Curso de
Aprendizes do
Evangelho
Índice
1. O VELHO TESTAMENTO 1
2. VISÃO GERAL DO NOVO TESTAMENTO 4
3. A PALESTINA: ASPECTOS HISTÓRICOS 7
4. FATOS DA VIDA DE JESUS: NASCIMENTO E INFÂNCIA 10
5. FATOS DA VIDA DE JESUS: PRISÃO E MORTE 12
6. FATOS DA VIDA DE JESUS: QUESTÕES POLÊMICAS 15
7. JOÃO BATISTA, O PRECURSOR 19
8. OS DOZE APÓSTOLOS 21
9. O SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO 23
10. O SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS QUE CHORAM E OS QUE SOFREM PERSEGUIÇÃO POR AMOR
DA JUSTIÇA 26
11. O SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS MANSOS E PACIFICADORES 27
12. O SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS QUE TEM FOME E SEDE DE JUSTIÇA E OS MISERICORDIOSOS.29
13. SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS LIMPOS DE CORAÇÃO
E QUANDO INJURIAREM 30
14. O SERMÃO DO MONTE: “VÓS SOIS O SOL DA TERRA” “O JURAMENTO” 32
15. O SERMÃO DO MONTE: “OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE” “SEDE PERFEITOS” 35
16. O SERMÃO DO MONTE 37
17. SERMÃO DA MONTANHA: SÓ DEUS PODE JULGAR E A CASA SOBRE A PEDRA 40
18. JESUS E A PRECE 42
19. OS MILAGRES E O EVANGELHO 44
20. MEDIUNIDADE NO EVANGELHO 46
21. AS APARIÇÕES DE JESUS APÓS SUA MORTE 50
22. AS CURAS NO EVANGELHO 52
23. A OBSESSÃO NO EVANGELHO 56
24. O SERMÃO DO CENÁCULO 59
25. O SERMÃO PROFÉTICO 61
26. PARÁBOLAS COMPARATIVAS DO REINO DOS CÉUS 62
27. PARÁBOLAS SOBRE O DESAPEGO ÀS RIQUEZAS TERRENAS 65
28. PARÁBOLAS SOBRE A VALORIZAÇÃO DAS OBRAS DO HOMEM 68
29. PARÁBOLAS SOBRE AS FALSAS APARÊNCIAS 71
30. PARÁBOLA SOBRE A VIGILÂNCIA, PRUDÊNCIA E VALORIZAÇÃO DO TRABALHO 73
31. MARIA DE MAGDALA 75
32. ZAQUEU, O PUBLICANO 76
33. JUDAS ISCARIOTES 77
34. OS FILHOS DE ZEBEDEU 78
35. MARTA E MARIA 79
36. LUCAS, O EVANGELISTA 80
37. O COLÓQUIO COM NICODEMOS 81
38. A MULHER SAMARITANA 82
39. A MULHER ADÚLTERA 83
40. ATOS DOS APÓSTOLOS - A MISSÃO DE PEDRO 84
41. ATOS DOS APÓSTOLOS - O PAPEL DE PAULO 85
42. AS CARTAS PAULINAS 86
43. AS EPÍSTOLAS DO NOVO TESTAMENTO E O APOCALIPSE DE JOÃO 96
44. AS DETURPAÇÕES DO CRISTIANISMO 102
45. O ESPIRITISMO E O CRISTIANISMO 103
Capítulo 1
O VELHO TESTAMENTO
A Bíblia é composta de um conjunto de 73 livros, sendo 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo, subdivididos
em três grandes categorias: livros históricos, doutrinais e proféticos, segundo os teólogos e exegetas. As edições
protestantes não trazem alguns livros chamados deuterocanônicos. Ex. Judite, Daniel, Eclesiastes, etc.
Os livros do Antigo Testamento escritos uns em hebraico e outros em aramaico foram traduzidos para o gre-
go. De modo geral, os livros relatam a aliança e as relações entre Deus e os Hebreus até o nascimento de Jesus, por
isso são chamados também de “Antiga Aliança”, fundamento da Religião Judaica.
Os mais antigos manuscritos bíblicos, hoje conhecidos, foram descobertos a partir de 1947, graças
a um fortuito encontro em uma caverna perto do Mar Morto. Por isso são conhecidos como os
“Manuscritos do Mar Morto”, os “Manuscritos de Qumrâm”, nome do lugar em que estavam. Alguns são
do século II a. C. (A Bíblia de Jerusalém, Edições Paulinas)
Entre as traduções da Bíblia, as mais antigas e famosas são: a Versão dos Setenta e a tradução feita por São
Jerônimo, chamada Vulgata. Recentemente, após as descobertas dos Manuscritos do Mar Morto, processou-se sua
tradução, por especialistas de diferentes religiões cristãs, procurando-se eliminar os desvios semânticos, decorrentes
das modificações da língua através dos tempos e de diferentes interpretações, para que se chegasse a um denomi-
nador comum.. Essa tradução foi designada de “A Bíblia de Jerusalém”.
Os 46 livros do Velho Testamento subdividem-se em históricos, doutrinais e proféticos, mais o Pentateuco,
chamado de A Lei.
LIVROS HISTÓRICOS:
São os livros do Pentateuco e os de Josué, Juízes, Ruth, Rei, Macabeus e outros, ao todo 21, os quais narram
a história do povo hebreu. O livro de Josué relata a conquista da Terra da Promissão e sua distribuição pelas tribos.
O Juízes mostra a história dos judeus sob o governo dos Juízes. Samuel fala sobre os reis Saul e Davi. O livro de
Reis registra a história de Salomão até a destruição do Templo de Jerusalém, pelos babilônios. Esdras narra a volta
do exílio de grupo de judeus. Cada livro narra uma parte da história hebréia.
LIVROS DOUTRINAIS:
São os Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Sabedoria e outros, ao todo 7.
Estes livros indicam sempre uma rota a seguir pelo homem de bem. Qualquer que seja sua forma de apre-
sentação são sempre norteadores de conduta, indicação de caminho, regras morais, preces, hinos etc. O Livro dos
Salmos, ou Saltério, é uma coleção de poemas sagrados compostos por vários autores inspirados, dos quais o mais
importante e conhecido é o rei Davi (A Bíblia Sagrada, Edição Barsa). O Saltério (palavra de origem grega), é o
nome de um instrumento de cordas que acompanhava os cânticos, os salmos e, por extensão, passou a denominar a
coletânea dos Salmos.
O Povo de Israel, assim como seus vizinhos, cultivou a poesia lírica de várias formas através dos Salmos.
Todo povo sensível se transcende através da palavra cantada, onde o som se harmoniza mais facilmente com as
esferas mais altas. O valor espiritual dos salmos ou sua riqueza religiosa os transformaram nas preces do Antigo
Testamento (súplicas, ações de graças e profecias do Messias).
O livro dos Provérbios é um conjunto de regras práticas para se viver com sabedoria e representa vários sé-
culos de reflexão dos sábios, desde Salomão; por isso muitas vezes é citado por Provérbios de Salomão. A sabedo-
ria é personificada em justiça e verdade, mas, embora de bons sentimentos morais, seu ensinamento foi superado
pelas parábolas de Jesus.
LIVROS PROFÉTICOS:
São os de Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Joel e outros, ao todo 18.
Estes livros, de modo geral, registram as principais profecias dos missionários profetas de Israel. Isaías (séc.
VIII a.C.) prevê a vinda do Messias; a ruína de Israel por sua infidelidade; a ruína da Babilônia etc. Jeremias (séc. VII
a.C.) vaticina sobre a ruína de Jerusalém e Judá. Ezequiel e Daniel (séc. VI a.C.) viveram no exílio da Babilônia,
tendo Daniel profetizado vários fatos, tornando-se, inclusive, magistrado na corte do Rei Nabucodonosor.
É bom observar que o estudo do Velho Testamento deve ser acompanhado pela observação sistemática em
mapas geográficos da época, que mostram os lugares mais importantes e as razões de certas situações, ampliando
o visual do estudante.
A leitura do Antigo Testamento mostra que Jesus respeita suas leis e as devolve ao legítimo sentido. Cristo
conclui a Nova Aliança, pela qual os cristãos, como herdeiros de Abraão, estão no Novo Testamento. (Gálatas, 3:15
a 29).
Os Espíritas, diz Emmanuel em O Consolador, questão 360, como “novos discípulos do Evangelho devem
compreender que os dogmas passaram. E as religiões liberalistas, que os construíram, sempre o fizeram simples-
mente em obediência a disposições políticas, no governo das massas. Dentro das novas expressões evolutivas, po-
Curso de Aprendizes do Evagelho2
rém, o espiritista deve evitar as expressões dogmáticas, compreendendo que a Doutrina é progressiva, esquivando-
se a qualquer pretensão de infabilidade, em face da grandeza inultrapassável do Evangelho”.
Por isso, pode-se dizer que por meio do Espiritismo, Jesus, cumprindo suas promessas (Jo., 14:16-26 e 16:12-
14), renova sua Aliança com os Homens, em geral, fazendo-os, todos, herdeiros do seu Cristianismo Redivivo, de
forma que todas as ovelhas pudessem ser conduzidas, sem exceção, ao aprisco do Senhor, no caminho da plurali-
dade das existências.
MOISÉS E SUA MISSÃO PLANETÁRIA E O ÊXODO
Durante 430 anos a família e os descendentes de Jacó permaneceram no Egito, transformando-se em um
povo numeroso - o povo de Israel (Ex. 12:40). Os Egípcios, sentido-se ameaçados, impunham-lhes pesados tributos
através da coréia (trabalho gratuito ao Senhor).
Para evitar o aumento de reprodução israelita, o Faraó Ramsés II, em torno de 1250 a.C., determinou o afo-
gamento no rio Nilo de seus filhos recém-nascidos do sexo masculino.
Jocabel, mulher de Amran, neto de Levi, deu à luz um menino e amamentou-o por três meses. Temerosa de
que os guardas o descobrissem, arquitetou colocá-lo no rio Nilo, num cesto forrado de betume, à hora do banho da
princesa Termutis, filha de Ramsés II. (Ex. 2). A princesa recolheu-o e adotou-o como filho.
Certamente Moisés foi um Espírito missionário de alta hierarquia, com uma difícil tarefa: libertar o povo hebreu
do jugo egípcio e codificar as leis divinas de caráter universal (O Decálogo).
Educado em palácio, iniciado nos cultos herméticos dos faraós e sacerdotes, sempre se destacou por sua per-
sonalidade de liderança. Após um incidente com um guarda egípcio, Moisés mata-o, em legítima defesa, e tem de
fugir. Vai para Madiã, ao sul da Palestina, onde se casa e passa 40 anos pastoreando, também aprendendo os cami-
nhos do deserto.
Um dia, nas imediações do Monte Sinai, o mesmo onde recebeu o Decálogo, anos mais tarde, Moisés ouviu a
chamada à sua missão, quando Deus “lhe fala” do meio da sarça ardente. (Ex., 3). Moisés volta ao Egito com sua
família. Reinava, então, Menerphtah, filho de Ramsés II (Ex., 4:18) e tendo seu irmão mais velho, Arão, como intér-
prete de sua vontade junto ao Faraó,. pediu a liberdade de seu povo.
Depois de muitas dificuldades, e pragas terríveis o Faraó, ainda assim, não concordou com sua saída (Ex.,
cap. 7 a 11).
Face a não concordância do Faraó, o Senhor instituiu a páscoa (Ex., 12), na qual os hebreus deveriam marcar
as ombreiras das portas com o sangue dos cordeiros imolados, assinalando sua presença para que seus primogêni-
tos não fossem atingidos pela praga destruidora. Disse então o Faraó a Moisés. “ide e servi ao Senhor, como tendes
dito” (Ex., 12:31).
Inicia-se o Êxodo mas, arrependendo-se, o Faraó persegue-os até às margens do Mar Vermelho (na região do
Mar dos Juncos) onde os soldados egípcios são tragados pelo mar, depois da passagem de Moisés e seu povo. (Ex.,
14)
Não se sabe ao certo qual o caminho percorrido pelos israelitas no deserto, mas a probabilidade maior é a di-
reção sul, ao longo da costa do Mar Vermelho e depois em direção do Monte Sinai. Em Êxodo, capítulo 19, lê-se que
no terceiro mês da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, Moisés sobe ao monte e lá recebe os Dez Manda-
mentos.
O DECÁLOGO E AS LEIS TRANSITÓRIAS
Fala Emmanuel, em O Consolador, questão 269, que embora Moisés trouxesse consigo as mais elevadas fa-
culdades mediúnicas, era “impossível que o grande missionário dos judeus e da Humanidade pudesse ouvir o Espí-
rito de Deus”. Diz, ainda, que após o advento do Espiritismo, o homem está habilitado a compreender que os dez
mandamentos forma ditados por emissários de Jesus, “porquanto todos os movimentos de evolução material e espi-
ritual do orbe se processaram, como até hoje se processam, sob o seu augusto e misericordioso patrocínio.”
Diz Kardec (ESE, cap. I) que “há duas partes distintas na lei mosaica: a lei de Deus, promulgada sobre o
Monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, estabelecida por Moisés”. A lei de Deus, ou Decálogo, é uma lei “de todos os
tempos e de todos os países, e tem, por isso mesmo, um caráter divino”. Todas as demais leis estabelecidas por
Moisés, contidas no Levítico, Números e Deuteronômio, eram transitórias, porque o grande Patriarca foi “obrigado a
manter pelo temor um povo naturalmente turbulento e indisciplinado, no qual tinha de combater abusos arraigados e
preconceitos adquiridos durante a servidão do Egito. Para dar autoridade às suas leis, ele teve de lhes atribuir uma
origem divina, como fizeram todos os legisladores dos povos primitivos. A autoridade do homem devia apoiar-se so-
bre a autoridade de Deus.”
Passaram quarenta anos no deserto inóspito, para depuração de sua geração e preparo da nova nação, no bu-
rilamento da alma do seu povo para a reforma íntima. Ao final deste tempo, dirigiram-se ao vale de Arabá (sul do
Mar Morto) entrando pelo lado oriental do Edom e subindo até às terras de Moab e Amon. Acamparam nas estepes
de Moab, à margem esquerda do rio Jordão, em frente a Jericó.
Moisés, sentindo-se no final de sua vida terrestre, escolhe Josué como novo líder e discursa ao povo falando
do término de sua tarefa, da continuidade por Josué e por fim dá sua bênção a todas as tribos e sob ao Monte Nebo.
“Tinha Moisés a idade de 120 anos quando morreu.”(Deut., 34:7), deixando na história dos homens a marca de sua
personalidade missionária, como líder de um povo, como legislador extraordinário e como “legítimo emissário do
plano superior, para entregar ao mundo terrestre a grande e sublime mensagem da primeira revelação”(O Consola-
dor, questão 270, Emmanuel).
Visão Geral do Novo Testamento 3
O PENTATEUCO
Pode-se dizer que o Pentateuco é o “livro da Lei de Moisés” - a Torá, como é chamado na Bíblia Judaica. É
composto de cinco livros. A composição literária é atribuída a Moisés, afirmado por Jesus e apóstolos (Jo., 1:45),
embora não haja confirmação de que ele tenha escrito os cinco livros (A Bíblia de Jerusalém).
O Pentateuco contém um conjunto de prescrições e postulados que orientam a vida moral, social e religiosa
do povo judeu e se divide em: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
Gênesis: Este primeiro livro contém a história primitiva; a criação do universo e do homem; o pecado original
e toda sua consequência até o dilúvio. Depois do dilúvio, tem-se o início da era patriarcal e todo o referencial gene-
alógico das tribos que compõem a história do povo hebreu.
Êxodo: Neste livro encontra-se a libertação dos judeus do Egito; a “Aliança com Deus” no Sinai, com o Decá-
logo; a instituição de leis reguladoras da atividade social e religiosa, tais como leis sobre servos, violências, proprie-
dades, deveres dos Juízes etc. e, ainda, regeras para o uso do tabernáculo, objetivando resguardar a pureza do mo-
noteísmo, contra as idolatrias e costumes arraigados por tanto tempo na convivência com os egípcios.
Levítico: é um livro legislativo, que regula o ritual dos sacrifícios de purificação e agradecimento; investidura
de sacerdotes; leis sobre alimentação animal; sobre a purificação da mulher depois do parto; sobre a saúde e cuida-
dos com a lepra; sobre casamentos ilícitos etc., com instituição de penas aos faltosos.
Números: É o quarto livro de Moisés. Refere-se ao recenseamento “de toda a congregação dos filhos de Is-
rael, segundo suas famílias, segundo a casa de seus pais, contando todos os homens, nominalmente, cabeça por
cabeça”(Nm., 1:2). Aí registra-se também a primeira tentativa de se entrar em Canaã (Nm., 13); a rebelião contra o
sacerdócio de Arão (Nm., 16 e 17); o direito de herança etc.
Deuteronômio: É o quinto livro de Moisés. Encerra um conjunto de três discursos de Moisés ao seu povo. No
primeiro, conta a história de Israel e de de seus objetivos para chegar à Terra Prometida, exortando-os à obediência.
No segundo, Moisés conta a história da legislação, falando-lhes dos dez mandamentos e relembrando as leis edita-
das anteriormente e da necessidade de sua obediência. No seus últimos atos, Moisés fala da nova aliança de Deus
com o povo e das promessas da misericórdia divina; da indicação de Josué como seu sucessor e sua bênção ao seu
povo, antes de sua morte.
QUADRO I - O Decálogo
1. Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não
terás deuses estrangeiros diante de mim. Não farás para ti imagens de escultura, nem figura
alguma de tudo o que há em cima no Céu, e do que há embaixo na terra, nem de coisa que
haja nas águas, debaixo na terra. Não andarás, nem lhes darás culto.
2. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão.
3. Lembra-te de santificar o dia de sábado.
4. Honrarás a teu pai e a tua mãe, para teres uma dilatada vida sobre a Terra.
5. Não matarás.
6. Não cometerás adultério.
7. Não furtarás.
8. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
9. Não desejarás a mulher do próximo.
10.Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o
seu boi, nem o seu jumento, nem outra coisa alguma que lhe pertença.
Fonte: Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. I
Capítulo 2
VISÃO GERAL DO NOVO TESTAMENTO
O Novo Testamento é composto por um conjunto de 27 livros classificados em históricos, doutrinais e proféti-
cos. São históricos os quatro Evangelhos, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João e o Atos dos Apóstolos. São livros
doutrinais as 21 epístolas de Paulo, Tiago, Pedro, João e Judas. O livro profético é o Apocalipse.
O EVANGELHO
O Evangelho é uma palavra de origem grega e significa Boa Nova. Essa Boa Nova é a notícia solene de uma
doutrina moral, onde os exercícios da lei da justiça, com misericórdia, do saber e do amor, da humildade e da cari-
dade, da fé e da esperança, fundamentam a ação da reforma íntima do ser humano, dando à ressurreição do espírito
o caráter de evolução, com responsabilidade individual e coletiva, possibilitando através do aprendizado e do conví-
vio fraterno, o direito da graça e da honra de se conhecer a Deus, ingressando no Seu Reino.
Por isso Jesus, o Cristo, ensinou: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma e de
todo teu pensamento. Este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo
como a ti mesmo. Destes dois mandamentos, depende toda a lei e os profetas”. (Mateus, 22:37 a 40)
Numa visão global, abrangendo todo o contexto histórico e moral do Evangelho, destaca-se a idéia profunda e
impressionante da exemplificação de Jesus, que transcende seu campo de trabalho, na sua curta vida terrena, em
uma época de transição mundial (onde a busca do saber e das conquistas, sufocava o valor da ação do amor), a
ponto de se tornar um marco na História da Civilização, que conta os seus dias a partir do seu nascimento.
Uma análise sensível e meditativa do Evangelho dá ao homem a compreensão e paciência para a vida; en-
che-o de coragem e fé; ensina-lhe a servir a Deus através de seu semelhante, e a conquistar o “Reino de Deus” pelo
entendimento da verdade. André Luiz, (Os Mensageiros, cap. 36.) narra momentos lindos, demonstrando que o
“Evangelho dá equilíbrio ao coração”, envolve e extrapola segundo as possibilidades individuais de recepção da luz
espiritual.
Jesus asseverou aos seus discípulos: “Se permanecerdes nas minhas palavras, verdadeiramente sereis meus
discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (João, 8:31 e 32)
Allan Kardec (ESE, Introdução), explica que a Boa Nova pode ser dividida em cinco partes: os atos comuns da
vida do Cristo, os milagres, as predições, as palavras que serviram para o estabelecimento dos dogmas da Igreja e o
ensino moral.
OS QUATRO EVANGELISTAS
O Evangelho de Jesus está escrito em quatro livros, segundo o entendimento e inspiração de cada evangelis-
ta: Mateus, Marcos, Lucas e João. Os três primeiros se assemelham, daí o nome de sinóticos. A tradição eclesiástica
reconhece Mateus como o primeiro evangelista, embora haja discussões improdutivas a respeito. No livro “Paulo e
Estevão”, 2ª parte, ca. I, Emmanuel diz que Paulo recebeu de Ananias umas notas dispersas com elementos da tra-
dição apostólica, o qual o informou sobre a aquisição do Evangelho na “Casa do Caminho”, em Jerusalém (cópia in-
tegral das anotações de Levi, isto é, Mateus).
Mateus: o Levi publicano, coletor de impostos em Cafarnaum, foi um dos quatro evangelistas, membro do co-
legiado apostólico. Suas primeiras anotações foram feitas na Palestina, em hebraico, para os judeus convertidos.
Sua idéia original foi converter e edificar, ilustrando a fé.
Marcos: João Marcos, primo de Barnabé, fez a primeira viagem com Paulo e foi discípulo de Pedro, daí a di-
zer-se que ele é “um eco da voz de Pedro”. Seu nome hebraico era João, o latino Marcos (Atos, 12:25). Destaca os
aparentes fracassos de Jesus perante os homens, para comprovar os desígnios de Deus (Era necessário que o
Cristo sofresse para resgatar os homens”- 9:12, 10:45, 14:24) e culmina com o triunfo do ressurgimento do túmulo.
Lucas: escritor de grande talento, amigo inconteste de Paulo de Tarso, médico dos homens e das almas, nas-
ceu em Antióquia, perto de Tarso (Síria). Seu trabalho é o resultado de muita ordem e informações pessoais com os
Apóstolos, Maria e Discípulos. Foi escrito para os pagãos convertidos. Sem o terceiro evangelho não teríamos 16
das mais belas parábolas de Jesus.
Segundo Emmanuel (Paulo e Estêvão, 2ª parte, cap. VIII), Paulo em sua última viagem a caminho de Roma,
pede a Lucas que faça “suas anotações de modo simples e nada comente que não seja para glorificação do Mestre,
no Seu Evangelho imortal”. Esses trabalho de pesquisa deu oportunidade de uma narração mais completa da vida e
obra de Jesus.
João: o “discípulo que Jesus mais amava”, era irmão de Tiago (filhos de Zebedeu e Salomé). Ele narra o epi-
sódio dos primeiros discípulos com a propriedade e os pormenores de quem foi testemunha ocular, desde o primeiro
milagre, nas Bodas de Caná, até aos pés da cruz, com a doce herança da mãe sublime. Seu trabalho expande os
momentos mais íntimos com Jesus, enquanto os outros evangelistas sintetizam o acontecido. Seu resumo da última
ceia é riquíssimo (capítulos 13 a 17): a humildade do lava-pés, a despedida e a esperança (“não se turve o vosso co-
ração”), a verdadeira videira, a vinda do Consolador, a promessa de um breve reencontro e a grande prece interces-
sória de Jesus ao Pai Celeste, são momentos sublimes que o Evangelho de João traz aos homens. O Evangelho de
Visão Geral do Novo Testamento 5
João é espiritual: nele Jesus é a Luz que vem ao mundo, o Mestre que orienta, o Pão da vida, o Bom pastor, o Cor-
deiro de Deus que se imola pela salvação do mundo e o filho que glorifica ao Pai que está no Céu.
ATOS DOS APÓSTOLOS E EPÍSTOLAS
Entre os livros históricos do Novo Testamento, acha-se o Ato dos Apóstolos, escrito por Lucas. Narra a história
das origens do Cristianismo primitivo, em Jerusalém, sua expansão à Palestina e difusão entre os pagãos. Fala da
perseguição de Herodes, da conversão de Paulo e de suas três viagens missionárias, inclusive de sua prisão em
Roma.
As Epístolas, ao todo 21, formam o conjunto dos livros doutrinais ou didáticos. As 14 de Paulo são chamadas
pessoais e as de Tiago, Pedro, João e Judas, universais, porquanto não são dirigidas a pessoas em particular, mas
aos cristãos, em geral.
Paulo de Tarso, o Apóstolo dos Gentios, a figura mais proeminente na expansão do Cristianismo, nasceu em
Tarso, Cilícia (hoje Turquia), aproximadamente no ano 10; descendente de uma rica família judaica, do clã de Ben-
jamim; era, ao mesmo tempo, cidadão romano. Recebeu forte educação farisaica e conhecia bem a literatura grega.
Esta grande personalidade, viril, perseverante, corajosa e cheia de fé em Jesus, pode ser amplamente estudada no
livro histórico de Emmanuel, referente ao início do Cristianismo, “Paulo e Estevão”.
O Apocalipse, que em grego significa “revelação do futuro”, é um livro profético e foi escrito por João Evange-
lista, filho de Zebedeu, na Ilha de Patmos entre os anos 70 e 95, aproximadamente.
O Apocalipse difere do oráculo e das visões por ter cunho universalista. Já era conhecido dos judeus através
do Apocalipse dos profetas Ezequiel, Zacarias e Daniel no Velho Testamento.
Foi escrito para reerguer o ânimo dos cristãos, submetidos a perseguições por judeus e pagãos, nos tempos
de Nero e Domiciano, imperadores de Roma, objetivando aumentar-lhes a “fé e fortaleza dom a promessa da vitorio-
sa vinda do Senhor”(Bíblia Sagrada, Edição Barsa - dicionário, verbete “Apocalipse”).
EVANGELHOS APÓCRIFOS
Apócrifo quer dizer escrito sem autenticidade ou cuja autenticidade não se provou. Para a Igreja Católica são
os escritos que se referem a assuntos de natureza sagrada, mas que não foram incluídos no Cânon das Escrituras
consideradas de inspiração divina.
São, às vezes, vistos como narrativas piedosas, mas sem maior significado, ou escritos de tendência herética
e falsa para corromper as verdadeiras Escrituras. Muitos escritos foram considerados apócrifos, relativos ao Velho
como ao Novo Testamento: narrações de visões, passagens proverbiais, Evangelhos, Atos de Apóstolos, Epístolas,
etc.
Os protestantes julgam apócrifos os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, Primeiro e Se-
gundo livro dos Macabeus e partes dos livros de Ester e Daniel. A Igreja Católica, no entanto, os considera escritos
sob inspiração divina e, portanto, gozando da mesma autoridade que os outros livros da Bíblia.
Para os espíritas, em todas as circunstâncias, o essencial é o ensinamento moral contido nos livros.
ANÁLISE CRÍTICA DOS EVANGELHOS
Uma análise crítica dos Evangelhos e das Cartas Apostólicas, levam-nos, naturalmente, ao encontro de algu-
mas passagens pouco aceitáveis, ilógicas ou até mesmo absurdas: "A tentação no deserto", "A expulsão dos vendi-
lhões do templo" e muitos pensamentos colocados na boca de Jesus, não resistem a uma análise racional por en-
contrarem-se em evidente contradição com os mais elementares princípios da lógica, da justiça e da caridade.
Estes desencontros evangélicos em nada desmerecem a obra, que é, segundo Kardec, "código universal da
moral", mas despertam nossa atenção para alguns detalhes vinculados a ela:
a) As Adulterações Involuntárias:
Jesus nada escreveu. Acredita-se que as primeiras anotações tenham surgido muito tempo
depois da sua morte. Marcos, Lucas e Paulo não chegaram a conhecer o Messias e, portanto, colhe-
ram informações de outras fontes. Todos essas evidências levam-nos a acreditar que determinadas
colocações apresentadas nos Evangelhos não correspondem à realidade absoluta dos fatos. Certa-
mente, ocorreram adulterações involuntárias.
b) Os Enxertos dos Evangelistas:
Notamos, ao examinarmos os Evangelhos, que uma preocupação básica ocupava a mente
dos evangelistas: provar que Jesus era de fato o Messias aguardado pelos judeus. Para que a Mensa-
gem cristã viesse a vingar na Palestina, esta idéia deveria prevalecer. Acredita-se então, que algumas
passagens da Boa Nova não ocorreram realmente, mas foram acrescentadas às anotações com esse
objetivo. "O nascimento de Jesus em Belém", "a hipotética viagem ao Egito", a "Tentação no deserto"
e muitas outras passagens teriam sido enxertadas para provar a tese de que Jesus era o Salvador dos
Judeus, o Enviado de Jeová.
c) As Adulterações Posteriores da Igreja:
Muitas anotações verificadas nos textos bíblicos de hoje não são identificadas nas versões
originais, mostrando que foram acrescentadas posteriormente.
Curso de Aprendizes do Evengelho6
Para justificar certos dogmas, alguns sacramentos e determinadas práticas religiosas, certos
representantes da Igreja, ainda nos primeiros séculos da era Cristã, acrescentaram aos textos originais
idéias, princípios e passagens que na realidade não ocorreram.
Capítulo 3
A PALESTINA: ASPECTOS HISTÓRICOS
O POVO JUDEU NA ÉPOCA DE JESUS
Depois de mais de 700 anos sob denominação estrangeira (Império Assírio (722 a.C.), Babilônio (597 a.C.),
Persa (539 a.C), Egípcio, Macedônio (332 a.C.), Selêucidas (311 a.C.), Israel vive sob o jugo do Império Romano na
época do nascimento de Jesus.
O último rei judeu foi executado em 37 a. C., tendo sido nomeado governante, por Roma, o judeu idumeu He-
rodes, que governou a região tiranicamente, de 37 a. C. até 4 d.C., sob a dominação direta do governador romano
da província da Síria, último reduto, antes da denominação de Roma, do poderoso império selêucida. Roma não ti-
rou a liberdade da prática religiosa dos judeus, buscando assim, manter a ordem mais facilmente, permitindo que um
governante testa-de-ferro conservasse o título de rei. Roma preocupa-se mais com o comando militar do que com os
aspectos religiosos.
Após a morte de Herodes o Grande, o reino israelita foi dividido entre seus três filhos: a Galiléia e a Peréia fi-
caram com Herodes Antipas; a Ituréia e a Traconítide com Herodes Felipe (posteriormente assassinado por ordem
de Herodes Antipas) e a Judéia, a Iduméia e Samaria com Arquelau, que governou tão mal que Roma o destituiu,
mandando um procurador para o comando. Pôncio Pilatos foi o procurador de Roma, dessa região, entre 26 a 36
d.C.
No setor econômico, os judeus pagavam pesados impostos, cobrados pelos publicanos. Havia três tipos de
impostos:
a) sobre as terras dos próprios judeus;
b) sobre toda a compra e venda de produtos e
c) uma contribuição anual para o sustento dos soldados romanos que ocupavam a Palestina.
Este tributo era o mais difícil de ser aceito pelos judeus.
Em Atlas da Bíblia, Edições Paulinas, lê-se que “A difusão da cultura grega (helenismo) e a presença de mui-
tos judeus em outros países prepararam o cenário para o Novo Testamento. O último fator decisivo foi o governo de
Roma, que unificou politicamente o mundo antigo, como o helenismo o havia unificado culturalmente”. Lê-se ainda,
que “Os judeus da diáspora tinham colocado em muitos lugares os fundamentos da fé em Deus e do conhecimento
de sua lei. Como afirma Paulo na carta aos Gálatas, Jesus veio “quando chegou a plenitude do tempo” (Gl. 4:4 e
Hb., 1:1-2.
É importantíssima a análise de alguns pontos deste momento histórico na vida dos homens, porquanto estava
o terreno preparado para a vinda de Jesus:
• o mundo antigo ocidental praticamente unificado sob a bandeira romana, extremamente ze-
loso das regras jurídicas e tolerante com os princípios religiosos dos povos conquistados;
• o mundo ocidental unificado pela expansão da cultura grega, desde a conquista dos mace-
dônios, com Alexandre Magno e seus sucessores, Selêucidas (Palestina) e Ptomomeus (Alexandria),
suplantando a latina e outras, com sua arte, literatura e filosofia, com Sócrates, Xenofonte, Platão,
Aristóteles e tantos outros;
• o declínio do paganimso greco-romano e de outros povos não mais davam respostas aos in-
teresses da alma humana.
• A sustentação, por Israel, do monoteísmo, principalmente porque os judeus da diáspora ti-
nham colocado em muitos lugares os fundamentos da fé em Deus e do conhecimento da sua lei. Diz o
historiador Cesare Cantu(História Universal) que “só Israel, no meio de tão grandes desastres exterio-
res, conservou viva a outra parte da tradição, e, ao mesmo tempo que o dogma da queda ele admitia
o da regeneração; a ele se liga tanto mais energicamente, quanto mais baixo se sente cair. Israel só,
entre as nações antigas, conhece esta doutrina do progresso, caráter e glória da civilização moderna”.
Emmanuel, referindo-se a este momento histórico do mundo encarnado, escreve em À Caminho da Luz: “O
Cristo reúne as assembléias de seus emissários. A Terra não podia perder a sua posição espiritual, depois das con-
quistas da sabedoria ateniense e da família romana.”
CLASSES SOCIAIS. HIERARQUIA POLÍTICA E RELIGIOSA
Diz Kardec (ESE, Introdução, item III) que para “bem compreender certas passagens dos Evangelhos, é ne-
cessário conhecer o valor de muitas palavras que são freqüentemente empregadas nos textos, e que caracterizam o
estado dos costumes e da sociedade judia daquela época”. Para isso esclarece os conceitos das diferentes classes
sociais da época, originárias das antigas tribos israelitas.
A partir da divisão do reino, quando Roboão, filho de Salomão, fica no sul, com o reino de Judá, e Joreobão se
torna rei das dez tribos ao norte, formando o reino de Israel, com capital em Siquem e, mais tarde, em Samaria, diz
Curso de Aprendizes do Evengelho8
Kardec, “uma versão profunda, datando da época da separação, perpetuou-se entre os dois povos que se esquiva-
vam a todas as formas de relações recíprocas.”
Os Samaritanos, complementa Kardec, para tornarem a cisão mais profunda e não terem de ir a Jerusalém,
para a celebração das festas religiosas, construíram um templo próprio e adotarem certas reformas: admitiam so-
mente o Pentateuco, que contém a leis de Moisés, e rejeitaram todos os livros que lhe haviam sido posteriormente
anexados. Diz Cesare Cantu que os Samaritanos aceitavam facilmente os ritos e as divindades estrangeiras (II Rs.,
17:24 e seguintes), queimavam os livros da lei, perseguiam os que mantinham a circuncisão das crianças, transfor-
mando a religião muitas vezes, em simulacros pagãos e teatro de solenidade obscenas de Baco, como aconteceu
sob o domínio de Antioco (170 a.C.) que edificou uma fortaleza sobre as ruínas da cidadela de Javi em Jerusalém e
dedicou o templo a Júpiter Olímpico.
Os Nazarenos, por tradição, adotavam a castidade, a abstinência de bebidas alcoólicas e não cortavam os ca-
belos, Eram nazarenos Sansão, Samuel e João Batista.
Os Publicanos eram os encarregados da cobrança de impostos e outras rendas. Eram desprezados por todos
e considerados “impuros” porque Os judeus não aceitavam pagar impostos, especialmente a contribuição para o
sustento dos soldados romanos.
Os Fariseus, que quer dizer separados (Parasch), aceitavam que Moisés “independentemente da lei escrita, ti-
nha recebido do anjo Raziel uma lei oral, que transmitiu a Josué, este aos anciões do povo, e estes aos membros da
grande sinagoga. Esta tradição, o Cabala, explica coisas conservadas em segredo para a multidão, o verdadeiro
sentido das cerimônias, das profecias e dos enigmas” (Atlas da Bíblia, Ed. Paulinas)
Os Fariseus, diz Kardec, eram observadores servis e afetados das práticas exteriores do culto e das cerimôni-
as, inimigos das inovações, mas sob as aparências de uma devoção meticulosa, escondiam costumes dissolutos,
muito orgulho. A religião para eles, era mais um meio de subir do que objeto de uma fé sincera. Acreditavam na
imortalidade da alma, na eternidade das penas e na ressurreição dos mortos. A primeira notícia sobre eles data de
150 a.C. e era um partido religioso popular.
Os Saduceus, opostos aos fariseus, não acreditavam na imortalidade da alma nem na ressurreição. Eram me-
nos piedosos e mais políticos, sendo o partido religioso sacerdotal de Caifás e Anás.
Os Essênios moravam em edifícios semelhantes a mosteiros, distinguiam-se pelos costumes suaves e as vir-
tudes austera. Tinham seus bens em comum e se entregavam à agricultura. “Tendo as doutrinas orientais e gregas
chegado ali ao seu conhecimento, ele as misturaram com as doutrinas mosaicas, de modo que formassem uma seita
distinta”, e por isso, “repelindo a tradição, como os saduceus, acreditando, como os fariseus, na imortalidade da
alma, não gostando da cidade, viviam nos campos, abstinham-se de todo o tráfico, aplicavam-se ao trabalho, bani-
am a escravidão e não acumulavam riquezas”. (Atlas da Bíblia)
Os Escribas eram os doutores da Lei Mosaica, aqueles que a conheciam profundamente e eram seus intér-
pretes para o comportamento social e religiosos da vida judaica.
Eram, em geral, fariseus. Junto com os principais Sacerdotes e os anciãos (chefe do clã) constituíam o Gran-
de Sinédrio.
Muitos outros guapos sociais formavam o povo judeu à época de Jesus: os mercadores, os escravos, os pas-
tores e agricultores.
Sob o aspecto político, a Palestina estava sujeita aos romanos, embora governada por um rei judeu, Herodes,
o Grande, sob supervisão do Governador romano da Síria.
Após a morte de Herodes e destituição de seu filho Arquelau, a Judéia foi governada por um procurador roma-
no.
Roma permitia aos países dominados gerir suas questões internas. Para a Judéia e Samaria o órgão adminis-
trativo era o Sinédrio, chefiado pelo Sumo Sacerdote. Ao procurador romano, entretanto, era facultado nomear ou
depor o Sumo Sacerdote, o que explica, de alguma forma, a pressa com a prisão e julgamento de Jesus. O Sinédrio
era uma assembléia de anciãos que tinha por finalidade a administração civil e a religiosa, cabendo-lhes a interpre-
tação, julgamento e aplicação da lei.
COSTUMES. CIDADES. VESTUÁRIO. COMÉRCIO. ALIMENTAÇÃO. TRABALHO. PROFISSÕES
Sua forma de viver prendia-se a costumes seculares fixados no Torá, ou Lei de Moisés (O Pentateuco), em
regras religiosas fixadas posteriormente pela classe sacerdotal e outras decorrentes, principalmente, do sincretismo
greco-judaico, a partir da vitória macedônica, com Alexandre Magno, em 333 a.C.
Nazaré, no tempo de Jesus, na região da Galiléia, como ainda hoje, era um dos mais belos locais da Palesti-
na. Situa-se ao norte do fértil vale de Israel, com suaves colinas de onde se pode ver, a dezenas de quilômetros, o
vale do rio Jordão. Fica ao sul de Séforis, e tinha cerca de 5.000 habitantes. Era uma pequena cidade, sem grande
importância política, mas os olivais e os vinhedos das encostas eram de alta produtividade, em decorrência do clima
ameno e temperado que suavizavam este ponto de encontro das caravanas entre Damasco e Jerusalém.
Por sua população diversificada, por sua rusticidade, pelos homens pouco fiéis às leis e aos ritos judaicos, Na-
zaré era vítima de preconceitos pelos judeus metropolitanos e era comum a frase: “Pode vir alguma coisa boa de
Nazaré?”, como aconteceu na conversação entre Natanael e Felipe (Jo., 1:46) ou como fala Isaías (Is., 9:1), quando
é chamada de “Galiléia dos Gentios”.
Jerusalém, no tempo de Jesus, era capital da Judéia, o grande centro religioso judeu, com o seu grande tem-
plo. Situa-se num interessante alti-plano bem próximo ao vale do Jordão, nas chamadas montanhas da Judéia, à 30
km do Mar Morto, ao sul. Jerusalém significa “paz sagrada”.
A Palestina: Aspectos Históricos 9
Seu movimento econômico era grande e Roma aí fazia sua sede de governo com seus procuradores. A cidade
dividia-se em três bairros: Cidade Alta que ficava no Monte Sião e onde residiam os ricos; Cidade Baixa, ao longo do
vale de Cedron, onde se aglomerava o povo pobre e o Bairro do Templo, com muitas dependências, em outra mon-
tanha. O Templo ligava-se à Cidade Alta por uma longa ponte de pedra.
Era uma cidade populosa, sendo multiplicada pelo intenso movimento à época das festas, principalmente a
Páscoa. Era toda de ruas estreitas e íngremes, circundada por muralhas. De Jerusalém a Nazaré tem cerca de 100
quilômetros.
O Grande Templo foi idealizado por Davi e construído por Salomão, destruído por Nabucodonosor em 586
a.C. e reconstruído após a libertação dos judeus pelos medo-persas. Continha várias portas e pátios internos sobre-
postos.
Os pátios internos eram: Pátio dos Gentios, onde todos podiam freqüentar, ali eram vendidos os animais para
sacrifício (consta que cabia até 140.000 pessoas). Pátio dos Israelitas, para o povo judeu. Pátio das Mulheres. Pá-
tio dos Homens, que terminava junto à monumental porta de bronze, com 22 metros de altura e que se fechava à
noite. Pátio dos Levitas, onde ficava o altar dos sacrifícios sobre uma rampa. Neste pátio dos levitas, atrás do altar,
erguia-se o Santuário com 45 metros de largura, dividido em duas partes: a primeira, chamada de O Santo, onde fi-
cava o altar dos perfumes e a segunda parte, Santo dos Santos, simbolizando a antiga Arca da aliança, que continha
duas tábuas de pedra, e onde somente o Sumo Sacerdote podia entrar.
Era da lei a obrigação de circuncisar crianças masculinas no oitavo dia (Lucas,2:21), após o nascimento; era
proibido o trabalho no sábado; era costume comemorar a festa nacional da Páscoa (Ex.,12); em Jerusalém; os cri-
minosos pela lei judaica sofriam a ação do “olho por olho, dente por dente”, as adúlteras eram lapidadas; os romanos
levaram para a região a flagelação e a crucificação como forma de punição aos criminosos.
Havia três categorias de sacerdotes: os sacerdotes menores, encarregados de serviços internos que se subor-
dinavam ao diretor do Templo. Os sacerdotes de graus maiores, os encarregados da administração civil e religiosa e
o Sumo-Sacerdote que era eleito de dois em dois anos. Cobravam os tributos devidos ao Templo, tanto em dinheiro
como em espécie, pois os israelitas eram obrigados a pagar dízimos, bem como a entregar parte da primeira colheita
de suas plantações.
O holocausto ritual dependia do que se celebrava e segundo as condições de cada família. Exemplo: A purifi-
cação das mulheres, após o parto, 30 dias após, sendo menino e 60 dias, sendo menina, era feita com sacrifícios de
cabritos ou pombos.
Os sacerdotes mercadejavam com muitas coisas: bois, carneiros, pombos, destinados aos sacrifícios; perfu-
mes, óleos, e aromatizantes utilizados nas cerimônias de purificação. (Lucas,2:24)
Quando os mercadores e camponeses deixavam de pagar os tributos, seus produtos eram declarados imun-
dos, e com isso se afastavam os compradores.
Havia no Templo mesas, guichês, repartições, balcões, destinados ao comércio, ao recebimento de donativos,
além do grande movimento de animais transportados para os sacrifícios, no Pátio dos Levitas. (Jo.,2:13 a 17)
Era costume, no Templo, sentarem-se rabinos em banquetas, nos pórticos e nos pátios públicos. Ao seu re-
dor, pequena multidão ouvia atenta os comentários sobre a Lei de Moisés, segundo a idéia iniciática a que pertenci-
am, fariseus ou saduceus.
Uma crença generalizada de que Deus não podia receber o culto senão na Terra Santa, levou os judeus, no
exílio, a criarem um santuário que lembrasse o Templo de Jerusalém, a Sinagoga. Nesta, o culto assumiu forma in-
teiramente diversa, sem sacrifícios e sem sacerdotes. Aí somente os rabinos e conhecedores da lei e dos profetas
eram capazes de explicá-lo aos ouvintes. Em lugar de sacrifícios, um culto espiritual composto de orações, cantos
de salmos, leituras bíblicas e comentários. (Lucas,4:16)
Era crença generalizada, também, que o Messias seria um “Salvador” da Pátria, dominador do mundo, logo
não podiam os judeus aceitar Jesus, para eles demasiado simples e bom e que somente se manifestava entre pes-
soas desclassificadas e ignorantes. Não era o condutor enérgico e altivo. Como esperar o triunfo , a implantação do
novo Reino, se afirmava que maior é aquele que se fizer menor de todos? Diz Humberto de Campos, em Boa Nova,
cap.24 que Judas pensava assim, por isso fez o que fez, objetivando liderar o movimento renovador.
Muitas outras profissões e trabalhos existiam na região à época de Jesus: pescadores, pastores, mercadores,
doutores, escravos. No Templo haviam os trombeteiros, acendedores de lâmpadas, as tecedeiras, os sacrificadores,
os fiscais dos sacrifícios, auxiliares de cerimonial e uma série de outros, participando da função administrativa e ope-
racional do Templo e das cidades.
Capítulo 4
FATOS DA VIDA DE JESUS: NASCIMENTO E INFÂNCIA
O QUE REZAM AS TRADIÇÕES
Consoante o que havia sido vaticinado, o advento do tão esperado Messias deveria acontecer em Belém de
Judá, cidade onde David havia sido coroado rei. Na época o Imperador romano havia decretado um recenseamento
e todos os judeus deveriam se alistar em suas cidades de origem, por isso, Maria e José tiveram que se dirigir para
Belém, na Judéia, pois ele era da linhagem de Davi.
Logo que chegaram a essa cidade, Maria sentiu as dores do parto, e como ali não havia acomodação devido
ao elevado número de forasteiros, eles se abrigaram numa estalagem e, o menino Jesus teve uma manjedoura
como berço.
O Evangelho registra que o rei Herodes, sendo judeu, não desconhecia os vaticínios das Escrituras sobre o
advento do Messias, e que um dos prognósticos asseverava que “Deus daria ao Messias o trono de Davi”,
(Lucas,1:32). Por isso, Herodes se remoia de inquietação , na suposição de que tal acontecimento lhe roubaria o
trono e o poder, dados pelo Imperador romano, porque as esperanças e o desejo do povo, bem sabia, eram para o
surgimento de um Messias nacional que assumisse o poder em Israel, proclamando-se rei e expulsando os intrusos
romanos. Conseqüentemente, quando soube que o Messias já estava na Terra, ele envidou todos os esforços para
evitar que ele crescesse, inclusive pedindo aos três Magos do Oriente para que lhe dessem informes sobre o lugar
onde Jesus havia nascido.
Devido à sanha feroz de Herodes, José, o pai de Jesus, recebeu em sonho uma recomendação oriunda dos
Benfeitores Espirituais, para que pegasse o menino e sua mãe e fugissem para o Egito, o que foi feito, tendo voltado
somente quando Herodes, o Grande, já havia falecido. Informa o Evangelho de Mateus (2:22-23), que “Ouvindo que
Arquelau reinava na Judéia, no lugar de Herodes, José receou ir para lá; mas avisado em sonhos, por divina revela-
ção, foi para as partes da Galiléia. E chegou e habitou numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que
foi dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno”.
Jesus Cristo foi o primogênito de Maria de Nazaré. Quando ele tinha oito dias de vida na Terra, foi circunci-
dado e, com quarenta dias foi levado ao Templo de Jerusalém, para ser apresentado ao Senhor, pois, segundo as
leis estabelecidas por Moisés, “todo o macho primogênito deveria ser consagrado ao Senhor”.
O QUE AFIRMAM OS HISTORIADORES
Segundo Hermínio Miranda (Cristianismo: Mensagem Esquecida), os estudos técnicos levados à efeito por
pesquisadores sérios, levam conclusões bem definidas quanto ao nascimento e a genealogia de Jesus.
As principais conclusões são:
a) Há objeções muito sérias à informação de que Jesus tenha nascido em Belém. Ao que tudo
indica, nasceu em Nazaré, ou pelo menos nas suas imediações, na Galiléia e não na Judéia, onde fica
Belém.
b) A idéia da concepção e a do nascimento virginais são acomodações posteriores e foram in-
troduzidas no texto. São inquestionáveis e bem documentadas as evidências textuais de que Jesus
tenha sido filho de José e Maria.
c) Acreditam os historiadores que Jesus teve irmãos de sangue, sendo ele, provavelmente, o
mais velho.
d) A viagem ao Egito, a matança das crianças por Herodes, o nascimento na manjedoura, bem
como a presença dos “reis magos”, nada mais seriam que figuras místicas, criados pela imaginação
humana.
Quanto à data precisa do nascimento de Jesus, há divergências.
Will Durand, no livro César e Cristo opina: - Tanto Mateus como Lucas colocam o nascimento de Jesus “nos
dias em que era rei da Judéia Herodes”,consequentemente antes de 3a.C. Lucas, entretanto, dá Jesus “com cerca
de 30 anos”, quando João o batizou no “quinto ano de Tibério” - isto é, 28-29 d.C., isto coloca o nascimento de Cristo
no ano 2 ou 1 a.C.
Lucas acrescenta que “naqueles dias foi lançado um decreto de César Augusto para que todo o mundo fosse
recenseado, ao tempo em que era Quirino o governador da Síria”. Quirino esteve como legado na Síria entre os
anos 6 e 12 de nossa era; Josefo refere-se a um censo de Quirino na Síria, mas coloca-o entre os anos 6 e 7 de nos-
sa era, e não tem nenhuma outra referência a esse fato. Tertuliano fala em censo da Judéia feito por Saturnino, go-
vernador da Síria em 8 7a.C.; se é este o censo a que Lucas se refere, o nascimento de Cristo deve ser colocado
antes de 6 a.C.
Nada sabemos do dia certo de seu nascimento: alguns cronologistas põem o nascimento de Cristo no dia 19
de abril, outros em 20 de maio e Clemente em 17 de novembro.
O dia 25 de dezembro foi convencionalmente determinado como sendo o do nascimento de Jesus, data já da
festa central do mitraísmo, o natalis invicti solis, ou o aniversário do sol invencível.
Fatos da Vida de Jesus: Nascimento e Infância 11
A INFÂNCIA E A JUVENTUDE
Os Evangelhos discorrem muito pouco sobre a infância e juventude de Jesus, dizendo, apenas, que o “menino
crescia e se robustecia em Espírito, cheio de sabedoria e a graça de Deus estava com ele”(Lc.,2:40)
Comenta-se que em Nazaré, Jesus, ainda bastante jovem, freqüentava a sinagoga local, e numa das primei-
ras vezes que lá esteve, para interpretação do texto lido, como era comum, referente ao profeta Samuel, analisou
tudo com profundidade, o que, pela sua pouca idade, causou espanto geral.
Com 12 anos de idade, (Lc.,2:39), tendo atingido a idade legal para o Bar Mitzrah, ele e sua família foram a
Jerusalém a fim de participarem dos cerimoniais da Páscoa. Ao regressarem, quando já estavam a meio caminho,
seus pais notaram que ele não estava com as demais crianças e, por isso, voltaram apressadamente a Jerusalém,
onde, após três dias, o encontraram no Templo, confabulando com os doutores da Lei, surpreendendo-os com as in-
dagações que fazia em torno das Escrituras.
“Todos estavam maravilhados com a sua sabedoria e suas respostas”. Quando sua mãe o admoestou pela
preocupação que passavam, ele respondeu: “Não sabeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?”
Dessa época até quando tinha trinta anos, nada mais é mencionado nos Evangelhos.
Várias teorias existem sobre a vida de Jesus Cristo dos doze anos. Há quem o veja entre os Essênios, apren-
dendo as doutrinas de elevada cultura dessas escolas. Há também os que acreditam ter ele estado entre os mestres
orientalistas, no Himalaia.
No entanto, nenhuma dessas suposições pode prevalecer, pois, Emmanuel, em “À Caminho da Luz”, sustenta
de modo categórico:
“O Mestre, porém, não obstante a elevada posição das escolas essênias, não necessitou de sua contribuição.
Desde os primeiros dias na Terra, mostrou-se tal qual era, dentro da superioridade que o planeta lhe conheceu desde
os tempos longínquos do princípio.”
Capítulo 5
FATOS DA VIDA DE JESUS: PRISÃO E MORTE
A ÚLTIMA CEIA
Intróito Preliminar da Última Páscoa (Jo., 11:55); (Mt., 26:17); (Mc., 12:14) e (Lc., 22:27)
De acordo com o Thorá, os judeus preparavam todos os anos a ceia tradicional da Páscoa (que significa
“passagem”), relembrando o êxodo do Egito, de seus antepassados.
Para os cristãos, a Páscoa encerra o sentido da Ressurreição, isto é, a “passagem” pela libertação do Espírito
para ressurgir na “Terra Prometida” do Mundo Maior.
Jesus enviou dois de seus discípulos (Pedro e João - Lc., 22:10) para que se encontrassem com um guarda
(comum naquela época) seguindo-o até a casa do seu chefe, com a recomendação de perguntar ao dono da casa
onde seria o aposento em que ele e os discípulos se reuniriam.
Esta passagem nos favoreceu a interpretação de um prévio entendimento entre Jesus e o dono da casa que já
tinha um cenáculo (refeitório), pronto para a Páscoa (Lc., 22:12)
Emmanuel em “Pão Nosso”, nº 144, entende esse cenáculo mobiliado como o “perfeito símbolo do aposento
interior da alma”, significando que a cada dia limpa-se e ornamenta-se a casa espiritual com fé e higiene mental,
para a grande comunhão.
O Lava-pés(Jo., 13:5)
O preceito de higiene judaico, indicava o lava-pés, as mãos e o rosto antes das ceias. Assim o fizeram e sen-
taram-se à mesa.
Jesus, pronto para o seu grande momento, “sabendo que viera de Deus e a Deus voltava” exemplificava, aos
seus discípulos amados, a humildade santificante.
Levanta-se da mesa, depõe o manto, toma uma toalha e uma bacia e começa a lavar os pés de seus discípu-
los. Imagem nobre e grandiosa, o mestre servindo os seus servos.
Com veneração sincera Pedro quer recusar mas Jesus explica o sentido da purificação no seu ato: o sacrifício
físico do grande Mestre por amor aos seus. Está no versículo 14: “Se eu; Mestre, vos lavo os pés (vos sirvo), lavai
também vós os pés dos outros (humildade, caridade).
Como sempre, o Senhor Jesus exemplifica seus ensinamentos maiores: “O servo não é maior do que o seu
Senhor, nem o enviado maior do que quem o enviou.” (Jo., 13,16)
É preciso saber as coisas, mas é imprescindível fazê-las.
O Anúncio da Traição de Judas (Jo., 13:21)
Logo a seguir, seu coração meigo perturbou-se na tristeza e declarou que um daqueles que estavam a mesa o
trairia.
A pequena assembléia se espanta e lamenta ”Como poderiam eles trair ao Mestre amado? Como Deus permi-
tiria isso?”
Eis aí, a necessidade da contínua ligação do aprendiz do Evangelho com a Providência Divina.
Jesus dirigiu-se a Judas Iscariotes e disse “Faze depressa o que tens a fazer”.
Os discípulos não entenderam a triste verdade da frase, pois Judas era quem administrava as parcas finanças
do grupo e pensaram que Jesus lhes dera uma ordem. Judas saiu imediatamente.
A Despedida (Jo., 13:31)
a) O Novo Mandamento
Depois que Judas partiu, a reunião se tornou uma verdadeira comunhão espiritual.
Jesus declara-se já glorificado e Deus glorificado nele porque já pressente sua vitória espiritual
(13:31) e anuncia sua despedida.
“Para onde vou, não podeis ir, mas deixo-vos um mandamento novo” - que é o mandamento de
todo discípulo de Jesus: “Como vos amei, amai-vos uns aos outros”(13:34)
A fraternidade é o escopo do amor de Jesus e o lábaro da universalidade.
Anteriormente Jesus ensinava: “Amar ao próximo, como a ti mesmo”, que é o fundamento da lei de
igualdade perante Deus: é dever de todos que querem a mesma compreensão para si.
Amar aos semelhantes, como Jesus nos ama, é a ampliação da aceitação fraterna para a sublima-
ção da Fraternidade Universal perante o Criador Eterno.
b) Certamente, os discípulos se entristeceram e o amor de Jesus os consolou: “Não se turbe o vosso
coração”... “na casa de meu Pai tem muitas moradas...” “vou prepará-las e vos levarei comigo”.
Fatos da Vida de Jesus: Prisão e Morte 13
A casa de Deus é o Universo e a promessa de Jesus dava-lhes fé, pois, se não tinham lugar seguro
aos seus ideais na Terra, o Mestre garantia-lhes o seu coração meigo e manso pelos caminhos estreitos do
serviço.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. III, item 7, Kardec faz sua excelente comparação das
diversas moradas e para lá remetemos os leitores.
A generalidade da medida cósmica é a Evolução, que se desdobra relativamente à melhoria inte-
lectual, psíquica e moral do espírito.
Continuando, (14:6) afirma que é o “Caminho, a Verdade e a Vida”: é o Caminho porque exemplifi-
ca o amor através da caridade, o único acesso ao Pai; é a Verdade, sublime e reveladora, porque destrói
preconceitos e dogmas (verdades estagnadas) comprovando a fé na razão e no conhecimento das leis na-
turais que regem o exercício da vida, é a luz que esclarece; é a Vida, pois, somente por ele, nos seus ensi-
namentos, no seu amor, o Espírito é vivificado, isto é, imortalizado, sendo que Deus enviou Seu Filho
Amado ao mundo para que ele seja salvo por ele (Jo., 3:16), porque Jesus está no Pai como o Pai está
nele.
E o Mestre Reafirma sua Ida Para o Pai
a) Pela tristeza profunda de seus discípulos amados, o Mestre diz que se o amarem e observa-
rem seus mandamentos, ele rogará ao Pai que lhes mande um novo Paracleto (em grego igual a De-
fensor, Mentor), para que o Espírito de Verdade (revelador dos princípios fundamentais da verdadeira
religião) possa permanecer no mundo, o que não era possível naquele tempo, embora os discípulos o
conhecessem.
E salienta: “Quem observa meus mandamentos, me ama, quem me ama, será amado por
Pai; eu o amarei e a ele me manifestarei.”
b) “Minha paz vos dou, não como o mundo a dá”(Jo., 14:27)
Essa saudação, usual dos judeus, como a promessa de felicidade perfeita e verdadeira intro-
duzia a calma interior, a serenidade da confiança em Deus que não pode se comparar com a paz apa-
rente, inconstante e superficial do mundo.
A paz de espírito é calcada em trabalho, boa vontade e perseverança no estudo e nas boas
obras. Em Vinha de Luz, nº 105, Emmanuel nos orienta sobre a paz ilusória.
A verdadeira paz, como Jesus ofereceu aos discípulos de todos os tempos, é a flor perene
cultivada nos campos da consciência e do coração (de sol a sol) com a palavra da Boa Nova.
c) “Eu sou a verdadeira vida. (Jo., 15:1)
Nesta imagem de metáfora, Jesus explica que o Pai é o “agricultor” desta videira, da que é
podado todo ramo que está infrutífero (pois todo fruto é resultado final de um trabalho vivo) para que
ela se fortifique e dê mais frutos.
O ramo que já está “podado”, isto é, preparado pela palavra de Jesus, permanece nele
“como ele em nós”, brotando para a nova vida.
O ramo que não fica na árvore, seca e é lançado fora (15:4)
Em mais um momento solene, o mestre diz aos seus discípulos que é Amigo Divino (15:15)
“Não mais vos chamo servos, porque o servo não sabe o que o amo faz; mas vos chamo de
amigos, porque tudo que ouvi do pai, vos dei a conhecer”.
A PROMESSA DO CONSOLADOR
O Mestre esclarece aos discípulos que eles não são deste mundo, mas estão neste mundo; por isso devem
saber parar acima das circunstâncias terrenas.
Confirmando a lição do lava-pés, recorda que o servo não é mais do que o Senhor é, assim como perseguiram
a ele, Jesus, perseguirão aos seus discípulos, deste modo prevenido-os sobre as provações que os esperava, a fim
de que não vacilassem na fé e que nesses momentos, o Espirito de Verdade lhes daria Testemunhos do Senhor.
A vinda do Consolador (cap. 6:5). Naquele momento Jesus pressente o lamento daqueles corações humildes e
diz-lhes que é até de seu interesse que ele parta: “Se eu não for, o consolador não virá”(Jo., 16:7). Esse Consolador
restabelecerá a responsabilidade real do mundo no tocante aos erros cometidos através do orgulho, da vaidade e da
incredulidade, a respeito da justiça à luz da fé e da razão, dos direitos de Jesus como Filho Amado de Deus, provan-
do a sua origem e o seu ser celeste a respeito do julgamento onde o Consolador revelará o sentido da morte de
Jesus e anunciará a nova ordem que se inicia na Ressurreição.
ORAÇÃO DE JESUS POR SEUS DISCÍPULOS
Numa prece de oblação, Jesus se oferece a Deus e roga que o Pai o glorifique junto dele, com a mesma glória
que ele tinha antes que o mundo existisse. (Jo., 17:5).
Curso de Aprendizes do Evengelho14
Transforma sua oração num pedido de intercessão por seus discípulos, rogando ao Pai que não os abando-
nasse no mundo e para que todos os seus discípulos “sejam um assim como Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti” (Jo.,
17:21).
Jesus sabia da necessidade da continuidade da vida na Terra para o aprendizado e o serviço; apenas roga
que Deus os preserve do mal porque, assim como o Pai enviou Seu Filho ao mundo, ele, o filho enviou seus discí-
pulos, a fim de que “eles sejam um em nós”(Jo., 17:21)
No apogeu do amor fraterno universal, Jesus invoca ao Pai, Todo Poderoso, que enviou seu Filho e o chama
para si, fazendo com que onde o Filho estiver, esteja seus discípulos que o próprio Pai lhe deu, para que contem-
plem a glória de Jesus, seu Filho amado, a quem Ele ama mesmo ANTES da criação do mundo (Jo., 17:24)
E encerra, no altar do seu sacrifício espiritual:
“Pai, o mundo não te conheceu,
mas eu te conheci,
e os que me enviastes também conheceram-te
... a fim de que o amor com que me amastes esteja neles da mesma forma como estáem mim”.
É a solicitação mais solene do meigo Mestre, para que haja união fraterna do Homem, do Filho do Homem e
do Pai que está nos Céus.
PAIXÃO E CRUCIFICAÇÃO DE JESUS (JO., 18 E 19): (MT., 26 E 27) E (LC., 22 E 23)
a) Jesus em Getsêmani
Terminada a ceia, cantaram o hino que tradicionalmente encerra a ceia pascal (Mt., 26:30) e,
como de costume, foram para além do vale do Cedron, onde havia um horto chamado Getsêmani, nas
fraldas do Monte das Oliveiras.
Estavam muito tristes.
Jesus aconselhou-os a “orar para que não entrassem em tentação”, pois o momento cruciante se
aproximava e era imperioso estarem atentos e conscientes, mantendo bons pensamentos e sentimentos.
Assim também, os Aprendizes do Evangelho, os espíritas em geral devem orar e vigiar, pois é no
“sono da lama que se amostram as mais perigosas tentações, através de pesadelo ou fantasias”.
(Emmanuel - C.V.V. nº 87)
A oração é sentinela avançada de nossa alma. Os apóstolos tinham a excelência espiritual, mas
nem por isso alcançavam, ainda, a compreensão divina.
Retirando-se para um lado, Jesus também orou fervorosamente ao Senhor da Vida (Lc., 22:44).
b) a Prisão de Jesus:
Ora, Judas também conhecia o local e levou os soldados romanos e os guardas dos sacerdotes,
pela noite, até o horto dando-lhe voz de prisão.
Levaram Jesus perante Anás e Caifás (o sogro e o sumo sacerdote) na casa deles, pela madru-
gada, o que era ilegal, interrogando-o sobre sua doutrina e seus discípulos.
O Mestre respondeu que nada fazia às escuras, pois ele podia ser encontrado à qualquer hora, no
Templo.
Foi por esta ocasião que Pedro negou a Jesus por três vezes, como está descrito no Evangelho.
De Caifás, levaram Jesus diante de Pilatos (era já madrugada alta), no Pretório (tribunal romano).
A hipocrisia dos judeus não enganou a Pilatos que não se interessou pelo caso, mas foi coagido posterior-
mente a fazer o “julgamento”, o que fez após muita hesitação.
Segundo João (19:12), Pilatos não queria condenar Jesus, mas os judeus, com artimanha, o for-
çaram.
Era na época da preparação da Páscoa dos judeus.
c) A crucificação. Jesus e Sua Mãe:
Tomaram a Jesus e o levaram a um lugar chamado Gólgota (caveira), perto da cidade, onde o
crucificaram.
Perto da cruz onde foi crucificado, com os corações dilacerados pela dor, permaneciam de pé Ma-
ria Madalena, Maria de Nazaré (sua mãe) e Maria de Cleofas, mulher de Alfeu.
Vendo o seu discípulo João nas proximidades de sua mãe, o Mestre disse-lhe: “Mulher, eis aí o
teu filho”, e posteriormente dirigindo-se a João, disse-lhe “Eis aí a tua mãe”.
Aqui, o sentido do vocábulo “Mulher” parece transcender a simples piedade filial, mas significa a su-
blimação da maternidade pois, Maria, passaria a ser considerada por toda a Humanidade como sendo a
mãe santíssima, que serviu de instrumento para o advento, na Terra, do maior dos Missionários, o Ungido
de Deus.
Capítulo 6
FATOS DA VIDA DE JESUS: QUESTÕES POLÊMICAS
O ENDEUSAMENTO DE JESUS
“Meu Pai, é chegada a hora: glorificai o vosso Filho, para que o vosso Filho vos glorifique.” (João,
17:1)
No século IV se produziram duas correntes entre aqueles que acreditavam ser Jesus o Messias anunciado
pelos profetas: uma corrente judeu-cristã, que estacou aquém da divinização do Mestre, e uma corrente judeu-grega,
que foi até à divinização completa do Cristo.
Quando, em 313, o Imperador Constanino, através do Édito de Milão, liberou todos os cultos, fez com que os
debates sobre a divindade de Jesus, até então circunscritos aos bastidores, fossem levados à praça pública. O povo
imiscuiu-se nessas contendas; o sangue correu em praças públicas, e Consta tino, o único responsável pela manu-
tenção da ordem em todo o Império, após sua vitória sobre Licínius, em 323, teve, em nome da paz, de intervir nes-
ses debates, mandando o bispo Osius tentar um acordo.
Não conseguindo Osius convencer Ário a ceder, fez com que o Imperador convocasse uma grande assembléia
de bispos, que se denominou concílio de Nicéia, onde os arianos foram proscritos, por afirmarem que o Filho é de
outra hipóstase ou substância que o Pai, passando então a prevalecer a tese sustentada por Atanásio e Alexandre,
que contou também com a simpatia de Constantino: que Jesus era da mesma substância de Deus, advindo daí a
chamada trindade.
O Espiritismo repele a teoria da existência de um Deus trino: Pai, Filho e Espírito Santo, proclamado, como
decorrência que Jesus Cristo, como criatura de Deus, teve um começo como todos os demais Espíritos.
Allan Kardec, em Obras Póstumas, discorre sobre esse tema do modo mais sensato e extenso possível, de-
monstrando que nem os chamados milagres, nem o testemunho dos profetas e dos apóstolos, levam ao endeusa-
mento de Jesus Cristo, mencionado ainda uma série interminável de trechos dos Evangelhos nos quais o Cristo dei-
xa bem clara a sua submissão a Deus.
A Doutrina Espírita, também veio desvendar uma série de novas leis, provando que os milagres, sobre os
quais se alicerçam os idealizadores da Trindade, afim de atribuírem ao Mestre uma natureza divina, estão enquadra-
dos nas leis da Natureza, nada apresentando de sobrenatural ou atentatório ao equilíbrio das leis eternas e imutáveis
que regem os destinos da Humanidade. Penetrando ainda mais nesse terreno, proclama que os próprios Espíritos
das trevas podem produzir fenômenos que, no passado, se impuseram aos olhos dos homens como autênticos mila-
gres.
O testemunho dos Apóstolos sobre a divindade de Jesus, longe de corroborar a teoria da Trindade, atesta de
modo incisivo, que Jesus é o Filho do homem, investido de uma autoridade emanada do Pai, porém em situação de
subalternidade e submissão em relação a Ele.
O Apóstolo Paulo, por sua vez, como que antevendo as controvérsias que se formariam sobre essa questão,
asseverou: Se somos filhos, somos herdeiros de Deus e co-herdeiros de Jesus Cristo. (Romanos 8:17).
O próprio Cristo é quem mais se insurge contra esse endeusamento, o que se pode observar através das nar-
rações de todos os quatro evangelistas, destacando-se dente elas as seguintes:
Quem me recebe, recebe Aquele que me enviou, porque o que for menor entre nós, esse é o mai-
or. (Lucas, 9:48)
Se Deus é nosso Pai, vós me deveis amar, porque é de Deus que eu procedo, e é de sua parte que
eu vim aqui, porque eu não vim de modo próprio, mas foi Ele que me enviou. (João, 8:42)
E não falo senão do que vi em casa de meu Pai e vós não fazeis senão o que tendes visto na casa
do vosso. (João, 8:38)
E apareceu uma nuvem que os envolveu, e dessa nuvem saiu uma voz que fez ressoar estas pala-
vras: Este é o meu Filho bem amado. Prestai-lhe atenção. (Transfiguração no Tabor, Marcos, 9:6)
Porque se alguém se envergonhar de mim e de minhas palavras, também o Filho do homem dele
corará quando vier em sua glória e na de seu Pai, com os santos anjos. (Lucas, 9:26)
Mas, quem se há de assentar à minha esquerda ou à minha direita, não sou eu quem determina,
mas sim, meu Pai, que já o tem designado. (Mateus, 20:23)
E eis que, aproximando-se dele um mancebo, disse-lhe: Bom Mestre, que boas obras devo fazer
para ganhar a vida eterna? Jesus respondeu-lhe: porque me chamais de bom? Só Deus é bom. (Mateus,
19:16-17)
A Doutrina que vos ensino não é minha, mas sim daquele que me enviou. (João, 7:16)
Curso de Aprendizes do Evengelho16
Então Jesus em alto brado, exclamou: Pai, em vossas mãos deixo o meu Espírito. (Lucas, 23:46)
Mas digo isto para este povo que me rodeia, a fim de que acredite que sois vós que me enviastes.
(João, 11:41-42)
O Evangelho segundo João, sobre o qual melhor se fundamentam os partidários da Trindade, encerra uma
forma mística, da qual se serviram os nossos antepassados da primitiva igreja para considerar Jesus como parte tri-
na de Deus.
João abre o Evangelho, dizendo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus, e todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez”.
O Espiritismo nos ensina que Jesus Cristo é o dirigente do nosso mundo e foi ele quem presidiu a criação de
todas as coisas nele existentes, o que é corroborado pelo próprio Mestre quando asseverou: E agora glorifica-me tu ó
Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse. (João, 17:15)
Quando o Pai achou oportuno que uma nova mensagem fosse revelada à Terra, encarregou o seu Filho de
concretizar essa revelação e, então, o Verbo se fez carne, na pessoa de Jesus Cristo, e ele habitou entre nós.
Uma análise mais profunda dos Evangelhos, e uma meditação mais prolongada, propiciará a qualquer um o
conhecimento de que Deus é o Pai, Jesus o seu Filho, nosso irmão maior.
A “TENTAÇÃO” DE JESUS
Imediatamente o Espírito impeliu para o deserto. Ali ficou quarenta dias tentado por Satanás; esta-
va com as feras, e os anjos o serviam. (Marcos, 1:12)
O Evangelista Marcos, sem ter sido discípulo direto de Jesus Cristo, escreveu em seu Evangelho, pelos infor-
mes que conseguiu colher, que o Mestre foi tentado, durante quarenta dias no deserto. Outros Evangelistas foram
mais além e afirmaram que Satanás levou o Senhor ao pináculo do templo e a um monte e ali lhe fez uma série de
propostas, dentre elas uma bastante arrojada: O poder sobre todos os reinos da Terra em troca da sua submissão.
Qual o Espírito das trevas, mesmo o mais arrojado, teria a audácia de enfrentar Jesus Cristo, face a face, para
lhe fazer propostas de ordem profundamente mundana? Os Evangelhos narram que os Espíritos trevosos fugiam
espavoridos à simples aproximação do Mestre, haja vista, para ilustração, o caso do célebre possesso geraseno
(Marcos, 5:6-7)
O Espiritismo define bem o vocábulo Satanás termo genérico que abrange o conjunto dos Espíritos que per-
sistem em viver nas trevas, tendo a prática do mal como apanágio. Espíritos esses que a misericórdia do Criador
fará com que retornem, um dia, a lei da evolução que Ele os conduzirá. O estado de Satanás não é portanto um es-
tado permanente. Trata-se de um estágio temporário escolhido pelo próprio Espírito que se compraz na prática do
mal, estágio esse que terá um fim quando o Espírito, cansado de viver na recalcitrância e na prática de atos maus,
se decidir a retomar a senda evolutiva.
Ora, assim como qualquer treva é afugentada pelo raiar do sol, qualquer Espírito trevoso se afasta quando
uma entidade sublimada, principalmente da ordem hierárquica a que pertence Jesus Cristo, dele se aproxima.
Conseqüentemente, jamais poderemos aceitar em seu sentido literal as narrativas evangélicas sobre a tenta-
ção de Jesus, cumprindo tão somente extrair delas o sentido simbólico que encerram, como constante advertência
aos homens sobre a necessidade de oração e vigilância.
Quando o Mestre desenvolveu entre nós o seu sublime Messiato, fortes barreiras foram erguidas contra as
inovações que vinha trazer. As potestades das trevas se mobilizaram, através dos seus agentes encarnados e de-
sencarnados, no sentido de embaraçar a transcendental missão que representava um dos mais autênticos presentes
do Céu à Terra.
Enquanto alguns Espíritos menos evoluídos procuravam solapar a fé e a disposição de trabalho dos apóstolos,
ora criando rivalidades entre eles, ora tentando fazer desfalecer a fé que os animava, outros instalavam o seu quar-
tel-general no Sinédrio, insuflando o ódio e o falso zelo religioso na mente dos escribas, dos fariseus, dos saduceus e
de outros mentores religiosos. Esse estado de coisas levou os condutores do povo a exigir, na frente do Pretório, a
condenação de Jesus Cristo e a libertação de Barrabás.
A crença na tentação de Jesus ainda se torna mais problemática quando as narrativas afirmam que ele se en-
contrava no deserto, e as sugestões do lendário Satanás se fizeram em Jerusalém no pináculo Templo, ou em cima
de um monte, induzindo-os a crer que houve um autêntico fenômeno de bilocação ou de levitação, o que torna a nar-
ração ainda mais inverossímil.
A tentação de Jesus, narrada pelos Evangelistas tem o objetivo primário de nos ensinar a importância da ora-
ção e da vigilância para não cairmos em tentação, pois, mesmo os Espíritos que descem à Terra para o fim específi-
co de aqui desempenharem missões relevantes, podem fracassar se não houver o devido discernimento em face
das sugestões ou obstáculos que são entrepostos pelos Espíritos das trevas.
Dada importância de que se revestiu a missão desempenhada no mundo pelo Cristo, forçoso é se convir que
todos os Espíritos, que o assessoraram na tarefa, não fizeram por acaso. Obviamente, legiões de Espíritos de ordem
elevada encarnaram na Terra para serem contemporâneos de Jesus e cujas tarefas foram objetos de um plano ardi-
damente preparado. Por isso afirma João, no capitulo 17, versículos 14 a 18 do seu Evangelho: Eu lhes tenho dado a
tua palavra, e o mundo os aborreceu, porque eles não são do mundo. Não rogo que tires do mundo, mas que guar-
des do maligno. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a
verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.
Fatos da Vida de Jesus: Questões Polêmicas
No entanto, muitos desses Espíritos teriam fracassado não fora a amorosa interferência de Jesus:
Maria Madalena teria continuado no caminho do erro;
Paulo de Tarso teria continuado a ser o antítese do Cristão;
Pedro teria sido vítima dos Espíritos do mal e sua fé teria desfalecido.
O ensinamento propiciado pela tentação tem, pois, por objetivo primário, demostrar que o simples fato de es-
tar encarnado na Terra, mesmo em se tratando de Espíritos, de ordem elevada, cria a necessidade da oração e da
vigilância, em face dos atrativos que a vida humana oferece àqueles que se deixam seduzir pelas coisas de César.
POR QUE ME DESAMPARASTE?
“E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lama sabachtani; isto é, Deus
meu, por que me desamparaste? “ (Mateus, 27:46)
Os estudiosos dos Evangelhos sofrem um impacto quando se deparam com a afirmativa de Mateus e Marcos,
em torno das palavras pronunciadas por Jesus Cristo na hora suprema: Deus meu, Deus meu, por que me desampa-
raste? pois elas dão a entender que o Mestre ficou angustiado e aterrorizado quando do desfecho da sua missão.
Os outros dois evangelistas, entretanto, afirmam que as palavras do Mestre não foram estas, mas sim: Pai em
tuas mãos entrego o meu Espírito, segundo Lucas (23:46), e Tudo está consumado, segundo João (19:30).
Alguns exegetas, objetivando minorar o efeito que as palavras Deus meu, Deus meu, por que me desampa-
raste? tiveram aos olhos do povo, sustentam que elas foram Deus meu, como glorificaste? Outros ainda, ousada-
mente, proclamaram que a interrogação Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? não foi pronunciada por
Jesus, mas sim por Dimas, um dos ladrões crucificados ao seu lado e a quem ele havia formulado uma promessa de
com ele encontrar-se no mundo espiritual. Vendo-se desamparado com a desencarnação de Jesus, possuído de ex-
tremo desespero, teria pronunciado tais palavras, que devido ao tumulto reinante nas proximidades da cruz, teriam
sido atribuídas ao Mestre.
Existem várias profecias sobre a vida e obra de Jesus Cristo. Em torno dessa passagem também existe uma:
o Salmo 22:1 de Davi é explícito: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas as palavras
do meu bramido, e não me auxilias? Esse vaticínio, bem como os de outros profetas, parecem validar aquelas discu-
tidas palavras atribuídas ao Messias.
Na descrição do evangelista Mateus existe ainda outro pormenor: as palavras Deus meu, Deus meu, por que
me desamparaste? são uma tradução de Eli, Eli, lama sabachtami. Os que testemunharam a ocorrência aparente-
mente não as entenderam com essa significância, pois logo em seguida disseram: Ele chama por Elias (Mateus,
27:47), (Marcos, 15:35) e Vejamos se Elias vem livrá-lo. (Mateus, 27:49). Explicam alguns que o fato de estarem ali
alguns gregos e romanos, fez com que as palavras proferidas pelo Mestre não fossem entendidas em seu verdadeiro
sentido, levando-os a dizerem: Ele chama por Elias. Essa explicação, todavia, não tem consistência, pois, nessa al-
tura, gregos e romanos que ali estivessem pouco ou nada sabiam em torno de Elias ou de Deus.
Teria realmente havido confusão entre os nomes de Eloim (denominativo de Deus entre os Judeus), e Elias
(profeta)?
Os evangelistas Lucas e Marcos não foram discípulos de Jesus, conseqüentemente não assistiram ao sacrifí-
cio do Calvário. As narrativas dos evangelistas não acusam a presença de Mateus no local. O único que testemu-
nhou o fato foi João, que estava nas proximidades da cruz, e segundo esse apóstolo as palavras do Senhor foram:
Está consumado.
Os evangelistas Marcos e Mateus, ao escreverem os seus evangelhos, trinta ou quarenta anos após a crucifi-
cação do Mestre, talvez tenham-se apegado aos vaticínios contidos no Salmo 22:1 de Davi, ao tentarem descrever
os últimos momentos de Jesus entre os homens.
Alguns exegetas do Evangelho aceitam as palavras: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? como
tendo sido proferidas por Jesus. Afirmam que Joana D’ Arc, também, no momento cruciante de sua vida, quando foi
atada à fogueira, cessou de ouvir vozes dos seus Espíritos benfeitores, e julgou-se desamparada.
Afirmam então, ainda que de fato não pudesse Jesus ser desamparado por Deus, sentia em si todo o amargor
que a carência da divina consolação produz na alma sensível - e ele se constituíra em amparo para todos os pecado-
res do mundo.
HOMÔNIMOS NOS EVANGELHOS
“Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração.” (Lucas, 2:19)
A existência de nomes semelhantes tem dado origem a algumas confusões entre pessoas que tomam conhe-
cimento das narrativas evangélicas, sem uma análise mais profunda dos seus textos. Existem nos Evangelhos três
personagens com o nome de João: um deles foi o filho de Isabel e Zacarias e passou à posteridade com o nome de
João Batista, pelo fato de praticar o batismo da água às margens do rio Jordão; o outro, filho de Zebedeu, passou a
ser conhecido por João Evangelista, em virtude de ter sido o autor do chamado Quarto Evangelho.
João Marcos, cuja mãe chama-se Maria, foi discípulo de Pedro e posteriormente de Paulo e Barnabé. Foi au-
tor do Segundo Evangelho.
O primeiro, como reencarnação do Espírito do profeta Elias, foi precursor do advento de Jesus Cristo; o se-
gundo foi um dos seus apóstolos. Ambos desempenharam tarefas distintas, pois, enquanto João Batista veio prepa-
Curso de Aprendizes do Evengelho18
rar a Humanidade para a vinda do Messias, cumprindo assim os vaticínios de vários profetas. João Evangelista as-
sessorou dedicadamente o Mestre, no desempenho de seu sublime Messiado.
João Batista foi decapitado por sugestão de Herodías e Salomé, e por ordem de Herodes; João Evangelista foi
desterrado na Ilha de Patmos, na Grécia, e ali desencarnou de velhice, após ter escrito um Evangelho, algumas
Epístolas e ter recebido, via mediúnica, o apocalipse.
Nos Evangelhos constam narrativas sobre cinco Marias. Enumeremo-las: Maria de Nazaré, Maria de Betânia,
Maria Madalena, Maria, mãe de Marcos e Maria de Cleofas. Algumas confusões tem ocorrido sobre esses persona-
gens, principalmente sobre Maria de Betânia e Maria de Magdala.
Maria Madalena ou Maria de Magdala, segundo a citação evangélica, converteu-se à Doutrina do Cristo após
ter ele afastado dela uma legião composta de sete Espíritos obsessores, que a mantinham terrivelmente possessa.
Ela acompanhou o Mestre durante praticamente todo o seu Messiado, foi a primeira pessoa a quem o seu Espírito
apareceu, após o drama da crucificação, e posteriormente ainda conviveu com os apóstolos. A sua reforma interior
foi altamente apreciada por Jesus, pois foi exemplo vivo de pessoa que se enquadra na sentença evangélica: Quem
tomar do arado não deve mais olhar para trás.
Maria de Betânia era irmã de Marta e de Lázaro. Sobre ela existem algumas narrativas: uma delas que, ao ser
visitada a casa de Lázaro, ela se assentou aos pés do Mestre, a fim de ouvir as suas maravilhosas palavras, ao con-
trário, de Marta que passou a se dedicar exclusivamente aos afazeres domésticos. Diante da observação de Marta,
de que Maria deveria ajudá-la, Jesus sentenciou: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas. Mas
uma só necessária e Maria escolheu a boa parte, a qual jamais lhe seria tirada. Quando o Senhor visitou a casa de
Simão, o Leproso, ela foi até lá, portando um vaso de ungüento de alto valor. ali chegando, quebrou-o e derramou o
seu conteúdo sobre a cabeça do Mestre. Judas Iscariotes e outros apóstolos lamentaram o desperdício, dizendo que
ela deveria ter vendido o ungüento e distribuído o dinheiro entre os pobres. Diante da observação de Judas, o Meigo
Nazareno, afirmou: Deixai-a, para que molestais? Ela fez-me uma boa obra. Porque sempre tendes convosco os po-
bres, e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes; mas a mim nem sempre me tereis. Ela fez o que podia; antecipou-
se a ungir o meu corpo para a sepultura. Em verdade vos digo que, em todas as partes do mundo onde este Evan-
gelho for pregado, também o que ela fez será contado para memória sua.
Maria de Nazaré foi a mãe carnal de Jesus. Espírito Missionário que desceu à Terra para que nele se cumpris-
se a profecia de Simeão (Lucas, 2:25-35): E uma espada trespassará também a tua própria alma; para que se mani-
festem os pensamentos de muitos corações. Ela nasceu em Nazaré, na Galiléia.
Maria de Cleofas era prima-co-irmã de Maria de Nazaré e mãe dos apóstolos Tiago Menor, Simão Cananita e
Judas Tadeu, por isso eles eram chamados Irmãos do Senhor.
Maria, mãe de João Marcos, era quem abrigava os discípulos e apóstolos de Jesus em sua casa, nos dias das
intensas perseguições.
Os Evangelhos e o livro dos Atos dos Apóstolos nos dão conta da existência de dois Filipes. O primeiro foi
apóstolo de Jesus Cristo, era de Betsaida, a mesma cidade de onde provieram os apóstolos Pedro e André. Foi
quem apresentou Natanael ao Senhor, fazendo com que ele passasse também a segui-lo, transmudando-se num dos
apóstolos. O segundo foi um dos sete diáconos, eleitos para zelarem pelo andamento da Casa do Caminho. Natural
de Hierápolis da Frígia, era pai de quatro filhas donzelas, as quais eram portadoras de mediunidade e se comunica-
vam freqüentemente com os Espíritos (Atos:, 21:9). Esse Filipe foi responsável pela conversão do Eunuco da Etió-
pia, fato narrado em (Atos, 8:26-40). Um passou a ser conhecido como Filipe, o apóstolo; o outro por Filipe, o Evan-
gelista, uma vez que, após a lapidação de Estevão e a dispersão dos cristãos de Jerusalém, passou a ser ardente
divulgador dos Evangelhos de Jesus.
Os Evangelhos nos dão conta da existência de dois Tiagos. Para diferencia-los um foi designado Tiago Maior
e outro Tiago Menor. Ambos foram apóstolos de Jesus Cristo. Tiago Maior era filho de Zebedeu e irmão de João
Evangelista. Foi um dos mais destacados discípulos, chegando mesmo a exercer certa hegemonia sobre os demais
apóstolos, após a crucificação do Mestre. Foi executado à espada, por ordem de Herodes. Tiago Menor ou Tiago, o
Justo, era filho de Alfeu e Maria de Cleofas, e irmão dos apóstolos Judas Tadeus e Simão Cananita. Era primo-irmão
de Jesus, dai o qualificativo de Irmão do Senhor. Aparentemente foi apedrejado por ordem do Sumo Sacerdote Ana-
nias, o Jovem, no ano 62 ou 63. Foi autor da Epístola Universal de São Tiago.
Capítulo 7
JOÃO BATISTA, O PRECURSOR
NASCIMENTO DE JOÃO BATISTA (MT., 3:1); (LC., 1:5)
Na importância transcendental do trabalho de Jesus na Terra, encontram-se ascendentes na assistência do
Plano Superior, desde os Profetas maiores e menores, dos quais falam os teólogos, até o grande precursor, a voz da
verdade que clamou no deserto árido dos espíritos humanos conturbados.
Hoje, ainda, o Consolador, porta voz do Senhor, testemunha fiel do Precursor, caminha pelos desertos da
vida, sem descanso, oferecendo trabalho fraterno e evolução, aparando e fortalecendo os ensinamentos do Mestre.
João Batista era filho de Zacarias, um sacerdote da Judéia, e de Isabel (Elizabeth), parente próxima de Maria,
mãe de Jesus.
“E eram ambos justos perante Deus.”
Segundo o testemunho o anjo Gabriel anunciou a Zacarias o nascimento de João “com o fim de preparar ao
Senhor um povo bem disposto” (Lc., 1:11 a 19). Isabel era estéril e de idade avançada e, por isso, Zacarias duvidou
do aviso do Anjo e, por isso ficou mudo por uns tempos.
Este anúncio foi solenemente feito na Casa do Senhor, em dia de trabalho sacerdotal. (I, Crônicas, 24)
Quando completou-se o tempo (Lc., 1:57) Isabel deu à luz um filho. Zacarias, cheio de júbilo, disse que se
chamaria João e, imediatamente recomeçou a falar, louvando a Deus (O Cântico de Zacarias - Lc., 1:67-80).
“E a mão do Senhor estava com João.”
João cresceu cheio de virtudes e, ascético, retirou-se para o deserto. Embora o Evangelho não comente, afir-
ma-se que João Batista foi iniciado pelos essênios e se preparou no deserto (intérpretes judeus e tradição espiritual)
(Bíblia de Jerusalém e os documentos de Qumrã).
Pelo testemunho de Jesus, João Batista foi Elias, profeta maior , em vida anterior e prenunciado por Isaias,
em Is., 40:3 a 8.
A PREGAÇÃO (LC., 3:7 A 17)
Às margens do Rio Jordão, em Betânia, João Batista prega que “toda carne é como erva (vida efêmera) e toda
a sua beleza, como as flores do campo (fenecem e caem) mas a palavra de Deus subsiste eternamente”.
João alertava para a vida próxima do Messias e insistia no preparo da Penitência, através do batismo e do ar-
rependimento. (Mt., 3:11)
“Preparai o caminho do Senhor; endireitai as suas veredas...” Para o refazimento espiritual mister se faz endi-
reitar os caminhos morais, aprimorando os impulsos mentais com humildade e paciência.
Ao ver muitos saduceus e fariseus procurá-lo, clamava: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futu-
ra (reação da vida)? Produzi frutos dignos de arrependimento, advertindo que o arrependimento para ser sincero e
válido deve ser profundo e profícuo, sofrido e renovado. A fé sem boas obras é morta”.
Anunciava a Jesus, dizendo “Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas alpercatas não
sou digno de levar; ele nos batizará com o Espírito e com o fogo”. (Mt., 3:11; Lc., 3:16)
Seu batismo tinha o significado de um compromisso de mudança interior de vida (Reforma íntima).
Em sua pregação resumia, como Jesus mais tarde, a obra fraterna: “Quem tem duas túnicas, reparta com o
que não tem e quem tiver alimentos, faça o mesmo”(Lc., 3:11)
“A ninguém tratai mal, nem defraudeis”, significando a máxima de Jesus “fazei ao próximo o que quereis que
vos façam”.
Tudo o que se faz é supervalorizado, em virtude dos interesses terrenos. O orgulho, a vaidade e o egoísmo
adornam a cabeça dos vendilhões da paz. A insatisfação é o alimento dos desajustados de si mesmos.
O homem firme sabe o que deve fazer na busca da sua evolução material e espiritual, aproveitando o esforço
nas oportunidades e iniciativas, com dignidade e respeito pelos semelhantes.
O BATISMO DE JESUS E O TESTEMUNHO DE JOÃO BATISTA (LC., 3:21), (MT., 3:13), (MC., 1:9) E
(JO., 1:15)
No tempo certo, Jesus desceu da Galiléia ao rio Jordão, onde estava João Batista. Este ao vê-lo, disse: “eis o
Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”(Jo., 1:29), e não queria batizá-lo por não se achar disso. Jesus po-
rém respondeu: “Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir a justiça”. (as profecias).
Jesus se submete ao batismo como um acontecimento que objetivava identificar a sua personalidade, assu-
mindo, então o seu ministério messiânico em cumprimento da justiça perfeita de Deus: justiça com misericórdia.
(Mt., 5:17)
“É necessário que ele cresça e eu diminua.”(Jo., 3:30)
Curso de Aprendizes do Evengelho20
Fazendo-se pequeno e humilde o homem é atraído pela grandeza do coração manso e meigo de Jesus.
Quanto mais elevado o homem construir o santuário do Pai em seu coração, mais será atraído e absorvido por fo-
çãos espiritualizantes.
Quanto mais a mensagem de Jesus crescer no coração do homem, mais ele terá diminuído os defeitos que
dormitam em sua alma, crescendo assim a qualidade dos sentimentos e da inteligência como Homem Novo ligado
ao Cristo.
PRISÃO E EXECUÇÃO. (MT., 14: ), (MC., 6:14) E (LC., 3:19)
A missão de João termina com seu encarceramento, por ordem de Herodes, o tetrarca, por causa de sua mu-
lher, Herodíades, antes mulher de seu irmão Filipe, que havia sido assassinado.
Herodíades usa de um estratagema e instrui sua filha para que, ao dançar para Herodes no dia de seu aniver-
sário, lhe pedisse a cabeça de João Batista. Herodes não pode furtar-se porque há havia prometido o que ela pedis-
se e mandou degolar João no cárcere. (Mt., 14:10)
João Batista foi classificado por Jesus como: “o maior dentre todos os nascidos de mulher” e “maior que pro-
feta”. (Mt.m 11:9-11)
Capítulo 8
OS DOZE APÓSTOLOS
OS PRIMEIROS DISCÍPULOS (MT., 4:12), (JO., 1:35), (MC., 3:13) E (LC., 6:12)
Foi por ocasião da volta de uma visita a Jerusalém, pela Páscoa. que Jesus começou a confiar a doze amigos
para que o seguissem na Grande Missão Fraterna, numa evocação de novos guias “do povo eleito de Israel”(As 12
tribos de Israel). Esse número era importante para eles e foi restabelecido depois da deserção de Judas (Atos, 1:26)
na escolha de Matias, através de Efodi, antigo instrumento de consulta a Javé, hoje interpretado como de natureza
mediúnica. (Ex., 33:7)
Matias também conhecera Jesus e o acompanhava sempre, inclusive, por ocasião do seu ressurgimento do
túmulo.
Segundo João Evangelista (Jo., 1:35), no dia seguinte ao batismo de Jesus, que aconteceu perto de Betânia,
além do Jordão, nas cercanias de Jericó, João Batista estava com dois discípulos seus, quando ao ver passar o
meigo Rabi exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus”.
Ao ouvir a frase, como um sinal, seguiram Jesus e ficaram com ele pelo resto do dia (eram 16 horas). Na ver-
dade o chamamento celeste é inerente ao espírito, é a força de atração do Amor do Criador à sua criatura.
Esses dois discípulos eram João e André, irmão de Simão Pedro. André chamou a Simão Pedro a quem Jesus
recebeu amorosamente e o apelidou de “Cefas” que quer dizer “pedra”(forte como a rocha), indicando a força da fu-
tura casa doutrinária construída sobre rocha, anunciando o futuro membro destacado do Colégio Apostólico.
Algum tempo depois, já na Galiléia, o Mestre chamou a Felipe, conhecido de Pedro, pois era seu conterrâneo,
da cidade de Betsaida, às margens do Lago Genesaré, também conhecido como Mar da Galiléia.
Felipe chamou Natanael, que era de Canaã, na Galiléia (Jo., 21:2), também conhecido como Bartolomeu nos
Evangelhos sinópticos, o qual Jesus “viu antes sob a figueira”. Este conhecimento presciente e telepático é uma das
características do Messias, que faz também nesses versículos a profecia sobre o seu ressurgimento do túmulo:
“Coisas maiores do que esta verás... daqui em diante vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo
sobre o Filho do Homem”. (Jo., 1:51)
Tiago, irmão de João, filhos de Zebedeu e Salomé, atendeu o chamado com alegria, pelo amor que já tinha a
Jesus, pois os dois eram galileus de Betsaida, pescadores generoso e sinceros, cognominados por Jesus de os Fi-
lhos do Trovão, por seu dinamismo amoroso, embora ainda muito jovens.
Os irmãos Tadeu e Tiago Menor logo se juntaram ao pequeno grupo, filhos de Alfeu e Cleofas, eram aparen-
tados com Maria, conhecendo e amando a Jesus desde pequenos.
Tomé, também da família de pescadores da região de Dalmanuta, tinha uma personalidade e firmeza de ca-
ráter. Simão, o Cananita, mais tarde apelidado de Zelote, era também humilde pescador e, talvez, o mais velho de
todos (Boa Nova, cap. 9).
Levi ou Mateus, todos já conhecem a sua vocação contada nos três Evangelhos sinópticos. Apenas o seu
Evangelho o chama de “publicano”, eticamente evitado por seus companheiros evangelistas. Reza a tradição espiri-
tual que Mateus era conhecido de Jesus desde pequeno, tendo sido seu companheiro nos estudos na Sinagoga.
Finalmente é escolhido Judas Iscariotes que se estabelecera comercialmente em Cafarnaum, onde vendia
peixes e quinquilharias.
Portanto, foram os seguintes os apóstolos de Jesus:
• Tiago Maior;
• Tiago Menor;
• João - também conhecido por João Evangelista;
• Pedro - também conhecido por Simão Pedro ou Cefas;
• Felipe;
• Mateus - também chamado de Levi, o Publicano;
• Judas Iscariotes - também conhecido por Judas de Kerioth;
• Simão Cananita - também conhecido por Simão, o Zelote;
• Tomé - também conhecido por Dídimo;
• Natanael - também conhecido por Bartolomeu;
• Judas Tadeu - também conhecido por Judas Lebeu
• André
Curso de Aprendizes do Evengelho22
A MISSÃO DOS DOZE APÓSTOLOS
No decurso de toda a História da Humanidade, vemos que os grandes missionários não trabalham sozinhos,
objetivando assim colimar a máxima fraternidade, através da cooperação mútua. Afirma Cairbar Schutel, em seu li-
vro “Espírito do Cristianismo”, que as grandes missões requerem sempre grandes Espíritos.
Jesus Cristo, além de ensinar, também propiciou exemplos salutares durante toda a sua vida. Para dar conti-
nuidade à sua missão, o Mestre preparou outros Espíritos, de sua inteira confiança, para que, através dos milênios
não se descuidassem de “endireitar os caminhos do Senhor”, como o fez João Batista. Deste modo o Redentor deu
uma demonstração viva do seu amor pela Humanidade que Deus colocou sob a sua tutela, prometendo ainda que,
em época propícia enviaria o Espírito Consolador, para dar testemunho da verdade e restabelecer as primícias dos
seus maravilhosos ensinamentos. (Jo., 16)
É indubitável que a sublime missão desempenhada por Jesus Cisto e pelo seus doze valorosos apóstolos não
abrangia meramente uma renovação intelectual de aspecto material, mas tinha um caráter mais transcendental, ou
seja, conduzir os homens no roteiro certo para colimar a reforma íntima. Ele não deu o peixe aos homens, mas ensi-
nou-os a pescar, do mesmo modo como ele veio “pescar” muitas almas que se achavam chafurdadas nas traves da
ignorância.
Jesus Cristo convocou os doze apóstolos, e, no Evangelho segundo Lucas, vemos que ele arrebanhou outros
setenta discípulos, dando a todos a autoridade sobre os Espíritos maus e o poder para colimar todos os tipos de cura,
pois o Mestre conhecia o que reinava em seus corações, sabendo de antemão que eles eram aptos para a tarefa.
Como ponto de partida, Jesus fez-lhes um discurso de advertência, demonstrando o caráter do seu coração
extremoso:
“Dirigi-vos às ovelhas desgarradas da casa de Israel”, pois o Mestre em sua sabedoria sabia que o tempo para
a conversão dos gentios também se avizinhava.
“Amai os alquebrantados da alma, despertai aqueles que dormitam no desinteresse, dai de graça o que de
graça recebestes”, pois o Reino dos Céus conquista-se com as boas obras. Os dons que Deus nos concede são ex-
pressão da sua excelsa vontade.
“Se forem bem recebidos nas cidades, saudai-as; se não, esquecei-as” (e não se envolvam em suas vibrações
impuras), pois a fé não pode ser imposta mas conquistada”. “Sacudir o pó das alpercatas” é não conservar mágoa.
“Sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as pombas.”
Jesus asseverou que os missionários seriam perseguidos mas que nunca estariam desamparados do Pai.
Não existe discípulo superior ao Mestre, basta que o discípulo procure tomar o Mestre como paradigma.
Não se preocupar com o reconhecimento alheio, com a estima do mundo, pois o reino de Deus não tem apa-
rências exteriores - é realidade insofismável e concreta. Que esperar do julgamento humano para nós quando o pró-
prio Jesus foi crucificado? O destaque terreno é fugaz ou então desaparece nos contornos históricos. Só a bondade
vive sempre na lembrança.
Fala abertamente e sem medo, pois não há nada encoberto que não venha a ser revelado; “dizei-o à luz do
dia”.
Não temer a morte do corpo, mas aquilo que corrompe a alma como os maus sentimentos e as iniquidades.
“Não vim trazer a paz mas a espada.”
Jesus não oferecia a paz da comodidade, mas o instrumento de aperfeiçoamento no conhecimento, na carida-
de e no burilamento do Espírito através dos esforços nobres. Ele oferece uma batalha sem sangue, mas com suor e
lágrimas, a batalha do aperfeiçoamento, pois nenhuma idéia nova se estabelece sem lutas. (ESE, cap. XXII, itens 12
e 16)
Jesus sabia que os seus ensinamentos não se expandiriam nem frutificariam pacificamente, por causa da du-
reza dos corações humanos. Desta forma, até hoje, irmãos empunham armas contra irmãos por não professarem as
mesmas idéias e sentimentos, esquecidos do legítimo ideal de amor ao próximo.
Finalmente, Jesus assevera que é preciso renuncia a si mesmo, com sublimidade, para segui-lo, isso com o
significado de colocar os elevados propósitos da vida maior acima dos mesquinhos e acanhados interesses munda-
nos.
E concluiu:
“Quem vos recebe, a mim recebe, e quem me recebe, recebe ao que me enviou.
Quem for caridoso é meu discípulo e jamais perderá o seu galardão.”
em súmula, Jesus recomendou o testemunho e a dignidade, a perseverança e a caridade, enfim, a fidelidade
aos desígnios de Deus, nosso Pai Celestial.
Jesus conclama a todos para que tenham senso de responsabilidade perante o próximo, pois, só assim a fra-
ternidade se torna obra de fé.
Capítulo 9
O SERMÃO DO MONTE:
BEM AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO
INTRODUÇÃO
Sermão significa discurso moralizante, evangélico, prédicas com preposições positivas para o bem viver.
No sentido popular, ganha um atributo de censura, em virtude da sistemática radical de certas religiões.
O “Sermão do Monte”, um ponto fundamental do Evangelho, encerra o substrato dos ensinamentos redentores
de Jesus, resumindo o estatuto moral da Fraternidade dos Discípulos de Jesus, possibilitando a conduta pessoal
evangélica através de uma conscientização analítica e perseverante. É a Carta Magna do Testamento de Amor entre
os homens e Deus, na intimidade das relações do homem com o seu semelhante.
Para melhor compreensão, os teólogos dividiram o discurso evangélico em 2 partes:
a) Bem-aventuranças (Mt., 5:1 a 12): Jesus fala aos corações mais sofridos pela vida de res-
gates, consolando para que não se desesperem, jorrando esperanças nos umbrais da vida.
Doentes do corpo e do espírito: sofredores, angustiados e aflitos descortinavam um novo
caminho de esforço com vistas à redenção.
As três primeiras bem-aventuranças declaram que os infelizes se preparam para receber a
bênção do Reino dos Céus, através do burilamento pela dor.
As seguintes se referem à atitude moral do homem destacando a importância da Reforma
Íntima, na erradicação do mal e cultivo das virtudes.
A essência destes ensinamentos é que pela humildade, pelo altruísmo, pela dor, pela renún-
cia, pela justiça, pela caridade, pelo saber com misericórdia, o homem erige dentre de si mesmo o
Reino de Deus.
Em seu curto e sublime Messianato na Terra, Jesus exemplifica suas palavras por todos os
tempos.
Pelo reconhecimento e desintegração dos defeitos pela prática das virtudes; pela sublimação
das dores, o homem renova-se, elevando-se em círculos cada vez mais amplos, ao ideal harmônico
da Sabedoria e Amor.
As bem-aventuranças são fundamentadas nas leis naturais de Deus, com aplicações em to-
dos os nossos momentos de reflexão e fé.
A dor não é pois, um castigo de Deus - é oportunidade bendita de resgate.
b) O Cumprimento da lei e dos profetas (Mt., 5:17 a 7:29)
Ao afirmar que não veio revogar a lei e as palavras dos profetas, mas cumpri-las, Jesus san-
cionou-as e expandiu seus horizontes, mostrando o caminho da espiritualização do homem: “O Reino
do Céu é uma conquista, onde a justiça convive com a misericórdia, o saber e o Amor”.
Esta 2ª parte é como um desdobramento das bem-aventuranças. como alcançá-las. É tam-
bém o traço de união entre o Antigo e o Novo Testamento, onde a antiga Lei de Justiça é consagrada
no envolvimento do Amor.
Na lei divina, nem “um til se omite”, mas junta-se a razão do amor e a fé pela razão, para
consolidação da igualdade e da fraternidade com a boa vontade e respeito mútuo entre os homens.
Justiça, amor ao próxima, humildade, perdão, respeito, caridade, oração, mansidão, o prejuí-
zo da ansiosa solicitude pela vida, o juízo temerário, o bem e o mal, o verdadeiro discípulo, a casa so-
bre a rocha - resumem a razão de bem viver no ensino maior de Jesus: “Sede perfeitos, como é per-
feito vosso Pai que está nos céus”. (Mt., 5:48)
BEM-AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITOS
Todos concordam que o mal na Terra é o orgulho, produto nefasto do egoísmo, matriz de uma pretensa supe-
rioridade que acaba levando o ser às trevas ilusórias da ignorância espiritual.
O homem orgulhoso enriquece o espírito de vaidades que se desfazem no túmulo: a fama por conquistas de-
senfreadas e transitórias; a ambição do poder; suposta superioridade de raça, religião e nação, glória efêmera etc.
Todo poder desestruturado não se mantém, ainda que obtido por uma grande inteligência mergulhada em
desmedido orgulho, pois num certo momento, vai de encontro à força da Harmonia que rege o Universo, onde, en-
tão, a alma se volta à simplicidade, revestindo-se de humildade, constrangida a despir o orgulho através da dor e do
sofrimento que o próprio ser a si se destinou em sua auto-exaltação.
Assim, dentre os maiores defeitos, destacamos o orgulho e a vaidade. Todo orgulhoso é vaidoso e se reveste
de sua redoma de amor-próprio egoísta.
Curso de Aprendizes do Evengelho24
Características do orgulho e da vaidade:
a) O orgulho:
• Melindra-se por qualquer coisa
• Não aceita crítica, mas acha-se senhor para criticar.
• Não reconhece seus erros, crê-se dono da verdade.
• É presunçoso, cuidando da imagem pretensa, ainda que prejudique o próximo.
• Esconde-se na ironia quando aceita debater.
b) A vaidade:
• É a coroa do orgulhoso.
• Procura sempre evidenciar-se cultural ou socialmente, mesmo sem méritos. É intolerante ou
falso indulgente.
• Acha-se sempre apto a cargos para os quis realmente não tem capacidade, mas que pode
fazer evidenciar a sua personalidade.
• Nunca é culpado ou então é vítima da sociedade.
Em resumo, o orgulho faz o rebelde ilusionário, perante a realidade da vida e da vaidade obscurece e invalida
sua possibilidade de raciocínio equilibrado.
Características da Humildade:
a) A Humildade:
• É uma virtude quando soma sentimentos elevados. É modesta e sóbria. Não existe um hu-
milde bruto, intolerante, grosseiro - mas a brandura, o perdão, a piedade, a indulgência, a solidarieda-
de lhe são inerentes. Sabe sofrer também e ser humilde.
• Todo ser humilde procura sempre se conhecer com prudência para não se julgar acima de
seus semelhantes, mas para saber pairar acima das circunstâncias.
• A humildade é simplicidade de coração, despojado das paixões, em espírito e verdade.
Também é companheira da caridade. Por esta razão Jesus afirmou a bem-aventurança dos pobres de
espírito.
“Os homens são iguais na balança da vida: só as virtudes os distinguem aos olhos de Deus”. (Allan
Kardec)
• Dentre os grandes mas caros exemplos da humanidade, lembraremos Paulo de Tarso: dou-
tor da lei, orgulhoso, mas honesto, que aceitou, presto, o chamamento do Senhor. Sem abdicar dos
seus conhecimentos, valorizou-os colocando-os ao alcance da maioria sofrida, comprovando que a
Sabedoria e as Grandes Virtudes devem andar juntas para haver harmonia.
Como Cultivar a Humildade?
• Pela reflexão e análise dos nossos valores, podermos erradica, esforçadamente, o mal: por-
que nos melindramos? Por que nos queixamos? Por que nos rebelamos? etc.
• A resignação sem indiferenças e a boa vontade raciocinada controlam os impulsos negati-
vos, nos tornando senhores de nossos sentimentos, anulando a impulsividade grotesca que nos ocasi-
ona os maiores arrependimentos.
Terás sabedoria em não supores saber o que não sabes”(Sócrates).
• Respeito à liberdade de pensamentos e convicções de qualquer idéia diferente da nossa.
• direitos e deveres equilibrados; disciplina e obediência racional aos compromissos assumi-
dos.
• Paciência, tolerância, indulgência assim como queremos para nós.
• Pobreza de espírito no dizer de Jesus não é desmazelo - é simplicidade e sobriedade.
• Ser reservado e procurar conhecer os limites entre a modéstia e a falsa modéstia que desta-
ca a inferioridade para sobressair a superioridade.
Quem é o maior no reino dos céus? (Lc., 9:46)
“Portanto, aquele que se tornar humildade como este menino, este é o maior no é o maior no Reino
de Deus”. (Jesus)
Por muitas vezes Jesus atestou que somente a humildade e a caridade são a chave para a pz do espírito, para
o Reino do Céu.
Até mesmo na hora da última ceia, ele deu seu testemunho de que humildade é a dignidade da simplicidade
(ao lavar pés dos discípulos).
Todo mérito requer trabalho, esforço, e todo aprendizado tem seu começo: quem quiser ser o primeiro que
seja o servo.
O Sermão da Monte: Bem Aventurados os Pobres de Espírito 25
Complementou e exemplificou Jesus: “Bem como o filho do Homem não veio para ser servido, mas para ser-
vir”(Mt., 20:28)
Com Lucas, cap. 14:7 a 11, o Senhor conta a parábola dos primeiros assentos e dos convidados das bodas,
ilustrando que o que se exalta será humilhado na realidade do seu (pouco) valor.
Capítulo 10
O SERMÃO DO MONTE:
BEM AVENTURADOS OS QUE CHORAM
E OS QUE SOFREM PERSEGUIÇÃO POR AMOR DA JUSTIÇA
BEM AVENTURADOS OS QUE CHORAM
Fala-se que a Terra é um planeta de expiação e provas implicando isso na idéia de resgate de faltas passadas
e presentes cometidas em encarnações anteriores ou nesta com o objetivo de reajustar a alma humana aos desíg-
nios da justiça divina.
