produtor direto está na posse da terra, por herança ou tradição, e coercitivamente tem de fornecer ao 137
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    senhor dela, oproprietário do meio de produção mais essencial, trabalho excedente, não-pago, (...) na forma de produto excedente convertido em dinheiro.” P. 913s “A transformação da renda produto em renda-dinheiro, primeiro esporádica, depois em escala mais ou menos nacional, supõe desenvolvimento já considerável do comércio, da indústria urbana, da produção mercantil em geral e por conseguinte da circulação monetária.” P. 914 “Com a renda dinheiro, a relação tradicional e consuetudinária entre o subordinado que possui e explora parte do solo e o proprietário da terra se converte em relação contratual puramente monetária, determinadas pelas regras sólidas do direito positivo. Por isso, o que possui e lavra a terra se transforma naturalmente em mero arrendatário. (...)no estádio embrionário dessa nova classe, quando ela aparece apenas de maneira esporádica, desenvolveu-se necessariamente entre os camponeses melhor situados, sujeitos a renda, o hábito de explorar por conta própria jornaleiros rurais, do mesmo modo que na época feudal os servos camponeses melhor aquinhoados dispunham de outros servos. (...)Entre os antigos possuidores de terra, que a cultivam diretamente, surge um viveiro de arrendatários capitalistas. Seu desenvolvimento está condicionado pelo desenvolvimento geral da produção capitalista fora do campo e se acelera particularmente quando circunstâncias especiais o favorecem, como ocorreu no séc. XVI na Inglaterra. Então, a moeda se deprecia progressivamente, enriquecendo os arrendatários às custas dos donos das terras, em virtude dos tradicionais contratos de arrendamento a longo prazo.” P. 915s “Quando a renda assume a forma de renda-dinheiro, e a relação entre camponês que paga renda e proprietário da terra, a forma contratual (transformação que só é possível em certo nível elevado de desenvolvimento do mercado mundial, do comércio e da manufatura), a terra passa necessariamente a ser arrendada a capitalistas, que até então estavam fora do domínio rural. Eles trazem para o campo e para a agricultura o capital obtido nas cidades e o modo capitalista de produção já desenvolvido na economia urbana: o produto que se gera é mercadoria apenas e simples meio de extorquir mais-valia. (...)o arrendatário se torna o comandante efetivo desses trabalhadores agrícolas e o verdadeiro explorador do trabalho excedente que efetuam. (...)Então muda de fato a natureza da renda. (...)A renda deixa de ser a forma normal da mais-valia e do trabalho excedente para reduzir-se a sobra desse trabalho excedente, a qual aparece depois de deduzida a parte de que se apropria o explorador capitalista sob a forma de lucro (...)o lucro, e não mais a renda, é a forma normal da mais-valia. (...)Não é mais a terra, e sim o capital que diretamente submete a si e à sua produtividade até mesmo o trabalho agrícola.” P. 916s 5. A parceria e a Pequena Propriedade Camponesa. “Em todas essas formas – renda-trabalho, renda-produto e renda-dinheiro como forma apenas em que se converte a renda-produto – supusemos que a renda é sempre fornecida por quem na realidade cultiva e possui a terra, indo o trabalho excedente não-pago diretamente para as mãos do proprietário dela. (...)Pode ser considerado forma transitória entre a primitiva forma de renda e a capitalista, o sistema de parceria ou de repartição dos frutos da exploração no qual o agricultor (arrendatário) emprega, além de trabalho próprio ou alheio, parte do capital aparente, e o proprietário fornece, além da terra, a outra parte desse capital (gado, por exemplo), sendo o produto divididos entre ambos em determinadas proporções que variam segundo os países (...)o essencial, porém, é que a renda então não se apresenta mais como a forma normal da mais-valia. O agricultor, empregue apenas trabalho próprio ou também trabalho alheio, presumivelmente exigirá – além do que lhe cabe na qualidade de trabalhador – uma fração de produto, por possuir parte do instrumental de trabalho e por ser capitalista de si mesmo. O proprietário da terra, por sua vez, reivindica participação por ter a propriedade da terra e ainda por ter emprestado capital.” P. 919s 138
