FOUCAULT
O poder e o sujeito
Por Bruno Carrasco,
psicoterapeuta existencial e professor.
Questões iniciais
Como é estabelecido o poder em nossa sociedade?
Quais as implicações das relações de poder nos indivíduos e
na produção das subjetividades?
Como as formas jurídicas e as relações de poder se
transformaram na história?
Será que experimentamos hoje uma “evolução” das formas
passadas, ou o contrário?
Foucault: poder e sujeito
Para comentar essas questões, partirei de análises do filósofo
e psicólogo francês Michel Foucault, grande estudioso das
formas de poder e de suas transformações.
Foucault estudou as formas poder inicialmente no sistema
prisional, onde o poder ocorre de maneira “escancarada”.
Interessado por essa temática resolveu proceder uma análise
genealógica do poder e suas transformações na história do
ocidente, entre os períodos Medieval, o Renascimento, a
Idade Moderna e Contemporânea.
Michel Foucault
Nascido em Poitiers, em 1926, faleceu em Paris, em 1984.
Filho de médicos, de uma família de classe média-alta.
Teve como professores Merleau-Ponty e Louis Althusser.
Inicialmente estudou marxismo, fenomenologia e psicanálise.
Foi professor no Collège de France, de 1970 até sua morte.
Influências: Kant, Marx, Nietzsche, Bachelard, Heidegger,
Canguilhem, Freud, Lévi-Strauss, Deleuze, Lacan, e outros.
Contexto: “pós-modernidade”
Uma característica dos filósofos pós-modernos é a falta de
esperanças com o projeto moderno. A filosofia pós-moderna
abandonou a pretensão de totalidade que orientava o
pensamento moderno.
Os filósofos pós-modernos desenvolvem uma visão
fragmentada da vida cotidiana e dos indivíduos, preocupada
em captar as singularidades, as particularidades e as distintas
maneiras de se conceber e interpretar o real.
Alguns livros publicados
● Doença Mental e Psicologia (1954)
● História da loucura na idade clássica (1961)
● As palavras e as coisas (1966)
● Arqueologia do saber (1969)
● A ordem do discurso (1970)
● Vigiar e punir (1975)
● Microfísica do Poder (1979)
● História da sexualidade (1976-)
● A Verdade e as Formas Jurídicas (1996)
Áreas e temas de estudo
Temas: loucura, saber, poder, sexualidade, ética, relações.
Áreas de estudo:
História, filosofia, psicologia, medicina, direito, antropologia,
linguística, geografia, arquitetura, economia, entre outras.
Estudou os temas em relação com outras áreas do saber e
suas transformações em distintos momentos da história.
Utilizou inicialmente o método arqueológico, posteriormente
o genealógico, influenciado por Nietzsche.
Pontuações sobre sua filosofia
Não entende a filosofia como busca de verdades ou essências,
mas como uma prática relacionada com a vida.
O modo como somos e nos relacionamos não são os mesmos
do passado, e não serão os mesmos no futuro.
Não entende a história como uma superação do passado,
como se o século XX fosse desenvolvido em relação ao XIX.
“O sujeito é uma invenção recente” (Foucault)
"O intelectual me parece atualmente não ter o
papel de dizer verdades, de dizer verdades
proféticas para o porvir. Talvez o diagnosticador
do presente (...). Pelo pequeno gesto que consiste
em deslocar o olhar, ele torna visível o que é
visível, faz aparecer o que é próximo, tão imediato,
tão intimamente ligado a nós que, por esta razão,
nós não o vemos."
(Michel Foucault)
Como acontece o poder?
Foucault não busca responder a pergunta: “o que é o poder?”.
Ele muda a questão, seu interesse é entender como acontece
o poder e as circunstâncias e consequências das relações de
poder nos indivíduos e na produção da subjetividade.
Deste modo, ele busca estudar as estratégias de poder ao
longo do tempo e os modos como o poder acontece num
espaço. Ele não vê as formas de poder como substituição ou
superação, mas no sentido de sobreposição e complexificação.
