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Edição em 92 tópicos da versão preliminar integral do livro de Augusto de
Franco (2011), FLUZZ: Vida humana e convivência social nos novos mundos
altamente conectados do terceiro milênio




                            28
              (Corresponde ao terceiro tópico do Capítulo 4,
           intitulado Anisotropias no espaço-tempo dos fluxos)




                   Destruidores de mundos

Persistimos erigindo organizações que não são interfaces adequadas para
conversar com a rede-mãe

Darayavahush é um destruidor de mundos. Joseph Campbell diria que ele
representa “uma força monstruosa, a força do Império, que se baseia na
intenção de conquistar e comandar” (13). Como aquele Darth Vader do
primeiro episódio da série que veio à luz – Uma Nova Esperança (1977) –,
na decifração de Joseph Campbell (1988), ele não é uma pessoa. É um
programa malicioso que se instalou na rede. Um programa verticalizador.
Não, não estamos tratando propriamente da figura histórica de Dario, o
homem que governou a Pérsia. Todos os hierarcas – inclusive o próprio
Dario – replicam o mesmo padrão Darth Vader porque estão emaranhados
em configurações deformadas da rede-mãe, com deformações semelhantes.
Qualquer um, inserido em sistemas com tais configurações, manifestará –
em alguma medida – características de Darayavahush. E será em alguma
medida destruidor de mundos. Na verdade, aniquilará interfaces
(interworlds) estreitando o fluxo das interações, impedindo que pessoas se
conectem livremente com pessoas. É por isso que organizações hierárquicas
têm tanta dificuldade de gerar pessoas.

Sim, gerar pessoa é um processo contínuo que não se dá no nascimento e
nem apenas logo após o nascimento, mas prossegue por toda a vida (a
com-vida, quer dizer, aquela ‘vida social’ que se realiza quando vivemos a
convivência). É algo assim como o que certas tradições espirituais
chamaram de formação da alma humana: um veículo para “atravessar a
morte” (em vez de tentar evitá-la, querendo ser imortal: o motivo da
criação dos deuses à imagem e semelhança dos hierarcas) aceitando o fluxo
transformador da vida.

Para continuar com o paralelo, se a alma humana é formada com a energia
da compaixão, obtida nos atos gratuitos de valorizar a vida, compartilhar o
alimento, aliviar os sofrimentos e promover a liberdade, Darth Vader não
tem alma porque, ao invés de formá-la, criou um veículo-substituto para
escapar de fluzz: sua nave-simulacro é feita com a energia da violência,
obtida nos atos instrumentais de tirar a vida, se apoderar dos recursos
vitais, infligir sofrimentos e, sobretudo, eliminar caminhos (pela imposição
da ordem).

Nas     organizações    hierárquicas,   um    processo  intermitente    de
despersonalização é posto em marcha quando obstruímos fluxos,
separamos clusters e excluímos nodos. O resultado de tal processo poderia
ser interpretado, lançando-se mão de nossa metáfora, como uma perda de
contato com a rede-mãe. É por isso que nossas organizações de todos os
setores têm tanta dificuldade de contar com (a adesão voluntária das)
pessoas. A reclamação geral é sempre a de que “as pessoas não
participam”. Imaginam alguns que o motivo dessa dificuldade seria a visão,
a missão, a causa da organização ou do movimento, avaliadas então como
incapazes de empolgar mais gente, porém a verdadeira razão está na
deformação da rede. As pessoas sentem – mesmo quando não conseguem
explicitar racionalmente seus motivos – que não lhes cabe entrar em um
espaço já configurado de uma determinada maneira. Não querem
‘participar’ (tornar-se partes ou partícipes de alguma coisa) nos termos



                                     2
estabelecidos por outrem, senão ‘interagir’ nos seus próprios termos.
Mesmo assim, persistimos erigindo organizações que não são interfaces
adequadas para conversar com a rede-mãe. Porque continuamos criando
obstáculos à livre conversação entre pessoas.

Pessoas conversam com pessoas. Redes conversam                  com    redes.
Organizações hierárquicas não podem conversar com redes.

Organizações hierárquicas (ou com alto grau de centralização) têm imensas
dificuldades de provocar mudanças sociais no ambiente onde estão imersas.
A rede social que existe independentemente de nossos esforços conectivos
– ou que existiria se tais esforços não fossem verticalizadores; quer dizer, o
que chamamos aqui de rede-mãe – não recebe bem a influência dessas
organizações e continua funcionando mais ou menos como se nada tivesse
acontecido.

É o que ocorre quando ouvimos relatos de organizações sociais
profundamente dedicadas ao trabalho comunitário. Seus dirigentes
reportam que estão lutando há anos, com grande afinco, em uma
determinada localidade, mas a impressão que têm é a de que seus esforços
não adiantam muito. O povo não reconhece o seu papel, as relações não
mudam, parece que tudo continua como d’antes...