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    “Vejamos agora apequena propriedade, a propriedade parcelária. O camponês aí é proprietário livre da terra, que se patenteia instrumento principal de produção, o indispensável campo de ação de seu trabalho e de seu capital. Nessa forma não se paga arrendamento; a renda não aparece como forma particular da mais-valia, embora, em países onde se tenha desenvolvido o modo capitalista de produção, se apresente como lucro suplementar, tomando-se por termo de comparação os outros ramos de produção, mas lucro suplementar que pertence ao camponês, a quem cabe o rendimento todo do trabalho. Essa forma de propriedade fundiária, como as formas mais antigas, supõe que a população rural seja muito maior que a urbana, portanto que o modo capitalista de produção embora reine no resto da economia, é relativamente pouco desenvolvido. (...)Então, é natural que parte preponderante do produto rural entre no consumo do produtor (...)e que apenas o excedente na forma de mercadoria se comercie com as cidades.” P. 921s “O lucro médio do capital não limita a exploração da pequena propriedade, enquanto o camponês é pequeno capitalista; tampouco a limita necessidade de uma renda, enquanto ele é proprietário da terra. Embora pequeno capitalista, o único limite absoluto para ele é o salário que paga a si mesmo, após deduzir os custos propriamente ditos. Enquanto o preço do produto o cobrir, cultivará a terra, e freqüentes vezes submetendo-se a salário reduzido, ao mínimo vital. Como proprietário da terra, desaparece para ele o limite da propriedade (...)em regra há, do preço da terra, o juro a pagar a terceira pessoa, ao credor hipotecário, o que é um limite. Mas, esse juro pode ser pago, recorrendo- se à parte do trabalho excedente a qual nas condições capitalistas constituiria o lucro.” P. 923 “A propriedade da terra é tão necessária para o pleno desenvolvimento desse modo de exploração quanto a propriedade do instrumental, para o livre desenvolvimento do artesanato. Serve aí de base para o desenvolvimento da independência pessoal. Constitui estádio necessário do desenvolvimento da agricultura. Vemos os limites dela nas causas que a arruínam. Essas causas são: extermínio da indústria camponesa doméstica, complemento normal dela, em virtude do desenvolvimento da grande indústria; empobrecimento progressivo e esgotamento do solo submetido a esse tipo de agricultura; usurpação pelos grandes proprietários de terra da propriedade comum que por toda parte constitui o segundo complemento da economia parcelaria, sem o qual não lhe é possível a criação de gado; concorrência da agricultura em grande escala da empresa capitalista ou das plantações coloniais.” P. 924 “Por natureza, a propriedade parcelaria exclui o desenvolvimento da produtividade social do trabalho, as formas sociais de trabalho, a concentração social dos capitais, a pecuária em grande escala, a aplicação progressiva da ciência. (...)Um dos males específicos da pequena agricultura ligada à propriedade livre da terra decorre de o agricultor desembolsar capital para comprar terra (o mesmo se estende à forma intermediária em que o grande fazendeiro primeiro desembolsa capital para comprar a terra, e depois para cultivá-la como seu próprio arrendatário). Com a mobilidade assumida pela terra na condição de mera mercadoria, aumentam as transferências de propriedade, e desse modo em toda geração nova, em toda partilha entre herdeiros, a terra vem a ser para o camponês nova aplicação de capital, terra por ele comprada. O preço da terra constitui aí elemento predominante dos falsos custos de produção individuais ou do preço de custo do produto para o produtor individual.” P. 925 “Na economia escravista, o preço pago pelo escravo nada mais é que a mais-valia antecipada e capitalizada, ou seja, o lucro que se pretende extrair dele. Mas, o capital desembolsado nessa compra não faz parte do capital com que se tira lucro, trabalho excedente do escravo. Ao contrário, é capital de que o senhor de escravos se desfez, deduzido do capital de que dispõe para a produção efetiva. Já não existe para ele, do mesmo modo que o capital desembolsado na compra de terra cessou de 139
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    existir para aagricultura. E a melhor prova disso é que só pode voltar a existir para o senhor de escravos ou para o dono das terras, se um vender o escravo, e, o outro, a terra. Mas, o comprador ficará na mesma situação em que eles estavam antes dessa venda. A compra não o capacita automaticamente a extrair lucro do escravo. Precisa de novo capital para aplicar na exploração escravista.” P. 926 “A pequena agricultura, o preço da terra, forma e resultado da propriedade privada do solo, constitui entrave à produção. Também na agricultura em larga escala e na grande propriedade fundiária explorada pelos métodos capitalistas, a propriedade constitui entrave, pois limita o arrendatário nos investimentos produtivos que em última instância não o beneficiem e sim ao dono da terra.” P. 930 “A pequena