Alguns conceitos
de Foucault
Episteme e práticas discursivas
Segundo Foucault, episteme é um conjunto de relações
discursivas e contextuais de uma época histórica que
possibilita e limita os entendimentos de um dado momento.
A episteme determina os limites da experiência de um
período, inclusive sua noção de verdade. Uma episteme
origina uma determinada forma de conhecimento.
Um discurso de verdade envolve uma acumulação de
conceitos, práticas, declarações e crenças produzidos por uma
determinada episteme, tornando-se uma verdade
estabelecida para um certo tempo.
Episteme do Renascimento
Para Foucault, a episteme do Renascimento utilizava de
semelhanças e correspondências, como por exemplo na
“doutrina das assinaturas”, típica do modo de pensar
renascentista, onde haveria uma afinidade entre as coisas,
por meio de suas semelhanças visuais (ou assinaturas).
Por exemplo, se uma orquídea possuía algum tipo de
semelhança com um testículo, isso indicava que poderia ser
usada na cura de doenças venéreas. Assim, flores amarelas
eram boas para icterícia. O mundo era um livro a ser “lido”, por
meio da interpretação de seus significados metafóricos.
Episteme da Idade da Razão
Na Idade Moderna, surge a episteme da Idade da Razão, onde
o pensamento trocou a semelhança pela distinção, onde a
análise é feita por meio da mensuração e do experimento.
Animais e plantas passaram a ser classificados por espécies,
onde o conhecimento não era mais um assunto obscuro,
“sagrado” ou apenas para iniciados, mas resultado da
observação científica e da realização de experimentos,
possibilidade está disponível a todos.
Método genealógico
Foucault utilizou o método genealógico para suas pesquisas
sobre o poder, partindo do entendimento de que os valores –
o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o certo e o errado, o
sadio e o doente – são estabelecidos e mantidos em função
de interesses específicos de um momento histórico.
O que é tido por bom, verdadeiro, adequado ou sadio é
resultante de relações de poder estabelecidas, e esse poder
não é essencialmente uma repressão ou censura, mas criador,
pois produz a realidade, os conceitos e os sujeitos.
Vigiar e Punir
Vigiar e punir (1975)
No livro ‘Vigiar e punir’, com o subtítulo ‘Nascimento da
prisão’, Foucault estabelece uma genealogia do poder, onde
apresenta os caminhos e rupturas das formas de poder que
nos levaram até o modo como estamos na atualidade,
buscando entender o jogo de forças e o embate como
constitutivo daquilo que somos e do modo como vivemos.
Segundo o autor, o poder não é apenas uma instância punitiva,
mas também produtora. Para ele, o poder produz saberes,
discursos e práticas, onde os saberes são usados para manter
certas relações de poder.
“É preciso cessar de sempre descrever
os efeitos do poder em termos
negativos: ele ‘exclui’, ‘reprime’,
‘recalca’, ‘censura’, ‘discrimina’,
‘mascara’, ‘esconde’. Na verdade, o
poder produz: produz o real; produz os
domínios de objetos e os rituais de
verdade.”
(Michel Foucault, em 'Vigiar e punir’)
Buscando compreender as práticas que estabelecem os
discursos de verdade, usadas como técnicas de disciplina e
controle, Foucault estudou o modo como o poder atua nos
indivíduos, ou melhor, como o poder “produz” os indivíduos.
Em seus estudos, ele constatou que houve uma mudança
estrutural na Idade Moderna, com a passagem da punição
corporal e da tortura para a vigilância e o confinamento.
Para além das penitenciárias, ele percebe também vivemos
numa grande rede prisional, em diversos instituições sociais.
Da punição à vigilância
"A genealogia dos dispositivos disciplinares começa pela
oposição entre dois modelos punitivos. Por um lado, o
ilustrado pelo terrível suplício no qual Damiens, em 2 de
março de 1757, é esquartejado publicamente depois de lhe
pinçarem os mamilos, atirarem substâncias fervendo sobre
as partes desgarradas e cortarem com um punhal os
tendões que uniam os membros ao corpo. Por outro, o
elaborado por Léon Faucher em 1838, com um horário que
regulamenta o emprego do tempo em uma casa de
detenção de jovens em Paris: nove horas de trabalho,
desde as cinco no verão e as seis no inverno, descanso,
comida, estudo e práticas religiosas."