As encarnações na Terra, todavia, têm muitas outras finalidades: desenvolvimento da inteligência, missão a
cumprir, cooperação na obra divina e outras. O homem, por isso, em sua evolução e por sua própria ação abre para
si mesmo duas veredas distintas: a do amor ou a dor. A prática do amor é a senda mais curta para se atingir a per-
feição, e a fé, a esperança e a caridade são as estrelas guias que orientam o homem no processo evolutivo.
Disse Jesus: “bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”. A consolação é a bênção e o auxí-
lio que receberão aqueles que souberem sofrer dentro da fé robusta em Deus, e da esperança que norteia as mais
belas aspirações. A fé e a esperança são as consolações dos aflitos, as companheiras dos exilados e desventura-
dos e as mensageiras das promessas do Cristo. A verdadeira consolação exige ainda a participação do homem na
obra do bem através da caridade.
Não há, portanto, necessidade de sofrer para se evoluir. Para ser feliz sem a dor que resgata e retempera a
alma, o homem deve compreender o bem por sua própria sabedoria, decorrente de seu livre arbítrio. Deus não fez o
mal, que é uma ofensa à Lei Natural. A dor não é um castigo de Deus para punir os pecados. (L.E., q. 630)
Ela não é causa da evolução espiritual, embora propicie a evolução, como conseqüência ou efeito de um erro
no pretérito. O Homem não conseguindo fazer o bem sem errar reajusta-se pelo sofrimento.
É preciso, entretanto, saber sofrer, sem reclamar. De nada vale chorar sem arrependimento, sem a compreen-
são de que a dor é o remédio para o reequilíbrio e o efeito de um mal. Enfim é preciso saber sofrer para ser bem-
aventurado e receber a consolação prometida por Jesus.
BEM-AVENTURADOS OS QUE SOFREM PERSEGUIÇÃO POR AMOR DA JUSTIÇA
A idéia de justiça palpita em todo ser consciente. “Não façais a outrem o que não quereis que os outros vos
faça”. Esta máxima exprime bem o espirito de justiça, assim como não se quer receber menos, também não se deve
desejar receber mais; pois, tanto há injustiça na distribuição avantajada para outrem, como quanto se é favorecido.
Demais, cumpre considerar que não é propriamente na igualdade da distribuição que está a justiça. A justiça
se manifesta no dar a cada um o que é seu, o que lhe pertence, isto é, aquilo a que faz jus e tem direito.
A justiça é luz, é lei, e está urdida nos deveres e direitos. Fechem-se os olhos da carne e abram-se os do Espi-
rito: ver-se-á na vítima de hoje o algoz de ontem. O Homem é senhor do seu futuro, mas escravo do seu passado. A
sabedoria do espírito, ligando o passado ao presente, abrange o conjunto, a realidade, a vida no amálgama das últi-
mas existências, tudo ser processando sob o império da Justiça Divina. Com Deus não se faz conchavos, nem nego-
ciações.
Não se anulam os efeitos das causas nem se pode alterar o curso natural dos acontecimentos. O Homem
deve preparar-se para recebê-los, tirando das experiências do presente os elementos para formar um futuro melhor.
Jesus aconselha: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a Sua Justiça e tudo o mais vos será dado por
acréscimo”. (Mt., 6:33)
Capítulo 11
O SERMÃO DO MONTE:
BEM AVENTURADOS OS MANSOS E PACIFICADORES
Continuando a demonstração de que a humildade é um dos meios para alcançar a evolução real, Jesus expli-
ca a importância do pensamento e da ação: Radiação Mental.
Jesus é a própria doçura, mansidão, paciência; espelhou muito bem a Harmonia e a Ordem divinas que come-
çam dentro do próprio homem.
A intenção e o interesse desencadeiam as forças da vontade que comandam os pensamentos e as ações. As
virtudes devem ser cultivadas pela Reforma Íntima, na implantação da renovação mental e ir se espraiando pelo lar,
junto à família, prolongando-se aos amigos sadios ou aos necessitados.
A base dos bons pensamentos é a constante e vigilante sintonia elevada das radiações mentais e vice-versa.
Os bons pensamentos acalmam as emoções descontroladas produzindo boas ações, dispensando a intolerância e a
cólera (curto-circuito pensante). A mansidão, a moderação, a prudência, são o retrato da alma afável e justa.
Quanto Jesus explicitou que os mansos herdarão a Terra e que os pacíficos serão chamados Filhos de Deus,
ele prometeu a paz na Terra como no Céu.
Não se tem a paz e a serenidade no coração, enquanto não se compreender, com paciência, as necessidades
dos semelhantes, principalmente quando a ignorância é dirigida pela violência; só se alcança esta compreensão com
a afabilidade, a doçura, a tolerância, a brandura e a pacificação.
COMO RECONHECER A INJÚRIA, A VIOLÊNCIA, A CÓLERA?
A injúria é o ato de ofender alguém atribuindo-lhe, injustamente, uma falsa ação ou pensamento; é difamante.
Por várias vezes, Jesus aconselha a não injuriar o semelhante. (Mt., 5:22)
Deve-se lembrar que as palavras revestem sonoramente os pensamentos e refletem a expressão dos senti-
mentos, consignando, por si, a responsabilidade individual e coletiva.
A violência é o ato de transgredir, infligir a lei em coação física ou moral, em abuso do respeito ao próximo. O
violento sempre usa da força bruta, enquanto o manso é afável e tolerante. Todo intransigente é irritável e intole-
rante e se identifica pela incompreensão e exigência com os outros.
São severos e rígidos com os outros, não lhes permitindo infrações, pois se consideram infalíveis. São sempre
ríspidos no falar e no agir, às vezes até com quem estima. Têm prazer em denegrir as pessoas. Não sabem perdoar
nem mesmo as pequenas falhas humanas. O senso crítico e seu poder de análise os tornam exigentes radicais e du-
ros.
Jesus mostrou ao homem que com a medida que ele julgar será julgado. (Mt., 7:1-2)
A intolerância é irmã da impaciência, da irritação que é o primeiro alerta de perigo do desequilíbrio mental. O
impaciente é sempre inquieto, agitado e aborrecido. São defeitos satélites do egoísta.
Ele tudo quer como um passe de mágica e se irrita e desespera pelas frustrações sofridas.
A intolerância, a impaciência acabam levando o homem à violência e esta à cólera.
A cólera é um fluido viscoso que bloqueia a razão e ativa os instintos primários negativos, impossibilitando as
criaturas ao entendimento da realidade, subjugando-as ao orgulho pela impotência do seu raciocínio e todos sabe-
mos, comprometendo a saúde.
Kardec diz que “nesses instantes, se a pessoa pudesse se ver a sangue frio, teria medo e horror de si mesmo
ou se acharia bastante ridículo.“ (ESE, ca. IX, item 9)
O espírita deve tomar muito cuidado com a cólera. Sendo caso de sentimentos desarticulados, ela não exclui
certas qualidades do coração, podendo enganar pela invigilância, atribuindo ao seu temperamento ativo quanto é, na
realidade, nascida da impotência do orgulho e da fraqueza nas resoluções das imperfeições que revestem o Espírito.
A única solução no momento é dar uma parada rápida nos centros seletivos da mente e procurar a origem do pro-
blema, amparados em Jesus, para reorganização da Casa Mental.
COMO NOS TORNAMOS AFÁVEIS, MANSOS E PACIFICADORES?
A benevolência com os semelhantes, fruto do amor ao próximo, gera a afabilidade e doçura, que são a sua
manifestação. (ESE, ca. IX). As pessoas são mansas porque não permitem que nada as irritem, uma vez que são
verdadeiras tanto no trato formal como na meiguice do coração para com os íntimos.
A brandura e a mansidão complementam a delicadeza de espírito.
O ódio, o fanatismo, a ambição do poder e os privilégios da economia, crescem ao nosso redor, entretanto, o
foco de luz do evangelho é cada vez mais forte.
COMO SER MANSO E BRANDO NESTE MUNDO DE VIOLÊNCIA?
Como pacificar o espírito e promover a paz no mundo? - Não existe paz sem liberdade nem liberdade sem
respeito mútuo. Nem sempre a retórica traduz os legítimos sentimentos de paz.
Curso de Aprendizes do Evengelho28
Os pensamentos e as ações humanas podem mudar a face da Terra. Jesus disse: os mansos herdarão a Terra
e os pacificadores serão chamados Filhos de Deus.
COMO HONRAR A PROMESSA DO SENHOR, NA EDIFICAÇÃO DESSE MUNDO MELHOR?
Através do auto-aprimoramento e da sinceridade de propósito. A higiene mental, através do pensamento posi-
tivo, não dando guarida a contrariedades; à disposição firme para o conhecimento do bem e perseverança na sua
prática, a abnegação entendida como renúncia sublimada, como desprendimento; o espírito de conciliação em todas
as disputas e exaltações; a busca na prece e na meditação da renovação de forças e disposição para o bem, são
elementos de pacificação e mansuetude para a alma.
Capítulo 12
O SERMÃO DO MONTE:
BEM AVENTURADOS OS QUE TEM FOME E SEDE DE JUSTIÇA
E OS MISERICORDIOSOS
É certo que os justos não folgam com a injustiça, nem se sentem indiferentes ao sofrimento alheio, nem são
negligentes com suas obrigações pessoais e coletivas.
O respeito ao próximo é tão arraigado em si quanto o respeito a si mesmo.
Toda injustiça tem sua causa no personalismo que é uma característica do egoísta. Todo personalista se auto-
valoriza perante os semelhantes; é sempre o único a conhecer e poder realizar os trabalhos; quer sempre ser servi-
do; é teimoso e alimenta seu orgulho na inflexibilidade suas idéias “sempre perfeitas”. Ele jamais aceita colaboração
e quando coopera tem que ser o mandante.
O saber não é tudo, todos têm algo para ensinar e algo para aprender. Logo, todos têm algo para dar e algo
para receber. É o princípio da Fraternidade. Ninguém pode dispensar a colaboração do semelhante, nem mesmo
para a sobrevivência comum; cada um tem seu papel na comunidade.
Justiça é a virtude de dar a cada um o que é seu; é o equilíbrio do bem senso e o homem de bem é aquele
que tem fome e sede de justiça, aquele que legitima o bem, que equilibra os fundamentos da razão, que não pactua
com os opressores, que pratica e anseia sempre, pela liberdade dos direitos e deveres de todos.
Viver em um mundo de regeneração, de paz e de misericórdia, onde todos se amam e se respeitam, é a sa-
tisfação dos melhores anseios e sentimentos do homem, assim como a razão da proposta de Jesus.
Para isso se deve volver todos os esforços de auto-aprimoramento, onde o equilibro da balança da Justiça
deve se manter entre os direitos do indivíduo e os direitos do seu semelhante. O bom cumprimento do dever é o bál-
samo que refrigera a alma.
A justiça é a lei com rigor, a misericórdia é a lei com amor.
A misericórdia é o coroamento da justiça. Jesus, ao cumprir a lei demonstrou que quando envolvida de amor,
ela é sábia e providente.
Toda ação tem uma reação, é corolário de “Perdoai para que Deus vos perdoe”. como pode-se perdoar sem
brandura e indulgência?
Na realidade, as bem-aventuranças são como uma corrente articulada de boa vontade e esforço próprio com o
amor, única forma de evolução do espírito.
O perdão é o esquecimento pela compreensão.
Perdoar - e saber porque perdoa - isso sim, é avanço. Todos trazem consigo aflições que desconhecem. A mi-
sericórdia, como a humildade, está na compreensão das ofensas que se julga receber, conscientes de que também
se precisa de misericórdia para os próprios erros.
“Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, ensinou Jesus. Existe o per-
dão nobre, total e irrestrito, mas existe, também, o pseudo-perdão da vaidade ostensiva. Cabe a cada um analisar
por si mesmo, independente das aparências, pois Deus tudo vê, até o que está oculto.
O perdão não é só dado, mas deve ser pedido sempre que necessário: é a prova da humildade.
Kardec lembra o efeito moral do perdão é a liberdade, pois a morte não liberta o homem dos inimigos, como
ensina a Doutrina Espírita.
O obsediado é quase sempre vítima de uma vingança pelo seu passado, mas Deus jamais abandona quem
perdoou não deixando ficar a mercê de vinganças, (ESE, cap. X).
Pedir perdão é um bem para o faltoso; perdoar é o sacrifico mais agradável a Deus, pois é indulgência.
Misericórdia é compaixão pela miséria espiritual alheia. Misericórdia e piedade são a origem da mais sublime
virtude - a caridade moral.
Capítulo 13
SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS LIMPOS DE CORAÇÃO
E QUANDO VOS INJURIAREM
BEM AVENTURADOS OS LIMPOS DE CORAÇÃO
Pureza é a qualidade do puro, uma mistura sem alteração substancial. No contexto, significa, sentimentos no-
bres e em coração transparente, imaculado, inocente, virtuoso.
A limpeza do Espírito parte dos seus sentimentos e pensamentos e precisa de hábitos higiênicos, tanto quanto
cuidamos do corpo físico.
Quando se é humilde, o caráter é mais flexível aos ensinamentos e a boa vontade estimula a renovação.
Jesus afirmou que começamos a pecar pelo pensamento. O que é o pensamento? O que é a ação da mente?
O Pensamento é um fluxo energético composto de matéria mental que são verdadeiros corpúsculos energéti-
cos.
A mente atua nesse fluxo energético, estimulada pelas vibrações recebidas e a razão recolhe, analisa, assi-
mila, transubstanciando segundo a vontade do livre arbítrio, em radiações mentais. Logo, a ação já se inicia no cam-
po bioenergético da alma.
O pensamento é a primeira fase da ação - INTENÇÃO.
Nós influenciamos e somos influenciados pelas vibrações mentais s que irradiamos ou emitimos - indepen-
dente da palavra.
Um bom pensamento sem a ação fica pela metade.
Se o pensamento é sustentado pelos sentimentos: emoção, desejos, etc. a pureza do coração é como uma
fonte limpa jorrando as virtudes pelo pensamento: é benéfico.
O mau pensamento é resultante da imperfeição da alma e pode ser renovado pela sua vontade.
A verdadeira pureza não vem de práticas exteriores, orações contínuas e monocórdicas que nos deixam preo-
cupados como os regulamentos humanos e nos dispensam da importância da reforma íntima e da legítima caridade
moral com os semelhantes.
A Educação social contém disposições e conceitos humanos importantes para o convívio, entretanto, a educa-
ção do Espírito é holística, abrangendo o conhecimento da ciência da natureza em que vivemos alagados à consci-
entização das leis morais projetadas na existência do Ser.
Se Deus é perfeito, é mister que o homem se aperfeiçoe na sua relação com Ele, para que seja digno de co-
nhecê-lo.
“Toda Religião que não melhora o homem, não atinge sua finalidade.” - Allan Kardec
Traz, o Evangelho de Jesus, o seu grande alerta:
“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”(Mt., 15)
“Limpais o que está por fora, no copo e no prato, mas o vosso interior está cheio de maldade”(Lc.,
11:37 e Mt., 23)
Numa vista superficial às Religiões da Humanidade, encontra-se modificações fúteis, de inspiração vaidosas e
fundamentalistas que se desarticulam no temor, ligadas a representações de cunho personalista deixando seus pos-
tulados basilares e universais em segundo plano.
Não basta parecer, é preciso ser limpo ATÉ de coração.
A higiene do espírito, que alcança o âmago do coração, é a Reforma Íntima - uma renovação mental constante
e vigilante.
A limpeza mental, como sempre, começa em “casa”, no íntimo; não se deve querer modificar o mundo, mas
renovar a nós mesmos.
Os bons exemplos sempre inspiram.
Além disso, o ódio, a amargura podem levar o homem a quedas psíquicas.
Deve-se lembrar, então, que o amor, resumo de todas as benesses, é a base do ensino que exige cooperação
mútua.
A virtude
“A virtude é uma disposição firme e constante para a prática do bem.”
Toda virtude tem o seu mérito, o seu potencial de desenvolvimento e, conhecendo suas características e pro-
priedade podemos trabalhar, consciente e perseverantemente na sua introdução em nossos sentimentos e hábitos.
O interesse pessoal é sempre egoístico.
A compreensão, o estudo e a prática dos caracteres do homem de bem é o meio mais prático para melhorar a
vida. A orientação vem da mais alta Antigüidade:
“CONHECE-TE A TI MESMO” ( L.E., qt. 919)
Como? Refletindo sobre os direitos, obrigações e deveres individuais e coletivos, analisando a consciência
com coragem e fé.
O Sermão do Monte: Bem Aventurados os Limpos de Coração e Quando vos Injuriarem 31
O coração puro requer erradicação dos defeitos e implantação dos hábitos das virtudes. É um trabalho árduo,
contínuo, de boa vontade ao que todo aprendiz deve se dedicar. É um compromisso de boa consciência e prática
evangélica.
BEM AVENTURADOS QUANDO VOS INJURIAREM E PERSEGUIREM POR MINHA CAUSA
A doutrina de Jesus é muito fácil de ser lida, até mesmo de ser analisada; porém, muito difícil de ser praticada.
Exige do futuro seareiro, abnegação, desprendimento dos prazeres efêmeros e mundanos,
Ele passa a ter uma outra visão da vida; passando a vivenciá-la mais no sentido espiritual.
Tendo Jesus como modelo de perfeição, devemos pautar nossa vida neste sentido.
Porém, todo aquele que seguir o Mestre, estará sujeito a sofrimentos e contrariedades; pois sentirá solidão,
melancolia, desprezo, infelicidade, ciúme, mesmo porque passará a ser exceção entre os homens.
As suas determinações e atitudes não são iguais a do homem comum e com isso certamente ele será injuriado
e perseguido.
No entanto, sofrer pela causa de Jesus será uma grande honra e motivo de prazer. Todo aquele que levar
avante estes propósitos será bem aventurado, como prometeu o Mestre.
A verdadeira felicidade está na razão direta de fazermos nosso semelhantes felizes.
Jesus não quer seguidores fanáticos ou hipócritas, por isso seus ensinamentos têm de ser observados ao crivo
da razão. A razão exige estudo e observação.
Quem pratica o bem observando os preceitos cristãos do auto aperfeiçoamento não precisa temer nada; pois
Jesus disse: “Procurai o reino de Deus e sua justiça e tudo mais será dado em acréscimo”.
Após dizer que bem aventurado será aquele que sofrer injúrias e perseguições, e que com mentira disserem
contra ele muitas coisas malévolas, devido a seguir as idéias cristãs, Jesus proclamou: “Exultai e alegrai-vos por-
que grande é o vosso galardão nos Céus, porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós”.
(Mt., 5:12)
As Escrituras nos dão conta dos sofrimentos, perseguições e injustiças pelas quais passaram os antigos pro-
fetas. Muitos deles foram até mortos simplesmente porque apregoavam a verdade ou enfrentaram os poderosos da
Terra.
Por isso, decorrido algum tempo, quando, pela última vez chegou Jesus a Jerusalém, com o coração amargu-
rado pela incompreensão dos homens e pelo endurecimento em aceitar as suas palavras de vida eterna, ele con-
templou a cidade e, cheio de angústia, exclamou:
“Jerusalém, Jerusalém, que apedrejas os profetas e matas todos aqueles que te são enviados.
Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, assim como uma galinha ajunta debaixo de suas asas o pin-
tainhos, e tu não o quiseste. Agora é chegada a tua hora, será cercada de trincheiras e de ti não restará
pedra sobre pedra que não seja derribada.”
Mas, as perseguições e mortes não abrangeram apenas os profetas e os grandes enviados. Mesmo após a
crucificação de Jesus elas continuaram e muitos missionários e apóstolos sofreram rudes perseguições por discorda-
rem dos poderosos da Terra ou por apregoarem o verdadeiro sentido das palavras do Cristo, isso em todos os tem-
pos e em todos os séculos.
Com destaque pode-se salientar João Batista, Paulo de Tarso, os apóstolos de Jesus e os milhares e milhares
de vítimas da camada Santa Inquisição, os quais sofreram rudes e persistentes perseguições e torturas, por discor-
darem das mentiras que deturpavam os Evangelhos.
Receber o galardão no Céu, significa a recompensa por missões ou tarefas desempenhadas na Terra. É a glo-
rificação do Espírito por ter cumprido a vontade de Deus e ter desempenhado uma tarefa significante no plano terre-
no.
Deus é Pai de misericórdia e de amor. A sua justiça é indefectível e abrange todos aqueles que cumprem a
sua soberana vontade. Foi com relação a isso que Jesus Cristo, no desenvolvimento de sua transcendental missão
térrea, deixou bem claro no Sermão da Montanha, que serão bem aventurados todos aqueles que são pacificadores,
que sofrem pelo amor de uma causa nobre, que suportam com resignação as tribulações terrenas, reconhecendo
nelas o instrumento adequado para o processo de aprimoramento espiritual.
Receber o galardão no Céu não é uma concessão para viver num estado de inércia e de descanso eterno,
pois, a felicidade dos Espíritos bem aventurados não consiste na ociosidade contemplativa, o que seria uma eterna e
fastidiosa inutilidade, mas é viver num plano de trabalho, de realizações, envidando esforços no sentido de colimar a
perfeição espiritual, peculiar aos Espíritos Puros.
Receber o galardão no Céu é algo mais do que poder cantar hosanas a Deus, é poder cooperar na grandiosa
obra de regeneração, executando, em toda a sua extensão, a vontade do pai Celestial.
Capítulo 14
O SERMÃO DO MONTE:
“VÓS SOIS O SOL DA TERRA”
“O JURAMENTO”
VÓS SOIS O SAL DA TERRA
“Singular analogia. Contudo profundamente sábia. O sal é o condimento por excelência, usado na
arte culinária para temperar alimentos. Temperar é equilíbrio, é harmonizar os manjares com o paladar.
Esse é o papel que compete aos discípulos do Mestre na sociedade: funcionar como elemento equilibra-
do, temperando todos os excessos. Equilíbrio é harmonia, e harmonia é felicidade”. (Vinícius “Em busca
do Mestre” pág. 8)
Por tudo o que representa, o Evangelho é de aplicação indispensável para dar sabor a existência tornando-a
saudável e feliz. Sem ele a vida fica insípida, monótona, sem atrativos, tediosa e complicada, ainda que as circuns-
tâncias sejam as mais favoráveis, ainda que a aparência seja magnífica.
Uma casa pode ser ampla, moderna, confortável. Se o Evangelho não estiver nela prevalecerão desentendi-
mentos, mágoas, convertendo-a em túmulo das melhores aspirações de felicidade.
Uma civilização pode ser rica, possui tecnologia avançada, cultura admirável, produção ótima. Sem Evange-
lho serão disseminadas a prepotência e a ambição, dissolução dos costumes e a irresponsabilidade minando seus
valores morais e determinando sua decadência e morte.
“Uma religião poderá atrair multidões com ritos e rezas, cerimônias e pompas, cantos e promessas,
magias e superstições, tão a gosto da mentalidade popular, mas impossibilitada, por isso mesmo, de as-
similar o Evangelho, que pede acima de tudo simplicidade; ficará presa ao imediatismo dos interesses
efêmeros ou a rotina das exterioridades, desventurando-se e perdendo sua função fundamental de con-
dutora de almas para Deus”. (A Voz do Monte - R. Simonetti, pág. 57)
O cunho característico do sal é a incorruptibilidade. Nada o altera, nada o contamina, jamais deteriora. Não
permanece inativo: age sempre. Não se oculta, é uma revelação permanente. Jamais assimila impurezas: antes
transmite seu poder purificador. Sai ileso de todas as provas: não macula ainda que imerso na imundície. Sua mis-
são é precisa, distinta, inconfundível. No exercício dessa função está seu valor incomparável.
“Tal a razão de ser profunda e sábia a semelhança usada pelo divino Mestre”. (Vinícius - em Busca
do Mestre, pág. 8)
VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO
Disse também Jesus, pois ele compara seus seguidores a luz que afugenta as trevas. O Cristianismo com
seus valores morais elevados, com seu empenho pela construção do Reino de Deus, fatalmente se destacaria na
História, da mesma forma que é impossível deixar de ver uma cidade sobre a montanha: se está claro nota-se per-
feitamente o contorno de seus edifícios; se escurece, suas luzes destacam-se.
Individualizado a figura do cristão, Jesus oferece a sugestiva imagem da candeia. Na antigüidade, alqueire era
um pequeno móvel. Ninguém acende uma candeia para colocá-la sob o alqueire. A luz deve estar no velador - su-
porte colocado alto - para que ilumine o ambiente. Em linguagem atual: não se liga uma lâmpada dentro de um reci-
piente fechado. Para cumprir sua função ela deve estar em destaque.
O mesmo acontece com o Evangelho. É a luz que ilumina, que dá significado à Vida e a valoriza, assim, se o
homem procura em suas lições apenas conforto e bem estar para si, sem compreender seu apelo maior, convocan-
do-o à Fraternidade, então sua claridade ficará aprisionada no vaso do egoísmo e de nada valerá, pois, apesar de
detê-la, continuará na escuridão das próprias mazelas.
A função da luz é iluminar o ambiente onde ela se acende. Assim, a luz da escola cristã, iluminando o interior
dos espíritos que a recebem, deve refletir-se no exterior, mediante a conduta e ações desses espíritos.
E desse modo se explicam os dizeres do texto: “que a vossa luz”, isto é - o que aprendeste de mim -
“resplandeça diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai, que está nos céus”.
Será, portanto, através das boas obras, dignas e retas, justas e amoráveis, que se presta a Deus a verdadeira
homenagem, rendendo-lhe o culto racional que Ele, como Criador, espera de suas criaturas.
NÃO VIM DESTRUIR A LEI (MT., 5:17)
“Não julgueis que vim destruir a lei de Moisés e o ensino dos profetas, mas sim cumpri-la”(Jesus).
Após afirmar que todos os sofredores em reajuste, que se tornarem pacíficos, humildes, misericordiosos, man-
sos e justos, encontrariam as bem aventuranças, isto é, a verdadeira paz de espírito, Jesus esclarece que não vinha
mudar a lei do Sinai que Moisés dera aos judeus, nem os ensinos tradicionais dos profetas. Antes, ele veio cumpri-la
na sua essência, dar o ser verdadeiro sentido e ampliá-la no Amor.
O Sermão do Monte: Vós sois o sal da terr e O Juramento 33
Perdão, justiça, amor e caridade em discernimento e responsabilidade, são os postulados verdadeiros do
cumprimento da lei. O entendimento e o alcance prático desses ensinamentos advém com a construção da evolução
espiritual. Quem cumpre a lei é livre, quem é livre não vive para resgate apenas; e sim, para aquisições inalienáveis
do Espírito.
Na sua íntegra, o Sermão do Monte é um ensino e um convite à reforma íntima, pelo conhecimento da lei e de
si mesmo, na conseqüente renovação mental. Kardec inclui nos capítulos das Bem aventuranças (ESE) todo o des-
dobrar desses ensinos.
As leis civis são de responsabilidade transitória, por serem disciplinares e adequadas a um estágio progressi-
vo; as leis morais são imutáveis porque traduzem o equilíbrio harmônico do universo espiritual; seu caráter divino
destina-se a todos os tempos, com interpretação segundo a possibilidade dos povos e, principalmente, da consciên-
cia individual.
Em seguida, Jesus desdobra os seus ensinamentos para destacar que em toda parte o cumprimento da lei é o
Amor (Rm., 13:8 a 14) e que “Até que o céu e a Terra passem (que surja a Nova Era) nem um só til se omitirá da
lei”, e, essa “nova” justiça é superior à “antiga” apenas no florescimento do Amor que a envolve: JUSTIÇA com MI-
SERICÓRDIA.
RECONCILIA-TE COM TEU ADVERSÁRIO (MT., 5:23 A 26)
No desenvolvimento do Sermão do Monte, disse o Cristo:
Se alguém vos bate na face direita, ofereça-lhe também a esquerda.
Se alguém tirar-te o vestido, dê-lhe também a capa.
Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, caminhe com ele mais uma milha.
Qual mérito de alguém caminhar mais uma milha junto daquele que o obrigar a fazer um percurso dessa ex-
tensão? Jesus recomendou que não se deve resistir ao mal com violência, o que significa que deve-se sempre pro-
curar uma solução pacífica para os problemas, pois, do contrario o mal jamais será banido da Terra.
Caminhando com o desafeto uma milha adicional, pode-se tirar disso resultados altamente benéficos. Nessa
segunda milha, vendo a humildade e a tolerância demonstrada, o inimigo poderá se dispor ao diálogo e, desse diálo-
go, poderá surgir uma amizade que representa uma ponte passível de serenar os ânimos e equacionar a pendência,
criando-se, assim, o ambiente propício para a reconciliação.
No tocante a essa necessidade, disso o Cristo em Mt., 5:25-26: “Concilia-te depressa com o teu adversário,
enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue
ao oficial e te encerrem na prisão, de onde não sairás enquanto não pagardes o último ceitil”. Essas palavras do
Mestre eqüivalem a dizer que há necessidade de reconciliação enquanto se estiver na Terra (percorrendo mais uma
milha), pois, se assim não proceder, danosas serão as conseqüências no além-túmulo, nas vidas futuras.
A advertência do Mestre, no entanto, objetiva fazer com que haja sempre o diálogo, no sentido de dirimir as
divergências e promover um entrelaçamento. Esse diálogo deve acontecer no ambiente terreno, enquanto estão ca-
minhando mais uma milha, a fim de dar o tempo necessário para a conversação, troca de idéias, silenciando as riva-
lidades e, desta forma, promovendo a tão esperada e necessária reconciliação.
O Evangelho segundo Lucas registra um caso típico. Quando Jesus foi crucificado, também foram justiçados a
seu lado dois criminosos. Os dois estavam imbuídos de profundos sentimentos de revolta contra tudo e contra todos.
Um deles, no entanto, passou a observar tudo quanto acontecia com o Mestre e ponderou: “Estamos pagando um
débito para com a sociedade, um delito que cometemos, mas Jesus Cisto é inocente e nele não foi achada culpa al-
guma. Nós fizemos o mal, mas ele apenas praticou o bem”.
Refletindo sobre a discrepância, ele, Dimas, foi acometido de profundo sentimento de remorso, por isso,
olhando para o Mestre disse: “Senhor, lembra-te de mim quando estiveres no teu Reino”, merecendo a resposta de
Jesus: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.”
É óbvio que ele, um Espírito ainda imbuído de sentimentos impuros, não poderia acompanhar Jesus no acesso
aos planos celestiais, mas o seu remorso era uma porta aberta para a sua própria redenção espiritual, que seria co-
limada no decorrer das vidas sucessivas, através da lei da reencarnação.
Se ele não tivesse presenciado o drama do Calvário, do qual fez parte, certamente não teria tido a dádiva da-
quela conversação. No entanto, presenciando-o, tudo quanto viu representou uma guinada em sua vida e após a sua
desencarnação, passaria a descortinar um novo horizonte. O fato representou uma autêntica “segunda milha” em sua
vida.
Quantas vezes o tempo se encarrega de demonstrar que alguém está errado quando assume determinada
atitude? Quantas pessoas existem que atacam idéias renovadoras e depois acaba por aceitá-las? Quantos não bri-
gam, atacando-se mutuamente e depois se tornam defensores do mesmo ideal? Quantos homens que hoje são ini-
migos figadais não se tornam amanhã amigos extremados? Tudo é questão de amadurecimento e de tempo, e foi no
tocante a isso que o Mestre Nazareno recomendou a necessidade de caminhar a segunda milha.
Os que assim não procederam, quando ultrapassarem os portais do túmulo, terão pela frente problemas dos
mais agudos.
A Justiça Divina recairá, pesadamente, sobre todos aqueles que não souberem perdoar e que repeliram todas
as possibilidades de reconciliação. Sofrimentos cruciais o assolarão, e neles permanecerão até que tenham pago o
“último ceitil”.
Curso de Aprendizes do Evengelho34
O ADULTÉRIO (MT., 5:27) E (LC., 16:18)
Adultério quer dizer infidelidade conjugal, vem de adulterar que significa corromper, falsificar.
No Evangelho, quando se fala de adultério, o pensamento geral é logo dirigido à mulher. Analisando, porém, o
Levítico (Velho Testamento), no seu cap. 20, verifica-se que, pelo ato de adultério mereciam condenação tanto o
homem quanto a mulher, que deveriam ser mortos por apedrejamento.
A lei mosaica não aceitava tal prática, rigorosamente, mas com o passar do tempo os homens foram se aco-
modando.
Jesus endossou a antiga lei com a pureza da intenção: “Qualquer que cobiça a mulher do próximo, já cometeu
adultério no coração”, ou seja, conspurcou seus próprios pensamentos.
Quem ama ao companheiro(a) e respeita a si mesmo não comete adultério, que é desamor e infidelidade a um
pacto firmado conscientemente, seja entre os dois ou perante a sociedade.
O pensamento guarda, na intenção, a base do estímulo da ação, que a vontade executa. A verdadeira pureza
começa nos sentimentos que alimentam o pensamento. Por isso Jesus disse que o erro começa no coração.
Qualquer pensamento adulterado já está contaminado com delitos e incrimina a responsabilidade individual,
antes da ação ser cometida; no ato mental ela já está iniciada.
Ainda assim, a não consumação consciente da má intenção traz alívio e equilíbrio espirituais, indicando novos
campos de sublimação afetiva. É uma tentação vencida (ESE, cap. VIII).
O ESCÂNDALO (MT., 5:29)
“Se a vossa mão é causa de escândalo, cortai-a”. Figura essa bastante enérgica, e que seria absurda se não
constasse de um ensinamento de Jesus. O significado dessa sentença é que cada um deve destruir em si toda causa
de escândalo, extirpando do coração todo sentimento impuro e toda tendência viciosa. Quer dizer que para o homem
mais vale ter cortada uma das mãos, antes de servir essa mão de instrumento para uma ação má; ficar privado da
vista, antes que lhe servirem os olhos para conceber ou alimentar maus pensamentos. Jesus nada disse de absurdo
para quem analisar o sentido alegórico de suas palavras.
O JURAMENTO (MT., 5:33)
Perjuro é aquele que falta à fé jurada, isto é, aquilo que a criatura reconheceu como justo e verdadeiro mas
não cumpre.
Mais do que cumprir o juramento, Jesus aconselha a não jurar por tudo aquilo que o homem não toma parte.
Não jurar pelo Céu ou por Deus, que estão além das criaturas; não jurar pelas próprias cabeças “porque não podes
tornar um cabelo branco ou preto”. Antes, é preferível o domínio de si mesmo. “Seja o vosso falar: sim, sim, não,
não. O homem honrado tem uma só linguagem, seu exemplo é a garantia e o aval de sua dignidade.
O “sim” é sempre agradável de ser ouvido, mas nem sempre é construtivo; o “não” aborrece, mas muitas ve-
zes é a legítima disciplina auxiliar.
Capítulo 15
O SERMÃO DO MONTE:
“OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE”
“SEDE PERFEITOS”
OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE. (MT., 5:38)
Disseram os antigos, “olho por olho, dente por dente”. Acrescenta Jesus: “Não resistais ao mal; qualquer que
te bater na face direita, oferece-lhe a outra”.
Todo pensamento malévolo emite corrente fluídica de impressão penosa; todo pensamento benévolo recon-
forta em agradável sintonia.
Nos tempos atuais, nem a lógica humana determinaria cobrar uma ofensa em “olho por olho”, pois a reeduca-
ção moral civil já impõe um aprendizado de encarceramento com recomposição moral, embora, na prática, ainda
não tenha alcançado este ideal.
Num raciocínio caridoso, o perdão ativo, com energia renovadora, desarticula e desintegra a violência da
ofensa moral. Violência revidando violência, é como colocar lenha na fogueira. Somente o bem dissolve o mal, mo-
dificando suas estruturas mentais.
Resistir ao mal, como ensina o Mestre, não é reagir na mesma faixa vibratória negativa, mas é ter serenidade;
não é ser indiferente, acomodado, libertando o ódio e o ressentimento, mas ser manso de coração, enérgico e disci-
plinado no amor e na caridade.
Por toda História da Civilização, encontra-se a violência querendo apagar a violência, muitas vezes até em
nome do Céu com as chamadas Guerras Santas; outras vezes, em nome de Cristo, sempre buscando harmonias
fictícias e hegemonias indevidas, pois todos os homens são iguais perante Deus.
O perdão é a chave da resistência ao mal.
A idéia do atrito físico de bater na face não desperta o sentido profundo dessa ilustração, nos corações endu-
recidos.
Para o materialista, esse versículo é incoerente e covarde; para o cristão leal é sabedoria e amor. O respeito
próprio não é o que grita, exige e sacode a bandeira, mas é humildade, compreensão e trabalho contínuos.
Toda violência, principalmente quando chega ao campo físico (mais rude e primário, portanto) já está com o
caos instalado no psicossoma. Uma simples altercação já modifica todas as funções orgânicas, principalmente o se-
tor supra-renal, quanto mais o perispírito (tão sutil), no seu intercâmbio biopsíquico.
Da emoção violenta à cólera, é um passo. Como reagir?
Antes que o mal da violência se instale por completo na mente, o único antídoto é uma parada para evitar re-
sultados imprevisíveis e condicionar pensamentos positivos de refazimento.
Somente a calma do adversário consegue atenuar o desequilíbrio do agressor, diz Emmanuel (Vinha de Luz).
Aí está o sentido de oferecer a outra face.
A própria vida ensina: se alguém estiver zangado, nervoso e procura brigar com outro que consiga manter a
calma, muitos males serão evitados.
Por isso a sabedoria manda resistir primeiro ao mal que está em nós mesmos, para depois aprender a resistir
ao mal dos ofensores.
A justa e digna razão deve ser o fiel da balança entre dois contendores.
Em resumo, dar a outra face não é covardia, mas apelo aos bons sentimentos que se deve vislumbrar no se-
melhante e respeito a si próprio.
Isto, também, se chama Fraternidade. E Jesus foi mais além: “Se alguém quiser tirar-te o vestido, dá-lhe até a
capa; se te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas milhas e não desvies de quem quiser que lhe emprestes
algo”.
Quantas vezes alguém se sente roubado até nos sentimentos, explorado na sua boa fé e requisitado indevi-
damente no abuso de seus bons sentimentos, sem que possa defender-se?
Essas ligações encontram suas origens no passado remoto das vidas anteriores e somente a humildade, a pa-
ciência e a tolerância justificam um resgate que, de outra forma, seria mais penoso.
AMAI OS VOSSOS INIMIGOS (MT., 5:44)
Nas prescrições morais e intelectuais do Levítico (19:18), Moisés afirma que Javé mandou que não se vingas-
se nem se guardasse rancor entre os do seu povo: amassem o seu próximo, no sentido dos seus parentes de raça.
Jesus ampliou a fraternidade, fazendo-a sair dos círculos pequenos de amigos e parentes, nação e raça. Que
se faz de mais ao amar irmãos de sangue, de raça e de fé? É quase uma defesa própria.
Bendizer os que nos maldizem, fazer o bem a quem nos trai, orar por quem nos persegue, é obrigação honro-
sa e meritória,
Jesus exemplificou, doando infinita piedade aos seus perseguidores.
Esses chamados inimigos, são muitas vezes, credores diferentes de uma vida passada.
Curso de Aprendizes do Evengelho36
Se amar é caridade, amar aos desafetos é caridade em misericórdia.
O espiritualista, e em particular o espírita, não vê a vida por uma faceta.
Quando tem uma noção e um sentido de Eternidade ou atemporalidade, o Espírito exige rigor em seu aprendi-
zado, sabe que conhecerá o que plantar no seu campo espiritual e que, sobretudo, se a misericórdia do Pai cai sobre
o justo e o injusto, algo existe que está acima da sua compreensão, mas que fala ao seu coração.
SEDE PERFEITOS COMO VOSSO PAI QUE ESTÁ NOS CÉUS. (MT., 5:48)
O Senhor da Vida deu às criaturas as potencialidades da Sabedoria e do Amor.
Essas potencialidades se desenvolvem nas infinitas oportunidades reencarnatórias e manifestações existenci-
ais.
Como Deus possui a Perfeição absoluta, não se pode restringir à letra, mas a criatura se relaciona com o Cria-
dor tomando-o como modelo para a perfeição relativa, cujas características se resumem na caridade e ressaltam na
sabedoria e no amor.
Assevera Kardec: o “homem verdadeiramente bom é aquele que executa a lei de justiça, amor e caridade na
maior pureza... ausculta a consciência sobre seus atos para saber se não violou a lei, se não cometeu o mal, e mais,
se fez todo o bem que pôde, se é útil sobretudo, se fez aos outros o que queria que lhe fizessem.” (E.S.E., cap. XVII)
O homem bom tem fé em Deus, e por isso mesmo, é justo e sábio; reconhece as dificuldades da vida como
degraus de reconhecimento e progresso.
Pensar nos outros antes que em si é seu estandarte. Sua aparência, sua vivência, suas amizades, o seu tra-
balho, sua postura, sua alimentação, são conotações sintéticas dos caracteres de sua personalidade.
Seu magnetismo áurico é simpático e natural; é exigente na sua reforma íntima e benevolente com as incom-
preensões humanas. Sua autoridade moral é espontânea na coletividade em que vive.
O homem bom respeita a si mesmo e aos semelhantes, é um “letreiro vivo”. (O Espírito da Verdade, nº 76)
O bom espiritista, ao procurar, sinceramente, se tornar um homem bom, deve ser perseverante na renovação
mental sustentando-se nos princípios das leis morais e no conhecimento doutrinário que lhe faculta uma percepção
mais clara do que é o bem.
A meta do verdadeiro espiritista é a sua transformação moral através do seu esforço para diminuir as más in-
clinações. (Kardec)
O dever, que é obrigação moral perante si mesmo e os outros; a virtude, como um conjunto representativo do
homem bondoso, representam a base do bom espiritista enquanto a dedicação e a perseverança consciente são o
seu apanágio.
Na verdade, conhece-se a árvore pelos frutos.
Allan Kardec ensina que “O homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de
raças, nem de crenças, porque em todos os homens vê irmãos seus”, acrescentando logo a seguir: “o verdadeiro
homem de bem (que procura se aproximar da perfeição) é o que cumpre a lei da justiça, de amor, de caridade, na
sua maior pureza. Se ele interroga a consciência sobre seus próprios atos a si mesmo perguntará se não violou essa
lei, se não praticou o mal, se fez todo o bem que podia, se desprezou voluntariamente alguma ocasião de ser útil, se
ninguém tem qualquer queixa de si, enfim, se fez a outrem tudo aquilo que desejara para si”.
“Ser perfeito como perfeito é o Pai Celestial”, foi uma forma simples que Jesus apresentou para que os ho-
mens procurassem adquirir virtudes santificantes que os aproximassem mais do Criador do Universo da vida.
Capítulo 16
O SERMÃO DO MONTE
“QUE A MÃO ESQUERDA NÃO SAIBA O QUE FAZ A DIREITA” (MT., 6:3)
Aqui Jesus expande a bem-aventurança da misericórdia e sintetiza que de deve fazer o bem sem ostentação.
Sabe-se que a caridade pode ser moral, mental e material. A síntese dessas qualidades é a caridade cristã.
A beneficência requer modéstia, discernimento e ponderação, embora deva ser usada com abundância.
A modéstia cristã é aquela que não ofende, que serve com humildade, sem simulacro de recato. É importante
fazer o bem sem olhar a quem.
“Os que fazem o bem com ostentação já receberam a recompensa”, disse Jesus. Realmente, a publicidade da
caridade tem o seu triste pagamento que se dissolve em poeira do tempo, num discutível louvor efêmero dos ho-
mens.
O cristão aprende que a recompensa na Terra é transitória, enquanto o testemunho silencioso e cristalino de
suas boas ações é imortal perante as Claridades Divinas do Cristo de Deus.
Servir pelo prazer de ser útil traz conforto imediato e intraduzível, é uma parte da recompensa divina com que
o Pai, prestimoso, envolve a sua criatura.
Toda caridade envolve a moral que deve ser regida pela responsabilidade do livre-arbítrio e pela ética da mo-
déstia cristã, pois começa no pensamento cheio de boa vontade e desejo de ser útil aos semelhantes.
Ainda no Evangelho encontra-se o exemplo simples, mas completo, pelo óbolo da viúva. (Lc., 21:1)
A verdadeira caridade é a prática dos bons sentimentos. É o vínculo da perfeição: afirma Paulo de Tarso.
(COR., 13:1-13)
Todos que exercem a caridade são autênticos discípulos de Jesus Cristo, qualquer que seja o culto a que per-
tençam, pois ela é uma necessidade da alma e na caridade se resume toda a moral dos ensinamentos do Mestre.
(ESE, Cap. XIII e XV)
A esmola ou óbolo é um pequeno donativo para pessoas carentes. A beneficência é o trabalho ou prática da
boa obra de forma ampliada. É o ato de fazer o bem com virtude.
Como não só de pão vive o homem, nem só é caridade a que se resume a esmola.
Caridade é consolar os tristes, confortar os que sofrem, encorajar os tíbios, perdoar os que erram, ensinar os
que ignoram, levantar os que caem, suster os que tombam, amparar os que fraquejam.
Caridade é fazer justiça; é corrigir o defeito, é animar o tímido, é proteger o ousado, é exalçar a verdade, é
enobrecer o humilde, é semear a paz, é pugnar pelo bem, é estabelecer a concórdia, é servir o amor, é esquecer
agravos, é desculpar as faltas alheias.
Caridade! Não há mais bela virtude. Nela se resumem todas as demais, porque todas dimanam dela, como
no nosso sistema solar toda a luz irradia do sol.
A caridade é o bálsamo que consola todas as dores; o manto que tapa toda a nudez; o auxílio que socorre
toda a miséria; pão que mitiga toda a fome; a água que sacia toda a sede; a luz que ilumina toda a treva; a força
que anima toda a fraqueza; o sentimento que penetra todos os corações; a riqueza que alcança todos os pedintes.
O VERDADEIRO TESOURO (MT., 6:19)
Não acumuleis tesouros na Terra, onde a ferrugem tudo consome e os ladrões roubam. “Ajuntai tesouros no
céu, onde nem a ferrugem consome, nem os ladrões roubam. Porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vos-
so coração.”
A dedicação à conquista dos valores espirituais leva ao verdadeiro tesouro, inalienável edificação da persona-
lidade harmoniosa.
No último item, Jesus esclarece que nosso pensamento está vinculado aos sentimentos que podem nos tornar
escravos ou senhores de nós mesmos.
A CANDEIA DO CORPO (MT., 6:22)
“A candeia do corpo são os olhos. Se teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz.”
Jesus não falou do olho físico, mas do olho espiritual, que traduz a vontade, a paciência, a benevolência; que
busca a luz, a beleza.
Uma chama clara da candeia reflete óleo puro, assim os olhos luminosos e bons refletem a pureza dos senti-
mentos.
Um acontecimento visto por duas pessoas é interpretado de maneira diferente, dependendo dos seus pensa-
mentos e sentimentos, ou seja, do seu estado de espírito.
Curso de Aprendizes do Evengelho38
NINGUÉM PODE SERVIR A DOIS SENHORES (MT., 6:24)
Ninguém pode servir a dois senhores, pois certamente se dedicará mais a um do que a outro.
Muito menos se pode servir a Deus e ser escravo da riqueza.
A riqueza tem sua utilidade como: recurso para execuções de trabalho com vistas ao progresso individual e
coletivo; provas e testemunhos da reforma íntima, num programa de altruísmo; é para ser usada e não abusada; não
é propriedade mas usufruto nesta vida.
A desigualdade das riquezas comprova a oportunidade de aprendizado e se esclarece na pluralidade das
existências. A igualdade na criação desenvolve oportunidades equivalentes para honra ao mérito, através das reen-
carnações.
A diversidade de caracteres e aptidões também tem sua influência no desequilíbrio econômico e se a pobreza
é prova de resignação e paciência, a riqueza requer testemunhos de caridade e altruísmo.
Em todos os momentos, o dinheiro deve ser usado com discernimento e bom-senso; quem trabalha somente
para si mesmo, sem alcance sadio e profundo, amealhando tesouros sem praticar a caridade é improfícuo em espí-
rito e verdade. É egoísta e avarento.
É importante granjear amigos sinceros através da riqueza do mundo, pois quando não a tiver mais, os amigos
solidários e fiéis estarão presentes.
O bom emprego da fortuna é a meta desta difícil prova; mas todo mérito paira acima da riqueza e da pobreza.
Na realidade, o homem é apenas ecônomo de tudo o que existe na Terra, sendo responsável por sua utiliza-
ção. O desprendimento dos bens terrenos é relativo ao conhecimento e harmonia espirituais.
Esse desapego não deve ser desprezo, mas sim consciência de sua importância relativa.
“O apego à posse destrói faculdades magnéticas elevadas”, diz Lacordaire.
Hoje em dia, o patrimônio do Espírito é mais valorizado. A ética dos valores já desponta renovada no hori-
zonte espiritual; é o conhecimento das verdades eternas e da fraternidade como base de lançamento do homem es-
piritual.
Erradicação da avareza; avareza é apego específico ao dinheiro e aos objetos materiais que possuímos e re-
sultado do egoísmo e da ambição. O avaro é monodeísta, fixado na sua idéia principal: o dinheiro e a posse.
É uma verdadeira doença obsessora e para conhecê-la melhor, deve-se cuidar dos seus sintomas em dife-
rentes gradações.
A importância exagerada que damos aos nossos pertences, a ponto de nos desequilibrarmos na ansiedade, a
mania de guardar indeterminadamente, mesmo sem usar, certas roupas ou pertences pessoais, sem justificativa
para não dá-los já caracteriza os primeiros degraus do avaro.
Uma vez identificada é preciso reagir e combatê-la, com sensatez e generosidade.
Sensatez ⇒ indivíduo sensato é judicioso, age com cautela e sabedoria, pois é coerente com a lei natural.
Todo homem sensato é prudente, pensa cautelosamente nas conseqüências dos seus atos; sabe renunciar com su-
blimação, quando é necessário; é previdente mas não é ávido; utiliza seus talentos, materiais e espirituais, a serviço
do bem comum.
Generosidade ⇒ é sempre acompanhada da beneficência. Um homem generoso é pródigo com seus have-
res, desapegado aos bens materiais, feliz com o bem que pode proporcionar a alguém, é filantropo. A generosidade
é inerente ao homem de bem, nasce das suas virtudes e desenvolve-se em conforto físico e espiritual.
BUSCAI E ACHAREIS (MT.,6:25) E (LC.,12:23)
A solicitude pela vida é uma qualidade da sensatez e faz parte da lei da conservação; entretanto, um cuidado
exagerado, a ansiosa solicitude, gerada por uma insegurança doentia, prejudica o homem, causando-lhe aflições que
poderiam ser erradicadas pela renovação mental.
As regras do trabalho para manter a vida com dignidade não se adaptam às funções, geralmente indevidas,
para alcançar o supérfluo.
Disse Jesus: “Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais que a roupa?”
Quanto alimento se consome num certo tempo para que ele não se deteriore? Quantas roupas de pose vestir
em cada estação do ano? De que forma o homem se alimenta? De que maneira ele se veste?
“Olhai para aves do céu.”
As belas ilustrações literárias de Jesus são exemplos de profundidade na arte do bem viver espiritual.
Se o alimento físico mantém o corpo, o alimento da alma é eterno, “Deus criou o homem sem roupa e sem
abrigo, mas deu-lhe inteligência para confeccioná-los.” (Kardec)
As necessidades do corpo físico e do espírito são intrínsecas; o trabalho, tanto físico como intelectual, é fun-
ção fundamental do homem.
Com o trabalho físico ou corpóreo, os membros não se atrofiam, os órgãos funcionam regularmente; com o
trabalho intelectual, o homem desenvolve sua civilização no progresso social e moral.
Somos herdeiros de nós mesmos.
Busca e acharás, ajuda-te e o Céu te ajudará.
Quando a ambição leva o supérfluo obsoleto, a Providência Divina abandona a criatura à sua própria sorte,
isto é, aos efeitos causados pela cobiça.
Quem tem muito mais que o necessário, é depositário de bens coletivos, que deve saber administrar no bem
comum (como a riqueza).
O Sermão do Monte: Que a mão esquerda não Saiba o que faz a Direita e Buscai e Achareis 39
A educação moral do homem apenas vislumbra essa ética, pois sempre acha uma razão para mais alguma
coisa acumular.
Angústia e inquietude são princípios de desequilíbrio, logo é preciso cautela.
A serenidade e a firmeza de caráter dão confiança e otimismo, fé e coragem.
As dificuldades da vida, em qualquer setor, sabe-se, fazem parte do aprendizado do espírito e sempre é bom
lembrar que o pessimismo crônico é vibração mental inferior, assim como otimismo exagerado é inconsequência.
Não se engane nem se oblitere o homem, mas também não se inquiete, em espírito, com o futuro; haverá
momentos bons e maus na vida de todos, mas nossa atitude mental pode se tornar um escudo magnético de defesa.
“Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça e todas as coisas lhes serão acrescentadas”, complementa o
Mestre. (Mt., 6:33; Lc.,12:31)
Na maioria das vezes, o homem mistura seu anseio de luz, sua pesquisa científica, aos valores egocêntricos,
olvidando as leis gerais divinas. É preciso emergir de si mesmo, conhecendo e praticando a fraternidade, o que só é
possível na busca da experiência, na construção do reino de Deus em si, no exercício da Justiça social, que começa
em nós e se expande no respeito ao próximo como a nós mesmos.
Capítulo 17
SERMÃO DA MONTANHA:
SÓ DEUS PODE JULGAR E A CASA SOBRE A PEDRA
NÃO JULGUEIS PARA QUE NÃO SEJAIS JULGADOS (MT., 7:1)
A Mulher Adúltera (Jo., 8:1)
À antiga lei Jesus acrescentou: “Com o mesmo critério que julgardes, sereis julgado”.
Ninguém está apto a julgar o próximo, moralmente, pois além da falta de equilíbrio justo, em si mesmo e dos
desencontros com a própria consciência, a experiência da vida esclarece que, após as lutas evolutivas e a busca da
harmonia piedosa, o discernimento lapidado do homem desenvolve a indulgência. Logo, quando ele estiver em con-
dições de julgar, não o faz por amor e respeito.
Como criticar sem construção e severamente o semelhante e encontrar desculpas para as deficiências própri-
as?
É um juízo temerário, mas apontar o defeito dos outros é o vício mais antigo da Humanidade.
O melhor antídoto é evitar comentar o mal, o que não dispensa a reflexão interior. Não julgar para não ser jul-
gado, não significa aceitar e complicar um erro, para evitar o nosso julgamento; encobrir delitos também deles não
nos absolve.
A tendência maior é a crítica de um defeito que não se tem mais, esquecendo-se de que outros ainda estão
ativos.
Mas grave, é quando esses apontamentos são falseados, exagerados ou dissimulados maldosamente.
Foi a explicação do Mestre: “Como dirás a teu irmão: deixa-me tirar o cisco do teu olho e não vês a trave que
está no teu?” A censura, quando vista como exame crítico e não como condenação deve ser revista de autoridade
moral.
No episódio da mulher adúltera, Jesus só declarou: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, seja o primei-
ro a apedrejar”. Nem escribas, nem fariseus; nem jovens, nem velhos, tiveram coragem de atirar a pedra.
E Jesus teve a oportunidade de exemplificar os seus ensinos: “Ninguém te condenou?” - Respondeu ela:
“Ninguém, Senhor.” Então, disse Jesus: “Nem eu, tampouco, te condenarei. Vai e não peques mais”.
Eis aí: Somente a Deus cabe o julgamento da Vida (Ler: As Estatuetas - Espírito da Verdade, lição 30).
Não lance pérolas aos porcos. (Mt., 7:6)
Todos têm suas responsabilidades e suas necessidades, mas também as suas possibilidades.
Não adianta aprovar um aluno relapso; será pior para ele; não adianta impor a fé e a boa vontade, seriam mal
interpretadas ou desvirtuadas.
Se os ensinamentos evangélicos são pérolas de luz que balsamizam os que sofrem e adornam os que querem
a reforma íntima, são recusadas impacientemente pelos que se recusam a evoluir, pelo desconhecimento do seu
valor espiritual.
Pedi e Dar-se-vos-á. (Mt., 7:7)
“Aquele que pede, recebe; aquele que busca, encontra e ao que bate, se abre.”
“Qual dentre vos é o homem que, se o filho pedir pão, lhe dará uma pedra?” “Se vós que sois maus, sabeis
dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos Céus dará boas aos que lhe pedirem”. “Tudo
quanto vês quereis que os homens vos faças, faz vós também a eles, porque esta é a lei e os profetas”. (Mt., 7:7 a
12).
Confiar em Deus, na Sua Misericórdia para com as criaturas, é a conclamação do Mestre. Ficar esperando que
“caia do céu” e acomodar-se às dificuldades e sofrimentos sem luta renovada, é covardia, é negligência e ociosida-
de.
Deus já dá tudo o que o homem necessita para desenvolver sua inteligência, inclusive as oportunidades de re-
encarnação e auxílio dos benfeitores espirituais.
É mister o esforço, o trabalho profícuo individual e coletivo para o mérito dessa conquista de valores. Trabalha
e progredirás, ensinam os Espíritos.
Como medida de equilíbrio, na busca da paz fraterna, Jesus cita uma regra áurea: fazer ao próximo o que
queres que te façam.
Emmanuel (Palavras da Vida Eterna, lição 66) informa que não se pode reclamar ajuda, quando não se presta
auxílio; não é lícito exigir desculpas, quando não se sabe ou não se quer desculpar.
“Querer o bem é impulso de todos, mas, na prática do estatuto sublime, é forçoso sejamos nós quem se adi-
anta a fazê-lo”.
No campo espiritual é melhor servir do que ser servido.
ApresentaçÃo
Entrai pela Porta Estreita (Mt., 7:13)
Larga é a porta da perdição. Tudo que acomoda a alma, leva à “porta larga” da vida e a ilusão conduz a mui-
tos para esse caminho através da negligência, paixões, desvarios e vícios.
A porta larga e a porta estreita pertencem à muralha do tempo, caminho de todos nós. Atravessá-las é imposi-
ção da vida, mas a escolha é do libre arbítrio de cada um.
O homem sensato procura sempre saber que caminho percorre, como conhecê-lo e vencer seus obstáculos.
O sentido filosófico desse ensino é a contínua luta do Bem e o Mal, na qual o homem, incansavelmente, vai edifi-
cando o seu Espírito.
Acautelai-vos dos Falsos Profetas. (Mt., 7:15)
Os falsos profetas são aqueles “que vêm até vós vestidos como ovelhas mas são lobos devoradores”.
Os “lobos” que se vestem de cordeiro só enganam aos incautos invigilantes. Assim como uma árvore é conhe-
cida pelos seus frutos, nem todos os prodígios e maravilhas são feitos pela caridade que é humilde e mansa.
Vulgarmente, profeta é aquele que prediz o futuro. No sentido evangélico é qualquer enfiado de Deus com a
missão de instruir os homens e lhes revelar coisas ocultas dos chamados mistérios ou arcanos da vida espiritual.
Moisés, no Velho Testamento, já pedia cautela com os falsos profetas e ensinava como conhecê-los (Dt.,
18:22). “Se um profeta fala em nome de Javé, mas a a palavra não se cumpre, não é de Javé. Tal profeta falou com
presunção. Não o temas”.
Jesus também avisou seus discípulos e à multidão. Em todos os tempos, a falsidade, a vaidade, o orgulho, le-
vam alguns homens a explorar a fé dos semelhantes, esquecidos de que os delitos praticados contra o Espírito são
muito mais graves do que contra a carne.
Deve-se levar em conta que muitos seguidores se jungem a esses, Na deletéria esperança de uma vida fácil,
sem esforços.
O Espiritismo ampliou o entendimento sobre estes profetas, analisando com maior profundidade o ensina-
mento de João Evangelista: 1ª epístola, cap. 4: “Não creias em todos os Espíritos”, pois sob a aparência de amor e
caridade, infiltram a desunião, a dúvida e até a descrença, quando não escravizam pelo fanatismo.
O Verdadeiro Discípulo. (Mt., 7:21)
Ensinou Jesus: “Nem todo que me diz: Senhor! Senhor! Entrará no reino do céu, mas aquele que faz a vonta-
de de meu Pai que está nos céus”.
Chamar alguém de Senhor ou Mestre, é aceitar e praticar seus preceitos e exemplos. A realidade do ato de fé
corresponde à realidade do ato de trabalho. E Deus conhece o coração do homem.
O verdadeiro discípulo de Jesus não se preocupa em venerá-lo com atos exteriores de devoção; não se detém
em repetições cansativas e inócuas de orações; não impõe proselitismo nem exige dos semelhantes o que ele pró-
prio não consegue fazer.
O verdadeiro discípulo de Jesus busca a humildade, a generosidade, a caridade, trabalha perseverante na sua
reforma íntima e está sempre à disposição do serviço do Cristo, colocando-se em posição de vigilância e oração
para ser leal instrumento do auxílio ao próximo.
A CASA SOBRE A PEDRA (MT., 7:28)
O Sermão do Monte encerra-se com Jesus exortando aos homens para construírem seu destino sobre alicer-
ces fortes e saudáveis, aproveitando-se da parábola da casa feita sobre a rocha.
O verdadeiro ou autêntico modo de viver requer um aprendizado constante. Mostrou Jesus que o homem sen-
sato e prudente alicerça usa alma na fé, nas boas obras, no respeito ao próximo, no amor a Deus.
O testemunho é exigido a todo instante semelhantemente como levantar um edifício, tijolo por tijolo, a cada
dia, alicerçando-o na verdade; feito isso ele será seguro, como a casa apoiada nas rochas.
Disse Mahatma Gandhi a respeito das palavras de Jesus, no Sermão do Monte: “Se fosse possível se perder
tudo aquilo que está contido no Evangelho de Jesus, deixando apenas o Sermão do Monte, ele jamais perderia o seu
esplendor”.
Capítulo 18
JESUS E A PRECE
ORAR E VIGIAR. (MT., 6:6)
Jesus ensinou a orar e vigiar.
Ninguém consegue orar com sinceridade, quando está preocupado em afirmar sua religiosidade.
A concentração necessária para elevação vibratória, ao encontro às esferas santificantes do Mundo Maior, re-
quer recolhimento, individual ou coletivo. Para que se possa colocar o melhor de cada um na oferenda ou rogativa
da prece, pois a forma nada vale, o pensamento tudo dirige.
Allan Kardec, no ESE, declara que os Espíritos não prescrevem nenhuma fórmula absoluta de prece. As que
estão na coletânea de preces desse livro visam auxiliar a fixar as idéias, principalmente nos momentos difíceis, mas
recomenda a liberdade dos sentimentos no comando do pensamento.
“O Espiritismo reconhece como boas as preces de todos os cultos, quando elas sejam partidas do coração e
não dos lábios apenas. Não impõe nenhuma, nem condena alguma”.
O objetivo geral da prece é elevar a nossa alma a Deus, de maneira que cada um de nós encontra no seu co-
ração; entretanto, como a prece só tem valor pelo pensamento que a dirige, é condição essencial que ela seja inteli-
gível, espontânea e concisa. Cada palavra, cada frase deve ser entendida e sentida.
Por essa razão, Jesus recomendou o recolhimento a um aposento e orar ao Pai que está em oculto, enfatizan-
do a desnecessária e vã repetição dos que pensam que por muito falarem serão ouvidos.
Em verdade, antes da oração, o Pai já sabe o que precisa a sua criatura e bastam a humildade e a confiança,
transmitidas na prece para que a onisciência do Pai do Céu fortaleça e torne eficiente o sentimento do homem, pois
Deus sabe melhor que nós o que nos convém e não falta a quem O busque.
A eficácia da prece é como uma transfusão de forças sublimes.
ORAÇÃO DOMINICAL (MT., 6:9)
Tudo isso está incluído na oração que Jesus nos ensinou, de maneira clara e concisa, conhecida como “Pai
Nosso”.
Mostrando Deus como Pai de todos, ela resume todos os deveres do homem para com seu Criador, para con-
sigo mesmo e para com o próximo; é um ato de fé, de adoração e obediência; é uma rogativa da essência da vida
que só o Pai pode dar e um exercício de caridade.
“Conforme as circunstâncias e o tempo disponível, pode dizer-se essa oração simples ou desenvol-
vida”. (Kardec)
Não é recomendável desenvolvê-la em orações coletivas entrecortadas de outras palavras, pois isso poderia
tirar sua concisão. As palavras do Pai Nosso, como Jesus ensinou, são imantadas de luz pela sua repetição através
do tempo.
Procuremos, por agora, estudar o seu desenvolvimento:
Adoração e Louvor
“Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome”.
A saudação é suave e grandiosa. O Universo em harmonia testemunha a luz, o amor e a sabedoria de Deus.
O Pai criou e assinou em Suas Criaturas e Sua solicitude paternal se mostra na Fraternidade Universal, desde
o átomo do nosso conhecimento até à grandeza e perfeição do macrocosmo. Tudo e todos se inserem em Suas leis
divinas. Glorificar o Senhor da Vida é render graças e entregar-se ao Seu amor.
Obediência
“Venha a nós o vosso reino”.
As leis físicas e morais, a harmonia universal, a paz e a justiça, onde o forte sustenta o fraco na cadeia da
evolução cósmica; o instinto, a inteligência, a razão e a pureza: tudo são estágios experimentais que se intercomuni-
cam e se encandeiam nos conduzindo pelos caminhos do pensamento e da ação, nos aguilhões da dor e na bem
aventurança de servir ao próximo, amando o Pai. O reino de Deus é a perfeição.
“Seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu”.
Fazer a vontade de Deus é observar Suas leis na consciência do conhecimento da Sua perfeição por todo o
Universo. Sua Augusta Vontade se traduz no Universo pelo Verbo criador.
Rogativas essenciais
“O Pão nosso de cada ida, dai-nos hoje”
O pão é considerado o alimento primário à vida. Em cada reino da natureza, a essência da vida necessita do
alimento físico, mas, sobretudo, do alimento espiritual que se traduz na bênção e nas necessidades prementes com
que Deus envolve Suas criaturas em todos os estágios de sua escala evolutiva.
ApresentaçÃo
O esforço, para a razão e dignidade do homem, recebe o nome de TRABALHO e o uso de sua inteligência di-
lata seu raciocínio, convidando-o a prover suas necessidades e seu bem-estar, seja no trabalho material ou intelec-
tual.
Diz a sabedoria popular: “Deus ajuda a quem trabalha”.
Tudo no Universo é dinâmico e é através do movimento vibracional que se desenvolve o Espirito, no inter-
câmbio com os benfeitores em busca do pão espiritual, isto é, “os meios de adquirir, pelo trabalho, as coisas neces-
sárias à vida física e espiritual, pois ninguém tem o direito a reclamar o que lhes seja supérfluo”.
“Perdoai as nossa dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores”
Toda infração é dívida contraída, seja leve ou grave, que precisa ser resgatada para libertação.
Como reclamar clemência quem não perdoa ofensas ou sequer desculpa a ignorância?
O perdão dos nosso erros está relacionado ao nosso perdão às ofensas. Como clamar misericórdia quando se
humilha a outros? O bom senso “alerta para a reflexão e não deixa a morte surpreender com desejos de vingança”
em ressentimento.
Certamente o mérito do perdão é proporcional à gravidade do delito e não deve ficar na palavra. O sentimento
de indulgência é fundamental. Muitas vezes, também, o ressentimento que alimentamos nasceu de uma frase que
proferimos e ofendeu a alguém que revidou. Quem sabe aquilo que não se consegue perdoar está na razão da pró-
pria imprevidência?
O perdão completo e sincero é aquele que compreende o erro mas é indulgente e misericordioso com o se-
melhante, esquecendo a ofensa.
“Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”
Não cair em tentação é resistir às sugestões dos espíritos inferiores através dos maus pensamentos inspira-
dos.
“Livrai-nos do mal” é uma rogativa para conhecer e desarticular nosso egoísmo, que materializa e vicia nossas
forças.
O mal é obra do espírito humano e, no confronto do desenvolvimento espiritual, ele tende a transubstanciar-se
a absorver-se no bem, através da escala evolutiva do amor.
“Livrai-nos do mal” é erradicar nossas deficiências, em legítima higiene mental.
“Assim seja”
Tudo foi, é e será criado pela vontade do Pai.
Capítulo 19
OS MILAGRES E O EVANGELHO
CARACTERES DOS MILAGRES
Qualquer fenômeno não compreendido que causa espanto ou admiração ao ser humano, sempre foi tido como
miraculoso.
Todo ato considerado de poder divino, contrário as leis da natureza que se conhece é chamado milagre. A
Doutrina Espírita, dentre seus postulados, preceitua que a Lei Natural foi criada por Deus, sendo Ele o autor de to-
das as coisas. Na harmonia que reina no Universo vemos a perfeição da Lei Divina estabelecida desde toda a eter-
nidade. Não há prodígios de exceção, tudo pertence à Lei Eterna de Amor e Justiça.
Assim, são estas leis eternas, perfeitas, imutáveis, imodificáveis como o próprio Deus.
Isto posto, fica mais fácil entender-se o motivo pelo qual um dos caracteres do milagre propriamente dito é o
ser inexplicável, por isso mesmo que se realiza com exclusão das leis naturais.
Outro caráter do milagre é o ser insólito, isolado, excepcional. Um milagre não se explica aparentemente, é
uma ação isolada, diferente, incomum.
É tanto essa a idéia que se lhe associa que, se um fato milagroso vem a encontrar explicação, se diz que já
não constitui milagre, por muito espantoso que seja.
A palavra “milagre” na atual interpretação significa um feito extraordinário que vai de encontro às leis da natu-
reza, ou seja, uma revogação da ordem natural das coisas, uma exceção à regra geral vigente.
Na mesma trilha segue o pensamento teológico, afirmando que por ser Deus onipotente, tudo lhe sendo possí-
vel, pode modificar as leis naturais, manifestando assim o Seu poder.
Esta conceituação excessivamente simplista e de cunho nitidamente humano reduz o Sábio dos Sábios à con-
dição precária de quem sanciona leis que não são integralmente cumpridas, diminui o Poder Infinito à situação de
quem construiu macros e microcosmos para alguém menor inverter ou subverter essa mesma ordem divina, colo-
cando o Criador na posição de quem elaborou leis repletas e transbordantes de exceções.
OS MILAGRES NO SENTIDO TEOLÓGICO
Para a Teologia, a origem dos milagres é sobrenatural, vem de Deus, sendo impossível de serem explicados,
constituindo-se um atentado contra a fé associar-se os milagres aos fenômenos da Natureza.
Contudo, o ser humano cada vez mais faz uso da razão, do discernimento, não aceita mais passivamente,
credulamente, os dogmas e artigos de fé impingidos pelas religiões, desprendendo-se pouco a pouco de conceitos
arcaicos, estagnados, raciocinando sobre o critério da Perfeição dos Atributos de Deus, de Sua Onipotência e Sabe-
doria.
Os milagres são atos inexplicados, mas não inexplicáveis. (A Gênese, XIII, item 17).
Foram fecundos em milagres os séculos de ignorância, porque se considerava sobrenatural tudo aquilo cuja
causa não se conhecia. À proporção que a Ciência revelava novas leis, o círculo do maravilhoso ia-se restringindo;
mas como a Ciência ainda não explora todo o vasto campo da Natureza, larga parte dele ficou reservada para o ma-
ravilhoso.
Kardec, em A Gênese, no item 14 do Cap. XIII, insere a seguinte questão: “Pois que o Espiritismo repudia toda
pretensão às coisas miraculosas, haverá, fora dele, milagres, na acepção usual desta palavra?”
E o próprio Codificador esclarece: “Digamos primeiramente, que os fatos reputados milagrosos, ocorridos an-
tes do advento do Espiritismo e que ainda no presente ocorrem, a maior parte, senão todos, encontram explicação
nas novas leis que ele veio revelar. Esses fatos, portanto, se compreendem embora sob outro nome, na ordem dos
fenômenos espíritas e como tais, nada têm de sobrenatural. Fique, porém, bem entendido que nos referimos aos fa-
tos autênticos e não aos que, com a denominação de milagres, são produtos de uma indigna sutileza, com o fito de
explorar a credulidade.
“Tampouco nos referimos a certos fatos lendários que podem ter tido, originariamente, um fundo de verdade,
mas que a superstição ampliou até ao absurdo. Sobre esses fatos é que o Espiritismo projeta luz, fornecendo meios
de apartar do erro a verdade”(conclui o Codificador).
FAZ DEUS MILAGRES?
Ainda em A Gênese no item 15 do mesmo cap. XIII, Kardec responde a indagação acima, esclarecendo que:
“Quanto aos milagres propriamente ditos, Deus, visto que nada lhe é impossível, pode fazê-los. Mas fá-los? Ou, por
outras palavras; derroga as leis que Dele próprio emanaram? Não cabe ao homem prejulgar os atos da Divindade,
nem os subordinar à fraqueza do seu entendimento. Contudo, em face das coisas divinas, temos, para critério do
nosso juízo, os atributos mesmos de Deus. Ao poder soberano reúne Ele a soberana sabedoria, donde se deve con-
cluir que não faz coisa alguma de inútil. Por que, então, faria milagres? Para atestar o seu poder, dizem. Mas, o po-
der de Deus não se manifesta de maneira muito mais imponente pelo grandiosos conjunto das obras da criação, pela
sábia previdência que essa criação revela, assim nas partes mais gigantescas, como nas mais mínimas, e pela har-
ApresentaçÃo
monia das leis que regem o mecanismo do Universo, do que por algumas pequeninas e pueris derrogações que to-
dos os prestidigitadores abem imitar?”
E conclui de modo admirável o insigne Codificador: “Não é, pois, da alçada da Doutrina dos Espíritos a ques-
tão dos milagres; mas, ponderando que Deus não faz coisas inúteis, ele (O Espiritismo) emite a seguinte opinião:
Não sendo necessários os milagres para a glorificação de Deus, nada no Universo se produz fora do âmbito das leis
gerais. Deus não faz milagres, porque, sendo, como são, perfeitas as suas leis, não lhe é necessário derrogá-las. Se
há fatos que não compreendemos, é que ainda nos faltam os conhecimentos necessários”.
O SOBRENATURAL E AS RELIGIÕES A AÇÃO DOS ESPÍRITOS SOBRE A MATÉRIA
O Sobrenatural e as Religiões
O que é sobrenatural? É aquilo que é superior ao natural, que excede as forças da Natureza, “que não é co-
nhecido senão pela fé”. Como o homem não sabe distinguir, por sua ignorância, o que está de acordo como as leis
da Natureza ou não, isto é, qual o limite entre o natural e o sobrenatural, ele passa a considerar tudo o que desco-
nhece como fatos extraordinários, maravilhosos ou de origem divina.
Tanta coisa tida como sobrenatural teve seus “mistérios” desvendados pela ciência humana, e essa é uma das
bases dos cépticos para não aceitarem da realidades espiritual, alegando que “isso tudo” é criação de homens inte-
ressados em dominar a massa humana, submetendo-as ao seu controle de governo, ou, ainda, produto da ignorân-
cia humana.
Independentemente de certas posições radicais, a grande maioria dos homens aceita a realidade espiritual, da
qual vai tomando, pouco a pouco maior conhecimento, libertando-se da ignorância, das superstições e crendices
primitivas. Os fantasmas, por exemplo, sempre considerados como fatos sobrenaturais, hoje, são perfeitamente ex-
plicados. Da mesma forma a vidência, a audiência, a levitação, a materialização, bicorporeidade etc., outrora
“milagrosos”, são hoje estudados com base científica, sem nenhuma conotação com o sobrenatural. É verdade que
os homens ainda aqui se dividem nas interpretações: uns considerando os fatos como decorrentes da própria ação
do homem, designado de sensitivo, como o chamam os parapsicólogos e outros, aceitando a participação dos Espí-
ritos, estudados de acordo com o método experimental adotado pela Doutrina Espírita.
O sobrenatural é considerado como um fundamento das religiões, uma manifestação do poder de Deus ou
uma forma Dele apresentar-se aos homens. Essa idéia é predominante nas religiões que admitem a unicidade das
existências e a não comunicação do poder de Deus ou uma forma Dele apresentar-se aos homens. Essa idéia é pre-
dominante nas religiões que admitem a unicidade das existências e a não comunicação dos Espíritos como os ho-
mens, fundamentadas em posições dogmáticas, segundo suas interpretações das revelações de “Deus”. Daí os mi-
lagres registrados no Velho e no Novo Testamento, como fatos sobrenaturais e decorrentes da manifestação da
vontade de Deus. Nesse poder milagroso, fincam suas raízes a adoração e a fé dos homens na esperança de alcan-
çar, da mesma forma, o reajuste de sue desequilíbrios.
As religiões que admitem, entretanto, a pluralidade das existências, e dentre delas o Espiritismo, generica-
mente, interpretam tais fatos de forma diferente, dado que colocam sob a responsabilidade do próprio homem a
obrigação de restabelecer sue equilíbrio, independente do “milagre” de Deus.
Ação dos Espíritos sobre a Matéria
O Espiritismo trazendo novos conhecimentos aos homens, através da Terceira Revelação, vem demonstrar
que o sobrenatural não existe e que sua crença constitui mera superstição e ignorância. (LM. Cap. IV e II, item 14, 1ª
parte e A Gênese, XIV, item 43)
Tais “milagres” resultam da ação do Espírito sobre a matéria por meio de seu corpo espiritual, através da
combinação, compressão ou condensação de fluidos retirados do ar (atmosfera fluídica) e do médium, que é sempre
um intermediário, consciente ou inconsciente, da ação do Espírito e sem o qual tais fenômenos não ocorreriam. (LM,
cap. VIII - Do Laboratório do Mundo Invisível).
Os milagres não são, pois, fatos sobrenaturais, significando somente coisa extraordinária, admirável de se ver.
Dada a ignorância das causas, o homem passou a considerá-los um ato do poder divino, contrário às leis da Nature-
za. Se Josué tivesse efetivamente detido o movimento do Sol (Josué, 10:12), aí sim seriam um verdadeiro milagre,
porquanto se opõe às leis naturais.
Capítulo 20
MEDIUNIDADE NO EVANGELHO
SUPERIORIDADE DA NATUREZA DE JESUS
Ao analisar a natureza espiritual de Jesus, pelas evidências e ensinos deixados como herança aos homens
torna-se iniludível reconhecê-lo como sendo um Espírito Superior, colocado, por suas virtudes, bem acima da huma-
nidade terrestre.
Diz Kardec que pelos imensos resultados que a sua encarnação produziu na Terra, admite-se que sua presen-
ça entre nós foi uma dessas Missões somente conferidas pela Divindade aos seus mais categorizados mensageiros.
Complementa Kardec que “como homem, tinha a organização dos seres carnais; porém, como Espírito Puro,
desprendido da matéria, havia de viver mais uma vida espiritual do que da vida corporal, de cujas fraquezas não era
passível. A sua superioridade com relação aos homens não derivava das qualidades do seu corpo, mas das do seu
espírito, que dominava de modo absoluto a matéria e das do seu perispírito, tirado da parte mais quintessenciada
dos fluidos terrestres.
Jesus praticou muitos atos e prodígios que não devem ser levados à conta de milagres. Tudo se deu em con-
seqüência de seu excelso padrão espiritual, aliado à incessante assistência de Deus. Os atos praticados por Jesus
não contrariavam as leis naturais, devendo portanto, ser creditados à sua elevada condição espiritual e à sua mais
absoluta perfeição moral.
Os prodígios de Jesus, embora tidos na conta de miraculosos por muitos, nada mais eram que o resultado da
aplicação de leis naturais e dos poderes psíquicos e atributos de um Espírito de elevada estirpe.
Diz André Luiz: “neguemo-nos a interpretar o Eterno Amigo como vulgar e revolucionário terreno. Reconhe-
çâmo-lo como a Luz do Mundo”.
Nesta análise da vida de Jesus e sua natureza espiritual, convém registrar algumas questões: Até que ponto
(grau ou nível de desdobramento) Jesus possuía a dupla vista? Agiu ele como médium nas curas que operava?
Jesus era Deus?
As respostas, lastreadas nos princípios fundamentais esclarecidos pelos Espíritos, atestam que todos os fatos
da vida de Jesus são considerados naturais, estando plenamente demonstrados pelo magnetismo e pelo Espiritismo.
Jesus, como Governador Planetário, Orientador da Humanidade terrena, desde sua formação, consoante in-
formações de Emmanuel em À Caminho da Luz, sua alma, como Espírito Puro que era “não se achava presa ao
corpo, senão pelos laços estritamente indispensáveis.. constantemente desprendida, ela decerto lhe dava dupla vis-
ta, não só permanente, como de excepcional penetração e superior de muito à que de originário possuíam os ho-
mens comuns”.
Kardec responde à segunda pergunta, esclarecendo que Jesus não era médium, isto é, instrumento de Espíri-
tos, porquanto Cristo não precisava dessa assistência, por que era ele quem assistia os outros. “Agia por si mesmo,
em virtude do seu poder pessoal, como o podem fazer, em certos casos, os encarnados, na medida de suas forças”.
Complementa Kardec, “se algum influxo estranho recebia, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição
dada por um Espírito, ele era médium de Deus, dado que era ele um intérprete das Leis Divinas junto aos homens.
Como Espírito Puro que era e vindo à encarnação para orientação definitiva da Humanidade terrena, trazendo
os postulados fundamentais da Lei do amor e prometendo complementá-la com “O Consolador”, deveria conhecer os
princípios fundamentas das Leis Divinas, mas não poderia ser, em hipótese alguma, o próprio Deus encarnado,
como afirmam as Igrejas dogmáticas.
Uma centena de vezes Jesus faliu em “Aquele enviou”, em “meu pai,” e outras expressões semelhantes.
No mais, os Espíritos agora esclarecem que Deus é a “inteligência suprema e causa primária de todas as coi-
sas”, e que os Espíritos Puros são seus emissários na organização e administração universal.
DUPLA VISTA: ENTRADA DE JESUS EM JERUSALÉM. PESCA MILAGROSA. VOCAÇÃO DE PEDRO,
ANDRÉ, TIAGO, JOÃO E MATEUS. NATANAEL
Introdução
Todos os fatos rejeitados e considerados de origem sobrenatural, nada mais são que efeitos das propriedades
do Fluido Perispiritual. A superioridade do Cristo não derivava de qualidades particulares de seu corpo, mas das do
seu Espírito, que dominava de modo absoluto a matéria e a do seu perispírito tirado da parte mais quintessenciada
dos fluidos terrestres. A pureza desses fluidos conferiam a Jesus imensa força magnética, secundada pelo inces-
sante desejo de fazer o bem, possibilitando-lhe estar sempre em estado de dupla vista. Alguns fatos do Evangelho
podem ser explicados pelo Espiritismo.
Entrada de Jesus em Jerusalém
Quando eles se aproximaram de Jerusalém (Mt., 21:1 a 7), chegaram a Betfagé, perto do Monte das Oliveiras,
Jesus enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: Ide a essa aldeia que está à vossa frente e, lá chegando, encon-
Mediunidade no Evangelho 47
trareis amarrada uma jumenta e junto dela o seu jumentinho; desamarrai-a e trazei-mos. Se alguém disser qualquer
coisa, respondei que o Senhor precisa deles e logo deixará que os conduzais”. Ora, tudo isso se deu, a fim de que se
cumprisse esta palavra do profeta. Dizei à filha de Sião: Eis o teu rei, que vem a ti, cheio de doçura, montado numa
jumenta e com o jumentinho da que está sob o jugo. (Zacarias, cap. IX, V .9)
Os discípulos então foram e fizeram o que Jesus lhes ordenara. E tendo trazido a jumenta e o jumentinho, a
cobriram com suas vestes e o fizeram montar.
Pesca Milagrosa
Um dia, estando Jesus à margem do lago de Genesaré, como a multidão de povo o comprimisse para ouvir a
palavra de Deus, viu ele duas barcas atracadas à borda do lago e das quais os pescadores haviam desembarcado e
levavam suas redes. Entrou numa dessas barcas, que era de Simão, e lhe pediu que a afastasse um pouco da mar-
gem; e, tendo-se sentado, ensinava ao povo de dentro da barca.
Quando acabou de falar, disse a Simão: Avança para o mar e lança as tuas redes de pescar. Respondeu-lhe
Simão: Mestre, trabalhamos a noite toda e nada apanhamos; contudo, pois que mandas, lançarei a rede. Tendo-a
lançado, apanharam tão grande quantidade de peixes, que a rede se rompeu. Acenaram para os companheiros que
estavam na outra barca, a fim de que viessem ajudá-los. Eles vieram e encheram de tal modo as barcas. Que por
pouco estas não se submergiram. (Lucas, 5: 1 a 7)
Vocação de Pedro, André, Tiago, João, Mateus. Natanael
Caminhando ao longo do mar da Galiléia viu Jesus dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão,
que lançavam suas redes ao mar, pois que eram pescadores; e lhes disse Segue-me e eu farei de vós pescadores
de homens. Logo eles deixaram suas redes e o seguiram.
Daí, continuando, viu ele dois outros irmãos, Tiago, e João, seu irmão, que estavam numa barca com Zebe-
deu, pois de ambos, os quais estavam a consertar suas redes e os chamou. Eles imediatamente deixaram as redes e
o seguiram. (Mt., 4: 18 a 22)
Saindo dali, Jesus, ao passar, viu um homem sentado à banca dos impostos, chamado Mateus, ao qual disse:
Segue-me e o homem logo se levantou e o seguiu. (Mt., IX:9)
Jesus viu a Natanael que o vinha procurar a convite de Felipe (Jo., 1:47) e disse: “Eis aí um verdadeiro israe-
lita, em quem não há artificio. Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Antes que Felipe te chamasse, eu te vi,
quando estavas debaixo da figueira, respondeu Jesus”.
Nada de surpreendente existe nestes fatos, desde que se conheça o poder da dupla vista e a causa muito na-
tural dessa faculdade. Jesus a possuía em grau elevado e pode-se dizer que ela constituía o seu normal, conforme
atestam grande número de seus atos, os quais, hoje, têm a explicá-los os fenômenos magnéticos e o Espiritismo.
Quando Jesus previu onde se encontravam, a jumenta e o jumentinho e, ao anunciar, com segurança, onde os
pescadores poderiam lançar suas rede, indicando o lugar onde achariam os peixes ou quando chamou a si Pedro,
André, Tiago, João e Mateus é que lhes conhecia as disposições íntimas e sabia que eles o acompanhariam, e que
eram capazes de desempenhar a missão que tencionava confiar-lhes, muito embora cada um tivesse intuição da
missão que iria desempenhar e, sem hesitação, atenderam seu chamado. Como poderia Jesus conhecer os pensa-
mentos dos seus seguidores senão pelas irradiações fluídicas desses pensamentos e ao mesmo tempo vista dupla,
que lhe permitir ler no foro íntimo. O homem nem sempre sabe que traz em si um “espelho” onde se reflete o seu
pensamento, um revelador da sua própria irradiação fluídica impregnada dele. Se conhecesse o mecanismo do
mundo invisível que o cerca, os fios ondulatórios condutores do pensamento, a ligarem todos os seres inteligentes,
muito menos surpreendido ficaria diante de certos efeitos que a ignorância atribui a “milagres”.
JESUS CAMINHA SOBRE AS ÁGUAS (Mt., 14:22-33) (Mc., 6:45-52)
“Logo depois ordenou Jesus aos discípulos que embarcassem e o precedessem na outra margem, enquanto
despedia o povo. Tendo-o despedido, subiu ao monte, para rezar num lugar retirado. Ao cair da noite, estava lá,
sozinho. Entretanto, a barca já ia a longa distância da terra e estava sendo açoitada pelas ondas,, porque o vento
era contrário. Lá pelas três horas da madrugada foi ter com eles, caminhando sobre o lago. Ao vê-lo andar sobre as
águas, ficaram os discípulos assustados. “É um fantasma!” diziam, soltando gritos de pavor. Mas logo Jesus lhes
disse estas palavras: ‘Coragem! Sou eu; não tenhais medo’. Então Pedro respondeu: ‘Senhor, se és tu mesmo, dá-
me ordem de ir ao teu encontro sobre as águas. Jesus lhe disse: ‘Vem!’ E Pedro, descendo da barca, foi ao encontro
de Jesus. Percebendo, porém, a fúria do vento, ficou atemorizado; e, começando a afundar, gritou: “Salva-me, Se-
nhor!” No mesmo instante Jesus estendeu a mão e o segurou, dizendo: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” E
ao subirem eles à barca, parou o vento. Então os que estavam na barca prostraram-se diante dele, dizendo: “Tu és
verdadeiramente o Filho de Deus!”. (Mt., 14:22-33)
Kardec dá duas alternativas para uma melhor análise do fenômeno, tendo por base as leis da Natureza, em
ambas as hipóteses é possível a ocorrência de tal fato. Jesus, embora vivo, pôde aparecer por sobre as águas, em
forma tangível, estando seu corpo em outro local (aparições tangíveis). A outra hipótese supõe que seu corpo fosse
sustentado e neutraliza a sua gravidade pela mesma força fluídica que mantém no espaço um objeto, sem qualquer
ponto de apoio.
O mecanismo é envolver-se o Espírito com “atmosfera fluídica” que dá leveza específica como o ar nos balões
(por analogia), permitindo a levitação. Hoje, sabe-se, também da força magnética que faz barcos andarem sobre um
“colchão de ar”.
Curso de Aprendizes do Evengelho48
TEMPESTADE APLACADA (LC., 8:22-25) E (MT., 8:23-27)
Um dia, subiu a uma barca com os seus discípulos e lhes disse: “Passemos a outra margem do lago.” E parti-
ram. Enquanto navegavam, adormeceu. Desencadeou-se uma tempestade no lago, e já corriam perigo, invadidos
pelas águas. Aproximaram-se, pois, e o despertaram, dizendo: “Mestre! Mestre! Estamos perdidos!” Tendo ele acor-
dado, repreendeu ao vento e ao tumulto das vagas; acalmaram-se e veio a bonança. Então lhes perguntou: “Onde
está a vossa fé?” Forma tomados de medo e admiração, e diziam entre si: “Quem é este que ordena aos ventos e às
vagas , e eles obedecem?” (Lc., 8:22-25)
Nas questões 536 a 540 de “O Livro dos Espíritos”, os amigos espirituais elucidam acerca da interferência de
entidades desencarnadas de diferentes níveis de evolução, como executantes de ordens emanadas da Espiritualida-
de Maior, nos fenômenos da Natureza. Entretanto, deixam ainda um espaço para maiores digressões futuras acerca
do assunto.
Se assim é, não se estranha o fato de Jesus ter ampla autoridade sobre essas inteligências e “prova um poder
que a nenhum homem é dado exercer”(A Gênese). O fato de estar Jesus a dormir tranqüilamente, durante a tem-
pestade, atesta a sua superioridade em compreender que não haveria risco algum naquele momento. Na parte mo-
ral, o assunto enseja o ensino de provar-se a fé e a confiança justamente nos momentos mais difíceis. Os obstácu-
los sempre virão até que o Espírito se auto-domínio, educando-se confiantemente no aprendizado das leis divinas.
ÁGUA TORNADA VINHO (BODAS DE CANÁ) (JO., 2:1-11)
Este “milagre” encontra-se unicamente no Evangelho de João e é apresentado como o primeiro a ser operado
por Jesus (o que deveria ter sido levado em conta pelos outros evangelistas); entretanto, pouca ou nenhuma impres-
são causou. Segundo Kardec, o fato em si mesmo não tem tanta importância, visto que a missão de Jesus transcen-
dia fenômenos puramente materiais.
Se bem que se pudesse atribuir o fato a uma transformação das propriedades da água por ação magnética,
diz Kardec, em “A Gênese”,: “Entre as hipóteses, deve-se preferir a mais racional e os espíritas não são tão crédulos
que por toda a parte vejam manifestações, nem tão absolutos em suas opiniões, que pretendam explicar tudo por
meio dos fluidos.” Kardec diz ser mais racional ver aí uma dessas parábolas tão freqüentes no ensinamento de
Jesus, como a parábola da figueira que secou, do mau rico e outras que forma interpretadas e reinterpretadas atra-
vés dos tempo, trazendo em seu bojo um cunho pessoal e ambíguo à postura íntegra e uniforme de Jesus.
Em O Livro dos Médiuns, cap. VIII (Laboratório do Mundo Invisível), item 129, Kardec afirma que “o Espírito
pode operar, pela vontade, sobre a matéria elementar, uma transformação íntima que lhe dá certas propriedades.”
TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS (MT., 17:1-13), (MC., 9:2-13) E (LC., 9:28-36)
Segunda a tradição, ocorreu no Monte Tabor (que fica a 11 quilômetros a sudeste de Nazaré, com aproxima-
damente 1.000 m de altura) para onde se dirigiu com três dos seus discípulos, Pedro, Tiago e João e aos quais apa-
receu transfigurado.
Seu rosto resplandeceu como o sol, suas vestes se tornaram brilhantes e brancas como a luz e eis que apare-
ceram Elias e Moisés, falando com ele. Em seguida, uma nuvem luminosa os envolveu e uma voz que da nume sa-
ía, anunciou: “Este é o meu filho muito amado, escutai-o.”
Minutos depois, Jesus se apresenta aos discípulos no seu estado habitual e lhes proibiu que falassem do ocor-
rido, até que ele houvesse ressurgido dentre os mortos. E seus discípulos guardaram segredo, mas sem compreen-
derem o que queria dizer ressurgir dentre os mortos. (Mt., 17:1-9)
E Deus, que aprovava tudo o que Seu Enviado fazia. Ordenou que um Espírito transmitisse aquelas palavras
confirmadas, pela segunda vez, do messiado de Jesus.
Hoje, compreende-se a possibilidade desse fenômeno e da narrativa evangélica. Kardec em A Gênese, cap.
XV, resume que a explicação para este fenômeno se encontra nas propriedades do fluido perispiritual, sendo um
fato muito comum que em virtude da irradiação fluídica pode modificar a aparência de um indivíduo.
No caso de Jesus, a pureza de seu perispírito permitiu que seu Espírito lhe desse excepcional fulgor, como um
sol. A mesma luz que ofuscou a Paulo de Tarso, na Estrada de Damasco.
De todas as faculdades reveladas por Jesus, nenhuma se pode dizer inacessível às possibilidades da Humani-
dade, porque estão todas na ordem da Lei Natural.
Em razão porém de sua superioridade, de sua essência moral e de suas qualidades fluídicas, aquelas faculda-
des atingiam nele proporções muito acima das que são comuns. Colocado de lado o seu envoltório carnal, Jesus fa-
zia sobressair o estado dos puros Espíritos.
No cap. VII de O Livro dos Médiuns, item 123, encontra-se a transfiguração como uma modificação das dispo-
sições moleculares do perispírito.
Prossegue ainda o codificador lionês, agora pelo item 39, do cap. XIV de A Gênese, a elucidar o mecanismo
do fenômeno:
“Podendo o Espírito operar transformações na contextura do seu envoltório perispirítico e irradian-
do-se esse envoltório em tono do corpo qual atmosfera fluídica, pode produzir-se na superfície mesma do
corpo apagar-se mais ou menos completamente, sob a camada fluídica, e assumir outra aparência; ou,
então, vistos através da camada fluídica modificada, os traços primitivos podem tomar outra expressão.
Se, saindo do terra-a-terra, o Espírito encarnado se identifica com as coisas do mundo espiritual, pode a
Mediunidade no Evangelho 49
expressão de um semblante feio tornar-se bela, radiosa e até luminosa: se, ao contrário, o Espírito é pre-
sa de paixões más, um semblante belo pode tomar um aspecto horrendo.
Assim se operam as transfigurações, que refletem sempre qualidades e sentimentos predominantes
no Espírito. O fenômeno resulta, portanto, de uma transformação fluídica; é uma espécie de aparição pe-
rispirítica, que se produz sobre o próprio corpo do vivo e, algumas vezes, no momento da morte, em lugar
de se produzir ao longe como nas aparições propriamente ditas. O que distingue as aparições desse gê-
nero é o serem, geralmente, perceptíveis por todos os assistentes e com os olhos do corpo, precisamente
por se buscarem na matéria carnal visível, ao passo que, nas aparições puramente fluídicas, não há ma-
téria tangível.”
É interessante lembrar que se outro Espírito combinar o seu fluido com o do primeiro, pode substituir a apa-
rência da pessoa, que poderá variar como esses Espírito quiser.
A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES (MT., 14:31-21 E 15:32-39), (MC., 6:30-44), (LC., 9:10-17) E (JO.,
6:1-15)
“Chamando Jesus a seus discípulos disse: Tenho compaixão desta gente, porque há três dias que permane-
cem comigo e não têm o que comer; e não quero despedi-la em jejum, para que não desfaleçam pelo caminho. Mas
os discípulos lhe disseram: Onde haverá neste deserto tantos pães para fartar tão grande multidão? Perguntou-lhes
Jesus: Quantos pães tendes? Responderam: sete e alguns peixinhos. Então, tendo dando graças, partiu e deu aos
discípulos. E estes ao povo. Todos comeram e se fartaram; e do que sobejou recolheram sete cestos cheios. Ora os
que comeram eram quatro mil homens, além de mulheres e crianças. E tendo despedido o povo, Jesus entrou no
barco e foi para o território de Magdala. (Mt., 15:32-39) (Obs. Esta foi a segunda multiplicação dos pães).
Todos os fenômenos quando desconhecidos, na sua essência, são tidos como miraculosos.
São inúmeros os casos de produções, por Espíritos, de matérias comestíveis.
O Espiritismo reintegra as verdades evangélicas no seu verdadeiro lugar, dando-lhes o justo valor, explicando-
as de acordo com a razão e a verdadeira ciência, conforme as Leis Naturais.
Concluímos, e não, que eram de duas naturezas os pães que Jesus ofereceu à multidão que seguia seus pas-
sos: o pão para o corpo e o pão para a alma, o que sacia a fome do Espírito.
Em O Livro dos Médiuns, cap. VIII (Laboratório do Mundo Invisível), no item 128, perg. 12 e 13, Kardec per-
gunta a São Luiz: “O Espírito pode fazer uma substância salutar apropriada à cura de uma doença? R.: Sim.
Poderia da mesma maneira, fazer uma substância alimentar? Alguém poderia comê-la e saciar-se? R.: Sim.
É apenas um trabalho químico e os Espíritos têm a vontade e a permissão de Deus.”
No caso da multiplicação dos pães, sabe-se hoje que Jesus agiu sobre a matéria, tirando do elemento univer-
sal as moléculas necessárias à formação do pão.
As substâncias agem na economia orgânica e estes pães, elaborados pela vontade e benevolência de Jesus,
que se apiedou do povo faminto, também agiu beneficamente sobre o estômago, produzindo a sensação de sacie-
dade.
O PÃO DA VIDA (JO., 6:22-41)
João Evangelista, no cap. 6, vers. 22 narra que, no dia seguinte à multiplicação dos pães, a multidão procura
Jesus novamente. Como sempre, o Mestre usa de energia e amor.
“Trabalhai, não pela comida que perece, mas para a vida eterna.”
Conhecedor profundo das almas, Jesus sabia que os sinais prodigiosos da multiplicação passaram em vão e
apenas a fome saciada lhes comovera as entranhas. Trabalhar pelo pão de cada dia é necessário à sobrevivência fí-
sica com dignidade; trabalhar pelo alimento espiritual é elaborar a imortalidade.
Este valor intrínseco da nutrição espiritual, Jesus colocou na oração dominical: “O pão nosso de cada dia dai-
nos hoje”, não o pão para o qual trabalhamos fisicamente, mas o Pão de Deus, o que dá vida ao mundo.
Ele complementa: “Eu sou o Pão da Vida, quem vem a mim não terá fome.”
Sendo nós seus discípulos, seguindo suas orientações morais e espirituais, estaremos saciados e não teremos
angústias e necessidades.
Capítulo 21
AS APARIÇÕES DE JESUS APÓS SUA MORTE
Todos os quatro evangelistas narram as aparições de Jesus após a sua morte, fazendo-o com riquezas de
detalhes, a fim de não pairar qualquer dúvida sobre a realidade do fato. Essas aparições se explicam perfeitamente
pelas propriedades do perispírito, pois, observando-se cuidadosamente as circunstâncias em que ocorreram, nelas
reconhece-se todos os caracteres peculiares a um ser fluídico.
O Mestre aparece inopinadamente e do mesmo modo desaparece; uns o vêem, outros não, com aparências
diversas de modo que nem os seus discípulos o reconhecem de pronto. Penetra a matéria, adentrando recintos fe-
chados; fala com os seus discípulos em tom breve e sentencioso, observando-se claramente, em todas as suas ati-
tudes, que ele já não faz parte do mundo terreno. Suas aparições são produzidas de tal maneira que causam simul-
taneamente surpresa e assombro; eles pressentem que já não se trata de um ser corpóreo.
É patente, pois, que Jesus se mostrou com o seu corpo perispirítico, o que explica que ele somente tenha sido
visto pelos que ele desejava que o vissem. É fora de dúvida que, se ele estivesse com o seu corpo carnal, todos o
veriam da mesma forma como acontecia antes da morte.
Antes da sua morte na cruz, o Mestre tinha um copo material de natureza semelhante ao de toda a gente.
Após o episódio de sua crucificação, o seu corpo se conservou inerte e sem vida; foi sepultado como o são de ordi-
nário os corpos e, além disso, muitas pessoas puderam vê-lo e tocá-lo.
A primeira aparição foi para Maria Madalena. Estando ela chorando perto do sepulcro, abaixando-se para ver
melhor o lugar onde o corpo de Jesus havia sido colocado, ela viu dois Espíritos de grande elevação, vestidos de
branco que lhe falaram: “Porque buscais entre os mortos ao que vive?”, e ao ser inquirida sobre o motivo de suas lá-
grimas, disse ela: “É que levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram”.
Em seguida ela viu um homem que julgou ser o jardineiro e lhe fez a seguinte indagação: “Senhor, foste tu
quem o tirou, da quem o tirou, diga-me onde o puseste”?
O irreconhecível personagem então exclamou: Maria! Logo ela reconheceu ser Jesus, e, voltando-se disse:
“Rabboni!”(Isto é: Senhor). Logo a seguir disse-lhe o Mestre: “Não me detenhas porquanto ainda não subi para meu
Pai; mas, vai ter com meus irmãos e dize-lhes de minha parte: Subo a meu Pai, a vosso Pai, a meu Deus e vosso
Deus”. (Jo., 20:11)
Nessa descrição evangélica observa-se dois detalhes interessantes: o Mestre deu demonstração de que não
tinha mais um corpo físico, por isso não permitiu que Madalena o tocasse. Além disso deixou bem claro que não era
Deus, o Criador de todas as coisa, mas uma de suas criaturas.
Nesse mesmo dia, após ter surgido aos olhos atônitos de Maria Madalena, Jesus apareceu junto a dois discí-
pulos que se dirigiam de Jerusalém para Emaús, tornando-se novamente irreconhecível. Acatando generoso convite
para que permanecesse com eles em Emaús, e assentando-se à mesa, tomou do pão, abençoou-o e repartiu-o. Nes-
se ato eles reconheceram que o personagem desconhecido era Jesus, entretanto, logo a seguir ele desapareceu de
suas vistas.
Cabe aqui esclarecer que a primeira aparição de Jesus a Madalena foi simplesmente visível e audível, porém
não foi tangível. No caso dos dois discípulos de Emaús, ela aconteceu de modo diverso: foi visível, audível e tangí-
vel. O Mestre, com seu corpo perispirítico podia, à sua vontade, dar ou retirar dele a tangibilidade, bem como desa-
parecer quando lhe aprouvesse.
Após a retumbante manifestação do Espírito de Jesus no caminho de Emaús, os dois discípulos voltaram
apressadamente para Jerusalém, onde os apóstolos e alguns discípulos estavam reunidos num recinto fechado.
Enquanto os dois narravam o que lhes aconteceu no caminho de Emaús, o Espírito de Jesus se apresentou no
meio deles, dizendo: “a paz seja convosco; sou eu, não vos assusteis”. Em seguida, mostrou-lhes as chagas que ti-
nha nas mãos e nos pés.
O apóstolo Tomé não estava presente e, quando voltou, surpreendeu-se mas não deu credito às informações
dos seus companheiros de apostolado, adiantando que somente passaria a crer se visse as chagas produzidas pelos
cravos e também o rasgão que havia a seu lado.
Oito dias depois, Jesus se apresentou novamente entre eles, estando fechadas todas as portas. Dirigindo-se a
Tomé, que então estava presente, disse-lhe Jesus: “Põe aqui o teu dedo e olha minhas mãos, estende também a tua
mão e mete-a no meu lado”. Tomé, num misto de alegria e surpresa, se limitou a dizer: “Meu Senhor e meu Deus!”
O Mestre então lhe disse: “Tu creste, Tomé, porque viste; ditosos os que creram sem ver”. (Jo., 20:20-29)
Nova aparição aconteceu quando da pesca que Pedro, Tomé, João, Tiago Maior, Natanael e outros discípulos
faziam no Mar de Tiberíades. Durante toda a noite não haviam apanhado nada. Logo ao amanhecer Jesus apareceu
sem se dar a conhecer, recomendando-lhes que lançassem a rede do lado direito do barco. Eles a lançaram e logo
quase não a puderam retirar, tão carregada estava de peixes. Nisso o apóstolo João reconheceu o Mestre e excla-
mou: “É o Senhor!” Ao ouviu essa palavra, Pedro, que estava nu, tomou sua túnica e se atirou ao mar a fim de se
encobrir. (Jo., 21:1)
O evangelista Lucas (24:50-53) afirmou que o Espírito de Jesus tornou a aparecer em Betsaida, onde abenço-
ou os discípulos e deles se separou. Mateus, por sua vez (28:16-20) legou a informação de que a última aparição de
Jesus foi na Galiléia, no monte onde ele havia designado. Ali ele disse: “É me dado todo o poder no Céu e na Terra”,
recomendando aos seus apóstolos que se encarregassem de difundir os ensinamentos evangélicos.
Afirmou Paulo de Tarso em sua 1ª Epístola aos Coríntios, que, após o ser ressurgimento o Cristo foi visto por
Pedro e depois pelos doze. Depois foi visto por mais de quinhentos irmãos, e novamente por Tiago, e por todos os
As Aparições de Jesus após a sua Morte 51
apóstolos, e ao final, depois de todos foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo.” (1ª Epístola
aos Coríntios, 15:5-8).
O livro Atos dos Apóstolos afirma que Jesus apareceu aos olhos de Ananias, instruindo-o para que procurasse
Paulo de Tarso, na cidade de Damasco, e fizesse com que recuperasse a visão. (At., 9:10-12)
Corroborando ter Jesus um corpo perispirítico, afirmou ainda o apóstolo Paulo em sua 1ª Epístola aos Corín-
tios (1ª Cor., 15:40) “Há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres;
semeia-se corpo animal há também o corpo espiritual; a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a
corrupção herdar a incorrupção”.
Capítulo 22
AS CURAS NO EVANGELHO
INTRODUÇÃO
Os milagres realizados por Jesus de Nazaré e descritos pelos Evangelistas constituíram, até o advento da Co-
dificação Espírita, matéria ignorada ou re-interpretada através dos tempos, através dos costumes e culturas diversas,
por exegetas, em sua maioria, ainda condicionados ao pensamento de filósofos católicos.
Kardec diz em A Gênese: “Os fatos que o Evangelho relata e que foram até hoje considerados milagrosos
pertencem, na sua maioria, à ordem dos fenômenos psíquicos, isto é, dos que têm como causa primária as faculda-
des e os atributos da alma. (...) O princípios dos fenômenos psíquicos repousa, nas propriedades do fluido perispiri-
tual, que constitui o agente magnético; nas manifestações da vida espiritual durante a vida corpórea e depois da
morte; e, finalmente, no estado constitutivo dos Espíritos e no papel que eles desempenham como força ativa da
Natureza”.
Em todos os casos, o agente propulsor é o Espírito. A cura se dá pela troca de uma molécula malsã por uma
sã. Muitos fenômenos que no passado foram considerados milagrosos por não constarem na ocasião como uma
comprovação científica são hoje fatos corriqueiros porque dentre da lógica dos fenômenos anímicos e mediúnicos.
Muitos fatos que são tidos como miraculosos por não se lhes conhecer a causa determinante, atendo-se esta inter-
pretação ao efeito ou resultado. Mas identificada a causa do fenômeno tido por sobrenatural, fica o mesmo colocado
no domínio dos fatos naturais. A potência curadora depende da pureza da substância fluídica inoculada.
Em conclusão, não há milagres no sentido comum do termo, na acepção vulgar da palavra, porque tudo o que
acontece é decorrente das leis eternas da Criação, leis perfeitas e imutáveis. No caso de Jesus, ele apenas por sua
presença, criava à sua volta um campo vibratório energético que ativava o potencial fluídico do paciente; este, pela
força do seu pensamento em sintonia com a carga psíquica do Mestre, possibilitava as modificações biopsíquicas
traduzidas pelas curas e pelos prodígios todos. Razão pela qual Jesus dizia aos pacientes curados: “A tua fé te cu-
rou. Perdoados te são os teus pecados, vá e não peques mais”. “Vós sois deuses, podeis fazer o que faço e muito
mais”(Jesus aos Apóstolos). A ação magnética pode produzir-se de várias maneiras.
Perda de Sangue
“Então , uma mulher, que havia doze anos sofria de uma hemorragia... como ouvisse falar de Jesus, veio com
a multidão atrás dele e lhe tocou as vestes... no mesmo instante o fluxo sangüíneo lhe cessou.... logo, Jesus, conhe-
cendo em si mesmo a virtude que dele saíra, se voltou e disse: Quem me tocou as vestes?... a mulher lhe declarou
toda a verdade. Disse-lhe Jesus: Minha filha, tua fé te salvou...”( Mc., 5:25 a 34)
Segundo Kardec, as palavras “conhecendo em si mesmo a virtude que dele saíra”, são significativas, à medi-
da em que Jesus sentia e conhecia a movimentação fluídica que se operara nele em direção à doente. O fato se
tona interessante pois Jesus não magnetizara a mulher, nem tampouco se apercebera dela. E porque ela curou-se
de seu mal e não qualquer das criaturas enfermas que lá estavam?
Kardec elucida a questão, dizendo que o fluido pode ser dirigido sobre o mal pela vontade do curador, ou
“atraído pelo desejo ardente, pela confiança, numa palavra: pela fé do doente”. Compreende-se portanto, que a fé é
uma virtude mística mas uma verdadeira força atrativa e que havendo dois ou mais doentes do mesmo mal, na pre-
sença do curador, um pode se curar e o outro não.
Cego de Betsaida
“... trouxeram-lhe um cego que lhe pediram que o tocasse. Tomando o cego pela mão, passou-lhe saliva nos
olhos e, havendo-lhe imposto as mãos, lhe pergunta se via alguma coisa. O homem olhando, disse... vagamente...
novamente Jesus lhe impôs as mãos e gradativamente a visão foi-lhe voltando até tornar-se clara e nítida”. (Mc.,
8:22 a 26)
Aqui existe o efeito magnético: a cura foi imediata mas lenta e gradual embora definitiva.