propriedade fundiária gera uma classe até certo ponto à margem da sociedade e que combina toda a crueza das formas sociais primitivas com todos os sofrimentos e todas as misérias dos países civilizados. A grande propriedade fundiária deteriora a força de trabalho no último refúgio onde se abriga sua energia natural e onde ela se acumula como fundo de reserva para renovar a força vital das nações: no próprio campo. A grande indústria e a grande agricultura industrialmente empreendida atuam em conjunto. Se na origem se distinguem porque a primeira devasta e arruína mais a força de trabalho, a força natural do homem, e a segunda, mais diretamente, a força natural do solo, mais tarde, em seu desenvolvimento, dão-se as mãos: o sistema industrial no campo passa a debilitar também os trabalhadores, e a indústria e o comércio, a proporcionar à agricultura os meios de esgotar a terra.” P. 931 Parte Sétima – AS RENDAS E SUAS FONTES Capítulo XLVIII – A Fórmula Trinitária “Capital – Lucro (lucro do empresário + juro), terra-renda fundiária, trabalho-salário, esta é a fórmula trinitária em que se encerram todos os mistérios do processo social de produção. Já vimos antes que o juro aparece como o produto verdadeiro, característico do capital, e o lucro do empresário, em oposição, como salário independente do capital. Assim, aquela forma trina se reduz precisamente a: capital-juro, terra-renda fundiária, trabalho-salário, com a divertida eliminação do lucro, a forma de mais-valia que específicamente caracteriza o modo capitalista de produção.” P. 935 “Capital, terra, trabalho! Mas, o capital não é coisa, mas determina relação social de produção, pertencente a uma formação histórica particular da sociedade, e essa relação se configura numa coisa e lhe dá caráter social específico. O capital não é a soma dos meios de produção materiais e produzidos. O capital são os meios de produção convertidos em capital, os quais em si não são capital como o ouro ou a prata em si, tampouco são moeda. (...)O capital são os produtos gerados pelos trabalhadores e convertidos em potências autônomas dominando e comprando os produtores, e mais ainda são as forças sociais e a forma do trabalho como se fossem propriedades do produto deles. Temos aí portanto determinada forma social, envolvida numa névoa mística, de um dos fatores de um processo social de produção fabricado pela história. A seguir, vem a terra, a natureza inorgânica em si, essa massa bruta e caótica em sua originalidade primitiva. Valor é trabalho. Valor excedente, mais-valia, não pode portanto ser terra. Fertilidade absoluta da terra significa apenas que certa quantidade de trabalho dá certo produto, condicionado pela fertilidade natural da terra. A diferença na fertilidade faz que as mesmas quantidades de trabalho e de capital, o mesmo valor portanto, se expressem em quantidades diversas de produtos agrícolas; que esses produtos possuam, por isso, valores individuais distintos. (...)E, por fim, o terceiro componente da trindade, mero fantasma: “o” trabalho, simples abstração, sem existência de 140
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    per si, ou,no sentido que se lhe dá, atividade produtiva que o homem em geral exerce e com que efetua o intercâmbio material com a natureza; atividade despojada de toda forma social e de toda especificação, em sua existência natural pura, sem depender da sociedade (...)” p. 936s “Na fórmula capital-juro, terra-renda fundiária, trabalho-salário, aparecem capital, terra e trabalho como fontes, respectivamente, do juro (posto no lugar do lucro), da renda fundiária e do salário, que deles seriam produtos, frutos. (...)Todas as três rendas, (...), são três frações do valor do produto, parcelas do valor portanto, ou, expressando monetariamente, porções de dinheiro, parcelas do preço.” P. 938 “(...)o reino da liberdade começa onde o trabalho deixa de ser determinado por necessidade e por utilidade exteriormente imposta; por natureza, situa-se além da esfera da produção material propriamente dita. O selvagem tem de lutar com a natureza para satisfazer as necessidades, para manter e reproduzir a vida, e o mesmo tem de fazer o civilizado, sejam quais forem a forma de sociedade e o modo de produção. Acresce, desenvolvendo-se, o reino do imprescindível. É que aumentam as necessidades, mas, ao mesmo tempo, ampliam-se as forças produtivas para satisfazê- las. A liberdade nesse domínio só pode consistir nisto: o homem social, os produtores associados regulam racionalmente o intercâmbio material com a natureza, controlam-no coletivamente, sem deixar que ele seja a força cega que os domina; efetuam-no com o menor dispêndio de energias e nas condições