(Edgardo Castro, em 'Introdução a Foucault')
Nascimento da prisão
O nascimento da prisão ocorreu por volta da virada do século
XVIII para o século XIX, quando a tortura e a execução em
praça pública deram lugar ao encarceramento. Ao invés de
destruir o corpo do criminoso, a sociedade passou a assumir
o controle sobre ele, o corpo se tornou sujeito ao poder.
As fábricas precisavam de uma força de trabalho organizada e
disciplinada, esse novo contexto promoveu uma mudança na
sociedade, um novo sistema judiciário e novos regulamentos,
de modo a organizar diversos aspectos da vida pública.
Poder disciplinar
A instituição penal não surgiu da filantropia dos reformistas e
de humanistas no direito penal, mas foi consequência do
surgimento de uma sociedade reguladora e disciplinada.
O poder que antes havia triturado o corpo estava passando a
controlar o corpo. Nas prisões, nas escolas, nas fábricas, nos
hospitais e no exército, o corpo passou a ser submetido à
disciplina e à vigilância. Inclusive, o aparecimento da prisão foi
acompanhado pelo surgimento de ciências sociais como a
criminologia, a sociologia, a antropologia, a psicologia, etc.
Imagem que representa a estrutura do Panóptico (1785). O medo e o receio de não saberem se
estão a ser observados leva os internos a adotar a comportamento esperado pela instituição.
Panóptico
Foucault cita o modelo do “Panóptico”, que significa “ver-tudo”
criado pelo arquiteto Jeremy Bentham (1748-1832) para
prisões vigilantes e econômicas. Trata-se de uma estrutura
circular com uma plataforma de observação no meio.
Isso possibilitava que um observador vigiasse todas as celas
ao redor do prédio. Cada prisioneiro estava ciente de que suas
atividades eram observadas o tempo todo. Esta é uma imagem
arquetípica da nossa sociedade atual, que estabelece uma
relação entre o poder disciplinar e os novos saberes.
“Trata-se dos procedimentos disciplinares que são
praticados em instituições como hospitais, escolas,
fábricas e prisões, garantindo uma vigilância e
normatização da sociedade autorizada e
legitimada pelo saber. Não são estabelecidos por
meio de leis, mas pela concordância dos sujeitos
para com os discursos de ‘verdade’.”
(Michel Foucault, em 'A microfísica do poder')
Não há mais um poder central
Segundo Foucault, o poder sofre uma transformação nesse
aspecto, ele deixa de ser substantivo, ou seja, não possui mais
substância como anteriormente.
Ele não é mais absoluto e controlado por uma pessoa central,
como, por exemplo, na monarquia absoluta de Luís XIV.
O poder passa a ser uma “tecnologia”, se utilizando de técnicas
pelas quais uma sociedade regula seus membros. Os modos de
ser e a subjetividade do indivíduo moderno foi criado em meio
a essa superabundância de regras e regulamentos.
Microfísica do poder
No século XX, o poder produz uma ordem normativa,
convencendo os indivíduos que as normas sejam aceitas, se
apresentando como a melhor alternativa racionalmente
possível, ao invés do uso da força ou da imposição de uma lei.
O poder não está localizado num local específico, mas
acontece em redes de dispositivos e mecanismos, que são
assumidos e transmitidos de uma pessoa para outra, em
distintas relações. Este modelo de poder não possui mais um
ponto central, mas se reproduz em diversas instâncias.
Mecanismos de poder
O poder não emana de um centro, mas se manifesta nas
próprias pessoas, por meio de múltiplos ângulos periféricos
do poder central. Esses poderes produzem sempre novas
articulações, que estão relacionadas à produção de saberes.
