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O QUE SÃO REDES SOCIAIS DISTRIBUÍDAS E COMO ARTICULÁ-
LAS

Uma rede é uma coleção de nodos ligados por muitos caminhos (ou um
conjunto de vértices interconectados por muitas arestas).

A rigor devemos caracterizar como rede apenas as chamadas redes
distribuídas (ao contrário das redes centralizadas e das redes
descentralizadas) cuja topologia é P2P, ou seja, na qual os nodos estão
ligados ponto a ponto e não a partir de um único centro (rede
centralizada) ou de vários pólos (rede descentralizada). A novidade das
redes se refere às redes distribuídas. Veja o diagrama abaixo – proposto
originalmente por Paul Baran em um documento em que descrevia a
estrutura de um projeto que mais tarde se converteria na Internet –
melhorado por Rodrigo Araya e divulgado por David de Ugarte (2007):




          REDE CENTRALIZADA   REDE DESCENTRALIZADA   REDE DISTRIBUÍDA




Nos três desenhos acima os pontos são os mesmos. O que varia é a
forma de conexão entre eles. Redes propriamente ditas são apenas as
redes distribuídas (o terceiro grafo no diagrama acima). As outras duas
topologias – centralizada e descentralizada – podem ser chamadas de
redes, mas apenas como casos particulares (em termos matemáticos).
Ambas são, na verdade, hierarquias.

Para articular redes, em primeiro lugar, é necessário conectar pessoas
ou redes propriamente ditas (quer dizer redes distribuídas). A conexão
horizontal de instituições hierárquicas não gera redes distribuídas, pela


                                      1
simples razão de que o fluxo pode ser interrompido (controlado, filtrado)
em cada nodo. Se isso acontecer, a topologia passa a ser
descentralizada (quer dizer, multicentralizada).

Em segundo lugar, para articular redes é necessário conectar as pessoas
entre si e não apenas com um centro articulador ou coordenador
(mesmo que este centro se chame de equipe de animação).

Bastaria isso? Sim, a rigor isso seria o bastante. Mas então por que as
iniciativas de articular redes não costumam funcionar?

Ora, porque, em geral, não se faz isso. Simples assim. Em geral
conectamos instituições hierárquicas e não pessoas (ou redes
distribuídas de pessoas, o que é a mesma coisa). Ou então, quando
conectamos pessoas, instituímos – com o pretexto de realizar o trabalho
de animação da rede – um centro coordenador, que mantém, de fato,
uma ligação direta e transitiva com cada nodo da rede, mas que, na
prática, acaba funcionando como uma espécie de direção que decide o
que vai ser feito em termos coletivos. Decide pela rede. Decide para
toda a rede.

Está bem, mas se não fizermos isso, se conectarmos apenas pessoas
(ou redes distribuídas de pessoas), se essas pessoas estiverem
conectadas entre si e se não exercermos demasiado protagonismo a
título de animação a ponto de desestimular o surgimento de iniciativas
diversificadas, fica então garantido que a rede vai funcionar?

Sim, com certeza! Mas com um porém: depende do que a gente
entende por “funcionar”! Uma rede funciona quando existe, ou seja,
quando se configura segundo a morfologia de rede (distribuída) e
manifesta a dinâmica de rede.

Aqui é preciso entender que as redes não são expedientes instrumentais
para pescar pessoas e levá-las a trilhar um determinado caminho ou
seguir uma determinada orientação. As redes farão coisas que seus
membros quiserem fazer; ou melhor, só farão coisas conjuntas os
membros de uma rede que quiserem fazer aquelas coisas. Se alguém
propõe fazer alguma coisa em uma rede de 100 participantes, talvez 40
aceitem a proposta; os outros 60 farão outras coisas; ou não farão
nada. Em rede é assim: não há centralismo. Não há votação. Não há um
processo de verificação da formação da vontade coletiva que seja
totalizante e que se imponha a todos, baseado no critério majoritário.




                                   2
Além disso, dizer que as pessoas estão conectadas umas com as outras,
significa mais do que fornecer a cada uma o nome e o e-mail ou o
endereço e o telefone das outras pessoas. É necessário que elas se
conectem realmente (a conexão real não é um traço num grafo; como
aquela “fonte” do heraclítico Goethe, ela “só existe enquanto flui”). E é
necessário, ainda, que todas as pessoas disponham dos meios para
fazer isso, quer dizer, para entrar em contato umas com as outras: se
quiserem, quando quiserem e com quem quiserem.