mais adequadas e mais condignas com a natureza humana. Mas, esse esforço situar- se-á sempre no reino da necessidade. Além dele começa o desenvolvimento das forças humanas como um fim em si mesmo, o reino genuíno da liberdade, o qual só pode florescer tendo por base o reino da necessidade. E a condição fundamental desse desenvolvimento humano é a redução da jornada de trabalho.” P. 942 “Quando a fórmula capital-lucro, ou melhor capital-juro, terra-renda fundiária, trabalho-salário, essa trindade econômica, passa a configurar a conexão entre as partes componentes do valor, da riqueza em geral e as respectivas fontes, completa-se a mistificação do modo capitalista de produção, a reificação das relações sociais, a confusão direta das condições materiais de produção com a determinação histórico-social dessas condições; é o mundo enfeitiçado, desumano e invertido, onde os manipansos, o senhor Capital e a senhora Terra, protagonistas sociais e ao mesmo tempo coisas, fazem suas assombrações. O grande mérito da economia clássica é ter dissolvido essa aparência, esse embuste, essa emancipação e ossificação dos diversos elementos sociais da riqueza, essa personificação das coisas e reificação das relações de produção, essa religião do cotidiano, reduzindo o juro a parte do lucro, e a renda a excedente sobre o lucro, de modo a se identificarem ambos com a mais-valia;(...)” P. 952s Capítulo XLIX – Elementos para a Análise do Processo de Produção “Para evitar dificuldades inúteis, é mister distinguir produto bruto e produto líquido, de renda bruta e renda líquida. O rendimento bruto ou o produto bruto é a totalidade do produto reproduzido. Excluída a parte do capital fixo empregada, mas não consumida na produção, o valor do rendimento bruto ou do produto bruto é igual ao valor do capital adiantado e consumido na produção, constante e variável, acrescido da mais-valia, que se decompõe em lucro e renda fundiária. (...)a renda bruta é a fração do valor ou da parte do produto bruto medida por essa fração, as quais restam após deduzir-se, da totalidade da produção, a parte do valor (e a parte do produto por ela medida) destinada a repor o capital constante adiantado e consumido na produção. Assim a renda bruta = salário (a parte do produto destinada a vir a ser de novo renda do trabalhador) + lucro + renda fundiária. A renda líquida é a mais-valia, ou seja, o produto excedente que fica após deduzir-se o salário; (...)” p. 963s 141
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    “Ao que jáse expôs sobre a relação entre renda e capital cabe acrescentar agora: no que tange do valor, o elemento constitutivo que entra, com o fio, no capital do fabricante de tecidos é o valor do fio. A maneira como esse valor se repartiu, para o fiandeiro, em capital e renda, isto é, em trabalho pago e não-pago, não tem a menor influência na determinação do valor da própria mercadoria (excetuadas as modificações que o lucro médio determina). No fundo continua vigorando a crença de que o lucro – a mais-valia em geral – é algo que ultrapassa o valor, só podendo ser obtido mediante acréscimos, logros recíprocos, ganhos resultantes de venda. (...)Além disso, é certo que os componentes das mercadorias que constituem o capital constante, como qualquer valor-mercadoria, são redutíveis a partir do valor que, para os produtores e proprietários dos meios de produção, se converteriam em salário, lucro e renda fundiária. Isto é simplesmente a maneira capitalista de dizer que o valor de toda mercadoria é apenas a medida do trabalho socialmente necessário nela contido. Mas, já vimos no livro primeiro que isso absolutamente não impede que o produto-mercadoria de qualquer capital se dissocie em partes distintas, uma representando a parte constante do capital, outra, a parte variável, e, terceira, a mais-valia. (...)é uma abstração falsa supor que uma nação com modo de produção baseado no valor e organizada em moldes capitalistas seja um organismo que trabalhe unicamente para satisfazer as necessidades nacionais. (...)suprimido o modo capitalista de produção e mantida a produção social, a determinação do valor continuará predominando no sentido de que será mais necessário que nunca regular o tempo de trabalho, repartir o trabalho social entre os diversos grupos de produção e finalmente contabilizar tudo isso.” P. 975s Capítulo L – As Ilusões Oriundas da Concorrência “Se o segmento da jornada do qual precisa o trabalhador para reproduzir o valor do salário tem por limite último um mínimo físico do salário, (seu limite mínimo é dado pelo mínimo físico de meios de subsistência que o trabalhador precisa obter para conservar e reproduzir a força de trabalho. P. 