Não há uma pessoa detentora do poder, e outra que se
submete, o poder não é algo que se tenha, como um objeto, ou
uma propriedade, mas algo que acontece em relação, onde
uns acatam e outros não. Deste modo, não há um único poder,
mas múltiplos mecanismos de poder diluídos nas práticas
sociais, institucionais e familiares.
“O poder está em toda parte; não porque
englobe tudo e sim porque provém de todos os
lugares. O poder não é uma instituição e nem
uma estrutura, não é uma certa potência de
que alguns sejam dotados: é o nome dado a
uma situação estratégica complexa numa
sociedade determinada.”
(Michel Foucault, em 'História da sexualidade, vol.I - A vontade de saber')
Poder e saber
As diversas expressões de poder exercem controles sobre o
corpo, sobre os gestos, as atitudes, os comportamentos,
hábitos e discursos, norteando os enunciados de "verdades",
mantendo e partilhando os modos adequados, corretos e os
padrões que devem ser adotados nas relações.
Eles não são estabelecidos por meio de leis, mas pela
concordância dos sujeitos aos discursos de "verdade". O que
temos por verdadeiro, correto, normal, justo e adequado, é
resultante das formas de saberes instituídos.
Poder e corpo
Foucault constata que o poder atravessa o corpo dos
indivíduos, seus sentimentos e comportamentos. As diversas
formas de poder exercem controles sobre o corpo, sobre os
gestos, as atitudes, os comportamentos e os hábitos.
O poder não ocorre mais de um ponto exterior ao indivíduo,
mas opera dentro do corpo de cada pessoa, conduzindo seus
comportamentos, criando um tipo de ser humano adequado
ao funcionamento e manutenção de um modelo específico de
sociedade, produzindo a individualidade.
Corpos dóceis
Os indivíduos são constantemente vigiados para verificar se o
que fizeram está conforme as regras, por uma série de olhares
alheios e não apenas um, de modo que todos se tornam
agentes de normalização, passando a exigir a si mesmos e aos
outros uma adequação a essas normas.
Este regime disciplinar fabrica corpos "dóceis", submissos e
adestrados, aumentando a força econômica e utilidade, e
diminuindo as forças políticas e de escolha.
"Toda a penalidade do século XIX transforma-se
em controle, não apenas sobre aquilo que fazem
os indivíduos - está ou não em conformidade
com a lei? - mas sobre aquilo que eles podem
fazer, que eles são capazes de fazer, daquilo que
eles estão sujeitos a fazer, daquilo que eles estão
na iminência de fazer."
(Michel Foucault, em 'A verdade e as formas jurídicas')
ARANHA; MARTINS. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 2009.
CASTRO, Edgardo. Introdução a Foucault. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2015.
COTRIM; FERNANDES. Fundamentos da filosofia. São Paulo: Saraiva, 2013.
FOUCAULT, Michel. Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Universitário,
2000.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
FOUCAULT, Michel. Resumo dos cursos do Collège de France. Rio de Janeiro: Zahar,
1997.
MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
REVEL, Judith. Michel Foucault: conceitos essenciais. São Carlos: Claraluz, 2005.
Referências Bibliográficas
Por Bruno Carrasco
Bruno Carrasco está sendo psicoterapeuta existencial e
professor.
Em seu trabalho busca valorizar cada pessoa em seu modo de
ser singular, colaborando para lidar com suas dificuldades e
ampliar suas possibilidades de escolha perante a vida.
Acredita na liberdade de fazer escolhas saudáveis e refazer os
rumos de nossa vida, potencializando nossa existência.
ex-isto
Ex-isto é um projeto dedicado ao estudo e pesquisa sobre o
existencialismo e suas relações com a psicologia, filosofia,
psicoterapia, fenomenologia, literatura e artes.
Tem como intuito oferecer conteúdos que facilitem a
compreensão sobre os temas pesquisados, por meio de textos,
vídeos, cursos ou livros, optando por utilizar uma linguagem
acessível, de modo a promover reflexões sobre a
subjetividade, a condição humana e suas possibilidades.
ex-isto
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existencialismo
psicologia
filosofia

Foucault - o poder e o sujeito

  • 1.
