UNIDADE II
SEXUALIDADE, ORIENTAÇÃO SEXUAL, IDENTIDADE DE GÊNRO E EDUCAÇÃO
1. INTRODUÇÃO
Há quem pense que a sexualidade deva ficar do lado de fora da escola. Nessa pers-
pectiva, a escola deveria ser um local de estudo, de amizades – e não de namoro-, de
esportes, de brincadeiras etc. É possível, no entanto, a sexualidade ocupar o lado de
fora do ambiente escolar? Será que estudo e convívio não têm nada a ver com
gênero, sexualidade e política, nem co questões de classe, raça ou cor? Que questões
sobre orientação sexual as relações na sala de aula e no pátio deixam transparecer?
Tentativas de dessexualização do espaço escolar estiveram por muito tempo
presentes no ensino. Uma dessas estratégias foi à existência de escolas distintas para
meninas e meninos, onde elas tinham aulas com professoras e eles, com professores.
Embora essa separação não exista mais, algumas outras tentativas de
dessexualização ainda existem, como a proibição de namoro dentro da escola. O foco
deste controle estando na separação entre meninas e meninos nos permitem
constatar até que ponto a norma heterossexual está presente na organização dos
desejos: a diversidade sexual está tão oculta que ela pode ser simplesmente
ignorada, como se não existisse. Isto acontece em sua escola? Quais os resultados
desta atitude?
Reafirmaremos algo já dito neste curso: gênero e sexualidade, assim como raça/cor e
etnia, são questões inerentemente públicas, que afloram constantemente nas
relações cotidianas e de modo explicito ou oculto no currículo formal. É, portanto,
um assunto pessoal e político.
Não é possível deslocar a sexualidade par ao lado de fora da escola. Ainda que
quiséssemos, isto será impossível. Mesmo quando meninas e meninos eram
separados em escolas distintas, a sexualidade estava presente. Talvez se fechassem
os olhos para ela, mas estava lá. Até porque, como viemos discutindo, sexualidade
não existe apenas nas relações entre gêneros distintos.
Conversaremos nesta unidade sobre orientação sexual e a dificuldade que a escola
enfrenta em lidar com a questão. Veremos ainda o quanto os jogos e brincadeiras
estão impregnados de significados sexuais e de gênero, ao mesmo tempo em que
servem de controle da sexualidade e das relações de gênero. Alguns deles surgem
carregados de violência simbólica e até mesmo física, as quais não podem ser
negligenciadas.
A presença da educação sexual nas escolas é um exemplo do quanto à sexualidade
adolescente é também foco de investimento político e instrumento de tecnologia de
governo, ou seja, ela está fundamentada em uma forte preocupação em administrar,
tornando correto, o modo como as/os adolescentes vivenciam a sexualidade, sem
questionar a orientação implícita na noção de um “desenvolvimento sexual normal”.
Doenças sexualmente transmissíveis (DSTs-Aids) e gravidez são temas deflagradores
de políticas públicas, de preocupações docentes e de intervenções corretivas. Essas
questões perpassam todo o trabalho escolar de educação sexual, o qual geralmente
acaba por transmitir um conhecimento que, por estar legitimado na autoridade da
ciência, propõe-se verdadeiro, oferecendo noções práticas de prevenção e
autocuidado. O foco alarmista no risco à saúde encobre o fato de se tratar de
questões ética,s políticas, que merecem ser debatidas, e que estão sujeitas a criticas
e a um exercício reflexivo por parte de educadoras, educadores e estudantes.

INTRODUÇÃO - SEXUALIDADE, ORIENTAÇÃO SEXUAL, IDENTIDADE DE GÊNERO E EDUCAÇÃO.

  • 1.
    UNIDADE II SEXUALIDADE, ORIENTAÇÃOSEXUAL, IDENTIDADE DE GÊNRO E EDUCAÇÃO 1. INTRODUÇÃO Há quem pense que a sexualidade deva ficar do lado de fora da escola. Nessa pers- pectiva, a escola deveria ser um local de estudo, de amizades – e não de namoro-, de esportes, de brincadeiras etc. É possível, no entanto, a sexualidade ocupar o lado de fora do ambiente escolar? Será que estudo e convívio não têm nada a ver com gênero, sexualidade e política, nem co questões de classe, raça ou cor? Que questões sobre orientação sexual as relações na sala de aula e no pátio deixam transparecer? Tentativas de dessexualização do espaço escolar estiveram por muito tempo presentes no ensino. Uma dessas estratégias foi à existência de escolas distintas para meninas e meninos, onde elas tinham aulas com professoras e eles, com professores. Embora essa separação não exista mais, algumas outras tentativas de dessexualização ainda existem, como a proibição de namoro dentro da escola. O foco deste controle estando na separação entre meninas e meninos nos permitem constatar até que ponto a norma heterossexual está presente na organização dos desejos: a diversidade sexual está tão oculta que ela pode ser simplesmente ignorada, como se não existisse. Isto acontece em sua escola? Quais os resultados desta atitude? Reafirmaremos algo já dito neste curso: gênero e sexualidade, assim como raça/cor e etnia, são questões inerentemente públicas, que afloram constantemente nas relações cotidianas e de modo explicito ou oculto no currículo formal. É, portanto, um assunto pessoal e político. Não é possível deslocar a sexualidade par ao lado de fora da escola. Ainda que quiséssemos, isto será impossível. Mesmo quando meninas e meninos eram separados em escolas distintas, a sexualidade estava presente. Talvez se fechassem os olhos para ela, mas estava lá. Até porque, como viemos discutindo, sexualidade não existe apenas nas relações entre gêneros distintos.
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    Conversaremos nesta unidadesobre orientação sexual e a dificuldade que a escola enfrenta em lidar com a questão. Veremos ainda o quanto os jogos e brincadeiras estão impregnados de significados sexuais e de gênero, ao mesmo tempo em que servem de controle da sexualidade e das relações de gênero. Alguns deles surgem carregados de violência simbólica e até mesmo física, as quais não podem ser negligenciadas. A presença da educação sexual nas escolas é um exemplo do quanto à sexualidade adolescente é também foco de investimento político e instrumento de tecnologia de governo, ou seja, ela está fundamentada em uma forte preocupação em administrar, tornando correto, o modo como as/os adolescentes vivenciam a sexualidade, sem questionar a orientação implícita na noção de um “desenvolvimento sexual normal”. Doenças sexualmente transmissíveis (DSTs-Aids) e gravidez são temas deflagradores de políticas públicas, de preocupações docentes e de intervenções corretivas. Essas questões perpassam todo o trabalho escolar de educação sexual, o qual geralmente acaba por transmitir um conhecimento que, por estar legitimado na autoridade da ciência, propõe-se verdadeiro, oferecendo noções práticas de prevenção e autocuidado. O foco alarmista no risco à saúde encobre o fato de se tratar de questões ética,s políticas, que merecem ser debatidas, e que estão sujeitas a criticas e a um exercício reflexivo por parte de educadoras, educadores e estudantes.