Paralítico de Cafarnaum
“... lhe apresentaram um paralítico... Jesus, notando-lhe a fé, disse-lhe: Meu filho, tende confiança; perdoados
te são os teus pecados... levanta-te, toma o teu leito e vai para a tua casa. O paralítico se levantou imediatamente e
foi para a sua casa...”(Mt., IX - 1-8) (Jo., 5:1)
Com a Doutrina Espírita temos hoje a comprovação do fenômeno reencarnatório, seus mecanismos e suas
implicações com fatos ocorridos em vidas anteriores. Por conseguinte, se a enfermidade daquele homem era uma
expiação do mal que ele praticara, o fato de Jesus dizer-lhe “perdoados são teus pecados”, eqüivale a dizer-lhe que
no cumprimento de seus débitos para com as Leis Eternas, o doente já se libertara. “Cessada a causa, o efeito tem
que cessar”. ( A Gênese, cap. XV, item 15)
As Curas no Evangelho
Os Dez Leprosos
“... passava ele pela Samaria e Galiléia... dez leprosos vieram ao seu encontro e clamaram em altas vozes:
Jesus, Senhor nosso, tem piedade de nós. ... no caminho, ficaram curados. Um deles, voltou sobre seus passos lan-
çou-se aos pés de Jesus e lhe rendeu graças. Esse era samaritano.
Disse Jesus: “Não foram curados todos os dez? Onde estão os outros nove? Nenhum deles houve que voltas-
se e glorificasse a Deus, a não ser este estrangeiro? Levanta-te, vai; tua fé te salvou”. (Lc., 17:11-19)
O relacionamento equivalente aos samaritanos e judeus na época de Jesus, equivaleria hoje aos dos protes-
tantes e católicos. Curando a todos, samaritanos e judeus, dava Jesus um exemplo de tolerância - só o samaritano
voltou pois somente ele trazia a somatória de fé suficiente a realizar-lhe a cura. Dizendo ao samaritano: “Tua fé te
salvou”, dá Jesus a entender que o mesmo não acontece aos outros (Kardec, A Gênese). Estar curado nem sempre
significa estar salvo.
O Homem da Mão Ressequida
“... entrou Jesus no templo e aí encontrou um homem que tinha secado uma das mãos - e eles o observaram
para ver se ele curaria em dia de sábado... Disse ele ao homem que tinha a mão seca: levanta-te e coloca-te ali no
meio - depois disse-lhes: “E permitido em dia de sábado fazer o bem ou o mal, salvar a vida ou tirá-la? - eles perma-
neceram em silêncio... disse ao homem, “estenda a tua mão”. Ele a estendeu e ela se tornou sã. (Mc., 3: 1 a 8)
O amor não tem dia e hora para ser praticado e o magnetismo de Jesus agiu serenamente sobre a atrofia
nervosa daquele homem. Disse o Mestre: “Meu Pai não cessa de agir e eu também ajo sem cessar”. Como o sábado
é que foi feito para o homem e pelo homem, a verdadeira caridade está nos sentimentos nobres.
O Paralítico da Piscina
“... havia em Jerusalém, uma piscina denominada Betsaida, com cinco galerias, onde deitavam doentes, ce-
gos, coxos, todos à espera de que as águas fossem agitadas pelo Anjo do Senhor... quando então traria a cura
àquele que fosse o primeiro a entrar nela... estava lá um homem que se achava doente há trinta e oito anos... Jesus
sabendo-o enfermo perguntou-lhe se queria ficar curado, ao que o paralítico respondeu que não havia ninguém que
o lançasse à piscina.. Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma teu leito e vai-te; e no mesmo instante o homem se achou
curado...” (Jo., 5:1 a 17)
A piscina de Betsaida, em Jerusalém, era uma cisterna próxima ao Templo, alimentada por uma fonte natural,
cuja água parece ter tido propriedades curativas - era uma fonte intermitente que vez por outra jorrava com força,
agitando suas águas - acreditava-se ser este o instante de proceder-se às curas. Talvez as propriedades das águas
fossem ativadas com este fenômeno procedendo à cura de algumas moléstias. Hoje conhecemos bem o poder cura-
tivo de determinadas fontes de água mineral e outras, mas à época, o fenômeno passava por sobrenatural.
Jesus, ao curar o paralítico, ainda acrescenta: “Não tornes mais a pecar, para que não lhe sucedam coisas pio-
res”.
Por estas palavras deu-lhe a entender que o seu problema era devido a sérios compromissos assumidos em
vidas anteriores e deleteriamente gravados em seu perispírito - o que na linguagem da época seria uma punição por
atos praticados. Que ele procurasse preservar-se, pois, de outros desacertos.
Cego de Nascença
“... viu Jesus um homem que era cego desde que nascera... seus discípulos lhes perguntaram se havia sido
pecador o homem ou se ele pagava dívidas de seu pais - Jesus respondeu: Não é por pecado dele, nem dos pais,
mas para que nele se patenteiem as obras do poder de Deus... Tendo dito isto, cuspiu no chão e, havendo feito lama
com a sua saliva, ungiu com essa lama os olhos do cego e lhe disse para ir lavar-se... ele foi, voltou vendo clara-
mente... perguntaram-lhe então como se curara e ele lhes disse que “aquele homem que se chamava Jesus me cu-
rou”... E os fariseus também o interrogaram... e o chamaram uma segunda vez e ele lhes disse: “Se esse homem
não fosse um enviado de Deus, nada poderia fazer de tudo o que tem feito...” (Jo., 9:1 as 34)
A situação constrangedora a que foi submetido o cego de nascença, colocando frente aos fariseus que procu-
ravam, a todo custo distorcer a Verdade personalizada em Jesus e patenteada em suas uras, serve como exemplo
de simplicidade ante as dificuldades e empeços colocados por aqueles que queriam, a todo custo, comprometer
Jesus e sua obra - o que não conseguem.
À pergunta dos discípulos, sobre quem pecara, o cego ou seus pais, responde Jesus não ser uma ocorrência
de “pecado”, mas que nele se patenteava poder de Deus, isto é, o cego de nascença era um instrumento a uma ma-
nifestação do poder de Deus. Se não era uma expiação do passado, era uma provação apropriada ao progresso da-
quele Espírito, porquanto Deus, que é justo, não lhe imporia um sofrimento sem utilidade.
Quanto ao meio empregado para a sua cura, é evidente que a fórmula saliva-terra fôra um veículo de energia
curativa empregadas por Jesus.
O Servo do Centurião de Cafarnaum
“... Cafarnaum - veio a ter com Jesus um centurião, suplicando-lhe: “Senhor, tenho em casa um servo que
está enfermo com paralisia, sofrendo horrivelmente”. Disse Jesus: “Irei curá-lo”. Ao que responde o centurião:
“Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa; mas dizei uma palavra e meu servo será curado...” Ouvindo
isto, Jesus admirou-se e disse aos que acompanhavam: “Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel encon-
trei tamanha fé...” E disse Jesus ao centurião: “Vai e, como creste, assim será feito. E naquela mesma hora o servo
ficou são”. (Mt., 8:5 a 13); (Lc., 7:1 a 10)
Curso de Aprendizes do Evengelho54
Outras Curas Operadas por Jesus
“... Jesus ia por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todos os
langores e todas as enfermidades no meio do povo... traziam-lhe os doentes e afligidos por males diversos, os pos-
sessos, lunáticos, paralíticos e ele a todos curava - acompanhava-o grande multidão...”(Mt., 4:23 a 25)
Diz kardec que de todos os fatos que atestam o poder de Jesus, os mais numerosos são, indubitavelmente, as
curas. “Queria ele provar dessa forma que o verdadeiro poder é o daquele que faz o bem” - que aliviando sofrimen-
tos, fazia prosélitos pelo coração, fazendo-se entendido e amado.
Tal faz o Espiritismo - cura males físicos, mas sobretudo cura as chagas morais; seus mais sinceros adeptos
não são os que se maravilham ante a fenomenologia, mas aqueles que experimenta, a transformação em seus ca-
racteres, com vistas à nobreza do Espírito.
RESSURREIÇÕES:
Jesus ressuscitou o filho da viúva de Naim, quando seu corpo atravessava a rua, levado a enterrar (Lc., 7:11);
ressuscitou a filha de Jairo, que era príncipe da Sinagoga e que lhe fôra implorar, de joelhos, que impusesse as
mãos sobre a sua filha (Mc., 5:35) e (Mt., 9:18) e ressuscitou finalmente à Lázaro (Jo., 11:11) irmão de Marta e de
Maria de Betânia.
A Ressurreição de Lázaro
A ressurreição de Lázaro, por muito impressionante, foi a que se tornou mais conhecida, apesar de os homens
durante séculos só a terem compreendido pela letra, e foi feita para o fortalecimento da fé em seus seguidores.
Como na ressurreição da filha de Jairo, Jesus declarou inicialmente que Lázaro não estava morto. Disse cla-
ramente que a sua enfermidade não ia até a morte e que ela (a doença) viera para a glória do Pai e para que o Filho
de Deus fosse glorificado. Tanto assim, que, amando muito a Lázaro e as suas irmãs, esperou propositadamente que
se passassem dois dias para atender ao chamado, visto que sabia e disse aos discípulos, que seu amigo Lázaro
dormia e que o iria despertar do sono.
Em caminho, porém, como não devesse evitar a crença de que Lázaro estava morto, por reconhecer que os
homens ainda não se encontravam, não se achavam preparados para receber as explicações que ele teria que dar,
se assim não procedesse, julgou conveniente ocultar certos fatos que seriam, em época própria explicados pelo
Consolador e corroborados pela Ciência.
Então, disse que Lázaro estava morto, mesmo porque, naquele estado de catalepsia, ainda hoje, só mesmo
Jesus poderia fazê-lo retornar a vida plena.
Colocado havia quatro dias, num túmulo qual os que se usavam naquela época (catacumbas, cavernas), Láza-
ro fôra vítima de uma enfermidade pútrida, deveria cheirar mal, como supunha sua irmã, mas que não tem confir-
mação no Evangelho e foi talvez por isso, que, mais tarde, deram o nome de Mal de São Lázaro aos leprosos. To-
davia, Lázaro não tinha lepra, porque se a tivesse não poderia viver junto à família.
Ao dizer que Lázaro estava morto, por assim entender necessário, Jesus, rendendo graças ao Pai, porque ia
fazer voltar a vida ao corpo de seu amigo, humildemente se dirigiu a Deus dizendo: “Assim falei por causa do povo
que me cerca, para que creiam que tu me enviaste”. (Jo., 11:41 e 42)
Possuindo o dom da presciência, Jesus tinha antecipado conhecimento do que estava para verificar-se.
O espírito de Lázaro não havia ainda total e definitivamente abandonado o corpo doente. Fraquíssimo era, em
verdade, o laço que os ligava, já quase rompido e Lázaro morreria realmente se Jesus não aparecesse. Foi, atuando
sobre esse laço que Jesus operou o fenômeno, revitalizando o organismo de Lázaro, transmitindo-lhe fluidos vivifi-
cantes, como numa transfusão.
Jesus necessitou impressionar os homens ainda muito presos às coisas da matéria, do seu tempo, de maneira
que o fato atravessasse os séculos e pudesse produzir frutos em todas as épocas.
Se o espírito de Lázaro (como os outros - o filho da viúva de Naim e a filha de Jairo) já se houvesse desligado
totalmente do corpo, Jesus não os faria voltar à vida terrena, porque isso seria contrariar às leis imutáveis do Cria-
dor, que, Onisciente, Jamais derroga as que emanaram da sua infinita sabedoria.
Ressurreição da Filha de Jairo
Recordemos a narrativa evangélica: “Enquanto assim lhes falava, veio um chefe da sinagoga e adorava-o, di-
zendo: “Neste momento acaba de expirar minha filha: mas vem, põe tua mão sobre ela e viverá”. E Jesus, levan-
tando-se, o foi seguindo com seus discípulos. Quando Jesus chegou à casa do chefe da sinagoga, vendo os tocado-
res de flauta e a multidão em alvoroço disse: “Retirai-vos; pois a menina não está morta, mas sim dormindo”. E ri-
ram-se dele. Mas retirada a multidão, entrou Jesus, tomou a menina pela mão e ela levantou. E a fama deste fato
corroeu por toda aquela terra”. (Mt., 9:18, 19, 23, 24 e 26); (Lc., 8:40) e (Mc., 5:21)
É este um caso característico de catalepsia, ou síncope, acidente muito comum naquele tempo e que era re-
cebido como a morte, tanto assim que, sem curarem, Os pacientes, enterravam-nos imediatamente. Quantas doloro-
sas provações houve naquela época justamente pelo fato de não se tomar precaução alguma antes de enterrar um
corpo!
No cap. V do Ato dos Apóstolos, registra-se o enterro imediato de Ananias e Safira, sua mulher, sem nenhum
exame.
Qualquer ataque que cessasse imediatamente, viesse entorpecer a inteligência e apresentasse rigidez dos
membros, era sinal de morte ocorrendo o enterro imediato.
As Curas no Evangelho
Jesus, não há dúvida, portanto, ressuscitou a filha de Jairo porque, se não chegasse a tempo, ela iria para a
sepultura em seguida e então morreria. Na casa já estavam os flautistas, as carpideiras e a multidão em alvoroço e
algazarra para acompanhar o enterro. Mas como se deu a cura?
Não é difícil explicar pelo Espiritismo. A morte é a separação da alma do corpo, devido a deficiência do fluido
vital, ou sua extinção. Jesus, conhecedor das leis dos fluidos e da natureza humana, pelo seu amplo poder magnéti-
co preencheu a deficiência do fluido da menina, por ser fluido vivificante, restituindo a saúde à paciente: ela pôde
tomar posse do seu corpo.
Allan Kardec trata magistralmente desses casos e os estudiosos do Evangelho devem interessar-se menos
pelo lado científico da cura, e mais pelo lado moral para saberem quanto pode fazer aquele que tem conhecimentos
e tem fé, e aquele que se dedica ao bem do próximo.
Em Religião dos Espíritos. Lição “Sonâmbulos”, Emmanuel cita, entre outros, o caso de Tereza D’Ávila que
permaneceu em regime de parada cardíaca (catalepsia) por 4 dias consecutivos, acordando subitamente quando
preparavam seu enterro.
Ressurreição do Filho da Viúva de Naim
“Em dia subsequente dirigia-se Jesus para uma cidade chamada Naim e iam com ele os seus discípulos e
uma grande multidão. Ao aproximar-se ele da porta da cidade, eis que levavam para fora um defunto, filho único de
sua mãe, que era viúva; e vinha com ela muita gente da cidade. Logo que o Senhor a viu, compadeceu-se dela e
disse-lhe: “Não chores”. Chegando-se, tocou o esquife, e parando os que o conduziam, disse: “Moço, eu te mando,
levanta-te”. Aquele que havia estado morto, sentou-se e começou a falar; e Jesus o entregou à mãe deles. Todos fi-
caram cheios de medo e glorificaram a Deus dizendo: “Um grande profeta levantou-se entre nós”, e: “Deus visitou o
seu povo”. A notícia disto se divulgou por toda a Judéia e circunvizinhança”. (Lc., 7, 11-17)
Naim é uma cidade da Palestina, a sudeste da Galiléia e bem próxima do Monte Tabor, onde Jesus ia conti-
nuamente, e narra-nos o Evangelho ter-se realizado ali a transfiguração do Senhor.
Naquela época não havia tempo determinado por lei para o enterramento dos cadáveres e os ataques de ca-
talepsia, sendo muito comum, eram tomados por mortes.
O caso do filho da viúva de Naim parece ter sido um desses casos. Jesus logo percebera que se tratava de
um caso de morte aparente, o qual, se não fosse acudido a tempo, seria consumado; o moço, considerado morto, se-
ria enterrado.
Jesus fez parar o enterro em Naim, porque sabia que se tratava de um cataléptico e não de um morto, sabia
que aquele Espírito encarnara para auxiliá-lo na administração de um ensinamento que só hoje podemos assimilar.
Jesus ressuscitou o filho da viúva de Naim, e a sua ação neste caso foi simplesmente magnética; neutralizou
a morte, vencendo-a com seus eflúvios vivificadores, e, pela sugestão verbal, fez que o moço tomasse posse do seu
corpo: “Moço, eu te mando, levanta-te”.
Assim, depreende-se, que ninguém tem mais ação magnética do que aquele que sabe amar e ama de verda-
de.
Capítulo 23
A OBSESSÃO NO EVANGELHO
ANÁLISE DA OBSESSÃO
Kardec considera a obsessão como uma das doenças psíquicas que exige uma atenção maior.
A obsessão caracteriza-se como o domínio que alguns Espíritos podem exercer sobre certas pessoas. Geral-
mente estes Espíritos ainda são apegados a sentimentos de vingança, egoísmo e orgulho.
Os bons Espíritos jamais constrangem; os maus, pelo contrário, agarram-se aos que conseguem subjugar,
conduzindo a vítima à sua vontade.
A obsessão divide-se em: obsessão simples, fascinação e subjugação.
A obsessão simples verifica-se quando um Espírito inferior em moral “se impõe a um médium, intromete-se
nas comunicações que ele recebe, o impede de se comunicar com outros Espíritos e substitui os que são evocados”.
(Kardec, O Livro dos Médiuns, cap. XXIII)
A fascinação traz conseqüências mais graves: caracteriza-se como uma ilusão projetada diretamente ao psi-
quismo do médium, paralisando sua capacidade de discernimento. O médium fascinado não se considera enganado.
O Espírito, atuando de forma sutil consegue inspirar-lhe confiança e agir sobre ele de forma hipnótica. A ilusão pode
chegar ao ponto de levá-lo a considerar a mais absurda das afirmações como verídica. Os homens mais instruídos
não escapam a este tipo de influência, “o que prova tratar-se de uma aberração produzida por uma causa estranha,
cuja influência os subjuga”. (Kardec, O Livro dos Médiuns, cap. XXIII)
As conseqüências da fascinação são muito mais graves do que aquelas geradas pela obsessão simples, na
medida em que o fascinado é dirigido, condicionado a aceitar teorias, posturas, de forma irrefletida e cega.
A subjugação é um envolvimento psíquico que traz como conseqüência a total paralisação da vontade da ví-
tima, fazendo-a agir malgrado seu livre arbítrio. A subjugação, segundo Kardec, pode ser moral ou física. Na primei-
ra, o subjugado é constrangido a tomar decisões no mais das vezes absurdas e comprometedoras, que por uma es-
pécie de indução hipnótica, aceita como sensatas: é uma espécie de fascinação. No segundo caso, o constrangi-
mento do Espírito ao médium é tal que o leva a movimentações físicas involuntárias, podendo chegar às raias do ri-
dículo. Kardec cita exemplos importantes de subjugação corpórea em O Livro dos Médiuns e que devem ser anali-
sados e estudados.
A possessão: Em O Livro dos Médiuns, item 241, kardec prefere não usar o termo possessão que correspon-
deria à subjugação em mais alto grau. Na primeira razão, por implicar na crença de seres sempre voltados para o
mal (demônios, na época); na segunda, por dar a impressão de coabitação, quando só existe constrangimento.
Anos mais tarde, em A Gênese, cap. XIV, item 47, Kardec aceita o temo genérico possessão e classifica-a de
temporária e intermitente. Na Revista Espírita (de 1863 a 1867) ele descreve vários casos de possessões. “O Espí-
rito (Kardec, A Gênese) em possessão momentânea do corpo, dele se serve como o faria com o seu próprio; fala por
sua boca, enxerga pelos seus olhos, age com seus braços, como o teria feito se fosse vivo”. Reconhece-se a obses-
são pelas seguintes características (Kardec, O Livro dos Médiuns):
Insistência de um Espírito em comunicar-se, queira ou não o médium, pela escrita, pela audição, pela tiptolo-
gia etc., opondo-se a que outros Espíritos o façam.
Ilusão que, não obstante a inteligência do médium, o impede de reconhecer a falsidade e o ridículo das comu-
nicações recebidas.
Crença na infalibilidade e na identidade absoluta dos Espíritos que se comunicam e que, sob nomes respeitá-
veis e veneráveis, dizem falsidades ou absurdos.
Aceitaçào, pelo médium, dos elogios que lhe fazem os Espíritos que se comunicam por seu intermédio.
Disposição para se afastar das pessoas que podem esclarecê-lo.
Levar a mal a crítica das comunicações que recebe.
Necessidade incessante e inoportuna de escrever (e poder-se-ia acrescentar, de comunicar-se sob qualquer
circunstância).
Qualquer forma de constrangimento físico, dominando-lhe a vontade e forçando-o a agir ou falar sem querer.
Ruídos e transtornos contínuos em redor do médium, causados por ele ou tendo-o por alvo.
Importante notar-se que não somente os médiuns estão sujeitos a qualquer tipo de obsessão, mas todo aquele
que imprudentemente se deixa influenciar por sentimentos, emoções, pensamentos e atitudes negativas ou inferio-
res.
O conhecimento do Espiritismo esclarece de forma ampla e objetiva os problemas relativos aos obsedados do
Evangelho, descaracterizando-lhes das aparências de milagres.
Os motivos da obsessão variam segundo o caráter do Espírito - práticas de vingança contra a pessoa que o fe-
riu moralmente nesta ou em outra reencarnação, desejo de fazer o mal, inveja do bem, orgulho do falso saber.
Os meios de se combater a obsessão variam segundo as características de que ela se reveste: na obsessão
simples, provar ao Espírito que não foi enganado por ele e que será impossível deixar-se enganar, cansando-lhe a
paciência, convencendo-o de que perde seu tempo.
Para os Espíritos mais renhidos, a prece fervorosa, o apelo aos bons Espíritos e, sobretudo, a postura íntegra,
vencendo-o pelo bom procedimento. No caso da subjugação corpórea é necessária a intervenção de uma terceira
A Obsessão no Evangelho 57
pessoa, com autoridade moral, agindo por meio do magnetismo e que hoje popularmente conhecemos como aplica-
ção de passes inseridos no contexto de uma Assistência Espiritual.
Assim como as curas, a libertação dos possessos ou obsedados figura como os mais numerosos atos de
Jesus. Naquela época atribuía-se a possessão como sendo obra de demônios, bem como as enfermidades cujas
causas eram desconhecidas - catalepsia, mudez, epilepsia, etc.
Eram em grande número os possessos e obsedados de toda a sorte na Judéia, daí a oportunidade que Jesus
teve de curar a muitos. Sem apresentar caráter epidêmico, as obsessões individuais são muito freqüentes em seus
mais variados aspectos, trazendo como conseqüência, distúrbios de ordem física, desarticuladores da estrutura pe-
rispiritual do obsedado, quanto mais graves forem os comprometimentos de orem moral entre o obsessor e o obse-
dado.
O Possesso de Cafarnaum (Mc., 1:21 a 28) (Lc., 4:3 a 37)
“Vieram em seguida a Cafarnaum e Jesus, entrando primeiramente, no dia de sábado, na sinagoga, os instru-
ía. Admiravam-se da sua doutrina, pois os instruía como quem tem autoridade e não como os escribas. Ora, encon-
trava-se na sinagoga um homem possuído de um Espírito impuro, que gritava, dizendo: Que há que há entre vós e
nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Sei quem vós sois: vós sois o Santo de Deus. Mas Jesus, falando-lhe
com tom de ameaça, lhe dizia: Cala-te e sai desse homem. Então, o Espirito impuro, agitando-se com violentas con-
vulsões e soltando um grande grito, saiu dele. Todos ficaram tão surpresos que perguntavam-se uns aos outros: Que
é isto? E qual é essa nova doutrina? Ele manda com império mesmo aos Espíritos impuros e eles obedecem!”
Os fariseus entendiam que os obsedados eram possuídos pelo demônio e coo também não aceitavam o poder
moral superior de Jesus, argumentavam que “É pelo príncipe dos demônios que ele expele os demônios” (Mt. 11:34).
Infelizmente, ainda hoje, é o mesmo raciocínio de muitos teólogos.
Os Possessos Gadarenos (Mt., 8:28 a 34) (Mc., 5:1 a 20) (Lc., 8:26 a 39)
“Tendo ele chegado à outra margem, à terra dos gadarenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoniados, sain-
do dentre os sepulcros, e a tal ponto furiosos, que ninguém podia passar por aquele caminho”. (Mt., 8:28)
Na seqüência, escreve Mateus: “Então os possessores lhes rogavam: se nos expeles, manda-nos para a ma-
nada de porcos. Pois ide, ordenou-lhes Jesus. E eles, saindo, passaram para os porcos; e eis que toda a manada se
precipitou despenhadeiro abaixo, para dentro do mar e nas águas pereceram”.
Kardec comenta que “o fato de serem alguns maus Espíritos enviados aos corpos é contrário a toda probabili-
dade”.
Diz, ainda, que “um Espírito mau não deixa de ser um Espírito humano” e como tal “é contra as leis na nature-
za que ele possa animar o corpo de um animal”.
Justifica o Codificador com a possibilidade de uma alegoria para caracterizar as inclinações imundas de certos
Espíritos expulsos por Jesus surgissem “materializados”, somente para a percepção sensorial dos porcos, que as-
sustados fugiram espavoridos, precipitando-se nas águas. Esta hipótese é racional, lógica e possível, porquanto se
sabe que certos animais podem ver Espíritos.
O Jovem Lunático (Mt., 17:14:21) (Mc., 9:14 a 29) (Lc., 9:37 a 43)
“Estando Jesus junto à multidão, aproximou-se dele um homem que se ajoelhou e disse: “Senhor, compadece-
te de meu filho, porque é lunático e sofre muito;; pois muitas vezes cai no fogo e outras na água. Apresentei-o a teus
discípulos, mas ele não puderam curá-lo”. Jesus exclamou: “Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei
convosco? Até quando vos sofrerei? Trazei-me aqui o menino”. E Jesus repreendeu o mal Espírito e este saiu do
menino; e desde aquela hora ficou o menino curado”. (Mt., 17, 15-18)
Interrogado pelos discípulos sobre o porquê não puderam eles expulsar o obsessor, Jesus lhes respondeu: “por
causa da pequenez de vossa fé”, acrescentando que “estas casta não se expele senão por meio de oração e jejum”.
Comenta Kardec que “a imensa superioridade do Cristo dava-lhe tal autoridade sobre os Espíritos imperfeitos,
então chamados demônios, que lhe bastava recomendar que se retirassem, para que eles não pudessem resistir a
tal injunção”. (A Gênese, cap. XV, item 33)
A Filha da Mulher Cananéia (Mt., 15:21 a 28) (Mc., 7:24 a 30)
Jesus, partindo dali, retirou-se para a região de Tiro e de Sidom, na Fenícia. E eis que uma mulher cananéia,
daquela região, veio gritando: “Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim; a minha filha está horrivelmente en-
demoniada. Ele porém, não lhe respondeu palavra”. Então seus discípulos se chegaram e pediram: Despede-a, por-
que vem gritando atrás de nós. Jesus respondeu: “Não fui enviado senão às ovelhas da casa de Israel”. Mas ela,
aproximando-se, prostrou-se diante dele e pôs-se a rogar: “Senhor, socorre-me!” Ele tornou a responder: “Não é bom
tomar o pão dos filhos e lançá-los aos cachorrinhos”. A mulher cananéia insistiu: “Sim, senhor, porém os cachorri-
nhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos”. Diante disso, Jesus lhe disse: “Ó mulher, grande é a
tua fé. Faça-se contigo como queres”. E a partir daquele momento sua filha ficou curada.
Os Sete Espíritos de Maria Madalena (Lc., 8:1 a 3)
Depois disso, ele andava por cidades e aldeias, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus, Os
doze o acompanhavam, assim como algumas mulheres que haviam sido curadas de Espíritos malignos e doenças.
Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes e
várias outras, que os serviam com os seus bens.
Curso de Aprendizes do Evengelho58
A Mulher Curvada (Lc., 13:10 a 17)
Todos os sábados Jesus ensinava numa sinagoga. Um dia, viu ali uma mulher possuída de um Espírito que a
punha doente, havia dezoito anos, era tão curvada que não podia olhar para cima. Vendo-a, Jesus a chamou e lhe
disse: “Mulher, estás livre da tua enfermidade”. Impôs-lhe ao mesmo tempo as mãos e ela, endireitando-se rendeu
graças a Deus.
Mas o chefe da sinagoga, indignado por haver feito uma cura em dia de sábado, disse ao povo: “Há seis dias
destinados ao trabalho; vinde nesses dias para serdes curados e não nos dias de sábado”.
O Senhor, tomando a palavra, disse-lhe: “Hipócritas, qual de vós não solta da caga o seu boi ou seu jumento
em dia de sábado e não o leva a beber?” Por que então não se deveria libertar, em dia de sábado, dos laços que a
prendiam, esta filha de Abraão, que Espíritos trevosos conservavam atada durante dezoito anos?
A estas palavras, todos os seus adversários ficaram confusos e todo o povo encantado de vê-lo praticar tantas
ações gloriosas.
Jesus conhecendo o pensamento dos fariseus a respeito dele expelir demônios pelos demônios, diz: “Todo
reino dividido contra si mesmo será arruinado” e complementa: “se satanás expulsa a Satanás, é dividido contra si
mesmo; como, pois, seu reino subsistirá”?
Em nota em A Gênese, cap. XV, item 36, comenta Kardec que “se Jesus houvesse operado seus milagres
pela virtude do demônio, o demônio teria pois trabalhado para destruir seu império, e teria empregado seu poder
contra si mesmo. Certamente, um demônio que procurasse destruir o reino do vício para estabelecer o da virtude,
seria um estranho demônio”.
O Mestre, certamente, não podia interferir nas Leis que determinam a cada ser que faça a sua colheita, con-
forme tenha sido sua própria semeadura, ou que a cada criatura será dado receber o que ela própria semeou.
Capítulo 24
O SERMÃO DO CENÁCULO
Os Evangelhos registram a ocorrência de três sermões proferidos por Jesus Cristo.
O primeiro deles, conhecido por Sermão da Montanha (Monte das Bem aventuranças) foi dirigido ao povo em
geral e representou uma promessa viva feita aos sofredores e desamparados de todos os matizes. Nele há um ace-
no a todos os homens, para que não duvidem da paternidade e do incomensurável amor de Deus pelas suas criatu-
ras.
O segundo sermão, denominado Sermão Profético, (Monte das Oliveiras), objetivou prognosticar uma série de
acontecimentos que teriam lugar no mundo, principalmente devido à recalcitrância dos homens em aceitarem as re-
comendações contidas nas imorredouras mensagens trazidas por Jesus Cristo.
O terceiro, conhecido por Sermão do Cenáculo (Santa Ceia), mereceu esse nome pelo fato de ter sido proferi-
do no recinto onde se realizou a chamada última ceia, um pouco antes da prisão do Mestre. Ele foi pronunciado com
o objetivo primário de fazer uma série de recomendações e de promessas aos apóstolos, que dali por diante passari-
am por um verdadeiro batismo de fogo, dado que dentro em pouco perderiam o seu principal mentor terreno.
Os Evangelhos não são unânimes na descrição dos fatos que antecederam a prisão e crucificação de Jesus
Cristo. Dos apóstolos que acompanharam Jesus ao Horto de Getsemani - Pedro, Tiago e João -, apenas este último
foi testemunha ocular de todos os acontecimentos e transplantou-os para as páginas do seu Evangelho. Os outros
dois não foram autores de Evangelhos, conseqüentemente as narrações feitas por João parecem ser as que mais se
aproximam da verdade.
O Objetivo primário dos ensinamentos exarados por Jesus Cristo no Sermão do Cenáculo, foi de prevenir os
apóstolos no tocante aos acontecimentos que teriam lugar logo após, no interior do Horto de Getsemani, os quais
culminariam com a sua prisão e subsequente sacrifício. O Mestre também teve por escopo discorrer sobre o advento
do Espírito Consolador, que viria com o objetivo de restaurar as primícias e consolidar tudo aquilo que ele havia en-
sinado. Os atos de perseguições que se sucederiam, a incapacidade dos apóstolos em oferecer resistência plena às
tendências de conspurcação da sua doutrina, por injunção dos inconfessáveis interesses de grupos e de pessoas, as
deturpações que ocorreriam no decorrer da Idade Média seriam de tal amplitude, que a vinda do Espírito da Verda-
de, para restabelecer a pureza dos ensinos de Jesus Cristo, tornava-se imperiosa e impostergável.
Os próprios apóstolos de Jesus, pelo fato de serem homens de pouca letra, não eram dotados do devido dis-
cernimento para separar, de forma adequada, os ensinamentos do Cristo de muitos outros preceitos contidos nas leis
de Moisés, e mesmo de outras práticas de natureza precária, dentre ele o batismo da água e a circuncisão.
No Sermão do Cenáculo, o Mestre esclareceu os apóstolos no tocante à teoria da pluralidade dos mundos ha-
bitados; isso ele o fez quando asseverou que “na Casa do Pai existem muitas moradas”, pretendendo assim esclare-
cer que os milhares e milhares de planetas que gravitam pela imensidão do espaço, servem de morada para os Es-
píritos, em sua contínua ascensão para Deus.
Sem confundir-se com o Pai, destruindo quaisquer possibilidades de implantação de dogmas que viessem a
apresentarem um Deus trino, Jesus procurou estabelecer a profunda identidade entre ele (Filho) e o Criador (Pai).
Por isso ele disse: “quem vê a mim, vê ao Pai”, o que significa dizer que, na qualidade de enviado excelso de Deus,
tudo aquilo que ele ensinava era baseado na “doutrina que o Pai lhe havia ensinado”.
Um outro pormenor bastante significativo, é quando o Mestre acrescenta que as suas palavras devem ser
cumpridas em toda a sua plenitude, pois sem isso ninguém iria ao Pai. O Senhor não pretendeu, nesse ensino, pros-
crever os membros de outras religiões distanciadas do ramo cristão. Sendo a lei básica o “amor a Deus sobre todas
as coisas e ao próximo como a si mesmo”, é óbvio que cumprirem esses mandamentos, sejam membros desta ou
daquela escola religiosa, atingirão o Pai, embora por caminhos diferentes daqueles emanados dos lábios de Jesus,
pois eles são realmente “o caminho, a verdade e a vida”.
No decorrer do seu sermão, o Mestre ponderou ser a videira verdadeira, sendo Deus o agricultor, aditando
que os galhos que nele não dessem frutos, seriam extirpados, e aqueles que produzissem frutos, seriam limpos, para
que os produzissem ainda com maior abundância. Esse ensinamento, evidentememte, encerra uma advertência às
criaturas que não produzem frutos segunda a expectativa dos nossos Maiores da Espiritualidade. O Homem não
deve jamais malbaratar os valores que lhe são concedidos para o desempenho do aprendizado terreno, devendo,
pelo contrário, aplicá-los, para que, a exemplo do que está narrado na Parábola dos Talentos, os bens que lhe são
concedidos por Deus, produzam furtos a cinqüenta, a sessenta e a cem por um.
Do desenrolar de sua pregação no Sermão do Cenáculo, o Mestre relembrou, de forma enfática, a necessida-
de dos homens de se amarem uns aos outros, terminando por afirmar que ninguém tem mais amor do que aquele
que dá a sua própria vida, para que isso sirva de exemplo vivo para que os homens sintam em si a extensão do
amor de Deus pelos seus filhos.
No Sermão ele proclamou ainda que não foram os apóstolos que o escolheram, ama ele quem os escolheu
para servirem de assessores no desempenho do seu sublime Messiado.
Afirmando que a sua missão estava consumada, e terminado o Sermão do Cenáculo, segundo a descrição do
evangelista João, o Mestre e seus discípulos dirigiram-se para o Jardim de Getsemani, situado no outro lado do ria-
cho de Cedron, donde teve lugar o ato de traição, perpetrado por Judas Escariotes.
Os Evangelhos de Marcos e de Lucas discorrem sobre o episódio dos três apóstolos que caíram em profundo
sono, apesar de terem sido solicitados pelo Mestre, para que orassem e vigiassem naquela hora tão angustiosa.
Curso de Aprendizes do Evengelho60
Essa passagem destina-se a nos ensinar que temos que vencer sozinhos os transes de amargura que são deparados
em nossa vida. Jesus não poderia dividir, com seus companheiros, aquilo que somente ele teria que passar.
Capítulo 25
O SERMÃO PROFÉTICO
Saindo do Templo, os discípulos admiravam a solene construção e Jesus lhes profetizou: “Em verdade vos
digo: não ficará pedra sobre pedra que não seja demolida”.
Hoje, com outras construções sobre suas ruínas (inclusive uma mesquita), resta, apenas e tristemente, um
muro chamado das “Lamentações”, pois a Jerusalém bíblica não é desta ou daquela religião, mas ela inteira é um
Templo consagrado ao Deus Único, Inefável, portanto comum a todas as idéias religiosas e ações fraternas.
Chegando ao Monte das Oliveiras, para o descanso do dia, os discípulos perguntaram ao Senhor Jesus quan-
do aconteceria o desmonte do Templo e qual o sinal para a sua vida e consumação dos tempos. E Jesus respondeu:
O princípio das dores: Haverá guerras e rumores de guerras, dores e sofrimentos. É preciso que aconteçam
para despertar os duros de coração, mas ai dos que forem seus causadores.
Essas tragédias foram aparentemente preditas para aqueles tempos mas são válidas para os atuais, onde an-
gústias, calamidades, abalos dos valores morais prognosticam o clímax caótico para o surgimento de uma Nova Or-
dem.
E, somente quando uma nova ordem alcançar a todos os corações na Terra, chegará o fim das convulsões
evolucionistas, dando início à Nova Era.
A grande tribulação de Jerusalém: “A abominação da desolação” alcançou Jerusalém por muitos séculos. A
disputa pelo lugar que os homens consagraram a Deus é contínua, esquecendo-se os conquistadores que aquilo que
se consagra, isto é, o que se oferece em homenagem, não mais nos pertence.
A vinda do Messias e a amplitude cósmica do acontecimento: O Mestre advertiu sobre os cuidados com a
crença comodista que se deslumbra com os prodígios sem lhes verificar a origem; destacou que o Filho do Homem
não virá a aqui ou acolá, mas aparecerá em todo lugar “assim, como o relâmpago parte do oriente e brilha até o oci-
dente”.
Para encontrar Jesus, o Cristo, é indispensável a vivência e a exemplificação da lei do Amor.
Até hoje, procura-se o Cristo nos altares, através dos líderes exaltados, das honrarias exteriores, quando Ele
mesmo afirmou várias vezes, que o “reino do céu” é interior e somente pelo caminho da verdade e do amor se pode
entendê-lo e encontrá-lo.
O discípulo sincero saber que seguir a doutrina do Mestre não é fácil, mas também sabe que, se não se esfor-
çar no cultivo das virtudes, na erradicação de suas deficiências, com esforço e bom ânimo, não terá o Cristo em seu
coração.
É imprescindível fazer o bem, antes de ensiná-lo, assim como conhecê-lo para praticá-lo estudando, perqui-
rindo e amando a Deus e ao próximo.
Só então, o discípulo estará pronto para reconhecer o Cristo onde quer que esteja.
Para o advento da Nova Era, fatos apocalíticos acontecerão até que o homem possa conhecer a glória do Fi-
lho ungido de Deus.
Nesta parte do discurso, Jesus utiliza as profecias de Isaías, Zacarias e Daniel, na assertiva de que o Filho do
Homem veio para toda a Humanidade terrestre e sua volta de qualquer forma que ela vier a acontecer influenciará
todo o cosmo ao redor da Terra, com grandes modificações (Mt., 24:29). Confirma, ainda, a autoridade suprema do
Criador ao dizer que só Ele sabe o Grande Momento, quando tudo isso acontecerá.
Oração e vigilância: É necessário vigiar a conduta, o pensamento, a ação, para manter a compenetração do
dever cumprido.
Sem o serviço ativo do bem aos semelhantes, sem o esforço íntimo da renovação mental, ninguém pode inti-
tular-se Aprendiz de Jesus.
A preservação da “casa espiritual” deve ser tão cuidada quando da casa familiar; é serviço que compete a
cada um, e é intransferível.
A oração é a sentinela avançada da alma, que busca reforço e sustentação nos momentos difíceis e anela
tempos tranqüilos.
Ilustrando suas palavras eternas Jesus narrou as parábolas do mordomo infiel, das dez virgens e dos talentos,
insistindo que a vigilância é uma contínua e firme esperança, pois o homem deve estar sempre preparado para me-
recer a confiança dos prepostos do Cristo, desenvolvendo os talentos no campo espiritual, pois deles devem prestar
contas no devido tempo.
A Vida Eterna: (Mt., 25:31) Quando, da regeneração da Terra, o Cristo vier na sua glória todas as nações - nos
campos físico e espiritual - deverão passar por um grande testemunho de avaliação para o mundo novo.
A medida de peso será “a prática do amor”.
As diversas interpretações da doutrina, prismas multiformes do individualismo, nada significarão perto do tra-
balho útil e fraterno. A promessa da vida eterna é sempre para todos aqueles cuja justiça e misericórdia são feitas
conforme a vontade de Deus Todo Poderoso.
Capítulo 26
PARÁBOLAS COMPARATIVAS DO REINO DOS CÉUS
INTRODUÇÃO
Parábola á a narrativa que sob fatos comuns oculta, por comparação, realidades superiores. É uma narração
em que fatos da vida servem de comparação a outros de sentido moral. Ela encerra sempre uma doutrina moral.
Nela é preciso buscar a alegoria que representa a idéia espiritual. Há 2000 anos parábola (Mâshâl, em aramaico) si-
gnifica sentença ritmada em versos paralelos, ditado popular com suas máximas. Mas se destinavam ao ensino oral,
de pai para filho.
Na Bíblia, encontram-se parábolas no Antigo e no Novo Testamento. Ficaram famosas as parábolas narradas
por Jesus, que as empregou como meio didático de aprendizagem dos conceitos de sua Doutrina. Jesus servia-se de
comparações com acontecimentos da vida comum; assim, tornava possível a memorização pelo povo, “porém tudo
declarava em particular aos seus discípulos”. (Mc., 4:34)
Alguns interpretadores divergem no modo de agrupar e classificar as parábolas, o que não lhes diminui o va-
lor.
Nas parábolas que se referem a que deve ser comparado o reino dos céus, essa expressão significa o “Reino
de Deus”. Jesus empregou tais expressões no sentido objetivo e no subjetivo. No sentido objetivo, designa o mundo
exterior; e, então, significa os lugares felizes, que são os “mundos ditosos” e os “Mundos celestes ou divinos”. No
sentido subjetivo, designa a paz da consciência, a paz interior, o coração sereno, a mente tranqüila. Portanto, nesse
sentido, “o céu” está dentro de cada um.
Para melhor entender a parábola deve-se situar o tema, rememorando a passagem evangélica; esclarecer os
termos dos usos e costumes da época; destacar o objetivo do ensino; desenvolver o tem atualizando-o e procurar fi-
xar o ensino, salientando sua importância na vida prática.
Parábola do Trigo e do Joio (Mt., 13:24 - 30)
É também chamada “da Cizânia”, palavra esta que significa gramínea nociva, como o joio, que nasce junto ao
trigo. Cizânia Também significa rixa, desarmonia.
O tema central é que na Terra o mal coexiste com o bem; os maus e os bons, os justos e injustos conjunta-
mente. Todavia, chegará a hora propícia para a separação. “O joio está para o trigo assim como o juízo humano está
para as manifestações superiores”, diz C. Schutel.
O próprio Jesus explicou a parábola, conforme se lê nos versículos 36 a 43 deste cap. 13 de Mateus. O que
semeia a boa semente, o Filho do Homem, é Jesus. O campo é a Humanidade. A boa semente são os filhos do rei-
no”, isto é, todos aqueles que se esforçam por serem seguidores dos ensinamentos divinos como tarefeiros animo-
sos se preparando para o trabalho eterno. O joio (cizânia) são aqueles que ainda não se empenham para evoluírem
espiritualmente. O “inimigo do homem são os maus Espíritos que vêm perturbar, atormentar e obsediar os homens;
simboliza também as tentações do mundo, que os arrastam para estrada larga dos vícios. O tema da ceifa, o “fim do
mundo”, são as épocas de expurgos coletivos, quando o planeta é depurado dos elementos nocivos. Os anjos, ou
segadores, são os Espíritos Superiores, Entidades de Luz, colaboradores de Jesus na tarefa de evolução espiritual
da Humanidade.
Deus permite que os maus convivam com os bons para terem oportunidade de apresentarem sua regenera-
ções. Até mesmo porque muitos são maus por ignorância, por não terem tido educação. Assim, a extirpação de to-
dos os maus ocasionaria a ceifa também desse tipo de maus, com evidente prejuízo para eles, porque lhes estaria
sendo retirada a oportunidade de regenerarem-se. Diferem dos que são renitentes no mal, pelo mal.
Em particular, a parábola aplica-se aos adeptos de qualquer religião, quando a cizânia cresce ao lado do bom
trigo.
Parábola do Credor Incompassivo (Mt., 18: 23-35) e (Mt., 18:21-22)
Esta parábola é um complemento ilustrativo do perdão das ofensas.
Naquele tempo era permitido ao credor prender o devedor, forçá-lo a trabalhar e até vendê-lo, para receber
seu crédito. E se a quantia apurada não fosse suficiente para resgatar a dívida, era permitido também vender a mu-
lher e os filhos do devedor.
O primeiro servo era devedor, ao seu senhor, de dez mil talentos, uma quantia fabulosa. E não tendo com que
pagar, o credor mandou que ele, sua mulher e filhos fossem vendidos. Todavia, o devedor pediu clemência e o cre-
dor, generoso, perdoou-o.
Porém, mal tinha obtido tal perdão, encontrou um companheiro, servo como ele, e que lhe devia cem denári-
os, uma quantia ínfima, e, de forma violenta passou a exigir do devedor o retorno do seu dinheiro, mantendo-se sur-
do aos rogos do pobre homem, nadou encerá-lo na prisão.
Os demais servos, entristecidos, foram relatar o acontecido ao senhor deles. Este após repreender o servo im-
piedoso, entregou-o aos verdugos voltando a insistir no pagamento de tudo quanto lhe devia e que tão generosa-
mente havia perdoado.
Parábolas que demonstram como deve ser comparado o Reino dos Céus 63
E Jesus, termina a parábola, dizendo: “Assim também meu Pai celestial vos fará, se de coração não perdoar-
des cada um a seu irmão as suas ofensas”.
A parábola põe em destaque o ensinamento de que o homem deve perdoar aos seus devedores, para também
merecer o perdão de suas faltas. E para estimulá-lo na conquista desta virtude, o Pai celestial o favorece com sua
bondade e misericórdia.
Todos trazem consigo aflições que desconhecem, logo se quiserem ser indultados devem também ter indul-
gência.
Todavia não pode esquecer que não é Deus quem castiga; as leis de Deus se exercem com rigor e precisão, e
cada qual colhe o que semeou. É a lei de ação e reação: quem não perdoa, não é digno de ser perdoado.
Assim, não há propriamente perdão das faltas cometidas; mas o ressarcimento dela pelo sofrimento ou pela
prática de atos meritórios (ESE, X, item 14).
Parábola do Festim das Bodas (Mt., 22:1-14) e (Lc., 14:15-24)
A chamada ( o convite) é de Deus, a escolha depende das obras do homem.
Jesus aproveita aqui um fato comum, o casamento, para transmitir profundos ensinamentos espirituais. Uma
parte importante das bodas, isto é, do casamento, era o festim, ou seja, o banquete nupcial com muitas iguarias.
Nessa parábola, o Rei simboliza Deus, o Pai. O banquete nupcial é o Reino dos Céus, de há muito mostrado
aos homens pelos Enviados, os Grandes Missionários e os Profetas; e finalmente anunciado por Jesus, através da
pregação de seu Evangelho. Assim, na parábola, o filho é Jesus.
As iguarias representam os ensinos espirituais, os alimentos materiais fortalecem o corpo, e os ensinos espiri-
tuais fortalecem o Espírito.
Os convidados desatentos foram os israelitas, pois a eles foram enviados os Profetas. Quem melhor para en-
tender os ensinos de Jesus do que os próprios doutores, rabinos e sacerdotes? Infelizmente todos estavam mais
preocupados com seus afazeres transitórios e ambiciosos.
Diz então a parábola que “o Rei irou-se e mandou suas tropas exterminar aqueles assassinos e incendiar sua
cidade”, numa alusão clara à lei de Ação e Reação (ou de causa e efeito), porque como se lê em Mateus (26:52),
todo os que lançam mão da espada, à espada morrerão; e em Apocalipse, (13:10), aprende-se que quem leva para
cativeiro, para cativeiro vai. O efeito é sempre proporcional à causa.
Foram então convidados para o banquete espiritual todos quantos foram encontrados, bons e maus. Signifi-
cando que o Evangelho foi pregado a todos os povos, aos gentios, pois que estes seriam admitidos às “bodas”, já
que os primeiros convidados mostraram-se indignos (Atos, 13:46).
Tal como hoje é costume vestir uma roupa elegante para ir a um casamento, naqueles tempos era obrigatório
vestir uma “túnica nupcial” para participar do banquete (Ef., 4:24). Mas não basta ser convidado, é indispensável a
renovação íntima. A afinidade espiritual é uma realidade.
Essa veste nupcial, análoga com o corpo espiritual imaculado significa as boas obras, o amor, a pureza, a hu-
mildade, a bondade, a mansuetude, tudo o que se tem de mais belo deve acompanhar a fé. Significa aqueles que
fazem a vontade do Pai e vivem em conformidade com o Evangelho de Jesus. É a harmonia de vibrações do campo
espiritual, revestido de amor e traduzido em luz.
Portanto, não basta apenas pertencer a esta ou aquela igreja nem trazer o nome de cristão, pois não é sufici-
ente aceitar o convite, é fundamental a “túnica nupcial”, do corpo espiritual, isto é, a pureza do coração e a luz do
espírito do Homem Novo.
É por isso que Jesus disse “muitos são chamados, mas poucos os escolhidos”; porque os que não reformarem
sua conduta, não se esforçarem por vencer os vícios e os defeitos, substituindo-os por virtudes, terão reencarnações
dolorosas. Onde passarão pela dor da expiação; é o que significa a sentença do Mestre quando asseverou que
“muitos serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes”.
Parábolas do Reino dos Céus (Mt., 13:44-52)
Sob esse título englobam-se quatro curtas narrativas: Parábola do Tesouro Escondido (Mt., 13:44), Parábola
da Pérola (Mt., 13:45-46), Parábola da Rede (13:47-50) e Parábolas do Grão de Mostarda e do Fermento (Mt., 13:31-
33).
O objetivo de Jesus foi ensinar que o Reino de Deus não é exterior, mas está dentro de cada um. Então, todo
aquele que se esforça em viver virtuosamente, cristãmente, reformando seu íntimo, passa a assimilar o Reino do
Céu e portanto, a vivenciá-lo.
Por isso, o Reino do Céu é semelhante a um tesouro escondido, ou a uma pérola de grande valor. O tesouro
escondido, ou a pérola, simbolizam a transformação do indivíduo, que ao trilhar o caminho da reforma íntima, des-
poja-se de todos os vícios e defeitos, desembaraçando-se dos conceitos de suas velhas crenças, do egoísmo, do
preconceito, da superstição, do apego aos bens terrenos para passar a possuir os bens celestiais.
A rede lançada ao mar, que recolhe peixes de toda espécie, simboliza, por sua vez, o próprio mundo, consti-
tuído de bons, medianos e maus, os quais, segundo as suas obras. É óbvio que para palmilhar o caminho da evolu-
ção, aproximando-se cada vez mais de Deus, é imperioso se adquirir qualidades boas, que são valores imperecíveis
e santificantes.
A expressão “assim será na consumação dos séculos”, eqüivale a dizer que assim será no fim do mundo velho
e no advento do mundo novo, quando a Terra será elevada à categoria de mundo de Regeneração.
Concluindo a série de parábolas sobre o Reino dos Céus, Jesus disse que “todo o escriba instruído a cerca do
Reino dos Céus, é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”. (Mt., 13:52). Ora,
o bom pai de família é aquele que sabe orientar os seus filhos, tirando do seu próprio entendimento tanto as coisas
Curso de Aprendizes do Evengelho64
velhas dos ensinamentos antigos como as coisas novas do Evangelho. Fazendo com que elas, como verdadeiros te-
souros, ser revertam em fatores que venham a impulsionar os seus filhos no roteiro do aprimoramento espiritual, fa-
cilitando assim a conquista da reforma interior, definida por Jesus com sendo a conquista do Reino dos Céus.
Parábola do Tesouro Escondido e da Pérola (Mt., 13:44-46)
“Buscai e achareis”, disse Jesus.
Por todos os tempos, o homem procura tesouros que lhe deixe viver com bem estar. Vende e compra muitas
vezes, prejudicando sua serenidade e suas virtudes.
Esquece-se de perguntar: de onde vim? Para onde vou? E, se o faz, deixa a busca da resposta para depois.
O “tesouro escondido” está perto dele e, como a felicidade, só depende dele mesmo para encontrá-lo. Certa-
mente é preciso procurar, utilizando seus melhores talentos, seus preciosos sacrifícios, suas renúncias sublimadas,
que valem mais que tudo aquilo que possui ou poderia possuir.
Quando o homem parte para a vida espiritual, somente o seu “tesouro oculto” o acompanha. Também assim,
sucede em comparação com a pérola. Elas são raras, naturais e caras. Para requisitar a pérola de maior valor, o
homem vendeu tudo quanto possuía, mas sabia que uma valia por todas. Qual é a opção mais sensata: as pérolas
das paixões e apego às coisas terrestres ou a pérola da serenidade do Espírito, no verdadeiro Reino do Céu?
Parábolas do Grão de Mostarda e do Fermento (Mt., 13:31-32), (Mc., 4:30-32) e (Lc., 13:18-19)
Mostram a valorização do fenômeno do crescimento espiritual para merecer o “Reino do Céu”.
Ao lançar a semente da boa palavra e da vocação em seu coração, o homem inicia sua reforma íntima, culti-
vando o seu campo espiritual.
Cultivando as primícias do bem e do amor, semelhantes a uma pequenina semente de mostarda que é depo-
sitada em sue coração, o Espirito do homem encarnado se eleva no campo das virtudes santificantes, passando a
merecer que “as aves do Céu”, ou seja, os Espíritos do Senhor sejam atraídos pelas suas novas qualidades interio-
res. Ajudando-o, assim, a galgar melhormente a escalada do progresso espiritual, aproximando-se cada mais do Cri-
ador.
Capítulo 27
PARÁBOLAS SOBRE O DESAPEGO ÀS RIQUEZAS TERRENAS
PARÁBOLA DO ADMINISTRADOR INFIEL OU DO MORDOMO INFIEL (LC., 16:1-13)
A parábola fala de uma administrador (mordomo) que se comportou desonestamente. Então, chamado às
contas, antes que fosse despedido, convocou os devedores do seu senhor e mandou que confessassem dívidas me-
nores que as assinadas. Com esse estratagema visava captar a boa vontade deles, para que quando o senhor o
mandassem embora, ele tivesse para onde ir.
E o senhor louvou sua prudência: “E o amo louvou o feito iníquo, porque operou como homem de juízo; pois
os filhos deste século são mais sábios na sua geração do que os filhos da luz”. (Lc., 16:8). O patrão não louvou o
administrador pela fraude cometida, mas pela prudência e esperteza usada em vantagem própria, garantindo-se para
o futuro. Complementou Jesus dizendo que os homens devem aplicar bem as riquezas, ainda que oriundas da ini-
quidade a fim de fazer amigos.
A parábola representa simbolicamente, as seguintes personagens: o proprietário ou senhor é Deus; o mordo-
mo infiel é o homem; a propriedade é o mundo; os devedores beneficiados são o nosso próximo.
No uso dos bens do mundo, o homem imprudente procede como o mordomo infiel; acumulando-os para si,
desrespeitando os direitos alheios e prejudicando o próximo.
Todavia, há um aspecto importantíssimo da parábola que é preciso considerar: quem não é fiel no uso dos
bens perecíveis, os bens temporais, como poderá sê-lo no dos bens verdadeiros, os bens espirituais?
E quem não é fiel na aplicação do bem alheio, como poderá receber no mundo espiritual o que a ele lhe com-
pete?
Finalmente, encerrando, a parábola põe em destaque a grande verdade que ninguém pode servir com o mes-
mo zelo a dois senhores: a Deus e a Mamon (isto é, às riquezas).
Comenta Omar Khayyan: “Diminui teus dividendos; multiplica tua indulgência; subtrai os teus erros; soma o
teu perdão: esta é a aritmética do Cristo”.
PARÁBOLA DO RICO INSENSATO (LC., 12: 15-21)
É também chamada “Parábola do Avarento”. Um lavrador rico teve uma grande produção e não tendo onde
guardar tanto fruto, erradamente concluiu: “Derrubarei os meus celeiros e os reconstruirei maiores e aí guardarei to-
dos os meus bens; então, direi à minha alma: Tens muitos bens em depósito para longos e dilatados anos; portanto,
descansa, come, bebe, regala-te”.
Porém, na mesma noite desencarnou e de nada valeram tais bens. Porque, os bens transitórios do mundo não
prevalecem para as vidas futuras.
A parábola demonstra que a longevidade (a vida) e a felicidade independem dos bens materiais que se conse-
gue amontoar. A riqueza deve ser bem usada e não abusada.
O desapego aos bens terrenos auxilia a evolução e somente os bens espirituais são duráveis e prevalecem na
vida eterna. A utilidade da riqueza pode ser providencial; é o primeiro recurso para as execuções da sociedade hu-
mana e deve ser um elemento, quando bem utilizado, que facilita a riqueza moral, pela instrução e pela prática da
caridade.
A verdadeira propriedade está nos atributos da inteligência, do conhecimento e qualidades morais. Não é pre-
ciso amealhar ou dividir riquezas, mas somar virtudes, pois o mérito paira acima da riqueza e da pobreza. A nova
ética de valores já desponta no horizonte espiritual: conhecimento das verdades eternas e da fraternidade, como ba-
ses de surgimento do homem mais espiritualizado do porvir. A renovação mental cristã e a vivência do homem novo.
PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO (LC., 15:11-32)
Esta parábola é chamada do “Filho Pródigo”, mas, na realidade, é do “filho pródigo e do egoísta”. Nela, o pai
simboliza o Criador; seus filhos, os homens: o mais moço, o pródigo, é a personificação daquele que se entrega à
vida material desregrada, dissipando seus bens (materiais e espirituais) até ficar empobrecido, faminto e roto; o filho
mais velho, que personifica “o filho obediente” é o que permanece na “Casa do Pai”, aparentemente representando o
trabalhador fiel, porém é o símbolo do egoísmo, porque pretende monopolizar a herança e o convívio paterno; e,
também, é o símbolo da impiedade, porque recusa-se ostensivamente a tomar parte na recepção ao “filho que esta-
va morto e reviveu”.
Esta parábola, uma das mais conhecidas, é rica em ensinamentos:
a) O desfecho de longo caminhada (as sucessivas reencarnações) é o retorno ao lar paterno;
não importa a falta cometida, as provas e expiações pelas quais se passa; ao final, vem o arrependi-
mento, as confissões das culpas e a conseqüente reabilitação pelo amor do Pai.
Ninguém se perde, não há pecados irremissíveis, não há culpa irreparável. O Pai Celeste a
ninguém abandona.
Curso de Aprendizes do Evengelho66
b) A Lei de Causa e Efeito (ou da Ação e Reação): o Filho Pródigo criou para si uma série de
causas, que determinaram as conseqüências correspondentes. Como as causas eram más, os efeitos
forma dolorosos.
c) O Plano Espiritual respeita o livre-arbítrio de cada qual. Todos têm liberdade de proceder
como querem. A semeadura é livre (mas, a colheita é obrigatória).
d) A resolução de emendar-se é espontânea, e não por coação de terceiros; ou seja: a obra de
salvação é furto do esforço individual. E com ela se processa no íntimo do indivíduo, ela se realiza
pela reforma voluntária dos maus hábitos.
e) A bondade de Deus, o pai; ele sempre nos espera. E já longe avistou o filho que retornava,
“teve compaixão dele e, correndo, o abraçou e beijou”. E regozijou-se; e manifestou seu perdão:
“Porque esta morto e reviveu; estava perdido e se achou”.
f) Finalmente, o filho mais moço faz jus a simpatia; era um estouvado, leviano, inexperiente;
mas, era sincero e humilde; reconhecer seu erro e procurou renovar-se. Porém, o mais velho era ego-
ísta e impiedoso, feriu os sentimentos paternos era bom apenas exteriormente; entristeceu-se com a
felicidade alheia; enfim, não viu no pródigo um irmão, mas apenas um pecador.
PARÁBOLA DA VIÚVA OPRIMIDA (OU DO JUIZ INÍQUO) (LC., 18:1-8)
O grande ensinamento da parábola é a certeza do atendimento por parte do Pai; por isso, não se deve esmo-
recer nem duvidar do socorro do Plano Espiritual, que no devido tempo chega a todos, de acordo com as necessida-
des e méritos de cada um.
O juiz era iníquo, isto é, maldoso, perverso, insensível aos direitos do próximo, que ele, como juiz, tinha a
obrigação de amparar.
Mesmo assim, a viúva persistiu em sua súplica até ser atendida.
Ora, se no mundo dos encarnados, em que até as pessoas iníquas atendem os que lhes pedem com insistên-
cia, nem que seja para se verem livres de importunação, como pode Deus, que é Pai, que é a Bondade infinita, dei-
xar de atender aos seus filhos que lhe rogam dia e noite? Sua justiça será mais completa, “ainda que tardia para com
eles” (Lc., 18:7).
É por isso que Jesus ensinou “pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-vos-á. Pois todo o que pede
recebe; o que busca, encontra, e a quem bate, abrir-se-lhe-á”. (Mt., 7:7-8; Lc., 11:9-11)
Nas entrelinhas da Parábola ensina Jesus que o homem não deve se portar como juiz iníquo, pensando ape-
nas nos bens terrenos e em sua própria condição de vida, mas deve julgar segundo os mandamentos divinos e em
todos os momentos de sua vida. Aqui cabe a sentença do Mestre: “Com o juízo com que julgardes sereis julgados”.
(Mt., 7:2)
Este mesmo ensinamento encontra-se na “Parábola do Amigo Importuno”. (Lc., 11:5-13)
PARÁBOLA DO RICO E LÁZARO (OU O RICO E O POBRE) (LC., 16:19-31)
A parábola narra a situação de dois Espíritos, após a existência terrena em que um escolheu a prova da rique-
za e o outro, a da pobreza sofrida.
O rico e o pobre (Lázaro)_ simbolizam a Humanidade sempre em disputa. O rico passou a vida na fartura, in-
sensível aos seus semelhantes. O efeito de suas más ações é sofrer no Plano Espiritual. O pobre sofreu no mundo e
goza na vida Espiritual o sue bom aprendizado de humildade através da oportunidade da vida difícil.
Interessante que a parábola só dá nome ao pobre, ao rico não; isto porque identificam-se e confundem-se to-
dos os egoístas, os orgulhosos, os vaidosos, os que vivem na luxúria, os que esquecidos da fraternidade do amor e
da caridade, insensíveis à miséria e sofrimentos do próximo, vivem na ostentação, no luxo, no comprazimento pes-
soal pelo comer, beber e vestir.
Lázaro representa os excluídos da sociedade, mas não os pobres orgulhosos, ou seja, os que não têm dinhei-
ro, mas têm orgulho, não têm o que comer e o que vestir mas são orgulhosos, duros para com os outros, presunço-
sos, arrogantes.
O “Seio de Abraão”, a que se refere a parábola, é o Mundo Espiritual, o chamado Céu. Abraão foi o Patriarca
dos judeus, o ancestral de onde derivou todo o povo judeu; era um homem de fé, temente a Deus e justo.
“Hades”, na parábola, eram as regiões infernais na Mitologia Grega, correspondia ao “Tártaro” dos romanos,
sendo também equivalente ao “Inferno” das igrejas dogmáticas que defendem a unicidade das existências. Todavia,
sabe-se que o “inferno” não é um lugar circunscrito, determinado, mas um estado de espirito, um estado de consci-
ência (LE., 1011).
A parábola é rica em ensinamentos:
a) Fala da Lei de Causa e Efeito (ou da ação e reação), pela qual cada um colhe o que semeou.
Mostra que a posição futura de cada qual é conseqüência de seus atos atuais;
b) A tortura do rico é conseqüência de um profundo sentimento de culpa, o qual faz com que
ele esteja num “inferno”;
c) O arrependimento forçado pelas circunstâncias, não elimina as conseqüências da má con-
duta; é necessário resgatar as faltas cometidas, isto é, ressarcir as dívidas;
Parábolas sobre o Desapego às Riquezas Terrenas 67
d) Os bens materiais não devem ser utilizados egoísticamente, mas em benefício do próximo;
não se é “dono” da riqueza, mas apenas usufrutuário;
e) Entre as diferentes posições, na vida espiritual, existe um abismo; mas não um abismo físi-
co, e sim moral, assegurado por correntes vibratórias que delimitam e separam as diferenças de posi-
ções;
f) Os Espíritos de posição inferior não podem passar para os planos mais elevados, invadindo-
os;
g) Outrossim, havendo triunfado em sua provação terrena, Lázaro alcançara um elevado estado
de alma, caracterizado por um estado de felicidade interior, que o mau rico não podia ter; por sua vez,
o rico possuía um estado de alma angustiado e abrasado de sofrimentos causados pelo remorso, que
Lázaro não poderia sentir (porque os estados de consciência são pessoais e impermutáveis); daí o
abismo entre eles existente.
Capítulo 28
PARÁBOLAS SOBRE A VALORIZAÇÃO DAS OBRAS DO HOMEM
INTRODUÇÃO
As parábolas a seguir contêm os ensinamentos dos deveres e direitos do homem para valorizar sua obra ma-
terial, moral e espiritualmente.
Parábola dos Talentos e das Minas (Mt., 25:14-30) e (Lc., 19:11-27)
Quatro são os personagens da parábola: o senhor e três escravos. O senhor é Deus; os servos são os ho-
mens, componentes da Humanidade; os talentos são os bens, os recursos materiais e espirituais que são oferecidos
aos homens para serem empregados em benefício próprio e do próximo; o tempo concedido para a movimentação
desses bens são as reencarnações.
Os servos possuem capacidades diferenciadas. O que significa que aproveitaram diferentemente sua jornada
evolutiva. Por terem capacidades diferentes, um deles recebeu cinco talentos, outro recebeu dois e o terceiro apenas
um. Os dois primeiros, sendo Espíritos mais adiantados, foram previdentes, diligentes e aplicaram os bens recebi-
dos, aumentando-os; o terceiro, no entanto, atrasado que era, raciocinou mal, buscou desculpa para ser indolente e
“enterrou o talento”, isto é, nada produziu, não aproveitou a oportunidade que lhe foi dada para progredir. Daí, a ad-
moestação que lhe foi feita.
Diz o senhor da parábola que o servo negligente deveria ter posto o talento nas mãos dos banqueiros, a fim de
render juros; evidente que o senhor não está incentivando a usura; é uma linguagem alegórica para significar que o
servo deveria ter procurado os que têm mais capacidade do que ele, os quais saberia, dar um uso benéfico, produti-
vo, ao pequeno adiantamento recebido; assim, ele progrediria um pouco mais, pela experiência que adquiriria.
A parábola transmite, ainda, o ensinamento de que “ao que tem, mais ainda lhe será dado e ao que não tem
até o que tem lhe será tirado” para significar: todo aquele que é diligente, esforçado, que diligencia por corresponder
ao amparo divino, ao amparo do Plano Espiritual, receberá auxílio e proteção para que possa aumentar suas virtu-
des, sua capacidade espiritual; todavia, aquele que não se esforça para acrescentar alguma coisa ao bem que rece-
beu de Deus, o Pai, que nada faz para aumentar sua capacidade, sofrerá encarnações expiatórias, quando, então,
pelo estímulo da dor, do sofrimento, acordará para o progresso.
Há em Lucas (19:11-27) uma outra versão, chamada “Parábola das Dez Minas”, que tem a mesma interpreta-
ção acima. “Mina” era uma moeda corrente, de prata, de 571 gramas, também equivalente a 100 dracmas ou 6.000
talentos.
Parábola dos Dois Filhos (Mt., 21:28-35)
Os dois filhos da parábola representam as duas espécies de homens. O que disse que ia trabalhar na vinha do
senhor, mas não foi, representa os que desprezam o chamamento e fogem ao cumprimento do dever; simboliza
também os devotos em obras, os religiosos virtuosos apenas de aparência, os que apenas cumprem o culto e rituais
externos e com isso decidem ter cumprido com suas “obrigações” para com Deus e o próximo. O que disse que não
ia, mas arrependendo-se foi, simboliza os que levando uma vida mundana, vivendo para as coisas materiais, aca-
bem caindo em si, saturando-se dos prazeres da carne e, então, conscientizam-se do verdadeiro significado da vida,
arrependem-se, regeneram-se e transformam-se em obreiros da “vinha do senhor”. Tem o mérito da decisão corajo-
sa, preparando-se para assumirem responsabilidades e fazendo jus à confiança dos amigos espirituais.
O “homem que tinha dois filhos”, o Pai da Humanidade, o “senhor da vinha” é a representação de Deus. A
“vinha” é o mundo, a Humanidade como campo onde o homem agirá como obreiro do Senhor.
Finalmente, a parábola ensina que para o Pai não importa a natureza dos erros e transgressões, os maus sen-
timentos, mas o arrependimento, a decisão de reforma íntima e o esforço para redimir-se.
Parábola dos Lavradores Maus (Mt., 21: 33-45), (Mc., 12:1-12) e (Lc., 20:9-18)
Também chamada de Parábola dos Vinhateiros Homicidas.
A fazenda Seara é a humanidade e o dono, o Senhor. A vinha significa o laboratório da vida terrestre e a Lei
de justiça e amor que Ele estabeleceu.
Os lavradores, a quem alugou sua propriedade, são aqueles que devem usufruir desta fazenda terrestre para
aprender e praticar sua Lei, principalmente os sacerdotes e ministros das várias religiões; os furtos são as ações
evolutivas praticadas; os servos enviados aos lavrados são os Missionários e Profetas que a Providência Divina tem
enviado aos homens, que os mataram; por fim, o próprio filho herdeiro que o senhor envia é Jesus, que também foi
morto.
A parábola diz que o proprietário cercou a vinha para protegê-la, construiu nela um lagar (que é onde se es-
premem as uvas para com o suco fazer-se o vinho), significando aqui os meios de purificação espiritual, e edificou
uma torre (de onde as sentinelas podem proteger a vinha dos ataques de surpresa dos inimigos). Portanto, Deus deu
aos homens a sua Lei, completa e pronta para o usufruto rendeiro que dá mérito ao trabalho útil.
Parábolas sobre a Valorização dos Obras do Homem 69
Segundo se depreende dos versículos 43 e 45 deste capítulo 21, de Mateus, e de 23: 37-38, os judeus, com
sua casta sacerdotal à frente, tornaram-se indignos da paternidade de Deus. Então, com a vinda de Jesus, o Evan-
gelho foi pregado aos gentios, isto é , propagado a todos os povos da Terra, procurando rendeiros que lhes darão
frutos no tempo apropriado.
Agora, os tempos são chegados e tal como na parábola, o Senhor pedirá conta aos lavradores do produto de
sua vinha.
Parábola da Figueira que Secou (Mt., 21:18-22) e (Mc., 11:12-14 e 20-26)
Também chamada de Parábola da Figueira sem Fruto. Não é propriamente uma parábola, pois foi um aconte-
cimento, encerrando grandioso ensino moral.
A versão de Marcos é mais abrangente que a de Mateus; e também aparentemente de mais difícil interpreta-
ção, porque a figueira que secou com a “maldição” não tinha frutos, porque não era tempo deles.
Os discípulos estranharam o gesto de Jesus; se não era tempo de frutos porque foi amaldiçoada? Na realida-
de, a parábola objetiva transmitir dois grandes ensinamentos:
a) Se a árvore é de espécie frutífera, o que se espera dela é que dê frutos. Assim, o “discípulo
de Jesus”, o que decidiu proceder como verdadeiro obreiro deve sempre produzir bons frutos (boas
obras), seja qual for a estação, a hora ou o lugar. Deve estar sempre apto a fornecer o auxílio neces-
sário, seja que hora for. Para isso é indispensável reeducar-se em todos os pontos de vista: físico e
espiritualmente, higienizando o corpo e a mente, para não suceder que na hora necessária não se en-
contre apto para prestar a cooperação essencial.
b) O Evangelho registra que Jesus condenou a figueira quando se dirigia ao Templo de Jeru-
salém, onde teve a oportunidade de expulsar os mercadores (cabendo aqui esclarecer que mercadores
não eram aqueles que vendia objetos e animais nas vizinhanças do Templo, mas aqueles que, em seu
interior, mercantilizavam com as coisas divinas). Na realidade a religião dos Judeus, com seu corpo
sacerdotal fanatizado, orgulhoso e egoísta, era idêntica a frondosa figueira, cheia de folhas e de agra-
dável aparência exterior, mas que não produzia os frutos esperados por Deus. Essa religião, portanto,
não estava apta a receber a mensagem cristã, por isso ela foi relegada à esterilização (amaldiçoada
conforme consta no Evangelho), secando até a raiz e deixando de produzir qualquer gênero de frutos.
Parábola da Figueira Estéril (Lc., 13:6-9)
É um complemento da parábola anterior. Ambas são semelhantes no conteúdo e conclusivas: a fé sem obras
é morta.
O grande ensinamento da parábola é que ninguém deve, inutilmente, ocupar lugar na sociedade. A reencarna-
ção é uma bênção, porque representa a grande oportunidade para ressarcir culpas, resgatar débitos, retomar o ca-
minho que conduz a Deus. Muitos são os Espíritos que aguardam a sua vez; assim, aqueles que ocupam, a “terra”
inutilmente, devem ceder o lugar tão cobiçado para outros, que dele farão melhor proveito.
Mostra também a bondade da Providência Divina, traduzida na paciência que tem com o homem, aguardando
que ele produza os frutos esperados; e nos cuidados desenvolvidos “revolvendo a terra em roda e pondo adubo”, o
que significa limpando das más influências, livrando-o das ervas daninhas dos maus Espíritos e de suas influências,
para que aplique o conhecimento na produção de frutos e não permaneça na ociosidade.
Parábola do Semeador (Mt., 13:1-23), (Mc., 4:1-20) e (Lc., 8:4-15)
Esta parábola é uma das mais conhecidas. É explicada pelo próprio Jesus. Ela esclarece as diversas situações
pelas quais o homem se aproveita ou não dos ensinamentos do Evangelho.
Seus objetivos são mostrar a necessidade do aprendizado com responsabilidade e abnegação; a consciência
de que todos os atos devem ser feitos com perseverança, com dedicação ao trabalho. Aos aprendizes cumpre sem-
pre estar alerta. Mostrar a importância da “boa terra” para o “cultivo” constante e a falsa ilusão que causa ao homem
os pequenos louros, lembrando que um cultiva e outro ceifa.
Para esclarecer os termos, deve-se entender a semente com a palavra da Boa Nova.
O próprio semeador, o tarefeiro, saiu a semear, não mandou outros e a semeadura foi difundida em todos os
campos.
A semente que caiu ao pé do caminho, por onde ia o semeador, é a Boa Nova recebida sem que desperte ou
motive ação. Foi desperdiçada por tendências subconscienciais não desenvolvidas, como a acomodação, o ódio, a
recalcitrância, etc.
A que foi semeada em terreno pedregoso, corresponde àquele que ouve a palavra e a recebe com alegria,
entretanto falta-lhe base, isto é, não tem nível moral suficiente para fixar os ensinamentos. É semelhante aos que
adoram as comunicações mediúnicas brilhantes, mas permanecem indiferentes ao seu conteúdo. Estão no estágio
de dependência contínua de sinais, fenômenos e auxílio. A semente nos pedregais não vinga, não tem raiz, assim
como no campo espiritual falha o testemunho. Não há perseverança.
A semente que caiu em terreno espinhoso eqüivale ao que ouve a palavra, procura segui-la com desvelo, mas
sucumbe ao primeiro desânimo, à primeira dificuldade, levado pelas preocupações materiais. “Sufocam a palavras”,
diz Jesus, “e a semente fica infrutífera ou não dá frutos perfeitos”.
A semente que caiu em terreno fértil corresponde ao homem que participa da luta para o bem, produzindo
frutos agradáveis ao Senhor.
Curso de Aprendizes do Evengelho70
É preciso que o campo espiritual esteja limpo, revestido de boa vontade, com conhecimento, fé e esperança.
Assim é a “boa terra” do Espirito. A semeadura é forte e segura, rendendo obras, podendo crescer na sabedoria e no
amor, testemunhado no exemplo e na sinceridade de propósitos.
Esses “frutos sazonados” darão novas sementes - virtudes que serão semeadas por novos semeadores.
Capítulo 29
PARÁBOLAS SOBRE AS FALSAS APARÊNCIAS
PARÁBOLA DA CASA EDIFICADA SOBRE A ROCHA (MT., 7:24-27) E (LC., 6:47-49)
Em todas as parábolas desta lição o Mestre atribui ao homem duas categorias: o homem sensato e o insen-
sato, ou aquele que é bom porque segue realmente seus ensinamentos e aquele que aparenta ser bom.
Através dos ensinamentos, ele demonstra o caminho difícil do insensato e a serenidade do sensato, no desen-
volvimento da vida. Quem é prudente e conhece a verdade não edifica sua casa (vida espiritual) sobre a
“areia”(sonhos e fantasias), pois sabe que não tem segurança porquanto são ilusões passageiras, ainda que aparen-
temente belas.
Quando surgem as atribulações, somente a fé, a resignação, o bem ânimo mantêm o sensato em pé e sereno.
Somente a fé raciocinada resiste aos ímpetos da dúvida e das perquirições da ciência. Atributos sadios requerem
aprendizado constante no campo da edificações moral e espiritual.
PARÁBOLA DAS CANDEIAS (MC., 4:21-25) E (LC., 8:16-18)
A luz é indispensável a todo tipo de vida; sem ela a vida não existe. A luz física germina a semente, alimenta,
floresce e frutifica os seres. A luz espiritual o conhecimento e o entendimento da Verdade sobre a Ciência, a Filoso-
fia e a Religião, tripé da evolução biopsicossomática.
Atualmente todos os novos conhecimentos e descobertas são difundidos por toda a Terra. Através dos meios
de comunicações existentes. A Terra é imensa escola e nela não se pode enganar a todos indefinidamente. As posi-
ções religiosas, filosóficas ou científicas são analisadas e por todos, de forma que o predomínio da razão se sobre-
põe à credulidade, o amor sobre o mal e a realidade sobre a aparência. Nada se oculta que não venha a se mani-
festar mais cedo ou mais tarde, com a devida reação. (Lc., 8:17)
A luz afugenta os amantes das falsas aparências porque os denuncia. Também há falsa aparência naquele
que tem conhecimento e os guarda para si, pois ninguém “acende uma lâmpada e a cobre com algum vaso ou a põe
debaixo da cama”. (Lc., 8:16)
Disse Kardec (ESE, XXIV, 5): “É assim que todas as religiões sempre tiveram os seus mistérios, cujo exame
proíbem”. No item 7, complementa, “O Espiritismo, vem, atualmente, lançar a sua luz sobre uma porção de pontos
obscuros, mas não o faz inconsideradamente. Os Espíritos procedem, nas suas instruções, com admirável prudên-
cia”, pois “sem a luz da razão, a fé se enfraquece”.
Emmanuel, comentando Paulo (II Coríntios 10:7), em Fonte Viva, lição 65, cita: “Olhai as coisas, segundo as
aparências?” e diz: “O vagalume acende leves relâmpagos nas trevas e se supõe o príncipe da luz, mas encontra a
vela acesa que o ofusca. A vela empavona-se sobre um móvel doméstico e se presume no trono absoluto da clari-
dade, entretanto, lá vem um dia em que a lâmpada elétrica brilha no lato, embaciando-lhe a chama. A lâmpada, a
seu turno, ensoberbece-se na praça pública, mas o sol, cada manhã, resplandece no firmamento, clareando toda a
Terra e empalidecendo toas as luzes planetárias, grandes e pequenas”.
Conclui Emmanuel “cada alma é sempre uma incógnita para outra alma. Em razão disso, não será lícito er-
guer as paredes de nossa tranqüilidade sobre os alicerces do sentimento alheio”.
PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO (LC., 10:30-37)
Seu epicentro é a pergunta: “E quem é meu próximo?”
Caibar Schutel, em “Parábolas e Ensinos de Jesus”, comentando esta parábola do Bom Samaritano, diz que
“se examinarmos atentamente a Doutrina de Jesus, veremos em todos os seus princípios a exaltação da humildade
e a humilhação do orgulho”.
O sacerdote saduceu e o levita, que só falavam em justiça, passaram ao largo. O samaritano, considerado he-
rético pelos judeus ortodoxos, foi o paradigma tomado pelo Mestre para dar o ensejo de tão profundo ensinamento.
O ensino propiciado por Jesus nessa edificante parábola é dos mais elucidativos. Nele podemos apreciar o
exercício da caridade imparcial, despretensiosa, incondicional, em seu sentido mais amplo, e sem qualquer tipo de
limitação. A prática da caridade está em fazer ao nosso próximo aquilo que desejamos que nos seja feito.
O samaritano pouco considerado pelos judeus, porém, neste caso cumpridor dos seus deveres, não se limitou
a se condoer do necessitado e sim, achegou-se a ele e o socorreu da melhor forma possível, levando-o, em seguida,
a um lugar de pouso, onde o assistiu e o recomendou ao hospedeiro prontificando-se a pagar os gastos.
A caridade, foi ali dispensada a um desconhecido e quem a praticou não objetivou retribuição de espécie al-
guma.
O homem bom coloca acima de vãs circunstâncias, a lei da justiça e caridade. Faz o bem pelo bem, desde o
menor até o maior. (ESE, cap. XVII, item 10).
Curso de Aprendizes do Evengelho72
Esta parábola tem o mérito de mostrar a valorização do trabalho samaritano, e também de evidenciar as fal-
sas aparências do sacerdote e do levita, os quais deveriam ser os primeiros a tratar do moribundo.
A mesma coisa acontece em nossos dias: religiosos de todas as crenças e até empregados de casas Assisten-
ciais, colaboradores que se colocam à disposição para o trabalho do bem, todos, na hora efetiva do trabalho e da
participarão sempre acham uma forma para se furtarem ao dever de ajudar o próximo, alegando compromissos in-
transferíveis.
Aqui cabe relembrar as palavras do apóstolo Paulo, quando em sua II Epístola aos Coríntios (13:4), asseverou:
A caridade é sofredora, é benigna, não é invejosa, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se irrita, não
suspeita mal, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não folga com a justiça mas folga com a
verdade. A caridade tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
Convém, por isso, a cada um fortificar as paredes da tranqüilidade do próximo, porque esta é a caridade e o
amor sublime que une a criatura ao Criador, sem falsas aparências, porque ao Pai não se ilude.
PARÁBOLA DOS PRIMEIROS LUGARES À MESA (LC., 14:1 E 7-11)
O estudo desta parábola deve estar associado ao da “Grande Ceia” também (Lc., 14:16-24), como comple-
mento uma da outra.
Toda parábola de Jesus tem um fundamento sobre o comportamento de seus discípulos. Convidado que fora
Jesus para uma refeição na casa de um dos príncipes dos Fariseus, notou como os convidados escolhiam os primei-
ros lugares. Por isso, ensinou-lhes que deveriam aguardar o convite para se assentarem à mesa e não sentarem em
lugares por eles escolhidos. Concluiu o Mestre que “todo aquele que se exalta será humilhado e todo o que se humi-
lha será exaltado”. (Lc., 14:11)
O homem não deve se perder pelas falsas aparências nem deixar-se perder por elas. Até por uma questão de
educação, o homem deve saber que não deve ocupar lugares que ainda não estão destinados, mas é comum pes-
soas orgulhosas não se aperceberem de suas reais qualidades ou motivos do convite e ocuparem posições que
destaquem suas ambições e vaidades.
É difícil conservar as verdadeiras posições, quanto mais as inadequadas e indevidas. Na grande comunhão
espiritual, os primeiros lugares são reservados aos servidores que se destacam pela moral elevada, modéstia, pru-
dência, perseverança e outras virtudes da alma. A humildade é a primeira delas - “Bem aventurados os humildes,
porque dele sé o Reino dos Céus”. “Bem aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põe em prática”.
(Lc., 11:28)
O bom espírita deve, por isso, esquivar-se à vaidade e ao orgulho, que levam tantos médiuns a se perderem
na ânsia de galgarem posições humanas ou privilégios para a vida material, mas estar sempre pronto a servir por
amor ao próximo e assimilar os ensinamentos de Jesus.
Deve escusar-se ao trabalho prometido por prazeres sociais, materiais e sensuais indevidamente, porquanto
isto é desviar-se de seus deveres e distanciar-se do banquete espiritual (Lc., 14:16-24)
Atualíssimas são estas parábolas, confirmando que o ser não é parecer. O chamado continua para o banquete
espiritual, mas para aceitá-lo é preciso estar preparado. “Muitos serão os chamados mas poucos os escolhidos”. (Mt.,
22:14)
PARÁBOLA DO FARISEU E DO PUBLICANO (LC., 18:9-14)
Nesta parábola, outra vez, Jesus evidencia que as aparências enganam, falando do Fariseu que confiava em
si mesmo, como se fosse justo, e desprezava o Publicano que não tinha cumprido os deveres tradicionais, segundo
seu ponto de vista: jejum, dízimo, etc.
Em todos os ensinos de Jesus, a humildade e o amor são o ponto de partida. O melhor aprendizado é feito
através de experiências práticas do bem, tendo com base o maior mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas
e ao próximo como a si mesmo.
O homem que se esforça em falsas aparências, buscando evidências, é um “túmulo caiado de branco”; na re-
alidade, reveste-se de orgulho, o mais terrível adversário da humildade. Conhecer e lutar contra as próprias imper-
feições é sinal de sabedoria.
Por isso, a partir da prece, o homem deve apresentar-se transparente, manso e humilde diante do Criador,
para que seus pensamentos e sentimentos possam alcançá-lo.
Os exemplos simples e radicais das parábolas evidenciam que os títulos, as posições notórias e a riqueza ter-
rena, de nada significam quando enaltecidos indevidamente, ou quando o homem se vale desses para vangloriar-se.
Desta forma já recebeu sua recompensa ou tributo à sua vaidade.
A humildade é a chave espiritual da Verdade, pois a exemplo de Jesus: “O Filho do Homem não veio ao mun-
do para ser servido, mas para servir”, também o verdadeiro cristão deve fazer o mesmo.
Capítulo 30
PARÁBOLA SOBRE A VIGILÂNCIA, PRUDÊNCIA E VALORIZAÇÃO DO
TRABALHO
A PARÁBOLA DAS DEZ VIRGENS (MT., 25:1-13)
É também chamada de “As Virgens Insensatas e as Prudentes”. Em algumas versões, as virgens imprudentes,
ou insensatas, são chamadas “néscias”.
O tema central da parábola é: não é na hora da morte, nos últimos momentos da vida no corpo de carne, que
se deve preparar para a desencarnação. Como se sabe, ao desencarnar, cada qual irá para o plano espiritual na
condição em que se encontra, ou seja, no nível evolutivo que preparou para si próprio.
A parábola simboliza, pois, a existência do homem, quando então se tem a oportunidade de se aparelhar ou
não para o “banquete espiritual”, ou seja, para o reencontro com os Espíritos do bem.
As dez virgens representam a Humanidade; as cinco prudentes s são os que aproveitam a encarnação para
adquirir os bons imperecíveis, que são as virtudes; as cinco imprudentes representam os que desperdiçam a bênção
da reencarnação. A prudência recomenda bom senso, estudo e trabalho.
A candeia significa a luz interior, a luz própria de cada um, a luz do espírito, a aura luminosa, que é o resultado
do conhecimento e do esclarecimento da alma encarnada.
O azeite significa as virtudes que se devem adquirir, as boas obras que devem ser praticadas. É delas que se
origina a luz espiritual, assim como a luz física nasce do fóton.
Jesus é o “esposo” da Humanidade. A chegada do “esposo” significa a aceitação de Jesus, como guia e Mes-
tre, conseqüentemente, o estado de ventura, de felicidade daí resultante. A pureza espiritual tem que se associar à
vigilância e à prudência.
A parábola ensina que as virgens prudentes recusaram-se a dar de seu azeite, evitando que lhes faltasse o
combustível; o que significa que cada qual precisa adquirir a luz do conhecimento através do esforço próprio. Nin-
guém se redime apelando para os méritos, qualidades e virtudes de outrem; cada qual precisa aparelhar-se com as
próprias virtudes, que se tornam a lâmpada da vigilância e da prudência. O conhecimento, o amor e a caridade são
próprios de cada alma e são intransferíveis.
Finalmente, a parábola ensina que o esposo chegou inesperadamente; o que significa que todos devem estar
vigilantes e preparados para o chamado vindo dos planos superiores. Os que não se preparam perdem uma oportu-
nidade de amealhar um patrimônio imperecível para o seu espírito.
PARÁBOLA DO SERVO VIGILANTE (LC., 12:35-48) E (MT., 24:45-51)
Também chamada de Parábola do Bom e do Mau Servo.
A parábola é uma exortação ao trabalho, oração e à vigilância, mas principalmente à vigilância. “Orai e vigiai”,
recomendava Jesus, “para não cairdes em tentação”; porque ninguém sabe quando vem a hora do testemunho, da
exemplificação. Todos passam por testes, que são as situações, sempre inesperadas, em que se tem de mostrar
que se está agindo verdadeiramente como discípulo de Jesus. Finalmente, significa ainda que ninguém sabe quando
vai soar a hora de sua desencarnação; portanto, é necessário estar-se preparado para essa hora.
A parábola, na versão de Lucas, ainda chama a atenção para importantíssima questão: “Aquele que não soube
a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação, levará poucos açoites”, ou seja, para quem erra por ig-
norância e não por maldade, a correção é branda, será uma reencarnação de provas, não de expiações. Porém,
“Aquele que conhecer a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com
muitos açoites”, ou seja, aquele que desrespeita a Lei conscientemente, sabendo que está agindo errado, está reen-
carnação dolorosa, passará pela dor - expiação oriundas de suas deficiências porque muito será pedido, a quem
muito foi dado.
O servo vigilante está sempre se aprimorando, se iluminando com o saber, isto é, mantendo acesas suas can-
deias.
PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA (LC., 15:3-7; MT., 18:10-14)
OU PARÁBOLA DA DRACMA PERDIDA (LC., 15:8-10)
As duas parábolas têm o mesmo fundamento: o reencontro e a misericórdia.
É salientada a solicitude de Deus, o Pai, para reconduzir os que se perde, pelos caminhos da própria evolu-
ção.
A idéia central é a redenção espiritual de todos. O tema é antigo na Bíblia; já em Ezequiel (33:11), lê-se: “Tão
certo como eu vivo, diz o Senhor, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do
seu mau caminho e vida”. E em Ezequiel (34:11-31) está mostrado o empenho do Pai, em redimir seus filhos: “Eis
que eu procurarei as minhas ovelhas e as buscarei como o pastor busca o seu rebanho”; “livrá-las-ei de todos os lu-
gares para onde forma espalhadas no dia de nuvens e de escuridão”; “À perdida buscarei, à desgarrada tornarei a
Curso de Aprendizes do Evengelho74
trazer, à quebrada ligarei e à enferma fortalecerei, enquanto à gorda e vigorosa, guardá-la-ei e apascentá-la-ei com
o direito.
“E vós, minhas ovelhas, sois o rebanho humano do meu pasto e eu sou vosso Deus” - diz o Senhor.
A parábola ainda chama a atenção para a alegria no Mundo Maior sempre que se recupera a “ovelha” que es-
tava perdida.
As parábolas mostram que todos os filhos se redimem e que não há penas eternas. A ovelha e a dracma en-
contradas significam o reencontro do filho perdido com a grande família espiritual, depois das encarnações. É a sín-
tese do que disse Jesus: “haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove
justos que não necessitam de arrependimento”. (Lc., 15:7)
Assegura, assim o Mestre, que mesmo as almas desencaminhadas pelos meandros ilusórios da vida, um dia
estarão juntas no trabalho profícuo da Fraternidade Universal.
A parábola do “filho pródigo”, embora um tanto diferente também se refere ao mesmo tema acima.
PARÁBOLA DOS TRABALHADORES NA VINHA
OU TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA (MT., 20:1-16)
A lei do trabalho está diretamente ligado à lei do progresso e aqui há uma promessa de recompensa aos tra-
balhadores animosos de todas as horas.
Esta parábola Jesus encerra indiretamente uma resposta aos discípulos por causa da pergunta (Mt., 19:27).
“Eis que nós deixamos tudo e te seguimos. O que é que vamos receber?”
O pai de família na narrativa, significa Deus. O Pai Criador; os trabalhadores se traduzem nos discípulos e na
Humanidade, cujo trabalho na vinha (a seara de Jesus) é o resultado de seus esforços na aquisição das virtudes e do
saber. Uns precisam de mais tempo, outros de menos conforme o uso que fazem de seu libre arbítrio. De sua inteli-
gência e de sua vontade; o pagamento, isto é, o salário recebido pelo trabalho é a bem aventurança espiritual. O
bom trabalhador é o que faz bem feito. Com bom ânimo e boa vontade, independente do Tempo.
Os Trabalhadores da Última Hora são os cristãos novos aqueles que atendem a voz do Mestre, no sentido de
restabelecer na Terra as primícias do Vero Cristianismo; e cegos que querem ver, que não se conformaram com a
cegueira.
Por outro lado, os Trabalhadores das Primeiras Horas foram os primitivos hebreus, com seus vãos tradiciona-
lismos, entrecortados de normas rígidas e apenas suportáveis naquela época de obscurantismo; foram os primitivos
cristãos indecisos no tocante ao verdadeiro sentido libertador do Cristianismo nascente, divididos entre “homens da
circuncisão e homens da incircuncisão”; foram os cristão da Idade Medieval, subjugados pela tara hedionda do fana-
tismo. Do ódio, da vingança, do monopólio de uma suposta verdade, que pretendiam fazer prevalecer a ferro e fogo,
aniquilando seus semelhantes julgando que assim estavam prestando um serviço a Deus; oram os cristãos do fim da
Idade Média. Digladiando-se por causa de irrisórias divergências doutrinárias de bitola estreita.
Esta parábola incentiva a ociosidade? Não, porque os desocupados da praça lá estavam porque ninguém os
assalariou antes.
O pagamento foi injusto? Não, porque cada qual recebeu o contratado.
A parábola significa ainda que o convite do Pai soa para todos, a qualquer hora; e que cada qual recebe o sa-
lário pela qualidade do trabalho produzido. Não apenas pela quantidade. Mesmo porque o trabalhador diligente e de-
votado, mesmo que contratado à última hora, pode realizar um trabalho mais nobre e meritório que os outros que
trabalham mais tempo.
Finalmente, a parábola enuncia, embora veladamente, a reencarnação. De fato, os trabalhadores das primei-
ras horas são os Espíritos que contam maior número de reencarnações, mas nem por isso colimaram o adianta-
mento que lhes competia ter; os trabalhadores contratados posteriormente simbolizam os Espíritos que mais recen-
temente tomaram conhecimento da Verdade, mas que fazendo melhor uso do libre arbítrio, da vontade e da inteli-
gência galgaram mais depressa os degraus da evolução espiritual; não ser perderam em atalhos que tornam a jorna-
da mais longa; sua caminhada foi mais reta.
Assim, os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros na conquista dos valores espirituais.
PARÁBOLA DA TORRE INACABADA
OU PARÁBOLA ACERCA DA PREVIDÊNCIA (LC., 14:28-30)
É também conhecida como a “Parábola do Homem Previdente”, significando que quem quiser servir a Jesus,
colocando-se ao serviço de espiritualização da Humanidade deverá, em primeiro lugar, medir suas forças e verificar
se tem vontade firme, fortalecer o Espírito através de um estudo consciente do Evangelho, esclarecendo-se em Es-
pírito e Verdade para depois desenvolvê-los na prática, procurando realizar as tarefas que estejam ao alcance de sua
capacidade e de seu entendimento, a fim de conseguir bom êxito. Depois, então, estará apto a vencer as dificulda-
des que surgirem na caminhada como, por exemplo, o sarcasmo dos indiferentes que não compreendem as atitudes
do verdadeiro cristão, tachando-as de fanatismo, a incompreensão dos familiares que se dividem em suas crenças,
por não terem todos o mesmo índice de evolução espiritual.
Portanto, quem quiser trilhar o caminho da espiritualização, que é desapego aos valores materiais, deve exa-
minar-se a si próprio, com sinceridade e lealdade, para verificar se de fato tem o potencial para desenvolver em si os
requisitos que levam à reforma íntima, bem como a capacidade de perseverar e dedicar-se, a fim de não se perder
no meio do caminho, porque necessariamente deverá reencontrá-lo.
Capítulo 31
MARIA DE MAGDALA
Consumada a crucificação de Jesus Cristo, a primeira pessoa para quem o seu Espírito se fez visível foi para
Maria de Madalena.
Muitos estudiosos dos Evangelhos formulam uma indagação: Por que essa preferência? Por que não aperce-
beu primeiramente para usa mãe ou para os seus apóstolos?
Não é muito fácil explicar a razão profunda dessa prioridade, porém, procuraremos elucidar a questão.
Se perlustrarmos as páginas dos Evangelhos, do começo ao fim, jamais encontraremos um paralelo com
aquilo que ocorreu com a célebre mulher de Magdala, pois melhor do que ninguém ela assimilou e viveu os ensina-
mentos de Jesus. Ninguém melhor do que ela soube desvencilhar-se dos vícios e desprender-se das coisas deste
mundo.
Maria Madalena seguiu de forma irrestrita a recomendação do Mestre: aquele que tomar do arado não olhe
mais para trás.
Difícil, tarefa é na realidade a luta contra os vícios. Muitas pessoas não conseguem, às vezes, vencer maus
hábitos insignificantes e o que se dirá quando têm que lutar contra vícios tenebrosos e enraigados, vícios que há lar-
gos anos dormitam dentro de suas almas?
O orgulho, a vaidade, o ódio, a sensualidade, são outras tantas formas de viciações que assoberbam as criatu-
ras humanas e têm sido a causa de verdadeiros descalabros morais e espirituais, originando sérios conflitos interio-
res e mesmo tornando-se a causa de guerras, de desagregações sociais.
Existem vícios que se enraigam nos seres humanos e os acompanham mesmo após a chamada morte física,
constituindo sérios embaraços para a emancipação da alma.
A bibliografia espírita é pródiga na demonstração de persistentes perseguições espirituais, casos de obses-
sões, e de possessões terríveis, exercidas por Espíritos desencarnados sobre os encarnados e vice-versa.
Os Evangelhos de Jesus contêm, em suas páginas, o remédio para todos esses males, e o que falta apenas é
que sejam assimilados e vividos.
Os homens não devem ir em busca de soluções mirabolantes para os seus problemas. A solução está real-
mente nos Evangelhos, os quais, há vinte largos séculos aí estão como demonstração inequívoca do amor de Deus
para com suas criaturas, como mensagem viva a atrair todas as pessoas de boa vontade, como atestado eloqüente
de que os problemas humanos são perfeitamente equacionáveis onde reside a conformação, a paciência, a fraterni-
dade e o amor.
Numa das suas maravilhosas mensagens, o Espírito de Emmanuel, analisando a questão da Aparição do
Mestre a Maria Madalena, explica:
Porque razões profundas deixaria o Divino Mestre tantas figuras mais próximas de sua vida, para surgir aos
olhos de Madalena em primeiro lugar?
Somos naturalmente compelidos a indagar por que não teria aparecido antes, ao coração abnegado e amoro-
so que lhe servira de mãe ou aos discípulos amados?
Entretanto, o gesto de Jesus é profundamente simbólico em sua essência divina.
Dentre os vultos da Boa-Nova, ninguém fez tanta violência a si mesmo, para seguir o Salvador, como a ines-
quecível obsidiada de Magdala. Nem mesmo Paulo de Tarso faria tanto, mais tarde, porque a consciência do após-
tolo dos gentios era apaixonada pela Lei, mas não pelos vícios. Madalena, porém, conhecera o fundo amargo dos
hábitos difíceis de serem extirpados, amoleceu-se ao contato de entidades perversas, permanecia “morta” nas sen-
sações que operam a paralisia da alma.
Capítulo 32
ZAQUEU, O PUBLICANO
Afirma Lucas (19:1-10) que tendo Jesus entrado em Jericó, havia ali um homem chamado Zaqueu, que era
chefe dos publicanos e bastante rico de bens materiais. Ele procurava ver Jesus, porém não o podia conseguir por
causa da multidão e pelo fato de ser de baixa estatura. Entretanto, ele correu para diante e subiu num sicômoro a fim
de vê-lo, porque estava para passar por ali. Quando o Mestre chegou àquele lugar, olhou para cima e disse-lhe:
Zaqueu, desce depressa; porque importa que eu fique hoje em tua casa”. O publicano desceu a toda pressa e rece-
beu Jesus em sua casa. Nisso surgiram várias críticas pelo fato dele se hospedar na casa de um homem que eles
consideravam pecador.
A dado momento, Zaqueu levantou-se e disse a Jesus: “Senhor, vou dar metade de meus bens aos pobres e
se alguma coisa defraudei de alguém, lho restituirei quadruplicado. Animado de intensa alegria, o Mestre sentenciou:
“Zaqueu, hoje entrou a salvação em tua casa”.
Publicano era o nome que na Roma antiga se dava aos cavaleiros arrendatários das taxas públicas, encarre-
gados da cobrança de impostos e das taxas de toda espécie, fosse na própria Roma ou em outras partes do Império
Romano.
Durante o domínio romano, foi o imposto o que os judeus mais relutaram em aceitar e o que mais causava ir-
ritação entre eles. Foi a causa de muitas revoltas, chegando mesmo a ser convertido numa questão religiosa por ser
contrário à lei.
Os judeus tinham, como decorrência, horror ao imposto e, por extensão, a todos os que se encarregavam da
sua cobrança. Essa a causa da sua aversão pelos publicanos de todas as categorias, entre os quais, entretanto, po-
diam encontrar pessoas estimáveis, mas que, em face de suas funções eram marginalizadas juntamente com as
pessoas de suas relações. Os judeus temiam comprometer-se pelo fato de manterem com eles relações de amizade.
O que sucedeu com Zaqueu é um caso raro, sem qualquer outro paralelo nas páginas do Evangelho.
O Evangelho de Mateus (19:16-30) narra que um moço, aproximando-se de Jesus indagou: “Que devo fazer
para herdar a vida eterna?”. Jesus lhe recomendou que observasse os mandamentos, que distribuísse sua fortuna
com os pobres e o seguisse. O jovem não concordou com a idéia de despojar-se de sua fortuna material e afastou-se
muito triste, tendo o Mestre exclamado: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico no
Reino dos Céus”.
Capítulo 33
JUDAS ISCARIOTES
O nome de Judas Iscariotes provém da sua cidade de origem: Karioth, na Samaria, a qual, por sua vez teve a
sua raiz no nome de Issacar, um dos filhos de Jacó, e que deu o título a uma das doze tribos de Israel.
O papel de Judas Iscariotes no processo de revelação do Cristianismo, pelo que podemos deduzir das narrati-
vas evangélicas, não foi muito significativo. As poucas referências ali feitas sobre ele foram de natureza negativa,
haja vista, por exemplo, o que diz o evangelista João sobre o episódio do Jantar de Betânia: Logo após ter Maria
derramado sobre o Mestre o vaso de ungüento, Judas Iscariotes, filho de Simão, o que havia de traí-lo, disse: por
que não se vendeu esse ungüento por trezentos dinheiros e não se desse aos pobres? Ora, ele disse isto, não pelo
cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava.
O seu nome alcançou maior notoriedade logo após a chamada última ceia, quando foi apontado pelo Cristo
como sendo o eventual traidor.
Dizemos eventual traidor porque, embora naquela altura dos acontecimentos ele já tivesse pactuado com o
sumo sacerdote, no sentido de entregar o Mestre mediante o prêmio de trinta moedas de prata, ele poderia bem ter
voltado atrás em seu intento, uma vez que Deus jamais condena alguém à prática do mal.
Em O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, deparamos com os seguintes esclarecimentos:
No estado errante, antes de tomar uma existência corpórea, o Espírito escolhe o gênero de provas que deseja
sofrer; nisto consiste o seu livre arbítrio.
Nada acontece sem a permissão de Deus, porque foi ele quem estabeleceu todas as leis que regem o univer-
so. Dando ao Espírito a liberdade de escolha, deixa-lhe toda a responsabilidade dos seus atos e das suas conse-
qüências; nada lhe estorva o futuro; o caminho do bem está à sua frente, como o do mal. Mas se sucumbir, ainda lhe
resta uma consolação, a de que nem tudo se acabou para ele, pois Deus, na sua bondade, permite-lhe recomeçar o
que foi mal feito.
Embora Jesus Cristo já soubesse que o plano de Judas era irreversível, o bom senso nos diz que o ato não era
de natureza fatal, uma vez, que, através do uso do seu libre arbítrio, ele poderia ter-se furtado à execução do seu
plano de traí-lo.
O Evangelista João afirma que logo após Jesus ter-lhe dado o bocado de pão, entrou nele satanás, o que si-
gnifica que Judas se tornou dócil instrumento de um Espírito possessor, o que insuflou em seu coração o desiderato
de consumar o ato de traição.
Com base nos ensinamentos acima, podemos afirmar que Judas Iscariotes não veio predestinado para aquele
ato nefando. Ele o poderia ter praticado ou não. Na eventualidade de ter modificado a sua decisão, teria natural-
mente surgido outro traidor, ou o Cristo teria sido preso em circunstâncias diferentes, embora o Mestre, profundo co-
nhecedor dos homens e profeta que era, soubesse de antemão que Judas não mudaria o que já havia deliberado fa-
zer, e que, portanto, os vaticínios sobre essa ocorrência aconteceriam em seus mínimos detalhes.
Estando Jesus falando, chegou Judas, um dos doze, e com ele uma grande multidão com espadas e vara-
paus, que eram os ministros enviados pelos principais dos sacerdotes, e pelos anciãos do povo, e deu-lhe um beijo,
dizendo: Deus te salve Mestre, sinal esse que havia anteriormente combinado com os detratores do Senhor.
Profundamente arrependido do ato de traição, após ver a flagelação do Mestre, voltou Judas ao Templo e ali
pretendeu reparar a sua falta, exclamando: “Pequei, traindo o sangue inocente”, ao que os principais dos sacerdotes
replicaram: “Que nos importa? Isso é contigo”. Desesperado diante dessa recusa, atirou as trinta moedas aos pés dos
sacerdotes e, retirando-se para um campo, ali suicidou-se.
Os mentores do Templo, tomando do dinheiro disseram: “Não é lícito deitá-lo na arca das esmolas, porque é
preço de sangue, e em conselho deliberaram comprar com ele o campo de um oleiro, para servir de cemitério aos fo-
rasteiros. Por essa razão se ficou chamando aquele campo, Heceldama, isto é, campo de sangue”. Com esse ato,
aparentemente caridoso, os principais dos sacerdotes julgavam poder enganar a Deus, enganando-se a si próprios.
Esta passagem foi prevista no livro de Zacarias (11:12-13): “E eu disse-lhes: Se parecer bem aos vossos
olhos, dai-me o que é devido e, não, deixai-o. E pesaram o meu salário trinta moedas de prata. O Senhor, pois, me
disse: Arroja isso ao oleiro, esse belo preço em que foi avaliado por eles, e tomei as trinta moedas de prata e as ar-
rojei ao oleiro, na Casa do Senhor”.
É inegável que o Espírito de Judas já se redimiu no decurso de várias lutas expiatórias e hoje forçosamente é
um Espírito de ordem elevada, não se justificando as campanhas que se movem contra ele no mundo, principal-
mente com as chamadas malhações e coisas semelhantes.
Capítulo 34
OS FILHOS DE ZEBEDEU
Chegando Jesus Cristo a Jerusalém, a esposa de Zebedeu, mãe dos apóstolos Tiago e João, adiantou-se e lhe
fez uma solicitação: Que no reino celestial os seus dois filhos se assentassem, uma à sua direita e outro à sua es-
querda.
Em face desse pedido, emanando de um coração de mãe, o Mestre, dirigiu-se aos dois irmãos, dizendo:
“Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?” E eles co-
rajosamente responderam: “Podemos!”
Diante dessa afirmação positiva e ousada, o Senhor obtemperou: Na verdade bebereis o meu cálice, mas o
assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem meu pai o
tem preparado.
Na realidade os dois irmãos, solidários com o Messiato fulgurante que Jesus viera desempenhar, beberam o
cálice da amargura: Tiago foi morto a espada por ordem de Herodes, quando de uma das perseguições movidas
contra os cristãos, e João desencarnou na ilha grega de Patmos, após prolongado exílio, como conseqüência da pro-
paganda que fazia dos ideais cristãos.
Todos os apóstolos de Jesus, com exceção de João pereceram de modo violento. João foi o único que desen-
carnou naturalmente, o que aliás foi predito pelo próprio Jesus, segundo a narrativa contida em João (21:21-23),
quando, após a sua crucificação o seu Espírito apareceu aos apóstolos junto ao lago Tiberíades. Ali ele predisse a
Pedro que ele haveria de perecer de forma violenta, entretanto, quando o velho apóstolo, referindo-se a João, inda-
gou: “Senhor, e deste que será?” O Mestre respondeu: “Se eu quero que ele fique até que eu venha, que importa a
ti”, o que implicava em dizer que aquele apóstolo deveria permanecer na Terra até que servisse de instrumento para
receber, via mediúnica, o Apocalipse, que fazia parte integrante do processo de revelação do Cristianismo, fato este
ocorrido na Ilha de Patmos.
As passagens evangélicas acima comprovam claramente o postulado espírita da evolução contínua da alma.
Os apóstolos de Jesus foram Espíritos rigorosamente escolhidos para o assessorarem na obra de revelação, o que
implica em dizer que naquela época já eram altamente evoluídos, pois, de outro modo não poderiam servir como
peças de tão transcendental missão. No entanto, quando a mãe de Tiago e João, que foram dois dos mais destaca-
dos discípulos de Jesus, lhe pediu que no plano espiritual os dois se assentassem um à sua esquerda e outro à sua
direita, o Mestre deu a entender claramente que já existiam Espíritos de muito mais elevada categoria, destinados
pelo Pai a assentarem-se a seu lado.
A fim de elucidar melhor este tema, mencionemos o caso de João Batista, que segundo as próprias palavras
de Jesus, contidas em Mateus, 11:11, era o Espírito encarnado de mais elevada categoria que existia na Terra, supe-
rando mesmo Tiago e João Evangelista. No entanto, o próprio Mestre, esclareceu que no reino celestial, o menor
que ali existia era maior do que João Batista.
Ora, se o Espírito de João Batista, sendo tão elevado, ainda era um dos menores nos planos superiores da
Espiritualidade, é óbvio que não haveria possibilidade de os dois filhos de Zebedeu ocuparem lugar de tamanha re-
levância naqueles planos.