    FOUCAULT O poder eo sujeito Por Bruno Carrasco, psicoterapeuta existencial e professor.
  • 2.
    Questões iniciais Como éestabelecido o poder em nossa sociedade? Quais as implicações das relações de poder nos indivíduos e na produção das subjetividades? Como as formas jurídicas e as relações de poder se transformaram na história? Será que experimentamos hoje uma “evolução” das formas passadas, ou o contrário?
  • 3.
    Foucault: poder esujeito Para comentar essas questões, partirei de análises do filósofo e psicólogo francês Michel Foucault, grande estudioso das formas de poder e de suas transformações. Foucault estudou as formas poder inicialmente no sistema prisional, onde o poder ocorre de maneira “escancarada”. Interessado por essa temática resolveu proceder uma análise genealógica do poder e suas transformações na história do ocidente, entre os períodos Medieval, o Renascimento, a Idade Moderna e Contemporânea.
  • 4.
    Michel Foucault Nascido emPoitiers, em 1926, faleceu em Paris, em 1984. Filho de médicos, de uma família de classe média-alta. Teve como professores Merleau-Ponty e Louis Althusser. Inicialmente estudou marxismo, fenomenologia e psicanálise. Foi professor no Collège de France, de 1970 até sua morte. Influências: Kant, Marx, Nietzsche, Bachelard, Heidegger, Canguilhem, Freud, Lévi-Strauss, Deleuze, Lacan, e outros.
  • 5.
    Contexto: “pós-modernidade” Uma característicados filósofos pós-modernos é a falta de esperanças com o projeto moderno. A filosofia pós-moderna abandonou a pretensão de totalidade que orientava o pensamento moderno. Os filósofos pós-modernos desenvolvem uma visão fragmentada da vida cotidiana e dos indivíduos, preocupada em captar as singularidades, as particularidades e as distintas maneiras de se conceber e interpretar o real.
  • 6.
    Alguns livros publicados ●Doença Mental e Psicologia (1954) ● História da loucura na idade clássica (1961) ● As palavras e as coisas (1966) ● Arqueologia do saber (1969) ● A ordem do discurso (1970) ● Vigiar e punir (1975) ● Microfísica do Poder (1979) ● História da sexualidade (1976-) ● A Verdade e as Formas Jurídicas (1996)
  • 7.
    Áreas e temasde estudo Temas: loucura, saber, poder, sexualidade, ética, relações. Áreas de estudo: História, filosofia, psicologia, medicina, direito, antropologia, linguística, geografia, arquitetura, economia, entre outras. Estudou os temas em relação com outras áreas do saber e suas transformações em distintos momentos da história. Utilizou inicialmente o método arqueológico, posteriormente o genealógico, influenciado por Nietzsche.
  • 8.
    Pontuações sobre suafilosofia Não entende a filosofia como busca de verdades ou essências, mas como uma prática relacionada com a vida. O modo como somos e nos relacionamos não são os mesmos do passado, e não serão os mesmos no futuro. Não entende a história como uma superação do passado, como se o século XX fosse desenvolvido em relação ao XIX. “O sujeito é uma invenção recente” (Foucault)
  • 9.
    "O intelectual meparece atualmente não ter o papel de dizer verdades, de dizer verdades proféticas para o porvir. Talvez o diagnosticador do presente (...). Pelo pequeno gesto que consiste em deslocar o olhar, ele torna visível o que é visível, faz aparecer o que é próximo, tão imediato, tão intimamente ligado a nós que, por esta razão, nós não o vemos." (Michel Foucault)
  • 10.
    Como acontece opoder? Foucault não busca responder a pergunta: “o que é o poder?”. Ele muda a questão, seu interesse é entender como acontece o poder e as circunstâncias e consequências das relações de poder nos indivíduos e na produção da subjetividade. Deste modo, ele busca estudar as estratégias de poder ao longo do tempo e os modos como o poder acontece num espaço. Ele não vê as formas de poder como substituição ou superação, mas no sentido de sobreposição e complexificação.