Muita desilusão prematura com as redes nasce de uma incompreensão
profunda do que elas significam realmente. Quem quer usar as redes
porque está na moda, ou porque imagina que, assim, conseguirá
ampliar seu poder, em geral na se dá muito bem. Até mesmo quem
quer usar as redes para promover transformações em nome de uma
causa, muitas vezes fica decepcionado. Por que? Porque a rede não é
um instrumento para fazer a mudança. Ela já é a mudança.

Mas essa mudança não é uma transformação do que existe em uma
coisa que não existe e sim a liberdade para que o que já existe possa
ser capaz de regular a si mesmo. Sim, ficamos completamente alienados
nos últimos dois ou três séculos com esse ‘modelo transformacional’ da
mudança, que pressupõe um agente de vontade capaz de promover,
organizar e liderar a mudança. Isso não ocorre na natureza e nem em
qualquer outro sistema complexo (e a sociedade humana é um sistema
complexo). Na natureza e no mercado (que também são sistemas
complexos), por exemplo, as mudanças seguem a combinação de um
‘modelo variacional’ com um ‘modelo regulacional’. Os sistemas
complexos adaptativos são aqueles que aprenderam a se autoregular (e
só redes podem fazer isso, razão pela qual esses sistemas, seja o
cérebro humano ou um ecossistema, sempre se estruturam em rede) de
sorte a poderem se adaptar às mudanças (variações aleatórias) internas
e externas. Ou a fim de poderem ‘conservar sua adaptação’ (uma boa
definição de sustentabilidade), fazendo e refazendo, continuamente,
congruências múltiplas e recíprocas com o meio.

Fala-se muito nos últimos anos de redes digitais. E fica-se com a
impressão de que são as novas tecnologias de informação e
comunicação que representam toda essa novidade organizativa. Mas
não é bem assim. Como percebeu Don Tapscott, há mais de 10 anos,
“não se trata da organização em rede da tecnologia, mas da organização
em rede dos seres humanos através da tecnologia. Não se trata de uma
era de máquinas inteligentes, mas de seres humanos que, através das
redes, podem combinar a sua inteligência”, gerando uma inteligência-
em-rede, um novo tipo de inteligência coletiva (Cf. Tapscott, Don. The


                                   3
Digital Economy: Promise and Peril in the Age of Networked Intelligence.
New York: McGraw-Hill, 1996.). Mas essa inteligência coletiva não nasce
como resultado da aplicação de uma engenharia que combine de forma
planejada as inteligências humanas individuais. Ela é uma ‘inteligência
social’, que nasce por emergência, uma espécie de swarm intelligence
que começa a brotar espontaneamente quando muitos micromotivos
diferentes são combinados de uma forma que não se pode prever de
antemão. Aqui também não se pode pretender aplicar uma fórmula, um
esquema, para produzir esse “supercomputador” que é a rede social. O
mais surpreendente nisso tudo é que, na verdade, o tal
“supercomputador” é o que chamamos de ‘social’. Como dizia Emerson,
“we lie in the lap of an immense intelligence” (“nós jazemos no seio de
uma imensa inteligência”).

Muitas pessoas ainda insistem em dizer que as redes são baseadas na
cooperação. Isso é verdade, mas não pelas razões que em geral elas
apresentam. Elas pensam que as redes são uma nova forma de
organização baseada em princípios cooperativos, como se fosse uma
condição a priori, para alguém se conectar a uma rede, aderir a tais
princípios. Assim, as redes seriam colaborativas porque, ao compô-las,
as pessoas fariam uma espécie de profissão de fé nas vantagens da
cooperação e mudariam pessoalmente seu comportamento para
participar das redes, como quem toma uma decisão crucial de mudar de
vida e faz um voto sobre isso para poder ser aceito em uma organização
religiosa.