O Espiritismo esclarece que os Espíritos puros, que habitam as elevadas esferas espirituais, não sofrem mais
a influenciação da matéria, possuindo superioridade intelectual e moral absolutas, em relação aos Espíritos de ordem
menos elevada. Eles já percorreram todos os graus de escala e se despojaram de todas as impurezas, tendo alcan-
çado a soma de perfeição de que é suscetível a criatura.
Esses Espíritos não estão mais sujeitos à reencarnação, e, se descem à Terra, o fazem meramente para o de-
sempenho de missão de grande envergadura, coo foi o caso de João Batista, de Paulo de Tarso, dos Apóstolos e do
próprio Jesus Cristo.
A escala evolutiva nesses planos superiores da Espiritualidade é infinita, porém ali, também existe a hierar-
quia, por isso, quando Jesus Cristo veio à Terra, trouxe consigo um grupo de Espíritos que aqui também reencarna-
ram, sem contar aqueles que também o assessoravam na obra messiânica como Espíritos desencarnados.
Capítulo 35
MARTA E MARIA
Quando demandava a aldeia de Betânia, Jesus Cristo tinha por hábito visitar Lázaro, que ali morava em com-
panhia de suas duas irmãs: Marta e Maria.
Numa dessas visitas, enquanto Marta se preocupava com os afazeres da casa, Maria se assentou aos pés do
Mestre, que conversava com um grupo de pessoas e ali ficou aprendendo os maravilhosos ensinos que brotavam
dos seus lábios.
Marta, não se conformando com a situação indagou do Senhor: Mestre! Não te parece razoável que Maria vi-
esse ajudar-me nos trabalhos de casa?, ao que o Nazareno retrucou incontinente: “Marta tu te preocupas com as
coisas transitórias, Maria escolheu a melhor parte, a qual jamais lhe será tirada.”
Na realidade, Maria jamais poderia perder a oportunidade ímpar que lhe oferecia de ouvir os consoladores en-
sinamentos do Mestre, ensinamentos esses que conflitavam profundamente com tudo aquilo que ela estava habitua-
da a ouvir dos escribas, pois, enquanto estes, escudando-se nos códigos rígidos estabelecidos por Moisés, procla-
mavam a pena de talião, ou seja, a lei do olho por olho, dente por dente, o Senhor prescrevia a necessidade de se
perdoar não sete, mas setenta vezes sete vezes. Enquanto o Deuteronômio, um dos livros de Moisés, prescrevia
uma série de regras brutais e aberrantes, mandando apedrejar mulheres adúlteras e filhos rebeldes, ali estava o
Mestre recomendando que se deveria perdoar até os próprios inimigos.
As narrativas evangélicas sobre Maria de Betânia diferem ligeiramente nos quatro evangelhos:
João, em seu Evangelho , afirma que Jesus estava na casa de Lázaro após a chamada ressurreição deste, na
aldeia de Betânia e Marta servia, sendo Lázaro um dos que estavam com ele à mesa. Maria, tomando de um arratel
de ungüento de nardo puro, de muito valor, ungiu os pés do Senhor, enxugando-os com seus cabelos, enchendo-se
a casa com cheiro do perfume.
Mateus e Marcos afirmam que, estando Jesus em Betânia, na casa de Simão o leproso, aproximou-se dele
uma mulher portanto um vaso de alabastro, com ungüento de elevado valor, derramando-o sobre a sua cabeça en-
quanto ele estava assentando à mesa.
Lucas, no entanto, sustenta que Jesus estava à mesa na casa de Simão, o fariseu, quando uma pecadora da
cidade (Lucas, 7:36-50), levando consigo um vaso de alabastro com ungüento e estando a seus pés, chorando, co-
meçou a regá-los com lágrimas, e beijando-os, enxugava-os com seus cabelos e ungia-os com ungüento.
Simão, o fariseu, observando aquele estranho espetáculo, dizia em seu íntimo: “Se este fora realmente profeta
bem saberia que a mulher que está a seus pés é uma pecadora”. Notando o pensamento negativo que se aninhara
no coração do homem que o hospedara, o Mestre ponderou: “Simão, uma coisa tenho a dizer-te: um certo credor ti-
nha dois devedores, um devia-lhe quinhentos dinheiros, e o outro cinqüenta. E não tendo eles com que lhe pagar,
perdoou a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais? Simão pensou um pouco e respondeu: Tenho para mim que
é aquele a quem mais perdoou!” Esta resposta mereceu franca aprovação por parte de Jesus: “Julgaste bem”.
Em seguida o Senhor acrescentou, dirigindo-se a Simão: “Entrei em tua casa e não me deste água para os
pés; mas esta os regou com suas lágrimas, enxugando-os com seus cabelos. Não me deste ósculo, mas esta, desde
que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com
ungüento. Por isso te digo, que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque ela muito amou; mas aquele a
quem pouco é perdoado pouco ama”.
Alguns apóstolos, dentre eles Judas Iscariotes, passaram a criticar a ação da mulher, dizendo que se poderia
ter vendido aquele perfume por alto preço e dado o dinheiro aos pobres, ao que o Mestre retrucou:
Os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes. Aditando ainda: Em
verdade vos digo, que, onde quer que este Evangelho for pregado, em todo o mundo, também será refe-
rido o que fez essa mulher, para memória sua”.
Capítulo 36
LUCAS, O EVANGELISTA
Na história do Cristianismo uma figura singular se destaca, devendo-se a ela uma apreciável parcela de tudo o
que foi escrito, para ser transmitido à posteridade e que constitui na atualidade esse majestoso monumento que é o
chamado Novo Testamento.
Trata-se de Lucas, ou Lucanus, um médico de aproximadamente 25 anos de idade, que aparentemente residia
na colônia romana de Filipos, e que apareceu pela primeira vez na companhia de Paulo de Tarso, por ocasião da
primeira ida do apóstolo à Macedônia, no ano 52. Ele foi autor do Terceiro Evangelho e desempenhou o papel de
historiador, numa época de escassas comunicações, fazendo um trabalho hercúleo de concatenar muitos dos ensi-
namentos, dos fatos e da vida dos apóstolos, transplantando para os livros tudo aquilo que conseguia pagar, legan-
do-nos assim, além desse Evangelho essa obra portentosa, que é Atos dos Apóstolos.
Tudo o que Lucas averiguou no sentido de escrever o seu Evangelho, e todo o árduo trabalho que experi-
mentou, o fez por amor a Jesus, e com o objetivo primário de cooperar na transcendental obra de revelação, iniciada
por Jesus Cristo, desenvolvendo assim um trabalho de pesquisa, acompanhando os pregadores em suas viagens, e
visitas às incipientes comunidades cristãs que proliferavam na época.
Dos quatro Evangelhos existentes, dois foram escritos por discípulos diretos de Jesus - João e Mateus; os ou-
tros dois por Lucas e Marcos discípulos de Paulo de Tarso, os quais não conviveram com o Mestre.
As narrativas dos Atos dos Apóstolos, consubstanciadas na Epístolas aos Colossenses (4:14), a Filemon
(1:24), e a 2ª Epístola a Timóteo (4:11), falam de Lucas como companheiro de Paulo em suas viagens missionárias.
Encontrando-se com o Apóstolos dos Gentios na Macedônia, Lucas passou a segui-lo e vemos que, dali por diante,
as narrações são feitas empregando-se o pronome nós o que perdurou até a saída de Paulo da colônia de Filipos,
recomeçando novamente no momento em que Paulo, visitando a Macedônia pela última vez, torna a passar por Fili-
pos. Desde então o narrador não se separa mais de Paulo até o fim.
Numa época de grandes dificuldades experimentadas nas viagens às diferentes cidades, é de se admirar o
interesse de Lucas pela divulgação dos ideais cristãos, assessorando o apóstolo em seus empreendimentos e fa-
zendo um trabalho verdadeiramente portentoso de concatenar escritos esparsos, formular descrições e historiar fa-
tos, registrando-os e projetando-os no tempo a fim de servirem de esteio para o trabalho de evangelização no porvir.
Segundo alguns historiadores, na colônia romana de Filipos dominava o latim, e aparentemente Lucas era
helenista e conhecida muito mal o judaísmo e o que se passava na Palestina. A sua obra foi composta longe da Ju-
déia, por quem conhecia mal a geografia daquele país e não possuía uma ciência rabínica muito sólida, nem conhe-
cia muitos dos nomes judeus.
Esses historiadores afirmam que Lucas quis esquivar-se de tudo o que pudesse descontentar os romanos, o
que difere do Apocalipse de João, que excede em recordações das infâmias de Nero e transparece ojeriza pelo po-
der exercido por Roma. Comprazia-se mesmo em mostrar como os funcionários romanos eram favoráveis ao Cristi-
anismo, citando dentre eles, o centurião Cornélio, o precônsul Sérgio Paulo e outros que o abraçaram e defenderam
contra os ataques dos judeus.
Capítulo 37
O COLÓQUIO COM NICODEMOS
“Havia um homem, entre os fariseus, chamado Nicodemos, príncipe entre os judeus; este foi ter com Jesus à
noite e disse-lhe: “Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus; pois ninguém pode fazer os milagres que
tu fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não tornar
a nascer, não pode ver o Reino de Deus Retrucou Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode,
por ventura, entrar no ventre de sua mãe?” Acrescentou Jesus: Em verdade, em verdade te digo que aquele que não
nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nasci-
do do Espirito é Espírito. Não te maravilhes, pois de te haver dito: Necessário vos é tornar a nascer. O vento sopra
onde quer e ouves o seu sonido, porém, não sabeis donde vem e nem para onde vai; assim é todo aquele que é
nascido do Espírito. Nicodemos contestou: Como se pode fazer isto? Jesus concluiu: Tu és mestre em Israel e não
sabes estas coisas? Se vos falei de acontecimentos terrenos, e não crestes, como crereis, se vos falar dos celesti-
ais?”
Por que razão, Jesus, logo no início do colóquio teria trazido à baila a questão dos renascimentos? A que pro-
pósito viria essa matéria, e que relação tinha com as palavras daquele que o visitava, a quem o assunto não parece-
ria muito interessante? Porque insistir e frisar tanto tal questão? Não parece um tanto estranha essa atitude de
Jesus?
O Mestre tinha que legar aos homens alguns exemplos ou ensinamentos sobre a reencarnação, por isso, sen-
do visitado por um “mestre de Israel” e homem de posição social destacada, ele achou oportuno abordar esse tema
de relevante importância, pois, os judeus tinham algumas noções sobre reencarnação, embora com o nome de res-
surreição, porém, desconheciam o mecanismo desses renascimentos sucessivos, daí as indagações: “poderá entrar
novamente no ventre de sua mãe?” ou “como pode o homem renascer sendo já velho?”
Examinando esta passagem, Kardec, em o Evangelho Segundo o Espiritismo comenta:
“Estas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, forma interpretadas no sentido da rege-
neração pela água do batismo. Mas o texto primitivo diz simplesmente: Não renascer da água e do Espí-
rito, enquanto em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que
não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos
sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível.”
Para compreender o verdadeiro sentido dessas palavras, é necessário reportar à significação da
palavra água, que não foi empregada no seu sentido específico. Os antigos tinham conhecimentos im-
perfeitos sobre as ciências físicas, e acreditavam que a Terra havia gerador absoluto. É assim que en-
contramos no Gênesis: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas”, “flutuava sobre as águas”, “que
sob o céu se reunam num só lugar, e que o elemento árido apareça”, “que as águas produzam animais vi-
ventes, que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra e debaixo do firmamento”.
Conforme essas crença, a água se transformara no símbolo da natureza material, como o Espírito o
era da natureza inteligente. Estas palavras: “Se homem não renascer da água e do Espírito”, ou “na água
e no Espírito”, significam pois: “Se o homem não renascer com o corpo e a alma.” Nesse sentido é que
forma compreendidas no princípio.
Esta interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: “O que é nascido da carne é carne,
e o que é nascido do Espírito é Espírito.” Jesus faz aqui uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo.
“O que é nascido da carne é carne”, indica claramente que o corpo procede apenas do corpo e que o Es-
pírito é independente dele.
“O Espírito sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para aonde vai”,
é uma passagem que se pode entender pelo Espírito de Deus que dá a vida a quem quer, ou pela alma
do homem. Nesta última acepção, a seqüência: “Mas não sabes de onde vem nem para aonde vai”, signi-
fica que não se sabe o que foi nem o que será o Espírito. Se, pelo contrário, o Espírito, ou alma, fosse
criado com o corpo, saberíamos de onde ele vem, pois conheceríamos o seu começo. Em todo caso, esta
passagem é a consagração do princípio da preexistência da alma, e, por conseguintemente, da pluralida-
de das existências.”
Capítulo 38
A MULHER SAMARITANA
No célebre colóquio mantido com a mulher samaritana, narrado pelo apóstolo João, no cap. 4, Jesus Cristo
disse que, se ela bebesse da água do poço, tornaria a ter sede, mas se, por outro lado, bebesse da água que ele
desse, nunca mais a teria.
A água viva de que o Cristo falava eram os seus consoladores e edificantes ensinamentos, pois, na verdade,
quem se dessendentar na fonte que jorra para a vida eterna, que são os Evangelhos, jamais terá sede de outros co-
nhecimentos, uma vez que passará a descortinar novos horizontes e estará capacitado a operar dentro de si profun-
da reforma interior.
No desenvolvimento do seu colóquio, disse-lhe Jesus: “Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste
monte, nem em Jerusalém, adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a
salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito
e verdade: porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito e importa que os que o adoram o ado-
rem em Espírito e verdade.
Enquanto não tivermos bebido da água viva, vestiremos na situação daqueles que não sabem nem como e
nem a quem adorar. Não é possível se adorar a Deus com ritualismos, com encenações exteriores, com holocaus-
tos, com incensos ou com o cheiro de carne assada. Não se pode também adorar ao Pai com prolongadas ladainhas
e intermináveis orações, principalmente quando elas apenas saem dos lábios e delas não participam os corações.
Os adoradores verdadeiros adorarão o Pai em Espírito e verdade. A adoração em Espírito e verdade jamais
poderá ser colimada pela inação contemplativa ou com rasgos de manifestações exteriores, entretanto é conseguida
com o desprendimento, com a prática do amor e com ações beneméritas em favor dos aflitos e sofredores. A adora-
ção em Espírito e verdade se traduz pelo desabrochamento dos sutis sentimentos de solidariedade humana, de fra-
ternidade e dedicação, consubstanciados no “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
Foi com relação a essa assertiva que o Mestre afirmou que o Reino de Deus virá sem qualquer demonstração
exterior. Portanto, estão enganados aqueles que aguardam o advento do reino de Deus como recompensa pela sua
assiduidade na prática do culto externo, na prática da adoração sem as correspondentes boas obras. O reino de
Deus virá somente para os trabalhadores animosos, para os que se esforçam vibrantes, para os que vivem com os
corações inundados de profundos sentimentos cristãos, para os que fazem com que o amor impere em todos os seus
atos. Para estes a vinda do reino de Deus não precisa ser prenunciada de relâmpagos e trovões, pois a semente do
bem já está germinando em boa terra e logo dela espargirá frondosa árvore, com os frutos sazonados do amor.
O colóquio de Jesus Cristo com a mulher samaritana teve o mérito de destruir, pela base, os tradicionais erros
que presidem a ação de algumas ramificações religiosas, que julgam que a adoração a Deus deve ser feita em luga-
res determinados, nesta ou naquela postura, virado para o oriente ou para o ocidente, nesta ou naquele a hora, neste
ou naquele idioma, com encenações e ostentações. A verdadeira adoração a Deus é praticada, pelos verdadeiros
adoradores, em qualquer lugar, a qualquer hora, em qualquer circunstância, uma vez que da adoração deve partici-
par o coração e não os olhos.
Capítulo 39
A MULHER ADÚLTERA
“Então lhe trouxeram os escribas e os fariseus uma mulher que fora apanhada em adultério, e a
puseram no meio, e lhe disseram: Mestre esta mulher foi agora mesmo apanhada em adultério; e Moisés,
na Lei, mandou apedrejar a estas tais. Qual é a vossa opinião sobre isto? Diziam, pois, isto os judeus,
tentando-o para o poderem acusar. Jesus, porém, abaixando-se, pôs-se a escrever com o dedo na terra.
E como eles perseverassem em fazer-lhe perguntas, ergueu-se Jesus e disse-lhes: Aquele dentre vós
que estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra. E tornando a abaixar-se, escrevia na terra. Mas eles,
ouvindo-o foram saindo um a um, sendo os mais velhos os primeiros. E ficou só Jesus e a mulher, que
estava no meio, em pé. Então, erguendo-se, Jesus lhe disse: Mulher, onde estão os que te acusavam?
Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Então Jesus lhe disse: Eu tampouco te conde-
narei; vai, e não peques mais. (Jo., 8:3-11)
“Aquele que estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra”, disse Jesus. Esta máxima faz da indulgência um
dever, pois não há quem dela não necessite para si mesmo. Ensina que não devemos julgar os outros mais severa-
mente do que nos julgamos a nós mesmos, nem condenar nos outros o que nos desculpamos em nós. Antes de re-
provar uma falta de alguém, consideremos se a mesma reprovação não nos pode ser aplicada.
A censura da conduta alheia pode ter dois motivos: reprimir o mal, ou desacreditar a pessoa cujos atos criti-
camos. Este último motivo jamais tem escusa, pois decorre da maledicência e da maldade. O primeiro pode ser lou-
vável, e torna-se mesmo um dever em certos casos, pois dele pode resultar um bem, e porque sem ele o mal jamais
seria reprimido na sociedade. Aliás, não deve o homem ajudar o progresso dos seus semelhantes? Não se deve,
pois tomar no sentido absoluto este princípio: “Não julgueis para não serdes julgados”, porque a letra mata e o espí-
rito vivifica.
Capítulo 40
ATOS DOS APÓSTOLOS - A MISSÃO DE PEDRO
“Também eu te digo que és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. (Mt., 16:18)
Simão Pedro, filho de Jonas, foi um dos mais destacados apóstolos de Jesus Cristo e um dos mais alvejados
pelos seus inimigos, encarnados e desencarnados.
Sua vida missionária, iniciada às margens do Lago de Tiberíades, quando o Mestre o convocou para abando-
nar a carreira de pescador de peixes, para se transformar no pescador de homens, teve o seu epílogo não se sabe
onde nem como: se crucificado, decapitado, Lapidado ou estrangulado.
Enquanto a tradição de uma das religiões cristãs sustenta que ele foi crucificado de cabeça para baixo, na ci-
dade de Roma, um dos mais renomados doutores dessa mesma Igreja - o bispo Strossmayer - afirmou em inflamado
discurso pronunciado no ano de 1870, naquela mesma cidade, que Pedro jamais esteve em Roma e que tudo o que
se tem afirmado nesse sentido não passa de suposições inverídicas, invocando, para melhor corroborar a sua asser-
tiva, o testemunho do célebre historiador Scaligero, quando proclamou que “o episcopado de São Pedro e sua resi-
dência em Roma devem se classificar no número de lendas ridículas”.
O velho apóstolo, a despeito de alguns compreensíveis momentos de vacilação, principalmente no episódio da
negação do Cristo, foi um elemento de projeção no Messiado de Jesus e foi o companheiro inseparável do apóstolo
Tiago e João, nos momentos mais importantes da vida terrena do Mestre, principalmente quando ele desejava pro-
piciar ensinamentos de maior envergadura, tais como a transfiguração do Tabor e a oração extrema no Horto das
Oliveiras.
Afirma Mateus em seu Evangelho (16:17-18) que após ter Pedro identificado ser o Cristo, o filho de Deus vivo,
o Mestre, dirigindo-se a ele, disse: “Bem aventurado és Simão Barjonas, porque não foi a carne sem o sangue quem
to revelou, mas meu Pai que estás nos Céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra fundamentarei
a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela”.
Foi com base nesse capítulo do Novo Testamento que uma das religiões milenares deliberou conceder ao an-
tigo e humilde Pescador do Tiberíades, um título nobiliárquico e a promoção da chefe de uma igreja.
Os primitivos doutores do Cristianismo afirmavam que a igreja estava edificada sobre a rocha da fé de Pedro
(super Petram) e não sobre Pedro (super Petrum).
O grande S. Agostinho, bispo de Hipna e sábio doutor da igreja, discorrendo sobre essa questão, em seu Tra-
tado 124, afirmou: “Sobre esta rocha ou pedra que me confessaste, que reconheceste, dizendo: Tu és o Cristo, o fi-
lho de Deus vivo, alicerçarei a minha igreja sobre mim mesmo, pois sou o Filho de Deus vivo. Edificarei sobre mim
mesmo e não sobre ti”, acrescentando ainda: “Edificarei minha igreja sobre esta rocha, significa que é sobre a fé de
Pedro”. Aliás essa opinião era generalizada no mundo cristão, no início da nossa era.
Quando Jesus afirmou: “Não foi a carne nem o sangue quem to revelou, mas meu Pai que estás nos Céus”,
deu insofismável demonstração de estar Pedro servindo de instrumento de Espíritos superiores, a uma revelação de
tamanha magnitude. Os arautos dos Céus revelaram, através da mediunidade de Simão Pedro, que ali estava o
Cristo, o filho de Deus vivo, o Messias prometido. Foi sobre essa revelação espiritual - sobre o intercâmbio entre o
Céu e a Terra, que o Mestre deliberou fundamentar a sua Doutrina.
Assim como outros apóstolos, Pedro era também de pouca letra. Após o Dia de Pentecostes, quando ocorreu
o maior desenvolvimento coletivo dos médiuns na História, o velho pescador do Tiberíades passou a dissertar sobre
os ensinamentos de Jesus, apesar das ameaças partidas de Anás, de Caifás, de João, de Alexandre e de outros da
linhagem do sumo sacerdote. As narrativas evangélicas afirmam que Pedro falava cheio do Espírito Santo, isto é,
mediunizado.
Quando da sua visita a Samaria Pedro foi procurado por Simão, o mago, um falso médium, que lhe propôs
pagar a peso de ouro a transmissão do poder de receber o Espírito Santo - o primeiro ato de simonia ocorrido na
História do Cristianismo. O velho apóstolo repeliu-o veemente, dizendo: “O teu dinheiro seja contigo para perdição,
pois julgaste adquirir por meio dele o dom de Deus. Não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração
não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, da tua maldade, e roga ao Senhor; talvez que te seja perdoado o in-
tento do coração”.
Não encontramos nos Evangelhos qualquer comprovação de que Pedro desfrutasse de supremacia sobre os
demais apóstolos, ou que Jesus lhe tivesse outorgado tal prerrogativa. Não nos consta também que os demais
membros do apostolado reconhecessem em Pedro qualquer superioridade. Deduz-se do livro dos Atos dos Apósto-
los, que Tiago Maior era o apóstolo que tinha ascendência sobre os demais.
No capítulo 8, versículo 4, desse mesmo livro deparamos com a afirmação de que, “ouvindo os apóstolos, que
estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, lhe enviaram Pedro e João”. Ora, se Pedro fosse
realmente o chefe dos demais, ele enviaria outros e nunca seria o enviado. Pedro estava, portanto, sujeito a uma
autoridade maior, por isso ele foi veemente criticado pela comunidade por ter ido à cidade de Cesaréia a fim de con-
verter Cornélio, um centurião gentio.
Capítulo 41
ATOS DOS APÓSTOLOS - O PAPEL DE PAULO
“E disse o Senhor a Ananias: Vai, porque ele é para mim um vaso escolhido, para levar o meu
nome diante dos gentios, dos reis e dos filhos de Israel”. (Atos, 9:15)
Saulo, cujo nome foi posteriormente latinizado para Paulo, tornou-se o Vaso Escolhido por Jesus, a fim de le-
var as suas palavras a todos os povos da chamada Gentilidade, para os governantes e para os próprios filhos de Is-
rael, apresentando-lhes uma doutrina livre dos preconceitos e das tradições inócuas, muito do agrado de todas as re-
ligiões da época.
Em suas famosas Epístolas, dirigidas a alguns povos seus contemporâneos. Paulo estabeleceu normas, traçou
diretrizes, enfrentou e equacionou problemas, combateu costumes politeístas e, nesse mister não trepidou em en-
frentar o próprio Apóstolo Pedro, dizendo-lhe duras verdades, em vista de o velho pescador do Tiberíades estar
apregoando, na cidade da Antioquia, o absurdo dogma judaico da circuncisão.
Saulo de Tarso - o futuro apóstolo dos Gentios, fazia parte dos judeus, estrangeiros que viviam na dispersão
(Diáspora), longe das terras de Israel, por eles consideradas sagradas.
O seu nascimento ocorreu na cidade de Tarso, na província romana da Cilícia, na Ásia Menor. Nessa época
uma cidade cosmopolita, bastante industrializada, pois a maior parte da sua população era constituída de tecelões.
Era ainda importante empório comercial, que atraía a atenção dos mercadores da Grécia, da Assíria, do Egito e de
outras partes do mundo antigo. Constituía além disso um grande centro cultural, que chamava a atenção de numero-
sos filósofos e estudantes.
O politeísmo constituía o sistema religioso importante em Tarso. Nas praças públicas, nos jardins e nos tem-
plos, os deuses Asterté, Moloc, Ra e Baal, eram dentre muitos outros, adorados, balsamizando-se o ar com incenso
e com a queima de outras especiarias. Os deuses mitológicos eram assim adorados pela população da cidade, cuja
vida era um misto de escravidão, de libertinagem, de gozo, de prazer e de martírio. Nesse ambiente de viciações de
toda a ordem os judeus que ali viviam procuravam viver na pureza, abominando as superstições pagãs e o sensua-
lismo dos gentios.
O jovem Saulo era filho de uma das muitas famílias judias de Tarso, desfrutando portanto o direito de cidada-
nia romana, procurando, a exemplo do que sucedia com os seus patrícios, preservar-se das contaminações do meio
ambiente. Os judeus mais abastados, que viviam fora das terras de Israel, procuravam mandar seus filhos varões a
Jerusalém, a fim de aprenderem dos rabis as lições da Tora Sagrada. Saulo de Tarso era um deles.
Enviado a Jerusalém ali passou a viver como discípulo do rabi Gamaliel, principal dos fariseus. Nessa cidade
começavam a fervilhar as idéias cristãs. Animado de acirrado fanatismo, fiel e convicto dos princípios religiosos de
seus pais, percebeu a ameaça que a nova Doutrina representava para a sua seita e com isso reagiu com todas as
energias da sua mocidade, tornando-se um dos mais ferrenhos perseguidores do Cristianismo nascente, fazendo-o
com base nos códigos violentos impostos pelo mosaísmo, tendo a impiedade coo apanágio.
Todos sabem o que sucedeu em seguida: as perseguições movidas contra os primitivos cristãos, as quais co-
limaram com o apedrejamento de Estêvão, o primeiro mártir da Boa Nova, após a crucificação de Jesus Cristo.
Entretanto, o Cristianismo precisava de um desbravador destemido, de um homem intelectualizado, que le-
vasse os ensinamentos redentores de Jesus ao seio das nações mais poderosas da Terra, por isso, o Espírito gene-
roso de Jesus foi buscá-lo na Estrada de Damasco, e após essa conversão o jovem tarsense iniciou a gigantesca ta-
refa de consolidar, em nosso planeta, a Doutrina consoladora que os Céus haviam revelado à Terra.
“Este é para mim um vaso escolhido”. Com estas palavras o Espírito amoroso de Jesus esboçou o papel que
Paulo de Tarso viria a desempenhar no processo de revelação e consolidação do Cristianismo nascente. “Vaso es-
colhido” significa Médium escolhido, uma vez que o médium, no caso em apreço, deveria ser um vaso adequado à
recepção da essência dos ensinamentos divinos - um receptáculo das consoladoras mensagens que os Céus fariam
baixar à Terra e um elo de ligação entre os mundos corpóreo e espiritual.
Por isso, certa vez, quando o jovem de Tarso era atormentado pelo peso do trabalho que tinha diante de si, o
Espírito de Jesus, pondo-se a seu lado, lhe disse: “Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito
em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma”.(Atos, 23:11)
Capítulo 42
AS CARTAS PAULINAS
INTRODUÇÃO
As epístolas são uma séria de textos deontológicos (estudos dos deveres e obrigações), em forma de cartas,
escritas por alguns apóstolos. São ao todo 21 epístolas didáticas, sendo 14 de autoria de Paulo de Tarso.
As outras 7, chamadas universais, são assim chamadas pelo fato de não serem dirigidas a povos ou pessoas
em particular, mas aos cristãos em geral.
Paulo de Tarso nasceu em Tarso da Cilícia (hoje Turquia) aproximadamente no ano 10, descendente de uma
rica família judaica, do clã de Benjamim, sendo ao mesmo tempo cidadão romano.
As epístolas, ou cartas, nasceram da necessidade de levar orientação ou intervir onde a presença de Paulo, ou
sua voz, não pudesse chegar “afim de apaziguar litígios, dissipar dúvidas, aconselhar, aplicar remédio a inconveni-
entes, dirigir e iniciar o bem”, segundo as necessidades de cada Igreja por ele fundada ou dependente de sua prega-
ção.
Suas cartas são tão inspiradas que se pode dizer que elas contêm toda a substância da doutrina e da moral
cristãs.
Como se sabe, Paulo não escreveu sozinho essas cartas, e esteve sempre acompanhado de pessoal de sua
confiança que lhe ajudava a manter um padrão ideal, onde a inspiração para abordar esses temas era mais fácil.
As epístolas são dirigidas às Comunidades ou pessoas, mas ele próprio solicitava a divulgação dessas cartas
entre todas as Igrejas. As trocas deviam ser freqüentes entre aquelas comunidades fervorosas que ele fundara.
De Paulo aos Romanos
Na epístola aos Romanos, com ampla visão e com vigor de pensamento, ele expõe o Evangelho de Jesus,
que já vinha pregando por longos anos em suas viagens missionárias.
Nessa carta não trava polêmica, nem pretende eliminar erro ou combater os judaizantes que lhe criavam obs-
táculos. A epístola foi escrita em Corinto, nos primeiros meses do ano 57, mais ou menos, antes da Páscoa; e seu
tema é a redenção para todos pela fé no Evangelho.
Fala da responsabilidade dos que, privados de fé, se perderam, por própria culpa, nas aberrações da má es-
colha. E dos que apesar de se gloriarem da Lei, são transgressores dela e não têm espírito crítico.
E chega a concluir que todos os homens são devedores, mas que são justificados pela fé, pois é pela fé que
alguém se torna herdeiro. Esta fé, conforme Kardec, se torna raciocinada e decorre do conhecimento.
Paulo ainda mostra que aqueles que sabem aproveitar a experiência nas tribulações possuirão um dia a glória
de Deus. “Pois sabemos que a tribulação produz constância, a constância prova a fidelidade e a fidelidade compro-
vada produz a esperança, E a esperança não ilude porque o amor de Deus foi derramado nos corações”. (5:3-5)
Fala ainda do primeiro homem, como símbolo da Humanidade e introdutor do mal no mundo e, como conse-
qüência, o aparecimento da Lei: “Sobreveio a Lei para que abundasse o pecado. Mas, onde abundou o pecado, su-
perabundou a graça”(cap. 5:20). Mostrou que as numerosas proibições e prescrições da Lei são para muitas criaturas
ocasião de transgressão; mas que a graça pela justiça reina para a vida eterna.
No cap. 6 fala da importância da reforma íntima, atualmente pregada pelo Espiritismo, como essencial ao
crescimento de cada criatura, aconselhando a morte do homem velho em nós, para que surja o homem novo, não
mais escravo do mal.
Paulo ensina que o verdadeiro cristão é servo da Justiça pois é libertado do mal e tem por fruto a sanidade.
“Porque o salário do pecado é a morte; enquanto que o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus”. (Cap. 6:23)
E continua mostrando que o cristão é livre da escravidão da Lei; e que a atuação de cada um “realiza-se con-
forme a renovação do Espírito e não sob a autoridade envelhecida da letra”. (Cap. 7:6)
Mostra ainda, que somos filhos e herdeiros de Deus e como tais devemos participar da vida. E dá a todos a
certeza da redenção, reproduzindo Num., 14:19, SI., 27:1, 55:11, 118:6, Jó., 34:29, dizendo “se Deus é por nós,
quem será contra nós?” (cap. 8:31). Aliás, em Hb., 13:6 ele repete o mesmo conceito.
O apóstolo sente tristeza pela falta de compreensão do ovo israelita em relação às revelações trazidas por
Jesus através do Evangelho. Se bem que Paulo sabe que tudo isso é passageiro. Pois todos hão de se converter
no devido tempo.
No cap. 11:33 a 36 tece hino à sabedoria, bondade e onipotência de Deus.
No cap. 12 dá conselhos e preceitos morais. Fala claramente no versículo 2 na reforma íntima, quando diz:
“Não vos conformeis com este mundo, mas reformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que saibais aquila-
tar qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito”.
Ensina a importância do bem comum, antes de tudo e do bom uso dos dons individuais em benefício da co-
munidade. Fala da caridade fraternal e da importância de não pagar a ninguém o mal com o mal, mas de fazer o
bem diante de todos os homens, acrescentando: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem”. (Cap.
12:21)
No cap. 13 diz da importância de se ser submisso às autoridades, não somente por temor do castigo, mas
também por dever de consciência.
As Cartas Paulinas 87
Ensina que “o amor não prejudica ao próximo. O amor é o pleno cumprimento da Lei”. (Cap.13:13)
Recomenda a vigilância, a pureza e o dever de tolerância com os fracos na fé, com bondade, sem discutir as
suas opiniões, pois cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus. (Cap. 14:1 e 12)
No cap. 15 exorta ainda à condescendência mútua. Termina o capítulo escrevendo sobre o projeto de viagem
a Roma e suas intenções em relação aos irmãos que gostaria de ver quando estivesse a caminho da Espanha.
Fala da sua iminente viagem a Jerusalém para ajudar esses irmãos e da coleta feita na Macedônia e na Acaia
para esse fim.
Esta carta, cheia de recomendações altamente doutrinárias, foi e é o baluarte da sistematização de algumas
religiões.
De Paulo aos Gálatas
Esta epístola foi escrita para levar orientação a essa comunidade que estava sofrendo a influência de cristãos
vindos do judaísmo e muito apegados às práticas tradicionais. Introduziram-se nas Igrejas da Galácia, sustentando a
prática de circuncisão como necessária à redenção. Diziam que Paulo pregava uma distorção do Evangelho do
Cristo, pois não era apóstolo verdadeiro, visto não ter recebido a missão diretamente de Jesus. Por isso estava em
desacordo com os verdadeiros pregadores e estava à procura unicamente de favores humanos.
Paulo prova na primeira parte dessa carta que pregou o verdadeiro Evangelho de Cristo. Ele reivindica a sua
autoridade apostólica declarando no cap. 1:1 e 12 que: “O Evangelho pregado por mim não tem nada de humano.
Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo”.
Confirma que seu Evangelho foi aprovado por Pedro, João e Tiago (2:1-10) e lembra o incidente de Antióquia
onde defendeu a pureza da doutrina defrontando-se com Pedro. (2:11-21)
Na 2a parte da carta, Paulo demonstra a importância da fé no Cristo para que o homem possa verdadeira-
mente conhecer a verdade. Para que isso ocorra é necessário o estudo da Sagrada Escritura, do Evangelho e de
sua vivência.
É, pois, preciso conservar a liberdade cristã e não abusar da própria liberdade. Levando vida espiritual, prati-
cando a virtude, a abnegação, a caridade, a beneficência. Exemplificando no cap. 6:7-8: “Não vos enganeis: de
Deus não se zomba. O que o homem semeia isso mesmo colherá. Quem semear na carne, da carne colherá a cor-
rupção; quem semear Espírito, do Espírito colherá a vida eterna”.
No final, de próprio punho, retoma a parte polêmica e moral e encerra com saudações e bênçãos.
Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios
Corinto, era a capital da província romana de Acaia, localizando-se em posição admirável,, pois dominava
dois mares; destacava-se nas letras e nas artes, no comércio e nas riquezas que para lá afluíam da Itália e da Ásia.
Em sua terceira viagem missionária, Paulo fixou residência em Éfeso, capital da província romana da Ásia,
mas mantinha-se sempre informado sobre o estado de cada comunidade cristã que fundara, orientando-as em suas
dificuldades e mantendo-as no fervor primitivo.
Esta primeira carta aos Coríntios divide-se em três partes distintas, correspondendo às diferentes razões de
Paulo tê-la escrito. Na primeira parte, o Apóstolo dos Gentios condena as divisões e escândalos nos partidos da
comunidade cristã; na segunda, apresenta soluções a problemas diversos e na última, fala da ressurreição dos mor-
tos e do corpo espiritual.
Paulo toma conhecimento de que entre os cristãos de Corinto havia surgido divisões. Uma distinta senhora
coríntia, por nome Cloé, informou Paulo sobre o estado da igreja na capital. Lá se digladiavam quatro partidos: o de
Apolo, o de Pedro, o de Paulo e o do Cristo.
Estas dissensões nasciam do culto exagerado da personalidade, tão do espírito helênico. Acrescia a idéia de
que o batizado teria dependência espiritual com o batizante.
O grupo que se recrutava de Apolo (ausente) se arvorava em adversário de Paulo. Apolo e Paulo eram ami-
gos, unidos pelo mesmo ideal apostólico. Porém de gênios diferentes.
Dos discursos de Apolo saíam os ouvintes satisfeitos com o orador, e com a inteligência iluminada pelas bele-
zas do Cristianismo - dos sermões de Paulo se retiravam silenciosos, insatisfeitos consigo mesmos e prontos para
sérias resoluções.
Uma terceira facção, desfraldava a bandeira de Cefas (Simão Pedro), não reconhecia em Paulo um verdadei-
ro representante do Cristo mas um apóstolo de segunda categoria, que nunca vira Jesus, sem autoridade apostólica
pela sua vida errante.
Quanto a Apolo diziam, um filósofo pagão, um verdadeiro perigo para o Cristianismo. Simão Pedro nada disto
sabia.
O quarto partido, formado por um grupo que se intitulava “cristão superior”, rejeitava todo e qualquer interme-
diário humano.
“Paulo compreendeu que urgia uma medida imediata e enérgica, e toda a demora agravaria a situação”(Paulo
de Tarso, Humberto Rohden, n. 48). Diz esse mesmo autor que essa primeira Epístola aos Coríntios, “foi escrita da
oficina de Áquila que se tornou o berço de um dos mais belos documentos apostólicos que a cristandade possui”.
A Epístola começa com a saudação e agradecimento a Deus pelos benefícios que lhes concedeu.
Reprova os abusos, de todas as espécies como a formação do partido aos diversos pregadores do Evangelho.
Pregou a doutrina da cruz com simplicidade, em oposição a sabedoria humana, e a anunciou aos espirituais e
não aos carnais.
Anunciou o envio de Timóteo e a sua própria ida a Corinto.
Curso de Aprendizes do Evengelho88
Paulo ensina a tolerância para com as faltas alheias porém recomenda cuidado com a convivência mostrando,
através de analogia, que um pouco de fermento velho dos impudicos, dos avarentos, dos ladrões, dos idólatras, dos
difamadores, dos bêbados, etc., pode corromper todo um núcleo. No versículo 8, do cap. 5, diz: “Assim celebremos
a festa, não com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães já fermentados de pureza e de verdade”.
Ensina ainda que não deve existir litígios entre os cristãos submetidos aos tribunais pagãos.
Explica a gravidade do vício ou da impureza, dizendo no cap. 6:12 a 20: “Tudo me é permitido, mas nem tudo
me é útil”. Essa passagem mostra de maneira bem clara o livre arbítrio e a responsabilidade que dele decorre.
Mostra a importância e as conseqüências dessa escolha até no corpo físico. E aconselha (cap. 6:18):”Fugi da impu-
reza”... “ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Santo Espírito, que habita em vós, o qual foi dado Deus”.
Na 2ª parte da carta, dá respostas a diversas questões como:
a) Matrimônio e celibato; legitimidade do casamento e direitos dos esposos (7:1-11); indissolu-
bilidade do vínculo conjugal (7:1-14); caso de dissolução (7:15-17); circuncisão e escravidão (7:18-24);
virgindade e viuvez (7:25-40), conforme costume social da época.
b) As carnes imoladas aos ídolos: normas a serem seguidas levando em conta os fracos na fé,
para evitar escândalo.
c) Da ordem nas assembléias mediúnicas e do comportamento ideal de cada participante.
d) Nos caps. 12, 13 e 14 classifica os carismas ou dons mediúnicos e seus empregos. Os três
capítulos podem ser considerados como precursores de “O Livro dos Médiuns”, na codificação karde-
quiana. No cap. 13 demonstra que a caridade é superior aos dons, pois sem ela a criatura pouco dá
de si mesma, sendo portanto um trabalho deficiente.
A caridade, diz, comprova-se pelas obras e jamais passará; é perene, tudo o mais é transitório. Complementa
que três virtudes são excelentes: a fé, a esperança e a caridade, porém a maior delas é a caridade. (12:13)
No final da segunda parte de sua carta condena a xenoglossia quando não trouxer benefício algum, “pois
quem fala em outra língua não fala ao homem, visto que ninguém entende”. (14:2)
Na terceira parte da primeira Epístola aos Coríntios, Paulo empenha-se em esclarecer, para a época, o pro-
blema da ressurreição dos mortos, mostrando o exemplo de Jesus. Diz que muitos viram o Senhor ressuscitado, “e
se não há ressurreição de mortos, então o Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa prega-
ção e vã a vossa fé”. (15:13 e 14)
Comenta que nem toda carne é igual, que há carne de homens, de animais, de aves e de peixes, comple-
mentado, por extensão, que há corpos terrestres e corpos celestiais. Diz que a ressurreição dos mortos, por analo-
gia, assemelha-se à semente que morre para nascer dela a planta. Fala: “semeia-se corpo animal, ressuscita corpo
espiritual. Se há corpo material, há também corpo espiritual”. (15:44)
No item (15:54)faz uma síntese de todo o processo evolutivo da geração humana até sua chegada no reino
angelical. Escreve: “E quando este corpo corruptível se revestir da incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir da
imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória”. (16:14)
Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios
Esta segunda Epístola aos Coríntios foi escrita mais ou menos seis meses após a primeira, em decorrência da
mudança de condições na Comunidade. Paulo, em síntese, refere-se aos incidentes passados, à organização de
coleta e faz sua própria defesa das acusações que lhe são feitas, confirmando sua lealdade à comunidade de Corin-
to.
Um grupo de judaizantes provoca agitação no seio da comunidade e Paulo vai a Corinto a fim de restabelecer
a paz, onde é ofendido por um cristão. Voltando a Éfeso, ele escreve aos Coríntios uma carta enérgica e severa, que
se perdeu.
Com o tumulto dos ourives de Éfeso contra Paulo, este parte e dirige-se a Trôade e daí passa para a Macedô-
nia, onde encontra Tito e tem boas notícias de Corinto. Talvez de Felipos tenha escrito, no final da terceira viagem
missionária, no ano de 57, a primeira e a segunda parte da segunda Epístola aos Coríntios, que é a mais pessoal das
epístolas paulinas.
De modo geral, os estudiosos de Paulo afirmam que ele não escreveu nada mais eloqüente, nada mais como-
vente ou mais apaixonante que esta epístola. A tristeza, a alegria, o temor e a esperança, a ternura e o desdém vi-
bram nela com a mesma energia.
Na primeira parte da carta, Paulo defende-se da acusação de mutabilidade e de inconstância, e de habilidade
muito humana acusado que era pelos seus adversários. Responde também às acusações de arrogância e de orgu-
lho, com a glorificação do ministério apostólico.
Aconselha a evitar o vício dos gentios.
Na segunda parte da carta, lembra a importância e a participação na coletividade; incentiva a generosidade;
recomenda Tito e os demais delegados. E diz dos grandes benefícios da esmola.
Na terceira parte, volta a defender-se de seus adversários. Responde às acusações de debilidade e de ambi-
ção. Pede desculpas e enumera os seus títulos de glória. Faz recomendações, saudações e votos finais.
As Cartas Paulinas 89
Epístola de Paulo aos Efésios
A carta aos Efésios foi escrita em Roma, pelos fins da primeira prisão romana. Éfeso era uma cidade da Ásia
Menor, hoje na Turquia.
Nessa carta, Paulo fala primeiro do segredo divino da união do homem com Cristo. Diz que o homem foi
predestinado por Deus desde a eternidade e daí sua filiação adotiva para com Ele, através da união em Cristo (cap.
1:3-6); em seguida, escreve que “Deus é riquíssimo em misericórdia, pelo Seu muito amor como nos amou”, acres-
centando ainda que “todos são convocados para que sejamos edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos
profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra de esquina”. (2:20)
No desenvolvimento da Epístola sustentou, ainda, que recebeu a incumbência de anunciar a universalidade da
redenção em Cristo (3:1-13) e suplica a Deus que os fiéis possam compreender o seu imenso amor. (3:14-19)
Paulo termina o cap. 3 com uma glorificação, dizendo: “Aquele que pela virtude que opera em nós, pode fazer
infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou entendemos, a ele seja dada glória na Igreja e em Cristo Jesus,
por todas as gerações da eternidade”. (3:20-21)
Na 2ª parte da carta, Paulo trata da Moral dizendo que a virtude principal da vida cristã é a caridade na unici-
dade e a pureza de vida. (4:1-24)
Nos versículos 21, 22 e 24, capítulo 4, Paulo ensina pregando a necessidade de despojar-se do homem velho,
no que diz respeito ao passado corrompido pelas concupiscência da sedução. Para revestir-se do homem novo, cri-
ado em justiça e santidade verdadeiras.
Faz algumas advertências gerais a todos os cristãos. (4:25 e 5:20) Diz dos deveres dos membros da família
cristã. (5:21-6:9)
Lembra da necessidade da “armadura de Deus” para todo o cristão, para que não caia em tentação. (6:10-20)
Aí, Paulo reafirma que a luta não é de sangue, isto é, entre irmãos de crenças diferentes, mas contra as pai-
xões mundanas e os poderes do mal que delas decorrem.
Numa bonita imagem literária, o apóstolo desenvolve o tema da “armadura”, isto é, da proteção: o “cinto” da
verdade (conhecimento), a “couraça” da Justiça (equilíbrio com misericórdia)e as bases do Evangelho da paz
(indicam o caminho da Sabedoria e o Amor).
Empunhar o escudo da fé é fundamental para todo cristão, que enfrentará as dificuldades do caminho, consci-
entes e seguros dessa “Armadura de Deus”. Complementa Paulo: a oração e a vigilância devem sempre estar pre-
sentes no espírito.
E termina falando da missão de Tíquico, que será o intermediário entre a comunidade e ele Paulo (6:21-22) e
manda saudações a todos.
De Paulo aos Colossenses
Colossos, cidade da Frígia, situada no vale do Lico, floresceu bastante antes de Cristo, depois decaiu e foi,
pode-se dizer, a epístola de Paulo que a tornou célebre.
A igreja de Colossos foi fundado por Epafras, um gentio convertido à fé pelo Apóstolo Paulo.
Essa comunidade era formada em grande parte por novos cristãos e por convertidos hebreus. Era fervorosa e
bem instruída na fé.
A carta foi escrita em Roma, por volta do fim da primeira prisão romana (ano 63).
Nessa epístola Paulo discorre sobre a proeminência de Jesus Cristo, como autor da redenção da Humanidade
e filho do Deus invisível que criou todas as coisas.
Fala de seu ministério como Apóstolo dos gentios.
Alerta contra os falsos doutores. Mostra que é de Jesus que vem a redenção ⇒ Jesus é o caminho, a verdade
e a vida.
Na segunda parte da carta fala da necessidade dos cristãos levarem uma vida de virtude e santidade.
Lembra a importância dos deveres mútuos dos esposos, dos pais e dos filhos, dos subalternos e patrões. Em
o Livro dos Espíritos, Kardec trata desse assunto, mostrando que nada é por acaso e que a sociedade familiar é o lu-
gar onde a caridade começa.
Paulo mostra ainda a importância da oração, para ajudar a todos. Encerra falando da missão confiada a Tí-
quico, que deveria informar a eles tudo sobre a situação que Paulo estava vivendo. Manda saudação a recomenda-
ção a todos e assina de próprio punho.
De Paulo a Filemon
Esta epístola é, na verdade, um bilhete a Filemon, um cristão colossense de grandes posses. Tinha um es-
cravo de nome Onésimo, que fugira de seus campos por motivo de roubo. Em Roma, conheceu Paulo e se conver-
teu ao Cristianismo. Foi portador desta missiva.
Após a saudação, Paulo dá graças a Deus pelo amor e fé de Filemon em Jesus. Faz um pedido a favor de
Onésimo.
Confiando no amigo, o apóstolo pede-lhe por caridade, em Jesus, em favor de Onésimo que se regenerara
pela conversão na fé de verdade. Esta confiança chegava a ponto de lhe enviar de volta este novo irmão que Paulo
conheceu na prisão e onde pregava o Evangelho.
Como pela lei do mundo, na época, ele era escravo, o missionário pedia-lhe o consentimento em recebê-lo,
não como servo, mas como irmão, o que era uma sugestão para Filemon libertá-lo.
Comenta Emmanuel: “escrevendo a Filemon, disse Paulo:- mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que o
teu benefício não fosse como por obrigação, mas espontâneo. Assim, também, o Divino Mestre para conosco. Aqui
Curso de Aprendizes do Evengelho90
e ali, propõe-nos, de maneira direta ou indireta, ensinamentos e atitudes, edificações e serviços, mas espera sempre
por nossa resposta voluntária, uma vez que a obra da verdadeira sublimação espiritual não comporta servos cons-
trangidos”.
Pode-se complementar que a disciplina antecede a espontaneidade.
Ainda Emmanuel, no mesmo livro, lição 165, referindo-se ao mesmo item da carta de Paulo a Filemon (1:14),
diz: “Ensoberbece-se (o homem) do poder de que dispões, afirmando, em determinados casos não sem motivo, que
efetuou semelhante aquisição a preço de trabalho e sofrimento... No entanto, é o Senhor quem lhe propiciou os re-
cursos para a conquista da autoridade, na expectativa de que ele a exerça dignamente”.
Finalmente, seguindo a mesma sugestão de Paulo a Filemon, diz Emmanuel ao homem: “Rejubila-te, pois,
com as possibilidades de auxiliar, instruir, determinar e agir, mas, consoante o ensinamento do Apóstolo, não olvides
que a bondade do Senhor vige nos alicerces de tudo o que tens e reténs, a fim de que te consagres ao serviço dos
semelhantes, na edificação do Mundo Melhor, não como quem assim procede, através de constrangimento, mas de
livre vontade”.
Em Caminho, Verdade e Vida, lição XVII, Emmanuel comenta o item 1:18 da epístola de Paulo a Filemon,
quando o apóstolo fala: “E se te fez dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta”. “Devemos refletir que
quando falamos em paz, em felicidade, em vida superior, agimos no campo da confiança, prometendo por conta do
Cristo, porquanto só ele tem para dar em abundância”.
De Paulo aos Tessalonicenses
Ainda carregando as marcas do açoite que receberam em Filipos, Paulo e Silas, libertos do cárcere, refugiam-
se em Tessalônica, hoje Salônica, importante centro comercial. Aí, durante três sábados, Paulo pregou na sinagoga,
mas poucos judeus abraçaram o Cristianismo. Depois pregou para os gentios e bom número de pagãos converteu-
se à nova religião. A nova comunidade cristã estava exposta a graves perseguições e perigos na fé.
Paulo preocupado com isso, assim que chegou a Beréia e a Atenas enviou-lhes Timóteo para os sustentar e
confirmar no espírito de união com Jesus.
Paulo tem notícia que havia resíduos da vida pagã e de uma série de dúvidas, entre outras, algumas questões
morais, sobre a sorte dos desencarnados etc...
Paulo escreveu-lhes a primeira epístola. Foi escrita de Corinto provavelmente no ano 51 ou início de 52. Ele
agradece ao Senhor pelo modo que o Evangelho aí foi recebido. Recomenda o seu trabalho evangélico e sua ternura
materna para com eles alegrando-se com as boas notícias. Na 2ª parte, recomenda evitar alguns vícios; fala das
condições dos que já desencarnaram; da segunda vinda de Jesus, através do Consolador e lembra do tempo da pa-
rúsia (o momento de ser chamado para prestar contas), recomendando “Tomemos por couraça a fé e a caridade e
por capacete a esperança da redenção”.
Faz recomendações para que conservem a paz entre eles, que tenham paciência para com todos. Que não
retribuam o mal com o mal mas que aspirem ao bem para todos. Lembra a necessidade de serem alegres pois o
pensamento é criador e mantenedor da formas criando os céus ou infernos em que vivemos. Recomenda ainda a
oração sempre a lembrança de dar graças a Deus para criar e manter padrões elevados. “Mas vos rogamos irmãos
que vos aperfeiçoeis mais e mais”. (4:10)
Ensina que não se deve desprezar as profecias, dizendo:
“Examinai tudo. Retende o que for bom, guardai-vos de toda a espécie do mal” cap. 5:21,22. Kardec em O
Livro dos Médiuns, cap. XXIII item 242, mostra que tudo deve ser analisado e selecionado para aproveitar-se só o
que interessa para o crescimento moral da criatura.
Conclui com saudação e recomendando a leitura da carta a todos os irmãos. (5:23-28)
Mais tarde novas dúvidas surgiram e Paulo atento a sua amada cristandade, intervém com outra carta para
instruí-la e avisá-la contra os semeadores de falsas doutrinas.
Solicita a atenção para o justo juízo de Deus que dará a cada um segundo os seus méritos. (1:6-12)
Mostra a necessidade da vigilância em relação às revelações e que deve ficar firme na fé.
Relembra a importância da oração e do trabalho para que o Espírito progrida sempre. Fala da importância de
não ser pesado a ninguém lembrando que a maior lição é dada pelo exemplo e recomenda: “Quem não quiser tra-
balhar, não tem o direito de comer”(3:10(. Essa orientação já era dada no livro Gênesis no cap. 3:19: “Comerás o
teu pão com o suor do teu rosto”.
Em o Livro dos Espíritos, no livro terceiro - As Leis Morais no cap. III, existe todo um tratado sobre a Lei do
Trabalho - onde toda ocupação útil é trabalho (LE, 675), todo o trabalho é educação e todo o trabalho é prece.
Conclui com saudação.
Epístola de Paulo aos Filipenses
Filipos era uma cidade situada entre a Macedônia e a Trácia. Foi a primeira cidade européia que Paulo evan-
gelizou (2ª viagem). Ao saberem de sua prisão e padecimentos os fiéis filipenses enviaram-lhe auxílio monetário em
Roma. Profundamente agradecido, Paulo lhes escreve de coração aberto.
Com uma sincera ação de graças a Deus, Paulo inicia sua carta rejubilando-se pela perseverança evangélica
dos fiéis e dá-lhes o testemunho do seu amor.
Paulo comenta sua prisão e todo o processo que se seguiu, incluindo sua desditosa viagem de cativeiro e as
oportunidades do progresso do Evangelho através disso.
Ao garantir suas esperanças de ser reconhecida sua sinceridade apostólica, reafirma: “Pois para mim, o viver
é Cristo e o morrer é ganho” (1:21). Entretanto, continua exemplificando para sempre: “Se viver na carne é trabalho
As Cartas Paulinas 91
frutífero, permanecer na carne é necessário por vossa causa”. Ë sempre esse o seu testemunho de abnegação
apostólica: renunciar por amor ao Cristo e à sua vontade.
Em troca do seu sacrifício ele só pede que todos lutem pelos ensinos do Evangelho, pela prática do amor e
pela fé.
Convoca todos à perseverança no amor fraternal e à unidade na humildade (cap. 2).
Paulo afirma aos Filipenses que se mantém com harmonia e paz graças ao “conforto que há em Cristo (pela
sustentação, orientação, bálsamo e esperança); pela consolação que ele encontra no amor de todos e por todos;
pela sua comunhão com a Espiritualidade Maior e pela ternura e compaixão que recebe agradecido de todos, onde
se torna uma só alma, um só pensamento, no mesmo amor.
Nota-se nesta passagem, que a energia dinâmica de Paulo perde a força biológica e ganha na força espiritual
da humildade e da fraternidade.
Paulo está velho, cansado, sofrido, mas a cada dia, mais forte em Cristo, pelo Evangelho redentor.
Ele estimula seus fiéis ao exemplo de Jesus, que tendo a condição divina, isto é, os dons sublimes do verbo
de Deus (Jo., 1)não se considerava igual a Deus, antes despojou sus glória junto ao Pai, assumindo a condição de
servo, tomando a semelhança humana (ver a transfiguração de Jesus, Lc., 9:28), quer dizer em “homem como os
outros”, partilhando das condições do estágio hominal.
Com todo seu poder e autoridade moral, Jesus se humilhou e se submeteu, obedientemente, até o fim de sua
tarefa planetária, comprovando aos homens comuns que, à tempestade da luta, segue a bonança da espiritualiza-
ção. Por isso Deus o exaltou na ressurreição que é dada pelo Pai e o agraciou com o divino título (ou nome) inefá-
vel que se exprime no “Senhor” acima das categorias angélicas. (Hb., 1:4)
Seguir a Jesus, continua Paulo, é operar a redenção pela abnegação sem reclamações, para, “mesmo no
meio de uma geração má e pervertida”, se tornar puro, filho de Deus, luz no mundo, mensageiro da palavra da vida.
(2:16)
A partir do cap.3, Paulo faz advertências aos Filipenses, retomando outro assunto, o que levou a muitos estu-
diosos interpretarem como um bilhete independente.
Seu primeiro cuidado é com os falsos doutores da lei, que até hoje, proliferaram entre os incautos.
Líderes religiosos, quando falidos obreiros da vida eterna, são maus operários, cegos conduzindo cegos, tú-
mulos caiados que se apegam a rituais que encobrem suas reais intenções (em quaisquer religiões).
O próprio Paulo relembra sua origem e passado judaico (de hebreu, filho de hebreus, diferente dos gregos)
(3:5), reconhecendo-se irrepreensível e sincero adepto da Lei de Moisés.
Mas desde que considerou Jesus como Mestre dos Mestres, ele tudo perdeu para ganhar a Cristo, não pela
justiça da lei, mas pela justiça superior que vem de deus (Seu atributo), justiça essa que ele, Paulo, apoiava na fé (a
justiça com misericórdia).
Paulo escreve da esperança de sua ressurreição como Espírito Puro em Cristo; enfatiza a humildade de não
se reconhecer pronto para a redenção e afirma sua perseverança consciente na evolução do espírito. (3:12)
E ensina como caminhar: esquecendo-se do passado e avançando para o futuro, para a meta que vem de
Deus, por Cristo Jesus (o caminho da verdade), com a confiança e raciocínio (a fé pala razão).
Paulo exorta à alegria no Senhor, através do cumprimento dos deveres cristãos. Ensina que não há motivo
para inquietação no espírito bom, mas todas as necessidades podem ser apresentadas a Deus, pela oração e pela
súplica, em ação de graças. A paz de Deus, que excede toda a compreensão humana guardará o coração e pensa-
mentos de seus filhos.
Para finalizar, o missivista aconselha seus irmãos a se ocuparem de tudo que é nobre, verdadeiro, justo, puro,
amável, honroso, virtuoso ou que mereça louvor, isto é, recomenda uma conduta ideal de vida, em todos os tempos,
mesmo para a filosofia grega na época, mas recomenda-o sob a prática evangélica, isto é, mais do que pelo dever,
seja o homem bom e justo pelo amor.
No final faz seus agradecimentos pelos seus enviados.
Ao explicar que sabe viver os momentos maus como os bons, pois tudo pode n’Aquele que o fortalece. Paulo
valoriza os cuidados e o carinho de seus irmãos da fé, pois comprovam a caridade e fraternidade que participam da
aflição alheia.
Primeira Epístola de Paulo a Timóteo
Paulo escreveu três epístolas denominadas Pastorais, pois são dirigidas aos pastores de almas das Comuni-
dades religiosas numa orientação direta e íntima sobre regras e observâncias dessas comunidades. São duas cartas
a Timóteo e uma a Tito. No período da primeira epístola, Timóteo estava em Éfeso (1:3). Tem por objetivo fixar as
diretrizes para a organização e direção das comunidades; sobre o comportamento ético (como sempre).
Após a saudação, Paulo vai direto aos assuntos de sua preocupação:
1) Lembra a Timóteo a razão de sua permanência em Éfeso que era advertir alguns a não modificar a doutrina
(O Evangelho) ensinada; não ficarem em discussões intermináveis (especulações judaicas relativas à genealogia
dos Patriarcas e heróis do Antigo Testamento),coisas que não realizam os desígnios de Deus sobre os homens, mas
que deveriam cultivar a caridade, a consciência sadia e a fé.
O abuso da palavra deve ser evitado, principalmente entre os que não entendem o que dizem nem o que afir-
mam (1:7). Em todos os tempos, “pretensiosas autoridades nos pareceres gratuitos, espalham a perturbação geral,
adiam realizações edificantes, destroem grande parte dos germes do bem, envenenam fontes de generosidade e
fé...” (Vinha de Luz, lição 15, Emmanuel). “O fim do mandamento é a caridade de um coração puro.”(1:4)
Curso de Aprendizes do Evengelho92
2) Não há combate à lei mosaica, “que é boa se for usada legitimamente”(1:8), entretanto, lei existe para corri-
gir as iniquidades, logo não é para os justos; ela indica os bons caminhos, mas não é a redenção em si.
3) O apóstolo convida Timóteo ao bom combate das suas responsabilidades com fé e boa consciência, pois
sem princípios morais não há fé (1:18).
4) Paulo mostra a importância da oração (2:1). Aí encontra-se a recomendação do cultivo da prece, inclusive
por todos os homens governantes e autoridades, para que possam ter paz com dignidade, única forma do conheci-
mento da verdade, pois há um só Deus e um só mediador, Jesus Cristo.
5) Discorreu o apóstolo sobre os deveres e comportamento das mulheres dos mentores das comunidades reli-
giosas, pois elas saberão também fazer profissão de servir a Deus com boas obras. Mostra ainda um Paulo de Tar-
so radical quando afirma: “Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem”. - (2:12)... “mas ela será redi-
mida na maternidade”.
Estas afirmações de Paulo são consideradas, por alguns estudiosos, como acréscimo, mas elas também estão
inscritas em I Cor., 11:3. De qualquer forma a frase “eu não permito” não parece ser de Paulo, sempre muito educa-
do.
No capítulo 3, ele aborda as qualidades de um bom dirigente da comunidade, ensejando sobriedade, bom sen-
so, competência e indulgência. Deve ser pacífico, ter uma só esposa, enfim, ser bom e digno. Continua com a ori-
entação a respeito das pessoas em geral (cap.5), às viúvas, prescrevendo que toda fraternidade e boa vontade co-
meça no lar, pois quem não sabe cuidar dos seus, não pode cuidar dos outros (como na parábola do Mordomo Infi-
el).
6) Paulo reafirma a liberdade do espírito (cap. 6), pois até os que estão sob o jugo da escravidão devem se
considerar livres em espírito. Ensinando como reconhecer o legítimo orientador espiritual, destaca a piedade como
primeira virtude de um ancião religioso, porque a raiz de todos os males é a ambição.
7) Paulo estimula Timóteo (6:11): “Mas tu, homem de Deus, foge destas coisas”. Finaliza exortando-o à justi-
ça, a fé, à piedade, à perseverança, à mansidão, como legítimas conquistas de um verdadeiro líder. É o bom com-
bate para a vida eterna.
Segunda Epístola a Timóteo
Paulo está em Roma, no seu cativeiro final e pede a Timóteo que vá ter com ele. Temendo que não houvesse
tempo para a chegada de Timóteo, o apóstolo dos gentios escreve-lhe como um testamento espiritual, conforme
afirma Emmanuel em “Paulo e Estêvão”.
Por ter tido Timóteo uma mãe e uma avó de fé e boa consciência cristã (1:5) e pelas bênçãos recebidas para
suas tarefas, Paulo o exorta a reavivar sempre o dom de Deus pelo aprimoramento espiritual na prática e divulgação
do Evangelho.
Geralmente o homem acomoda-se com a paz, esquece-se das lutas passadas para alcançá-la e não se previ-
ne contra os impulsos primitivos que podem ressurgir.
No caminho do bem encontra tropeços e tentações reais ligadas a esse passado. A própria vida humana é
uma condição de influenciações primitivas. Foi esta a razão da admoestação de Paulo a Timóteo para que vivificas-
se sempre o “dom de Deus” no seu coração.
Não importa fugir do passado, importa renovar o espírito com saber e amor. (Vinha de Luz, lição 30 - Emma-
nuel)
Paulo convida Timóteo para seu herdeiro espiritual e transmitir suas palavras evangélicas a outros que sejam
idôneos para ensinar. Quem ensina ou dirige algo tem sempre que preparar continuadores, como fez o próprio
Cristo.
O bom discípulo assume sua parte de sofrimento na vida com dignidade, como um bom soldado do Cristo. O
soldado não se envolve em questões civis, só deve satisfações aos seus superiores; o atleta (ainda que ganhe) não
recebe a coroa se desonrar as regras; o lavrador deve ser o primeiro a gozar dos frutos. (Fonte Viva, lição 31 - Em-
manuel)
Enfim há trabalhadores de todas as classes, até dos que fiscalizam no serviço do vizinho e se esquecem do
seu. Mas quem semeia, colhe. O mesmo acontece no campo espiritual: sem esforço nada se consegue.
Paulo fala do perigo dos falsos doutores religioso (2:14). Diz que o bom cristão evita as discussões estéreis e
estima a retidão da palavra da verdade; evita o falatório vão e inconsistente, pois a associação de palavras e pen-
samentos condenam o homem. O verbo desregrado estimula a queda moral; cria a calúnia e o mexerico maledi-
cente; é leviano e causa perturbações graves ao devedor.
“Deus criou a palavra, o homem engendrou o falatório”, diz Emmanuel em Vinha de Luz, lição 73. O palavre-
ado vão também é vicioso, um verdadeiro desvario da mente.
Quem segue Jesus não pode ser injusto ou inconseqüente. Paulo aconselha Timóteo a fugir das paixões trai-
çoeiras da mocidade, das questões insensatas e não educativas.
Todo servo de Jesus é manso como seu Senhor e com suavidade ensina e ama (Pão Nosso, lição 98 - Em-
manuel). Paulo, a seguir, fala dos perigos dos últimos tempos, da perseverança e do Evangelho (cap. 3).
As Cartas Paulinas 93
“Todos os que querem viver com piedade em Cristo serão perseguidos”(3;12). Como no tempo de Paulo, ain-
da hoje, o discípulo fiel de Jesus sofre incompreensões, dificuldades e até perseguições. A lição a Timóteo para per-
severar no Evangelho de Jesus deve ser assimilada por todos os novos discípulos, porquanto a luta é a mesma: o
bom combate da reforma íntima.
Paulo no ocaso da vida faz suas últimas recomendações (cap. 4). O apóstolo diz que já foi “oferecido em li-
bação” e está pronto para a partida. Nos sacrifícios judaicos e pagãos “oferecido em libação” consistia em encher
uma taça de vinho ou óleo, prová-lo e derramá-lo sobre a vítima. Diz que combateu o seu bom combate, fazendo
sua reforma íntima, transformando-se em Homem Novo e guardando a fé na justiça do Senhor.
Paulo sente-se feliz e convicto de ter cumprido sua missão e roga a Timóteo que vá encontrá-lo o mais rápido
possível, pois somente Lucas está com ele.
DE PAULO A TITO. DE PAULO AOS HEBREUS
Epístola de Paulo a Tito
Esta é mais uma epístola pastoral. Foi dirigida a Tito, presbítero de Creta.
Tito, um caráter firme e confiável, era de origem pagã. Foi convertido por Paulo em sua 1ª viagem. Foi envia-
do a Corinto para apaziguar a comunidade (2Cor., 7:5) e mais tarde, Paulo o envia à sua terra natal.
Esta epístola foi escrita por volta do ano 64 para estimulá-lo e recomendar-lhe normas que lhe evitassem as
dificuldades existentes.
Após a saudação de praxe, Paulo lembra a Tito a necessidade de se instituir presbíteros (anciãos) como che-
fes dos núcleos de cada cidade. Recomenda a requisição de homens dignos, de moral ilibada. (1:5-7), pois todo
ecônomo das coisas de Deus, deve ser irrepreensível e fiel na exposição da doutrina pura.
O apóstolo Paulo nunca se cansava de advertir, em suas epístolas, sobre os falso doutores, (1:10-16), pois
muitos judeus convertidos, aceitavam Jesus como profeta, mas não como Messias, acrescendo que queriam exigir a
circuncisão para todos. A preocupação de um sincretismo perigoso foi o tom de Paulo em todas as missivas.
Diz Paulo (2:1-10) que Tito deve permanecer firme nos seus ensinamentos, que homens e mulheres sejam
sóbrios e dignos, moderados e íntegros, sendo ele mesmo (Tito) um exemplo de conduta, tanto na exposição do
Evangelho como nas práticas do mesmo.
Na verdade, os ensinos de Jesus, quando assumidos consciente e integralmente modificam o pensamento do
homem, mostrando-lhe como conhecer a si próprio, descobrir os prejuízos das paixões mundanas, produzir sua Re-
forma Íntima, vivendo no muno com autodomínio, mas não separado do mundo.
Todo trabalho para ser bem elaborado, tem suas exigências e norma de conduta que se coadunam com efei-
tos finais.
Ser zeloso no bom procedimento é compromisso do Aprendiz do Evangelho, assim como de todo bom cristão.
Paulo finaliza destacando o cuidado com os homens insensatos e facciosos (3:9 e 10). Depois de uma ou duas
admoestações, não se deve entrar em controvérsias inúteis, nem debates pela lei, pois quando o homem escolhe e
combate por um lado, ele é sempre responsável por suas ações.
Epístola de Paulo aos Hebreus
Como o título indica, ela foi dirigida aos judeus da Palestina, perto da 64 d.C.. Os estudiosos do Evangelho e
organizadores do Novo Testamento duvidaram, à priore, de sua autenticidade, não pelo seu valor que é imenso, mas
por sua autoria. “Em Paulo e Estevão”, Emmanuel afirma que a carta foi escrita por Paulo e copiada por Aristarco,
quando estava na sua prisão domiciliar em Roma.
Seus destinatários estão espalhados pelo Império romano, onde os recém-convertidos sentem dificuldade do
exílio, sem o amparo de uma fé de base sólida.
A carta relembra a superioridade do Cristo e o perigo da apostasia, pela nostalgia dos esplendores litúrgicos do
culto judaico, arraigado em seus espíritos.
É em resumo um tratado da autoridade do Cristo, frente ao judaísmo, como cumprimento evolutivo da Lei do
Amor, onde a fé é o esteio da perseverança no Bem. Paulo afirmava que Deus, antigamente, “se comunicou muitas
vezes e de maneiras diversas com nossos antepassados, segundo a evolução do homem”. Depois do ciclo dos pro-
fetas, o Senhor da Vida houve por bem enviar seu Filho: não um porta-voz como os outros, mas o seu Filho Ungido,
cuja filiação lega a herança dos atributos divinos.
O filho tornou-se mais do que os Anjos (altos mensageiros de Deus). “Tu és meu Filho, hoje eu te gerei”(Sl.,
2:7) e o Senhor Deus determinou que todos os anjos o adorassem.
“O teu trono é eterno e perpétuo, o teu cetro é de equidade”(Sl., 45:6).
Paulo tem o cuidado de usar várias vezes o Antigo Testamento para provar a glória de Jesus que foi descrita
nestes livros sagrados dos hebreus, pois falava ao seu povo.
A mensagem dada pelos anjos na 1ª revelação é verdadeira (2:2), a que Jesus nos trouxe é complemento
(Mt., 5:17). Se aceitamos a 1ª, como negligenciarmos a segunda que é seu cumprimento?
Convinha, por isto, que o Cristo, por um pouco, participasse da condição de Filho do Homem, para provar a li-
berdade e realidade da vida Maior (com a sua humildade e desprezo das paixões humanas para a gloriosa Ressur-
reição) (2:5-10)
O apóstolo explica que tendo Jesus sofrido todas as tentações das iniquidades da condição humana, provou
aos seus irmãos menores que é capaz de socorrê-los nessas fraquezas, através de fé e das boas obras.
Curso de Aprendizes do Evengelho94
Paulo afirma que o Grande Apóstolo (enviado de Deus junto aos homens) e Sumo Sacerdote, que compadece
dos homens junto a Deus (4:14), o Cristo e Messias prometido, era superior a Moisés que guardara fidelidade a
Deus, como servo e testemunha das coisas que viriam, mas continuava com Jesus, conforme se verifica no episódio
da transfiguração.
O perigo da incredulidade é uma ameaça constante devido a dureza do coração humano (3:12). Os discípulos
de Jesus devem animar uns aos outros na sustentação dos momentos difíceis. Essa dureza de coração se traduz nas
contínuas deficiências do homem que não resiste ao orgulho e à vaidade de se considerar sempre o maior e o me-
lhor.
Moisés levou os hebreus do Egito, entretanto, esses mesmos se revoltaram no deserto, onde tiveram que ficar
por 40 anos para se renovarem, sem repouso (espiritual).
Usando todo seu antigo conhecimento da Lei Mosaica, Paulo comprova a seqüência da história religiosa judai-
ca como trabalho contínuo do Plano Espiritual Maior.
Mostra aos hebreus que Jesus, o Filho de Deus, continuava seu sacerdócio divino nos céus (Espiritualidade
Maior), onde se compadecia das fraquezas e ignorância humanas. O Cristo não se gloria por ser o Representante
Divino, mas Ele glorifica a Deus (Jo., 17:1)
Após o ensinamento elementar a respeito do Cristo (cap. 6), Paulo procura penetrar e explicar a doutrina que
anunciara. Tecendo palavras de esperança e encorajamento, exortando à paciência, à fé e à perseverança, lem-
brando a perseverança de Abraão, o patriarca dos Judeus.
Diz Paulo que a esperança é a “âncora da alma” que penetra além do véu, onde Jesus, como precursor entrou
por nós, tornando-se o Sumo Sacerdote para sempre. (6:18-20)
Do cap. 7 ao cap. 10 da epístola há três grandes subdivisões:
a) Superioridade da missão de Jesus sobre os sacerdotes levitas.
O sacerdócio de Jesus não é segundo a regra da conduta na vida material (conforme os le-
vitas) mas para o poder de uma vida eterna e imperecível (7:16) (Meu Reino não é deste mundo). O
sacerdócio levítico teve fim, mas o de Cristo é eterno.
b) Continuando sua exposição aos judeus cristãos, os apóstolo fala que o ritual de dádivas e
sacrifícios sacerdotais eram “sombra das realidades celestes”(8:5); mas o Cristo tem o ministério supe-
rior porque é o único intermediário de um Novo Testamento, mas perfeito e completo do que o primei-
ro (8:7) o que foi previsto por Jeremias. (Cap. 31:31)
O Espiritismo diz que o sacrifício deve ser íntimo: da animalidade em favor da espiritualidade
do homem. É o sacrifício das ilusões e paixões da carne.
c) Mostra Paulo que o sacrifício de Cristo é divino e superior aos sacrifícios mosaicos, que eram
transitórios e humanos.
Sacrifícios exteriores não redimem e, muito menos, santificam ou modificam alguém. Não há sangue de touro
ou bode que elimine pecado (10:4), complementa Paulo. Nem sacrifício, nem oferendas, nem holocaustos, nem
promessas vãs que dependam de outrem.
Jesus ensinou o sacrifício da oferenda de si mesmo em renúncia sublime na promessa da Vida Maior. A eficá-
cia do seu sacrifício se traduz na fé, na esperança, na caridade que em todos os tempos convida o homem à reden-
ção.
Aos hebreus, no capítulo 11, Paulo fala da natureza da fé. Diz que os momentos da transição são os mais difí-
ceis e exigem perseverança e constância na fé para evitar o perigo da apostasia. Quando o sofrimento surge, o ho-
mem se joga intempestivamente a várias portas, em busca da paz, esquecendo-se que ela está dentro dele mesmo.
A fé perseverante se torna vitoriosa pelas ações edificantes. “A fé que não ajuda, não instrui e nem consola,
não passa de escura vaidade do coração”.
Escreve Paulo que “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se vêem”. (11:1)
A fé é a confiança que se anima com a esperança, ganha alento com a caridade e se realiza na luz da verda-
de. Os antigos hebreus tiveram fé exemplar, continua Paulo aos seus conterrâneos. Sem crer em Deus, é impossível
aproximar-se Dele. Assim provaram Noé, Abraão, Moisés e outros.
A fé é uma certeza intuitiva fincada na razão para não se tornar cega e inútil. Também a fé serve de base à
razão para não se tornar cega e inútil. Também a fé serve de base à razão que nela se desenvolve: é a fé raciocina-
da.
No cap. XI, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 13, Kardec explana sobre o assunto e, no cap. XX,
ele estuda os aspectos imanente e transcendente da fé. O imanente é a fé humana, esta força interior que leva o
homem a realização de um ideal. O transcendente é a fé que o conduz a Deus; é a fé que liberta porque reconhece e
confia em Deus, o Pai Supremo e Misericordioso.
Conclamando a paternidade de Deus, o autor argumenta racionalmente que se os pais segundo a carne amam
e educam, segundo seus conhecimentos, impondo aos filhos corretivos, a mesma coisa faz o Pai que está no Céu,
agindo dentro de Suas Leis Divinas, perfeitas e imutáveis.
O homem somente vê o momento e sente a tristeza por sofrer, mas toda disciplina “produz fruto pacífico aos
que têm sido por ela exercitados”. (12:11)
A infidelidade é o caminho contrário da retidão das leis morais, Aí é citado o exemplo de Esaú (12:16 e 17),
que por leviandade trocou seu direito de primogenitura por um repasto e depois foi rejeitado, e foi grande o seu arre-
pendimento (Gênesis, 25:33).
Finalizando a carta, mostra Paulo o contraste entre o Sinai e o Monte Sião. De um lado trombetas e tempesta-
des ameaçadoras, que até Moisés se disse “aterrado e trêmulo”(12:21) e de outro o Deus vivo envia Seu Filho Ama-
As Cartas Paulinas 95
do à Jerusalém celeste, com incontáveis hostes de amor”. O Mediador manso e meigo orienta a “Nova Aliança”; a
ressurreição para a Vida Eterna através do código moral dos Espíritos: o Evangelho. (12: 22-24)
Capítulo 43
AS EPÍSTOLAS DO NOVO TESTAMENTO E O APOCALIPSE DE JOÃO
EPÍSTOLAS UNIVERSAIS. DE TIAGO, PEDRO, JOÃO E JUDAS
Introdução
Existem sete epístolas no Novo Testamento conhecidas por “Universais”, pelo fato de serem dirigidas aos
cristãos em geral e não só à comunidade e a particulares como as de Paulo. Elas foram escritas por Tiago Menor,
Pedro, João e Judas.
A epístola de Tiago somente foi aceita pelos cristão a partir do século IV. Tiago recomenda a prática da pala-
vra do Senhor: “a fé sem obra é morta”(Tg., 2:17). Pedro indica os requisitos da nova vida e mostra os deveres dos
cristãos. João ensina como “caminhar na luz” e viver como filhos de Deus com fé e caridade. Judas, “irmão de Tia-
go, servo do Cristo”, adverte sobre os falsos doutores.
Epístola de Tiago
Ao que tudo indica, deve ter sido escrita por Tiago Menor, filho de Alfeu (irmão de Judas Tadeu) pois, o irmão
de João foi morto no ano 44 por ordem de Herodes. Poderia ser de Tiago, “o irmão do Senhor”, descrito em Mateus,
13:55 e Gálatas, 1:19, mas foi escrita em grego, como a maioria das epístolas, o que estaria em desacordo com esse
personagem.
Destaca-se nela, solenemente, a chamada fé com boas obras, para tornar o homem perfeito.
• A Fé: Tiago exorta de maneira diferente aos que sofrem, pois que se souberem sofrer e viver
as dificuldades da vida com fé e perseverança estarão produzindo obra perfeita.
• A Humildade: Tiago aconselha aos pobres e aos ricos a humildade, pois a vida é como a “flor
da erva”(dura pouco tempo).
• A Paciência: valoriza a provação, com paciência e vigilância, principalmente nas más influ-
enciações. Quem se deixa arrastar pelo mal não pode culpara a Deus por seus sofrimentos posterio-
res, pois o mal vem, na realidade, de dentro do homem;
• A Palavra: não basta receber a Boa Nova, a palavra de verdade e do amor. É preciso prati-
cá-la (1:23). Essa palavra liberta quem persevera nela. A religião sem mácula diante de Deus é a que
pratica a caridade com os seus semelhantes e invoca a pureza do sentimento. (Cap. I)
No cap. 2 vem sua advertência mais conhecida: a fé sem obra é vã. Todo homem será julgada segundo as
suas obras, isto é, a mesma medida, e exemplifica claramente no versículo 14.
A obra sem fé é incompleta. A fé pela obra é racional, consciente, valorosa; por isso o homem é justificado
pelas obras e não apenas pela fé, pois, em conclusão, a boa obra é o resultado prático da fé perseverante.
• Orgulho e vaidade: No cap. 3, Tiago adverte sobre o orgulho e a vaidade de posição e car-
gos privilegiados e principalmente para o cuidado com a intemperança na linguagem, pois quem não
domina a língua, não domina a si próprio. Ilustra com exemplos simples mas bem reais.
• A Verdadeira e Falsa Sabedoria: assim como a árvore mostra seus furtos, o sábio se mostra
pelo seu bom comportamento e suas obras de humildade e sabedoria. A verdadeira sabedoria que
vem do alto é pura, pacífica, indulgente, conciliadora, misericordiosa. Aqui, Tiago compara a sabedo-
ria com o amor e a caridade. (1Cor., 13)
A falsa sabedoria é mentirosa, egoísta, invejosa, e, sobretudo, ambiciosa.
Completando a epístola ()cap. 4 e 5) invoca a paz entre os fiéis através do respeito fraterno; proclama, mais
uma vez, a Vinda do Senhor (Parúsia) assim como o lavrador espera o precioso fruto da terra que ele trabalha com
paciência e amor.
Estimula carinhosamente “se alguém sofre, recorra à oração; se está alegre cante”.
Encerra com chave de ouro (5:20), dizendo “aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador
salvará da morte uma lama, e cobrirá uma multidão de pecados”.
Primeira Epístola de Pedro
Esta epístola foi escrita no seu cativeiro final. É interessante saber que foi escrita em grego (talvez por Silvano
como indica em 5:12). Sua finalidade é sustentar a fé, com perseverança nas atribulações. Nos seus 5 capítulos en-
contra-se como temas principais:
• A Luz da Verdade: pela revelação e pela fé (na herança concedida pelo Pai) e os requisitos
de Renovação mental para a nova vida. Através da regeneração dos ensinos morais cristãos. (Cap. I)
• A Justiça: os deveres cristãos para com todos, cuja obrigação maior é ser justo e bom até
para com aqueles que nos ofendem; respeitar as autoridades constituídas; ser paciente, digno no ca-
samento e com a família; ser livre mas não abusar desta liberdade para o mal, antes construir o bem.
As Epístolas do Novo Testamento e o Apocalipse de João 97
Ser compassivo, fraterno, misericordioso e humilde de espírito, para ser digno da Herança Divina (cap. 2 e 3)
Enfim, honrar para ser honrado.
• A Liberdade: romper com os erros, vícios e defeitos (iniquidades) para viver segundo a von-
tade de Deus, aplicando-se tanto para os encarnados como os desencarnados (4:6)
• O Amor: ser bom com vigilância moral, necessidade de ajuda mútua, usar a Boa Nova como
exemplificação.
Pedro aclama a felicidade daquele que sofreu com Cisto (Bem Aventurados os que Sofrem) e cita o Provérbio.
(Cap. 11:31)
“Se o justo com dificuldade, consegue redimir-se, em que situação ficará o ímpio e pecador?”
Fala que “está próximo o fim de todas as coisas”, recomendando sobriedade e vigilância em oração, “mas, so-
bretudo, tende ardente amor uns para com os outros, porque o amor cobrirá a multidão de pecados”. (4:7-8)
Diz Pedro, praticamente, o mesmo ensinamento colocado por Tiago, ao encerrar sua epístola.
Segunda Epístola de Pedro
No cap. 1º Pedro assinala a liberdade de Deus com seus filhos na reafirmação da Herança Divina.
Por amor a seus filhos, enviou seu Ungido em sua “glória e virtude” para que todos o conhecessem e partici-
passem da natureza divina. Indica, então, como evoluir para ser merecedor das recompensas.
No depoimento apostólico, que soa como despedida, declara ter sido testemunha ocular da transfiguração do
Mestre (Mt., 17:1); relembra as profecias das Escrituras que já anunciava a glória do Messias.
Para isso, recorda as lições do passado, reafirma o justo e misericordioso. Todo erro tem o momento de
transformação que se pode chamar de castigo, expiação ou reajuste, pois toda ação tem sua reação condizente.
Chegando ao terceiro e último capítulo. Esclarece a oportunidade desta epístola que é despertar o homem
pela fé e moral prática, exortando-o a não se levar pelo materialismo, pois que não sabe quando o Senhor o chama-
rá.
Alerta, então, para que as dificuldades doutrinárias não se tornem discussões estéreis que estagnam o pensa-
mento.
Epístola de João
O apóstolo João deixou três epístolas cuja literatura doutrinal se assemelha ao conteúdo do seu Evangelho.
Em virtude de sua primeira carta ser a mais completa (as outras duas são como ligeiras mensagens, procura-
se interpretá-la na oportunidade atual).
Buscando o essencial de sua vasta experiência sigilosa, João revalida a retidão de caráter e os filhos de Deus.
São 5 capítulos que se ligam entre si.
a) Caminhar na Luz (cap. 1º e 2º)
Deus é luz, não se pode estar com Deus e viver na iniquidade social, moral e espiritual.
A palavra de Deus é a Fonte da Vida e seu verbo encanado, Jesus nos trouxe essa palavras
que é luz e amor e se reconhece pela fé e fraternidade.
A palavra luz, ilumina os caminhos da evolução e a 1ª condição do Aprendiz do Evangelho é
“romper com o pecado”(1:8), isto é, conscientizar-se dos erros, (ser e não parecer), erradicando-os no
conhecimento e prática das virtudes.
A 2ª condição é observar os mandamentos, principalmente o da caridade. Quem diz “Eu os
conheço” mas não os pratica, não guarda a verdade, não está com Deus (2:4). As leis de afinidade e
sintonia regem as relações comportamentais, pois tudo é vibração e vida no Universo.
A 3ª condição é preservar-se dos prejuízos do mundo, suas paixões, suas ilusões que indu-
zem o homem ao mal (2:15), como a cobiça da riqueza, o orgulho, a concupiscência, a vaidade dese-
quilibrada etc. Viver no muno, mas não ser do mundo, é o equilíbrio para aprender, servir e evoluir.
A 4ª condição é ter cuidado com os “Anticristos”, isto é, aqueles que se dizem pertencer ao
meio da fé, mas antes que tudo se enfurecem com a verdade da palavra, distorcendo-a (2:18). Como
reconhecê-lo? É todo aquele que nega o Pai e o Filho nas suas manifestações de amor e misericórdia
como nos seus mandamentos.
b) Viver como Filhos de Deus (cap. 3)
Todo filho deve se mostrar digno do Pai.
A dignidade é uma conquista, uma autoridade moral, qualidade de quem é digno, isto é, me-
recedor da nobreza espiritual, logo requisita as mesmas quatro condições do caminhar pela luz
(descritas acima).
Ao romper com as iniquidades, o princípio da reforma íntima se efetua (3:3); ao observar os
mandamentos, destaca-se que “fora da caridade não há salvação”.
É de relevante importância a advertência de João contida no cap. (4:1): “Amados, não creiais
em todos os Espíritos mas provai se os Espíritos são de Deus, porque já muitos falso profetas se têm
levantado no mundo”.
Curso de Aprendizes do Evangelho98
“Porque esta é a mensagem: que nos amemos uns aos outros”(3:12); tendo cuidado com os
falsos profetas, através da análise do conteúdo de suas mensagens e de seus atos pois, pelos frutos
se conhece a árvore”.
c) As fontes da caridade e da fé
Cheios de amor, o apóstolo João, encerra sua carta recomendando a Fonte da Caridade, o
amor, conjunto de todas as virtudes.
Quem não ama com pureza de sentimento, não conheceu a Deus, porque Deus é amor (4:8)
por todos os tempos planetários, o amor de Deus nos acompanha em manifestações de misericórdia e
progresso.
Afirma: ninguém jamais contemplará a Deus (4:12) mas se nos amarmos uns aos outros ele
permanecerá em nós no Hausto do Seu Augusto Pensamento e em Jesus, seu filho iluminado, nosso
Senhor, como o próprio Mestre nos ensinou a fim de que todos sejam um. (Jo., 17:21)
A fonte da fé: Jesus Cristo, o testemunho de Deus em seu filho Amado.
Quem crê em Jesus é vencedor do mundo (5:5) pois no sentido profundo se eleva acima de
suas deficiências, aprimora-se na renovação mental, é testemunho do Evangelho redentor.
No complemento, João estimula a fé na oração íntima e pelos semelhantes (intercessão).
Epístola de Judas
Na epístola, Judas denomina-se irmão de Tiago, servo de Jesus Cisto; logo filho de Alfeu e irmão de Tiago, o
apóstolo. É mesmo que hoje se conhece com o nome de Judas Tadeu.
Na realidade, a Epístola foi aceita desde o ano 200 pela maioria das Igrejas como escritura canônica.
A intenção de Judas parece ser a de estigmatizar os falsos doutores, quer dizer, o destaque do seu conteúdo é
a preservação da doutrina contra os falsos profetas ou doutores que se dizem conhecedores dela, mas que, com
malícia e degradação, colocam em risco a fé cristã.
Censura a licenciosidade e a impiedade, que podem ter existindo no meio cristão desde o século I, sob a influ-
ência do sincretismo pagão e que foram igualmente combatidas nas Epístolas de Paulo.
Alerta quanto à necessidade do “combate pela fé”, (uma equivalência ao bom combate de Paulo), pelo en-
grandecimento espiritual da criatura (vers. 3) Relembra as palavras de Jesus, quanto à divisão causada pelos segui-
dores da iniquidade (vers. 17 a 19) e aconselha e edificação de cada um na esperança e misericórdia de Jesus,
exortando os fiéis à caridade.
O APOCALIPSE DO APÓSTOLO JOÃO - PRIMEIRA PARTE
Introdução
Apocalipse é uma palavra de origem grega, significando “revelação do futuro”; descerrar o véu.
Para entender o Apocalipse é necessário aprender a técnica de traduzi-lo ou decodificá-lo, tal como um código
secreto. O conhecimento da Verdade pelo homem de hoje, ainda é pequeno, mas o estudo da História da Humani-
dade, pode auxiliá-lo nesse intuito.
Esse desenvolvimento conjuntural histórico ensina que o valor do apocalipse encerra advertência a todos os
povos e nações da Terra (A Caminho da Luz, cap.XIV - Emmanuel).
Aonde a capacidade humana do fiel apóstolo não pôde traduzir a “expressão divina de suas visões”, o homem
atual coloca o bom senso e o esforço da Reforma Íntima até que possa compreendê-las. de qualquer forma, as
guerras, as transformações, o sofrimento dos povos, o comercialismo fraudulento das idéias e ações do espírito
(tanto no plano social como religioso), lá estão gravadas.
Os Apocalipses já eram conhecidos dos judeus (principalmente os essênios de Qunrã, vários séculos antes do
Cristo (Bíblia de Jerusalém). Ex.: O apocalipse dos profetas Ezequiel, Zacarias, e Daniel, no Antigo Testamento
(fazem parte de seus livros), cujo simbolismo é bem parecido ao dos escritos de João, incrustado no Novo Testa-
mento, extraídos da Cabala oral sendo que o discípulo de Jesus imprimiu conotações do ocultismo greco-romano.
João Evangelista, filho de Zebedeu, irmão de Tiago, escreveu-o na ilha de Patmos (cap. 18), no final do 1º sé-
culo (entre 70 e 95 d.C.), na língua grega, e é como “um plano estabelecido” na evolução das civilizações (anos de
Nero e Domiciano, imperadores romanos implacáveis).
O seu sentido maior e essencial é o reerguimento do ânimo dos cristãos que após tantos sofrimentos encontra-
rão um final de Redenção, com a vitória do Bem.
Além da mensagem esotérica (de integração cósmica), temos a sua interpretação histórica, divididas em 2
partes e apresentadas como “Revelação de Jesus Cristo” (cap. 1:1)
1ª parte - Os acontecimentos em Roma e as cartas às igrejas (cap. 1 a 3)
2ª parte - I - Os prelúdios do grande Dia de Deus (cap. 4 a 16)
II - O castigo da Babilônia (cap. 17 a 19)
III - O extermínio das nações pagãs e higienização da Terra (cap. 19 e 20)
IV - A Jerusalém futura (A cidade de Deus). Epílogo, cap. 21 e 22)
As Epístolas do Novo Testamento e o Apocalipse de João 99
Conclusão - O apocalipse fala em desdobramentos espirituais, vidas sucessivas, pluralidade dos mundos, pro-
vações e emigrações coletivas, para tudo desaguar no oceano universal da paz do Reino de Deus, na Cidade de
Deus, como interpretou Santo Agostinho.
1ª parte
1º CAP.: ENDEREÇO E VISÃO PREPARATÓRIA
No 1º versículo encontra-se a autenticação da “Revelação de Jesus Cristo”, sublinhando que foi dada a Ele por
Deus, que notificou, por sua vez, ao Servo João, que dá o seu testemunho.
“Bem aventurados aqueles que vêem e os que ouvem as palavras desta profecia”(1:3). Não adianta apenas a
letra, é importante guardar o sentido moral que nelas estão inscritas, pois são avisos para alterar e prevenir porque o
tempo está próximo”.
João se dirige aos 7 núcleos cristãos principais da Ásia - as 7 Igrejas (1:11), e se diz da parte de Jesus Cristo
(1:5).
Confessa que foi “arrebatado em Espírito”(desdobramento em êxtase), descrevendo a seguir o que via e ouvia
(1:10): “O que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas que estão na Ásia: a Éfeso, Smirna, a Pergamo, a
Tiatira, a Sardo, a Filadélfia e a Laodicéia (1:11).
Não cabe, nesse estudo, aprofundamentos nos arcanos apocalípticos, mas, como sempre, buscar o conteúdo
instrutivo e moral.
Essas 7 igrejas da Ásia encontram seu significado no Oriente, berço dos primeiros caminhos religiosos com
suas filosofias espiritualistas fundamentais.
As letras e as palavras vestem as relações (ou razões) entre os pensamentos. Os números e sua fórmulas
matemáticas vestem as equações (razões) do universo. Ambos são a linguagem da Natureza. Partem dos rendi-
mentos do nosso conhecimento, atravessam a ponte da espiritualidade pela razão (e seu relacionamento com o sa-
ber), alcançando a abstração do que não se vê, pela fé.
Assim, os 7 castiçais de ouro de profunda conexão da tradição judaica, representando as 7 igrejas, são os
condutores da Luz Espiritual Divina, Inteligências purificadoras, Legiões de Justiça e Poder.
Os aparentemente surpreendentes “cabelos brancos como algodão”(1:14) comprovam, mesmo numa visão
escatológica, a antigüidade divina de Jesus Cristo perante a Terra e sua humanidade; daí o ter dito: “Não temas, eu
sou o primeiro e o último”(1:17 e 2:8).
2º E 3º CAPÍTULOS: AS EPÍSTOLAS ÀS IGREJAS
É interessante notas que não são as mesmas dos endereços de Paulo. São mensagens de estímulo à oração
e à vigilância; de advertências e demonstrando conhecer os corações dos dirigentes e fiéis. Delas ressalta que não
é a religião como dístico de fachada que salva, mas a fé e as obras na responsabilidade.
Sete é o número simbólico considerado perfeito que engloba todo o Verbo e a Criação. São os Espíritos da
Co-Criação Maior, que encontram correspondência em todas as grandes religiões, embora com nomenclaturas di-
versas.
Em resumo, o conteúdo dessas cartas é semelhante a todos os tempos; as religiões se perdem nos caminhos
do ritualismo, do mercantilismo, do fanatismo que alimenta os orgulhosos, materializando o sentido espiritual no tri-
vial acomodado da vida, de vez em quando um abnegado operário de Jesus, estimula o retorno ao plano transcen-
dental da alma, acima dos interesses mundanos.
2ª parte
OS Prelúdios do Grande Dia de Deus (cap. 4 a 16)
CAP. 4 E 5: VISÃO DO TRONO DA MAJESTADE DIVINA E O LIVRO DOS SETE SELOS
Nesses dois capítulos, Deus entrega o destino do mundo ao Cordeiro, “O Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi”
(5:5).
Mais uma vez, como em todo o tratado, encontra-se a tradição cabalística judaica, difícil até para os seus
neófitos.
As descrições do trono da Majestade Divina, os 24 anciãos, os 7 círios e as 4 criaturas viventes, encontram
relações com as visões de Ezequiel. Isaías e Daniel, demonstrando a mesma iniciação. Essa visão parece mostrar
Deus (4:3) (que nem sequer é denominado, nem tem forma antropomórfica) num aspecto glorioso de luz. Este Ser
tinha um livro (designando a Terra)fechado com 7 selos, que entregou ao Cordeiro, o qual pelo seu Amor e Sabedo-
ria e pela sua missão Redentora, conquistara direito de resgate à evolução da Humanidade terrestre (5:9). E todos
louvaram o Cordeiro que recebera o galardão dos 7 esplendores de Deus: poder, riqueza, sabedoria, força, honra,
glória e ações de graças, para todo sempre (5:12 e 13)
Curso de Aprendizes do Evangelho100
CAP. 6 A 9: O CORDEIRO ABRE OS SETE SELOS E OS ANJOS TOCAM AS TROMBETAS
Os quatro cavalos e seus cavaleiros do apocalipse de João são encontrados em Zacarias (1:8-10 e 6:1-3) e
tem conexão com os símbolos hindus, o que universaliza os fundamentos da ação dos Espíritos sobre as ações hu-
manas.
São quatro grandes forças (6:1 a 8):
a) Branco - O Evangelho (O Bom Combate)
b) Vermelho - Instintos primitivos, paixões
c) Preto - A ganância
d) Amarelo - a desencarnação, o Juízo e o reajuste.
O final do 6º capítulo traz o aviso do sexto selo (6:12-17)para a mudança da paisagem geográfica da Terra,
semelhante ao Sermão profético de Jesus (MT., cap. 24 e 25).
No cap. 7 é narrado que em todas as circunstâncias, os que servem a Deus, harmonizando-se com sua Au-
gusta Vontade, serão preservados; logo, algumas frações rebeldes dos Espíritos terrenos seriam excluídas e substi-
tuídas num exílio de expiação e aprendizado (A Gênese, cap. XVIII).
A explicação de um certo número de seres em cada “Tribo” leva a um pensamento lógico de que “todos os
caminhos religiosos possuem as mesmas possibilidades de ascensão espiritual”. A individualidade rebelde é que se
exclui (por si mesma) da Nova Era de Regeneração
Os que se esforçam na reforma Íntima e aprimoramento das virtudes estão inscritos no Livro da Vida, do Cor-
deiro de Deus (7:13/16). “Estão trajados de branco” porque “lavaram suas vestes espirituais”(corpo espiritual) no bu-
rilamento das tribulações da vida (trabalho próprio) através dos ensinos do caminho, da verdade com o Cristo. Ha-
verá um só Pastor que os “apascentará conduzindo-os às fontes das águas da vida”.
Nos capítulos 8 e 9, a abertura do sétimo selo é a mais solene, depois de um silêncio de “cerca de meia
hora”(talvez significando a passagem do tempo que na tradição profética procede a “vinda” do Senhor). Tudo o que
estava decretado no livro começa a se desenvolver a cada toque da trombeta (meio de aviso naquela época).
Perante o sofrimento dos povos da Terra, os Santos Espíritos intercederam a Deus com suas orações (8:3) e
conseguiram abreviar a chegada do Grande Dia do Senhor. As quatro primeiras trombetas anunciaram o fogo devo-
rador da purificação em toda terça parte da Terra, pois todo acrisolamento requer profunda transformação. Esta mu-
dança numa terça parte terrena ocasionará lamentáveis distúrbios físicos e psíquicos. Os estudiosos da atualidade
conectam esses acontecimentos com a possível e provável mudança do eixo magnético das nossa terra que, verti-
calizando-se será alterado no contexto angular de 23º30’ (equivalência de 33% - terça parte). Para mais aprofundado
estudo recomenda-se “A Mensagem do Apocalipse” de Nelson Lobo de Barros.
Tantos sofrimentos, talhados pelos próprios homens, ainda nada significam perto das três trombetas restantes.
Após a quinta trombeta (cap. 9) uma “estrela” (espírito) caiu do céu sobre a Terra e foi-lhe dada a chave do
“Abismo”(Is., 14:12). Foram ouvidos três lamentos os “AIS”. Toca a sexta trombeta.
Das trevas, quer dizer, da animalidade egoística e gananciosa dos homens, surgiram a fome e a destruição.
Ainda assim, muitos homens não se arrependeram de suas más obras, sua idolatria, suas iniquidades.
No Cap. 10 encontra-se a iminência do expurgo final, para valorizar o mérito dos bons. Era chegada a hora da
Terra abrigar uma nova geração. O Livro da Vida, contido em suas mãos, tem o sabor (entendimento) doce-amargo
(10:9). Doce porque esta evolução é feita através de tantos sofrimentos calcados nas deficiências morais individuais
e coletivas dos homens, decorrentes do “Bom Combate”, isto é, do abatimento do orgulho e da vaidade.
No cap. 11 a sétima trombeta anuncia o terceiro AI.
Eis o grande dia do Senhor, quando a Humanidade conhecerá a verdade da vida, a vontade do Senhor atra-
vés das suas leis naturais.
“Tendo por Templo de Deus, o Universo; por altar, a consciência; por imagem, Deus em Espírito e
Verdade; por lei, a caridade”(Léon Denis).
Até o capítulo 16, vem a descrição da retomada da espiritualidade na Terra, com a luta constante para a vitó-
ria do amor. O Dragão e o Cordeiro, o falso profeta a serviço da Beta (poderes inferiores) (13/11), tudo significando
uma grande convulsão social com grande semelhança aos tempos atuais.
Em 16:1 “as sete salvas da ira de Deus” significam as sete conseqüências mais graves do erros humanos. É a
lei de ação e reação. Cinco taças de profundos reajustes foram enviadas.
Ainda assim João narra que o homens não se arrependeram nem glorificaram ao Senhor (16:9/10).
“Bem aventurado aquele que vigia”(16:15). Está pronta a batalha da espiritualidade contra a materialidade.
Segue a narração: “O sétimo anjo derrama sua taça e o céu anuncia: “Está feito”.
Fenômenos cósmicos influenciam as potências terrestres; as forças magnéticas da Providência Divina perpas-
sam a Terra para a limpeza do padrão vibratório inferior.
Todos lamentam, mais ainda ninguém se lembra de Deus.
O APOCALIPSE DO APÓSTOLO JOÃO - SEGUNDA PARTE
O Castigo de Babilônia (cap. 17 a 19)
Todos os flagelos passados não tocaram os corações ainda endurecidos de uma grande parte da civilização.
Torna-se necessária uma reedificação espiritual das pontencialidades que representam a Providência Divina: os
Grandes Espíritos da Renovação Mental que atuam sobre as Ciências, as Artes, a Filosofia e a Caridade.
As Epístolas do Novo Testamento e o Apocalipse de João 101
A Babilônia pervertida é personificada numa mulher corrupta que infecta, perverte e adúltera os povos in-
conscientes, mergulhados no prazer vicioso, na ambição e dureza de coração de sua felicidade religiosa.
Não se busca neste estudo uma interpretação com mais profundidade, a qual poderia modificar pontos de
vista fundamentais pela impropriedade dos debates que poderiam advir.
Neste capítulo 17, dos versículos 8 a 18, é narrada a existência, através dos séculos, de vários Anticristos que
tentarão combater os ensinos morais do Cristo e que, certamente, não prevalecerão.
O castigo, que é a retomada do equilíbrio e da harmonia da Terra, é iminente (cap. 18).
A auto-suficiência científica e agnóstica, a inversão dos valores morais e éticos, o abuso do seco e das drogas,
serão eliminados pelo despertar da “fome e sede de Justiça”(18:14), onde os que sacrificam e exploram os outros
para gozarem suas delícias de bem estar egoísta e passageiro (que na verdade os tornam escravos dos desejos e
paixões primitivas), sentirão a busca do “porquê” das coisas, das verdades “escritas” nas leis naturais que regem a
vida física e espiritual.
O enriquecimento ilícito e abusivo das fraquezas humanas, (como o comércio criminoso das drogas e a pros-
tituição) não mais encontrará respaldo em seus consumidores. (18:16)
Como uma grande pedra lançada ao mar, disse um anjo: “Assim será lançada a Babilônia e jamais será acha-
da”. (18:21)
O Extermínio das Nações Corruptas (Cap. 19 a 20)
No capítulo 19 é chegado o extermínio das nações e povos ambiciosos e materialistas.
Depois de toda higienização social e espiritual passada, começa um novo tempo para uma nova geração.
“Bem aventurados aqueles que são chamados à ceia do Cordeiro”. (19:9). É preciso ter a túnica nupcial (corpo
espiritual da ressurreição).
Agora chega o cavalo branco vencedor - o Evangelho, como Código Moral dos Espíritos (19-11) e todos que
os seguem são cheios de pureza (19:14). O mal e todos os seus seguidores são exilados (cap. 20). Depois importa
que seja libre sua ascendência sobre os homens (por pouco tempo) para que haja provas e méritos através do livre
arbítrio.
Nota-se aqui, que os Espíritos inferiores foram apartados da Humanidade por auxílio das Entidades Superio-
res, para reorganização do planeta e não pelos sentimentos dos homens.
Durante “1000 anos” eles terão oportunidade de aprimoramento na sabedoria e no amor: é a regeneração,
onde muitos bons estarão influenciando os fracos de caráter. (20:3 a 6)
Chega-se a um ponto fundamental de ensino moral - cap. 20:12 e 13 - e foram julgados segundo as suas
obras, encarnados e desencarnados.
Os reprovados forma para a “segunda morte” que pode corresponder ao expurgo planetário, onde encontrarão
novas moradas primitivas do Senhor, para seus realinhamentos espirituais. Do átomo ao arcanjo, tudo é criação di-
vina no seu plano evolutivo. (LE qt. 540)
A Jerusalém Futura - Epílogo (cap. 21 e 22)
Um novo céu, uma nova Terra, eis a aurora da Nova Era. A Jerusalém futura é a Terra consagrada ao direito
divino do Amor, com sua Humanidade espiritualizada. É a Cidade de Deus.
É a “esposa ataviada para seu esposo”(21:2), a aliança espiritual e imortal.
Todas as dores, todas as lágrimas são já passadas pelo cadinho purificador.
Aquele que é o Princípio e o Fim faz novas todas as coisas, pois as contém em si mesmo.
É o capítulo de um Terceiro Milênio de Regeneração, onde o saber se ampara no coração meigo e manso do
Cristo.
Os Espíritos vencedores permanecerão e “herdarão a Terra” prometida aos mansos e “Eu serei seu Deus e
eles serão meus Filhos” (21:7)
E nesta “Cidade de Deus” não há templo, pois o seu templo é o Senhor Deus Todo Poderoso, que é onipre-
sente e onisciente.
A esfera vibratória da Terra, agora, se tornam sua própria defesa, pela luminosidade da ligação com o Plano
Mais Alto. Ela “Não precisa” mais de sol ou de lua, pois que a luz do Cristo é o seu farol, a sua diretriz, que descerra
os véus esclarecendo o caminho da evolução espiritual (21:24).
As portas desta Humanidade redimida jamais se fecharão para a Glória de Deus (21:25), que a inscreverá,
como vitória final do Cristo, na Confraternização Universal.
“Bem aventurados os que guardam os ensinamentos destas profecias”(22:7)
João prostrou-se aos pés do anjo que lhe auxiliara as visões e este respondeu-lhe:
“Sou um converso teu. Adora a Deus”(22:9)
“A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Assim seja”. (22:21)
Capítulo 44
AS DETURPAÇÕES DO CRISTIANISMO
Apesar do dicionários definirem o cristianismo como “o conjunto das religiões cristãs, ou seja, baseadas nos
ensinamentos, na pessoa e na vida de Jesus Cristo” e cristão como “a pessoa que segue a religião do Cristo”, pode-
mos observar que Jesus não fundou religião alguma, não estabeleceu hierarquias religiosas, não criou nem estimu-
lou rituais ou cultos. O que conhecemos hoje como cristianismo, representado pela inúmeras religiões e seitas cha-
madas cristãs, não só confunde e dificulta o entendimento dos verdadeiros ensinos de Jesus, como , em muitas ve-
zes, deles se afastam completamente.
Enquanto os primeiros cristãos conseguiram manter-se fiéis ao pensamento de Jesus, a Doutrina Cristã sobre-
viveu com toda a sua pureza. Sua doutrina de amor e perdão trazia nova luz aos corações e os seus seguidores
destacavam-se do ambiente corrupto do tempo, pela pureza de costumes e por uma conduta retilínea e exemplar.
No segundo século, o cristianismo exerce sua influência em quase todas as atividades intelectuais. Tertuliano
apresenta sua Apologia, enquanto Clemente de Alexandria e Orígenes surgem defendendo a filosofia cristã. Com
eles levanta-se um verdadeiro exército de vozes que advogam a causa da verdade e da justiça, da redenção e do
amor.
No entanto, com o edito de Milão, o poder Romano incorpora-se às hostes cristãs, e o cristianismo ascende à
tarefa de Estado. A partir daí, observou-se uma completa e radical deturpação de seus princípios, através de adapta-
ções de textos, acordos com as doutrinas pagãs, entendimentos políticos, criação de dogmas, adoração de ídolos,
cultos externos, estabelecimento do Papado, a organização do Catolicismo, a simonia, etc, que vieram a gerar, futu-
ramente, os grandes erros como as Cruzadas, a Inquisição e as lutas sangrentas com os protestantes.
Hoje milhões de pessoas se dizem cristãs, por tradição ou escolha, por terem aderido a alguns preceitos dou-
trinários que julgam ser exatamente o cristianismo do Cristo, tal como ele teria ensinado na Palestina há quase vinte
séculos. Na realidade, a essência do ensinamento de Jesus foi deliberadamente esquecida ou modificada, a fim de
que prevalecessem os interesses mesquinhos e transitórios dos homens, no uso e gozo do poder passageiro. Jesus
foi transformado em um Deus que morreu para nos purificar de nossos erros, e o Reino de Deus deixou de ser uma
realização pessoal para ser uma graça ou uma escolha arbitrária.
Há necessidade, portanto, de retornarmos à grande mensagem de Jesus, que é a da realidade do ser espiritu-
al, com todas as suas conseqüências.