  • 11.
  • 12.
    Episteme e práticasdiscursivas Segundo Foucault, episteme é um conjunto de relações discursivas e contextuais de uma época histórica que possibilita e limita os entendimentos de um dado momento. A episteme determina os limites da experiência de um período, inclusive sua noção de verdade. Uma episteme origina uma determinada forma de conhecimento. Um discurso de verdade envolve uma acumulação de conceitos, práticas, declarações e crenças produzidos por uma determinada episteme, tornando-se uma verdade estabelecida para um certo tempo.
  • 13.
    Episteme do Renascimento ParaFoucault, a episteme do Renascimento utilizava de semelhanças e correspondências, como por exemplo na “doutrina das assinaturas”, típica do modo de pensar renascentista, onde haveria uma afinidade entre as coisas, por meio de suas semelhanças visuais (ou assinaturas). Por exemplo, se uma orquídea possuía algum tipo de semelhança com um testículo, isso indicava que poderia ser usada na cura de doenças venéreas. Assim, flores amarelas eram boas para icterícia. O mundo era um livro a ser “lido”, por meio da interpretação de seus significados metafóricos.
  • 14.
    Episteme da Idadeda Razão Na Idade Moderna, surge a episteme da Idade da Razão, onde o pensamento trocou a semelhança pela distinção, onde a análise é feita por meio da mensuração e do experimento. Animais e plantas passaram a ser classificados por espécies, onde o conhecimento não era mais um assunto obscuro, “sagrado” ou apenas para iniciados, mas resultado da observação científica e da realização de experimentos, possibilidade está disponível a todos.
  • 15.
    Método genealógico Foucault utilizouo método genealógico para suas pesquisas sobre o poder, partindo do entendimento de que os valores – o bem e o mal, o verdadeiro e o falso, o certo e o errado, o sadio e o doente – são estabelecidos e mantidos em função de interesses específicos de um momento histórico. O que é tido por bom, verdadeiro, adequado ou sadio é resultante de relações de poder estabelecidas, e esse poder não é essencialmente uma repressão ou censura, mas criador, pois produz a realidade, os conceitos e os sujeitos.
  • 16.
  • 17.
    Vigiar e punir(1975) No livro ‘Vigiar e punir’, com o subtítulo ‘Nascimento da prisão’, Foucault estabelece uma genealogia do poder, onde apresenta os caminhos e rupturas das formas de poder que nos levaram até o modo como estamos na atualidade, buscando entender o jogo de forças e o embate como constitutivo daquilo que somos e do modo como vivemos. Segundo o autor, o poder não é apenas uma instância punitiva, mas também produtora. Para ele, o poder produz saberes, discursos e práticas, onde os saberes são usados para manter certas relações de poder.
  • 18.
    “É preciso cessarde sempre descrever os efeitos do poder em termos negativos: ele ‘exclui’, ‘reprime’, ‘recalca’, ‘censura’, ‘discrimina’, ‘mascara’, ‘esconde’. Na verdade, o poder produz: produz o real; produz os domínios de objetos e os rituais de verdade.” (Michel Foucault, em 'Vigiar e punir’)
  • 19.
    Buscando compreender aspráticas que estabelecem os discursos de verdade, usadas como técnicas de disciplina e controle, Foucault estudou o modo como o poder atua nos indivíduos, ou melhor, como o poder “produz” os indivíduos. Em seus estudos, ele constatou que houve uma mudança estrutural na Idade Moderna, com a passagem da punição corporal e da tortura para a vigilância e o confinamento. Para além das penitenciárias, ele percebe também vivemos numa grande rede prisional, em diversos instituições sociais. Da punição à vigilância
  • 20.
    "A genealogia dosdispositivos disciplinares começa pela oposição entre dois modelos punitivos. Por um lado, o ilustrado pelo terrível suplício no qual Damiens, em 2 de março de 1757, é esquartejado publicamente depois de lhe pinçarem os mamilos, atirarem substâncias fervendo sobre as partes desgarradas e cortarem com um punhal os tendões que uniam os membros ao corpo. Por outro, o elaborado por Léon Faucher em 1838, com um horário que regulamenta o emprego do tempo em uma casa de detenção de jovens em Paris: nove horas de trabalho, desde as cinco no verão e as seis no inverno, descanso, comida, estudo e práticas religiosas." (Edgardo Castro, em 'Introdução a Foucault')
  • 21.