984) o outro segmento em que se objetiva o trabalho excedente (...)tem por limite o máximo físico da jornada, isto é, a quantidade total do tempo diário de trabalho a qual o trabalhador pode dar enquanto conserva e reproduz a força de trabalho. (...)Está dado portanto o limite absoluto da parte do valor a qual constitui mais-valia e se reduz a lucro e renda fundiária. (...)Se o capital é de 500 (podemos dizer milhões) e a mais-valia é de 100, o limite absoluto da taxa de lucro será 20%.” P. 985 “A conversão dos valores em preços de produção não elimina portanto os limites do lucro, mas apenas altera a repartição dele entre os diferentes capitais particulares de que se compõe o capital social e pelos quais os lucros se repartem de maneira uniforme, na proporção das frações do valor que eles representam, do capital total. Os preços de mercado ora estão acima ora abaixo desses preços de produção reguladores, mas essas oscilações se eliminam reciprocamente.” P. 986 “Essas partes em que se divide a mais-valia “(lucro de empresário, juro e renda fundiária)” parecem ao inverso do real, gerar a mais-valia, parte do preço da mercadoria, enquanto o salário geraria a outra, porque, para o capitalista individual, são elementos dados do preço de custo. Esses produtos da decomposição do valor-mercadoria sempre aparecem como se fossem as condições prévias da própria formação do valor, e o segredo dessa ilusão é simples: o modo capitalista de produção, como qualquer outro, não só reproduz sem cessar o produto material, mas também as relações econômicas e sociais e as formas econômicas específicas, adequadas para criar esse produto. Temos assim a permanente ilusão: os resultados parecem condições prévias, e estas, resultados. E esta reprodução permanente das mesmas relações é o que o capitalista individual preliba (prelibar = com antecipações), considerando-a fato evidente, indiscutível. Enquanto persistir a produção capitalista como tal, uma fração do trabalho adicionado se reduzirá a salário, outra a lucro (juro e lucro de 142
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    empresário), e terceiraa renda fundiária. Nos contratos entre os donos dos diversos fatores de produção pressupõe-se essa divisão, e esse pressuposto é acertado, por mais que oscilem as relações quantitativas segundo os casos individuais. A configuração definida em que se confrontam as partes do valor é suposta antecipada porque é sempre reproduzida, e é sempre reproduzida por sempre ser pressuposta.” P. 998s “(...)Além do valor dos meios de produção que na qualidade de magnitudes dadas de preço entram na produção das mercadorias, o salário, o juro e a renda fundiária ingressam nessa produção como grandezas que lhe delimitam e regulam o preço. Aparecem perante o capitalista como os elementos que determinam o preço das mercadorias. Olhado por esse aspecto, o lucro do empresário parece determinado pelo que sobra dos preços de mercado, dependentes das condições fortuitas da concorrência. (...)Na concorrência reinante no mercado mundial, por exemplo, o que importa exclusivamente é saber se, com o salário, o juro e a renda fundiária dados, a mercadoria pode vender-se aos preços gerais de mercado dados ou abaixo deles, com proveito, isto é, realizando adequado lucro de empresário. Se num país forem baixos o salário e o preço da terra, e alto o juro do capital, por não estar desenvolvido nele o modo capitalista de produção, enquanto noutro país o salário e o preço da terra são nominalmente altos, embora o juro do capital seja baixo, então o capitalista aplicará no primeiro mais trabalho e mais terra, e no segundo proporcionalmente mais capital. Esses fatores são determinantes para o cálculo das possibilidades que tem ambos os países de concorrer entre si.” P. 1001s Capítulo LI – Relações de Distribuição e Relações de Produção “O valor adicionado pelo trabalho efetuado durante o ano – ou seja, a parte do produto anual na qual se representa esse valor e que se pode extrair, dissociar do produto global – se divide pois em três partes que são outras tantas formas de renda; essas formas revelam que parte desse valor pertence ou cabe ao dono da força de trabalho, parte ao dono do capital, e terceira parte ao dono da terra. Trata- se portanto de relações ou formas de distribuição que exprimem as proporções em que a totalidade do valor novo produzido se reparte entre os possuidores dos diversos fatores de produção. Segundo a percepção corrente, essas relações de distribuição se patenteiam relações naturais, relações que decorrem da natureza de toda produção social, das leis da produção humana em geral. (...)A análise científica, entretanto, revela o seguinte: o modo