QUADRO
ADULTERAÇÕES DO CRISTIANISMO APÓS O SÉCULO IV
⇒ Judaísmo • Jejuns, abstenção de certos alimen-
tos
• Ato de orar de joelhos
⇒ Roma • Festas religiosas
• Procissões
• Vestes sacerdotais, incenso, água
benta
• Altares, venerações a santas
(deuses)
⇒ Grécia • Dias santos
• Ritual e mistérios da missa
⇒ Trácia, Síria e Frí-
gia
• Ato de confessar pecados
• Uso do pão e vinho na missa
• Virgindade da grande mãe
⇒ Egito • Idéia da Santíssima Trindade, do Juí-
zo Final
• Conventos e mosteiros
As Epístolas do Novo Testamento e o Apocalipse de João 103
Capítulo 45
O ESPIRITISMO E O CRISTIANISMO
Quando buscamos a característica marcante da passagem de Jesus pela Terra, o ponto básico da sua revela-
ção, vamos encontrar o selo constante da mais pura caridade e do mais abnegado amor. Suas parábolas e adver-
tências estão impregnadas de verdades eternas e gloriosas. Seus exemplos e atos constituem um roteiro de todas as
grandiosas finalidades no aperfeiçoamento da vida terrestre.
Ele fez uma revolução espiritual que permanece no globo há dois milênios. Respeitando as leis do mundo, en-
sinou-nos a elevação para Deus. Remodelou os conceitos da vida social, estabelecendo como base a fraternidade.
Escolheu os ambientes mais pobres para viver a intensidade se suas lições sublimes, mostrando aos homens que a
verdade dispensava o cenário suntuoso dos areópagos, dos fóruns e dos templos, para fazer-se ouvir na sua misteri-
osa beleza.
Espalhou mais claras visões às criaturas, ensinando que existe algo superior às pátrias, às bandeiras, ao san-
gue e às leis humanas. De suas lições decorrem conseqüências para todos os departamentos do planeta, no sentido
da renovação dos institutos sociais e políticos, com a transformação moral dos homens.
O Espiritismo vem, ao seu turno, revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natu-
reza do mundo espiritual, e suas relações com o mundo material. Mostra esse mundo não como sobrenatural, mas
como a fonte de uma infinidade de fenômenos que até então não eram compreendidos, e por isso eram rejeitados
para o domínio do fantástico e do maravilhoso. Jesus se referiu a essas relações em muitas circunstâncias, porém
muitas coisas que Ele falou ficaram ininteligíveis ou foram interpretadas erroneamente.
A revelação cristã sucedeu à revelação mosaica. A revelação dos Espíritos vem desenvolvê-la, completá-la,
explicá-la em termos claros para todos. Vem cumprir o que Jesus anunciou - “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará ou-
tro Consolador” (João,14:16) - e pode-se acrescentar que é Ele próprio quem a preside.
O Espiritismo não está personificado em ninguém, pois é produto do ensino dado não por um homem, mas
pelos Espíritos, em todas as partes da Terra, através de uma multidão inumerável de médiuns. Como essa revelação
não se efetua pelo veículo da ortodoxia, vemos as igrejas e religiões estabelecidas combaterem-na; o mesmo se deu
com a revelação cristã em relação ao sacerdócio judaico. No entanto, os Espíritos se manifestam fora e acima das
igrejas, dirigem-se a todas as raças e todos os credos, escapam das discussões estéreis, das lutas de interesse, do
conflito das paixões, e vem oferecer a todos a palavra divina da esperança, da paz e da consolação, revivendo o en-
sinamento puro do Mestre.
Esta é uma das missões do Consolador: nos fazer lembrar de tudo aquilo que Jesus havia ensinado, e que sa-
bia que sofreria deturpações ao longo dos séculos (cf. João,14:26). Se hoje observamos atentamente, veremos
Jesus transformado num mito inalcançável, personificação do próprio Deus, como se os homens quisessem de-
monstrar que é impossível ser como Ele foi, que é impossível fazer o que Ele fez, que é impossível agir como Ele
ensinou. Mas os Espíritos nos fazem recordar:
Jesus afirma: Meu reino não é deste mundo - e o Espiritismo nos mostra que além da vida material existe o
mundo espiritual; que somos Espíritos e não matéria; que a realeza terrestre é temporária e perecível;
Jesus revela: Há muitas moradas na casa do Pai - e o Espiritismo nos ensina a pluralidade dos mundos habi-
tados e a existência de faixas espirituais diferentes para os diferentes graus de evolução espiritual;
Jesus lembra a Nicodemos: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo - e o Espiritismo nos
mostra o processo reencarnatório como etapa fundamental para o crescimento do espírito, na sua ascensão a planos
cada vez mais elevados;
Jesus proclama: Bem aventurados os que choram, por que serão consolados - e o Espiritismo nos explica as
causas atuais e anteriores das aflições, mostrando a dor como recurso de justiça e o sofrimento como remédio
amargo, porém passageiro;
Jesus alerta: Ninguém pode servir a dois senhores - e o Espiritismo demonstra que não podemos esperar uma
vida espiritual tranqüila enquanto estivermos apegados aos bens materiais, ao sentimento de posse, à necessidade
de poder;
Jesus indica: Sede perfeitos - e o Espiritismo nos mostra como seres criados simples e ignorantes, mas todos,
sem exceção de qualquer tipo, destinados à perfeição relativa;
Jesus aconselha: Pedi e obtereis - e o Espiritismo demonstra a eficácia da prece sincera, pela comunhão de
pensamentos, pela transmissão fluídica, pelo socorro prestado pelo amigos espirituais;
Jesus ensina: Fazer ao outro o que queremos que nos façam - e o Espiritismo revela a lei de causa e efeito,
de ação e reação, segundo a qual nenhuma de nossas atitudes, de nossos pensamentos, de nossas palavras é per-
dido; mostra que recebemos na mesma medida que damos; que nossa felicidade real se prende ao bem que fizer-
mos e ao mal que evitarmos;
Enfim, Jesus aponta o grande mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo
como a ti mesmo - e o Espiritismo mostra que Fora da caridade não há salvação.

Livro curso de aprendizes do evangelho (1)

  • 1.
  • 2.
    Índice 1. O VELHOTESTAMENTO 1 2. VISÃO GERAL DO NOVO TESTAMENTO 4 3. A PALESTINA: ASPECTOS HISTÓRICOS 7 4. FATOS DA VIDA DE JESUS: NASCIMENTO E INFÂNCIA 10 5. FATOS DA VIDA DE JESUS: PRISÃO E MORTE 12 6. FATOS DA VIDA DE JESUS: QUESTÕES POLÊMICAS 15 7. JOÃO BATISTA, O PRECURSOR 19 8. OS DOZE APÓSTOLOS 21 9. O SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO 23 10. O SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS QUE CHORAM E OS QUE SOFREM PERSEGUIÇÃO POR AMOR DA JUSTIÇA 26 11. O SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS MANSOS E PACIFICADORES 27 12. O SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS QUE TEM FOME E SEDE DE JUSTIÇA E OS MISERICORDIOSOS.29 13. SERMÃO DO MONTE: BEM AVENTURADOS OS LIMPOS DE CORAÇÃO E QUANDO INJURIAREM 30 14. O SERMÃO DO MONTE: “VÓS SOIS O SOL DA TERRA” “O JURAMENTO” 32 15. O SERMÃO DO MONTE: “OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE” “SEDE PERFEITOS” 35 16. O SERMÃO DO MONTE 37 17. SERMÃO DA MONTANHA: SÓ DEUS PODE JULGAR E A CASA SOBRE A PEDRA 40 18. JESUS E A PRECE 42 19. OS MILAGRES E O EVANGELHO 44 20. MEDIUNIDADE NO EVANGELHO 46 21. AS APARIÇÕES DE JESUS APÓS SUA MORTE 50 22. AS CURAS NO EVANGELHO 52 23. A OBSESSÃO NO EVANGELHO 56 24. O SERMÃO DO CENÁCULO 59 25. O SERMÃO PROFÉTICO 61 26. PARÁBOLAS COMPARATIVAS DO REINO DOS CÉUS 62 27. PARÁBOLAS SOBRE O DESAPEGO ÀS RIQUEZAS TERRENAS 65 28. PARÁBOLAS SOBRE A VALORIZAÇÃO DAS OBRAS DO HOMEM 68 29. PARÁBOLAS SOBRE AS FALSAS APARÊNCIAS 71 30. PARÁBOLA SOBRE A VIGILÂNCIA, PRUDÊNCIA E VALORIZAÇÃO DO TRABALHO 73 31. MARIA DE MAGDALA 75 32. ZAQUEU, O PUBLICANO 76 33. JUDAS ISCARIOTES 77 34. OS FILHOS DE ZEBEDEU 78 35. MARTA E MARIA 79 36. LUCAS, O EVANGELISTA 80 37. O COLÓQUIO COM NICODEMOS 81 38. A MULHER SAMARITANA 82 39. A MULHER ADÚLTERA 83 40. ATOS DOS APÓSTOLOS - A MISSÃO DE PEDRO 84 41. ATOS DOS APÓSTOLOS - O PAPEL DE PAULO 85 42. AS CARTAS PAULINAS 86 43. AS EPÍSTOLAS DO NOVO TESTAMENTO E O APOCALIPSE DE JOÃO 96 44. AS DETURPAÇÕES DO CRISTIANISMO 102 45. O ESPIRITISMO E O CRISTIANISMO 103
  • 3.
    Capítulo 1 O VELHOTESTAMENTO A Bíblia é composta de um conjunto de 73 livros, sendo 46 do Antigo Testamento e 27 do Novo, subdivididos em três grandes categorias: livros históricos, doutrinais e proféticos, segundo os teólogos e exegetas. As edições protestantes não trazem alguns livros chamados deuterocanônicos. Ex. Judite, Daniel, Eclesiastes, etc. Os livros do Antigo Testamento escritos uns em hebraico e outros em aramaico foram traduzidos para o gre- go. De modo geral, os livros relatam a aliança e as relações entre Deus e os Hebreus até o nascimento de Jesus, por isso são chamados também de “Antiga Aliança”, fundamento da Religião Judaica. Os mais antigos manuscritos bíblicos, hoje conhecidos, foram descobertos a partir de 1947, graças a um fortuito encontro em uma caverna perto do Mar Morto. Por isso são conhecidos como os “Manuscritos do Mar Morto”, os “Manuscritos de Qumrâm”, nome do lugar em que estavam. Alguns são do século II a. C. (A Bíblia de Jerusalém, Edições Paulinas) Entre as traduções da Bíblia, as mais antigas e famosas são: a Versão dos Setenta e a tradução feita por São Jerônimo, chamada Vulgata. Recentemente, após as descobertas dos Manuscritos do Mar Morto, processou-se sua tradução, por especialistas de diferentes religiões cristãs, procurando-se eliminar os desvios semânticos, decorrentes das modificações da língua através dos tempos e de diferentes interpretações, para que se chegasse a um denomi- nador comum.. Essa tradução foi designada de “A Bíblia de Jerusalém”. Os 46 livros do Velho Testamento subdividem-se em históricos, doutrinais e proféticos, mais o Pentateuco, chamado de A Lei. LIVROS HISTÓRICOS: São os livros do Pentateuco e os de Josué, Juízes, Ruth, Rei, Macabeus e outros, ao todo 21, os quais narram a história do povo hebreu. O livro de Josué relata a conquista da Terra da Promissão e sua distribuição pelas tribos. O Juízes mostra a história dos judeus sob o governo dos Juízes. Samuel fala sobre os reis Saul e Davi. O livro de Reis registra a história de Salomão até a destruição do Templo de Jerusalém, pelos babilônios. Esdras narra a volta do exílio de grupo de judeus. Cada livro narra uma parte da história hebréia. LIVROS DOUTRINAIS: São os Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Sabedoria e outros, ao todo 7. Estes livros indicam sempre uma rota a seguir pelo homem de bem. Qualquer que seja sua forma de apre- sentação são sempre norteadores de conduta, indicação de caminho, regras morais, preces, hinos etc. O Livro dos Salmos, ou Saltério, é uma coleção de poemas sagrados compostos por vários autores inspirados, dos quais o mais importante e conhecido é o rei Davi (A Bíblia Sagrada, Edição Barsa). O Saltério (palavra de origem grega), é o nome de um instrumento de cordas que acompanhava os cânticos, os salmos e, por extensão, passou a denominar a coletânea dos Salmos. O Povo de Israel, assim como seus vizinhos, cultivou a poesia lírica de várias formas através dos Salmos. Todo povo sensível se transcende através da palavra cantada, onde o som se harmoniza mais facilmente com as esferas mais altas. O valor espiritual dos salmos ou sua riqueza religiosa os transformaram nas preces do Antigo Testamento (súplicas, ações de graças e profecias do Messias). O livro dos Provérbios é um conjunto de regras práticas para se viver com sabedoria e representa vários sé- culos de reflexão dos sábios, desde Salomão; por isso muitas vezes é citado por Provérbios de Salomão. A sabedo- ria é personificada em justiça e verdade, mas, embora de bons sentimentos morais, seu ensinamento foi superado pelas parábolas de Jesus. LIVROS PROFÉTICOS: São os de Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Joel e outros, ao todo 18. Estes livros, de modo geral, registram as principais profecias dos missionários profetas de Israel. Isaías (séc. VIII a.C.) prevê a vinda do Messias; a ruína de Israel por sua infidelidade; a ruína da Babilônia etc. Jeremias (séc. VII a.C.) vaticina sobre a ruína de Jerusalém e Judá. Ezequiel e Daniel (séc. VI a.C.) viveram no exílio da Babilônia, tendo Daniel profetizado vários fatos, tornando-se, inclusive, magistrado na corte do Rei Nabucodonosor. É bom observar que o estudo do Velho Testamento deve ser acompanhado pela observação sistemática em mapas geográficos da época, que mostram os lugares mais importantes e as razões de certas situações, ampliando o visual do estudante. A leitura do Antigo Testamento mostra que Jesus respeita suas leis e as devolve ao legítimo sentido. Cristo conclui a Nova Aliança, pela qual os cristãos, como herdeiros de Abraão, estão no Novo Testamento. (Gálatas, 3:15 a 29). Os Espíritas, diz Emmanuel em O Consolador, questão 360, como “novos discípulos do Evangelho devem compreender que os dogmas passaram. E as religiões liberalistas, que os construíram, sempre o fizeram simples- mente em obediência a disposições políticas, no governo das massas. Dentro das novas expressões evolutivas, po-
  • 4.
    Curso de Aprendizesdo Evagelho2 rém, o espiritista deve evitar as expressões dogmáticas, compreendendo que a Doutrina é progressiva, esquivando- se a qualquer pretensão de infabilidade, em face da grandeza inultrapassável do Evangelho”. Por isso, pode-se dizer que por meio do Espiritismo, Jesus, cumprindo suas promessas (Jo., 14:16-26 e 16:12- 14), renova sua Aliança com os Homens, em geral, fazendo-os, todos, herdeiros do seu Cristianismo Redivivo, de forma que todas as ovelhas pudessem ser conduzidas, sem exceção, ao aprisco do Senhor, no caminho da plurali- dade das existências. MOISÉS E SUA MISSÃO PLANETÁRIA E O ÊXODO Durante 430 anos a família e os descendentes de Jacó permaneceram no Egito, transformando-se em um povo numeroso - o povo de Israel (Ex. 12:40). Os Egípcios, sentido-se ameaçados, impunham-lhes pesados tributos através da coréia (trabalho gratuito ao Senhor). Para evitar o aumento de reprodução israelita, o Faraó Ramsés II, em torno de 1250 a.C., determinou o afo- gamento no rio Nilo de seus filhos recém-nascidos do sexo masculino. Jocabel, mulher de Amran, neto de Levi, deu à luz um menino e amamentou-o por três meses. Temerosa de que os guardas o descobrissem, arquitetou colocá-lo no rio Nilo, num cesto forrado de betume, à hora do banho da princesa Termutis, filha de Ramsés II. (Ex. 2). A princesa recolheu-o e adotou-o como filho. Certamente Moisés foi um Espírito missionário de alta hierarquia, com uma difícil tarefa: libertar o povo hebreu do jugo egípcio e codificar as leis divinas de caráter universal (O Decálogo). Educado em palácio, iniciado nos cultos herméticos dos faraós e sacerdotes, sempre se destacou por sua per- sonalidade de liderança. Após um incidente com um guarda egípcio, Moisés mata-o, em legítima defesa, e tem de fugir. Vai para Madiã, ao sul da Palestina, onde se casa e passa 40 anos pastoreando, também aprendendo os cami- nhos do deserto. Um dia, nas imediações do Monte Sinai, o mesmo onde recebeu o Decálogo, anos mais tarde, Moisés ouviu a chamada à sua missão, quando Deus “lhe fala” do meio da sarça ardente. (Ex., 3). Moisés volta ao Egito com sua família. Reinava, então, Menerphtah, filho de Ramsés II (Ex., 4:18) e tendo seu irmão mais velho, Arão, como intér- prete de sua vontade junto ao Faraó,. pediu a liberdade de seu povo. Depois de muitas dificuldades, e pragas terríveis o Faraó, ainda assim, não concordou com sua saída (Ex., cap. 7 a 11). Face a não concordância do Faraó, o Senhor instituiu a páscoa (Ex., 12), na qual os hebreus deveriam marcar as ombreiras das portas com o sangue dos cordeiros imolados, assinalando sua presença para que seus primogêni- tos não fossem atingidos pela praga destruidora. Disse então o Faraó a Moisés. “ide e servi ao Senhor, como tendes dito” (Ex., 12:31). Inicia-se o Êxodo mas, arrependendo-se, o Faraó persegue-os até às margens do Mar Vermelho (na região do Mar dos Juncos) onde os soldados egípcios são tragados pelo mar, depois da passagem de Moisés e seu povo. (Ex., 14) Não se sabe ao certo qual o caminho percorrido pelos israelitas no deserto, mas a probabilidade maior é a di- reção sul, ao longo da costa do Mar Vermelho e depois em direção do Monte Sinai. Em Êxodo, capítulo 19, lê-se que no terceiro mês da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, Moisés sobe ao monte e lá recebe os Dez Manda- mentos. O DECÁLOGO E AS LEIS TRANSITÓRIAS Fala Emmanuel, em O Consolador, questão 269, que embora Moisés trouxesse consigo as mais elevadas fa- culdades mediúnicas, era “impossível que o grande missionário dos judeus e da Humanidade pudesse ouvir o Espí- rito de Deus”. Diz, ainda, que após o advento do Espiritismo, o homem está habilitado a compreender que os dez mandamentos forma ditados por emissários de Jesus, “porquanto todos os movimentos de evolução material e espi- ritual do orbe se processaram, como até hoje se processam, sob o seu augusto e misericordioso patrocínio.” Diz Kardec (ESE, cap. I) que “há duas partes distintas na lei mosaica: a lei de Deus, promulgada sobre o Monte Sinai, e a lei civil ou disciplinar, estabelecida por Moisés”. A lei de Deus, ou Decálogo, é uma lei “de todos os tempos e de todos os países, e tem, por isso mesmo, um caráter divino”. Todas as demais leis estabelecidas por Moisés, contidas no Levítico, Números e Deuteronômio, eram transitórias, porque o grande Patriarca foi “obrigado a manter pelo temor um povo naturalmente turbulento e indisciplinado, no qual tinha de combater abusos arraigados e preconceitos adquiridos durante a servidão do Egito. Para dar autoridade às suas leis, ele teve de lhes atribuir uma origem divina, como fizeram todos os legisladores dos povos primitivos. A autoridade do homem devia apoiar-se so- bre a autoridade de Deus.” Passaram quarenta anos no deserto inóspito, para depuração de sua geração e preparo da nova nação, no bu- rilamento da alma do seu povo para a reforma íntima. Ao final deste tempo, dirigiram-se ao vale de Arabá (sul do Mar Morto) entrando pelo lado oriental do Edom e subindo até às terras de Moab e Amon. Acamparam nas estepes de Moab, à margem esquerda do rio Jordão, em frente a Jericó. Moisés, sentindo-se no final de sua vida terrestre, escolhe Josué como novo líder e discursa ao povo falando do término de sua tarefa, da continuidade por Josué e por fim dá sua bênção a todas as tribos e sob ao Monte Nebo. “Tinha Moisés a idade de 120 anos quando morreu.”(Deut., 34:7), deixando na história dos homens a marca de sua personalidade missionária, como líder de um povo, como legislador extraordinário e como “legítimo emissário do plano superior, para entregar ao mundo terrestre a grande e sublime mensagem da primeira revelação”(O Consola- dor, questão 270, Emmanuel).
  • 5.
    Visão Geral doNovo Testamento 3 O PENTATEUCO Pode-se dizer que o Pentateuco é o “livro da Lei de Moisés” - a Torá, como é chamado na Bíblia Judaica. É composto de cinco livros. A composição literária é atribuída a Moisés, afirmado por Jesus e apóstolos (Jo., 1:45), embora não haja confirmação de que ele tenha escrito os cinco livros (A Bíblia de Jerusalém). O Pentateuco contém um conjunto de prescrições e postulados que orientam a vida moral, social e religiosa do povo judeu e se divide em: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Gênesis: Este primeiro livro contém a história primitiva; a criação do universo e do homem; o pecado original e toda sua consequência até o dilúvio. Depois do dilúvio, tem-se o início da era patriarcal e todo o referencial gene- alógico das tribos que compõem a história do povo hebreu. Êxodo: Neste livro encontra-se a libertação dos judeus do Egito; a “Aliança com Deus” no Sinai, com o Decá- logo; a instituição de leis reguladoras da atividade social e religiosa, tais como leis sobre servos, violências, proprie- dades, deveres dos Juízes etc. e, ainda, regeras para o uso do tabernáculo, objetivando resguardar a pureza do mo- noteísmo, contra as idolatrias e costumes arraigados por tanto tempo na convivência com os egípcios. Levítico: é um livro legislativo, que regula o ritual dos sacrifícios de purificação e agradecimento; investidura de sacerdotes; leis sobre alimentação animal; sobre a purificação da mulher depois do parto; sobre a saúde e cuida- dos com a lepra; sobre casamentos ilícitos etc., com instituição de penas aos faltosos. Números: É o quarto livro de Moisés. Refere-se ao recenseamento “de toda a congregação dos filhos de Is- rael, segundo suas famílias, segundo a casa de seus pais, contando todos os homens, nominalmente, cabeça por cabeça”(Nm., 1:2). Aí registra-se também a primeira tentativa de se entrar em Canaã (Nm., 13); a rebelião contra o sacerdócio de Arão (Nm., 16 e 17); o direito de herança etc. Deuteronômio: É o quinto livro de Moisés. Encerra um conjunto de três discursos de Moisés ao seu povo. No primeiro, conta a história de Israel e de de seus objetivos para chegar à Terra Prometida, exortando-os à obediência. No segundo, Moisés conta a história da legislação, falando-lhes dos dez mandamentos e relembrando as leis edita- das anteriormente e da necessidade de sua obediência. No seus últimos atos, Moisés fala da nova aliança de Deus com o povo e das promessas da misericórdia divina; da indicação de Josué como seu sucessor e sua bênção ao seu povo, antes de sua morte. QUADRO I - O Decálogo 1. Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás deuses estrangeiros diante de mim. Não farás para ti imagens de escultura, nem figura alguma de tudo o que há em cima no Céu, e do que há embaixo na terra, nem de coisa que haja nas águas, debaixo na terra. Não andarás, nem lhes darás culto. 2. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão. 3. Lembra-te de santificar o dia de sábado. 4. Honrarás a teu pai e a tua mãe, para teres uma dilatada vida sobre a Terra. 5. Não matarás. 6. Não cometerás adultério. 7. Não furtarás. 8. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo. 9. Não desejarás a mulher do próximo. 10.Não cobiçarás a casa do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem outra coisa alguma que lhe pertença. Fonte: Evangelho Segundo o Espiritismo - Cap. I
  • 6.
    Capítulo 2 VISÃO GERALDO NOVO TESTAMENTO O Novo Testamento é composto por um conjunto de 27 livros classificados em históricos, doutrinais e proféti- cos. São históricos os quatro Evangelhos, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João e o Atos dos Apóstolos. São livros doutrinais as 21 epístolas de Paulo, Tiago, Pedro, João e Judas. O livro profético é o Apocalipse. O EVANGELHO O Evangelho é uma palavra de origem grega e significa Boa Nova. Essa Boa Nova é a notícia solene de uma doutrina moral, onde os exercícios da lei da justiça, com misericórdia, do saber e do amor, da humildade e da cari- dade, da fé e da esperança, fundamentam a ação da reforma íntima do ser humano, dando à ressurreição do espírito o caráter de evolução, com responsabilidade individual e coletiva, possibilitando através do aprendizado e do conví- vio fraterno, o direito da graça e da honra de se conhecer a Deus, ingressando no Seu Reino. Por isso Jesus, o Cristo, ensinou: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma e de todo teu pensamento. Este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos, depende toda a lei e os profetas”. (Mateus, 22:37 a 40) Numa visão global, abrangendo todo o contexto histórico e moral do Evangelho, destaca-se a idéia profunda e impressionante da exemplificação de Jesus, que transcende seu campo de trabalho, na sua curta vida terrena, em uma época de transição mundial (onde a busca do saber e das conquistas, sufocava o valor da ação do amor), a ponto de se tornar um marco na História da Civilização, que conta os seus dias a partir do seu nascimento. Uma análise sensível e meditativa do Evangelho dá ao homem a compreensão e paciência para a vida; en- che-o de coragem e fé; ensina-lhe a servir a Deus através de seu semelhante, e a conquistar o “Reino de Deus” pelo entendimento da verdade. André Luiz, (Os Mensageiros, cap. 36.) narra momentos lindos, demonstrando que o “Evangelho dá equilíbrio ao coração”, envolve e extrapola segundo as possibilidades individuais de recepção da luz espiritual. Jesus asseverou aos seus discípulos: “Se permanecerdes nas minhas palavras, verdadeiramente sereis meus discípulos. E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. (João, 8:31 e 32) Allan Kardec (ESE, Introdução), explica que a Boa Nova pode ser dividida em cinco partes: os atos comuns da vida do Cristo, os milagres, as predições, as palavras que serviram para o estabelecimento dos dogmas da Igreja e o ensino moral. OS QUATRO EVANGELISTAS O Evangelho de Jesus está escrito em quatro livros, segundo o entendimento e inspiração de cada evangelis- ta: Mateus, Marcos, Lucas e João. Os três primeiros se assemelham, daí o nome de sinóticos. A tradição eclesiástica reconhece Mateus como o primeiro evangelista, embora haja discussões improdutivas a respeito. No livro “Paulo e Estevão”, 2ª parte, ca. I, Emmanuel diz que Paulo recebeu de Ananias umas notas dispersas com elementos da tra- dição apostólica, o qual o informou sobre a aquisição do Evangelho na “Casa do Caminho”, em Jerusalém (cópia in- tegral das anotações de Levi, isto é, Mateus). Mateus: o Levi publicano, coletor de impostos em Cafarnaum, foi um dos quatro evangelistas, membro do co- legiado apostólico. Suas primeiras anotações foram feitas na Palestina, em hebraico, para os judeus convertidos. Sua idéia original foi converter e edificar, ilustrando a fé. Marcos: João Marcos, primo de Barnabé, fez a primeira viagem com Paulo e foi discípulo de Pedro, daí a di- zer-se que ele é “um eco da voz de Pedro”. Seu nome hebraico era João, o latino Marcos (Atos, 12:25). Destaca os aparentes fracassos de Jesus perante os homens, para comprovar os desígnios de Deus (Era necessário que o Cristo sofresse para resgatar os homens”- 9:12, 10:45, 14:24) e culmina com o triunfo do ressurgimento do túmulo. Lucas: escritor de grande talento, amigo inconteste de Paulo de Tarso, médico dos homens e das almas, nas- ceu em Antióquia, perto de Tarso (Síria). Seu trabalho é o resultado de muita ordem e informações pessoais com os Apóstolos, Maria e Discípulos. Foi escrito para os pagãos convertidos. Sem o terceiro evangelho não teríamos 16 das mais belas parábolas de Jesus. Segundo Emmanuel (Paulo e Estêvão, 2ª parte, cap. VIII), Paulo em sua última viagem a caminho de Roma, pede a Lucas que faça “suas anotações de modo simples e nada comente que não seja para glorificação do Mestre, no Seu Evangelho imortal”. Esses trabalho de pesquisa deu oportunidade de uma narração mais completa da vida e obra de Jesus. João: o “discípulo que Jesus mais amava”, era irmão de Tiago (filhos de Zebedeu e Salomé). Ele narra o epi- sódio dos primeiros discípulos com a propriedade e os pormenores de quem foi testemunha ocular, desde o primeiro milagre, nas Bodas de Caná, até aos pés da cruz, com a doce herança da mãe sublime. Seu trabalho expande os momentos mais íntimos com Jesus, enquanto os outros evangelistas sintetizam o acontecido. Seu resumo da última ceia é riquíssimo (capítulos 13 a 17): a humildade do lava-pés, a despedida e a esperança (“não se turve o vosso co- ração”), a verdadeira videira, a vinda do Consolador, a promessa de um breve reencontro e a grande prece interces- sória de Jesus ao Pai Celeste, são momentos sublimes que o Evangelho de João traz aos homens. O Evangelho de
  • 7.
    Visão Geral doNovo Testamento 5 João é espiritual: nele Jesus é a Luz que vem ao mundo, o Mestre que orienta, o Pão da vida, o Bom pastor, o Cor- deiro de Deus que se imola pela salvação do mundo e o filho que glorifica ao Pai que está no Céu. ATOS DOS APÓSTOLOS E EPÍSTOLAS Entre os livros históricos do Novo Testamento, acha-se o Ato dos Apóstolos, escrito por Lucas. Narra a história das origens do Cristianismo primitivo, em Jerusalém, sua expansão à Palestina e difusão entre os pagãos. Fala da perseguição de Herodes, da conversão de Paulo e de suas três viagens missionárias, inclusive de sua prisão em Roma. As Epístolas, ao todo 21, formam o conjunto dos livros doutrinais ou didáticos. As 14 de Paulo são chamadas pessoais e as de Tiago, Pedro, João e Judas, universais, porquanto não são dirigidas a pessoas em particular, mas aos cristãos, em geral. Paulo de Tarso, o Apóstolo dos Gentios, a figura mais proeminente na expansão do Cristianismo, nasceu em Tarso, Cilícia (hoje Turquia), aproximadamente no ano 10; descendente de uma rica família judaica, do clã de Ben- jamim; era, ao mesmo tempo, cidadão romano. Recebeu forte educação farisaica e conhecia bem a literatura grega. Esta grande personalidade, viril, perseverante, corajosa e cheia de fé em Jesus, pode ser amplamente estudada no livro histórico de Emmanuel, referente ao início do Cristianismo, “Paulo e Estevão”. O Apocalipse, que em grego significa “revelação do futuro”, é um livro profético e foi escrito por João Evange- lista, filho de Zebedeu, na Ilha de Patmos entre os anos 70 e 95, aproximadamente. O Apocalipse difere do oráculo e das visões por ter cunho universalista. Já era conhecido dos judeus através do Apocalipse dos profetas Ezequiel, Zacarias e Daniel no Velho Testamento. Foi escrito para reerguer o ânimo dos cristãos, submetidos a perseguições por judeus e pagãos, nos tempos de Nero e Domiciano, imperadores de Roma, objetivando aumentar-lhes a “fé e fortaleza dom a promessa da vitorio- sa vinda do Senhor”(Bíblia Sagrada, Edição Barsa - dicionário, verbete “Apocalipse”). EVANGELHOS APÓCRIFOS Apócrifo quer dizer escrito sem autenticidade ou cuja autenticidade não se provou. Para a Igreja Católica são os escritos que se referem a assuntos de natureza sagrada, mas que não foram incluídos no Cânon das Escrituras consideradas de inspiração divina. São, às vezes, vistos como narrativas piedosas, mas sem maior significado, ou escritos de tendência herética e falsa para corromper as verdadeiras Escrituras. Muitos escritos foram considerados apócrifos, relativos ao Velho como ao Novo Testamento: narrações de visões, passagens proverbiais, Evangelhos, Atos de Apóstolos, Epístolas, etc. Os protestantes julgam apócrifos os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruc, Primeiro e Se- gundo livro dos Macabeus e partes dos livros de Ester e Daniel. A Igreja Católica, no entanto, os considera escritos sob inspiração divina e, portanto, gozando da mesma autoridade que os outros livros da Bíblia. Para os espíritas, em todas as circunstâncias, o essencial é o ensinamento moral contido nos livros. ANÁLISE CRÍTICA DOS EVANGELHOS Uma análise crítica dos Evangelhos e das Cartas Apostólicas, levam-nos, naturalmente, ao encontro de algu- mas passagens pouco aceitáveis, ilógicas ou até mesmo absurdas: "A tentação no deserto", "A expulsão dos vendi- lhões do templo" e muitos pensamentos colocados na boca de Jesus, não resistem a uma análise racional por en- contrarem-se em evidente contradição com os mais elementares princípios da lógica, da justiça e da caridade. Estes desencontros evangélicos em nada desmerecem a obra, que é, segundo Kardec, "código universal da moral", mas despertam nossa atenção para alguns detalhes vinculados a ela: a) As Adulterações Involuntárias: Jesus nada escreveu. Acredita-se que as primeiras anotações tenham surgido muito tempo depois da sua morte. Marcos, Lucas e Paulo não chegaram a conhecer o Messias e, portanto, colhe- ram informações de outras fontes. Todos essas evidências levam-nos a acreditar que determinadas colocações apresentadas nos Evangelhos não correspondem à realidade absoluta dos fatos. Certa- mente, ocorreram adulterações involuntárias. b) Os Enxertos dos Evangelistas: Notamos, ao examinarmos os Evangelhos, que uma preocupação básica ocupava a mente dos evangelistas: provar que Jesus era de fato o Messias aguardado pelos judeus. Para que a Mensa- gem cristã viesse a vingar na Palestina, esta idéia deveria prevalecer. Acredita-se então, que algumas passagens da Boa Nova não ocorreram realmente, mas foram acrescentadas às anotações com esse objetivo. "O nascimento de Jesus em Belém", "a hipotética viagem ao Egito", a "Tentação no deserto" e muitas outras passagens teriam sido enxertadas para provar a tese de que Jesus era o Salvador dos Judeus, o Enviado de Jeová. c) As Adulterações Posteriores da Igreja: Muitas anotações verificadas nos textos bíblicos de hoje não são identificadas nas versões originais, mostrando que foram acrescentadas posteriormente.
  • 8.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho6 Para justificar certos dogmas, alguns sacramentos e determinadas práticas religiosas, certos representantes da Igreja, ainda nos primeiros séculos da era Cristã, acrescentaram aos textos originais idéias, princípios e passagens que na realidade não ocorreram.
  • 9.
    Capítulo 3 A PALESTINA:ASPECTOS HISTÓRICOS O POVO JUDEU NA ÉPOCA DE JESUS Depois de mais de 700 anos sob denominação estrangeira (Império Assírio (722 a.C.), Babilônio (597 a.C.), Persa (539 a.C), Egípcio, Macedônio (332 a.C.), Selêucidas (311 a.C.), Israel vive sob o jugo do Império Romano na época do nascimento de Jesus. O último rei judeu foi executado em 37 a. C., tendo sido nomeado governante, por Roma, o judeu idumeu He- rodes, que governou a região tiranicamente, de 37 a. C. até 4 d.C., sob a dominação direta do governador romano da província da Síria, último reduto, antes da denominação de Roma, do poderoso império selêucida. Roma não ti- rou a liberdade da prática religiosa dos judeus, buscando assim, manter a ordem mais facilmente, permitindo que um governante testa-de-ferro conservasse o título de rei. Roma preocupa-se mais com o comando militar do que com os aspectos religiosos. Após a morte de Herodes o Grande, o reino israelita foi dividido entre seus três filhos: a Galiléia e a Peréia fi- caram com Herodes Antipas; a Ituréia e a Traconítide com Herodes Felipe (posteriormente assassinado por ordem de Herodes Antipas) e a Judéia, a Iduméia e Samaria com Arquelau, que governou tão mal que Roma o destituiu, mandando um procurador para o comando. Pôncio Pilatos foi o procurador de Roma, dessa região, entre 26 a 36 d.C. No setor econômico, os judeus pagavam pesados impostos, cobrados pelos publicanos. Havia três tipos de impostos: a) sobre as terras dos próprios judeus; b) sobre toda a compra e venda de produtos e c) uma contribuição anual para o sustento dos soldados romanos que ocupavam a Palestina. Este tributo era o mais difícil de ser aceito pelos judeus. Em Atlas da Bíblia, Edições Paulinas, lê-se que “A difusão da cultura grega (helenismo) e a presença de mui- tos judeus em outros países prepararam o cenário para o Novo Testamento. O último fator decisivo foi o governo de Roma, que unificou politicamente o mundo antigo, como o helenismo o havia unificado culturalmente”. Lê-se ainda, que “Os judeus da diáspora tinham colocado em muitos lugares os fundamentos da fé em Deus e do conhecimento de sua lei. Como afirma Paulo na carta aos Gálatas, Jesus veio “quando chegou a plenitude do tempo” (Gl. 4:4 e Hb., 1:1-2. É importantíssima a análise de alguns pontos deste momento histórico na vida dos homens, porquanto estava o terreno preparado para a vinda de Jesus: • o mundo antigo ocidental praticamente unificado sob a bandeira romana, extremamente ze- loso das regras jurídicas e tolerante com os princípios religiosos dos povos conquistados; • o mundo ocidental unificado pela expansão da cultura grega, desde a conquista dos mace- dônios, com Alexandre Magno e seus sucessores, Selêucidas (Palestina) e Ptomomeus (Alexandria), suplantando a latina e outras, com sua arte, literatura e filosofia, com Sócrates, Xenofonte, Platão, Aristóteles e tantos outros; • o declínio do paganimso greco-romano e de outros povos não mais davam respostas aos in- teresses da alma humana. • A sustentação, por Israel, do monoteísmo, principalmente porque os judeus da diáspora ti- nham colocado em muitos lugares os fundamentos da fé em Deus e do conhecimento da sua lei. Diz o historiador Cesare Cantu(História Universal) que “só Israel, no meio de tão grandes desastres exterio- res, conservou viva a outra parte da tradição, e, ao mesmo tempo que o dogma da queda ele admitia o da regeneração; a ele se liga tanto mais energicamente, quanto mais baixo se sente cair. Israel só, entre as nações antigas, conhece esta doutrina do progresso, caráter e glória da civilização moderna”. Emmanuel, referindo-se a este momento histórico do mundo encarnado, escreve em À Caminho da Luz: “O Cristo reúne as assembléias de seus emissários. A Terra não podia perder a sua posição espiritual, depois das con- quistas da sabedoria ateniense e da família romana.” CLASSES SOCIAIS. HIERARQUIA POLÍTICA E RELIGIOSA Diz Kardec (ESE, Introdução, item III) que para “bem compreender certas passagens dos Evangelhos, é ne- cessário conhecer o valor de muitas palavras que são freqüentemente empregadas nos textos, e que caracterizam o estado dos costumes e da sociedade judia daquela época”. Para isso esclarece os conceitos das diferentes classes sociais da época, originárias das antigas tribos israelitas. A partir da divisão do reino, quando Roboão, filho de Salomão, fica no sul, com o reino de Judá, e Joreobão se torna rei das dez tribos ao norte, formando o reino de Israel, com capital em Siquem e, mais tarde, em Samaria, diz
  • 10.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho8 Kardec, “uma versão profunda, datando da época da separação, perpetuou-se entre os dois povos que se esquiva- vam a todas as formas de relações recíprocas.” Os Samaritanos, complementa Kardec, para tornarem a cisão mais profunda e não terem de ir a Jerusalém, para a celebração das festas religiosas, construíram um templo próprio e adotarem certas reformas: admitiam so- mente o Pentateuco, que contém a leis de Moisés, e rejeitaram todos os livros que lhe haviam sido posteriormente anexados. Diz Cesare Cantu que os Samaritanos aceitavam facilmente os ritos e as divindades estrangeiras (II Rs., 17:24 e seguintes), queimavam os livros da lei, perseguiam os que mantinham a circuncisão das crianças, transfor- mando a religião muitas vezes, em simulacros pagãos e teatro de solenidade obscenas de Baco, como aconteceu sob o domínio de Antioco (170 a.C.) que edificou uma fortaleza sobre as ruínas da cidadela de Javi em Jerusalém e dedicou o templo a Júpiter Olímpico. Os Nazarenos, por tradição, adotavam a castidade, a abstinência de bebidas alcoólicas e não cortavam os ca- belos, Eram nazarenos Sansão, Samuel e João Batista. Os Publicanos eram os encarregados da cobrança de impostos e outras rendas. Eram desprezados por todos e considerados “impuros” porque Os judeus não aceitavam pagar impostos, especialmente a contribuição para o sustento dos soldados romanos. Os Fariseus, que quer dizer separados (Parasch), aceitavam que Moisés “independentemente da lei escrita, ti- nha recebido do anjo Raziel uma lei oral, que transmitiu a Josué, este aos anciões do povo, e estes aos membros da grande sinagoga. Esta tradição, o Cabala, explica coisas conservadas em segredo para a multidão, o verdadeiro sentido das cerimônias, das profecias e dos enigmas” (Atlas da Bíblia, Ed. Paulinas) Os Fariseus, diz Kardec, eram observadores servis e afetados das práticas exteriores do culto e das cerimôni- as, inimigos das inovações, mas sob as aparências de uma devoção meticulosa, escondiam costumes dissolutos, muito orgulho. A religião para eles, era mais um meio de subir do que objeto de uma fé sincera. Acreditavam na imortalidade da alma, na eternidade das penas e na ressurreição dos mortos. A primeira notícia sobre eles data de 150 a.C. e era um partido religioso popular. Os Saduceus, opostos aos fariseus, não acreditavam na imortalidade da alma nem na ressurreição. Eram me- nos piedosos e mais políticos, sendo o partido religioso sacerdotal de Caifás e Anás. Os Essênios moravam em edifícios semelhantes a mosteiros, distinguiam-se pelos costumes suaves e as vir- tudes austera. Tinham seus bens em comum e se entregavam à agricultura. “Tendo as doutrinas orientais e gregas chegado ali ao seu conhecimento, ele as misturaram com as doutrinas mosaicas, de modo que formassem uma seita distinta”, e por isso, “repelindo a tradição, como os saduceus, acreditando, como os fariseus, na imortalidade da alma, não gostando da cidade, viviam nos campos, abstinham-se de todo o tráfico, aplicavam-se ao trabalho, bani- am a escravidão e não acumulavam riquezas”. (Atlas da Bíblia) Os Escribas eram os doutores da Lei Mosaica, aqueles que a conheciam profundamente e eram seus intér- pretes para o comportamento social e religiosos da vida judaica. Eram, em geral, fariseus. Junto com os principais Sacerdotes e os anciãos (chefe do clã) constituíam o Gran- de Sinédrio. Muitos outros guapos sociais formavam o povo judeu à época de Jesus: os mercadores, os escravos, os pas- tores e agricultores. Sob o aspecto político, a Palestina estava sujeita aos romanos, embora governada por um rei judeu, Herodes, o Grande, sob supervisão do Governador romano da Síria. Após a morte de Herodes e destituição de seu filho Arquelau, a Judéia foi governada por um procurador roma- no. Roma permitia aos países dominados gerir suas questões internas. Para a Judéia e Samaria o órgão adminis- trativo era o Sinédrio, chefiado pelo Sumo Sacerdote. Ao procurador romano, entretanto, era facultado nomear ou depor o Sumo Sacerdote, o que explica, de alguma forma, a pressa com a prisão e julgamento de Jesus. O Sinédrio era uma assembléia de anciãos que tinha por finalidade a administração civil e a religiosa, cabendo-lhes a interpre- tação, julgamento e aplicação da lei. COSTUMES. CIDADES. VESTUÁRIO. COMÉRCIO. ALIMENTAÇÃO. TRABALHO. PROFISSÕES Sua forma de viver prendia-se a costumes seculares fixados no Torá, ou Lei de Moisés (O Pentateuco), em regras religiosas fixadas posteriormente pela classe sacerdotal e outras decorrentes, principalmente, do sincretismo greco-judaico, a partir da vitória macedônica, com Alexandre Magno, em 333 a.C. Nazaré, no tempo de Jesus, na região da Galiléia, como ainda hoje, era um dos mais belos locais da Palesti- na. Situa-se ao norte do fértil vale de Israel, com suaves colinas de onde se pode ver, a dezenas de quilômetros, o vale do rio Jordão. Fica ao sul de Séforis, e tinha cerca de 5.000 habitantes. Era uma pequena cidade, sem grande importância política, mas os olivais e os vinhedos das encostas eram de alta produtividade, em decorrência do clima ameno e temperado que suavizavam este ponto de encontro das caravanas entre Damasco e Jerusalém. Por sua população diversificada, por sua rusticidade, pelos homens pouco fiéis às leis e aos ritos judaicos, Na- zaré era vítima de preconceitos pelos judeus metropolitanos e era comum a frase: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?”, como aconteceu na conversação entre Natanael e Felipe (Jo., 1:46) ou como fala Isaías (Is., 9:1), quando é chamada de “Galiléia dos Gentios”. Jerusalém, no tempo de Jesus, era capital da Judéia, o grande centro religioso judeu, com o seu grande tem- plo. Situa-se num interessante alti-plano bem próximo ao vale do Jordão, nas chamadas montanhas da Judéia, à 30 km do Mar Morto, ao sul. Jerusalém significa “paz sagrada”.
  • 11.
    A Palestina: AspectosHistóricos 9 Seu movimento econômico era grande e Roma aí fazia sua sede de governo com seus procuradores. A cidade dividia-se em três bairros: Cidade Alta que ficava no Monte Sião e onde residiam os ricos; Cidade Baixa, ao longo do vale de Cedron, onde se aglomerava o povo pobre e o Bairro do Templo, com muitas dependências, em outra mon- tanha. O Templo ligava-se à Cidade Alta por uma longa ponte de pedra. Era uma cidade populosa, sendo multiplicada pelo intenso movimento à época das festas, principalmente a Páscoa. Era toda de ruas estreitas e íngremes, circundada por muralhas. De Jerusalém a Nazaré tem cerca de 100 quilômetros. O Grande Templo foi idealizado por Davi e construído por Salomão, destruído por Nabucodonosor em 586 a.C. e reconstruído após a libertação dos judeus pelos medo-persas. Continha várias portas e pátios internos sobre- postos. Os pátios internos eram: Pátio dos Gentios, onde todos podiam freqüentar, ali eram vendidos os animais para sacrifício (consta que cabia até 140.000 pessoas). Pátio dos Israelitas, para o povo judeu. Pátio das Mulheres. Pá- tio dos Homens, que terminava junto à monumental porta de bronze, com 22 metros de altura e que se fechava à noite. Pátio dos Levitas, onde ficava o altar dos sacrifícios sobre uma rampa. Neste pátio dos levitas, atrás do altar, erguia-se o Santuário com 45 metros de largura, dividido em duas partes: a primeira, chamada de O Santo, onde fi- cava o altar dos perfumes e a segunda parte, Santo dos Santos, simbolizando a antiga Arca da aliança, que continha duas tábuas de pedra, e onde somente o Sumo Sacerdote podia entrar. Era da lei a obrigação de circuncisar crianças masculinas no oitavo dia (Lucas,2:21), após o nascimento; era proibido o trabalho no sábado; era costume comemorar a festa nacional da Páscoa (Ex.,12); em Jerusalém; os cri- minosos pela lei judaica sofriam a ação do “olho por olho, dente por dente”, as adúlteras eram lapidadas; os romanos levaram para a região a flagelação e a crucificação como forma de punição aos criminosos. Havia três categorias de sacerdotes: os sacerdotes menores, encarregados de serviços internos que se subor- dinavam ao diretor do Templo. Os sacerdotes de graus maiores, os encarregados da administração civil e religiosa e o Sumo-Sacerdote que era eleito de dois em dois anos. Cobravam os tributos devidos ao Templo, tanto em dinheiro como em espécie, pois os israelitas eram obrigados a pagar dízimos, bem como a entregar parte da primeira colheita de suas plantações. O holocausto ritual dependia do que se celebrava e segundo as condições de cada família. Exemplo: A purifi- cação das mulheres, após o parto, 30 dias após, sendo menino e 60 dias, sendo menina, era feita com sacrifícios de cabritos ou pombos. Os sacerdotes mercadejavam com muitas coisas: bois, carneiros, pombos, destinados aos sacrifícios; perfu- mes, óleos, e aromatizantes utilizados nas cerimônias de purificação. (Lucas,2:24) Quando os mercadores e camponeses deixavam de pagar os tributos, seus produtos eram declarados imun- dos, e com isso se afastavam os compradores. Havia no Templo mesas, guichês, repartições, balcões, destinados ao comércio, ao recebimento de donativos, além do grande movimento de animais transportados para os sacrifícios, no Pátio dos Levitas. (Jo.,2:13 a 17) Era costume, no Templo, sentarem-se rabinos em banquetas, nos pórticos e nos pátios públicos. Ao seu re- dor, pequena multidão ouvia atenta os comentários sobre a Lei de Moisés, segundo a idéia iniciática a que pertenci- am, fariseus ou saduceus. Uma crença generalizada de que Deus não podia receber o culto senão na Terra Santa, levou os judeus, no exílio, a criarem um santuário que lembrasse o Templo de Jerusalém, a Sinagoga. Nesta, o culto assumiu forma in- teiramente diversa, sem sacrifícios e sem sacerdotes. Aí somente os rabinos e conhecedores da lei e dos profetas eram capazes de explicá-lo aos ouvintes. Em lugar de sacrifícios, um culto espiritual composto de orações, cantos de salmos, leituras bíblicas e comentários. (Lucas,4:16) Era crença generalizada, também, que o Messias seria um “Salvador” da Pátria, dominador do mundo, logo não podiam os judeus aceitar Jesus, para eles demasiado simples e bom e que somente se manifestava entre pes- soas desclassificadas e ignorantes. Não era o condutor enérgico e altivo. Como esperar o triunfo , a implantação do novo Reino, se afirmava que maior é aquele que se fizer menor de todos? Diz Humberto de Campos, em Boa Nova, cap.24 que Judas pensava assim, por isso fez o que fez, objetivando liderar o movimento renovador. Muitas outras profissões e trabalhos existiam na região à época de Jesus: pescadores, pastores, mercadores, doutores, escravos. No Templo haviam os trombeteiros, acendedores de lâmpadas, as tecedeiras, os sacrificadores, os fiscais dos sacrifícios, auxiliares de cerimonial e uma série de outros, participando da função administrativa e ope- racional do Templo e das cidades.
  • 12.
    Capítulo 4 FATOS DAVIDA DE JESUS: NASCIMENTO E INFÂNCIA O QUE REZAM AS TRADIÇÕES Consoante o que havia sido vaticinado, o advento do tão esperado Messias deveria acontecer em Belém de Judá, cidade onde David havia sido coroado rei. Na época o Imperador romano havia decretado um recenseamento e todos os judeus deveriam se alistar em suas cidades de origem, por isso, Maria e José tiveram que se dirigir para Belém, na Judéia, pois ele era da linhagem de Davi. Logo que chegaram a essa cidade, Maria sentiu as dores do parto, e como ali não havia acomodação devido ao elevado número de forasteiros, eles se abrigaram numa estalagem e, o menino Jesus teve uma manjedoura como berço. O Evangelho registra que o rei Herodes, sendo judeu, não desconhecia os vaticínios das Escrituras sobre o advento do Messias, e que um dos prognósticos asseverava que “Deus daria ao Messias o trono de Davi”, (Lucas,1:32). Por isso, Herodes se remoia de inquietação , na suposição de que tal acontecimento lhe roubaria o trono e o poder, dados pelo Imperador romano, porque as esperanças e o desejo do povo, bem sabia, eram para o surgimento de um Messias nacional que assumisse o poder em Israel, proclamando-se rei e expulsando os intrusos romanos. Conseqüentemente, quando soube que o Messias já estava na Terra, ele envidou todos os esforços para evitar que ele crescesse, inclusive pedindo aos três Magos do Oriente para que lhe dessem informes sobre o lugar onde Jesus havia nascido. Devido à sanha feroz de Herodes, José, o pai de Jesus, recebeu em sonho uma recomendação oriunda dos Benfeitores Espirituais, para que pegasse o menino e sua mãe e fugissem para o Egito, o que foi feito, tendo voltado somente quando Herodes, o Grande, já havia falecido. Informa o Evangelho de Mateus (2:22-23), que “Ouvindo que Arquelau reinava na Judéia, no lugar de Herodes, José receou ir para lá; mas avisado em sonhos, por divina revela- ção, foi para as partes da Galiléia. E chegou e habitou numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno”. Jesus Cristo foi o primogênito de Maria de Nazaré. Quando ele tinha oito dias de vida na Terra, foi circunci- dado e, com quarenta dias foi levado ao Templo de Jerusalém, para ser apresentado ao Senhor, pois, segundo as leis estabelecidas por Moisés, “todo o macho primogênito deveria ser consagrado ao Senhor”. O QUE AFIRMAM OS HISTORIADORES Segundo Hermínio Miranda (Cristianismo: Mensagem Esquecida), os estudos técnicos levados à efeito por pesquisadores sérios, levam conclusões bem definidas quanto ao nascimento e a genealogia de Jesus. As principais conclusões são: a) Há objeções muito sérias à informação de que Jesus tenha nascido em Belém. Ao que tudo indica, nasceu em Nazaré, ou pelo menos nas suas imediações, na Galiléia e não na Judéia, onde fica Belém. b) A idéia da concepção e a do nascimento virginais são acomodações posteriores e foram in- troduzidas no texto. São inquestionáveis e bem documentadas as evidências textuais de que Jesus tenha sido filho de José e Maria. c) Acreditam os historiadores que Jesus teve irmãos de sangue, sendo ele, provavelmente, o mais velho. d) A viagem ao Egito, a matança das crianças por Herodes, o nascimento na manjedoura, bem como a presença dos “reis magos”, nada mais seriam que figuras místicas, criados pela imaginação humana. Quanto à data precisa do nascimento de Jesus, há divergências. Will Durand, no livro César e Cristo opina: - Tanto Mateus como Lucas colocam o nascimento de Jesus “nos dias em que era rei da Judéia Herodes”,consequentemente antes de 3a.C. Lucas, entretanto, dá Jesus “com cerca de 30 anos”, quando João o batizou no “quinto ano de Tibério” - isto é, 28-29 d.C., isto coloca o nascimento de Cristo no ano 2 ou 1 a.C. Lucas acrescenta que “naqueles dias foi lançado um decreto de César Augusto para que todo o mundo fosse recenseado, ao tempo em que era Quirino o governador da Síria”. Quirino esteve como legado na Síria entre os anos 6 e 12 de nossa era; Josefo refere-se a um censo de Quirino na Síria, mas coloca-o entre os anos 6 e 7 de nos- sa era, e não tem nenhuma outra referência a esse fato. Tertuliano fala em censo da Judéia feito por Saturnino, go- vernador da Síria em 8 7a.C.; se é este o censo a que Lucas se refere, o nascimento de Cristo deve ser colocado antes de 6 a.C. Nada sabemos do dia certo de seu nascimento: alguns cronologistas põem o nascimento de Cristo no dia 19 de abril, outros em 20 de maio e Clemente em 17 de novembro. O dia 25 de dezembro foi convencionalmente determinado como sendo o do nascimento de Jesus, data já da festa central do mitraísmo, o natalis invicti solis, ou o aniversário do sol invencível.
  • 13.
    Fatos da Vidade Jesus: Nascimento e Infância 11 A INFÂNCIA E A JUVENTUDE Os Evangelhos discorrem muito pouco sobre a infância e juventude de Jesus, dizendo, apenas, que o “menino crescia e se robustecia em Espírito, cheio de sabedoria e a graça de Deus estava com ele”(Lc.,2:40) Comenta-se que em Nazaré, Jesus, ainda bastante jovem, freqüentava a sinagoga local, e numa das primei- ras vezes que lá esteve, para interpretação do texto lido, como era comum, referente ao profeta Samuel, analisou tudo com profundidade, o que, pela sua pouca idade, causou espanto geral. Com 12 anos de idade, (Lc.,2:39), tendo atingido a idade legal para o Bar Mitzrah, ele e sua família foram a Jerusalém a fim de participarem dos cerimoniais da Páscoa. Ao regressarem, quando já estavam a meio caminho, seus pais notaram que ele não estava com as demais crianças e, por isso, voltaram apressadamente a Jerusalém, onde, após três dias, o encontraram no Templo, confabulando com os doutores da Lei, surpreendendo-os com as in- dagações que fazia em torno das Escrituras. “Todos estavam maravilhados com a sua sabedoria e suas respostas”. Quando sua mãe o admoestou pela preocupação que passavam, ele respondeu: “Não sabeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?” Dessa época até quando tinha trinta anos, nada mais é mencionado nos Evangelhos. Várias teorias existem sobre a vida de Jesus Cristo dos doze anos. Há quem o veja entre os Essênios, apren- dendo as doutrinas de elevada cultura dessas escolas. Há também os que acreditam ter ele estado entre os mestres orientalistas, no Himalaia. No entanto, nenhuma dessas suposições pode prevalecer, pois, Emmanuel, em “À Caminho da Luz”, sustenta de modo categórico: “O Mestre, porém, não obstante a elevada posição das escolas essênias, não necessitou de sua contribuição. Desde os primeiros dias na Terra, mostrou-se tal qual era, dentro da superioridade que o planeta lhe conheceu desde os tempos longínquos do princípio.”
  • 14.
    Capítulo 5 FATOS DAVIDA DE JESUS: PRISÃO E MORTE A ÚLTIMA CEIA Intróito Preliminar da Última Páscoa (Jo., 11:55); (Mt., 26:17); (Mc., 12:14) e (Lc., 22:27) De acordo com o Thorá, os judeus preparavam todos os anos a ceia tradicional da Páscoa (que significa “passagem”), relembrando o êxodo do Egito, de seus antepassados. Para os cristãos, a Páscoa encerra o sentido da Ressurreição, isto é, a “passagem” pela libertação do Espírito para ressurgir na “Terra Prometida” do Mundo Maior. Jesus enviou dois de seus discípulos (Pedro e João - Lc., 22:10) para que se encontrassem com um guarda (comum naquela época) seguindo-o até a casa do seu chefe, com a recomendação de perguntar ao dono da casa onde seria o aposento em que ele e os discípulos se reuniriam. Esta passagem nos favoreceu a interpretação de um prévio entendimento entre Jesus e o dono da casa que já tinha um cenáculo (refeitório), pronto para a Páscoa (Lc., 22:12) Emmanuel em “Pão Nosso”, nº 144, entende esse cenáculo mobiliado como o “perfeito símbolo do aposento interior da alma”, significando que a cada dia limpa-se e ornamenta-se a casa espiritual com fé e higiene mental, para a grande comunhão. O Lava-pés(Jo., 13:5) O preceito de higiene judaico, indicava o lava-pés, as mãos e o rosto antes das ceias. Assim o fizeram e sen- taram-se à mesa. Jesus, pronto para o seu grande momento, “sabendo que viera de Deus e a Deus voltava” exemplificava, aos seus discípulos amados, a humildade santificante. Levanta-se da mesa, depõe o manto, toma uma toalha e uma bacia e começa a lavar os pés de seus discípu- los. Imagem nobre e grandiosa, o mestre servindo os seus servos. Com veneração sincera Pedro quer recusar mas Jesus explica o sentido da purificação no seu ato: o sacrifício físico do grande Mestre por amor aos seus. Está no versículo 14: “Se eu; Mestre, vos lavo os pés (vos sirvo), lavai também vós os pés dos outros (humildade, caridade). Como sempre, o Senhor Jesus exemplifica seus ensinamentos maiores: “O servo não é maior do que o seu Senhor, nem o enviado maior do que quem o enviou.” (Jo., 13,16) É preciso saber as coisas, mas é imprescindível fazê-las. O Anúncio da Traição de Judas (Jo., 13:21) Logo a seguir, seu coração meigo perturbou-se na tristeza e declarou que um daqueles que estavam a mesa o trairia. A pequena assembléia se espanta e lamenta ”Como poderiam eles trair ao Mestre amado? Como Deus permi- tiria isso?” Eis aí, a necessidade da contínua ligação do aprendiz do Evangelho com a Providência Divina. Jesus dirigiu-se a Judas Iscariotes e disse “Faze depressa o que tens a fazer”. Os discípulos não entenderam a triste verdade da frase, pois Judas era quem administrava as parcas finanças do grupo e pensaram que Jesus lhes dera uma ordem. Judas saiu imediatamente. A Despedida (Jo., 13:31) a) O Novo Mandamento Depois que Judas partiu, a reunião se tornou uma verdadeira comunhão espiritual. Jesus declara-se já glorificado e Deus glorificado nele porque já pressente sua vitória espiritual (13:31) e anuncia sua despedida. “Para onde vou, não podeis ir, mas deixo-vos um mandamento novo” - que é o mandamento de todo discípulo de Jesus: “Como vos amei, amai-vos uns aos outros”(13:34) A fraternidade é o escopo do amor de Jesus e o lábaro da universalidade. Anteriormente Jesus ensinava: “Amar ao próximo, como a ti mesmo”, que é o fundamento da lei de igualdade perante Deus: é dever de todos que querem a mesma compreensão para si. Amar aos semelhantes, como Jesus nos ama, é a ampliação da aceitação fraterna para a sublima- ção da Fraternidade Universal perante o Criador Eterno. b) Certamente, os discípulos se entristeceram e o amor de Jesus os consolou: “Não se turbe o vosso coração”... “na casa de meu Pai tem muitas moradas...” “vou prepará-las e vos levarei comigo”.
  • 15.
    Fatos da Vidade Jesus: Prisão e Morte 13 A casa de Deus é o Universo e a promessa de Jesus dava-lhes fé, pois, se não tinham lugar seguro aos seus ideais na Terra, o Mestre garantia-lhes o seu coração meigo e manso pelos caminhos estreitos do serviço. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. III, item 7, Kardec faz sua excelente comparação das diversas moradas e para lá remetemos os leitores. A generalidade da medida cósmica é a Evolução, que se desdobra relativamente à melhoria inte- lectual, psíquica e moral do espírito. Continuando, (14:6) afirma que é o “Caminho, a Verdade e a Vida”: é o Caminho porque exemplifi- ca o amor através da caridade, o único acesso ao Pai; é a Verdade, sublime e reveladora, porque destrói preconceitos e dogmas (verdades estagnadas) comprovando a fé na razão e no conhecimento das leis na- turais que regem o exercício da vida, é a luz que esclarece; é a Vida, pois, somente por ele, nos seus ensi- namentos, no seu amor, o Espírito é vivificado, isto é, imortalizado, sendo que Deus enviou Seu Filho Amado ao mundo para que ele seja salvo por ele (Jo., 3:16), porque Jesus está no Pai como o Pai está nele. E o Mestre Reafirma sua Ida Para o Pai a) Pela tristeza profunda de seus discípulos amados, o Mestre diz que se o amarem e observa- rem seus mandamentos, ele rogará ao Pai que lhes mande um novo Paracleto (em grego igual a De- fensor, Mentor), para que o Espírito de Verdade (revelador dos princípios fundamentais da verdadeira religião) possa permanecer no mundo, o que não era possível naquele tempo, embora os discípulos o conhecessem. E salienta: “Quem observa meus mandamentos, me ama, quem me ama, será amado por Pai; eu o amarei e a ele me manifestarei.” b) “Minha paz vos dou, não como o mundo a dá”(Jo., 14:27) Essa saudação, usual dos judeus, como a promessa de felicidade perfeita e verdadeira intro- duzia a calma interior, a serenidade da confiança em Deus que não pode se comparar com a paz apa- rente, inconstante e superficial do mundo. A paz de espírito é calcada em trabalho, boa vontade e perseverança no estudo e nas boas obras. Em Vinha de Luz, nº 105, Emmanuel nos orienta sobre a paz ilusória. A verdadeira paz, como Jesus ofereceu aos discípulos de todos os tempos, é a flor perene cultivada nos campos da consciência e do coração (de sol a sol) com a palavra da Boa Nova. c) “Eu sou a verdadeira vida. (Jo., 15:1) Nesta imagem de metáfora, Jesus explica que o Pai é o “agricultor” desta videira, da que é podado todo ramo que está infrutífero (pois todo fruto é resultado final de um trabalho vivo) para que ela se fortifique e dê mais frutos. O ramo que já está “podado”, isto é, preparado pela palavra de Jesus, permanece nele “como ele em nós”, brotando para a nova vida. O ramo que não fica na árvore, seca e é lançado fora (15:4) Em mais um momento solene, o mestre diz aos seus discípulos que é Amigo Divino (15:15) “Não mais vos chamo servos, porque o servo não sabe o que o amo faz; mas vos chamo de amigos, porque tudo que ouvi do pai, vos dei a conhecer”. A PROMESSA DO CONSOLADOR O Mestre esclarece aos discípulos que eles não são deste mundo, mas estão neste mundo; por isso devem saber parar acima das circunstâncias terrenas. Confirmando a lição do lava-pés, recorda que o servo não é mais do que o Senhor é, assim como perseguiram a ele, Jesus, perseguirão aos seus discípulos, deste modo prevenido-os sobre as provações que os esperava, a fim de que não vacilassem na fé e que nesses momentos, o Espirito de Verdade lhes daria Testemunhos do Senhor. A vinda do Consolador (cap. 6:5). Naquele momento Jesus pressente o lamento daqueles corações humildes e diz-lhes que é até de seu interesse que ele parta: “Se eu não for, o consolador não virá”(Jo., 16:7). Esse Consolador restabelecerá a responsabilidade real do mundo no tocante aos erros cometidos através do orgulho, da vaidade e da incredulidade, a respeito da justiça à luz da fé e da razão, dos direitos de Jesus como Filho Amado de Deus, provan- do a sua origem e o seu ser celeste a respeito do julgamento onde o Consolador revelará o sentido da morte de Jesus e anunciará a nova ordem que se inicia na Ressurreição. ORAÇÃO DE JESUS POR SEUS DISCÍPULOS Numa prece de oblação, Jesus se oferece a Deus e roga que o Pai o glorifique junto dele, com a mesma glória que ele tinha antes que o mundo existisse. (Jo., 17:5).
  • 16.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho14 Transforma sua oração num pedido de intercessão por seus discípulos, rogando ao Pai que não os abando- nasse no mundo e para que todos os seus discípulos “sejam um assim como Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti” (Jo., 17:21). Jesus sabia da necessidade da continuidade da vida na Terra para o aprendizado e o serviço; apenas roga que Deus os preserve do mal porque, assim como o Pai enviou Seu Filho ao mundo, ele, o filho enviou seus discí- pulos, a fim de que “eles sejam um em nós”(Jo., 17:21) No apogeu do amor fraterno universal, Jesus invoca ao Pai, Todo Poderoso, que enviou seu Filho e o chama para si, fazendo com que onde o Filho estiver, esteja seus discípulos que o próprio Pai lhe deu, para que contem- plem a glória de Jesus, seu Filho amado, a quem Ele ama mesmo ANTES da criação do mundo (Jo., 17:24) E encerra, no altar do seu sacrifício espiritual: “Pai, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e os que me enviastes também conheceram-te ... a fim de que o amor com que me amastes esteja neles da mesma forma como estáem mim”. É a solicitação mais solene do meigo Mestre, para que haja união fraterna do Homem, do Filho do Homem e do Pai que está nos Céus. PAIXÃO E CRUCIFICAÇÃO DE JESUS (JO., 18 E 19): (MT., 26 E 27) E (LC., 22 E 23) a) Jesus em Getsêmani Terminada a ceia, cantaram o hino que tradicionalmente encerra a ceia pascal (Mt., 26:30) e, como de costume, foram para além do vale do Cedron, onde havia um horto chamado Getsêmani, nas fraldas do Monte das Oliveiras. Estavam muito tristes. Jesus aconselhou-os a “orar para que não entrassem em tentação”, pois o momento cruciante se aproximava e era imperioso estarem atentos e conscientes, mantendo bons pensamentos e sentimentos. Assim também, os Aprendizes do Evangelho, os espíritas em geral devem orar e vigiar, pois é no “sono da lama que se amostram as mais perigosas tentações, através de pesadelo ou fantasias”. (Emmanuel - C.V.V. nº 87) A oração é sentinela avançada de nossa alma. Os apóstolos tinham a excelência espiritual, mas nem por isso alcançavam, ainda, a compreensão divina. Retirando-se para um lado, Jesus também orou fervorosamente ao Senhor da Vida (Lc., 22:44). b) a Prisão de Jesus: Ora, Judas também conhecia o local e levou os soldados romanos e os guardas dos sacerdotes, pela noite, até o horto dando-lhe voz de prisão. Levaram Jesus perante Anás e Caifás (o sogro e o sumo sacerdote) na casa deles, pela madru- gada, o que era ilegal, interrogando-o sobre sua doutrina e seus discípulos. O Mestre respondeu que nada fazia às escuras, pois ele podia ser encontrado à qualquer hora, no Templo. Foi por esta ocasião que Pedro negou a Jesus por três vezes, como está descrito no Evangelho. De Caifás, levaram Jesus diante de Pilatos (era já madrugada alta), no Pretório (tribunal romano). A hipocrisia dos judeus não enganou a Pilatos que não se interessou pelo caso, mas foi coagido posterior- mente a fazer o “julgamento”, o que fez após muita hesitação. Segundo João (19:12), Pilatos não queria condenar Jesus, mas os judeus, com artimanha, o for- çaram. Era na época da preparação da Páscoa dos judeus. c) A crucificação. Jesus e Sua Mãe: Tomaram a Jesus e o levaram a um lugar chamado Gólgota (caveira), perto da cidade, onde o crucificaram. Perto da cruz onde foi crucificado, com os corações dilacerados pela dor, permaneciam de pé Ma- ria Madalena, Maria de Nazaré (sua mãe) e Maria de Cleofas, mulher de Alfeu. Vendo o seu discípulo João nas proximidades de sua mãe, o Mestre disse-lhe: “Mulher, eis aí o teu filho”, e posteriormente dirigindo-se a João, disse-lhe “Eis aí a tua mãe”. Aqui, o sentido do vocábulo “Mulher” parece transcender a simples piedade filial, mas significa a su- blimação da maternidade pois, Maria, passaria a ser considerada por toda a Humanidade como sendo a mãe santíssima, que serviu de instrumento para o advento, na Terra, do maior dos Missionários, o Ungido de Deus.
  • 17.
    Capítulo 6 FATOS DAVIDA DE JESUS: QUESTÕES POLÊMICAS O ENDEUSAMENTO DE JESUS “Meu Pai, é chegada a hora: glorificai o vosso Filho, para que o vosso Filho vos glorifique.” (João, 17:1) No século IV se produziram duas correntes entre aqueles que acreditavam ser Jesus o Messias anunciado pelos profetas: uma corrente judeu-cristã, que estacou aquém da divinização do Mestre, e uma corrente judeu-grega, que foi até à divinização completa do Cristo. Quando, em 313, o Imperador Constanino, através do Édito de Milão, liberou todos os cultos, fez com que os debates sobre a divindade de Jesus, até então circunscritos aos bastidores, fossem levados à praça pública. O povo imiscuiu-se nessas contendas; o sangue correu em praças públicas, e Consta tino, o único responsável pela manu- tenção da ordem em todo o Império, após sua vitória sobre Licínius, em 323, teve, em nome da paz, de intervir nes- ses debates, mandando o bispo Osius tentar um acordo. Não conseguindo Osius convencer Ário a ceder, fez com que o Imperador convocasse uma grande assembléia de bispos, que se denominou concílio de Nicéia, onde os arianos foram proscritos, por afirmarem que o Filho é de outra hipóstase ou substância que o Pai, passando então a prevalecer a tese sustentada por Atanásio e Alexandre, que contou também com a simpatia de Constantino: que Jesus era da mesma substância de Deus, advindo daí a chamada trindade. O Espiritismo repele a teoria da existência de um Deus trino: Pai, Filho e Espírito Santo, proclamado, como decorrência que Jesus Cristo, como criatura de Deus, teve um começo como todos os demais Espíritos. Allan Kardec, em Obras Póstumas, discorre sobre esse tema do modo mais sensato e extenso possível, de- monstrando que nem os chamados milagres, nem o testemunho dos profetas e dos apóstolos, levam ao endeusa- mento de Jesus Cristo, mencionado ainda uma série interminável de trechos dos Evangelhos nos quais o Cristo dei- xa bem clara a sua submissão a Deus. A Doutrina Espírita, também veio desvendar uma série de novas leis, provando que os milagres, sobre os quais se alicerçam os idealizadores da Trindade, afim de atribuírem ao Mestre uma natureza divina, estão enquadra- dos nas leis da Natureza, nada apresentando de sobrenatural ou atentatório ao equilíbrio das leis eternas e imutáveis que regem os destinos da Humanidade. Penetrando ainda mais nesse terreno, proclama que os próprios Espíritos das trevas podem produzir fenômenos que, no passado, se impuseram aos olhos dos homens como autênticos mila- gres. O testemunho dos Apóstolos sobre a divindade de Jesus, longe de corroborar a teoria da Trindade, atesta de modo incisivo, que Jesus é o Filho do homem, investido de uma autoridade emanada do Pai, porém em situação de subalternidade e submissão em relação a Ele. O Apóstolo Paulo, por sua vez, como que antevendo as controvérsias que se formariam sobre essa questão, asseverou: Se somos filhos, somos herdeiros de Deus e co-herdeiros de Jesus Cristo. (Romanos 8:17). O próprio Cristo é quem mais se insurge contra esse endeusamento, o que se pode observar através das nar- rações de todos os quatro evangelistas, destacando-se dente elas as seguintes: Quem me recebe, recebe Aquele que me enviou, porque o que for menor entre nós, esse é o mai- or. (Lucas, 9:48) Se Deus é nosso Pai, vós me deveis amar, porque é de Deus que eu procedo, e é de sua parte que eu vim aqui, porque eu não vim de modo próprio, mas foi Ele que me enviou. (João, 8:42) E não falo senão do que vi em casa de meu Pai e vós não fazeis senão o que tendes visto na casa do vosso. (João, 8:38) E apareceu uma nuvem que os envolveu, e dessa nuvem saiu uma voz que fez ressoar estas pala- vras: Este é o meu Filho bem amado. Prestai-lhe atenção. (Transfiguração no Tabor, Marcos, 9:6) Porque se alguém se envergonhar de mim e de minhas palavras, também o Filho do homem dele corará quando vier em sua glória e na de seu Pai, com os santos anjos. (Lucas, 9:26) Mas, quem se há de assentar à minha esquerda ou à minha direita, não sou eu quem determina, mas sim, meu Pai, que já o tem designado. (Mateus, 20:23) E eis que, aproximando-se dele um mancebo, disse-lhe: Bom Mestre, que boas obras devo fazer para ganhar a vida eterna? Jesus respondeu-lhe: porque me chamais de bom? Só Deus é bom. (Mateus, 19:16-17) A Doutrina que vos ensino não é minha, mas sim daquele que me enviou. (João, 7:16)
  • 18.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho16 Então Jesus em alto brado, exclamou: Pai, em vossas mãos deixo o meu Espírito. (Lucas, 23:46) Mas digo isto para este povo que me rodeia, a fim de que acredite que sois vós que me enviastes. (João, 11:41-42) O Evangelho segundo João, sobre o qual melhor se fundamentam os partidários da Trindade, encerra uma forma mística, da qual se serviram os nossos antepassados da primitiva igreja para considerar Jesus como parte tri- na de Deus. João abre o Evangelho, dizendo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus, e todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez”. O Espiritismo nos ensina que Jesus Cristo é o dirigente do nosso mundo e foi ele quem presidiu a criação de todas as coisas nele existentes, o que é corroborado pelo próprio Mestre quando asseverou: E agora glorifica-me tu ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse. (João, 17:15) Quando o Pai achou oportuno que uma nova mensagem fosse revelada à Terra, encarregou o seu Filho de concretizar essa revelação e, então, o Verbo se fez carne, na pessoa de Jesus Cristo, e ele habitou entre nós. Uma análise mais profunda dos Evangelhos, e uma meditação mais prolongada, propiciará a qualquer um o conhecimento de que Deus é o Pai, Jesus o seu Filho, nosso irmão maior. A “TENTAÇÃO” DE JESUS Imediatamente o Espírito impeliu para o deserto. Ali ficou quarenta dias tentado por Satanás; esta- va com as feras, e os anjos o serviam. (Marcos, 1:12) O Evangelista Marcos, sem ter sido discípulo direto de Jesus Cristo, escreveu em seu Evangelho, pelos infor- mes que conseguiu colher, que o Mestre foi tentado, durante quarenta dias no deserto. Outros Evangelistas foram mais além e afirmaram que Satanás levou o Senhor ao pináculo do templo e a um monte e ali lhe fez uma série de propostas, dentre elas uma bastante arrojada: O poder sobre todos os reinos da Terra em troca da sua submissão. Qual o Espírito das trevas, mesmo o mais arrojado, teria a audácia de enfrentar Jesus Cristo, face a face, para lhe fazer propostas de ordem profundamente mundana? Os Evangelhos narram que os Espíritos trevosos fugiam espavoridos à simples aproximação do Mestre, haja vista, para ilustração, o caso do célebre possesso geraseno (Marcos, 5:6-7) O Espiritismo define bem o vocábulo Satanás termo genérico que abrange o conjunto dos Espíritos que per- sistem em viver nas trevas, tendo a prática do mal como apanágio. Espíritos esses que a misericórdia do Criador fará com que retornem, um dia, a lei da evolução que Ele os conduzirá. O estado de Satanás não é portanto um es- tado permanente. Trata-se de um estágio temporário escolhido pelo próprio Espírito que se compraz na prática do mal, estágio esse que terá um fim quando o Espírito, cansado de viver na recalcitrância e na prática de atos maus, se decidir a retomar a senda evolutiva. Ora, assim como qualquer treva é afugentada pelo raiar do sol, qualquer Espírito trevoso se afasta quando uma entidade sublimada, principalmente da ordem hierárquica a que pertence Jesus Cristo, dele se aproxima. Conseqüentemente, jamais poderemos aceitar em seu sentido literal as narrativas evangélicas sobre a tenta- ção de Jesus, cumprindo tão somente extrair delas o sentido simbólico que encerram, como constante advertência aos homens sobre a necessidade de oração e vigilância. Quando o Mestre desenvolveu entre nós o seu sublime Messiato, fortes barreiras foram erguidas contra as inovações que vinha trazer. As potestades das trevas se mobilizaram, através dos seus agentes encarnados e de- sencarnados, no sentido de embaraçar a transcendental missão que representava um dos mais autênticos presentes do Céu à Terra. Enquanto alguns Espíritos menos evoluídos procuravam solapar a fé e a disposição de trabalho dos apóstolos, ora criando rivalidades entre eles, ora tentando fazer desfalecer a fé que os animava, outros instalavam o seu quar- tel-general no Sinédrio, insuflando o ódio e o falso zelo religioso na mente dos escribas, dos fariseus, dos saduceus e de outros mentores religiosos. Esse estado de coisas levou os condutores do povo a exigir, na frente do Pretório, a condenação de Jesus Cristo e a libertação de Barrabás. A crença na tentação de Jesus ainda se torna mais problemática quando as narrativas afirmam que ele se en- contrava no deserto, e as sugestões do lendário Satanás se fizeram em Jerusalém no pináculo Templo, ou em cima de um monte, induzindo-os a crer que houve um autêntico fenômeno de bilocação ou de levitação, o que torna a nar- ração ainda mais inverossímil. A tentação de Jesus, narrada pelos Evangelistas tem o objetivo primário de nos ensinar a importância da ora- ção e da vigilância para não cairmos em tentação, pois, mesmo os Espíritos que descem à Terra para o fim específi- co de aqui desempenharem missões relevantes, podem fracassar se não houver o devido discernimento em face das sugestões ou obstáculos que são entrepostos pelos Espíritos das trevas. Dada importância de que se revestiu a missão desempenhada no mundo pelo Cristo, forçoso é se convir que todos os Espíritos, que o assessoraram na tarefa, não fizeram por acaso. Obviamente, legiões de Espíritos de ordem elevada encarnaram na Terra para serem contemporâneos de Jesus e cujas tarefas foram objetos de um plano ardi- damente preparado. Por isso afirma João, no capitulo 17, versículos 14 a 18 do seu Evangelho: Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os aborreceu, porque eles não são do mundo. Não rogo que tires do mundo, mas que guar- des do maligno. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo.
  • 19.
    Fatos da Vidade Jesus: Questões Polêmicas No entanto, muitos desses Espíritos teriam fracassado não fora a amorosa interferência de Jesus: Maria Madalena teria continuado no caminho do erro; Paulo de Tarso teria continuado a ser o antítese do Cristão; Pedro teria sido vítima dos Espíritos do mal e sua fé teria desfalecido. O ensinamento propiciado pela tentação tem, pois, por objetivo primário, demostrar que o simples fato de es- tar encarnado na Terra, mesmo em se tratando de Espíritos, de ordem elevada, cria a necessidade da oração e da vigilância, em face dos atrativos que a vida humana oferece àqueles que se deixam seduzir pelas coisas de César. POR QUE ME DESAMPARASTE? “E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lama sabachtani; isto é, Deus meu, por que me desamparaste? “ (Mateus, 27:46) Os estudiosos dos Evangelhos sofrem um impacto quando se deparam com a afirmativa de Mateus e Marcos, em torno das palavras pronunciadas por Jesus Cristo na hora suprema: Deus meu, Deus meu, por que me desampa- raste? pois elas dão a entender que o Mestre ficou angustiado e aterrorizado quando do desfecho da sua missão. Os outros dois evangelistas, entretanto, afirmam que as palavras do Mestre não foram estas, mas sim: Pai em tuas mãos entrego o meu Espírito, segundo Lucas (23:46), e Tudo está consumado, segundo João (19:30). Alguns exegetas, objetivando minorar o efeito que as palavras Deus meu, Deus meu, por que me desampa- raste? tiveram aos olhos do povo, sustentam que elas foram Deus meu, como glorificaste? Outros ainda, ousada- mente, proclamaram que a interrogação Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? não foi pronunciada por Jesus, mas sim por Dimas, um dos ladrões crucificados ao seu lado e a quem ele havia formulado uma promessa de com ele encontrar-se no mundo espiritual. Vendo-se desamparado com a desencarnação de Jesus, possuído de ex- tremo desespero, teria pronunciado tais palavras, que devido ao tumulto reinante nas proximidades da cruz, teriam sido atribuídas ao Mestre. Existem várias profecias sobre a vida e obra de Jesus Cristo. Em torno dessa passagem também existe uma: o Salmo 22:1 de Davi é explícito: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas as palavras do meu bramido, e não me auxilias? Esse vaticínio, bem como os de outros profetas, parecem validar aquelas discu- tidas palavras atribuídas ao Messias. Na descrição do evangelista Mateus existe ainda outro pormenor: as palavras Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? são uma tradução de Eli, Eli, lama sabachtami. Os que testemunharam a ocorrência aparente- mente não as entenderam com essa significância, pois logo em seguida disseram: Ele chama por Elias (Mateus, 27:47), (Marcos, 15:35) e Vejamos se Elias vem livrá-lo. (Mateus, 27:49). Explicam alguns que o fato de estarem ali alguns gregos e romanos, fez com que as palavras proferidas pelo Mestre não fossem entendidas em seu verdadeiro sentido, levando-os a dizerem: Ele chama por Elias. Essa explicação, todavia, não tem consistência, pois, nessa al- tura, gregos e romanos que ali estivessem pouco ou nada sabiam em torno de Elias ou de Deus. Teria realmente havido confusão entre os nomes de Eloim (denominativo de Deus entre os Judeus), e Elias (profeta)? Os evangelistas Lucas e Marcos não foram discípulos de Jesus, conseqüentemente não assistiram ao sacrifí- cio do Calvário. As narrativas dos evangelistas não acusam a presença de Mateus no local. O único que testemu- nhou o fato foi João, que estava nas proximidades da cruz, e segundo esse apóstolo as palavras do Senhor foram: Está consumado. Os evangelistas Marcos e Mateus, ao escreverem os seus evangelhos, trinta ou quarenta anos após a crucifi- cação do Mestre, talvez tenham-se apegado aos vaticínios contidos no Salmo 22:1 de Davi, ao tentarem descrever os últimos momentos de Jesus entre os homens. Alguns exegetas do Evangelho aceitam as palavras: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? como tendo sido proferidas por Jesus. Afirmam que Joana D’ Arc, também, no momento cruciante de sua vida, quando foi atada à fogueira, cessou de ouvir vozes dos seus Espíritos benfeitores, e julgou-se desamparada. Afirmam então, ainda que de fato não pudesse Jesus ser desamparado por Deus, sentia em si todo o amargor que a carência da divina consolação produz na alma sensível - e ele se constituíra em amparo para todos os pecado- res do mundo. HOMÔNIMOS NOS EVANGELHOS “Mas Maria guardava todas estas coisas, conferindo-as em seu coração.” (Lucas, 2:19) A existência de nomes semelhantes tem dado origem a algumas confusões entre pessoas que tomam conhe- cimento das narrativas evangélicas, sem uma análise mais profunda dos seus textos. Existem nos Evangelhos três personagens com o nome de João: um deles foi o filho de Isabel e Zacarias e passou à posteridade com o nome de João Batista, pelo fato de praticar o batismo da água às margens do rio Jordão; o outro, filho de Zebedeu, passou a ser conhecido por João Evangelista, em virtude de ter sido o autor do chamado Quarto Evangelho. João Marcos, cuja mãe chama-se Maria, foi discípulo de Pedro e posteriormente de Paulo e Barnabé. Foi au- tor do Segundo Evangelho. O primeiro, como reencarnação do Espírito do profeta Elias, foi precursor do advento de Jesus Cristo; o se- gundo foi um dos seus apóstolos. Ambos desempenharam tarefas distintas, pois, enquanto João Batista veio prepa-
  • 20.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho18 rar a Humanidade para a vinda do Messias, cumprindo assim os vaticínios de vários profetas. João Evangelista as- sessorou dedicadamente o Mestre, no desempenho de seu sublime Messiado. João Batista foi decapitado por sugestão de Herodías e Salomé, e por ordem de Herodes; João Evangelista foi desterrado na Ilha de Patmos, na Grécia, e ali desencarnou de velhice, após ter escrito um Evangelho, algumas Epístolas e ter recebido, via mediúnica, o apocalipse. Nos Evangelhos constam narrativas sobre cinco Marias. Enumeremo-las: Maria de Nazaré, Maria de Betânia, Maria Madalena, Maria, mãe de Marcos e Maria de Cleofas. Algumas confusões tem ocorrido sobre esses persona- gens, principalmente sobre Maria de Betânia e Maria de Magdala. Maria Madalena ou Maria de Magdala, segundo a citação evangélica, converteu-se à Doutrina do Cristo após ter ele afastado dela uma legião composta de sete Espíritos obsessores, que a mantinham terrivelmente possessa. Ela acompanhou o Mestre durante praticamente todo o seu Messiado, foi a primeira pessoa a quem o seu Espírito apareceu, após o drama da crucificação, e posteriormente ainda conviveu com os apóstolos. A sua reforma interior foi altamente apreciada por Jesus, pois foi exemplo vivo de pessoa que se enquadra na sentença evangélica: Quem tomar do arado não deve mais olhar para trás. Maria de Betânia era irmã de Marta e de Lázaro. Sobre ela existem algumas narrativas: uma delas que, ao ser visitada a casa de Lázaro, ela se assentou aos pés do Mestre, a fim de ouvir as suas maravilhosas palavras, ao con- trário, de Marta que passou a se dedicar exclusivamente aos afazeres domésticos. Diante da observação de Marta, de que Maria deveria ajudá-la, Jesus sentenciou: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas. Mas uma só necessária e Maria escolheu a boa parte, a qual jamais lhe seria tirada. Quando o Senhor visitou a casa de Simão, o Leproso, ela foi até lá, portando um vaso de ungüento de alto valor. ali chegando, quebrou-o e derramou o seu conteúdo sobre a cabeça do Mestre. Judas Iscariotes e outros apóstolos lamentaram o desperdício, dizendo que ela deveria ter vendido o ungüento e distribuído o dinheiro entre os pobres. Diante da observação de Judas, o Meigo Nazareno, afirmou: Deixai-a, para que molestais? Ela fez-me uma boa obra. Porque sempre tendes convosco os po- bres, e podeis fazer-lhes bem, quando quiserdes; mas a mim nem sempre me tereis. Ela fez o que podia; antecipou- se a ungir o meu corpo para a sepultura. Em verdade vos digo que, em todas as partes do mundo onde este Evan- gelho for pregado, também o que ela fez será contado para memória sua. Maria de Nazaré foi a mãe carnal de Jesus. Espírito Missionário que desceu à Terra para que nele se cumpris- se a profecia de Simeão (Lucas, 2:25-35): E uma espada trespassará também a tua própria alma; para que se mani- festem os pensamentos de muitos corações. Ela nasceu em Nazaré, na Galiléia. Maria de Cleofas era prima-co-irmã de Maria de Nazaré e mãe dos apóstolos Tiago Menor, Simão Cananita e Judas Tadeu, por isso eles eram chamados Irmãos do Senhor. Maria, mãe de João Marcos, era quem abrigava os discípulos e apóstolos de Jesus em sua casa, nos dias das intensas perseguições. Os Evangelhos e o livro dos Atos dos Apóstolos nos dão conta da existência de dois Filipes. O primeiro foi apóstolo de Jesus Cristo, era de Betsaida, a mesma cidade de onde provieram os apóstolos Pedro e André. Foi quem apresentou Natanael ao Senhor, fazendo com que ele passasse também a segui-lo, transmudando-se num dos apóstolos. O segundo foi um dos sete diáconos, eleitos para zelarem pelo andamento da Casa do Caminho. Natural de Hierápolis da Frígia, era pai de quatro filhas donzelas, as quais eram portadoras de mediunidade e se comunica- vam freqüentemente com os Espíritos (Atos:, 21:9). Esse Filipe foi responsável pela conversão do Eunuco da Etió- pia, fato narrado em (Atos, 8:26-40). Um passou a ser conhecido como Filipe, o apóstolo; o outro por Filipe, o Evan- gelista, uma vez que, após a lapidação de Estevão e a dispersão dos cristãos de Jerusalém, passou a ser ardente divulgador dos Evangelhos de Jesus. Os Evangelhos nos dão conta da existência de dois Tiagos. Para diferencia-los um foi designado Tiago Maior e outro Tiago Menor. Ambos foram apóstolos de Jesus Cristo. Tiago Maior era filho de Zebedeu e irmão de João Evangelista. Foi um dos mais destacados discípulos, chegando mesmo a exercer certa hegemonia sobre os demais apóstolos, após a crucificação do Mestre. Foi executado à espada, por ordem de Herodes. Tiago Menor ou Tiago, o Justo, era filho de Alfeu e Maria de Cleofas, e irmão dos apóstolos Judas Tadeus e Simão Cananita. Era primo-irmão de Jesus, dai o qualificativo de Irmão do Senhor. Aparentemente foi apedrejado por ordem do Sumo Sacerdote Ana- nias, o Jovem, no ano 62 ou 63. Foi autor da Epístola Universal de São Tiago.
  • 21.
    Capítulo 7 JOÃO BATISTA,O PRECURSOR NASCIMENTO DE JOÃO BATISTA (MT., 3:1); (LC., 1:5) Na importância transcendental do trabalho de Jesus na Terra, encontram-se ascendentes na assistência do Plano Superior, desde os Profetas maiores e menores, dos quais falam os teólogos, até o grande precursor, a voz da verdade que clamou no deserto árido dos espíritos humanos conturbados. Hoje, ainda, o Consolador, porta voz do Senhor, testemunha fiel do Precursor, caminha pelos desertos da vida, sem descanso, oferecendo trabalho fraterno e evolução, aparando e fortalecendo os ensinamentos do Mestre. João Batista era filho de Zacarias, um sacerdote da Judéia, e de Isabel (Elizabeth), parente próxima de Maria, mãe de Jesus. “E eram ambos justos perante Deus.” Segundo o testemunho o anjo Gabriel anunciou a Zacarias o nascimento de João “com o fim de preparar ao Senhor um povo bem disposto” (Lc., 1:11 a 19). Isabel era estéril e de idade avançada e, por isso, Zacarias duvidou do aviso do Anjo e, por isso ficou mudo por uns tempos. Este anúncio foi solenemente feito na Casa do Senhor, em dia de trabalho sacerdotal. (I, Crônicas, 24) Quando completou-se o tempo (Lc., 1:57) Isabel deu à luz um filho. Zacarias, cheio de júbilo, disse que se chamaria João e, imediatamente recomeçou a falar, louvando a Deus (O Cântico de Zacarias - Lc., 1:67-80). “E a mão do Senhor estava com João.” João cresceu cheio de virtudes e, ascético, retirou-se para o deserto. Embora o Evangelho não comente, afir- ma-se que João Batista foi iniciado pelos essênios e se preparou no deserto (intérpretes judeus e tradição espiritual) (Bíblia de Jerusalém e os documentos de Qumrã). Pelo testemunho de Jesus, João Batista foi Elias, profeta maior , em vida anterior e prenunciado por Isaias, em Is., 40:3 a 8. A PREGAÇÃO (LC., 3:7 A 17) Às margens do Rio Jordão, em Betânia, João Batista prega que “toda carne é como erva (vida efêmera) e toda a sua beleza, como as flores do campo (fenecem e caem) mas a palavra de Deus subsiste eternamente”. João alertava para a vida próxima do Messias e insistia no preparo da Penitência, através do batismo e do ar- rependimento. (Mt., 3:11) “Preparai o caminho do Senhor; endireitai as suas veredas...” Para o refazimento espiritual mister se faz endi- reitar os caminhos morais, aprimorando os impulsos mentais com humildade e paciência. Ao ver muitos saduceus e fariseus procurá-lo, clamava: “Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futu- ra (reação da vida)? Produzi frutos dignos de arrependimento, advertindo que o arrependimento para ser sincero e válido deve ser profundo e profícuo, sofrido e renovado. A fé sem boas obras é morta”. Anunciava a Jesus, dizendo “Aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas alpercatas não sou digno de levar; ele nos batizará com o Espírito e com o fogo”. (Mt., 3:11; Lc., 3:16) Seu batismo tinha o significado de um compromisso de mudança interior de vida (Reforma íntima). Em sua pregação resumia, como Jesus mais tarde, a obra fraterna: “Quem tem duas túnicas, reparta com o que não tem e quem tiver alimentos, faça o mesmo”(Lc., 3:11) “A ninguém tratai mal, nem defraudeis”, significando a máxima de Jesus “fazei ao próximo o que quereis que vos façam”. Tudo o que se faz é supervalorizado, em virtude dos interesses terrenos. O orgulho, a vaidade e o egoísmo adornam a cabeça dos vendilhões da paz. A insatisfação é o alimento dos desajustados de si mesmos. O homem firme sabe o que deve fazer na busca da sua evolução material e espiritual, aproveitando o esforço nas oportunidades e iniciativas, com dignidade e respeito pelos semelhantes. O BATISMO DE JESUS E O TESTEMUNHO DE JOÃO BATISTA (LC., 3:21), (MT., 3:13), (MC., 1:9) E (JO., 1:15) No tempo certo, Jesus desceu da Galiléia ao rio Jordão, onde estava João Batista. Este ao vê-lo, disse: “eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”(Jo., 1:29), e não queria batizá-lo por não se achar disso. Jesus po- rém respondeu: “Deixa por agora, porque assim nos convém cumprir a justiça”. (as profecias). Jesus se submete ao batismo como um acontecimento que objetivava identificar a sua personalidade, assu- mindo, então o seu ministério messiânico em cumprimento da justiça perfeita de Deus: justiça com misericórdia. (Mt., 5:17) “É necessário que ele cresça e eu diminua.”(Jo., 3:30)
  • 22.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho20 Fazendo-se pequeno e humilde o homem é atraído pela grandeza do coração manso e meigo de Jesus. Quanto mais elevado o homem construir o santuário do Pai em seu coração, mais será atraído e absorvido por fo- çãos espiritualizantes. Quanto mais a mensagem de Jesus crescer no coração do homem, mais ele terá diminuído os defeitos que dormitam em sua alma, crescendo assim a qualidade dos sentimentos e da inteligência como Homem Novo ligado ao Cristo. PRISÃO E EXECUÇÃO. (MT., 14: ), (MC., 6:14) E (LC., 3:19) A missão de João termina com seu encarceramento, por ordem de Herodes, o tetrarca, por causa de sua mu- lher, Herodíades, antes mulher de seu irmão Filipe, que havia sido assassinado. Herodíades usa de um estratagema e instrui sua filha para que, ao dançar para Herodes no dia de seu aniver- sário, lhe pedisse a cabeça de João Batista. Herodes não pode furtar-se porque há havia prometido o que ela pedis- se e mandou degolar João no cárcere. (Mt., 14:10) João Batista foi classificado por Jesus como: “o maior dentre todos os nascidos de mulher” e “maior que pro- feta”. (Mt.m 11:9-11)
  • 23.
    Capítulo 8 OS DOZEAPÓSTOLOS OS PRIMEIROS DISCÍPULOS (MT., 4:12), (JO., 1:35), (MC., 3:13) E (LC., 6:12) Foi por ocasião da volta de uma visita a Jerusalém, pela Páscoa. que Jesus começou a confiar a doze amigos para que o seguissem na Grande Missão Fraterna, numa evocação de novos guias “do povo eleito de Israel”(As 12 tribos de Israel). Esse número era importante para eles e foi restabelecido depois da deserção de Judas (Atos, 1:26) na escolha de Matias, através de Efodi, antigo instrumento de consulta a Javé, hoje interpretado como de natureza mediúnica. (Ex., 33:7) Matias também conhecera Jesus e o acompanhava sempre, inclusive, por ocasião do seu ressurgimento do túmulo. Segundo João Evangelista (Jo., 1:35), no dia seguinte ao batismo de Jesus, que aconteceu perto de Betânia, além do Jordão, nas cercanias de Jericó, João Batista estava com dois discípulos seus, quando ao ver passar o meigo Rabi exclamou: “Eis o Cordeiro de Deus”. Ao ouvir a frase, como um sinal, seguiram Jesus e ficaram com ele pelo resto do dia (eram 16 horas). Na ver- dade o chamamento celeste é inerente ao espírito, é a força de atração do Amor do Criador à sua criatura. Esses dois discípulos eram João e André, irmão de Simão Pedro. André chamou a Simão Pedro a quem Jesus recebeu amorosamente e o apelidou de “Cefas” que quer dizer “pedra”(forte como a rocha), indicando a força da fu- tura casa doutrinária construída sobre rocha, anunciando o futuro membro destacado do Colégio Apostólico. Algum tempo depois, já na Galiléia, o Mestre chamou a Felipe, conhecido de Pedro, pois era seu conterrâneo, da cidade de Betsaida, às margens do Lago Genesaré, também conhecido como Mar da Galiléia. Felipe chamou Natanael, que era de Canaã, na Galiléia (Jo., 21:2), também conhecido como Bartolomeu nos Evangelhos sinópticos, o qual Jesus “viu antes sob a figueira”. Este conhecimento presciente e telepático é uma das características do Messias, que faz também nesses versículos a profecia sobre o seu ressurgimento do túmulo: “Coisas maiores do que esta verás... daqui em diante vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”. (Jo., 1:51) Tiago, irmão de João, filhos de Zebedeu e Salomé, atendeu o chamado com alegria, pelo amor que já tinha a Jesus, pois os dois eram galileus de Betsaida, pescadores generoso e sinceros, cognominados por Jesus de os Fi- lhos do Trovão, por seu dinamismo amoroso, embora ainda muito jovens. Os irmãos Tadeu e Tiago Menor logo se juntaram ao pequeno grupo, filhos de Alfeu e Cleofas, eram aparen- tados com Maria, conhecendo e amando a Jesus desde pequenos. Tomé, também da família de pescadores da região de Dalmanuta, tinha uma personalidade e firmeza de ca- ráter. Simão, o Cananita, mais tarde apelidado de Zelote, era também humilde pescador e, talvez, o mais velho de todos (Boa Nova, cap. 9). Levi ou Mateus, todos já conhecem a sua vocação contada nos três Evangelhos sinópticos. Apenas o seu Evangelho o chama de “publicano”, eticamente evitado por seus companheiros evangelistas. Reza a tradição espiri- tual que Mateus era conhecido de Jesus desde pequeno, tendo sido seu companheiro nos estudos na Sinagoga. Finalmente é escolhido Judas Iscariotes que se estabelecera comercialmente em Cafarnaum, onde vendia peixes e quinquilharias. Portanto, foram os seguintes os apóstolos de Jesus: • Tiago Maior; • Tiago Menor; • João - também conhecido por João Evangelista; • Pedro - também conhecido por Simão Pedro ou Cefas; • Felipe; • Mateus - também chamado de Levi, o Publicano; • Judas Iscariotes - também conhecido por Judas de Kerioth; • Simão Cananita - também conhecido por Simão, o Zelote; • Tomé - também conhecido por Dídimo; • Natanael - também conhecido por Bartolomeu; • Judas Tadeu - também conhecido por Judas Lebeu • André
  • 24.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho22 A MISSÃO DOS DOZE APÓSTOLOS No decurso de toda a História da Humanidade, vemos que os grandes missionários não trabalham sozinhos, objetivando assim colimar a máxima fraternidade, através da cooperação mútua. Afirma Cairbar Schutel, em seu li- vro “Espírito do Cristianismo”, que as grandes missões requerem sempre grandes Espíritos. Jesus Cristo, além de ensinar, também propiciou exemplos salutares durante toda a sua vida. Para dar conti- nuidade à sua missão, o Mestre preparou outros Espíritos, de sua inteira confiança, para que, através dos milênios não se descuidassem de “endireitar os caminhos do Senhor”, como o fez João Batista. Deste modo o Redentor deu uma demonstração viva do seu amor pela Humanidade que Deus colocou sob a sua tutela, prometendo ainda que, em época propícia enviaria o Espírito Consolador, para dar testemunho da verdade e restabelecer as primícias dos seus maravilhosos ensinamentos. (Jo., 16) É indubitável que a sublime missão desempenhada por Jesus Cisto e pelo seus doze valorosos apóstolos não abrangia meramente uma renovação intelectual de aspecto material, mas tinha um caráter mais transcendental, ou seja, conduzir os homens no roteiro certo para colimar a reforma íntima. Ele não deu o peixe aos homens, mas ensi- nou-os a pescar, do mesmo modo como ele veio “pescar” muitas almas que se achavam chafurdadas nas traves da ignorância. Jesus Cristo convocou os doze apóstolos, e, no Evangelho segundo Lucas, vemos que ele arrebanhou outros setenta discípulos, dando a todos a autoridade sobre os Espíritos maus e o poder para colimar todos os tipos de cura, pois o Mestre conhecia o que reinava em seus corações, sabendo de antemão que eles eram aptos para a tarefa. Como ponto de partida, Jesus fez-lhes um discurso de advertência, demonstrando o caráter do seu coração extremoso: “Dirigi-vos às ovelhas desgarradas da casa de Israel”, pois o Mestre em sua sabedoria sabia que o tempo para a conversão dos gentios também se avizinhava. “Amai os alquebrantados da alma, despertai aqueles que dormitam no desinteresse, dai de graça o que de graça recebestes”, pois o Reino dos Céus conquista-se com as boas obras. Os dons que Deus nos concede são ex- pressão da sua excelsa vontade. “Se forem bem recebidos nas cidades, saudai-as; se não, esquecei-as” (e não se envolvam em suas vibrações impuras), pois a fé não pode ser imposta mas conquistada”. “Sacudir o pó das alpercatas” é não conservar mágoa. “Sede prudentes como as serpentes e sem malícia como as pombas.” Jesus asseverou que os missionários seriam perseguidos mas que nunca estariam desamparados do Pai. Não existe discípulo superior ao Mestre, basta que o discípulo procure tomar o Mestre como paradigma. Não se preocupar com o reconhecimento alheio, com a estima do mundo, pois o reino de Deus não tem apa- rências exteriores - é realidade insofismável e concreta. Que esperar do julgamento humano para nós quando o pró- prio Jesus foi crucificado? O destaque terreno é fugaz ou então desaparece nos contornos históricos. Só a bondade vive sempre na lembrança. Fala abertamente e sem medo, pois não há nada encoberto que não venha a ser revelado; “dizei-o à luz do dia”. Não temer a morte do corpo, mas aquilo que corrompe a alma como os maus sentimentos e as iniquidades. “Não vim trazer a paz mas a espada.” Jesus não oferecia a paz da comodidade, mas o instrumento de aperfeiçoamento no conhecimento, na carida- de e no burilamento do Espírito através dos esforços nobres. Ele oferece uma batalha sem sangue, mas com suor e lágrimas, a batalha do aperfeiçoamento, pois nenhuma idéia nova se estabelece sem lutas. (ESE, cap. XXII, itens 12 e 16) Jesus sabia que os seus ensinamentos não se expandiriam nem frutificariam pacificamente, por causa da du- reza dos corações humanos. Desta forma, até hoje, irmãos empunham armas contra irmãos por não professarem as mesmas idéias e sentimentos, esquecidos do legítimo ideal de amor ao próximo. Finalmente, Jesus assevera que é preciso renuncia a si mesmo, com sublimidade, para segui-lo, isso com o significado de colocar os elevados propósitos da vida maior acima dos mesquinhos e acanhados interesses munda- nos. E concluiu: “Quem vos recebe, a mim recebe, e quem me recebe, recebe ao que me enviou. Quem for caridoso é meu discípulo e jamais perderá o seu galardão.” em súmula, Jesus recomendou o testemunho e a dignidade, a perseverança e a caridade, enfim, a fidelidade aos desígnios de Deus, nosso Pai Celestial. Jesus conclama a todos para que tenham senso de responsabilidade perante o próximo, pois, só assim a fra- ternidade se torna obra de fé.
  • 25.
    Capítulo 9 O SERMÃODO MONTE: BEM AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO INTRODUÇÃO Sermão significa discurso moralizante, evangélico, prédicas com preposições positivas para o bem viver. No sentido popular, ganha um atributo de censura, em virtude da sistemática radical de certas religiões. O “Sermão do Monte”, um ponto fundamental do Evangelho, encerra o substrato dos ensinamentos redentores de Jesus, resumindo o estatuto moral da Fraternidade dos Discípulos de Jesus, possibilitando a conduta pessoal evangélica através de uma conscientização analítica e perseverante. É a Carta Magna do Testamento de Amor entre os homens e Deus, na intimidade das relações do homem com o seu semelhante. Para melhor compreensão, os teólogos dividiram o discurso evangélico em 2 partes: a) Bem-aventuranças (Mt., 5:1 a 12): Jesus fala aos corações mais sofridos pela vida de res- gates, consolando para que não se desesperem, jorrando esperanças nos umbrais da vida. Doentes do corpo e do espírito: sofredores, angustiados e aflitos descortinavam um novo caminho de esforço com vistas à redenção. As três primeiras bem-aventuranças declaram que os infelizes se preparam para receber a bênção do Reino dos Céus, através do burilamento pela dor. As seguintes se referem à atitude moral do homem destacando a importância da Reforma Íntima, na erradicação do mal e cultivo das virtudes. A essência destes ensinamentos é que pela humildade, pelo altruísmo, pela dor, pela renún- cia, pela justiça, pela caridade, pelo saber com misericórdia, o homem erige dentre de si mesmo o Reino de Deus. Em seu curto e sublime Messianato na Terra, Jesus exemplifica suas palavras por todos os tempos. Pelo reconhecimento e desintegração dos defeitos pela prática das virtudes; pela sublimação das dores, o homem renova-se, elevando-se em círculos cada vez mais amplos, ao ideal harmônico da Sabedoria e Amor. As bem-aventuranças são fundamentadas nas leis naturais de Deus, com aplicações em to- dos os nossos momentos de reflexão e fé. A dor não é pois, um castigo de Deus - é oportunidade bendita de resgate. b) O Cumprimento da lei e dos profetas (Mt., 5:17 a 7:29) Ao afirmar que não veio revogar a lei e as palavras dos profetas, mas cumpri-las, Jesus san- cionou-as e expandiu seus horizontes, mostrando o caminho da espiritualização do homem: “O Reino do Céu é uma conquista, onde a justiça convive com a misericórdia, o saber e o Amor”. Esta 2ª parte é como um desdobramento das bem-aventuranças. como alcançá-las. É tam- bém o traço de união entre o Antigo e o Novo Testamento, onde a antiga Lei de Justiça é consagrada no envolvimento do Amor. Na lei divina, nem “um til se omite”, mas junta-se a razão do amor e a fé pela razão, para consolidação da igualdade e da fraternidade com a boa vontade e respeito mútuo entre os homens. Justiça, amor ao próxima, humildade, perdão, respeito, caridade, oração, mansidão, o prejuí- zo da ansiosa solicitude pela vida, o juízo temerário, o bem e o mal, o verdadeiro discípulo, a casa so- bre a rocha - resumem a razão de bem viver no ensino maior de Jesus: “Sede perfeitos, como é per- feito vosso Pai que está nos céus”. (Mt., 5:48) BEM-AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITOS Todos concordam que o mal na Terra é o orgulho, produto nefasto do egoísmo, matriz de uma pretensa supe- rioridade que acaba levando o ser às trevas ilusórias da ignorância espiritual. O homem orgulhoso enriquece o espírito de vaidades que se desfazem no túmulo: a fama por conquistas de- senfreadas e transitórias; a ambição do poder; suposta superioridade de raça, religião e nação, glória efêmera etc. Todo poder desestruturado não se mantém, ainda que obtido por uma grande inteligência mergulhada em desmedido orgulho, pois num certo momento, vai de encontro à força da Harmonia que rege o Universo, onde, en- tão, a alma se volta à simplicidade, revestindo-se de humildade, constrangida a despir o orgulho através da dor e do sofrimento que o próprio ser a si se destinou em sua auto-exaltação. Assim, dentre os maiores defeitos, destacamos o orgulho e a vaidade. Todo orgulhoso é vaidoso e se reveste de sua redoma de amor-próprio egoísta.