    Nascimento da prisão Onascimento da prisão ocorreu por volta da virada do século XVIII para o século XIX, quando a tortura e a execução em praça pública deram lugar ao encarceramento. Ao invés de destruir o corpo do criminoso, a sociedade passou a assumir o controle sobre ele, o corpo se tornou sujeito ao poder. As fábricas precisavam de uma força de trabalho organizada e disciplinada, esse novo contexto promoveu uma mudança na sociedade, um novo sistema judiciário e novos regulamentos, de modo a organizar diversos aspectos da vida pública.
  • 22.
    Poder disciplinar A instituiçãopenal não surgiu da filantropia dos reformistas e de humanistas no direito penal, mas foi consequência do surgimento de uma sociedade reguladora e disciplinada. O poder que antes havia triturado o corpo estava passando a controlar o corpo. Nas prisões, nas escolas, nas fábricas, nos hospitais e no exército, o corpo passou a ser submetido à disciplina e à vigilância. Inclusive, o aparecimento da prisão foi acompanhado pelo surgimento de ciências sociais como a criminologia, a sociologia, a antropologia, a psicologia, etc.
  • 25.
    Imagem que representaa estrutura do Panóptico (1785). O medo e o receio de não saberem se estão a ser observados leva os internos a adotar a comportamento esperado pela instituição.
  • 26.
    Panóptico Foucault cita omodelo do “Panóptico”, que significa “ver-tudo” criado pelo arquiteto Jeremy Bentham (1748-1832) para prisões vigilantes e econômicas. Trata-se de uma estrutura circular com uma plataforma de observação no meio. Isso possibilitava que um observador vigiasse todas as celas ao redor do prédio. Cada prisioneiro estava ciente de que suas atividades eram observadas o tempo todo. Esta é uma imagem arquetípica da nossa sociedade atual, que estabelece uma relação entre o poder disciplinar e os novos saberes.
  • 27.
    “Trata-se dos procedimentosdisciplinares que são praticados em instituições como hospitais, escolas, fábricas e prisões, garantindo uma vigilância e normatização da sociedade autorizada e legitimada pelo saber. Não são estabelecidos por meio de leis, mas pela concordância dos sujeitos para com os discursos de ‘verdade’.” (Michel Foucault, em 'A microfísica do poder')
  • 28.
    Não há maisum poder central Segundo Foucault, o poder sofre uma transformação nesse aspecto, ele deixa de ser substantivo, ou seja, não possui mais substância como anteriormente. Ele não é mais absoluto e controlado por uma pessoa central, como, por exemplo, na monarquia absoluta de Luís XIV. O poder passa a ser uma “tecnologia”, se utilizando de técnicas pelas quais uma sociedade regula seus membros. Os modos de ser e a subjetividade do indivíduo moderno foi criado em meio a essa superabundância de regras e regulamentos.
  • 29.
    Microfísica do poder Noséculo XX, o poder produz uma ordem normativa, convencendo os indivíduos que as normas sejam aceitas, se apresentando como a melhor alternativa racionalmente possível, ao invés do uso da força ou da imposição de uma lei. O poder não está localizado num local específico, mas acontece em redes de dispositivos e mecanismos, que são assumidos e transmitidos de uma pessoa para outra, em distintas relações. Este modelo de poder não possui mais um ponto central, mas se reproduz em diversas instâncias.
  • 31.
    Mecanismos de poder Opoder não emana de um centro, mas se manifesta nas próprias pessoas, por meio de múltiplos ângulos periféricos do poder central. Esses poderes produzem sempre novas articulações, que estão relacionadas à produção de saberes. Não há uma pessoa detentora do poder, e outra que se submete, o poder não é algo que se tenha, como um objeto, ou uma propriedade, mas algo que acontece em relação, onde uns acatam e outros não. Deste modo, não há um único poder, mas múltiplos mecanismos de poder diluídos nas práticas sociais, institucionais e familiares.