Nada disso. As redes sociais convertem, de fato, competição em
cooperação, mas como resultado da sua dinâmica. Elas não convertem
indivíduos competitivos, beligerantes e possuídos de forte ânimo
adversarial, em indivíduos cooperativos, pacíficos e amigáveis. Ao
favorecer a interação e permitir a polinização mútua de muitos padrões
de comportamento, o resultado do “funcionamento” de uma rede social
é produzir mais cooperação, como já descobriram (ou estão
descobrindo) os que trabalham com o conceito de capital social. As
pessoas podem continuar querendo competir umas com as outras,
porém, quando conectadas em uma rede, esse esforço não prevalece
como resultado geral na medida em que, na rede, elas não podem
impedir que outras pessoas façam o que desejam fazer e nem podem
obrigá-las a fazer o que não querem. Assim, a rede não é um
instrumento adequado para alguém adquirir mais poder (que é sempre o
poder de obstruir, separar e excluir).

Por último, as redes constituem um “corpo” cujo “metabolismo”
correspondente é necessariamente democrático (no sentido “forte” do


                                   4
conceito de democracia) ou pluriárquico, como propuseram Bard e
Söderqvist em 2002 (Cf. Bard, Alexander & Söderqvist, Jan. Netocracy:
the new power elite and life after capitalism. London: Pearson
Education, 2002.). E quanto mais distribuídas elas forem, mais a
democracia que se pratica no seu interior vai adquirindo as feições de
uma pluriarquia.

Explicando melhor. Em uma rede distribuída, como escreveu David de
Ugarte (2007), “ainda que a maioria não simpatize com uma proposta –
e se manifeste contra ela – não poderá evitar a sua realização”, como
ocorre nas formas democráticas atuais, que tomam a democracia no
sentido “fraco” do conceito e adotam um modo de verificação da
formação da vontade política coletiva por meio de processos aritméticos
de contagem de votos, configurando-se como “um sistema de escassez:
a coletividade tem que eleger entre uma coisa e outra, entre um filtro e
outro, entre um representante e outro” (Cf. O poder das redes. Porto
Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.).

Ao contrário, nas redes distribuídas, como lembra o blogger Enrique
Gomes, “há uma abundância de recursos que tende ao infinito. Podemos
criar tantos blogs, agregadores [de blogs], ambientes colaborativos,
wikis ou fóruns quanto quisermos. Então, que sentido tem submetermo-
nos aos desejos e às ordens de alguns...? (Idem).