  • 26.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho24 Características do orgulho e da vaidade: a) O orgulho: • Melindra-se por qualquer coisa • Não aceita crítica, mas acha-se senhor para criticar. • Não reconhece seus erros, crê-se dono da verdade. • É presunçoso, cuidando da imagem pretensa, ainda que prejudique o próximo. • Esconde-se na ironia quando aceita debater. b) A vaidade: • É a coroa do orgulhoso. • Procura sempre evidenciar-se cultural ou socialmente, mesmo sem méritos. É intolerante ou falso indulgente. • Acha-se sempre apto a cargos para os quis realmente não tem capacidade, mas que pode fazer evidenciar a sua personalidade. • Nunca é culpado ou então é vítima da sociedade. Em resumo, o orgulho faz o rebelde ilusionário, perante a realidade da vida e da vaidade obscurece e invalida sua possibilidade de raciocínio equilibrado. Características da Humildade: a) A Humildade: • É uma virtude quando soma sentimentos elevados. É modesta e sóbria. Não existe um hu- milde bruto, intolerante, grosseiro - mas a brandura, o perdão, a piedade, a indulgência, a solidarieda- de lhe são inerentes. Sabe sofrer também e ser humilde. • Todo ser humilde procura sempre se conhecer com prudência para não se julgar acima de seus semelhantes, mas para saber pairar acima das circunstâncias. • A humildade é simplicidade de coração, despojado das paixões, em espírito e verdade. Também é companheira da caridade. Por esta razão Jesus afirmou a bem-aventurança dos pobres de espírito. “Os homens são iguais na balança da vida: só as virtudes os distinguem aos olhos de Deus”. (Allan Kardec) • Dentre os grandes mas caros exemplos da humanidade, lembraremos Paulo de Tarso: dou- tor da lei, orgulhoso, mas honesto, que aceitou, presto, o chamamento do Senhor. Sem abdicar dos seus conhecimentos, valorizou-os colocando-os ao alcance da maioria sofrida, comprovando que a Sabedoria e as Grandes Virtudes devem andar juntas para haver harmonia. Como Cultivar a Humildade? • Pela reflexão e análise dos nossos valores, podermos erradica, esforçadamente, o mal: por- que nos melindramos? Por que nos queixamos? Por que nos rebelamos? etc. • A resignação sem indiferenças e a boa vontade raciocinada controlam os impulsos negati- vos, nos tornando senhores de nossos sentimentos, anulando a impulsividade grotesca que nos ocasi- ona os maiores arrependimentos. Terás sabedoria em não supores saber o que não sabes”(Sócrates). • Respeito à liberdade de pensamentos e convicções de qualquer idéia diferente da nossa. • direitos e deveres equilibrados; disciplina e obediência racional aos compromissos assumi- dos. • Paciência, tolerância, indulgência assim como queremos para nós. • Pobreza de espírito no dizer de Jesus não é desmazelo - é simplicidade e sobriedade. • Ser reservado e procurar conhecer os limites entre a modéstia e a falsa modéstia que desta- ca a inferioridade para sobressair a superioridade. Quem é o maior no reino dos céus? (Lc., 9:46) “Portanto, aquele que se tornar humildade como este menino, este é o maior no é o maior no Reino de Deus”. (Jesus) Por muitas vezes Jesus atestou que somente a humildade e a caridade são a chave para a pz do espírito, para o Reino do Céu. Até mesmo na hora da última ceia, ele deu seu testemunho de que humildade é a dignidade da simplicidade (ao lavar pés dos discípulos). Todo mérito requer trabalho, esforço, e todo aprendizado tem seu começo: quem quiser ser o primeiro que seja o servo.
  • 27.
    O Sermão daMonte: Bem Aventurados os Pobres de Espírito 25 Complementou e exemplificou Jesus: “Bem como o filho do Homem não veio para ser servido, mas para ser- vir”(Mt., 20:28) Com Lucas, cap. 14:7 a 11, o Senhor conta a parábola dos primeiros assentos e dos convidados das bodas, ilustrando que o que se exalta será humilhado na realidade do seu (pouco) valor.
  • 28.
    Capítulo 10 O SERMÃODO MONTE: BEM AVENTURADOS OS QUE CHORAM E OS QUE SOFREM PERSEGUIÇÃO POR AMOR DA JUSTIÇA BEM AVENTURADOS OS QUE CHORAM Fala-se que a Terra é um planeta de expiação e provas implicando isso na idéia de resgate de faltas passadas e presentes cometidas em encarnações anteriores ou nesta com o objetivo de reajustar a alma humana aos desíg- nios da justiça divina. As encarnações na Terra, todavia, têm muitas outras finalidades: desenvolvimento da inteligência, missão a cumprir, cooperação na obra divina e outras. O homem, por isso, em sua evolução e por sua própria ação abre para si mesmo duas veredas distintas: a do amor ou a dor. A prática do amor é a senda mais curta para se atingir a per- feição, e a fé, a esperança e a caridade são as estrelas guias que orientam o homem no processo evolutivo. Disse Jesus: “bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”. A consolação é a bênção e o auxí- lio que receberão aqueles que souberem sofrer dentro da fé robusta em Deus, e da esperança que norteia as mais belas aspirações. A fé e a esperança são as consolações dos aflitos, as companheiras dos exilados e desventura- dos e as mensageiras das promessas do Cristo. A verdadeira consolação exige ainda a participação do homem na obra do bem através da caridade. Não há, portanto, necessidade de sofrer para se evoluir. Para ser feliz sem a dor que resgata e retempera a alma, o homem deve compreender o bem por sua própria sabedoria, decorrente de seu livre arbítrio. Deus não fez o mal, que é uma ofensa à Lei Natural. A dor não é um castigo de Deus para punir os pecados. (L.E., q. 630) Ela não é causa da evolução espiritual, embora propicie a evolução, como conseqüência ou efeito de um erro no pretérito. O Homem não conseguindo fazer o bem sem errar reajusta-se pelo sofrimento. É preciso, entretanto, saber sofrer, sem reclamar. De nada vale chorar sem arrependimento, sem a compreen- são de que a dor é o remédio para o reequilíbrio e o efeito de um mal. Enfim é preciso saber sofrer para ser bem- aventurado e receber a consolação prometida por Jesus. BEM-AVENTURADOS OS QUE SOFREM PERSEGUIÇÃO POR AMOR DA JUSTIÇA A idéia de justiça palpita em todo ser consciente. “Não façais a outrem o que não quereis que os outros vos faça”. Esta máxima exprime bem o espirito de justiça, assim como não se quer receber menos, também não se deve desejar receber mais; pois, tanto há injustiça na distribuição avantajada para outrem, como quanto se é favorecido. Demais, cumpre considerar que não é propriamente na igualdade da distribuição que está a justiça. A justiça se manifesta no dar a cada um o que é seu, o que lhe pertence, isto é, aquilo a que faz jus e tem direito. A justiça é luz, é lei, e está urdida nos deveres e direitos. Fechem-se os olhos da carne e abram-se os do Espi- rito: ver-se-á na vítima de hoje o algoz de ontem. O Homem é senhor do seu futuro, mas escravo do seu passado. A sabedoria do espírito, ligando o passado ao presente, abrange o conjunto, a realidade, a vida no amálgama das últi- mas existências, tudo ser processando sob o império da Justiça Divina. Com Deus não se faz conchavos, nem nego- ciações. Não se anulam os efeitos das causas nem se pode alterar o curso natural dos acontecimentos. O Homem deve preparar-se para recebê-los, tirando das experiências do presente os elementos para formar um futuro melhor. Jesus aconselha: “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a Sua Justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo”. (Mt., 6:33)
  • 29.
    Capítulo 11 O SERMÃODO MONTE: BEM AVENTURADOS OS MANSOS E PACIFICADORES Continuando a demonstração de que a humildade é um dos meios para alcançar a evolução real, Jesus expli- ca a importância do pensamento e da ação: Radiação Mental. Jesus é a própria doçura, mansidão, paciência; espelhou muito bem a Harmonia e a Ordem divinas que come- çam dentro do próprio homem. A intenção e o interesse desencadeiam as forças da vontade que comandam os pensamentos e as ações. As virtudes devem ser cultivadas pela Reforma Íntima, na implantação da renovação mental e ir se espraiando pelo lar, junto à família, prolongando-se aos amigos sadios ou aos necessitados. A base dos bons pensamentos é a constante e vigilante sintonia elevada das radiações mentais e vice-versa. Os bons pensamentos acalmam as emoções descontroladas produzindo boas ações, dispensando a intolerância e a cólera (curto-circuito pensante). A mansidão, a moderação, a prudência, são o retrato da alma afável e justa. Quanto Jesus explicitou que os mansos herdarão a Terra e que os pacíficos serão chamados Filhos de Deus, ele prometeu a paz na Terra como no Céu. Não se tem a paz e a serenidade no coração, enquanto não se compreender, com paciência, as necessidades dos semelhantes, principalmente quando a ignorância é dirigida pela violência; só se alcança esta compreensão com a afabilidade, a doçura, a tolerância, a brandura e a pacificação. COMO RECONHECER A INJÚRIA, A VIOLÊNCIA, A CÓLERA? A injúria é o ato de ofender alguém atribuindo-lhe, injustamente, uma falsa ação ou pensamento; é difamante. Por várias vezes, Jesus aconselha a não injuriar o semelhante. (Mt., 5:22) Deve-se lembrar que as palavras revestem sonoramente os pensamentos e refletem a expressão dos senti- mentos, consignando, por si, a responsabilidade individual e coletiva. A violência é o ato de transgredir, infligir a lei em coação física ou moral, em abuso do respeito ao próximo. O violento sempre usa da força bruta, enquanto o manso é afável e tolerante. Todo intransigente é irritável e intole- rante e se identifica pela incompreensão e exigência com os outros. São severos e rígidos com os outros, não lhes permitindo infrações, pois se consideram infalíveis. São sempre ríspidos no falar e no agir, às vezes até com quem estima. Têm prazer em denegrir as pessoas. Não sabem perdoar nem mesmo as pequenas falhas humanas. O senso crítico e seu poder de análise os tornam exigentes radicais e du- ros. Jesus mostrou ao homem que com a medida que ele julgar será julgado. (Mt., 7:1-2) A intolerância é irmã da impaciência, da irritação que é o primeiro alerta de perigo do desequilíbrio mental. O impaciente é sempre inquieto, agitado e aborrecido. São defeitos satélites do egoísta. Ele tudo quer como um passe de mágica e se irrita e desespera pelas frustrações sofridas. A intolerância, a impaciência acabam levando o homem à violência e esta à cólera. A cólera é um fluido viscoso que bloqueia a razão e ativa os instintos primários negativos, impossibilitando as criaturas ao entendimento da realidade, subjugando-as ao orgulho pela impotência do seu raciocínio e todos sabe- mos, comprometendo a saúde. Kardec diz que “nesses instantes, se a pessoa pudesse se ver a sangue frio, teria medo e horror de si mesmo ou se acharia bastante ridículo.“ (ESE, ca. IX, item 9) O espírita deve tomar muito cuidado com a cólera. Sendo caso de sentimentos desarticulados, ela não exclui certas qualidades do coração, podendo enganar pela invigilância, atribuindo ao seu temperamento ativo quanto é, na realidade, nascida da impotência do orgulho e da fraqueza nas resoluções das imperfeições que revestem o Espírito. A única solução no momento é dar uma parada rápida nos centros seletivos da mente e procurar a origem do pro- blema, amparados em Jesus, para reorganização da Casa Mental. COMO NOS TORNAMOS AFÁVEIS, MANSOS E PACIFICADORES? A benevolência com os semelhantes, fruto do amor ao próximo, gera a afabilidade e doçura, que são a sua manifestação. (ESE, ca. IX). As pessoas são mansas porque não permitem que nada as irritem, uma vez que são verdadeiras tanto no trato formal como na meiguice do coração para com os íntimos. A brandura e a mansidão complementam a delicadeza de espírito. O ódio, o fanatismo, a ambição do poder e os privilégios da economia, crescem ao nosso redor, entretanto, o foco de luz do evangelho é cada vez mais forte. COMO SER MANSO E BRANDO NESTE MUNDO DE VIOLÊNCIA? Como pacificar o espírito e promover a paz no mundo? - Não existe paz sem liberdade nem liberdade sem respeito mútuo. Nem sempre a retórica traduz os legítimos sentimentos de paz.
  • 30.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho28 Os pensamentos e as ações humanas podem mudar a face da Terra. Jesus disse: os mansos herdarão a Terra e os pacificadores serão chamados Filhos de Deus. COMO HONRAR A PROMESSA DO SENHOR, NA EDIFICAÇÃO DESSE MUNDO MELHOR? Através do auto-aprimoramento e da sinceridade de propósito. A higiene mental, através do pensamento posi- tivo, não dando guarida a contrariedades; à disposição firme para o conhecimento do bem e perseverança na sua prática, a abnegação entendida como renúncia sublimada, como desprendimento; o espírito de conciliação em todas as disputas e exaltações; a busca na prece e na meditação da renovação de forças e disposição para o bem, são elementos de pacificação e mansuetude para a alma.
  • 31.
    Capítulo 12 O SERMÃODO MONTE: BEM AVENTURADOS OS QUE TEM FOME E SEDE DE JUSTIÇA E OS MISERICORDIOSOS É certo que os justos não folgam com a injustiça, nem se sentem indiferentes ao sofrimento alheio, nem são negligentes com suas obrigações pessoais e coletivas. O respeito ao próximo é tão arraigado em si quanto o respeito a si mesmo. Toda injustiça tem sua causa no personalismo que é uma característica do egoísta. Todo personalista se auto- valoriza perante os semelhantes; é sempre o único a conhecer e poder realizar os trabalhos; quer sempre ser servi- do; é teimoso e alimenta seu orgulho na inflexibilidade suas idéias “sempre perfeitas”. Ele jamais aceita colaboração e quando coopera tem que ser o mandante. O saber não é tudo, todos têm algo para ensinar e algo para aprender. Logo, todos têm algo para dar e algo para receber. É o princípio da Fraternidade. Ninguém pode dispensar a colaboração do semelhante, nem mesmo para a sobrevivência comum; cada um tem seu papel na comunidade. Justiça é a virtude de dar a cada um o que é seu; é o equilíbrio do bem senso e o homem de bem é aquele que tem fome e sede de justiça, aquele que legitima o bem, que equilibra os fundamentos da razão, que não pactua com os opressores, que pratica e anseia sempre, pela liberdade dos direitos e deveres de todos. Viver em um mundo de regeneração, de paz e de misericórdia, onde todos se amam e se respeitam, é a sa- tisfação dos melhores anseios e sentimentos do homem, assim como a razão da proposta de Jesus. Para isso se deve volver todos os esforços de auto-aprimoramento, onde o equilibro da balança da Justiça deve se manter entre os direitos do indivíduo e os direitos do seu semelhante. O bom cumprimento do dever é o bál- samo que refrigera a alma. A justiça é a lei com rigor, a misericórdia é a lei com amor. A misericórdia é o coroamento da justiça. Jesus, ao cumprir a lei demonstrou que quando envolvida de amor, ela é sábia e providente. Toda ação tem uma reação, é corolário de “Perdoai para que Deus vos perdoe”. como pode-se perdoar sem brandura e indulgência? Na realidade, as bem-aventuranças são como uma corrente articulada de boa vontade e esforço próprio com o amor, única forma de evolução do espírito. O perdão é o esquecimento pela compreensão. Perdoar - e saber porque perdoa - isso sim, é avanço. Todos trazem consigo aflições que desconhecem. A mi- sericórdia, como a humildade, está na compreensão das ofensas que se julga receber, conscientes de que também se precisa de misericórdia para os próprios erros. “Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, ensinou Jesus. Existe o per- dão nobre, total e irrestrito, mas existe, também, o pseudo-perdão da vaidade ostensiva. Cabe a cada um analisar por si mesmo, independente das aparências, pois Deus tudo vê, até o que está oculto. O perdão não é só dado, mas deve ser pedido sempre que necessário: é a prova da humildade. Kardec lembra o efeito moral do perdão é a liberdade, pois a morte não liberta o homem dos inimigos, como ensina a Doutrina Espírita. O obsediado é quase sempre vítima de uma vingança pelo seu passado, mas Deus jamais abandona quem perdoou não deixando ficar a mercê de vinganças, (ESE, cap. X). Pedir perdão é um bem para o faltoso; perdoar é o sacrifico mais agradável a Deus, pois é indulgência. Misericórdia é compaixão pela miséria espiritual alheia. Misericórdia e piedade são a origem da mais sublime virtude - a caridade moral.
  • 32.
    Capítulo 13 SERMÃO DOMONTE: BEM AVENTURADOS OS LIMPOS DE CORAÇÃO E QUANDO VOS INJURIAREM BEM AVENTURADOS OS LIMPOS DE CORAÇÃO Pureza é a qualidade do puro, uma mistura sem alteração substancial. No contexto, significa, sentimentos no- bres e em coração transparente, imaculado, inocente, virtuoso. A limpeza do Espírito parte dos seus sentimentos e pensamentos e precisa de hábitos higiênicos, tanto quanto cuidamos do corpo físico. Quando se é humilde, o caráter é mais flexível aos ensinamentos e a boa vontade estimula a renovação. Jesus afirmou que começamos a pecar pelo pensamento. O que é o pensamento? O que é a ação da mente? O Pensamento é um fluxo energético composto de matéria mental que são verdadeiros corpúsculos energéti- cos. A mente atua nesse fluxo energético, estimulada pelas vibrações recebidas e a razão recolhe, analisa, assi- mila, transubstanciando segundo a vontade do livre arbítrio, em radiações mentais. Logo, a ação já se inicia no cam- po bioenergético da alma. O pensamento é a primeira fase da ação - INTENÇÃO. Nós influenciamos e somos influenciados pelas vibrações mentais s que irradiamos ou emitimos - indepen- dente da palavra. Um bom pensamento sem a ação fica pela metade. Se o pensamento é sustentado pelos sentimentos: emoção, desejos, etc. a pureza do coração é como uma fonte limpa jorrando as virtudes pelo pensamento: é benéfico. O mau pensamento é resultante da imperfeição da alma e pode ser renovado pela sua vontade. A verdadeira pureza não vem de práticas exteriores, orações contínuas e monocórdicas que nos deixam preo- cupados como os regulamentos humanos e nos dispensam da importância da reforma íntima e da legítima caridade moral com os semelhantes. A Educação social contém disposições e conceitos humanos importantes para o convívio, entretanto, a educa- ção do Espírito é holística, abrangendo o conhecimento da ciência da natureza em que vivemos alagados à consci- entização das leis morais projetadas na existência do Ser. Se Deus é perfeito, é mister que o homem se aperfeiçoe na sua relação com Ele, para que seja digno de co- nhecê-lo. “Toda Religião que não melhora o homem, não atinge sua finalidade.” - Allan Kardec Traz, o Evangelho de Jesus, o seu grande alerta: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim”(Mt., 15) “Limpais o que está por fora, no copo e no prato, mas o vosso interior está cheio de maldade”(Lc., 11:37 e Mt., 23) Numa vista superficial às Religiões da Humanidade, encontra-se modificações fúteis, de inspiração vaidosas e fundamentalistas que se desarticulam no temor, ligadas a representações de cunho personalista deixando seus pos- tulados basilares e universais em segundo plano. Não basta parecer, é preciso ser limpo ATÉ de coração. A higiene do espírito, que alcança o âmago do coração, é a Reforma Íntima - uma renovação mental constante e vigilante. A limpeza mental, como sempre, começa em “casa”, no íntimo; não se deve querer modificar o mundo, mas renovar a nós mesmos. Os bons exemplos sempre inspiram. Além disso, o ódio, a amargura podem levar o homem a quedas psíquicas. Deve-se lembrar, então, que o amor, resumo de todas as benesses, é a base do ensino que exige cooperação mútua. A virtude “A virtude é uma disposição firme e constante para a prática do bem.” Toda virtude tem o seu mérito, o seu potencial de desenvolvimento e, conhecendo suas características e pro- priedade podemos trabalhar, consciente e perseverantemente na sua introdução em nossos sentimentos e hábitos. O interesse pessoal é sempre egoístico. A compreensão, o estudo e a prática dos caracteres do homem de bem é o meio mais prático para melhorar a vida. A orientação vem da mais alta Antigüidade: “CONHECE-TE A TI MESMO” ( L.E., qt. 919) Como? Refletindo sobre os direitos, obrigações e deveres individuais e coletivos, analisando a consciência com coragem e fé.
  • 33.
    O Sermão doMonte: Bem Aventurados os Limpos de Coração e Quando vos Injuriarem 31 O coração puro requer erradicação dos defeitos e implantação dos hábitos das virtudes. É um trabalho árduo, contínuo, de boa vontade ao que todo aprendiz deve se dedicar. É um compromisso de boa consciência e prática evangélica. BEM AVENTURADOS QUANDO VOS INJURIAREM E PERSEGUIREM POR MINHA CAUSA A doutrina de Jesus é muito fácil de ser lida, até mesmo de ser analisada; porém, muito difícil de ser praticada. Exige do futuro seareiro, abnegação, desprendimento dos prazeres efêmeros e mundanos, Ele passa a ter uma outra visão da vida; passando a vivenciá-la mais no sentido espiritual. Tendo Jesus como modelo de perfeição, devemos pautar nossa vida neste sentido. Porém, todo aquele que seguir o Mestre, estará sujeito a sofrimentos e contrariedades; pois sentirá solidão, melancolia, desprezo, infelicidade, ciúme, mesmo porque passará a ser exceção entre os homens. As suas determinações e atitudes não são iguais a do homem comum e com isso certamente ele será injuriado e perseguido. No entanto, sofrer pela causa de Jesus será uma grande honra e motivo de prazer. Todo aquele que levar avante estes propósitos será bem aventurado, como prometeu o Mestre. A verdadeira felicidade está na razão direta de fazermos nosso semelhantes felizes. Jesus não quer seguidores fanáticos ou hipócritas, por isso seus ensinamentos têm de ser observados ao crivo da razão. A razão exige estudo e observação. Quem pratica o bem observando os preceitos cristãos do auto aperfeiçoamento não precisa temer nada; pois Jesus disse: “Procurai o reino de Deus e sua justiça e tudo mais será dado em acréscimo”. Após dizer que bem aventurado será aquele que sofrer injúrias e perseguições, e que com mentira disserem contra ele muitas coisas malévolas, devido a seguir as idéias cristãs, Jesus proclamou: “Exultai e alegrai-vos por- que grande é o vosso galardão nos Céus, porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós”. (Mt., 5:12) As Escrituras nos dão conta dos sofrimentos, perseguições e injustiças pelas quais passaram os antigos pro- fetas. Muitos deles foram até mortos simplesmente porque apregoavam a verdade ou enfrentaram os poderosos da Terra. Por isso, decorrido algum tempo, quando, pela última vez chegou Jesus a Jerusalém, com o coração amargu- rado pela incompreensão dos homens e pelo endurecimento em aceitar as suas palavras de vida eterna, ele con- templou a cidade e, cheio de angústia, exclamou: “Jerusalém, Jerusalém, que apedrejas os profetas e matas todos aqueles que te são enviados. Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, assim como uma galinha ajunta debaixo de suas asas o pin- tainhos, e tu não o quiseste. Agora é chegada a tua hora, será cercada de trincheiras e de ti não restará pedra sobre pedra que não seja derribada.” Mas, as perseguições e mortes não abrangeram apenas os profetas e os grandes enviados. Mesmo após a crucificação de Jesus elas continuaram e muitos missionários e apóstolos sofreram rudes perseguições por discorda- rem dos poderosos da Terra ou por apregoarem o verdadeiro sentido das palavras do Cristo, isso em todos os tem- pos e em todos os séculos. Com destaque pode-se salientar João Batista, Paulo de Tarso, os apóstolos de Jesus e os milhares e milhares de vítimas da camada Santa Inquisição, os quais sofreram rudes e persistentes perseguições e torturas, por discor- darem das mentiras que deturpavam os Evangelhos. Receber o galardão no Céu, significa a recompensa por missões ou tarefas desempenhadas na Terra. É a glo- rificação do Espírito por ter cumprido a vontade de Deus e ter desempenhado uma tarefa significante no plano terre- no. Deus é Pai de misericórdia e de amor. A sua justiça é indefectível e abrange todos aqueles que cumprem a sua soberana vontade. Foi com relação a isso que Jesus Cristo, no desenvolvimento de sua transcendental missão térrea, deixou bem claro no Sermão da Montanha, que serão bem aventurados todos aqueles que são pacificadores, que sofrem pelo amor de uma causa nobre, que suportam com resignação as tribulações terrenas, reconhecendo nelas o instrumento adequado para o processo de aprimoramento espiritual. Receber o galardão no Céu não é uma concessão para viver num estado de inércia e de descanso eterno, pois, a felicidade dos Espíritos bem aventurados não consiste na ociosidade contemplativa, o que seria uma eterna e fastidiosa inutilidade, mas é viver num plano de trabalho, de realizações, envidando esforços no sentido de colimar a perfeição espiritual, peculiar aos Espíritos Puros. Receber o galardão no Céu é algo mais do que poder cantar hosanas a Deus, é poder cooperar na grandiosa obra de regeneração, executando, em toda a sua extensão, a vontade do pai Celestial.
  • 34.
    Capítulo 14 O SERMÃODO MONTE: “VÓS SOIS O SOL DA TERRA” “O JURAMENTO” VÓS SOIS O SAL DA TERRA “Singular analogia. Contudo profundamente sábia. O sal é o condimento por excelência, usado na arte culinária para temperar alimentos. Temperar é equilíbrio, é harmonizar os manjares com o paladar. Esse é o papel que compete aos discípulos do Mestre na sociedade: funcionar como elemento equilibra- do, temperando todos os excessos. Equilíbrio é harmonia, e harmonia é felicidade”. (Vinícius “Em busca do Mestre” pág. 8) Por tudo o que representa, o Evangelho é de aplicação indispensável para dar sabor a existência tornando-a saudável e feliz. Sem ele a vida fica insípida, monótona, sem atrativos, tediosa e complicada, ainda que as circuns- tâncias sejam as mais favoráveis, ainda que a aparência seja magnífica. Uma casa pode ser ampla, moderna, confortável. Se o Evangelho não estiver nela prevalecerão desentendi- mentos, mágoas, convertendo-a em túmulo das melhores aspirações de felicidade. Uma civilização pode ser rica, possui tecnologia avançada, cultura admirável, produção ótima. Sem Evange- lho serão disseminadas a prepotência e a ambição, dissolução dos costumes e a irresponsabilidade minando seus valores morais e determinando sua decadência e morte. “Uma religião poderá atrair multidões com ritos e rezas, cerimônias e pompas, cantos e promessas, magias e superstições, tão a gosto da mentalidade popular, mas impossibilitada, por isso mesmo, de as- similar o Evangelho, que pede acima de tudo simplicidade; ficará presa ao imediatismo dos interesses efêmeros ou a rotina das exterioridades, desventurando-se e perdendo sua função fundamental de con- dutora de almas para Deus”. (A Voz do Monte - R. Simonetti, pág. 57) O cunho característico do sal é a incorruptibilidade. Nada o altera, nada o contamina, jamais deteriora. Não permanece inativo: age sempre. Não se oculta, é uma revelação permanente. Jamais assimila impurezas: antes transmite seu poder purificador. Sai ileso de todas as provas: não macula ainda que imerso na imundície. Sua mis- são é precisa, distinta, inconfundível. No exercício dessa função está seu valor incomparável. “Tal a razão de ser profunda e sábia a semelhança usada pelo divino Mestre”. (Vinícius - em Busca do Mestre, pág. 8) VÓS SOIS A LUZ DO MUNDO Disse também Jesus, pois ele compara seus seguidores a luz que afugenta as trevas. O Cristianismo com seus valores morais elevados, com seu empenho pela construção do Reino de Deus, fatalmente se destacaria na História, da mesma forma que é impossível deixar de ver uma cidade sobre a montanha: se está claro nota-se per- feitamente o contorno de seus edifícios; se escurece, suas luzes destacam-se. Individualizado a figura do cristão, Jesus oferece a sugestiva imagem da candeia. Na antigüidade, alqueire era um pequeno móvel. Ninguém acende uma candeia para colocá-la sob o alqueire. A luz deve estar no velador - su- porte colocado alto - para que ilumine o ambiente. Em linguagem atual: não se liga uma lâmpada dentro de um reci- piente fechado. Para cumprir sua função ela deve estar em destaque. O mesmo acontece com o Evangelho. É a luz que ilumina, que dá significado à Vida e a valoriza, assim, se o homem procura em suas lições apenas conforto e bem estar para si, sem compreender seu apelo maior, convocan- do-o à Fraternidade, então sua claridade ficará aprisionada no vaso do egoísmo e de nada valerá, pois, apesar de detê-la, continuará na escuridão das próprias mazelas. A função da luz é iluminar o ambiente onde ela se acende. Assim, a luz da escola cristã, iluminando o interior dos espíritos que a recebem, deve refletir-se no exterior, mediante a conduta e ações desses espíritos. E desse modo se explicam os dizeres do texto: “que a vossa luz”, isto é - o que aprendeste de mim - “resplandeça diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai, que está nos céus”. Será, portanto, através das boas obras, dignas e retas, justas e amoráveis, que se presta a Deus a verdadeira homenagem, rendendo-lhe o culto racional que Ele, como Criador, espera de suas criaturas. NÃO VIM DESTRUIR A LEI (MT., 5:17) “Não julgueis que vim destruir a lei de Moisés e o ensino dos profetas, mas sim cumpri-la”(Jesus). Após afirmar que todos os sofredores em reajuste, que se tornarem pacíficos, humildes, misericordiosos, man- sos e justos, encontrariam as bem aventuranças, isto é, a verdadeira paz de espírito, Jesus esclarece que não vinha mudar a lei do Sinai que Moisés dera aos judeus, nem os ensinos tradicionais dos profetas. Antes, ele veio cumpri-la na sua essência, dar o ser verdadeiro sentido e ampliá-la no Amor.
  • 35.
    O Sermão doMonte: Vós sois o sal da terr e O Juramento 33 Perdão, justiça, amor e caridade em discernimento e responsabilidade, são os postulados verdadeiros do cumprimento da lei. O entendimento e o alcance prático desses ensinamentos advém com a construção da evolução espiritual. Quem cumpre a lei é livre, quem é livre não vive para resgate apenas; e sim, para aquisições inalienáveis do Espírito. Na sua íntegra, o Sermão do Monte é um ensino e um convite à reforma íntima, pelo conhecimento da lei e de si mesmo, na conseqüente renovação mental. Kardec inclui nos capítulos das Bem aventuranças (ESE) todo o des- dobrar desses ensinos. As leis civis são de responsabilidade transitória, por serem disciplinares e adequadas a um estágio progressi- vo; as leis morais são imutáveis porque traduzem o equilíbrio harmônico do universo espiritual; seu caráter divino destina-se a todos os tempos, com interpretação segundo a possibilidade dos povos e, principalmente, da consciên- cia individual. Em seguida, Jesus desdobra os seus ensinamentos para destacar que em toda parte o cumprimento da lei é o Amor (Rm., 13:8 a 14) e que “Até que o céu e a Terra passem (que surja a Nova Era) nem um só til se omitirá da lei”, e, essa “nova” justiça é superior à “antiga” apenas no florescimento do Amor que a envolve: JUSTIÇA com MI- SERICÓRDIA. RECONCILIA-TE COM TEU ADVERSÁRIO (MT., 5:23 A 26) No desenvolvimento do Sermão do Monte, disse o Cristo: Se alguém vos bate na face direita, ofereça-lhe também a esquerda. Se alguém tirar-te o vestido, dê-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, caminhe com ele mais uma milha. Qual mérito de alguém caminhar mais uma milha junto daquele que o obrigar a fazer um percurso dessa ex- tensão? Jesus recomendou que não se deve resistir ao mal com violência, o que significa que deve-se sempre pro- curar uma solução pacífica para os problemas, pois, do contrario o mal jamais será banido da Terra. Caminhando com o desafeto uma milha adicional, pode-se tirar disso resultados altamente benéficos. Nessa segunda milha, vendo a humildade e a tolerância demonstrada, o inimigo poderá se dispor ao diálogo e, desse diálo- go, poderá surgir uma amizade que representa uma ponte passível de serenar os ânimos e equacionar a pendência, criando-se, assim, o ambiente propício para a reconciliação. No tocante a essa necessidade, disso o Cristo em Mt., 5:25-26: “Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial e te encerrem na prisão, de onde não sairás enquanto não pagardes o último ceitil”. Essas palavras do Mestre eqüivalem a dizer que há necessidade de reconciliação enquanto se estiver na Terra (percorrendo mais uma milha), pois, se assim não proceder, danosas serão as conseqüências no além-túmulo, nas vidas futuras. A advertência do Mestre, no entanto, objetiva fazer com que haja sempre o diálogo, no sentido de dirimir as divergências e promover um entrelaçamento. Esse diálogo deve acontecer no ambiente terreno, enquanto estão ca- minhando mais uma milha, a fim de dar o tempo necessário para a conversação, troca de idéias, silenciando as riva- lidades e, desta forma, promovendo a tão esperada e necessária reconciliação. O Evangelho segundo Lucas registra um caso típico. Quando Jesus foi crucificado, também foram justiçados a seu lado dois criminosos. Os dois estavam imbuídos de profundos sentimentos de revolta contra tudo e contra todos. Um deles, no entanto, passou a observar tudo quanto acontecia com o Mestre e ponderou: “Estamos pagando um débito para com a sociedade, um delito que cometemos, mas Jesus Cisto é inocente e nele não foi achada culpa al- guma. Nós fizemos o mal, mas ele apenas praticou o bem”. Refletindo sobre a discrepância, ele, Dimas, foi acometido de profundo sentimento de remorso, por isso, olhando para o Mestre disse: “Senhor, lembra-te de mim quando estiveres no teu Reino”, merecendo a resposta de Jesus: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.” É óbvio que ele, um Espírito ainda imbuído de sentimentos impuros, não poderia acompanhar Jesus no acesso aos planos celestiais, mas o seu remorso era uma porta aberta para a sua própria redenção espiritual, que seria co- limada no decorrer das vidas sucessivas, através da lei da reencarnação. Se ele não tivesse presenciado o drama do Calvário, do qual fez parte, certamente não teria tido a dádiva da- quela conversação. No entanto, presenciando-o, tudo quanto viu representou uma guinada em sua vida e após a sua desencarnação, passaria a descortinar um novo horizonte. O fato representou uma autêntica “segunda milha” em sua vida. Quantas vezes o tempo se encarrega de demonstrar que alguém está errado quando assume determinada atitude? Quantas pessoas existem que atacam idéias renovadoras e depois acaba por aceitá-las? Quantos não bri- gam, atacando-se mutuamente e depois se tornam defensores do mesmo ideal? Quantos homens que hoje são ini- migos figadais não se tornam amanhã amigos extremados? Tudo é questão de amadurecimento e de tempo, e foi no tocante a isso que o Mestre Nazareno recomendou a necessidade de caminhar a segunda milha. Os que assim não procederam, quando ultrapassarem os portais do túmulo, terão pela frente problemas dos mais agudos. A Justiça Divina recairá, pesadamente, sobre todos aqueles que não souberem perdoar e que repeliram todas as possibilidades de reconciliação. Sofrimentos cruciais o assolarão, e neles permanecerão até que tenham pago o “último ceitil”.
  • 36.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho34 O ADULTÉRIO (MT., 5:27) E (LC., 16:18) Adultério quer dizer infidelidade conjugal, vem de adulterar que significa corromper, falsificar. No Evangelho, quando se fala de adultério, o pensamento geral é logo dirigido à mulher. Analisando, porém, o Levítico (Velho Testamento), no seu cap. 20, verifica-se que, pelo ato de adultério mereciam condenação tanto o homem quanto a mulher, que deveriam ser mortos por apedrejamento. A lei mosaica não aceitava tal prática, rigorosamente, mas com o passar do tempo os homens foram se aco- modando. Jesus endossou a antiga lei com a pureza da intenção: “Qualquer que cobiça a mulher do próximo, já cometeu adultério no coração”, ou seja, conspurcou seus próprios pensamentos. Quem ama ao companheiro(a) e respeita a si mesmo não comete adultério, que é desamor e infidelidade a um pacto firmado conscientemente, seja entre os dois ou perante a sociedade. O pensamento guarda, na intenção, a base do estímulo da ação, que a vontade executa. A verdadeira pureza começa nos sentimentos que alimentam o pensamento. Por isso Jesus disse que o erro começa no coração. Qualquer pensamento adulterado já está contaminado com delitos e incrimina a responsabilidade individual, antes da ação ser cometida; no ato mental ela já está iniciada. Ainda assim, a não consumação consciente da má intenção traz alívio e equilíbrio espirituais, indicando novos campos de sublimação afetiva. É uma tentação vencida (ESE, cap. VIII). O ESCÂNDALO (MT., 5:29) “Se a vossa mão é causa de escândalo, cortai-a”. Figura essa bastante enérgica, e que seria absurda se não constasse de um ensinamento de Jesus. O significado dessa sentença é que cada um deve destruir em si toda causa de escândalo, extirpando do coração todo sentimento impuro e toda tendência viciosa. Quer dizer que para o homem mais vale ter cortada uma das mãos, antes de servir essa mão de instrumento para uma ação má; ficar privado da vista, antes que lhe servirem os olhos para conceber ou alimentar maus pensamentos. Jesus nada disse de absurdo para quem analisar o sentido alegórico de suas palavras. O JURAMENTO (MT., 5:33) Perjuro é aquele que falta à fé jurada, isto é, aquilo que a criatura reconheceu como justo e verdadeiro mas não cumpre. Mais do que cumprir o juramento, Jesus aconselha a não jurar por tudo aquilo que o homem não toma parte. Não jurar pelo Céu ou por Deus, que estão além das criaturas; não jurar pelas próprias cabeças “porque não podes tornar um cabelo branco ou preto”. Antes, é preferível o domínio de si mesmo. “Seja o vosso falar: sim, sim, não, não. O homem honrado tem uma só linguagem, seu exemplo é a garantia e o aval de sua dignidade. O “sim” é sempre agradável de ser ouvido, mas nem sempre é construtivo; o “não” aborrece, mas muitas ve- zes é a legítima disciplina auxiliar.
  • 37.
    Capítulo 15 O SERMÃODO MONTE: “OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE” “SEDE PERFEITOS” OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE. (MT., 5:38) Disseram os antigos, “olho por olho, dente por dente”. Acrescenta Jesus: “Não resistais ao mal; qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe a outra”. Todo pensamento malévolo emite corrente fluídica de impressão penosa; todo pensamento benévolo recon- forta em agradável sintonia. Nos tempos atuais, nem a lógica humana determinaria cobrar uma ofensa em “olho por olho”, pois a reeduca- ção moral civil já impõe um aprendizado de encarceramento com recomposição moral, embora, na prática, ainda não tenha alcançado este ideal. Num raciocínio caridoso, o perdão ativo, com energia renovadora, desarticula e desintegra a violência da ofensa moral. Violência revidando violência, é como colocar lenha na fogueira. Somente o bem dissolve o mal, mo- dificando suas estruturas mentais. Resistir ao mal, como ensina o Mestre, não é reagir na mesma faixa vibratória negativa, mas é ter serenidade; não é ser indiferente, acomodado, libertando o ódio e o ressentimento, mas ser manso de coração, enérgico e disci- plinado no amor e na caridade. Por toda História da Civilização, encontra-se a violência querendo apagar a violência, muitas vezes até em nome do Céu com as chamadas Guerras Santas; outras vezes, em nome de Cristo, sempre buscando harmonias fictícias e hegemonias indevidas, pois todos os homens são iguais perante Deus. O perdão é a chave da resistência ao mal. A idéia do atrito físico de bater na face não desperta o sentido profundo dessa ilustração, nos corações endu- recidos. Para o materialista, esse versículo é incoerente e covarde; para o cristão leal é sabedoria e amor. O respeito próprio não é o que grita, exige e sacode a bandeira, mas é humildade, compreensão e trabalho contínuos. Toda violência, principalmente quando chega ao campo físico (mais rude e primário, portanto) já está com o caos instalado no psicossoma. Uma simples altercação já modifica todas as funções orgânicas, principalmente o se- tor supra-renal, quanto mais o perispírito (tão sutil), no seu intercâmbio biopsíquico. Da emoção violenta à cólera, é um passo. Como reagir? Antes que o mal da violência se instale por completo na mente, o único antídoto é uma parada para evitar re- sultados imprevisíveis e condicionar pensamentos positivos de refazimento. Somente a calma do adversário consegue atenuar o desequilíbrio do agressor, diz Emmanuel (Vinha de Luz). Aí está o sentido de oferecer a outra face. A própria vida ensina: se alguém estiver zangado, nervoso e procura brigar com outro que consiga manter a calma, muitos males serão evitados. Por isso a sabedoria manda resistir primeiro ao mal que está em nós mesmos, para depois aprender a resistir ao mal dos ofensores. A justa e digna razão deve ser o fiel da balança entre dois contendores. Em resumo, dar a outra face não é covardia, mas apelo aos bons sentimentos que se deve vislumbrar no se- melhante e respeito a si próprio. Isto, também, se chama Fraternidade. E Jesus foi mais além: “Se alguém quiser tirar-te o vestido, dá-lhe até a capa; se te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas milhas e não desvies de quem quiser que lhe emprestes algo”. Quantas vezes alguém se sente roubado até nos sentimentos, explorado na sua boa fé e requisitado indevi- damente no abuso de seus bons sentimentos, sem que possa defender-se? Essas ligações encontram suas origens no passado remoto das vidas anteriores e somente a humildade, a pa- ciência e a tolerância justificam um resgate que, de outra forma, seria mais penoso. AMAI OS VOSSOS INIMIGOS (MT., 5:44) Nas prescrições morais e intelectuais do Levítico (19:18), Moisés afirma que Javé mandou que não se vingas- se nem se guardasse rancor entre os do seu povo: amassem o seu próximo, no sentido dos seus parentes de raça. Jesus ampliou a fraternidade, fazendo-a sair dos círculos pequenos de amigos e parentes, nação e raça. Que se faz de mais ao amar irmãos de sangue, de raça e de fé? É quase uma defesa própria. Bendizer os que nos maldizem, fazer o bem a quem nos trai, orar por quem nos persegue, é obrigação honro- sa e meritória, Jesus exemplificou, doando infinita piedade aos seus perseguidores. Esses chamados inimigos, são muitas vezes, credores diferentes de uma vida passada.
  • 38.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho36 Se amar é caridade, amar aos desafetos é caridade em misericórdia. O espiritualista, e em particular o espírita, não vê a vida por uma faceta. Quando tem uma noção e um sentido de Eternidade ou atemporalidade, o Espírito exige rigor em seu aprendi- zado, sabe que conhecerá o que plantar no seu campo espiritual e que, sobretudo, se a misericórdia do Pai cai sobre o justo e o injusto, algo existe que está acima da sua compreensão, mas que fala ao seu coração. SEDE PERFEITOS COMO VOSSO PAI QUE ESTÁ NOS CÉUS. (MT., 5:48) O Senhor da Vida deu às criaturas as potencialidades da Sabedoria e do Amor. Essas potencialidades se desenvolvem nas infinitas oportunidades reencarnatórias e manifestações existenci- ais. Como Deus possui a Perfeição absoluta, não se pode restringir à letra, mas a criatura se relaciona com o Cria- dor tomando-o como modelo para a perfeição relativa, cujas características se resumem na caridade e ressaltam na sabedoria e no amor. Assevera Kardec: o “homem verdadeiramente bom é aquele que executa a lei de justiça, amor e caridade na maior pureza... ausculta a consciência sobre seus atos para saber se não violou a lei, se não cometeu o mal, e mais, se fez todo o bem que pôde, se é útil sobretudo, se fez aos outros o que queria que lhe fizessem.” (E.S.E., cap. XVII) O homem bom tem fé em Deus, e por isso mesmo, é justo e sábio; reconhece as dificuldades da vida como degraus de reconhecimento e progresso. Pensar nos outros antes que em si é seu estandarte. Sua aparência, sua vivência, suas amizades, o seu tra- balho, sua postura, sua alimentação, são conotações sintéticas dos caracteres de sua personalidade. Seu magnetismo áurico é simpático e natural; é exigente na sua reforma íntima e benevolente com as incom- preensões humanas. Sua autoridade moral é espontânea na coletividade em que vive. O homem bom respeita a si mesmo e aos semelhantes, é um “letreiro vivo”. (O Espírito da Verdade, nº 76) O bom espiritista, ao procurar, sinceramente, se tornar um homem bom, deve ser perseverante na renovação mental sustentando-se nos princípios das leis morais e no conhecimento doutrinário que lhe faculta uma percepção mais clara do que é o bem. A meta do verdadeiro espiritista é a sua transformação moral através do seu esforço para diminuir as más in- clinações. (Kardec) O dever, que é obrigação moral perante si mesmo e os outros; a virtude, como um conjunto representativo do homem bondoso, representam a base do bom espiritista enquanto a dedicação e a perseverança consciente são o seu apanágio. Na verdade, conhece-se a árvore pelos frutos. Allan Kardec ensina que “O homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças, nem de crenças, porque em todos os homens vê irmãos seus”, acrescentando logo a seguir: “o verdadeiro homem de bem (que procura se aproximar da perfeição) é o que cumpre a lei da justiça, de amor, de caridade, na sua maior pureza. Se ele interroga a consciência sobre seus próprios atos a si mesmo perguntará se não violou essa lei, se não praticou o mal, se fez todo o bem que podia, se desprezou voluntariamente alguma ocasião de ser útil, se ninguém tem qualquer queixa de si, enfim, se fez a outrem tudo aquilo que desejara para si”. “Ser perfeito como perfeito é o Pai Celestial”, foi uma forma simples que Jesus apresentou para que os ho- mens procurassem adquirir virtudes santificantes que os aproximassem mais do Criador do Universo da vida.
  • 39.
    Capítulo 16 O SERMÃODO MONTE “QUE A MÃO ESQUERDA NÃO SAIBA O QUE FAZ A DIREITA” (MT., 6:3) Aqui Jesus expande a bem-aventurança da misericórdia e sintetiza que de deve fazer o bem sem ostentação. Sabe-se que a caridade pode ser moral, mental e material. A síntese dessas qualidades é a caridade cristã. A beneficência requer modéstia, discernimento e ponderação, embora deva ser usada com abundância. A modéstia cristã é aquela que não ofende, que serve com humildade, sem simulacro de recato. É importante fazer o bem sem olhar a quem. “Os que fazem o bem com ostentação já receberam a recompensa”, disse Jesus. Realmente, a publicidade da caridade tem o seu triste pagamento que se dissolve em poeira do tempo, num discutível louvor efêmero dos ho- mens. O cristão aprende que a recompensa na Terra é transitória, enquanto o testemunho silencioso e cristalino de suas boas ações é imortal perante as Claridades Divinas do Cristo de Deus. Servir pelo prazer de ser útil traz conforto imediato e intraduzível, é uma parte da recompensa divina com que o Pai, prestimoso, envolve a sua criatura. Toda caridade envolve a moral que deve ser regida pela responsabilidade do livre-arbítrio e pela ética da mo- déstia cristã, pois começa no pensamento cheio de boa vontade e desejo de ser útil aos semelhantes. Ainda no Evangelho encontra-se o exemplo simples, mas completo, pelo óbolo da viúva. (Lc., 21:1) A verdadeira caridade é a prática dos bons sentimentos. É o vínculo da perfeição: afirma Paulo de Tarso. (COR., 13:1-13) Todos que exercem a caridade são autênticos discípulos de Jesus Cristo, qualquer que seja o culto a que per- tençam, pois ela é uma necessidade da alma e na caridade se resume toda a moral dos ensinamentos do Mestre. (ESE, Cap. XIII e XV) A esmola ou óbolo é um pequeno donativo para pessoas carentes. A beneficência é o trabalho ou prática da boa obra de forma ampliada. É o ato de fazer o bem com virtude. Como não só de pão vive o homem, nem só é caridade a que se resume a esmola. Caridade é consolar os tristes, confortar os que sofrem, encorajar os tíbios, perdoar os que erram, ensinar os que ignoram, levantar os que caem, suster os que tombam, amparar os que fraquejam. Caridade é fazer justiça; é corrigir o defeito, é animar o tímido, é proteger o ousado, é exalçar a verdade, é enobrecer o humilde, é semear a paz, é pugnar pelo bem, é estabelecer a concórdia, é servir o amor, é esquecer agravos, é desculpar as faltas alheias. Caridade! Não há mais bela virtude. Nela se resumem todas as demais, porque todas dimanam dela, como no nosso sistema solar toda a luz irradia do sol. A caridade é o bálsamo que consola todas as dores; o manto que tapa toda a nudez; o auxílio que socorre toda a miséria; pão que mitiga toda a fome; a água que sacia toda a sede; a luz que ilumina toda a treva; a força que anima toda a fraqueza; o sentimento que penetra todos os corações; a riqueza que alcança todos os pedintes. O VERDADEIRO TESOURO (MT., 6:19) Não acumuleis tesouros na Terra, onde a ferrugem tudo consome e os ladrões roubam. “Ajuntai tesouros no céu, onde nem a ferrugem consome, nem os ladrões roubam. Porque, onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vos- so coração.” A dedicação à conquista dos valores espirituais leva ao verdadeiro tesouro, inalienável edificação da persona- lidade harmoniosa. No último item, Jesus esclarece que nosso pensamento está vinculado aos sentimentos que podem nos tornar escravos ou senhores de nós mesmos. A CANDEIA DO CORPO (MT., 6:22) “A candeia do corpo são os olhos. Se teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz.” Jesus não falou do olho físico, mas do olho espiritual, que traduz a vontade, a paciência, a benevolência; que busca a luz, a beleza. Uma chama clara da candeia reflete óleo puro, assim os olhos luminosos e bons refletem a pureza dos senti- mentos. Um acontecimento visto por duas pessoas é interpretado de maneira diferente, dependendo dos seus pensa- mentos e sentimentos, ou seja, do seu estado de espírito.
  • 40.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho38 NINGUÉM PODE SERVIR A DOIS SENHORES (MT., 6:24) Ninguém pode servir a dois senhores, pois certamente se dedicará mais a um do que a outro. Muito menos se pode servir a Deus e ser escravo da riqueza. A riqueza tem sua utilidade como: recurso para execuções de trabalho com vistas ao progresso individual e coletivo; provas e testemunhos da reforma íntima, num programa de altruísmo; é para ser usada e não abusada; não é propriedade mas usufruto nesta vida. A desigualdade das riquezas comprova a oportunidade de aprendizado e se esclarece na pluralidade das existências. A igualdade na criação desenvolve oportunidades equivalentes para honra ao mérito, através das reen- carnações. A diversidade de caracteres e aptidões também tem sua influência no desequilíbrio econômico e se a pobreza é prova de resignação e paciência, a riqueza requer testemunhos de caridade e altruísmo. Em todos os momentos, o dinheiro deve ser usado com discernimento e bom-senso; quem trabalha somente para si mesmo, sem alcance sadio e profundo, amealhando tesouros sem praticar a caridade é improfícuo em espí- rito e verdade. É egoísta e avarento. É importante granjear amigos sinceros através da riqueza do mundo, pois quando não a tiver mais, os amigos solidários e fiéis estarão presentes. O bom emprego da fortuna é a meta desta difícil prova; mas todo mérito paira acima da riqueza e da pobreza. Na realidade, o homem é apenas ecônomo de tudo o que existe na Terra, sendo responsável por sua utiliza- ção. O desprendimento dos bens terrenos é relativo ao conhecimento e harmonia espirituais. Esse desapego não deve ser desprezo, mas sim consciência de sua importância relativa. “O apego à posse destrói faculdades magnéticas elevadas”, diz Lacordaire. Hoje em dia, o patrimônio do Espírito é mais valorizado. A ética dos valores já desponta renovada no hori- zonte espiritual; é o conhecimento das verdades eternas e da fraternidade como base de lançamento do homem es- piritual. Erradicação da avareza; avareza é apego específico ao dinheiro e aos objetos materiais que possuímos e re- sultado do egoísmo e da ambição. O avaro é monodeísta, fixado na sua idéia principal: o dinheiro e a posse. É uma verdadeira doença obsessora e para conhecê-la melhor, deve-se cuidar dos seus sintomas em dife- rentes gradações. A importância exagerada que damos aos nossos pertences, a ponto de nos desequilibrarmos na ansiedade, a mania de guardar indeterminadamente, mesmo sem usar, certas roupas ou pertences pessoais, sem justificativa para não dá-los já caracteriza os primeiros degraus do avaro. Uma vez identificada é preciso reagir e combatê-la, com sensatez e generosidade. Sensatez ⇒ indivíduo sensato é judicioso, age com cautela e sabedoria, pois é coerente com a lei natural. Todo homem sensato é prudente, pensa cautelosamente nas conseqüências dos seus atos; sabe renunciar com su- blimação, quando é necessário; é previdente mas não é ávido; utiliza seus talentos, materiais e espirituais, a serviço do bem comum. Generosidade ⇒ é sempre acompanhada da beneficência. Um homem generoso é pródigo com seus have- res, desapegado aos bens materiais, feliz com o bem que pode proporcionar a alguém, é filantropo. A generosidade é inerente ao homem de bem, nasce das suas virtudes e desenvolve-se em conforto físico e espiritual. BUSCAI E ACHAREIS (MT.,6:25) E (LC.,12:23) A solicitude pela vida é uma qualidade da sensatez e faz parte da lei da conservação; entretanto, um cuidado exagerado, a ansiosa solicitude, gerada por uma insegurança doentia, prejudica o homem, causando-lhe aflições que poderiam ser erradicadas pela renovação mental. As regras do trabalho para manter a vida com dignidade não se adaptam às funções, geralmente indevidas, para alcançar o supérfluo. Disse Jesus: “Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais que a roupa?” Quanto alimento se consome num certo tempo para que ele não se deteriore? Quantas roupas de pose vestir em cada estação do ano? De que forma o homem se alimenta? De que maneira ele se veste? “Olhai para aves do céu.” As belas ilustrações literárias de Jesus são exemplos de profundidade na arte do bem viver espiritual. Se o alimento físico mantém o corpo, o alimento da alma é eterno, “Deus criou o homem sem roupa e sem abrigo, mas deu-lhe inteligência para confeccioná-los.” (Kardec) As necessidades do corpo físico e do espírito são intrínsecas; o trabalho, tanto físico como intelectual, é fun- ção fundamental do homem. Com o trabalho físico ou corpóreo, os membros não se atrofiam, os órgãos funcionam regularmente; com o trabalho intelectual, o homem desenvolve sua civilização no progresso social e moral. Somos herdeiros de nós mesmos. Busca e acharás, ajuda-te e o Céu te ajudará. Quando a ambição leva o supérfluo obsoleto, a Providência Divina abandona a criatura à sua própria sorte, isto é, aos efeitos causados pela cobiça. Quem tem muito mais que o necessário, é depositário de bens coletivos, que deve saber administrar no bem comum (como a riqueza).
  • 41.
    O Sermão doMonte: Que a mão esquerda não Saiba o que faz a Direita e Buscai e Achareis 39 A educação moral do homem apenas vislumbra essa ética, pois sempre acha uma razão para mais alguma coisa acumular. Angústia e inquietude são princípios de desequilíbrio, logo é preciso cautela. A serenidade e a firmeza de caráter dão confiança e otimismo, fé e coragem. As dificuldades da vida, em qualquer setor, sabe-se, fazem parte do aprendizado do espírito e sempre é bom lembrar que o pessimismo crônico é vibração mental inferior, assim como otimismo exagerado é inconsequência. Não se engane nem se oblitere o homem, mas também não se inquiete, em espírito, com o futuro; haverá momentos bons e maus na vida de todos, mas nossa atitude mental pode se tornar um escudo magnético de defesa. “Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça e todas as coisas lhes serão acrescentadas”, complementa o Mestre. (Mt., 6:33; Lc.,12:31) Na maioria das vezes, o homem mistura seu anseio de luz, sua pesquisa científica, aos valores egocêntricos, olvidando as leis gerais divinas. É preciso emergir de si mesmo, conhecendo e praticando a fraternidade, o que só é possível na busca da experiência, na construção do reino de Deus em si, no exercício da Justiça social, que começa em nós e se expande no respeito ao próximo como a nós mesmos.
  • 42.
    Capítulo 17 SERMÃO DAMONTANHA: SÓ DEUS PODE JULGAR E A CASA SOBRE A PEDRA NÃO JULGUEIS PARA QUE NÃO SEJAIS JULGADOS (MT., 7:1) A Mulher Adúltera (Jo., 8:1) À antiga lei Jesus acrescentou: “Com o mesmo critério que julgardes, sereis julgado”. Ninguém está apto a julgar o próximo, moralmente, pois além da falta de equilíbrio justo, em si mesmo e dos desencontros com a própria consciência, a experiência da vida esclarece que, após as lutas evolutivas e a busca da harmonia piedosa, o discernimento lapidado do homem desenvolve a indulgência. Logo, quando ele estiver em con- dições de julgar, não o faz por amor e respeito. Como criticar sem construção e severamente o semelhante e encontrar desculpas para as deficiências própri- as? É um juízo temerário, mas apontar o defeito dos outros é o vício mais antigo da Humanidade. O melhor antídoto é evitar comentar o mal, o que não dispensa a reflexão interior. Não julgar para não ser jul- gado, não significa aceitar e complicar um erro, para evitar o nosso julgamento; encobrir delitos também deles não nos absolve. A tendência maior é a crítica de um defeito que não se tem mais, esquecendo-se de que outros ainda estão ativos. Mas grave, é quando esses apontamentos são falseados, exagerados ou dissimulados maldosamente. Foi a explicação do Mestre: “Como dirás a teu irmão: deixa-me tirar o cisco do teu olho e não vês a trave que está no teu?” A censura, quando vista como exame crítico e não como condenação deve ser revista de autoridade moral. No episódio da mulher adúltera, Jesus só declarou: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, seja o primei- ro a apedrejar”. Nem escribas, nem fariseus; nem jovens, nem velhos, tiveram coragem de atirar a pedra. E Jesus teve a oportunidade de exemplificar os seus ensinos: “Ninguém te condenou?” - Respondeu ela: “Ninguém, Senhor.” Então, disse Jesus: “Nem eu, tampouco, te condenarei. Vai e não peques mais”. Eis aí: Somente a Deus cabe o julgamento da Vida (Ler: As Estatuetas - Espírito da Verdade, lição 30). Não lance pérolas aos porcos. (Mt., 7:6) Todos têm suas responsabilidades e suas necessidades, mas também as suas possibilidades. Não adianta aprovar um aluno relapso; será pior para ele; não adianta impor a fé e a boa vontade, seriam mal interpretadas ou desvirtuadas. Se os ensinamentos evangélicos são pérolas de luz que balsamizam os que sofrem e adornam os que querem a reforma íntima, são recusadas impacientemente pelos que se recusam a evoluir, pelo desconhecimento do seu valor espiritual. Pedi e Dar-se-vos-á. (Mt., 7:7) “Aquele que pede, recebe; aquele que busca, encontra e ao que bate, se abre.” “Qual dentre vos é o homem que, se o filho pedir pão, lhe dará uma pedra?” “Se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai que está nos Céus dará boas aos que lhe pedirem”. “Tudo quanto vês quereis que os homens vos faças, faz vós também a eles, porque esta é a lei e os profetas”. (Mt., 7:7 a 12). Confiar em Deus, na Sua Misericórdia para com as criaturas, é a conclamação do Mestre. Ficar esperando que “caia do céu” e acomodar-se às dificuldades e sofrimentos sem luta renovada, é covardia, é negligência e ociosida- de. Deus já dá tudo o que o homem necessita para desenvolver sua inteligência, inclusive as oportunidades de re- encarnação e auxílio dos benfeitores espirituais. É mister o esforço, o trabalho profícuo individual e coletivo para o mérito dessa conquista de valores. Trabalha e progredirás, ensinam os Espíritos. Como medida de equilíbrio, na busca da paz fraterna, Jesus cita uma regra áurea: fazer ao próximo o que queres que te façam. Emmanuel (Palavras da Vida Eterna, lição 66) informa que não se pode reclamar ajuda, quando não se presta auxílio; não é lícito exigir desculpas, quando não se sabe ou não se quer desculpar. “Querer o bem é impulso de todos, mas, na prática do estatuto sublime, é forçoso sejamos nós quem se adi- anta a fazê-lo”. No campo espiritual é melhor servir do que ser servido.
  • 43.
    ApresentaçÃo Entrai pela PortaEstreita (Mt., 7:13) Larga é a porta da perdição. Tudo que acomoda a alma, leva à “porta larga” da vida e a ilusão conduz a mui- tos para esse caminho através da negligência, paixões, desvarios e vícios. A porta larga e a porta estreita pertencem à muralha do tempo, caminho de todos nós. Atravessá-las é imposi- ção da vida, mas a escolha é do libre arbítrio de cada um. O homem sensato procura sempre saber que caminho percorre, como conhecê-lo e vencer seus obstáculos. O sentido filosófico desse ensino é a contínua luta do Bem e o Mal, na qual o homem, incansavelmente, vai edifi- cando o seu Espírito. Acautelai-vos dos Falsos Profetas. (Mt., 7:15) Os falsos profetas são aqueles “que vêm até vós vestidos como ovelhas mas são lobos devoradores”. Os “lobos” que se vestem de cordeiro só enganam aos incautos invigilantes. Assim como uma árvore é conhe- cida pelos seus frutos, nem todos os prodígios e maravilhas são feitos pela caridade que é humilde e mansa. Vulgarmente, profeta é aquele que prediz o futuro. No sentido evangélico é qualquer enfiado de Deus com a missão de instruir os homens e lhes revelar coisas ocultas dos chamados mistérios ou arcanos da vida espiritual. Moisés, no Velho Testamento, já pedia cautela com os falsos profetas e ensinava como conhecê-los (Dt., 18:22). “Se um profeta fala em nome de Javé, mas a a palavra não se cumpre, não é de Javé. Tal profeta falou com presunção. Não o temas”. Jesus também avisou seus discípulos e à multidão. Em todos os tempos, a falsidade, a vaidade, o orgulho, le- vam alguns homens a explorar a fé dos semelhantes, esquecidos de que os delitos praticados contra o Espírito são muito mais graves do que contra a carne. Deve-se levar em conta que muitos seguidores se jungem a esses, Na deletéria esperança de uma vida fácil, sem esforços. O Espiritismo ampliou o entendimento sobre estes profetas, analisando com maior profundidade o ensina- mento de João Evangelista: 1ª epístola, cap. 4: “Não creias em todos os Espíritos”, pois sob a aparência de amor e caridade, infiltram a desunião, a dúvida e até a descrença, quando não escravizam pelo fanatismo. O Verdadeiro Discípulo. (Mt., 7:21) Ensinou Jesus: “Nem todo que me diz: Senhor! Senhor! Entrará no reino do céu, mas aquele que faz a vonta- de de meu Pai que está nos céus”. Chamar alguém de Senhor ou Mestre, é aceitar e praticar seus preceitos e exemplos. A realidade do ato de fé corresponde à realidade do ato de trabalho. E Deus conhece o coração do homem. O verdadeiro discípulo de Jesus não se preocupa em venerá-lo com atos exteriores de devoção; não se detém em repetições cansativas e inócuas de orações; não impõe proselitismo nem exige dos semelhantes o que ele pró- prio não consegue fazer. O verdadeiro discípulo de Jesus busca a humildade, a generosidade, a caridade, trabalha perseverante na sua reforma íntima e está sempre à disposição do serviço do Cristo, colocando-se em posição de vigilância e oração para ser leal instrumento do auxílio ao próximo. A CASA SOBRE A PEDRA (MT., 7:28) O Sermão do Monte encerra-se com Jesus exortando aos homens para construírem seu destino sobre alicer- ces fortes e saudáveis, aproveitando-se da parábola da casa feita sobre a rocha. O verdadeiro ou autêntico modo de viver requer um aprendizado constante. Mostrou Jesus que o homem sen- sato e prudente alicerça usa alma na fé, nas boas obras, no respeito ao próximo, no amor a Deus. O testemunho é exigido a todo instante semelhantemente como levantar um edifício, tijolo por tijolo, a cada dia, alicerçando-o na verdade; feito isso ele será seguro, como a casa apoiada nas rochas. Disse Mahatma Gandhi a respeito das palavras de Jesus, no Sermão do Monte: “Se fosse possível se perder tudo aquilo que está contido no Evangelho de Jesus, deixando apenas o Sermão do Monte, ele jamais perderia o seu esplendor”.
  • 44.
    Capítulo 18 JESUS EA PRECE ORAR E VIGIAR. (MT., 6:6) Jesus ensinou a orar e vigiar. Ninguém consegue orar com sinceridade, quando está preocupado em afirmar sua religiosidade. A concentração necessária para elevação vibratória, ao encontro às esferas santificantes do Mundo Maior, re- quer recolhimento, individual ou coletivo. Para que se possa colocar o melhor de cada um na oferenda ou rogativa da prece, pois a forma nada vale, o pensamento tudo dirige. Allan Kardec, no ESE, declara que os Espíritos não prescrevem nenhuma fórmula absoluta de prece. As que estão na coletânea de preces desse livro visam auxiliar a fixar as idéias, principalmente nos momentos difíceis, mas recomenda a liberdade dos sentimentos no comando do pensamento. “O Espiritismo reconhece como boas as preces de todos os cultos, quando elas sejam partidas do coração e não dos lábios apenas. Não impõe nenhuma, nem condena alguma”. O objetivo geral da prece é elevar a nossa alma a Deus, de maneira que cada um de nós encontra no seu co- ração; entretanto, como a prece só tem valor pelo pensamento que a dirige, é condição essencial que ela seja inteli- gível, espontânea e concisa. Cada palavra, cada frase deve ser entendida e sentida. Por essa razão, Jesus recomendou o recolhimento a um aposento e orar ao Pai que está em oculto, enfatizan- do a desnecessária e vã repetição dos que pensam que por muito falarem serão ouvidos. Em verdade, antes da oração, o Pai já sabe o que precisa a sua criatura e bastam a humildade e a confiança, transmitidas na prece para que a onisciência do Pai do Céu fortaleça e torne eficiente o sentimento do homem, pois Deus sabe melhor que nós o que nos convém e não falta a quem O busque. A eficácia da prece é como uma transfusão de forças sublimes. ORAÇÃO DOMINICAL (MT., 6:9) Tudo isso está incluído na oração que Jesus nos ensinou, de maneira clara e concisa, conhecida como “Pai Nosso”. Mostrando Deus como Pai de todos, ela resume todos os deveres do homem para com seu Criador, para con- sigo mesmo e para com o próximo; é um ato de fé, de adoração e obediência; é uma rogativa da essência da vida que só o Pai pode dar e um exercício de caridade. “Conforme as circunstâncias e o tempo disponível, pode dizer-se essa oração simples ou desenvol- vida”. (Kardec) Não é recomendável desenvolvê-la em orações coletivas entrecortadas de outras palavras, pois isso poderia tirar sua concisão. As palavras do Pai Nosso, como Jesus ensinou, são imantadas de luz pela sua repetição através do tempo. Procuremos, por agora, estudar o seu desenvolvimento: Adoração e Louvor “Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome”. A saudação é suave e grandiosa. O Universo em harmonia testemunha a luz, o amor e a sabedoria de Deus. O Pai criou e assinou em Suas Criaturas e Sua solicitude paternal se mostra na Fraternidade Universal, desde o átomo do nosso conhecimento até à grandeza e perfeição do macrocosmo. Tudo e todos se inserem em Suas leis divinas. Glorificar o Senhor da Vida é render graças e entregar-se ao Seu amor. Obediência “Venha a nós o vosso reino”. As leis físicas e morais, a harmonia universal, a paz e a justiça, onde o forte sustenta o fraco na cadeia da evolução cósmica; o instinto, a inteligência, a razão e a pureza: tudo são estágios experimentais que se intercomuni- cam e se encandeiam nos conduzindo pelos caminhos do pensamento e da ação, nos aguilhões da dor e na bem aventurança de servir ao próximo, amando o Pai. O reino de Deus é a perfeição. “Seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu”. Fazer a vontade de Deus é observar Suas leis na consciência do conhecimento da Sua perfeição por todo o Universo. Sua Augusta Vontade se traduz no Universo pelo Verbo criador. Rogativas essenciais “O Pão nosso de cada ida, dai-nos hoje” O pão é considerado o alimento primário à vida. Em cada reino da natureza, a essência da vida necessita do alimento físico, mas, sobretudo, do alimento espiritual que se traduz na bênção e nas necessidades prementes com que Deus envolve Suas criaturas em todos os estágios de sua escala evolutiva.
  • 45.
    ApresentaçÃo O esforço, paraa razão e dignidade do homem, recebe o nome de TRABALHO e o uso de sua inteligência di- lata seu raciocínio, convidando-o a prover suas necessidades e seu bem-estar, seja no trabalho material ou intelec- tual. Diz a sabedoria popular: “Deus ajuda a quem trabalha”. Tudo no Universo é dinâmico e é através do movimento vibracional que se desenvolve o Espirito, no inter- câmbio com os benfeitores em busca do pão espiritual, isto é, “os meios de adquirir, pelo trabalho, as coisas neces- sárias à vida física e espiritual, pois ninguém tem o direito a reclamar o que lhes seja supérfluo”. “Perdoai as nossa dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores” Toda infração é dívida contraída, seja leve ou grave, que precisa ser resgatada para libertação. Como reclamar clemência quem não perdoa ofensas ou sequer desculpa a ignorância? O perdão dos nosso erros está relacionado ao nosso perdão às ofensas. Como clamar misericórdia quando se humilha a outros? O bom senso “alerta para a reflexão e não deixa a morte surpreender com desejos de vingança” em ressentimento. Certamente o mérito do perdão é proporcional à gravidade do delito e não deve ficar na palavra. O sentimento de indulgência é fundamental. Muitas vezes, também, o ressentimento que alimentamos nasceu de uma frase que proferimos e ofendeu a alguém que revidou. Quem sabe aquilo que não se consegue perdoar está na razão da pró- pria imprevidência? O perdão completo e sincero é aquele que compreende o erro mas é indulgente e misericordioso com o se- melhante, esquecendo a ofensa. “Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal” Não cair em tentação é resistir às sugestões dos espíritos inferiores através dos maus pensamentos inspira- dos. “Livrai-nos do mal” é uma rogativa para conhecer e desarticular nosso egoísmo, que materializa e vicia nossas forças. O mal é obra do espírito humano e, no confronto do desenvolvimento espiritual, ele tende a transubstanciar-se a absorver-se no bem, através da escala evolutiva do amor. “Livrai-nos do mal” é erradicar nossas deficiências, em legítima higiene mental. “Assim seja” Tudo foi, é e será criado pela vontade do Pai.
  • 46.
    Capítulo 19 OS MILAGRESE O EVANGELHO CARACTERES DOS MILAGRES Qualquer fenômeno não compreendido que causa espanto ou admiração ao ser humano, sempre foi tido como miraculoso. Todo ato considerado de poder divino, contrário as leis da natureza que se conhece é chamado milagre. A Doutrina Espírita, dentre seus postulados, preceitua que a Lei Natural foi criada por Deus, sendo Ele o autor de to- das as coisas. Na harmonia que reina no Universo vemos a perfeição da Lei Divina estabelecida desde toda a eter- nidade. Não há prodígios de exceção, tudo pertence à Lei Eterna de Amor e Justiça. Assim, são estas leis eternas, perfeitas, imutáveis, imodificáveis como o próprio Deus. Isto posto, fica mais fácil entender-se o motivo pelo qual um dos caracteres do milagre propriamente dito é o ser inexplicável, por isso mesmo que se realiza com exclusão das leis naturais. Outro caráter do milagre é o ser insólito, isolado, excepcional. Um milagre não se explica aparentemente, é uma ação isolada, diferente, incomum. É tanto essa a idéia que se lhe associa que, se um fato milagroso vem a encontrar explicação, se diz que já não constitui milagre, por muito espantoso que seja. A palavra “milagre” na atual interpretação significa um feito extraordinário que vai de encontro às leis da natu- reza, ou seja, uma revogação da ordem natural das coisas, uma exceção à regra geral vigente. Na mesma trilha segue o pensamento teológico, afirmando que por ser Deus onipotente, tudo lhe sendo possí- vel, pode modificar as leis naturais, manifestando assim o Seu poder. Esta conceituação excessivamente simplista e de cunho nitidamente humano reduz o Sábio dos Sábios à con- dição precária de quem sanciona leis que não são integralmente cumpridas, diminui o Poder Infinito à situação de quem construiu macros e microcosmos para alguém menor inverter ou subverter essa mesma ordem divina, colo- cando o Criador na posição de quem elaborou leis repletas e transbordantes de exceções. OS MILAGRES NO SENTIDO TEOLÓGICO Para a Teologia, a origem dos milagres é sobrenatural, vem de Deus, sendo impossível de serem explicados, constituindo-se um atentado contra a fé associar-se os milagres aos fenômenos da Natureza. Contudo, o ser humano cada vez mais faz uso da razão, do discernimento, não aceita mais passivamente, credulamente, os dogmas e artigos de fé impingidos pelas religiões, desprendendo-se pouco a pouco de conceitos arcaicos, estagnados, raciocinando sobre o critério da Perfeição dos Atributos de Deus, de Sua Onipotência e Sabe- doria. Os milagres são atos inexplicados, mas não inexplicáveis. (A Gênese, XIII, item 17). Foram fecundos em milagres os séculos de ignorância, porque se considerava sobrenatural tudo aquilo cuja causa não se conhecia. À proporção que a Ciência revelava novas leis, o círculo do maravilhoso ia-se restringindo; mas como a Ciência ainda não explora todo o vasto campo da Natureza, larga parte dele ficou reservada para o ma- ravilhoso. Kardec, em A Gênese, no item 14 do Cap. XIII, insere a seguinte questão: “Pois que o Espiritismo repudia toda pretensão às coisas miraculosas, haverá, fora dele, milagres, na acepção usual desta palavra?” E o próprio Codificador esclarece: “Digamos primeiramente, que os fatos reputados milagrosos, ocorridos an- tes do advento do Espiritismo e que ainda no presente ocorrem, a maior parte, senão todos, encontram explicação nas novas leis que ele veio revelar. Esses fatos, portanto, se compreendem embora sob outro nome, na ordem dos fenômenos espíritas e como tais, nada têm de sobrenatural. Fique, porém, bem entendido que nos referimos aos fa- tos autênticos e não aos que, com a denominação de milagres, são produtos de uma indigna sutileza, com o fito de explorar a credulidade. “Tampouco nos referimos a certos fatos lendários que podem ter tido, originariamente, um fundo de verdade, mas que a superstição ampliou até ao absurdo. Sobre esses fatos é que o Espiritismo projeta luz, fornecendo meios de apartar do erro a verdade”(conclui o Codificador). FAZ DEUS MILAGRES? Ainda em A Gênese no item 15 do mesmo cap. XIII, Kardec responde a indagação acima, esclarecendo que: “Quanto aos milagres propriamente ditos, Deus, visto que nada lhe é impossível, pode fazê-los. Mas fá-los? Ou, por outras palavras; derroga as leis que Dele próprio emanaram? Não cabe ao homem prejulgar os atos da Divindade, nem os subordinar à fraqueza do seu entendimento. Contudo, em face das coisas divinas, temos, para critério do nosso juízo, os atributos mesmos de Deus. Ao poder soberano reúne Ele a soberana sabedoria, donde se deve con- cluir que não faz coisa alguma de inútil. Por que, então, faria milagres? Para atestar o seu poder, dizem. Mas, o po- der de Deus não se manifesta de maneira muito mais imponente pelo grandiosos conjunto das obras da criação, pela sábia previdência que essa criação revela, assim nas partes mais gigantescas, como nas mais mínimas, e pela har-
  • 47.
    ApresentaçÃo monia das leisque regem o mecanismo do Universo, do que por algumas pequeninas e pueris derrogações que to- dos os prestidigitadores abem imitar?” E conclui de modo admirável o insigne Codificador: “Não é, pois, da alçada da Doutrina dos Espíritos a ques- tão dos milagres; mas, ponderando que Deus não faz coisas inúteis, ele (O Espiritismo) emite a seguinte opinião: Não sendo necessários os milagres para a glorificação de Deus, nada no Universo se produz fora do âmbito das leis gerais. Deus não faz milagres, porque, sendo, como são, perfeitas as suas leis, não lhe é necessário derrogá-las. Se há fatos que não compreendemos, é que ainda nos faltam os conhecimentos necessários”. O SOBRENATURAL E AS RELIGIÕES A AÇÃO DOS ESPÍRITOS SOBRE A MATÉRIA O Sobrenatural e as Religiões O que é sobrenatural? É aquilo que é superior ao natural, que excede as forças da Natureza, “que não é co- nhecido senão pela fé”. Como o homem não sabe distinguir, por sua ignorância, o que está de acordo como as leis da Natureza ou não, isto é, qual o limite entre o natural e o sobrenatural, ele passa a considerar tudo o que desco- nhece como fatos extraordinários, maravilhosos ou de origem divina. Tanta coisa tida como sobrenatural teve seus “mistérios” desvendados pela ciência humana, e essa é uma das bases dos cépticos para não aceitarem da realidades espiritual, alegando que “isso tudo” é criação de homens inte- ressados em dominar a massa humana, submetendo-as ao seu controle de governo, ou, ainda, produto da ignorân- cia humana. Independentemente de certas posições radicais, a grande maioria dos homens aceita a realidade espiritual, da qual vai tomando, pouco a pouco maior conhecimento, libertando-se da ignorância, das superstições e crendices primitivas. Os fantasmas, por exemplo, sempre considerados como fatos sobrenaturais, hoje, são perfeitamente ex- plicados. Da mesma forma a vidência, a audiência, a levitação, a materialização, bicorporeidade etc., outrora “milagrosos”, são hoje estudados com base científica, sem nenhuma conotação com o sobrenatural. É verdade que os homens ainda aqui se dividem nas interpretações: uns considerando os fatos como decorrentes da própria ação do homem, designado de sensitivo, como o chamam os parapsicólogos e outros, aceitando a participação dos Espí- ritos, estudados de acordo com o método experimental adotado pela Doutrina Espírita. O sobrenatural é considerado como um fundamento das religiões, uma manifestação do poder de Deus ou uma forma Dele apresentar-se aos homens. Essa idéia é predominante nas religiões que admitem a unicidade das existências e a não comunicação do poder de Deus ou uma forma Dele apresentar-se aos homens. Essa idéia é pre- dominante nas religiões que admitem a unicidade das existências e a não comunicação dos Espíritos como os ho- mens, fundamentadas em posições dogmáticas, segundo suas interpretações das revelações de “Deus”. Daí os mi- lagres registrados no Velho e no Novo Testamento, como fatos sobrenaturais e decorrentes da manifestação da vontade de Deus. Nesse poder milagroso, fincam suas raízes a adoração e a fé dos homens na esperança de alcan- çar, da mesma forma, o reajuste de sue desequilíbrios. As religiões que admitem, entretanto, a pluralidade das existências, e dentre delas o Espiritismo, generica- mente, interpretam tais fatos de forma diferente, dado que colocam sob a responsabilidade do próprio homem a obrigação de restabelecer sue equilíbrio, independente do “milagre” de Deus. Ação dos Espíritos sobre a Matéria O Espiritismo trazendo novos conhecimentos aos homens, através da Terceira Revelação, vem demonstrar que o sobrenatural não existe e que sua crença constitui mera superstição e ignorância. (LM. Cap. IV e II, item 14, 1ª parte e A Gênese, XIV, item 43) Tais “milagres” resultam da ação do Espírito sobre a matéria por meio de seu corpo espiritual, através da combinação, compressão ou condensação de fluidos retirados do ar (atmosfera fluídica) e do médium, que é sempre um intermediário, consciente ou inconsciente, da ação do Espírito e sem o qual tais fenômenos não ocorreriam. (LM, cap. VIII - Do Laboratório do Mundo Invisível). Os milagres não são, pois, fatos sobrenaturais, significando somente coisa extraordinária, admirável de se ver. Dada a ignorância das causas, o homem passou a considerá-los um ato do poder divino, contrário às leis da Nature- za. Se Josué tivesse efetivamente detido o movimento do Sol (Josué, 10:12), aí sim seriam um verdadeiro milagre, porquanto se opõe às leis naturais.
  • 48.
    Capítulo 20 MEDIUNIDADE NOEVANGELHO SUPERIORIDADE DA NATUREZA DE JESUS Ao analisar a natureza espiritual de Jesus, pelas evidências e ensinos deixados como herança aos homens torna-se iniludível reconhecê-lo como sendo um Espírito Superior, colocado, por suas virtudes, bem acima da huma- nidade terrestre. Diz Kardec que pelos imensos resultados que a sua encarnação produziu na Terra, admite-se que sua presen- ça entre nós foi uma dessas Missões somente conferidas pela Divindade aos seus mais categorizados mensageiros. Complementa Kardec que “como homem, tinha a organização dos seres carnais; porém, como Espírito Puro, desprendido da matéria, havia de viver mais uma vida espiritual do que da vida corporal, de cujas fraquezas não era passível. A sua superioridade com relação aos homens não derivava das qualidades do seu corpo, mas das do seu espírito, que dominava de modo absoluto a matéria e das do seu perispírito, tirado da parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres. Jesus praticou muitos atos e prodígios que não devem ser levados à conta de milagres. Tudo se deu em con- seqüência de seu excelso padrão espiritual, aliado à incessante assistência de Deus. Os atos praticados por Jesus não contrariavam as leis naturais, devendo portanto, ser creditados à sua elevada condição espiritual e à sua mais absoluta perfeição moral. Os prodígios de Jesus, embora tidos na conta de miraculosos por muitos, nada mais eram que o resultado da aplicação de leis naturais e dos poderes psíquicos e atributos de um Espírito de elevada estirpe. Diz André Luiz: “neguemo-nos a interpretar o Eterno Amigo como vulgar e revolucionário terreno. Reconhe- çâmo-lo como a Luz do Mundo”. Nesta análise da vida de Jesus e sua natureza espiritual, convém registrar algumas questões: Até que ponto (grau ou nível de desdobramento) Jesus possuía a dupla vista? Agiu ele como médium nas curas que operava? Jesus era Deus? As respostas, lastreadas nos princípios fundamentais esclarecidos pelos Espíritos, atestam que todos os fatos da vida de Jesus são considerados naturais, estando plenamente demonstrados pelo magnetismo e pelo Espiritismo. Jesus, como Governador Planetário, Orientador da Humanidade terrena, desde sua formação, consoante in- formações de Emmanuel em À Caminho da Luz, sua alma, como Espírito Puro que era “não se achava presa ao corpo, senão pelos laços estritamente indispensáveis.. constantemente desprendida, ela decerto lhe dava dupla vis- ta, não só permanente, como de excepcional penetração e superior de muito à que de originário possuíam os ho- mens comuns”. Kardec responde à segunda pergunta, esclarecendo que Jesus não era médium, isto é, instrumento de Espíri- tos, porquanto Cristo não precisava dessa assistência, por que era ele quem assistia os outros. “Agia por si mesmo, em virtude do seu poder pessoal, como o podem fazer, em certos casos, os encarnados, na medida de suas forças”. Complementa Kardec, “se algum influxo estranho recebia, esse só de Deus lhe poderia vir. Segundo definição dada por um Espírito, ele era médium de Deus, dado que era ele um intérprete das Leis Divinas junto aos homens. Como Espírito Puro que era e vindo à encarnação para orientação definitiva da Humanidade terrena, trazendo os postulados fundamentais da Lei do amor e prometendo complementá-la com “O Consolador”, deveria conhecer os princípios fundamentas das Leis Divinas, mas não poderia ser, em hipótese alguma, o próprio Deus encarnado, como afirmam as Igrejas dogmáticas. Uma centena de vezes Jesus faliu em “Aquele enviou”, em “meu pai,” e outras expressões semelhantes. No mais, os Espíritos agora esclarecem que Deus é a “inteligência suprema e causa primária de todas as coi- sas”, e que os Espíritos Puros são seus emissários na organização e administração universal. DUPLA VISTA: ENTRADA DE JESUS EM JERUSALÉM. PESCA MILAGROSA. VOCAÇÃO DE PEDRO, ANDRÉ, TIAGO, JOÃO E MATEUS. NATANAEL Introdução Todos os fatos rejeitados e considerados de origem sobrenatural, nada mais são que efeitos das propriedades do Fluido Perispiritual. A superioridade do Cristo não derivava de qualidades particulares de seu corpo, mas das do seu Espírito, que dominava de modo absoluto a matéria e a do seu perispírito tirado da parte mais quintessenciada dos fluidos terrestres. A pureza desses fluidos conferiam a Jesus imensa força magnética, secundada pelo inces- sante desejo de fazer o bem, possibilitando-lhe estar sempre em estado de dupla vista. Alguns fatos do Evangelho podem ser explicados pelo Espiritismo. Entrada de Jesus em Jerusalém Quando eles se aproximaram de Jerusalém (Mt., 21:1 a 7), chegaram a Betfagé, perto do Monte das Oliveiras, Jesus enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: Ide a essa aldeia que está à vossa frente e, lá chegando, encon-
  • 49.
    Mediunidade no Evangelho47 trareis amarrada uma jumenta e junto dela o seu jumentinho; desamarrai-a e trazei-mos. Se alguém disser qualquer coisa, respondei que o Senhor precisa deles e logo deixará que os conduzais”. Ora, tudo isso se deu, a fim de que se cumprisse esta palavra do profeta. Dizei à filha de Sião: Eis o teu rei, que vem a ti, cheio de doçura, montado numa jumenta e com o jumentinho da que está sob o jugo. (Zacarias, cap. IX, V .9) Os discípulos então foram e fizeram o que Jesus lhes ordenara. E tendo trazido a jumenta e o jumentinho, a cobriram com suas vestes e o fizeram montar. Pesca Milagrosa Um dia, estando Jesus à margem do lago de Genesaré, como a multidão de povo o comprimisse para ouvir a palavra de Deus, viu ele duas barcas atracadas à borda do lago e das quais os pescadores haviam desembarcado e levavam suas redes. Entrou numa dessas barcas, que era de Simão, e lhe pediu que a afastasse um pouco da mar- gem; e, tendo-se sentado, ensinava ao povo de dentro da barca. Quando acabou de falar, disse a Simão: Avança para o mar e lança as tuas redes de pescar. Respondeu-lhe Simão: Mestre, trabalhamos a noite toda e nada apanhamos; contudo, pois que mandas, lançarei a rede. Tendo-a lançado, apanharam tão grande quantidade de peixes, que a rede se rompeu. Acenaram para os companheiros que estavam na outra barca, a fim de que viessem ajudá-los. Eles vieram e encheram de tal modo as barcas. Que por pouco estas não se submergiram. (Lucas, 5: 1 a 7) Vocação de Pedro, André, Tiago, João, Mateus. Natanael Caminhando ao longo do mar da Galiléia viu Jesus dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, que lançavam suas redes ao mar, pois que eram pescadores; e lhes disse Segue-me e eu farei de vós pescadores de homens. Logo eles deixaram suas redes e o seguiram. Daí, continuando, viu ele dois outros irmãos, Tiago, e João, seu irmão, que estavam numa barca com Zebe- deu, pois de ambos, os quais estavam a consertar suas redes e os chamou. Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram. (Mt., 4: 18 a 22) Saindo dali, Jesus, ao passar, viu um homem sentado à banca dos impostos, chamado Mateus, ao qual disse: Segue-me e o homem logo se levantou e o seguiu. (Mt., IX:9) Jesus viu a Natanael que o vinha procurar a convite de Felipe (Jo., 1:47) e disse: “Eis aí um verdadeiro israe- lita, em quem não há artificio. Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Antes que Felipe te chamasse, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira, respondeu Jesus”. Nada de surpreendente existe nestes fatos, desde que se conheça o poder da dupla vista e a causa muito na- tural dessa faculdade. Jesus a possuía em grau elevado e pode-se dizer que ela constituía o seu normal, conforme atestam grande número de seus atos, os quais, hoje, têm a explicá-los os fenômenos magnéticos e o Espiritismo. Quando Jesus previu onde se encontravam, a jumenta e o jumentinho e, ao anunciar, com segurança, onde os pescadores poderiam lançar suas rede, indicando o lugar onde achariam os peixes ou quando chamou a si Pedro, André, Tiago, João e Mateus é que lhes conhecia as disposições íntimas e sabia que eles o acompanhariam, e que eram capazes de desempenhar a missão que tencionava confiar-lhes, muito embora cada um tivesse intuição da missão que iria desempenhar e, sem hesitação, atenderam seu chamado. Como poderia Jesus conhecer os pensa- mentos dos seus seguidores senão pelas irradiações fluídicas desses pensamentos e ao mesmo tempo vista dupla, que lhe permitir ler no foro íntimo. O homem nem sempre sabe que traz em si um “espelho” onde se reflete o seu pensamento, um revelador da sua própria irradiação fluídica impregnada dele. Se conhecesse o mecanismo do mundo invisível que o cerca, os fios ondulatórios condutores do pensamento, a ligarem todos os seres inteligentes, muito menos surpreendido ficaria diante de certos efeitos que a ignorância atribui a “milagres”. JESUS CAMINHA SOBRE AS ÁGUAS (Mt., 14:22-33) (Mc., 6:45-52) “Logo depois ordenou Jesus aos discípulos que embarcassem e o precedessem na outra margem, enquanto despedia o povo. Tendo-o despedido, subiu ao monte, para rezar num lugar retirado. Ao cair da noite, estava lá, sozinho. Entretanto, a barca já ia a longa distância da terra e estava sendo açoitada pelas ondas,, porque o vento era contrário. Lá pelas três horas da madrugada foi ter com eles, caminhando sobre o lago. Ao vê-lo andar sobre as águas, ficaram os discípulos assustados. “É um fantasma!” diziam, soltando gritos de pavor. Mas logo Jesus lhes disse estas palavras: ‘Coragem! Sou eu; não tenhais medo’. Então Pedro respondeu: ‘Senhor, se és tu mesmo, dá- me ordem de ir ao teu encontro sobre as águas. Jesus lhe disse: ‘Vem!’ E Pedro, descendo da barca, foi ao encontro de Jesus. Percebendo, porém, a fúria do vento, ficou atemorizado; e, começando a afundar, gritou: “Salva-me, Se- nhor!” No mesmo instante Jesus estendeu a mão e o segurou, dizendo: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” E ao subirem eles à barca, parou o vento. Então os que estavam na barca prostraram-se diante dele, dizendo: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus!”. (Mt., 14:22-33) Kardec dá duas alternativas para uma melhor análise do fenômeno, tendo por base as leis da Natureza, em ambas as hipóteses é possível a ocorrência de tal fato. Jesus, embora vivo, pôde aparecer por sobre as águas, em forma tangível, estando seu corpo em outro local (aparições tangíveis). A outra hipótese supõe que seu corpo fosse sustentado e neutraliza a sua gravidade pela mesma força fluídica que mantém no espaço um objeto, sem qualquer ponto de apoio. O mecanismo é envolver-se o Espírito com “atmosfera fluídica” que dá leveza específica como o ar nos balões (por analogia), permitindo a levitação. Hoje, sabe-se, também da força magnética que faz barcos andarem sobre um “colchão de ar”.
  • 50.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho48 TEMPESTADE APLACADA (LC., 8:22-25) E (MT., 8:23-27) Um dia, subiu a uma barca com os seus discípulos e lhes disse: “Passemos a outra margem do lago.” E parti- ram. Enquanto navegavam, adormeceu. Desencadeou-se uma tempestade no lago, e já corriam perigo, invadidos pelas águas. Aproximaram-se, pois, e o despertaram, dizendo: “Mestre! Mestre! Estamos perdidos!” Tendo ele acor- dado, repreendeu ao vento e ao tumulto das vagas; acalmaram-se e veio a bonança. Então lhes perguntou: “Onde está a vossa fé?” Forma tomados de medo e admiração, e diziam entre si: “Quem é este que ordena aos ventos e às vagas , e eles obedecem?” (Lc., 8:22-25) Nas questões 536 a 540 de “O Livro dos Espíritos”, os amigos espirituais elucidam acerca da interferência de entidades desencarnadas de diferentes níveis de evolução, como executantes de ordens emanadas da Espiritualida- de Maior, nos fenômenos da Natureza. Entretanto, deixam ainda um espaço para maiores digressões futuras acerca do assunto. Se assim é, não se estranha o fato de Jesus ter ampla autoridade sobre essas inteligências e “prova um poder que a nenhum homem é dado exercer”(A Gênese). O fato de estar Jesus a dormir tranqüilamente, durante a tem- pestade, atesta a sua superioridade em compreender que não haveria risco algum naquele momento. Na parte mo- ral, o assunto enseja o ensino de provar-se a fé e a confiança justamente nos momentos mais difíceis. Os obstácu- los sempre virão até que o Espírito se auto-domínio, educando-se confiantemente no aprendizado das leis divinas. ÁGUA TORNADA VINHO (BODAS DE CANÁ) (JO., 2:1-11) Este “milagre” encontra-se unicamente no Evangelho de João e é apresentado como o primeiro a ser operado por Jesus (o que deveria ter sido levado em conta pelos outros evangelistas); entretanto, pouca ou nenhuma impres- são causou. Segundo Kardec, o fato em si mesmo não tem tanta importância, visto que a missão de Jesus transcen- dia fenômenos puramente materiais. Se bem que se pudesse atribuir o fato a uma transformação das propriedades da água por ação magnética, diz Kardec, em “A Gênese”,: “Entre as hipóteses, deve-se preferir a mais racional e os espíritas não são tão crédulos que por toda a parte vejam manifestações, nem tão absolutos em suas opiniões, que pretendam explicar tudo por meio dos fluidos.” Kardec diz ser mais racional ver aí uma dessas parábolas tão freqüentes no ensinamento de Jesus, como a parábola da figueira que secou, do mau rico e outras que forma interpretadas e reinterpretadas atra- vés dos tempo, trazendo em seu bojo um cunho pessoal e ambíguo à postura íntegra e uniforme de Jesus. Em O Livro dos Médiuns, cap. VIII (Laboratório do Mundo Invisível), item 129, Kardec afirma que “o Espírito pode operar, pela vontade, sobre a matéria elementar, uma transformação íntima que lhe dá certas propriedades.” TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS (MT., 17:1-13), (MC., 9:2-13) E (LC., 9:28-36) Segunda a tradição, ocorreu no Monte Tabor (que fica a 11 quilômetros a sudeste de Nazaré, com aproxima- damente 1.000 m de altura) para onde se dirigiu com três dos seus discípulos, Pedro, Tiago e João e aos quais apa- receu transfigurado. Seu rosto resplandeceu como o sol, suas vestes se tornaram brilhantes e brancas como a luz e eis que apare- ceram Elias e Moisés, falando com ele. Em seguida, uma nuvem luminosa os envolveu e uma voz que da nume sa- ía, anunciou: “Este é o meu filho muito amado, escutai-o.” Minutos depois, Jesus se apresenta aos discípulos no seu estado habitual e lhes proibiu que falassem do ocor- rido, até que ele houvesse ressurgido dentre os mortos. E seus discípulos guardaram segredo, mas sem compreen- derem o que queria dizer ressurgir dentre os mortos. (Mt., 17:1-9) E Deus, que aprovava tudo o que Seu Enviado fazia. Ordenou que um Espírito transmitisse aquelas palavras confirmadas, pela segunda vez, do messiado de Jesus. Hoje, compreende-se a possibilidade desse fenômeno e da narrativa evangélica. Kardec em A Gênese, cap. XV, resume que a explicação para este fenômeno se encontra nas propriedades do fluido perispiritual, sendo um fato muito comum que em virtude da irradiação fluídica pode modificar a aparência de um indivíduo. No caso de Jesus, a pureza de seu perispírito permitiu que seu Espírito lhe desse excepcional fulgor, como um sol. A mesma luz que ofuscou a Paulo de Tarso, na Estrada de Damasco. De todas as faculdades reveladas por Jesus, nenhuma se pode dizer inacessível às possibilidades da Humani- dade, porque estão todas na ordem da Lei Natural. Em razão porém de sua superioridade, de sua essência moral e de suas qualidades fluídicas, aquelas faculda- des atingiam nele proporções muito acima das que são comuns. Colocado de lado o seu envoltório carnal, Jesus fa- zia sobressair o estado dos puros Espíritos. No cap. VII de O Livro dos Médiuns, item 123, encontra-se a transfiguração como uma modificação das dispo- sições moleculares do perispírito. Prossegue ainda o codificador lionês, agora pelo item 39, do cap. XIV de A Gênese, a elucidar o mecanismo do fenômeno: “Podendo o Espírito operar transformações na contextura do seu envoltório perispirítico e irradian- do-se esse envoltório em tono do corpo qual atmosfera fluídica, pode produzir-se na superfície mesma do corpo apagar-se mais ou menos completamente, sob a camada fluídica, e assumir outra aparência; ou, então, vistos através da camada fluídica modificada, os traços primitivos podem tomar outra expressão. Se, saindo do terra-a-terra, o Espírito encarnado se identifica com as coisas do mundo espiritual, pode a
  • 51.
    Mediunidade no Evangelho49 expressão de um semblante feio tornar-se bela, radiosa e até luminosa: se, ao contrário, o Espírito é pre- sa de paixões más, um semblante belo pode tomar um aspecto horrendo. Assim se operam as transfigurações, que refletem sempre qualidades e sentimentos predominantes no Espírito. O fenômeno resulta, portanto, de uma transformação fluídica; é uma espécie de aparição pe- rispirítica, que se produz sobre o próprio corpo do vivo e, algumas vezes, no momento da morte, em lugar de se produzir ao longe como nas aparições propriamente ditas. O que distingue as aparições desse gê- nero é o serem, geralmente, perceptíveis por todos os assistentes e com os olhos do corpo, precisamente por se buscarem na matéria carnal visível, ao passo que, nas aparições puramente fluídicas, não há ma- téria tangível.” É interessante lembrar que se outro Espírito combinar o seu fluido com o do primeiro, pode substituir a apa- rência da pessoa, que poderá variar como esses Espírito quiser. A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES (MT., 14:31-21 E 15:32-39), (MC., 6:30-44), (LC., 9:10-17) E (JO., 6:1-15) “Chamando Jesus a seus discípulos disse: Tenho compaixão desta gente, porque há três dias que permane- cem comigo e não têm o que comer; e não quero despedi-la em jejum, para que não desfaleçam pelo caminho. Mas os discípulos lhe disseram: Onde haverá neste deserto tantos pães para fartar tão grande multidão? Perguntou-lhes Jesus: Quantos pães tendes? Responderam: sete e alguns peixinhos. Então, tendo dando graças, partiu e deu aos discípulos. E estes ao povo. Todos comeram e se fartaram; e do que sobejou recolheram sete cestos cheios. Ora os que comeram eram quatro mil homens, além de mulheres e crianças. E tendo despedido o povo, Jesus entrou no barco e foi para o território de Magdala. (Mt., 15:32-39) (Obs. Esta foi a segunda multiplicação dos pães). Todos os fenômenos quando desconhecidos, na sua essência, são tidos como miraculosos. São inúmeros os casos de produções, por Espíritos, de matérias comestíveis. O Espiritismo reintegra as verdades evangélicas no seu verdadeiro lugar, dando-lhes o justo valor, explicando- as de acordo com a razão e a verdadeira ciência, conforme as Leis Naturais. Concluímos, e não, que eram de duas naturezas os pães que Jesus ofereceu à multidão que seguia seus pas- sos: o pão para o corpo e o pão para a alma, o que sacia a fome do Espírito. Em O Livro dos Médiuns, cap. VIII (Laboratório do Mundo Invisível), no item 128, perg. 12 e 13, Kardec per- gunta a São Luiz: “O Espírito pode fazer uma substância salutar apropriada à cura de uma doença? R.: Sim. Poderia da mesma maneira, fazer uma substância alimentar? Alguém poderia comê-la e saciar-se? R.: Sim. É apenas um trabalho químico e os Espíritos têm a vontade e a permissão de Deus.” No caso da multiplicação dos pães, sabe-se hoje que Jesus agiu sobre a matéria, tirando do elemento univer- sal as moléculas necessárias à formação do pão. As substâncias agem na economia orgânica e estes pães, elaborados pela vontade e benevolência de Jesus, que se apiedou do povo faminto, também agiu beneficamente sobre o estômago, produzindo a sensação de sacie- dade. O PÃO DA VIDA (JO., 6:22-41) João Evangelista, no cap. 6, vers. 22 narra que, no dia seguinte à multiplicação dos pães, a multidão procura Jesus novamente. Como sempre, o Mestre usa de energia e amor. “Trabalhai, não pela comida que perece, mas para a vida eterna.” Conhecedor profundo das almas, Jesus sabia que os sinais prodigiosos da multiplicação passaram em vão e apenas a fome saciada lhes comovera as entranhas. Trabalhar pelo pão de cada dia é necessário à sobrevivência fí- sica com dignidade; trabalhar pelo alimento espiritual é elaborar a imortalidade. Este valor intrínseco da nutrição espiritual, Jesus colocou na oração dominical: “O pão nosso de cada dia dai- nos hoje”, não o pão para o qual trabalhamos fisicamente, mas o Pão de Deus, o que dá vida ao mundo. Ele complementa: “Eu sou o Pão da Vida, quem vem a mim não terá fome.” Sendo nós seus discípulos, seguindo suas orientações morais e espirituais, estaremos saciados e não teremos angústias e necessidades.
  • 52.
    Capítulo 21 AS APARIÇÕESDE JESUS APÓS SUA MORTE Todos os quatro evangelistas narram as aparições de Jesus após a sua morte, fazendo-o com riquezas de detalhes, a fim de não pairar qualquer dúvida sobre a realidade do fato. Essas aparições se explicam perfeitamente pelas propriedades do perispírito, pois, observando-se cuidadosamente as circunstâncias em que ocorreram, nelas reconhece-se todos os caracteres peculiares a um ser fluídico. O Mestre aparece inopinadamente e do mesmo modo desaparece; uns o vêem, outros não, com aparências diversas de modo que nem os seus discípulos o reconhecem de pronto. Penetra a matéria, adentrando recintos fe- chados; fala com os seus discípulos em tom breve e sentencioso, observando-se claramente, em todas as suas ati- tudes, que ele já não faz parte do mundo terreno. Suas aparições são produzidas de tal maneira que causam simul- taneamente surpresa e assombro; eles pressentem que já não se trata de um ser corpóreo. É patente, pois, que Jesus se mostrou com o seu corpo perispirítico, o que explica que ele somente tenha sido visto pelos que ele desejava que o vissem. É fora de dúvida que, se ele estivesse com o seu corpo carnal, todos o veriam da mesma forma como acontecia antes da morte. Antes da sua morte na cruz, o Mestre tinha um copo material de natureza semelhante ao de toda a gente. Após o episódio de sua crucificação, o seu corpo se conservou inerte e sem vida; foi sepultado como o são de ordi- nário os corpos e, além disso, muitas pessoas puderam vê-lo e tocá-lo. A primeira aparição foi para Maria Madalena. Estando ela chorando perto do sepulcro, abaixando-se para ver melhor o lugar onde o corpo de Jesus havia sido colocado, ela viu dois Espíritos de grande elevação, vestidos de branco que lhe falaram: “Porque buscais entre os mortos ao que vive?”, e ao ser inquirida sobre o motivo de suas lá- grimas, disse ela: “É que levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram”. Em seguida ela viu um homem que julgou ser o jardineiro e lhe fez a seguinte indagação: “Senhor, foste tu quem o tirou, da quem o tirou, diga-me onde o puseste”? O irreconhecível personagem então exclamou: Maria! Logo ela reconheceu ser Jesus, e, voltando-se disse: “Rabboni!”(Isto é: Senhor). Logo a seguir disse-lhe o Mestre: “Não me detenhas porquanto ainda não subi para meu Pai; mas, vai ter com meus irmãos e dize-lhes de minha parte: Subo a meu Pai, a vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus”. (Jo., 20:11) Nessa descrição evangélica observa-se dois detalhes interessantes: o Mestre deu demonstração de que não tinha mais um corpo físico, por isso não permitiu que Madalena o tocasse. Além disso deixou bem claro que não era Deus, o Criador de todas as coisa, mas uma de suas criaturas. Nesse mesmo dia, após ter surgido aos olhos atônitos de Maria Madalena, Jesus apareceu junto a dois discí- pulos que se dirigiam de Jerusalém para Emaús, tornando-se novamente irreconhecível. Acatando generoso convite para que permanecesse com eles em Emaús, e assentando-se à mesa, tomou do pão, abençoou-o e repartiu-o. Nes- se ato eles reconheceram que o personagem desconhecido era Jesus, entretanto, logo a seguir ele desapareceu de suas vistas. Cabe aqui esclarecer que a primeira aparição de Jesus a Madalena foi simplesmente visível e audível, porém não foi tangível. No caso dos dois discípulos de Emaús, ela aconteceu de modo diverso: foi visível, audível e tangí- vel. O Mestre, com seu corpo perispirítico podia, à sua vontade, dar ou retirar dele a tangibilidade, bem como desa- parecer quando lhe aprouvesse. Após a retumbante manifestação do Espírito de Jesus no caminho de Emaús, os dois discípulos voltaram apressadamente para Jerusalém, onde os apóstolos e alguns discípulos estavam reunidos num recinto fechado. Enquanto os dois narravam o que lhes aconteceu no caminho de Emaús, o Espírito de Jesus se apresentou no meio deles, dizendo: “a paz seja convosco; sou eu, não vos assusteis”. Em seguida, mostrou-lhes as chagas que ti- nha nas mãos e nos pés. O apóstolo Tomé não estava presente e, quando voltou, surpreendeu-se mas não deu credito às informações dos seus companheiros de apostolado, adiantando que somente passaria a crer se visse as chagas produzidas pelos cravos e também o rasgão que havia a seu lado. Oito dias depois, Jesus se apresentou novamente entre eles, estando fechadas todas as portas. Dirigindo-se a Tomé, que então estava presente, disse-lhe Jesus: “Põe aqui o teu dedo e olha minhas mãos, estende também a tua mão e mete-a no meu lado”. Tomé, num misto de alegria e surpresa, se limitou a dizer: “Meu Senhor e meu Deus!” O Mestre então lhe disse: “Tu creste, Tomé, porque viste; ditosos os que creram sem ver”. (Jo., 20:20-29) Nova aparição aconteceu quando da pesca que Pedro, Tomé, João, Tiago Maior, Natanael e outros discípulos faziam no Mar de Tiberíades. Durante toda a noite não haviam apanhado nada. Logo ao amanhecer Jesus apareceu sem se dar a conhecer, recomendando-lhes que lançassem a rede do lado direito do barco. Eles a lançaram e logo quase não a puderam retirar, tão carregada estava de peixes. Nisso o apóstolo João reconheceu o Mestre e excla- mou: “É o Senhor!” Ao ouviu essa palavra, Pedro, que estava nu, tomou sua túnica e se atirou ao mar a fim de se encobrir. (Jo., 21:1) O evangelista Lucas (24:50-53) afirmou que o Espírito de Jesus tornou a aparecer em Betsaida, onde abenço- ou os discípulos e deles se separou. Mateus, por sua vez (28:16-20) legou a informação de que a última aparição de Jesus foi na Galiléia, no monte onde ele havia designado. Ali ele disse: “É me dado todo o poder no Céu e na Terra”, recomendando aos seus apóstolos que se encarregassem de difundir os ensinamentos evangélicos. Afirmou Paulo de Tarso em sua 1ª Epístola aos Coríntios, que, após o ser ressurgimento o Cristo foi visto por Pedro e depois pelos doze. Depois foi visto por mais de quinhentos irmãos, e novamente por Tiago, e por todos os
  • 53.
    As Aparições deJesus após a sua Morte 51 apóstolos, e ao final, depois de todos foi visto também por mim, como por um nascido fora de tempo.” (1ª Epístola aos Coríntios, 15:5-8). O livro Atos dos Apóstolos afirma que Jesus apareceu aos olhos de Ananias, instruindo-o para que procurasse Paulo de Tarso, na cidade de Damasco, e fizesse com que recuperasse a visão. (At., 9:10-12) Corroborando ter Jesus um corpo perispirítico, afirmou ainda o apóstolo Paulo em sua 1ª Epístola aos Corín- tios (1ª Cor., 15:40) “Há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres; semeia-se corpo animal há também o corpo espiritual; a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção”.
  • 54.
    Capítulo 22 AS CURASNO EVANGELHO INTRODUÇÃO Os milagres realizados por Jesus de Nazaré e descritos pelos Evangelistas constituíram, até o advento da Co- dificação Espírita, matéria ignorada ou re-interpretada através dos tempos, através dos costumes e culturas diversas, por exegetas, em sua maioria, ainda condicionados ao pensamento de filósofos católicos. Kardec diz em A Gênese: “Os fatos que o Evangelho relata e que foram até hoje considerados milagrosos pertencem, na sua maioria, à ordem dos fenômenos psíquicos, isto é, dos que têm como causa primária as faculda- des e os atributos da alma. (...) O princípios dos fenômenos psíquicos repousa, nas propriedades do fluido perispiri- tual, que constitui o agente magnético; nas manifestações da vida espiritual durante a vida corpórea e depois da morte; e, finalmente, no estado constitutivo dos Espíritos e no papel que eles desempenham como força ativa da Natureza”. Em todos os casos, o agente propulsor é o Espírito. A cura se dá pela troca de uma molécula malsã por uma sã. Muitos fenômenos que no passado foram considerados milagrosos por não constarem na ocasião como uma comprovação científica são hoje fatos corriqueiros porque dentre da lógica dos fenômenos anímicos e mediúnicos. Muitos fatos que são tidos como miraculosos por não se lhes conhecer a causa determinante, atendo-se esta inter- pretação ao efeito ou resultado. Mas identificada a causa do fenômeno tido por sobrenatural, fica o mesmo colocado no domínio dos fatos naturais. A potência curadora depende da pureza da substância fluídica inoculada. Em conclusão, não há milagres no sentido comum do termo, na acepção vulgar da palavra, porque tudo o que acontece é decorrente das leis eternas da Criação, leis perfeitas e imutáveis. No caso de Jesus, ele apenas por sua presença, criava à sua volta um campo vibratório energético que ativava o potencial fluídico do paciente; este, pela força do seu pensamento em sintonia com a carga psíquica do Mestre, possibilitava as modificações biopsíquicas traduzidas pelas curas e pelos prodígios todos. Razão pela qual Jesus dizia aos pacientes curados: “A tua fé te cu- rou. Perdoados te são os teus pecados, vá e não peques mais”. “Vós sois deuses, podeis fazer o que faço e muito mais”(Jesus aos Apóstolos). A ação magnética pode produzir-se de várias maneiras. Perda de Sangue “Então , uma mulher, que havia doze anos sofria de uma hemorragia... como ouvisse falar de Jesus, veio com a multidão atrás dele e lhe tocou as vestes... no mesmo instante o fluxo sangüíneo lhe cessou.... logo, Jesus, conhe- cendo em si mesmo a virtude que dele saíra, se voltou e disse: Quem me tocou as vestes?... a mulher lhe declarou toda a verdade. Disse-lhe Jesus: Minha filha, tua fé te salvou...”( Mc., 5:25 a 34) Segundo Kardec, as palavras “conhecendo em si mesmo a virtude que dele saíra”, são significativas, à medi- da em que Jesus sentia e conhecia a movimentação fluídica que se operara nele em direção à doente. O fato se tona interessante pois Jesus não magnetizara a mulher, nem tampouco se apercebera dela. E porque ela curou-se de seu mal e não qualquer das criaturas enfermas que lá estavam? Kardec elucida a questão, dizendo que o fluido pode ser dirigido sobre o mal pela vontade do curador, ou “atraído pelo desejo ardente, pela confiança, numa palavra: pela fé do doente”. Compreende-se portanto, que a fé é uma virtude mística mas uma verdadeira força atrativa e que havendo dois ou mais doentes do mesmo mal, na pre- sença do curador, um pode se curar e o outro não. Cego de Betsaida “... trouxeram-lhe um cego que lhe pediram que o tocasse. Tomando o cego pela mão, passou-lhe saliva nos olhos e, havendo-lhe imposto as mãos, lhe pergunta se via alguma coisa. O homem olhando, disse... vagamente... novamente Jesus lhe impôs as mãos e gradativamente a visão foi-lhe voltando até tornar-se clara e nítida”. (Mc., 8:22 a 26) Aqui existe o efeito magnético: a cura foi imediata mas lenta e gradual embora definitiva. Paralítico de Cafarnaum “... lhe apresentaram um paralítico... Jesus, notando-lhe a fé, disse-lhe: Meu filho, tende confiança; perdoados te são os teus pecados... levanta-te, toma o teu leito e vai para a tua casa. O paralítico se levantou imediatamente e foi para a sua casa...”(Mt., IX - 1-8) (Jo., 5:1) Com a Doutrina Espírita temos hoje a comprovação do fenômeno reencarnatório, seus mecanismos e suas implicações com fatos ocorridos em vidas anteriores. Por conseguinte, se a enfermidade daquele homem era uma expiação do mal que ele praticara, o fato de Jesus dizer-lhe “perdoados são teus pecados”, eqüivale a dizer-lhe que no cumprimento de seus débitos para com as Leis Eternas, o doente já se libertara. “Cessada a causa, o efeito tem que cessar”. ( A Gênese, cap. XV, item 15)
  • 55.