  • 32.
    “O poder estáem toda parte; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares. O poder não é uma instituição e nem uma estrutura, não é uma certa potência de que alguns sejam dotados: é o nome dado a uma situação estratégica complexa numa sociedade determinada.” (Michel Foucault, em 'História da sexualidade, vol.I - A vontade de saber')
  • 33.
    Poder e saber Asdiversas expressões de poder exercem controles sobre o corpo, sobre os gestos, as atitudes, os comportamentos, hábitos e discursos, norteando os enunciados de "verdades", mantendo e partilhando os modos adequados, corretos e os padrões que devem ser adotados nas relações. Eles não são estabelecidos por meio de leis, mas pela concordância dos sujeitos aos discursos de "verdade". O que temos por verdadeiro, correto, normal, justo e adequado, é resultante das formas de saberes instituídos.
  • 34.
    Poder e corpo Foucaultconstata que o poder atravessa o corpo dos indivíduos, seus sentimentos e comportamentos. As diversas formas de poder exercem controles sobre o corpo, sobre os gestos, as atitudes, os comportamentos e os hábitos. O poder não ocorre mais de um ponto exterior ao indivíduo, mas opera dentro do corpo de cada pessoa, conduzindo seus comportamentos, criando um tipo de ser humano adequado ao funcionamento e manutenção de um modelo específico de sociedade, produzindo a individualidade.
  • 35.
    Corpos dóceis Os indivíduossão constantemente vigiados para verificar se o que fizeram está conforme as regras, por uma série de olhares alheios e não apenas um, de modo que todos se tornam agentes de normalização, passando a exigir a si mesmos e aos outros uma adequação a essas normas. Este regime disciplinar fabrica corpos "dóceis", submissos e adestrados, aumentando a força econômica e utilidade, e diminuindo as forças políticas e de escolha.
  • 36.
    "Toda a penalidadedo século XIX transforma-se em controle, não apenas sobre aquilo que fazem os indivíduos - está ou não em conformidade com a lei? - mas sobre aquilo que eles podem fazer, que eles são capazes de fazer, daquilo que eles estão sujeitos a fazer, daquilo que eles estão na iminência de fazer." (Michel Foucault, em 'A verdade e as formas jurídicas')
  • 37.
    ARANHA; MARTINS. Filosofando:introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 2009. CASTRO, Edgardo. Introdução a Foucault. Belo Horizonte: Autentica Editora, 2015. COTRIM; FERNANDES. Fundamentos da filosofia. São Paulo: Saraiva, 2013. FOUCAULT, Michel. Doença mental e psicologia. Rio de Janeiro: Tempo Universitário, 2000. FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979. FOUCAULT, Michel. Resumo dos cursos do Collège de France. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. MACHADO, Roberto. Foucault, a ciência e o saber. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. REVEL, Judith. Michel Foucault: conceitos essenciais. São Carlos: Claraluz, 2005. Referências Bibliográficas
  • 38.
    Por Bruno Carrasco BrunoCarrasco está sendo psicoterapeuta existencial e professor. Em seu trabalho busca valorizar cada pessoa em seu modo de ser singular, colaborando para lidar com suas dificuldades e ampliar suas possibilidades de escolha perante a vida. Acredita na liberdade de fazer escolhas saudáveis e refazer os rumos de nossa vida, potencializando nossa existência.
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    ex-isto Ex-isto é umprojeto dedicado ao estudo e pesquisa sobre o existencialismo e suas relações com a psicologia, filosofia, psicoterapia, fenomenologia, literatura e artes. Tem como intuito oferecer conteúdos que facilitem a compreensão sobre os temas pesquisados, por meio de textos, vídeos, cursos ou livros, optando por utilizar uma linguagem acessível, de modo a promover reflexões sobre a subjetividade, a condição humana e suas possibilidades.
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