Se formos analisar as circunstâncias da atuação dessas organizações de
base, veremos que elas terão um alto grau de centralização (ou um grau de
enredamento insuficiente). É um problema de comunicação. A rede social
que existe de fato naquela localidade não está reconhecendo as mensagens
emitidas pela organização. É muito provável que essa organização esteja
estruturada e funcione como uma pequena fortaleza, um castelinho, uma
igrejinha... É muito provável que ela faça parte da ‘nova burocracia das
ONGs’, ou seja, que tenha dono, chefe, diretoria – às vezes até familiar –
com baixíssimo grau de rotatividade (menor ainda do que o dos partidos e
organizações corporativas). É muito provável que seus chefes queiram se
eternizar no poder (no caso, um micro-poder, é verdade, mas todo poder
hierárquico, vertical, seja grande ou pequeno, se comporta mais ou menos
da mesma maneira, sempre a partir do poder de excluir o outro...) porque
precisem (ou imaginem que precisem) auferir o crédito ou obter o
reconhecimento social pela sua atuação.

Se essa organização que não consegue boa comunicação com a rede-mãe
for uma corporação ou partido, será bem pior. Ela estará estruturada a
partir de um impulso privatizante, seja com base no interesse econômico,
seja com base no interesse político de um grupo particular que quer



                                      3
manobrar o coletivo maior em prol de sua própria satisfação. A rede social
não-deformada é sempre pública. Mas as interfaces hierárquicas que
construímos para conversar com ela ou para tentar manipulá-la são sempre
privadas, mesmo quando urdimos teorias estranhas para legitimar a
privatização, como aquela velha crença de que existem interesses privados
que, por obra de alguma lei sócio-histórica, teriam o condão de se
universalizar, quer dizer, de universalizar o seu particularismo quando
satisfeitos.

Só há uma maneira de conseguir uma boa comunicação com “a matriz”.
Copiando-a o mais fielmente que conseguirmos; ou seja, construindo
interfaces – redes voluntárias – com o maior grau de distribuição que for
possível. Quanto mais distribuídas forem as redes que construirmos para
copiar a rede-mãe melhor será a comunicação com ela.

Nos novos mundos altamente conectados que estão emergindo ficará cada
vez mais difícil recrutar, arrebanhar, enquadrar ou aprisionar pessoas em
organizações erigidas com base na seleção de caminhos válidos (ou na
normatização de caminhos inválidos). Desde que tenham essa possibilidade,
as pessoas perfurarão os muros, abrirão continuamente seus próprios
caminhos mutantes e – na sua jornada para Ítaca – peregrinarão para
aprender naquelas “muitas cidades do Egito...”




                                    4
Nota

(13) CAMPBELL, Joseph (1988). O poder do mito (entrevistas concedidas a Bill
Moyers: 1985-1986). São Paulo: Palas Athena, 1990.