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  • 1. O QUE SÃO REDES SOCIAIS DISTRIBUÍDAS E COMO ARTICULÁ- LAS Uma rede é uma coleção de nodos ligados por muitos caminhos (ou um conjunto de vértices interconectados por muitas arestas). A rigor devemos caracterizar como rede apenas as chamadas redes distribuídas (ao contrário das redes centralizadas e das redes descentralizadas) cuja topologia é P2P, ou seja, na qual os nodos estão ligados ponto a ponto e não a partir de um único centro (rede centralizada) ou de vários pólos (rede descentralizada). A novidade das redes se refere às redes distribuídas. Veja o diagrama abaixo – proposto originalmente por Paul Baran em um documento em que descrevia a estrutura de um projeto que mais tarde se converteria na Internet – melhorado por Rodrigo Araya e divulgado por David de Ugarte (2007): REDE CENTRALIZADA REDE DESCENTRALIZADA REDE DISTRIBUÍDA Nos três desenhos acima os pontos são os mesmos. O que varia é a forma de conexão entre eles. Redes propriamente ditas são apenas as redes distribuídas (o terceiro grafo no diagrama acima). As outras duas topologias – centralizada e descentralizada – podem ser chamadas de redes, mas apenas como casos particulares (em termos matemáticos). Ambas são, na verdade, hierarquias. Para articular redes, em primeiro lugar, é necessário conectar pessoas ou redes propriamente ditas (quer dizer redes distribuídas). A conexão horizontal de instituições hierárquicas não gera redes distribuídas, pela 1
  • 2. simples razão de que o fluxo pode ser interrompido (controlado, filtrado) em cada nodo. Se isso acontecer, a topologia passa a ser descentralizada (quer dizer, multicentralizada). Em segundo lugar, para articular redes é necessário conectar as pessoas entre si e não apenas com um centro articulador ou coordenador (mesmo que este centro se chame de equipe de animação). Bastaria isso? Sim, a rigor isso seria o bastante. Mas então por que as iniciativas de articular redes não costumam funcionar? Ora, porque, em geral, não se faz isso. Simples assim. Em geral conectamos instituições hierárquicas e não pessoas (ou redes distribuídas de pessoas, o que é a mesma coisa). Ou então, quando conectamos pessoas, instituímos – com o pretexto de realizar o trabalho de animação da rede – um centro coordenador, que mantém, de fato, uma ligação direta e transitiva com cada nodo da rede, mas que, na prática, acaba funcionando como uma espécie de direção que decide o que vai ser feito em termos coletivos. Decide pela rede. Decide para toda a rede. Está bem, mas se não fizermos isso, se conectarmos apenas pessoas (ou redes distribuídas de pessoas), se essas pessoas estiverem conectadas entre si e se não exercermos demasiado protagonismo a título de animação a ponto de desestimular o surgimento de iniciativas diversificadas, fica então garantido que a rede vai funcionar? Sim, com certeza! Mas com um porém: depende do que a gente entende por “funcionar”! Uma rede funciona quando existe, ou seja, quando se configura segundo a morfologia de rede (distribuída) e manifesta a dinâmica de rede. Aqui é preciso entender que as redes não são expedientes instrumentais para pescar pessoas e levá-las a trilhar um determinado caminho ou seguir uma determinada orientação. As redes farão coisas que seus membros quiserem fazer; ou melhor, só farão coisas conjuntas os membros de uma rede que quiserem fazer aquelas coisas. Se alguém propõe fazer alguma coisa em uma rede de 100 participantes, talvez 40 aceitem a proposta; os outros 60 farão outras coisas; ou não farão nada. Em rede é assim: não há centralismo. Não há votação. Não há um processo de verificação da formação da vontade coletiva que seja totalizante e que se imponha a todos, baseado no critério majoritário. 2
  • 3. Além disso, dizer que as pessoas estão conectadas umas com as outras, significa mais do que fornecer a cada uma o nome e o e-mail ou o endereço e o telefone das outras pessoas. É necessário que elas se conectem realmente (a conexão real não é um traço num grafo; como aquela “fonte” do heraclítico Goethe, ela “só existe enquanto flui”). E é necessário, ainda, que todas as pessoas disponham dos meios para fazer isso, quer dizer, para entrar em contato umas com as outras: se quiserem, quando quiserem e com quem quiserem. Muita desilusão prematura com as redes nasce de uma incompreensão profunda do que elas significam realmente. Quem quer usar as redes porque está na moda, ou porque imagina que, assim, conseguirá ampliar seu poder, em geral na se dá muito bem. Até mesmo quem quer usar as redes para promover transformações em nome de uma causa, muitas vezes fica decepcionado. Por que? Porque a rede não é um instrumento para fazer a mudança. Ela já é a mudança. Mas essa mudança não é uma transformação do que existe em uma coisa que não existe e sim a liberdade para que o que já existe possa ser capaz de regular a si mesmo. Sim, ficamos completamente alienados nos últimos dois ou três séculos com esse ‘modelo transformacional’ da mudança, que pressupõe um agente de vontade capaz de promover, organizar e liderar a mudança. Isso não ocorre na natureza e nem em qualquer outro sistema complexo (e a sociedade