capitalista de produção tem natureza particular, especificidade historicamente definida; como qualquer outro modo determinado de produção pressupõe, como condição histórica, dado estádio das forças produtivas sociais e de suas formas de desenvolvimento; essa condição é o resultado histórico e o produto de processo anterior, e dela parte e nela se baseia o novo modo de produção; as relações de produção correspondentes a esse modo particular de produção historicamente determinado – relações que os homens estabelecem no processo da vida social, na formação da vida social – tem caráter específico, histórico e transitório; as relações de produção, das quais são a outra face, de modo que estas e aquelas participam do mesmo caráter historicamente transitório.” P. 1004s “Quando se observam as relações de distribuição parte-se a priori do pretenso fato de repartir-se o produto anual em salário, lucro e renda fundiária. Mas, assim expresso, o fato não é exato. O produto se decompõe em duas partes: em capital e em rendas. (...)Se uma parte do produto não se transformasse em capital, a outra não assumiria as formas de salário, lucro e renda fundiária. (...)Além de gerar os produtos materiais “(o modo capitalista de produção),” reproduz constantemente as relações de produção em que são produzidos e por conseguinte também as correspondentes relações de distribuição.” P. 1006 “O modo capitalista de produção se distingue, antes de mais nada, por duas características: 143
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    Primeiro: Seus produtossão mercadorias. Produzir mercadorias não o distingue de outros modos de produção, mas a circunstância de seu produto ter, de maneira dominante e determinante, o caráter de mercadoria. (...) Segundo: O que distingue particularmente o modo capitalista de produção é a circunstância de a produção da mais-valia ser objetivo direto e causa determinante da produção. (...)O impulso para restringir ao mínimo o custo de produção torna-se a mais poderosa alavanca para acrescer a produtividade social do trabalho; mas, esse acréscimo toma a aparência de elevação constante da produtividade do capital.” P. 1007s Capítulo LII – As Classes “Os proprietários de mera força de trabalho, os de capital e os de terra, os que tem por fonte de receita, respectivamente, salário, lucro e renda fundiária, em suma, os assalariados, os capitalistas e os proprietários de terras, constituem as três grandes classes da sociedade moderna baseada no modo capitalista de produção. Sem dúvida, a estrutura econômica da sociedade moderna desenvolveu-se mais ampla e classicamente na Inglaterra. Não obstante, mesmo nesse país não se patenteia para essa divisão em classes. Também lá, as camadas médias e intermediárias obscurecem por toda a parte as linhas divisórias (embora muito menos nas zonas rurais que nas urbanas). Esse fato, contudo, não tem importância para nossa análise. Vimos ser tendência constante e lei do desenvolvimento do modo capitalista de produção separar cada vez mais do trabalho os meios de produção e concentrar em constelações cada vez maiores os meios de produção dispersos, ou seja, converter o trabalho em trabalho assalariado e os meios de produção em capital. E a essa tendência corresponde, noutro plano, o fato de a propriedade fundiária, como entidade autônoma, se dissociar do capital e do trabalho, isto é, a conversão de toda propriedade fundiária à forma adequada ao modo capitalista de produção. A questão que se propõe agora é esta: que constitui uma classe? A resposta decorre automaticamente da que for dada a pergunta: que faz dos assalariados, dos capitalistas e dos proprietários de terra membros das três grandes classes sociais? À primeira vista, a identidade das rendas e das fontes de renda. São três grandes grupos sociais, e seus componentes, os indivíduos que os constituem, vivem respectivamente de salário, de lucro e de renda fundiária, utilizando a força de trabalho, o capital e a propriedade fundiária. Sob este aspecto, porém, os médicos e os funcionários públicos, por exemplo, constituiriam também duas classes, pois referem a dois grupos sociais distintos, e as rendas dos membros de cada um deles fluem da mesma fonte. O mesmo se estenderia à imensa variedade de interesses e ofícios segundo os quais a divisão do trabalho social separa os trabalhadores, os capitalistas e os proprietários de terras; estes, por exemplo, se dividem em proprietários de vinhedos, de áreas de lavoura, de florestas, de minas, de pesquisas(?). [interrompe-se aí o manuscrito] – F. Engels Bibliografia: Karl Marx – O Capital – Critica da Economia Política Tradução de Reginaldo Sant anna DIFEL – 4ª Edição - 1985 144