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Fluzz pilulas 28

  • 1. Em pílulas Edição em 92 tópicos da versão preliminar integral do livro de Augusto de Franco (2011), FLUZZ: Vida humana e convivência social nos novos mundos altamente conectados do terceiro milênio 28 (Corresponde ao terceiro tópico do Capítulo 4, intitulado Anisotropias no espaço-tempo dos fluxos) Destruidores de mundos Persistimos erigindo organizações que não são interfaces adequadas para conversar com a rede-mãe Darayavahush é um destruidor de mundos. Joseph Campbell diria que ele representa “uma força monstruosa, a força do Império, que se baseia na intenção de conquistar e comandar” (13). Como aquele Darth Vader do primeiro episódio da série que veio à luz – Uma Nova Esperança (1977) –, na decifração de Joseph Campbell (1988), ele não é uma pessoa. É um programa malicioso que se instalou na rede. Um programa verticalizador.
  • 2. Não, não estamos tratando propriamente da figura histórica de Dario, o homem que governou a Pérsia. Todos os hierarcas – inclusive o próprio Dario – replicam o mesmo padrão Darth Vader porque estão emaranhados em configurações deformadas da rede-mãe, com deformações semelhantes. Qualquer um, inserido em sistemas com tais configurações, manifestará – em alguma medida – características de Darayavahush. E será em alguma medida destruidor de mundos. Na verdade, aniquilará interfaces (interworlds) estreitando o fluxo das interações, impedindo que pessoas se conectem livremente com pessoas. É por isso que organizações hierárquicas têm tanta dificuldade de gerar pessoas. Sim, gerar pessoa é um processo contínuo que não se dá no nascimento e nem apenas logo após o nascimento, mas prossegue por toda a vida (a com-vida, quer dizer, aquela ‘vida social’ que se realiza quando vivemos a convivência). É algo assim como o que certas tradições espirituais chamaram de formação da alma humana: um veículo para “atravessar a morte” (em vez de tentar evitá-la, querendo ser imortal: o motivo da criação dos deuses à imagem e semelhança dos hierarcas) aceitando o fluxo transformador da vida. Para continuar com o paralelo, se a alma humana é formada com a energia da compaixão, obtida nos atos gratuitos de valorizar a vida, compartilhar o alimento, aliviar os sofrimentos e promover a liberdade, Darth Vader não tem alma porque, ao invés de formá-la, criou um veículo-substituto para escapar de fluzz: sua nave-simulacro é feita com a energia da violência, obtida nos atos instrumentais de tirar a vida, se apoderar dos recursos vitais, infligir sofrimentos e, sobretudo, eliminar caminhos (pela imposição da ordem). Nas organizações hierárquicas, um processo intermitente de despersonalização é posto em marcha quando obstruímos fluxos, separamos clusters e excluímos nodos. O resultado de tal processo poderia ser interpretado, lançando-se mão de nossa metáfora, como uma perda de contato com a rede-mãe. É por isso que nossas organizações de todos os setores têm tanta dificuldade de contar com (a adesão voluntária das) pessoas. A reclamação geral é sempre a de que “as pessoas não participam”. Imaginam alguns que o motivo dessa dificuldade seria a visão, a missão, a causa da organização ou do movimento, avaliadas então como incapazes de empolgar mais gente, porém a verdadeira razão está na deformação da rede. As pessoas sentem – mesmo quando não conseguem explicitar racionalmente seus motivos – que não lhes cabe entrar em um espaço já configurado de uma determinada maneira. Não querem ‘participar’ (tornar-se partes ou partícipes de alguma coisa) nos termos 2
  • 3. estabelecidos por outrem, senão ‘interagir’ nos seus próprios termos. Mesmo assim, persistimos erigindo organizações que não são interfaces adequadas para conversar com a rede-mãe. Porque continuamos criando obstáculos à livre conversação entre pessoas. Pessoas conversam com pessoas. Redes conversam com redes. Organizações hierárquicas não podem conversar com redes. Organizações hierárquicas (ou com alto grau de centralização) têm imensas dificuldades de provocar mudanças sociais no ambiente onde estão imersas. A rede social que existe independentemente de nossos esforços conectivos – ou que existiria se tais esforços não fossem verticalizadores; quer dizer, o que chamamos aqui de rede-mãe – não recebe bem a influência dessas organizações e continua funcionando mais ou menos como se nada tivesse acontecido. É o que ocorre quando ouvimos relatos de organizações sociais profundamente dedicadas ao trabalho comunitário. Seus dirigentes reportam que estão lutando há anos, com grande afinco, em uma determinada localidade, mas a impressão que têm é a de que seus esforços não adiantam muito. O povo não reconhece o seu papel, as relações não mudam, parece que tudo continua como d’antes... Se formos analisar as circunstâncias da atuação dessas organizações de base, veremos que elas terão um alto grau de centralização (ou um grau de enredamento insuficiente). É um problema de comunicação. A rede social que existe de fato naquela localidade não está reconhecendo as mensagens emitidas pela organização. É muito provável que essa organização esteja estruturada e funcione como uma pequena fortaleza, um castelinho, uma igrejinha... É muito provável que ela faça parte da ‘nova burocracia das ONGs’, ou seja, que tenha dono, chefe, diretoria – às vezes até familiar – com baixíssimo grau de rotatividade (menor ainda do que o dos partidos e organizações corporativas). É muito provável que seus chefes queiram se eternizar no poder (no caso, um micro-poder, é verdade, mas todo poder hierárquico, vertical, seja grande ou pequeno, se comporta mais ou menos da mesma maneira, sempre a partir do poder de excluir o outro...) porque precisem (ou imaginem que precisem) auferir o crédito ou obter o reconhecimento social pela sua atuação. Se essa organização que não consegue boa comunicação com a rede-mãe for uma corporação ou partido, será bem pior. Ela estará estruturada a partir de um impulso privatizante, seja com base no interesse econômico, seja com base no interesse político de um grupo particular que quer 3
  • 4. manobrar o coletivo maior em prol de sua própria satisfação. A rede social não-deformada é sempre pública. Mas as interfaces hierárquicas que construímos para conversar com ela ou para tentar manipulá-la são sempre privadas, mesmo quando urdimos teorias estranhas para legitimar a privatização, como aquela velha crença de que existem interesses privados que, por obra de alguma lei sócio-histórica, teriam o condão de se universalizar, quer dizer, de universalizar o seu particularismo quando satisfeitos. Só há uma maneira de conseguir uma boa comunicação com “a matriz”. Copiando-a o mais fielmente que conseguirmos; ou seja, construindo interfaces – redes voluntárias – com o maior grau de distribuição que for possível. Quanto mais distribuídas forem as redes que construirmos para copiar a rede-mãe melhor será a comunicação com ela. Nos novos mundos altamente conectados que estão emergindo ficará cada vez mais difícil recrutar, arrebanhar, enquadrar ou aprisionar pessoas em organizações erigidas com base na seleção de caminhos válidos (ou na normatização de caminhos inválidos). Desde que tenham essa possibilidade, as pessoas perfurarão os muros, abrirão continuamente seus próprios caminhos mutantes e – na sua jornada para Ítaca – peregrinarão para aprender naquelas “muitas cidades do Egito...” 4
  • 5. Nota (13) CAMPBELL, Joseph (1988). O poder do mito (entrevistas concedidas a Bill Moyers: 1985-1986). São Paulo: Palas Athena, 1990. 5