    As Curas noEvangelho Os Dez Leprosos “... passava ele pela Samaria e Galiléia... dez leprosos vieram ao seu encontro e clamaram em altas vozes: Jesus, Senhor nosso, tem piedade de nós. ... no caminho, ficaram curados. Um deles, voltou sobre seus passos lan- çou-se aos pés de Jesus e lhe rendeu graças. Esse era samaritano. Disse Jesus: “Não foram curados todos os dez? Onde estão os outros nove? Nenhum deles houve que voltas- se e glorificasse a Deus, a não ser este estrangeiro? Levanta-te, vai; tua fé te salvou”. (Lc., 17:11-19) O relacionamento equivalente aos samaritanos e judeus na época de Jesus, equivaleria hoje aos dos protes- tantes e católicos. Curando a todos, samaritanos e judeus, dava Jesus um exemplo de tolerância - só o samaritano voltou pois somente ele trazia a somatória de fé suficiente a realizar-lhe a cura. Dizendo ao samaritano: “Tua fé te salvou”, dá Jesus a entender que o mesmo não acontece aos outros (Kardec, A Gênese). Estar curado nem sempre significa estar salvo. O Homem da Mão Ressequida “... entrou Jesus no templo e aí encontrou um homem que tinha secado uma das mãos - e eles o observaram para ver se ele curaria em dia de sábado... Disse ele ao homem que tinha a mão seca: levanta-te e coloca-te ali no meio - depois disse-lhes: “E permitido em dia de sábado fazer o bem ou o mal, salvar a vida ou tirá-la? - eles perma- neceram em silêncio... disse ao homem, “estenda a tua mão”. Ele a estendeu e ela se tornou sã. (Mc., 3: 1 a 8) O amor não tem dia e hora para ser praticado e o magnetismo de Jesus agiu serenamente sobre a atrofia nervosa daquele homem. Disse o Mestre: “Meu Pai não cessa de agir e eu também ajo sem cessar”. Como o sábado é que foi feito para o homem e pelo homem, a verdadeira caridade está nos sentimentos nobres. O Paralítico da Piscina “... havia em Jerusalém, uma piscina denominada Betsaida, com cinco galerias, onde deitavam doentes, ce- gos, coxos, todos à espera de que as águas fossem agitadas pelo Anjo do Senhor... quando então traria a cura àquele que fosse o primeiro a entrar nela... estava lá um homem que se achava doente há trinta e oito anos... Jesus sabendo-o enfermo perguntou-lhe se queria ficar curado, ao que o paralítico respondeu que não havia ninguém que o lançasse à piscina.. Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma teu leito e vai-te; e no mesmo instante o homem se achou curado...” (Jo., 5:1 a 17) A piscina de Betsaida, em Jerusalém, era uma cisterna próxima ao Templo, alimentada por uma fonte natural, cuja água parece ter tido propriedades curativas - era uma fonte intermitente que vez por outra jorrava com força, agitando suas águas - acreditava-se ser este o instante de proceder-se às curas. Talvez as propriedades das águas fossem ativadas com este fenômeno procedendo à cura de algumas moléstias. Hoje conhecemos bem o poder cura- tivo de determinadas fontes de água mineral e outras, mas à época, o fenômeno passava por sobrenatural. Jesus, ao curar o paralítico, ainda acrescenta: “Não tornes mais a pecar, para que não lhe sucedam coisas pio- res”. Por estas palavras deu-lhe a entender que o seu problema era devido a sérios compromissos assumidos em vidas anteriores e deleteriamente gravados em seu perispírito - o que na linguagem da época seria uma punição por atos praticados. Que ele procurasse preservar-se, pois, de outros desacertos. Cego de Nascença “... viu Jesus um homem que era cego desde que nascera... seus discípulos lhes perguntaram se havia sido pecador o homem ou se ele pagava dívidas de seu pais - Jesus respondeu: Não é por pecado dele, nem dos pais, mas para que nele se patenteiem as obras do poder de Deus... Tendo dito isto, cuspiu no chão e, havendo feito lama com a sua saliva, ungiu com essa lama os olhos do cego e lhe disse para ir lavar-se... ele foi, voltou vendo clara- mente... perguntaram-lhe então como se curara e ele lhes disse que “aquele homem que se chamava Jesus me cu- rou”... E os fariseus também o interrogaram... e o chamaram uma segunda vez e ele lhes disse: “Se esse homem não fosse um enviado de Deus, nada poderia fazer de tudo o que tem feito...” (Jo., 9:1 as 34) A situação constrangedora a que foi submetido o cego de nascença, colocando frente aos fariseus que procu- ravam, a todo custo distorcer a Verdade personalizada em Jesus e patenteada em suas uras, serve como exemplo de simplicidade ante as dificuldades e empeços colocados por aqueles que queriam, a todo custo, comprometer Jesus e sua obra - o que não conseguem. À pergunta dos discípulos, sobre quem pecara, o cego ou seus pais, responde Jesus não ser uma ocorrência de “pecado”, mas que nele se patenteava poder de Deus, isto é, o cego de nascença era um instrumento a uma ma- nifestação do poder de Deus. Se não era uma expiação do passado, era uma provação apropriada ao progresso da- quele Espírito, porquanto Deus, que é justo, não lhe imporia um sofrimento sem utilidade. Quanto ao meio empregado para a sua cura, é evidente que a fórmula saliva-terra fôra um veículo de energia curativa empregadas por Jesus. O Servo do Centurião de Cafarnaum “... Cafarnaum - veio a ter com Jesus um centurião, suplicando-lhe: “Senhor, tenho em casa um servo que está enfermo com paralisia, sofrendo horrivelmente”. Disse Jesus: “Irei curá-lo”. Ao que responde o centurião: “Senhor, eu não sou digno que entreis em minha casa; mas dizei uma palavra e meu servo será curado...” Ouvindo isto, Jesus admirou-se e disse aos que acompanhavam: “Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel encon- trei tamanha fé...” E disse Jesus ao centurião: “Vai e, como creste, assim será feito. E naquela mesma hora o servo ficou são”. (Mt., 8:5 a 13); (Lc., 7:1 a 10)
  • 56.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho54 Outras Curas Operadas por Jesus “... Jesus ia por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o Evangelho do reino e curando todos os langores e todas as enfermidades no meio do povo... traziam-lhe os doentes e afligidos por males diversos, os pos- sessos, lunáticos, paralíticos e ele a todos curava - acompanhava-o grande multidão...”(Mt., 4:23 a 25) Diz kardec que de todos os fatos que atestam o poder de Jesus, os mais numerosos são, indubitavelmente, as curas. “Queria ele provar dessa forma que o verdadeiro poder é o daquele que faz o bem” - que aliviando sofrimen- tos, fazia prosélitos pelo coração, fazendo-se entendido e amado. Tal faz o Espiritismo - cura males físicos, mas sobretudo cura as chagas morais; seus mais sinceros adeptos não são os que se maravilham ante a fenomenologia, mas aqueles que experimenta, a transformação em seus ca- racteres, com vistas à nobreza do Espírito. RESSURREIÇÕES: Jesus ressuscitou o filho da viúva de Naim, quando seu corpo atravessava a rua, levado a enterrar (Lc., 7:11); ressuscitou a filha de Jairo, que era príncipe da Sinagoga e que lhe fôra implorar, de joelhos, que impusesse as mãos sobre a sua filha (Mc., 5:35) e (Mt., 9:18) e ressuscitou finalmente à Lázaro (Jo., 11:11) irmão de Marta e de Maria de Betânia. A Ressurreição de Lázaro A ressurreição de Lázaro, por muito impressionante, foi a que se tornou mais conhecida, apesar de os homens durante séculos só a terem compreendido pela letra, e foi feita para o fortalecimento da fé em seus seguidores. Como na ressurreição da filha de Jairo, Jesus declarou inicialmente que Lázaro não estava morto. Disse cla- ramente que a sua enfermidade não ia até a morte e que ela (a doença) viera para a glória do Pai e para que o Filho de Deus fosse glorificado. Tanto assim, que, amando muito a Lázaro e as suas irmãs, esperou propositadamente que se passassem dois dias para atender ao chamado, visto que sabia e disse aos discípulos, que seu amigo Lázaro dormia e que o iria despertar do sono. Em caminho, porém, como não devesse evitar a crença de que Lázaro estava morto, por reconhecer que os homens ainda não se encontravam, não se achavam preparados para receber as explicações que ele teria que dar, se assim não procedesse, julgou conveniente ocultar certos fatos que seriam, em época própria explicados pelo Consolador e corroborados pela Ciência. Então, disse que Lázaro estava morto, mesmo porque, naquele estado de catalepsia, ainda hoje, só mesmo Jesus poderia fazê-lo retornar a vida plena. Colocado havia quatro dias, num túmulo qual os que se usavam naquela época (catacumbas, cavernas), Láza- ro fôra vítima de uma enfermidade pútrida, deveria cheirar mal, como supunha sua irmã, mas que não tem confir- mação no Evangelho e foi talvez por isso, que, mais tarde, deram o nome de Mal de São Lázaro aos leprosos. To- davia, Lázaro não tinha lepra, porque se a tivesse não poderia viver junto à família. Ao dizer que Lázaro estava morto, por assim entender necessário, Jesus, rendendo graças ao Pai, porque ia fazer voltar a vida ao corpo de seu amigo, humildemente se dirigiu a Deus dizendo: “Assim falei por causa do povo que me cerca, para que creiam que tu me enviaste”. (Jo., 11:41 e 42) Possuindo o dom da presciência, Jesus tinha antecipado conhecimento do que estava para verificar-se. O espírito de Lázaro não havia ainda total e definitivamente abandonado o corpo doente. Fraquíssimo era, em verdade, o laço que os ligava, já quase rompido e Lázaro morreria realmente se Jesus não aparecesse. Foi, atuando sobre esse laço que Jesus operou o fenômeno, revitalizando o organismo de Lázaro, transmitindo-lhe fluidos vivifi- cantes, como numa transfusão. Jesus necessitou impressionar os homens ainda muito presos às coisas da matéria, do seu tempo, de maneira que o fato atravessasse os séculos e pudesse produzir frutos em todas as épocas. Se o espírito de Lázaro (como os outros - o filho da viúva de Naim e a filha de Jairo) já se houvesse desligado totalmente do corpo, Jesus não os faria voltar à vida terrena, porque isso seria contrariar às leis imutáveis do Cria- dor, que, Onisciente, Jamais derroga as que emanaram da sua infinita sabedoria. Ressurreição da Filha de Jairo Recordemos a narrativa evangélica: “Enquanto assim lhes falava, veio um chefe da sinagoga e adorava-o, di- zendo: “Neste momento acaba de expirar minha filha: mas vem, põe tua mão sobre ela e viverá”. E Jesus, levan- tando-se, o foi seguindo com seus discípulos. Quando Jesus chegou à casa do chefe da sinagoga, vendo os tocado- res de flauta e a multidão em alvoroço disse: “Retirai-vos; pois a menina não está morta, mas sim dormindo”. E ri- ram-se dele. Mas retirada a multidão, entrou Jesus, tomou a menina pela mão e ela levantou. E a fama deste fato corroeu por toda aquela terra”. (Mt., 9:18, 19, 23, 24 e 26); (Lc., 8:40) e (Mc., 5:21) É este um caso característico de catalepsia, ou síncope, acidente muito comum naquele tempo e que era re- cebido como a morte, tanto assim que, sem curarem, Os pacientes, enterravam-nos imediatamente. Quantas doloro- sas provações houve naquela época justamente pelo fato de não se tomar precaução alguma antes de enterrar um corpo! No cap. V do Ato dos Apóstolos, registra-se o enterro imediato de Ananias e Safira, sua mulher, sem nenhum exame. Qualquer ataque que cessasse imediatamente, viesse entorpecer a inteligência e apresentasse rigidez dos membros, era sinal de morte ocorrendo o enterro imediato.
  • 57.
    As Curas noEvangelho Jesus, não há dúvida, portanto, ressuscitou a filha de Jairo porque, se não chegasse a tempo, ela iria para a sepultura em seguida e então morreria. Na casa já estavam os flautistas, as carpideiras e a multidão em alvoroço e algazarra para acompanhar o enterro. Mas como se deu a cura? Não é difícil explicar pelo Espiritismo. A morte é a separação da alma do corpo, devido a deficiência do fluido vital, ou sua extinção. Jesus, conhecedor das leis dos fluidos e da natureza humana, pelo seu amplo poder magnéti- co preencheu a deficiência do fluido da menina, por ser fluido vivificante, restituindo a saúde à paciente: ela pôde tomar posse do seu corpo. Allan Kardec trata magistralmente desses casos e os estudiosos do Evangelho devem interessar-se menos pelo lado científico da cura, e mais pelo lado moral para saberem quanto pode fazer aquele que tem conhecimentos e tem fé, e aquele que se dedica ao bem do próximo. Em Religião dos Espíritos. Lição “Sonâmbulos”, Emmanuel cita, entre outros, o caso de Tereza D’Ávila que permaneceu em regime de parada cardíaca (catalepsia) por 4 dias consecutivos, acordando subitamente quando preparavam seu enterro. Ressurreição do Filho da Viúva de Naim “Em dia subsequente dirigia-se Jesus para uma cidade chamada Naim e iam com ele os seus discípulos e uma grande multidão. Ao aproximar-se ele da porta da cidade, eis que levavam para fora um defunto, filho único de sua mãe, que era viúva; e vinha com ela muita gente da cidade. Logo que o Senhor a viu, compadeceu-se dela e disse-lhe: “Não chores”. Chegando-se, tocou o esquife, e parando os que o conduziam, disse: “Moço, eu te mando, levanta-te”. Aquele que havia estado morto, sentou-se e começou a falar; e Jesus o entregou à mãe deles. Todos fi- caram cheios de medo e glorificaram a Deus dizendo: “Um grande profeta levantou-se entre nós”, e: “Deus visitou o seu povo”. A notícia disto se divulgou por toda a Judéia e circunvizinhança”. (Lc., 7, 11-17) Naim é uma cidade da Palestina, a sudeste da Galiléia e bem próxima do Monte Tabor, onde Jesus ia conti- nuamente, e narra-nos o Evangelho ter-se realizado ali a transfiguração do Senhor. Naquela época não havia tempo determinado por lei para o enterramento dos cadáveres e os ataques de ca- talepsia, sendo muito comum, eram tomados por mortes. O caso do filho da viúva de Naim parece ter sido um desses casos. Jesus logo percebera que se tratava de um caso de morte aparente, o qual, se não fosse acudido a tempo, seria consumado; o moço, considerado morto, se- ria enterrado. Jesus fez parar o enterro em Naim, porque sabia que se tratava de um cataléptico e não de um morto, sabia que aquele Espírito encarnara para auxiliá-lo na administração de um ensinamento que só hoje podemos assimilar. Jesus ressuscitou o filho da viúva de Naim, e a sua ação neste caso foi simplesmente magnética; neutralizou a morte, vencendo-a com seus eflúvios vivificadores, e, pela sugestão verbal, fez que o moço tomasse posse do seu corpo: “Moço, eu te mando, levanta-te”. Assim, depreende-se, que ninguém tem mais ação magnética do que aquele que sabe amar e ama de verda- de.
  • 58.
    Capítulo 23 A OBSESSÃONO EVANGELHO ANÁLISE DA OBSESSÃO Kardec considera a obsessão como uma das doenças psíquicas que exige uma atenção maior. A obsessão caracteriza-se como o domínio que alguns Espíritos podem exercer sobre certas pessoas. Geral- mente estes Espíritos ainda são apegados a sentimentos de vingança, egoísmo e orgulho. Os bons Espíritos jamais constrangem; os maus, pelo contrário, agarram-se aos que conseguem subjugar, conduzindo a vítima à sua vontade. A obsessão divide-se em: obsessão simples, fascinação e subjugação. A obsessão simples verifica-se quando um Espírito inferior em moral “se impõe a um médium, intromete-se nas comunicações que ele recebe, o impede de se comunicar com outros Espíritos e substitui os que são evocados”. (Kardec, O Livro dos Médiuns, cap. XXIII) A fascinação traz conseqüências mais graves: caracteriza-se como uma ilusão projetada diretamente ao psi- quismo do médium, paralisando sua capacidade de discernimento. O médium fascinado não se considera enganado. O Espírito, atuando de forma sutil consegue inspirar-lhe confiança e agir sobre ele de forma hipnótica. A ilusão pode chegar ao ponto de levá-lo a considerar a mais absurda das afirmações como verídica. Os homens mais instruídos não escapam a este tipo de influência, “o que prova tratar-se de uma aberração produzida por uma causa estranha, cuja influência os subjuga”. (Kardec, O Livro dos Médiuns, cap. XXIII) As conseqüências da fascinação são muito mais graves do que aquelas geradas pela obsessão simples, na medida em que o fascinado é dirigido, condicionado a aceitar teorias, posturas, de forma irrefletida e cega. A subjugação é um envolvimento psíquico que traz como conseqüência a total paralisação da vontade da ví- tima, fazendo-a agir malgrado seu livre arbítrio. A subjugação, segundo Kardec, pode ser moral ou física. Na primei- ra, o subjugado é constrangido a tomar decisões no mais das vezes absurdas e comprometedoras, que por uma es- pécie de indução hipnótica, aceita como sensatas: é uma espécie de fascinação. No segundo caso, o constrangi- mento do Espírito ao médium é tal que o leva a movimentações físicas involuntárias, podendo chegar às raias do ri- dículo. Kardec cita exemplos importantes de subjugação corpórea em O Livro dos Médiuns e que devem ser anali- sados e estudados. A possessão: Em O Livro dos Médiuns, item 241, kardec prefere não usar o termo possessão que correspon- deria à subjugação em mais alto grau. Na primeira razão, por implicar na crença de seres sempre voltados para o mal (demônios, na época); na segunda, por dar a impressão de coabitação, quando só existe constrangimento. Anos mais tarde, em A Gênese, cap. XIV, item 47, Kardec aceita o temo genérico possessão e classifica-a de temporária e intermitente. Na Revista Espírita (de 1863 a 1867) ele descreve vários casos de possessões. “O Espí- rito (Kardec, A Gênese) em possessão momentânea do corpo, dele se serve como o faria com o seu próprio; fala por sua boca, enxerga pelos seus olhos, age com seus braços, como o teria feito se fosse vivo”. Reconhece-se a obses- são pelas seguintes características (Kardec, O Livro dos Médiuns): Insistência de um Espírito em comunicar-se, queira ou não o médium, pela escrita, pela audição, pela tiptolo- gia etc., opondo-se a que outros Espíritos o façam. Ilusão que, não obstante a inteligência do médium, o impede de reconhecer a falsidade e o ridículo das comu- nicações recebidas. Crença na infalibilidade e na identidade absoluta dos Espíritos que se comunicam e que, sob nomes respeitá- veis e veneráveis, dizem falsidades ou absurdos. Aceitaçào, pelo médium, dos elogios que lhe fazem os Espíritos que se comunicam por seu intermédio. Disposição para se afastar das pessoas que podem esclarecê-lo. Levar a mal a crítica das comunicações que recebe. Necessidade incessante e inoportuna de escrever (e poder-se-ia acrescentar, de comunicar-se sob qualquer circunstância). Qualquer forma de constrangimento físico, dominando-lhe a vontade e forçando-o a agir ou falar sem querer. Ruídos e transtornos contínuos em redor do médium, causados por ele ou tendo-o por alvo. Importante notar-se que não somente os médiuns estão sujeitos a qualquer tipo de obsessão, mas todo aquele que imprudentemente se deixa influenciar por sentimentos, emoções, pensamentos e atitudes negativas ou inferio- res. O conhecimento do Espiritismo esclarece de forma ampla e objetiva os problemas relativos aos obsedados do Evangelho, descaracterizando-lhes das aparências de milagres. Os motivos da obsessão variam segundo o caráter do Espírito - práticas de vingança contra a pessoa que o fe- riu moralmente nesta ou em outra reencarnação, desejo de fazer o mal, inveja do bem, orgulho do falso saber. Os meios de se combater a obsessão variam segundo as características de que ela se reveste: na obsessão simples, provar ao Espírito que não foi enganado por ele e que será impossível deixar-se enganar, cansando-lhe a paciência, convencendo-o de que perde seu tempo. Para os Espíritos mais renhidos, a prece fervorosa, o apelo aos bons Espíritos e, sobretudo, a postura íntegra, vencendo-o pelo bom procedimento. No caso da subjugação corpórea é necessária a intervenção de uma terceira
  • 59.
    A Obsessão noEvangelho 57 pessoa, com autoridade moral, agindo por meio do magnetismo e que hoje popularmente conhecemos como aplica- ção de passes inseridos no contexto de uma Assistência Espiritual. Assim como as curas, a libertação dos possessos ou obsedados figura como os mais numerosos atos de Jesus. Naquela época atribuía-se a possessão como sendo obra de demônios, bem como as enfermidades cujas causas eram desconhecidas - catalepsia, mudez, epilepsia, etc. Eram em grande número os possessos e obsedados de toda a sorte na Judéia, daí a oportunidade que Jesus teve de curar a muitos. Sem apresentar caráter epidêmico, as obsessões individuais são muito freqüentes em seus mais variados aspectos, trazendo como conseqüência, distúrbios de ordem física, desarticuladores da estrutura pe- rispiritual do obsedado, quanto mais graves forem os comprometimentos de orem moral entre o obsessor e o obse- dado. O Possesso de Cafarnaum (Mc., 1:21 a 28) (Lc., 4:3 a 37) “Vieram em seguida a Cafarnaum e Jesus, entrando primeiramente, no dia de sábado, na sinagoga, os instru- ía. Admiravam-se da sua doutrina, pois os instruía como quem tem autoridade e não como os escribas. Ora, encon- trava-se na sinagoga um homem possuído de um Espírito impuro, que gritava, dizendo: Que há que há entre vós e nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Sei quem vós sois: vós sois o Santo de Deus. Mas Jesus, falando-lhe com tom de ameaça, lhe dizia: Cala-te e sai desse homem. Então, o Espirito impuro, agitando-se com violentas con- vulsões e soltando um grande grito, saiu dele. Todos ficaram tão surpresos que perguntavam-se uns aos outros: Que é isto? E qual é essa nova doutrina? Ele manda com império mesmo aos Espíritos impuros e eles obedecem!” Os fariseus entendiam que os obsedados eram possuídos pelo demônio e coo também não aceitavam o poder moral superior de Jesus, argumentavam que “É pelo príncipe dos demônios que ele expele os demônios” (Mt. 11:34). Infelizmente, ainda hoje, é o mesmo raciocínio de muitos teólogos. Os Possessos Gadarenos (Mt., 8:28 a 34) (Mc., 5:1 a 20) (Lc., 8:26 a 39) “Tendo ele chegado à outra margem, à terra dos gadarenos, vieram-lhe ao encontro dois endemoniados, sain- do dentre os sepulcros, e a tal ponto furiosos, que ninguém podia passar por aquele caminho”. (Mt., 8:28) Na seqüência, escreve Mateus: “Então os possessores lhes rogavam: se nos expeles, manda-nos para a ma- nada de porcos. Pois ide, ordenou-lhes Jesus. E eles, saindo, passaram para os porcos; e eis que toda a manada se precipitou despenhadeiro abaixo, para dentro do mar e nas águas pereceram”. Kardec comenta que “o fato de serem alguns maus Espíritos enviados aos corpos é contrário a toda probabili- dade”. Diz, ainda, que “um Espírito mau não deixa de ser um Espírito humano” e como tal “é contra as leis na nature- za que ele possa animar o corpo de um animal”. Justifica o Codificador com a possibilidade de uma alegoria para caracterizar as inclinações imundas de certos Espíritos expulsos por Jesus surgissem “materializados”, somente para a percepção sensorial dos porcos, que as- sustados fugiram espavoridos, precipitando-se nas águas. Esta hipótese é racional, lógica e possível, porquanto se sabe que certos animais podem ver Espíritos. O Jovem Lunático (Mt., 17:14:21) (Mc., 9:14 a 29) (Lc., 9:37 a 43) “Estando Jesus junto à multidão, aproximou-se dele um homem que se ajoelhou e disse: “Senhor, compadece- te de meu filho, porque é lunático e sofre muito;; pois muitas vezes cai no fogo e outras na água. Apresentei-o a teus discípulos, mas ele não puderam curá-lo”. Jesus exclamou: “Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei? Trazei-me aqui o menino”. E Jesus repreendeu o mal Espírito e este saiu do menino; e desde aquela hora ficou o menino curado”. (Mt., 17, 15-18) Interrogado pelos discípulos sobre o porquê não puderam eles expulsar o obsessor, Jesus lhes respondeu: “por causa da pequenez de vossa fé”, acrescentando que “estas casta não se expele senão por meio de oração e jejum”. Comenta Kardec que “a imensa superioridade do Cristo dava-lhe tal autoridade sobre os Espíritos imperfeitos, então chamados demônios, que lhe bastava recomendar que se retirassem, para que eles não pudessem resistir a tal injunção”. (A Gênese, cap. XV, item 33) A Filha da Mulher Cananéia (Mt., 15:21 a 28) (Mc., 7:24 a 30) Jesus, partindo dali, retirou-se para a região de Tiro e de Sidom, na Fenícia. E eis que uma mulher cananéia, daquela região, veio gritando: “Senhor, filho de Davi, tem compaixão de mim; a minha filha está horrivelmente en- demoniada. Ele porém, não lhe respondeu palavra”. Então seus discípulos se chegaram e pediram: Despede-a, por- que vem gritando atrás de nós. Jesus respondeu: “Não fui enviado senão às ovelhas da casa de Israel”. Mas ela, aproximando-se, prostrou-se diante dele e pôs-se a rogar: “Senhor, socorre-me!” Ele tornou a responder: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-los aos cachorrinhos”. A mulher cananéia insistiu: “Sim, senhor, porém os cachorri- nhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos”. Diante disso, Jesus lhe disse: “Ó mulher, grande é a tua fé. Faça-se contigo como queres”. E a partir daquele momento sua filha ficou curada. Os Sete Espíritos de Maria Madalena (Lc., 8:1 a 3) Depois disso, ele andava por cidades e aldeias, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus, Os doze o acompanhavam, assim como algumas mulheres que haviam sido curadas de Espíritos malignos e doenças. Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios, Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes e várias outras, que os serviam com os seus bens.
  • 60.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho58 A Mulher Curvada (Lc., 13:10 a 17) Todos os sábados Jesus ensinava numa sinagoga. Um dia, viu ali uma mulher possuída de um Espírito que a punha doente, havia dezoito anos, era tão curvada que não podia olhar para cima. Vendo-a, Jesus a chamou e lhe disse: “Mulher, estás livre da tua enfermidade”. Impôs-lhe ao mesmo tempo as mãos e ela, endireitando-se rendeu graças a Deus. Mas o chefe da sinagoga, indignado por haver feito uma cura em dia de sábado, disse ao povo: “Há seis dias destinados ao trabalho; vinde nesses dias para serdes curados e não nos dias de sábado”. O Senhor, tomando a palavra, disse-lhe: “Hipócritas, qual de vós não solta da caga o seu boi ou seu jumento em dia de sábado e não o leva a beber?” Por que então não se deveria libertar, em dia de sábado, dos laços que a prendiam, esta filha de Abraão, que Espíritos trevosos conservavam atada durante dezoito anos? A estas palavras, todos os seus adversários ficaram confusos e todo o povo encantado de vê-lo praticar tantas ações gloriosas. Jesus conhecendo o pensamento dos fariseus a respeito dele expelir demônios pelos demônios, diz: “Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado” e complementa: “se satanás expulsa a Satanás, é dividido contra si mesmo; como, pois, seu reino subsistirá”? Em nota em A Gênese, cap. XV, item 36, comenta Kardec que “se Jesus houvesse operado seus milagres pela virtude do demônio, o demônio teria pois trabalhado para destruir seu império, e teria empregado seu poder contra si mesmo. Certamente, um demônio que procurasse destruir o reino do vício para estabelecer o da virtude, seria um estranho demônio”. O Mestre, certamente, não podia interferir nas Leis que determinam a cada ser que faça a sua colheita, con- forme tenha sido sua própria semeadura, ou que a cada criatura será dado receber o que ela própria semeou.
  • 61.
    Capítulo 24 O SERMÃODO CENÁCULO Os Evangelhos registram a ocorrência de três sermões proferidos por Jesus Cristo. O primeiro deles, conhecido por Sermão da Montanha (Monte das Bem aventuranças) foi dirigido ao povo em geral e representou uma promessa viva feita aos sofredores e desamparados de todos os matizes. Nele há um ace- no a todos os homens, para que não duvidem da paternidade e do incomensurável amor de Deus pelas suas criatu- ras. O segundo sermão, denominado Sermão Profético, (Monte das Oliveiras), objetivou prognosticar uma série de acontecimentos que teriam lugar no mundo, principalmente devido à recalcitrância dos homens em aceitarem as re- comendações contidas nas imorredouras mensagens trazidas por Jesus Cristo. O terceiro, conhecido por Sermão do Cenáculo (Santa Ceia), mereceu esse nome pelo fato de ter sido proferi- do no recinto onde se realizou a chamada última ceia, um pouco antes da prisão do Mestre. Ele foi pronunciado com o objetivo primário de fazer uma série de recomendações e de promessas aos apóstolos, que dali por diante passari- am por um verdadeiro batismo de fogo, dado que dentro em pouco perderiam o seu principal mentor terreno. Os Evangelhos não são unânimes na descrição dos fatos que antecederam a prisão e crucificação de Jesus Cristo. Dos apóstolos que acompanharam Jesus ao Horto de Getsemani - Pedro, Tiago e João -, apenas este último foi testemunha ocular de todos os acontecimentos e transplantou-os para as páginas do seu Evangelho. Os outros dois não foram autores de Evangelhos, conseqüentemente as narrações feitas por João parecem ser as que mais se aproximam da verdade. O Objetivo primário dos ensinamentos exarados por Jesus Cristo no Sermão do Cenáculo, foi de prevenir os apóstolos no tocante aos acontecimentos que teriam lugar logo após, no interior do Horto de Getsemani, os quais culminariam com a sua prisão e subsequente sacrifício. O Mestre também teve por escopo discorrer sobre o advento do Espírito Consolador, que viria com o objetivo de restaurar as primícias e consolidar tudo aquilo que ele havia en- sinado. Os atos de perseguições que se sucederiam, a incapacidade dos apóstolos em oferecer resistência plena às tendências de conspurcação da sua doutrina, por injunção dos inconfessáveis interesses de grupos e de pessoas, as deturpações que ocorreriam no decorrer da Idade Média seriam de tal amplitude, que a vinda do Espírito da Verda- de, para restabelecer a pureza dos ensinos de Jesus Cristo, tornava-se imperiosa e impostergável. Os próprios apóstolos de Jesus, pelo fato de serem homens de pouca letra, não eram dotados do devido dis- cernimento para separar, de forma adequada, os ensinamentos do Cristo de muitos outros preceitos contidos nas leis de Moisés, e mesmo de outras práticas de natureza precária, dentre ele o batismo da água e a circuncisão. No Sermão do Cenáculo, o Mestre esclareceu os apóstolos no tocante à teoria da pluralidade dos mundos ha- bitados; isso ele o fez quando asseverou que “na Casa do Pai existem muitas moradas”, pretendendo assim esclare- cer que os milhares e milhares de planetas que gravitam pela imensidão do espaço, servem de morada para os Es- píritos, em sua contínua ascensão para Deus. Sem confundir-se com o Pai, destruindo quaisquer possibilidades de implantação de dogmas que viessem a apresentarem um Deus trino, Jesus procurou estabelecer a profunda identidade entre ele (Filho) e o Criador (Pai). Por isso ele disse: “quem vê a mim, vê ao Pai”, o que significa dizer que, na qualidade de enviado excelso de Deus, tudo aquilo que ele ensinava era baseado na “doutrina que o Pai lhe havia ensinado”. Um outro pormenor bastante significativo, é quando o Mestre acrescenta que as suas palavras devem ser cumpridas em toda a sua plenitude, pois sem isso ninguém iria ao Pai. O Senhor não pretendeu, nesse ensino, pros- crever os membros de outras religiões distanciadas do ramo cristão. Sendo a lei básica o “amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, é óbvio que cumprirem esses mandamentos, sejam membros desta ou daquela escola religiosa, atingirão o Pai, embora por caminhos diferentes daqueles emanados dos lábios de Jesus, pois eles são realmente “o caminho, a verdade e a vida”. No decorrer do seu sermão, o Mestre ponderou ser a videira verdadeira, sendo Deus o agricultor, aditando que os galhos que nele não dessem frutos, seriam extirpados, e aqueles que produzissem frutos, seriam limpos, para que os produzissem ainda com maior abundância. Esse ensinamento, evidentememte, encerra uma advertência às criaturas que não produzem frutos segunda a expectativa dos nossos Maiores da Espiritualidade. O Homem não deve jamais malbaratar os valores que lhe são concedidos para o desempenho do aprendizado terreno, devendo, pelo contrário, aplicá-los, para que, a exemplo do que está narrado na Parábola dos Talentos, os bens que lhe são concedidos por Deus, produzam furtos a cinqüenta, a sessenta e a cem por um. Do desenrolar de sua pregação no Sermão do Cenáculo, o Mestre relembrou, de forma enfática, a necessida- de dos homens de se amarem uns aos outros, terminando por afirmar que ninguém tem mais amor do que aquele que dá a sua própria vida, para que isso sirva de exemplo vivo para que os homens sintam em si a extensão do amor de Deus pelos seus filhos. No Sermão ele proclamou ainda que não foram os apóstolos que o escolheram, ama ele quem os escolheu para servirem de assessores no desempenho do seu sublime Messiado. Afirmando que a sua missão estava consumada, e terminado o Sermão do Cenáculo, segundo a descrição do evangelista João, o Mestre e seus discípulos dirigiram-se para o Jardim de Getsemani, situado no outro lado do ria- cho de Cedron, donde teve lugar o ato de traição, perpetrado por Judas Escariotes. Os Evangelhos de Marcos e de Lucas discorrem sobre o episódio dos três apóstolos que caíram em profundo sono, apesar de terem sido solicitados pelo Mestre, para que orassem e vigiassem naquela hora tão angustiosa.
  • 62.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho60 Essa passagem destina-se a nos ensinar que temos que vencer sozinhos os transes de amargura que são deparados em nossa vida. Jesus não poderia dividir, com seus companheiros, aquilo que somente ele teria que passar.
  • 63.
    Capítulo 25 O SERMÃOPROFÉTICO Saindo do Templo, os discípulos admiravam a solene construção e Jesus lhes profetizou: “Em verdade vos digo: não ficará pedra sobre pedra que não seja demolida”. Hoje, com outras construções sobre suas ruínas (inclusive uma mesquita), resta, apenas e tristemente, um muro chamado das “Lamentações”, pois a Jerusalém bíblica não é desta ou daquela religião, mas ela inteira é um Templo consagrado ao Deus Único, Inefável, portanto comum a todas as idéias religiosas e ações fraternas. Chegando ao Monte das Oliveiras, para o descanso do dia, os discípulos perguntaram ao Senhor Jesus quan- do aconteceria o desmonte do Templo e qual o sinal para a sua vida e consumação dos tempos. E Jesus respondeu: O princípio das dores: Haverá guerras e rumores de guerras, dores e sofrimentos. É preciso que aconteçam para despertar os duros de coração, mas ai dos que forem seus causadores. Essas tragédias foram aparentemente preditas para aqueles tempos mas são válidas para os atuais, onde an- gústias, calamidades, abalos dos valores morais prognosticam o clímax caótico para o surgimento de uma Nova Or- dem. E, somente quando uma nova ordem alcançar a todos os corações na Terra, chegará o fim das convulsões evolucionistas, dando início à Nova Era. A grande tribulação de Jerusalém: “A abominação da desolação” alcançou Jerusalém por muitos séculos. A disputa pelo lugar que os homens consagraram a Deus é contínua, esquecendo-se os conquistadores que aquilo que se consagra, isto é, o que se oferece em homenagem, não mais nos pertence. A vinda do Messias e a amplitude cósmica do acontecimento: O Mestre advertiu sobre os cuidados com a crença comodista que se deslumbra com os prodígios sem lhes verificar a origem; destacou que o Filho do Homem não virá a aqui ou acolá, mas aparecerá em todo lugar “assim, como o relâmpago parte do oriente e brilha até o oci- dente”. Para encontrar Jesus, o Cristo, é indispensável a vivência e a exemplificação da lei do Amor. Até hoje, procura-se o Cristo nos altares, através dos líderes exaltados, das honrarias exteriores, quando Ele mesmo afirmou várias vezes, que o “reino do céu” é interior e somente pelo caminho da verdade e do amor se pode entendê-lo e encontrá-lo. O discípulo sincero saber que seguir a doutrina do Mestre não é fácil, mas também sabe que, se não se esfor- çar no cultivo das virtudes, na erradicação de suas deficiências, com esforço e bom ânimo, não terá o Cristo em seu coração. É imprescindível fazer o bem, antes de ensiná-lo, assim como conhecê-lo para praticá-lo estudando, perqui- rindo e amando a Deus e ao próximo. Só então, o discípulo estará pronto para reconhecer o Cristo onde quer que esteja. Para o advento da Nova Era, fatos apocalíticos acontecerão até que o homem possa conhecer a glória do Fi- lho ungido de Deus. Nesta parte do discurso, Jesus utiliza as profecias de Isaías, Zacarias e Daniel, na assertiva de que o Filho do Homem veio para toda a Humanidade terrestre e sua volta de qualquer forma que ela vier a acontecer influenciará todo o cosmo ao redor da Terra, com grandes modificações (Mt., 24:29). Confirma, ainda, a autoridade suprema do Criador ao dizer que só Ele sabe o Grande Momento, quando tudo isso acontecerá. Oração e vigilância: É necessário vigiar a conduta, o pensamento, a ação, para manter a compenetração do dever cumprido. Sem o serviço ativo do bem aos semelhantes, sem o esforço íntimo da renovação mental, ninguém pode inti- tular-se Aprendiz de Jesus. A preservação da “casa espiritual” deve ser tão cuidada quando da casa familiar; é serviço que compete a cada um, e é intransferível. A oração é a sentinela avançada da alma, que busca reforço e sustentação nos momentos difíceis e anela tempos tranqüilos. Ilustrando suas palavras eternas Jesus narrou as parábolas do mordomo infiel, das dez virgens e dos talentos, insistindo que a vigilância é uma contínua e firme esperança, pois o homem deve estar sempre preparado para me- recer a confiança dos prepostos do Cristo, desenvolvendo os talentos no campo espiritual, pois deles devem prestar contas no devido tempo. A Vida Eterna: (Mt., 25:31) Quando, da regeneração da Terra, o Cristo vier na sua glória todas as nações - nos campos físico e espiritual - deverão passar por um grande testemunho de avaliação para o mundo novo. A medida de peso será “a prática do amor”. As diversas interpretações da doutrina, prismas multiformes do individualismo, nada significarão perto do tra- balho útil e fraterno. A promessa da vida eterna é sempre para todos aqueles cuja justiça e misericórdia são feitas conforme a vontade de Deus Todo Poderoso.
  • 64.
    Capítulo 26 PARÁBOLAS COMPARATIVASDO REINO DOS CÉUS INTRODUÇÃO Parábola á a narrativa que sob fatos comuns oculta, por comparação, realidades superiores. É uma narração em que fatos da vida servem de comparação a outros de sentido moral. Ela encerra sempre uma doutrina moral. Nela é preciso buscar a alegoria que representa a idéia espiritual. Há 2000 anos parábola (Mâshâl, em aramaico) si- gnifica sentença ritmada em versos paralelos, ditado popular com suas máximas. Mas se destinavam ao ensino oral, de pai para filho. Na Bíblia, encontram-se parábolas no Antigo e no Novo Testamento. Ficaram famosas as parábolas narradas por Jesus, que as empregou como meio didático de aprendizagem dos conceitos de sua Doutrina. Jesus servia-se de comparações com acontecimentos da vida comum; assim, tornava possível a memorização pelo povo, “porém tudo declarava em particular aos seus discípulos”. (Mc., 4:34) Alguns interpretadores divergem no modo de agrupar e classificar as parábolas, o que não lhes diminui o va- lor. Nas parábolas que se referem a que deve ser comparado o reino dos céus, essa expressão significa o “Reino de Deus”. Jesus empregou tais expressões no sentido objetivo e no subjetivo. No sentido objetivo, designa o mundo exterior; e, então, significa os lugares felizes, que são os “mundos ditosos” e os “Mundos celestes ou divinos”. No sentido subjetivo, designa a paz da consciência, a paz interior, o coração sereno, a mente tranqüila. Portanto, nesse sentido, “o céu” está dentro de cada um. Para melhor entender a parábola deve-se situar o tema, rememorando a passagem evangélica; esclarecer os termos dos usos e costumes da época; destacar o objetivo do ensino; desenvolver o tem atualizando-o e procurar fi- xar o ensino, salientando sua importância na vida prática. Parábola do Trigo e do Joio (Mt., 13:24 - 30) É também chamada “da Cizânia”, palavra esta que significa gramínea nociva, como o joio, que nasce junto ao trigo. Cizânia Também significa rixa, desarmonia. O tema central é que na Terra o mal coexiste com o bem; os maus e os bons, os justos e injustos conjunta- mente. Todavia, chegará a hora propícia para a separação. “O joio está para o trigo assim como o juízo humano está para as manifestações superiores”, diz C. Schutel. O próprio Jesus explicou a parábola, conforme se lê nos versículos 36 a 43 deste cap. 13 de Mateus. O que semeia a boa semente, o Filho do Homem, é Jesus. O campo é a Humanidade. A boa semente são os filhos do rei- no”, isto é, todos aqueles que se esforçam por serem seguidores dos ensinamentos divinos como tarefeiros animo- sos se preparando para o trabalho eterno. O joio (cizânia) são aqueles que ainda não se empenham para evoluírem espiritualmente. O “inimigo do homem são os maus Espíritos que vêm perturbar, atormentar e obsediar os homens; simboliza também as tentações do mundo, que os arrastam para estrada larga dos vícios. O tema da ceifa, o “fim do mundo”, são as épocas de expurgos coletivos, quando o planeta é depurado dos elementos nocivos. Os anjos, ou segadores, são os Espíritos Superiores, Entidades de Luz, colaboradores de Jesus na tarefa de evolução espiritual da Humanidade. Deus permite que os maus convivam com os bons para terem oportunidade de apresentarem sua regenera- ções. Até mesmo porque muitos são maus por ignorância, por não terem tido educação. Assim, a extirpação de to- dos os maus ocasionaria a ceifa também desse tipo de maus, com evidente prejuízo para eles, porque lhes estaria sendo retirada a oportunidade de regenerarem-se. Diferem dos que são renitentes no mal, pelo mal. Em particular, a parábola aplica-se aos adeptos de qualquer religião, quando a cizânia cresce ao lado do bom trigo. Parábola do Credor Incompassivo (Mt., 18: 23-35) e (Mt., 18:21-22) Esta parábola é um complemento ilustrativo do perdão das ofensas. Naquele tempo era permitido ao credor prender o devedor, forçá-lo a trabalhar e até vendê-lo, para receber seu crédito. E se a quantia apurada não fosse suficiente para resgatar a dívida, era permitido também vender a mu- lher e os filhos do devedor. O primeiro servo era devedor, ao seu senhor, de dez mil talentos, uma quantia fabulosa. E não tendo com que pagar, o credor mandou que ele, sua mulher e filhos fossem vendidos. Todavia, o devedor pediu clemência e o cre- dor, generoso, perdoou-o. Porém, mal tinha obtido tal perdão, encontrou um companheiro, servo como ele, e que lhe devia cem denári- os, uma quantia ínfima, e, de forma violenta passou a exigir do devedor o retorno do seu dinheiro, mantendo-se sur- do aos rogos do pobre homem, nadou encerá-lo na prisão. Os demais servos, entristecidos, foram relatar o acontecido ao senhor deles. Este após repreender o servo im- piedoso, entregou-o aos verdugos voltando a insistir no pagamento de tudo quanto lhe devia e que tão generosa- mente havia perdoado.
  • 65.
    Parábolas que demonstramcomo deve ser comparado o Reino dos Céus 63 E Jesus, termina a parábola, dizendo: “Assim também meu Pai celestial vos fará, se de coração não perdoar- des cada um a seu irmão as suas ofensas”. A parábola põe em destaque o ensinamento de que o homem deve perdoar aos seus devedores, para também merecer o perdão de suas faltas. E para estimulá-lo na conquista desta virtude, o Pai celestial o favorece com sua bondade e misericórdia. Todos trazem consigo aflições que desconhecem, logo se quiserem ser indultados devem também ter indul- gência. Todavia não pode esquecer que não é Deus quem castiga; as leis de Deus se exercem com rigor e precisão, e cada qual colhe o que semeou. É a lei de ação e reação: quem não perdoa, não é digno de ser perdoado. Assim, não há propriamente perdão das faltas cometidas; mas o ressarcimento dela pelo sofrimento ou pela prática de atos meritórios (ESE, X, item 14). Parábola do Festim das Bodas (Mt., 22:1-14) e (Lc., 14:15-24) A chamada ( o convite) é de Deus, a escolha depende das obras do homem. Jesus aproveita aqui um fato comum, o casamento, para transmitir profundos ensinamentos espirituais. Uma parte importante das bodas, isto é, do casamento, era o festim, ou seja, o banquete nupcial com muitas iguarias. Nessa parábola, o Rei simboliza Deus, o Pai. O banquete nupcial é o Reino dos Céus, de há muito mostrado aos homens pelos Enviados, os Grandes Missionários e os Profetas; e finalmente anunciado por Jesus, através da pregação de seu Evangelho. Assim, na parábola, o filho é Jesus. As iguarias representam os ensinos espirituais, os alimentos materiais fortalecem o corpo, e os ensinos espiri- tuais fortalecem o Espírito. Os convidados desatentos foram os israelitas, pois a eles foram enviados os Profetas. Quem melhor para en- tender os ensinos de Jesus do que os próprios doutores, rabinos e sacerdotes? Infelizmente todos estavam mais preocupados com seus afazeres transitórios e ambiciosos. Diz então a parábola que “o Rei irou-se e mandou suas tropas exterminar aqueles assassinos e incendiar sua cidade”, numa alusão clara à lei de Ação e Reação (ou de causa e efeito), porque como se lê em Mateus (26:52), todo os que lançam mão da espada, à espada morrerão; e em Apocalipse, (13:10), aprende-se que quem leva para cativeiro, para cativeiro vai. O efeito é sempre proporcional à causa. Foram então convidados para o banquete espiritual todos quantos foram encontrados, bons e maus. Signifi- cando que o Evangelho foi pregado a todos os povos, aos gentios, pois que estes seriam admitidos às “bodas”, já que os primeiros convidados mostraram-se indignos (Atos, 13:46). Tal como hoje é costume vestir uma roupa elegante para ir a um casamento, naqueles tempos era obrigatório vestir uma “túnica nupcial” para participar do banquete (Ef., 4:24). Mas não basta ser convidado, é indispensável a renovação íntima. A afinidade espiritual é uma realidade. Essa veste nupcial, análoga com o corpo espiritual imaculado significa as boas obras, o amor, a pureza, a hu- mildade, a bondade, a mansuetude, tudo o que se tem de mais belo deve acompanhar a fé. Significa aqueles que fazem a vontade do Pai e vivem em conformidade com o Evangelho de Jesus. É a harmonia de vibrações do campo espiritual, revestido de amor e traduzido em luz. Portanto, não basta apenas pertencer a esta ou aquela igreja nem trazer o nome de cristão, pois não é sufici- ente aceitar o convite, é fundamental a “túnica nupcial”, do corpo espiritual, isto é, a pureza do coração e a luz do espírito do Homem Novo. É por isso que Jesus disse “muitos são chamados, mas poucos os escolhidos”; porque os que não reformarem sua conduta, não se esforçarem por vencer os vícios e os defeitos, substituindo-os por virtudes, terão reencarnações dolorosas. Onde passarão pela dor da expiação; é o que significa a sentença do Mestre quando asseverou que “muitos serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes”. Parábolas do Reino dos Céus (Mt., 13:44-52) Sob esse título englobam-se quatro curtas narrativas: Parábola do Tesouro Escondido (Mt., 13:44), Parábola da Pérola (Mt., 13:45-46), Parábola da Rede (13:47-50) e Parábolas do Grão de Mostarda e do Fermento (Mt., 13:31- 33). O objetivo de Jesus foi ensinar que o Reino de Deus não é exterior, mas está dentro de cada um. Então, todo aquele que se esforça em viver virtuosamente, cristãmente, reformando seu íntimo, passa a assimilar o Reino do Céu e portanto, a vivenciá-lo. Por isso, o Reino do Céu é semelhante a um tesouro escondido, ou a uma pérola de grande valor. O tesouro escondido, ou a pérola, simbolizam a transformação do indivíduo, que ao trilhar o caminho da reforma íntima, des- poja-se de todos os vícios e defeitos, desembaraçando-se dos conceitos de suas velhas crenças, do egoísmo, do preconceito, da superstição, do apego aos bens terrenos para passar a possuir os bens celestiais. A rede lançada ao mar, que recolhe peixes de toda espécie, simboliza, por sua vez, o próprio mundo, consti- tuído de bons, medianos e maus, os quais, segundo as suas obras. É óbvio que para palmilhar o caminho da evolu- ção, aproximando-se cada vez mais de Deus, é imperioso se adquirir qualidades boas, que são valores imperecíveis e santificantes. A expressão “assim será na consumação dos séculos”, eqüivale a dizer que assim será no fim do mundo velho e no advento do mundo novo, quando a Terra será elevada à categoria de mundo de Regeneração. Concluindo a série de parábolas sobre o Reino dos Céus, Jesus disse que “todo o escriba instruído a cerca do Reino dos Céus, é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”. (Mt., 13:52). Ora, o bom pai de família é aquele que sabe orientar os seus filhos, tirando do seu próprio entendimento tanto as coisas
  • 66.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho64 velhas dos ensinamentos antigos como as coisas novas do Evangelho. Fazendo com que elas, como verdadeiros te- souros, ser revertam em fatores que venham a impulsionar os seus filhos no roteiro do aprimoramento espiritual, fa- cilitando assim a conquista da reforma interior, definida por Jesus com sendo a conquista do Reino dos Céus. Parábola do Tesouro Escondido e da Pérola (Mt., 13:44-46) “Buscai e achareis”, disse Jesus. Por todos os tempos, o homem procura tesouros que lhe deixe viver com bem estar. Vende e compra muitas vezes, prejudicando sua serenidade e suas virtudes. Esquece-se de perguntar: de onde vim? Para onde vou? E, se o faz, deixa a busca da resposta para depois. O “tesouro escondido” está perto dele e, como a felicidade, só depende dele mesmo para encontrá-lo. Certa- mente é preciso procurar, utilizando seus melhores talentos, seus preciosos sacrifícios, suas renúncias sublimadas, que valem mais que tudo aquilo que possui ou poderia possuir. Quando o homem parte para a vida espiritual, somente o seu “tesouro oculto” o acompanha. Também assim, sucede em comparação com a pérola. Elas são raras, naturais e caras. Para requisitar a pérola de maior valor, o homem vendeu tudo quanto possuía, mas sabia que uma valia por todas. Qual é a opção mais sensata: as pérolas das paixões e apego às coisas terrestres ou a pérola da serenidade do Espírito, no verdadeiro Reino do Céu? Parábolas do Grão de Mostarda e do Fermento (Mt., 13:31-32), (Mc., 4:30-32) e (Lc., 13:18-19) Mostram a valorização do fenômeno do crescimento espiritual para merecer o “Reino do Céu”. Ao lançar a semente da boa palavra e da vocação em seu coração, o homem inicia sua reforma íntima, culti- vando o seu campo espiritual. Cultivando as primícias do bem e do amor, semelhantes a uma pequenina semente de mostarda que é depo- sitada em sue coração, o Espirito do homem encarnado se eleva no campo das virtudes santificantes, passando a merecer que “as aves do Céu”, ou seja, os Espíritos do Senhor sejam atraídos pelas suas novas qualidades interio- res. Ajudando-o, assim, a galgar melhormente a escalada do progresso espiritual, aproximando-se cada mais do Cri- ador.
  • 67.
    Capítulo 27 PARÁBOLAS SOBREO DESAPEGO ÀS RIQUEZAS TERRENAS PARÁBOLA DO ADMINISTRADOR INFIEL OU DO MORDOMO INFIEL (LC., 16:1-13) A parábola fala de uma administrador (mordomo) que se comportou desonestamente. Então, chamado às contas, antes que fosse despedido, convocou os devedores do seu senhor e mandou que confessassem dívidas me- nores que as assinadas. Com esse estratagema visava captar a boa vontade deles, para que quando o senhor o mandassem embora, ele tivesse para onde ir. E o senhor louvou sua prudência: “E o amo louvou o feito iníquo, porque operou como homem de juízo; pois os filhos deste século são mais sábios na sua geração do que os filhos da luz”. (Lc., 16:8). O patrão não louvou o administrador pela fraude cometida, mas pela prudência e esperteza usada em vantagem própria, garantindo-se para o futuro. Complementou Jesus dizendo que os homens devem aplicar bem as riquezas, ainda que oriundas da ini- quidade a fim de fazer amigos. A parábola representa simbolicamente, as seguintes personagens: o proprietário ou senhor é Deus; o mordo- mo infiel é o homem; a propriedade é o mundo; os devedores beneficiados são o nosso próximo. No uso dos bens do mundo, o homem imprudente procede como o mordomo infiel; acumulando-os para si, desrespeitando os direitos alheios e prejudicando o próximo. Todavia, há um aspecto importantíssimo da parábola que é preciso considerar: quem não é fiel no uso dos bens perecíveis, os bens temporais, como poderá sê-lo no dos bens verdadeiros, os bens espirituais? E quem não é fiel na aplicação do bem alheio, como poderá receber no mundo espiritual o que a ele lhe com- pete? Finalmente, encerrando, a parábola põe em destaque a grande verdade que ninguém pode servir com o mes- mo zelo a dois senhores: a Deus e a Mamon (isto é, às riquezas). Comenta Omar Khayyan: “Diminui teus dividendos; multiplica tua indulgência; subtrai os teus erros; soma o teu perdão: esta é a aritmética do Cristo”. PARÁBOLA DO RICO INSENSATO (LC., 12: 15-21) É também chamada “Parábola do Avarento”. Um lavrador rico teve uma grande produção e não tendo onde guardar tanto fruto, erradamente concluiu: “Derrubarei os meus celeiros e os reconstruirei maiores e aí guardarei to- dos os meus bens; então, direi à minha alma: Tens muitos bens em depósito para longos e dilatados anos; portanto, descansa, come, bebe, regala-te”. Porém, na mesma noite desencarnou e de nada valeram tais bens. Porque, os bens transitórios do mundo não prevalecem para as vidas futuras. A parábola demonstra que a longevidade (a vida) e a felicidade independem dos bens materiais que se conse- gue amontoar. A riqueza deve ser bem usada e não abusada. O desapego aos bens terrenos auxilia a evolução e somente os bens espirituais são duráveis e prevalecem na vida eterna. A utilidade da riqueza pode ser providencial; é o primeiro recurso para as execuções da sociedade hu- mana e deve ser um elemento, quando bem utilizado, que facilita a riqueza moral, pela instrução e pela prática da caridade. A verdadeira propriedade está nos atributos da inteligência, do conhecimento e qualidades morais. Não é pre- ciso amealhar ou dividir riquezas, mas somar virtudes, pois o mérito paira acima da riqueza e da pobreza. A nova ética de valores já desponta no horizonte espiritual: conhecimento das verdades eternas e da fraternidade, como ba- ses de surgimento do homem mais espiritualizado do porvir. A renovação mental cristã e a vivência do homem novo. PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO (LC., 15:11-32) Esta parábola é chamada do “Filho Pródigo”, mas, na realidade, é do “filho pródigo e do egoísta”. Nela, o pai simboliza o Criador; seus filhos, os homens: o mais moço, o pródigo, é a personificação daquele que se entrega à vida material desregrada, dissipando seus bens (materiais e espirituais) até ficar empobrecido, faminto e roto; o filho mais velho, que personifica “o filho obediente” é o que permanece na “Casa do Pai”, aparentemente representando o trabalhador fiel, porém é o símbolo do egoísmo, porque pretende monopolizar a herança e o convívio paterno; e, também, é o símbolo da impiedade, porque recusa-se ostensivamente a tomar parte na recepção ao “filho que esta- va morto e reviveu”. Esta parábola, uma das mais conhecidas, é rica em ensinamentos: a) O desfecho de longo caminhada (as sucessivas reencarnações) é o retorno ao lar paterno; não importa a falta cometida, as provas e expiações pelas quais se passa; ao final, vem o arrependi- mento, as confissões das culpas e a conseqüente reabilitação pelo amor do Pai. Ninguém se perde, não há pecados irremissíveis, não há culpa irreparável. O Pai Celeste a ninguém abandona.
  • 68.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho66 b) A Lei de Causa e Efeito (ou da Ação e Reação): o Filho Pródigo criou para si uma série de causas, que determinaram as conseqüências correspondentes. Como as causas eram más, os efeitos forma dolorosos. c) O Plano Espiritual respeita o livre-arbítrio de cada qual. Todos têm liberdade de proceder como querem. A semeadura é livre (mas, a colheita é obrigatória). d) A resolução de emendar-se é espontânea, e não por coação de terceiros; ou seja: a obra de salvação é furto do esforço individual. E com ela se processa no íntimo do indivíduo, ela se realiza pela reforma voluntária dos maus hábitos. e) A bondade de Deus, o pai; ele sempre nos espera. E já longe avistou o filho que retornava, “teve compaixão dele e, correndo, o abraçou e beijou”. E regozijou-se; e manifestou seu perdão: “Porque esta morto e reviveu; estava perdido e se achou”. f) Finalmente, o filho mais moço faz jus a simpatia; era um estouvado, leviano, inexperiente; mas, era sincero e humilde; reconhecer seu erro e procurou renovar-se. Porém, o mais velho era ego- ísta e impiedoso, feriu os sentimentos paternos era bom apenas exteriormente; entristeceu-se com a felicidade alheia; enfim, não viu no pródigo um irmão, mas apenas um pecador. PARÁBOLA DA VIÚVA OPRIMIDA (OU DO JUIZ INÍQUO) (LC., 18:1-8) O grande ensinamento da parábola é a certeza do atendimento por parte do Pai; por isso, não se deve esmo- recer nem duvidar do socorro do Plano Espiritual, que no devido tempo chega a todos, de acordo com as necessida- des e méritos de cada um. O juiz era iníquo, isto é, maldoso, perverso, insensível aos direitos do próximo, que ele, como juiz, tinha a obrigação de amparar. Mesmo assim, a viúva persistiu em sua súplica até ser atendida. Ora, se no mundo dos encarnados, em que até as pessoas iníquas atendem os que lhes pedem com insistên- cia, nem que seja para se verem livres de importunação, como pode Deus, que é Pai, que é a Bondade infinita, dei- xar de atender aos seus filhos que lhe rogam dia e noite? Sua justiça será mais completa, “ainda que tardia para com eles” (Lc., 18:7). É por isso que Jesus ensinou “pedi e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei e abrir-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca, encontra, e a quem bate, abrir-se-lhe-á”. (Mt., 7:7-8; Lc., 11:9-11) Nas entrelinhas da Parábola ensina Jesus que o homem não deve se portar como juiz iníquo, pensando ape- nas nos bens terrenos e em sua própria condição de vida, mas deve julgar segundo os mandamentos divinos e em todos os momentos de sua vida. Aqui cabe a sentença do Mestre: “Com o juízo com que julgardes sereis julgados”. (Mt., 7:2) Este mesmo ensinamento encontra-se na “Parábola do Amigo Importuno”. (Lc., 11:5-13) PARÁBOLA DO RICO E LÁZARO (OU O RICO E O POBRE) (LC., 16:19-31) A parábola narra a situação de dois Espíritos, após a existência terrena em que um escolheu a prova da rique- za e o outro, a da pobreza sofrida. O rico e o pobre (Lázaro)_ simbolizam a Humanidade sempre em disputa. O rico passou a vida na fartura, in- sensível aos seus semelhantes. O efeito de suas más ações é sofrer no Plano Espiritual. O pobre sofreu no mundo e goza na vida Espiritual o sue bom aprendizado de humildade através da oportunidade da vida difícil. Interessante que a parábola só dá nome ao pobre, ao rico não; isto porque identificam-se e confundem-se to- dos os egoístas, os orgulhosos, os vaidosos, os que vivem na luxúria, os que esquecidos da fraternidade do amor e da caridade, insensíveis à miséria e sofrimentos do próximo, vivem na ostentação, no luxo, no comprazimento pes- soal pelo comer, beber e vestir. Lázaro representa os excluídos da sociedade, mas não os pobres orgulhosos, ou seja, os que não têm dinhei- ro, mas têm orgulho, não têm o que comer e o que vestir mas são orgulhosos, duros para com os outros, presunço- sos, arrogantes. O “Seio de Abraão”, a que se refere a parábola, é o Mundo Espiritual, o chamado Céu. Abraão foi o Patriarca dos judeus, o ancestral de onde derivou todo o povo judeu; era um homem de fé, temente a Deus e justo. “Hades”, na parábola, eram as regiões infernais na Mitologia Grega, correspondia ao “Tártaro” dos romanos, sendo também equivalente ao “Inferno” das igrejas dogmáticas que defendem a unicidade das existências. Todavia, sabe-se que o “inferno” não é um lugar circunscrito, determinado, mas um estado de espirito, um estado de consci- ência (LE., 1011). A parábola é rica em ensinamentos: a) Fala da Lei de Causa e Efeito (ou da ação e reação), pela qual cada um colhe o que semeou. Mostra que a posição futura de cada qual é conseqüência de seus atos atuais; b) A tortura do rico é conseqüência de um profundo sentimento de culpa, o qual faz com que ele esteja num “inferno”; c) O arrependimento forçado pelas circunstâncias, não elimina as conseqüências da má con- duta; é necessário resgatar as faltas cometidas, isto é, ressarcir as dívidas;
  • 69.
    Parábolas sobre oDesapego às Riquezas Terrenas 67 d) Os bens materiais não devem ser utilizados egoísticamente, mas em benefício do próximo; não se é “dono” da riqueza, mas apenas usufrutuário; e) Entre as diferentes posições, na vida espiritual, existe um abismo; mas não um abismo físi- co, e sim moral, assegurado por correntes vibratórias que delimitam e separam as diferenças de posi- ções; f) Os Espíritos de posição inferior não podem passar para os planos mais elevados, invadindo- os; g) Outrossim, havendo triunfado em sua provação terrena, Lázaro alcançara um elevado estado de alma, caracterizado por um estado de felicidade interior, que o mau rico não podia ter; por sua vez, o rico possuía um estado de alma angustiado e abrasado de sofrimentos causados pelo remorso, que Lázaro não poderia sentir (porque os estados de consciência são pessoais e impermutáveis); daí o abismo entre eles existente.
  • 70.
    Capítulo 28 PARÁBOLAS SOBREA VALORIZAÇÃO DAS OBRAS DO HOMEM INTRODUÇÃO As parábolas a seguir contêm os ensinamentos dos deveres e direitos do homem para valorizar sua obra ma- terial, moral e espiritualmente. Parábola dos Talentos e das Minas (Mt., 25:14-30) e (Lc., 19:11-27) Quatro são os personagens da parábola: o senhor e três escravos. O senhor é Deus; os servos são os ho- mens, componentes da Humanidade; os talentos são os bens, os recursos materiais e espirituais que são oferecidos aos homens para serem empregados em benefício próprio e do próximo; o tempo concedido para a movimentação desses bens são as reencarnações. Os servos possuem capacidades diferenciadas. O que significa que aproveitaram diferentemente sua jornada evolutiva. Por terem capacidades diferentes, um deles recebeu cinco talentos, outro recebeu dois e o terceiro apenas um. Os dois primeiros, sendo Espíritos mais adiantados, foram previdentes, diligentes e aplicaram os bens recebi- dos, aumentando-os; o terceiro, no entanto, atrasado que era, raciocinou mal, buscou desculpa para ser indolente e “enterrou o talento”, isto é, nada produziu, não aproveitou a oportunidade que lhe foi dada para progredir. Daí, a ad- moestação que lhe foi feita. Diz o senhor da parábola que o servo negligente deveria ter posto o talento nas mãos dos banqueiros, a fim de render juros; evidente que o senhor não está incentivando a usura; é uma linguagem alegórica para significar que o servo deveria ter procurado os que têm mais capacidade do que ele, os quais saberia, dar um uso benéfico, produti- vo, ao pequeno adiantamento recebido; assim, ele progrediria um pouco mais, pela experiência que adquiriria. A parábola transmite, ainda, o ensinamento de que “ao que tem, mais ainda lhe será dado e ao que não tem até o que tem lhe será tirado” para significar: todo aquele que é diligente, esforçado, que diligencia por corresponder ao amparo divino, ao amparo do Plano Espiritual, receberá auxílio e proteção para que possa aumentar suas virtu- des, sua capacidade espiritual; todavia, aquele que não se esforça para acrescentar alguma coisa ao bem que rece- beu de Deus, o Pai, que nada faz para aumentar sua capacidade, sofrerá encarnações expiatórias, quando, então, pelo estímulo da dor, do sofrimento, acordará para o progresso. Há em Lucas (19:11-27) uma outra versão, chamada “Parábola das Dez Minas”, que tem a mesma interpreta- ção acima. “Mina” era uma moeda corrente, de prata, de 571 gramas, também equivalente a 100 dracmas ou 6.000 talentos. Parábola dos Dois Filhos (Mt., 21:28-35) Os dois filhos da parábola representam as duas espécies de homens. O que disse que ia trabalhar na vinha do senhor, mas não foi, representa os que desprezam o chamamento e fogem ao cumprimento do dever; simboliza também os devotos em obras, os religiosos virtuosos apenas de aparência, os que apenas cumprem o culto e rituais externos e com isso decidem ter cumprido com suas “obrigações” para com Deus e o próximo. O que disse que não ia, mas arrependendo-se foi, simboliza os que levando uma vida mundana, vivendo para as coisas materiais, aca- bem caindo em si, saturando-se dos prazeres da carne e, então, conscientizam-se do verdadeiro significado da vida, arrependem-se, regeneram-se e transformam-se em obreiros da “vinha do senhor”. Tem o mérito da decisão corajo- sa, preparando-se para assumirem responsabilidades e fazendo jus à confiança dos amigos espirituais. O “homem que tinha dois filhos”, o Pai da Humanidade, o “senhor da vinha” é a representação de Deus. A “vinha” é o mundo, a Humanidade como campo onde o homem agirá como obreiro do Senhor. Finalmente, a parábola ensina que para o Pai não importa a natureza dos erros e transgressões, os maus sen- timentos, mas o arrependimento, a decisão de reforma íntima e o esforço para redimir-se. Parábola dos Lavradores Maus (Mt., 21: 33-45), (Mc., 12:1-12) e (Lc., 20:9-18) Também chamada de Parábola dos Vinhateiros Homicidas. A fazenda Seara é a humanidade e o dono, o Senhor. A vinha significa o laboratório da vida terrestre e a Lei de justiça e amor que Ele estabeleceu. Os lavradores, a quem alugou sua propriedade, são aqueles que devem usufruir desta fazenda terrestre para aprender e praticar sua Lei, principalmente os sacerdotes e ministros das várias religiões; os furtos são as ações evolutivas praticadas; os servos enviados aos lavrados são os Missionários e Profetas que a Providência Divina tem enviado aos homens, que os mataram; por fim, o próprio filho herdeiro que o senhor envia é Jesus, que também foi morto. A parábola diz que o proprietário cercou a vinha para protegê-la, construiu nela um lagar (que é onde se es- premem as uvas para com o suco fazer-se o vinho), significando aqui os meios de purificação espiritual, e edificou uma torre (de onde as sentinelas podem proteger a vinha dos ataques de surpresa dos inimigos). Portanto, Deus deu aos homens a sua Lei, completa e pronta para o usufruto rendeiro que dá mérito ao trabalho útil.
  • 71.
    Parábolas sobre aValorização dos Obras do Homem 69 Segundo se depreende dos versículos 43 e 45 deste capítulo 21, de Mateus, e de 23: 37-38, os judeus, com sua casta sacerdotal à frente, tornaram-se indignos da paternidade de Deus. Então, com a vinda de Jesus, o Evan- gelho foi pregado aos gentios, isto é , propagado a todos os povos da Terra, procurando rendeiros que lhes darão frutos no tempo apropriado. Agora, os tempos são chegados e tal como na parábola, o Senhor pedirá conta aos lavradores do produto de sua vinha. Parábola da Figueira que Secou (Mt., 21:18-22) e (Mc., 11:12-14 e 20-26) Também chamada de Parábola da Figueira sem Fruto. Não é propriamente uma parábola, pois foi um aconte- cimento, encerrando grandioso ensino moral. A versão de Marcos é mais abrangente que a de Mateus; e também aparentemente de mais difícil interpreta- ção, porque a figueira que secou com a “maldição” não tinha frutos, porque não era tempo deles. Os discípulos estranharam o gesto de Jesus; se não era tempo de frutos porque foi amaldiçoada? Na realida- de, a parábola objetiva transmitir dois grandes ensinamentos: a) Se a árvore é de espécie frutífera, o que se espera dela é que dê frutos. Assim, o “discípulo de Jesus”, o que decidiu proceder como verdadeiro obreiro deve sempre produzir bons frutos (boas obras), seja qual for a estação, a hora ou o lugar. Deve estar sempre apto a fornecer o auxílio neces- sário, seja que hora for. Para isso é indispensável reeducar-se em todos os pontos de vista: físico e espiritualmente, higienizando o corpo e a mente, para não suceder que na hora necessária não se en- contre apto para prestar a cooperação essencial. b) O Evangelho registra que Jesus condenou a figueira quando se dirigia ao Templo de Jeru- salém, onde teve a oportunidade de expulsar os mercadores (cabendo aqui esclarecer que mercadores não eram aqueles que vendia objetos e animais nas vizinhanças do Templo, mas aqueles que, em seu interior, mercantilizavam com as coisas divinas). Na realidade a religião dos Judeus, com seu corpo sacerdotal fanatizado, orgulhoso e egoísta, era idêntica a frondosa figueira, cheia de folhas e de agra- dável aparência exterior, mas que não produzia os frutos esperados por Deus. Essa religião, portanto, não estava apta a receber a mensagem cristã, por isso ela foi relegada à esterilização (amaldiçoada conforme consta no Evangelho), secando até a raiz e deixando de produzir qualquer gênero de frutos. Parábola da Figueira Estéril (Lc., 13:6-9) É um complemento da parábola anterior. Ambas são semelhantes no conteúdo e conclusivas: a fé sem obras é morta. O grande ensinamento da parábola é que ninguém deve, inutilmente, ocupar lugar na sociedade. A reencarna- ção é uma bênção, porque representa a grande oportunidade para ressarcir culpas, resgatar débitos, retomar o ca- minho que conduz a Deus. Muitos são os Espíritos que aguardam a sua vez; assim, aqueles que ocupam, a “terra” inutilmente, devem ceder o lugar tão cobiçado para outros, que dele farão melhor proveito. Mostra também a bondade da Providência Divina, traduzida na paciência que tem com o homem, aguardando que ele produza os frutos esperados; e nos cuidados desenvolvidos “revolvendo a terra em roda e pondo adubo”, o que significa limpando das más influências, livrando-o das ervas daninhas dos maus Espíritos e de suas influências, para que aplique o conhecimento na produção de frutos e não permaneça na ociosidade. Parábola do Semeador (Mt., 13:1-23), (Mc., 4:1-20) e (Lc., 8:4-15) Esta parábola é uma das mais conhecidas. É explicada pelo próprio Jesus. Ela esclarece as diversas situações pelas quais o homem se aproveita ou não dos ensinamentos do Evangelho. Seus objetivos são mostrar a necessidade do aprendizado com responsabilidade e abnegação; a consciência de que todos os atos devem ser feitos com perseverança, com dedicação ao trabalho. Aos aprendizes cumpre sem- pre estar alerta. Mostrar a importância da “boa terra” para o “cultivo” constante e a falsa ilusão que causa ao homem os pequenos louros, lembrando que um cultiva e outro ceifa. Para esclarecer os termos, deve-se entender a semente com a palavra da Boa Nova. O próprio semeador, o tarefeiro, saiu a semear, não mandou outros e a semeadura foi difundida em todos os campos. A semente que caiu ao pé do caminho, por onde ia o semeador, é a Boa Nova recebida sem que desperte ou motive ação. Foi desperdiçada por tendências subconscienciais não desenvolvidas, como a acomodação, o ódio, a recalcitrância, etc. A que foi semeada em terreno pedregoso, corresponde àquele que ouve a palavra e a recebe com alegria, entretanto falta-lhe base, isto é, não tem nível moral suficiente para fixar os ensinamentos. É semelhante aos que adoram as comunicações mediúnicas brilhantes, mas permanecem indiferentes ao seu conteúdo. Estão no estágio de dependência contínua de sinais, fenômenos e auxílio. A semente nos pedregais não vinga, não tem raiz, assim como no campo espiritual falha o testemunho. Não há perseverança. A semente que caiu em terreno espinhoso eqüivale ao que ouve a palavra, procura segui-la com desvelo, mas sucumbe ao primeiro desânimo, à primeira dificuldade, levado pelas preocupações materiais. “Sufocam a palavras”, diz Jesus, “e a semente fica infrutífera ou não dá frutos perfeitos”. A semente que caiu em terreno fértil corresponde ao homem que participa da luta para o bem, produzindo frutos agradáveis ao Senhor.
  • 72.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho70 É preciso que o campo espiritual esteja limpo, revestido de boa vontade, com conhecimento, fé e esperança. Assim é a “boa terra” do Espirito. A semeadura é forte e segura, rendendo obras, podendo crescer na sabedoria e no amor, testemunhado no exemplo e na sinceridade de propósitos. Esses “frutos sazonados” darão novas sementes - virtudes que serão semeadas por novos semeadores.
  • 73.
    Capítulo 29 PARÁBOLAS SOBREAS FALSAS APARÊNCIAS PARÁBOLA DA CASA EDIFICADA SOBRE A ROCHA (MT., 7:24-27) E (LC., 6:47-49) Em todas as parábolas desta lição o Mestre atribui ao homem duas categorias: o homem sensato e o insen- sato, ou aquele que é bom porque segue realmente seus ensinamentos e aquele que aparenta ser bom. Através dos ensinamentos, ele demonstra o caminho difícil do insensato e a serenidade do sensato, no desen- volvimento da vida. Quem é prudente e conhece a verdade não edifica sua casa (vida espiritual) sobre a “areia”(sonhos e fantasias), pois sabe que não tem segurança porquanto são ilusões passageiras, ainda que aparen- temente belas. Quando surgem as atribulações, somente a fé, a resignação, o bem ânimo mantêm o sensato em pé e sereno. Somente a fé raciocinada resiste aos ímpetos da dúvida e das perquirições da ciência. Atributos sadios requerem aprendizado constante no campo da edificações moral e espiritual. PARÁBOLA DAS CANDEIAS (MC., 4:21-25) E (LC., 8:16-18) A luz é indispensável a todo tipo de vida; sem ela a vida não existe. A luz física germina a semente, alimenta, floresce e frutifica os seres. A luz espiritual o conhecimento e o entendimento da Verdade sobre a Ciência, a Filoso- fia e a Religião, tripé da evolução biopsicossomática. Atualmente todos os novos conhecimentos e descobertas são difundidos por toda a Terra. Através dos meios de comunicações existentes. A Terra é imensa escola e nela não se pode enganar a todos indefinidamente. As posi- ções religiosas, filosóficas ou científicas são analisadas e por todos, de forma que o predomínio da razão se sobre- põe à credulidade, o amor sobre o mal e a realidade sobre a aparência. Nada se oculta que não venha a se mani- festar mais cedo ou mais tarde, com a devida reação. (Lc., 8:17) A luz afugenta os amantes das falsas aparências porque os denuncia. Também há falsa aparência naquele que tem conhecimento e os guarda para si, pois ninguém “acende uma lâmpada e a cobre com algum vaso ou a põe debaixo da cama”. (Lc., 8:16) Disse Kardec (ESE, XXIV, 5): “É assim que todas as religiões sempre tiveram os seus mistérios, cujo exame proíbem”. No item 7, complementa, “O Espiritismo, vem, atualmente, lançar a sua luz sobre uma porção de pontos obscuros, mas não o faz inconsideradamente. Os Espíritos procedem, nas suas instruções, com admirável prudên- cia”, pois “sem a luz da razão, a fé se enfraquece”. Emmanuel, comentando Paulo (II Coríntios 10:7), em Fonte Viva, lição 65, cita: “Olhai as coisas, segundo as aparências?” e diz: “O vagalume acende leves relâmpagos nas trevas e se supõe o príncipe da luz, mas encontra a vela acesa que o ofusca. A vela empavona-se sobre um móvel doméstico e se presume no trono absoluto da clari- dade, entretanto, lá vem um dia em que a lâmpada elétrica brilha no lato, embaciando-lhe a chama. A lâmpada, a seu turno, ensoberbece-se na praça pública, mas o sol, cada manhã, resplandece no firmamento, clareando toda a Terra e empalidecendo toas as luzes planetárias, grandes e pequenas”. Conclui Emmanuel “cada alma é sempre uma incógnita para outra alma. Em razão disso, não será lícito er- guer as paredes de nossa tranqüilidade sobre os alicerces do sentimento alheio”. PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO (LC., 10:30-37) Seu epicentro é a pergunta: “E quem é meu próximo?” Caibar Schutel, em “Parábolas e Ensinos de Jesus”, comentando esta parábola do Bom Samaritano, diz que “se examinarmos atentamente a Doutrina de Jesus, veremos em todos os seus princípios a exaltação da humildade e a humilhação do orgulho”. O sacerdote saduceu e o levita, que só falavam em justiça, passaram ao largo. O samaritano, considerado he- rético pelos judeus ortodoxos, foi o paradigma tomado pelo Mestre para dar o ensejo de tão profundo ensinamento. O ensino propiciado por Jesus nessa edificante parábola é dos mais elucidativos. Nele podemos apreciar o exercício da caridade imparcial, despretensiosa, incondicional, em seu sentido mais amplo, e sem qualquer tipo de limitação. A prática da caridade está em fazer ao nosso próximo aquilo que desejamos que nos seja feito. O samaritano pouco considerado pelos judeus, porém, neste caso cumpridor dos seus deveres, não se limitou a se condoer do necessitado e sim, achegou-se a ele e o socorreu da melhor forma possível, levando-o, em seguida, a um lugar de pouso, onde o assistiu e o recomendou ao hospedeiro prontificando-se a pagar os gastos. A caridade, foi ali dispensada a um desconhecido e quem a praticou não objetivou retribuição de espécie al- guma. O homem bom coloca acima de vãs circunstâncias, a lei da justiça e caridade. Faz o bem pelo bem, desde o menor até o maior. (ESE, cap. XVII, item 10).
  • 74.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho72 Esta parábola tem o mérito de mostrar a valorização do trabalho samaritano, e também de evidenciar as fal- sas aparências do sacerdote e do levita, os quais deveriam ser os primeiros a tratar do moribundo. A mesma coisa acontece em nossos dias: religiosos de todas as crenças e até empregados de casas Assisten- ciais, colaboradores que se colocam à disposição para o trabalho do bem, todos, na hora efetiva do trabalho e da participarão sempre acham uma forma para se furtarem ao dever de ajudar o próximo, alegando compromissos in- transferíveis. Aqui cabe relembrar as palavras do apóstolo Paulo, quando em sua II Epístola aos Coríntios (13:4), asseverou: A caridade é sofredora, é benigna, não é invejosa, não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se irrita, não suspeita mal, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não folga com a justiça mas folga com a verdade. A caridade tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Convém, por isso, a cada um fortificar as paredes da tranqüilidade do próximo, porque esta é a caridade e o amor sublime que une a criatura ao Criador, sem falsas aparências, porque ao Pai não se ilude. PARÁBOLA DOS PRIMEIROS LUGARES À MESA (LC., 14:1 E 7-11) O estudo desta parábola deve estar associado ao da “Grande Ceia” também (Lc., 14:16-24), como comple- mento uma da outra. Toda parábola de Jesus tem um fundamento sobre o comportamento de seus discípulos. Convidado que fora Jesus para uma refeição na casa de um dos príncipes dos Fariseus, notou como os convidados escolhiam os primei- ros lugares. Por isso, ensinou-lhes que deveriam aguardar o convite para se assentarem à mesa e não sentarem em lugares por eles escolhidos. Concluiu o Mestre que “todo aquele que se exalta será humilhado e todo o que se humi- lha será exaltado”. (Lc., 14:11) O homem não deve se perder pelas falsas aparências nem deixar-se perder por elas. Até por uma questão de educação, o homem deve saber que não deve ocupar lugares que ainda não estão destinados, mas é comum pes- soas orgulhosas não se aperceberem de suas reais qualidades ou motivos do convite e ocuparem posições que destaquem suas ambições e vaidades. É difícil conservar as verdadeiras posições, quanto mais as inadequadas e indevidas. Na grande comunhão espiritual, os primeiros lugares são reservados aos servidores que se destacam pela moral elevada, modéstia, pru- dência, perseverança e outras virtudes da alma. A humildade é a primeira delas - “Bem aventurados os humildes, porque dele sé o Reino dos Céus”. “Bem aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põe em prática”. (Lc., 11:28) O bom espírita deve, por isso, esquivar-se à vaidade e ao orgulho, que levam tantos médiuns a se perderem na ânsia de galgarem posições humanas ou privilégios para a vida material, mas estar sempre pronto a servir por amor ao próximo e assimilar os ensinamentos de Jesus. Deve escusar-se ao trabalho prometido por prazeres sociais, materiais e sensuais indevidamente, porquanto isto é desviar-se de seus deveres e distanciar-se do banquete espiritual (Lc., 14:16-24) Atualíssimas são estas parábolas, confirmando que o ser não é parecer. O chamado continua para o banquete espiritual, mas para aceitá-lo é preciso estar preparado. “Muitos serão os chamados mas poucos os escolhidos”. (Mt., 22:14) PARÁBOLA DO FARISEU E DO PUBLICANO (LC., 18:9-14) Nesta parábola, outra vez, Jesus evidencia que as aparências enganam, falando do Fariseu que confiava em si mesmo, como se fosse justo, e desprezava o Publicano que não tinha cumprido os deveres tradicionais, segundo seu ponto de vista: jejum, dízimo, etc. Em todos os ensinos de Jesus, a humildade e o amor são o ponto de partida. O melhor aprendizado é feito através de experiências práticas do bem, tendo com base o maior mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O homem que se esforça em falsas aparências, buscando evidências, é um “túmulo caiado de branco”; na re- alidade, reveste-se de orgulho, o mais terrível adversário da humildade. Conhecer e lutar contra as próprias imper- feições é sinal de sabedoria. Por isso, a partir da prece, o homem deve apresentar-se transparente, manso e humilde diante do Criador, para que seus pensamentos e sentimentos possam alcançá-lo. Os exemplos simples e radicais das parábolas evidenciam que os títulos, as posições notórias e a riqueza ter- rena, de nada significam quando enaltecidos indevidamente, ou quando o homem se vale desses para vangloriar-se. Desta forma já recebeu sua recompensa ou tributo à sua vaidade. A humildade é a chave espiritual da Verdade, pois a exemplo de Jesus: “O Filho do Homem não veio ao mun- do para ser servido, mas para servir”, também o verdadeiro cristão deve fazer o mesmo.
  • 75.
    Capítulo 30 PARÁBOLA SOBREA VIGILÂNCIA, PRUDÊNCIA E VALORIZAÇÃO DO TRABALHO A PARÁBOLA DAS DEZ VIRGENS (MT., 25:1-13) É também chamada de “As Virgens Insensatas e as Prudentes”. Em algumas versões, as virgens imprudentes, ou insensatas, são chamadas “néscias”. O tema central da parábola é: não é na hora da morte, nos últimos momentos da vida no corpo de carne, que se deve preparar para a desencarnação. Como se sabe, ao desencarnar, cada qual irá para o plano espiritual na condição em que se encontra, ou seja, no nível evolutivo que preparou para si próprio. A parábola simboliza, pois, a existência do homem, quando então se tem a oportunidade de se aparelhar ou não para o “banquete espiritual”, ou seja, para o reencontro com os Espíritos do bem. As dez virgens representam a Humanidade; as cinco prudentes s são os que aproveitam a encarnação para adquirir os bons imperecíveis, que são as virtudes; as cinco imprudentes representam os que desperdiçam a bênção da reencarnação. A prudência recomenda bom senso, estudo e trabalho. A candeia significa a luz interior, a luz própria de cada um, a luz do espírito, a aura luminosa, que é o resultado do conhecimento e do esclarecimento da alma encarnada. O azeite significa as virtudes que se devem adquirir, as boas obras que devem ser praticadas. É delas que se origina a luz espiritual, assim como a luz física nasce do fóton. Jesus é o “esposo” da Humanidade. A chegada do “esposo” significa a aceitação de Jesus, como guia e Mes- tre, conseqüentemente, o estado de ventura, de felicidade daí resultante. A pureza espiritual tem que se associar à vigilância e à prudência. A parábola ensina que as virgens prudentes recusaram-se a dar de seu azeite, evitando que lhes faltasse o combustível; o que significa que cada qual precisa adquirir a luz do conhecimento através do esforço próprio. Nin- guém se redime apelando para os méritos, qualidades e virtudes de outrem; cada qual precisa aparelhar-se com as próprias virtudes, que se tornam a lâmpada da vigilância e da prudência. O conhecimento, o amor e a caridade são próprios de cada alma e são intransferíveis. Finalmente, a parábola ensina que o esposo chegou inesperadamente; o que significa que todos devem estar vigilantes e preparados para o chamado vindo dos planos superiores. Os que não se preparam perdem uma oportu- nidade de amealhar um patrimônio imperecível para o seu espírito. PARÁBOLA DO SERVO VIGILANTE (LC., 12:35-48) E (MT., 24:45-51) Também chamada de Parábola do Bom e do Mau Servo. A parábola é uma exortação ao trabalho, oração e à vigilância, mas principalmente à vigilância. “Orai e vigiai”, recomendava Jesus, “para não cairdes em tentação”; porque ninguém sabe quando vem a hora do testemunho, da exemplificação. Todos passam por testes, que são as situações, sempre inesperadas, em que se tem de mostrar que se está agindo verdadeiramente como discípulo de Jesus. Finalmente, significa ainda que ninguém sabe quando vai soar a hora de sua desencarnação; portanto, é necessário estar-se preparado para essa hora. A parábola, na versão de Lucas, ainda chama a atenção para importantíssima questão: “Aquele que não soube a vontade do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação, levará poucos açoites”, ou seja, para quem erra por ig- norância e não por maldade, a correção é branda, será uma reencarnação de provas, não de expiações. Porém, “Aquele que conhecer a vontade de seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será punido com muitos açoites”, ou seja, aquele que desrespeita a Lei conscientemente, sabendo que está agindo errado, está reen- carnação dolorosa, passará pela dor - expiação oriundas de suas deficiências porque muito será pedido, a quem muito foi dado. O servo vigilante está sempre se aprimorando, se iluminando com o saber, isto é, mantendo acesas suas can- deias. PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA (LC., 15:3-7; MT., 18:10-14) OU PARÁBOLA DA DRACMA PERDIDA (LC., 15:8-10) As duas parábolas têm o mesmo fundamento: o reencontro e a misericórdia. É salientada a solicitude de Deus, o Pai, para reconduzir os que se perde, pelos caminhos da própria evolu- ção. A idéia central é a redenção espiritual de todos. O tema é antigo na Bíblia; já em Ezequiel (33:11), lê-se: “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu mau caminho e vida”. E em Ezequiel (34:11-31) está mostrado o empenho do Pai, em redimir seus filhos: “Eis que eu procurarei as minhas ovelhas e as buscarei como o pastor busca o seu rebanho”; “livrá-las-ei de todos os lu- gares para onde forma espalhadas no dia de nuvens e de escuridão”; “À perdida buscarei, à desgarrada tornarei a
  • 76.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho74 trazer, à quebrada ligarei e à enferma fortalecerei, enquanto à gorda e vigorosa, guardá-la-ei e apascentá-la-ei com o direito. “E vós, minhas ovelhas, sois o rebanho humano do meu pasto e eu sou vosso Deus” - diz o Senhor. A parábola ainda chama a atenção para a alegria no Mundo Maior sempre que se recupera a “ovelha” que es- tava perdida. As parábolas mostram que todos os filhos se redimem e que não há penas eternas. A ovelha e a dracma en- contradas significam o reencontro do filho perdido com a grande família espiritual, depois das encarnações. É a sín- tese do que disse Jesus: “haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento”. (Lc., 15:7) Assegura, assim o Mestre, que mesmo as almas desencaminhadas pelos meandros ilusórios da vida, um dia estarão juntas no trabalho profícuo da Fraternidade Universal. A parábola do “filho pródigo”, embora um tanto diferente também se refere ao mesmo tema acima. PARÁBOLA DOS TRABALHADORES NA VINHA OU TRABALHADORES DA ÚLTIMA HORA (MT., 20:1-16) A lei do trabalho está diretamente ligado à lei do progresso e aqui há uma promessa de recompensa aos tra- balhadores animosos de todas as horas. Esta parábola Jesus encerra indiretamente uma resposta aos discípulos por causa da pergunta (Mt., 19:27). “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos. O que é que vamos receber?” O pai de família na narrativa, significa Deus. O Pai Criador; os trabalhadores se traduzem nos discípulos e na Humanidade, cujo trabalho na vinha (a seara de Jesus) é o resultado de seus esforços na aquisição das virtudes e do saber. Uns precisam de mais tempo, outros de menos conforme o uso que fazem de seu libre arbítrio. De sua inteli- gência e de sua vontade; o pagamento, isto é, o salário recebido pelo trabalho é a bem aventurança espiritual. O bom trabalhador é o que faz bem feito. Com bom ânimo e boa vontade, independente do Tempo. Os Trabalhadores da Última Hora são os cristãos novos aqueles que atendem a voz do Mestre, no sentido de restabelecer na Terra as primícias do Vero Cristianismo; e cegos que querem ver, que não se conformaram com a cegueira. Por outro lado, os Trabalhadores das Primeiras Horas foram os primitivos hebreus, com seus vãos tradiciona- lismos, entrecortados de normas rígidas e apenas suportáveis naquela época de obscurantismo; foram os primitivos cristãos indecisos no tocante ao verdadeiro sentido libertador do Cristianismo nascente, divididos entre “homens da circuncisão e homens da incircuncisão”; foram os cristão da Idade Medieval, subjugados pela tara hedionda do fana- tismo. Do ódio, da vingança, do monopólio de uma suposta verdade, que pretendiam fazer prevalecer a ferro e fogo, aniquilando seus semelhantes julgando que assim estavam prestando um serviço a Deus; oram os cristãos do fim da Idade Média. Digladiando-se por causa de irrisórias divergências doutrinárias de bitola estreita. Esta parábola incentiva a ociosidade? Não, porque os desocupados da praça lá estavam porque ninguém os assalariou antes. O pagamento foi injusto? Não, porque cada qual recebeu o contratado. A parábola significa ainda que o convite do Pai soa para todos, a qualquer hora; e que cada qual recebe o sa- lário pela qualidade do trabalho produzido. Não apenas pela quantidade. Mesmo porque o trabalhador diligente e de- votado, mesmo que contratado à última hora, pode realizar um trabalho mais nobre e meritório que os outros que trabalham mais tempo. Finalmente, a parábola enuncia, embora veladamente, a reencarnação. De fato, os trabalhadores das primei- ras horas são os Espíritos que contam maior número de reencarnações, mas nem por isso colimaram o adianta- mento que lhes competia ter; os trabalhadores contratados posteriormente simbolizam os Espíritos que mais recen- temente tomaram conhecimento da Verdade, mas que fazendo melhor uso do libre arbítrio, da vontade e da inteli- gência galgaram mais depressa os degraus da evolução espiritual; não ser perderam em atalhos que tornam a jorna- da mais longa; sua caminhada foi mais reta. Assim, os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros na conquista dos valores espirituais. PARÁBOLA DA TORRE INACABADA OU PARÁBOLA ACERCA DA PREVIDÊNCIA (LC., 14:28-30) É também conhecida como a “Parábola do Homem Previdente”, significando que quem quiser servir a Jesus, colocando-se ao serviço de espiritualização da Humanidade deverá, em primeiro lugar, medir suas forças e verificar se tem vontade firme, fortalecer o Espírito através de um estudo consciente do Evangelho, esclarecendo-se em Es- pírito e Verdade para depois desenvolvê-los na prática, procurando realizar as tarefas que estejam ao alcance de sua capacidade e de seu entendimento, a fim de conseguir bom êxito. Depois, então, estará apto a vencer as dificulda- des que surgirem na caminhada como, por exemplo, o sarcasmo dos indiferentes que não compreendem as atitudes do verdadeiro cristão, tachando-as de fanatismo, a incompreensão dos familiares que se dividem em suas crenças, por não terem todos o mesmo índice de evolução espiritual. Portanto, quem quiser trilhar o caminho da espiritualização, que é desapego aos valores materiais, deve exa- minar-se a si próprio, com sinceridade e lealdade, para verificar se de fato tem o potencial para desenvolver em si os requisitos que levam à reforma íntima, bem como a capacidade de perseverar e dedicar-se, a fim de não se perder no meio do caminho, porque necessariamente deverá reencontrá-lo.
  • 77.
    Capítulo 31 MARIA DEMAGDALA Consumada a crucificação de Jesus Cristo, a primeira pessoa para quem o seu Espírito se fez visível foi para Maria de Madalena. Muitos estudiosos dos Evangelhos formulam uma indagação: Por que essa preferência? Por que não aperce- beu primeiramente para usa mãe ou para os seus apóstolos? Não é muito fácil explicar a razão profunda dessa prioridade, porém, procuraremos elucidar a questão. Se perlustrarmos as páginas dos Evangelhos, do começo ao fim, jamais encontraremos um paralelo com aquilo que ocorreu com a célebre mulher de Magdala, pois melhor do que ninguém ela assimilou e viveu os ensina- mentos de Jesus. Ninguém melhor do que ela soube desvencilhar-se dos vícios e desprender-se das coisas deste mundo. Maria Madalena seguiu de forma irrestrita a recomendação do Mestre: aquele que tomar do arado não olhe mais para trás. Difícil, tarefa é na realidade a luta contra os vícios. Muitas pessoas não conseguem, às vezes, vencer maus hábitos insignificantes e o que se dirá quando têm que lutar contra vícios tenebrosos e enraigados, vícios que há lar- gos anos dormitam dentro de suas almas? O orgulho, a vaidade, o ódio, a sensualidade, são outras tantas formas de viciações que assoberbam as criatu- ras humanas e têm sido a causa de verdadeiros descalabros morais e espirituais, originando sérios conflitos interio- res e mesmo tornando-se a causa de guerras, de desagregações sociais. Existem vícios que se enraigam nos seres humanos e os acompanham mesmo após a chamada morte física, constituindo sérios embaraços para a emancipação da alma. A bibliografia espírita é pródiga na demonstração de persistentes perseguições espirituais, casos de obses- sões, e de possessões terríveis, exercidas por Espíritos desencarnados sobre os encarnados e vice-versa. Os Evangelhos de Jesus contêm, em suas páginas, o remédio para todos esses males, e o que falta apenas é que sejam assimilados e vividos. Os homens não devem ir em busca de soluções mirabolantes para os seus problemas. A solução está real- mente nos Evangelhos, os quais, há vinte largos séculos aí estão como demonstração inequívoca do amor de Deus para com suas criaturas, como mensagem viva a atrair todas as pessoas de boa vontade, como atestado eloqüente de que os problemas humanos são perfeitamente equacionáveis onde reside a conformação, a paciência, a fraterni- dade e o amor. Numa das suas maravilhosas mensagens, o Espírito de Emmanuel, analisando a questão da Aparição do Mestre a Maria Madalena, explica: Porque razões profundas deixaria o Divino Mestre tantas figuras mais próximas de sua vida, para surgir aos olhos de Madalena em primeiro lugar? Somos naturalmente compelidos a indagar por que não teria aparecido antes, ao coração abnegado e amoro- so que lhe servira de mãe ou aos discípulos amados? Entretanto, o gesto de Jesus é profundamente simbólico em sua essência divina. Dentre os vultos da Boa-Nova, ninguém fez tanta violência a si mesmo, para seguir o Salvador, como a ines- quecível obsidiada de Magdala. Nem mesmo Paulo de Tarso faria tanto, mais tarde, porque a consciência do após- tolo dos gentios era apaixonada pela Lei, mas não pelos vícios. Madalena, porém, conhecera o fundo amargo dos hábitos difíceis de serem extirpados, amoleceu-se ao contato de entidades perversas, permanecia “morta” nas sen- sações que operam a paralisia da alma.
  • 78.
    Capítulo 32 ZAQUEU, OPUBLICANO Afirma Lucas (19:1-10) que tendo Jesus entrado em Jericó, havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos publicanos e bastante rico de bens materiais. Ele procurava ver Jesus, porém não o podia conseguir por causa da multidão e pelo fato de ser de baixa estatura. Entretanto, ele correu para diante e subiu num sicômoro a fim de vê-lo, porque estava para passar por ali. Quando o Mestre chegou àquele lugar, olhou para cima e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa; porque importa que eu fique hoje em tua casa”. O publicano desceu a toda pressa e rece- beu Jesus em sua casa. Nisso surgiram várias críticas pelo fato dele se hospedar na casa de um homem que eles consideravam pecador. A dado momento, Zaqueu levantou-se e disse a Jesus: “Senhor, vou dar metade de meus bens aos pobres e se alguma coisa defraudei de alguém, lho restituirei quadruplicado. Animado de intensa alegria, o Mestre sentenciou: “Zaqueu, hoje entrou a salvação em tua casa”. Publicano era o nome que na Roma antiga se dava aos cavaleiros arrendatários das taxas públicas, encarre- gados da cobrança de impostos e das taxas de toda espécie, fosse na própria Roma ou em outras partes do Império Romano. Durante o domínio romano, foi o imposto o que os judeus mais relutaram em aceitar e o que mais causava ir- ritação entre eles. Foi a causa de muitas revoltas, chegando mesmo a ser convertido numa questão religiosa por ser contrário à lei. Os judeus tinham, como decorrência, horror ao imposto e, por extensão, a todos os que se encarregavam da sua cobrança. Essa a causa da sua aversão pelos publicanos de todas as categorias, entre os quais, entretanto, po- diam encontrar pessoas estimáveis, mas que, em face de suas funções eram marginalizadas juntamente com as pessoas de suas relações. Os judeus temiam comprometer-se pelo fato de manterem com eles relações de amizade. O que sucedeu com Zaqueu é um caso raro, sem qualquer outro paralelo nas páginas do Evangelho. O Evangelho de Mateus (19:16-30) narra que um moço, aproximando-se de Jesus indagou: “Que devo fazer para herdar a vida eterna?”. Jesus lhe recomendou que observasse os mandamentos, que distribuísse sua fortuna com os pobres e o seguisse. O jovem não concordou com a idéia de despojar-se de sua fortuna material e afastou-se muito triste, tendo o Mestre exclamado: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico no Reino dos Céus”.
  • 79.
    Capítulo 33 JUDAS ISCARIOTES Onome de Judas Iscariotes provém da sua cidade de origem: Karioth, na Samaria, a qual, por sua vez teve a sua raiz no nome de Issacar, um dos filhos de Jacó, e que deu o título a uma das doze tribos de Israel. O papel de Judas Iscariotes no processo de revelação do Cristianismo, pelo que podemos deduzir das narrati- vas evangélicas, não foi muito significativo. As poucas referências ali feitas sobre ele foram de natureza negativa, haja vista, por exemplo, o que diz o evangelista João sobre o episódio do Jantar de Betânia: Logo após ter Maria derramado sobre o Mestre o vaso de ungüento, Judas Iscariotes, filho de Simão, o que havia de traí-lo, disse: por que não se vendeu esse ungüento por trezentos dinheiros e não se desse aos pobres? Ora, ele disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava. O seu nome alcançou maior notoriedade logo após a chamada última ceia, quando foi apontado pelo Cristo como sendo o eventual traidor. Dizemos eventual traidor porque, embora naquela altura dos acontecimentos ele já tivesse pactuado com o sumo sacerdote, no sentido de entregar o Mestre mediante o prêmio de trinta moedas de prata, ele poderia bem ter voltado atrás em seu intento, uma vez que Deus jamais condena alguém à prática do mal. Em O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, deparamos com os seguintes esclarecimentos: No estado errante, antes de tomar uma existência corpórea, o Espírito escolhe o gênero de provas que deseja sofrer; nisto consiste o seu livre arbítrio. Nada acontece sem a permissão de Deus, porque foi ele quem estabeleceu todas as leis que regem o univer- so. Dando ao Espírito a liberdade de escolha, deixa-lhe toda a responsabilidade dos seus atos e das suas conse- qüências; nada lhe estorva o futuro; o caminho do bem está à sua frente, como o do mal. Mas se sucumbir, ainda lhe resta uma consolação, a de que nem tudo se acabou para ele, pois Deus, na sua bondade, permite-lhe recomeçar o que foi mal feito. Embora Jesus Cristo já soubesse que o plano de Judas era irreversível, o bom senso nos diz que o ato não era de natureza fatal, uma vez, que, através do uso do seu libre arbítrio, ele poderia ter-se furtado à execução do seu plano de traí-lo. O Evangelista João afirma que logo após Jesus ter-lhe dado o bocado de pão, entrou nele satanás, o que si- gnifica que Judas se tornou dócil instrumento de um Espírito possessor, o que insuflou em seu coração o desiderato de consumar o ato de traição. Com base nos ensinamentos acima, podemos afirmar que Judas Iscariotes não veio predestinado para aquele ato nefando. Ele o poderia ter praticado ou não. Na eventualidade de ter modificado a sua decisão, teria natural- mente surgido outro traidor, ou o Cristo teria sido preso em circunstâncias diferentes, embora o Mestre, profundo co- nhecedor dos homens e profeta que era, soubesse de antemão que Judas não mudaria o que já havia deliberado fa- zer, e que, portanto, os vaticínios sobre essa ocorrência aconteceriam em seus mínimos detalhes. Estando Jesus falando, chegou Judas, um dos doze, e com ele uma grande multidão com espadas e vara- paus, que eram os ministros enviados pelos principais dos sacerdotes, e pelos anciãos do povo, e deu-lhe um beijo, dizendo: Deus te salve Mestre, sinal esse que havia anteriormente combinado com os detratores do Senhor. Profundamente arrependido do ato de traição, após ver a flagelação do Mestre, voltou Judas ao Templo e ali pretendeu reparar a sua falta, exclamando: “Pequei, traindo o sangue inocente”, ao que os principais dos sacerdotes replicaram: “Que nos importa? Isso é contigo”. Desesperado diante dessa recusa, atirou as trinta moedas aos pés dos sacerdotes e, retirando-se para um campo, ali suicidou-se. Os mentores do Templo, tomando do dinheiro disseram: “Não é lícito deitá-lo na arca das esmolas, porque é preço de sangue, e em conselho deliberaram comprar com ele o campo de um oleiro, para servir de cemitério aos fo- rasteiros. Por essa razão se ficou chamando aquele campo, Heceldama, isto é, campo de sangue”. Com esse ato, aparentemente caridoso, os principais dos sacerdotes julgavam poder enganar a Deus, enganando-se a si próprios. Esta passagem foi prevista no livro de Zacarias (11:12-13): “E eu disse-lhes: Se parecer bem aos vossos olhos, dai-me o que é devido e, não, deixai-o. E pesaram o meu salário trinta moedas de prata. O Senhor, pois, me disse: Arroja isso ao oleiro, esse belo preço em que foi avaliado por eles, e tomei as trinta moedas de prata e as ar- rojei ao oleiro, na Casa do Senhor”. É inegável que o Espírito de Judas já se redimiu no decurso de várias lutas expiatórias e hoje forçosamente é um Espírito de ordem elevada, não se justificando as campanhas que se movem contra ele no mundo, principal- mente com as chamadas malhações e coisas semelhantes.
  • 80.
    Capítulo 34 OS FILHOSDE ZEBEDEU Chegando Jesus Cristo a Jerusalém, a esposa de Zebedeu, mãe dos apóstolos Tiago e João, adiantou-se e lhe fez uma solicitação: Que no reino celestial os seus dois filhos se assentassem, uma à sua direita e outro à sua es- querda. Em face desse pedido, emanando de um coração de mãe, o Mestre, dirigiu-se aos dois irmãos, dizendo: “Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado?” E eles co- rajosamente responderam: “Podemos!” Diante dessa afirmação positiva e ousada, o Senhor obtemperou: Na verdade bebereis o meu cálice, mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda, não me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem meu pai o tem preparado. Na realidade os dois irmãos, solidários com o Messiato fulgurante que Jesus viera desempenhar, beberam o cálice da amargura: Tiago foi morto a espada por ordem de Herodes, quando de uma das perseguições movidas contra os cristãos, e João desencarnou na ilha grega de Patmos, após prolongado exílio, como conseqüência da pro- paganda que fazia dos ideais cristãos. Todos os apóstolos de Jesus, com exceção de João pereceram de modo violento. João foi o único que desen- carnou naturalmente, o que aliás foi predito pelo próprio Jesus, segundo a narrativa contida em João (21:21-23), quando, após a sua crucificação o seu Espírito apareceu aos apóstolos junto ao lago Tiberíades. Ali ele predisse a Pedro que ele haveria de perecer de forma violenta, entretanto, quando o velho apóstolo, referindo-se a João, inda- gou: “Senhor, e deste que será?” O Mestre respondeu: “Se eu quero que ele fique até que eu venha, que importa a ti”, o que implicava em dizer que aquele apóstolo deveria permanecer na Terra até que servisse de instrumento para receber, via mediúnica, o Apocalipse, que fazia parte integrante do processo de revelação do Cristianismo, fato este ocorrido na Ilha de Patmos. As passagens evangélicas acima comprovam claramente o postulado espírita da evolução contínua da alma. Os apóstolos de Jesus foram Espíritos rigorosamente escolhidos para o assessorarem na obra de revelação, o que implica em dizer que naquela época já eram altamente evoluídos, pois, de outro modo não poderiam servir como peças de tão transcendental missão. No entanto, quando a mãe de Tiago e João, que foram dois dos mais destaca- dos discípulos de Jesus, lhe pediu que no plano espiritual os dois se assentassem um à sua esquerda e outro à sua direita, o Mestre deu a entender claramente que já existiam Espíritos de muito mais elevada categoria, destinados pelo Pai a assentarem-se a seu lado. A fim de elucidar melhor este tema, mencionemos o caso de João Batista, que segundo as próprias palavras de Jesus, contidas em Mateus, 11:11, era o Espírito encarnado de mais elevada categoria que existia na Terra, supe- rando mesmo Tiago e João Evangelista. No entanto, o próprio Mestre, esclareceu que no reino celestial, o menor que ali existia era maior do que João Batista. Ora, se o Espírito de João Batista, sendo tão elevado, ainda era um dos menores nos planos superiores da Espiritualidade, é óbvio que não haveria possibilidade de os dois filhos de Zebedeu ocuparem lugar de tamanha re- levância naqueles planos. O Espiritismo esclarece que os Espíritos puros, que habitam as elevadas esferas espirituais, não sofrem mais a influenciação da matéria, possuindo superioridade intelectual e moral absolutas, em relação aos Espíritos de ordem menos elevada. Eles já percorreram todos os graus de escala e se despojaram de todas as impurezas, tendo alcan- çado a soma de perfeição de que é suscetível a criatura. Esses Espíritos não estão mais sujeitos à reencarnação, e, se descem à Terra, o fazem meramente para o de- sempenho de missão de grande envergadura, coo foi o caso de João Batista, de Paulo de Tarso, dos Apóstolos e do próprio Jesus Cristo. A escala evolutiva nesses planos superiores da Espiritualidade é infinita, porém ali, também existe a hierar- quia, por isso, quando Jesus Cristo veio à Terra, trouxe consigo um grupo de Espíritos que aqui também reencarna- ram, sem contar aqueles que também o assessoravam na obra messiânica como Espíritos desencarnados.
  • 81.