humana é um sistema complexo). Na natureza e no mercado (que também são sistemas complexos), por exemplo, as mudanças seguem a combinação de um ‘modelo variacional’ com um ‘modelo regulacional’. Os sistemas complexos adaptativos são aqueles que aprenderam a se autoregular (e só redes podem fazer isso, razão pela qual esses sistemas, seja o cérebro humano ou um ecossistema, sempre se estruturam em rede) de sorte a poderem se adaptar às mudanças (variações aleatórias) internas e externas. Ou a fim de poderem ‘conservar sua adaptação’ (uma boa definição de sustentabilidade), fazendo e refazendo, continuamente, congruências múltiplas e recíprocas com o meio. Fala-se muito nos últimos anos de redes digitais. E fica-se com a impressão de que são as novas tecnologias de informação e comunicação que representam toda essa novidade organizativa. Mas não é bem assim. Como percebeu Don Tapscott, há mais de 10 anos, “não se trata da organização em rede da tecnologia, mas da organização em rede dos seres humanos através da tecnologia. Não se trata de uma era de máquinas inteligentes, mas de seres humanos que, através das redes, podem combinar a sua inteligência”, gerando uma inteligência- em-rede, um novo tipo de inteligência coletiva (Cf. Tapscott, Don. The 3
  • 4. Digital Economy: Promise and Peril in the Age of Networked Intelligence. New York: McGraw-Hill, 1996.). Mas essa inteligência coletiva não nasce como resultado da aplicação de uma engenharia que combine de forma planejada as inteligências humanas individuais. Ela é uma ‘inteligência social’, que nasce por emergência, uma espécie de swarm intelligence que começa a brotar espontaneamente quando muitos micromotivos diferentes são combinados de uma forma que não se pode prever de antemão. Aqui também não se pode pretender aplicar uma fórmula, um esquema, para produzir esse “supercomputador” que é a rede social. O mais surpreendente nisso tudo é que, na verdade, o tal “supercomputador” é o que chamamos de ‘social’. Como dizia Emerson, “we lie in the lap of an immense intelligence” (“nós jazemos no seio de uma imensa inteligência”). Muitas pessoas ainda insistem em dizer que as redes são baseadas na cooperação. Isso é verdade, mas não pelas razões que em geral elas apresentam. Elas pensam que as redes são uma nova forma de organização baseada em princípios cooperativos, como se fosse uma condição a priori, para alguém se conectar a uma rede, aderir a tais princípios. Assim, as redes seriam colaborativas porque, ao compô-las, as pessoas fariam uma espécie de profissão de fé nas vantagens da cooperação e mudariam pessoalmente seu comportamento para participar das redes, como quem toma uma decisão crucial de mudar de vida e faz um voto sobre isso para poder ser aceito em uma organização religiosa. Nada disso. As redes sociais convertem, de fato, competição em cooperação, mas como resultado da sua dinâmica. Elas não convertem indivíduos competitivos, beligerantes e possuídos de forte ânimo adversarial, em indivíduos cooperativos, pacíficos e amigáveis. Ao favorecer a interação e permitir a polinização mútua de muitos padrões de comportamento, o resultado do “funcionamento” de uma rede social é produzir mais cooperação, como já descobriram (ou estão descobrindo) os que trabalham com o conceito de capital social. As pessoas podem continuar querendo competir umas com as outras, porém, quando conectadas em uma rede, esse esforço não prevalece como resultado geral na medida em que, na rede, elas não podem impedir que outras pessoas façam o que desejam fazer e nem podem obrigá-las a fazer o que não querem. Assim, a rede não é um instrumento adequado para alguém adquirir mais poder (que é sempre o poder de obstruir, separar e excluir). Por último, as redes constituem um “corpo” cujo “metabolismo” correspondente é necessariamente democrático (no sentido “forte” do 4
  • 5. conceito de democracia) ou pluriárquico, como propuseram Bard e Söderqvist em 2002 (Cf. Bard, Alexander & Söderqvist, Jan. Netocracy: the new power elite and life after capitalism. London: Pearson Education, 2002.). E quanto mais distribuídas elas forem, mais a democracia que se pratica no seu interior vai adquirindo as feições de uma pluriarquia. Explicando melhor. Em uma rede distribuída, como escreveu David de Ugarte (2007), “ainda que a maioria não simpatize com uma proposta – e se manifeste contra ela – não poderá evitar a sua realização”, como ocorre nas formas democráticas atuais, que tomam a democracia no sentido “fraco” do conceito e adotam um modo de verificação da formação da vontade política coletiva por meio de processos aritméticos de contagem de votos, configurando-se como “um sistema de escassez: a coletividade tem que eleger entre uma coisa e outra, entre um filtro e outro, entre um representante e outro” (Cf. O poder das redes. Porto Alegre: CMDC/ediPUCRS, 2008.). Ao contrário, nas redes distribuídas, como lembra o blogger Enrique Gomes, “há uma abundância de recursos que tende ao infinito. Podemos criar tantos blogs, agregadores [de blogs], ambientes colaborativos, wikis ou fóruns quanto quisermos. Então, que sentido tem submetermo- nos aos desejos e às ordens de alguns...? (Idem). 5