    Capítulo 35 MARTA EMARIA Quando demandava a aldeia de Betânia, Jesus Cristo tinha por hábito visitar Lázaro, que ali morava em com- panhia de suas duas irmãs: Marta e Maria. Numa dessas visitas, enquanto Marta se preocupava com os afazeres da casa, Maria se assentou aos pés do Mestre, que conversava com um grupo de pessoas e ali ficou aprendendo os maravilhosos ensinos que brotavam dos seus lábios. Marta, não se conformando com a situação indagou do Senhor: Mestre! Não te parece razoável que Maria vi- esse ajudar-me nos trabalhos de casa?, ao que o Nazareno retrucou incontinente: “Marta tu te preocupas com as coisas transitórias, Maria escolheu a melhor parte, a qual jamais lhe será tirada.” Na realidade, Maria jamais poderia perder a oportunidade ímpar que lhe oferecia de ouvir os consoladores en- sinamentos do Mestre, ensinamentos esses que conflitavam profundamente com tudo aquilo que ela estava habitua- da a ouvir dos escribas, pois, enquanto estes, escudando-se nos códigos rígidos estabelecidos por Moisés, procla- mavam a pena de talião, ou seja, a lei do olho por olho, dente por dente, o Senhor prescrevia a necessidade de se perdoar não sete, mas setenta vezes sete vezes. Enquanto o Deuteronômio, um dos livros de Moisés, prescrevia uma série de regras brutais e aberrantes, mandando apedrejar mulheres adúlteras e filhos rebeldes, ali estava o Mestre recomendando que se deveria perdoar até os próprios inimigos. As narrativas evangélicas sobre Maria de Betânia diferem ligeiramente nos quatro evangelhos: João, em seu Evangelho , afirma que Jesus estava na casa de Lázaro após a chamada ressurreição deste, na aldeia de Betânia e Marta servia, sendo Lázaro um dos que estavam com ele à mesa. Maria, tomando de um arratel de ungüento de nardo puro, de muito valor, ungiu os pés do Senhor, enxugando-os com seus cabelos, enchendo-se a casa com cheiro do perfume. Mateus e Marcos afirmam que, estando Jesus em Betânia, na casa de Simão o leproso, aproximou-se dele uma mulher portanto um vaso de alabastro, com ungüento de elevado valor, derramando-o sobre a sua cabeça en- quanto ele estava assentando à mesa. Lucas, no entanto, sustenta que Jesus estava à mesa na casa de Simão, o fariseu, quando uma pecadora da cidade (Lucas, 7:36-50), levando consigo um vaso de alabastro com ungüento e estando a seus pés, chorando, co- meçou a regá-los com lágrimas, e beijando-os, enxugava-os com seus cabelos e ungia-os com ungüento. Simão, o fariseu, observando aquele estranho espetáculo, dizia em seu íntimo: “Se este fora realmente profeta bem saberia que a mulher que está a seus pés é uma pecadora”. Notando o pensamento negativo que se aninhara no coração do homem que o hospedara, o Mestre ponderou: “Simão, uma coisa tenho a dizer-te: um certo credor ti- nha dois devedores, um devia-lhe quinhentos dinheiros, e o outro cinqüenta. E não tendo eles com que lhe pagar, perdoou a ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais? Simão pensou um pouco e respondeu: Tenho para mim que é aquele a quem mais perdoou!” Esta resposta mereceu franca aprovação por parte de Jesus: “Julgaste bem”. Em seguida o Senhor acrescentou, dirigindo-se a Simão: “Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; mas esta os regou com suas lágrimas, enxugando-os com seus cabelos. Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés. Não ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com ungüento. Por isso te digo, que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama”. Alguns apóstolos, dentre eles Judas Iscariotes, passaram a criticar a ação da mulher, dizendo que se poderia ter vendido aquele perfume por alto preço e dado o dinheiro aos pobres, ao que o Mestre retrucou: Os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes. Aditando ainda: Em verdade vos digo, que, onde quer que este Evangelho for pregado, em todo o mundo, também será refe- rido o que fez essa mulher, para memória sua”.
  • 82.
    Capítulo 36 LUCAS, OEVANGELISTA Na história do Cristianismo uma figura singular se destaca, devendo-se a ela uma apreciável parcela de tudo o que foi escrito, para ser transmitido à posteridade e que constitui na atualidade esse majestoso monumento que é o chamado Novo Testamento. Trata-se de Lucas, ou Lucanus, um médico de aproximadamente 25 anos de idade, que aparentemente residia na colônia romana de Filipos, e que apareceu pela primeira vez na companhia de Paulo de Tarso, por ocasião da primeira ida do apóstolo à Macedônia, no ano 52. Ele foi autor do Terceiro Evangelho e desempenhou o papel de historiador, numa época de escassas comunicações, fazendo um trabalho hercúleo de concatenar muitos dos ensi- namentos, dos fatos e da vida dos apóstolos, transplantando para os livros tudo aquilo que conseguia pagar, legan- do-nos assim, além desse Evangelho essa obra portentosa, que é Atos dos Apóstolos. Tudo o que Lucas averiguou no sentido de escrever o seu Evangelho, e todo o árduo trabalho que experi- mentou, o fez por amor a Jesus, e com o objetivo primário de cooperar na transcendental obra de revelação, iniciada por Jesus Cristo, desenvolvendo assim um trabalho de pesquisa, acompanhando os pregadores em suas viagens, e visitas às incipientes comunidades cristãs que proliferavam na época. Dos quatro Evangelhos existentes, dois foram escritos por discípulos diretos de Jesus - João e Mateus; os ou- tros dois por Lucas e Marcos discípulos de Paulo de Tarso, os quais não conviveram com o Mestre. As narrativas dos Atos dos Apóstolos, consubstanciadas na Epístolas aos Colossenses (4:14), a Filemon (1:24), e a 2ª Epístola a Timóteo (4:11), falam de Lucas como companheiro de Paulo em suas viagens missionárias. Encontrando-se com o Apóstolos dos Gentios na Macedônia, Lucas passou a segui-lo e vemos que, dali por diante, as narrações são feitas empregando-se o pronome nós o que perdurou até a saída de Paulo da colônia de Filipos, recomeçando novamente no momento em que Paulo, visitando a Macedônia pela última vez, torna a passar por Fili- pos. Desde então o narrador não se separa mais de Paulo até o fim. Numa época de grandes dificuldades experimentadas nas viagens às diferentes cidades, é de se admirar o interesse de Lucas pela divulgação dos ideais cristãos, assessorando o apóstolo em seus empreendimentos e fa- zendo um trabalho verdadeiramente portentoso de concatenar escritos esparsos, formular descrições e historiar fa- tos, registrando-os e projetando-os no tempo a fim de servirem de esteio para o trabalho de evangelização no porvir. Segundo alguns historiadores, na colônia romana de Filipos dominava o latim, e aparentemente Lucas era helenista e conhecida muito mal o judaísmo e o que se passava na Palestina. A sua obra foi composta longe da Ju- déia, por quem conhecia mal a geografia daquele país e não possuía uma ciência rabínica muito sólida, nem conhe- cia muitos dos nomes judeus. Esses historiadores afirmam que Lucas quis esquivar-se de tudo o que pudesse descontentar os romanos, o que difere do Apocalipse de João, que excede em recordações das infâmias de Nero e transparece ojeriza pelo po- der exercido por Roma. Comprazia-se mesmo em mostrar como os funcionários romanos eram favoráveis ao Cristi- anismo, citando dentre eles, o centurião Cornélio, o precônsul Sérgio Paulo e outros que o abraçaram e defenderam contra os ataques dos judeus.
  • 83.
    Capítulo 37 O COLÓQUIOCOM NICODEMOS “Havia um homem, entre os fariseus, chamado Nicodemos, príncipe entre os judeus; este foi ter com Jesus à noite e disse-lhe: “Rabi, sabemos que és mestre, vindo da parte de Deus; pois ninguém pode fazer os milagres que tu fazes, se Deus não estiver com ele. Jesus respondeu: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não tornar a nascer, não pode ver o Reino de Deus Retrucou Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, por ventura, entrar no ventre de sua mãe?” Acrescentou Jesus: Em verdade, em verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne é carne, e o que é nasci- do do Espirito é Espírito. Não te maravilhes, pois de te haver dito: Necessário vos é tornar a nascer. O vento sopra onde quer e ouves o seu sonido, porém, não sabeis donde vem e nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito. Nicodemos contestou: Como se pode fazer isto? Jesus concluiu: Tu és mestre em Israel e não sabes estas coisas? Se vos falei de acontecimentos terrenos, e não crestes, como crereis, se vos falar dos celesti- ais?” Por que razão, Jesus, logo no início do colóquio teria trazido à baila a questão dos renascimentos? A que pro- pósito viria essa matéria, e que relação tinha com as palavras daquele que o visitava, a quem o assunto não parece- ria muito interessante? Porque insistir e frisar tanto tal questão? Não parece um tanto estranha essa atitude de Jesus? O Mestre tinha que legar aos homens alguns exemplos ou ensinamentos sobre a reencarnação, por isso, sen- do visitado por um “mestre de Israel” e homem de posição social destacada, ele achou oportuno abordar esse tema de relevante importância, pois, os judeus tinham algumas noções sobre reencarnação, embora com o nome de res- surreição, porém, desconheciam o mecanismo desses renascimentos sucessivos, daí as indagações: “poderá entrar novamente no ventre de sua mãe?” ou “como pode o homem renascer sendo já velho?” Examinando esta passagem, Kardec, em o Evangelho Segundo o Espiritismo comenta: “Estas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, forma interpretadas no sentido da rege- neração pela água do batismo. Mas o texto primitivo diz simplesmente: Não renascer da água e do Espí- rito, enquanto em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital ressalta dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível.” Para compreender o verdadeiro sentido dessas palavras, é necessário reportar à significação da palavra água, que não foi empregada no seu sentido específico. Os antigos tinham conhecimentos im- perfeitos sobre as ciências físicas, e acreditavam que a Terra havia gerador absoluto. É assim que en- contramos no Gênesis: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas”, “flutuava sobre as águas”, “que sob o céu se reunam num só lugar, e que o elemento árido apareça”, “que as águas produzam animais vi- ventes, que nadem na água, e pássaros que voem sobre a terra e debaixo do firmamento”. Conforme essas crença, a água se transformara no símbolo da natureza material, como o Espírito o era da natureza inteligente. Estas palavras: “Se homem não renascer da água e do Espírito”, ou “na água e no Espírito”, significam pois: “Se o homem não renascer com o corpo e a alma.” Nesse sentido é que forma compreendidas no princípio. Esta interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito.” Jesus faz aqui uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. “O que é nascido da carne é carne”, indica claramente que o corpo procede apenas do corpo e que o Es- pírito é independente dele. “O Espírito sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para aonde vai”, é uma passagem que se pode entender pelo Espírito de Deus que dá a vida a quem quer, ou pela alma do homem. Nesta última acepção, a seqüência: “Mas não sabes de onde vem nem para aonde vai”, signi- fica que não se sabe o que foi nem o que será o Espírito. Se, pelo contrário, o Espírito, ou alma, fosse criado com o corpo, saberíamos de onde ele vem, pois conheceríamos o seu começo. Em todo caso, esta passagem é a consagração do princípio da preexistência da alma, e, por conseguintemente, da pluralida- de das existências.”
  • 84.
    Capítulo 38 A MULHERSAMARITANA No célebre colóquio mantido com a mulher samaritana, narrado pelo apóstolo João, no cap. 4, Jesus Cristo disse que, se ela bebesse da água do poço, tornaria a ter sede, mas se, por outro lado, bebesse da água que ele desse, nunca mais a teria. A água viva de que o Cristo falava eram os seus consoladores e edificantes ensinamentos, pois, na verdade, quem se dessendentar na fonte que jorra para a vida eterna, que são os Evangelhos, jamais terá sede de outros co- nhecimentos, uma vez que passará a descortinar novos horizontes e estará capacitado a operar dentro de si profun- da reforma interior. No desenvolvimento do seu colóquio, disse-lhe Jesus: “Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalém, adorareis o Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos porque a salvação vem dos judeus. Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e verdade: porque o Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito e importa que os que o adoram o ado- rem em Espírito e verdade. Enquanto não tivermos bebido da água viva, vestiremos na situação daqueles que não sabem nem como e nem a quem adorar. Não é possível se adorar a Deus com ritualismos, com encenações exteriores, com holocaus- tos, com incensos ou com o cheiro de carne assada. Não se pode também adorar ao Pai com prolongadas ladainhas e intermináveis orações, principalmente quando elas apenas saem dos lábios e delas não participam os corações. Os adoradores verdadeiros adorarão o Pai em Espírito e verdade. A adoração em Espírito e verdade jamais poderá ser colimada pela inação contemplativa ou com rasgos de manifestações exteriores, entretanto é conseguida com o desprendimento, com a prática do amor e com ações beneméritas em favor dos aflitos e sofredores. A adora- ção em Espírito e verdade se traduz pelo desabrochamento dos sutis sentimentos de solidariedade humana, de fra- ternidade e dedicação, consubstanciados no “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Foi com relação a essa assertiva que o Mestre afirmou que o Reino de Deus virá sem qualquer demonstração exterior. Portanto, estão enganados aqueles que aguardam o advento do reino de Deus como recompensa pela sua assiduidade na prática do culto externo, na prática da adoração sem as correspondentes boas obras. O reino de Deus virá somente para os trabalhadores animosos, para os que se esforçam vibrantes, para os que vivem com os corações inundados de profundos sentimentos cristãos, para os que fazem com que o amor impere em todos os seus atos. Para estes a vinda do reino de Deus não precisa ser prenunciada de relâmpagos e trovões, pois a semente do bem já está germinando em boa terra e logo dela espargirá frondosa árvore, com os frutos sazonados do amor. O colóquio de Jesus Cristo com a mulher samaritana teve o mérito de destruir, pela base, os tradicionais erros que presidem a ação de algumas ramificações religiosas, que julgam que a adoração a Deus deve ser feita em luga- res determinados, nesta ou naquela postura, virado para o oriente ou para o ocidente, nesta ou naquele a hora, neste ou naquele idioma, com encenações e ostentações. A verdadeira adoração a Deus é praticada, pelos verdadeiros adoradores, em qualquer lugar, a qualquer hora, em qualquer circunstância, uma vez que da adoração deve partici- par o coração e não os olhos.
  • 85.
    Capítulo 39 A MULHERADÚLTERA “Então lhe trouxeram os escribas e os fariseus uma mulher que fora apanhada em adultério, e a puseram no meio, e lhe disseram: Mestre esta mulher foi agora mesmo apanhada em adultério; e Moisés, na Lei, mandou apedrejar a estas tais. Qual é a vossa opinião sobre isto? Diziam, pois, isto os judeus, tentando-o para o poderem acusar. Jesus, porém, abaixando-se, pôs-se a escrever com o dedo na terra. E como eles perseverassem em fazer-lhe perguntas, ergueu-se Jesus e disse-lhes: Aquele dentre vós que estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra. E tornando a abaixar-se, escrevia na terra. Mas eles, ouvindo-o foram saindo um a um, sendo os mais velhos os primeiros. E ficou só Jesus e a mulher, que estava no meio, em pé. Então, erguendo-se, Jesus lhe disse: Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor. Então Jesus lhe disse: Eu tampouco te conde- narei; vai, e não peques mais. (Jo., 8:3-11) “Aquele que estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra”, disse Jesus. Esta máxima faz da indulgência um dever, pois não há quem dela não necessite para si mesmo. Ensina que não devemos julgar os outros mais severa- mente do que nos julgamos a nós mesmos, nem condenar nos outros o que nos desculpamos em nós. Antes de re- provar uma falta de alguém, consideremos se a mesma reprovação não nos pode ser aplicada. A censura da conduta alheia pode ter dois motivos: reprimir o mal, ou desacreditar a pessoa cujos atos criti- camos. Este último motivo jamais tem escusa, pois decorre da maledicência e da maldade. O primeiro pode ser lou- vável, e torna-se mesmo um dever em certos casos, pois dele pode resultar um bem, e porque sem ele o mal jamais seria reprimido na sociedade. Aliás, não deve o homem ajudar o progresso dos seus semelhantes? Não se deve, pois tomar no sentido absoluto este princípio: “Não julgueis para não serdes julgados”, porque a letra mata e o espí- rito vivifica.
  • 86.
    Capítulo 40 ATOS DOSAPÓSTOLOS - A MISSÃO DE PEDRO “Também eu te digo que és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”. (Mt., 16:18) Simão Pedro, filho de Jonas, foi um dos mais destacados apóstolos de Jesus Cristo e um dos mais alvejados pelos seus inimigos, encarnados e desencarnados. Sua vida missionária, iniciada às margens do Lago de Tiberíades, quando o Mestre o convocou para abando- nar a carreira de pescador de peixes, para se transformar no pescador de homens, teve o seu epílogo não se sabe onde nem como: se crucificado, decapitado, Lapidado ou estrangulado. Enquanto a tradição de uma das religiões cristãs sustenta que ele foi crucificado de cabeça para baixo, na ci- dade de Roma, um dos mais renomados doutores dessa mesma Igreja - o bispo Strossmayer - afirmou em inflamado discurso pronunciado no ano de 1870, naquela mesma cidade, que Pedro jamais esteve em Roma e que tudo o que se tem afirmado nesse sentido não passa de suposições inverídicas, invocando, para melhor corroborar a sua asser- tiva, o testemunho do célebre historiador Scaligero, quando proclamou que “o episcopado de São Pedro e sua resi- dência em Roma devem se classificar no número de lendas ridículas”. O velho apóstolo, a despeito de alguns compreensíveis momentos de vacilação, principalmente no episódio da negação do Cristo, foi um elemento de projeção no Messiado de Jesus e foi o companheiro inseparável do apóstolo Tiago e João, nos momentos mais importantes da vida terrena do Mestre, principalmente quando ele desejava pro- piciar ensinamentos de maior envergadura, tais como a transfiguração do Tabor e a oração extrema no Horto das Oliveiras. Afirma Mateus em seu Evangelho (16:17-18) que após ter Pedro identificado ser o Cristo, o filho de Deus vivo, o Mestre, dirigindo-se a ele, disse: “Bem aventurado és Simão Barjonas, porque não foi a carne sem o sangue quem to revelou, mas meu Pai que estás nos Céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra fundamentarei a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela”. Foi com base nesse capítulo do Novo Testamento que uma das religiões milenares deliberou conceder ao an- tigo e humilde Pescador do Tiberíades, um título nobiliárquico e a promoção da chefe de uma igreja. Os primitivos doutores do Cristianismo afirmavam que a igreja estava edificada sobre a rocha da fé de Pedro (super Petram) e não sobre Pedro (super Petrum). O grande S. Agostinho, bispo de Hipna e sábio doutor da igreja, discorrendo sobre essa questão, em seu Tra- tado 124, afirmou: “Sobre esta rocha ou pedra que me confessaste, que reconheceste, dizendo: Tu és o Cristo, o fi- lho de Deus vivo, alicerçarei a minha igreja sobre mim mesmo, pois sou o Filho de Deus vivo. Edificarei sobre mim mesmo e não sobre ti”, acrescentando ainda: “Edificarei minha igreja sobre esta rocha, significa que é sobre a fé de Pedro”. Aliás essa opinião era generalizada no mundo cristão, no início da nossa era. Quando Jesus afirmou: “Não foi a carne nem o sangue quem to revelou, mas meu Pai que estás nos Céus”, deu insofismável demonstração de estar Pedro servindo de instrumento de Espíritos superiores, a uma revelação de tamanha magnitude. Os arautos dos Céus revelaram, através da mediunidade de Simão Pedro, que ali estava o Cristo, o filho de Deus vivo, o Messias prometido. Foi sobre essa revelação espiritual - sobre o intercâmbio entre o Céu e a Terra, que o Mestre deliberou fundamentar a sua Doutrina. Assim como outros apóstolos, Pedro era também de pouca letra. Após o Dia de Pentecostes, quando ocorreu o maior desenvolvimento coletivo dos médiuns na História, o velho pescador do Tiberíades passou a dissertar sobre os ensinamentos de Jesus, apesar das ameaças partidas de Anás, de Caifás, de João, de Alexandre e de outros da linhagem do sumo sacerdote. As narrativas evangélicas afirmam que Pedro falava cheio do Espírito Santo, isto é, mediunizado. Quando da sua visita a Samaria Pedro foi procurado por Simão, o mago, um falso médium, que lhe propôs pagar a peso de ouro a transmissão do poder de receber o Espírito Santo - o primeiro ato de simonia ocorrido na História do Cristianismo. O velho apóstolo repeliu-o veemente, dizendo: “O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgaste adquirir por meio dele o dom de Deus. Não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, da tua maldade, e roga ao Senhor; talvez que te seja perdoado o in- tento do coração”. Não encontramos nos Evangelhos qualquer comprovação de que Pedro desfrutasse de supremacia sobre os demais apóstolos, ou que Jesus lhe tivesse outorgado tal prerrogativa. Não nos consta também que os demais membros do apostolado reconhecessem em Pedro qualquer superioridade. Deduz-se do livro dos Atos dos Apósto- los, que Tiago Maior era o apóstolo que tinha ascendência sobre os demais. No capítulo 8, versículo 4, desse mesmo livro deparamos com a afirmação de que, “ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, lhe enviaram Pedro e João”. Ora, se Pedro fosse realmente o chefe dos demais, ele enviaria outros e nunca seria o enviado. Pedro estava, portanto, sujeito a uma autoridade maior, por isso ele foi veemente criticado pela comunidade por ter ido à cidade de Cesaréia a fim de con- verter Cornélio, um centurião gentio.
  • 87.
    Capítulo 41 ATOS DOSAPÓSTOLOS - O PAPEL DE PAULO “E disse o Senhor a Ananias: Vai, porque ele é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, dos reis e dos filhos de Israel”. (Atos, 9:15) Saulo, cujo nome foi posteriormente latinizado para Paulo, tornou-se o Vaso Escolhido por Jesus, a fim de le- var as suas palavras a todos os povos da chamada Gentilidade, para os governantes e para os próprios filhos de Is- rael, apresentando-lhes uma doutrina livre dos preconceitos e das tradições inócuas, muito do agrado de todas as re- ligiões da época. Em suas famosas Epístolas, dirigidas a alguns povos seus contemporâneos. Paulo estabeleceu normas, traçou diretrizes, enfrentou e equacionou problemas, combateu costumes politeístas e, nesse mister não trepidou em en- frentar o próprio Apóstolo Pedro, dizendo-lhe duras verdades, em vista de o velho pescador do Tiberíades estar apregoando, na cidade da Antioquia, o absurdo dogma judaico da circuncisão. Saulo de Tarso - o futuro apóstolo dos Gentios, fazia parte dos judeus, estrangeiros que viviam na dispersão (Diáspora), longe das terras de Israel, por eles consideradas sagradas. O seu nascimento ocorreu na cidade de Tarso, na província romana da Cilícia, na Ásia Menor. Nessa época uma cidade cosmopolita, bastante industrializada, pois a maior parte da sua população era constituída de tecelões. Era ainda importante empório comercial, que atraía a atenção dos mercadores da Grécia, da Assíria, do Egito e de outras partes do mundo antigo. Constituía além disso um grande centro cultural, que chamava a atenção de numero- sos filósofos e estudantes. O politeísmo constituía o sistema religioso importante em Tarso. Nas praças públicas, nos jardins e nos tem- plos, os deuses Asterté, Moloc, Ra e Baal, eram dentre muitos outros, adorados, balsamizando-se o ar com incenso e com a queima de outras especiarias. Os deuses mitológicos eram assim adorados pela população da cidade, cuja vida era um misto de escravidão, de libertinagem, de gozo, de prazer e de martírio. Nesse ambiente de viciações de toda a ordem os judeus que ali viviam procuravam viver na pureza, abominando as superstições pagãs e o sensua- lismo dos gentios. O jovem Saulo era filho de uma das muitas famílias judias de Tarso, desfrutando portanto o direito de cidada- nia romana, procurando, a exemplo do que sucedia com os seus patrícios, preservar-se das contaminações do meio ambiente. Os judeus mais abastados, que viviam fora das terras de Israel, procuravam mandar seus filhos varões a Jerusalém, a fim de aprenderem dos rabis as lições da Tora Sagrada. Saulo de Tarso era um deles. Enviado a Jerusalém ali passou a viver como discípulo do rabi Gamaliel, principal dos fariseus. Nessa cidade começavam a fervilhar as idéias cristãs. Animado de acirrado fanatismo, fiel e convicto dos princípios religiosos de seus pais, percebeu a ameaça que a nova Doutrina representava para a sua seita e com isso reagiu com todas as energias da sua mocidade, tornando-se um dos mais ferrenhos perseguidores do Cristianismo nascente, fazendo-o com base nos códigos violentos impostos pelo mosaísmo, tendo a impiedade coo apanágio. Todos sabem o que sucedeu em seguida: as perseguições movidas contra os primitivos cristãos, as quais co- limaram com o apedrejamento de Estêvão, o primeiro mártir da Boa Nova, após a crucificação de Jesus Cristo. Entretanto, o Cristianismo precisava de um desbravador destemido, de um homem intelectualizado, que le- vasse os ensinamentos redentores de Jesus ao seio das nações mais poderosas da Terra, por isso, o Espírito gene- roso de Jesus foi buscá-lo na Estrada de Damasco, e após essa conversão o jovem tarsense iniciou a gigantesca ta- refa de consolidar, em nosso planeta, a Doutrina consoladora que os Céus haviam revelado à Terra. “Este é para mim um vaso escolhido”. Com estas palavras o Espírito amoroso de Jesus esboçou o papel que Paulo de Tarso viria a desempenhar no processo de revelação e consolidação do Cristianismo nascente. “Vaso es- colhido” significa Médium escolhido, uma vez que o médium, no caso em apreço, deveria ser um vaso adequado à recepção da essência dos ensinamentos divinos - um receptáculo das consoladoras mensagens que os Céus fariam baixar à Terra e um elo de ligação entre os mundos corpóreo e espiritual. Por isso, certa vez, quando o jovem de Tarso era atormentado pelo peso do trabalho que tinha diante de si, o Espírito de Jesus, pondo-se a seu lado, lhe disse: “Coragem! Pois do modo por que deste testemunho a meu respeito em Jerusalém, assim importa que também o faças em Roma”.(Atos, 23:11)
  • 88.
    Capítulo 42 AS CARTASPAULINAS INTRODUÇÃO As epístolas são uma séria de textos deontológicos (estudos dos deveres e obrigações), em forma de cartas, escritas por alguns apóstolos. São ao todo 21 epístolas didáticas, sendo 14 de autoria de Paulo de Tarso. As outras 7, chamadas universais, são assim chamadas pelo fato de não serem dirigidas a povos ou pessoas em particular, mas aos cristãos em geral. Paulo de Tarso nasceu em Tarso da Cilícia (hoje Turquia) aproximadamente no ano 10, descendente de uma rica família judaica, do clã de Benjamim, sendo ao mesmo tempo cidadão romano. As epístolas, ou cartas, nasceram da necessidade de levar orientação ou intervir onde a presença de Paulo, ou sua voz, não pudesse chegar “afim de apaziguar litígios, dissipar dúvidas, aconselhar, aplicar remédio a inconveni- entes, dirigir e iniciar o bem”, segundo as necessidades de cada Igreja por ele fundada ou dependente de sua prega- ção. Suas cartas são tão inspiradas que se pode dizer que elas contêm toda a substância da doutrina e da moral cristãs. Como se sabe, Paulo não escreveu sozinho essas cartas, e esteve sempre acompanhado de pessoal de sua confiança que lhe ajudava a manter um padrão ideal, onde a inspiração para abordar esses temas era mais fácil. As epístolas são dirigidas às Comunidades ou pessoas, mas ele próprio solicitava a divulgação dessas cartas entre todas as Igrejas. As trocas deviam ser freqüentes entre aquelas comunidades fervorosas que ele fundara. De Paulo aos Romanos Na epístola aos Romanos, com ampla visão e com vigor de pensamento, ele expõe o Evangelho de Jesus, que já vinha pregando por longos anos em suas viagens missionárias. Nessa carta não trava polêmica, nem pretende eliminar erro ou combater os judaizantes que lhe criavam obs- táculos. A epístola foi escrita em Corinto, nos primeiros meses do ano 57, mais ou menos, antes da Páscoa; e seu tema é a redenção para todos pela fé no Evangelho. Fala da responsabilidade dos que, privados de fé, se perderam, por própria culpa, nas aberrações da má es- colha. E dos que apesar de se gloriarem da Lei, são transgressores dela e não têm espírito crítico. E chega a concluir que todos os homens são devedores, mas que são justificados pela fé, pois é pela fé que alguém se torna herdeiro. Esta fé, conforme Kardec, se torna raciocinada e decorre do conhecimento. Paulo ainda mostra que aqueles que sabem aproveitar a experiência nas tribulações possuirão um dia a glória de Deus. “Pois sabemos que a tribulação produz constância, a constância prova a fidelidade e a fidelidade compro- vada produz a esperança, E a esperança não ilude porque o amor de Deus foi derramado nos corações”. (5:3-5) Fala ainda do primeiro homem, como símbolo da Humanidade e introdutor do mal no mundo e, como conse- qüência, o aparecimento da Lei: “Sobreveio a Lei para que abundasse o pecado. Mas, onde abundou o pecado, su- perabundou a graça”(cap. 5:20). Mostrou que as numerosas proibições e prescrições da Lei são para muitas criaturas ocasião de transgressão; mas que a graça pela justiça reina para a vida eterna. No cap. 6 fala da importância da reforma íntima, atualmente pregada pelo Espiritismo, como essencial ao crescimento de cada criatura, aconselhando a morte do homem velho em nós, para que surja o homem novo, não mais escravo do mal. Paulo ensina que o verdadeiro cristão é servo da Justiça pois é libertado do mal e tem por fruto a sanidade. “Porque o salário do pecado é a morte; enquanto que o dom de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus”. (Cap. 6:23) E continua mostrando que o cristão é livre da escravidão da Lei; e que a atuação de cada um “realiza-se con- forme a renovação do Espírito e não sob a autoridade envelhecida da letra”. (Cap. 7:6) Mostra ainda, que somos filhos e herdeiros de Deus e como tais devemos participar da vida. E dá a todos a certeza da redenção, reproduzindo Num., 14:19, SI., 27:1, 55:11, 118:6, Jó., 34:29, dizendo “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (cap. 8:31). Aliás, em Hb., 13:6 ele repete o mesmo conceito. O apóstolo sente tristeza pela falta de compreensão do ovo israelita em relação às revelações trazidas por Jesus através do Evangelho. Se bem que Paulo sabe que tudo isso é passageiro. Pois todos hão de se converter no devido tempo. No cap. 11:33 a 36 tece hino à sabedoria, bondade e onipotência de Deus. No cap. 12 dá conselhos e preceitos morais. Fala claramente no versículo 2 na reforma íntima, quando diz: “Não vos conformeis com este mundo, mas reformai-vos pela renovação do vosso espírito, para que saibais aquila- tar qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito”. Ensina a importância do bem comum, antes de tudo e do bom uso dos dons individuais em benefício da co- munidade. Fala da caridade fraternal e da importância de não pagar a ninguém o mal com o mal, mas de fazer o bem diante de todos os homens, acrescentando: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem”. (Cap. 12:21) No cap. 13 diz da importância de se ser submisso às autoridades, não somente por temor do castigo, mas também por dever de consciência.
  • 89.
    As Cartas Paulinas87 Ensina que “o amor não prejudica ao próximo. O amor é o pleno cumprimento da Lei”. (Cap.13:13) Recomenda a vigilância, a pureza e o dever de tolerância com os fracos na fé, com bondade, sem discutir as suas opiniões, pois cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus. (Cap. 14:1 e 12) No cap. 15 exorta ainda à condescendência mútua. Termina o capítulo escrevendo sobre o projeto de viagem a Roma e suas intenções em relação aos irmãos que gostaria de ver quando estivesse a caminho da Espanha. Fala da sua iminente viagem a Jerusalém para ajudar esses irmãos e da coleta feita na Macedônia e na Acaia para esse fim. Esta carta, cheia de recomendações altamente doutrinárias, foi e é o baluarte da sistematização de algumas religiões. De Paulo aos Gálatas Esta epístola foi escrita para levar orientação a essa comunidade que estava sofrendo a influência de cristãos vindos do judaísmo e muito apegados às práticas tradicionais. Introduziram-se nas Igrejas da Galácia, sustentando a prática de circuncisão como necessária à redenção. Diziam que Paulo pregava uma distorção do Evangelho do Cristo, pois não era apóstolo verdadeiro, visto não ter recebido a missão diretamente de Jesus. Por isso estava em desacordo com os verdadeiros pregadores e estava à procura unicamente de favores humanos. Paulo prova na primeira parte dessa carta que pregou o verdadeiro Evangelho de Cristo. Ele reivindica a sua autoridade apostólica declarando no cap. 1:1 e 12 que: “O Evangelho pregado por mim não tem nada de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo”. Confirma que seu Evangelho foi aprovado por Pedro, João e Tiago (2:1-10) e lembra o incidente de Antióquia onde defendeu a pureza da doutrina defrontando-se com Pedro. (2:11-21) Na 2a parte da carta, Paulo demonstra a importância da fé no Cristo para que o homem possa verdadeira- mente conhecer a verdade. Para que isso ocorra é necessário o estudo da Sagrada Escritura, do Evangelho e de sua vivência. É, pois, preciso conservar a liberdade cristã e não abusar da própria liberdade. Levando vida espiritual, prati- cando a virtude, a abnegação, a caridade, a beneficência. Exemplificando no cap. 6:7-8: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba. O que o homem semeia isso mesmo colherá. Quem semear na carne, da carne colherá a cor- rupção; quem semear Espírito, do Espírito colherá a vida eterna”. No final, de próprio punho, retoma a parte polêmica e moral e encerra com saudações e bênçãos. Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios Corinto, era a capital da província romana de Acaia, localizando-se em posição admirável,, pois dominava dois mares; destacava-se nas letras e nas artes, no comércio e nas riquezas que para lá afluíam da Itália e da Ásia. Em sua terceira viagem missionária, Paulo fixou residência em Éfeso, capital da província romana da Ásia, mas mantinha-se sempre informado sobre o estado de cada comunidade cristã que fundara, orientando-as em suas dificuldades e mantendo-as no fervor primitivo. Esta primeira carta aos Coríntios divide-se em três partes distintas, correspondendo às diferentes razões de Paulo tê-la escrito. Na primeira parte, o Apóstolo dos Gentios condena as divisões e escândalos nos partidos da comunidade cristã; na segunda, apresenta soluções a problemas diversos e na última, fala da ressurreição dos mor- tos e do corpo espiritual. Paulo toma conhecimento de que entre os cristãos de Corinto havia surgido divisões. Uma distinta senhora coríntia, por nome Cloé, informou Paulo sobre o estado da igreja na capital. Lá se digladiavam quatro partidos: o de Apolo, o de Pedro, o de Paulo e o do Cristo. Estas dissensões nasciam do culto exagerado da personalidade, tão do espírito helênico. Acrescia a idéia de que o batizado teria dependência espiritual com o batizante. O grupo que se recrutava de Apolo (ausente) se arvorava em adversário de Paulo. Apolo e Paulo eram ami- gos, unidos pelo mesmo ideal apostólico. Porém de gênios diferentes. Dos discursos de Apolo saíam os ouvintes satisfeitos com o orador, e com a inteligência iluminada pelas bele- zas do Cristianismo - dos sermões de Paulo se retiravam silenciosos, insatisfeitos consigo mesmos e prontos para sérias resoluções. Uma terceira facção, desfraldava a bandeira de Cefas (Simão Pedro), não reconhecia em Paulo um verdadei- ro representante do Cristo mas um apóstolo de segunda categoria, que nunca vira Jesus, sem autoridade apostólica pela sua vida errante. Quanto a Apolo diziam, um filósofo pagão, um verdadeiro perigo para o Cristianismo. Simão Pedro nada disto sabia. O quarto partido, formado por um grupo que se intitulava “cristão superior”, rejeitava todo e qualquer interme- diário humano. “Paulo compreendeu que urgia uma medida imediata e enérgica, e toda a demora agravaria a situação”(Paulo de Tarso, Humberto Rohden, n. 48). Diz esse mesmo autor que essa primeira Epístola aos Coríntios, “foi escrita da oficina de Áquila que se tornou o berço de um dos mais belos documentos apostólicos que a cristandade possui”. A Epístola começa com a saudação e agradecimento a Deus pelos benefícios que lhes concedeu. Reprova os abusos, de todas as espécies como a formação do partido aos diversos pregadores do Evangelho. Pregou a doutrina da cruz com simplicidade, em oposição a sabedoria humana, e a anunciou aos espirituais e não aos carnais. Anunciou o envio de Timóteo e a sua própria ida a Corinto.
  • 90.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho88 Paulo ensina a tolerância para com as faltas alheias porém recomenda cuidado com a convivência mostrando, através de analogia, que um pouco de fermento velho dos impudicos, dos avarentos, dos ladrões, dos idólatras, dos difamadores, dos bêbados, etc., pode corromper todo um núcleo. No versículo 8, do cap. 5, diz: “Assim celebremos a festa, não com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães já fermentados de pureza e de verdade”. Ensina ainda que não deve existir litígios entre os cristãos submetidos aos tribunais pagãos. Explica a gravidade do vício ou da impureza, dizendo no cap. 6:12 a 20: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me é útil”. Essa passagem mostra de maneira bem clara o livre arbítrio e a responsabilidade que dele decorre. Mostra a importância e as conseqüências dessa escolha até no corpo físico. E aconselha (cap. 6:18):”Fugi da impu- reza”... “ou não sabeis que o vosso corpo é templo do Santo Espírito, que habita em vós, o qual foi dado Deus”. Na 2ª parte da carta, dá respostas a diversas questões como: a) Matrimônio e celibato; legitimidade do casamento e direitos dos esposos (7:1-11); indissolu- bilidade do vínculo conjugal (7:1-14); caso de dissolução (7:15-17); circuncisão e escravidão (7:18-24); virgindade e viuvez (7:25-40), conforme costume social da época. b) As carnes imoladas aos ídolos: normas a serem seguidas levando em conta os fracos na fé, para evitar escândalo. c) Da ordem nas assembléias mediúnicas e do comportamento ideal de cada participante. d) Nos caps. 12, 13 e 14 classifica os carismas ou dons mediúnicos e seus empregos. Os três capítulos podem ser considerados como precursores de “O Livro dos Médiuns”, na codificação karde- quiana. No cap. 13 demonstra que a caridade é superior aos dons, pois sem ela a criatura pouco dá de si mesma, sendo portanto um trabalho deficiente. A caridade, diz, comprova-se pelas obras e jamais passará; é perene, tudo o mais é transitório. Complementa que três virtudes são excelentes: a fé, a esperança e a caridade, porém a maior delas é a caridade. (12:13) No final da segunda parte de sua carta condena a xenoglossia quando não trouxer benefício algum, “pois quem fala em outra língua não fala ao homem, visto que ninguém entende”. (14:2) Na terceira parte da primeira Epístola aos Coríntios, Paulo empenha-se em esclarecer, para a época, o pro- blema da ressurreição dos mortos, mostrando o exemplo de Jesus. Diz que muitos viram o Senhor ressuscitado, “e se não há ressurreição de mortos, então o Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa prega- ção e vã a vossa fé”. (15:13 e 14) Comenta que nem toda carne é igual, que há carne de homens, de animais, de aves e de peixes, comple- mentado, por extensão, que há corpos terrestres e corpos celestiais. Diz que a ressurreição dos mortos, por analo- gia, assemelha-se à semente que morre para nascer dela a planta. Fala: “semeia-se corpo animal, ressuscita corpo espiritual. Se há corpo material, há também corpo espiritual”. (15:44) No item (15:54)faz uma síntese de todo o processo evolutivo da geração humana até sua chegada no reino angelical. Escreve: “E quando este corpo corruptível se revestir da incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória”. (16:14) Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios Esta segunda Epístola aos Coríntios foi escrita mais ou menos seis meses após a primeira, em decorrência da mudança de condições na Comunidade. Paulo, em síntese, refere-se aos incidentes passados, à organização de coleta e faz sua própria defesa das acusações que lhe são feitas, confirmando sua lealdade à comunidade de Corin- to. Um grupo de judaizantes provoca agitação no seio da comunidade e Paulo vai a Corinto a fim de restabelecer a paz, onde é ofendido por um cristão. Voltando a Éfeso, ele escreve aos Coríntios uma carta enérgica e severa, que se perdeu. Com o tumulto dos ourives de Éfeso contra Paulo, este parte e dirige-se a Trôade e daí passa para a Macedô- nia, onde encontra Tito e tem boas notícias de Corinto. Talvez de Felipos tenha escrito, no final da terceira viagem missionária, no ano de 57, a primeira e a segunda parte da segunda Epístola aos Coríntios, que é a mais pessoal das epístolas paulinas. De modo geral, os estudiosos de Paulo afirmam que ele não escreveu nada mais eloqüente, nada mais como- vente ou mais apaixonante que esta epístola. A tristeza, a alegria, o temor e a esperança, a ternura e o desdém vi- bram nela com a mesma energia. Na primeira parte da carta, Paulo defende-se da acusação de mutabilidade e de inconstância, e de habilidade muito humana acusado que era pelos seus adversários. Responde também às acusações de arrogância e de orgu- lho, com a glorificação do ministério apostólico. Aconselha a evitar o vício dos gentios. Na segunda parte da carta, lembra a importância e a participação na coletividade; incentiva a generosidade; recomenda Tito e os demais delegados. E diz dos grandes benefícios da esmola. Na terceira parte, volta a defender-se de seus adversários. Responde às acusações de debilidade e de ambi- ção. Pede desculpas e enumera os seus títulos de glória. Faz recomendações, saudações e votos finais.
  • 91.
    As Cartas Paulinas89 Epístola de Paulo aos Efésios A carta aos Efésios foi escrita em Roma, pelos fins da primeira prisão romana. Éfeso era uma cidade da Ásia Menor, hoje na Turquia. Nessa carta, Paulo fala primeiro do segredo divino da união do homem com Cristo. Diz que o homem foi predestinado por Deus desde a eternidade e daí sua filiação adotiva para com Ele, através da união em Cristo (cap. 1:3-6); em seguida, escreve que “Deus é riquíssimo em misericórdia, pelo Seu muito amor como nos amou”, acres- centando ainda que “todos são convocados para que sejamos edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra de esquina”. (2:20) No desenvolvimento da Epístola sustentou, ainda, que recebeu a incumbência de anunciar a universalidade da redenção em Cristo (3:1-13) e suplica a Deus que os fiéis possam compreender o seu imenso amor. (3:14-19) Paulo termina o cap. 3 com uma glorificação, dizendo: “Aquele que pela virtude que opera em nós, pode fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou entendemos, a ele seja dada glória na Igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações da eternidade”. (3:20-21) Na 2ª parte da carta, Paulo trata da Moral dizendo que a virtude principal da vida cristã é a caridade na unici- dade e a pureza de vida. (4:1-24) Nos versículos 21, 22 e 24, capítulo 4, Paulo ensina pregando a necessidade de despojar-se do homem velho, no que diz respeito ao passado corrompido pelas concupiscência da sedução. Para revestir-se do homem novo, cri- ado em justiça e santidade verdadeiras. Faz algumas advertências gerais a todos os cristãos. (4:25 e 5:20) Diz dos deveres dos membros da família cristã. (5:21-6:9) Lembra da necessidade da “armadura de Deus” para todo o cristão, para que não caia em tentação. (6:10-20) Aí, Paulo reafirma que a luta não é de sangue, isto é, entre irmãos de crenças diferentes, mas contra as pai- xões mundanas e os poderes do mal que delas decorrem. Numa bonita imagem literária, o apóstolo desenvolve o tema da “armadura”, isto é, da proteção: o “cinto” da verdade (conhecimento), a “couraça” da Justiça (equilíbrio com misericórdia)e as bases do Evangelho da paz (indicam o caminho da Sabedoria e o Amor). Empunhar o escudo da fé é fundamental para todo cristão, que enfrentará as dificuldades do caminho, consci- entes e seguros dessa “Armadura de Deus”. Complementa Paulo: a oração e a vigilância devem sempre estar pre- sentes no espírito. E termina falando da missão de Tíquico, que será o intermediário entre a comunidade e ele Paulo (6:21-22) e manda saudações a todos. De Paulo aos Colossenses Colossos, cidade da Frígia, situada no vale do Lico, floresceu bastante antes de Cristo, depois decaiu e foi, pode-se dizer, a epístola de Paulo que a tornou célebre. A igreja de Colossos foi fundado por Epafras, um gentio convertido à fé pelo Apóstolo Paulo. Essa comunidade era formada em grande parte por novos cristãos e por convertidos hebreus. Era fervorosa e bem instruída na fé. A carta foi escrita em Roma, por volta do fim da primeira prisão romana (ano 63). Nessa epístola Paulo discorre sobre a proeminência de Jesus Cristo, como autor da redenção da Humanidade e filho do Deus invisível que criou todas as coisas. Fala de seu ministério como Apóstolo dos gentios. Alerta contra os falsos doutores. Mostra que é de Jesus que vem a redenção ⇒ Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Na segunda parte da carta fala da necessidade dos cristãos levarem uma vida de virtude e santidade. Lembra a importância dos deveres mútuos dos esposos, dos pais e dos filhos, dos subalternos e patrões. Em o Livro dos Espíritos, Kardec trata desse assunto, mostrando que nada é por acaso e que a sociedade familiar é o lu- gar onde a caridade começa. Paulo mostra ainda a importância da oração, para ajudar a todos. Encerra falando da missão confiada a Tí- quico, que deveria informar a eles tudo sobre a situação que Paulo estava vivendo. Manda saudação a recomenda- ção a todos e assina de próprio punho. De Paulo a Filemon Esta epístola é, na verdade, um bilhete a Filemon, um cristão colossense de grandes posses. Tinha um es- cravo de nome Onésimo, que fugira de seus campos por motivo de roubo. Em Roma, conheceu Paulo e se conver- teu ao Cristianismo. Foi portador desta missiva. Após a saudação, Paulo dá graças a Deus pelo amor e fé de Filemon em Jesus. Faz um pedido a favor de Onésimo. Confiando no amigo, o apóstolo pede-lhe por caridade, em Jesus, em favor de Onésimo que se regenerara pela conversão na fé de verdade. Esta confiança chegava a ponto de lhe enviar de volta este novo irmão que Paulo conheceu na prisão e onde pregava o Evangelho. Como pela lei do mundo, na época, ele era escravo, o missionário pedia-lhe o consentimento em recebê-lo, não como servo, mas como irmão, o que era uma sugestão para Filemon libertá-lo. Comenta Emmanuel: “escrevendo a Filemon, disse Paulo:- mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que o teu benefício não fosse como por obrigação, mas espontâneo. Assim, também, o Divino Mestre para conosco. Aqui
  • 92.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho90 e ali, propõe-nos, de maneira direta ou indireta, ensinamentos e atitudes, edificações e serviços, mas espera sempre por nossa resposta voluntária, uma vez que a obra da verdadeira sublimação espiritual não comporta servos cons- trangidos”. Pode-se complementar que a disciplina antecede a espontaneidade. Ainda Emmanuel, no mesmo livro, lição 165, referindo-se ao mesmo item da carta de Paulo a Filemon (1:14), diz: “Ensoberbece-se (o homem) do poder de que dispões, afirmando, em determinados casos não sem motivo, que efetuou semelhante aquisição a preço de trabalho e sofrimento... No entanto, é o Senhor quem lhe propiciou os re- cursos para a conquista da autoridade, na expectativa de que ele a exerça dignamente”. Finalmente, seguindo a mesma sugestão de Paulo a Filemon, diz Emmanuel ao homem: “Rejubila-te, pois, com as possibilidades de auxiliar, instruir, determinar e agir, mas, consoante o ensinamento do Apóstolo, não olvides que a bondade do Senhor vige nos alicerces de tudo o que tens e reténs, a fim de que te consagres ao serviço dos semelhantes, na edificação do Mundo Melhor, não como quem assim procede, através de constrangimento, mas de livre vontade”. Em Caminho, Verdade e Vida, lição XVII, Emmanuel comenta o item 1:18 da epístola de Paulo a Filemon, quando o apóstolo fala: “E se te fez dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta”. “Devemos refletir que quando falamos em paz, em felicidade, em vida superior, agimos no campo da confiança, prometendo por conta do Cristo, porquanto só ele tem para dar em abundância”. De Paulo aos Tessalonicenses Ainda carregando as marcas do açoite que receberam em Filipos, Paulo e Silas, libertos do cárcere, refugiam- se em Tessalônica, hoje Salônica, importante centro comercial. Aí, durante três sábados, Paulo pregou na sinagoga, mas poucos judeus abraçaram o Cristianismo. Depois pregou para os gentios e bom número de pagãos converteu- se à nova religião. A nova comunidade cristã estava exposta a graves perseguições e perigos na fé. Paulo preocupado com isso, assim que chegou a Beréia e a Atenas enviou-lhes Timóteo para os sustentar e confirmar no espírito de união com Jesus. Paulo tem notícia que havia resíduos da vida pagã e de uma série de dúvidas, entre outras, algumas questões morais, sobre a sorte dos desencarnados etc... Paulo escreveu-lhes a primeira epístola. Foi escrita de Corinto provavelmente no ano 51 ou início de 52. Ele agradece ao Senhor pelo modo que o Evangelho aí foi recebido. Recomenda o seu trabalho evangélico e sua ternura materna para com eles alegrando-se com as boas notícias. Na 2ª parte, recomenda evitar alguns vícios; fala das condições dos que já desencarnaram; da segunda vinda de Jesus, através do Consolador e lembra do tempo da pa- rúsia (o momento de ser chamado para prestar contas), recomendando “Tomemos por couraça a fé e a caridade e por capacete a esperança da redenção”. Faz recomendações para que conservem a paz entre eles, que tenham paciência para com todos. Que não retribuam o mal com o mal mas que aspirem ao bem para todos. Lembra a necessidade de serem alegres pois o pensamento é criador e mantenedor da formas criando os céus ou infernos em que vivemos. Recomenda ainda a oração sempre a lembrança de dar graças a Deus para criar e manter padrões elevados. “Mas vos rogamos irmãos que vos aperfeiçoeis mais e mais”. (4:10) Ensina que não se deve desprezar as profecias, dizendo: “Examinai tudo. Retende o que for bom, guardai-vos de toda a espécie do mal” cap. 5:21,22. Kardec em O Livro dos Médiuns, cap. XXIII item 242, mostra que tudo deve ser analisado e selecionado para aproveitar-se só o que interessa para o crescimento moral da criatura. Conclui com saudação e recomendando a leitura da carta a todos os irmãos. (5:23-28) Mais tarde novas dúvidas surgiram e Paulo atento a sua amada cristandade, intervém com outra carta para instruí-la e avisá-la contra os semeadores de falsas doutrinas. Solicita a atenção para o justo juízo de Deus que dará a cada um segundo os seus méritos. (1:6-12) Mostra a necessidade da vigilância em relação às revelações e que deve ficar firme na fé. Relembra a importância da oração e do trabalho para que o Espírito progrida sempre. Fala da importância de não ser pesado a ninguém lembrando que a maior lição é dada pelo exemplo e recomenda: “Quem não quiser tra- balhar, não tem o direito de comer”(3:10(. Essa orientação já era dada no livro Gênesis no cap. 3:19: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto”. Em o Livro dos Espíritos, no livro terceiro - As Leis Morais no cap. III, existe todo um tratado sobre a Lei do Trabalho - onde toda ocupação útil é trabalho (LE, 675), todo o trabalho é educação e todo o trabalho é prece. Conclui com saudação. Epístola de Paulo aos Filipenses Filipos era uma cidade situada entre a Macedônia e a Trácia. Foi a primeira cidade européia que Paulo evan- gelizou (2ª viagem). Ao saberem de sua prisão e padecimentos os fiéis filipenses enviaram-lhe auxílio monetário em Roma. Profundamente agradecido, Paulo lhes escreve de coração aberto. Com uma sincera ação de graças a Deus, Paulo inicia sua carta rejubilando-se pela perseverança evangélica dos fiéis e dá-lhes o testemunho do seu amor. Paulo comenta sua prisão e todo o processo que se seguiu, incluindo sua desditosa viagem de cativeiro e as oportunidades do progresso do Evangelho através disso. Ao garantir suas esperanças de ser reconhecida sua sinceridade apostólica, reafirma: “Pois para mim, o viver é Cristo e o morrer é ganho” (1:21). Entretanto, continua exemplificando para sempre: “Se viver na carne é trabalho
  • 93.
    As Cartas Paulinas91 frutífero, permanecer na carne é necessário por vossa causa”. Ë sempre esse o seu testemunho de abnegação apostólica: renunciar por amor ao Cristo e à sua vontade. Em troca do seu sacrifício ele só pede que todos lutem pelos ensinos do Evangelho, pela prática do amor e pela fé. Convoca todos à perseverança no amor fraternal e à unidade na humildade (cap. 2). Paulo afirma aos Filipenses que se mantém com harmonia e paz graças ao “conforto que há em Cristo (pela sustentação, orientação, bálsamo e esperança); pela consolação que ele encontra no amor de todos e por todos; pela sua comunhão com a Espiritualidade Maior e pela ternura e compaixão que recebe agradecido de todos, onde se torna uma só alma, um só pensamento, no mesmo amor. Nota-se nesta passagem, que a energia dinâmica de Paulo perde a força biológica e ganha na força espiritual da humildade e da fraternidade. Paulo está velho, cansado, sofrido, mas a cada dia, mais forte em Cristo, pelo Evangelho redentor. Ele estimula seus fiéis ao exemplo de Jesus, que tendo a condição divina, isto é, os dons sublimes do verbo de Deus (Jo., 1)não se considerava igual a Deus, antes despojou sus glória junto ao Pai, assumindo a condição de servo, tomando a semelhança humana (ver a transfiguração de Jesus, Lc., 9:28), quer dizer em “homem como os outros”, partilhando das condições do estágio hominal. Com todo seu poder e autoridade moral, Jesus se humilhou e se submeteu, obedientemente, até o fim de sua tarefa planetária, comprovando aos homens comuns que, à tempestade da luta, segue a bonança da espiritualiza- ção. Por isso Deus o exaltou na ressurreição que é dada pelo Pai e o agraciou com o divino título (ou nome) inefá- vel que se exprime no “Senhor” acima das categorias angélicas. (Hb., 1:4) Seguir a Jesus, continua Paulo, é operar a redenção pela abnegação sem reclamações, para, “mesmo no meio de uma geração má e pervertida”, se tornar puro, filho de Deus, luz no mundo, mensageiro da palavra da vida. (2:16) A partir do cap.3, Paulo faz advertências aos Filipenses, retomando outro assunto, o que levou a muitos estu- diosos interpretarem como um bilhete independente. Seu primeiro cuidado é com os falsos doutores da lei, que até hoje, proliferaram entre os incautos. Líderes religiosos, quando falidos obreiros da vida eterna, são maus operários, cegos conduzindo cegos, tú- mulos caiados que se apegam a rituais que encobrem suas reais intenções (em quaisquer religiões). O próprio Paulo relembra sua origem e passado judaico (de hebreu, filho de hebreus, diferente dos gregos) (3:5), reconhecendo-se irrepreensível e sincero adepto da Lei de Moisés. Mas desde que considerou Jesus como Mestre dos Mestres, ele tudo perdeu para ganhar a Cristo, não pela justiça da lei, mas pela justiça superior que vem de deus (Seu atributo), justiça essa que ele, Paulo, apoiava na fé (a justiça com misericórdia). Paulo escreve da esperança de sua ressurreição como Espírito Puro em Cristo; enfatiza a humildade de não se reconhecer pronto para a redenção e afirma sua perseverança consciente na evolução do espírito. (3:12) E ensina como caminhar: esquecendo-se do passado e avançando para o futuro, para a meta que vem de Deus, por Cristo Jesus (o caminho da verdade), com a confiança e raciocínio (a fé pala razão). Paulo exorta à alegria no Senhor, através do cumprimento dos deveres cristãos. Ensina que não há motivo para inquietação no espírito bom, mas todas as necessidades podem ser apresentadas a Deus, pela oração e pela súplica, em ação de graças. A paz de Deus, que excede toda a compreensão humana guardará o coração e pensa- mentos de seus filhos. Para finalizar, o missivista aconselha seus irmãos a se ocuparem de tudo que é nobre, verdadeiro, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que mereça louvor, isto é, recomenda uma conduta ideal de vida, em todos os tempos, mesmo para a filosofia grega na época, mas recomenda-o sob a prática evangélica, isto é, mais do que pelo dever, seja o homem bom e justo pelo amor. No final faz seus agradecimentos pelos seus enviados. Ao explicar que sabe viver os momentos maus como os bons, pois tudo pode n’Aquele que o fortalece. Paulo valoriza os cuidados e o carinho de seus irmãos da fé, pois comprovam a caridade e fraternidade que participam da aflição alheia. Primeira Epístola de Paulo a Timóteo Paulo escreveu três epístolas denominadas Pastorais, pois são dirigidas aos pastores de almas das Comuni- dades religiosas numa orientação direta e íntima sobre regras e observâncias dessas comunidades. São duas cartas a Timóteo e uma a Tito. No período da primeira epístola, Timóteo estava em Éfeso (1:3). Tem por objetivo fixar as diretrizes para a organização e direção das comunidades; sobre o comportamento ético (como sempre). Após a saudação, Paulo vai direto aos assuntos de sua preocupação: 1) Lembra a Timóteo a razão de sua permanência em Éfeso que era advertir alguns a não modificar a doutrina (O Evangelho) ensinada; não ficarem em discussões intermináveis (especulações judaicas relativas à genealogia dos Patriarcas e heróis do Antigo Testamento),coisas que não realizam os desígnios de Deus sobre os homens, mas que deveriam cultivar a caridade, a consciência sadia e a fé. O abuso da palavra deve ser evitado, principalmente entre os que não entendem o que dizem nem o que afir- mam (1:7). Em todos os tempos, “pretensiosas autoridades nos pareceres gratuitos, espalham a perturbação geral, adiam realizações edificantes, destroem grande parte dos germes do bem, envenenam fontes de generosidade e fé...” (Vinha de Luz, lição 15, Emmanuel). “O fim do mandamento é a caridade de um coração puro.”(1:4)
  • 94.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho92 2) Não há combate à lei mosaica, “que é boa se for usada legitimamente”(1:8), entretanto, lei existe para corri- gir as iniquidades, logo não é para os justos; ela indica os bons caminhos, mas não é a redenção em si. 3) O apóstolo convida Timóteo ao bom combate das suas responsabilidades com fé e boa consciência, pois sem princípios morais não há fé (1:18). 4) Paulo mostra a importância da oração (2:1). Aí encontra-se a recomendação do cultivo da prece, inclusive por todos os homens governantes e autoridades, para que possam ter paz com dignidade, única forma do conheci- mento da verdade, pois há um só Deus e um só mediador, Jesus Cristo. 5) Discorreu o apóstolo sobre os deveres e comportamento das mulheres dos mentores das comunidades reli- giosas, pois elas saberão também fazer profissão de servir a Deus com boas obras. Mostra ainda um Paulo de Tar- so radical quando afirma: “Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem”. - (2:12)... “mas ela será redi- mida na maternidade”. Estas afirmações de Paulo são consideradas, por alguns estudiosos, como acréscimo, mas elas também estão inscritas em I Cor., 11:3. De qualquer forma a frase “eu não permito” não parece ser de Paulo, sempre muito educa- do. No capítulo 3, ele aborda as qualidades de um bom dirigente da comunidade, ensejando sobriedade, bom sen- so, competência e indulgência. Deve ser pacífico, ter uma só esposa, enfim, ser bom e digno. Continua com a ori- entação a respeito das pessoas em geral (cap.5), às viúvas, prescrevendo que toda fraternidade e boa vontade co- meça no lar, pois quem não sabe cuidar dos seus, não pode cuidar dos outros (como na parábola do Mordomo Infi- el). 6) Paulo reafirma a liberdade do espírito (cap. 6), pois até os que estão sob o jugo da escravidão devem se considerar livres em espírito. Ensinando como reconhecer o legítimo orientador espiritual, destaca a piedade como primeira virtude de um ancião religioso, porque a raiz de todos os males é a ambição. 7) Paulo estimula Timóteo (6:11): “Mas tu, homem de Deus, foge destas coisas”. Finaliza exortando-o à justi- ça, a fé, à piedade, à perseverança, à mansidão, como legítimas conquistas de um verdadeiro líder. É o bom com- bate para a vida eterna. Segunda Epístola a Timóteo Paulo está em Roma, no seu cativeiro final e pede a Timóteo que vá ter com ele. Temendo que não houvesse tempo para a chegada de Timóteo, o apóstolo dos gentios escreve-lhe como um testamento espiritual, conforme afirma Emmanuel em “Paulo e Estêvão”. Por ter tido Timóteo uma mãe e uma avó de fé e boa consciência cristã (1:5) e pelas bênçãos recebidas para suas tarefas, Paulo o exorta a reavivar sempre o dom de Deus pelo aprimoramento espiritual na prática e divulgação do Evangelho. Geralmente o homem acomoda-se com a paz, esquece-se das lutas passadas para alcançá-la e não se previ- ne contra os impulsos primitivos que podem ressurgir. No caminho do bem encontra tropeços e tentações reais ligadas a esse passado. A própria vida humana é uma condição de influenciações primitivas. Foi esta a razão da admoestação de Paulo a Timóteo para que vivificas- se sempre o “dom de Deus” no seu coração. Não importa fugir do passado, importa renovar o espírito com saber e amor. (Vinha de Luz, lição 30 - Emma- nuel) Paulo convida Timóteo para seu herdeiro espiritual e transmitir suas palavras evangélicas a outros que sejam idôneos para ensinar. Quem ensina ou dirige algo tem sempre que preparar continuadores, como fez o próprio Cristo. O bom discípulo assume sua parte de sofrimento na vida com dignidade, como um bom soldado do Cristo. O soldado não se envolve em questões civis, só deve satisfações aos seus superiores; o atleta (ainda que ganhe) não recebe a coroa se desonrar as regras; o lavrador deve ser o primeiro a gozar dos frutos. (Fonte Viva, lição 31 - Em- manuel) Enfim há trabalhadores de todas as classes, até dos que fiscalizam no serviço do vizinho e se esquecem do seu. Mas quem semeia, colhe. O mesmo acontece no campo espiritual: sem esforço nada se consegue. Paulo fala do perigo dos falsos doutores religioso (2:14). Diz que o bom cristão evita as discussões estéreis e estima a retidão da palavra da verdade; evita o falatório vão e inconsistente, pois a associação de palavras e pen- samentos condenam o homem. O verbo desregrado estimula a queda moral; cria a calúnia e o mexerico maledi- cente; é leviano e causa perturbações graves ao devedor. “Deus criou a palavra, o homem engendrou o falatório”, diz Emmanuel em Vinha de Luz, lição 73. O palavre- ado vão também é vicioso, um verdadeiro desvario da mente. Quem segue Jesus não pode ser injusto ou inconseqüente. Paulo aconselha Timóteo a fugir das paixões trai- çoeiras da mocidade, das questões insensatas e não educativas. Todo servo de Jesus é manso como seu Senhor e com suavidade ensina e ama (Pão Nosso, lição 98 - Em- manuel). Paulo, a seguir, fala dos perigos dos últimos tempos, da perseverança e do Evangelho (cap. 3).
  • 95.
    As Cartas Paulinas93 “Todos os que querem viver com piedade em Cristo serão perseguidos”(3;12). Como no tempo de Paulo, ain- da hoje, o discípulo fiel de Jesus sofre incompreensões, dificuldades e até perseguições. A lição a Timóteo para per- severar no Evangelho de Jesus deve ser assimilada por todos os novos discípulos, porquanto a luta é a mesma: o bom combate da reforma íntima. Paulo no ocaso da vida faz suas últimas recomendações (cap. 4). O apóstolo diz que já foi “oferecido em li- bação” e está pronto para a partida. Nos sacrifícios judaicos e pagãos “oferecido em libação” consistia em encher uma taça de vinho ou óleo, prová-lo e derramá-lo sobre a vítima. Diz que combateu o seu bom combate, fazendo sua reforma íntima, transformando-se em Homem Novo e guardando a fé na justiça do Senhor. Paulo sente-se feliz e convicto de ter cumprido sua missão e roga a Timóteo que vá encontrá-lo o mais rápido possível, pois somente Lucas está com ele. DE PAULO A TITO. DE PAULO AOS HEBREUS Epístola de Paulo a Tito Esta é mais uma epístola pastoral. Foi dirigida a Tito, presbítero de Creta. Tito, um caráter firme e confiável, era de origem pagã. Foi convertido por Paulo em sua 1ª viagem. Foi envia- do a Corinto para apaziguar a comunidade (2Cor., 7:5) e mais tarde, Paulo o envia à sua terra natal. Esta epístola foi escrita por volta do ano 64 para estimulá-lo e recomendar-lhe normas que lhe evitassem as dificuldades existentes. Após a saudação de praxe, Paulo lembra a Tito a necessidade de se instituir presbíteros (anciãos) como che- fes dos núcleos de cada cidade. Recomenda a requisição de homens dignos, de moral ilibada. (1:5-7), pois todo ecônomo das coisas de Deus, deve ser irrepreensível e fiel na exposição da doutrina pura. O apóstolo Paulo nunca se cansava de advertir, em suas epístolas, sobre os falso doutores, (1:10-16), pois muitos judeus convertidos, aceitavam Jesus como profeta, mas não como Messias, acrescendo que queriam exigir a circuncisão para todos. A preocupação de um sincretismo perigoso foi o tom de Paulo em todas as missivas. Diz Paulo (2:1-10) que Tito deve permanecer firme nos seus ensinamentos, que homens e mulheres sejam sóbrios e dignos, moderados e íntegros, sendo ele mesmo (Tito) um exemplo de conduta, tanto na exposição do Evangelho como nas práticas do mesmo. Na verdade, os ensinos de Jesus, quando assumidos consciente e integralmente modificam o pensamento do homem, mostrando-lhe como conhecer a si próprio, descobrir os prejuízos das paixões mundanas, produzir sua Re- forma Íntima, vivendo no muno com autodomínio, mas não separado do mundo. Todo trabalho para ser bem elaborado, tem suas exigências e norma de conduta que se coadunam com efei- tos finais. Ser zeloso no bom procedimento é compromisso do Aprendiz do Evangelho, assim como de todo bom cristão. Paulo finaliza destacando o cuidado com os homens insensatos e facciosos (3:9 e 10). Depois de uma ou duas admoestações, não se deve entrar em controvérsias inúteis, nem debates pela lei, pois quando o homem escolhe e combate por um lado, ele é sempre responsável por suas ações. Epístola de Paulo aos Hebreus Como o título indica, ela foi dirigida aos judeus da Palestina, perto da 64 d.C.. Os estudiosos do Evangelho e organizadores do Novo Testamento duvidaram, à priore, de sua autenticidade, não pelo seu valor que é imenso, mas por sua autoria. “Em Paulo e Estevão”, Emmanuel afirma que a carta foi escrita por Paulo e copiada por Aristarco, quando estava na sua prisão domiciliar em Roma. Seus destinatários estão espalhados pelo Império romano, onde os recém-convertidos sentem dificuldade do exílio, sem o amparo de uma fé de base sólida. A carta relembra a superioridade do Cristo e o perigo da apostasia, pela nostalgia dos esplendores litúrgicos do culto judaico, arraigado em seus espíritos. É em resumo um tratado da autoridade do Cristo, frente ao judaísmo, como cumprimento evolutivo da Lei do Amor, onde a fé é o esteio da perseverança no Bem. Paulo afirmava que Deus, antigamente, “se comunicou muitas vezes e de maneiras diversas com nossos antepassados, segundo a evolução do homem”. Depois do ciclo dos pro- fetas, o Senhor da Vida houve por bem enviar seu Filho: não um porta-voz como os outros, mas o seu Filho Ungido, cuja filiação lega a herança dos atributos divinos. O filho tornou-se mais do que os Anjos (altos mensageiros de Deus). “Tu és meu Filho, hoje eu te gerei”(Sl., 2:7) e o Senhor Deus determinou que todos os anjos o adorassem. “O teu trono é eterno e perpétuo, o teu cetro é de equidade”(Sl., 45:6). Paulo tem o cuidado de usar várias vezes o Antigo Testamento para provar a glória de Jesus que foi descrita nestes livros sagrados dos hebreus, pois falava ao seu povo. A mensagem dada pelos anjos na 1ª revelação é verdadeira (2:2), a que Jesus nos trouxe é complemento (Mt., 5:17). Se aceitamos a 1ª, como negligenciarmos a segunda que é seu cumprimento? Convinha, por isto, que o Cristo, por um pouco, participasse da condição de Filho do Homem, para provar a li- berdade e realidade da vida Maior (com a sua humildade e desprezo das paixões humanas para a gloriosa Ressur- reição) (2:5-10) O apóstolo explica que tendo Jesus sofrido todas as tentações das iniquidades da condição humana, provou aos seus irmãos menores que é capaz de socorrê-los nessas fraquezas, através de fé e das boas obras.
  • 96.
    Curso de Aprendizesdo Evengelho94 Paulo afirma que o Grande Apóstolo (enviado de Deus junto aos homens) e Sumo Sacerdote, que compadece dos homens junto a Deus (4:14), o Cristo e Messias prometido, era superior a Moisés que guardara fidelidade a Deus, como servo e testemunha das coisas que viriam, mas continuava com Jesus, conforme se verifica no episódio da transfiguração. O perigo da incredulidade é uma ameaça constante devido a dureza do coração humano (3:12). Os discípulos de Jesus devem animar uns aos outros na sustentação dos momentos difíceis. Essa dureza de coração se traduz nas contínuas deficiências do homem que não resiste ao orgulho e à vaidade de se considerar sempre o maior e o me- lhor. Moisés levou os hebreus do Egito, entretanto, esses mesmos se revoltaram no deserto, onde tiveram que ficar por 40 anos para se renovarem, sem repouso (espiritual). Usando todo seu antigo conhecimento da Lei Mosaica, Paulo comprova a seqüência da história religiosa judai- ca como trabalho contínuo do Plano Espiritual Maior. Mostra aos hebreus que Jesus, o Filho de Deus, continuava seu sacerdócio divino nos céus (Espiritualidade Maior), onde se compadecia das fraquezas e ignorância humanas. O Cristo não se gloria por ser o Representante Divino, mas Ele glorifica a Deus (Jo., 17:1) Após o ensinamento elementar a respeito do Cristo (cap. 6), Paulo procura penetrar e explicar a doutrina que anunciara. Tecendo palavras de esperança e encorajamento, exortando à paciência, à fé e à perseverança, lem- brando a perseverança de Abraão, o patriarca dos Judeus. Diz Paulo que a esperança é a “âncora da alma” que penetra além do véu, onde Jesus, como precursor entrou por nós, tornando-se o Sumo Sacerdote para sempre. (6:18-20) Do cap. 7 ao cap. 10 da epístola há três grandes subdivisões: a) Superioridade da missão de Jesus sobre os sacerdotes levitas. O sacerdócio de Jesus não é segundo a regra da conduta na vida material (conforme os le- vitas) mas para o poder de uma vida eterna e imperecível (7:16) (Meu Reino não é deste mundo). O sacerdócio levítico teve fim, mas o de Cristo é eterno. b) Continuando sua exposição aos judeus cristãos, os apóstolo fala que o ritual de dádivas e sacrifícios sacerdotais eram “sombra das realidades celestes”(8:5); mas o Cristo tem o ministério supe- rior porque é o único intermediário de um Novo Testamento, mas perfeito e completo do que o primei- ro (8:7) o que foi previsto por Jeremias. (Cap. 31:31) O Espiritismo diz que o sacrifício deve ser íntimo: da animalidade em favor da espiritualidade do homem. É o sacrifício das ilusões e paixões da carne. c) Mostra Paulo que o sacrifício de Cristo é divino e superior aos sacrifícios mosaicos, que eram transitórios e humanos. Sacrifícios exteriores não redimem e, muito menos, santificam ou modificam alguém. Não há sangue de touro ou bode que elimine pecado (10:4), complementa Paulo. Nem sacrifício, nem oferendas, nem holocaustos, nem promessas vãs que dependam de outrem. Jesus ensinou o sacrifício da oferenda de si mesmo em renúncia sublime na promessa da Vida Maior. A eficá- cia do seu sacrifício se traduz na fé, na esperança, na caridade que em todos os tempos convida o homem à reden- ção. Aos hebreus, no capítulo 11, Paulo fala da natureza da fé. Diz que os momentos da transição são os mais difí- ceis e exigem perseverança e constância na fé para evitar o perigo da apostasia. Quando o sofrimento surge, o ho- mem se joga intempestivamente a várias portas, em busca da paz, esquecendo-se que ela está dentro dele mesmo. A fé perseverante se torna vitoriosa pelas ações edificantes. “A fé que não ajuda, não instrui e nem consola, não passa de escura vaidade do coração”. Escreve Paulo que “a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se vêem”. (11:1) A fé é a confiança que se anima com a esperança, ganha alento com a caridade e se realiza na luz da verda- de. Os antigos hebreus tiveram fé exemplar, continua Paulo aos seus conterrâneos. Sem crer em Deus, é impossível aproximar-se Dele. Assim provaram Noé, Abraão, Moisés e outros. A fé é uma certeza intuitiva fincada na razão para não se tornar cega e inútil. Também a fé serve de base à razão para não se tornar cega e inútil. Também a fé serve de base à razão que nela se desenvolve: é a fé raciocina- da. No cap. XI, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 13, Kardec explana sobre o assunto e, no cap. XX, ele estuda os aspectos imanente e transcendente da fé. O imanente é a fé humana, esta força interior que leva o homem a realização de um ideal. O transcendente é a fé que o conduz a Deus; é a fé que liberta porque reconhece e confia em Deus, o Pai Supremo e Misericordioso. Conclamando a paternidade de Deus, o autor argumenta racionalmente que se os pais segundo a carne amam e educam, segundo seus conhecimentos, impondo aos filhos corretivos, a mesma coisa faz o Pai que está no Céu, agindo dentro de Suas Leis Divinas, perfeitas e imutáveis. O homem somente vê o momento e sente a tristeza por sofrer, mas toda disciplina “produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados”. (12:11) A infidelidade é o caminho contrário da retidão das leis morais, Aí é citado o exemplo de Esaú (12:16 e 17), que por leviandade trocou seu direito de primogenitura por um repasto e depois foi rejeitado, e foi grande o seu arre- pendimento (Gênesis, 25:33). Finalizando a carta, mostra Paulo o contraste entre o Sinai e o Monte Sião. De um lado trombetas e tempesta- des ameaçadoras, que até Moisés se disse “aterrado e trêmulo”(12:21) e de outro o Deus vivo envia Seu Filho Ama-
  • 97.
    As Cartas Paulinas95 do à Jerusalém celeste, com incontáveis hostes de amor”. O Mediador manso e meigo orienta a “Nova Aliança”; a ressurreição para a Vida Eterna através do código moral dos Espíritos: o Evangelho. (12: 22-24)
  • 98.
    Capítulo 43 AS EPÍSTOLASDO NOVO TESTAMENTO E O APOCALIPSE DE JOÃO EPÍSTOLAS UNIVERSAIS. DE TIAGO, PEDRO, JOÃO E JUDAS Introdução Existem sete epístolas no Novo Testamento conhecidas por “Universais”, pelo fato de serem dirigidas aos cristãos em geral e não só à comunidade e a particulares como as de Paulo. Elas foram escritas por Tiago Menor, Pedro, João e Judas. A epístola de Tiago somente foi aceita pelos cristão a partir do século IV. Tiago recomenda a prática da pala- vra do Senhor: “a fé sem obra é morta”(Tg., 2:17). Pedro indica os requisitos da nova vida e mostra os deveres dos cristãos. João ensina como “caminhar na luz” e viver como filhos de Deus com fé e caridade. Judas, “irmão de Tia- go, servo do Cristo”, adverte sobre os falsos doutores. Epístola de Tiago Ao que tudo indica, deve ter sido escrita por Tiago Menor, filho de Alfeu (irmão de Judas Tadeu) pois, o irmão de João foi morto no ano 44 por ordem de Herodes. Poderia ser de Tiago, “o irmão do Senhor”, descrito em Mateus, 13:55 e Gálatas, 1:19, mas foi escrita em grego, como a maioria das epístolas, o que estaria em desacordo com esse personagem. Destaca-se nela, solenemente, a chamada fé com boas obras, para tornar o homem perfeito. • A Fé: Tiago exorta de maneira diferente aos que sofrem, pois que se souberem sofrer e viver as dificuldades da vida com fé e perseverança estarão produzindo obra perfeita. • A Humildade: Tiago aconselha aos pobres e aos ricos a humildade, pois a vida é como a “flor da erva”(dura pouco tempo). • A Paciência: valoriza a provação, com paciência e vigilância, principalmente nas más influ- enciações. Quem se deixa arrastar pelo mal não pode culpara a Deus por seus sofrimentos posterio- res, pois o mal vem, na realidade, de dentro do homem; • A Palavra: não basta receber a Boa Nova, a palavra de verdade e do amor. É preciso prati- cá-la (1:23). Essa palavra liberta quem persevera nela. A religião sem mácula diante de Deus é a que pratica a caridade com os seus semelhantes e invoca a pureza do sentimento. (Cap. I) No cap. 2 vem sua advertência mais conhecida: a fé sem obra é vã. Todo homem será julgada segundo as suas obras, isto é, a mesma medida, e exemplifica claramente no versículo 14. A obra sem fé é incompleta. A fé pela obra é racional, consciente, valorosa; por isso o homem é justificado pelas obras e não apenas pela fé, pois, em conclusão, a boa obra é o resultado prático da fé perseverante. • Orgulho e vaidade: No cap. 3, Tiago adverte sobre o orgulho e a vaidade de posição e car- gos privilegiados e principalmente para o cuidado com a intemperança na linguagem, pois quem não domina a língua, não domina a si próprio. Ilustra com exemplos simples mas bem reais. • A Verdadeira e Falsa Sabedoria: assim como a árvore mostra seus furtos, o sábio se mostra pelo seu bom comportamento e suas obras de humildade e sabedoria. A verdadeira sabedoria que vem do alto é pura, pacífica, indulgente, conciliadora, misericordiosa. Aqui, Tiago compara a sabedo- ria com o amor e a caridade. (1Cor., 13) A falsa sabedoria é mentirosa, egoísta, invejosa, e, sobretudo, ambiciosa. Completando a epístola ()cap. 4 e 5) invoca a paz entre os fiéis através do respeito fraterno; proclama, mais uma vez, a Vinda do Senhor (Parúsia) assim como o lavrador espera o precioso fruto da terra que ele trabalha com paciência e amor. Estimula carinhosamente “se alguém sofre, recorra à oração; se está alegre cante”. Encerra com chave de ouro (5:20), dizendo “aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador salvará da morte uma lama, e cobrirá uma multidão de pecados”. Primeira Epístola de Pedro Esta epístola foi escrita no seu cativeiro final. É interessante saber que foi escrita em grego (talvez por Silvano como indica em 5:12). Sua finalidade é sustentar a fé, com perseverança nas atribulações. Nos seus 5 capítulos en- contra-se como temas principais: • A Luz da Verdade: pela revelação e pela fé (na herança concedida pelo Pai) e os requisitos de Renovação mental para a nova vida. Através da regeneração dos ensinos morais cristãos. (Cap. I) • A Justiça: os deveres cristãos para com todos, cuja obrigação maior é ser justo e bom até para com aqueles que nos ofendem; respeitar as autoridades constituídas; ser paciente, digno no ca- samento e com a família; ser livre mas não abusar desta liberdade para o mal, antes construir o bem.
  • 99.
    As Epístolas doNovo Testamento e o Apocalipse de João 97 Ser compassivo, fraterno, misericordioso e humilde de espírito, para ser digno da Herança Divina (cap. 2 e 3) Enfim, honrar para ser honrado. • A Liberdade: romper com os erros, vícios e defeitos (iniquidades) para viver segundo a von- tade de Deus, aplicando-se tanto para os encarnados como os desencarnados (4:6) • O Amor: ser bom com vigilância moral, necessidade de ajuda mútua, usar a Boa Nova como exemplificação. Pedro aclama a felicidade daquele que sofreu com Cisto (Bem Aventurados os que Sofrem) e cita o Provérbio. (Cap. 11:31) “Se o justo com dificuldade, consegue redimir-se, em que situação ficará o ímpio e pecador?” Fala que “está próximo o fim de todas as coisas”, recomendando sobriedade e vigilância em oração, “mas, so- bretudo, tende ardente amor uns para com os outros, porque o amor cobrirá a multidão de pecados”. (4:7-8) Diz Pedro, praticamente, o mesmo ensinamento colocado por Tiago, ao encerrar sua epístola. Segunda Epístola de Pedro No cap. 1º Pedro assinala a liberdade de Deus com seus filhos na reafirmação da Herança Divina. Por amor a seus filhos, enviou seu Ungido em sua “glória e virtude” para que todos o conhecessem e partici- passem da natureza divina. Indica, então, como evoluir para ser merecedor das recompensas. No depoimento apostólico, que soa como despedida, declara ter sido testemunha ocular da transfiguração do Mestre (Mt., 17:1); relembra as profecias das Escrituras que já anunciava a glória do Messias. Para isso, recorda as lições do passado, reafirma o justo e misericordioso. Todo erro tem o momento de transformação que se pode chamar de castigo, expiação ou reajuste, pois toda ação tem sua reação condizente. Chegando ao terceiro e último capítulo. Esclarece a oportunidade desta epístola que é despertar o homem pela fé e moral prática, exortando-o a não se levar pelo materialismo, pois que não sabe quando o Senhor o chama- rá. Alerta, então, para que as dificuldades doutrinárias não se tornem discussões estéreis que estagnam o pensa- mento. Epístola de João O apóstolo João deixou três epístolas cuja literatura doutrinal se assemelha ao conteúdo do seu Evangelho. Em virtude de sua primeira carta ser a mais completa (as outras duas são como ligeiras mensagens, procura- se interpretá-la na oportunidade atual). Buscando o essencial de sua vasta experiência sigilosa, João revalida a retidão de caráter e os filhos de Deus. São 5 capítulos que se ligam entre si. a) Caminhar na Luz (cap. 1º e 2º) Deus é luz, não se pode estar com Deus e viver na iniquidade social, moral e espiritual. A palavra de Deus é a Fonte da Vida e seu verbo encanado, Jesus nos trouxe essa palavras que é luz e amor e se reconhece pela fé e fraternidade. A palavra luz, ilumina os caminhos da evolução e a 1ª condição do Aprendiz do Evangelho é “romper com o pecado”(1:8), isto é, conscientizar-se dos erros, (ser e não parecer), erradicando-os no conhecimento e prática das virtudes. A 2ª condição é observar os mandamentos, principalmente o da caridade. Quem diz “Eu os conheço” mas não os pratica, não guarda a verdade, não está com Deus (2:4). As leis de afinidade e sintonia regem as relações comportamentais, pois tudo é vibração e vida no Universo. A 3ª condição é preservar-se dos prejuízos do mundo, suas paixões, suas ilusões que indu- zem o homem ao mal (2:15), como a cobiça da riqueza, o orgulho, a concupiscência, a vaidade dese- quilibrada etc. Viver no muno, mas não ser do mundo, é o equilíbrio para aprender, servir e evoluir. A 4ª condição é ter cuidado com os “Anticristos”, isto é, aqueles que se dizem pertencer ao meio da fé, mas antes que tudo se enfurecem com a verdade da palavra, distorcendo-a (2:18). Como reconhecê-lo? É todo aquele que nega o Pai e o Filho nas suas manifestações de amor e misericórdia como nos seus mandamentos. b) Viver como Filhos de Deus (cap. 3) Todo filho deve se mostrar digno do Pai. A dignidade é uma conquista, uma autoridade moral, qualidade de quem é digno, isto é, me- recedor da nobreza espiritual, logo requisita as mesmas quatro condições do caminhar pela luz (descritas acima). Ao romper com as iniquidades, o princípio da reforma íntima se efetua (3:3); ao observar os mandamentos, destaca-se que “fora da caridade não há salvação”. É de relevante importância a advertência de João contida no cap. (4:1): “Amados, não creiais em todos os Espíritos mas provai se os Espíritos são de Deus, porque já muitos falso profetas se têm levantado no mundo”.
  • 100.
    Curso de Aprendizesdo Evangelho98 “Porque esta é a mensagem: que nos amemos uns aos outros”(3:12); tendo cuidado com os falsos profetas, através da análise do conteúdo de suas mensagens e de seus atos pois, pelos frutos se conhece a árvore”. c) As fontes da caridade e da fé Cheios de amor, o apóstolo João, encerra sua carta recomendando a Fonte da Caridade, o amor, conjunto de todas as virtudes. Quem não ama com pureza de sentimento, não conheceu a Deus, porque Deus é amor (4:8) por todos os tempos planetários, o amor de Deus nos acompanha em manifestações de misericórdia e progresso. Afirma: ninguém jamais contemplará a Deus (4:12) mas se nos amarmos uns aos outros ele permanecerá em nós no Hausto do Seu Augusto Pensamento e em Jesus, seu filho iluminado, nosso Senhor, como o próprio Mestre nos ensinou a fim de que todos sejam um. (Jo., 17:21) A fonte da fé: Jesus Cristo, o testemunho de Deus em seu filho Amado. Quem crê em Jesus é vencedor do mundo (5:5) pois no sentido profundo se eleva acima de suas deficiências, aprimora-se na renovação mental, é testemunho do Evangelho redentor. No complemento, João estimula a fé na oração íntima e pelos semelhantes (intercessão). Epístola de Judas Na epístola, Judas denomina-se irmão de Tiago, servo de Jesus Cisto; logo filho de Alfeu e irmão de Tiago, o apóstolo. É mesmo que hoje se conhece com o nome de Judas Tadeu. Na realidade, a Epístola foi aceita desde o ano 200 pela maioria das Igrejas como escritura canônica. A intenção de Judas parece ser a de estigmatizar os falsos doutores, quer dizer, o destaque do seu conteúdo é a preservação da doutrina contra os falsos profetas ou doutores que se dizem conhecedores dela, mas que, com malícia e degradação, colocam em risco a fé cristã. Censura a licenciosidade e a impiedade, que podem ter existindo no meio cristão desde o século I, sob a influ- ência do sincretismo pagão e que foram igualmente combatidas nas Epístolas de Paulo. Alerta quanto à necessidade do “combate pela fé”, (uma equivalência ao bom combate de Paulo), pelo en- grandecimento espiritual da criatura (vers. 3) Relembra as palavras de Jesus, quanto à divisão causada pelos segui- dores da iniquidade (vers. 17 a 19) e aconselha e edificação de cada um na esperança e misericórdia de Jesus, exortando os fiéis à caridade. O APOCALIPSE DO APÓSTOLO JOÃO - PRIMEIRA PARTE Introdução Apocalipse é uma palavra de origem grega, significando “revelação do futuro”; descerrar o véu. Para entender o Apocalipse é necessário aprender a técnica de traduzi-lo ou decodificá-lo, tal como um código secreto. O conhecimento da Verdade pelo homem de hoje, ainda é pequeno, mas o estudo da História da Humani- dade, pode auxiliá-lo nesse intuito. Esse desenvolvimento conjuntural histórico ensina que o valor do apocalipse encerra advertência a todos os povos e nações da Terra (A Caminho da Luz, cap.XIV - Emmanuel). Aonde a capacidade humana do fiel apóstolo não pôde traduzir a “expressão divina de suas visões”, o homem atual coloca o bom senso e o esforço da Reforma Íntima até que possa compreendê-las. de qualquer forma, as guerras, as transformações, o sofrimento dos povos, o comercialismo fraudulento das idéias e ações do espírito (tanto no plano social como religioso), lá estão gravadas. Os Apocalipses já eram conhecidos dos judeus (principalmente os essênios de Qunrã, vários séculos antes do Cristo (Bíblia de Jerusalém). Ex.: O apocalipse dos profetas Ezequiel, Zacarias, e Daniel, no Antigo Testamento (fazem parte de seus livros), cujo simbolismo é bem parecido ao dos escritos de João, incrustado no Novo Testa- mento, extraídos da Cabala oral sendo que o discípulo de Jesus imprimiu conotações do ocultismo greco-romano. João Evangelista, filho de Zebedeu, irmão de Tiago, escreveu-o na ilha de Patmos (cap. 18), no final do 1º sé- culo (entre 70 e 95 d.C.), na língua grega, e é como “um plano estabelecido” na evolução das civilizações (anos de Nero e Domiciano, imperadores romanos implacáveis). O seu sentido maior e essencial é o reerguimento do ânimo dos cristãos que após tantos sofrimentos encontra- rão um final de Redenção, com a vitória do Bem. Além da mensagem esotérica (de integração cósmica), temos a sua interpretação histórica, divididas em 2 partes e apresentadas como “Revelação de Jesus Cristo” (cap. 1:1) 1ª parte - Os acontecimentos em Roma e as cartas às igrejas (cap. 1 a 3) 2ª parte - I - Os prelúdios do grande Dia de Deus (cap. 4 a 16) II - O castigo da Babilônia (cap. 17 a 19) III - O extermínio das nações pagãs e higienização da Terra (cap. 19 e 20) IV - A Jerusalém futura (A cidade de Deus). Epílogo, cap. 21 e 22)
  • 101.
    As Epístolas doNovo Testamento e o Apocalipse de João 99 Conclusão - O apocalipse fala em desdobramentos espirituais, vidas sucessivas, pluralidade dos mundos, pro- vações e emigrações coletivas, para tudo desaguar no oceano universal da paz do Reino de Deus, na Cidade de Deus, como interpretou Santo Agostinho. 1ª parte 1º CAP.: ENDEREÇO E VISÃO PREPARATÓRIA No 1º versículo encontra-se a autenticação da “Revelação de Jesus Cristo”, sublinhando que foi dada a Ele por Deus, que notificou, por sua vez, ao Servo João, que dá o seu testemunho. “Bem aventurados aqueles que vêem e os que ouvem as palavras desta profecia”(1:3). Não adianta apenas a letra, é importante guardar o sentido moral que nelas estão inscritas, pois são avisos para alterar e prevenir porque o tempo está próximo”. João se dirige aos 7 núcleos cristãos principais da Ásia - as 7 Igrejas (1:11), e se diz da parte de Jesus Cristo (1:5). Confessa que foi “arrebatado em Espírito”(desdobramento em êxtase), descrevendo a seguir o que via e ouvia (1:10): “O que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas que estão na Ásia: a Éfeso, Smirna, a Pergamo, a Tiatira, a Sardo, a Filadélfia e a Laodicéia (1:11). Não cabe, nesse estudo, aprofundamentos nos arcanos apocalípticos, mas, como sempre, buscar o conteúdo instrutivo e moral. Essas 7 igrejas da Ásia encontram seu significado no Oriente, berço dos primeiros caminhos religiosos com suas filosofias espiritualistas fundamentais. As letras e as palavras vestem as relações (ou razões) entre os pensamentos. Os números e sua fórmulas matemáticas vestem as equações (razões) do universo. Ambos são a linguagem da Natureza. Partem dos rendi- mentos do nosso conhecimento, atravessam a ponte da espiritualidade pela razão (e seu relacionamento com o sa- ber), alcançando a abstração do que não se vê, pela fé. Assim, os 7 castiçais de ouro de profunda conexão da tradição judaica, representando as 7 igrejas, são os condutores da Luz Espiritual Divina, Inteligências purificadoras, Legiões de Justiça e Poder. Os aparentemente surpreendentes “cabelos brancos como algodão”(1:14) comprovam, mesmo numa visão escatológica, a antigüidade divina de Jesus Cristo perante a Terra e sua humanidade; daí o ter dito: “Não temas, eu sou o primeiro e o último”(1:17 e 2:8). 2º E 3º CAPÍTULOS: AS EPÍSTOLAS ÀS IGREJAS É interessante notas que não são as mesmas dos endereços de Paulo. São mensagens de estímulo à oração e à vigilância; de advertências e demonstrando conhecer os corações dos dirigentes e fiéis. Delas ressalta que não é a religião como dístico de fachada que salva, mas a fé e as obras na responsabilidade. Sete é o número simbólico considerado perfeito que engloba todo o Verbo e a Criação. São os Espíritos da Co-Criação Maior, que encontram correspondência em todas as grandes religiões, embora com nomenclaturas di- versas. Em resumo, o conteúdo dessas cartas é semelhante a todos os tempos; as religiões se perdem nos caminhos do ritualismo, do mercantilismo, do fanatismo que alimenta os orgulhosos, materializando o sentido espiritual no tri- vial acomodado da vida, de vez em quando um abnegado operário de Jesus, estimula o retorno ao plano transcen- dental da alma, acima dos interesses mundanos. 2ª parte OS Prelúdios do Grande Dia de Deus (cap. 4 a 16) CAP. 4 E 5: VISÃO DO TRONO DA MAJESTADE DIVINA E O LIVRO DOS SETE SELOS Nesses dois capítulos, Deus entrega o destino do mundo ao Cordeiro, “O Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi” (5:5). Mais uma vez, como em todo o tratado, encontra-se a tradição cabalística judaica, difícil até para os seus neófitos. As descrições do trono da Majestade Divina, os 24 anciãos, os 7 círios e as 4 criaturas viventes, encontram relações com as visões de Ezequiel. Isaías e Daniel, demonstrando a mesma iniciação. Essa visão parece mostrar Deus (4:3) (que nem sequer é denominado, nem tem forma antropomórfica) num aspecto glorioso de luz. Este Ser tinha um livro (designando a Terra)fechado com 7 selos, que entregou ao Cordeiro, o qual pelo seu Amor e Sabedo- ria e pela sua missão Redentora, conquistara direito de resgate à evolução da Humanidade terrestre (5:9). E todos louvaram o Cordeiro que recebera o galardão dos 7 esplendores de Deus: poder, riqueza, sabedoria, força, honra, glória e ações de graças, para todo sempre (5:12 e 13)
  • 102.
    Curso de Aprendizesdo Evangelho100 CAP. 6 A 9: O CORDEIRO ABRE OS SETE SELOS E OS ANJOS TOCAM AS TROMBETAS Os quatro cavalos e seus cavaleiros do apocalipse de João são encontrados em Zacarias (1:8-10 e 6:1-3) e tem conexão com os símbolos hindus, o que universaliza os fundamentos da ação dos Espíritos sobre as ações hu- manas. São quatro grandes forças (6:1 a 8): a) Branco - O Evangelho (O Bom Combate) b) Vermelho - Instintos primitivos, paixões c) Preto - A ganância d) Amarelo - a desencarnação, o Juízo e o reajuste. O final do 6º capítulo traz o aviso do sexto selo (6:12-17)para a mudança da paisagem geográfica da Terra, semelhante ao Sermão profético de Jesus (MT., cap. 24 e 25). No cap. 7 é narrado que em todas as circunstâncias, os que servem a Deus, harmonizando-se com sua Au- gusta Vontade, serão preservados; logo, algumas frações rebeldes dos Espíritos terrenos seriam excluídas e substi- tuídas num exílio de expiação e aprendizado (A Gênese, cap. XVIII). A explicação de um certo número de seres em cada “Tribo” leva a um pensamento lógico de que “todos os caminhos religiosos possuem as mesmas possibilidades de ascensão espiritual”. A individualidade rebelde é que se exclui (por si mesma) da Nova Era de Regeneração Os que se esforçam na reforma Íntima e aprimoramento das virtudes estão inscritos no Livro da Vida, do Cor- deiro de Deus (7:13/16). “Estão trajados de branco” porque “lavaram suas vestes espirituais”(corpo espiritual) no bu- rilamento das tribulações da vida (trabalho próprio) através dos ensinos do caminho, da verdade com o Cristo. Ha- verá um só Pastor que os “apascentará conduzindo-os às fontes das águas da vida”. Nos capítulos 8 e 9, a abertura do sétimo selo é a mais solene, depois de um silêncio de “cerca de meia hora”(talvez significando a passagem do tempo que na tradição profética procede a “vinda” do Senhor). Tudo o que estava decretado no livro começa a se desenvolver a cada toque da trombeta (meio de aviso naquela época). Perante o sofrimento dos povos da Terra, os Santos Espíritos intercederam a Deus com suas orações (8:3) e conseguiram abreviar a chegada do Grande Dia do Senhor. As quatro primeiras trombetas anunciaram o fogo devo- rador da purificação em toda terça parte da Terra, pois todo acrisolamento requer profunda transformação. Esta mu- dança numa terça parte terrena ocasionará lamentáveis distúrbios físicos e psíquicos. Os estudiosos da atualidade conectam esses acontecimentos com a possível e provável mudança do eixo magnético das nossa terra que, verti- calizando-se será alterado no contexto angular de 23º30’ (equivalência de 33% - terça parte). Para mais aprofundado estudo recomenda-se “A Mensagem do Apocalipse” de Nelson Lobo de Barros. Tantos sofrimentos, talhados pelos próprios homens, ainda nada significam perto das três trombetas restantes. Após a quinta trombeta (cap. 9) uma “estrela” (espírito) caiu do céu sobre a Terra e foi-lhe dada a chave do “Abismo”(Is., 14:12). Foram ouvidos três lamentos os “AIS”. Toca a sexta trombeta. Das trevas, quer dizer, da animalidade egoística e gananciosa dos homens, surgiram a fome e a destruição. Ainda assim, muitos homens não se arrependeram de suas más obras, sua idolatria, suas iniquidades. No Cap. 10 encontra-se a iminência do expurgo final, para valorizar o mérito dos bons. Era chegada a hora da Terra abrigar uma nova geração. O Livro da Vida, contido em suas mãos, tem o sabor (entendimento) doce-amargo (10:9). Doce porque esta evolução é feita através de tantos sofrimentos calcados nas deficiências morais individuais e coletivas dos homens, decorrentes do “Bom Combate”, isto é, do abatimento do orgulho e da vaidade. No cap. 11 a sétima trombeta anuncia o terceiro AI. Eis o grande dia do Senhor, quando a Humanidade conhecerá a verdade da vida, a vontade do Senhor atra- vés das suas leis naturais. “Tendo por Templo de Deus, o Universo; por altar, a consciência; por imagem, Deus em Espírito e Verdade; por lei, a caridade”(Léon Denis). Até o capítulo 16, vem a descrição da retomada da espiritualidade na Terra, com a luta constante para a vitó- ria do amor. O Dragão e o Cordeiro, o falso profeta a serviço da Beta (poderes inferiores) (13/11), tudo significando uma grande convulsão social com grande semelhança aos tempos atuais. Em 16:1 “as sete salvas da ira de Deus” significam as sete conseqüências mais graves do erros humanos. É a lei de ação e reação. Cinco taças de profundos reajustes foram enviadas. Ainda assim João narra que o homens não se arrependeram nem glorificaram ao Senhor (16:9/10). “Bem aventurado aquele que vigia”(16:15). Está pronta a batalha da espiritualidade contra a materialidade. Segue a narração: “O sétimo anjo derrama sua taça e o céu anuncia: “Está feito”. Fenômenos cósmicos influenciam as potências terrestres; as forças magnéticas da Providência Divina perpas- sam a Terra para a limpeza do padrão vibratório inferior. Todos lamentam, mais ainda ninguém se lembra de Deus. O APOCALIPSE DO APÓSTOLO JOÃO - SEGUNDA PARTE O Castigo de Babilônia (cap. 17 a 19) Todos os flagelos passados não tocaram os corações ainda endurecidos de uma grande parte da civilização. Torna-se necessária uma reedificação espiritual das pontencialidades que representam a Providência Divina: os Grandes Espíritos da Renovação Mental que atuam sobre as Ciências, as Artes, a Filosofia e a Caridade.
  • 103.
    As Epístolas doNovo Testamento e o Apocalipse de João 101 A Babilônia pervertida é personificada numa mulher corrupta que infecta, perverte e adúltera os povos in- conscientes, mergulhados no prazer vicioso, na ambição e dureza de coração de sua felicidade religiosa. Não se busca neste estudo uma interpretação com mais profundidade, a qual poderia modificar pontos de vista fundamentais pela impropriedade dos debates que poderiam advir. Neste capítulo 17, dos versículos 8 a 18, é narrada a existência, através dos séculos, de vários Anticristos que tentarão combater os ensinos morais do Cristo e que, certamente, não prevalecerão. O castigo, que é a retomada do equilíbrio e da harmonia da Terra, é iminente (cap. 18). A auto-suficiência científica e agnóstica, a inversão dos valores morais e éticos, o abuso do seco e das drogas, serão eliminados pelo despertar da “fome e sede de Justiça”(18:14), onde os que sacrificam e exploram os outros para gozarem suas delícias de bem estar egoísta e passageiro (que na verdade os tornam escravos dos desejos e paixões primitivas), sentirão a busca do “porquê” das coisas, das verdades “escritas” nas leis naturais que regem a vida física e espiritual. O enriquecimento ilícito e abusivo das fraquezas humanas, (como o comércio criminoso das drogas e a pros- tituição) não mais encontrará respaldo em seus consumidores. (18:16) Como uma grande pedra lançada ao mar, disse um anjo: “Assim será lançada a Babilônia e jamais será acha- da”. (18:21) O Extermínio das Nações Corruptas (Cap. 19 a 20) No capítulo 19 é chegado o extermínio das nações e povos ambiciosos e materialistas. Depois de toda higienização social e espiritual passada, começa um novo tempo para uma nova geração. “Bem aventurados aqueles que são chamados à ceia do Cordeiro”. (19:9). É preciso ter a túnica nupcial (corpo espiritual da ressurreição). Agora chega o cavalo branco vencedor - o Evangelho, como Código Moral dos Espíritos (19-11) e todos que os seguem são cheios de pureza (19:14). O mal e todos os seus seguidores são exilados (cap. 20). Depois importa que seja libre sua ascendência sobre os homens (por pouco tempo) para que haja provas e méritos através do livre arbítrio. Nota-se aqui, que os Espíritos inferiores foram apartados da Humanidade por auxílio das Entidades Superio- res, para reorganização do planeta e não pelos sentimentos dos homens. Durante “1000 anos” eles terão oportunidade de aprimoramento na sabedoria e no amor: é a regeneração, onde muitos bons estarão influenciando os fracos de caráter. (20:3 a 6) Chega-se a um ponto fundamental de ensino moral - cap. 20:12 e 13 - e foram julgados segundo as suas obras, encarnados e desencarnados. Os reprovados forma para a “segunda morte” que pode corresponder ao expurgo planetário, onde encontrarão novas moradas primitivas do Senhor, para seus realinhamentos espirituais. Do átomo ao arcanjo, tudo é criação di- vina no seu plano evolutivo. (LE qt. 540) A Jerusalém Futura - Epílogo (cap. 21 e 22) Um novo céu, uma nova Terra, eis a aurora da Nova Era. A Jerusalém futura é a Terra consagrada ao direito divino do Amor, com sua Humanidade espiritualizada. É a Cidade de Deus. É a “esposa ataviada para seu esposo”(21:2), a aliança espiritual e imortal. Todas as dores, todas as lágrimas são já passadas pelo cadinho purificador. Aquele que é o Princípio e o Fim faz novas todas as coisas, pois as contém em si mesmo. É o capítulo de um Terceiro Milênio de Regeneração, onde o saber se ampara no coração meigo e manso do Cristo. Os Espíritos vencedores permanecerão e “herdarão a Terra” prometida aos mansos e “Eu serei seu Deus e eles serão meus Filhos” (21:7) E nesta “Cidade de Deus” não há templo, pois o seu templo é o Senhor Deus Todo Poderoso, que é onipre- sente e onisciente. A esfera vibratória da Terra, agora, se tornam sua própria defesa, pela luminosidade da ligação com o Plano Mais Alto. Ela “Não precisa” mais de sol ou de lua, pois que a luz do Cristo é o seu farol, a sua diretriz, que descerra os véus esclarecendo o caminho da evolução espiritual (21:24). As portas desta Humanidade redimida jamais se fecharão para a Glória de Deus (21:25), que a inscreverá, como vitória final do Cristo, na Confraternização Universal. “Bem aventurados os que guardam os ensinamentos destas profecias”(22:7) João prostrou-se aos pés do anjo que lhe auxiliara as visões e este respondeu-lhe: “Sou um converso teu. Adora a Deus”(22:9) “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Assim seja”. (22:21)
  • 104.
    Capítulo 44 AS DETURPAÇÕESDO CRISTIANISMO Apesar do dicionários definirem o cristianismo como “o conjunto das religiões cristãs, ou seja, baseadas nos ensinamentos, na pessoa e na vida de Jesus Cristo” e cristão como “a pessoa que segue a religião do Cristo”, pode- mos observar que Jesus não fundou religião alguma, não estabeleceu hierarquias religiosas, não criou nem estimu- lou rituais ou cultos. O que conhecemos hoje como cristianismo, representado pela inúmeras religiões e seitas cha- madas cristãs, não só confunde e dificulta o entendimento dos verdadeiros ensinos de Jesus, como , em muitas ve- zes, deles se afastam completamente. Enquanto os primeiros cristãos conseguiram manter-se fiéis ao pensamento de Jesus, a Doutrina Cristã sobre- viveu com toda a sua pureza. Sua doutrina de amor e perdão trazia nova luz aos corações e os seus seguidores destacavam-se do ambiente corrupto do tempo, pela pureza de costumes e por uma conduta retilínea e exemplar. No segundo século, o cristianismo exerce sua influência em quase todas as atividades intelectuais. Tertuliano apresenta sua Apologia, enquanto Clemente de Alexandria e Orígenes surgem defendendo a filosofia cristã. Com eles levanta-se um verdadeiro exército de vozes que advogam a causa da verdade e da justiça, da redenção e do amor. No entanto, com o edito de Milão, o poder Romano incorpora-se às hostes cristãs, e o cristianismo ascende à tarefa de Estado. A partir daí, observou-se uma completa e radical deturpação de seus princípios, através de adapta- ções de textos, acordos com as doutrinas pagãs, entendimentos políticos, criação de dogmas, adoração de ídolos, cultos externos, estabelecimento do Papado, a organização do Catolicismo, a simonia, etc, que vieram a gerar, futu- ramente, os grandes erros como as Cruzadas, a Inquisição e as lutas sangrentas com os protestantes. Hoje milhões de pessoas se dizem cristãs, por tradição ou escolha, por terem aderido a alguns preceitos dou- trinários que julgam ser exatamente o cristianismo do Cristo, tal como ele teria ensinado na Palestina há quase vinte séculos. Na realidade, a essência do ensinamento de Jesus foi deliberadamente esquecida ou modificada, a fim de que prevalecessem os interesses mesquinhos e transitórios dos homens, no uso e gozo do poder passageiro. Jesus foi transformado em um Deus que morreu para nos purificar de nossos erros, e o Reino de Deus deixou de ser uma realização pessoal para ser uma graça ou uma escolha arbitrária. Há necessidade, portanto, de retornarmos à grande mensagem de Jesus, que é a da realidade do ser espiritu- al, com todas as suas conseqüências. QUADRO ADULTERAÇÕES DO CRISTIANISMO APÓS O SÉCULO IV ⇒ Judaísmo • Jejuns, abstenção de certos alimen- tos • Ato de orar de joelhos ⇒ Roma • Festas religiosas • Procissões • Vestes sacerdotais, incenso, água benta • Altares, venerações a santas (deuses) ⇒ Grécia • Dias santos • Ritual e mistérios da missa ⇒ Trácia, Síria e Frí- gia • Ato de confessar pecados • Uso do pão e vinho na missa • Virgindade da grande mãe ⇒ Egito • Idéia da Santíssima Trindade, do Juí- zo Final • Conventos e mosteiros
  • 105.
    As Epístolas doNovo Testamento e o Apocalipse de João 103 Capítulo 45 O ESPIRITISMO E O CRISTIANISMO Quando buscamos a característica marcante da passagem de Jesus pela Terra, o ponto básico da sua revela- ção, vamos encontrar o selo constante da mais pura caridade e do mais abnegado amor. Suas parábolas e adver- tências estão impregnadas de verdades eternas e gloriosas. Seus exemplos e atos constituem um roteiro de todas as grandiosas finalidades no aperfeiçoamento da vida terrestre. Ele fez uma revolução espiritual que permanece no globo há dois milênios. Respeitando as leis do mundo, en- sinou-nos a elevação para Deus. Remodelou os conceitos da vida social, estabelecendo como base a fraternidade. Escolheu os ambientes mais pobres para viver a intensidade se suas lições sublimes, mostrando aos homens que a verdade dispensava o cenário suntuoso dos areópagos, dos fóruns e dos templos, para fazer-se ouvir na sua misteri- osa beleza. Espalhou mais claras visões às criaturas, ensinando que existe algo superior às pátrias, às bandeiras, ao san- gue e às leis humanas. De suas lições decorrem conseqüências para todos os departamentos do planeta, no sentido da renovação dos institutos sociais e políticos, com a transformação moral dos homens. O Espiritismo vem, ao seu turno, revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natu- reza do mundo espiritual, e suas relações com o mundo material. Mostra esse mundo não como sobrenatural, mas como a fonte de uma infinidade de fenômenos que até então não eram compreendidos, e por isso eram rejeitados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. Jesus se referiu a essas relações em muitas circunstâncias, porém muitas coisas que Ele falou ficaram ininteligíveis ou foram interpretadas erroneamente. A revelação cristã sucedeu à revelação mosaica. A revelação dos Espíritos vem desenvolvê-la, completá-la, explicá-la em termos claros para todos. Vem cumprir o que Jesus anunciou - “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará ou- tro Consolador” (João,14:16) - e pode-se acrescentar que é Ele próprio quem a preside. O Espiritismo não está personificado em ninguém, pois é produto do ensino dado não por um homem, mas pelos Espíritos, em todas as partes da Terra, através de uma multidão inumerável de médiuns. Como essa revelação não se efetua pelo veículo da ortodoxia, vemos as igrejas e religiões estabelecidas combaterem-na; o mesmo se deu com a revelação cristã em relação ao sacerdócio judaico. No entanto, os Espíritos se manifestam fora e acima das igrejas, dirigem-se a todas as raças e todos os credos, escapam das discussões estéreis, das lutas de interesse, do conflito das paixões, e vem oferecer a todos a palavra divina da esperança, da paz e da consolação, revivendo o en- sinamento puro do Mestre. Esta é uma das missões do Consolador: nos fazer lembrar de tudo aquilo que Jesus havia ensinado, e que sa- bia que sofreria deturpações ao longo dos séculos (cf. João,14:26). Se hoje observamos atentamente, veremos Jesus transformado num mito inalcançável, personificação do próprio Deus, como se os homens quisessem de- monstrar que é impossível ser como Ele foi, que é impossível fazer o que Ele fez, que é impossível agir como Ele ensinou. Mas os Espíritos nos fazem recordar: Jesus afirma: Meu reino não é deste mundo - e o Espiritismo nos mostra que além da vida material existe o mundo espiritual; que somos Espíritos e não matéria; que a realeza terrestre é temporária e perecível; Jesus revela: Há muitas moradas na casa do Pai - e o Espiritismo nos ensina a pluralidade dos mundos habi- tados e a existência de faixas espirituais diferentes para os diferentes graus de evolução espiritual; Jesus lembra a Nicodemos: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo - e o Espiritismo nos mostra o processo reencarnatório como etapa fundamental para o crescimento do espírito, na sua ascensão a planos cada vez mais elevados; Jesus proclama: Bem aventurados os que choram, por que serão consolados - e o Espiritismo nos explica as causas atuais e anteriores das aflições, mostrando a dor como recurso de justiça e o sofrimento como remédio amargo, porém passageiro; Jesus alerta: Ninguém pode servir a dois senhores - e o Espiritismo demonstra que não podemos esperar uma vida espiritual tranqüila enquanto estivermos apegados aos bens materiais, ao sentimento de posse, à necessidade de poder; Jesus indica: Sede perfeitos - e o Espiritismo nos mostra como seres criados simples e ignorantes, mas todos, sem exceção de qualquer tipo, destinados à perfeição relativa; Jesus aconselha: Pedi e obtereis - e o Espiritismo demonstra a eficácia da prece sincera, pela comunhão de pensamentos, pela transmissão fluídica, pelo socorro prestado pelo amigos espirituais; Jesus ensina: Fazer ao outro o que queremos que nos façam - e o Espiritismo revela a lei de causa e efeito, de ação e reação, segundo a qual nenhuma de nossas atitudes, de nossos pensamentos, de nossas palavras é per- dido; mostra que recebemos na mesma medida que damos; que nossa felicidade real se prende ao bem que fizer- mos e ao mal que evitarmos; Enfim, Jesus aponta o grande mandamento: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo - e o Espiritismo mostra que Fora da caridade não há salvação.